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CONTRAPONTO - Pré-Tese ao 52 Congresso da UNE

CONTRAPONTO - Pré-Tese ao 52 Congresso da UNE

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Pré-Tese do CONTRAPONTO ao 52 Congresso da UNE

1. Introdução 2. Mundo 3. Brasil – país sem miséria precisa mudar a política 4. Luta contra as opressões 5. Educação e o novo PNE 6. Movimento estudantil, UNE e Nova Cultura Política 7. Assinam essa tese.

1. Introdução A juventude sonha. Deseja. Anseia por melhores condições pra viver. E não faz isso de qualquer maneira, mas sim dentro de uma realidade dura pra quem sonha, deseja e batalha pela vida. Essa realidade dura é aquela que impede uns de estudar, outros de estudar com qualidade. Que faz com que o Brasil seja a sétima maior economia do mundo, mas o terceiro colocado em desigualdade social. De um país que gasta mais de 45% do seu orçamento nacional com juros de uma dívida ilegal e imoral. No paraíso do imperialismo, do latifúndio, do agronegócio. Da depredação do meio ambiente em nome do lucro. Da concentração do poder político, dos meios de comunicação e produção cultural. É a realidade do machismo, do racismo, da homofobia, do preconceito contra indígenas, nortistas e nordestinos, e da intolerância às religiões de matriz africana. Nós, estudantes universitários, somos uma parcela dessa juventude que sonha. A nós está sendo garantido o direito de estudar, embora não em quaisquer condições: universidades públicas sucateadas, em que a pressão pela privatização é constante; universidades privadas precárias, em que a lógica do lucro impede a educação de qualidade, a participação estudantil, e a democracia. E, frente a todas estas contradições, não nos contentamos em contemplar ou nos adaptarmos às durezas da vida: queremos transformá-la. Acreditamos que, lutando, podemos mudar. No passado e no presente, grandes lutas por direitos e por mudanças profundas na sociedade foram protagonizadas pela juventude e pelo povo. É hora de fazer da universidade e do movimento estudantil um espaço de crítica e mobilização que torne possíveis essas lutas. É possível e necessário fazê-las no Brasil, conquistar uma sociedade definitivamente justa, livre e democrática. Por isso, nesse primeiro semestre de 2011, faremos o CONTRAPONTO. Disputando corações e mentes pra um projeto democrático e popular de Brasil, por uma educação crítica, popular e transformadora, e por uma nova cultura política no movimento estudantil!

Este 52o. Congresso da UNE é convocado num momento em que a entidade precisa se posicionar sobre dois grandes temas da conjuntura: a disputa do Plano Nacional de Educação da próxima década, em que educadores e população devem pressionar duramente pelos seus direitos e lutar contra o corte de 50 bi no orçamento público federal, particularmente contra os 3 bi cortados do MEC, que comprometem seriamente o financiamento da educação brasileira. Lutamos por uma UNE atenta a essas questões, com independência e radicalidade, ao contrário do que se tem visto. A direção majoritária da entidade a coloca numa relação de subordinação à agenda governamental e isso precisa mudar. Por uma UNE que esteja à altura dos sonhos, desejos e anseios por condições melhores de vida para estudantes e o povo brasileiro!

2 Mundo A suposta “nova ordem mundial”, criada a partir dos anos 90, ainda sofre com as consequências da crise de 2008/2009. Essa ordem, cuja hegemonia depende fundamentalmente do capital financeiro e dos monopólios, é frágil e reproduz crises de variadas matizes: econômica, ambiental, energética, etc. Os países do centro do capitalismo, como os Estados Unidos e os países mais ricos da Europa, não acertaram suas contas públicas. Muitos deles, como Espanha, Grécia e Portugal, recorrem ou estão prestes a recorrer ao Fundo Monetário Internacional para evitar a bancarrota. Os pacotes vêm acompanhados de ajustes sociais em nome das medidas ortodoxas de contenção de despesas: desemprego, arrocho salarial, corte de verbas para saúde, educação e assistência social. Mais uma vez, o sistema cobra a conta dos “de baixo”, privatizando os lucros e socializando as perdas. A reação da juventude nas praças da Espanha ou nas ruas da Grécia, é só o início de uma onda de conflitos que pode se arrastar por muitos meses. A saída à crise do sistema não é econômica: a saída é política, a saída é o socialismo! A solidariedade internacional se faz mais pertinente do que nunca. A UNE e todo movimento estudantil precisam se articular nos espaços internacionais dos povos, desconstruindo a cultura imperialista, promovendo a solidariedade aos povos explorados e àqueles em luta por melhores condições de vida e por democracia. 2.1 as revoltas árabes e o avanço do imperialismo Todos assistimos bastante entusiasmados à luta dos povos de países do norte da África e Oriente Médio pela derrubada dos regimes autoritários, que ali estavam presentes há décadas. Ainda é cedo para compreender integralmente o ocorrido em cada um deles, porém a inspiração democrática, o protagonismo popular e a mobilização massiva nos dão a certeza de que a região passará por mudanças históricas. Estão abertas as oportunidades de não só instaurar a democracia, mas também conquistar justiça social, econômica e cultural para o povo árabe. Além disso, mostra que mudanças geopolíticas internacionais pela esquerda estão mais vivas do que nunca! Basta ver a reação do imperialismo na ocasião, que aproveitou uma brecha na Líbia para intervir militarmente. Nós, estudantes, devemos estar atentos ao fenômeno, promovendo ações que busquem compreender as potencialidades e limites de cada revolta árabe, tais quais debates, intercâmbios e solidariedade às/aos estudantes desses países. A UNE deve apoiar as entidades estudantis que participaram dos levantes populares e defender um posicionamento do Brasil no sentido de saudar e reconhecer os novos regimes democráticos surgidos da luta, não reforçar os ataques imperialistas que a região

possa sofrer. Repudiamos, por sua vez, a intervenção da OTAN na Líbia. É uma verdadeira subserviência do Brasil, com o peso político que temos, não se opor frontalmente à proposta de intervenção internacional na ONU, além de ter a guerra declarada pelo presidente dos EUA em pleno território brasileiro! Nosso país deveria se colocar junto ao que declara a Venezuela e os países da ALBA, pela missão humanitária e eleições livres na Líbia, ante a ação do imperialismo estadunidense e europeu, que seguirá de uma prolongada intervenção na região. 2.2 intensificar as lutas na América Latina Na América Latina, um importante movimento foi constituído na última década e, não isento de contradições e limites, construiu um novo pólo político pela esquerda em países como Venezuela, Bolívia, Equador e, recentemente, Peru, com reflexos na luta política em todo continente. Porém esses processos estão diante de um momento decisivo: ou fortalecem o poder popular, radicalizando na medida de suas possibilidades o enfrentamento aos interesses da burguesia na perspectiva de uma ruptura política e econômica com a ordem burguesa, ou poderão regredir à simples condição de “governo progressistas”. Algumas decisões mostram a pressão que as “razões de Estado” têm exercido, como no episódio em que líderes da insurgência colombiana foram presos e entregues ao governo daquele país pela Venezuela. Por isso, se por um lado devemos cerrar fileiras em defesa dos processos de enfrentamento aos interesses do imperialismo na América do Sul, por outro, não podemos perder o olhar crítico capaz de perceber os limites destas experiências. Isso não significa que estes processos estão esgotados. A luta pela construção de uma nova hegemonia de trabalhadoras e trabalhadores é lenta. A Revolução Cubana, que depois de 52 anos segue forte e contando com apoio da maioria do povo, é uma expressão deste processo histórico. Ela também está ajustando-se à realidade de um mundo sob forte controle do capital financeiro e das multinacionais, buscando preservar as conquistas advindas com o socialismo. Por isso, a UNE e todo movimento estudantil devem apoiar a construção do movimento que dispute hegemonia nas regiões, lutando contra a direita reacionária e racista que sempre dominou esses países e apoiar as medidas democráticas e populares, acumulando força para a luta pelo socialismo. 2.3 solidariedade à revolução cubana Cuba segue resistindo e avançando! Década após década, o primeiro país a construir uma sociedade socialista nas américas, apesar do duro embargo econômico que sofre pela mão do governo estadounidense e de todo tipo de ataque midiático (seja pela omissão da verdade, seja pela simples proliferação da mentira), garante a milhões de cubanos condições dignas de trabalho, estudo, saúde, alimentação e moradia, ao contrário das repúblicas insulares da América Latina, que até hoje são vítimas da exploração direta do imperialismo e do capitalismo doméstico. Infelizmente, parte da esquerda se resume a atacar as contradições e insuficiências da revolução, se orientando somente do ponto de vista da crítica e não se dando ao trabalho de conhecer e defender os avanços de nossa isla grande. Acreditamos que o povo cubano que luta e sonha em manter sua sociedade humana e igualitária deve ter toda nossa solidariedade, e as críticas que devem ser realizadas constantemente, precisam ser desenvolvidas no campo da esquerda, de forma a contribuir para o avanço da revolução, que é construída cotidianamente por todas e todos os cubanos e militantes da esquerda mundial. Afinal, é só durante o desenvolvimento real do processo político que os problemas se apresentam e as soluções podem ser encontradas. A saída do líder Fidel Castro do primeiro escalão do Partido Comunista, apontou uma intenção na

renovação dos quadros dirigentes do PC Cubano. As várias mudanças da forma como a economia cubana se organiza, realizadas no mesmo período, apontam a atualidade da revolução, que não se prende a dogmas e está disposta a lidar cotidianamente com as contradições vividas por uma república socialista em um mundo capitalista - o que gerou muita polêmica no debate do movimento social mundial. Acreditamos que estas são medidas não mudaram o caráter socialista da revolução, confirmado com a realização do 6º Congresso do Partido Comunista Cubano, que contou com o envolvimento de toda a população e, por intermédio das instâncias locais do partido (CDR), debateu o futuro do país e elegeu seus representes para as etapas seguintes, que culminaram na realização do 6º Congresso e nas resoluções econômicas, sociais e políticas tiradas e/ou reafirmadas por ele. É claro que devemos estar sempre atentos ao que vem pela frente, e prontos a defender os princípios que norteiam a construção de uma nova sociedade: democracia, liberdade e justiça material. Seja em Cuba, no Brasil ou em qualquer lugar que o povo tome as rédeas do processo histórico e se disponha a lutar. 3. Brasil – país sem pobreza precisa mudar a política Entramos em 2011 com surpresas nada agradáveis sob a ótica de quem quer e luta por um país livre, justo e soberano. O atual consórcio PT/PMDB no poder, se já não cumpria o papel de ser um agente transformador profundo da sociedade brasileira no último governo, no novo parece a cada dia se posicionar mais à direita. O governo Dilma iniciou com um corte bilionário no orçamento público federal, atacando diretamente as áreas sociais. Tem recuos claros na política internacional, no Ministério da Cultura e na nomeação das velhas raposas de sempre em pastas estratégicas do governo. Nesse seu “novo estilo” de governar, a presidenta pouco dialoga com as centrais sindicais e movimentos sociais, ao tempo que abre as portas do Planalto para os empresários, políticos fisiológicos e atores do imperialismo. Fica claro pra nós que o governo não só não será protagonista de mudanças profundas na vida do povo brasileiro, como dá indícios de que pode ser um agente do atraso político, econômico e cultural. Ou seja, um verdadeiro desastre para a esquerda e os movimentos sociais. - O movimento estudantil e a UNE devem combater essas medidas de ataques à educação e aos direitos da juventude, a exemplo dos cortes orçamentários, e se mobilizar para pressionar por mudanças profundas, como a reforma agrária e urbana, a auditoria da dívida pública, entre outros.

3.1 Política econômica, social e dívida pública A chegada do presidente Lula e do PT ao poder central no Brasil, com o acúmulo de duas décadas de lutas desde o fim da ditadura, não representou o modelo de política econômica que rompesse com o aprofundamento da desigualdade social brasileira. O Estado continua não privilegiando as áreas sociais, em nome do pagamento religioso da dívida pública e do desenvolvimento apoiado nas grandes empresas capitalistas, monopolistas, agroindustriais e exportadoras de commodities. As altas taxas de juros, os empréstimos milionários do BNDES para grandes empresas nacionais e estrangeiras, o câmbio flutuante, se contraditam com o atual estado da saúde, educação e transporte públicos, garantia de moradia e demais direitos sociais. É claro que houve pequenas mudanças – e, percentualmente no orçamento público, foram pequenas mudanças. Em 2010, 635 bilhões (44,93%

de toda a arrecadação da União) foram sangrados para os cofres privados de parasitas das riquezas nacionais. A UNE e o movimento estudantil, que já se posicionaram inúmeras vezes contra modelos econômicos que privilegiavam o lucro ao invés da população pobre nacional, precisa (re)afirmar que o Brasil quer e necessita de um modelo de desenvolvimento democrático e popular!

3.2 Reforma Agrária e luta contra o agronegócio Um dos principais elementos para uma nova dinâmica de desenvolvimento nacional, com perfil popular, é quebrar o monopólio da terra. O movimento social brasileiro, desde as ligas camponesas da década de 50, até o MST de hoje, defende uma ampla mudança na forma como a terra é distribuída; concentrada em grandes propriedades e nas mãos de poucos. Essa reforma agrária já foi feita na grande maioria dos países, dentre os quais, inclusive, vários determinam limite do tamanho das propriedades rurais. As poucas famílias que conquistam seu direito e são assentadas no Brasil não contam com políticas públicas de financiamento de produção, fazendo com que boa parte acabe por vender sua terra e voltar ao desemprego. Hoje, o principal amigo do latifúndio é o crédito público, sobretudo federal. A facilidade do acesso ao crédito pelo grande produtor contrasta com o parco apoio à pequena produção, que emprega mais, polui menos e garante a maioria dos alimentos consumidos pelos brasileiros. A produção das grandes propriedades está voltada para o mercado externo, sustentando o superávit primário brasileiro. Estando boa parte dessas terras servindo a empresas estrangeiras, muito de seu lucro não é reinvestido no Brasil, pois retorna aos países de origem. Das divisas que restam ao país, já sabemos que as prioridades orçamentárias não são as áreas sociais. O Brasil apresenta altas taxas de violência no campo; a escravidão e o voto de cabresto se perpetuam. A forma como se estrutura a zona rural brasileira, negligenciada pelo Estado, mantem o coronelismo e corrobora com a cultura da “cordialidade” entre grandes proprietários e trabalhadores, que mascara a exploração. Defendemos, portanto, reforma agrária e incentivo financeiro aos pequenos produtores e produtoras, à agricultura familiar e aos assentamentos da reforma agrária, pra que garantam autonomia aos trabalhadores rurais e suas propriedades possam se modernizem sem perder seu caráter.

3.3 Questão ambiental: contra Belo Monte e as mudanças no Código Florestal O debate de meio ambiente diz respeito à preservação dos biomas, dos solos, da água e do clima para as gerações futuras, mas também traz à baila uma discussão pela esquerda, de projeto de país e modelo econômico. Pensar no futuro pressupõe pautar uma forma sustentável de produção no campo, que privilegie a agricultura familiar (responsável pela maior parte da produção interna de alimentos) ante a monocultura agroexportadora, que concentra terras, explora os trabalhadores, dizima a natureza e não se preocupa com os interesses do povo brasileiro. As propostas de mudança no Código Florestal, formuladas do pelo deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB), em conjunto com a bancada ruralista (capitaneada por Katia Abreu, senadora do PSD e presidente da Confederação Nacional da Agroindústria), são muito preocupantes. Dentre elas, estão a retirada das Áreas de Preservação Permanente (APP’s) os topos de morros, montes, montanhas e áreas com mais de 1800 metros e diminuição das faixas de mata ciliar para 15 metros (a Agência Nacional de Águas entende que a distância mínima para evitar o impacto de fertilizantes

e

agrotóxicos,

ou

o

assoreamento

de

rios

e

reservatórios,

é

de

30

metros).

O projeto, já aprovado na Câmara e em trâmite no Senado, ainda propõe a criação do Programa de Regularização Ambiental (PRA), afim de anistiar os proprietários que desmataram até 22 de julho de 2008. Desde que a possibilidade de anistia foi apresentada, em 2010, diminuiu o ritmo de averbação de terras (registro em cartório das áreas de preservação) e o desmatamento no estado do Amazonas cresceu três vezes em relação ao ano anterior. A sensação de impunidade, que sempre imperou neste setor, agora conta com a conivência do Estado. Outro questão é a descentralização administrativa ambiental, o que garante autonomia para que estados e municípios determinem os parâmetros mínimos de proteção ambiental dos seus territórios. Conhecendo a vida política no Brasil, ainda marcada pelo coronelismo, pela confusão entre o público e o privado e a lógica imperativa do poder econômico, podemos deduzir os riscos dessa “autonomia” para o meio ambiente. Vale também atentar para a recentemente discussão em torno da separação do estado do Pará. Nós, do campo Contraponto, nos posicionamos contrários ao novo código florestal. Um projeto efetivo de preservação ambiental deve se balizar pela defesa dos interesses da população, redistribuir as terras, pensar um modelo de produção no campo que atenda às necessidades da maioria, não apenas de uma elite.
A preocupação do governo brasileiro em garantir eficiência energética também passa longe de ser social; é antes produto do interesse do grande capital. No caso de Belo Monte, além de toda devastação ambiental, a população original da margem do Rio Xingu será removida de seu local de origem. A produção de energia não será voltada para a o povo pobre do pará, mas servirá à implementação de indústrias de enriquecimento de minério, altamente poluentes. É este modelo industrial predatório, que concentra riqueza o que Belo Monte representa. A situação da hidrelétrica de Jirau, em construção no Rio Madeira (Rondônia), é semelhante: mais que a destruição do entorno e expulsão da população, as recentes greves evidenciam a precariedade das condições de trabalho oferecidas na obra. A soberania energética brasileira deve servir a seu povo, e contar com um projeto inclusivo e coerente com a preservação de nosso território. 3.4 Reforma Política e ampliação da democracia A democracia no Brasil foi sempre um objeto de luta muito valioso, e muitas vezes renegado ao povo, mesmo em seu período republicano. Longe de termos um modelo acabado de democracia, precisamos alargar os espaços de participação do povo na vida do Estado brasileiro. É fundamental que a Reforma Política, atualmente posta em discussão no Congresso Nacional, seja capaz de responder aos anseios da sociedade, reparando injustiças históricas. Atualmente, apenas 8% das cadeiras da Câmara são ocupadas por mulheres. É necessário pautar a fidelidade partidária e programática, bem como voto em lista fechada, com alternância de gênero. Deve-se defender o financiamento integralmente público de campanha, restringindo o conflito de interesses populares com os do empresariado nas casas legislativas e cargos executivos, resultante das doações astronômicas de empresas a candidatos. E, sobretudo, incentivar o uso de ferramentas de democracia direta, como plebiscitos e referendos, assim como fomentar a participação popular cotidiana, criando espaços digitais de discussão e fiscalização das ações governamentais e contas públicas (e-government), garantindo estrutura de acesso e facilidade na leitura de dados e intervenção. É preciso que a UNE, junto a outras entidades do movimento social, suscite um amplo debate na sociedade e paute revogabilidade dos mandatos, uso dos instrumentos como plebiscito, referendo e

lei de iniciativa popular, rediscussão da reeleição e funções do senado, voto em lista, com alternância de gênero, entre várias outras medidas que funcionem para ampliar a democracia real em nosso país.

3.5 Saúde, SUS, hospitais universitários, Como pode o sofrimento e a morte ser fonte de lucro para a indústria de medicamentos, para conglomerados hospitalares e para empresários da saúde? Por que, enquanto ricos pagam pra ter acesso a diversos tratamentos, nosso povo sofre, ou mesmo morre, por doenças que poderiam ser evitadas? O SUS (Sistema Único de Saúde), hoje tão naturalizado em nosso cotidiano, é o fruto de décadas de lutas dos movimentos sociais, que foram acumulando forças até culminar no movimento pela Reforma Sanitária, uma proposta de transformações no sistema de saúde vigente na época. A partir dos anos 80, o movimento aglutinou diversos atores sociais que, aliados à reconfiguração política brasileira, foram conquistando espaço até cravar na nossa constituição de 1988 a saúde como direito social e dever do Estado. Entretanto, após 23 anos de existência, a prática não condiz com sua teoria. A criação de Fundações Estatais do Direito Privado (FEDP) deu-se em 2007 por meio do projeto de lei complementar (PLP) 92/07. Tal projeto propôs que as nove áreas do serviço público – entre elas a Saúde – fossem geridas por fundações privadas. De acordo com ele, as novas Fundações teriam autonomia financeira, de gestão pessoal, gerencial e orçamentária. Isto é, os recursos das fundações não transitariam pelo orçamento da União, possibilitando uma ampla liberdade para captação de recursos, terceirização de atividades, contratação e demissão de trabalhadores por regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), compra e venda de toda sorte de serviço, indiscriminadamente. Além disso, sua arrecadação pode ser usada de acordo com seus próprios critérios, sem precisar do aval do Tesouro Nacional. Essa ampla liberdade já nos faz compreender todas as denúncias envolvendo as Organizações Sociais (OS), que administram os serviços de saúde em São Paulo e em vários Estados, apresentadas na mídia ao longo das últimas semanas. Um exemplo, dentre tantos, é o da Fundação Zerbini – que administra o Incor, órgão ligado a USP e formado por professores da Faculdade de Medicina – que foi condenada a devolver ao SUS R$50 milhões utilizados de forma irregular. Mas a tentativa de privatização da saúde não para por aí: Em dezembro de 2010, próximo às festas de final de ano, o governo de São Paulo aprovou a PLC 45/10, a qual permite que 25% da capacidade de serviços de saúde de alta-complexidade e especializados sejam utilizados por planos de saúde e particulares. Isto significa a legalização da dupla porta, concedendo àqueles que podem pagar um atendimento diferenciado dentro do SUS, enquanto para a maior parte da população, sem condições de pagar pelos atendimentos, resta um serviço reduzido, com atendimento ainda mais precário e tempo de espera cada vez maior. Trata-se da venda de vagas do SUS para os planos privados de saúde, que continuarão lucrando com sua clientela sem precisar investir. E o governo federal vem na mesma dinâmica! No último dia do segundo mandato de Lula, o expresidente assinou uma medida provisória (MP520) criando a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), a qual terceiriza os serviços de saúde federal, com foco nos hospitais universitários. Mais uma tentativa do Estado de se desresponsabilizar do que, na teoria, seria seu dever, e dando margem, mais uma vez, à consolidação de um “Estado Mínimo” para a população e um “Estado Máximo” para o capital.

Neste sentido, nós, do Contraponto, defendemos a luta por um SUS público, 100% estatal, gratuito, universal e de qualidade. Contra todas as formas de privatização da rede pública de serviços: OSs, OSCIPs, Fundações Estatais de Direito Privado e Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares S.A (MP 520), etc.

3.7 Fim da criminalização da pobreza e do comércio de drogas Defender a descriminalização da maconha é buscar uma política alternativa, que respeite a soberania do individuo sobre seu corpo e assim possibilite políticas publicas adequadas no caso do uso problemático. Não precisamos aceitar a repressão e a militarização como resposta. Podemos procurar respostas mais humanas e libertárias. É preciso compreender que as drogas não são um problema em si, embora seu abuso possa ser. Em qualquer droga – inclusive as licitas, de bar, mercado ou farmácia – os efeitos dependem do uso, podendo ser benéficos, ou não. A simples proibição, além de não impedir o uso, é criadora e fortalecedora do tráfico de drogas. Sem regulamentação, quem manda no comercio é a violência, gerando lucro sem limites e sem qualidade, dado o monopólio, criando um esquema gigantesco de corrupção que envolve a policia, o judiciário e o legislativo. O proibicionismo não permite o tratamento adequado quando o uso é problemático, sequer políticas publicas mais adequadas, como redução de danos. A proibição e a guerra contra o narcotráfico faz milhares de vitimas a mais do que o mal uso dessas substâncias. No caso da maconha nem se fala: para morrer de intoxicação por THC é preciso fumar 900 baseados de uma só vez! A possibilidade de punição também é um instrumento de poder e de segregação social. No Brasil existem poucos dados disponíveis, mas nos EUA os “hispânicos” representam 20% dos usuários e 58% dos condenados. A mesma realidade se reproduz aqui, onde todas as classes sociais fumam maconha, mas quem vai preso é o jovem pobre, geralmente negro. A proibição também torna o trafico um negocio muito rentável: é uma mercadoria barata, vendida a um alto custo para cobrir o perigo. Nesse sentido o trafico é quem paga os melhores salários nas periferias, virando uma grande tentação para crianças e adolescentes, motivados também pela miséria e falta de empregos. É bom lembrar que a escolha de que drogas serão ou não permitidas possui motivações econômicas, políticas, culturais (da cultura dominante), morais, religiosas e geopolíticas. Não podemos esquecer o papel que o “combate às drogas” cumpre para o imperialismo norte americano na América Latina. Na guerra entre a policia, o trafico e o usuário o único que não esta armado é o usuário. Precisamos de uma política publica na qual, diferentemente das atuais, o usuário não seja tratado como criminoso, doente ou alguém que não tem discernimento. Devemos debater o assunto de forma ampla, democrática, sem preconceitos e buscando o respeito à vontade individual, assim estaremos em direção da resposta mais equilibrada, ou seja, a melhor resposta para essa questão – que, definitivamente, não deve ser resolvida na bala. 3.8 Levante sua voz! Direito de se comunicar Também o direito – supostamente universal – de se comunicar é monopolizado em nosso país. A mídia cumpre um papel fundamental na difusão do discurso ideológico que sustenta a hegemonia, tomando o partido político das elites e criminalizando os movimentos sociais. No Brasil, parte significativa das concessões de rádio e TV pertence a políticos. A majoritária das informações veiculadas no país seguem a linha editorial definida por não mais que onze famílias, dentre as quais Marinho, Mesquita e Sarney. Ao mesmo tempo, rádios comunitárias são duramente reprimidas pela Polícia Federal, o direito de resposta não é regulamentado e uma Lei de Meios que impeça o oligopólio (a detenção de concessões para diferentes meios por um mesmo dono), reserve uma

parcela das concessões a emissoras e rádios comunitárias e viabilize sua sustentação, não encontra espaço nas pautas de votação do Congresso Nacional. A democratização dos meios de comunicação faz-se necessária para que haja uma Reforma Política em favor do povo brasileiro, e que combata as oligarquias. As redes sociais mostraram-se uma ferramenta de comunicação importante, sendo pivô da articulação da juventude desde as Revoltas Árabes até as manifestações na Europa, passando pelos protestos contra o aumento das tarifas de ônibus e Marchas da Liberdade pelo Brasil. Pensar em democratizar os meios de comunicação hoje perpassa ampliar o acesso da população a internet e empoderá-la, para que ocupem os espaços da rede, produzindo e compartilhando conteúdo, ao invés de tornarem-se meros receptores de informação. O Plano Nacional de Banda Larga, proposto pelo governo Dilma, não se apresenta como uma medida efetiva no sentido de garantir acesso a internet de qualidade, a preços adequados à realidade brasileira, por todo o território, pois desresponsabiliza o Estado e delega a tarefa ao setor privado, para que ofereça o serviço de acordo com sua conveniência. As larguras de banda propostas pelas companhias são restritas (limite de download mensal 300MB – o que dá menos de um filme – para o plano mais “barato”) e não permitem conexão veloz, nem taxas de envio/recebimento de dados altas, dificultando a troca de mídias. A Telebrás é relegada ao papel de simples competidora no mercado de internet, ao invés de regular os preços, exigir melhoras na banda e fiscalizar as empresas; à ANATEL, por sua vez, cabe multar vizinhos que compartilhem redes wireless. É preciso que sejam garantidas políticas públicas de inclusão digital, preocupando-se com a capacitação dos usuários, criação de pontos de acesso, investimento em produção tecnológica nacional a baixos custos, para que a internet sirva como ferramenta de comunicação e participação popular nas instâncias democráticas, do chamado governo digital. Recentemente, a ONU declarou a Internet como um Direito Humano, reconhecendo seu papel em garantir espaço de comunicação e difusão de informações alternativas aos veículos tradicionais, bem como na democratização do acesso à cultura. A retirada da licença Creative Commons (que permite legalmente o compartilhamento do conteúdo) do site do Ministério da Cultura, em janeiro, e a decisão da ministra Ana de Hollanda de re-reformular a Lei de Direitos Autorais (ignorando a discussão da sociedade civil e movimentos de cultura e software livre ao longo dos últimos 8 anos), apontam para uma política cultural elitista, avessa ao compartilhamento de conteúdos, que protege a indústria cultural ante o incentivo a novos artistas e sua remuneração digna. Vimos no final do ano passado o site WikiLeaks ser retirado do ar após divulgar documentos que constrangiam o governo dos Estados Unidos. Neste ano, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, chamou o e-G8 (fórum do G8 sobre governo digital), no qual foi pautada a vigilância das redes pelos governos e punições severas a usuários que compartilhem material copyright (não custa lembrar o quanto a "pirataria de rua" já é utilizada para criminalizar a pobreza). É imprescindível que se garanta a neutralidade da rede e a liberdade de expressão, o não-controle dos governos e empresas sobre a internet e que esta sirva ao seu papel de mídia autônoma e disseminação de bens culturais.

3.9 Direito às cidades! Recentemente vimos em São Paulo a elite moradora de Higienópolis barrar a construção de um metrô no interior do bairro, argumentando que traria “gente diferenciada” para a localidade. A geografia das cidades e do campo, dentro de um país capitalista, se molda à divisão do trabalho e dos lucros, funcionando como elemento segregador e exclusivo. Sobretudo nas cidades, localização da moradia, transporte, direito ao emprego, entre vários outros, são instrumentos nas mãos dos que

definem os planos diretores e executam a política urbana. Esses são valores que ensejam disputa política, pela ampla liberdade e direito à cidade. Nas cidades que vão receber eventos internacionais, como a Copa do Mundo, vemos toda sua geografia sendo reconstruída através das “revitalizações”, submetendo os bens públicos aos interesses privados. Assim como no Pan no Rio de Janeiro, deixarão um legado de prejuízo aos cofres públicos e nenhum equipamento esportivo a serviço do povo. As obras visam modificar a atual (des)organização urbana e preparar-se para receber turistas, ao passo em que afastam ainda mais a população pobre, já marginalizada, dos centros urbanos, restringindo seu direito de ir e vir. Os “benefícios” gerados para esses homens, mulheres e crianças excluídos são os subempregos e contratos temporários (e precários) na construção civil, além da prostituição, fomentada pelos megaeventos. A tal “gente diferenciada” deve sim ter o mesmo acesso aos bens culturais e materiais das elites! Aos estudantes e à UNE, cabe lutar sempre pela ampla liberdade e contra o monopólio das benfeitorias públicas! 3.10 Transporte público e gratuito para todos! Desde o fim do ano passado, até meados desse primeiro semestre, vivemos em todo país diversas mobilizações contra o aumento mais uma vez abusivo das tarifas de transporte coletivo. Milhares de pessoas, principalmente estudantes, foram às ruas se manifestar pela necessidade imediata de revisão nas planilhas de custos do transporte e pelo direito de ir e vir. Segundo o IBGE, transporte é a terceira maior fonte de despesas no orçamento familiar em todas as regiões do país, pesando sobretudo no orçamento de quem ganha pouco – parcela bastante expressiva da população. O transporte público é condição necessária para o exercício do direito de ir e vir, em particular nas grandes metrópoles, onde mais de 70% da população depende desse serviço para seu deslocamento. Desde a implantação do Plano Real, as prefeituras, em conluio com as empresas transportadoras, vêm aplicando sucessivos aumentos, muito acima da inflação e correção salarial de trabalhadoras e trabalhadores, sobre as tarifas do transporte público. Os aumentos tarifários são apenas um sintoma da crise pela qual vem passando o transporte público. Como o transporte coletivo urbano exige enorme investimento em infraestrutura, este setor passa a ser objeto de exploração econômica por uma fração muito reduzida de empresários com altíssimo capital acumulado. A monopolização do setor por poucas empresas faz das prefeituras e do povo reféns dos empresários, que elevam os preços das tarifas, sabendo que a população não tem outra opção para se locomover e chegar ao trabalho, num processo que ou abocanha fatia crescente do orçamento familiar ou simplesmente exclui cada vez mais pessoas do acesso ao transporte coletivo urbano. 14% da população de São Paulo não utiliza o transporte coletivo por não ter condições de arcar com os custos. Nos últimos anos, os estudantes vêm se organizando e lutando contra os aumentos, pela redução das tarifas e pela desmercantilização do setor. Se efetivado, o direito de passe-livre a todas e todos os estudantes causará um impacto enorme na renda das famílias mais pobres. Essa luta deve ter como foco a universalização do transporte público e gratuito, pois apenas a estatização do setor garantirá de fato uma política de transporte realmente voltada para os interesses da população. 4 Opressões: por uma UNE intolerante com a intolerância!

A discriminação no Brasil é étnica, sexual, social e regional. Um movimento estudantil que se contraponha ao atual estado de coisas também deve se debruçar sobre as práticas de intolerância às minorias e maiorias oprimidas e combatê-las! Educar, corrigir e reprimir todas as manifestações homofóbicas, machistas, racistas, etnocêntricas contra indígenas, bem como a discriminação do eixo rico do Brasil, Sul-Sudeste, à população do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Evidenciar a opressão que é invisibilizada, afirmando que a democracia racial brasileira é uma farsa, que o machismo persiste hoje negando sua própria existência, e valorizar o papel de todas e todos os trabalhadores, de todas as regiões do país, migrantes ou não, na construção das riquezas nacionais, as quais não puderam usufruir. Se posicionar contra manifestações por pessoas públicas, como no caso recente do deputado-fascista Bolsonaro (PP/RJ), cobrando a destituição de seus cargos públicos. E, principalmente, não conviver com manifestações opressoras dentro do próprio movimento, já que não está isento de reproduzilas! Racismo A questão racial é central e estratégica em qualquer projeto de transformação da Universidade e do Brasil. No processo histórico de formação do Estado brasileiro, negras e negros, antes escravos, depois pobres, sempre estiveram à margem, cumprindo o papel de produzir mais valia para as elites nacionais na base de sustentação da ordem capitalista. Em pleno século XXI, mesmo com todos os avanços conquistados pelo movimento negro, apesar de negras e negros constituírem maioria da população (dado confirmado pelo último censo) a juventude negra ainda tem dificuldade de acessar esse espaço de profissionalização, produção de conhecimento e empoderamento que é a Universidade. Os programas de expansão das vagas e do acesso ao ensino universitário no Brasil vêm se dando numa lógica racista. O PROUNI insere jovens pobres e negros nas faculdades particulares, sem garantia de educação de qualidade, do tripé ensino-pesquisa-extensão e sem condições de permanência. Ou seja, uma educação pobre para pobres. Enquanto isso, o governo faz acordo com o DEM e retira as cotas raciais e sociais do estatuto da igualdade racial. O DEM, por sua vez, entra com ADIN (Ação Direta de Inconstitucionalidade) no Supremo Tribunal Federal para derrubar as cotas nas Universidades que já aprovaram o sistema, apesar da ausência da Lei. Todos cumprindo seu papel num sistema de exclusão perversa. Muito, para elite racista e capitalista do Brasil, sempre é pouco. O REUNI, iniciado em 2007, surgiu sob o pretexto de expandir as vagas no ensino superior público, repetindo na prática a tragédia que se deu no ensino básico. Aumentou-se o contingente de estudantes nas Universidades Federais, mas não foi garantida estrutura e condições de trabalho aos profissionais da educação, resultando num quadro alarmante de precarização nas IFES. O funil transferiu-se do Vestibular para as seleções de mestrado e doutorado. Enquanto não for possível incluir a população pobre e negra no ensino superior, com garantia de qualidade e permanência estudantil, não poderemos sonhar com a construção de uma Universidade efetivamente popular, nem com transformação do sistema capitalista que nos divide, explora e exclui. Propomos:  Mudança dos currículos eurocêntricos para construir uma Universidade com a cara do nosso povo!  Fim do vestibular ou de qualquer instrumento de seleção meritocrática ao ensino superior;  Encerramento do PROUNI, com a transferência das e dos estudantes para as universidades públicas;

 Investimento dos recursos das isenções do PROUNI na educação pública e gratuita. Chega de salvar os tubarões do ensino privado!  Aprovação imediata no Congresso Nacional de uma Lei que garanta o sistema de cotas em todas as Universidades Brasileiras;  Expansão com qualidade, valorização dos profissionais da educação e garantia de recursos para a estrutura das instituições e assistência estudantil com recorte racial. Machismo O machismo em nossa sociedade se perpetua hoje de forma bastante dinâmica quando nega sua própria existência. Na época de nossas avós, quando se afirmava friamente que “lugar de mulher é atrás do fogão”, o machismo ficava mais evidente e, por outro lado, as mulheres se revoltavam mais facilmente contra sua condição. Com a entrada da mulher no mercado de trabalho – a mulher branca, dado que as negras sempre trabalharam –, o discurso dominante passa a ser o de que o machismo não existe mais, maneira muito eficaz de manter as condições desiguais entre homens e mulheres. Nessa conjuntura, as feministas precisam reafirmar que a desigualdade existe e que deve ser combatida no seio da sociedade e em todas suas instituições. Nenhum partido, movimento ou entidade está livre da reprodução do machismo. Ele existe em todos os lugares e muitas vezes é invisibilizado. O Governo Lula foi eleito com grandes expectativas por parte de todas e todos que construíram durante anos uma alternativa de esquerda democrática para o país. Porém, o que se viu foi o ataque direto às conquistas históricas de trabalhadoras e trabalhadores, evidente desde a Reforma da Previdência. Nesses 8 anos, a economia foi marcada pela continuidade do modelo vigente na Era FHC: concentrador de renda com privilégios ao capital financeiro. No campo político, é necessário destacar aliança com os setores mais fisiológicos, ou seja, a banda podre da política nacional, aqueles que sempre foram nossos inimigos e não aliados. Para o Movimento Feminista, Lula também não foi um aliado, muito pelo contrário. No terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3), vetou exatamente a parte que versava sobre nossa pauta – o direito reprodutivo, bandeira histórica das feministas e da esquerda em geral. O ex-presidente também assinou um acordo binacional com o Vaticano que coloca o ensino religioso nas escolas, além de entender o aborto como crime hediondo, O detalhe é que, sendo um acordo binacional, só é possível revogação com comum acordo dos dois países. É importante reconhecer avanços como a Lei Maria da Penha. Uma vitória no combate à violência contra a mulher, mas que ainda tem uma grande dificuldade de implementação real, dado que não existe investimento adequado em casas de acolhimento às mulheres que sofrem violência doméstica ou outras medidas. Ter uma mulher no posto de maior importância na nossa nação, a presidência da república, é muito relevante no imaginário de nossas mulheres, às quais sempre foi renegado a política e o espaço público – inclusive ainda hoje, dentre os 513 parlamentares brasileiros, apenas 45 são mulheres, ou seja, 8% do total. No entanto, é preciso reafirmar que não basta ser mulher. Dilma, já na campanha eleitoral, cedeu à pressão de grupos religiosos na temática do aborto. Nesses primeiros messes de mandato, o governo já mostrou a que veio. Sob as falsas justificativas do controle da inflação e das contas públicas (pauta imposta pelos interesses do setor financeiro), aumentou os juros, congelou as contratações públicas e cortou cerca de 50 bilhões em investimentos. Outra postura bastante nociva para o país foi a posição do governo sobre o salário mínimo – que afeta principalmente as mulheres – cujo aumento foi de apenas 6,86%, subindo de R$510 para R$545, enquanto o salário dos parlamentares subiu 61,8%, passando de R$16,5 mil para 26,7 mil.

É fundamental que a UNE se posicione de maneira crítica às medidas do governo Dilma e em favor das mulheres! Os espaços auto-organizados da entidade, como o EME, precisam ser reconhecidos enquanto espaços deliberativos autônomos e fortalecidos. Sem feminismo não há socialismo! Sem socialismo não há feminismo! Homofobia A universidade brasileira tem se constituído como um espaço de reafirmação da desigualdade e discriminação contra cidadãs e cidadãos LGBT, instituídas na sociedade capitalista. A UNE precisa defender uma mudança efetiva nos rumos da educação brasileira no que tange o combate à homofobia no espaço educacional. A luta pelos direitos LGBT tem tomado rumos determinantes para a problematização de qual sociedade queremos construir. Se até o ano passado essa pauta era vista por setores da esquerda como uma questão específica, hoje nos mostra que essa luta ultrapassa a simples reivindicação de direitos, fazendo-nos compreender a real necessidade de defesa do Estado Laico. O segundo turno das eleições presidenciais de 2010 foi marcado por um tom homofóbico. As posturas assumidas pelos então candidatos compactuaram com o mesmo discurso ideológico que motivou violentas agressões, como as ocorridas no entorno da Avenida Paulista, em São Paulo. A pressão escandalosa da bancada evangélica do Congresso sobre o governo federal, que resultou no veto da Presidenta Dilma ao Kit Escola sem homofobia, evidencia o avanço de setores conservadores e recuo cada vez maior da política do PT, abandonando suas bandeiras históricas e o lado do povo. Mostra-nos a necessidade de encamparmos como nossa bandeira a luta pelos direitos LGBT. Os ataques feitos por fundamentalistas religiosos e por grupos de extermínio aos direitos LGBT evidenciam um projeto de sociedade comprometida com uma moral religiosa excludente, sem compromisso com Direitos Humanos igualitários a todas e todos, cujos valores são pilares de sustentação da sociedade capitalista. Esses ataques são direcionados aos direitos das mulheres, da população negra e das LGBT. Contudo, quem paga por toda essa violação de direitos não são apenas as mulheres, negros ou LGBT, mas toda sociedade. Por isso, é fundamental que a juventude estudantil se comprometa com a defesa irrestrita e incansável dos Direitos Humanos e, entre eles, dos Direitos à população LGBT. O Campo Contraponto conclama a todos os Centro Acadêmicos, Diretórios Acadêmicos, Diretórios Centrais dos Estudantes a encamparem a luta contra homofobia como um dos temas principais nas Universidades em todo o Brasil. É importante também que toda a oposição de esquerda na UNE e demais setores do movimento, comprometidos com a luta contra as opressões, cobrem da Direção Majoritária a realização e convocação do I Encontro Nacional LGBT da UNE como pauta prioritária da próxima gestão, afim de definirmos políticas substanciais no combate à Homofobia. Também a UNE deve promover a mobilização nacional para garantir que tod@s estudantes participem do 9º Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual - ENUDS que acontecerá em Salvador - Bahia de 11 a 15 de novembro de 2011. A juventude estudantil deve superar a consciência de categoria que nos limita a importar-nos apenas com aquilo que nos atinge diretamente, para uma verdadeira consciência de classe, entendendo que a violação de qualquer direito nos atinge diretamente. Independentemente de sermos lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis ou heterossexuais, a defesa dos direitos humanos da população LGBT é a defesa dos direitos de todas e todos! 5 Educação - A construção da Universidade Brasileira Em cada canto do Brasil, nos deparamos com realidades desiguais também quando pensamos em

termos de educação, principalmente educação superior. As realidades são ainda mais discrepantes na comparação entre universidades Pública e Privada. Nós, estudantes, almejamos uma Universidade do tamanho dos nossos sonhos. E os fatos estão bem distantes de nossos sonhos: salas super lotadas, falta de moradia estudantil, restaurantes universitários insuficientes (quando não muito, inexistentes), corte de verbas para educação, suspensão de concursos públicos. Para suprimir essa realidade injusta, lutamos para construir uma outra concepção de Universidade e um outro movimento estudantil. A Universidade pode cumprir vários papéis na nossa sociedade: ser uma mera reprodutora das relações sociais atualmente hegemônicas, produzindo conhecimento para o mercado sob uma política excludente, produtivista, machista, racista e homofóbica; ou ser um espaço de produção de conhecimento crítico, que questione o estado atual das coisas, servindo como ferramenta para transformação das condições subjetivas e materiais do povo brasileiro. 5.1 Universidade democrática e popular A Universidade pode e deve ser pensada dentro de um projeto alternativo de sociedade, transformada num espaço de livre-pensamento, crítico, socialmente referenciado e democrático, no qual a construção do conhecimento se dê de maneira livre, coletiva e não-opressora. Para construir essa universidade, são necessárias mudanças imediatas e outras mais profundas, que somente com um projeto consistente, formulado por estudantes, profissionais da educação, e por aquelas e aqueles que almejam uma educação e uma sociedade de outro tipo, e luta poderá ser alcançado. Defendemos que a educação sirva enquanto um instrumento de libertação e não de alienação, que estudantes se vejam como sujeitos ativos de sua construção e não negligenciem suas raízes e vivências. Queremos construir um projeto democrático-popular de Universidade que tenha a cara e a cor do povo! Como anda a política educacional pro ensino superior? O ensino superior no Brasil, historicamente, foi restrito a uma pequena parcela da população. Em geral, àquelas que tiveram acesso a escolas elitizadas, de matriz eurocêntrica e branca. A educação, para ser um direito de todas e todos, no lugar de privilégio para alguns poucos, deve ser garantida pelo Estado. Nesse sentido, deve-se investir na educação pública, pois é a única forma de garantir o acesso universal a um ensino de qualidade, gratuito, laico e popular. Sabemos que é uma tarefa muito difícil, que só com muita mobilização e uma postura combativa e autônoma do movimento estudantil e da UNE poderá ser revertida. A esmagadora maioria das matrículas em instituições de ensino superior, em torno de 75%, são em instituições privadas. Esse número se deve principalmente à estagnação do crescimento das vagas em públicas e ao incentivo que as privadas sofreram durante o Governo FHC, aliado à desregulamentação, para suprir a demanda por vagas no ensino superior, ao invés de se investir na expansão das universidades públicas. A desregulamentação permitiu que fossem abertos cursos de qualidade questionável, deixando milhões de estudantes em situação desfavorável quanto à sua formação acadêmica. Durante o Governo Lula, além de não haver a regulamentação, ainda foram criados mecanismos de fomento à iniciativa privada, como o PROUNI. São ofertadas vagas em instituições privadas em troca de incentivos fiscais, garantindo lucros exorbitantes aos seus donos e deixando de arrecadar verbas que poderiam ser investidas na própria Universidade Pública, garantindo acesso destes estudantes a um ensino de qualidade. Em muitos casos, essas instituições são de qualidade duvidosa, não possuem biblioteca ou laboratórios e não realizam atividades de pesquisa e extensão,

sendo o processo educativo restrito às salas de aula. Para as Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), foi criado o REUNI, que propunha a dobrar a quantidade de alunos e, em contrapartida, aumentar somente em 20% o aporte de verbas. Na prática, isso significa o desmonte do tripé Ensino-Pesquisa-Extensão, já que os docentes precisaram dedicar menos tempo a pesquisa e extensão para se dedicarem às aulas de novas turmas. O banco de horas de professores (que estipula contração de novos profissionais mediante expansão da oferta de vagas) não é cumprido, sequer levado em conta que muitos cursos já tinham defasagem de professores. A atual direção majoritária da UNE, em consonância com o Governo, se posicionou a favor de tal medida, que coloca atualmente as instituições e milhões de estudantes em situação precária de estudo. Para almejar uma universidade democrática e popular, a UNE deve lutar por um outro modelo de expansão do ensino público, com investimentos necessários para manter a qualidade e assegurar políticas de assistência estudantil, possibilitando que as e os estudantes consigam ter acesso e concluir o curso escolhido.

Acesso à Universidade: por uma Universidade com as cores do povo Apenas 17% dos jovens entre 18 e 24 anos encontram-se na Universidade; índice muito a abaixo de outros países da América Latina, que atingem até 40%. O vestibular, além de um processo penoso e traumático para muitos estudantes, não avalia de fato quem está mais apto para o ambiente acadêmico e corrobora com a máfia de cursinhos que simplesmente “adestram” alunas e alunos para realizarem uma prova. Se formos analisar por um viés étnico-racial os números são muito mais alarmantes: apenas 5% dos universitários são negros, o que é uma contradição indisfarçável num país em que 51% da população se declara negra. Podemos destacar que a população afro-descendente e indígena é submetida à exploração econômica da elite racista dominante, que se reflete em desemprego, violência, extermínio, ausência de acesso aos direitos universais como saúde, educação e cultura. Negros e indígenas são relegados ao status de sub-cidadãos. Além disso, o racismo que perpassa as relações sociais promove a baixa autoestima de negros e indígenas, gerando perspectivas aquém de suas capacidades. Há de se levar em conta também a seletividade do vestibular, que privilegia conhecimentos conteudistas e etnocêntricos, beneficiando somente ao segmento étnico branco pertencente às classes dominantes. Não podemos tratar desiguais de forma “igual”, uma vez que tal medida só perpetuaria a desigualdade. É necessária a adoção de ações afirmativas como forma de alterar este quadro e reparar injustiças históricas. Por isso, defendemos as cotas sociais (que abarquem alunos de família pobre e oriundos da escola pública) e étnicas para negros e indígenas, para garantir acesso destes segmentos historicamente excluídos como pressuposto fundamental para uma universidade popular e plural. Essa luta tem como meta o livre acesso ao ensino superior. No fundo, a reserva de vagas se faz necessária até termos um percentual que atenda toda demanda por vagas na rede pública de ensino, e universalizarmos o direito a essa etapa da construção do conhecimento. Democracia na educação superior Como espaço em tese autônomo e político por excelência, a Universidade tem seus próprios fóruns deliberativos e formas de sua comunidade se organizar. Estes fóruns, contudo, carecem de

democracia e paridade entre os segmentos da comunidade acadêmica. Estudantes e funcionárias/os são minoria absoluta nos conselhos e câmaras, e muitas vezes contam com tempo de fala restrito nesses espaços. Entre o corpo docente, a estrutura de poder baseada na meritocracia e produtivismo privilegia uma casta de burocratas, ante professoras e professores que estão cotidianamente nas salas de aula. Além disso, sobretudo nas instituições privadas, o direito das trabalhadoras e trabalhadores de se sindicalizar, bem como de estudantes montarem as entidades representativas e fazerem movimento estudantil, é cerceado e reprimido com ameaça de punição pela direção das instituições. As universidades públicas e privadas devem garantir ampla possibilidade de organização de seus estudantes e trabalhadores, sendo responsabilizados os dirigentes que não o respeitarem. Em suas relações internas, amplo direito da sua comunidade em debater seus rumos, com Conselhos Universitários paritários e eleições diretas para Reitor. Por um projeto popular de educação, por um projeto de educação popular A identidade deste nosso projeto de educação é popular. Tem recorte de classe, e visa beneficiar os que vivem do próprio trabalho. Tem cor, tem raça, tem gênero, orientação sexual, regionalidades, latino-americanidade. E se constrói no debate e na luta, sem perder a ternura. Defendemos um projeto popular de educação, que vise universalizar o direito ao conhecimento, elevar a qualidade desse direito, garantir sua laicidade e pluralidade. Garantir desde já acesso, permanência, cotas sociais e raciais, indissociabilidade do tripé ensino, pesquisa, e extensão, autonomia das instituições de ensino, financiamento público integral e funcionamento democrático e paritário. Deve ser um projeto de educação popular: em sua própria constituição, deve ter a identidade do povo, valorizar seus saberes. Deve combater as discriminações e opressões, defender a vida e a proteção do meio ambiente. Produzir ciência afim de superar os desafios e contradições sociais, em lugar de ignorá-las ou aprofundá-las. Uma educação emancipatória, que não veja os educandos como meros receptáculos de conhecimento pré-fabricado à moda do mercado, mas enquanto sujeitos políticos.

5.3 Plano Nacional de Educação e a educação nos próximos 10 anos A principal disputa por uma educação à altura das necessidades do povo brasileiro este ano se dará no debate em torno do Plano Nacional de Educação, atualmente em trâmite no Congresso Nacional, através do Projeto de Lei (PL) n. 8520/2011. O PNE (Plano Nacional de Educação) é o conjunto de ações governamentais no sentido de direcionar a educação do país num prazo de dez anos. O último, que esteve em vigor de 2001 a 2010, foi aprovado após duras disputas: apresentado enquanto PNE - Proposta da Sociedade Brasileira – documento elaborado a partir dos Congressos Nacionais de Educação (CONEDs) ocorridos nos anos 1990, e que analisaram e formularam profundamente a situação da educação e produziram um projeto representativo dos melhores anseios das mais diversas entidades e movimentos sociais brasileiros no sentido de dar à Educação lugar central na agenda do Estado. As propostas da sociedade civil iam no sentido de dar à Educação papel de transformadora estrutural da nossa realidade, reivindicando assim que pelo menos 10% do PIB fosse investido em Educação Pública e que houvesse reformulações curriculares e didáticas, capazes de fazer da Escola e da Universidade lugares de inclusão e fortalecimento de uma perspectiva de radicalização da

democracia, na perspectiva de fortalecer aquelas e aqueles “de baixo”. Tal documento, ao ser enviado para o Congresso, foi alvo de severa disputa pelos setores conservadores e sofreu severos cortes. Ao invés dos 10%, foi aprovado que apenas 7% do PIB seriam direcionados para Educação. Não satisfeito, o governo FHC vetou esse valor – veto este mantido pelo Governo Lula, que justamente tinha como programa derrubá-lo logo nos 100 primeiro dias, mantendo o ajuste fiscal, e não implementando nem um terço das metas. Muita água rolou e eis que agora é colocado em pauta o novo PNE – 2011-2020. Na última Conferência Nacional de Educação, que teve participação de amplos setores da sociedade – desde sindicatos, até movimentos de luta pela terra, passando pela UNE e militantes do movimento educacional, mas também setores empresariais da educação básica e superior –, mesmo com muitas contradições e defeitos, foram reafirmados vários pontos em defesa da Escola Pública e que são bandeiras históricas daquelas e daqueles que sonham e lutam por uma sociedade igualitária. Esteve em pauta novamente a reivindicação pelos 10% do PIB para a Educação e, como uma das formas de alcançar este nível, a proposta de destinação de 50% do fundo social do Pré-Sal para o setor. Porém, o PL enviado à Câmara pelo MEC nos últimos dias de governo Lula foi pouco fiel ao texto final da conferência. Apresenta vários recuos em relação a questões fundamentais e medidas com caráter privatista, que não servem à perspectiva da educação pública como elemento estratégico para um país justo, livre e soberano. Em destaque, os 10% do PIB aprovado na CONAE voltaram aos fatídicos 7%. A principal tarefa nacional do movimento estudantil em 2011 é fazer a luta por um Plano Nacional de Educação 2011-2020 democrático e popular. Constituir a educação como objeto de projeto de Estado Nacional brasileiro, para além de gestões de governo, como um bem público e não mercadoria. Os setores mais retrógrados da sociedade já começaram a mexer seus pauzinhos através do lobby que tem no congresso para fortalecer ainda mais a mercantilização da educação. As e os estudantes precisam protagonizar a força que pressione o congresso para garantir o financiamento público em educação, dentre outras mudanças no projeto de lei em favor do povo brasileiro! 5.4 10% do PIB pra educação – luta central em 2011 Quando aprovado o último PNE, o então presidente Fernando Henrique não se preocupou em vetar todo o projeto e seus pontos progressistas, mas apenas aquelas metas que induziam investimentos públicos na área, desmontando assim todo o projeto. Apesar de financiamento não ser o único item importante ao planejar a educação, é central, pois viabiliza qualquer outro ponto. Um plano nacional de educação como aprovado pela CONAE custaria 10% do PIB. Hoje, contamos com a destinação de aproximadamente 5% do PIB para a educação, e não integralmente público. Conforme descrito no documento final da Conferência, apenas para implementar o piso nacional de professoras e professores e equiparar seu salário (que hoje é 70% menor que o de outras categoriais com o mesmo índice de escolaridade), seria necessário cerca de 2% do PIB. Para ampliar o atendimento da educação infantil, o gasto seria da ordem de 30 bilhões; mais 1%. Expandir a educação superior e oferecer mais 7 milhões de matrículas, cerca de 66 bilhões, ou mais 2%. Oferecer ensino técnico profissionalizante e integral a 50% das escolas de ensino médio, EJA, entre outras coisas, consumiria algo em torno de mais 1% do PIB. Portanto, o patamar orçamentário em que nos encontramos hoje não passa do essencial.

Aumentar a verba da educação brasileira para 10% do PIB significa priorizar o investimento no povo brasileiro, em detrimento do pagamento de juros da dívida pública nunca auditada, que hoje estrangula o orçamento nacional, vertendo mais de 45%. É necessário o fim do superávit primário, que não se concretizará sem que haja auditoria da dívida pública, e questionar esse gargalo do desenvolvimento brasileiro, afim de fazer crescer a fatia do orçamento destinada às áreas sociais. Plebiscito Popular O ANDES-SN, inúmeros DCEs, coletivos estudantis e movimentos sociais preparam para o segundo semestre de 2011 um plebiscito popular nacional em torno da questão dos 10% do PIB para a educação, convidando toda população a se manifestar por mais verbas para a educação pública. Demais emendas importantes do PNE Além do financiamento com base no PIB, um importante instrumento para viabilizar o financiamento da educação é o Custo Aluno-Qualidade (CAQ), que esteve em todo debate da CONAE, mas praticamente “sumiu” do projeto de lei. Esse valor indica quanto se deve investir por aluno pra se ter educação de qualidade, com base nos gastos gerais. Precisamos recolocá-lo no Plano. Uma questão também é permear o projeto com prazos intermediários, que dêem conta de avaliar periodicamente se o plano está sendo adequadamente aplicado. Outras emendas importantes: a previsão da regulamentação do ensino privado, principalmente o superior; democratizar as escolas, colocando eleições diretas para diretores; limitar o atual patamar do ensino à distancia, regulamentando-o; dizer não ao PRONATEC e sim ao aumento da rede pública de ensino técnico; e expansão da universidades federais não lastreadas nas metas do REUNI. 6 Movimento estudantil, UNE e Nova Cultura Política - Oposição na UNE! O Congresso da UNE é uma oportunidade de organizar, formular e propor ao conjunto das e dos estudantes universitários de todo Brasil um projeto político e testá-lo. Nós, do CONTRAPONTO, faremos através da crítica às atuais decisões da direção majoritária da UNE a proposta do caminho que achamos que a maior entidade do movimento estudantil brasileiro deve seguir para mobilizar sua base e conquistar vitórias profundas. Hoje, infelizmente, a UNE ao invés de lutar com radicalidade por um projeto popular de educação e de Brasil, reproduz o senso comum. Não discute a crise em que os movimentos sociais (inclusive o estudantil) se encontram e não discute o modelo econômico e as opções do governo, que retiram recursos da educação para garantir o superávit primário e o pagamento da dívida pública. Muitas vezes os seus fóruns são despolitizados e crivados por irregularidades. Não se democratiza, sendo seus encontros e congressos pouco permeáveis para que o “estudante comum”, não organizado em nenhuma força ou coletivo, coloque suas opiniões. Uma entidade, enfim, distante das e dos estudantes. Por acreditar que uma UNE democrática, ousada, autônoma, radical e combativa é possível, fazemos OPOSIÇÃO à direção majoritária. Afirmando que a UNE é sim de todas e todos os estudantes, lutar pra aproximar a entidade da sua base e, com isso, reconstruir o movimento estudantil nacional. Nova Cultura Política Acreditamos que o movimento estudantil deva ser enxergado como movimento social, cujo objetivo

essencial é a defesa da educação pública. Para que isso se verifique na política concreta de nosso país, é necessário que o ME seja de massas. Ou seja, que agreguem no curso da luta pela democratização radical da educação brasileira milhares de pessoas, além de se articular com outros setores da sociedade que aspiram a mudanças sociais profundas. No momento, porém, o ME se encontra com baixa participação e ampla fragmentação, que identificamos como sintomas de uma crise do movimento – crise esta que tem como principais causas, para nós, o atual estágio de desenvolvimento social da educação no Brasil e fatores externos ao ME, relativos à vida política nacional e ao atual vácuo de uma força política que organize o ativismo emancipador na sociedade. Seria, pois, parte significante da superação dessa crise uma nova relação pedagógica dentro do próprio ME, além de entre nós e a sociedade. Para se tornar uma força contra-hegêmonica ativa no processo de alteração das prioridades educacionais do Estado brasileiro, o ME deveria alterar então, dentro de sua própria organização, a cultura política existente, advinda de nossa sociedade. Contestar os valores hegemônicos que hoje ditam nossas relações cotidianas, princípios e práticas incoerentes com a ideia de emancipação. Essa nova relação entende-se por valorizar ao máximo a formulação política coletiva, para a qual é necessário criar um forte espírito interno de fraternidade, transparência e estabelecer a democracia como base fundadora de nossas relações. Alcançaríamos assim uma etapa superior da força que o ME pode gerar, relacionando dialeticamente tática e estratégia, prática política e “programa” (entendido como objetivos principais e outras tarefas), meios e fins, conseguindo uma atuação transformadora. Implementar e consolidar uma nova cultura política, contudo, será uma tarefa extremamente árdua e trabalhosa. Uma atividade incessante de crítica e autocrítica, de produzir e re-produzir nossa cultura, configurando uma educação política dialética no ME entre mais ativos e menos ativos; entre ME e sociedade. Esse processo busca mudar a concepção das e dos estudantes sobre seu próprio poder enquanto sujeito histórico, para que criemos, em nossa união, a força verdadeiramente capaz de transformar o real estado de coisas, contribuindo também para uma reforma intelectual e moral da sociedade, influenciando a percepção político-cultural do povo brasileiro da sua figura como sujeito histórico e a formação de uma corrente de pensamento progressista, nacional-popular. Portanto, definimos a luta do ME como parte de uma luta global por mudanças sociais e a nova cultura política é um ponto vital para seu êxito! 6.2 Mudanças na entidade Nos últimos anos, a UNE passou por uma série de mudanças. No entanto, a entidade manteve-se carente de democracia em seus fóruns, distante das/os estudantes e das lutas de DCEs e CAs de todo o país. Mesmo que algumas iniciativas positivas tenham sido adotadas – como as eleições de delegadas e delegados por universidade, a criação do Conselho Fiscal, dentre outras –, tais mudanças não foram suficientes para alterar a burocratização e a falta de democracia que a direção majoritária impõe à entidade. Com o governo Lula, foi inaugurado um novo período, marcado pelo alinhamento acrítico da UNE com as políticas do governo, ameaçando a autonomia da entidade. O amplo acordo constituído entre as forças ligadas aos partidos da base governista, capitaneados pela UJS, diminui a possibilidade de mudança dos rumos da entidade. Esse quadro precisa ser mudado! Nesse sentido, caminha a adoção de eleição direta para presidência da UNE como forma de ampliar o poder de decisão das/os estudantes, estreitando os laços, reforçando a legitimidade e trazendo o debate geral dos rumos da entidade para o cotidiano da universidade. A mudança do sistema de eleição de delegadas/os, que hoje tem por base a instituição de ensino inteira, é um avanço em relação ao antigo sistema de eleição por curso, pois permite um nível de

controle e segurança maior sobre os processos. Com base nesse sistema é possível hoje estabelecer uma única eleição nacional para a presidência da UNE. A comunicação da entidade também se limita pelo distanciamento do cotidiano estudantil e pelo adesismo da entidade. Poucos opinam sobre o que e o que a entidade vai falar – as pautas são condicionadas, o público não se interessa. Por isso, propomos a democratização da comunicação da entidade, com a formação de um conselho editorial amplo e participativo. As finanças também precisam ser revistas. A UNE é uma entidade que mexe com milhões de reais por ano, dinheiro que vem principalmente das carteirinhas e de convênios com o poder público. Esse dinheiro deve ser cuidado de forma responsável e democrática. Hoje, a tesouraria detém o controle dos gastos da entidade e o faz quase sem nenhuma restrição. A criação de um Conselho Fiscal para a entidade é positiva, mas é ainda preciso avançar muito na regulamentação dos gastos. Propomos a adoção de critérios; que os gastos maiores estejam sujeitos à aprovação da reunião de diretoria, as despesas sejam justificadas e especificadas, além de feito o levantamento de mais de um orçamento. Por fim, a entidade precisa se preparar para uma nova situação financeira, após receber a indenização pela destruição de sua sede durante a ditadura. A construção da nova sede será financiada por meio de um convênio com os Correios. O contrato estabelece, em contrapartida, a cessão de aluguel de dez andares pelo período de 16 anos, cujo dinheiro será investido afim de render um retorno fixo mensal para a entidade, além da possibilidade de quitar suas dívidas. Será preciso desenvolver mecanismos para uma gestão democrática desse fundo, capaz de preservar o patrimônio da entidade, promover um outro patamar de intervenção sem, contudo, se tornar mais burocrática ou menos política. O maior desafio da UNE, do ponto de vista de sua organização, é encontrar formas de se aproximar dos estudantes. Não basta apenas organizar grandes eventos como as caravanas e os congressos. É preciso, antes de qualquer outra coisa, estar presente na luta cotidiana das e dos estudantes, colaborar com sua organização, mobilizações e assembléias, oferecer ajuda e estrutura solidárias. 7 Assinam essa tese

Para construir e assinar a tese, fale conosco! contraponto.52conune@gmail.com www.contraponto.org.br @contraponto_br

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