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VIVER EM CASAS DE TERRA - A REINVENÇÃO DA CONSTRUÇÃO EM TAIPA

VIVER EM CASAS DE TERRA - A REINVENÇÃO DA CONSTRUÇÃO EM TAIPA

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Publicado porÂngela Mendes
Reportagem sobre a construção tradicional em Taipa no Sudoeste Alentejano. Publicada na 6ª edição da Revista Pormenores em 2010.
Reportagem sobre a construção tradicional em Taipa no Sudoeste Alentejano. Publicada na 6ª edição da Revista Pormenores em 2010.

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Published by: Ângela Mendes on Jul 04, 2011
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05/18/2013

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[Arquitectura

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VIVER EM CASAS DE TERRA
Texto Ângela Mendes Fotografia Cortesia Arq. Henrique Schrek

A REINVENÇÃO DA CONSTRUÇÃO EM T AIPA

A imagem de uma casa branca com barras azuis perdida no ondular dos montes é indissociável da paisagem alentejana. São moradias baixas com telhados de inclinações suaves e características únicas que fazem das antigas casas alentejanas exemplos vivos de como os métodos usados pelos nossos antepassados têm muito para nos ensinar em matéria de sustentabilidade e protecção do ambiente.

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Numa altura em que tanto se apela à sustentabilidade e preservação da natureza, a construção em taipa, tão comum no nosso Alentejo até à década de 60 do século passado, pode ser uma resposta rápida, barata e principalmente amiga do ambiente para o sector da construção. O betão foi lentamente substituindo as antigas casas de taipa, e o que se apresentou como uma solução irá transformar-se em poucas décadas num problema. O betão tem uma média de vida de 200 anos, os detritos restantes da demolição de construções antigas e degradadas serão por isso um problema que se irá pôr às gerações futuras. Feito de sílicas aquecidas a milhares de graus e depois transformadas em pó, o betão ao ser junto com a água pela primeira vez endurece, prende e cria uma espécie de cola. Mas esta é uma liga estática, única e definitiva. O que fazer então com milhares de metros cúbicos de entulho? Enterrá-los? Afundá-los no mar? Reciclá-los? A reciclagem de detritos proveniente de obras já é hoje possível, mas no entanto os métodos utilizados são muito dispendiosos. A menos que se inventem métodos mais baratos e eficazes, o entulho continuará a ser espalhado pelas numerosas lixeiras ilegais a céu aberto espalhadas pelo país.

CONSTRUÇÃO EM TAIPA – CONSTRUÇÃO RÁPIDA E ECONÓMICA Já imaginou construir a sua casa maioritariamente com terra que retira do seu terreno? E juntar depois materiais igualmente recicláveis, como madeiras e vidros, e construir uma casa em materiais totalmente recicláveis e ainda por cima construir uma habitação energeticamente eficiente? Para Henrique Schreck, Arquitecto e entusiasta da construção em T aipa, a técnica resgatada aos nossos antepassados torna todas estas suposições possíveis e as vantagens não param por aqui. “A mão-de-obra e o tempo de execução são menores e a terra está aqui à mão. São só necessárias umas ferramentas, e estas são sempre as mesmas. Isto é o meu ovo de Colombo, digamos”. Para fazer taipa, é necessário apenas ter terra que contenha barro, e em quantidade certa para o efeito pretendido. Este é um ponto essencial, pois é o garante de uma construção durável e eficaz, como nos explica Henrique Schreck, “o único problema tem a ver com a terra, se terá barro na quantidade certa para este efeito. Por exemplo, se tiver barro a mais pode ser pre judicial. Como a terra é misturada com a água, depois de seca, vai diminuir de volume e pode estalar como um prato de cerâmica, feito de uma massa mal preparada. Pode estalar quando vai ao forno.

Então, terá de se corrigir com outros materiais, mas sempre materiais naturais, como pedra, areias, brita, matérias totalmente naturais. Se pelo contrário, o barro for insuficiente, terá de se ir buscar barro para misturar”. A taipa resulta desta mistura de terra com a quantidade exacta de barro com água, que vai criar uma goma, que irá por sua vez ligar desde o grânulo mais fino ao maior, criando-se no fundo uma pedra à pressa, e quanto mais tempo a construção durar mais dura e resistente ficará. Não existem tempos de secagem na construção em taipa, podendo-se fazer imediatamente um bloco por cima do que acabou de ser feito, facto que se torna, desde logo, numa vantagem em relação ao betão, que necessita de ter em conta esse factor. Segundo o arquitecto, “a terra no seu conjunto, quanto mais depressa for feita melhor. Porque depois de estar pronta, vai lançar fora a sua água, vai cozer-se naturalmente ao sol e transformar-se naturalmente numa coisa quase monolítica”. Estes blocos criam uma estrutura sólida e forte, o que faz com que vigas e pilares sejam desnecessários. Cada bloco de taipa pesa sensivelmente entre uma tonelada e uma tonelada e meia, e aguenta cargas como os telhados e até mesmo um piso, sem problemas. A parede de cerca de 55 cm não necessita, portanto, de qualquer estrutura solta de betão ou ferro.

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COMO SE FAZ UMA CASA EM TAIPA A terra tira-se do próprio terreno, retirando-se primeiro a camada orgânica e indo-se depois buscar a camada inorgânica, que é onde se encontra o barro, caso a terra o tenha. Por vezes, é necessário acrescentar barro ou pedra, para “corrigir” a terra, de modo a que esta tenha as características ideais para a construção. A terra deverá estar húmida, mas não poderá estar “ensopada”. Depois, a terra é introduzida dentro das cofragens de madeira, que formam um molde onde irá ser calcada com um pilão, sendo prensada camada a camada. Ao chegar ao fim, o taipal é retirado e montado novamente, recomeçando o processo, que demora cerca de uma hora. Cada bloco tem cerca de dois metros de comprimento, meio metro de largura e meio metro de altura. A construção deve ser iniciada, preferencialmente, na Primavera, quando as temperaturas são ainda amenas. Deste modo, a taipa vai perdendo a água lentamente, chegando ao pino do Verão praticamente seca. Ao fazer este processo lentamente, o material estala menos e cria resistência. Desde que este processo esteja terminado, pode colocar-se o telhado e iniciar a fase de acabamentos. A partir daqui, é uma casa como outra qualquer, exceptuando os materiais que constituem as suas paredes, terra e cal.

Outra vantagem desta técnica, é a eliminação de humidades e bolores, uma vez que todos os materiais utilizados na construção são porosos, a terra, os revestimentos de cal e areia permitem à casa “respirar”.

CONSTRUÇÃO ECOLÓGICA E ENERGETICAMENTE SUSTENTÁVEL As casas construídas em taipa são ecológicas, desde logo porque a energia despendida na sua construção é reduzida. Corta-se nas emissões de dióxido de carbono provocadas pelo transporte de matérias, e principalmente nos enormes gastos energéticos que muitos desses materiais requerem para serem produzidos. Um dia mais tarde, quando a casa for demolida, o barro volta à terra, desmanchando-se, logo podendo voltar a fazer-se outra casa com os mesmos materiais. Outros materiais presentes na construção em taipa, como a cal, são também bastante apreciados pelas terras, principalmente se a terra for ácida, acabando por funcionar como uma base. Vidros e madeiras são matérias vulgarmente recicladas nos nossos dias. Utilizam-se tijoleiras e telhas de barro, igualmente recicláveis, e até os revestimentos de cortiça podem encontrar novas utilizações.

Mas todas estas vantagens reportam apenas para um futuro distante, enquanto que a casa feita em taipa traz vantagens energéticas mais imediatas e de igual valor ecológico. As casas de taipa são conhecidas pelas temperaturas frescas, que no Verão mantêm no seu interior. “Têm um ar condicionado natural”, afirma Henrique Schreck, apresentando o exemplo da sua própria habitação. “Se o Verão for muito quente, lá mais para o fim da estação começa a sentir-se que a casa já não tem a temperatura do início do verão. Está menos fresca, embora nunca suba acima dos 26 graus. Normalmente, mantém-se entre os 22º e os 24º. E 22º é a temperatura ideal para se ter no Inverno. Quando estão 40º na rua e 24º dentro de casa, têm-se uma temperatura agradável no interior da casa. Se o Verão é mais quente ou dura mais do que o habitual, a temperatura sobe, mas esse facto faz com que a casa leve mais tempo a arrefecer, o que a tornará mais confortável no Inverno. É efectivamente um ar condicionado natural, que compensa de uma estação para a outra, o que é fantástico em termos energéticos”. E é uma troca de energias passiva, os materiais compensando de uma estação para a outra e sem intervenção humana, permitindo níveis de conforto elevados no interior da casa, reduzindo deste modo os gastos energéticos com o aquecimento no Inverno e com o arrefecimento no Verão.

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“Durante o Inverno, a temperatura da casa, sem aquecimento, baixa até aos 14º. Nesse caso, necessito apenas de a aquecer um pouco mais, mas tal como a casa não deixa entrar o frio, também não deixa sair o calor, e essa parte é que é muito importante. Muitas vezes, aquece-se uma casa, mas o calor perde-se para o exterior, desperdiçando grandes quantidades de energia”, reforça Henrique Schreck.

TÉCNICA ANCESTRAL RECUPERADA NOS ÚLTIMOS ANOS No Alentejo, a construção em taipa foi abandonada quase por completo nos últimos 60 anos. Mas para Henrique Schreck, compreender o que fazer com os detritos provocados pela construção em betão, é uma questão que lhe ocupa a mente, desde os seus tempos de faculdade. Daí que tenha começado a procurar alternativas. Construiu a casa onde habita há sensivelmente 12 anos, erigindo as paredes da sua casa em 33 dias e a partir daí praticamente já não trabalha com betão. Henrique Schreck conta-nos que no início não foi uma tarefa fácil, principalmente porque o conhecimento sobre esta técnica estava quase perdido e não havia ninguém que trabalhasse a taipa.

Mas num esforço de recuperação de memorias perdidas, foi possível contactar com pessoas que haviam trabalhado em obras há mais de 60 anos, e que foram juntando conhecimentos e reunindo esforços, para a formação de equipas capazes de construir casas em taipa. O ensinamento mais importante, é o reconhecer das características da terra, perceber como se escolhe e como se rectificam as falhas. O único inimigo da taipa é a chuva. “A taipa é como um cubo de açúcar. Enquanto está seco, pode-se pressionar à vontade, que aguenta, mas se o pusermos dentro de um copo de água, ele desfaz-se”, saliente Henrique Schrek. A humidade com que a terra é moldada, é o limite da taipa, um ponto de equilíbrio que se adquire com a experiência. Depois de estar seca, passados 100 anos a taipa aguenta toda a quantidade de água que apanhar. Exemplo disso, são os inúmeros monumentos de taipa existentes um pouco por todo o mundo. Hoje em dia existem mais de 10 empresas na região a trabalhar nesta área de construção, que está a crescer um pouco por todo o litoral alentejano e no Algarve. Aparece não só em casas de habitação familiar, mas também em edifícios públicos, aldeamentos turísticos, restaurantes e até mesmo ginásios. Henrique Schreck diz-nos que ainda há alguma resistência por parte da população em geral, em relação à taipa, por ser associada à pobreza

vivida pelos seus antepassados nos antigos montes alentejanos, em que as casas de taipa tinham chão de terra batida e nem sequer possuíam casa de banho. No entanto, essa imagem pertence ao passado, sendo possível hoje construir uma habitação em taipa e beneficiar de todos os confortos de uma habitação moderna. E é possível fazê-lo beneficiando o ambiente e construindo imóveis totalmente integrados na paisagem alentejana. A casa branca de barras azuis faz afinal parte de um imaginário, que devemos preservar. [P]

ORIGEM DA TAIPA É uma técnica milenar, com mais de 11 mil anos de vida, com origem incerta, mas já conhecida pelos romanos e árabes. Existem edifícios construídos com taipa na América Latina, no Extremo Oriente, na América do Sul, em África e na Europa, sempre em latitudes não muito distantes do equador. Desde que a terra tenha características a condizer, a taipa está presente, sendo que dois terços da população mundial vivem “debaixo de terra”.

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