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HISTÓRIA

Professor: Alex Raiol

A SOCIEDADE DA BORRACHA NO PARÁ (1870 – 1815) Durante o período compreendido entre as últimas décadas do século XIX e o primeiro quartel do século XX (1870-1915), ocorreu o processo de expansão e apogeu da economia da borracha na Amazônia. Nesta época, a exploração da borracha silvestre, através do extrativismo, foi possível em razão de diversos fatores. Em primeiro lugar o desenvolvimento da indústria de pneumáticos, que possibilitou uma crescente demanda pelo consumo da borracha nos países industrializados da Europa e Estados Unidos da América e, portanto favoreceu o crescimento da extração e exportação da borracha brasileira. Em segundo lugar, a borracha silvestre brasileira (Hevea Brasiliensis), fez com que a Amazônia em pouco tempo fosse o principal fornecedor de borracha em nível mundial, detendo indiscutível monopólio. Outro fator foi a disponibilidade de mão de obra necessária a extração do látex nas matas amazônicas, através da imigração nordestina que garantia a extração da borracha por um custo baixo. Havia também, a existência do sistema de financiamento da extração e comercialização da borracha amazônica, através do aviamento que, favorecendo o processo de dependência dos seringueiros em relação aos seringalistas, permitia justamente a exportação da borracha pelos portos de Belém e Manaus; além de casas de comércio estrangeiras na Amazônia que, fazendo importação e exportação de produtos, acabava monopolizando a venda da borracha para os mercados europeus e norte-americanos, permitindo o seu escoamento. DO SERTÃO SECO A MATA MOLHADA A história dos seringais pode também começar pelo Nordeste brasileiro. Pois se considerarmos as figuras humanas que fizeram as feições dos seringais, que construíram nele um modo de vida peculiar, não poderemos deixar de incluir essa região, especialmente algumas partes dela, como o atual estado do Ceará. Foi do sertão nordestino, principalmente cearense, árido e seco, que saíram não somente os primeiros aventureiros que estabeleceram os seringais nos altos rios amazônicos, mas também a imensa maioria dos que vieram a trabalhar como seringueiros. Quais foram os motivos que levaram a intensa migração de nordestinos para a Amazônia? Essa imigração ocorreu principalmente nos longos períodos de seca na região, como por exemplo, a trágica seca de 1877, que praticamente se estendeu ate 1880. Estima-se que só em 1878 emigraram para a Amazônia em torno de cinquenta mil homens, mulheres e crianças, e outros tantos pereceram de fome, sede e epidemias no Ceará. Outros motivos também contribuíram para esse processo, como a crise na produção algodoeira no início da década de 1870 e a formação de excedentes populacionais no interior das unidades econômicas tradicionais do Nordeste (pecuária tradicional). Porém a migração não teve como motor somente “motivos de expulsão” do Nordeste. Afinal, por que a Amazônia, nesse momento, atraiu contingente tão grande de nordestinos? Havia forte atração exercida pela possibilidade de fazer em pouco tempo fortuna nas florestas de heveas. Por outro lado os patrões faziam verdadeiro recrutamento, financiando as passagens e despesas de viagem de vários migrantes e acenando com vantagens e possibilidades de enriquecimento. Depois, é claro, essas despesas eram computadas como dívida para o seringueiro, e constituíam uma forma de prender a mão de obra.
“É sabido como se fazia o povoamento dos seringais: os proprietários desses centros de indústria extrativa iam, anualmente, ao Ceará e outros estados do Nordeste, fazer o recrutamento de trabalhadores. Seduziam-nos, falando-lhes das secas arrasadoras, da penúria em que viviam, da abundancia que facilmente se aufere na floresta das heveas e das siphonias, do conforto que, emigrado, poderiam proporcionar a família... E, assim sugestionados, formavam-se grupos de emigrantes, que eram transportados a capital do estado, onde embarcavam, as centenas, nos porões infectos dos navios”. (Cabral, Alfredo Lustosa. Dez anos no Amazonas (1897-1907). 2ª ed., Brasília: Senado Federal, 1984, p. 23)

Além do mais. e sim uma maneira de fazer fortuna e depois retornar para o sertão e à família. que também muitas vezes financiavam a vinda de migrantes nordestinos. uma turma de seringueiros cujo número dependia da quantidade de seringueiras existentes na área. vale ressaltar que a ida ao Amazonas não era tida como algo permanente. pois num escravo não se poderia depositar confiança longe das vistas de qualquer fiscalização. jovens ou adultos. juntamente com as despesas da viagem. engajar-se na empresa extrativista da borracha. Assim essas casas aviadoras que forneciam todo o crédito necessário a formação de novas áreas de extração da borracha. tigelas e o balde para colher o leite. ganhando com isso uma relação de dependência com os patrões das áreas que se obrigavam a pagar seus débitos com borracha. sal. ou seus intermediários mais próximos nos seringais já abertos. O SERINGAL Para se abrir um seringal não era necessário comprar as terras onde ocorreria a extração do látex. pelo fato de que a tarefa de extração da borracha na floresta amazônica. e sim simplesmente ocupá-las. uma espingarda. e os instrumentos para o corte da seringa. como era chamado o seringueiro que não tinha ainda experiência. sobretudo uma provisão de mercadorias suficientes para sustentá-los durante os primeiros meses. já que o trabalho de extração do látex era feito em meio a floresta em localidades muitas vezes distantes das possibilidades de fiscalização dos patrões e seus empregados. como vivia essa gente no Nordeste? Quem eram esses migrantes. Essas mercadorias eram normalmente conseguidas a crédito com as “casas aviadoras” de Belém ou Manaus. e o desafio era extração da borracha na floresta conseguir. temporada de corte da borracha. requerendo novos créditos para temporadas posteriores. ou seja. querosene para a iluminação. Acordavase geralmente às duas horas da manhã para começar o corte das arvores. Para esse processo era preciso alguém que conhecesse a floresta e soubesse marcar as “estradas de seringa”. a maioria dos que chegavam a essas terras seguiam um padrão que aliava a pobreza a ambição de aqui fazer fortuna. não conviria a escravidão do negro ou do índio. e. jabá. o que faziam e o que fez ALBUQUERQUE FIGUEIREDO pensar que seria melhor migrar para a Amazônia? Em primeiro lugar. até que um novo carregamento pudesse chegar. Ao chegar no seringal. sabão.Mas afinal. recebia no barracão os suprimentos para a sua primeira quinzena na mata: farinha. PORQUE NÃO SE OPTOU PELA MÃO DE OBRA ESCRAVA? Basicamente. esses migrantes eram muitos e viviam em condições muito diferenciadas uns dos outros. munição. o “brabo”. chegava a seringais já abertos. Durante o período de colheita do látex. Todas essas mercadorias eram anotadas O seringueiro. entretanto. em seu trabalho de em sua conta-corrente. Apesar de haver uma pequena parcela de pessoas que iam para a região levando algum recurso na esperança de estabelecerem-se como comerciantes. ao final da amazônica. e com sistema de produção e comércio já bem organizado. porém. A grande maioria dos seringueiros. um mateiro. “tirar saldo” nessa conta. Uma vez que para exercer a atividade de seringueiro precisava ter alto grau de autonomia e confiabilidade. mesmo sem experiência. que vinham como força de trabalho. pois não provinham exclusivamente do sertão e nem exclusivamente das classes mais pobres e atingidas pela seca. despojada de qualquer condição ou instrumento de produção. por exemplo. a machadinha. tendo que inicialmente caminhar entre três e seis horas para fazer as incisões na casca das heveas e colocar as tigelinhas abaixo do corte para que o leite ALBUQUERQUE FIGUEIREDO . A grande maioria dessas pessoas era constituída por homens solteiros. a vida do seringueiro era bastante trabalhosa.

a borracha prestou-se a múltiplos usos: sapatos e capas impermeáveis. de árvore em árvore. bem como dos menores custos de produção da borracha oriental. ao se dar conta do grande valor da borracha. a partir de 1913. Porém. a Coroa Inglesa logo encontrou meio de quebrar o controle brasileiro sobre o produto: tratou de cultivá-las em suas colônias do Oriente. Depois que chegava ao ponto final. O objetivo dos investidores. era conseguir o maior lucro possível nessa corrida do ouro negro. também faliram ou tiveram de enfrentar longa e dura decadência em seus negócios. muito mais produtivo e barato. a produção da borracha não parou. A CRISE Desde que foi descoberta pelos europeus. o preço do produto começou a cair em grandes proporções. etc. E ao final da trilha. tornando seu funcionamento muito mais eficiente. Contudo. os bancos. o armazém e o escritório. que podia ser apenas uma construção compreendendo a residência do proprietário. divididos em diversos níveis. já que foi usada na confecção das máquinas a vapor. foram as primeiras a sentir os efeitos da queda dos preços. Cedo. No entanto. Não podemos deixar de ver o caráter capitalista da empresa da borracha. na Malásia. sem demora era necessário passar ao processo de defumação da borracha (transformação do leite através de calor em forno especial em uma bola de borracha escura). próximas alguns metros umas das outras. essas sementes foram plantadas e replantadas. a domesticação da Hevea brasiliensis foi um processo demorado e burocrático que levou cerca de cinquenta anos desde a obtenção dos primeiros espécimes pelo jardim Botânico Real de Kew. no período de ascensão dos preços. principalmente. portanto. nas fazendas de cultivo asiáticas as árvores eram plantadas em fileiras. Mais uma caminhada. conseguindo. A imposição das mercadorias constituía uma forma de impossibilitar aos seringueiros a acumulação de saldos favoráveis em suas contas com o patrão. bolas para jogos. comerciantes atacadistas. na década de 1850. entre outras. os preços subiam a cada safra em proporções assustadoras. A margem do rio que lhe dava acesso. aviadores. diferentemente dos seringais nativos. lucros espantosos. utilizando-se a mão de obra extremamente barata dos trabalhadores asiáticos. gerando lucro ainda maior para os últimos. fossem eles exportadores. recolhendo o látex das tigelas. portanto. e que somente conseguia sustentar seus lucros. uma vez que nesse período. As firmas aviadoras. bem como para os dias de festa. E juntamente com as firmas aviadoras. o seringueiro ia “quebrar o jejum” e pegar o balde para recolher o leite. na floresta Amazônica. O plantio era feito em fazendas no estilo plantation. entre outros membros da cadeia comercial da borracha. porém não demorou em ultrapassar a produção amazônica. os ingleses perceberam o valor estratégico da borracha. Como consequência da grande quantidade de borracha no mercado. na rede de crédito e dependência. A queda vertiginosa do preço da borracha fez desmoronar toda a estrutura montada sobre o comércio da borracha silvestre na Amazônia. e o início da produção das primeiras Heveas cultivadas no Oriente. e deste com as casas aviadoras. Assim. normalmente ficava o Barracão. em sua espécie mais produtiva e de melhores características para a indústria – a Hevea brasiliensis. que praticamente financiavam as safras da borracha. casas importadoras e exportadoras. e na verdade diminuiu muito pouco nos anos que se seguiram à crise. por meio do preço elevado do látex. ainda em pequena escala. A borracha do Oriente começou a atingir o mercado em 1890. . esta matéria-prima passou a ocupar lugar estratégico para toda a indústria. tornando o trabalho muito mais fácil de controlar e. bastante variável. Entretanto nesse período o seringal era basicamente uma unidade de produção de borracha que importava praticamente tudo que era necessário para a subsistência dos que aí viviam. ou podia ser composto de várias construções separadas. seringas.ALBUQUERQUE FIGUEIREDO caísse dentro. enxertadas e experimentadas até que se conseguiu planta-las em escala comercial no Sri Lanka e. O seringal geralmente compreendia grande extensão de terra. comerciantes locais ou patrões de seringal. em fins da década de 1890. com a Revolução Industrial que se processou ao longo do século XIX. Além do mais. Em torno do barracão não era raro que houvesse alguma criação de gado e porcos para alimentar o patrão e seus empregados. então somente encontrada.

e até treinamento para os futuros seringueiros em Belém do Pará. Porem não houve extinção total do sistema de aviamento. Nesse tempo realmente era possível ao seringueiro que trabalhasse muito retornar a sua terra em alguns anos com algum dinheiro no bolso. entre outras. apesar que nem todos puderam ou quiseram voltar. como: isenção do serviço militar obrigatório. na região amazônica. e a produção brasileira no mercado não era suficiente para a demanda. contrato de dois anos. mas mercadorias essenciais. que ficou reduzido a poucas mercadorias de troca. especialmente nos seringais mais distantes. os chamados “soldados da borracha”. havia outras que eram prometidas pelo governo. é imprescindível o estudo do que aconteceu com a crise da borracha e a transformação dos modos de vida das populações que aqui viviam. sandálias. pagamento de pensão a família em caso de morte ou invalidez. A grande questão é que. Portanto. etc. Essa transformação também significou que os ALBUQUERQUE FIGUEIREDO seringueiros tornaram-se aos poucos uma população tradicional.. Estados Unidos e União Soviética). França. com o objetivo de produzir borracha silvestre para suprir os Aliados (bloco liderado pela Inglaterra. agora chamados de “seringalistas”. para compreender a Amazônia de hoje. e a posição do Japão favorável à Alemanha e à Itália. os estoques de borracha dos Aliados começaram a diminuir muito. Com a invasão japonesa dos seringais do Oriente. apesar de ganhar com a seringa muito mais dinheiro do que poderia obter no Nordeste. Havia um serviço de saúde e higiene. mantêm grande dependência em relação ao território que ocupam. Além dessas vantagens pecuniárias. deste produto estratégico para a guerra. A forma de encaminhamento dos novos migrantes aos seringais agora obedecia a um contrato-padrão e a uma série de medidas que visavam aparentemente assegurar alguns direitos aos seringueiros. como o estabelecimento do monopólio estatal sobre o comércio da borracha. para aumentar a produção em pouco tempo era necessário muito mais que o aumento do preço da borracha. ou seja. os seringueiros adquiriram maior autonomia perante os patrões.Durante esse período. e muitos aos patrões. ANOTAÇÕES: ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________ ALBUQUERQUE FIGUEIREDO ALBUQUERQUE FIGUEIREDO . com a subsistência por meio da produção agropecuária em pequena escala e do extrativismo (caça. copo. Desse modo. durante a Segunda Guerra Mundial. o seringueiro aqui era obrigado a gastar muito mais com sua subsistência. Entre outras iniciativas adotadas. um kit composto de rede. A queda do preço da borracha gerou verdadeira transformação social na Amazônia na criação de um novo modo de vida. foi imprescindível a mobilização de milhares de migrantes nordestinos rumo a Amazônia. prato. A BATALHA DA BORRACHA: O ESTADO E O NEGÓCIO DA BORRACHA ALBUQUERQUE FIGUEIREDO A batalha da borracha foi um grande investimento feito em conjunto pelos governos do Brasil e Estados Unidos. pesca e coleta).

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