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Eneida de Moraes

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Eneida de Moraes

Foi uma das pessoas que mais contribuíram para o engrandecimento cultural do país. Mulher à frente da sua época, foi rotulada de prostituta, por separar-se do marido e viver com o jornalista Oswaldo Póvoa.

Mas quem foi Eneida? Nascida sob o signo de escorpião, portanto uma ransgressora nata. Foi uma agitadora cultural de insuperável coragem, jamais deixando de exercitar o direito de cidadania. Durante os anos 40 e 50 organizava caravanas de escritores, para discutir literatura em vários pontos do país. Eneida estreou como escritora em 1929, com o volume de versos "Terra Verde". A partir de 1932 começa sua intensa atividade política, bonita e impetuosa, disposta a consertar o mundo, ingressou no ilegal e perseguido Partido Comunista. Presa em 1935 como subversiva, foi mandada para a Casa de Correção do Rio, onde, pela mesma culpa, cumpriam pena Nise da Silveira,Maria Werneck e Beatriz Bandeira. Caricatura dos Poetas Paraenses - VII Feira Pan-Amazônica do Livro Na mesma Casa de Correção, na mesma época, no pavilhão masculino, também vítimas do contexto político do regime ditatorial da época, estavam presos: Aparício Torelly (Barão de Itararé) e Graciliano Ramos, entre tantos outros. Comandava todo um batalhão de intelectuais, romancistas, poetas, pintores e jornalistas, todos eles "belezas" de Eneida, pois assim designava quem lhe agradasse. Quem não era de seu agrado, era devidamente designado como "porcaria". Morando num pequeno apartamento em Copacabana com José, seu gato, vivia do trabalho jornalístico, como cronista do Diário de Notícias, e como colaboradora de váriasrevistas e publicações literárias. Costumava reunir aos sábados os amigos mais chegados, para um feijão tropeiro e batidas, entre essesamigos estavam: Jorge Amado e Zélia, Drummond, Elyzete Cardoso. O apartamento cheirava a xixi de gato, e quem se importava? A companhia, o feijão delicioso, a boa conversa, era que contava, e todos acabavam concordando com ela: "nem parece que nessa casa mora um gato". Apaixonada por carnaval, Eneida criou o "Baile do Pierrot", realizado a cada ano e levado a frente por ela, tornou-se famoso no Rio. Arrebanhava e arrastava os amigostodos os anos para o baile, todos fantasiados, ela à frente do bloco. Movida por essa mesma paixão,escreveu o clássico História do Carnaval Carioca, leitura indispensável para quem quer conhecer a história da nossa maior festa popular. Foi de Eneida a idéia de criar o Sindicato dos Escritores, pouco antes do golpe militar de 64, mas sua idéia somente seria realizada anos depois em plena ditadura por José Louzeiro. Eneida morreu em 1971,deixando um legado de obras fantásticas como: "Cão da Madrugada", "Alguns Personagens (novelas)", "História do Carnaval Carioca", "Banho de Cheiro", "Boa Noite,professor (contos)", entre outras.

"Companheiras" Durante o inverno a sala era tão úmida, tão fria que enregelava mãos e obrigava os pés a manter um constante sapateado; no verão a sala era quente, tão quente que parecia querer matar-nos sufocadas a qualquer momento. Os dias no inverno como no verão se arrastavam pesados, longos, sem monotonia.pois nossa constante preocupação era inventar formas para que eles não fossem parecidos. Enchíamos com coragem e alegria todas as horas: ginástica, conversas, cânticos, passeio. Tão pequeno o espaço que possuíamos para caminhar, e o ruído dos tamancos cortava-o, ferindo o lajedo; as saudades impressas nos olhos; as constantes evocações. Quando se falava em quitutes variados, quando alguém dizia como se preparava esse ou aquele prato, podia-se olhar os olhos: estavam todos famintos. Quando se contavam passeios e se falava de mar, praia, montanhas ou planícies, podia-se ver nos olhos famintos uma ânsia de voltar à vida da cidade, da terra, do mundo. Éramos vinte e cinco mulheres presas políticas numa sala da Casa de Detenção, Pavilhão dos Primários, 1935, 1936, 1937, 1938. Quem já esqueceu o sombrio fascismo do Estado Novo com seus crimes, perseguições, assassinatos, desaparecimentos, torturas? De um lado e do outro da sala, enfileiradas, agarradas umas às outras, vinte e cinco camas. Quase presas ao teto alto, quatro janelas fechadas por umas tristes e negras grades. Encostadas à parede, uma grande mesa com dois bancos. Ao fundo da sala, os aparelhos sanitários. Por maior que fosse a nossa luta para mantê-los limpos e desinfetados, nunca conseguimos fugir do cheiro forte que exalavam. Vinte e cinco mulheres, vinte e cinco camas, vinte e cinco milhões de problemas. Havia louras, negras, mulatas, morenas; de cabelos escuros e claros; de roupas caras e trajes modestos. Datilógrafas, médicas, domésticas, advogadas, mulheres intelectuais e operárias. Algumas ficavam sempre, outras passavam dias ou meses, partiam, algumas vezes voltavam, outras nunca mais vinham. Havia as tristes, silenciosas, metidas dentro de si próprias; as vibráteis, sempre prontas ao riso, aproveitando todos os momentos para não se deixarem abater. Os filhos de Rosa eram nossos filhos. Sabíamos as graças e as manhas com que embalavam aquela mulher forte, arrogante, atrevida sempre mas tão doce, tão enlevada pelos "meninos". Quando Rosa falava nos "meninos" ficávamos todos em silêncio. Onde andariam eles? A polícia arrancara-os daquela mãe, negava-se a informar onde se encontravam, não admitia que Rosa soubesse notícias da família: o marido foragido, a irmã distante. E os "meninos"? No silêncio das noites, Rosa fazia com que assistíssemos aos nascimentos, aos primeiros passos, à primeira gracinha, ao primeiro sorriso, e depois o crescer rápido, a escola, os livros, idade avançada. Onde andariam eles? Problemas de uma, problemas de todas. O noivo de Beatriz era o nosso noivo. Queríamos saber suas notícias, coisa que nem a própria noiva conhecia. Problemas comuns, destinos comuns. Os filhos de Antônia estavam em Natal, mas onde andaria o marido de Nininha, preso no Rio Grande do Norte? - Aquele eu conheço muito. É um cabra da peste. Ninguém dobra ele, não. Nininha alourada, de voz cantante, opunha às cenas de doçura suas palavras de energia. Contava a vida do marido como a de um herói. Pobres mulheres jogadas numa prisão infecta, sem menor conforto. Maria pensava no seu chuveiro elétrico, Valentina ensinava literatura inglesa (como estudava e lia Valentina) e queríamos à viva força que Nice desse lições de Psicologia. Um dia jamais esquecerei esse dia fazia muito calor e havia sol. Pareciam maiores as paredes da sala onde escrevêramos desabafos. A vida lá fora devia estar bela; era verão e com certeza ruas e avenidas viam

algumas.Muito pior. etc. beijou-lhe o rosto e pôs-se a exclamar com grandes lágrimas descendo pelo rosto alquebrado: . Falou-nos de seu companheiro e das barbaridades que ambos padeceram. Perguntamos quem era ela. que fez. Todas queriam dar-lhe roupas.Não podíamos perder a menor de nossas energias: devíamos sobreviver. A prisão para ela seria outra. não são as minhas preferidas). falou: . Quando partiu.Que mulheres serão estas? estaria se perguntando. mulher de Henry Berger. Sentou-se na ponta de uma cama próxima. Esse é o nome de um conto da Eneida de Moraes. Nunca a esquecerei. cinqüenta olhos choravam. De qualquer forma. Colocavam-na no alto da escada. ora quente. seu sofrimento mais algum tempo. Jogavam-na de prisão em prisão. Estavam manchados de terraou de sangue? Nunca esquecerei o vestido sujo. Levantou os olhos. Comia sorrindo. as mãos trêmulas. Insistimos. por que foi presa.De meia-noite às duas da manhã ela devia apanhar: ficou-lhe um psicose. abraçava todas. queria entender as palavras nas paredes. Houve um corre-corre geral. Olhou em torno. Falou-nos do sofrimento. em tudo que passara nas prisões desta cidade. esta veio presa do Norte. todas queriam dar-lhe um pedaço de pão. abanando-nos com pedaços de papel. minha camarada! O olhar com que agora envolvia as vinte e cinco mulheres era diferente. Nunca esquecerei seu ar de espanto nem aqueles sapatos que haviam sido brancos. Veio viver conosco. meteu os dedos por entre os cabelos. por tantas coisas lindas que ela escrevia. sem uma palavra. . Não lhe dissemos adeus. Sofríamos ainda mais. Durante mais dois meses sofreu humilhações físicas e morais. porque tínhamos aprendido a amá-la. de doce. amarrada e nua para forçá-la a declarar ou delatar. Na sala. Nenhuma resposta. encarounos de frente. muito ruins. Sabo. ao silêncio. boas companheiras. olhos curiosos. Todas as noites. Muitos etc. cumpro dever. Mostrou-nos os seios onde trazia impressas marcas de dedos.Camarada. Somos todas brasileiras. Foi a esse grito que aquela mulher despertou. O governo Getúlio Vargas entregou-a mais tarde à Gestapo.Ela precisa comer. todo mundo sabe. seu nome. Agarrou-se à companheira. o mês já tá acabando. Mas quando as grades se fecharam atrás dela. do Pavilhão dos Primários. era inverno e tiritávamos de frio.Quem será? . A Polícia Especial a maltratara monstruosamente. Cada uma de nós tem sua estória. Aproximamo-nos. levantava-se e andava.Na noite em que ela partiu com Olga Benário para o navio que as levaria a Hitler. Uma de nós. minha mãe me permitiu usar todos os tons de azul e de branco (HAHA. vestido estampado. sorria. Ouvimos os passos do guarda subindo a escada: as chaves na porta de grades. comentava. que me ajudaram a me assumir e me amar como paraense. A tarde tão quente de verão foi mais longa e dolorosa naquele dia.Essa mulher se chamava Elisa Soborovsk. Enfim.passar mulheres de vestidos claros e leves. Como não tínhamos espaço para andar todas ao mesmo tempo. enquanto dois homens enormes lhe puxavam os seios. outras eram obrigadas a ficar sentadas ou deitadas nas camas. principalmente pelos livros Aruanda e Banho de Cheiro. E contou. sem a menor perturbação fisionômica. escritora que eu amo até o fundo da minha alma. Uma mulher tão bela. Jamais esquecerei também as vinte e cinco mulheres da sala ora fria. Diferente da avó da Eneida. Estatura mediana. depois ela entrou. uma fruta. Ninguém falava. a Eneida era FODA Eu não sei se já disse isso em algum lugar da internet. E ela continuava firme. Seu corpo guardava ainda as vergastadas do chicote policial. Jogávamos paciência. E sorrindo: . Foi nessa tarde que tenho gravada na memória que ela entrou na Sala das Mulheres. à meia-noite. nós somos presas políticas. curvou-se. a Sabo Berger. e o calor era tanto que nem tentávamos falar.Não sabemos quem é você. Contou com voz firme o quanto sofrera. para mim. precisa. qualquer palavra ou movimento iria aumentar o suor que escorria de nossos corpos cansados. deixava vinte e cinco amigas. . Ninguém a conhecia: não nos conhecia. Minutos depois voltou o guarda.Eu sou comunista. Em silêncio o guarda a deixou ali. os encardidos estão inclusos aí). tão humana. mas mesmo assim é meio difícil de cumprir. Três meses depois ela voltou. chorava e ria. aquela tarde. envolvendo-as todas num olhar imenso. Hitler matou-a. perguntava. mas no mês de maio eu só uso azul e branco. andava de um lado para outro. ora no meio de ladras e ébrias. Falou sempre com voz clara.Muito ruins. . jamais conheci mulher tão culta. Procurou examinar uma a uma as mulheres. mudar o vestido. Sua fome tinha dois meses. Qualquer gesto. Nossas perguntas foram feitas em várias línguas. parecia um animal pronto a se defender. não tivemos um momento de fraqueza. quando umas faziam. Explicou que fora engano. já estou tão acostumada. que quando eu estou começando a enjoar das cores (que. da fome e da sede que lhe haviam imposto.Uma de nós adiantou-se e lhe disse: . os cabelos brancos revoltos. tomar banho." Promessa em azul e branco. . Mas nós somos antifacistas. Grandes mulheres. Tínhamos sempre o cuidado de fazer o reconhecimento e o nosso próprio nterrogatório: de onde vem. Recordando-a agora. aquela está aqui como refém porque o marido sumiu. serena. Voltamos ao jogo de paciência. . foi uma revelação. Ora era metida em celas de prostitutas. à angústia de saber que a vida lá fora devia andar linda. havia tanto calor que descansávamos nas camas. Entrou em silêncio. tão valente. e só nos meses de maio.

Crança não tem vontade. flaou muito.gestos. . cabelos. somente vestidos azul-claros e brancos. nós mesmo começávamos a repetir: "porque um soldado não chora". queria que você crescesse com seu pai vivo. .Até os quinze anos? . além do ensinamento.a professora. se vivesse. mas quando surgia em qualquer um de nós a vontade de extravasar sentimentos ou manhas com lágrimas.também só soube mais tarde . minhas velhas lembranças ou estão elas com a mesma roupa do momento em que ocorreram? Vivi tudo o que relembro? Aquele diálogo. muito mais tarde é que aprendi que a vida passa dpressa. Por que sou capaz de relembrar assim fatos de épocas longínquas? Por que a qualquer momento uma estória qualquer se presta à ressurreição de atos. narizes. sim. mas tenha paciência. palavras. de início. vestia apenas azul-claro e branco e. Faz de conta que só existem vestidos brancos e azul-claros. não é um bom amigo? Você gostaria que ele morresse? Sua avó é boa. Não vai ser ótimo? E a coragem. Esqueça que eles são obrigação e pense que são amor. nunca chorávamos. Para não ouvi-lo engolfamos lágrimas. chamou-me ao conhecimento dessa prisão. Tudo isso é certo. coisas que nenhum retrato guardou e que tomaram parte ativa na minha vida passada? Por que está tudo assim tão gravado em mim? Nem sequer preciso fechar os olhos para encontrar figuras de minha infância. a necessidade de acordar um trecho de meu passado onde haja um ou vários vestidos. mas temm muita razão de não ficar contente com a promessa de sua avó.. . Quando aprenderão os adultos a falar com os pequeninos? E depois um grande desejo de recordar.Já disse que é esse mesmo. uma outra menina ou talvez a governanta ou . que acababa de nascer . Não é assim que se convence uma meninna. de meu país e do mundo usavam roupas de cores diversas e eu não. uma vontade de dizer àquela mulher: . Um diálogo banal diante de uma vitrina de roupas para crianças. esse eu não quero. Você é pequenina. muito mesmo. vozes. E um soneto só é muito pouco para um avô tão importante. vivendo a vida de outros? Deixo ambas entregues ao desentendimento e caminho acompanhada pelo desejo. quantos quiser. mãos. nada preciso para recompor hoje . Que tenho eu a ver com aquela mão autoritária que não conheço? Por que terei de sofrer com a pequenina que nunca vi? Por que terei de viver sempre assim. recordo muito bem. Está naturalmente pensando que ela devia fazer promessas para cumpri-las pessoalmente e não obrigar outra pessoa a realizá-las. muitos. e que seria de você sem ele? Não é um bom pai. Menina criada sem medo.ª de Nazaré: se ele sarasse. o soneto ruim vinha com efeitos terapêuticos exigindo dignidade e tanta coragem que chegamos a odiá-lo. O que relembro hoje é realmente minha infância ou colaboro com minha imaginação atual? Estou vestindo agora com roupagens novas. Você os terá todos. me ensinaram muito cedo que chorar é uma covardia e.Coitado desse avô! Parece que em toda a suua vida fez só esse soneto.Não. de buscar no fundo de mim mesma vestidos da infância. usando apenas azul e branco.. nunca choramos. vermelhos.Até quinze anos? Então quer dizer que vou ficar assim.tantos anos depois . amarelos. você. roupinhas da meninice. havia um soneto de meu avô. aos seis anos.vestiria até os quinze anos. Falou mais. quase morria e sua avó fez uma promessa a N.Foi uma promessa.Escute. hein? Que beleza a coragem que você terá.Promessa em Azul e Branco .é ruim. gestos e até mesmo olhos. sempre pronta a responder às minhas perguntas: . é curtinha. Isso naturalmente deve ter acontecido no momento em que nascia a minha vaidade. Meu pai nunca deixou de dizer: . VAmos fazer uma coisa: não pensar que existem vestdios verdes. Senti ou mostraram-me que todas as meninas da minha cidade. porque minha mãe tinha o dom de falar envolvendo-me em esperanças e sonhos. provocou em mim desejo de reviver um trecho de meu passado. minha infância turbulenta e sadia não prestou nenhuma atenção ao fato.quem sabe? . Sim. Imagina você com quinze anos. tão pequenina que nem dá para se viver plenamente todos os momentos. Por quê? Por quê? Perguntei à minha mãe. Jamais devemos exigir de outros aquilo que não queremos ou não podemos fazer nós mesmos. comportamentos. lhe tem muito amor. a vontade. naturalmente. Seu pai andou mal. dizendo: "porque um soldado não chora / venham os maltratos embora / seu peito dilacerar. até ficar velha? (Sempre se acha. choramingava a mennina. . meu bem. tão banal. Imagine quando você puder vesti-los de outras cores como vai ser bom. Só depois. muitoo mal. S. que ter quinze é estar velha). Ela é muito religiosa e não devemos ofendê-la nem contrariá-la. Seu pai andou muito doente.Não. de vestido verde. diferente de todas as meninas. Também penso como você." O soneto . antes da lágrima nascer. Um dia.

o encontro com as letras. enviuvara cedo. o abandono desta. Pedi que cumprisses a promessa. também posso afirmar que naquelas cartas havia ordens.Bobos. era tão bela. . até que um dia . Andavam comigo empalidecendo numa caixa de macacaúba rajada.Agora eu sei ler. dos retratos. Queria papéis importantes. oito e os vestidos azul-claros e brancos. escritas para o internato onde eu crescia.África! Eu vou para a Europa. sons. do Gato de Botas. amei-as com um exagerado ciúme. um dia." Descrevê-lo hoje não sou capaz. um nó na garganta. vermelhos? Outros corpos que os vestissem. vermelhos. Podes usar a cor que quiseres. Nunca mais ela e eu falamos na promessa. perdidos na bola imensa que girava? Meu irmão queria ir sozinho à Oceania. soldado. Mas era azul-marinho de tafetá com golinha de renda de guipura. planos de subversão da ordem (que ordem?) não existiam. mas assegurando o tom. verdes. Coragem! Tenha opiniões e saiba defendê-las! Foi então que encontrei numa vitrina um vestido azul-marinho de tafetá com uma golinha de guipura. Deitavam como se aquela noite fosse igual a todas as noites e não acordavam no dia seguinte. para que ela não sofresse . saltos de corada. que escondia com cuidado. o melhor mesmo é a Oceania. cheia de filhos. serenamente. sempre depois. amarelos. na fúria que marca os homens da polícia sempre. uma carta contava que vovó morrera..sofrera tanto a probrezinha. uma bola girando. sim. o primeiro mapa-mundi: . rendas. O tom. vida alegre demais. Possuí durante muito tempo essas cartas de minha mãe. Todos morriam assim naquela família. A bola girando durou pouco. Ninguém pensaria em impor condições a um colégio respeitável. o tom posso garantir que foi esse.outro dia de há vinte anos . ou ainda se ríamos felizes com a possibilidade de viajar a todo momento procurando lugares pequeninos. corpo mocinho crescendo. uma época de grande vaidade. alguns tremendamente brancos enfileirados nos armários. gastamo-la cedo.Ela continuará vestido só azul e branco paara seus dias de passeio. . mas devo ter mandado nessa carta uma minuciosa narrativa da desejada roupa.Foi promessa. outros vestidos.ou se nossa alegria era posse daquele globo que girava.Por que ela só usa branco e azul-claro? E a resposta seca: .. muito importantes. essa a única roupa que relembro na minha infância.mas agora estás livre. O coração cansado de amar e de ser bom. Então. tão boa . porque foi o tom e a forma de todas as nossas conversas. viajamos muito.a descoberta de palavras. e desta vez era: Vamos! Aprenda a resolver sozinha seus próprios problemas. Em mim nenhum sofrimento. mas isso não importa. a vida veio vindo. tão ingênua. Dormira para nunca mais acordar. com a qual não estavas de acordo. pretos. podes continuar ou não respeitando a promessa da cor de teus vestidos. Ninguémm vai à Oceania! E o grande mundo. Depois. vovó quis protestar. "Passamos da vida para a morte. Comece a usar seu raciocínio. Apenas passamos". outros desejos. Poder ficar certa de que é um vestido de menina. um azul morrendo. o mesmo ciúme que tenho dos meus livros. Depois. partia morria. Que importavam feitios. levaram aquelas cartas que eu guardava com tanto amor. teus raciocínios já estão em condições de te fazer resolver sozinha. sou mesmo incapaz de descrever qualquer vestido. vestidos. Quando voltei para fazer a seu lado quinze anos. vestidos. livros maravilhosos feitos na França. quedas. Que importava àquela infância tão bela a existência de vestidos verdes. estórias de iara e do boto." Talvez não tenham sido precisamente essas as palavras. Depois outra carta: "Agora que tua avó morreu e estás uma mocinha. que reli muitas vezes sentindo sempre. Hoje. infância demasiadamente bela. naturalmente. com seus regulamentos próprios.. Possuí essas cartas muito tempo. . Nela mexemos demais. fitas se eram sempre brancos.a polícia invadiu minha casa. que tenho sido além disso?) As palavras não seriam essas. amarelos. roxos. Escrevi a minha mãe: "Tens razão. Para que sofrer? Quando veio o colégio interno e o uniforme obrigatório. das cartas de meus amigos.. que eu devia possuir. a dignidade conquistada: . Sempre as escondi. um bater apressado de coração enquanto uma voz repetia: "porque um soldado não chora". Hoje nem sei o que mais nos encantava na descoberta: se estávamos alegres por saber que o mundo era uma bola . dias correndo. bicicletas. patins. parava. um leve azul indefinido? E sempre alguém perguntando:: . correrias. Papéis importantes. Havia resolvido fazer-me heroína à força. (Soldado. no guarda-roupa se enfileiravam vestidos de várias cores. como da primeira vez que o fizera. muito brancos ou azul-claros. dizia a carta. falando da Bela Adormecida. nenhum . Teus quinze anos não chegaram.Diz onde queres is agora? . multidões de cores. muito cuidado. pensei muito e ontem encontrei um vestido maravihoso.Seis anos.nós que tanto amávamos bolas . sete. E a promessa? Mas não foi atendida.

onde estará agora? Vestida naquela roupa que odiou antes de possuir? Minha senhora . Quando os adultos aprenderão a conhecer o mundo dos pequeninos? Como foram bonitos os meus dias vestidos de branco.não é assim que se convence uma criança. Como se não tivessem cor. se engana.lembrando nada. Se alguém pensar que vim pela vida envelhecendo contra vestidos claros.fico murmurando baixinho . nascera minha vaidade. que encontrei depois em alguns gestos e muitas noites. muito claro. parecidos com os dedos longos e rosados de minha mãe apontando caminhos! Com aquele vestido azul-marinho começou uma outra etapa de minha vida. . Gosto muito de branco e do azul-claro. A meninazinha que encontrei desesperada em frente daquela vitrina não querendo aquele vestido que sua mãe lhe impunha. brancos ou azuis. Sempre amei muito essas cores.

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