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Poemas Carlos Drummond de Andrade

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  • A bunda, que engraçada
  • A carne é triste depois da felação
  • A carne envilecida
  • A casa do tempo perdido
  • A corrente
  • A ilusão do migrante
  • A língua lambe
  • A loja feminina
  • Amar-amaro
  • A Mãe e o fogão
  • A Máquina do Mundo
  • A moça que mostrava a coxa
  • Amor
  • Antepassado
  • Ao amor antigo
  • A palavra
  • A puta
  • Aquele casal
  • Aspiração
  • A um bruxo, com amor
  • Actriz
  • Aurora
  • A verdade dividida
  • Beijo-flor
  • Biblioteca verde
  • Boitempo
  • Bolero
  • Brinde, no banquete das musas
  • Caso do vestido
  • Certas palavras
  • Como encarar a morte
  • Confissão
  • Congresso Internacional do Medo
  • Consideração do poema
  • Cuidado
  • Declaração de amor
  • Deus e suas criaturas
  • Deus triste
  • E agora, José
  • Elegia carioca
  • Em teu crespo jardim
  • Entre o ser e as coisas
  • Essas coisas
  • Eu preparo uma canção
  • Fazedor de homens
  • Herança
  • Hoje não escrevo
  • Homem livre
  • Igual-desigual
  • Infância
  • Inocentes do Leblon
  • Inscrição tumular
  • Liberdade
  • Lição
  • Mãe sem dia
  • Mimosa boca errante
  • Mortos que andam
  • Mulher andando nua pela casa
  • Namorado
  • Não quero ser o último a comer-te
  • Não se mate
  • No corpo feminino, esse retiro
  • No mármore de tua bunda
  • No pequeno museu sentimental
  • Nossa amiga
  • O ano passado
  • O chão é cama
  • O Deus de cada homem
  • O enterrado vivo
  • O fim das coisas
  • O fim no começo
  • O medo
  • O mundo é grande
  • O novo Homem
  • O quarto em desordem
  • O que Alécio vê
  • O que fizeram do Natal
  • O que se passa na cama
  • O seu santo nome
  • Os ombros que suportam o Mundo
  • O tempo passa? Não passa
  • Oficina irritada
  • Ordem
  • Os assassinos
  • Os vinte poemas
  • Papai Noel às avessas
  • Papel
  • Para o sexo a expirar
  • Passatempo
  • Patrimônio
  • Prece do brasileiro
  • Presépio
  • Privilégio do mar
  • Procura-se um amigo
  • Procura-se um pai
  • Professor
  • Quarto em desordem
  • Restos
  • Retrato de uma cidade
  • Reverência ao destino
  • Rio em flor de janeiro
  • Salário
  • São flores ou são nalgas
  • SER
  • Sociedade
  • Somem canivetes
  • Suas mãos
  • Sugar e ser sugado pelo amor
  • Também já fui brasileiro
  • Tempo em fatias!
  • Todo dia é menos um dia
  • Torcida
  • "Um chamado João"
  • Unidade
  • Verdade
  • Visão de Clarice Lispector
  • Viver não dói
  • Autobiografia de Drummond

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

POEMAS

A Bomba

A bomba é uma flor de pânico apavorando os floricultores A bomba é o produto quintessente de um laboratório falido A bomba é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles A bomba é grotesca de tão metuenda e coça a perna A bomba dorme no domingo até que os morcegos esvoacem A bomba não tem preço não tem lugar não tem domicílio A bomba amanhã promete ser melhorzinha mas esquece A bomba não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está A bomba mente e sorri sem dente A bomba vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados A bomba é redonda que nem mesa redonda, e quadrada A bomba tem horas que sente falta de outra para cruzar A bomba multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação A bomba chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés A bomba faz week-end na Semana Santa A bomba tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia A bomba industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários A bomba sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia A bomba não é séria, é conspicuamente tediosa A bomba envenena as crianças antes que comece a nascer A bomba continnua a envenená-las no curso da vida

A bomba respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais A bomba pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba A bomba é um cisco no olho da vida, e não sai A bomba é uma inflamação no ventre da primavera A bomba tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria A bomba tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc. A bomba não admite que ninguém acorde sem motivo grave A bomba quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos A bomba mata só de pensarem que vem aí para matar A bomba dobra todas as línguas à sua turva sintaxe A bomba saboriea a morte com marshmallow A bomba arrota impostura e prosopéia política A bomba cria leopardos no quintal, eventualmente no living A bomba é podre A bomba gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado A bomba pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo A bomba declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade A bomba tem um clube fechadíssimo A bomba pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel A bomba é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris A bomba oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz A bomba não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas A bomba

desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas A bomba não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer A bomba é câncer A bomba vai à Lua, assovia e volta A bomba reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia A bomba está abusando da glória de ser bomba A bomba não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável A bomba fede A bomba é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina A bomba com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve A bomba não destruirá a vida O homem (tenho esperança) liquidará a bomba.

A Bruxa

A Emil Farhat Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida a meu lado. Certo não é vida humana, mas é vida. E sinto a bruxa presa na zona de luz. De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto... Precisava de um amigo, desses calados, distantes, que lêem verso de Horácio mas secretamente influem na vida, no amor, na carne. Estou só, não tenho amigo, e a essa hora tardia como procurar amigo? E nem precisava tanto. Precisava de mulher que entrasse nesse minuto, recebesse este carinho, salvasse do aniquilamento um minuto e um carinho loucos que tenho para oferecer. Em dois milhões de habitantes, quantas mulheres prováveis interrogam-se no espelho medindo o tempo perdido até que venha a manhã trazer leite, jornal e calma. Porém a essa hora vazia como descobrir mulher? Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga, conheço vozes de bichos, sei os beijos mais violentos, viajei, briguei, aprendi. Estou cercado de olhos, de mãos, afetos, procuras.

Mas se tento comunicar-me, o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão. Companheiros, escutai-me! Essa presença agitada querendo romper a noite não é simplesmente a bruxa. É antes a confidência exalando-se de um homem.

A bunda, que engraçada
A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora - murmura a bunda - esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gémeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, redunda

Desvenda.ainda esplendor . A. Obriga a sentir. ossuário. A querer bem ou a protestar. No que resta . A câmara. driticamente. espalha. O que precisa ser salvo Sem esperar pelo ano 2 mil. entretanto. Não tem responsabilidade no que viu.da mata Atlântica Apesar do declínio histórico.quem sabe? acabará Na infinita desolação da terra assassinada. do massacre De formas latejantes de viço e beleza. Conta só o que viu. cru. Não pode mudar o que viu. julgar. E pergunta: "Podemos deixar Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize. sujo. A desejar mudança. A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica. tumba da natureza?" Este livro-câmara é anseio de salvar O que ainda pode ser salvo. A imagem que ela captou e distribui. a multi-ver O real nu. triste. universaliza.A Câmara Viajante Que pode a câmara fotográfica? Não pode nada. Mostra o que ficou e amanhã . Vire deserto. . Ajuda a ver e rever.

É areia.A carne é triste depois da felação A carne é triste depois da felação Depois do sessenta-e-nove a carne é triste. outro prazer tão fundo na aparência mas tão raso na eletricidade do minuto? Já dilui o orgasmo na lembrança E gosma escorre lentamente de tua vida in "O Amor Natural" . o prazer? Não há mais nada Após esse tremor? Só esperar Outra convulsão.

e o aroma espalha-se de flores calcinadas de horror.A carne envilecida A carne encanecida chama o Diabo e pede-lhe consolo. no vão intento de sentir outra vez o que era graça de amar em flor e em fluida beatitude. O Diabo atende sob as mil formas de êxtase transido. . e nada se resolve. Volta a carne a sorrir. Mas os dons infernais são novo agravo à envilecida carne sem defesa.

no bater e bater.A casa do tempo perdido Bati no portão do tempo perdido. A noite e o dia se confundem no esperar. a outra metade são cinzas. . Bati segunda vez e mais outra e mais outra. É o casarão vazio e condenado. ninguém atendeu. e eu batendo e chamando pela dor de chamar e não ser escutado. O eco devolve minha ânsia de entreabrir esses paços gelados. O tempo perdido certamente não existe. Simplesmente bater. Resposta nenhuma. Casa onde não mora ninguém. A casa do tempo perdido está coberta de hera pela metade.

Roupa e tempo jaziam pelo chão. sem dizeres. Na mansuetude das ovelhas mochas. à beira dessa moita orvalhada. coito. e tão estreita. como se alargava. coito. nem destino. . Era Adão. sepultura na grama. Ah. E nem restava mais o mundo. Em minha ardente substância esvaída.A castidade com que abria as coxas A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava. primeiro gesto nu ante a primeira negritude de corpo feminino. eu não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados. morte de tão vida.

e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.A corrente Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. amarelos. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos. (in A Paixão Medida) .

algoz do inocente que não sou? Ninguém responde. Como repetir. Viver Como acordar sem sofrimento? Recomeçar sem horror? O sono transportou-me àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão. suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento.Acordar. a fábula inconclusa. qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora. a vida é pétrea. . dia seguinte após dia seguinte.

Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos. (in A Paixão Medida) . amarelos.A Corrente Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.

eu disse? Vai. não o leves a mal: é por teu bem. a mesa de escritório. tudo). Se levas cassetete na cabeça ou no braço. o amor. patrulhinhas te protegem e gás lacrimogêneo facilita o ato de comprar a tua cota. Certeza não terás. Assim não falta nunca feijão-preto (embora falte sempre nas panelas). não desistas: amanhã outros vinte mil quilos em pacotes serão distribuídos dessa forma. na virilha. o ar.A Excitante Fila Do Feijão 25. e sem certeza de trazer dois quilos. seja noite de estrela ou chuva grossa. Método esconde-pinga: não percebes . doze ou mais: o tempo não importa quando aperta o desejo brasileiro de ter no prato a preta. nas costas. Dez. em qualquer caso. Bocas oitenta mil vão disputando cada manhã o que somente chega para de vinte mil matar a gula. esquece a poesia burocrática e vai cedinho à fila do feijão. em princípio. uma espera-esperança de dez horas.1980 Larga. amiga vagem. mas é de véspera. Insiste. Camburões. poeta. mas esperança (que substitui. Cedinho. O feijão é de todos. tal como a liberdade. Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.X. A conta-gotas vai-se escoando o estoque armazenado nos porões do Estado.

. (in Amar Se Aprende Amando) .o povo sabe enquanto leva as suas bordoadas. É a grande aventura oferecida ao morno cotidiano em que vegetas. curtir a vida na dimensão dramática da luta por um ideal pedestre mas autêntico: Feijão! Feijão.. essa não: é sonho puro. Feijoada. guardas do escondido papilionáceo grão que ambicionas.. Suspense à la Hitchcock ante as cerradas portas de bronze. poeta. há desmaios. tudo bem. e vai sofrer na fila do feijão. Esperar é que vale .. Se nada conseguires. há prisões. o verso comedido. ao menos um tiquinho! Caldinho de feijão para as crianças.que ele torna excitante a tua busca? Supermercados erguem barricadas contra esse teu projeto de comer. Há gritos. Instante de vibrar. Larga. a paz do teu jardim vocabular. mas um feijão modesto e camarada que lembre os tempos tão desmoronados em que ele florescia atrás da casa sem o olho normativo da Cobal.

aquela ternura contida. Falta um boné. . falta o casal passeando no trigal.como tarda! a clarear o mundo. Falta um solo de clarineta. óleo a derramar-se lentamente.A Falta de Érico Falta alguma coisa no Brasil depois da noite de Sexta-feira Falta aquele homem no escritório a tirar da máquina elétrica o destino dos seres. a explicação antiga da terra. Falta uma tristeza de menino bom caminhando entre adultos na esperança da justiça que tarda . aquele jeito manso.

Está coberto de terra. A transparência da hora corrói ângulos obscuros: cantiga que não implora nem ri. a dália é toda cimento. em letras de conclusão. na luz? E por que nunca se escoa o tempo. forrado de esquecimento. inteira. sol e grama o que se esquiva se dá.A falta que ama Entre areia. patinando muros. No solo vira semente? Vai tudo recomeçar? É a falta ou ele que sente o sonho do verbo amar? . Já nem se escuta a poeira que o gesto espalha no chão. Onde a vista mais se aferra. A vida conta-se. chaga sem pus? O inseto petrificado na concha ardente do dia une o tédio do passado a uma futura energia. enquanto a falta que ama procura alguém que não há. Por que é que revoa à toa o pensamento.

... O tempo pobre..... Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo. os muros são surdos Sob a pele das palavras há cifras e códigos.. É feia. O sol consola os doentes e não os renova As coisas.. Todos os homens voltam para a casa. ............ Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da trade e lentamente passo a mão nessa forma insegura Do lado das montanhas. galinhas em pânico....... Quarenta anos e nenhum problema resolvido... sequer colocado...... Vomitar esse tédio sobre a cidade... É feia.........A Flor e a Náusea Preso à minha classe e a algumas roupas.... nuvens maciças avolumam-se Pequenos pontos brancos movem-se no mar.. Mas é uma flor. Furou o asfalto........... consideradas sem ênfase.......... mercadorias espreitam-me....... Suas pétalas não se abrem... o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse Em vão me tento explicar... o tédio. Seu nome não est'nos livros. Nenhuma carta escrita nem recebida..... revoltar-me? .... sem armas. . Mas é realmente uma flor...... sabendo que o perdem............ Melancolias...... o nojo e o ódio. vou de branco pela rua cinzenta..... Sua cor não se percebe. Que tristes são as coisas.... Devo seguir até o enjôo? Posso...

Mas vemos? Ou é a ilusão das coisas? Quem sou eu para sentir o leque de uma palmeira? Quem sou. sagrada arca de vidas autônomas? A pretensão de ser homem e não coisa ou caracol esfacela-me em frente à folha que cai. Uma. a que vemos. Outra.A Folha A natureza são duas. depois de viver intensa. tal qual se sabe a si mesma. caladamente. para ser senhor de uma fechada. (in A Paixão Medida) . e por ordem do Prefeito vai sumir na varredura mas continua em outra folha alheia a meu privilégio de ser mais forte que as folhas.

Ó bendito passado que era atroz. e gozoso hoje terno se apresenta e faz vibrar de novo minha vozpara exaltar o redivivo amor que de memória-imagem se alimenta e em doçura converte o próprio horror! . esvoaçaram em orvalhada luz de amanhecer.A grande dor das cousas que passaram A grande dor das cousas que passaram transmutou-se em finíssimo prazer quando. entre fotos mil que se esgarçavam. Os beijos e amavios que se amavam. outra vez reflorindo. descuidados de teu e meu querer. tive a fortuna e graça de te ver.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca. sei lá. Duram o infinito variável no limite de nosso poder de respirar a eternidade. absoluta. Do sonho de eterno fica esse gosto ocre na boca ou na mente. talvez no ar. numa outra (maior) realidade.A hora do cansaço As coisas que amamos. por um outro itinerário. Já não pretendemos que sejam imperecíveis. rebaixamos o amor ao estado de utilidade. De outra matéria se tornam. de aspirar a resina do eterno. . as pessoas que amamos são eternas até certo ponto. Restituímos cada ser e coisa à condição precária. Começam a esmaecer quando nos cansamos. dar-lhes moldura de granito. e todos nós cansamos.

alheio à minha baça pessoa. Quando vim. empalidecidos no entrecerrar-se da tarde. se é que vim da minha terra (não estou morto por lá?). Os morros. e no seu giro entrevi que não se vai nem se volta . o mundo girava. a correnteza do rio me sussurrou vagamente que eu havia de quedar lá donde me despedia. porque tudo é conseqüência de um certo nascer ali. pareciam me dizer que não se pode voltar. se é que vim de algum para outro lugar.A ilusão do migrante Quando vim da minha terra.

pulsando ao sol e ao vento vário. E as coisas tornam-se presentes. mais que honorário. un baiser. Entre danos e desenganos. mas trint’anos tecem uma quase eternidade. Praias e ondas do Havaí. un baiser. Não muito antigo. un bacio” A kiss. muito doce. Jornal e bonde e mortadela comida à pressa. resta porém a claridade (ou a penumbra) de lembrar em surdina dias e gentes. Contra a sorte cinz’amarela. não nos tiram Baciu daqui: carioca ele é. bem devagar. Assim quis nosso Stefan Baciu saudar o Rio antigo e seu. un bacio para a terra que o acolheu. num minuto. . a Poesia: último reduto.“A kiss.

ainda que mal me exprima. ainda que mal desculpes. ainda que mal te ame. ainda que mal te siga. ainda que mal te encare. ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio. ainda que mal me julgues.Ainda que mal Ainda que mal pergunte. ainda que mal me mostre. ainda que mal te entenda. me salvo e me dano: amor. ainda que mal o saibas. ainda que mal te agarre. ainda que mal te voltes. ainda que mal te mates. ainda que mal respondas. ainda que mal te furtes. ainda que mal me vejas. ainda que mal repitas. ainda que mal insista. .

dos quebrantos. O agudo olfato. a madureza vê. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma. onde se estenda. essa terrível prenda que alguém nos dá.* . e que o mundo converte noma cela. a mão. A madureza sabe o preço exato dos amores.MG . o círculo vazio. . posto que a venda interrompa a surpresa da janela. com ela. livre de encantos. dos ócios. se destroem no sonho da existência.1987 A madureza.1902 * . todo sabor gratuito de oferenda sob a glacialidade de uma estela.A Ingaia Ciência Itabira do Mato Dentro . o agudo olhar. raptando-nos.

no trampolim do sem-fim das estrelas. . vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial. muito além do sistema solar. Além. além do Céu. além do Céu Além da Terra. o verbo pluriamar. o verbo sempreamar. no rastro dos astros. acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política.Além da Terra. o verbo transcendente. na magnólia das nebulosas. até onde alcançam o pensamento e o coração. razão de ser e de viver.

. Mas sem esquecer. num lance caprídeo. de ler e tresler a arte de Ovídio.A língua francesa A língua francesa desvenda o que resta (a fina agudeza) da noite em floresta.

enfurecida .A língua lambe A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta. atinge o céu do céu. a licorina gruta cabeluda. quanto mais lambente. entre gritos. e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. entre gemidos. a língua lavra certo oculto botão. mais activa. lambilenta. lambilonga. balidos e rugidos de leões na floresta. e. E lambe.

objetos deixam de ser inanimados. a pulseira cinge no ar o braço imaginário. As estátuas sabem disto e propiciam a cada centímetro de carne uma satisfação de luxo erótico. Iguais as cinco. Dissolve-se o balé sem música no recinto. nasceram ali. As estátuas regressam à postura . Passaram a noite em vigília. novelo de circunstâncias. Ao cintilar de vitrinas e escaninhos. O ritmo dos passos e das curvas das cinco estátuas vendedoras gera no salão aveludado a sensação de arte natural que o corpo sabe impor à contingência. programadas em uniformes verde-musgo para o serviço de bagatelas imprescindíveis. habitantes de aquário. é próprio de estátuas aguardar sem prazo e cansaço que os fados se cumpram ou deixem de cumprir-se. e o simples vulto aciona as esculturas. Não há mais compradoras. chegará. Nenhuma ruga no imobilismo de figurinos talhados para o eterno que é. face múltipla assomar em tom de pesquisa. o imponderável que as estátuas ocultam em sigilo de espelhos. Já não se tem certeza se é comercio ou desfile de ninfas na campina que o spot vai matizando em signos verdes como tapeçaria desdobrante do verde coletivo das estátuas. Hora de almoço. apontando o estofo. quase suspenso na hipótese de vôo. um pé à frente do outro. Sabem que Vênus cedo ou tarde. que não se consumará.A loja feminina Cinco estátuas recamadas de verde na loja. aguardam o acontecimento. Tudo que a nudez torna mais bela acende faíscas no desejo. Hora de sol batendo nos desenhos caprichosos de manso aquário já marmorizado. Chega. o brinco. pela manhã. afinal. em postura vertical. em direção da porta sonora a ser aberta para alguém desconhecido . Ao cintilar de vitrinas e escaninhos.Vênus certamente. Antes de chegar à pele rósea. O enfeite ocioso ganha majestade própria de divinos atributos. provavelmente tarde e sem pintura.

não consigo saber.imóvel de cegonhas ou de guardas. se moveram. . se morreram (quem sabe). Se acaso dormem o dormir egípcio de séculos. O viço humano perde-se no artifício de coisas integrantes de uma loja. de moças que eram. São talvez manequins. pulsaram. não sei. Se estão vivas. se jamais existiram. pois também eu invisível na loja me dissolvo nesse enigma de formas permutantes.

e na concha vazia do amor a procura medrosa. Este o nosso destino: amor sem conta. amar? amar e esquecer. paciente. amar? sempre. doação ilimitada a uma completa ingratidão. desamar. e o que. e amar o inóspito. e na secura nossa amar a água implícita. ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto. Amar a nossa falta mesma de amor. e amar? amar o que o mar traz à praia. e o beijo tácito.AMAR Que pode uma criatura senão. e a sede infinita. o que ele sepulta. sozinho. e até de olhos vidrados. e uma ave de rapina. ou precisão de amor. em rotação universal. amar. e o peito inerte. um vaso sem flor. senão rodar também. amar e malamar. o que é entrega ou adoração expectante. de mais e mais amor. na brisa marinha. pergunto. e a rua vista em sonho. é sal. distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas. . amar? Que pode. o ser amoroso. um chão de ferro. entre criaturas. o cru.

a) colega este não consola nunca de nuncarás.a) me releve este malestar cantarino escarninho piedoso este querer consolar sem muita convicção o que é inconsolável de ofício a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima a vida também tudo também mas o amor car(o.Amar-amaro porque amou por que amou se sabia proibido passear sentimentos ternos ou desesperados nesse museu do pardo indiferente me diga: mas por que amar sofrer talvez como se morre de varíola voluntária vágula evidente? ah PORQUE AMOU e se queimou todo por dentro por fora nos cantos ecos lúgubres de você mesm(o. ora veja permita cavalheir(o.a) amig(o.o) retrato espetáculo por que amou? se era para ou era por como se entretanto todavia toda via mas toda vida é indignação do achado e aguda espotejação da carne do conhecimento. .a) irm(ã.

"Damos o dinheiro e mamãe compra a seu gosto": combinado. discutiram a dádiva a oferecer. Assim. Dona Esmeralda mandou parar o serviço e correu à loja para desfazer a transação. a turma de instalação já havia desligado o fogão velho e ia ligar o fogão novo. Por mais que lhe explicasse que era um serviço sentimental e urgente. num envelope. mas usarão assim mesmo. . Reunidos em assembléia. problemas resultantes da extraordinária concentração de afeto que se operou no segundo (e azul) domingo de maio de 1961. mas algumas estão resolvendo. é tão bom um presente útil. A amiga interrompeu-a: . a ser ganho num possível "Dia da Esposa".A Mãe e o fogão O Dia das Mães já passou. luvas e sapatos. O vestido ficava para mais tarde. Negociações prosseguem. Se amanhã o desfavor público envolver essas autoridades. não. vítimas de tais homenagens.Serve nada.E como você queria que ele funcionasse. quinze abobrinhas. que ela não é de crediário. In "Cadeira de Balanço" . laboriosas. Dona Esmeralda não obteve dele nenhuma dessas provas de consideração e camaradagem que até os fogões velhos costumam dar às mães amorosas. comprado na loja mais próxima. Dona Esmeralda recebeu de véspera. entre beijos. nesta semana. bolsa. sempre em conserto-se recusou a cooperar. e chegaram à conclusão de que seria ideal um vestido de inverno. telefonou para a amiga mais chegada. com os complementos. que não dariam para uma toalete digna do grill do Copa. mas na específica de mães de autoridades. Como o dinheiro não chegasse. contando-lhe a compra (se um dos prazeres femininos é comprar. deu mais três mil cruzeiros de suas economias. Para inteirar. De volta à casa. Os garotos de Dona Esmeralda é que foram mais previdentes do que muito filho marmanjo. porque mãe é sempre mãe. receberam presentes pouco adequados. se não houve gás esta manhã? Ao terminar a conversa. Não houve bolo de chocolate com frutas. até mesmo um fogão. objetos de uso que não gostariam de usar. mas o fogão . Quis logo retribuir-lhes a gentileza com um bolo de chocolate com frutas. é de desejar que não atinja suas venerandas genitoras. trocou logo o vestido futuro por um fogão novo. outro é contar que comprou) . mas confiar a tarefa a terceiros. recorreram ao pai. Acendi o gás e ele não funcionou. Umas tantas repousam das manifestações coletivas e entusiásticas que receberam. que vem aí. Nenhum deles está em idade de escolher tecidos. filha. Os filhos não podiam ficar sentidos: tinham dado um presente útil. Recomendou que o fogão fosse entregue na hora.Mas que idéia essa de comprar fogão novo se o velho ainda serve? . e a instalação feita imediatamente. não desaponta filho. não na qualidade geral de mães. Então ela não teve dúvida: num impulso verdadeiramente materno. para sossego delas e nosso. feliz.um caso sério. Outras. mas sempre podem produzir algo de elegante. Ela chorou e sorriu e chorou outra vez de emoção pelo carinho da meninada.

e a cada instante mais se retraindo. noturno e miserável. e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los. e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério. a outro alguém. mesmo afetando dar-se ou se rendendo. se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos. pedregosa. vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado. e aves pairassem no céu de chumbo. Abriu-se majestosa e circunspecta.A Máquina do Mundo E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas. sobre a montanha. . Abriu-se em calma pura. e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior. sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto. assim me disse. a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas. e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco. em colóquio se estava dirigindo: "O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou. a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. embora voz alguma ou sopro ou eco ou simples percussão atestasse que alguém. convidando-os a todos. em coorte. nos abismos.

contempla. e as paixões e os impulsos e os tormentos e tudo que define o ser terrestre ou se prolonga até nos animais e chega às plantas para se embeber no sono rancoroso dos minérios. vê. abre teu peito para agasalhá-lo. e o absurdo original e seus enigmas. essa total explicação da vida. dá volta ao mundo e torna a se engolfar. que floresce no caule da existência mais gloriosa. tudo se apresentou nesse relance e me chamou para seu reino augusto.olha. que nem concebes mais. pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste. como defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem a de novo tingir a neutra face que vou pelos caminhos demonstrando. suas verdades altas mais que todos monumentos erguidos à verdade: e a memória dos deuses. pois a fé se abrandara. o que pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento. e como se outro ser.. na estranha ordem geométrica de tudo. . repara.. Mas. como eu relutasse em responder a tal apelo assim maravilhoso. esse nexo primeiro e singular. essa ciência sublime e formidável. não mais aquele habitante de mim há tantos anos. e o solene sentimento de morte. afinal submetido à vista humana. e mesmo o anseio. os recursos da terra dominados. a esperança mais mínima — esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra. ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola. mas hermética. o que nas oficinas se elabora.” As mais soberbas pontes e edifícios.

pág. avaliando o que perdera. Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos.passasse a comandar minha vontade que. se cerrava semelhante a essas flores reticentes em si mesmas abertas e fechadas. enquanto eu. pedregosa. repelida. A treva mais estrita já pousara sobre a estrada de Minas. como se um dom tardio já não fora apetecível. 300. a pedido do caderno “MAIS” (edição de 0201-2000). incurioso. e a máquina do mundo. de mãos pensas. lasso. o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”. antes despiciendo. desdenhando colher a coisa oferta que se abria gratuita a meu engenho. baixei os olhos. já de si volúvel. José Olympio Editora – Rio de Janeiro. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”. seguia vagaroso. . 1985. se foi miudamente recompondo. publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”.

O nojo era um só. Preciso cortá-la. duro.. E vi que era igual usá-la ou guardá-la. Cristal ou diamante. A mão incurável abre dedos sujos. A mão escondida no corpo espalhava seu escuro rastro. quantas noites no fundo da casa lavei essa mão. mão limpa de homem. E era um sujo vil. quisera torná-la.. não sujo de terra. A princípio oculta no bolso da calça. . por fim. Ai. quem o saberia? Gente me chamava na ponta do gesto.A Mão Suja Minha mão está suja. Não adianta lavar. A mão está suja. suja há muitos anos. Nem ensaboar. uma simples mão branca. poli-a. A água está podre. sujo de carvão. Eu seguia. O sabão é ruim. escovei-a. por maior contraste. que se pode pegar e levar à boca ou prender à nossa num desses momentos em que dois se confessam sem dizer palavra. ou mesmo.

Era sujo pardo. Era um triste sujo feito de doença e de mortal desgosto na pele enfarada. suor na camisa de quem trabalhou. Não era sujo preto . pardo. outra mão virá pura . tardo. cardo.casca de ferida. fazê-la em pedaços e jogá-la ao mar! Com o tempo. (in José) . a esperança e seus maquinismos. cortá-la.o preto tão puro numa coisa branca. Inútil reter a ignóbil mão suja posta sobre a mesa.transparente colar-se a meu braço. Depressa.

pelo telefone À meia-noite. que seria de mim até o amanhecer?” Concordo. Outras notícias do corpo não quer dar. conta-me que é fulva a mata do seu púbis. Fecha-se em copas: “Se você não vem depressa até aqui nem eu posso correr à sua casa. nem de seus gostos. .À meia-noite. calo-me. pelo telefone.

curvos. esmeralda que se entreabre. a moça não me mostrava. que a moça me matava tornando-me assim a vida esperança consumida no que. Como lhe sabia a pele. em seu côncavo e convexo. subia o enjoo de fera presa no Zoo. Como a carne lhe sabia . só não mostrava aquilo . Os dedos descobriam-lhe segredos lentos. ara sem sangue de ofícios. rindo. porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos. essa a louca sonegava. intacta. E torturando-me.concha. a tríplice chave de urna. Roçava-lhe a perna. berilo. comido. Ai. Antes nunca me acenasse. o todo esquivo. o que devia ser dado e mais que dado. nocturno. aquela zona hiperbórea. sombrio. qual pulcra rosa preta como que se enovelava. em seu dourado pêlo de ventre! mas sexo era segredo de Estado. quatrifólio. e virgem no desvairado recato que sucedia de chofre á visão dos seios claros. faiscava. andar perdera o sentido. e a fêmea. negava o que eu tanto lhe pedia.A moça que mostrava a coxa A moça mostrava a coxa. porém o máximo arcano. misto de mel e de asfalto. em seu poro. animais. crespa. violento. a moça mostrava a nádega. não me daria nem nada. o tempo não desatava nem vinha a morte render-me ao luzir da estrela-d'alva. Viver não tinha propósito. inacessível. e encerra o gozo mais lauto. que nessa hora já primeira. abre-que-fecha-que-foge.

se salvava. já sou diverso daquele que por dentro se rasgava.... na ventania. sua coxa se selava. lado a lado! Mas que perfume teria a gruta invisa? que visgo. Outras fontes. e quem disse que eu podia fazer dela minha escrava? De tanto esperar. e que eu beijasse ou mordesse.. outros flancos: vasto mundo. já se empana sua glória. inacessível naveta? Ou nem teria naveta. outras fomes. e o esquecimento no fundo.a campo frio. Talvez que a moça hoje em dia. que doçume. sua coxa se cerrava. que linha prístina. fizesse sangue: fazia. Talvez. Na noite acesa. sua nívea rosa preta nunca por mim visitada. orvalhado. sua coxa se apertava. Mas seu púbis recusava. Na praia. me chamava. que estreitura. onde uma cobra desperta vai traçando seu desenho num frémito. porfia sem vislumbre de vitória. Na mais erma hospedaria fechada por dentro a aldrava. no dia. já seu corpo se delia. quando mais eu insistia. E se tanto se furtara com tais fugas e arabescos e tão surda teimosia. por que hoje se abriria? Por que viria ofertar-me quando a noite já vai fria. pura. . e não sei agora ao certo se minha sede mais brava era nela que pousava. O certo é que nunca. se encerrava. me fugia? Tudo a bela me ofertava.

entregue-se: vocês foram feitos um pro outro. de maneira nenhuma. agradeça: Deus te mandou um presente divino . houver o mesmo brilho intenso entre eles. Se o toque dos lábios for intenso. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa.. Ou às vezes encontram e.. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida.. preste atenção nos sinais . preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. Se você achar a pessoa maravilhosamente linda. tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela. Se você preferir morrer. sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado.... É uma dádiva. se o beijo for apaixonante. perceba: existe algo mágico entre vocês. Se você não consegue trabalhar direito o dia todo. se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento. chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura. mesmo ela estando de pijamas velhos. em pensamento. deixam o amor passar. sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e. mesmo assim. Por isso. fique alerta: pode ser a pessoa que você esta esperando desde o dia em que nasceu. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço. por não prestarem atenção nesses sinais.o amor..Amor Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos. ansioso pelo encontro que está marcado para a noite. Se você conseguir. e os olhos se encherem d'água neste momento.. se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração. um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras.. mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Se os olhares se cruzarem e. Se você não consegue imaginar. que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o AMOR! .. neste momento. um futuro sem a pessoa ao seu lado. um sorriso. Se por algum motivo você estiver triste. chinelos de dedo e cabelos emaranhados. antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.

. o céu do corpo. em cada poro. amor: o ganho não previsto. ouvida. que se torna a mais larga e mais relvosa. É isto. decifrado. nada mais existe valendo a pena e o preço terrestre. que. o prêmio subterrâneo e coruscante. roçando. depois de se arquivar toda a ciência herdada. Amor é o que se aprende no limite. leitura de relâmpago cifrado. vibrando no crepúsculo. salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo.AMOR E SEU TEMPO Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama. Amor começa tarde.

A paz dos deuses. e enquanto o guia. perfeito em dois. num instante de infinito? O corpo noutro corpo entrelaçado. qual estátuas vestidas de suor. arquejos. membro e vulva. Quem ousará dizer que ele é só alma? Quem não sente no corpo a alma expandir-se até desabrochar em puro grito de orgasmo. satisfeita. além da prórpia vida. a fonte. o coito segue. além de nós. E prossegue e se espraia de tal sorte que. reúna alma e desejo. Vai a penetração rompendo nuvens e devassando sóis tão fulgurantes que nunca a vista humana os suportara. o mel se concentraram. estendidos na cama. Integração na cama ou já no cosmo? Onde termina o quarto e chega aos astros? Que força em nossos flancos nos transporta a essa extrema região.Pois que é Palavra Essencial Amor . como ativa abstração que se faz carne. ais. Quantas vezes morremos um no outro. dissolvido. sons. Amor guie o meu verso. o fogo. nessa morte mais suave do que o sono: a pausa dos sentidos. E num sofrer de gozo entre palavras. divino. agradecendo o que a um Deus acrescenta o amor terrestre. num relâmpago. que Platão viu completados: é um. a idéia de gozar está gozando. varado de luz. volta à origem dos seres.Amor . eterna? Ao delicioso toque do clitóris. Então a paz se instaura. um só espasmo em nós atinge o climax: é quando o amor morre de amor. Em pequenino ponto desse corpo. menos que isto. nu úmido subterrâneo da vagina. etérea.pois que é palavra essencial comece esta canção e toda a envolva. mas. são dois em um. . fundido. já tudo se transforma.

Os suicidas tinham razão. Tremenda. diz que é inutil sofrer. sem esperança. O suor é um óleo suave. entretanto eu te diviso. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos. uma inocência.. a noite dissolve os homens. A noite anoiteceu tudo. nos campos desfalcidos. ainda tímida. a noite espalhou o medo e a total incomprensão. nas ruas onde se combate. adicinho-te que sobes. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. minha carne estremece na certeza de tua vinda. Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. A noite é mortal. Sob o úmido véu de raivas. as mãos dos sobreviventes se enlaçam. os corpos hirtos adquirem uma fluidez. completa. A noite caiu. queixas e humilhações.A Noite dissolve os Homens A Portinari A noite desceu.. A noite desceu. a noite dissolve as pátrias.. inexperiente das luzes que vais acender e dos bens que repartirás com todos os homens... sem reticências. Nas casas. O mundo não tem remédio. apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas . O mundo . E o amor não abre caminho na noite. vapor róseo. Havemos de amanhecer.. que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. Aurora. teus dedos frios. E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam. um perdão simples e macio. expulsando a treva noturna.. Minha fadiga encontrará em ti o seu termo..

. aurora.se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce. de tão necessário para colorir tuas pálidas faces.

meu ladrão. e tão meus eles se tornaram. vou te compreendendo. paixão insone e mais trevosas intenções que jamais assumiram ato nem mesmo sombra de palavra. impulso primitivo. nele implícito e reticente. somente de esmerilar em teu retrato o que a pacatez de um retrato ou o seu vago negativo.Antepassado Só te conheço de retrato. filtra de um homem. não te conheço de verdade. teu duende mal encarnado. sua face oculta de si mesmo. Refaço os gestos que o retrato não pode ter. enclausurado entre ferros de conveniência ou aranhóis de burguesia. e furtando-me a iniciativa. na líquida transmissão de taras e dons. mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim e sem saber vou copiando tuas imprevistas maneiras. pois sou teu vaso e transcendência. roubaste-me o espírito. mas ficaram dentro de ti cozinhadas em lenha surda. mais do que isso: teu fremente modo de ser. aqueles gestos que ficaram em ti à espera de tardia repetição. tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste de mim antes que eu os fizesse. . Acabei descobrindo tudo que teus papéis não confessaram nem a memória de família transmitiu como fato histórico e agora te conheço mais do que a mim próprio me conheço. vou descobrindo o que me deste sem saber que o davas.

apenas rósea. é cruel existir em tempo assim filaucioso. Autor da rosa. aurilavrada.. Aproveitem. ela é sete flores. e não há oito contos. sou eu. todas exóticas. oferecer-vos alta mercância estelar e sofrer vossa irrisão. eu sei. beijai a rosa. filtre a paisagem. sugere estâncias. (in A Rosa do Povo) . traço indeciso. rosa na máquina. Por menos de oito contos vendê-la? Nunca. Já não vejo amadores de rosa. como direi. começo da era difícil. Selarei. venda murcha. A última rosa desfolha-se. pense uma rosa na pura ausência. sede permeáveis. todas histórias. todas catárticas. rosa tão meiga onde abrirá? Não. Uma só pétala resume auroras e pontilhismos. vinde. no amplo vazio. Por preço tão vil mas peça. Rosa na roda. todas patéticas. não. quem sou? Deus me ajudara. cavalheiros. diz que te amam. olhai o cálice. não me revelo. Vêde o caule. o que de melhor se compôs na noite. meu comércio incompreendido. Injusto padecer exílio. Primavera não há mais doce. pequenas cólicas cotidianas. Vinde. mas ele é neutro. pois jamais virão pedir-me. a burguesia apodrece.Anúncio da Rosa Imenso trabalho nos custa a flor. e mesmo duvido que em outro mundo alguém se curve. qual mais fragrante. Ó fim do parnasiano.

porta a que se bate suavemente. e chega o ardor de insofrida. Procura o estreio átrio do cubículo aonde não chega a luz. Amor não é completo se não sabe coisas que só amor pode inventar. . muito mais prazer. seu convite é um prazer ferido a fogo e. com isso.A outra porta do prazer A outra porta do prazer. mordente fome de conhecimento pelo gozo.

nunca fenece e a cada dia surge mais amante.Ao amor antigo O amor antigo vive de si mesmo. porém. a antigo amor. tanto mais velho quanto mais amor. mas pobre de esperança. não de cultivo alheio ou de presença. O amor antigo tem raízes fundas. feitas de sofrimento e de beleza. Mais ardente. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. e resplandece no seu canto obscuro. Mais triste? Não. e por estas suplanta a natureza. mas do destino vão nega a sentença. Nada espera. Ele venceu a dor. Nada exige nem pede. Por aquelas mergulha no infinito. .

surdos. Mas nascem todo dia namorados novos. INPS. desarmados. Antes. PASEP. depois são gente como a gente. mudos .Aos Namorados do Brasil Dai-me. atenção: cumpra sua obrigação de namorar.felizes! . fora de obrigação e CPF. Senhor. sob pena de viver apenas na aparência. eles que transformam a sabedoria universal em divino esquecimento? Adianta-lhes. Os códigos. assistência técnica para eu falar aos namorados do Brasil. ou nem estar. E quem vive. que audiovisual nenhum ensina. as multas envergonham-se de alvejá-lo.são os namorados enquanto namorados. Mas quem foi namorado sabe que outra vez voltará á sublime invalidez que é signo de perfeição interior. como exercer a arte de namorar. nossa doação. De não ser. renovados. Será que namorado escuta alguém? Adianta falar a namorados? E será que tenho coisas a dizer-lhes que eles não saibam. IOF. De estar. perdem os ouvidos para toda melodia e só vêem. as guerras. Pois namorar é destino dos humanos. Namorado é o ser fora do tempo. em volta dele. ISS. O problema. só escutam melodia e paisagem de sua própria fabricação? Cegos. quando perdem os olhos para toda paisagem. De ser o seu cadáver itinerante. nosso inferno gozoso. retrocedem de sua porta. Senhor. espera que o namorado desnamore para sempre. e ninguém ganha ou perde esta batalha. Senhor. destino que regula nossa dor. inovantes. saber alguma coisa. afiando sem pausa a sua foice. é como aprender. no pedestre dia-a-dia. . O tempo. os tratados internacionais encolhem o rabo diante dele.

Só a mulher (como explicar?) entende certas coisas que não são para entender. chegado o momento. caminhadas. o namorado. Quem aprendeu não ensina. vive ignorante. para ficar durando. E o namorado só aprende. foto colorida. O homem nasce ignorante. filme adoidado. fora de qualquer sistema ou situação. som de cristal na concha ou no infinito. piscina. ser complexo. outros que são infiéis à namorada. perdurando. fins de semana. Há que aprender com as mulheres as finezas finíssimas do namoro. não intencional. Ser duplicado. a namorada não são aquelas mesmas criaturas com que cruzamos na rua. A mulher antes e depois da Bíblia é pois enciclopédia natural ciência infusa. São para aspirar como essência. Namorar é o sentido absoluto que se esconde no gesto muito simples. infensa a testes. Pobre de quem não aprendeu direito. ai de quem nunca estará maduro para aprender. nunca previsto. São outras. com arrepios. lancha. ou nem assim. Elas aspiram o segredo do mundo. Namorar é além do beijo e da sintaxe. Há homens que se cansam depressa de namorar. silêncios. inconsciente. jantares. dia-dos-namorados. são estrelas remotíssimas. não depende de estado ou condição. Quem ensina não sabe. sem sentir que aprendeu. o carro à toda ou a 80. às vezes morre três vezes ignorante de seu coração e da maneira de usá-lo. e dá ao gesto a cor do amanhecer. murmúrios. por obra e graça de sua namorada. que em si mesmo se mira e se desdobra. gravações. não merece namorar. rápido motel onde os espelhos não guardam beijo e alma de ninguém. .e vai além de toda universidade. triste de quem não merecia. fulgurante no simples manifestar-se. Pois namorar não é só juntar duas atrações no velho estilo ou no moderno estilo.

que os persegue... tenta cobrar (inveja) o terrível imposto de passagem: "Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer! Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada na sola dos sapatos. . velho mundo renovado. Que importa? A cada hora nascem outros namorados para a novidade da antiga experiência." Ou senão: "Desiste! Foge! Esquece! Esquece!" E os fracos esquecem. Os tímidos desistem. E inauguram cada manhã (namoramor) o velho.A limitação terrestre. Fogem os covardes.

A palavra Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. Mais sol do que o sol. saboreando-a. mudos. dentro da qual vivêssemos todos em comunhão. Que resumiria o mundo e o substituiria. .

. e minha procura ficará sendo minha palavra.A palavra mágica Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. Procuro sempre. procuro sempre. não desanimo. Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo. Se tarda o encontro. Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. se não a encontro. Vou procurá-la.

mesmas leves sílabas. doçura. única parte de ti que não se dissolve e continua existindo. apenas uma esmola. Amado ser destruído. Ouço-te a voz. mesma voz. convida a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca um beijo recebeu de rosto consumido. e aquele mesmo longo arquejo em que te esvaías de prazer. mesmo timbre. ouço teu nome. Terei um dia conhecido teu vero corpo como hoje o sei de enlaçar o vapor como se enlaça uma idéia platônica no espaço? O desejo perdura em ti que já não és. querida ausente. convicto. Tua visita.Aparição amorosa Doce fantasma. Tua visita ardente me desola.. e nosso final descanso de camurça. suave? Nunca pensei que os mortos o mesmo ardor tivessem de outros dias e no-lo transmitissem com chupadas de fogo aceso e gelo matizados.. puro som. a perseguir-me. por que me visitas como em outros tempos nossos corpos se visitavam? Tua transparência roça-me a pele. o quê? a massa de ar em que te converteste e beijo. Aperto. e nossa história invenção de livro soletrado sob pestanas sonolentas. por que voltas e és tão real assim tão ilusório? Já nem distingo mais se és sombra ou sombra sempre foste. Então. Tua visita ardente me consola. beijo intensamente o nada. . Mas insistes.

teu sapato de diamante. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Que se dissipou. vossas mazurcas e abusões. Que se partiu. Calma. Não te aborreças. Ainda úmidas e impregnadas de sono. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. sem interesse pela resposta. mas não há desespero. não invoques. não era poesia. é algo imprestável. Teu iate de marfim. Não colhas no chão o poema que se perdeu. . se obscuros. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. antes de escrevê-los. Não dramatizes. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Não percas tempo em mentir. Tem paciência. Chega mais perto e contempla as palavras. Estão paralisados. Penetra surdamente no reino das palavras. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. há calma e frescura na superfície intacta. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação.A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objecto. não indagues. se te provocam. pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. as palavras. em estado de dicionário. Não adules o poema. Ei-los sós e mudos. Convive com teus poemas. cristal não era. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.

sozinha. exausto. uma orquídea forma-se.Àporo Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. . em país bloqueado. enlace de noite raiz e minério? Eis que o labirinto (oh razão. Que fazer. antieuclidiana. mistério) presto se desata: em verde.

desaparecem na curva do tempo. esse excelente. os aniversários. Para ele. os incidentes pessoais não contam. Não há criação nem morte perante a poesia Diante dela. vossas mazurcas e abusões. fadiga e esperança nada significam A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto Não dramatizes. deixa-a em paz. Não faças poesia com o corpo. é algo imprestável. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo ds casas. são indiferentes Nem me reveles teus sentimentos. Não percas tempo em mentir Não te aborreças Teu iate de marfim. Tua gota de bile. que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. teu sapato de diamante. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação .A Procura da Poesia Não faças versos sobre acontecimentos. tua careta de gozo ou de dor no escuro. completo e confortável corpo. Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. não invoques. O que pensas e sentes. chuve e noite. não indagues. a vida é um sol estático não aquece nem ilumina As afinidades. Não cantes tua cidade. vossos esqueletos de família. isso ainda não é poesia. tão infenso à efusão lírica.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Aceita-o. Tem paciência.Que se dissipou. Não colhas no chão o poema que se perdeu. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Ainda úmida e impregnadas de sono. Calma. em estado de dicionário. que lhe deres: Touxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito. as palavras. Chega mais parto e contempla as palavras cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. . cristal não era. mas não há desespero há calma e frescura ma superfície intata Ei-los sós e mudos. Não adules o poema. não era poesia Que se partiu. se obscuros. sem interesse pela resposta pobre ou terrível. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio Não forces o poema a desprender-se do limbo. se te provocam. Penetra surdamente no reino das palavras. Convive com teus poemas. como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. antes de escrevê-los. elas se refugiaram na noite. Estão paralisados.

A puta quente. querendo a puta. É preciso crescer esta noite a noite inteira sem parar de crescer e querer a puta que não sabe o gosto do desejo do menino o gosto menino que nem o menino sabe. A única. Onde o ar é vidro ardendo e labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero a puta quero a puta quero a puta. . A fornecedora.A puta Quero conhecer a puta. Ela arreganha dentes largos de longe. chupante boca de mina amanteigada quente. A puta da cidade. e quer saber. Na mata do cabelo se abre toda. Na Rua de Baixo onde é proibido passar.

Posso dar opinião? As senhoras casadas não perdem a condição feminina. Fixou-me suspeitoso: .Ultimamente. . Minha mulher vem com uma rosa para casa. de mau gosto. os gestos.Deixe Dona Elsa ser elegante. . A mulher casada desabrochou. . eu tenho que achar muito natural. um rinoceronte. . . Principalmente se é rosa.Desculpar de quê? .. uma rosa dada por um homem. que eu não quero saber de minha mulher revelar seu encanto a ninguém.Já sei. Estava querendo desculpar a Elsa. o marido me honra com suas confidências: .Por que não? . ela me disse que foi o oculista que deu a ela. a Elsa anda um pouco estranha.Tem muito. . . . O pior é que não deve ter sido o oculista.Eu apertei.Que é que está insinuando? .Acho que está sonhando coisas. não tente negar o significado das ordens florais entre dois sexos.Que é que tem as maneiras.. . Acha direito? . e que não vai bem com uma senhora casada. . ele deu. . eu. . .E daí? .Então uma senhora casada vai ao oculista e o oculista lhe dá uma rosa? Que lhe parece? . Não há desfrute em seguir o figurino.Que é que tem trazer uma flor para casa? . e pode até realçá-la por uma graça experiente. e adivinho que não há nada senão. Não sei o que é. porém minha mulher jamais se permitiu esses desfrutes. . Não há rosas nos consultórios de oftalmologia.Desde quando é proibido uma senhora ganhar flor de uma pessoa atenciosa? Que sentido erótico tem isso? .De tudo que ela vem fazendo.Perdão. pode revelar melhor o encanto natural da personalidade.Acha então que estou maluco? . Engraçado. não é mais um projeto.E a flor que ela trouxe ontem para a casa é sonho? Me diga: é sonho? .. . dizendo que eu sou um bruto.Aquele casal Aquele casal. apenas. um ar desembaraçado que ela não tinha. Ora.Se fosse só o figurino. ela achou bonita. e eu não devo achar ruim. .Que ele é gentil.A Elsa parece uma menina de quinze anos. os gestos? .É a moda.Pois eu não vou nessa gentileza de oculista.Pode ser o que você quiser.Veio do oculista e trouxe uma rosa. E que houvesse. . Ficou com os movimentos mais leves.Senão o quê? . . São as maneiras. ela que era tão discreta no vestir. O oculista não podia dar essa flor.Aquilo que o dicionário chama de ente de razão. mas não me agrada a sua evolução. Estava num vaso.Como assim? .. uma fantasia completamente destituída de razão.Pois fique com suas teorias. Tem propósito uma coisa dessas? Ela acabou chorando.Deu para usar estampados berrantes. nem ela podia aceitar. .Nada.Eu ignoro tudo.

. a rosa. Se fez agora.Quem foi.Discorda sem argumentos. me desquito. e disse aquilo só para fazer charminho. são a evidência. Mas repare só que os olhos de Capitu que ela tem. Vamos mudar de assunto que ela vem chegando. . .Pensei que você fosse meu amigo. quando chegar aqui uma corbelha de antúrios e hibiscos. Repare no encadeamento: os vestidos modernos. e Dona Elsa. foi para preparar terreno. Numa cidade do tamanho do Rio. Cada uma dessas coisas é um indício.Ela nunca fez isso. só me conduzo pelo raciocínio. A Elsa não é mais a Elsa. Fica olhando um ponto no espaço. Fiz mal em me abrir. . Estou inteiramente lúcido.Sei lá.Digo o que penso. que ela foi correndo levar para a mesinha de cabeceira do quarto.Não vai ter prova nenhuma. eu nunca havia reparado nisso! Esquecia-me de dizer que meu amigo tem 82 anos.Vou segui-la daqui por diante. então? . Estou decidido. reunidas. abstrata. sorri.. Contrato um detetive.Permita que eu discorde. 79. os modos (só vendo a maneira dela se sentar no sofá). E logo que tenha a prova.Não diga uma coisa dessas. . . . Demora mais tempo no espelho. juro. . Depois.Vai ver que ela comprou na loja de flores da esquina. posso saber quem deu uma rosa a minha mulher? .A quê? . Ponho a mão no fogo por Dona Elsa. .

a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas formas. Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes. . Os vizinhos não se conformam. Minha rua acordou mudada.A rua diferente Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas.

que é nunca mais morrer.Aspiração Tão imperfeitas. nossas maneiras de amar. revel à condição de carne e alma. e só o amor governe todo além. . Quando alcançaremos o limite. nunca mais viver duas vidas em uma. todo fora de nós mesmos? O absoluto amor. o ápice de perfeição.

A TORRE SEM DEGRAUS
No térreo se arrastam possuidores de ciosas recoisificadas. No 1.° andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato. No 2.° andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos. No 3.° andar - tlás tlás - anoite cria morcegos. No 4.°, no 7.°, vivem amorosos sem amor, desamorando. No 5.°, alguém semeou de pregos dentes de feras vacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848. No 6.°, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso. No 8.°, ao abandono, 255 cartas registradas não abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika. No 9.°, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível. Mo 10.°, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisógrasos na terrina. No 11.°, moram (namoram?) virgens contidas em cinto de castidades. No 12.°, o aquário de peixes fosforecentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença. Atenção, 13.°. Do 24.° baixará às 23h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário. No 15.°, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa. No 16.°, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças. No 17.°, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibióticos. Não se sabe o que aconteceu ao 18.°, suprimido da Torre. No 19.° profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico. No 20.°, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbanc trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais. Mo 22;°, banqueiros incineram duplicatas vencidas, e das cinzas nascem novas duplicatas. NO 23.°, celebra-se o rito do boi manso, que de tão manso ganhou biograifa e auréola. No 24.°, vide 13.°. No 25.°, que fazes tu, morcego do 3.°? que fazes tu, miss adormecida na passarela? No 26.°., nossas sombras despregadas dos corpos passseiam devagar, cumprimentandose. O 27.° é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adoecer de novo na segunda-feira. Do 28.° saem boatos de revolução e cruzam com outros de contra-revolução. Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o 29.° foi declarado inabitável. Excesso de lotação no 30.°: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras. No 31.°, a Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas. No 32.°, a Guerra dos 100 Anos continua objeto de análise acuradíssima. No 33.°, um homem pede pra ser crucificado e não lhe prestam atenção. No 34.°, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio. No 35.°, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas.

Um mosquito é, no 36.°, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões. No 37.°, a canção Filorela amarlina lousileno i flanura meleglírio omoldana plunigiário olanin. No 38.°, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações. No 39.°, a celebração ecumênica dos anjos da luz e dos anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo. No 40.°, só há uma porta uma porta uma porta. Que se abre para o 41.°, deixando passar esqueletos algemados e coduzidos por fiscais do Imposto de Consciência. No 42.°, goteiras formam um lago onde bóiam ninféias, e ninfetas executam bailados quentes. No 43.°, no 44.°, no... continua indefinidamente).

Atriz

A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um nos mitos cênicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

Aula de Português

A linguagem na ponta da língua tão fácil de falar e de entender. A linguagem na superfície estrelada de letras, sabe lá o que ela quer dizer? Professor Carlos Góis, ele é quem sabe, e vai desmatando o amazonas de minha ignorância. Figuras de gramática, equipáticas, atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me. Já esqueci a língua em que comia, em que pedia para ir lá fora, em que levava e dava pontapé, a língua, breve língua entrecortada do namoro com a prima. O português são dois; o outro, mistério.

A um bruxo, com amor
Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trajestada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada, uma luz que não vem de parte alguma pois todos os castiçais estão apagados. Contas a meia voz maneiras de amar e de compor os ministérios e deitá-los abaixo, entre malinas e bruxelas. Conheces a fundo a geologia moral dos Lobo Neves e essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para ciumentos. E ficas mirando o ratinho meio cadáver com a polida, minuciosa curiosidade de quem saboreia por tabela o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador. Olhas para a guerra, o murro, a facada como para uma simples quebra da monotonia universal e tens no rosto antigo uma expressão a que não acho nome certo (das sensações do mundo a mais sutil): volúpia do aborrecimento? ou, grande lascivo, do nada? O vento que rola do Silvestre leva o diálogo, e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco, tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná, mostra que os homens morreram. A terra está nua deles. Contudo, em longe recanto, a ramagem começa a sussurar alguma coisa que não se estende logo a parece a canção das manhãs novas. Bem a distingo, ronda clara: É Flora, com olhos dotados de um mover particular ente mavioso e pensativo; Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa); Virgília, cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida; Mariana, que os tem redondos e namorados; e Sancha, de olhos intimativos;

e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora, o mar que fala a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina e das chinelinhas de alcova de Conceição. A todas decifrastes íris e braços e delas disseste a razão última e refolhada moça, flor mulher flor canção de mulher nova... E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe) o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica entre loucos que riem de ser loucos e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram. O eflúvio da manhã, quem o pede ao crepúsculo da tarde? Uma presença, o clarineta, vai pé ante pé procurar o remédio, mas haverá remédio para existir senão existir? E, para os dias mais ásperos, além da cocaína moral dos bons livros? Que crime cometemos além de viver e porventura o de amar não se sabe a quem, mas amar? Todos os cemitérios se parecem, e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida apalpa o mármore da verdade, a descobrir a fenda necessária; onde o diabo joga dama com o destino, estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro, que resolves em mim tantos enigmas. Um som remoto e brando rompe em meio a embriões e ruínas, eternas exéquias e aleluias eternas, e chega ao despistamento de teu pencenê. O estribeiro Oblivion bate à porta e chama ao espetáculo promovido para divertir o planeta Saturno. Dás volta à chave, envolves-te na capa, e qual novo Ariel, sem mais resposta, sais pela janela, dissolves-te no ar.

As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo, Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.

Actriz
A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um nos mitos cénicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo, sem consulta, sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada? Tenho razão de sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mão, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança. Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da ternura e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar por que o fizeste, porque te foste.

Aurora
O poeta ia bêbedo no bonde. O dia nascia atrás dos quintais. As pensões alegres dormiam tristíssimas. As casas também iam bêbedas. Tudo era irreparável. Ninguém sabia que o mundo ia acabar (apenas uma criança percebeu mas ficou calada), que o mundo ia acabar às 7 e 45. Últimos pensamentos! últimos telegramas! José, que colocava pronomes, Helena, que amava os homens, Sebastião, que se arruinava, Artur, que não dizia nada, embarcam para a eternidade. O poeta está bêbedo, mas escuta um apelo na aurora: Vamos todos dançar entre o bonde e a árvore? Entre o bonde e a árvore dançai, meus irmãos! Embora sem música dançai, meus irmãos! Os filhos estão nascendo com tamanha espontaneidade. Como é maravilhoso o amor (o amor e outros produtos). Dançai, meus irmãos! A morte virá depois como um sacramento.

Ausência
"... Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim."

A verdade dividida
A porta da verdade estava aberta mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade porque a meia pessoa que entrava só conseguia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia os seus fogos. Era dividida em duas metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. E era preciso optar. Cada um optou confere seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

A Vida Passada a Limpo

Itabira do Mato Dentro - MG - 1902 * - * - 1987 Ó esplêndida lua, debruçada sobre Joaquim Nabuco, 81. Tu não banhas apenas a fachada e o quarto de dormir, prenda comum. Baixas a um vago em mim, onde nenhum halo humano ou divino fez pousada, e me penetras, lâmina de Ogum, e sou uma lagoa iluminada. Tudo branco, no tempo. Que limpeza nos resíduos e vozes e na cor que era sinistra, e agora, flor surpresa, já não destila mágoa nem furor: fruto de aceitação da natureza, essa alvura de morte lembra amor.

você troiana troiana.. e o leão comeu nós dois. Toquei fogo na fragata onde você se escondia da fúria do meu bergatim. morremos.. Saí do cavalo de pau para matar seu irmão. Mas quando vi você nua caída na areia do circo e o leão que vinha vindo. danço..Balada do amor através das idades Eu te gosto. tenho dinheiro no banco. Seu pai é que não faz gosto. Mas depois de mil peripécias. boxa. você fez o sinal da cruz e rasgou o peito a punhal. . e mais terna amante. eu. Depois (tempos mais amenos) fui cortesão de Versalhes. Você é uma loura notável.. Na porta da catacumba encontrei-te novamente. como reagia! São palavras só: quente. dança. você me gosta desde tempos imemoriais Eu era grego. Pulei muro de convento mas complicações políticas nos levaram à guilhotina. remo. pula. te abraço. beijo e casamos. Provocada. fria. herói da Paramount. Me suicidei também. Mas quando ia te pegar e te fazer minha escrava. Não era sequer provocante. flagelo da Tripolitânia. brigamos. rema. Você cismou de ser freira. Tenho saudade de uma dama Tenho saudade de uma dama Como jamais houve na cama Outra igual. Matei. Depois fui pirata mouro. espirituoso e devasso. boxo. mas não Helena. Virei soldado romano. pulo. dei um pulo desesperado. perseguidor de cristãos. Hoje sou moço moderno.

Pun pum pum adeus. porta a que se bate suavemente. seu convite é um prazer ferido a fago. Que grandes corações eles possuíam. Um guaiar. com isso. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. e chega o ardor da insofrida. Única fortuna. . enjoada. um matar-morrer. Eram flamas no preto favo. violento. os seus dentes de ouro não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. sobre a tumba deles. tu ficas. Eu vou.. As amadas torcem-se de gozo.No banheiro nos enroscávamos. mas nos veremos seja no claro céu ou turvo inferno. sem amor. procura o estreito átrio do cubículo aonde não chega a luz. Vísceras imensas.. Do meu quarto ouço a fuzilaria. e. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados competentemente (paixões de primeira e de Segunda classe). sem tripas. A outra porta do prazer A outra porta do prazer. Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram. Tenho saudade de uma dama Que me passeava na medula E atomizava os pés da cama. Os desiludidos seguem iludidos sem coração. Oh quanta matéria para os jornais Desiludidos mas fotografados escreveram cartas explicativas tomaram todas as providências para o remorso das amadas. mordente fome de conhecimento pelo gozo Necrologia dos desiludidos de amor Os desiludidos do amor estão desfechando no peito. muito mais prazer Amor não é completo se não se sabe coisas que só o amor pode inventar.

Beijo-flor O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca? Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?) na boca das meninas e é lá que eles estão suspensos invisíveis .

na sombra. esta vida ou outra invenção. Bela a passagem do corpo. que me engole. repleto.Bela esta manhã sem carência de mito. Vontade de cantar. engulo o mar. sua fusão no corpo geral do mundo. sem. Bela esta manhã ou outra possível. matizes da luz azul completa sobre formas constituídas. . curvos pensamentos. Mas tão absoluta que me calo. fantasmas. Valvas. e mel sorvido sem blasfêmia. Umidade de areia adere ao pé.

Novos poesmas. Claro enigma. Paixão Medida Farewell. Menino Antigo( Boitempo II) . Sentimento do Mundo. Fazendeiro do ar. Amar se Aprende Amando. Nudez. Ciclo. Reunião. Brejo das Almas . Boitempo. A mesa. Versiprosas. Viola de bolso II. Alguma Poesia . José. O amor natural. Corpo.Bibliografia em poesia. . A rosa do povo. Soneto da buquinagem. Poesia errante. Esquecer para lembrar ( Boitempo III). Viola de bolso.

é livro demais para uma criançaCompra assim mesmo. eu vou comprar. menino. Meu filho. Careço ler tudo. Olha que eu tomo e rasgo essa Biblioteca antes que peque fogo na casa. Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro. Apolo nu. Dorme. cretino! Espermacete1 cai na cama. queima a perna. mata de pinheiros toda verde. não: inveja de mim mesmo. Termina o ramal. me compra agora. as letras. A mãe se queixa. Templo de Tebas.Biblioteca verde Papai. fino caixote de alumínio e pinho. Antes de ler. antes que eu perca a paciência e te dê uma sova. pai. É em percalina verde. (Orgulho. Agora quero ver figuras. Como te devoro. Em filosofias tropeço e caio. Coronel. Chega cheirando a papel novo.) Ninguém mais aqui possui a colecção das Obras Célebres. Se vier com arranhão recuso. em contos. esse cristal de fluída transparência: verde. Fica quieto. Vai dormir. cavalgo de novo meu verde livro. Todas. Vénus nua. Amanhã começo a ler. não quero defeito. tem disso tudo nos livros? Depressa. . Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel. Agora não. Está bem. poemas me vejo viver. só 24 volumes. Não dorme este menino. tão fraquinho. me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres São só 24 volumes encadernados em percalina verde. já sabe: quero devolução de meu dinheiro. O irmão reclama: apaga a luz. Me mande urgente sua Biblioteca bem acondicionada. Quando crescer eu compro. compra. Nossa Senhora.. filhinho meu. verde. o sono. eu cresço logo. compra. ordens são ordens. Sou o mais rico menino destas redondezas. medievo. Agora não. Medusa. o burro de carga vai levando tamanho universo. Tenho de ler tudo. menino. Papai. Osíris. Compra. em cavalarias me perco. Mas leio.. que bom passar a mão no som da percalina.

o que não saberei nunca. Ou antes carruagem de fugir de mim e me trazer de volta à casa a qualquer hora num fechar de páginas? Tudo o que sei é ela que me ensina. O que saberei. está na Biblioteca em verde murmúrio de flauta-percalina eternamente. 1) espermacete: material de que se fazem as velas .verde pastagem.

Boca Boca: nunca te beijarei. Boca de outro que ris de mim. ris sem beijo para mim. no milímetro que nos separa. doce boca (não provarei). bem sabes disto. Boca: se meu desejo é impotente para fechar-te. zombas de minha raiva inútil. cabem todos os abismos. beijas outro com seriedade. Boca amarga pois impossível. .

Os chifres delimitam o sono privativo de cada rês e tecem de curva em curva a ilha do sono universal. .Boitempo Entardece na roça de modo diferente. Amanhece na roça de modo diferente. A sombra vem nos cascos. No gado é que dormimos e nele que acordamos. morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista. no mugido da vaca separada da cria. escultura da noite. O gado é que anoitece e na luz que a vidraça da casa fazendeira derrama no curral surge multiplicada sua estátua de sal. A luz chega no leite.

Bolero Segure minha mão com firmeza. Olhe nos meus olhos bem fundo enquanto eu te olho no fundo dos seus olhos. uma alma única. um sentimento. E enquanto dançamos. Vamos dançar juntos como se voássemos em uma nuvem exclusiva toda nossa. . nem você. uma dança. mas com carinho. Enxergue minha alma enquanto traduzo seus sonhos e deixe que a gente flutue bem juntos em uma só energia. dois corpos. eu te beijo e você me beija e a essa altura já não sou eu. Somos nós dois. em um apenas. Dois seres.

Poesia. reintegra a essência do poeta.Brinde. Poesia sobre os princípios e os vagos dons do universo: em teu regaço incestuoso. poesia. no banquete das musas Poesia. comida estranha. poesia.. o belo câncer do verso. Poesia. noutra vida Deixaste-nos mais famintos.. e o que é perdido se salva. marulho e náusea. sobre o telúrio. canção suicida. que recomeças de outro mundo. morte secreta . se nenhum pão te equivale: a mosca deglute a aranha. poesia.

mola saltando no meu íntimo. me oferece. brinquedo desenganado mas eficiente? Tenho de inventar o meu brinquedo. Sem o pedir às máquinas e aos deuses. privativo dele. fluida. e fácil. irônica. sangue e riso dele. pétala. . E excogito: Que brinquedo inventar para o adulto.Brinquedos para homens Embora eu seja adulto. alegria gerada por mim mesmo. que cada um invente o seu brinquedo. pluma. não me seduzem os brinquedos eletrônicos que a moda.

bunda além do irreal arquibunda selada em pauta de hermetismo opalescente bun incandescente bun meigo favo escondido em tufos tenebrosos a que não chega o enxofre da lascívia e onde a global palidez de zonas hiperbóreas concentra a música incessante do girabundo cósmico. bundífoda bundamor bundamor bundamor bundamor. bunda em al bunda lunar e sol bundarrabil Bunda maga e plural.Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor bundalei bundalor bundanil bundapão bunda de mil versões. Bundaril bundilim bunda mais do que bunda bunda mutante/renovante que ao número acrescenta uma nova harmonia. pluribunda unibunda bunda em flor. . Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo o arco de triunfo. a morte do Arpoador bunditálix. a ponte de suspiros a torre de suicídio.

o sagrado terror converto em jubilação.deu-me este amor maduro. um sistema de erros. volto aos mitos pretéritos e outros acrescento aos que amor já criou. Mas. pois jamais me sorriram.Campo de flores Deus me deu um amor no tempo de madureza. porque me tocou um amor crepuscular. Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra imensa e contraída como letra no muro e só hoje presente.ou foi talvez o Diabo . que se armou em coágulo. Amanhecem de novo as antigas manhãs que não vivi jamais. Onde não há jardim. mas sou. talvez. Mas sou cada vez mais. De tantos que já tive ou tiveram em mim. Deus me deu um amor porque o mereci. no mundo. o sumo se espremeu para fazer um vinho ou foi sangue. Hoje tenho um amor e me faço espaçoso para arrecadar as alfaias de muitos amantes desgovernados. Deus . as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis. há que amar diferente. ou triunfantes e ao vê-los amorosos e transidos em torno. Pois que tenho um amor. De uma grave paciência . Enquanto a outra acaricia os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura e o mistério que além faz os seres preciosos à visáo extasiada. e a um e outro agradeço. Era tempo de terra. Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso e talhado em penumbra sou e não sou. E o tempo que levou uma rosa indecisa a tirar sua cor dessas chamas extintas era o tempo rriais justo. Seu grão de angústia amor já me oferece na mão esquerda. quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme. pois que tenho um amor. eu que não me sabia e cansado de mim julgava que era o mundo um vácuo atormentado.

Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde.ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia tenha dilacerado a melhor doação. Há que amar e calar. .

No jeito mais natural dois carinhos se procuram. todas as mães se reconheçam. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. eu vejo e saúdo velhos amigos. e que fale como dois olhos. Caminho por uma rua que passa em muitos países. nossas vidas formam um só diamante. Se não me vêem.Canção Amiga Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças . Minha vida.

Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou.. acabou. .Cantiga de viúvo A noite caiu na minh'alma. Era a sombra de meu bem que morreu há tanto tempo. veio vindo. Depois mais nada. me disse adeus com a cabeça e saiu. Uma sombra veio vindo. me consolou. me abraçou. fiquei triste sem querer.. Ouvi seus passos na escada. Fechou a porta. Depois riu devagarinho.

sem. Engulo o mar.Canto Esponjoso Bela esta manhã sem carência de mito. Valvas. Bela esta manhã ou outra possível. fantasmas. na sombra. que me engole. Umidade de areia adere ao pé. E mel sorvido sem blasfémia. Mas tão absoluta que me calo. repleto. . matizes da luz azul completa sobre formas constituídas. Bela a passagem do corpo. Vontade de cantar. esta vida ou outra invenção. curvos pensamentos. sua fusão no corpo geral do mundo.

que te fitamos nos olhos. saia clara estufando em redondel: que é carne. que é terra e alísio em teu crisol? Nunca vi terra tão gente nem gente tão florival. II Rio. Rio-tato-vista-gosto-risco-vertigem Rio-antúrio Rio das quatro lagoas de quatro túneis irmãos Rio em ã Maracanã . seio. Os que te amamos sentimos e não sabemos cantar: o que é sombra do Silvestre sol da Urca dengue flamingo mitos da Tijuca de Alencar.. essencial. a sigla rara dos tempos do verbo mar. Agora. como pupila do gato risca o topázio no escuro.Canto do Rio em Sol Guanabara. Guanabara. agora sim és Estado de graça. braço de a-mar: em teu nome. como seiva -. Teu frêmito é teu encanto (sem decreto) capital. Rio que te vais passando a mar de estórias e sonhos e em teu constante janeiro corres pela nossa vida como sangue.não são imagens exangues como perfume na fronha .. condado real. nome sussurrante. e que neles pressentimos o ser telúrico.

pág. teu acordar. mágico.Rio de Janeiro. assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas. Texto extraído do livro "Nova Reunião". dás uma cabriola. 1985.emudeceram as aldeias gentílicas? A Festa das Canoas dispersou-se? Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José pastoreando os fiéis da várzea? Soou o toque do Aragão sobre a cidade? Não não não não não não não Rio. 388.Sacopenapã Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho de amorzinho benzinho dá-se um jeitinho do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda como quem do alto do Morro Cara de Cão chama pelos tamoios errantes em suas pirogas Rio. . milhão de coisas luminosardentissuavimariposas: como te explicar à luz da Constituição? III Irajá Pavuna Ilha do Gato -. José Olympio Editora . um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo o tempo que humaniza e jovializa as cidades. Neste poema Carlos Drummond de Andrade demonstra todo seu amor pela cidade do Rio de Janeiro. teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos. Rio novo a cada menino que nasce a cada casamento a cada namorado que te descobre enquanto rio-rindo.

Ai. Somos hoje mais vastos? mais humanos? Que draga nos vai dar a areia pura. Fogem banhistas para o Posto Seis. Caçá-los e exportá-los prejudica os nossos canaviais. tu deliras? Até logo. fundamento de nova criatura? Carlos. as vísceras também ficam à mostra? Meu amor.. A transparência vai além: os ossos. gentil. pesadíssima). tudo claro.Cariocas Como vai ser este verão.. O Posto Vinte. sem paredes as casas e os governos. o tamanho natural das coisas estava errado! O mar era excessivo. Carlos. olha a serena arquitetura feminina em cena pelas ruas do Rio de Janeiro que não é rio. a frente é interminável. estranho creme de areia e lama oferta ao velho Leme. ele. engole ruins aranhas do Brasil. é um oceano inteiro de (a) mo (r) cidade. esse dragão. Pobre do ser vivo. a terra pouca. olha o broto. olha aí. o busto altivo.. Ah. que gracinha de esqueleto revelas sob teu vestido preto! Os costureiros são radiologistas? Sou eu que dou uma de futurólogo? Translúcidas pedidas advogo: tudo nu na consciência. chega-se ao Leblon e já nem rimo. aumentada/ diminuída? A draga.. que aumenta o chão pisável. deixa de vãs filosofias. Repara como tudo está pra frente.. sem que aumente a própria dimensão interior. com a praia. Invade-se Ipanema hippie e festiva.. a começar na blusa transparente e a terminar. pois nessa sinuca superlota-se a Barra da Tijuca (até que alguém se lembre de duplicar a Barra. Regressa ao cotidiano: um professor reclama para os sapos mais amor. querida. . olha as esguias pernas.

Um rosa te dou. com cheiro e tudo quanto se resume no festival enlevo do perfume? Busco em vão neste Rio um roseiral. e me castigo a remoer sua emplastada imagem. pois inda existe flor. de seqüestro e bomba? . o Rio? A Roselândia vamos e aspiremos o fino olor de flor em cor e albor. ou cheira mal o terreno baldio. uma rosa é um rosal. indago. (Conservo no remorso um sapo antigo assassinado a pedra. e me disperso em quadrada emoção diante da rosa.) Depressa. no mais. pulo muros: qual! A flor é de papel. tem a doçura de uma vaca embutida no verde da paisagem. a rua. onde floriram a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram que novidade? Rosas de verdade. a Roselândia. em vez de um verso.medonhos escorpiões: o sapo papa paca. e flor que zomba desse fero contexto de metralhadora.

embora estremecessem a um toque de paixão. . que se vai. uma última invenção (inda não é perfeita) faz ler nos corações. as mesmas. não. e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente. hoje se paralisa em esfinge de mármore. Muito depressa. mas todos esperamos rever-nso bem depressa. apenas. as chuvas já secaram. Rápido é o sono. O que ontem disparava. triviais. o sono que era grato e era absurdo é um dormir acordado numa planície grave. de mandar notícias amorosas quando não há amor a dar ou receber. Vai-se tornando o tempo estranhamente longo à medida que encurta. diria ela do tempo que faz do nosso lado. as crianças estudam. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra. quando só há lembrança.Carta Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas. ela iria contando que vou bem. desbordado alazão. e espero uma resposta mas que não tarde: e peço um objeto minúsculo só para dar prazer e quem pode ofertá-lo. e até o sono.

em mim mais do que em tudo. nada.ainda menos. menos ainda. está é uma carta. Contudo. pó. . e não vale acordar quem acaso repousa na colina sem árvores. nada de nada em tudo.

E ficou tão transtornado. o que é aquele vestido. me deixou com vosso berço. beberia seu sobejo. chorou no prato de carne. O vestido. Em vão o pai implorou. se afastou de toda vida. Passou quando. Então vosso pai. Nossa mãe. lamberia seu sapato. bebeu. é o vestido de uma dona que passou. procurei aquela mulher do demo. se fechou. dava ouro. a essa dona tão perversa. não escutamos pisar de pé no degrau. vosso pai chega ao pátio.Caso do vestido Nossa mãe. boca presa. . nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas. Mas a dona nem ligou. Nossa mãe. se devorou. que tivesse paciência e fosse dormir com ele. vosso pai enamorou-se. Nossa mãe. Dava apólice. esse vestido tanta renda. Minhas filhas. Era uma dona de longe.. dizei depressa que vestido é esse vestido. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. po que chorais? Nosso lenço vos cedemos. dava carro. foi para a dona de longe. Minhas filhas. brigou. mas a dona não ligou. Nossa mãe.. me falou ela se rindo. está morto. sossegado. escutai palavras de minha boca. me bateu. Vosso pai evém chegando. irado. me pediu que lhe pedisse. nesse prego. fazenda. mas o corpo ficou frio e não o veste. se perdeu tanto de nós. Minhas filhas. naquele prego? Minhas filhas. Eu não amo teu marido. esse segredo! Minhas filhas. Disfarcemos.

mas a morte não chegava. desfeita. não comia. Dona. mas a morte não chegava. perdi meus dentes. passei ponte. Vosso pai sumiu no mundo. Andei pelas cinco ruas. mais mostrava que escondia as partes da pecadora. minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. lavei. Fiquei fora de perigo. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. pobre. Eu não tinha amor ele. tive uma febre terçã. no chão rocei minha cara. os olhos dela gozavam. não falava. Mas te dou este vestido. última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra. O seu vestido de renda. . costurei. Eu fiz meu pelo-sinal. disse que sim. com sua trouxa na mão.Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto. ao depois amor pegou. não te dou vosso marido. Saí pensando na morte. fiz doce. fiz toda sorte de dengo. Me joguei a suas plantas.. da maior humilhação. mofina. meus olhos. me disse baixinho. os olhos dele pediam. não por mim. Olhei para a dona ruim. Olhei para vosso pai. me atirei no sumidouro. passei rio. visitei vossos parentes. me puxei pelos cabelos. meus anéis se dispersaram.. de colo mui devassado. O mundo é grande e pequeno. me cortei de canivete. me curvei. fiquei de cabeça branca. que não sei onde ele anda. não quero homem. minhas mãos se escalavraram. só pra lhe satisfazer. Um dia a dona soberba me apareceu já sem nada. me lancei na correnteza.

Eu fiz. pus nesse prego da parede. dona. O barulho da comida na boca. quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela.bebi fel e gasolina. põe mais um prato na mesa. mal reparou no vestido e disse apenas : Mulher. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. vestido não há. . me acalentava. limpou o suor.. comia meio de lado e nem estava mais velho. comeu.. boca não disse palavra. quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso. rezei duzentas novenas. Olhei para a cara dela. ele se assentou. nem nada. de nada valeu: vosso marido sumiu. Minhas filhas. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. era sempre o mesmo homem. me dava uma grande paz. eis que ouço vosso pai subindo a escada. um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. Peguei o vestido. Olhou pra mim em silêncio.

Então. movimentos. . falamos. atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos E tudo proibido. Estritamente reservadas para companheiros de confiança.Certas palavras Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo. devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança.

Um homem vai devagar..as janelas olham. meu Deus. . Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar.Cidadezinha Qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar.. Eta vida besta. Devagar.

De lado Sente-se já. mas eis que falta curiosidade. avançando e deixando ver um certo cógifo de sandálias. passos na areia. Salvo orsto ou contorno explícito. já esquecidos de perpassar. treva implícita na claridade? Quem ousa dizer o que viu.Como encarar a morte De longe Quatro bem-te-vis levam nos bicos o batel de ouro e lápis-lazúli. como saber que nos procura o viajante sem identidade? Algum ponto em nós se recusa. De dentro Agora não se esconde mais. e os bem-te-vis. prêmios. e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. O barco lá fica banhado de brisa aveludada. se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. Promete riquezas. A superfície jaz tranquila. açúcar. Sem vista Singular. dormem no espaço. corpo inteiro. À meia distância Claridade infusa na sombra. não a figura. se não viu a não ser em sonho? Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. Seu interior mostra-se aberto. sentir não sentindo ou sentimento inexpresso . Apresenta-se. e todo ferrão de desejo. pés incertos.

mais se ignora.de si mesmo. mais sabido. Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo. em vaso coberto de resina e lótus e sons. . só o não saber que afinal se sabe e.

este orgulho. esta cabeça baixa. A vontade de amar.. Noventa por cento d ferro nas calças. sem mulheres e sem horizontes. tive fazendas. Tive ouro. Mas como dói! . De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval. que tanto me diverte. este couro de anta. que me paralisa o trabalho vem de Itabira. tive gado. estendido no sofá da sala de visitas. nasci em Itabira. E o hábito de sofrer. Hoje sou funcionário público. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. de suas noites brancas.Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira Principalmente. É doce herança itabirana. orgulhoso: de ferro. Por isso sou triste. Oitenta por cento de ferro nas almas. Itabira é apenas uma fotografia na parede..

entrega. Do que restou. (Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre. contudo próximo. como compor um homem e tudo que ele implica de suave. Não amei ninguém. Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – que se esfacelou na asa do avião. . não catei o verme nem curei a sarna. Dei sem dar e beijei sem beijo. melodiosas. Só proferi algumas palavras. tarde. os mais excelentes. ao voltar da festa. amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo. de concordâncias vegetais. murmúrios de riso.Confissão Não amei bastante meu semelhante.) E na meia-luz tesouros fanam-se.

mas estarrece de surpresa ao vê-lo. sem destino.Confronto Bateu Amor à porta da Loucura. assim tão inumano. Mais que ninguém mereces habitar minha casa infernal. sabento quanto Amor vive de engano. . "Deixa-me entrar . E exclama: "Entra correndo. . o pouso é teu. Só tu me limparás da lama escura a que me conduziu minha paixão".pediu ." . feita de breu. . de humano que era. o mal de amar. enquanto me retiro.sou teu irmão. A Loucura desdenha recebê-lo. pois não sei de mais triste desatino que este mal sem perdão.

o medo das mães. que esteriliza os abraços. . Cantaremos o medo. o medo das igrejas. que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. o medo dos soldados. dos desertos. existe apenas o medo. o medo grande dos sertões. não cantaremos o ódio porque este não existe. dos mares. depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. cantaremos o medo dos ditadores. nosso pai e nosso companheiro.Congresso Internacional do Medo Provisoriamente não cantaremos o amor. cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte. o medo dos democratas.

por não prestarem atenção nesses sinais. É o livre-arbítrio. agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR.. se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento. Por isso. um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras. sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado. em pensamento. mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. entregue-se: vocês foram feitos um pro outro. Se o toque dos lábios for intenso. Se você achar a pessoa maravilhosamente linda.. um sorriso. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida. muitíssimo. se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração.. antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. preste atenção nos sinais. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e. mesmo ela estando de pijamas velhos... Se você não consegue imaginar.... Se os olhares se cruzarem e. perceba: existe algo mágico entre vocês.Conselhos de um velho apaixonado Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos. de maneira nenhuma. Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR !!! ame muito.. (Assim seja !!!) . e os olhos se encherem d’água neste momento..em troca... que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida... Se por algum motivo você estiver triste. ansioso pelo encontro que está marcado para a noite. mesmo assim. Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e. chorar as suas Lágrimas e enxugá-las com ternura. Se você não consegue trabalhar direito o dia todo. fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. receber um abraço.. Se você preferir fechar os olhos. chinelos de dedo e cabelos emaranhados.. sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.. houver o mesmo brilho intenso entre eles.. Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa. Beija alguém de quem gostas quando receberes esta mensagem.. tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela. deixam amor passar. Às vezes encontram e. Se você conseguir. um futuro sem a pessoa ao seu lado. mesmo que seja em pensamento.. neste momento. se o beijo for apaixonante.

e dois ou três faróis. sem frágeis lágrimas. Na parede infiltrou-se. de toda a precisão se incorporam ao fatal meu lado esquerdo. não rocha apenas. peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem. boiando em tempos sujos. duras. autênticas. indevassáveis. a rua. se beijam.Consideração do poema Não rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono. se dissolvem. Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro. e começa-la. da ausência de comércio. Estes poetas são meus. – Há mortos? há mercados? há doenças? É tudo meu. Adeus. Saber que há tudo. E mover-se em meio a milhões e milhões de formas raras. É minha terra e é ainda mais do que ela. sem fronteiras. boca tão seca. e aves de bico longo conferindo sua derrota. poucos. Bebo em Murilo. Está na mesa aberta em livros. sentir que há ecos. Poeta do finito e da matéria. mas cristal. Estes poemas são meus. Ser explosivo. cartas e remédios. não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda a minha vida que joguei. Maiakovski. mas ardor tão casto. Essa viagem é mortal. não importa. Mas é tão alto que as pedras o absorvem. secretas. Ele é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão. sim. nas principiantes rugas. perdido embora. O beijo ainda é um sinal. As palavras não nascem amarradas. Eis aí meu canto. O bonde. são puras. elas saltam. Me perco em Apollinaire. De todo o orgulho. É a lanterna em qualquer estalagem. . no céu livre por vezes um desenho. cantor sem piedade. Dar tudo pela presença dos longínquos. É qualquer homem ao meio-dia em qualquer praça. últimos! esperança do mar negro. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. São todos meus irmãos. por que falsa mesquinhez me rasgaria? Que se depositem os beijos na face branca. Furto a Vinicius sua mais límpida elegia. que todas me convêm. se ainda as há. largas. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra.

como orvalho entre dedos. estou completo. e cresces como fogo. Já agora te sigo a toda parte. como casa. . tão natural e cheio de segredos. na grama.o uniforme de colégio se transformam. tão firme.. me faço tão sublime. Tal uma lâmina. que repousam. te atravessa. e te desejo e te perco. eu sei que passarão. Como fugir ao mínimo objeto ou recusar-se ao grande? Os temas passam.. me destino. são ondas de carinho te envolvendo. mas tu resistes. tão fiel. meu poema. o povo.

navio. em voz mansa. O terceiro amor passou. De "Amar se Aprende Amando" . O segundo amor passou. Mas o coração continua. A mocidade está perdida.. A infância está perdida. te golpearam. Nunca. Mas. meu filho. de vez. nunca cicatrizam. Estás nu na areia. Dorme. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Não tentaste qualquer viagem. Mas virão outros. Mas tens um cão.. O primeiro amor passou. devias precipitar-te. Tudo somado. Perdeste o melhor amigo. Mas a vida não se perdeu. terra. e o humour? A injustiça não se resolve. não chores. Não possuis casa. Algumas palavras duras. no vento.. nas águas.Consolo na Praia Vamos..

Cota Zero Stop A vida parou ou foi o automóvel? .

Cuidado A porta cerrada não abras. Pode ser que a vela que trazes na mão te revele. trêmula. Na escuridão pode ser que esbarres no casal em pé tentando se amar apressadamente. . teu dono-marido. Pode ser que encontres o que não buscavas nem esperavas. tua escrava nova. a porta apenas cerrada pode te contar conto que não queres saber. Descuidosa.

Declaração a Manuel Teu verso límpido. teu verso em que Amor. amargo. nosso pasto de sonho e cisma: ele não te pertence mais. soluçante. hoje é nossa comum riqueza. delicioso verso de alumbramentos sábios e nostalgias abissais. . se retesa e contempla a morte com a mesma forte lucidez de quem soube enfrentar a vida. teu verso em que deslizam sombras que de fantasmas se tornaram nossas amigas sorridentes. liberto de todo sentimento falso. teu seco.

Flor flor flor. Minha clívia.. meu nenúfar. Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Catléia delfínio estrelítzia. Floranêmona.. Forsitiaíris tuliparrosa minhas. Minha peônia. Ah. Minha urze. Daliabegônia minha. Meu cimbídio. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Clematite minha. Meu ciclâmen. Minha hortensegerânea. Amor-mais-que-perfeito. Floramarílis. Macieira-minha-do-japão.Declaração de amor Minha flor minha flor minha flor. Violeta. Minha gérbera. . Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Calceolária minha. Florazálea. Meu cravo-pessoal-de-defunto.

que acabará com o tédio da boca. jamais possuída.. afinal sossegada. sempre desejada.. práticos.. a vida habitável: a boca mordendo.Dentaduras Duplas A Onestaldo de Pennafort Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos. engenhos modernos. (Coroas sem reino. E todos os dentes extraídos sem dor.. E a boca liberta das funções poéticosofístico-dramáticas . a boca romântica?. dentadura múltipla.) Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras. A serra mecânica não tritura amor. a boca que beija. a serra mecânica. higiênicos... Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. os delirantes lábios apenas entreabertos num sorriso técnico. e a língua especiosa através dos dentes buscando outra língua. os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura.

secretas no fundo de mim. Dentaduras duplas: dai-me enfim a calma que Bilac não teve para envelhecer. vosso riso largo me consolará não sei quantas fomes ferozes. antes amarelas e por que não cromadas e por que não de âmbar? de âmbar! de âmbar! feéricas dentaduras. Largas dentaduras. serei casto. sóbrio. não vos aplicando na deleitação convulsa de uma carne triste em que tantas vezes me eu perdi. Dentaduras alvas. mastigando lestas e indiferentes a carne da vida! (in Sentimento do Mundo) . Desfibrarei convosco doces alimentos. Não sei quantas fomes jamais compensadas. admiráveis presas.de que rezam filmes e velhos autores.

Desaparecimento de Luísa Porto Pede-se a quem souber do paradeiro de Luísa Porto avise sua residência à Rua Santos Óleos. Mãe. magra. ao caixeiro. É alta. Previna urgente solitária mãe enferma entrevada há longos anos erma de seus cuidados. rosto penugento. religiosa. Sua melhor amiga. (Procurem. Suplica-se ao repórter-amador.Roga-se ao povo caritativo desta cidade que tome em consideração um caso de família digno de simpatia especial.Se.) Faz tanta falta. que tenham pena de mãe aflita e lhe restituam a filha volatilizada ou pelo menos dêem informações. . Luísa ia pouco à cidade e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada. que apareça. a qualquer do povo e da classe média. todavia. levemente estrábica. ao mata-mosquitos.) Namorado isso não tinha. (Procurem Luísa. viúva pobre. depois da mãe enferma. Mãe entrevada chamando. Foi fazer compras na feira da praça. Sumida há três meses. até mesmo aos senhores ricos. (Procurem Luísa.) De ordinário não se demorava. que mande dizer onde está. dentes alvos. trabalhadora. 48. ao transeunte. sinal de nascença junto ao olho esquerdo. Não voltou.Levava pouco dinheiro na bolsa. meiga. de 37 anos. Pede-se a quem avistar Luísa Porto. correta. Vestidinho simples. Procurem. Luísa é de bom gênio. Óculos. morena. que escreva. não perde a esperança. não a encontrarem nem por isso deixem de procurar com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa e talvez encontrem.

a viuvez. O jornal embrulhado na memória.Nada de insinuações quanto à moça casta e que não tinha. em 1898 ou 9. então jovem. A mãe de Luísa. afável posto que estrábica. a qual não dá notícia nenhuma.é Rita Santana.Pela última vez e em nome de Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia procurem a moça. Esqueçam a luta política. Não há gratificação maior do que o sorriso de mãe em festa e a paz íntima conseqüente às boas e desinteressadas ações. Uma vez. Ela não se matou.Não me venham dizer que Luísa suicidou-se. O santo lume da fé ardeu sempre em sua alma que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus. Procurem-na. remexendo. ponham de lado preocupações comerciais. sumiu o próprio chefe de polícia que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio e até hoje. ficou pasma. procurem essa que se chama Luísa Porto e é sem namorado. Não se arrependerão. puro orvalho de alma. leu no Diário Mercantil. Mal sabia ela que o casamento curto. moça desimpedida. limitando-se a responder: Não sei. seu lote e que sua única filha. a paralisia. O que não deixa de ser esquisito.Somem tantas pessoas anualmente numa cidade como o Rio de Janeiro que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada. costureira. não tinha namorado. o queixume seriam. inquirindo. filial e do próximo. Tampouco foi vítima de desastre que a polícia ignora e os jornais não deram. percam um pouco de tempo indagando. Está viva para consolo de uma entrevada e triunfo geral do amor materno. se diluiria sem explicação. a pobreza. . na vida.

disfarces de realidade mais intensa e que anúncio algum proverá. ou pode ser. ou ontem. Já não interessa a descrição do corpo nem esta.Ou talvez não seja preciso esse favor divino. e os membros perclusos já se desatam em forma de busca. Mas há de voltar. os extraviados um dia regressam ou nunca.Mas se acharem que a sorte dos povos é mais importante e que não devemos atentar nas dores individuais. beija-a e fecha-a para sempre em teu coração. a cólica. fotografia. chegada de rei. calai-vos. canção. E de sentir compreendemos. não faz mal. E resta a espera. espontânea ou trazida por mão benigna. Já não adianta procurar minha querida filha Luísa que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo . E de pensar realizamos. A mãe de Luísa (somos pecadores) sabe-se indigna de tamanha graça. virem a página: Deus terá compaixão da abandonada e da ausente. terremoto. Sim. erguerá a enferma. Calma de flores abrindo no canteiro azul onde desabrocham seios e uma forma de virgem intata nos tempos.Algo de extraordinário terá acontecido. que sempre é um dom. a lágrima. se fecharem ouvidos a este apelo de campainha. rádios. é noite. Tem uma empregada velha que apanha o recado e tomará providências. para que demore tanto. Não tem telefone. perdoem. procura tua filha. Quer apenas sua filhinha que numa tarde remota de Cachoeiro acabou de nascer e cheira a leite. Deus lhe dirá: Vai. as ruas mudaram de rumo. o olhar desviado e terno.A qualquer hora do dia ou da noite quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos. Cessem pesquisas. insultem a mãe de Luísa.

com inúteis pés fixados. enquanto sofro e sofrendo me solto e me recomponho e torno a viver e ando.1969) . (Em Reunião . está inerte cravada no centro da estrela invisível Amor.

Rir como criança Ouvir canto de passarinho Sarar de resfriado Escrever um poema de Amor Que nunca será rasgado Formar um par ideal Tomar banho de cachoeira Pegar um bronzeado legal Aprender um nova canção Esperar alguém na estação Queijo com goiabada Pôr-do-Sol na roça Uma festa Um violão Uma seresta Recordar um amor antigo Ter um ombro sempre amigo Bater palmas de alegria Uma tarde amena Calçar um velho chinelo . nem jamais e adeus.Desejos Desejo a você Fruto do mato Cheiro de jardim Namoro no portão Domingo sem chuva Segunda sem mau humor Sábado com seu amor Filme do Carlitos Chope com amigos Crônica de Rubem Braga Viver sem inimigos Filme antigo na TV Ter uma pessoa especial E que ela goste de você Música de Tom com letra de Chico Frango caipira em pensão do interior Ouvir uma palavra amável Ter uma surpresa agradável Ver a Banda passar Noite de lua Cheia Rever uma velha amizade Ter fé em Deus Não Ter que ouvir a palavra não Nem nunca.

Sentar numa velha poltrona Tocar violão para alguém Ouvir a chuva no telhado Vinho branco Bolero de Ravel E muito carinho meu. .

Nada. Amor. deixaram de existir. assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho.Destruição Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se. puro fantasma que os passeia de leve. Dois amantes que são? Dois inimigos. E eles quedam mordidos para sempre. mas o existido continua a doer eternamente. refletido. e como o que era mundo volve a nada. . Ninguém. Um se beija no outro.

Deus e suas criaturas Quem morre vai descansar na paz de Deus. duplo. em forma imperceptível. misericordioso. Deus. Seus prêmios chegam tarde. . condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte. Deus é assim: cruel. Quem vive é arrastado pela guerra de Deus. como entendê-lo? Ele também não entende suas criaturas.

Deus não está diante de Deus. . Outra fonte não tem a tristeza do homem. Está sempre em si mesmo e cobre tudo tristinfinitamente. A solidão de Deus é incomparável. A tristeza de Deus é como Deus: eterna. Deus criou triste. Domingo descobri que Deus é triste pela semana afora e além do tempo.Deus triste Deus é triste.

a dama estranha de Ouro Preto. Garrincha e nureyev. mitos não são. cristal do tempo no papel. .Diante das Fotos de Evandro Teixeira A pessoa. e dois olhos não ão bastantes para captar o que se oculta no rápido florir de um gesto. de justiça e conhecimento. que nos resta mais positivo. a lembrar como a exorcizar? Marcas de enchente e do despejo. mães-de-santo na praia-templo de Ipanema. pois são fotos. a lodosa. o lugar. dança de dois destinos. o objeto estão espostos e escondidos ao mesmo tempo so a luz. É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana e do real de cada coisa um mais seco real extraia para que penetremos fundo no puro enigma das figuras. Fotografia: arma de amor. mais queimante do que as fotos acusadoras. Das luas de rua no Rio em 68. Fotografia . a dor da América Latina. edifica uma penanência. o mendigo de Nova York a moça em flor no Jóquei Clube. o colchão atirado ao vento. podre favela. tão vivas hoje como então.é o codinome da mais aguda percepção que a nós mesmos nos vai mostrando e da evanescência de tudo. o cadáver inseputável.

pelas sete partes do mundo a viajar. ( in "Amar se aprende amando") . a surpreender a tormentosa vida do homem e a esperança a brotar das cinzas.

Todo o saber. sem paz e sem arrimo. Mas que fazer para consolo desta criança? Como em seu íntimo acender uma fagulha de confiança? Eis que acode meu coração e oferece. bombons.Diante de uma criança Como fazer feliz meu filho? Não há receitas para tal. vence o tédio. louvores. Pois o amor resgata a pobreza. ilumina o dia e instaura em nossa natureza . milhões de coisas desejadas. perdão de erros. conforme a lei do esquecimento? Submeter-se à sua vontade sem ponderar. concedidas sem reticências? Liberdade alheia a limites. sem discutir? Dar-lhe tudo aquilo que há de entontecer um grão-vizir? E se depois de tanto mimo que o atraia. sem julgamento. e dizer-lhe que estamos quites. impressa no ar. Bola. ele se sente pobre. amargamente? Não é feliz. como uma flor. patinação talvez bastem para encantar? Imprevistas. fartas mesadas. complacências. alma vazia. prêmios. todo o meu brilho de vaidoso intelectual vacila ante a interrogação gravada em mim. a doçura desta lição: dar a meu filho meu amor.

a imperecível alegria. .

duvidosos.1987 . Crianças vinham colher na maresia essas notícias da vida por viver ou da inconsciente saudade de nós mesmos.* . A pobreza da terra era maior entre os metais que a rua misturava a feios corpos.MG ..Domicílio Itabira do Mato Dentro . problema de existir.. mal difuso. E de terraço em solitude os ecos refluíam e cada exílio em muitos se tornava e outra cidade fora da cidade na garra de um anzol ia subindo. na pressa.1902 * . . adunca pescaria. amor sem uso. O apartamento abria janelas para o mundo.

Tudo morto. (in As Impurezas do Branco) . já bem perto da raiz mesma do ser. Aconteceu há mil anos? Continua acontecendo. Pois tudo enfim se liberta de ferros forjados no ar. mas sem ânsia de estar amando e estar preso. para sempre. A hera da antiga era roreja incansavelmente. A alma sorri. O tempo é.Duração O tempo era bom? Não era. Nos mais desbotados panos estou me lendo e relendo. na distância que vai de alguém a si mesmo? Vive tudo.

está sem carinho. seu instante de febre. José? E agora. sua gula e jejum.e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. e agora. sua lavra de ouro. não existe porta. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. . e agora? Se você gritasse. José? e agora. o riso não veio. José? Sua doce palavra. quer morrer no mar. está sem discurso. o dia não veio. já não pode beber. seu terno de vidro. seu ódio. se você gemesse. e agora. sua biblioteca. Você que faz versos. mas o mar secou. a luz apagou.E agora. a noite esfriou. José? Está sem mulher. se você tocasse. que zomba dos outros. se você dormisse. protesta? e agora. sua incoerência. Você? Você que é sem nome. que ama. José E agora. o povo sumiu. cuspir já não pode. José? A festa acabou. o bonde não veio. quer ir para Minas. a noite esfriou. Minas não há mais. a valsa vienense. já não pode fumar. . José.

José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato. você marcha. para onde? . José! José. sem teogonia.. sem cavalo preto que fuja do galope.se você cansasse.. você é duro. sem parede nua para se encostar.. Mas você não morre. se você morresse.

II A vida secreta da chave. Salta o edifício da areia da praia No cimento. sub-reptício. desamar. viagens. E vinha mesmo. que importa? Os móveis riam. Há um retrato na parede. morder. a extinta pureza. Entretanto há muito se acabaram os homens ficaram apenas tristes moradores. Goiás. nem traço da pena dos homens. desesperar era bom mentir e sofrer Que importa a chuva no mar? a chuva no mundo? o fogo? Os pés andando. absorve num ranger monótono substância humana... um espinho no coração uma fruta sobre o piano e um vento marítimo com cheiro de peixe. As famílias se fecham em células estanques. certo remorso de Goiás. O copo de uísque e o blue destilam ópios de emergência. O elevador sem ternura expele. vinha a noite.Edifício Esplendor I Na areia da praia Oscar risca o projeto.. . em momentos de carne lassa.. Os corpos se unem e bruscamente se separam. Era bom amar. tristeza. uivar. o mundo murchava e brotava a cada espiral de abraço.

embalei. não me lembro. talvez nuas. O estupendo banheiro de mil cores árabes. que eu vesti de negro. de carne. também convite à morte. o terraço onde as camisas tremem. anjos da guarda. como depois descobrimos. Vai crescer a tua barba neste medonho edifício de onde surge tua infância como um copo de veneno. mortos sem extrema-unção. úteis para suicídio. onde o corpo esmorece na lascívia frouxa da dissolução prévia. tratei? . cobri com chapéu. aquele que eu fiz de leite. E tinha também fantasmas. de branco. III Oh que saudades não tenho de minha casa paterna. que será do corpo? Meu único corpo. cerquei de defesas. de água.O retrato cofiava o bigode. de ar. calma. branca. bodoques e grandes tachos de doce e grandes cismas de amor. calcei com borracha. chora. meu corpo. Chora. retrato. de bege. Era lenta. tinha vastos corredores e nas suas trintas portas trinta crioulas sorrindo. IV As complicadas instalações do gás. Ah. o pavor do caixão em pé no elevador. o corpo.

Meu pai.Meu coitado corpo tão desamparado entre nuvens.. Alberto. era superfície neutra. meu avô. Doce. meu Deus! Diziam os ratos. Surgiram costumes loucos e mesmo outros sentimentos. neste aéreo living! V Os tapetes envelheciam pisados por outros pés. Fumar ou beber: proibido Os mortos olham e calam-se. O retrato descoloria-se. E começavam a roer o edifício. Nas cortinas.Que século. Todos os mortos presentes. de madrugada. . Do cassino subiam músicas e até o rumor de fichas. A vida jogada fora voltava pelas janelas.. . a brisa pousava. A chuva caiu vinte anos. As dívidas amontoavam-se. ventos. Já não acendem a luz com suas mãos entrevadas.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera bem antes sua vaga pedraria? Mas quando me perdi. E baixa a coisa fria também chamada noite. De tantas perdas uma clara via por certo se abriria de mim a mim. Ah. chega de lamento e versos ditos ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça. Dia. ao serro frio. O inverno é quente em mim. e o frio ao frio em bruma se entrelaça. que o estou berçando. num suspiro. As árvores lá fora se meditam. . e fia seu tapete de água. e as enguias à loca se recolhem. E me pergunto e me respiro na fuga deste dia que era mil para mim que esperava os grandes sóis violentos. que a notícia de perdidos lá não chegue nem açule os olhos policiais do amor-vigia. se estou perdido antes de haver nascido e me nasci votado à perda de frutos que não tenho nem colhia? Gastei meu dia. ao ouvido do muro. Nele me perdi. me sentia tão rico deste dia e lá se foi secreto. E vou me recolher ao cofre de fantasmas. ao liso ouvido gotejante de uma piscina que não sabe o tempo. Não me procurem que me perdi eu mesmo como os homens se matam. distraída. na água fria. estela fria. e em mim vai derretendo este torrão de sal que está chorando.Elegia Ganhei (perdi) meu dia.

amor. me feriram sete vezes por dia. ou forma vã. e teu cativo passeias brandamente como ao que vai morrer se estende a vista de espaços luminosos. Meu Deus. Terra a que me inclino sob o frio de minha testa que se alonga. E sou meu próprio frio que me fecho longe do amor desabitado e líquido.espelho de projeto não vivido. e uma criança que o tempo novo me anuncia e nega. e é tão ríspido em meio aos oratórios já vazios em que a alma barroca tenta confortar-se mas só vislumbra o frio noutro frio. amor em que me amaram. eu essência. em sete dias de sete vidas de ouro. ao fim de março. ou se poesia. essência estranha ao vaso que me sinto. quem contaria? E já não sei se é jogo. . meu Deus e meu conflito. não habito vossa arquitetura imerecida. minha terra. fonte de eterno frio. amor. Sou teu frio. me tens. intocáveis: em mim o que resiste são teus poros. pois que. e sinto mais presente quanto aspiro em ti o fumo antigo dos parentes. minha pena deserta. nem vos dou conta de mim nem desafio as garras inefáveis: eis que assisto a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo de me tornar planície em que já pisam servos e bois e militares em serviço da sombra. Corto o frio da folha. e contudo viver era tão flamas na promessa dos deuses.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas. Ao telefone perdeste muito. abrem guardas chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. onde as formas eas ações não enceram nenhum exemplo. . pequenino. se neblina. a renúncia. dormindo. tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. sozinho. Coração orgulhoso. sentes calor e frio. Aceitas a chuva. Praticas laboriosamente os gestos universais. o desemprego e a injusta distribuição porque não podes. e preconizam a virtude. dinamitar a ilha de Manhattan. o sangue-frio. em face de indecifráveis palmeiras. muitíssimo tempo de semear.Elegia 1938 Trabalhas sem alegria para um mundo caduco. falta de dinheiro. À noite. Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que. a guerra. fome e desejo sexual. Caminhas por entre os mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. a concepção. os problemas te dispensam de morrer.

é certo. que fugiu.Elegia carioca Nesta cidade vivo há 40 anos há 40 anos vivo esta cidade a cidade me vive há 40 anos Sou testemunha cúmplice objeto triturado confuso agradecido nostálgico Onde está. minha Avenida Rio Branco espacial verdolenga baunilhada eterna como éramos eternos entre duas guerras próximas? O Café Belas-Artes onde está? E as francesas do bar do Palace Hotel e os olhos de vermute que as despiam no crepúsculo ouro-lilás de 34? Estou rico de passarelas e vivências túneis nos morros e cá dentro multiplicam-se rumo a barras-além-da tijuca imperscrutáveis Sou todo uma engenharia em movimento já não tenho pernas: motor ligado pifado recalcitrante projeto algarismo sigla perfuração na cidade código Onde estão Rodrigo. baforando o charutão Rio diverso múltiplo desordenado sob tantos planos ordenadores desfigurados geniais ferido nas encostas . Candinho. em que Galeão Gastão espera o jato da Amazônia? Marco encontros que não se realizam na abolida José Olympio de Ouvidor Ficou. Aníbal e Manuel Otávio. Eneida. a espelharia da Colombo mas tenho que tomar café em pé e só Ary preserva os ritos da descuidada prosa companheira Padeiros entregam a domicílio o pão quentinho da alegria o bonde leva amizades motorneiras as casas de morar deixam-se morar sem ambição de um dia se tornarem tours d’ivoire entre barracos sórdidos o rádio espalha no ar Carmem Miranda a Câmara discursa os maiôs revelam 50% mas prometem bonificações sucessivas O Brasil será redimido pelo socialismo utópico Getúlio sorri.

. ó cidade é prêmio ou pena? Já nem sei se te pranteio ou te agradeço por este jantar de luz que me ofereces e a ácida sobremesa de problemas que comigo repartes no incessante fazer-se.poluído nas fontes e nas ondas Rio onde viver é uma promissória sempre renovada e o sol da praia paga nossas dívidas de classe média enquanto multidões penduradas nos trens elétricos desfilam interminavelmente na indistinção entre vida e morte futebol e carnaval e vão caindo pelo leito da estrada os morituros Ser um contigo. desfazer-se que um Rio novo molda a cada instante e a cada instante mata um Rio amantiamado há 40 anos.

bandeirantes e guerreiros.Em Face Dos Últimos Acontecimentos Oh! sejamos pornográficos (docemente pornográficos). que o melhor é ser pornográfico. a todas as criaturas que são inúteis e existem. Pensavam que o suicídio fosse a última resolução. propõe ao homem de óculos e à mulher da trouxa de roupa. Teus amigos estão sorrindo de tua última resolução. A tarde pode ser triste e as mulheres podem doer como dói um soco no olho (pornográficos. Dize a todos: Meus irmãos. sejamos tudo que quiserem. coitados. pornográficos). não quereis ser pornográficos? (in Brejo das Almas) . sobretudo pornográficos. Propõe isso a teu vizinho. Por que seremos mais castos que o nosso avô português? Oh! sejamos navegantes. ao condutor do teu bonde. Não compreendem.

e a vista pouse. antes do beijo ritual. céu. . na flora pubescente. anémonas castanhas detêm a mão ansiosa: Devagar. e tudo é sagrado. amor.Em teu crespo jardim Em teu crespo jardim. Cada pétala ou sépala seja lentamente acariciada. beijo abstracto.

Enigma Faço e ninguém me responde esta perguntinha à-toa: Como pode o peixe vivo morrer dentro da Lagoa? .

uma fogueira a arder no dia findo. e vago e brando o que é de natureza corrosiva. . onde amor. E nem os elementos encantados sabem do amor que os punge e que é. nesse quando amanhece frescor de coisa viva. suas verdades mais secretas e mais nuas. e. As almas. N'água e na pedra amor deixa gravados seus hieróglifos e mensagens. as almas vão pairando. pungindo.Entre o ser e as coisas Onda e amor. não. e a tudo me arremesso. esquecendo a lição que já se esquiva. tornam amor humor. ando indagando ao largo vento e à rocha imperativa.

Essas coisas “Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas. e morto é a idade de não sentir as coisas.” Há então a idade de sofrer e a de não sofrer mais por essas. essas coisas? As coisas só deviam acontecer para fazer sofrer na idade própria de sofrer? Ou não se devia sofrer pelas coisas que causam sofrimento pois vieram fora de hora. essas coisas? . e a hora é calma? E se não estou mais na idade de sofrer é porque estou morto.

de tanto que não fui. a sós. a esmo. e meu amor é triste como é vário. (in Fazendeiro do Ar) . e sendo vário é um só. Tenho carinho por toda perda minha na corrente que de mortos a vivos me carreia e a mortos restitui o que era deles mas em mim se guardava. A estrela-d'alva penetra longamente seu espinho (e cinco espinhos são) na minha mão. saudade sob aparência de remorso. tenho pena de mim mesmo e tenho muitos outros sentimentos violentos. Tenho horror. e de minha alta ausência em meu redor.Estrambote Melancólico Tenho saudade de mim mesmo. Mas se esquivam no inventário.

que o florentino pôs em nobre verso. une-se a Luís Hamilton. em vão tentam seguir a rota certa. dramático. movente do sol e das estrelas. e no meu tosco verso eis refletida: o som do amor. um só sejam os dois. Vai. com alto sopro bafejai-me a lira e dai-lhe o sentimento mais profundo. por seus cabelos de argêntea messe. e teu esposo contigo de mãos dadas. tempo afora. o som do ameno grito melodioso e santo e grave e jovial. Hoje Márcia gentil. Vosso himeneu. dos astros protegido. Márcia. musas do velho Olimpo e do moderno mundo. de transpassar em luz o peito amante. O sonho em vós se cristaliza e assume o contorno sensível da existência. e impregna de doçura as próprias feras. musas gregas. desnorteados. sinto surdir de oculta fonte o som de música celeste. o som da força cósmica. neta de Horácio (poeta ele também. dolente. dos deuses conterá a pura essência.Epitalâmio Musas latinas. conhecida. que às esferas sublimes reconduz o ser humano. Tenho a cumprir nobre missão de bardo. oferta a quantos. e ardente coração). sê feliz. . Cada palavra e beijo que trocardes. trazendo à vida uma razão geral. seja lição de bem amar. devo cantar o amor naquele instante miraculoso. imaturos. sobre-humano. antigo e sempre novo. de tal maneira que pouse a eternidade em cada hora. Só de vê-los.

(in Amar Se Aprende Amando) . a caminho. os da alegria ritos celebrando. despedem-se de vós. Aqui vossos amigos. Eia. Tende por certo: amar se aprende amando.Aqui vos deixo.

. Falavam baixíssimo os copos. Os gestos falavam baixo. os talheres.Esta Faca "Esta faca foi roubada no Savóia" "Esta colher foi roubada no Savóia" "Este garfo.. talvez no teu vestido. Saíamos alucinados. A penugem rala na gruta rósea era quase silêncio. dois corpos. O amor falava baixo." Nada foi roubado no Savóia.. No Savóia nada foi roubada. Tua pele entre cristais luzia branca. O reservado de paredes finas Forradas de ouvidos e de línguas era antes prisão que mal cabia um desejo. talvez no chão. Nem tua virgindade: restou quase perfeita entre manchas de vinho (era vinho?) na toalha.

são mensagens. um nome. premência. ora vulgar ora bizarro. desde a cabeça ao bico dos sapatos. Em minha camiseta.. minha toalha de banho e sabonete. nesta vida. até hoje não fumei. minha gravata e cinto e escova e pente. ainda que a moda seja negar minha identidade. letras falantes. Com que inocência demito-me de ser eu que antes era e me sabia tão diverso de outros. reincidência. Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada por este provador de longa idade.Eu. Minhas meias falam de produto que nunca experimentei mas são comunicados a meus pés. estou na moda. abuso. tiro glória . tão mim-mesmo. Estou. escravo da matéria anunciada. a marca de cigarro que não fumo. invencível condição. e fazem de mim homem-anúncio itinerante. ordens de uso. meu relógio. costume. principalmente). estranho. sentinte e solidário com outros seres diversos e conscientes de sua humana. Etiqueta Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório. Agora sou anúncio. indispensabilidade. E nisto me comprazo. ser pensante. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca. Meu lenço. trocá-la por mil. meu isso.. meu copo. todos os logotipos do mercado. meu chaveiro. gritos visuais. hábito. açambarcando todas as marcas registradas. meu aquilo. em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer. minha xícara. É doce estar na moda.

Já não me convém o título de homem. recolocam. tão orgulhoso de ser não eu. peço que meu nome retifiquem. que moda ou suborno algum a compromete.de minha anulação. para vender em bares festas praias pérgulas piscinas. e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva. sou tecido. Por me ostentar assim. independente.vê lá . mas artigo industrial.anúncio contratado. cada olhar. Não sou . não de casa. minhas idiossincrasias tão pessoais. Eu sou a coisa. cada vinco da roupa resumia uma estética? Hoje sou costurado. coisamente. saio da estamparia. tão minhas que no rosto se espelhavam. Eu é que mimosamente pago para anunciar. tarifados. (in Corpo) . da vitrina me tiram. objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos. Meu nome novo é coisa. e cada gesto. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher. sou gravado de forma universal.

... em que momento da vida você cansou. quanta coisa nova nesse mundo de meu Deus te esperando.. desenhar... Sentiu-se só por diversas vezes? é por que fechaste a porta até para os anjos.." Não importa onde você parou.. Acreditou que tudo estava perdido? era o indício da tua melhora.. qualquer outra coisa. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo.... Está se sentindo sozinho? besteira. o que importa é que sempre é possível e necessário" recomeçar". o mal humor vai comendo nosso fígado.. acreditar em você de novo..."Eu hoje joguei tanta coisa fora.. dominar o computador. Chorou muito? foi limpeza da alma.....agora é hora de reiniciar.. ficamos horríveis. nem nós mesmos nos suportamos.... Ficou com raiva das pessoas? foi para perdoá-las um dia. ou aquele velho desejo de aprender a pintar....... Que tal um novo emprego? Uma nova profissão? Um corte de cabelo arrojado....... tem tanta gente que você afastou com o seu período de isolamento tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu para "chegar" perto de você. de pensar na luz. .... Sofreu muito nesse período? foi aprendizado.. Pois . de encontrar prazer nas coisas simples de novo. é renovar as esperanças na vida e o mais importante... diferente? Um novo curso. Quando nos trancamos na tristeza.. Olha quanto desafio.........

.... joga fora tudo que te prende ao passado...... hoje é um bom dia para começar novos desafios.. É hoje o dia da faxina mental. jogue tudo fora... queira o melhor do melhor.. se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor... somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes... pensando assim trazemos prá nós aquilo que desejamos.. mas principalmente. se pensamos pequeno. o melhor vai se instalar na nossa vida... para um novo amor....... ingressos de cinema... Nós somos o "Amor".. e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados..... peças de roupa....... esvazie seu coração. . ao mundinho de coisas tristes. queira coisas boas para a vida.. coisas pequenas teremos. Onde você quer chegar? ir alto....até a boca fica amarga. sonhe alto. fique pronto para a vida.... Recomeçar. papel de bala...... afinal de contas. bilhetes de viagens.. fotos... Lembre-se somos apaixonáveis.

e que fale como dois olhos Caminho por uma rua que passa por muitos países. Minha vida. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. todas as mães se reconheçam. Se não me vêem. eu vejo e saúdo velhos amigos. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. nossas vidas formam um só diamante.Eu preparo uma canção Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. . Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças.

" Como podem lábios donzelos mover-se. O nojo do substantivo . A mulher era muda no orgasmo.. a penumbra retal. ônibus. na exaltação de erecta divindade em seus templos cavernames de desde o começo das eras quando cinza e vergonha ainda não haviam corroído a inocência de viver. língua e membro exploradores.. pareciam tomar a forma arrendondada de um ânus. A noite era mal dormida. O pesadelo fedia-me no peito. e verbo a vulva. Canais implícitos. A amada vestida de fezes puxava-me. O corpo soltou-se. . mãos de trampa escorregante acarinhavam-me o rosto. Nádegas aparecem em anúncios. para emitir com tamanha naturalidade o asqueroso maravilhoso? A tal ponto que. quando a língua é falo.baixinho . adianta nomeá-los? Esperam o beijo do consumidoramante. abismos lexicais onde se restaura a face intemporal de Eros.no escuro da mata do quarto fechado. A luz do dia saúda-o.foi há trint'anos ao sol de hoje se derrete.Eu sofria quando ela me dizia Eu sofria quando ela me dizia: "Que tem a ver com as calças. Estuda-se nova geografia. E a língua vai osculando a castanha clitórida. reinava sobre os costumes do mundo anestesiado e havia palavras impublicáveis. Assim o amor ganha o impacto dos fonemas certos no momento certo. e as aberturas do corpo. abrindo-se. desdenhosos. A amada quer expressamente falar e gozar gozar e falar vocábulos antes proibidos e a volúpia do vocábulo emoldura a sagrada volúpia. ruas. "Que tem a ver. meu querido?" Vitória. tevês. entre uivos e gritos litúrgicos. eu fugia. Imperatriz. proclamada. nudez conquistada. As cópulas se desenrolavam .

F Forma forma forma que se esquiva por isso mesmo viva no morto que a procura a cor não pousa nem a densidade habita nessa que antes de ser já deixou de ser não será mas é forma festa fonte flama filme e não encontrar-te é nenhum desgosto pois abarrotas o largo armazém do factível onde a realidade é maior do que a realidade (in lição de Coisas) .

Na minha rua todos viram e falaram com seus tripulantes na língua misturada de carioca e de sinais verdes luminescentes que qualquer um entende. por além sem necessidade de passaporte e certidão negativa de IR. Olham-me com desprezo benévolo. a forma.Falta um disco Amor. Por que a mim. Bahia Barra da Tijuca e Barra Mansa. Um amigo que eu tenho todas as semanas vai ver o seu disco na praia de Itaipu. a cor . estou triste porque sou o único brasileiro vivo que nunca viu um disco voador. pois enfim nada existe de mais identificado do que um disco voador hoje presente em São Paulo. de boca. mas o jeito. os olhos! contam de prodígios tornados simples de tão semanais apenas secretos para quem não é capaz de ouvir e de entender um disco. pois não? Entraram a bordo (convidados) voaram por aí por ali. Voltaram cheio de notícias e de superioridade. aquele que vê apenas caminhão cartaz de cinema. buraco na rua & outras evidências pedestres. Sou o pária. sem dólares. (Os patores desta aldeia já me fazem zombaria pois procuro. amor. sem dólares. Este não diz nada pra mim. somente a mim recusa-se o OVNI? talvez para que a sigla de todo não se perca. em vão procuro noite e dia o zumbido.

.) Bem sei que em toda parte eles circulam: nas praias no infinito céu hoje finito até no sítio de um outro amigo em Teresópolis. Amor. Mas o disco. o disco? Ele me foge e ri de minha busca.? Isso me garantem meus vizinhos e eu. estou tristinho.de um só disco voador. estou tristonho por ser o só que nunca viu um disco voador hoje comum na Rua do Ouvidor. Não viu? Não vi. Dele desceu (parece) um sujeitinho furta-cor gentil puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx).. Um passou bem perto (contam) quase a me roçar. chamado não chamado insensível e cego sem ouvidos deixei passar a minha vez. Bem sei e sofro com a falta de confiança neste poeta que muita coisa viu extraterrena em sonhos e acordado viu sereias. talvez. dragões o Príncipe das Trevas a aurora boreal encarnada em mulher os sete arcanjos de Congonhas da Luz e doces almas do outro mundo em procissão..

pequenos alumbramentos. Diz ao homem: Trabalhe! E ele usa o corpo. Diz ao homem: Viva! E ele respira e existe. medos e coragens. . de um simples fazedor de homens. A ponte de um homem é um braço estendido. Mas diz ao homem: Procrie! E ele faz homens. O mundo roda no sistema egocêntrico de suas realidades. II O homem faz o homem. É bom ser uma ilha distante tanto quanto é bom ser um homem. Todo homem possui uma ponte pois é preciso sair da ilha. não pensou nada. O que o transforma. mundo-homem.porque o homem não fez.. Diz ao homem: Ame! E ele não sabe como. Se a vida foi longa para viver . sem nem o homem querer aufere direitos do homem. Todo homem é um mundo. Um dia ele morre.é curta para morrer . seguro. Diz a ele: Cresça! E ele fica mais alto..Fazedor de homens I Todo homem é uma ilha. volta à ilha: Todo homem ama sua ilha.homem-mundo. também. não escolheu. E quando o homem encara o mundo e se depara . III O que faz um homem diferente de outro homem é o que ele pensa. E porque fez o homem.

e se aceita o fato. Reivindica. Temeroso de ter que voltar um dia. Nela inclui o seu saber e a parte maior do não saber.num criador de homens. a ilha fica ali. a medida de um homem é a sua carência: porque é assim que ele se assume. A ponte fica ali. tal é a sua medida. Todo homem é uma consciência. é com ela que ele se entende. Luta e sofre. quanto pode. E se deixa de ser vontade teme a perda de sua posse. só ilha. Pede. Como também. Todo homem é uma vontade. entretanto. E o homem fica ali. só ponte. só homem. Exige. Todo homem é seu corpo. . Quanto mais ele precisa mais ele é maior. porque é assim que ele se liberta. Enquanto isso. Todo homem quer deixar sua ilha. não destrói as pontes. E sabe dele em contraste com outro corpo. E dá.

em liga. tudo era casto. Rês morta. Mulher. Ninguém sabia da Rússia com sua foice. A morte escolhia a forma breve de um coice. O amor das éguas rinchava no azul do pasto. logo em concílio. O Retiro ficava longe do oceanomundo. E criação e gente. . abundavam negras socando milho. urubus rasantes.Fazenda Vejo o Retiro: suspiro no vale fundo..

escravas e crias de ações da Companhia de Navegação do Alto Paraguai da aurifúlgida comenda no baú enterrado no poço da memória restou.Herança De mil datas mineiras com engenhos de socar de lavras lavras e mais lavras e sesmarias de bestas e vacas novilhas de terras de semeadura de café em cereja (quantos alqueires?) de prata em obras (quantas oitavas?) de escravos. talvez? este pigarro .

coitado. O Brasil não nos quer! Está farto de nós! Nosso Brasil é no outro mundo. Não é só um país sem igual. Este não é o Brasil. se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens.Hino Nacional Precisamos descobrir o Brasil! Escondido atrás das florestas... com a água dos rios no meio. O Brasil está dormindo. nossos erros também. Precisamos louvar o Brasil. salão para conferências científicas. tão despropositado. por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos. Nossas revoluções são bem maiores do que quaisquer outras. alemãs gordas... E cuidaremos do Estado Técnico. Cada brasileiro terá sua casa com fogão e aquecedor elétricos. Não convém desprezar as japonesas. E virão sírias fidelíssimas.. Precisamos colonizar o Brasil.. tão sem limites. O que faremos importando francesas muito louras... E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões. os Amazonas inenarráveis. de pele macia. os incríveis Jõao-Pessoas. ele quer repousar de nossos terríveis carinhos. piscina. Compraremos professores e livros. Nenhum Brasil existe.. assimilaremos finas culturas. Precisamos adorar o Brasil! Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão no pobre coração já cheio de compromissos. abriremos dancings e subvencionaremos as elites.. Precisamos educar o Brasil.. E acaso existirão os brasileiros? . Precisamos. russas nostálgicas para garçonettes dos restaurantes noturnos. precisamos esquecer o Brasil! Tão majestoso.

Hipótese E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica. . talvez. as coisas deste mundo.

De Senhor dos Assuntos. Que é isso. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação. que está de olho na maquininha. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo. reflexos no espelho (infiel) do dicionário. rapaz. enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza. sem responsabilidade na instrução ou orientação do público. sandálias. excesso de vibração. que fizeram o acontecimento. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes. Ao passo que. é outra. aí está você. você participa com palavras? Sua escrita . na raça. escrevinhando sobre a vida. você aprovou as valentes ações dos outros. purê de palavras.. que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Sim. pois ao imprevisto sucede outro. Assim é fácil manter a consciência limpa. rei proprietário do universo. ver mais longe do que o comum. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. para objeto de sua divagação descompromissada. E nem sequer você escreveu O Capital. como optar entre as variedades de insólito? E que dizer. Divino. e você não sabe ir além disso. vedada a você. . Sim. mas com igual indiferença pelo que vão dizendo.. ar condicionado. ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar. Tudo se repete na linha do imprevisto. antes e depois da operação. não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Selecionando os retalhos de vida dos outros. senhor. colunista especializado. adjetivos. há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos. passar a espectador enfastiado de espetáculo. não é comentarista internacional. explosiva. eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.às vezes nem isso. Você é o marginal ameno. e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Esquecido de que é um deles. por via gramatical. dando sua opinião sobre a angústia. Sereno. não corta de verdade a barriga da vida. em sua protegida pessoa. não precisa esgotar os temas. Ou. sem se dar ao incômodo de praticá-las. Superior. Entretanto. de falta de apetite para os milhares de assuntos. porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. o ridículo. Claro. Não apenas o sol. num mecanismo de monotonia. mais propriamente. assuntando. inclusive a simples claridade da hora. Concluiu que não há assunto. Impede a conjugação de tantos outros verbos. se seus escritos fossem produtos medicinais). mas tudo que ele ilumina. dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos. o absurdo promovido a regra de jogo. derrubar as estruturas.. quer dizer: que não há para você. Escrever é triste. crédulos. não revolve os intestinos da vida. um adultério grego .transforma a cara das coisas.por hipótese . sugestionáveis. Não é redator de boletim político. a maluquice dos homens. Ah.Hoje não escrevo Chega um dia de falta de assunto. Então hoje não tem crônica. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”. uma revolução. as letras se reunindo com maior ou menor velocidade. Tudo que se faz sem você. manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. O que você perde em viver. se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. que importância a sua: sentado aí. Os dedos sobre o teclado. que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália. Desaprovou as ações nefandas. como se fosse deus. como diria a bula. porque com você não é possível contar. Isso de escrever O Capital é uma coisa. verbos? Mas foram os outros. cafezinho. casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. camisa aberta.. que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto. E então vem o tédio. Vazio. fica em sua cadeira. Na hora ingrata de escrever. a revolta. assuntando.

nasce escravo. Lombilho que ele faz. Cortaram-lhe os excedentes. Cortassem mais dois. exímio seleiro. seria o mesmo admirável oficial de sapateiro. esse Atanásio. Mas quem vai prender homem de tantas qualidades? . homem livre. quem mais faria? Tem prática de animais. o que não é bom para Atanásio e para ninguém. onde é cozinheiro. ótimo sempre. Então foge do Rio Doce. explicadinho: Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio. no Seminário de Diamantina. Sendo tanta coisa. Bota anúncio no Jequitinhonha.Homem livre Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão. Vai parar. Meu parente Manuel Chassim não se conforma. grande ferreiro.

Homenagem Jack London Vachel Lindsay Hart Crane René Crevel Walter Benjamin Cesare Pavese Stefan Zweig Virginia Woolf Raul Pompéia Sá-Carneiro e disse apenas alguns de tantos que escolheram o dia a hora o gesto o meio a dissolução (in As Impurezas do Branco) .

no meio. No adro ficou o ateu. O canto dos homens trabalhando trabalhando mais perto do céu cada vez mais perto mais . Bem bão! Bem bão! Os serafins. . A manhã pintou-se de azul.a torre. Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida. E nos domingos a litania dos perdões. no alto fica Deus. Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos. Domingo . O padre que fala do inferno sem nunca ter ido lá. o murmúrio das invocações. . .Igreja Tijolo areia andaime água tijolo. entoam quirieleisão.

Não é igual a nada. sextinas e rondós são iguais e todos. cruéis. Contudo. gazéis. Todas as fomes são iguais. todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais. Todas as experiências de sexo são iguais. bicho ou coisa. Todos os filmes de todos os países são iguais. Todos os sonetos.Igual-desigual Eu desconfiava: todas as histórias em quadrinho são iguais. Todos os filmes norte-americanos são iguais. . o homem não é igual a nenhum outro homem. Todos os amores. Todas as ações. A morte é igualíssima. Todos os partidos políticos são iguais. Todos os best-sellers são iguais. Todas as criações da natureza são iguais. iguais iguais iguais. piedosas ou indiferentes. são iguais. Todas as guerras do mundo são iguais. Todo ser humano é um estranho ímpar. Todas as mulheres que andam na moda são iguais. virelais. Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais. Iguais todos os rompimentos.

. grande destro sem querer celebridade pelos mil que era num só se fez único ficando no seu primeiro caráter de bom mineiro jamais morrerá e sempre será. morreu o poeta sem morrer à eternidade ele que fez de uma pedra louvor para sua cidade gauche.Imortalidade Morre-se de mil motivos e sem motivo se morre de saudade.

comprida história que não acaba mais. Meu irmão pequeno dormia Eu sozinho. ia para o campo. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé... . Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: ..Infância Meu pai montava a cavalo.Psiu. menino entre mangueiras lia história de Robinson Crusoé. que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. Minha mãe ficava sentada cosendo. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala e nunca se esqueceu chamava para o café.. Para o berço onde pousou um mosquito E dava um suspiro. não acorde o menino.

mas a areia é quente. . Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes. e há um óleo suave que eles passam nas costas. e esquecem. tudo ignoram. definitivamente inocentes.Inocentes do Leblon Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar.

.Inscrição tumular O instante de corola o instante de vida o instante de sentimento o instante de conclusão o instante de memória e muitos outros instantes sem razão e sem verso.

sobre o tempo sem caule. corcel rubro. uma promessa. mas tão delicioso. Era o dia nascendo. A manha sempre sempre.Instante Uma semente engravidava a tarde. que a ferida no peito transtornado. e é fuga e vento. aceso em festa. e as presas num feliz entregar-se. . me planejas? 0 que se desatou num só momento não cabe no infinito. e dociastutos eus caçadores a correr. vida eterna. gravura enlouquecida. dava um coice. em vez da noite Perdia amor seu hálito covarde. e a vida. entre soluços E que mais. acordava.

Isso é Aquilo O fácil o fóssil o míssil o físsil a arte o infarte o ocre o canopo a urna o farniente a foice o fascículo a lex o judex o maiô o avô a ave o mocotó o só o sambaqui .

Itabira Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. Tutu caramujo cisma na derrota incomparável. Os meninos seguem para a escola. na porta da venda. Os ingleses compram a mina. . Só. Os homens olham para o chão.

que sei de sua essência (ou não a tem).Jardim Itabira do Mato Dentro . jardim apenas.MG . mas por pálidas contas de colares que alguém vai desatando.* . não. presságio .1902 * . de um vegetal segredo enfeitiçadas.1987 Negro jardim onde violas soam e o mal da vida em ecos se dispersa: à toa uma canção envolve os ramos como a estátua indecisa se reflete no lago há longos anos habitado por peixes. matéria putrescível. enquanto outras visões se delineiam e logo se enovelam: mascarada. olhos vazados e mãos oferecidas e mecânicas. pétalas.

José E agora. José? e agora. seu instante de febre. sua gula e jejum. José? Está sem mulher. sua lavra de ouro. mas o mar secou. José? E agora. está sem carinho. seu terno de vidro. já não pode fumar. cuspir já não pode. e agora. Você que faz versos. já não pode beber. está sem discurso. que ama. . que zomba dos outros. José? sua doce palavra.e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. a noite esfriou. não existe porta. seu ódio. José? A festa acabou. protesta? e agora. o bonde não veio. o povo sumiu. Você? Você que é sem nome. . e agora. a luz apagou. sua incoerência. o dia não veio. sua biblioteca. a noite esfriou. o riso não veio. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. quer morrer no mar.

se você dormisse.. sem parede nua para se encostar. se você gemesse. se você cansasse. se você morresse. José. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato. José! José. sem cavalo preto que fuja do galope. e agora? Se você gritasse. você é duro.. a valsa vienense. você marcha. sem teogonia.. para onde? . Mas você não morre. se você tocasse. Minas não há mais.quer ir para Minas.

Eu vi a lagoa. Eu vi a lagoa.Lagoa Eu não vi o mar. O mar não me importa... A lagoa é grande E calma também. sim. A lagoa. Na chuva de cores da tarde que explode a lagoa brilha a lagoa se pinta de todas as cores. Eu não vi o mar. Não sei se o mar é bonito. . não sei se ele é bravo.

Os ingleses compram a mina. Os meninos seguem para a escola. Os homens olham para o chão.LANTERNA MÁGICA IV — ITABIRA Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê. . Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos.

A triste polução foi adiada. terra batida. . procura-se a greta entre as tábuas do soalho por onde se surpreenda a florescência do corpo das mulheres na sombra de vestido refolhados que cobrem até os pés a escultura cifrada. Nada nada nada senão a sola negra dos sapatos tapando a greta do soalho. mina de ouro? Contenho respiração. lar de escorpiões. que nunca se devassam por mais que o desejo aguce a vista e o sangue implore uma visão de céu e terra encavalados. Encontro.Le voyeur No úmido porão. Entro rastejante dobro o corpo em dois à procura da greta reveladora de não sei que mistério radioso ou sombrio só a homens ofertado em sigilo de quarto e noite alta. Dispara o coração no fim de longa espera ao rumor de saias lá em cima ai de mim. Saio rastejante olhos tortos pescoço dolorido.

é mesmo estar morto. Mas livre. .Liberdade O pássaro é livre na prisão do ar. bem livre. O espírito é livre na prisão do corpo.

Lição Tarde. . a vida me ensina esta lição discreta: a ode cristalina é a que se faz sem poeta.

Atirei um limão n'água mas perdi a direção Os peixes. o rio logo amargou. Atirei um limão n'água. Cada peixinho assustado me lembra o que já sofri. Ouvi um peixe dizer: Melhor é o beijo roubado. Atirei um limão n'água. Os peixinhos repetiram: é dor de quem muito amou. Atirei um limão n'água mas depois me arrependi. rindo. Atirei um limão n'água. o rio ficou vermelho e cada peixinho viu meu coração num espelho. .Lira do amor romântico Atirei um limão n'água e fiquei vendo na margem. notaram: Quanto dói uma paixão! Atirei um limão n'água. ele afundou um barquinho. como faço todo ano. Atirei um limão n'água. Senti que os peixes diziam: Todo amor vive de engano. Não se espantaram os peixes: faltava-me o teu carinho. Atirei um limão n'água e caiu enviesado. como um vidro de perfume. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem. Em coro os peixes disseram: Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n'água . Atirei um limão n'água. pedindo à água que o arraste. tu me terás esquecido? Atirei um limão n'água. Se os peixes nada disseram. antes atirasse a vida. de tão baixo ele boiou. Até os peixes já sabem: Você não ama: tortura. Iria viver com os peixes a minh'alma dolorida. Atirei um limão n'água. Comenta o peixe mais velho: Infeliz quem não amou. Atirei um limão n'água. antes não tivesse feito. Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água. fez-se logo um burburinho. caiu certeiro: zás-trás. Atirei um limão n'água. não fez o menor ruído. de clara ficou escura. Foi tamanho o rebuliço que os peixinhos protestaram: Se é amor. Os peixinhos me acusaram de amar com falta de jeito. Bem me avisou um peixinho: Fui passado para trás. deixa disso. Até os peixes choraram porque tu me abandonaste. Nenhum peixe me avisou da pedra no meu caminho.Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água.

e caí n'água também pois os peixes me avisaram, que lá estava meu bem. Atirei um limão n'água, foi levado na corrente. Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente.

Mãe sem dia
As mães que já o eram antes de ser instituído o Dia das Mães não se importam muito com ele, e até dispensam homenagens sob esse pretexto. Mas as que cumpriram a maternidade após a sua criação, pensam de outro modo, e amam a data. Edwiges, mãe recente, com filho de ano e meio de idade, não tinha quem celebrasse o seu Dia, pois a criança estava longe de poder fazê-lo. Comprar para si mesma um presente não tinha graça, e além do mais não havia dinheiro para isso. Aderir à festa das outras mães, que tinham filhos grandes e recebiam homenagens, era como furtar alguma coisa, o que repugnava a Edwiges. Adormeceu e teve um sonho. O filho crescia velozmente diante de seus olhos e, chegando aos 18 anos, levava para ela o mais lindo ramo de crisandálias e pequeno estojo de veludo. Abriu-o com sofreguidão e deparou com uma aliança em que estava gravado um nome diferente do seu. Notando-lhe a surpresa, o filho pediu desculpas. O anel era para a namorada, só as flores lhe pertenciam. E saiu correndo com o estojo e o anel para entregá-los à moça. Mãe solteira, Edwiges ficou com as crisandálias o tempo daquele sonho. Seu Dia das Mães consistiu em lembrar o sonho. In "Contos Plausíveis"

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Memória

Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Meninos Suicidas

Um acabar seco, sem eco, de papel rasgado (nem sequer escrito): assim nos deixaram antes que pudéssemos decifrá-los, ao menos, ao menos isso, já não digo... amá-los. Assim nos deixaram e se deixaram ir sem confiar-nos um traço retorcido ou reto de passagem: pisando sem pés em chão de fumo, rindo talvez de sua esbatida miragem. Não se feriram no próprio corpo, mas neste em que sobrevivemos. Em nosso peito as punhaladas sem marca - sem sangue - até sem dor contam que nós é que morremos e são eles que nos mataram. (in As Impurezas do Branco)

Memória
Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Mimosa boca errante
Mimosa boca errante à superfície até achar o ponto em que te apraz colher o fruto em fogo que não será comido mas fruído até se lhe esgotar o sumo cálido e ele deixar-te, ou o deixares, flácido, mas rorejando a baba de delícias que fruto e boca se permitem, dádiva. Boca mimosa e sábia, impaciente de sugar e clausurar inteiro, em ti, o talo rígido mas varado de gozo ao confinar-se no limitado espaço que ofereces a seu volume e jato apaixonados, como podes tornar-te, assim aberta, recurvo céu infindo e sepultura? Mimosa boca e santa, que devagar vais desfolhando a líquida espuma do prazer em rito mudo, lenta-lambente-lambilusamente ligada à forma ereta qual se fossem a boca o próprio fruto, e o fruto a boca, já chega, chega, chega de beber-me, de matar-me, e, na morte, de viver-me. Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

de passo maneiro e leve. . Sua lata. com 21 anos de idade. E já que tem pressa. o corpo vai deixando à beira das casas uma apenas mercadoria.Morte do Leiteiro Há pouco leite no país.. empregado no entreposto. Meu leiteiro tão sutil. é preciso entregá-lo cedo. é claro. que ladrão se mata com tiro. peguemos o corredor. Há no país uma legenda. e seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade. Na mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro. avancemos por esse beco. E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo. sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. depositemos o litro.. Sem fazer barulho. Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom pra gente ruim. é preciso entregá-lo cedo. que barulho nada resolve. Há muita sede no país. suas garrafas. morador na Rua Namur.

. Ladrão? se pega com tiro. não sei. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. Por entre objetos confusos.antes desliza que marcha. se era alegre. Meu Deus. ou um gato quizilento. cão latindo por princípio. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite. perdeu a pressa que tinha. duas cores se procuram. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado. sangue.. Mas o homem perdeu o sono e todo. E há sempre um senhor que acorda. . é tarde para saber. Se era noivo. O revólver da gaveta saltou para sua mão. a manhã custa a chegar. se era bom. mal redimidos da noite. Quem quiser que chame médico. ao relento. Da garrafa estilhaçada. mas o leiteiro estatelado. A noite geral prossegue. se era virgem. Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro). amorosamente se enlaçam. polícia não bota a mão neste filho de meu pai. matei um inocente. e foge pra rua. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. resmunga e torna a dormir. suavemente se tocam. não sei. formando um terceiro tom a que chamamos aurora. vaso de flor no caminho. não quis saber de mais nada. Está salva a propriedade.

não nos interrogam. nossa incômoda sensação de estar vivos e sentir que nos seguem.Mortos que andam Meu Deus. fiscalizam nosso caminho e jeito de caminhar. Aparecem no bar. Não nos fitam. imprescritíveis. não nos cobram nada. na biblioteca. nos cercam. . E não falam. Acompanham. os mortos que andam! Que nos seguem os passos e não falam. no teatro.

provocante. Seios. inocência de irmã e copo d’água. Não é nudez datada. O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que o leva. nádegas (tácito armistício) repousam de guerra. dando este nome à vida: castidade.Mulher andando nua pela casa Mulher andando nua pela casa envolve a gente de tamanha paz. Pêlos que fascinavam não perturbam. É um andar vestida de nudez. . Também eu repouso. Transitam curvas em estado de pureza.

sem que ele estale. É muito menor. Conheces os navios que levam petróleo e livros carne e algodão. O mundo é grande. Mas também a rua não cabe todos os homens. Fecha os olhos e esquece. Nele não cabem nem as minhas dores. sabes como é difícil sofrer tudo isso. A rua é enorme. A rua é menor que o mundo. meu coração é muito pequeno. Por isso me dispo. me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos.. Tu sabes como é grande o mundo. Escuta a água nos vidros. Sim. Só agora vejo que nele não cabem os homens. estão na rua. as diferentes dores dos homens. Maior.. meu coração não é maior que o mundo.Mundo Grande Não. por isso freqüento os jornais. muito maior do que eu esperava. Por isso gosto tanto de me contar. Os homens estão cá fora. . Viste as diferentes cores dos homens. Por isso me grito. amontoar tudo isso num só peito de homem.

Em verdade sou muito pobre. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam. não obstante exaustivas e convocando ao suicídio. só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. Outrora viajei países imaginários. ridículo e frágil é meu coração. ilhas sem problemas. as confissões patéticas.. tão calma! vai inundando tudo. Estúpido. Nunca escutei voz de gente. Meus amigos foram às ilhas. o grande mundo está crescendo todos os dias. os poemas.) Outrora escutei os anjos. Entretanto escorre nas mãos. fáceis de habitar. Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos – voltarão? Meu coração não sabe. Não anuncia nada. entre o fogo e o amor. Ilhas perdem o homem. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo.tão calma. .. as sonatas.

Então. – Ó vida futura! nós te criaremos. meu coração também pode crescer. . entre a vida e o fogo. meu coração cresce dez metros e explode. Entre o amor e o fogo.

de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada. Vinicius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar. bonde. mesmo assim pode não ter namorado. quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele. um envolvimento e dois amantes. medo do pai. A proteção dele não precisa ser parruda. sua frio e quase desmaia pedindo proteção. abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Difícil porque namorado de verdade e muito raro. mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme. dois paqueras. escondida. nuvem. Necessita de adivinhação. transa. lagrima. decidida ou bandoleira: basta olhar de compreensão ou mesmo de aflição. quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado não e quem não sabe o gosto da chuva.Namorado Quem não tem namorado e alguém que tirou ferias não remuneradas de sim mesmo. gabiru. quem não recorta artigos. brisa ou filosofia. Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado. Namorado e a mais difícil das conquistas. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor. cavalo alado. cinema sessão das duas. de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metro. sanduíche de padaria ou drible no trabalho. de flor catada no muro e entregue de repente. fazer compra junto. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas. fugidia ou impossível de durar. Namorado não precisa ser o mais bonito. caso. Não tem namorado quem não tem musica secreta com ele. show do Milton Nascimento. nuvem. Se você tem três pretendentes. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques. de pel. ate paixão e fácil. quem não dedica livros. de poesia de Fernando Pessoa. beira d'agua. Paquera. Mas namorado. fazer cesta abraçado. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. fliperamas. Namorar e fazer pactos com felicidade ainda que rápida. quindim. mesmo. Não tem namorado quem transa sem carinho. e difícil. Quem não tem namorado não e quem não tem humor: e quem não sabe o gosto de namorar. envolvimento. ruas de sonhos ou musical da Metro. bosques enluarados. tapete magico ou foguete interplanetário. de carinho escondido na hora em que se passa o filme. de saliva. flerte. Não .

que faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. . Não tem namorado quem fala sozinho. quem curte sem aprofundar. se você não tem namorado e porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. De alma escovada e coração estouvado. quem gosta sem curtir. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.tem namorado quem ama sem gostar. cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana. Não tem namorado quem ama sem se dedicar. Se você não tem namorado porque descobriu que o amor e alegre e você vive passando duzentos quilos de grilos e de medo. e passeie e mãos dadas com o ar. ponha a saia mais leve. quem vive cheio de obrigações. na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas. quem namora sem brincar. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. aquela de chita.

. e eu covarde a esperar que limpasses toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala. fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos. Se em tempo não ousei. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te. agora é tarde. renascida. universal poema. e chegasses. para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante. intacta. de desejar-te tanto e sem alarde.Não quero ser o último a comer-te Não quero ser o último a comer-te.

passa realemente. estarmos sós. Nada. nossas mãosrugosas. A mão. têm o antigo calor de quando éramos vivos. que eu sinta.Não Passou Passou? Minúsculas eternidades deglutidas por mínimos relógios ressoam na mente cavernosa. ninguém morreu. É tudo ilusão de ter passado.a tua mão. Éramos? Hoje somos mais vivos do que nunca. Não. . ninguém foi infeliz. Mentira.

rezas. e os recalques se sublimando. meu filho. . Você é a palmeira. sossegue. Não se mate. reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão. a noite passou em você. ninguém sabe nem saberá. vitrolas. barulho que ninguém sabe de quê. O amor. no claro. O amor no escuro. Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. se é que virão. depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. não. lá dentro um barulho inefável. você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. o amor é isso que você está vendo: hoje beija. amanhã não beija. oh não se mate.Não se mate Carlos. é sempre triste. pra quê. Carlos. santos que se persignam. Entretanto você caminha melancólico e vertical. você telúrico. mas não diga nada a ninguém. anúncios do melhor sabão. Carlos.

Necrológio dos desiludidos do amor Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. os seus dentes de ouro não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. violento. As amadas torcem-se de gozo. Desiludidos mas fotografados. enjoada. Pum pum pum adeus. escreveram cartas explicativas. Do meu quarto ouço a fuzilaria. sem coração. tomaram todas as providências para o remorso das amadas. mas nos veremos seja no claro céu ou turvo inferno. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. sobre a tumba deles. . Que grandes corações eles possuíam. Eu vou. sem amor. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados competentemente (paixões de primeira e segunda classe). Oh quanta matéria para os jornais. Vísceras imensas. sem tripas. tu ficas. Única fortuna. Os desiludidos seguem iludidos. Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram.

no seu giro lento. me penso. e respiro a brisa dos planetas. . já me estiro. iluminando o gozo. Que tanto mais a quero. esse retiro . se me firo em unhas protestantes.a doce bunda .é ainda o que prefiro.. meu mais íntimo suspiro.No corpo feminino.. me confiro. a bunda torna-se vampiro. Então. ou se. o sentimento da morte eis que o adquiro: de rola. qual lampiro. me restauro. dessedentado. esse retiro No corpo feminino.a mão. se ponho e tiro a mão em concha . pois tanto mais a apalpo quanto a miro. violento. sábio papiro. A ela.

. minha morte já não me pertence. Tu a levaste contigo.No mármore de tua bunda No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio. Agora que nos separamos.

No Meio do Caminho No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no mei do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. . Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.

junto do espelho que com elas rimava. num clarão. anéis negros. acaricio a flora negra. nesse branco total do tempo extinto em que eu. apascentava caracóis perfumados. montes de Vênus. Apalpo. Vou beijando a memória desses beijos. cobrinhas passionais.No pequeno museu sentimental No pequeno museu sentimental os fios de cabelo religados por laços mínimos de fita são tudo que dos montes hoje resta. e negra continua. pastor falante. . visitados por mim. Os movimentos vivos no pretérito enroscam-se nos fios que me falam de perdidos arquejos renascentes em beijos que da boca deslizavam para o abismo de flores e resinas.

tornar a sair. . . dissolveu a noção de residência. sair. . alado. às vezes descalça.Esta e aquela. às vezes comendo pão com cocada. O peixeiro presta-lhe esse serviço. praticar pequenos atos domésticos. Descobre na porta.. Muito mexedeira.Não mexa. a solução já não lhe satisfaz. desencadeando o necessário e aflitivo rumor. Quando não é algum transeunte austero. esta bananinha. Mexia. a seu alcance. de mão na boca. Nem tudo são flores. de castigo. Catarina foi inventada à pressa. esquecida. Entre os mitos do mundo (entre os seres reais?) existe mais um. para frustrar certa depredação iminente.. no espaço entre as duas residências. Entra uma coisinha morena. ..Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina. . dormir na primeira poltrona.Esta. perguntam de dentro: .Nada.Gosto da outra. lanchar. talvez até mais bonita. .É Luci Machado da Silva... mimada.. Em vão.Quem está aí? Ë de paz ou de guerra? De fora respondem: . Então.Também. pousara uma bruxa. mexeu e quebrou o cachorrinho. horrorosa.Quantas casas você tem? . tornar a entrar minutos depois. despenteada. A bruxa está presa tanto na parede como nos olhos fixos. mas tanto. tocando. . pensativos. se é que não a retificou para os dicionários do futuro. . Alguém abre. ar extremamente maduro das meninas de três anos. Para o resto da vida. já disse.Foi a garota que pediu para chamar. Os bichos de cristal na mesinha da sala de estar tentavam a mão viageira. Ante a intimação peremptória. Os dedos sacodem a tampa.Não mexa nos bichinhos. que atende à sua requisição. de matéria idêntica: por ali entram as cartas. tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro.E a outra de onde você veio? . Abre que eu quero entrar. Esquece a merenda para ficar na sala. Há Catarina e Pepino.Que é que você vai me dar? .Que Catarina? .De qual você gosta mais? . Na parede. senador ou ministro do Supremo.. enquanto alguém lhe acarinha os cabelos. rebelde e decaído. igualzinha a você. Catarina virou aquela bruxinha preta. mas sempre séria.Tem aqui esta pessegada. Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e frágeis se desfariam. Com pouco. .Gosto desta casa! Gosto de você! Não é gulodice nem interesse mesquinho. Catarina teimou. franqueia-se o recinto. a mãe não queria que ela brincasse.. . Será antes prazer de sentir-se cortejada. A mão imobiliza-se. .Qual é a sua casa? . olhando os pés estendidos. . preta. . crepuscular.Uma menina de sua idade. a abertura forrada de metal e coberta por uma tampa móvel. Antes de abrir.Nossa amiga Não é bastante alta para chegar ao botão da campainha. À força de entrar. grandes.

ainda se vê o pequeno vulto desgrenhado. O objeto que serve de filho é embalado com seriedade. qualquer elemento poetizável. Heloísa. . E resta saber se o enganado não será o adulto.Vou na festa. curvado. vestido limpo.será a verdade? Senta-se no corredor. como é uma boba.Pois eu vou dar uma festa para as crianças desta rua e convido Pepino. tirada em partes iguais da vida e do sonho.geralmente à tarde. Vem bêbado. desaparece o temor. sim. estranhamente preferidas a quaisquer outras. . você não tem medo do Pepino? .Espia minha roupa nova. . Da varanda. Não há pressa em ir para ela. Pegador de crianças. penteada.Pepino não pega ninguém. . A doença existe. Mas tudo se desfaz. repleto de surpresas . a conversa grave com pessoas grandes. Lourdes. pedrinha. calçada. existem os sustos maternais. o brinquedo personalíssimo com o primeiro encontro do dia . Nesinha. Você.Então vou dar no meu também. recolhidas em conversas de adulto. Você vai me levar.a rua é o espaço entre as duas quadras. Para tomar banho e trocar de vestido. Pepino vai dançar para as crianças. esse galope de formas . Estou zangada com você.Espere aí. A merenda. Circula na rua .Eu não vou na festa. se não a constituem. expondo em frases incoerentes seus problemas íntimos. . .Vou embora para minha casa. Bárbara. . Vai tomar injeção.Mas que beleza! Onde você vai? .Pega. representa para si só a imemorial história das mães. Com a zanga. Seria realmente temor? Gosta de ser acompanhada.Comadre. . . Volta meia hora depois.Até logo! Sai voando.fazem esquecer a festa. para dizer à mãe. Vem Elzinha. jamais localizada ou realizada. Perguntas e respostas. . é necessário que se anuncie sempre uma festa.Você é quem perde. não toma parte.Mas você mora tão pertinho. ante os soldados de Herodes. . que sugere terrores ou recompensas fantasiosas. mas que opera interiormente sua fascinação. Maria Helena. . Edison. comadre. Ele é camarada. e que os prolonga.Espia quem me trouxe. . e com uns panos velhos. seu filhinho como vai? . Careca. Você vai ver se ele pega. Alice. quando chega em casa: . e o seu? . se acaso um intruso vem surpreender a criação. . Eu sei. a galinha que salta do carrinho de feira .um carretel. Meu sapato branco. saem da mesma boca inexperiente. Nas campinas da imaginação. Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho.Não. João e Adão.E Pepino? .Tá com dedo machucado e dodói na barriga. a porta fecha-se com estrondo. lápis vermelho.Pepino tem existência mais positiva..Tá bom..

As leis não bastam. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. comprimidas há tanto tempo. Mudou-se a rua da infância. flores? . decifro. Tenho palavras em mim buscando canal. Símbolos obscuros se multiplicam. obscenos gestos avulsos. Sapatos. são roucas e duras. tempo de homens partidos. E o vestido vermelho vermelho cobre a nudez do amor. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. Em vão percorremos volumes. e escreve-se na pedra. perderam o sentido. Fogo. irritadas. Onde te ocultas. As coisas talvez melhorem. não te encontro. Calo-me. ao relento. De mãos viajando sem braços. Guerra. tempo de gente cortada. enérgicas. Os lírios não nascem da lei. apenas querem explodir. espero. nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos.Nosso tempo Este é tempo de partido. viajamos e nos colorimos. penhor de meu sono. no vale. verdade. II Este é o tempo de divisas. luz dormindo acesa na varanda? Miúdas certezas de empréstimo. Os homens pedem carne. Meu nome é tumulto. precária síntese. Visito os fatos.

pela esquerda sobe-se. Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas. contai. e continuamos. A escuridão estende-se mas não elimina o sucedâneo da estrela nas mãos. à água que goteja e segreda o incenso. animais caçados. que contêm: papeis? crimes? moedas? Ó conta. Conheço bem esta casa. baratas dos arquivos. são partes mais íntimas. portas rangentes. III E continuemos. a partida. ó surdo-mudo. velhos selos do imperador. velha preta.. como o do enterro que não foi feito. pela direita entra-se. ó jornalista. pérolas. solidão e asco. fragmentos de jornal. a sala grande conduz a quartos terríveis. conduz às celas fechadas. Tudo tão difícil depois que vos calastes . a pulsação. pessoas e coisas enigmáticas. e o ar da noite é o estritamente necessário para continuar. as palavras. moça presa na memória. Certas histórias não se perderam. mas ainda é tempo de viver e contar. parelhos de porcelana partidos. cigarros. poeta. lanternas. anéis. capa de poeira dos pianos desmantelados. conta. pequeno historiador urbano. ao claro jardim central. do corpo esquecido da mesa. o ofego. na praia. abre-te e conta. É tempo de muletas. cães errantes. contai. luto no braço. colchetes no chão da costureira. Certas partes de nós como brilham! São unhas. pombas. velho aleijado.Dos laboratórios platônicos mobilizados vem um sopro que cresta as faces e dissipa. ossos na rua. E muitos de vós nunca se abriram.. conta. depositário de meus desfalecimentos. conduz à copa de frutas ácidas. . a benção. nostálgicas de bailado.

num passe. gim com água tônica. forma indecisa. na batalha de aviões.IV É tempo de silêncio. No céu da propaganda aves anunciam a glória. dentes de vidro. cólera branda. amor e desamor. toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem. V Escuta a hora formidável do almoço na cidade. no gozo. sobre ele a polícia. no telefone. Está dissimulado no bonde. braço mecânico. irrisão e três colarinhos sujos. É sem cor e sem cheiro. No quarto. vem da areia. Come. palavra indireta. As bocas sugam um rio de carne. grotesca língua torcida. Multidões que o cruzam não veêm. É tempo de cortinas pardas. O esplêndido negócio insinua-se no tráfego. esvaziam-se. A isso chamamos: balanço. evoluem. legumes e tortas vitaminosas. olhos pintados. de boca gelada e murmúrio. no santo. política na maçã. Escuta a hora espandongada de volta. olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso. por trás da brisa do sul. Tempo de cinco sentidos num só. e os negócios. No beco. alimenta-se. é tempo de comida. . mão de papel. de céu neutro. aviso na esquina. mais tarde será o de amor. O espião janta conosco. Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos! Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa. Os escritórios. apenas um muro. Lentamente os escritórios se recuperam.

sentam-se. o mau romance. de mortal feiúra. imaginam voltar para casa. roupa. errar em objetos remotos e. a falsificação das palavras pingando nos jornais.Homem depois de homem. orquídeas e opções de compra e desquite. escuta o corpo ranger. passeeando de bote num sinistro crepúsculo de sábado. homem. afinal distendido. Imaginam esperar qualquer coisa. passeio na praia. o homem feio. mulher. Contam-se histórias por correspondência. últimos servos do negócio. Escuta a pequena hora noturna de comprensação. Crianças alérgicas trocam-se. A mesa reúne um copo. escoam-se passo a passo. leituras. VI Nos porões da família. entre muros apagados. numa suposta cidade. Escuta o horrível emprego do dia em todos os países de fala humana. homem. o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores. e a cama devora tua solidão. o corpo ao lado do corpo. mulher. uma faca. roupa. com as calças despido o incômodo pensamento de escravo. refluir. roupa. imaginam. já noite. criança. A gravidez elétrica já não traz delíquios. reforçam-se. cigarro. sob eles soterrados sem dor. enlaçar. Salva-se a honra . a má poesia. confiar-se ao que bem me importa do sono. apelo ao cassino. roupa. roupa. homem. homem. Há uma implacável guerra às baratas. e se quedam mudos. os frágeis que se entregam à proteção do basilisco. chapéu. mulher. a constelação das formigas e usurários. homem. os bancos triturando suavemente o pescoço do açucar.

há bálsamos para cada hora e dor. da rua lodosa. e é o mesmo. o milho ondulante. de sangrenta fúria e plácido rosto. desgosto desse chapéu velho. minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado. Há soluções. intuições. VIII O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. não obstante doem. VI Ou não se salva. um verme. dores de classe. uma floresta. se engolfa no linóleo. no placo? no público? nas poltronas? há sobretudo o pranto no teatro. em poça amarga. reprovação. e secar ao sol. lesões que nenhum governo autoriza. . recalcados dores ignóbeis. Há fortes bálsamos. vai molhar.e a herança do gado. vai minar nos armazéns. E há mínimos bálsamos. ele embacia as luzes. do Estado. nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos. na roça madura. já tarde. meu olho que ri e despreza. E dentro do pranto minha face trocista. melancolias insubordináveis. que polui a essência mesma dos diamantes. já confuso. Há o pranto no teatro. símbolos e outras armas promete ajudar a destruí-lo como uma pedreira. ira.

Numa árvore do passeio público (melhoramento da atual administração) árvore gorda. Canta. Discursos. O poeta está melancólico. O poeta entra no elevador O poeta sobe O poeta fecha-se no quarto. Povo de chapéu de palha. no sol danado. O poeta toma um auto. Máquinas fotográficas assestadas. Bandas de música. O poeta desembarca. Bravos. O poeta está melancólico. Bandeirolas abrem alas. E enquanto ele faz isso como qualquer homem da terra. Foguetes. uma ovação o persegue feito vaia.. . Canta uma cigarra que ninguém ouve um hino que ninguém aplaude. árvore banal. Automóveis imóveis.. prisioneira de anúncios coloridos. O poeta vai para o hotel.Nota Social O poeta chega na estação. árvore que ninguém vê canta uma cigarra.

a ver a linha curva que se estende. Minha matéria é o nada. e. e não se extingue? (Não cantarei o mar: que ele se vingue de meu silêncio. quatro. ajusta em mim seu terno de lamentos. Não cantarei o riso que não rira e que. da úmida assombração que vem do norte e vai do sul. e já prospera cavando em nós a terra necessária para se sepultar à moda austera de quem vive sua morte? Não cantarei o morto: é o próprio canto. e vago. aos quatro ventos. E já não sei do espanto. o ouro suposto é nele cobre e estanho. pois não sei. estanho e cobre. é porque a brisa o trouxe. Amador de serpentes. se risse. nem era amor aquilo que se amava. sobre a relva debruçado. tão estranho. e o que não é maleável deixa de ser nobre. e toda sílaba acaso reunida a sua irmã. Estanho. estanho e cobre. Não canto. quando já se foi? Que dor se sabe dor. se regressa a mim que o apascentava.Nudez Não cantarei amores que não tenho. nesta concha. nem sabe a planta o vento que a visita.) Que sentimento vive. e. tais meus pecados. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada. Nem era dor aquilo que doía: ou dói. que. mas tão disperso. não mais visando . quando tive. além da pobre área de luz de nossa geometria. nunca celebrei. ou se contrai e atrai. agora. ofertaria a pobres. em serpes irritadas vejo as duas. e o leva a brisa. quanto mais fugi do que enfim capturei. Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite. minha vida passarei.

além dos corpos. Ó descobrimento retardado pela força de ver. essa nudez. E já não brinco a luz. numa casta expressão de temor que se despede. (in A Vida Passada a Limpo) . sublimes ossuários sem ossos.aos alvos imortais. E dou notícia estrita do que dorme. configurado. enfim. sonho informe. O golfo mais dourado me circunda com apenas cerrar-se uma janela. que é apenas alma. ainda menos um calar de serenos desidratados. e se dissolve. um lembrar de raízes. repleto. a morte sem os mortos. no meu silêncio. sob placa de estanho. a modelar campinas no vazio da alma. Ó encontro de mim. a perfeita anulação do tempo em tempos vários.

O amor antigo tem raízes fundas. Nada espera. o antigo amor. Mais triste? Não. Por aquelas mergulha no infinito. feitas de sofrimento e de beleza. mas pobre de esperança. Mais ardente. Nada exige nem pede. e por estas suplanta a natureza. e resplandece no seu canto obscuro. . Ele venceu a dor. tanto mais velho quanto mais amor.O Amor Antigo O amor antigo vive de si mesmo não de cultivo alheio ou de presença. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. mas do destino vão nega a sentença. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. porém.

Daqui estou vendo o sangue que corre do corpo andrógino. o amor ronca na horta entre pés de laranjeira entre uvas meio verdes e desejos já maduros. Amor é bicho instruído. meu amor.O Amor Bate na Aorta Cantiga de amor sem eira nem beira. tira os óculos dos homens. Pronto. meu bem. Cardíaco e melancólico. o amor. vira o mundo de cabeça para baixo. Entre uvas meio verdes. O amor bate na porta o amor bate na aorta. não chores. o amor se estrepou. hoje tem filme de Carlito. fui abrir e me constipei. Essa ferida. Daqui estou vendo o amor . Olha: o amor pulou o muro o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar. às vezes não sara nunca às vezes sara amanhã. Meu bem. suspende a saia das mulheres. não te atormentes. é o amor. seja como for. Certos ácidos adoçam a boca murcha dos velhos e quando os dentes não mordem e quando os braços não prendem o amor faz uma cócega o amor desenha uma curva propõe uma geometria.

mas também vejo outras coisas: vejo beijos que se beijam ouço mãos que se conversam e que viajam sem mapa. . Vejo muitas outras coisas que não ouso compreender. desapontado...irritado.

O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer. conto as libélulas. Todos são encontros passados. continua incessantemente. mastigo o pão do ano passado. E será sempre assim daqui por diante. de descambar como no repetidíssimo ano passado. Não consigo evacuar o ano passado . os mortos do ano passado sepultam-se todos os dias. e as pessoas. Escuto os medos.O ano passado O ano passado não passou. com iguais gestos e falas. Embora sepultos. Em vão marco novos encontros. de sol pleno. sempre do ano passado. As ruas. também as mesmas.

Que quer o ouvido? Embeber-se de gritos blasfematórios até que dar aturdido. Que quer a nuvem? raptá-lo. . Que quer o corpo? solver-se. Que quer a canção? erguer-se em arco sobre os abismos. Que quer o homem? salvar-se. delir memória de vida e quanto seja memória. ao permeio de uma canção.O Arco Que quer o anjo? Chamá-la O que quer a alma? perder-se Perder-se em rudes guianas para jamais encontrar-se Que quer a voz? encantá-lo. Que quer a paixão? detê-lo. Que quer o peito? fechar-se contra os poderes do mundo para na treva fundir-se.

a escuridão rompe com o dia. ó solidão do homem na rua! Entre carros. Ó solidão do boi no campo! O navio-fantasma passa em silêncio na rua cheia. . homens torcendo-se calados! A cidade é inexplicável e as casas não têm sentido algum. No campo imenso a torre de petróleo. Mas o tempo é firme.. o ermo profundo. Se uma tempestade de amor caísse! As mãos unidas. telefones.O BOI Ó solidão do boi no campo.. ó milhões sofrendo sem praga! Se há noite ou sol. trens. Ó solidão do boi no campo. O boi é só. entre gritos. a vida salva. é indiferente. Ó solidão do boi no campo.

vamos à cama. a gente compõe de corpo e corpo a húmida trama. . E para repousar do amor. amor que não espera ir para a cama. Sobre tapete ou duro piso.O chão é cama O chão é cama para o amor urgente.

Há mil deuses pessoais em nichos da cidade. Quando digo “meu Deus”. sou mais forte do que a desirmandade. Quando digo “meu Deus”.O Deus de cada homem Quando digo “meu Deus”. choro minha ansiedade. O rei que me ofereço rouba-me a liberdade. grito minha orfandade. . crio cumplicidade. Quando digo “meu Deus”. Mais fraco. Não sei que fazer dele na microeternidade. afirmo a propriedade.

Sempre dentro de mim meu inimigo. Sempre na minha firma a antiga fúria. E sempre no meu sempre a mesma ausência. É sempre no meu sono aquela guerra. Sempre no meu amor a noite rompe. é sempre no presente aquele duplo. É sempre no meu trato o amplo distrato. É sempre nos meus lábios a estampilha. é sempre no futuro aquele pânico. É sempre no meu tédio aquele aceno. É sempre no meu não aquele trauma. . É sempre nos meus pulos o limite. É sempre no meu peito aquela garra.O enterrado vivo É sempre no passado aquele orgasmo. Sempre no mesmo engano outro retrato.

por enquanto. Quero é o derrotado Cinema Odeon. maior. waldemarpissilândico. A primeira sessão e a segunda sessão da noite. (Amadurecerei um dia?) Não aceito. mais isso-e-aquilo. tramas. A divina orquestra. Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são. tombos. Não é possível. O jornal da Fox. A espera na sala de espera.O fim das coisas Fechado o Cinema Odeon. Hart. sublime agora que para sempre submerge em funeral de sombras neste primeiro lutulento de janeiro de 1928. As meninas-de-família na platéia. quando for o caso. mesmo não divina. o Cinema Glória. costumeira. William S. tiros. minha mocidade fecha com ele um pouco. na Rua da Bahia. pobre sátiro em potencial. e até aplaudi-la. . A matinê com Buck Jones. o miúdo. A impossível (sonhada) bolinação. fora-de-moda Cinema Odeon. Exijo em nome da lei ou fora da lei que se reabram as portas e volte o passado musical. Fechado para sempre. sendo de outrem. mais americano.

A consoante esvanecida sem que a língua atingisse o alvéolo. A vida não chega a ser breve. . O campo – havia.O fim no começo A palavra cortada na primeira sílaba. O que jamais se esqueceria pois nem principiou a ser lembrado. havia um campo? irremediavelmente murcho em sombra antes de imaginar-se a figura de um campo.

De medo. Refugiamo-nos no amor. soldado. e de tudo. Nosso destino. Duros tijolos de medo. as fábricas. E o amor faltou: chovia. Este poema. Vem ó terror das estradas. Ventava. Nevava. Muletas Do homem só. fazia frio em São Paulo. Ajudai-nos. de vós. Se transe e cala-se. com sua capa. lentos poderes do Láudano. Nos dissimula e nos berça.O medo Em verdade temos medo. Fiquei com medo de ti. Estou com medo da honra. Outras vidas. Tenhamos o maior pavor. . Edifícios. Meu companheiro moreno. Nosso caminho: traçado. Vestimos panos de medo. O medo. e calma. Os mais velhos compreendem. Até a canção medrosa se parte. Assim nos criam burgueses. incompleto. Atingiremos o cimo De nossa cauta subida. vermelhos rios Vadeamos. Nascemos no escuro. Há as árvores.. Fazia frio em São Paulo.. Susto na noite. Ruas só de medo. Carteiro. As existências são poucas. E fomos educados para o medo. Tanto produz: carcereiros. E com asas de prudência Com resplendores covardes. Por que morrer em conjunto? E se todos nós vivêssemos? Vem. repuxos. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. De nos. escritores. harmonia do medo. Medrosos caules. fomes. ditador. Faremos casas de medo. O medo com sua física. Cheiramos flores de medo. Este célebre sentimento. Doenças galopantes. receio De águas poluídas.

Estátuas sábias. Fiéis herdeiros do medo. adeus. Nossos filhos tão felizes.O medo cristalizou-os. as estrelas. . o mundo. Adeus: vamos para a frente. Eles povoam a cidade.. Dançando o baile do medo. Depois do mundo. Recuando de olhos acesos.. Depois da cidade.

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. .O mundo é grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.

O novo Homem O Homem será feito em laboratório. medido. tudo exato. Seu nascer elide o sonho e a aflição. bem-posto: . Nascerá bonito? Corpo bem talhado? Claro: não é mito. Vai abrindo a porta com riso maroto: "Nove meses. Nele. é planificado. Dispensa-se amor. muito mais perfeito do que no antigório. Queimará arruda indo ao canjerê. Seja como for (até num bocejo) salta da retorta um senhor garoto. Jogará no bicho. Chegará a Marte em seu cavalinho de ir a toda parte mesmo sem caminho. Ganhará dinheiro e muitos diplomas." Quem já conheceu melhores produtos? A dor não preside sua gestação. O homem será feito em laboratório. Caçará narceja e bicho do mato. beberá cerveja deliciadamente. e do não objeto fará escultura. Usará bermuda e gola 'roulée'. tirará retrato com o maior capricho. ternura ou desejo. Rirá como gente. Será neoconcreto se houver censura. Será tão perfeito como no antigório. fino cavalheiro em noventa idiomas. eu? Nem nove minutos.

desconhece a aliança de avô com seu neto. Quem comia doce já não come mais. Pai: macromolécula. . sem memória e sexo. livre.o justo formato.) Quer um sábio? Peça. todos atraentes. eis que o homem feito em laboratório sem qualquer defeito como no antigório. (Escolher. Liberto da herança de sangue ou de afeto. Não chame de filho este ser diverso que pisa o ladrilho de outro universo. Perdão: acabou-se a época dos pais. papagaio. acabou com o Homem Bem Feito. Sua independência é total: sem marca de família. o 'standard' do rosto Duzentos modelos. vence a lei do patriarca. Uma ficha impressa a todos atende. Ministro? Encomende. por que não? pois rompeu o nexo da velha Criação. nossos descendentes. feliz. ao vê-los. mãe: tubo de ensaio e. 'per omnia secula'.

corpo! corpo.O quarto em desordem Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor. corpo. verdade tão final.Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor que não se sabe como é feita: amor. e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar a nuvem que de ambígua se dilui nesse objeto mais vago do que nuvem e mais defeso. na quinta-essência da palavra. . e esse cavalo solto pela cama. sede tão vária. a passear o peito de quem ama.

puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade. o cão. . imagem de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco para depositar-se numa folha sobre a pedra do cais ou para sorrir nas telas clássicas de museu que se sabem contempladas pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas. e todos captem por seu olhar o sentimento das formas que é o sentimento primeiro . a graça umbilical do nu feminino.O que Alécio vê A voz lhe disse (uma secreta voz): . o parque. E Alécio vai e vê o natural das coisas e das gentes. as crianças. conversas de café. ou ainda para dispersar-se e concentrar-se no jogo eterno das crianças. hino matinal à criação e a continuação do mundo em esperança..Vai. a inaugurar-se todas as manhãs. soberba.da vida. (Mas a melhor objectiva não serão os olhos líricos de Alécio?) Tudo se resume numa fonte e nas três menininhas peladas que a contemplam.e último . Vê e reflecte o visto. risonha. Alécio. Ai. em sua novidade não sabida. o dia. o traço da passagem das pessoas na rua. há um mirante iluminado no olhar de Alécio e sua objectiva. Para elas. ver. o idílio jamais extinto sob as ideologias..

As beatas ajoelharam e adoraram o deus nuzinho mas as filhas das beatas e os namorados das filhas. As beatas foram ver. Natal. Não tem neves.O que fizeram do Natal Natal. não tem gelos. encontraram o coitadinho ( Natal) mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha alumiando. O sino longe toca fino. . Já nasceu o deus menino. mas as filhas das beatas foram dançar black-bottom nos clubes sem presépio. Natal.

encontrando o corpo e por ele navegando. puma. nanana. atinge a paz de outro horto.O que se passa na cama (O que se passa na cama é segredo de quem ama. dorme a última sirena ou a penúltima O pénis dorme. sono do pénis. americana fera exausta. elaborado na terra e tão fora deste mundo que o corpo. entre lençol e cortina ainda úmidos de sêmen. dorme onça suçuarana. fulva grinalda de tua vulva. Dorme. estes segredos de cama. menina.) É segredo de quem ama não conhecer pela rama gozo que seja profundo. dorme. . Ai. E silenciem os que amam. dorme cândida vagina. noutro mundo: paz de morto. cama canção de cuna. nirvana.

. nos arquivos na mente volúvel ou cansada até que um dia trilhões de milénios antes do Juízo Final não reste em qualquer átomo nada de um hipótese de existência.O que viveu meia hora (A paixão medida) Nascer para não viver só para ocupar estrito espaço numerado ao sol-e-chuva que meticulosamente vai delindo o número enquanto o nome vai-se autocorroendo na terra.

. não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez. não experimente. perfeição e exílio na Terra. Não brinque. Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro). Não se inebrie com o seu engalanado som.O seu santo nome Não facilite com a palavra amor. bolha de sabão. Não a jogue no espaço. Não a pronuncie.

Mas até lá. Paletós abotoam-se por eletricidade. o mundo é cada vez mais habitado.O Sobrevivente a Cyro dos Anjos Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade Impossível escrever um poema . Amor se faz pelo sem-fio. (Desconfio que escrevi um poema.de verdadeira poesia O último trovador morreu em 1914 Tinha um nome que ninguém se lembra mais Há máquinas terrivelmente complicadas pra as necessidades mais simples. Os percevejos heróicos renascem.uma linha que seja . Inabitável. felizmente. Se quer fumar um charuto quente aperte um botão. Um sábio declarou que falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.) . Não precisa de estômago para a digestão. estarei morto. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio. Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos.

. E o coração está seco. já não sabes sofrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. a luz apagou-se. sem mistificação. Tempo de absoluta depuração. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Chegou um tempo em que não adianta morrer. que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. Pouco importa venha velhice. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. És todo certeza. As guerras.Os ombros que suportam o Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. Alguns. as fomes. não abrirás. Em vão mulheres batem à porta. achando bárbaro o espetáculo. E nada esperas de teus amigos. A vida apenas. Tempo em que não se diz mais: meu amor. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. Ficaste sozinho. prefeririam (os delicados) morrer.

perdura a graça do amor. O meu tempo e o teu. O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar. florindo em canção. nos reduz a um só verso e uma rima de mãos e olhos. que brotou do tempo. amada. transcendem qualquer medida. . amar é o sumo da vida. não tem idade. São mitos de calendário tanto o ontem como o agora. Além do amor. não há nada. O tempo nos aproxima cada vez mais. na luz. Não há tempo consumido nem tempo a economizar. Lá dentro. E nosso amor. pois só quem ama escutou o apelo da eternidade.O tempo passa? Não passa O tempo passa? Não passa no abismo do coração. e o teu aniversário é um nascer a toda hora.

sublime puta encanecida Ó tu.Ó tu. de saída. . que me negas favores dispensados em rubros tempos. agora que estás velha e teus pecados no rosto se revelam. sublime puta encanecida. e da mais breve fantasia. agora te recolhes aos selados desertos da virtude carcomida. da garupa e da bunda que sorria em alva aparição no canto escuro Queria teus encantos já desfeitos re-sentir ao império do mais puro tesão. quando nossa vida eram vagina e fálus entrançados. E eu queria tão pouco desses peitos.

enquanto Arcturo. claro enigma. ao mesmo tempo saiba ser.Oficina irritada Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. não ser. há de sofrer. seco. não desperte em ninguém nenhum prazer. tendão de Vênus sob o pedicuro Ninguém o lembrará: tiro no muro. no seu maligno ar imaturo. abafado. no futuro. cão mijando no caos. Eu quero pintar um soneto escuro. se deixa surpreender. Quero que meu soneto. E que. . Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir. difícil de ler.

.. não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh. esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád.... . tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu ...Oh minha senhora ó minha senhora Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de..

pairava certa graça no viver.Ordem Quando a folhinha de Mariana exata informativa santificada regulava o tempo. Hoje que é que pode? . os casamentos e até a hora de morrer. as colheitas. o mundo era mais inteligível.

Mamaram leite turvo. As namoradas estranhavam seus beijos sem doçura.Os assassinos Os assassinos vêm de longe. Na escola eram diferentes. olhar duro. . da Serra do Alves Sangue seco nos dedos. Júri mais concorrido do que missa. do Periquito. das Baterias. Estavam destinados a matar. na roupa o crime escrito. Aterra decidiu que matassem. Os assassinos alçam a foice na curva da estrada. sem discutir. A gameleira conta o que viu e foi um brilho desabando na entranha do inimigo. Vém do Onça. Cumpriram.

a luz apagou-se. És todo certeza. Tempo de absoluta depuração. que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. . já não sabes sofrer. as fomes. Em vão mulheres batem à porta. E o coração está seco. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. Tempo em que não se diz mais: meu amor.Os Ombros Que Suportam O Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. E os olhos não choram. não abrirás. sem mistificação. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Ficaste sozinho. Alguns. A vida apenas. prefeririam (os delicados) morrer. Pouco importa venha velhice. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Porque o amor resultou inútil. As guerras. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. achando bárbaro o espetáculo. E nada esperas de teus amigos.

por exemplo: "A noite está estrelada. Sua voz. O vento da noite gira no céu e canta. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. azuis. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido. e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo. Como antes dos meus beijos. às vezes eu também a amava. Ao longe. A mesma noite qeu fez branquear as mesmas árvores. Minha alma não se contenta com tê-la perdido. Ainda que esta seja a última dor que ela me causa. seu corpo claro. e ela não está comigo. os de então. Em noites como esta eu a tive entre os meus braços. a minha alma não se contenta com tê-la perdido. Nós. Como para aproximá-la o meu olhar a procura. Pensar que não a tenho. A noite está estrelada e ela não está comigo. Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. ao longe". Já não a amo. mas quanto a amei. Eu a amei. Ouvir a noite imensa. É tão curto o amor. mas talvez a ame. mais imensa sem ela. e tiritam. é verdade. Será de outro. . Ao longe alguém canta.Os vinte poemas Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Seus olhos infinitos. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Já não a amo. Escrever. já não somos os mesmos. De outro. Ela me amou. é verdade. Isso é tudo. Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços. Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la. Meu coração a procura. E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. Sentir que a perdi. e às vezes ela também me amou. os astros. e é tão longe o esquecimento.

mas apertou tanto que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto. Na horta. Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender. Longe um gato comunicou o nascimento de Cristo. Aquele quarto é o das crianças. Tateando na escuridão torceu o comutador e a electricidade bateu nas coisas resignadas. Papai Noel voltou de manso para a cozinha. Os pequenos continuavam dormindo. Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo no interminável lenço vermelho de alcobaça.Papai Noel às avessas Papai Noel entrou pela porta dos fundos ( no Brasil as chaminés não são praticáveis). apagou a luz. Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos soldados mulheres elefantes navios e um presidente da república de celulóide. achou um queijo e comeu. entrou cauteloso que nem marido depois da farra. o luar de Natal abençoava os legumes. Papai entrou compenetrado. Fez a trouxa e deu o nó. teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças ( no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada) e avançou pelo corredor branco de luar. . saiu pela porta dos fundos. Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos.

Papel quanto havia em mim e nos outros. papel de jornal de parede de embrulho papel de papel papelão. E tudo que descobri amei detestei: papel. .Papel E tudo que eu pensei e tudo que eu falei e tudo que me contaram era papel.

vibrando insatisfeita. nunca mais. a explicação do mundo. Pobre carne senil. Hoje mesmo.Para o sexo a expirar Para o sexo a expirar. amor . em plenitude o ser. Raiz de minha vida. Amor.o braseiro radiante que me dá. quem sabe? enregela-se o nervo. a minha se rebela ante a morte anunciada. de sémen aljofrando o irreparável ermo. em ti me enredo e afundo. eu me volto. pelo orgasmo. a exploração acabe. esvai-se-me o prazer antes que. Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo. Amanhã. amor. expirante. deliciosa. Quero sempre invadir essa vereda estreita onde o gozo maior me propicia a amada. e assim possa eu partir. .

Como a vida é isto misturado àquilo. Como a vida é nuda. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida é forte em suas algemas. Como a vida é outra sempre outra. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo. Como a vida é muda. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. mouca e no entanto chama a torrar-se em chama. Como dói a vida quando tira a veste de prata celeste. outra não a que é vivida. Como a vida joga de paz e de guerra . Como a vida é nada. esse lobisomem. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca leva a sério o homem.Parolagem da vida Como a vida muda. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. Como a vida é tudo. Como a vida é louca estúpida.

Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi. Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida em flor e formiga em seixo rolado peito desolado coração amante.povoando a terra de leis e fantasmas. vidamor! . E como se salva a uma só palavra escrita no sangue desde o nascimento: amor.

Mãe.Para Sempre Por que Deus permite que as mães vão se embora? Mãe não tem limite.mistério profundo de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo. veludo escondido na pele enrugada. Por que Deus se lembra . . é tempo sem hora. na sua graça. mãe ficará sempre junto de seu filho e ele. puro pensamento. luz que não se apaga quando sopra o vento e chuva desaba. baixava uma lei: Mãe não morre nunca. será pequenino feito grão de milho. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. é eternidade. velho embora. água pura. ar puro.

.Passatempo O verso não. verso. ou sim o verso? Eis-me perdido no universo do dizer. que. sabendo embora que o que lavra só encontra meia palavra. tímido.

descansar de outra. o substantivo.Patrimônio Duas riquezas: Minas e o vocábulo. recolhendo O fubá. Numa. Minérios musicalizam-se em vogais. Palavras assumem código mineral. o som. Ir de uma a outra. Pastor . o ferro.

sobressaltos. Fazei chover. puro. armazéns arrombados e – o que é pior – não tinham nada. Tauá (vogais tão fortes não chegam até vós?) vede as espectrais procissões de braços estendidos. mas de qualquer modo sempre é uma lembrança. tão vossa excelência? O você comunica muito mais e se agora o trato de você.. não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) mas ao Deus que Bandeira. que é que há? Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena? E você me responde suavemente: Escute. no veludo/lã e matreiro. bem brasileiro.. Senhor. Baturité.Prece do brasileiro Meu Deus. Senhor. Em Iguatu. aquela que. Fazei. e desespero rodando nas estradas entre esqueletos de animais. pecador. Meu querido Jesus. E mudo até o tratamento: por que vós. meu cronista e meu cristão: . o abismo do infinito. florindo e reflorindo. à erva seca. ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra estorricada sempre amada. rogo. muitas e boas. Desculpai vosso filho. o muro. Parambu. quase que maldito mas amizade é isso mesmo: salta o vale. soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi. mas sou vosso fã omisso. ao bode. chover a chuva boa. assaltos. as revoltosas? Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria. só me lembro de vós para pedir. com carinho botou em verso: “meu Jesus Cristinho”. Senhor. aquela coisa. Ou desobedecem a vosso mando. tão gravata-e-colarinho. o outro. que se veste de humildade e esperança e vos suplica: Olhai para o Nordeste onde há fome. um. Comigo é na macia. vamos papeando como dois camaradas bem legais. ficamos perto. malcriado. e já! numa certeira ordem às nuvens.

No entanto. Fiquei calado. em fontes. mas pedir.. Do contrário ficará a Nação tão malincônica. muito encabulado. meu caro. meu velho. O mesmo drama. mais urgente. Pois é. tão roubada em seu sonho e seu ardor que nem sei como feche a minha crônica. até um livro de vez em quando lê se o Buzaid não criar problema: Em Israel. E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia. Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar noutro caso. toda vida. assim seja. vai ao cinema. minha primeira pátria (a segunda é a Bahia) desertos se transformam em jardins em pomares. Meu coração. pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo. mais sério. em riquezas. meu brasileiro. 30-5-1970 . ó irmãozinho. Escute aqui. não acha que já é tempo de aprender e de atender àquela brava gente fugindo à caridade de ocasião e ao vício de esperar tudo da oração? Jesus disse e sorriu. Dê um jeito. você lê os jornais. tá no México batendo pelos músculos de Gérson. Você. você sabe. agora. Tem a ONU. antes fechadas.essa cantiga é antiga e de tão velha não entoa não. confesso. a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país e uma bola no campo e uma taça de ouro. Fiquei. a unha de Tostão. que manda toneladas de pacotes à espera de haver fome.. Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no mesmo palco. Disfarcei e sorri. e faça que essa taça sem milagres ou com ele nos pertença para sempre. Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência. a ronha de Pelé. a cuca de Zagalo.

é preciso odiar Melquíades. é preciso colher as flores de que rezam velhos autores. É preciso estudar volapuque. . É preciso viver com os homens. é preciso estar sempre bêbado. é preciso suportar Antônio. é preciso ter mãos pálidas e anunciar o FIM DO MUNDO. é preciso não assassiná-los. É preciso salvar o país. é preciso comprar um rádio. é preciso esquecer fulana. é preciso ler Baudelaire. é preciso crer em Deus.Poema da Necessidade É preciso casar João. é preciso substituir nós todos. é preciso pagar as dívidas.

. e outro anjo pensou a ferida do anjo batalhador. Mas uma luz que ninguém soube dizer de onde tinha vindo apareceu para clarear o mundo. As água ficaram tintas de um sangue que não descorava e os peixes todos morreram.Poema da Purificação Depois de tantos combates o anjo bom matou o anjo mau e jogou seu corpo no rio.

Quase não conversa. Mundo mundo vasto mundom. . simples e forte. meu Deus. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. Carlos! ser gauche na vida. não houvesse tantos desejos. Meu Deus. A tarde talvez fosse azul. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. Para que tanta perna. O homem atrás do bigode é sério. Tem poucos . raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo.Poema de Sete Faces Quando nasci. seria uma rima. não seria uma solução. pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. mais vasto é meu coração. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai.

Poema do Jornal O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia. O marido está matando a mulher. A mulher ensangüentada grita. . Ladrões arrombam o cofre. A pena escreve. Vem da sala de linotipos a doce música mecânica. A polícia dissolve o meeting.

e brincos de palavra. mas de tal jeito urdidos o jogo e a confissão que nem distingo eu mesmo o vivido e o inventado.Poema-orelha Esta é a orelha do livro por onde o poeta escuta se dele falam mal ou se o amam. variante de bom-dia. Aquilo que revelo e o mais que segue oculto em vítreos alçapões são notícias humanas. Tudo vivido? nada. e a poesia mais rica . simples estar-no-mundo. A orelha pouco explica de cuidados terrenos.) Não me leias se buscas flamante novidade ou sopro de Camões. um não-estar-estando. Oito livros que o tempo empurrou para longe de mim mais um livro sem tempo em que o poeta se contempla e se diz boa-tarde (ensaio de boa-noite. Nada vivido? Tudo. que tudo é o vasto dia em seus compartimentos nem sempre respiráveis e todos habitados enfim. Uma orelha ou uma boca sequiosa de palavras? São oito livros velhos e mais um livro novo de um poeta ainda mais velho que a vida que viveu e contudo o provoca a viver sempre e nunca.

é um sinal de menos. .

A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo mas é possível que se soubesse nem ligasse. .Poema que aconteceu Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo.

.Poema Patético Que barulho é esse na escada? É o amor que está acabando. o bispo com uma campainha e alguém abafando o rumor que salta de meu coração. é o homem que fechou a porta e se enforcou na cortina. e o lamento imperceptível de alguém que perdeu no jogo enquanto a banda de música vai baixando. a criança com um tambor. Que barulho é esse na escada? É Guiomar que tapou os olhos e se assoou com estrondo. Que barulho é esse na escada? É a virgem com um trombone. É a lua imóvel sobre os pratos e os metais que brilham na copa. baixando de tom. Que barulho é esse na escada? É a torneira pingando água.

Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. No entanto ele está cá dentro inquieto.Poesia Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. . Ele está cá dentro e não quer sair. vivo.

tira ouro do nariz. Enquanto isso o poeta federal.Política Literária A Manuel Bandeira O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. .

quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa. O cinema ainda não foi inventado. sente neles a macieza da mão de Abelardo. bastante miúdos. O melhor seria que não amolassem. determinado há quase dois mil anos. porque cada bicho. Esta véspera de Natal. manejar agulha e bilro." Dasdores multiplica-se. e participam da natureza dos animais domésticos. que se diriam jaulas. Portanto.É uma conspiradora . salvo para rezar ou visitar parentes. veio encontrá-la completamente desprevenida. as dálias já foram regadas hoje?" "Você viu. e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino. Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa. cães e pinheiros. Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos. Através de um sentimento nebuloso. desafia o incauto: "Agarra-me!" Sucede que ninguém mais. corre. Os camelos. Se fosse à igreja. este carneirinho tem uma perna quebrada. Todos os irmãos querem colaborar. "Dasdores. não chegou a esta nossa cidade.e sempre acha folga para pensar em Abelardo. que se poderia consertar. Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior. e não há limites para o humano. pelas conservas. com ternura. lenta como costuma fazê-lo no interior. porém.. não veria o namorado. mas antes atrapalham. fumando ou alisando o cabelo com brilhantina. Jamais lhes será dado tocar. delibera e providencia mil coisas. não porque a casa seja pobre. se se dedicasse ao segundo. Seu nome. Dasdores passa os dedos. mas parece a Dasdores que. salvo esta moça. está Abelardo. O presépio está por armar. Dasdores. que há de circundar a manjedoura. mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar.Presépio Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. mas são presente da tia morta. Festas são raras. a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família. . prega esse botão para sua mãezinha. alegre à força de repetido. a secreta é a mais ardilosa. e ai do presépio que cede a novidades. que não perdoa. pode dispor o presépio. Em seu coração ela voa para o sobrado da outra rua. relva. que é antes uma fazenda crescida. Os pais exigem-lhe o máximo. quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?" "Ah. Se não trabalhar sempre. escrever as cartas de todos. A total ocupação varre o espírito.. e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direção. se o foi. Ë difícil ver namorado na rua. meu bem. E só Dasdores conhece o lugar de cada peça. por exemplo. o Menino deve querer-lhe mais. no Menino Jesus. e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de água e pedras. um cincerro tilinta: é a tropa. Dasdores nunca tem tempo para nada. Dasdores. ou. Nem todos os animais estão perfeitos. é impedir que se formem. a noite caminha. afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só. . e nas grutas subsidiárias. arte comunicada por uma tia já morta. ressoa pela casa toda. Das mil maneiras de amar. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho. velar pelos doces de calda. o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e. em que. Nos pastores. E viúvas espiam de janelas. Cabras passeiam nas ruas. assim mutilado e dolorido. sim. pelos camelinhos. na Virgem e em São José. cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino. ó pais. e eis a que ocorre na espécie. e até mesmo extrai delas algum prazer. mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. não guardam proporção com os cameleiros que os tangem. se não ocupar todos os minutos. e desembrulhá-las é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação do presépio. Mas é um engano supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas. pois moça não deve sair de casa.

e nenhum Abelardo. seus quinze minutos. seus cinco minutos. a auréola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo. aqueles que. mas impotente. e o tempo dispara de novo. a vida parou rigorosamente. e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo. calma e preocupada. de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulóide.sentia. não braços e pernas suplementares. nele vê apenas o rosto de Abelardo. colocando os pastores na posição devida e peculiar à adoração. e Dasdores. ir correndo ladeira acima. a pele morena de Jesus. Aqui desejaria. mas o que a pele queria sentir . decifrando os olhos de Abelardo. Nem namorado. mas continuai a correr. talvez pule meia hora. acelerar o ritmo da narrativa.era um calor humano. para voltar duas horas depois. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro. ao misturar o sagrado ao profano. correi ladeira acima. e aquele cigarro . "Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta. Pronto. pois no fundo da caminha de palha suas mãos acariciavam o Menino. ou subtrai-se. Esta visita come mais tempo. e o trabalho começa a surgir. O dono desta noite. Nada fará com que erre. no estouvamento dos irmãos. a matar-vos. Começa a fazê-lo. levantar os muros de Belém.algo de muito importante e que não pode absolutamente ser adiado se esse alguém é nervoso. Dasdores não o saboreia por inteiro. Correi. . e que Abelardo fumava na outra rua. no sentimento de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos. diferente da que lhe coube. Entretanto. Deus me perdoe . o prazer de distribuir as figuras. do passado a tia repete sua lição profunda. como um prestidigitador furta um ovo. talvez. se nos pusermos a contemplá-lo. encontrar a igreja vazia. e sim outra natureza. dispondo-as onde convém. que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada. juntando na imaginação os dois deuses. no calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas . e os olhos acesos. mas. sua vontade se concentra. A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio. porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sêlo. Mas seria preciso atribuir-lhe. está alterado. cismarenta e repartida. o adro já quase deserto. dando. sôfregos. já sabeis de quem. se policiam. sair com as amigas . perfeito.ardendo na areia do presépio.quem botou! . de circunstâncias adversas. é o relógio. numa excitação aguda. Entram e acham o presépio desarranjado. figura no ramo também delicado. preferência a este último. matéria preciosa ("Agarra-me! Agarra-me!").depressa. sem perspectiva de paz ou conciliação. como também percebe esse rosto de bigode. depois do Menino. ô de casa! amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. os números gelam. de fixar a estrela. e este vai mastigando seus minutos. na muda interrogação da mãe. e é pura placidez. e um pouco por toda parte. mesmo sensuais. este ano não haverá Natal. depressa -. vestir-se violentamente. Se nos esquecermos dele. o ponteiro imobiliza-se. prover Dasdores com os muitos braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação. Dasdores não pertence a essa raça torturada e criadora. as mãos de Abelardo. interrogando o relógio. Mas Dasdores continua. Vão-se as amigas. dissimulados nas ramagens do papel da parede. e a cabeleira lustrosa. Não assim os serenos. o mistério prestigioso do ser de Abelardo. dos fantasistas. na sala em desordem. prolongando-se. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores. E a noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro.Alguém bate palmas na escada. que querem se debruçar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada.há uma previsão de malogro iminente. viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa. Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de tempo mas também uma calma dominadora .

a vida seria incerta. Sabemos que cada edifício abriga mil corpos labutando em mil compartimentos iguais. alguns se inserem fatigados no elevador e vem cá em cima respirar a brisa do oceano. fundeado na baía em frente da cidade. .. se houvesse um cruzador louco.. Sabemos que nada nos acontecerá. O edifício é sólido e o mundo também. Como a esquadra é cordial! Podemos beber honradamente nossa cerveja. improvável. Certamente. O mundo é mesmo de cimento armado. Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis... Às vezes. o que é privilégio dos edifícios. bebemos cerveja e olhamos o mar.Privilégio do mar Neste terraço mediocremente confortável.

As afinidades. Ei-los sós e mudos. Não te aborreças. Não me reveles teus sentimentos. a vida é um sol estático. deixa-a em paz. teu sapato de diamante.Procura da poesia Não faças versos sobre acontecimentos. rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. Penetra surdamente no reino das palavras. tua careta de gozo ou dor no escuro são indiferentes. vossas mazurcas e abusões. os incidentes pessoais não contam. não invoques. Não há criação nem morte perante a poesia. os aniversários. Tua gota de bile. que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. em estado de dicionário. O que pensas e sentes. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação Que se dissipou. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. tão infenso à efusão lírica. Não faças poesia com o corpo. isso ainda não é poesia. há calma e frescura na superfície intata. Não é música ouvida de passagem. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. mas não há desespero. não aquece nem ilumina. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. Não dramatizes. cristal não era. Diante dela. fadiga e esperança nada significam. não era poesia Que se partiu. Para ele. . Não cantes tua cidade. Teu iate de marfim. chuva e noite. não indagues. esse excelente. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. é algo imprestável. Não percas tempo em mentir. Estão paralisados. completo e confortável corpo. Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. antes de escrevê-los. sem interesse pela resposta. Ainda úmidas e impregnadas de sono.Convive com teus poemas. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. se obscuros. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Calma. pobre ou terrível que lhe deres Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Tem paciência. . Não adules o poema. Não forces o poema a desprender-se do limbo. as palavras. Chega mais perto e contempla as palavras Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. se te provocam.

do canto dos ventos e das canções da brisa. de orvalhos. das estrelas. Pode já ter sido enganado. Que bata nos ombros sorrindo e chorando. nem que seja de todo impuro. ou então sentir falta de não ter esse amor. de se deitar no capim. um grande amor por alguém. seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.Procura-se um amigo Não precisa ser homem. Não é preciso que seja puro. nem é imprescindível que seja de segunda mão. mas porque já tenho um amigo. Deve ter amor. para contar o que vi de belo e triste durante o dia. de grandes chuvas e das recordações da infância. Tem que gostar de poesia. de beira de estrada. basta ter sentimento. Preciso de um amigo para parar de chorar. de madrugada. Que saiba conversar de coisas simples. Preciso de um amigo para não enlouquecer. mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. de poças d´água e de caminhos molhados. precisa saber falar e calar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. basta ser humano. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver. para que tenha a consciência de que ainda vivo. de pássaros. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. deve sentir o grande vácuo que isso deixa. . mas que me chame de amigo. de mato depois da chuva. dos sonhos e da realidade. dos anseios e das realizações. da lua. basta ter coração. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos. Não é preciso que seja de primeira mão. Deve gostar de ruas desertas. pois todos os amigos são enganados. Tem de ter ressonâncias humanas. Deve guardar segredo sem se sacrificar. do sol. que se comova quando chamado de amigo. sobretudo saber ouvir o que as palavras não dizem. no caso de assim não ser. não porque a vida é bela.

Madrugada alta quando ele chega. melhor.É. . volta para casa. como se contivesse não sei que partícula perigosa. E o pai que deveria chegar às 20 horas. Classificado no Jornal do Brasil: Perdeu-se um pai na Ilha do Governador. não sabemos. O pai chegando. Mas o filho já demandava outro balcão. Corre ao escritório da companhia de aviação: . Mas daqui não saio sem vasculhar todo o Aeroporto.Não sabemos se ele desembarcou ou não. naturalmente.Numa sessão espírita. para ouvir isto de alguém. na cabeça impotente. o pai vindo do Chile. e sentir vontade de fazer com ele o que eu sinto vontade de fazer com o senhor. porém elas se pensam por si.Está com quem. que voltava do Chile. Nem podia aparecer. No Aeroporto. rumo ao Galeão. A duras penas.Meu pai? . com esperança de aeroporto e salvamento. Sem dormir. As autoridades sabiam tanto quanto a empresa. meu pai. e eis senão quando.Eu só desejo que um dia o senhor se veja na minha situação. todas aquelas pessoas em prisões de lata e vidro. Pela primeira vez alguém . fazendo a eterna pergunta. um desinformante faz ironia: . Pelo caminho. Como pôde sumir assim? Aconselhamme a ir à Polícia Marítima e Aérea.Desculpe. O trânsito ainda está difícil. . mas em sentido inverso ao do Galeão. Mora em outro Estado. e a cidade voltou a padecer os desmoronamentos. menos por iniciativa própria do que por imposição dos motoristas que vinham atrás. Quem dorme numa dessas? O rapaz espera os escritórios se abrirem. você não trouxe seu pai? Aqui ele não apareceu. Como é que o pai sairá desta? Inútil pensar nessas coisas. imagina-se. É idoso.Procura-se um pai O rapaz dirigia seu carro pela Avenida Brasil.Não está connosco. Chile? A palavra soava diferente. Ali está uma garota de chapeuzinho verde. por milagre.Meu pai. na Praça Mauá. O pai chegou? Ele não está familiarizado com esta bagunça em forma de cidade. que descobre o perdido e... Na rua congestionada. ainda sorri para a gente. Felizmente para as histórias confusas de hoje. temendo o pior. acciona o motor. e ninguém sabia dizer-lhe onde estava. . O rapaz expõe-lhe o problema do pai.. eu. ninguém avançava. o avião chegou. um espaço suficiente para manobra.Uê.Como não podem? Então sabem que o avião chegou e não sabem quem veio nele? . existe moça de chapeuzinho verde.E a lista de passageiros? . rumo ao aeroporto do Galeão. O Galeão fora do mapa. mulher e filhos na maior aflição. Foi naquela noite de fevereiro em que o Rio. o senhor encontra seu pai. . . mais uma vez.. na manhã ensopada. sem saber como. Que fazer? Os telefones. que pega também por milagre. se é que estava em algum lugar. O rapaz. a pergunta continua sem sorte: . nada.Bem. Nisto se abre. mas sobre seu pai não podemos informar. De novo. Chuva matraqueando. então? . claro. de bonificação. isto é. o professor X. os desabrigos.. O resto. Meu pai. onde ia receber o pai. tempo fugindo. transbordou de seu nome.Não sabemos. chegou? . mudos. fada ou coisa semelhante. trágicos sinais deixados pelo temporal. as angústias e as mortes injustas de uma enchente. porém não impossível. . Botar também no rádio.. O jeito é esperar que a manhã traga serena tranquilidade. Um informante.

Para lugar nenhum. .Seu pai chegou sem novidade. Ela saiu e voltou. repito. O nome dele está na relação de passageiros desembarcados.A essa hora já deve estar lá. . Deve ter dormido por aí. resignado. valia tanto quanto a Metropolitan Police. . com outro sorriso no rostinho de relações-públicas.ouvia.E para onde o levaram. sozinha. considerava e buscava resolver o problema. Volte e há de encontrá-lo. contando à nora e aos netos uma noite em banco de aeroporto. com passaporte e tudo. e na manhã seguinte a polícia o chamava para receber de volta os objectos recolhidos por um serviço policial que só não resolve o caso de quem perdeu a memória. . Meu pai! Que susto! Que desinformação! Que alívio! Etc. que não aparece . a moça de chapeuzinho verde. O rapaz lembrou-se de Londres. Tivera vontade de telegrafar para Londres: Procurem meu pai na enchente aqui no Brasil. à espera de o toró passar. Felizmente.Mas não apareceu em casa. Não é que estava? Calmo. até o temporal passar. . onde perdera duas pastas num táxi.

cansado das canseiras desta vida. O professor baixa a voz com medo de acordá-lo.Professor O professor disserta sobre ponto difícil do programa. O professor vai sacudi-lo? Vai repreendê-lo? Não. . Um aluno dorme.

Raimundo morreu de desastre. Teresa para o convento. Maria ficou para tia. João foi para os Estados Unidos.Quadrilha João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. . Joaquim se suicidou e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na históoria.

há no teu âmago Ocultas melodias ovidianas. . e a via estreita vai transformando em dúlcida paragem. dupla mulher. despetalam-se as pétalas do ânus à lenta introdução do membro longo.Quando desejos outros é que falam Quando desejos outros é que falam e o rigor do apetite mais se aguça. recua. Mulher. Ele avança.

Quarto em desordem Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor. corpo verdade tão final. corpo! Corpo. corpo. e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar a nuvem que de ambígua se dilui nesse objecto mais vago do que nuvem e mais indefeso. . sede tão vária a esse cavalo solto pela cama a passear o peito de quem ama. Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor que não sabe como é feita: amor na quinta-essência da palavra.

Sem óculo. Os antigos condenam-me a esta forma de castigo. ao sol? Tudo escurece de súbito na casa. . Esta pesada cobertura de sombra nega o tato. Sou coisa inanimada. O quarto escuro em mim habita. o ouvido. Sem lucarna. o olfato. sem sentido. que se afastou de movimento e fome. Enoiteço. fico outro ser.Quarto Escuro Por que este nome. É quarto feito pensadamamente para me intrigar. bicho preso em jaula de esquecer. Aqui decerto guardam-se guardados sem forma. Estou sem olhos. de mim desconhecido. sou o quarto escuro. se transponho o umbral enigmático. Exalo-me. O que nele se põe assume outra matéria e nunca mais regressa ao que era antes. Eu mesmo.

. Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo. no momento. Do contrário evapora-se a amação pois ao dizer: Eu te amo. No momento anterior e no seguinte. que nunca me amaste antes. Exijo de ti o perene comunicado.Quero Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Não exijo senão isto. verdade fulminante que acabas de desentranhar. como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas. Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso. dementes apagas teu amor por mim. que sou amado. a perfeita maneira de saber-se amado: amor na raiz da palavra e na sua emissão. creio. amor saltando da língua nacional. Ouvindo-te dizer: Eu te amo. isto cada vez mais. isto sempre. inexoravelmente sei que deixaste de ama-me. No momento em que não me dizes: Eu te amo. amor feito som vibração espacial.

.eu me precipito no caos. essa coleção de objetos de não-amor.

É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. se trabalha. consciente. que de tão perfeito nem se nota. Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo. novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo.RECEITA DE ANO NOVO Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris. espontâneo. recompensa. você. remendado às carreiras. se passeia. tem de merecê-lo. mas novo nas sementinhas do vir-a-ser. se ama. começando pelo direito augusto de viver. ou da cor da sua paz. direitos respeitados. meu caro. liberdade com cheiro e gosto de pão matinal. tem de fazê-lo novo. você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita. experimente. mas com ele se come. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome. se compreende. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade. eu sei que não é fácil. . justiça entre os homens e as nações. não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. mas tente.

Não pedias nada. O Outro que eu me supunha.sem o perceber. Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História. como são desnorteantes Os caminhos da amizade. Não queimava. Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida. sorria. desde aquele momento intemporal Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas No caos universal Como nos enganamos fugindo ao amor! Como o desconhecemos. Trazias nos olhos pensativos A bruma da renúncia: Não querias a vida plena. tonto que fui. o Outro que te imaginava. Não reclamavas teu quinhão de luz. amada. Feri-me pelas próprias mãos.por esperteza do amor . Quando . . não pelo amor Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam Ao se juntarem aos meus.Reconhecimento do Amor" Amiga. seu formidável Poder de penetrar o sangue e nele imprimir Uma orquídea de fogo e lágrimas. esse sorriso. Ou mais longe. assim o amor Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas. E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda. não siderava. Mal entendi. Amiga.senti que éramos um só. juro Sadicamente massacrar-se Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam Desde a hora do nascimento. Descansei em ti meu feixe de desencontros E de encontros funestos. Queria talvez . na infantil procura do Outro. Apareceste para ser o ombro suave Onde se reclina a inquietação do forte (Ou que forte se pensa ingenuamente). ele chegou de manso e me envolveu Em doçura e celestes amavios. Entretanto. amada amiga. talvez com receio de enfrentar Sua espada coruscante.

fixo e solar. a transparência da vida. As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos. O vôo do Pássaro Azul. Imaginações oníricas. Pois já nem somos nós. . eu sei. somos o número perfeito: UM. a paisagem. Para existir em si e por si. À revelia de corpos amantes. Todas as imposturas da razão e da experiência. Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar. Agora. amada minha para sempre. E se confessasse jubilosamente vencido. referências temporais. circunstâncias. Levou tempo.Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos. Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar A melodia. E a pura essência em que nos transmutamos dispensa Alegorias. para que o Eu renunciasse à vacuidade de persistir. Até respirar o júbilo maior da integração. a aurora boreal.

vão se engastando numa coisa fria a que tu chamas: vida. senão contentamento de escrever. mesmo. e nada resta. se evapora no fundo do teu ser? . pasto de poesia. em suas formas breves ou longas.MG . tua poesia. enquanto o tempo. e seus pesares. se o que dorme na base da elegia vai correndo e secando pelos ares.1987 Tua memória. Mas.Remissão Itabira do Mato Dentro . que sutil interpretavas.* . pesares de quê? perguntaria. pasto dos vulgares. se esse travo de angústia nos cantares.1902 * . do que escreves e te forçou ao exílio das palavras.

eu de mim era presente. Não pude agasalhá-lo :ofendia-me o olfato. Muito embora o escutasse. bateu à velha porta. inutilmente. o pobre amor estava putrefato. Bateu. .Restos O amor.

fauna.MG . qe elabora uma alquimia severa. tornada agora. de morte imorredoura? Sou eu nos meus vinte aons de lavoura de sucos agressivos. Meu ser palpita em mim tal qual se fora a mesma hora de abril. . Sou eu ardendo em mim.* . me devora quanto é pura.1902 * .1987 Meu ser em mim palpita como fora do chumbo da atmosfera constritora. Que face antiga já se não descora lendo a efígie do corvo na da aurora? Que aura mansa e feliz dança e redoura meu existir.Retorno Itabira do Mato Dentro . a cada hora. sou eu embora não me conheça mais na minha flora que.

Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. mudas.Resíduo De tudo ficou um pouco Do meu medo. mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte. Dos gritos gagos. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco). um pouco de mim em Londres. nas folhas. De teu áspero silêncio um pouco ficou. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana. Da rosa ficou um pouco Ficou um pouco de luz captada no chapéu.de cigarros. muito pouco. de duas folhas de grama. um pouco nos muros zangados. . que sobem. ficou um pouco de ruga na vossa testa. Ficaram poucas roupas. no barco. Do teu asco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. pouco.vazio . ficou um pouco. Mas de tudo fica um pouco. dragão partido. Da ponte bombardeada. retrato. Pois de tudo fica um pouco. poucos véus rotos pouco. nos anúncios de jornal. Se de tudo fica um pouco. do maço . flor branca.

um pouco: não está nos livros. simplório arroto. Às vezes um rato.. E de tudo fica um pouco. De tudo ficou um pouco. vento nas orelhas minhas. de ti. meio sal e meio álcool. de aspirina. alvéolo. De tudo fica um pouco. as igrejas triunfantes e sob tu mesmo e sob teus pés já duros e sob os gonzos da família e da classe.um pouco de mim algures? na consoante? no poço? Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios e os peixes não o evitam. Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória. Cabelo na minha manga. Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda. de Abelardo. Às vezes um botão. o esquecido e sob os espetáculos e sob a morte escarlate e sob as bibliotecas. e minúsculos artefatos: campânula. Mas de tudo. gemido de víscera inconformada. . o cárcere. este vidro de relógio partido em mil esperanças.. terrível. este segredo infantil.. este pescoço de cisne. De tudo ficou um pouco: de mim. fica sempre um pouco de tudo. e sob as ondas ritmadas e sob as nuvens e os ventos e sob as pontes e sob os túneis e sob as labaredas e sob o sarcasmo e sob a gosma e sob o vômito e sob o soluço. fica um pouco. salta esta perna de rã. cápsula de revólver. os asilos. de tudo ficou um pouco..

a reboar no canto de mil bocas. que vem de antes da Grécia (vem do instinto) coroa a sarabanda a beira-mar. Formas adolescentes ou maduras recortam-se em escultura de água borrifada. loucura mansa. repara neste corpo que é flor no ato de florir entre barraca e prancha de surf. risca o asfalto da avenida. Aqui amanhece como em qualquer parte do mundo mas vibra o sentimento de que as coisas se amaram durante a noite. II Eis que um frenesi ganha este povo. O Rio toma forma de sambista. E despertam mais jovens. É puro carnaval. E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida. deus veloz que passa e deixa rastro de música no espaço para o resto do ano. com apetite de viver os jogos de luz na espuma. luxuosamente flor. no ritual de entrega a um deus amigo. a irisação da hora na areia desdobrada até o limite do olhar.Retrato de uma cidade I Tem nome de rio esta cidade onde brincam os rios de esconder. As coisas se amaram. de trinta mil. Repara. o topázio do sol na folhagem. gratuitamente flor ofertada à vista de quem passa no ato de ver e não colher. de dez mil. Outra festa se estende por todo o corpo ardente dos subúrbios até o mármore e o fumé de sofisticados. burgueses edifícios: uma paixão: a bola . fere o ar. Cidade feita de montanha em casamento indissolúvel com o mar. de cem mil bocas. Um riso claro.

Em torno de mulher o sistema de gesto e de vozes vai-se tecendo. a mesma palma à Divindade longe. amor e som. e no altar barroco ou no terreiro consagra a mesma vela acesa. E vai-se definindo a alma do Rio: vê mulher em tudo. Este fingir que nada é sério. plenamente. piada. Cristo. loteria na mesma concha do momento que é preciso lamber até a última gota de mel e nervos. Morre na rua a ondulação do signo irônico. III Cada cidade tem sua linguagem nas dobras da linguagem transparente. no talhe esbelto do coqueiro. sem muito esforço. Na curva dos jardins. pois é lei carioca (ou destino carioca. de mais nenhum Brasil. sacro fervor que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga. Já outros vêm saltando em profusão. bem mais perto da humana contingência. na torre circular.. A sensualidade esvoaçante em caminhos de sombra e ao dia claro de colinas e angras. mulher mulher mulher mulher mulher. não dos astros. nada. trabalho. Diamantes-minuto. a mesma rosa branca. do alto. tanto faz) misturar tristeza. uma estátua? Uma presença. Este Rio. no perfil do morto e no fluir da água.o drible o chute o gol no estádio-templo que celebra os nervosos ofícios anuais do Campeonato. no ar tropical infunde a essência de redondas volúpias repartidas. Pula do cofre da gíria uma riqueza. palavras cintilam por toda parte. . e se apagam. preside ao viver geral. do Rio apenas. num relâmpago. mas do Corcovado. e no fundo guardar o religioso terror.. nada.

aberto ao mundo. A noite é luz sonhando. Anoitece no Rio. por que não?). laranja toda em chama. fraterno. sumarenta de amor. repara nas nuvens.Este Rio peralta! Rio dengoso. Repara. . laranja de cinqüenta sabores diferentes (alguns amargos. erótico. vão desatando bandeiras de púrpura e violeta sobre os montes e o mar.

mais uma vez. quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.Reverência ao destino Falar é completamente fácil. te respeita e te entende. mas com tamanha intensidade. E com confiança no que diz. Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece. Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. fazer companhia a alguém. apertar as mãos. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro . Ter a noção exata de nossas próprias vidas. Fácil é sonhar todas as noites. é tudo aquilo que dura uma fração de segundo. Fácil é ser colega. Sinceramente. Difícil é lutar por um sonho. antes que a pessoa se vá. Fácil é perguntar o que deseja saber. o quanto queremos dizer. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer. Difícil é amar completamente só. ao invés de ter noção das vidas dos outros. Difícil é entregar a alma. sem ter medo de viver. que se petrifica. Admitir que nos deixamos levar. isso é difícil. Fácil é abraçar. Ou querer entender a resposta. Fácil é dar um beijo. Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas ircunstâncias. Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros. Amar de verdade. dizer o que ele deseja ouvir. mostrando nossas escolhas erradas. Eterno. Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas. de alegria.. Ou ter coragem pra fazer. ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado. Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é sentir a energia que é transmitida.. Difícil é mentir para o nosso coração. Difícil é seguí-las. sem ter medo do depois. Fácil é ouvir a música que toca. E é assim que perdemos pessoas especiais. Difícil é ocupar o coração de alguém. . Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Difícil é ouvir a sua consciência. Fácil é dizer "oi" ou "como vai?" Difícil é dizer "adeus". beijar de olhos fechados. Fácil é querer ser amado. Saber que se é realmente amado. por inteiro. Acenando o tempo todo. Fácil é ditar regras. Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. e nenhuma força jamais o resgata. E aprender a dar valor somente a quem te ama. Amar e se entregar.

outra acrescenta. Sua presença é mel e pão de sonho para os olhos. Em Botafogo. e a ela rendo meu tributo apaixonado.. – Lanceta é que se chama. nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira. Ipanema. coroando folhas pontiagudas e pungentes. a gente pára e se extasia. a ostentar panículas de pérola. Yucca gloriosa. esse luxo do ipê que nem-te-conto. – Baioneta espanhola. (Homem nenhum sabe nomes vegetais. Pergunto o nome. a gente estaca e logo uma porção de nomes populares brota da ignorância de nós todos. Quem responde é Baby Vignoli. . Tijuca. Tão rainha. – Não. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças. fruto e ninho. semente. Centro. Não esqueçamos.Rio em flor de janeiro A gente passa.. Paquetá. (ou de Iemanjá?) – Vela de pureza. Em toda parte a vejo. os flamboyants que em toda sua pompa se engalanam aqui. no Rio flóreo. Deixemo-la reinar. de majestade simples. deixa-se florir no alto. no Parque do Flamengo nem se fala: é flor é flor é flor. Essa gorda baiana me sorri: – Círio de Nossa Senhora. a gente olha.) Iúca! Iúca. urnas santas. uma soberba flor por sobre todas. toda se entreflora de etiquetas. gente. porém mulher se liga à natureza em raízes. baioneta. A gente olha. esse adágio lilás do manacá. que era anônima em sua glória. não sabia? E a flor. mais a vermelha aparição dos brincos-de-princesa nos jardins onde a banida cor volta a imperar. mexicana dádiva aos canteiros cariocas. ninguém sabe. é Léa Távora. meu amor deste verão que melhor se chamara primavera. eretos lampadários. Nem a dourada acácia. nos jardins dos edifícios. ali.

puro agrado da Terra para os homens e mulheres que faz do mundo obra de arte total universal.1980 . para quem sabe (e é tão simples) ver? 22. Você já viu? Você já reparou? Andou mais devagar para curtir essa inefável fonte de prazer: a forma organizada rigorosa esculpintura da natureza em festa.I.Isto é janeiro e é Rio de Janeiro janeiramente flor por todo lado.

humildemente te peço uma graça. Faz tanto calor. sino. e não desta lepra. o dia é de festa No adro da igreja há pinga. . Um leproso de opa empunha o estandarte. Os sinos tocam. meu amo. café. sobem a ladeira que leva a Deus e vão deixando culpas no caminho. No alto do morro chega a procissão. cheia de pedras. Jesus meu Deus pregado na cruz. Senhor. prendas e rezas. chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados. imagens. Já estamos puros. obrigados. fenômenos. Senhor. há tanta algazarra. Sarai-me. muito dinheiro para eu comprar aquilo que é caro mas é gostoso e na minha terra ninguém não possui. cigarros e um sol imenso que lambuza de ouro o pó das feridas e o pó das muletas. Jesus no lenho expira magoado. do amor que eu tenho e que ninguém me tem. Ninguém não percebe. As coxas das romeiras brincam no vento. baralhos. dai-me dinheiro. cantam sem parar. mas trazemos flores. Os homens cantam.ROMARIA A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos. me dá coragem pra eu matar um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha mulher. Meu Bom Jesus que tudo podeis. Nos olhos do santo há sangue que escorre.

Não quero ser preso. Jesus já cansado de tanto pedido dorme sonhando com outra humanidade. Jesus ó meu santo.Jesus Jesus piedade de mim. Por que me perseguem não posso dizer. pedem com a boca. Os romeiros pedem com os olhos. pedem com as mãos. . Ladrão eu sou mas não sou ruim não.

Rosa Rosae Rosa e todas as rimas Rosa e os perfumes todos Rosa no florindo espelho Rosa na brancura branca Rosa no carmim da hora Rosa no brinco e pulseira Rosa no deslumbramento Rosa no distanciamento Rosa no que não foi escrito Rosa no que deixou de ser dito Rosa pétala a pétala despetalirosada .

Não entendo o noticiário.5.83 . sou caxias voluntário de rendimento precário. por milagre monetário deu um salto planetário. sob o peso tributário. Não sou nada perdulário.Salário Ó que lance extraordinário: aumentou o meu salário e o custo de vida. para não dizer primário. escravo de ponto e horário. aumentou o meu calvário! 28. Sou um simples operário. vário. navegante solitário. nível de vida sumário. muito menos salafrário. muito acima do ordinário. me falta vocabulário para um triste comentário. Mas que lance extraordinário: com o aumento de salário. não festejo aniversário e em meu sufoco diário de emudecido canário. jamais avancei no Erário. é limpo meu prontuário. e cerzido vestuário.

São flores ou são nalgas São flores ou são nalgas estas flores de lascivo arabesco? São nalgas ou são flores estas nalgas de vegetal doçura e macieza? .

Não conte. O mar transborda de peixes.Segredo A poesia é incomunicável. Há homens que andam no mar como se andassem na rua. Ouço dizer que há tiroteio ao alcance do nosso corpo. Não peça. Fique torto no seu canto. É a revolução? o amor? Não diga nada. . Tudo é possível. Suponha que um anjo de fogo varresse a face da terra e os homens sacrificados pedissem perdão. só eu impossível. Não ame.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus. fizeste-me a graça Sem que eu pedisse. ficastes de joelhos em posição devota. O que passou não é passado morto. Adorando. Para sempre e um dia o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca. adorando. Sem que eu esperasse.Sem que eu pedisse. Não te vejo não te escuto não te aperto mas tua boca está presente. . Hoje não estás sem sei onde estarás. na total impossibilidade de gesto ou comunicação. fizeste-me a graça de magnificar meu membro.

No prato. a sopa esfria.. uma letra somente para acabar teu nome! .Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! Eu estava sonhando..Sentimental Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão." . Desgraçadamente falta uma letra. cheia de escamas e debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho. E há em todas as consciências um cartaz amarelo: "Neste país é proibido sonhar.

morto o pântano sem acordes. Sinto-me disperso. morto meu desejo. mas estou cheio de escravos.Sentimento Do Mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. . minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Quando os corpos passarem. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro. eu mesmo estarei morto. o céu estará morto e saqueado. Quando me levantar. anterior a fronteiras. humildemente vos peço que me perdoeis. da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite.

Ausente a audição lhe é proibido o tato. denominado reino das palavras. além do amor) onde nada. Interrogo meu filho. Drummond ainda afirma que neste reino encontram-se os poemas que esperam ser escritos. responde-me o hálito. sem nome. Ausente o tato. não me percebeste contudo chamava-te como ainda te chamo (além. Ele corre na brisa.SER Análise do poema “Ser” . tudo aspira a criar-se. São Paulo Junho de 2003 SER O filho que não fiz hoje seria homem. . O filho que não fiz faz-se por si mesmo. Note-se. sem carne. levando em consideração o poema “Procura de poesia” ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. O poema “Procura de Poesia” de Carlos Drummond de Andrade é um texto dividido em duas partes: na primeira a evidenciar uma contradição. Apóia em meu ombro seu ombro nenhum. sem impaciência e até sem o uso de algumas das faculdades de captação da realidade. em estado de dicionário. o poeta entra surdamente no tal reino. Às vezes o encontro num encontro de nuvem. objeto de ar: em que gruta ou concha quedas abstrato? Lá onde eu jazia. pois não deve colher o poema no chão. aguardam a realização de seu futuro criador que os deve contemplar sem desespero. Drummond nega como assunto da poesia todos os temas que constituem o seu universo poético e na segunda parte defende a idéia de que o fazer poético é desvendado como uma experiência atemporal em um ambiente comparável a um rio difícil. estão mudos.

por exemplo. mas sim a manifestação desse filho que. não correspondendo a qualquer espécie de paraíso. o sentido profundo do texto. como dita nos versos de “Procura de poesia” prescinde de incidentes pessoais e da revelação da morte. mas é a negação que se afirma e encaminha o leitor para o sentido oculto do texto e isso se assemelha às primeiras estrofes de “Procura de Poesia” que negam a obra poética de Drummond afirmada mais tarde pelo próprio ato da procura do ato criador. aqui com outro nome: o além. todas as coisas que aspiram a criar-se ou que. não tem nem nome. O título supõe a negação do poema. o filho que chama o pai de um lugar além. com a exceção dos dois primeiros versos.a visão também é imprecisa. Em todas as estrofes observa-se a manifestação desse filho. além do amor. O poema “Procura de Poesia” seria então. lugar este onde o poeta só garantirá.além da concretude da palavra “Ser”. nem a constatação de que para a poesia é desnecessária a determinação de temas. devem ser um . cada palavra tem mil faces secretas sob a face neutra. o eterno educar de uma geração a outra. mudança de estado. mas de tal forma incisivo na existência do poeta. ao adentra-lo. No terceiro e quarto verso. mas não tem carne. ente vivo animado – traz também uma contradição. substantivo abstrato por excelência) que permanece suspenso. o filho é e seria a ação do verbo. mas algo indefinível. não um método para elaboração de versos. pois o poema constrói-se exatamente sobre uma condição de não existência. semelhante ao reino das palavras do poema anterior. talvez fenômeno. na sua fenomenologia. em que o poeta esgota as informações objetivas daquele ser: houve um filho que não foi feito e que seria homem. fenômeno.encontrado pelo poeta em um reino diferenciado. além do amor. o filho corre na brisa – o filho é o ato de correr e é brisa. que parece se inverter a relação pai e filho. o filho que responde através do hálito. torna-se de súbito. de um vir a ser. (um advérbio de lugar sugerindo a materialidade do amor. mas mesmo este “seria” e este “homem” já constituem uma outra natureza que se manifesta através dos verbos relacionados durante todo o poema. não é o encontro do pai com o homem. ela existe como possibilidade. O poema “Ser” publicado no livro “Claro Enigma” é uma homenagem póstuma de Carlos Drummond. algo que pode ou não se realizar e tal poema realiza-se plenamente e em dois níveis: no nível das palavras que tomaram forma e também na manifestação do objeto de ar que constituiu esse filho . ação. O Poema “Ser” parece concentrar todas as sugestões do poema acima e mais. mas a indicação de que é débil e solitária a experiência poética e nebuloso o lugar que ambienta o ato da criação poética. contudo. A relação chave do poema. que era agnóstico – alguns o julgavam ateu ao filho que nasceu morto. É objeto de ar. No poema é o filho que apóia (abraça) o pai com o seu ombro nenhum.que também é palavra . na totalidade do nada. o filho que não vingou. o título . perdidas. mas a poesia. Nas estrofes seguintes o filho prossegue em sua constituição de verbo e se um verbo exprime processo. que será testemunha de uma possibilidade. relação de proteção do mais velho para mais novo. pelo contrário.

O poema então fala de permanência e fala também de todas as coisas findas.que se faz continuamente. .e. da concha abstrata? O pai não sabe. como dito acima. O que se acabou é o que fica na memória: estranho paradoxo. muito mais que lindas (outro verso de Drummond) que também é um dos temas recorrentes da obra de Carlos Drummond de Andrade. onde a positividade é extraída de uma atitude de oposição sistemática. O filho se realizou e se consumou e correu na brisa. circunstância também observada no poema “Procura da poesia” . O poema termina declarando a força da essência que o filho se constitui – ele se faz por si mesmo . A obra de Carlos Drummond se mostra coesa no belo e profundo poema “Ser” e como segue as sugestões do primeiro poema aqui analisado. ouso fundir tais sutilezas para afirmar que o pai do poema “Ser” penetrou surdamente no reino do filho. também o chamava e o chama ainda além. afirma outro caminho Drummoniano que vai da negação à reinvenção. além do amor. rio difícil – bem sabe o poeta. algo permanece entre os dois . Depreendeu-se do limbo.pai e filho .marulho em nós de um mar profundo (verso de outro poema de Drummond) exprimindo a eterna aspiração humana de permanecer como essência. Era palavra e hálito. o filho jazia sem desespero e era calma e fresca sua carne nenhuma. Aceitou o tal filho que.não obstante.

... Dois silvos breves: Pare.....lugar nos seus veículos para movimentá-los .. Um silvo longo: Diminua a marcha.. ... Um silvo longo e breve: Motoristas a postos.Sinal de apito Um silvo breve: Atenção....(A este sinal todos os motoristas tomam . Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna...imediatamente.....) .... siga.

E apertou a mão dos dois. Quando foi hora de sair. E todas as quintas-feiras eles voltam à casa do amigo que ainda não pôde retribuir a visita. Os dois dançaram. A casa é um ninho de pulgas. era o que faltava. O amigo enfeitou a casa e quando o homem chegou com a mulher.Sociedade O homem disse para o amigo: – Breve irei a tua casa e levarei minha mulher. O amigo estava muito satisfeito. A mulher bebeu e cantou. . o amigo disse para o homem: – Breve irei a tua casa. O homem comeu e bebeu. E a mulher ajunta: – Que idiota. – Reparaste o bife queimado? O piano ruim e a comida pouca. No caminho o homem resmunga: – Ora essa. soltou uma dúzia de foguetes.

e tenho dito. Recolham-se pois os canivetes sob a guarda do irmão da Portaria. a nata do Brasil. o canivete é mesmo indesculpável. no recreio. . Só que na volta do passeio verificou-se com surpresa: no matinho ralo da chácara todos os canivetes tinham sumido. Restituam-se pois os canivetes a seus proprietários com obrigação de serem recolhidos na volta do passeio.Somem canivetes Fica proibido o canivete em aula. em qualquer parte pois num país civilizado entre estudantes civilizadíssimos. Fica permitido o canivete nos passeios à chácara para cortar algum cipó descascar laranja e outros fins de rural necessidade.

Nem Fausto nem Mefisto. . mas não sou eu. Onde morri. Sem mim como sem ti posso durar.1987 Onde nasci. existo. nem isto.1902 * . à deusa que se ri deste nosso oaristo. Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti.MG . aqui. E das peles que visto muitas há que não vi.* . nenhum. morri. eis-me a dizer: assisto além.Sonetilho do Falso Fernando Pessoa Itabira do Mato Dentro .

Não sei se estou sofrendo ou se é alguém que se diverte por que não? na noite escassa com um insolúvel flautim Entretanto há muito tempo nós gritamos: sim! ao eterno. . Vou subir a ladeira lenta em que os caminhos se fundem. Todos eles conduzem ao princípio do drama e da flora.Soneto da Perdida Esperança Perdi o bonde e a esperança. Volto pálido para a casa. A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre meu corpo.

Mandam vir o leite mais nobre. . É tudo igual. Ovos de qualidade são os mesmos. Insistem. manteiga. As mãos (as mães?) são diferentes. a mesma.Suas mãos Aquele doce que ela faz quem mais saberia fazê-lo? Tentam. caprichando. iguais açúcar e canela.

Sugar e ser sugado pelo amor Sugar e ser sugado pelo amor no mesmo instante boca milvalente o corpo dois em um o gozo pleno que não pertence a mim nem te pertence um gozo de fusão difusa transfusão o lamber o chupar e ser chupado no mesmo espasmo é tudo boca boca boca boca sessenta e nove vezes boquilíngua. .

Mas acabei confundindo tudo. minha poesia perturbou-se. Eu também já fui poeta.Também já fui brasileiro Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. Hoje não deslizo mais não. . Ponteei viola. guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. Fazia isso. dizia aquilo. E meus amigos me queriam. meus inimigos me odiavam. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. Eu também já tive meu ritmo. não sou irônico mais não. Bastava olhar para mulher. o céu tamanho. não tenho ritmo mais não. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo. Mas eram tantas.

Tempo em fatias! Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias. industrializou a esperança. fazendo-a funcionar no limite da exaustão. com vontade de acreditar que daqui por diante vai ser diferente. . a que se deu o nome de ano. foi um indivíduo genial. e tudo começa outra vez. Aí entra o milagre da renovação. Doze meses dão para qualquer ser humano cansar e entregar os pontos.

de poesia de Fernando Pessoa. medo do pai. Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele. Paquera. tapete mágico ou foguete interplanetário. da flor catada no muro e entregue de repente. quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. quindim. de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia. cavalo. quem namora sem brincar. sanduíche da padaria ou drible no trabalho. fazer sesta abraçado. Namorado não precisa ser o mais bonito. quem não recorta artigos. gabira. dois amantes e um esposo. Não tem namorado quem transa sem carinho. brisa ou filosofia. Vinícius de Moraes ou Chico Buarque. show do Milton Nascimento. Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques. Necessita de adivinhação. na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. ainda que rápida. quem curte sem aprofundar. nuvem. ou mesmo de metrô. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele. . sua frio. Não tem namorado quem ama sem gostar. Namorar é fazer pactos com a felicidade. quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. um envolvimento. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. transa. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana. e quase desmaia pedindo proteção. Não tem namorado quem não gosta de dormir. lida bem devagar. Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. dois paqueras. caso. mesmo assim pode não ter nenhum namorado.Ter ou não ter namorado Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. bonde. quem vive cheio de obrigações. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva. quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria. Se você tem três pretendentes. cinema. abobalhados de alegria pela lucidez do amor. não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. fazer compra junto. até paixão é fácil. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. de pele. Não tem namorado quem não fala sozinho. fugidia ou impossível de curar. Mas namorado mesmo é muito difícil. sessão das duas. fliperamas. saliva. nuvem. envolvimento. de carinho escondido na hora que passa o filme. quem gosta sem curtir. quem não dedica livros. flerte. Não tem namorado quem ama sem se dedicar. de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada. lágrima. beira d’água. Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. escondida. Namorado é a mais difícil das conquistas. bosques enluarados. ruas de sonhos ou musical da Metro. mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. . Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. de repente. parecer que faz sentido.Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio. Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e. aquela de chita. De alma escovada e coração estouvado. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas. e passeie de mãos dadas com o ar. saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Só o amor volta para brigar. também que graça que a vida tinha? . Mas. amor cachorro bandido trem.Toada Do Amor E o amor sempre nessa toada: briga perdoa perdoa briga Não se deve xingar a vida. depois esquece. se não fosse ele. a gente vive. para perdoar.

saber o que falou ou escreveu. reconheçamos. mais raro ainda. Por isso use cada dia com sabedoria. Mas saber calar. Para voltarmos sobre os nossos passos. refletir. que jamais nos trará ao ponto de partida. E como humanos estamos sujeitos a errar. Saber ouvir é um raro dom. estaremos seguindo um caminho. principalmente.Desculpe. Ouça e cale se não se sentir bem. E se esse dia chega.Todo dia é menos um dia Todo dia é menos um dia. Muitas vezes alguém precisa. . De repente descobrimos que estamos muito longe E já não há mais como encontrar onde pisamos quando íamos. outra hora você vai conseguir interpretar melhor e saber o que quis ser dito. menos um dia para ser feliz. Já não conseguiremos distinguir nossos passos de tantos outros que vieram depois dos nossos. porque calando nem sempre quer dizer que concordamos com o que ouvimos ou lemos. é não saber: Ouvir e calar ! Todo dia é menos um dia para dar um sorriso. E nosso erro mais primário. é menos um dia para ouvir e. Leia e deixe de lado. fui injusto ! Todo dia é menos um dia.Perdoe-me por favor. por mais que voltemos. é menos um dia para dar e receber. calar ! Sim. mas estamos dando a outrem a chance de pensar. é menos um dia para amar e ser amado. eu errei ! Para dizer: . apenas de um sorriso para sentir um pouco de felicidade ! Todo dia é menos um dia para dizer: .

músico. Torceram pelo seu primeiro sorriso. um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela. Depois começou a torcer pela sua liberdade. E o primeiro gol. falar palavrão. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. escovar os dentes. de torcida em torcida. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. avós. pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. uma grande torcida se formou. você descobriu que tem gente que torce diferente de você. o bom humor do pai. Mesmo com toda essa torcida. já tinha alguém torcendo por você. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. mesmo antes do seu filho nascer. Torceram para ganhar a geladeira. pela primeira palavra. Descobriu que ela torcia igual a você. Provavelmente. torceu para o mundo explodir. torcia torcido. nesse dia. torceu para ela não ter outro. então? E de tanto torcerem por você. muito alto. Torcia para viajar com a turma. pelo primeiro amasso. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. Torceu para ela não te achar muito baixo. Começou a torcer até para um time. você aprendeu a torcer. Seus amigos torciam para você usar brinco. namoradas e todos os santos torceram por você. Na dúvida. muito gordo. Mas muita gente ainda torce por você!" . o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. Torceu para seus irmãos se ferrarem. tomar banho. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida. Porque. pelo primeiro passo. E quando os hormônios começaram a torcer. advogado. Na faculdade. cabular aula. então. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã. contra a corrupção. você só torcia para não ter nascido. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. Nessas horas. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. ficar até tarde na rua. Seus pais torciam para você comer de boca fechada. Para a direita. para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. torceu pelo primeiro beijo.Torcida "Mesmo antes de nascer. vizinhos. esquerda. muito magro. já tinha muita gente torcendo por ele. Torciam para você puxar a beleza da mãe. E por não saber pelo que você torcia. Daí continuaram torcendo. era torcida pra todo lado. Seus pais torciam para passar logo essa fase." Tinha gente que torcia para você ser menino. No dia do vestibular. torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Pais. Torceu para ser médico. Outros torciam para você ser menina. Primeiro. estudar inglês e piano. E. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro.

"Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) do mundo." Eu torço por você! . mas a poesia (inexplicável) da vida.

o tempo é simples ruga na carapaça. O mau gosto e o bom se acasalaram. um perfume. não no fundo amor. catrapuz! Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora ou tem medo de dizer que é medonho? . Agora então. não passa nem sequer tem nome. mando-te uma tartaruguinha de presente e principalmente de futuro pois viverá uma riqueza de anos e quando eu haja tomado a estígia barca rumo ao país obscuro ela te me lembrará no chão do quarto e te dirá em sua muda língua que o tempo. III Sempre foi difícil ah como era difícil escolher um par de sapatos.Três presentes de fim de ano I Querida. Inventa-o se puderes com fervor e graça. é impossível. II corbeilles nem letras de câmbio nem rondós nem carrão 69 nem festivais na ilha d’amores não esperes de mim terrestres primores. Dou-te a senha para o dom imperceptível que não vem do próximo não se guarda em cofre não pesa. amor.

E aquele quadro (objeto)? aquela pantalona? Aquela poesia? Hem? O quê? não ouço a sua voz entre alto-falantes. Desculpe. amor.. se meu presente é meio louco e bobo e superado: uns lábios em silêncio (a música mental) e uns olhos em recesso (a infinita paisagem). . não distingo nenhuma voz nos sons vociferantes..

a dor cada vez mais forte dos negros e sorvendo mecânicos uma pitada de rapé. com rádio e telefone automático .Tristeza do Império Os conselheiros angustiados ante o colo ebúrneo das donzelas opulentas que ao piano abemolavam "bus-co a cam-pi-na se-rena pa-ra li-vre sus-pi-rar" esqueciam a guerra do Paraguai. sonhavam a futura libertação dos instintos e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de Copacabana. o enfado bolorento de São Cristóvão.

riqueza ciência. Suicídio. Nenhum pensamento de infância. como líquido. Mas a vida tem tal poder: na escuridão absoluta. A soma da vida é nula. Triste farol da ilha rosa. A alma severa se interroga e logo se cala. circula.. mar ou distância. a integração da noite. sob o vento.Turno à Janela do Apartamento Silencioso cubo de treva: um salto. nem saudade nem vão propósito. Somente a contemplação de um mundo enorme e parado.. . E não sabe se é noite. Mas é apenas. e seria a morte.

dos poderes. sésamo? . buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel. cada qual com a cor de suas águas? sem misturar. e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos. civilmente mágico. falando? Guardava rios no bolso. curva. florindo como flor é flor. inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar. apelador e precipites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos. para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos. mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora. sem conflitar? E de cada gota redigia nome. das supostas fórmulas de abracadabra. ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido."Um chamado João" "João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas. fim.

Reino cercado não de muros. que se entrelaçam para melhor guerra." . para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar... (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeíam de antes do princípio. chaves. mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com. códigos.

eterno. Há uma queixa abafada em sua docilidade.Unidade As plantas sofrem como nós sofremos. Por que não sofreriam se esta é a chave da unidade do mundo? A flor sofre. . tocada por mão inconsciente. Não temos nós. sequer o privilégio de sofrer. A pedra é sofrimento paralítico. animais.

ÚNI DÚNI TÊNI úni dúni têni salamêni. meu bem. o novo arco-íris desdobra todos os raios do sexo. balança entre um e outro trapézio. É anjo? ou mulher? ou homem? Sobre a pergunta sem nexo. Os saltos mais perigosos são fiorituras aéreas. No verde tom da esperança. no vão entre céu e terra. No limite da coragem. De "Amar se Aprende Amando" . a cor de prata do césio. um anjo luminescente zomba da morte e da guerra. Circula o risco no espaço como sangue nas artérias. Balança.

Vou crescer assim mesmo. Sem ser Esquecer. Er. Não vou ser. R. um jeito. ser? Dói? É bom? É triste? Ser. Ser. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. e cabe tantas coisas? Repito: Ser. Ser. . pronunciado tão depressa. corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome. Que é ser? É ter um corpo. um nome? Tenho os três.Verbo Ser Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor.

Cada um optou conforme seu capricho. E os meios perfis não coincidiam. sua ilusão. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. sua miopia. mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E carecia optar. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Assim não era possível atingir toda a verdade.Verdade A porta da verdade estava aberta. Nenhuma das duas era totalmente bela. Arrebentaram a porta. . Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Derrubaram a porta. Era dividida em metades diferentes uma da outra.

Alisa o bico no local." O que Deus perdoa. Com leveza e graça o homem pensa Deus. III Bica-me Deus de manso nos olhos. encantadas. E dói. II No mais alto ramo Deus está pousado com uma garra apenas e fita o mundo. só o sabe Deus. IV Deus rumina que fazer. acaso. indiferente às coisas bicadas.Versos de Deus I Ao sentir nos pássaros tanta liberdade e aéreo poder. . imagina um pássaro superior a todos e tão invisível que seu vôo deixe sensação de sonho. Ao sumir crocita: "Hoje te perdôo. Do mais alto ramo desfere vôo e sai por aí bicando as coisas. antes referência que repreensão.

crepúsculo sempre continuado. Laços entrançados. (in A Paixão Medida) .Mais um terremoto? De que proporções? Uma nova guerra? De quantas nações? Que margem ceder ao capricho do homem? Vai nascer um artista? Nascerão idiotas? Surgirão robôs? V Ao findar o tempo tudo se acomoda à sua vontade. O homem arrependo-me da criação de Deus. gemidos. mas agora é tarde. Já não há projeto de outro Deus ou vários.

escadarias. Clarice não saiu. são jóias particulares de Clarice que usamos de empréstimo. o país onde Clarice vivia. De Chirico a pintou? Pois sim. O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou. Levitando acima do abismo Clarice riscava um sulco rubro e cinza no ar e fascinava. carteira de identidade. De Clarice guardamos gestos. possíveis coquetéis à beira do abismo. providências. era Clarice viajando nele. ela dona de tudo. tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia. mesmo sorrindo. Mais tarde. Deixamos para compreendê-la mais tarde. Gestos. apenas. e retratar o homem. cuidados. zimbórios. não se percebe mais. Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos.Visão de Clarice Lispector Clarice. Ou o mistério não era essencial. O que Clarice disse. construindo fábulas. pontes do Recife em bruma envoltas. Clarice não foi um lugar-comum. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo. formava um país. um dia. Dentro dela o que havia de salões. Fascinava-nos. o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barata ou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. Ficamos sem saber a essência do mistério. partiu para outro. tetos fosforescentes.. retrato. longas estepes. edições. os cumprimentos falavam em agora. . onde a palavra parece encontrar sua razão de ser. só e ardente. Os papéis.. veio de um mistério. São coisas. saberemos amar Clarice.

Nossa dor não advém das coisas vividas. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco. Por todos os beijos cancelados.Viver não dói Definitivo. todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam. mas porque o futuro está sendo confiscado de nós. que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável. esquivando-se do sofrimento. mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos. Sofremos não porque envelhecemos. como tudo o que é simples. Sofremos não porque nosso time perdeu. e que. para namorar. nas forças que não usamos. na prudência egoísta que nada arrisca. mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco. . perdemos também a felicidade. por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos. para conversar com um amigo. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas. mas pela euforia sufocada. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo. apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana. pela eternidade. um tempo feliz. e não compartilhamos. O sofrimento é opcional. para nadar. por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado. mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer. A dor é inevitável. por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos.

do agudo olhar sobre a existência (Que triste são as coisas consideradas sem ênfase) – múltiplas foram as leituras provocadas por sua poesia. o que mais de perto interessa perceber é que parece ter sido. Chega-se muito próximo à verdade. A segunda sempre a dominar o ato criador. como uma resposta talvez às inquietações que já se faziam ouvir em A Rosa do Povo:Estou escuro. Apesar de recriminado por alguns por não ter mantido as diretrizes iniciais ao longo de sua extensa obra.) preciso aceitar e compor. Além. Carlos Drummond de Andrade representa. Como uma resposta talvez à “Procura da Poesia”. estou vazio.) cada um optou conforme seu capricho. que ele sabia além. em relação ao qual avulta a dimensão filosófico-existencial de composições mais do que nunca depuradas. poeta da família. Embora a inesgotável riqueza dessa poesia seja há muito assunto fora de questão (mesmo que insistimos em reivindicá-la). que. dos acontecimentos.. enfim. Poeta de vasto sortimento de memórias. muito além. dos poucos que conseguiram elevar a confissão ao nível do universal. a marcha do mundo capitalista. Nele pode-se encontrar tanto o poeta que promete ajudar a destruir. uma profunda sensação de perda e desgaste envolve a viagem poética rumo à revelação que está sempre a se insinuar sem nunca mostrar de todo sua face. estou rigorosamente noturno. da pedra no meio do caminho. a verdade é que Drummond deixou rastros que apontam para muitas direções. mas jamais se consegue atingir a desejada síntese. em rugas e cabelo. Como uma resposta talvez às perguntas lançadas em “Versos à boca da noite”: Escreverei sonetos de madureza?/ Darei aos outros a ilusão de calma?/ Serei sempre louco? Sempre mentiroso?/ Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? São essas as indagações de quem atingiu uma inteligência do universo/ comprada em sal. poeta do sensível e da dura substância. Além da cidade. como se fora . potencializada pelo confronto entre duas forças fundamentais: sensibilidade e inteligência.. do pensar e do sentir: O que pensas e sentes. com justiça. símbolos e outras armas. harmoniosamente conjuga pensamento e emoção criativa. poeta do obstáculo. isso ainda não é poesia. desde o princípio. da merencória infância. Forças que assumem um caráter particular quando se trata de um livro como Claro Enigma. Forças que impõem uma série de reflexões a quem se comprometa na arte de interpretá-las. por ter feito muitas concessões. sua miopia). o que de melhor se fez na poesia brasileira do século XX. Efetivamente. uma forma de conhecimento a um só tempo pessoal e altamente artístico. numa linguagem reveladora da mais alta realização estética. do próprio corpo. minhas medidas partiram-se. intuições. superando as exigências expressionais de sua época e contribuindo para a constante renovação do modernismo. da cidade que dói. na medida em que sua poesia avança.. (. sua ilusão.. Seu verso manifesta uma vontade ardente de ver e de fazer ver (A porta da verdade está aberta (. poeta da anulação.Drummond: um Claro Enigma na Escuridão do Mundo e da Alma Marlise Sapiecinski É quase desnecessário dizer que. da crueldade e diamante. É um acentuado sentimento de fracasso que o leva a se apresentar em Claro Enigma de modo a assumir a medida de desrazão que a vida comporta. construídas sob a gestão de um inegável rigor poético. com suas palavras. da natureza e dos homens em sociedade.

que penetra seu tempo de modo a apontar suas mais íntimas contradições./ Não quero ser senão eterno. uma floresta. Nesse sentido. em direção à maior pureza lírica. exigida talvez por um incansável espírito perquiridor. A representação consciente da urgência histórica. do soneto escuro. uma festa do intelecto. como o soneto. Há ainda outros. o poeta mineiro foi. Sua poesia é feita de permanente questionamento e exigência artística. de diferentes maneiras. toda a produção drummondiana revela. para além das particularidades da postura assumida na fase de Claro Enigma. como percebeu Merquior. apenas comunicar o essencial sentimento do mundo. alimentando perquirições que se refletem de forma decisiva na linguagem. seja em relação à experiência amorosa. O que antes era certeza de sim ou de não. fiel à ética de uma poesia que nunca deixou de se espantar com a vida e com o mundo. Talvez por isso não se prenda definitivamente nem mesmo às questões de ordem mais técnica. o que de mais profundo Claro Enigma registra é o abalo que a negatividade histórica exerce sobre a consciência. advinda talvez da idade madura. na famosa definição de Valéry. principalmente. Nesse momento. fabrica um elefante e cotidianamente o recoloca na rua. difícil de ler. pois ele nunca encontra o de que carecia. senão eterno: E como ficou chato ser moderno/ agora serei eterno. de talvez. sobretudo. assumiu completamente suas qualidades de master. com seu verbo antipático e impuro. Cônscio de seu ofício. de onde afloram infinitas incertezas e outras tantas desconfianças. na busca de um contato mais íntimo com o passado literário. que busca nas formas tradicionais de composição. muitos. refratário à figuração social. um verme. abafado. às exigências de seu próprio questionamento existencial e de sua aptidão a interrogar. se apresenta em vários níveis. A perda de certas ilusões coincidirá com a presença de um estilo de natureza clássica e um conseqüente distanciamento da representação social-concreta. Essa é a grande lição da poesia de Drummond: a de não se pretender lição de nada. do precário em que se resume toda a existência humana. em favor de um simbolismo abstrato. o de que carecemos. Essa crise. na maturidade. de miglior fabbro. que há de pungir. na verdade. Com efeito. uma poesia que apresenta uma capacidade inesgotável de surpreender. de mas. há de fazer sofrer. É o sentimento agudo do relativo. naquela vertente poética inaugurada por Baudelaire e proclamada por Rimbaud. transforma-se. em instâncias penetradas de dúvida. de seus parcos recursos. é substituída pelo olhar lançado sobre a tradição. da incomunicabilidade da própria poesia. em relação a luta fáustica pelo conhecimento. De qualquer maneira. o poeta que. seja em relação a validade do que escreve. poetas que não se deixam apreender de uma só vez nem almejam qualquer forma de catequização. a situação espiritual de nossa época. sob a forma de símbolo. seco. de se. presente de forma explícita em A Rosa do Povo. purificada e sóbria.uma pedreira. a sua própria sensibilidade o levou a essa depuração. nesse momento. intensificando a sensação de inutilidade em relação ao conhecimento adquirido. É assim que se pode pressentir em Claro Enigma uma espécie de síntese. e. Modernista ou clássico. como disse Alfredo Bosi. familiar ou histórica. de que a nada se pode outorgar a condição de absoluto. novos modos de comunicação. profunda e absolutamente moderno. que respondem. o que não é . como também o poeta do soneto duro. as crenças anteriores e a fé depositada na esperança de que havemos de amanhecer aparecem sombreadas por céticas reservas de tempo. uma atividade lúdica da razão.

explicitamente exposto através da fúria metapoética de “Oficina irritada”. definitivo nos versos de A Rosa do Povo. entre eles Emanuel de Moraes. ao voltar da festa. que as composições de Drummond. os mais excelentes. ou antes. uma voz matinal palpitando na bruma e que arranque de alguém seu mais secreto espinho. de concordâncias vegetais. murmúrios de riso. a rigor. como muitos o fizeram. Não deixarei de mim nenhum canto radioso. amor e piedade? Aquele desejo ético de que a palavra pudesse de alguma forma interferir no plano dos acontecimentos. E mereço esperar mais do que os outros. pois o formalismo o controla. dissolvidos os ideais de criação. eu? Tu não me enganas. entrega. Essa aparente descrença no ato criativo revela. não os cativa Orfeu. apesar do desânimo produzido pela seqüência de desilusões político-filosóficas. e não te engano a ti. a única reação possível é a de culpar-se por não ter conseguido comunicar o que pretendia. sobretudo do “poeta maior” voltado para os grandes problemas do homem e da vida. em sua maioria. o quanto o poeta era cioso de seu ofício. a vagar. saem-lhe forçadas. taciturno. tudo quanto senti? Na noite do sem-fim.suficiente. Esses monstros atuais . uma busca ansiosa de um universalismo estético. e a meu nome se ri. onde. breve o tempo esqueceu minha incerta medalha. Só proferi algumas palavras. tarde. parece alimentar-se em Claro Enigma de pressentidas descrenças em doses de amarga . Diz o poeta em “Legado”: Que lembrança darei ao país que me deu tudo que lembro e sei. já que parece ter deixado de crer na poesia como algo merecedor de preito excepcional. entre o talvez e o se. E em “Confissão” revela: Não amei bastante meu semelhante. entretanto. E o que é mais absurdo: dizer que se poderia admitir que se encerraria aí a carreira de Drummond. como compor um homem e tudo o que ele implica de suave. e já não compactuando com uma poesia que quer servir de consolo. não catei o verme nem curei a sarna.) E na meia-luz tesouros fanam-se. melodiosas. Esse sentimento fica patente em sonetos como “Legado” e “Confissão”. para que se possa afirmar. sem aquela vigorosa versatilidade do passado. mundo. Ora. momento em que as canções de timbre mais comovido estão caladas e os homens surdos aos apelos da alma. desejaria poder deixar ao mundo seu legado de esperança. que o seu novo conceito de poesia poderia efetivamente tê-lo paralisado. um sentido superior de arte. que se perfaz numa angustiada inquietação expressiva. (Cego é talvez quem esconde os olhos em baixo do catre. Do que restou. Severo em extremo consigo mesmo. Dei sem dar e beijei sem beijo. o que nos parece é justamente o contrário.

longe da experiência pessoal: esses monstros atuais. Seja como for. não menos do que Pessoa ou qualquer outro dentre os grandes. “A máquina do mundo” já não seduz esse eterno peregrino da estrada de Minas pedregosa com fáceis convites à leitura dos mistérios do mundo. no perene trânsito do mundo. nada resta. José?” é o mesmo que ignorar uma parte substancial de sua obra. no poema “A mesa”. a trilhar arduamente o próprio caminho em direção ao conhecimento que nunca se completa. obviamente. preenchendo as lacunas que esta havia deixado na literatura. sua linguagem se movimenta em direção a uma expressão mais puramente lírica. o fato é que para alguns Drummond continua sendo o poeta que estreou com Alguma Poesia e se consagrou com os versos socialmente engajados de A Rosa do Povo.ironia. como se a condição presente paradoxalmente exigisse a negação do passado ao mesmo tempo em que requer a sua presença permanente: Como ser uma negativa maneira de te afirmar. Como desconfiou Ascher. Realizando essa façanha. alcança uma modernidade mais profunda. mais uma vez. diz o poeta em “Legado” e ironicamente conclui: De tudo quanto foi meu passo caprichoso/ na vida. Mergulhado numa espécie de cansaço intelectual. mas. Nesse sentido. tornou-se vários poetas. pois o resto se esfuma. completa Ascher. ele despreza o que lhe é dado de graça pela visão que escapa a possibilidade racional de apreensão do universo e. à sua maneira perfeitas. Nelson Ascher já se perguntara se os textos maduros e trabalhados de livros como Novos Poemas. que o destino do poeta gauche está irremediavelmente ligado ao menino antigo. Claro Enigma. Acostumado a interrogar cotidianamente à existência. Por tudo isso é que se pode afirmar que na obra de Drummond parece haver um movimento constante de aproximação e afastamento dos temas ancestrais. diz ele em “Remissão”. referindo-se. cujo legado seus . é calarse. a provar. Fazendeiro do Ar e A Vida Passada a Limpo foram suficientemente compreendidos e assimilados pela crítica de poesia brasileira. mas a corrigir também uma parte da história da língua e do país. Drummond. não satisfaz o espírito perquiridor de um eu lírico cansado de desilusões. sem qualquer tipo de objeção ao Drummond explicitamente modernista. um poeta múltiplo. Dessa tentativa de ajuste avultam os versos de poemas significativos como “Os bens e o sangue” e “A mesa”. Em meio a paz destroçada. Assim. por isso. fatigado pela antiga procura. É nesse espaço que se dá o confronto com o passado através de um diálogo há muito desejado. ou melhor. Nesses momentos o poeta transcende o próprio modernismo e. Apesar da antiga vontade de poder ajudar a mudar o percurso dos acontecimentos. Mesmo reafirmando-se tantas vezes a qualidade estética dos poemas de estréia./ uma pedra que havia no meio do caminho. É assim que o filho explica ao pai suas incômodas posições do tipo gauche. como “Fraga e sombra” ou “A máquina do mundo”. é preciso reconhecer que eles não exemplificam todas as qualidades artísticas do poeta. a solução encontrada pelo poeta. poema de abertura do livro. pressente-se que qualquer transformação histórica situa-se. verdadeiramente. restará. não os cativa Orfeu. do que escreves. cuja consecução envolvia refazer na sua própria obra a trajetória toda da poesia ocidental de modo não apenas a atualizar e revivificar o passado. imerso no crepúsculo existencial. antevista em “Dissolução”. afinal. mesmo. onde se podem encontrar criaçõesmenos definíveis. por exemplo. parece que a resposta é não. onde a dúvida completa a visão de um horizonte poético no qual sua própria história se perfaz em negatividade. ao poema que se tornou a mais conhecida e citada obra poética do modernismo brasileiro: “No meio do caminho”. Lembrar-se de Drummond somente através das citações e referências habituais a textos como “No meio do caminho” e “Poema de sete faces” ou enfaticamente repetindo o “E agora.

em que aponta ‘as confluências e pontos de encontro’ entre Lição de Coisas. Nesse momento. na busca de uma depuração cada vez maior das formas poéticas. Ele havia mostrado o quanto dominava as formas clássicas a ponto de. Gilberto Mendonça Teles. Assinalando a impressionante presença de Drummond no cenário poético do século XX. mas ao contrário: ‘foi a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certa linha da poemática drummondiana’. manter sua forte dicção sem cair em malabarismos verbais ou numa literatura de ornamento. Haroldo de Campos publica o ensaio ‘Drummond. O coloquialismo. especialmente em relação às publicações posteriores a A Rosa do Povo. dentro delas. Um ensaio que não reivindicava nenhuma ‘influência ou contágio’ da nova poesia nos poemas de Drummond. pregando a volta do soneto e dos temas ditos elevados. Calase. um livro tão desconcertante que os jovens de 45 tiveram de mudar rapidinho de discurso. apesar da pretensa abstração. Novas cutucadas. De nosso ponto de vista. E se alguns o consideram o livro mais isolado da obra do poeta mineiro. Claro Enigma representa uma das mais intensas tentativas de compreensão da “Máquina do mundo”. Mário Faustino. E até mesmo chegaram a dizer que o poeta havia aderido ao novo programa . não há nenhuma barreira que separe o verso livre das formas tradicionais enquanto possibilidade de expressão. Porém. nada disso agradava ao estilo purista que surgia. Num segundo momento vieram os jovens da poesia concreta. por revelar as mesmas inquietações poemáticas dos grupos de vanguarda. foi duro na crítica: ‘O Sr. poucos anos depois. de forma inexata. entretanto. principalmente. Carlos Drummond de Andrade só age poeticamente através dos poemas que publica. Drummond sentiu os ataques. não foram poucas as visões equivocadas sobre a obra de Drummond. para usar uma expressão de Merquior. ao longo de sua obra. longe de se afastar das preocupações com o elemento humano e com o seu tempo. lembrando a inventividade bem tramada de “No meio do caminho”.o que não passa de um engano de leitura. e não como uma pausa na evolução poética drummondiana. nem oralmente nem por escrito. não discute a sério poesia. . Em 1957. mas é compreensível o pito que Faustino passa em Drummond. apesar de reconhecer a importância de Carlos Drummond de Andrade. chegou a dizer que Lição de Coisas é o mais atual dos livros de Drummond por sua maior adequação às experiências mais recentes da poesia brasileira. Não escreve a sério sobre poesia. no caminho pedregoso da poesia. É. utilizando-se de todos os recursos expressivos. e o programa concretista. em 1962. como muitos querem fazer acreditar. Ao que saibamos. Drummond evolui continuamente em direção a atualização constante de seu instrumento lírico. que acabara de ser publicado. ‘dono do mais ponderável corpo de poemas que já se formou em nossa história literária’. conta-nos Heitor Ferraz. nesse sentido que se deve entender o modernismo classicizado de Claro Enigma. erroneamente chamada por Haroldo de Campos de estação neoclassizante. com a famosa geração de 45. depois de ter verificado em Claro Enigma. ocorria a exposição de arte concreta no Ministério da Educação e Drummond não se mostrara nem um pouco entusiasmado por essas experiências. os temas do cotidiano. Não faz crítica séria de livros de poesia. por exemplo. Heitor Ferraz lembra a resposta do poeta mineiro em dois momentos significativos da poesia brasileira: Primeiro. mestre de coisas’.’ Hoje. Com efeito. para além de sua importância no quadro da poesia modernista.conterrâneos mal começaram ainda a avaliar (apesar da abundância dos estudos dedicados à compreensão crítica de sua obra). Drummond era o alvo predileto de Lêdo Ivo e de tantos outros. uma total identificação com os princípios da geração de 45. a rigor. um texto desse calibre chega a ser risível. mostrando que. Não manifesta grande interesse pelo progresso da Poesia. mas respondeu com Claro Enigma. o único que ele dedicou ao poeta. Na verdade.

infenso as seduções que corrompem. na luta cotidiana pela expressão mais prefeita. como costumavam dizer Mário de Andrade e Abgar Renault. Poeta do mais verdadeiro sentimento de humildade. desorbitado. que mesmo nos melhores momentos de sua obra é capaz de repetir: Triste é não ter um verso maior que os literários. construída sob a gestão de uma inteligência diabólica. e por isso sempre caminho possível para a libertação. a poesia de Drummond é radicalmente problematizadora das infinitas relações do homem com o mundo. é verdade. . isto é. representando o sacrifício do que era mais significativo em sua linguagem.porque parece escapar às matrizes de sua poesia. endereçada ao coração sensível. E compreende-se. Penetrar sem piedade a natureza humana e fluir em versos pelos seus condutos: esse é o canto do poeta de uma linguagem de rara densidade de pensamento. mas enriquecido de sabedoria. ó quimera que sobe do chão batido e da relva pobre. ainda assim. seu caráter inventivo. Pedregoso caminho. porque o filósofo alemão entendia que toda a verdadeira arte é essencialmente uma interrogação. Hegel elegeu a poesia como a arte universal. afinal. para envolver tua efígie lunar. se compreende porque. outros há que entendem que o nível de realização estética que a poesia de Claro Enigma atingiu é dos mais altos de nossa língua. longe de esgotar o significado da poesia contida na excelência do verbo que se revela em Claro Enigma. É assim que. é não compor um verso novo. um apelo às mentes e as espíritos. Seja como for. escravo confesso das palavras. dos maiores de nosso tempo. num grau superior ao das outras artes. principalmente. em favor de uma depuração maior.

Mas iríamos longe nesta conversa. Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade. Mas ganhei vida e fiz amigos inesquecíveis. Já em Brejo das Almas (1934). Perdi tempo.Autobiografia de Drummond *Publicada em Confissões de Minas (Ensaios e crônicas).contando sem ênfase os pobres e miúdos acontecimentos que assinalam a minhapassagem pelo mundo. mas apareciam novos. da contemplação e mesmo da ação. que me criaram no temor de Deus. 1944. Minas Gerais. no ano de 1902. pela autoridade natural que me advém de ter vivido a vida. em Belo Horizonte). e não outro. mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo. dócil às modas e compromissos. o individualismo será mais exacerbado. que se desmanchavam para dar lugar a outros. A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda minha vida. Infelizmente. falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo. Primeiro. com os jesuítas. Penso ter resolvido as contradições elementares da minha poesia num terceiro volume. traduz uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo. comportava-me como um anjo. Rio de Janeiro. praticando aparentemente um ato de vaidade. no fundo castigo meu orgulho. que. componho muito pouco. e todos os outros bons sentimentos. tive que retirar a minha posição. sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica. e um poeta desarmado é. de que tenho tirado o meu sustento. mas expulsaram-me por "insubordinação mental". tomei parte da guerra européia (pesa-me dizê-lo) ao lado dos alemães. Isto posto. alguns anos depois. Eu liquidava esses outros. O bom reitor que me fulminou com essa sentença condenatória morreu.. com que o redator da revista quisesse. Casado. Perdi a Fé. sincero ou não gratificar-me. De repente. se organizou. filho de pais burgueses. Voltei a Belo Horizonte.. A esse tempo já conhecia os padres alemães do Verbo Divino (rápida passagem pelo Colégio Arnaldo. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam. é verdade que mais velho que a maioria dos colegas. Sentimento do Mundo (1940). num desastre de bonde na Rua São Clemente. porém. Quando o primeiro navio mercante brasileiro foi torpedeado. Primeiro aluno da classe. exige-se pouco do nosso poeta. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Ao sair do grupo escolar. Até os poetas se armam. sendo inevitável a biografia. um ser à mercê de inspirações fáceis. mas há também uma consciência crescente de sua precariedade e uma desaprovação tácita da conduta (ou falta de conduta) espiritual do autor. como redator de jornais oficiais e oficiosos. insignificante em si. Segundo. a vida começou a impor-se. Mário Casassanta levou-me para a burocracia. ao músico. da leitura. menos do que se reclama ao pintor.Convidado pela Revista Acadêmica a escrever minha autobiografia. e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo. alguma coisa se compôs.era preferível que eu próprio a fizesse. e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais: No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Meu primeiro livro. declaro que nasci em Itabira. não me julgo substancialmente e permanentemente poeta. por me parecer que esse trabalho seria antes de tudo manifestação de impudor. e evitando assim qualquer adjetivo ou palavra generosa. fui lecionar geografia no interior. não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema. Alguma Poesia (1930). tinha saudades da família. mesmo. Refleti logo. relutei a princípio. Dois anos em Friburgo. Só as elementares: meu progresso é lentíssimo. ao romancista.Entro para a antologia. . a desafiar-me com seus pontos de interrogação. por que.

O Espírito Santo louvo.) Como é fazendeiro do ar. Sempre é poeta de verdade Esse homem lépido e limpo Que é Carlos Drummond de Andrade. O obscuro enigma dos astros Intui. o Filho. (Lírico ou participante. louvo aquele Que ora chega aos sessent'anos E no meio de seus pares Prima pela qualidade: O poeta lúcido e límpido Que é Carlos Drummond de Andrade. o Espírito. Prima na Rosa do Povo. alto e raro. Louvo o Padre. Claro. louvo o Filho. Prima no Brejo das Almas. No Sentimento do Mundo. De resto Ponteia em viola viola de bolso Inteiramente à vontade O poeta diverso e múltiplo Que é Carlos Drummond de Andrade. O poeta por Manuel Bandeira Carlos Drummond de Andrade Louvo o Padre.Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. capta em claro enigma. Santo. Manuel Bandeira . o amigo Que é Carlos Drummond de Andrade. Isto feito. e após outra Trindade Louvo: o homem. Prima em Alguma Poesia. o poeta.

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