Educação e Mudança

Autor: Paulo Freire Editora: Paz & Terra Ano: 1997 Pontos Marcantes: A importância do homem como sujeito da sociedade. • • • • 1. O compromisso do Profissional com a Sociedade 2. A educação e o Processo de Mudança Social 3. O Papel do Trabalhador Social no Processo de Mudança 4. Alfabetização de Adultos e Conscientização

1. O compromisso do Profissional com a Sociedade As palavras deste título a ser analisado não estão ali por acaso, mas encontram-se comprometidas entre si e implicam uma determinada posição de quem as expressou. O compromisso envolve uma decisão lúcida e profunda em um plano do concreto. E surge a questão: "Quem pode comprometer-se?" A resposta a esta questão, voltada para a visão ontológica do sujeito do compromisso, conduz , através da análise da natureza do ser que é capaz de comprometer-se, a busca da essência do ato comprometido. A primeira condição de comprometimento é a capacidade de agir e refletir, de abstrair-se do mundo e poder compreender o condicionamento da consciência por este meio ambiente. Sem esta capacidade de conscientização da influência do mundo, seu estar neste mundo se reduz a um não poder transpor os limites impostos pelo próprio mundo. Esta impossibilidade de abstração transforma o ser em um escravo do presente, o que impede o relacionamento com o mundo, mas apenas o contato com o mesmo, contato que não gera mudanças no mesmo, mas apenas perpetua a sua condição presente. Somente um ser capaz de abstrair-se do seu mundo, do seu tempo, de tornar-se um ser histórico, é capaz de comprometer-se. Mas será que somente a capacidade gera o compromisso? Para responder esta questão devemos abandonar o homem abstrato e analisar o homem concreto, em um mundo concreto, pois é através da relação do homem com o mundo, com a realidade, que ele desenvolve ou atrofia a sua capacidade de ação e reflexão. Assim, o homem desenvolve ou condiciona o pleno exercício de sua maneira humana de existir. E a realidade não transforma-se por si só, mas, ao mesmo tempo que dificulta a ação transformadora do homem, é criação do mesmo homem. E no jogo interativo do atuar-pensar o mundo a percepção dos obstáculos permite que a sua razão de ser seja compreendida. Quando o homem comprometido é impedido de atuar, é induzido a superar esta situação de frustração. Este homem, comprometido com a humanidade, com a história e com a realidade, não pode dizer-se neutro, pois a neutralidade é puro reflexo do medo do compromisso, reflexo do "comprometimento" consigo mesmo, trata-se de uma neutralidade impossível. O verdadeiro compromisso é a solidariedade, e jamais pode se resumir em gestos de falsa generosidade, nem em atos unilaterais, pois a essência do compromisso é o encontro dinâmico de homens solidários que leva a um inter-relacionamento amoroso. E este é o ponto de partida, pois o profissional antes de ser um profissional é um ser humano, que pode estar autenticamente comprometido, falsamente "comprometido" ou impedido de verdadeiramente comprometer-se. O profissional deve desenvolver, além do comprometimento inato de ser humano, o comprometimento como profissional, uma dívida que assume ao fazer-se profissional. Mas este compromisso não deve dicotomizar-se do compromisso original de ser humano, transformando o ser humano em um escravo da técnica, pois é ela que deve servir o homem e não o oposto. À medida que o profissional aprimora seu conhecimento, maior é a sua responsabilidade com os homens, não podendo alienar-se como dono da verdade, proprietário do saber, mas devendo tornar-se agente da solidariedade. É essencial o contínuo aprimoramento na evolução da visão ingênua para uma visão crítica da realidade, que permita ao profissional compreendê-la como algo dinâmico e mutável. E o comprometimento deve dar-se com a totalidade e não com uma visão ingênua, parcial da realidade, que transformaria o homem em objeto da técnica. A alienação cultural que vem sofrendo nossa sociedades, principalmente as de economia periférica, conduz à falta de autenticidade em seu comprometimento. A importação de técnicas e tecnologias provenientes de outras culturas leva à alienação do profissional, que termina por considerá-las neutras, e perde sua visão crítica sobre as mesmas. E a alienação cultural, assim como outras formas, inibe o processo criativo e a coragem de comprometimento, estimulando o formalismo e o superficialismo. O pensamento do homem alienado está preso ao contexto incorporado, perdendo sua força, pois não é autêntico. Como comprometer-se deste modo?

A educação não é um processo de adaptação do indivíduo à sociedade. O Homem – Um Ser de Relações A capacidade de distinguir entre o eu e o não-eu permite ao homem sair de si e projetar-se no outro. conseqüentes. A educação deve estimular a opção e afirmar o homem como homem. E este processo. e dos animais. os valores começam a decair. E a cultura. onde o homem é sujeito e não objeto. na América Latina. mas a ânsia de impor-se aos demais pode distorcer o amor. À medida que sua realidade é melhor compreendida. continua na busca da plenitude agora baseada neste novos valores. fazendo-a objeto de seus conhecimentos. Ao contrário. diferentemente de Deus. portanto. como não morre. sobre sua realidade altamente dinâmica. O Ímpeto Criador do Homem A educação é mais autêntica quanto mais desenvolvido o ímpeto ontológico de criar do ser humano. O homem termina por criar um mundo próprio a partir da realidade circundante. também não existe ignorância absoluta. Quando os fatores comportamentais do ser humano rompem o equilíbrio. uma séria reflexão. transcendentes e temporais. devendo ser desinibidora e não restritiva. que resulta em uma busca constante pelo que julga faltar em sua reflexão sobre si mesmo para alcançar a perfeição. Amor-Desamor O amor é uma intercomunicação íntima de duas consciências que se respeitam e que são sujeitas desse amor. E a atividade criadora permite ao homem responder aos desafios do mundo. As relações humanas são. mas objeto se torna o homem. por parte de seus profissionais. Esperança-Desesperança Não se inicia uma busca sem esperar algo. mais é criador. que estão sob o tempo. mas um mecanismo de transformação em busca do ser mais. .É necessária. Quem não for capaz de amar os seres inacabados não é capaz de educar. quanto mais rebelde e indócil. A domesticação é a negação da educação. O saber é em si mesmo o testemunho do novo saber que irá superá-lo. novas hipóteses podem ser levantadas sobre o desafio dessa realidade e novas soluções podem ser buscadas. Saber-Ignorância A educação envolve graus não absolutos. O homem. e como não existe sabedoria absoluta. é um processo pessoal. totalidade de criações humanas é resultado da consciência humana do mundo e da possibilidade de transformá-lo. a quem não existe tempo. por isso não existe educação sem esperança. A Educação e o Processo de Mudança Social Introdução O núcleo fundamental que motiva o processo educacional é a consciência do ser humano como incompleto. não como agentes passivos. 2. A este período denomina-se transição. está no tempo. que determina a constante transformação da sociedade. Nada se pode temer da educação quando se ama. Quanto mais dirigidos por propagandas de massa. mas uma relativização do saber ou da ignorância. Conceitos de Sociedade em Transição Uma determinada época histórica é constituída por determinados valores na busca da plenitude. inacabado. sua cultura. mas não individual. pois somente Deus sabe de maneira absoluta. dado que não há educação imposta assim como não há amor imposto. Características O homem tende a captar uma realidade. até que novos valores surgem para atender aos novos anseios da sociedade. a negação do desenvolvimento de uma consciência crítica individual que permita ao homem transformar a realidade. mas como homens comprometidos com a busca de um projeto nacional. dimensionando-se e tendo consciência de um ontem e de um amanhã. reflexivas. proporcionando uma verdadeira comunhão de consciências. que. tornando-o um ser de relacionamentos e não apenas de contatos.

Quem aparece como criador é um inadaptável e deve nivelar-se aos medíocres. As soluções estrangeiras devem ser estudadas e integradas num contexto nativo. Existe uma série de fenômenos sociológicos que têm ligação com o papel do educador. A sociedade alienada não se conhece a si mesma. Quando a sociedade sofre mudanças. impelindo à participação. A consciência criadora e comunicativa é democrática. o que depende de um processo educativo de conscientização. Uma sociedade justa dá opções das massas às massas e não a opção que a elite tem. onde sua capacidade criativa é menosprezada. mas nunca impostas. perdendo a consciência de seu próprio existir. Os problemas e soluções são importados em detrimento da realidade nativa. A Consciência e Seus Estados O homem é consciente e. pois através do diálogo se tratará de convencer-se com amor. o reacionário e o progressista. quando na realidade está negando a sua cultura. ou de domesticação. O erro não está na imitação. Um processo de desalienação. a sua realidade objetiva. uma entrega irracional.A transição depende do ontem na busca de um novo amanhã. como no caso das sociedades importadoras de culturas que se tornam alienada. com o surgimento de novos valores. Características de Uma Sociedade Fechada A sociedade fechada se caracteriza pela conservação do status ou privilégio e por desenvolver todo um sistema educacional para manter este status. devido a falta de estímulo à criação. tornando-se fanática. Quando a sociedade se incorpora nelas se inicia a democratização fundamental. mas na passividade com que a mesma é recebida. As convicções devem ser profundas. A "Consciência Bancária" da Educação Isto ocorre quando o educando se torna um depósito de conhecimentos. O primeiro estado da consciência é a intransitividade que produz uma consciência mágica. devem ser criticadas e adaptadas em um processo de desalienação. seja qual for. de sua participação no mesmo. as massas populares passivas. A experiência revela que neste sistema só se formam indivíduos medíocres. O s intelectuais são dignos e os manuais são indignos. o que é muitas vezes impulsionado por dirigentes ingênuos às diferenças culturais. não devendo estar alienada desta visão temporal de sua evolução. tratando de conhecer a realidade por diagnósticos estrangeiros. a busca de seu processo histórico. a consciência se promove em transitiva. Estas sociedades também se caracterizam pelo analfabetismo e pelo desinteresse pela educação básica dos adultos. E a elite reage de modo paternalista buscando mecanismos de repressão. E a educação mostra-se como um propulsor a esta participação. partindo de uma visão ingênua até alcançar um caráter crítico. na falta de análise e autocrítica. Se houver a falta de conscientização o tecnicismo é intensificado e a consciência é abalada. tais como instituições de assistência social. Na consciência ingênua há uma busca de compromisso. Nesta etapa de sociedade existem. Em nossas escolas se enfatiza muito a consciência ingênua. mas a abre. é imatura. que é substituída por uma realidade imaginária baseada na visão de outra cultura. tende a se comprometer com a própria realidade. indica a abertura da sociedade. na fanática. determinando dois posicionamentos. Sociedade Alienada A imitação elimina a identidade. na medida em que conhece. mas repelindo-as da participação nesse mesmo poder. o inverso do sectarismo que busca o poder manobrando as massas. o que leva a busca da educação das massas. Por isso as escolas técnicas se enchem de filhos das classes populares e não das elites. tais como os empregados nas ditaduras. na crítica há um compromisso e. Quanto menos nativo for o indivíduo mais culto se julga. Isto leva a nostalgia de desejar pertencer a outra cultura e ter vergonha da sua. primeiramente. onde as causas que se atribuem aos desafios escapam à crítica e se tornam superstições. Uma Sociedade em Transição A pressão de determinados fatores externos despedaça uma sociedade fechadas. Características da Consciência Ingênua . o que é próprio do homem massificado.

Não busca profundidade científica. há um viável ou um inviável histórico do fazer. na realidade social na qual se encontra. Evita preconceitos. E a reflexão sobre sua relação com a realidade permite detectar o caráter preponderante da mudança ou estabilidade. nem sempre é viável a quem realmente opta pelas transformações fazê-las como gostaria e no momento em que gostaria. mas aceita-os na medida em que são válidos. o que leva a criação de novos mitos contra a mudança. neste contexto. "uma frase feita". é o de atuar e refletir . ou adere à mudança no sentido da humanização ou fica a favor da permanência. No momento em este condicionamento é percebido. mas no ser de outra sociedade. um problema. É frágil na discussão dos problemas. Não exclui o velho face ao novo. mas tem que fazer a sua opção. ou seja. centraliza-se no sentido da desmitificação do mundo. que deve ser mudada. Apresenta fortes compreensões mágicas. do qual a mudança é uma das dimensões. Tem forte conteúdo passional. mas para a manipulação ostensiva ou disfarçada. E ao responder aos desafios que partem do mundo. Está sempre disposta a revisões. alcança-se uma percepção capaz de se ver. É indagadora. Repele toda transferência de responsabilidades e de autoridade e aceita a delegação das mesmas. mas o de problematizar a realidade aos homens. É inquieta. investiga. choca. do trabalho que o homem exerce sobre o mundo.Simplicidade e superficialidade. A mudança não é vista como uma ameaça e o trabalhador social torna-se um agente de mudança da estrutura social (um agente e não o agente). o homem se preocupará em mitificar a realidade e buscará soluções assistencialistas. Os métodos de ação não deixam lugar para a comunicação e a cooperação. Se a opção for para frear as transformações. Assim. a estrutura social. é uma totalidade e o trabalhador social deve analisar a validez ou não das mudanças parciais ou da mudança por partes. de modo que os homens não sejam objetos. sendo. submetendo a própria estrutura social à reflexão. neste contexto. Desvalorização do homem simples. A estrutura social não é somente imutável nem somente estática. Saudosismo. A estrutura social. A mudança implica em uma constante ruptura. Diz que a realidade é estática e não mutável. Assim. O Papel do Trabalhador Social no Processo de Mudança A frase do título não é um conjunto de meros sons com rótulo estático. um desafio. e o mesmo não pode fugir de sua própria criação. É normal o aprofundamento do antagonismo entre os que querem e os que não querem a mudança. não deve o trabalhador social ser ingênuo quanto à não reação das forças contrárias frente a mudanças parciais. objetivo do trabalhador social que opta pela mudança. O papel do trabalhador social que optou pela mudança. Este último procura e vive a comunicação e o seu esforço. enquanto a estabilidade encarna a tendência desta pela cristalização da criação. em si. O papel do trabalhador social. não é o de neutralizá-los com mitos contrários. Mudança e estabilidade resultam ambas da ação. Características da Consciência Crítica Anseio de profundidade. O trabalhador social não pode ser um homem neutro frente ao mundo. E este mundo se volta sobre o homem. Reconhece a realidade como mutável. 3. Além do desejo de fazê-las. encaminhando-se no sentidos da paralisação. mas envolve um tema significativo. permite perceber as forças apontam para a mudança e as que apontam para a estabilidade. antes da mudança da totalidade. normal em uma sociedade em que o centro de decisão não se encontra em seu ser. de modo que não se pode estudar a mudança sem estudar a estabilidade. Outro aspecto importante é a possibilidade de ter-se da estrutura social uma visão focalista de fora. de caráter humanista. mas sujeitos da estrutura social. Tendência à massificação. o que permite ao homem descobrir sua presença criadora e potencialmente transformadora da realidade. Não interessa a revisão da percepção da realidade condicionada pela estrutura social em que se encontram. força. No entanto o papel do trabalhador social não se restringe ao processo de mudança em si. o que leva a substituir o fatalismo por uma esperança crítica que move os homens para a transformação. o trabalhador social que atua numa realidade mutável precisa compreender-se como um ser em relação com esta realidade e com outros homens tão condicionados como ele pela realidade. Procura comprovar as descobertas. proporcionando a desmitificação da realidade mitificada. E esta opção determinará tanto o papel como seus métodos e suas técnicas de ação. mas pertence a um domínio mais amplo. de modo que a essência do ser da estrutura social é a "duração" da contradição entre ambos. Busca princípios autênticos de causalidade. Além disso. cria seu mundo: o mundo histórico-cultural. condicionando-o. em um quadro de dependência.

Uma Sociedade em Transição . E essa integração. A pluralidade envolve a reação do homem a uma ampla variedade de desafios do mundo. no lado tecnicista. lhe dá consciência de sua temporalidade. E é este jogo criador que impede a imobilidade das sociedades e das culturas. faz cultura. que é objetiva e com a qual ele se relaciona. depende da harmonia obtida entre a vocação ontológica do homem. transformar e não adaptar-se fatalisticamente a uma realidade desumanizante. Quanto mais for levado e refletir sobre sua situacionalidade. que será ou deixará de ser um "associado conseqüente" ou "eficiente" do quefazer conforme a estrutura social se encontre. maiior será sua consciência crítica de compromisso com a realidade. a tendência dos indivíduos é adotar uma postura fatalista e sem esperança. criando e recriando. Outro ponto que também exige uma reflexão crítica é sobre a mudança cultural. A Transição Esta passagem. Nesta fase é indispensável a integração. O Homem e a Sua Época O jogo criador apresenta melhores resultados sempre que o homem. através não somente de meras mudanças. lança-se no domínio que lhe é exclusivo. A sua capacidade de separar órbitas existenciais. se apropria de seus temas e reconhece suas tarefas concretas baseando-se em uma atitude crítica. as relações do homem com a realidade guardam em si conotações de pluralidade. não deve ser simples espectador. É necessária. Brasil. A passagem de uma época para outra caracteriza-se por fortes contradições que aprofundam entre valores emergentes e os valores do ontem. recria e decide. pois. 4. ou na massificação. em transformação. a educação. o desenvolvimento de uma mente crítica. um ser "situado e temporalizado". mas busca a melhor resposta. como está com a realidade. o homem. mas do surgimento de novos temas que vem substituir os antigos. Diferentemente de simples contatos. mas deve intervir cada vez mais. Se uma realidade for vista como algo imutável. o que implica na constante necessidade de ampliar seus conhecimentos. o da história e da cultura. e as condições especiais desta temporalidade e desta situacionalidade. e se supera na medida em que os temas e as tarefas não correspondam a novas ansiedades emergentes. deve estabelecer uma relação dialética com o contexto da sociedade à qual se destina. Alfabetização de Adultos e Conscientização Instrumentação da Educação A instrumentação da educação. A transição implica na marcha concreta da sociedade na busca de sua objetivação. criticidade. E fugindo da mera passividade. de que a mesma seja ad-mirada em sua totalidade e por dentro. crescer. uma percepção mágica da realidade. E uma época realiza-se na proporção em que seus temas forem captados e suas tarefas resolvidas. porque é sujeito. denominada transição. de distorcida para crítica. Esta conscientização conjunta com os indivíduos com quem se trabalha é o papel do trabalhador social que optou pela mudança. em uma visão mais crítica e profunda da sua situação na realidade que não condiciona. levando-o a buscar fora da realidade a explicação para sua impossibilidade de atuar. E assim vai acrescentando algo ao seu mundo. que o homem cria. E é porque se integra na medida em que se relaciona. Implica em reconhecer-se homem que deve atuar. integrando-se às condições de seu contexto. da qual.com os indivíduos com quem trabalha para conscientizar-se junto com eles das reais dificuldades da sua sociedade. que perdem sua significação. tornando-se um tempo de opções. sobre seu enraizamento espaço-temporal. uma mudança de percepção da realidade. Por isso. mais que a simples preparação de quadros técnicos. no lado humanista. na medida em que não se esgota num tipo padronizado de resposta. com a qual o homem possa se defender dos perigos de irracionalismos provenientes da emoção característica desta fase. permitiram ao homem tomar consciência de sua temporalidade e de sua historicidade. o que transforma suas relações com a realidade em algo conseqüente. apresenta um aspecto desafiador. e não somente se julga e se acomoda. O Homem como um Ser de Relações O homem não só está em. integrando-se no espírito das épocas históricas. fugindo do falso dilema "humanismo-tecnologia". que poderia resultar na derrota na batalha do desenvolvimento. para objetar um sujeito. que se aperfeiçoa na medida em que o homem se faz crítico. concretamente ou não. pensar. vai temporalizando os espaços geográficos. de discernimento do tempo e de sua dimensão. Esta mudança de percepção implica no enfrentamento do homem com sua realidade. conseqüência e temporalidade.

E o diálogo. Enquanto o primeiro é uma relação horizontal. Em uma primeira situação é buscada. mas tão antagônico ao clima de transição. Como Fazê-lo? Somente um método ativo. e não preponderantemente reflexiva. concomitantemente com a modificação do conteúdo programático da educação e o uso de técnicas. vem sendo a mais comum na América Latina. se opõe ao antidiálogo tão entranhado em nossa formação histórico-cultural. Em contraposição se agrupam forças reacionárias que se sentem ameaçadas em seus princípios. abrindo-se as perspectivas para o começo da alfabetização A Alfabetização Como um Ato Criador A alfabetização como mecanismo crítico de comunicação gráfica implica em uma atitude de criação e recriação onde se entende o que se lê e se escreve o que se entende. separando natureza de cultura e focalizando o homem como sujeito de seu mundo. somente ajustado pelo educador. esta segunda postura. Não uma educação que domestica e acomoda. identificadas com o clima de transição. Outras situações focalizam as áreas de compreensão do domínio cultural. esperança. da qual a profissional faz parte. nem das condições peculiares de nossa sociedade. . mas por uma via preponderantemente sensível. uma relação de "empatia" nutrida de amor. o que ajudaria a assumir formas de ação também críticas. então. E respondendo às exigências da democratização fundamental. através de debates dirigidos. Neste contexto. como a de redução e a de condificação. portanto. que ajudasse a substituir a compreensão mágica pela compreensão crítica. inicia-se o debate sobre a democratização da cultura. O principal papel do educador é o dialogar com o analfabeto sobre situações concretas. mas que liberte sua conscientização. Podem ser obtidas através de entrevistas com os próprios analfabetos. A alfabetização deve ser um processo de dentro para fora pelo próprio analfabeto. emerge ingênuo e desorganizado exigindo sua participação no processo. Para a sua introdução foram criadas onze situações de motivação para a compreensão crítica da realidade. Levantamento do Universo Vocabular As palavras geradoras devem ser típicas do povo e serem ligadas a sua experiência existencial. da penetração de uma nova sociedade que se incorpora a uma velha. que sufoca o poder criador. não descuidando nem da vocação ontológica do homem como ser sujeito. que por sua vez se opõe a vigência dos privilégios contrários aos interesses do homem brasileiro. a diferenciação entre o mundo da natureza e o da cultura e é discutido o papel do homem em ambos os mundos. dialogal e participante poderia fazê-lo. de uma sociedade "fechada" para uma sociedade "aberta". Novo Conteúdo Programático O objeto primordial do diálogo deveria ser o novo conteúdo programático da educação que defendíamos. o que leva a uma concepção mais mágica e menos crítica do mundo. ajude o homem brasileiro em sua emersão. o que representa um perigo para o irracionalismo sectário. inserindo-o criticamente no seu processo histórico. humanidade. e. a uma ação também mágica. Mais uma Vez o Homem e o Mundo A relação sujeito-objeto do homem com o mundo da qual nasce o conhecimento é feita também pelo analfabeto. Infelizmente. Após a melhor compreensão da dimensão humana em uma cultura letrada. Daí a necessidade de uma educação que.O Brasil vivia esta transição de épocas. fé e confiança. o homem renunciará ao papel de simples objeto para exigir seu papel por vocação: o de sujeito. A Organização Reflexiva do Pensamento Deveríamos. até então imerso no processo como mero espectador. o homem comum. de 15 a 18 palavras nos pareciam suficientes para o processo de alfabetização pela conscientização. o segundo é uma relação vertical que faz com que a educação deixe de ser educação. oferecendo-lhe os meios com os quais possa se alfabetizar. A velha tentam sobrepor a formação da nova sociedade. agente de sua cultura. sendo carregadas de certa emoção. Democratização Fundamental Com a ruptura da sociedade e sua entrada em transição. inserir o pensar entre o compreender e o atuar. incentivando o senso crítico. por uma série de razões. o povo. possibilitando uma grande riqueza de resultados.

a dificuldade fonética crescente e o aspecto pragmático da palavra com relação a conscientização sobre uma determinada realidade. o adulto inicia a formação rápida de seu próprio sistema de sinais gráficos a partir de um trabalho de construção. que fugindo da domesticação conduz à verdadeira educação. Como tarefa devem ser encontrados tantos vocábulos quanto o analfabeto possa criar com tais famílias. através da síntese. Assim. através de uma relação de sujeitos. os "pedaços". o homem descobre o mecanismo da formação vocabular. com os seguintes critérios: a riqueza fonética. A revisão dos vocábulos deve ser feita pelo próprio grupo com o mero auxílio do educador. E o debate. a partir da qual se busca estabelecer um vínculo semântico para com a situação. Em seguida é iniciado o processo de escrita baseado nas famílias apresentadas. . ao mesmo tempo que conscientiza. criam-se situações nas quais são colocadas as palavras em ordem crescente de dificuldade fonética. A Capacitação dos Coordenadores A grande dificuldade está não no aprendizado do método. Após seu estudo isolado. que reconhecidos introduzem as famílias fonéticas. O que importa neste contexto é a descoberta do mecanismo das combinações fonéticas. São situações locais que possibilitam a análise de realidades regionais e nacionais. Em seguida a palavra é apresentada em sílabas. codificam as informações nelas contidas. o diálogo. funcionando como elementos desafiadores dos grupos. leva à alfabetização. com a colaboração do coordenador. apropriando-se criticamente. que.Seleção de Palavras Geradoras Com o material recolhido chega-se a fase de seleção das palavras geradoras. Criação de Situações Sociológicas Com as palavras selecionadas. Ampliação Somente após a análise da situação. mas na criação de uma nova atitude. Uma palavra geradora pode englobar toda uma situação como apenas seus sujeitos. o educador se volta à visualização da palavra geradora.

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