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Manual Formação REVIVE carraças 7 e 8.04

Manual Formação REVIVE carraças 7 e 8.04

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_ DGS – Divisão de Saúde Ambiental _ Administrações Regionais de Saúde _INSA/DDI – Centro de Estudos de Vectores e Doenças Infecciosas Doutor

Francisco Cambournac Abril 2011

Formação REVIVE _ Carraças

2011

1.ª edição

Formadoras: Maria Sofia Núncio, Margarida Santos Silva, Rita de Sousa, Ana Santos e Isabel Lopes de Carvalho Centro de Estudos de Vectores e Doenças Infecciosas Doutor Francisco Cambournac Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge 7-8 de Abril de 2011

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Índice
PROGRAMA DA FORMAÇÃO .................................................................................. 1 1. REDE DE VIGILÂNCIA DE VECTORES – REVIVE ............................................................ 3 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ................................................................................................ 5 2.1. Noções Básicas de Epidemiologia de Agentes Transmitidos por Vectores .............................. 5

3.
3.1.

INTRODUÇÃO ÀS CARRAÇAS ......................................................................... 7 Morfologia................................................................................................................................... 10

3.1.1 Número de fases e aspecto geral ................................................................................................... 10 3.2. Ciclos de vida das carraças........................................................................................................ 14 3.3. 3.4. Desenvolvimento e reprodução ................................................................................................. 17 Taxonomia das espécies presentes em Portugal ...................................................................... 17

3.4.1 Género Ixodes ............................................................................................................................... 18 3.4.2 Género Dermacentor .................................................................................................................... 19 3.4.3 Género Haemaphysalis ................................................................................................................. 19 3.4.4 Género Rhipicephalus ................................................................................................................... 20 3.4.5 Género Hyalomma ........................................................................................................................ 20 3.5. Ecologia ....................................................................................................................................... 21 3.5.1 Género Ixodes ............................................................................................................................... 21 3.5.2 Género Dermacentor .................................................................................................................... 22 3.5.3. Género Haemaphysalis ................................................................................................................ 22 3.5.4 Género Rhipicephalus ................................................................................................................... 22 3.5.5 Género Hyalomma ........................................................................................................................ 23 3.6. Transmissão de agentes etiológicos pelas carraças.................................................................. 23 3.6.1 Febre escaro nodular (febre da carraça) ........................................................................................ 23 3.6.2 Borreliose de Lyme....................................................................................................................... 24 4. VIGILÂNCIA, PREVENÇÃO E CONTROLO DE VECTORES - CARRAÇAS ...................... 25 4.1. Colheita de carraças................................................................................................................... 25 4.1.1 Colheita de carraças em fase de vida livre .................................................................................... 26 4.1.2 Colheita de carraças em fase de vida parasitária (sobre o hospedeiro) ......................................... 26 4.2. Medidas de protecção individual .............................................................................................. 27 4.3. 4.4. 4.5. Gestão da informação obtida e criação de bases de dados...................................................... 27 Prevenção e controlo .................................................................................................................. 28 Conclusões................................................................................................................................... 29 MÉTODOS NO REVIVE ..................................................................................................... 31 Manuseamento e Envio de Amostras........................................................................................ 31 Recolha de dados no campo....................................................................................................... 32

5.
5.1. 5.2.

CONTACTOS .............................................................................................................................. 33 BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA............................................................................................. 34 ANEXOS ..................................................................................................................................... 37 ANEXO I - PROTOCOLO DE COLHEITA DE CARRAÇAS NA VEGETAÇÃO ........................ 39 ANEXO II - PROTOCOLO DE COLHEITA DE CARRAÇAS NOS HOSPEDEIROS ................ 40 ANEXO III - PROTOCOLO DE ENVIO DE AMOSTRAS ........................................................... 41 ANEXO IV - BOLETIM DE COLHEITA ...................................................................................... 42 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................................... 43

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Programa da Formação
7 - 8 de Abril de 2011

9.00

Rede de Vigilância de Vectores (REVIVE). Vigilância de ixodídeos. Noções básicas de epidemiologia, introdução aos ixodídeos Biologia de vectores ixodídeos, factores ambientais e metodologias de

10.00 estudo 11.00 11.30 12.00 12.30 Pausa Agentes infecciosos transmitidos por vectores ixodídeos Métodos de controlo e prevenção Almoço livre Componente prática I 13.30 Selecção de locais, métodos de colheita, manuseamento de amostras e recolha de dados no campo, envio de amostras. 15.00 15.30 Observações e identificação de espécimes, bases de dados. 17.00 Conclusão da Formação Pausa Componente prática II

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1. Rede de Vigilância de Vectores – REVIVE
As doenças transmitidas por artrópodes vectores já constituíram graves problemas de saúde pública na Europa. Doenças como a malária, dengue e febre amarela foram erradicadas da Europa em meados do século XX, continuando, no entanto, a existir em muitas zonas as espécies de mosquitos responsáveis pela transmissão destas patologias. Os vírus transmitidos por artrópodes (arbovírus), que provocam encefalites virais, são bem conhecidos na Europa, surgindo, ocasionalmente, surtos epidémicos de vírus West Nile (género Flavivirus). Se os mosquitos são responsáveis pela transmissão de agentes etiológicos que causam maior mortalidade e morbilidade, os ixodídeos ou carraças são insuperáveis em termos do número de diferentes agentes que podem transmitir. Efectivamente, no hemisfério Norte, a incidência destas patologias tem aumentado nos últimos anos, sendo actualmente uma das maiores preocupações das autoridades de saúde. A maior parte dos agentes de doença transmitidos por vectores exibem um padrão sazonal distinto, o que sugere, muito claramente, que os parâmetros climáticos são importantes na epidemiologia das doenças transmitidas por vectores. Alguns factores climáticos como a temperatura, precipitação, humidade e a velocidade do vento influenciam a ecologia, desenvolvimento, comportamento e sobrevivência dos vectores e hospedeiros, e consequentemente a dinâmica da transmissão da doença. As alterações climáticas constituem uma nova categoria de perigo para a saúde pública, sendo actualmente incontestável o aquecimento global do planeta. Em Portugal, as projecções indicam que, nos próximos 50 anos, um em cada cinco dias poderá ter temperaturas superiores a 35ºC. Relativamente à precipitação, as projecções apontam para um clima mais seco, com um período húmido mais curto e mais intenso, seguido de uma época quente mais longa. Assim, prevê-se uma maior frequência de períodos de seca que afectará essencialmente a zona sul do País. Estas alterações da frequência e da intensidade dos fenómenos climáticos e meteorológicos extremos constituem um grave risco para a saúde humana, destacando-se os aumentos potenciais de mortes relacionadas com o calor, de doenças transmitidas pela água e pelos alimentos, de problemas relacionados com a poluição atmosférica e do risco de doenças transmitidas por vectores. Para determinar a potencial incidência destas doenças, é necessário identificar e determinar a prevalência dos vectores. Factores como a temperatura, a chuva, os ventos, os

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ciclos de vida dos vectores, as flutuações sazonais nas populações de vectores, entre outros, são aspectos relevantes a ter em consideração. Os vectores que constituem o objecto deste projecto são os ixodídeos (carraças) relativamente aos quais é necessário implementar dispositivos multidisciplinares abrangendo quatro áreas fundamentais, nomeadamente: 1 - Vigilância entomológica 2 - Vigilância humana 3 - Vigilância animal 4 - Prevenção da picada

1. Vigilância Entomológica A vigilância entomológica permite: • • • Identificar a densidade e distribuição geográfica das populações de carraças; Identificar áreas geográficas de alto risco; Monitorizar a efectividade e eficácia das medidas de controlo desenvolvidas.

2. Vigilância humana

Detecção de casos humanos com confirmação clínica e laboratorial.
3. Informação dos responsáveis de veterinária Informações dos laboratórios veterinários e de estudos ambientais (por exemplo dados de aves, canídeos e animais cinegéticos). 4. Prevenção da picada A prevenção individual da picada inclui o uso de vestuário adequado, desinfestação dos animais de companhia, a eliminação de terrenos baldios próximos das habitações e aplicação de acaricidas sempre que necessário.

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2. Revisão bibliográfica

2.1. Noções Básicas de Epidemiologia de Agentes Transmitidos por Vectores1
As doenças transmitidas por vectores consistem numa interacção dinâmica entre um agente patogénico, o hospedeiro vertebrado, o vector e o ambiente. Estas relações podem ser mais ou menos específicas, dependendo dos intervenientes. O agente pode ser transmitido apenas por um determinado vector e este ser específico de um determinado grupo de hospedeiros. Os agentes têm que ter a capacidade de infectar e de se replicarem quer no vector, quer no hospedeiro. Em muitos casos, a transmissão do agente entre o hospedeiro infectado e o vector ocorre quando este se alimenta de sangue para promover a oogénese ou para satisfazer outras necessidades nutricionais. Nas refeições sanguíneas subsequentes, o vector pode transmitir o agente patogénico a novos hospedeiros potencialmente susceptíveis. Enquanto no vector o agente patogénico exerce pouco ou nenhum efeito nocivo, as consequências para o hospedeiro podem ser graves e levar ao estado de doença. Geralmente, o agente patogénico causa uma infecção sub-clínica no hospedeiro vertebrado natural e doença grave no hospedeiro vertebrado acidental ou tangencial. O hospedeiro vertebrado natural, ou hospedeiro primário, representa assim o reservatório natural do agente patogénico, sendo responsável pela sua manutenção na natureza. Os hospedeiros acidentais ou tangenciais não contribuem para a manutenção dos agentes na natureza, sendo normalmente considerados hospedeiros finais. Os mosquitos, flebótomos e carraças são, entre outros, artrópodes vectores que estão envolvidos no ciclo biológico de muitos agentes patogénicos. Na figura 1 encontram-se representadas as relações entre os principais artrópodes vectores com interesse em medicina humana e veterinária.

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FILO

ARTHROPODA

Insecta
(Insectos)

CLASSES

Arachnida (Ácaros e carraças)

Pterygota

SUBCLASSE

Siphonaptera
(Pulgas)

Diptera

Phthiraptera
(Piolhos) ORDENS

Hemiptera
(Barbeiros e percevejos)

Nematocera
SUBORDENS

Brachycera

Psycodomorpha
INFRAORDENS

Culicomorpha

Tabanomorpha

Muscomopha

Tabanidae
(Tabanídeos) FAMÍLIAS

Fannidae Calliphoridae Sarcophagidae Oestridae Glossinidae Muscidae
(Moscas)

Psychodidae
(Flebótomos)

FAMÍLIAS

Culicidae
(Mosquitos)

Simuliidae
(Simulídeos)

Ceratopogonidae
(Culicoides)

Anophelinae

Culicinae

Toxorhynchitinae

SUBFAMÍLIAS

Figura 1: Sistemática dos artrópodes vectores com interesse em medicina e veterinária (Adaptado de Cook, 1996) .
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Transmissão biológica versus transmissão mecânica: os vectores podem transmitir agentes infecciosos biologicamente ou mecanicamente. Na transmissão biológica o agente infeccioso reproduz-se ou desenvolve-se no vector, proliferando nos seus tecidos antes de ser transmitido a um outro hospedeiro vertebrado. Na transmissão mecânica não existe desenvolvimento ou propagação do agente infeccioso no vector, transmitindo-se apenas fisicamente de um vertebrado hospedeiro para outro. Nos vectores hematófagos resulta, geralmente, da contaminação das peças bucais.

Transmissão vertical versus transmissão horizontal: na transmissão vertical e em algumas associações ixodídeo/agente infeccioso ocorre a invasão do sistema reprodutor permitindo assim a transmissão da infecção à progenitura, processo também denominado por transmissão transovárica. Neste caso os ixodídeos são considerados também, para além de vectores, reservatórios naturais do agente. Na transmissão horizontal, processo também denominado por transmissão transtadial, as metamorfoses não envolvem a degeneração e regeneração total de cada órgão, pelo que, os microrganismos sobrevivem à muda de fase evolutiva.

Capacidade vectorial versus competência vectorial: a capacidade vectorial representa a habilidade total de uma espécie de transmitir um agente patogénico num determinado lugar e num específico intervalo de tempo. O tamanho da população de vectores, a longevidade, o número e a duração do ciclo gonotrófico, o comportamento alimentar e a actividade sazonal afectam a capacidade vectorial de uma determinada população. A competência vectorial está relacionada com a habilidade intrínseca de um vector (espécie, estirpe, indivíduo) transmitir biologicamente o agente infeccioso. Sendo a competência influenciada pela susceptibilidade do vector à infecção, pelo desenvolvimento e reprodução do agente no vector, pelo período de incubação e eficiência de transmissão.

3. Introdução às carraças
Os ixodídeos vulgarmente designados por carraças encontram-se entre os mais importantes vectores de agentes que causam doença nos animais e no Homem. A importância médica e veterinária destes artrópodes advém da sua aptidão para se fixarem ao homem e a animais podendo-lhes transmitir uma grande variedade de agentes infecciosos. Desta forma os ixodídeos são considerados imediatamente a seguir aos mosquitos os artrópodes mais importantes associados à transmissão de agentes infecciosos. Aqui vão ser revistos alguns

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aspectos básicos da taxonomia, morfologia externa, ciclos de vida e ecologia das principais espécies de carraças existentes no nosso país. Actualmente, conhecem-se cerca de 889 espécies que se subdividem em duas famílias principais: - Ixodidae ou carraças de corpo duro, que são assim chamadas por possuírem um escudo quitinoso que reveste parcial ou totalmente a superfície dorsal. - Argasidae ou carraças de corpo mole, que só possuem uma cutícula flexível a revestir o tegumento.

- e uma terceira família Nuttaliellidae, que engloba uma única espécie e da qual não nos vamos ocupar uma vez que não se encontra representada em Portugal e desconhece-se o papel que poderá desempenhar em Saúde Pública.

A família mais importante em termos médicos é a Ixodidae, pelo que a informação seguinte reporta-se unicamente a esta família. As carraças são ácaros, parasitas obrigatórios ou seja, têm de parasitar um hospedeiro e efectuar uma refeição de sangue para completarem o seu ciclo de vida. Assim observa-se uma alternância entre fases de vida livre e fases de vida parasitária (Fig. 2)

Fase de vida parasitária

Fase de vida livre

Fig.2 – Exemplo de um ciclo de vida de uma carraça. Adaptado de http://mypuppycare101.com/members/puppy-health/externalparasites/ticks/.

Para além dos vários agentes de doença que podem transmitir e causar como por exemplo algumas doenças bacterianas como a febre escaro-nodular (febre da
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carraça), borreliose de Lyme, anaplasmose, ehrlichiose, babesiose, febre Q, tularémia, os ixodídeos também podem ser veículo de vírus e fungos que podem afectar o homem e os animais domésticos. Sempre que falamos de carraças devemo-nos lembrar que são parasitas de animais domésticos e que estes viajam de uma região a outra, de acordo com interesses comerciais do Homem. Isto implica importações ocasionais de espécies de carraças de outras regiões e consequentemente dos agentes infecciosos que albergam.

Todas as espécies de carraças possuem um conjunto de características peculiares que contribuem para o seu sucesso como vectores de agentes infecciosos: - A ingestão repetida de grandes quantidades de sangue (até 8 cm3 de sangue) ao longo da sua vida; - Sincronização das actividades com os hospedeiros reservatórios; - Pequenas dimensões; - Picadas indolores; - Ciclo de vida longo, podendo-se alargar até vários anos; - Posturas muito numerosas; - Capacidade de resistir perante factores adversos quer sejam abióticos, como baixas temperaturas e seca, quer bióticos como seja a ausência de hospedeiros onde efectuar a refeição sanguínea. Entre os mecanismos que lhes permitem sobreviver encontram-se a possibilidade de absorver água a partir do ar circundante, o mecanismo de diapausa que lhes permite reduzir o metabolismo e suspender a actividade durante períodos adversos e um sistema sensorial bem desenvolvido e complexo constituído pelo órgão de Haller. Esta estrutura localiza-se no tarso do primeiro par de patas (ao contrário de outros artrópodes como os insectos que utilizam as antenas) permitindo-lhes detectar a presença de potenciais hospedeiros através da detecção de odores, vibrações e alterações de temperatura para que deste modo, possam ocupar posições estratégicas, em trilhos de passagem, que aumentam as probabilidades de sucesso no encontro com novos hospedeiros evitando-lhes deslocações prolongadas para os encontrarem.

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3.1. Morfologia
Como já foi mencionado as carraças constituem um grupo muito amplo não sendo possível efectuar aqui a descrição exaustiva de cada uma delas. Vamos tentar chamar a atenção para alguns aspectos mais importantes.

3.1.1 Número de fases e aspecto geral Os ixodídeos apresentam quatro fases ao longo do seu ciclo de vida: ovo, larva, ninfa e adulto (Fig. 3).

Ovo Fêmea Larva

Ninfa Macho

Fig.3 – Estádios de desenvolvimento das carraças. Adaptado de http://www.jvopweg.nl/TestVersie/ixodidae&page=3.

A larva quando eclode possui apenas três pares de patas. Após a muda surge a ninfa que já possui 4 pares de patas mas que se distingue das fêmeas por não possuir nem áreas porosas nem orifício genital desenvolvido. No estádio adulto já existe dimorfismo sexual. A estrutura do corpo das carraças é semelhante à das aranhas (Fig. 4 e 5) com as quais possuem um “parentesco” zoológico.

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Fig. 4 e 5 – Morfologia de carraças. garrapatas.html.

Adaptado de http://parasitogarrapatas.blogspot.com/2011/01/morfologia-de-las-

Os olhos, quando presentes encontram-se nas margens laterais do escudo. Posteriormente após as patas, os ixodídeos (excepto os estádios larvares) apresentam lateralmente umas placas espiraculares ou peritremas que permitem o intercâmbio gasoso com o exterior. Ventralmente podem-se observar o poro genital e o ânus. Todas as patas possuem 6 segmentos, dos quais cinco estão livres e um (coxa) se insere na superfície ventral. O tarso do primeiro par de patas onde se localiza o sistema sensorial permite a relação entre o parasita e o meio ambiente (Fig. 6). Órgão de Haller

Fig. 6 – Imagem de pata de uma carraça e do órgão de Haller. Adaptado de Estrada-Pena,

Na extremidade das patas dos ixodídeos vamos encontrar duas garras e um pulvilho que permitem a fixação do parasita (Fig. 7).

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Pulvilho

Garra

Fig. 7 – Imagem da extremidade de uma pata de carraça. Adaptado de http://www.sciencephotolibrary.com/images/download_lo_res.html?id=904450295.

A parte anterior corpo também denominado por gnatosoma é constituída pelo capítulo (Fig. 8 e 9) que se encontra inserido anteriormente constituindo um simples prolongamento do corpo, visível dorsalmente. Este é constituído, pelo hipóstoma cuja função é manter a carraça fixa ao hospedeiro enquanto necessário para que seja efectuada a refeição de sangue; pelos palpos que são peças alargadas e articuladas com função sensorial; pelas quelíceras que servem para cortar a pele no momento da picada e pela base capítulo onde todas estas estruturas estão inseridas.

Vista dorsal queliceras

Vista ventral hipostoma palpo

queliceras hipostoma palpo

Base do capitulo

Base do capitulo

Fig. 8 e 9 – Armadura bucal de carraças.

Adaptado de http://extension.entm.purdue.edu/publichealth/insects/tick.html

http://www.sciencephoto.com/images/download_lo_res.html?id=670038860.

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Entre o hipóstoma e as quelíceras vamos encontrar a boca que consiste numa abertura por onde o sangue é sugado. Os ixodídeos possuem um escudo esclerotizado sobre a superfície dorsal, que serve como local de inserção de diversos músculos do parasita.

No macho este escudo ocupa toda a superfície dorsal, enquanto nas fêmeas (tal como nos estádios imaturos) só se observa na porção anterior do corpo (Fig. 10).
Fêmea adulta

Macho adulto Larva Ninfa

Fig.10 – Superfície dorsal dos vários estádios de Ixodes. Adaptado de http://heartspring.net/deer_tick_identification.html.

Isto significa que tanto os estádios imaturos como as fêmeas podem ingerir grandes quantidades de sangue (ingurgitamento), necessárias para a muda de fase evolutiva e para as posturas se efectuarem. Isto implica que ocorra um aumento de dimensões apreciável, com a produção de nova cutícula (Fig. 11).

Fig. 11 – Fêma de Amblyomma antes e depois de terminar a refeição. Adaptado de http://www.biology-blog.com/blogs/archives/Animal-science-blog/438917122-June-20-2007.html.

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Os machos por sua vez ingerem pequenas quantidades de sangue. A alimentação dos ixodídeos é considerado um processo lento e em que existe uma grande interacção sendo necessários vários dias para completarem a refeição dependendo da fase evolutiva do artrópode.

3.2. Ciclos de vida das carraças
Como mencionado anteriormente, os ixodídeos são parasitas hematófagos estritos de um grande número de vertebrados, como mamíferos, aves, répteis e até anfíbios. Todas as espécies de carraças necessitam de ingerir sempre uma quantidade mínima de sangue para poderem realizar uma muda e passar à fase evolutiva seguinte do seu ciclo de vida e no caso das fêmeas efectuar uma postura. Os machos podem realizar uma pequena ingestão de sangue para terminar a espermatogénese, mas frequentemente nem necessitam de efectuar refeição de sangue pois completam a espermatogénese com a alimentação da fase ninfal. A maior parte das espécies demoram vários dias a completar a refeição sanguínea, em média 2-5 dias nas larvas, 3-5 dias nas ninfas e 7-14 dias no caso dos adultos. Todas as espécies de carraças reproduzem-se por da postura de ovos. A fêmea põe uma quantidade variável de ovos, que oscilam entre algumas centenas a milhares consoante a espécie considerada (Fig. 11).

Fig. 12 – Fêmea na fase terminal da postura. Adaptado de http://animals.howstuffworks.com/arachnids/tick2.htm.

A postura pode ser efectuada directamente no solo ou em fendas e interiores das tocas ou dos ninhos dos animais que parasitam. Quando a postura termina a fêmea morre pelo que estes artrópodes apresentam um único ciclo gonotrófico. O número de ovos pode atingir os 20 000 no caso do género Amblyomma, se bem que normalmente a maioria das espécies
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presentes em Portugal apresentem posturas na ordem dos 3 000 – 5 000 ovos como é o caso de Ixodes ricinus e Rhipicephalus sanguineus respectivamente. Contudo no caso do género Hyalomma as posturas podem chegar aos 11 000 ovos. Para protecção dos ovos de condições adversas e evitar a desidratação, a fêmea tem que envolvê-los numa substância agregante, convertendo-os numa massa compacta que também impede a sua dispersão, o que os mantém todos agrupados em verdadeiros “ninhos”. A produção de ovos é acelerada nos primeiros 3-5 dias e declina para o final. Assim cerca de 90% dos ovos são depositados nos primeiros dez dias. Ainda que os dados variem de espécie para espécie, em alguns casos cerca de 50% do peso das fêmeas converte-se em ovos o que coloca os ixodídeos entre os artrópodes mais prolíferos. De cada ovo eclode uma larva hexápoda que após efectuar uma refeição de sangue passará à fase evolutiva seguinte, até completar o seu ciclo de vida (Fig. 13).

Fig. 13 – Ciclo de vida de carraça. Adaptado de http://cao-do-mato.blogspot.com/2011/01/atencao-aos-carrapatos.html.

O ciclo de vida dos ixodídeos é muito semelhante para todas as espécies. Todos apresentam um único estado ninfal. Após a cópula que, com excepção de quase todas as espécies do género Ixodes ocorre sobre o hospedeiro, as fêmeas alimentam-se até à total repleção (aumentando o seu volume até 100 vezes) soltam-se do hospedeiro e iniciam a postura em micro habitats ocultos no solo ou sob pedras normalmente em locais recônditos e sombrios. Após a cópula no caso dos machos e após a postura no caso das fêmeas os adultos morrem.

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Espécies de três hospedeiros Para a maioria dos ixodídeos, uma semana após a oviposição inicia-se a eclosão das larvas, que se vão dispersar em redor do local da postura, quer seja na vegetação ou na toca do hospedeiro, em busca de um hospedeiro susceptível para realizarem a primeira refeição de sangue. A larva necessita de dois três dias para completar a refeição após a qual cai no solo e no microambiente adequado sofre uma muda ou ecdíse, dando origem à fase evolutiva seguinte a ninfa. Assim, as ninfas iniciam o comportamento de procura de um novo hospedeiro, no qual se alimentam, caem no solo e voltam a sofrer uma muda evolutiva, após a qual surgem os adultos diferenciados em machos e fêmeas, completando-se assim o ciclo biológico. Este padrão de busca, alimentação e muda de cada um dos estádios recebe o nome de ciclo de três hospedeiros uma vez que cada uma das fases evolutivas procura um hospedeiro para se alimentar e é o menos avançado, falando do ponto de vista evolutivo. Rhipicephalus sanguineus, a carraça comum do cão, é o exemplo duma espécie de três hospedeiros. Em condições favoráveis (que nem sempre se verificam na natureza) num ano podem ser completados dois ou três ciclos de vida, contudo de um modo geral é completado um ciclo de vida por ano. Em algumas espécies de ixodídeos adaptados a climas frios como os Ixodes podem demorar dois ou três anos para completar o ciclo de vida ou seja uma única geração.

Espécies de dois hospedeiros Existem algumas variações a este padrão de ciclo de vida. Para algumas espécies, como é o caso de Rhipicephalus bursa, a larva permanece agarrada ao hospedeiro enquanto efectua a muda in situ para ninfa. Só após o ingurgitamento da ninfa é que o ixodídeo se solta, cai no chão e muda para adulto. Este adulto procura um novo hospedeiro para se alimentar, continuando o ciclo. Quando apenas duas das três fases activas (larvas e adultos) necessitam de procurar um hospedeiro diferente para completarem o ciclo de vida que se denomina por ciclo de dois hospedeiros.

Espécies de um hospedeiro Uma alteração mais radical pode ser observada nas espécies em que todas as fases evolutivas permanecem fixas ao mesmo hospedeiro (larva, ninfa e adultos). Neste caso só as fêmeas caiem ao solo para efectuarem a oviposição. Este padrão recebeu o nome de ciclo de um hospedeiro. Temos como exemplo a espécie Rhipicephalus (Boophilus) annulatus.

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3.3. Desenvolvimento e reprodução
Muda ou Ecdíse Tendo terminado a sua refeição sanguínea e caído do hospedeiro, as larvas ou ninfas devem procurar um microhabitat isolado e apropriado para mudar. Nas espécies nidícolas este ambiente pode incluir a areia, ervas ou os primeiros milímetros do solo, onde existe uma humidade relativa elevada e estão protegidos da luz solar. A muda é um processo lento e é modelado pela temperatura. Em condições ideais a muda ocorre rapidamente, fora destas condições atrasa-se consideravelmente podendo mesmo nem se completar. A humidade relativa não afecta directamente a muda mas pode provocar elevadas taxas de mortalidade por dissecação nas formas emergentes. Os valores óptimos variam consoante a espécie e condicionam a capacidade de colonização de uma zona geográfica.

Reprodução Após a cópula e a alimentação até à repleção, as fêmeas procuram um microhabitat exactamente igual ao da muda para efectuarem a oviposição. Ainda que raras espécies possam efectuar posturas sem ingerir sangue (autogenia) e outras o possam fazer sem inseminação, estas posturas raramente são numerosas e viáveis. Factores que afectam o número de ovos de uma postura: - Volume de sangue ingerido - Tamanho dos ovos - Espécie em questão

3.4. Taxonomia das espécies presentes em Portugal
A sistemática à semelhança de outras ciências, tem vindo a sofrer nos últimos anos uma grande evolução, sobretudo devido ao facto do desenvolvimento e aplicação de novas ferramentas e metodologias para a diagnose específica. O desenvolvimento da sistemática molecular tem permitido a reorganização da taxonomia em vários grupos de artrópodes incluindo os ixodídeos, contudo este processo ainda está longe de estar terminado.

Actualmente a identificação dos ixodídeos, sempre que possível, continua a ser feita com base na sistemática clássica, que se baseia na observação e comparação das características
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morfológicas externas que os exemplares exibem com as descrições e chaves de identificação pré-existentes.

Em Portugal hoje em dia são reconhecidos cinco géneros de ixodídeos que englobam 20 espécies.

3.4.1 Género Ixodes O género Ixodes, diferencia-se facilmente dos outros géneros de ixodídeos pois é o único que apresenta o sulco anal contornando o ânus anteriormente. O escudo não apresenta ornamentações e não possuem olhos. Os machos apresentam a superfície ventral totalmente recoberta por placas esclerotizadas. A espécie mais importante é sem dúvida Ixodes ricinus (Fig. 14) vector de vírus, de várias bactérias (borrélias, rickettsias, anaplasmas e coxiella) e de protozoários (babésias), tanto ao Homem como aos animais. É uma carraça de três hospedeiros e qualquer uma das fases evolutivas (larva ninfa ou adulto) pode picar o Homem e consequentemente se estiver infectada transmitir-lhe um dos agentes de doença. Em Portugal destaca-se a transmissão de Borrelia burgdorferi sensu lato (s.l.). ao Homem, bactéria responsável por uma patologia denominada borreliose de Lyme. Morfologicamente

caracteriza-se por possuir um hipóstoma comprido e pontiagudo; as larvas parasitam preferencialmente micromamíferos e aves, as ninfas mamíferos de pequeno porte e aves enquanto os adultos parasitam preferencialmente mamíferos, ungulados e carnívoros. Em Portugal estão reconhecidas nove espécies, sendo duas delas parasitas estritos de morcegos (I. simplex e I. vespertilionis). As restantes são encontradas essencialmente em animais silváticos, existindo uma I. frontalis que só foi assinalada em aves.

Fig. 14 – Larva, Ninfa, Macho e Fêmea de Ixodes ricinus. Adaptado de http://www.britishticks.org.uk/species.html.

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3.4.2 Género Dermacentor Este género é facilmente identificado, pois em Portugal é o único que apresenta o escudo ornamentado (Fig. 15). Os palpos são curtos e grossos e são providas de olhos. O macho não apresenta placas ventrais esclerotizadas. No nosso país existem unicamente duas espécies (D. marginatus e D. reticulatus) que estãosobretudo associados à transmissão de rickettsias.

Fig. 15 – Macho e Fêmea de D. marginatus. Adaptado de http://www.pourelles.com/top-sante/sante/Dermacentor-marginatus.html.

3.4.3 Género Haemaphysalis Todas as espécies deste género não possuem ornamentações no escudo dorsal e placas ventrais nos machos (Fig. 16). Existem três espécies descritas em Portugal. H. hispanica que aparece frequentemente em coelhos e tem reduzidas dimensões; H. inermis é uma espécie rara que possui um rosto algo parecido com I. ricinus mas que pode ser facilmente distinguido pelo sulco anal, que nesta espécie contorna o ânus posteriormente; H. punctata a terceira espécie caracteriza-se por apresentar palpos curtos apresentando o segundo artículo dos palpos expandido lateralmente evidente assim como no caso dos machos uma espinha muito comprida ao nível das coxas IV.

Fig. 16 - Macho de Haemaphysalis, vista ventral de dorsal. http://webpages.lincoln.ac.uk/fruedisueli/FR-webpages/parasitology/Ticks/TIK/tick-key/haemaphysalis_adult.htm

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3.4.4 Género Rhipicephalus Os ixodídeos deste género são os mais frequentes e também os que existem em maior número no nosso país. Englobam uma espécie principal, Rhipicephalus sanguineus conhecida como a comum carraça do cão (Fig. 17). Esta espécie parasita uma lista interminável de hospedeiros, tanto domésticos como silváticos. É o vector de Rickettsia conorii, agente etiológico da febre escaro-nodular também denominada por febre da carraça. Em Portugal estão reconhecidas quatro espécies em que a diferenciação entre elas não é tarefa fácil, sendo por isso considerado um dos géneros mais difíceis na diferenciação dos seus elementos juntamente com o género Hyalomma. Das restantes espécies R. bursa parasita preferencialmente ovinos, R. pusillus coelhos e cães e R. (Boophilus) annulatus bovinos. Com excepção de R. bursa (espécie de dois hospedeiros) e R. annulatus (espécie de 1 hospedeiro) as restantes são carraças de três hospedeiros. Morfologicamente os machos possuem escudos adanais, a base do capítulo é hexagonal, possuem olhos e festões no escudo dorsal que também apresenta pontuações que variam em tamanho e número de espécie para espécie.

Fig. 17 – Fêmea, Ninfa e Macho de Rhipicephalus. http://www6.ufrgs.br/favet/imunovet/molecular_immunology/infectivecauses.htm

3.4.5 Género Hyalomma São os ixodídeos de maiores dimensões presentes em Portugal. O escudo não apresenta ornamentações mas as patas podem apresentar alguma coloração dado a existência de padrões manchas alternando entre claro e escuro. Apresentam olhos salientes, palpos compridos; nos machos aparecem escudos adanais, subadanais e assessórios. Aparecem essencialmente em gado bovino. Existem duas espécies: H. lusitanicum (que apresenta patas marmoreadas) e H. marginatum (com patas listadas) (Fig. 18). São carraças de três hospedeiros.

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Fig. 18 – Fêmeas de H. marginatum e H. lusitanicum. http://www.maladies-a-tiques.com/LAR.htm

3.5. Ecologia
Do que atrás já foi referido, a temperatura, a humidade relativa e o fotoperíodo têm uma importância muito grande em tudo o que concerne ao regulamento do ciclo de vida das carraças. Assim, se a temperatura é a responsável pela aceleração ou retardamento de uma fase particular, a humidade permite que um elevado efectivo de carraças sobreviva em condições óptimas devido a baixa perda de água pela cutícula. O fotoperíodo despoleta o início de uma fase. Por exemplo, uma carraça não iniciará a procurar um hospedeiro mesmo que a humidade e a temperatura estejam ideais a menos que haja um número mínimo de horas/luz diárias que lhe indique o momento mais oportuno para iniciar a actividade em questão. A interacção entre estes parâmetros ambientais condiciona a actividade das carraças: diferentes espécies de carraças estão activas em diferentes épocas do ano, o que vulgarmente se refere como carraças “de Verão” e “de Inverno” ou seja, carraças que estão mais activas e desenvolvem o seu ciclo de vida nos meses de Verão ou de Inverno. Isto é muito importante se pensarmos em termos de carraças transmissoras de agentes de doença: sabendo quando estão activas, saberemos quando devemos estabelecer os tratamentos anti-parasitários e quando corremos maior risco em frequentar zonas infestadas por carraças. Outro indicador muito importante é o tipo de vegetação de um local preciso. Sabendo qual o tipo de vegetação, podemos saber antecipadamente quais as espécies que temos maior probabilidade de encontrar. Com base nestas considerações vamos rever um pouco da ecologia dos géneros de carraças presentes em Portugal:

3.5.1 Género Ixodes É sem dúvida o género que parasita maior número de hospedeiros. Algumas espécies são parasitas exclusivos de aves ou de roedores. A espécie que se reveste de particular interesse como já foi mencionado é I. ricinus. Esta espécie é altamente dependente da humidade relativa, sendo a sua distribuição ditada pela existência de um valor mínimo de humidade relativa, necessária para sobreviver e completar o seu ciclo de vida. Prefere
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temperaturas frescas e constantes biótopos de bosque atlântico. I. ricinus está activa durante Primavera, Outono e Inverno. 3.5.2 Género Dermacentor As duas espécies (D. reticulatus e D. marginatus) apresentam preferências muito distintas: enquanto os primeiros aparecem em zonas muito húmidas e frias, os segundos preferem zonas mais secas e temperaturas moderadas; apresentam uma elevada resistência à dissecação. Ambas as espécies encontram-se activas sobretudo durante o Inverno e Primavera. 3.5.3. Género Haemaphysalis H. punctata aparece em zonas de biótopo semelhante a I. ricinus acompanhando por vezes a distribuição desta espécie em alguns locais. Contudo tem-se verificado uma retracção na sua distribuição e ocorrência que pensamos poder estar relacionada com os primeiros efeitos das alterações climáticas verificadas em Portugal. Está activa desde o Outono até ao inicio da Primavera. H. hispanica aparece em toda a região mediterrânica em que existavegetação adequada ao aparecimento de lagomorfos e está sobretudo associada a estes hospedeiros. Apesar de ser considerada uma espécie rara em vários Países incluindo Portugal. A ocorrência cada vez mais frequente de H. inermis na Europa está a modificar os padrões de distribuição previamente estabelecidos, sendo actualmente até considerada em alguns países como a mais frequente dentro género Haemaphysalis. Encontra-se em biótopos semelhantes aos preferidos por I. ricinus ocorrendo em zonas frias e húmidas.

3.5.4 Género Rhipicephalus Associam-se a locais secos mas também podem aparecer nas margens de ribeiros e em bosques e chaparrais. R. sanguineus está cada vez mais activa durante todo o ano, no entanto apresenta uma maior actividade no período da Primavera e Verão. Esta espécie desenvolve-se preferencialmente em zonas secas e quentes; estando também associada a sua ocorrência em paredes de casas, em frestas e fendas, sobretudo se existirem cães por perto. R. pusillus está activo durante grande parte do ano e só aparece essencialmente em zonas secas. R. bursa estão activos durante a fim da Primavera e princípio do Verão. Aparecem também em zonas secas mas já aparece em maiores altitudes, ligeiramente mais húmidas que as outras espécies.

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3.5.5 Género Hyalomma São parasitas que aparecem em zonas muito secas (com baixos valores de humidade relativa), quentes e de vegetação rala e escassa. Estão activas durante a Primavera e parte do Verão e encontram-se muito associadas a gado bovino.

3.6. Transmissão de agentes etiológicos pelas carraças
Em Portugal, os ixodídeos já foram identificados como tendo capacidade vectorial para transmitir vários agentes etiológicos de doenças humanas tais como a febre escaro nodular, borreliose de Lyme, febre Q, tularémia, Ehrlichiose, Anaplasmose entre outras. Destas destacam-se essencialmente a febre escaro nodular e a borreliose de Lyme por terem um maior impacto na Saúde Pública.

3.6.1 Febre escaro nodular (febre da carraça) R. conorii é o agente etiológico da Febre escaro nodular (FEN) e a doença é endémica na bacia do Mediterrâneo, África, Médio Oriente, Índia e Paquistão. Nos focos naturais os roedores e os seus ectoparasitas têm um papel importante na circulação deste agente. Nos focos urbanos implicam a circulação do agente entre os ixodídeos R. sanguineus e os seus principais hospedeiros, os cães. Pelo facto mencionado e sendo o cão um animal doméstico que frequentemente acompanha o Homem nas suas deslocações e viagens é recomendável que sejam tomadas precauções ao nível de desparasitação dos cães para impedir a circulação de ixodídeos em locais que não existem. Os ixodídeos funcionam como reservatórios e vectores de R. conorii e a incidência da doença está relacionada com os períodos de maior actividade da carraça. As rickettsias apresentam transmissão transovárica e transestadial, o que implica que uma só carraça infectada pode passar a infecção a uma parte significativa da sua descendência aumentando a dispersão da infecção. O homem é um hospedeiro acidental e a transmissão do agente faz-se através da mordedura do vector enquanto este realiza a sua refeição sanguínea. Contudo, a transmissão também pode ocorrer através das mucosas quando por exemplo o conteúdo de uma carraça que rebenta espirra para o olho. A transmissão do agente não é imediata e para que ocorra são necessárias 6-20h durante a alimentação do ixodídeo.
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A FEN caracteriza-se por apresentar um período de incubação de cerca de 3 a 7 dias cujos principais sinais são febre, rash (exantema) e a presença de uma escara de inoculação no sítio em que a carraça picou. (Fig. 19).

Fig. 19 – Febre da carraça.

3.6.2 Borreliose de Lyme Doença multissistémica, ou seja pode afectar vários tecidos ou órgãos. È uma doença evolutiva que na sua fase inicial se caracteriza pelo aparecimento de uma lesão na pele, eritrema crónico migratório e que nas fases seguintes se pode disseminar por vários órgãos podendo causar lesões ao nível articular (artrite de Lyme), neurológico (neuroborreliose) ou dermatológico (acrodermatite córnica atrofiante) (Fig. 20). A sua distribuição é mundial. Esta doença é causada por espiroquetas pertencentes ao complexo B. burgdorferi s.l. e transmitidas por carraças antropofilicas do género Ixodes. No nosso país I. ricinus é a espécie mais importante. Antes da carraça iniciar a refeição de sangue, as borrélias encontram-se restritas à área do intestino, nas microvilosidades e no epitélio. Durante a alimentação as espiroquetas passam para os outros tecidos e glândulas salivares, sendo a transmissão ao Homem efectuada pela inoculação das bactérias juntamente com a saliva, durante a refeição sanguínea. A transmissão pode ocorrer 24 h após o inicio da refeição mas a maior parte das borrélias só passam para o sangue do hospedeiro ao fim de 48 h. Qualquer dos estádios (Larva, ninfa e adulto) pode transmitir o agente ao homem. O estádio ninfal parece ser o mais perigoso uma vez que como possui menores dimensões torna-se mais difícil de detectar. As borrélias já foram isoladas a partir de mais de 20 espécies de mamíferos domésticos e silvestres e de oito espécies de aves. Todos eles parecem ser reservatórios competentes.

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Fig.

20

Imagens

de

sintomas

associados

à

borreliose

de

Lyme.

Adaptado

de

EUCALB.

http://meduni09.edis.at/eucalb/cms/index.php?lang=en

4. Vigilância, Prevenção e Controlo de Vectores - Carraças
Qualquer intervenção para controlar a população de carraças deverá começa com um programa de vigilância que vise a identificação das espécies existentes numa determinada área, com o estudo cartográfico e ecológico da área, e com o levantamento de hospedeiros vertebrados que possam servir de suporte alimentar às carraças. A pesquisa da presença de agentes infecciosos de interesse nos exemplares capturados é também particularmente importante para avaliar o risco associada a uma determinada área/espécie para finalmente se reunirem as condições necessárias a uma intervenção integrada e eficiente.

4.1. Colheita de carraças
A periodicidade das sessões de captura varia de acordo com o objectivo do estudo, desde semanal, quinzenal, mensal etc., durante todo o ano ou nos meses de maior actividade de determinada espécie que seja o objectivo do estudo. No âmbito do REVIVE-Carraças, como o objectivo é estudar as carraças que transmitem ao Homem Rickettsia conorii (Rhipicephalus sanguineus) e Borrelia burgdorferi s.l. (Ixodes ricinus) e como as primeiras estão activas sobretudo nos meses de Primavera e Verão e as segundas durante a Primavera, Outono e Inverno, o programa de colheitas deve ser executado durante todo o ano. A colheita de carraças deve ser realizada na sua fase de vida livre (sobre a vegetação) e na sua fase parasitária (sobre o hospedeiro). Neste caso, como estamos a focar a colheita em duas espécies para estudar a prevalência de infecção nas populações de vectores, os hospedeiros principais a incluir no estudo são o Homem e os cães (estes pela sua proximidade ao Homem). As carraças capturadas em outros hospedeiros, nomeadamente em animais silváticos, também poderão ser incluídas no estudo, desde que devidamente referenciados.

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4.1.1 Colheita de carraças em fase de vida livre Esta operação comporta a vigilância de todos os habitats possíveis de se encontrarem infestados por carraças. É necessário um conhecimento detalhado do terreno e meios de transporte adequados para se proceder ao estudo e colheita das carraças. A colheita das carraças na vegetação é realizada pelo método de arrastamento da bandeira que consiste na passagem de um pano turco, de cor branca sobre a vegetação a uma velocidade constante em linhas de aproximadamente 100m (Fig. 21). A cada cinco passos é necessário verificar se existem carraças agarradas ao pano para que não comecem a soltar-se.

Fig. 21 – Método de captura de carraças em fase de vida livre.

4.1.2 Colheita de carraças em fase de vida parasitária (sobre o hospedeiro) Durante a fase parasitária as carraças encontram-se firmemente fixadas aos seus hospedeiros e nem sempre é fácil retirá-las. Assim deve-se (Fig. 22): • Prender a carraça com uma pinça ou então com o polegar e o indicador utilizando algodão, papel ou luvas para evitar o contacto directo com a pele; • Tão junto do local de inserção na pele quanto possível, rodar ligeiramente a carraça e puxar até que esta se solte; • Se o hospedeiro for uma pessoa, deve-se desinfectar o local da picada e se registarem alterações do estado de saúde como febre, manchas na pele, dores musculares, etc., deve consultar-se um médico.

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Fig. 22 – Técnica de remoção de carraças fixas ao hospedeiro. http://lymedisease-symptoms.net/tick-removal

4.2. Medidas de protecção individual Em ambientes infestados por carraças existem algumas regras básicas de protecção individual que devem ser seguidas. Estas medidas são também válidas quando se realizam outras actividades ar livre, principalmente em zonas onde a vegetação é densa.
• Reduzir a área de pele exposta, usando camisa de mangas compridas, calças compridas, meias por fora das calças e sapatos fechados; • • Usar roupas de cor clara para mais facilmente ver alguma carraça presa à roupa; Ao regressar a casa, inspeccionar cuidadosamente o corpo para identificar alguma carraça fixa; • No caso de ser detectada alguma carraça fixa esta deve ser removida de imediato.

4.3. Gestão da informação obtida e criação de bases de dados
Toda a informação obtida permite construir uma base de dados que após tratamento estatístico pode ser utilizada para definir as acções a desenvolver. A criação desta base de dados é também muito importante pois permite, durante e após o exercício da acção de

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controlo, a monitorização das alterações a nível da população de carraças, da composição de espécies e da dinâmica sazonal, face à intervenção realizada e à eficácia da mesma.

4.4. Prevenção e controlo
Actualmente, os métodos de controlo físico são utilizados em substituição dos métodos de controlo químico para controlar as populações de carraças. Acções de divulgação sobre o ciclo biológico das carraças e de métodos preventivos para evitar a proliferação de carraças em propriedades privadas são muito úteis à população que, geralmente, se mostra interessada em perpetrar pequenas modificações e a adoptar novos comportamentos nas suas casas e localidades para reduzir o número de carraças. O controlo integrado destes artrópodes utiliza métodos de controlo físico, químico, biológico e educacional. Controlo físico Com este método pretende-se reduzir a densidade populacional de carraças e impedir o contacto com a população humana. Exige um conhecimento detalhado da área de trabalho, do ciclo de vida das espécies presentes e uma coordenação organizada entre as entidades interessadas (municípios, parques naturais, entidades particulares, empresas privadas, etc.) e os responsáveis pelo programa de controlo. Os exemplos mais comuns de controlo físico são: Limpeza e aragem de terrenos baldios Eliminação de pilhas de lenha ou muros de pedra próximo das moradias Gestão das zonas húmidas Controlo de populações de animais silváticos Controlo químico Esta foi a metodologia mais aplicada na luta contra as carraças e consiste na aplicação de acaricidas de origem sintética no ambiente ou nos animais domésticos e de companhia. Controlo biológico O controlo biológico envolve a utilização cuidada de um predador, agente patogénico, parasita, competidor ou toxina produzida por um microrganismo para reduzir a densidade de uma população alvo. As vantagens desta metodologia são os reduzidos efeitos nefastos no

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ecossistema, relativamente aos acaricidas convencionais, e a alta especificidade com que se ataca a população alvo a controlar.

Campanhas educacionais As campanhas educacionais promovem a divulgação de informação sobre como evitar a proliferação e a picada de carraças. As campanhas de sensibilização da população promovem a aquisição de um maior conhecimento das características das carraças, embora o êxito destas campanhas seja difícil de avaliar.

4.5. Conclusões
Durante anos, em Portugal, só se pensou nas carraças como uns parasitas reincidentes que aparecem nos nossos animais domésticos. Nunca se pensou na sua imensa importância como vectores de agentes de doença e causadores de enormes prejuízos ao nível das explorações pecuárias e da Saúde Pública. Apesar de ser impossível erradicar as carraças, podemos pensar em medidas de controlo e de luta contra as carraças que impeçam a disseminação de pragas e o estabelecimento de novos focos de doença. O conhecimento das espécies ixodológicas, a sua distribuição geográfica e hospedeiros associados permite-nos estabelecer actividades de vigilância epidemiológica para que medidas de prevenção, controlo e mitigação possam ser implementadas atempadamente.

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5. Métodos no REVIVE
Um programa de vigilância de uma doença transmitida por vectores é um sistema organizado de recolha de dados, que compreende várias componentes. No primeiro ano do projecto REVIVE e em função dos objectivos propostos, a vigilância vai incidir principalmente nos vectores culicídeos (mosquitos) e ixodídeos (carraças). Assim vão ser aplicados métodos de colheita das várias fases do ciclo de vida das carraças (fase de vida livre e fase de vida parasitária), métodos de identificação dos espécimes capturados e métodos de biologia molecular para a detecção de agentes infecciosos como rickettsias e borrélias. Vários parâmetros importantes num programa de vigilância vão ter de ser analisados e normalizados, tal como a escolha dos locais de captura, os horários de captura, a recolha de dados ambientais e o envio das amostras capturadas. Só com o cumprimento destes requisitos e com uma boa coordenação das entidades envolvidas se garantem as condições necessárias para um desenrolar positivo do projecto REVIVE. Os métodos a utilizar já foram sumariamente descritos e encontram-se enunciados nos protocolos constantes em anexo.

5.1. Manuseamento e Envio de amostras
As amostras das carraças podem ser enviadas em tubos de plástico secos ou outro recipiente seco que deverá conter algumas ervas para que seja permitida a manutenção da humidade no interior do tubo, sem esta existir em excesso. Nos casos em que o artrópode não esteja nas melhores condições (uma remoção traumática), uma vez que pode vir a morrer durante o período que antecede a sua observação no laboratório, deverá ser adicionado álcool à amostra que permitirá que esse exemplar seja estudado para a detecção de agentes infecciosos. Em exemplares deteriorados não se poderá realizar a pesquisa de agentes infecciosos. Na identificação taxonómica é importante o estado de integridade das amostras que propriamente o estado vital, uma vez que amostras danificadas pode impedir a observação de características essenciais para a diagnose específica. O transporte é facilitado quando o frasco ou a garrafa são de plástico com rolha de rosca. Cada tubo deve ser sempre acompanhado pelo Boletim de colheita (ver Anexo)

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5.2. Recolha de dados no campo
Vários factores ambientais devem ser registados nas sessões de colheita. Estes dados devem ser enviados com as amostras e ter a mesma periodicidade. A existência de um Boletim de Colheita facilita o processo de preenchimento. O tipo de habitat deve ser indicado, assim como outras observações que sejam importantes à descrição e caracterização do local de colheita, como por exemplo a presença de animais de pasto ou domésticos. As coordenadas GPS de todos os locais de colheita devem ser registadas. A temperatura máxima e mínima, a humidade, o vento e a chuva são também factores a ter em conta. Todos estes requisitos vão simplificados num Boletim de Colheita que será preenchido a cada colheita.

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Contactos
Centro de Estudos de Vectores e Doenças Infecciosas Doutor Francisco Cambournac/ Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge Av. Liberdade 5 2965 575 Águas de Moura

265 938 290/ 265 912 222 265 912 155

Sofia Núncio sofia.nuncio@insa.min-saude.pt Margarida Santos Silva m.santos.silva@insa.min-saude.pt Rita de Sousa rita.sousa@insa.min-saude.pt Ana Sofia Santos ana.santos@insa.min-saude.pt Isabel Lopes de Carvalho isabel.carvalho@insa.min-saude.pt

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Bibliografia Recomendada
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Anexos

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ANEXO I - Protocolo de colheita de carraças na vegetação
Técnica: Flagging (ou bandeira)

Objectivo: colheita das carraças na vegetação Material: - Bandeiras para colheita na vegetação - Pinças - Luvas - Contentores adequados tubos plásticos com rolha (em casos excepcionais poderão ser garrafas de água secas ou tubos com álcool) - Termómetro, higrómetro e GPS - Uso de vestuário adequado - O Boletim de Colheita que deve ser preenchido para cada local em que se efectuar a colheita.

Procedimento: • Passar de um pano turco, de cor branca sobre a vegetação; • A uma velocidade constante em linhas de aproximadamente 100m; • A cada cinco passos é necessário verificar se existem carraças agarradas ao pano para evitar que se soltem; • As carraças removidas devem ser colocadas em tubo rolhado, contendo algumas ervas tipo relva para manter a humidade até à chegada ao laboratório; • Colocar não mais do que 20 indivíduos por tubo em cada área rastreada. Identificar os tubos com o número do boletim respectivo; • Caso a entrega ao laboratório não seja imediata, as carraças devem ser mantidas em condições de refrigeração (p. exemplo no frigorífico na prateleira destinada aos vegetais)

Nota: As toalhas devem ser lavadas após cada utilização para tal devem ser desmontada, removido o atilho e retirados todos os resíduos. A lavagem deve ser efectuada entre 40-60ºC sem adição de detergente e repetida se necessário.

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ANEXO II - Protocolo de colheita de carraças nos hospedeiros
Técnica: Remoção directa em hospedeiros

Objectivo: colheita de carraças fixas a animais domésticos, silváticos ou ao Homem

Material: - Luvas - Pinças - Contentores adequados tubos plásticos com rolha (em casos excepcionais poderão ser garrafas de água secas ou tubos com álcool) - Termómetro, higrómetro e GPS - O Boletim de Colheita que deve ser preenchido para cada local e data.

Procedimento: • Prender a carraça com uma pinça ou então com o polegar e o indicador utilizando algodão, papel ou luvas para evitar o contacto directo com a pele; • Tão próximo do local de inserção na pele quanto possível, rodar ligeiramente a carraça e puxar com uma força constante até que esta se solte; • As carraças removidas devem ser colocadas em tubo rolhado, contendo algumas ervas tipo relva para manter a humidade até à chegada ao laboratório; • Colocar não mais do que 10 indivíduos ingurgitados por tubo e por animal rastreado; • Identificar os tubos com o número do boletim respectivo, sendo que se forem rastreados vários animais da mesma área cada tubo deve também mencionar qual a proveniência das carraças (p. ex nome do cão, nº de brinco de bovino, ovino etc.); • Caso a entrega ao laboratório não seja imediata, as carraças devem ser mantidas em condições de refrigeração (p. exemplo no frigorífico na prateleira destinada aos vegetais)

Nota: No caso do Homem deve desinfectar-se o local da picada e caso se registem alterações do estado de saúde como aparecimento de febre, manchas na pele, dores musculares, etc., deve consultar-se um médico. Pesquisar totalmente cada hospedeiro durante 3-5 minutos, contudo deverá ter especial atenção na região das orelhas focinho, pescoço, dorso e ventre axilas, virilhas. Usar um tubo por cada hospedeiro pesquisado e identifica-lo correctamente.
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ANEXO III - Protocolo de Envio de Amostras
As amostras deverão ser enviadas para o CEVDI juntamente com os culícideos, ou seja uma vez por mês numa embalagem refrigerada contendo todas as capturas efectuadas pela ARS durante esse período de tempo. Devem devidamente acondicionados e transportados em caixas térmicas ou de esferovite com termoacumuladores que mantenham baixa a temperatura. Os boletins de colheita devem acompanhar sempre os tubos. Excepcionalmente, as amostras também poderão ser enviadas por correio azul em envelopes almofadados ou então trazidas em mãos para o CEVDI. Não se deve enviar amostras nem em véspera de feriados nem na véspera de fim-de-semana. Pois podem ficar retidas só chegando ao laboratório dias depois o que poderá ter maiores consequência nos períodos mais quentes do ano facilitando que as amostra se degrade antes de ser processada no laboratório.

41

ANEXO IV - Boletim de Colheita
O boletim de colheita deverá ser sempre preenchido para cada local em que se efectuar a colheita.

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Referências bibliográficas
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Acta Med Port 2006; 19: 39-48

CARRAÇAS ASSOCIADAS A PATOLOGIAS INFECCIOSAS EM PORTUGAL
M.ª MARGARIDA SILVA, A SOFIA SANTOS, PERPÉTUA FORMOSINHO, FÁTIMA BACELLAR Centro de Estudos de Vectores e Doenças Infecciosas, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Lisboa.

RESUMO

Os ixodoideos, também designados por carraças, são artrópodes hematófagos estritos ectoparasitas de vertebrados terrestres. Estes artrópodes estão presentes em quase todas as regiões zoogeográficas. Embora sejam considerados zoofílicos, são várias as espécies associadas à transmissão ao Homem de importantes agentes etiológicos, responsáveis pelo aparecimento de diversas doenças infecciosas. Julgamos por isso oportuno, contribuir desta forma para uma revisão dos aspectos relevantes, relacionados com a caracterização destes artrópodes, como vectores de agentes infecciosos em Portugal, abordando aspectos biológicos, ecológicos e epidemiológicos com interesse em Saúde Pública.
Palavras-Chave – Ixodídeos; Agentes transmitidos por ixodídeos; Saúde Pública; Portugal

SUMMARY

TICKS ASSOCIATED TO INFECTIOUS PATHOLOGIES IN PORTUGAL Ticks are hematophagos arthropods that parasitize terrestrial vertebrates. They are world wide, living in almost all terrestrial regions. Although mainly associated to animals, there are several tick species that bite humans and transmit tick-borne agents causing important infectious disease. In this paper the authors revise the most outstanding aspects of those arthropods as vectors of infectious pathogens in Portugal, focusing biologic, ecologic and epidemiologic features with Public Health interest.
Key-Words – Ticks; Tick-borne pathogens; Public Health; Portugal

Recebido para publicação: 8 de Março de 2005

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ARTIGO REVISÃO
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

MARIA MARGARIDA SANTOS SILVA et al

IXODÍDEOS

INTRODUÇÃO Os ixodoideos, vulgarmente designados por carraças, são artrópodes ectoparasitas hematófagos estritos. Existem em quase todas as regiões zoogeográficas, parasitando uma ampla variedade de hospedeiros como mamíferos, aves, répteis e anfíbios. São conhecidas aproximadamente 850 espécies distribuídas por três famílias: Nuttallielidae, Argasidae e Ixodidae. Nuttalliela namaqua, é o único representante da família Nuttallielidae. É uma espécie rara, apenas conhecida na África do Sul, que possui características intermédias entre os elementos das outras famílias e cujo papel na transmissão de agentes infecciosos é desconhecido1,2. Na família Argasidae são conhecidas cerca de 170 espécies que, pela ausência de escudo dorsal, são designadas argasídeos ou “carraças de corpo mole”. Da família Ixodidae fazem parte cerca de 650 espécies de ixodídeos, vulgarmente designados por “carraças de corpo duro” pela presença de escudo dorsal. Nestas duas últimas famílias, cerca de 10% das espécies conhecidas estão associadas à transmissão ao Homem e a outros vertebrados, de agentes patogénicos responsáveis por várias doenças infecciosas como ricketsioses, borrelioses, ehrlichioses, tularémia, arboviroses, babesioses, entre outras patologias1. Contudo, é a família Ixodidae a que se reveste de maior importância médica pelo número de espécies implicadas na transmissão de agentes patogénicos, facto que nos levou a considerar uma revisão sobre este tema. Ixodídeos O ciclo biológico dos ixodídeos compreende quatro fases evolutivas: uma fase inactiva - ovo e três fases activas - larva, ninfa e adulto (macho ou fêmea) (Figura 1). Durante as fases activas, os ixodídeos alternam entre períodos de intensa actividade (procura de hospedeiro e alimentação) e períodos não activos (metamorfose e diapausa), necessitando sempre de uma refeição de sangue para passarem ao estado evolutivo seguinte. Ao notável sucesso destes artrópodes, como vectores potenciais de agentes patogénicos, são associadas características biológicas singulares2,3 (Quadro I), que os colocam, imediatamente a seguir aos mosquitos, como os artrópodes vectores de maior importância em Saúde Pública1,2. Vectores mecânicos / Vectores biológicos Na transmissão efectiva do agente infeccioso os ixodídeos podem actuar quer como vectores mecânicos, quer como vectores biológicos4. No primeiro caso, a sobrevivência do agente depende da sua capacidade para suportar as condições do tracto digestivo do artrópode, até ser transmitido ao hospedeiro vertebrado. O agente patogénico não se multipli40

3 1 2 5

4

Fig 1 - Fases evolutivas do ciclo de vida dos ixodídeos. Legenda: 1-ovo; 2-larva; 3-ninfa; 4-macho; 5-fêmea.

Quadro I - Características biológicas mais importantes dos ixodídeos (adaptado de Sonenshine, 1991)
Hematofagia obrigatória (larvas, ninfas e adultos) Apresentam ciclos de vida mono, di e trifásicos, consoante necessitam de se alimentar em um, dois ou três hospedeiros vertebrados
a

A alimentação é um processo geralmente lento o que propicia um alargado período de interacção com o hospedeiro Todas as fases de desenvolvimento ingerem grandes volumes de sangue Digestão gradual e intracelular, que ocorre sem a presença de enzimas no lúmen intestinal Existência de transmissão transtadial ou transmissão horizontal Existência de transmissão transovárica ou transmissão vertical Existência de um sistema sensorial desenvolvido Diapausa
e d c b

Grande longevidade e elevadas taxas de prolificidade Distribuição por quase todos os habitats terrestres e reduzido número de predadores naturais
No caso do ciclo monofásico todas as fases de desenvolvimento do artrópodo alimentamse no mesmo hospedeiro, ao contrário do ciclo difásico, em que apenas as fases imaturas partilham o mesmo hospedeiro. Contudo, mais de 90% das espécies apresentam ciclos trifásicos (em que cada fase de desenvolvimento se alimenta num hospedeiro diferente), o que aumenta a probabilidade de serem infectadas e a capacidade de transmitir a infecção. b As metamorfoses não envolvem a degeneração e regeneração total de cada órgão, pelo que, os microrganismos sobrevivem à muda de fase evolutiva, processo denominado por transmissão transtadial ou transmissão horizontal. c Em algumas associações ixodídeo/agente infeccioso ocorre a invasão do sistema reprodutor, permitindo assim a transmissão da infecção à progenitura, processo denominado por transmissão transovárica. Neste caso os ixodídeos são considerados também, para além de vectores, reservatórios naturais do agente. d Um sistema sensorial bem desenvolvido permite aos ixodídeos detectar a presença de potenciais hospedeiros (quer pelas suas emissões de dióxido de carbono, ácido láctico, amoníaco e outros odores, como pelas vibrações que causam). Deste modo, podem ocupar posições estratégicas, em trilhos de passagem, que aumentam as probabilidades de sucesso no encontro com novos hospedeiros. e Adaptação que lhes permite a sobrevivência em ambientes desfavoráveis.
a

ca no vector e o artrópode apenas o transmite mecanicamente, de um hospedeiro vertebrado para outro. No caso em que o ixodídeo é vector biológico, o agente infeccioso invade o

M. Santos-Silva, 2004

CARRAÇAS ASSOCIADAS A PATOLOGIAS INFECCIOSAS EM PORTUGAL

corpo do artrópode, proliferando nos seus tecidos antes de ser transmitido a um outro hospedeiro vertebrado. Esta situação é a mais frequente, verificando-se para a maioria dos agentes associados a estes artrópodes4,5. Capacidade vectorial / Competência dos vectores Para a avaliação da eficácia de um ixodídeo como vector existem dois parâmetros principais: a capacidade vectorial e a competência do vector. A capacidade vectorial é a habilidade que uma determinada espécie tem, no tempo e no espaço, para transmitir o agente patogénico. Factores como a dimensão da população dos artrópodes, a longevidade, o número de posturas e o próprio comportamento alimentar afectam a capacidade vectorial de uma determinada população. A competência de um vector é a capacidade intrínseca que um ixodídeo tem para manter a infecção e consequentemente transmitir biologicamente o agente infeccioso, durante a alimentação. A Organização Mundial de Saúde, em 1985, definiu “vector competente” como aquele que possui um limiar de infecção baixo, que apresenta um reduzido período de incubação extrínsecaa) e uma elevada eficácia de transmissão6. Assim, para que um ixodídeo possa ser considerado um vector competente de determinado agente infeccioso é necessário que apresente evidências, não só da sua manutenção, mas também da capacidade de o transmitir a um hospedeiro susceptível.
Agentes patogénicos Vírus
Encefalite transmitida por carraça (TBE)

Infecção/transmissão do agente infeccioso A infecção de um ixodídeo com um agente infeccioso pode ocorrer através de vários processos, nomeadamente por: I. transmissão transtadial e/ou transovárica; II. alimentação num hospedeiro vertebrado infectado; III. cofeedingb). De um modo geral, a transmissão do agente infeccioso a um hospedeiro vertebrado deve-se à picada de um ixodídeo infectado, com a consequente inoculação de secreções salivares contendo o agente. Porém, e dependendo da natureza do agente infeccioso, a transmissão também pode ocorrer, nas seguintes situações: I. Quando o ixodídeo se alimenta, estando as suas peças bucais contaminadas com sangue infectado, proveniente de um hospedeiro ao qual se fixou anteriormente, mas no qual não completou a refeição; II. Quando o ixodídeo infectado liberta fezes contaminadas, sobre a descontinuidade cutânea, resultante do acto alimentar ou quando ocorre o seu esmagamento sobre esse local; III. Quando o ixodídeo infectado é deglutido4,5. Embora os ixodídeos sejam zoofílicos, têm sido observadas, com alguma frequência, diferentes espécies a parasitar o Homem, e que têm sido implicadas na transmissão de diversos agentes patogénicos (Quadro II). Esta situação não é atribuída a uma tendência antropofílica, mas sim à oportunidade de contacto com o Homem, o qual se torna um hospedeiro acidental.
Distribuição geográfica Principais vectores
Ixodes ricinus, I. persulcatus Hyalomma marginatum marginatum, H. m. rufipes, Haemaphysalis spp. Dermacentor andersoni

Quadro II – Principais agentes patogénicos transmitidos ao Homem por ixodídeos.
Doença
Meningoencefalite Europa, Ásia

Febre hemorrágica Crimeia-Congo (CCHF) Febre da carraça do Colorado (CT F)

Febre hemorrágica Doença febril sistémica

Europa, Ásia, África América do Norte

Bactérias
Rickettsias Rickettsia ricketsii Febre exantemática das Montanhas Rochosas Febre botonosa ou escaro-nodular América do Norte Central e do Sul Sub-região Mediterrânica Ásia e África Dermacentor spp. Amblyomma spp., Rhipicephalus spp. Rhipicephalus spp., Haemaphysalis spp., Amblyomma spp., Hyalomma spp. Haemaphysalis spp. Amblyomma hebraeum Dermacentor marginatus

R. conorii

R. japonica R. africae R. slovaca

Febre exantemática oriental Febre da carraça africana Tibola (Linfadenopatia causada pela picada da carraça) Perimiocardite crónica Ehrlichiose monocítica humana Ehrlichiose granulocítica humana (HGE) Borreliose de Lyme

Japão África Europa

R. helvetica Ehrlichias Ehrlichia chaffeensis Anaplasma phagocytophilum Borrelias Borrelia burgdorferi sl.

Europa EUA EUA Europa EUA Europa África Austrália Europa, Ásia, Africa, Am érica do Norte Europa, Ásia, África, Am érica do Norte

Ixodes ricinus Amblyomma americanum Ixodes scapularis I. ricinus; Ixodes scapularis, I. pacificus /. ricinus, I. persulcatus I. persulcatus I. holocyclus Haemaphysalis leporipalustris, Dermacentor marginatus, D. variabilis, D. andersoni, D. americanum Rhipicephalus spp.

Outras bactérias Francisella tularensis Coxiella burnetii

T uarémia Febre Q

Protozoários
Babesias Babesia microti B. divergens Babesiose humana Babesiose humana EUA Europa I. scapularis I. ricinus

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MARIA MARGARIDA SANTOS SILVA et al

Os agentes patogénicos podem ser encontrados em focos naturais, que envolvem diversas espécies roedores e outros mamíferos silváticos. A infecção humana resulta do contacto do Homem com esses ambientes, através de actividades relacionadas com a profissão (agricultura, pastorícia, etc.) ou de lazer (campismo, caça, passeios pedestres, etc.). Contudo, alguns agentes podem ainda estabelecer focos secundários rurais ou urbanos (como é o caso das rickettsias), em que diversos mamíferos domésticos e roedores, que vivem na dependência humana, desempenham um papel importante. Neste caso, pode ocorrer infecção sem contacto do Homem com os focos naturais5. No Homem, a infecção resulta na maioria dos casos da picada do ixodídeo infectado. Considera-se no entanto, que é necessário existir um determinado período de fixação do artrópode para haver uma transmissão efectiva do agente infeccioso ao homem. Por exemplo, no caso de agentes rickettsiales pode ser de 6-20h7. Na maioria dos casos, qualquer uma das formas evolutivas dos ixodídeos é capaz de transmitir o agente infeccioso, sendo particularmente importantes as fases imaturas que, pelas suas reduzidas dimensões, são dificilmente detectadas. É, sobretudo, ao estado de ninfa que se deve grande parte das infecções no Homem. Para além da picada, também está descrita na literatura a infecção por contaminação de descontinuidades cutâneas ou de mucosas, quer com fluídos corporais dos artrópodes infectados, por exemplo quando se procede à desparasitação de animais, quer com as fezes dos ixodídeos (esta última situação ocorre concretamente com artrópodes infectados por Coxiella sp. ou Francisella sp.)3. Convém ainda referir que, para alguns agentes, a infecção humana não resulta exclusivamente do contacto com os ixodídeos. A infecção com o vírus TBE (Tick-borne encephalitis), pode ser adquirida pela ingestão de produtos derivados de animais infectados, nomeadamente leite8. Adicionalmente, Coxiella sp. e

Francisella sp. são espécies muito resistentes às condições ambientais, podendo contaminar os solos e reservas de água. Deste modo, a infecção humana pode resultar do contacto com estes ambientes e/ou com fluídos biológicos contaminados, provenientes da manipulação de animais infectados3. Principais espécies ixodológicas com interesse médico Portugal apresenta condições climáticas, ecológicas e ambientais favoráveis ao desenvolvimento de várias espécies ixodológicas. Actualmente, estão identificadas 21 espécies classificadas na família Ixodidae, das quais várias são reconhecidos vectores de agentes etiológicos causadores de doença no Homem (Quadro III). Pela importância que alguns destes taxa representam, em termos de Saúde Pública, realçaremos algumas das espécies de ixodídeos que apresentam um papel, real ou potencial, na transmissão de agentes infecciosos ao Homem (Quadro IV, Figura 2).
Arbovírus Vírus Dhori Vírus Palma Vírus Thogoto Borrelia Borrelia burgdorferi sl. Rickettsiales Anaplasma phagocytophilum Bar 29/MTU5 Rickettsia aeschlimanii Rickettsia conorii Rickettsia helvetica Rickettsia massilae Rickettsia slovaca

Fig. 2 – Localização dos microrganismos isolados /detectados em ixodídeos

Quadro III - Sistemática das espécies de Ixodidae existentes em Portugal e seus hospedeiros preferenciais.
Família Ixodidae Género Rhipicephalus
R.sanguineus / Canídeos domésticos R. turanicus / Ovinos R. pusillus / Pequenos mamíferos silváticos R. bursa / Caprinos
1 R. annulatus / Bovinos

Ixodes
I. ricinus / Mamíferos silváticos I. hexagonus / Mamíferos silváticos I. vespertillionis / Quirópteros I. ventalloi / Pequenos mamíferos silváticos I. bivari / Pequenos mamíferos silváticos I. canisuga / Mamíferos silváticos I. simplex / Quirópteros I. acuminatus / Pequenos mamíferos silváticos I. frontalis / Aves silváticas

Dermacentor Espécie / Hospedeiro preferêncial
D. marginatus / Bovinos D. reticulatus / Canídeos domésticos e silváticos
2

Hyalomma

Haemaphysalis

H. lusitanicum / Bovinos H. marginatum / Bovinos

H. punctata / Mamíferos domésticos e silváticos H. inermis / Mamíferos silváticos H. hispanica / Pequenos mamíferos silváticos

1

Espécie também denominada por Boophilus annulatus; 2 Espécie anteriormente denominada por Dermacentor pictus

42

CARRAÇAS ASSOCIADAS A PATOLOGIAS INFECCIOSAS EM PORTUGAL

Quadro IV – Microrganismos detectados/ isolados de ixodídeos em Portugal.
Espécie ixodológica (Vector/Reservatório)
Dermacentor marginatus Haemaphysalis punctata

Agente Etiológico
Rickettsia slovaca Borrelia burgdorferi sl Vírus Palma Rickettsia aeschlimanii Vírus Dhori Borrelia burgdorferi sl Anaplasma phagocytophilum

Patologia associada
Tibola Borreliose de Lyme _ _ _ Borreliose de Lyme Ehrlichiose granulocítica humana Borreliose de Lyme Perimiocardite crónica Ehrlichiose granulocítica humana Perimiocardite crónica Febre botonosa ou escaro-nodular _ __ _ _

Patogenia em Portugal
Desconhecida Conhecida Desconhecida Desconhecida Desconhecida Conhecida Desconhecida Conhecida Desconhecida Desconhecida Desconhecida Conhecida Desconhecida Desconhecida Desconhecida Desconhecida

Assinalado em Portugal
Bacellar et al, 1995 Baptista et al, 2004 Filipe et al, 1994 Bacellar et al, 1999 Filipe & Casals, 1979 Baptista et al, 2004 Santos et al, 2004a Núncio et al, 1993 Bacellar et al, 1999 Santos et al, 2004a Bacellar et al, 1999 Bacellar et al, 1995 Bacellar et al, 1995 Filipe & Calisher, 1984 Bacellar et al, 1995 Bacellar et al, 1995

Hyalomma marginatum

Ixodes ricinus

Borrelia burgdorferi sl. Rickettsia helvetica

Ixodes ventalloi

Anaplasma phagocytophilum Rickettsia helvetica Rickettsia conorii

Rhipicephalus sanguineus

R. massiliae Vírus Thogoto

Rhipicephalus turanicus

Rickettsia massiliae Bar 29/MTU5

Género Rhipicephalus Neste género encontra-se classificada uma das espécies de maior importância no nosso País, Rhipicephalus sanguineus. Esta é uma espécie que existe em quase todas as regiões do mundo, com a excepção das zonas circumpolares. Este ixodídeo encontra-se distribuído de Norte a Sul do País estando, do ponto de vista ecológico, adaptado a uma grande variedade de climas e hospedeiros vertebrados. Parasita numerosos animais silváticos e todas as espécies de animais domésticos, estando particularmente associada ao cão doméstico - Canis familiaris9,10. Do ponto de vista biológico, R. sanguineus tem uma evolução do tipo trifásicoc) e ditrópicod), sendo as formas adultas exofílicase) e as imaturas endofílicas, evoluindo habitualmente nos locais onde os hospedeiros se refugiam. Porém, no caso em que as populações de ixodídeos vivem em estrita dependência do seu hospedeiro preferencial (o cão doméstico), o ciclo alimentar manifesta-se essencialmente de forma monotrópica e endofílica, alojando-se tanto as formas imaturas com os adultos nos canis ou dentro das próprias habitações do Homem. As maiores densidades populacionais foram encontradas nos meses mais quentes (Julho e Agosto), pelo que, esta espécie, está melhor adaptada a temperaturas altas, não sendo exigente quanto a humidade relativa, sobrevivendo com facilidade em climas secos. As formas adultas são encontradas em quase todos os meses do ano, com um incremento na altura de Primavera/Verão, resultante de uma maior actividade e abundância do vector. A maior actividade das formas imaturas está sobretudo concentrada nos meses de verão. Quando as condições ambientais (temperatura, 43

humidade relativa, fotoperíodo) são favoráveis esta espécie pode completar anualmente 2 ou 3 ciclos de vida, com posturas na ordem dos 5000 ovos. A R. sanguineus cabe-lhe a transmissão de estirpes do complexo-Rickettsia conorii, agentes da febre botonosa ou escaro-nodular11,12 que, no nosso País, é a principal doença associada a ixodídeos. Classificada como uma doença de declaração obrigatória, apresenta uma taxa de incidência de 9.8/105 habitantes sendo uma das mais elevadas face aos países da bacia do Mediterrâneo13. A febre botonosa apresenta um período de incubação de aproximadamente uma semana, muitas vezes assintomático, após o qual surge um quadro clínico de início súbito caracterizado por cefaleias, mialgias, artralgias e prostração acentuadas. Podem ainda ocorrer sintomas gastrintestinais, tais como vómitos e diarreia. Após uma semana, aparecem manchas na pele - o exantema maculo–papular, que atinge as palmas das mãos e as plantas dos pés, podendo poupar a face. No local da picada da carraça forma-se uma escara, lesão com crosta negra de 0,5–2 cm de diâmetro, com halo eritematoso. Contudo, pode ter um aspecto pustuloso ou ser apenas uma pápula eritematosa de pequeno diâmetro14. De R. sanguineus foram ainda isoladas outras rickettsias, consideradas não patogénicas como R. massiliae (também isolada de R. turanicus) e um agente ainda sem nomenclatura oficial, Bar 29/MTU511,16. Este ixodídeo está também associado a Coxiella burnetti (agente etiológico da febre Q). Embora este último agente infeccioso circule em território nacional e já tenha sido por nós detectado em Rhipicephalus spp. (assim como em Haemaphysalis spp.) por técnicas de biologia molecular,

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ainda não foi possível o seu isolamento. A febre Q é uma doença polimorfa, quando aguda pode apresentar-se como uma pneumonia ou um síndroma gripal ou pode tornar-se crónica e manifestar-se por endocardite, infecção valvular, osteomielite e hepatite crónica. Geralmente, C. burnetti é transmitida ao Homem por aerossóis de produtos animais infectados e não pela picada do artrópode, não estando excluída a hipótese das suas fezes manterem o agente viável e ser uma fonte de infecção. A partir de R. sanguineus foi também possível o isolamento de agentes virais nomeadamente o vírus Thogoto15, cuja responsabilidade na patologia de doenças infecciosas ainda não está esclarecida (Quadro IV). Género Ixodes No género Ixodes, é a espécie Ixodes ricinus que se reveste de maior importância médica. Este ixodídeo apresenta uma grande área de expansão, ocupando toda a Europa, bem como a África Mediterrânica e a Ásia Menor. Em Portugal, embora com uma distribuição desigual, pode ser encontrado de Norte a Sul, predominantemente nas regiões e/ou locais que apresentem uma cobertura vegetal considerável e onde se verifiquem elevados níveis de humidade relativa (acima de 90%). É uma espécie muito dependente do estado higrométrico do ar e da temperatura, cujo equilíbrio lhe é essencial. A insuficiência de cobertura vegetal e as temperaturas elevadas comprometem a vitalidade das formas evolutivas, levando-as a procurar refúgios apropriados à sua sobrevivência e a utilizar, frequentemente, mecanismos de defesa como a diapausa. Esta espécie apresenta uma excepcional capacidade de adaptação a diversos hospedeiros, parasitando tanto mamífe-

ros domésticos como silváticos, aves e alguns lacertídeos, sendo também frequentemente detectada a parasitar o Homem9,10. Do ponto de vista biológico é uma espécie de evolução trifásica, exofílica e politrópica. A sua actividade estende-se por todo o ano, porém com alguma sazonalidade. As formas adultas estão activas durante os períodos menos quentes do ano (Setembro/Março) interrompendo a actividade durante o período de Verão. Ao contrário, as formas imaturas têm maior actividade nos meses de Primavera/Verão (Abril/Junho), justificando a sazonalidade observada nas doenças associadas a este artrópode. Na Natureza I. ricinus apresenta um ciclo de vida anual, podendo estender-se até três anos, com posturas não superiores a 3000 ovos. I. ricinus é o principal vector de Borrelia burgdorferi sl, agente etiológico da borreliose de Lyme. Esta patologia é considerada multissistémica e multifásica, com sintomatologia variável, podendo ser enquadrada segundo o predomínio das manifestações em: síndromas febris, sintomatologia predominantemente dermatológica, osteo-articular e neurológica, atingindo preferencialmente a pele, as articulações, o sistema nervoso e o coração. Numa fase precoce da doença, o diagnóstico clínico baseia-se na presença do eritema migrans (lesão dermatológica característica) que, quando presente, é suficiente para estabelecer o diagnóstico clínico. Até ao momento, a borreliose de Lyme é a única doença comprovadamente associada a I. ricinus no nosso país, porém, esta espécie poderá ter um papel relevante na transmissão de outros agentes infecciosos. Deste ixodídeo têm sido isoladas estirpes de Rickettsia helvetica11,16 agente que em outras regiões da Europa foi associado a periomiocardite crónica e à morte

Quadro IV – Microrganismos detectados/ isolados de ixodídeos em Portugal
Espécie ixodológica (Vector/Reservatório)
Dermacentor marginatus Haemaphysalis punctata

Agente Etiológico
Rickettsia slovaca Borrelia burgdorferi sl Vírus Palma Rickettsia aeschlimanii Vírus Dhori Borrelia burgdorferi sl Anaplasma phagocytophilum

Patologia associada
Tibola Borreliose de Lyme _ _ _ Borreliose de Lyme Ehrlichiose granulocítica humana Borreliose de Lyme Perimiocardite crónica Ehrlichiose granulocítica humana Perimiocardite crónica Febre botonosa ou escaro-nodular _ __ _ _

Patogenia em Portugal
Desconhecida Conhecida Desconhecida Desconhecida Desconhecida Conhecida Desconhecida Conhecida Desconhecida Desconhecida Desconhecida Conhecida Desconhecida Desconhecida Desconhecida Desconhecida

Assinalado em Portugal
Bacellar et al, 1995 Baptista et al, 2004 Filipe et al, 1994 Bacellar et al, 1999 Filipe & Casals, 1979 Baptista et al, 2004 Santos et al, 2004a Núncio et al, 1993 Bacellar et al, 1999 Santos et al, 2004a Bacellar et al, 1999 Bacellar et al, 1995 Bacellar et al, 1995 Filipe & Calisher, 1984 Bacellar et al, 1995 Bacellar et al, 1995

Hyalomma marginatum

Ixodes ricinus

Borrelia burgdorferi sl. Rickettsia helvetica

Ixodes ventalloi

Anaplasma phagocytophilum Rickettsia helvetica Rickettsia conorii

Rhipicephalus sanguineus

R. massiliae Vírus Thogoto

Rhipicephalus turanicus

Rickettsia massiliae Bar 29/MTU5

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CARRAÇAS ASSOCIADAS A PATOLOGIAS INFECCIOSAS EM PORTUGAL

de jovens adultos17. Estudos recentes, revelaram ainda a presença nesta espécie de Anaplasma phagocytophilumf) (agente também detectado em I. ventalloi)19. Este agente é responsável por uma zoonose designada anaplasmose granulocítica humana (actual designação para ehrlichiose granulocitica humana), que ocorre principalmente nos Estados Unidos mas que também já foi assinalada em algumas regiões da Europa20. Esta doença costuma cursar com quadros febris moderados, geralmente de prognóstico benigno, acompanhados de uma sintomatologia inespecífica como febre, arrepios, mal-estar geral, cefaleias e mialgias, entre outros, e alterações hematológicas como trombocitopénia, leucopénia e aumento dos valores das transaminases21. Convém ainda salientar o facto de I. ricinus estar associado à virose provocada pela actividade do vírus TBE que é sem dúvida a arbovirose mais importante que afecta o Homem na Europa22. A maioria das infecções por este vírus são assintomáticas, contudo podem evoluir para uma infecção do sistema nervoso central. Neste caso, a doença apresenta um curso bifásico, em que a primeira fase é caracterizada por febre, cefaleias, náuseas, vómitos e uma segunda fase com sinais e sintomas de meningite e meningoencefalite. Este ixodídeo está também implicado na transmissão de protozoários do género Babesia, que noutros países europeus tem sido implicado em casos de babesiose humana. Muito embora este agente ainda não tenha sido detectado no nosso país a sua presença em Espanha23 deixa em aberto a possibilidade da sua ocorrência no território nacional. Género Dermacentor Neste género, Dermacentor marginatus é a espécie que mais se destaca, quer pela frequência com que é detectada, quer pelo variado número de hospedeiros que parasita, abrangendo, praticamente, todos os mamíferos domésticos, uma variada gama de animais silváticos e o Homem9,10. Esta espécie encontra-se presente na Europa, Ásia Central e no Norte de África, estando em Portugal distribuída por todo o País. Ocorre em regiões de clima temperado e seco, no entanto suporta com facilidade temperaturas mais elevadas, não sendo também muito exigente em humidade. Do ponto de vista biológico, D. marginatum é uma espécie de ciclo trifásico e ditrópico, com as formas adultas exofílicas e as fases imaturas endofílicas. As formas adultas apresentam uma maior actividade na altura do Outono/Inverno e os estados imaturos de larva e ninfa na Primavera/Verão. No entanto, poder-se-ão encontrar todas as fases de desenvolvimento em qualquer época do 45

ano. Na Natureza esta espécie realiza um ciclo de vida por ano, com posturas que podem chegar até aos 7000 ovos. Embora com menor relevância que as espécies anteriormente referidas Dermacentor marginatus também tem sido associada à parasitação do Homem. A partir desta espécie, foi isolada Rickettsia slovaca, agente que no nosso país apresentou uma elevada prevalência16,24. R. slovaca, tida como uma rickettsia não patogénica, é hoje associada a uma nova patologia denominada TIBOLA (tick-borne lymphadenopathy ou linfoadenopatia causada pela picada de carraça)25. As manifestações clínicas são descritas como uma reacção no local da picada, geralmente localizada na cabeça, em pápula ou vesícula que evolui para uma lesão exsudativa, necrótica, formando-se uma crosta e alopécia, acompanhada de adenopatias cervicais e submaxilares. Um dos sintomas, febre baixa, pode persistir por meses e a alopécia por anos25. Importa no entanto referir que até ao momento não foram descritos casos de TIBOLA em Portugal. Género Hyalomma Em Portugal é sem dúvida a espécie Hyalomma marginatum a que assume um papel preponderante dentro deste género. Esta espécie apresenta uma larga distribuição geográfica, sendo muito comum na Ásia, em algumas regiões de África e nos países da orla do mediterrânio. Este ixodídeo ocorre de Norte a Sul do País e do ponto de vista biológico é considerado uma espécie de ciclo quer trifásico quer bifásico, endofílica ou exofílica, monotrópica ou ditrópica, consoante o tipo de hospedeiros que parasita. As fases adultas são encontradas, frequentemente, a parasitar animais domésticos, nomeadamente, bovinos9,10. As formas imaturas, larvas e ninfas, têm sido encontradas a parasitar aves26, podendo também ocorrer em pequenos animais silváticos como ouriços-caixeiros e coelhos9,10. Em Portugal, o Homem também surge como hospedeiro desta espécie, sendo este trabalho o primeiro registo desta ocorrência. Em termos climáticos esta espécie está adaptada a climas quentes e secos, não sendo por isso muito exigente do ponto de vista higrométrico. O período de maior actividade das formas adultas é durante a Primavera–Verão, enquanto as formas imaturas de larvas e ninfas são encontradas, com maior facilidade, no final do Verão e durante o período do Outono-Inverno. Na Natureza, H. marginatum pode realizar mais de um ciclo de vida anual, com posturas na ordem dos 11.000 ovos. H. marginatum está associado ao isolamento da Rickettsia aeschilimanii27 cuja intervenção na patologia das doenças infecciosas ainda não está totalmente averiguada em Portugal. Em França, estão descritos al-

MARIA MARGARIDA SANTOS SILVA et al

guns casos clínicos associados a esta rickettsia, acompanhados de febre, escara, exantema cutâneo e linfangite. Todos os casos ocorreram na Primavera e estão relacionados com a migração de aves que introduziram o vector infectado 28. Nesta espécie regista-se também o isolamento do vírus Dhori, cuja responsabilidade em patologias humanas não está ainda esclarecida29. Em outros Países, nomeadamente na ex-União Soviética, Mauritânia, Senegal, Egipto e Grécia, H. marginatum está associado à transmissão de outros vírus, nomeadamente o vírus da febre hemorrágica Crimeia-Congo. Género Haemaphysalis Haemaphysalis punctata é a espécie que se destaca dentro deste género. Embora não haja registos, no país, da sua presença no Homem, foi já encontrada numa variada gama de animais domésticos, ocorrendo também em animais silváticos e em aves9,10. A área de distribuição desta espécie, engloba toda a Europa e os países africanos da orla Mediterrânica, nomeadamente Egipto, Líbia, Tunísia, Argélia e Marrocos. Em Portugal encontra–se distribuída de Norte a Sul. Do ponto de vista biológico, H. punctacta é uma espécie de ciclo trifásico, exofílica e politrópica. As formas adultas tem maior actividade no período de Outono-Inverno, ao contrário dos estados imaturos de larva e ninfa cujo período de maior actividade é a Primavera-Verão. Prefere zonas de clima temperado a frio, não sendo muito exigente nas condições de humidade relativa. Na Natureza esta espécie apresenta um ciclo de vida anual, com posturas na ordem dos 3000 ovos. A partir de H. punctacta foi possível isolar um agente serologicamente caracterizado como um novo vírus, pertencente ao grupo antigénico Bhanja, denominado por vírus Palma30. Até ao momento, não está esclarecido qual o papel que este vírus pode desempenhar em Saúde Pública. Sabe-se, porém, que outras espécies de ixodídeos, nomeadamente, D. marginatus e R. sanguineus podem também permitir laboratorialmente a sobrevivência deste vírus31. CONSIDERAÇÕES FINAIS A integração dos estudos de sistemática e ecobiologia dos ixodídeos, a par da identificação de microrganismos patogénicos de que são vectores e reservatórios naturais, é a grande aposta que vem sendo desenvolvida há quase duas décadas pela equipa do Centro de Estudos de Vectores e Doenças infecciosas, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Estes esforços concertados são indispen46

sáveis para o desenvolvimento de programas de planeamento e controlo dos ixodídeos e das doenças por estes vectoriadas, possibilitando o delineamento de zonas de potencial risco para o Homem. AGRADECIMENTOS Os autores gostariam de expressar o seu agradecimento a José Poças (Director do Serviço de Infecciologia do Hospital de São Bernardo) pela revisão do manuscrito. FOOTNOTES
a) Período que medeia a transmissão do agente infeccioso após a sua ingestão por meio da refeição sanguínea. b) Processo através do qual ixodídeos infectados e não infectados, se alimentam num determinado hospedeiro e em que a distância que os separa é inferior a um centímetro, o que os obriga a partilhar a mesma área alimentar. c) Cada fase evolutiva parasita um hospedeiro diferente. d) Um ciclo biológico ditrópico significa que as formas imaturas se alimentam-se num determinado tipo de hospedeiro, geralmente micromamíferos ou pequenos mamíferos silváticos, enquanto as formas adultas procuram hospedeiros de maior porte. No caso de ser monotrópico todas as fases evolutivas se alimentam-se no mesmo tipo de hospedeiro. Num ciclo politrópico todas as fases evolutivas têm uma grande capacidade de adaptação e podem-se alimentar-se em diversos hospedeiros. e) Refere-se à dispersão da espécie relativamente ao local onde eclodiram. Assim formas adultas exofílicas significa que os adultos se podem afastar do local em que eclodiram ao contrário das formas endofilícas. f) Anaplasma phagocytophilum é a actual designação para Ehrlichia phagocytophila, E. equi e agente da ehrlichiose granulocitica humana 18 . l) Espécie também denominada por Boophilus annulatus

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