Horizonte Perdido

James Hilton

Horizonte Perdido
Tradução de Francisco Machado Vila e Leonel Vallandro
Digitalização: Argo, o glorioso

PRÓLOGO

quanto a mim. Wyland era secretário de embaixada e convidara-nos a jantar em Tempelhaf. à luz 5 . e descobrirem que já não existe entre eles a mesma afinidade. mas mantinha aquela equanimidade que o diplomata deve ter sempre à mão para semelhantes ocasiões. Não mostrara lá muita alegria. Ainda assim. a tarde nada teve de aborrecida. E a única emoção que Wyland e eu sentíamos em comum — uma pontinha de inveja — nascia da idéia de que ele ganhava provavelmente muito mais e devia ter um gênero de vida muito mais interessante do que nós. vindos de todos os cantos da Europa Central. reunidos numa capital estrangeira. homens feitos. Víamos dali quando aterravam os aparelhos da Lufthansa. Rutherford escrevia novelas. chegara já â conclusão de que nem o tempo nem a Ordem de Vitória tinham apagado em Wyland "Tertius " o leve toque de presunção que lhe conhecera. Simpatizava mais com Rutherford: era uma bela evolução do menino frágil e precoce que noutro tempo eu maltratava ou protegia alternativamente. e no escurecer.Tinham-se apagado os charutos e começava a apontar em nós aquela espécie de desilusão que de ordinário perturba antigos condiscípulos ao se encontrarem de novo. Dir-se-ia que o único ponto de união que nos ligava uns aos outros era o fato de sermos ingleses celibatários.

tirou-lhe o uniforme e subiu para a direção.dos arcos voltaicos. dirigindo-se a Sanders: — Falou em Baskul. rindo: — Sei muito bem disso. Que aconteceu lá? Sanders sorriu. Era. Depois vieram as apresentações. Pelas dez horas. a cena tinha um magnífico esplendor de teatro. para falar com alguém que se achava numa mesa próxima. Era um moço jovial. derrubou-o. Sanders revelou-se um bom contingente para o nosso pequeno grupo e ajudou-nos a tomar muita cerveja. Conheço um pouco o lugar. porém. nunca vi tamanha desfaçatez! O diabo emboscou-se no caminho do piloto. e a conversa mudou de rumo. respondeu. Wyland desculpou-se: era difícil identificar as pessoas sob o traje e o capacete de aviador. e Rutherford. como pode imaginar. que a principio não o reconheceu. quando eu me achava no serviço. e o estranho foi convidado para a nossa roda. porém. mas não tão espontaneamente. observou. meio contrafeito: — Oh! referia-me apenas a um fato que provocou alguma excitação. Wyland deixou-nos durante alguns minutos. fugiu com um de nossos aviões. e continuou: — Foi o caso que um afegane. Um dos aviões era inglês e o piloto. passando pela nossa mesa com o seu traje completo de aviador. cumprimentou Wyland. chamado Sanders. de agradável presença. aproveitando o repentino hiato que se abrira na palestra. Também. aquele moço dos que não podem guardar segredos. afridi ou o que quer que seja. Meteu-nos em maus lençóis. Ao que Sanders. Riu também Wyland. Não esqueça que eu estava em Baskul. Deu ao mecânico as ordens 6 . sem que ninguém notasse.

e tinha um equipamento muito aperfeiçoado. Quantos passageiros eram? — Quatro. com todos os transportes comuns de tropas. — Quando foi isso? — Oh! haverá. E é isto o mais estranho do caso. — Sim. em maio de trinta e um. penso que isso não poderia ter acontecido. aconteceu! Isto prova. por causa da revolução. não acha? Ainda com o mesmo interesse. por acaso. Rutherford parecia interessado. que se saiba. Três homens e uma espécie de missionária. Suponho. mas aquele era um aparelho todo especial. que o hábito faz o monge. é isso mesmo. . . . — E assim é. Rutherford observou: — Supunha que nessas ocasiões haveria mais de um homem encarregado de um avião. E contudo. Conway? Sanders respondeu. . Há por essa fronteira muitos sítios em que um avião pode despedaçar-se sem que ninguém ouça. entretanto. até certo ponto. Está claro que se o sujeito pertencia a uma tribo nativa. se não me engano. um ano. não? Estava tudo em polvorosa. — Um deles não se chamava. Lembra-se. com a mira no resgate dos passageiros. . poderia ter voado para as montanhas. O pessoal do Serviço Topográfico Indiano se servira dele para vôos de grande altura em Caxemira. talvez. — E diz o senhor que nunca chegou a Peshawar? — Nunca! E também não desceu em parte alguma. surpreso: 7 . Mas o pior é que nunca voltou. construído primitivamente para certo marajá. . do contrário.certas. que morreram todos. Estávamos fazendo evacuar a população civil de Baskul para Peshawar. decolou e lá se foi voando em grande estilo.

. contei-lhes a história de Baskul. — Era. a maneira como se deu o fato. quero dizer. Bem. sim — concordou Rutherford. senão eu a teria lido. a modo de desculpa: — Estes amigos estavam falando de "Glória " Conway. não é mesmo? Por um momento guardou Wyland um silêncio austero. . Mas acho que não há mal nisso. Por fim disse: — Lamento que se faça desse caso uma mera anedota. . Pareceume até que corava. Wyland. creio que fui mais longe do que devia. . isso talvez já não tenha tanta importância. "Glória" Conway. . era um deles. Sim. um grande tipo. E. sentia que não lhe ficava bem fazer esta observação. . . . Será novidade velha. extraordinária. Pareceu sair de um devaneio e disse: — Os jornais não deram a notícia. . já se vê. sabida em todos os cassinos de oficiais. não! O governo apenas anunciou a perda de um aparelho. para não falar nos bazares. . Uma dessas notícias que não chamam muita atenção fora do círculo interessado. A história foi abafada. Conhecia-o? — Andamos na mesma escola — tornou Rutherford. . Não era notícia para ser bem recebida. embora dissesse a verdade. .— Mas sim. . Era evidente que procurava conciliar os deveres da cortesia com a retidão oficial. meio embaraçado. Naquele momento voltava Wyland e Sanders foi-lhe dizendo. a julgar pelo que fez em Baskul. — Para dizer a verdade — replicou enfim —. mencionando os nomes. — Indubitavelmente. Mas que coisa extraordinária. 8 . Porque. não sei como. Como foi isso? Sanders não se sentia agora muito a gosto. . . . — Era.

Achava-me em Peshawar nessa época. — E por outro lado — replicou Rutherford secamente — é natural que se sinta curiosidade de saber a verdade. faziam ponto de honra de não espalhar histórias fora da escola. mas um tanto desleixado. — A verdade não foi escondida a ninguém que tivesse motivo sério para averiguá-la. até rebentar a guerra. é daqueles tipos que Jowett teria apontado para futuro primeiro-ministro.Sempre pensei que vocês. Sorriu Rutherford à observação e replicou: — Era inteligente. não houve mal nenhum no seu caso. Certamente a guerra lhe veio cercear a carreira. quero dizer. E contudo. . — Gostava dele? — Achei-o inteligente. sim. o fato é que não se ouviu mais falar nele depois que saiu de Oxford. e raras vezes o encontrei depois. Fez parte de uma guarnição de remo e foi figura importante na União — e prêmio disto e daquilo. Mas não há negar que às vezes é necessário cercar de certo mistério os fatos ocorridos na fronteira. Era muito novo. Conheceu bem Conway . homens do ar. voltou-se mais amável para Rutherford e continuou: — Certamente. e não sei que mais. Assombrosamente versátil. — Foi ferido. Fez um curso triunfal na universidade. creio que numa explosão — respondeu 9 . quando estava de serviço em Angorá. . e posso afirmar-lhe isso. e ouvi dizer que tomou parte ativa nela. Também o considero o melhor pianista amador que conheço. desde os tempos de escola ? — Estivemos pouco tempo juntos em Oxford. E você. Depois desta censura ao moço. esteve com ele muitas vezes? — Uma ou duas apenas.

. mostrou-se muito cordial e declarou que esperava tornar a encontrar-se conosco. se você quiser. Era evidente que não lhe agradavam os motejos. Desempenhou diversos cargos. ao nos despedirmos. era ainda a do decoro oficial ofendido. E a história jamais revelará quanto esplendor foi desperdiçado em decifrar notas do Foreign Office e em servir chá nas recepções da Legação. após outras pilhérias semelhantes. e não 10 . . eu era um calouro. Rutherford ergueu-se para sair. como uma espécie de explicador. Fez boa figura. Tinha lá um gabinete e poderíamos conversar. então. Afirmei-lhe que não. . a não ser que este assunto o aborreça. muito cedo. porém. . mas sofrendo em silêncio. Na verdade ia ficando tarde. e eu declarei que também me retirava. Sei que foi para o Oriente em vinte e um. enquanto esperávamos um táxi. Aquiesci à excelente idéia e ele acrescentou: — Assim poderemos falar de Conway.. Seus estudos de línguas orientais lhe valeram o lugar com isenção das formalidades preliminares habituais. — Ele terminou o curso no fim do meu primeiro trimestre e não tornei a vê-lo. Eu ia tomar um trem transcontinental na manhã seguinte. Creio que voltou depois a Oxford. — mas nada de grave. Rutherford perguntou-me se queria passar a noite no seu hotel.. ainda que pouco o conhecesse. não ao diplomático — disse Wyland com ar altivo.Wyland. — Isto explica tudo. por pouco tempo. e. E quando. — Ele pertencia ao corpo consular. Mas foi extraordinariamente bondoso comigo certa ocasião. O sorriso de Rutherford acentuou-se. ele não protestou. A atitude de Wyland. Sanders. Obteve uma condecoração na França.

Era extraordinariamente dotado para as representações teatrais. Tenho aliás observado que outros. toda aquela vaidade. certamente. de um Philip Sidney. sua lembrança conservou uma nitidez romântica. Pensávamos ambos em alguém que nos interessava muito mais do que seria de esperar. encontrando-o somente por acaso e falando-lhe por um momento. É possível que algumas pessoas tenham dado esse nome a Conway. por exemplo. Era alto e extremamente bem-parecido. aquela colossal presunção. poderia sobreviver a ela. Lembro-me de que certa ocasião fez um discurso em grego. aquela efervescente combinação de atividade mental e física. é verdade. classificouos de "gloriosos" e daí se originou a alcunha. Qualquer coisa. guardavam dele viva recordação. Nenhum outro. que mal conheceram Conway. Não dou muita atenção a Wyland. enfim. Foi uma coisa trivial. — Sim. Nossa civilização atual não gera muitos tipos assim. Havia nele algo da época de Isabel — a natural versatilidade e bela figura. ouvi de Rutherford: — Sim. por ter feito esta observação. E essa mentalidade de 11 . e não só se distinguiu nos jogos como arrebatava toda sorte de prêmios escolares. Ficamos alguns minutos calados. Um reitor sentimental. Era um moço notável. vista a idade em que o conheci — a idade do culto do herói —. mas que nunca esqueci. falando um dia dos seus feitos. e para mim. gente como Wyland.havia razão alguma para fazer o que fez. também o apreciava muito. dado o pouco contato que tivéramos com ele. talvez. . Não posso suportar tal tipo de homem. e no entanto conheci-o durante muito pouco tempo. . Não deixava de ser um tanto estranho aquele silêncio. e temos para essas criaturas um nome especial e desdenhoso: diletantes. E.

— A leitura do seu livro não me deu essa impressão. Era parte de uma história muito mais fantástica. não desejaria perder esta reunião. e ele respondeu: 12 . Veja você. Disse-lho. . mas não tanto assim. — Talvez eu não mereça. Atravessamos algumas ruas em silêncio. E no entanto. em que eu não via razão alguma para acreditar — ou antes.prefeito de colégio. . se ouvirmos o conto em segunda mão. . mas ao cabo ele recomeçou: — Seja como for. Agora há duas razões muito insignificantes. rindo: — Bem. é claro. Dir-se-ia ter-lhe ocorrido de repente que aquilo não me interessava muito. Não. . não notou? Certas expressões como "apelar para o sentimento de honra "e "espalhar histórias fora da escola"— como se todo o império fosse a quinta classe de um liceu! Por isso mesmo é que vivo a questionar com esses senhores diplomatas. Eu não tinha mencionado minha autoria daquele trabalho técnico (afinal. havia apenas uma razão muito insignificante. . Passei grande parte da vida viajando e sei que há coisas muito esquisitas por esse mundo afora. . uma coisa é certa: não vou revelar o segredo a Wyland. a neurologia não interessa a todo o mundo) e fiquei agradavelmente surpreendido por saber que Rutherford ouvira falar do livro. eu tinha ouvido falar nisso e não dera muito crédito. . Você deve ter adivinhado que eu não sou muito crédulo. Interrompeu-se e depois continuou. prefiro tentar a sorte com você. . Seria o mesmo que procurar vender um poema épico ao Tit-Bits. quando a gente as vê pessoalmente. Foi para mim uma coisa singular ouvir Sanders contar aquele caso de Baskul.

mas não me custa admitir. Não sinto lá muita simpatia pelas obras missionárias comuns. nunca nos correspondemos e não posso dizer que pensasse muito nele. perguntei-lhe: — Tem certeza disso? E como o sabe? Abrindo a porta. Alguns segundos mais tarde. O fato é que Conway não morreu. Pelo menos. Enquanto subíamos para o quinto andar. Viajava para Chung-Kiang. e. Isto. porém. que os católicos formam categoria à parte. . Fora a Hankow visitar um amigo e voltava pelo expresso de Pequim. parece que gostou de conversar comigo a respeito de seu trabalho e outros assuntos gerais. como aliás fazem muitos outros. não vem ao caso. Não tornou a falar senão depois de estarmos instalados nas nossas poltronas. Ando sempre correndo mundo. como eu falava um pouco o francês. estava vivo há alguns meses. servidos de bebidas e charutos. em certa ocasião. — Estive na China no outono. Não era possível comentar isto no exíguo espaço e tempo de uma ascensão em elevador.— Pois bem. eu me interessei porque foi justamente a amnésia o mal de Conway. Chegáramos ao hotel e ele foi buscar sua chave no escritório. já no corredor. em férias. por sinal que uma pessoa encantadora. Havia muitos anos que não via Conway. O 13 . pois que ao menos trabalham rijo e não se colocam na posição de oficiais de patente num mundo governado por hierarquia. respondeu-me: — Porque em novembro passado viajei com ele de Xangai a Honolulu. onde estava situado o seu convento. . Travei conhecimento no trem com uma madre superiora de irmãs de caridade francesas. disse: — Tudo isto não passa de rodeios. posto que sua fisionomia fosse uma das poucas que eu tinha bem presentes na memória. num navio de carreira japonês.

e a conversa acabou por um convite que ela me fez para visitar a missão. se algum dia aparecesse por ali. falando sobre o hospital da missão em Chung-Kiang. A meu ver. E no entanto.fato é que essa senhora. De modo que me vi constrangido a passar meio dia em Chung-Kiang e resolvi pegar na palavra a boa freira. Vestia um traje nativo. Falava o chinês correntemente. voltei a Chung-Kiang poucas horas depois. É que o trem teve um desarranjo alguns quilômetros adiante. o francês com a maior correção. e foi com muita dificuldade que pôde voltar à estação. e minha companheira de trem afirmou que. naquele momento isso me parecia tão improvável como subir ao Everest. É comum isso nos caminhos de ferro chineses. pelo fato de ter descoberto uma pronúncia puríssima em língua que não conhecia. uma das coisas mais difíceis para quem não é católico é compreender a facilidade com que um adepto dessa religião combina a rigidez oficial com uma largueza pessoal de vistas. posto que não soubesse explicar de onde vinha nem trouxesse papéis consigo. com pronúncia puríssima. e quando as irmãs o recolheram estava muito mal. Não é complicado isto? Se14 . onde nos informaram de que não poderia chegar outra máquina antes de doze horas. fazendo uma visita à missão. antes de saber qual a nacionalidade das freiras. Ora. Disse-lhe que não me entrava na cabeça semelhante fenômeno e caçoei amavelmente com ela. também se dirigira a elas em inglês. ainda que não sem certa estranheza. mencionou um caso de febre que aparecera lá algumas semanas antes — um homem que supunham europeu. das classes mais pobres. "Fui recebido cordialmente. Pilheriamos sobre isto e outras coisas. e quando o trem chegou a Chung-Kiang despedi-me com sincero pesar por ver terminar aquele encontro casual.

ninguém podia enganar-se com aquele homem: quem o via uma vez ficava com as suas feições 15 . Vi-lhe aquela estranha e quase imperceptível contração dos músculos faciais. que parecia muito bem dirigido. foi a primeira palavra. se tivesse refletido um momento. eram mais do azul de Cambridge que do de Oxford. Mas não tive tempo de me surpreender com isso. Eu só via a parte posterior da cabeça do homem. Chamei-o pelo nome. da aparência completamente mudada e do longo tempo que passara sem o ver. obedeci ao primeiro impulso. Ainda não fazia uma hora que estava lá e já me ofereciam uma refeição preparada para mim. Alguém sugeriu a idéia de falar-lhe eu em inglês. e eram tão ingênuos que ficaram alvoroçados à idéia de que eu podia incluí-los a todos num livro. Um jovem médico chinês — era cristão — sentou-se à mesa comigo para conversar. O homem ergueu repentinamente a cabeça e respondeu: 'boa tarde'. aquela gente da missão era muito amável. chegaria talvez à conclusão de que não podia ser. e contudo. e os mesmos olhos que. como costumávamos dizer em Balliol. Mencionara-lhes a minha profissão de escritor. Felizmente. De fato. Ao passo que eu percorria as camas. e assim fiz. e. falava com inflexão educada. Era tudo imaculado no hospital. dizendo o meu. não muito original. Tinha certeza de que era ele. Mais tarde a madre superiora levou-me a ver o hospital. quando a madre mo apontou. Já nem me lembrava do misterioso doente e sua refinada pronúncia inglesa. que parecia adormecido. que me veio à lembrança. Além disso. posto que me olhasse sem sinal algum de reconhecimento. tão minha conhecida. porque já o reconhecera — apesar da barba. dizendo-lhe 'boa tarde'. numa divertida mescla de francês e inglês. na verdade. ia-me o doutor explicando os casos. convencime de que não me enganara. orgulho de todos ali. Era Conway.ja como for.

no interesse de Conway. Assim que me foi possível. e parecia gostar de minha companhia. Estava mesmo alegre. Nenhum deles tinha idéia alguma da maneira como Conway pudera chegar a Chung-Kiang naquele estado. Disse-lhes que o conhecia. não sem assombro." — Prestou-lhe você um serviço imenso — observei. Concordaram com a minha hipótese. É claro que o médico e a madre superiora se mostraram muito interessados. Seria. Quando lembrei que poderia reconduzi-lo à pátria. mas foi recuperando a saúde e conversávamos muito. E folgo em dizer que consegui o que desejava. Confiei o caso a um conhecido que era funcionário do consulado de Hankow. e tivemos então uma longa conferência a respeito do caso. fixei a data da partida. Não obtive resultado. Quando lhe disse francamente quem eu era e quem era ele. 16 .gravadas para sempre na memória. e ali tomamos o trem para Xangai. um bom bocado para a imprensa! "Pois bem. sem motivo especial. Parecia-me. "Para encurtar a história. que era inglês e meu amigo e que só atribuía o fato de não me ter reconhecido à perda absoluta da memória. de um modo ou de outro. realmente. fiquei ali mais de quinze dias na esperança de poder fazê-lo. Descemos o Yang-tsé até Nanquim. disse apenas que isso não lhe interessava. saímos da China de maneira normal. teriam surgido. ser melhor que toda aquela história escapasse à publicidade e espalhafato dos jornais. Nessa noite partia um vapor japonês para São Francisco e corremos a tomar passagem nele. Não deixava de ser desanimadora aquela aparente falta de vontade própria. e deste modo consegui que o passaporte e outros papéis necessários fossem preparados sem os embaraços que. lembrar-se de alguma coisa. mostrou-se bastante dócil e não discutiu. a não ser assim.

por exemplo. quando digo que nunca nos esqueceremos disso. ele. certamente. Era da nossa mesa e falava às 17 . a caminho dos Estados Unidos. Em Yokohama encheu-se o vapor e entre os novos passageiros estava Sieveking. mas sempre fora assim. . Lembrava-se de tudo perfeitamente. Era brilhante — não há outra palavra. que sabia ter tido algo que ver com a índia. . Nós ambos o conhecemos e não estou exagerando.Não o negou Rutherford: — Creio que não teria feito tanto se fosse por outra pessoa. Calou-se um momento. Mas havia não sei o que naquele rapaz. E Conway era. e outro ponto que lhe pode interessar é que não esquecera as línguas. conservava ainda aquele poder de atração. ou devia ter sido. — Sim — concordei. e creio mesmo que assim foi. Disse-lhe tudo que sabia a seu respeito e ele ouviu-me com uma atenção concentrada que quase tocava as raias do absurdo. Disse-me. não tivesse ocupação mais importante — porque não considero grande carreira para um homem isso de ser esteio da majestade britânica. que até agora é agradável recordar — posto que eu o veja ainda colegial. até lá na China. — Ele possui um encanto particular. a gente sentia-se feliz em fazer por ele tudo que pudesse. Dizem que depois da guerra ficou diferente. Mas não posso deixar de lamentar que. — É pena que você não o tivesse conhecido em Oxford. em traje de etiquete. cujo passado era um mistério. é difícil explicar. cujo espírito estava perturbado. reatamos a velha amizade durante a viagem. onde ia dar concertos. . o pianista. . depois continuou: — Como bem pode imaginar. sendo tão bem dotado. desde a sua chegada a Chung-Kiang. um como dom de conquistar as pessoas. pois que conhecia a língua hindustani. E. cismando. grande.

"Terminado o programa prolongou-se o recital numa série de repetições. em alemão. Sieveking aquiesceu em dar um concerto a bordo e eu e Conway fomos ouvi-lo. Isto prova que. mostrou-se de repente indignado. Conway disse afinal que era um estudo de Chopin. achava que deviam dar-se por satisfeitos. mas. exclamou que era incrível. muito excitado. entretanto. visto ter sido músico. ainda mais alvoroçado. que eu não reconheci. Após um longo silêncio. tocou principalmente Chopin. Afinal deixou o piano e dirigiu-se para a porta. estranho na verdade. Conway sentara-se ao piano e estava tocando uma música rápida e viva. e não me surpreendi ao ouvir Sieveking negá-lo peremptoriamente. porque até aquele dia revelara tão pouca emoção em todas as coisas! Sieveking. Tocou bem. a indagar o que era. Sieveking. tinha início um fato estranho. conheço tudo quanto existe de Chopin e afirmo-lhe que ele jamais escreveu isso que o se18 . o que me espantou. o que seria muito natural. ainda acompanhado de admiradores. evidentemente.vezes com Conway. Conway pôde apenas dizer que não sabia. Uma ou duas vezes olhei para Conway e pareceu-me que ele estava apreciando aquilo. é claro — alguns trechos de Brahms e Scarlatti e muita coisa de Chopin. Alguns dias depois de partirmos do Japão. Não me pareceu que fosse. Conway. no exterior. pareceu-me — a alguns entusiastas agrupados em redor do piano. Nesse ínterim. A não ser a perda de memória. um tremendo esforço fÍsico e mental para se lembrar. que Sieveking concedeu — muito amavelmente. na aparência. do seu lado. Fazendo. mas que fez com que Sieveking voltasse. objetava: " 'Meu caro amigo. que não se notava no trato comum. ele parecia perfeitamente normal. Você sabe que é a sua especialidade. Também desta vez. sua aparência geral era a de um homem são.

isso nunca foi impresso. pois é o seu estilo. mas serve para mostrar a opinião que Sieveking fazia delas. ainda assim. ainda que não conheça. estava ansioso por afastá-lo dali e levá-lo para a cama. mas havia. Se não era como ele dizia. se aquelas duas peças fossem publicadas. e também a minha. Sieveking achava-se. "Todo esse incidente foi tão inexplicável.nhor acaba de tocar. o que era então? Sieveking afirmou-me que. os trechos musicais a pedir explicação. ou pouco menos que impossível. Desafio-o a mostrar-me em qualquer edição'. Aprendi também com ele outra peça inédita'. se atendermos à época da morte de Chopin: 1849." Olhando-me firmemente. todo absorto no problema musical — um quebra-cabeça. "Ao que Conway replicou afinal: " 'Oh! sim. . Pode ser exagero. declarar que a explicação de Conway era cronologicamente impossível. Depois de muito argumentar não conseguimos assentar uma explicação satisfatória. mas sucede apenas que não o escreveu. Conheço o trecho porque o ouvi de um antigo aluno de Chopin. em certo sentido. Seria muito fácil. . . Podia perfeitamente ter escrito o trecho. está visto. . O úl19 . homem de certa nomeada. aquilo foi um repentino e assombroso vislumbre do seu passado — a primeira revelação que lhe escapava. como já me parecia que ia ficando fatigado. creio que poderá imaginar a excitação de Sieveking. naturalmente. lembro-me agora. Para mim. quando Conway continuou a tocar. . que talvez não seja demais acrescentar que havia ali pelo menos uma dúzia de testemunhas. certamente. Rutherford continuou: — Não sei se você conhece música. . inclusive um professor da Universidade da Califórnia. estariam no repertório de todos os concertistas dentro de seis meses. mas. pois que Conway insistia na sua história e.

que a memória começara a voltar-lhe aos poucos enquanto Sieveking tocava. e Conway prometeu tocar diante do microfone. você tem imaginação. 20 .' "Persuadi-o depois a vestir-se enquanto eu fazia o mesmo. Era uma noite serena. Disseme que podia recordar tudo agora. Disselhe que me alegrava por lhe ter voltado a memória." Consultando o relógio. ou coisa que o valha.. mas que me entristecia. Sieveking declarou que se encarregaria de todos os arranjos assim que chegasse à América.. isso a que os alemães chamam Wehmut.timo episódio foi uma combinação para gravar o trecho em disco. por ver que ele preferia que não houvesse voltado. deixei-o à vontade. Tínhamos ambos ido deitar-nos e eu me conservava acordado quando ele entrou no meu camarote e disse-mo. estrelada e quente. e o mar tinha um aspecto viscoso e pálido: parecia leite condensado. a noite do recital. que ele não chegasse a cumprir a promessa. voltou-lhe a memória. Tinha o rosto rígido e a única definição que encontro para a sua expressão é a de uma tristeza esmagadora. Muitas vezes tenho lamentado. pois sua história estava quase terminada. Sentou-se à beira da minha cama e ali ficou calado. por várias razões. — Porque naquela noite — continuou ele —. Weltschmerz. ao mesmo tempo. disse-me Rutherford que eu tinha tempo suficiente para apanhar o trem. Rutherford. e começamos a andar no convés de um lado para outro. uma espécie de tristeza universal — alguma coisa remota e impessoal. Ergueu então a cabeça e ouvi de sua boca o que hei de sempre considerar um grande cumprimento: " 'Graças a Deus. para que falasse quando e como quisesse.

E era muito fácil desembarcar. mas ele deve ter tido dificuldade em subtrair-se às buscas a que. não quero dizer que nada mais ficasse por acrescentar àquela primeira confissão. Soube depois que conseguira reunir-se à tripulação de um bote carregado de bananas. E que ia empreender uma longa viagem — para o noroeste. no paquete de Holyhead para Kingstown. Mais nada. que se dirigia para Fidji. Sentia uma tristeza profunda e não podia dormir.. — Oh! não — respondeu Rutherford. — Que queria dizer com isso? 21 . e. Já me surgia no espírito a lembrança de um suicídio calmo e deliberado que presenciara uma vez. a manhã ia em meio e o sol escaldava. deixou-me às dez horas. Pelo meio da noite seguinte o vapor devia chegar a Honolulu. de sorte que conversamos quase constantemente. — Conway não era desse tipo. quando acabou. — E como veio a saber disso? — Da maneira mais simples: escreveu-me de Bancoc. rindo.Se não fosse a vibração das máquinas. e nunca mais o vi. não deixei de proceder. mais ou menos. três meses mais tarde. Abandonei-o apropria iniciativa. Fugiu-me apenas.. diríamos que estávamos passeando numa esplanada. ajuntando que se achava muito bem. Estivemos bebendo no meu camarote ao escurecer. sem lhe fazer a princípio pergunta alguma. Agradecia-me. Quando digo 'acabou'. remetendo um cheque para pagar as despesas que eu tivera com ele. Ele ainda preencheu muitas lacunas importantes durante as vinte e quatro horas que se seguiram." — Você quererá dizer?. naturalmente. fê-lo sem interrupções. Quase ao romper da madrugada começou a falar.

Principiara por tomar simples notas. — Falou-me nisso. é muito vago. e Rutherford respondeu que eram ambos partes do mesmo problema. mas a verdade é que. Calou-se e encheu os copos. Mas é uma história comprida e não haveria tempo sequer para delineá-la antes de você tomar o trem. O episódio da música. Não gosto muito de revelar as manhas da minha desacreditada profissão. por mais assombroso que fosse. Não quero dizer com isto que tenha inventado ou alterado alguma coisa. no vapor. Até Berlim. a encadeá-los numa narrativa única. quanto mais pensava na história de Conway. afinal. fica nessa direção. vi-me constrangido a aumentar aquelas notas — a dar forma aos fragmentos. por minha parte. Fiz este comentário. Creio também que eu. e seria absurdo. Há no que ele me contou material de sobra. depois de nossas diversas conversações no navio. a fim de não esquecer os detalhes. Além disso. começava a compreender o homem. Mais tarde. mais atração sentia por ela. não é? Há muitos lugares que ficam a noroeste de Bancoc. Era uma história estranha aquela. mas como foi que ele foi ter a ChungKiang? Certamente há de lhe ter contado tudo isso aquela noite. não me interessava tanto como o mistério da chegada de Conway àquele hospital da missão chinesa. ou seria ele que lhe dava essa feição? Eu não saberia dizer qual fosse o mais exato. Conway conversava com muita fluência e tinha o dom natural de comunicar um ambiente. como certos aspectos dela começaram a me empolgar. depois de lhe contar tanta coisa. 22 . guardar segredo sobre o resto. sim.— Sim. — Pois sim. há uma maneira mais conveniente de satisfazê-lo.

E isto não me surpreendeu. Levei comigo os papéis. será pela famosa razão de Tertuliano. e dali "para leste ". se você acreditar. Ia para Caxemira. diga-me depois o que pensa disto. Seja como for. dizendo-me que ia recomeçar a andejar e que por alguns meses não teria endereço fixo. — Pelo que vejo.Foi buscar uma maleta e tirou de dentro um maço de originais datilografados. Pretendia devolvê-la com uma longa carta. Li a maior parte da história no expresso do Oriente. você acha que não vou acreditar nela. lembra-se? Quia impossibile est. — Oh! Minha opinião não é tão definitiva. mas não o fiz logo. Talvez não seja mau o argumento.. e antes de fazer a remessa recebi um bilhetinho de Rutherford. assim que chegasse à Inglaterra. 23 . Faça dela o que quiser. — Aqui tem você a história. . Mas olhe.

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Dentro de algumas semanas. quatro passageiros: Miss Roberta Brinklow. pelas dez horas da manhã. M. atravessando as montanhas em aviões de transporte de tropa. Contava Conway trinta e um anos. poderia ser considerada como a defesa teimosa de uma causa perdida. mediante arranjo feito para evacuar os residentes brancos. Barnard. Empregaram-se também nesse mister alguns aparelhos de várias espécies. Estão aí os nomes. cidadão americano. Tóquio ou Teerã. Manilha ou Mascate: na sua profissão nunca se sabe o que vai acontecer. 25 . conforme apareceram mais tarde nos jornais indianos e ingleses. cedido pelo marajá de Chandapor. Eram estes mais ou menos oitenta e a maior parte foi conduzida sem novidade. Havia dois que estava em Baskul. seria enviado para outra parte. Henry D. vista agora à luz dos acontecimentos. Encerrava-se ali uma fase de sua vida. vicecônsul. Britânica. desempenhando uma tarefa que. cônsul de S. Hugh Conway. E foi nesse avião que embarcaram.CAPÍTULO 1 Piorara consideravelmente a situação em Baskul naquela terceira semana de maio. e no dia 20 chegaram de Peshawar aparelhos da Air Force. da Missão do Oriente. e o capitão Charles Mallinson. talvez uns poucos meses de licença. entre eles um avião de cabina.

Preferia as ocupações menos cerimoniosas e mais pitorescas que se lhe ofereciam. Observava-se-lhe. em vez de ir num dos apinhados aeroplanos da tropa. não se tratava de "uvas verdes". parecia-lhe que jogara muito bem. E. Sabia que nunca teria muito com que comprar melões. mas. e segundo o seu gosto. e. era essa contração muito acentuada quando entrou no avião. e.Estava já há dez anos no serviço consular — tempo suficiente para avaliar as suas possibilidades com a mesma agudeza com que observava as aldeias. esperam ter em recompensa os pequenos confortos da vida. Podia suportar alegremente os rigores da estrada de Samarcande. tivera um decênio moderadamente agradável. como nem sempre eram as melhores. Era alto. quando ria — o que era raro — tinha aparência de menino. Parecia severo e preocupado. como passara todo o dia e toda a noite que precederam a evacuação a reunir e destruir documentos. Achava-se fatigadíssimo e infinitamente satisfeito por ter arranjado as coisas de sorte a viajar no luxuoso aparelho do marajá. para usarmos outra imagem botânica. junto ao olho esquerdo. Entretanto. mas já era consolação bastante pensar que não gostava mesmo de melão. muito bronzeado. Era daquela espécie de homens que. 26 . uma leve contração nervosa que aparecia nitidamente quando trabalhava em excesso ou bebia demais. estando habituados aos trabalhos mais duros. Refestelou-se gostosamente no confortável assento de vime quando o avião se elevou nos ares. para viajar de Londres a Paris. muita gente achava que ele "fazia mau jogo". enquanto sério. cabelos castanhos aparados curtos e olhos de um azul quase negro. gastaria a última nota de dez libras tomando uma passagem no "Seta de Ouro".

Dali a meia hora. Abriu os olhos sonolentos e replicou que. fosse qual fosse o caminho tomado. encerrado nas limitações do ensino público. Não tem importância. inteligente sem ser intelectual. e sou capaz de jurar que não é ele. — É difícil de dizer. Conway. não é ele? — O sujeito voltou a cabeça agora mesmo. cujas vantagens também soubera aproveitar. — Mas é que Fenner me disse positivamente que iria conduzir este aparelho. através daquele vidro. — Sem dúvida mudaram de idéia e deram-lhe um dos outros. A reprovação num exame era a causa principal de ter sido mandado para Baskul. — Pois bem. rendido pelo cansaço e embalado pelo zumbido do motor. se não é ele é algum outro. — Eu conheceria o rosto de Fenner em qualquer parte. a seu ver. quem é aquele homem? 27 . onde estivera seis meses em companhia de Conway. neste caso. corado.Já fazia mais de uma hora que estavam voando quando Mallinson. Mas Conway não queria fazer o esforço que exige uma conversação em aeroplano. que ia sentado logo à frente de Conway. observou que. Era Mallinson um moço de vinte e poucos anos. ia já a adormecer quando Mallinson tornou a perturbá-lo: — Escute. o piloto não seguia o caminho direito. era de supor que o piloto o conhecesse melhor do que eles. pensei que era Fenner quem nos levava! — E então. que já começava a gostar dele. — Bem.

pois. Tinha amigos na cidade e provavelmente alguns deles o levariam ao clube. não é? — Pois eu conheço muitos. Conway não se inquietou. como vou saber disso? Não julga certamente que aprendi de cor a fisionomia de todos os tenentes-aviadores da Air Force. Pequim. — Neste andar não chegaremos nunca a Peshawar. tal era o sumário meteorológico daquela época de sua vida. tendendo a perturbar-se. . Fora um período igualmente agradável. de todo indiferente que a viagem durasse quatro ou seis horas. Também não encarava com saudades a década transcorrida. onde beberiam juntos. era uma perspectiva agradável. sorrindo. mas não de molde a causar-lhe grande alvoroço. Não era casado. ainda que não o tivesse satisfeito inteiramente. O homem está completamente fora de rumo. Macau e 28 . você poderá travar conhecimento com ele e indagar tudo quanto quiser. Estava habituado às viagens aéreas e confiava nos pilotos. bom por intervalos. Era-lhe. Nada tinha de particular a fazer ali e não se sentia ansioso por ver ninguém. não tinha motivo algum para desejar chegar depressa a Peshawar. e não me lembro daquele sujeito. . Voando a tamanha altura ele não pode ver onde está. Instável. — Deve pertencer então à minoria que você não conhece — replicou Conway. daqui a pouco. bem como da história mundial.— Meu caro rapaz. E não me admira. não o aguardava uma terna recepção ao desembarcar. E acrescentou: — Quando chegarmos a Peshawar. Além disto. Passaram-lhe pela memória Baskul.

respirando o pó em bibliotecas cheias de sol. certamente. Uma sensação gástrica muito sua conhecida advertiuo de que o avião começava a descer. do outro lado do estreito corredor. que ia descendo rapidamente. acrescentou ao ouvido de Mallinson: 29 . parecia-lhe. só se avistava um nevoeiro opaco que velava uma imensa desolação. O avião. passara dois anos fazendo preleções sobre história oriental. e tê-lo-ia feito sem dúvida se o moço não se houvesse levantado subitamente. que ele era apenas uma parte de todas as coisas que pudera ter sido. em certo sentido. A cena mais remota na sua lembrança era Oxford. Não era — e isto lhe causou estranheza — sítio algum próximo de Peshawar. o espinhaço rugoso de uma longa fila de montanhas. o americano. A visão era atraente. mas não o comovia. achava-se ainda a uma altura extraordinária para um vôo comum. por não querer assustar os outros. a vista que esperava — se é que esperava alguma coisa. batendo com a cabeça no teto e acordando Barnard. — Meu Deus! — exclamou Mallinson. Em vez dos acantonamentos em elegante disposição geométrica e dos retângulos mais compridos dos hangares. Era o cenário típico da fronteira.outros lugares. Depois. Teve a tentação de admoestar Mallinson pelo seu nervosismo. cerca de uma milha aquém da névoa mais sombria dos vales. descendo a High Street de bicicleta. onde. e mais discretamente. — Não reconheço esta parte do mundo! — observou. espiando pela janela. se bem que Conway jamais o tivesse visto de tamanha altura. — Olhem para baixo! Conway olhou. que estava a cochilar no seu canto. depois da guerra. Avistavase. Não era aquela.

contudo. durante a qual se verificou que não somente não era Fenner como até não era inglês. Acima do horizonte erguiam-se picos de montanhas. e quiçá nem europeu. — Mas não pode! — retorquiu Mallinson. de turbante à cabeça. Dir-se-ia que a terra adusta que se avistava lá embaixo era um forno. O avião se debatia e agitava entre golfadas de ar. pousou sereno.. recortando no ar a silhueta escarpada. Os 30 . Este saltou em terra. que acorriam de todos os lados cercando o avião e impedindo que alguém saísse dele. cuja base estava toda semeada de rochedos e vestígios de cursos de água ressequidos. Mas o piloto aterrou. O que veio depois. Apareceram nativos barbudos. foi mais espantoso e menos tranqüilizador. com muita perícia. tão violentamente como um bote de remo nas ondas encrespadas. — Só se for louco tentará semelhante coisa! Vai despedaçar-se.. e então. . um após outro. Os quatro passageiros mal se podiam manter sentados. Já o vôo seguia a curva de um vale. a não ser o piloto. — Parece que ele vai aterrar! — gritou o americano com voz rouca.— Parece que você tinha razão. pareciam cascas de nozes espalhadas pelo chão. Abria-se um pequeno espaço livre à beira de um barranco e o aparelho. mantendo com eles animada palestra. O homem errou mesmo o caminho! O avião descia com espantosa rapidez e o ar ia ficando cada vez mais quente. depois de alguns baques e solavancos. de capacidade excepcional.. cuja porta se abrira de repente. Enquanto falavam iam carregando latas de petróleo de um depósito próximo e despejando-as nos tanques.

e recomeçou o vôo. Quando afinal os tanques foram fechados. mesmo nos anais turbulentos 31 . Conway. era condição da evacuação que viajariam sem armas. era um significativo aceno com o revólver. O sol do meio-dia. ainda que os homens não parecessem pessoalmente hostis. Que caso extraordinário! Era para desorientar! Já retemperados pelo ar mais fresco. arengou com os homens conforme pôde. em qualquer língua. aquecia o ar inteiro a tal ponto que os ocupantes dela estavam quase a desmaiar. mal podiam crer os passageiros que tudo aquilo de fato acontecera. Ia em meio a tarde. que conhecia um pouco o idioma afegane. naquela língua. desajeitadamente. O avião ergueuse por entre o nevoeiro. um dos afeganes pôs a hélice em movimento. mas sem resultado. passou-se uma lata de petróleo cheia de água morna por uma das janelas da cabina. Viam-se absolutamente impotentes. A partida. Era um ultraje sem precedente e sem igual. como a assentar um rumo. Quanto ao piloto. naquele espaço confinado e com a carga suplementar de combustível. Ninguém respondeu a pergunta alguma. E à mais leve tentativa de desembarque correspondia logo um movimento ameaçador de vinte rifles. depois voltou-se para o oriente. chamejando sobre o teto da cabina. a única resposta a qualquer pergunta. foi ainda mais magistral do que a aterragem. Depois de outra conferência voltou o piloto para o seu posto.gritos dos quatro passageiros aprisionados eram recebidos com arreganhos de dentes e desdenhoso silêncio. com o calor e o esforço dispendido em protestos.

Foi Mallinson que. enunciou esta conclusão. Era Barnard um homem alto e corpulento: no rosto 32 . seja lá de quem for. parece-me que é uma bela idéia. E. mas não posso dizer que a sua Air Force se cobriu hoje de glória. Vocês. ingleses. uma ansiosa curiosidade. Os homens os reteriam em algum covil das montanhas até que o governo pagasse. mas não me lembra nenhum caso de um bandido ter fugido assim sem saber o que fez este sujeito do verdadeiro piloto. e então lhes dariam a liberdade. certo o reputariam incrível. E acabou num bocejo.da fronteira. meus senhores. Aposto que o derrubou com uma paulada na cabeça. Se o processo não era novo. se não fossem eles mesmos as vítimas. e ficava-se com uma boa história para contar durante o resto da vida. Mais tarde. já tinha havido muito rapto no mundo e boa parte deles acabara bem. certamente. e. aquilo só seria desagradável enquanto estivessem prisioneiros. porém. Seriam tratados com toda a consideração. fazem chacota dos assaltos de Chicago e outras coisas. um tantinho nervoso. Apresentou Mallinson uma teoria que foi aceita. à falta de outra melhor: tinham-nos raptado para serem postos a resgate. Era a coisa mais natural do mundo que a esse primeiro momento de incredulidade se seguisse uma explosão de indignação e. a técnica não carecia de originalidade. dissipada esta. O americano. afinal. Já era consoladora a idéia de que não tomavam parte num fato inteiramente virgem na história mundial. entendeu de fazer espírito barato: — Pois. como o dinheiro do resgate não lhes sairia do próprio bolso. a Air Force enviaria um avião de bombardeio.

O quarto passageiro era uma mulher. Aquiescera também. ainda assim. poucos comentários emitia — e nenhuma queixa. onde. nas observações de Barnard sobre a Air Force. viera da Pérsia. com os lábios apertados. com o uniforme de aviador. por outro aviador. Conway. a título de ensaio. . por seu lado. ainda que se compreenda facilmente como se deu o fato. que ele sabe voar. pois transmitir mensagens em vários dialetos é um exercício mental que exige concentração. Em região de tão escassa população era magra a esperança. os vincos pessimistas não apagavam por completo a expressão de bom humor. Conway falava menos que os outros dois. É evidente. que assistia constrangida a uma reunião onde sucediam coisas contrárias aos seus princípios. Ninguém vai lembrar-se de pôr em dúvida a boa fé de uma pessoa que se apresenta com o traje apropriado e parece conhecer a sua obrigação.duro. E o sujeito devia conhecê-la — sinais e tudo mais. deixar cair uma delas. se entregava ao comércio de petróleo. ocupava-se numa tarefa prática: reunia todos os pedacinhos de papel que seus companheiros traziam e neles escrevia mensagens em várias línguas nativas para. ao parecer. . com a teoria de rapto apresentada por Mallinson. Toda tesa no assento. de espaço a espaço. . Dir-se-ia. Respondia. Miss Brinklow. Todavia. . Pouco se sabia dele em Baskul. — . até certo ponto. não nego que seja uma dessas coisas que sempre metem alguém em 33 . às perguntas que lhe dirigiam e concordara. ao observá-la. mas valia a pena tentá-la. Era de baixa estatura e aparência coriácea. Na inquietação e tumulto do momento era muito fácil tomar um homem. além disso.

E por isso sei que há duas noites que não se deita. Se há algo que possa tirar-nos desta entaladela. cavalheiro — replicou Barnard.complicações — posto que. — Muito bem. depois de tudo o que fez nestas últimas semanas. então. mas não dormia. ele o fará. deixemo-lo dormir. a meu ver. — Pois bem. verificou-se que adormecera. Fechara os olhos de pura fadiga física. tem uma espécie de jeito especial para lidar com as pessoas. — É seu amigo? — indagou Barnard. não há dúvida. — Trabalhava com ele no consulado. O certo é que tivemos muita sorte em tê-lo conosco neste aperto! Além de conhecer línguas. Sorriu. além de tudo. E Miss Brinklow fez nesse momento uma de suas raras observações: — Ele parece ser um homem muito valente. ninguém teve culpa neste caso. sem ofender. Já no fim da tarde. Lá consigo pensava Conway que os americanos tinham o dom de dizer as coisas com ar protetor. com uma sensação 34 . Quanto a Conway. apelaram para a sua opinião sobre um ponto. tolerante. e ouvira também. E Mallinson comentou: — Prostrado. quando Barnard e Mallinson. mesmo quando a gente está sendo seqüestrado. — admiro a maneira como procura ver ambos os lados da questão. mas deixou cair a conversação. É essa a atitude correta. E é muito calmo. não tinha tanta certeza de ser de fato um homem muito valente. que discutiam. E não me admira. Ouvia e sentia todos os movimentos do avião. Sentia-se tão fatigado que perigo algum poderia abalá-lo.

Não era — e sabia-o por experiência própria — daquelas pessoas que amam o perigo pela sensação do perigo. uma coisa muito menos apaixonada e menos viril. uma espécie de efeito catártico sobre as emoções ociosas. Continuava de olhos cerrados. Havia neste certo aspecto que apreciava. e um tanto consternado também. ao encará-la. mas estava muito longe de sentir prazer em arriscar a vida.indefinida. o elogio de Mallinson. em determinadas circunstâncias. na verdade. desgostava-o profundamente a idéia das dificuldades que poderiam surgir. segundo lhe parecia. à perspectiva de uma situação em que seria inevitável semelhante falta de eqüidade. Era destino dele ver sempre sua equanimidade confundida com bravura — quando era. uma excitação. por ser mulher. encarava-o com crescente aversão. Sentia-se tocado. 35 . por exemplo. a não ser que prometesse uma quota extraordinária de emoção. e algumas vezes evitara a morte eximindo-se de tentar valentias impossíveis. de fato. Veja-se Miss Brinklow. Previa que. Achavam-se todos numa situação terrivelmente adversa. Doze anos antes começara a detestar os perigos da guerra de trincheira na França. onde quer que surgisse outra vez o perigo. Até sua condecoração devia-a menos à coragem física do que a uma técnica de resistência não muito fácil de conseguir. e longe de se sentir cheio de ardor. E tremia já. E desde a guerra. reconhecendo em certa contração do estômago a reação física a um exame mental não muito tranqüilizador. E foi então que teve suas dúvidas. pelo que ouvira de Mallinson. suas ações teriam de ser subordinadas ao critério de que ela sozinha tinha mais direito a consideração do que eles todos juntos.

sorrindo. Nada há contra as cartas na Bíblia.. . A missionária.Entretanto. Quanto a ele próprio. Conway apreciou o espírito da observação. Não lhe pareceu muito consoladora a resposta. se o senhor puder evitá-lo. — Estou certa de que não. especialmente do sexo feminino. Riram todos. poderíamos até jogar bridge. não tinha preconceitos nesse sentido. Estamos gozando a viagem. creio que não nos acontecerá nada de terrível. como um eco: — Conforto? Mas não há dúvida de que temos conforto. e não vejo mal nenhum nisso. Realmente. voltou-se vivamente e replicou: — Pois jogo. Barnard apanhou a palavra e repetiu em voz rouca. parecendo gratos à dama por lhes pro36 . mas receava que para ela representasse o seu espírito aberto um fenômeno pouco familiar e quiçá ainda um pouco desconcertante. — A senhora me avisará se eu puder fazer alguma coisa para seu conforto. disse: — Parece que estamos numa situação esquisita. porém. foi com ela que primeiro falou. quando deu sinal de despertar. Aproximando o rosto dela para lhe falar. — Não creio que Miss Brinklow jogue — disse. Sentia pena dela. . mas utilíssimas em transes como os que teriam talvez de enfrentar dentro em pouco. porque desconfiava que nem o americano nem Mallinson gostavam de missionários. Via que não era jovem nem bonita — virtudes negativas. mas folgo de ver que a senhora encara o caso com serenidade. Ainda que não gostasse do jogo. . Lástima é que não tenhamos um baralho.

Pelo sol era possível determinar mais ou menos a direção. quem quer que fosse. além de outros incidentes posteriores. com algumas guinadas para o norte. por entre o esgarçado nevoeiro da atmosfera superior — muito alto para que se pudesse ter uma visão clara do que ficava embaixo. Toda a tarde voara o avião a grande altura. De vez em quando. nem necessitava dele. mesmo em meio às incertezas do futuro. ela não é muito nervosa". de tempos a tempos. quanto à região em que se achavam. era coisa que dependia da velocidade do vôo. mas. E lá consigo pensava Conway: "Seja como for. entretanto. era levemente tranqüilizador. Provara-o aquela descida no vale eriçado de penhascos. que já tivessem gasto boa porção de petróleo — o que. sempre que se via em presença de uma competência soberba e indiscutível. Estava tão habituado a receber pedidos de auxílio que só o fato de saber que ia ali alguém que não o pedia. deixando ver a silhueta denteada de um pico ou a claridade de um rio desconhecido. também dependia de certos fatores. Reconhecia que podiam ter muito mais razões pessoais do que ele para estarem an37 . seguiam ainda para leste. Parecia provável. era de uma perícia incontestável. aliás.porcionar uma escusa para tal. e esta não a podia Conway avaliar com segurança. Conway não possuía conhecimentos técnicos de aviação. mas estava certo de que o piloto. Não esperava. contudo. que seus companheiros compartilhassem tão sutis emoções. E Conway não podia sopitar um sentimento natural nele. com longos intervalos. rasgavase por um momento o véu.

por exemplo. Mallinson. aliás. E chegou um momento em que se levantou uma tempestade de questões. vamos ver isso. por que é que você há de esperar sempre de mim semelhantes milagres? — Bem. o certo é que este negócio me está atacando infernalmente os nervos! Não poderemos obrigá-lo a descer? — E de que maneira acha você que poderemos fazêlo? Cresceu de ponto a agitação de Mallinson. furioso. à proporção que iam passando as horas mostrava-se cada vez mais agitado — pronto. — Iremos nós ficar aqui a olhar as moscas. rumo à di38 . dominando o ronco do motor. e somos três contra um! Vamos ficar eternamente a olhar para aquelas costas malditas? Ao menos poderemos obrigá-lo a dar explicações! — Muito bem. também. Não duvido que você possa fazê-lo. a lançar em rosto a Conway aquela mesma frieza que louvara às escondidas dele. — Oh! Mas meu caro Mallinson. tinha noiva na Inglaterra. ele está ali. Era Mallinson. enquanto esse maluco faz o que bem entende? Que é que nos impede de despedaçar aquele vidro e tirá-lo dali? — Nada — replicou Conway — a não ser que ele esteja armado e nós não.siosos. ou como quer que ela o considerasse. e que em todo caso nenhum de nós saberia levar o aparelho para terra. — Escutem! — gritava Mallinson. E Conway deu alguns passos para a frente. não é? Mais ou menos a dois metros de nós. o mais desassossegado de todos. que retrucou: — Escute. vocação. Barnard talvez fosse casado. — Isso não há de ser muito difícil. Miss Brinklow tinha seu trabalho. com certeza.

hem? — Não. Pela minha parte. é melhor a gente entregar-se de boa vontade e aceitar o fato. — Pois me parece que devíamos lutar antes de nos deixarmos derrotar assim. E disse: — Provocar um combate sem probabilidade de vencer é mau jogo. Conway olhou-o com simpatia. declara que o inglês não tem medo de nada. que observara o incidente. cavalheiro! — acudiu Barnard calorosamente. Mallinson. como ele esperava. jamais é vencido.visão entre a cabina e o assento do piloto. A resposta veio. voltando a cabeça e curvando-se levemente. pelo que me toca. podia comunicar-se com os passageiros. de cerca de quinze centímetros. — Muito bem. nunca se entrega. com todo o seu cortejo de soldados de túnica vermelha e livros de leitura escolar. de modo quase cômico. Conway retirou-se sem discutir e a janelinha tornou a fechar-se. que se podia correr para um lado. É só fanfarronada. — Quando alguém nos segura pelo cangote. Havia uma lâmina quadrada de vidro. O quadrado de vidro deslizou para um lado e o cano de um revólver surgiu na abertura. e pela qual o piloto. situado na frente e um pouco acima. vou gozar a vida enquanto ela dura e fumar um charuto. mas pode aborrecer Miss Brinklow. Creio que um pouquinho mais de perigo não faz diferença. — Isso mesmo — concordou Conway. ficou apenas parcialmente satisfeito e comentou: — Não creio que ele ouse atirar. Não ignorava a convenção que. e eu não quero ser essa espécie de herói. — mas deixo a você o cuidado de averiguá-lo. Nem uma palavra: só isso. 39 . Conway bateu nela com os nós dos dedos.

40 . Ninguém era capaz de trabalhar mais rijo. não — respondeu ela amavelmente. querendo demonstrar-lhe simpatia. E lá consigo acrescentava: "E o melhor. e também que não sentisse muito prazer na responsabilidade. ou melhor. — eu não fumo. A senhora não se incomodará muito se eu acender um charuto? — Não. Mallinson. Acalmara-se. quando necessário. e o pior. era aquela a mais típica. que não morresse de amores pela atividade. que ele executava o melhor que podia. Conway ofereceu-lhe um cigarro. Porque ainda sentia uma fadiga extrema. mas estava sempre pronto a ceder o passo a quem a pudesse executar tão bem quanto ele. e poucos sabiam arcar com responsabilidades melhor do que ele. para atenuar consideravelmente o brilho do seu sucesso no serviço consular. madama. também. E disse amavelmente: — Compreendo o seu estado de ânimo. em certo sentido. mas gosto do cheiro de charuto. Não era bastante ambicioso para abrir caminho à custa de outrem. E Conway refletiu que. e. nem para fazer parada de abstenção quando não havia realmente nada que fazer. um pouco a excitação de Mallinson. E isto contribuirá. Achavam-se ambas as coisas incluídas na sua obrigação.Barnard desfez-se em desculpas: — Perdão. Isto não tira. dado que não fosse o termo próprio. contudo. entretanto. Havia também na sua natureza um traço a que talvez algumas pessoas chamassem preguiça. entre todas as mulheres de quem se poderia esperar semelhante declaração. A situação não é rósea. em outros sentidos". é que não podemos fazer grande coisa para sair dela. sem dúvida nenhuma. posto que ele próprio não acendesse nenhum.

Neste momento. Quanto a Conway. Todos muito razoáveis. ainda que com algum esforço. O céu estava muito claro. reclinou-se no assento e resolveu adormecer definitivamente. à contemplação e ao isolamento. e cuja indiferença aparente não passa de disfarce. interpretação errônea. No mesmo instante. por um instante. É que a muitos observadores passava despercebida uma coisa tão simples que frustrava a percepção: o amor ao sossego. e a serenidade que mostrava em emergências difíceis. inclinado para diante. na Suíça. e à luz da tarde agonizante a visão que se descortinou aos seus olhos arrebatou. parecia um ídolo desbotado e fora de moda.Seus despachos eram amiúde tão lacônicos que chegavam a ser deficientes. direita como uma seta. Lembrou-se de ter sentido uma vez sintomas semelhantes. a despeito de suas preocupações. e que não dava importância a coisa alguma. as autoridades gostam dos homens que se dominam. muita gente suspeitava que sua tranqüilidade não era só aparente. não valia a pena estarem a gastar energia em gritos. encobrindo um mundo de emoções disciplinadas. tinham igualmente sucumbido. pensou Conway. porém. conquanto admirada por todos. Miss Brinklow. visto que se sentia tão inclinado a isso e não havia outra coisa a fazer senão isso mesmo. era isto também. E contudo. Ao acordar notou que os outros. O americano até ressonava. Porque lá 41 . Mallinson. o coração aos pulos e a respiração difícil. Voltou-se para a janela e olhou para fora. de olhos fechados. o resto de alento que ainda tinha nos pulmões. como a acusação de preguiça. apoiava o queixo na palma da mão. tomou consciência de certas sensações físicas — uma leve vertigem. foi mais de uma vez atribuída à frieza natural.

longínquos e impassíveis. ia zunindo por sobre um abismo. Não era Conway facilmente impressionável e por via de regra não se preocupava com "vistas" — principalmente com as mais afamadas. 42 . em frente de um paredão branco que parecia fazer parte do próprio céu — até o instante em que o sol o atingiu. não parecia exibir-se à admiração. Havia algo de cru e monstruoso naqueles rochedos de gelo. ele chamejou numa incandescência soberba e deslumbrante. Tocou no braço do moço. ao que parecia. e não faltava certa impertinência sublime a quem assim se aproximava deles. para ver o sol nascer sobre o Everest. E só então notou que Mallinson também despertara. para as quais as municipalidades solícitas proporcionam cadeiras de jardim. vistos de Mürren. naquele palco estupendo. achara a montanha mais alta do mundo uma verdadeira decepção. como uma dúzia de Jungfraus empilhados. Abrangiam todo o arco de círculo e para o ocidente fundiam-se num horizonte de colorido intenso. Tendo ido um dia à colina do Tigre. estimando tempos e velocidades. no limite do firmamento. calculando distâncias. como um pano de fundo impressionista pintado por um gênio meio louco. festoados de geleiras e flutuando. sobre vastas planícies de nuvens. perto de Darjeeling.longe. enfileiravam-se picos enevoados. Mas aquele espetáculo belíssimo que contemplava pela janela era de caráter diferente. Então. recordando mapas. Ia Conway fazendo considerações. E enquanto isso o avião. quase espalhafatoso.

além da simples memória. tinham voado para o Oriente durante algumas horas. — Oh. quando mais tarde Barnard lhe pediu opinião. A estrutura e a aparência geral parecem concordar com todas as descrições que tenho lido. como um professor de universidade que elucida um problema. não. a tão grande altura que não se podia ver muita coisa. mas não me surpreenderia se aquela montanha fosse o Nanga Parbat. mas parece-me que isto coincide mais ou menos com o vale do Indo Superior. ele a expôs com certa fluência desinteressada. Achava provável — disse — que ainda estivessem na índia. devíamos estar a esta hora numa região espetacular do mundo — e bem vê que assim é. A ser verdadeira a hipótese. . deu respostas breves às suas breves exclamações de assombro. Entretanto. — É também alpinista? 43 . o lugar onde estamos? — indagou Barnard. E concluiu: — Oxalá tivesse outros meios para determiná-lo. onde Mummery perdeu a vida.CAPÍTULO II Uma atitude que caracterizava Conway era a de deixar que os outros fossem acordando por si mesmos. nunca estive sequer perto daqui. mas parecia que seguiam o vale de algum rio — um rio que devia correr mais ou menos de leste para oeste. então. Quando o fizeram. . — Reconhece.

exceto um aviador exímio — retorquiu Barnard. na mocidade. Já passamos a região da fronteira. Quem dera que alguém no-lo pudesse dizer! — Pois bem. para o caso de o nosso homem querer atravessá-la.— Fui. — Não acha. atravessá-las será um recorde estupendo. A única explicação que me ocorre é que o sujeito é um louco furioso. Mallinson interveio. se vamos tomar parte numa aventura comum. — Você quer dizer nosso maluco! Acho que já é tempo de abandonar a teoria do rapto. Há lá muitos desfiladeiros. se assim é. Conway? Desculpe-me se o chamo assim. mas ouvi dizer que estas montanhas são consideradas as mais altas do mundo. parece-me que vamos direto àquela cordilheira — disse Barnard. impaciente: — Seria mais acertado procurarmos descobrir para onde vamos. é claro. — Também será a vontade de Deus — encaixou inesperadamente Miss Brinklow. mas. A não ser um louco. não vale a pena perder tempo com cerimônias. não é mesmo? Conway achava muito natural que o chamassem pelo nome simplesmente. e. Conway não deu opinião. e por aqui não vivem tribos. e pareceu-lhe que aquelas desculpas de Barnard eram um tanto fora de propósito. Mas apenas fiz as escaladas comuns na Suíça. quem poderia voar em semelhante país? — O que sei é que ninguém poderia fazê-lo. — Não entendo muito de geografia. — Certamente — concordou. E acrescentou: — Creio que aquela cadeia deve ser a de Caracorum. Vontade de Deus ou loucura do homem — parecia-lhe que cada um podia escolher o 44 . — Nosso homem! — exclamou Mallinson. e entusiasta.

e lembre-se também de que este aparelho era o único que podia subir a tamanha altura. como Mallinson insistisse por uma opinião. Este caso está ficando cada vez mais notável. Conway ficou silencioso. caso achasse necessário encontrar uma razão para todas as coisas. — Notável ou não — insistiu Mallinson —. Barnard. inversamente (continuou a refletir. E foi então. Enfastiava-se de estar continuamente a gritar entre o ruído do motor. Entretanto. a vontade do homem e a loucura de Deus. cujos socalcos mais baixos escureciam e se faziam violáceos. e Deus sabe o que havemos de fazer quando estivermos lá — onde quer que seja esse lá. menos ainda temor. Este sujeito já devia estar louco quando começou. Isso não impede que seja maluco. enquanto contemplava a boa ordem da pequena cabina. E não acho menor a afronta por ser o sujeito um grande aviador. Sentiu brotar na sua alma alguma coisa mais profunda do que a habitual indiferença. Não pedimos que nos trouxessem aqui. A luz tomara uma cor azulada sobre toda a montanha. Não esqueça aquela aterragem para tomar gasolina. Não era propriamente excitação. Já ouvi contar o caso de um piloto que enlouqueceu no ar. como vê. enquanto assim olhava e refletia. contra o fundo recortado pela janela naquele cenário descomunal). mas uma expectação aguda e intensa. Conway. Devia ser coisa muito consoladora ter opinião assente. Aí está a minha teoria. Ou. e. disse: — Loucura muito bem organizada. além disto. que ocorreu uma estranha transformação. E disse: — Tem razão. não adiantava nada discutir sobre conjeturas. não me sinto inclinado a propor um voto de agradecimento.que quisesse. 45 .

parecia perfeitamente capaz de sustentálo. inacessíveis. em parte. por exemplo. E ao contemplar aquelas montanhas soberbas sentiu também uma ardente satisfação. mais nítida ainda contra o céu do norte. Podia ser bastante louco para arranjar tudo isso. — Corra para ele quem quiser. que tomara um matiz ruço e sinistro. não? — Comigo não! exclamou Barnard. O ar rarefeito produz efeitos diversos sobre as pessoas. bem entendido. o resultado era uma clareza de idéias combinada com uma apatia física. — Sim. à altitude. tão profundamente majestosos e remotos que até o seu 46 . Que faremos? Correr para ele e felicitá-lo pelo seu vôo maravilhoso.. A muralha de gelo dos montes Caracorum aparecia. ainda virgens do contato humano. é possível. Os picos tinham um brilho gélido. estado não de todo desagradável. e isto podia dever-se. era aterradora. por enquanto. A situação. menos eu.. sem dúvida. não podia indignar-se contra uma coisa que se desenrolava de maneira tão metódica e despertava tão cativante interesse. vamos então assentar um plano de ação. — Pois bem. O certo é que aspirava o ar frio e límpido com verdadeira delícia. Não sentia Conway nenhum desejo de prolongar a discussão. Conway estava já a pensar que o grupo poderia ser muito menos bem constituído. nele. por ver que ainda havia na terra lugares assim — distantes. Mas. certamente. Que faremos quando o homem aterrar? Se não se chocar nos rochedos matando a nós todos. agora. tanto mais que o americano.— Não prova que ele não seja louco. Somente Mallinson tinha tendência para aborrecer os outros. com os seus gracejos ponderados.

inclinava-se a ver certa vulgaridade no ideal ocidental dos superlativos. deve ser o K2. e as proezas sem finalidade aborreciam-no.anonimato se revestia de dignidade. deu o seu parecer. Enquanto ele continuava a contemplar o cenário caiu o crepúsculo. Surgira a lua cheia. Começou Mallinson a discutir este assunto e Conway. — Não é fácil de julgar. mas provavelmente a algum ponto do Tibete. Se estes são os montes Caracorum. ferindo os picos um a um. aliás. A estes novos aborrecimentos começaram os passageiros a desanimar. que é geralmente considerado a segunda montanha do mundo em altura. como um celestial acendedor de lampiões. Um desses cumes. não contavam com a prolongação do vôo pela noite adentro. — Pois sim. O ar esfriou e saltou um vento. e agora só lhes restava a esperança de esgotar-se o combustível. empalideceu e revestiu-se de novo esplendor. o que. Então toda a cordilheira. a maior parte das quais já teria ficado para trás. 47 . como uma tinta que se esbate. desalentado. meio relutante. mergulhando as profundidades num negror aveludado que se estendia para cima. sacudindo incomodamente o aparelho. E aonde nos pode isso levar? — indagou o moço. A distância máxima que podiam percorrer devia orçar por umas mil milhas. Aquelas centenas de metros que lhes faltavam para alcançar os gigantes conhecidos podia livrá-los eternamente das escaladas: eram menos tentadores aos recordistas. toda a extensão do horizonte cintilava contra o céu azul-ferrete. por sinal. Por fim. Não o tentava o esforço excessivo. pois de fato não sabia. o Tibete fica além deles. não devia tardar muito a suceder. muito mais próxima agora. Era Conway a antítese deste tipo.

e disse com esganiçada modéstia: — Como não pediram minha opinião. depois do Everest — comentou Barnard. E você. como você quer. de muito mau humor. 48 . é claro. Além disso. provavelmente não terá propósito algum. Não posso achar outra explicação.— O primeiro na lista. jovem. talvez não deva dá-la. — Apre! Isto é que é panorama! — E. Mas desejo dizer que sou do parecer de Mr. Barnard. se o homem é mesmo louco. se eu tivesse à mão um frasco de café-conhaque pouco se me daria que isto fosse o Tibete ou Tennessee! — Mas que havemos de fazer? — insistia Mallinson. senão a loucura. — Ele tem de ser louco. Conway. muito pior do que o Everest. Mallinson. considerando-o absolutamente inacessível. Tenho certeza de que o pobre homem não pode estar regulando bem do juízo. porém. como poderia ter feito durante um intervalo no teatro. O Duque de Abruzos renunciou a ele. Não haveria desculpa alguma para o seu procedimento. Declaro que. — Oh! meu Deus! — murmurou Mallinson. riu: — Vejo que você será o nosso guia oficial durante a viagem. para um alpinista. Conway? Este sacudiu a cabeça. — Por que estamos aqui? Qual será o propósito de tudo isto? Não compreendo como podem caçoar de uma coisa assim! — Ora essa! Vale tanto como fazer cenas. Miss Brinklow voltou-se para trás. Refiro-me ao piloto.

— "Fundamentalista". M. Essa crença lhes vem de séculos atrás. Nada mais que uma de suas superstições. Conway ainda continuava a achar cômica a observação de Miss Brinklow. não quero dizer no sentido moderno. vai a senhora voando da índia para o Tibete — disse Barnard. embora uma amiga tivesse feito o possível para me persuadir a tomar o avião de Londres a Paris. Claro que sou contrária a tudo isso. Ponderando sempre os inconvenientes de uma discussão teológica no recinto da sociedade missionária. porque gritou: — Eu pertencia à L.. Eu me baseio na Bíblia. — Dizia que os tibetanos eram muito esquisitos. Acreditam que descendemos dos macacos. — Dão prova de notável penetração! — Oh! não. e para mim Darwin era muito pior que qualquer tibetano. começou a parecer-lhe que Miss Brinklow não era destituída de certa fascinação. erguendo a voz acima do barulho ensurdecedor: — E sabem? Esta é a minha primeira viagem de avião! Absolutamente a primeira! Nunca me tinha resolvido a voar. Pensou até em lhe oferecer alguma peça do seu vestuário para agasalhá-la durante a noite. — Conheci um missionário que esteve no Tibete — continuou ela. S.E acrescentou. então? Mas parece que Miss Brinklow não compreendeu o termo. Muito depois de atinar com a significação das iniciais — London Missionary Society —. — Assim é o mundo. — E agora. mas discordei deles na questão do batismo das crianças. mas afinal disse consigo que ela tinha uma constituição provavelmente 49 .

muito próxima. porém. sacudidos por uma guinada do aparelho. respondeu com um soturno: "Se tiver sorte!" Miss Brinklow. Portanto. ajustava o chapéu com tanta calma como se estivesse à vista o porto de Dover. E o vôo prosseguia. e por um momento sentiu-se atordoado. que o motor não funcionava e que o avião estava lutando com uma ventania contrária. que a princípio julgou imaginário. que fugia ali embaixo. Olhou então pela janela e viu a terra. — Quebrou-se 50 . — Oh ! meu Deus! Que horror! Que horror! — gritava Mallinson. — Ele vai aterrar! — bradou Mallinson. foi má a aterragem. durante os dez segundos de baques e solavancos. E Barnard. Era uma e meia. e um dos pneumáticos explodiu. Enchia-lhe os ouvidos um som de bater de asas. cerrou os olhos e adormeceu docemente. A primeira coisa que fez Conway foi olhar maquinalmente para o seu relógio. Ouviu-se o som de alguma coisa que se retesava e rebentava. Pouco depois o avião tocou em terra. logo percebeu. vaga e acinzentada. De repente despertaram todos. porém. Desta vez. aconchegou-se no assento de vime.mais rija do que a sua. aflito. Conway bateu com a cabeça na janela. O frio aumentara bastante. Devia ter dormido algum tempo. que parecia a menos perturbada do grupo. Nova guinada em sentido contrário atirou-o aos encontrões entre as duas filas de assentos. — Pronto! — acrescentou ele. que também fora arrojado do assento.

vendo que Mallinson puxava com violência a porta da cabina. . . e é para já!. — Em terra não tenho medo desse sujeito. Vamos ter de ficar aqui. quando o avião estacou definitivamente. Sentiam-se à mercê de qualquer coisa implacável e sinistramente melancólica — e esse espírito parecia saturar igualmente terra e ar. Isto parece o fim do mundo. naquele silêncio relativo. . qual fila de dentes de cão. . a não ser os uivos da ventania e o eco dos próprios passos. a voz do moço repercutiu de maneira esquisita: — Não é preciso. Cumprialhe fazer alguma coisa por aquela gente. não há dúvida! Conway. Contudo.um dos patins da cauda. que falava pouco nos momentos críticos. Mallinson. ter-se-ia adivinhado que aquele mundo gelado era o topo de uma montanha. A lua parecia ter desaparecido atrás de umas nuvens. e só as estrelas iluminavam a vastidão espantosamente vazia. 51 . nada mais. Não se vê vivalma. esticou as pernas emperradas e apalpou a cabeça no lugar da pancada. verificaram os outros que assim era. agitada apenas pelo vento.. Não ouviam som algum. E. — Vai entender-se comigo. No horizonte longínquo alvejava uma cadeia delas. entregue a uma atividade febril. — Prudência! — recomendou. foi o último passageiro que se levantou. Um momento depois.. tiritando no intenso frio. dirigia-se já para a cabina de comando. dispondo-se a saltar para terra. seja ele quem for! — gritava. Uma pequena escoriação. e que as montanhas que ali se erguiam eram montanhas acumuladas sobre montanhas. Mesmo sem conhecer o lugar.

o moço tornava a descer. a fadiga — nada disso tinha já tanta importância. Mas um observador poderia acrescentar que alguma coisa sucedera a Conway. ou coisa parecida. segurando-lhe o braço e murmurando em frases destacadas. esta lhe parecia combinar as circunstâncias mais horrivelmente adversas. A ocasião. Conway. Creio que o sujeito está doente. Conway correu empós dele. hipnotizados pelo espetáculo daquela energia. . Havia alguma coisa que fazer. morto. desabotoou-lhe a gola e o colarinho. todavia. tireilhe o revólver. Precisamos tirá-lo daí. o frio.Os outros observavam-no. Sacudiu-o. é esquisito. embora estivesse ainda um pouco tonto com a recente pancada na cabeça. preparava-se para executá-la. o piloto foi ti52 . Em todo caso. aprestou-se para agir. . e a parte convencional do seu ser. Já não parecia pairar à beira de um abismo de dúvida. Volvidos alguns segundos. — É melhor que mo dê. Apenas pôde notar que o piloto. também. embora também um pouco apreensivos. com o corpo caído para a frente. De todas as situações imagináveis. aconteceu-lhe alguma coisa. . o lugar. com voz grave e rouca: — Escute. Venha ver. E Conway. mas demasiado tarde para impedir a tentativa. Com o auxílio de Mallinson e Barnard. Um momento depois voltou-se para dizer aos outros: — É exato. então. . não se arriscou a acender um fósforo. . afrouxou-lhe o elmo. tinha a cabeça em cima do quadro de instrumentos. Encarapitou-se com dificuldade numa posição de onde podia ver — não muito bem — o interior do recinto fechado. . Como sentisse um forte cheiro de petróleo. Não pude arrancar-lhe uma palavra. Sua voz era mais forte. agora desperta. mais incisiva.

Era uma espécie de fúria desencadeada em torno deles. parecia-lhe que o mesmo vento arrancava centelhas das estrelas e as fazia redemoinhar. um simples vento muito forte ou muito frio. a principal preocupação de todos — como que o leitmotiv do drama daquela noite. Não sabemos onde estamos. não revelou muita coisa.rado do assento e deitado no chão. — Talvez um ataque cardíaco. enquanto Conway. Conway não possuía conhecimentos especiais de medicina. Não há meio de abrigá-lo contra este vento infernal. disse em tom condescendente. — O coração está fraco — declarou afinal. Jazia inerte o desconhecido. mas desfalecido. Até Mallinson ajudou. Transportaram o homem para a cabina e o estenderam no corredor entre os assentos. um amo que vociferava e batia o pé no seu domínio. como à maioria dos homens que viveram em terras estrangeiras. porém. o vento. curvando-se sobre o desconhecido. Foi então que Miss Brinklow. provocando alguma sensação nos outros: 53 . quando Conway olhava pelas janelas. O exame. . Tanto a sugestão como o veredicto foram aceitos sem discussão. . procurava examiná-lo. não sem dificuldade naquele espaço exíguo. sacudindo-o raivosamente. e. Não era o interior mais quente que lá fora. e não há esperança de nos podermos orientar ames da alvorada. — Não podemos fazer grande coisa por ele aqui. Inclinava o aparelho com a sua carga. mas oferecia proteção contra as rajadas de vento. mas. remexendo na sua bolsa. provocado pela altitude — diagnosticou. Não estava morto. Não era um vento comum. É melhor irmos com ele para dentro da cabina. E dentro em pouco era ele. eram-lhe familiares os fenômenos da doença.

Mallinson ainda tinha muito de menino de escola e obedeceu à ordem lacônica de seu superior. que acabaria em catástrofe. pois percebia que a situação deixara de ser excitantemente perigosa para se transformar numa prova de resistência. não para nós. Mantendo-se em vigília durante aquela noite 54 . fique calado! Embora mal se dominasse. cheirou-o e derramou um pouco de conhaque na boca do homem. talvez possamos chamá-lo à vida. Mallinson teve um acesso de nervos.. Sua inquietação ia além da simples curiosidade intelectual. E ele não é nada bonito.— Quem sabe se isto faria bem ao homem? Nunca pus uma gota na boca. Com um pouco de sorte. Já se haviam fartado disso durante a viagem. — Parecemos uma turma de idiotas. para casos de acidente. levíssimo estremecimento das pálpebras. — É justamente do que ele precisava. cuja voz era seca e severa. Retirou a tampa do frasco.. Não se sentia inclinado a levar adiante a discussão no terreno puramente especulativo. — Sorte? Será sorte para ele. por muita pena que tivesse dele. E isto é uma espécie de acidente. De súbito. — Não posso mais! — dizia. Daí a pouco percebeu-se. hem? Creio que é chinês. não acham? — Creio que sim — respondeu Conway com gravidade. — Mas o homem ainda não é cadáver. riscando fósforos sobre um cadáver. mas sempre trago uma garrafa comigo. se é que tem alguma nacionalidade! — É possível — tornou Conway. à luz de um fósforo. por enquanto. pois só este poderia dar alguma explicação naquele apuro. — Não se fie muito nisso. E Conway. Obrigado. estava mais preocupado com o problema imediato que representava o piloto. E. rindo como um doido.

como uma resposta que vinha aumentar ainda a sua curiosidade. E foi então que. pois que ali. dando vida à visão antes que viesse confirmá-lo o rumor longínquo da avalancha.tormentosa. um pequenino tufo branco velou a borda da pirâmide. enquanto ele o contemplava. para as alturas menos conhecidas do Kuen-Lun. e impossível de classificar quanto à altura. a cabeceira do vale que lhe atraía irresistivelmente os olhares. inexplorada em sua maior parte. Conway divisou os contornos de um extenso vale. porém. que Conway perguntava consigo se seria real. Então. A ser assim. melancólicos. desabitada. Ia acordar os outros para que participassem do espetá55 . surgia uma montanha que lhe pareceu ser a mais bela do mundo. que lhe parecera oculta pelas nuvens. posto que ainda não se mostrasse diretamente. tamanho ou distância. vinha topetando com a cumeada de alguma eminência sombria e. não encarou os fatos menos francamente por não os enunciar aos outros. num ponto qualquer daquele país. descerrava o véu da escuridão. erguendo-se na abertura. Era um cone de neve quase perfeito. A lua. tão serenamente equilibrado. cujos vales mais baixos ficavam a mais de três mil metros de altitude. teriam já alcançado a parte mais elevada e mais inóspita da superfície da Terra — o planalto do Tibete. e negros de azeviche contra o céu noturno. Era. Era tão radiante. de pouca altura. Adivinhava que o vôo se estendera muito além da cordilheira ocidental dos Himalaias. de perfil tão simples como se o tivesse desenhado uma criança. com menos recursos do que no comum das ilhas desertas. de um azul elétrico. varrida pelos ventos. sobreveio abruptamente uma tremenda transformação. magnificente ao fulgor do luar. limitado de um lado e outro por outeiros arredondados. Uma vasta região montanhosa. Estavam perdidos ali.

Além disto. aqueles esplendores virgens só podiam aumentar a sensação de isolamento e de perigo. abalados pela altitude. Mallinson resmungava consigo. Era bem provável que a mais próxima habitação humana ficasse a centenas de milhas dali. Faltavam-lhes roupas apropriadas àquele frio e àquele vento terrível. Não era — disse ele consigo — uma pessoa normal. Na verdade. conquanto isso 56 . pensando melhor. Mas o fato é que ela-se mostrava. E de fato não o era. e a própria Miss Brinklow. depois de cada calamidade.culo. e Conway lhe era profundamente grato por isso. Até Barnard sucumbira à melancolia. não podia sentirse muito a gosto. achavam-se todos. Não lhe pareceu muito acertada a comparação. era evidente o que lhe sucederia se aquelas atribulações se prolongassem por muito tempo. quando os olhares de ambos se cruzaram. E não tinham alimento. Diante de tão angustiosa perspectiva. — Espero que a senhora não se esteja sentindo muito mal — disse-lhe. ele nunca passara nas trincheiras uma noite tão completamente desagradável como esta. do ponto de vista do senso comum. como armas. salvo ele próprio. achou que o efeito poderia não ser lá muito tranqüilizador. — Os soldados durante a guerra suportaram coisas piores — replicou ela. apenas possuíam um revólver. mas. normalmente anormal. não se conteve Conway de lançar um olhar de admiração a Miss Brinklow. O avião estava danificado e quase sem combustível — além de ninguém saber dirigi-lo. toda envolvida em lãs e abafada em mantas como para uma expedição polar — o que lhe parecera ridículo a princípio —. nem se podia considerar normal uma mulher que ensinava os afeganes a cantar hinos. Tanto a capa de couro de Mallinson como o seu impermeável eram insuficientes. com simpatia.

à luz do fósforo que ele acendera. quando os primeiros raios do sol lhe feriram o vértice. o próprio vale tomava forma. tinha no entanto uma qualidade rígida. aquela pele descorada e a boca escancarada não parecessem nada belas. Já o ar estava mais tépido quando os outros acorda57 . Tinha o nariz e os malares típicos dos mongóis. Não era uma cena hospitaleira aquela. Com certeza Mallinson não errara supondo o homem chinês. deixando o mundo imerso numa compassiva quietação. apesar de seu feliz disfarce de tenente-aviador britânico. tornou a aparecer a montanha. Concentrou a atenção no piloto. se bem que agora. mas Conway. depois prateada e afinal rósea. achava-o um espécime passável. À proporção que ia esmaecendo a obscuridade. o sol surgiu num céu profundamente azul. Ao aceno desta calou-se o vento. A pirâmide branca. sem dúvida alguma. um toque esquisito de beleza — alguma coisa que. e quando. Ia a noite arrastando-se. e com ele o espectro distante da montanha. quase intelectual. enquanto a contemplava.houvesse acontecido. lá longe. que tinha morado na China. mas assumiu aos olhos de Conway. Mallinson chamara-lhe feio. do frio e da ventania foi aumentando até o raiar da manhã. a outros. que agora respirava espasmodicamente e de vez em quando fazia um leve movimento. afinal. cinzenta a princípio. que necessitasse de um empurrão para ceder lugar ao seguinte. Emoldurada no pálido triângulo que tinham à frente. E a tríplice inclemência da escuridão. ele quase tornou a sentir um certo bem-estar. como se cada minuto fosse alguma coisa pesada e tangível. impunha-se ao espírito tão desapaixonadamente como um teorema euclidiano. revelando um fundo de rochedos e cascalho que subia em encosta inclinada. sem nenhum fascínio romântico. Passado algum tempo desapareceu o luar.

pouco relativamente ao que desejaríamos saber. e Conway lembrou que se levasse o piloto para fora. próximo daqui (na costa do vale. se não formos a esse lugar. Shangri-Lá foi o nome que ele disse. — Afinal. onde a luz do sol e o ar seco e vivo poderiam ajudá-lo a voltar a si. mais ou menos. Lá. Insistiu muito para que fôssemos ao mosteiro. Não deu nenhuma explicação coerente do motivo por que nos trouxe aqui. mas creio que se referiu a um mosteiro de lamas. Depois de algum tempo o homem foi ficando mais fraco. às nove horas. — O que não me parece ser uma razão para irmos — acudiu Mallinson. mas parecia conhecer o lugar. exceto para Conway. falando cada vez com mais dificuldade. e eu 58 . aonde mais havemos de ir? — Onde você quiser. e afinal expirou. desta vez mais agradável. isso não me importa. deve estar mais algumas milhas afastado da civilização. onde encontraríamos alimento e abrigo. não estava? — A este respeito. sei tanto quanto você. Seus quatro passageiros curvaram-se para ele. e começaram uma segunda vigia. parece). Foi isso. Mas. o que é evidente. Apenas que estamos no Tibete. O que é certo é que esse Shangri-Lá. que respondia de vez em quando. Voltou-se então Conway para os companheiros: — Sinto comunicar-lhes que ele disse muito pouco — isto é. em tibetano. Por fim o homem abriu os olhos e pôs-se a falar convulsivamente.ram. se fica naquela direção. quer dizer desfiladeiro. Falou um chinês que eu não compreendo muito bem. Assim fizeram. prestando atenção àqueles sons ininteligíveis para todos. ele sem dúvida estava fora de si.

não aumentando a distância. — Relativa sorte. que a nossa única salvação seria encontrarmos outros seres humanos. e onde mais havemos de procurá-los. Riram todos. menos Mallinson.preferiria que fossemos encurtando. Considerando que provavelmente nos cercam por todos os lados centenas de milhas de território nas mesmas condições. Dentro de algumas horas estaremos todos esfomeados. A perspectiva não é agradável. Parece-me. — Afinal. então? O 59 . — Não acho que eu seja capaz de caminhar tanto assim — disse Miss Brinklow com grande seriedade. E esta noite. Barnard concordou: — O que me parece é que teríamos muita sorte se de fato esse convento ficasse ali na esquina. pois. teremos de sofrer de novo o vento e o frio. homem! Você não nos vai levar de volta? Conway respondeu com paciência: — Creio que você não compreende devidamente a situação. a não ser onde nos disseram que existem? — E se for uma ratoeira? — perguntou Mallinson. Finalmente Conway prosseguiu: — Estamos todos mais ou menos de acordo. não temos o que comer e a região não é daquelas em que a vida é fácil. — Uma ratoeira bem quentinha — respondeu Barnard — com um pedaço de queijo dentro me encheria as medidas. Achamo-nos numa parte do mundo sobre a qual pouco se sabe. a não ser que é difícil e perigosa. mesmo para uma expedição perfeitamente aparelhada. Com mil diabos. Mallinson. a idéia de voltar a Peshawar não me parece muito praticável. se ficarmos aqui. que parecia agitado e nervoso. talvez — tornou Conway.

Seja o que for. mesmo. um assassinato é a coisa mais improvável do mundo num mosteiro budista. se não localizarmos o ponto até a tardinha. melancólico e irritado: — Pois bem. sem dinamite. teremos tempo de voltar para passar a noite no avião. Daí a um momento exprimiam esses olhares o maior pasmo: tinham 60 . porque. não podemos ficar aqui. — Como São Tomás Becket — acudiu Miss Brinklow. e talvez seja preferível. contudo teremos de andar devagar. tentemos a aventura. Mas creio que o risco é menor que o de morrer de frio ou de fome. Mallinson encolheu os ombros e replicou. os monges do convento talvez nos forneçam carregadores para a volta. e esteja onde estiver. o argumento de Conway. E. do que ser morto numa catedral inglesa. Mais improvável. A esta observação fixaram todos o olhar no cone resplandecente que assomava na abertura do vale. Seja como for. ainda intransigente. Em plena luz do dia. Não nos seria possível sequer enterrar este homem. Mas esperemos que não fique a meia encosta daquela montanha. sem dar por isso. Vamos precisar de carregadores. como sentisse que esta lógica desalentadora não era muito apropriada à ocasião. — Quem nos garante que não seremos assassinados? — Ninguém. — E no caso de localizarmos o ponto? — indagou Mallinson. Não me parece muito escarpado. Opino. Além disto. que devemos ir imediatamente. acrescentou: — Na verdade. concordando com um gesto enfático de cabeça e anulando. portanto.caminho lógico é pelo vale. então vamos para Shangri-Lá. era uma visão magnífica e puríssima.

algumas figuras de homens.avistado ao longe. descendo a encosta na direção deles. — A Providência! — murmurou Miss Brinklow. 61 .

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uma forma de indolência — uma relutância a abrir mão do seu interesse de mero espectador no que ia acontecer. mas parecia certamente providencial. notou que era um chinês velho. adiantar-se com uma resolução cheia de dignidade e estender-lhe a mão.CAPÍTULO III Com uma parte do seu ser. por mais ativas que estivessem as outras faculdades. Quando as figuras chegaram mais perto. ou pelo menos de 63 . pois sabia que os orientais apreciam muito o ritual das saudações e gostam que elas sejam demoradas. acompanhando uma liteira de capota. enquanto esperava que os desconhecidos se aproximassem. como dissera Miss Brinklow. Com grande surpresa. E isto não era bravura. adiantou-se a passos vagarosos. Conway não podia imaginar aonde iriam. Enquanto a apertava. nem frieza. Era. viu o homem vestido de azul descer da liteira. Agora mesmo. divisaram uma pessoa vestida de azul. curvou-se com a devida cortesia. Conway era sempre um espectador. Dentro desta. se considerarmos a atitude sob o seu pior aspecto. nem uma alta confiança na própria capacidade de tomar resoluções sob o estímulo do momento. um pouco mais tarde. Fazendo alto a alguns metros de distância. não se deixou induzir a tomar uma decisão sobre o que cumpria fazer ou deixar de fazer nesta ou naquela eventualidade. eles puderam distinguir um grupo de doze ou mais homens. que essa comitiva viesse passar justamente por ali e naquela ocasião. Assim que chegaram ao alcance da voz.

Então. Na verdade. íamos justamente partir a caminho do seu mosteiro. . . Dar-me-ei por feliz em lhes servir de guia.. que se haviam aproximado e observavam o encontro com maior ou menor espanto. . Estava assombrado com esse fenômeno: um chinês que falava perfeitamente o inglês e observava as formalidades sociais de Bond Street nas montanhas bravias do Tibete. as circunstâncias que o tinham trazido. e depois de uma pausa conveniente pôs-se a explicar. Voltou-se para os outros. Mr. — Mas não posso permitir que se dê a tamanho incô64 . num inglês preciso e quiçá demasiado gramatical. Todos sentimos prazer em vê-lo. Mr. Mallinson. Barnard. Curvou-se de novo Conway.. já grisalho. com seus três companheiros. — Não é preciso. de rosto escanhoado. Ao fim da explicação o chinês fez um gesto de compreensão e disse. Quer ter a bondade de me apresentar aos seus amigos? Conway tratou de sorrir com polidez. . em breves palavras. àquela parte pouco freqüentada do mundo.. e palidamente decorativo na sua túnica de seda bordada. embora este encontro seja quase tão extraordinário quanto o fato de estarmos aqui. Por sua vez. que é americano. — Miss Brinklow. e eu chamo-me Conway. Se o senhor puder fornecer-nos indicações para a viagem. o outro também parecia estar submetendo-o a um rápido exame.idade madura. disse: — Pertenço ao convento lamaísta de Shangri-Lá. de sorte que o encontro é duplamente afortunado. olhando pensativamente para o aeroplano avariado: — É na verdade notável! E acrescentou: — Chamo-me Tchang..

— Não importa. — Pagaremos tudo que gastarmos. espero que não encontremos dificuldade nisso. — Não fica longe. E respondeu: — Pois seja. Mallinson. Quanto tempo julga que tomará a viagem para a Índia? — Na verdade. mas a nossa gratidão será ainda maior se o senhor nos fornecer meios para voltar. mas também o caminho não é fácil. Considero uma honra acompanhá-lo. Achou Conway que a discussão. interveio então. Tenho alguma experiência de alugar carrega65 . Todos nós lhe ficamos agradecidíssimos. não sei dizer. formulada com a maior suavidade. Ficar-lheemos gratos por nos albergar temporariamente. e desejamos alugar alguns dos seus homens para nos auxiliarem na viagem de volta. naquele lugar e em tais circunstâncias. que suportara com ar sombrio essas delicadezas. como todos nós. — Devo insistir. Queremos tornar o mais depressa possível à civilização. . — E tem tanta certeza de que está longe dela? A pergunta. no tom agudo e acerbo das casernas: — Não ficaremos muito tempo — anunciou laconicamente. mas se não fica muito longe. exacerbou ainda mais o moço: — Tenho toda a certeza de que estou muito longe de onde desejo estar. . É extremamente gentil. e não só eu.modo. e aos seus amigos. — Mas realmente nós. corria algum perigo de se tornar ridícula.

e em última análise não terá de que se arrepender. após tantas horas de jejum. Conway. Não foi difícil. — Estava contemplando a montanha. quando uma exclamação de Mallinson o fez voltar à terra. Parecendo-lhe tudo aquilo truculência desnecessária. Mallinson comeu e bebeu satisfeito. Tem nome. livre de inquietações imediatas e não desejando buscar as mais distantes. a todos os respeitos. era. entretanto. entre as frutas havia mangas perfeitamente amadurecidas. que tinham trazido. quase pungentes de tão saborosas. ia Conway intervir quando veio a réplica. Olhou em redor e viu que o chinês o encarava atentamente. Enquanto o contemplava ia escalando-o mentalmente. É um belo espetáculo. que será tratado com toda a consideração. Mallinson. porém. escolhendo caminho por gargantas e ravinas. Mr. mas sem curiosidade. com certeza. Eram homens sólidos. arremetendo com a expressão.dores nativos. com gorros de pele e botas de couro de iaque. perguntava consigo como seria possível cultivar mangas naquela altitude. Interessava-o também a montanha que ficava além do vale. Conway? — Sim. assentada sobre imensa dignidade: — Só lhe posso assegurar. — Em última análise? — exclamou Mallinson. O vinho tinha um agradável aroma. pois que os tibetanos ofereciam já vinho e frutas. — Chama-se Karakal. vestidos de couro de ovelha. evitar uma cena. e admirava-se de que nenhum viajante fizesse menção dele num desses livros que toda expedição ao Tibete faz invariavelmente surgir. 66 . semelhando o de um bom vinho branco do Reno. e esperamos que o senhor faça valer a sua influência para que sejamos bem servidos. Mr. um pico sensacional.

foi lenta e seguia declives suaves. Durou a ascensão toda a manhã. e o ar. se não fosse absurdo imaginar Miss Brinklow em tão regia postura.1 — Sim? Não sabia que houvesse altura semelhante. O Everest mede 29 141 pés. mas talvez valesse a pena guardá-lo. isto poderia parecer pouco cavalheiresco. absolutamente nenhuma! Riu. parecia mergulhado num sono exigente e muito oportuno. polidamente. Pouco depois iniciava a viagem para Shangri-Lá. Conway. Teria sido medida com exatidão? Quem fez os cálculos? — Quem havia de ser.) 1 67 . e a ninguém sobrava energia para falar. Não poderia. tornava-se mais precioso 8 400 metros. (N. ou 8 889 metros. O chinês viajava comodamente na sua liteira. esforçava-se por apanhar as frases que trocavam de vez em quando os carregadores.— Não creio que o tenha ouvido. que. mesmo que o quisesse. meu caro senhor? Há alguma incompatibilidade entre a vida monástica e a trigonometria? Conway saboreou a frase e replicou: — Oh! não. mas a tal altura o esforço físico era considerável. se não satisfeitas. fora do Himalaia. Entretanto. o menos incomodado pela rarefação do ar. O gracejo parecia-lhe fraco. o bastante para compreender que os homens estavam contentes por voltar ao mosteiro. ia o sol aquecendo. límpido como se viesse de outro planeta. do T. A fome e a sede tinham sido apaziguadas. continuar a conversar com o chefe. de olhos fechados e com o rosto meio oculto atrás das cortinas. E é muito alta? — Mais de vinte e oito mil pés. Entendia alguma coisa da língua tibetana.

Também Barnard resfolegava asmaticamente.a cada inalação. exatamente como desataria os cordões da bolsa ao perceber que um divertimento sai mais caro do que se espera. mas sem excitação. que a princípio parecia atrapalhador. mas também possui algo de inédito. estava agradavelmente intrigado com a sensação. disciplinavam-se de maneira a harmonizar com o espírito e as pernas. além do assombro. tinha poucas apreensões. Era necessário respirar conscienciosamente. — Uma vez corri para apanhar o trem — respondeu ela — e senti a mesma coisa. ao fim de certo tempo produzia uma tranqüilidade de espírito quase extática. refletidamente. Todo o corpo se movia no ritmo único da respiração. Questão de paladar. à oferta de uma experiência nova. Em uma ou duas ocasiões disse palavras joviais a Mallinson. Após dez anos de residência em vários países da Ásia. Os pulmões. enquanto que Miss Brinklow sustentava uma terrível luta pulmonar. que por alguma razão tratava de ocultar. deixando de funcionar automáticos e ignorados. Surpreendia-se de verificar que. e isto. E ele pôs-se a refletir que também há gente que considera a sidra a mesma coisa que o champanha. Há momentos na vida em que a gente abre a alma inteira. respondeu com alívio e presteza. — Já estamos perto do cimo — disse Conway para animá-la. tornara-se um tanto exigente na apreciação de sítios e 68 . em quem certa tendência mística se casava de maneira curiosa com o ceticismo. E foi assim que Conway. e nenhuma por si. mas o jovem achava-se oprimido pela ascensão. do andar e do pensamento. nessa fadigosa manhã à vista do Karakal. Conway.

era apenas ligar o grupo todo. aumentando-lhes enormemente o desconforto. Contudo. com tibetanos à frente e atrás. e esta aventura. muito menos sinistra. como se costuma fazer nas escaladas. E Barnard conseguiu exclamar. E quando viram que o manejo das cordas era familiar a Conway. mas já então o tempo se enuviara e uma bruma prateada obscurecia a paisagem. O estado de Barnard e Mallinson. o frio tornou-se intensíssimo. a subida tornou-se mais abrupta. mas os tibetanos. vinham sons de trovões e avalanchas. pois os liteiros fizeram alto para reajustar a carga. requeria maior repouso. foi decepcionador vê-los desenrolar cordas. durante o sono de seu 69 . vinham depois Barnard e Miss Brinklow. que padeciam grandemente. acompanhadas de chuva e neve. Rajadas de vento. encharcaram os viajantes. o ar esfriou e. evidentemente ansiosos por prosseguir. em dado momento. indicaram por sinais que o resto da viagem seria menos fatigante. Depois disto. Colocou-se ele logo atrás de Mallinson. permitindo-lhe que ligasse os companheiros como bem entendesse. numa desesperada tentativa para fazer espírito: — O quê! Já nos vão enforcar? Mas os guias demonstraram logo que a sua intenção. O próprio Conway sentiu. que seria impossível ir muito mais longe. prometia ser fora do comum. e mais alguns tibetanos para fechar a retaguarda. mostraram-se muito mais respeitosos. pouco depois lhe pareceu que deviam ter atingido o cume da serrania. Após cerca de duas milhas de caminho costeando o vale. com a violenta mutabilidade das regiões montanhosas.acontecimentos. Dos campos de neve. tinha de admiti-lo. Não tardara a notar que os homens. lá em cima.

— O fato é que nunca teríamos encontrado o caminho sozinhos — observou Conway com ar alegre. que dormindo conseguia fazer tal jornada. e o modo por que os carregadores conduziam a liteira nesses lugares despertou nele quase tanta admiração quanto os nervos do passageiro. porém. foi menos árdua do que esperava. Eram os tibetanos bastante destros. ainda que excitante por vezes. Mallinson. bem gostaria de ver onde estava. A etapa seguinte. mas Conway. na verdade. que Conway imaginava orquestradas por Massenet para algum balé tibetano. Cessou a chuva e o ar aqueceu um pouco. mas o senhor sabe — nunca tinha sido amarrada. Fora. se houvesse qualquer dificuldade daria o que tinha para dar: confiança e autoridade. não achou na observação consolo algum. que tinha boa vista para altitudes. O caminho era por um corte oblíquo na parede de rocha. com a modéstia de uma águia: — Farei o que puder. Talvez devessem agradecer a esse nevoeiro o esconder igualmente o abismo do lado oposto. e achava-se ainda. e corria mais perigo 70 . sem dúvida alguma. um alpinista de primeira ordem. meio sério. terrificado. Em certos sítios a trilha media uns escassos dois pés de largura. Sentiu a conhecida excitação do comando. estavam inclinados a entregar-lhe a direção. Ao que ela respondeu. mas pareciam mais satisfeitos quando o caminho se alargava e oferecia leve declive. Começavam então a cantar toadas vivas e bárbaras. cujo cimo o nevoeiro ocultava. — A senhora deve olhar por Barnard — disse a Miss Brinklow. meio jocoso. e livre do suplício que a subida representara para os pulmões. Estava. em tempo.chefe. em muito boas condições.

um sabor de novidade vem temperar o que há de desagradável. — Suponho que você faça uma idéia do trabalho espantoso que teremos para voltar. não vejo semelhante possibilidade. 71 . Deixam-se correr as coisas. Conway! Você pensa que anda flanando pelos Alpes? O que eu queria saber era para que inferno nos dirigimos. porém.de se trair. porém. E qual será o nosso plano de ação. Agora. Ao ser anunciado. e num sítio encontrou Conway alguns edelvais. visto como quer uma razão. Há uma hora que vamos resvalando pela encosta de uma montanha perpendicular — bem o notei! — Também eu. — Você está se tornando filosófico demais para mim. como agora. Foi com amargura que retorquiu: — Perderíamos muito com isso? O caminho descia agora com maior inclinação. — Justos céus. Estamos aqui porque estamos aqui. ao menos de momento. saberia que há ocasiões na vida em que o melhor é não fazer nada. era o primeiro sinal — e bem-vindo! — de altitudes mais hospitaleiras. E a gente ainda tem sorte quando. porque então havia alguma possibilidade de alterar os acontecimentos pela minha ação pessoal. Tem-me parecido sempre uma razão tranqüilizadora. isto trouxe ainda menos consolação ao seu jovem amigo. quando lá estivermos? Que faremos nós? — Se você tivesse a minha experiência — replicou Conway serenamente —. Assim foi a guerra. Não era esta a sua atitude durante as comoções em Baskul! — Certamente que não. agora que já passara o pior.

Estamos fazendo tudo o que esses sujeitos querem de nós. Compreendo quão afortunado fui em ter escapado à guerra — creio que ficaria maluco. Receio muito que não me acomode tão facilmente como você à situação. mas não adianta nada. Eles nos vão meter numa ratoeira! — Ainda que assim fosse.— Ah! você também viu isso? — expectorou Mallinson. aquela horrível espera no meio da ventania. enlouqueceu. enquanto morria o piloto. agitado. Parece-me que todo o mundo. . e depois o encontro destes sujeitos. . não lhe parece um pesadelo inacreditável? — Certamente que sim. Você tem vinte e quatro anos e se acha a uns quatro mil metros de altitude — razões suficientes para explicar o que pode estar sentindo no momento. E pensar em tudo o que aconteceu desde então me acabrunha! Desculpe-me. — Mas você não vê como tudo isto é louco? Aquele vôo por cima das montanhas. mas não está em mim evitá-lo. meu caro rapaz — respondeu Conway. sacudindo a cabeça —. . . . . — Pois então eu desejava saber como consegue manter-se tão frio diante de tudo! — Deseja realmente? Pois vou dizer-lhe. . ao redor de mim. — Não. Mas é preciso que eu mesmo esteja fora de mim para lhe dizer estas coisas. — Bem vejo que me estou tornando aborrecido. não. ainda que 72 . Quando recorda tudo isso. . E acho até que se está saindo extraordinariamente bem de uma prova difícil — melhor do que eu o faria na sua idade. Desconfio muito de tudo isto. . morreríamos se não entrássemos nela! — Sei que isso é lógico. mas estou exausto. Não posso esquecer que anteontem ainda estávamos no consulado de Baskul. .

Ainda conversavam quando uma escarpada mas breve subida lhes tirou o alento. Para Conway. visto que não quer deixar de pensar em Baskul. sem aquela sombria resolução dos castelos do Reno. não há dúvida. . se você houvesse estado lá teria feito o mesmo que eu — teria aprendido a esconder o medo sob uma aparência de bravura. muito eficaz. Logo se aplainou o solo. e saíram do nevoeiro para uma atmosfera clara e cheia de sol. antes que fossem cortadas as comunicações? Era uma circular de uma fábrica de tecidos de Manchester. Afinal. poderia parecer uma visão nascida daquele ritmo solitário em que a falta de oxigênio submergira todas as suas faculdades. indagando se havia em Baskul mercado para espartilhos! Pois isso não lhe parece loucura bastante? Acredite-me. E lembra-se do último telegrama que recebemos. Era. . um espetáculo estranho. Não é este o único lugar louco no mundo. antes com a delicadeza aventurosa de pétalas de flor 73 . para arrancar informações? Uma simples prensa de lavar roupa.me arrisque a parecer cínico. a pouca distância. Um grupo de pavilhões coloridos pendurava-se à encosta da montanha. o primeiro que o avistou. Em frente deles. lembrase do modo como os revolucionários torturavam os prisioneiros antes da nossa partida. É porque tenho na memória muitas outras coisas que também parecem pesadelos. . quase inacreditável. mas creio que nunca vi coisa tão cômica e horrível ao mesmo tempo. na verdade. Mallinson. E quanto à guerra. . erguia-se o mosteiro de Shangri-Lá. concentrando em poucos passos todo o esforço anterior. ao virmos para cá o pior que nos pode ter acontecido é trocarmos uma loucura por outra.

Contudo. de ter afinal atingido uma meta. numa enorme fenda que só podia ter resultado de algum antigo cataclismo.encravadas num penhasco. talvez não fossem destituídos de razão os receios de Mallinson. imaginava já a mole imensa de neve e gelo contra a qual o rochedo servia de gigantesca barreira. pois a muralha rochosa continuava a descer quase perpendicularmente. meio visual. logo diluído na sensação mais profunda. meio mística. Uma emoção austera arrebatava o olhar dos tetos azuis leitosos para o bastião de rocha cinzenta lá no alto. A única subida viável parecia ser para o mosteiro. O viajante sentiu ligeira apreensão enquanto observava a cena. Jamais conseguiu recordar exatamente de que maneira ele e os outros chegaram ao convento. Mais além. um sentimento momentâneo. E Conway pensava consigo que bem podia ser aquela a mais terrífica paisagem montanhosa do mundo inteiro. se era habitado. abrigado dos ventos. desamarrados e intro74 . nem as formalidades com que ali foram recebidos. um termo qualquer. poderia proporcionar alguma excitação agradável. aliado ao receio que inspirava. Era soberbo e encantador. numa pirâmide deslumbrante. O fundo do vale. afigurou-se a Conway um lugar delicioso. porém. distante e brumoso. E perguntava consigo se um risco tão remoto. sua população devia ficar completamente isolada pelas cordilheiras altíssimas e absolutamente inacessível do outro lado. formidável como o Wetterhorn acima de Grindelwald. Talvez um dia a montanha inteira desabasse. e metade do esplendor gelado do Karakal iria abater-se no vale. alegrava os olhos com a sua verdura. mais vigiado que dominado pelo mosteiro. pairavam as encostas nevadas do Karakal. Foi. Quase não menos sedutora era a perspectiva de baixo.

a personificar uma dama preparada para as piores conjunturas. casando-se com o azul porcelana do céu. ao ar modesto de Miss Brinklow. Nossa instalação é simples. que o tornava igualmente impenetrável à inquietação de Mallinson.duzidos no recinto. 75 . porque o chinês deixara a liteira e os ia guiando através de várias antecâmaras. se quiserem acompanhar-me. Mostrava-se agora muito afável: — Devo pedir desculpas de tê-los abandonado a si próprios durante o trajeto.. mas é que essas viagens não me fazem bem. . por enquanto. . e preciso ter cuidado comigo. o ar parece grudar-se um pouco aos pulmões. Mr. Espero que não estejam muito fatigados. com afetação: — Assim o creio. realmente. às piadas de Barnard. . a cada sorvo de ar. mas apenas teve tempo de notar essas coisas. — Não posso dizer. Com certeza hão de querer um banho. ainda arquejante. ou isto aqui é um hotel americano? — Creio que o senhor achará tudo a seu contento. Teremos de fazer fila diante do quarto de banho. — Excelente! E agora. .. Barnard. com um sorriso de través. eu lhes mostrarei os seus aposentos. aquecido e perfeitamente asseado. a cada olhar. soltou uma risada asmática. E Miss Brinklow concordou. Neste ponto Barnard. Lembrava-se vagamente da sua surpresa ao encontrar um interior espaçoso. — Fizemos o possível. mas a verdade é que os senhores têm uma esplêndida vista das janelas da frente. mas espero que nada lhes falte. Bebia. — respondeu Conway. Aquele ar tão fino tinha uma textura de sonho. uma tranqüilidade profunda e anestesiante. que gosto do seu clima.

se isso não o incomoda.— E depois — continuou o chinês — sentir-me-ei muito honrado se me fizerem companhia ao jantar. sofria com a influência da altitude. achou fôlego para replicar: — E depois. faremos nossos planos para a volta. Só Mallinson não dera sinal de vida diante dessas comodidades inesperadas. Como Barnard. quanto mais cedo. melhor! 76 . fazendo algum esforço. mas enfim. No que me toca. Conway respondeu polidamente.

talvez. ao cabo de algumas horas. de causar muita admiração que um mosteiro tibetano possuísse calefação interna.CAPÍTULO IV — Como vêem — dizia Tchang —. uma banheira de delicada porcelana verde. tudo bem considerado. nem sempre nas maiores cidades. por exemplo.. e. numa época em que até Lassa era provida de telefones. produto de Akron. Gozava aquela agradável mistura de bem-estar físico e agilidade mental — sensação que lhe parecia. conforme dizia a marca da fábrica. Tudo o que vira até então em Shangri-Lá enchia-lhe a medida dos desejos. . limpando-lhe as orelhas e narinas e passando-lhe um pequeno esfregão de seda sob as pálpebras. parecia-lhe aquele o período mais feliz da sua vida. E. Conway sentiu-se disposto a concordar com ele. Conway perguntara nessa ocasião a si mesmo se os seus companheiros estariam recebendo os mesmos cuidados — e como os receberiam. entre todas. A banheira em que acabava de se regalar. somos menos bárbaros do que esperavam. Iam as instalações muito além do que esperara. Vivera quase dez anos na China. mas o que lhe parecia singularíssimo era aquela combinação do aparelhamento da higiene ocidental com tudo mais que era tradicionalmente oriental. Não era. estado de Ohio. Gostava dos chine77 . a mais genuinamente civilizada. E contudo o criado nativo que lhe servira de camareiro tratara-o à moda chinesa. era.

porque não só ele sentiu diferença. A sala também lhe agradava. mas a minha dieta é muito rigorosa. posto que soubesse não ser este o gosto dos outros. dava-lhe um encanto metálico e frio que Conway achava agradável. de admiráveis proporções. Tchang. com suas sutis gradações de gosto. Por isso. . explicara a princípio: — Os senhores me desculparão. que contivesse alguma erva ou droga para aliviar a respiração. sem tomar vinho. era sobriamente adornada com tapeçarias e uma ou duas bonitas 78 . com a costumeira saia aberta ao lado e as calças apertadas no tornozelo — toda a gama do azul-celeste —.ses e dava-se bem com o seu sistema. certo atrativo. Conway perguntava a si mesmo qual seria a enfermidade que o afligia. mas notou que seus companheiros estavam mais à vontade. Examinando-o agora mais detidamente. qual perfume tão delicado que mal chama a atenção e é depressa esquecido. Não lhe faltava. Suspeitava. davam-lhe uma aparência indefinida que tanto podia ser a de um moço envelhecido antes do tempo como a de um velho admiravelmente conservado. na verdade. aliás. aliadas à tez de argila úmida. que apenas comeu pequena quantidade de salada crua. a atmosfera antes chinesa do que especificamente tibetana. viu que era difícil determinar-lhe a idade. já lhe dava uma aprazível sensação de estar em casa — outra coisa que não podia esperar fosse compartilhada pelos companheiros. uma como aura de cortesia formalista o rodeava. Era. e isto. Já dera antes aquela mesma razão. contudo. Apreciava particularmente a cozinha chinesa. . A vestimenta de seda azul bordada. a primeira refeição em Shangri-Lá dera-lhe a grata impressão de uma coisa com que estava familiarizado. em si. as feições miúdas e por assim dizer imprecisas. Vejo-me obrigado a cuidar da minha saúde.

ao meu ver. e não lhe desagradava que a etiqueta exigisse a protelação dos assuntos importantes. Não creio. Ambos haviam jantado bem. A sua rede de encanamento é tão moderna quanto possível — a única dádiva que. A luz vinha de lanternas de papel. 79 . etc. preferindo comer a falar. — Esta parte do mundo não é muito freqüentada. sem contudo alcançar o fatal conhecimento da máquina. abrandara a truculência de Mallinson. observando a Tchang: — Sua comunidade me parece muito feliz e muito hospitaleira com os estrangeiros. Ele também se sentia faminto.peças de laca. Como jamais gostara de dar fim a uma situação em si mesma agradável. contudo. quando aqui cheguei. Foi só ao acender o cigarro que fez uma leve concessão à curiosidade. Tenho pensado muitas vezes que os romanos foram afortunados. — O senhor usa de um eufemismo. Falara com uma fluência improvisada que. Sentia Conway um suave conforto de corpo e espírito. o lugar mais isolado em que já pus os olhos. imóveis no ar parado. aliviara a falta de ar de Barnard. e não se pode dizer que ficasse apreensivo ao pensar de novo na possibilidade de ter ingerido alguma droga. sinais luminosos. Isto provocou um sorriso em Conway. o Ocidente tem para oferecer ao Oriente. que os recebam muito a miúdo. sem contaminação alguma do mundo exterior. Calou-se. Pareceu-me. na verdade — replicou o chinês num tom comedidamente majestoso. — Raramente. cinemas. diz o senhor? — Refiro-me ao jazz. Fosse ela o que fosse (se é que houvera droga). aquela técnica lhe convinha maravilhosamente. — Contaminação. Sua civilização chegou a conhecer os banhos quentes. Aqui poderia florescer uma cultura original.

era destinada sobretudo a criar um ambiente e controlá-lo. digamos. que ainda não atingiram a completa iniciação — como eu. Que é exatamente o que deseja saber? — Em primeiro lugar. — Terei imenso prazer. É então um verdadeiro convento nativo. . porém. É notável. Só o desejo de corresponder àquela polidez refinada o impedia de se mostrar mais francamente curioso. aspirantes. Tchang respondeu: — Os que se acham perfeitamente integrados na ordem são cinqüenta. minha senhora. como é natural. nada tinha de submissa: — Por obséquio. na verdade! Calou-se. fale-nos do mosteiro. Seu chefe é tibetano ou chinês? — Não. há representantes de muitas nações entre nós. desde que esteja em mim. todavia. . e a que nacionalidade pertencem? Via-se que o seu espírito metódico funcionava não menos profissionalmente do que na missão de Baskul. Miss Brinklow é que não tinha tais escrúpulos. ainda que fosse errada: — Compreendo. apenas para respirar. — Há ingleses aqui? — Diversos. composta de tibetanos e chineses. e continuou: 80 . . Esperamos lá chegar no devido tempo. ainda que a maioria seja. sim? Ergueu Tchang os supercílios em gentilíssimo protesto contra esta entrada súbita na matéria.posto não fosse insincera. começando com uma palavra de pedido que. E era exímio nesse jogo. Miss Brinklow não se furtava nunca a uma conclusão. quantos lamas vivem aqui. Quanto às origens raciais. Há mais alguns. . — Meu Deus!. somos semilamas. Disse logo. Até então.

minha senhora? Então porque uma religião é verdadeira. mas tenho bastante largueza de vistas para admitir que outras pessoas — isto é. sou uma crente da verdadeira religião. que Tchang respondeu: — Para me exprimir em poucas palavras. que replicou no seu inglês preciso e elegante: — Mas por que não. como não desejava que seu hospedeiro se assustasse. parece-me que seria melhor não discutirmos. E é natural que num mosteiro eu não espere aprovação. diga-me em que crêem os senhores. direi que nosso principal artigo de fé é a moderação. Esta concessão suscitou uma cerimoniosa reverência de Tchang. e muito lentamente. Conway recostou-se na cadeira. meu caro senhor. E prometia ser interessante aquela retidão de mentora de meninas aplicada à filosofia lamaísta.— E agora. pois não é? De novo interpôs-se Conway: — Na verdade. porém. numa expectativa que tinha o seu tanto de divertida. Preconizamos a virtude de evitar excessos de toda 81 . devemos sustentar que todas as outras são forçosamente falsas? — Mas certamente! Isso é óbvio. Mas. Miss Brinklow. parecia ter-lhe dado nova vivacidade. estrangeiros — sejam absolutamente sinceras no seu modo de ver. Sempre achara prazer em observar o choque de duas mentalidades opostas. Mas Miss Brinklow compartilha a minha curiosidade quanto à razão de ser deste estabelecimento único. não estava para contemporizações. com um gesto magnânimo: — Eu. E disse. O vinho. disse com ar conciliador: — É uma pergunta muito importante. que tornara os outros mais tranqüilos. Foi quase num murmúrio. é claro.

mas a maioria de nós somos moderadamente heréticos no tocante aos mesmos. de ver que eles têm os pés mais que moderadamente firmes. que aliás agradavam ao seu temperamento. E creio poder afirmar que nossa gente é moderadamente sóbria. Com certeza. Verificamos que este princípio concorre em grau considerável para a felicidade dos habitantes do vale que viram lá embaixo. . o senhor teve o cuidado de dizer que a moderação se aplicava a eles. Muito lastimo não poder dizer mais no momento. e onde vivem alguns milhares de pessoas. Segundo notei. A esta pergunta. sob o controle da nossa ordem. devo inferir que ela não se aplica também aos sacerdotes?. entretanto. moderadamente casta e moderadamente honesta. com perdão do paradoxo. Conway sorriu.sorte — incluindo. reavivou no espírito de Conway a impres82 . — Creio que compreendo. Só me é permitido acrescentar que a nossa comunidade tem várias crenças e usos. Alegro-me. Tchang sacudiu a cabeça. que tenha tocado agora num assunto que não posso discutir. . o próprio excesso de virtude. Qualquer coisa na própria voz. não se incomode. senhor. — Por favor. porém. declarando: — Lamento. nenhuma. os homens que foram ao nosso encontro esta manhã pertencem ao povo do vale. tanto como nas sensações corporais. não? — Sim. com uma obediência moderada. O senhor me deixa entregue às mais agradáveis conjeturas. Governamos com moderado rigor e nos satisfazemos. Espero que não tenham cometido falta alguma durante a viagem. em troca. achando bem expostas aquelas idéias. — Oh! não.

As últimas palavras de Mallinson foram ditas com nervosismo. Se for possível. mas ainda assim. fundo em que tomar pé. entretanto. que quase encerrava uma censura: — Mas tudo isso — sabe — não está na minha alçada. precisamos assentar alguma coisa! Todos nós temos algum trabalho a atender.. não encontrou. porém. mas me parece que é tempo de tratarmos dos planos de partida. Não há de faltar entre os seus homens quem nos queira escoltar — trabalho que será bem remunerado. mas não podemos ficar aqui sem fazer nada.são de que se achava submetido à ação benigna de alguma droga. é claro. Queremos voltar à Índia o mais depressa possível. desejamos partir amanhã.. como se ele esperasse uma réplica mesmo antes de terminar. Como quer que seja. contudo. temos positivamente de voltar! Estamos muito agradecidos pelo acolhimento que nos dispensou. talvez o senhor possa fazer alguma coisa. aproveitou a ocasião para observar: — Tudo isto é muito interessante. Não conseguiu. Mallinson parecia estar sob uma influência semelhante. creio que o assunto não poderá ser resolvido imediatamente. rompendo a crosta de suavidade. arrancar a Tchang senão esta frase calma. Se nos arranjasse um mapa 83 . — Não? Pois seja. e nossos amigos e parentes devem estar inquietos por nossa causa. ao mais tardar. Mallinson. — Entretanto. Mr. Quantos carregadores podem fornecer-nos os senhores? Esta pergunta prática e inflexível. não é a mim que o senhor deve dirigir-se neste caso. E foi somente após um intervalo um tanto longo que Tchang replicou: — Infelizmente.

E. . . razão de sobra para partir mais cedo. gaguejou: — Estou tão cansado! Parece que ninguém me quer ajudar. . pediremos alguns emprestados. . alguma coisa da civilização? Assomava-lhe já ao olhar e à voz um toque de terror. teremos de fazer uma viagem longa. fatigado. fazendo-o sentar. Não o tivesse Conway segurado. Quando instalaram todos esses banheiros modernos.. Por que é que você não descobre a verdade? Por agora. . . . não posso mais comigo. . . E seria uma boa idéia mandar notícias. — Então não quer responder? Certamente isto faz parte do mistério que cerca todas as coisas aqui. . não esqueça. quero dizer. . mas. porque suponho que hão de ter comunicação com o resto do mundo. Após um momento de espera. te84 . Ao que parece. devo dizer que o considero um grande moleirão. . De repente repeliu a cadeira e ergueu-se. Estava pálido. o moço continuou: — Bem. como vieram eles ter aqui? Seguiu-se novo silêncio. temos muitos. . é indispensável. Fiz apenas uma pergunta simples. . — Sim. . de vez em quando. para tranqüilizar os nossos amigos. A que distância fica a estação telegráfica mais próxima? O rosto enrugado de Tchang parecia ter-se revestido de infinita paciência — mas ele não respondeu. correndo um olhar circular pela sala. . Conway. se não é incômodo. . . Depois lhos devolveremos. Os senhores têm mapas. .grande da região prestar-nos-ia serviço. É claro que o senhor há de poder responder-me. para onde recorrem os senhores quando precisam de alguma coisa. temos de ir embora amanhã. amanhã. suponho. — Então. . passava a mão pela fronte. .

mas não falou. Barnard. . — Amanhã ele estará muito melhor — disse Tchang suavemente. . e não podemos fazê-lo sem seu auxílio. naturalmente. Reanimou-se um pouco. Assim. — A prova foi muito rude para ele — comentou com uma indulgência melancólica. boa noite. . quer encarregar-se de Mallinson? Tenho certeza de que também precisa dormir. se é verdade que o senhor por si mesmo nada pode fazer. . talvez. meu senhor. Meu amigo é impetuoso. mas logo se aclimatam. . e por isso vou direto ao ponto. . Compreendo. mas eu não o censuro. 85 . com uma sem-cerimônia que contrastava abertamente com suas maneiras anteriores. Está no direito de querer as coisas bem claras. . E Conway continuou: — Sim. e por minha parte creio que acharei muito interessante o tempo de espera — um mínimo de tempo... Quase os empurrava para fora da sala. voltou-se para o anfitrião. Sem dúvida fora dado algum sinal. Miss Brinklow. — Bem. . — O ar aqui abala os forasteiros no começo. que é impossível partir amanhã. porque imediatamente apareceu um criado. Depois. a opinião de meus companheiros. será favor pôr-nos em contato com alguém que o possa. E acrescentou. com mais vivacidade: — Creio que nós todos sentimos mais ou menos a mesma coisa. Será melhor adiarmos esta discussão e irmos dormir.ria escorregado para o chão. Mas não será essa. não desejo retê-lo muito tempo. O próprio Conway tinha a sensação de despertar de uma hipnose. boa noite. Sentira-se esporeado pela censura de Mallinson. sim. Temos de preparar o nosso regresso. vamos todos. ou de alguém mais. eu já os sigo.

— Podem ser persuadidos a fazê-lo. um encontro casual.. como bem pode imaginar. — Não exigi pressa. — Pois bem.. Peço apenas informações sobre os carregadores. Há dificuldades. por que e aonde iam eles escoltando-o esta manhã? — Esta manhã? Oh! isso era coisa muito diversa. — Em que sentido? Não ia o senhor de viagem. mas se todos encararmos o problema razoavelmente e sem pressa desnecessária. — Não há dúvida de que no devido tempo poderemos prestar-lhes todo o auxílio de que necessitam. isto levanta outra questão. Então é certo que o senhor foi até lá com o fim deliberado de interceptar-nos. talvez. Tchang pôs-se a rir — um riso agudo e sacudido e tão evidentemente forçado que Conway reconheceu nele essa simulação polida de perceber um gracejo imaginário. prosseguiu Conway com voz mais tranqüila: — Compreendo. pois. Na verdade. e por isso menos impaciente — o que me alegra. — Isto não é resposta. quando meus amigos e eu o encontramos? Não tendo obtido resposta.— O senhor é mais inteligente que os seus amigos. meu caro senhor.. Isto faz crer que tenham sido avisados com antecedência 86 . meu caro senhor. senão. era o que eu pensava. Duvido muito que o senhor encontre facilmente homens dispostos a empreender tal viagem.. — Estou certo de que o senhor não terá motivo de queixa — respondeu ele. Não foi. com a qual o chinês salva as aparências nos momentos de aperto. Eles têm seus lares no vale e não sentem inclinação para deixar esses lares e fazer longas e penosas excursões.

.da nossa chegada. afinal. Naquele momento. e. levou-o para o ar frio e cristalino. Acredite-me. — Se é apenas por pouco tempo. Tocando então no braço de Conway. com um pequeno gesto. . se es87 . A luz da lanterna fazia ressaltar o tosto do chinês. sereno como o de uma estátua. assim recortada contra a azul imensidade. — Não é o perigo o que nos inquieta: é a demora. — Compreendo. É absolutamente inevitável. mas não acertou inteiramente. já lhe disse — não posso dizer que isso me aborreça muito. nem o senhor nem eles correm perigo algum em Shangri-Lá. — Está muito bem então. descobriu uma janela que deitava para um balcão. no que me toca. Por isso eu o aconselharia a não afligir os seus amigos com estas discussões abstratas. e. E a questão mais interessante é — como? Suas palavras punham uma nota de veemência na perfeita quietude da cena. — O senhor é sagaz — disse com ar sonhador —. — Isso será muito acertado. Olhava para cima. contemplando a pirâmide brilhante do Karakal. Desviando um reposteiro de seda. iluminada pelo luar. então naturalmente havemos de suportá-la o melhor que pudermos. e de fato inevitável. dava a impressão de que se poderia tocá-la com a mão — tão frágil parecia. Tchang desfez a tensão. Repentinamente. E é claro que poderá haver certa demora. — Amanhã — disse Tchang — o senhor poderá achá-la ainda mais interessante. E quanto ao repouso. nós precisamos de repouso. É uma experiência nova e interessante. porque nada mais desejamos senão que o senhor e seus companheiros achem agradáveis todos os momentos que aqui passarem.

não há no mundo inteiro muitos sítios mais apropriados do que este. o vale inteiro. Afinal. essa certeza tão pouco o preocupava. o Karakal. quando mais não fosse. a atitude de Tchang. igualando o esplendor que refletia. Alguma coisa lhe inspirou então o desejo de indagar qual a interpretação literal do nome. Parecia-lhe que o devia fazer. fechado. Não comunicou Conway aos outros a conclusão a que chegara. e percebia tratar-se de um caso importante. no dia seguinte. Aumentou ainda a semelhança quando viu iluminar-se o vértice — um clarão azulado de gelo. que procurou evitar maior inquietação aos outros. tendo a vigiá-lo. era um porto terrestre. era um representante do governo britânico. no dialeto do vale. estava longe de ser tranqüilizadora e o grupo achava-se virtualmente prisioneiro. à medida que Conway continuava a olhar ia-se apoderando dele uma profunda sensação de repouso. como se o espetáculo se dirigisse não menos ao espírito do que aos olhos.tá fatigado. e era iníquo que os habitantes de um mosteiro tibetano se re88 . como um farol. a não ser teoricamente. na véspera. contudo. e a resposta murmurada de Tchang foi como um eco da sua própria meditação: — Karakal. Na verdade. Uma parte do seu ser insistia em ver algo de muito estranho naquele lugar. não havia agora o menor sopro de vento. de que sua vinda a Shangri-Lá era de alguma forma esperada pelos habitantes do mosteiro. ele o percebia. pelo menos até que as autoridades se resolvessem a vir-lhe em socorro. E era seu dever evidente incitá-los à ação. Em contraste com o furacão da noite anterior. significa "Lua Azul".

cusassem a atender a um pedido justo que fazia. a maneira normal e oficial por que se encararia a questão. pequena façanha. para todos. De fato. e aquela parte do seu ser era tão normal como oficial. de deixarem a cidade em aviões — não fora. sim. conseguisse abiscoitar alguma coisa nas condecorações do Ano Bom. vigorosos e violentos. De qualquer forma. incluindo mulheres e crianças. Tal. mas Conway já se habituara a ver pessoas gostarem dele só porque se enganavam a seu respeito. por arranjo especial com o destino e o Ministério das Relações Exteriores — e em troca de um salário que qualquer um podia verificar nas Jornalista inglês e autor de livros para meninos (1832-1902). bem o compreendia.) 1 89 . . seu procedimento fora de molde a granjear-lhe (e pensava nisto meio contrariado) nada menos que a dignidade de cavaleiro e uma novela no estilo de Henty. isso lhe valera a fervorosa admiração de Mallinson. do T. .1 destinada a ser dada em prêmio nas escolas e intitulada Acompanhando Conway em Baskul. a amostra que dava disso era apenas uma pequenina peça de um só ato. Não era verdadeiramente um desses construtores de império resolutos. repetida de tempos em tempos. ameaçar e adular os revolucionários. Era pena. tomar sobre os ombros a direção de várias dezenas de civis de todas as classes. Talvez que. Ninguém melhor do que ele sabia fazerse de homem forte quando a ocasião o requeria. manejando os cordões e escrevendo relatórios intermináveis. chefiada por agitadores hostis a toda sorte de estrangeiros. até conseguir a permissão. (N. àquela hora devia o moço sentir-se bem desiludido. Durante os dias difíceis que precederam a evacuação. Infelizmente. sem dúvida alguma. albergá-los todos num pequeno consulado durante uma revolução violenta.

a menos que alguém se resolva a deitar energias. havia de se queixar por ter ido parar no mais estranho de todos os lugares. em vez de ser ali enviado por uma ordem do Ministério? E na verdade estava muito longe de se queixar. em via de regra. sem dúvida. Alegrou-se de ver que a noite de repouso também produzira efeito tonificante nos outros. creio que não poderemos partir amanhã — resmungava —. Ao sair da cama. Conway aceitou a observação. . Não havia ainda um ano que Mallinson se encontrava fora da Inglaterra — tempo suficiente. Exposto pela própria profissão a andar por estranhos sítios do mundo. Que estes sujeitos são tipicamente orientais. não sentia nenhum receio pessoal. avistando pela janela o lápis-lazúli do céu. Não se consegue que façam coisa alguma depressa nem com eficiência. — Afinal. . Em todo caso. O fato é que o enigma de Shangri-Lá e de sua presença ali começava a exercer sobre o seu espírito uma fascinação não despida de encanto. Barnard pilheriava alegremente a propósito de camas. banhos. por que. Miss Brinklow confessava que a mais tenaz pesquisa no seu aposento não lograra revelar uma só das falhas que estava certa de encontrar.páginas do anuário Whitaker. . pois. . E até certo ponto era ver90 . menos se aborrecia neles. almoços e outras doçuras da hospitalidade. convenceu-se de que não desejaria estar em nenhum outro ponto da terra — fosse Peshawar ou Piccadilly. de manhã. quanto mais estranhos eram. O próprio Mallinson mostrava um pouco de complacência um tanto soturna. em virtude de um acidente. para justificar uma generalização que provavelmente havia de repetir quando tivesse vivido vinte anos no estrangeiro.

antes. Sentia um leve desejo de poder ser também impaciente. — Nós hoje havemos de obrigá-lo a pôr os pontos nos ii! — Sem dúvida — concordou Conway. mas quanto mais crescia em anos e experiência mais se apegava a ele. Por outro lado. que eu fiz papel ridículo com a minha insistência? Não pude conter-me! Aquele chinês me parecia suspeitíssimo. Conseguiu arrancar-lhe alguma coisa razoável depois que fui para a cama? — Não ficamos muito tempo a conversar. sem grande entusiasmo. Era talvez otimismo exagerado supor que eles fizessem alguma coisa já ontem à noite. não considerava. não podia negar que Tchang fosse um contemporizador sutil. as raças orientais tão extraordinariamente dilatórias — seriam. este breakfast está excelente! Consistia a refeição. chá e bolos de farinha sem lêvedo... Ele falou em termos vagos e não comprometedores sobre quase tudo que nos interessava. teria sido muito melhor para o rapaz. começou aquela troca de cumprimentos 91 .dade. — Acha. Dificilmente esperaria que outro ocidental compartilhasse aquele ponto de vista. e ainda penso assim. os ingleses e americanos que galopavam ao redor do globo sob a ação de uma febre contínua e um tanto absurda. fazendo uma pequena reverência. então. — Creio — disse ele — que conviria esperarmos para ver o que nos traz o dia de hoje. Quando ia terminar entrou Tchang e. muito bem preparada e ainda melhor servida. — Entrementes. Mallinson relanceou vivamente os olhos para ele. e que a impaciência de Mallinson era bem justificada. em pomelos. contudo.

ainda que não reconheça a citação. Seria útil guardar um trunfo. Recebeu o chinês este ultimato com ar impassível e afinal respondeu: — Lamento dizer-lhe que isso de pouco serviria. . pareciam um tudo-nada pesado. Exprimindo sua alegria ao ouvir isto. mas segue imediatamente". Receio que não tenhamos homens em condições e que estejam dispostos a acompanhá-los tão longe dos seus lares. Mallinson retrucou com aquele toque de desprezo que todo jovem inglês de espírito são deve sentir à simples menção da poesia: — Suponho que o senhor se refira a Shakespeare. visto que estavam tão fa92 . Escutou com ar sério as cortesias de Tchang e assegurou-lhe que dormira bem e sentia-se muito melhor. — Mas. homem de Deus! Pensará. mas até então não dera a perceber que conhecia algum idioma oriental. . — Ontem. em língua inglesa. esta manhã mesmo. — Parece que o senhor assentou tudo isso durante a noite — interpôs Barnard. — Não queria desanimá-los. Mas sei de outra que diz: "Não esperes a ordem de partida. mas é o que todos nós desejaríamos fazer. não parecia tão seguro do caso. Não foi muito bem acolhida esta mostra de erudição. mas não posso dar outra. se o senhor não tem objeções a fazer. Não quero ser descortês. o chinês acrescentou: — É bem verdade o que diz o seu poeta nacional: "O sono desata a meada das preocupações". Conway teria preferido falar chinês.polidos e convencionais que. porventura. que nos vamos conformar com esta resposta? — Estou sinceramente pesaroso. E eu pretendo ir em procura desses carregadores.

— Este sistema de confusão de palavras vagas não adianta nada. acho que o senhor poderá entender-se com eles. Para a atitude do seu amigo não havia resposta. Isto é exato. e é nosso costume obtê-los no devido tempo. Também é claro que não podemos sair daqui sozinhos. que era. — E quando chegarão? — perguntou Mallinson abruptamente. Deve estar lembrado de que ontem alguém observou — creio ter sido este mesmo seu amigo — que não podemos deixar de ter comunicações eventuais com o exterior. . Sendo assim. após uma noite de descanso. . — Meu caro senhor. . espero que vejam a questão sob uma luz mais razoável. Podem surgir cem motivos de atraso. evidentemente. . só para Conway. De novo interveio Conway. que é que propõe? Teve Tchang um sorriso luminoso. O senhor sabe que não podemos ficar aqui indefinidamente. Não preciso importuná-los descrevendo os métodos e formalidades que empregamos. mas para a pergunta do homem avisado sempre há uma. . Realmente. O senhor sugere que 93 .tigados da viagem. não posso imaginar plano melhor. — Vamos tirar isto a limpo. Agora. O ponto capital é que uma dessas encomendas está por chegar em breve. . Os senhores mesmos têm experiência das dificuldades de locomoção nesta parte do mundo. — Seria impossível. quando chegarem. e como os homens que fazem a entrega voltam depois para o lugar de onde vieram. . — Escute — acudiu Conway com vivacidade. é um prazer apresentar a sugestão que tenho em mente. a incerteza do tempo. De quando em quando necessitamos de certos artigos de entrepostos distantes. e espero que. prever a data exata. é claro. .

cinco meses — interrompeu Mallinson com calor. Provavelmente. por todo o tempo em que tiverem o infortúnio de permanecer aqui. — Mas dois meses! Dois meses neste lugar! É absurdo! Conway. mas nós precisamos saber mais alguma coisa. — Talvez daqui a um mês.podemos empregar como carregadores uns homens que deverão estar aqui dentro de pouco tempo. disse Tchang: — Sinto muito. quatro. apenas quero ter uma idéia — se poderá ser na semana próxima. para nos levar sabe Deus aonde. — Quererão conduzir-nos à Índia? — É-me difícil dizê-lo. senhor. É só o que posso dizer. Não tinha intenção de ofender. e conforme já lhe foi perguntado: quando esperam esses homens? Segundo: aonde nos levarão eles? — Esta pergunta deve ser feita a eles mesmos. Primeiro. numa época completamente vaga do distante futuro? — Penso. ou o que quer que seja. que a expressão "distante futuro" não é muito apropriada. A não ser que sobrevenha algum contratempo inesperado. Quando estarão aqui? Não peço uma data. não mais que dois meses. — E pensa que nós vamos esperar aqui por esse comboio ou caravana. — Ou três. ou para o ano. a espera não será mais longa do que apontei. — Bem. com encomendas. em si. vejamos então a resposta à outra pergunta. num gesto de quem punha termo à discussão. Não é má idéia. 94 . O mosteiro continua a oferecer a todos os senhores o melhor de sua hospitalidade. você com certeza não pode conceber isso! Duas semanas devia ser o limite! Cingindo as roupas ao corpo.

Conway pousou-lhe a mão no braço. . Por fortuna. furioso. para contê-lo. não se aflija! Pode fazer quantas mesuras. Achava Conway que era perdoável aquilo. sem guardar conveniências nem decoro. pode dizer tudo o que lhe aprouver. em tempo de escapar ao pior. Mallinson num acesso de ira parecia uma criança. com um tato admirável. — E se pensa que é senhor da situação. era capaz de dizer tudo o que lhe viesse à cabeça. mas receava que as palavras do rapaz ferissem a suscetibilidade mais delicada de um chinês. 95 .— Nem é preciso mais — retorquiu Mallinson. . numa pessoa da sua constituição e em tais circunstâncias. vai ver que está muito enganado! Havemos de arranjar quantos carregadores quisermos. Tchang retirara-se. quantos rapapés quiser.

.

não se trata de saber se gostamos ou não. a seguir a vida o seu curso ordinário. irritadiço. tirando baforadas do cigarro. Custa-me admitir que estejamos de mãos atadas. vamos todos dar vivas! 97 . deviam estar àquela hora expandindo-se nos clubes e missões de Peshawar. mas parece ser a verdade. dizia: — Já não tenho forças para discutir. já! — Não o censuro por isso. Você sabe o que eu penso. então. Conway. Mallinson sacudiu a cinza do cigarro com um gesto de indiferença forçada e disse: — Muito bem. Infelizmente. Quem me dera ver-me longe disto já. era um choque para quatro pessoas que. — Quer dizer que teremos de ficar dois meses aqui? — Não vejo outro recurso. nada nos resta senão esperar até que venham os outros. Sejam dois meses. Aqui há marosca. Tenho sempre dito que há algo de estranho nisto tudo. mergulhara numa espécie de perplexidade fatalista. Sem dúvida. E nervoso. passada a primeira explosão. se esta gente diz que não pode ou não quer fornecer-nos carregadores. verem-se assim ameaçadas de passar dois meses num mosteiro tibetano. Francamente. mas sim do que teremos de suportar.CAPÍTULO V Discutiram o assunto toda a manhã. o próprio Mallinson. Mas estava na natureza das coisas que o choque inicial da chegada lhes deixasse escassas reservas de indignação ou de assombro. E agora.

não estranhará. Quanto à minha gente. Alegrou-se Conway de que assim fosse. porque sempre tive preguiça de escrever cartas. Barnard. — As pessoas de nosso ofício estão habituadas a andar por lugares esquisitos — creio que posso dizê-lo de nós todos. não é agradável para os que têm parentes e amigos. — Todos nós seremos dados como desaparecidos. aceitava aquela conjuntura com o bom humor habitual. Mallinson não disse nada. Por um momento. sou feliz nesse ponto. por seu lado. é exato. — Esquece que nossos nomes vão aparecer nos jornais — lembrou Conway. não é? Certamente. Voltou-se para Miss Brinklow. depois replicou. como a convidá-los a expor sua situação. poderá ser executado por outra pessoa. passar dois meses num presídio não dá para matar. reconheço que tenho sorte. seja qual for. Não sei de ninguém que se inquiete muito por minha causa. com uma leve careta: — Ah! sim. mas Conway sabia que ele tinha os pais e a noiva na Inglaterra. ainda que o ponto permanecesse um tanto duvidoso. — Enfim. e naturalmente as suposições serão as piores. Mas isso não me preocupa. que até então observava um silêncio notável. Imaginou Conway que as suas inquietações pessoais também fossem pequenas. 98 . Voltou-se para os outros. Não emitira opinião alguma durante a conferência com Tchang. quanto ao meu trabalho. Por mim. Era bastante duro.— Não sei por que haveria de ser pior que dois meses em qualquer outra parte isolada do mundo — prosseguiu Conway. pareceu que o americano se sobressaltara. acredite.

quando voltar. dois meses aqui não é coisa para a gente se incomodar. era uma atitude muito conveniente. Felizmente parece haver aqui muito espaço. Ainda perturbado. o mero fato de fazer tal observação revelava que já ia procurando reconciliar-se com a situação. — Só Deus sabe o que encontraremos para nos ocupar aqui! Entretanto. até agora vimos somente um dos habitantes. pois o deixava apenas com um desgosto para aturar. Conway? Não é com pouca despesa que se dirige um 99 . Poderá prestar informações muito úteis. após o esforço despendido em tantas discussões. Conway estava admirado da facilidade com que Barnard e Miss Brinklow se acomodavam à nova perspectiva. experimentava Mallinson certa reação. pouco importam os lugares. Generalizou-se então a conversa. e o lugar não está de modo algum superlotado. naquelas circunstâncias. Sabe. Barnard encontrava outro motivo de otimismo: — E não havemos certamente de morrer de fome. a julgar pelas amostras de refeições que tivemos até agora. — A primeira coisa que temos a fazer — disse Conway — é evitar de aborrecermos uns aos outros. Já é uma pequena consolação. E disse. Mesmo assim.— Como disse Mr. em tom animador: — Estou certo de que a sua sociedade missionária vai ficar muito satisfeita com a senhora. O fato é que todos nós levaremos daqui alguma experiência. mostrava-se contudo mais disposto a encarar as coisas pelo lado melhor. A não ser os criados. Para quem está a serviço do Senhor. Barnard — começou ela alegremente —. Achou Conway que. A Providência me enviou aqui e considero isso como um chamado. Isso lhe trazia também certo alívio.

Daria um belo centro de esportes de inverno. E. devem ter sido presente de algum protetor milionário. porém. — Nem sequer uma partida de hóquei no gelo — replicou Conway. Seria difícil aduzir algum comentário acertado. necessário. Eu queria saber é se eles extraem algum minério. se fosse bem situado. não podem produzir bastante para exportar. Quanto aos banheiros. que a vista é bonita. uma vez que me veja longe daqui. . respondeu Conway: — Ontem. Não o aconselharia a experimentar nenhuma de suas proezas de Wengen-Scheidegg nesta parte do mundo. contudo. não foi. Enfim. é assunto que não me há de preocupar. por exemplo — aquilo custa muito dinheiro. pois que já ia ser servido o almoço. que o diabo os leve! — replicou Mallinson. — Não creio que alguém aqui já tenha visto um salto de esqui. a não ser que aqueles tipos lá do vale tenham algum trabalho. como os jesuítas. Aqueles banheiros. — Tudo aqui é misterioso. quando encontrei alguns edelvais. gracejando. cuja natureza e oportunidade se combinavam para produzir 100 . e mesmo assim. . Agora. ninguém ganha nada aqui. — Calculo que eles tenham panelas de dinheiro enterradas. Que diz de "Cavalheiros versus Lamas"? — Isso certamente lhes ensinaria o jogo — disse Miss Brinklow com cintilante seriedade. Será que se pode andar de esqui em alguma daquelas ladeiras? Deitando-lhe um olhar perscrutador e levemente divertido. — Você podia ver se organizava alguns quadros. Devo dizer. você me lembrou que não estávamos nos Alpes.lugar assim. pelo que tenho visto. a seu modo. chegoume a vez de dizer o mesmo.

Imagino que há de se passar muito tempo antes que algum de nós faça outra visita. Miss Brinklow fez uma observação digna de nota. porém. o oferecimento foi muito bem acolhido. quando lembrou que talvez desejassem ver mais alguma coisa do mosteiro. Com muito tato.excelente impressão. Na verdade. sem dúvida. que talvez não fosse digno de inteiro crédito. inexorável. principalmente na Índia. certamente eu nem sonhava que viríamos ter a um lugar como este. não os encontrou dispostos a reencetar a discussão. e que a ser assim teria prazer em guiá-los. quando apareceu Tchang. tivera muitos amigos chineses e jamais lhe ocorrera idéia de tratá-los como a inferiores. ao conversar com Tchang. mas que era. — Mas claro! — disse Barnard. Não tinha Conway preconceitos de raça nem de cor. — Podemos perfeitamente dar uma vista d'olhos enquanto estamos aqui. dotado de grande inteli101 . — E até agora não sabemos por que viemos — acrescentou Mallinson. fazia-o com bastante isenção de ânimo para ver nele um velho cavalheiro maneiroso. Na China. Esta maneira de proceder livrava de muito incômodo. era menos necessária. Mais tarde. e os quatro exilados aceitaram o convênio. Ao saírem todos em seguimento de Tchang. Portanto. e era por pura afetação que fingia às vezes. dar especial valor à "brancura" de uma cara cor de lagosta tendo ao alto um chapéu de cortiça. quando estava em algum clube ou viajava em carro de primeira classe. murmurou: — Quando partimos de Baskul naquele avião. e Conway era exímio em se furtar a aborrecimentos. o chinês fez de conta que ainda se achava em bons termos com todos.

em que Tchang não se ofereceu para entrar com eles. de uma harmonia tão delicada que parecia satisfazer o olhar sem o prender. Miss Brinklow mostrava-se viva e alegre. conservadas por mais de mil anos. aquele giro pelos domínios de ShangriLá era bastante interessante para sobrepor-se a todas estas atitudes. Entrementes. Miss Brinklow descobriu abundantes evidências de imoralidade. mesmo. em altitudes mais baixas. Só aquele passeio por salas e pátios tomavam uma tarde inteira. passada a primeira impressão de novidade. de gosto sóbrio e impecável. embora ele tivesse notado que muitos aposentos iam ficando sem exame — edifícios inteiros. Mallinson. Quanto a Mallinson. Precisou fazer um esforço consciente para trocar a atitude do artista pela do conhecedor. muito provavelmente. não se sentia menos fatigado do que em outras excursões de turismo. inclinava-se a ver o chinês através das grades de uma prisão imaginária. como sempre fazia ao tratar com os pagãos na sua cegueira. laças em que a fria e adorável minuciosidade de país de fadas era antes orques102 . não escolheria os lamas para seus heróis. independentemente da sua situação. Somente Conway se abandonava a um encantamento profundo e sempre crescente. Barnard estava mais certo que nunca de que os lamas eram ricos. como a gradual revelação de elegância.gência. entretanto. Não era sem duvida a mais vasta e. e lá consigo achava que. ao passo que a bonomia mordaz de Barnard era da espécie que ele teria usado com um mordomo. reconhecendo então tesouros que museus e milionários teriam cobiçado: deliciosas cerâmicas de Sung azul pérola. Não era tanto alguma coisa particular que o atraía. o suficiente para confirmar as impressões já formadas. pinturas em cores esbatidas. Viram. a mais notável.

103 . contudo. Não havia ali ostentação. alemão e russo. mais de distinção que de seriedade. que todo o ambiente era mais de critério que de erudição. Uma seção que o interessou particularmente era dedicada a assuntos tibetanos. e era imensa a quantidade de escritos em chinês e outras línguas orientais. alta e espaçosa. Teriam enlouquecido um colecionador. pelo Padre Antônio de Andrade (Lisboa. Aquelas delicadas perfeições tinham o ar de surgir no mundo a flutuar como pétalas caídas de uma flor. mais o que mostrar do que uma coleção de chinesices. Salientava-se ali. faltavam-lhe o dinheiro e o instinto aquisitivo. proporcionando um instante de emoção antes de se diluir no mais puro pensamento. entre as quais o Novo Descobrimento do Grão Cathayo ou dos Reinos de Tibet. notou diversas raridades. por exemplo. E enquanto ia passando de sala em sala teve uma remota sensação de mágoa à idéia da imensidade do Karakal. pairando sobre tão frágeis encantos. contendo uma multidão de livros tão discretamente agasalhados nos desvãos e reentrâncias das paredes. Um mundo de incomparáveis refinamentos ainda a tremular indeciso em porcelana e verniz. precisos e miniaturais. Abundavam os volumes em inglês. no íntimo. para os objetos delicados. num mundo em que aumentam incessantemente o ruído e a vastidão das coisas. que ele não podia avaliar. Mas Conway não era colecionador. assim como muita matéria curiosa e abstrusa.trada do que pintada. francês. ali se encontrava. não havia busca de efeito nem assalto concentrado aos sentimentos do espectador. uma agradável biblioteca. a melhor literatura do mundo. Tinha o mosteiro. Seu gosto pela arte chinesa era puramente espiritual. segundo parecia. ele voltavase. Um rápido olhar deitado a algumas prateleiras revelou a Conway muita coisa que admirar.

interrompeu o diálogo: — Aqui está alguma coisa para a sua vida de estudioso. — Nossa coleção contém várias centenas — disse Tchang. de Athanasius Kircher (Antuérpia. sem dúvida. a Voyage à la Chine des Pères Grueber et d'Orville. tergiversou: — Gosto de ler. É um mapa do país. Examinava este último quando notou o olhar de Tchang fixo nele.1626). E. que o termo — o mais altamente lisonjeiro na boca de um chinês — tinha. para ouvidos ingleses. mas certamente reconheço os seus atrativos. infortunadamente. Conway sorriu. Não encontrarão Shangri-Lá assinalado em nenhum deles. e a Relazione Inédita di un Viaggio al Tibet. 1667). — Estão todos à disposição dos senhores. Conway. China. porém. sabia. — Contudo. deseja-a? — Oh! não direi tanto. mas talvez possa poupar-lhes algum trabalho. — É curioso — comentou Conway. — Há para isso uma boa razão. porém. uma leve nota de pedantismo. 104 . Mallinson. que pegara num livro. mas meu trabalho nestes últimos anos não me tem deixado muitos vagares para uma vida de estudos. de Thevenot. — Eu gostaria de saber por quê. de Beligatto. Aqueles dois anos de magistério em Oxford conferiam-lhe certo direito ao título. é tudo que posso dizer. Mallinson. — É talvez um erudito? Achou difícil responder. mais em consideração aos seus companheiros do que por outra razão. Mas. mostrou-se de novo impertinente. com expressão de suave curiosidade.

Depois desta resposta. porém. naquela voz aflautada que devia ter intimidado muito guia da agência Cook. e à pesquisa da sabedoria.— Aumenta o mistério. minha senhora. além disto. E continuou: — Que é que os lamas fazem? — Devotam-se à contemplação. mas de parecer sempre um tanto ou quanto indignada — um complexo que a resposta de Tchang em nada perturbou: — Sinto dizer que é impossível. — Mas isso não é fazer alguma coisa! — Então. é um prazer. De repente Miss Brinklow saiu do mudo estupor em que a mergulhara o passeio processional. Eu gostaria tanto de apertar a mão do seu chefe! Tchang recebeu a observação com benévola seriedade. de que pudesse dar notícia quando tornasse à pátria. ainda não se dava por vencida. não fazem nada. Os lamas nunca — ou. que tinha o espírito cheio de visões nebulosas de ofícios nativos — tecedura de tapetes de oração. Estava fora de dúvida. Tchang. ou alguma coisa pitorescamente primitiva. encontrou ensejo para sumariar — Pois. somente raras vezes — são vistos por gente estranha ao mosteiro. diria melhor. — Mas é uma pena. Miss Brinklow. — Vejo então que teremos de passar sem eles — concordou Barnard. Mr. sem dúvida. Até agora não vimos por aqui nada que fosse necessário ocultar. Tinha o extraordinário vezo de nunca se mostrar muito surpreendida. minha senhora. ver to105 . — Era o que eu pensava. — O senhor não nos vai mostrar os lamas trabalhando? — perguntou.

onde se encravava um lagozinho. senão que antes acentuava a paz ambiente. alimentado por algum artifício delicado de irrigação. davam a impressão de um pavimento de tijolos verdes e úmidos. Ao redor do lago. possuía aquele gosto típico dos chineses pelo chá. parecia ter-se encaixado. para maior alegria de Conway. incomparável. por seu lado. a tarde se escoara rapidamente e Tchang. e até o vértice do Karakal. não havia ali emulação nem vaidade. dragões e unicórnios de bronze — cada um apresentando uma ferocidade estilizada que não só não perturbava. Todo o grupo concordou com a sugestão e foi seguindo Tchang por vários pátios. descia uma escadaria para um jardim. que costumam tomar com freqüentes intervalos. a despeito da sua frugalidade. submissamente. enquanto Tchang os conduzia a um pavilhão aberto.das estas coisas. Partindo de uma colunata. pousava uma coleção de leões. mas o senhor não me convence de que um estabelecimento como este faça algum bem verdadeiro. Eu preferiria alguma coisa mais prática. onde. até darem com uma cena inesperada. acima dos telhados azuis. naquela moldura de arte consumada. Abrigava ele tamanha quantidade de lotos que as folhas. — Lindo recanto! — observou Barnard. havia um cravo e um piano moderno. unidas na superfície. Tão perfeitas eram as proporções de todo o quadro que o olhar se movia sem pressa de um lado para outro. que se elevava. Miss Brinklow. de cauda. como uma franja. de beleza sem igual. Mas logo viu que se enganara. confessou que as visitas a museus e galerias de arte sempre lhe causavam alguma dor de cabeça. 106 . — Quem sabe se gostaria de tomar chá? A princípio Conway ficou em dúvida sobre se havia nisto uma intenção irônica.

Possuíam uma coleção de todas as grandes composições européias e alguns deles eram hábeis executantes em vários instrumentos. quando lhes chega às mãos. isso é claro. — Isto eu acreditaria. quem sabe se ainda não conhecem a música moderna? — Oh! sim. até certo limite. e continuou: — Bem. Xangai. ou noutra parte qualquer. Temos tido notícias.Na sua opinião. e aposto que tudo isso. — Calculo que o lema da sua sociedade seja: "Não há pressa!" Riu alto. descendo aos detalhes. quanto ao gramofone. e. tinham em alta estima a música do Ocidente. suponhamos que os seus chefes resolvam no devido tempo adquirir o gramofone. mas também nos informaram que as montanhas impossibilitam a recepção radiofônica. Foi o problema do transporte que mais impressionou Barnard. — O senhor quer dizer que este piano veio dar aqui pelo mesmo caminho que seguimos ontem? — Não há outro. em particular a de Mozart. como fazem então? Os fabricantes não hão de fazer a entrega aqui. ficava tudo completo! E daí. — Apre! Isto agora é o mais extraordinário! Com um gramofone e um rádio. Respondeu Tchang a todas as suas perguntas com perfeita lisura. já foi apresentada a sugestão às autoridades. era em certo sentido a surpresa culminante de uma tarde assombrosa. Os lamas. Imagino que tenham um agente em Pequim. mesmo que o senhor não me dissesse — replicou Barnard. mas não têm pressa de ultimar o assunto. já está custando um montão de dinheiro! 107 . explicou ele.

mas surgiu uma nova surpresa que veio adiar o assunto. ao mesmo tempo que os tibetanos ágeis. sorrindo. A boca era como um pequeno convólvulo rosado e sua dona mantinha-se perfeitamente imóvel — menos as mãos de longos dedos. depois. Terminada a gavota. com certo ar de triunfo pessoal. refletia Conway. mas lamento não poder discuti-las. Acompanhou-a Tchang com o olhar. Julgava poder dentro em breve começar a delinear mentalmente essa fronteira. A fascinação das primeiras notas despertou em Conway um prazer que suplantava o assombro. o palor de casca de ovo dos manchus. das lacas delicadas e do lago dos lotos. fez uma pequena reverência e retirou-se. Foi só então que reparou na clavecinista. 108 . conferindo a imortalidade através de uma época alheia ao seu espírito. as maçãs do rosto salientes. entrara quase sem ser notada uma jovem vestida de chinesa. voltou-se para Conway: — O senhor gostou? — Quem é ela? — indagou Mallinson. o cabelo negro. Foi direto ao cravo e pôs-se a tocar uma gavota de Rameau. antes que Conway pudesse responder. como das outras vezes. Mr. Envolvia-as aquela mesma fragrância que desafiava a morte.Mas Tchang. aquelas argentinas árias francesas do século dezoito pareciam refletir a elegância dos vasos de Sung. Já traziam os criados as taças de chá rescendente e. Tinha o nariz longo e delgado. muito puxado para trás e trançado. parecia uma miniatura bem acabada. não se deixou apanhar: — Suas conjeturas são muito argutas. de membros flexíveis. Barnard. E assim achavam-se de novo. beirando o limite invisível entre o que podia e o que não podia ser revelado.

ousava Tchang supor que o passeio os tivesse divertido. Parecia que ainda vibravam no ar os ecos do cravo. exercendo um estranho encantamento. 109 . aos seus distintos hóspedes. afinal ! Faz com que eu me sinta muito mais à vontade. enquanto ali estivessem. Já é um progresso. — Que coisa extraordinária este seu monastério — observou Mallinson altaneiramente. .— Chama-se Lo-Tsen. Então há também mulheres lamas aqui? — Entre nós não há distinção de sexo. não lho posso dizer. Tchang. guiando-os à saída do pavilhão. . Que idade terá ela. e com muita alegria. Toca com muita habilidade as músicas ocidentais para instrumentos de teclado. — Não parece mais que uma criança. e disse: — Mas e os lamas? Não se utilizam nunca dessas salas? — Eles cedem o passo. — Infelizmente. O chinês disse da sua própria satisfação e pediu-lhes que considerassem os recursos da biblioteca e da sala de música inteiramente à sua disposição. ainda não atingiu a iniciação completa. — Suponho que não. O certo é que têm aqui uma bela instalação. Como eu. Continuaram a tomar o chá sem mais conversar. — E demais. com efeito! — exclamou Miss Brinklow. eis o que eu queria saber. com alguma sinceridade. Momentos depois. e aquela menina toca muito bem piano. ao cabo de uma pausa. isso prova que os lamas sabem realmente que nós existimos. Conway reciprocou com ele as cortesias de costume. Agradeceu-lhe de novo Conway. — Oh! aí está o que eu chamo verdadeira gentileza — acudiu Barnard. Respondendo pelos demais.

Estava intrigado. Entretanto. tocado pelo mistério que jaz no âmago de tudo que é belo. A fronteira do mistério. Não se costuma associar a presença destas à prática do monasticismo. achou Conway um meio de se apartar dos outros e saiu a passear pelos pátios tranqüilos. Assaltou-o um aroma de angélicas. rindo. Como que se focalizava diante dos seus olhos a série de estranhas aventuras em que ele e seus companheiros casuais se viram envolvidos. chamavam-lhe o "aroma do luar". muito mais próxima do que vista à luz do sol. não conseguia explicá-las por enquanto.— Não quer revelar o segredo da idade de uma senhora. Shangri-Lá estava lindo então. a imponente pirâmide do Karakal parecia mais próxima. que ele começara a delinear. embora estivesse certo de que tinham explicação. Se o luar tivesse também uma voz. fazia-se mais definida. fantasiou ele. e esta idéia lhe guiou o pensamento para a jovem manchu. bem poderia ser a gavota de Rameau que ouvira naquela tarde. Conway experimentava grande bem-estar físico. mais ainda. hem? — disse Barnard. sentia os nervos repousados e o espírito tranqüilo. com a remota sombra de um sorriso. uma clavecinista podia constituir 110 . lavados de luar. depois do jantar. despertando delicadas associações. — Exatamente — respondeu Tchang. No ar frio e sereno. refletiu. Naquela noite. mas revelava agora um fundo inescrutável. Caminhando ao longo de um dos claustros. atingiu o terraço que se debruçava sobre o vale. Não lhe ocorrera a possibilidade de existirem mulheres em Shangri-Lá. talvez não fosse uma inovação desagradável. na China. mas mordia-lhe a inteligência — o que não é a mesma coisa — boa dose de inquietude.

a luz rosada de uma lanterna. Sabia. porém. talvez. interessava-o esse singular núcleo de cultura. sem esquecer os segredos curiosos. chegaram-lhe sons lá de baixo. Ser-lhe-ia permitido visitar o vale e observar a civilização de que lhe haviam falado? Como estudioso de história. Prestando atenção pôde distinguir gongos e trombetas e também (ou seria apenas imaginação?) o lamento confuso de muitas vozes.elemento valioso numa comunidade que se permitia ser. nada menos de uma milha. Elevou-se de 111 . cobrindo negligentemente os ombros nus com as capas coloridas. que tal liberdade era ilusória e que todos os seus movimentos estavam sendo vigiados. Inclinou-se sobre a borda para contemplar o vazio negro-azulado. deixando após si um silêncio que parecia deter a própria marcha dos instantes. do convento lamaico. encravado entre montanhas desconhecidas e governado por um vago sistema teocrático. Mas os sinais de vida e de agitação naqueles velados abismos só serviam para realçar a austera serenidade de Shangri-Lá. De súbito. A profundidade era fantástica. Percebeu então. Dois tibetanos tinham atravessado silenciosamente o terraço. seria ali que os lamas se entregavam à contemplação e à busca da sabedoria? Estariam nesse momento praticando as suas devoções? O problema parecia ter solução bem simples: era entrar pela primeira porta e explorar galerias e corredores até descobrir a verdade. numa janela muito acima do terraço. Os sons vinham e se iam ao sabor dos caprichos do vento. trazidos pela brisa. Davam a impressão de indivíduos bem-humorados. "moderadamente herética". Seus claustros desertos e seus pálidos pavilhões mergulhavam num repouso do qual parecia ter fugido toda vibração de existência. aproximando-se do parapeito. na expressão de Tchang. mal talvez com ele aparentados.

Conway. por assim dizer. o suficiente para encontrar mais uma chave do mistério. — Obedeceu às autoridades de Shangri-Lá. cuja voz era inaudível. Ouvira. como que um único arco 112 . — Embora tenha partido há muito tempo. — Também trouxe forasteiros consigo. carregado por um grande pássaro. como segue: — Morreu fora do vale. Na verdade. e após alguns minutos de espera voltou para o seu aposento. e Conway ouviu um dos homens interrogar o companheiro. A resposta foi: — Eles sepultaram Talu. isso lhe tinha passado pelo espírito. Aquele vôo de Baskul para as montanhas não fora a façanha gratuita de um louco. Os habitantes do vale conheciam pelo nome o piloto morto. Agora via bem que o que lhe parecera fantástico e absurdo tinha de ser aceito. Havia. — Talu não temia o vento nem o frio dos espaços. — Veio pelo ar. preparado e posto em execução por ordem de Shangri-Lá. tinha sido um deles. contudo. esperou que a conversa continuasse. aquelas palavras soltas não lhe revelavam quase nada. reatou a conversação. mas achara-o tão absurdo e fantástico que não lhe dera acolhida.novo o rumor de gongos e trombetas. por sobre as altas montanhas. o interrogador. Tudo indicava a existência de uma mentalidade superior e dirigente. cujos conhecimentos de tibetano eram muito superficiais. Tinha sido planejado. empenhada em realizar os seus próprios desígnios. Depois de uma pausa. o vale da Lua Azul lembra-se dele ainda. recebendo respostas que Conway apanhou e. e lamentavam-lhe a morte. interpretou aproximadamente. Nada mais foi dito que Conway pudesse entender. e esta chave ajustava-se tão bem que se admirou de não a haver obtido por suas próprias deduções.

Uma coisa decidiu desde logo: a emoção da descoberta não devia ser ainda comunicada. Qual era. 113 . nem aos seus companheiros. para estas solidões de além-Himalaia? O problema causava leve terror a Conway. os quais seguramente não desejariam prestar-lhe auxílio. que em nada o poderiam ajudar. Era um desafio e tomava a única forma sob a qual ele era sensível a desafios: apelando para certa lucidez de raciocínio que só pede uma tarefa digna de si. essa intenção? Por que razão concebível quatro passageiros quaisquer tinham sido transportados. nem aos seus hospedeiros.de intenção abarcando todas as inexplicáveis horas e distâncias. mas de modo algum o aborrecia. porém. num avião do governo britânico.

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CAPÍTULO VI

— Há gente que tem se acostumado com lugares piores do que este — observava Barnard no fim da primeira semana passada em Shangri-Lá; era, sem dúvida, uma das muitas lições que estavam aprendendo. Já se haviam afeito a certa rotina cotidiana e graças a Tchang o tédio não era maior do que em muita temporada de férias. Todos estavam aclimatados à altitude e sentiam-lhe a ação revigorante, uma vez que evitassem todo exercício demasiado. Aprenderam que os dias eram tépidos e as noites frias, que o mosteiro era quase completamente resguardado dos ventos, que as avalanchas do Karakal se tornavam mais freqüentes por volta do meio-dia, que o vale produzia excelente fumo, que certos alimentos e bebidas eram mais saborosos do que outros, e que cada um deles mesmos tinha os seus gostos e idiossincrasias. De fato, haviam descoberto muita coisa acerca uns dos outros, qual se fossem quatro novos alunos duma escola, de onde todos os demais houvessem desaparecido misteriosamente. Tchang era incansável nos seus esforços para aplainar dificuldades. Organizava excursões, sugeria quefazeres, recomendava livros, falava com aquela sua fluência lenta e cuidadosa sempre que se produzia um silêncio constrangedor durante as refeições e era sempre benévolo, cortês e fértil em recursos. Era tão bem demarcado o limite entre as informações prestadas de boa vontade e as que ele recusava polidamente, que a recusa já não causava ressentimento — salvo, por 115

vezes, em Mallinson. Conway contentava-se em tomar nota, acrescentando mais um elemento à série de observações que ia constantemente acumulando. Barnard até caçoava com Tchang, de acordo com as maneiras e tradições rotarianas do Middle-West. — Fique sabendo, Tchang, que isto aqui é um péssimo hotel. Nunca recebem jornal algum! Eu trocaria todos os livros da sua biblioteca pelo Herald-Tribune de hoje. As respostas de Tchang eram sempre sérias, conquanto isto não fosse prova de que ele levasse a sério todas as perguntas: — Temos a coleção do Times, Mr. Barnard, até alguns anos atrás. Mas, sinto dizê-lo, somente o Times de Londres. Alegrou-se Conway por saber que o vale não lhes era interdito, se bem que as dificuldades da descida tornassem impossíveis as visitas sem escolta. Acompanhados por Tchang, passaram quase todo um dia percorrendo a pradaria verde, tão encantadora vista do alto do penhasco, e para Conway, ao menos, a excursão foi de absorvente interesse. Viajavam em cadeirinhas de bambu, balançando-se perigosamente por cima de precipícios, enquanto os carregadores, à frente e atrás, iam descuidosamente pelo íngreme caminho. Não era um caminho para pessoas de nervos delicados, mas, quando afinal alcançaram os planos mais baixos das florestas e colinas basilares, patenteou-se por toda parte a suprema boa fortuna dos lamas do mosteiro. Era o vale nada menos que um paraíso fechado, de assombrosa fertilidade, onde a diferença de nível de algumas centenas de metros abrangia toda a distância que separa o clima temperado do tropical. Plantações extraordinariamente variadas cresciam em profusão, umas ao pé das 116

outras, sem que ficasse inaproveitada sequer uma polegada de terra. A área cultivada media talvez umas doze milhas, variando a largura de uma a cinco milhas, e, embora estreita, tinha a ventura de receber sol durante as horas mais quentes do dia. A atmosfera, aliás, era agradavelmente tépida mesmo à sombra, mas eram frigidíssimos os cursos de água que desciam das neves da montanha. Conway sentiu de novo, ao contemplar o portentoso paredão de rocha, que um soberbo e sutil perigo envolvia a paisagem; não fosse alguma barreira fortuita, e o vale inteiro seria evidentemente um lago, alimentado pelas elevações glaciais que o cercavam. Ao invés disto, sulcavam o solo umas poucas torrentes, enchendo reservatórios e irrigando prados e culturas com disciplinada regularidade, como se fossem obra de um engenheiro hidráulico. Toda essa rede tinha uma disposição incrivelmente feliz — contanto que a estrutura que a emoldurava não desmoronasse por força de algum tremor de terra ou desabamento! Mas essas vagas ameaças de cataclismo futuro só conseguiam dar maior realce à beleza do presente. Mais uma vez Conway sentia-se cativado pelas mesmas qualidades de engenho e graça que haviam feito dos anos vividos na China os mais ditosos de sua existência. O vasto maciço, em torno, formava perfeito contraste com os pequeninos relvados e jardins expurgados de ervas, com as coloridas casas de chá à beira do regato e com as habitações tão leves que pareciam de brinquedo. Afiguraram-se-lhe os habitantes uma mescla feliz das raças chinesa e tibetana; eram mais claros e tinham mais belas feições do que o comum de um e outro povo, e pareciam ter sofrido pouco com os efeitos da endogamia inevitável numa sociedade tão limitada. Riam ou sorriam para os estrangeiros que passavam nas cadeirinhas e diziam uma palavra amiga a 117

Tchang. Eram bem-humorados e levemente curiosos, corteses e despreocupados, ocupados em inúmeros misteres, mas sem nenhum sinal de pressa. De um modo geral, Conway achou-os uma das mais felizes comunidades que já vira, e até Miss Brinklow, sempre de olho atento a qualquer sintoma de degradação paga, teve de reconhecer que tudo tinha muito boa aparência, "na superfície". Sentiu alívio ao constatar que os nativos estavam "completamente" vestidos, muito embora as mulheres usassem calças chinesas, justas no tornozelo, e o exame meticuloso a que submeteu um templo budista apenas revelou uns poucos objetos de duvidosa significação fálica. Explicou Tchang que o templo tinha sacerdotes próprios, submetidos à fiscalização pouco exigente de Shangri-Lá, conquanto não pertencessem à mesma ordem. Disse que havia ainda na extremidade do vale um templo taoísta e outro dedicado a Confúcio. — O brilhante tem numerosas facetas — acrescentou — e é possível que muitas religiões sejam moderadamente verdadeiras. — Concordo consigo neste ponto — disse Barnard, com convicção. — Nunca aprovei rivalidades sectárias. Tchang, você é um filósofo. Hei de guardar na lembrança essa sua frase: "Muitas religiões são moderadamente verdadeiras". Imagino que vocês lá em cima devam ser uns grandes sábios, para terem descoberto tal coisa. E têm razão, disto estou absolutamente certo. — Mas nós — respondeu Tchang com ar sonhador — estamos apenas moderadamente certos. Miss Brinklow não deu importância a estas coisas, que lhe pareciam ser apenas sinais de indolência. Preocupava-se, todavia, com uma idéia que lhe viera ao espírito. 118

— Quando regressar — articulou com os lábios apertados —. Miss Brinklow intimidou-se um pouco diante do maciço volume compilado por um laborioso alemão do século XIX — imaginara. — Creio — disse Conway — que. com certa violência. preferiria este lugar a muitos. minha senhora. não pode conter a sua admiração. — Como poderia alguém gostar disto aqui? Mas trata-se de um dever a cumprir. Nessa mesma tarde. Não há virtude em fazermos uma coisa porque nos agrada. Tchang? Tchang assumiu o seu ar mais melífluo. — Não se trata de saber se agrada ou não — retorquiu Miss Brinklow. E se me permite dizê-lo. Isto. — Mas certamente. teimarei com eles até que concordem. e até Mallinson. tratou o assunto como sendo de importância imediata. naturalmente. revelava um espírito muito mais são. que simpatizava pouco com as missões estrangeiras. Isto é. quando subiram para Shangri-Lá. então. Veja este povo aqui! — Parecem ser muito felizes. uma obra mais le119 . acho a idéia excelente. se um lugar assim lhe agradasse. — Neste caso — atalhou Miss Brinklow —. — Maior lástima. E continuou: — Em todo caso. A princípio. provavelmente. E se alegarem as despesas. sem dúvida. não vejo razão para que não comece desde já por aprender a língua. — Mas eu não estava pensando no mérito. — Exatamente — respondeu ela. Mr. — Deviam enviar a senhora. com o maior prazer. se eu fosse missionário e tivesse de escolher. é evidente que não haveria mérito algum. Pode emprestar-me algum livro de estudo. pedirei à minha sociedade que mande um missionário aqui.

disse-lhe Tchang que haviam chegado outros livros publicados até meados de 1930. e estes a seu tempo viriam para as estantes. o seu gosto em matéria de livros era universal. Conway. encontravam-se ali Thomas Moore. Durante os dias tépidos de sol dedicou-se à biblioteca e à sala de música. Nietzsche era companheiro de Newton. — Como sabe. por seu lado. Todavia. — Certas pessoas dificilmente concordariam com o senhor — respondeu Conway sorrindo. atacou resolutamente a tarefa e não tardou a tomar-lhe gosto. que não pudesse ter sido previsto em 1920 ou que não possa ser melhor compreendido em 1940. — Como vê. encontrava muita coisa em que se interessar. — Nada de importância. nada achou. mais recente que uma edição barata de Im Westen nichi Neues. Calculou o número total de volumes entre vinte ou trinta mil. confirmando-se nele a impressão de que a cultura dos lamas era deveras excepcional.ve. uma espécie de O Tibetano sem Mestre —. mas. durante uma visita subseqüente. estamos razoavelmente em dia — acrescentou. contudo. Platão em grego vizinhava com Ornar Khayyam em inglês. — Não lhe interessam então os aspectos mais recentes da crise mundial? 120 . Procurou também descobrir de quando datavam as últimas aquisições. meu caro senhor. com o auxílio do chinês e encorajada por Conway. George Moore e até o velho John Moore. de um ano para cá ocorreu muita coisa no mundo. bem como Hannah Moore. Em todo caso. afora o avassalante problema que impusera a si mesmo. e era interessante fazer conjeturas sobre o sistema de seleção e aquisição.

Mr. embora estranhasse encontrar tão poucas pessoas no convento. nem sempre me interessaria um jornal da hora. em Shangri-Lá. Corelli. à medida que os seus colóquios se multiplicavam. . no devido tempo. Tchang. Via-a de vez em quando na sala de música. sem dúvida. . aí está. Preferia o cravo ao piano. que muito o fizera sofrer no seu tempo — a conversa que. Conway. Duvidava que tivesse mais de trinta ou 121 . o tempo tem muito menos importância do que para a maioria das pessoas. para os senhores. — Sabe. e Conway o achava menos irritante do que o fenômeno oposto. assim como aqui. a jovem manchu. Se eu estivesse em Londres. mas quando Conway se sentava ao piano escutava-o com atenção séria e quase obediente. Scarlatti e por vezes Mozart. Por falar nisso. ela. como aliás todo o seu procedimento. parece nunca ter fim. Era o costumeiro ponto final na conversa. não lho posso dizer. há quanto tempo não aparecem visitantes aqui? — Infelizmente. e escolhia sempre peças já consagradas — as composições de Bach. por mais que a gente deseje. Era impossível saber o que tinha na mente. mesmo na suposição de que os lamas fossem inacessíveis. porém. Ambas as atitudes me parecem perfeitamente assisadas. Começou a afeiçoar-se a Tchang. Não poderia dizer se ela tocava unicamente por prazer ou se de fato estudava. não têm grande ansiedade de ler um jornal do mesmo ano. era refinadamente convencional. não haveria outros aspirantes além de Tchang? Havia. que estou começando a compreendê-los? São constituídos de maneira diferente.— Interessar-me-ão profundamente. Sua música. não sabia inglês e Conway até então não quisera revelar os seus conhecimentos de chinês. difícil adivinhar-lhe a idade.

em todo caso. mas que atrativo oferece a uma moça? Quisera saber há quanto tempo está aqui. Na realidade tivera muito pouco contato com o outro sexo. aspecto atraente. — Esta vida de mosteiro pode ser muito boa para um velho como Tchang. até certo ponto. — Não posso saber o que essa pequena faz aqui — disse a Conway mais de uma vez. — Você acredita que lhe agrade isto aqui? — Sou forçado a dizer que ao menos não parece desagradar-lhe. — Você é terrivelmente cínico no que toca às mulheres. na Índia. a re122 . — Uma encantadora semelhança. — Sim. se bem me lembro. toca cravo com mãos de fada e não anda numa sala como se estivesse jogando hóquei. é o quanto basta. — Esta mesma pergunta tenho feito a mim mesmo. mas é uma coisa que jamais saberemos. Conway sorriu. e contudo — coisa curiosa — nenhuma dessas improbabilidades manifestas podia ser eliminada como totalmente impossível. a boneca de marfim tem boas maneiras. bom gosto no vestir. Mallinson. decerto. — Dá a impressão de "não ter sentimentos de espécie alguma. Afinal de contas. e durante as ocasionais licenças nos postos de montanha. via nela um desnorteante problema.menos de treze anos. que vinha às vezes ouvir música na falta de ocupação melhor. Na Europa ocidental. se formos a isso. não é comum encontrar essas virtudes reunidas numa mulher. Conway estava habituado à acusação. — E pensando bem. Mais parece uma boneca de marfim do que um ser humano. Mallinson. Conway.

não era cínico a respeito delas. numa espécie de autocracia bastante folgada e elástica. com tudo isso. interessava-lhe principalmente a forma por que era governado o vale. segundo constatou. entretanto. que estava interessado em conhecê-los. Era um regime bem sucedido e muito sólido. — Eu tenho trinta e sete anos — disse rindo — e você tem vinte e quatro. que idade você dá a Tchang? — Qualquer — respondeu Conway sem hesitar — entre quarenta e nove e cento e quarenta e nove. mútuas relutâncias que foi impossível vencer. que de bom grado casariam com ele se as tivesse pedido em casamento — mas não as pedida. foi quase ao ponto de anunciar no Morning Post. exercida pelo mosteiro com uma benevolência quase negligente. Sua experiência com as mulheres tinha sido fortuita. eram muito menos dignas de confiança do que outras informações ao alcance deles. Certa vez. intermitente e de certo modo inconclusiva. Mas. não se faria nenhum segredo em torno dos usos e costumes da população do vale. e Conway. Tais conjeturas. Por exemplo. nem ele em Tunbridge Wells. como ele tinha ocasião de verificar cada vez que descia 123 . mas a moça não queria viver em Pequim. Como estudioso de política. É verdade que havia mantido algumas deleitosas amizades com mulheres. Nisso consiste toda a diferença. Vigorava ali. O fato de nem sempre lhes ser satisfeita a curiosidade tinha por efeito obscurecer a quantidade realmente grande de dados que Tchang estava sempre disposto a fornecer. Houve uma pausa e Mallinson perguntou de repente: — A propósito. obteve informações que dariam para compor uma boa tese de formatura.putação de cínico era tão fácil de manter como qualquer outra.

e quanto à mulher. Intrigava-o o problema da manutenção da lei e da ordem. as boas maneiras lhe aconselhariam aceitar a situação. pois não parecia haver polícia nem soldados. tido como extremo e terrível. O senhor se admiraria de ver 124 . com relação às mesmas coisas. Indagou Conway se não disputavam por causa de mulheres. os habitantes do nosso vale cultivam o sentimento de que não se deve ser hostil aos forasteiros. fosse aplicado apenas de longe em longe. pois não consideram decoroso tomar uma mulher desejada por outro homem. — Mas suponhamos que um homem desejasse uma mulher a tal ponto que pouco lhe importasse o decoro? — Então. em parte porque só se consideravam tais as faltas graves. e também em parte porque cada um possuía em quantia suficiente tudo o que pudesse desejar. Em último caso. receio. era a preconização das boas maneiras. Por exemplo. fazendo-se sentir às pessoas que certas coisas "não se fazem" porque desqualificam quem as comete. A simples idéia de divertir-se com o que os mestres de suas escolas chamam a guerra simulada dos jogos esportivos lhes pareceria um barbarismo. — É o mesmo sentimento que se inculca nas escolas públicas do seu país — disse Tchang —. discutir com acrimônia ou querer sobressair-se um ao outro. disse Tchang. Mas o fator principal no governo do vale da Lua Azul. os servidores do mosteiro tinham o poder de expulsar do vale os infratores — se bem que este castigo. mas não. meu caro senhor. devia por certo existir um meio de reprimir os incorrigíveis. — Só muito raramente. seria o caso de o outro lhe ceder. Contudo.àquele fértil paraíso. uma excitação indecorosa dos instintos inferiores. A isto respondia Tchang que o crime era muito raro.

Miss Brinklow encontrava satisfação no estudo do tibetano. Compreendo que se esforce por encarar as coisas com calma. — Para dizer a verdade — observou Mallinson um dia —. Tchang replicou: — Sim. Nossa gente não gostaria de ser forçada a apoiar uma política qualquer. nós acreditamos que para governar com perfeição é necessário não governar em demasia. Conway também se admirava da facilidade com que o americano se aclimatara. e Barnard persistia numa equanimidade que não deixaria de ser notável. Conway sorriu. como o voto. dentro em pouco estará feito a alma e a vida do nosso grupo. ainda que fosse apenas simulada. Entrementes. — E contudo não possuem nenhuma instituição democrática. E respondeu: 125 . Se não tomarmos cuidado com ele.como uma pequena dose de cortesia por parte de todos facilita a solução dessa sorte de problemas. tida como absolutamente má. encontrava um espírito de boa vontade e contentamento que lhe causava tanto mais prazer porque. em suas visitas ao vale. mas irritam-me esses gracejos a respeito de tudo. o bom humor do sujeito está começando a mexerme com os nervos. em detrimento de outra. Mallinson impacientava-se e resmungava. de todas as artes. mas como sabe. Na verdade Conway. Simpatizava com este ponto de vista. por exemplo? — De modo algum. quando ele fez uma observação elogiosa sobre este ponto. sabia ser a do governo a que menos fora estudada e aperfeiçoada até o presente. Entretanto. considerada absolutamente boa.

. mas não lhe importava muito saber quem era e quem não era. está visto. — Por falar nisso. Conway ergueu as sobrancelhas com um interesse medíocre. custou-me convencê-lo de que era preciso vir conosco. mas a culpa não foi minha propriamente. Conway? Quem é ele e o que faz? — Não sei muito mais do que você. Não tencionava falar nem mesmo a você. mas já que tocamos no assunto. — Talvez não lhe pareça bem. Mas eu desejaria saber de que se trata. — Simplesmente isto: Barnard viaja com um passaporte falso e o seu nome não é Barnard. mas não me lembro. Além disso. — É lógico. Por quê? Mallinson pôs-se a rir. você viu alguma vez o tal passaporte? — Provavelmente vi. É de seu natural levar as coisas em troça. Quando foi da evacuação. dois meses de convívio neste lugar terão de pôr à mostra todos os nossos segredos. Que sabe você a respeito desse cidadão. — Quem pensa você que ele possa ser. se é que os temos. então? — É Charmers Bryant. onde andava à procura de petróleo. Não pude 126 . O homem lhe era simpático até certo ponto. Disseram-me que tinha vindo da Pérsia.— Não lhe parece que é uma felicidade para nós ele ter tão bom gênio? — Pessoalmente. . Só se decidiu quando eu lhe disse que um passaporte americano não servia de escudo contra as balas. acho isso muito esquisito. — Ora esta! Que é que o leva a pensar semelhante coisa? — Esta manhã deixou cair um livrinho de bolso e Tchang entregou-mo. pensando que era meu. Note que foi simples acaso e eu não contei nada a ninguém.

Em fim de contas. . Se estivéssemos em Baskul. e um deles traz um retrato que é Barnard em pessoa. Alguns caíram no chão enquanto eu examinava o livrinho. — Meu caro Mallinson. Talvez nada. é possível que você tenha razão. — Creio que eu não me atreveria a condenar alguém. . tanto mais que esse fato explicaria a sua satisfação em permanecer aqui. onde encontrar melhor esconderijo? Mallinson pareceu levemente decepcionado com a serenidade do companheiro ante uma notícia que ele julgava sensacional. sem nenhum comentário. — De modo que tudo se baseia numa fotografia de jornal. Afinal de contas. só com a diferença de ter bigode. — Então. que é que você pretende fazer a respeito? Refletiu Conway um instante e respondeu: — Não sei exatamente o que se possa fazer. com efeito. temos de suportar-lhe a companhia enquanto continuarmos aqui. identificada por você? — Sim. mesmo que se tratasse de Nero em pessoa. — Mencionou isso a Barnard? — Não. se ele é o tal Bryant. Apenas lhe entreguei o objeto. com o demônio. recortes de jornais não são papéis particulares! Todos tratavam de Bryant e das diligências da polícia para encontrá-lo.deixar de ver que estava abarrotado de recortes de jornal. baseado em tão pouco. que importância teria isso no momento? Santo ou bandido. e não se me dá de confessar que olhei para eles. que se poderá fazer num caso como este? — Mas. até agora é tudo. eu procuraria comunicar-me 127 . Não afirmo que ele não possa ser Bryant. Naturalmente. e nada adianta tomar atitudes.

eu me exprimiria de outro modo: acho que devemos dar a outro o prazer de prendê-lo. Essa ética de escola pública pode ser rudimentar. Seria um simples dever público. E a lei relativa a cheques sem fundo. — Não penso assim. 128 . Bryant a havia transgredido. Não deixava de admirar o simples código de Mallinson. ou quem quer que seja. Mas presentemente creio poder dizer que não estou de serviço. parece um tanto absurdo metê-lo em algemas tão depressa se muda de lugar. Quando se viveu em boas relações com um homem por alguns meses. Conway deu de ombros. — Não lhe parece que há nisso certa dose de incúria? — Pouco me importa que haja. tinha a impressão de que fora dos mais escabrosos. — Deseja que eu esqueça o que descobri? — Provavelmente isso não lhe é possível. Esse homem não passa de um ladrão em grande escala. mas para evitarmos uma situação extremamente embaraçosa. quando nos formos daqui. mas penso que devemos guardar segredo sobre o fato. Não em consideração a Barnard ou Bryant. Conheço muitas pessoas que foram roubadas por ele. e se bem que Conway não tivesse tomado grande interesse no caso. contanto que a atitude seja razoável. mas ao menos é direita e franca. — Quer dizer que devemos deixá-lo em liberdade? — Bem. ações e balanços falsos é sem dúvida uma delas. todo em preto e branco. é obrigação de todos os cidadãos que as respeitam deitar-lhe a mão e entregá-lo à justiça — sempre na hipótese de se tratar de uma dessas leis que não é permitido violar. Quando um indivíduo viola as leis.com Delhi a seu respeito.

Miss Brinklow voltara à sua gramática tibetana e os outros três exilados se defrontavam. e era do mesmo modo evidente que Barnard percebia ter-se passado alguma coisa. Em todo caso. — Bem. se você quer ouvir o meu conselho — disse Conway finalmente —. penoso silêncio sobreviera. De uma maneira ou de outra (Conway não era entendido em finanças). Súbito. Ausente ele. Ficou Mallinson vermelho como uma virgem. afinal. Não fosse a amabilidade e o tato do chinês. contanto que não esqueça a possibilidade de não ser ele o homem.Tudo que sabia era que a falência da gigantesca empresa Bryant em Nova York causara prejuízos que montavam a cerca de cem milhões de dólares — uma quebra-recorde. mas Conway respondeu com a mesma serenidade: — Sim. — Imperdoável descuido. o americano jogou fora o charuto e disse: — Suponho que os senhores saibam quem sou. mas no nosso. — Todos nós estamos sujeitos a cometer descuidos. ter deixado cair aqueles recortes. Bem sabia Conway que não era possível a Mallinson tratar o americano como se nada houvera acontecido. mesmo num país onde pululam os recordes. Mas era. Não em benefício dele. não diga nada por enquanto. Bryant fizera trampolinagens em Wall Street e o resultado fora uma ordem de prisão contra ele. — Ainda bem que toma a coisa com calma! 129 . e a revelação veio naquela mesma noite após o jantar. fumando charutos e sorvendo cafezinhos. a conversação teria esmorecido mais de uma vez durante a refeição. Pela primeira vez não estava Barnard para gracejos. Mallinson e eu julgamos saber. sua fuga para a Europa e pedidos de extradição dirigidos a meia dúzia de países. faça como entender. Tchang se retirara.

os nossos destinos estão ligados por algum tempo. quebrado afinal pela voz aguda de Miss Brinklow. grande e corpulento. não lamento. Miraram-na os outros interrogativamente e ela continuou: — Lembro-me de que. Quanto ao que vier a acontecer depois. Refleti então que com certeza Barnard não era o seu verdadeiro nome. Enquanto não desconfiavam de nada as coisas marchavam bem. o senhor respondeu que isso não o afetava nem um pouco.Houve novo silêncio. Pelo modo. em certo sentido. mas em vista da situação em que nos achamos seria falta de camaradagem engrimparme com os senhores agora. O aventureiro sorriu vagarosamente enquanto acendia outro charuto. Barnard. Quanto aos amigos. A senhora o disse. de 130 . quando Mr. podemos deixar que tudo se resolva por si mesmo. — A senhora — disse afinal — não só mostra ser um bom detetive. como também encontrou um termo verdadeiramente polido para designar a minha situação presente. que tenham descoberto tudo. e é verdade. Foram tão gentis para mim que não lhes quero dar incômodos. não sei quem é o senhor. — Quanto a mim. acho eu. Conway disse que os nossos nomes iriam aparecer nos jornais. Tudo isto se afigurou a Conway tão altamente sensato que passou a olhar Barnard com muito mais interesse e até — embora parecesse talvez estranho em tal momento — com um toque de genuína admiração. mas devo dizer que suspeitei que estivesse viajando incógnito. e convém que cada um faça o possível para ajudar os outros. Era curioso pensar que esse homem. bem-humorado. Estou viajando incógnito. Mr.

expressão paternal. e como bem podem imaginar. Barnard tornou a rir. se não fossem as balas. lembro-me de que não queria vir. ou embarcar num avião do seu governo e encontrar um par de algemas à minha espera. Mais aparentava o tipo de indivíduo que. Barnard pôs-se a rir. Sob a sua jovialidade vislumbravam-se os sinais de tensão nervosa e recentes preocupações. — Sim. na chegada. Podem crer que foi uma escolha bem difícil: ficar em Baskul e correr o risco de levar chumbo. estirando-se na cadeira. notem bem. às quais somente agora pudesse dar vazão. — Sim. — Sim. Atravessei a Europa. por pouco não me apanharam em Viena! A princípio é bastante divertido estar sendo perseguido. que coisa extraordinária! — exclamou. — Refiro-me a toda essa história. penso que é o melhor que temos a fazer — disse Conway. Evidentemente. 131 . — Bem. daria um excelente diretor de liceu. com um sorriso —. Era como se possuísse reservas mais profundas de bom humor. E todo o tempo com a polícia no meu encalço. era o mais formidável escroque do mundo. e só por profissão um lobo. e ali pensei que ficaria em paz no meio da revolução. era o que o mundo chama "um bom sujeito" — cordeiro por natureza.. passei pela Turquia e pela Pérsia e vim parar naquele buraco. mas cansa os nervos depois de algum tempo. — Caramba. — Por certo que ficaria — aparteou Conway. Afinal descansei um pouco em Baskul. mas nem por isso ela parecia forçada. com certa instrução. e foi isso que acabou por me inquietar. Não tinha muita vontade de fazer nem uma nem outra coisa. pois foi assim..

— Uma atitude muito razoável. 132 . mas não se pode ter tudo como se quer. Ao passo que estou certo de ter achado aqui justamente o que o médico me aconselhava. se bem que me pareça ter exagerado um pouco. Mudei de regime. Esse vôo continua a ser um mistério de primeira ordem. — Bem que ele deve desejar fazê-lo! — Não duvido. falando pessoalmente. é muito sossegado. e me sinto radiante. — É o que tenho suspeitado muitas vezes. não poderia haver coisa melhor. Há de estar com uma boa bota para descalçar! Disse isto com tanta simplicidade que Conway não pôde deixar de responder: — Não sou muito entendido nisso que se chama a alta finança. — Estava de fato contente. O sorriso de Conway fez-se mais acentuadamente cordial. Este lugar não é mau. Estávamos começando a ficar intrigados com o seu contentamento excessivo. Não tenho o hábito de me queixar quando estou satisfeito. uma vez que a gente se acostume a ele. mas a gente não encontra descanso nesses lugares. não me preocupo com as cotações da bolsa e o meu corretor não me pode chamar ao telefone. E. e o americano a apanhou sem relutância. para variar. mas para mim. É verdade que o ar é um pouco picante a princípio. — A alta finança — disse ele — é quase tudo farolagem. Todos os outonos vou fazer uma cura de repouso em Palm Beach.não me contrariou muito o acidente que nos trouxe aqui. Continua-se na mesma roda-viva. Era uma deixa.

Como sa133 . quando de repente o mercado se vira contra ele.— Olhe. Não existe segurança em parte alguma. e os que pensavam assim não passavam de imbecis. se ele esperar tanto tempo. — Nem sequer pude fingir que lutava. só lhe resta ganhar coragem e esperar pela volta. — Sim. Agora eu pergunto. — Pois bem. — Quer dizer. — Não concordo. o fato é que minha perda foi grande. então. procurando abrigar-se de um tufão debaixo de um guarda-chuva. É porque confiavam no senhor e acreditavam que o dinheiro deles estivesse seguro. Foi o que me veio ao pensamento quando o vi conservar toda a calma no aeroplano.. conciliador: — Todos nós concedemos que o senhor não podia evitar o tufão. Não pode remediar a coisa. dir-lhe-ei como é a coisa. Conway interveio. Nem podia estar. Conway. E lá fica o sujeito até que venha a polícia. com aspereza. não estava. mas também não pode ser evitado. E por quê? Porque todos eles queriam ganhar dinheiro sem trabalho e não tinham inteligência bastante para fazê-lo por si mesmos. — E perdeu também o dinheiro de muita gente — atalhou Mallinson.. Eu não esperei. Um camarada continua fazendo o que fez durante anos e o que muitos outros também fazem. enquanto aqui o Mallinson não se podia conter. você acredita que uma coisa dessas ajude o mercado? É claro que o abalo é grande. que foi simples má sorte? — Bem. e depois de perder dez milhões de dólares ele lê num jornal que um professor sueco é de opinião que o fim do mundo está próximo. Mas desta vez a volta não vem na forma do costume. da mesma forma como você não pôde opor-se ao que aconteceu depois que deixamos Baskul.

não há ninguém que conheça tais regras. e o meu motivo é. Quanto a mim. Mallinson replicou desdenhosamente: — Estou-me referindo às simples normas que regem a conduta na vida ordinária. — Incluí a mim próprio — respondeu Conway —. Mas agora estamos aqui. — É melhor não discutir. Conway apressou-se a intervir. Nem mesmo todos os professores de Harvard e de Yale lhe poderiam dizer quais são elas. — Nesse caso. talvez. O senhor precisava de uma cura de repouso e de um refúgio. não levo a mal que faça comparação entre as suas ocupações e as minhas. Concordo com o senhor em que não temos muito motivo de queixa. — Qualquer pessoa pode evitar de lograr outra. Foi exatamente o que se deu comigo quando veio o crash. Na verdade. três acabem por encontrar alguma satisfação na aventura. Pouco tempo depois foi fazer o seu passeio noturno e solitário. que se tornara habitual. o mais simples de todos: estou gostando daqui. — E qual a terceira pessoa? — atalhou Mallinson. Basta obedecer às regras do jogo. acho que a conduta ordinária não se aplica à direção de trustes. — Espero que não seja eu. e é o que importa por enquanto. Miss Brinklow sente-se chamada a evangelizar os pagãos do Tibete.bia que nada podia fazer. é curioso que. de quatro pessoas reunidas pelo acaso e seqüestradas a mil milhas de distância. e isso em todos os sentidos. Além disso. não se preocupou mais. Pensando bem. ultimamente temos voado às cegas. — É difícil obedecer às regras do jogo quando ele vai por água abaixo. ao longo do terraço ou 134 . — Isto é um contra-senso! — gritou Mallinson.

ao passo que o mistério o estimulava e a sensação resultante era agradável. Conway lhe conferia uma significação mais ampla do que lhe dera provavelmente o americano. responsabilizados pelas peças que não conseguiam salvar. de ordinário. de uma conclusão a respeito do mosteiro e dos habitantes do vale. mais bem dramatizada do que a sua. Sentia extraordinário bem-estar físico e mental. mas por sorte os jogadores não eram. Com relação a Bryant. se aparecessem carregadores para o levarem imediatamen135 . a questão de suas aventuras e de sua personalidade fora relegada sem demora ao segundo plano. mas de um modo calmo e impessoal. Recordando-a.junto ao lago dos lotos. os financeiros eram mais infelizes. Durante os últimos dias viera aproximando-se gradualmente. Havia um relento de decomposição naquele mundo distante e talvez a queda de Barnard houvesse sido. Era a pura verdade: ele gostava de ShangriLá. tudo estava mergulhado em profunda tranqüilidade. No céu sem lua as estrelas cintilavam em massa e um pálido clarão azulado nimbava o cume do Karakal. apenas. às tentativas. Aqui em Sangri-Lá. aos consulados. Ela lhe trabalhava ainda o espírito. Era qual um matemático às voltas com um problema abstruso: preocupava-se com este. Não era verdadeira somente em relação aos bancos e trustes da América do Norte. às guerras e ao desenvolvimento do império. a quem resolvera continuar a considerar como Barnard e chamá-lo por este nome. O jogo. ia por água abaixo. Veio então ao espírito de Conway que. a Delhi e a Londres. indubitavelmente. sem de nenhum modo o perturbar. porém. exceto esta frase pronunciada por ele: "o jogo vai por água abaixo". Nesse ponto. A atmosfera ali o aquietava. Também se ajustava a Baskul. às concessões comerciais e aos jantares de recepção nos palácios de governo.

que esteve no Tibete?.te dali. E nem Barnard tampouco. seria muito mais fácil se ele tivesse simplesmente roubado um relógio.. Viriam então os primeiros apertos de mão e as primeiras apresentações. Talvez até voltasse à Inglaterra e para Whitehall. a mão flácida de um subsecretário. intermináveis relatórios que deveria preparar e remeter.. a perda de cem milhões de dólares era demasiado grande para justificar a prisão de um homem. e a chegada eventual ao bangalô de algum plantador em Sikkim ou Baltistan — momento que devia ser de delirante alegria. Mr. e de súbito descobriu que ainda gostava de Barnard. vozes agudas. Mas. Em seguida. era divertido. de mulheres perguntando: "É verdade mesmo. Em Delhi teria sem dúvida entrevistas com o vice-rei e com o comandante-chefe. ou não acharia divertido aquilo.. as faces bronzeadas cercando-o com expressões de mal dissimulada incredulidade.. E afinal de contas. Conway. mas que provavelmente seria também de desencanto." Duma coisa não tinha dúvida: com a narrativa da aventura. entrevistas à imprensa. como era possível a um homem perder cem milhões de dólares? Talvez apenas no sentido em que um ministro podia anunciar jovialmente que "o haviam presenteado com a Índia". Na verdade. salamaleques de criados com turbantes. e isso lhe agradaria? Lembrou-se da frase escrita por Gordon nos seus últimos dias em Cartum: Preferiria viver como dervixe no séquito do Mahdi a ter de sair para jantar 136 . De certo modo. teria jantares garantidos ao menos para toda uma estação. pensou sorrindo interiormente. ele não ficaria de todo satisfeito com a supressão da espera. tornou a pensar na volta. Imaginou a longa e dura viagem. os primeiros goles na varanda do clube. zombeteiras. jogos no convés de um paquete da "Peninsular and Oriental". sensuais.

todas as noites em Londres". A aversão de Conway era menos definida — previa, apenas, que contar a sua história no pretérito não só lhe causaria aborrecimento como o entristeceria um pouco. De repente, no meio das suas reflexões, sentiu a aproximação de Tchang. — Meu senhor — começou este, com um leve tom de alvoroço na voz baixa —, estou orgulhoso por lhe trazer uma notícia importante. . . "De modo que os carregadores chegaram mesmo antes do tempo", foi o primeiro pensamento de Conway. Era estranho que ainda há pouco estivesse pensando nisso. Sentiu o choque desagradável para o qual se havia preparado. — Bem? —fez ele. Tchang estava tão agitado quanto lhe era possível. — Meu caro senhor, eu o felicito. Sinto-me feliz ao pensar que sou até certo ponto responsável pelo acontecimento . . . Foi depois de minhas constantes recomendações que o Lama Superior tomou esta decisão. Ele deseja vê-lo imediatamente. Conway fixou nele um olhar ironicamente interrogativo. — Está sendo menos coerente que de costume, Tchang. O que aconteceu? — O Superior mandou chamá-lo. — Entendi. Mas por que tanta agitação? — Porque é uma coisa extraordinária e sem precedentes. Até eu, que procurava apressar o encontro, não esperava que se desse tão já. Ainda não faz quinze dias que chegou, e está para ser recebido por ele! Jamais isto ocorreu tão depressa! 137

— Ainda estou um pouco confuso, sabe? Vou ver o seu Superior. . . isso percebo muito bem. Mas há alguma coisa mais? — Então não é suficiente? Conway riu. — Mais que suficiente, asseguro-lhe. Não pense que estou sendo descortês. É que me havia passado pelo espírito uma coisa muito diferente. . . Bem, não tem importância. Naturalmente, me sentirei honrado e encantado em falar com o cavalheiro. Para quando é a entrevista? — Para agora. Mandou-me que viesse buscá-lo. — Mas não é um pouco tarde? — Não importa. Meu caro senhor, cedo irá compreender muitas coisas. E permita-me acrescentar que sinto prazer em ver que esse intervalo, sempre tão incômodo, tenha chegado a termo. Acredite que me foi penoso ter de lhe recusar informações tantas vezes. . . extremamente penoso. Rejubilo-me por saber que de agora em diante essas desagradáveis reticências se tornarão desnecessárias. — Você é um homem engraçado, Tchang — respondeu Conway. — Mas vamos, não percamos mais tempo. Estou pronto e agradeço a sua delicadeza. Mostre-me o caminho.

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CAPÍTULO VII

Guardava Conway uma aparência de calma, porém, no fundo, sentia uma ansiedade crescente enquanto acompanhava Tchang pelos pátios desertos. Caso tivessem algum sentido as palavras do chinês, devia estar às portas de uma revelação. Breve iria saber se a sua teoria, ainda incompleta, era menos absurda do que parecia. À parte isto, não restava dúvida de que a entrevista prometia ser interessante. No seu tempo tivera encontros com vários potentados originais. Sentira por eles um interesse desprendido e era, em geral, arguto nas suas apreciações. Isento de embaraço, tinha a valiosa habilidade de dizer gentilezas em idiomas que conhecia muito pouco. No caso presente, porém, talvez o seu papel fosse apenas de ouvinte. Notou que Tchang o estava conduzindo através de salas que ainda não tinha visto, todas elas encantadoras à luz fosca das lanternas. Em seguida, uma escada de caracol os levou a uma porta em que o chinês bateu. Foi aberta por um tibetano, com tal presteza que Conway suspeitou estivesse o homem atrás dela, esperando-os. Essa parte do mosteiro, pertencente a um andar superior, não revelava menos bom gosto que o resto do edifício, mas o que mais a caracterizava era a atmosfera quente e seca ao extremo, como se todas as janelas se achassem hermeticamente fechadas e algum aparelho de aquecimento interno estivesse funcionando a toda pressão. A falta de ar aumentava à medida que avançavam, até que por fim Tchang se deteve di139

ante de uma porta que, a julgar pela sensação física, bem poderia dar acesso a um banho turco.

— O Superior o receberá sozinho — murmurou Tchang. Tendo aberto a porta para que Conway entrasse, fechou-a depois tão silenciosamente que a sua retirada foi quase imperceptível. Deteve-se Conway hesitante, respirando uma atmosfera que não só era abafada mas também sombria, de forma que foram necessários alguns segundos para que os seus olhos se habituassem à escuridão. Foi então distinguindo, pouco a pouco, uma sala baixa, revestida de cortinas escuras e mobiliada simplesmente de mesa e cadeiras. Numa destas estava sentada uma pequena, pálida e enrugada figura, imóvel na sombra, dando a impressão de um quadro antigo e descolorido, em claro-escuro. Se fosse possível imaginar uma presença destituída de realidade, ali estaria ela, revestida de uma dignidade clássica que era mais emanação do que atributo. Conway notou com curiosidade a sua própria percepção intensa de tudo aquilo e perguntou consigo se seria digna de crédito, ou simples reação ao ambiente penumbroso e quente. Davalhe vertigens a mirada daqueles olhos antigos. Deu alguns passos à frente e estacou. O ocupante da cadeira tornou-se agora menos vago. conquanto não parecesse muito mais concreto. Era um velhinho vestido à chinesa, e as amplas pregas da túnica lhe envolviam frouxamente o corpo exíguo e emaciado. — É o senhor Conway? — murmurou em excelente inglês. A voz era agradavelmente acariciadora e tocada de uma melancolia suave que encheu Conway de estranha 140

entrou um criado a fim de preparar o elegante ritual do chá. de acordo com o costume inglês. . graças a um sistema de comunicações que ficou sendo um mistério para Conway. — Extremamente bem. mas. — Pois. é de grande prazer para mim. Numa bandeja de laca foram co141 . A voz continuou: — É um prazer conhecê-lo pessoalmente. — Era o que eu pensava. embora o cético que havia nele estivesse novamente inclinado a atribuí-la à temperatura do aposento. — De fato. meu caro Conway. Tenha a bondade de sentar-se ao meu lado e nada receie. sou capaz de vê-lo em espírito tão bem como se o fizesse com os olhos. Conway. . Disse-me que o senhor lhe faz muitas perguntas sobre a nossa comunidade e sua vida. gostarei de lhe dar uma breve notícia desta instituição. como já disse. . . essas coisas me interessam. — É uma assinalada honra ser recebido pelo senhor — respondeu Conway. Tchang fez o melhor que pôde pelos senhores. Mas em primeiro lugar antes de começarmos a discorrer. se pode dedicar-me um pouco de tempo. Tenho a vista fraca. — Agradeço-lhe. e contava com isso. — Nada me agradaria mais. Espero que se tenha sentido bem em Shangri-Lá desde a sua chegada.beatitude. — Isso me alegra. . Fez um levíssimo aceno com a mão e imediatamente. Mr. acredite-me. Mandei chamá-lo porque pensei que seria bom conversarmos um pouco. Chamá-lo-ei assim. Para ele também tem sido um grande prazer. Este momento. . Sou um velho e nenhum mal posso causar a ninguém. sem dúvida. — Sou — respondeu.

o fantasma de um perfume a pairar sobre a língua. para aqueles que se vão tornar amigos. Obedecendo a um impulso que não pôde analisar nem desejava reprimir. É uma lição famosa que aprendemos de Kou Kai Tchou.locadas as taças de porcelana fina como casca de ovo. a honra que me faz? Raramente se embaraçava Conway na explanação de seus motivos de proceder. acompanhou-a com ar apreciativo. mas na minha opinião este. Conway. — Então está ao corrente dos nossos costumes? — tornou a voz. — É realmente delicioso. respondeu o hóspede: — Vivi alguns anos na China. — Não. . . que viveu há cerca de quinze séculos. Quando chupava cana142 . certamente. que é um produto especial do nosso vale. não tenho a menor idéia. — Não falou nisso a Tchang. a não ser que desejava dizê-lo ao senhor. Agora diga-me. Naturalmente. — A melhor das razões. sutil e recôndito. mas para que se extraia dele todo o prazer que comporta. deve saborear-se com muito vagar. não acha delicado este aroma? Os chás que se colhem na China são variados e ricos em fragrância. é único e precioso. O sabor era tênue. não só como sinal de reverência e carinho. — A que devo. então. mas desta vez não lhe ocorria razão alguma. Conway levou a taça aos lábios e provou. como grande número de ervas do nosso vale. — Sim. que conhecia a cerimônia. não lhes fica atrás. contendo um líquido quase incolor. Por fim replicou: — Para ser sincero. e também completamente novo para mim.

pelo menos. e não duvido que tenha estudado os escassos mas muito interessantes anais destas regiões. ignorado por muitos europeus de hoje: durante trinta e oito anos existiu uma missão cristã em Lassa. Já estudou algum dos grandes clássicos chineses? Respondeu Conway que conhecia ligeiramente uns poucos. sem dúvida. Não foi entretanto de Lassa. mas isto estava longe de o irritar. de acordo com a etiqueta. Havia nele. um pouco da sensibilidade relutante de Kou Kai Tchou. formam uma leitura muito mais interessante do que as de São Paulo. que no ano de 1719 partiram quatro frades capuchinhos em busca dos remanescentes da seita nestoriana que porventura ain143 . Deve ter verificado. o criado surgiu e desapareceu de modo tão misterioso como da primeira vez. "queria penetrar gradualmente na região das delícias". cujas viagens. como explicava. Sabia que essa conversação alusiva continuaria. porque. com a história do Tibete em suas linhas gerais. e há um fato notável.de-açúcar. Aos poucos a Igreja foi-se propagando sobre uma área imensa. não obstante sua grande curiosidade de ouvir a história de Shangri-Lá. Fui informado por Tchang de que fez largo uso da nossa biblioteca. nascida na própria Roma e tendo por instrumentos aqueles heróicos missionários jesuítas. No século XVII deu-se uma revivescência cristã. mas de Pequim. que o cristianismo nestoriano esteve muito difundido na Ásia durante a Idade Média e sua memória persistiu muito tempo após sua queda. sempre hesitava em chegar à medula suculenta. até haverem terminado de beber o chá. se me permite a observação. meu caro Conway. e sem mais preâmbulos o Lama Superior de Shangri-Lá pôs-se a falar: — Deve estar familiarizado. Finalmente foi dado o sinal.

e assim teve contato pessoal com os horrores da guerra e da invasão. Bolonha e outras universidades.da existissem no interior do continente. por acaso. e era uma espécie de erudito. Aqui. Sob a sua fiscalização. O povo era budista. concebeu ele a idéia de instalar no mesmo sítio magnífico um mosteiro cristão. tinha especial aptidão para as línguas. praticamente. passando por Lanchow e pelo Koho-Nor. Bem depressa recobrou a saúde e deu início à sua missão. 144 . "Permita agora que me alongue um pouco a respeito desse homem. Três deles morreram em caminho. Conservaram-se poucos episódios da sua mocidade — sua vida nessa época não diferia muito da de outros jovens da sua idade e profissão. quando contava cinqüenta e três anos de idade. "Viajaram muitos meses na direção de sudoeste. lutando com dificuldades que o senhor bem pode imaginar. Existia então nesta mesma plataforma de pedra um velho convento lamaico. Em 1734. Apreciava a música e as artes em geral. como fosse aumentando a messe do capuchinho. Chamava-se Perrault e era natural do Luxemburgo. encontrou uma população amável e próspera que se apressou a aplicar o que sempre considerei a nossa mais antiga tradição: a hospitalidade para com os estranhos. deu com o desfiladeiro que até hoje é. e o quarto não estava longe de seguir a mesma sorte quando. os velhos edifícios foram reparados e em grande parte reconstruídos. mas estava em plena decadência física e espiritual e. e antes de estar seguro da sua vocação gozara todos os comuns prazeres mundanos. ele próprio começou a viver aqui. Era jovem quando se feriu a batalha de Malplaquet. mas escutou-o de bom grado e ele obteve considerável êxito. a única via de acesso ao vale da Lua Azul. Antes de se dedicar às missões no Extremo Oriente havia estudado em Paris. com grande alegria e surpresa.

Foi. uma obra cheia de imensas dificuldades. Roma não era capaz de menos. mas não via razão para invectivar o gosto que tinham pela baga do tangatse. Quero que o senhor o veja como um homem sincero. o próprio Perrault tornou-se afeiçoado ao seu uso. Digo orgulho. mas não o tentaram. "Mas. Na verdade. porque este foi sem dúvida o motivo dominante no princípio — o orgulho da própria fé. dispensandolhes em troca os tesouros espirituais do Ocidente. instruído. Era humilde e de nenhum modo fanático. Censurava a poligamia. e que só o seu orgulho e a sua pertinácia podiam levar a cabo. com o correr do tempo. Afinal. quando o mosteiro ficou completamente instalado.Era robusto. cultivando o seu jardim e aprendendo com os habitantes do vale ao mesmo tempo que lhes ensinava. a rigor. era já entrado em anos. apreciava as boas coisas do mundo e tinha o cuidado de ensinar aos seus conversos a arte culinária a par do catecismo. se Gautama podia inspirar a homens a construção de um templo sobre a escarpa de Shangri-Lá. a emulação é mais própria dos espíritos jovens e Perrault. Não era um asceta. à qual atribuíam propriedades medicinais. era natural que esse motivo fosse cedendo lugar a outros mais serenos. Tinha por hábito aceitar das culturas nativas tudo o que lhe ofereciam de agradável e inofensivo. trabalhou como qualquer outro homem. sem esquecer as suas funções sacerdotais. não se desdenhava de vestir o avental de pedreiro e auxiliar na construção destas paredes que aqui vê. 145 . durante seus primeiros anos aqui. é claro. interessava-se muito mais pelas plantas e ervas do lugar. mas que devia sua popularidade sobretudo aos efeitos levemente narcóticos que tinha. o qual o decidiu a mostrar que. Deve ter presente no espírito que. Descobriu jazidas de ouro no vale. trabalhador. simples e entusiasta que.

e à medida que passavam os anos iam aprendendo a venerá-lo. mas não era realmente nada de espantar. Talvez fosse deplorável. Não era possível pensar numa longa viagem por montanhas e planaltos. Algumas de suas primeiras mensagens. mas muitos não chegaram até ele. e como presumia que os mensageiros tivessem sucumbido aos perigos da viagem. pois no ano de 1769 um desconhecido trouxe uma carta escrita doze anos antes e chamando Perrault a Roma. mas ignora-se se a sua mensagem chegou a transpor as cordilheiras. e sem dúvida surgiram suspeitas acerca da sua atividade. encontrá-lo-ia já um ancião de mais de setenta anos. embora se devam fazer certas concessões a uma pessoa cujos superiores eclesiásticos se acham tão longe que a distância deve ser medida em anos de viagem. com a demora. Fosse como fosse. enviou uma resposta cortês explicando a situação. Por conseguinte. Mas o povo do vale e os próprios monges não tinham apreensões: amavam-no e obedeciam-lhe. Por esse tempo a instituição que fundara começava a sofrer transformação sutil. entretanto. não propriamente desobedecendo às ordens superiores. jamais teria resistido às rajadas ferozes e aos frios terríveis desses desertos. estava muito velho e provavelmente não tardaria que a morte viesse dar cabo dele e da sua insubmissão. Costumava enviar relatórios periódicos ao bispo de Pequim.o seu procedimento não fora muito regular. "Se o chamado chegasse sem atraso. Perrault foi-se tornando avesso a que eles arriscassem suas vidas e nos meados do século cessou de todo a prática. deviam ter chegado ao destino. contava oitenta e nove quando o recebeu. "De modo que Perrault permaneceu em Shangri-Lá. Não seria lícito esperar que um homem só fosse capaz de extirpar para sempre 146 . sucedeu assim que. mas porque lhe era materialmente impossível atendê-las.

Seus discípulos lhe eram dedicados. reconhecesse o seu próprio erro? Seja como for. Mas não seria pedir mais ainda. a maioria deles também muito velhos. somente o sono eterno poderia reivindicá-lo agora. como poucos eram substituídos. depois para uma dúzia apenas. O povo do vale.os hábitos e tradições de uma comunidade. fornecia-lhe alimento e roupa. e a biblioteca 147 . Ainda era ativo e suas faculdades conservavam excepcional lucidez. e ele não tinha medo. A vida de Perrault por esse tempo tornara-se uma serena espera do fim. e os habitantes do vale o contemplavam com tão reverente afeição que ele lhes perdoava com facilidade crescente o retorno aos antigos costumes. com a sua bondade. como deve supor. embora lhe esquecessem os ensinamentos. baixara para vinte. e era intenção sua dedicar o resto da vida à composição de um livro atacando o budismo do ponto de vista da ortodoxia. "Entrementes. e talvez houvesse sido um erro instalar o mosteiro num lugar onde viviam recordações tão antigas e tão diferentes. Seria pedir demasiado. que orçava pelos noventa anos. Estava já muito velho e era feliz. mas o ataque foi muito suave. Chegou a terminar o trabalho (nós temos o manuscrito completo). Não tinha companheiros ocidentais que lhe prestassem mão firme quando a sua principiava a fraquear. pois nesse tempo já havia atingido a conta redonda dum século. Estava demasiado velho para adoecer ou para mostrar-se rabujento. idade em que até as mais profundas animosidades estão sujeitas a extinguir-se. Perrault não atinou com ele. o número dos que viviam sob as ordens do velho capuchinho diminuía constantemente. esperar que um velho. De oitenta que chegara a somar. tinham morrido muitos de seus primitivos discípulos e. Com a idade de noventa e oito anos iniciou o estudo dos escritos budistas que seus predecessores tinham deixado em Shangri-Lá.

sentia-se alegre e desejoso da morte. Seu espírito permanecia tão extraordinariamente lúcido que ainda se abalançou a começar um estudo sobre certas práticas místicas a que os hindus dão o nome de ioga. com o corpo a consumir-se devagarinho e o espírito em plena beatitude.lhe dava ocupação. pediu-lhes que o deixassem só. Mandou vir seus amigos e servidores e despediu-se de todos. mas ainda tinha energia suficiente para cumprir as mais importantes cerimônias do culto. aos seus olhos baços. podia imaginar aquela forma nítida e incomparável que meio século antes avistara pela primeira vez. estava pronto para morrer. que esperava entregar a alma. E diante dele surgia também o estranho cortejo de suas muitas experiências. e então começou a viver de novo. passava-o com seus livros. que apenas se movia. meu caro Conway. e que se baseiam em vários métodos especiais de respiração. "Ele jazia nesta sala. Para um homem de tal idade a empresa bem poderia parecer arriscada. . e a Conway. Seu espírito confinara-se numa calma branca como neve. mas tal não aconteceu. os anos de viagem por desertos e montanhas. . baixou ao vale a notícia de que Perrault estava finalmente às portas da morte. Jazeu durante muitas semanas sem fala e sem movimento. O resto do dia tranqüilo. e a verdade é que pouco tempo depois. Enfraquecera bastante. Era nessa solidão." O murmúrio cessou por um momento. pareceu que o Lama Superior estive148 . o fragor e o brilho dos exércitos de Malborough. depois. suas recordações e os suaves êxtases do narcótico. as grandes multidões das cidades ocidentais. naquele memorável ano de 1789. o Karakal. Tinha cento e oito anos. Mas podia ver também com os olhos do espírito. de onde podia ver pela janela a mancha branca que era.

esquecendo. Após um instante. a lenda desenvolveuse num belo e fantástico folclore. em vez de ter uma convalescença inativa. se houvesse alguém em Shangri-Lá com espírito suficientemente desabusado. Perrault tinha recebido a graça de uma visão de certa importância. tornou-se logo um ser misterioso. e que fazia milagres e que em certas noites voava ao cume do Karakal para acender uma vela dian149 . ou executar algum serviço manual que aqui fosse necessário. Mas o fato é que quando morreu o último monge. ele recomeçou: — Como todos aqueles que esperaram longo tempo nos umbrais da morte. que foi na verdade notável. como seria de esperar. dessa visão falarei mais tarde. curiosamente combinada com o uso do narcótico.ra traduzindo fluentemente um remoto e secreto sonho. Perrault ainda vivia. Para a gente do vale. que eram ovelhas perdidas e desgarradas. "Seria quase motivo para sorrir. Por enquanto desejo limitar-me ao seu procedimento. ele mergulhou sem demora numa rigorosa autodisciplina. em 1794. um eremita dotado de poderes sobrenaturais e vivendo solitário neste formidável penhasco. para trazer consigo de volta ao mundo. não mais decrépito do que era doze anos atrás. Porque agora o Te Deum Laudamus e o Om Mane Padme Hum eram ouvidos indistintamente em todos os templos do vale. Porque. e passaram a considerar um ato meritório e propiciador subirem a Shangri-Lá a fim de trazer-lhe um modesto presente. perseverava na prática dum ritual secreto que ele criara. Mas persistia ainda a tradicional afeição por ele. O engelhado capuchinho. Narcótico e exercícios respiratórios — não parece um regime muito próprio para resistir à morte. Perrault abençoava a todos esses peregrinos. "À aproximação do novo século. talvez. Dizia-se que Perrault se tornara um deus.

como não morrera na idade normal. por exemplo. a verdade é que a sua simples presença auxiliava a cura em certos casos. Sua memória era espantosa. Faço menção disto. Mas a austera verdade é que ele tentou várias experiências nesse sentido. e. através de todas as vicissitudes. sem nenhum êxito entretanto. adquiriu uma perícia talvez notável em telepatia.te do céu. começou a viver como sempre desejara. sem que isso lhe tivesse sido possível senão raramente. Há sempre um pálido clarão no alto da montanha durante a lua cheia. Descobriu. contudo. toda sorte de coisas impossíveis. Assim sendo. parecia haver escapado às limitações físicas e atingido alguma região superior. e fazia. "O senhor há de querer saber como ele passava o tempo durante aqueles anos inauditos. os gostos tranqüilos do estudioso. era como se agora fosse capaz de aprender todas as coisas com mais 150 . que ele praticava a arte da autolevitação. Acreditava-se. que a decadência dos sentidos ordinários pode ser compensada em certa medida pelo desenvolvimento de outros. A atitude de Perrault pode ser definida dizendo-se que. era-lhe tão fácil acreditar que a anormalidade persistiria como que ela poderia ter fim a qualquer momento. de que tanto falam os estudos sobre o misticismo budista. mas não preciso afirmar-lhe que nem Perrault nem outro homem qualquer jamais a escalaram. Havendo demonstrado já que era anormal. começou a sentir que não havia nenhum motivo conhecido para que isso acontecesse em tal ou tal época determinada do futuro. começou a viver sem mais cogitar da iminência da morte. que por tanto tempo o havia preocupado. assim. se bem não visasse a nenhum poder específico de curar. embora pareça desnecessário porque há numerosos testemunhos pouco fidedignos de que Perrault podia fazer. de imensa claridade. porque conservava no fundo.

e talvez lhe interesse saber que havia entre eles uma gramática inglesa acompanhada de um dicionário e a tradução de Montaigne por Florio. tal qual Perrault quase um século antes. Porque Perrault tinha vindo para pregar e converter. — Teria interesse em vê-la algum dia. data que assinala um importante acontecimento na história da nossa instituição. Na verdade. possuidor de grande cultura e encanto pessoal. Seria interessante saber a maneira exata como alcançara o planalto. que lutara contra Napoleão na Itália — um moço de alta estirpe. como pode supor. Foi então que chegou ao vale da Lua Azul.facilidade do que tinha em seu tempo de estudante para aprender uma coisa só. atravessara a Rússia em direção à Ásia. Conway sorriu. vindo da Europa. Era um jovem austríaco chamado Henschell. outro estrangeiro. Arruinado pelas guerras. se fosse possível. não tardou a sentir falta de livros. com a vaga intenção de refazer sua fortuna. ao 151 . uma versão para o tibetano do ensaio de Montaigne sobre a vaidade — certamente uma produção única. — Com o maior prazer. mas ele próprio não fazia disso uma idéia muito clara. Mais uma vez teve Shangri-Lá ocasião de dispensar a sua hospitalidade. Era. Munido desses poucos livros pôs-se a trabalhar. Sentirse-ia muito só sem uma tal ocupação — pelo menos até o quarto ano do século dezenove. mas trouxera alguns consigo ao vir para cá. conseguindo dominar as dificuldades do seu idioma. Naturalmente. mas lembre-se de que Perrault atingira uma idade que nada tinha de prática. uma realização bem pouco prática. e o estrangeiro restabeleceu-se — mas aí cessa o paralelo. e ainda possuímos na nossa biblioteca o manuscrito de um dos seus primeiros exercícios lingüísticos. estava quase a morrer quando aqui chegou.

Aconteceu uma coisa estranha — embora tenha acontecido tantas vezes depois que talvez não devêssemos reputá-la tão estranha. "Mas não regressou. afinal de contas. Eis um pormenor que lhe interessará: foi Henschell quem iniciou nossas coleções de arte chinesa. e um dia. que foi para o moço como chuva para um solo abrasado. "Esse encontro foi histórico. mas não compreendi bem o final." Sobreveio uma pausa. circunscrever-me-ei a coisas mais simples. no mais exato sentido da palavra. enquanto que o outro comunicava seus conhecimentos. Um tributava a maior adoração possível. Empreendeu uma viagem memorável a Pequim e trouxe o primeiro lote no ano de 1809. É um assunto que terei prazer em explicar antes que termine a nossa entrevista.passo que Henschell tomou interesse imediato nas jazidas de ouro. Se bem que já um tanto alheado de sentimentos humanos tais como a amizade e a afeição. mas foi ele quem con152 . se me permite. seus êxtases e também o sonho fantástico que se tornara para ele a única realidade restante no mundo. Não tentarei descrever as relações que se formaram entre ambos. Sua ambição principal era enriquecer e regressar à Europa o mais cedo possível. — Eu sei — respondeu com simpatia a voz sussurrante. Não tornou a sair do vale. subiu a Shangri-Lá e teve o primeiro encontro com Perrault. com a sua quietude e absoluta isenção dos cuidados mundanos. fazendo também as primeiras aquisições para a biblioteca e para a sala de música. O vale. tentou-o a ir adiando sempre e sempre a partida. Perrault era dotado de uma grande benignidade. mas por ora. depois de ouvir a lenda local. — Seria na verdade notável se compreendesse. e Conway falou suavemente: — Perdoe-me a interrupção.

temos a sorte de possuir depósitos desse metal tão estimado em outras partes do mundo. casualmente. Mas pouco depois lembrou-se de um método mais fácil e seguro de defesa. durante muitos anos. ainda que tivessem armas. não era de temer a invasão de um exército. com esta pas153 . o receio de Henschell. que têm sido muito felizes por escapar a uma invasão de exploradores. dadas as distâncias e a natureza da região. — Sim? A voz de Conway era cuidadosamente velada. — Esse foi sempre. meu caro Conway. deparavam por vezes. vieram com efeito tais forasteiros. no mais singelo gesto de assentimento. tentados a fazer a travessia do planalto. — O senhor compreende. O Lama Superior inclinou a cabeça. que. Ficou pois decidido que. chegariam provavelmente tão extenuados que não constituiriam perigo algum. para que a própria gente do vale fosse depois buscá-los. O mais que se poderia esperar seria o aparecimento de alguns viajantes perdidos. os forasteiros poderiam vir quando bem entendessem — mas com uma condição importante. de futuro. "E. Ainda postava sentinelas que mantinham constante vigilância à entrada do desfiladeiro. Tomava o cuidado de evitar que alguns dos carregadores que traziam livros e tesouros de arte se aproximassem muito das jazidas. — Suponho que lhes seja fácil efetuar os pagamentos em ouro. mandava-os deixar os volumes a um dia de viagem daqui. — Tão estimado. Mercadores chineses. — Sim. Isso jamais seria possível.cebeu o complicado e engenhoso sistema por meio do qual tem sido possível à comunidade obter do mundo exterior tudo de que necessita.

Em 1822 três espanhóis. Precisava agora de novos elementos e os desejava. como animais esgotados. foi encontrado moribundo no sítio mais alto do desfiladeiro. em 1830. encontrou mensageiros que lhes transmitiam cordial convite raras vezes recusado. Ao tempo da sua vinda. como se viessem em visita. embora muitos só alcançassem o abrigo do vale para morrer. "Durante esse tempo o mosteiro foi adquirindo muitas de suas atuais características. Dois alemães. como também se tornou hábito ir ao seu encontro se se aventuravam dentro de certo raio. No ano da batalha de Waterloo três missionários ingleses. e que o Shangri154 . Devo acentuar que Henschell era excepcionalmente capaz e talentoso. um inglês e um sueco fizeram a perigosa travessia dos Tian-Shans. tinha-se dado uma ligeira modificação na atitude de Shangri-Lá para com os visitantes: não eram apenas bem recebidos quando tinham a sorte de encontrar o caminho do vale. acompanhado de criados doentes e famintos. por uma razão de que tratarei mais adiante. que se dirigiam a Pequim por terra. chegaram aqui depois de muitos descaminhos e desilusões. Em 1820 um negociante grego. impelidos por um motivo que se foi tornando cada vez mais comum: a exploração científica. houve um largo afluxo de gente. Todos eram bem-vindos. E de novo. que tinham ouvido falar vagamente em ouro. Tibetanos nômades. desgarrados de suas tribos. um russo. mas o ponto é de importância. fascinados pelo primeiro e distante vislumbre do Karakal. cruzaram a cordilheira por uma passagem desconhecida e tiveram a felicidade extraordinária de chegar calmamente. por mostrar que a comunidade deixara de ser indiferente na sua hospitalidade. nos anos que se seguiram aconteceu que mais de uma expedição de exploradores.sagem entre tantas outras. chegavam aqui de quando em quando. Tudo isso. E. com efeito.

tanto ou mais. O mais estranho de tudo. e Conway sentiu-se fortemente atraído por elas. O desenho era pequeno. Foi muito repentino. porém. embora suave. da morte e do artifício. que esse retrato foi feito pouco antes da morte dele? 155 . e a perda desse homem teria sido irreparável se não houvesse completado a sua tarefa quase sobre-humana antes de morrer. o senhor tinha dito. e caminhou para o trêmulo círculo de luz. Isso aconteceu no ano da revolta dos cipaios." Conway alçou a cabeça. mas o artista conseguira dar aos tons de carne uma delicadeza de figura de cera. era uma particularidade que ele só notou depois da primeira arfada de admiração: o rosto era o de um homem jovem. Depois ouviu o murmúrio que o convidava a aproximar-se — o murmúrio que já se lhe tornara música familiar. mais para ecoar esta última palavra do que para interrogar: — Morreu! — Sim. e uma vez mais entrou o criado. As feições eram de grande beleza. não obstante as barreiras do tempo. de que toda instituição necessita em certa fase do seu desenvolvimento.. Levantou-se. penso muitas vezes.. e posso mostrar-lho agora — está na sala. quase femininas.. Sim. Mataram-no. Pouco antes da sua morte um artista chinês desenhou-lhe o retrato. tropeçando. Fez novamente aquele leve gesto de mão. Conway viu o homem afastar uma cortinazinha no fundo da sala e acender uma lanterna que ficou a oscilar no meio das sombras. pouco mais que uma miniatura em tintas coloridas. Como um espectador hipnotizado.. Afastando-se um pouco. tartamudeou: — Mas.Lá de hoje lhe deve tanto quanto ao seu fundador. Porque foi ele a mão firme.

— E veio para cá em 1803. Escutara a narrativa com uma atenção que o impedira. — E qual foi a causa? — Houve um desentendimento a respeito de certos carregadores. — Mas. Esteve Conway um momento sem falar. como ia dizendo? — Sim. de perceber tudo o que ela implicava. Foi ferido a bala por um inglês. Fez então um esforço e perguntou: — E morreu assassinado. . se ele morreu no ano que disse. talvez. A sala era agora um remoinho de sombras. Finalmente prosseguiu: — Talvez.— Sim. O Lama Superior fez outra pausa mais longa. depois de ter ouvido esta minha longa e curiosa história. segundo contou. Conway respondeu pausadamente e em voz baixa: — Penso que já adivinhei. meu caro Conway. e havia um quê de interrogação no seu silêncio. — Morreu. não adivinha também outra coisa? Sentiu-se Conway aturdido enquanto procurava uma resposta. — Deveras? E. vejo-me obrigado a cumpri-la pessoalmente. quando era jovem? — Sim. Henschell acabava de informá-lo sobre a importante condição a que estava sujeita a nossa hospitalidade. poucas semanas após a chegada deste a Shangri-Lá. tendo no centro aquele ancião benevolente. Está muito parecido. a despeito da minha debilidade. esteja perguntando a si mesmo qual poderá ser essa condição. Agora que procurava uma expressão 156 . É uma missão algo difícil e desde então. Era um dos tais exploradores. .

. é espantoso... . — O que. . de todo incrível. Padre Perrault! 157 . meu filho? E Conway respondeu. — E contudo. . — Parece impossível — balbuciou. mergulhava em assombro e a certeza que se ia concretizando no seu espírito relutava em manifestar-se por palavras. . não posso deixar de pensar nisso. e todavia não está absolutamente fora da minha capacidade de acreditar. sacudido por uma emoção para a qual não encontrava nenhum motivo e que não procurava ocultar: — Que o senhor ainda está vivo. extraordinário. .adequada.

.

temos a fortuna de contar entre nós um músico talentoso — foi mesmo aluno de Chopin —. preenchiam a mesma função da cadência na música. Respondeu Conway com adequada polidez e mencionou a sua surpresa por ver que a comunidade possuía tão rica coleção de compositores europeus. dizendo alegrar-se com o fato de os gostos musicais de Conway não ficarem de todo insatisfeitos em Shangri-Lá. — Ah! meu caro Conway. Compreendia que ele era desejável sob todos os pontos de vista. Mozart possui uma elegância austera que muito nos satisfaz. disse-me Tchang que o seu compositor ocidental preferido é Mozart. Constrói uma casa que não é dema159 . com o seu acompanhamento de cortesias convencionalmente improvisadas. — É verdade.CAPÍTULO VIII Seguiu-se um silêncio obrigatório. Esta reflexão fez surgir (a não ser que se tratasse de mera coincidência) um curioso exemplo dos poderes telepáticos do Lama Superior. O elogio foi agradecido entre vagarosos sorvos de chá. os sorvos de chá. e somos felizes em lhe confiar a direção do nosso salão de música. Precisa conhecê-lo. A propósito. Ele próprio se sentia grato por esse intervalo de repouso. Conway não estranhou isto. inclusive o artístico. — Estimaria muito. pois devia ser considerável a fadiga causada por tão longa narrativa. em razão de ter o Lama Superior pedido mais chá. pois este começou imediatamente a falar de música.

Compreende. para o bem. para ser franco. manter o nosso número por meio de um recrutamento constante — pois que. termos sido nós quatro os escolhidos. meu caro Conway. Voltando à sua maneira anterior. o senhor pretende reter-nos aqui? Esta. Prosseguiu a troca de comentários até que vieram tirar a mesa. Outros somente alcançam o que se pode chamar uma idade normalmen160 . Com efeito. Deve saber que sempre procuramos. dizendo que todos nós permanecemos aqui for good. uma aquisição muito valiosa. respondeu o Superior: — É uma história intricada. Alguns dos nossos visitantes não obtêm nenhum beneficio com sua permanência aqui.siado grande nem demasiado pequena. como verá se se der ao trabalho de ouvi-la. Não damos nem podemos dar garantias de êxito. a partir da última guerra européia e da revolução russa. é a condição importante e invariável a que se referiu? — Sua suposição é certa. mais discursiva. chegou em 1912 e não foi. meu filho. — O que me intriga é o fato de. tanto quanto possível. suponho. e a mobília com um bom gosto perfeito. além de outros motivos. entre todos os habitantes da Terra. Infelizmente. — E vamos realmente ficar aqui para sempre? — Preferiria empregar o seu excelente idiomatismo inglês. as viagens ao Tibete e as explorações desta parte do globo foram quase completamente interrompidas. para voltar à nossa conversa anterior. nós não somos impostores nem charlatães. Já então se achava Conway em estado de observar calmamente: — De modo que. é agradável ter entre nós pessoas de diversas idades e representativas de diferentes épocas. nosso último visitante. um japonês.

mas obteve o nosso consentimento. mas mesmo entre eles há uma porcentagem elevada de fracassos. Os chineses são um pouco superiores. um cidadão daquele país. poucos anos faz. como vê. Mas devo prosseguir na resposta à sua pergunta. Os nossos melhores objetos de experiência são os nórdicos e os latinos da Europa. privava-o a própria natureza das vantagens concedidas aos que vêm de outras terras. demandando algum país vizinho. por estarem habituados tanto à altitude como a outras condições. na pessoa de um de seus companheiros. talvez os americanos não fossem menos adaptáveis. a idade de cem anos. É uma gente encantadora. Como vinha explanando. natural do vale.te avançada e morrem em conseqüência de algum mal insignificante. os tibetanos. Era um moço. nós também. em Shangri-Lá. como deve compreender. e. Mas. merecedor de absoluta confiança e completamente identificado com os nossos ideais. a situação era esta: havia já três décadas que não chegava nenhum visitante. como a todos os habitantes do vale. era um rapaz inteligente e de inici161 . de um modo geral. Era a muitos respeitos uma idéia revolucionária. e admitimos muitos deles. Descobrimos que. Entretanto. como durante esse tempo haviam ocorrido muitos falecimentos. devemos acertar o passo com a época. após as devidas deliberações. a não ser bem poucos. mas duvido que ultrapassem. a fim de angariar novos colegas por um processo que teria sido impraticável noutra época. criou-se um problema. — Quer dizer então que ele foi enviado de propósito para trazer alguém pelo ar? — Bem. e considero uma grande ventura termos finalmente entre nós. são muito menos sensíveis do que os indivíduos de outras raças. Ofereceu-se para nos deixar. Porque. um dos nossos apresentou uma idéia original.

O progresso da aviação tem sido rápido. Mas sucedeu. justamente o que Talu esperava. — Outra coincidência? Nosso jovem amigo tinha realmente boa estrela. — Meu filho. encontraria outra dentro de um ano ou dois — ou talvez nunca. Confesso que me surpreendi quando as sentinelas trouxeram a notícia da sua descida no planalto. Muitas coisas acontecem por acaso. increduli162 . afinal de contas. consternação. Conway. Era um tipo especial. construído para voar sobre montanhas. — Tem razão. É pena não podermos conversar sobre o assunto com ele. Tenho certeza de que iria gostar dele. está claro. Se não tivesse encontrado essa oportunidade. Todos lamentamos sua morte. ao cabo de um silêncio. me formulou num tom de tamanha calma. Conway inclinou levemente a cabeça. Jamais ninguém. mas a mim me parecia que teria de progredir ainda muito mais. Achava que seria muito possível. o seu modo de fazer a pergunta me causa infinito prazer. Minha revelação tem sido recebida de todas as maneiras concebíveis: com indignação. — Não era um avião comum. — Mas qual é o desígnio que há no fundo de tudo isso? — perguntou. — Mas como podia arranjar-se para executar o resto do plano? Foi só por acaso que encontrou aquele avião em Baskul. no curso de tão longa vida. meu caro Conway. fúria.ativa e nós depositávamos nele grande confiança. antes que uma máquina comum pudesse voar sobre as nossas montanhas. Foi idéia dele e nós lhe demos inteira liberdade de ação. A única coisa que sabíamos de maneira definida era que o seu plano compreendia um período de instrução numa escola americana de aviação...

dade, histerismo — mas nunca, até esta noite, com simples interesse. É todavia uma atitude que eu acolho cordialmente. Hoje se interessa, amanhã se preocupará; pode ser que ainda venhamos a pedir sua inteira devoção. — Isto vai além do que eu poderia prometer. — Até essa dúvida me agrada. É a base de uma fé profunda e valiosa. . . Mas não discutamos. Está interessado, e isto, partindo do senhor, já é muito. Apenas lhe peço que não comunique por enquanto aos seus três companheiros o que lhe estou dizendo agora. Conway guardou silêncio. — Chegará o momento em que o saberão, como o senhor, mas para bem deles mesmos não convém precipitar esse momento. Estou tão convicto da sua prudência neste assunto que não lhe peço nenhuma promessa; sei que procederá do modo que nós ambos consideramos o melhor. . . Agora deixe-me esboçar um quadro deveras atraente. Segundo os padrões do mundo, o senhor ainda é moço. Tem, como se costuma dizer, a vida diante de si. De acordo com o curso normal das coisas, poderá esperar uns vinte ou trinta anos de atividade, que irá decrescendo imperceptível e gradualmente. Não é em absoluto uma perspectiva desalentadora, e não posso esperar que a olhe como eu a olho: como um entreato brevíssimo e por demais agitado. Viveu sem dúvida o primeiro quartel de sua existência sob a nuvem de excessiva juventude, enquanto que os últimos vinte e cinco anos serão provavelmente obscurecidos pela nuvem ainda mais escura da demasiada velhice; e entre essas duas nuvens, como são fracos e escassos os raios de sol que iluminam uma vida humana! Mas o senhor pode estar destinado a ser mais feliz, pois, de acordo com os padrões de Shangri-Lá, mal começaram ainda os seus anos de sol. Poderá acontecer que, dentro de algumas 163

décadas, não se sinta mais velho do que hoje — que conserve, como Henschell, uma longa e esplêndida juventude. Mas essa, acredite-me, será apenas uma fase inicial e superficial. Tempo virá em que comece a envelhecer como os outros, embora com muito mais lentidão e em condições infinitamente mais nobres. Aos oitenta anos poderá ainda subir ao desfiladeiro com a agilidade de um moço, mas quando contar o dobro dessa idade não deve esperar que o mesmo vigor ainda persista. Não fazemos milagres, não vencemos a morte e nem sequer a decadência. Tudo que podemos fazer e temos feito algumas vezes é retardar a marcha desses breves momentos que constituem a vida. Logramos isso mediante métodos tão simples aqui quanto impossíveis em outros lugares. Mas não se iluda; o mesmo fim aguarda a nós todos. "Ainda assim, é uma perspectiva sedutora a que lhe ofereço: longos dias tranqüilos, durante os quais contemplará o pôr do sol como um homem de outra parte do mundo ouve um relógio dar horas, mas com muito menos ansiedade. Virão e ir-se-ão os anos, e o senhor passará dos prazeres materiais a outros mais austeros, porém não menos satisfatórios. Poderá perder o gume do apetite e a rijeza dos músculos, mas desfrutará vantagens que compensarão essa perda. Adquirirá calma e profundeza, madureza, sabedoria e o cristalino encanto da memória. E, mais precioso que tudo, terá o tempo, esse dom tão raro, tão desejado, que os países ocidentais foram perdendo à medida que o buscavam com mais ardor. Reflita um instante. Terá tempo para ler, nunca mais precisará saltar páginas a fim de poupar minutos, nem deixar de lado nenhum estudo porque seja demasiado longo. Também tem gosto pela música: aí, pois, estão os seus instrumentos, as suas composições, e sobretudo o tempo, sem medida e sem pressa, para 164

extrair deles o máximo encanto. É, além disso, diremos, um homem de boa companhia: não se extasia ao pensar que poderá fazer sábias e serenas amizades, e gozar um longo e profundo comércio espiritual, sem temor de que a morte o venha chamar com a sua costumeira pressa? Ou, se prefere a solidão, não poderia utilizar um dos nossos pavilhões para enriquecer a doçura das meditações solitárias?" A voz fez uma pausa que Conway não pensou em aproveitar. — Não faz nenhum comentário, meu caro Conway. Perdoe-me a eloqüência. Pertenço a uma época e a uma nação em que nunca se considerou de mau tom expressarse com fluência. . . Mas talvez esteja pensando na esposa, nos pais e nos filhos que porventura tenha deixado no mundo. Ou terá ambições que pensa ver realizadas? Creia-me, se bem que a princípio a separação possa ser dolorosa, dentro de dez anos nem a sombra disso tudo existirá para o senhor. Digo isto embora o senhor — se é que leio certo no seu espírito — não tenha semelhantes preocupações. Surpreendido com a agudeza da observação, Conway replicou: — É verdade. Não sou casado, tenho poucos amigos íntimos e nenhuma ambição. — Nenhuma ambição? E como se arranjou para escapar a essa doença tão comum? Só agora tinha Conway a impressão de tomar parte numa conversa. — Sempre me pareceu — disse — que boa porção daquilo que na minha profissão se chama "êxito" é bastante desagradável, sem contar que exige mais esforço do que eu desejaria despender. Era cônsul, um posto bem subalterno mas muito do meu agrado. 165

— Mas não pusera a alma nele? — Nem a alma, nem o coração, nem tampouco metade de minhas energias. Sou um tanto preguiçoso por natureza. As rugas tornaram-se mais acentuadas e sinuosas, e Conway compreendeu que o Lama Superior devia estar sorrindo. — A preguiça na realização de certas coisas pode ser uma virtude — sentenciou o murmúrio. — Em todo caso, nós é que não nos mostraremos exigentes nesse particular. Creio que Tchang já lhe explicou o nosso princípio de moderação, e uma das coisas em que sempre somos moderados é a atividade. Eu, por mim, aprendi dez idiomas, mas estes poderiam ter sido vinte se houvesse estudado imoderadamente. Não o fiz, contudo. Acontece o mesmo em outros sentidos. Verá que não somos gozadores nem tampouco ascetas. Enquanto não alcançamos uma idade em que se impõe a prudência, aceitamos de bom grado os prazeres da mesa, ao passo que, para ventura dos nossos companheiros mais jovens, as mulheres do vale aplicam o princípio de moderação à sua própria castidade. Tudo bem pensado, tenho certeza de que se adaptará aos nossos costumes sem muito esforço. Tchang, na verdade, mostrou-se muito otimista a esse respeito — e também eu, depois desta entrevista, não o estou menos. Mas há no senhor, reconheço-o, uma estranha qualidade que jamais encontrei em qualquer outro dos nossos visitantes. Não é propriamente cinismo, muito menos amargura. Talvez seja em parte desilusão, mas também uma clareza de espírito que eu não esperaria encontrar num homem com menos de... cem anos, digamos. Se tivesse de exprimi-lo por uma forma concisa, diria que é falta de paixão. — O termo é bem aplicado — replicou Conway. — 166

Não sei se costumam classificar as pessoas que aqui vêm. Penso que isto fará de mim um espécime único no seu museu de curiosidades. — Isso é tudo. Não posso olhar tão longe. como me disse Tchang. uma vida longa tê-laá ainda menos. como a qualquer outra espécie de futuro. Mas no que lhe expus não haverá nada que lhe desperte algum sentimento mais forte? Permaneceu Conway algum tempo calado antes de responder: — Causou-me profunda impressão a sua narrativa do passado. 167 . — Meu amigo. é coisa que não posso predizer. embora não costume falar nisso. como observou. muito inteligente. mas. Gastei a maior parte de minhas paixões e energias durante aqueles quatro anos e. podem colocar-me este rótulo "19141918". — É inteligente. se o fazem. pois os outros três que vieram comigo não entram nessa categoria. ou talvez mesmo no próximo ano. mas. Ficaria sem dúvida pesaroso se tivesse que deixar Shangri-Lá amanhã. . Posso fazer-lhe frente. a um tempo budista e cristã. para ser franco. Encontro neste lugar certo encanto e certa quietude que me atraem e não duvido que. ou na próxima semana. me acostume a ele facilmente. meu filho? — Espero que eu esteja sendo fiel à sua regra de moderação. se é que viverei tanto. as tradições desta casa. são muito confortadoras. E. mas o que irei sentir daqui a cem anos. se não a tem.. o esboço que traçou do futuro me interessa apenas dum modo abstrato. a principal coisa que tenho pedido ao mundo desde então é que me deixe em paz. Duvidei algumas vezes de que a própria vida a tenha. mas para que eu o almeje é preciso que tenha alguma razão de ser.

que aqui vivem os seus longos anos. Ele considerou então o curso da sua longa existência. e pareceu-lhe que as coisas mais belas eram transitórias e perecíveis. Viu as nações fortalecendo-se. Viu o poder de suas máquinas multiplicar-se a tal ponto que um só homem poderia fazer frente a todo um exército do Grande Monarca. no ano de 1789. E percebeu que. quadros e composições musicais. . procurariam dominar os ares. Recordou coisas que tinha visto com os próprios olhos e esboçou outras com a imaginação. Previu a chegada de um tempo em que os homens. continuo a desejar uma razão mais definida para invejar os centenários. o delicado. ou seria destruído como os ingleses destruíram o Palácio de Verão em Pequim. Mas. Não estamos realizando uma experiência vã. o indefeso — tudo se perderia como perdidos foram os livros de Tito Lívio. e na verdade bem definida. — Mas isto não é tudo. É o motivo único desta colônia de estrangeiros reunidos ao acaso. com efeito. o pequeno.— Pode ser. assolariam o mundo com tal furor que toda coisa preciosa estaria em perigo. e que a guerra. não seguimos um mero capricho. quando enchessem de ruínas a terra e o mar. Temos um sonho e uma visão para nos guiar. — Existe uma razão. 168 . todos os livros. Pode afirmar que essa visão não é verdadeira? — Bem verdadeira. todo o tesouro acumulado durante dois mil anos. não em sabedoria. a luxúria e a brutalidade poderiam acabar por expeli-las um dia da face do mundo. infelizmente. como já lhe contei. . É a visão que pela primeira vez apareceu ao velho Perrault quando jazia moribundo nesta sala. mas em vulgares paixões e no desejo de destruir. embriagados com a sua técnica homicida.

— Concordo com esta sua opinião. — Naturalmente. Mas que valem as opiniões dos homens razoáveis diante do ferro e do aço? Acredite-me, essa visão do velho Perrault se tornará realidade. E esse, meu filho, é o motivo por que eu e o senhor estamos aqui, e por que podemos rogar a graça de sobrevivermos à destruição que ameaça por todos os lados. — Sobreviver a isso? — Há uma possibilidade. Todas essas coisas acontecerão antes que seja tão velho como eu. — E pensa que Shangri-Lá se salvará? — Talvez. Não podemos esperar nenhuma mercê, mas há uma tênue esperança de que sejamos esquecidos. Aqui ficaremos com nossos livros, nossa música e nossas meditações, conservando as frágeis elegâncias de uma época moribunda e buscando a sabedoria de que os homens hão de precisar quando tiverem esgotado todas as suas paixões. Temos uma herança a preservar e transmitir. Tiremos dessas coisas todo o prazer que pudermos, até que venha esse dia. — E então? — Então, meu filho, quando os fortes se houverem devorado uns aos outros, poderá finalmente ser posta em prática a moral cristã, e os mansos herdarão a terra. Revestira-se o murmúrio de uma sombra de ênfase. Conway rendeu-se à beleza de tudo aquilo. Uma vez mais sentiu crescer a escuridão em torno, mas agora simbolicamente, como se lá fora já se estivesse preparando a tormenta. E então percebeu que o Lama Superior de ShangriLá se punha em movimento, que se levantara da cadeira e permanecia de pé, qual um fantasma semimaterializado. Por mera polidez procurou Conway ajudá-lo, mas de súbi169

to um impulso mais profundo se apossou dele, e fez o que jamais fizera diante de nenhum homem: ajoelhou-se, sem ter consciência clara do motivo por que o fazia. — Eu o compreendo, pai. Nunca soube direito de que modo se despediu. Estava mergulhado num sonho, do qual não saiu senão muito tempo depois. Lembrava-se do ar gelado da noite após o calor daqueles aposentos, e da presença de Tchang, silenciosa serenidade, quando atravessaram juntos os pátios iluminados pela luz das estrelas. Jamais Shangri-Lá oferecera aos seus olhos uma beleza tão intensa. Apenas adivinhado, jazia o vale além da borda do penhasco, e sua imagem era a de um lago profundo cuja tranqüilidade se casava à paz de seus próprios pensamentos. Porque Conway já se curara do assombro. A longa conversação, com suas várias fases, o deixara vazio de tudo, exceto de uma satisfação que era tanto do intelecto como do sentimento, e não menos do espírito que de ambos. Até suas dúvidas já não eram atormentadoras, mas, ao contrário, faziam parte de uma sutil harmonia. Tchang não falava, nem ele. Era muito tarde e estava satisfeito por saber que seus companheiros tinham ido dormir.

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CAPÍTULO IX

Na manhã seguinte perguntou a si próprio se tudo o que lhe vinha ao espírito fazia parte de uma visão desperta ou de um sonho. Logo o fizeram lembrar-se. Recebeu-o um coro de perguntas quando apareceu para o almoço. — Que conversa comprida teve com o chefão, ontem à noite! — começou o americano. — Fazíamos tenção de esperá-lo, mas acabamos cansando. Que espécie de sujeito é ele? — Disse alguma coisa sobre os carregadores? — perguntou Mallinson ansiosamente. — Espero que lhe tenha falado na possibilidade de se mandar para cá um missionário — disse Miss Brinklow. Este bombardeio fez com que Conway recorresse às suas habituais armas de defesa. — Receio que vá desapontá-los a todos — respondeu, entrando com facilidade na disposição de ânimo adequada. — Não discutimos a questão das missões; ele não fez nenhuma referência aos carregadores; e, quanto à sua aparência, só lhes posso dizer que se trata de um ancião muito inteligente e que fala excelente inglês. Mallinson atalhou com irritação: — O que interessa é saber se ele é digno de confiança ou não. Acha que o homem pretende enganar-nos? — Não me deu a impressão de ser uma pessoa indigna. 171

— Mas por que não insistiu com ele a respeito dos carregadores? — Não me lembrei. Mallinson encarou-o com ar de incredulidade. — Não o entendo, Conway. Portou-se tão bem em Baskul que mal posso crer seja o mesmo homem. Parece ter perdido a resolução. — Sinto muito. — Nada adianta lastimar-se. Devia cobrar ânimo e mostrar mais interesse no que se está passando. — Você compreendeu mal. Eu queria dizer que sinto tê-lo desapontado. Disse isto num tom de voz quase rude. Era uma máscara destinada a ocultar os seus verdadeiros sentimentos, os quais eram, na verdade, tão complicados que dificilmente poderiam os outros adivinhá-los. Estava um pouco surpreso ante a facilidade com que tergiversara. Era evidente que desejava observar a recomendação do Lama, guardando segredo. Estranhava igualmente a naturalidade com que aceitava uma situação que os seus companheiros certamente, e não sem motivo, tachariam de traição. Como dissera Mallinson, não era o que se esperava de um herói. Conway sentiu uma afeição súbita e meio compadecida pelo rapaz. Retemperou-se depois, refletindo que quem dedica culto aos heróis deve estar preparado para as desilusões. Mallinson em Baskul era como o jovem calouro adorando o belo diretor de esportes, e agora o diretor de esportes começava a vacilar, se é que já não caíra do pedestal. Há sempre algo de patético na destruição de um ideal, embora seja este falso; e a admiração de Mallinson poderia ter sido pelo menos um refrigério ao esforço de aparentar o que não era. Mas, de qualquer modo, seria impossível simular. Havia qualquer coisa na atmosfera de Shangri-Lá 172

que não deixava nem durante as refeições (como se — pensava Conway com intenção oculta — não 173 .. — Meu Deus.. — Assassínio e estupro. De que modo veio parar aqui? O tal sujeito lhe disse? — Não. Pode chamar a isso de limpo. E abruptamente acrescentou: — Essa rapariga chinesa. pois a situação era completamente outra. Pelo menos sabíamos o que íamos enfrentar. — E muito mais limpa também. ainda considero isso mais limpo. se lhe aprouver. na minha opinião. é inútil fazer continuamente alusões a Baskul. — Olhe. . A pequena manchu repousava tão suavemente no seu espírito que mal sabia de sua presença ali. pois a discussão chegara evidentemente a um ponto morto. Está claro que eu era diferente então. Por que havia de dizer? — E por que não? E por que não havia você de perguntar. .— talvez devido à altitude — que vedava qualquer tentativa de contrafazer emoções. em certo sentido. Subiu de tom a voz do rapaz enquanto retorquia: — Pois bem. — Este não é um mosteiro comum — foi a melhor resposta que encontrou. Prefiro enfrentar tais coisas a todo este mistério que nos cerca. para sermos exatos. Afigurava-se a Conway que a vida de Lo-Tsen não vinha ao caso. Mas ao ouvir mencionar o nome dela Miss Brinklow ergueu repentinamente os olhos da gramática tibetana. depois de refletir um pouco. por exemplo. bem sei que não é! Seguiu-se um silêncio. se tivesse algum interesse no assunto? É natural encontrar-se uma donzela vivendo entre monges? Este ponto de vista ainda não se havia apresentado a Conway. Mallinson — disse ele —.

ali. eram atores num palco imenso. devemos dominar o gênio e tratar bem uns aos outros. À vista do Karakal desvaneceram-se as apreensões. ainda não se aplacara. — Naturalmente — disse. Bem. que os missionários contam às suas mulheres e que estas transmitem às colegas solteiras. porém. comprimindo os lábios — o moral desta casa é horripilante. Mallinson. diria que viver às disputas não é menos mau. — Bem posso crer que ache isto aqui mais agradável do que Dartmoor — disse significativamente. Couro duro e coração tenro — eis aí como sou feito. Já que teremos de ficar ainda algum tempo aqui. certamente não invejo os camaradas que estão em lugares como aquele. — Não creio que dêem muito valor à minha opinião em assunto de moral — observou secamente. como não pudesse comunicar o que sabia. Mas de repente sentiu que todos. e. Conway dirigiu-lhe um olhar de aprovação e outro de leve censura a Mallinson. Despediu-se deles com um aceno de cabeça e saiu para o pátio. mas o americano limitou-se a arreganhar os dentes.tivesse para isso todo o resto da sua vida). e os escrúpulos a respeito de seus três companheiros se dissolveram na aceitação mística de um mundo novo que demorava muito 174 . — Dartmoor? Oh! refere-se à grande penitenciária do seu país? Percebo. cujo pano de fundo só ele avistava. quanto a mim. como pedindo apoio. — Mas. assaltou-o repentino desejo de estar só. A referência a donzelas e monges trouxe-lhe à lembrança aquelas histórias sobre os templos da índia. E voltou-se para Barnard. E há outra coisa que lhe devo dizer: não me fere com essas alusões. Conway achou bom o conselho. É o que seria de esperar.

De agora em diante. segundo dizia Tchang. "para que o corpo se habituasse à altitude e também para dar tempo a que se dissipassem as nostalgias intelectuais e sentimentais". sem que. simplesmente porque assombrar-nos seria tão fastidioso para nós próprios como para os outros. Havia chegado a esse ponto em Shangri-Lá. iria viver com os seus companheiros de exílio na expectativa da chegada dos carregadores e do regresso à índia. E de novo recordava os dias da guerra. O futuro. sem estar sujeito a nenhum regime especial. tão sutilmente plausível. e tinham muitas conversas sobre as regras e os costumes do mosteiro. Tchang. pois durante os bombardeios ele tinha a mesma sensação confortadora de possuir muitas vidas. quando mais não fosse senão para acomodar-se à dupla vida que seria forçado a viver durante algum tempo. pensou. longe deles. afigurava-se uma dessas coisas que só ocorrem uma vez cada dez mil anos. no entanto. das quais tão-só uma podia ser reclamada pela morte. Precisava de tranqüilidade.longe das conjeturas daqueles três. o horizonte se abriria como uma cortina. falava-lhe agora sem nenhuma reserva. em que a estranheza de tudo torna cada vez mais difícil perceber a estranheza dos objetos particulares — e é quando se aceitam as coisas tais quais são. Era o que se fazia sempre. embora muito menos agradável. Soube então Conway que durante os primeiros cinco anos viveria uma vida normal. durante os anos passados na guerra. O tempo expandia-se e contraía-se o espaço. e lembrava-se de ter atingido um estado de ânimo semelhante. Há ocasiões. 175 . é claro. o problema fosse premente. Às vezes perguntava a si mesmo qual das duas vidas era mais real do que a outra.

mas a verdade ê que me perdi nestas montanhas e dos meus cento e tantos comandados somente sete sobreviveram aos rigores do clima. — De modo que está agora com noventa e sete? — Sim. sem dúvida — replicou o chinês —. eu tive a sorte de chegar aqui muito jovem. tinha início o processo de retardamento da velhice. embora isso talvez não lhe pareça. 176 . Comandava umas tropas em operações contra certas tribos de salteadores. Estava fazendo o que chamaria um reconhecimento. Muito em breve. caso tivesse voltado e transmitido aos meus superiores o resultado da missão. apenas com vinte e dois anos. então — observou Conway com um sorriso —. explicou Tchang. e.— Tem certeza. Quando afinal fui socorrido e trazido para Shangri-Lá. Após esses cinco anos de prova. estava tão mal que só a minha extrema juventude e vitalidade me salvaram. se tivesse êxito. Era militar. receberei a iniciação completa. se os lamas derem o seu consentimento. mas apenas como uma fragrância cuja melancolia nos é grata. É preciso inteirar o número redondo? — Não. — Mas no seu caso — perguntou Conway — como se operou a coisa? — Ah! meu caro senhor. nós não temos limite estabelecido para isso. Conway poderia contar com meio século de estacionamento na idade aparente de quarenta anos — o que não era uma idade desagradável para nela se estacionar. — Compreendo. no ano de 1855. — Vinte e dois — repetiu Conway. fazendo as contas. de que nenhuma afeição humana pode resistir a cinco anos de ausência? — Pode.

— Penso também que sim. Faz alguns anos. que aconteceria? — Morreria se permanecesse fora daqui mais que uns poucos dias.mas consideramos que um século é a idade em que as paixões e os caprichos da vida ordinária já desapareceram. — Bem. E. — Em todo caso. E que acontece depois? Quanto tempo espera viver ainda? — Dadas as perspectivas que Shangri-Lá oferece. suponhamos. de cuja aproximação 177 . Um dos nossos deixou o vale para auxiliar um grupo de viajantes. há razões para esperar que eu viva ainda um século. uma longa e agradável mocidade para recordar e a perspectiva de uma velhice não menos longa e agradável. mas parece que lhe foi concedido o melhor dos dois mundos. mas o que sucederia se tivesse deixado o vale uns trinta anos atrás. é essencial? — Há só um vale da Lua Azul. teria adquirido muito rapidamente a aparência da minha idade real. — Não sei se devo felicitá-lo. — A atmosfera. supondo que deixasse o vale agora. e quem esperasse encontrar outros pediria demasiado à natureza. houve um curioso exemplo desse fato embora tivesse havido vários outros antes. É o que muitas vezes sucede. — De modo algum. ou talvez mais. Com que idade começou a envelhecer exteriormente? — Depois dos setenta. embora eu creia poder afirmar que não represento a idade que tenho. então. durante a sua prolongada juventude? — Provavelmente teria morrido mesmo assim — respondeu Tchang. Conway balançou a cabeça.

— Dá a impressão de que o Tempo é um monstro ludibriado. três meses depois. Ficou Tchang uns instantes a refletir. Dentro da semana que se seguiu à entrevista com o Lama Superior. logrou escapar e voltou para o vale. lhe damos grande preferência sobre a pressa. Não devia ficar ausente mais que uma semana. Suspeitamos de um acidente e consideramo-lo perdido. Mas. pelo contrário. foi aprisionado por tribos nômades e conduzido a certa distância daqui. Conversavam na biblioteca e durante a maior parte da narrativa estivera olhando pela janela o desfiladeiro que conduzia ao mundo exterior. Tinha os seus oitenta anos gravados no rosto e nas maneiras. Conway fez conhecimento com muitos de 178 . Pelo espaço de uns minutos Conway não fez nenhuma observação. chegara aqui no vigor dos anos e tão bem vingaram com ele os nossos processos que. Esse homem. quase a completar oitenta anos. o que não teria nenhuma importância. Uma nuvenzinha deslizava sobre o topo da cordilheira. de nacionalidade russa. desgraçadamente. e pouco depois morreu. — Indolentes? — Em sentido figurado.tínhamos sido avisados. ninguém lhe daria mais de quarenta. esperando lá fora para atirar-se sobre os indolentes que conseguiram iludi-lo por muito tempo. Entretanto. e não seria talvez melhor se houvesse mais pessoas indolentes? — Inclino-me a concordar consigo — respondeu Conway com divertida solenidade. Mas era agora um homem bem diferente. — A sua história é um tanto sinistra. como morre um velho. Não é verdade que há demasiada pressa no mundo atualmente. é claro. e disse: — É significativo que os ingleses considerem a indolência um vício. Tchang — disse por fim. Nós.

Conway. e Conway sentiu-se envolto numa nova atmosfera. Os encontros que teve.seus futuros colegas. que ingressara na comunidade em oitenta e tantos. se bem que tivessem suas diferenças individuais. contudo. e Conway gozou a primeira palestra com um homem que o Lama Superior lhe mencionara de modo especial: Alphonse Briac. não aparentava ser demasiado velho embora dissesse ter sido discípulo de Chopin. Não se mostrava Tchang nem muito ansioso nem pouco desejoso de fazer as apresentações. assaz atraente para ele. Estão preparados para dispensar-lhe acolhimento logo que se apresente a ocasião. Um ou dois dias depois foi feita segunda apresentação. de nacionalidade francesa. mas isto não lhe deve causar estranheza. achou muito compreensível a atitude. que muitas vezes tivera impressão semelhante quando ia visitar colegas recém-chegados aos consulados estrangeiros. talvez anos. A primeira entrevista foi com um afável alemão chamado Meister. foram plenamente satisfatórios. — Na verdade — explicava Tchang —. tendo sido o único sobrevivente de um grupo de exploradores. pequeno e vigoroso. Percebeu que os lamas com quem tratara. Já os estava analisando subconsciente-mente. possuíam em comum uma qualidade 179 . Falava bem o inglês. e a falta de pressa não implica de nenhum modo ausência de interesse. Pareceu a Conway que a companhia dele e a do alemão seriam muito agradáveis. em que não reinava a pressa clamorosa nem a lentidão decepcionadora. embora com certo sotaque. e depois de uns poucos encontros formulou uma ou duas conclusões gerais. alguns dos lamas só poderão travar relações com o senhor depois de um tempo considerável. e a conversação com homens que tinham três vezes a sua idade não lhe causou os embaraços comuns na sociedade de Londres ou Delhi.

Quando tiver permanecido bastante tempo entre nós. Respondeu Tchang que isto fazia parte dos seus exercícios habituais. por exemplo. Depois de me achar aqui iniciei um estudo sobre o problema Brontë. e uma vez visitei Haworth. Sentia Conway uma simpatia instantânea por essa espécie de gente e notava que eles o percebiam e lhe eram gratos.difícil de definir. Respondeu Conway que sim até certo ponto. hospedando-me no "Parsonage". como qualquer outro panorama. lá por 1840. Além disso. meu caro senhor: um dos primeiros passos no sentido de clarificar a mente é a obtenção de um panorama da própria vida passada. quando os ouvia aludir com tanta naturalidade a remotas recordações. embora lhe viesse muitas vezes uma sensação de estranheza. e estou mesmo escrevendo um livro. como um objeto visto por um telescópio a que se ajustam as lentes. quando ficou a sós com Tchang. — Veja. e este. Tudo se lhe 180 . é mais nítido em perspectiva. Um homem de cabelos brancos e expressão benévola. Achou-lhes o trato tão agradável como o de qualquer outra roda de pessoas cultas com quem pudesse ter feito conhecimento. lhe perguntara após ligeira palestra se lhe interessavam as irmãs Brontë. fez comentários em torno da vividez com que os lamas pareciam recordar a sua existência anterior à vinda para o Tibete. eram todos dotados de uma serena inteligência que se manifestava agradavelmente por meio de opiniões comedidas e bem meditadas. Talvez queira examinar comigo o assunto qualquer dia destes? Conway deu uma resposta cordial e depois. verá a sua vida passada focalizar-se pouco a pouco. e o outro prosseguiu: — Pois sucede que eu fui cura no West Riding. para a qual não encontrava denominação melhor do que "ausência de idade".

destilada no alambique mágico dos séculos e milagrosamente preservada do tempo e da morte. confiando-lhe ao ouvido e à vista mil segredos tranqüilizadores. sentia muitas vezes invadi-lo profunda emoção espiritual. — Suponho. Uma vez interrogou Tchang sobre o seu passado e soube que ela descendia da família real manchu. Mas. Mas Conway distinguia o encanto que os seus silêncios exprimiam com perfeição. como se Shangri-Lá fosse uma essência viva. Quando se distraía lendo na biblioteca ou tocando Mozart no salão de música. fosse qual fosse o passado. imaginando o que se ocultaria no fundo do sorriso vago que lhe agitava os lábios como uma flor que se abrisse. então. ficava quase sempre calada. Em tais momentos lhe vinha ao espírito. de maneira memorável. quando ele visitou uma casa onde vivia um velho ministro em companhia de três filhas.apresentará tranqüilo e claro. por exemplo. — Era a prometida de um príncipe do Turquestão e 181 . que por vezes visitava a sala de música. Ela falava muito pouco. Diante de Mallinson. Sentia que uma calma inteligência vigiava com bondade cada uma de suas diversões. percebe que o grande momento da sua existência ocorreu na mocidade. nas devidas proporções e com sua verdadeira significação. sua conversação com o Lama Superior. Eles virão naturalmente. que deverei tratar de recordar os meus grandes momentos? — Não será necessário nenhum esforço. Assim. embora já soubesse que Conway conhecia o seu idioma. a verdade é que começava a sentir-se feliz no presente. Seu novo amigo. — Não sei se os receberei com muita satisfação — respondeu Conway com melancolia. punha-se a escutar enquanto Lo-Tsen dominava alguma fuga complicada.

já se vê. Imaginou-a como devia ter sido meio século atrás. — Como encarou a situação quando aqui chegou? — Talvez lhe houvesse custado mais do que a outros aceitá-la. — Devia ser muito afeiçoada ao homem com quem ia casar. Todos nós tínhamos particular interesse em que ela fosse feliz aqui. escultural na sua liteira decorativa que os carregadores conduziam pelo planalto em fora. mas cinco anos foram mais que bastantes para isso. — Sim.viajava para Kashgar a fim de encontrar-se com ele. . Ela contava dezoito anos. Era. quando seus carregadores se perderam nas montanhas. . como habitualmente faziam. pois nunca o tinha visto. meu caro senhor. mas percebemos que ficou perturbada por algum tempo. como o senhor mesmo pode verificar. Seus progressos têm sido constantes e excelentes. Tchang sorriu docemente e acrescentou: — Receio que a excitação do amor não se deixe vencer facilmente. Tal era o costume antigo. Todos teriam sem dúvida perecido se os nossos emissários não lhes houvessem saído ao encontro. tivemos muito êxito com ela. — Não se pode dizer que fosse isso. — Quando sucedeu isso? — Em 1884. Não que protestasse. Conway concordou e sentiu uma leve ternura por LoTsen. um acontecimento nada comum: interceptar uma moça que ia casar. como sabe. — Dezoito anos naquele tempo? Tchang fez uma cortesia. Sua afeição era completamente impessoal. os olhos fixos nas montanhas varridas pelos ventos e que lhe deviam parecer as182 .

Os lamas mais jovens preocupam-se naturalmente com o passado. Não acabavam aí. continuamente lhe vinham à memória trechos que o compositor lançara fora ou improvisara em determinadas ocasiões. pois. Conway refletiu um instante e disse: — A propósito. mais o deleitava sua tranqüilidade e seus silêncios. Achava certo sabor picante em refletir que nem Cortot nem Pachmann haviam sido tão felizes. é um passo necessário à contemplação do futuro. Conway dedicava agradáveis horas a decorá-las. por exemplo. sem outro adorno que um raio de luz fugitivo. O Lama Superior. é a tarefa dos mais velhos. leva quase toda a sua existência em meditações clarividentes. — Pobre criança! — disse. Era como um lindo vaso. as recordações musicais de Briac. nesta confiante profecia. quando pensa que voltarei a vê-lo? — Sem dúvida no fim dos seus primeiros cinco anos aqui. — Briac — explicou Tchang — iniciou-se há pouco tempo. — Sim. Sentia-se também deleitado. suponho. Deve desculpá-lo. porém. se fala tanto em Chopin. — E esta. Verificou que o francês conhecia diversas composições de Chopin que não tinham sido publicadas e. como ele as houvesse escrito.pérrimas em comparação com os jardins e os lagos de lotos que deixara no nascente. menos de um mês depois de sua chegada a Shangri-Lá foi 183 . embora com menos enlevo. porém. Enganava-se Tchang. e alguns deles eram fragmentos deliciosos. meu caro senhor. precioso e frio. Agora que lhe conhecia a história. pensando naquela frágil elegância. quando Briac lhe falava em Chopin e tocava com muito brilho as velhas melodias. Punha-os em pauta à medida que os ia recordando. prisioneira por tão longos anos.

Sentia-se em comunhão com o espírito que morava atrás deles. era uma honra sem precedentes. embora soubesse que esta segunda entrevista. e jamais fora obstáculo à sua amizade por uma pessoa o fato de ser esta demasiado jovem ou demasiado velha. só pensa em voltar — respondeu Conway. — Justamente como eu presumia. é apenas temporária. — Acho que é verdade. não estava em absoluto nervoso nem sucumbia à solenidade do momento. mas não via por que suas relações deixassem de ser cordiais. O fator da idade não tinha para ele mais importância que o da classe ou da cor. O Lama Superior lhe inspirava sincero respeito. e. — E não revelou os nossos segredos aos seus três companheiros? — Não. cuja atmosfera quente lhe era necessária à vida corporal. Assim prevenido. tão próxima da primeira.Conway novamente chamado à tórrida sala. mas provavelmente muito menos do que se eu lhes tivesse falado. afinal de contas. Esta situação difícil. segundo pensa. — E o terceiro? — Mallinson é um rapaz excitável. Conway achou menos incômoda que antes a mudança de temperatura. 184 . O senhor procedeu da maneira que achou melhor. dois deles darão poucos cuidados. Na verdade. Trocaram as habituais cortesias e Conway respondeu a muitas perguntas amáveis. até agora. Disse-me Tchang que. Foi difícil algumas vezes. Tchang lhe dissera que o Lama Superior nunca saía dos seus aposentos. começou a respirar com facilidade logo depois de saudá-lo e de receber em resposta uma cintilação mais viva daqueles olhos fundos. Disse que estava gostando muito daquela vida e já fizera amizades.

parece chegar à velhice por um caminho semelhante. — O senhor tem senso de humor. mas os temas de estudo também são muitas vezes destituídos de senso prático. quero-lhe bem. 185 . e nós lhe seremos gratos por essa qualidade durante os anos que hão de vir. Quando o Lama Superior perguntou se Shangri-Lá não lhe era uma experiência inédita e se o mundo ocidental podia oferecer algo semelhante.— Gosta dele? — Sim. respondeu com um sorriso: — Creio que sim. e embora o mais antigo dos mestres não seja tão velho. lembra-me muito ligeiramente Oxford. Neste momento apareceram as taças de chá e a conversa tornou-se menos grave entre os goles de líquido perfumado. O cenário é menos belo. ao qual se conformava de bom grado. Para ser franco. Era uma acertada convenção que permitia dar à palestra um tom de deliciosa frivolidade. onde fiz preleções. meu caro Conway — observou o Lama Superior —.

.

e depois de visitar o Lama Superior uma terceira e quarta vez começou a achar que não era de nenhum modo extraordinário. na verdade. Jamais o Lama Superior desejara um segundo encontro. uma rica serenidade. deixando-lhe. qual seja. Parecia.CAPÍTULO X — Extraordinário — foi o comentário de Tchang ao saber que Conway tivera nova entrevista com o Lama Superior. Mas. antes que os cinco anos de provação tivessem expurgado todas as emoções do exilado. torna-se um aborrecimento quase intolerável. de qualquer modo é extraordinário. Ele nos dá uma lição de grande valor. isso não era mais extraordinário do que tudo mais ali. Dir-se-ia que todas as secretas agitações de Conway se acalmavam. Não que eu duvide da sabedoria do seu procedimento. a palavra era significativa. Por vezes tinha a sensação de estar completamente subjugado 187 . haver qualquer coisa de predestinado na facilidade com que se harmonizavam os espíritos de ambos. naturalmente. na sua idade. — Porque. Para Conway. desde que se estabelecera a praxe da comunidade. o falar com recém-chegados em geral exige-lhe grande esforço. Jamais havia isso acontecido. A simples presença das paixões humanas lhe é desagradável e. como pode compreender. quando se retirava. Vindo de uma pessoa tão refratária ao uso de superlativos. a de que mesmo as regras fixas da nossa comunidade são apenas moderadamente fixas. acentuou.

e saímos de lá. O que em mim lhe parece próprio de um velho corre por conta de uma intensa e prematura experiência. mas algo exaustiva. Por certo hão de ter-lhe ocorrido coisas extraordinárias na vida. Conway respondeu após um intervalo: — Não há grande mistério nisso. — Foi muito infeliz na guerra? — Muito. Como milhões de outros. e às vezes ficava possuído de uma fúria terrível. não resta dúvida. é jovem nos anos. Suas conversas abrangiam destemidamente todos os assuntos. e diante das pequenas taças azul-pálidas o trabalho do cérebro se estremecia numa vivacidade tão delicada e miniatural que lhe dava a impressão de um teorema a dissolver-se limpidamente num soneto. as longas avenidas da história desdobravam-se e adquiriam nova perspectiva. tendo ele argüido sobre um ponto. Foi isso que fez tão difíceis os anos que se segui188 . — Não mais extraordinárias do que as que sucederam a muitos outros da minha geração. matava e gozava por atacado. o Lama Superior replicou: — Meu filho. e certa vez. mas percebo que o seu discernimento tem a madureza da velhice. Era o abuso de todas as emoções. mas nem por isso se desprendia do senso crítico. — Ainda não encontrara um homem como o senhor. Para Conway era uma experiência maravilhosa. sob o domínio de um fastio e uma agitação desmedidos. não. tinha impulsos suicidas. Filosofias inteiras eram esmiuçadas. aliás. Minha vida entre os dezenove e os vinte e dois anos foi uma educação incomparável. sentia medo. os que conseguiram escapar.pela força daquela inteligência diretriz. Excitava-me. era temerário. Conway sorriu. Emborrachava-me.

Henschell e os outros.ram. — Eu sei. e bem o sabia. Cintilavam as montanhas ao redor. na outra margem do lago. — E foi assim que continuou a sua educação? Conway encolheu os ombros. de onde seus olhos deslumbrados baixavam para o abismo verde do vale. meu filho. ia experimentando um contentamento profundo que unia corpo e espírito num só todo. Não creia que esteja exagerando a tragédia. Era um tributo do espírito. — Talvez a exaustão das paixões seja o começo da sabedoria. Tinha dito a pura verdade. — Essa. ao qual os sentidos apenas emprestavam um sabor. Estava. serenamente enamorado da pequena manchu. Suas corte189 . formando um muro de inacessível pureza. afigurava-se-lhe que era ele que tecia aquela harmonia perfeita da vista e do som. Creio que verifiquei isso com mais clareza do que muita gente. A Lua Azul tomara posse dele e não havia como escapar. quando ouvia. a argentina monotonia do cravo. se me permite alterar a máxima. O quadro todo era incomparável e. Seu amor nada pedia. Como Perrault. É por isso que me sinto como em casa. fui bastante feliz depois. estava sendo dominado pelo feitiço. nem sequer ser correspondido. Mas tem sido qualquer coisa comparável a estar numa escola sob a direção dum brutamontes: há muito que divertir-se para quem se sente inclinado a isso. é também a doutrina de Shangri-Lá. Tudo considerado. mas arruína os nervos e em suma não é muito satisfatório. À medida que passavam os dias e as semanas. Lo-Tsen era para ele o símbolo de todas as coisas delicadas e frágeis.

quando teve conhecimento disto. E para o próprio Barnard comentou: — Naturalmente. se ela o desejasse.sias estilizadas e o leve toque de seus dedos no teclado lhe davam uma sensação de intimidade completamente satisfatória. e. Algumas vezes lhe falava num tom que os poderia levar. teria ainda tempo. como Tchang. Também às vezes se voltava para a sua outra vida e enfrentava a impaciência de Mallinson. ele não desejava que assim fosse. Havia de alegrar-se quando todos soubessem o que ele sabia. Dentro de um ano. tanto tempo que o próprio desejo se apagava na certeza da realização. encheu-se de desdém. atendendo a um pedido dele. No começo pensei que ia sentir falta dos jornais e do cinema. A visão ganhava intensidade e ele se sentia feliz. mas. Mallinson. mas agora vejo que a gente pode se acostumar a tudo. para gozar tudo o que os recursos da localidade ofereciam a quem quisesse passar "uma noite fora". Conhecia já uma das facetas da jóia prometida. a jovialidade de Barnard e a firme intenção de Miss Brinklow. você precisa conservar-se em muito boa forma 190 . Conway? Quer-me parecer que isto não seria tão mau lugar para fixar residência nele. — Com certeza andou bebendo — disse a Conway. nada tenho que ver com isso. a uma conversa menos cerimoniosa. para o mais que desejasse dispunha do Tempo. Achou mesmo graça uma ocasião que Barnard disse: — Sabe. em certo sentido. Soube depois que Tchang tinha levado Barnard ao vale. — Também penso assim — concordou Conway. Mas as respostas de Lo-Tsen nunca revelavam o delicado segredo dos seus pensamentos e. de uma década. tinha a impressão de que nem o americano nem a missionária seriam difíceis de persuadir. como sabe.

Resolvi lograr esses carregadores. Mallinson. porém. Moderação. . . e pelo que inferi a volta não será propriamente uma viagem de recreio. — Sim. A fúria o tornava mordaz. Este estabelecimento atende a todos os gostos. O americano arreganhou os dentes afavelmente e prosseguiu: — E isto me lembra uma coisa que é melhor dizerlhes de uma vez. enrubesceu como um colegial. Conway não se deu por achado. Faço o meu exercício diário. Isso. Há quem tenha mais prazer em ouvir chinesinhas tocar piano. Quanto a conservar-me em forma. Barnard concordou de boa sombra: — Nunca acreditei que a volta seria fácil. — Quer dizer que não irá conosco? — Isso mesmo. acho que há muitos anos não me sentia tão bem disposto como agora. já que tocamos no assunto. . quando se consegue apanhá-las. . — Claro que sim. já sabe. Acho que eles vêm aqui regularmente. — Sim. Decidi ficar algum tempo aqui. — Mas pode-se mandar para a cadeia quando mostram preferência pela propriedade alheia — retorquiu. bem entendido. Para os senhores está tudo muito bem. não tenho nada que me aborreça e os donos desses botecos lá do vale não deixam a gente se exceder. Os carregadores devem vir dentro de uns quinze dias. não é verdade? Não se pode censurar as pessoas pelas preferências. Esperarei pela próxima vinda — ou talvez pela terceira. se os monges me derem crédito para as despesas de hospedagem. não duvido que se tenha divertido moderadamente — disse Mallinson com acrimônia. Serão recebidos com 191 . É o lema da firma.para a jornada.

E. Mr. Que diz você. e aqui ficarei. olhando em torno como a pedir o apoio dos outros: — Nem todos pensarão assim. se Miss Brinklow não se tivesse apressado a continuar: — Quem sou eu para discutir os ditames da Providência? Fui trazida aqui para algum fim. estive meditando sobre os acontecimentos que nos trouxeram aqui e pude chegar apenas a uma conclusão: há algum poder misterioso atrás dos bastidores. Ela prosseguiu. com um claro sorriso que mais parecia um reflexo do que uma iluminação interior: — Pois é. — Ninguém pode impedi-lo de enterrar-se aqui para toda a vida se esse é o seu desejo. não tenham receio. Conway? — Concordo. só tenho a polícia à minha espera. Nenhum deles possui verdadeira fibra. jamais gostei de orquestras. mas reconheço que os gostos diferem. Hei de impor a minha vontade. Não lhe parece. — Por outras palavras. Os gostos diferem. Voltou-se Mallinson para Miss Brinklow. mas eu.. E quanto mais penso nisso mais me desagrada. — Espera fundar uma missão neste lugar? — perguntou Mallinson. — Isto é assunto seu — tornou Mallinson com frio desdém. Conway? Talvez Conway experimentasse dificuldade em responder. — E pretende dar-lhes alguma? 192 . — Não só espero como tenho a firme intenção.bandas de música.. que subitamente deixou o livro de lado e declarou: — O caso é que eu também penso ficar. tem medo de enfrentar a orquestra? — De fato. Sei tratar com esta gente. . . — O quê? — gritaram todos a um tempo.

— É possível. Conway tomou-lhe o braço. — E eles têm vistas tão largas que lhe permitirão isso? — interpôs Conway. — Julguei que ele visasse a mim. Mr. passeando pelo pátio. e as últimas semanas de convívio haviam tornado mais profundo esse sentimento. Tornava-se-lhe cada vez mais claro que tinha muita afeição ao rapaz. e não a você — respondeu. 193 . e não pode sair! Seria o caso de perguntar quem está preso: nós ou eles? — Consoladora reflexão para um macaco encerrado numa jaula — replicou Mallinson. — Não sentirei a falta da sua companhia quando voltarmos. sim. quando se pensa em toda a gente que daria tudo o que tem para sair da balbúrdia e vir descansar num lugar como este. Você me pode julgar demasiado suscetível. — Esse sujeito me rói os nervos — dizia. mas não achei graça naquela indireta sobre a chinesa. e tenciono combatê-la com todas as minhas forças. Mallinson.— Pretendo. — Bem. até sobre este assunto há dois modos de ver. apesar das discordâncias de gênio. sempre furioso. mas na minha opinião ela conduz à pior espécie de licenciosidade. Meu Deus. sorrindo. Podem chamar-lhe largueza de vistas se quiserem. Mais tarde encontrou-se a sós com Conway. Todo o mal desta gente é a tal largueza de vistas. — Ou então ela é tão resoluta que não são capazes de lhe resistir — acudiu Barnard. Oponho-me decididamente a esta idéia de moderação sobre a qual tanto temos ouvido falar. se você gosta da prisão — repontou Mallinson. E acrescentou numa risada: — É justamente como eu disse: este estabelecimento atende a todos os gostos.

tenho certeza de que era comigo. não desejava inquietar-se com o inevitável.— Não. E Conway limitou-se a acrescentar: — No seu lugar. Até que decorressem dois meses não poderia suceder coisa de maior. se eu falasse como você o idioma dela. já teria posto tudo em pratos limpos. embora parecesse colocá-los. Meu Deus. Teve vontade de dizer mais alguma coisa. — O que me espanta é que você não lhe tenha feito toda sorte de perguntas. quando sobreviesse a crise. mas reteveo de súbito aquele sentimento de piedade e de ironia. Estou mesmo. num mesmo campo oposto. Ele sabe que estou interessado nela. E depois. Não posso descobrir por que vive aqui e se lhe agrada realmente viver aqui. embora tivesse dito uma ocasião: — Sabe. parecia não haver necessidade de tomar qualquer atitude por enquanto. a ele e a Mallinson. — Será mesmo que o faria? Ela não é de muita conversa. Tchang? Esse jovem Mallinson me deixa 194 . não seria menos aguda por ter ele tentado preparar-se para recebê-la. Por esta e por outras razões. Felizmente. Ela é bastante feliz. O ardente e impetuoso rapaz não se conformaria tão facilmente. — Não creio que gostasse muito de passar por maçante. eu não me preocuparia tanto com Lo-Tsen. A decisão que tinham tomado Barnard e Miss Brinklow de ficar atrás afigurou-se excelente a Conway. Era uma situação extraordinária e não tinha plano definido para enfrentá-la. Conway. que o envolveu à maneira de uma névoa fina. temporariamente. como sabe.

Temo que receba muito mal as coisas quando vier a sabê-las.preocupado. . — Mas não é nossa intenção impedi-lo. nós os esperamos mais ou menos na época que eu disse. ele começará — visto como é moço e otimista — a 195 . sim? Eu imaginava que o que diziam sobre a sua vinda fosse uma fábula amável destinada a entreternos. Tchang concordou. então? E que esperam venha a acontecer depois? — Então. Pareceu a Conway que isto era encarar o assunto com demasiada filosofia. com alguma simpatia: — Realmente. Esse é o método. Embora não sejamos fanáticos nesse ponto. nem se acham em condições de fazê-lo. Mas a dificuldade será. em suma. apenas temporária. — Compreendo. De qualquer forma. . Ele descobrirá simplesmente — sem dúvida por experiência própria — que os carregadores não estão dispostos a levar em sua companhia a quem quer que seja. é costume em Shangri-Lá ser moderadamente verídico. não será fácil persuadi-lo de sua boa fortuna. — Mas virão. — Ah. — Nesse caso. meu caro senhor. após um período de desilusão. e posso assegurar-lhe que as minhas informações acerca dos carregadores eram quase exatas. Dentro de vinte anos o nosso amigo estará inteiramente conformado. — De modo algum. Está contando os dias à espera dos carregadores. e se estes não vêm. — O que eu desejaria saber é como a verdade lhe será revelada. acharão difícil impedir que Mallinson se vá com eles.

— Fugir? Será esse realmente o termo apropriado? Afinal.esperar que os novos carregadores. — Circunstâncias especiais. mas por via de regra os que se ausentam voltam de bom grado. meu caro senhor. — Magnífico. Mas quanto aos casos mais raros daqueles que não voltam? 196 . Acho mais provável que procure um meio de fugir. De modo que só dão ensejo de fugir às pessoas quando sabem que seria loucura aproveitá-lo? Mesmo assim. compreendo muito bem que os métodos suaves dos senhores sejam tão eficazes quanto a mais rigorosa disciplina. não começaremos por dissuadilo dessa esperança. — Sem abrigo e sem roupas adequadas? Neste caso. Conway observou abruptamente: — Não estou muito seguro de que ele se acalmará desse modo. alguns devem fazer a tentativa. se mostrem mais tratáveis. ainda assim. Que foi feito das diversas expedições que aqui vieram ter? O desfiladeiro estava igualmente aberto para elas quando desejavam regressar? Tocou agora a Tchang a vez de sorrir. E nós. que deverão vir daqui a nove ou dez meses. como aconselha a prudência. após uma noite passada no planalto. suponho que não confiem nela em todos os casos. Não temos carcereiros. — Bem — respondeu Conway com um sorriso —. exigem algumas vezes especial atenção. deve confessar que a natureza fez muito bem o trabalho. o desfiladeiro está aberto a todos e em qualquer tempo. a não ser os que a própria natureza instituiu. não é verdade? — Bem. isso tem acontecido umas poucas vezes. Mas.

Não era um fato sem precedentes.— O senhor mesmo respondeu à sua pergunta — replicou Tchang. os que vêm para cá concebam afeição por alguém. o aviador. Desejava que fosse possível ao rapaz regressar com o consentimento dos lamas. Salvo no que dizia respeito a Mallinson. — Freqüentemente — respondeu Tchang com um 197 . pertencia à existência mundana que pouco a pouco ia sendo expelida do seu espírito pelo rico e penetrante mundo de Shangri-Lá. — Mas seria avisado. contudo. à vista do recente caso de Talu. é claro. sentia um contentamento extraordinário. — Não voltam. em acrescentar: — Posso assegurar-lhe. Tchang admitiu que as autoridades do mosteiro estavam armadas de poderes suficientes para fazer tudo o que considerassem avisado. entretanto. Não achou Conway a resposta de todo tranqüilizadora e o futuro de Mallinson continuou sendo uma preocupação. às vezes. e confio em que seu amigo não seja bastante temerário para lhes aumentar o número. como é que os senhores encaixam o amor no seu plano de existência? Suponho que. que poucos foram tão infortunados. A estrutura lentamente revelada deste novo mundo continuava a assombrá-lo pela sua complexa conformidade com os seus próprios gostos e necessidades. Era o seu tema predileto e várias vezes discorrera sobre ele. meu caro senhor. Deu-se pressa. pois a atitude de Mallinson poucas dúvidas deixava quanto ao que faria tão logo regressasse à índia. Certa ocasião disse a Tchang: — A propósito. Mas tudo isso. confiar-nos e confiar o nosso futuro aos sentimentos de gratidão do seu amigo? Compreendeu Conway que a objeção era procedente.

. bem entendidos. E Tchang acrescentou. são imunes. mas respondeu secamente: — Obrigado. É antes o aspecto emocional do que o físico que desperta a minha curiosidade. — Por que pergunta isso? — Porque. Mr. ao menos por ora. mas afinal de contas somos iguais aos outros homens — salvo. Não duvido de que ele o tenha feito. e também todos os que atingimos certa idade. E isto me fornece um ensejo. Conway devolveu-lhe o sorriso. mas garanto-lhe que acharia deleitosa a experiência. é claro. — Acha fácil separá-los um do outro? Será possível que se esteja enamorando de Lo-Tsen? Conway ficou um tanto confuso. meu caro senhor. Lo-Tsen não lhe iria corresponder apaixonadamente — isto seria esperar demasiado —. que o fizesse com moderação. — Por outras palavras. no fato de sermos mais razoáveis do que eles. um pouco sentenciosamente: — Sempre foi seu costume poupar aos apaixonados o 198 . seria muito conveniente que se enamorasse dela — uma vez.vasto sorriso. Falo com autoridade. . — Os lamas. O seu amigo Barnard já tirou proveito disso. não lhe correspondeu? — Se prefere dizer assim. mas julgou não o ter demonstrado. para lhe assegurar que a hospitalidade de Shangri-Lá é muito compreensiva. penso eu. Conway. pois eu mesmo estive enamorado dela quando era mais jovem. não são tão ardentes. mas as minhas inclinações. — Deveras? E correspondeu-lhe? — Apenas com a mais encantadora aceitação da minha homenagem e com uma amizade que se tem tornado mais preciosa com o correr do tempo.

seria esse o mais auspicioso dos acontecimentos possíveis! Não seria a primeira vez. mesmo quando não correspondido. se deseja — replicou Tchang em tom de brando protesto. — Oh! sem dúvida. sem dúvida. — E ela deve ter grande habilidade em consegui-lo. compará-la ao ar199 . que Lo-Tsen consolaria o exilado cheio de desespero por saber que daqui não sairá mais. mas não deve tomar o termo em mau sentido. assevero-lhe. — Consolaria? — Sim. — Isto estará muito bem no seu caso e talvez no meu. Lo-Tsen não dispensa carícias. salvo aquelas que tocam o coração dolorido e emanam da sua própria presença. elimina a fome quando menos satisfaz. Temos muitos exemplos disso.momento de saciedade que sobrevém a toda realização absoluta de um desejo. mas qual seria a atitude de um rapaz de sangue ardente como Mallinson? — Meu caro senhor. Seu hábito é acalmar a palpitação do desejo até reduzi-lo a um murmúrio que não deixa de ser agradável. — mas seria muito mais gracioso." Um tipo comum. e não menos verdadeiro. se me permite emendar a passagem. segundo presumo. É um efeito mais delicado e mais duradouro. Conway riu. mas garanto-lhe que uma mulher assim estaria completamente desolada em Shangri-Lá. então. entre as raças apaixonadas. Que diz o seu Shakespeare de Cleópatra? "Ela deixa faminto quando mais satisfaz. poderia ser considerada como fazendo parte do aparelhamento educativo do estabelecimento? — Pode considerá-la assim. LoTsen. — Nesse sentido.

co-íris refletido num vaso de cristal. Mas na próxima vez que se encontrou a sós com a pequena manchu verificou que eram muito sagazes as observações de Tchang. suas paixões tinham sido como um nervo que o mundo arranhava. Conway. mas a consciência do tempo apagava-lhe a visão. E de súbito compreendeu que Shangri-Lá e Lo-Tsen eram perfeitos. inspirando-lhe uma infinita e terna relutância. imaginava-a nos seus braços. agora. Agradava-lhe aquela disposição de ânimo predominante. e não desejou outra coisa senão despertar uma pálida e eventual correspondência em toda aquela tranqüilidade. a quem a experiência ensinara que a rudeza não é em absoluto uma garantia de boa fé. Emanava dela certa fragrância que se comunicava às emoções de Conway. — Concordo plenamente consigo. a dor se acalmava por fim e ele podia abandonar-se a um amor que não era tortura nem aborrecimento. mundo mais pacificado que dominado por aquela idéia única e tremenda. Quando passava às vezes pelo lago dos lotos. Isso seria muito mais gracioso. acalmando-a. era ainda menos inclinado a ver nas frases bem torneadas uma prova de insinceridade. Tchang. Pensava que jamais fora tão feliz. ativando as cinzas de um fogo que não queimava mas apenas aquecia. Apreciava o 200 . na qual os sentimentos eram envoltos em pensamentos e estes se transformavam em felicidade pelas simples expressão verbal. ou à gota de orvalho depositada na flor da macieira. Amava o mundo sereno que lhe oferecia ShangriLá. mesmo durante os anos de sua vida que ficavam atrás da grande barreira da guerra. Durante anos. Conway apreciava as réplicas ágeis e comedidas que o chinês opunha muitas vezes às suas bem-humoradas provocações.

fragmentos de velhas melodias ou. De início. nem se ocupavam neles todo o tempo. de um modo que provocaria assombro no mundo ocidental. na verdade. Além do seu saber lingüístico. quando Conway fez um reparo nesse sentido. de várias espécies. como o ex-cura inglês. Sem que fizesse novos conhecimentos entre eles. segundo pôde ver.ambiente pausado e maneiroso. Viviam os lamas. a história de um artista chinês que viveu no terceiro século antes de Cristo e que. na sua balança. Mas nem todos se entregavam a essa espécie de estudos. realizara valiosas pesquisas no domínio da matemática pura. navegavam em pleno mar da ciência. Certa vez. como se levassem o tempo em conta. em que a conversa era uma arte. registrando. embora não deixasse de ser uma colméia de compassadas atividades. pesasse tanto como uma pluma. e não mero hábito. e o espírito podia acolher os sonhos mais frágeis. Outro estava coordenando Gibbon e Spengler na formação de uma vasta tese sobre a história da civilização européia. contou-lhe o Lama Superior. mas o artista o aconselhou a 201 . E comprazia-se em pensar que as coisas mais frívolas estavam agora livres da ameaça do tempo perdido. elaborando nova teoria sobre o caso de O Morro dos Ventos Uivantes. E havia coisas ainda menos práticas do que estas. conforme disse Tchang. em resposta. no entanto. Shangri-Lá era sempre tranqüilo. Muitos escreviam obras manuscritas. Havia muitos canais estanques em que se metiam por mero capricho. tendo despendido muitos anos em esculpir dragões. como Briac. alguns deles. Um deles. mas este. a extensão e a variedade das suas ocupações. pássaros e cavalos num caroço de cereja. o príncipe nada podia ver senão um caroço. Conway foi aos poucos verificando. ofereceu o trabalho concluído a um príncipe real.

mas afinal a verdade é que se pode ter inteira confiança em homens assim. — Não lhe garanto — redargüiu Conway. Mas acho que você poderá compreender melhor a situação.. tomamos as coisas como elas vêm. sorrindo. . — Olhe que Mallinson é tão funcionário inglês quanto eu. Esta casa aqui por exemplo. Ele tem raiva de mim. pois ele mesmo sempre tivera gosto por tais coisas. Era-lhe grato constatar que a serena finalidade de Shangri-Lá abrangia um número infinito de ocupações estranhas e aparentemente triviais. Ainda não compreendemos nada de tudo isto. . os funcionários ingleses parecem tão formalistas. Deleitava-se com esta perspectiva e não se sentiu disposto a mofa quando Barnard lhe confiou que também encarava com interesse o seu futuro em Shangri-Lá. a princípio. mas é uma criança ainda. meu caro Conway. — Veja. mesmo como meio de ocupar o ócio. as excursões de Barnard no vale. Conway. Ao parecer. ou muito vagos ou demasiado grandes para se realizarem. Quando contemplava o seu passado. e percebeu então que o caroço era na verdade belíssimo. mas que agora se faziam possíveis. que por último se haviam tornado mais freqüentes. não eram inteiramente dedicadas à bebida e às mulheres."mandar construir um muro e neste abrir uma janela. e não lhe parece que encerra uma preciosa lição? Conway concordou. e observar o caroço através da janela. via-o povoado de idéias de trabalhos. tão engomados. — Sim.. eu lhe digo isto porque você é diferente de Mallinson. como provavelmente já observou. 202 . . no esplendor da manhã". Coisa esquisita. Você e eu somos homens do mundo. Assim fez o príncipe. . — Não é uma história encantadora. Não encara os fatos de um modo razoável.

Mostrou-me todas as instalações da mina.nem sabemos por que nos trouxeram aqui. Com certeza você pensava que eu ia para a pândega todas as vezes que lá descia na cadeirinha. e você há de ter interesse em saber que as autoridades me deram permissão de inspecionar todo o vale à vontade e preparar um relatório com203 . não de um todo. a não ser com ouro. mas fiz as minhas conjeturas e então expus a coisa a Tchang — francamente. mas afinal de contas não são assim todos os caminhos da vida? Acaso sabemos por que estamos neste mundo? — Talvez muitos dentre nós não o saibam. e não estranhará que nos tenhamos entendido bem. — Nem mais nem menos. prata. Olhe. ouça bem. — Desvendou-o sozinho? — Bem. nunca o considerei mau sujeito. eu vinha ruminando há muito que estes camaradas não podiam adquirir tudo o que lhes vem de fora sem pagar um preço elevadíssimo. Toneladas de ouro. no vale! Em moço fui engenheiro de minas e não me esqueci de como se reconhece um veio. Acredite-me. E creia-me. sei que você sempre simpatizou com ele. . meio extático. não é? Comecei então a bisbilhotar por aí e não tardei muito a desvendar o mistério.. — Por minha parte. Qual nada! Sabia o que estava fazendo. — Sim. meu amigo — respondeu. diamantes ou qualquer coisa desse jaez? Lógica simples. Mas aonde quer chegar? Barnard baixou a voz. e com que haviam de pagar. de homem a homem. A verdade é que nos acertamos maravilhosamente. — Ouro. esse chim não é um sujeito tão mau como seria de pensar. este é tão rico como o Rand e dez vezes mais fácil de explorar. que se fez um murmúrio um tanto rouco. literalmente toneladas. Conway.

principalmente quando lhes disse que podia sugerir meios de aumentar produção. o fato é que encontrei uma ocupação. bem entendido. Não raro ia vê-lo a horas adiantadas da noite e ficava largo tempo. E a gente nunca sabe como vai acabar uma coisa. — Bem. — Vejo que você vai sentir-se como em sua casa aqui — disse Conway. Nunca deixava o Lama Su204 . Isso vale muito. Barnard assentiu com entusiasmo. Conway. A única dificuldade é esta: eles acreditariam na minha palavra? — Pode ser. Riu-se Conway. — Alegra-me que você tenha compreendido. até muito depois de retirarem os criados as últimas taças de chá e serem mandados dormir. — Havemos de tratar disso. Compartilhava desse sentimento o Lama Superior. Cônsul inglês et cetera e tal. Pode ser que o pessoal lá na terra não faça tanta questão de me meter na cadeia quando souberem que eu lhes posso indicar uma nova mina de ouro. e isto não é pouco. Metade por metade em tudo. a quem Conway visitava cada vez mais amiúde. Que lhe parece. meu amigo? Pareceram muito satisfeitos por dispor dos serviços de um perito. Tudo o que quero de você é que aponha a sua assinatura no meu relatório. A boa fé da humanidade é extraordinária. Primeiro faça o seu relatório. E é sobre este ponto que podemos entrar num entendimento.pleto. Divertia-o a idéia desse negócio cuja realização era tão improvável e ao mesmo tempo sentia-se contente por haver Barnard encontrado uma ocupação tão satisfatória.

som algum. — Receio que se torne o seu problema. que se lhe tornara já tão familiar. Mas quanto ao seu jovem amigo. Não ouvia.. — Fizemos o possível para que ambos se sintam à vontade. Quanto aos outros dois..perior de interrogá-lo sobre os progressos e o bem-estar de seus companheiros. numa companhia de responsabilidade limitada. que faremos dele? — Sim. que os ajudarão a passar agradavelmente o tempo. Projetos inofensivos. e os grossos reposteiros amorteciam os relâmpagos reduzindo-os a pálidos vislumbres de claridade. Percebera um rumor de trovões ao atravessar os pátios em direção à sala. vai tornar-se um problema. adornando a conversação de acordo com o ritual. — Sim — respondeu o Lama Superior. — O povo da Lua Azul acredita que elas são causadas por demônios enraivecidos que andam soltos nos 205 . pelo menos durante algum tempo. a quem nem o ouro nem a religião podem oferecer conforto —. Miss Brinklow deseja converter-nos. encolhendo os ombros — o fato é que lhes convém a estada aqui. — Porque meu? Não teve Conway resposta imediata. Barnard também gostaria de nos converter. forçosamente interrompidas desde a chegada a Shangri-Lá. e Mr. O serviço de chá foi introduzido naquele momento e o Lama Superior assumiu as maneiras de uma débil e ressequida hospitalidade. — ajuntou. . Notou um bruxuleio de luz através da janela encortinada. Conway respondeu em tom refletido: — Mallinson poderia ter uma bela carreira. agora. . e certa vez o inquiriu particularmente acerca de suas profissões. — O Karakal nos envia tormentas nesta época do ano — observou. É enérgico e tem ambição.

pois. . tão abrigados no seu vale quente e sossegado. como sabe. mas pareceu-lhe que seria preferível contar o próprio Barnard a sua história na ocasião azada. embora não compartilhe a sua opinião de que Chopin é o maior dos compositores. Para eles. Supõem mesmo que todos os infelizes "forasteiros" anseiem por vir para cá. Talvez tenha notado que no seu dialeto a expressão designa todo o resto do mundo. e há hoje em dia no mundo muita gente que teria satisfação em vir para cá. Conway achou graça ao pensar que era uma felicidade para o mosteiro a aquisição de um homem que a polícia de doze países procurava ativamente. É uma simples questão de ponto de vista. "Lá fora". ou mesmo a Índia. . Limitou-se. Mas deixemos de pensar nisso agora. É claro que nada sabem de países como a França. Quanto mim. . Gostaria de comunicar o chiste. dizem eles. Soube que tem discreteado com o nosso excelente Briac. Nós somos um único bote salva-vidas. . Imaginam que o terrível altiplano não tem fim. afrontando os mares numa borrasca. 206 . Um encantador compatriota meu. a dizer: — Não resta dúvida de que ele tem toda a razão. — E é o primeiro americano que temos entre nós. a Inglaterra. Fomos realmente felizes. — Como ele é sensato! — comentou o Lama Superior. mas se todos os náufragos nos alcançassem subissem a bordo correríamos risco de ir ao fundo também. prefiro Mozart. parece inconcebível que um morador daqui deseje ir embora. — Gente demais.vastos espaços além do desfiladeiro. não acha? Conway recordou-se das observações semelhantes de Barnard e referiu-as. podemos recolher alguns sobreviventes que o acaso nos depara. meu caro Conway.

sem falar. É muito gentil em mostrar-se assim compungido. que todos somos mortais. todas as nossas religiões possuem em comum um agradável otimismo.Somente depois de retirado o serviço de chá e de serem finalmente despedidos os criados foi que Conway se aventurou a repetir a sua pergunta que ficara sem resposta: — Falávamos a respeito de Mallinson e o senhor disse que ele seria o meu problema. A declaração parecia extraordinária. mesmo na minha idade. Finalmente o Lama Superior continuou: — Ficou surpreso? Mas é claro. contempla-se a morte com certa melancolia. e. Sinto-me contente. . Por que meu? Então o Lama Superior respondeu muito simplesmente: — Porque estou prestes a morrer.. continuou: — Talvez saibas que a freqüência destas conversações não é usual aqui. depois de aguardar por um momento. pouco sobra de mim para morrer fisicamente. e o Lama Superior. ou quem sabe alguns anos. — Faz-me uma grande honra. E é possível que ainda me restem alguns momentos. Por felicidade. Mas é da nossa tradição. . mesmo em Shangri-Lá. — Ela te diz respeito. — Tenho em mente fazer muito mais do que isto. Apenas lhe participo a singela verdade de que já vejo próximo o fim. se me per207 . meu amigo. Inclinou-se Conway levemente. e por algum tempo Conway não pôde articular uma palavra. meu filho. . mas devo acostumar-me a uma estranha sensação durante as horas que me restam: devo compreender que só tenho tempo para uma coisa mais. quanto ao resto. e não pretendo ocultar que. Não imagina o que seja? Conway permaneceu calado. meu filho.

um forte relâmpago fez empalidecer as sombras e o incitou a exclamar: — A tormenta.. Rugi208 . . Afinal. perscrutava-lhes os olhos e ouvia-lhes a voz. guiados um tanto pelo exemplo do passado. Ser brando e paciente. como jamais o mundo viu outra igual. vieram as palavras: — Esperei-te. nem auxílio dos poderosos. De novo tentou Conway replicar. Os ecos mergulharam no silêncio. — Deponho em tuas mãos. meu filho. não é árdua a tarefa que te lego. não sermos escravos da tradição. a herança e o destino de Shangri-Lá. e sem dúvida encontrarás nessas coisas grande felicidade. possuis já a mesma sabedoria. nenhuma regra inflexível. presidir com sabedoria e sigilo enquanto a tempestade ruge lá fora — tudo isso te será muito simples e agradável. Fazemos o que nos parece justo. porém muito mais pela nossa sabedoria presente e pela clarividência do futuro. mas não pôde. Conway guardava o mesmo silêncio. . . olhava a fisionomia dos recém-chegados. sempre na esperança de algum dia encontrar-te. Depois. e só ficaram as pancadas do seu coração. Não temos normas rígidas. meu filho. Sentado nesta sala. meu filho. pois a nossa ordem só conhece cadeias de seda. e Conway sentiu atrás dela o poder de uma persuasão suave e benigna. Não haverá segurança pelas armas. Meus colegas envelheceram e adquiriram sabedoria. — Será uma tormenta. durante longo tempo. E eis por que me sinto com ânimo de levar a cabo este último intento. mas tu ainda tão jovem. essa tormenta de que fala. Meu amigo. que batia como um gongo. Relaxou-se por fim a tensão. nem resposta de ciência. interceptando o ritmo. velar pelos tesouros do espírito.mites o paradoxo.

penso que pode ter razão. Podes dizer que me engano? Conway respondeu: — Não. E ainda depois. e. E Shangri-Lá pode talvez ser ambas as coisas. da China ao Peru. Para além desse ponto minha visão se turva. mas ainda vislum209 . poderás continuar a viver. Mas a Idade das Trevas que está por vir cobrirá o mundo todo como uma única mortalha. se o fizer. e veio então a Idade das Trevas. Tal foi a minha visão quando Napoleão era ainda um nome desconhecido. mais sábio e mais paciente. através da longa época de desolação. tornando-te mais velho. que durou quinhentos anos. mais clara a cada hora que passa. existiam outros lumes.rá até que todas as flores da cultura tenham sido espezinhadas e todas as coisas humanas se nivelem num vasto caos. e. Havia por toda parte clarões de lanternas. Conservarás a fragrância da nossa tradição e acrescentar-lhe-ás o toque do teu próprio espírito. porque essa Idade das Trevas não foi na realidade tão escura. e poderá acontecer que um desses estranhos venha a suceder-te quando estiveres muito velho. E não haverá escapatória nem refúgio. — E pensa que tudo isso acontecerá no meu tempo? — Acredito que sobreviverás à tormenta. ou tão humildes que ninguém lhes dê atenção. nos quais poderia ser de novo acesa. E continuo a vê-la. ainda que a luz se houvesse apagado por completo na Europa. talvez não nos considere dignos de uma bomba. Uma catástrofe semelhante aconteceu uma vez. — O paralelo não é inteiramente exato. O aviador que demanda as grandes cidades com a sua carga mortífera não passará por aqui. salvo os que forem demasiado secretos para ser encontrados. Acolherás o estranho e lhe ensinarás as regras da sabedoria e da longa vida.

meu filho. Passava um quarto da meia-noite. Observou-o Conway durante algum tempo e afinal. consultou o relógio de pulso. mas cheio de esperança. . Os tibetanos. como se fosse num sonho. a fim de que não se tornasse demasiado estranha para ser acreditada. entre as quais vivia com crescente intensidade. segundo o costume. ocorreu-lhe que não sabia sequer onde e como iria pedir auxílio. Seus olhos mergulharam nas sombras e prenderam-se aos pontinhos de ouro que faiscavam nas lacas soberbas e ondulantes. essas coisas recônditas do espírito. no meio daquele sonho sereno e envolvente. . mergulhada na sombra e esfarelando-se como madeira velha. um novo mundo que nasce das ruínas. sentiu-se senhor de Shangri-Lá. Subitamente. Eram suas essas coisas amadas que o cercavam. e com instintivo movimento de mão e olhos. a grande distância. à procura dos legendários tesouros que perdeu. ocultos por detrás das montanhas. como um afresco prateado. Pareceu-lhe necessário referir a situação a uma realidade qualquer. Por uma janela pôde ver que o céu estava claro. E estarão todos aqui. Estava completamente imóvel e tinha os olhos fechados. agitando-se desajeitado. compreendeu que o Lama Superior estava morto. Cessou a fala e sob os olhos de Conway o rosto banhou-se de remota beleza. longe da agitação do mundo. já se haviam todos recolhido e ele não tinha idéia de como encontrar Tchang ou qualquer outro. Deteve-se indeciso no limiar do escuro corredor. preservados como por milagre para um novo Renascimento. quando atravessava a sala dirigindo-se para a porta. no vale da Lua Azul. e o aroma das angé210 . Então desapareceu o resplendor e não quedou senão uma máscara. embora as montanhas ainda resplandecessem à luz dos relâmpagos.bro. E então.

Não compreendia de que se tratava. A lua cheia singrava o céu por detrás do Karakal. tão tênue que mal chegava a ser uma sensação.licas. 211 . Mais tarde percebeu que Mallinson estava junto dele. que o tomava pelo braço e o levava dali com grande pressa. Faltavam vinte minutos para as duas. Por fim deparou com a porta dos pátios e pôs-se a errar à beira do lago. Apenas ouvia a voz do rapaz. que falava muito agitado. atraía-o de peça em peça.

.

. .CAPÍTULO XI Chegaram à sala com sacadas.. onde lhes eram servidas as refeições. íamos ficar presos aqui até sabe Deus quando.. Os carregadores estão a cerca de cinco milhas do desfiladeiro. Mostra que esses indivíduos tinham a intenção de nos enganar . Onde esteve todo esse tempo? Há horas que estava à sua espera. — Venha. . Grande notícia. . Enfim. . . em todo caso foi a última vez. . . . . graças a Deus! — Sim. Mallinson ainda lhe apertava o braço quase arrastando-o para diante. esse! Bem. nem nos avisaram. homem! Imagino o que dirão amanhã o velho Barnard e Miss Brinklow. Mallinson. Chegaram ontem com uma remessa de livros e outras coisas. Conway. . . cansado. temos tempo até o amanhecer para arrumar as nossas coisas e ir embora. . visitando o Lama Superior. com os cotovelos na mesa. — Doente? Não. quando derem pela nossa falta. 213 . — Ah. ficam porque querem. . e provavelmente viajaremos muito melhor sem eles. . Talvez um pouco. — Estive. — Deve ser a tormenta. Mas que tem você? Está doente? Afundara-se Conway numa cadeira e estava inclinado para a frente. a última vez. penso que não. . Passou a mão pelos olhos. Amanhã vão voltar.

como sabe! Conway retesou-se no esforço que fez para voltar à plena consciência. — Não vejo como. se não perdermos tempo. — Seria bom que não ficasse nessa moleza. caia em si! — Está pensando em ir com eles? — Pensando?! Vou com eles. Como o conseguisse em parte. . será que você recua diante de tudo? Por acaso perdeu toda a fibra? 214 . — Sim. . — Imediatamente? — Sim. disse finalmente: — Você compreende. por que não? Conway fez nova tentativa para se transportar de um mundo para o outro. . Diz você que os carregadores. e faremos. . . Para experimentar seus nervos e a realidade de suas sensações. mas trata-se de uma coisa que temos de fazer. sim. . com a ajuda da sorte. Temos muito que fazer. os carregadores. com o demônio! Estão pouco além da cordilheira. . . homem! Por favor. . Verificou que tanto as mãos como os lábios estavam trêmulos. — Sinto muito — disse. E temos de nos pôr em marcha imediatamente. . . — Ó Senhor! Conway. . . — Receio não ter entendido bem. sem dúvida.Algo na voz de Conway e ainda mais no silêncio que se seguiu provocou irritação no moço. que isso talvez não seja tão simples como parece? Mallinson estava amarrando umas botas tibetanas de montanha e respondeu em frases entrecortadas: — Compreendo tudo. acendeu um cigarro.

ajudou Conway a tomar acordo de si. foi Lo-Tsen. ela vai conosco. os dois mundos entraram em contato e fundiram-se instantaneamente no espírito de Conway. Venha daí. a sua última escusa desaparece. — Meu Deus. não preciso contar com você para arranjar as coisas.. não vem ao caso. Suponhamos que você atravesse o desfiladeiro e encontre os carregadores. eu me explicarei. — Eu sei disso. ao contrário do que imagina. É impossível! 215 . É necessário entrar em negociações. Já está com os carregadores à nossa espera. tudo pronto.A interpelação. Como sabe se eles quererão levá-lo? De que modo os induzirá a isso? Não lhe ocorreu que. E aqui estão as roupas e o equipamento para a viagem. que homem! Felizmente. Quero expor-lhe detalhes importantes. um tanto apaixonada e um tanto sardônica. mas. Gritou vivamente quase com desprezo: — Isto é um disparate. Assim. mas não importa. fazer um ajuste prévio. — Quem foi que organizou todos esses planos? Mallinson respondeu com brusquidão: — Pois se faz questão de saber.. Creio que você não se opõe. . . façamos alguma coisa! — Mas. os carregadores foram pagos adiantado e concordaram em nos levar. . eu não compreendo. À menção de Lo-Tsen. — À nossa espera? — Sim. — Se perdi ou não. . eles talvez se mostrem pouco dispostos? Não pode apresentar-se diante deles e pedir-lhes que o conduzam. se deseja que me explique. — Ou qualquer outra coisa que acarrete nova demora — exclamou Mallinson com violência. Porque elas estão arranjadas.

Não devemos discutir. diga-me a verdade! — Bem. mas a idéia de Lo-Tsen ir conosco é simplesmente absurda. bem. Uma garota dessa idade. aonde quer você chegar? E. isso não pode dar certo. sem que seja preciso aprender dúzias de línguas. . o que significa tudo isso? Até agora não entendi nada. Mallinson. espantou-me o que você disse. . Mas talvez não conheça. por favor. — Você pensa que a conhece muito melhor do que eu. é natural que queira ir embora se lhe dão um ensejo. — Não imagina que possa estar enganado. — Então por que está fazendo tamanho barulho? — Diga-me a verdade. por sua vez. Há uma série de razões. . — Que quer dizer? — Há outros meios de entender as pessoas. Conway acrescentou: — Isto não tem pés nem cabeça. ela é perfeitamente feliz. . . — Em nome do céu. É tão natural que ela queira ir! É aí que você se engana. . Diga-me. se não sabe inglês? 216 . mais calmo. Até agora não se apresentara nenhum. é bastante simples. Já é bastante incrível que ela esteja lá fora neste instante. atribuindo-lhe uma situação que é puramente sua? Como sempre lhe tenho dito. encerrada aqui entre velhos excêntricos. porque é. perguntou cortante: — Por que impossível? — Porque. — Não vejo por que possa ser absurda. . . — Então por que concordou em ir embora? — Disse isto? Como podia fazê-lo.Mallinson. apesar de tudo. Mallinson sorriu nervosamente. afinal de contas. Creia-me.

mas quanto a mim sou mais prático. — Mas não acha que está agindo precipitadamente? Para onde pensa que ela irá. Mallinson corou de leve. quando se vai salvar alguém 217 . mas bastou para. Admirá-la como se fosse uma peça de museu talvez seja a idéia que você faz do seu mérito. — Irra. se sair daqui? — Penso que deve ter amigos na China ou em qualquer outra parte. para levar a um entendimento. — Ninguém diria semelhante coisa. Disse com brandura: — Seria melhor que deixássemos de falar por enigmas. e quando vejo em situação difícil uma criatura que me agrada. Sei que Lo-Tsen é encantadora. Sentia-se cansado. espero — respondeu Conway. — É muito mais do que isso. Conway. em tibetano. Afinal de contas. — Como pode ter certeza disso? — Bem.— Eu lhe perguntei. Você não deve pensar que todos tenham o seu sangue-frio com relação às mulheres. aborrecido e agitado por um profundo conflito de afeições que bem desejaria não ter despertado. Foi Miss Brinklow que me ensinou as palavras. Só posso dizer que lamento muito. não me encare desse modo! Quem o visse diria que estive caçando no seu cercado.. estará melhor do que aqui. — E por que diabo há de lamentar? Conway deixou cair o cigarro que tinha entre os dedos. . Seja como for. eu olharei por ela se não houver ninguém que o faça. — Mas a sua observação revela muito mais do que você desejaria talvez dar-me a entender.. escarninho. . Claro que não foi uma conversação muito fluente. faço tudo por ajudá-la. mas por que havemos de disputar por causa dela? — "Encantadora"? — repetiu Mallinson.

em você. mas fiquei aterrado quando descobri que você também estava contra mim. foi o efeito que produziu em você. — Meu bom rapaz! Conway estendeu a mão a Mallinson. . mas me senti terrivelmente só estas últimas semanas.. sob um pretexto ou outro.de um inferno. Barnard e Miss Brinklow tinham lá seus motivos. por algum maluco. contando-lhe certas coisas. — E considera um inferno Shangri-Lá? — Positivamente. Nosso próprio caso demonstra-o bem. Pois se chegou a reconhecer que este lugar lhe agradava!. . . levado por um impulso repentino: — Bem. — Lamento-o deveras.. Porém o mais assustador de tudo. se for possível.. — Em mim? — Sim. não se costuma indagar se esse alguém tem para onde ir. que a apertou com afeição veemente e impetuosa. a meu ver. Conway? Será que não pode voltar a ser como era antes? Nós nos entendíamos tão bem em Baskul. mas de que serve? Conway replicou. e o modo como nos foram retendo. estou certo de que 218 . deixe-me ajudá-lo. sem o menor motivo. prosseguindo: — Suponho que não o tenha notado. desde o princípio. Você deu para andar na lua. como se nada lhe importasse e como se estivesse conformado a ficar aqui para sempre. Depois de ouvi-las. Ninguém parecia importar-se com a única coisa que era realmente importante. então. a maneira como fomos trazidos para cá. Você era completamente outro. — Você repete sempre isto. Que foi que lhe sucedeu. Há neste ambiente qualquer coisa de tenebroso e diabólico.

Mallinson tornara-se. Conway. Pelo menos. Ergueu os olhos calmamente assim que terminou.compreenderá grande parte do que agora lhe parece estranho e obscuro. a não ser que você deve estar completamente louco. Narrou tudo com rapidez e fluência. mas sentia que nas atuais circunstâncias isso era justificável e até necessário... na verdade. compreenderá por que LoTsen não pode voltar em sua companhia. não sei o que dizer. Entretanto. A beleza desse mundo o subjugava enquanto ia falando. Ao se aproximar do fim sentiu-se aliviado. toda a história de Shangri-Lá tal como a ouvira do Lama Superior. e esta. E abrevie o mais possível o que tem para dizer. e ao fazê-lo caiu de novo sob o sortilégio daquele estranho mundo exterior ao tempo.. enfim. Estava satisfeito por haver vencido a dificuldade. e mais de uma vez teve a impressão de estar lendo uma página impressa na memória. pois não podemos perder tempo. na certeza de que havia procedido bem. era a única solução. Era uma coisa que não pretendia fazer. e estava empenhado em resolvê-lo. durante o qual os dois 219 . tão nitidamente se haviam gravado as idéias e as frases. Seguiu-se um largo silêncio. e isto para poupar a si próprio uma emoção que não poderia ainda dominar: a morte do Lama Superior naquela noite e o fato de que iria suceder-lhe. Conway então contou. — Creio que não há nada que me possa convencer disso. o mais resumidamente que pôde. Ao cabo de uma longa espera falou: — Francamente. . Mallinson não fazia mais do que tamborilar na mesa com os dedos. acrescida de novos detalhes colhidos nas conversações com este e com Tchang. o seu problema. Só uma coisa omitiu.

à caça de estrangeiros. — Então você me julga louco? — disse Conway afinal. parece-me que não vale a pena discutir. Se a coisa parasse aí. . . . . . depois de uma história como esta? Quer dizer. . que outra coisa poderia dizer.homens se encararam com sentimentos bem diversos: Conway alheado e desapontado. bem. a sua teoria de que esta gente daqui enviou alguém a vaguear pelo mundo. mas quando você a prende a toda aquela série de detalhes abso220 . . Finalmente Mallinson respondeu: — Olhe. . Mallinson num violento e inquieto mal-estar. o que vou dizer é um pouco forte. . não direi que isso seja de todo impossível. mas não vejo como uma pessoa de juízo são possa ter dúvidas a respeito. . — Acha que é absurdo? — Pois que nome daria você a isso? Desculpe-me. e que esse sujeito fez curso de piloto e ficou à espera de que um aparelho apropriado aos seus intuitos deixasse Baskul com quatro passageiros. Mallinson desatou num riso nervoso. Na verdade. que o outro aceitou. por obra de um lunático que preparou cuidadosamente o plano de fuga num aeroplano e voou milhas por mera brincadeira? Conway ofereceu um cigarro. — Bem. — Então continua acreditando que viemos ter aqui devido a um simples acaso. Conway. ora. não convém discutir isso ponto por ponto. poderia ser digna de consideração. A pausa que se seguiu pareceu ser do agrado de ambos. . A expressão e a voz de Conway eram de imenso assombro. . um absurdo tão evidente. com franqueza. embora me pareça ridiculamente forçado.

Mallinson riu outra vez. e calefação interna. mas deve ter verificado com os seus próprios olhos que este lugar também é extraordinário. — Olhe aqui. — Bem. . Tudo isto é realmente maravilhoso.lutamente impossíveis. . . só porque eles o dizem. Conway. Sem dúvida é uma história extraordinária. e encanamentos modernos. e isso não me admira. . Arrume as suas coisas e vamos. então? — Confesso que não posso fazer idéia. Pense em tudo o que até agora vimos: um vale perdido entre montanhas inexploradas. . um mosteiro com uma biblioteca de livros europeus. — Que vida? 221 . não é de estranhar que ache difícil acreditar nisso. . e que descobriram uma espécie de elixir da juventude ou coisa que o valha. Mas isso não é motivo para aceitar histórias que são materialmente impossíveis. — Oh! sim. Não me recordo bem. diante de um bom jantar no Maiden. Talvez eu mesmo tenha duvidado no princípio. eu sei. este lugar afetou-lhe os nervos. . Conway sorriu. Acreditar em banhos quentes que a gente toma é muito diferente de acreditar na existência de homens com mais de duzentos anos. e como o explica. . Terminaremos esta discussão daqui a um mês ou dois. . — Sim. isso simplesmente me faz perguntar aos meus botões que sorte de micróbio o mordeu. e chá da tarde. É um completo mistério. . ainda contrafeito. bem. Conway respondeu tranqüilamente: — Não tenho nenhum desejo de voltar a essa vida. eis tudo. isso de os lamas terem centenas de anos de idade. e tudo mais.

Quedou-se Conway sozinho à luz das lanternas. e você não tem! Preveniram-me antes que eu me juntasse a você em Baskul. — A Lo-Tsen? — Sim. Apertaram-se as mãos e Mallinson afastou-se. mas agora vejo que tinham razão. Não o estou censurando por isso. não vem conosco? — Não posso. — Está louco. . Conway ergueu-se e estendeu a mão. Conway! Sei que sempre foi calmo e eu sou irritável.. Oh. mas tenho de ir. Sei que não tem culpa. e que desde então fica tresloucado às vezes. e mais o que se segue. de acordo com uma frase gravada na memória. Jantares. e eu pensei que se enganavam. — Pela última vez. Pareceu-lhe. bailes. e Deus sabe o que me custa falar assim.— A vida em que você está pensando. mas com tudo isso tenho o juízo perfeito. pólo.. Dei a minha palavra. essa é a verdade. — Adeus. despedindo chispas pelos olhos. exasperado. então. vou-me embora! Tudo isto é horrível e desalentador. que há de mal nisso? Quer dizer que não pretende vir comigo? Prefere ficar aqui como os outros dois? Mas pelo menos não há de impedir que eu me safe o quanto antes! Mallinson deitou fora o cigarro e enveredou em direção à porta. — Mas eu não falei em bailes nem em pólo! Em todo caso. Mallinson. . já que deseja saber. 222 . . — Você está fora do juízo! — gritou. — Adeus. — De que o preveniram? — Disseram-me que você foi atingido por uma explosão de granada durante a guerra. .

como tratando de se dominar. vendo-o ali. que os dois mundos afinal eram irreconciliáveis e que um deles. Faltavam dez minutos para as três. . . . se fossem verdadeiras as histórias incríveis que você me contou. fumando o último cigarro. — Aquele lugar em que fomos amarrados. não acha? Abateu-se por completo. Sobreveio-lhe uma crise de nervos e por fim. Nunca serão ameaçados por terra. .. depois de tê-lo Conway acalmado.. Tirou a pesada capa de pele de ovelha e sentou-se. quanto eu daria para voar por cima disto com uma carga de bombas! — Por que desejaria fazer isso. lembra-se? Cheguei até lá. Estava ainda junto à mesa. quando Mallinson voltou. Tinha o rosto cor de cinza e todo o seu corpo tremia. e ao luar aquilo é medonho. Estava calado. Mallinson? — Porque este lugar precisa ser destruído. seja ele o que for. olhou o relógio. seria mais odioso ainda! Dúzias de velhos encarquilhados. agachados aqui como aranhas à espreita do primeiro que lhes 223 . que aconteceu? Por que voltou? A pergunta tão natural fez com que Mallinson desse alguns passos à frente. estava suspenso por um fio. O rapaz entrou tomado de certa emoção e. Depois de meditar por algum tempo. e depois de esperar um momento Conway começou: — Olá. permaneceu na sombra. meu Deus. mas não pude continuar! Não tenho cabeça para as alturas. — Não tive ânimo! — exclamou. Mas. É um lugar sórdido e nefasto. e. Estúpido. acrescentou: — Não precisam preocupar-se estes sujeitos daqui . como sempre.que as coisas mais belas eram transitórias e perecíveis. quase soluçando.

Conway? Detesto implorar-lhe a minha própria salvação. . mas estou disposto a discuti-lo se da discussão lhe resultar algum bem. . se tem metade da idade que você diz. Mallinson teve um riso áspero. não merece ser levada em conta? — Lo-Tsen não é jovem — disse Conway. ela veio para cá em 1884. Oh! por que não quer vir comigo. mas você me vai dizer com certeza que ela anda pelos noventa. já é tempo de alguém livrálo dessa miséria. Ela é jovem. não é jovem! Absolutamente! Parece ter uns dezessete anos. É uma coisa frágil que só pode viver onde as coisas frágeis são amadas. como se haurisse confiança nos seus pensamentos. — Mallinson. . — Oh! não. é asqueroso! E afinal quem desejaria viver tanto assim? E quanto ao seu rico Lama Superior. homem! — Sua beleza. Conway. que diabo. como toda beleza no mundo. . desejo ajudá-lo. Mallinson. Sei que tudo isso é puro disparate. e não em qualquer outro lugar. então. jaz à mercê daqueles que não lhe sabem dar o devido valor. Farei de conta que se trata de coisas possíveis e que requerem exame. . mas. Aqui é que ela é apenas uma miragem. Seria melhor que deixássemos de lado o poético e descêssemos à realidade. Tire-a deste vale e vê-la-á desvanecer-se como uma miragem. sou moço e temos sido tão bons amigos! Minha vida nada vale então para você comparada com as patranhas dessas criaturas hediondas? E Lo-Tsen. Mallinson alçou os olhos e pôs-se a rir histericamente. Agora diga-me seria 224 . — Não receio tal coisa. . bem conservados.passe perto. — Você está delirando. Fez uma pausa e acrescentou: — Mas esta conversa não resolve nada.

que Briac tocara. mas. este é um assunto que não me diz nada. é verdade.mente: que provas tem da veracidade da história que me contou ? Conway permaneceu calado. — Então por que acreditar na versão de um outro? E toda essa fábula de longevidade. e que você tivesse conhecido a vida inteira. . Viu-a por acaso. ou provou-a? Porventura alguém lhe apresentou algum fato positivo que demonstrasse a sua eficácia? — Não em detalhe. Lo-Tsen lhe contou alguma vez a sua vida? — Não. — Bem. — E você nunca pediu detalhes? Não lhe ocorreu que semelhante coisa exigia confirmação? Engoliu tudo sem pestanejar? 225 . Em que consiste ele? Você disse que se trata de uma certa droga. pode apresentar algum fato que venha em seu apoio? Conway refletiu por um momento e mencionou as composições inéditas de Chopin. — Apenas a palavra de quem lhe impingiu essa fantástica conversa fiada. E que provas tem no caso presente? Absolutamente nenhuma. . . mesmo que fossem autênticas. Mas. Ainda que se tratasse de uma pessoa merecedora de toda a confiança. pois não conheço música. que eu veja. não aceitaria tais coisas sem prova. conservação da juventude. Mas eu quero saber que droga é. . não seria possível que ele as tivesse ouvido de alguém. . e tal e coisa. sem que essa história seja verdadeira? — Perfeitamente possível. . . sem dúvida. . — E esse método que você diz existir.

Mallinson continuou: — Que sabe de positivo acerca deste lugar. que me enforquem se vejo alguma coisa de agradável em continuar vivendo quando já se está meio morto! Antes uma vida curta. suponho. além do que lhe disseram? Falou com meia dúzia de velhos. negar aprovação a um argumento bem apresentado. E isso duma guerra futura me parece muito fantasioso. prosseguiu: — Como quer que seja. Quem poderá saber quando vai dar-se a próxima guerra e como será ela? Por acaso não se enganaram todos os profetas da última guerra? Calou-se à espera de uma resposta. não fazemos a menor idéia. eis tudo. todos nós nos inclinamos para aquilo que mais nos agrada. ainda que fossem. mas. Embora a sua percepção fosse mais profunda. A verdade. não compreendo como aceita tudo sem hesitar. não podia. Também é um mistério o motivo por que nos querem prender aqui. Mallinson. é que quando se trata de acreditar nas coisas sem provas reais. mas alegre. não acredito que essas coisas sejam inevitáveis. Fora disso. Francamente. só podemos dizer que o lugar está bem aparelhado e reina aqui certa atmosfera de cultura. tirando proveito da sua vantagem. Agora.E. homem. — Arre. — A observação é fina. mesmo num mosteiro inglês. não vejo razão pa226 . só porque está no Tibete! Conway moveu a cabeça em sinal de assentimento. se é que têm essa intenção. você é uma pessoa dotada de senso crítico! Não acreditaria em qualquer coisa que lhe dissessem. E. quanto a saber como e por que isso veio a ter existência. como esta não viesse. Mas por certo isso não é razão para dar crédito à primeira lenda que lhe contam! Afinal.

Só Deus sabe se eu me portaria como um valente numa guerra. mas. — Mallinson. Conway acrescentou: 227 . você tem a soberba habilidade de não me entender. Mallinson respondeu com alguma tristeza: — É ridículo falar assim. e é provável que tenha razão. depois de tantos embates. . mas não deixará de merecer o crédito daqueles que me consideram louco. Pode estar certo disso. quando voltar à Índia. — Não me parece absurdo. mas preferiria enfrentá-la a sepultar-me vivo neste lugar. mas não posso evitar meus sentimentos. que Conway afinal quebrou dizendo: — Há uma pergunta que desejava fazer-lhe. — Penso que estou. Não sei se me perdoará. naturalmente. isso não tenha importância para mim. Se quiser pode dizer a toda gente. Sim. . Conway sorriu. não poderei ajudá-lo? Que é preciso que eu diga ou faça? Seguiu-se um longo silêncio. A discussão parecia navegar agora em águas mais tranqüilas. Agora me considera um covarde. Quando estávamos em Baskul tomava-me por um herói. eu o desejo! Conway. Não é esse em absoluto o motivo. mas desejaria entender. Sei que você qualificará isso de absurdo e inconcebível.ra nos pormos a tremer de susto. A verdade é que não sou nem uma nem outra coisa — embora. Aconteça o que acontecer. que resolvi ficar num mosteiro tibetano porque tenho medo de outra guerra. de modo algum. mas é terrivelmente íntima. jamais direi uma palavra contra você. Reconheço que não o entendo. — O que é? — Está apaixonado por Lo-Tsen? A palidez do rapaz cedeu lugar rapidamente a um vivo rubor.

— E ela é jovem. .. Receio que você nunca a tenha compreendido bem. .. . Sentiu então que um sonho se havia desvanecido. — Porque sei.. como todas as coisas demasiado belas. . Eu tinha imensa pena dela e creio que nos sentíamos atraídos um pelo outro. num ímpeto repentino: — Oh! como é estúpido dizer que ela não é jovem! Estúpido e abominável. devido a este ambiente que lhe gelou todo o ardor. ao primeiro contato da realidade. Conway. acho que jamais aconteceu coisa mais decente. Não vejo por que me envergonhar disso. A lua vogava no alto. embora isto possa parecer-lhe singular. Ela era fria na aparência. Dirigiu-se Conway para a sacada e pôs-se a contemplar o deslumbrante penacho do Karakal. Conway. é uma simples menina.. — Pronto para ser reavivado? — Sim. que no entanto prosseguiu. sim. Mas o ardor existia. — Já dissemos tudo o que podíamos. está seguro disso? Mallinson respondeu suavemente: — Meu Deus. você não pode acreditar nisso! Pois não vê que é uma coisa ridícula? Como será isso possível? — Como pode você saber que ela é realmente jovem? Mallinson desviou parcialmente o rosto. Mallinson. . Mesmo num lugar como este. com uma expressão de timidez grave. sobre um mar sem ondas. . se quer exprimir-se desse modo. .— Eu também não posso evitar os meus sentimentos. e que todo o futuro 228 . Ergueu-se abruptamente e entrou a passear pela sala. não é verdade? — Suponho que sim — respondeu Mallinson. mas eu sei. Talvez venha a me estimar menos por causa disto. . Sucede que você e essa moça são as duas pessoas por quem mais me interesso no mundo.

enquanto Mallinson não cessava de pairar sobre a viagem — embora ele mal ouvisse. — Você vem. viu os corredores de sua imaginação torcerem-se e retesarem-se sob o impacto. Sua voz estava mais viva. depois de um período de lucidez. no mesmo instante em que se enchia de ânimo. ou se. e o rosto se lhe crispava de leve. Porque. Como era estranho que aquela longa discussão conduzisse a tal resulta229 . os pavilhões desmoronavam. refletiu Conway. Não houve nenhum incidente quando atravessaram os pátios raiados de luar e sombra. encarou Mallinson com uma nova súbita energia. Foi surpreendentemente simples: uma partida e não uma fuga. Pronto para a ação. tornara a enlouquecer. Quando voltou para dentro da sala. então? Resolveu-se afinal? Puseram-se a caminho logo que Conway terminou os preparativos para a jornada. e que esse mundo também estava em perigo. mas mergulhara numa perplexidade infinita e tocada de tristeza. E a idéia desse vazio imediatamente lhe tornou vazio o espírito. se eu for com você? Mallinson correu para ele. Não sabia se estivera louco e acabava de recobrar a razão.do mundo pesa tanto como o ar em confronto com a mocidade e o amor. — Conway! — exclamou em voz sufocada. — Acha que conseguirá vencer o precipício. que o seu espírito habitava um mundo próprio — Shangri-Lá — em miniatura. Compreendeu. tudo se ia reduzir a escombros. além disto. já não era o mesmo. Parecia-se muito mais com o herói de Baskul. amarrado com uma corda. Não se sentia de todo infeliz. Dir-se-ia que tudo aquilo estava deserto. quase brusca.

só sentia uma coisa: gostava de Mallinson e tinha de ajudá-lo. flutuando na bruma. Era esse pequeno fragmento ativo que predominava agora. Talvez imagine o que eu sinto. tinha-se resolvido — mas apenas o fizera com a parte que restava do seu espírito. arquejantes. Mas por ora. não só por mim como tam230 . . — No seu lugar eu não o tentaria. naquele vácuo interior que se fazia cada vez mais profundo. menos de meia hora depois faziam alto. Após uma longa pausa. . — Conway. devo dizer que você foi admirável. Era o momento de dizer adeus. terminada a provação. Abaixo deles. Mallinson. . como dissera o rapaz. . e antes que recomeçassem a jornada. numa curva da subida e contemplavam Shangri-Lá pela última vez. Para diante! Conway sorriu. estava condenado a fugir da sabedoria e ser um herói. mas Conway fê-lo passar à maneira tradicional dos alpinistas e. O resto abrangia um vazio quase intolerável. . vamos indo às mil maravilhas. então.do e que o secreto refúgio estivesse sendo abandonado por quem encontrara nele a sonhada felicidade! Com efeito. Não lhe posso exprimir a minha alegria. exclamou numa arfada: — Amigo velho. O precipício punha Mallinson nervoso. Na verdade. . a quem o esforço da ascensão fizera guardar silêncio. detiveram-se para acender cigarros trazidos por Mallinson. no abismo. e continuaria sempre perdido. como milhões de outros. Mallinson acrescentou: — Mas estou contente. Era um homem perdido entre dois mundos. o vale da Lua Azul era como uma nuvem e afigurou-se a Conway que os telhados esparsos o seguiam. . Ele. sem responder. Estava já preparando a corda para a perigosa escalada. .

sem serem incomodados por sentinelas — se é que as havia ali. . varrida pelos ventos rugidores. quando se encontraram com Lo-Tsen. Amanhecia quando atravessaram a linha divisória. na fronteira da China. — Absolutamente — replicou Conway. saboreando a sua ironia secreta. Tal como havia predito Mallinson. Após descerem um pouco. Ocorreu a Conway que o caminho. Pouco depois atingiram a planura. . mas os seus olhares eram todos para o rapaz. . . .bém por você. de acordo com a norma de Shangri-Lá. — Ele vai conosco — gritou Mallinson. acocorados para se defenderem das rajadas e ansiosos por iniciar a jornada rumo a Tatsien-Fu — mil e cem milhas para leste. 231 . É simplesmente maravilhoso vê-lo voltar à sua verdadeira personalidade. Esquecia-se de que ela não entendia inglês. que se apresentava limpa como um osso. indivíduos robustos vestidos de peles e couro de ovelha. devia ser vigiado com moderação. É esplêndido que você compreenda agora que tudo aquilo era pura tolice. avistaram o acampamento dos carregadores. excitado. Teve um sorriso encantador para ele. mas Conway traduziu. encontraram os homens à sua espera. . Pareceu-lhe que a pequena manchu nunca estivera tão radiante.

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EPÍLOGO .

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o público fica na ignorância disto e ele aufere todas as vantagens da primeira impressão. A viagem de Rutherford. Tomamos um táxi para percorrer as áridas milhas que separam a natureza morta de Lutyens1 desse vivo e palpitante cinematógrafo que é a Velha Delhi. do T. quando os lacaios de turbante nos entregaram os chapéus. tal como a narrava a imprensa. mas a distância e o cerimonial nos mantiveram isolados um do outro até o momento da saída. na segunda década deste século. embora o explorador tenha o cuidado de não fazer nada verdadeiramente original. Era a sua uma dessas reputações bem cultivadas que de quase tudo extraem proveito. As cidades soterradas de Khotan não apresentavam novidade alguma para quem se recorde de Stein e Sven Hedin.) 1 235 . (N. Sir Edwin Lutyens. pelos jornais. por exemplo. Era eu bastante íntimo de Rutherford para caçoar com ele a esse respeito. — Venha até o meu hotel e beberemos um trago — convidou ele. Qualquer passeio fora do comum toma as proporções de uma exploração. não me parecia de molde a fazer época. dirigiu a construção de Nova Delhi. Eu sabia. arquiteto inglês que. que ele voltara recentemente a Kashgar.Foi em Delhi que tornei a encontrar Rutherford. Riu-se. Tomávamos parte num jantar do vice-rei. e.

Minha memória é boa e 236 . até. onde correria o risco de topar com funcionários ingleses. muito menos expressões minhas do que pensa. — Dou-lhe a minha palavra de honra que sim. é claro. — Desejaria saber a sua impressão. Há ali. — Julgava que talvez fosse mais fácil ir em busca do vale da Lua Azul? — Sim. contanto. — Então você andou à procura de Conway? — insinuei quando o momento me pareceu propício. queria devolvê-los. começamos a beber uísque.— Sim. Chegados ao seu quarto no hotel. o rastro se perde lá pelo Alto Sião. — Não é possível procurar-se um homem num país tão grande como a metade da Europa. . Em sua última carta. mas é claro que eu não esperava ir muito longe por esse lado. que a história se baseie estritamente no que lhe referiu Conway. Não inventei absolutamente nada. Com certeza você passou os olhos por aqueles meus originais. Até certa altura encontrei vestígios da sua passagem no interior do país. Não creio que pretendesse entrar na Birmânia. como deve lembrar-se. — Procura é palavra demasiado forte no caso — tornou ele. falava em partir de Bancoc para noroeste. Rutherford sacudiu a cabeça. a verdade daria uma reportagem muito melhor — respondeu com ar de mistério. Tudo o que posso dizer é que visitei lugares onde havia probabilidade de encontrá-lo ou ter notícias dele. na fronteira chinesa. parecia pelo menos um objetivo mais definido. e na minha opinião ele tomou o rumo da região habitada pelas tribos. — Muito mais do que isso! A propósito. — Muito notável. . mas ignorava o seu endereço. Seja como for.

lenda ou como quer que lhe agrade chamá-lo. como queira. como sabe. sem falar na possibilidade de encontrá-lo a ele próprio. conjeturas. vejo que terei de discorrer sozinho. Tudo mais são probabilidades. não cheguei a pôr os pés no Tibete. — Pois. Mas é uma área bem extensa. e em algum ponto dentro da área compreendida por eles jaz o mistério. se deseja os fatos positivos que pude averiguar no tocante à aventura de Conway. Deve julgar-me um pouco crédulo. Kashgar. — Se isso é tudo o que tem a dizer. Bancoc. . A gente do governo não queria falar nisso. Não esqueça que nós tínhamos conversado durante vinte e quatro horas. achei deveras notável.Conway sempre teve um modo especial de descrever. Acendeu um charuto e prosseguiu: — Isso me exigiu uma série de curiosas viagens. e todas as minhas investigações não foram além da sua orla — ou da orla do mistério. quase sem interrupção. A história de Conway interessou-me em mais de um sentido e por isso tratei de comprová-la na medida do possível. Devo ter percorrido um total de vários milhares de milhas: Baskul. E a última coisa que sabemos dele é que tornou a partir de Bancoc em 3 de fevereiro. mas não creio realmente que eu o seja. como lhe disse. Chung-Kiang. A gente comete erros na vida por acreditar demasiado. só lhe poderei dizer que ele deixou Baskul em 20 de maio e chegou a Chung-Kiang em 5 de outubro. mito. Por muito 237 . — Então não descobriu nada no Tibete? — Meu caro amigo. mas também levaria a mais aborrecida das existências se acreditasse demasiado pouco. Rutherford reclinou-se e sorriu. Na verdade. Visitei iodos esses lugares. mas gosto dessas coisas e meus editores não podem rejeitar um livro de viagens de vez em quando. . possibilidades.

mas são terrivelmente altas e não vêm nos mapas. num dia muito claro. ao ouvir a história de Conway. mas achava pouco provável — do ponto de vista geológico. Cheguei a vê-los a distância. disse ele. Recordo-me de que. A verdade é que sabiam o que estavam fazendo. em vez de irem embora sem eles. Penso que deve ser a cadeia de montanhas menos conhecida do mundo.favor dão licença para uma expedição ao Everest. mas na sua opinião não tinha nenhum fundamento. conduzida por um homem que conhecesse alguma coisa do idioma nativo. Há passagens. Respondeu que impossível não era. Indaguei então se ouvira falar numa montanha de forma cônica. Seria necessário organizar uma expedição completa. eu perguntava a mim mesmo por que faziam tanta questão de esperar pelos carregadores. Não tardei muito a descobrir o motivo. Perguntei-lhe se achava possível que existisse um vale como o que Conway me havia descrito. pelo menos. mas era extraordinário o pouco que sabiam. talvez umas cinqüenta milhas. Em Yarkand e Kashgar interroguei a respeito deles toda a gente que encontrava. Não são muitos os europeus que podem dizer o mesmo. quase tão alta quanto o mais elevado pico dos Himalaias. Acrescentou que corriam 238 . Tive a sorte de encontrar um viajante americano que tentara atravessá-la. A gente do governo tinha inteira razão: todos os passaportes do mundo não me fariam atravessar os KuenLuns. mas não encontrara passagem. e quando manifestei vontade de viajar pelos Kuen-Luns por conta própria eles me encararam como se eu sugerisse a idéia de escrever uma vida de Ghandi. Um giro pelo Tibete não é coisa para um homem só. e sua resposta me intrigou. — São tão inacessíveis assim? — Pareciam uma frisa branca no horizonte. Contou que existia uma lenda sobre tal montanha. nada mais.

pois estivera no país várias vezes.até certos rumores a respeito de montanhas mais altas do que o Everest. entretanto. mas suspeitava de que se tratasse de coisas já sabidas. quando não morriam de alguma doença asquerosa. dessas que se encontram em qualquer livro. e os monges que neles vivem são em geral corruptos e imundos. 'à beira de um lago gelado. Enchi-me então de audácia e lhe perguntei se não ouvira lendas sobre casos de extrema longevidade entre os lamas. Ajuntou. sob uma temperatura inferior a zero e fustigados por um vento terrível. Dizem que algumas dessas nojentas criaturas têm vivido cem anos metidas numa cela. respondeu. enquanto os criados que239 . " 'Duvido que haja algum pico nos Kuen-Luns com mais de vinte e cinco mil pés de altura'. mas é claro que a gente não pode pedir certidão de idade. 'É desse gênero de histórias que se ouvem por toda parte. Assegurou-me que são lugares nada atraentes. inteiramente nus. perguntei. dizia. " 'Quantidade delas'. " 'Vivem muitos anos?'. Fezme as descrições de costume. disse ele. " 'Vi-os sentados'. que muitas vezes alcançam idade avançada. que os lamas parecem dispor de estranhos poderes de domínio sobre o corpo.' "Perguntei-lhe se pensava que eles conheciam algum processo medicinal ou oculto para prolongar a vida e preservar a juventude. sem que ninguém possa comprová-las. "Respondeu-me que sim. mas que não lhes dava crédito. "Em seguida lhe perguntei o que sabia dos conventos lamaicos do Tibete. Disse que passavam por possuir grande soma de conhecimentos curiosos acerca de tal assunto. e certamente têm aspecto disso. Mas admitiu que nunca se tinham feito medições apropriadas.

' " Rutherford serviu-se de mais bebida. lamas secam os lençóis no próprio corpo. Admiti que por certo isso não provava nada e perguntei se os nomes "Karakal" e "Shangri-Lá" eram conhecidos do americano. Fazem isso umas doze vezes ou mais. Mencionei-lhos. Num lugar próximo aos Kuen-Luns encontrou esse homem. . Respondi mesmo certa ocasião. respondeu. como admitia o meu amigo americano. Serve simplesmente para mostrar que os lamas têm gostos selvagens em matéria de autodisciplina.' "Insisti por mais detalhes e ele mos deu. e depois de o ter interrogado por algum tempo ele disse: " 'Francamente. na companhia de vários colegas. — Mas naturalmente. — De nenhum modo. Supõe-se que conservem o calor pela simples força de vontade. " 'Oh! há muito tempo'. De modo que ficamos apenas nisso e você há de reconhecer que os elementos de prova. e os. que antes me desviaria do meu caminho para evitálos do que para lhes fazer visita'. — uma expedição completa. Parece que estava viajando por conta de alguma sociedade geográfica do seu país. carregadores. tão completos quanto podia recordar. "Esta observação fortuita me provocou uma idéia singular e perguntei-lhe quando ocorrera esse encontro no Tibete. embora essa explicação seja pouco convincente. um chinês que era conduzido nu240 . eram extremamente exíguos.bravam o gelo para mergulhar lençóis na água e os envolverem neles. a um sujeito que encontrei no Tibete. nada disso tem muito que ver com a longevidade. etc. não me atraem os mosteiros. se não me engano. . enfim. 'antes da guerra. por enquanto. em 1911.

não deixa de ser assombroso o desaparecimento completo de Bryant no meio de todo aquele barulho.ma liteira por homens da terra. que se tratava de um aparelho adaptado a grandes alturas. Afinal. — Perfeitamente. Verifiquei. — Em Baskul nada e em Peshawar menos ainda. Também procurei descobrir o rastro desse tal Barnard." Rutherford fez uma pausa e continuou: — Não quero dizer que isto tenha muito peso. a não ser que o roubo do avião era autêntico. O sujeito mostrou falar excelente inglês e recomendou-lhes com calor que visitassem certo mosteiro lamaico das vizinhanças. — Sim. E mesmo isto admitiam a contragosto. — Fez indagações a respeito do rapto? 241 . não vejo como eles poderiam ser retidos no mosteiro contra a sua vontade. e mesmo que uma expedição tão bem aparelhada tivesse aceito o convite. não se pode esperar daí muita coisa. E depois. — E não tiveram mais notícias do avião? — Nem uma palavra. Ninguém me soube dizer coisa alguma. mas o assunto parecia demasiado nebuloso para o discutirmos e passei a indagar se ele nada havia descoberto em Baskul. e isso foi tudo. Quanto aos quatro passageiros. pois era um episódio de que não se orgulhavam. Quando alguém procura recordar um incidente casual acontecido vinte anos antes. a mesma coisa. O americano respondeu que não tinha tempo nem tampouco interesse. talvez não se tratasse de Shangri-Lá. Refletimos sobre isto. mas achei tão misterioso o seu passado que não me surpreenderia se ele fosse realmente Chalmers Bryant. Mas em todo caso dá margem a interessantes especulações. entretanto. oferecendo-se até para servir de guia.

Isto de modo algum prova que toda a história seja verdadeira. isso não prove que tal aluno não existisse. mas tivera como alunos cerca de cinqüenta chineses. — Céus! Um dos nomes que Conway mencionou! — Sim. Mas o fato é que fiz uma descoberta bastante curiosa — aliás. não tive muita sorte. . . e dizia-se que morrera afogado ao vadear um rio. embora possa ser mera coincidência. Como vê. perguntando se nos últimos tempos tivera entre os seus alunos algum tibetano. O aviador que ele pôs em nocaute e por quem se fez passar morreu posteriormente. Não encontrei nenhuma referência a um aluno de Chopin chamado Briac. Conway fez muita economia de nomes. que se preparavam para lutar contra os japoneses. Nada de extraordinário nisso. foi decepcionante. — Procurou a242 . Foi igualmente impossível descobrir qualquer vestígio de Perrault e Henschell. que não demorou. — Sim. Escreveu ele que não sabia distinguir entre tibetanos e chineses. Havia em Iena nos meados do século passado um professor alemão que saiu a correr mundo e visitou o Tibete em 1887. embora. e assim se perdeu uma promissora linha de investigação. Cheguei a escrever a um amigo que dirige uma escola de aviação nos Estados Unidos. mas a resposta. . Nunca mais voltou. — Não pôde encontrar algum rasto dos outros? — Não. Chamava-se Friedrich Meister. . não seria preciso sair da Inglaterra para isso. porque o professor de Iena nasceu em 1845. mas também sem resultado.— Fiz. naturalmente. Foi pena que não dispusesse de uma lista maior. — Mas é singular — disse eu. e entre uns cinqüenta lamas que deviam viver lá só mencionou um ou dois. bastante singular. — E sobre Mallinson? — perguntei.

Isto. note bem. meu caro. uma vez que os lamas deviam cercar de mistério os seus métodos de importação. não queria dizer nada. que você deve ter constatado pelo manuscrito. mas as minhas indagações em lugares como Xangai e Pequim foram pura perda. É provável que jamais saibamos exatamente o que aconteceu. que tivessem passado a fronteira do Tibete. Em primeiro lugar. uma espécie de mercado do fim do mundo. Já as dificuldades da jornada eram simplesmente aterradoras. voltamos aos fatos concretos quando chegamos a Chung243 . nada de nada! — De modo que continua sem explicação a maneira como Conway alcançou Chung-Kiang? — A única conclusão a tirar é que ele foi ter lá como poderia ter ido a qualquer outra parte. Encontrei uma população bastante educada e cortês. e onde os cules chineses que vêm de Yunnan passam aos tibetanos os seus carregamentos de chá. a chinesa? — Claro que sim. Não pôde ou não quis dizer o que aconteceu depois — mas talvez mo tivesse contado. procurei descobrir vestígios de grandes encomendas de livros e outros objetos. É um estranho lugar.veriguar o que foi feito dele? E aquela moça. Em todo caso. quanto a Conway e os seus companheiros. mas. sem falar nos riscos de serem assaltados por bandoleiros ou traídos pelos próprios homens que os escoltavam. entretanto. Creio que podemos admitir uma tragédia. mas parece certo que Mallinson não logrou atingir a China. Fiz toda sorte de averiguações. de acesso difícil como o diabo. Fiz depois uma tentativa em Tatsien-Fu. Você poderá ler acerca dessa viagem no meu próximo livro. São raros os europeus que vão até lá. O que tornava difícil a pesquisa era o fato. se houvéssemos permanecido mais tempo juntos. de terminar a narrativa de Conway no momento em que deixaram o vale na companhia dos carregadores.

é um problema de cálculo de probabilidades. em muitos sentidos. sobretudo porque naquela ocasião tinham estado muito ocupados com uma febre epidêmica. e isto já é alguma coisa. e finalmente ele continuou: — Mas há ainda um pormenor a que devo referirme. como se esperasse um comentário. e talvez. . quando Conway tocou as supostas composições de Chopin. No entanto. Falamos por algum tempo sobre a guerra e seus efeitos em diversas pessoas. arranhões houve — na alma. fora 244 . É claro que. — Sim. . Às freiras do hospital da missão eram bem reais. Rutherford fez uma pausa e depois acrescentou. Muita gente há de dizer que ele saiu sem um arranhão. é inegável que mudou — respondeu Rutherford. — Não se pode sujeitar um rapaz novo a três anos de forte tensão física e emocional sem que alguma coisa se rompa dentro dele. se não aceitarmos a história de Conway. Uma das questões que procurei esclarecer desde logo foi o modo como Conway havia chegado ao hospital — se se apresentara por si mesmo ou se. Fez nova pausa.Kiang. Veio-me ao conhecimento quando fazia indagações no hospital da missão. e também o era o espanto de Sieveking no navio. e eu repliquei: — Como sabe. não tornei a vê-lo depois da guerra. como deve supor. o mais estranho de todos. pesando as palavras: — Na verdade. e devo dizer que os pratos não se inclinam convincentemente para nenhum lado. mas ouvi dizer que mudou muito. tendo sido encontrado doente. teremos de pôr em dúvida — sejamos francos — a sua veracidade ou a sua sanidade mental. Todos fizeram o possível para me auxiliar. mas não podiam recordar muita coisa.

trazido ali por alguma pessoa. sim. de modo que me informei sobre o seu endereço e fui até lá. quando eu já ia desistir do interrogatório. 'lembro-me do caso daquele inglês que perdeu a memória. 'salvo que ela também estava atacada de febre e veio a morrer quase em seguida . perguntei. uma das freiras observou incidentalmente que "parecia ter ouvido do doutor que ele fora trazido por uma mulher". Soube que esse doutor se transferira para um hospital mais importante. acredite-me. por uma mulher. Já conhecia esse médico. fazia tanto tempo! —. " 'Sim. com quem travara relações durante minha primeira visita a Chung-Kiang. mas naquele momento estava terrivelmente ocupado — sim.' " 'Lembra-se de alguma coisa a respeito dela?' "'Nada'. Foi logo depois dos reides aéreos dos japoneses e o aspecto da cidade era sinistro. respondeu. "Nesse instante houve uma interrupção. Não se lembravam bem — afinal de contas. em Xangai. nenhuma confirmação era possível obter no momento. tendo eu já chegado tão longe. "'Oh! sim'. Trouxeram um grupo de feridos e as padiolas atravancaram os corredores. Eu não podia tomar o tempo do homem. comparados com o que os nipônicos fizeram nas zonas nativas de Xangai. terrivelmente é a palavra porque. pois as enfermarias já estavam repletas. é claro que não estava disposto a suspender minhas investigações. disse sem hesitar. . e como o doutor já houvesse deixado a missão. os vôos dos alemães sobre Londres nada foram. uma chinesa. Foi muito polido. Era tudo o que me podia dizer. tanto mais que troavam os 245 . na intenção de me avistar com ele. Mas.' " 'É verdade que ele foi trazido ao hospital da missão por uma mulher?'. . mas de repente.

" 'E essa mulher chinesa'. com uma expressão animada apesar de todos aqueles horrores.portaldocriador. só lhe fiz uma derradeira pergunta. disse eu. juvenil. que você com certeza adivinha qual fosse.canhões em Woosung. Depois continuou: — O doutorzinho olhou-me por um momento com ar solene e então respondeu. como se a narrativa o tivesse excitado tanto quanto esperava fazê-lo a mim.com. 'era jovem?' " Rutherford sacudiu nervosamente as cinzas do charuto. — Pensa que ele virá a encontrá-lo um dia? — perguntei. Quando voltou para junto de mim. advertindo-lhe que teria ainda muito que fazer. a mulher mais velha que vi até hoje.br 246 . Oferecimento de: www. sobre a pequena manchu que era "muito velha" e aquele estranho e remoto sonho do vale da Lua Azul. da idade e do espírito. ela era muito velha. nesse inglês comicamente truncado que os chineses educados usam: " 'Oh! não. talentoso e encantador. sobre a guerra que o alterara e sobre muitos mistérios do tempo.' " Permanecemos longo tempo calados e finalmente nos pusemos a falar sobre o Conway que eu conhecera outrora.

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