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A Greve Geral de 1917 em São Paulo

A Greve Geral de 1917 em São Paulo

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A Greve Geral anarquista de 1917
em São Paulo Brasil:
Christina da Silva Roquette Lopreato
(resumo)
por Luis Roberto de Vasconcellos e Silva
A Greve Geral anarquista de 1917
em São Paulo Brasil:
Christina da Silva Roquette Lopreato
(resumo)
por Luis Roberto de Vasconcellos e Silva

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A Greve Geral Anarquista de 1917 em São Paulo

A Greve Geral Anarquista de 1917 – A Semana Trágica
Christina da Silva Roquette Lopreato

O fluxo imigratório para o Brasil ganhou impulso na década de 1880, quando o Governo da Província de São Paulo colocou em prática uma política de imigração subsidiada para enfrentar a crise de mão-de-obra escrava nas fazendas paulistas de café. Com o sistema escravista dando sinais de esgotamento, e a abolição

inevitável, se estabeleceu o projeto de utilização de massiva mão de obra européia. Atraídos pelas promessas dos recrutadores, italianos, espanhóis, portugueses e outros, deixaram a zona rural de suas terras natais e atravessaram o Atlântico em busca de uma vida promissora no Brasil. Desembarcavam em Santos, e seguiam de trem para a Hospedaria dos Imigrantes, no Brás, onde eram contratados pelos fazendeiros de café. Nas fazendas paulistas o imigrante se viu submetido a um trabalho exaustivo, em condições precárias e aviltantes, já que a mentalidade escravista ainda estava

presente. Muitos se rebelaram e retornaram aos países de origem, mas a maioria se deslocou para as cidades, em especial para São Paulo, de uma ainda incipiente atividade industrial, constituindo a primeira geração de operários fabris. Entre os imigrantes que se fixaram em São Paulo, mereceu destaque na imprensa paulistana, a presença de anarquistas. Com o nome de “Imigrantes anarquistas”, o jornal Correio Paulistano, o órgão do Partido Republicano Paulista, publicou uma série de quatro reportagens em Julho de 1893. O jornal rotulou os anarquistas como “perigosos indivíduos, chefes e partidários dessa terrível seita

destruidora... que tem buscado penetrar nessa grande e hospitaleira terra... usufruindo vantagens que os nossos cofres públicos lhes dão... para no fim das contas implantar a desordem e uma luta fratricida, incompatíveis com a abundância e excelência dos nossos recursos de vida”. Também questionou como eles embarcaram, já que “absolutamente não pode embarcar entre esses imigrantes indivíduos criminosos, como esses anarquistas” A presença de militantes anarquistas no cenário social paulistano incomodava as autoridades governamentais. O primeiro registro policial sobre a atuação dos libertários também data

de 1893, quando foram presas vinte pessoas rotuladas como anarquistas, e mais dez, identificadas como socialistas. Em 1894 a repressão policial ao anarquismo se intensificou. Apesar da forte repressão, a semente plantada pelos militantes estrangeiros germinou em terras brasileiras, e a organização sindical substituiu as associações de caráter assistencialista e beneficente que predominavam até então. As duas correntes mais expressivas que agitariam o ambiente paulistano eram a do anarcocomunismo e a do anarquismo sindicalista. A corrente anarquista-sindicalista

voltada mais para o engajamento dos militantes nas organizações sindicais e no movimento operário, em detrimento da revolução social, foi a que predominou em São Paulo. Formou-se em torno do jornal O amigo do povo, que começou a circular em 19 de Abril de 1902, e assumiu uma linha nitidamente sindicalista a partir de Fevereiro de 1903. Edgard Leuenroth, Neno Vasco, José Sarmiento Marques e Giulio Sorelli foram seus militantes mais combativos. Os anarco-comunistas, que criticavam a orientação sindicalista, se agruparam em torno do jornal Il Risveglio, que começou a ser editado em Novembro de 1899 por Luigi

Damiani, e estabelereceram-se em Julho de 1904, quando do aparecimento do jornal La Battaglia. Além de Luigi, Oreste Ristori, Alessandro Cerchiai, Angelo Bandoni e Florentino de Carvallho eram os militantes mais expressivos. O grande objetivo desse grupo era preparar a revolução social que poria fim ao regime capitalista de produção. Entre 1903 e 1905 as ligas de resistência proliferaram em São Paulo.E em Novembro de 1905 elas se agruparam para constituir a Federação Operária de São Paulo (FOSP). Embora divergentes, as duas correntes tinham em comum a

mesma estratégia de luta política: a ação direta, segundo a qual o proletário só se libertará quando confiar na influência da própria ação, direta e autônoma, prescindindo de intermediários, criando as próprias condições de luta e ação. As principais ações, baseadas na autonomia do indivíduo, são: o boicote, a sabotagem e a greve. A estratégia da ação direta como orientação da luta operária no Brasil, foi defendida no Primeiro Congresso Operário Brasileiro, realizado no Centro Galego, no Rio de Janeiro, de 15 a 22 de Abril de 1906. O 1. COB também definiu como prioridade a conquista da jornada diária de 8 horas.

No ano seguinte, em 1 de Maio, a FOSP conclamou o operariado paulista a paralisar as atividades por essa causa. Várias categorias aderiram ao movimento. A repressão policial não tardou. Em 14 de Maio de 1907, a FOSP foi fechada e os militantes combativos foram presos. Durante a greve algumas categorias conquistaram a jornada de 8 horas, porém sem garantias de efetivação, e outras voltaram ao trabalho em Junho sem nenhuma conquista. As agitações operárias eram intercaladas a períodos de apatia. Essa descontinuidade estava relacionada à heterogeneidade do operariado, que segundo Edgard

Laurenroth, era formado por: “imigrantes cujo escopo único é amontoar pecúlio e voltar à terra; e por brasileiros em que predominam elementos incultos, provenientes do trabalho agrícola, com ressaibos da escravidão recente.”. Depois de um interregno de 5 anos, as manifestações operárias voltaram à agitar o ambiente paulistano. As comemorações de 1 de Maio de 1912, organizadas por anarquistas e socialistas, e pelo Comitê de agitação contra a carestia de vida, geraram algumas greves e pequenas conquistas isoladas, mas foi em 1917, que a população paulistana se deparou com um movimento grevista inédito na

história do Brasil. Uma greve geral deflagrada em Julho parou por 3 dias as atividades industriais, comerciais e os serviços de transporte da cidade. Nada funcionou na Paulicéia. No ano de 1917 a carestia e a crise do trabalho foram assuntos diários na imprensa paulistana. Dia a dia os jornais registraram o aumento no clamor público contra a situação, principalmente contra a intensificação da exploração do trabalho infantil e feminino. O encarecimento dos produtos de primeira necessidade, em especial os gêneros alimentícios, era atribuído à ação dos açambarcadores, cujos agentes percorriam o interior do estado, comprando toda a produção

de arroz, feijão e etc, e armazenandoas para a exportação. A alimentação representava na época cerca de dois terços dos gastos domésticos, e o salário havia perdido seu valor real. Além do aumento contínuo nos preços dos produtos alimentícios, a adulteração e falsificação dos alimentos atingiram proporções enormes. Substâncias tóxicas como areia, caulim e serragem eram adicionados ao açúcar, farinha de trigo e de mandioca, respectivamente. Ao leite era colocado água e polvilho, no sal, areia e até vidro moído! O vinagre era ácido acético diluído em água, e o azeite era fabricado no interior de São Paulo com caroços de algodão.

A venda de produtos de má qualidade e nocivos à saúde levou o escritor Monteiro Lobato a afirmar que “São Paulo, cidade havida como modelar em matéria de defesa sanitária, virou o paraíso da fraude bromatológica”. No calor desse debate, e diante da inércia das autoridades e do descaso do governo, os anarquistas deram início ao movimento de denúncia dos falsificadores, e à ação direta, estimulando a prática do boicote. O moinho santista foi o primeiro a ser denunciado por adicionar fubá à farinha de trigo. Outro fator a alimentar a insatisfação do operariado paulistano foi o recrutamento intensivo de

mulheres e crianças para o trabalho, que chegaram a compor 50 % da mão de obra. Às mulheres pagava-se 50 % e às crianças somente 10 %. A questão do menor no trabalho tornou-se objeto de investigação jornalística no ano de 1917. Numa série de reportagens intitulada “As crianças nas fábricas”, o jornal A Gazeta revelou o emprego de crianças de ambos os sexos em tarefas noturnas, algumas com menos de 12 anos de idade. A investigação flagrou a saída dos trabalhadores da Fábrica de Tecidos e Bordados da Lapa, a 1:00 no fim do turno iniciado às 14:30. O jornal estampou a foto de crianças com os rostos cansados em meio à escuridão da noite, e passou a

sugerir diversas medidas para preservar a saúde física e moral dos menores trabalhadores. Acompanhando o desenrolar das discussões, os anarquistas que não reconheciam as leis estabelecidas e nem governantes, consideraram inútil e desnecessário o apelo legal como solução do problema. Reunidos no Centro Libertário de São Paulo, decidiram assumir a partir de 1917 a causa do menor trabalhador. Desviaram o curso das discussões e decidiram deflagrar uma manifestação popular de indignação e protesto contra a exploração do trabalho do menor. A agitação promovida ajudou a sensibilizar os pais e mostrar-lhes,

que ao invés de lançar os filhos e mulheres no mercado de trabalho, eles deveriam exigir salário digno, menos horas de trabalho e reivindicar a redução do preço dos gêneros de primeira necessidade e no valor dos aluguéis. Os Libertários decidiram realizar comícios públicos, e elegeram os bairros populares da Lapa, Brás, Cambuci, Bom Retiro, Ipiranga, Belenzinho, Mooca, Pari e Bexiga. A atuação do comitê popular de agitação contra a exploração de menores operários despertou da apatia o operariado paulistano, e assim começaram a ser organizadas as ligas de resistência dos bairros. Inicialmente na Mooca, bairro onde

funcionavam importantes indústrias têxteis, as ligas foram surgindo e adquirindo caráter combativo. O movimento de reivindicação por aumento salarial e melhoria nas condições de trabalho teve início em Maio. Os tecelões do Cotonifício Crespi, da Mooca, pediram aumento de 10 a 15 % nas tabelas em vigor, e o fim do desconto de 2 % em favor do Comitato Italiano Pró-pátria, um tributo de guerra, imposto pelos industriais italianos aos trabalhadores, independente da nacionalidade. Ante a recusa dos patrões, os trabalhadores entraram em greve. Os operários de outras indústrias têxteis paulistas decidiram aderir ao

movimento grevista a partir de Junho. Os industriais, perplexos e assustados, convocaram a Força Pública para guarnecer as fábricas. A polícia assumia o papel de braço armado dos patrões, criminalizando a luta e a retirando do âmbito de relações capital-trabalho. Com isso, aumentaram os atritos entre grevistas e polícia, o clima foi se tornando tenso, e o confronto inevitável. O movimento grevista foi se alastrando pela primeira semana de Julho, e os embates com a polícia se tornaram cada dia mais frequentes. A mobilização de várias categorias de trabalhadores levou os anarquistas a apoiarem a realização de uma assembléia em 8 de Julho na Liga

Operária da Mooca, para a formação de um comitê de greve. Na tentativa de frear o movimento, a polícia tomou medidas arbitrárias, e fechou a Escola Nova e a Liga Operária da Mooca, uma das mais combativas ligas de orientação anarquista. Na manhã da Segunda, dia 9, policiais e grevistas entraram em choque nas imediações da fábrica de bebidas Antártica, iniciando a semana trágica. Houve feridos dos dois lados, uma carroça foi danificada e sua carga saqueada. Havia grevistas nos portas de muitas fábricas, e para fazer frente à mobilização operária os industriais solicitaram reforço policial, mas a presença das tropas não intimidou os

trabalhadores. Um grupo deles se dirigiu à Fábrica Mariângela, com o objetivo de evitar o retorno de 2500 empregados às atividades após o almoço. Tamanho movimento causou a necessidade da presença no Brás, do Delegado Geral, Thirso Martins. Com ele estavam 50 soldados armados com fuzis e 30 cavalarianos. O delegado foi recebido com vais e gritos de “morra a polícia”. As forças repressoras reagiram aos insultos com balas. Três trabalhadores foram feridos, entre eles, o sapateiro José Ineguez Martinez, atingido por uma bala que lhe atravessou o estômago. Internado na Santa Casa, morreu no dia seguinte.

Em face do agravamento da situação, surgiu a idéia da formação de um comitê para agrupar as categorias de trabalhadores em greve, que foi iniciado pelas ligas operárias da Mooca e do Belenzinho. Na noite de 9 de Julho, se reuniram no Centro Libertário, seus militantes; o grupo de editores dos jornais Guerra Sociale e A Plebe, juntamente dos socialistas do jornal Avanti e do Centro Socialista de São Paulo. Os participantes da reunião decidiram constituir o Comitê de Defesa Proletária (CDP) para melhor organizar os grevistas e intermediar as negociações. Edgard Lourenroth, experiente militante operário assumiu o papel de secretário com o

pseudônimo de Frederico Brito. Figura de destaque nos comícios havia fundado no mês anterior o jornal A Plebe, que se tornou o mais importante jornal anarquista em língua portuguesa. Além dele destacaram-se na organização: Luigi Damiani, Rodolfo Felipe, Francesco Cianci, Antonio Nalepinski, José Sarmiento Marques, Antônio Candeias Duarte, Florentino de Carvalho, Sílvio Antonelli, e os socialistas Giuseppe Sgai e Theodoro Monicelli. Cabe ressaltar a militância feminina do “Centro Feminino Jovens Idealistas”, em especial de Rosa Musitano e Maria Angelina Soares. 10 de Julho de 1917. Os jornais

paulistanos divulgam a notícia da morte do sapateiro espanhol de 21 anos, a primeira vítima do movimento grevista. A notícia causa grande comoção e carrega a atmosfera social de eletricidade. O CDP manteve-se reunido em sessão permanente, em lugar secreto. Através de manifestos divulgados por parte da imprensa paulistana orientou os passos dos grevistas. Protestou contra as atitudes arbitrárias da polícia, apelou aos tipógrafos para não serem cúmplices dos industriais e pediu ao operariado para lançar seu protesto e fazer valer seu direito. Solidariedade foi a palavra de ordem do CDP. A greve geral sua

bandeira de luta. Com um discurso persuasivo os anarquistas pregavam a necessidade de uma união forte para levar à vitória. As paralisações ocorridas à partir de Maio sinalizaram a disposição para a luta por melhores condições de vida e trabalho, e com a aproximação dos socialistas, aumentou a possibilidade da greve geral em curto prazo. No decorrer do primeiro semestre os militantes anarquistas procuraram mostrar que as greves parciais eram contraproducentes, pois ainda que pudessem trazer um benefício transitório, era restrito a um pequeno número de trabalhadores. E contra os açambarcadores, responsabilizados pelo aumento de preço dos

alimentos, era totalmente insuficiente. No cenário político a incerteza sobre a participação do Brasil no conflito europeu, após o rompimento das relações nacionais com a Alemanha em Abril, revelou ser o momento propício para a ação coletiva. A greve geral deveria ser acompanhada de um forte movimento popular, e o trabalho de propaganda sobre ela se intensificou em Julho. O movimento foi ganhando adesões, e em 11 de Julho, 54 fábricas declararam ter suas atividades paralisadas, sendo aproximadamente 20 mil o número de grevistas.

A cidade passou a ser fortemente patrulhada por tropas da infantaria e cavalaria, com ordem de dissolver as aglomerações. Houve repressão nas portas das fábricas, nos comícios e nas manifestações. Com o alastramento da greve, o Delegado Geral tentou encontrar uma via conciliatória e se aproximou dos grevistas. Thyrso Martins se ofereceu como intermediário e solicitou uma pauta de reivindicações para negociar um acordo com os patrões, mas alertou sobre o “desrespeito às autoridades que procuravam cumprir seu dever e manter a ordem pública”. Os operários por sua vez, apontaram a violência policial e acusaram a polícia de ter disparado contra a

multidão, e de ser responsável pela feição violenta que o movimento adquiriu. O Delegado geral rebateu as acusações, abriu inquérito sobre a morte de Ineguez, e o laudo pericial revelou que a bala encontrada no corpo era de calibre e fabricação diferentes da arma do soldado acusado. A fim de imobilizar as forças repressivas, um grupo de mulheres grevistas divulgou o “Manifesto aos Soldados”, conclamando-os a se juntarem à sua luta e se recusarem a servir de instrumento de opressão dos capitalistas que levam a fome ao lar dos pobres. Alguns casos de deserção e insubordinação foram

registrados. Principalmente após as ordens de atirar contra os manifestantes. Na tarde de 10 de Julho, Eloy Chaves, Secretário de Justiça e Segurança Pública, reuniu-se com um grupo de industriais para convencê-los a atender às duas exigências dos grevistas até aquele momento: aumento geral de 20 % e readmissão dos trabalhadores demitidos por greve. Porém, não conseguiu demover o Comendador Crespi, principal personagem patronal. O industrial Jorge Street reconheceu como justas as reivindicações, outros o seguiram, mas não houve acordo e movimento continuou.

A proposta conciliatória da polícia, apesar de não ter encontrado ressonância entre os grevistas, foi recebida com aplausos pela imprensa paulistana. Os jornalistas, porém, não pouparam críticas aos policiais por terem investido contra os grevistas. Dos jornais de circulação diária em São Paulo, apenas os atrelados ao governo (Jornal do Commércio, A Platea e o Correio Paulistano) não manifestaram simpatia pela causa operária. Militantes do Comitê de Defesa Proletária (CDP) aproveitaram o clima de comoção para transformar o enterro da primeira vítima da greve numa grande manifestação popular de repúdio à violência policial.

Através da imprensa, o CDP convida a população para participar da cerimônia fúnebre e divulga o trajeto do cortejo até o cemitério do Araçá. Aos participantes do funeral, pede o empenho em evitar “incidentes intempestivos que possam ofender a memória do companheiro a quem se queria prestar homenagem”. Na manhã paulistana de 11 de Junho de 1917, sob intenso frio e chuva fina, uma multidão se formou à frente da casa número 91 da Rua Caetano Pinto, no bairro do Brás. Desde as 7:00 homens, mulheres e crianças acotovelavam-se e agitavam bandeiras vermelhas à espera do funeral. Por volta das 8:30, o corpo de Jose Ineguez Martinez deixou a

casa dos seus familiares. Um imenso cortejo fúnebre pôs-se em movimento. A comissão de frente, formada por um grupo de mulheres, carregava bandeiras vermelhas e o estandarte do Centro Libertário de São Paulo. Tropas da polícia permaneceram postadas ao longo do percurso, e uma força policial abriu passagem para o cortejo. Lentamente, a multidão calculada em dez mil pessoas conduziu o féretro coberto com grinaldas de flores, pelas principais ruas da cidade. Percorreu a Rua Rangel Pestana, a Ladeira do Carmo e interrompeu a caminhada na Rua XV de Novembro. Uma comissão de mulheres se dirigiu à Repartição

Central da Polícia para pedir ao Delegado Geral a soltura do anarquista Antonio Nalepinski, preso na véspera. Sobre ele recaía a acusação de ser “um eloqüente orador que agitava as massas operárias com seus discursos inflamados contra a polícia e um dos mais perigosos anarquistas vindos ao Brasil”. Enquanto aguardavam a resposta policial, os participantes do cortejo tiraram os chapéus e permaneceram em silêncio, até a decisão de soltá-lo somente após o enterro, que provocou veementes protestos da multidão enlutada. Retomando o seu caminhar silencioso, o cortejo seguiu pelas

ruas XV de Novembro, e São Bento, atravessou o Viaduto do Chá, a Rua Barão de Itapetininga e alcançou a Praça da República. De lá subiu pelas ruas Ipiranga e Consolação. Nas vizinhanças do cemitério, um policiamento ostensivo. Na Avenida Paulista, um esquadrão de cavalaria patrulhava as residências dos secretários do governo e dos industriais. Nenhum incidente se registrou. A cerimônia fúnebre teve início ao meio-dia. Vários oradores discursaram em português, espanhol e italiano, as três línguas mais faladas entre o operariado paulistano, formado majoritariamente por imigrantes. Em inflamados discursos,

anarquistas e socialistas responsabilizaram a violência policial pela morte de José Ineguez. À beira do túmulo, o anarquista espanhol José Fernandez, representando a Liga Operária da Mooca, ressaltou que a morte era preferível a uma vida em desarmonia com os princípios de dignidade humana. Outros discursos pediram a soltura dos grevistas presos, clamaram por liberdade de organização e exigiram a reabertura das duas entidades de orientação anarquista, a Liga Operária da Mooca e Escola Nova, fechadas pela polícia sob alegação de perturbação da ordem pública. Durante o funeral os discursos

abordaram também a necessidade de se “induzir o governo e o poder municipal a por fim ao aumento de gêneros alimentícios, pois de nada adiantaria conseguir um aumento de 20 % se os preços continuarem a subir”. E buscaram sensibilizar os trabalhadores a deflagrarem a greve geral. No dia 11 de Julho, depois do enterro, os participantes do cortejo, atendendo aos pedidos do CDP, se dirigiram ao centro da cidade. Apesar das interdições e do policiamento ostensivo, cerca de três mil pessoas se reuniram na Praça da Sé para assistir ao comício organizado pelos anarquistas. Uma comissão de grevistas se dirigiu ao Delegado

Geral e este, cedendo aos reclamos reabriu a Liga Operária da Mooca e libertou Antonio Nalepinski. Após o comício houve violência policial e distúrbios. Houve apedrejamento de fábricas, assalto ao caminhão da empresa Faviila e Lombardi de onde foram subtraídas 200 caixas de fósforos. Houve saque aos armazéns do Moinho Santista, de onde foram levados 600 sacos de farinha de trigo. Houve prisões. Durante a noite, o CDP reuniu-se clandestinamente com representante de 36 associações operárias e várias comissões de grevistas, com o objetivo de agrupar em um único memorial as reivindicações comuns a todas as categorias profissionais,

previamente discutidas nas suas respectivas agremiações. O documento do CDP incorporou as aspirações da população em geral, e arrolou quinze reivindicações para por fim à greve. Exigiu de imediato a libertação de todas as pessoas detidas por greve, a garantia de que nenhum operário seria dispensado por participação no movimento e o respeito ao direito à livre associação. Outras oito reivindicações foram dirigidas aos industriais: abolição de fato da exploração do trabalho de menores de 14 anos nas fábricas, abolição do trabalho noturno para mulheres e menores de 18 anos, aumento de 35 % nos salários inferiores a 5$000,

aumento de 25 % para os salários mais elevados, aumento de 50 % em todo o trabalho extra, e a pontualidade no pagamento dos salários. Também reivindicaram dos industriais a garantia de trabalho permanente, a jornada de 8 horas e a semana inglesa (Segunda a Sexta). Outras solicitações de caráter geral foram incorporadas: barateamento dos gêneros de primeira necessidade, adoção de medidas para evitar a ação dos açambarcadores, e especuladores, providências para impedir a adulteração e falsificação dos alimentos, redução de 30 % nos aluguéis até 100$000, e não execução de despejo por falta de pagamento.

No dia 12 de Julho de 1917, quando a pauta de reivindicações do CDP tornou-se pública, São Paulo parou. A greve geral estava declarada. Ao movimento grevista aderiram os leiteiros, padeiros, e os trabalhadores da companhia de gás e da light. Com tudo parado, nenhum bonde ou tilburi circulou. Os espetáculos foram adiados. São Paulo jamais havia presenciado um movimento de tal envergadura. Uma convulsão social sem precedentes se inscrevia na história do Brasil. A greve geral se tornou possível graças a uma conjugação de fatores explorados com argúcia pelos experientes militantes anarquistas. E

foi resultado de uma doutrinação de incitamento à ação direta, que começou no raiar de 1900. A singularidade da greve geral de 1917 está na coordenação do movimento pelos libertários. Auxiliados pelos socialistas no CDP, seguiram o lema: “a emancipação dos trabalhadores há de ser obra dos próprios trabalhadores”. O CDP assumiu o papel de coordenador das proposições apresentadas por diversas organizações operárias. Durante a semana de 9 a 16 de Julho cerca de cem mil trabalhadores interromperam suas atividades. Muitos deles, mesmo depois de terem suas reivindicações atendidas, mantiveram-se em greve por

solidariedade aos companheiros. Uma multidão agitada povoou as ruas da cidade a despeito dos avisos da polícia que pediam para as pessoas ficarem em suas casas. As ruas do Brás e do Centro foram ocupadas por tropas, dando a impressão de que a cidade se preparava para uma batalha. A ordem da polícia era reprimir qualquer manifestação pública. Os principais bairros foram palcos de manifestações. Indústrias foram apedrejadas e houve tentativa de assalto ao Moinho Gamba. Muitos lampiões de gás foram destruídos. Rolhas foram colocadas nos trilhos para impedir a circulação de bondes e os motorneiros que insistiram em

circular foram apedrejados. Ao meiodia do dia 12, o tráfego foi suspenso por determinação da Light. Por pedido do Presidente do Estado, Altino Arantes, aumentou o número de veículos militares e do corpo de bombeiros, transportando soldados com armas prontas para o disparo. Vários confrontos foram registrados no decorrer do dia. O de maior gravidade ocorreu à noite, na Avenida Rangel Pestana em frente ao Café Rasga. A polícia abriu fogo alegando ter sido recebida a tiros. Houve registro de feridos, mas nenhum de morte, embora possa ter ocorrido. As primeiras concessões dos

grandes industriais foram sinalizadas, e o CDP convocou a população através de um manifesto, para deliberar sobre a situação, em um comício marcado para as 15:00 do dia 13 de Julho, na Praça da Sé. No documento afixado em vários cantos da cidade, o CDP anunciou sua recusa ao convite feito por Eloy Chaves, pelos acontecimentos sangrentos ocorridos. A eficácia das mensagens do CDP junto aos grevistas desnorteou a polícia, e a partir da deflagração da greve geral, a polícia passou a culpar os anarquistas pelo desvirtuamento da greve, considerada originalmente justa. Como não conseguiu identificar os membros do CDP e os

locais de reunião, Eloy Chaves convocou os representantes dos jornais de circulação diária de São Paulo para discutir uma saída para o conflito, e encontrar conjuntamente um canal de comunicação com os grevistas, lembrando aos jornalistas o seu empenho em conseguir um aceite dos industriais. Sobre as novas reivindicações, explicou que a maioria delas fugia da alçada do governo estadual. O secretário também assegurou o empenho do governo em respeitar o direito à associação, em fazer cumprir a legislação estadual que proibia o trabalho noturno às mulheres e menores de 18 anos e de buscar alternativas para coibir os

aumentos abusivos de preços. Por sugestão do diretor do jornal O Combate, Nereu Rangel Pestana, uma comissão de jornalistas foi formada para intermediar o conflito e garantir o assento dos trabalhadores na mesa de negociações sem receio de perseguições policiais. No palco dos acontecimentos grevistas entrava em cena um novo agente social: a Comissão de Imprensa. E o governo que se julgava acima da opinião pública capitulava. Nos documentos oficiais os libertários apareciam como elementos subversivos, desordeiros, incendiários e panfletários. Em nome do combate aos anarquistas a polícia reforçou o aparato repressivo, e

convocou sete mil homens do todo o estado. O Ministro da Marinha mandou para Santos o cruzador República e o destróier Matto Grosso. O Presidente do Brasil, Wenceslau Brás, pediu para ser mantido informado. Para conter a onda libertária, o Delegado Geral proibiu reuniões nas ruas e praças e advertiu a população para o uso da força. Aventurar-se nas ruas, na Sexta, dia 13 de Julho, era um desafio. Não só pelas metralhadoras da polícia, como também pela superstição. E foi o dia mais sangrento da trágica semana. Eduarda Binda, uma menina de 12 anos que estava no portão de sua casa foi vítima de uma bala

perdida em um conflito na Rua Lopes de Oliveira em Santa Cecília. O pedreiro Nicola Salerno de 28 anos também recebeu um tiro fatal quando a polícia tentava evitar um assalto a um bonde na Rua Augusta. Subia para três o número oficial de mortes, mas há indícios de que mais de dez pessoas possam ter morrido. Ainda no segundo dia da greve geral, trabalhadores entrincheirados nas obras da nova catedral da Sé em construção foram presos ou feridos. Outros espalharam cortiça e roletes provocando a queda de muitos cavalos, e também pedras nos trilhos dos bondes para impedir sua circulação. Alguns trilhos de trem foram arrancados.

A greve deflagrada em São Paulo repercutiu no Brasil inteiro e moções de apoio foram enviadas por diversas associações de trabalhadores. Além do apoio moral, houve arrecadação de fundos em prol dos grevistas. No dia 13, a Comissão de Imprensa publicou nos principais diários de São Paulo um manifesto intitulado A Greve, onde propôs uma reunião no dia seguinte, na sede do jornal O Estado de São Paulo entre industriais, representantes do CDP e representantes do Governo. Nesse mesmo dia, O CDP transferiu seu comício para a Liga Operária da Mooca, mas como cerca de 3 mil pessoas atenderam a convocação, o mesmo teve de se

realizar no Hipódromo da Mooca. A imensa maioria decidiu que o movimento somente cessaria quando todas as reivindicações do CDP fossem atendidas. A primeira rodada de negociações teve início no sábado, 14 de Julho, data sugestiva, a mesma da tomada da bastilha na França, em 1789. Participaram das negociações os anarquistas Edgard Leuenroth, Luigi Damiani, Francesco Cianci, Antônio Candeias Duarte e Rodolpho Felipe. Além do socialista Theodoro Monicelli. Os industriais enfim se comprometeram a aumentar o salário em 20 %, respeitar o direito à livre associação, não demitir nenhum

grevista e efetuar o pagamento dos salários na primeira quinzena após o mês vencido.

Apesar

das

garantias,

dois

operários foram presos, confirmando a desconfiança dos operários quanto ao falso discurso do Estado. O CDP exigiu a libertação dos presos, que ocorreu em seguida, e decidiu que apenas levaria a proposta dos industriais aos grevistas quando o poder público assegurasse o cumprimento das demais reivindicações. As negociações prosseguiram no domingo, 15 de Julho, entre o Presidente do Estado, o Secretário de Justiça e a Comissão de Imprensa. Os representantes do poder público assumiram o compromisso de libertar todos os indivíduos presos por participação na greve, reconhecer o direito de associação e reunião,

envidar esforços para impedir a alta de preços e a falsificação de alimentos, e aumentar a fiscalização nas fábricas. O Prefeito Washington Luis garantiu o empenho do município na fiscalização e controle de preços dos gêneros de primeira necessidade, e comprometeu-se a aumentar o número e a freqüência de feiras livres, que isentas de impostos possibilitam preços menores. O CDP decidiu então aceitar a proposta conciliatória e submetê-la à apreciação dos grevistas através de comícios públicos. O acordo foi firmado por treze representantes de jornais, onze industriais, o Presidente do Estado, o

Prefeito e o Secretário de Segurança Pública. A Comissão de Imprensa teve um papel singular e decisivo na resolução do conflito. Pela primeira e talvez única vez, a imprensa mediou um acordo entre patrões e empregados. A sugestão apresentada pelos jornalistas foi a única aceita pelo CDP, e tornou possível uma saída para o conflito que se mostrava irreconciliável. Ela mostrou-se capaz de quebrar relutâncias, dissipar mal entendidos e desfazer intransigências. E assumiu o compromisso se zelar pela execução do plano. Após a assinatura do acordo, o Delegado Geral divulgou um boletim

onde dizia que quase todas as fábricas tinham feito um acordo, mas na verdade apenas 5 % delas haviam assinado. Também culpou a guerra européia pelos males que afligiam a população, e os anarquistas, que “querem a todo o custo manter um estado de agitação prejudicando a sociedade”. Contrariando o delegado geral, os anarquistas do CDP decidiram acatar a proposta, avaliando que as concessões representavam um ganho moral para os trabalhadores. Além disso, a presença de tropas federais na cidade era ameaça real de um morticínio. O CDP conclamou os grevistas para decidirem sobre a proposta de

suspensão da greve, e no manifesto aos trabalhadores, aconselhou a aceitação do acordo. Reconheceu que as conquistas não eram o máximo, mas eram importantes, principalmente o direito à associação, que seria ponto de partida para novas conquistas. Registrou os esforços dos jornalistas e saudou as vítimas das batalhas. Na Segunda-Feira, 16 de Julho, os trabalhadores saíram às ruas com o aval da polícia para deliberarem sobre a proposta do CDP de aceitar o acordo. Mais de 10.000 pessoas compareceram ao Largo da Concórdia para o comício realizado ao meio-dia. Às 16:00 outro comício

teve lugar no pavilhão da Lapa para onde afluíram 2.500 pessoas. Nesse mesmo horário, no Ipiranga, outras 1.500 pessoas se reuniram. Nos três comícios os trabalhadores aceitaram as bases do acordo e a retomada do trabalho nos estabelecimentos onde os patrões haviam aceitado o acordo. E a manutenção da greve onde os patrões ainda estavam relutantes. No documento, os trabalhadores se comprometeram a voltar à greve caso as promessas não fossem cumpridas. A suspensão da greve geral foi comemorada com alarde pela imprensa. Os jornais de São Paulo estamparam a vitória dos trabalhadores sobre o governo e os

industriais, mas principalmente sobre si mesmos, pois na luta encontraram a consciência de solidariedade operária. Também ressaltaram a importância de se manterem unidos e organizados, pois sabiam que a reação não tardaria a vir. Depois de uma semana de trágicos acontecimentos, a cidade de São Paulo começou a retomar a normalidade. As casas comerciais reabriram suas portas, padeiros e leiteiros voltaram às ruas, e os bondes voltaram a circular. As fábricas soaram os apitos, mas só voltaram a funcionar no dia seguinte, conforme deliberação dos grevistas. A greve geral chegara ao fim.

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