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Poemas Carlos Drummond de Andrade

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  • A bunda, que engraçada
  • A carne é triste depois da felação
  • A carne envilecida
  • A casa do tempo perdido
  • A corrente
  • A ilusão do migrante
  • A língua lambe
  • A loja feminina
  • Amar-amaro
  • A Mãe e o fogão
  • A Máquina do Mundo
  • A moça que mostrava a coxa
  • Amor
  • Antepassado
  • Ao amor antigo
  • A palavra
  • A puta
  • Aquele casal
  • Aspiração
  • A um bruxo, com amor
  • Actriz
  • Aurora
  • A verdade dividida
  • Beijo-flor
  • Biblioteca verde
  • Boitempo
  • Bolero
  • Brinde, no banquete das musas
  • Caso do vestido
  • Certas palavras
  • Como encarar a morte
  • Confissão
  • Congresso Internacional do Medo
  • Consideração do poema
  • Cuidado
  • Declaração de amor
  • Deus e suas criaturas
  • Deus triste
  • E agora, José
  • Elegia carioca
  • Em teu crespo jardim
  • Entre o ser e as coisas
  • Essas coisas
  • Eu preparo uma canção
  • Fazedor de homens
  • Herança
  • Hoje não escrevo
  • Homem livre
  • Igual-desigual
  • Infância
  • Inocentes do Leblon
  • Inscrição tumular
  • Liberdade
  • Lição
  • Mãe sem dia
  • Mimosa boca errante
  • Mortos que andam
  • Mulher andando nua pela casa
  • Namorado
  • Não quero ser o último a comer-te
  • Não se mate
  • No corpo feminino, esse retiro
  • No mármore de tua bunda
  • No pequeno museu sentimental
  • Nossa amiga
  • O ano passado
  • O chão é cama
  • O Deus de cada homem
  • O enterrado vivo
  • O fim das coisas
  • O fim no começo
  • O medo
  • O mundo é grande
  • O novo Homem
  • O quarto em desordem
  • O que Alécio vê
  • O que fizeram do Natal
  • O que se passa na cama
  • O seu santo nome
  • Os ombros que suportam o Mundo
  • O tempo passa? Não passa
  • Oficina irritada
  • Ordem
  • Os assassinos
  • Os vinte poemas
  • Papai Noel às avessas
  • Papel
  • Para o sexo a expirar
  • Passatempo
  • Patrimônio
  • Prece do brasileiro
  • Presépio
  • Privilégio do mar
  • Procura-se um amigo
  • Procura-se um pai
  • Professor
  • Quarto em desordem
  • Restos
  • Retrato de uma cidade
  • Reverência ao destino
  • Rio em flor de janeiro
  • Salário
  • São flores ou são nalgas
  • SER
  • Sociedade
  • Somem canivetes
  • Suas mãos
  • Sugar e ser sugado pelo amor
  • Também já fui brasileiro
  • Tempo em fatias!
  • Todo dia é menos um dia
  • Torcida
  • "Um chamado João"
  • Unidade
  • Verdade
  • Visão de Clarice Lispector
  • Viver não dói
  • Autobiografia de Drummond

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

POEMAS

A Bomba

A bomba é uma flor de pânico apavorando os floricultores A bomba é o produto quintessente de um laboratório falido A bomba é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles A bomba é grotesca de tão metuenda e coça a perna A bomba dorme no domingo até que os morcegos esvoacem A bomba não tem preço não tem lugar não tem domicílio A bomba amanhã promete ser melhorzinha mas esquece A bomba não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está A bomba mente e sorri sem dente A bomba vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados A bomba é redonda que nem mesa redonda, e quadrada A bomba tem horas que sente falta de outra para cruzar A bomba multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação A bomba chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés A bomba faz week-end na Semana Santa A bomba tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia A bomba industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários A bomba sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia A bomba não é séria, é conspicuamente tediosa A bomba envenena as crianças antes que comece a nascer A bomba continnua a envenená-las no curso da vida

A bomba respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais A bomba pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba A bomba é um cisco no olho da vida, e não sai A bomba é uma inflamação no ventre da primavera A bomba tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria A bomba tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc. A bomba não admite que ninguém acorde sem motivo grave A bomba quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos A bomba mata só de pensarem que vem aí para matar A bomba dobra todas as línguas à sua turva sintaxe A bomba saboriea a morte com marshmallow A bomba arrota impostura e prosopéia política A bomba cria leopardos no quintal, eventualmente no living A bomba é podre A bomba gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado A bomba pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo A bomba declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade A bomba tem um clube fechadíssimo A bomba pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel A bomba é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris A bomba oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz A bomba não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas A bomba

desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas A bomba não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer A bomba é câncer A bomba vai à Lua, assovia e volta A bomba reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia A bomba está abusando da glória de ser bomba A bomba não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável A bomba fede A bomba é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina A bomba com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve A bomba não destruirá a vida O homem (tenho esperança) liquidará a bomba.

A Bruxa

A Emil Farhat Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida a meu lado. Certo não é vida humana, mas é vida. E sinto a bruxa presa na zona de luz. De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto... Precisava de um amigo, desses calados, distantes, que lêem verso de Horácio mas secretamente influem na vida, no amor, na carne. Estou só, não tenho amigo, e a essa hora tardia como procurar amigo? E nem precisava tanto. Precisava de mulher que entrasse nesse minuto, recebesse este carinho, salvasse do aniquilamento um minuto e um carinho loucos que tenho para oferecer. Em dois milhões de habitantes, quantas mulheres prováveis interrogam-se no espelho medindo o tempo perdido até que venha a manhã trazer leite, jornal e calma. Porém a essa hora vazia como descobrir mulher? Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga, conheço vozes de bichos, sei os beijos mais violentos, viajei, briguei, aprendi. Estou cercado de olhos, de mãos, afetos, procuras.

Mas se tento comunicar-me, o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão. Companheiros, escutai-me! Essa presença agitada querendo romper a noite não é simplesmente a bruxa. É antes a confidência exalando-se de um homem.

A bunda, que engraçada
A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora - murmura a bunda - esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gémeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, redunda

triste.A Câmara Viajante Que pode a câmara fotográfica? Não pode nada. do massacre De formas latejantes de viço e beleza. Ajuda a ver e rever. Não pode mudar o que viu. cru. Vire deserto. Obriga a sentir. A imagem que ela captou e distribui. Mostra o que ficou e amanhã . A câmara. . Conta só o que viu. entretanto. A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica. No que resta .ainda esplendor . a multi-ver O real nu.da mata Atlântica Apesar do declínio histórico. A desejar mudança. A. universaliza. sujo. espalha. Desvenda. O que precisa ser salvo Sem esperar pelo ano 2 mil.quem sabe? acabará Na infinita desolação da terra assassinada. driticamente. Não tem responsabilidade no que viu. julgar. A querer bem ou a protestar. ossuário. tumba da natureza?" Este livro-câmara é anseio de salvar O que ainda pode ser salvo. E pergunta: "Podemos deixar Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize.

A carne é triste depois da felação A carne é triste depois da felação Depois do sessenta-e-nove a carne é triste. É areia. o prazer? Não há mais nada Após esse tremor? Só esperar Outra convulsão. outro prazer tão fundo na aparência mas tão raso na eletricidade do minuto? Já dilui o orgasmo na lembrança E gosma escorre lentamente de tua vida in "O Amor Natural" .

. Volta a carne a sorrir.A carne envilecida A carne encanecida chama o Diabo e pede-lhe consolo. e nada se resolve. O Diabo atende sob as mil formas de êxtase transido. no vão intento de sentir outra vez o que era graça de amar em flor e em fluida beatitude. e o aroma espalha-se de flores calcinadas de horror. Mas os dons infernais são novo agravo à envilecida carne sem defesa.

Simplesmente bater.A casa do tempo perdido Bati no portão do tempo perdido. no bater e bater. e eu batendo e chamando pela dor de chamar e não ser escutado. É o casarão vazio e condenado. ninguém atendeu. a outra metade são cinzas. O tempo perdido certamente não existe. Bati segunda vez e mais outra e mais outra. A casa do tempo perdido está coberta de hera pela metade. . O eco devolve minha ânsia de entreabrir esses paços gelados. Casa onde não mora ninguém. Resposta nenhuma. A noite e o dia se confundem no esperar.

. nem destino. e tão estreita. Em minha ardente substância esvaída. Era Adão. à beira dessa moita orvalhada. sepultura na grama. Roupa e tempo jaziam pelo chão. E nem restava mais o mundo. primeiro gesto nu ante a primeira negritude de corpo feminino. coito. como se alargava. Na mansuetude das ovelhas mochas. Ah. eu não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados.A castidade com que abria as coxas A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava. sem dizeres. morte de tão vida. coito.

Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos. e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas. (in A Paixão Medida) .A corrente Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. amarelos.

Acordar. a fábula inconclusa. algoz do inocente que não sou? Ninguém responde. Viver Como acordar sem sofrimento? Recomeçar sem horror? O sono transportou-me àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão. . a vida é pétrea. suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento. dia seguinte após dia seguinte. qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora. Como repetir.

Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos. e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas. amarelos. (in A Paixão Medida) .A Corrente Sente raiva do passado que o mantém acorrentado.

Assim não falta nunca feijão-preto (embora falte sempre nas panelas). tal como a liberdade. mas é de véspera.A Excitante Fila Do Feijão 25. o ar. não desistas: amanhã outros vinte mil quilos em pacotes serão distribuídos dessa forma. poeta. Método esconde-pinga: não percebes . Insiste. Camburões. esquece a poesia burocrática e vai cedinho à fila do feijão. Cedinho. doze ou mais: o tempo não importa quando aperta o desejo brasileiro de ter no prato a preta. amiga vagem. Certeza não terás. tudo). mas esperança (que substitui. Se levas cassetete na cabeça ou no braço. em qualquer caso. Bocas oitenta mil vão disputando cada manhã o que somente chega para de vinte mil matar a gula.X. O feijão é de todos. e sem certeza de trazer dois quilos. seja noite de estrela ou chuva grossa. Mas há que conquistá-lo a teus irmãos. patrulhinhas te protegem e gás lacrimogêneo facilita o ato de comprar a tua cota. uma espera-esperança de dez horas. Dez.1980 Larga. nas costas. o amor. não o leves a mal: é por teu bem. em princípio. eu disse? Vai. na virilha. A conta-gotas vai-se escoando o estoque armazenado nos porões do Estado. a mesa de escritório.

. poeta. e vai sofrer na fila do feijão. Larga. mas um feijão modesto e camarada que lembre os tempos tão desmoronados em que ele florescia atrás da casa sem o olho normativo da Cobal. Há gritos. guardas do escondido papilionáceo grão que ambicionas. (in Amar Se Aprende Amando) . tudo bem. É a grande aventura oferecida ao morno cotidiano em que vegetas. Se nada conseguires. Esperar é que vale ... Instante de vibrar. curtir a vida na dimensão dramática da luta por um ideal pedestre mas autêntico: Feijão! Feijão. ao menos um tiquinho! Caldinho de feijão para as crianças. essa não: é sonho puro. Feijoada. o verso comedido. a paz do teu jardim vocabular..que ele torna excitante a tua busca? Supermercados erguem barricadas contra esse teu projeto de comer.o povo sabe enquanto leva as suas bordoadas. Suspense à la Hitchcock ante as cerradas portas de bronze. há desmaios. há prisões.

Falta um boné. falta o casal passeando no trigal. aquela ternura contida. Falta uma tristeza de menino bom caminhando entre adultos na esperança da justiça que tarda . aquele jeito manso.como tarda! a clarear o mundo. óleo a derramar-se lentamente.A Falta de Érico Falta alguma coisa no Brasil depois da noite de Sexta-feira Falta aquele homem no escritório a tirar da máquina elétrica o destino dos seres. . Falta um solo de clarineta. a explicação antiga da terra.

sol e grama o que se esquiva se dá. No solo vira semente? Vai tudo recomeçar? É a falta ou ele que sente o sonho do verbo amar? . A transparência da hora corrói ângulos obscuros: cantiga que não implora nem ri. Já nem se escuta a poeira que o gesto espalha no chão. a dália é toda cimento. inteira. patinando muros. forrado de esquecimento. Está coberto de terra. na luz? E por que nunca se escoa o tempo. em letras de conclusão. enquanto a falta que ama procura alguém que não há. Onde a vista mais se aferra. Por que é que revoa à toa o pensamento.A falta que ama Entre areia. A vida conta-se. chaga sem pus? O inseto petrificado na concha ardente do dia une o tédio do passado a uma futura energia.

........ Devo seguir até o enjôo? Posso.... sem armas. sabendo que o perdem. o tédio. ... É feia......... Sua cor não se percebe... ...... revoltar-me? . mercadorias espreitam-me......... Melancolias...... Mas é uma flor.... Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo...A Flor e a Náusea Preso à minha classe e a algumas roupas.. galinhas em pânico.... Suas pétalas não se abrem.. Todos os homens voltam para a casa.. Vomitar esse tédio sobre a cidade. Que tristes são as coisas........ consideradas sem ênfase..... os muros são surdos Sob a pele das palavras há cifras e códigos......... sequer colocado. Furou o asfalto. Mas é realmente uma flor. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da trade e lentamente passo a mão nessa forma insegura Do lado das montanhas.... É feia..... o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse Em vão me tento explicar......... Nenhuma carta escrita nem recebida... O sol consola os doentes e não os renova As coisas. nuvens maciças avolumam-se Pequenos pontos brancos movem-se no mar.. Seu nome não est'nos livros. O tempo pobre............ Quarenta anos e nenhum problema resolvido..... vou de branco pela rua cinzenta..... o nojo e o ódio......

A Folha A natureza são duas. para ser senhor de uma fechada. Outra. a que vemos. depois de viver intensa. tal qual se sabe a si mesma. (in A Paixão Medida) . e por ordem do Prefeito vai sumir na varredura mas continua em outra folha alheia a meu privilégio de ser mais forte que as folhas. caladamente. Uma. sagrada arca de vidas autônomas? A pretensão de ser homem e não coisa ou caracol esfacela-me em frente à folha que cai. Mas vemos? Ou é a ilusão das coisas? Quem sou eu para sentir o leque de uma palmeira? Quem sou.

entre fotos mil que se esgarçavam. Os beijos e amavios que se amavam. esvoaçaram em orvalhada luz de amanhecer.A grande dor das cousas que passaram A grande dor das cousas que passaram transmutou-se em finíssimo prazer quando. outra vez reflorindo. Ó bendito passado que era atroz. tive a fortuna e graça de te ver. e gozoso hoje terno se apresenta e faz vibrar de novo minha vozpara exaltar o redivivo amor que de memória-imagem se alimenta e em doçura converte o próprio horror! . descuidados de teu e meu querer.

e todos nós cansamos. numa outra (maior) realidade. absoluta. rebaixamos o amor ao estado de utilidade. Duram o infinito variável no limite de nosso poder de respirar a eternidade. por um outro itinerário. talvez no ar. .A hora do cansaço As coisas que amamos. Do sonho de eterno fica esse gosto ocre na boca ou na mente. Começam a esmaecer quando nos cansamos. De outra matéria se tornam. Já não pretendemos que sejam imperecíveis. as pessoas que amamos são eternas até certo ponto. dar-lhes moldura de granito. Pensá-las é pensar que não acabam nunca. Restituímos cada ser e coisa à condição precária. de aspirar a resina do eterno. sei lá.

A ilusão do migrante Quando vim da minha terra. pareciam me dizer que não se pode voltar. Os morros. a correnteza do rio me sussurrou vagamente que eu havia de quedar lá donde me despedia. se é que vim da minha terra (não estou morto por lá?). porque tudo é conseqüência de um certo nascer ali. empalidecidos no entrecerrar-se da tarde. o mundo girava. se é que vim de algum para outro lugar. alheio à minha baça pessoa. Quando vim. e no seu giro entrevi que não se vai nem se volta .

resta porém a claridade (ou a penumbra) de lembrar em surdina dias e gentes.“A kiss. Praias e ondas do Havaí. Contra a sorte cinz’amarela. Assim quis nosso Stefan Baciu saudar o Rio antigo e seu. mais que honorário. não nos tiram Baciu daqui: carioca ele é. Não muito antigo. mas trint’anos tecem uma quase eternidade. un baiser. E as coisas tornam-se presentes. muito doce. un bacio” A kiss. Entre danos e desenganos. . un bacio para a terra que o acolheu. pulsando ao sol e ao vento vário. num minuto. a Poesia: último reduto. Jornal e bonde e mortadela comida à pressa. bem devagar. un baiser.

ainda que mal repitas. ainda que mal insista. ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio. ainda que mal te agarre. ainda que mal desculpes. ainda que mal te furtes. ainda que mal me exprima.Ainda que mal Ainda que mal pergunte. ainda que mal respondas. ainda que mal te voltes. ainda que mal me mostre. ainda que mal me vejas. ainda que mal te encare. ainda que mal o saibas. ainda que mal te entenda. ainda que mal me julgues. ainda que mal te siga. ainda que mal te ame. ainda que mal te mates. . me salvo e me dano: amor.

O agudo olfato. onde se estenda. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma.1987 A madureza.1902 * . e que o mundo converte noma cela. o agudo olhar. A madureza sabe o preço exato dos amores. todo sabor gratuito de oferenda sob a glacialidade de uma estela. com ela. . livre de encantos. a madureza vê.A Ingaia Ciência Itabira do Mato Dentro . dos quebrantos. raptando-nos.* .MG . a mão. essa terrível prenda que alguém nos dá. o círculo vazio. posto que a venda interrompa a surpresa da janela. se destroem no sonho da existência. dos ócios.

muito além do sistema solar.Além da Terra. até onde alcançam o pensamento e o coração. o verbo sempreamar. além do Céu. Além. no rastro dos astros. razão de ser e de viver. acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política. . o verbo pluriamar. o verbo transcendente. no trampolim do sem-fim das estrelas. além do Céu Além da Terra. vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial. na magnólia das nebulosas.

num lance caprídeo. de ler e tresler a arte de Ovídio. Mas sem esquecer. .A língua francesa A língua francesa desvenda o que resta (a fina agudeza) da noite em floresta.

a licorina gruta cabeluda. enfurecida .A língua lambe A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta. entre gemidos. a língua lavra certo oculto botão. balidos e rugidos de leões na floresta. entre gritos. quanto mais lambente. e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. atinge o céu do céu. e. E lambe. mais activa. lambilenta. lambilonga.

Passaram a noite em vigília. As estátuas regressam à postura . Já não se tem certeza se é comercio ou desfile de ninfas na campina que o spot vai matizando em signos verdes como tapeçaria desdobrante do verde coletivo das estátuas. pela manhã. Hora de sol batendo nos desenhos caprichosos de manso aquário já marmorizado. a pulseira cinge no ar o braço imaginário. o brinco. em direção da porta sonora a ser aberta para alguém desconhecido . chegará. Hora de almoço. provavelmente tarde e sem pintura. aguardam o acontecimento.A loja feminina Cinco estátuas recamadas de verde na loja. O enfeite ocioso ganha majestade própria de divinos atributos.Vênus certamente. o imponderável que as estátuas ocultam em sigilo de espelhos. Dissolve-se o balé sem música no recinto. em postura vertical. quase suspenso na hipótese de vôo. habitantes de aquário. é próprio de estátuas aguardar sem prazo e cansaço que os fados se cumpram ou deixem de cumprir-se. O ritmo dos passos e das curvas das cinco estátuas vendedoras gera no salão aveludado a sensação de arte natural que o corpo sabe impor à contingência. As estátuas sabem disto e propiciam a cada centímetro de carne uma satisfação de luxo erótico. Ao cintilar de vitrinas e escaninhos. Ao cintilar de vitrinas e escaninhos. afinal. Tudo que a nudez torna mais bela acende faíscas no desejo. apontando o estofo. Sabem que Vênus cedo ou tarde. Nenhuma ruga no imobilismo de figurinos talhados para o eterno que é. Chega. face múltipla assomar em tom de pesquisa. que não se consumará. nasceram ali. objetos deixam de ser inanimados. programadas em uniformes verde-musgo para o serviço de bagatelas imprescindíveis. Não há mais compradoras. e o simples vulto aciona as esculturas. um pé à frente do outro. Iguais as cinco. Antes de chegar à pele rósea. novelo de circunstâncias.

. O viço humano perde-se no artifício de coisas integrantes de uma loja. se morreram (quem sabe). de moças que eram. não consigo saber. se jamais existiram.imóvel de cegonhas ou de guardas. Se acaso dormem o dormir egípcio de séculos. se moveram. não sei. pulsaram. São talvez manequins. pois também eu invisível na loja me dissolvo nesse enigma de formas permutantes. Se estão vivas.

e na concha vazia do amor a procura medrosa. e amar o inóspito. e a rua vista em sonho. o que é entrega ou adoração expectante. de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor. e o peito inerte.AMAR Que pode uma criatura senão. em rotação universal. e uma ave de rapina. sozinho. amar. distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas. e amar? amar o que o mar traz à praia. um chão de ferro. ou precisão de amor. na brisa marinha. doação ilimitada a uma completa ingratidão. amar? sempre. senão rodar também. e o beijo tácito. entre criaturas. Este o nosso destino: amor sem conta. o que ele sepulta. é sal. paciente. amar? amar e esquecer. um vaso sem flor. e a sede infinita. o ser amoroso. e até de olhos vidrados. amar e malamar. e o que. pergunto. desamar. o cru. e na secura nossa amar a água implícita. ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto. amar? Que pode. .

a) colega este não consola nunca de nuncarás.a) me releve este malestar cantarino escarninho piedoso este querer consolar sem muita convicção o que é inconsolável de ofício a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima a vida também tudo também mas o amor car(o.Amar-amaro porque amou por que amou se sabia proibido passear sentimentos ternos ou desesperados nesse museu do pardo indiferente me diga: mas por que amar sofrer talvez como se morre de varíola voluntária vágula evidente? ah PORQUE AMOU e se queimou todo por dentro por fora nos cantos ecos lúgubres de você mesm(o.a) amig(o. . ora veja permita cavalheir(o.o) retrato espetáculo por que amou? se era para ou era por como se entretanto todavia toda via mas toda vida é indignação do achado e aguda espotejação da carne do conhecimento.a) irm(ã.

é de desejar que não atinja suas venerandas genitoras. a turma de instalação já havia desligado o fogão velho e ia ligar o fogão novo. vítimas de tais homenagens. num envelope. Para inteirar. Dona Esmeralda não obteve dele nenhuma dessas provas de consideração e camaradagem que até os fogões velhos costumam dar às mães amorosas. bolsa. filha. entre beijos. é tão bom um presente útil.Serve nada. deu mais três mil cruzeiros de suas economias. se não houve gás esta manhã? Ao terminar a conversa. Reunidos em assembléia. "Damos o dinheiro e mamãe compra a seu gosto": combinado. não na qualidade geral de mães. objetos de uso que não gostariam de usar. Umas tantas repousam das manifestações coletivas e entusiásticas que receberam. mas na específica de mães de autoridades. telefonou para a amiga mais chegada. In "Cadeira de Balanço" . Negociações prosseguem. contando-lhe a compra (se um dos prazeres femininos é comprar. luvas e sapatos. e a instalação feita imediatamente. Quis logo retribuir-lhes a gentileza com um bolo de chocolate com frutas. Ela chorou e sorriu e chorou outra vez de emoção pelo carinho da meninada. feliz.um caso sério. Os filhos não podiam ficar sentidos: tinham dado um presente útil. não. discutiram a dádiva a oferecer. laboriosas. recorreram ao pai. Recomendou que o fogão fosse entregue na hora. . Nenhum deles está em idade de escolher tecidos.A Mãe e o fogão O Dia das Mães já passou. nesta semana. Por mais que lhe explicasse que era um serviço sentimental e urgente. quinze abobrinhas. A amiga interrompeu-a: . mas o fogão . Como o dinheiro não chegasse. para sossego delas e nosso. não desaponta filho. De volta à casa. Não houve bolo de chocolate com frutas. Se amanhã o desfavor público envolver essas autoridades. a ser ganho num possível "Dia da Esposa". mas algumas estão resolvendo. problemas resultantes da extraordinária concentração de afeto que se operou no segundo (e azul) domingo de maio de 1961. mas confiar a tarefa a terceiros. até mesmo um fogão. mas sempre podem produzir algo de elegante. que vem aí. trocou logo o vestido futuro por um fogão novo. O vestido ficava para mais tarde. Assim.Mas que idéia essa de comprar fogão novo se o velho ainda serve? . Os garotos de Dona Esmeralda é que foram mais previdentes do que muito filho marmanjo. com os complementos. Dona Esmeralda mandou parar o serviço e correu à loja para desfazer a transação. Outras. mas usarão assim mesmo. Dona Esmeralda recebeu de véspera.E como você queria que ele funcionasse. que ela não é de crediário. outro é contar que comprou) . que não dariam para uma toalete digna do grill do Copa. comprado na loja mais próxima. e chegaram à conclusão de que seria ideal um vestido de inverno. sempre em conserto-se recusou a cooperar. receberam presentes pouco adequados. Então ela não teve dúvida: num impulso verdadeiramente materno. Acendi o gás e ele não funcionou. porque mãe é sempre mãe.

embora voz alguma ou sopro ou eco ou simples percussão atestasse que alguém.A Máquina do Mundo E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas. em coorte. e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério. pedregosa. a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas. Abriu-se majestosa e circunspecta. e a cada instante mais se retraindo. noturno e miserável. . a outro alguém. nos abismos. Abriu-se em calma pura. convidando-os a todos. se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos. e aves pairassem no céu de chumbo. e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los. sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto. mesmo afetando dar-se ou se rendendo. e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco. a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior. em colóquio se estava dirigindo: "O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou. vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado. assim me disse. sobre a montanha.

como eu relutasse em responder a tal apelo assim maravilhoso.. que nem concebes mais. ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola. repara.olha.” As mais soberbas pontes e edifícios. essa total explicação da vida. que floresce no caule da existência mais gloriosa. abre teu peito para agasalhá-lo. vê. na estranha ordem geométrica de tudo. dá volta ao mundo e torna a se engolfar. . contempla. pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste.. e o absurdo original e seus enigmas. e o solene sentimento de morte. os recursos da terra dominados. afinal submetido à vista humana. o que pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento. esse nexo primeiro e singular. e mesmo o anseio. essa ciência sublime e formidável. e as paixões e os impulsos e os tormentos e tudo que define o ser terrestre ou se prolonga até nos animais e chega às plantas para se embeber no sono rancoroso dos minérios. o que nas oficinas se elabora. não mais aquele habitante de mim há tantos anos. mas hermética. pois a fé se abrandara. suas verdades altas mais que todos monumentos erguidos à verdade: e a memória dos deuses. Mas. e como se outro ser. tudo se apresentou nesse relance e me chamou para seu reino augusto. como defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem a de novo tingir a neutra face que vou pelos caminhos demonstrando. a esperança mais mínima — esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra.

antes despiciendo. publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. 300. José Olympio Editora – Rio de Janeiro. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”. avaliando o que perdera. lasso. se cerrava semelhante a essas flores reticentes em si mesmas abertas e fechadas. pedregosa. o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”. seguia vagaroso. baixei os olhos. se foi miudamente recompondo. repelida. A treva mais estrita já pousara sobre a estrada de Minas. já de si volúvel.passasse a comandar minha vontade que. a pedido do caderno “MAIS” (edição de 0201-2000). incurioso. . de mãos pensas. pág. desdenhando colher a coisa oferta que se abria gratuita a meu engenho. enquanto eu. como se um dom tardio já não fora apetecível. e a máquina do mundo. Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos. 1985.

. Cristal ou diamante. O sabão é ruim. Eu seguia. A princípio oculta no bolso da calça.A Mão Suja Minha mão está suja.. Ai. por maior contraste. por fim. A mão está suja. A mão incurável abre dedos sujos. não sujo de terra. escovei-a. mão limpa de homem. que se pode pegar e levar à boca ou prender à nossa num desses momentos em que dois se confessam sem dizer palavra. O nojo era um só. Preciso cortá-la. suja há muitos anos. E era um sujo vil. uma simples mão branca. quem o saberia? Gente me chamava na ponta do gesto. poli-a. A água está podre.. duro. ou mesmo. Nem ensaboar. quantas noites no fundo da casa lavei essa mão. A mão escondida no corpo espalhava seu escuro rastro. E vi que era igual usá-la ou guardá-la. Não adianta lavar. quisera torná-la. sujo de carvão.

Era um triste sujo feito de doença e de mortal desgosto na pele enfarada. (in José) . suor na camisa de quem trabalhou. Era sujo pardo.casca de ferida. cortá-la. pardo. Inútil reter a ignóbil mão suja posta sobre a mesa. tardo.transparente colar-se a meu braço. Não era sujo preto . cardo. outra mão virá pura . Depressa.o preto tão puro numa coisa branca. fazê-la em pedaços e jogá-la ao mar! Com o tempo. a esperança e seus maquinismos.

Fecha-se em copas: “Se você não vem depressa até aqui nem eu posso correr à sua casa. .À meia-noite. pelo telefone À meia-noite. que seria de mim até o amanhecer?” Concordo. Outras notícias do corpo não quer dar. calo-me. conta-me que é fulva a mata do seu púbis. nem de seus gostos. pelo telefone.

rindo. nocturno. esmeralda que se entreabre. não me daria nem nada. berilo. Roçava-lhe a perna. curvos. em seu dourado pêlo de ventre! mas sexo era segredo de Estado. porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos. sombrio. negava o que eu tanto lhe pedia. o todo esquivo. Como a carne lhe sabia . a moça não me mostrava. andar perdera o sentido. em seu poro. misto de mel e de asfalto. faiscava. que a moça me matava tornando-me assim a vida esperança consumida no que. animais. E torturando-me. crespa. Antes nunca me acenasse. Os dedos descobriam-lhe segredos lentos. em seu côncavo e convexo. ara sem sangue de ofícios. e a fêmea. violento. inacessível. e encerra o gozo mais lauto. abre-que-fecha-que-foge. aquela zona hiperbórea. que nessa hora já primeira. só não mostrava aquilo . subia o enjoo de fera presa no Zoo. o tempo não desatava nem vinha a morte render-me ao luzir da estrela-d'alva. Viver não tinha propósito. o que devia ser dado e mais que dado.concha. porém o máximo arcano. e virgem no desvairado recato que sucedia de chofre á visão dos seios claros. Ai. Como lhe sabia a pele. comido.A moça que mostrava a coxa A moça mostrava a coxa. a tríplice chave de urna. quatrifólio. essa a louca sonegava. a moça mostrava a nádega. intacta. qual pulcra rosa preta como que se enovelava.

se encerrava. sua coxa se selava. sua nívea rosa preta nunca por mim visitada. já se empana sua glória. . Na noite acesa. e não sei agora ao certo se minha sede mais brava era nela que pousava. que estreitura. E se tanto se furtara com tais fugas e arabescos e tão surda teimosia. sua coxa se cerrava. quando mais eu insistia. O certo é que nunca. Na mais erma hospedaria fechada por dentro a aldrava. outros flancos: vasto mundo. que linha prístina. Mas seu púbis recusava.. sua coxa se apertava. que doçume. se salvava. me chamava. outras fomes. onde uma cobra desperta vai traçando seu desenho num frémito. lado a lado! Mas que perfume teria a gruta invisa? que visgo. Outras fontes. já seu corpo se delia. inacessível naveta? Ou nem teria naveta. já sou diverso daquele que por dentro se rasgava. e o esquecimento no fundo.a campo frio. fizesse sangue: fazia. na ventania. orvalhado. por que hoje se abriria? Por que viria ofertar-me quando a noite já vai fria. porfia sem vislumbre de vitória. no dia... me fugia? Tudo a bela me ofertava.. Talvez. e quem disse que eu podia fazer dela minha escrava? De tanto esperar. Na praia. e que eu beijasse ou mordesse. Talvez que a moça hoje em dia. pura.

ansioso pelo encontro que está marcado para a noite. agradeça: Deus te mandou um presente divino . um sorriso.. Se você preferir morrer. preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida. houver o mesmo brilho intenso entre eles... chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura. deixam o amor passar. antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida... fique alerta: pode ser a pessoa que você esta esperando desde o dia em que nasceu. Ou às vezes encontram e. mesmo assim.não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o AMOR! . Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e.. Se você não consegue imaginar. e os olhos se encherem d'água neste momento. Se você conseguir. se o beijo for apaixonante.. sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. por não prestarem atenção nesses sinais. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa. neste momento. se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento. de maneira nenhuma. em pensamento. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida. Se você achar a pessoa maravilhosamente linda. perceba: existe algo mágico entre vocês. Por isso. tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela. Se o toque dos lábios for intenso. mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. um futuro sem a pessoa ao seu lado.. chinelos de dedo e cabelos emaranhados.Amor Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos. entregue-se: vocês foram feitos um pro outro. preste atenção nos sinais . Se os olhares se cruzarem e. É uma dádiva. um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras. Se você não consegue trabalhar direito o dia todo.. mesmo ela estando de pijamas velhos. se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração. Se por algum motivo você estiver triste..o amor. sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado.

vibrando no crepúsculo. Amor é o que se aprende no limite. roçando. salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo. . que se torna a mais larga e mais relvosa. É isto. Amor começa tarde. em cada poro. que. amor: o ganho não previsto. nada mais existe valendo a pena e o preço terrestre. ouvida. decifrado. leitura de relâmpago cifrado. depois de se arquivar toda a ciência herdada. o prêmio subterrâneo e coruscante. o céu do corpo.AMOR E SEU TEMPO Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama.

reúna alma e desejo. além da prórpia vida. divino. Quem ousará dizer que ele é só alma? Quem não sente no corpo a alma expandir-se até desabrochar em puro grito de orgasmo. num instante de infinito? O corpo noutro corpo entrelaçado. são dois em um. sons.Amor . nessa morte mais suave do que o sono: a pausa dos sentidos. Em pequenino ponto desse corpo. fundido.Pois que é Palavra Essencial Amor . ais. já tudo se transforma. E num sofrer de gozo entre palavras. o fogo. membro e vulva. nu úmido subterrâneo da vagina. a fonte. eterna? Ao delicioso toque do clitóris. Vai a penetração rompendo nuvens e devassando sóis tão fulgurantes que nunca a vista humana os suportara. menos que isto. E prossegue e se espraia de tal sorte que. o coito segue.pois que é palavra essencial comece esta canção e toda a envolva. satisfeita. que Platão viu completados: é um. a idéia de gozar está gozando. agradecendo o que a um Deus acrescenta o amor terrestre. . Amor guie o meu verso. um só espasmo em nós atinge o climax: é quando o amor morre de amor. arquejos. A paz dos deuses. varado de luz. além de nós. dissolvido. volta à origem dos seres. num relâmpago. mas. Quantas vezes morremos um no outro. Então a paz se instaura. estendidos na cama. e enquanto o guia. etérea. qual estátuas vestidas de suor. o mel se concentraram. perfeito em dois. Integração na cama ou já no cosmo? Onde termina o quarto e chega aos astros? Que força em nossos flancos nos transporta a essa extrema região. como ativa abstração que se faz carne.

A noite é mortal. A noite desceu. uma inocência. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos.. entretanto eu te diviso. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. adicinho-te que sobes.. vapor róseo. minha carne estremece na certeza de tua vinda.. Havemos de amanhecer. Sob o úmido véu de raivas. a noite dissolve os homens.. sem esperança. A noite anoiteceu tudo. as mãos dos sobreviventes se enlaçam. Minha fadiga encontrará em ti o seu termo. O mundo não tem remédio. que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. sem reticências. a noite espalhou o medo e a total incomprensão. ainda tímida. a noite dissolve as pátrias. inexperiente das luzes que vais acender e dos bens que repartirás com todos os homens. os corpos hirtos adquirem uma fluidez. apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas . O mundo .. nos campos desfalcidos. O suor é um óleo suave.A Noite dissolve os Homens A Portinari A noite desceu. Os suicidas tinham razão. Tremenda. completa.. E o amor não abre caminho na noite. Nas casas. queixas e humilhações. diz que é inutil sofrer. expulsando a treva noturna. nas ruas onde se combate. A noite caiu. Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. teus dedos frios. um perdão simples e macio.. Aurora. E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam..

aurora. .se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce. de tão necessário para colorir tuas pálidas faces.

tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste de mim antes que eu os fizesse. mas ficaram dentro de ti cozinhadas em lenha surda. roubaste-me o espírito. . aqueles gestos que ficaram em ti à espera de tardia repetição. somente de esmerilar em teu retrato o que a pacatez de um retrato ou o seu vago negativo.Antepassado Só te conheço de retrato. mais do que isso: teu fremente modo de ser. impulso primitivo. paixão insone e mais trevosas intenções que jamais assumiram ato nem mesmo sombra de palavra. teu duende mal encarnado. Refaço os gestos que o retrato não pode ter. nele implícito e reticente. e furtando-me a iniciativa. enclausurado entre ferros de conveniência ou aranhóis de burguesia. Acabei descobrindo tudo que teus papéis não confessaram nem a memória de família transmitiu como fato histórico e agora te conheço mais do que a mim próprio me conheço. pois sou teu vaso e transcendência. vou descobrindo o que me deste sem saber que o davas. meu ladrão. mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim e sem saber vou copiando tuas imprevistas maneiras. na líquida transmissão de taras e dons. e tão meus eles se tornaram. não te conheço de verdade. filtra de um homem. sua face oculta de si mesmo. vou te compreendendo.

Vêde o caule. Por menos de oito contos vendê-la? Nunca. cavalheiros. filtre a paisagem. todas exóticas. Uma só pétala resume auroras e pontilhismos. sede permeáveis.. eu sei. e não há oito contos. diz que te amam. Selarei. aurilavrada. como direi. e mesmo duvido que em outro mundo alguém se curve. todas catárticas. vinde. sugere estâncias. rosa na máquina. pense uma rosa na pura ausência. Aproveitem. (in A Rosa do Povo) . o que de melhor se compôs na noite. a burguesia apodrece. venda murcha. olhai o cálice. não. não me revelo. quem sou? Deus me ajudara. todas patéticas. começo da era difícil. beijai a rosa. sou eu. Ó fim do parnasiano. Por preço tão vil mas peça. no amplo vazio.Anúncio da Rosa Imenso trabalho nos custa a flor. Vinde. Rosa na roda. pequenas cólicas cotidianas. Autor da rosa. mas ele é neutro. oferecer-vos alta mercância estelar e sofrer vossa irrisão. traço indeciso. rosa tão meiga onde abrirá? Não. apenas rósea. é cruel existir em tempo assim filaucioso. todas histórias. Injusto padecer exílio. ela é sete flores. A última rosa desfolha-se. Primavera não há mais doce. pois jamais virão pedir-me. qual mais fragrante. Já não vejo amadores de rosa. meu comércio incompreendido.

seu convite é um prazer ferido a fogo e. Amor não é completo se não sabe coisas que só amor pode inventar. . Procura o estreio átrio do cubículo aonde não chega a luz. com isso. muito mais prazer. mordente fome de conhecimento pelo gozo. e chega o ardor de insofrida.A outra porta do prazer A outra porta do prazer. porta a que se bate suavemente.

Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. porém. Por aquelas mergulha no infinito. Ele venceu a dor. e resplandece no seu canto obscuro. O amor antigo tem raízes fundas. Mais triste? Não.Ao amor antigo O amor antigo vive de si mesmo. . mas do destino vão nega a sentença. Nada exige nem pede. Nada espera. não de cultivo alheio ou de presença. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. Mais ardente. a antigo amor. feitas de sofrimento e de beleza. mas pobre de esperança. e por estas suplanta a natureza. tanto mais velho quanto mais amor.

Será que namorado escuta alguém? Adianta falar a namorados? E será que tenho coisas a dizer-lhes que eles não saibam. retrocedem de sua porta. eles que transformam a sabedoria universal em divino esquecimento? Adianta-lhes. De não ser. O tempo. e ninguém ganha ou perde esta batalha. Os códigos. quando perdem os olhos para toda paisagem. INPS. atenção: cumpra sua obrigação de namorar. Senhor. ou nem estar. . destino que regula nossa dor. Mas quem foi namorado sabe que outra vez voltará á sublime invalidez que é signo de perfeição interior. surdos. saber alguma coisa. as guerras. fora de obrigação e CPF. espera que o namorado desnamore para sempre. as multas envergonham-se de alvejá-lo. Pois namorar é destino dos humanos. Antes. é como aprender. Namorado é o ser fora do tempo. perdem os ouvidos para toda melodia e só vêem. nosso inferno gozoso. afiando sem pausa a sua foice. Mas nascem todo dia namorados novos. E quem vive.são os namorados enquanto namorados. PASEP. De ser o seu cadáver itinerante. nossa doação. assistência técnica para eu falar aos namorados do Brasil. Senhor. que audiovisual nenhum ensina. sob pena de viver apenas na aparência. renovados. Senhor. ISS. IOF. De estar. os tratados internacionais encolhem o rabo diante dele. O problema. desarmados. no pedestre dia-a-dia. como exercer a arte de namorar. inovantes.Aos Namorados do Brasil Dai-me. mudos . só escutam melodia e paisagem de sua própria fabricação? Cegos.felizes! . depois são gente como a gente. em volta dele.

ai de quem nunca estará maduro para aprender. nunca previsto. rápido motel onde os espelhos não guardam beijo e alma de ninguém. são estrelas remotíssimas. O homem nasce ignorante. Ser duplicado. Há homens que se cansam depressa de namorar. chegado o momento. dia-dos-namorados. vive ignorante. por obra e graça de sua namorada. não intencional. perdurando. E o namorado só aprende. São outras. a namorada não são aquelas mesmas criaturas com que cruzamos na rua. murmúrios. jantares. ou nem assim. filme adoidado. silêncios. fins de semana. fora de qualquer sistema ou situação. o carro à toda ou a 80. com arrepios. às vezes morre três vezes ignorante de seu coração e da maneira de usá-lo. Pois namorar não é só juntar duas atrações no velho estilo ou no moderno estilo. caminhadas.e vai além de toda universidade. Há que aprender com as mulheres as finezas finíssimas do namoro. Quem aprendeu não ensina. A mulher antes e depois da Bíblia é pois enciclopédia natural ciência infusa. Quem ensina não sabe. ser complexo. fulgurante no simples manifestar-se. São para aspirar como essência. . gravações. sem sentir que aprendeu. lancha. Só a mulher (como explicar?) entende certas coisas que não são para entender. e dá ao gesto a cor do amanhecer. Elas aspiram o segredo do mundo. outros que são infiéis à namorada. que em si mesmo se mira e se desdobra. Pobre de quem não aprendeu direito. inconsciente. foto colorida. Namorar é além do beijo e da sintaxe. som de cristal na concha ou no infinito. infensa a testes. piscina. não merece namorar. não depende de estado ou condição. triste de quem não merecia. para ficar durando. Namorar é o sentido absoluto que se esconde no gesto muito simples. o namorado.

velho mundo renovado.. Os tímidos desistem. E inauguram cada manhã (namoramor) o velho." Ou senão: "Desiste! Foge! Esquece! Esquece!" E os fracos esquecem. tenta cobrar (inveja) o terrível imposto de passagem: "Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer! Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada na sola dos sapatos.A limitação terrestre. . Que importa? A cada hora nascem outros namorados para a novidade da antiga experiência.. que os persegue. Fogem os covardes.

saboreando-a.A palavra Já não quero dicionários consultados em vão. Que resumiria o mundo e o substituiria. dentro da qual vivêssemos todos em comunhão. mudos. Mais sol do que o sol. . Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar.

Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. Procuro sempre. e minha procura ficará sendo minha palavra.A palavra mágica Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. se não a encontro. Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo. Se tarda o encontro. procuro sempre. Vou procurá-la. . não desanimo.

puro som. . Aperto. mesmas leves sílabas. Mas insistes. apenas uma esmola. convida a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca um beijo recebeu de rosto consumido..Aparição amorosa Doce fantasma. a perseguir-me. por que voltas e és tão real assim tão ilusório? Já nem distingo mais se és sombra ou sombra sempre foste. por que me visitas como em outros tempos nossos corpos se visitavam? Tua transparência roça-me a pele. mesmo timbre. e aquele mesmo longo arquejo em que te esvaías de prazer.. querida ausente. Então. convicto. Tua visita ardente me desola. e nosso final descanso de camurça. e nossa história invenção de livro soletrado sob pestanas sonolentas. ouço teu nome. beijo intensamente o nada. Tua visita ardente me consola. Amado ser destruído. Terei um dia conhecido teu vero corpo como hoje o sei de enlaçar o vapor como se enlaça uma idéia platônica no espaço? O desejo perdura em ti que já não és. Tua visita. única parte de ti que não se dissolve e continua existindo. suave? Nunca pensei que os mortos o mesmo ardor tivessem de outros dias e no-lo transmitissem com chupadas de fogo aceso e gelo matizados. o quê? a massa de ar em que te converteste e beijo. mesma voz. Ouço-te a voz. doçura.

Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. teu sapato de diamante. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. as palavras. Chega mais perto e contempla as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. Ei-los sós e mudos. Que se dissipou. Não adules o poema. pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Calma. não indagues. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Penetra surdamente no reino das palavras. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Estão paralisados. se te provocam. sem interesse pela resposta. em estado de dicionário. Que se partiu. se obscuros. Não dramatizes. não invoques. não era poesia. Convive com teus poemas. . vossas mazurcas e abusões. há calma e frescura na superfície intacta. mas não há desespero. Não te aborreças.A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objecto. antes de escrevê-los. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. cristal não era. Teu iate de marfim. é algo imprestável. Tem paciência. Não percas tempo em mentir.

antieuclidiana. em país bloqueado. mistério) presto se desata: em verde. sozinha. exausto. Que fazer. uma orquídea forma-se.Àporo Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. . enlace de noite raiz e minério? Eis que o labirinto (oh razão.

tão infenso à efusão lírica. Não cantes tua cidade. Para ele. Não há criação nem morte perante a poesia Diante dela. completo e confortável corpo. que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes. esse excelente. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo ds casas.A Procura da Poesia Não faças versos sobre acontecimentos. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação . fadiga e esperança nada significam A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto Não dramatizes. chuve e noite. teu sapato de diamante. não indagues. deixa-a em paz. Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. não invoques. vossas mazurcas e abusões. os incidentes pessoais não contam. Tua gota de bile. Não faças poesia com o corpo. isso ainda não é poesia. é algo imprestável. são indiferentes Nem me reveles teus sentimentos. tua careta de gozo ou de dor no escuro. os aniversários. a vida é um sol estático não aquece nem ilumina As afinidades. desaparecem na curva do tempo. vossos esqueletos de família. Não percas tempo em mentir Não te aborreças Teu iate de marfim.

em estado de dicionário. Tem paciência.Que se dissipou. Ainda úmida e impregnadas de sono. se obscuros. se te provocam. Estão paralisados. Aceita-o. as palavras. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Não adules o poema. sem interesse pela resposta pobre ou terrível. antes de escrevê-los. Penetra surdamente no reino das palavras. mas não há desespero há calma e frescura ma superfície intata Ei-los sós e mudos. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Calma. não era poesia Que se partiu. que lhe deres: Touxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito. elas se refugiaram na noite. . cristal não era. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio Não forces o poema a desprender-se do limbo. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Convive com teus poemas. Chega mais parto e contempla as palavras cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta.

A fornecedora. querendo a puta. e quer saber. A puta da cidade. Na mata do cabelo se abre toda.A puta Quero conhecer a puta. chupante boca de mina amanteigada quente. A puta quente. . Na Rua de Baixo onde é proibido passar. A única. É preciso crescer esta noite a noite inteira sem parar de crescer e querer a puta que não sabe o gosto do desejo do menino o gosto menino que nem o menino sabe. Onde o ar é vidro ardendo e labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero a puta quero a puta quero a puta. Ela arreganha dentes largos de longe.

. O pior é que não deve ter sido o oculista.. e pode até realçá-la por uma graça experiente.Que ele é gentil. . ele deu. pode revelar melhor o encanto natural da personalidade. eu tenho que achar muito natural.Eu apertei. mas não me agrada a sua evolução.Acho que está sonhando coisas. um rinoceronte. A mulher casada desabrochou.Se fosse só o figurino. Não há desfrute em seguir o figurino. .Senão o quê? . Acha direito? . .Pois fique com suas teorias.De tudo que ela vem fazendo. e adivinho que não há nada senão. . dizendo que eu sou um bruto.Posso dar opinião? As senhoras casadas não perdem a condição feminina.Deu para usar estampados berrantes. .Já sei. . São as maneiras. que eu não quero saber de minha mulher revelar seu encanto a ninguém. Fixou-me suspeitoso: . . ela me disse que foi o oculista que deu a ela. O oculista não podia dar essa flor.Desculpar de quê? .. os gestos? . Ora.Que é que tem as maneiras.Acha então que estou maluco? . .Eu ignoro tudo.Pode ser o que você quiser. Tem propósito uma coisa dessas? Ela acabou chorando.Aquilo que o dicionário chama de ente de razão. . ela achou bonita. nem ela podia aceitar.Nada.É a moda.Por que não? . . Não sei o que é. . Engraçado.. apenas. .A Elsa parece uma menina de quinze anos.Deixe Dona Elsa ser elegante. e eu não devo achar ruim. uma rosa dada por um homem.Que é que está insinuando? . porém minha mulher jamais se permitiu esses desfrutes. não tente negar o significado das ordens florais entre dois sexos. de mau gosto.Veio do oculista e trouxe uma rosa. Estava num vaso.Tem muito. uma fantasia completamente destituída de razão. .E daí? . . a Elsa anda um pouco estranha. . . um ar desembaraçado que ela não tinha. Ficou com os movimentos mais leves.Como assim? .E a flor que ela trouxe ontem para a casa é sonho? Me diga: é sonho? . ..Desde quando é proibido uma senhora ganhar flor de uma pessoa atenciosa? Que sentido erótico tem isso? .Então uma senhora casada vai ao oculista e o oculista lhe dá uma rosa? Que lhe parece? . não é mais um projeto. Minha mulher vem com uma rosa para casa. eu.Que é que tem trazer uma flor para casa? . o marido me honra com suas confidências: .Pois eu não vou nessa gentileza de oculista. . os gestos. Não há rosas nos consultórios de oftalmologia. Principalmente se é rosa. ela que era tão discreta no vestir.Aquele casal Aquele casal. e que não vai bem com uma senhora casada. E que houvesse. Estava querendo desculpar a Elsa.Ultimamente.Perdão.

. posso saber quem deu uma rosa a minha mulher? . 79. Estou decidido. . Estou inteiramente lúcido. reunidas. . os modos (só vendo a maneira dela se sentar no sofá). Ponho a mão no fogo por Dona Elsa.Não diga uma coisa dessas. . juro. Vamos mudar de assunto que ela vem chegando.Sei lá. Fica olhando um ponto no espaço. me desquito. .. Demora mais tempo no espelho. . A Elsa não é mais a Elsa. Depois. são a evidência. Repare no encadeamento: os vestidos modernos. Mas repare só que os olhos de Capitu que ela tem. Numa cidade do tamanho do Rio. Se fez agora. Fiz mal em me abrir.Não vai ter prova nenhuma.Pensei que você fosse meu amigo.A quê? . foi para preparar terreno.Quem foi. E logo que tenha a prova. quando chegar aqui uma corbelha de antúrios e hibiscos. Cada uma dessas coisas é um indício. só me conduzo pelo raciocínio. e Dona Elsa. então? . e disse aquilo só para fazer charminho. que ela foi correndo levar para a mesinha de cabeceira do quarto.Ela nunca fez isso.Vai ver que ela comprou na loja de flores da esquina. sorri.Permita que eu discorde. . . .Discorda sem argumentos. Contrato um detetive. eu nunca havia reparado nisso! Esquecia-me de dizer que meu amigo tem 82 anos. abstrata.Digo o que penso. a rosa.Vou segui-la daqui por diante.

Os vizinhos não se conformam.A rua diferente Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. . Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas. a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas formas. Minha rua acordou mudada.

Quando alcançaremos o limite. . revel à condição de carne e alma.Aspiração Tão imperfeitas. nossas maneiras de amar. e só o amor governe todo além. que é nunca mais morrer. o ápice de perfeição. todo fora de nós mesmos? O absoluto amor. nunca mais viver duas vidas em uma.

A TORRE SEM DEGRAUS
No térreo se arrastam possuidores de ciosas recoisificadas. No 1.° andar vivem depositários de pequenas convicções, mirando-as, remirando-as com lentes de contato. No 2.° andar vivem negadores de pequenas convicções, pequeninos eles mesmos. No 3.° andar - tlás tlás - anoite cria morcegos. No 4.°, no 7.°, vivem amorosos sem amor, desamorando. No 5.°, alguém semeou de pregos dentes de feras vacos de espelho a pista encerada para o baile de debutantes de 1848. No 6.°, rumina-se política na certeza-esperança de que a ordem precisa mudar deve mudar há de mudar, contanto que não se mova um alfinete para isso. No 8.°, ao abandono, 255 cartas registradas não abertas selam o mistério da expedição dizimada por índios Anfika. No 9.°, cochilam filósofos observados por apoftegmas que não chegam a conclusão plausível. Mo 10.°, o rei instala seu gabinete secreto e esconde a coroa de crisógrasos na terrina. No 11.°, moram (namoram?) virgens contidas em cinto de castidades. No 12.°, o aquário de peixes fosforecentes ilumina do teto a poltrona de um cego de nascença. Atenção, 13.°. Do 24.° baixará às 23h um pelotão para ocupar-te e flitar a bomba suja, de que te dizes depositário. No 15.°, o último leitor de Dante, o último de Cervantes, o último de Musil, o último do Diário Oficial dizem adeus à palavra impressa. No 16.°, agricultores protestam contra a fusão de sementes que faz nascerem cereais invertidos e o milho produzir crianças. No 17.°, preparam-se orações de sapiência, tratados internacionais, bulas de antibióticos. Não se sabe o que aconteceu ao 18.°, suprimido da Torre. No 19.° profetas do Antigo Testamento conferem profecias no computador analógico. No 20.°, Cacex Otan Emfa Joc Juc Fronap FBI Usaid Cafesp Alalc Eximbanc trocam de letras, viram Xfp, Jjs, IxxU e que sei mais. Mo 22;°, banqueiros incineram duplicatas vencidas, e das cinzas nascem novas duplicatas. NO 23.°, celebra-se o rito do boi manso, que de tão manso ganhou biograifa e auréola. No 24.°, vide 13.°. No 25.°, que fazes tu, morcego do 3.°? que fazes tu, miss adormecida na passarela? No 26.°., nossas sombras despregadas dos corpos passseiam devagar, cumprimentandose. O 27.° é uma clínica de nervosos dirigida por general-médico reformado, e em que aos sábados todos se curam para adoecer de novo na segunda-feira. Do 28.° saem boatos de revolução e cruzam com outros de contra-revolução. Impróprio a qualquer uso que não seja o prazer, o 29.° foi declarado inabitável. Excesso de lotação no 30.°: moradores só podem usar um olho, uma perna, meias palavras. No 31.°, a Lei afia seu arsenal de espadas inofensivas, e magistrados cobrem-se com cinzas de ovelhas sacrificadas. No 32.°, a Guerra dos 100 Anos continua objeto de análise acuradíssima. No 33.°, um homem pede pra ser crucificado e não lhe prestam atenção. No 34.°, um ladrão sem ter o que roubar rouba o seu próprio relógio. No 35.°, queixam-se da monotonia deste poema e esquecem-se da monotonia da Torre e das queixas.

Um mosquito é, no 36.°, único sobrevivente do que foi outrora residência movimentada com jantares óperas pavões. No 37.°, a canção Filorela amarlina lousileno i flanura meleglírio omoldana plunigiário olanin. No 38.°, o parlamento sem voz, admitido por todos os regimes, exercita-se na mímica de orações. No 39.°, a celebração ecumênica dos anjos da luz e dos anjos da treva, sob a presidência de um meirinho surdo. No 40.°, só há uma porta uma porta uma porta. Que se abre para o 41.°, deixando passar esqueletos algemados e coduzidos por fiscais do Imposto de Consciência. No 42.°, goteiras formam um lago onde bóiam ninféias, e ninfetas executam bailados quentes. No 43.°, no 44.°, no... continua indefinidamente).

Atriz

A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um nos mitos cênicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

Aula de Português

A linguagem na ponta da língua tão fácil de falar e de entender. A linguagem na superfície estrelada de letras, sabe lá o que ela quer dizer? Professor Carlos Góis, ele é quem sabe, e vai desmatando o amazonas de minha ignorância. Figuras de gramática, equipáticas, atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me. Já esqueci a língua em que comia, em que pedia para ir lá fora, em que levava e dava pontapé, a língua, breve língua entrecortada do namoro com a prima. O português são dois; o outro, mistério.

A um bruxo, com amor
Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trajestada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada, uma luz que não vem de parte alguma pois todos os castiçais estão apagados. Contas a meia voz maneiras de amar e de compor os ministérios e deitá-los abaixo, entre malinas e bruxelas. Conheces a fundo a geologia moral dos Lobo Neves e essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para ciumentos. E ficas mirando o ratinho meio cadáver com a polida, minuciosa curiosidade de quem saboreia por tabela o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador. Olhas para a guerra, o murro, a facada como para uma simples quebra da monotonia universal e tens no rosto antigo uma expressão a que não acho nome certo (das sensações do mundo a mais sutil): volúpia do aborrecimento? ou, grande lascivo, do nada? O vento que rola do Silvestre leva o diálogo, e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco, tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná, mostra que os homens morreram. A terra está nua deles. Contudo, em longe recanto, a ramagem começa a sussurar alguma coisa que não se estende logo a parece a canção das manhãs novas. Bem a distingo, ronda clara: É Flora, com olhos dotados de um mover particular ente mavioso e pensativo; Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa); Virgília, cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida; Mariana, que os tem redondos e namorados; e Sancha, de olhos intimativos;

e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora, o mar que fala a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina e das chinelinhas de alcova de Conceição. A todas decifrastes íris e braços e delas disseste a razão última e refolhada moça, flor mulher flor canção de mulher nova... E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe) o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica entre loucos que riem de ser loucos e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram. O eflúvio da manhã, quem o pede ao crepúsculo da tarde? Uma presença, o clarineta, vai pé ante pé procurar o remédio, mas haverá remédio para existir senão existir? E, para os dias mais ásperos, além da cocaína moral dos bons livros? Que crime cometemos além de viver e porventura o de amar não se sabe a quem, mas amar? Todos os cemitérios se parecem, e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida apalpa o mármore da verdade, a descobrir a fenda necessária; onde o diabo joga dama com o destino, estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro, que resolves em mim tantos enigmas. Um som remoto e brando rompe em meio a embriões e ruínas, eternas exéquias e aleluias eternas, e chega ao despistamento de teu pencenê. O estribeiro Oblivion bate à porta e chama ao espetáculo promovido para divertir o planeta Saturno. Dás volta à chave, envolves-te na capa, e qual novo Ariel, sem mais resposta, sais pela janela, dissolves-te no ar.

As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo, Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.

Actriz
A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um nos mitos cénicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo, sem consulta, sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada? Tenho razão de sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mão, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança. Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da ternura e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar por que o fizeste, porque te foste.

Aurora
O poeta ia bêbedo no bonde. O dia nascia atrás dos quintais. As pensões alegres dormiam tristíssimas. As casas também iam bêbedas. Tudo era irreparável. Ninguém sabia que o mundo ia acabar (apenas uma criança percebeu mas ficou calada), que o mundo ia acabar às 7 e 45. Últimos pensamentos! últimos telegramas! José, que colocava pronomes, Helena, que amava os homens, Sebastião, que se arruinava, Artur, que não dizia nada, embarcam para a eternidade. O poeta está bêbedo, mas escuta um apelo na aurora: Vamos todos dançar entre o bonde e a árvore? Entre o bonde e a árvore dançai, meus irmãos! Embora sem música dançai, meus irmãos! Os filhos estão nascendo com tamanha espontaneidade. Como é maravilhoso o amor (o amor e outros produtos). Dançai, meus irmãos! A morte virá depois como um sacramento.

Ausência
"... Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim."

A verdade dividida
A porta da verdade estava aberta mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade porque a meia pessoa que entrava só conseguia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia os seus fogos. Era dividida em duas metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. E era preciso optar. Cada um optou confere seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

A Vida Passada a Limpo

Itabira do Mato Dentro - MG - 1902 * - * - 1987 Ó esplêndida lua, debruçada sobre Joaquim Nabuco, 81. Tu não banhas apenas a fachada e o quarto de dormir, prenda comum. Baixas a um vago em mim, onde nenhum halo humano ou divino fez pousada, e me penetras, lâmina de Ogum, e sou uma lagoa iluminada. Tudo branco, no tempo. Que limpeza nos resíduos e vozes e na cor que era sinistra, e agora, flor surpresa, já não destila mágoa nem furor: fruto de aceitação da natureza, essa alvura de morte lembra amor.

. você troiana troiana. danço. Depois fui pirata mouro. eu. Seu pai é que não faz gosto. e mais terna amante.. boxa. tenho dinheiro no banco. como reagia! São palavras só: quente.. Pulei muro de convento mas complicações políticas nos levaram à guilhotina. morremos. Saí do cavalo de pau para matar seu irmão. você fez o sinal da cruz e rasgou o peito a punhal. perseguidor de cristãos. remo. Você é uma loura notável. rema. boxo. Depois (tempos mais amenos) fui cortesão de Versalhes. te abraço. Matei. Mas quando vi você nua caída na areia do circo e o leão que vinha vindo.. Tenho saudade de uma dama Tenho saudade de uma dama Como jamais houve na cama Outra igual. Me suicidei também. . pulo. pula. Você cismou de ser freira. brigamos. flagelo da Tripolitânia. Provocada.Balada do amor através das idades Eu te gosto. espirituoso e devasso. e o leão comeu nós dois. herói da Paramount. Hoje sou moço moderno. Mas depois de mil peripécias. fria. mas não Helena. beijo e casamos. Na porta da catacumba encontrei-te novamente. Virei soldado romano. você me gosta desde tempos imemoriais Eu era grego. Mas quando ia te pegar e te fazer minha escrava. dei um pulo desesperado. Não era sequer provocante. dança. Toquei fogo na fragata onde você se escondia da fúria do meu bergatim.

Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram. sem amor. . Do meu quarto ouço a fuzilaria.. Oh quanta matéria para os jornais Desiludidos mas fotografados escreveram cartas explicativas tomaram todas as providências para o remorso das amadas.No banheiro nos enroscávamos. Eu vou. Pun pum pum adeus. Que grandes corações eles possuíam. tu ficas. mas nos veremos seja no claro céu ou turvo inferno. Única fortuna. e chega o ardor da insofrida. um matar-morrer. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados competentemente (paixões de primeira e de Segunda classe). As amadas torcem-se de gozo. os seus dentes de ouro não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. Eram flamas no preto favo. Um guaiar. Vísceras imensas. muito mais prazer Amor não é completo se não se sabe coisas que só o amor pode inventar. seu convite é um prazer ferido a fago. violento. Os desiludidos seguem iludidos sem coração. Tenho saudade de uma dama Que me passeava na medula E atomizava os pés da cama. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. enjoada. sobre a tumba deles. A outra porta do prazer A outra porta do prazer. com isso. sem tripas. e. procura o estreito átrio do cubículo aonde não chega a luz. porta a que se bate suavemente. mordente fome de conhecimento pelo gozo Necrologia dos desiludidos de amor Os desiludidos do amor estão desfechando no peito..

Beijo-flor O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca? Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?) na boca das meninas e é lá que eles estão suspensos invisíveis .

sem. Umidade de areia adere ao pé. . curvos pensamentos. engulo o mar. Bela esta manhã ou outra possível. na sombra. esta vida ou outra invenção.Bela esta manhã sem carência de mito. Bela a passagem do corpo. repleto. e mel sorvido sem blasfêmia. Valvas. que me engole. fantasmas. sua fusão no corpo geral do mundo. Mas tão absoluta que me calo. matizes da luz azul completa sobre formas constituídas. Vontade de cantar.

Amar se Aprende Amando. Sentimento do Mundo. Brejo das Almas . Esquecer para lembrar ( Boitempo III). Claro enigma. José. A mesa. A rosa do povo. Soneto da buquinagem. Paixão Medida Farewell. Viola de bolso II.Bibliografia em poesia. Corpo. Versiprosas. Ciclo. Alguma Poesia . Fazendeiro do ar. Novos poesmas. Nudez. Poesia errante. . Boitempo. Viola de bolso. Reunião. O amor natural. Menino Antigo( Boitempo II) .

cretino! Espermacete1 cai na cama. em cavalarias me perco. Agora não. filhinho meu. Medusa. verde.. Se vier com arranhão recuso. não quero defeito. Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro. Papai. menino. cavalgo de novo meu verde livro. tão fraquinho.Biblioteca verde Papai. Meu filho. as letras. só 24 volumes. medievo. tem disso tudo nos livros? Depressa. mata de pinheiros toda verde. compra. Templo de Tebas. já sabe: quero devolução de meu dinheiro. poemas me vejo viver. Amanhã começo a ler. Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel. me compra agora. Chega cheirando a papel novo. O irmão reclama: apaga a luz. pai. Me mande urgente sua Biblioteca bem acondicionada. Dorme. menino. Quando crescer eu compro. Antes de ler. o sono. Não dorme este menino. Olha que eu tomo e rasgo essa Biblioteca antes que peque fogo na casa. (Orgulho. Mas leio. Vénus nua. Apolo nu. fino caixote de alumínio e pinho. eu cresço logo. Como te devoro. Fica quieto. Em filosofias tropeço e caio. Termina o ramal.. ordens são ordens. que bom passar a mão no som da percalina. Careço ler tudo. Tenho de ler tudo. Agora quero ver figuras. em contos. É em percalina verde. eu vou comprar. Vai dormir. me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres São só 24 volumes encadernados em percalina verde. queima a perna. compra. o burro de carga vai levando tamanho universo. Nossa Senhora. é livro demais para uma criançaCompra assim mesmo. antes que eu perca a paciência e te dê uma sova. Sou o mais rico menino destas redondezas. esse cristal de fluída transparência: verde. . Osíris. Coronel. Agora não. Está bem. A mãe se queixa. não: inveja de mim mesmo. Todas.) Ninguém mais aqui possui a colecção das Obras Célebres. Compra.

verde pastagem. o que não saberei nunca. Ou antes carruagem de fugir de mim e me trazer de volta à casa a qualquer hora num fechar de páginas? Tudo o que sei é ela que me ensina. O que saberei. está na Biblioteca em verde murmúrio de flauta-percalina eternamente. 1) espermacete: material de que se fazem as velas .

Boca: se meu desejo é impotente para fechar-te. zombas de minha raiva inútil.Boca Boca: nunca te beijarei. Boca amarga pois impossível. Boca de outro que ris de mim. ris sem beijo para mim. cabem todos os abismos. bem sabes disto. no milímetro que nos separa. beijas outro com seriedade. doce boca (não provarei). .

A luz chega no leite. Amanhece na roça de modo diferente. Os chifres delimitam o sono privativo de cada rês e tecem de curva em curva a ilha do sono universal. A sombra vem nos cascos. escultura da noite. no mugido da vaca separada da cria. No gado é que dormimos e nele que acordamos. morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista. . O gado é que anoitece e na luz que a vidraça da casa fazendeira derrama no curral surge multiplicada sua estátua de sal.Boitempo Entardece na roça de modo diferente.

Olhe nos meus olhos bem fundo enquanto eu te olho no fundo dos seus olhos. uma alma única. Enxergue minha alma enquanto traduzo seus sonhos e deixe que a gente flutue bem juntos em uma só energia. uma dança.Bolero Segure minha mão com firmeza. Somos nós dois. Dois seres. um sentimento. dois corpos. nem você. em um apenas. . mas com carinho. eu te beijo e você me beija e a essa altura já não sou eu. Vamos dançar juntos como se voássemos em uma nuvem exclusiva toda nossa. E enquanto dançamos.

comida estranha. reintegra a essência do poeta. noutra vida Deixaste-nos mais famintos. que recomeças de outro mundo. sobre o telúrio. no banquete das musas Poesia. Poesia.Brinde. marulho e náusea. se nenhum pão te equivale: a mosca deglute a aranha. poesia. poesia. o belo câncer do verso. canção suicida. poesia. Poesia. e o que é perdido se salva. morte secreta .. Poesia sobre os princípios e os vagos dons do universo: em teu regaço incestuoso..

irônica. Sem o pedir às máquinas e aos deuses. pétala. fluida. que cada um invente o seu brinquedo. me oferece. brinquedo desenganado mas eficiente? Tenho de inventar o meu brinquedo. privativo dele. pluma. e fácil. alegria gerada por mim mesmo.Brinquedos para homens Embora eu seja adulto. E excogito: Que brinquedo inventar para o adulto. mola saltando no meu íntimo. . sangue e riso dele. não me seduzem os brinquedos eletrônicos que a moda.

bundífoda bundamor bundamor bundamor bundamor. a ponte de suspiros a torre de suicídio. a morte do Arpoador bunditálix. bunda além do irreal arquibunda selada em pauta de hermetismo opalescente bun incandescente bun meigo favo escondido em tufos tenebrosos a que não chega o enxofre da lascívia e onde a global palidez de zonas hiperbóreas concentra a música incessante do girabundo cósmico.Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor Bundamel Bundalis Bundacor Bundamor bundalei bundalor bundanil bundapão bunda de mil versões. Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo o arco de triunfo. bunda em al bunda lunar e sol bundarrabil Bunda maga e plural. . pluribunda unibunda bunda em flor. Bundaril bundilim bunda mais do que bunda bunda mutante/renovante que ao número acrescenta uma nova harmonia.

mas sou. Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso e talhado em penumbra sou e não sou. Pois que tenho um amor. Deus . as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis. Hoje tenho um amor e me faço espaçoso para arrecadar as alfaias de muitos amantes desgovernados. Enquanto a outra acaricia os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura e o mistério que além faz os seres preciosos à visáo extasiada. no mundo. Deus me deu um amor porque o mereci. pois jamais me sorriram. eu que não me sabia e cansado de mim julgava que era o mundo um vácuo atormentado. volto aos mitos pretéritos e outros acrescento aos que amor já criou. há que amar diferente. Seu grão de angústia amor já me oferece na mão esquerda. que se armou em coágulo. E o tempo que levou uma rosa indecisa a tirar sua cor dessas chamas extintas era o tempo rriais justo. pois que tenho um amor. e a um e outro agradeço. Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra imensa e contraída como letra no muro e só hoje presente. De tantos que já tive ou tiveram em mim. Onde não há jardim. quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.Campo de flores Deus me deu um amor no tempo de madureza. Mas sou cada vez mais. Era tempo de terra. o sagrado terror converto em jubilação. o sumo se espremeu para fazer um vinho ou foi sangue. porque me tocou um amor crepuscular.ou foi talvez o Diabo . ou triunfantes e ao vê-los amorosos e transidos em torno. um sistema de erros.deu-me este amor maduro. talvez. Amanhecem de novo as antigas manhãs que não vivi jamais. De uma grave paciência . Mas.

Há que amar e calar. Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde. . E talvez a ironia tenha dilacerado a melhor doação.ladrilhar minhas mãos.

e que fale como dois olhos. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. eu vejo e saúdo velhos amigos. nossas vidas formam um só diamante. Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. Minha vida. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. Caminho por uma rua que passa em muitos países. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças . Se não me vêem. todas as mães se reconheçam.Canção Amiga Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça.

Uma sombra veio vindo. me abraçou. Ouvi seus passos na escada. Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou. Depois mais nada. veio vindo. me disse adeus com a cabeça e saiu. Depois riu devagarinho. Fechou a porta. acabou... . Era a sombra de meu bem que morreu há tanto tempo. fiquei triste sem querer. me consolou.Cantiga de viúvo A noite caiu na minh'alma.

na sombra. matizes da luz azul completa sobre formas constituídas. esta vida ou outra invenção.Canto Esponjoso Bela esta manhã sem carência de mito. . Vontade de cantar. repleto. Bela a passagem do corpo. Engulo o mar. curvos pensamentos. que me engole. sem. Valvas. fantasmas. Mas tão absoluta que me calo. Bela esta manhã ou outra possível. Umidade de areia adere ao pé. sua fusão no corpo geral do mundo. E mel sorvido sem blasfémia.

como seiva -. seio.Canto do Rio em Sol Guanabara. que é terra e alísio em teu crisol? Nunca vi terra tão gente nem gente tão florival. como pupila do gato risca o topázio no escuro. braço de a-mar: em teu nome. essencial. II Rio. Rio que te vais passando a mar de estórias e sonhos e em teu constante janeiro corres pela nossa vida como sangue. Os que te amamos sentimos e não sabemos cantar: o que é sombra do Silvestre sol da Urca dengue flamingo mitos da Tijuca de Alencar.não são imagens exangues como perfume na fronha ... Rio-tato-vista-gosto-risco-vertigem Rio-antúrio Rio das quatro lagoas de quatro túneis irmãos Rio em ã Maracanã . Teu frêmito é teu encanto (sem decreto) capital. a sigla rara dos tempos do verbo mar. e que neles pressentimos o ser telúrico. saia clara estufando em redondel: que é carne. condado real. que te fitamos nos olhos. agora sim és Estado de graça. Guanabara. Agora. nome sussurrante.

dás uma cabriola.Rio de Janeiro.emudeceram as aldeias gentílicas? A Festa das Canoas dispersou-se? Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José pastoreando os fiéis da várzea? Soou o toque do Aragão sobre a cidade? Não não não não não não não Rio.Sacopenapã Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho de amorzinho benzinho dá-se um jeitinho do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda como quem do alto do Morro Cara de Cão chama pelos tamoios errantes em suas pirogas Rio. . 1985. Rio novo a cada menino que nasce a cada casamento a cada namorado que te descobre enquanto rio-rindo. um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo o tempo que humaniza e jovializa as cidades. teu acordar. José Olympio Editora . 388. milhão de coisas luminosardentissuavimariposas: como te explicar à luz da Constituição? III Irajá Pavuna Ilha do Gato -. Texto extraído do livro "Nova Reunião". pág. teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos. assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas. mágico. Neste poema Carlos Drummond de Andrade demonstra todo seu amor pela cidade do Rio de Janeiro.

estranho creme de areia e lama oferta ao velho Leme. gentil. a frente é interminável. olha as esguias pernas. chega-se ao Leblon e já nem rimo. Fogem banhistas para o Posto Seis. engole ruins aranhas do Brasil. esse dragão. .. sem que aumente a própria dimensão interior. O Posto Vinte. Regressa ao cotidiano: um professor reclama para os sapos mais amor. olha a serena arquitetura feminina em cena pelas ruas do Rio de Janeiro que não é rio. pesadíssima). Repara como tudo está pra frente. querida. Invade-se Ipanema hippie e festiva.. é um oceano inteiro de (a) mo (r) cidade.. que aumenta o chão pisável.Cariocas Como vai ser este verão. deixa de vãs filosofias.. com a praia.. A transparência vai além: os ossos. Pobre do ser vivo. Carlos. olha aí. olha o broto. fundamento de nova criatura? Carlos. a terra pouca. ele. o busto altivo. Ai. o tamanho natural das coisas estava errado! O mar era excessivo. tudo claro. aumentada/ diminuída? A draga. tu deliras? Até logo. pois nessa sinuca superlota-se a Barra da Tijuca (até que alguém se lembre de duplicar a Barra.. Caçá-los e exportá-los prejudica os nossos canaviais. sem paredes as casas e os governos. Somos hoje mais vastos? mais humanos? Que draga nos vai dar a areia pura. as vísceras também ficam à mostra? Meu amor. a começar na blusa transparente e a terminar. Ah. que gracinha de esqueleto revelas sob teu vestido preto! Os costureiros são radiologistas? Sou eu que dou uma de futurólogo? Translúcidas pedidas advogo: tudo nu na consciência.

e me disperso em quadrada emoção diante da rosa. Viram que novidade? Rosas de verdade. uma rosa é um rosal. a Roselândia. em vez de um verso. indago. pois inda existe flor. com cheiro e tudo quanto se resume no festival enlevo do perfume? Busco em vão neste Rio um roseiral. e me castigo a remoer sua emplastada imagem. e flor que zomba desse fero contexto de metralhadora. o Rio? A Roselândia vamos e aspiremos o fino olor de flor em cor e albor. onde floriram a Rosa Azul e a Rosa Samba. ou cheira mal o terreno baldio.medonhos escorpiões: o sapo papa paca.) Depressa. a rua. Um rosa te dou. no mais. de seqüestro e bomba? . pulo muros: qual! A flor é de papel. (Conservo no remorso um sapo antigo assassinado a pedra. tem a doçura de uma vaca embutida no verde da paisagem.

as chuvas já secaram. O que ontem disparava. as crianças estudam. Perfurando os obscuros canais de argila e sombra. Rápido é o sono. que se vai. ela iria contando que vou bem. triviais. e espero uma resposta mas que não tarde: e peço um objeto minúsculo só para dar prazer e quem pode ofertá-lo. uma última invenção (inda não é perfeita) faz ler nos corações. as mesmas. de mandar notícias amorosas quando não há amor a dar ou receber. mas todos esperamos rever-nso bem depressa. apenas. hoje se paralisa em esfinge de mármore. e até o sono. . embora estremecessem a um toque de paixão. e amo sempre e amo cada vez mais a essa minha maneira torcida e reticente.Carta Bem quisera escrevê-la com palavras sabidas. Vai-se tornando o tempo estranhamente longo à medida que encurta. o sono que era grato e era absurdo é um dormir acordado numa planície grave. quando só há lembrança. Muito depressa. diria ela do tempo que faz do nosso lado. desbordado alazão. não.

Contudo. pó. . está é uma carta. em mim mais do que em tudo. menos ainda. nada de nada em tudo. nada.ainda menos. e não vale acordar quem acaso repousa na colina sem árvores.

E ficou tão transtornado. me bateu. o que é aquele vestido. nesse prego. dizei depressa que vestido é esse vestido. Mas a dona nem ligou. sossegado. Passou quando.. Nossa mãe. Minhas filhas. . me pediu que lhe pedisse. Nossa mãe. Então vosso pai. Nossa mãe. me deixou com vosso berço. Era uma dona de longe. boca presa. Disfarcemos. Vosso pai evém chegando. escutai palavras de minha boca. lamberia seu sapato. beberia seu sobejo. procurei aquela mulher do demo. po que chorais? Nosso lenço vos cedemos. que tivesse paciência e fosse dormir com ele. Em vão o pai implorou. nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas. O vestido. me falou ela se rindo. vosso pai chega ao pátio. esse vestido tanta renda. não escutamos pisar de pé no degrau.Caso do vestido Nossa mãe. Minhas filhas. chorou no prato de carne. se devorou. esse segredo! Minhas filhas. vosso pai enamorou-se. mas a dona não ligou. naquele prego? Minhas filhas.. se perdeu tanto de nós. é o vestido de uma dona que passou. mas o corpo ficou frio e não o veste. dava carro. bebeu. brigou. Nossa mãe. se afastou de toda vida. fazenda. Eu não amo teu marido. irado. dava ouro. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. está morto. Dava apólice. se fechou. Minhas filhas. a essa dona tão perversa. foi para a dona de longe.

desfeita.. lavei. Eu fiz meu pelo-sinal. os olhos dele pediam. me puxei pelos cabelos. mas a morte não chegava. Mas te dou este vestido. Um dia a dona soberba me apareceu já sem nada. me curvei. Dona. me cortei de canivete. mas a morte não chegava. passei rio. da maior humilhação. não te dou vosso marido. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. no chão rocei minha cara. fiz doce. os olhos dela gozavam.. pobre. Olhei para vosso pai. Saí pensando na morte. disse que sim. minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. mais mostrava que escondia as partes da pecadora. meus anéis se dispersaram. me disse baixinho. O seu vestido de renda. Vosso pai sumiu no mundo. fiquei de cabeça branca. fiz toda sorte de dengo. me atirei no sumidouro. ao depois amor pegou. com sua trouxa na mão. O mundo é grande e pequeno. perdi meus dentes. Andei pelas cinco ruas. não comia.Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto. Eu não tinha amor ele. me lancei na correnteza. . minhas mãos se escalavraram. não falava. Olhei para a dona ruim. não por mim. visitei vossos parentes. Fiquei fora de perigo. costurei. mofina. passei ponte. meus olhos. de colo mui devassado. só pra lhe satisfazer. não quero homem. que não sei onde ele anda. última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra. Me joguei a suas plantas. tive uma febre terçã.

Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. mal reparou no vestido e disse apenas : Mulher.. nem nada. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. de nada valeu: vosso marido sumiu. rezei duzentas novenas.bebi fel e gasolina. vestido não há. comia meio de lado e nem estava mais velho. dona. boca não disse palavra. Minhas filhas. Eu fiz. me acalentava. me dava uma grande paz. Peguei o vestido. O barulho da comida na boca. Olhei para a cara dela.. era sempre o mesmo homem. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. pus nesse prego da parede. ele se assentou. comeu. . eis que ouço vosso pai subindo a escada. quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso. quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela. Olhou pra mim em silêncio. um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho. limpou o suor. põe mais um prato na mesa.

Estritamente reservadas para companheiros de confiança. Então. devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança. falamos. . Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo. movimentos. atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos E tudo proibido.Certas palavras Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer.

Um burro vai devagar. . Um homem vai devagar... Um cachorro vai devagar. Eta vida besta.Cidadezinha Qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar. meu Deus. Devagar.as janelas olham.

mas eis que falta curiosidade.Como encarar a morte De longe Quatro bem-te-vis levam nos bicos o batel de ouro e lápis-lazúli. De lado Sente-se já. pés incertos. dormem no espaço. passos na areia. À meia distância Claridade infusa na sombra. De dentro Agora não se esconde mais. avançando e deixando ver um certo cógifo de sandálias. como saber que nos procura o viajante sem identidade? Algum ponto em nós se recusa. treva implícita na claridade? Quem ousa dizer o que viu. não a figura. açúcar. A superfície jaz tranquila. e os bem-te-vis. Promete riquezas. já esquecidos de perpassar. O barco lá fica banhado de brisa aveludada. e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. se não viu a não ser em sonho? Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. prêmios. corpo inteiro. Sem vista Singular. Salvo orsto ou contorno explícito. Apresenta-se. e todo ferrão de desejo. sentir não sentindo ou sentimento inexpresso . Seu interior mostra-se aberto.

só o não saber que afinal se sabe e. Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo. em vaso coberto de resina e lótus e sons. mais se ignora. mais sabido.de si mesmo. .

Hoje sou funcionário público. orgulhoso: de ferro. A vontade de amar... estendido no sofá da sala de visitas. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval. Tive ouro. Noventa por cento d ferro nas calças. que tanto me diverte. que me paralisa o trabalho vem de Itabira. sem mulheres e sem horizontes. É doce herança itabirana. tive gado. Itabira é apenas uma fotografia na parede. tive fazendas. de suas noites brancas.Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira Principalmente. Por isso sou triste. Mas como dói! . este orgulho. nasci em Itabira. Oitenta por cento de ferro nas almas. este couro de anta. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. E o hábito de sofrer. esta cabeça baixa.

melodiosas. tarde. Só proferi algumas palavras.Confissão Não amei bastante meu semelhante. os mais excelentes. de concordâncias vegetais. ao voltar da festa. Do que restou. (Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre. contudo próximo.) E na meia-luz tesouros fanam-se. Dei sem dar e beijei sem beijo. amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo. não catei o verme nem curei a sarna. entrega. Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – que se esfacelou na asa do avião. . Não amei ninguém. como compor um homem e tudo que ele implica de suave. murmúrios de riso.

"Deixa-me entrar . de humano que era. assim tão inumano.Confronto Bateu Amor à porta da Loucura. sem destino." . enquanto me retiro. pois não sei de mais triste desatino que este mal sem perdão. sabento quanto Amor vive de engano. feita de breu. . mas estarrece de surpresa ao vê-lo. Mais que ninguém mereces habitar minha casa infernal. Só tu me limparás da lama escura a que me conduziu minha paixão". . E exclama: "Entra correndo. . o mal de amar. o pouso é teu. A Loucura desdenha recebê-lo.sou teu irmão.pediu .

o medo grande dos sertões. o medo das igrejas. dos mares. nosso pai e nosso companheiro. dos desertos. não cantaremos o ódio porque este não existe. cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.Congresso Internacional do Medo Provisoriamente não cantaremos o amor. Cantaremos o medo. o medo das mães. depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. . o medo dos democratas. que esteriliza os abraços. o medo dos soldados. existe apenas o medo. cantaremos o medo dos ditadores.

. antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. em pensamento. fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.. tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela. chorar as suas Lágrimas e enxugá-las com ternura. Se você achar a pessoa maravilhosamente linda.. Às vezes encontram e. neste momento. preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.. se o beijo for apaixonante..em troca. É o livre-arbítrio. deixam amor passar.... um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras. Por isso.. de maneira nenhuma. ansioso pelo encontro que está marcado para a noite. preste atenção nos sinais.. Se os olhares se cruzarem e. por não prestarem atenção nesses sinais... sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado. muitíssimo. sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. mesmo que seja em pensamento. se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento.. entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.. receber um abraço.. mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e. que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida. mesmo ela estando de pijamas velhos.. Se por algum motivo você estiver triste.. Se o toque dos lábios for intenso. chinelos de dedo e cabelos emaranhados.. agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR. Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR !!! ame muito. Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e. Se você conseguir.. Se você não consegue trabalhar direito o dia todo. Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa.. mesmo assim. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida. um sorriso. se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração. houver o mesmo brilho intenso entre eles. perceba: existe algo mágico entre vocês.Conselhos de um velho apaixonado Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos. (Assim seja !!!) . e os olhos se encherem d’água neste momento. Beija alguém de quem gostas quando receberes esta mensagem. um futuro sem a pessoa ao seu lado. Se você preferir fechar os olhos. Se você não consegue imaginar.

sem frágeis lágrimas. – Há mortos? há mercados? há doenças? É tudo meu. não rocha apenas. se beijam. O beijo ainda é um sinal. Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro. cantor sem piedade. São todos meus irmãos. não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda a minha vida que joguei. Estes poetas são meus. largas. Saber que há tudo. não importa. a rua. elas saltam. De todo o orgulho. Eis aí meu canto. e começa-la. As palavras não nascem amarradas. últimos! esperança do mar negro. Furto a Vinicius sua mais límpida elegia. mas cristal. de toda a precisão se incorporam ao fatal meu lado esquerdo. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. se dissolvem. Mas é tão alto que as pedras o absorvem. Ele é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão. É qualquer homem ao meio-dia em qualquer praça. . Maiakovski. É a lanterna em qualquer estalagem. poucos. nas principiantes rugas. É minha terra e é ainda mais do que ela. E mover-se em meio a milhões e milhões de formas raras. Essa viagem é mortal. Poeta do finito e da matéria. sim. Bebo em Murilo. sentir que há ecos. da ausência de comércio. Estes poemas são meus. e dois ou três faróis. Está na mesa aberta em livros. Me perco em Apollinaire.Consideração do poema Não rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono. secretas. cartas e remédios. Adeus. Na parede infiltrou-se. sem fronteiras. mas ardor tão casto. autênticas. são puras. boiando em tempos sujos. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra. Dar tudo pela presença dos longínquos. boca tão seca. indevassáveis. no céu livre por vezes um desenho. Ser explosivo. por que falsa mesquinhez me rasgaria? Que se depositem os beijos na face branca. se ainda as há. duras. e aves de bico longo conferindo sua derrota. que todas me convêm. O bonde. peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem. perdido embora.

tão natural e cheio de segredos. Tal uma lâmina. me destino. que repousam. eu sei que passarão. Já agora te sigo a toda parte. estou completo. como casa. são ondas de carinho te envolvendo. e te desejo e te perco. tão fiel. na grama. como orvalho entre dedos. tão firme. te atravessa. mas tu resistes.o uniforme de colégio se transformam. me faço tão sublime. Como fugir ao mínimo objeto ou recusar-se ao grande? Os temas passam.. meu poema. o povo.. e cresces como fogo. .

Mas o coração continua. meu filho. Mas virão outros. Nunca. te golpearam. e o humour? A injustiça não se resolve. em voz mansa.. no vento. navio. Mas.. O terceiro amor passou. Tudo somado. Estás nu na areia. não chores. A mocidade está perdida. Não tentaste qualquer viagem. Perdeste o melhor amigo. de vez.Consolo na Praia Vamos. Dorme. Mas tens um cão. nunca cicatrizam. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. A infância está perdida. devias precipitar-te. De "Amar se Aprende Amando" ... O segundo amor passou. terra. Algumas palavras duras. O primeiro amor passou. Mas a vida não se perdeu. nas águas. Não possuis casa.

Cota Zero Stop A vida parou ou foi o automóvel? .

Pode ser que encontres o que não buscavas nem esperavas. a porta apenas cerrada pode te contar conto que não queres saber. teu dono-marido. tua escrava nova. Na escuridão pode ser que esbarres no casal em pé tentando se amar apressadamente. . trêmula. Descuidosa.Cuidado A porta cerrada não abras. Pode ser que a vela que trazes na mão te revele.

teu verso em que Amor. soluçante. delicioso verso de alumbramentos sábios e nostalgias abissais. hoje é nossa comum riqueza. nosso pasto de sonho e cisma: ele não te pertence mais. se retesa e contempla a morte com a mesma forte lucidez de quem soube enfrentar a vida. amargo. liberto de todo sentimento falso. teu seco. .Declaração a Manuel Teu verso límpido. teu verso em que deslizam sombras que de fantasmas se tornaram nossas amigas sorridentes.

Minha clívia. Clematite minha. Minha urze.. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte. Forsitiaíris tuliparrosa minhas. Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Minha hortensegerânea. Florazálea. Macieira-minha-do-japão. Minha peônia. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Meu cravo-pessoal-de-defunto. Daliabegônia minha. Floramarílis. Floranêmona. .. Violeta. Calceolária minha. Catléia delfínio estrelítzia. meu nenúfar. Minha gérbera. Amor-mais-que-perfeito.Declaração de amor Minha flor minha flor minha flor. Ah. Meu cimbídio. Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Meu ciclâmen. Flor flor flor.

Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. higiênicos. sempre desejada. a boca romântica?.. engenhos modernos. E a boca liberta das funções poéticosofístico-dramáticas . (Coroas sem reino.. dentadura múltipla. A serra mecânica não tritura amor.... a serra mecânica. E todos os dentes extraídos sem dor. jamais possuída. afinal sossegada. e a língua especiosa através dos dentes buscando outra língua.) Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras. que acabará com o tédio da boca.Dentaduras Duplas A Onestaldo de Pennafort Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos. os delirantes lábios apenas entreabertos num sorriso técnico. a boca que beija. práticos. a vida habitável: a boca mordendo. os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura..

Desfibrarei convosco doces alimentos. secretas no fundo de mim. Dentaduras duplas: dai-me enfim a calma que Bilac não teve para envelhecer. não vos aplicando na deleitação convulsa de uma carne triste em que tantas vezes me eu perdi. admiráveis presas. Largas dentaduras. antes amarelas e por que não cromadas e por que não de âmbar? de âmbar! de âmbar! feéricas dentaduras. Não sei quantas fomes jamais compensadas.de que rezam filmes e velhos autores. serei casto. sóbrio. vosso riso largo me consolará não sei quantas fomes ferozes. Dentaduras alvas. mastigando lestas e indiferentes a carne da vida! (in Sentimento do Mundo) .

É alta. Sua melhor amiga. trabalhadora. 48. ao caixeiro.Levava pouco dinheiro na bolsa. meiga. (Procurem Luísa. que apareça. Pede-se a quem avistar Luísa Porto. Não voltou. a qualquer do povo e da classe média. magra.Desaparecimento de Luísa Porto Pede-se a quem souber do paradeiro de Luísa Porto avise sua residência à Rua Santos Óleos.) Faz tanta falta. não a encontrarem nem por isso deixem de procurar com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa e talvez encontrem. não perde a esperança. ao mata-mosquitos. depois da mãe enferma. dentes alvos. Previna urgente solitária mãe enferma entrevada há longos anos erma de seus cuidados. Procurem. Luísa é de bom gênio. que escreva. levemente estrábica.Roga-se ao povo caritativo desta cidade que tome em consideração um caso de família digno de simpatia especial. Vestidinho simples. Mãe. religiosa. de 37 anos. (Procurem. Luísa ia pouco à cidade e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada. ao transeunte.) Namorado isso não tinha. correta. viúva pobre. Sumida há três meses. que tenham pena de mãe aflita e lhe restituam a filha volatilizada ou pelo menos dêem informações.Se. todavia. Mãe entrevada chamando. morena. Óculos. que mande dizer onde está.) De ordinário não se demorava. . rosto penugento. (Procurem Luísa. sinal de nascença junto ao olho esquerdo. até mesmo aos senhores ricos. Suplica-se ao repórter-amador. Foi fazer compras na feira da praça.

na vida. Está viva para consolo de uma entrevada e triunfo geral do amor materno.Nada de insinuações quanto à moça casta e que não tinha. então jovem. limitando-se a responder: Não sei.Não me venham dizer que Luísa suicidou-se. se diluiria sem explicação.Somem tantas pessoas anualmente numa cidade como o Rio de Janeiro que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada. O jornal embrulhado na memória. costureira. a paralisia. filial e do próximo. Esqueçam a luta política. o queixume seriam. afável posto que estrábica. Uma vez. Tampouco foi vítima de desastre que a polícia ignora e os jornais não deram. Não há gratificação maior do que o sorriso de mãe em festa e a paz íntima conseqüente às boas e desinteressadas ações. percam um pouco de tempo indagando. Ela não se matou.Pela última vez e em nome de Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia procurem a moça. seu lote e que sua única filha. . Procurem-na. puro orvalho de alma. Mal sabia ela que o casamento curto. ficou pasma. sumiu o próprio chefe de polícia que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio e até hoje. a qual não dá notícia nenhuma. inquirindo. não tinha namorado. A mãe de Luísa. a viuvez. moça desimpedida. ponham de lado preocupações comerciais. O que não deixa de ser esquisito. procurem essa que se chama Luísa Porto e é sem namorado. a pobreza. Não se arrependerão. em 1898 ou 9. O santo lume da fé ardeu sempre em sua alma que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.é Rita Santana. leu no Diário Mercantil. remexendo.

Mas se acharem que a sorte dos povos é mais importante e que não devemos atentar nas dores individuais. Tem uma empregada velha que apanha o recado e tomará providências.Algo de extraordinário terá acontecido. virem a página: Deus terá compaixão da abandonada e da ausente. E resta a espera. ou ontem. Já não interessa a descrição do corpo nem esta.A qualquer hora do dia ou da noite quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos. insultem a mãe de Luísa. se fecharem ouvidos a este apelo de campainha. Calma de flores abrindo no canteiro azul onde desabrocham seios e uma forma de virgem intata nos tempos. para que demore tanto. ou pode ser. E de sentir compreendemos. beija-a e fecha-a para sempre em teu coração. A mãe de Luísa (somos pecadores) sabe-se indigna de tamanha graça. Deus lhe dirá: Vai. Mas há de voltar. disfarces de realidade mais intensa e que anúncio algum proverá. Sim. E de pensar realizamos. rádios. erguerá a enferma.Ou talvez não seja preciso esse favor divino. que sempre é um dom. Já não adianta procurar minha querida filha Luísa que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo . terremoto. as ruas mudaram de rumo. a cólica. e os membros perclusos já se desatam em forma de busca. chegada de rei. fotografia. é noite. Não tem telefone. canção. procura tua filha. calai-vos. perdoem. espontânea ou trazida por mão benigna. Cessem pesquisas. os extraviados um dia regressam ou nunca. não faz mal. Quer apenas sua filhinha que numa tarde remota de Cachoeiro acabou de nascer e cheira a leite. a lágrima. o olhar desviado e terno.

enquanto sofro e sofrendo me solto e me recomponho e torno a viver e ando.com inúteis pés fixados. (Em Reunião .1969) . está inerte cravada no centro da estrela invisível Amor.

Desejos Desejo a você Fruto do mato Cheiro de jardim Namoro no portão Domingo sem chuva Segunda sem mau humor Sábado com seu amor Filme do Carlitos Chope com amigos Crônica de Rubem Braga Viver sem inimigos Filme antigo na TV Ter uma pessoa especial E que ela goste de você Música de Tom com letra de Chico Frango caipira em pensão do interior Ouvir uma palavra amável Ter uma surpresa agradável Ver a Banda passar Noite de lua Cheia Rever uma velha amizade Ter fé em Deus Não Ter que ouvir a palavra não Nem nunca. Rir como criança Ouvir canto de passarinho Sarar de resfriado Escrever um poema de Amor Que nunca será rasgado Formar um par ideal Tomar banho de cachoeira Pegar um bronzeado legal Aprender um nova canção Esperar alguém na estação Queijo com goiabada Pôr-do-Sol na roça Uma festa Um violão Uma seresta Recordar um amor antigo Ter um ombro sempre amigo Bater palmas de alegria Uma tarde amena Calçar um velho chinelo . nem jamais e adeus.

Sentar numa velha poltrona Tocar violão para alguém Ouvir a chuva no telhado Vinho branco Bolero de Ravel E muito carinho meu. .

Um se beija no outro. puro fantasma que os passeia de leve. Amor. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se. e como o que era mundo volve a nada. mas o existido continua a doer eternamente. deixaram de existir. E eles quedam mordidos para sempre.Destruição Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Nada. Dois amantes que são? Dois inimigos. . Ninguém. assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho. refletido.

. condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte. misericordioso. Quem vive é arrastado pela guerra de Deus. Seus prêmios chegam tarde. como entendê-lo? Ele também não entende suas criaturas. Deus é assim: cruel. Deus.Deus e suas criaturas Quem morre vai descansar na paz de Deus. duplo. em forma imperceptível.

Deus criou triste.Deus triste Deus é triste. A tristeza de Deus é como Deus: eterna. Deus não está diante de Deus. A solidão de Deus é incomparável. Domingo descobri que Deus é triste pela semana afora e além do tempo. Está sempre em si mesmo e cobre tudo tristinfinitamente. Outra fonte não tem a tristeza do homem. .

cristal do tempo no papel. dança de dois destinos. tão vivas hoje como então. . o mendigo de Nova York a moça em flor no Jóquei Clube. o cadáver inseputável.Diante das Fotos de Evandro Teixeira A pessoa. Das luas de rua no Rio em 68. que nos resta mais positivo. mães-de-santo na praia-templo de Ipanema. de justiça e conhecimento. o lugar. Fotografia: arma de amor. mais queimante do que as fotos acusadoras. a lembrar como a exorcizar? Marcas de enchente e do despejo. o colchão atirado ao vento. a dama estranha de Ouro Preto. Garrincha e nureyev. e dois olhos não ão bastantes para captar o que se oculta no rápido florir de um gesto.é o codinome da mais aguda percepção que a nós mesmos nos vai mostrando e da evanescência de tudo. a lodosa. pois são fotos. a dor da América Latina. mitos não são. Fotografia . É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana e do real de cada coisa um mais seco real extraia para que penetremos fundo no puro enigma das figuras. o objeto estão espostos e escondidos ao mesmo tempo so a luz. podre favela. edifica uma penanência.

( in "Amar se aprende amando") .pelas sete partes do mundo a viajar. a surpreender a tormentosa vida do homem e a esperança a brotar das cinzas.

fartas mesadas. bombons. impressa no ar. Pois o amor resgata a pobreza. prêmios. patinação talvez bastem para encantar? Imprevistas. vence o tédio. complacências. sem discutir? Dar-lhe tudo aquilo que há de entontecer um grão-vizir? E se depois de tanto mimo que o atraia. ilumina o dia e instaura em nossa natureza . ele se sente pobre. a doçura desta lição: dar a meu filho meu amor. milhões de coisas desejadas. conforme a lei do esquecimento? Submeter-se à sua vontade sem ponderar. concedidas sem reticências? Liberdade alheia a limites. e dizer-lhe que estamos quites. como uma flor. sem paz e sem arrimo. perdão de erros. amargamente? Não é feliz. louvores. sem julgamento.Diante de uma criança Como fazer feliz meu filho? Não há receitas para tal. Bola. alma vazia. Mas que fazer para consolo desta criança? Como em seu íntimo acender uma fagulha de confiança? Eis que acode meu coração e oferece. Todo o saber. todo o meu brilho de vaidoso intelectual vacila ante a interrogação gravada em mim.

a imperecível alegria. .

MG .. . O apartamento abria janelas para o mundo.1987 . mal difuso.* .Domicílio Itabira do Mato Dentro .. amor sem uso. A pobreza da terra era maior entre os metais que a rua misturava a feios corpos.1902 * . duvidosos. adunca pescaria. E de terraço em solitude os ecos refluíam e cada exílio em muitos se tornava e outra cidade fora da cidade na garra de um anzol ia subindo. problema de existir. Crianças vinham colher na maresia essas notícias da vida por viver ou da inconsciente saudade de nós mesmos. na pressa.

A hera da antiga era roreja incansavelmente.Duração O tempo era bom? Não era. A alma sorri. já bem perto da raiz mesma do ser. Pois tudo enfim se liberta de ferros forjados no ar. para sempre. Nos mais desbotados panos estou me lendo e relendo. mas sem ânsia de estar amando e estar preso. (in As Impurezas do Branco) . na distância que vai de alguém a si mesmo? Vive tudo. Tudo morto. Aconteceu há mil anos? Continua acontecendo. O tempo é.

mas o mar secou. e agora. está sem discurso.E agora. o riso não veio. e agora. já não pode beber. a luz apagou. está sem carinho. José. o povo sumiu. José? A festa acabou. Você? Você que é sem nome. que ama. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. se você gemesse. Minas não há mais. José? e agora. quer morrer no mar. . Você que faz versos. sua incoerência. José? Sua doce palavra. a valsa vienense. sua lavra de ouro. não existe porta. seu instante de febre. quer ir para Minas. . seu ódio. o bonde não veio.e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. e agora? Se você gritasse. cuspir já não pode. seu terno de vidro. o dia não veio. José E agora. se você tocasse. a noite esfriou. que zomba dos outros. sua gula e jejum. José? Está sem mulher. já não pode fumar. se você dormisse. protesta? e agora. a noite esfriou. sua biblioteca. José? E agora.

. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato. sem teogonia.se você cansasse. você marcha. sem parede nua para se encostar.. se você morresse.. sem cavalo preto que fuja do galope. Mas você não morre. para onde? . José! José. você é duro.

o mundo murchava e brotava a cada espiral de abraço.. tristeza. absorve num ranger monótono substância humana. sub-reptício. a extinta pureza. E vinha mesmo. Era bom amar. vinha a noite. uivar. Goiás. desamar. O elevador sem ternura expele. em momentos de carne lassa. O copo de uísque e o blue destilam ópios de emergência.. Salta o edifício da areia da praia No cimento. Os corpos se unem e bruscamente se separam. Há um retrato na parede. desesperar era bom mentir e sofrer Que importa a chuva no mar? a chuva no mundo? o fogo? Os pés andando. Entretanto há muito se acabaram os homens ficaram apenas tristes moradores. certo remorso de Goiás. .Edifício Esplendor I Na areia da praia Oscar risca o projeto. viagens.. As famílias se fecham em células estanques. II A vida secreta da chave. um espinho no coração uma fruta sobre o piano e um vento marítimo com cheiro de peixe. que importa? Os móveis riam.. morder. nem traço da pena dos homens.

de água. cobri com chapéu. anjos da guarda. de carne. Vai crescer a tua barba neste medonho edifício de onde surge tua infância como um copo de veneno. o corpo. úteis para suicídio. de branco. também convite à morte. O estupendo banheiro de mil cores árabes. mortos sem extrema-unção. Ah. que eu vesti de negro. chora.O retrato cofiava o bigode. talvez nuas. bodoques e grandes tachos de doce e grandes cismas de amor. calma. Chora. branca. tratei? . de ar. não me lembro. como depois descobrimos. tinha vastos corredores e nas suas trintas portas trinta crioulas sorrindo. aquele que eu fiz de leite. embalei. Era lenta. onde o corpo esmorece na lascívia frouxa da dissolução prévia. que será do corpo? Meu único corpo. IV As complicadas instalações do gás. retrato. III Oh que saudades não tenho de minha casa paterna. o pavor do caixão em pé no elevador. de bege. E tinha também fantasmas. meu corpo. cerquei de defesas. calcei com borracha. o terraço onde as camisas tremem.

Que século. Todos os mortos presentes. meu Deus! Diziam os ratos. a brisa pousava. Do cassino subiam músicas e até o rumor de fichas. Já não acendem a luz com suas mãos entrevadas. meu avô. era superfície neutra..Meu coitado corpo tão desamparado entre nuvens. As dívidas amontoavam-se. ventos. Meu pai. E começavam a roer o edifício. Fumar ou beber: proibido Os mortos olham e calam-se. Surgiram costumes loucos e mesmo outros sentimentos. O retrato descoloria-se. de madrugada. Nas cortinas. neste aéreo living! V Os tapetes envelheciam pisados por outros pés. . . A chuva caiu vinte anos.. Doce. A vida jogada fora voltava pelas janelas. Alberto.

Não me procurem que me perdi eu mesmo como os homens se matam. E baixa a coisa fria também chamada noite. De tantas perdas uma clara via por certo se abriria de mim a mim. estela fria. E me pergunto e me respiro na fuga deste dia que era mil para mim que esperava os grandes sóis violentos. As árvores lá fora se meditam. chega de lamento e versos ditos ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça. e em mim vai derretendo este torrão de sal que está chorando. . se estou perdido antes de haver nascido e me nasci votado à perda de frutos que não tenho nem colhia? Gastei meu dia. Nele me perdi. O inverno é quente em mim. distraída. Ah. e fia seu tapete de água. ao ouvido do muro. que o estou berçando. ao liso ouvido gotejante de uma piscina que não sabe o tempo. e o frio ao frio em bruma se entrelaça. que a notícia de perdidos lá não chegue nem açule os olhos policiais do amor-vigia. ao serro frio.Elegia Ganhei (perdi) meu dia. E vou me recolher ao cofre de fantasmas. na água fria. me sentia tão rico deste dia e lá se foi secreto. e as enguias à loca se recolhem. Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera bem antes sua vaga pedraria? Mas quando me perdi. num suspiro. Dia.

intocáveis: em mim o que resiste são teus poros. ou forma vã. amor. me feriram sete vezes por dia. minha pena deserta. minha terra. amor em que me amaram. e sinto mais presente quanto aspiro em ti o fumo antigo dos parentes. quem contaria? E já não sei se é jogo.espelho de projeto não vivido. e uma criança que o tempo novo me anuncia e nega. ao fim de março. não habito vossa arquitetura imerecida. E sou meu próprio frio que me fecho longe do amor desabitado e líquido. e teu cativo passeias brandamente como ao que vai morrer se estende a vista de espaços luminosos. fonte de eterno frio. nem vos dou conta de mim nem desafio as garras inefáveis: eis que assisto a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo de me tornar planície em que já pisam servos e bois e militares em serviço da sombra. eu essência. pois que. Meu Deus. Terra a que me inclino sob o frio de minha testa que se alonga. ou se poesia. . e contudo viver era tão flamas na promessa dos deuses. e é tão ríspido em meio aos oratórios já vazios em que a alma barroca tenta confortar-se mas só vislumbra o frio noutro frio. me tens. Corto o frio da folha. Sou teu frio. em sete dias de sete vidas de ouro. amor. meu Deus e meu conflito. essência estranha ao vaso que me sinto.

falta de dinheiro. sozinho. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe. abrem guardas chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que. Praticas laboriosamente os gestos universais. tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. o sangue-frio. o desemprego e a injusta distribuição porque não podes. Caminhas por entre os mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. Ao telefone perdeste muito. fome e desejo sexual. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. À noite. dormindo. os problemas te dispensam de morrer. a concepção. se neblina. sentes calor e frio. . Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas. dinamitar a ilha de Manhattan. muitíssimo tempo de semear. onde as formas eas ações não enceram nenhum exemplo. a renúncia. Coração orgulhoso. pequenino. em face de indecifráveis palmeiras.Elegia 1938 Trabalhas sem alegria para um mundo caduco. a guerra. Aceitas a chuva. e preconizam a virtude.

minha Avenida Rio Branco espacial verdolenga baunilhada eterna como éramos eternos entre duas guerras próximas? O Café Belas-Artes onde está? E as francesas do bar do Palace Hotel e os olhos de vermute que as despiam no crepúsculo ouro-lilás de 34? Estou rico de passarelas e vivências túneis nos morros e cá dentro multiplicam-se rumo a barras-além-da tijuca imperscrutáveis Sou todo uma engenharia em movimento já não tenho pernas: motor ligado pifado recalcitrante projeto algarismo sigla perfuração na cidade código Onde estão Rodrigo.Elegia carioca Nesta cidade vivo há 40 anos há 40 anos vivo esta cidade a cidade me vive há 40 anos Sou testemunha cúmplice objeto triturado confuso agradecido nostálgico Onde está. Candinho. Eneida. em que Galeão Gastão espera o jato da Amazônia? Marco encontros que não se realizam na abolida José Olympio de Ouvidor Ficou. baforando o charutão Rio diverso múltiplo desordenado sob tantos planos ordenadores desfigurados geniais ferido nas encostas . é certo. Aníbal e Manuel Otávio. a espelharia da Colombo mas tenho que tomar café em pé e só Ary preserva os ritos da descuidada prosa companheira Padeiros entregam a domicílio o pão quentinho da alegria o bonde leva amizades motorneiras as casas de morar deixam-se morar sem ambição de um dia se tornarem tours d’ivoire entre barracos sórdidos o rádio espalha no ar Carmem Miranda a Câmara discursa os maiôs revelam 50% mas prometem bonificações sucessivas O Brasil será redimido pelo socialismo utópico Getúlio sorri. que fugiu.

poluído nas fontes e nas ondas Rio onde viver é uma promissória sempre renovada e o sol da praia paga nossas dívidas de classe média enquanto multidões penduradas nos trens elétricos desfilam interminavelmente na indistinção entre vida e morte futebol e carnaval e vão caindo pelo leito da estrada os morituros Ser um contigo. . ó cidade é prêmio ou pena? Já nem sei se te pranteio ou te agradeço por este jantar de luz que me ofereces e a ácida sobremesa de problemas que comigo repartes no incessante fazer-se. desfazer-se que um Rio novo molda a cada instante e a cada instante mata um Rio amantiamado há 40 anos.

A tarde pode ser triste e as mulheres podem doer como dói um soco no olho (pornográficos. Dize a todos: Meus irmãos. não quereis ser pornográficos? (in Brejo das Almas) . Propõe isso a teu vizinho. Pensavam que o suicídio fosse a última resolução. a todas as criaturas que são inúteis e existem. Teus amigos estão sorrindo de tua última resolução. Por que seremos mais castos que o nosso avô português? Oh! sejamos navegantes. bandeirantes e guerreiros. Não compreendem. sejamos tudo que quiserem. ao condutor do teu bonde. sobretudo pornográficos. propõe ao homem de óculos e à mulher da trouxa de roupa. pornográficos). coitados.Em Face Dos Últimos Acontecimentos Oh! sejamos pornográficos (docemente pornográficos). que o melhor é ser pornográfico.

e a vista pouse. beijo abstracto. antes do beijo ritual. céu.Em teu crespo jardim Em teu crespo jardim. na flora pubescente. Cada pétala ou sépala seja lentamente acariciada. anémonas castanhas detêm a mão ansiosa: Devagar. e tudo é sagrado. . amor.

Enigma Faço e ninguém me responde esta perguntinha à-toa: Como pode o peixe vivo morrer dentro da Lagoa? .

N'água e na pedra amor deixa gravados seus hieróglifos e mensagens. . suas verdades mais secretas e mais nuas. ando indagando ao largo vento e à rocha imperativa. não. esquecendo a lição que já se esquiva. as almas vão pairando.Entre o ser e as coisas Onda e amor. e. E nem os elementos encantados sabem do amor que os punge e que é. tornam amor humor. As almas. onde amor. nesse quando amanhece frescor de coisa viva. pungindo. e vago e brando o que é de natureza corrosiva. e a tudo me arremesso. uma fogueira a arder no dia findo.

e a hora é calma? E se não estou mais na idade de sofrer é porque estou morto. essas coisas? As coisas só deviam acontecer para fazer sofrer na idade própria de sofrer? Ou não se devia sofrer pelas coisas que causam sofrimento pois vieram fora de hora. e morto é a idade de não sentir as coisas.Essas coisas “Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas.” Há então a idade de sofrer e a de não sofrer mais por essas. essas coisas? .

de tanto que não fui. Tenho horror. a esmo. Mas se esquivam no inventário. A estrela-d'alva penetra longamente seu espinho (e cinco espinhos são) na minha mão. e sendo vário é um só. a sós. saudade sob aparência de remorso. (in Fazendeiro do Ar) . Tenho carinho por toda perda minha na corrente que de mortos a vivos me carreia e a mortos restitui o que era deles mas em mim se guardava. e meu amor é triste como é vário. e de minha alta ausência em meu redor.Estrambote Melancólico Tenho saudade de mim mesmo. tenho pena de mim mesmo e tenho muitos outros sentimentos violentos.

e teu esposo contigo de mãos dadas. que às esferas sublimes reconduz o ser humano. sobre-humano. o som da força cósmica. e impregna de doçura as próprias feras. dolente. sinto surdir de oculta fonte o som de música celeste. dos astros protegido. musas gregas. une-se a Luís Hamilton. de transpassar em luz o peito amante. imaturos. sê feliz. desnorteados. com alto sopro bafejai-me a lira e dai-lhe o sentimento mais profundo. dramático. antigo e sempre novo. que o florentino pôs em nobre verso. em vão tentam seguir a rota certa. dos deuses conterá a pura essência. tempo afora. Cada palavra e beijo que trocardes. movente do sol e das estrelas. . conhecida. oferta a quantos. Vosso himeneu. um só sejam os dois. e no meu tosco verso eis refletida: o som do amor. Hoje Márcia gentil. musas do velho Olimpo e do moderno mundo. devo cantar o amor naquele instante miraculoso. Tenho a cumprir nobre missão de bardo. por seus cabelos de argêntea messe. o som do ameno grito melodioso e santo e grave e jovial. Só de vê-los. trazendo à vida uma razão geral. neta de Horácio (poeta ele também. O sonho em vós se cristaliza e assume o contorno sensível da existência.Epitalâmio Musas latinas. e ardente coração). Márcia. Vai. seja lição de bem amar. de tal maneira que pouse a eternidade em cada hora.

a caminho. Tende por certo: amar se aprende amando. os da alegria ritos celebrando.Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos. (in Amar Se Aprende Amando) . despedem-se de vós. Eia.

talvez no chão.Esta Faca "Esta faca foi roubada no Savóia" "Esta colher foi roubada no Savóia" "Este garfo. . O amor falava baixo. talvez no teu vestido.. dois corpos. Falavam baixíssimo os copos.. os talheres." Nada foi roubado no Savóia. A penugem rala na gruta rósea era quase silêncio. Os gestos falavam baixo. O reservado de paredes finas Forradas de ouvidos e de línguas era antes prisão que mal cabia um desejo. Tua pele entre cristais luzia branca. Saíamos alucinados. No Savóia nada foi roubada. Nem tua virgindade: restou quase perfeita entre manchas de vinho (era vinho?) na toalha.

até hoje não fumei. ordens de uso. abuso. meu relógio. gritos visuais. meu aquilo. E nisto me comprazo. minha toalha de banho e sabonete. invencível condição. minha xícara. minha gravata e cinto e escova e pente. escravo da matéria anunciada. hábito. meu isso. Com que inocência demito-me de ser eu que antes era e me sabia tão diverso de outros.. Estou. Agora sou anúncio. indispensabilidade. Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada por este provador de longa idade. reincidência. nesta vida. Em minha camiseta. Etiqueta Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório. premência. desde a cabeça ao bico dos sapatos. sentinte e solidário com outros seres diversos e conscientes de sua humana. ora vulgar ora bizarro. e fazem de mim homem-anúncio itinerante. açambarcando todas as marcas registradas. em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer. tiro glória . letras falantes. ainda que a moda seja negar minha identidade. tão mim-mesmo. Meu lenço. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca. meu copo. trocá-la por mil. principalmente). Minhas meias falam de produto que nunca experimentei mas são comunicados a meus pés.. costume.Eu. estranho. são mensagens. ser pensante. todos os logotipos do mercado. É doce estar na moda. meu chaveiro. um nome. a marca de cigarro que não fumo. estou na moda.

objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos. e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva. para vender em bares festas praias pérgulas piscinas. Já não me convém o título de homem. e cada gesto. independente. não de casa. (in Corpo) . cada vinco da roupa resumia uma estética? Hoje sou costurado.vê lá . da vitrina me tiram. sou gravado de forma universal. que moda ou suborno algum a compromete. saio da estamparia. minhas idiossincrasias tão pessoais.de minha anulação. cada olhar. tão orgulhoso de ser não eu. Eu é que mimosamente pago para anunciar. Meu nome novo é coisa. sou tecido. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher. peço que meu nome retifiquem. Não sou . Por me ostentar assim.anúncio contratado. Eu sou a coisa. recolocam. mas artigo industrial. coisamente. tarifados. tão minhas que no rosto se espelhavam.

Está se sentindo sozinho? besteira.agora é hora de reiniciar... de pensar na luz. Ficou com raiva das pessoas? foi para perdoá-las um dia. Acreditou que tudo estava perdido? era o indício da tua melhora." Não importa onde você parou... o mal humor vai comendo nosso fígado. desenhar.... Chorou muito? foi limpeza da alma........ diferente? Um novo curso. Quando nos trancamos na tristeza.... Olha quanto desafio."Eu hoje joguei tanta coisa fora.......... Sentiu-se só por diversas vezes? é por que fechaste a porta até para os anjos... ficamos horríveis.. .. nem nós mesmos nos suportamos.... o que importa é que sempre é possível e necessário" recomeçar". quanta coisa nova nesse mundo de meu Deus te esperando.. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo. dominar o computador.. é renovar as esperanças na vida e o mais importante. qualquer outra coisa. Pois .. ou aquele velho desejo de aprender a pintar.. acreditar em você de novo. em que momento da vida você cansou. tem tanta gente que você afastou com o seu período de isolamento tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu para "chegar" perto de você... Que tal um novo emprego? Uma nova profissão? Um corte de cabelo arrojado.......... Sofreu muito nesse período? foi aprendizado.. de encontrar prazer nas coisas simples de novo...

. e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados............ sonhe alto...... jogue tudo fora... papel de bala. Nós somos o "Amor"..... peças de roupa.. joga fora tudo que te prende ao passado.. bilhetes de viagens. o melhor vai se instalar na nossa vida. se pensamos pequeno. esvazie seu coração....... pensando assim trazemos prá nós aquilo que desejamos... mas principalmente... hoje é um bom dia para começar novos desafios. É hoje o dia da faxina mental. queira o melhor do melhor. coisas pequenas teremos. se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor... fique pronto para a vida... afinal de contas.. fotos.. Onde você quer chegar? ir alto.. para um novo amor. Recomeçar... ingressos de cinema. . ao mundinho de coisas tristes.... Lembre-se somos apaixonáveis. somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes...até a boca fica amarga. queira coisas boas para a vida......

Eu preparo uma canção Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. eu vejo e saúdo velhos amigos. todas as mães se reconheçam. . Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. nossas vidas formam um só diamante. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. Se não me vêem. Minha vida. e que fale como dois olhos Caminho por uma rua que passa por muitos países. No jeito mais natural dois carinhos se procuram.

Assim o amor ganha o impacto dos fonemas certos no momento certo. meu querido?" Vitória. quando a língua é falo. ruas. A noite era mal dormida. . a penumbra retal. pareciam tomar a forma arrendondada de um ânus. A amada vestida de fezes puxava-me. O pesadelo fedia-me no peito. e as aberturas do corpo.foi há trint'anos ao sol de hoje se derrete. A amada quer expressamente falar e gozar gozar e falar vocábulos antes proibidos e a volúpia do vocábulo emoldura a sagrada volúpia. Canais implícitos. O nojo do substantivo .no escuro da mata do quarto fechado. na exaltação de erecta divindade em seus templos cavernames de desde o começo das eras quando cinza e vergonha ainda não haviam corroído a inocência de viver. A luz do dia saúda-o. "Que tem a ver. língua e membro exploradores. ônibus. A mulher era muda no orgasmo." Como podem lábios donzelos mover-se.. desdenhosos. para emitir com tamanha naturalidade o asqueroso maravilhoso? A tal ponto que.. reinava sobre os costumes do mundo anestesiado e havia palavras impublicáveis.Eu sofria quando ela me dizia Eu sofria quando ela me dizia: "Que tem a ver com as calças. O corpo soltou-se. nudez conquistada. As cópulas se desenrolavam . abrindo-se. entre uivos e gritos litúrgicos. Imperatriz. tevês. Estuda-se nova geografia. eu fugia. proclamada. E a língua vai osculando a castanha clitórida.baixinho . Nádegas aparecem em anúncios. adianta nomeá-los? Esperam o beijo do consumidoramante. e verbo a vulva. abismos lexicais onde se restaura a face intemporal de Eros. mãos de trampa escorregante acarinhavam-me o rosto.

F Forma forma forma que se esquiva por isso mesmo viva no morto que a procura a cor não pousa nem a densidade habita nessa que antes de ser já deixou de ser não será mas é forma festa fonte flama filme e não encontrar-te é nenhum desgosto pois abarrotas o largo armazém do factível onde a realidade é maior do que a realidade (in lição de Coisas) .

a forma. por além sem necessidade de passaporte e certidão negativa de IR. pois não? Entraram a bordo (convidados) voaram por aí por ali. a cor . buraco na rua & outras evidências pedestres. pois enfim nada existe de mais identificado do que um disco voador hoje presente em São Paulo. Sou o pária. de boca. (Os patores desta aldeia já me fazem zombaria pois procuro. em vão procuro noite e dia o zumbido.Falta um disco Amor. sem dólares. Voltaram cheio de notícias e de superioridade. Por que a mim. Um amigo que eu tenho todas as semanas vai ver o seu disco na praia de Itaipu. Olham-me com desprezo benévolo. estou triste porque sou o único brasileiro vivo que nunca viu um disco voador. mas o jeito. Na minha rua todos viram e falaram com seus tripulantes na língua misturada de carioca e de sinais verdes luminescentes que qualquer um entende. aquele que vê apenas caminhão cartaz de cinema. Bahia Barra da Tijuca e Barra Mansa. Este não diz nada pra mim. os olhos! contam de prodígios tornados simples de tão semanais apenas secretos para quem não é capaz de ouvir e de entender um disco. somente a mim recusa-se o OVNI? talvez para que a sigla de todo não se perca. sem dólares. amor.

o disco? Ele me foge e ri de minha busca. Não viu? Não vi.. Amor.. Bem sei e sofro com a falta de confiança neste poeta que muita coisa viu extraterrena em sonhos e acordado viu sereias. talvez. estou tristinho. Mas o disco.? Isso me garantem meus vizinhos e eu. Dele desceu (parece) um sujeitinho furta-cor gentil puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx). chamado não chamado insensível e cego sem ouvidos deixei passar a minha vez.) Bem sei que em toda parte eles circulam: nas praias no infinito céu hoje finito até no sítio de um outro amigo em Teresópolis.de um só disco voador. estou tristonho por ser o só que nunca viu um disco voador hoje comum na Rua do Ouvidor. . Um passou bem perto (contam) quase a me roçar. dragões o Príncipe das Trevas a aurora boreal encarnada em mulher os sete arcanjos de Congonhas da Luz e doces almas do outro mundo em procissão.

sem nem o homem querer aufere direitos do homem. Diz a ele: Cresça! E ele fica mais alto. Diz ao homem: Ame! E ele não sabe como.Fazedor de homens I Todo homem é uma ilha.. não escolheu.porque o homem não fez.homem-mundo. Todo homem é um mundo. seguro. pequenos alumbramentos. . de um simples fazedor de homens. Um dia ele morre. Mas diz ao homem: Procrie! E ele faz homens. não pensou nada. Todo homem possui uma ponte pois é preciso sair da ilha.. medos e coragens. Se a vida foi longa para viver . A ponte de um homem é um braço estendido. Diz ao homem: Trabalhe! E ele usa o corpo. O mundo roda no sistema egocêntrico de suas realidades. II O homem faz o homem.é curta para morrer . É bom ser uma ilha distante tanto quanto é bom ser um homem. Diz ao homem: Viva! E ele respira e existe. O que o transforma. mundo-homem. E porque fez o homem. E quando o homem encara o mundo e se depara . III O que faz um homem diferente de outro homem é o que ele pensa. volta à ilha: Todo homem ama sua ilha. também.

é com ela que ele se entende. Luta e sofre.num criador de homens. Reivindica. não destrói as pontes. Todo homem é seu corpo. Como também. quanto pode. Temeroso de ter que voltar um dia. só ilha. Todo homem quer deixar sua ilha. E o homem fica ali. só ponte. Todo homem é uma consciência. Pede. Quanto mais ele precisa mais ele é maior. . Nela inclui o seu saber e a parte maior do não saber. E sabe dele em contraste com outro corpo. Todo homem é uma vontade. entretanto. A ponte fica ali. Exige. a medida de um homem é a sua carência: porque é assim que ele se assume. porque é assim que ele se liberta. E dá. Enquanto isso. E se deixa de ser vontade teme a perda de sua posse. e se aceita o fato. só homem. tal é a sua medida. a ilha fica ali.

abundavam negras socando milho. E criação e gente.Fazenda Vejo o Retiro: suspiro no vale fundo. O amor das éguas rinchava no azul do pasto. logo em concílio. Mulher.. tudo era casto. O Retiro ficava longe do oceanomundo. urubus rasantes. em liga. Rês morta. . A morte escolhia a forma breve de um coice. Ninguém sabia da Rússia com sua foice.

escravas e crias de ações da Companhia de Navegação do Alto Paraguai da aurifúlgida comenda no baú enterrado no poço da memória restou. talvez? este pigarro .Herança De mil datas mineiras com engenhos de socar de lavras lavras e mais lavras e sesmarias de bestas e vacas novilhas de terras de semeadura de café em cereja (quantos alqueires?) de prata em obras (quantas oitavas?) de escravos.

Precisamos. por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos. O Brasil está dormindo. Precisamos adorar o Brasil! Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão no pobre coração já cheio de compromissos.Hino Nacional Precisamos descobrir o Brasil! Escondido atrás das florestas. assimilaremos finas culturas.. com a água dos rios no meio.... Nossas revoluções são bem maiores do que quaisquer outras. coitado. ele quer repousar de nossos terríveis carinhos. de pele macia. Precisamos educar o Brasil. precisamos esquecer o Brasil! Tão majestoso... tão sem limites. os incríveis Jõao-Pessoas. abriremos dancings e subvencionaremos as elites. alemãs gordas. O Brasil não nos quer! Está farto de nós! Nosso Brasil é no outro mundo.. Precisamos colonizar o Brasil. E acaso existirão os brasileiros? . E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões. Cada brasileiro terá sua casa com fogão e aquecedor elétricos.. Nenhum Brasil existe. E virão sírias fidelíssimas. Precisamos louvar o Brasil. nossos erros também.. os Amazonas inenarráveis. se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens. piscina. tão despropositado. Não é só um país sem igual. salão para conferências científicas.. Este não é o Brasil. Compraremos professores e livros. E cuidaremos do Estado Técnico. O que faremos importando francesas muito louras. russas nostálgicas para garçonettes dos restaurantes noturnos. Não convém desprezar as japonesas..

Hipótese E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica. . talvez. as coisas deste mundo.

Hoje não escrevo Chega um dia de falta de assunto. Concluiu que não há assunto. Então hoje não tem crônica. na raça. porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. senhor. para objeto de sua divagação descompromissada. E então vem o tédio. eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel. de falta de apetite para os milhares de assuntos.por hipótese . mas com igual indiferença pelo que vão dizendo. uma revolução. que está de olho na maquininha. sem se dar ao incômodo de praticá-las.transforma a cara das coisas. aí está você. inclusive a simples claridade da hora. cafezinho. passar a espectador enfastiado de espetáculo. camisa aberta. que importância a sua: sentado aí. o absurdo promovido a regra de jogo. Entretanto. adjetivos.. Divino. crédulos. em sua protegida pessoa. Sim. Ah. não é comentarista internacional. Vazio. porque com você não é possível contar. que fizeram o acontecimento.. você participa com palavras? Sua escrita . Superior. Impede a conjugação de tantos outros verbos. purê de palavras. mais propriamente. que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais. e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar. Desaprovou as ações nefandas. De Senhor dos Assuntos. não precisa esgotar os temas. escrevinhando sobre a vida. Escrever é triste. fica em sua cadeira. é outra. porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos. assuntando.às vezes nem isso. Tudo que se faz sem você. há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos. Sim. rapaz. e você não sabe ir além disso. Você é o marginal ameno. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”. verbos? Mas foram os outros. você aprovou as valentes ações dos outros. Não é redator de boletim político. que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. explosiva. Esquecido de que é um deles. casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. pois ao imprevisto sucede outro. excesso de vibração. dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Claro. Sereno. Ou. O que você perde em viver. que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto. a maluquice dos homens. reflexos no espelho (infiel) do dicionário. a revolta. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo. não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. as letras se reunindo com maior ou menor velocidade. como optar entre as variedades de insólito? E que dizer. Selecionando os retalhos de vida dos outros. Que é isso. quer dizer: que não há para você. Os dedos sobre o teclado. derrubar as estruturas. não revolve os intestinos da vida. rei proprietário do universo. ar condicionado. Assim é fácil manter a consciência limpa. se seus escritos fossem produtos medicinais). colunista especializado. Ao passo que. vedada a você. dando sua opinião sobre a angústia. E nem sequer você escreveu O Capital. ver mais longe do que o comum. mas tudo que ele ilumina. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália. não corta de verdade a barriga da vida. sugestionáveis. se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. . Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação.. manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Isso de escrever O Capital é uma coisa. Tudo se repete na linha do imprevisto.. o ridículo. como se fosse deus. enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza. Não apenas o sol. assuntando. sandálias. antes e depois da operação. um adultério grego . E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. num mecanismo de monotonia. sem responsabilidade na instrução ou orientação do público. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes. como diria a bula. Na hora ingrata de escrever. por via gramatical.

homem livre. seria o mesmo admirável oficial de sapateiro. explicadinho: Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio. Meu parente Manuel Chassim não se conforma. nasce escravo. Mas quem vai prender homem de tantas qualidades? . exímio seleiro. no Seminário de Diamantina. Bota anúncio no Jequitinhonha. Cortassem mais dois. o que não é bom para Atanásio e para ninguém. Cortaram-lhe os excedentes. onde é cozinheiro. esse Atanásio.Homem livre Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão. quem mais faria? Tem prática de animais. Então foge do Rio Doce. Sendo tanta coisa. ótimo sempre. Vai parar. grande ferreiro. Lombilho que ele faz.

Homenagem Jack London Vachel Lindsay Hart Crane René Crevel Walter Benjamin Cesare Pavese Stefan Zweig Virginia Woolf Raul Pompéia Sá-Carneiro e disse apenas alguns de tantos que escolheram o dia a hora o gesto o meio a dissolução (in As Impurezas do Branco) .

A manhã pintou-se de azul. .Igreja Tijolo areia andaime água tijolo. entoam quirieleisão. Bem bão! Bem bão! Os serafins. Domingo .a torre. Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos. no alto fica Deus. O canto dos homens trabalhando trabalhando mais perto do céu cada vez mais perto mais . . E nos domingos a litania dos perdões. No adro ficou o ateu. O padre que fala do inferno sem nunca ter ido lá. Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida. o murmúrio das invocações. . no meio.

Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais. Todos os filmes norte-americanos são iguais. Todas as ações. são iguais. Todas as criações da natureza são iguais. gazéis. Todas as guerras do mundo são iguais.Igual-desigual Eu desconfiava: todas as histórias em quadrinho são iguais. Todos os filmes de todos os países são iguais. Todo ser humano é um estranho ímpar. Todos os best-sellers são iguais. virelais. Todos os amores. Contudo. Todas as experiências de sexo são iguais. iguais iguais iguais. Iguais todos os rompimentos. Todas as fomes são iguais. . Todos os sonetos. todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais. piedosas ou indiferentes. Todos os partidos políticos são iguais. A morte é igualíssima. sextinas e rondós são iguais e todos. Não é igual a nada. o homem não é igual a nenhum outro homem. Todas as mulheres que andam na moda são iguais. cruéis. bicho ou coisa.

morreu o poeta sem morrer à eternidade ele que fez de uma pedra louvor para sua cidade gauche.Imortalidade Morre-se de mil motivos e sem motivo se morre de saudade. . grande destro sem querer celebridade pelos mil que era num só se fez único ficando no seu primeiro caráter de bom mineiro jamais morrerá e sempre será.

. Meu irmão pequeno dormia Eu sozinho.. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala e nunca se esqueceu chamava para o café.Psiu... não acorde o menino. menino entre mangueiras lia história de Robinson Crusoé. Minha mãe ficava sentada cosendo. comprida história que não acaba mais. que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. ia para o campo. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: .Infância Meu pai montava a cavalo. Para o berço onde pousou um mosquito E dava um suspiro. .

e há um óleo suave que eles passam nas costas. . mas a areia é quente. definitivamente inocentes. e esquecem.Inocentes do Leblon Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. tudo ignoram. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes.

.Inscrição tumular O instante de corola o instante de vida o instante de sentimento o instante de conclusão o instante de memória e muitos outros instantes sem razão e sem verso.

e as presas num feliz entregar-se. corcel rubro. aceso em festa. que a ferida no peito transtornado. uma promessa. e dociastutos eus caçadores a correr. me planejas? 0 que se desatou num só momento não cabe no infinito.Instante Uma semente engravidava a tarde. e é fuga e vento. dava um coice. sobre o tempo sem caule. entre soluços E que mais. em vez da noite Perdia amor seu hálito covarde. Era o dia nascendo. acordava. vida eterna. mas tão delicioso. A manha sempre sempre. . e a vida. gravura enlouquecida.

Isso é Aquilo O fácil o fóssil o míssil o físsil a arte o infarte o ocre o canopo a urna o farniente a foice o fascículo a lex o judex o maiô o avô a ave o mocotó o só o sambaqui .

Só. Os meninos seguem para a escola. . na porta da venda. Tutu caramujo cisma na derrota incomparável.Itabira Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. Os homens olham para o chão. Os ingleses compram a mina.

MG . enquanto outras visões se delineiam e logo se enovelam: mascarada.* .1902 * . matéria putrescível. pétalas. mas por pálidas contas de colares que alguém vai desatando.1987 Negro jardim onde violas soam e o mal da vida em ecos se dispersa: à toa uma canção envolve os ramos como a estátua indecisa se reflete no lago há longos anos habitado por peixes. presságio . não. jardim apenas.Jardim Itabira do Mato Dentro . olhos vazados e mãos oferecidas e mecânicas. que sei de sua essência (ou não a tem). de um vegetal segredo enfeitiçadas.

cuspir já não pode. seu terno de vidro. José? E agora. José? Está sem mulher. está sem carinho. que zomba dos outros. sua gula e jejum. o dia não veio. já não pode beber. . . não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. o bonde não veio. José? e agora. e agora. e agora. não existe porta. seu ódio. o povo sumiu. José? sua doce palavra. a noite esfriou. quer morrer no mar.José E agora. sua biblioteca. sua incoerência. seu instante de febre. sua lavra de ouro. a noite esfriou. está sem discurso. o riso não veio. Você que faz versos. a luz apagou. protesta? e agora. mas o mar secou. José? A festa acabou. Você? Você que é sem nome.e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. que ama. já não pode fumar.

se você cansasse. sem parede nua para se encostar.quer ir para Minas. para onde? . a valsa vienense.. se você morresse. sem teogonia. se você dormisse. Mas você não morre. José.. sem cavalo preto que fuja do galope. e agora? Se você gritasse.. você é duro. Minas não há mais. você marcha. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato. José! José. se você tocasse. se você gemesse.

Eu vi a lagoa. A lagoa. A lagoa é grande E calma também. .Lagoa Eu não vi o mar. O mar não me importa. Eu vi a lagoa. sim.. Não sei se o mar é bonito. Na chuva de cores da tarde que explode a lagoa brilha a lagoa se pinta de todas as cores. Eu não vi o mar. não sei se ele é bravo..

Os meninos seguem para a escola.LANTERNA MÁGICA IV — ITABIRA Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê. . Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. Os ingleses compram a mina. Os homens olham para o chão.

A triste polução foi adiada. que nunca se devassam por mais que o desejo aguce a vista e o sangue implore uma visão de céu e terra encavalados. mina de ouro? Contenho respiração. Encontro. Dispara o coração no fim de longa espera ao rumor de saias lá em cima ai de mim. Saio rastejante olhos tortos pescoço dolorido.Le voyeur No úmido porão. lar de escorpiões. . Entro rastejante dobro o corpo em dois à procura da greta reveladora de não sei que mistério radioso ou sombrio só a homens ofertado em sigilo de quarto e noite alta. procura-se a greta entre as tábuas do soalho por onde se surpreenda a florescência do corpo das mulheres na sombra de vestido refolhados que cobrem até os pés a escultura cifrada. terra batida. Nada nada nada senão a sola negra dos sapatos tapando a greta do soalho.

é mesmo estar morto. O espírito é livre na prisão do corpo. . bem livre. Mas livre.Liberdade O pássaro é livre na prisão do ar.

Lição Tarde. . a vida me ensina esta lição discreta: a ode cristalina é a que se faz sem poeta.

notaram: Quanto dói uma paixão! Atirei um limão n'água. como faço todo ano. Os peixinhos repetiram: é dor de quem muito amou. Senti que os peixes diziam: Todo amor vive de engano. Atirei um limão n'água mas perdi a direção Os peixes. Atirei um limão n'água. Em coro os peixes disseram: Joga fora teu ciúme. Atirei um limão n'água. o rio ficou vermelho e cada peixinho viu meu coração num espelho.Lira do amor romântico Atirei um limão n'água e fiquei vendo na margem. Ouvi um peixe dizer: Melhor é o beijo roubado. Cada peixinho assustado me lembra o que já sofri. ele afundou um barquinho. Atirei um limão n'água. . rindo. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem. Atirei um limão n'água e caiu enviesado. Não se espantaram os peixes: faltava-me o teu carinho. como um vidro de perfume. Atirei um limão n'água mas depois me arrependi. o rio logo amargou. Atirei um limão n'água.

Iria viver com os peixes a minh'alma dolorida. Atirei um limão n'água. Atirei um limão n'água.Atirei um limão n'água. Até os peixes já sabem: Você não ama: tortura. antes não tivesse feito. pedindo à água que o arraste. Atirei um limão n'água. Bem me avisou um peixinho: Fui passado para trás. tu me terás esquecido? Atirei um limão n'água. fez-se logo um burburinho. de clara ficou escura. Até os peixes choraram porque tu me abandonaste. de tão baixo ele boiou. caiu certeiro: zás-trás. Atirei um limão n'água. Nenhum peixe me avisou da pedra no meu caminho. Os peixinhos me acusaram de amar com falta de jeito. Comenta o peixe mais velho: Infeliz quem não amou. deixa disso. Atirei um limão n'água . Atirei um limão n'água. Foi tamanho o rebuliço que os peixinhos protestaram: Se é amor. não fez o menor ruído. antes atirasse a vida. Atirei um limão n'água. Se os peixes nada disseram. Atirei um limão n'água.

e caí n'água também pois os peixes me avisaram, que lá estava meu bem. Atirei um limão n'água, foi levado na corrente. Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente.

Mãe sem dia
As mães que já o eram antes de ser instituído o Dia das Mães não se importam muito com ele, e até dispensam homenagens sob esse pretexto. Mas as que cumpriram a maternidade após a sua criação, pensam de outro modo, e amam a data. Edwiges, mãe recente, com filho de ano e meio de idade, não tinha quem celebrasse o seu Dia, pois a criança estava longe de poder fazê-lo. Comprar para si mesma um presente não tinha graça, e além do mais não havia dinheiro para isso. Aderir à festa das outras mães, que tinham filhos grandes e recebiam homenagens, era como furtar alguma coisa, o que repugnava a Edwiges. Adormeceu e teve um sonho. O filho crescia velozmente diante de seus olhos e, chegando aos 18 anos, levava para ela o mais lindo ramo de crisandálias e pequeno estojo de veludo. Abriu-o com sofreguidão e deparou com uma aliança em que estava gravado um nome diferente do seu. Notando-lhe a surpresa, o filho pediu desculpas. O anel era para a namorada, só as flores lhe pertenciam. E saiu correndo com o estojo e o anel para entregá-los à moça. Mãe solteira, Edwiges ficou com as crisandálias o tempo daquele sonho. Seu Dia das Mães consistiu em lembrar o sonho. In "Contos Plausíveis"

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Memória

Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Meninos Suicidas

Um acabar seco, sem eco, de papel rasgado (nem sequer escrito): assim nos deixaram antes que pudéssemos decifrá-los, ao menos, ao menos isso, já não digo... amá-los. Assim nos deixaram e se deixaram ir sem confiar-nos um traço retorcido ou reto de passagem: pisando sem pés em chão de fumo, rindo talvez de sua esbatida miragem. Não se feriram no próprio corpo, mas neste em que sobrevivemos. Em nosso peito as punhaladas sem marca - sem sangue - até sem dor contam que nós é que morremos e são eles que nos mataram. (in As Impurezas do Branco)

Memória
Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Mimosa boca errante
Mimosa boca errante à superfície até achar o ponto em que te apraz colher o fruto em fogo que não será comido mas fruído até se lhe esgotar o sumo cálido e ele deixar-te, ou o deixares, flácido, mas rorejando a baba de delícias que fruto e boca se permitem, dádiva. Boca mimosa e sábia, impaciente de sugar e clausurar inteiro, em ti, o talo rígido mas varado de gozo ao confinar-se no limitado espaço que ofereces a seu volume e jato apaixonados, como podes tornar-te, assim aberta, recurvo céu infindo e sepultura? Mimosa boca e santa, que devagar vais desfolhando a líquida espuma do prazer em rito mudo, lenta-lambente-lambilusamente ligada à forma ereta qual se fossem a boca o próprio fruto, e o fruto a boca, já chega, chega, chega de beber-me, de matar-me, e, na morte, de viver-me. Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Há no país uma legenda. e seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade. que barulho nada resolve. Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom pra gente ruim. E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo. suas garrafas. morador na Rua Namur. empregado no entreposto. . Meu leiteiro tão sutil. que ladrão se mata com tiro. depositemos o litro. sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. Sua lata. é preciso entregá-lo cedo. E já que tem pressa. o corpo vai deixando à beira das casas uma apenas mercadoria. de passo maneiro e leve.. peguemos o corredor. avancemos por esse beco. Sem fazer barulho.Morte do Leiteiro Há pouco leite no país. é preciso entregá-lo cedo. é claro. com 21 anos de idade. Na mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro. Há muita sede no país..

duas cores se procuram. A noite geral prossegue. cão latindo por princípio. mal redimidos da noite. Se era noivo. Mas o homem perdeu o sono e todo.. sangue. Da garrafa estilhaçada. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. O revólver da gaveta saltou para sua mão. se era alegre. . não sei. não sei. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado. vaso de flor no caminho. Quem quiser que chame médico. resmunga e torna a dormir. mas o leiteiro estatelado. Está salva a propriedade. amorosamente se enlaçam. matei um inocente. se era bom. e foge pra rua. Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro). Meu Deus.. a manhã custa a chegar. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite. ou um gato quizilento. suavemente se tocam. não quis saber de mais nada. Ladrão? se pega com tiro. ao relento. se era virgem. Por entre objetos confusos.antes desliza que marcha. polícia não bota a mão neste filho de meu pai. E há sempre um senhor que acorda. é tarde para saber. formando um terceiro tom a que chamamos aurora. perdeu a pressa que tinha.

imprescritíveis. os mortos que andam! Que nos seguem os passos e não falam. Acompanham. Não nos fitam. não nos cobram nada. . Aparecem no bar. na biblioteca. E não falam. fiscalizam nosso caminho e jeito de caminhar. não nos interrogam. nos cercam. no teatro.Mortos que andam Meu Deus. nossa incômoda sensação de estar vivos e sentir que nos seguem.

provocante. O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que o leva. Não é nudez datada. Seios. nádegas (tácito armistício) repousam de guerra. dando este nome à vida: castidade. . inocência de irmã e copo d’água. Também eu repouso.Mulher andando nua pela casa Mulher andando nua pela casa envolve a gente de tamanha paz. É um andar vestida de nudez. Pêlos que fascinavam não perturbam. Transitam curvas em estado de pureza.

Nele não cabem nem as minhas dores. amontoar tudo isso num só peito de homem. Os homens estão cá fora. Por isso me dispo. sabes como é difícil sofrer tudo isso. estão na rua. muito maior do que eu esperava. Maior. as diferentes dores dos homens. Sim. Só agora vejo que nele não cabem os homens. A rua é menor que o mundo.. Conheces os navios que levam petróleo e livros carne e algodão. Escuta a água nos vidros. Mas também a rua não cabe todos os homens.Mundo Grande Não. Viste as diferentes cores dos homens. meu coração é muito pequeno. Fecha os olhos e esquece.. por isso freqüento os jornais. sem que ele estale. . A rua é enorme. Tu sabes como é grande o mundo. O mundo é grande. meu coração não é maior que o mundo. Por isso me grito. Por isso gosto tanto de me contar. É muito menor. me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos.

ridículo e frágil é meu coração. o grande mundo está crescendo todos os dias. fáceis de habitar. Estúpido. só agora descubro como é triste ignorar certas coisas. tão calma! vai inundando tudo. Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos – voltarão? Meu coração não sabe.. ilhas sem problemas.tão calma. Não anuncia nada. os poemas. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam. Meus amigos foram às ilhas. Ilhas perdem o homem. entre o fogo e o amor.. Outrora viajei países imaginários. Entretanto escorre nas mãos. Nunca escutei voz de gente. as sonatas. não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.) Outrora escutei os anjos. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo. Em verdade sou muito pobre. . as confissões patéticas.

entre a vida e o fogo.Então. meu coração cresce dez metros e explode. meu coração também pode crescer. – Ó vida futura! nós te criaremos. Entre o amor e o fogo. .

Não tem namorado quem transa sem carinho. mesmo. show do Milton Nascimento. quindim. Paquera. Quem não tem namorado não e quem não tem humor: e quem não sabe o gosto de namorar. nuvem. tapete magico ou foguete interplanetário. sanduíche de padaria ou drible no trabalho. ruas de sonhos ou musical da Metro. caso. beira d'agua. cavalo alado. Namorado e a mais difícil das conquistas. Se você tem três pretendentes. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques. um envolvimento e dois amantes. bosques enluarados. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. brisa ou filosofia.Namorado Quem não tem namorado e alguém que tirou ferias não remuneradas de sim mesmo. A proteção dele não precisa ser parruda. fazer cesta abraçado. Necessita de adivinhação. Difícil porque namorado de verdade e muito raro. Não . de carinho escondido na hora em que se passa o filme. Não tem namorado não e quem não sabe o gosto da chuva. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas. quem não recorta artigos. de pel. abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado. fliperamas. de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metro. fazer compra junto. quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. sua frio e quase desmaia pedindo proteção. nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele. escondida. de saliva. medo do pai. Namorado não precisa ser o mais bonito. de flor catada no muro e entregue de repente. Namorar e fazer pactos com felicidade ainda que rápida. envolvimento. gabiru. bonde. Mas namorado. fugidia ou impossível de durar. Não tem namorado quem não tem musica secreta com ele. nuvem. de poesia de Fernando Pessoa. Vinicius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar. lagrima. cinema sessão das duas. mesmo assim pode não ter namorado. flerte. de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor. decidida ou bandoleira: basta olhar de compreensão ou mesmo de aflição. e difícil. ate paixão e fácil. mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme. dois paqueras. quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. transa. quem não dedica livros.

De alma escovada e coração estouvado. não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana. se você não tem namorado e porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.tem namorado quem ama sem gostar. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. . saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas. cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. quem curte sem aprofundar. quem vive cheio de obrigações. Não tem namorado quem ama sem se dedicar. aquela de chita. Não tem namorado quem fala sozinho. quem gosta sem curtir. quem namora sem brincar. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. que faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. e passeie e mãos dadas com o ar. Se você não tem namorado porque descobriu que o amor e alegre e você vive passando duzentos quilos de grilos e de medo. na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. ponha a saia mais leve.

Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te. Se em tempo não ousei. universal poema. e eu covarde a esperar que limpasses toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala. para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante. . renascida.Não quero ser o último a comer-te Não quero ser o último a comer-te. agora é tarde. de desejar-te tanto e sem alarde. e chegasses. fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos. intacta.

que eu sinta. passa realemente. Mentira.a tua mão. nossas mãosrugosas. Nada. têm o antigo calor de quando éramos vivos. ninguém foi infeliz. A mão.Não Passou Passou? Minúsculas eternidades deglutidas por mínimos relógios ressoam na mente cavernosa. Não. estarmos sós. É tudo ilusão de ter passado. . ninguém morreu. Éramos? Hoje somos mais vivos do que nunca.

barulho que ninguém sabe de quê. Você é a palmeira. depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. oh não se mate. reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão. meu filho. a noite passou em você. lá dentro um barulho inefável. você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. Entretanto você caminha melancólico e vertical. mas não diga nada a ninguém. Carlos. Não se mate. e os recalques se sublimando. anúncios do melhor sabão. amanhã não beija.Não se mate Carlos. o amor é isso que você está vendo: hoje beija. Carlos. sossegue. santos que se persignam. rezas. você telúrico. . Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. é sempre triste. ninguém sabe nem saberá. não. O amor. vitrolas. O amor no escuro. no claro. se é que virão. pra quê.

sem tripas. Do meu quarto ouço a fuzilaria. os seus dentes de ouro não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados competentemente (paixões de primeira e segunda classe). tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. Que grandes corações eles possuíam. Oh quanta matéria para os jornais. tu ficas. Pum pum pum adeus. Desiludidos mas fotografados. Vísceras imensas. violento. enjoada. mas nos veremos seja no claro céu ou turvo inferno.Necrológio dos desiludidos do amor Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. Única fortuna. Os desiludidos seguem iludidos. escreveram cartas explicativas. Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram. sem amor. Eu vou. . As amadas torcem-se de gozo. sem coração. tomaram todas as providências para o remorso das amadas. sobre a tumba deles.

se ponho e tiro a mão em concha . . Que tanto mais a quero. se me firo em unhas protestantes.é ainda o que prefiro. A ela. já me estiro. meu mais íntimo suspiro. me confiro. pois tanto mais a apalpo quanto a miro. me penso. no seu giro lento. esse retiro No corpo feminino.a doce bunda . iluminando o gozo. sábio papiro. ou se. esse retiro . violento. qual lampiro. me restauro. dessedentado.a mão. o sentimento da morte eis que o adquiro: de rola.No corpo feminino. Então.. e respiro a brisa dos planetas. a bunda torna-se vampiro..

. Tu a levaste contigo.No mármore de tua bunda No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio. Agora que nos separamos. minha morte já não me pertence.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.No Meio do Caminho No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no mei do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. .

Os movimentos vivos no pretérito enroscam-se nos fios que me falam de perdidos arquejos renascentes em beijos que da boca deslizavam para o abismo de flores e resinas. num clarão. . cobrinhas passionais.No pequeno museu sentimental No pequeno museu sentimental os fios de cabelo religados por laços mínimos de fita são tudo que dos montes hoje resta. Vou beijando a memória desses beijos. Apalpo. junto do espelho que com elas rimava. montes de Vênus. acaricio a flora negra. anéis negros. visitados por mim. e negra continua. apascentava caracóis perfumados. nesse branco total do tempo extinto em que eu. pastor falante.

Esta. a abertura forrada de metal e coberta por uma tampa móvel.. Mexia. que atende à sua requisição. olhando os pés estendidos. Os bichos de cristal na mesinha da sala de estar tentavam a mão viageira. lanchar. Alguém abre. . Nem tudo são flores. esta bananinha. pensativos. . tocando. mas tanto. desencadeando o necessário e aflitivo rumor. Catarina teimou.Também. Descobre na porta. Muito mexedeira. .Que Catarina? ... franqueia-se o recinto. igualzinha a você. mimada. Para o resto da vida. Na parede. . no espaço entre as duas residências.Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina. Em vão. Os dedos sacodem a tampa.Gosto desta casa! Gosto de você! Não é gulodice nem interesse mesquinho.Que é que você vai me dar? .Não mexa nos bichinhos. despenteada. praticar pequenos atos domésticos.Nossa amiga Não é bastante alta para chegar ao botão da campainha. ar extremamente maduro das meninas de três anos. se é que não a retificou para os dicionários do futuro. Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e frágeis se desfariam. Entra uma coisinha morena. . Com pouco. para frustrar certa depredação iminente. O peixeiro presta-lhe esse serviço. Entre os mitos do mundo (entre os seres reais?) existe mais um. perguntam de dentro: . .Gosto da outra.. .Não mexa.. mexeu e quebrou o cachorrinho. tornar a entrar minutos depois. Catarina foi inventada à pressa. de mão na boca. alado. tornar a sair. a mãe não queria que ela brincasse. já disse. Há Catarina e Pepino. às vezes descalça.Uma menina de sua idade. pousara uma bruxa. de castigo.E a outra de onde você veio? . Quando não é algum transeunte austero.De qual você gosta mais? . Abre que eu quero entrar.Quantas casas você tem? . Catarina virou aquela bruxinha preta. dissolveu a noção de residência. enquanto alguém lhe acarinha os cabelos. de matéria idêntica: por ali entram as cartas. .. A bruxa está presa tanto na parede como nos olhos fixos. grandes. A mão imobiliza-se. a seu alcance. preta.Qual é a sua casa? .. talvez até mais bonita. crepuscular. Ante a intimação peremptória. . horrorosa. sair. Então. tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro.Nada. Esquece a merenda para ficar na sala. Será antes prazer de sentir-se cortejada. a solução já não lhe satisfaz. . rebelde e decaído. dormir na primeira poltrona. . Antes de abrir. senador ou ministro do Supremo.. . às vezes comendo pão com cocada. mas sempre séria. À força de entrar. esquecida. .É Luci Machado da Silva.Quem está aí? Ë de paz ou de guerra? De fora respondem: .Esta e aquela.Tem aqui esta pessegada.Foi a garota que pediu para chamar.

saem da mesma boca inexperiente.geralmente à tarde.E Pepino? . . jamais localizada ou realizada. esse galope de formas . E resta saber se o enganado não será o adulto. pedrinha. Você vai me levar. penteada. O objeto que serve de filho é embalado com seriedade. . e com uns panos velhos. Maria Helena.Então vou dar no meu também. seu filhinho como vai? . mas que opera interiormente sua fascinação. Lourdes.Pepino não pega ninguém. não toma parte. Heloísa. o brinquedo personalíssimo com o primeiro encontro do dia .Tá com dedo machucado e dodói na barriga.Vou na festa. se não a constituem. e o seu? . a galinha que salta do carrinho de feira . tirada em partes iguais da vida e do sonho. . .a rua é o espaço entre as duas quadras.Eu não vou na festa. A merenda. é necessário que se anuncie sempre uma festa. que sugere terrores ou recompensas fantasiosas. se acaso um intruso vem surpreender a criação. Com a zanga. você não tem medo do Pepino? . . quando chega em casa: . repleto de surpresas .Vou embora para minha casa.Mas você mora tão pertinho. . calçada. curvado. Você. a conversa grave com pessoas grandes. . estranhamente preferidas a quaisquer outras. Perguntas e respostas. João e Adão. Bárbara. . como é uma boba. desaparece o temor. Da varanda. Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho. . Nas campinas da imaginação. . Circula na rua . recolhidas em conversas de adulto. ante os soldados de Herodes. a porta fecha-se com estrondo. vestido limpo. para dizer à mãe. A doença existe.Pepino tem existência mais positiva. Alice. Vem bêbado. Eu sei. Seria realmente temor? Gosta de ser acompanhada. representa para si só a imemorial história das mães. Volta meia hora depois.Comadre.Espere aí.será a verdade? Senta-se no corredor. expondo em frases incoerentes seus problemas íntimos. Careca. Pegador de crianças.. Vai tomar injeção. .fazem esquecer a festa.Pois eu vou dar uma festa para as crianças desta rua e convido Pepino. Mas tudo se desfaz. Você vai ver se ele pega. .Você é quem perde.Não.Espia minha roupa nova. e que os prolonga. existem os sustos maternais. Pepino vai dançar para as crianças. qualquer elemento poetizável. ainda se vê o pequeno vulto desgrenhado. lápis vermelho. Vem Elzinha. Estou zangada com você.. .Tá bom.Mas que beleza! Onde você vai? . Meu sapato branco. Não há pressa em ir para ela. Nesinha.Espia quem me trouxe.um carretel. Para tomar banho e trocar de vestido. comadre. Ele é camarada. sim. Edison. .Pega.Até logo! Sai voando.

apenas querem explodir.Nosso tempo Este é tempo de partido. flores? . precária síntese. espero. enérgicas. II Este é o tempo de divisas. comprimidas há tanto tempo. obscenos gestos avulsos. Meu nome é tumulto. Fogo. As leis não bastam. As coisas talvez melhorem. Símbolos obscuros se multiplicam. E o vestido vermelho vermelho cobre a nudez do amor. Os lírios não nascem da lei. perderam o sentido. tempo de homens partidos. Sapatos. e escreve-se na pedra. são roucas e duras. Calo-me. Visito os fatos. Mudou-se a rua da infância. decifro. Tenho palavras em mim buscando canal. penhor de meu sono. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. luz dormindo acesa na varanda? Miúdas certezas de empréstimo. Guerra. De mãos viajando sem braços. no vale. Os homens pedem carne. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. tempo de gente cortada. ao relento. viajamos e nos colorimos. não te encontro. nenhum beijo sobe ao ombro para contar-me a cidade dos homens completos. Em vão percorremos volumes. Onde te ocultas. irritadas. verdade.

a sala grande conduz a quartos terríveis. solidão e asco. nostálgicas de bailado.Dos laboratórios platônicos mobilizados vem um sopro que cresta as faces e dissipa. Tudo tão difícil depois que vos calastes . e o ar da noite é o estritamente necessário para continuar. o ofego. à água que goteja e segreda o incenso. lanternas. como o do enterro que não foi feito. parelhos de porcelana partidos. Certas partes de nós como brilham! São unhas. . ó surdo-mudo. abre-te e conta. do corpo esquecido da mesa. conduz às celas fechadas. que contêm: papeis? crimes? moedas? Ó conta. na praia. as palavras. animais caçados. colchetes no chão da costureira. a pulsação. depositário de meus desfalecimentos. contai. Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas. ossos na rua. pela esquerda sobe-se. conta. conduz à copa de frutas ácidas. Certas histórias não se perderam. velhos selos do imperador. luto no braço. capa de poeira dos pianos desmantelados.. contai. pérolas. baratas dos arquivos. Conheço bem esta casa. pombas. É tempo de muletas. e continuamos. ó jornalista. E muitos de vós nunca se abriram. cigarros. A escuridão estende-se mas não elimina o sucedâneo da estrela nas mãos. são partes mais íntimas. mas ainda é tempo de viver e contar. conta. pela direita entra-se. portas rangentes. moça presa na memória. velho aleijado. velha preta. fragmentos de jornal. a benção.. III E continuemos. a partida. cães errantes. ao claro jardim central. poeta. pessoas e coisas enigmáticas. pequeno historiador urbano. anéis.

toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem. no gozo. irrisão e três colarinhos sujos. O espião janta conosco. apenas um muro. As bocas sugam um rio de carne. V Escuta a hora formidável do almoço na cidade. por trás da brisa do sul. Os escritórios. de céu neutro. . legumes e tortas vitaminosas. gim com água tônica. Tempo de cinco sentidos num só. de boca gelada e murmúrio. é tempo de comida. aviso na esquina. olhos pintados. Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos! Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa. No céu da propaganda aves anunciam a glória. palavra indireta. num passe. alimenta-se. mais tarde será o de amor. no santo. A isso chamamos: balanço. No beco. cólera branda. vem da areia. forma indecisa. olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso. O esplêndido negócio insinua-se no tráfego. Multidões que o cruzam não veêm. Escuta a hora espandongada de volta. mão de papel. Come. dentes de vidro. No quarto. evoluem. grotesca língua torcida. braço mecânico. Lentamente os escritórios se recuperam. política na maçã. no telefone. sobre ele a polícia. esvaziam-se. na batalha de aviões.IV É tempo de silêncio. É tempo de cortinas pardas. amor e desamor. e os negócios. É sem cor e sem cheiro. Está dissimulado no bonde.

uma faca. e a cama devora tua solidão. homem. e se quedam mudos. Imaginam esperar qualquer coisa. passeeando de bote num sinistro crepúsculo de sábado. homem. refluir. a constelação das formigas e usurários. Escuta a pequena hora noturna de comprensação. escuta o corpo ranger. a falsificação das palavras pingando nos jornais. entre muros apagados. VI Nos porões da família. sentam-se. roupa. escoam-se passo a passo. reforçam-se. A mesa reúne um copo. Crianças alérgicas trocam-se. roupa. enlaçar. mulher.Homem depois de homem. Salva-se a honra . orquídeas e opções de compra e desquite. leituras. Contam-se histórias por correspondência. o corpo ao lado do corpo. já noite. Há uma implacável guerra às baratas. o mau romance. roupa. cigarro. numa suposta cidade. sob eles soterrados sem dor. homem. últimos servos do negócio. errar em objetos remotos e. imaginam. afinal distendido. homem. imaginam voltar para casa. criança. chapéu. a má poesia. confiar-se ao que bem me importa do sono. de mortal feiúra. com as calças despido o incômodo pensamento de escravo. os bancos triturando suavemente o pescoço do açucar. passeio na praia. os frágeis que se entregam à proteção do basilisco. homem. roupa. mulher. A gravidez elétrica já não traz delíquios. o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores. mulher. o homem feio. apelo ao cassino. roupa. Escuta o horrível emprego do dia em todos os países de fala humana.

e a herança do gado. o milho ondulante. do Estado. há bálsamos para cada hora e dor. e é o mesmo. Há fortes bálsamos. nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos. dores de classe. não obstante doem. Há o pranto no teatro. ira. meu olho que ri e despreza. VI Ou não se salva. reprovação. uma floresta. VIII O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. vai minar nos armazéns. recalcados dores ignóbeis. no placo? no público? nas poltronas? há sobretudo o pranto no teatro. de sangrenta fúria e plácido rosto. Há soluções. na roça madura. melancolias insubordináveis. e secar ao sol. da rua lodosa. que polui a essência mesma dos diamantes. um verme. minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado. desgosto desse chapéu velho. já tarde. E há mínimos bálsamos. E dentro do pranto minha face trocista. intuições. se engolfa no linóleo. vai molhar. ele embacia as luzes. em poça amarga. lesões que nenhum governo autoriza. . já confuso. símbolos e outras armas promete ajudar a destruí-lo como uma pedreira.

Canta uma cigarra que ninguém ouve um hino que ninguém aplaude. Canta. O poeta está melancólico. Discursos. O poeta toma um auto. Bravos..Nota Social O poeta chega na estação. . O poeta entra no elevador O poeta sobe O poeta fecha-se no quarto. árvore banal. no sol danado. prisioneira de anúncios coloridos. Automóveis imóveis. Povo de chapéu de palha. Máquinas fotográficas assestadas. Foguetes. árvore que ninguém vê canta uma cigarra. O poeta vai para o hotel. Bandas de música.. Bandeirolas abrem alas. O poeta desembarca. uma ovação o persegue feito vaia. O poeta está melancólico. Numa árvore do passeio público (melhoramento da atual administração) árvore gorda. E enquanto ele faz isso como qualquer homem da terra.

quando tive. se risse. tão estranho. tais meus pecados. estanho e cobre. e não se extingue? (Não cantarei o mar: que ele se vingue de meu silêncio. Estanho. Minha matéria é o nada. sobre a relva debruçado. é porque a brisa o trouxe.Nudez Não cantarei amores que não tenho. não mais visando . e vago. Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite. pois não sei. em serpes irritadas vejo as duas. e o leva a brisa. aos quatro ventos. nem sabe a planta o vento que a visita. nesta concha. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada. agora. Nem era dor aquilo que doía: ou dói. e o que não é maleável deixa de ser nobre. e. que. e toda sílaba acaso reunida a sua irmã. minha vida passarei. a ver a linha curva que se estende. e já prospera cavando em nós a terra necessária para se sepultar à moda austera de quem vive sua morte? Não cantarei o morto: é o próprio canto. ou se contrai e atrai. nunca celebrei. além da pobre área de luz de nossa geometria. nem era amor aquilo que se amava. ajusta em mim seu terno de lamentos. o ouro suposto é nele cobre e estanho. E já não sei do espanto. quanto mais fugi do que enfim capturei. da úmida assombração que vem do norte e vai do sul. ofertaria a pobres. mas tão disperso. Não cantarei o riso que não rira e que. estanho e cobre. Amador de serpentes. e.) Que sentimento vive. quando já se foi? Que dor se sabe dor. quatro. Não canto. se regressa a mim que o apascentava.

O golfo mais dourado me circunda com apenas cerrar-se uma janela. sublimes ossuários sem ossos. no meu silêncio. a modelar campinas no vazio da alma. numa casta expressão de temor que se despede. essa nudez. (in A Vida Passada a Limpo) . a perfeita anulação do tempo em tempos vários. enfim. E dou notícia estrita do que dorme. além dos corpos. E já não brinco a luz. e se dissolve. a morte sem os mortos. repleto. Ó descobrimento retardado pela força de ver. Ó encontro de mim. que é apenas alma. sob placa de estanho.aos alvos imortais. um lembrar de raízes. configurado. ainda menos um calar de serenos desidratados. sonho informe.

mas pobre de esperança. Ele venceu a dor. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. tanto mais velho quanto mais amor. mas do destino vão nega a sentença. e resplandece no seu canto obscuro. Nada espera. feitas de sofrimento e de beleza. Nada exige nem pede. Mais triste? Não. . Mais ardente. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante.O Amor Antigo O amor antigo vive de si mesmo não de cultivo alheio ou de presença. Por aquelas mergulha no infinito. e por estas suplanta a natureza. porém. O amor antigo tem raízes fundas. o antigo amor.

Amor é bicho instruído. tira os óculos dos homens. Olha: o amor pulou o muro o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar. Cardíaco e melancólico. Essa ferida. Meu bem. Pronto.O Amor Bate na Aorta Cantiga de amor sem eira nem beira. o amor ronca na horta entre pés de laranjeira entre uvas meio verdes e desejos já maduros. O amor bate na porta o amor bate na aorta. Daqui estou vendo o amor . seja como for. às vezes não sara nunca às vezes sara amanhã. o amor. não te atormentes. é o amor. Certos ácidos adoçam a boca murcha dos velhos e quando os dentes não mordem e quando os braços não prendem o amor faz uma cócega o amor desenha uma curva propõe uma geometria. o amor se estrepou. meu amor. não chores. meu bem. fui abrir e me constipei. suspende a saia das mulheres. Daqui estou vendo o sangue que corre do corpo andrógino. vira o mundo de cabeça para baixo. Entre uvas meio verdes. hoje tem filme de Carlito.

. Vejo muitas outras coisas que não ouso compreender..irritado. . mas também vejo outras coisas: vejo beijos que se beijam ouço mãos que se conversam e que viajam sem mapa. desapontado.

Embora sepultos. também as mesmas. E será sempre assim daqui por diante. As ruas. O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer. continua incessantemente. mastigo o pão do ano passado. Escuto os medos. com iguais gestos e falas. Não consigo evacuar o ano passado . Em vão marco novos encontros. de descambar como no repetidíssimo ano passado. e as pessoas. de sol pleno. conto as libélulas.O ano passado O ano passado não passou. Todos são encontros passados. sempre do ano passado. os mortos do ano passado sepultam-se todos os dias.

Que quer o homem? salvar-se. Que quer a paixão? detê-lo. delir memória de vida e quanto seja memória. Que quer o ouvido? Embeber-se de gritos blasfematórios até que dar aturdido. .O Arco Que quer o anjo? Chamá-la O que quer a alma? perder-se Perder-se em rudes guianas para jamais encontrar-se Que quer a voz? encantá-lo. Que quer o corpo? solver-se. Que quer o peito? fechar-se contra os poderes do mundo para na treva fundir-se. Que quer a canção? erguer-se em arco sobre os abismos. ao permeio de uma canção. Que quer a nuvem? raptá-lo.

ó solidão do homem na rua! Entre carros.O BOI Ó solidão do boi no campo. . O boi é só. Ó solidão do boi no campo. o ermo profundo. ó milhões sofrendo sem praga! Se há noite ou sol.. telefones. Mas o tempo é firme. é indiferente. Ó solidão do boi no campo. homens torcendo-se calados! A cidade é inexplicável e as casas não têm sentido algum. Ó solidão do boi no campo! O navio-fantasma passa em silêncio na rua cheia. Se uma tempestade de amor caísse! As mãos unidas. entre gritos.. a escuridão rompe com o dia. trens. No campo imenso a torre de petróleo. a vida salva.

Sobre tapete ou duro piso.O chão é cama O chão é cama para o amor urgente. . E para repousar do amor. amor que não espera ir para a cama. a gente compõe de corpo e corpo a húmida trama. vamos à cama.

afirmo a propriedade. sou mais forte do que a desirmandade. Quando digo “meu Deus”. choro minha ansiedade.O Deus de cada homem Quando digo “meu Deus”. Não sei que fazer dele na microeternidade. grito minha orfandade. Há mil deuses pessoais em nichos da cidade. Quando digo “meu Deus”. Quando digo “meu Deus”. Mais fraco. crio cumplicidade. . O rei que me ofereço rouba-me a liberdade.

É sempre no meu trato o amplo distrato. Sempre na minha firma a antiga fúria. É sempre no meu não aquele trauma. E sempre no meu sempre a mesma ausência. é sempre no futuro aquele pânico. É sempre no meu tédio aquele aceno. Sempre no mesmo engano outro retrato. Sempre no meu amor a noite rompe. É sempre no meu sono aquela guerra. Sempre dentro de mim meu inimigo.O enterrado vivo É sempre no passado aquele orgasmo. É sempre nos meus lábios a estampilha. é sempre no presente aquele duplo. É sempre nos meus pulos o limite. . É sempre no meu peito aquela garra.

. quando for o caso. tramas. e até aplaudi-la. na Rua da Bahia. mais isso-e-aquilo. Hart. o miúdo. A espera na sala de espera. minha mocidade fecha com ele um pouco. por enquanto. sublime agora que para sempre submerge em funeral de sombras neste primeiro lutulento de janeiro de 1928. A divina orquestra. A matinê com Buck Jones. fora-de-moda Cinema Odeon. waldemarpissilândico.O fim das coisas Fechado o Cinema Odeon. mais americano. (Amadurecerei um dia?) Não aceito. Não é possível. costumeira. tombos. William S. Exijo em nome da lei ou fora da lei que se reabram as portas e volte o passado musical. Fechado para sempre. maior. A primeira sessão e a segunda sessão da noite. pobre sátiro em potencial. Quero é o derrotado Cinema Odeon. As meninas-de-família na platéia. tiros. O jornal da Fox. mesmo não divina. Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são. sendo de outrem. o Cinema Glória. A impossível (sonhada) bolinação.

O fim no começo A palavra cortada na primeira sílaba. O que jamais se esqueceria pois nem principiou a ser lembrado. . A vida não chega a ser breve. A consoante esvanecida sem que a língua atingisse o alvéolo. havia um campo? irremediavelmente murcho em sombra antes de imaginar-se a figura de um campo. O campo – havia.

Edifícios. incompleto.. Refugiamo-nos no amor. lentos poderes do Láudano. fazia frio em São Paulo. e calma. Tanto produz: carcereiros. Duros tijolos de medo. Vestimos panos de medo. De nos. De medo. Nos dissimula e nos berça. Ajudai-nos. Meu companheiro moreno. Tenhamos o maior pavor. Se transe e cala-se. receio De águas poluídas. soldado. Muletas Do homem só. Este célebre sentimento. Atingiremos o cimo De nossa cauta subida. fomes. Nosso caminho: traçado. Nevava. E o amor faltou: chovia. E fomos educados para o medo. escritores. Fazia frio em São Paulo. Nascemos no escuro. Susto na noite. repuxos. E com asas de prudência Com resplendores covardes. harmonia do medo. Cheiramos flores de medo. Outras vidas. O medo. com sua capa. O medo com sua física. Até a canção medrosa se parte. e de tudo. Vem ó terror das estradas. Carteiro. Doenças galopantes. Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos. as fábricas. Há as árvores. de vós. Ruas só de medo.. vermelhos rios Vadeamos. ditador. Medrosos caules. Este poema. Fiquei com medo de ti. Nosso destino. Por que morrer em conjunto? E se todos nós vivêssemos? Vem. Ventava. . As existências são poucas. Faremos casas de medo. Os mais velhos compreendem. Assim nos criam burgueses. Estou com medo da honra.O medo Em verdade temos medo.

Fiéis herdeiros do medo. Adeus: vamos para a frente. adeus.. o mundo. Estátuas sábias. Nossos filhos tão felizes.O medo cristalizou-os. Depois do mundo.. as estrelas. . Recuando de olhos acesos. Eles povoam a cidade. Depois da cidade. Dançando o baile do medo.

. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.O mundo é grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O novo Homem O Homem será feito em laboratório. fino cavalheiro em noventa idiomas. e do não objeto fará escultura. Será neoconcreto se houver censura. Chegará a Marte em seu cavalinho de ir a toda parte mesmo sem caminho. Ganhará dinheiro e muitos diplomas. Nele. Rirá como gente. O homem será feito em laboratório. Seja como for (até num bocejo) salta da retorta um senhor garoto. ternura ou desejo. Caçará narceja e bicho do mato. bem-posto: ." Quem já conheceu melhores produtos? A dor não preside sua gestação. tirará retrato com o maior capricho. Usará bermuda e gola 'roulée'. Seu nascer elide o sonho e a aflição. beberá cerveja deliciadamente. Jogará no bicho. eu? Nem nove minutos. tudo exato. muito mais perfeito do que no antigório. Queimará arruda indo ao canjerê. Nascerá bonito? Corpo bem talhado? Claro: não é mito. é planificado. Vai abrindo a porta com riso maroto: "Nove meses. medido. Será tão perfeito como no antigório. Dispensa-se amor.

Uma ficha impressa a todos atende.) Quer um sábio? Peça. o 'standard' do rosto Duzentos modelos. mãe: tubo de ensaio e. . feliz. Pai: macromolécula. papagaio. livre. desconhece a aliança de avô com seu neto. vence a lei do patriarca. 'per omnia secula'. sem memória e sexo. eis que o homem feito em laboratório sem qualquer defeito como no antigório. Quem comia doce já não come mais. todos atraentes. Ministro? Encomende.o justo formato. Sua independência é total: sem marca de família. acabou com o Homem Bem Feito. ao vê-los. Perdão: acabou-se a época dos pais. nossos descendentes. (Escolher. Não chame de filho este ser diverso que pisa o ladrilho de outro universo. Liberto da herança de sangue ou de afeto. por que não? pois rompeu o nexo da velha Criação.

e esse cavalo solto pela cama. sede tão vária. na quinta-essência da palavra.Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor que não se sabe como é feita: amor. corpo! corpo. e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar a nuvem que de ambígua se dilui nesse objeto mais vago do que nuvem e mais defeso.O quarto em desordem Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor. . corpo. verdade tão final. a passear o peito de quem ama.

Vê e reflecte o visto. a inaugurar-se todas as manhãs. E Alécio vai e vê o natural das coisas e das gentes. (Mas a melhor objectiva não serão os olhos líricos de Alécio?) Tudo se resume numa fonte e nas três menininhas peladas que a contemplam. soberba. há um mirante iluminado no olhar de Alécio e sua objectiva. o cão. conversas de café.. Ai.. Para elas. em sua novidade não sabida. Alécio. ver. o idílio jamais extinto sob as ideologias. risonha.da vida. imagem de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco para depositar-se numa folha sobre a pedra do cais ou para sorrir nas telas clássicas de museu que se sabem contempladas pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas. as crianças. hino matinal à criação e a continuação do mundo em esperança. a graça umbilical do nu feminino. o parque.e último .Vai. ou ainda para dispersar-se e concentrar-se no jogo eterno das crianças. o dia. e todos captem por seu olhar o sentimento das formas que é o sentimento primeiro . puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade. o traço da passagem das pessoas na rua.O que Alécio vê A voz lhe disse (uma secreta voz): . .

Natal. . As beatas foram ver. mas as filhas das beatas foram dançar black-bottom nos clubes sem presépio. Não tem neves.O que fizeram do Natal Natal. Natal. As beatas ajoelharam e adoraram o deus nuzinho mas as filhas das beatas e os namorados das filhas. Já nasceu o deus menino. O sino longe toca fino. não tem gelos. encontraram o coitadinho ( Natal) mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha alumiando.

americana fera exausta. dorme onça suçuarana. nirvana. fulva grinalda de tua vulva. encontrando o corpo e por ele navegando. . noutro mundo: paz de morto. Ai.O que se passa na cama (O que se passa na cama é segredo de quem ama. Dorme. atinge a paz de outro horto. menina. E silenciem os que amam. entre lençol e cortina ainda úmidos de sêmen. puma. cama canção de cuna.) É segredo de quem ama não conhecer pela rama gozo que seja profundo. sono do pénis. elaborado na terra e tão fora deste mundo que o corpo. dorme a última sirena ou a penúltima O pénis dorme. dorme cândida vagina. estes segredos de cama. dorme. nanana.

O que viveu meia hora (A paixão medida) Nascer para não viver só para ocupar estrito espaço numerado ao sol-e-chuva que meticulosamente vai delindo o número enquanto o nome vai-se autocorroendo na terra. . nos arquivos na mente volúvel ou cansada até que um dia trilhões de milénios antes do Juízo Final não reste em qualquer átomo nada de um hipótese de existência.

perfeição e exílio na Terra. bolha de sabão. Não a pronuncie. Não se inebrie com o seu engalanado som. . não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez.O seu santo nome Não facilite com a palavra amor. Não brinque. Não a jogue no espaço. não experimente. Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Paletós abotoam-se por eletricidade. Não precisa de estômago para a digestão. (Desconfio que escrevi um poema. Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos.O Sobrevivente a Cyro dos Anjos Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade Impossível escrever um poema . Mas até lá. Um sábio declarou que falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. felizmente. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.uma linha que seja . o mundo é cada vez mais habitado.) . Amor se faz pelo sem-fio. Se quer fumar um charuto quente aperte um botão. Os percevejos heróicos renascem. Inabitável.de verdadeira poesia O último trovador morreu em 1914 Tinha um nome que ninguém se lembra mais Há máquinas terrivelmente complicadas pra as necessidades mais simples. estarei morto.

Chegou um tempo em que não adianta morrer. A vida apenas. Pouco importa venha velhice. E nada esperas de teus amigos. as fomes. achando bárbaro o espetáculo. sem mistificação. Em vão mulheres batem à porta. prefeririam (os delicados) morrer. já não sabes sofrer. És todo certeza. E os olhos não choram. E o coração está seco. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. As guerras. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. a luz apagou-se. Alguns. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. Ficaste sozinho.Os ombros que suportam o Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. Tempo de absoluta depuração. . não abrirás. que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

pois só quem ama escutou o apelo da eternidade.O tempo passa? Não passa O tempo passa? Não passa no abismo do coração. não tem idade. O meu tempo e o teu. florindo em canção. e o teu aniversário é um nascer a toda hora. E nosso amor. nos reduz a um só verso e uma rima de mãos e olhos. amada. que brotou do tempo. perdura a graça do amor. . na luz. não há nada. Não há tempo consumido nem tempo a economizar. O tempo nos aproxima cada vez mais. amar é o sumo da vida. O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar. Além do amor. transcendem qualquer medida. São mitos de calendário tanto o ontem como o agora. Lá dentro.

E eu queria tão pouco desses peitos. . agora te recolhes aos selados desertos da virtude carcomida. de saída. que me negas favores dispensados em rubros tempos. sublime puta encanecida Ó tu. quando nossa vida eram vagina e fálus entrançados. agora que estás velha e teus pecados no rosto se revelam.Ó tu. e da mais breve fantasia. da garupa e da bunda que sorria em alva aparição no canto escuro Queria teus encantos já desfeitos re-sentir ao império do mais puro tesão. sublime puta encanecida.

há de sofrer. E que. Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir. ao mesmo tempo saiba ser. claro enigma. não desperte em ninguém nenhum prazer. . Eu quero pintar um soneto escuro. cão mijando no caos.Oficina irritada Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. no futuro. difícil de ler. no seu maligno ar imaturo. abafado. enquanto Arcturo. seco. Quero que meu soneto. não ser. se deixa surpreender. tendão de Vênus sob o pedicuro Ninguém o lembrará: tiro no muro.

esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád...Oh minha senhora ó minha senhora Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu .. não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh... ..

as colheitas. Hoje que é que pode? . os casamentos e até a hora de morrer. pairava certa graça no viver. o mundo era mais inteligível.Ordem Quando a folhinha de Mariana exata informativa santificada regulava o tempo.

da Serra do Alves Sangue seco nos dedos. Cumpriram.Os assassinos Os assassinos vêm de longe. . Estavam destinados a matar. Na escola eram diferentes. Júri mais concorrido do que missa. Os assassinos alçam a foice na curva da estrada. Mamaram leite turvo. Aterra decidiu que matassem. A gameleira conta o que viu e foi um brilho desabando na entranha do inimigo. na roupa o crime escrito. Vém do Onça. olhar duro. As namoradas estranhavam seus beijos sem doçura. das Baterias. do Periquito. sem discutir.

sem mistificação. achando bárbaro o espetáculo. Pouco importa venha velhice. E os olhos não choram. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Tempo de absoluta depuração. . prefeririam (os delicados) morrer. Porque o amor resultou inútil. As guerras. E o coração está seco. não abrirás. as fomes. já não sabes sofrer.Os Ombros Que Suportam O Mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. Chegou um tempo em que não adianta morrer. a luz apagou-se. Tempo em que não se diz mais: meu amor. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. Ficaste sozinho. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. E nada esperas de teus amigos. Em vão mulheres batem à porta. És todo certeza. Alguns. A vida apenas.

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços. Será de outro. Sua voz. Seus olhos infinitos. Sentir que a perdi. a minha alma não se contenta com tê-la perdido. A noite está estrelada e ela não está comigo. Ao longe. Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la. ao longe". e ela não está comigo. mas quanto a amei. Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. Ela me amou. e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo. Já não a amo. Ainda que esta seja a última dor que ela me causa. Ao longe alguém canta. Já não a amo. Meu coração a procura. Eu a amei. Como antes dos meus beijos. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. Posso escrever os versos mais tristes esta noite.Os vinte poemas Posso escrever os versos mais tristes esta noite. os astros. azuis. Isso é tudo. Nós. Como para aproximá-la o meu olhar a procura. e às vezes ela também me amou. Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido. É tão curto o amor. Ouvir a noite imensa. E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. e é tão longe o esquecimento. mas talvez a ame. é verdade. às vezes eu também a amava. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. De outro. Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços. O vento da noite gira no céu e canta. Minha alma não se contenta com tê-la perdido. seu corpo claro. mais imensa sem ela. é verdade. Pensar que não a tenho. por exemplo: "A noite está estrelada. os de então. Escrever. . e tiritam. já não somos os mesmos. A mesma noite qeu fez branquear as mesmas árvores.

Papai Noel às avessas Papai Noel entrou pela porta dos fundos ( no Brasil as chaminés não são praticáveis). Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos soldados mulheres elefantes navios e um presidente da república de celulóide. Longe um gato comunicou o nascimento de Cristo. Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo no interminável lenço vermelho de alcobaça. Fez a trouxa e deu o nó. Na horta. saiu pela porta dos fundos. mas apertou tanto que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto. entrou cauteloso que nem marido depois da farra. Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender. Papai Noel voltou de manso para a cozinha. Tateando na escuridão torceu o comutador e a electricidade bateu nas coisas resignadas. Os pequenos continuavam dormindo. achou um queijo e comeu. . Papai entrou compenetrado. Aquele quarto é o das crianças. o luar de Natal abençoava os legumes. apagou a luz. teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças ( no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada) e avançou pelo corredor branco de luar. Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos.

E tudo que descobri amei detestei: papel. . Papel quanto havia em mim e nos outros. papel de jornal de parede de embrulho papel de papel papelão.Papel E tudo que eu pensei e tudo que eu falei e tudo que me contaram era papel.

amor. eu me volto. Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo. Pobre carne senil. Quero sempre invadir essa vereda estreita onde o gozo maior me propicia a amada. de sémen aljofrando o irreparável ermo.o braseiro radiante que me dá. expirante. quem sabe? enregela-se o nervo. pelo orgasmo. a exploração acabe. a explicação do mundo. deliciosa. a minha se rebela ante a morte anunciada. Amor. esvai-se-me o prazer antes que. nunca mais. em ti me enredo e afundo.Para o sexo a expirar Para o sexo a expirar. amor . Amanhã. Raiz de minha vida. em plenitude o ser. Hoje mesmo. . e assim possa eu partir. vibrando insatisfeita.

Como dói a vida quando tira a veste de prata celeste. Como a vida é outra sempre outra. Como a vida é nuda. Como a vida é isto misturado àquilo. esse lobisomem. Como a vida é muda. Como a vida é forte em suas algemas. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo. mouca e no entanto chama a torrar-se em chama. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha.Parolagem da vida Como a vida muda. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. outra não a que é vivida. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca leva a sério o homem. Como a vida é nada. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. Como a vida é tudo. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida joga de paz e de guerra . Como a vida é louca estúpida.

Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi. vidamor! . E como se salva a uma só palavra escrita no sangue desde o nascimento: amor.povoando a terra de leis e fantasmas. Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida em flor e formiga em seixo rolado peito desolado coração amante.

Para Sempre Por que Deus permite que as mães vão se embora? Mãe não tem limite. é tempo sem hora. Mãe. na sua graça. água pura. Por que Deus se lembra .mistério profundo de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo. veludo escondido na pele enrugada. será pequenino feito grão de milho. luz que não se apaga quando sopra o vento e chuva desaba. é eternidade. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. baixava uma lei: Mãe não morre nunca. mãe ficará sempre junto de seu filho e ele. . ar puro. velho embora. puro pensamento.

que. tímido.Passatempo O verso não. verso. ou sim o verso? Eis-me perdido no universo do dizer. sabendo embora que o que lavra só encontra meia palavra. .

o substantivo. recolhendo O fubá. Ir de uma a outra. Minérios musicalizam-se em vogais. descansar de outra. Numa. o ferro.Patrimônio Duas riquezas: Minas e o vocábulo. o som. Pastor . Palavras assumem código mineral.

soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi. ficamos perto. Senhor. Ou desobedecem a vosso mando. assaltos. puro. bem brasileiro. e desespero rodando nas estradas entre esqueletos de animais. aquela coisa. e já! numa certeira ordem às nuvens. aquela que. chover a chuva boa. malcriado. Em Iguatu. o muro. mas sou vosso fã omisso. vamos papeando como dois camaradas bem legais. Baturité. tão vossa excelência? O você comunica muito mais e se agora o trato de você. com carinho botou em verso: “meu Jesus Cristinho”. rogo. o outro. quase que maldito mas amizade é isso mesmo: salta o vale. florindo e reflorindo. Desculpai vosso filho. ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra estorricada sempre amada. ao bode. Senhor. Tauá (vogais tão fortes não chegam até vós?) vede as espectrais procissões de braços estendidos. que é que há? Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena? E você me responde suavemente: Escute. um. Parambu. muitas e boas. as revoltosas? Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria. E mudo até o tratamento: por que vós. mas de qualquer modo sempre é uma lembrança. pecador. meu cronista e meu cristão: . à erva seca. tão gravata-e-colarinho.. Fazei chover. Comigo é na macia. Senhor. no veludo/lã e matreiro. não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) mas ao Deus que Bandeira.Prece do brasileiro Meu Deus.. que se veste de humildade e esperança e vos suplica: Olhai para o Nordeste onde há fome. Meu querido Jesus. o abismo do infinito. armazéns arrombados e – o que é pior – não tinham nada. Fazei. só me lembro de vós para pedir. sobressaltos.

E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia. confesso. O mesmo drama. Você. meu brasileiro. Meu coração. Disfarcei e sorri. 30-5-1970 . meu caro. meu velho. em riquezas. a ronha de Pelé. você lê os jornais. Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência. agora. tão roubada em seu sonho e seu ardor que nem sei como feche a minha crônica. Pois é. No entanto. toda vida. Fiquei calado. Tem a ONU. assim seja. a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país e uma bola no campo e uma taça de ouro. Eu ia lhe falar noutro caso. ó irmãozinho. que manda toneladas de pacotes à espera de haver fome. antes fechadas. você sabe.essa cantiga é antiga e de tão velha não entoa não. Dê um jeito. e faça que essa taça sem milagres ou com ele nos pertença para sempre. Escute aqui. minha primeira pátria (a segunda é a Bahia) desertos se transformam em jardins em pomares. vai ao cinema. até um livro de vez em quando lê se o Buzaid não criar problema: Em Israel. Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no mesmo palco. em fontes. tá no México batendo pelos músculos de Gérson. mais sério. a cuca de Zagalo.. Fiquei. muito encabulado. mas pedir. mais urgente.. a unha de Tostão. Do contrário ficará a Nação tão malincônica. pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo. não acha que já é tempo de aprender e de atender àquela brava gente fugindo à caridade de ocasião e ao vício de esperar tudo da oração? Jesus disse e sorriu. Vamos mudar de assunto.

é preciso pagar as dívidas. é preciso ler Baudelaire. é preciso não assassiná-los. É preciso salvar o país. É preciso estudar volapuque. . é preciso ter mãos pálidas e anunciar o FIM DO MUNDO. é preciso colher as flores de que rezam velhos autores. é preciso crer em Deus.Poema da Necessidade É preciso casar João. é preciso estar sempre bêbado. é preciso esquecer fulana. é preciso odiar Melquíades. é preciso suportar Antônio. É preciso viver com os homens. é preciso substituir nós todos. é preciso comprar um rádio.

. Mas uma luz que ninguém soube dizer de onde tinha vindo apareceu para clarear o mundo. As água ficaram tintas de um sangue que não descorava e os peixes todos morreram. e outro anjo pensou a ferida do anjo batalhador.Poema da Purificação Depois de tantos combates o anjo bom matou o anjo mau e jogou seu corpo no rio.

Poema de Sete Faces Quando nasci. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. Tem poucos . Quase não conversa. A tarde talvez fosse azul. não seria uma solução. O homem atrás do bigode é sério. seria uma rima. mais vasto é meu coração. Mundo mundo vasto mundom. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Meu Deus. raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai. pergunta meu coração. por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Para que tanta perna. Porém meus olhos não perguntam nada. meu Deus. . não houvesse tantos desejos. Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo. Carlos! ser gauche na vida. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. simples e forte.

Vem da sala de linotipos a doce música mecânica. A mulher ensangüentada grita. . A polícia dissolve o meeting. A pena escreve. O marido está matando a mulher. Ladrões arrombam o cofre.Poema do Jornal O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia.

Poema-orelha Esta é a orelha do livro por onde o poeta escuta se dele falam mal ou se o amam. A orelha pouco explica de cuidados terrenos. Aquilo que revelo e o mais que segue oculto em vítreos alçapões são notícias humanas. Nada vivido? Tudo. simples estar-no-mundo. mas de tal jeito urdidos o jogo e a confissão que nem distingo eu mesmo o vivido e o inventado. um não-estar-estando. que tudo é o vasto dia em seus compartimentos nem sempre respiráveis e todos habitados enfim. Uma orelha ou uma boca sequiosa de palavras? São oito livros velhos e mais um livro novo de um poeta ainda mais velho que a vida que viveu e contudo o provoca a viver sempre e nunca.) Não me leias se buscas flamante novidade ou sopro de Camões. e a poesia mais rica . e brincos de palavra. Oito livros que o tempo empurrou para longe de mim mais um livro sem tempo em que o poeta se contempla e se diz boa-tarde (ensaio de boa-noite. Tudo vivido? nada. variante de bom-dia.

é um sinal de menos. .

.Poema que aconteceu Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo. A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo mas é possível que se soubesse nem ligasse.

e o lamento imperceptível de alguém que perdeu no jogo enquanto a banda de música vai baixando. . é o homem que fechou a porta e se enforcou na cortina. o bispo com uma campainha e alguém abafando o rumor que salta de meu coração. Que barulho é esse na escada? É a virgem com um trombone. Que barulho é esse na escada? É a torneira pingando água. Que barulho é esse na escada? É Guiomar que tapou os olhos e se assoou com estrondo. a criança com um tambor. É a lua imóvel sobre os pratos e os metais que brilham na copa. baixando de tom.Poema Patético Que barulho é esse na escada? É o amor que está acabando.

Poesia Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. Ele está cá dentro e não quer sair. vivo. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. No entanto ele está cá dentro inquieto. .

Política Literária A Manuel Bandeira O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. . tira ouro do nariz. Enquanto isso o poeta federal.

é impedir que se formem." Dasdores multiplica-se. cães e pinheiros. pelos camelinhos. que é antes uma fazenda crescida. Nos pastores. Cabras passeiam nas ruas. e desembrulhá-las é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação do presépio. Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior. se o foi. velar pelos doces de calda. na Virgem e em São José. ou. que se diriam jaulas. mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar. Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos.. se se dedicasse ao segundo. "Dasdores. não veria o namorado. Seu nome. A total ocupação varre o espírito. assim mutilado e dolorido. Em seu coração ela voa para o sobrado da outra rua. e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino. . e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de água e pedras. quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?" "Ah.. se não ocupar todos os minutos. arte comunicada por uma tia já morta. veio encontrá-la completamente desprevenida. Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa. o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e. não chegou a esta nossa cidade. alegre à força de repetido. e nas grutas subsidiárias. pode dispor o presépio. pelas conservas. Festas são raras. sim. E viúvas espiam de janelas. este carneirinho tem uma perna quebrada. Esta véspera de Natal. Dasdores. desafia o incauto: "Agarra-me!" Sucede que ninguém mais. prega esse botão para sua mãezinha. um cincerro tilinta: é a tropa. por exemplo. pois moça não deve sair de casa. determinado há quase dois mil anos. Os camelos. o Menino deve querer-lhe mais. com ternura. que não perdoa. cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino. e ai do presépio que cede a novidades. Através de um sentimento nebuloso. porém. Se fosse à igreja. no Menino Jesus. mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. lenta como costuma fazê-lo no interior. delibera e providencia mil coisas. e eis a que ocorre na espécie. O melhor seria que não amolassem. fumando ou alisando o cabelo com brilhantina. corre. a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família.Presépio Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. as dálias já foram regadas hoje?" "Você viu. . está Abelardo. e até mesmo extrai delas algum prazer. mas antes atrapalham. ressoa pela casa toda. Dasdores. e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direção. E só Dasdores conhece o lugar de cada peça. Das mil maneiras de amar. Mas é um engano supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas. Dasdores passa os dedos.É uma conspiradora . mas parece a Dasdores que. porque cada bicho. não guardam proporção com os cameleiros que os tangem.e sempre acha folga para pensar em Abelardo. Portanto. Os pais exigem-lhe o máximo. Nem todos os animais estão perfeitos. que há de circundar a manjedoura. salvo esta moça. relva. a secreta é a mais ardilosa. não porque a casa seja pobre. Se não trabalhar sempre. mas são presente da tia morta. salvo para rezar ou visitar parentes. escrever as cartas de todos. e participam da natureza dos animais domésticos. O cinema ainda não foi inventado. Ë difícil ver namorado na rua. ó pais. Todos os irmãos querem colaborar. Jamais lhes será dado tocar. Dasdores nunca tem tempo para nada. que se poderia consertar. sente neles a macieza da mão de Abelardo. meu bem. bastante miúdos. em que. manejar agulha e bilro. As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa. afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só. O presépio está por armar. a noite caminha. quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho. e não há limites para o humano.

e aquele cigarro . se nos pusermos a contemplá-lo. diferente da que lhe coube. e um pouco por toda parte. juntando na imaginação os dois deuses. mas continuai a correr. os números gelam. correi ladeira acima. decifrando os olhos de Abelardo. ao misturar o sagrado ao profano. não braços e pernas suplementares. Deus me perdoe . na muda interrogação da mãe. cismarenta e repartida. depressa -. ou subtrai-se. como também percebe esse rosto de bigode. e nenhum Abelardo.Alguém bate palmas na escada. Correi. Entram e acham o presépio desarranjado. e sim outra natureza. a matar-vos. e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo. já sabeis de quem. Mas seria preciso atribuir-lhe. matéria preciosa ("Agarra-me! Agarra-me!"). Não assim os serenos. no calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas . e a cabeleira lustrosa. a auréola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo. o ponteiro imobiliza-se. de fixar a estrela. as mãos de Abelardo. Mas Dasdores continua. numa excitação aguda. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro. e Dasdores. o adro já quase deserto. dissimulados nas ramagens do papel da parede. vestir-se violentamente. Esta visita come mais tempo. figura no ramo também delicado. de circunstâncias adversas. mas o que a pele queria sentir . Dasdores não o saboreia por inteiro. como um prestidigitador furta um ovo. Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de tempo mas também uma calma dominadora . este ano não haverá Natal. E a noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro. Vão-se as amigas. sem perspectiva de paz ou conciliação. Aqui desejaria. mas impotente. calma e preocupada. a pele morena de Jesus. e os olhos acesos. Nada fará com que erre. . o prazer de distribuir as figuras. que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada. pois no fundo da caminha de palha suas mãos acariciavam o Menino. Pronto. perfeito. e o trabalho começa a surgir. seus quinze minutos. levantar os muros de Belém. sua vontade se concentra.quem botou! .ardendo na areia do presépio.era um calor humano. acelerar o ritmo da narrativa. se policiam. colocando os pastores na posição devida e peculiar à adoração. que querem se debruçar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada. sair com as amigas . nele vê apenas o rosto de Abelardo. para voltar duas horas depois. e é pura placidez. sôfregos. ô de casa! amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. no sentimento de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos. Nem namorado. preferência a este último. talvez. depois do Menino. e que Abelardo fumava na outra rua. o mistério prestigioso do ser de Abelardo. "Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta.algo de muito importante e que não pode absolutamente ser adiado se esse alguém é nervoso. dispondo-as onde convém. seus cinco minutos. na sala em desordem. Dasdores não pertence a essa raça torturada e criadora.há uma previsão de malogro iminente. está alterado. do passado a tia repete sua lição profunda. porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sêlo. prolongando-se. A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio. mesmo sensuais. mas. interrogando o relógio. dando. no estouvamento dos irmãos. de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulóide. aqueles que. Entretanto. ir correndo ladeira acima.depressa. e este vai mastigando seus minutos. e o tempo dispara de novo. Começa a fazê-lo. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores. dos fantasistas. O dono desta noite. viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa. talvez pule meia hora. a vida parou rigorosamente. é o relógio. prover Dasdores com os muitos braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação. Se nos esquecermos dele.sentia. encontrar a igreja vazia.

Como a esquadra é cordial! Podemos beber honradamente nossa cerveja. o que é privilégio dos edifícios. Às vezes.Privilégio do mar Neste terraço mediocremente confortável. bebemos cerveja e olhamos o mar.. O mundo é mesmo de cimento armado. Sabemos que nada nos acontecerá. . se houvesse um cruzador louco. Certamente.. Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis... a vida seria incerta. improvável. alguns se inserem fatigados no elevador e vem cá em cima respirar a brisa do oceano. O edifício é sólido e o mundo também. Sabemos que cada edifício abriga mil corpos labutando em mil compartimentos iguais. fundeado na baía em frente da cidade.

tua careta de gozo ou dor no escuro são indiferentes.Procura da poesia Não faças versos sobre acontecimentos. fadiga e esperança nada significam. não invoques. não aquece nem ilumina. Não cantes tua cidade. Não me reveles teus sentimentos. tão infenso à efusão lírica. que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. não era poesia Que se partiu. esse excelente. Tua gota de bile. não indagues. chuva e noite. . vossas mazurcas e abusões. Ei-los sós e mudos. As afinidades. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. Não faças poesia com o corpo. Não percas tempo em mentir. Não é música ouvida de passagem. cristal não era. os incidentes pessoais não contam. deixa-a em paz. completo e confortável corpo. Diante dela. mas não há desespero. Penetra surdamente no reino das palavras. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação Que se dissipou. Estão paralisados. Não te aborreças. rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. a vida é um sol estático. isso ainda não é poesia. O que pensas e sentes. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. os aniversários. em estado de dicionário. Não há criação nem morte perante a poesia. há calma e frescura na superfície intata. Teu iate de marfim. é algo imprestável. Para ele. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não dramatizes. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. teu sapato de diamante. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade.

Ainda úmidas e impregnadas de sono. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Chega mais perto e contempla as palavras Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não adules o poema.Convive com teus poemas. . se te provocam. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Tem paciência. Calma. pobre ou terrível que lhe deres Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Não colhas no chão o poema que se perdeu. antes de escrevê-los. se obscuros. sem interesse pela resposta. as palavras.

de pássaros. não porque a vida é bela. basta ter coração. Que bata nos ombros sorrindo e chorando. das estrelas. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. no caso de assim não ser. seu principal objetivo deve ser o de amigo. de mato depois da chuva. Preciso de um amigo para não enlouquecer. Pode já ter sido enganado. basta ter sentimento. nem é imprescindível que seja de segunda mão. basta ser humano. precisa saber falar e calar. dos sonhos e da realidade. que se comova quando chamado de amigo. Deve gostar de ruas desertas. de grandes chuvas e das recordações da infância. dos anseios e das realizações. para contar o que vi de belo e triste durante o dia. de madrugada. mas que me chame de amigo. do sol. de poças d´água e de caminhos molhados. para que tenha a consciência de que ainda vivo. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e. Deve ter amor. mas porque já tenho um amigo. Não é preciso que seja puro. de beira de estrada. da lua. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. um grande amor por alguém.Procura-se um amigo Não precisa ser homem. do canto dos ventos e das canções da brisa. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver. mas não deve ser vulgar. sobretudo saber ouvir o que as palavras não dizem. de orvalhos. pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja de primeira mão. deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem de ter ressonâncias humanas. Tem que gostar de poesia. ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. nem que seja de todo impuro. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. . Que saiba conversar de coisas simples. de se deitar no capim. Preciso de um amigo para parar de chorar.

. um espaço suficiente para manobra. mas sobre seu pai não podemos informar.Como não podem? Então sabem que o avião chegou e não sabem quem veio nele? . Mas o filho já demandava outro balcão. O rapaz. O rapaz expõe-lhe o problema do pai. chegou? . No Aeroporto. temendo o pior. isto é. volta para casa. um desinformante faz ironia: . As autoridades sabiam tanto quanto a empresa. para ouvir isto de alguém. transbordou de seu nome.É. na manhã ensopada.Bem. Quem dorme numa dessas? O rapaz espera os escritórios se abrirem.Não sabemos se ele desembarcou ou não. Foi naquela noite de fevereiro em que o Rio. O trânsito ainda está difícil. Como é que o pai sairá desta? Inútil pensar nessas coisas. . Pelo caminho. nada. o avião chegou. Meu pai. você não trouxe seu pai? Aqui ele não apareceu. Chile? A palavra soava diferente. trágicos sinais deixados pelo temporal.Numa sessão espírita. eu. O Galeão fora do mapa. A duras penas. sem saber como. existe moça de chapeuzinho verde. os desabrigos. O resto. Mas daqui não saio sem vasculhar todo o Aeroporto. meu pai. Nem podia aparecer.Desculpe. porém não impossível.Procura-se um pai O rapaz dirigia seu carro pela Avenida Brasil.. Na rua congestionada. ninguém avançava. melhor. onde ia receber o pai. ainda sorri para a gente. porém elas se pensam por si. a pergunta continua sem sorte: . mas em sentido inverso ao do Galeão. fada ou coisa semelhante. o senhor encontra seu pai. . . o professor X. não sabemos. imagina-se. Botar também no rádio. que descobre o perdido e. Classificado no Jornal do Brasil: Perdeu-se um pai na Ilha do Governador. na cabeça impotente. De novo.E a lista de passageiros? .. como se contivesse não sei que partícula perigosa. que pega também por milagre. o pai vindo do Chile. menos por iniciativa própria do que por imposição dos motoristas que vinham atrás. com esperança de aeroporto e salvamento.Uê. naturalmente. que voltava do Chile. . rumo ao aeroporto do Galeão. É idoso. e a cidade voltou a padecer os desmoronamentos. . então? . O jeito é esperar que a manhã traga serena tranquilidade. e eis senão quando. Ali está uma garota de chapeuzinho verde. as angústias e as mortes injustas de uma enchente. Felizmente para as histórias confusas de hoje. na Praça Mauá. acciona o motor. e sentir vontade de fazer com ele o que eu sinto vontade de fazer com o senhor. todas aquelas pessoas em prisões de lata e vidro. Pela primeira vez alguém . Chuva matraqueando...Meu pai. Nisto se abre. claro. Um informante.. por milagre. .Eu só desejo que um dia o senhor se veja na minha situação. e ninguém sabia dizer-lhe onde estava. de bonificação. Corre ao escritório da companhia de aviação: . Como pôde sumir assim? Aconselhamme a ir à Polícia Marítima e Aérea. Mora em outro Estado.Não está connosco. fazendo a eterna pergunta. rumo ao Galeão.Não sabemos. se é que estava em algum lugar.Meu pai? . Sem dormir. tempo fugindo. Madrugada alta quando ele chega. O pai chegando. mulher e filhos na maior aflição. mudos. mais uma vez. O pai chegou? Ele não está familiarizado com esta bagunça em forma de cidade. E o pai que deveria chegar às 20 horas.Está com quem. Que fazer? Os telefones.

valia tanto quanto a Metropolitan Police. até o temporal passar. onde perdera duas pastas num táxi. Não é que estava? Calmo. repito. . Meu pai! Que susto! Que desinformação! Que alívio! Etc.A essa hora já deve estar lá. .ouvia. resignado. Deve ter dormido por aí. . que não aparece .E para onde o levaram. O rapaz lembrou-se de Londres. . Tivera vontade de telegrafar para Londres: Procurem meu pai na enchente aqui no Brasil. O nome dele está na relação de passageiros desembarcados. com passaporte e tudo. à espera de o toró passar. Ela saiu e voltou. contando à nora e aos netos uma noite em banco de aeroporto. a moça de chapeuzinho verde. sozinha. Felizmente. Volte e há de encontrá-lo.Seu pai chegou sem novidade. e na manhã seguinte a polícia o chamava para receber de volta os objectos recolhidos por um serviço policial que só não resolve o caso de quem perdeu a memória.Mas não apareceu em casa. considerava e buscava resolver o problema. com outro sorriso no rostinho de relações-públicas.Para lugar nenhum. .

Um aluno dorme. cansado das canseiras desta vida. O professor vai sacudi-lo? Vai repreendê-lo? Não. .Professor O professor disserta sobre ponto difícil do programa. O professor baixa a voz com medo de acordá-lo.

Pinto Fernandes que não tinha entrado na históoria. Teresa para o convento. Raimundo morreu de desastre.Quadrilha João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. Joaquim se suicidou e Lili casou com J. . Maria ficou para tia. João foi para os Estados Unidos.

e a via estreita vai transformando em dúlcida paragem. despetalam-se as pétalas do ânus à lenta introdução do membro longo. recua. dupla mulher. Mulher. há no teu âmago Ocultas melodias ovidianas. Ele avança.Quando desejos outros é que falam Quando desejos outros é que falam e o rigor do apetite mais se aguça. .

sede tão vária a esse cavalo solto pela cama a passear o peito de quem ama. corpo! Corpo. corpo verdade tão final. Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor que não sabe como é feita: amor na quinta-essência da palavra. e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar a nuvem que de ambígua se dilui nesse objecto mais vago do que nuvem e mais indefeso. corpo.Quarto em desordem Na curva perigosa dos cinquenta derrapei neste amor. .

Estou sem olhos. se transponho o umbral enigmático. sou o quarto escuro. o olfato. Exalo-me. É quarto feito pensadamamente para me intrigar. Enoiteço. O quarto escuro em mim habita. Esta pesada cobertura de sombra nega o tato.Quarto Escuro Por que este nome. . que se afastou de movimento e fome. fico outro ser. Eu mesmo. ao sol? Tudo escurece de súbito na casa. o ouvido. Sou coisa inanimada. O que nele se põe assume outra matéria e nunca mais regressa ao que era antes. Sem lucarna. bicho preso em jaula de esquecer. de mim desconhecido. Sem óculo. Aqui decerto guardam-se guardados sem forma. sem sentido. Os antigos condenam-me a esta forma de castigo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo. Exijo de ti o perene comunicado. Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso. Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo. Do contrário evapora-se a amação pois ao dizer: Eu te amo. isto sempre. amor feito som vibração espacial. verdade fulminante que acabas de desentranhar. No momento em que não me dizes: Eu te amo. a perfeita maneira de saber-se amado: amor na raiz da palavra e na sua emissão. inexoravelmente sei que deixaste de ama-me. Não exijo senão isto. no momento. isto cada vez mais.Quero Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. que sou amado. amor saltando da língua nacional. que nunca me amaste antes. . dementes apagas teu amor por mim. como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas. No momento anterior e no seguinte. creio.

eu me precipito no caos. . essa coleção de objetos de não-amor.

se passeia. mas tente. não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome. meu caro. ou da cor da sua paz. consciente. experimente. liberdade com cheiro e gosto de pão matinal. justiça entre os homens e as nações. você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita. começando pelo direito augusto de viver. novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade. mas novo nas sementinhas do vir-a-ser. tem de merecê-lo. se trabalha. mas com ele se come. eu sei que não é fácil. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. . recompensa. se compreende. você. que de tão perfeito nem se nota. espontâneo.RECEITA DE ANO NOVO Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris. Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo. se ama. tem de fazê-lo novo. direitos respeitados. remendado às carreiras.

juro Sadicamente massacrar-se Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam Desde a hora do nascimento. não pelo amor Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam Ao se juntarem aos meus. Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História. Não queimava. seu formidável Poder de penetrar o sangue e nele imprimir Uma orquídea de fogo e lágrimas. desde aquele momento intemporal Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas No caos universal Como nos enganamos fugindo ao amor! Como o desconhecemos. . Descansei em ti meu feixe de desencontros E de encontros funestos.por esperteza do amor . Entretanto. Trazias nos olhos pensativos A bruma da renúncia: Não querias a vida plena. Apareceste para ser o ombro suave Onde se reclina a inquietação do forte (Ou que forte se pensa ingenuamente). O Outro que eu me supunha.senti que éramos um só. assim o amor Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas. E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda. Quando .sem o perceber.Reconhecimento do Amor" Amiga. Amiga. ele chegou de manso e me envolveu Em doçura e celestes amavios. Não reclamavas teu quinhão de luz. Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida. Ou mais longe. sorria. Mal entendi. Não pedias nada. não siderava. talvez com receio de enfrentar Sua espada coruscante. esse sorriso. tonto que fui. amada amiga. na infantil procura do Outro. Feri-me pelas próprias mãos. Queria talvez . o Outro que te imaginava. amada. como são desnorteantes Os caminhos da amizade.

referências temporais. fixo e solar. Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar A melodia. circunstâncias. . a transparência da vida. Todas as imposturas da razão e da experiência. E se confessasse jubilosamente vencido. Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar. As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos. À revelia de corpos amantes.Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos. E a pura essência em que nos transmutamos dispensa Alegorias. somos o número perfeito: UM. Agora. O vôo do Pássaro Azul. para que o Eu renunciasse à vacuidade de persistir. Pois já nem somos nós. amada minha para sempre. Até respirar o júbilo maior da integração. Para existir em si e por si. eu sei. a aurora boreal. Levou tempo. a paisagem. Imaginações oníricas.

Mas. pasto dos vulgares. senão contentamento de escrever. e seus pesares. enquanto o tempo.1987 Tua memória.MG . pesares de quê? perguntaria. que sutil interpretavas. do que escreves e te forçou ao exílio das palavras. e nada resta.* . vão se engastando numa coisa fria a que tu chamas: vida. em suas formas breves ou longas. tua poesia. pasto de poesia. se esse travo de angústia nos cantares. se o que dorme na base da elegia vai correndo e secando pelos ares.1902 * . mesmo. se evapora no fundo do teu ser? .Remissão Itabira do Mato Dentro .

. Muito embora o escutasse. eu de mim era presente. bateu à velha porta. o pobre amor estava putrefato.Restos O amor. Bateu. inutilmente. Não pude agasalhá-lo :ofendia-me o olfato.

Retorno Itabira do Mato Dentro . de morte imorredoura? Sou eu nos meus vinte aons de lavoura de sucos agressivos.* . Meu ser palpita em mim tal qual se fora a mesma hora de abril.MG . Que face antiga já se não descora lendo a efígie do corvo na da aurora? Que aura mansa e feliz dança e redoura meu existir. fauna.1987 Meu ser em mim palpita como fora do chumbo da atmosfera constritora. sou eu embora não me conheça mais na minha flora que. . tornada agora. qe elabora uma alquimia severa. me devora quanto é pura. a cada hora. Sou eu ardendo em mim.1902 * .

Da rosa ficou um pouco Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Dos gritos gagos. . Ficaram poucas roupas. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha.vazio . muito pouco. Se de tudo fica um pouco.de cigarros. do maço . Mas de tudo fica um pouco. ficou um pouco de ruga na vossa testa. um pouco nos muros zangados. pouco. Do teu asco. que sobem. nas folhas.Resíduo De tudo ficou um pouco Do meu medo. ficou um pouco. de duas folhas de grama. poucos véus rotos pouco. mudas. Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Pois de tudo fica um pouco. dragão partido. nos anúncios de jornal. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco). flor branca. um pouco de mim em Londres. retrato. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana. no barco. De teu áspero silêncio um pouco ficou. mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte. Da ponte bombardeada.

e minúsculos artefatos: campânula. este vidro de relógio partido em mil esperanças. Mas de tudo. terrível. os asilos. salta esta perna de rã. alvéolo. fica sempre um pouco de tudo. o esquecido e sob os espetáculos e sob a morte escarlate e sob as bibliotecas. Às vezes um botão. Cabelo na minha manga..um pouco de mim algures? na consoante? no poço? Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios e os peixes não o evitam. as igrejas triunfantes e sob tu mesmo e sob teus pés já duros e sob os gonzos da família e da classe. De tudo ficou um pouco. um pouco: não está nos livros. de Abelardo. de ti. gemido de víscera inconformada. este pescoço de cisne... Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória. de aspirina. . Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda. Às vezes um rato. simplório arroto. De tudo fica um pouco. fica um pouco. este segredo infantil. E de tudo fica um pouco. meio sal e meio álcool.. De tudo ficou um pouco: de mim. e sob as ondas ritmadas e sob as nuvens e os ventos e sob as pontes e sob os túneis e sob as labaredas e sob o sarcasmo e sob a gosma e sob o vômito e sob o soluço. cápsula de revólver. o cárcere. vento nas orelhas minhas. de tudo ficou um pouco.

com apetite de viver os jogos de luz na espuma. a reboar no canto de mil bocas. de trinta mil. no ritual de entrega a um deus amigo. Aqui amanhece como em qualquer parte do mundo mas vibra o sentimento de que as coisas se amaram durante a noite. Um riso claro. As coisas se amaram. E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida.Retrato de uma cidade I Tem nome de rio esta cidade onde brincam os rios de esconder. O Rio toma forma de sambista. risca o asfalto da avenida. Formas adolescentes ou maduras recortam-se em escultura de água borrifada. deus veloz que passa e deixa rastro de música no espaço para o resto do ano. repara neste corpo que é flor no ato de florir entre barraca e prancha de surf. burgueses edifícios: uma paixão: a bola . loucura mansa. Repara. de dez mil. a irisação da hora na areia desdobrada até o limite do olhar. É puro carnaval. II Eis que um frenesi ganha este povo. fere o ar. Cidade feita de montanha em casamento indissolúvel com o mar. Outra festa se estende por todo o corpo ardente dos subúrbios até o mármore e o fumé de sofisticados. de cem mil bocas. E despertam mais jovens. que vem de antes da Grécia (vem do instinto) coroa a sarabanda a beira-mar. luxuosamente flor. gratuitamente flor ofertada à vista de quem passa no ato de ver e não colher. o topázio do sol na folhagem.

III Cada cidade tem sua linguagem nas dobras da linguagem transparente.. uma estátua? Uma presença. sem muito esforço. na torre circular. E vai-se definindo a alma do Rio: vê mulher em tudo.. num relâmpago. bem mais perto da humana contingência. . Cristo.o drible o chute o gol no estádio-templo que celebra os nervosos ofícios anuais do Campeonato. sacro fervor que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga. Já outros vêm saltando em profusão. Na curva dos jardins. Em torno de mulher o sistema de gesto e de vozes vai-se tecendo. piada. Morre na rua a ondulação do signo irônico. do Rio apenas. mas do Corcovado. no ar tropical infunde a essência de redondas volúpias repartidas. não dos astros. no perfil do morto e no fluir da água. e se apagam. amor e som. a mesma palma à Divindade longe. Pula do cofre da gíria uma riqueza. de mais nenhum Brasil. loteria na mesma concha do momento que é preciso lamber até a última gota de mel e nervos. no talhe esbelto do coqueiro. do alto. preside ao viver geral. Este fingir que nada é sério. a mesma rosa branca. Diamantes-minuto. pois é lei carioca (ou destino carioca. e no fundo guardar o religioso terror. palavras cintilam por toda parte. trabalho. nada. e no altar barroco ou no terreiro consagra a mesma vela acesa. mulher mulher mulher mulher mulher. A sensualidade esvoaçante em caminhos de sombra e ao dia claro de colinas e angras. nada. Este Rio. tanto faz) misturar tristeza. plenamente.

laranja de cinqüenta sabores diferentes (alguns amargos. repara nas nuvens. vão desatando bandeiras de púrpura e violeta sobre os montes e o mar. sumarenta de amor. A noite é luz sonhando. por que não?). Repara. laranja toda em chama. Anoitece no Rio. aberto ao mundo.Este Rio peralta! Rio dengoso. . erótico. fraterno.

é tudo aquilo que dura uma fração de segundo. o quanto queremos dizer. Fácil é ditar regras. Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas. ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Fácil é perguntar o que deseja saber. Saber que se é realmente amado. Fácil é ser colega. Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. e nenhuma força jamais o resgata. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. beijar de olhos fechados. Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. apertar as mãos. Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é seguí-las. Difícil é ocupar o coração de alguém.. te respeita e te entende. Ter a noção exata de nossas próprias vidas.Reverência ao destino Falar é completamente fácil. Admitir que nos deixamos levar. sem ter medo de viver. Sinceramente. Fácil é querer ser amado. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Ou querer entender a resposta. Difícil é mentir para o nosso coração. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros. mas com tamanha intensidade. Eterno. Fácil é ouvir a música que toca. Difícil é lutar por um sonho. Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas ircunstâncias. mais uma vez. Ou ter coragem pra fazer. ao invés de ter noção das vidas dos outros. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade. fazer companhia a alguém. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro . Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer. Fácil é dar um beijo. mostrando nossas escolhas erradas. de alegria. Difícil é ouvir a sua consciência. dizer o que ele deseja ouvir. quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. por inteiro. E aprender a dar valor somente a quem te ama. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. isso é difícil. Acenando o tempo todo. Difícil é entregar a alma. Amar e se entregar. Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Fácil é ver o que queremos enxergar. Fácil é sonhar todas as noites. que se petrifica. sem ter medo do depois. E com confiança no que diz. Fácil é dizer "oi" ou "como vai?" Difícil é dizer "adeus". Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir. . Fácil é abraçar. antes que a pessoa se vá. E é assim que perdemos pessoas especiais. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.

gente. mexicana dádiva aos canteiros cariocas. a gente estaca e logo uma porção de nomes populares brota da ignorância de nós todos. esse adágio lilás do manacá.. – Lanceta é que se chama. a gente pára e se extasia. fruto e ninho. Em toda parte a vejo. urnas santas. nos jardins dos edifícios. Essa gorda baiana me sorri: – Círio de Nossa Senhora. (Homem nenhum sabe nomes vegetais. semente.Rio em flor de janeiro A gente passa. a gente olha. uma soberba flor por sobre todas. . nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira. não sabia? E a flor. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças. mais a vermelha aparição dos brincos-de-princesa nos jardins onde a banida cor volta a imperar. Quem responde é Baby Vignoli. ninguém sabe. no Parque do Flamengo nem se fala: é flor é flor é flor. Yucca gloriosa. meu amor deste verão que melhor se chamara primavera. Centro.. de majestade simples. baioneta. outra acrescenta. porém mulher se liga à natureza em raízes. no Rio flóreo. Nem a dourada acácia. (ou de Iemanjá?) – Vela de pureza. Deixemo-la reinar. – Baioneta espanhola. Em Botafogo. Tão rainha. Ipanema. eretos lampadários. toda se entreflora de etiquetas. Tijuca. – Não. ali. os flamboyants que em toda sua pompa se engalanam aqui. deixa-se florir no alto. A gente olha.) Iúca! Iúca. é Léa Távora. a ostentar panículas de pérola. esse luxo do ipê que nem-te-conto. que era anônima em sua glória. Paquetá. Não esqueçamos. Sua presença é mel e pão de sonho para os olhos. coroando folhas pontiagudas e pungentes. Pergunto o nome. e a ela rendo meu tributo apaixonado.

I. para quem sabe (e é tão simples) ver? 22.Isto é janeiro e é Rio de Janeiro janeiramente flor por todo lado. puro agrado da Terra para os homens e mulheres que faz do mundo obra de arte total universal. Você já viu? Você já reparou? Andou mais devagar para curtir essa inefável fonte de prazer: a forma organizada rigorosa esculpintura da natureza em festa.1980 .

dai-me dinheiro. . o dia é de festa No adro da igreja há pinga. sobem a ladeira que leva a Deus e vão deixando culpas no caminho. prendas e rezas. Senhor. humildemente te peço uma graça. Jesus meu Deus pregado na cruz. Meu Bom Jesus que tudo podeis. As coxas das romeiras brincam no vento. cigarros e um sol imenso que lambuza de ouro o pó das feridas e o pó das muletas. cheia de pedras. cantam sem parar. baralhos. No alto do morro chega a procissão. Já estamos puros.ROMARIA A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos. imagens. meu amo. Os sinos tocam. chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados. muito dinheiro para eu comprar aquilo que é caro mas é gostoso e na minha terra ninguém não possui. há tanta algazarra. Sarai-me. fenômenos. do amor que eu tenho e que ninguém me tem. mas trazemos flores. e não desta lepra. Faz tanto calor. café. Os homens cantam. obrigados. Um leproso de opa empunha o estandarte. Ninguém não percebe. Senhor. sino. Nos olhos do santo há sangue que escorre. Jesus no lenho expira magoado. me dá coragem pra eu matar um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha mulher.

pedem com as mãos. Por que me perseguem não posso dizer.Jesus Jesus piedade de mim. Não quero ser preso. Os romeiros pedem com os olhos. Ladrão eu sou mas não sou ruim não. pedem com a boca. . Jesus ó meu santo. Jesus já cansado de tanto pedido dorme sonhando com outra humanidade.

Rosa Rosae Rosa e todas as rimas Rosa e os perfumes todos Rosa no florindo espelho Rosa na brancura branca Rosa no carmim da hora Rosa no brinco e pulseira Rosa no deslumbramento Rosa no distanciamento Rosa no que não foi escrito Rosa no que deixou de ser dito Rosa pétala a pétala despetalirosada .

jamais avancei no Erário.Salário Ó que lance extraordinário: aumentou o meu salário e o custo de vida. por milagre monetário deu um salto planetário.83 . Mas que lance extraordinário: com o aumento de salário. aumentou o meu calvário! 28. navegante solitário.5. sob o peso tributário. me falta vocabulário para um triste comentário. escravo de ponto e horário. muito menos salafrário. Sou um simples operário. muito acima do ordinário. e cerzido vestuário. Não entendo o noticiário. para não dizer primário. nível de vida sumário. é limpo meu prontuário. Não sou nada perdulário. vário. sou caxias voluntário de rendimento precário. não festejo aniversário e em meu sufoco diário de emudecido canário.

São flores ou são nalgas São flores ou são nalgas estas flores de lascivo arabesco? São nalgas ou são flores estas nalgas de vegetal doçura e macieza? .

Segredo A poesia é incomunicável. Não conte. Há homens que andam no mar como se andassem na rua. Não peça. Suponha que um anjo de fogo varresse a face da terra e os homens sacrificados pedissem perdão. só eu impossível. É a revolução? o amor? Não diga nada. Tudo é possível. O mar transborda de peixes. Não ame. Ouço dizer que há tiroteio ao alcance do nosso corpo. Fique torto no seu canto. .

Nunca pensei ter entre as coxas um deus. Não te vejo não te escuto não te aperto mas tua boca está presente. . fizeste-me a graça Sem que eu pedisse. Para sempre e um dia o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca. Sem que eu esperasse. O que passou não é passado morto. adorando.Sem que eu pedisse. Hoje não estás sem sei onde estarás. na total impossibilidade de gesto ou comunicação. ficastes de joelhos em posição devota. fizeste-me a graça de magnificar meu membro. Adorando.

. No prato.Sentimental Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão. cheia de escamas e debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho. E há em todas as consciências um cartaz amarelo: "Neste país é proibido sonhar." . a sopa esfria.Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! Eu estava sonhando. uma letra somente para acabar teu nome! .. Desgraçadamente falta uma letra.

eu mesmo estarei morto. da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. Quando me levantar. Quando os corpos passarem. mas estou cheio de escravos. Sinto-me disperso. anterior a fronteiras. eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro. . minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. morto meu desejo. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. o céu estará morto e saqueado.Sentimento Do Mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. morto o pântano sem acordes. humildemente vos peço que me perdoeis.

aguardam a realização de seu futuro criador que os deve contemplar sem desespero. Interrogo meu filho. pois não deve colher o poema no chão. estão mudos. São Paulo Junho de 2003 SER O filho que não fiz hoje seria homem.SER Análise do poema “Ser” . sem nome. o poeta entra surdamente no tal reino. não me percebeste contudo chamava-te como ainda te chamo (além. Drummond nega como assunto da poesia todos os temas que constituem o seu universo poético e na segunda parte defende a idéia de que o fazer poético é desvendado como uma experiência atemporal em um ambiente comparável a um rio difícil. denominado reino das palavras. sem carne. O poema “Procura de Poesia” de Carlos Drummond de Andrade é um texto dividido em duas partes: na primeira a evidenciar uma contradição. responde-me o hálito. Note-se. Às vezes o encontro num encontro de nuvem. além do amor) onde nada. levando em consideração o poema “Procura de poesia” ambos poemas de Carlos Drummond de Andrade. Drummond ainda afirma que neste reino encontram-se os poemas que esperam ser escritos. em estado de dicionário. Apóia em meu ombro seu ombro nenhum. Ausente o tato. tudo aspira a criar-se. . Ausente a audição lhe é proibido o tato. sem impaciência e até sem o uso de algumas das faculdades de captação da realidade. objeto de ar: em que gruta ou concha quedas abstrato? Lá onde eu jazia. O filho que não fiz faz-se por si mesmo. Ele corre na brisa.

cada palavra tem mil faces secretas sob a face neutra. como dita nos versos de “Procura de poesia” prescinde de incidentes pessoais e da revelação da morte. não é o encontro do pai com o homem. No terceiro e quarto verso. pelo contrário. na sua fenomenologia. talvez fenômeno. o filho que responde através do hálito.além da concretude da palavra “Ser”. substantivo abstrato por excelência) que permanece suspenso. mas não tem carne. É objeto de ar. Nas estrofes seguintes o filho prossegue em sua constituição de verbo e se um verbo exprime processo. O Poema “Ser” parece concentrar todas as sugestões do poema acima e mais. o filho é e seria a ação do verbo. em que o poeta esgota as informações objetivas daquele ser: houve um filho que não foi feito e que seria homem. perdidas. O poema “Ser” publicado no livro “Claro Enigma” é uma homenagem póstuma de Carlos Drummond. torna-se de súbito. O poema “Procura de Poesia” seria então. mas de tal forma incisivo na existência do poeta. O título supõe a negação do poema. Em todas as estrofes observa-se a manifestação desse filho. o eterno educar de uma geração a outra. de um vir a ser. com a exceção dos dois primeiros versos. pois o poema constrói-se exatamente sobre uma condição de não existência. mudança de estado. algo que pode ou não se realizar e tal poema realiza-se plenamente e em dois níveis: no nível das palavras que tomaram forma e também na manifestação do objeto de ar que constituiu esse filho . (um advérbio de lugar sugerindo a materialidade do amor. ente vivo animado – traz também uma contradição. o sentido profundo do texto. A relação chave do poema. lugar este onde o poeta só garantirá. mas a indicação de que é débil e solitária a experiência poética e nebuloso o lugar que ambienta o ato da criação poética. ela existe como possibilidade. todas as coisas que aspiram a criar-se ou que. que era agnóstico – alguns o julgavam ateu ao filho que nasceu morto. devem ser um . o título . o filho que chama o pai de um lugar além. além do amor. ação. não um método para elaboração de versos. mas a poesia. o filho corre na brisa – o filho é o ato de correr e é brisa. que será testemunha de uma possibilidade. que parece se inverter a relação pai e filho. mas mesmo este “seria” e este “homem” já constituem uma outra natureza que se manifesta através dos verbos relacionados durante todo o poema. semelhante ao reino das palavras do poema anterior. fenômeno. No poema é o filho que apóia (abraça) o pai com o seu ombro nenhum. relação de proteção do mais velho para mais novo. não tem nem nome. mas sim a manifestação desse filho que. na totalidade do nada. contudo.a visão também é imprecisa.encontrado pelo poeta em um reino diferenciado. mas algo indefinível. por exemplo. além do amor. aqui com outro nome: o além. ao adentra-lo. nem a constatação de que para a poesia é desnecessária a determinação de temas.que também é palavra . não correspondendo a qualquer espécie de paraíso. o filho que não vingou. mas é a negação que se afirma e encaminha o leitor para o sentido oculto do texto e isso se assemelha às primeiras estrofes de “Procura de Poesia” que negam a obra poética de Drummond afirmada mais tarde pelo próprio ato da procura do ato criador.

muito mais que lindas (outro verso de Drummond) que também é um dos temas recorrentes da obra de Carlos Drummond de Andrade. Era palavra e hálito. O poema termina declarando a força da essência que o filho se constitui – ele se faz por si mesmo .marulho em nós de um mar profundo (verso de outro poema de Drummond) exprimindo a eterna aspiração humana de permanecer como essência. rio difícil – bem sabe o poeta.não obstante. o filho jazia sem desespero e era calma e fresca sua carne nenhuma. O filho se realizou e se consumou e correu na brisa. também o chamava e o chama ainda além.que se faz continuamente. onde a positividade é extraída de uma atitude de oposição sistemática. . circunstância também observada no poema “Procura da poesia” .e. além do amor. da concha abstrata? O pai não sabe.pai e filho . O que se acabou é o que fica na memória: estranho paradoxo. como dito acima. ouso fundir tais sutilezas para afirmar que o pai do poema “Ser” penetrou surdamente no reino do filho. Aceitou o tal filho que. algo permanece entre os dois . Depreendeu-se do limbo. afirma outro caminho Drummoniano que vai da negação à reinvenção. A obra de Carlos Drummond se mostra coesa no belo e profundo poema “Ser” e como segue as sugestões do primeiro poema aqui analisado. O poema então fala de permanência e fala também de todas as coisas findas.

...(A este sinal todos os motoristas tomam ..... Um silvo longo e breve: Motoristas a postos. Dois silvos breves: Pare.....Sinal de apito Um silvo breve: Atenção...imediatamente. siga......lugar nos seus veículos para movimentá-los ....... Um silvo longo: Diminua a marcha.) . Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna.

E todas as quintas-feiras eles voltam à casa do amigo que ainda não pôde retribuir a visita. Os dois dançaram. E apertou a mão dos dois. . E a mulher ajunta: – Que idiota. A casa é um ninho de pulgas. O homem comeu e bebeu. soltou uma dúzia de foguetes. O amigo estava muito satisfeito. O amigo enfeitou a casa e quando o homem chegou com a mulher. era o que faltava.Sociedade O homem disse para o amigo: – Breve irei a tua casa e levarei minha mulher. No caminho o homem resmunga: – Ora essa. A mulher bebeu e cantou. – Reparaste o bife queimado? O piano ruim e a comida pouca. Quando foi hora de sair. o amigo disse para o homem: – Breve irei a tua casa.

o canivete é mesmo indesculpável.Somem canivetes Fica proibido o canivete em aula. no recreio. a nata do Brasil. Restituam-se pois os canivetes a seus proprietários com obrigação de serem recolhidos na volta do passeio. em qualquer parte pois num país civilizado entre estudantes civilizadíssimos. Fica permitido o canivete nos passeios à chácara para cortar algum cipó descascar laranja e outros fins de rural necessidade. Recolham-se pois os canivetes sob a guarda do irmão da Portaria. e tenho dito. Só que na volta do passeio verificou-se com surpresa: no matinho ralo da chácara todos os canivetes tinham sumido. .

eis-me a dizer: assisto além.1902 * . aqui.* .Sonetilho do Falso Fernando Pessoa Itabira do Mato Dentro .MG . Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti. à deusa que se ri deste nosso oaristo. E das peles que visto muitas há que não vi. morri. nem isto. . Sem mim como sem ti posso durar. Nem Fausto nem Mefisto. existo. mas não sou eu. Onde morri. nenhum.1987 Onde nasci.

A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre meu corpo. Volto pálido para a casa. Vou subir a ladeira lenta em que os caminhos se fundem. Todos eles conduzem ao princípio do drama e da flora. Não sei se estou sofrendo ou se é alguém que se diverte por que não? na noite escassa com um insolúvel flautim Entretanto há muito tempo nós gritamos: sim! ao eterno. .Soneto da Perdida Esperança Perdi o bonde e a esperança.

caprichando. manteiga. É tudo igual. As mãos (as mães?) são diferentes.Suas mãos Aquele doce que ela faz quem mais saberia fazê-lo? Tentam. iguais açúcar e canela. a mesma. Ovos de qualidade são os mesmos. Mandam vir o leite mais nobre. . Insistem.

.Sugar e ser sugado pelo amor Sugar e ser sugado pelo amor no mesmo instante boca milvalente o corpo dois em um o gozo pleno que não pertence a mim nem te pertence um gozo de fusão difusa transfusão o lamber o chupar e ser chupado no mesmo espasmo é tudo boca boca boca boca sessenta e nove vezes boquilíngua.

Eu também já tive meu ritmo. minha poesia perturbou-se. Hoje não deslizo mais não. não tenho ritmo mais não. Mas acabei confundindo tudo. o céu tamanho. Bastava olhar para mulher.Também já fui brasileiro Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. . guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. Eu também já fui poeta. pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. Ponteei viola. meus inimigos me odiavam. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo. dizia aquilo. não sou irônico mais não. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. Fazia isso. Mas eram tantas. E meus amigos me queriam.

Tempo em fatias! Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias. foi um indivíduo genial. fazendo-a funcionar no limite da exaustão. industrializou a esperança. Aí entra o milagre da renovação. a que se deu o nome de ano. Doze meses dão para qualquer ser humano cansar e entregar os pontos. . e tudo começa outra vez. com vontade de acreditar que daqui por diante vai ser diferente.

A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. quem curte sem aprofundar. saliva. medo do pai. cavalo. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele. fazer compra junto. nuvem. quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. quem namora sem brincar. fugidia ou impossível de curar. até paixão é fácil. Vinícius de Moraes ou Chico Buarque. Não tem namorado quem transa sem carinho. show do Milton Nascimento. tapete mágico ou foguete interplanetário. flerte. brisa ou filosofia. Não tem namorado quem não fala sozinho. . um envolvimento. de carinho escondido na hora que passa o filme. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. gabira. Não tem namorado quem ama sem gostar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana. sua frio. abobalhados de alegria pela lucidez do amor. lida bem devagar. nuvem. mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas. mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme. Não tem namorado quem ama sem se dedicar. quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. envolvimento. bonde. Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar.Ter ou não ter namorado Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. ou mesmo de metrô. fazer sesta abraçado. de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia. da flor catada no muro e entregue de repente. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. fliperamas. Paquera. bosques enluarados. Mas namorado mesmo é muito difícil. Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques. caso. sanduíche da padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva. de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada. Não tem namorado quem não gosta de dormir. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele. dois paqueras. Namorado não precisa ser o mais bonito. cinema. ainda que rápida. sessão das duas. quindim. Namorar é fazer pactos com a felicidade. Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. lágrima. quem vive cheio de obrigações. de poesia de Fernando Pessoa. beira d’água. ruas de sonhos ou musical da Metro. Se você tem três pretendentes. Necessita de adivinhação. quem gosta sem curtir. Namorado é a mais difícil das conquistas. na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. escondida. não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. quem não recorta artigos. de pele. quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria. quem não dedica livros. dois amantes e um esposo. transa. e quase desmaia pedindo proteção.

aquela de chita. parecer que faz sentido. De alma escovada e coração estouvado. saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim. Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e. e passeie de mãos dadas com o ar.Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio. Ponha a saia mais leve. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. de repente. .

depois esquece.Toada Do Amor E o amor sempre nessa toada: briga perdoa perdoa briga Não se deve xingar a vida. para perdoar. Mas. Só o amor volta para brigar. amor cachorro bandido trem. se não fosse ele. também que graça que a vida tinha? . a gente vive.

mas estamos dando a outrem a chance de pensar. por mais que voltemos. eu errei ! Para dizer: . Já não conseguiremos distinguir nossos passos de tantos outros que vieram depois dos nossos. calar ! Sim. mais raro ainda. principalmente. que jamais nos trará ao ponto de partida. E como humanos estamos sujeitos a errar. menos um dia para ser feliz. Saber ouvir é um raro dom. Mas saber calar. reconheçamos. Leia e deixe de lado. é menos um dia para dar e receber. Para voltarmos sobre os nossos passos. E nosso erro mais primário. De repente descobrimos que estamos muito longe E já não há mais como encontrar onde pisamos quando íamos. fui injusto ! Todo dia é menos um dia. Ouça e cale se não se sentir bem. estaremos seguindo um caminho. Por isso use cada dia com sabedoria. é menos um dia para amar e ser amado. é menos um dia para ouvir e. é não saber: Ouvir e calar ! Todo dia é menos um dia para dar um sorriso.Desculpe. refletir. E se esse dia chega. .Perdoe-me por favor. saber o que falou ou escreveu. Muitas vezes alguém precisa. outra hora você vai conseguir interpretar melhor e saber o que quis ser dito. porque calando nem sempre quer dizer que concordamos com o que ouvimos ou lemos.Todo dia é menos um dia Todo dia é menos um dia. apenas de um sorriso para sentir um pouco de felicidade ! Todo dia é menos um dia para dizer: .

" Tinha gente que torcia para você ser menino. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. vizinhos. esquerda. E. Provavelmente. Seus amigos torciam para você usar brinco. ficar até tarde na rua. Pais. contra a corrupção. o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. pelo primeiro amasso. a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. Torceu para ela não te achar muito baixo. Torceu para ser médico. Seus pais torciam para você comer de boca fechada. Torceu para seus irmãos se ferrarem. Mesmo com toda essa torcida. avós. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. nesse dia. pela primeira palavra. muito magro. era torcida pra todo lado. uma grande torcida se formou. Estavam torcendo para você nascer perfeito. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela. E o primeiro gol. mesmo antes do seu filho nascer. estudar inglês e piano. Seus pais torciam para passar logo essa fase. Daí continuaram torcendo. namoradas e todos os santos torceram por você. Torcia para viajar com a turma. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. E por não saber pelo que você torcia. você aprendeu a torcer. Primeiro. Torceram pelo seu primeiro sorriso. Torceram para ganhar a geladeira. torceu para ela não ter outro. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. músico. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. você só torcia para não ter nascido. Começou a torcer até para um time. E quando os hormônios começaram a torcer. E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida. Mas muita gente ainda torce por você!" . o bom humor do pai. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. cabular aula. muito alto. falar palavrão. Outros torciam para você ser menina. escovar os dentes. Torciam para você puxar a beleza da mãe. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Porque. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã. já tinha alguém torcendo por você. de torcida em torcida. torceu para o mundo explodir. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. pelo primeiro passo. torcia torcido. Depois começou a torcer pela sua liberdade.Torcida "Mesmo antes de nascer. muito gordo. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. já tinha muita gente torcendo por ele. tomar banho. pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Nessas horas. Para a direita. advogado. você descobriu que tem gente que torce diferente de você. Descobriu que ela torcia igual a você. então? E de tanto torcerem por você. Na faculdade. Na dúvida. então. torceu pelo primeiro beijo. No dia do vestibular.

mas a poesia (inexplicável) da vida."Se procurar bem você acaba encontrando." Eu torço por você! . Não a explicação (duvidosa) do mundo.

Três presentes de fim de ano I Querida. Dou-te a senha para o dom imperceptível que não vem do próximo não se guarda em cofre não pesa. III Sempre foi difícil ah como era difícil escolher um par de sapatos. Inventa-o se puderes com fervor e graça. Agora então. II corbeilles nem letras de câmbio nem rondós nem carrão 69 nem festivais na ilha d’amores não esperes de mim terrestres primores. catrapuz! Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora ou tem medo de dizer que é medonho? . é impossível. um perfume. não passa nem sequer tem nome. o tempo é simples ruga na carapaça. amor. O mau gosto e o bom se acasalaram. não no fundo amor. mando-te uma tartaruguinha de presente e principalmente de futuro pois viverá uma riqueza de anos e quando eu haja tomado a estígia barca rumo ao país obscuro ela te me lembrará no chão do quarto e te dirá em sua muda língua que o tempo.

. se meu presente é meio louco e bobo e superado: uns lábios em silêncio (a música mental) e uns olhos em recesso (a infinita paisagem). Desculpe. amor.E aquele quadro (objeto)? aquela pantalona? Aquela poesia? Hem? O quê? não ouço a sua voz entre alto-falantes... não distingo nenhuma voz nos sons vociferantes.

o enfado bolorento de São Cristóvão.Tristeza do Império Os conselheiros angustiados ante o colo ebúrneo das donzelas opulentas que ao piano abemolavam "bus-co a cam-pi-na se-rena pa-ra li-vre sus-pi-rar" esqueciam a guerra do Paraguai. sonhavam a futura libertação dos instintos e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de Copacabana. a dor cada vez mais forte dos negros e sorvendo mecânicos uma pitada de rapé. com rádio e telefone automático .

Mas a vida tem tal poder: na escuridão absoluta. E não sabe se é noite. nem saudade nem vão propósito. Somente a contemplação de um mundo enorme e parado. circula. . como líquido.. A alma severa se interroga e logo se cala.Turno à Janela do Apartamento Silencioso cubo de treva: um salto. A soma da vida é nula. Suicídio. mar ou distância. Nenhum pensamento de infância. a integração da noite. sob o vento. Triste farol da ilha rosa.. e seria a morte. Mas é apenas. riqueza ciência.

sésamo? . buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel. cada qual com a cor de suas águas? sem misturar. para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos. civilmente mágico. falando? Guardava rios no bolso. curva. fim."Um chamado João" "João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas. florindo como flor é flor. inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar. mesmo não semeada? Mapa com acidentes deslizando para fora. das supostas fórmulas de abracadabra. dos poderes. e no destinado geral seu fado era saber para contar sem desnudar o que não deve ser desnudado e por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos. apelador e precipites prodígios acudindo a chamado geral? Embaixador do reino que há por trás dos reinos. ciranda multívoca? João era tudo? tudo escondido. sem conflitar? E de cada gota redigia nome.

. chaves.Reino cercado não de muros. códigos. que se entrelaçam para melhor guerra. para maior festa? Ficamos sem saber o que era João e se João existiu de se pegar." . (não sei o nome) ou ele mesmo era a parte de gente servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeíam de antes do princípio. mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse? E propondo desenhos figurava menos a resposta que outra questão ao perguntante? Tinha parte com..

Não temos nós. Há uma queixa abafada em sua docilidade. eterno. A pedra é sofrimento paralítico. Por que não sofreriam se esta é a chave da unidade do mundo? A flor sofre. tocada por mão inconsciente. . animais. sequer o privilégio de sofrer.Unidade As plantas sofrem como nós sofremos.

balança entre um e outro trapézio. No limite da coragem. No verde tom da esperança. De "Amar se Aprende Amando" . a cor de prata do césio. Circula o risco no espaço como sangue nas artérias. no vão entre céu e terra. Os saltos mais perigosos são fiorituras aéreas. É anjo? ou mulher? ou homem? Sobre a pergunta sem nexo. o novo arco-íris desdobra todos os raios do sexo. um anjo luminescente zomba da morte e da guerra. Balança. meu bem.ÚNI DÚNI TÊNI úni dúni têni salamêni.

Verbo Ser Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. e cabe tantas coisas? Repito: Ser. Ser. R. ser? Dói? É bom? É triste? Ser. um jeito. Er. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser Esquecer. . E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome. pronunciado tão depressa. um nome? Tenho os três. Que é ser? É ter um corpo. Não vou ser. corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível.

mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. . Derrubaram a porta. porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Nenhuma das duas era totalmente bela. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. Arrebentaram a porta. E carecia optar. E os meios perfis não coincidiam. sua ilusão.Verdade A porta da verdade estava aberta. Cada um optou conforme seu capricho. sua miopia. Assim não era possível atingir toda a verdade.

E dói. Do mais alto ramo desfere vôo e sai por aí bicando as coisas.Versos de Deus I Ao sentir nos pássaros tanta liberdade e aéreo poder. III Bica-me Deus de manso nos olhos. indiferente às coisas bicadas. antes referência que repreensão. Com leveza e graça o homem pensa Deus. acaso. . encantadas. só o sabe Deus. imagina um pássaro superior a todos e tão invisível que seu vôo deixe sensação de sonho. IV Deus rumina que fazer." O que Deus perdoa. Alisa o bico no local. Ao sumir crocita: "Hoje te perdôo. II No mais alto ramo Deus está pousado com uma garra apenas e fita o mundo.

Mais um terremoto? De que proporções? Uma nova guerra? De quantas nações? Que margem ceder ao capricho do homem? Vai nascer um artista? Nascerão idiotas? Surgirão robôs? V Ao findar o tempo tudo se acomoda à sua vontade. mas agora é tarde. gemidos. Já não há projeto de outro Deus ou vários. (in A Paixão Medida) . Laços entrançados. O homem arrependo-me da criação de Deus. crepúsculo sempre continuado.

De Chirico a pintou? Pois sim. ela dona de tudo. Mais tarde. O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou.Visão de Clarice Lispector Clarice. são jóias particulares de Clarice que usamos de empréstimo. tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia. Deixamos para compreendê-la mais tarde. Ou o mistério não era essencial. Clarice não saiu. mesmo sorrindo. formava um país. Gestos. não se percebe mais. e retratar o homem. Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos.. partiu para outro. cuidados. saberemos amar Clarice. escadarias. Ficamos sem saber a essência do mistério. tetos fosforescentes. Dentro dela o que havia de salões. Fascinava-nos. um dia. o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barata ou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. Os papéis. O que Clarice disse. pontes do Recife em bruma envoltas. De Clarice guardamos gestos. retrato. Levitando acima do abismo Clarice riscava um sulco rubro e cinza no ar e fascinava. . Clarice não foi um lugar-comum. os cumprimentos falavam em agora. longas estepes. edições. carteira de identidade. só e ardente. São coisas. o país onde Clarice vivia. veio de um mistério. possíveis coquetéis à beira do abismo.. onde a palavra parece encontrar sua razão de ser. construindo fábulas. zimbórios. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo. apenas. era Clarice viajando nele. providências.

mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. perdemos também a felicidade. nas forças que não usamos. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas.Viver não dói Definitivo. pela eternidade. para namorar. O sofrimento é opcional. impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco. mas pela euforia sufocada. . um tempo feliz. que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável. para nadar. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo. por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos. como tudo o que é simples. para conversar com um amigo. mas porque o futuro está sendo confiscado de nós. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer. Sofremos não porque envelhecemos. na prudência egoísta que nada arrisca. mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana. por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos. Nossa dor não advém das coisas vividas. Sofremos não porque nosso time perdeu. todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado. esquivando-se do sofrimento. e não compartilhamos. A dor é inevitável. mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema. e que. Por todos os beijos cancelados. mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos.

Carlos Drummond de Andrade representa. muito além. com suas palavras. Seu verso manifesta uma vontade ardente de ver e de fazer ver (A porta da verdade está aberta (. a verdade é que Drummond deixou rastros que apontam para muitas direções. da crueldade e diamante. símbolos e outras armas. estou vazio. do pensar e do sentir: O que pensas e sentes. numa linguagem reveladora da mais alta realização estética..) cada um optou conforme seu capricho. o que de melhor se fez na poesia brasileira do século XX. enfim. estou rigorosamente noturno. da cidade que dói. a marcha do mundo capitalista. A segunda sempre a dominar o ato criador. sua ilusão. Como uma resposta talvez às perguntas lançadas em “Versos à boca da noite”: Escreverei sonetos de madureza?/ Darei aos outros a ilusão de calma?/ Serei sempre louco? Sempre mentiroso?/ Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? São essas as indagações de quem atingiu uma inteligência do universo/ comprada em sal. É um acentuado sentimento de fracasso que o leva a se apresentar em Claro Enigma de modo a assumir a medida de desrazão que a vida comporta. como uma resposta talvez às inquietações que já se faziam ouvir em A Rosa do Povo:Estou escuro. Além. Efetivamente. Embora a inesgotável riqueza dessa poesia seja há muito assunto fora de questão (mesmo que insistimos em reivindicá-la). poeta da família. por ter feito muitas concessões. com justiça. em relação ao qual avulta a dimensão filosófico-existencial de composições mais do que nunca depuradas. dos poucos que conseguiram elevar a confissão ao nível do universal. (. potencializada pelo confronto entre duas forças fundamentais: sensibilidade e inteligência. em rugas e cabelo. Além da cidade. da merencória infância. que. Nele pode-se encontrar tanto o poeta que promete ajudar a destruir. Chega-se muito próximo à verdade... do agudo olhar sobre a existência (Que triste são as coisas consideradas sem ênfase) – múltiplas foram as leituras provocadas por sua poesia. harmoniosamente conjuga pensamento e emoção criativa. desde o princípio. do próprio corpo.Drummond: um Claro Enigma na Escuridão do Mundo e da Alma Marlise Sapiecinski É quase desnecessário dizer que. mas jamais se consegue atingir a desejada síntese. sua miopia). Forças que impõem uma série de reflexões a quem se comprometa na arte de interpretá-las. dos acontecimentos. Como uma resposta talvez à “Procura da Poesia”. poeta do obstáculo. poeta do sensível e da dura substância. Poeta de vasto sortimento de memórias. na medida em que sua poesia avança. Forças que assumem um caráter particular quando se trata de um livro como Claro Enigma. como se fora . da natureza e dos homens em sociedade. superando as exigências expressionais de sua época e contribuindo para a constante renovação do modernismo.) preciso aceitar e compor. o que mais de perto interessa perceber é que parece ter sido. uma profunda sensação de perda e desgaste envolve a viagem poética rumo à revelação que está sempre a se insinuar sem nunca mostrar de todo sua face. uma forma de conhecimento a um só tempo pessoal e altamente artístico. que ele sabia além. minhas medidas partiram-se.. poeta da anulação. da pedra no meio do caminho. Apesar de recriminado por alguns por não ter mantido as diretrizes iniciais ao longo de sua extensa obra. intuições. isso ainda não é poesia. construídas sob a gestão de um inegável rigor poético.

do soneto escuro. que respondem. uma atividade lúdica da razão. Modernista ou clássico. senão eterno: E como ficou chato ser moderno/ agora serei eterno. toda a produção drummondiana revela. e. É assim que se pode pressentir em Claro Enigma uma espécie de síntese. na maturidade. Sua poesia é feita de permanente questionamento e exigência artística. que penetra seu tempo de modo a apontar suas mais íntimas contradições. O que antes era certeza de sim ou de não. muitos. A representação consciente da urgência histórica. intensificando a sensação de inutilidade em relação ao conhecimento adquirido. fiel à ética de uma poesia que nunca deixou de se espantar com a vida e com o mundo. de se. familiar ou histórica. de seus parcos recursos. de onde afloram infinitas incertezas e outras tantas desconfianças. na famosa definição de Valéry. em instâncias penetradas de dúvida. exigida talvez por um incansável espírito perquiridor. as crenças anteriores e a fé depositada na esperança de que havemos de amanhecer aparecem sombreadas por céticas reservas de tempo. às exigências de seu próprio questionamento existencial e de sua aptidão a interrogar. como o soneto. alimentando perquirições que se refletem de forma decisiva na linguagem. difícil de ler. Essa crise. uma poesia que apresenta uma capacidade inesgotável de surpreender. de diferentes maneiras. A perda de certas ilusões coincidirá com a presença de um estilo de natureza clássica e um conseqüente distanciamento da representação social-concreta. advinda talvez da idade madura. abafado. De qualquer maneira.uma pedreira. pois ele nunca encontra o de que carecia. Nesse momento. assumiu completamente suas qualidades de master. seco. com seu verbo antipático e impuro. na verdade. transforma-se. o que não é . o de que carecemos. refratário à figuração social. profunda e absolutamente moderno. novos modos de comunicação. Cônscio de seu ofício. seja em relação à experiência amorosa. naquela vertente poética inaugurada por Baudelaire e proclamada por Rimbaud. Nesse sentido. nesse momento. a situação espiritual de nossa época. em relação a luta fáustica pelo conhecimento. como percebeu Merquior. sobretudo. como também o poeta do soneto duro. uma festa do intelecto. sob a forma de símbolo. presente de forma explícita em A Rosa do Povo. principalmente. Talvez por isso não se prenda definitivamente nem mesmo às questões de ordem mais técnica. de mas. poetas que não se deixam apreender de uma só vez nem almejam qualquer forma de catequização. da incomunicabilidade da própria poesia. que busca nas formas tradicionais de composição. É o sentimento agudo do relativo. o que de mais profundo Claro Enigma registra é o abalo que a negatividade histórica exerce sobre a consciência. seja em relação a validade do que escreve. Essa é a grande lição da poesia de Drummond: a de não se pretender lição de nada. na busca de um contato mais íntimo com o passado literário. uma floresta. Com efeito. de que a nada se pode outorgar a condição de absoluto. Há ainda outros. em favor de um simbolismo abstrato. é substituída pelo olhar lançado sobre a tradição. como disse Alfredo Bosi. em direção à maior pureza lírica. fabrica um elefante e cotidianamente o recoloca na rua./ Não quero ser senão eterno. a sua própria sensibilidade o levou a essa depuração. há de fazer sofrer. de talvez. apenas comunicar o essencial sentimento do mundo. do precário em que se resume toda a existência humana. se apresenta em vários níveis. que há de pungir. o poeta que. para além das particularidades da postura assumida na fase de Claro Enigma. o poeta mineiro foi. um verme. purificada e sóbria. de miglior fabbro.

Diz o poeta em “Legado”: Que lembrança darei ao país que me deu tudo que lembro e sei. entretanto. e já não compactuando com uma poesia que quer servir de consolo. Só proferi algumas palavras. a vagar. já que parece ter deixado de crer na poesia como algo merecedor de preito excepcional. entre o talvez e o se. Não deixarei de mim nenhum canto radioso. momento em que as canções de timbre mais comovido estão caladas e os homens surdos aos apelos da alma. amor e piedade? Aquele desejo ético de que a palavra pudesse de alguma forma interferir no plano dos acontecimentos. Ora. e não te engano a ti. o que nos parece é justamente o contrário. em sua maioria. entrega. uma busca ansiosa de um universalismo estético. tudo quanto senti? Na noite do sem-fim. um sentido superior de arte. E em “Confissão” revela: Não amei bastante meu semelhante. como muitos o fizeram. que se perfaz numa angustiada inquietação expressiva. não catei o verme nem curei a sarna. a rigor. saem-lhe forçadas. como compor um homem e tudo o que ele implica de suave. apesar do desânimo produzido pela seqüência de desilusões político-filosóficas. parece alimentar-se em Claro Enigma de pressentidas descrenças em doses de amarga . Esses monstros atuais . ou antes. de concordâncias vegetais. melodiosas. murmúrios de riso. sobretudo do “poeta maior” voltado para os grandes problemas do homem e da vida. Severo em extremo consigo mesmo. Do que restou. definitivo nos versos de A Rosa do Povo. mundo. breve o tempo esqueceu minha incerta medalha. taciturno. eu? Tu não me enganas. explicitamente exposto através da fúria metapoética de “Oficina irritada”.) E na meia-luz tesouros fanam-se. (Cego é talvez quem esconde os olhos em baixo do catre.suficiente. dissolvidos os ideais de criação. tarde. sem aquela vigorosa versatilidade do passado. ao voltar da festa. onde. o quanto o poeta era cioso de seu ofício. pois o formalismo o controla. os mais excelentes. que as composições de Drummond. E mereço esperar mais do que os outros. não os cativa Orfeu. E o que é mais absurdo: dizer que se poderia admitir que se encerraria aí a carreira de Drummond. a única reação possível é a de culpar-se por não ter conseguido comunicar o que pretendia. entre eles Emanuel de Moraes. uma voz matinal palpitando na bruma e que arranque de alguém seu mais secreto espinho. para que se possa afirmar. que o seu novo conceito de poesia poderia efetivamente tê-lo paralisado. e a meu nome se ri. desejaria poder deixar ao mundo seu legado de esperança. Essa aparente descrença no ato criativo revela. Dei sem dar e beijei sem beijo. Esse sentimento fica patente em sonetos como “Legado” e “Confissão”.

verdadeiramente. diz ele em “Remissão”. tornou-se vários poetas. não os cativa Orfeu. José?” é o mesmo que ignorar uma parte substancial de sua obra. o fato é que para alguns Drummond continua sendo o poeta que estreou com Alguma Poesia e se consagrou com os versos socialmente engajados de A Rosa do Povo. no perene trânsito do mundo. longe da experiência pessoal: esses monstros atuais. Claro Enigma. preenchendo as lacunas que esta havia deixado na literatura. mas. por exemplo. poema de abertura do livro. alcança uma modernidade mais profunda. no poema “A mesa”. afinal. Nesse sentido. Drummond. por isso. sua linguagem se movimenta em direção a uma expressão mais puramente lírica. mais uma vez. É assim que o filho explica ao pai suas incômodas posições do tipo gauche. ao poema que se tornou a mais conhecida e citada obra poética do modernismo brasileiro: “No meio do caminho”. não menos do que Pessoa ou qualquer outro dentre os grandes. um poeta múltiplo. não satisfaz o espírito perquiridor de um eu lírico cansado de desilusões. pois o resto se esfuma. parece que a resposta é não. É nesse espaço que se dá o confronto com o passado através de um diálogo há muito desejado. Como desconfiou Ascher. nada resta. imerso no crepúsculo existencial. do que escreves. à sua maneira perfeitas. Nesses momentos o poeta transcende o próprio modernismo e. cujo legado seus . Mesmo reafirmando-se tantas vezes a qualidade estética dos poemas de estréia. restará. completa Ascher. Apesar da antiga vontade de poder ajudar a mudar o percurso dos acontecimentos.ironia. Mergulhado numa espécie de cansaço intelectual. “A máquina do mundo” já não seduz esse eterno peregrino da estrada de Minas pedregosa com fáceis convites à leitura dos mistérios do mundo./ uma pedra que havia no meio do caminho. ou melhor. fatigado pela antiga procura. Em meio a paz destroçada. como se a condição presente paradoxalmente exigisse a negação do passado ao mesmo tempo em que requer a sua presença permanente: Como ser uma negativa maneira de te afirmar. cuja consecução envolvia refazer na sua própria obra a trajetória toda da poesia ocidental de modo não apenas a atualizar e revivificar o passado. a trilhar arduamente o próprio caminho em direção ao conhecimento que nunca se completa. como “Fraga e sombra” ou “A máquina do mundo”. a provar. é preciso reconhecer que eles não exemplificam todas as qualidades artísticas do poeta. Realizando essa façanha. referindo-se. mas a corrigir também uma parte da história da língua e do país. a solução encontrada pelo poeta. sem qualquer tipo de objeção ao Drummond explicitamente modernista. Por tudo isso é que se pode afirmar que na obra de Drummond parece haver um movimento constante de aproximação e afastamento dos temas ancestrais. mesmo. Fazendeiro do Ar e A Vida Passada a Limpo foram suficientemente compreendidos e assimilados pela crítica de poesia brasileira. diz o poeta em “Legado” e ironicamente conclui: De tudo quanto foi meu passo caprichoso/ na vida. Lembrar-se de Drummond somente através das citações e referências habituais a textos como “No meio do caminho” e “Poema de sete faces” ou enfaticamente repetindo o “E agora. onde se podem encontrar criaçõesmenos definíveis. Nelson Ascher já se perguntara se os textos maduros e trabalhados de livros como Novos Poemas. onde a dúvida completa a visão de um horizonte poético no qual sua própria história se perfaz em negatividade. antevista em “Dissolução”. Dessa tentativa de ajuste avultam os versos de poemas significativos como “Os bens e o sangue” e “A mesa”. pressente-se que qualquer transformação histórica situa-se. Assim. que o destino do poeta gauche está irremediavelmente ligado ao menino antigo. é calarse. Acostumado a interrogar cotidianamente à existência. ele despreza o que lhe é dado de graça pela visão que escapa a possibilidade racional de apreensão do universo e. obviamente. Seja como for.

entretanto. e não como uma pausa na evolução poética drummondiana. mas ao contrário: ‘foi a poesia concreta que assumiu as conseqüências de certa linha da poemática drummondiana’. um livro tão desconcertante que os jovens de 45 tiveram de mudar rapidinho de discurso. e o programa concretista. Ao que saibamos. lembrando a inventividade bem tramada de “No meio do caminho”. mestre de coisas’. erroneamente chamada por Haroldo de Campos de estação neoclassizante. Com efeito. depois de ter verificado em Claro Enigma. Na verdade. mostrando que. Não faz crítica séria de livros de poesia. Drummond sentiu os ataques. Não manifesta grande interesse pelo progresso da Poesia. Mário Faustino. mas é compreensível o pito que Faustino passa em Drummond. Haroldo de Campos publica o ensaio ‘Drummond. um texto desse calibre chega a ser risível. não há nenhuma barreira que separe o verso livre das formas tradicionais enquanto possibilidade de expressão. O coloquialismo. E se alguns o consideram o livro mais isolado da obra do poeta mineiro. por exemplo. mas respondeu com Claro Enigma. manter sua forte dicção sem cair em malabarismos verbais ou numa literatura de ornamento. Em 1957. E até mesmo chegaram a dizer que o poeta havia aderido ao novo programa . para além de sua importância no quadro da poesia modernista. dentro delas. Gilberto Mendonça Teles. Não escreve a sério sobre poesia. Um ensaio que não reivindicava nenhuma ‘influência ou contágio’ da nova poesia nos poemas de Drummond. Porém. na busca de uma depuração cada vez maior das formas poéticas. em 1962. Drummond era o alvo predileto de Lêdo Ivo e de tantos outros. Novas cutucadas. nesse sentido que se deve entender o modernismo classicizado de Claro Enigma. o único que ele dedicou ao poeta. não foram poucas as visões equivocadas sobre a obra de Drummond. pregando a volta do soneto e dos temas ditos elevados. nem oralmente nem por escrito. não discute a sério poesia. longe de se afastar das preocupações com o elemento humano e com o seu tempo. a rigor. É. em que aponta ‘as confluências e pontos de encontro’ entre Lição de Coisas. os temas do cotidiano. Ele havia mostrado o quanto dominava as formas clássicas a ponto de.o que não passa de um engano de leitura. ocorria a exposição de arte concreta no Ministério da Educação e Drummond não se mostrara nem um pouco entusiasmado por essas experiências. que acabara de ser publicado.conterrâneos mal começaram ainda a avaliar (apesar da abundância dos estudos dedicados à compreensão crítica de sua obra). Calase. Claro Enigma representa uma das mais intensas tentativas de compreensão da “Máquina do mundo”. nada disso agradava ao estilo purista que surgia. Assinalando a impressionante presença de Drummond no cenário poético do século XX. utilizando-se de todos os recursos expressivos. . ao longo de sua obra. apesar da pretensa abstração. conta-nos Heitor Ferraz. no caminho pedregoso da poesia. com a famosa geração de 45. de forma inexata. uma total identificação com os princípios da geração de 45. como muitos querem fazer acreditar. especialmente em relação às publicações posteriores a A Rosa do Povo. De nosso ponto de vista. foi duro na crítica: ‘O Sr. Nesse momento.’ Hoje. ‘dono do mais ponderável corpo de poemas que já se formou em nossa história literária’. para usar uma expressão de Merquior. Num segundo momento vieram os jovens da poesia concreta. chegou a dizer que Lição de Coisas é o mais atual dos livros de Drummond por sua maior adequação às experiências mais recentes da poesia brasileira. por revelar as mesmas inquietações poemáticas dos grupos de vanguarda. Drummond evolui continuamente em direção a atualização constante de seu instrumento lírico. poucos anos depois. apesar de reconhecer a importância de Carlos Drummond de Andrade. Heitor Ferraz lembra a resposta do poeta mineiro em dois momentos significativos da poesia brasileira: Primeiro. principalmente. Carlos Drummond de Andrade só age poeticamente através dos poemas que publica.

seu caráter inventivo. para envolver tua efígie lunar. representando o sacrifício do que era mais significativo em sua linguagem. na luta cotidiana pela expressão mais prefeita. endereçada ao coração sensível. Penetrar sem piedade a natureza humana e fluir em versos pelos seus condutos: esse é o canto do poeta de uma linguagem de rara densidade de pensamento. um apelo às mentes e as espíritos. outros há que entendem que o nível de realização estética que a poesia de Claro Enigma atingiu é dos mais altos de nossa língua. É assim que. mas enriquecido de sabedoria. escravo confesso das palavras. é verdade. Poeta do mais verdadeiro sentimento de humildade. Hegel elegeu a poesia como a arte universal. construída sob a gestão de uma inteligência diabólica.porque parece escapar às matrizes de sua poesia. que mesmo nos melhores momentos de sua obra é capaz de repetir: Triste é não ter um verso maior que os literários. e por isso sempre caminho possível para a libertação. ainda assim. Pedregoso caminho. é não compor um verso novo. afinal. em favor de uma depuração maior. se compreende porque. longe de esgotar o significado da poesia contida na excelência do verbo que se revela em Claro Enigma. como costumavam dizer Mário de Andrade e Abgar Renault. . dos maiores de nosso tempo. principalmente. ó quimera que sobe do chão batido e da relva pobre. Seja como for. a poesia de Drummond é radicalmente problematizadora das infinitas relações do homem com o mundo. isto é. porque o filósofo alemão entendia que toda a verdadeira arte é essencialmente uma interrogação. desorbitado. infenso as seduções que corrompem. num grau superior ao das outras artes. E compreende-se.

Ao sair do grupo escolar. Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade. Sentimento do Mundo (1940). menos do que se reclama ao pintor.. não me julgo substancialmente e permanentemente poeta. sincero ou não gratificar-me. e um poeta desarmado é. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam. A esse tempo já conhecia os padres alemães do Verbo Divino (rápida passagem pelo Colégio Arnaldo. com que o redator da revista quisesse. componho muito pouco. mas há também uma consciência crescente de sua precariedade e uma desaprovação tácita da conduta (ou falta de conduta) espiritual do autor. Mário Casassanta levou-me para a burocracia. Já em Brejo das Almas (1934). mas expulsaram-me por "insubordinação mental".Convidado pela Revista Acadêmica a escrever minha autobiografia. um ser à mercê de inspirações fáceis. da leitura. tive que retirar a minha posição. Penso ter resolvido as contradições elementares da minha poesia num terceiro volume. como redator de jornais oficiais e oficiosos. que me criaram no temor de Deus. Até os poetas se armam. Só as elementares: meu progresso é lentíssimo.. a desafiar-me com seus pontos de interrogação. Quando o primeiro navio mercante brasileiro foi torpedeado. ao músico. Dois anos em Friburgo. em Belo Horizonte). relutei a princípio. e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo. Perdi tempo. é verdade que mais velho que a maioria dos colegas. Meu primeiro livro. exige-se pouco do nosso poeta. não sem registrar que sou o autor confesso de certo poema. Alguma Poesia (1930). tomei parte da guerra européia (pesa-me dizê-lo) ao lado dos alemães. Isto posto. pela autoridade natural que me advém de ter vivido a vida. e todos os outros bons sentimentos. mas apareciam novos. De repente. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Primeiro. A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda minha vida. no ano de 1902. praticando aparentemente um ato de vaidade. alguma coisa se compôs. Infelizmente. traduz uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo. comportava-me como um anjo. Casado. porém. a vida começou a impor-se. O bom reitor que me fulminou com essa sentença condenatória morreu. alguns anos depois. que se desmanchavam para dar lugar a outros. fui lecionar geografia no interior. que. . dócil às modas e compromissos. filho de pais burgueses. de que tenho tirado o meu sustento. insignificante em si. se organizou. Rio de Janeiro.Entro para a antologia. Eu liquidava esses outros. o individualismo será mais exacerbado. e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais: No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. e evitando assim qualquer adjetivo ou palavra generosa. no fundo castigo meu orgulho. Refleti logo. Segundo. com os jesuítas. por me parecer que esse trabalho seria antes de tudo manifestação de impudor. mesmo. Primeiro aluno da classe. sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica.contando sem ênfase os pobres e miúdos acontecimentos que assinalam a minhapassagem pelo mundo. falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo. tinha saudades da família. Mas ganhei vida e fiz amigos inesquecíveis. 1944. declaro que nasci em Itabira.era preferível que eu próprio a fizesse. Perdi a Fé. Voltei a Belo Horizonte. da contemplação e mesmo da ação. Minas Gerais. e não outro. mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo. sendo inevitável a biografia. ao romancista. num desastre de bonde na Rua São Clemente. Mas iríamos longe nesta conversa.Autobiografia de Drummond *Publicada em Confissões de Minas (Ensaios e crônicas). por que.

Isto feito. capta em claro enigma. e após outra Trindade Louvo: o homem. Sempre é poeta de verdade Esse homem lépido e limpo Que é Carlos Drummond de Andrade. (Lírico ou participante. louvo o Filho. Claro. Louvo o Padre. o Espírito.) Como é fazendeiro do ar. Prima em Alguma Poesia. Prima no Brejo das Almas. Manuel Bandeira . o poeta. louvo aquele Que ora chega aos sessent'anos E no meio de seus pares Prima pela qualidade: O poeta lúcido e límpido Que é Carlos Drummond de Andrade. Prima na Rosa do Povo. O Espírito Santo louvo. No Sentimento do Mundo. De resto Ponteia em viola viola de bolso Inteiramente à vontade O poeta diverso e múltiplo Que é Carlos Drummond de Andrade. alto e raro. o amigo Que é Carlos Drummond de Andrade. o Filho. O obscuro enigma dos astros Intui. O poeta por Manuel Bandeira Carlos Drummond de Andrade Louvo o Padre. Santo.Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.

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