Horizonte Perdido

James Hilton

Horizonte Perdido
Tradução de Francisco Machado Vila e Leonel Vallandro
Digitalização: Argo, o glorioso

PRÓLOGO

Simpatizava mais com Rutherford: era uma bela evolução do menino frágil e precoce que noutro tempo eu maltratava ou protegia alternativamente. mas mantinha aquela equanimidade que o diplomata deve ter sempre à mão para semelhantes ocasiões. à luz 5 . Wyland era secretário de embaixada e convidara-nos a jantar em Tempelhaf. reunidos numa capital estrangeira.Tinham-se apagado os charutos e começava a apontar em nós aquela espécie de desilusão que de ordinário perturba antigos condiscípulos ao se encontrarem de novo. Dir-se-ia que o único ponto de união que nos ligava uns aos outros era o fato de sermos ingleses celibatários. homens feitos. Rutherford escrevia novelas. Ainda assim. chegara já â conclusão de que nem o tempo nem a Ordem de Vitória tinham apagado em Wyland "Tertius " o leve toque de presunção que lhe conhecera. Não mostrara lá muita alegria. Víamos dali quando aterravam os aparelhos da Lufthansa. vindos de todos os cantos da Europa Central. quanto a mim. e no escurecer. a tarde nada teve de aborrecida. E a única emoção que Wyland e eu sentíamos em comum — uma pontinha de inveja — nascia da idéia de que ele ganhava provavelmente muito mais e devia ter um gênero de vida muito mais interessante do que nós. e descobrirem que já não existe entre eles a mesma afinidade.

observou. porém. sem que ninguém notasse. Não esqueça que eu estava em Baskul. e continuou: — Foi o caso que um afegane. aproveitando o repentino hiato que se abrira na palestra. porém. para falar com alguém que se achava numa mesa próxima. afridi ou o que quer que seja. aquele moço dos que não podem guardar segredos. Que aconteceu lá? Sanders sorriu. a cena tinha um magnífico esplendor de teatro. como pode imaginar. Também. derrubou-o. meio contrafeito: — Oh! referia-me apenas a um fato que provocou alguma excitação. Conheço um pouco o lugar. fugiu com um de nossos aviões. Wyland deixou-nos durante alguns minutos. quando eu me achava no serviço. respondeu. de agradável presença. Riu também Wyland. e Rutherford. e a conversa mudou de rumo. Sanders revelou-se um bom contingente para o nosso pequeno grupo e ajudou-nos a tomar muita cerveja. passando pela nossa mesa com o seu traje completo de aviador. Era. Um dos aviões era inglês e o piloto. nunca vi tamanha desfaçatez! O diabo emboscou-se no caminho do piloto. chamado Sanders. que a principio não o reconheceu. Wyland desculpou-se: era difícil identificar as pessoas sob o traje e o capacete de aviador. e o estranho foi convidado para a nossa roda. Meteu-nos em maus lençóis. Depois vieram as apresentações. Pelas dez horas. tirou-lhe o uniforme e subiu para a direção. rindo: — Sei muito bem disso. Ao que Sanders.dos arcos voltaicos. dirigindo-se a Sanders: — Falou em Baskul. cumprimentou Wyland. Deu ao mecânico as ordens 6 . Era um moço jovial. mas não tão espontaneamente.

não acha? Ainda com o mesmo interesse. O pessoal do Serviço Topográfico Indiano se servira dele para vôos de grande altura em Caxemira. decolou e lá se foi voando em grande estilo. talvez. . Mas o pior é que nunca voltou. Estávamos fazendo evacuar a população civil de Baskul para Peshawar. por causa da revolução. . mas aquele era um aparelho todo especial. Está claro que se o sujeito pertencia a uma tribo nativa. — Um deles não se chamava. — Quando foi isso? — Oh! haverá. — E assim é. construído primitivamente para certo marajá. Conway? Sanders respondeu. com todos os transportes comuns de tropas. Lembra-se. Três homens e uma espécie de missionária. do contrário. que morreram todos. penso que isso não poderia ter acontecido. em maio de trinta e um. Quantos passageiros eram? — Quatro. e tinha um equipamento muito aperfeiçoado. — E diz o senhor que nunca chegou a Peshawar? — Nunca! E também não desceu em parte alguma. não? Estava tudo em polvorosa. . Rutherford observou: — Supunha que nessas ocasiões haveria mais de um homem encarregado de um avião. Há por essa fronteira muitos sítios em que um avião pode despedaçar-se sem que ninguém ouça. Rutherford parecia interessado. aconteceu! Isto prova. que se saiba. por acaso. entretanto. até certo ponto. com a mira no resgate dos passageiros. surpreso: 7 . se não me engano. . Suponho. E é isto o mais estranho do caso. E contudo. um ano.certas. é isso mesmo. — Sim. . que o hábito faz o monge. . poderia ter voado para as montanhas.

Pareceume até que corava. não sei como. sabida em todos os cassinos de oficiais. — Indubitavelmente. . Porque. Como foi isso? Sanders não se sentia agora muito a gosto. já se vê. Não era notícia para ser bem recebida. para não falar nos bazares. 8 . isso talvez já não tenha tanta importância. Conhecia-o? — Andamos na mesma escola — tornou Rutherford. . . Uma dessas notícias que não chamam muita atenção fora do círculo interessado. E. . quero dizer. Bem. Por fim disse: — Lamento que se faça desse caso uma mera anedota. embora dissesse a verdade. — Era. — Era. .— Mas sim. . Era evidente que procurava conciliar os deveres da cortesia com a retidão oficial. . Mas acho que não há mal nisso. . extraordinária. Será novidade velha. . Pareceu sair de um devaneio e disse: — Os jornais não deram a notícia. . . . . não! O governo apenas anunciou a perda de um aparelho. a modo de desculpa: — Estes amigos estavam falando de "Glória " Conway. mencionando os nomes. sim — concordou Rutherford. — Para dizer a verdade — replicou enfim —. A história foi abafada. . Mas que coisa extraordinária. creio que fui mais longe do que devia. contei-lhes a história de Baskul. sentia que não lhe ficava bem fazer esta observação. Naquele momento voltava Wyland e Sanders foi-lhe dizendo. . Wyland. "Glória" Conway. um grande tipo. era um deles. Sim. . meio embaraçado. não é mesmo? Por um momento guardou Wyland um silêncio austero. a maneira como se deu o fato. a julgar pelo que fez em Baskul. senão eu a teria lido.

— A verdade não foi escondida a ninguém que tivesse motivo sério para averiguá-la. e ouvi dizer que tomou parte ativa nela. mas um tanto desleixado. — Foi ferido. E você. quando estava de serviço em Angorá. E contudo. — Gostava dele? — Achei-o inteligente. esteve com ele muitas vezes? — Uma ou duas apenas. Assombrosamente versátil. faziam ponto de honra de não espalhar histórias fora da escola. Sorriu Rutherford à observação e replicou: — Era inteligente. . creio que numa explosão — respondeu 9 . quero dizer. e não sei que mais. Conheceu bem Conway . e raras vezes o encontrei depois. não houve mal nenhum no seu caso. Depois desta censura ao moço. Também o considero o melhor pianista amador que conheço. Mas não há negar que às vezes é necessário cercar de certo mistério os fatos ocorridos na fronteira. Fez parte de uma guarnição de remo e foi figura importante na União — e prêmio disto e daquilo. Fez um curso triunfal na universidade. voltou-se mais amável para Rutherford e continuou: — Certamente. Era muito novo. é daqueles tipos que Jowett teria apontado para futuro primeiro-ministro. homens do ar. até rebentar a guerra. . o fato é que não se ouviu mais falar nele depois que saiu de Oxford. e posso afirmar-lhe isso. Achava-me em Peshawar nessa época.Sempre pensei que vocês. Certamente a guerra lhe veio cercear a carreira. sim. desde os tempos de escola ? — Estivemos pouco tempo juntos em Oxford. — E por outro lado — replicou Rutherford secamente — é natural que se sinta curiosidade de saber a verdade.

Fez boa figura. — Isto explica tudo. ao nos despedirmos. porém. — mas nada de grave. Creio que voltou depois a Oxford. Seus estudos de línguas orientais lhe valeram o lugar com isenção das formalidades preliminares habituais.. Mas foi extraordinariamente bondoso comigo certa ocasião. e. Aquiesci à excelente idéia e ele acrescentou: — Assim poderemos falar de Conway. Sanders. Tinha lá um gabinete e poderíamos conversar. Sei que foi para o Oriente em vinte e um. mas sofrendo em silêncio. Rutherford ergueu-se para sair. não ao diplomático — disse Wyland com ar altivo. após outras pilhérias semelhantes. muito cedo. como uma espécie de explicador. Eu ia tomar um trem transcontinental na manhã seguinte. Na verdade ia ficando tarde.. . Desempenhou diversos cargos.Wyland. Obteve uma condecoração na França. — Ele pertencia ao corpo consular. E quando. ainda que pouco o conhecesse. Rutherford perguntou-me se queria passar a noite no seu hotel. enquanto esperávamos um táxi. a não ser que este assunto o aborreça. — Ele terminou o curso no fim do meu primeiro trimestre e não tornei a vê-lo. O sorriso de Rutherford acentuou-se. Afirmei-lhe que não. se você quiser. eu era um calouro. E a história jamais revelará quanto esplendor foi desperdiçado em decifrar notas do Foreign Office e em servir chá nas recepções da Legação. mostrou-se muito cordial e declarou que esperava tornar a encontrar-se conosco.. Era evidente que não lhe agradavam os motejos. e não 10 . por pouco tempo. era ainda a do decoro oficial ofendido. e eu declarei que também me retirava. então. . A atitude de Wyland. . ele não protestou.

guardavam dele viva recordação. talvez. por ter feito esta observação. . Era um moço notável. Havia nele algo da época de Isabel — a natural versatilidade e bela figura. Era alto e extremamente bem-parecido. aquela colossal presunção. E. e não só se distinguiu nos jogos como arrebatava toda sorte de prêmios escolares. de um Philip Sidney. Qualquer coisa. toda aquela vaidade. poderia sobreviver a ela. mas que nunca esqueci. enfim. é verdade. Tenho aliás observado que outros. . vista a idade em que o conheci — a idade do culto do herói —. aquela efervescente combinação de atividade mental e física. Não posso suportar tal tipo de homem. É possível que algumas pessoas tenham dado esse nome a Conway. Nenhum outro. Pensávamos ambos em alguém que nos interessava muito mais do que seria de esperar. encontrando-o somente por acaso e falando-lhe por um momento. dado o pouco contato que tivéramos com ele. falando um dia dos seus feitos. certamente. Não dou muita atenção a Wyland. Lembro-me de que certa ocasião fez um discurso em grego. e para mim. Não deixava de ser um tanto estranho aquele silêncio. Era extraordinariamente dotado para as representações teatrais. também o apreciava muito. sua lembrança conservou uma nitidez romântica. ouvi de Rutherford: — Sim. — Sim. Um reitor sentimental. E essa mentalidade de 11 . Foi uma coisa trivial. Ficamos alguns minutos calados.havia razão alguma para fazer o que fez. gente como Wyland. e temos para essas criaturas um nome especial e desdenhoso: diletantes. Nossa civilização atual não gera muitos tipos assim. e no entanto conheci-o durante muito pouco tempo. por exemplo. que mal conheceram Conway. classificouos de "gloriosos" e daí se originou a alcunha.

quando a gente as vê pessoalmente. Não. E no entanto. Passei grande parte da vida viajando e sei que há coisas muito esquisitas por esse mundo afora. Dir-se-ia ter-lhe ocorrido de repente que aquilo não me interessava muito. Eu não tinha mencionado minha autoria daquele trabalho técnico (afinal. em que eu não via razão alguma para acreditar — ou antes. uma coisa é certa: não vou revelar o segredo a Wyland. mas ao cabo ele recomeçou: — Seja como for. .prefeito de colégio. Você deve ter adivinhado que eu não sou muito crédulo. se ouvirmos o conto em segunda mão. Disse-lho. Interrompeu-se e depois continuou. Veja você. Foi para mim uma coisa singular ouvir Sanders contar aquele caso de Baskul. . — Talvez eu não mereça. e ele respondeu: 12 . Atravessamos algumas ruas em silêncio. mas não tanto assim. . — A leitura do seu livro não me deu essa impressão. . Agora há duas razões muito insignificantes. não desejaria perder esta reunião. Era parte de uma história muito mais fantástica. . prefiro tentar a sorte com você. é claro. rindo: — Bem. . havia apenas uma razão muito insignificante. não notou? Certas expressões como "apelar para o sentimento de honra "e "espalhar histórias fora da escola"— como se todo o império fosse a quinta classe de um liceu! Por isso mesmo é que vivo a questionar com esses senhores diplomatas. Seria o mesmo que procurar vender um poema épico ao Tit-Bits. . . a neurologia não interessa a todo o mundo) e fiquei agradavelmente surpreendido por saber que Rutherford ouvira falar do livro. eu tinha ouvido falar nisso e não dera muito crédito.

como eu falava um pouco o francês. já no corredor. eu me interessei porque foi justamente a amnésia o mal de Conway. Isto. — Estive na China no outono. e. Não tornou a falar senão depois de estarmos instalados nas nossas poltronas. O 13 . Pelo menos. Travei conhecimento no trem com uma madre superiora de irmãs de caridade francesas. O fato é que Conway não morreu. Não sinto lá muita simpatia pelas obras missionárias comuns. respondeu-me: — Porque em novembro passado viajei com ele de Xangai a Honolulu. Chegáramos ao hotel e ele foi buscar sua chave no escritório. por sinal que uma pessoa encantadora. disse: — Tudo isto não passa de rodeios. num navio de carreira japonês. nunca nos correspondemos e não posso dizer que pensasse muito nele. como aliás fazem muitos outros. porém. servidos de bebidas e charutos. Fora a Hankow visitar um amigo e voltava pelo expresso de Pequim. parece que gostou de conversar comigo a respeito de seu trabalho e outros assuntos gerais. posto que sua fisionomia fosse uma das poucas que eu tinha bem presentes na memória. Ando sempre correndo mundo. estava vivo há alguns meses. não vem ao caso. Não era possível comentar isto no exíguo espaço e tempo de uma ascensão em elevador. Enquanto subíamos para o quinto andar. pois que ao menos trabalham rijo e não se colocam na posição de oficiais de patente num mundo governado por hierarquia. Alguns segundos mais tarde. onde estava situado o seu convento. mas não me custa admitir. que os católicos formam categoria à parte. em certa ocasião. Viajava para Chung-Kiang.— Pois bem. Havia muitos anos que não via Conway. . perguntei-lhe: — Tem certeza disso? E como o sabe? Abrindo a porta. . em férias.

voltei a Chung-Kiang poucas horas depois. Falava o chinês correntemente. É que o trem teve um desarranjo alguns quilômetros adiante. das classes mais pobres.fato é que essa senhora. o francês com a maior correção. Não é complicado isto? Se14 . também se dirigira a elas em inglês. Vestia um traje nativo. uma das coisas mais difíceis para quem não é católico é compreender a facilidade com que um adepto dessa religião combina a rigidez oficial com uma largueza pessoal de vistas. A meu ver. e quando o trem chegou a Chung-Kiang despedi-me com sincero pesar por ver terminar aquele encontro casual. com pronúncia puríssima. falando sobre o hospital da missão em Chung-Kiang. posto que não soubesse explicar de onde vinha nem trouxesse papéis consigo. E no entanto. Ora. "Fui recebido cordialmente. e minha companheira de trem afirmou que. Disse-lhe que não me entrava na cabeça semelhante fenômeno e caçoei amavelmente com ela. e quando as irmãs o recolheram estava muito mal. De modo que me vi constrangido a passar meio dia em Chung-Kiang e resolvi pegar na palavra a boa freira. É comum isso nos caminhos de ferro chineses. pelo fato de ter descoberto uma pronúncia puríssima em língua que não conhecia. e a conversa acabou por um convite que ela me fez para visitar a missão. ainda que não sem certa estranheza. Pilheriamos sobre isto e outras coisas. naquele momento isso me parecia tão improvável como subir ao Everest. fazendo uma visita à missão. onde nos informaram de que não poderia chegar outra máquina antes de doze horas. e foi com muita dificuldade que pôde voltar à estação. se algum dia aparecesse por ali. mencionou um caso de febre que aparecera lá algumas semanas antes — um homem que supunham europeu. antes de saber qual a nacionalidade das freiras.

chegaria talvez à conclusão de que não podia ser. Vi-lhe aquela estranha e quase imperceptível contração dos músculos faciais. e os mesmos olhos que. Já nem me lembrava do misterioso doente e sua refinada pronúncia inglesa. dizendo-lhe 'boa tarde'. Ainda não fazia uma hora que estava lá e já me ofereciam uma refeição preparada para mim. Tinha certeza de que era ele. e. quando a madre mo apontou. se tivesse refletido um momento. Mencionara-lhes a minha profissão de escritor. Ao passo que eu percorria as camas. Mas não tive tempo de me surpreender com isso. Além disso. porque já o reconhecera — apesar da barba. ia-me o doutor explicando os casos. ninguém podia enganar-se com aquele homem: quem o via uma vez ficava com as suas feições 15 . Era tudo imaculado no hospital. falava com inflexão educada. Um jovem médico chinês — era cristão — sentou-se à mesa comigo para conversar. que me veio à lembrança. Era Conway. como costumávamos dizer em Balliol. na verdade. dizendo o meu. e assim fiz. tão minha conhecida. De fato. posto que me olhasse sem sinal algum de reconhecimento. convencime de que não me enganara. numa divertida mescla de francês e inglês. não muito original. que parecia muito bem dirigido. orgulho de todos ali. da aparência completamente mudada e do longo tempo que passara sem o ver. que parecia adormecido. Eu só via a parte posterior da cabeça do homem. Felizmente.ja como for. foi a primeira palavra. e eram tão ingênuos que ficaram alvoroçados à idéia de que eu podia incluí-los a todos num livro. Chamei-o pelo nome. Mais tarde a madre superiora levou-me a ver o hospital. eram mais do azul de Cambridge que do de Oxford. aquela gente da missão era muito amável. e contudo. obedeci ao primeiro impulso. O homem ergueu repentinamente a cabeça e respondeu: 'boa tarde'. Alguém sugeriu a idéia de falar-lhe eu em inglês.

Assim que me foi possível. fiquei ali mais de quinze dias na esperança de poder fazê-lo. fixei a data da partida. Quando lhe disse francamente quem eu era e quem era ele. e ali tomamos o trem para Xangai. 16 . e deste modo consegui que o passaporte e outros papéis necessários fossem preparados sem os embaraços que. Concordaram com a minha hipótese. Descemos o Yang-tsé até Nanquim. Parecia-me. É claro que o médico e a madre superiora se mostraram muito interessados. saímos da China de maneira normal. Não deixava de ser desanimadora aquela aparente falta de vontade própria. sem motivo especial. E folgo em dizer que consegui o que desejava. Nenhum deles tinha idéia alguma da maneira como Conway pudera chegar a Chung-Kiang naquele estado. que era inglês e meu amigo e que só atribuía o fato de não me ter reconhecido à perda absoluta da memória.gravadas para sempre na memória. e parecia gostar de minha companhia. mostrou-se bastante dócil e não discutiu. no interesse de Conway. Estava mesmo alegre. Nessa noite partia um vapor japonês para São Francisco e corremos a tomar passagem nele. Seria." — Prestou-lhe você um serviço imenso — observei. teriam surgido. Quando lembrei que poderia reconduzi-lo à pátria. a não ser assim. Confiei o caso a um conhecido que era funcionário do consulado de Hankow. Não obtive resultado. disse apenas que isso não lhe interessava. lembrar-se de alguma coisa. e tivemos então uma longa conferência a respeito do caso. mas foi recuperando a saúde e conversávamos muito. Disse-lhes que o conhecia. "Para encurtar a história. ser melhor que toda aquela história escapasse à publicidade e espalhafato dos jornais. de um modo ou de outro. realmente. não sem assombro. um bom bocado para a imprensa! "Pois bem.

não tivesse ocupação mais importante — porque não considero grande carreira para um homem isso de ser esteio da majestade britânica. que sabia ter tido algo que ver com a índia.Não o negou Rutherford: — Creio que não teria feito tanto se fosse por outra pessoa. grande. Era da nossa mesa e falava às 17 . — Ele possui um encanto particular. cismando. por exemplo. Era brilhante — não há outra palavra. ele. a gente sentia-se feliz em fazer por ele tudo que pudesse. a caminho dos Estados Unidos. Disse-me. — É pena que você não o tivesse conhecido em Oxford. o pianista. Em Yokohama encheu-se o vapor e entre os novos passageiros estava Sieveking. um como dom de conquistar as pessoas. E Conway era. Calou-se um momento. que até agora é agradável recordar — posto que eu o veja ainda colegial. em traje de etiquete. mas sempre fora assim. certamente. e outro ponto que lhe pode interessar é que não esquecera as línguas. e creio mesmo que assim foi. Nós ambos o conhecemos e não estou exagerando. . sendo tão bem dotado. reatamos a velha amizade durante a viagem. ou devia ter sido. — Sim — concordei. conservava ainda aquele poder de atração. Lembrava-se de tudo perfeitamente. Disse-lhe tudo que sabia a seu respeito e ele ouviu-me com uma atenção concentrada que quase tocava as raias do absurdo. . . depois continuou: — Como bem pode imaginar. desde a sua chegada a Chung-Kiang. Mas não posso deixar de lamentar que. Mas havia não sei o que naquele rapaz. cujo espírito estava perturbado. Dizem que depois da guerra ficou diferente. cujo passado era um mistério. até lá na China. . E. quando digo que nunca nos esqueceremos disso. pois que conhecia a língua hindustani. é difícil explicar. onde ia dar concertos.

porque até aquele dia revelara tão pouca emoção em todas as coisas! Sieveking. pareceu-me — a alguns entusiastas agrupados em redor do piano. estranho na verdade. que Sieveking concedeu — muito amavelmente. Também desta vez. que não se notava no trato comum. Fazendo. na aparência. Afinal deixou o piano e dirigiu-se para a porta. "Terminado o programa prolongou-se o recital numa série de repetições. Uma ou duas vezes olhei para Conway e pareceu-me que ele estava apreciando aquilo. que eu não reconheci. tocou principalmente Chopin. objetava: " 'Meu caro amigo. mas. Sieveking. Conway. sua aparência geral era a de um homem são.vezes com Conway. evidentemente. Sieveking aquiesceu em dar um concerto a bordo e eu e Conway fomos ouvi-lo. Isto prova que. é claro — alguns trechos de Brahms e Scarlatti e muita coisa de Chopin. o que me espantou. muito excitado. e não me surpreendi ao ouvir Sieveking negá-lo peremptoriamente. mas que fez com que Sieveking voltasse. entretanto. um tremendo esforço fÍsico e mental para se lembrar. ainda mais alvoroçado. Nesse ínterim. tinha início um fato estranho. no exterior. mostrou-se de repente indignado. ele parecia perfeitamente normal. visto ter sido músico. em alemão. conheço tudo quanto existe de Chopin e afirmo-lhe que ele jamais escreveu isso que o se18 . Alguns dias depois de partirmos do Japão. a indagar o que era. Conway sentara-se ao piano e estava tocando uma música rápida e viva. o que seria muito natural. ainda acompanhado de admiradores. Conway pôde apenas dizer que não sabia. Tocou bem. do seu lado. achava que deviam dar-se por satisfeitos. Você sabe que é a sua especialidade. A não ser a perda de memória. Não me pareceu que fosse. Após um longo silêncio. Conway disse afinal que era um estudo de Chopin. exclamou que era incrível.

se aquelas duas peças fossem publicadas. lembro-me agora. estava ansioso por afastá-lo dali e levá-lo para a cama. Se não era como ele dizia. estariam no repertório de todos os concertistas dentro de seis meses. declarar que a explicação de Conway era cronologicamente impossível. isso nunca foi impresso. em certo sentido. Desafio-o a mostrar-me em qualquer edição'. Seria muito fácil. . quando Conway continuou a tocar. . inclusive um professor da Universidade da Califórnia. os trechos musicais a pedir explicação. Pode ser exagero. creio que poderá imaginar a excitação de Sieveking. mas. o que era então? Sieveking afirmou-me que. aquilo foi um repentino e assombroso vislumbre do seu passado — a primeira revelação que lhe escapava. Depois de muito argumentar não conseguimos assentar uma explicação satisfatória. certamente. "Todo esse incidente foi tão inexplicável. está visto. naturalmente. Conheço o trecho porque o ouvi de um antigo aluno de Chopin. . Aprendi também com ele outra peça inédita'. homem de certa nomeada. mas havia. "Ao que Conway replicou afinal: " 'Oh! sim. mas serve para mostrar a opinião que Sieveking fazia delas. mas sucede apenas que não o escreveu. e também a minha. ." Olhando-me firmemente. se atendermos à época da morte de Chopin: 1849. pois que Conway insistia na sua história e. Sieveking achava-se. Rutherford continuou: — Não sei se você conhece música. ou pouco menos que impossível. ainda que não conheça. pois é o seu estilo. como já me parecia que ia ficando fatigado. todo absorto no problema musical — um quebra-cabeça. ainda assim. . . Para mim. O úl19 .nhor acaba de tocar. Podia perfeitamente ter escrito o trecho. que talvez não seja demais acrescentar que havia ali pelo menos uma dúzia de testemunhas.

Disselhe que me alegrava por lhe ter voltado a memória. por várias razões. — Porque naquela noite — continuou ele —. por ver que ele preferia que não houvesse voltado. deixei-o à vontade. 20 . Sentou-se à beira da minha cama e ali ficou calado. que ele não chegasse a cumprir a promessa. e o mar tinha um aspecto viscoso e pálido: parecia leite condensado. Tinha o rosto rígido e a única definição que encontro para a sua expressão é a de uma tristeza esmagadora. e Conway prometeu tocar diante do microfone. Disseme que podia recordar tudo agora. uma espécie de tristeza universal — alguma coisa remota e impessoal.' "Persuadi-o depois a vestir-se enquanto eu fazia o mesmo.. disse-me Rutherford que eu tinha tempo suficiente para apanhar o trem.. você tem imaginação. Rutherford. Sieveking declarou que se encarregaria de todos os arranjos assim que chegasse à América. Ergueu então a cabeça e ouvi de sua boca o que hei de sempre considerar um grande cumprimento: " 'Graças a Deus. isso a que os alemães chamam Wehmut. Weltschmerz. Tínhamos ambos ido deitar-nos e eu me conservava acordado quando ele entrou no meu camarote e disse-mo. pois sua história estava quase terminada. Muitas vezes tenho lamentado. ou coisa que o valha. estrelada e quente." Consultando o relógio. a noite do recital.timo episódio foi uma combinação para gravar o trecho em disco. Era uma noite serena. que a memória começara a voltar-lhe aos poucos enquanto Sieveking tocava. para que falasse quando e como quisesse. e começamos a andar no convés de um lado para outro. ao mesmo tempo. voltou-lhe a memória. mas que me entristecia.

E que ia empreender uma longa viagem — para o noroeste. Sentia uma tristeza profunda e não podia dormir. Já me surgia no espírito a lembrança de um suicídio calmo e deliberado que presenciara uma vez. Fugiu-me apenas. — E como veio a saber disso? — Da maneira mais simples: escreveu-me de Bancoc. a manhã ia em meio e o sol escaldava. Mais nada. Estivemos bebendo no meu camarote ao escurecer.. Abandonei-o apropria iniciativa. Ele ainda preencheu muitas lacunas importantes durante as vinte e quatro horas que se seguiram. ajuntando que se achava muito bem. Quando digo 'acabou'. deixou-me às dez horas. no paquete de Holyhead para Kingstown. três meses mais tarde. diríamos que estávamos passeando numa esplanada. Agradecia-me. Soube depois que conseguira reunir-se à tripulação de um bote carregado de bananas. — Conway não era desse tipo. naturalmente. sem lhe fazer a princípio pergunta alguma. e nunca mais o vi. Quase ao romper da madrugada começou a falar. não quero dizer que nada mais ficasse por acrescentar àquela primeira confissão. Pelo meio da noite seguinte o vapor devia chegar a Honolulu. e. mais ou menos.." — Você quererá dizer?. E era muito fácil desembarcar. remetendo um cheque para pagar as despesas que eu tivera com ele. de sorte que conversamos quase constantemente. não deixei de proceder. — Que queria dizer com isso? 21 . quando acabou.Se não fosse a vibração das máquinas. — Oh! não — respondeu Rutherford. mas ele deve ter tido dificuldade em subtrair-se às buscas a que. que se dirigia para Fidji. rindo. fê-lo sem interrupções.

a fim de não esquecer os detalhes. Não gosto muito de revelar as manhas da minha desacreditada profissão. e Rutherford respondeu que eram ambos partes do mesmo problema. Era uma história estranha aquela. — Pois sim. ou seria ele que lhe dava essa feição? Eu não saberia dizer qual fosse o mais exato. Além disso. Mas é uma história comprida e não haveria tempo sequer para delineá-la antes de você tomar o trem. mas como foi que ele foi ter a ChungKiang? Certamente há de lhe ter contado tudo isso aquela noite. Mais tarde. não é? Há muitos lugares que ficam a noroeste de Bancoc. e seria absurdo. por minha parte. Creio também que eu. Há no que ele me contou material de sobra. não me interessava tanto como o mistério da chegada de Conway àquele hospital da missão chinesa. como certos aspectos dela começaram a me empolgar. sim. Até Berlim. depois de lhe contar tanta coisa. quanto mais pensava na história de Conway. Conway conversava com muita fluência e tinha o dom natural de comunicar um ambiente. a encadeá-los numa narrativa única. mas a verdade é que. Principiara por tomar simples notas. por mais assombroso que fosse. fica nessa direção. depois de nossas diversas conversações no navio. Não quero dizer com isto que tenha inventado ou alterado alguma coisa. há uma maneira mais conveniente de satisfazê-lo. vi-me constrangido a aumentar aquelas notas — a dar forma aos fragmentos.— Sim. mais atração sentia por ela. — Falou-me nisso. é muito vago. Calou-se e encheu os copos. Fiz este comentário. começava a compreender o homem. 22 . no vapor. O episódio da música. afinal. guardar segredo sobre o resto.

Talvez não seja mau o argumento. Pretendia devolvê-la com uma longa carta. . Levei comigo os papéis. você acha que não vou acreditar nela. lembra-se? Quia impossibile est. assim que chegasse à Inglaterra. Faça dela o que quiser. Mas olhe. diga-me depois o que pensa disto. e dali "para leste ".Foi buscar uma maleta e tirou de dentro um maço de originais datilografados. E isto não me surpreendeu. — Aqui tem você a história. será pela famosa razão de Tertuliano. — Pelo que vejo. se você acreditar. — Oh! Minha opinião não é tão definitiva. Seja como for. dizendo-me que ia recomeçar a andejar e que por alguns meses não teria endereço fixo. Ia para Caxemira.. Li a maior parte da história no expresso do Oriente. e antes de fazer a remessa recebi um bilhetinho de Rutherford. mas não o fiz logo. 23 .

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CAPÍTULO 1 Piorara consideravelmente a situação em Baskul naquela terceira semana de maio. poderia ser considerada como a defesa teimosa de uma causa perdida. vista agora à luz dos acontecimentos. talvez uns poucos meses de licença. cidadão americano. e o capitão Charles Mallinson. Henry D. Eram estes mais ou menos oitenta e a maior parte foi conduzida sem novidade. pelas dez horas da manhã. Hugh Conway. entre eles um avião de cabina. Dentro de algumas semanas. atravessando as montanhas em aviões de transporte de tropa. mediante arranjo feito para evacuar os residentes brancos. e no dia 20 chegaram de Peshawar aparelhos da Air Force. Britânica. cônsul de S. da Missão do Oriente. Empregaram-se também nesse mister alguns aparelhos de várias espécies. Manilha ou Mascate: na sua profissão nunca se sabe o que vai acontecer. quatro passageiros: Miss Roberta Brinklow. Tóquio ou Teerã. Barnard. Encerrava-se ali uma fase de sua vida. 25 . Estão aí os nomes. Contava Conway trinta e um anos. Havia dois que estava em Baskul. M. desempenhando uma tarefa que. conforme apareceram mais tarde nos jornais indianos e ingleses. vicecônsul. E foi nesse avião que embarcaram. cedido pelo marajá de Chandapor. seria enviado para outra parte.

Estava já há dez anos no serviço consular — tempo suficiente para avaliar as suas possibilidades com a mesma agudeza com que observava as aldeias. uma leve contração nervosa que aparecia nitidamente quando trabalhava em excesso ou bebia demais. Achava-se fatigadíssimo e infinitamente satisfeito por ter arranjado as coisas de sorte a viajar no luxuoso aparelho do marajá. e. enquanto sério. 26 . estando habituados aos trabalhos mais duros. muito bronzeado. Observava-se-lhe. como nem sempre eram as melhores. não se tratava de "uvas verdes". parecia-lhe que jogara muito bem. muita gente achava que ele "fazia mau jogo". gastaria a última nota de dez libras tomando uma passagem no "Seta de Ouro". Parecia severo e preocupado. era essa contração muito acentuada quando entrou no avião. Podia suportar alegremente os rigores da estrada de Samarcande. Sabia que nunca teria muito com que comprar melões. e. cabelos castanhos aparados curtos e olhos de um azul quase negro. em vez de ir num dos apinhados aeroplanos da tropa. quando ria — o que era raro — tinha aparência de menino. como passara todo o dia e toda a noite que precederam a evacuação a reunir e destruir documentos. para usarmos outra imagem botânica. junto ao olho esquerdo. e segundo o seu gosto. mas já era consolação bastante pensar que não gostava mesmo de melão. Preferia as ocupações menos cerimoniosas e mais pitorescas que se lhe ofereciam. esperam ter em recompensa os pequenos confortos da vida. tivera um decênio moderadamente agradável. Refestelou-se gostosamente no confortável assento de vime quando o avião se elevou nos ares. E. Era daquela espécie de homens que. Entretanto. para viajar de Londres a Paris. Era alto. mas.

observou que. era de supor que o piloto o conhecesse melhor do que eles. Mas Conway não queria fazer o esforço que exige uma conversação em aeroplano.Já fazia mais de uma hora que estavam voando quando Mallinson. através daquele vidro. que ia sentado logo à frente de Conway. Não tem importância. cujas vantagens também soubera aproveitar. Abriu os olhos sonolentos e replicou que. — Mas é que Fenner me disse positivamente que iria conduzir este aparelho. — Eu conheceria o rosto de Fenner em qualquer parte. pensei que era Fenner quem nos levava! — E então. onde estivera seis meses em companhia de Conway. encerrado nas limitações do ensino público. ia já a adormecer quando Mallinson tornou a perturbá-lo: — Escute. neste caso. e sou capaz de jurar que não é ele. — Sem dúvida mudaram de idéia e deram-lhe um dos outros. que já começava a gostar dele. A reprovação num exame era a causa principal de ter sido mandado para Baskul. não é ele? — O sujeito voltou a cabeça agora mesmo. inteligente sem ser intelectual. corado. Era Mallinson um moço de vinte e poucos anos. — É difícil de dizer. — Bem. quem é aquele homem? 27 . o piloto não seguia o caminho direito. se não é ele é algum outro. Conway. Dali a meia hora. fosse qual fosse o caminho tomado. rendido pelo cansaço e embalado pelo zumbido do motor. a seu ver. — Pois bem.

sorrindo. Não era casado. Passaram-lhe pela memória Baskul. daqui a pouco. e não me lembro daquele sujeito. Fora um período igualmente agradável. de todo indiferente que a viagem durasse quatro ou seis horas. tal era o sumário meteorológico daquela época de sua vida. Além disto.— Meu caro rapaz. ainda que não o tivesse satisfeito inteiramente. — Neste andar não chegaremos nunca a Peshawar. Era-lhe. O homem está completamente fora de rumo. não é? — Pois eu conheço muitos. . pois. . não tinha motivo algum para desejar chegar depressa a Peshawar. Tinha amigos na cidade e provavelmente alguns deles o levariam ao clube. mas não de molde a causar-lhe grande alvoroço. — Deve pertencer então à minoria que você não conhece — replicou Conway. tendendo a perturbar-se. Nada tinha de particular a fazer ali e não se sentia ansioso por ver ninguém. você poderá travar conhecimento com ele e indagar tudo quanto quiser. bom por intervalos. era uma perspectiva agradável. Pequim. não o aguardava uma terna recepção ao desembarcar. Estava habituado às viagens aéreas e confiava nos pilotos. como vou saber disso? Não julga certamente que aprendi de cor a fisionomia de todos os tenentes-aviadores da Air Force. Macau e 28 . Voando a tamanha altura ele não pode ver onde está. E acrescentou: — Quando chegarmos a Peshawar. Instável. onde beberiam juntos. Conway não se inquietou. Também não encarava com saudades a década transcorrida. bem como da história mundial. E não me admira.

do outro lado do estreito corredor. — Meu Deus! — exclamou Mallinson. A cena mais remota na sua lembrança era Oxford. respirando o pó em bibliotecas cheias de sol. que ia descendo rapidamente. acrescentou ao ouvido de Mallinson: 29 . — Olhem para baixo! Conway olhou. parecia-lhe. A visão era atraente. Uma sensação gástrica muito sua conhecida advertiuo de que o avião começava a descer. espiando pela janela. Teve a tentação de admoestar Mallinson pelo seu nervosismo. que ele era apenas uma parte de todas as coisas que pudera ter sido. Em vez dos acantonamentos em elegante disposição geométrica e dos retângulos mais compridos dos hangares. certamente. passara dois anos fazendo preleções sobre história oriental. depois da guerra. descendo a High Street de bicicleta. onde. o espinhaço rugoso de uma longa fila de montanhas. em certo sentido. Era o cenário típico da fronteira.outros lugares. O avião. Avistavase. batendo com a cabeça no teto e acordando Barnard. achava-se ainda a uma altura extraordinária para um vôo comum. Depois. mas não o comovia. Não era — e isto lhe causou estranheza — sítio algum próximo de Peshawar. — Não reconheço esta parte do mundo! — observou. o americano. por não querer assustar os outros. só se avistava um nevoeiro opaco que velava uma imensa desolação. que estava a cochilar no seu canto. e tê-lo-ia feito sem dúvida se o moço não se houvesse levantado subitamente. Não era aquela. a vista que esperava — se é que esperava alguma coisa. cerca de uma milha aquém da névoa mais sombria dos vales. e mais discretamente. se bem que Conway jamais o tivesse visto de tamanha altura.

Abria-se um pequeno espaço livre à beira de um barranco e o aparelho. Os quatro passageiros mal se podiam manter sentados. com muita perícia. Já o vôo seguia a curva de um vale. . contudo. de capacidade excepcional. O avião se debatia e agitava entre golfadas de ar.— Parece que você tinha razão. O que veio depois. cuja porta se abrira de repente. Acima do horizonte erguiam-se picos de montanhas.. O homem errou mesmo o caminho! O avião descia com espantosa rapidez e o ar ia ficando cada vez mais quente. durante a qual se verificou que não somente não era Fenner como até não era inglês. a não ser o piloto. pousou sereno. um após outro. pareciam cascas de nozes espalhadas pelo chão. Este saltou em terra. de turbante à cabeça. foi mais espantoso e menos tranqüilizador. depois de alguns baques e solavancos. e então.. Enquanto falavam iam carregando latas de petróleo de um depósito próximo e despejando-as nos tanques. e quiçá nem europeu. Dir-se-ia que a terra adusta que se avistava lá embaixo era um forno. mantendo com eles animada palestra. — Mas não pode! — retorquiu Mallinson. Os 30 . Apareceram nativos barbudos. — Só se for louco tentará semelhante coisa! Vai despedaçar-se. tão violentamente como um bote de remo nas ondas encrespadas. recortando no ar a silhueta escarpada. cuja base estava toda semeada de rochedos e vestígios de cursos de água ressequidos. — Parece que ele vai aterrar! — gritou o americano com voz rouca. Mas o piloto aterrou.. que acorriam de todos os lados cercando o avião e impedindo que alguém saísse dele.

A partida. Conway. Ia em meio a tarde. aquecia o ar inteiro a tal ponto que os ocupantes dela estavam quase a desmaiar.gritos dos quatro passageiros aprisionados eram recebidos com arreganhos de dentes e desdenhoso silêncio. foi ainda mais magistral do que a aterragem. naquele espaço confinado e com a carga suplementar de combustível. mesmo nos anais turbulentos 31 . mas sem resultado. e recomeçou o vôo. Era um ultraje sem precedente e sem igual. naquela língua. arengou com os homens conforme pôde. O sol do meio-dia. era um significativo aceno com o revólver. Viam-se absolutamente impotentes. com o calor e o esforço dispendido em protestos. passou-se uma lata de petróleo cheia de água morna por uma das janelas da cabina. como a assentar um rumo. chamejando sobre o teto da cabina. que conhecia um pouco o idioma afegane. O avião ergueuse por entre o nevoeiro. Que caso extraordinário! Era para desorientar! Já retemperados pelo ar mais fresco. ainda que os homens não parecessem pessoalmente hostis. a única resposta a qualquer pergunta. era condição da evacuação que viajariam sem armas. mal podiam crer os passageiros que tudo aquilo de fato acontecera. em qualquer língua. Ninguém respondeu a pergunta alguma. desajeitadamente. depois voltou-se para o oriente. Quando afinal os tanques foram fechados. Quanto ao piloto. Depois de outra conferência voltou o piloto para o seu posto. E à mais leve tentativa de desembarque correspondia logo um movimento ameaçador de vinte rifles. um dos afeganes pôs a hélice em movimento.

e então lhes dariam a liberdade. à falta de outra melhor: tinham-nos raptado para serem postos a resgate. e. fazem chacota dos assaltos de Chicago e outras coisas. Já era consoladora a idéia de que não tomavam parte num fato inteiramente virgem na história mundial. O americano. certamente. Era a coisa mais natural do mundo que a esse primeiro momento de incredulidade se seguisse uma explosão de indignação e. Vocês. Se o processo não era novo. porém. e ficava-se com uma boa história para contar durante o resto da vida. afinal. meus senhores. Os homens os reteriam em algum covil das montanhas até que o governo pagasse. enunciou esta conclusão. como o dinheiro do resgate não lhes sairia do próprio bolso. a Air Force enviaria um avião de bombardeio. dissipada esta. certo o reputariam incrível. Apresentou Mallinson uma teoria que foi aceita. Mais tarde. já tinha havido muito rapto no mundo e boa parte deles acabara bem. um tantinho nervoso. parece-me que é uma bela idéia. Seriam tratados com toda a consideração.da fronteira. Aposto que o derrubou com uma paulada na cabeça. E acabou num bocejo. se não fossem eles mesmos as vítimas. a técnica não carecia de originalidade. ingleses. mas não posso dizer que a sua Air Force se cobriu hoje de glória. Foi Mallinson que. E. uma ansiosa curiosidade. entendeu de fazer espírito barato: — Pois. aquilo só seria desagradável enquanto estivessem prisioneiros. Era Barnard um homem alto e corpulento: no rosto 32 . mas não me lembra nenhum caso de um bandido ter fugido assim sem saber o que fez este sujeito do verdadeiro piloto. seja lá de quem for.

Pouco se sabia dele em Baskul. E o sujeito devia conhecê-la — sinais e tudo mais. não nego que seja uma dessas coisas que sempre metem alguém em 33 . . . pois transmitir mensagens em vários dialetos é um exercício mental que exige concentração. viera da Pérsia. O quarto passageiro era uma mulher. ao parecer. que ele sabe voar. Aquiescera também. que assistia constrangida a uma reunião onde sucediam coisas contrárias aos seus princípios. de espaço a espaço. — . Ninguém vai lembrar-se de pôr em dúvida a boa fé de uma pessoa que se apresenta com o traje apropriado e parece conhecer a sua obrigação. Conway. . se entregava ao comércio de petróleo.duro. deixar cair uma delas. Na inquietação e tumulto do momento era muito fácil tomar um homem. . os vincos pessimistas não apagavam por completo a expressão de bom humor. Todavia. com a teoria de rapto apresentada por Mallinson. Conway falava menos que os outros dois. às perguntas que lhe dirigiam e concordara. nas observações de Barnard sobre a Air Force. a título de ensaio. Toda tesa no assento. É evidente. por seu lado. além disso. onde. ainda assim. por outro aviador. com o uniforme de aviador. mas valia a pena tentá-la. com os lábios apertados. Em região de tão escassa população era magra a esperança. ao observá-la. Respondia. poucos comentários emitia — e nenhuma queixa. ocupava-se numa tarefa prática: reunia todos os pedacinhos de papel que seus companheiros traziam e neles escrevia mensagens em várias línguas nativas para. Miss Brinklow. até certo ponto. ainda que se compreenda facilmente como se deu o fato. Dir-se-ia. Era de baixa estatura e aparência coriácea.

Fechara os olhos de pura fadiga física. depois de tudo o que fez nestas últimas semanas. quando Barnard e Mallinson. mas não dormia. mas deixou cair a conversação. com uma sensação 34 . tem uma espécie de jeito especial para lidar com as pessoas. — Pois bem. verificou-se que adormecera. Ouvia e sentia todos os movimentos do avião. E Mallinson comentou: — Prostrado. apelaram para a sua opinião sobre um ponto. Se há algo que possa tirar-nos desta entaladela. — Trabalhava com ele no consulado. ele o fará. ninguém teve culpa neste caso. então. além de tudo. — admiro a maneira como procura ver ambos os lados da questão. E não me admira. Lá consigo pensava Conway que os americanos tinham o dom de dizer as coisas com ar protetor.complicações — posto que. E por isso sei que há duas noites que não se deita. — Muito bem. Já no fim da tarde. É essa a atitude correta. tolerante. não tinha tanta certeza de ser de fato um homem muito valente. Sorriu. E Miss Brinklow fez nesse momento uma de suas raras observações: — Ele parece ser um homem muito valente. Sentia-se tão fatigado que perigo algum poderia abalá-lo. E é muito calmo. a meu ver. que discutiam. mesmo quando a gente está sendo seqüestrado. O certo é que tivemos muita sorte em tê-lo conosco neste aperto! Além de conhecer línguas. Quanto a Conway. não há dúvida. cavalheiro — replicou Barnard. e ouvira também. deixemo-lo dormir. — É seu amigo? — indagou Barnard. sem ofender.

desgostava-o profundamente a idéia das dificuldades que poderiam surgir. a não ser que prometesse uma quota extraordinária de emoção. e longe de se sentir cheio de ardor. na verdade. suas ações teriam de ser subordinadas ao critério de que ela sozinha tinha mais direito a consideração do que eles todos juntos. mas estava muito longe de sentir prazer em arriscar a vida. ao encará-la. pelo que ouvira de Mallinson. uma espécie de efeito catártico sobre as emoções ociosas. Sentia-se tocado. Era destino dele ver sempre sua equanimidade confundida com bravura — quando era. uma coisa muito menos apaixonada e menos viril. de fato. Não era — e sabia-o por experiência própria — daquelas pessoas que amam o perigo pela sensação do perigo. Havia neste certo aspecto que apreciava. Doze anos antes começara a detestar os perigos da guerra de trincheira na França. Continuava de olhos cerrados. E foi então que teve suas dúvidas. em determinadas circunstâncias. E tremia já. reconhecendo em certa contração do estômago a reação física a um exame mental não muito tranqüilizador. Veja-se Miss Brinklow.indefinida. Achavam-se todos numa situação terrivelmente adversa. uma excitação. e um tanto consternado também. encarava-o com crescente aversão. E desde a guerra. o elogio de Mallinson. Até sua condecoração devia-a menos à coragem física do que a uma técnica de resistência não muito fácil de conseguir. por ser mulher. segundo lhe parecia. 35 . à perspectiva de uma situação em que seria inevitável semelhante falta de eqüidade. e algumas vezes evitara a morte eximindo-se de tentar valentias impossíveis. por exemplo. onde quer que surgisse outra vez o perigo. Previa que.

parecendo gratos à dama por lhes pro36 . voltou-se vivamente e replicou: — Pois jogo. Via que não era jovem nem bonita — virtudes negativas. se o senhor puder evitá-lo.Entretanto. sorrindo. Ainda que não gostasse do jogo. porém. Quanto a ele próprio. Barnard apanhou a palavra e repetiu em voz rouca. mas utilíssimas em transes como os que teriam talvez de enfrentar dentro em pouco. não tinha preconceitos nesse sentido. poderíamos até jogar bridge. — Não creio que Miss Brinklow jogue — disse. . Aproximando o rosto dela para lhe falar. — A senhora me avisará se eu puder fazer alguma coisa para seu conforto. como um eco: — Conforto? Mas não há dúvida de que temos conforto. disse: — Parece que estamos numa situação esquisita. foi com ela que primeiro falou. creio que não nos acontecerá nada de terrível. quando deu sinal de despertar. porque desconfiava que nem o americano nem Mallinson gostavam de missionários.. Riram todos. Não lhe pareceu muito consoladora a resposta. — Estou certa de que não. Conway apreciou o espírito da observação. Nada há contra as cartas na Bíblia. mas folgo de ver que a senhora encara o caso com serenidade. . mas receava que para ela representasse o seu espírito aberto um fenômeno pouco familiar e quiçá ainda um pouco desconcertante. especialmente do sexo feminino. Lástima é que não tenhamos um baralho. e não vejo mal nenhum nisso. A missionária. Realmente. . Estamos gozando a viagem. Sentia pena dela.

mas estava certo de que o piloto. era de uma perícia incontestável. deixando ver a silhueta denteada de um pico ou a claridade de um rio desconhecido. Conway não possuía conhecimentos técnicos de aviação. Reconhecia que podiam ter muito mais razões pessoais do que ele para estarem an37 . mesmo em meio às incertezas do futuro. Toda a tarde voara o avião a grande altura. seguiam ainda para leste. por entre o esgarçado nevoeiro da atmosfera superior — muito alto para que se pudesse ter uma visão clara do que ficava embaixo. quanto à região em que se achavam. nem necessitava dele. sempre que se via em presença de uma competência soberba e indiscutível. entretanto. mas. e esta não a podia Conway avaliar com segurança. Estava tão habituado a receber pedidos de auxílio que só o fato de saber que ia ali alguém que não o pedia. quem quer que fosse. rasgavase por um momento o véu. também dependia de certos fatores. era levemente tranqüilizador. ela não é muito nervosa". com longos intervalos. que já tivessem gasto boa porção de petróleo — o que. além de outros incidentes posteriores. Pelo sol era possível determinar mais ou menos a direção. com algumas guinadas para o norte. De vez em quando. Não esperava. E lá consigo pensava Conway: "Seja como for. Parecia provável. contudo. E Conway não podia sopitar um sentimento natural nele.porcionar uma escusa para tal. de tempos a tempos. que seus companheiros compartilhassem tão sutis emoções. Provara-o aquela descida no vale eriçado de penhascos. era coisa que dependia da velocidade do vôo. aliás.

— Isso não há de ser muito difícil. E chegou um momento em que se levantou uma tempestade de questões. aliás.siosos. o certo é que este negócio me está atacando infernalmente os nervos! Não poderemos obrigá-lo a descer? — E de que maneira acha você que poderemos fazêlo? Cresceu de ponto a agitação de Mallinson. também. por que é que você há de esperar sempre de mim semelhantes milagres? — Bem. Não duvido que você possa fazê-lo. e somos três contra um! Vamos ficar eternamente a olhar para aquelas costas malditas? Ao menos poderemos obrigá-lo a dar explicações! — Muito bem. o mais desassossegado de todos. Era Mallinson. — Iremos nós ficar aqui a olhar as moscas. Miss Brinklow tinha seu trabalho. a lançar em rosto a Conway aquela mesma frieza que louvara às escondidas dele. rumo à di38 . tinha noiva na Inglaterra. vamos ver isso. dominando o ronco do motor. furioso. Barnard talvez fosse casado. Mallinson. — Escutem! — gritava Mallinson. E Conway deu alguns passos para a frente. ou como quer que ela o considerasse. ele está ali. vocação. com certeza. não é? Mais ou menos a dois metros de nós. e que em todo caso nenhum de nós saberia levar o aparelho para terra. — Oh! Mas meu caro Mallinson. à proporção que iam passando as horas mostrava-se cada vez mais agitado — pronto. enquanto esse maluco faz o que bem entende? Que é que nos impede de despedaçar aquele vidro e tirá-lo dali? — Nada — replicou Conway — a não ser que ele esteja armado e nós não. que retrucou: — Escute. por exemplo.

Nem uma palavra: só isso. 39 . é melhor a gente entregar-se de boa vontade e aceitar o fato. pelo que me toca. vou gozar a vida enquanto ela dura e fumar um charuto. A resposta veio. e pela qual o piloto. — Pois me parece que devíamos lutar antes de nos deixarmos derrotar assim. como ele esperava. que observara o incidente. nunca se entrega. Não ignorava a convenção que.visão entre a cabina e o assento do piloto. — mas deixo a você o cuidado de averiguá-lo. de cerca de quinze centímetros. — Muito bem. de modo quase cômico. — Quando alguém nos segura pelo cangote. mas pode aborrecer Miss Brinklow. Creio que um pouquinho mais de perigo não faz diferença. Pela minha parte. com todo o seu cortejo de soldados de túnica vermelha e livros de leitura escolar. E disse: — Provocar um combate sem probabilidade de vencer é mau jogo. Conway retirou-se sem discutir e a janelinha tornou a fechar-se. cavalheiro! — acudiu Barnard calorosamente. Conway olhou-o com simpatia. Mallinson. podia comunicar-se com os passageiros. e eu não quero ser essa espécie de herói. Conway bateu nela com os nós dos dedos. voltando a cabeça e curvando-se levemente. situado na frente e um pouco acima. O quadrado de vidro deslizou para um lado e o cano de um revólver surgiu na abertura. jamais é vencido. declara que o inglês não tem medo de nada. hem? — Não. ficou apenas parcialmente satisfeito e comentou: — Não creio que ele ouse atirar. É só fanfarronada. que se podia correr para um lado. Havia uma lâmina quadrada de vidro. — Isso mesmo — concordou Conway.

e o pior. nem para fazer parada de abstenção quando não havia realmente nada que fazer. sem dúvida nenhuma. E lá consigo acrescentava: "E o melhor. é que não podemos fazer grande coisa para sair dela. não — respondeu ela amavelmente. contudo. E isto contribuirá. Isto não tira. Acalmara-se. em outros sentidos".Barnard desfez-se em desculpas: — Perdão. um pouco a excitação de Mallinson. ou melhor. Achavam-se ambas as coisas incluídas na sua obrigação. entretanto. querendo demonstrar-lhe simpatia. Porque ainda sentia uma fadiga extrema. mas gosto do cheiro de charuto. Ninguém era capaz de trabalhar mais rijo. E disse amavelmente: — Compreendo o seu estado de ânimo. dado que não fosse o termo próprio. e poucos sabiam arcar com responsabilidades melhor do que ele. em certo sentido. e também que não sentisse muito prazer na responsabilidade. que não morresse de amores pela atividade. e. era aquela a mais típica. — eu não fumo. posto que ele próprio não acendesse nenhum. para atenuar consideravelmente o brilho do seu sucesso no serviço consular. E Conway refletiu que. também. A senhora não se incomodará muito se eu acender um charuto? — Não. Conway ofereceu-lhe um cigarro. A situação não é rósea. madama. Não era bastante ambicioso para abrir caminho à custa de outrem. que ele executava o melhor que podia. mas estava sempre pronto a ceder o passo a quem a pudesse executar tão bem quanto ele. quando necessário. Havia também na sua natureza um traço a que talvez algumas pessoas chamassem preguiça. Mallinson. entre todas as mulheres de quem se poderia esperar semelhante declaração. 40 .

e a serenidade que mostrava em emergências difíceis. parecia um ídolo desbotado e fora de moda. interpretação errônea. à contemplação e ao isolamento. o resto de alento que ainda tinha nos pulmões. não valia a pena estarem a gastar energia em gritos. e à luz da tarde agonizante a visão que se descortinou aos seus olhos arrebatou. No mesmo instante. muita gente suspeitava que sua tranqüilidade não era só aparente. como a acusação de preguiça.Seus despachos eram amiúde tão lacônicos que chegavam a ser deficientes. porém. ainda que com algum esforço. O céu estava muito claro. reclinou-se no assento e resolveu adormecer definitivamente. pensou Conway. Voltou-se para a janela e olhou para fora. apoiava o queixo na palma da mão. as autoridades gostam dos homens que se dominam. na Suíça. o coração aos pulos e a respiração difícil. foi mais de uma vez atribuída à frieza natural. É que a muitos observadores passava despercebida uma coisa tão simples que frustrava a percepção: o amor ao sossego. Ao acordar notou que os outros. e que não dava importância a coisa alguma. Lembrou-se de ter sentido uma vez sintomas semelhantes. a despeito de suas preocupações. encobrindo um mundo de emoções disciplinadas. Todos muito razoáveis. era isto também. direita como uma seta. conquanto admirada por todos. inclinado para diante. por um instante. Quanto a Conway. Neste momento. visto que se sentia tão inclinado a isso e não havia outra coisa a fazer senão isso mesmo. Mallinson. e cuja indiferença aparente não passa de disfarce. O americano até ressonava. tinham igualmente sucumbido. E contudo. Miss Brinklow. Porque lá 41 . tomou consciência de certas sensações físicas — uma leve vertigem. de olhos fechados.

Tocou no braço do moço. e não faltava certa impertinência sublime a quem assim se aproximava deles. Abrangiam todo o arco de círculo e para o ocidente fundiam-se num horizonte de colorido intenso. vistos de Mürren. calculando distâncias. achara a montanha mais alta do mundo uma verdadeira decepção. ao que parecia. perto de Darjeeling. como um pano de fundo impressionista pintado por um gênio meio louco. recordando mapas. para as quais as municipalidades solícitas proporcionam cadeiras de jardim. em frente de um paredão branco que parecia fazer parte do próprio céu — até o instante em que o sol o atingiu. no limite do firmamento. Tendo ido um dia à colina do Tigre. não parecia exibir-se à admiração. longínquos e impassíveis. Havia algo de cru e monstruoso naqueles rochedos de gelo. enfileiravam-se picos enevoados. para ver o sol nascer sobre o Everest. como uma dúzia de Jungfraus empilhados. estimando tempos e velocidades. E enquanto isso o avião. quase espalhafatoso. Não era Conway facilmente impressionável e por via de regra não se preocupava com "vistas" — principalmente com as mais afamadas. Então. sobre vastas planícies de nuvens.longe. Mas aquele espetáculo belíssimo que contemplava pela janela era de caráter diferente. E só então notou que Mallinson também despertara. naquele palco estupendo. festoados de geleiras e flutuando. ele chamejou numa incandescência soberba e deslumbrante. 42 . Ia Conway fazendo considerações. ia zunindo por sobre um abismo.

A ser verdadeira a hipótese. além da simples memória. ele a expôs com certa fluência desinteressada. devíamos estar a esta hora numa região espetacular do mundo — e bem vê que assim é. o lugar onde estamos? — indagou Barnard. — Reconhece. como um professor de universidade que elucida um problema. Quando o fizeram.CAPÍTULO II Uma atitude que caracterizava Conway era a de deixar que os outros fossem acordando por si mesmos. tinham voado para o Oriente durante algumas horas. — É também alpinista? 43 . . deu respostas breves às suas breves exclamações de assombro. . mas não me surpreenderia se aquela montanha fosse o Nanga Parbat. mas parece-me que isto coincide mais ou menos com o vale do Indo Superior. quando mais tarde Barnard lhe pediu opinião. Entretanto. mas parecia que seguiam o vale de algum rio — um rio que devia correr mais ou menos de leste para oeste. — Oh. onde Mummery perdeu a vida. A estrutura e a aparência geral parecem concordar com todas as descrições que tenho lido. não. Achava provável — disse — que ainda estivessem na índia. então. a tão grande altura que não se podia ver muita coisa. E concluiu: — Oxalá tivesse outros meios para determiná-lo. nunca estive sequer perto daqui.

Mallinson interveio. — Não acha. — Você quer dizer nosso maluco! Acho que já é tempo de abandonar a teoria do rapto. A não ser um louco. Já passamos a região da fronteira. Vontade de Deus ou loucura do homem — parecia-lhe que cada um podia escolher o 44 . não vale a pena perder tempo com cerimônias. atravessá-las será um recorde estupendo. mas. é claro. e por aqui não vivem tribos. impaciente: — Seria mais acertado procurarmos descobrir para onde vamos. — Certamente — concordou. se vamos tomar parte numa aventura comum. Conway? Desculpe-me se o chamo assim. — Não entendo muito de geografia. exceto um aviador exímio — retorquiu Barnard. quem poderia voar em semelhante país? — O que sei é que ninguém poderia fazê-lo. parece-me que vamos direto àquela cordilheira — disse Barnard. e pareceu-lhe que aquelas desculpas de Barnard eram um tanto fora de propósito. não é mesmo? Conway achava muito natural que o chamassem pelo nome simplesmente. Quem dera que alguém no-lo pudesse dizer! — Pois bem. E acrescentou: — Creio que aquela cadeia deve ser a de Caracorum. e entusiasta. Mas apenas fiz as escaladas comuns na Suíça.— Fui. A única explicação que me ocorre é que o sujeito é um louco furioso. — Nosso homem! — exclamou Mallinson. mas ouvi dizer que estas montanhas são consideradas as mais altas do mundo. na mocidade. para o caso de o nosso homem querer atravessá-la. e. Conway não deu opinião. — Também será a vontade de Deus — encaixou inesperadamente Miss Brinklow. se assim é. Há lá muitos desfiladeiros.

mas uma expectação aguda e intensa. Não pedimos que nos trouxessem aqui. Sentiu brotar na sua alma alguma coisa mais profunda do que a habitual indiferença. Este sujeito já devia estar louco quando começou. a vontade do homem e a loucura de Deus. Não esqueça aquela aterragem para tomar gasolina.que quisesse. Isso não impede que seja maluco. além disto. e. Conway ficou silencioso. Entretanto. Não era propriamente excitação. menos ainda temor. não adiantava nada discutir sobre conjeturas. Conway. enquanto contemplava a boa ordem da pequena cabina. Ou. E disse: — Tem razão. Este caso está ficando cada vez mais notável. Devia ser coisa muito consoladora ter opinião assente. Já ouvi contar o caso de um piloto que enlouqueceu no ar. — Notável ou não — insistiu Mallinson —. Aí está a minha teoria. e Deus sabe o que havemos de fazer quando estivermos lá — onde quer que seja esse lá. não me sinto inclinado a propor um voto de agradecimento. Enfastiava-se de estar continuamente a gritar entre o ruído do motor. inversamente (continuou a refletir. cujos socalcos mais baixos escureciam e se faziam violáceos. 45 . e lembre-se também de que este aparelho era o único que podia subir a tamanha altura. contra o fundo recortado pela janela naquele cenário descomunal). E foi então. caso achasse necessário encontrar uma razão para todas as coisas. E não acho menor a afronta por ser o sujeito um grande aviador. A luz tomara uma cor azulada sobre toda a montanha. enquanto assim olhava e refletia. que ocorreu uma estranha transformação. como vê. disse: — Loucura muito bem organizada. Barnard. como Mallinson insistisse por uma opinião.

A situação.— Não prova que ele não seja louco. inacessíveis. ainda virgens do contato humano.. tão profundamente majestosos e remotos que até o seu 46 . o resultado era uma clareza de idéias combinada com uma apatia física. Não sentia Conway nenhum desejo de prolongar a discussão. por ver que ainda havia na terra lugares assim — distantes. era aterradora. e isto podia dever-se. nele. é possível. Podia ser bastante louco para arranjar tudo isso. por exemplo. A muralha de gelo dos montes Caracorum aparecia. bem entendido.. em parte. Os picos tinham um brilho gélido. sem dúvida. que tomara um matiz ruço e sinistro. menos eu. à altitude. Conway estava já a pensar que o grupo poderia ser muito menos bem constituído. Somente Mallinson tinha tendência para aborrecer os outros. — Pois bem. agora. por enquanto. O certo é que aspirava o ar frio e límpido com verdadeira delícia. com os seus gracejos ponderados. parecia perfeitamente capaz de sustentálo. vamos então assentar um plano de ação. tanto mais que o americano. não? — Comigo não! exclamou Barnard. Mas. mais nítida ainda contra o céu do norte. certamente. não podia indignar-se contra uma coisa que se desenrolava de maneira tão metódica e despertava tão cativante interesse. Que faremos? Correr para ele e felicitá-lo pelo seu vôo maravilhoso. estado não de todo desagradável. — Corra para ele quem quiser. — Sim. O ar rarefeito produz efeitos diversos sobre as pessoas. Que faremos quando o homem aterrar? Se não se chocar nos rochedos matando a nós todos. E ao contemplar aquelas montanhas soberbas sentiu também uma ardente satisfação.

Aquelas centenas de metros que lhes faltavam para alcançar os gigantes conhecidos podia livrá-los eternamente das escaladas: eram menos tentadores aos recordistas. por sinal. o Tibete fica além deles. Enquanto ele continuava a contemplar o cenário caiu o crepúsculo. inclinava-se a ver certa vulgaridade no ideal ocidental dos superlativos. toda a extensão do horizonte cintilava contra o céu azul-ferrete. como uma tinta que se esbate. Era Conway a antítese deste tipo. A estes novos aborrecimentos começaram os passageiros a desanimar. 47 . Não o tentava o esforço excessivo. Por fim. não contavam com a prolongação do vôo pela noite adentro. pois de fato não sabia. desalentado. A distância máxima que podiam percorrer devia orçar por umas mil milhas. sacudindo incomodamente o aparelho. mergulhando as profundidades num negror aveludado que se estendia para cima.anonimato se revestia de dignidade. que é geralmente considerado a segunda montanha do mundo em altura. E aonde nos pode isso levar? — indagou o moço. empalideceu e revestiu-se de novo esplendor. Então toda a cordilheira. Surgira a lua cheia. O ar esfriou e saltou um vento. e as proezas sem finalidade aborreciam-no. — Não é fácil de julgar. deu o seu parecer. deve ser o K2. meio relutante. Começou Mallinson a discutir este assunto e Conway. muito mais próxima agora. — Pois sim. e agora só lhes restava a esperança de esgotar-se o combustível. aliás. Um desses cumes. mas provavelmente a algum ponto do Tibete. ferindo os picos um a um. a maior parte das quais já teria ficado para trás. como um celestial acendedor de lampiões. o que. não devia tardar muito a suceder. Se estes são os montes Caracorum.

e disse com esganiçada modéstia: — Como não pediram minha opinião. — Por que estamos aqui? Qual será o propósito de tudo isto? Não compreendo como podem caçoar de uma coisa assim! — Ora essa! Vale tanto como fazer cenas. depois do Everest — comentou Barnard. para um alpinista. Conway? Este sacudiu a cabeça. considerando-o absolutamente inacessível. jovem. 48 . — Apre! Isto é que é panorama! — E. se eu tivesse à mão um frasco de café-conhaque pouco se me daria que isto fosse o Tibete ou Tennessee! — Mas que havemos de fazer? — insistia Mallinson. Não haveria desculpa alguma para o seu procedimento. Miss Brinklow voltou-se para trás. provavelmente não terá propósito algum. Conway. — Oh! meu Deus! — murmurou Mallinson. O Duque de Abruzos renunciou a ele. Tenho certeza de que o pobre homem não pode estar regulando bem do juízo. é claro. de muito mau humor. se o homem é mesmo louco. porém. — Ele tem de ser louco. riu: — Vejo que você será o nosso guia oficial durante a viagem. Declaro que. muito pior do que o Everest. Mallinson. Barnard. como poderia ter feito durante um intervalo no teatro. talvez não deva dá-la. Refiro-me ao piloto.— O primeiro na lista. senão a loucura. Além disso. como você quer. Não posso achar outra explicação. E você. Mas desejo dizer que sou do parecer de Mr.

Ponderando sempre os inconvenientes de uma discussão teológica no recinto da sociedade missionária. mas discordei deles na questão do batismo das crianças.. vai a senhora voando da índia para o Tibete — disse Barnard. erguendo a voz acima do barulho ensurdecedor: — E sabem? Esta é a minha primeira viagem de avião! Absolutamente a primeira! Nunca me tinha resolvido a voar.E acrescentou. então? Mas parece que Miss Brinklow não compreendeu o termo. começou a parecer-lhe que Miss Brinklow não era destituída de certa fascinação. — Conheci um missionário que esteve no Tibete — continuou ela. Essa crença lhes vem de séculos atrás. mas afinal disse consigo que ela tinha uma constituição provavelmente 49 . Acreditam que descendemos dos macacos. Muito depois de atinar com a significação das iniciais — London Missionary Society —. Pensou até em lhe oferecer alguma peça do seu vestuário para agasalhá-la durante a noite. não quero dizer no sentido moderno. — E agora. — "Fundamentalista". — Dizia que os tibetanos eram muito esquisitos. embora uma amiga tivesse feito o possível para me persuadir a tomar o avião de Londres a Paris. Nada mais que uma de suas superstições. e para mim Darwin era muito pior que qualquer tibetano. Conway ainda continuava a achar cômica a observação de Miss Brinklow. — Dão prova de notável penetração! — Oh! não. Eu me baseio na Bíblia. M. Claro que sou contrária a tudo isso. — Assim é o mundo. S. porque gritou: — Eu pertencia à L.

Olhou então pela janela e viu a terra. que a princípio julgou imaginário. respondeu com um soturno: "Se tiver sorte!" Miss Brinklow.mais rija do que a sua. Ouviu-se o som de alguma coisa que se retesava e rebentava. foi má a aterragem. que também fora arrojado do assento. aconchegou-se no assento de vime. porém. Enchia-lhe os ouvidos um som de bater de asas. durante os dez segundos de baques e solavancos. e por um momento sentiu-se atordoado. ajustava o chapéu com tanta calma como se estivesse à vista o porto de Dover. Portanto. cerrou os olhos e adormeceu docemente. Era uma e meia. vaga e acinzentada. Nova guinada em sentido contrário atirou-o aos encontrões entre as duas filas de assentos. que parecia a menos perturbada do grupo. muito próxima. — Pronto! — acrescentou ele. e um dos pneumáticos explodiu. Pouco depois o avião tocou em terra. A primeira coisa que fez Conway foi olhar maquinalmente para o seu relógio. aflito. — Oh ! meu Deus! Que horror! Que horror! — gritava Mallinson. que fugia ali embaixo. Devia ter dormido algum tempo. E Barnard. De repente despertaram todos. Conway bateu com a cabeça na janela. Desta vez. sacudidos por uma guinada do aparelho. que o motor não funcionava e que o avião estava lutando com uma ventania contrária. porém. — Ele vai aterrar! — bradou Mallinson. E o vôo prosseguia. logo percebeu. O frio aumentara bastante. — Quebrou-se 50 .

.. Contudo. tiritando no intenso frio. A lua parecia ter desaparecido atrás de umas nuvens.. Uma pequena escoriação. dispondo-se a saltar para terra. Sentiam-se à mercê de qualquer coisa implacável e sinistramente melancólica — e esse espírito parecia saturar igualmente terra e ar. No horizonte longínquo alvejava uma cadeia delas. foi o último passageiro que se levantou. qual fila de dentes de cão.um dos patins da cauda. . . que falava pouco nos momentos críticos. agitada apenas pelo vento. — Vai entender-se comigo. e é para já!. Mallinson. verificaram os outros que assim era. quando o avião estacou definitivamente. 51 . Vamos ter de ficar aqui. nada mais. — Em terra não tenho medo desse sujeito. Não ouviam som algum. e que as montanhas que ali se erguiam eram montanhas acumuladas sobre montanhas. Mesmo sem conhecer o lugar. a não ser os uivos da ventania e o eco dos próprios passos. ter-se-ia adivinhado que aquele mundo gelado era o topo de uma montanha. Não se vê vivalma. dirigia-se já para a cabina de comando. e só as estrelas iluminavam a vastidão espantosamente vazia. . E. vendo que Mallinson puxava com violência a porta da cabina. — Prudência! — recomendou. a voz do moço repercutiu de maneira esquisita: — Não é preciso. naquele silêncio relativo. esticou as pernas emperradas e apalpou a cabeça no lugar da pancada. Isto parece o fim do mundo. Cumprialhe fazer alguma coisa por aquela gente. entregue a uma atividade febril. não há dúvida! Conway. seja ele quem for! — gritava. Um momento depois.

tireilhe o revólver. Como sentisse um forte cheiro de petróleo. o piloto foi ti52 . mais incisiva. Não pude arrancar-lhe uma palavra. aconteceu-lhe alguma coisa. também. aprestou-se para agir. com voz grave e rouca: — Escute. Apenas pôde notar que o piloto. Já não parecia pairar à beira de um abismo de dúvida. . De todas as situações imagináveis. Mas um observador poderia acrescentar que alguma coisa sucedera a Conway. Sacudiu-o. Em todo caso. Precisamos tirá-lo daí. . todavia. Volvidos alguns segundos. a fadiga — nada disso tinha já tanta importância. agora desperta. . o frio. esta lhe parecia combinar as circunstâncias mais horrivelmente adversas. é esquisito. o lugar. embora também um pouco apreensivos. . Encarapitou-se com dificuldade numa posição de onde podia ver — não muito bem — o interior do recinto fechado. o moço tornava a descer. Creio que o sujeito está doente. mas demasiado tarde para impedir a tentativa. segurando-lhe o braço e murmurando em frases destacadas. ou coisa parecida. não se arriscou a acender um fósforo. com o corpo caído para a frente. Havia alguma coisa que fazer. então. embora estivesse ainda um pouco tonto com a recente pancada na cabeça. Venha ver. Com o auxílio de Mallinson e Barnard. preparava-se para executá-la. hipnotizados pelo espetáculo daquela energia. tinha a cabeça em cima do quadro de instrumentos. Conway. Sua voz era mais forte.Os outros observavam-no. afrouxou-lhe o elmo. . A ocasião. desabotoou-lhe a gola e o colarinho. — É melhor que mo dê. e a parte convencional do seu ser. E Conway. . morto. Conway correu empós dele. Um momento depois voltou-se para dizer aos outros: — É exato.

O exame. quando Conway olhava pelas janelas. Tanto a sugestão como o veredicto foram aceitos sem discussão. o vento. provocando alguma sensação nos outros: 53 . um simples vento muito forte ou muito frio. . Não era um vento comum. não sem dificuldade naquele espaço exíguo. É melhor irmos com ele para dentro da cabina. eram-lhe familiares os fenômenos da doença. procurava examiná-lo. Foi então que Miss Brinklow. enquanto Conway. Não estava morto.rado do assento e deitado no chão. um amo que vociferava e batia o pé no seu domínio. mas desfalecido. parecia-lhe que o mesmo vento arrancava centelhas das estrelas e as fazia redemoinhar. Até Mallinson ajudou. . e não há esperança de nos podermos orientar ames da alvorada. a principal preocupação de todos — como que o leitmotiv do drama daquela noite. como à maioria dos homens que viveram em terras estrangeiras. remexendo na sua bolsa. Não há meio de abrigá-lo contra este vento infernal. E dentro em pouco era ele. porém. provocado pela altitude — diagnosticou. disse em tom condescendente. — Talvez um ataque cardíaco. mas. Jazia inerte o desconhecido. Conway não possuía conhecimentos especiais de medicina. não revelou muita coisa. Era uma espécie de fúria desencadeada em torno deles. Não sabemos onde estamos. Inclinava o aparelho com a sua carga. e. Transportaram o homem para a cabina e o estenderam no corredor entre os assentos. curvando-se sobre o desconhecido. Não era o interior mais quente que lá fora. — Não podemos fazer grande coisa por ele aqui. — O coração está fraco — declarou afinal. mas oferecia proteção contra as rajadas de vento. sacudindo-o raivosamente.

— É justamente do que ele precisava. — Parecemos uma turma de idiotas. Obrigado. que acabaria em catástrofe. E isto é uma espécie de acidente. Sua inquietação ia além da simples curiosidade intelectual.. Retirou a tampa do frasco. E. Mantendo-se em vigília durante aquela noite 54 . E Conway. talvez possamos chamá-lo à vida. Com um pouco de sorte. — Sorte? Será sorte para ele. cuja voz era seca e severa. estava mais preocupado com o problema imediato que representava o piloto. rindo como um doido. por muita pena que tivesse dele. cheirou-o e derramou um pouco de conhaque na boca do homem. levíssimo estremecimento das pálpebras. não acham? — Creio que sim — respondeu Conway com gravidade. — Não posso mais! — dizia. pois percebia que a situação deixara de ser excitantemente perigosa para se transformar numa prova de resistência.— Quem sabe se isto faria bem ao homem? Nunca pus uma gota na boca. se é que tem alguma nacionalidade! — É possível — tornou Conway. mas sempre trago uma garrafa comigo.. De súbito. pois só este poderia dar alguma explicação naquele apuro. — Mas o homem ainda não é cadáver. por enquanto. para casos de acidente. E ele não é nada bonito. Já se haviam fartado disso durante a viagem. hem? Creio que é chinês. Mallinson teve um acesso de nervos. Daí a pouco percebeu-se. Mallinson ainda tinha muito de menino de escola e obedeceu à ordem lacônica de seu superior. não para nós. à luz de um fósforo. fique calado! Embora mal se dominasse. riscando fósforos sobre um cadáver. — Não se fie muito nisso. Não se sentia inclinado a levar adiante a discussão no terreno puramente especulativo.

pois que ali. magnificente ao fulgor do luar. de um azul elétrico. inexplorada em sua maior parte. enquanto ele o contemplava. sobreveio abruptamente uma tremenda transformação. Ia acordar os outros para que participassem do espetá55 . tamanho ou distância. e impossível de classificar quanto à altura. vinha topetando com a cumeada de alguma eminência sombria e. A ser assim. posto que ainda não se mostrasse diretamente. varrida pelos ventos. de pouca altura. Então.tormentosa. teriam já alcançado a parte mais elevada e mais inóspita da superfície da Terra — o planalto do Tibete. Era. surgia uma montanha que lhe pareceu ser a mais bela do mundo. e negros de azeviche contra o céu noturno. limitado de um lado e outro por outeiros arredondados. porém. A lua. que Conway perguntava consigo se seria real. de perfil tão simples como se o tivesse desenhado uma criança. um pequenino tufo branco velou a borda da pirâmide. num ponto qualquer daquele país. desabitada. tão serenamente equilibrado. Adivinhava que o vôo se estendera muito além da cordilheira ocidental dos Himalaias. não encarou os fatos menos francamente por não os enunciar aos outros. cujos vales mais baixos ficavam a mais de três mil metros de altitude. com menos recursos do que no comum das ilhas desertas. melancólicos. como uma resposta que vinha aumentar ainda a sua curiosidade. Era um cone de neve quase perfeito. dando vida à visão antes que viesse confirmá-lo o rumor longínquo da avalancha. que lhe parecera oculta pelas nuvens. erguendo-se na abertura. E foi então que. Conway divisou os contornos de um extenso vale. descerrava o véu da escuridão. Era tão radiante. Uma vasta região montanhosa. a cabeceira do vale que lhe atraía irresistivelmente os olhares. para as alturas menos conhecidas do Kuen-Lun. Estavam perdidos ali.

toda envolvida em lãs e abafada em mantas como para uma expedição polar — o que lhe parecera ridículo a princípio —. com simpatia. e a própria Miss Brinklow. salvo ele próprio. ele nunca passara nas trincheiras uma noite tão completamente desagradável como esta. como armas. Mallinson resmungava consigo. mas. pensando melhor. não podia sentirse muito a gosto. quando os olhares de ambos se cruzaram. — Espero que a senhora não se esteja sentindo muito mal — disse-lhe. Diante de tão angustiosa perspectiva. abalados pela altitude. apenas possuíam um revólver. Até Barnard sucumbira à melancolia. Não era — disse ele consigo — uma pessoa normal. e Conway lhe era profundamente grato por isso. achou que o efeito poderia não ser lá muito tranqüilizador. depois de cada calamidade. O avião estava danificado e quase sem combustível — além de ninguém saber dirigi-lo. E não tinham alimento. Era bem provável que a mais próxima habitação humana ficasse a centenas de milhas dali. não se conteve Conway de lançar um olhar de admiração a Miss Brinklow. do ponto de vista do senso comum. Não lhe pareceu muito acertada a comparação. Tanto a capa de couro de Mallinson como o seu impermeável eram insuficientes. nem se podia considerar normal uma mulher que ensinava os afeganes a cantar hinos. conquanto isso 56 . achavam-se todos. E de fato não o era. aqueles esplendores virgens só podiam aumentar a sensação de isolamento e de perigo. era evidente o que lhe sucederia se aquelas atribulações se prolongassem por muito tempo. Mas o fato é que ela-se mostrava. Faltavam-lhes roupas apropriadas àquele frio e àquele vento terrível. — Os soldados durante a guerra suportaram coisas piores — replicou ela. normalmente anormal. Na verdade.culo. Além disto.

revelando um fundo de rochedos e cascalho que subia em encosta inclinada. a outros. que tinha morado na China. quando os primeiros raios do sol lhe feriram o vértice. apesar de seu feliz disfarce de tenente-aviador britânico. Ao aceno desta calou-se o vento. À proporção que ia esmaecendo a obscuridade. Emoldurada no pálido triângulo que tinham à frente. sem nenhum fascínio romântico. ele quase tornou a sentir um certo bem-estar. quase intelectual. se bem que agora. Não era uma cena hospitaleira aquela. um toque esquisito de beleza — alguma coisa que. tinha no entanto uma qualidade rígida. deixando o mundo imerso numa compassiva quietação. Tinha o nariz e os malares típicos dos mongóis. Mallinson chamara-lhe feio. Ia a noite arrastando-se. que agora respirava espasmodicamente e de vez em quando fazia um leve movimento. do frio e da ventania foi aumentando até o raiar da manhã. Concentrou a atenção no piloto. E a tríplice inclemência da escuridão. o próprio vale tomava forma. que necessitasse de um empurrão para ceder lugar ao seguinte. achava-o um espécime passável. e quando. A pirâmide branca. afinal. Já o ar estava mais tépido quando os outros acorda57 . sem dúvida alguma. Passado algum tempo desapareceu o luar. como se cada minuto fosse alguma coisa pesada e tangível. enquanto a contemplava. lá longe. depois prateada e afinal rósea. mas assumiu aos olhos de Conway.houvesse acontecido. cinzenta a princípio. tornou a aparecer a montanha. mas Conway. à luz do fósforo que ele acendera. o sol surgiu num céu profundamente azul. impunha-se ao espírito tão desapaixonadamente como um teorema euclidiano. e com ele o espectro distante da montanha. aquela pele descorada e a boca escancarada não parecessem nada belas. Com certeza Mallinson não errara supondo o homem chinês.

não estava? — A este respeito. se não formos a esse lugar. que respondia de vez em quando. aonde mais havemos de ir? — Onde você quiser. Por fim o homem abriu os olhos e pôs-se a falar convulsivamente. Lá. onde a luz do sol e o ar seco e vivo poderiam ajudá-lo a voltar a si. e começaram uma segunda vigia. em tibetano. o que é evidente. — Afinal. próximo daqui (na costa do vale. Shangri-Lá foi o nome que ele disse. Insistiu muito para que fôssemos ao mosteiro. O que é certo é que esse Shangri-Lá. às nove horas. Voltou-se então Conway para os companheiros: — Sinto comunicar-lhes que ele disse muito pouco — isto é. quer dizer desfiladeiro. isso não me importa. pouco relativamente ao que desejaríamos saber. Não deu nenhuma explicação coerente do motivo por que nos trouxe aqui. ele sem dúvida estava fora de si. mais ou menos. e Conway lembrou que se levasse o piloto para fora. Depois de algum tempo o homem foi ficando mais fraco. parece). e eu 58 .ram. se fica naquela direção. e afinal expirou. Mas. Falou um chinês que eu não compreendo muito bem. Apenas que estamos no Tibete. Seus quatro passageiros curvaram-se para ele. exceto para Conway. Foi isso. deve estar mais algumas milhas afastado da civilização. falando cada vez com mais dificuldade. mas creio que se referiu a um mosteiro de lamas. Assim fizeram. sei tanto quanto você. prestando atenção àqueles sons ininteligíveis para todos. onde encontraríamos alimento e abrigo. desta vez mais agradável. mas parecia conhecer o lugar. — O que não me parece ser uma razão para irmos — acudiu Mallinson.

e onde mais havemos de procurá-los. então? O 59 . Dentro de algumas horas estaremos todos esfomeados. Finalmente Conway prosseguiu: — Estamos todos mais ou menos de acordo. Riram todos.preferiria que fossemos encurtando. — Afinal. homem! Você não nos vai levar de volta? Conway respondeu com paciência: — Creio que você não compreende devidamente a situação. — Relativa sorte. Achamo-nos numa parte do mundo sobre a qual pouco se sabe. que parecia agitado e nervoso. que a nossa única salvação seria encontrarmos outros seres humanos. A perspectiva não é agradável. E esta noite. mesmo para uma expedição perfeitamente aparelhada. não aumentando a distância. teremos de sofrer de novo o vento e o frio. não temos o que comer e a região não é daquelas em que a vida é fácil. a não ser onde nos disseram que existem? — E se for uma ratoeira? — perguntou Mallinson. a não ser que é difícil e perigosa. a idéia de voltar a Peshawar não me parece muito praticável. Barnard concordou: — O que me parece é que teríamos muita sorte se de fato esse convento ficasse ali na esquina. — Uma ratoeira bem quentinha — respondeu Barnard — com um pedaço de queijo dentro me encheria as medidas. talvez — tornou Conway. Com mil diabos. pois. menos Mallinson. se ficarmos aqui. — Não acho que eu seja capaz de caminhar tanto assim — disse Miss Brinklow com grande seriedade. Considerando que provavelmente nos cercam por todos os lados centenas de milhas de território nas mesmas condições. Parece-me. Mallinson.

teremos tempo de voltar para passar a noite no avião. Mallinson encolheu os ombros e replicou. o argumento de Conway. acrescentou: — Na verdade. então vamos para Shangri-Lá. e esteja onde estiver. um assassinato é a coisa mais improvável do mundo num mosteiro budista. Opino. — E no caso de localizarmos o ponto? — indagou Mallinson. tentemos a aventura. os monges do convento talvez nos forneçam carregadores para a volta. Vamos precisar de carregadores. Não nos seria possível sequer enterrar este homem. — Quem nos garante que não seremos assassinados? — Ninguém. se não localizarmos o ponto até a tardinha. era uma visão magnífica e puríssima. porque. concordando com um gesto enfático de cabeça e anulando. E. e talvez seja preferível. contudo teremos de andar devagar. Daí a um momento exprimiam esses olhares o maior pasmo: tinham 60 . A esta observação fixaram todos o olhar no cone resplandecente que assomava na abertura do vale. Seja como for. Não me parece muito escarpado. Seja o que for. Mas creio que o risco é menor que o de morrer de frio ou de fome. sem dar por isso. Em plena luz do dia. Além disto.caminho lógico é pelo vale. sem dinamite. — Como São Tomás Becket — acudiu Miss Brinklow. que devemos ir imediatamente. portanto. ainda intransigente. Mais improvável. Mas esperemos que não fique a meia encosta daquela montanha. do que ser morto numa catedral inglesa. não podemos ficar aqui. melancólico e irritado: — Pois bem. como sentisse que esta lógica desalentadora não era muito apropriada à ocasião. mesmo.

— A Providência! — murmurou Miss Brinklow.avistado ao longe. descendo a encosta na direção deles. algumas figuras de homens. 61 .

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eles puderam distinguir um grupo de doze ou mais homens. como dissera Miss Brinklow. que essa comitiva viesse passar justamente por ali e naquela ocasião. Conway não podia imaginar aonde iriam. pois sabia que os orientais apreciam muito o ritual das saudações e gostam que elas sejam demoradas.CAPÍTULO III Com uma parte do seu ser. Dentro desta. acompanhando uma liteira de capota. Conway era sempre um espectador. enquanto esperava que os desconhecidos se aproximassem. uma forma de indolência — uma relutância a abrir mão do seu interesse de mero espectador no que ia acontecer. Agora mesmo. Fazendo alto a alguns metros de distância. Era. divisaram uma pessoa vestida de azul. curvou-se com a devida cortesia. nem frieza. se considerarmos a atitude sob o seu pior aspecto. ou pelo menos de 63 . viu o homem vestido de azul descer da liteira. por mais ativas que estivessem as outras faculdades. Com grande surpresa. E isto não era bravura. Enquanto a apertava. notou que era um chinês velho. Assim que chegaram ao alcance da voz. mas parecia certamente providencial. adiantou-se a passos vagarosos. nem uma alta confiança na própria capacidade de tomar resoluções sob o estímulo do momento. adiantar-se com uma resolução cheia de dignidade e estender-lhe a mão. não se deixou induzir a tomar uma decisão sobre o que cumpria fazer ou deixar de fazer nesta ou naquela eventualidade. Quando as figuras chegaram mais perto. um pouco mais tarde.

. Ao fim da explicação o chinês fez um gesto de compreensão e disse. àquela parte pouco freqüentada do mundo. com seus três companheiros. olhando pensativamente para o aeroplano avariado: — É na verdade notável! E acrescentou: — Chamo-me Tchang. Barnard.idade madura. de sorte que o encontro é duplamente afortunado.. . — Não é preciso. . Então. Na verdade. as circunstâncias que o tinham trazido. Se o senhor puder fornecer-nos indicações para a viagem. já grisalho. — Miss Brinklow. e palidamente decorativo na sua túnica de seda bordada. Mr. em breves palavras. e eu chamo-me Conway.. Estava assombrado com esse fenômeno: um chinês que falava perfeitamente o inglês e observava as formalidades sociais de Bond Street nas montanhas bravias do Tibete. . Dar-me-ei por feliz em lhes servir de guia. o outro também parecia estar submetendo-o a um rápido exame. Voltou-se para os outros. — Mas não posso permitir que se dê a tamanho incô64 . Mallinson. Mr. de rosto escanhoado. embora este encontro seja quase tão extraordinário quanto o fato de estarmos aqui. Curvou-se de novo Conway. Quer ter a bondade de me apresentar aos seus amigos? Conway tratou de sorrir com polidez. disse: — Pertenço ao convento lamaísta de Shangri-Lá. que é americano.. Todos sentimos prazer em vê-lo. que se haviam aproximado e observavam o encontro com maior ou menor espanto. num inglês preciso e quiçá demasiado gramatical.. íamos justamente partir a caminho do seu mosteiro. e depois de uma pausa conveniente pôs-se a explicar. Por sua vez.

não sei dizer. que suportara com ar sombrio essas delicadezas. mas se não fica muito longe. interveio então. . — Não fica longe. formulada com a maior suavidade. — Não importa. Achou Conway que a discussão. Considero uma honra acompanhá-lo. Ficar-lheemos gratos por nos albergar temporariamente. Todos nós lhe ficamos agradecidíssimos.modo. E respondeu: — Pois seja. exacerbou ainda mais o moço: — Tenho toda a certeza de que estou muito longe de onde desejo estar. — Pagaremos tudo que gastarmos. Mallinson. — E tem tanta certeza de que está longe dela? A pergunta. naquele lugar e em tais circunstâncias. mas a nossa gratidão será ainda maior se o senhor nos fornecer meios para voltar. mas também o caminho não é fácil. corria algum perigo de se tornar ridícula. no tom agudo e acerbo das casernas: — Não ficaremos muito tempo — anunciou laconicamente. . Quanto tempo julga que tomará a viagem para a Índia? — Na verdade. — Devo insistir. como todos nós. — Mas realmente nós. É extremamente gentil. Queremos tornar o mais depressa possível à civilização. espero que não encontremos dificuldade nisso. e desejamos alugar alguns dos seus homens para nos auxiliarem na viagem de volta. e aos seus amigos. e não só eu. Tenho alguma experiência de alugar carrega65 .

a todos os respeitos. escolhendo caminho por gargantas e ravinas. Parecendo-lhe tudo aquilo truculência desnecessária. 66 . O vinho tinha um agradável aroma. mas sem curiosidade. semelhando o de um bom vinho branco do Reno. assentada sobre imensa dignidade: — Só lhe posso assegurar. Interessava-o também a montanha que ficava além do vale. Mallinson. com gorros de pele e botas de couro de iaque. que tinham trazido. que será tratado com toda a consideração. com certeza. Enquanto o contemplava ia escalando-o mentalmente. Conway? — Sim. entretanto. evitar uma cena. Olhou em redor e viu que o chinês o encarava atentamente. arremetendo com a expressão. quando uma exclamação de Mallinson o fez voltar à terra. quase pungentes de tão saborosas. — Em última análise? — exclamou Mallinson. Tem nome. entre as frutas havia mangas perfeitamente amadurecidas. pois que os tibetanos ofereciam já vinho e frutas. — Estava contemplando a montanha. É um belo espetáculo. e esperamos que o senhor faça valer a sua influência para que sejamos bem servidos. Mr. vestidos de couro de ovelha. e em última análise não terá de que se arrepender. Eram homens sólidos. Mallinson comeu e bebeu satisfeito. Conway. Mr. após tantas horas de jejum. Não foi difícil. era.dores nativos. porém. — Chama-se Karakal. perguntava consigo como seria possível cultivar mangas naquela altitude. ia Conway intervir quando veio a réplica. e admirava-se de que nenhum viajante fizesse menção dele num desses livros que toda expedição ao Tibete faz invariavelmente surgir. um pico sensacional. livre de inquietações imediatas e não desejando buscar as mais distantes.

continuar a conversar com o chefe. O chinês viajava comodamente na sua liteira. O Everest mede 29 141 pés. E é muito alta? — Mais de vinte e oito mil pés. absolutamente nenhuma! Riu. Entretanto. ou 8 889 metros. O gracejo parecia-lhe fraco. meu caro senhor? Há alguma incompatibilidade entre a vida monástica e a trigonometria? Conway saboreou a frase e replicou: — Oh! não. Pouco depois iniciava a viagem para Shangri-Lá. o bastante para compreender que os homens estavam contentes por voltar ao mosteiro. que. de olhos fechados e com o rosto meio oculto atrás das cortinas. límpido como se viesse de outro planeta. Teria sido medida com exatidão? Quem fez os cálculos? — Quem havia de ser. o menos incomodado pela rarefação do ar. Entendia alguma coisa da língua tibetana. fora do Himalaia. Conway. tornava-se mais precioso 8 400 metros. e a ninguém sobrava energia para falar. Não poderia.) 1 67 . parecia mergulhado num sono exigente e muito oportuno.— Não creio que o tenha ouvido. mesmo que o quisesse. foi lenta e seguia declives suaves. Durou a ascensão toda a manhã. e o ar. isto poderia parecer pouco cavalheiresco. A fome e a sede tinham sido apaziguadas. se não satisfeitas.1 — Sim? Não sabia que houvesse altura semelhante. mas a tal altura o esforço físico era considerável. mas talvez valesse a pena guardá-lo. se não fosse absurdo imaginar Miss Brinklow em tão regia postura. do T. polidamente. esforçava-se por apanhar as frases que trocavam de vez em quando os carregadores. (N. ia o sol aquecendo.

Após dez anos de residência em vários países da Ásia. E ele pôs-se a refletir que também há gente que considera a sidra a mesma coisa que o champanha. Todo o corpo se movia no ritmo único da respiração. — Já estamos perto do cimo — disse Conway para animá-la. respondeu com alívio e presteza. tornara-se um tanto exigente na apreciação de sítios e 68 . Era necessário respirar conscienciosamente. refletidamente. Conway. deixando de funcionar automáticos e ignorados. disciplinavam-se de maneira a harmonizar com o espírito e as pernas. Há momentos na vida em que a gente abre a alma inteira. à oferta de uma experiência nova. além do assombro. do andar e do pensamento.a cada inalação. que por alguma razão tratava de ocultar. e nenhuma por si. e isto. E foi assim que Conway. enquanto que Miss Brinklow sustentava uma terrível luta pulmonar. em quem certa tendência mística se casava de maneira curiosa com o ceticismo. mas sem excitação. mas também possui algo de inédito. nessa fadigosa manhã à vista do Karakal. ao fim de certo tempo produzia uma tranqüilidade de espírito quase extática. — Uma vez corri para apanhar o trem — respondeu ela — e senti a mesma coisa. Também Barnard resfolegava asmaticamente. mas o jovem achava-se oprimido pela ascensão. Os pulmões. exatamente como desataria os cordões da bolsa ao perceber que um divertimento sai mais caro do que se espera. Em uma ou duas ocasiões disse palavras joviais a Mallinson. que a princípio parecia atrapalhador. Questão de paladar. tinha poucas apreensões. Surpreendia-se de verificar que. estava agradavelmente intrigado com a sensação.

prometia ser fora do comum. pois os liteiros fizeram alto para reajustar a carga. mostraram-se muito mais respeitosos. Contudo. E quando viram que o manejo das cordas era familiar a Conway. evidentemente ansiosos por prosseguir. aumentando-lhes enormemente o desconforto. em dado momento. Não tardara a notar que os homens. durante o sono de seu 69 . encharcaram os viajantes. requeria maior repouso. O estado de Barnard e Mallinson. permitindo-lhe que ligasse os companheiros como bem entendesse. acompanhadas de chuva e neve. que seria impossível ir muito mais longe. era apenas ligar o grupo todo. pouco depois lhe pareceu que deviam ter atingido o cume da serrania. muito menos sinistra. e esta aventura. com a violenta mutabilidade das regiões montanhosas. com tibetanos à frente e atrás. vinham sons de trovões e avalanchas. mas os tibetanos.acontecimentos. Após cerca de duas milhas de caminho costeando o vale. a subida tornou-se mais abrupta. vinham depois Barnard e Miss Brinklow. tinha de admiti-lo. E Barnard conseguiu exclamar. Depois disto. Dos campos de neve. Colocou-se ele logo atrás de Mallinson. mas já então o tempo se enuviara e uma bruma prateada obscurecia a paisagem. O próprio Conway sentiu. o frio tornou-se intensíssimo. o ar esfriou e. Rajadas de vento. como se costuma fazer nas escaladas. que padeciam grandemente. lá em cima. indicaram por sinais que o resto da viagem seria menos fatigante. e mais alguns tibetanos para fechar a retaguarda. numa desesperada tentativa para fazer espírito: — O quê! Já nos vão enforcar? Mas os guias demonstraram logo que a sua intenção. foi decepcionador vê-los desenrolar cordas.

— A senhora deve olhar por Barnard — disse a Miss Brinklow. em muito boas condições. um alpinista de primeira ordem. Fora. e corria mais perigo 70 . e o modo por que os carregadores conduziam a liteira nesses lugares despertou nele quase tanta admiração quanto os nervos do passageiro. Sentiu a conhecida excitação do comando. mas pareciam mais satisfeitos quando o caminho se alargava e oferecia leve declive. se houvesse qualquer dificuldade daria o que tinha para dar: confiança e autoridade. foi menos árdua do que esperava. cujo cimo o nevoeiro ocultava. Talvez devessem agradecer a esse nevoeiro o esconder igualmente o abismo do lado oposto. com a modéstia de uma águia: — Farei o que puder. que tinha boa vista para altitudes. Em certos sítios a trilha media uns escassos dois pés de largura. estavam inclinados a entregar-lhe a direção. A etapa seguinte. Começavam então a cantar toadas vivas e bárbaras. Mallinson. Estava. que dormindo conseguia fazer tal jornada. e livre do suplício que a subida representara para os pulmões. meio jocoso. — O fato é que nunca teríamos encontrado o caminho sozinhos — observou Conway com ar alegre. não achou na observação consolo algum. bem gostaria de ver onde estava. Eram os tibetanos bastante destros. que Conway imaginava orquestradas por Massenet para algum balé tibetano. Ao que ela respondeu. mas Conway. na verdade. Cessou a chuva e o ar aqueceu um pouco. meio sério. ainda que excitante por vezes. terrificado. mas o senhor sabe — nunca tinha sido amarrada. e achava-se ainda. porém. sem dúvida alguma.chefe. em tempo. O caminho era por um corte oblíquo na parede de rocha.

Conway! Você pensa que anda flanando pelos Alpes? O que eu queria saber era para que inferno nos dirigimos. agora que já passara o pior. Não era esta a sua atitude durante as comoções em Baskul! — Certamente que não. porque então havia alguma possibilidade de alterar os acontecimentos pela minha ação pessoal. porém.de se trair. Tem-me parecido sempre uma razão tranqüilizadora. 71 . era o primeiro sinal — e bem-vindo! — de altitudes mais hospitaleiras. E a gente ainda tem sorte quando. E qual será o nosso plano de ação. ao menos de momento. Foi com amargura que retorquiu: — Perderíamos muito com isso? O caminho descia agora com maior inclinação. — Justos céus. quando lá estivermos? Que faremos nós? — Se você tivesse a minha experiência — replicou Conway serenamente —. não vejo semelhante possibilidade. e num sítio encontrou Conway alguns edelvais. — Você está se tornando filosófico demais para mim. Há uma hora que vamos resvalando pela encosta de uma montanha perpendicular — bem o notei! — Também eu. como agora. Deixam-se correr as coisas. visto como quer uma razão. Agora. Ao ser anunciado. Assim foi a guerra. isto trouxe ainda menos consolação ao seu jovem amigo. um sabor de novidade vem temperar o que há de desagradável. — Suponho que você faça uma idéia do trabalho espantoso que teremos para voltar. Estamos aqui porque estamos aqui. saberia que há ocasiões na vida em que o melhor é não fazer nada. porém.

. não. — Não. Estamos fazendo tudo o que esses sujeitos querem de nós. e depois o encontro destes sujeitos. . sacudindo a cabeça —. Mas é preciso que eu mesmo esteja fora de mim para lhe dizer estas coisas. agitado. . . aquela horrível espera no meio da ventania. Você tem vinte e quatro anos e se acha a uns quatro mil metros de altitude — razões suficientes para explicar o que pode estar sentindo no momento. ainda que 72 . enlouqueceu. . mas não está em mim evitá-lo. — Pois então eu desejava saber como consegue manter-se tão frio diante de tudo! — Deseja realmente? Pois vou dizer-lhe.— Ah! você também viu isso? — expectorou Mallinson. . . Compreendo quão afortunado fui em ter escapado à guerra — creio que ficaria maluco. Desconfio muito de tudo isto. . não lhe parece um pesadelo inacreditável? — Certamente que sim. — Bem vejo que me estou tornando aborrecido. meu caro rapaz — respondeu Conway. mas não adianta nada. ao redor de mim. Parece-me que todo o mundo. — Mas você não vê como tudo isto é louco? Aquele vôo por cima das montanhas. Eles nos vão meter numa ratoeira! — Ainda que assim fosse. E pensar em tudo o que aconteceu desde então me acabrunha! Desculpe-me. . . morreríamos se não entrássemos nela! — Sei que isso é lógico. Receio muito que não me acomode tão facilmente como você à situação. mas estou exausto. E acho até que se está saindo extraordinariamente bem de uma prova difícil — melhor do que eu o faria na sua idade. Quando recorda tudo isso. enquanto morria o piloto. Não posso esquecer que anteontem ainda estávamos no consulado de Baskul.

. É porque tenho na memória muitas outras coisas que também parecem pesadelos. lembrase do modo como os revolucionários torturavam os prisioneiros antes da nossa partida. mas creio que nunca vi coisa tão cômica e horrível ao mesmo tempo. . muito eficaz. poderia parecer uma visão nascida daquele ritmo solitário em que a falta de oxigênio submergira todas as suas faculdades. . a pouca distância. quase inacreditável. E lembra-se do último telegrama que recebemos. e saíram do nevoeiro para uma atmosfera clara e cheia de sol. Logo se aplainou o solo. Afinal. sem aquela sombria resolução dos castelos do Reno. indagando se havia em Baskul mercado para espartilhos! Pois isso não lhe parece loucura bastante? Acredite-me. não há dúvida. . concentrando em poucos passos todo o esforço anterior. ao virmos para cá o pior que nos pode ter acontecido é trocarmos uma loucura por outra. Não é este o único lugar louco no mundo. Um grupo de pavilhões coloridos pendurava-se à encosta da montanha. Para Conway. Em frente deles. Era. para arrancar informações? Uma simples prensa de lavar roupa. Ainda conversavam quando uma escarpada mas breve subida lhes tirou o alento.me arrisque a parecer cínico. na verdade. se você houvesse estado lá teria feito o mesmo que eu — teria aprendido a esconder o medo sob uma aparência de bravura. o primeiro que o avistou. erguia-se o mosteiro de Shangri-Lá. antes que fossem cortadas as comunicações? Era uma circular de uma fábrica de tecidos de Manchester. visto que não quer deixar de pensar em Baskul. um espetáculo estranho. antes com a delicadeza aventurosa de pétalas de flor 73 . E quanto à guerra. Mallinson.

pairavam as encostas nevadas do Karakal. Mais além. numa enorme fenda que só podia ter resultado de algum antigo cataclismo. afigurou-se a Conway um lugar delicioso. abrigado dos ventos. um termo qualquer. imaginava já a mole imensa de neve e gelo contra a qual o rochedo servia de gigantesca barreira. distante e brumoso. pois a muralha rochosa continuava a descer quase perpendicularmente. Jamais conseguiu recordar exatamente de que maneira ele e os outros chegaram ao convento. alegrava os olhos com a sua verdura. Foi. numa pirâmide deslumbrante.encravadas num penhasco. E Conway pensava consigo que bem podia ser aquela a mais terrífica paisagem montanhosa do mundo inteiro. talvez não fossem destituídos de razão os receios de Mallinson. E perguntava consigo se um risco tão remoto. aliado ao receio que inspirava. e metade do esplendor gelado do Karakal iria abater-se no vale. meio mística. sua população devia ficar completamente isolada pelas cordilheiras altíssimas e absolutamente inacessível do outro lado. meio visual. Era soberbo e encantador. porém. Quase não menos sedutora era a perspectiva de baixo. se era habitado. nem as formalidades com que ali foram recebidos. logo diluído na sensação mais profunda. A única subida viável parecia ser para o mosteiro. de ter afinal atingido uma meta. Contudo. um sentimento momentâneo. poderia proporcionar alguma excitação agradável. Uma emoção austera arrebatava o olhar dos tetos azuis leitosos para o bastião de rocha cinzenta lá no alto. desamarrados e intro74 . formidável como o Wetterhorn acima de Grindelwald. O viajante sentiu ligeira apreensão enquanto observava a cena. mais vigiado que dominado pelo mosteiro. Talvez um dia a montanha inteira desabasse. O fundo do vale.

a personificar uma dama preparada para as piores conjunturas. Neste ponto Barnard. aquecido e perfeitamente asseado. mas apenas teve tempo de notar essas coisas. por enquanto. soltou uma risada asmática. . . com um sorriso de través. que gosto do seu clima. — respondeu Conway. casando-se com o azul porcelana do céu. Barnard. Espero que não estejam muito fatigados. Com certeza hão de querer um banho. E Miss Brinklow concordou. — Fizemos o possível. o ar parece grudar-se um pouco aos pulmões. a cada olhar. Aquele ar tão fino tinha uma textura de sonho. uma tranqüilidade profunda e anestesiante. ou isto aqui é um hotel americano? — Creio que o senhor achará tudo a seu contento. e preciso ter cuidado comigo. Teremos de fazer fila diante do quarto de banho. mas espero que nada lhes falte. ainda arquejante. 75 . — Excelente! E agora.duzidos no recinto. se quiserem acompanhar-me... mas é que essas viagens não me fazem bem. Mr. Lembrava-se vagamente da sua surpresa ao encontrar um interior espaçoso. às piadas de Barnard. realmente. a cada sorvo de ar. porque o chinês deixara a liteira e os ia guiando através de várias antecâmaras. mas a verdade é que os senhores têm uma esplêndida vista das janelas da frente. Bebia. . — Não posso dizer. com afetação: — Assim o creio. que o tornava igualmente impenetrável à inquietação de Mallinson. Nossa instalação é simples. eu lhes mostrarei os seus aposentos. . ao ar modesto de Miss Brinklow. Mostrava-se agora muito afável: — Devo pedir desculpas de tê-los abandonado a si próprios durante o trajeto.

se isso não o incomoda. quanto mais cedo. sofria com a influência da altitude. No que me toca. fazendo algum esforço. mas enfim. achou fôlego para replicar: — E depois. faremos nossos planos para a volta. melhor! 76 . Conway respondeu polidamente.— E depois — continuou o chinês — sentir-me-ei muito honrado se me fizerem companhia ao jantar. Como Barnard. Só Mallinson não dera sinal de vida diante dessas comodidades inesperadas.

somos menos bárbaros do que esperavam. a mais genuinamente civilizada. talvez. tudo bem considerado. Vivera quase dez anos na China. E contudo o criado nativo que lhe servira de camareiro tratara-o à moda chinesa. era. Iam as instalações muito além do que esperara.. parecia-lhe aquele o período mais feliz da sua vida. Conway perguntara nessa ocasião a si mesmo se os seus companheiros estariam recebendo os mesmos cuidados — e como os receberiam. produto de Akron. uma banheira de delicada porcelana verde. . e. nem sempre nas maiores cidades. ao cabo de algumas horas. mas o que lhe parecia singularíssimo era aquela combinação do aparelhamento da higiene ocidental com tudo mais que era tradicionalmente oriental. A banheira em que acabava de se regalar.CAPÍTULO IV — Como vêem — dizia Tchang —. numa época em que até Lassa era provida de telefones. Conway sentiu-se disposto a concordar com ele. de causar muita admiração que um mosteiro tibetano possuísse calefação interna. entre todas. conforme dizia a marca da fábrica. E. estado de Ohio. Gostava dos chine77 . Não era. limpando-lhe as orelhas e narinas e passando-lhe um pequeno esfregão de seda sob as pálpebras. Tudo o que vira até então em Shangri-Lá enchia-lhe a medida dos desejos. por exemplo. Gozava aquela agradável mistura de bem-estar físico e agilidade mental — sensação que lhe parecia.

era sobriamente adornada com tapeçarias e uma ou duas bonitas 78 . Vejo-me obrigado a cuidar da minha saúde. já lhe dava uma aprazível sensação de estar em casa — outra coisa que não podia esperar fosse compartilhada pelos companheiros. aliadas à tez de argila úmida. davam-lhe uma aparência indefinida que tanto podia ser a de um moço envelhecido antes do tempo como a de um velho admiravelmente conservado. Não lhe faltava. Tchang. sem tomar vinho. com suas sutis gradações de gosto. A sala também lhe agradava. as feições miúdas e por assim dizer imprecisas. dava-lhe um encanto metálico e frio que Conway achava agradável. Examinando-o agora mais detidamente. contudo. posto que soubesse não ser este o gosto dos outros. com a costumeira saia aberta ao lado e as calças apertadas no tornozelo — toda a gama do azul-celeste —. a atmosfera antes chinesa do que especificamente tibetana. a primeira refeição em Shangri-Lá dera-lhe a grata impressão de uma coisa com que estava familiarizado. aliás. explicara a princípio: — Os senhores me desculparão. Conway perguntava a si mesmo qual seria a enfermidade que o afligia. uma como aura de cortesia formalista o rodeava. A vestimenta de seda azul bordada. Por isso. . . mas notou que seus companheiros estavam mais à vontade. Suspeitava.ses e dava-se bem com o seu sistema. viu que era difícil determinar-lhe a idade. porque não só ele sentiu diferença. em si. Apreciava particularmente a cozinha chinesa. Era. mas a minha dieta é muito rigorosa. Já dera antes aquela mesma razão. que contivesse alguma erva ou droga para aliviar a respiração. na verdade. que apenas comeu pequena quantidade de salada crua. qual perfume tão delicado que mal chama a atenção e é depressa esquecido. de admiráveis proporções. certo atrativo. e isto.

ao meu ver. quando aqui cheguei. e não se pode dizer que ficasse apreensivo ao pensar de novo na possibilidade de ter ingerido alguma droga. sem contudo alcançar o fatal conhecimento da máquina. na verdade — replicou o chinês num tom comedidamente majestoso. 79 . — Esta parte do mundo não é muito freqüentada. Ambos haviam jantado bem. observando a Tchang: — Sua comunidade me parece muito feliz e muito hospitaleira com os estrangeiros. sem contaminação alguma do mundo exterior.peças de laca. Aqui poderia florescer uma cultura original. A sua rede de encanamento é tão moderna quanto possível — a única dádiva que. — O senhor usa de um eufemismo. diz o senhor? — Refiro-me ao jazz. contudo. abrandara a truculência de Mallinson. o Ocidente tem para oferecer ao Oriente. que os recebam muito a miúdo. Não creio. o lugar mais isolado em que já pus os olhos. — Raramente. Calou-se. Foi só ao acender o cigarro que fez uma leve concessão à curiosidade. Sentia Conway um suave conforto de corpo e espírito. Pareceu-me. Tenho pensado muitas vezes que os romanos foram afortunados. Sua civilização chegou a conhecer os banhos quentes. etc. — Contaminação. cinemas. e não lhe desagradava que a etiqueta exigisse a protelação dos assuntos importantes. imóveis no ar parado. aliviara a falta de ar de Barnard. Como jamais gostara de dar fim a uma situação em si mesma agradável. aquela técnica lhe convinha maravilhosamente. Ele também se sentia faminto. A luz vinha de lanternas de papel. Fosse ela o que fosse (se é que houvera droga). preferindo comer a falar. Falara com uma fluência improvisada que. sinais luminosos. Isto provocou um sorriso em Conway.

Disse logo. na verdade! Calou-se. ainda que a maioria seja. como é natural.posto não fosse insincera. . Há mais alguns. Tchang respondeu: — Os que se acham perfeitamente integrados na ordem são cinqüenta. . — Há ingleses aqui? — Diversos. sim? Ergueu Tchang os supercílios em gentilíssimo protesto contra esta entrada súbita na matéria. Que é exatamente o que deseja saber? — Em primeiro lugar. começando com uma palavra de pedido que. há representantes de muitas nações entre nós. composta de tibetanos e chineses. Miss Brinklow é que não tinha tais escrúpulos. aspirantes. e continuou: 80 . . . que ainda não atingiram a completa iniciação — como eu. Esperamos lá chegar no devido tempo. fale-nos do mosteiro. E era exímio nesse jogo. porém. digamos. era destinada sobretudo a criar um ambiente e controlá-lo. nada tinha de submissa: — Por obséquio. desde que esteja em mim. apenas para respirar. Miss Brinklow não se furtava nunca a uma conclusão. e a que nacionalidade pertencem? Via-se que o seu espírito metódico funcionava não menos profissionalmente do que na missão de Baskul. Só o desejo de corresponder àquela polidez refinada o impedia de se mostrar mais francamente curioso. Até então. É notável. todavia. — Terei imenso prazer. minha senhora. ainda que fosse errada: — Compreendo. — Meu Deus!. quantos lamas vivem aqui. É então um verdadeiro convento nativo. Seu chefe é tibetano ou chinês? — Não. Quanto às origens raciais. somos semilamas.

parecia ter-lhe dado nova vivacidade. que Tchang respondeu: — Para me exprimir em poucas palavras. Esta concessão suscitou uma cerimoniosa reverência de Tchang. Sempre achara prazer em observar o choque de duas mentalidades opostas. Mas Miss Brinklow compartilha a minha curiosidade quanto à razão de ser deste estabelecimento único. parece-me que seria melhor não discutirmos. meu caro senhor. E disse. sou uma crente da verdadeira religião. Miss Brinklow. Conway recostou-se na cadeira. pois não é? De novo interpôs-se Conway: — Na verdade. Mas. diga-me em que crêem os senhores. com um gesto magnânimo: — Eu. que replicou no seu inglês preciso e elegante: — Mas por que não. que tornara os outros mais tranqüilos. como não desejava que seu hospedeiro se assustasse. E prometia ser interessante aquela retidão de mentora de meninas aplicada à filosofia lamaísta. não estava para contemporizações. Foi quase num murmúrio. numa expectativa que tinha o seu tanto de divertida. mas tenho bastante largueza de vistas para admitir que outras pessoas — isto é. e muito lentamente. porém. E é natural que num mosteiro eu não espere aprovação. é claro. O vinho.— E agora. estrangeiros — sejam absolutamente sinceras no seu modo de ver. disse com ar conciliador: — É uma pergunta muito importante. direi que nosso principal artigo de fé é a moderação. minha senhora? Então porque uma religião é verdadeira. devemos sustentar que todas as outras são forçosamente falsas? — Mas certamente! Isso é óbvio. Preconizamos a virtude de evitar excessos de toda 81 .

sorte — incluindo. tanto como nas sensações corporais. achando bem expostas aquelas idéias. nenhuma. Espero que não tenham cometido falta alguma durante a viagem. que tenha tocado agora num assunto que não posso discutir. mas a maioria de nós somos moderadamente heréticos no tocante aos mesmos. não? — Sim. o próprio excesso de virtude. senhor. Segundo notei. moderadamente casta e moderadamente honesta. e onde vivem alguns milhares de pessoas. Qualquer coisa na própria voz. de ver que eles têm os pés mais que moderadamente firmes. porém. A esta pergunta. Conway sorriu. que aliás agradavam ao seu temperamento. em troca. Com certeza. Só me é permitido acrescentar que a nossa comunidade tem várias crenças e usos. Verificamos que este princípio concorre em grau considerável para a felicidade dos habitantes do vale que viram lá embaixo. com uma obediência moderada. — Por favor. Governamos com moderado rigor e nos satisfazemos. . Muito lastimo não poder dizer mais no momento. reavivou no espírito de Conway a impres82 . O senhor me deixa entregue às mais agradáveis conjeturas. devo inferir que ela não se aplica também aos sacerdotes?. E creio poder afirmar que nossa gente é moderadamente sóbria. Alegro-me. Tchang sacudiu a cabeça. os homens que foram ao nosso encontro esta manhã pertencem ao povo do vale. . não se incomode. entretanto. declarando: — Lamento. — Creio que compreendo. — Oh! não. com perdão do paradoxo. o senhor teve o cuidado de dizer que a moderação se aplicava a eles. sob o controle da nossa ordem.

mas ainda assim.. arrancar a Tchang senão esta frase calma. talvez o senhor possa fazer alguma coisa. Se nos arranjasse um mapa 83 . e nossos amigos e parentes devem estar inquietos por nossa causa. — Não? Pois seja. desejamos partir amanhã. E foi somente após um intervalo um tanto longo que Tchang replicou: — Infelizmente. mas me parece que é tempo de tratarmos dos planos de partida. — Entretanto. porém. creio que o assunto não poderá ser resolvido imediatamente. é claro. Mallinson. As últimas palavras de Mallinson foram ditas com nervosismo. Como quer que seja. fundo em que tomar pé. temos positivamente de voltar! Estamos muito agradecidos pelo acolhimento que nos dispensou. não é a mim que o senhor deve dirigir-se neste caso. como se ele esperasse uma réplica mesmo antes de terminar. rompendo a crosta de suavidade. ao mais tardar. Quantos carregadores podem fornecer-nos os senhores? Esta pergunta prática e inflexível. Não há de faltar entre os seus homens quem nos queira escoltar — trabalho que será bem remunerado. aproveitou a ocasião para observar: — Tudo isto é muito interessante. não encontrou.são de que se achava submetido à ação benigna de alguma droga. Não conseguiu. Queremos voltar à Índia o mais depressa possível. entretanto. precisamos assentar alguma coisa! Todos nós temos algum trabalho a atender.. Mr. Se for possível. que quase encerrava uma censura: — Mas tudo isso — sabe — não está na minha alçada. contudo. mas não podemos ficar aqui sem fazer nada. Mallinson parecia estar sob uma influência semelhante.

. De repente repeliu a cadeira e ergueu-se. . Quando instalaram todos esses banheiros modernos. Os senhores têm mapas. suponho. . . . — Então. . . — Sim. fatigado. para tranqüilizar os nossos amigos. . razão de sobra para partir mais cedo. mas. pediremos alguns emprestados. fazendo-o sentar. . . Não o tivesse Conway segurado. Por que é que você não descobre a verdade? Por agora. . . se não é incômodo. alguma coisa da civilização? Assomava-lhe já ao olhar e à voz um toque de terror. . . Estava pálido. Conway. . . para onde recorrem os senhores quando precisam de alguma coisa.. porque suponho que hão de ter comunicação com o resto do mundo. . . não esqueça. . Após um momento de espera. correndo um olhar circular pela sala. te84 . Depois lhos devolveremos. . teremos de fazer uma viagem longa. não posso mais comigo. — Então não quer responder? Certamente isto faz parte do mistério que cerca todas as coisas aqui. de vez em quando. E seria uma boa idéia mandar notícias. quero dizer. temos de ir embora amanhã. como vieram eles ter aqui? Seguiu-se novo silêncio. Fiz apenas uma pergunta simples. passava a mão pela fronte.grande da região prestar-nos-ia serviço. Ao que parece. o moço continuou: — Bem. devo dizer que o considero um grande moleirão. amanhã. É claro que o senhor há de poder responder-me. gaguejou: — Estou tão cansado! Parece que ninguém me quer ajudar. A que distância fica a estação telegráfica mais próxima? O rosto enrugado de Tchang parecia ter-se revestido de infinita paciência — mas ele não respondeu. temos muitos. é indispensável. . E.

O próprio Conway tinha a sensação de despertar de uma hipnose. a opinião de meus companheiros. ou de alguém mais.ria escorregado para o chão. naturalmente. com mais vivacidade: — Creio que nós todos sentimos mais ou menos a mesma coisa. Miss Brinklow. — A prova foi muito rude para ele — comentou com uma indulgência melancólica. . — Amanhã ele estará muito melhor — disse Tchang suavemente.. Temos de preparar o nosso regresso. e por isso vou direto ao ponto. — Bem. eu já os sigo. quer encarregar-se de Mallinson? Tenho certeza de que também precisa dormir. mas eu não o censuro. com uma sem-cerimônia que contrastava abertamente com suas maneiras anteriores. Será melhor adiarmos esta discussão e irmos dormir. Sentira-se esporeado pela censura de Mallinson. será favor pôr-nos em contato com alguém que o possa. . Depois.. sim. meu senhor. . Meu amigo é impetuoso. . — O ar aqui abala os forasteiros no começo. boa noite. vamos todos. Sem dúvida fora dado algum sinal. . 85 . que é impossível partir amanhã. não desejo retê-lo muito tempo. E acrescentou. Barnard. Compreendo. boa noite. se é verdade que o senhor por si mesmo nada pode fazer. talvez. Está no direito de querer as coisas bem claras. . porque imediatamente apareceu um criado. mas não falou. . Quase os empurrava para fora da sala. Reanimou-se um pouco. Assim. . e por minha parte creio que acharei muito interessante o tempo de espera — um mínimo de tempo. mas logo se aclimatam. voltou-se para o anfitrião. Mas não será essa. e não podemos fazê-lo sem seu auxílio. E Conway continuou: — Sim.

com a qual o chinês salva as aparências nos momentos de aperto. como bem pode imaginar. e por isso menos impaciente — o que me alegra. senão. era o que eu pensava. quando meus amigos e eu o encontramos? Não tendo obtido resposta. prosseguiu Conway com voz mais tranqüila: — Compreendo. mas se todos encararmos o problema razoavelmente e sem pressa desnecessária. Tchang pôs-se a rir — um riso agudo e sacudido e tão evidentemente forçado que Conway reconheceu nele essa simulação polida de perceber um gracejo imaginário. — Pois bem. — Isto não é resposta. — Não há dúvida de que no devido tempo poderemos prestar-lhes todo o auxílio de que necessitam... Eles têm seus lares no vale e não sentem inclinação para deixar esses lares e fazer longas e penosas excursões. Então é certo que o senhor foi até lá com o fim deliberado de interceptar-nos. isto levanta outra questão. um encontro casual. Isto faz crer que tenham sido avisados com antecedência 86 . talvez. Duvido muito que o senhor encontre facilmente homens dispostos a empreender tal viagem.— O senhor é mais inteligente que os seus amigos.. — Em que sentido? Não ia o senhor de viagem. Há dificuldades. — Podem ser persuadidos a fazê-lo. Peço apenas informações sobre os carregadores. Não foi. — Não exigi pressa. por que e aonde iam eles escoltando-o esta manhã? — Esta manhã? Oh! isso era coisa muito diversa. Na verdade. meu caro senhor. — Estou certo de que o senhor não terá motivo de queixa — respondeu ele.. pois. meu caro senhor.

— Se é apenas por pouco tempo. — Está muito bem então. . afinal. Desviando um reposteiro de seda. E é claro que poderá haver certa demora. — Compreendo. assim recortada contra a azul imensidade. mas não acertou inteiramente. e de fato inevitável. levou-o para o ar frio e cristalino. no que me toca. com um pequeno gesto. sereno como o de uma estátua. — Amanhã — disse Tchang — o senhor poderá achá-la ainda mais interessante. dava a impressão de que se poderia tocá-la com a mão — tão frágil parecia. contemplando a pirâmide brilhante do Karakal. A luz da lanterna fazia ressaltar o tosto do chinês. já lhe disse — não posso dizer que isso me aborreça muito.da nossa chegada. — Não é o perigo o que nos inquieta: é a demora. nós precisamos de repouso. então naturalmente havemos de suportá-la o melhor que pudermos. Tocando então no braço de Conway. Tchang desfez a tensão. Repentinamente. porque nada mais desejamos senão que o senhor e seus companheiros achem agradáveis todos os momentos que aqui passarem. nem o senhor nem eles correm perigo algum em Shangri-Lá. . E quanto ao repouso. e. descobriu uma janela que deitava para um balcão. — Isso será muito acertado. Naquele momento. iluminada pelo luar. se es87 . e. Por isso eu o aconselharia a não afligir os seus amigos com estas discussões abstratas. Acredite-me. E a questão mais interessante é — como? Suas palavras punham uma nota de veemência na perfeita quietude da cena. É uma experiência nova e interessante. Olhava para cima. — O senhor é sagaz — disse com ar sonhador —. É absolutamente inevitável.

pelo menos até que as autoridades se resolvessem a vir-lhe em socorro. Afinal. Alguma coisa lhe inspirou então o desejo de indagar qual a interpretação literal do nome. na véspera. a atitude de Tchang. no dia seguinte. não havia agora o menor sopro de vento. Uma parte do seu ser insistia em ver algo de muito estranho naquele lugar. quando mais não fosse. não há no mundo inteiro muitos sítios mais apropriados do que este. Aumentou ainda a semelhança quando viu iluminar-se o vértice — um clarão azulado de gelo. como se o espetáculo se dirigisse não menos ao espírito do que aos olhos. Parecia-lhe que o devia fazer. à medida que Conway continuava a olhar ia-se apoderando dele uma profunda sensação de repouso. significa "Lua Azul". como um farol. igualando o esplendor que refletia. no dialeto do vale. o vale inteiro. fechado. estava longe de ser tranqüilizadora e o grupo achava-se virtualmente prisioneiro. essa certeza tão pouco o preocupava. E era seu dever evidente incitá-los à ação. e era iníquo que os habitantes de um mosteiro tibetano se re88 . de que sua vinda a Shangri-Lá era de alguma forma esperada pelos habitantes do mosteiro.tá fatigado. contudo. e a resposta murmurada de Tchang foi como um eco da sua própria meditação: — Karakal. tendo a vigiá-lo. a não ser teoricamente. Na verdade. o Karakal. Não comunicou Conway aos outros a conclusão a que chegara. Em contraste com o furacão da noite anterior. ele o percebia. que procurou evitar maior inquietação aos outros. e percebia tratar-se de um caso importante. era um representante do governo britânico. era um porto terrestre.

a amostra que dava disso era apenas uma pequenina peça de um só ato. àquela hora devia o moço sentir-se bem desiludido. incluindo mulheres e crianças.1 destinada a ser dada em prêmio nas escolas e intitulada Acompanhando Conway em Baskul.cusassem a atender a um pedido justo que fazia. chefiada por agitadores hostis a toda sorte de estrangeiros.) 1 89 . manejando os cordões e escrevendo relatórios intermináveis. bem o compreendia. Durante os dias difíceis que precederam a evacuação. conseguisse abiscoitar alguma coisa nas condecorações do Ano Bom. . vigorosos e violentos. isso lhe valera a fervorosa admiração de Mallinson. pequena façanha. Era pena. e aquela parte do seu ser era tão normal como oficial. mas Conway já se habituara a ver pessoas gostarem dele só porque se enganavam a seu respeito. a maneira normal e oficial por que se encararia a questão. tomar sobre os ombros a direção de várias dezenas de civis de todas as classes. . Talvez que. até conseguir a permissão. De fato. de deixarem a cidade em aviões — não fora. do T. seu procedimento fora de molde a granjear-lhe (e pensava nisto meio contrariado) nada menos que a dignidade de cavaleiro e uma novela no estilo de Henty. albergá-los todos num pequeno consulado durante uma revolução violenta. Ninguém melhor do que ele sabia fazerse de homem forte quando a ocasião o requeria. De qualquer forma. (N. por arranjo especial com o destino e o Ministério das Relações Exteriores — e em troca de um salário que qualquer um podia verificar nas Jornalista inglês e autor de livros para meninos (1832-1902). sim. Tal. ameaçar e adular os revolucionários. para todos. Não era verdadeiramente um desses construtores de império resolutos. sem dúvida alguma. repetida de tempos em tempos. Infelizmente.

O fato é que o enigma de Shangri-Lá e de sua presença ali começava a exercer sobre o seu espírito uma fascinação não despida de encanto. a menos que alguém se resolva a deitar energias. havia de se queixar por ter ido parar no mais estranho de todos os lugares. banhos. Conway aceitou a observação. em vez de ser ali enviado por uma ordem do Ministério? E na verdade estava muito longe de se queixar. . em via de regra. E até certo ponto era ver90 . Em todo caso. em virtude de um acidente. Exposto pela própria profissão a andar por estranhos sítios do mundo. Ao sair da cama. por que. creio que não poderemos partir amanhã — resmungava —. . O próprio Mallinson mostrava um pouco de complacência um tanto soturna. almoços e outras doçuras da hospitalidade. menos se aborrecia neles. pois. Alegrou-se de ver que a noite de repouso também produzira efeito tonificante nos outros. quanto mais estranhos eram. . Barnard pilheriava alegremente a propósito de camas. Que estes sujeitos são tipicamente orientais. convenceu-se de que não desejaria estar em nenhum outro ponto da terra — fosse Peshawar ou Piccadilly. sem dúvida. — Afinal.páginas do anuário Whitaker. não sentia nenhum receio pessoal. para justificar uma generalização que provavelmente havia de repetir quando tivesse vivido vinte anos no estrangeiro. de manhã. Não se consegue que façam coisa alguma depressa nem com eficiência. Miss Brinklow confessava que a mais tenaz pesquisa no seu aposento não lograra revelar uma só das falhas que estava certa de encontrar. . avistando pela janela o lápis-lazúli do céu. Não havia ainda um ano que Mallinson se encontrava fora da Inglaterra — tempo suficiente.

não considerava.dade. Dificilmente esperaria que outro ocidental compartilhasse aquele ponto de vista. este breakfast está excelente! Consistia a refeição.. Mallinson relanceou vivamente os olhos para ele. teria sido muito melhor para o rapaz. chá e bolos de farinha sem lêvedo. os ingleses e americanos que galopavam ao redor do globo sob a ação de uma febre contínua e um tanto absurda.. Conseguiu arrancar-lhe alguma coisa razoável depois que fui para a cama? — Não ficamos muito tempo a conversar. Quando ia terminar entrou Tchang e. — Entrementes. Ele falou em termos vagos e não comprometedores sobre quase tudo que nos interessava. e ainda penso assim. então. não podia negar que Tchang fosse um contemporizador sutil. Sentia um leve desejo de poder ser também impaciente. sem grande entusiasmo. em pomelos. e que a impaciência de Mallinson era bem justificada. — Creio — disse ele — que conviria esperarmos para ver o que nos traz o dia de hoje. começou aquela troca de cumprimentos 91 . antes. as raças orientais tão extraordinariamente dilatórias — seriam. Era talvez otimismo exagerado supor que eles fizessem alguma coisa já ontem à noite. — Acha. contudo. fazendo uma pequena reverência. que eu fiz papel ridículo com a minha insistência? Não pude conter-me! Aquele chinês me parecia suspeitíssimo. — Nós hoje havemos de obrigá-lo a pôr os pontos nos ii! — Sem dúvida — concordou Conway. mas quanto mais crescia em anos e experiência mais se apegava a ele. Por outro lado. muito bem preparada e ainda melhor servida.

polidos e convencionais que. — Parece que o senhor assentou tudo isso durante a noite — interpôs Barnard. se o senhor não tem objeções a fazer. que nos vamos conformar com esta resposta? — Estou sinceramente pesaroso. mas segue imediatamente". pareciam um tudo-nada pesado. o chinês acrescentou: — É bem verdade o que diz o seu poeta nacional: "O sono desata a meada das preocupações". Exprimindo sua alegria ao ouvir isto. Conway teria preferido falar chinês. . mas até então não dera a perceber que conhecia algum idioma oriental. Receio que não tenhamos homens em condições e que estejam dispostos a acompanhá-los tão longe dos seus lares. em língua inglesa. — Não queria desanimá-los. Recebeu o chinês este ultimato com ar impassível e afinal respondeu: — Lamento dizer-lhe que isso de pouco serviria. Seria útil guardar um trunfo. ainda que não reconheça a citação. — Ontem. visto que estavam tão fa92 . não parecia tão seguro do caso. mas não posso dar outra. Não quero ser descortês. porventura. esta manhã mesmo. Mallinson retrucou com aquele toque de desprezo que todo jovem inglês de espírito são deve sentir à simples menção da poesia: — Suponho que o senhor se refira a Shakespeare. mas é o que todos nós desejaríamos fazer. Escutou com ar sério as cortesias de Tchang e assegurou-lhe que dormira bem e sentia-se muito melhor. E eu pretendo ir em procura desses carregadores. Não foi muito bem acolhida esta mostra de erudição. . Mas sei de outra que diz: "Não esperes a ordem de partida. homem de Deus! Pensará. — Mas.

O senhor sugere que 93 . . que era. só para Conway. De novo interveio Conway. Também é claro que não podemos sair daqui sozinhos. — E quando chegarão? — perguntou Mallinson abruptamente. Os senhores mesmos têm experiência das dificuldades de locomoção nesta parte do mundo. — Meu caro senhor. Agora. .tigados da viagem. mas para a pergunta do homem avisado sempre há uma. — Este sistema de confusão de palavras vagas não adianta nada. Sendo assim. e como os homens que fazem a entrega voltam depois para o lugar de onde vieram. Podem surgir cem motivos de atraso. após uma noite de descanso. . . — Seria impossível. é claro. . Não preciso importuná-los descrevendo os métodos e formalidades que empregamos. . . Para a atitude do seu amigo não havia resposta. evidentemente. Realmente. O senhor sabe que não podemos ficar aqui indefinidamente. Deve estar lembrado de que ontem alguém observou — creio ter sido este mesmo seu amigo — que não podemos deixar de ter comunicações eventuais com o exterior. . — Escute — acudiu Conway com vivacidade. e espero que. O ponto capital é que uma dessas encomendas está por chegar em breve. prever a data exata. De quando em quando necessitamos de certos artigos de entrepostos distantes. e é nosso costume obtê-los no devido tempo. a incerteza do tempo. é um prazer apresentar a sugestão que tenho em mente. Isto é exato. que é que propõe? Teve Tchang um sorriso luminoso. acho que o senhor poderá entender-se com eles. — Vamos tirar isto a limpo. espero que vejam a questão sob uma luz mais razoável. não posso imaginar plano melhor. quando chegarem.

apenas quero ter uma idéia — se poderá ser na semana próxima. — Quererão conduzir-nos à Índia? — É-me difícil dizê-lo. num gesto de quem punha termo à discussão. Primeiro. numa época completamente vaga do distante futuro? — Penso. vejamos então a resposta à outra pergunta. Não tinha intenção de ofender. ou para o ano. ou o que quer que seja. você com certeza não pode conceber isso! Duas semanas devia ser o limite! Cingindo as roupas ao corpo. que a expressão "distante futuro" não é muito apropriada. com encomendas. — Talvez daqui a um mês. Quando estarão aqui? Não peço uma data. A não ser que sobrevenha algum contratempo inesperado. 94 . quatro. Provavelmente. Não é má idéia. para nos levar sabe Deus aonde. — Ou três. disse Tchang: — Sinto muito.podemos empregar como carregadores uns homens que deverão estar aqui dentro de pouco tempo. — Bem. por todo o tempo em que tiverem o infortúnio de permanecer aqui. em si. É só o que posso dizer. cinco meses — interrompeu Mallinson com calor. — E pensa que nós vamos esperar aqui por esse comboio ou caravana. não mais que dois meses. — Mas dois meses! Dois meses neste lugar! É absurdo! Conway. a espera não será mais longa do que apontei. e conforme já lhe foi perguntado: quando esperam esses homens? Segundo: aonde nos levarão eles? — Esta pergunta deve ser feita a eles mesmos. senhor. O mosteiro continua a oferecer a todos os senhores o melhor de sua hospitalidade. mas nós precisamos saber mais alguma coisa.

vai ver que está muito enganado! Havemos de arranjar quantos carregadores quisermos. . não se aflija! Pode fazer quantas mesuras. para contê-lo. Tchang retirara-se. Conway pousou-lhe a mão no braço. 95 . em tempo de escapar ao pior. era capaz de dizer tudo o que lhe viesse à cabeça. — E se pensa que é senhor da situação.— Nem é preciso mais — retorquiu Mallinson. sem guardar conveniências nem decoro. furioso. pode dizer tudo o que lhe aprouver. numa pessoa da sua constituição e em tais circunstâncias. Achava Conway que era perdoável aquilo. . mas receava que as palavras do rapaz ferissem a suscetibilidade mais delicada de um chinês. quantos rapapés quiser. Mallinson num acesso de ira parecia uma criança. Por fortuna. com um tato admirável.

.

não se trata de saber se gostamos ou não. o próprio Mallinson. vamos todos dar vivas! 97 . Quem me dera ver-me longe disto já. — Quer dizer que teremos de ficar dois meses aqui? — Não vejo outro recurso. Mas estava na natureza das coisas que o choque inicial da chegada lhes deixasse escassas reservas de indignação ou de assombro. Conway. passada a primeira explosão. deviam estar àquela hora expandindo-se nos clubes e missões de Peshawar. dizia: — Já não tenho forças para discutir. Francamente. E agora. Infelizmente. Custa-me admitir que estejamos de mãos atadas. já! — Não o censuro por isso. nada nos resta senão esperar até que venham os outros. se esta gente diz que não pode ou não quer fornecer-nos carregadores. E nervoso. mas parece ser a verdade. verem-se assim ameaçadas de passar dois meses num mosteiro tibetano. mas sim do que teremos de suportar. tirando baforadas do cigarro. Sejam dois meses. Sem dúvida.CAPÍTULO V Discutiram o assunto toda a manhã. Mallinson sacudiu a cinza do cigarro com um gesto de indiferença forçada e disse: — Muito bem. a seguir a vida o seu curso ordinário. Aqui há marosca. era um choque para quatro pessoas que. mergulhara numa espécie de perplexidade fatalista. Tenho sempre dito que há algo de estranho nisto tudo. então. irritadiço. Você sabe o que eu penso.

pareceu que o americano se sobressaltara. Voltou-se para Miss Brinklow. Por um momento. Mallinson não disse nada. Imaginou Conway que as suas inquietações pessoais também fossem pequenas. Não emitira opinião alguma durante a conferência com Tchang. reconheço que tenho sorte. Voltou-se para os outros. aceitava aquela conjuntura com o bom humor habitual. passar dois meses num presídio não dá para matar. quanto ao meu trabalho. mas Conway sabia que ele tinha os pais e a noiva na Inglaterra. 98 . — As pessoas de nosso ofício estão habituadas a andar por lugares esquisitos — creio que posso dizê-lo de nós todos. e naturalmente as suposições serão as piores. por seu lado. Quanto à minha gente. poderá ser executado por outra pessoa. — Esquece que nossos nomes vão aparecer nos jornais — lembrou Conway. Barnard. que até então observava um silêncio notável. não estranhará. não é? Certamente. é exato. Alegrou-se Conway de que assim fosse. depois replicou. como a convidá-los a expor sua situação. — Enfim. Mas isso não me preocupa. sou feliz nesse ponto. Por mim. não é agradável para os que têm parentes e amigos. acredite. porque sempre tive preguiça de escrever cartas. seja qual for.— Não sei por que haveria de ser pior que dois meses em qualquer outra parte isolada do mundo — prosseguiu Conway. — Todos nós seremos dados como desaparecidos. ainda que o ponto permanecesse um tanto duvidoso. Era bastante duro. Não sei de ninguém que se inquiete muito por minha causa. com uma leve careta: — Ah! sim.

em tom animador: — Estou certo de que a sua sociedade missionária vai ficar muito satisfeita com a senhora. Sabe. Ainda perturbado. Achou Conway que. a julgar pelas amostras de refeições que tivemos até agora.— Como disse Mr. Felizmente parece haver aqui muito espaço. mostrava-se contudo mais disposto a encarar as coisas pelo lado melhor. Para quem está a serviço do Senhor. A Providência me enviou aqui e considero isso como um chamado. Generalizou-se então a conversa. após o esforço despendido em tantas discussões. Barnard encontrava outro motivo de otimismo: — E não havemos certamente de morrer de fome. Isso lhe trazia também certo alívio. Mesmo assim. naquelas circunstâncias. pois o deixava apenas com um desgosto para aturar. Conway? Não é com pouca despesa que se dirige um 99 . dois meses aqui não é coisa para a gente se incomodar. — Só Deus sabe o que encontraremos para nos ocupar aqui! Entretanto. A não ser os criados. experimentava Mallinson certa reação. quando voltar. Já é uma pequena consolação. era uma atitude muito conveniente. E disse. — A primeira coisa que temos a fazer — disse Conway — é evitar de aborrecermos uns aos outros. O fato é que todos nós levaremos daqui alguma experiência. e o lugar não está de modo algum superlotado. Conway estava admirado da facilidade com que Barnard e Miss Brinklow se acomodavam à nova perspectiva. até agora vimos somente um dos habitantes. pouco importam os lugares. Barnard — começou ela alegremente —. Poderá prestar informações muito úteis. o mero fato de fazer tal observação revelava que já ia procurando reconciliar-se com a situação.

é assunto que não me há de preocupar. Eu queria saber é se eles extraem algum minério. por exemplo — aquilo custa muito dinheiro. Agora. quando encontrei alguns edelvais. — Nem sequer uma partida de hóquei no gelo — replicou Conway. Aqueles banheiros. que o diabo os leve! — replicou Mallinson. — Não creio que alguém aqui já tenha visto um salto de esqui. devem ter sido presente de algum protetor milionário. . pelo que tenho visto. porém. se fosse bem situado. — Tudo aqui é misterioso. pois que já ia ser servido o almoço. gracejando. você me lembrou que não estávamos nos Alpes. Enfim. Seria difícil aduzir algum comentário acertado. chegoume a vez de dizer o mesmo. — Você podia ver se organizava alguns quadros. respondeu Conway: — Ontem. como os jesuítas. contudo. cuja natureza e oportunidade se combinavam para produzir 100 . uma vez que me veja longe daqui. ninguém ganha nada aqui. Será que se pode andar de esqui em alguma daquelas ladeiras? Deitando-lhe um olhar perscrutador e levemente divertido. . Não o aconselharia a experimentar nenhuma de suas proezas de Wengen-Scheidegg nesta parte do mundo. a seu modo. não podem produzir bastante para exportar. necessário. não foi. — Calculo que eles tenham panelas de dinheiro enterradas. que a vista é bonita. Quanto aos banheiros.lugar assim. E. Que diz de "Cavalheiros versus Lamas"? — Isso certamente lhes ensinaria o jogo — disse Miss Brinklow com cintilante seriedade. a não ser que aqueles tipos lá do vale tenham algum trabalho. Devo dizer. Daria um belo centro de esportes de inverno. e mesmo assim.

ao conversar com Tchang. e era por pura afetação que fingia às vezes. Ao saírem todos em seguimento de Tchang. Esta maneira de proceder livrava de muito incômodo. Imagino que há de se passar muito tempo antes que algum de nós faça outra visita. mas que era. o chinês fez de conta que ainda se achava em bons termos com todos. quando estava em algum clube ou viajava em carro de primeira classe. Com muito tato. fazia-o com bastante isenção de ânimo para ver nele um velho cavalheiro maneiroso. Na verdade. dar especial valor à "brancura" de uma cara cor de lagosta tendo ao alto um chapéu de cortiça. Na China. sem dúvida. murmurou: — Quando partimos de Baskul naquele avião. Não tinha Conway preconceitos de raça nem de cor. — Podemos perfeitamente dar uma vista d'olhos enquanto estamos aqui. — E até agora não sabemos por que viemos — acrescentou Mallinson. e os quatro exilados aceitaram o convênio. — Mas claro! — disse Barnard. porém. inexorável. Miss Brinklow fez uma observação digna de nota. quando lembrou que talvez desejassem ver mais alguma coisa do mosteiro. principalmente na Índia. o oferecimento foi muito bem acolhido. Portanto. Mais tarde. dotado de grande inteli101 . quando apareceu Tchang. e que a ser assim teria prazer em guiá-los. tivera muitos amigos chineses e jamais lhe ocorrera idéia de tratá-los como a inferiores. certamente eu nem sonhava que viríamos ter a um lugar como este. e Conway era exímio em se furtar a aborrecimentos. era menos necessária. que talvez não fosse digno de inteiro crédito.excelente impressão. não os encontrou dispostos a reencetar a discussão.

Miss Brinklow descobriu abundantes evidências de imoralidade. Miss Brinklow mostrava-se viva e alegre. pinturas em cores esbatidas. muito provavelmente. passada a primeira impressão de novidade. Precisou fazer um esforço consciente para trocar a atitude do artista pela do conhecedor. não escolheria os lamas para seus heróis. independentemente da sua situação. Barnard estava mais certo que nunca de que os lamas eram ricos. o suficiente para confirmar as impressões já formadas. Viram. ao passo que a bonomia mordaz de Barnard era da espécie que ele teria usado com um mordomo. de uma harmonia tão delicada que parecia satisfazer o olhar sem o prender. aquele giro pelos domínios de ShangriLá era bastante interessante para sobrepor-se a todas estas atitudes. Não era tanto alguma coisa particular que o atraía. mesmo. em que Tchang não se ofereceu para entrar com eles. em altitudes mais baixas. Somente Conway se abandonava a um encantamento profundo e sempre crescente. a mais notável. embora ele tivesse notado que muitos aposentos iam ficando sem exame — edifícios inteiros. como sempre fazia ao tratar com os pagãos na sua cegueira. Não era sem duvida a mais vasta e. laças em que a fria e adorável minuciosidade de país de fadas era antes orques102 . de gosto sóbrio e impecável. Quanto a Mallinson. inclinava-se a ver o chinês através das grades de uma prisão imaginária. não se sentia menos fatigado do que em outras excursões de turismo.gência. e lá consigo achava que. entretanto. como a gradual revelação de elegância. conservadas por mais de mil anos. Mallinson. reconhecendo então tesouros que museus e milionários teriam cobiçado: deliciosas cerâmicas de Sung azul pérola. Só aquele passeio por salas e pátios tomavam uma tarde inteira. Entrementes.

não havia busca de efeito nem assalto concentrado aos sentimentos do espectador. Salientava-se ali. precisos e miniaturais. que ele não podia avaliar. pairando sobre tão frágeis encantos. Tinha o mosteiro. 103 . para os objetos delicados. Aquelas delicadas perfeições tinham o ar de surgir no mundo a flutuar como pétalas caídas de uma flor. segundo parecia. alemão e russo. Teriam enlouquecido um colecionador. francês.trada do que pintada. Seu gosto pela arte chinesa era puramente espiritual. entre as quais o Novo Descobrimento do Grão Cathayo ou dos Reinos de Tibet. Mas Conway não era colecionador. pelo Padre Antônio de Andrade (Lisboa. contudo. Abundavam os volumes em inglês. assim como muita matéria curiosa e abstrusa. e era imensa a quantidade de escritos em chinês e outras línguas orientais. E enquanto ia passando de sala em sala teve uma remota sensação de mágoa à idéia da imensidade do Karakal. Não havia ali ostentação. ali se encontrava. Um mundo de incomparáveis refinamentos ainda a tremular indeciso em porcelana e verniz. Uma seção que o interessou particularmente era dedicada a assuntos tibetanos. uma agradável biblioteca. por exemplo. faltavam-lhe o dinheiro e o instinto aquisitivo. mais de distinção que de seriedade. proporcionando um instante de emoção antes de se diluir no mais puro pensamento. notou diversas raridades. alta e espaçosa. mais o que mostrar do que uma coleção de chinesices. a melhor literatura do mundo. contendo uma multidão de livros tão discretamente agasalhados nos desvãos e reentrâncias das paredes. num mundo em que aumentam incessantemente o ruído e a vastidão das coisas. no íntimo. ele voltavase. que todo o ambiente era mais de critério que de erudição. Um rápido olhar deitado a algumas prateleiras revelou a Conway muita coisa que admirar.

— Eu gostaria de saber por quê. 104 . — Contudo. mas certamente reconheço os seus atrativos. — Estão todos à disposição dos senhores. Mallinson. — É talvez um erudito? Achou difícil responder. que o termo — o mais altamente lisonjeiro na boca de um chinês — tinha. porém. Examinava este último quando notou o olhar de Tchang fixo nele. Conway. Aqueles dois anos de magistério em Oxford conferiam-lhe certo direito ao título. com expressão de suave curiosidade. infortunadamente.1626). sem dúvida. E. Não encontrarão Shangri-Lá assinalado em nenhum deles. mostrou-se de novo impertinente. que pegara num livro. — É curioso — comentou Conway. interrompeu o diálogo: — Aqui está alguma coisa para a sua vida de estudioso. Conway sorriu. uma leve nota de pedantismo. Mallinson. É um mapa do país. a Voyage à la Chine des Pères Grueber et d'Orville. mais em consideração aos seus companheiros do que por outra razão. e a Relazione Inédita di un Viaggio al Tibet. Mas. de Thevenot. — Há para isso uma boa razão. mas talvez possa poupar-lhes algum trabalho. de Beligatto. 1667). é tudo que posso dizer. tergiversou: — Gosto de ler. sabia. para ouvidos ingleses. porém. China. de Athanasius Kircher (Antuérpia. mas meu trabalho nestes últimos anos não me tem deixado muitos vagares para uma vida de estudos. — Nossa coleção contém várias centenas — disse Tchang. deseja-a? — Oh! não direi tanto.

minha senhora. — Vejo então que teremos de passar sem eles — concordou Barnard. mas de parecer sempre um tanto ou quanto indignada — um complexo que a resposta de Tchang em nada perturbou: — Sinto dizer que é impossível. — Era o que eu pensava. ou alguma coisa pitorescamente primitiva. porém. sem dúvida. Estava fora de dúvida. é um prazer. de que pudesse dar notícia quando tornasse à pátria. diria melhor. que tinha o espírito cheio de visões nebulosas de ofícios nativos — tecedura de tapetes de oração. não fazem nada. Miss Brinklow. naquela voz aflautada que devia ter intimidado muito guia da agência Cook.— Aumenta o mistério. ver to105 . Mr. ainda não se dava por vencida. — O senhor não nos vai mostrar os lamas trabalhando? — perguntou. Depois desta resposta. Tinha o extraordinário vezo de nunca se mostrar muito surpreendida. somente raras vezes — são vistos por gente estranha ao mosteiro. e à pesquisa da sabedoria. encontrou ensejo para sumariar — Pois. minha senhora. Tchang. — Mas isso não é fazer alguma coisa! — Então. De repente Miss Brinklow saiu do mudo estupor em que a mergulhara o passeio processional. além disto. Eu gostaria tanto de apertar a mão do seu chefe! Tchang recebeu a observação com benévola seriedade. E continuou: — Que é que os lamas fazem? — Devotam-se à contemplação. Até agora não vimos por aqui nada que fosse necessário ocultar. Os lamas nunca — ou. — Mas é uma pena.

havia um cravo e um piano moderno. não havia ali emulação nem vaidade. unidas na superfície. parecia ter-se encaixado. que costumam tomar com freqüentes intervalos. a despeito da sua frugalidade. Mas logo viu que se enganara. onde se encravava um lagozinho. onde. Todo o grupo concordou com a sugestão e foi seguindo Tchang por vários pátios. pousava uma coleção de leões. confessou que as visitas a museus e galerias de arte sempre lhe causavam alguma dor de cabeça. Eu preferiria alguma coisa mais prática. a tarde se escoara rapidamente e Tchang. — Lindo recanto! — observou Barnard. 106 . enquanto Tchang os conduzia a um pavilhão aberto. dragões e unicórnios de bronze — cada um apresentando uma ferocidade estilizada que não só não perturbava. Partindo de uma colunata. até darem com uma cena inesperada. Miss Brinklow. de beleza sem igual. e até o vértice do Karakal. para maior alegria de Conway. Tão perfeitas eram as proporções de todo o quadro que o olhar se movia sem pressa de um lado para outro. por seu lado. alimentado por algum artifício delicado de irrigação. Abrigava ele tamanha quantidade de lotos que as folhas. submissamente.das estas coisas. acima dos telhados azuis. davam a impressão de um pavimento de tijolos verdes e úmidos. mas o senhor não me convence de que um estabelecimento como este faça algum bem verdadeiro. de cauda. que se elevava. Ao redor do lago. senão que antes acentuava a paz ambiente. incomparável. como uma franja. naquela moldura de arte consumada. — Quem sabe se gostaria de tomar chá? A princípio Conway ficou em dúvida sobre se havia nisto uma intenção irônica. descia uma escadaria para um jardim. possuía aquele gosto típico dos chineses pelo chá.

quando lhes chega às mãos.Na sua opinião. — Isto eu acreditaria. até certo limite. Xangai. mas não têm pressa de ultimar o assunto. isso é claro. mas também nos informaram que as montanhas impossibilitam a recepção radiofônica. ficava tudo completo! E daí. e. como fazem então? Os fabricantes não hão de fazer a entrega aqui. — O senhor quer dizer que este piano veio dar aqui pelo mesmo caminho que seguimos ontem? — Não há outro. já está custando um montão de dinheiro! 107 . — Apre! Isto agora é o mais extraordinário! Com um gramofone e um rádio. Respondeu Tchang a todas as suas perguntas com perfeita lisura. tinham em alta estima a música do Ocidente. suponhamos que os seus chefes resolvam no devido tempo adquirir o gramofone. Os lamas. Possuíam uma coleção de todas as grandes composições européias e alguns deles eram hábeis executantes em vários instrumentos. — Calculo que o lema da sua sociedade seja: "Não há pressa!" Riu alto. ou noutra parte qualquer. e aposto que tudo isso. quem sabe se ainda não conhecem a música moderna? — Oh! sim. mesmo que o senhor não me dissesse — replicou Barnard. e continuou: — Bem. Imagino que tenham um agente em Pequim. era em certo sentido a surpresa culminante de uma tarde assombrosa. já foi apresentada a sugestão às autoridades. explicou ele. quanto ao gramofone. Foi o problema do transporte que mais impressionou Barnard. descendo aos detalhes. Temos tido notícias. em particular a de Mozart.

Julgava poder dentro em breve começar a delinear mentalmente essa fronteira.Mas Tchang. conferindo a imortalidade através de uma época alheia ao seu espírito. parecia uma miniatura bem acabada. Mr. Já traziam os criados as taças de chá rescendente e. Foi só então que reparou na clavecinista. mas surgiu uma nova surpresa que veio adiar o assunto. aquelas argentinas árias francesas do século dezoito pareciam refletir a elegância dos vasos de Sung. as maçãs do rosto salientes. muito puxado para trás e trançado. de membros flexíveis. voltou-se para Conway: — O senhor gostou? — Quem é ela? — indagou Mallinson. como das outras vezes. Terminada a gavota. ao mesmo tempo que os tibetanos ágeis. 108 . Envolvia-as aquela mesma fragrância que desafiava a morte. beirando o limite invisível entre o que podia e o que não podia ser revelado. entrara quase sem ser notada uma jovem vestida de chinesa. das lacas delicadas e do lago dos lotos. mas lamento não poder discuti-las. Foi direto ao cravo e pôs-se a tocar uma gavota de Rameau. A fascinação das primeiras notas despertou em Conway um prazer que suplantava o assombro. A boca era como um pequeno convólvulo rosado e sua dona mantinha-se perfeitamente imóvel — menos as mãos de longos dedos. com certo ar de triunfo pessoal. Barnard. o palor de casca de ovo dos manchus. E assim achavam-se de novo. antes que Conway pudesse responder. o cabelo negro. não se deixou apanhar: — Suas conjeturas são muito argutas. depois. Acompanhou-a Tchang com o olhar. refletia Conway. sorrindo. Tinha o nariz longo e delgado. fez uma pequena reverência e retirou-se.

Então há também mulheres lamas aqui? — Entre nós não há distinção de sexo. Já é um progresso. ainda não atingiu a iniciação completa. 109 . — Suponho que não. e aquela menina toca muito bem piano. com alguma sinceridade. — Não parece mais que uma criança. — Oh! aí está o que eu chamo verdadeira gentileza — acudiu Barnard. Continuaram a tomar o chá sem mais conversar. e com muita alegria. Que idade terá ela. — Infelizmente. — Que coisa extraordinária este seu monastério — observou Mallinson altaneiramente. Como eu. aos seus distintos hóspedes. Tchang. Parecia que ainda vibravam no ar os ecos do cravo. Agradeceu-lhe de novo Conway. Respondendo pelos demais. O chinês disse da sua própria satisfação e pediu-lhes que considerassem os recursos da biblioteca e da sala de música inteiramente à sua disposição. ousava Tchang supor que o passeio os tivesse divertido. . exercendo um estranho encantamento. e disse: — Mas e os lamas? Não se utilizam nunca dessas salas? — Eles cedem o passo. Momentos depois. afinal ! Faz com que eu me sinta muito mais à vontade. Toca com muita habilidade as músicas ocidentais para instrumentos de teclado. não lho posso dizer. Conway reciprocou com ele as cortesias de costume. com efeito! — exclamou Miss Brinklow. enquanto ali estivessem.— Chama-se Lo-Tsen. eis o que eu queria saber. ao cabo de uma pausa. O certo é que têm aqui uma bela instalação. isso prova que os lamas sabem realmente que nós existimos. guiando-os à saída do pavilhão. — E demais. .

rindo. Não se costuma associar a presença destas à prática do monasticismo. fantasiou ele. não conseguia explicá-las por enquanto. talvez não fosse uma inovação desagradável. achou Conway um meio de se apartar dos outros e saiu a passear pelos pátios tranqüilos. que ele começara a delinear. Assaltou-o um aroma de angélicas. atingiu o terraço que se debruçava sobre o vale. hem? — disse Barnard. Entretanto. lavados de luar. Caminhando ao longo de um dos claustros. Shangri-Lá estava lindo então. A fronteira do mistério. fazia-se mais definida. despertando delicadas associações. Estava intrigado.— Não quer revelar o segredo da idade de uma senhora. com a remota sombra de um sorriso. embora estivesse certo de que tinham explicação. mas revelava agora um fundo inescrutável. tocado pelo mistério que jaz no âmago de tudo que é belo. mais ainda. Naquela noite. sentia os nervos repousados e o espírito tranqüilo. — Exatamente — respondeu Tchang. refletiu. No ar frio e sereno. muito mais próxima do que vista à luz do sol. na China. Conway experimentava grande bem-estar físico. a imponente pirâmide do Karakal parecia mais próxima. Não lhe ocorrera a possibilidade de existirem mulheres em Shangri-Lá. bem poderia ser a gavota de Rameau que ouvira naquela tarde. Se o luar tivesse também uma voz. depois do jantar. chamavam-lhe o "aroma do luar". mas mordia-lhe a inteligência — o que não é a mesma coisa — boa dose de inquietude. uma clavecinista podia constituir 110 . e esta idéia lhe guiou o pensamento para a jovem manchu. Como que se focalizava diante dos seus olhos a série de estranhas aventuras em que ele e seus companheiros casuais se viram envolvidos.

numa janela muito acima do terraço. deixando após si um silêncio que parecia deter a própria marcha dos instantes. Percebeu então. Mas os sinais de vida e de agitação naqueles velados abismos só serviam para realçar a austera serenidade de Shangri-Lá. Os sons vinham e se iam ao sabor dos caprichos do vento. Elevou-se de 111 . do convento lamaico. cobrindo negligentemente os ombros nus com as capas coloridas. encravado entre montanhas desconhecidas e governado por um vago sistema teocrático. mal talvez com ele aparentados. Ser-lhe-ia permitido visitar o vale e observar a civilização de que lhe haviam falado? Como estudioso de história. Sabia.elemento valioso numa comunidade que se permitia ser. trazidos pela brisa. Inclinou-se sobre a borda para contemplar o vazio negro-azulado. Davam a impressão de indivíduos bem-humorados. Dois tibetanos tinham atravessado silenciosamente o terraço. talvez. Prestando atenção pôde distinguir gongos e trombetas e também (ou seria apenas imaginação?) o lamento confuso de muitas vozes. chegaram-lhe sons lá de baixo. Seus claustros desertos e seus pálidos pavilhões mergulhavam num repouso do qual parecia ter fugido toda vibração de existência. a luz rosada de uma lanterna. que tal liberdade era ilusória e que todos os seus movimentos estavam sendo vigiados. na expressão de Tchang. nada menos de uma milha. seria ali que os lamas se entregavam à contemplação e à busca da sabedoria? Estariam nesse momento praticando as suas devoções? O problema parecia ter solução bem simples: era entrar pela primeira porta e explorar galerias e corredores até descobrir a verdade. sem esquecer os segredos curiosos. porém. aproximando-se do parapeito. "moderadamente herética". interessava-o esse singular núcleo de cultura. De súbito. A profundidade era fantástica.

e esta chave ajustava-se tão bem que se admirou de não a haver obtido por suas próprias deduções. o suficiente para encontrar mais uma chave do mistério. por sobre as altas montanhas. — Também trouxe forasteiros consigo. Havia. interpretou aproximadamente. Aquele vôo de Baskul para as montanhas não fora a façanha gratuita de um louco. o vale da Lua Azul lembra-se dele ainda. recebendo respostas que Conway apanhou e. mas achara-o tão absurdo e fantástico que não lhe dera acolhida. como segue: — Morreu fora do vale. Tudo indicava a existência de uma mentalidade superior e dirigente. Tinha sido planejado. Os habitantes do vale conheciam pelo nome o piloto morto. como que um único arco 112 . e lamentavam-lhe a morte. Ouvira. preparado e posto em execução por ordem de Shangri-Lá. e após alguns minutos de espera voltou para o seu aposento. Conway. — Talu não temia o vento nem o frio dos espaços. empenhada em realizar os seus próprios desígnios. cujos conhecimentos de tibetano eram muito superficiais. o interrogador. aquelas palavras soltas não lhe revelavam quase nada. Agora via bem que o que lhe parecera fantástico e absurdo tinha de ser aceito. carregado por um grande pássaro. por assim dizer. — Embora tenha partido há muito tempo. A resposta foi: — Eles sepultaram Talu.novo o rumor de gongos e trombetas. isso lhe tinha passado pelo espírito. — Obedeceu às autoridades de Shangri-Lá. esperou que a conversa continuasse. reatou a conversação. tinha sido um deles. — Veio pelo ar. Na verdade. e Conway ouviu um dos homens interrogar o companheiro. Depois de uma pausa. contudo. cuja voz era inaudível. Nada mais foi dito que Conway pudesse entender.

mas de modo algum o aborrecia. para estas solidões de além-Himalaia? O problema causava leve terror a Conway. essa intenção? Por que razão concebível quatro passageiros quaisquer tinham sido transportados. nem aos seus companheiros. os quais seguramente não desejariam prestar-lhe auxílio. 113 . que em nada o poderiam ajudar. Qual era. Era um desafio e tomava a única forma sob a qual ele era sensível a desafios: apelando para certa lucidez de raciocínio que só pede uma tarefa digna de si. Uma coisa decidiu desde logo: a emoção da descoberta não devia ser ainda comunicada.de intenção abarcando todas as inexplicáveis horas e distâncias. porém. num avião do governo britânico. nem aos seus hospedeiros.

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CAPÍTULO VI

— Há gente que tem se acostumado com lugares piores do que este — observava Barnard no fim da primeira semana passada em Shangri-Lá; era, sem dúvida, uma das muitas lições que estavam aprendendo. Já se haviam afeito a certa rotina cotidiana e graças a Tchang o tédio não era maior do que em muita temporada de férias. Todos estavam aclimatados à altitude e sentiam-lhe a ação revigorante, uma vez que evitassem todo exercício demasiado. Aprenderam que os dias eram tépidos e as noites frias, que o mosteiro era quase completamente resguardado dos ventos, que as avalanchas do Karakal se tornavam mais freqüentes por volta do meio-dia, que o vale produzia excelente fumo, que certos alimentos e bebidas eram mais saborosos do que outros, e que cada um deles mesmos tinha os seus gostos e idiossincrasias. De fato, haviam descoberto muita coisa acerca uns dos outros, qual se fossem quatro novos alunos duma escola, de onde todos os demais houvessem desaparecido misteriosamente. Tchang era incansável nos seus esforços para aplainar dificuldades. Organizava excursões, sugeria quefazeres, recomendava livros, falava com aquela sua fluência lenta e cuidadosa sempre que se produzia um silêncio constrangedor durante as refeições e era sempre benévolo, cortês e fértil em recursos. Era tão bem demarcado o limite entre as informações prestadas de boa vontade e as que ele recusava polidamente, que a recusa já não causava ressentimento — salvo, por 115

vezes, em Mallinson. Conway contentava-se em tomar nota, acrescentando mais um elemento à série de observações que ia constantemente acumulando. Barnard até caçoava com Tchang, de acordo com as maneiras e tradições rotarianas do Middle-West. — Fique sabendo, Tchang, que isto aqui é um péssimo hotel. Nunca recebem jornal algum! Eu trocaria todos os livros da sua biblioteca pelo Herald-Tribune de hoje. As respostas de Tchang eram sempre sérias, conquanto isto não fosse prova de que ele levasse a sério todas as perguntas: — Temos a coleção do Times, Mr. Barnard, até alguns anos atrás. Mas, sinto dizê-lo, somente o Times de Londres. Alegrou-se Conway por saber que o vale não lhes era interdito, se bem que as dificuldades da descida tornassem impossíveis as visitas sem escolta. Acompanhados por Tchang, passaram quase todo um dia percorrendo a pradaria verde, tão encantadora vista do alto do penhasco, e para Conway, ao menos, a excursão foi de absorvente interesse. Viajavam em cadeirinhas de bambu, balançando-se perigosamente por cima de precipícios, enquanto os carregadores, à frente e atrás, iam descuidosamente pelo íngreme caminho. Não era um caminho para pessoas de nervos delicados, mas, quando afinal alcançaram os planos mais baixos das florestas e colinas basilares, patenteou-se por toda parte a suprema boa fortuna dos lamas do mosteiro. Era o vale nada menos que um paraíso fechado, de assombrosa fertilidade, onde a diferença de nível de algumas centenas de metros abrangia toda a distância que separa o clima temperado do tropical. Plantações extraordinariamente variadas cresciam em profusão, umas ao pé das 116

outras, sem que ficasse inaproveitada sequer uma polegada de terra. A área cultivada media talvez umas doze milhas, variando a largura de uma a cinco milhas, e, embora estreita, tinha a ventura de receber sol durante as horas mais quentes do dia. A atmosfera, aliás, era agradavelmente tépida mesmo à sombra, mas eram frigidíssimos os cursos de água que desciam das neves da montanha. Conway sentiu de novo, ao contemplar o portentoso paredão de rocha, que um soberbo e sutil perigo envolvia a paisagem; não fosse alguma barreira fortuita, e o vale inteiro seria evidentemente um lago, alimentado pelas elevações glaciais que o cercavam. Ao invés disto, sulcavam o solo umas poucas torrentes, enchendo reservatórios e irrigando prados e culturas com disciplinada regularidade, como se fossem obra de um engenheiro hidráulico. Toda essa rede tinha uma disposição incrivelmente feliz — contanto que a estrutura que a emoldurava não desmoronasse por força de algum tremor de terra ou desabamento! Mas essas vagas ameaças de cataclismo futuro só conseguiam dar maior realce à beleza do presente. Mais uma vez Conway sentia-se cativado pelas mesmas qualidades de engenho e graça que haviam feito dos anos vividos na China os mais ditosos de sua existência. O vasto maciço, em torno, formava perfeito contraste com os pequeninos relvados e jardins expurgados de ervas, com as coloridas casas de chá à beira do regato e com as habitações tão leves que pareciam de brinquedo. Afiguraram-se-lhe os habitantes uma mescla feliz das raças chinesa e tibetana; eram mais claros e tinham mais belas feições do que o comum de um e outro povo, e pareciam ter sofrido pouco com os efeitos da endogamia inevitável numa sociedade tão limitada. Riam ou sorriam para os estrangeiros que passavam nas cadeirinhas e diziam uma palavra amiga a 117

Tchang. Eram bem-humorados e levemente curiosos, corteses e despreocupados, ocupados em inúmeros misteres, mas sem nenhum sinal de pressa. De um modo geral, Conway achou-os uma das mais felizes comunidades que já vira, e até Miss Brinklow, sempre de olho atento a qualquer sintoma de degradação paga, teve de reconhecer que tudo tinha muito boa aparência, "na superfície". Sentiu alívio ao constatar que os nativos estavam "completamente" vestidos, muito embora as mulheres usassem calças chinesas, justas no tornozelo, e o exame meticuloso a que submeteu um templo budista apenas revelou uns poucos objetos de duvidosa significação fálica. Explicou Tchang que o templo tinha sacerdotes próprios, submetidos à fiscalização pouco exigente de Shangri-Lá, conquanto não pertencessem à mesma ordem. Disse que havia ainda na extremidade do vale um templo taoísta e outro dedicado a Confúcio. — O brilhante tem numerosas facetas — acrescentou — e é possível que muitas religiões sejam moderadamente verdadeiras. — Concordo consigo neste ponto — disse Barnard, com convicção. — Nunca aprovei rivalidades sectárias. Tchang, você é um filósofo. Hei de guardar na lembrança essa sua frase: "Muitas religiões são moderadamente verdadeiras". Imagino que vocês lá em cima devam ser uns grandes sábios, para terem descoberto tal coisa. E têm razão, disto estou absolutamente certo. — Mas nós — respondeu Tchang com ar sonhador — estamos apenas moderadamente certos. Miss Brinklow não deu importância a estas coisas, que lhe pareciam ser apenas sinais de indolência. Preocupava-se, todavia, com uma idéia que lhe viera ao espírito. 118

Isto é. — Deviam enviar a senhora. minha senhora. se eu fosse missionário e tivesse de escolher. — Como poderia alguém gostar disto aqui? Mas trata-se de um dever a cumprir. não pode conter a sua admiração. Pode emprestar-me algum livro de estudo. — Mas certamente. — Exatamente — respondeu ela. acho a idéia excelente. E se me permite dizê-lo. com certa violência. Miss Brinklow intimidou-se um pouco diante do maciço volume compilado por um laborioso alemão do século XIX — imaginara. sem dúvida. Nessa mesma tarde. E se alegarem as despesas. preferiria este lugar a muitos. Isto. se um lugar assim lhe agradasse. — Maior lástima. provavelmente. e até Mallinson. E continuou: — Em todo caso. uma obra mais le119 . quando subiram para Shangri-Lá. Veja este povo aqui! — Parecem ser muito felizes. — Mas eu não estava pensando no mérito. — Creio — disse Conway — que. tratou o assunto como sendo de importância imediata. com o maior prazer. — Neste caso — atalhou Miss Brinklow —. Não há virtude em fazermos uma coisa porque nos agrada. Tchang? Tchang assumiu o seu ar mais melífluo. é evidente que não haveria mérito algum. naturalmente. Mr. A princípio. — Não se trata de saber se agrada ou não — retorquiu Miss Brinklow. que simpatizava pouco com as missões estrangeiras.— Quando regressar — articulou com os lábios apertados —. não vejo razão para que não comece desde já por aprender a língua. teimarei com eles até que concordem. então. revelava um espírito muito mais são. pedirei à minha sociedade que mande um missionário aqui.

Todavia. estamos razoavelmente em dia — acrescentou. o seu gosto em matéria de livros era universal. Calculou o número total de volumes entre vinte ou trinta mil.ve. Conway. Nietzsche era companheiro de Newton. Durante os dias tépidos de sol dedicou-se à biblioteca e à sala de música. de um ano para cá ocorreu muita coisa no mundo. mas. e era interessante fazer conjeturas sobre o sistema de seleção e aquisição. disse-lhe Tchang que haviam chegado outros livros publicados até meados de 1930. bem como Hannah Moore. encontrava muita coisa em que se interessar. — Como sabe. Procurou também descobrir de quando datavam as últimas aquisições. atacou resolutamente a tarefa e não tardou a tomar-lhe gosto. Em todo caso. e estes a seu tempo viriam para as estantes. George Moore e até o velho John Moore. mais recente que uma edição barata de Im Westen nichi Neues. com o auxílio do chinês e encorajada por Conway. nada achou. meu caro senhor. — Não lhe interessam então os aspectos mais recentes da crise mundial? 120 . — Certas pessoas dificilmente concordariam com o senhor — respondeu Conway sorrindo. afora o avassalante problema que impusera a si mesmo. uma espécie de O Tibetano sem Mestre —. encontravam-se ali Thomas Moore. contudo. por seu lado. Platão em grego vizinhava com Ornar Khayyam em inglês. durante uma visita subseqüente. que não pudesse ter sido previsto em 1920 ou que não possa ser melhor compreendido em 1940. — Nada de importância. confirmando-se nele a impressão de que a cultura dos lamas era deveras excepcional. — Como vê.

nem sempre me interessaria um jornal da hora. o tempo tem muito menos importância do que para a maioria das pessoas. — Sabe. Scarlatti e por vezes Mozart. como aliás todo o seu procedimento. Ambas as atitudes me parecem perfeitamente assisadas. Duvidava que tivesse mais de trinta ou 121 . Tchang. mesmo na suposição de que os lamas fossem inacessíveis. à medida que os seus colóquios se multiplicavam. e Conway o achava menos irritante do que o fenômeno oposto. era refinadamente convencional. Sua música. Conway. há quanto tempo não aparecem visitantes aqui? — Infelizmente. para os senhores. em Shangri-Lá. Preferia o cravo ao piano. no devido tempo. não sabia inglês e Conway até então não quisera revelar os seus conhecimentos de chinês. Era o costumeiro ponto final na conversa. Se eu estivesse em Londres. Por falar nisso. Não poderia dizer se ela tocava unicamente por prazer ou se de fato estudava. assim como aqui. difícil adivinhar-lhe a idade. mas quando Conway se sentava ao piano escutava-o com atenção séria e quase obediente. Corelli. Mr. porém. e escolhia sempre peças já consagradas — as composições de Bach. . não têm grande ansiedade de ler um jornal do mesmo ano. Começou a afeiçoar-se a Tchang. sem dúvida. ela. embora estranhasse encontrar tão poucas pessoas no convento. por mais que a gente deseje. aí está.— Interessar-me-ão profundamente. a jovem manchu. Era impossível saber o que tinha na mente. não haveria outros aspirantes além de Tchang? Havia. não lho posso dizer. que estou começando a compreendê-los? São constituídos de maneira diferente. parece nunca ter fim. . Via-a de vez em quando na sala de música. que muito o fizera sofrer no seu tempo — a conversa que.

— Sim. decerto. — Não posso saber o que essa pequena faz aqui — disse a Conway mais de uma vez. Conway estava habituado à acusação. Mallinson. — Esta mesma pergunta tenho feito a mim mesmo. até certo ponto. é o quanto basta. mas é uma coisa que jamais saberemos. via nela um desnorteante problema. Conway. Na realidade tivera muito pouco contato com o outro sexo. em todo caso. — Dá a impressão de "não ter sentimentos de espécie alguma. — Você acredita que lhe agrade isto aqui? — Sou forçado a dizer que ao menos não parece desagradar-lhe. Mallinson. — Você é terrivelmente cínico no que toca às mulheres. toca cravo com mãos de fada e não anda numa sala como se estivesse jogando hóquei. — Esta vida de mosteiro pode ser muito boa para um velho como Tchang. bom gosto no vestir. não é comum encontrar essas virtudes reunidas numa mulher. aspecto atraente. Conway sorriu. a boneca de marfim tem boas maneiras. Mais parece uma boneca de marfim do que um ser humano. que vinha às vezes ouvir música na falta de ocupação melhor. Na Europa ocidental.menos de treze anos. — E pensando bem. e durante as ocasionais licenças nos postos de montanha. a re122 . — Uma encantadora semelhança. se formos a isso. e contudo — coisa curiosa — nenhuma dessas improbabilidades manifestas podia ser eliminada como totalmente impossível. na Índia. se bem me lembro. Afinal de contas. mas que atrativo oferece a uma moça? Quisera saber há quanto tempo está aqui.

putação de cínico era tão fácil de manter como qualquer outra. com tudo isso. numa espécie de autocracia bastante folgada e elástica. — Eu tenho trinta e sete anos — disse rindo — e você tem vinte e quatro. que de bom grado casariam com ele se as tivesse pedido em casamento — mas não as pedida. Nisso consiste toda a diferença. e Conway. não se faria nenhum segredo em torno dos usos e costumes da população do vale. Mas. mas a moça não queria viver em Pequim. Tais conjeturas. Por exemplo. nem ele em Tunbridge Wells. É verdade que havia mantido algumas deleitosas amizades com mulheres. mútuas relutâncias que foi impossível vencer. segundo constatou. interessava-lhe principalmente a forma por que era governado o vale. Como estudioso de política. Houve uma pausa e Mallinson perguntou de repente: — A propósito. Era um regime bem sucedido e muito sólido. Certa vez. eram muito menos dignas de confiança do que outras informações ao alcance deles. foi quase ao ponto de anunciar no Morning Post. intermitente e de certo modo inconclusiva. não era cínico a respeito delas. como ele tinha ocasião de verificar cada vez que descia 123 . O fato de nem sempre lhes ser satisfeita a curiosidade tinha por efeito obscurecer a quantidade realmente grande de dados que Tchang estava sempre disposto a fornecer. entretanto. obteve informações que dariam para compor uma boa tese de formatura. Vigorava ali. Sua experiência com as mulheres tinha sido fortuita. exercida pelo mosteiro com uma benevolência quase negligente. que idade você dá a Tchang? — Qualquer — respondeu Conway sem hesitar — entre quarenta e nove e cento e quarenta e nove. que estava interessado em conhecê-los.

seria o caso de o outro lhe ceder. — Mas suponhamos que um homem desejasse uma mulher a tal ponto que pouco lhe importasse o decoro? — Então. O senhor se admiraria de ver 124 . Em último caso. os servidores do mosteiro tinham o poder de expulsar do vale os infratores — se bem que este castigo. e também em parte porque cada um possuía em quantia suficiente tudo o que pudesse desejar. fosse aplicado apenas de longe em longe. era a preconização das boas maneiras. A simples idéia de divertir-se com o que os mestres de suas escolas chamam a guerra simulada dos jogos esportivos lhes pareceria um barbarismo. devia por certo existir um meio de reprimir os incorrigíveis. — Só muito raramente. Por exemplo. mas não. — É o mesmo sentimento que se inculca nas escolas públicas do seu país — disse Tchang —. os habitantes do nosso vale cultivam o sentimento de que não se deve ser hostil aos forasteiros. pois não parecia haver polícia nem soldados. fazendo-se sentir às pessoas que certas coisas "não se fazem" porque desqualificam quem as comete. Indagou Conway se não disputavam por causa de mulheres. pois não consideram decoroso tomar uma mulher desejada por outro homem. tido como extremo e terrível. uma excitação indecorosa dos instintos inferiores. receio. A isto respondia Tchang que o crime era muito raro. as boas maneiras lhe aconselhariam aceitar a situação. com relação às mesmas coisas. disse Tchang. discutir com acrimônia ou querer sobressair-se um ao outro. Mas o fator principal no governo do vale da Lua Azul. Intrigava-o o problema da manutenção da lei e da ordem. em parte porque só se consideravam tais as faltas graves.àquele fértil paraíso. e quanto à mulher. Contudo. meu caro senhor.

tida como absolutamente má. mas como sabe. Na verdade Conway. em detrimento de outra. Entretanto. Conway sorriu. por exemplo? — De modo algum. Conway também se admirava da facilidade com que o americano se aclimatara. Compreendo que se esforce por encarar as coisas com calma. E respondeu: 125 . quando ele fez uma observação elogiosa sobre este ponto. nós acreditamos que para governar com perfeição é necessário não governar em demasia. mas irritam-me esses gracejos a respeito de tudo. como o voto. sabia ser a do governo a que menos fora estudada e aperfeiçoada até o presente. Nossa gente não gostaria de ser forçada a apoiar uma política qualquer. — E contudo não possuem nenhuma instituição democrática. Entrementes. Se não tomarmos cuidado com ele. ainda que fosse apenas simulada. o bom humor do sujeito está começando a mexerme com os nervos. Tchang replicou: — Sim. — Para dizer a verdade — observou Mallinson um dia —. encontrava um espírito de boa vontade e contentamento que lhe causava tanto mais prazer porque. considerada absolutamente boa. de todas as artes. em suas visitas ao vale. Mallinson impacientava-se e resmungava.como uma pequena dose de cortesia por parte de todos facilita a solução dessa sorte de problemas. Miss Brinklow encontrava satisfação no estudo do tibetano. Simpatizava com este ponto de vista. e Barnard persistia numa equanimidade que não deixaria de ser notável. dentro em pouco estará feito a alma e a vida do nosso grupo.

mas já que tocamos no assunto. pensando que era meu. você viu alguma vez o tal passaporte? — Provavelmente vi. custou-me convencê-lo de que era preciso vir conosco. Além disso. mas não lhe importava muito saber quem era e quem não era. — Talvez não lhe pareça bem. Não tencionava falar nem mesmo a você. — Simplesmente isto: Barnard viaja com um passaporte falso e o seu nome não é Barnard. Conway? Quem é ele e o que faz? — Não sei muito mais do que você.. Por quê? Mallinson pôs-se a rir. onde andava à procura de petróleo. dois meses de convívio neste lugar terão de pôr à mostra todos os nossos segredos. Disseram-me que tinha vindo da Pérsia. Mas eu desejaria saber de que se trata. Não pude 126 . Quando foi da evacuação. — Quem pensa você que ele possa ser. Note que foi simples acaso e eu não contei nada a ninguém. se é que os temos. O homem lhe era simpático até certo ponto. . Conway ergueu as sobrancelhas com um interesse medíocre. É de seu natural levar as coisas em troça. mas não me lembro. Que sabe você a respeito desse cidadão. — É lógico. então? — É Charmers Bryant. está visto. Só se decidiu quando eu lhe disse que um passaporte americano não servia de escudo contra as balas.— Não lhe parece que é uma felicidade para nós ele ter tão bom gênio? — Pessoalmente. — Por falar nisso. — Ora esta! Que é que o leva a pensar semelhante coisa? — Esta manhã deixou cair um livrinho de bolso e Tchang entregou-mo. acho isso muito esquisito. mas a culpa não foi minha propriamente.

que importância teria isso no momento? Santo ou bandido. que se poderá fazer num caso como este? — Mas. que é que você pretende fazer a respeito? Refletiu Conway um instante e respondeu: — Não sei exatamente o que se possa fazer. identificada por você? — Sim. Em fim de contas. onde encontrar melhor esconderijo? Mallinson pareceu levemente decepcionado com a serenidade do companheiro ante uma notícia que ele julgava sensacional. mesmo que se tratasse de Nero em pessoa. — De modo que tudo se baseia numa fotografia de jornal. Apenas lhe entreguei o objeto. é possível que você tenha razão. Talvez nada. Naturalmente. eu procuraria comunicar-me 127 . Alguns caíram no chão enquanto eu examinava o livrinho. e nada adianta tomar atitudes. com o demônio.deixar de ver que estava abarrotado de recortes de jornal. até agora é tudo. só com a diferença de ter bigode. — Mencionou isso a Barnard? — Não. com efeito. temos de suportar-lhe a companhia enquanto continuarmos aqui. — Creio que eu não me atreveria a condenar alguém. Se estivéssemos em Baskul. — Então. . baseado em tão pouco. se ele é o tal Bryant. sem nenhum comentário. e um deles traz um retrato que é Barnard em pessoa. . Não afirmo que ele não possa ser Bryant. Afinal de contas. tanto mais que esse fato explicaria a sua satisfação em permanecer aqui. — Meu caro Mallinson. recortes de jornais não são papéis particulares! Todos tratavam de Bryant e das diligências da polícia para encontrá-lo. e não se me dá de confessar que olhei para eles.

ações e balanços falsos é sem dúvida uma delas. mas penso que devemos guardar segredo sobre o fato. mas ao menos é direita e franca. Mas presentemente creio poder dizer que não estou de serviço. — Não lhe parece que há nisso certa dose de incúria? — Pouco me importa que haja. mas para evitarmos uma situação extremamente embaraçosa. Conway deu de ombros.com Delhi a seu respeito. — Quer dizer que devemos deixá-lo em liberdade? — Bem. Não em consideração a Barnard ou Bryant. Quando um indivíduo viola as leis. Esse homem não passa de um ladrão em grande escala. todo em preto e branco. Conheço muitas pessoas que foram roubadas por ele. quando nos formos daqui. Bryant a havia transgredido. e se bem que Conway não tivesse tomado grande interesse no caso. Seria um simples dever público. ou quem quer que seja. tinha a impressão de que fora dos mais escabrosos. contanto que a atitude seja razoável. 128 . eu me exprimiria de outro modo: acho que devemos dar a outro o prazer de prendê-lo. — Não penso assim. Essa ética de escola pública pode ser rudimentar. E a lei relativa a cheques sem fundo. Quando se viveu em boas relações com um homem por alguns meses. parece um tanto absurdo metê-lo em algemas tão depressa se muda de lugar. — Deseja que eu esqueça o que descobri? — Provavelmente isso não lhe é possível. Não deixava de admirar o simples código de Mallinson. é obrigação de todos os cidadãos que as respeitam deitar-lhe a mão e entregá-lo à justiça — sempre na hipótese de se tratar de uma dessas leis que não é permitido violar.

— Bem. Em todo caso. penoso silêncio sobreviera. mas no nosso.Tudo que sabia era que a falência da gigantesca empresa Bryant em Nova York causara prejuízos que montavam a cerca de cem milhões de dólares — uma quebra-recorde. se você quer ouvir o meu conselho — disse Conway finalmente —. não diga nada por enquanto. contanto que não esqueça a possibilidade de não ser ele o homem. Mallinson e eu julgamos saber. e era do mesmo modo evidente que Barnard percebia ter-se passado alguma coisa. Ficou Mallinson vermelho como uma virgem. Pela primeira vez não estava Barnard para gracejos. Súbito. ter deixado cair aqueles recortes. Tchang se retirara. sua fuga para a Europa e pedidos de extradição dirigidos a meia dúzia de países. — Ainda bem que toma a coisa com calma! 129 . Bryant fizera trampolinagens em Wall Street e o resultado fora uma ordem de prisão contra ele. — Todos nós estamos sujeitos a cometer descuidos. fumando charutos e sorvendo cafezinhos. o americano jogou fora o charuto e disse: — Suponho que os senhores saibam quem sou. a conversação teria esmorecido mais de uma vez durante a refeição. faça como entender. Bem sabia Conway que não era possível a Mallinson tratar o americano como se nada houvera acontecido. mas Conway respondeu com a mesma serenidade: — Sim. Miss Brinklow voltara à sua gramática tibetana e os outros três exilados se defrontavam. e a revelação veio naquela mesma noite após o jantar. De uma maneira ou de outra (Conway não era entendido em finanças). Ausente ele. Não fosse a amabilidade e o tato do chinês. — Imperdoável descuido. Mas era. mesmo num país onde pululam os recordes. afinal. Não em benefício dele.

Mr. Enquanto não desconfiavam de nada as coisas marchavam bem. em certo sentido. não sei quem é o senhor. grande e corpulento. Conway disse que os nossos nomes iriam aparecer nos jornais. mas devo dizer que suspeitei que estivesse viajando incógnito. Pelo modo. que tenham descoberto tudo. e é verdade. Miraram-na os outros interrogativamente e ela continuou: — Lembro-me de que. Foram tão gentis para mim que não lhes quero dar incômodos. acho eu. A senhora o disse. quebrado afinal pela voz aguda de Miss Brinklow. quando Mr. podemos deixar que tudo se resolva por si mesmo. Refleti então que com certeza Barnard não era o seu verdadeiro nome. como também encontrou um termo verdadeiramente polido para designar a minha situação presente. — A senhora — disse afinal — não só mostra ser um bom detetive. não lamento. Quanto aos amigos. os nossos destinos estão ligados por algum tempo. — Quanto a mim. O aventureiro sorriu vagarosamente enquanto acendia outro charuto. bem-humorado.Houve novo silêncio. mas em vista da situação em que nos achamos seria falta de camaradagem engrimparme com os senhores agora. o senhor respondeu que isso não o afetava nem um pouco. Quanto ao que vier a acontecer depois. Estou viajando incógnito. e convém que cada um faça o possível para ajudar os outros. Tudo isto se afigurou a Conway tão altamente sensato que passou a olhar Barnard com muito mais interesse e até — embora parecesse talvez estranho em tal momento — com um toque de genuína admiração. Barnard. Era curioso pensar que esse homem. de 130 .

— Sim. daria um excelente diretor de liceu. e como bem podem imaginar. penso que é o melhor que temos a fazer — disse Conway. — Sim. era o mais formidável escroque do mundo. às quais somente agora pudesse dar vazão. e foi isso que acabou por me inquietar. pois foi assim. Era como se possuísse reservas mais profundas de bom humor. se não fossem as balas.. Barnard tornou a rir. E todo o tempo com a polícia no meu encalço. Não tinha muita vontade de fazer nem uma nem outra coisa. lembro-me de que não queria vir. com certa instrução. estirando-se na cadeira. passei pela Turquia e pela Pérsia e vim parar naquele buraco. ou embarcar num avião do seu governo e encontrar um par de algemas à minha espera. era o que o mundo chama "um bom sujeito" — cordeiro por natureza. por pouco não me apanharam em Viena! A princípio é bastante divertido estar sendo perseguido. — Sim. Barnard pôs-se a rir. na chegada. notem bem.expressão paternal. — Por certo que ficaria — aparteou Conway. mas cansa os nervos depois de algum tempo. Afinal descansei um pouco em Baskul. — Refiro-me a toda essa história. Mais aparentava o tipo de indivíduo que. Evidentemente. que coisa extraordinária! — exclamou. mas nem por isso ela parecia forçada. Sob a sua jovialidade vislumbravam-se os sinais de tensão nervosa e recentes preocupações. 131 . Podem crer que foi uma escolha bem difícil: ficar em Baskul e correr o risco de levar chumbo. — Caramba. Atravessei a Europa. e só por profissão um lobo. — Bem. com um sorriso —.. e ali pensei que ficaria em paz no meio da revolução.

se bem que me pareça ter exagerado um pouco. Estávamos começando a ficar intrigados com o seu contentamento excessivo. Há de estar com uma boa bota para descalçar! Disse isto com tanta simplicidade que Conway não pôde deixar de responder: — Não sou muito entendido nisso que se chama a alta finança. Era uma deixa. O sorriso de Conway fez-se mais acentuadamente cordial. e o americano a apanhou sem relutância. Este lugar não é mau. Continua-se na mesma roda-viva. falando pessoalmente. — É o que tenho suspeitado muitas vezes. Mudei de regime. É verdade que o ar é um pouco picante a princípio. — Bem que ele deve desejar fazê-lo! — Não duvido. não me preocupo com as cotações da bolsa e o meu corretor não me pode chamar ao telefone. E. — A alta finança — disse ele — é quase tudo farolagem. uma vez que a gente se acostume a ele. — Estava de fato contente. 132 . Ao passo que estou certo de ter achado aqui justamente o que o médico me aconselhava. para variar. é muito sossegado. Todos os outonos vou fazer uma cura de repouso em Palm Beach. mas não se pode ter tudo como se quer. e me sinto radiante. não poderia haver coisa melhor. Esse vôo continua a ser um mistério de primeira ordem.não me contrariou muito o acidente que nos trouxe aqui. — Uma atitude muito razoável. mas para mim. mas a gente não encontra descanso nesses lugares. Não tenho o hábito de me queixar quando estou satisfeito.

E por quê? Porque todos eles queriam ganhar dinheiro sem trabalho e não tinham inteligência bastante para fazê-lo por si mesmos. Não existe segurança em parte alguma. conciliador: — Todos nós concedemos que o senhor não podia evitar o tufão. Eu não esperei. — E perdeu também o dinheiro de muita gente — atalhou Mallinson. o fato é que minha perda foi grande. E lá fica o sujeito até que venha a polícia. — Pois bem. não estava.. e depois de perder dez milhões de dólares ele lê num jornal que um professor sueco é de opinião que o fim do mundo está próximo. da mesma forma como você não pôde opor-se ao que aconteceu depois que deixamos Baskul. procurando abrigar-se de um tufão debaixo de um guarda-chuva. Nem podia estar. você acredita que uma coisa dessas ajude o mercado? É claro que o abalo é grande. Conway. só lhe resta ganhar coragem e esperar pela volta. — Nem sequer pude fingir que lutava. que foi simples má sorte? — Bem. dir-lhe-ei como é a coisa. Agora eu pergunto. mas também não pode ser evitado. enquanto aqui o Mallinson não se podia conter. Conway interveio. Foi o que me veio ao pensamento quando o vi conservar toda a calma no aeroplano. Não pode remediar a coisa. — Sim. Como sa133 . — Quer dizer. se ele esperar tanto tempo. então.. e os que pensavam assim não passavam de imbecis. quando de repente o mercado se vira contra ele.— Olhe. Mas desta vez a volta não vem na forma do costume. É porque confiavam no senhor e acreditavam que o dinheiro deles estivesse seguro. — Não concordo. com aspereza. Um camarada continua fazendo o que fez durante anos e o que muitos outros também fazem.

— Espero que não seja eu. e é o que importa por enquanto. Mallinson replicou desdenhosamente: — Estou-me referindo às simples normas que regem a conduta na vida ordinária. Concordo com o senhor em que não temos muito motivo de queixa. Nem mesmo todos os professores de Harvard e de Yale lhe poderiam dizer quais são elas. — Nesse caso.bia que nada podia fazer. que se tornara habitual. três acabem por encontrar alguma satisfação na aventura. Pouco tempo depois foi fazer o seu passeio noturno e solitário. Mas agora estamos aqui. Foi exatamente o que se deu comigo quando veio o crash. Pensando bem. talvez. — É melhor não discutir. — E qual a terceira pessoa? — atalhou Mallinson. Na verdade. Basta obedecer às regras do jogo. — Incluí a mim próprio — respondeu Conway —. Quanto a mim. ultimamente temos voado às cegas. Conway apressou-se a intervir. Além disso. não há ninguém que conheça tais regras. não levo a mal que faça comparação entre as suas ocupações e as minhas. — Qualquer pessoa pode evitar de lograr outra. acho que a conduta ordinária não se aplica à direção de trustes. Miss Brinklow sente-se chamada a evangelizar os pagãos do Tibete. — É difícil obedecer às regras do jogo quando ele vai por água abaixo. ao longo do terraço ou 134 . e isso em todos os sentidos. não se preocupou mais. de quatro pessoas reunidas pelo acaso e seqüestradas a mil milhas de distância. o mais simples de todos: estou gostando daqui. — Isto é um contra-senso! — gritou Mallinson. é curioso que. O senhor precisava de uma cura de repouso e de um refúgio. e o meu motivo é.

No céu sem lua as estrelas cintilavam em massa e um pálido clarão azulado nimbava o cume do Karakal. tudo estava mergulhado em profunda tranqüilidade. Não era verdadeira somente em relação aos bancos e trustes da América do Norte. se aparecessem carregadores para o levarem imediatamen135 . Havia um relento de decomposição naquele mundo distante e talvez a queda de Barnard houvesse sido. a questão de suas aventuras e de sua personalidade fora relegada sem demora ao segundo plano. a Delhi e a Londres. ia por água abaixo. Durante os últimos dias viera aproximando-se gradualmente. aos consulados. de ordinário. responsabilizados pelas peças que não conseguiam salvar. Era a pura verdade: ele gostava de ShangriLá. Conway lhe conferia uma significação mais ampla do que lhe dera provavelmente o americano. Aqui em Sangri-Lá. Também se ajustava a Baskul. de uma conclusão a respeito do mosteiro e dos habitantes do vale. Veio então ao espírito de Conway que. às concessões comerciais e aos jantares de recepção nos palácios de governo. A atmosfera ali o aquietava. Com relação a Bryant. Era qual um matemático às voltas com um problema abstruso: preocupava-se com este. Ela lhe trabalhava ainda o espírito. porém. indubitavelmente. Recordando-a. Nesse ponto.junto ao lago dos lotos. exceto esta frase pronunciada por ele: "o jogo vai por água abaixo". sem de nenhum modo o perturbar. mais bem dramatizada do que a sua. apenas. O jogo. mas de um modo calmo e impessoal. ao passo que o mistério o estimulava e a sensação resultante era agradável. às tentativas. os financeiros eram mais infelizes. às guerras e ao desenvolvimento do império. a quem resolvera continuar a considerar como Barnard e chamá-lo por este nome. mas por sorte os jogadores não eram. Sentia extraordinário bem-estar físico e mental.

. era divertido.te dali. Conway. mas que provavelmente seria também de desencanto. e de súbito descobriu que ainda gostava de Barnard. E nem Barnard tampouco. ele não ficaria de todo satisfeito com a supressão da espera. Em Delhi teria sem dúvida entrevistas com o vice-rei e com o comandante-chefe. Na verdade. ou não acharia divertido aquilo.. seria muito mais fácil se ele tivesse simplesmente roubado um relógio. teria jantares garantidos ao menos para toda uma estação. sensuais. entrevistas à imprensa. salamaleques de criados com turbantes. zombeteiras. intermináveis relatórios que deveria preparar e remeter. os primeiros goles na varanda do clube." Duma coisa não tinha dúvida: com a narrativa da aventura.. a perda de cem milhões de dólares era demasiado grande para justificar a prisão de um homem. pensou sorrindo interiormente.. as faces bronzeadas cercando-o com expressões de mal dissimulada incredulidade. e isso lhe agradaria? Lembrou-se da frase escrita por Gordon nos seus últimos dias em Cartum: Preferiria viver como dervixe no séquito do Mahdi a ter de sair para jantar 136 . De certo modo. E afinal de contas. e a chegada eventual ao bangalô de algum plantador em Sikkim ou Baltistan — momento que devia ser de delirante alegria. Em seguida. Mr. tornou a pensar na volta. que esteve no Tibete?. Imaginou a longa e dura viagem. vozes agudas. a mão flácida de um subsecretário. de mulheres perguntando: "É verdade mesmo. Mas. Talvez até voltasse à Inglaterra e para Whitehall. jogos no convés de um paquete da "Peninsular and Oriental". Viriam então os primeiros apertos de mão e as primeiras apresentações. como era possível a um homem perder cem milhões de dólares? Talvez apenas no sentido em que um ministro podia anunciar jovialmente que "o haviam presenteado com a Índia".

todas as noites em Londres". A aversão de Conway era menos definida — previa, apenas, que contar a sua história no pretérito não só lhe causaria aborrecimento como o entristeceria um pouco. De repente, no meio das suas reflexões, sentiu a aproximação de Tchang. — Meu senhor — começou este, com um leve tom de alvoroço na voz baixa —, estou orgulhoso por lhe trazer uma notícia importante. . . "De modo que os carregadores chegaram mesmo antes do tempo", foi o primeiro pensamento de Conway. Era estranho que ainda há pouco estivesse pensando nisso. Sentiu o choque desagradável para o qual se havia preparado. — Bem? —fez ele. Tchang estava tão agitado quanto lhe era possível. — Meu caro senhor, eu o felicito. Sinto-me feliz ao pensar que sou até certo ponto responsável pelo acontecimento . . . Foi depois de minhas constantes recomendações que o Lama Superior tomou esta decisão. Ele deseja vê-lo imediatamente. Conway fixou nele um olhar ironicamente interrogativo. — Está sendo menos coerente que de costume, Tchang. O que aconteceu? — O Superior mandou chamá-lo. — Entendi. Mas por que tanta agitação? — Porque é uma coisa extraordinária e sem precedentes. Até eu, que procurava apressar o encontro, não esperava que se desse tão já. Ainda não faz quinze dias que chegou, e está para ser recebido por ele! Jamais isto ocorreu tão depressa! 137

— Ainda estou um pouco confuso, sabe? Vou ver o seu Superior. . . isso percebo muito bem. Mas há alguma coisa mais? — Então não é suficiente? Conway riu. — Mais que suficiente, asseguro-lhe. Não pense que estou sendo descortês. É que me havia passado pelo espírito uma coisa muito diferente. . . Bem, não tem importância. Naturalmente, me sentirei honrado e encantado em falar com o cavalheiro. Para quando é a entrevista? — Para agora. Mandou-me que viesse buscá-lo. — Mas não é um pouco tarde? — Não importa. Meu caro senhor, cedo irá compreender muitas coisas. E permita-me acrescentar que sinto prazer em ver que esse intervalo, sempre tão incômodo, tenha chegado a termo. Acredite que me foi penoso ter de lhe recusar informações tantas vezes. . . extremamente penoso. Rejubilo-me por saber que de agora em diante essas desagradáveis reticências se tornarão desnecessárias. — Você é um homem engraçado, Tchang — respondeu Conway. — Mas vamos, não percamos mais tempo. Estou pronto e agradeço a sua delicadeza. Mostre-me o caminho.

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CAPÍTULO VII

Guardava Conway uma aparência de calma, porém, no fundo, sentia uma ansiedade crescente enquanto acompanhava Tchang pelos pátios desertos. Caso tivessem algum sentido as palavras do chinês, devia estar às portas de uma revelação. Breve iria saber se a sua teoria, ainda incompleta, era menos absurda do que parecia. À parte isto, não restava dúvida de que a entrevista prometia ser interessante. No seu tempo tivera encontros com vários potentados originais. Sentira por eles um interesse desprendido e era, em geral, arguto nas suas apreciações. Isento de embaraço, tinha a valiosa habilidade de dizer gentilezas em idiomas que conhecia muito pouco. No caso presente, porém, talvez o seu papel fosse apenas de ouvinte. Notou que Tchang o estava conduzindo através de salas que ainda não tinha visto, todas elas encantadoras à luz fosca das lanternas. Em seguida, uma escada de caracol os levou a uma porta em que o chinês bateu. Foi aberta por um tibetano, com tal presteza que Conway suspeitou estivesse o homem atrás dela, esperando-os. Essa parte do mosteiro, pertencente a um andar superior, não revelava menos bom gosto que o resto do edifício, mas o que mais a caracterizava era a atmosfera quente e seca ao extremo, como se todas as janelas se achassem hermeticamente fechadas e algum aparelho de aquecimento interno estivesse funcionando a toda pressão. A falta de ar aumentava à medida que avançavam, até que por fim Tchang se deteve di139

ante de uma porta que, a julgar pela sensação física, bem poderia dar acesso a um banho turco.

— O Superior o receberá sozinho — murmurou Tchang. Tendo aberto a porta para que Conway entrasse, fechou-a depois tão silenciosamente que a sua retirada foi quase imperceptível. Deteve-se Conway hesitante, respirando uma atmosfera que não só era abafada mas também sombria, de forma que foram necessários alguns segundos para que os seus olhos se habituassem à escuridão. Foi então distinguindo, pouco a pouco, uma sala baixa, revestida de cortinas escuras e mobiliada simplesmente de mesa e cadeiras. Numa destas estava sentada uma pequena, pálida e enrugada figura, imóvel na sombra, dando a impressão de um quadro antigo e descolorido, em claro-escuro. Se fosse possível imaginar uma presença destituída de realidade, ali estaria ela, revestida de uma dignidade clássica que era mais emanação do que atributo. Conway notou com curiosidade a sua própria percepção intensa de tudo aquilo e perguntou consigo se seria digna de crédito, ou simples reação ao ambiente penumbroso e quente. Davalhe vertigens a mirada daqueles olhos antigos. Deu alguns passos à frente e estacou. O ocupante da cadeira tornou-se agora menos vago. conquanto não parecesse muito mais concreto. Era um velhinho vestido à chinesa, e as amplas pregas da túnica lhe envolviam frouxamente o corpo exíguo e emaciado. — É o senhor Conway? — murmurou em excelente inglês. A voz era agradavelmente acariciadora e tocada de uma melancolia suave que encheu Conway de estranha 140

Numa bandeja de laca foram co141 . — É uma assinalada honra ser recebido pelo senhor — respondeu Conway. Chamá-lo-ei assim. — Era o que eu pensava. — Sou — respondeu. Para ele também tem sido um grande prazer. de acordo com o costume inglês. A voz continuou: — É um prazer conhecê-lo pessoalmente. . . — Pois. . Tenha a bondade de sentar-se ao meu lado e nada receie. embora o cético que havia nele estivesse novamente inclinado a atribuí-la à temperatura do aposento.beatitude. mas. entrou um criado a fim de preparar o elegante ritual do chá. Disse-me que o senhor lhe faz muitas perguntas sobre a nossa comunidade e sua vida. meu caro Conway. Fez um levíssimo aceno com a mão e imediatamente. Conway. . Sou um velho e nenhum mal posso causar a ninguém. sem dúvida. se pode dedicar-me um pouco de tempo. acredite-me. graças a um sistema de comunicações que ficou sendo um mistério para Conway. é de grande prazer para mim. — De fato. Tenho a vista fraca. . — Extremamente bem. Tchang fez o melhor que pôde pelos senhores. e contava com isso. essas coisas me interessam. — Agradeço-lhe. Espero que se tenha sentido bem em Shangri-Lá desde a sua chegada. Mr. Mandei chamá-lo porque pensei que seria bom conversarmos um pouco. gostarei de lhe dar uma breve notícia desta instituição. — Isso me alegra. como já disse. Este momento. sou capaz de vê-lo em espírito tão bem como se o fizesse com os olhos. . Mas em primeiro lugar antes de começarmos a discorrer. — Nada me agradaria mais.

a honra que me faz? Raramente se embaraçava Conway na explanação de seus motivos de proceder. o fantasma de um perfume a pairar sobre a língua. — É realmente delicioso.locadas as taças de porcelana fina como casca de ovo. acompanhou-a com ar apreciativo. que é um produto especial do nosso vale. — Não falou nisso a Tchang. Conway levou a taça aos lábios e provou. mas desta vez não lhe ocorria razão alguma. mas na minha opinião este. Agora diga-me. — Então está ao corrente dos nossos costumes? — tornou a voz. — A melhor das razões. . para aqueles que se vão tornar amigos. mas para que se extraia dele todo o prazer que comporta. que conhecia a cerimônia. não lhes fica atrás. — Não. O sabor era tênue. e também completamente novo para mim. Quando chupava cana142 . não tenho a menor idéia. Obedecendo a um impulso que não pôde analisar nem desejava reprimir. Naturalmente. não acha delicado este aroma? Os chás que se colhem na China são variados e ricos em fragrância. sutil e recôndito. então. certamente. — A que devo. que viveu há cerca de quinze séculos. Conway. contendo um líquido quase incolor. deve saborear-se com muito vagar. Por fim replicou: — Para ser sincero. respondeu o hóspede: — Vivi alguns anos na China. — Sim. é único e precioso. como grande número de ervas do nosso vale. não só como sinal de reverência e carinho. a não ser que desejava dizê-lo ao senhor. É uma lição famosa que aprendemos de Kou Kai Tchou. .

porque. que o cristianismo nestoriano esteve muito difundido na Ásia durante a Idade Média e sua memória persistiu muito tempo após sua queda. sem dúvida. que no ano de 1719 partiram quatro frades capuchinhos em busca dos remanescentes da seita nestoriana que porventura ain143 . Não foi entretanto de Lassa. Fui informado por Tchang de que fez largo uso da nossa biblioteca. um pouco da sensibilidade relutante de Kou Kai Tchou. Já estudou algum dos grandes clássicos chineses? Respondeu Conway que conhecia ligeiramente uns poucos. sempre hesitava em chegar à medula suculenta. formam uma leitura muito mais interessante do que as de São Paulo. No século XVII deu-se uma revivescência cristã. e não duvido que tenha estudado os escassos mas muito interessantes anais destas regiões. meu caro Conway. mas de Pequim. "queria penetrar gradualmente na região das delícias". Finalmente foi dado o sinal. se me permite a observação. até haverem terminado de beber o chá. cujas viagens. o criado surgiu e desapareceu de modo tão misterioso como da primeira vez. de acordo com a etiqueta. com a história do Tibete em suas linhas gerais. Deve ter verificado. ignorado por muitos europeus de hoje: durante trinta e oito anos existiu uma missão cristã em Lassa. não obstante sua grande curiosidade de ouvir a história de Shangri-Lá. como explicava. Havia nele. e sem mais preâmbulos o Lama Superior de Shangri-Lá pôs-se a falar: — Deve estar familiarizado. nascida na própria Roma e tendo por instrumentos aqueles heróicos missionários jesuítas. Aos poucos a Igreja foi-se propagando sobre uma área imensa. Sabia que essa conversação alusiva continuaria. mas isto estava longe de o irritar.de-açúcar. e há um fato notável. pelo menos.

mas escutou-o de bom grado e ele obteve considerável êxito. por acaso. e o quarto não estava longe de seguir a mesma sorte quando.da existissem no interior do continente. deu com o desfiladeiro que até hoje é. Existia então nesta mesma plataforma de pedra um velho convento lamaico. Apreciava a música e as artes em geral. O povo era budista. "Permita agora que me alongue um pouco a respeito desse homem. quando contava cinqüenta e três anos de idade. ele próprio começou a viver aqui. Conservaram-se poucos episódios da sua mocidade — sua vida nessa época não diferia muito da de outros jovens da sua idade e profissão. praticamente. e era uma espécie de erudito. tinha especial aptidão para as línguas. Era jovem quando se feriu a batalha de Malplaquet. Chamava-se Perrault e era natural do Luxemburgo. Em 1734. 144 . os velhos edifícios foram reparados e em grande parte reconstruídos. a única via de acesso ao vale da Lua Azul. lutando com dificuldades que o senhor bem pode imaginar. passando por Lanchow e pelo Koho-Nor. mas estava em plena decadência física e espiritual e. Bem depressa recobrou a saúde e deu início à sua missão. e assim teve contato pessoal com os horrores da guerra e da invasão. "Viajaram muitos meses na direção de sudoeste. com grande alegria e surpresa. Bolonha e outras universidades. como fosse aumentando a messe do capuchinho. e antes de estar seguro da sua vocação gozara todos os comuns prazeres mundanos. Três deles morreram em caminho. concebeu ele a idéia de instalar no mesmo sítio magnífico um mosteiro cristão. Sob a sua fiscalização. encontrou uma população amável e próspera que se apressou a aplicar o que sempre considerei a nossa mais antiga tradição: a hospitalidade para com os estranhos. Aqui. Antes de se dedicar às missões no Extremo Oriente havia estudado em Paris.

cultivando o seu jardim e aprendendo com os habitantes do vale ao mesmo tempo que lhes ensinava. interessava-se muito mais pelas plantas e ervas do lugar.Era robusto. mas que devia sua popularidade sobretudo aos efeitos levemente narcóticos que tinha. Foi. e que só o seu orgulho e a sua pertinácia podiam levar a cabo. o próprio Perrault tornou-se afeiçoado ao seu uso. é claro. apreciava as boas coisas do mundo e tinha o cuidado de ensinar aos seus conversos a arte culinária a par do catecismo. mas não o tentaram. 145 . sem esquecer as suas funções sacerdotais. durante seus primeiros anos aqui. Era humilde e de nenhum modo fanático. o qual o decidiu a mostrar que. uma obra cheia de imensas dificuldades. Digo orgulho. Censurava a poligamia. trabalhador. "Mas. a emulação é mais própria dos espíritos jovens e Perrault. Não era um asceta. Na verdade. era já entrado em anos. a rigor. não se desdenhava de vestir o avental de pedreiro e auxiliar na construção destas paredes que aqui vê. mas não via razão para invectivar o gosto que tinham pela baga do tangatse. Quero que o senhor o veja como um homem sincero. Descobriu jazidas de ouro no vale. Roma não era capaz de menos. Deve ter presente no espírito que. Tinha por hábito aceitar das culturas nativas tudo o que lhe ofereciam de agradável e inofensivo. se Gautama podia inspirar a homens a construção de um templo sobre a escarpa de Shangri-Lá. trabalhou como qualquer outro homem. porque este foi sem dúvida o motivo dominante no princípio — o orgulho da própria fé. Afinal. quando o mosteiro ficou completamente instalado. com o correr do tempo. dispensandolhes em troca os tesouros espirituais do Ocidente. era natural que esse motivo fosse cedendo lugar a outros mais serenos. simples e entusiasta que. instruído. à qual atribuíam propriedades medicinais.

Por esse tempo a instituição que fundara começava a sofrer transformação sutil. jamais teria resistido às rajadas ferozes e aos frios terríveis desses desertos. mas muitos não chegaram até ele. contava oitenta e nove quando o recebeu. e sem dúvida surgiram suspeitas acerca da sua atividade. Não era possível pensar numa longa viagem por montanhas e planaltos. mas não era realmente nada de espantar. com a demora. Perrault foi-se tornando avesso a que eles arriscassem suas vidas e nos meados do século cessou de todo a prática. Mas o povo do vale e os próprios monges não tinham apreensões: amavam-no e obedeciam-lhe. e como presumia que os mensageiros tivessem sucumbido aos perigos da viagem. e à medida que passavam os anos iam aprendendo a venerá-lo. Costumava enviar relatórios periódicos ao bispo de Pequim. encontrá-lo-ia já um ancião de mais de setenta anos. embora se devam fazer certas concessões a uma pessoa cujos superiores eclesiásticos se acham tão longe que a distância deve ser medida em anos de viagem. Talvez fosse deplorável. entretanto. não propriamente desobedecendo às ordens superiores. Algumas de suas primeiras mensagens. "De modo que Perrault permaneceu em Shangri-Lá. Fosse como fosse. pois no ano de 1769 um desconhecido trouxe uma carta escrita doze anos antes e chamando Perrault a Roma.o seu procedimento não fora muito regular. Por conseguinte. mas porque lhe era materialmente impossível atendê-las. sucedeu assim que. "Se o chamado chegasse sem atraso. enviou uma resposta cortês explicando a situação. Não seria lícito esperar que um homem só fosse capaz de extirpar para sempre 146 . mas ignora-se se a sua mensagem chegou a transpor as cordilheiras. deviam ter chegado ao destino. estava muito velho e provavelmente não tardaria que a morte viesse dar cabo dele e da sua insubmissão.

esperar que um velho. somente o sono eterno poderia reivindicá-lo agora. Chegou a terminar o trabalho (nós temos o manuscrito completo). Seus discípulos lhe eram dedicados. depois para uma dúzia apenas. que orçava pelos noventa anos. baixara para vinte. Com a idade de noventa e oito anos iniciou o estudo dos escritos budistas que seus predecessores tinham deixado em Shangri-Lá. com a sua bondade. "Entrementes. Mas não seria pedir mais ainda. Perrault não atinou com ele. o número dos que viviam sob as ordens do velho capuchinho diminuía constantemente. Estava já muito velho e era feliz. e os habitantes do vale o contemplavam com tão reverente afeição que ele lhes perdoava com facilidade crescente o retorno aos antigos costumes. e era intenção sua dedicar o resto da vida à composição de um livro atacando o budismo do ponto de vista da ortodoxia. embora lhe esquecessem os ensinamentos. e a biblioteca 147 .os hábitos e tradições de uma comunidade. A vida de Perrault por esse tempo tornara-se uma serena espera do fim. idade em que até as mais profundas animosidades estão sujeitas a extinguir-se. Estava demasiado velho para adoecer ou para mostrar-se rabujento. De oitenta que chegara a somar. como poucos eram substituídos. a maioria deles também muito velhos. reconhecesse o seu próprio erro? Seja como for. mas o ataque foi muito suave. O povo do vale. tinham morrido muitos de seus primitivos discípulos e. Ainda era ativo e suas faculdades conservavam excepcional lucidez. pois nesse tempo já havia atingido a conta redonda dum século. como deve supor. fornecia-lhe alimento e roupa. Seria pedir demasiado. Não tinha companheiros ocidentais que lhe prestassem mão firme quando a sua principiava a fraquear. e talvez houvesse sido um erro instalar o mosteiro num lugar onde viviam recordações tão antigas e tão diferentes. e ele não tinha medo.

Mandou vir seus amigos e servidores e despediu-se de todos. naquele memorável ano de 1789. pareceu que o Lama Superior estive148 . de onde podia ver pela janela a mancha branca que era. que apenas se movia. e a verdade é que pouco tempo depois. podia imaginar aquela forma nítida e incomparável que meio século antes avistara pela primeira vez. passava-o com seus livros. o Karakal. pediu-lhes que o deixassem só." O murmúrio cessou por um momento. "Ele jazia nesta sala. e a Conway. Tinha cento e oito anos. estava pronto para morrer. sentia-se alegre e desejoso da morte. e que se baseiam em vários métodos especiais de respiração. Era nessa solidão. que esperava entregar a alma. os anos de viagem por desertos e montanhas. suas recordações e os suaves êxtases do narcótico. . o fragor e o brilho dos exércitos de Malborough. Mas podia ver também com os olhos do espírito. . com o corpo a consumir-se devagarinho e o espírito em plena beatitude. meu caro Conway. as grandes multidões das cidades ocidentais.lhe dava ocupação. Seu espírito confinara-se numa calma branca como neve. baixou ao vale a notícia de que Perrault estava finalmente às portas da morte. e então começou a viver de novo. depois. aos seus olhos baços. mas ainda tinha energia suficiente para cumprir as mais importantes cerimônias do culto. O resto do dia tranqüilo. Para um homem de tal idade a empresa bem poderia parecer arriscada. E diante dele surgia também o estranho cortejo de suas muitas experiências. mas tal não aconteceu. Enfraquecera bastante. Jazeu durante muitas semanas sem fala e sem movimento. Seu espírito permanecia tão extraordinariamente lúcido que ainda se abalançou a começar um estudo sobre certas práticas místicas a que os hindus dão o nome de ioga.

ra traduzindo fluentemente um remoto e secreto sonho. Mas o fato é que quando morreu o último monge. Dizia-se que Perrault se tornara um deus. um eremita dotado de poderes sobrenaturais e vivendo solitário neste formidável penhasco. ele recomeçou: — Como todos aqueles que esperaram longo tempo nos umbrais da morte. Por enquanto desejo limitar-me ao seu procedimento. a lenda desenvolveuse num belo e fantástico folclore. esquecendo. "À aproximação do novo século. perseverava na prática dum ritual secreto que ele criara. Após um instante. e que fazia milagres e que em certas noites voava ao cume do Karakal para acender uma vela dian149 . Perrault ainda vivia. em vez de ter uma convalescença inativa. tornou-se logo um ser misterioso. Mas persistia ainda a tradicional afeição por ele. que eram ovelhas perdidas e desgarradas. O engelhado capuchinho. dessa visão falarei mais tarde. "Seria quase motivo para sorrir. se houvesse alguém em Shangri-Lá com espírito suficientemente desabusado. não mais decrépito do que era doze anos atrás. e passaram a considerar um ato meritório e propiciador subirem a Shangri-Lá a fim de trazer-lhe um modesto presente. Narcótico e exercícios respiratórios — não parece um regime muito próprio para resistir à morte. ou executar algum serviço manual que aqui fosse necessário. em 1794. talvez. Perrault abençoava a todos esses peregrinos. Porque. como seria de esperar. para trazer consigo de volta ao mundo. curiosamente combinada com o uso do narcótico. Para a gente do vale. Porque agora o Te Deum Laudamus e o Om Mane Padme Hum eram ouvidos indistintamente em todos os templos do vale. ele mergulhou sem demora numa rigorosa autodisciplina. que foi na verdade notável. Perrault tinha recebido a graça de uma visão de certa importância.

começou a sentir que não havia nenhum motivo conhecido para que isso acontecesse em tal ou tal época determinada do futuro. toda sorte de coisas impossíveis. embora pareça desnecessário porque há numerosos testemunhos pouco fidedignos de que Perrault podia fazer. Sua memória era espantosa. Havendo demonstrado já que era anormal. que a decadência dos sentidos ordinários pode ser compensada em certa medida pelo desenvolvimento de outros. porque conservava no fundo. Há sempre um pálido clarão no alto da montanha durante a lua cheia. Mas a austera verdade é que ele tentou várias experiências nesse sentido. era como se agora fosse capaz de aprender todas as coisas com mais 150 . Acreditava-se. se bem não visasse a nenhum poder específico de curar. a verdade é que a sua simples presença auxiliava a cura em certos casos. sem que isso lhe tivesse sido possível senão raramente. por exemplo. que ele praticava a arte da autolevitação.te do céu. Assim sendo. sem nenhum êxito entretanto. de que tanto falam os estudos sobre o misticismo budista. Faço menção disto. A atitude de Perrault pode ser definida dizendo-se que. começou a viver como sempre desejara. contudo. e. adquiriu uma perícia talvez notável em telepatia. era-lhe tão fácil acreditar que a anormalidade persistiria como que ela poderia ter fim a qualquer momento. mas não preciso afirmar-lhe que nem Perrault nem outro homem qualquer jamais a escalaram. através de todas as vicissitudes. assim. e fazia. Descobriu. de imensa claridade. parecia haver escapado às limitações físicas e atingido alguma região superior. os gostos tranqüilos do estudioso. que por tanto tempo o havia preocupado. como não morrera na idade normal. começou a viver sem mais cogitar da iminência da morte. "O senhor há de querer saber como ele passava o tempo durante aqueles anos inauditos.

e ainda possuímos na nossa biblioteca o manuscrito de um dos seus primeiros exercícios lingüísticos. e talvez lhe interesse saber que havia entre eles uma gramática inglesa acompanhada de um dicionário e a tradução de Montaigne por Florio. outro estrangeiro. Sentirse-ia muito só sem uma tal ocupação — pelo menos até o quarto ano do século dezenove. conseguindo dominar as dificuldades do seu idioma. data que assinala um importante acontecimento na história da nossa instituição. uma realização bem pouco prática. se fosse possível. mas trouxera alguns consigo ao vir para cá. Era. ao 151 . Conway sorriu. uma versão para o tibetano do ensaio de Montaigne sobre a vaidade — certamente uma produção única. como pode supor. atravessara a Rússia em direção à Ásia. tal qual Perrault quase um século antes. possuidor de grande cultura e encanto pessoal. mas ele próprio não fazia disso uma idéia muito clara. com a vaga intenção de refazer sua fortuna. e o estrangeiro restabeleceu-se — mas aí cessa o paralelo. Mais uma vez teve Shangri-Lá ocasião de dispensar a sua hospitalidade. — Com o maior prazer. Porque Perrault tinha vindo para pregar e converter. mas lembre-se de que Perrault atingira uma idade que nada tinha de prática. estava quase a morrer quando aqui chegou. que lutara contra Napoleão na Itália — um moço de alta estirpe. Naturalmente. Arruinado pelas guerras.facilidade do que tinha em seu tempo de estudante para aprender uma coisa só. — Teria interesse em vê-la algum dia. não tardou a sentir falta de livros. Munido desses poucos livros pôs-se a trabalhar. Seria interessante saber a maneira exata como alcançara o planalto. Foi então que chegou ao vale da Lua Azul. vindo da Europa. Era um jovem austríaco chamado Henschell. Na verdade.

O vale. Não tentarei descrever as relações que se formaram entre ambos. "Mas não regressou. mas por ora. Perrault era dotado de uma grande benignidade. depois de ouvir a lenda local.passo que Henschell tomou interesse imediato nas jazidas de ouro. "Esse encontro foi histórico. com a sua quietude e absoluta isenção dos cuidados mundanos. Se bem que já um tanto alheado de sentimentos humanos tais como a amizade e a afeição. afinal de contas. seus êxtases e também o sonho fantástico que se tornara para ele a única realidade restante no mundo. subiu a Shangri-Lá e teve o primeiro encontro com Perrault. e um dia. Um tributava a maior adoração possível. — Eu sei — respondeu com simpatia a voz sussurrante. enquanto que o outro comunicava seus conhecimentos. — Seria na verdade notável se compreendesse. tentou-o a ir adiando sempre e sempre a partida. É um assunto que terei prazer em explicar antes que termine a nossa entrevista. que foi para o moço como chuva para um solo abrasado. se me permite. mas não compreendi bem o final. Aconteceu uma coisa estranha — embora tenha acontecido tantas vezes depois que talvez não devêssemos reputá-la tão estranha. e Conway falou suavemente: — Perdoe-me a interrupção. fazendo também as primeiras aquisições para a biblioteca e para a sala de música. mas foi ele quem con152 . Empreendeu uma viagem memorável a Pequim e trouxe o primeiro lote no ano de 1809. Eis um pormenor que lhe interessará: foi Henschell quem iniciou nossas coleções de arte chinesa." Sobreveio uma pausa. Sua ambição principal era enriquecer e regressar à Europa o mais cedo possível. Não tornou a sair do vale. circunscrever-me-ei a coisas mais simples. no mais exato sentido da palavra.

Ainda postava sentinelas que mantinham constante vigilância à entrada do desfiladeiro. vieram com efeito tais forasteiros. — Esse foi sempre. Mercadores chineses. "E. o receio de Henschell. tentados a fazer a travessia do planalto. que têm sido muito felizes por escapar a uma invasão de exploradores. Isso jamais seria possível. para que a própria gente do vale fosse depois buscá-los. meu caro Conway. no mais singelo gesto de assentimento. com esta pas153 . casualmente. ainda que tivessem armas. Ficou pois decidido que. de futuro. não era de temer a invasão de um exército. O Lama Superior inclinou a cabeça. dadas as distâncias e a natureza da região. temos a sorte de possuir depósitos desse metal tão estimado em outras partes do mundo. mandava-os deixar os volumes a um dia de viagem daqui. Mas pouco depois lembrou-se de um método mais fácil e seguro de defesa. os forasteiros poderiam vir quando bem entendessem — mas com uma condição importante. deparavam por vezes.cebeu o complicado e engenhoso sistema por meio do qual tem sido possível à comunidade obter do mundo exterior tudo de que necessita. — Sim? A voz de Conway era cuidadosamente velada. — Sim. que. O mais que se poderia esperar seria o aparecimento de alguns viajantes perdidos. Tomava o cuidado de evitar que alguns dos carregadores que traziam livros e tesouros de arte se aproximassem muito das jazidas. — O senhor compreende. — Tão estimado. chegariam provavelmente tão extenuados que não constituiriam perigo algum. — Suponho que lhes seja fácil efetuar os pagamentos em ouro. durante muitos anos.

em 1830. chegavam aqui de quando em quando. impelidos por um motivo que se foi tornando cada vez mais comum: a exploração científica. tinha-se dado uma ligeira modificação na atitude de Shangri-Lá para com os visitantes: não eram apenas bem recebidos quando tinham a sorte de encontrar o caminho do vale. um russo. No ano da batalha de Waterloo três missionários ingleses. Devo acentuar que Henschell era excepcionalmente capaz e talentoso. Tibetanos nômades.sagem entre tantas outras. foi encontrado moribundo no sítio mais alto do desfiladeiro. E. que tinham ouvido falar vagamente em ouro. como se viessem em visita. nos anos que se seguiram aconteceu que mais de uma expedição de exploradores. Dois alemães. como animais esgotados. fascinados pelo primeiro e distante vislumbre do Karakal. Em 1822 três espanhóis. Ao tempo da sua vinda. encontrou mensageiros que lhes transmitiam cordial convite raras vezes recusado. cruzaram a cordilheira por uma passagem desconhecida e tiveram a felicidade extraordinária de chegar calmamente. como também se tornou hábito ir ao seu encontro se se aventuravam dentro de certo raio. Precisava agora de novos elementos e os desejava. embora muitos só alcançassem o abrigo do vale para morrer. Em 1820 um negociante grego. chegaram aqui depois de muitos descaminhos e desilusões. Todos eram bem-vindos. acompanhado de criados doentes e famintos. e que o Shangri154 . que se dirigiam a Pequim por terra. um inglês e um sueco fizeram a perigosa travessia dos Tian-Shans. por mostrar que a comunidade deixara de ser indiferente na sua hospitalidade. E de novo. por uma razão de que tratarei mais adiante. desgarrados de suas tribos. com efeito. houve um largo afluxo de gente. "Durante esse tempo o mosteiro foi adquirindo muitas de suas atuais características. Tudo isso. mas o ponto é de importância.

pouco mais que uma miniatura em tintas coloridas.Lá de hoje lhe deve tanto quanto ao seu fundador. Afastando-se um pouco. tropeçando. Como um espectador hipnotizado. Mataram-no.. tanto ou mais. embora suave. era uma particularidade que ele só notou depois da primeira arfada de admiração: o rosto era o de um homem jovem.. Conway viu o homem afastar uma cortinazinha no fundo da sala e acender uma lanterna que ficou a oscilar no meio das sombras. Levantou-se. e uma vez mais entrou o criado. Pouco antes da sua morte um artista chinês desenhou-lhe o retrato.. quase femininas. tartamudeou: — Mas. e Conway sentiu-se fortemente atraído por elas. e posso mostrar-lho agora — está na sala.. O desenho era pequeno. Isso aconteceu no ano da revolta dos cipaios. e a perda desse homem teria sido irreparável se não houvesse completado a sua tarefa quase sobre-humana antes de morrer. mas o artista conseguira dar aos tons de carne uma delicadeza de figura de cera. Fez novamente aquele leve gesto de mão. não obstante as barreiras do tempo. Sim. o senhor tinha dito. porém. que esse retrato foi feito pouco antes da morte dele? 155 . O mais estranho de tudo. de que toda instituição necessita em certa fase do seu desenvolvimento. As feições eram de grande beleza. Foi muito repentino. da morte e do artifício. mais para ecoar esta última palavra do que para interrogar: — Morreu! — Sim. e caminhou para o trêmulo círculo de luz." Conway alçou a cabeça. Porque foi ele a mão firme. Depois ouviu o murmúrio que o convidava a aproximar-se — o murmúrio que já se lhe tornara música familiar. penso muitas vezes.

O Lama Superior fez outra pausa mais longa. de perceber tudo o que ela implicava. Escutara a narrativa com uma atenção que o impedira. a despeito da minha debilidade. vejo-me obrigado a cumpri-la pessoalmente. Fez então um esforço e perguntou: — E morreu assassinado. Agora que procurava uma expressão 156 . — E veio para cá em 1803. . . se ele morreu no ano que disse.— Sim. quando era jovem? — Sim. — Deveras? E. Está muito parecido. Esteve Conway um momento sem falar. depois de ter ouvido esta minha longa e curiosa história. — Morreu. Conway respondeu pausadamente e em voz baixa: — Penso que já adivinhei. tendo no centro aquele ancião benevolente. talvez. Era um dos tais exploradores. não adivinha também outra coisa? Sentiu-se Conway aturdido enquanto procurava uma resposta. — E qual foi a causa? — Houve um desentendimento a respeito de certos carregadores. como ia dizendo? — Sim. — Mas. e havia um quê de interrogação no seu silêncio. meu caro Conway. segundo contou. Foi ferido a bala por um inglês. É uma missão algo difícil e desde então. A sala era agora um remoinho de sombras. Henschell acabava de informá-lo sobre a importante condição a que estava sujeita a nossa hospitalidade. esteja perguntando a si mesmo qual poderá ser essa condição. Finalmente prosseguiu: — Talvez. poucas semanas após a chegada deste a Shangri-Lá.

. . — O que. Padre Perrault! 157 . . é espantoso. .. . e todavia não está absolutamente fora da minha capacidade de acreditar. de todo incrível. não posso deixar de pensar nisso. — E contudo. . — Parece impossível — balbuciou. . extraordinário. sacudido por uma emoção para a qual não encontrava nenhum motivo e que não procurava ocultar: — Que o senhor ainda está vivo.adequada. mergulhava em assombro e a certeza que se ia concretizando no seu espírito relutava em manifestar-se por palavras. meu filho? E Conway respondeu.

.

Mozart possui uma elegância austera que muito nos satisfaz. — Estimaria muito. temos a fortuna de contar entre nós um músico talentoso — foi mesmo aluno de Chopin —. Esta reflexão fez surgir (a não ser que se tratasse de mera coincidência) um curioso exemplo dos poderes telepáticos do Lama Superior. O elogio foi agradecido entre vagarosos sorvos de chá. pois devia ser considerável a fadiga causada por tão longa narrativa. e somos felizes em lhe confiar a direção do nosso salão de música. dizendo alegrar-se com o fato de os gostos musicais de Conway não ficarem de todo insatisfeitos em Shangri-Lá. os sorvos de chá. disse-me Tchang que o seu compositor ocidental preferido é Mozart. preenchiam a mesma função da cadência na música. — É verdade. Compreendia que ele era desejável sob todos os pontos de vista. Respondeu Conway com adequada polidez e mencionou a sua surpresa por ver que a comunidade possuía tão rica coleção de compositores europeus. inclusive o artístico. Constrói uma casa que não é dema159 . Conway não estranhou isto. em razão de ter o Lama Superior pedido mais chá.CAPÍTULO VIII Seguiu-se um silêncio obrigatório. pois este começou imediatamente a falar de música. Precisa conhecê-lo. A propósito. com o seu acompanhamento de cortesias convencionalmente improvisadas. — Ah! meu caro Conway. Ele próprio se sentia grato por esse intervalo de repouso.

e a mobília com um bom gosto perfeito. é agradável ter entre nós pessoas de diversas idades e representativas de diferentes épocas. respondeu o Superior: — É uma história intricada. além de outros motivos. nosso último visitante. tanto quanto possível. Alguns dos nossos visitantes não obtêm nenhum beneficio com sua permanência aqui. uma aquisição muito valiosa. a partir da última guerra européia e da revolução russa. Já então se achava Conway em estado de observar calmamente: — De modo que. entre todos os habitantes da Terra. mais discursiva. — O que me intriga é o fato de. chegou em 1912 e não foi.siado grande nem demasiado pequena. para o bem. meu caro Conway. Infelizmente. suponho. Compreende. um japonês. para ser franco. para voltar à nossa conversa anterior. termos sido nós quatro os escolhidos. como verá se se der ao trabalho de ouvi-la. manter o nosso número por meio de um recrutamento constante — pois que. nós não somos impostores nem charlatães. meu filho. Voltando à sua maneira anterior. Não damos nem podemos dar garantias de êxito. Deve saber que sempre procuramos. o senhor pretende reter-nos aqui? Esta. Outros somente alcançam o que se pode chamar uma idade normalmen160 . — E vamos realmente ficar aqui para sempre? — Preferiria empregar o seu excelente idiomatismo inglês. Com efeito. as viagens ao Tibete e as explorações desta parte do globo foram quase completamente interrompidas. é a condição importante e invariável a que se referiu? — Sua suposição é certa. dizendo que todos nós permanecemos aqui for good. Prosseguiu a troca de comentários até que vieram tirar a mesa.

criou-se um problema. mas obteve o nosso consentimento. após as devidas deliberações. de um modo geral. a situação era esta: havia já três décadas que não chegava nenhum visitante. merecedor de absoluta confiança e completamente identificado com os nossos ideais. e considero uma grande ventura termos finalmente entre nós. Descobrimos que. talvez os americanos não fossem menos adaptáveis. Era a muitos respeitos uma idéia revolucionária.te avançada e morrem em conseqüência de algum mal insignificante. era um rapaz inteligente e de inici161 . a não ser bem poucos. Ofereceu-se para nos deixar. natural do vale. como deve compreender. — Quer dizer então que ele foi enviado de propósito para trazer alguém pelo ar? — Bem. Os nossos melhores objetos de experiência são os nórdicos e os latinos da Europa. Era um moço. poucos anos faz. Porque. Mas devo prosseguir na resposta à sua pergunta. como vê. demandando algum país vizinho. É uma gente encantadora. por estarem habituados tanto à altitude como a outras condições. um cidadão daquele país. como durante esse tempo haviam ocorrido muitos falecimentos. em Shangri-Lá. Entretanto. devemos acertar o passo com a época. privava-o a própria natureza das vantagens concedidas aos que vêm de outras terras. e admitimos muitos deles. Os chineses são um pouco superiores. Mas. e. a fim de angariar novos colegas por um processo que teria sido impraticável noutra época. Como vinha explanando. são muito menos sensíveis do que os indivíduos de outras raças. nós também. mas duvido que ultrapassem. na pessoa de um de seus companheiros. um dos nossos apresentou uma idéia original. mas mesmo entre eles há uma porcentagem elevada de fracassos. como a todos os habitantes do vale. a idade de cem anos. os tibetanos.

Achava que seria muito possível. afinal de contas. Mas sucedeu. Foi idéia dele e nós lhe demos inteira liberdade de ação. Jamais ninguém. — Meu filho. Se não tivesse encontrado essa oportunidade. Muitas coisas acontecem por acaso. Conway. consternação. Conway inclinou levemente a cabeça. — Não era um avião comum. meu caro Conway. Confesso que me surpreendi quando as sentinelas trouxeram a notícia da sua descida no planalto.. encontraria outra dentro de um ano ou dois — ou talvez nunca. antes que uma máquina comum pudesse voar sobre as nossas montanhas. mas a mim me parecia que teria de progredir ainda muito mais. — Mas como podia arranjar-se para executar o resto do plano? Foi só por acaso que encontrou aquele avião em Baskul. — Outra coincidência? Nosso jovem amigo tinha realmente boa estrela. está claro. É pena não podermos conversar sobre o assunto com ele. fúria. — Mas qual é o desígnio que há no fundo de tudo isso? — perguntou. justamente o que Talu esperava. o seu modo de fazer a pergunta me causa infinito prazer. ao cabo de um silêncio. Tenho certeza de que iria gostar dele. Todos lamentamos sua morte.. construído para voar sobre montanhas. Era um tipo especial. Minha revelação tem sido recebida de todas as maneiras concebíveis: com indignação. — Tem razão. A única coisa que sabíamos de maneira definida era que o seu plano compreendia um período de instrução numa escola americana de aviação. increduli162 .ativa e nós depositávamos nele grande confiança. me formulou num tom de tamanha calma. no curso de tão longa vida. O progresso da aviação tem sido rápido.

dade, histerismo — mas nunca, até esta noite, com simples interesse. É todavia uma atitude que eu acolho cordialmente. Hoje se interessa, amanhã se preocupará; pode ser que ainda venhamos a pedir sua inteira devoção. — Isto vai além do que eu poderia prometer. — Até essa dúvida me agrada. É a base de uma fé profunda e valiosa. . . Mas não discutamos. Está interessado, e isto, partindo do senhor, já é muito. Apenas lhe peço que não comunique por enquanto aos seus três companheiros o que lhe estou dizendo agora. Conway guardou silêncio. — Chegará o momento em que o saberão, como o senhor, mas para bem deles mesmos não convém precipitar esse momento. Estou tão convicto da sua prudência neste assunto que não lhe peço nenhuma promessa; sei que procederá do modo que nós ambos consideramos o melhor. . . Agora deixe-me esboçar um quadro deveras atraente. Segundo os padrões do mundo, o senhor ainda é moço. Tem, como se costuma dizer, a vida diante de si. De acordo com o curso normal das coisas, poderá esperar uns vinte ou trinta anos de atividade, que irá decrescendo imperceptível e gradualmente. Não é em absoluto uma perspectiva desalentadora, e não posso esperar que a olhe como eu a olho: como um entreato brevíssimo e por demais agitado. Viveu sem dúvida o primeiro quartel de sua existência sob a nuvem de excessiva juventude, enquanto que os últimos vinte e cinco anos serão provavelmente obscurecidos pela nuvem ainda mais escura da demasiada velhice; e entre essas duas nuvens, como são fracos e escassos os raios de sol que iluminam uma vida humana! Mas o senhor pode estar destinado a ser mais feliz, pois, de acordo com os padrões de Shangri-Lá, mal começaram ainda os seus anos de sol. Poderá acontecer que, dentro de algumas 163

décadas, não se sinta mais velho do que hoje — que conserve, como Henschell, uma longa e esplêndida juventude. Mas essa, acredite-me, será apenas uma fase inicial e superficial. Tempo virá em que comece a envelhecer como os outros, embora com muito mais lentidão e em condições infinitamente mais nobres. Aos oitenta anos poderá ainda subir ao desfiladeiro com a agilidade de um moço, mas quando contar o dobro dessa idade não deve esperar que o mesmo vigor ainda persista. Não fazemos milagres, não vencemos a morte e nem sequer a decadência. Tudo que podemos fazer e temos feito algumas vezes é retardar a marcha desses breves momentos que constituem a vida. Logramos isso mediante métodos tão simples aqui quanto impossíveis em outros lugares. Mas não se iluda; o mesmo fim aguarda a nós todos. "Ainda assim, é uma perspectiva sedutora a que lhe ofereço: longos dias tranqüilos, durante os quais contemplará o pôr do sol como um homem de outra parte do mundo ouve um relógio dar horas, mas com muito menos ansiedade. Virão e ir-se-ão os anos, e o senhor passará dos prazeres materiais a outros mais austeros, porém não menos satisfatórios. Poderá perder o gume do apetite e a rijeza dos músculos, mas desfrutará vantagens que compensarão essa perda. Adquirirá calma e profundeza, madureza, sabedoria e o cristalino encanto da memória. E, mais precioso que tudo, terá o tempo, esse dom tão raro, tão desejado, que os países ocidentais foram perdendo à medida que o buscavam com mais ardor. Reflita um instante. Terá tempo para ler, nunca mais precisará saltar páginas a fim de poupar minutos, nem deixar de lado nenhum estudo porque seja demasiado longo. Também tem gosto pela música: aí, pois, estão os seus instrumentos, as suas composições, e sobretudo o tempo, sem medida e sem pressa, para 164

extrair deles o máximo encanto. É, além disso, diremos, um homem de boa companhia: não se extasia ao pensar que poderá fazer sábias e serenas amizades, e gozar um longo e profundo comércio espiritual, sem temor de que a morte o venha chamar com a sua costumeira pressa? Ou, se prefere a solidão, não poderia utilizar um dos nossos pavilhões para enriquecer a doçura das meditações solitárias?" A voz fez uma pausa que Conway não pensou em aproveitar. — Não faz nenhum comentário, meu caro Conway. Perdoe-me a eloqüência. Pertenço a uma época e a uma nação em que nunca se considerou de mau tom expressarse com fluência. . . Mas talvez esteja pensando na esposa, nos pais e nos filhos que porventura tenha deixado no mundo. Ou terá ambições que pensa ver realizadas? Creia-me, se bem que a princípio a separação possa ser dolorosa, dentro de dez anos nem a sombra disso tudo existirá para o senhor. Digo isto embora o senhor — se é que leio certo no seu espírito — não tenha semelhantes preocupações. Surpreendido com a agudeza da observação, Conway replicou: — É verdade. Não sou casado, tenho poucos amigos íntimos e nenhuma ambição. — Nenhuma ambição? E como se arranjou para escapar a essa doença tão comum? Só agora tinha Conway a impressão de tomar parte numa conversa. — Sempre me pareceu — disse — que boa porção daquilo que na minha profissão se chama "êxito" é bastante desagradável, sem contar que exige mais esforço do que eu desejaria despender. Era cônsul, um posto bem subalterno mas muito do meu agrado. 165

— Mas não pusera a alma nele? — Nem a alma, nem o coração, nem tampouco metade de minhas energias. Sou um tanto preguiçoso por natureza. As rugas tornaram-se mais acentuadas e sinuosas, e Conway compreendeu que o Lama Superior devia estar sorrindo. — A preguiça na realização de certas coisas pode ser uma virtude — sentenciou o murmúrio. — Em todo caso, nós é que não nos mostraremos exigentes nesse particular. Creio que Tchang já lhe explicou o nosso princípio de moderação, e uma das coisas em que sempre somos moderados é a atividade. Eu, por mim, aprendi dez idiomas, mas estes poderiam ter sido vinte se houvesse estudado imoderadamente. Não o fiz, contudo. Acontece o mesmo em outros sentidos. Verá que não somos gozadores nem tampouco ascetas. Enquanto não alcançamos uma idade em que se impõe a prudência, aceitamos de bom grado os prazeres da mesa, ao passo que, para ventura dos nossos companheiros mais jovens, as mulheres do vale aplicam o princípio de moderação à sua própria castidade. Tudo bem pensado, tenho certeza de que se adaptará aos nossos costumes sem muito esforço. Tchang, na verdade, mostrou-se muito otimista a esse respeito — e também eu, depois desta entrevista, não o estou menos. Mas há no senhor, reconheço-o, uma estranha qualidade que jamais encontrei em qualquer outro dos nossos visitantes. Não é propriamente cinismo, muito menos amargura. Talvez seja em parte desilusão, mas também uma clareza de espírito que eu não esperaria encontrar num homem com menos de... cem anos, digamos. Se tivesse de exprimi-lo por uma forma concisa, diria que é falta de paixão. — O termo é bem aplicado — replicou Conway. — 166

como a qualquer outra espécie de futuro. para ser franco. ou talvez mesmo no próximo ano. se o fazem. mas para que eu o almeje é preciso que tenha alguma razão de ser. Não posso olhar tão longe. Penso que isto fará de mim um espécime único no seu museu de curiosidades. . podem colocar-me este rótulo "19141918". E. se não a tem. — É inteligente. pois os outros três que vieram comigo não entram nessa categoria. me acostume a ele facilmente. ou na próxima semana. mas. uma vida longa tê-laá ainda menos. a um tempo budista e cristã. Encontro neste lugar certo encanto e certa quietude que me atraem e não duvido que. a principal coisa que tenho pedido ao mundo desde então é que me deixe em paz. Gastei a maior parte de minhas paixões e energias durante aqueles quatro anos e. Duvidei algumas vezes de que a própria vida a tenha. como observou. Ficaria sem dúvida pesaroso se tivesse que deixar Shangri-Lá amanhã. embora não costume falar nisso. — Isso é tudo. são muito confortadoras.. como me disse Tchang. o esboço que traçou do futuro me interessa apenas dum modo abstrato.Não sei se costumam classificar as pessoas que aqui vêm. as tradições desta casa. mas o que irei sentir daqui a cem anos. — Meu amigo. muito inteligente. se é que viverei tanto. 167 . Mas no que lhe expus não haverá nada que lhe desperte algum sentimento mais forte? Permaneceu Conway algum tempo calado antes de responder: — Causou-me profunda impressão a sua narrativa do passado. é coisa que não posso predizer. mas. Posso fazer-lhe frente. meu filho? — Espero que eu esteja sendo fiel à sua regra de moderação.

ou seria destruído como os ingleses destruíram o Palácio de Verão em Pequim. Ele considerou então o curso da sua longa existência. como já lhe contei. e pareceu-lhe que as coisas mais belas eram transitórias e perecíveis. — Existe uma razão. embriagados com a sua técnica homicida. infelizmente. todo o tesouro acumulado durante dois mil anos. Recordou coisas que tinha visto com os próprios olhos e esboçou outras com a imaginação. e na verdade bem definida. Viu o poder de suas máquinas multiplicar-se a tal ponto que um só homem poderia fazer frente a todo um exército do Grande Monarca. Pode afirmar que essa visão não é verdadeira? — Bem verdadeira. e que a guerra. quadros e composições musicais. o pequeno. no ano de 1789. Não estamos realizando uma experiência vã. Mas. . não seguimos um mero capricho. a luxúria e a brutalidade poderiam acabar por expeli-las um dia da face do mundo. não em sabedoria. continuo a desejar uma razão mais definida para invejar os centenários. — Mas isto não é tudo. assolariam o mundo com tal furor que toda coisa preciosa estaria em perigo. quando enchessem de ruínas a terra e o mar. que aqui vivem os seus longos anos. todos os livros. o delicado. É o motivo único desta colônia de estrangeiros reunidos ao acaso. Viu as nações fortalecendo-se. procurariam dominar os ares. 168 . É a visão que pela primeira vez apareceu ao velho Perrault quando jazia moribundo nesta sala.— Pode ser. mas em vulgares paixões e no desejo de destruir. o indefeso — tudo se perderia como perdidos foram os livros de Tito Lívio. Temos um sonho e uma visão para nos guiar. E percebeu que. Previu a chegada de um tempo em que os homens. . com efeito.

— Concordo com esta sua opinião. — Naturalmente. Mas que valem as opiniões dos homens razoáveis diante do ferro e do aço? Acredite-me, essa visão do velho Perrault se tornará realidade. E esse, meu filho, é o motivo por que eu e o senhor estamos aqui, e por que podemos rogar a graça de sobrevivermos à destruição que ameaça por todos os lados. — Sobreviver a isso? — Há uma possibilidade. Todas essas coisas acontecerão antes que seja tão velho como eu. — E pensa que Shangri-Lá se salvará? — Talvez. Não podemos esperar nenhuma mercê, mas há uma tênue esperança de que sejamos esquecidos. Aqui ficaremos com nossos livros, nossa música e nossas meditações, conservando as frágeis elegâncias de uma época moribunda e buscando a sabedoria de que os homens hão de precisar quando tiverem esgotado todas as suas paixões. Temos uma herança a preservar e transmitir. Tiremos dessas coisas todo o prazer que pudermos, até que venha esse dia. — E então? — Então, meu filho, quando os fortes se houverem devorado uns aos outros, poderá finalmente ser posta em prática a moral cristã, e os mansos herdarão a terra. Revestira-se o murmúrio de uma sombra de ênfase. Conway rendeu-se à beleza de tudo aquilo. Uma vez mais sentiu crescer a escuridão em torno, mas agora simbolicamente, como se lá fora já se estivesse preparando a tormenta. E então percebeu que o Lama Superior de ShangriLá se punha em movimento, que se levantara da cadeira e permanecia de pé, qual um fantasma semimaterializado. Por mera polidez procurou Conway ajudá-lo, mas de súbi169

to um impulso mais profundo se apossou dele, e fez o que jamais fizera diante de nenhum homem: ajoelhou-se, sem ter consciência clara do motivo por que o fazia. — Eu o compreendo, pai. Nunca soube direito de que modo se despediu. Estava mergulhado num sonho, do qual não saiu senão muito tempo depois. Lembrava-se do ar gelado da noite após o calor daqueles aposentos, e da presença de Tchang, silenciosa serenidade, quando atravessaram juntos os pátios iluminados pela luz das estrelas. Jamais Shangri-Lá oferecera aos seus olhos uma beleza tão intensa. Apenas adivinhado, jazia o vale além da borda do penhasco, e sua imagem era a de um lago profundo cuja tranqüilidade se casava à paz de seus próprios pensamentos. Porque Conway já se curara do assombro. A longa conversação, com suas várias fases, o deixara vazio de tudo, exceto de uma satisfação que era tanto do intelecto como do sentimento, e não menos do espírito que de ambos. Até suas dúvidas já não eram atormentadoras, mas, ao contrário, faziam parte de uma sutil harmonia. Tchang não falava, nem ele. Era muito tarde e estava satisfeito por saber que seus companheiros tinham ido dormir.

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CAPÍTULO IX

Na manhã seguinte perguntou a si próprio se tudo o que lhe vinha ao espírito fazia parte de uma visão desperta ou de um sonho. Logo o fizeram lembrar-se. Recebeu-o um coro de perguntas quando apareceu para o almoço. — Que conversa comprida teve com o chefão, ontem à noite! — começou o americano. — Fazíamos tenção de esperá-lo, mas acabamos cansando. Que espécie de sujeito é ele? — Disse alguma coisa sobre os carregadores? — perguntou Mallinson ansiosamente. — Espero que lhe tenha falado na possibilidade de se mandar para cá um missionário — disse Miss Brinklow. Este bombardeio fez com que Conway recorresse às suas habituais armas de defesa. — Receio que vá desapontá-los a todos — respondeu, entrando com facilidade na disposição de ânimo adequada. — Não discutimos a questão das missões; ele não fez nenhuma referência aos carregadores; e, quanto à sua aparência, só lhes posso dizer que se trata de um ancião muito inteligente e que fala excelente inglês. Mallinson atalhou com irritação: — O que interessa é saber se ele é digno de confiança ou não. Acha que o homem pretende enganar-nos? — Não me deu a impressão de ser uma pessoa indigna. 171

— Mas por que não insistiu com ele a respeito dos carregadores? — Não me lembrei. Mallinson encarou-o com ar de incredulidade. — Não o entendo, Conway. Portou-se tão bem em Baskul que mal posso crer seja o mesmo homem. Parece ter perdido a resolução. — Sinto muito. — Nada adianta lastimar-se. Devia cobrar ânimo e mostrar mais interesse no que se está passando. — Você compreendeu mal. Eu queria dizer que sinto tê-lo desapontado. Disse isto num tom de voz quase rude. Era uma máscara destinada a ocultar os seus verdadeiros sentimentos, os quais eram, na verdade, tão complicados que dificilmente poderiam os outros adivinhá-los. Estava um pouco surpreso ante a facilidade com que tergiversara. Era evidente que desejava observar a recomendação do Lama, guardando segredo. Estranhava igualmente a naturalidade com que aceitava uma situação que os seus companheiros certamente, e não sem motivo, tachariam de traição. Como dissera Mallinson, não era o que se esperava de um herói. Conway sentiu uma afeição súbita e meio compadecida pelo rapaz. Retemperou-se depois, refletindo que quem dedica culto aos heróis deve estar preparado para as desilusões. Mallinson em Baskul era como o jovem calouro adorando o belo diretor de esportes, e agora o diretor de esportes começava a vacilar, se é que já não caíra do pedestal. Há sempre algo de patético na destruição de um ideal, embora seja este falso; e a admiração de Mallinson poderia ter sido pelo menos um refrigério ao esforço de aparentar o que não era. Mas, de qualquer modo, seria impossível simular. Havia qualquer coisa na atmosfera de Shangri-Lá 172

. — E muito mais limpa também. em certo sentido. Mallinson — disse ele —. . A pequena manchu repousava tão suavemente no seu espírito que mal sabia de sua presença ali. Pode chamar a isso de limpo. pois a situação era completamente outra. na minha opinião. — Olhe. para sermos exatos. E abruptamente acrescentou: — Essa rapariga chinesa.— talvez devido à altitude — que vedava qualquer tentativa de contrafazer emoções. Subiu de tom a voz do rapaz enquanto retorquia: — Pois bem. Por que havia de dizer? — E por que não? E por que não havia você de perguntar. — Este não é um mosteiro comum — foi a melhor resposta que encontrou.. De que modo veio parar aqui? O tal sujeito lhe disse? — Não. por exemplo.. pois a discussão chegara evidentemente a um ponto morto. Está claro que eu era diferente então. — Assassínio e estupro. Prefiro enfrentar tais coisas a todo este mistério que nos cerca. bem sei que não é! Seguiu-se um silêncio. depois de refletir um pouco. se tivesse algum interesse no assunto? É natural encontrar-se uma donzela vivendo entre monges? Este ponto de vista ainda não se havia apresentado a Conway. ainda considero isso mais limpo. Mas ao ouvir mencionar o nome dela Miss Brinklow ergueu repentinamente os olhos da gramática tibetana. Pelo menos sabíamos o que íamos enfrentar. Afigurava-se a Conway que a vida de Lo-Tsen não vinha ao caso. que não deixava nem durante as refeições (como se — pensava Conway com intenção oculta — não 173 . é inútil fazer continuamente alusões a Baskul. — Meu Deus. se lhe aprouver.

Couro duro e coração tenro — eis aí como sou feito. E há outra coisa que lhe devo dizer: não me fere com essas alusões. — Mas. — Não creio que dêem muito valor à minha opinião em assunto de moral — observou secamente. eram atores num palco imenso. devemos dominar o gênio e tratar bem uns aos outros. ali. É o que seria de esperar. ainda não se aplacara. E voltou-se para Barnard. comprimindo os lábios — o moral desta casa é horripilante. — Dartmoor? Oh! refere-se à grande penitenciária do seu país? Percebo. — Naturalmente — disse. Conway dirigiu-lhe um olhar de aprovação e outro de leve censura a Mallinson. certamente não invejo os camaradas que estão em lugares como aquele. quanto a mim. que os missionários contam às suas mulheres e que estas transmitem às colegas solteiras. Mas de repente sentiu que todos. diria que viver às disputas não é menos mau. — Bem posso crer que ache isto aqui mais agradável do que Dartmoor — disse significativamente. À vista do Karakal desvaneceram-se as apreensões. Despediu-se deles com um aceno de cabeça e saiu para o pátio. como não pudesse comunicar o que sabia. Mallinson. Já que teremos de ficar ainda algum tempo aqui. A referência a donzelas e monges trouxe-lhe à lembrança aquelas histórias sobre os templos da índia. porém. cujo pano de fundo só ele avistava. e. Bem. Conway achou bom o conselho. como pedindo apoio. assaltou-o repentino desejo de estar só. e os escrúpulos a respeito de seus três companheiros se dissolveram na aceitação mística de um mundo novo que demorava muito 174 . mas o americano limitou-se a arreganhar os dentes.tivesse para isso todo o resto da sua vida).

Soube então Conway que durante os primeiros cinco anos viveria uma vida normal. Há ocasiões. "para que o corpo se habituasse à altitude e também para dar tempo a que se dissipassem as nostalgias intelectuais e sentimentais". E de novo recordava os dias da guerra. iria viver com os seus companheiros de exílio na expectativa da chegada dos carregadores e do regresso à índia. o horizonte se abriria como uma cortina. quando mais não fosse senão para acomodar-se à dupla vida que seria forçado a viver durante algum tempo. O tempo expandia-se e contraía-se o espaço. e lembrava-se de ter atingido um estado de ânimo semelhante. 175 . segundo dizia Tchang. no entanto. afigurava-se uma dessas coisas que só ocorrem uma vez cada dez mil anos.longe das conjeturas daqueles três. embora muito menos agradável. é claro. Tchang. pois durante os bombardeios ele tinha a mesma sensação confortadora de possuir muitas vidas. longe deles. em que a estranheza de tudo torna cada vez mais difícil perceber a estranheza dos objetos particulares — e é quando se aceitam as coisas tais quais são. Havia chegado a esse ponto em Shangri-Lá. simplesmente porque assombrar-nos seria tão fastidioso para nós próprios como para os outros. pensou. Precisava de tranqüilidade. durante os anos passados na guerra. O futuro. o problema fosse premente. De agora em diante. tão sutilmente plausível. Era o que se fazia sempre. sem estar sujeito a nenhum regime especial. sem que. Às vezes perguntava a si mesmo qual das duas vidas era mais real do que a outra. das quais tão-só uma podia ser reclamada pela morte. e tinham muitas conversas sobre as regras e os costumes do mosteiro. falava-lhe agora sem nenhuma reserva.

Conway poderia contar com meio século de estacionamento na idade aparente de quarenta anos — o que não era uma idade desagradável para nela se estacionar. Era militar. — Vinte e dois — repetiu Conway. É preciso inteirar o número redondo? — Não. Quando afinal fui socorrido e trazido para Shangri-Lá. embora isso talvez não lhe pareça. então — observou Conway com um sorriso —. — Mas no seu caso — perguntou Conway — como se operou a coisa? — Ah! meu caro senhor. receberei a iniciação completa. Estava fazendo o que chamaria um reconhecimento. — Compreendo. Comandava umas tropas em operações contra certas tribos de salteadores. estava tão mal que só a minha extrema juventude e vitalidade me salvaram. Após esses cinco anos de prova. explicou Tchang. nós não temos limite estabelecido para isso. apenas com vinte e dois anos. fazendo as contas. tinha início o processo de retardamento da velhice. — De modo que está agora com noventa e sete? — Sim.— Tem certeza. se tivesse êxito. 176 . mas a verdade ê que me perdi nestas montanhas e dos meus cento e tantos comandados somente sete sobreviveram aos rigores do clima. Muito em breve. no ano de 1855. mas apenas como uma fragrância cuja melancolia nos é grata. e. eu tive a sorte de chegar aqui muito jovem. se os lamas derem o seu consentimento. caso tivesse voltado e transmitido aos meus superiores o resultado da missão. de que nenhuma afeição humana pode resistir a cinco anos de ausência? — Pode. sem dúvida — replicou o chinês —.

É o que muitas vezes sucede. Faz alguns anos. suponhamos. E. embora eu creia poder afirmar que não represento a idade que tenho. mas o que sucederia se tivesse deixado o vale uns trinta anos atrás. — De modo algum. houve um curioso exemplo desse fato embora tivesse havido vários outros antes. — A atmosfera. E que acontece depois? Quanto tempo espera viver ainda? — Dadas as perspectivas que Shangri-Lá oferece. ou talvez mais. — Não sei se devo felicitá-lo. Conway balançou a cabeça. há razões para esperar que eu viva ainda um século. é essencial? — Há só um vale da Lua Azul. e quem esperasse encontrar outros pediria demasiado à natureza. uma longa e agradável mocidade para recordar e a perspectiva de uma velhice não menos longa e agradável. — Em todo caso. supondo que deixasse o vale agora. Um dos nossos deixou o vale para auxiliar um grupo de viajantes. — Penso também que sim. Com que idade começou a envelhecer exteriormente? — Depois dos setenta. então. que aconteceria? — Morreria se permanecesse fora daqui mais que uns poucos dias. durante a sua prolongada juventude? — Provavelmente teria morrido mesmo assim — respondeu Tchang. de cuja aproximação 177 .mas consideramos que um século é a idade em que as paixões e os caprichos da vida ordinária já desapareceram. — Bem. teria adquirido muito rapidamente a aparência da minha idade real. mas parece que lhe foi concedido o melhor dos dois mundos.

Uma nuvenzinha deslizava sobre o topo da cordilheira. pelo contrário. e não seria talvez melhor se houvesse mais pessoas indolentes? — Inclino-me a concordar consigo — respondeu Conway com divertida solenidade. três meses depois. — Indolentes? — Em sentido figurado. Conway fez conhecimento com muitos de 178 . e pouco depois morreu. como morre um velho. Esse homem. Tchang — disse por fim. Conversavam na biblioteca e durante a maior parte da narrativa estivera olhando pela janela o desfiladeiro que conduzia ao mundo exterior. logrou escapar e voltou para o vale. — Dá a impressão de que o Tempo é um monstro ludibriado. quase a completar oitenta anos. foi aprisionado por tribos nômades e conduzido a certa distância daqui. desgraçadamente. ninguém lhe daria mais de quarenta. Entretanto. Pelo espaço de uns minutos Conway não fez nenhuma observação. de nacionalidade russa. e disse: — É significativo que os ingleses considerem a indolência um vício. Não devia ficar ausente mais que uma semana. Suspeitamos de um acidente e consideramo-lo perdido. Dentro da semana que se seguiu à entrevista com o Lama Superior. chegara aqui no vigor dos anos e tão bem vingaram com ele os nossos processos que. lhe damos grande preferência sobre a pressa. Nós. — A sua história é um tanto sinistra. Tinha os seus oitenta anos gravados no rosto e nas maneiras. Não é verdade que há demasiada pressa no mundo atualmente.tínhamos sido avisados. Ficou Tchang uns instantes a refletir. o que não teria nenhuma importância. Mas era agora um homem bem diferente. esperando lá fora para atirar-se sobre os indolentes que conseguiram iludi-lo por muito tempo. é claro. Mas.

embora com certo sotaque. Não se mostrava Tchang nem muito ansioso nem pouco desejoso de fazer as apresentações. e a falta de pressa não implica de nenhum modo ausência de interesse. Um ou dois dias depois foi feita segunda apresentação. Estão preparados para dispensar-lhe acolhimento logo que se apresente a ocasião. de nacionalidade francesa.seus futuros colegas. que ingressara na comunidade em oitenta e tantos. A primeira entrevista foi com um afável alemão chamado Meister. Falava bem o inglês. que muitas vezes tivera impressão semelhante quando ia visitar colegas recém-chegados aos consulados estrangeiros. Percebeu que os lamas com quem tratara. alguns dos lamas só poderão travar relações com o senhor depois de um tempo considerável. Pareceu a Conway que a companhia dele e a do alemão seriam muito agradáveis. e Conway sentiu-se envolto numa nova atmosfera. e a conversação com homens que tinham três vezes a sua idade não lhe causou os embaraços comuns na sociedade de Londres ou Delhi. pequeno e vigoroso. Já os estava analisando subconsciente-mente. Conway. e Conway gozou a primeira palestra com um homem que o Lama Superior lhe mencionara de modo especial: Alphonse Briac. assaz atraente para ele. contudo. talvez anos. foram plenamente satisfatórios. e depois de uns poucos encontros formulou uma ou duas conclusões gerais. tendo sido o único sobrevivente de um grupo de exploradores. não aparentava ser demasiado velho embora dissesse ter sido discípulo de Chopin. possuíam em comum uma qualidade 179 . Os encontros que teve. se bem que tivessem suas diferenças individuais. achou muito compreensível a atitude. mas isto não lhe deve causar estranheza. — Na verdade — explicava Tchang —. em que não reinava a pressa clamorosa nem a lentidão decepcionadora.

Achou-lhes o trato tão agradável como o de qualquer outra roda de pessoas cultas com quem pudesse ter feito conhecimento. lá por 1840. Quando tiver permanecido bastante tempo entre nós. hospedando-me no "Parsonage". e uma vez visitei Haworth. embora lhe viesse muitas vezes uma sensação de estranheza. e este. quando os ouvia aludir com tanta naturalidade a remotas recordações. Depois de me achar aqui iniciei um estudo sobre o problema Brontë. lhe perguntara após ligeira palestra se lhe interessavam as irmãs Brontë. Um homem de cabelos brancos e expressão benévola. Sentia Conway uma simpatia instantânea por essa espécie de gente e notava que eles o percebiam e lhe eram gratos. verá a sua vida passada focalizar-se pouco a pouco. eram todos dotados de uma serena inteligência que se manifestava agradavelmente por meio de opiniões comedidas e bem meditadas. fez comentários em torno da vividez com que os lamas pareciam recordar a sua existência anterior à vinda para o Tibete. por exemplo. como um objeto visto por um telescópio a que se ajustam as lentes. como qualquer outro panorama. para a qual não encontrava denominação melhor do que "ausência de idade". e estou mesmo escrevendo um livro.difícil de definir. Tudo se lhe 180 . Respondeu Conway que sim até certo ponto. — Veja. é mais nítido em perspectiva. meu caro senhor: um dos primeiros passos no sentido de clarificar a mente é a obtenção de um panorama da própria vida passada. Além disso. quando ficou a sós com Tchang. e o outro prosseguiu: — Pois sucede que eu fui cura no West Riding. Respondeu Tchang que isto fazia parte dos seus exercícios habituais. Talvez queira examinar comigo o assunto qualquer dia destes? Conway deu uma resposta cordial e depois.

embora já soubesse que Conway conhecia o seu idioma. Mas. punha-se a escutar enquanto Lo-Tsen dominava alguma fuga complicada. Eles virão naturalmente. destilada no alambique mágico dos séculos e milagrosamente preservada do tempo e da morte. ficava quase sempre calada. Diante de Mallinson. imaginando o que se ocultaria no fundo do sorriso vago que lhe agitava os lábios como uma flor que se abrisse. por exemplo. então. nas devidas proporções e com sua verdadeira significação.apresentará tranqüilo e claro. que deverei tratar de recordar os meus grandes momentos? — Não será necessário nenhum esforço. de maneira memorável. a verdade é que começava a sentir-se feliz no presente. Em tais momentos lhe vinha ao espírito. confiando-lhe ao ouvido e à vista mil segredos tranqüilizadores. — Suponho. Ela falava muito pouco. — Era a prometida de um príncipe do Turquestão e 181 . Assim. como se Shangri-Lá fosse uma essência viva. Uma vez interrogou Tchang sobre o seu passado e soube que ela descendia da família real manchu. sentia muitas vezes invadi-lo profunda emoção espiritual. percebe que o grande momento da sua existência ocorreu na mocidade. sua conversação com o Lama Superior. que por vezes visitava a sala de música. — Não sei se os receberei com muita satisfação — respondeu Conway com melancolia. fosse qual fosse o passado. Sentia que uma calma inteligência vigiava com bondade cada uma de suas diversões. Seu novo amigo. Mas Conway distinguia o encanto que os seus silêncios exprimiam com perfeição. quando ele visitou uma casa onde vivia um velho ministro em companhia de três filhas. Quando se distraía lendo na biblioteca ou tocando Mozart no salão de música.

. mas percebemos que ficou perturbada por algum tempo. pois nunca o tinha visto. Imaginou-a como devia ter sido meio século atrás.viajava para Kashgar a fim de encontrar-se com ele. Todos teriam sem dúvida perecido se os nossos emissários não lhes houvessem saído ao encontro. Sua afeição era completamente impessoal. Era. — Dezoito anos naquele tempo? Tchang fez uma cortesia. meu caro senhor. — Não se pode dizer que fosse isso. — Quando sucedeu isso? — Em 1884. já se vê. Seus progressos têm sido constantes e excelentes. Todos nós tínhamos particular interesse em que ela fosse feliz aqui. mas cinco anos foram mais que bastantes para isso. escultural na sua liteira decorativa que os carregadores conduziam pelo planalto em fora. os olhos fixos nas montanhas varridas pelos ventos e que lhe deviam parecer as182 . Conway concordou e sentiu uma leve ternura por LoTsen. — Devia ser muito afeiçoada ao homem com quem ia casar. Tchang sorriu docemente e acrescentou: — Receio que a excitação do amor não se deixe vencer facilmente. Tal era o costume antigo. Não que protestasse. — Sim. como habitualmente faziam. — Como encarou a situação quando aqui chegou? — Talvez lhe houvesse custado mais do que a outros aceitá-la. um acontecimento nada comum: interceptar uma moça que ia casar. . Ela contava dezoito anos. quando seus carregadores se perderam nas montanhas. como o senhor mesmo pode verificar. como sabe. tivemos muito êxito com ela.

Sentia-se também deleitado. Enganava-se Tchang. — Sim. Deve desculpá-lo. Conway dedicava agradáveis horas a decorá-las. O Lama Superior. é a tarefa dos mais velhos. quando Briac lhe falava em Chopin e tocava com muito brilho as velhas melodias. Conway refletiu um instante e disse: — A propósito. pois. — Briac — explicou Tchang — iniciou-se há pouco tempo. — E esta. pensando naquela frágil elegância. Verificou que o francês conhecia diversas composições de Chopin que não tinham sido publicadas e. precioso e frio. leva quase toda a sua existência em meditações clarividentes. por exemplo. sem outro adorno que um raio de luz fugitivo. continuamente lhe vinham à memória trechos que o compositor lançara fora ou improvisara em determinadas ocasiões. Punha-os em pauta à medida que os ia recordando. as recordações musicais de Briac. prisioneira por tão longos anos. suponho. se fala tanto em Chopin. mais o deleitava sua tranqüilidade e seus silêncios. e alguns deles eram fragmentos deliciosos. meu caro senhor.pérrimas em comparação com os jardins e os lagos de lotos que deixara no nascente. — Pobre criança! — disse. porém. Não acabavam aí. é um passo necessário à contemplação do futuro. Os lamas mais jovens preocupam-se naturalmente com o passado. Agora que lhe conhecia a história. porém. Era como um lindo vaso. quando pensa que voltarei a vê-lo? — Sem dúvida no fim dos seus primeiros cinco anos aqui. embora com menos enlevo. nesta confiante profecia. Achava certo sabor picante em refletir que nem Cortot nem Pachmann haviam sido tão felizes. menos de um mês depois de sua chegada a Shangri-Lá foi 183 . como ele as houvesse escrito.

embora soubesse que esta segunda entrevista. — E o terceiro? — Mallinson é um rapaz excitável. — E não revelou os nossos segredos aos seus três companheiros? — Não. segundo pensa. Foi difícil algumas vezes. O Lama Superior lhe inspirava sincero respeito. não estava em absoluto nervoso nem sucumbia à solenidade do momento. 184 . até agora. afinal de contas. e. Esta situação difícil. Conway achou menos incômoda que antes a mudança de temperatura.Conway novamente chamado à tórrida sala. cuja atmosfera quente lhe era necessária à vida corporal. é apenas temporária. mas provavelmente muito menos do que se eu lhes tivesse falado. tão próxima da primeira. mas não via por que suas relações deixassem de ser cordiais. Disse-me Tchang que. só pensa em voltar — respondeu Conway. Assim prevenido. Tchang lhe dissera que o Lama Superior nunca saía dos seus aposentos. O senhor procedeu da maneira que achou melhor. Sentia-se em comunhão com o espírito que morava atrás deles. dois deles darão poucos cuidados. — Justamente como eu presumia. começou a respirar com facilidade logo depois de saudá-lo e de receber em resposta uma cintilação mais viva daqueles olhos fundos. Na verdade. e jamais fora obstáculo à sua amizade por uma pessoa o fato de ser esta demasiado jovem ou demasiado velha. — Acho que é verdade. era uma honra sem precedentes. Trocaram as habituais cortesias e Conway respondeu a muitas perguntas amáveis. Disse que estava gostando muito daquela vida e já fizera amizades. O fator da idade não tinha para ele mais importância que o da classe ou da cor.

onde fiz preleções. Para ser franco. — O senhor tem senso de humor. meu caro Conway — observou o Lama Superior —. quero-lhe bem. Quando o Lama Superior perguntou se Shangri-Lá não lhe era uma experiência inédita e se o mundo ocidental podia oferecer algo semelhante. O cenário é menos belo. e embora o mais antigo dos mestres não seja tão velho.— Gosta dele? — Sim. mas os temas de estudo também são muitas vezes destituídos de senso prático. respondeu com um sorriso: — Creio que sim. ao qual se conformava de bom grado. parece chegar à velhice por um caminho semelhante. Neste momento apareceram as taças de chá e a conversa tornou-se menos grave entre os goles de líquido perfumado. e nós lhe seremos gratos por essa qualidade durante os anos que hão de vir. 185 . lembra-me muito ligeiramente Oxford. Era uma acertada convenção que permitia dar à palestra um tom de deliciosa frivolidade.

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qual seja. acentuou. Parecia. Jamais o Lama Superior desejara um segundo encontro. Jamais havia isso acontecido. isso não era mais extraordinário do que tudo mais ali. Não que eu duvide da sabedoria do seu procedimento. de qualquer modo é extraordinário. — Porque. Ele nos dá uma lição de grande valor. torna-se um aborrecimento quase intolerável. haver qualquer coisa de predestinado na facilidade com que se harmonizavam os espíritos de ambos. o falar com recém-chegados em geral exige-lhe grande esforço. naturalmente. A simples presença das paixões humanas lhe é desagradável e. Vindo de uma pessoa tão refratária ao uso de superlativos. e depois de visitar o Lama Superior uma terceira e quarta vez começou a achar que não era de nenhum modo extraordinário. antes que os cinco anos de provação tivessem expurgado todas as emoções do exilado. Dir-se-ia que todas as secretas agitações de Conway se acalmavam.CAPÍTULO X — Extraordinário — foi o comentário de Tchang ao saber que Conway tivera nova entrevista com o Lama Superior. Para Conway. a palavra era significativa. quando se retirava. Mas. desde que se estabelecera a praxe da comunidade. na sua idade. como pode compreender. deixando-lhe. a de que mesmo as regras fixas da nossa comunidade são apenas moderadamente fixas. Por vezes tinha a sensação de estar completamente subjugado 187 . uma rica serenidade. na verdade.

sob o domínio de um fastio e uma agitação desmedidos. mas nem por isso se desprendia do senso crítico. Minha vida entre os dezenove e os vinte e dois anos foi uma educação incomparável. matava e gozava por atacado. Suas conversas abrangiam destemidamente todos os assuntos. Era o abuso de todas as emoções. Emborrachava-me. os que conseguiram escapar. tendo ele argüido sobre um ponto. Por certo hão de ter-lhe ocorrido coisas extraordinárias na vida. era temerário. — Ainda não encontrara um homem como o senhor. Excitava-me. Conway sorriu. Foi isso que fez tão difíceis os anos que se segui188 . as longas avenidas da história desdobravam-se e adquiriam nova perspectiva. não. Conway respondeu após um intervalo: — Não há grande mistério nisso. O que em mim lhe parece próprio de um velho corre por conta de uma intensa e prematura experiência. mas algo exaustiva. não resta dúvida. mas percebo que o seu discernimento tem a madureza da velhice. e saímos de lá. aliás. é jovem nos anos. — Não mais extraordinárias do que as que sucederam a muitos outros da minha geração. — Foi muito infeliz na guerra? — Muito. Como milhões de outros.pela força daquela inteligência diretriz. o Lama Superior replicou: — Meu filho. e às vezes ficava possuído de uma fúria terrível. e certa vez. sentia medo. Filosofias inteiras eram esmiuçadas. tinha impulsos suicidas. e diante das pequenas taças azul-pálidas o trabalho do cérebro se estremecia numa vivacidade tão delicada e miniatural que lhe dava a impressão de um teorema a dissolver-se limpidamente num soneto. Para Conway era uma experiência maravilhosa.

quando ouvia. — E foi assim que continuou a sua educação? Conway encolheu os ombros. Seu amor nada pedia. meu filho. de onde seus olhos deslumbrados baixavam para o abismo verde do vale. O quadro todo era incomparável e. formando um muro de inacessível pureza. estava sendo dominado pelo feitiço.ram. Suas corte189 . Tinha dito a pura verdade. A Lua Azul tomara posse dele e não havia como escapar. é também a doutrina de Shangri-Lá. Henschell e os outros. e bem o sabia. se me permite alterar a máxima. Era um tributo do espírito. — Talvez a exaustão das paixões seja o começo da sabedoria. Creio que verifiquei isso com mais clareza do que muita gente. fui bastante feliz depois. Mas tem sido qualquer coisa comparável a estar numa escola sob a direção dum brutamontes: há muito que divertir-se para quem se sente inclinado a isso. É por isso que me sinto como em casa. — Essa. Lo-Tsen era para ele o símbolo de todas as coisas delicadas e frágeis. na outra margem do lago. ao qual os sentidos apenas emprestavam um sabor. mas arruína os nervos e em suma não é muito satisfatório. Estava. — Eu sei. Não creia que esteja exagerando a tragédia. Como Perrault. serenamente enamorado da pequena manchu. a argentina monotonia do cravo. Cintilavam as montanhas ao redor. nem sequer ser correspondido. À medida que passavam os dias e as semanas. afigurava-se-lhe que era ele que tecia aquela harmonia perfeita da vista e do som. Tudo considerado. ia experimentando um contentamento profundo que unia corpo e espírito num só todo.

e. ele não desejava que assim fosse. você precisa conservar-se em muito boa forma 190 . A visão ganhava intensidade e ele se sentia feliz. encheu-se de desdém. como sabe. atendendo a um pedido dele. Conhecia já uma das facetas da jóia prometida. a jovialidade de Barnard e a firme intenção de Miss Brinklow. para gozar tudo o que os recursos da localidade ofereciam a quem quisesse passar "uma noite fora". Achou mesmo graça uma ocasião que Barnard disse: — Sabe. para o mais que desejasse dispunha do Tempo. Também às vezes se voltava para a sua outra vida e enfrentava a impaciência de Mallinson. Havia de alegrar-se quando todos soubessem o que ele sabia. No começo pensei que ia sentir falta dos jornais e do cinema. Soube depois que Tchang tinha levado Barnard ao vale. tinha a impressão de que nem o americano nem a missionária seriam difíceis de persuadir. como Tchang. mas agora vejo que a gente pode se acostumar a tudo. mas. — Com certeza andou bebendo — disse a Conway. Mas as respostas de Lo-Tsen nunca revelavam o delicado segredo dos seus pensamentos e. de uma década. se ela o desejasse. E para o próprio Barnard comentou: — Naturalmente. Mallinson. nada tenho que ver com isso. — Também penso assim — concordou Conway. quando teve conhecimento disto. em certo sentido. Conway? Quer-me parecer que isto não seria tão mau lugar para fixar residência nele. Dentro de um ano. a uma conversa menos cerimoniosa. Algumas vezes lhe falava num tom que os poderia levar. tanto tempo que o próprio desejo se apagava na certeza da realização. teria ainda tempo.sias estilizadas e o leve toque de seus dedos no teclado lhe davam uma sensação de intimidade completamente satisfatória.

— Sim. Conway não se deu por achado. Os carregadores devem vir dentro de uns quinze dias. O americano arreganhou os dentes afavelmente e prosseguiu: — E isto me lembra uma coisa que é melhor dizerlhes de uma vez. enrubesceu como um colegial. — Sim. Esperarei pela próxima vinda — ou talvez pela terceira.para a jornada. não é verdade? Não se pode censurar as pessoas pelas preferências. . Resolvi lograr esses carregadores. É o lema da firma. Isso. bem entendido. Barnard concordou de boa sombra: — Nunca acreditei que a volta seria fácil. . Faço o meu exercício diário. Moderação. . já que tocamos no assunto. Há quem tenha mais prazer em ouvir chinesinhas tocar piano. Quanto a conservar-me em forma. Serão recebidos com 191 . já sabe. — Quer dizer que não irá conosco? — Isso mesmo. Mallinson. quando se consegue apanhá-las. não duvido que se tenha divertido moderadamente — disse Mallinson com acrimônia. — Mas pode-se mandar para a cadeia quando mostram preferência pela propriedade alheia — retorquiu. e pelo que inferi a volta não será propriamente uma viagem de recreio. — Claro que sim. A fúria o tornava mordaz. se os monges me derem crédito para as despesas de hospedagem. . Para os senhores está tudo muito bem. Acho que eles vêm aqui regularmente. Este estabelecimento atende a todos os gostos. porém. acho que há muitos anos não me sentia tão bem disposto como agora. não tenho nada que me aborreça e os donos desses botecos lá do vale não deixam a gente se exceder. Decidi ficar algum tempo aqui.

— Não só espero como tenho a firme intenção. Voltou-se Mallinson para Miss Brinklow. Os gostos diferem. se Miss Brinklow não se tivesse apressado a continuar: — Quem sou eu para discutir os ditames da Providência? Fui trazida aqui para algum fim.. E quanto mais penso nisso mais me desagrada. com um claro sorriso que mais parecia um reflexo do que uma iluminação interior: — Pois é. que subitamente deixou o livro de lado e declarou: — O caso é que eu também penso ficar. Conway? — Concordo. Conway? Talvez Conway experimentasse dificuldade em responder. Ela prosseguiu. mas eu.bandas de música. — Ninguém pode impedi-lo de enterrar-se aqui para toda a vida se esse é o seu desejo. olhando em torno como a pedir o apoio dos outros: — Nem todos pensarão assim. Não lhe parece. — Por outras palavras. Nenhum deles possui verdadeira fibra. — O quê? — gritaram todos a um tempo. — Espera fundar uma missão neste lugar? — perguntou Mallinson. . Mr. não tenham receio. e aqui ficarei. — E pretende dar-lhes alguma? 192 . Sei tratar com esta gente. mas reconheço que os gostos diferem. jamais gostei de orquestras. E. estive meditando sobre os acontecimentos que nos trouxeram aqui e pude chegar apenas a uma conclusão: há algum poder misterioso atrás dos bastidores.. Hei de impor a minha vontade. Que diz você. . — Isto é assunto seu — tornou Mallinson com frio desdém. tem medo de enfrentar a orquestra? — De fato. só tenho a polícia à minha espera.

Oponho-me decididamente a esta idéia de moderação sobre a qual tanto temos ouvido falar. sorrindo. quando se pensa em toda a gente que daria tudo o que tem para sair da balbúrdia e vir descansar num lugar como este. E acrescentou numa risada: — É justamente como eu disse: este estabelecimento atende a todos os gostos. apesar das discordâncias de gênio. até sobre este assunto há dois modos de ver. — Esse sujeito me rói os nervos — dizia. 193 . — E eles têm vistas tão largas que lhe permitirão isso? — interpôs Conway. Podem chamar-lhe largueza de vistas se quiserem. e as últimas semanas de convívio haviam tornado mais profundo esse sentimento. — Julguei que ele visasse a mim. Todo o mal desta gente é a tal largueza de vistas. — Bem. Tornava-se-lhe cada vez mais claro que tinha muita afeição ao rapaz.— Pretendo. — É possível. se você gosta da prisão — repontou Mallinson. passeando pelo pátio. mas não achei graça naquela indireta sobre a chinesa. Mr. e tenciono combatê-la com todas as minhas forças. Mallinson. — Ou então ela é tão resoluta que não são capazes de lhe resistir — acudiu Barnard. e não pode sair! Seria o caso de perguntar quem está preso: nós ou eles? — Consoladora reflexão para um macaco encerrado numa jaula — replicou Mallinson. Você me pode julgar demasiado suscetível. Meu Deus. mas na minha opinião ela conduz à pior espécie de licenciosidade. sim. sempre furioso. Mais tarde encontrou-se a sós com Conway. Conway tomou-lhe o braço. e não a você — respondeu. — Não sentirei a falta da sua companhia quando voltarmos.

— Não. num mesmo campo oposto. Não posso descobrir por que vive aqui e se lhe agrada realmente viver aqui. O ardente e impetuoso rapaz não se conformaria tão facilmente. A decisão que tinham tomado Barnard e Miss Brinklow de ficar atrás afigurou-se excelente a Conway. eu não me preocuparia tanto com Lo-Tsen. se eu falasse como você o idioma dela. E Conway limitou-se a acrescentar: — No seu lugar. tenho certeza de que era comigo. que o envolveu à maneira de uma névoa fina. já teria posto tudo em pratos limpos. temporariamente. Por esta e por outras razões. Ela é bastante feliz. não seria menos aguda por ter ele tentado preparar-se para recebê-la. parecia não haver necessidade de tomar qualquer atitude por enquanto. Felizmente. Era uma situação extraordinária e não tinha plano definido para enfrentá-la. Teve vontade de dizer mais alguma coisa. Ele sabe que estou interessado nela. E depois. embora tivesse dito uma ocasião: — Sabe. como sabe. — Não creio que gostasse muito de passar por maçante. Até que decorressem dois meses não poderia suceder coisa de maior. quando sobreviesse a crise. a ele e a Mallinson. embora parecesse colocá-los. mas reteveo de súbito aquele sentimento de piedade e de ironia. — O que me espanta é que você não lhe tenha feito toda sorte de perguntas. Conway. Tchang? Esse jovem Mallinson me deixa 194 . Meu Deus. não desejava inquietar-se com o inevitável. Estou mesmo. — Será mesmo que o faria? Ela não é de muita conversa.

Está contando os dias à espera dos carregadores. Temo que receba muito mal as coisas quando vier a sabê-las. — De modo algum. é costume em Shangri-Lá ser moderadamente verídico. Mas a dificuldade será. nós os esperamos mais ou menos na época que eu disse.preocupado. Tchang concordou. sim? Eu imaginava que o que diziam sobre a sua vinda fosse uma fábula amável destinada a entreternos. então? E que esperam venha a acontecer depois? — Então. Dentro de vinte anos o nosso amigo estará inteiramente conformado. . e posso assegurar-lhe que as minhas informações acerca dos carregadores eram quase exatas. Ele descobrirá simplesmente — sem dúvida por experiência própria — que os carregadores não estão dispostos a levar em sua companhia a quem quer que seja. Pareceu a Conway que isto era encarar o assunto com demasiada filosofia. não será fácil persuadi-lo de sua boa fortuna. . — Ah. meu caro senhor. acharão difícil impedir que Mallinson se vá com eles. apenas temporária. — Mas virão. nem se acham em condições de fazê-lo. De qualquer forma. ele começará — visto como é moço e otimista — a 195 . — Mas não é nossa intenção impedi-lo. — Nesse caso. — Compreendo. com alguma simpatia: — Realmente. após um período de desilusão. Esse é o método. — O que eu desejaria saber é como a verdade lhe será revelada. Embora não sejamos fanáticos nesse ponto. em suma. e se estes não vêm.

Que foi feito das diversas expedições que aqui vieram ter? O desfiladeiro estava igualmente aberto para elas quando desejavam regressar? Tocou agora a Tchang a vez de sorrir. Mas quanto aos casos mais raros daqueles que não voltam? 196 . isso tem acontecido umas poucas vezes. De modo que só dão ensejo de fugir às pessoas quando sabem que seria loucura aproveitá-lo? Mesmo assim.esperar que os novos carregadores. Conway observou abruptamente: — Não estou muito seguro de que ele se acalmará desse modo. Não temos carcereiros. não é verdade? — Bem. como aconselha a prudência. — Bem — respondeu Conway com um sorriso —. meu caro senhor. deve confessar que a natureza fez muito bem o trabalho. exigem algumas vezes especial atenção. não começaremos por dissuadilo dessa esperança. E nós. que deverão vir daqui a nove ou dez meses. após uma noite passada no planalto. — Circunstâncias especiais. — Fugir? Será esse realmente o termo apropriado? Afinal. Mas. a não ser os que a própria natureza instituiu. — Sem abrigo e sem roupas adequadas? Neste caso. se mostrem mais tratáveis. compreendo muito bem que os métodos suaves dos senhores sejam tão eficazes quanto a mais rigorosa disciplina. suponho que não confiem nela em todos os casos. alguns devem fazer a tentativa. mas por via de regra os que se ausentam voltam de bom grado. — Magnífico. Acho mais provável que procure um meio de fugir. ainda assim. o desfiladeiro está aberto a todos e em qualquer tempo.

Não achou Conway a resposta de todo tranqüilizadora e o futuro de Mallinson continuou sendo uma preocupação. Tchang admitiu que as autoridades do mosteiro estavam armadas de poderes suficientes para fazer tudo o que considerassem avisado. é claro.— O senhor mesmo respondeu à sua pergunta — replicou Tchang. em acrescentar: — Posso assegurar-lhe. os que vêm para cá concebam afeição por alguém. sentia um contentamento extraordinário. A estrutura lentamente revelada deste novo mundo continuava a assombrá-lo pela sua complexa conformidade com os seus próprios gostos e necessidades. Mas tudo isso. Era o seu tema predileto e várias vezes discorrera sobre ele. às vezes. — Mas seria avisado. entretanto. como é que os senhores encaixam o amor no seu plano de existência? Suponho que. pertencia à existência mundana que pouco a pouco ia sendo expelida do seu espírito pelo rico e penetrante mundo de Shangri-Lá. — Freqüentemente — respondeu Tchang com um 197 . que poucos foram tão infortunados. o aviador. contudo. meu caro senhor. Deu-se pressa. — Não voltam. Certa ocasião disse a Tchang: — A propósito. Salvo no que dizia respeito a Mallinson. à vista do recente caso de Talu. pois a atitude de Mallinson poucas dúvidas deixava quanto ao que faria tão logo regressasse à índia. e confio em que seu amigo não seja bastante temerário para lhes aumentar o número. Desejava que fosse possível ao rapaz regressar com o consentimento dos lamas. confiar-nos e confiar o nosso futuro aos sentimentos de gratidão do seu amigo? Compreendeu Conway que a objeção era procedente. Não era um fato sem precedentes.

um pouco sentenciosamente: — Sempre foi seu costume poupar aos apaixonados o 198 . ao menos por ora. . mas afinal de contas somos iguais aos outros homens — salvo. Mr. Não duvido de que ele o tenha feito. Falo com autoridade. mas respondeu secamente: — Obrigado. E isto me fornece um ensejo. não lhe correspondeu? — Se prefere dizer assim. E Tchang acrescentou. seria muito conveniente que se enamorasse dela — uma vez. para lhe assegurar que a hospitalidade de Shangri-Lá é muito compreensiva. Conway devolveu-lhe o sorriso. — Por outras palavras. no fato de sermos mais razoáveis do que eles. — Acha fácil separá-los um do outro? Será possível que se esteja enamorando de Lo-Tsen? Conway ficou um tanto confuso. O seu amigo Barnard já tirou proveito disso. bem entendidos.vasto sorriso. meu caro senhor. mas julgou não o ter demonstrado. mas garanto-lhe que acharia deleitosa a experiência. pois eu mesmo estive enamorado dela quando era mais jovem. são imunes. — Os lamas. penso eu. Conway. É antes o aspecto emocional do que o físico que desperta a minha curiosidade. mas as minhas inclinações. que o fizesse com moderação. é claro. não são tão ardentes. — Deveras? E correspondeu-lhe? — Apenas com a mais encantadora aceitação da minha homenagem e com uma amizade que se tem tornado mais preciosa com o correr do tempo. Lo-Tsen não lhe iria corresponder apaixonadamente — isto seria esperar demasiado —. . e também todos os que atingimos certa idade. — Por que pergunta isso? — Porque.

Seu hábito é acalmar a palpitação do desejo até reduzi-lo a um murmúrio que não deixa de ser agradável. compará-la ao ar199 . — Oh! sem dúvida. Que diz o seu Shakespeare de Cleópatra? "Ela deixa faminto quando mais satisfaz. mas qual seria a atitude de um rapaz de sangue ardente como Mallinson? — Meu caro senhor. então. É um efeito mais delicado e mais duradouro. Temos muitos exemplos disso. mesmo quando não correspondido. — Nesse sentido. assevero-lhe. e não menos verdadeiro. entre as raças apaixonadas. — Isto estará muito bem no seu caso e talvez no meu. Lo-Tsen não dispensa carícias." Um tipo comum. Conway riu. mas não deve tomar o termo em mau sentido. LoTsen. sem dúvida. que Lo-Tsen consolaria o exilado cheio de desespero por saber que daqui não sairá mais. poderia ser considerada como fazendo parte do aparelhamento educativo do estabelecimento? — Pode considerá-la assim. segundo presumo. — mas seria muito mais gracioso. — E ela deve ter grande habilidade em consegui-lo. se deseja — replicou Tchang em tom de brando protesto. elimina a fome quando menos satisfaz.momento de saciedade que sobrevém a toda realização absoluta de um desejo. se me permite emendar a passagem. salvo aquelas que tocam o coração dolorido e emanam da sua própria presença. seria esse o mais auspicioso dos acontecimentos possíveis! Não seria a primeira vez. mas garanto-lhe que uma mulher assim estaria completamente desolada em Shangri-Lá. — Consolaria? — Sim.

E de súbito compreendeu que Shangri-Lá e Lo-Tsen eram perfeitos. Amava o mundo sereno que lhe oferecia ShangriLá. a quem a experiência ensinara que a rudeza não é em absoluto uma garantia de boa fé. Tchang. mas a consciência do tempo apagava-lhe a visão. era ainda menos inclinado a ver nas frases bem torneadas uma prova de insinceridade. Isso seria muito mais gracioso. mundo mais pacificado que dominado por aquela idéia única e tremenda. — Concordo plenamente consigo. ativando as cinzas de um fogo que não queimava mas apenas aquecia. ou à gota de orvalho depositada na flor da macieira. mesmo durante os anos de sua vida que ficavam atrás da grande barreira da guerra. Apreciava o 200 . Quando passava às vezes pelo lago dos lotos. a dor se acalmava por fim e ele podia abandonar-se a um amor que não era tortura nem aborrecimento. e não desejou outra coisa senão despertar uma pálida e eventual correspondência em toda aquela tranqüilidade. imaginava-a nos seus braços. Mas na próxima vez que se encontrou a sós com a pequena manchu verificou que eram muito sagazes as observações de Tchang. suas paixões tinham sido como um nervo que o mundo arranhava. Agradava-lhe aquela disposição de ânimo predominante. acalmando-a. na qual os sentimentos eram envoltos em pensamentos e estes se transformavam em felicidade pelas simples expressão verbal. Conway. agora. Emanava dela certa fragrância que se comunicava às emoções de Conway.co-íris refletido num vaso de cristal. inspirando-lhe uma infinita e terna relutância. Conway apreciava as réplicas ágeis e comedidas que o chinês opunha muitas vezes às suas bem-humoradas provocações. Durante anos. Pensava que jamais fora tão feliz.

Viviam os lamas. na sua balança. em resposta. Shangri-Lá era sempre tranqüilo. Havia muitos canais estanques em que se metiam por mero capricho. Certa vez. embora não deixasse de ser uma colméia de compassadas atividades. na verdade. Mas nem todos se entregavam a essa espécie de estudos. Sem que fizesse novos conhecimentos entre eles. mas o artista o aconselhou a 201 . quando Conway fez um reparo nesse sentido. elaborando nova teoria sobre o caso de O Morro dos Ventos Uivantes. Conway foi aos poucos verificando. a extensão e a variedade das suas ocupações. De início. Além do seu saber lingüístico. pássaros e cavalos num caroço de cereja. a história de um artista chinês que viveu no terceiro século antes de Cristo e que. alguns deles. como se levassem o tempo em conta. Muitos escreviam obras manuscritas. tendo despendido muitos anos em esculpir dragões. fragmentos de velhas melodias ou. E havia coisas ainda menos práticas do que estas. registrando. contou-lhe o Lama Superior. Outro estava coordenando Gibbon e Spengler na formação de uma vasta tese sobre a história da civilização européia. segundo pôde ver. E comprazia-se em pensar que as coisas mais frívolas estavam agora livres da ameaça do tempo perdido. como o ex-cura inglês. nem se ocupavam neles todo o tempo.ambiente pausado e maneiroso. ofereceu o trabalho concluído a um príncipe real. mas este. em que a conversa era uma arte. de um modo que provocaria assombro no mundo ocidental. e o espírito podia acolher os sonhos mais frágeis. Um deles. navegavam em pleno mar da ciência. no entanto. de várias espécies. o príncipe nada podia ver senão um caroço. como Briac. e não mero hábito. conforme disse Tchang. realizara valiosas pesquisas no domínio da matemática pura. pesasse tanto como uma pluma.

e percebeu então que o caroço era na verdade belíssimo. Ele tem raiva de mim. Assim fez o príncipe. Coisa esquisita. Conway. Não encara os fatos de um modo razoável. — Olhe que Mallinson é tão funcionário inglês quanto eu.. — Não lhe garanto — redargüiu Conway. e observar o caroço através da janela. Esta casa aqui por exemplo. a princípio. . que por último se haviam tornado mais freqüentes. . Mas acho que você poderá compreender melhor a situação. meu caro Conway. Você e eu somos homens do mundo. — Sim. os funcionários ingleses parecem tão formalistas. via-o povoado de idéias de trabalhos. Deleitava-se com esta perspectiva e não se sentiu disposto a mofa quando Barnard lhe confiou que também encarava com interesse o seu futuro em Shangri-Lá. — Veja. tão engomados. e não lhe parece que encerra uma preciosa lição? Conway concordou. mas é uma criança ainda. Ainda não compreendemos nada de tudo isto. mas que agora se faziam possíveis. no esplendor da manhã". eu lhe digo isto porque você é diferente de Mallinson. mesmo como meio de ocupar o ócio. 202 .. tomamos as coisas como elas vêm. não eram inteiramente dedicadas à bebida e às mulheres. mas afinal a verdade é que se pode ter inteira confiança em homens assim. sorrindo."mandar construir um muro e neste abrir uma janela. Era-lhe grato constatar que a serena finalidade de Shangri-Lá abrangia um número infinito de ocupações estranhas e aparentemente triviais. Ao parecer. as excursões de Barnard no vale. Quando contemplava o seu passado. — Não é uma história encantadora. como provavelmente já observou. . . ou muito vagos ou demasiado grandes para se realizarem. pois ele mesmo sempre tivera gosto por tais coisas.

Mas aonde quer chegar? Barnard baixou a voz. — Sim. Acredite-me. esse chim não é um sujeito tão mau como seria de pensar. mas afinal de contas não são assim todos os caminhos da vida? Acaso sabemos por que estamos neste mundo? — Talvez muitos dentre nós não o saibam. e não estranhará que nos tenhamos entendido bem. sei que você sempre simpatizou com ele. de homem a homem. Toneladas de ouro. diamantes ou qualquer coisa desse jaez? Lógica simples. ouça bem. prata. A verdade é que nos acertamos maravilhosamente. mas fiz as minhas conjeturas e então expus a coisa a Tchang — francamente. a não ser com ouro. e com que haviam de pagar. . literalmente toneladas. Mostrou-me todas as instalações da mina. e você há de ter interesse em saber que as autoridades me deram permissão de inspecionar todo o vale à vontade e preparar um relatório com203 . não é? Comecei então a bisbilhotar por aí e não tardei muito a desvendar o mistério. nunca o considerei mau sujeito. Qual nada! Sabia o que estava fazendo. que se fez um murmúrio um tanto rouco. E creia-me. não de um todo. Com certeza você pensava que eu ia para a pândega todas as vezes que lá descia na cadeirinha. — Por minha parte. — Nem mais nem menos.. no vale! Em moço fui engenheiro de minas e não me esqueci de como se reconhece um veio. — Desvendou-o sozinho? — Bem. este é tão rico como o Rand e dez vezes mais fácil de explorar.nem sabemos por que nos trouxeram aqui. meu amigo — respondeu. — Ouro. Olhe. meio extático. Conway. eu vinha ruminando há muito que estes camaradas não podiam adquirir tudo o que lhes vem de fora sem pagar um preço elevadíssimo.

Cônsul inglês et cetera e tal. Tudo o que quero de você é que aponha a sua assinatura no meu relatório. e isto não é pouco. — Havemos de tratar disso. A boa fé da humanidade é extraordinária. Não raro ia vê-lo a horas adiantadas da noite e ficava largo tempo. meu amigo? Pareceram muito satisfeitos por dispor dos serviços de um perito. Riu-se Conway. até muito depois de retirarem os criados as últimas taças de chá e serem mandados dormir. principalmente quando lhes disse que podia sugerir meios de aumentar produção. Divertia-o a idéia desse negócio cuja realização era tão improvável e ao mesmo tempo sentia-se contente por haver Barnard encontrado uma ocupação tão satisfatória. o fato é que encontrei uma ocupação. — Vejo que você vai sentir-se como em sua casa aqui — disse Conway. A única dificuldade é esta: eles acreditariam na minha palavra? — Pode ser. Isso vale muito. a quem Conway visitava cada vez mais amiúde. — Alegra-me que você tenha compreendido. E é sobre este ponto que podemos entrar num entendimento. Nunca deixava o Lama Su204 . Barnard assentiu com entusiasmo. Que lhe parece. Pode ser que o pessoal lá na terra não faça tanta questão de me meter na cadeia quando souberem que eu lhes posso indicar uma nova mina de ouro. Metade por metade em tudo. Compartilhava desse sentimento o Lama Superior.pleto. — Bem. E a gente nunca sabe como vai acabar uma coisa. bem entendido. Primeiro faça o seu relatório. Conway.

e os grossos reposteiros amorteciam os relâmpagos reduzindo-os a pálidos vislumbres de claridade. . — Fizemos o possível para que ambos se sintam à vontade. som algum. e certa vez o inquiriu particularmente acerca de suas profissões. Miss Brinklow deseja converter-nos. e Mr. — O Karakal nos envia tormentas nesta época do ano — observou.. Quanto aos outros dois. que os ajudarão a passar agradavelmente o tempo. Barnard também gostaria de nos converter. Conway respondeu em tom refletido: — Mallinson poderia ter uma bela carreira. — ajuntou. forçosamente interrompidas desde a chegada a Shangri-Lá. . agora. vai tornar-se um problema. que faremos dele? — Sim. — Sim — respondeu o Lama Superior. — Receio que se torne o seu problema. Não ouvia. a quem nem o ouro nem a religião podem oferecer conforto —.. — O povo da Lua Azul acredita que elas são causadas por demônios enraivecidos que andam soltos nos 205 . Mas quanto ao seu jovem amigo. É enérgico e tem ambição. adornando a conversação de acordo com o ritual. encolhendo os ombros — o fato é que lhes convém a estada aqui. que se lhe tornara já tão familiar. O serviço de chá foi introduzido naquele momento e o Lama Superior assumiu as maneiras de uma débil e ressequida hospitalidade. Notou um bruxuleio de luz através da janela encortinada. numa companhia de responsabilidade limitada. pelo menos durante algum tempo. — Porque meu? Não teve Conway resposta imediata. Percebera um rumor de trovões ao atravessar os pátios em direção à sala. Projetos inofensivos.perior de interrogá-lo sobre os progressos e o bem-estar de seus companheiros.

Um encantador compatriota meu. . a Inglaterra. Limitou-se. como sabe. — E é o primeiro americano que temos entre nós. dizem eles. Fomos realmente felizes. ou mesmo a Índia. . Supõem mesmo que todos os infelizes "forasteiros" anseiem por vir para cá.vastos espaços além do desfiladeiro. meu caro Conway. mas se todos os náufragos nos alcançassem subissem a bordo correríamos risco de ir ao fundo também. Conway achou graça ao pensar que era uma felicidade para o mosteiro a aquisição de um homem que a polícia de doze países procurava ativamente. Soube que tem discreteado com o nosso excelente Briac. É uma simples questão de ponto de vista. Gostaria de comunicar o chiste. afrontando os mares numa borrasca. não acha? Conway recordou-se das observações semelhantes de Barnard e referiu-as. 206 . . Nós somos um único bote salva-vidas. e há hoje em dia no mundo muita gente que teria satisfação em vir para cá. parece inconcebível que um morador daqui deseje ir embora. tão abrigados no seu vale quente e sossegado. prefiro Mozart. Mas deixemos de pensar nisso agora. pois. — Como ele é sensato! — comentou o Lama Superior. . É claro que nada sabem de países como a França. Talvez tenha notado que no seu dialeto a expressão designa todo o resto do mundo. embora não compartilhe a sua opinião de que Chopin é o maior dos compositores. podemos recolher alguns sobreviventes que o acaso nos depara. — Gente demais. Para eles. a dizer: — Não resta dúvida de que ele tem toda a razão. "Lá fora". Imaginam que o terrível altiplano não tem fim. mas pareceu-lhe que seria preferível contar o próprio Barnard a sua história na ocasião azada. Quanto mim.

mas devo acostumar-me a uma estranha sensação durante as horas que me restam: devo compreender que só tenho tempo para uma coisa mais. e não pretendo ocultar que. pouco sobra de mim para morrer fisicamente. todas as nossas religiões possuem em comum um agradável otimismo. continuou: — Talvez saibas que a freqüência destas conversações não é usual aqui. Sinto-me contente.. e por algum tempo Conway não pôde articular uma palavra. depois de aguardar por um momento. . sem falar. meu filho. É muito gentil em mostrar-se assim compungido. E é possível que ainda me restem alguns momentos. Por que meu? Então o Lama Superior respondeu muito simplesmente: — Porque estou prestes a morrer. meu filho. ou quem sabe alguns anos. — Faz-me uma grande honra. mesmo na minha idade. Mas é da nossa tradição. contempla-se a morte com certa melancolia. e. — Tenho em mente fazer muito mais do que isto.Somente depois de retirado o serviço de chá e de serem finalmente despedidos os criados foi que Conway se aventurou a repetir a sua pergunta que ficara sem resposta: — Falávamos a respeito de Mallinson e o senhor disse que ele seria o meu problema. quanto ao resto. Inclinou-se Conway levemente. . e o Lama Superior. — Ela te diz respeito. A declaração parecia extraordinária. Finalmente o Lama Superior continuou: — Ficou surpreso? Mas é claro. mesmo em Shangri-Lá. Por felicidade. se me per207 . Não imagina o que seja? Conway permaneceu calado. que todos somos mortais. . Apenas lhe participo a singela verdade de que já vejo próximo o fim. meu amigo.

. não é árdua a tarefa que te lego. — Deponho em tuas mãos. Sentado nesta sala. um forte relâmpago fez empalidecer as sombras e o incitou a exclamar: — A tormenta. . vieram as palavras: — Esperei-te. Não temos normas rígidas. mas não pôde. olhava a fisionomia dos recém-chegados. perscrutava-lhes os olhos e ouvia-lhes a voz. nem resposta de ciência. guiados um tanto pelo exemplo do passado. E eis por que me sinto com ânimo de levar a cabo este último intento. Relaxou-se por fim a tensão. Meu amigo. nem auxílio dos poderosos. Conway guardava o mesmo silêncio. De novo tentou Conway replicar. Rugi208 . não sermos escravos da tradição. meu filho. meu filho. porém muito mais pela nossa sabedoria presente e pela clarividência do futuro. Afinal. durante longo tempo. Os ecos mergulharam no silêncio. Depois. velar pelos tesouros do espírito. Não haverá segurança pelas armas. essa tormenta de que fala. e sem dúvida encontrarás nessas coisas grande felicidade. a herança e o destino de Shangri-Lá. . mas tu ainda tão jovem. Meus colegas envelheceram e adquiriram sabedoria. que batia como um gongo. pois a nossa ordem só conhece cadeias de seda. — Será uma tormenta. sempre na esperança de algum dia encontrar-te. meu filho. Ser brando e paciente. e Conway sentiu atrás dela o poder de uma persuasão suave e benigna. . nenhuma regra inflexível. como jamais o mundo viu outra igual. presidir com sabedoria e sigilo enquanto a tempestade ruge lá fora — tudo isso te será muito simples e agradável. e só ficaram as pancadas do seu coração. Fazemos o que nos parece justo. interceptando o ritmo. possuis já a mesma sabedoria.mites o paradoxo.

O aviador que demanda as grandes cidades com a sua carga mortífera não passará por aqui. — O paralelo não é inteiramente exato. nos quais poderia ser de novo acesa. que durou quinhentos anos. Acolherás o estranho e lhe ensinarás as regras da sabedoria e da longa vida. salvo os que forem demasiado secretos para ser encontrados. E Shangri-Lá pode talvez ser ambas as coisas. — E pensa que tudo isso acontecerá no meu tempo? — Acredito que sobreviverás à tormenta.rá até que todas as flores da cultura tenham sido espezinhadas e todas as coisas humanas se nivelem num vasto caos. mais sábio e mais paciente. tornando-te mais velho. Uma catástrofe semelhante aconteceu uma vez. Tal foi a minha visão quando Napoleão era ainda um nome desconhecido. Havia por toda parte clarões de lanternas. penso que pode ter razão. Podes dizer que me engano? Conway respondeu: — Não. ou tão humildes que ninguém lhes dê atenção. Conservarás a fragrância da nossa tradição e acrescentar-lhe-ás o toque do teu próprio espírito. se o fizer. porque essa Idade das Trevas não foi na realidade tão escura. E não haverá escapatória nem refúgio. poderás continuar a viver. existiam outros lumes. ainda que a luz se houvesse apagado por completo na Europa. da China ao Peru. e. Para além desse ponto minha visão se turva. talvez não nos considere dignos de uma bomba. Mas a Idade das Trevas que está por vir cobrirá o mundo todo como uma única mortalha. através da longa época de desolação. e poderá acontecer que um desses estranhos venha a suceder-te quando estiveres muito velho. E ainda depois. mais clara a cada hora que passa. E continuo a vê-la. e. e veio então a Idade das Trevas. mas ainda vislum209 .

consultou o relógio de pulso. a grande distância. entre as quais vivia com crescente intensidade. E estarão todos aqui. já se haviam todos recolhido e ele não tinha idéia de como encontrar Tchang ou qualquer outro. à procura dos legendários tesouros que perdeu. a fim de que não se tornasse demasiado estranha para ser acreditada. como um afresco prateado. E então. mas cheio de esperança. ocorreu-lhe que não sabia sequer onde e como iria pedir auxílio. Estava completamente imóvel e tinha os olhos fechados. . no meio daquele sonho sereno e envolvente. essas coisas recônditas do espírito. sentiu-se senhor de Shangri-Lá. mergulhada na sombra e esfarelando-se como madeira velha. segundo o costume. Observou-o Conway durante algum tempo e afinal. Pareceu-lhe necessário referir a situação a uma realidade qualquer. e com instintivo movimento de mão e olhos. compreendeu que o Lama Superior estava morto. no vale da Lua Azul. Subitamente. agitando-se desajeitado. Passava um quarto da meia-noite. . ocultos por detrás das montanhas. preservados como por milagre para um novo Renascimento. Os tibetanos. Por uma janela pôde ver que o céu estava claro. Seus olhos mergulharam nas sombras e prenderam-se aos pontinhos de ouro que faiscavam nas lacas soberbas e ondulantes. um novo mundo que nasce das ruínas. Eram suas essas coisas amadas que o cercavam. como se fosse num sonho. Deteve-se indeciso no limiar do escuro corredor. Então desapareceu o resplendor e não quedou senão uma máscara. Cessou a fala e sob os olhos de Conway o rosto banhou-se de remota beleza.bro. longe da agitação do mundo. quando atravessava a sala dirigindo-se para a porta. meu filho. embora as montanhas ainda resplandecessem à luz dos relâmpagos. e o aroma das angé210 .

Apenas ouvia a voz do rapaz. que o tomava pelo braço e o levava dali com grande pressa. A lua cheia singrava o céu por detrás do Karakal. atraía-o de peça em peça. 211 . que falava muito agitado. Faltavam vinte minutos para as duas.licas. Mais tarde percebeu que Mallinson estava junto dele. tão tênue que mal chegava a ser uma sensação. Não compreendia de que se tratava. Por fim deparou com a porta dos pátios e pôs-se a errar à beira do lago.

.

. . — Venha. esse! Bem. homem! Imagino o que dirão amanhã o velho Barnard e Miss Brinklow. . visitando o Lama Superior. . ficam porque querem. Mas que tem você? Está doente? Afundara-se Conway numa cadeira e estava inclinado para a frente. Talvez um pouco. . . Conway.. Mallinson ainda lhe apertava o braço quase arrastando-o para diante. . Mostra que esses indivíduos tinham a intenção de nos enganar . . graças a Deus! — Sim. — Deve ser a tormenta. em todo caso foi a última vez. íamos ficar presos aqui até sabe Deus quando. — Ah. . 213 . . quando derem pela nossa falta. Onde esteve todo esse tempo? Há horas que estava à sua espera. Grande notícia. Enfim. cansado. com os cotovelos na mesa. onde lhes eram servidas as refeições.CAPÍTULO XI Chegaram à sala com sacadas. — Estive. — Doente? Não. . . .. Chegaram ontem com uma remessa de livros e outras coisas. . e provavelmente viajaremos muito melhor sem eles. Os carregadores estão a cerca de cinco milhas do desfiladeiro. . temos tempo até o amanhecer para arrumar as nossas coisas e ir embora. Mallinson. nem nos avisaram. . penso que não. a última vez. Amanhã vão voltar. Passou a mão pelos olhos.

. Diz você que os carregadores. . — Ó Senhor! Conway. Verificou que tanto as mãos como os lábios estavam trêmulos. . . — Receio não ter entendido bem. sem dúvida. acendeu um cigarro. . homem! Por favor. Como o conseguisse em parte. que isso talvez não seja tão simples como parece? Mallinson estava amarrando umas botas tibetanas de montanha e respondeu em frases entrecortadas: — Compreendo tudo. será que você recua diante de tudo? Por acaso perdeu toda a fibra? 214 . mas trata-se de uma coisa que temos de fazer. . . sim. . . caia em si! — Está pensando em ir com eles? — Pensando?! Vou com eles. Para experimentar seus nervos e a realidade de suas sensações. como sabe! Conway retesou-se no esforço que fez para voltar à plena consciência. — Seria bom que não ficasse nessa moleza. . por que não? Conway fez nova tentativa para se transportar de um mundo para o outro. E temos de nos pôr em marcha imediatamente. os carregadores. com a ajuda da sorte.Algo na voz de Conway e ainda mais no silêncio que se seguiu provocou irritação no moço. com o demônio! Estão pouco além da cordilheira. . disse finalmente: — Você compreende. — Sim. e faremos. . Temos muito que fazer. — Sinto muito — disse. se não perdermos tempo. — Imediatamente? — Sim. — Não vejo como. .

Venha daí. Porque elas estão arranjadas. eu me explicarei. que homem! Felizmente. foi Lo-Tsen... eles talvez se mostrem pouco dispostos? Não pode apresentar-se diante deles e pedir-lhes que o conduzam. Gritou vivamente quase com desprezo: — Isto é um disparate. os carregadores foram pagos adiantado e concordaram em nos levar. Como sabe se eles quererão levá-lo? De que modo os induzirá a isso? Não lhe ocorreu que. — Eu sei disso. um tanto apaixonada e um tanto sardônica. ao contrário do que imagina. fazer um ajuste prévio. . mas. — Quem foi que organizou todos esses planos? Mallinson respondeu com brusquidão: — Pois se faz questão de saber. Suponhamos que você atravesse o desfiladeiro e encontre os carregadores. Assim. não preciso contar com você para arranjar as coisas. Creio que você não se opõe. — Se perdi ou não. . os dois mundos entraram em contato e fundiram-se instantaneamente no espírito de Conway. ajudou Conway a tomar acordo de si. se deseja que me explique. façamos alguma coisa! — Mas.A interpelação. — Meu Deus. tudo pronto. Já está com os carregadores à nossa espera. À menção de Lo-Tsen. É necessário entrar em negociações. a sua última escusa desaparece. . eu não compreendo. Quero expor-lhe detalhes importantes. É impossível! 215 . E aqui estão as roupas e o equipamento para a viagem. não vem ao caso. — À nossa espera? — Sim. mas não importa. ela vai conosco. . — Ou qualquer outra coisa que acarrete nova demora — exclamou Mallinson com violência.

Uma garota dessa idade. encerrada aqui entre velhos excêntricos. por sua vez. Mas talvez não conheça. aonde quer você chegar? E. Mallinson sorriu nervosamente. Creia-me. . mais calmo. bem. — Não vejo por que possa ser absurda. . Mallinson. . . espantou-me o que você disse. . apesar de tudo. Já é bastante incrível que ela esteja lá fora neste instante. diga-me a verdade! — Bem. isso não pode dar certo. — Você pensa que a conhece muito melhor do que eu.Mallinson. É tão natural que ela queira ir! É aí que você se engana. . é natural que queira ir embora se lhe dão um ensejo. atribuindo-lhe uma situação que é puramente sua? Como sempre lhe tenho dito. Diga-me. perguntou cortante: — Por que impossível? — Porque. . — Que quer dizer? — Há outros meios de entender as pessoas. — Então por que concordou em ir embora? — Disse isto? Como podia fazê-lo. . mas a idéia de Lo-Tsen ir conosco é simplesmente absurda. Até agora não se apresentara nenhum. o que significa tudo isso? Até agora não entendi nada. é bastante simples. — Então por que está fazendo tamanho barulho? — Diga-me a verdade. Não devemos discutir. — Em nome do céu. porque é. por favor. se não sabe inglês? 216 . — Não imagina que possa estar enganado. ela é perfeitamente feliz. Conway acrescentou: — Isto não tem pés nem cabeça. sem que seja preciso aprender dúzias de línguas. afinal de contas. Há uma série de razões.

espero — respondeu Conway. Afinal de contas. e quando vejo em situação difícil uma criatura que me agrada.. . Sei que Lo-Tsen é encantadora. Claro que não foi uma conversação muito fluente. — Como pode ter certeza disso? — Bem. quando se vai salvar alguém 217 . — E por que diabo há de lamentar? Conway deixou cair o cigarro que tinha entre os dedos.. Disse com brandura: — Seria melhor que deixássemos de falar por enigmas. se sair daqui? — Penso que deve ter amigos na China ou em qualquer outra parte. Seja como for. — Ninguém diria semelhante coisa. mas bastou para. — É muito mais do que isso. — Irra. Você não deve pensar que todos tenham o seu sangue-frio com relação às mulheres. Admirá-la como se fosse uma peça de museu talvez seja a idéia que você faz do seu mérito. faço tudo por ajudá-la. . não me encare desse modo! Quem o visse diria que estive caçando no seu cercado. estará melhor do que aqui. escarninho. — Mas não acha que está agindo precipitadamente? Para onde pensa que ela irá. Só posso dizer que lamento muito. Mallinson corou de leve. aborrecido e agitado por um profundo conflito de afeições que bem desejaria não ter despertado. mas por que havemos de disputar por causa dela? — "Encantadora"? — repetiu Mallinson. Foi Miss Brinklow que me ensinou as palavras.— Eu lhe perguntei. mas quanto a mim sou mais prático. Conway. em tibetano. eu olharei por ela se não houver ninguém que o faça. Sentia-se cansado. — Mas a sua observação revela muito mais do que você desejaria talvez dar-me a entender. para levar a um entendimento.

que a apertou com afeição veemente e impetuosa. Você deu para andar na lua. Há neste ambiente qualquer coisa de tenebroso e diabólico. como se nada lhe importasse e como se estivesse conformado a ficar aqui para sempre. . — Em mim? — Sim. Que foi que lhe sucedeu. mas fiquei aterrado quando descobri que você também estava contra mim. e o modo como nos foram retendo. contando-lhe certas coisas. Ninguém parecia importar-se com a única coisa que era realmente importante. sob um pretexto ou outro. . — Meu bom rapaz! Conway estendeu a mão a Mallinson. . deixe-me ajudá-lo. mas me senti terrivelmente só estas últimas semanas. Barnard e Miss Brinklow tinham lá seus motivos. Pois se chegou a reconhecer que este lugar lhe agradava!. Porém o mais assustador de tudo. em você. foi o efeito que produziu em você. por algum maluco. estou certo de que 218 . então. sem o menor motivo. Nosso próprio caso demonstra-o bem. — Você repete sempre isto. levado por um impulso repentino: — Bem. — Lamento-o deveras.. a maneira como fomos trazidos para cá. Você era completamente outro. a meu ver.. não se costuma indagar se esse alguém tem para onde ir. — E considera um inferno Shangri-Lá? — Positivamente. prosseguindo: — Suponho que não o tenha notado.. desde o princípio. Depois de ouvi-las. mas de que serve? Conway replicou.de um inferno. Conway? Será que não pode voltar a ser como era antes? Nós nos entendíamos tão bem em Baskul. se for possível.

não sei o que dizer. Mallinson tornara-se. e estava empenhado em resolvê-lo. Entretanto. e mais de uma vez teve a impressão de estar lendo uma página impressa na memória. o mais resumidamente que pôde. A beleza desse mundo o subjugava enquanto ia falando. Conway então contou.compreenderá grande parte do que agora lhe parece estranho e obscuro. durante o qual os dois 219 . na certeza de que havia procedido bem. e isto para poupar a si próprio uma emoção que não poderia ainda dominar: a morte do Lama Superior naquela noite e o fato de que iria suceder-lhe. Estava satisfeito por haver vencido a dificuldade. na verdade. tão nitidamente se haviam gravado as idéias e as frases. e ao fazê-lo caiu de novo sob o sortilégio daquele estranho mundo exterior ao tempo. Pelo menos. Conway. — Creio que não há nada que me possa convencer disso. Mallinson não fazia mais do que tamborilar na mesa com os dedos. era a única solução. acrescida de novos detalhes colhidos nas conversações com este e com Tchang. Ao cabo de uma longa espera falou: — Francamente.. Ergueu os olhos calmamente assim que terminou.. Só uma coisa omitiu. . compreenderá por que LoTsen não pode voltar em sua companhia. E abrevie o mais possível o que tem para dizer. Seguiu-se um largo silêncio. enfim. Ao se aproximar do fim sentiu-se aliviado. pois não podemos perder tempo. Narrou tudo com rapidez e fluência. e esta. Era uma coisa que não pretendia fazer. toda a história de Shangri-Lá tal como a ouvira do Lama Superior.. o seu problema. a não ser que você deve estar completamente louco. mas sentia que nas atuais circunstâncias isso era justificável e até necessário.

a sua teoria de que esta gente daqui enviou alguém a vaguear pelo mundo. . . à caça de estrangeiros. não direi que isso seja de todo impossível. . . . Se a coisa parasse aí. . . com franqueza. poderia ser digna de consideração. . mas quando você a prende a toda aquela série de detalhes abso220 . . um absurdo tão evidente. A expressão e a voz de Conway eram de imenso assombro. embora me pareça ridiculamente forçado. o que vou dizer é um pouco forte. bem. Conway. — Então continua acreditando que viemos ter aqui devido a um simples acaso. — Então você me julga louco? — disse Conway afinal. . parece-me que não vale a pena discutir. Mallinson desatou num riso nervoso. mas não vejo como uma pessoa de juízo são possa ter dúvidas a respeito. Finalmente Mallinson respondeu: — Olhe. depois de uma história como esta? Quer dizer. por obra de um lunático que preparou cuidadosamente o plano de fuga num aeroplano e voou milhas por mera brincadeira? Conway ofereceu um cigarro. que o outro aceitou. — Bem.homens se encararam com sentimentos bem diversos: Conway alheado e desapontado. ora. e que esse sujeito fez curso de piloto e ficou à espera de que um aparelho apropriado aos seus intuitos deixasse Baskul com quatro passageiros. não convém discutir isso ponto por ponto. A pausa que se seguiu pareceu ser do agrado de ambos. que outra coisa poderia dizer. . — Acha que é absurdo? — Pois que nome daria você a isso? Desculpe-me. Na verdade. . Mallinson num violento e inquieto mal-estar.

— Bem. Conway respondeu tranqüilamente: — Não tenho nenhum desejo de voltar a essa vida. este lugar afetou-lhe os nervos. . Conway. isso de os lamas terem centenas de anos de idade. . Arrume as suas coisas e vamos. Mas isso não é motivo para aceitar histórias que são materialmente impossíveis. isso simplesmente me faz perguntar aos meus botões que sorte de micróbio o mordeu. . Acreditar em banhos quentes que a gente toma é muito diferente de acreditar na existência de homens com mais de duzentos anos. e tudo mais. e encanamentos modernos. Sem dúvida é uma história extraordinária. só porque eles o dizem. — Que vida? 221 . . e como o explica. . Pense em tudo o que até agora vimos: um vale perdido entre montanhas inexploradas. Terminaremos esta discussão daqui a um mês ou dois. e calefação interna. — Sim. e isso não me admira. . eis tudo. mas deve ter verificado com os seus próprios olhos que este lugar também é extraordinário. não é de estranhar que ache difícil acreditar nisso. diante de um bom jantar no Maiden. Talvez eu mesmo tenha duvidado no princípio. . — Oh! sim. Mallinson riu outra vez. . . É um completo mistério. bem. e chá da tarde. Tudo isto é realmente maravilhoso. Não me recordo bem. eu sei. então? — Confesso que não posso fazer idéia. um mosteiro com uma biblioteca de livros europeus. ainda contrafeito. Conway sorriu.lutamente impossíveis. e que descobriram uma espécie de elixir da juventude ou coisa que o valha. — Olhe aqui. .

Jantares. Dei a minha palavra. Sei que não tem culpa. Apertaram-se as mãos e Mallinson afastou-se. Não o estou censurando por isso. — De que o preveniram? — Disseram-me que você foi atingido por uma explosão de granada durante a guerra. — Pela última vez. mas agora vejo que tinham razão. — Adeus. de acordo com uma frase gravada na memória. e mais o que se segue. mas com tudo isso tenho o juízo perfeito.— A vida em que você está pensando. então. — Mas eu não falei em bailes nem em pólo! Em todo caso. que há de mal nisso? Quer dizer que não pretende vir comigo? Prefere ficar aqui como os outros dois? Mas pelo menos não há de impedir que eu me safe o quanto antes! Mallinson deitou fora o cigarro e enveredou em direção à porta. já que deseja saber. — A Lo-Tsen? — Sim. . bailes.. . Conway ergueu-se e estendeu a mão. — Adeus. . mas tenho de ir. . e eu pensei que se enganavam. e você não tem! Preveniram-me antes que eu me juntasse a você em Baskul. despedindo chispas pelos olhos. Pareceu-lhe. essa é a verdade. Conway! Sei que sempre foi calmo e eu sou irritável. não vem conosco? — Não posso.. Quedou-se Conway sozinho à luz das lanternas. Oh. e Deus sabe o que me custa falar assim. e que desde então fica tresloucado às vezes. pólo. — Está louco. Mallinson. exasperado. vou-me embora! Tudo isto é horrível e desalentador. 222 . — Você está fora do juízo! — gritou.

e. estava suspenso por um fio.. permaneceu na sombra. Faltavam dez minutos para as três. seria mais odioso ainda! Dúzias de velhos encarquilhados. e depois de esperar um momento Conway começou: — Olá. É um lugar sórdido e nefasto. fumando o último cigarro. vendo-o ali. O rapaz entrou tomado de certa emoção e. olhou o relógio. se fossem verdadeiras as histórias incríveis que você me contou. Estava ainda junto à mesa. agachados aqui como aranhas à espreita do primeiro que lhes 223 .que as coisas mais belas eram transitórias e perecíveis. que aconteceu? Por que voltou? A pergunta tão natural fez com que Mallinson desse alguns passos à frente. Mallinson? — Porque este lugar precisa ser destruído. . . seja ele o que for. Estava calado.. como sempre. . que os dois mundos afinal eram irreconciliáveis e que um deles. — Aquele lugar em que fomos amarrados. depois de tê-lo Conway acalmado. acrescentou: — Não precisam preocupar-se estes sujeitos daqui . mas não pude continuar! Não tenho cabeça para as alturas. Tirou a pesada capa de pele de ovelha e sentou-se. como tratando de se dominar. Mas. lembra-se? Cheguei até lá. Sobreveio-lhe uma crise de nervos e por fim. quando Mallinson voltou. quase soluçando. Tinha o rosto cor de cinza e todo o seu corpo tremia. Depois de meditar por algum tempo. meu Deus. Estúpido. não acha? Abateu-se por completo. — Não tive ânimo! — exclamou. . Nunca serão ameaçados por terra. e ao luar aquilo é medonho. quanto eu daria para voar por cima disto com uma carga de bombas! — Por que desejaria fazer isso.

Agora diga-me seria 224 . é asqueroso! E afinal quem desejaria viver tanto assim? E quanto ao seu rico Lama Superior. ela veio para cá em 1884. não merece ser levada em conta? — Lo-Tsen não é jovem — disse Conway. Oh! por que não quer vir comigo. Fez uma pausa e acrescentou: — Mas esta conversa não resolve nada. mas você me vai dizer com certeza que ela anda pelos noventa. Ela é jovem. sou moço e temos sido tão bons amigos! Minha vida nada vale então para você comparada com as patranhas dessas criaturas hediondas? E Lo-Tsen. e não em qualquer outro lugar. Tire-a deste vale e vê-la-á desvanecer-se como uma miragem. . Conway. Seria melhor que deixássemos de lado o poético e descêssemos à realidade. Conway? Detesto implorar-lhe a minha própria salvação. mas estou disposto a discuti-lo se da discussão lhe resultar algum bem. Mallinson. — Não receio tal coisa. bem conservados. então. já é tempo de alguém livrálo dessa miséria. . Farei de conta que se trata de coisas possíveis e que requerem exame. . Mallinson teve um riso áspero. — Você está delirando. como toda beleza no mundo. não é jovem! Absolutamente! Parece ter uns dezessete anos. — Mallinson. homem! — Sua beleza. como se haurisse confiança nos seus pensamentos.passe perto. Aqui é que ela é apenas uma miragem. que diabo. desejo ajudá-lo. . Sei que tudo isso é puro disparate. É uma coisa frágil que só pode viver onde as coisas frágeis são amadas. . — Oh! não. . jaz à mercê daqueles que não lhe sabem dar o devido valor. Mallinson alçou os olhos e pôs-se a rir histericamente. mas. se tem metade da idade que você diz.

mente: que provas tem da veracidade da história que me contou ? Conway permaneceu calado. mesmo que fossem autênticas. Viu-a por acaso. Ainda que se tratasse de uma pessoa merecedora de toda a confiança. sem que essa história seja verdadeira? — Perfeitamente possível. . . Mas. Mas eu quero saber que droga é. sem dúvida. não aceitaria tais coisas sem prova. não seria possível que ele as tivesse ouvido de alguém. — Bem. que Briac tocara. pois não conheço música. . Em que consiste ele? Você disse que se trata de uma certa droga. . ou provou-a? Porventura alguém lhe apresentou algum fato positivo que demonstrasse a sua eficácia? — Não em detalhe. — E você nunca pediu detalhes? Não lhe ocorreu que semelhante coisa exigia confirmação? Engoliu tudo sem pestanejar? 225 . Lo-Tsen lhe contou alguma vez a sua vida? — Não. — Apenas a palavra de quem lhe impingiu essa fantástica conversa fiada. e tal e coisa. . pode apresentar algum fato que venha em seu apoio? Conway refletiu por um momento e mencionou as composições inéditas de Chopin. — Então por que acreditar na versão de um outro? E toda essa fábula de longevidade. . mas. — E esse método que você diz existir. conservação da juventude. é verdade. e que você tivesse conhecido a vida inteira. este é um assunto que não me diz nada. . . que eu veja. E que provas tem no caso presente? Absolutamente nenhuma.

só podemos dizer que o lugar está bem aparelhado e reina aqui certa atmosfera de cultura. Também é um mistério o motivo por que nos querem prender aqui. não compreendo como aceita tudo sem hesitar. você é uma pessoa dotada de senso crítico! Não acreditaria em qualquer coisa que lhe dissessem. mesmo num mosteiro inglês. quanto a saber como e por que isso veio a ter existência. como esta não viesse.E. que me enforquem se vejo alguma coisa de agradável em continuar vivendo quando já se está meio morto! Antes uma vida curta. E. negar aprovação a um argumento bem apresentado. E isso duma guerra futura me parece muito fantasioso. além do que lhe disseram? Falou com meia dúzia de velhos. homem. Embora a sua percepção fosse mais profunda. prosseguiu: — Como quer que seja. Mallinson continuou: — Que sabe de positivo acerca deste lugar. — Arre. Francamente. todos nós nos inclinamos para aquilo que mais nos agrada. eis tudo. não acredito que essas coisas sejam inevitáveis. Quem poderá saber quando vai dar-se a próxima guerra e como será ela? Por acaso não se enganaram todos os profetas da última guerra? Calou-se à espera de uma resposta. só porque está no Tibete! Conway moveu a cabeça em sinal de assentimento. Agora. A verdade. ainda que fossem. Mas por certo isso não é razão para dar crédito à primeira lenda que lhe contam! Afinal. não podia. não fazemos a menor idéia. Fora disso. mas. é que quando se trata de acreditar nas coisas sem provas reais. — A observação é fina. suponho. não vejo razão pa226 . se é que têm essa intenção. mas alegre. tirando proveito da sua vantagem. Mallinson.

Agora me considera um covarde. — Penso que estou. Só Deus sabe se eu me portaria como um valente numa guerra. Pode estar certo disso. Reconheço que não o entendo. mas não posso evitar meus sentimentos. de modo algum. depois de tantos embates. Sei que você qualificará isso de absurdo e inconcebível. Quando estávamos em Baskul tomava-me por um herói. Se quiser pode dizer a toda gente. você tem a soberba habilidade de não me entender. jamais direi uma palavra contra você. mas não deixará de merecer o crédito daqueles que me consideram louco. mas preferiria enfrentá-la a sepultar-me vivo neste lugar. não poderei ajudá-lo? Que é preciso que eu diga ou faça? Seguiu-se um longo silêncio. — O que é? — Está apaixonado por Lo-Tsen? A palidez do rapaz cedeu lugar rapidamente a um vivo rubor. que resolvi ficar num mosteiro tibetano porque tenho medo de outra guerra. quando voltar à Índia. Não é esse em absoluto o motivo. Sim. Conway acrescentou: 227 . naturalmente. mas é terrivelmente íntima. Não sei se me perdoará. mas desejaria entender. eu o desejo! Conway. — Não me parece absurdo.ra nos pormos a tremer de susto. Conway sorriu. . — Mallinson. . Aconteça o que acontecer. Mallinson respondeu com alguma tristeza: — É ridículo falar assim. que Conway afinal quebrou dizendo: — Há uma pergunta que desejava fazer-lhe. e é provável que tenha razão. A verdade é que não sou nem uma nem outra coisa — embora. mas. A discussão parecia navegar agora em águas mais tranqüilas. isso não tenha importância para mim.

— E ela é jovem. Mas o ardor existia. Mesmo num lugar como este. como todas as coisas demasiado belas. sim.. e que todo o futuro 228 . ao primeiro contato da realidade. Sentiu então que um sonho se havia desvanecido. não é verdade? — Suponho que sim — respondeu Mallinson. . . — Pronto para ser reavivado? — Sim. com uma expressão de timidez grave. — Porque sei. Ela era fria na aparência. Sucede que você e essa moça são as duas pessoas por quem mais me interesso no mundo.. você não pode acreditar nisso! Pois não vê que é uma coisa ridícula? Como será isso possível? — Como pode você saber que ela é realmente jovem? Mallinson desviou parcialmente o rosto. Ergueu-se abruptamente e entrou a passear pela sala. Mallinson. . Conway. — Já dissemos tudo o que podíamos. .. . está seguro disso? Mallinson respondeu suavemente: — Meu Deus.. é uma simples menina. sobre um mar sem ondas. num ímpeto repentino: — Oh! como é estúpido dizer que ela não é jovem! Estúpido e abominável. que no entanto prosseguiu. se quer exprimir-se desse modo. . devido a este ambiente que lhe gelou todo o ardor. embora isto possa parecer-lhe singular. . Receio que você nunca a tenha compreendido bem.— Eu também não posso evitar os meus sentimentos. mas eu sei. A lua vogava no alto. Talvez venha a me estimar menos por causa disto. . Conway. acho que jamais aconteceu coisa mais decente. Não vejo por que me envergonhar disso. Dirigiu-se Conway para a sacada e pôs-se a contemplar o deslumbrante penacho do Karakal. Eu tinha imensa pena dela e creio que nos sentíamos atraídos um pelo outro.

então? Resolveu-se afinal? Puseram-se a caminho logo que Conway terminou os preparativos para a jornada. Parecia-se muito mais com o herói de Baskul. Não se sentia de todo infeliz. enquanto Mallinson não cessava de pairar sobre a viagem — embora ele mal ouvisse. encarou Mallinson com uma nova súbita energia. tornara a enlouquecer. — Acha que conseguirá vencer o precipício. — Você vem. Não sabia se estivera louco e acabava de recobrar a razão. tudo se ia reduzir a escombros. e o rosto se lhe crispava de leve. quase brusca. mas mergulhara numa perplexidade infinita e tocada de tristeza. no mesmo instante em que se enchia de ânimo. Foi surpreendentemente simples: uma partida e não uma fuga. Pronto para a ação. E a idéia desse vazio imediatamente lhe tornou vazio o espírito. Não houve nenhum incidente quando atravessaram os pátios raiados de luar e sombra. Compreendeu. Dir-se-ia que tudo aquilo estava deserto. e que esse mundo também estava em perigo. refletiu Conway. amarrado com uma corda. os pavilhões desmoronavam. viu os corredores de sua imaginação torcerem-se e retesarem-se sob o impacto. Porque. já não era o mesmo. — Conway! — exclamou em voz sufocada.do mundo pesa tanto como o ar em confronto com a mocidade e o amor. ou se. que o seu espírito habitava um mundo próprio — Shangri-Lá — em miniatura. Quando voltou para dentro da sala. Sua voz estava mais viva. além disto. Como era estranho que aquela longa discussão conduzisse a tal resulta229 . depois de um período de lucidez. se eu for com você? Mallinson correu para ele.

terminada a provação. . . Era um homem perdido entre dois mundos. . exclamou numa arfada: — Amigo velho. sem responder. Para diante! Conway sorriu. Era o momento de dizer adeus. . . arquejantes. Ele. vamos indo às mil maravilhas. numa curva da subida e contemplavam Shangri-Lá pela última vez. Mas por ora. como dissera o rapaz. O precipício punha Mallinson nervoso. tinha-se resolvido — mas apenas o fizera com a parte que restava do seu espírito. Após uma longa pausa. e continuaria sempre perdido. e antes que recomeçassem a jornada. não só por mim como tam230 .do e que o secreto refúgio estivesse sendo abandonado por quem encontrara nele a sonhada felicidade! Com efeito. no abismo. Mallinson. naquele vácuo interior que se fazia cada vez mais profundo. . Mallinson acrescentou: — Mas estou contente. Não lhe posso exprimir a minha alegria. Estava já preparando a corda para a perigosa escalada. estava condenado a fugir da sabedoria e ser um herói. devo dizer que você foi admirável. O resto abrangia um vazio quase intolerável. como milhões de outros. só sentia uma coisa: gostava de Mallinson e tinha de ajudá-lo. Talvez imagine o que eu sinto. o vale da Lua Azul era como uma nuvem e afigurou-se a Conway que os telhados esparsos o seguiam. . . Na verdade. então. menos de meia hora depois faziam alto. a quem o esforço da ascensão fizera guardar silêncio. flutuando na bruma. — Conway. detiveram-se para acender cigarros trazidos por Mallinson. Abaixo deles. mas Conway fê-lo passar à maneira tradicional dos alpinistas e. Era esse pequeno fragmento ativo que predominava agora. — No seu lugar eu não o tentaria.

bém por você. . — Absolutamente — replicou Conway. mas Conway traduziu. que se apresentava limpa como um osso. . quando se encontraram com Lo-Tsen. encontraram os homens à sua espera. excitado. mas os seus olhares eram todos para o rapaz. saboreando a sua ironia secreta. Tal como havia predito Mallinson. Esquecia-se de que ela não entendia inglês. varrida pelos ventos rugidores. Amanhecia quando atravessaram a linha divisória. Teve um sorriso encantador para ele. . sem serem incomodados por sentinelas — se é que as havia ali. . indivíduos robustos vestidos de peles e couro de ovelha. Após descerem um pouco. Pareceu-lhe que a pequena manchu nunca estivera tão radiante. É simplesmente maravilhoso vê-lo voltar à sua verdadeira personalidade. Ocorreu a Conway que o caminho. É esplêndido que você compreenda agora que tudo aquilo era pura tolice. Pouco depois atingiram a planura. avistaram o acampamento dos carregadores. — Ele vai conosco — gritou Mallinson. 231 . . . de acordo com a norma de Shangri-Lá. devia ser vigiado com moderação. acocorados para se defenderem das rajadas e ansiosos por iniciar a jornada rumo a Tatsien-Fu — mil e cem milhas para leste. na fronteira da China.

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EPÍLOGO .

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Qualquer passeio fora do comum toma as proporções de uma exploração. pelos jornais. e. Riu-se. não me parecia de molde a fazer época. Eu sabia. arquiteto inglês que. na segunda década deste século. Tomamos um táxi para percorrer as áridas milhas que separam a natureza morta de Lutyens1 desse vivo e palpitante cinematógrafo que é a Velha Delhi. Era a sua uma dessas reputações bem cultivadas que de quase tudo extraem proveito. quando os lacaios de turbante nos entregaram os chapéus. Sir Edwin Lutyens.) 1 235 . embora o explorador tenha o cuidado de não fazer nada verdadeiramente original. do T. por exemplo. As cidades soterradas de Khotan não apresentavam novidade alguma para quem se recorde de Stein e Sven Hedin. o público fica na ignorância disto e ele aufere todas as vantagens da primeira impressão. dirigiu a construção de Nova Delhi. que ele voltara recentemente a Kashgar. — Venha até o meu hotel e beberemos um trago — convidou ele.Foi em Delhi que tornei a encontrar Rutherford. A viagem de Rutherford. mas a distância e o cerimonial nos mantiveram isolados um do outro até o momento da saída. Tomávamos parte num jantar do vice-rei. tal como a narrava a imprensa. (N. Era eu bastante íntimo de Rutherford para caçoar com ele a esse respeito.

mas é claro que eu não esperava ir muito longe por esse lado. contanto. — Muito mais do que isso! A propósito. Seja como for. começamos a beber uísque. o rastro se perde lá pelo Alto Sião. . a verdade daria uma reportagem muito melhor — respondeu com ar de mistério. — Não é possível procurar-se um homem num país tão grande como a metade da Europa. Em sua última carta. — Desejaria saber a sua impressão. Até certa altura encontrei vestígios da sua passagem no interior do país. que a história se baseie estritamente no que lhe referiu Conway. Não inventei absolutamente nada. Há ali. — Julgava que talvez fosse mais fácil ir em busca do vale da Lua Azul? — Sim. Rutherford sacudiu a cabeça. Tudo o que posso dizer é que visitei lugares onde havia probabilidade de encontrá-lo ou ter notícias dele. até. e na minha opinião ele tomou o rumo da região habitada pelas tribos. na fronteira chinesa. — Muito notável. parecia pelo menos um objetivo mais definido. Minha memória é boa e 236 . queria devolvê-los. — Então você andou à procura de Conway? — insinuei quando o momento me pareceu propício. como deve lembrar-se. Não creio que pretendesse entrar na Birmânia. . é claro. onde correria o risco de topar com funcionários ingleses. Com certeza você passou os olhos por aqueles meus originais. Chegados ao seu quarto no hotel.— Sim. falava em partir de Bancoc para noroeste. — Dou-lhe a minha palavra de honra que sim. — Procura é palavra demasiado forte no caso — tornou ele. muito menos expressões minhas do que pensa. mas ignorava o seu endereço.

só lhe poderei dizer que ele deixou Baskul em 20 de maio e chegou a Chung-Kiang em 5 de outubro. — Pois. como lhe disse. sem falar na possibilidade de encontrá-lo a ele próprio. como queira. . Chung-Kiang. Kashgar. e em algum ponto dentro da área compreendida por eles jaz o mistério. Mas é uma área bem extensa. . Tudo mais são probabilidades. achei deveras notável. A gente do governo não queria falar nisso. vejo que terei de discorrer sozinho.Conway sempre teve um modo especial de descrever. mas não creio realmente que eu o seja. — Se isso é tudo o que tem a dizer. Rutherford reclinou-se e sorriu. lenda ou como quer que lhe agrade chamá-lo. mito. se deseja os fatos positivos que pude averiguar no tocante à aventura de Conway. A gente comete erros na vida por acreditar demasiado. não cheguei a pôr os pés no Tibete. E a última coisa que sabemos dele é que tornou a partir de Bancoc em 3 de fevereiro. Devo ter percorrido um total de vários milhares de milhas: Baskul. quase sem interrupção. como sabe. A história de Conway interessou-me em mais de um sentido e por isso tratei de comprová-la na medida do possível. Acendeu um charuto e prosseguiu: — Isso me exigiu uma série de curiosas viagens. Na verdade. Bancoc. mas também levaria a mais aborrecida das existências se acreditasse demasiado pouco. conjeturas. mas gosto dessas coisas e meus editores não podem rejeitar um livro de viagens de vez em quando. e todas as minhas investigações não foram além da sua orla — ou da orla do mistério. possibilidades. Deve julgar-me um pouco crédulo. Não esqueça que nós tínhamos conversado durante vinte e quatro horas. Visitei iodos esses lugares. Por muito 237 . — Então não descobriu nada no Tibete? — Meu caro amigo.

eu perguntava a mim mesmo por que faziam tanta questão de esperar pelos carregadores. conduzida por um homem que conhecesse alguma coisa do idioma nativo. mas são terrivelmente altas e não vêm nos mapas. e quando manifestei vontade de viajar pelos Kuen-Luns por conta própria eles me encararam como se eu sugerisse a idéia de escrever uma vida de Ghandi. — São tão inacessíveis assim? — Pareciam uma frisa branca no horizonte. mas não encontrara passagem. Não tardei muito a descobrir o motivo. A verdade é que sabiam o que estavam fazendo. Acrescentou que corriam 238 . mas na sua opinião não tinha nenhum fundamento.favor dão licença para uma expedição ao Everest. Contou que existia uma lenda sobre tal montanha. Não são muitos os europeus que podem dizer o mesmo. Penso que deve ser a cadeia de montanhas menos conhecida do mundo. quase tão alta quanto o mais elevado pico dos Himalaias. Seria necessário organizar uma expedição completa. Em Yarkand e Kashgar interroguei a respeito deles toda a gente que encontrava. pelo menos. Cheguei a vê-los a distância. nada mais. Tive a sorte de encontrar um viajante americano que tentara atravessá-la. Perguntei-lhe se achava possível que existisse um vale como o que Conway me havia descrito. A gente do governo tinha inteira razão: todos os passaportes do mundo não me fariam atravessar os KuenLuns. Indaguei então se ouvira falar numa montanha de forma cônica. ao ouvir a história de Conway. Recordo-me de que. Há passagens. Um giro pelo Tibete não é coisa para um homem só. Respondeu que impossível não era. talvez umas cinqüenta milhas. num dia muito claro. mas era extraordinário o pouco que sabiam. disse ele. mas achava pouco provável — do ponto de vista geológico. em vez de irem embora sem eles. e sua resposta me intrigou.

dessas que se encontram em qualquer livro. " 'Vivem muitos anos?'. Assegurou-me que são lugares nada atraentes. " 'Duvido que haja algum pico nos Kuen-Luns com mais de vinte e cinco mil pés de altura'. respondeu. Mas admitiu que nunca se tinham feito medições apropriadas. Fezme as descrições de costume. 'à beira de um lago gelado. e certamente têm aspecto disso. mas é claro que a gente não pode pedir certidão de idade. mas que não lhes dava crédito. Enchi-me então de audácia e lhe perguntei se não ouvira lendas sobre casos de extrema longevidade entre os lamas. quando não morriam de alguma doença asquerosa. que muitas vezes alcançam idade avançada. "Respondeu-me que sim. enquanto os criados que239 . inteiramente nus.' "Perguntei-lhe se pensava que eles conheciam algum processo medicinal ou oculto para prolongar a vida e preservar a juventude. perguntei. "Em seguida lhe perguntei o que sabia dos conventos lamaicos do Tibete. Ajuntou. 'É desse gênero de histórias que se ouvem por toda parte. Disse que passavam por possuir grande soma de conhecimentos curiosos acerca de tal assunto. " 'Quantidade delas'. entretanto. pois estivera no país várias vezes. sem que ninguém possa comprová-las. que os lamas parecem dispor de estranhos poderes de domínio sobre o corpo. " 'Vi-os sentados'.até certos rumores a respeito de montanhas mais altas do que o Everest. Dizem que algumas dessas nojentas criaturas têm vivido cem anos metidas numa cela. sob uma temperatura inferior a zero e fustigados por um vento terrível. mas suspeitava de que se tratasse de coisas já sabidas. dizia. e os monges que neles vivem são em geral corruptos e imundos. disse ele.

carregadores. se não me engano. lamas secam os lençóis no próprio corpo. eram extremamente exíguos. — Mas naturalmente. não me atraem os mosteiros. Fazem isso umas doze vezes ou mais. enfim.' " Rutherford serviu-se de mais bebida. Serve simplesmente para mostrar que os lamas têm gostos selvagens em matéria de autodisciplina. . respondeu. como admitia o meu amigo americano. Num lugar próximo aos Kuen-Luns encontrou esse homem. — uma expedição completa. . — De nenhum modo. tão completos quanto podia recordar.' "Insisti por mais detalhes e ele mos deu. " 'Oh! há muito tempo'.bravam o gelo para mergulhar lençóis na água e os envolverem neles. Parece que estava viajando por conta de alguma sociedade geográfica do seu país. De modo que ficamos apenas nisso e você há de reconhecer que os elementos de prova. "Esta observação fortuita me provocou uma idéia singular e perguntei-lhe quando ocorrera esse encontro no Tibete. Respondi mesmo certa ocasião. que antes me desviaria do meu caminho para evitálos do que para lhes fazer visita'. Supõe-se que conservem o calor pela simples força de vontade. etc. em 1911. e depois de o ter interrogado por algum tempo ele disse: " 'Francamente. e os. Admiti que por certo isso não provava nada e perguntei se os nomes "Karakal" e "Shangri-Lá" eram conhecidos do americano. nada disso tem muito que ver com a longevidade. a um sujeito que encontrei no Tibete. embora essa explicação seja pouco convincente. um chinês que era conduzido nu240 . 'antes da guerra. por enquanto. Mencionei-lhos. na companhia de vários colegas.

Quando alguém procura recordar um incidente casual acontecido vinte anos antes. — E não tiveram mais notícias do avião? — Nem uma palavra. — Perfeitamente. talvez não se tratasse de Shangri-Lá." Rutherford fez uma pausa e continuou: — Não quero dizer que isto tenha muito peso. Refletimos sobre isto. e isso foi tudo. a mesma coisa. E depois. e mesmo que uma expedição tão bem aparelhada tivesse aceito o convite. não se pode esperar daí muita coisa. a não ser que o roubo do avião era autêntico. Verifiquei. Ninguém me soube dizer coisa alguma. oferecendo-se até para servir de guia. não deixa de ser assombroso o desaparecimento completo de Bryant no meio de todo aquele barulho. não vejo como eles poderiam ser retidos no mosteiro contra a sua vontade. O americano respondeu que não tinha tempo nem tampouco interesse. — Em Baskul nada e em Peshawar menos ainda. — Fez indagações a respeito do rapto? 241 . pois era um episódio de que não se orgulhavam. entretanto. mas o assunto parecia demasiado nebuloso para o discutirmos e passei a indagar se ele nada havia descoberto em Baskul. Mas em todo caso dá margem a interessantes especulações. — Sim. mas achei tão misterioso o seu passado que não me surpreenderia se ele fosse realmente Chalmers Bryant. Também procurei descobrir o rastro desse tal Barnard. O sujeito mostrou falar excelente inglês e recomendou-lhes com calor que visitassem certo mosteiro lamaico das vizinhanças. que se tratava de um aparelho adaptado a grandes alturas. Quanto aos quatro passageiros. E mesmo isto admitiam a contragosto.ma liteira por homens da terra. Afinal.

Mas o fato é que fiz uma descoberta bastante curiosa — aliás. Escreveu ele que não sabia distinguir entre tibetanos e chineses. Nada de extraordinário nisso. naturalmente. e assim se perdeu uma promissora linha de investigação. não tive muita sorte. que não demorou. O aviador que ele pôs em nocaute e por quem se fez passar morreu posteriormente. — Céus! Um dos nomes que Conway mencionou! — Sim. . foi decepcionante. embora. Foi igualmente impossível descobrir qualquer vestígio de Perrault e Henschell. — Procurou a242 . Como vê. Não encontrei nenhuma referência a um aluno de Chopin chamado Briac. embora possa ser mera coincidência. . Havia em Iena nos meados do século passado um professor alemão que saiu a correr mundo e visitou o Tibete em 1887. mas a resposta. e entre uns cinqüenta lamas que deviam viver lá só mencionou um ou dois. mas tivera como alunos cerca de cinqüenta chineses. bastante singular. — Mas é singular — disse eu. Nunca mais voltou. — E sobre Mallinson? — perguntei. porque o professor de Iena nasceu em 1845. . Conway fez muita economia de nomes. não seria preciso sair da Inglaterra para isso. Cheguei a escrever a um amigo que dirige uma escola de aviação nos Estados Unidos. mas também sem resultado. Isto de modo algum prova que toda a história seja verdadeira. Chamava-se Friedrich Meister. perguntando se nos últimos tempos tivera entre os seus alunos algum tibetano. . — Sim. Foi pena que não dispusesse de uma lista maior. que se preparavam para lutar contra os japoneses.— Fiz. — Não pôde encontrar algum rasto dos outros? — Não. isso não prove que tal aluno não existisse. e dizia-se que morrera afogado ao vadear um rio.

mas parece certo que Mallinson não logrou atingir a China. de acesso difícil como o diabo. Em todo caso. se houvéssemos permanecido mais tempo juntos. não queria dizer nada.veriguar o que foi feito dele? E aquela moça. É um estranho lugar. sem falar nos riscos de serem assaltados por bandoleiros ou traídos pelos próprios homens que os escoltavam. Em primeiro lugar. meu caro. Isto. É provável que jamais saibamos exatamente o que aconteceu. São raros os europeus que vão até lá. de terminar a narrativa de Conway no momento em que deixaram o vale na companhia dos carregadores. mas as minhas indagações em lugares como Xangai e Pequim foram pura perda. Encontrei uma população bastante educada e cortês. a chinesa? — Claro que sim. entretanto. Fiz depois uma tentativa em Tatsien-Fu. que tivessem passado a fronteira do Tibete. quanto a Conway e os seus companheiros. note bem. Não pôde ou não quis dizer o que aconteceu depois — mas talvez mo tivesse contado. uma espécie de mercado do fim do mundo. Fiz toda sorte de averiguações. voltamos aos fatos concretos quando chegamos a Chung243 . Você poderá ler acerca dessa viagem no meu próximo livro. uma vez que os lamas deviam cercar de mistério os seus métodos de importação. mas. nada de nada! — De modo que continua sem explicação a maneira como Conway alcançou Chung-Kiang? — A única conclusão a tirar é que ele foi ter lá como poderia ter ido a qualquer outra parte. e onde os cules chineses que vêm de Yunnan passam aos tibetanos os seus carregamentos de chá. Creio que podemos admitir uma tragédia. O que tornava difícil a pesquisa era o fato. que você deve ter constatado pelo manuscrito. Já as dificuldades da jornada eram simplesmente aterradoras. procurei descobrir vestígios de grandes encomendas de livros e outros objetos.

. Uma das questões que procurei esclarecer desde logo foi o modo como Conway havia chegado ao hospital — se se apresentara por si mesmo ou se. — Não se pode sujeitar um rapaz novo a três anos de forte tensão física e emocional sem que alguma coisa se rompa dentro dele. e finalmente ele continuou: — Mas há ainda um pormenor a que devo referirme. fora 244 . e devo dizer que os pratos não se inclinam convincentemente para nenhum lado. tendo sido encontrado doente. Todos fizeram o possível para me auxiliar. Muita gente há de dizer que ele saiu sem um arranhão. em muitos sentidos. pesando as palavras: — Na verdade. o mais estranho de todos.Kiang. e eu repliquei: — Como sabe. sobretudo porque naquela ocasião tinham estado muito ocupados com uma febre epidêmica. é um problema de cálculo de probabilidades. quando Conway tocou as supostas composições de Chopin. Falamos por algum tempo sobre a guerra e seus efeitos em diversas pessoas. Fez nova pausa. é inegável que mudou — respondeu Rutherford. arranhões houve — na alma. mas ouvi dizer que mudou muito. . — Sim. e também o era o espanto de Sieveking no navio. e talvez. Às freiras do hospital da missão eram bem reais. e isto já é alguma coisa. se não aceitarmos a história de Conway. não tornei a vê-lo depois da guerra. Veio-me ao conhecimento quando fazia indagações no hospital da missão. como deve supor. É claro que. como se esperasse um comentário. mas não podiam recordar muita coisa. No entanto. Rutherford fez uma pausa e depois acrescentou. teremos de pôr em dúvida — sejamos francos — a sua veracidade ou a sua sanidade mental.

. quando eu já ia desistir do interrogatório. os vôos dos alemães sobre Londres nada foram. acredite-me. na intenção de me avistar com ele. e como o doutor já houvesse deixado a missão. Foi muito polido. mas de repente. comparados com o que os nipônicos fizeram nas zonas nativas de Xangai. Não se lembravam bem — afinal de contas. 'lembro-me do caso daquele inglês que perdeu a memória. nenhuma confirmação era possível obter no momento.' " 'Lembra-se de alguma coisa a respeito dela?' "'Nada'. tanto mais que troavam os 245 . de modo que me informei sobre o seu endereço e fui até lá. 'salvo que ela também estava atacada de febre e veio a morrer quase em seguida . terrivelmente é a palavra porque. Já conhecia esse médico. com quem travara relações durante minha primeira visita a Chung-Kiang. . é claro que não estava disposto a suspender minhas investigações. por uma mulher. Foi logo depois dos reides aéreos dos japoneses e o aspecto da cidade era sinistro. Soube que esse doutor se transferira para um hospital mais importante. uma chinesa. em Xangai.trazido ali por alguma pessoa.' " 'É verdade que ele foi trazido ao hospital da missão por uma mulher?'. fazia tanto tempo! —. Eu não podia tomar o tempo do homem. tendo eu já chegado tão longe. Trouxeram um grupo de feridos e as padiolas atravancaram os corredores. pois as enfermarias já estavam repletas. Era tudo o que me podia dizer. respondeu. perguntei. sim. uma das freiras observou incidentalmente que "parecia ter ouvido do doutor que ele fora trazido por uma mulher". Mas. disse sem hesitar. "Nesse instante houve uma interrupção. "'Oh! sim'. " 'Sim. mas naquele momento estava terrivelmente ocupado — sim.

que você com certeza adivinha qual fosse. como se a narrativa o tivesse excitado tanto quanto esperava fazê-lo a mim.br 246 . Depois continuou: — O doutorzinho olhou-me por um momento com ar solene e então respondeu. nesse inglês comicamente truncado que os chineses educados usam: " 'Oh! não. Oferecimento de: www.com. advertindo-lhe que teria ainda muito que fazer. a mulher mais velha que vi até hoje. " 'E essa mulher chinesa'. disse eu. ela era muito velha.' " Permanecemos longo tempo calados e finalmente nos pusemos a falar sobre o Conway que eu conhecera outrora. sobre a pequena manchu que era "muito velha" e aquele estranho e remoto sonho do vale da Lua Azul. sobre a guerra que o alterara e sobre muitos mistérios do tempo. da idade e do espírito. juvenil.portaldocriador. só lhe fiz uma derradeira pergunta. com uma expressão animada apesar de todos aqueles horrores. — Pensa que ele virá a encontrá-lo um dia? — perguntei. talentoso e encantador. Quando voltou para junto de mim. 'era jovem?' " Rutherford sacudiu nervosamente as cinzas do charuto.canhões em Woosung.

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