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A INEFICIÊNCIA DO SISTEMA PRISIONAL NA RESSOCIALIZAÇÃO DO APENADO NO BRASIL

A INEFICIÊNCIA DO SISTEMA PRISIONAL NA RESSOCIALIZAÇÃO DO APENADO NO BRASIL

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A INEFICIÊNCIA DO SISTEMA PRISIONAL NA RESSOCIALIZAÇÃO DO APENADO NO BRASIL

Filipe Silva Santos

RESUMO: Este artigo trata do sistema prisional no Brasil e dos mecanismos disciplinares utilizados nas prisões brasileiras com o objetivo garantir a efetiva ressocialização do apenado. Procura-se mostrar como problemas estruturais das unidades prisionais impossibilitam o uso de tais instituições penitenciárias como instrumento que assegure a reinserção do detento na sociedade e, também,relacionar as dificuldadesda reinserção social do apenado à lógica segundo a qual funciona uma sociedade capitalista. PALAVRAS-CHAVE: sistema prisional; ressocialização; função da prisão.

1. O surgimento e funcionamento do sistema prisional

O estabelecimento da prisãocomo pena tal qual a conhecemos hoje se deu, nas sociedades ocidentais, durante passagem do século XVIII para o século XIX. Nesse período, graças, sobretudo, a influência dos ideais humanistas do Iluminismo as penas de banimento e os suplícios foram substituídos pela pena de reclusão. Entretanto, segundo Foucault, a prisão surge antes de as leis penais a definirem como pena. Ela surge juntamente com o surgimento dos mecanismos disciplinares que a caracterizam, assim, nas palavras do próprio Foucault,
A forma-prisão preexiste a sua utilização sistemática nas leis penais. Ela se constituiu fora do aparelho judiciário, quando se elaboraram, por todo corpo social, os processos para repartir os indivíduos, fixá-los e distribuí-los espacialmente, classificá-los, tirar deles o máximo de tempo, e o máximo de forças, treinar seus corpos, codificar seu comportamento contínuo, mantê-los numa visibilidade sem lacuna, formar em torno deles um aparelho completo de observação, registro e notações, constituir sobre eles um saber que se acumula e se centraliza. A forma geral de uma aparelhagem para tornar os indivíduos dóceis e úteis, através de um trabalho preciso sobre seu corpo, criou a instituição-prisão, antes que a lei a definisse como a pena por excelência1.

Essa definição da prisão como pena por excelência foi aceita prontamente, não só porque ela era considerada a mais civilizada de todas as penas, mas também, porque tinha o papel (ou ao menos deveria ter) de transformar os indivíduos. O que a prisão faz é, unicamente, reproduzir os mecanismos disciplinares já presentes no corpo social de modo a

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FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 20ª ed. Petrópolis: Vozes, 1987. 288p. p. 260.

1987. A prisão prescreve princípios que devem permear a execução de uma pena. 262. a pena deve se ajustar a situação de cada indivíduo. a prisão faz uso de várias técnicas corretivas e da aplicação incessante dessas técnicas na medida de tempo e intensidade necessária para impor uma nova conduta ao apenado. 5 FOUCAULT. a oficina ou o exército. 264. o sucesso do aparelho prisional na realização do papel de transformar indivíduos está relacionado diretamente ao bom uso desses três princípios: o FOUCAULT. Para garantir uma efetiva transformação do indivíduo. p. A atividade laboral ³veicula. p. Isso implica em graduar as penas de acordo com as diferentes circunstâncias do apenado. Em vários sentidos: deve tomar a seu cargo todos os aspectos do indivíduo. Assim. muito mais que a escola. O isolamento deve impedir a formação de complôs. p. Michel. O segundo princípio reconhece no trabalho um agente de transformação carcerária. sua aptidão para o trabalho. a prisão assume as funções de privar da liberdade e transformar o apenado2. Michel. é ³onidisciplinar´4. Michel. 6 FOUCAULT. p. pode-se atribuir a cada pena um maior ou menor grau de duração. Michel. desde sua origem. inclusive. a atividade produtiva no cárcere tem sua utilidade graças aos efeitos que gera no comportamento do preso. sua atitude moral. O primeiro deles é o do isolamento dos detentos em relação aos outros e em relação ao mundo exterior. 4 FOUCAULT. suas disposições. A prisão deve ser um aparelho disciplinar exaustivo. sujeita os corpos a movimentos regulares. Assim. diminuir ou suspender a pena caso o apenado se encontre em um grau de parcial ou total regeneração6.garantir a correção da conduta do indivíduo encarcerado. chantagens e cumplicidades entre a população carcerária e estimular a reforma através da reflexão que proporciona5. Antes de qualquer outra coisa. FOUCAULT. 265-268. de maneira insensível.´ (FOUCAULT. p. A autoridade competente pode. seu comportamento cotidiano. 264. que implicam sempre numa certa especialização. exclui a agitação e a distração. Através desse mecanismo. Assim. As medidas disciplinadoras aplicadas na prisão podem e devem incidir sobre os mais variados aspectos do comportamento do indivíduo3. p. seu treinamento físico. as formas de um poder rigoroso. Michel. 275 2 3 . segundo Foucault. Michel. a prisão. 271) O terceiro princípio diz respeito à modulação da pena. O trabalho transforma o preso num operário que desempenha seu papel com enorme regularidade.

Considerações sobre a realidade prisional brasileira Na realidade brasileira. A legislação brasileira de execuções penais. O Estado e as Políticas Educacionais Implantadas no Sistema Prisional. a força aplicada a um trabalho obrigatório e o modelo técnico-médico da cura e normalização7. 276. 2. SILVA. Michel. o funcionamento do sistema prisional não tem se mostrado capaz de cumprir a função ao qual foi destinado: reinserir no convívio social o indivíduo condenado. MIRANDA. <www. 8 9 CÂMARA DOS DEPUTADOS.pdf>. CPI do Sistema Carcerário. 2011. Os problemas com superlotação carcerária estão.youtube. Disponível em: <http://www. Disponível em: . Existem problemas de superpopulação em certas unidades prisionais onde a quantidade de presos numa única cela excede muitas vezes a quantidade que aquela cela é capaz de suportar. Segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional. Esse ambiente se torna 7 FOUCAULT. Maria Vieira. o índice de reincidência criminal no Brasil é bastante elevado (85%)8. surras. p. 2011. também. Camila Maximiano. Acessado em: 01 jul. intensificando as extorsões.com/watch?v=kFNOdGOmHZk>.isolamento individual. Acesso em: 01 jul. Essa situação permite que a violência se instale na cultura carcerária. Um grande número de instituições carcerárias nacionais sofre de graves problemas estruturais que as impossibilitam de realizar qualquer atividade voltada a promoção da ressocialização através de atividades educativas e laborais.br/imagens/anais/pdf/AC12. Isso faz com que seja impossível garantir o isolamento individual do preso e dificulta o acesso à assistência jurídica e o controle da população carcerária. diretamente relacionados a sérios problemas de higiene decorrentes de imundície das celas. como a separação entre as diversas categorias de presos. A maioria das prisões do país possui problemas de superlotação.simposioestadopoliticas. inclusive. assassinatos e estupros entre os detentos.ufu. Isso se deve principalmente às dificuldades encontradas para se assegurar o cumprimento dos princípios básicos que foram discutidos anteriormente segundo os quais se baseia a lógica de reinserção social através do sistema prisional. da falta de luz e de ar e da má qualidade da alimentação que são comuns em muitas prisões no país. que garante os requisitos necessários à execução da pena de modo a corrigir a conduta do condenado. não é aplicada na maioria das instituições prisionais do país9.

Loïc. ou com empresas públicas de depósito industrial dos dejetos sociais. 11 FOUCAULT. e foi justamente isso que presenciamos nos estabelecimentos penais. Na realidade. As prisões da miséria. p. Muito longe de serem políticas de qualificação profissional. no que se refere especialmente. são cursos de capacitação profissional. os cursos ministrados nas instituições que constituem o sistema prisional. 7.pdf>.O trabalho deveria ter função recuperadora. a prisão falha ao tentar reintegrar à sociedade o apenado. a garantia do isolamento individual e o uso da modulação da pena a fim de ajustá-la de acordo com o grau de regeneração e normalização de cada condenado. Acesso em: 17 jun. do que com instituições judiciárias servindo para alguma função penalógica . 271 . também a função de qualificação profissional.propício à disseminação de doenças infectocontagiosas que afetam boa parte da população carcerária no país.icste. é difícil imaginar que existam programas que garantam o acesso à educação ou permitam que o detento trabalhe em funcionamento na maioria das unidades prisionais. a ausência de políticas de qualificação profissional. principalmente nas sociedades contemporâneas nas quais impera a desigualdade de condições. fazendo com que a prisão não 10 WACQUANT. portanto. principalmente pela incapacidade de atender a enorme quantidade de detentos dos presídios nacionais. Deve ter função disciplinadora na medida em que condiciona comportamentos ao indivíduo tornando o apenado violento e agitado num indivíduo diligente que realiza seu papel de maneira regular11. neutralização ou reinserção10. contribui para aumentar significativamente a reincidência criminal.pt/textos/Prisões_da_Miséria_WACQUANT_Loic. O trabalho na prisão deveria ter função disciplinadora e recuperadora do indivíduo . sem conseguir manter condições de infraestrutura básica devido. Nessa situação calamitosa. Disponível em: <http://mijsgd. O trabalho deveria ter. 2011. Dessa forma. ao garantir que o apenado se capacite e poder se incluir socialmente através da participação na produção econômica. que as prisões brasileiras se parecem mais com campos de concentração para pobres. sobretudo. Essa deserção do Estado para com o sistema prisional. a superlotação.dissuasão. já que a capacitação profissional fundamenta-se meramente no desenvolvimento de técnicas.LoïcWacquant diz. programas desse tipo existem em poucas penitenciárias e os que existem não são muito efetivos. Podemos dizer que essa falha se deve principalmente a total inoperância dos princípios que a instituição carcerária deveria seguir para cumprir sua função de aplicar penas capazes de transformar efetivamente os indivíduos: a utilização do trabalho na recuperação do detento. diante desse quadro hediondo. p.ds. Michel.

274.atinja o seu objetivo de ³ressocializar´ o preso. a superlotação carcerária faz com que seja muito difícil acompanhar devidamente e realizar avaliações sobre a situação de cada encarcerado. a prisão se torna um espaço propício para o desenvolvimento de uma cultura carcerária onde impera a violência indiscriminada13. de acordo com o grau de regeneração que ele apresenta. Nesse contexto. de fato. O não acompanhamento da situação particular de cada detento torna. outro princípio que deveria orientar a execução da pena. também não pode ser assegurado. Michel. 7. entretanto. avaliar qualitativamente os presos diante de uma situação de total falta de controle sobre a população prisional. SILVA. contar com programas que. Loïc. a necessidade ou não de tratamento psicológico ou psiquiátrico e o encaminhamento apropriado a programas que forneçam trabalho ou educação. Camila Maximiano. impossível se valer do princípio da modulação da pena. Não se pode. de fato. FOUCAULT. 2-3. é fundamental para que a prisão possa realizar a operação corretora a que ela se propõe. aumentando os índices de reincidência criminal 12. O acompanhamento dos presos deveria. então. afasta o preso cada vez mais do valores que ele deveria desenvolver para voltar à sociedade. . p.Viver nesse ambiente. O Estado e as Políticas Educacionais Implantadas no Sistema Prisional. realmente. No entanto. a fim de se estudar as intervenções possíveis na execução da pena individual. As dificuldades em controlar a população carcerária podem tornar impossível a utilização da modulação da pena de acordo com as circunstâncias próprias em que se encontra cada indivíduo condenado. para lograr êxito. Este princípio prevê que a duração da pena pode e deve ser ajustada com base na forma como ela se desenrola. A modulação da pena.pp. ao menos. No entanto. 13 14 12 WACQUANT. o depoimento de uma psicóloga que trabalha no sistema prisional no Paraná nos mostra que a realidade nos presídios brasileiros é bem diferente desseideal: MIRANDA. O isolamento individual. ou. deveria se propor14. de acordo com a forma como o apenado se comporta durante a execução da pena. Maria Vieira. a superlotação prisional torna impossível o controle efetivo da população carcerária fazendo com que presos de diversas categorias vivam juntos e que a quantidade de presos dentro das celas exceda a quantidade recomendada. realizassem acompanhamento psicológico da população carcerária. Como já vimos. ou seja. p.

16 CÂMARA DOS DEPUTADOS. pois não raro a construção física das unidades penais desconsidera os espaços para intervenções numa perspectiva de humanização. As consequências da vida no cárcere 15 CHAVES. mas de fato não oferecemos a eles nenhum trabalho psicoterápico ³superestruturado´.br/novo/wp-content/uploads/2011/02/CHAVES-Karine-Belmont. e há atendimentos de apoio em situações de crise. bem como para outras atividades que podem acontecer dentro do sistema.org. 2011. onde uma enorme população de desvalidos sofre em condições degradantes sem contar com a assistência do Estado para sua recuperação. dificulta o fornecimento de assistência jurídica na maioria das prisões do Brasil. alguns detentos. Os atendimentos se baseiam na proposta de trabalhar algum foco.pdf>.com/watch?v=kFNOdGOmHZk>. <www. além de impedir o funcionamento adequado de programas que visam garantir o acesso à educação e ao trabalho. CPI do Sistema Carcerário. na verdade. Disponível em: <http://crepop. regular todo o processo de execução penal a fim de garantir que se realize o propósito de recuperação do indivíduo. 3. 2011. o sistema prisional não conseguirá de forma alguma garantir a reintegração efetiva do preso a vida social. não sendo possível um trabalho de longa duração que possa contemplar todas as pessoas que ali estão presas. por falta de acesso à Justiça. Muitas vezes faltam até salas específicas para os atendimentos. p.O tamanho inadequado da população penitenciária.A sociedade tem a ilusão de que os presos contam com psicólogos (como se fosse uma regalia). O sistema prisional brasileiro tem problemas ainda com o controle do tempo de pena de alguns presos. Disponível em: . Karine Belmont. acabam não fazendo a transição entre regimes (fechado ± semiaberto ± aberto) e contribuindo para aumentar a massa carcerária dessas instituições que não são capazes nem que suportar a população que elas já têm.11. breve. impossibilitando a aplicação da pena com base no que deveria. Acessado em: 01 jul.pol. O Trabalho do/a Psicólogo/a no Sitema Prisional: o resgate das relações interpessoais no processo de reintegração social também por meio de grupos. Os problemas estruturais que acometem o sistema prisional brasileiro acabam.-Trabalho-do-PsicologoSistema-Prisional. Acesso em: 01 jul. Podemos perceber que.youtube. estando focadas na questão da segurança15. Assim. como vimos. existem casos de detentos que continuaram encarcerados mesmo após o esgotamento do tempo de pena estipulado16. enquanto a cárcere continuar sendo um instrumento meramente punitivo.

3ª ed. as instituições carcerárias tem se mostrado inúteis nas suas tentativas de cumprir seu papel de promover a ressocialização do apenado. características constantes. muito 17 BARATTA. Essa socialização negativa é composta por dois processos: ³desculturação´ e ³prisionalização´. Dessa forma se garante que o indivíduo. paradoxalmente. Alessandro. Alessandro Baratta deixa bem claro que existem fatores próprios da instituição carcerária. p. predominantes em relação às diferenças nacionais . visava garantir que se desenvolvesse18. Para Baratta. do ponto de vista que mais nos interessa. as pequenas diferenças que existem na estrutura organizativa entre diferentes prisões não constituem diferenças na natureza da instituição carcerária em si. e favoráveis à sua estável inserção na população criminosa17. como mecanismo disciplinar corretivo. o sistema prisional pode ser visto como um mecanismo que visa acentuar a marginalização do condenado e legitimar as desigualdades sociais. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do direito penal. A comunidade carcerária tem. o Essa assimilação de valores relativos a uma cultura da prisão constitui o processo de ³prisionalização´. Assim. tal qual ela se apresenta nas sociedades modernas. 183 18 BARATTA. gradativamente. que são os responsáveis pela ineficiência do sistema prisional na realização do projeto que ele deveria realizar. podem ser resumidas no fato de que os institutos de detenção produzem efeitos contrários à reeducação e à reinserção do condenado. nas sociedades capitalistas contemporâneas. Rio de Janeiro: Revan. pp. 183-186. As características dessas instituições responsáveis pela manutenção do condenado entre os excluídos da sociedade se relacionam ao processo de socialização a que os detentos são submetidos dentro da prisão. É evidente que a um maior grau de interiorização desses valores e comportamentos corresponde menores chances de o indivíduo se reinserir na sociedade. são os valores e comportamentos que o sistema prisional. Alessandro. 2002. Muito pelo contrário. A ³desculturação´ é um processo de afastamento da condição necessária à vida fora do cárcere. uma vez vítima do sistema carcerário. . Ao mesmo tempo em que o preso passa por esse afastamento dos valores do mundo exterior. o senso de auto-responsabilidade e de realidade do mundo exterior e se distancia dos valores e comportamentos do mundo externo que. 256p. e que permitiram a construção de um verdadeiro e próprio modelo. ele se aproxima dos valores e comportamentos própri s da subcultura carcerária. o preso perde. As características deste modelo.Como vimos.

O sistema penal discrimina os indivíduos procedentes das classes menos favorecidas através. passa a agravar a condição de excluído social do condenado à reclusão. assim. está assumindo uma função como mecanismo de legitimação da desigualdade social. 183-186. ³Não se pode. 183-186. que uma série de fatores que fazem parte da estrutura carcerária contribui de maneira definitiva com efeitos inesperados sobre o apenado. A sociedade exclui o indivíduo que possui comportamento transgressor condenando-lhe à reclusão do cárcere a fim de que esse mesmo indivíduo possa ser incluído novamente à sociedade que o excluiu. do conteúdo da lei penal e da aplicação jurisprudencial dessa lei que tende a privilegiar indivíduos das classes economicamente superiores. principalmente. p. tem um caráter repressivo e uniformizante´. a garantia de que o indivíduo excluído seja cada vez mais excluído. e esses efeitos apenas agravam a condição de marginalizado social em que esse apenado se encontra. BARATTA. pp. A própria forma como a sociedade encara o encarcerado traz consequências negativas ao processo de educação de valores que possibilitam a vida social. como universo disciplinar. (BARATTA. ao mesmo tempo. Várias teorias psicológicas corroboram com a ideia que a aplicação da pena na prisão não pode ser capaz de educar20. As dificuldades que a prisão tem de realizar mudanças positivas sobre a conduta dos indivíduos através da educação se deve ao fato de que a instituição prisão vale-se de métodos totalmente contrários aos que se deveria utilizar a fim de promover a educação. direta e indiretamente. 2002. Fica claro. Baratta diz que ³a educação promove o sentimento de liberdade e espontaneidade do indivíduo: a vida no cárcere. 4. Alessandro. deixa de cumprir sua função de ressocializar através da pena e. 186) A consequência disso é. ao invés disso. Alessandro. na realidade. excluir e incluir´. . O sistema prisional 19 20 BARATTA. ela. Alessandro. A real função da prisão Na medida em que a prisão. novamente.dificilmente consiga se recuperar dos efeitos negativos gerados por esse sistema que se traduzem sob a acentuação da marginalização social19. pp. Essa lógica vai contra os objetivos básicos de um processo educativo que visa a ressocialização.

seria o mecanismo superior de discriminação impossibilitando o retorno do condenado à sociedade.p. Vivemos com um sistema penal deslegitimado. a partir da lei penal. marcada por uma grande desigualdade socioeconômica e uma enorme massa de marginalizados. MIRANDA. 6. Wacquant. A maior parte da população carcerária brasileira é formada por indivíduos de baixa escolaridade(97% são analfabetos ou semi-analfabetos)24. predominantemente. 2010. primordialmente. Dissertação de Mestrado ± Faculdade de Direito da Universidade de Brasília. A estigmatização causada pelo status de criminoso aliada ao distanciamento dos valores e da cultura do mundo exterior tornam a reintegração à vida social um grande desafio ao egresso do sistema prisional. roubo e peculato nos Tribunais Regionais Federais do Brasil. . com o (falso) argumento de reinserção social. 1. Carolina Costa. pp. Maria Vieira. p. aumentando os meios. SILVA. BARATTA. Esses indivíduos já marginalizados sofrerão no cárcere mais um processo de marginalização social. 2010. ao analisar a situação social brasileira. uma tentativa de utilização do aparelho penal como forma de dar tratamento criminal a miséria. Universidade de Brasília. 119. Camila Maximiano. Alessandro. desenvolver o Estado penal para responder às desordens suscitadas pela desregulamentação da economia. Discursos do Sistema Penal: a seletividade no julgamento dos crimes de furto. o conjunto de valores morais burgueses. Direciona o seu poder punitivo àqueles já selecionados pelo sistema. equivale a (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres23. 175-178 FERREIRA. nesse contexto. 21 22 23 24 WACQUANT. A lei penal discrimina alguns setores sociais porque reflete. Muitas pesquisas empíricas têm demonstrado que existe diferença na aplicação da lei penal em função de um tratamento diferenciado por parte do juiz em função de seus preconceitos e valores21. com uma clara ênfase na proteção da propriedade. com o (falso) tratamento igualitário a todos 22. Loïc. A discriminação realizada pelo sistema penal se dá. pela dessocialização do trabalho assalariado e pela pauperização relativa e absoluta de amplos contingentes do proletariado urbano. com a (falsa) finalidade de recuperação dos presos. Brasília. Wacquant completa dizendo que: Em tais condições. A outra forma de discriminação está relacionada à aplicação da lei de maneira diferente de acordo com a classe social. ao invés tentar resolver esse problema que é evidentemente social. O Estado e as Políticas Educacionais Implantadas no Sistema Prisional. Nesse contexto a prisão realmente está comprometida a aplicar penas a uma pré determinada camada social menos favorecida. a amplitude e a intensidade da intervenção do aparelho policial e judiciário. reconhece. p. que usa discursos diferentes a ³pessoas diferentes´.

dentro do capitalismo. não é efetivamente garantida pelo sistema prisional no Brasil. As enormes disparidades socioeconômicas existentes no Brasil alimentam altas taxas de criminalidade 25 BARATTA. Conclusão Uma análise das condições do sistema prisional brasileiro mostra que ele não é capaz de cumprir qualquer papel corretivo para permitir à reintegração o preso à vida social. p. Assim. numa sociedade capitalista qualquer. Como foi dito anteriormente. 189-190. que exista uma massa marginalizada25. a ideia de reinserir o apenado através do pleno emprego da mão-de-obra disponível no mercado de trabalho se choca com a necessidade. O problema de superlotação carcerária dificulta bastante à utilização de técnicas disciplinares através de atividades relacionadas ao trabalho e à educação. entretanto.Deve-se considerar ainda que. uma grande massa de excluídos para ser usada como exército de reserva. A inoperância dos princípios que deveriam orientar a execução penal de modo a garantir sua eficácia como mecanismo de reeducação acaba. A função que a prisão ocupa de legitimadora das desigualdades sociais se relaciona com a forma que o que o sistema penal é utilizado na sociedade brasileira. apenas. Essa sociedade necessita que existam desempregados. o fator renda é determinante na inserção ou não inserção social. os indivíduos marginalizados que pretendem se reinserir na sociedade devem superar o problema de baixa renda através de sua inserção. Alessandro. principalmente aquelas referentes à superlotação carcerária impedem o funcionamento efetivo de programas que visam promover atividades educativas e laborais. 5. . dificuldades estruturais. A inserção no mercado de trabalho. Outra consideração que deve ser feita a respeito da efetiva reinserção através do mercado de trabalho está relacionada à lógica que fundamenta a organização de qualquer sociedade capitalista. no mercado de trabalho. Existem. Portanto. ainda. contribuindo para que os indivíduos excluídos continuem excluídos. programas que funcionam. mas seus resultados não contribuem significativamente para a inserção do egresso no mercado de trabalho. também.

o cárcere não consegue retirar o indivíduo condenado de sua condição marginalizada e. Além de considerar as condições que dizem respeito. Dessa forma. devemos levar em conta os desafios que são colocados frente à garantia dessa ressocialização por fatores fundamentais ao funcionamento da sociedade capitalista como um todo. propriamente. a manutenção da desigualdade social se dá. antes de tudo. para entendermos a ineficiência do sistema prisional brasileiro na ressocialização do apenado. de marginalizados sociais. .O sistema penal serve para punir a miséria a qual deveria ser dado um tratamento social ao invés de policial. que é marginalizadora em sua essência. A lógica da acumulação capitalista exige que exista uma massa de excluídos. primeiramente. através da ação do sistema penal sobre os marginalizados ao condená-los ao cárcere.sobre as quais incidem os aparatos punitivos do Estado. à realidade nacional. dificulta sua reinserção social com a concessão do status de criminoso. podemos perceber que as dificuldades existentes na ressocialização no contexto da realidade brasileira ou em qualquer outro se choca. pelo contrário. Por sua vez. com os interesses centrais da sociedade capitalista. Assim.

Acesso em: 01 <http://mijsgd. 2011. Alessandro. 2010.pol. 3ª ed. Acessado em: 01 jul. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do direito penal.Referências Bibliográficas BARATTA. roubo e peculato nos Tribunais Regionais Federais do Brasil.com/watch?v=kFNOdGOmHZk>. Rio de Janeiro: Revan.simposioestadopoliticas. Loïc. CHAVES. Disponível em: no Sistema Prisional. FOUCAULT. MIRANDA. WACQUANT. Michel.pt/textos/Prisões_da_Miséria_WACQUANT_Loic.ufu.ds.br/imagens/anais/pdf/AC12. 2010. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Camila Maximiano.-Trabalho-do-Psicologo-Sistema-Prisional. Petrópolis: Vozes. Carolina Costa. Dissertação de Mestrado ± Faculdade de Direito da Universidade de Brasília. 2011. 256p.icste. FERREIRA. O Trabalho do/a Psicólogo/a no Sitema Prisional: o resgate das relações interpessoais no processo de reintegração social também por meio de grupos . Acesso em: . 1987.org. 20ª ed. 2011. Maria Vieira.pdf>. Disponível em: <http://www. Disponível em: <www. Acesso em: 01 jul. CPI do Sistema Carcerário. O Estado e as Políticas Educacionais Implantadas jul.pdf>.br/novo/wp-content/uploads/2011/02/CHAVESKarine-Belmont. Universidade de Brasília. Discursos do Sistema Penal: a seletividade no julgamento dos crimes de furto. 288p. Karine Belmont. 2011.youtube. As prisões da miséria. SILVA. 17 jun. 2002. Brasília. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Disponível em: <http://crepop.pdf>.

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