O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos

“O Estudo Social em Perícias, laudos e Pareceres Técnicos – contribuição ao debate no Judiciário, Penitenciário e na Previdência Social” Organizador: CFESS (Conselho Federal de Serviço Social) Ed: Cortez/ SP /2003. 1º TEXTO: “ O ESTUDO SOCIAL – FUNDAMENTOS E PARTICULARIDADES DE SUA CONSTRUÇÃO NA ÁREA JUDICIÁRIA” Autora: Eunice Teresinha Fávero
Parte I: 1. Introdução A autora inicia seu texto indagando: em que consiste este meio de trabalho enquanto especificidade do Serviço Social? Fávero sublinha que a redescoberta deste instrumento é parte de um movimento de sistematização e aprimoramento de meios para a intervenção, com vistas ao projeto ético político profissional. Apesar da inserção profissional no campo sócio-jurídico (ações de natureza jurídica) existir desde o início da década de 40, só muito recentemente uma preocupação investigativa veio a público. O que justifica a demanda por essa reflexão? • • • A promulgação do ECA (Estatuto da Criança e Adolescente) proporcionou A valorização da pesquisa acerca desta realidade, no sentido de produzir Incorporação de um maior conhecimento crítico e valorização desse campo de

aumento considerável de Assistentes Sociais alocadas nessa política setorial; conhecimentos sobre a mesma; intervenção histórica visualizado como de controle e repressão social; A autora irá particularizar a discussão acerca do PARECER SOCIAL no campo do sistema judiciário – um Poder de Estado responsável pela aplicação das leis e distribuição da justiça, 1

O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos

visto historicamente, como à parte dos demais poderes, o que acaba também por se reproduzir em diferentes instâncias em seu interior. A autora registra algumas indagações acerca do fazer profissional nesta área: Assistente Social deve atuar apenas como perito ou sua intervenção deve ter uma dimensão mais ampla, articulada a rede social, revertido junto à infância/ juventude? (conforme o próprio ECA dispõe).  Assistente Social atuará como perito apenas nas varas de família e varas cíveis ou terá uma atração mais abrangente junto à Justiça da Infância e Juventude? Fávero continua suas indagações: os Assistentes Sociais têm consciência do saber que acumulam e do seu uso enquanto saber-poder? É um saber fundamentado histórica/ teoricamente ou está reduzido ao senso comum? A bárbara realidade social na qual vivemos permite ao profissional o trabalho tão somente como peritos, sem envolvimento com parceiros, em ações coletivas de caráter inovador, criativo e transformador?

2. Intervenção jurídica e questão social Na cidade de São Paulo estão instaladas algumas varas especiais, que atendem apenas jovens em conflito com a lei. Os Assistentes Sociais realizam o estudo social a respeito destes jovens, com vistas a subsidiar o magistrado no que se refere sobretudo, à aplicação de medidas sócio-educativas previstas no ECA. Existem onze varas da Infância/ Juventude que atendem todas as medidas previstas no estatuto, exceto aquelas que dizem respeito ao adolescente em conflito com a lei. Nos onze fóruns da capital, estão instaladas ainda dezenas de varas de família e sucessões. Essa estrutura jurídica requer a presença do profissional seja na triagem inicial, plantão, realização do estudo social – com apresentação de relatórios, laudos, pareceres -, e em acompanhamento de situações cujo avaliação profissional (Assistente Social/ Psicólogo) e determinação judicial considerem como necessário.

2

Ao longo do tempo uma “verdade” a respeito das situações objeto de intervenção foi construídas pelos peritos.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos A autora sublinha que pesquisas realizadas recentemente. perdendo o poder familiar sobre os filhos (o novo código civil alterou a denominação pátrio poder para poder familiar). à criança e ao adolescente pobres. a aplicação da lei com maior segurança. aproximadamente 50% não tinha qualquer renda. O objetivo na requisição de um especialista era o de ser oferecido subsídios técnico-científicos que possibilitassem ao magistrado. dispondo sobre a proteção integral a todas as crianças e adolescentes (artigo 1º). que aplicam medidas protetivas. 3. como sugeriam os códigos de menores ( de 1927 e de 1979 ). a trajetória de suas vidas foi marcada pela EXCLUSÃO. O ECA universalizou o discurso legal. No mesmo ano e período ocorreram 555 adoções. Marcas históricas do estudo social. ressalta que o Assistente Social necessariamente precisa estar qualificado para não só entender a realidade. 3 . em apenas 4 meses do ano de 1999. 406 pais e mães passaram pelo atendimento judicial. passados 13 anos de sua promulgação. grande parte era analfabeta ou semi-alfabetizada. portanto. mas intervir de forma impactante no espaço sócio-jurídico. as pesquisas apontam: a maioria das mães e pais estava desempregada ou subempregado. A autora sublinha o problema do desemprego e da precarização do trabalho que envolve o cotidiano da população que acessa o poder judiciário. o grande contingente populacional que demanda os serviços judiciários é aquele de baixa ou nenhuma renda. a discriminação pelas condições de pobreza. trouxeram a tona exemplos significativos desses elevados números: Nas onze varas da Infância e Juventude da capital. vetando. Porém. que eram dirigidos prioritariamente. reduzindo-se a possibilidade da prática de erros e/ou injustiças. No que de refere ao perfil daqueles que perderam o poder familiar.    O que as pesquisas apontam é que essas famílias nunca foram incluídas minimamente aos bens sociais.

bem como o “estudo de cada caso” deveria ser realizado “por equipe de que participe pessoal técnico. mediante laudo. No decorrer do processo histórico. numa direção coercitiva e disciplinadora da ordem social. e aos que o juiz determinar “ e ” fazer às pessoas das famílias dos menores visitas médicas necessárias para as investigações dos antecedentes hereditários e pessoais destes.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos Conforme o 1º Código de Menores brasileiro. dentre outras atribuições fornecer subsídios por escrito. atuando inicialmente como estagiário ou como membro do comissariado de vigilância. deu-se assim o alargamento do mercado de trabalho. portanto. sempre que possível” (artigo 4). o que exigiu a locação de mais Assistentes Sociais na área pois elementos como “o contexto sócio-econômicos e cultural em que se encontrem o menor e seus pais ou responsável”. no artigo 150. a metodologia operacional adotada pela profissão. no seu artigo 1º. O segundo Código de Menores. encaminhamento. e bem assim desenvolver trabalhos de aconselhamento. promulgado em 1979 dispunha. na audiência. foi o “Serviço Social de casos individuais. O Assistente Social na área da Justiça da Infância e Juventude. Compete à essa equipe. promulgado em 1927 (Lei nº 17. ou verbalmente. foi ampliado a ocupação sócio-institucional pelo Assistente Social. de 12 de outubro). proteção e vigilância a menores”. A autora chama nossa atenção para o fato de que num contesto histórico de agravamento e tentativa de controle das seqüelas da questão social.” A origem dos estudos a respeito da realidade sócio-familiar das crianças e adolescentes remonta. desdobrada originalmente nas etapas de “estudo. prevenção e outros (considerando a doutrina da proteção integral). sobre “assistência. ao instrumento do inquérito.943 – A. 4 . O ECA (promulgado em 1990) nos artigos 150 e 151 aponta para as necessidades de assessoria de equipe interprofissional nessa esfera da justiça. competia ao profissional da medicina psiquiátrica “ proceder a todos os exames médicos e observações dos menores levados a juízo. em São Paulo – nos idos de 1940 – passou a ocupar os espaço de perito da área social. orientação. enquanto possibilitador de coleta de informações com vistas ao restabelecimento da “verdade” dos fatos. ou da construção “de provas” a respeito da ação em litígio ou em exame.

Essa metodologia baseada na tradição funcionalista tem a sua origem na obra de Mary Richmond “Social Diagnoses. 5 . a jurisprudência. direcionou o trabalho do Assistente Social na instituição ao longo de sua história.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos diagnóstico e tratamento”. etc” – inserindo-se. As referências históricas à forma e conteúdo do estudo social e conhecimentos acumulados por meio da intervenção profissional e da pesquisa. de sua execução e avaliação (Kfouri). portanto. No final dos anos 40 e nos anos 50. quando da implantação do Serviço Social no Juizados de Menores de São Paulo. integração social e participação no processo de desenvolvimento. do plano de ação. essa autora afirmava que o Serviço Social de casos era o campo específico do diagnóstico social. a documentação ou o registro dos dados colididos. etc. a direção teórico metodológica do “Serviço Social de casos individuais” pautava-se no referencial ideológico da doutrina social da Igreja Católica. tais como educação. A autora sublinha que essa influência manteve-se durante e mesmo posteriormente ao movimento de reconceituação. A intervenção exigia “aptidões práticas e atitudes” que diziam respeito ao “saber ouvir. ou a família nuclear. compreensão. Nota-se algumas alterações quanto ao conteúdo a partir da visão de mundo do profissional e não como definido coletivamente pelo Serviço Social da área. permitem afirmar que o modelo de abordagem individual. perguntar” e as atitudes relacionavam-se a “ transmitir aceitação. 1969). a medicina. a observação. não incluía uma crítica aos padrões dominantes de exploração social. de 1917. que tomava como modelo de família “a sagrada família”. responder. por meio do serviço de Colocação Familiar. naquele momento histórico. no relacionamento e na entrevista (Kfouri. A perspectiva de adaptação. em especial as etapas metodológicas/ operativas de investigação e diagnóstico contempladas pelo estudo social. mas que ele se destinava a tornar-se elemento auxiliar de outras profissões. ou “investigação – diagnóstico e tratamento” ou “ investigação – diagnóstico e intervenção”. Como principais instrumentos para a operacionalização dessa ação. do pensamento diagnóstico. destacava-se a entrevista.

O Assistente Social detém o poder que possibilita. inclusive. para viabilizar melhores condições de trabalho nessa área. geralmente o Assistente Social estuda a situação. redistributivas e mesmo compensatórias. registra um saber. a premência em proteger uma criança em situação de risco social e pessoal. “hábil”. A acentuada e crescente demanda atendida. analisa. podem contribuir para que algumas vezes o estudo social e o seu registro documental sejam realizados a partir das 6 . muitas vezes. o profissional pauta-se pelo dito e pelo o que não é falado. O perito é o sujeito “sábio”. mas que se apresenta aos olhos como integrante do contexto em foco. tudo juridicamente como “objeto” da ação judicial. O laudo por sua vez. No seu estudo.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos 4. e a miséria vivida por muitos dos usuários – em razão da pouco presença do Estado na implementação de políticas sociais universalizantes. registra. relacionado a uma área de formação profissional. Ou seja. enquadrar “normalidades/anormalidades” se compartilhar de uma perspectiva positivista de leitura do real. na universalidade mais ampla na qual se insere (m). realiza uma avaliação. apresentando. Para o desenvolvimento deste trabalho. Esse instrumento é considerado suporte fundamental para aplicação de medidas Judiciais dispostas no ECA e na legislação civil referente à família. A perícia é traduzida como “vistoria ou exame de caráter técnico especializado”. o parco investimento em recursos físicos. sobretudo pela Justiça da Infância e da Juventude. A construção do estudo social contempla a inclusão do (s) sujeito (s) singular (es). “especialista em determinado assunto”. emite um parecer por meio do qual muitas vezes aponta medidas sociais e legais que poderão ser tomadas. O Estudo social na contemporaneidade. materiais e humanos por parte do Estado/ Instituição Judiciária. O Assistente Social dialoga. registra por escrito e de maneira fundamentada. observa. os estudos e conclusões da perícia. e saber especializado. a reconstituição dos acontecimentos que levarão a uma determinada situação vivenciada pelo sujeito. estabelece parecer.

geralmente. conforme Agnes Huler. do que é posto aos olhos – sem que os profissionais avaliem as conseqüências do saber – poder presentes nas suas ações.política do Assistente Social por meio do qual executa o seu trabalho. Qual objeto da ação profissional? Ele é constituído pela realidade social. ausência de trabalho ou trabalho precário. A autonomia profissional está fundamentada pela competência teórico-metodológica e ético. é subordinado administrativamente a um juiz de direito – ator privilegiado nessa instituição na medida em que sua ação concretiza imediatamente a ação institucional. determina relações de subalternidade. complexo e.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos primeiras impressões. o Assistente Social. Código de Ética profissional – 1993). e não para o disciplinamento e a regulação social. via de regra. em razão do autoritarismo muitas vezes presentes no meio institucional (que pode ser agravado pelo traço subalterno que historicamente vincou nossa profissão). pela 7 . favorece a cristalização de modos de pensar e agir impossibilita mudanças. implica que e reflexão a respeito da construção do estudo social passa. não raras vezes. pro meio da violência social – ou violência da pobreza. A definição de uma ação fundamentada nos aportes éticos e teóricos que fundam a profissão contemporaneamente ( Lei de regulamentação da profissão – nº 8662/93. de cunho coercitivo e moralizador. que aparece. pela negligência. A autora chama nossa atenção para o fato de que o âmbito da intervenção cotidiana ou da prática profissional cotidiana é a esfera da realidade que mais está sujeita a alienação. legalmente também está garantida pelo Código de Ética profissional. fundamentalmente pela relação com objeto de trabalho social e o processo de trabalho que o envolve. desafio em dirigir a intervenção rumo a garantia de direitos humanos e sociais para a efetiva proteção às crianças. do imediato. por meio da violência interpessoal e intrafamiliar. adolescentes e famílias. autoritário torna permanente o desafio dos profissionais no que se refere ao exercício da liberdade e da criatividade. na lei de regulamentação da profissão no próprio ECA e na legislação civil. Alienação que ao dominar esse cotidiano. via de regra. Esta relação de subordinação. No espaço do judiciário. A imersão num cotidiano tenso.

do olhar de outros profissionais com os quais o Assistente Social interage. Para a construção do estudo social é preciso discernimento acerca de: quê conhecer? Qual o objeto a ser conhecido? por quê e para que realizar o estudo? como fazer (qual a metodologia operativa a ser utilizada?) que meios utilizar? (a escolha dos meios relaciona-se aos fins delineados anteriormente). as políticas sociais municipais/ estaduais. Inexiste neutralidade profissional e portanto. à saber: as questões do trabalho. a 8     . direta e indiretamente. meios de trabalho. situações que muitas vezes são permeadas por conflitos e rompimentos de vínculos na esfera familiar. de uma competência teórica-técnica política e ideológica (dimensões estas que precisam estar conectadas entre si). No processo de construção desta competência. com vistas a um resultado – por isso tem uma dimensão teleológica – isto é. dentre outros. a estrutura familiar contemporânea. essa direção social encontra-se impregnada por um projeto de classe social. o defensor. O Assistente Social precisa ter clareza de que a “verdade” é uma construção histórico-social que requer para sua constituição. O trabalho realizado pelo Assistente Social comporta um conteúdo e é guiado por uma intencionalidade.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos ausência ou insuficiência de políticas sociais universalizantes e redistributivas. O processo de trabalho do Serviço Social é constituído pela articulação do objeto. para que fazer e como fazer. o promotor público. o domínio de alguns conteúdos são indispensáveis. o psicólogo. Fávero sublinha para nós que o enfrentamento da alienação presente no cotidiano e a particularidade das expressões da questão social estão à exigir: o trabalho interdisciplinar. o Assistente Social projeta o resultado a ser alcançado a esse projetar confere uma direção social à finalidade do trabalho. seja o juiz. por que fazer. A autora ressalta que o estudo social envolve uma dimensão de totalidade que deve ser expressa nos registros que expõem ao conhecimento do outro. são considerados chaves do conhecimento para construção do estudo social. enfim. atividade e finalidades e faz-se necessário que no desenvolver de sua ação o Assistente Social se pergunte: o que fazer.

A autora concluiu suas reflexões sublinhando: Como pensar em viabilizar outras possibilidades de ação de caráter coletivo. Parte II 1. às dinâmicas dos processos sociais que constituem o viver dos sujeitos. a perícia social. juridicamente. auxiliando a impactar positivamente as vidas dos sujeitos. o laudo social e o parecer social fazem parte de uma metodologia de trabalho de domínio específico e exclusivo do Assistente Social. rumo a qualificação do fazer profissional que possibilite impactar. é o Assistente Social que pode trazer à tona a dimensão de totalidade do sujeito social (ou sujeitos) que. enriquecendo e potenciando assim as intervenções profissionais. são outras indagações que podem ser feitas envolvendo Assistente Social. faz-se necessário construir alianças. É o Assistente Social o profissional que adquiriu competência para dar visibilidade.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos articulação com a rede social existente e a pressão para a sua ampliação – numa dimensão de trabalho coletivo. aliados ao investimento no aprimoramento teórico. O estudo social. A autora chama atenção para importância dos dados empíricos e as representações das diferentes questões cotidianas no que se refere a sua visibilidade institucional tendo em vista a construção de parâmetros analíticos da ação profissional. podem ser consideradas individuais. 9 . O engajamento políticos das categorias que atuam na área social juntamente com outros segmentos organizados da sociedade é tarefa que se coloca quando se pensa o enfrentamento coletivo de questões que a princípio. A construção das respostas envolve a organização política dos trabalhos da área e a pesquisa criadora de conhecimentos. Para tal. metodológico e técnico. por meio deste estudo. parcerias com universidades ou organizações que atuam com o mesmo objeto com o fato de pesquisar e produzir conhecimentos. Procedimentos e instrumentos em questão: síntese informativa. frente aos descompromisso social e ético de parte de vários personagens que compõem os poderes constituídos? Como construir possibilidades de transformações no cotidiano desse trabalho superando suas evidentes características de repetição. positivamente esse cotidiano vivido. se torna “objeto” da ação judicial.

Mas o que é solicitado ao profissional Assistente Social não é o conhecimento jurídico. o profissional faz uso dos instrumentos e técnicas pertinentes ao exercício da profissão. solicitada ou determinada sempre que a situação exigir um parecer técnico ou cientifico de uma determinada área do conhecimento. e de forma crítica. de forma que sua apresentação. como qualquer profissional. sim.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos Para atuação na área judiciária. Perícia Social. Assim. uma determinada situação ou expressão da questão social. que contribua para o juiz formar a sua convicção para tomada de decisão. depende a sua devida utilização para garantia e ampliação de direito dos sujeitos usuários dos Serviços Sociais e do Sistema de Justiça. a perícia é o estudo social. com base no projeto de profissão. Ela é realizada por meio do estudo social e implica na elaboração de um laudo e emissão de um parecer para a sua construção. Vale reafirmar que de sua fundamentação rigorosa. 2. Estudo Social É um processo metodológico específico do Serviço Social. 10  . sendo facultado a ele a realização de tantas entrevistas. teórica. Diz respeito a uma avaliação. exame ou vistoria. como em qualquer outra área na qual trabalhe. que tem como finalidade conhecer com profundidade. contatos. o Assistente Social necessita ter conhecimento especializado em que? É inegável que ele necessita saber de especificidades e particularidades do meio institucional. A perícia no sistema judiciário pode ser realizada por: Assistente Social funcionária da instituição judiciária. objeto da intervenção profissional. ética e técnica. 3. mas o conhecimento específico do Serviço Social. de diferentes áreas. realizado com base nos fundamentos técnicosoperativos e com finalidades relacionadas a avaliações e julgamentos. por meio do estudo social contribua para a justa aplicação da lei. visitas. pesquisa documental e bibliográfica que considerar necessárias para análise e interpretação da situação em questão e a elaboração do parecer. ou a interpretação da lei.

Relatório Social. a partir de uma determinada área de conhecimento. a qual se traduz em “avaliar.  4.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos  Assistente Social nomeado como perito pelo juiz responsável (listados localmente/ recebendo remuneração por perícia/ laudo apresentado). decidir”. É uma apresentação descritiva e interpretativa de uma situação ou expressão da questão social. os princípios éticos devem guiar a escolha do que é pertinente ou não de se registrar em documento que permaneçam em prontuário próprio do Serviço Social e naqueles que serão expostos à análise de outro agente. com a finalidade de dar suporte à decisão judicial. Ele. É mais um elemento de “prova”. Assistente Técnico. documentar um auto processual relacionado a alguma medida protetiva ou sócio educativa. na maioria das vezes contribui para a formação de um juízo por parte do magistrado no sentido dele ter elementos que possibilitem o exercício da faculdade de julgar. enquanto objeto da intervenção desse profissional. Como qualquer outra documentação do âmbito da profissão. Seu uso se dá com a finalidade de informar. Identificação breve dos sujeitos envolvidos. Ele possui a seguinte estrutura: Introdução: que indica a demanda judicial e objetivos. profissional de confiança indicado e remunerado por uma das partes. escolher. Laudo Social. esclarecer. subsidiar. no seu cotidiano laborativo. ou que poderão vir a público. Esse laudo oferece elementos de base social para a formação de um juízo e tomada de decisão que envolve direitos fundamentais e sociais. 5. A metodologia Um relato analítico     11 . prevista no ECA ou enquanto parte de registros a serem utilizados para a elaboração de um laudo ou parecer.

Trata-se de exposição e manifestação suscinta. a uma questão ou questões relacionadas a decisões a serem tomadas. artigo 18: “compete ao Serviço Social esclarecer junto aos beneficiários seus direitos e os meios de exerce-lo e estabelecer conjuntamente com eles o processo de solução dos problemas que emergirem da sua relação com a previdência social. 2º TEXTO: “ O PARECER SOCIAL – UM INSTRUMENTO DE VIABILIZAÇÃO DE DIREITOS (RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA). e os objetivos do trabalho solicitado e apresentado. Ele pode ser emitido enquanto parte final ou conclusão de um laudo. Introdução: As autoras abordarão o parecer social – enquanto instrumento técnico no âmbito da previdência social pública (INSS – Instituto Nacional de Seguro Social). tanto no âmbito interno da instituição como na dinâmica da sociedade”. de caráter conclusivo ou indicativo. 6.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos  Conclusão ou parecer social (deve apontar indicativo de alternativas e que expresse o posicionamento profissional frente à questão em estudo). 12 . Diz respeito a esclarecimentos e análises. referenciada em fundamentos teóricos-éticos e técnicos e uma finalização. com base em conhecimento específico. com a participação dos trabalhadores no controle efetivo desta política. Parecer Social. A ótica da inclusão social e da cidadania norteia a ação profissional no sentido de formação de uma consciência coletiva de proteção social. a análise da situação. enfocando-se objetivamente a questão ou situação social analisada. A intervenção profissional é definida pela lei nº 8213 de 24/07/1991. Autores: Marinete Cordeiro Moreira/ Raquel Ferreira Crespo de Alvarenga. bem como enquanto resposta a consulta ou a determinação da autoridade judiciária a respeito de alguma questão constante em processo já acompanhado pelo profissional.

laudos periciais. sócio-econômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indiretas. com a implantação de planos de mercantilização e redimensionamento do papel do Estado. as condições macrossocietárias que estabelecem o terreno sócio-histórico em que se exerce a profissão. marcada pela desigualdade social. estabelece a competência do Assistente Social onde destacamos no inciso XI – “realizar estudos. empresas privadas e outras entidades”. as respostas técnico–profissionais e ético-políticas dos 13 . Recorrendo a Marilda Iamamotto.”de um lado. tão comum em práticas passadas. aprofundados pelo processo de reestruturação produtiva e da globalização em escala mundial. No seu artigo 5º. que o projeto profissional deve considerar a articulação de uma dupla dimensão. um meio de realização do compromisso profissional com os usuários. elas ressaltam ainda sobre a ocorrência da privatização desta política. informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social”. estabelece – “realizar vistoria. em seu artigo 4º.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos As autoras sinalizam a importância da política previdenciária no Brasil. a autora sublinha. que regulamenta a profissão de Assistente Social. 2. A lei nº 8662/93. conforme coloca Lúcia Lopes a incorporação de três dimensões construtivas do exercício profissional: conhecimento teórico-metodológico. inciso IV. de outro lado. compromissos éticos políticos e capacitação técnico-operacional. tendo em vista a justiça social? (Barroco. Estas dimensões nos indicam a necessidade de ir além da visão legalista que marca acentuadamente a operacionalização política previdenciária combatendo o caráter aparentemente neutro e tecnicista. perícias técnicas. 1994) A construção do parecer social está à exigir. Lúcia Barroco faz-nos as seguintes indagações: “ a que o parecer social se destina? Com quem ele se compromete e qual a direção política de seu produto? Ele é um instrumento de viabilização dos direitos dos cidadãos. aumento da pobreza e do mercado informal. seus limites e possibilidades.Fundamentação legal da profissão e na legislação previdenciária. (Observação da Professora Beth da Luz: Vide reforma da Previdência do Governo Lula e a crescente participação de empresas na gestão da previdência privada). e.

que traduzem como esses limites e possibilidades são analisados. situação de privação coletiva que inclui pobreza. a justiça social e a cidadania.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos agentes profissionais neste contexto. no interior da política previdenciária proteção social redistributiva. adotando o entendimento de exclusão social definido por Sposati: “. a não representação pública como situações multiformes”.. fornecendo elementos para a concessão de um benefício. também é um instrumento de viabilização de direitos. A busca da inclusão social do usuário nos leva a destacar a relação inclusão/exclusão social. subalternidade. apropriados e projetados pelos Assistentes Sociais. indo além dos aspectos econômicos. de uma dada situação. 1994). como também na fase de recurso. com base na observação e estudo. 14 implantada de conformidade com o modelo neoliberal. O que passa a vigorar é a lógica do seguro em detrimento da concepção de .Principais situações de emissão do parecer social. uma delas foi emiti-lo por iniciativa própria na fase de concessão. As autoras sublinham que. os profissionais procuraram estabelecer estratégias visando garantir a utilização desse importante instrumento da ação profissional. a não equidade. 3. visando subsidiar a concessão de benefícios previdenciários. um meio de realização do compromisso profissional com os usuários. O parecer social como instrumento da ação profissional foi introduzido no INSS a partir do Decreto nº 611/92 e da Ordem de Serviço nº506/95. tendo em vista a equidade. a não acessibilidade. Mas. as restrições à emissão do parecer social ocorreram paralelamente à tentativa governamental de extinguir o Serviço Social dos quadros institucionais do INSS. discriminação . a emissão do parecer social vem sofrendo diversas restrições legais. Apesar das sérias restrições.” A autora sublinha que parecer social é “ a opinião profissional do Assistente Social.. embora estes sejam fundamentais. recurso material e decisão médico-pericial” (MPAS/INSS. a igualdade.

2. Na emissão do parecer social que visa caracterizar a dependência econômica. Estar vigilante aos nossos preconceitos e valores é uma exigência constante.. Nas situações de usuário sem vínculo empregatício ao falecer. contínuo. devemos abordar. A coabitação sob o mesmo teto pode ser levantada. companheiro(a) e filhos(as) . sugerimos a continuidade da união e a notoriedade da convivência. União estável Ela é entendida como a relação entre o homem e a mulher.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos 3. mas não é necessária. A legislação previdenciária não reconhece esse princípio constitucional. planos de saúde. o endereço pode ser diferente. conta bancária. que normalmente são provas inalcançáveis para a maioria da população brasileira: declaração de dependência em Imposto de renda. sendo. incentivando o respeito à diversidade. Dependência econômica Garantida em lei. sem o reconhecimento da legislação ou seja.”. etc. como aspectos relevantes. não emitindo julgamentos.. os pais e irmãos podem requerer a pensão por morte e auxílio. Na escolha dos elementos constitutivos a serem trabalhados.1. conjunta. além dos citados acima. o relacionamento.. prova do mesmo domicilio. Nos casos de ausência/ insuficiência de provas documentais requer do profissional um olhar atento ao principio contido no nosso Código de Ética no que se refere ao “empenho na eliminação de todas as formas de preconceito. A emissão do parecer para caracterizar a união estável. devemos observar a queda do padrão familiar após o óbito ou reclusão do usuário. 15 . nos casos onde não existem os dependentes preferenciais esposo(a). principalmente quando o usuário tinha vínculo empregatício. o casamento civil.reclusão desde que comprovem a dependência econômica. associações e clubes recreativos. aqueles que favoreçam a inclusão da família no atendimento das necessidades sociais para uma vida digna. exigindo a apresentação de provas documentais. que a retira da clandestinidade. é um desafio. 3. porém essa diferença inexiste na Constituição Federal.

subsídios para sua conclusão. por ocasião da emissão do parecer social. ainda há lacunas.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos Devemos lembrar que nos casos de união estável a dependência econômica é presumida. A emissão do parecer social deve compreender a relação saúde/doença como decorrência das condições de vida e do trabalho.  necessidade de acompanhamento psicológico para enfrentar/ aceitar a doença (usuário e familiares). Elementos constitutivos do parecer social: As representações. pesquisas e legislações sobre a questão. aposentadoria por invalidez e aposentadoria por invalidez acidentária. 4.3. Intercorrências sociais que interferem na origem. ambos historicamente construídos. os valores e os significados presentes no contexto sócio-cultural onde o usuário desenvolve relações sociais e de convivência deverão ser considerados. foi incluído no rol dos dependentes preferenciais. Tem com objetivo subsidiar a perícia médica nas divisões de concessão do auxíliodoença.  custos de tratamento x renda familiar.  desconhecimento do diagnóstico ou não aceitação do mesmo pelo usuário e familiares. 3. demonstrando que. O vínculo se dá através da dependência econômica e não pela união estável. Considerando o conceito ampliado de saúde. o Assistente Social poderá acessar trabalhos interdisciplinares. Por decisão do poder judiciário. deve contemplar:  a situação de doença x acesso a serviços de saúde. apesar dos avanços na conquista dos direitos previdenciários. evolução e agravamento de patologias. através de uma ação civil pública. colhendo assim.  motivação para retorno do trabalho x condições de trabalho. o companheiro do mesmo sexo. Os seguintes aspectos deverão nortear os elementos constitutivos do parecer: 16 . não devendo constar dos elementos constitutivos.

explicitando para o usuário o nosso objetivo. ao realizar a entrevista. situando-o quanto ao processo realizado e as exigências institucionais e legais.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos     qual o núcleo familiar. 5. 17 . A autora sublinha que deve-se estar atento na coleta de dados. Elaboração do parecer social Tem como base a observação e a realização do estudo sócio. satisfação das necessidades básicas. dos direitos dos usuários e. (desmistificando assim o aparato e o poder institucional). inclusive. inserção no mercado de trabalho. Lúcia Lopes ressalta que a pertinência da emissão do parecer ou a emissão por iniciativa própria deverá ser “o conhecimento acerca da burocracia institucional. (O sigilo profissional deve ser prevalecido) É necessário que o conteúdo não seja excessivo e deve ser expresso de maneira clara e objetiva. buscando uma postura horizontal com o mesmo. socializando com o usuário a conclusão do estudo realizado. Somente o parecer social é que deverá ser encaminhado.econômico de uma dada situação. O estudo sócio-econômico não deverá ser encaminhado aos setores solicitantes. situando o parecer no âmbito do Serviço Social. em arquivo próprio. sem dúvida. posição do usuário no grupo familiar. O Assistente Social deve estar atento para não definir a concessão do benefício ou da avaliação médico pericial. mas permanecer no prontuário do Assistente Social. da possibilidade de viabilização de direitos através desse instrumento”. estabelecendo os procedimentos adotados para a realização do estudo e.

gerando assim questionamentos quando os mesmos não eram apresentados. Esse comportamento profissional permitiu que os setores solicitantes avaliasse a qualidade do parecer à apresentação das referidas provas. → conclusão: Considerações entre o objetivo do parecer social. → Construção do parecer tendo como subsídios provas documentais: Em 35% dos pareceres. 36% das situações não houve posicionamento claro do técnico. como instrumento de inclusão. → Considerações quanto à forma de elaboração do parecer social: 18 . aspectos relevantes e Em 58% dos pareceres houve coerência entre aspectos relevantes. 65% dos pareceres não mencionavam provas documentais. Em 42% essa relação não ocorreu. sendo que 24% ainda não havia sido avaliado. No que se refere à conclusão. a conclusão e o objetivo que gerou a emissão do parecer social.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos 6. isso é revelador da valorização do parecer social. Considerações finais: As autoras concluem seu texto indicando algumas considerações fruto de um estudo realizado em 1998 com 114 pareceres: → Parecer social e a inclusão do usuário no sistema previdenciário: Em 98% dos pareceres estava registrado o compromisso profissional com a inclusão do usuário no sistema de proteção social. ao respaldar o estudo em provas documentais. o profissional adicionou provas documentais apresentadas pelo usuário. 75%deles foram acatados e apenas 1% não foi aceito. o profissional reforça a visão burocrática e legalista da instituição e trabalha contra a autonomia técnica.

Queremos assim ilustrar que o trabalho profissional implica em ultrapassar a descrição dos dados empíricos utilizando conhecimento para comunicar às instâncias do Sistema de Justiça Criminal (a administração Penitenciária. O parecer se distingue do estudo.muitos relatos extensos e superficiais. com base em juízos de valor. sem dúvida. o Ministério Público. Newvone Ferreira da Costa. as informações necessárias à obtenção dos benefícios legais devidos.) 19 . à luz de referências teóricas. o Juízo. psicólogos e psiquiatras vem apresentando acerca do “COMO FAZER” um parecer para compor o exame criminológico. com informações desnecessárias ao estudo do problema. quando expostos sem nenhuma elaboração mental. Este. psicológico e psiquiátrico. No Sistema Penal do Rio de Janeiro.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos Em 72% não havia uma construção objetiva de redação. onde trabalhamos. Márcia Badaró Bandeira e Tânia Maria Dahmer Pereira. é o momento da apreensão dos dados empíricos obtidos a partir das entrevistas. Vale ressaltar que os dados empíricos. o parecer tem que ser sucinto sem ser superficial pois ele não pode ser confundido com relatório. consultas a documentos que proporcionam conhecer a situação dos presos examinados pela equipe profissional. podem ser objetos de interpretações de cunho discriminatórios. 3º TEXTO: “ O EXAME CRIMINOLÓGICO –NOTAS PARA SUA CONSTRUÇÃO” Autores: Jorge Luiz Carvalho. abordagens. visitas domiciliares. Nádia Degrazia Ribeiro. 1. constando este último de acervo dos técnicos sob sigilo dos mesmos. parecer é compreendido como o instrumento portador da interpretação profissional auferida a partir do movimento metodológico inaugurado pelo estudo social. o Conselho Penitenciário. a Defensoria Pública ). A elaboração do parecer social não pode ser uma comprovação de informação e não deve possuir um caráter de fiscalização: ele é um viabilizador de direitos. Introdução: Os autores sublinham a freqüência da demanda que profissionais Assistentes Sociais.

cometido com violência ou grave ameaça a pessoa. entretanto a assistência psicológica não é prevista na lei. é realizado em dois momentos distintos da vida do sujeito que está preso: quando ingressa no sistema prisional (artigo 34 do Código Penal) e do pleitear direitos legais ao longo do cumprimento da pena tal como a progressão de regime de pena (artigo 112 – parágrafo único da Lei de Execução Penal) e o livramento condicional (artigo 83 do Código Penal). como dispõe o artigo 7º. para conhecer este sujeito. essa é no entanto. previsto pelo Código Penal. quando se refere às “assistências” social e à saúde. O juiz e o Ministério Público espera que respondamos a essa presunção. O artigo 83 (parágrafo único) do Código Penal é claro no que se refere a responsabilidade da equipe ao elaborar o parecer para compor o exame criminológico: “Para o condenado por crime doloso. estando o psicólogo inserido apenas na formação da Comissão Técnica de Classificação ( CTC). o delito pelo qual está preso. com a 20 . a concessão do livramento ficará subordinada à constatação de condições pessoais que façam presumir que o liberado não voltará à delinqüir”. Assim. 22 e 23. a inscrição do delito na produção da criminalidade da sociedade. a responsabilidade do Estado na custódia dos presos. a trajetória subjetiva de apreensão desta experiência pelo sujeito sobre o qual os o aparato político.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos O Parecer. ideológico e administrativo que orienta a prática dos agentes do a origem de classe social dos sujeitos que majoritariamente lotam as pressões - pareceres serão elaborados. brasileiras. as circunstâncias de seu cometimento. Estado na custódia dos presos. uma questão que nos coloca diante de um desafio ético (seria o exercício de futurologia?) A LEP (Lei de Execuções Penais) define claramente as inserções do Assistente Social e do psiquiatra. é imprescindível buscar contextualizar este quadro empírico que se coloca como objeto de estudo: os valores impressos na sua socialização . as Condições de aprisionamento. nos artigos 14. Estes são pontos cruciais a serem desvendados na contextualização deste instrumento de trabalho posto aos profissionais do trabalho pela Lei de Execução Penal (LEP).

2. à lentidão da Justiça Criminal. come e. regime disciplinar prisional mais rigoroso seriam instrumentos eficazes a contribuir como decréscimo das taxas de incidência criminal. De conformidade com Luiz Eduardo Soares. Assim. as favelas. vão-se repassando gerações de adolescentes a jovens adultos. cuja expectativa de sucesso e ascensão de faz “enganosamente” pela via dos negócios do tráfico de drogas. com projetos educativos profissionalizantes e assistência pontual. Na verdade. propõe o rebaixamento da idade de responsabilidade penal. que vive nas ruas. com rara continuidade. através de determinadas ações quase sempre de curta duração. ali dorme. os psicólogos desenvolvem outras práticas ainda não tipificadas na legislação penal. seguidamente. no cotidiano do sistema prisional do Rio de Janeiro. distantes de um padrão estético dominante. como prestadores de assistência psicológica tanto a presos quanto aos funcionários. por vezes. Os chamados “marginais” são na sua maioria. mal vestidos. A localização do perigo está sempre associada à “classe perigosa”. trabalha. que se expõe nos espaços públicos – se diverte. à necessidade do agravamento das penas e. a opinião pública clama e reclama quanto à impunidade. No imaginário social penas cada vez mais longas. Criminalidade e prisão: um elo indissolúvel Movido pela emoção decorrente de crimes de repercussão pública. A suspeição sobre o comportamento de negros e pardos. aponta para exclusão moral que estigmatiza estes sujeitos: são comuns as expressões “com jeito de bandido”. visando a prevenção da criminalidade através da chamada “ocupação social”. “elemento em atitude suspeita”. condomínios e clubes. dos pequenos e grandes assaltos. sujeitos oriundos da classe pobre e os que lotam preferencialmente as cadeias.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos função precípua de elaboração de pareceres. 21 . além das ações repressivas das corporações policiais passam a ser freqüentadas por órgãos públicos em parcerias com as ONG’S (Organizações não governamentais). sem o recato dos outros cidadãos que privam da intimidade de seus escritórios.

o linguajar típico – quase um dialeto. nacional. todos eles apontam para as estratégias de sobrevivência criadas pelos presos para sobrepor-se ao ambiente hostil. conseqüentemente. de que obtiveram benefícios legais (progressão de regime ou livramento condicional) “prematuramente”. Os autores sublinham que as prisões brasileiras nem sempre garantem o pretendido isolamento daqueles que “ameaçam a paz social”. Diferentes autores tem discutido as relações sociais no interior das prisões.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos Wacquant aponta que a insegurança decorrente da criminalidade é muito agravada pelo uso rotineiro da violência legal e. pelas práticas já banalizadas de corrupção e participação de policiais em delitos. As prisões dos séculos XVIII e XIX foram projetadas como “fábricas de disciplina” conforme nos diz Foucault. no entanto. Exame criminológico: sua origem e implicações. durante anos. aos direitos civis dos presos e de seus familiares. 3.. entre eles e funcionários. Deve-se ter presente que o aparato legal existente. Enfim. seja em nível internacional. dias e horas. Os autores se utilizam de Foucault para tecer reflexões acerca dos aparelhos de controle. ainda.. emanadas dos funcionários (pequenos castigos fora das sanções legais previstas). 22 . Seriam as prisões de hoje prestadoras de serviço à sociedade no sentido de se consolidarem como fábricas de exclusão moral? Apesar de ambientes prisionais cronificados por toda ordem de aviltamento as leis e. estadual ou local é um parâmetro essencial se considerarmos o Estado Democrático de Direito. muito menos contribuem para um processo de ressocialização. As práticas culturais cultivadas dentro da prisão expressam poderes privatizados que dominam as regras cotidianas de vida dos presos. podemos completar. assim como a ocorrência de maus tratos . as submissões e coerções entre presos. a imensa riqueza cultural gerada a partir da vida anômala. a criatividade e inventividade dos presos para gerenciar a falta de recursos materiais. deve abranger a questão de até que ponto os agentes do Estado garantem a efetividade das leis. a instituição prisional. dentre eles. em confinamento. A discussão. seguidamente ouvimos depoimentos de que os presos não são suficientemente punidos ou.

Sob o discurso do conhecimento científico. ela introduz o sistema posicional progressivo. no qual o preso deve iniciar sua pena no regime fechado. com ele. nasceu de práticas sociais de controle e de vigilância” (Foucault. 2002). formando. de modo que se possa predizer o seu comportamento e corrigi-lo. No início do século XX surge o Código Penal (CP) em 1940. “um certo saber do homem. que passa a ser obrigatório para os condenados à pena privativa de liberdade. finalmente. Com o novo Código Penal e a LEP. seguindo um período no regime semi aberto. particularmente do homem criminoso. antes do término da pena. a sociologia. No início da pena o exame criminológico tem como objetivo conhecer a personalidade do criminoso e assim orientar a 23 . mas principalmente da alma. da individualidade. mas controla-lo ao nível de sua periculosidade e “corrigir suas virtualidades” (Foucault). segundo o pensamento da época desvendar a personalidade do sujeito. fundamentado nos princípios positivistas e. surge o “exame crimiológico”. dentro ou fora da regra. na verdade. de modo que possa retornar à sociedade “reeducado” ou “curado”. Surgem então. Com a reforma da parte geral do Código Penal em 1984. com características físicas e psíquicas determinadas. a criminologia. saber este que. e surgem mecanismos mais sutis de punição: o aprisionamento não só do corpo. O criminoso. Desaparece o suplício dos corpos como alvo principal da repressão penal. recebe a liberdade condicional. no qual poderá sair durante o dia para trabalhar e/ou visitar seus familiares e. era visto como um individuo anormal. e com ela novas formas de análise sobre o homem.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos No século XIX. início do século XX. um sujeito naturalmente perigoso. a psicopatologia e a psicanálise. constrói-se a teoria penal da periculosidade. característica da Idade Média. onde a técnica do “exame” permitirá. os Exames de Verificação de Cessação de Periculosidade (EVCP) que eram realizados ao final dos prazos estabelecidos para as medidas de segurança impostas aos indivíduos considerados inimputáveis ou semi-imputáveis ou aos condenados julgados perigosos. a ideologia positivista tomou força. objetivando uma reintegração gradual à sociedade. a psicologia. A função da prisão não é mais apenas privar um indivíduo de sua liberdade. surge a Lei de Execução Penal. do individuo normal e anormal. no final do século XIX.

constituída por homens/mulheres. um instrumento valioso de conhecimento sobre a população que. passam a subsidiar o Sistema de Justiça Criminal na tomada de decisões para a concessão dos direitos legais. sofrem de grande burocracia para sua liberação. a presença de psiquiatras. na sua política penitenciária. enquanto que ao final da pena. psicólogos e Assistentes Sociais torna-se obrigatória em todas as unidades prisionais.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos execução penal. agravados com a falta de compromissos em investir em sujeitos confinados. Esses profissionais. capacitação profissional e acompanhamento psicológico daquela população. empregados no mercado informal. serviços capazes de responder aos indicativos do Plano Individualizado de Tratamento como proposto pelos técnicos da CTC (Comissão Técnica de Classificação): acompanhamento médico e psicológico. 50% de homens e mulheres não completaram o ensino fundamental Acrescenta-se que pesquisa anterior aponta que 16% dos homens e 26% das mulheres que ingressam no sistema prisional referiram maus tratos na infância. 24 . sérias conseqüências no desenvolvimento emocional. oportunidades de trabalho. o que traz como sabemos. estudo. a política penitenciária no Brasil não é diferente das demais políticas públicas em geral: os recursos são escassos. O PIT (Plano Individualizado de Tratamento) tem sido entretanto. cuja exclusão moral está identificada com a falta de perspectiva de retorno e de credibilidade na sua reinserção entre os “homens de bem”. O Exame criminológico é instrumento norteador do princípio da individualização da pena privativa de liberdade e com ele. Na verdade. A demanda da equipe multiprofissional é de que o sistema prisional ofereça. lazer. ingressa no sistema prisional do Rio de Janeiro:    essa população é majoritariamente jovem (Entre 18 e 25 anos). seu objetivo é presumir seu condenado voltará ou não a delinqüir. cultura. através de seus pareceres. Tais dados corroboram a necessidade de uma política penitenciária possibilitadora de escolarização.

produzindo com ele. risco do instrumento ser fonte de arbitrariedade.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos Os autores passam a elencar as críticas mais comuns aos exames criminológicos que nos servem de reflexão para pensarmos se poderia ser diferente. tais como bom comportamento na prisão (adequação as normas institucionais). é um mandato da sociedade a instituição prisional. naquele instante. O exame criminológico se inscreve como instrumento de custódia e representa não só um dilema teórico-metodológico. → utilização de critérios duvidosos para a conclusão de pareceres favoráveis. entendida por Foucault como partícipes do moderno “suplício da alma”. utiliza-se a história de vida do sujeito como justificativa do ato criminoso. uma nova história que traga um outro sentido ao ato delituoso. pois colhem-se informações particulares que passam a ser acessíveis a outras pessoas. 4. 25 . objetivada na legislação penal. → quanto a forma de sua elaboração. eticamente discutível. instrumento de dominação escondida sob o manto da cientificidade. A presença de profissionais na execução penal. rompendo a estereotipia de sua escuta e da fala do preso. temos convicções de que suas “mentiras” ou histórias prontas é uma estratégia de sobrevivência diante de uma situação que poderá leva-lo à liberdade. mas sobretudo um desafio ético . a despeito da continuidade e exigência legal do exame: → → → → cientificidade questionável. Impasses na construção do exame criminológico. Cabe ao profissional desmontar a história pronta destinada a atender a suposta expectativa dos técnicos. aprisionando perpetuamente ao seu passado. articulando-o com o restante de sua história atual e pregressa.

dentro e fora dos muros de nosso país.O Estudo Social em Perícias e Pareceres Técnicos Abaixo. acesso aos direitos. história de uso profissionalização e mercado de trabalho. que sentimentos aspectos da afetividade e da inteligência. apoio experiência com outras instituições na sua vida pregressa. relações familiares: as de origem e as constituídas. Entendemos que cada parecer constitutivo do exame criminológico pode oferecer ao Sistema de Justiça Criminal mais do que informações para assessorar o Juízo e o Ministério Público: cada sujeito ali retratado. com vistas à construção do exame criminológico: → → → → → → → → → inserção na vida prisional e relação com o delito. interpretada remete as condições de vida ofertadas a população. perspectiva de vida: antes da prisão e do momento atual. 26 . cada estória. familiar para a escolarização). escolarização (oportunidades e formas de se relacionar com a escola. abusivo de álcool e outras drogas. antecedentes psiquiátricos ou ocorrência de algum tipo de doença. experimentou. os aspectos constitutivos do estudo a ser realizado pelos profissionais.