Educação e Mudança

Autor: Paulo Freire Editora: Paz & Terra Ano: 1997 Pontos Marcantes: A importância do homem como sujeito da sociedade. • • • • 1. O compromisso do Profissional com a Sociedade 2. A educação e o Processo de Mudança Social 3. O Papel do Trabalhador Social no Processo de Mudança 4. Alfabetização de Adultos e Conscientização

1. O compromisso do Profissional com a Sociedade As palavras deste título a ser analisado não estão ali por acaso, mas encontram-se comprometidas entre si e implicam uma determinada posição de quem as expressou. O compromisso envolve uma decisão lúcida e profunda em um plano do concreto. E surge a questão: "Quem pode comprometer-se?" A resposta a esta questão, voltada para a visão ontológica do sujeito do compromisso, conduz , através da análise da natureza do ser que é capaz de comprometer-se, a busca da essência do ato comprometido. A primeira condição de comprometimento é a capacidade de agir e refletir, de abstrair-se do mundo e poder compreender o condicionamento da consciência por este meio ambiente. Sem esta capacidade de conscientização da influência do mundo, seu estar neste mundo se reduz a um não poder transpor os limites impostos pelo próprio mundo. Esta impossibilidade de abstração transforma o ser em um escravo do presente, o que impede o relacionamento com o mundo, mas apenas o contato com o mesmo, contato que não gera mudanças no mesmo, mas apenas perpetua a sua condição presente. Somente um ser capaz de abstrair-se do seu mundo, do seu tempo, de tornar-se um ser histórico, é capaz de comprometer-se. Mas será que somente a capacidade gera o compromisso? Para responder esta questão devemos abandonar o homem abstrato e analisar o homem concreto, em um mundo concreto, pois é através da relação do homem com o mundo, com a realidade, que ele desenvolve ou atrofia a sua capacidade de ação e reflexão. Assim, o homem desenvolve ou condiciona o pleno exercício de sua maneira humana de existir. E a realidade não transforma-se por si só, mas, ao mesmo tempo que dificulta a ação transformadora do homem, é criação do mesmo homem. E no jogo interativo do atuar-pensar o mundo a percepção dos obstáculos permite que a sua razão de ser seja compreendida. Quando o homem comprometido é impedido de atuar, é induzido a superar esta situação de frustração. Este homem, comprometido com a humanidade, com a história e com a realidade, não pode dizer-se neutro, pois a neutralidade é puro reflexo do medo do compromisso, reflexo do "comprometimento" consigo mesmo, trata-se de uma neutralidade impossível. O verdadeiro compromisso é a solidariedade, e jamais pode se resumir em gestos de falsa generosidade, nem em atos unilaterais, pois a essência do compromisso é o encontro dinâmico de homens solidários que leva a um inter-relacionamento amoroso. E este é o ponto de partida, pois o profissional antes de ser um profissional é um ser humano, que pode estar autenticamente comprometido, falsamente "comprometido" ou impedido de verdadeiramente comprometer-se. O profissional deve desenvolver, além do comprometimento inato de ser humano, o comprometimento como profissional, uma dívida que assume ao fazer-se profissional. Mas este compromisso não deve dicotomizar-se do compromisso original de ser humano, transformando o ser humano em um escravo da técnica, pois é ela que deve servir o homem e não o oposto. À medida que o profissional aprimora seu conhecimento, maior é a sua responsabilidade com os homens, não podendo alienar-se como dono da verdade, proprietário do saber, mas devendo tornar-se agente da solidariedade. É essencial o contínuo aprimoramento na evolução da visão ingênua para uma visão crítica da realidade, que permita ao profissional compreendê-la como algo dinâmico e mutável. E o comprometimento deve dar-se com a totalidade e não com uma visão ingênua, parcial da realidade, que transformaria o homem em objeto da técnica. A alienação cultural que vem sofrendo nossa sociedades, principalmente as de economia periférica, conduz à falta de autenticidade em seu comprometimento. A importação de técnicas e tecnologias provenientes de outras culturas leva à alienação do profissional, que termina por considerá-las neutras, e perde sua visão crítica sobre as mesmas. E a alienação cultural, assim como outras formas, inibe o processo criativo e a coragem de comprometimento, estimulando o formalismo e o superficialismo. O pensamento do homem alienado está preso ao contexto incorporado, perdendo sua força, pois não é autêntico. Como comprometer-se deste modo?

À medida que sua realidade é melhor compreendida. Conceitos de Sociedade em Transição Uma determinada época histórica é constituída por determinados valores na busca da plenitude. devendo ser desinibidora e não restritiva. dado que não há educação imposta assim como não há amor imposto. proporcionando uma verdadeira comunhão de consciências. onde o homem é sujeito e não objeto. não como agentes passivos. 2. A domesticação é a negação da educação. que resulta em uma busca constante pelo que julga faltar em sua reflexão sobre si mesmo para alcançar a perfeição. os valores começam a decair. Características O homem tende a captar uma realidade. . O homem. sua cultura. e como não existe sabedoria absoluta. O homem termina por criar um mundo próprio a partir da realidade circundante. O Homem – Um Ser de Relações A capacidade de distinguir entre o eu e o não-eu permite ao homem sair de si e projetar-se no outro. Quanto mais dirigidos por propagandas de massa. por isso não existe educação sem esperança. que estão sob o tempo. na América Latina. Esperança-Desesperança Não se inicia uma busca sem esperar algo. mais é criador. também não existe ignorância absoluta. novas hipóteses podem ser levantadas sobre o desafio dessa realidade e novas soluções podem ser buscadas. quanto mais rebelde e indócil. E a cultura. As relações humanas são. está no tempo. mas a ânsia de impor-se aos demais pode distorcer o amor. Saber-Ignorância A educação envolve graus não absolutos. A este período denomina-se transição. tornando-o um ser de relacionamentos e não apenas de contatos. e dos animais. transcendentes e temporais. totalidade de criações humanas é resultado da consciência humana do mundo e da possibilidade de transformá-lo. E a atividade criadora permite ao homem responder aos desafios do mundo. O Ímpeto Criador do Homem A educação é mais autêntica quanto mais desenvolvido o ímpeto ontológico de criar do ser humano. Amor-Desamor O amor é uma intercomunicação íntima de duas consciências que se respeitam e que são sujeitas desse amor. A educação não é um processo de adaptação do indivíduo à sociedade. inacabado. mas objeto se torna o homem. uma séria reflexão. Quem não for capaz de amar os seres inacabados não é capaz de educar. conseqüentes. por parte de seus profissionais. mas uma relativização do saber ou da ignorância. que. portanto. Nada se pode temer da educação quando se ama. fazendo-a objeto de seus conhecimentos. mas não individual. A educação deve estimular a opção e afirmar o homem como homem. dimensionando-se e tendo consciência de um ontem e de um amanhã. até que novos valores surgem para atender aos novos anseios da sociedade. mas um mecanismo de transformação em busca do ser mais. A Educação e o Processo de Mudança Social Introdução O núcleo fundamental que motiva o processo educacional é a consciência do ser humano como incompleto. E este processo. a negação do desenvolvimento de uma consciência crítica individual que permita ao homem transformar a realidade. Ao contrário. pois somente Deus sabe de maneira absoluta. reflexivas. a quem não existe tempo.É necessária. continua na busca da plenitude agora baseada neste novos valores. O saber é em si mesmo o testemunho do novo saber que irá superá-lo. mas como homens comprometidos com a busca de um projeto nacional. Quando os fatores comportamentais do ser humano rompem o equilíbrio. é um processo pessoal. diferentemente de Deus. que determina a constante transformação da sociedade. como não morre. sobre sua realidade altamente dinâmica.

tornando-se fanática. Características da Consciência Ingênua . a consciência se promove em transitiva. quando na realidade está negando a sua cultura. primeiramente. Quando a sociedade se incorpora nelas se inicia a democratização fundamental. partindo de uma visão ingênua até alcançar um caráter crítico. as massas populares passivas. devem ser criticadas e adaptadas em um processo de desalienação. O s intelectuais são dignos e os manuais são indignos. Quando a sociedade sofre mudanças. tende a se comprometer com a própria realidade. A sociedade alienada não se conhece a si mesma. tratando de conhecer a realidade por diagnósticos estrangeiros. determinando dois posicionamentos. como no caso das sociedades importadoras de culturas que se tornam alienada. mas repelindo-as da participação nesse mesmo poder. mas a abre. que é substituída por uma realidade imaginária baseada na visão de outra cultura. Uma sociedade justa dá opções das massas às massas e não a opção que a elite tem. o que é próprio do homem massificado. A Consciência e Seus Estados O homem é consciente e. A experiência revela que neste sistema só se formam indivíduos medíocres. Em nossas escolas se enfatiza muito a consciência ingênua. mas na passividade com que a mesma é recebida. uma entrega irracional. na fanática. A consciência criadora e comunicativa é democrática. Quem aparece como criador é um inadaptável e deve nivelar-se aos medíocres. impelindo à participação. Características de Uma Sociedade Fechada A sociedade fechada se caracteriza pela conservação do status ou privilégio e por desenvolver todo um sistema educacional para manter este status. o reacionário e o progressista.A transição depende do ontem na busca de um novo amanhã. O primeiro estado da consciência é a intransitividade que produz uma consciência mágica. Uma Sociedade em Transição A pressão de determinados fatores externos despedaça uma sociedade fechadas. tais como os empregados nas ditaduras. na crítica há um compromisso e. seja qual for. o que é muitas vezes impulsionado por dirigentes ingênuos às diferenças culturais. Se houver a falta de conscientização o tecnicismo é intensificado e a consciência é abalada. Quanto menos nativo for o indivíduo mais culto se julga. Existe uma série de fenômenos sociológicos que têm ligação com o papel do educador. o que depende de um processo educativo de conscientização. As soluções estrangeiras devem ser estudadas e integradas num contexto nativo. O erro não está na imitação. Estas sociedades também se caracterizam pelo analfabetismo e pelo desinteresse pela educação básica dos adultos. Um processo de desalienação. ou de domesticação. a sua realidade objetiva. na medida em que conhece. o que leva a busca da educação das massas. Isto leva a nostalgia de desejar pertencer a outra cultura e ter vergonha da sua. Os problemas e soluções são importados em detrimento da realidade nativa. mas nunca impostas. devido a falta de estímulo à criação. tais como instituições de assistência social. onde sua capacidade criativa é menosprezada. pois através do diálogo se tratará de convencer-se com amor. de sua participação no mesmo. indica a abertura da sociedade. Por isso as escolas técnicas se enchem de filhos das classes populares e não das elites. perdendo a consciência de seu próprio existir. não devendo estar alienada desta visão temporal de sua evolução. E a elite reage de modo paternalista buscando mecanismos de repressão. é imatura. na falta de análise e autocrítica. onde as causas que se atribuem aos desafios escapam à crítica e se tornam superstições. Na consciência ingênua há uma busca de compromisso. a busca de seu processo histórico. E a educação mostra-se como um propulsor a esta participação. As convicções devem ser profundas. com o surgimento de novos valores. A "Consciência Bancária" da Educação Isto ocorre quando o educando se torna um depósito de conhecimentos. Sociedade Alienada A imitação elimina a identidade. Nesta etapa de sociedade existem. o inverso do sectarismo que busca o poder manobrando as massas.

Busca princípios autênticos de causalidade. No entanto o papel do trabalhador social não se restringe ao processo de mudança em si. centraliza-se no sentido da desmitificação do mundo. É normal o aprofundamento do antagonismo entre os que querem e os que não querem a mudança. Repele toda transferência de responsabilidades e de autoridade e aceita a delegação das mesmas. o que permite ao homem descobrir sua presença criadora e potencialmente transformadora da realidade. o trabalhador social que atua numa realidade mutável precisa compreender-se como um ser em relação com esta realidade e com outros homens tão condicionados como ele pela realidade. Tendência à massificação. e o mesmo não pode fugir de sua própria criação. de modo que os homens não sejam objetos. É inquieta. E esta opção determinará tanto o papel como seus métodos e suas técnicas de ação. Procura comprovar as descobertas. E este mundo se volta sobre o homem. A estrutura social. choca. um desafio. No momento em este condicionamento é percebido. cria seu mundo: o mundo histórico-cultural. enquanto a estabilidade encarna a tendência desta pela cristalização da criação. Assim. 3. antes da mudança da totalidade. não é o de neutralizá-los com mitos contrários. É indagadora. Reconhece a realidade como mutável. Tem forte conteúdo passional. Mudança e estabilidade resultam ambas da ação. Além do desejo de fazê-las. força. alcança-se uma percepção capaz de se ver. Outro aspecto importante é a possibilidade de ter-se da estrutura social uma visão focalista de fora. Saudosismo. sendo. mas aceita-os na medida em que são válidos. Não busca profundidade científica. O Papel do Trabalhador Social no Processo de Mudança A frase do título não é um conjunto de meros sons com rótulo estático. o que leva a substituir o fatalismo por uma esperança crítica que move os homens para a transformação.Simplicidade e superficialidade. Desvalorização do homem simples. de modo que a essência do ser da estrutura social é a "duração" da contradição entre ambos. O papel do trabalhador social que optou pela mudança. A mudança não é vista como uma ameaça e o trabalhador social torna-se um agente de mudança da estrutura social (um agente e não o agente). submetendo a própria estrutura social à reflexão. do qual a mudança é uma das dimensões. um problema. neste contexto. ou adere à mudança no sentido da humanização ou fica a favor da permanência. Além disso. mas o de problematizar a realidade aos homens. Características da Consciência Crítica Anseio de profundidade. Evita preconceitos. em um quadro de dependência. "uma frase feita". Este último procura e vive a comunicação e o seu esforço. mas tem que fazer a sua opção. mas no ser de outra sociedade. neste contexto. proporcionando a desmitificação da realidade mitificada. Não exclui o velho face ao novo. é uma totalidade e o trabalhador social deve analisar a validez ou não das mudanças parciais ou da mudança por partes. de caráter humanista. A estrutura social não é somente imutável nem somente estática. A mudança implica em uma constante ruptura. do trabalho que o homem exerce sobre o mundo. nem sempre é viável a quem realmente opta pelas transformações fazê-las como gostaria e no momento em que gostaria. Apresenta fortes compreensões mágicas. na realidade social na qual se encontra. a estrutura social. Se a opção for para frear as transformações. investiga. em si. que deve ser mudada. mas envolve um tema significativo. é o de atuar e refletir . há um viável ou um inviável histórico do fazer. mas sujeitos da estrutura social. O papel do trabalhador social. mas pertence a um domínio mais amplo. Os métodos de ação não deixam lugar para a comunicação e a cooperação. O trabalhador social não pode ser um homem neutro frente ao mundo. E a reflexão sobre sua relação com a realidade permite detectar o caráter preponderante da mudança ou estabilidade. objetivo do trabalhador social que opta pela mudança. de modo que não se pode estudar a mudança sem estudar a estabilidade. E ao responder aos desafios que partem do mundo. o que leva a criação de novos mitos contra a mudança. encaminhando-se no sentidos da paralisação. Diz que a realidade é estática e não mutável. Está sempre disposta a revisões. É frágil na discussão dos problemas. normal em uma sociedade em que o centro de decisão não se encontra em seu ser. o homem se preocupará em mitificar a realidade e buscará soluções assistencialistas. não deve o trabalhador social ser ingênuo quanto à não reação das forças contrárias frente a mudanças parciais. mas para a manipulação ostensiva ou disfarçada. ou seja. condicionando-o. Não interessa a revisão da percepção da realidade condicionada pela estrutura social em que se encontram. permite perceber as forças apontam para a mudança e as que apontam para a estabilidade. Assim.

na medida em que não se esgota num tipo padronizado de resposta. não deve ser simples espectador. tornando-se um tempo de opções. criticidade. Se uma realidade for vista como algo imutável. Quanto mais for levado e refletir sobre sua situacionalidade. uma percepção mágica da realidade. se apropria de seus temas e reconhece suas tarefas concretas baseando-se em uma atitude crítica. que se aperfeiçoa na medida em que o homem se faz crítico. Implica em reconhecer-se homem que deve atuar. maiior será sua consciência crítica de compromisso com a realidade. que poderia resultar na derrota na batalha do desenvolvimento. transformar e não adaptar-se fatalisticamente a uma realidade desumanizante. da qual. E essa integração. o que implica na constante necessidade de ampliar seus conhecimentos. faz cultura. E uma época realiza-se na proporção em que seus temas forem captados e suas tarefas resolvidas. vai temporalizando os espaços geográficos. E é este jogo criador que impede a imobilidade das sociedades e das culturas. o que transforma suas relações com a realidade em algo conseqüente. um ser "situado e temporalizado". com a qual o homem possa se defender dos perigos de irracionalismos provenientes da emoção característica desta fase. A pluralidade envolve a reação do homem a uma ampla variedade de desafios do mundo. concretamente ou não. e se supera na medida em que os temas e as tarefas não correspondam a novas ansiedades emergentes. Alfabetização de Adultos e Conscientização Instrumentação da Educação A instrumentação da educação. como está com a realidade. O Homem e a Sua Época O jogo criador apresenta melhores resultados sempre que o homem. de que a mesma seja ad-mirada em sua totalidade e por dentro. sobre seu enraizamento espaço-temporal. que será ou deixará de ser um "associado conseqüente" ou "eficiente" do quefazer conforme a estrutura social se encontre. para objetar um sujeito. deve estabelecer uma relação dialética com o contexto da sociedade à qual se destina. integrando-se às condições de seu contexto. O Homem como um Ser de Relações O homem não só está em. Esta mudança de percepção implica no enfrentamento do homem com sua realidade. criando e recriando. no lado humanista. Uma Sociedade em Transição . porque é sujeito. o homem. em uma visão mais crítica e profunda da sua situação na realidade que não condiciona. pensar. mais que a simples preparação de quadros técnicos. Por isso. recria e decide. E assim vai acrescentando algo ao seu mundo. mas busca a melhor resposta. e as condições especiais desta temporalidade e desta situacionalidade. pois. crescer. de distorcida para crítica. Outro ponto que também exige uma reflexão crítica é sobre a mudança cultural. A sua capacidade de separar órbitas existenciais. fugindo do falso dilema "humanismo-tecnologia". de discernimento do tempo e de sua dimensão. conseqüência e temporalidade. A Transição Esta passagem. as relações do homem com a realidade guardam em si conotações de pluralidade. uma mudança de percepção da realidade. que é objetiva e com a qual ele se relaciona. mas do surgimento de novos temas que vem substituir os antigos. Esta conscientização conjunta com os indivíduos com quem se trabalha é o papel do trabalhador social que optou pela mudança. e não somente se julga e se acomoda. Diferentemente de simples contatos. levando-o a buscar fora da realidade a explicação para sua impossibilidade de atuar. permitiram ao homem tomar consciência de sua temporalidade e de sua historicidade. o da história e da cultura. 4. através não somente de meras mudanças. no lado tecnicista. o desenvolvimento de uma mente crítica. que perdem sua significação. depende da harmonia obtida entre a vocação ontológica do homem. A passagem de uma época para outra caracteriza-se por fortes contradições que aprofundam entre valores emergentes e os valores do ontem. Nesta fase é indispensável a integração. que o homem cria. A transição implica na marcha concreta da sociedade na busca de sua objetivação. lhe dá consciência de sua temporalidade. lança-se no domínio que lhe é exclusivo. Brasil. em transformação. ou na massificação. a tendência dos indivíduos é adotar uma postura fatalista e sem esperança. denominada transição. mas deve intervir cada vez mais. a educação.com os indivíduos com quem trabalha para conscientizar-se junto com eles das reais dificuldades da sua sociedade. E é porque se integra na medida em que se relaciona. E fugindo da mera passividade. apresenta um aspecto desafiador. É necessária. integrando-se no espírito das épocas históricas.

Neste contexto. que sufoca o poder criador. Novo Conteúdo Programático O objeto primordial do diálogo deveria ser o novo conteúdo programático da educação que defendíamos. A Organização Reflexiva do Pensamento Deveríamos. E respondendo às exigências da democratização fundamental. inicia-se o debate sobre a democratização da cultura. Enquanto o primeiro é uma relação horizontal. de 15 a 18 palavras nos pareciam suficientes para o processo de alfabetização pela conscientização. Infelizmente. fé e confiança. mas por uma via preponderantemente sensível. identificadas com o clima de transição. possibilitando uma grande riqueza de resultados. o que ajudaria a assumir formas de ação também críticas. Outras situações focalizam as áreas de compreensão do domínio cultural. separando natureza de cultura e focalizando o homem como sujeito de seu mundo. o segundo é uma relação vertical que faz com que a educação deixe de ser educação. Não uma educação que domestica e acomoda. Para a sua introdução foram criadas onze situações de motivação para a compreensão crítica da realidade. como a de redução e a de condificação. Após a melhor compreensão da dimensão humana em uma cultura letrada. de uma sociedade "fechada" para uma sociedade "aberta". o povo. Em uma primeira situação é buscada. Levantamento do Universo Vocabular As palavras geradoras devem ser típicas do povo e serem ligadas a sua experiência existencial. humanidade. a uma ação também mágica. . através de debates dirigidos. sendo carregadas de certa emoção. Podem ser obtidas através de entrevistas com os próprios analfabetos. e. uma relação de "empatia" nutrida de amor. O principal papel do educador é o dialogar com o analfabeto sobre situações concretas. A velha tentam sobrepor a formação da nova sociedade. se opõe ao antidiálogo tão entranhado em nossa formação histórico-cultural. que ajudasse a substituir a compreensão mágica pela compreensão crítica. mas tão antagônico ao clima de transição. inserir o pensar entre o compreender e o atuar. esta segunda postura. A alfabetização deve ser um processo de dentro para fora pelo próprio analfabeto. Como Fazê-lo? Somente um método ativo. não descuidando nem da vocação ontológica do homem como ser sujeito. o homem renunciará ao papel de simples objeto para exigir seu papel por vocação: o de sujeito.O Brasil vivia esta transição de épocas. até então imerso no processo como mero espectador. a diferenciação entre o mundo da natureza e o da cultura e é discutido o papel do homem em ambos os mundos. inserindo-o criticamente no seu processo histórico. abrindo-se as perspectivas para o começo da alfabetização A Alfabetização Como um Ato Criador A alfabetização como mecanismo crítico de comunicação gráfica implica em uma atitude de criação e recriação onde se entende o que se lê e se escreve o que se entende. esperança. e não preponderantemente reflexiva. concomitantemente com a modificação do conteúdo programático da educação e o uso de técnicas. vem sendo a mais comum na América Latina. da penetração de uma nova sociedade que se incorpora a uma velha. que por sua vez se opõe a vigência dos privilégios contrários aos interesses do homem brasileiro. portanto. incentivando o senso crítico. por uma série de razões. o homem comum. oferecendo-lhe os meios com os quais possa se alfabetizar. nem das condições peculiares de nossa sociedade. Em contraposição se agrupam forças reacionárias que se sentem ameaçadas em seus princípios. então. o que leva a uma concepção mais mágica e menos crítica do mundo. agente de sua cultura. Democratização Fundamental Com a ruptura da sociedade e sua entrada em transição. E o diálogo. Daí a necessidade de uma educação que. mas que liberte sua conscientização. emerge ingênuo e desorganizado exigindo sua participação no processo. somente ajustado pelo educador. Mais uma Vez o Homem e o Mundo A relação sujeito-objeto do homem com o mundo da qual nasce o conhecimento é feita também pelo analfabeto. ajude o homem brasileiro em sua emersão. o que representa um perigo para o irracionalismo sectário. dialogal e participante poderia fazê-lo. da qual a profissional faz parte.

Em seguida é iniciado o processo de escrita baseado nas famílias apresentadas. através da síntese. Ampliação Somente após a análise da situação. funcionando como elementos desafiadores dos grupos. codificam as informações nelas contidas. mas na criação de uma nova atitude. . o diálogo. que. O que importa neste contexto é a descoberta do mecanismo das combinações fonéticas. que reconhecidos introduzem as famílias fonéticas. leva à alfabetização. Assim. através de uma relação de sujeitos. Uma palavra geradora pode englobar toda uma situação como apenas seus sujeitos. o homem descobre o mecanismo da formação vocabular.Seleção de Palavras Geradoras Com o material recolhido chega-se a fase de seleção das palavras geradoras. que fugindo da domesticação conduz à verdadeira educação. São situações locais que possibilitam a análise de realidades regionais e nacionais. criam-se situações nas quais são colocadas as palavras em ordem crescente de dificuldade fonética. A revisão dos vocábulos deve ser feita pelo próprio grupo com o mero auxílio do educador. com a colaboração do coordenador. Criação de Situações Sociológicas Com as palavras selecionadas. Como tarefa devem ser encontrados tantos vocábulos quanto o analfabeto possa criar com tais famílias. o adulto inicia a formação rápida de seu próprio sistema de sinais gráficos a partir de um trabalho de construção. a partir da qual se busca estabelecer um vínculo semântico para com a situação. ao mesmo tempo que conscientiza. A Capacitação dos Coordenadores A grande dificuldade está não no aprendizado do método. a dificuldade fonética crescente e o aspecto pragmático da palavra com relação a conscientização sobre uma determinada realidade. com os seguintes critérios: a riqueza fonética. os "pedaços". Em seguida a palavra é apresentada em sílabas. o educador se volta à visualização da palavra geradora. apropriando-se criticamente. E o debate. Após seu estudo isolado.