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Machado de Assis - Papéis avulsos

Machado de Assis - Papéis avulsos

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  • ADVERTÊNCIA
  • O ALIENISTA
  • TEORIA DO MEDALHÃO
  • A CHINELA TURCA
  • NA ARCA
  • D. BENEDITA
  • O SEGREDO DO BONZO
  • O ANEL DE POLÍCRATES
  • O EMPRÉSTIMO
  • A SERENÍSSIMA REPÚBLICA
  • O ESPELHO
  • UMA VISITA DE ALCIBÍADES
  • VERBA TESTAMENTÁRIA
  • NOTAS

Papéis avulsos, de Machado de Assis Fonte: ASSIS, Machado de, Papéis avulsos. S.l., Lombaerts & C., 1882.

Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br> A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Costa Flosi Ltda. Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>. Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso é possível. --------------------------------------------------------------

ADVERTÊNCIA
Este título de Papéis avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa. Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que parecem meros contos, e outras que o não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das primeiras defendo-me com São João e Diderot. O evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria." Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso. Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição.

Machado de Assis. Outubro de 1882. --------------------------------------------------------------

O ALIENISTA
I De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates
As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia. — A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, — únicas dignas de preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte. D. Evarista mentiu às esperanças de Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, — o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de "louros imarcescíveis", — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores. — A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico. — Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais. A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico. — Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isto de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo. D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe "que estava com desejos", um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redargüiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloqüência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil. — Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter os doidos dentro da mesma casa?

Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com esta fraude, aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente. A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestiu-se luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, — e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, — porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores. Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates.

II Torrente de loucos
Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração. — A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim que interpreto o dito de São Paulo aos coríntios: "Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada." O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade. — Um excelente serviço, corrigiu o boticário. — Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.

— Muito maior, acrescentou o outro. E tinha razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua! — Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que V. Rev. está vendo. Isto é todos os dias.
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— Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe... — Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato... — Vá que seja, e fico ansioso. Realmente! Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão, rapaz de vinte cinco anos, supunha-se estrela-d'alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores à procura do fim do mundo. Era um desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no encalço, achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa, matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade. O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então começou aquela ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos fugitivos. A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais notável era um pobrediabo, filho de um algibebe, que narrava às paredes (porque não olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era esta: — Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu.

Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e repetia cinco, seis vezes seguidas: — Deus engendrou um ovo, o ovo, etc. Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outros, mil e duzentas e outro, e não acabava mais. Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despregariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus. Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava dar, menos por caridade do que por interesse científico. Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e, aceitando esta idéia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos, a quem incumbiu da execução de um regimento que lhes deu, aprovado pela câmara, da distribuição da comida e da roupa, e assim também da escrita, etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu ofício. — A Casa Verde, disse ele ao vigário, é agora uma espécie de mundo, em que há o governo temporal e o governo espiritual. E o padre Lopes ria deste pio trocado, — e acrescentava, — com o único fim de dizer também uma chalaça: — Deixe estar, deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa. Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. Isto feito, começou um estudo acurado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao mesmo tempo estudava o melhor regime, as substâncias medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que ele mesmo descobria, à força da sagacidade e paciência. Ora, todo esse trabalho levara-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro do jantar sem dizer uma só palavra a D. Evarista.

III Deus sabe o que faz!

Não dizem as crônicas se D. como lhe perguntasse o marido o que é que tinha. que eram a sua feição mais insinuante. e definhava a olhos vistos. Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche. Mas um dardo atravessou o coração de D. que posto não fosse sequer uma pálida sombra do que hoje é. mas padecia calada. decepar-lhe as mãos. Em todo caso.. — Irá com sua tia. Evarista não pôde dissimular o gosto de semelhante proposta. equivalia ao sonho do hebreu cativo. Não acabou a frase. — Que importa? Temos ganho muito. e foi ao ponto de dizer que se considerava tão viúva como dantes. depois atreveu-se um pouco. como os da aurora. Evarista brandiu aquela arma com o perverso intuito de degolar de uma vez a ciência. Evarista sem convicção. ao jantar. nem a menor prega veio quebrar a superfície da fronte quieta como a água de Botafogo. agora é que ela perdera as últimas esperanças de respirar os ares da nossa boa cidade. duro. achou-se a mais desgraçada das mulheres. liso. comia pouco e suspirava a cada canto. porque respeitava nele o seu marido e senhor. Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro. o alienista não lhe atribuiu outra intenção. ela não iria também. Conteve-se. além de conjugal. todavia era alguma coisa mais do que Itaguaí. em que parecia traduzir-se este pensamento: — "Não há remédio certo para as dores da alma. em segundo lugar porque era melhor. entretanto. respondeu tristemente que nada. mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo. não ficou sequer consternado. disse o marido. Ainda ontem o escriturário . limitouse a dizer ao marido que. mais metódico e racional que a proposta viesse dele. Ver o Rio de Janeiro. e consola-se. ao fim de dois meses. e justamente agora é que ele a convidava a realizar os seus desejos de menina e moça. mas a conjetura é verossímil. Evarista. era o mesmo que empregara no dia em que Simão Bacamarte a pediu em casamento.A ilustre dama. E acrescentou: — Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos. — os olhos. acabou-a levantando os olhos ao teto. eterno. ou. O metal de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal. Evarista tinha pensado nisso mesmo. dou-lhe o Rio de Janeiro. D." E porque era homem estudioso tomou nota da observação. lavados de uma luz úmida. em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao marido. grandes. Talvez um sorriso lhe descerrou os lábios. — negros. que o marido assentara de vez naquela povoação interior. esta senhora definha. para ela. Agora. Simão Bacamarte pegou-lhe na mão e sorriu. se ele não ia. E não se irritou o grande homem. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. ficou amarela. porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas. D. ou antes. — Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. pelo menos. porque lhe parece que a não amo.. principalmente. caiu em profunda melancolia. — um sorriso tanto ou quanto filosófico. Note-se que D. Quanto ao gesto. Um dia. por entre os quais filtrou esta palavra macia como o óleo do Cântico: — Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro. magra. redargüiu o alienista.

IV Uma teoria nova Ao passo que D. onde estava o dinheiro. As despedidas foram tristes para todos. outro devassa o futuro com todas as suas auroras. ao tornar a casa. e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões: — Quem diria que meia dúzia de lunáticos. dobrões sobre dobrões. Era uma via-láctea de algarismos. D. Evarista ficou deslumbrada. Deus! eram montes de ouro. vinha buscando o Rio de Janeiro. e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heróicos. um sobrinho deste. D. a mulher do boticário. Crispim Soares. Homem de ciência. e se alguma coisa o preocupava naquela ocasião. com todas as suas lágrimas e saudades. trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado. E depois levou-a às arcas. e que de aventura achava-se em Itaguaí. e só de ciência. menos para o alienista. . Evarista compreendeu. o alienista fitava-a. Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa idéia arrojada e nova. não era outra coisa mais do que a idéia de que algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de juízo. cinco ou seis pajens. — Adeus! soluçaram enfim as damas e o boticário. um padre que o alienista conhecera em Lisboa. — estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente.. era a opulência. Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros. nada o consternava fora da ciência. deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Evarista fossem abundantes e sinceras. Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante. Evarista. a tia. era pouco para andar na rua. quatro mucamas.prestou-me contas. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde. conversando as gentes. não chegaram a abalá-lo. tal foi a comitiva que a população viu dali sair em certa manhã do mês de maio. Um dia de manhã. Queres ver? E levou-a aos livros. eram mil cruzados sobre mil cruzados.. vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar. ou de casa em casa. sorriu e respondeu com muita resignação: — Deus sabe o que faz! Três meses depois efetuava-se a jornada. — eram passadas três semanas. Conquanto as lágrimas de D. D. se ele deixava correr pela multidão um olhar inquieto e policial. E partiu a comitiva. em lágrimas. Evarista. própria a alargar as bases da psicologia. sobre trinta mil assuntos.

biltre!" — E muitos outros nomes feios. Digo experiência. e. Soares. Maomé. uma enfiada de casos e pessoas. de uma experiência. e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade. em que de mistura vinham entidades odiosas. fracalhão. Quanto à idéia de ampliar o território da loucura. quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador. anda. alma de lacaio. Pois agora agüenta-te. disse ele. Bacamarte. que tinha um demônio familiar. principal adorno de seu espírito. Depois explicou compridamente a sua idéia. Disse isto. levantando as mãos ao céu. desde trinta anos. pois. e respondeu: — Trata-se de coisa mais alta. de exemplos. trata-se de uma experiência científica. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.. quanto mais a si mesmo. e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios. declarou-a sublime e verdadeira. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. não é? aí tens o lucro. não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo. — Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula. segundo ele me disse. Que negócio importante podia ser. Caracala. senão uma investigação constante. vil. Soares. para ruminar o pasmo do boticário. bem feito. o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa. que um homem não deve dizer aos outros. visto insistirem nele os cronistas: Crispim amava a mulher. porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia. Sr.— Trata-se de negócio importante. e até acrescentou sentenciosamente: — A ferocidade. Sr. agüenta-te. que via um abismo à sua esquerda. acrescentou o portador. é o grotesco a sério. Dizes amém a tudo. miserável. era até agora uma ilha perdida no oceano da razão. e calou-se. e entidades ridículas. apontou com especialidade alguns personagens célebres. achou-a o boticário extravagante. objeto dos meus estudos. Assim se explicavam os monólogos que ele fazia agora. — Estou muito contente. se não alguma triste notícia da comitiva. nunca estiveram separados um só dia. Assim. muito gracioso! exclamou Crispim Soares. como um raro espírito que era. A loucura. Crispim empalideceu. e acrescentou que era "caso de . — Gracioso. mas. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí. Trata-se. de textos. Domiciano. e refugiou-se na história. começo a suspeitar que é um continente. nem a ciência é outra coisa. etc. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros. mas a modéstia. Calígula. Sócrates. mas uma experiência que vai mudar a face da terra. reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí. torpe bajulador! Só para adular ao Dr. e que os fâmulos lhe ouviam muita vez: "Anda. O alienista fez um gesto magnífico. uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço. Pascal. Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio.

um soneto. Por exemplo. não dispunha de imprensa. demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. Naquele tempo. Verdade. — com tal segurança. A ciência contentou-se em estender a mão à teologia. nem todas as instituições do antigo regime mereciam o desprezo do nosso século. que é a razão. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades. e aliás nunca domesticara um só desses bichos. — Com a definição atual. que era uma obra absurda. tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. não divergindo sensivelmente deste modo de ver disse-lhe que sim. E o boticário. mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Itaguaí. arraiais e povoações da colônia. respondeu o alienista à insinuação do boticário.matraca". que é a de todos os tempos. o meu fim. é ver se posso extrair a pérola. Eis em que consistia este segundo uso. concluiu ele. que era melhor começar pela execução. um dos vereadores. com uma matraca na mão. fora daí insânia. — um remédio para sezões. insânia. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. a melhor tesoura da vila. é práticá-la. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública. — Há melhor do que anunciar a minha idéia. mas só devida à absoluta confiança no sistema. Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. verdade. afirmação perfeitamente falsa. Contratava-se um homem. e disse: — Supondo o espírito humano uma vasta concha. por um ou mais dias. por outros termos. em que o desdém vinha casado à comiseração. — aquele justamente que mais se opusera à criação da Casa Verde. mas. a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas. — desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos. tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da câmara e da matriz. era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução. declarou lisamente que não chegava a entendê-la. o mais belo discurso do ano. O vigário Lopes. Simão Bacamarte refletiu ainda um instante. — Sempre haverá tempo de a dar à matraca. a quem se confiou a nova teoria. De quando em quando tocava a matraca. . para andar as ruas do povoado. — ou por meio de matraca. um donativo eclesiástico. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução. umas terras lavradias. etc. se não era absurda. mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. reunia-se gente. que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. acrescentou. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando ao peito do vereador. Sr. e só insânia. que como as demais vilas. Soares. e ele anunciava o que lhe incumbiam. e.

Imagina-se a consternação de Itaguaí. a tal ponto que. da mediania à pobreza. retorquiu o outro. três meses depois veio este pedir-lhe uns cento e vinte cruzados com promessa de restituir-lhos daí a dois dias. — Impossível! — Qual impossível! foi recolhido hoje de manhã." Costa era perspicaz. logo que ele assomava no fim da rua. dois mil a outro. a população de Itaguaí ouviu consternada a notícia de que um certo Costa fora recolhido à Casa Verde. Ainda em cima! depois de tanto que ele fez. ao contrário. e ele se risse dela." Costa não se deteve um minuto. Infelizmente não teve tempo de ser pago.. na verdade. Um dia.. Nem se lhe dava de ver que os menos corteses eram justamente os que tinham ainda a dívida em aberto. atribuindo-lhe a intenção de rejeitar o que não vinham meter-lhe na algibeira. que está no céu. quando soube do caso. segundo lhe declarou o tio no testamento. vieram bater-lhe à porta. estava sem nada. ninguém mais pôs em dúvida os sentimentos cavalheirescos daquele digno cidadão.. com intimidade. Herdara quatrocentos mil cruzados em boa moeda de el-rei Dom João V. da pobreza à miséria. As necessidades mais acanhadas saíram à rua. como entrou a dividi-la em empréstimos. duas horas depois achou um meio de provar que lhe não cabia um tal labéu: pegou de algumas dobras. era o resíduo da grande herança. com as suas capas remendadas. para viver "até o fim do mundo". foi ao devedor e perdoou-lhe a dívida. observou um desafeiçoado. Esse último rasgo do Costa persuadiu a crédulos e incrédulos. — Mas. E o Costa sempre lhano. trezentos a este. o pasmo de Itaguaí seria enorme. no fim de cinco anos. cinco meses depois era recolhido à Casa Verde. e mais sublime resignação. Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguaí. Não se falou em outra . com certa perfídia: — "Você suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga. agora batiam-lhe no ombro. dinheiro cuja renda bastava. ele foi passando da opulência à abastança. Tão depressa recolheu a herança.. Era também pundonoroso e inventivo. entretanto. diziam-lhe pulhas.. ele não merecia. — "Não admira. parece que os agasalhava com maior prazer. sem usura. — Agora espero que. Um verme. e mandou-as de empréstimo ao devedor. com os seus chinelos velhos. logo. oitocentos àquele. roía a alma do Costa: era o conceito do desafeto. como um desses incuráveis devedores lhe atirasse uma chalaça grossa. entendeu que ele negava todo o merecimento ao ato. pessoas que levavam o chapéu ao chão. risonho. — pensou ele sem concluir a frase. Ao cabo daqueles cinco anos. gradualmente. mas era também uma nobre desforra: Costa emprestou o dinheiro logo. davam-lhe piparotes no nariz. mas veio devagar. Mas isso mesmo acabou.. Se a miséria viesse de chofre. o Costa abriu mão de uma estrela. da abastança à mediania.V O terror Quatro dias depois. e sem juros. mil cruzados a um.

não as dizia.. um pouco espantado. edificou-se um romance. abriu a mão em ar de ameaça. descobriu que um escravo lhe roubara um boi. ao almoço. terríveis. A cara era um pimentão. . o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada. O homem olhou para ele. — Não? — Não. Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima e compaixão. em mangas de camisa. mas acrescentava que a ciência era a ciência. Comentava-se o caso nas esquinas. que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz. E daí a vingança. senhor. lembra-me como se fosse hoje. Ninguém queira acabar de crer. tão certo como isto ser o sino salamão!" E mostrou o sino salamão impresso no braço. — Isso. estendeu-lhe a mão polidamente. mas sabia. a indignação do Costa e o desprezo da prima. Meu tio (Deus lhe fale n'alma!) respondeu que fosse beber ao rio ou ao inferno. que motivo. mas quando estava furioso era capaz de nem tirar o chapéu ao Santíssimo. a boca escumava. Se ele gastou tão depressa o que recebeu. e perguntando por que motivo o tinham levado para ali. conforme as versões. Quando ela acabou. A mísera acreditou. — ou mansos. um dia. todo ele tremia. sem inimizade. falando com muita clareza. ele levou-a à Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados. dizia-se que o Costa ensandecera. que é íntimo dele. nos barbeiros. não nos podia dizer o que há. prima do Costa. meu senhor. Histórias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco.. à vista de modo como dissipara os cabedais que. chegou-se a ele e pediu água. e contavamse os acessos. outros que de madrugada. não! interrompeu a boa senhora com energia. e achou o pobre Costa. pouco tempo antes de morrer. Então um homem feio. A última pessoa que intercedeu por ele (porque depois do que vou contar ninguém mais se atreveu a procurar o terrível médico) foi uma pobre senhora. O defunto meu tio não era mau homem. Era claro. a vida de estudos que ele levava. não! Isso. e até engraçados. O alienista disse-lhe confidencialmente que este digno homem não estava no perfeito equilíbrio das faculdades mentais. foi esta praga daquele maldito.coisa. quase que podia jurar. por não ter certeza plena. Eu lhe digo como o negócio se passou. e rogou-lhe esta praga: — "Todo o seu dinheiro não há de durar mais de sete anos e um dia. imagine como ficou. a culpa não é dele. sombrios. sem motivo.. tranqüilo. Ora. Mas a austeridade do alienista. umas finezas namoradas que o alienista outrora dirigira à prima do Costa. Alguns foram ter com o alienista. que. como se o fizesse à própria esposa do vice-rei e convidou-a a ir falar ao primo. que eram furiosos. cabeludo. E um dos mais crédulos chegou a murmurar que sabia de outras coisas. o que houve. A notícia desta aleivosia do ilustre Bacamarte lançou o terror à alma da população. — Você. Foi isto. Muita gente correu à Casa Verde. e que ele não podia deixar na rua um mentecapto.. pareciam desmentir uma tal hipótese. Bacamarte espetara na pobre senhora um par de olhos agudos como punhais.

Entre a gente ilustre da povoação havia choro e ranger de dentes. desvendar a nenhuma pessoa humana. o colaborador do grande homem e das grandes coisas. nem ao boticário. E entretanto não foi outra a alegação do boticário. e assim ficava duas e três horas até que anoitecia de todo. porque as janelas viviam abertas.. — Agora lá está o Mateus a ser contemplado. Os vizinhos. De manhã. Tudo isso dizia o carão jucundo e o riso discreto do boticário. trajado de branco. o boticário. daí a corrida à botica. até que vinham chamá-lo para almoçar. mas havia mais. Não havia duvidar. — Há coisa. namorado. era costume do Mateus estatelar-se. mobília rara. segundo contava. no meio do jardim. que ele mandara vir da Hungria e da Holanda. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa. mas que fazia rir às bandeiras despregadas. com os olhos na casa. nem ao padre Lopes. mas repousava dele na contemplação da casa nova. Não deixou o negócio das albardas. se fabricasse as albardas para si mesmo. — e o jardim. cheio de mistérios científicos. de tarde. pensavam os mais desconfiados. mais grandiosa do que a Casa Verde. sobre um fundo escuro. durante um longa hora. um. com efeito.Crispim Soares derretia-se todo. o riso e o silêncio. a primeira de Itaguaí. que ele não podia. secos. dois. diziam os transeuntes. quando muito. bem no centro. Um desses limitou-se a pensá-lo. senhor. constante e miúdo. embora o cumprimentassem com certo respeito. sem desdouro nem perigo. porque ele não respondia nada. quando se pensava ou se falava ou se louvava a casa do albardeiro. Só a casa bastava para deter e chamar toda gente. que era uma obra-prima de arte e de gosto. — um simples albardeiro. — Não. quando as famílias saíam a passeio (jantavam cedo) usava o Mateus postar-se à janela. que enriquecera do fabrico de albardas. Acabava de construir uma casa suntuosa. acudiu vivamente Crispim Soares. Crispim. — Não? . e estaria riquíssimo. Deus do céu! — Lá está ele embasbacado. de manhã. encapados no fiel sorriso. dos amigos atônitos. deu de ombros e foi embora. Tinha negócios pessoais. — a mobília. posto que ele não a confessasse a nenhuma pessoa. quando o alienista lhe disse que o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras. Esse homem. atitude senhoril. era para ele uma consagração pública. que era um gosto. Aquilo de contemplar a casa. riam-se por trás dele. três monossílabos. soltos.. e que se podia ver do lado de fora. mania que ele Bacamarte descobrira e estudava desse algum tempo. A razão deste outro dito era que. vistoso. jardim pomposo. Um desses chegou a dizer que o Mateus seria muito mais econômico. epigrama ininteligível. diziam à tarde. Pode crer-se que a intenção do Mateus era ser admirado e invejado. seus grandes amigos. mais nobre do que a da câmara. tinha tido sempre o sonho de uma casa magnífica. toda a povoação sabia enfim que o privado do alienista era ele.

Chegaram duas ou três pessoas de fora. D. parando. O pobre Mateus. Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte. não fez mais do que condenar-se. viu-o à janela. — duas ou três de consideração. O alienista guiou para os lados da casa do albardeiro. desde cedo até o cair da noite. Evarista recebia os cumprimentos dos amigos. nada viu o boticário que fizesse suspeitar uma intenção sinistra. Sucediam-se as versões populares. Vingança. mas como tinha as alegrias próprias de um sábio. deu outro relevo às atitudes. no dia seguinte. tal era o produto diário da imaginação pública. ou nada mais quis. Daí as aclamações públicas. de tarde. que não explicavam nada. de um gesto que não se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Triste! triste. — ou quase toda — que algumas semanas antes partira de Itaguaí. é verdade. estendeu os braços à dona. — E contou o uso do albardeiro. O alienista dizia que só eram admitidos casos patológicos. O momento em que D. Ou ele não conhecia todos os costumes do albardeiro. Deus! era a primeira vez que Simão Bacamarte dava ao seu privado tamanha honra. o padre Lopes. as flâmulas. arvorecer. Evarista pôs os olhos na pessoa do marido é considerado pelos cronistas do tempo como um dos mais sublimes da história moral dos homens. com desdouro e míngua daquela cidade. mas talvez não saiba que ele de manhã examina a obra. saíram. e desmaiou.— Há de perdoar-me. — foram recolhidas à Casa Verde. examinando as atitudes. e o dispensasse a ele. a imensa gente que atulhava as ruas. e vários outros magistrados. não a admira. — A Casa Verde é um cárcere privado. Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí. castigo de Deus. e o préstito punha-se em marcha. — a medo. do que confirmar alguma notícia incerta ou suspeita vaga. sem desengonçar por um instante a rigidez científica. ambas extremas. A explicação satisfê-lo. monomania do próprio médico. como podia acontecer que Bacamarte elegesse alguma delas. são os outros que admiram a ele e à obra.. Crispim ficou trêmulo. frio como diagnóstico. e toda a mais comitiva. Nisto chegou do Rio de Janeiro a esposa do alienista. Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. e isto pelo contraste das duas naturezas. apenas notou que era objeto da curiosidade ou admiração do primeiro vulto de Itaguaí. passou cinco. com o boticário. devagar. ao cabo de dois minutos. os vereadores. cobiça de dinheiro. Evarista era a esperança de Itaguaí. D. disse um médico sem clínica. interrogando o Crispim. Ao contrário. balbuciou uma palavra e atirou-se ao consorte. D. todas as tardes. mil outras explicações. mas pouca gente lhe dava crédito. plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer germe de prosperidade que viesse a brotar. disse que sim. vinte e tantas pessoas. a mulher do Crispim Soares. não só atrasavam o passeio. para acompanhá-lo. e o alienista pediu-lhe o braço para irem a passeio. Não assim o ilustre Bacamarte. Curto incidente. ambas egrégias. Que impaciência! que aflição! Enfim. que estava pronto. Evarista soltou um grito. atarantado. era de tarde. contava-se com ela para minorar o flagelo da Casa Verde. . porque durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus. foi recolhido à Casa Verde. Crispim mandou-as mentalmente a todos os diabos. que caiu neles. a expressão do rosto. seis vezes por diante. florir. redobrou a expressão. a tia. concentradas.. O alienista foi recebê-la.

Com o braço apoiado no do padre Lopes — porque o eminente Bacamarte confiara a mulher ao vigário.. D. obtemperou o padre. Lá está o Mateus. petulante.. Uma coisa galantíssima. aurora. por falta de texto. Um dos oradores. o marido era um sábio. maior do que Itaguaí e de mais a mais sede do governo. e D. — feitas de metal e despejando água pela boca fora. Evarista achou realmente extraordinário que toda aquela gente ensandecesse. O vigário dizia que sim. — O albardeiro? — O albardeiro.. sem dúvida. — Sim? — É verdade. — Sem dúvida. — A propósito de Casa Verde. O vigário indagava do Rio de Janeiro. consolação.. Evarista voltava a cabeça a um lado e outro... Martim Brito. apólogos. entusiasmada que era a coisa mais bela que podia haver no mundo. que o Rio de Janeiro devia estar agora muito mais bonito. — Mas então? O vigário derreou os cantos da boca. Três horas depois cerca de cinqüenta convivas sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte. Ah! o chafariz das Marrecas! Eram mesmo marrecas. a musa da ciência. ou não quer dizer tudo.. a Casa Verde. a prima do Costa. caridade. que a retórica permitia tais arrojos sem significação. dizia ao ouvido da mulher. curiosa.. e a rua das Belas Noites. onde ela fora muitas vezes. anjo. mas sem visível impaciência. inquieta. à maneira de quem não sabe de nada.. e.. Evarista foi o assunto obrigado dos brindes. rapaz de vinte e . era o jantar das boas-vindas. ainda descontando três quartas partes das louvaminhas. O Passeio Público estava acabado.. que ele não vira desde o vice-reinado anterior. Evarista respondia. o chafariz das Marrecas. e acompanhava-os a passo meditativo. vida. a senhora vem achá-la muito cheia de gente. mas todos? Entretanto custava-lhe duvidar. por exemplo. Se já o era noutro tempo! Não admira. Quando muito. mas. que se não pode repetir a outra pessoa. amplificações. D. no conceito de um vereador. trazia nos olhos duas estrelas. vá. divina. — Tudo isso doido? — Ou quase doido. D. — D. metáforas.. e Sicrano.as flores e damascos às janelas. tinha belas casas. e dois sóis.. Evarista fazia esforços para aderir a esta opinião do marido.. Ela era a esposa do novo Hipócrates. O alienista ouvia essas coisas um tanto enfastiado. disse o padre Lopes escorregando habilmente para o assunto da ocasião. versos de toda a casta. ficava muito com que enfunar-lhe a alma. não recolheria ninguém à Casa Verde sem prova evidente de loucura. está o Costa. ia pontuando o vigário. resposta vaga. discursos. e Fulano. a casa do Mateus. segundo a versão modesta de Crispim Soares. Mas não se pode dizer que Itaguaí fosse feio. um paraíso. um ou outro.

tão longe estava de ser atraente ou bonita. às vezes a um menino. que o adiasse. suas idéias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Não se sabia já quem estava são. como acontecera ao filho do juiz de fora. seis recusas. pintalegrete acabado.. provavelmente. menos. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. Verdade é que. pensaram as duas damas. porque o alienista sorria agora para o Martim Brito. acontecia-lhe correr uma distância de dez a vinte braças para ir apertar a mão a um homem grave. na verdade. declamou um discurso em que o nascimento de D. uma vez entrado numa casa.. na rua. Deus quis vencer a Deus. Duas senhoras. Ciúmes? Mas como explicar que.. Seria dele mesmo a idéia relativa ao nascimento de D. Não lhe negou que era um improviso brilhante. Tinha a vocação das cortesias. e nem todos os maridos eram valorosos. Quem podia. cheio de rasgos magníficos. Dava para o épico. e criou D. esmagado pelas "garras vingadoras do Todo". Uma simples água-morna. fossem recolhidos José Borges do Couto Leme. e. senhor. E continuou consigo: — Trata-se de um caso de lesão cerebral.. era dele mesmo. O atrevimento foi grande. nem quem estava doido. Positivamente o terror. o que seria do amarelo? E esta idéia fê-la tremer outra vez. achou-a naquela ocasião e parecera-lhe adequada a um arroubo oratório. caras feias. ou tê-la-ia encontrado em algum autor que. Evarista baixou os olhos com exemplar modéstia. Um moço que tinha idéias tão bonitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes do alienista. "Deus. pessoa estimável. Evarista. De resto. mandavam acender uma lamparina a Nossa Senhora. que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. que D. e. Um desses fugitivos. — ou que o adiasse. que eram raros. emigrava. alguns não andavam fora sem um ou dois capangas. tão gracioso era o .. das imagens grandes e nobres. de sangue. amável. quatro. O que acontecia era que. foi ter com ele e falou-lhe do discurso. chegou a admitir. três dias depois. o Chico das Cambraias. e assim outras. compôs uma ode à queda do marquês de Pombal. como à nobre tenacidade com que nunca desanimava diante de uma. em que dizia que esse ministro era o "dragão aspérrimo do Nada". embora menos. levantados todos.? Não. interrogaram os olhos do dono da casa. a uma senhora. depois de dar ao universo o homem e a mulher. Uma delas. e. nem os da casa o deixavam a ele. ao menos. não só aos dotes pessoais. folgazão emérito. conversado. para o dia seguinte. logo em seguida. o gesto do alienista pareceu-lhe nublado de suspeitas. Evarista. Sim.cinco anos. devia as boas relações da sociedade. etc. de ameaças. realmente a declaração do moço fora audaciosa demais. tão polido que não cumprimentava alguém sem levar o chapéu ao chão. D. Evarista não merecia nenhuma desconfiança. duas. se todos os gostos fossem iguais. chegou a ser preso a duzentos passos da vila. As mulheres. a mais piedosa. esse diamante e essa pérola da coroa divina (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa). polido. fenômeno sem gravidade. mais ou menos fora do comum.. — Pobre moço! pensou o alienista. consigo mesma. curtido de namoros e aventuras. quando os maridos saíam. mas digno de estudo. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer episódio trágico. Era um rapaz de trinta anos. Não podia ser outra coisa." D. Evarista ficou estupefada quando soube. o escrivão Fabrício e ainda outros? O terror acentuou-se. achando a cortesanice excessiva e audaciosa. por exemplo. disse ele. Uma vez. gostava das idéias sublimes e raras. De resto. não a deixava mais.

A idéia de uma petição ao governo. nunca o via desligar-se de uma pessoa que não declamasse e emendasse este trecho: La bocca sollevò dal fiero pasto Quel seccatore. era filha da obscuridade de um alvará e não da cobiça ou ódio. mas o interesse particular. Os únicos desafeiçoados que tinha eram alguns sujeitos que.. a palestra comprida.Gil Bernardes. O terror crescia. avizinhava-se a rebelião. mas uns sabiam do ódio do padre. antes que o barbeiro Porfírio a expendesse na loja com grandes gestos de indignação. Na verdade. andou por algumas cabeças. redigiram e levaram uma . A mesma demanda que ele trazia com o barbeiro. ou alegando andar com pressa. todos repetiam que era um homem perfeitamente ajuizado. — Devemos acabar com isto! — Não pode continuar! — Abaixo a tirania! — Déspota! violento! Golias! Não eram gritos na rua. que cultivava o Dante. viu crescerem-lhe os lucros pela aplicação assídua de sanguessugas que dali lhe pediam. — Não me dirão em que é que o Coelho é doido? bradou o Porfírio. mas não desdenhando os outros. o Coelho. Note-se. preferindo os que sabiam dizer duas palavras. mal o viam de longe dobravam as esquinas. apesar de se saber estimado.. mas foi logo apanhado e conduzido à Casa Verde. na madrugada seguinte fugiu da vila. — e essa é uma das laudas mais puras desta sombria história. e assim é que nunca estava só. mas não tardava a hora dos gritos. Pois o Gil Bernardes. desde que a Casa Verde começara a povoar-se tão extraordinariamente. deve ceder ao interesse público. gostada a sorvos largos. E ninguém lhe respondia. dizendo-se taciturnos. Um excelente caráter o Coelho. acerca de uns chãos da vila. para que Simão Bacamarte fosse capturado e deportado. teve medo quando lhe disseram um dia que o alienista o trazia de olho. e outros pensavam que isto era uma oração em VI A rebelião Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro. eram suspiros em casa. O padre Lopes. dizia ele. e era inimigo do Coelho. entravam nas lojas etc. — note-se que o Porfírio. latim. ele amava a boa palestra. E acrescentava: — é preciso derrubar o tirano! Note-se mais que ele soltou esse grito justamente no dia em que Simão Bacamarte fizera recolher à Casa Verde um homem que trazia com ele uma demanda.

— Falso? — Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre médico. com prudência. algumas distintas. à rebelião. concluiu o presidente. reservando-se ao direito de pedir pelos meios legais a . que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota. Seguramente o alienista podia estar em erro. com aplauso de toda a câmara. mas com firmeza. tinha o dom da palavra e falou ainda por algum tempo. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebelião. que o despotismo científico do alienista complicava-se do espírito da ganância. declarou que estava investido de um mandato público. que mudou de parecer. — Voltai ao trabalho.representação à câmara. o vereador dissidente. desiste do estipêndio votado pela câmara. bem como nada receberá das famílias dos enfermos. menos ainda por movimentos de rua. ou supostos tais. e em falta delas a câmara. — "essa Bastilha da razão humana". — É falso. e que ele repetiu com muita ênfase. interrompeu o presidente. Esta figura corrigiu um pouco o efeito da outra: Sebastião Freitas prometeu suspender qualquer ação. e não restituiria a paz a Itaguaí antes de ver por terra a Casa Verde. — expressão que ouvira a um poeta local. Os colegas estavam atônitos. Disse que entendia de bom aviso decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde. A irritação dos agitadores foi enorme. A câmara recusou-se a aceitá-la. e para demonstrar o erro era preciso alguma coisa mais do que arruaças e clamores. em que nos declara que. são reclusos por dementes. e que a ciência não podia ser emendada por votação administrativa. Disse.. para não dar corpo e alma à rebelião. e destruir a Casa Verde. não eram tratados de graça: as famílias. quem nos afirma que o alienado não é o alienista? Sebastião Freitas. urgia obstar ao ajuntamento. e porque o presidente. outras humildes mas dignas de apreço. declarando que a Casa Verde era uma instituição pública. tão puro. visto que os loucos. é o conselho que vos damos. que muitas pessoas estimáveis. — achou-a tão elegante. mas se tantos homens em quem supomos juízo. O barbeiro. que era por ora um turbilhão de átomos dispersos. não aventasse as suas idéias na rua. ouvindo agora a denominação dada pelo barbeiro à Casa Verde. à luta. o presidente pediu-lhe que. e a um sinal. desse o exemplo da ordem e do respeito à lei. indignado. ao sangue. todos saíram com ele. Isto disse o presidente. depois de alguns instantes de concentração. um dos vereadores que apoiara o presidente. pagavam ao alienista. Para acrescentar ao mal. tratando de fazer experiências de alto valor psicológico. o vereador fez esta reflexão: — Nada tenho que ver com a ciência. A notícia deste ato tão nobre. ao mesmo. Imagine-se a situação dos vereadores. suspendeu um pouco a alma dos rebeldes. jaziam nos cubículos da Casa Verde. mas nenhum interesse alheio à ciência o instigava. — "Bastilha da razão humana". manifestasse em termos enérgicos o seu pasmo..

não descia à rua. — e o movimento ficou célebre com o nome de revolta dos Canjicas. olha aí do lado esquerdo. — Morra o alienista! — bradavam as vozes mais perto. se não resistia facilmente às comoções de prazer. E repetia consigo. correu à sala interior onde o marido estudava. tolo! Benedita. porque ela deu o nome à revolta. D. sem que ele lhe desse atenção. à terceira. a quem D.. Assim. Não desmaiou. não parece que a costura está um pouco enviesada? A risca azul não segue até abaixo. Sinhá vira um bocadinho. Benedita. — Há de ser alguma patuscada. — Está. subiam do livro ao teto e baixavam do teto ao livro. vê se a barra está boa. — Cala a boca. Evarista teve notícia da rebelião antes que ela chegasse. ao ver que a realidade vinha jurar por ele. está muito feio assim. entranhado. ou quase unânime. ouviu e perguntou-lhe o que tinha. é preciso descoser para ficar igualzinho e. cegos para a realidade exterior. — Morra o Dr. o terror petrificou-a. — um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro. dizia ela mudando a posição de um alfinete. chamavam-lhe o Canjica. — podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha. imperceptível. Já não eram trinta. D. sabia entestar com os momentos de perigo. D. — visto que muita gente. Era a rebelião que desembocava na rua Nova. Evarista não dera crédito. videntes para os profundos trabalhos mentais. Está muito boa. ou por hábitos de educação. namorado: — Bastilha da razão humana! Entretanto. mas trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro. de satisfação moral. — dada a diferença de Paris a Itaguaí. empanados pela cogitação. — e não quis crer. A ação podia ser restrita. A mucama correu instintivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque. veio dar-lhe uma de suas crias. respondia a mucama de cócoras no chão. D. . a arruaça crescia. ou por medo. e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde. eles estão gritando: — Morra o Dr. mas o sentimento era unânime. os olhos dele. Quando ela ali entrou. No primeiro instante não deu um passo.redução da Casa Verde. — Não é patuscada.. não fez um gesto. Bacamarte! morra o tirano! uivavam fora trezentas vozes. Evarista ficou sem pinga de sangue. se estava doente. Evarista chamou pelo marido duas vezes. sinhá. Ela provava nessa ocasião um vestido de seda. teve um instante de triunfo. Evarista. — Você não ouve esses gritos? perguntou a digna esposa em lágrimas. senhora. Bacamarte! o tirano! dizia o moleque assustado. está boa. precipitada. o ilustre médico escrutava um texto de Averróis. um certo movimento súbito. não. cuja alcunha familiar deve ser mencionada.

nem a rebeldes. agitando o chapéu. e chegou ali no momento em que a rebelião também chegava e parava. — Morra! morra! bradaram de todos os lados.. A infeliz dama curvou a cabeça. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém. e declarou ao alienista que podia falar. os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação. mas se exigis que me negue a mim mesmo. e. com as suas trezentas cabeças rutilantes de civismo e sombrias de desespero. nada mais. — Abaixo a Casa Verde! bradavam os Canjicas. não ganhareis nada. tirano. que não era caso de morte. ordenamos que a Casa Verde seja demolida.. conseguiu aquietar os amigos. fechou o livro. Então. ou pelo menos despojada dos infelizes que lá estão. — Entendeis bem. a ciência é coisa séria. obediente e chorosa. O alienista caminhou para a varanda da frente. em comissão dos outros. quero morrer ao lado de você. apenas o vulto do alienista assomou na varanda.O alienista atendeu então. implorava a digna senhora. replicou fremente o barbeiro. mas não faço. estou pronto a ouvir-vos.. O alienista sorriu. pedis. Simão Bacamarte fez um sinal pedindo para falar. defronte. se for preciso. Se quereis emendar a administração da Casa Verde. mas acrescentou que não abusasse da paciência do povo como fizera até então. ameaçadores. mas o sorriso desse grande homem não era coisa visível aos olhos da multidão. ou até não direi nada. Depois disse à mulher que se recolhesse. e. ganância. a passo firme e tranqüilo. Poderia convidar alguns de vós. — Direi pouco. capricho. o barbeiro. Desejo saber primeiro o que — Não pedimos nada. foi depositá-lo na estante. e ainda que o fosse. a vir ver comigo os loucos reclusos. não. o que não farei a leigos. porque seria dar-vos razão do meu sistema. — Não entendo. e merece ser tratada com seriedade. a fim de impor silêncio à turba. Simão Bacamarte cuidou de corrigir este defeito mínimo. ele compreendeu tudo. queremos dar liberdade às vítimas do vosso ódio. Simão Bacamarte teimou que não.. os gritos aproximavam-se. Sorriu e respondeu: — Meus senhores. que não fizesse nada. — Não. salvo aos mestres e a Deus. Levantou-se da cadeira de espaldar em que estava sentado. aliás. interessante. terríveis. . Como a introdução do volume desconcertasse um pouco a linha dos dois tomos contíguos. era uma contração leve de dois ou três músculos. intimava-lhe em nome da vida que ficasse.

não levareis a nossa honra. Destruamos o cárcere de vossos filhos e pais. Os dragões pararam. — Vamos! bradou Porfírio agitando o chapéu. convidou os amigos à demolição da Casa Verde. e. podeis tomá-los. pareceulhe então que. na masmorra daquele indigno. . agitando o chapéu. os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles. e de vós mesmos. e a multidão ficou atônita. a outra parte apoiou fortemente o barbeiro. ou o degredo. talvez a chicote. e quis bradar-lhes: — Canalhas! covardes! — mas conteve-se. O barbeiro tornou logo a si. ou talvez a forca. conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso. demolindo a Casa Verde. sentiu um impulso de indignação. O barbeiro. A ocasião era agora ou nunca. Mas o assombro cresceu de ponto quando o alienista. Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição do governo. entrava na rua Nova. deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. os nossos direitos. dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguaí. e ameaçava arrasar a Casa Verde. de vossos parentes e amigos.Disse isto o alienista. murmurou. cortejando a multidão com muita gravidade. mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. houve um instante de estupefação. a resposta do alienista diminuíra o furor dos sequazes. e com eles a salvação de Itaguaí. cuja resposta consistiu nestes termos alevantados: — Não nos dispersaremos. mas. mas era recusado por não ter nenhuma posição compatível com tão grande cargo. — Vamos! repetiram todos. ameaçou. Infelizmente. e rompeu deste modo: — Meus amigos. a marche-marche. bradou. A multidão agitou-se. VII O inesperado Chegados os dragões em frente aos Canjicas. o capitão intimou à multidão que se dispersasse. lutemos até o fim! A salvação de Itaguaí está nas vossas mãos dignas e heróicas. era claro que não esperava tanta energia e menos ainda tamanha serenidade. o nosso crédito. Desde alguns anos que ele forcejava por ver o seu nome incluído nos pelouros para o sorteio dos vereadores. fora tão longe na arruaça que a derrota seria a prisão. Era a revolta que tornava a si da ligeira síncope. Se quereis os nossos cadáveres. logo que o percebeu. chegaria a apoderar-se da câmara. mas só os cadáveres. de vossas mães e irmãs. Ou morrereis a pão e água. Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que. Demais. poucas vozes e frouxas lhe responderam. e derrocando a influência do alienista. congregou-se toda em derredor do barbeiro.

indignada. entregou-se. lembremo-nos que estamos a serviço de Sua Majestade e do povo. Era a vertigem das grandes crises. o vereador dissidente cuja defesa dos Canjicas tanto escandalizara os colegas. trepando às janelas das casas. ao mesmo tempo que lançou desânimo às fileiras da legalidade. um a um. aclamando o barbeiro. as crônicas não o declaram. Porfírio aceitou o encargo. mas a maioria ficou. de modo que. cuidaram que a tropa capturara a multidão. — Sebastião Freitas insinuou que melhor se poderia servir à coroa e à vila saindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fora. com alguma gente. O presidente não desanimou: — Qualquer que seja a nossa sorte. O capitão estava de um lado. O momento foi indescritível. Esta frase foi proposta por Sebastião Freitas. mandando carregar sobre os Canjicas. que o povo ratificou.Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro. declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro. Este ia na frente. A multidão urrou furiosa. uma proclamação ao povo. Os vivas ao barbeiro. vendo a multidão e a tropa. quando um terço dos dragões. como se ela fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. acompanhado de alguns de seus tenentes. mas toda a câmara rejeitou esse alvitre. animada pela exortação do barbeiro. — passou subitamente para o lado da rebelião. e comunicou ao povo essas resoluções. A revolução triunfante não perdeu um só minuto. O barbeiro veio à janela. disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes. entrava na sala da vereança e intimava à câmara a sua queda. contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. bufando de cólera. o aspecto das coisas era totalmente outro. com muitos protestos de obediência às ordens de Sua Majestade. Então os amigos do barbeiro propuseram-lhe que assumisse o governo da vila. Povo e tropa fraternizavam. e guiou para a câmara. Este tomou a denominação de — "Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo". A câmara não resistiu. disse ele. entraram e votaram uma petição ao vice-rei para que se mandasse dar um mês de soldo aos dragões. confiança que o capitão dissipou logo. finalmente. às janelas. conseguiram escapar. comunicações oficiais do novo governo. empunhando tão destramente a espada. e nada mais natural. "cujo denodo salvou Itaguaí do abismo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes". ou correndo pela rua fora. Os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas. em nome de Sua Majestade. ao "ilustre Porfírio". A vitória cingia-lhe a fronte de um nimbo misterioso. ao vicerei. a Itaguaí. mas enérgica: "Itaguaienses! "Uma câmara corrupta e violenta conspirava contra os interesses de Sua Majestade . A derrota dos Canjicas estava iminente. ao cabo de alguns minutos. davam vivas a el-rei. ao que eles prontamente anuíram. foram passando para eles. e. recolheu os feridos às casas próximas. os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes notícia da triste realidade. curta. Talvez fosse também um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões. Não teve remédio. e sem mais exame. Mas bem depressa a ilusão se desfez. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas. e foi dali para a cadeia. A dignidade do governo começava a enrijar-lhe os quadris. embora não desconhecesse (acrescentou) os espinhos que trazia. Daí a nada o barbeiro. Os vereadores. Expediram-se logo várias ordens importantes. uma exposição minuciosa ao vice-rei. alguns. — qualquer que fosse o motivo.

se o novo governo não tem inimigos? O barbeiro sorriu. e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum. Contai com o meu sacrifício. VIII As angústias do boticário Vinte e quatro horas depois dos sucessos narrados no capítulo anterior. era a pura verdade. os vereadores e os principais da vila. O perigo era tanto maior quanto que. um ato intencional. foi-me confiado o mando supremo. Poucos gritos contra a Casa Verde. não tinham saído contra ele. Salvo o capitão. tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual. um punhado de cidadãos. tão desbaratada pela câmara que ora findou às vossas mãos.ma não se alistará entre os inimigos do governo? disselhe o barbeiro. prova de confiança na ação do governo. sendo um dos homens aparentado com o Protetor. no meio mesmo desses graves sucessos. e ficai certos de que a coroa será por nós. Não era um repto. V. e a vila respirou com uma esperança de que o alienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros. mas o padre Lopes recusou abertamente o seu concurso. Itaguaienses! não vos peço senão que me rodeeis de confiança. entre elas duas senhoras. o barbeiro . Nenhum dos almotacés deixou de vir receber as suas ordens." Toda a gente advertiu no absoluto silêncio desta proclamação acerca da Casa Verde. Rev. dando à fisionomia um aspecto tenebroso. fortemente apoiados pelos bravos dragões de Sua Majestade. — Em todo o caso. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação. sem responder: — Como alistar-me. Os mesmos principais. A opinião pública tinha-a condenado.e do povo. se o não aclamavam. o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre Porfírio. O dia acabou alegremente. até que Sua Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu real serviço. e por unânime consenso da vila. segundo uns. acaba de a dissolver ignominiosamente. No geral. não podia haver mais vivo indício dos projetos tenebrosos do barbeiro. e. as famílias abençoavam o nome daquele que ia enfim libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamarte. o alienista metera na Casa Verde umas sete ou oito pessoas. que me auxilieis em restaurar a paz e a fazenda pública. Ao que o padre Lopes respondeu. toda a gente o aclamava. O barbeiro fez expedir um ato declarando feriado aquele dia. e destruído o terrível cárcere. O protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo Porfírio Caetano das Neves. mas todos o interpretaram dessa maneira.

IX Dois lindos casos . porquanto. obrigou-o a parecer tolerante e moderado. e. e notam. A esposa. minha situação é outra. porém. a tortura moral do boticário naqueles dias de revolução excede a toda a descrição possível. mas a vitória final foi também o golpe final. que nunca pensara noutra coisa. é verdade. não à casa do alienista. a causa da república. Não ignorava ele que era mais decoroso ao governo mandá-lo chamar. — Lá vai o Porfírio à casa do Dr. senhora máscula. disseram-lhe que a causa do ilustre Porfírio era a de todos os patriotas. sabedores da intimidade do boticário com o alienista. Não descrevo o terror do boticário ao ouvir dizer que o barbeiro ia à casa do alienista. uma vez preso o alienista. E tossia com algum custo. mas Catão não se atou a uma causa vencida. de um miserável egoísta. que a causa do alienista estava perdida. viriam também buscá-lo a ele. Deram-lhe cadeira. e trataram a Crispim Soares com apurado carinho. Esta idéia foi o melhor dos vesicatórios. e dirigiu-se à residência de Simão Bacamarte. afirmaram-lhe que o barbeiro não tardava. compreenderam toda a importância da adesão nova. — Vai prendê-lo. Nunca um homem se achou em mais apertado lance: — a privança do alienista chamava-o ao lado deste. Insistindo. — Vai prendê-lo. vai acompanhado de gente. foi de egoísta. na qualidade de cúmplice. que isso mesmo mandaria declarar a Sua Majestade. o imenso poder moral de uma ilusão. se amarra a um cadáver. Crispim Soares ergueu-se. a negócio importante.saiu do palácio do governo. declarou-se doente e meteu-se na cama. que ia sair. disse que estava bom. portanto. Os velhos cronistas são unânimes em dizer que a certeza de que o marido ia colocar-se nobremente ao lado do alienista consolou grandemente a esposa do boticário. mostrou-se admirado de não ver o barbeiro. o boticário caminhou resolutamente ao palácio do governo. e que ninguém. dizia que o lugar dele era ao lado de Simão Bacamarte. Ali chegando. porém. a quem ia apresentar os seus protestos de adesão. pensou ele. Bacamarte disse-lhe a mulher no dia seguinte à cabeceira da cama. não o tendo feito desde a véspera por enfermo. o boticário imaginou que. porque ele sabia a unanimidade do ódio ao alienista. por ato próprio. — com dois ajudantes-de-ordens. ele era a própria causa vencida. Uma idéia traz outra. Sua Senhoria tinha ido à Casa Verde. não achou Crispim Soares outra saída em tal crise senão adoecer. Evarista. Já a simples notícia de sublevação tinha-lhe sacudido fortemente a alma. relembrando algumas palestras habituais do padre Lopes. mas não tardava. Os altos funcionários que lhe ouviam esta declaração. a mulher. apesar de todos os esforços e protestos da consorte. com muita perspicácia. Com efeito. Fê-lo Catão. vestiu-se e saiu. E redobraram-se as angústias. o seu ato. refrescos. ao que o boticário ia repetindo que sim. pensava ele. pensou o boticário. o receio. de que o alienista não obedecesse. ao passo que o coração lhe bradava que não. amiga particular de D. elogios. — foi a denominação dada à casa da câmara. a vitória do barbeiro atraía-o ao barbeiro. sed victa Catoni.

é matéria de ciência.Não se demorou o alienista em receber o barbeiro. E se o governo não a pode eliminar. a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos está em seu perfeito juízo. O barbeiro ficou espantado da pergunta. o arrasamento do hospício. ataque. e portanto estava prestes a obedecer. que lhe dá em tal caso legítima indignação. resistência da câmara. atalhou gravemente o barbeiro. entretanto. Um dos alvitres aceitáveis. — Quantos mortos e feridos houve ontem no conflito? perguntou Simão Bacamarte depois de uns três minutos. A generosa revolução que ontem derrubou uma câmara vilipendiada e corrupta. Com razão ou sem ela. mas pode entrar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. — por força que há de haver um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público. tal a aceitamos das mãos da câmara dissolvida. Demais. insistindo principalmente no descrédito em que a câmara caíra. e tal é a nossa situação. Logo. E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom. reconhecê-la? Também não.ª. E fez-lhe várias perguntas acerca dos sucessos da véspera. e dentro de poucos dias lhe daria resposta. S. pode exigir do governo certa ordem de atos. Só uma coisa pedia. — Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou três vezes o alienista. O governo. adesão dos dragões. não deve. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. tudo.ª. S.ª. declarou-lhe que não tinha meios de resistir. etc. sem grande perigo. tomado de uma cega piedade. seria fazer retirar da Casa Verde aqueles enfermos que estiverem quase curados e bem assim os maníacos de pouca monta. folgaria se pudesse contar não já com a simpatia. mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. em assunto tão melindroso. o governo não pode. Há. S. etc. ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundância. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principais da vila. não os deve praticar. a prisão dele. confessou que esperava outra coisa. mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos. é que o não constrangesse a assistir pessoalmente a destruição da Casa Verde. a Casa Verde é uma instituição pública. ao menos integralmente. concluiu o barbeiro. pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde.. Unamo-nos. mas o governo reconhece que a questão é puramente científica e não cogita em resolver com posturas as questões científicas. se V. O alienista mal podia dissimular o assombro. mostraremos alguma tolerância e benignidade. mas este.. — Engana-se V. menos.. engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Desse modo. senão com a . S. o desterro. defesa. vem de não atender à grave responsabilidade do governo. está ao menos apto para discriminá-la. O povo.ª não indicar outro. com a responsabilidade que lhe incumbe. mas que ele ia catar algum outro. e o povo saberá obedecer. — O pasmo de V. disse o barbeiro depois de alguma pausa. não quer dispensar o concurso de V.

em que o povo não devia crer. Os sintomas de duplicidade e descaramento desse barbeiro são positivos. e bem assim a de uns cinqüenta e tantos indivíduos. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação. A ordem. da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do governo anterior. e restabeleceu a ordem. — Dois lindos casos! murmurou o alienista. agitando seus chapéus. repetiu o alienista depois de acompanhar o barbeiro até à porta. — Onze mortos e vinte e cinco feridos. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfírio. vendo o antigo rival da navalha à testa da insurreição. O governo. outro desterrando o alienista. com grandes frases.benevolência do mais alto espírito de Itaguaí. deuse pressa em os fazer copiar e expedir. O povo indignou-se. — Viva o ilustre Porfírio! bradaram as trinta vozes. Duas horas depois caía Porfírio ignominiosamente e João Pina assumia a difícil tarefa do governo. um engodo. eu velo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim. é a base do governo. Eis aí dois lindos casos de doença cerebral. falou este de "um intruso eivado das más doutrinas francesas e contrário aos sacrossantos interesses de Sua Majestade". Só vos recomendo ordem. como afiançaram . mas impassível como um deus de pedra.. e ainda ouviu este resto de pequena fala do barbeiro às trinta pessoas que o aclamavam: — . compreendeu que a sua perda era irremediável. porque eu velo. e onde outro barbeiro falara de uma câmara corrupta. e seguramente do reino. João Pina mostrou claramente. sem desvanecimento nem modéstia. dizia abertamente nas ruas. meus amigos. — Dois lindos casos! à porta. que ouvia calado. — Viva o ilustre Porfírio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro O alienista espiou pela janela. Quanto à toleima dos que o aclamaram. se não desse um grande golpe. Porfírio. não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos. João Pina. atarantado. e tudo se fará pela melhor maneira. frase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da vila. o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinqüenta aclamadores do novo governo. que o Porfírio estava "vendido ao ouro de Simão Bacamarte".. etc. que ele lhes mudou os nomes. Mas nada disso alterava a nobre e austera fisionomia daquele grande homem. e aliás subentende-se. Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei. que o ato de Porfírio era um simples aparato. X A restauração Dentro de cinco dias. e não só lhe deram esses. acrescentam os cronistas. podeis estar certos disso. que declarou mentecaptos. não sabia reagir. um abolindo a Casa Verde. outro barbeiro. expediu dois decretos.

entusiasmado de tamanha energia. não o é menos que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos. que não fosse logo metido na Casa Verde. declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. consentiram em que Sebastião Freitas também fosse recolhido ao hospício. dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. mas acabou cedendo. os fabricantes de charadas. a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular. Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à câmara foi enriquecer um ourives. comparou-a à aprovação que sempre recebera dele. um gênero que ele pretendia estudar. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras. amigo e compadre dele. e mandou capturá-lo. sabendo da extraordinária inconsistência das opiniões desse vereador. nas ruas. e foi dali à câmara. Tudo era loucura. doente. Este digno magistrado tinha declarado. com grande vantagem para os povos. acrescentando que voltara logo à cama. é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí. A câmara a princípio hesitou. sem outra prova documental ou tradicional. ia do mesmo modo para a Casa Verde. à qual declarou que o presidente estava padecendo da "demência dos touros". Alguns cronistas crêem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura. disse. Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Simão Bacamarte começou por meter o secretário na Casa Verde. Em todo . com menos de trinta almudes de sangue. Ninguém ignora que os doidos gesticulam muito. a toda a pessoa que. daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. os que põem todo o seu cuidado na tafularia. pelo que. entendeu que era um caso patológico. restituídos a seus lugares. não se pode definir.entregar-lhe mais dezenove sequazes do barbeiro. um ou outro almotacé enfunado. e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados. Se um homem era avaro ou pródigo. desde que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas. e deu como prova a ausência de nenhum outro ato seu. e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da câmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda. Quanto à razão determinativa da captura e aposentação da Casa Verde de todos quantos usaram do anel. o verdadeiro fim do ilustre médico. Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a câmara lhe entregou o próprio presidente. conquanto seja certo que o ouvires viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal. em plena sessão. O alienista. que não se contentava. Os cultores de enigmas. e pediu-o. mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror. Daí em diante foi uma coleta desenfreada. os curiosos da vida alheia. e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico achamo-la na prontidão com que os vereadores. ao ver a rebelião triunfante. em casa. mas. Crispim Soares não negou o fato. palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretário da câmara. Simão Bacamarte não o contrariou. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo. aos circunstantes que o terror também é pai da loucura. os maldizentes. na igreja. A mesma coisa aconteceu ao boticário. que convalesciam das feridas apanhadas na primeira revolução. ainda na véspera. deu-se-lhe. à toa. O alienista. para lavá-la da afronta dos Canjicas. ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador. porém. ninguém escapava aos emissários do alienista. de anagramas. sem temeridade. Tudo quanto quis.

disse gravemente o marido. tudo caiu por terra desde que ele não duvidou recolher à Casa Verde a própria mulher. — Onde é que este homem vai parar? diziam os principais da terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado os Canjicas. descrevia-me o trajo. e em todo caso digno de estudo. Alta noite. Rev. Anteontem perguntou-me qual deles levaria. acordo e não a vejo.caso. mas não objetou nada. vou ao quarto de vestir. Evarista fora recolhida às duas horas da noite. Era um grande homem austero. Ontem repetiu a pergunta. porém. preparado. acho-a diante dos dois colares. só hesitava entre um colar de granada e outro de safira. a quem amava com todas as forças da alma. rendas e pedras preciosas que manifestou logo que voltou do Rio de Janeiro. levanto-me. respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. propôs-se a fazer anualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora da matriz. desconfianças. há de lembrar-se. na minha ausência. pouco depois de jantar fui achá-la calada e pensativa. — a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Um dia. antes de me dizer o objeto da visita. invenções. Evarista era de "mania suntuária". XI O assombro de Itaguaí . Suas conversas eram todas sobre esses objetos. de positivo nada há. — Conto pô-la boa dentro de seis semanas. enfeitado o vestuário que levaria ao baile da câmara municipal. — Já há algum tempo que eu desconfiava.. creio que V. — Ah! mas onde fica o de granada? — Enfim. seria hora e meia. Tinha escolhido. Ninguém acreditou. mas acho o de safira tão bonito! — Pois leve o de safira.. concluiu ele. ensaiando-os ao espelho. ora um. e deitamo-nos. O padre Lopes não se satisfez com a resposta. ma aprovando umas coisas e censurando outras. é uma simples conjetura. A modéstia com que ela vivera em ambos matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas. esta noite. Conjeturas. ao almoço. — Que tem? perguntei-lhe. D. Tudo isto eram sintomas graves. ora outro. O alienista. porém. O padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato. Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe. não incurável. veludos. Hipócrates forrado de Catão. E a abnegação do ilustre médico deu-lhe grande realce. devia ser invenção de algum gaiato. inquiria logo da forma dos vestidos das damas. Ceamos. Desde então comecei a observá-la. declarou-se a total demência. — dia em que a câmara devia dar um grande baile. — menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à ciência. percebeu e explicou-lhe que o caso de D. se eu lhe falava das antigas cortes. — Queria levar o colar de granada. E não era: era verdade pura. se uma senhora a visitava. Um dia de manhã. Era evidente a demência: recolhi-a logo. passou a tarde sem novidade.

o que a câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde. mas a oposta. tudo parecia reposto nos antigos eixos. O assombro de Itaguaí foi grande. teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto. ninguém advertia na frase final do § 4º. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à câmara. mas todos. que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde. músicas. 5º. que restituía à câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos. mas foram esplêndidas. De fato o alienista oficiara à câmara expondo: — 1º. que. alguns sim. tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. danças. esperando da câmara igual dedicação. sem nenhuma pressão externa. a câmara exercia outra vez o governo. tocantes e prolongadas. 3º. à vista disso. XII O final do § 4º Apagaram-se as luminárias. Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso propósito. tendo "provado tudo". roupa. Jantares. como o poeta disse de . que esta deslocação da população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais. — É impossível. e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto. 6º. não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. — Todos? — Todos. luminárias. tratando de descobrir a verdade científica. reconstituíram-se as famílias. ensinado pelos acontecimentos. etc. declarava à câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas.E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber que um dia os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua. Reinava a ordem. o presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus lugares. 2º. que. O barbeiro Porfírio. uma frase cheia de experiências futuras. que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento.. descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação. — Todos. que desse exame e do fato estatístico resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela. 4º. e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades. E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte. não se pouparia a esforços de toda a natureza...

antes mesmo daquele prazo mandar fechar a Casa Verde. atendendo-se a que ele derrocara um rebelde. para o fim de ser experimentada a nova teoria psicológica. é certo. E porque a experiência da câmara tivesse sido dolorosa. sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido entusiasmo. do Costa. Mal proferira esta duas palavras. estendeu-lhe a mão de amigo velho. do Martim Brito e outros. O vereador Freitas propôs também a declaração de que em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos alienados: cláusula que foi aceita. a exceção era odiosa e ridícula. retorquiu-lhe o alienista. — adágio imoral. recluso por um dos seus discursos em que louvara enfaticamente D. O próprio Martim Brito. limitada a um ano. a câmara. e apreciou muito a magnanimidade do alienista. mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara. desde que ele os declarara plenamente ajuizados. mas a população da vila implorou a clemência de Sua Majestade. e ainda não me arrependo de o haver restituído à liberdade. tem cem anos de perdão. o barbeiro achou preferível a glória obscura da navalha e da tesoura às calamidades brilhantes do poder. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação e deram-lhe um baile. mas grandemente útil. porque Napoleão não provou a Casa Verde. Este concluiu do ofício de Simão Bacamarte que a prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução. disse ele à mulher. mas a dor de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer ressentimento de amor-próprio. estabeleceu ela a cláusula de que a autorização era provisória. . foi. este. se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem pública. acrescendo que os reclusos da Casa Verde. romperam os vereadores em altos brados contra a audácia e insensatez do colega. votada e incluída na postura apesar das reclamações do vereador Galvão. legislando sobre uma experiência científica. Não é preciso falar do albardeiro. que ao dar-lhe a liberdade. ao qual se seguiram outros bailes e jantares. com a ressalva de que oportunamente estatuiria em relação ao final do § 4º. Foi adotada. é verdade. do Coelho. deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra". Não só findaram as queixas contra o alienista. e o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes. João Pina foi absolvido. Entretanto. fez agora outro em honra do insigne médico — "cujo altíssimo gênio. uma postura. processado. autorizando o alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. — É um grande homem. e mais alguma coisa.Napoleão. O argumento principal deste magistrado é que a câmara. — Agradeço as suas palavras. Evarista. Dizem as crônicas que D. referindo aquela circunstância. podendo a câmara. daí o perdão. basta dizer que puderam exercer livremente os seus hábitos anteriores. elevando as asas muito acima do sol. que respondera ao ofício de Simão Bacamarte. tratou enfim de legislar sobre ele. Evarista a princípio tivera idéia de separar-se do consorte. Os cronistas pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio: — ladrão que furta a ladrão. não podia excluir as pessoas de seus membros das conseqüências da lei. sem debate. especialmente nomeados neste escrito. Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do boticário.

a boa fé. Um sujeito. Evarista o tirou da dificuldade. mas temia voltar à Casa Verde. a mulher do boticário quarenta dias. de casa em casa. Quanto à exclusão dos vereadores. mas Simão Bacamarte não afrouxava. e recolheu-o à Casa Verde. era preciso um longo exame. pelo que rogava à câmara que lho entregasse. . sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador Galvão. e cuja moderação na resposta dada às invectivas dos colegas mostravam da parte dele um cérebro bem organizado. cujo acerto na objeção feita. ia de rua em rua. Agora esperemos o nosso Crispim. Crispim Soares entrou. e correu à casa de Simão Bacamarte e participar-lhe o perigo que corria. interrogando. Este consolou o seu privado. A câmara. — A vereança. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. o respeito humano. Queria viver com a mulher. um vasto inquérito do passado e do presente. mas almoçará e jantará com sua mulher. a cláusula porém. não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espírito humano. E. disse ele à mulher pasmada. e cá passará as noites. prometendo que se incumbiria de ver a amiga e transmitiria os recados de um para outro. declarou que teria profundo sentimento se fosse compelido a recolhê-los à Casa Verde. mas antes disso não podia deixá-la na rua. ia examiná-la com muita atenção. disse Simão Bacamarte: — O senhor trabalhará durante o dia na botica. pela teoria nova. — Um caso destes é raro. Compreende-se que. era a melhor prova de que eles não padeciam do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. a generosidade. e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a retidão dos seus sentimentos. e os domingos e dias santos. A proposta colocou o pobre boticário na situação de asno de Buridan. O padre Lopes. por exemplo. talvez a mulher tivesse alguma lesão cerebral. e nessa luta esteve algum tempo. porque a astúcia e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a beleza moral que ele descobrira na esposa. até que D. o boticário não arrancou as orelhas do alienista. concluiu ele. A dor vencera a raiva. ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a exceção. Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação. Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera e declarando às pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao tirano. estimou o pedido do alienista. ouvindo na rua essa notícia. só foi capturado trinta dias depois da postura. apertou-lhe muito as mãos. não bastava um fato ou um dito para recolher alguém à Casa Verde. parecendo-lhe vantajoso reuni-los. espreitando. assegurando-lhe que não era caso perdido. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão. Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas dezoito pessoas. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversário.porém. esqueceu os motivos da dissidência. adversário do alienista. e votou unanimemente a entrega. Este último rasgo de egoísmo pusilânime pareceu sublime ao alienista.

Mas nada escapa a um espírito original e penetrante. pelo que. parece-lhe. a paciência. e provou a todas as luzes que o testamento era mais que verdadeiro. demandado por um testamento falso. caso a mesma câmara rejeitasse o pedido. mas que ele se emendara. porém. a sagacidade. O distinto jurisconsulto deveu a esta experiência a liberdade. e restituído ao lugar. achara-se enfim a verdadeira patologia cerebral. que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis. que o não fez senão depois de estudar minuciosamente todos os seus atos. pediu-lhe para fazer uma experiência. se ele se pusesse à testa de outro movimento contra a câmara e o alienista. conseguiu meter na Casa Verde o juiz de fora. confessou ter falsificado o testamento. e quando colhia um enfermo. e determinou recolhêlo imediatamente à Casa Verde. outra de leais. por um ano: cumpria. reconheceu a habilidade e o tino com que ele levara a cabo uma experiência tão melindrosa e complicada. O barbeiro respondeu-lhes que não. Jamais aconselharia o emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mãos. ou esperar o fim do prazo. levava-o com a mesma alegria com que outrora os arrebanhava às dúzias. Naturalmente. outra de símplices. e alguns tentaram compelir a câmara a cassar a licença. a verdade inteira. e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso. outra de verídicos.. não agradecendo. e confie-lhe a O homem foi ter com o advogado. mas o agente. outra de sinceros. reconhecendo o erro próprio e a pouca consistência da opinião dos seus mesmos sequazes.estudando. Mandou prendê-lo. Essa mesma desproporção confirmava a teoria nova. dinheiro e influência na Corte. Um dia. deu-lhe. A câmara. mas procedia com tanto escrúpulo. todavia. ou requerer ao vice-rei. que era perigoso deixá-lo na rua. alguns principais da vila recorreram secretamente ao barbeiro Porfírio e afiançaram-lhe todo o apoio de gente. seja qual for. Simão Bacamarte. — Sem dúvida: vá. um dos melhores cubículos. que desde algum tempo notava o zelo. Fez-se uma galeria de modestos. não esquecera a linguagem do vereador Galvão. vê-lo-ia na rua. Os alienados foram alojados por classes. e interrogar os principais da vila. em que reconheceu um tal conjunto de qualidades morais e mentais. etc. arrazoou longamente. recusou. e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. — Então. e se cassasse a licença. a moderação daquele agente. Não se negou o advogado. estudou os papéis. A inocência do réu foi solenemente proclamada pelo juiz. era o nome da pessoa em questão. desconfiado. Simão Bacamarte oficiou aos vereadores. outra de sagazes. as famílias e os amigos dos reclusos bradavam contra a teoria.? causa. confesse tudo.. Mais de uma vez esteve prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas. Desenganados da legalidade. os loucos em quem predominava esta perfeição moral. — O que é que está me dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto . isto é. foi ter com um compadre. que a câmara entendera autorizar a nova experiência do alienista. mas felicitando-os por esse ato de vingança pessoal. e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano. outra de tolerantes. outra de magnânimos. foi o que se deu com um advogado. e a herança passou-lhe às mãos.

também modesto. poeta.lhe contou a conversação do barbeiro com os principais da vila. excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. — Foi um santo remédio. etc. Outro doente. e não ia logo às doses máximas. às distinções honoríficas. O desfecho deste episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem. O governo de Lisboa recusou o diploma. Os lugares de presidente e secretários eram de nomeação régia. contava a mãe do infeliz a uma comadre. que resistiu a tudo. Com efeito. era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí. uma fita. que será o remate da narrativa. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto. Simão Bacamarte cuidou de atacar de frente a qualidade predominante. foi um santo remédio. não sendo escritor (mal sabia assinar o nome). não se lhe podia aplicar o remédio da matraca. Às vezes bastava uma casaca. Suponhamos um modesto. e implicavam o tratamento de Excelência e o uso de uma placa de ouro no chapéu. Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde. — graduava-as. opôs a mesma rebeldia à medicação. ativo e sagaz em descobrir enfermos. e somente como um meio terapêutico para um caso difícil. conforme o estado. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para ele o lugar de secretário na Academia dos Encobertos estabelecida em Itaguaí. por especial graça do finado rei Dom João V. mas contento-me com um. segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras. a idade. e ainda assim não o fez sem extraordinário esforço do ministro da marinha e ultramar. a câmara autorizou um prazo suplementar de seis meses para ensaio dos meios terapêuticos. — Preso por ter cão. Estando os loucos divididos por classes. para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Píndaro. . uma bengala para restituir a razão ao alienado. o temperamento. que merecia nada menos de dez capítulos de exposição. mas. Chegou o fim do prazo. o governo cedeu excepcionalmente à súplica. recorria então aos anéis de brilhantes. XIII Plus ultra! Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte. Foi outro santo remédio. Houve um doente. uma cabeleira. quando teve de mandar correr matraca. mas representando o alienista que o não pedia como prêmio honorífico ou distinção legítima. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas. em outros casos a moléstia era mais rebelde. preso por não ter cão! exclamou o infeliz. e tão inesperado. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura. que vinha a ser primo do alienado. e um dos mais belos exemplos de convicção científica e abnegação humana. a posição social do enfermo.

cogitativo. não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. que toma uma fortaleza por um ponto. Tal era o sistema. A cabeleira cobria-lhe uma . e prontamente lhe deu alta. o alienista atacava outra parte. corrompendo os juízes. — Vejamos. incumbiuo de fazer uma análise crítica da versão dos Setenta. ficou preocupado. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida... Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo. oura outra. Agora. em si mesma. outra e novíssima teoria. e ele obteve uma boa interpretação.. bastavam elas para mostrar que a excelente senhora estava enfim restituída ao perfeito desequilíbrio das faculdades. vejamos se chego enfim à última verdade. Um amplo chambre de damasco. ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes. onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarino de Sua Majestade. Dizia isto. A digna matrona não pode conter a indignação e a vergonha. é admirável! dizia-se nas ruas. alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha. e onde aliás lhe não faltaram carinhos. não ficou muito tempo na célula que lhe coube. ingrato!.. e em boa hora o fez. Quanto à senhora do boticário. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura. digo felicidade. Simão Bacamarte advertiu que. como estas: — Tratante!. Nas explosões da cólera escaparam-lhe expressões soltas e vagas. tão cruelmente afligido de moderação e eqüidade. e embaçando os outros herdeiros. o padre aceitou a incumbência. confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi simples vis medicatrix da natureza. — Por que é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ela todos os dias. com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista.. passeando ao longo da vasta sala.. teve a facilidade de perder um tio. mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Não aconteceu o mesmo com o padre Lopes. se por outro o não pode conseguir. Sabendo o alienista que ele ignorava perfeitamente o hebraico e o grego. todos curados! O vereador Galvão. porque o tio deixou um testamento ambíguo.. Plus ultra! Não ficou alegre. se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde. e o efeito era certo. afinal disseram-lhe a verdade inteira. então. A sinceridade do alienista manifestou-se neste lance.. ainda quando não fosse verdadeira a acusação contida nestas palavras. Um patife que tem feito casas à custa de ungüentos falsificados e podres.. velhaco!.. ao cabo de dois meses possuía um livro e a liberdade. aplicando à terapêutica o método da estratégia militar. Respondiam-lhe ora uma coisa. preso à cintura por um cordão de seda. pensava ele. Imagina-se o resto. Plus Ultra! era a sua divisa.— Realmente. Nem sempre era certo. No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde. Ah! tratante!.

foi a idéia da dúvida. não seria por isso mesmo errônea. Vinte minutos depois alumiou-se a fisionomia do alienista de uma suave claridade. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica. ao cabo de longas e pacientes investigações. e chegou mesmo a concluir que era ilusão. Isso é isto. uma e outra coisa existiam no estado latente. — Nenhum vício? . eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza. Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral. perguntou ele a si: — Mas deveras estariam ele doidos. o vigor moral. destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica? A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos cronistas itaguaienses como uma das mais medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. a paciência. portanto. A de gozo foi por ver que. Súbito. a quem interrogou com franqueza. Chegado a esta conclusão. de um cabo a outro da vasta biblioteca. o grande alienista. uma de gozo. A opinião foi afirmativa. mas proporcionados ao vulto. disse em coro a assembléia. — Sim. e o queixo na mão esquerda. Em pé. — ou o que pareceu cura. Os pés. mas existiam. constantes trabalhos. é certo. parou. Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta idéia lhe refrescara a alma. sendo homem prudente. virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio. a lealdade. não graúdos e mariolas. — Nenhum defeito? — Nenhum. o ilustre alienista teve duas sensações contrárias. aberta. a tolerância. Pois quê! Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta. eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova. metido em si mesmo. pensou ele. fechada. dizia ele consigo. há de ser isso. pareceu-lhe que possuía a sagacidade. e foram curados por mim. e não vinha. outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito. Duvidou logo. Era assim que ele ia. estranho a todas as coisas que não fosse o tenebroso problema da patologia cerebral. diante de uma janela. eram desequilibrados como os outros. eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabara de curar. outra de abatimento. podia afirmar esta verdade: — não havia loucos em Itaguaí. mas. os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão. com o cotovelo esquerdo apoiado na mão direita. Mas as tempestades só aterram os fracos.extensa e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da ciência. resolveu convocar um conselho de amigos. a perseverança. luta ingente com o povo. Sim. a veracidade. não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro? E cavando por aí abaixo. não delgados e femininos. todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.

dizia ele. Era decisivo. e boato duvidoso. sem ter podido alcançar nada. que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. não tem outra prova. que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: — a modéstia. que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante. senão o boato. A assembléia insistiu. o alienista resistiu. bradou o alienista. com os olhos acesos da convicção científica. e ainda mais alegre do que triste. em Itaguaí. fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou. — A questão é científica. Ato contínuo. cujo primeiro exemplo sou eu. finalmente o padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador: — Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses. e brandamente a repeliu. trancou os ouvidos à saudade da mulher.— Nada. impossível. Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste. — Não. Fechada a porta da Casa Verde. -------------------------------------------------------------- TEORIA DO MEDALHÃO Diálogo . recolheu-se à Casa Verde. além dele. trata-se de uma doutrina nova. Seja como for. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática. Mas o ilustre médico. — Tudo perfeito? — Tudo. Alguns chegaram ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco. A simpatia é que vos faz falar. Digo que não sinto em mim esta superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. mas esta opinião. efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade. pois é atribuído ao padre Lopes. no mesmo estado em que entrou. entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. — Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lágrimas. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.

um pirralho de nada. não os rejeites. nem imprecar. podes entrar no parlamento. nas letras ou nas artes. És moço.. não foram tudo aos vinte e um anos. não me dirá? — Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. chegaste aos teus vinte e um anos. longos bigodes. e estás homem. que te levantes acima da obscuridade comum. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha. — Papai. a exuberância. vou dizer-te coisas importantes. as instruções de um pai. definiu a compostura do medalhão. mas aceitar as coisas integralmente. porém. um diploma. não há planger. essa é do corpo. no comércio. senhor. Que horas são? — Onze. Vinte e um anos. apesar de precoces. — Sim. Há infinitas carreiras diante de ti. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade. no dia 5 de agosto de 1854. tens naturalmente o ardor. além das esperanças que deposito em ti. Janjão. mas que ofício. assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem. é uma enorme loteria. Com que. os malogrados inúmeros. algumas apólices. Ouve-me bem. conversemos um pouco. mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. — Creia que lhe agradeço. — Entretanto. e falemos como dois amigos sérios. os improvisos da idade.— Estás com sono? — Não. Há vinte e um anos. Isto é a vida. — Nem eu. faltaram-me. o meu desejo é que te faças grande e ilustre. — Não te ponhas com denguices. assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice. meu peralta. os prêmios são poucos. — Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. meu querido filho. na magistratura. é um puro reflexo ou emanação do espírito. Vinte e um anos. Senta-te e conversemos. e ir por diante. É isto o que te aconselho hoje. e acabo como vês. ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição... O sábio que disse: "a gravidade é um mistério do corpo".. ouve-me e entende. um sinal da . vinhas tu à luz. embora resida no aspecto. formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. na imprensa. meu rapaz. ou pelo menos notável. sem outra consolação e relevo moral. Os mesmos Pitt e Napoleão. Fecha aquela porta. e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. na lavoura. glórias e desdouros. dia da tua maioridade. senhor. tão-somente do corpo. na indústria. com seus ônus e percalços. A vida. alguns namoros. Abre a janela. Não confundas essa gravidade com aquela outra que.

ler compêndios de retórica. — Não é. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas. — Tu. — É verdade. e outros mais precoces. Não digo o mesmo da natação. por mais que as sofreemos. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina. do ranger ou calar das botas novas. abafá-las. O mesmo se dá com as idéias. Eis aí um sintoma eloqüente. da equitação e da ginástica.. Daí a certeza com que o vulgo. — Creio que assim seja. que é a forma mais acentuada da circunspecção. embora elas façam repousar o cérebro. mas nem essa habilidade é comum. com a idade. mas era muito melhor dispor dos dois. etc. deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. eis aí uma esperança. o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqüenta anos. todavia. elas irrompem e precipitam-se. com violência. dissimular o defeito aos olhos da platéia. mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te . meu filho. No entanto. venhas a ser afligido de algumas idéias próprias. conveniente ao uso deste nobre ofício. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio. Geralmente. de trinta e cinco e de trinta. das dimensões de um chapéu. não são. ouvir certos discursos. como podes supor. Uma vez entrado na carreira. Quanto à idade de quarenta e cinco anos. podendo acontecer que. restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. por que quarenta e cinco anos? — Não é. é a data normal do fenômeno. distingue o medalhão completo do medalhão incompleto. mas estes são raros. porque esse fato. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio. O voltarete. Não. imaginando. por um milagre de artifício. é lançar mão de um regime debilitante. pareces dotado da perfeita inópia mental.. se também é um exercício corporal? — Não digo que não. Há-os também de quarenta anos. — Venhamos ao principal.. por exemplo. coisa que entenderás bem. filho do puro capricho. O bilhar é excelente. o dominó e o whist são remédios aprovados. O melhor será não as ter absolutamente. pode-se. um limite arbitrário. conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta. — Entendo. posto indique certa carência de idéias. nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida. um ator defraudado do uso de um braço. ainda assim pode não passar de uma traição da memória. — Mas quem lhe diz que eu. há um meio. vulgares. urge aparelhar fortemente o espírito. — Como assim. cujo faro é extremamente delicado. mas um tal obstáculo é invencível. mas por isso mesmo que o fazem repousar.natureza ou um jeito da vida. Ele pode. refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete.. se me não engano. e vice-versa. escondê-las até à morte.

a cabeça de Medusa. incrustadas na memória individual e pública. tu dizes simplesmente: Antes das leis. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia. de um contrabando. de quando em quando. quando precisam delas. versos célebres.. Faz-se uma lei. Caveant consules é um excelente fecho de artigo político. que românticos. é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa. à sobriedade. podes empregar umas quantas figuras expressivas. Não trato do vocabulário. enfim. que afinal não passa de mero adorno. pode adquirir uma tal ou qual atividade. ao equilíbrio comum. subsiste o mal. há grande conveniência em entrar por elas. o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. clássicos e realistas empregam sem desar. e o espírito deixado a si mesmo. por exemplo. límpida. basta figurar uma hipótese. a hidra de Lerna. ou por causa da atmosfera do lugar. matéria. conceitos. ou de agradecimento. à disciplina. causas certas. das circunstâncias da aplicação. durante oito. não são propícias ao nosso fim. há de ser naturalmente simples. Quanto à utilidade de um tal sistema. por mais pródigo que seja. de qualquer coisa. o tonel das Danaides. reformemos os costumes! — E esta frase sintética. e outras. e. tíbio. ou por qualquer outra. ditos históricos. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias. dar ensejo a um inquérito pedantesco. é utilíssimo. análise das causas prováveis. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova.aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. — Podes. de uma calúnia. causas possíveis. — reduzes o intelecto. O passeio nas ruas.. da natureza do mal. Sentenças latinas. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel. dezoito meses — suponhamos dois anos. da anedota da semana. com a condição de não andares desacompanhado. original e bela. quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade. as asas de Ícaro.. apoucado. porque a solidão é oficina de idéias. o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. de quando em quando. as fórmulas consagradas pelos anos. a uma coleta fastidiosa de documentos e observações.. Melhor do que tudo isso. 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões. De resto. razão que me escapa. sem notas vermelhas. mormente nas de recreio e parada. — Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo. e desvarios. resolve mais depressa o problema. não digo às ocultas. da manipulação do remédio. mas às escâncaras. em que toda a poeira da solidão se dissipa. máximas. . sem cores de clarim. tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios. de felicitação. porém. as locuções convencionais. de um cometa. Não as relaciono agora. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. não produz efeito. embora no meio da multidão. mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. dez. Com este regime. — Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo? — Não faz mal. porque ele está subentendido no uso das idéias. executa-se. um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado. e uma tal monotonia é grandemente saudável. brocardos jurídicos. para todo um andaime de palavras. mas fá-lo-ei por escrito. entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol. As livrarias. não obstante. tirada ao pecúlio comum. transparente. são as frases feitas.

Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término. casos e fenômenos responde toda essa terminologia. mais poupa o corte. Os sucessos de certa ordem. é um sestro próprio desse ilustre lunático. . pertencem-te de foro próprio. além de tedioso e cansativo. irás sabendo a que leis. e as ciências sejam obra do movimento humano. — que. além do susto. não pelo fato em si. que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição.— Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos. que tu deves requestar à força de pequenos mimos. almofadinhas. louvo a denominação. estudos e memórias. cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. tratando-se de um medalhão. têm singulares merecimentos. ou conservar-se-ão novas. — Vamos a ele. sem outro dano. é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos. no primeiro caso. e é radicalmente falso. cinco. Menos monte alardeia de retalhos. serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento. confeitos. coisas miúdas. Uma notícia traz outra. E de duas uma: — ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos. convém tomar as armas do teu tempo. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica. podem ser trazidos a lume. Explico-me. que é insignificante. porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência. segundo um poeta clássico. para mostrar que também és pintor. sejam mitológicas. dez. Que D. vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Quixote solicite os favores dela mediante. no segundo. Percebeste? — Percebi. é que não seria científico. e assim as irmandades e associações diversas. podes ter a coquetice de as trazer. deves decorá-la. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros. cinegéticas ou coreográficas. — Upa! que a profissão é difícil! — E ainda não chegamos ao cabo. Condeno a aplicação. um benemérito. compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar. Quanto mais pano tem. — Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado. A publicidade é uma dona loureira e senhoril. — Entendamo-nos. como tens de ser medalhão mais tarde. De outiva. com o tempo. mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. um forasteiro. ações heróicas ou custosas. como a costureira esperta e afreguesada. Se caíres de um carro. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas. traz o perigo de inocular idéias novas. nos seus livros. e este fenômeno. embora de pouca monta. O verdadeiro medalhão tem outra política. contanto que ponham em relevo a tua pessoa.

Podes pertencer a qualquer partido. muito tempo. come tempo. com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos. o odorífero das flores. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo. paciência. mas há outra. barata. recusar um lugar à mesa aos reporters dos jornais. republicano ou ultramontano. posso ocupar a tribuna? . é o naturalismo do vocabulário. comissões. Qualquer que seja a teoria das artes. de figura obrigada. Mas os que triunfam! E tu triunfarás. e reconhecerlhe somente a utilidade do scibboleth bíblico. o prestimoso dos cidadãos. uma ou duas pessoas de representação. Mais. o anilado dos céus. leva anos. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. engole-os a obscuridade. se for possível. — Nem política? — Nem política. — Se for ao parlamento. razoável e honesto. a sua porção idealista e metafísica. não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele. os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros. não fica excluída nenhuma outra atividade. Em semelhante caso. o noticioso e suculento dos relatórios. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável. principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância. reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção. a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. crê-me. em que a "alavanca do progresso" e o "suor do trabalho" vencem as "fauces hiantes" da miséria. O substantivo é a realidade nua e crua. No caso de que uma comissão te leve a casa o retrato. É difícil. aliás desculpável. Convidarás então os melhores amigos. os parentes. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. — Nem eu te digo outra coisa. como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. com o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetivados. dado que por um tal ou qual escrúpulo. vida? — E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os deficits da — Decerto. não vejo que possas. porque o adjetivo é a alma do idioma. e. podes ajudá-los de certa maneira. Em todo o caso. redigindo tu mesmo a notícia da festa. decentemente.— Essa é publicidade constante. incumbe a notícia a algum amigo ou parente. e tu serás o adjetivo dessas orações opacas. elas virão ter contigo. não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto. Só então poderás dizer que estás fixado. E ser isso é o principal. liberal ou conservador. e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram. fácil. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa. trabalho. — Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil. deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d'água: é uso antigo. é fora de dúvida que o sentimento da família. se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte. de rótulo. irmandades. e. de todos os dias.

— Podes e deves. originalidade.. Que é isto? — Meia-noite. Somente. que se mete pela cara dos outros. é só prover os alforjes da memória. sem biocos. Quanto à matéria dos discursos. — Somente não deves empregar a ironia. faz pular o sangue nas veias. muito sério. é um modo de convocar a atenção pública. e arrebentar de riso os suspensórios. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público. esse movimento ao canto da boca. — Nenhuma filosofia? — Entendamo-nos: no papel e na língua alguma. — Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos. nem véus. Não. Usa antes a chalaça. contraído por Luciano.. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. força é confessá-lo. franca. redonda. gorducha. a nossa boa chalaça amiga. feição própria dos cépticos e desabusados. que te explicará em dez minutos as razões desse ato. "Filosofia da história". — Diga... — Farei o que puder. — e este ponto é melindroso. Não assim a metafísica. estás definitivamente . formulado. — Também ao riso? — Como ao riso? — Ficar sério. não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade. Tens um gênio folgazão. adota a metafísica. é uma locução que deves empregar com freqüência. Supõe que desejas saber por que motivo a 7ª companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu. tens à escolha: — ou os negócios miúdos. serás ouvido tão-somente pelo ministro da guerra. por exemplo. transmitido a Swift e Voltaire. estala como uma palmada.. mas prefere a metafísica. não desdizem daquela chateza de bom-tom. Os negócios miúdos. etc. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão. prazenteiro. etc. chama os apartes e as respostas.. Usa a chalaça. meu peralta. antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo. própria de um medalhão acabado. ou a metafísica política. rotulado. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado. mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. encaixotado. podes brincar e rir alguma vez. Nenhuma imaginação? — Nenhuma. Em todo caso. mas. se puderes. não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo. cheio de mistérios. — Conforme. — é mais fácil e mais atraente. E depois não obriga a pensar e descobrir. inventado por algum grego da decadência.. na realidade nada.

estava a caminho a primeira carta. Impossível despedi-lo ou tratá-lo com frieza. — Já sei. uma declaração em regra. Vamos dormir. parecia totalmente alheio à chegada do bacharel. tornou a sentar-se e disse: — Dou-lhe uma notícia. em um baile. e passa de nove horas. a chegada de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. e anunciam-lhe a visita do major Lopo Alves. Notai que é de noite. recebendo favorável resposta logo depois do chocolate. deu alguns passos na sala. Duarte estremeceu. estivessem ambos a caminho da igreja. sei que foi um vento rijo. que certamente não espera. não? Lopo Alves tirou o relógio e viu que eram nove horas e meia. -------------------------------------------------------------- A CHINELA TURCA Vede o bacharel Duarte. os mais finos cabelos loiros e os mais pensativos olhos azuis que este nosso clima. e tinha duas razões para isso. que eram castanhos. Guardadas as proporções. Creio que é cedo. confiou aos olhos. a moça dos olhos azuis. onde Lopo Alves.. se puder. Vamos dormir. companheiro de seu finado pai no exército. Rumina bem o que te disse. com um rolo debaixo do braço e os olhos fitos no ar. Seu coração deixando-se prender entre duas valsas. antes do fim do ano. Nestas circunstâncias. a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. A primeira era ser o major. respondeu o major sorrindo por baixo do espesso bigode grisalho. o major era aparentado com Cecília. Datava de uma semana aquele namoro. meu filho. e pelo jeito que levavam as coisas não era de admirar que. levantou-se. que é tarde. vai à casa da viúva Meneses. que eles pontualmente transmitiram à moça. — Que bom vento o trouxe a Catumbi a semelhante hora? perguntou Duarte. Três dias depois. . Minha mulher e as pequenas já lá devem estar: eu irei mais tarde. Passou a mão pelo bigode. fiz um drama. Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala. dando à voz uma expressão de prazer. tinha jus o major a todos os respeitos. Saiba que fiz. Acaba de compor o mais teso e correto laço de gravata que apareceu naquele ano de 1850.maior. Havia felizmente uma circunstância atenuante. Velho amigo da família. produzira. dez minutos antes da ceia. em qualquer ocasião. um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo. Vai sair? — Vou ao Rio Comprido. — Não sei se o vento que me trouxe é bom ou mau. tão avaro deles. era um voto seguro. aconselhada não menos pelo interesse que pelo bom-tom. A segunda é que ele preparava-se justamente para ir ver. em caso de necessidade..

Duarte procurou desviar aquele cálice de amargura. ou com elas. que mergulhou o corpo e o desespero numa vasta poltrona de marroquim. tendo em frente o bacharel. e só estacou e empalideceu quando viu o major. porém. Já agora não há mais remédio senão deixá-la. acedeu ao desejo do hóspede. resoluto a não dizer palavra para ir mais depressa ao termo. Se achar que não é bom. se a tem. — Isto vai depressa. e ir simplesmente ajudando a natureza. eu sei o que são rapazes e o que são bailes. com a liberdade que lhe davam as relações. senão a letra do autor. manifestou calorosamente a ambição que nutria de o ver sair triunfante naquela estréia. Não entrou o major nestas minuciosidades necessárias. assistira à representação de uma peça do gênero ultraromântico. trêmulo de bemaventurança. e impossível alcançá-lo. duas ou três nênias e boa soma de artigos que escrevera acerca das campanhas do Rio da Prata. O serviço militar não foi remédio que me curasse. — Agradeço-lhe as suas boas intenções. Encareceu muito as faculdades mentais do major. disse Lopo Alves. disse ao moleque que não deixasse entrar ninguém. quando não fazia mais do que alinhavar as suas reminiscências. Esta circunstância explicá-la-ia o bacharel. e até o estilo dos mais acabados tipos do romantismo desgrenhado.— Um drama! exclamou o bacharel. o lugar do suplício. sobretudo caracterizada por um drama. Este. Nem o soube. exijo franqueza e franqueza rude. diga-o sem rebuço. Lopo Alves cuidava pôr por obra uma invenção. Duarte recordou-se de que efetivamente o major falava noutro tempo de alguns discursos inaugurais. A doença regressou com a força dos primeiros tempos. Noutra ocasião. Nada havia de novo naquelas cento e oitenta páginas. mas era difícil pedi-lo. Havia porém muitos anos que Lopo Alves deixara em paz os generais platinos e os defuntos. para o bacharel. obra que lhe agradou muito e lhe sugeriu a idéia de afrontar as luzes do tablado. Não acha melhor irmos para o seu gabinete? Era indiferente. — Que quer? Desde criança padeci destes achaques literários. se soubesse que Lopo Alves algumas semanas antes. nada fazia supor que a moléstia volvesse. abrir o rolo que trazia consigo. Sei que é inteligente e lido. Descanse que ainda hoje dançará duas ou três valsas com ela. O mais eram os lances. Consultou melancolicamente o relógio. desejo outro. a obra seria um bom . há de me dizer francamente o que pensa deste trabalho. Não lhe peço elogios. foi um paliativo. e o bacharel ficou sem conhecer o motivo da explosão dramática do militar. enquanto o major folheava paternalmente as cento e oitenta folhas do manuscrito. O drama dividia-se em sete quadros. antes dele. O algoz não queria testemunhas. disse Lopo Alves. nem curou disso. Lopo Alves tomou lugar ao pé da mesa. e aceito o obséquio que me promete. as ficelles. A porta do gabinete fechou-se. prometeu que o recomendaria a alguns amigos que tinha no Correio Mercantil. Esta indicação produziu um calafrio no ouvinte. os caracteres. que marcava nove horas e cinqüenta e cinco minutos.

autor e drama tinham desaparecido. dominando todas as demais damas que deviam estar no salão da viúva Meneses. mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os movimentos. — A esta hora. — Não tenho essa honra. Duarte quis chamá-lo. que devia ressuscitar no terceiro. pode a polícia entrar na casa do cidadão. a ponta de um punhal e quantidade de adjetivos não menos afiados que o punhal. já então moça de dezessete anos. Duarte agradecia a morte como um benefício da Providência. era já impossível ir ao Rio Comprido. um envenenamento. e saía arrebatadamente do gabinete. Acresce que. A esta ou a qualquer hora. com a impassibilidade de uma grande convicção. erguia-se. mas a leitura de um mau livro é capaz de produzir fenômenos ainda mais espantosos. o baile estava perdido.. empertigava-se. e o ruge-ruge das sedas. para ser preso no quinto. e ouvia mentalmente a música. — Por que não fêz ele isso a mais tempo? disse o rapaz suspirando. o gesto delicado e gracioso. Via aquilo. dois embuçados.passatempo. Meia-noite soara desde muito. quando o moleque do bacharel veio anunciar-lhe a visita de um homem baixo e gordo. se o major expirasse naquele momento. O suspiro mal teve tempo de abrir as asas e sair pela janela fora. Havia logo no primeiro quadro. Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade. e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros. fugiam-lhe ao espírito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecília. o soar dos passos. enquanto a voz rouquenha e sensaborona de Lopo Alves ia desfiando os quadros e os diálogos.. — Um delito! — Creio que me conhece. Além da morte aparente do embuçado. nada viu nem ouviu. a tez branca e rosada. De repente. Duarte mal podia conter a cólera. repetiu o homem baixo e gordo. viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscrito. e matar o tirano do sétimo. em demanda do Rio Comprido. um monólogo que parecia durar igual prazo. . havia no segundo quadro o rapto da menina. Foi à janela. Quando pôde dominar-se. entrando na sala. enquanto aos olhos carnais do bacharel aparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves. uma vez que se trata de um delito grave. espécie de prólogo. Voava o tempo. Eram quase onze horas quando acabou a leitura deste segundo quadro. e o roubo de um testamento. Não é fora de propósito conjeturar que. — A esta hora? exclamou Duarte. ouviu o bater do tacão rijo e colérico do dramaturgo na pedra da calçada. No segundo quadro dava-se conta da morte de um dos embuçados. a palestra. uma criança roubada à família. via-a com os olhos azuis. cravava nele uns olhos odientos e maus.

ao que parecia. — Há de perdoar-me. é verdadeiramente miraculosa. Tratava-se. mas também pela origem. Mas não vem ao caso dizê-la. Já lá estava o homem baixo e gordo. Ouviu-se estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu à desfilada. que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Duarte não sabia sequer da existência do objeto roubado. Isto mesmo disse ao empregado da polícia. e de algum modo à sua classe. e não se zangou com a injúria irrogada à sua pessoa.. em todo caso. A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis. e mais um sujeito alto e magro. que lhe lançaram as mãos e o levaram. — Ah! ah! disse o homem gordo. Ou a alusão seria casual e estranha à aventura? Duarte perdeu-se num cipoal de conjeturas. A história. de algum desforço de rival suplantado. Neste ponto do discurso. — Mas que tenho eu com o senhor? de que delito se trata? — Pouca coisa: um furto. disse o representante da autoridade. enquanto o carro ia sempre andando a todo galope. Na rua havia um carro. há cerca de três anos no Egito. que é uma de nossas patrícias mais viajeiras. casar talvez com elas. Duarte suspeitou que fosse um doido ou um ladrão. perfeitamente mentirosa. é ornada de finíssimos diamantes. Não é turca só pela forma. Não teve tempo de examinar a suspeita. O senhor é acusado de ter subtraído uma chinela turca. Mas há chinela e chinela. Tudo depende das circunstâncias. suponho que a polícia. A dona. e. que a tornam singularmente preciosa.. Duarte teve um calafrio. Concluiu que havia equívoco de nome. interrompeu friamente o homem magro. escada abaixo. esteve. arriscou uma observação. O homem disse isto com um riso sarcástico. e rir ainda por cima do gênero humano. porque dentro de alguns segundos. onde a comprou a um judeu. O que importa saber é que ela foi roubada e que a polícia tem denúncia contra o senhor. — Nós não somos da polícia. e cravando no bacharel uns olhos de inquisidor. — Quaisquer que sejam os meus crimes. que este aluno de Moisés referiu acerca daquele produto da indústria muçulmana.— Sou empregado na polícia. sem embargo dos gritos que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Aparentemente não vale nada ou vale pouco a tal chinela. namorar moças louras. no meu sentir. No fim de algum tempo.. viu entrar cinco homens armados. — Ah! .. acrescentando que não era motivo. Com que então pensava que podia impunemente furtar chinelas turcas. Ouvindo aquela alusão à dama dos seus pensamentos. atribuindo-se-lhe a ratonice. onde o meteram à força. para incomodá-lo a semelhante hora. chegara-se o homem à janela.

— Há de entender logo mais. porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por ela outra figura. Alguns minutos de reflexão bastaram para ver que a tal chinela era já agora mais que problemática. não viu ninguém mais. ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas. enfronhou-se no silêncio. a olhar para a porta. terno não é melhor que par. Era talvez sobreposse a variedade dos adornos. não pode ser. Na otomana! Esta circunstância trouxe à memória do rapaz o principio da aventura e o roubo da chinela. O bacharel ficou sem movimento. O padre atravessou lentamente a sala. mas o homem magro observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. como por efeito de uma mola. que ele roubara.. mas ao desvendar-se. espelhos. — a cópia infinita de objetos que enchiam a sala. contudo. entretanto. Ele. derreou o corpo.— Este cavalheiro e eu fazemos um par. ranger uma porta. Um casal é o ideal. de cogitar alguma nova explicação. — seguraram-lhe as mãos e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas. Provavelmente não me entendeu? — Não. A isto deviam ligar-se naturalmente as palavras misteriosas do homem magro: o par é melhor que o terno. não é. e deixou correr o carro e a aventura. Cavando mais fundo no terreno das conjeturas. charões.. daí a pouco. — provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro. frases truncadas. um casal é o ideal. duas pessoas. O inesperado daquela aparição baralhou totalmente as idéias anteriores a respeito da aventura. concluiu Duarte. — Chegamos. mas quem será esse pretendente derrotado? Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e negrejou a batina de um padre alvo e calvo. Ora. e foi sair por outra porta rasgada na parede fronteira. Andando. tapetes. Os bronzes. assaz iluminada. ao passar por ele deitou-lhe a bênção. — Há de ser isto. delito de que o queria punir o já imaginado rival. atou o lenço e apeou-se. o senhor e eu fazemos um terno. A chinela vinha a ser pura metáfora. a olhar sem ver. Duarte levantou-se. Era uma sala vasta. Duarte recusou. A vista daquilo restituiu a serenidade de ânimo ao bacharel. desta . trastejada com elegância e opulência. Reclinou-se o moço indolentemente na otomana. Obra de cinco minutos depois estacavam os cavalos. disse o homem gordo. Duarte resignou-se à espera. Não teve tempo. tirou um lenço da algibeira e ofereceu-o ao bacharel para que tapasse os olhos. não era provável que ali morassem ladrões. Afinal pararam. era tudo da melhor fábrica. Dizendo isto. tratava-se do coração de Cecília. Ouviu. senhor. pareceu-lhe achar uma explicação nova e definitiva. Duarte obedeceu. estúpido de todos os sentidos. palavras soltas. disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. a pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado. Não resistiu o bacharel.

senhor. vá buscar a chinela. A chinela era de marroquim finíssimo. logo que Duarte entrou na sala. é chinela de moça. — Casar! exclamou Duarte.. porém. reunindo todas as forças. Os castiçais estavam sobre uma mesa larga. — Conhece-me? perguntou o velho. perguntou resolutamente: — Mas. — Oh! decerto! interrompeu Duarte. rutilavam duas letras bordadas a ouro.vez o homem magro. O homem magro saiu. atravessados alguns corredores mais ou menos alumiados. — Chinela de criança. O que vamos fazer exclui absolutamente a necessidade de qualquer apresentação. que só o era por duas velas postas em castiçais de prata. e. estufado e forrado de seda cor azul. convidado a aproximar-se da luz. Saberá em primeiro lugar que o roubo da chinela foi um simples pretexto. respondeu tranqüilamente o velho. senhor. A porta abriu-se e apareceu o homem magro com a chinela na mão. farta de cabelos na cabeça e na cara. nada tenho com isso.. não lhe parece? disse o velho. — Perdão! Tem muito. para trazê-lo a esta nossa casa. nem fora comprada a nenhum judeu do Egito. era. e o velho declarou ao bacharel que a famosa chinela não tinha nenhum diamante. e um milagre de pequenez. Duarte ouviu as explicações. — Nem é preciso. Na cabeceira desta havia um homem velho que representava ter cinqüenta e cinco anos. segundo se lhe disse. Duarte não opôs resistência. turca. — Não. — Suponho que sim. nunca saiu das mãos da dona. não me dirá de uma vez o que querem de mim e o que estou fazendo nesta casa? — Vai sabê-lo. Duarte. no assento do pé. . João Rufino. — Pois supõe mal. A chinela não foi roubada. e. que foi direito a ele e o convidou a segui-lo. teve ocasião de verificar que a pequenez era realmente miraculosa. continuou o velho. — Um simples pretexto. — Será. era uma figura atlética. porque vai casar com a dona. Saíram por uma terceira porta. foram dar a outra sala.

que caminhou para o centro da sala. não pôde. uns olhos que buscavam o céu ou pareciam viver dele. o mesmo padre calvo que abençoara o bacharel pouco antes. Assomando à porta. apalpou a gravata e fez uma cerimoniosa cortesia. uma criatura divina. e voltou logo depois. eu dou-lhe outro: passaporte do céu. continuou impassivelmente o velho: a primeira. deleixadamente penteados. que a aventura começou a parecer muito menos aterradora. compôs o chambre. — Três coisas vai o senhor fazer agora mesmo. era um sorriso de bem-aventurança. santa somente. Rolaria ao chão. vá buscar a dona da chinela. como os de Cecília. Duarte respondeu que não tinha vontade de casar. a terceira engolir droga do Levante. entrou e foi direto ao moço. não lhe saiu do peito. vá buscar o padre. . tinha os olhos azuis. apontando-lhe uma pistola. como o bacharel. uma visão de poeta. A moça abaixou os olhos. um gemido. é casar. cujas formas aliás desenhava. tem uma fortunazinha de cento e cinqüenta contos. não mártir.. Um rapaz. mas muito para a imaginação.— Nada menos. a que ela correspondeu com tamanha gentileza e graça. Não era mulher. — Veneno! interrompeu Duarte. ao ver a moça. João Rufino. a segunda. escrever o seu testamento. continuou o velho. sequer. Esta pérola será a sua herdeira universal. Duarte. Um vestido branco. Os cabelos. Era loura. Quis falar. faziam-lhe em volta da cabeça um como resplendor de santa. levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher.. envolvia-lhe castamente o corpo. travou-lhe da mão e disse: — Levante-se! — Não! Não quero! Não me casarei! — E isto? disse da mesa o velho. Duarte estava pálido e frio. — Meu caro doutor. Saiu o homem magro. extáticos. João Rufino. era uma sílfide. pouco para os olhos. de finíssima cambraia. não perde o sentimento da elegância. esta é a noiva. — Vulgarmente é esse o nome. ainda em lances daqueles. como raras vezes há de ter tido a terra. se não houvesse ali perto uma cadeira em que se deixou cair. porque o sorriso que lhe desabrochava os lábios. engrolando sonolentamente um trecho de Neemias ou qualquer outro profeta menor. O padre entrou. — O senhor.

Não era grande altura. ferido. Duarte não respondeu. deu um pulo do lugar onde estava e atirou-se a Deus misericórdia por ali abaixo. — Que é isso? perguntou ele rindo. ofegante. o chambre pegara-se-lhe em uma cerca de espinhos. embaixo fica um jardim. Não diga nada. Duarte ia saltando cercas e muros. mas com os olhos em que pôs toda a vida que lhe restava. a camisa salpicada do orvalho das folhas. sentiu apenas um grande abalo. Quis levantar-se e não pôde. lendo um número do Jornal do Comércio. duas vezes esteve a ponto de ser apanhado. cansado. e entrou na casa. Escolha! Duarte suava e tremia. esbarrando árvores. não viu ninguém.— Mas então é um assassinato? — É. A janela estava apenas cerrada. a queda foi pequena. caiu nos degraus de pedra de uma casa. tinha uma das mãos feridas. — Não sou padre. — Oh! Padre! disse baixinho o bacharel. Escorria-lhe o suor em bica. mas o homem gordo. pareceu não o ter visto entrar. Duarte caiu numa cadeira. e. o perseguidor não o acompanhara até ali. Os joelhos batiam um contra o outro. O homem não caiu. cuja porta. que havia no meio do último jardim que atravessara. Podia vir. O major. não com os lábios. Enfim. ou suave com a droga. subiu os quatro degraus que lhe faltavam. — Vê aquela janela? Está aberta. ergueu-se o moço rapidamente. Duarte ergueu-se a custo. empunhando a folha. e disse baixinho: — Quer fugir? — Oh! Sim! exclamou. que estava no jardim. a diferença está no gênero de morte: ou violenta com isto. sou tenente do exército. Um homem que ali estava. Começou então uma carreira vertiginosa. Duarte não hesitou. Atire-se dali sem medo. Olhou para trás. via-se pela fresta uma nesga do céu. O padre chegou-se-lhe ao ouvido. coligiu todas as forças. Fitou os olhos no homem. aberta. entretanto. bateu com eles violentamente nos peitos do homem e deitou a correr pelo jardim fora. as forças iam a perder-se pouco a pouco. Era o major Lopo Alves. cujas dimensões iam-se tornando extremamente exíguas. que podia ser ouvido. alteava-se-lhe o peito. tomou-lhe o passo. calcando canteiros. exclamou repentinamente: . dava para uma sala pequena e baixa. já meio claro. fechou os punhos. que uma ou outra vez se lhe erguiam na frente. seguiu no encalço do fugitivo. uma vez passada a impressão.

— Anjo do céu, estás vingado! Fim do último quadro. larga. Duarte olhou para ele, para a mesa, para as paredes, esfregou os olhos, respirou à — Então! Que tal lhe pareceu? — Ah! excelente! Respondeu o bacharel, levantando-se. — Paixões fortes, não? — Fortíssimas. Que horas são? — Deram duas agora mesmo. Duarte acompanhou o major até à porta, respirou ainda uma vez, apalpou-se, foi até à janela. Ignora-se o que pensou durante os primeiros minutos; mas, a cabo de um quarto de hora, eis o que ele dizia consigo: — Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um bom negócio. Um bom negócio e uma grave lição: provaste-me ainda uma vez que o melhor drama está no espectador e não no palco. --------------------------------------------------------------

NA ARCA
Três capítulos inéditos do Genêsis

Capítulo A
1. — Então Noé disse a seus filhos Jafé, Sem e Cam: — "Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os animais. A arca tem de parai no cabeço de uma montanha; desceremos a ela. 2. — "Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nela tu, tua mulher e teus filhos. 3. — "E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animais.

4. — "Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor. e todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataratas dó céu; tornaremos a descer à terra, e a viver no seio da paz e da concórdia." 5. — Isto disse Noé, e os filhos de Noé muito se alegraram de ouvir as palavras de seu pai; e Noé os deixou sós, retirando-se a uma das câmaras da arca. 6. — Então Jafé levantou a voz e disse: — "Aprazível vida vai ser a nossa. A figueira nos dará o fruto, a ovelha a lã, a vaca o leite, o sol a claridade e a noite a tenda. 7. — "Porquanto seremos únicos na terra, e toda a terra será nossa, e ninguém perturbará a paz de uma família, poupada do castigo que feriu a todos os homens. 8. — "Para todo o sempre." Então Sem, ouvindo falar o irmão, disse: — "Tenho uma idéia". Ao que Jafé e Cam responderam:— "Vejamos a tua idéia, Sem." 9. — E Sem falou a voz de seu coração, dizendo: "Meu pai tem a sua família; cada um de nós tem a sua família; a terra é de sobra; podíamos viver em tendas separadas. Cada um de nós fará o que lhe parecer melhor: e plantará, caçará, ou lavrará a madeira, ou fiará o linho." 10. — E respondeu Jafé: — "Acho bem lembrada a idéia de Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabeço de uma montanha; meu pai e Cam descerão para o lado do nascente; eu e Sem para o lado do poente,. Sem ocupará duzentos côvados de terra, eu outros duzentos." 11. — Mas dizendo Sem: — "Acho pouco duzentos côvados" —, retorquiu Jafé: "Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a tua haverá um rio, que as divida no meio, para se não confundir a propriedade. Eu fico na margem esquerda e tu na margem direita; 12. — "E a minha terra se chamará a terra de Jafé, e a tua se chamará a terra de Sem; e iremos às tendas um do outro, e partiremos o pão da alegria e da concórdia." 13. — E tendo Sem aprovado a divisão, perguntou a Jafé: "Mas o rio? a quem pertencerá a água do rio, a corrente? 14. — "Porque nós possuímos as margens, e não estatuímos nada a respeito da corrente." E respondeu Jafé, que podiam pescar de um e outro lado; mas, divergindo o irmão, propôs dividir o rio em duas partes, fincando um pau no meio. Jafé, porém, disse que a corrente levaria o pau. 15. — E tendo Jafé respondido assim, acudiu o irmão: "Pois que te não serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que não haja conflito, podes levantar um muro, dez ou doze côvados, para lá da tua margem antiga. 16. — "E se com isto perdes alguma coisa, nem é grande a diferença, nem deixa de

ser acertado, para que nunca jamais se turbe a concórdia entre nós, segundo é a vontade do Senhor." 17. — Jafé porém replicou: — "Vai bugiar! Com que direito me tiras a margem, que é minha, e me roubas um pedaço de terra? Porventura és melhor do que eu, 18. — "Ou mais belo, ou mais querido de meu pai? Que direito tens de violar assim tão escandalosamente a propriedade alheia? 19. — "Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado, com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-ei como Caim matou a seu irmão." irmãos, 20. — Ouvindo isto, Cam atemorizou-se muito e começou a aquietar os dois

21. — Os quais tinham os olhos do tamanho de figos e cor de brasa, e olhavam-se cheios de cólera e desprezo. 22. — A arca, porém, boiava sobre as águas do abismo.

Capítulo B
1. — Ora, Jafé, tendo curtido a cólera, começou a espumar pela boca, e Cam faloulhe palavras de brandura, 2. — Dizendo: — "Vejamos um meio de conciliar tudo; vou chamar tua mulher e a mulher de Sem." 3. — Um e outro, porém, recusaram dizendo que o caso era de direito e não de persuasão. 4. — E Sem propôs a Jafé que compensasse os dez côvados perdidos, medindo outros tantos nos fundos da terra dele. Mas Jafé respondeu: 5. — "Por que não me mandas logo para os confins do mundo? Já te não contentas com quinhentos côvados; queres quinhentos e dez, e eu que fique com quatrocentos e noventa. 6. — "Tu não tens sentimentos morais? não sabes o que é justiça? não vês que me esbulhas descaradamente? e não percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com risco de vida? 7. — "E que, se é preciso correr sangue, o sangue há de correr já e já,

Jafé ameaçou a Sem com os punhos fechados. Então Jafé. metendo dois dedos na boca. ora vencia Jafé. — E respondendo Sem: — "É meu!" Jafé fez um gesto para derrubá-lo. avançaram um para o outro e atracaram-se. tornou a apertar o irmão. — E disse Cam: — "Ora. porém. e Jafé. ou seja de língua ou de punho. derreando o corpo. 10. vieram espreitar a briga dos dois irmãos. 20.8. 21. — Isto dito. os dentes e as unhas. e a arca estremecia como se de novo se houvessem . envergonhado e irritado. mas Cam interpôs-se. e começaram a vigiar-se um ao outro. e ficarei com o rio e as duas margens. esmurrando-se um ao outro. Sem era forte na resistência. — Ora vencia Sem. — Dizendo isto. sacudiu o corpo e atirou o irmão para longe. segurando o irmão pela cinta. — E Sem e Jafé riram com desprezo e sarcasmo. — Enquanto o lobo e o cordeiro. espumando de cólera. em ar de surriada. gatuno!" 17. e os dois lutaram braço a braço." 13. dizendo: "Vai plantar tâmaras! Guarda a tua idéia para os dias da velhice. bradando: "De quem é o rio?" 19. espalmou a mão dizendo: — "Deixa estar!" e foi dali ter com o pai e as mulheres dos dois irmãos. caíram e rolaram." E puxaram as orelhas e o nariz de Cam. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pai. Ou tu me cedes as duas margens. o sangue saía dos narizes. porque a raiva animava-os igualmente. tinham vivido na mais doce concórdia. 15. dos beiços. — Suando e bufando como touros. e eles lutavam com as mãos. dando-me vós uns vinte côvados cada um. que era forte. vamos decidir este grave caso. 11. 12. das faces. apertou-o fortemente. enquanto Sem. tenho uma idéia maravilhosa." 16. — "Para te castigar a soberba e lavar a tua iniqüidade?" 9. que há de acomodar tudo. Jafé tinha o braço rijo e adestrado. que tenho a meus irmãos. — Ora. — Ao que Jafé retorquiu irado: "Gatuno és tu!" 18. ou eu te quebro uma costela. imitou o silvo da serpente. Cam. que durante os dias do dilúvio. 14. — "A qual me é inspirada pelo amor. 22. mas Sem. — Jafé porém disse a Sem: — "Agora que estamos sós. pondo uma das mãos no peito de cada um. — Na luta. disse com voz irada: "Não te cedo nada. Jafé. ouvindo o rumor das vozes. pois. os pés. — Então Sem avançou para Jafé.

e Sem debaixo do joelho de Jafé. que com o punho cerrado lhe batia na cara. conseguiu apertar o pescoço do irmão. 3. a qual estava roxa e sangrenta. 7. — E pedindo Noé que explicasse o dito." 25. instigados de ódio mortal. e. — Como se o pecado os quisera marcar com o selo da iniqüidade. larga-me!" 4. se de Caim se tomará vingança sete vezes. — Bradou: "Cessai a briga. 2. Capítulo C 1. Eu. o que será de Jafé e Sem?" 24." 5. homens indignos da salvação e merecedores do castigo que feriu os outros homens. — Então as vozes e brados chegaram aos ouvidos de Noé. que lhe apareceu clamando: "Meu pai.aberto as cataratas do céu. . — A arca." 8. lhes disse: "Calai-vos. mulheres de meus filhos. 9." Noé disse: — "Vamos. — Ouvindo os brados. entraram a soluçar e a dizer: "O que será de nós? A maldição caiu sobre nós e nossos maridos. porém. boiava sobre as águas do abismo. Cam referiu a discórdia dos dois irmãos. — Entretanto. ao mesmo tempo que seu filho Cam. — Eis aqui chegou Noé ao lugar onde lutavam os dois filhos." E ouvindo os dois irmãos o pai. o pescoço e as mãos. — Noé. eu verei de que se trata. — Jafé e Sem ergueram-se. 23. detiveram-se subitamente. meu pai." E caminhando para os dois combatentes. — E achou-os ainda agarrados um ao outro. Noé. — Noé continuou: "Erguei-vos. e de Lamech setenta vezes sete. porque tinham lutado com unhas e dentes. — O chão também estava alagado de sangue. e a ira que os animava. às mulheres de Jafé e Sem acudiram também ao lugar da luta. e ordenarei o que for justo. vendo-os assim. e os cabelos de um e outro. não se levantando nenhum deles. e ficaram longo tempo atalhados e mudos. e disse: — "Correi a aquietá-los. e este começou a bradar: "Larga-me. Sem. vosso pai. e as roupas salpicadas de sangue. Ambos tinham feridos o rosto. o ordeno e mando. 10. alçando as mãos. 6. e as sandálias de um e outro. porém.

e via-se-lhes a dor do coração. Jafé e Sem não atendiam a nada. medrosos de encarar seu pai. cujo sangue entrou a jorrar em grande cópia. — Depois ficou meditabundo. que não tolero o esbulho. — Indo Noé falar. ouvindo o filho. — E Sem disse: — "Jafé mente." 24. depois que ele recusou dividir o rio em duas partes. bradando: — "De quem é o rio?" — "O rio é meu. segundo a promessa do Senhor. quero saber o motivo da briga. — Esta palavra acendeu o ódio no coração de ambos. vos digo que. — E alçando os olhos ao céu. — As duas mulheres. 15. 12. não sete vezes. Jafé. . — "Sem invadiu a minha terra. outra vez se engalfinharam. perguntou ao irmão: "Que respondes?" 17. porque a portinhola do teto estava levantada. a cara e as mãos. não quero nenhum ajuste a respeito do lugar em que levantareis as tendas. 22. porém.11. não setenta vezes sete. 18. — "E eu. porém. notou que os dois filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. e acabando Jafé. — "Ora. — O qual disse: "Ora. — E Jafé interrompeu-o dizendo: "Porventura não me feriste também? Não estou ensangüentado como tu? Olha a minha cara e o meu pescoço." 20. bradou: — "Maldito seja o que me não obedecer. 25. — Noé. disse a meu irmão: "Não te contentas com quinhentos côvados e queres mais dez?" E ele me respondeu: "Quero mais dez e as duas margens do rio que há de dividir a minha terra da tua terra. porém. a terra que eu havia escolhido para levantar a minha tenda. mas setecentas vezes setenta. Ele será maldito." 13. e propondo-lhe ficar com as duas margens. olha as minhas faces. alçando a voz. tinha os olhos em Sem. chegaram-se a eles. — E só a muito custo puderam Noé. pois. ainda consenti que ele medisse outros dez côvados nos fundos das terras dele. cegos de raiva. conter os dois combatentes. antes de descer a arca. — "Para compensar o que perdia. porque eu só lhe tomei os dez côvados de terra. Cam e as mulheres de Sem e Jafé. que rasgaste com as tuas unhas de tigre. — Noé." 16. chorando e acariciando-os. quando as águas houverem desaparecido e a arca descer. e ele me feriu a cabeça. e estavam com os olhos no chão." 21. foi o primeiro que falou e disse: 14. mas a iniqüidade de Caim falou nele. Então disse: "Ouvi!" Mas os dois irmãos. 23. pois." 19.

certas negociações matrimoniais incumbidas ao cônego Roxo. que D. D. carecia daquele cunho de sinceridade que todos gostamos de achar nos conceitos humanos. porém. — "Eles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. Além disso. um tanto menino. A astúcia do corretor não fez mais do que indigná-la. desde logo. uma moça e um rapaz. a mesa da família está ladeada de parentes e amigos. não desdiziam das feições de D. Benedita. digo momentaneamente. São seis horas da tarde. Benedita fez quarenta e dois anos no domingo. Benedita. — A arca. depois do ofício de governar. decerto. O cônego levanta-se para trinchar o peru. outros quarenta e cinco. embora momentaneamente. tudo isso dá à festa um caráter íntimo e feliz. A alegria dos convivas. as boas qualidades da dona da casa. parece ter vinte e um. Benedita acatava esse uso nacional das casas modestas de confiar o peru a um dos convivas. seus filhos. senão para dizer. e das quais se falará mais abaixo. em vez de o fazer retalhar fora da mesa por mãos . no de 1867 e no de 1866. e ouviram sempre aludir francamente à idade da dona da casa. aqui presente. seria dizer a idade exata de D. em número de vinte ou vinte e cinco pessoas. Benedita foi sempre um padrão de bons costumes. à mesa. no tamanho e nas maneiras. alguns trinta e seis. -------------------------------------------------------------- D. mas esta opinião. Mas. Uns davam-lhe quarenta anos. — E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pai. D. este é. eivada de intenções ocultas. quando bastava interrogá-la para saber a verdade verdadeira. 28. a excelência do jantar. oscilando entre os trinta e seis e os quarenta e cinco. que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas.bradou com tristeza: 26. Quanto às outras conjeturas. Um corretor de fundos descia aos vinte e nove. Nem eu a cito. mas a moça. contando dezoito anos. tal é a severidade dos modos e das feições. Eulália. Muitas dessas estiveram no jantar de 1868. se alguma coisa admira é que houvesse suposições neste negócio. continuava a boiar sobre as águas do abismo. O que será quando vierem a Turquia e a Rússia?" 27. vêemse ali. BENEDITA Um retrato I A coisa mais árdua do mundo. dezenove de setembro de 1869.

Benedita fala. note-se bem. os risos. por exemplo. Maria dos Anjos faz um sinal ao filho. dado que não a houvesse. aos demais convivas. e o cônego era o pianista daquelas ocasiões solenes. e promessas de muitas visitas. — Que arrebente! responde ela. como as suas visitas. que a outra palpitava de alegria e reconhecimento. Vã precaução! D. por outro lado. reina o burburinho próprio dos estômagos meio regalados.servis. Talvez. Maria dos Anjos acompanhou-a. um estudante ou um amanuense. no coração de sua digna esposa: — bebamos ao ilustre desembargador Proença. e. uma certa soma de prestígio. Bebamos a alguém que está longe. fita-lhe uns olhos namorados. mais aquilo. retirou-se da sala. Benedita. D. muito digna. no espaço. rindo também. mas inquieto. é um instante de repouso. que está com ciúmes. enfim. Essa é uma senhora gorda. mas perto. — um projeto de passeio. muito perto. Venhamos. etc. ou um amanuense de secretaria.. Eulália pediu a todos que . — e este fenômeno fica para os entendidos.. que traz o coração nos olhos. bebeu-se. repetido. os encarecimentos. Benedita. D. o riso da natureza que caminha para a repleção. D. mãe de um bacharel de vinte e dois anos. Uma de suas amigas diz-lhe. conversando. Benedita não se contenta de falar à senhora gorda. mais isto. levantou-se da mesa. há muita ternura naquele gesto. de um modo persistente e longo. miúdo. não podendo conter-se. ao que parece. senão para uma. nem sabia operar com mais presteza. o Leandrinho. e para compreendê-lo basta ver o rosto triste da dona da casa. E voltando-se para a outra: — Não acha? ninguém deve meter-se com a nossa vida. no espírito dos convivas. — talvez a circunstância do canonicato aumentasse ao trinchante. sem a lição do longo uso. poderia dispor da arte consumada do cônego? É outra questão importante. não se perderia nada. que estão parados. as ofertas. e não se contenta de lhe ter presa a mão. muito longe. A assembléia não correspondeu vivamente ao brinde. O peru está comido. rindo. que está sentada ao pé dela. E aí tornavam as finezas. para não avivar a dor de D. Benedita repete com a boca a D. D. que considera uma fortuna conhecê-la. Em todo caso. porém. Maria dos Anjos tudo o que com os olhos lhe tem dito: — que está encantada. que é muito simpática. tudo com tamanha expansão e calor. etc. este levanta-se e pede que o acompanhem em um brinde: — Meus senhores. muito risonha. mas sem estrépito. é preciso desmentir esta máxima dos franceses: — les absents ont tort. que está sentado defronte delas. mas não fala para todas. Não os fita. etc. instantâneo. Sucedeu um silêncio mortal entre os convivas. vivamente namorados. outro de teatro. Ninguém conhecia melhor a anatomia do animal. Os parentes e os mais íntimos disseram baixinho entre si que o Leandrinho fora estouvado. que ele não teria. tem uma das mãos desta entre as suas. deixou rebentarem-lhe as lágrimas. simpática. Mas. porque D. se fosse um simples estudante de matemáticas.

disse ela. ela ficou para arranjar alguns negócios de família. disse-me que ele foi para o Pará há uns dois — Dois anos e meio. Alto. D.. Imagine como a pobre senhora ficou! Chorou uma noite inteira.. não terá mais de quarenta e cinco anos.continuassem. pelo braço de D. Benedita voltou nesse momento. Conhece o marido? — Conheço. consternado. e agora.. — Ah! — E houve até quem viesse contá-lo a ela mesma. foi nomeado desembargador pelo ministério Zacarias. — D. um homem muito distinto. O Leandrinho. Trazia um sorriso envergonhado. e ainda moço. ficando. explicou-lhe que D. Um sujeito.. — Creio que não. Aqui há tempos disse-se que ele não teimava com a mulher. barbado. explicou o sujeito. ou da Bahia. que a mãe voltava já. ao lado dele. acudiu Leandrinho. forte. pediu desculpa a Eulália. porque ela morre pelo marido. mas estava longe de supor que o seu brinde tivesse tão mau efeito. Se bem me lembro.. mas foi ficando. anos.. — Mas era muito melhor ter ido em vez de padecer assim. — Mas não foi? — Não foi. Maria dos Anjos. — Pois era a coisa mais natural. e sentou-se com a recente amiga ao lado. Benedita não podia ouvir falar do marido sem receber um golpe no coração — e chorar logo. — O cônego. disse ela. ao que o Leandrinho acudiu dizendo que sabia da tristeza dela.. Benedita naturalmente tem medo de embarcar.. Já foi uma vez à Europa. no dia seguinte não quis almoçar. pediu desculpa da interrupção. porque estava lá de amores com uma viúva. desfez a viagem daí a três dias. Ele queria a relação de São Paulo. — Mamãe é muito sensível. bonito. pegando-lhe outra vez na mão: — Vejo que me quer bem. — Não voltou mais? — Não voltou. mas não pôde ser e aceitou a do Pará. agradecendo os cuidados que lhe deu.. e a idéia de que papai está longe de nós. .. e deu todas as ordens para seguir no primeiro vapor.

dizia com os olhos. Para que falar-lhe das mãos? Há de admirá-las logo. e não magro nem gordo. Magnífico dia para não sair. procurou generalizar a conversa. não morando longe (morava no Campo da Aclamação). com a idéia de escrever uma carta ao marido. pela sua parte. dito que a mãe dele interiormente aprovava. e só quero falar das saudades e dos remorsos. que é uma boca sem remorsos nem saudades: podia dizer sem desejos. ao travar da pena e do papel. tão entregue estava à contemplação da recente amiga. nota-se-lhe o alisado simples do cabelo. um doce moreno. — Mereço? inquiriu ela entre desvanecida e modesta. D. Os pareceres divergiram muito. Demais. malhada de grossas nuvens negras. convido a leitora a observar-lhe as feições. Ao longe. Toda essa cabeça. Os olhos são vulgares. Creio que é bastante ver o modo por que ela compõe as rendas e os babadinhos do roupão para compreender que é uma senhora pichosa. escrever uma carta. D. o Leandrinho. nem repele. autor do brinde. — e dizia-o de um modo astucioso. no dia seguinte. um roupão de cambraia que o desembargador lhe dera em 1862. A boca é daquelas que. Um anjo. são risonhas. deu com os vidros molhados. um anjo. um verdadeiro anjo. e. etc. assenta sobre um corpo antes alto do que baixo. e. um verdadeiro anjo! II D. uma longa carta em que lhe narrasse a festa da véspera. mas fornido na proporção da estatura. e tem esta outra particularidade. e que a mãe dela não podia ver. palavra que ela sublinhou com o mesmo olhar namorado. dando-lhe por assunto a eleição do melhor doce. desse notícia das novas relações com D. disse D. outros o de caju. Ninguém viria tentá-la. Ao contrário de Medusa. portanto. ainda não sorrindo. não persistente e longo. amiga do arranjo das coisas e de si . que não entusiasma. corado. Enquanto ela compõe os babadinhos e rendas do roupão branco. viu flutuar e voar o pano que cobria o balaio que uma preta levava à cabeça: concluiu que ventava. o céu estava todo brochado de uma cor pardo-escura. Maria dos Anjos. com o fim de apagar a lembrança do incidente. nomeasse os convivas e os pratos. mas têm uma expressão bonachã. alguns o de laranja. que o melhor doce eram as faces de Eulália. Vê que não lhe dou Vênus. E declarou que não. principalmente. com os dedos afilados e vadios. — não com a boca. Maria dos Anjos. e. Benedita levantou-se. no mesmo dia aniversário.— A senhora merece. Benedita arredou a cortina da janela. O cônego. mas inquieto e repetido. um escravo levaria a carta ao correio muito a tempo. Benedita acordara às nove. Uns acharam que era o de coco. dois deles ornados de cinco ou seis anéis. chovia. era uma chuvinha teimosa. descrevesse a recepção noturna. 19 de setembro. que a outra é que era boa. todas as cartas de uma esposa ao marido ausente. Um dos convivas. mas eu só digo o que quero. duas cartas. A mala fechava-se às duas horas da tarde. também não lhe dou Medusa. preso sobre a nuca.

aconteceu-lhe ver a ponta da chinela. enfim.. Nisto o relógio da sala de jantar começou a bater horas. Em todo caso. um verdadeiro anjo! D. logo às primeiras duas.". sem aliás inventariar os móveis dela. e retomou o seu lugar. como desejosa de lhe dizer alguma coisa grave. Benedita. parada. Benedita ficou a olhar para o ar. e fora-lhe dada por uma amiga do ano passado. Outra raiva de D. Não digo que ela bateu com o pé. Não é que eles não prestem. são horas de almoçar. e a passá-la de uma para outra mão. e contentou-se com um alfinete. felizmente a expressão bonachã deles não era tão bonachã que se deixasse eliminar de todo por outras expressões menos passivas. a data. ao menos difícil. Benedita entrou a virar e revirar a chinela. por ser um gesto natural de algumas senhoras irritadas. bradando: — Mamãe. ao contrário. D. ou sejam de mau gosto. quando Eulália lhe bateu à porta. Estava escrevendo a teu Olhou alguns instantes para a filha. e D. como se ao trastejar daquela casa houvesse . — Mas eu tinha dito que hoje o almoço era mais tarde. não podia mais "com a vida deste diabo". e dirigiu-se à escrivaninha. D. porque a chinela era muito galante. e um: — "Meu ingrato marido". ela abaixou-se a apanhá-lo. são bons. Tinha outros. D. mas não achava prudente deixar alfinetes no chão. até que as mãos pararam de todo. mamãe. é verdade. concertou depressa o punho do roupão. tirou a chinela. mal traçara estas linhas: — "Você lembrou-se ontem de mim? Eu. Noto que rasgou agora o babadinho do punho esquerdo. Abaixando-se. Deixemo-las almoçar à vontade. depois levantou as suas ao céu: — Meu Deus! que dorminhoca! — O almoço está pronto? — Há que séculos! pai. Benedita. Mas não chegou a dizer nada. muitos outros. Um anjo. e viu o que era: era um roidinho de barata. Benedita abriu a porta. descansemos nessa outra sala. rápida. mas adivinha-se. pegou-lhe do braço e levou-a. fixa. a de visitas. Escreveu. O alfinete caiu no chão. logo depois maquinalmente.. a princípio com amor. tal era a expressão indecisa e séria dos olhos. na qual pareceu-lhe descobrir um sinal branco. D.mesma. como o não fizemos em nenhuma outra sala ou quarto. a filha repetiu que o almoço estava na mesa. Essa foi a sua expressão. para começar a carta.. Mas a impressão geral que se recebe é esquisita. a cólera durou pouco mais de meio minuto. Eulália beijou-lhe a mão. sendo também impaciente. estremeceu: — Jesus! Dez horas! E. a chinela caiu no regaço. mas é porque.. com efeito. sentou-se na cadeira que tinha perto. calçou a chinela. Benedita fitou os olhos irritados no sinal branco. Benedita foi à caixinha de costura para dar um ponto no rasgão. acompanhada logo de um "Deus me perdoe!" que inteiramente lhe extraiu o veneno.

D. Maria dos Anjos ficasse para jantar. talvez. — Estava agora mesmo escrevendo o seu nome. só para mostrar que não gosto de cerimônias. demais. era. Ah! isto é que é querer bem à gente! — Vim sem esperar pela sua visita. a tristeza dos débeis ou dos indecisos. Sabem que a mala fecha às duas horas. a quem dói de antemão um ato pela mortificação que há de trazer a outros. acrescentou daí a um instante. descia um moleque a abrir a cancela. os afagos da véspera. Benedita percebeu que o assunto não era aprazível à filha. vindo para dentro. porque ela ia acabar a carta. uma prova de verdadeira amizade. continuou. um pirralho de doze anos. não só pelo que vimos de relance no capítulo passado. alguns minutos. prometeu que sim. e que entre nós deve haver a maior liberdade. vestiu-se à pressa. mas imagine que falei muito mal da senhora. De fato. D. a filha veio com ela para a sala de visitas. Deixemos o filho. Saiu da sala. — e que daí a pouco os olhos sorriam de um sinal de esperança. relanceou a vista pelo Campo. e praticam. Benedita disse à filha que fosse estudar piano. um pouco amuada.. Eram onze horas menos um quarto. que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido. e falo da senhora. Benedita. — Isto acaba. — a de ir jantar à casa dela primeiro. depois do meio-dia. mas por isso mesmo é que as histórias são contadas por alguém. Não lhe repito o que escrevi. apeava-se uma senhora. e subia as escadas D. tão mofino é ele. era a tristeza dos resolutos. e recuou da conversa. Benedita não se fartava de dizer que a visita naquele dia era uma grande fineza. Benedita conversou com a filha até depois do meio-dia. insuportável. para ter tempo de descansar o almoço e escrever a carta. Convenho que nem todas essas particularidades podiam estar nos olhos de Eulália. Esta desculpou-se alegando que tinha de ir a outras partes. D. juram a si mesmos praticá-lo.presidido um plano truncado. D. poucos. Mãe. como porque. largou a pena. que D. Imagine! . — Com este tempo! exclamou. Benedita não hesitou. Vieram os cumprimentos de estilo. essa era a prova que lhe pedia. calçou-se. ouvindo a mãe falar em D. Eulália foi à janela. e foi à sala. que era antipática. — Sim? — Estou escrevendo a meu marido. as palavrinhas doces. como alguém que desanda uma rua para evitar um importuno.. Maria dos Anjos. filha e filho almoçaram. naquela mesma semana. não obstante. que parece ter oito. quando lhe disseram quem era. ou uma sucessão de planos truncados. aborrecida. maçante. que nos não importa. D. D. todavia. Justamente nessa ocasião parava um carro à porta. murmurou ela. podem crer que é a pura verdade. recuou e ergueu-se. e. mas queria outra. Maria dos Anjos e no Leandrinho. Que era uma tristeza máscula. também não é mentira. ouvia-se a campainha da escada. e que. Não era. se lhes disser que com uma pontazinha de tristeza nos olhos. Eulália interessa-nos. ficou muito séria e. alvoroçada.

depois foi à janela para vê-la entrar no carro. simplicidade. cada sorriso que lhe abria a boca era de um amarelo pálido. a pedido da amiga. — uma delas servia-lhe de pretexto a alheiar-se de quando em quando. disse D. mas a efusão era muito menor de parte a parte. Uma das tranças. a feiticeira. Benedita disse que tinha um igual e mandou buscá-lo. Mas a mãe do Leandrinho estava tão contente! D. Maria dos Anjos não aceitou nada mais do que um beijo e a promessa de que iriam jantar com ela naquela semana. — "feiticeira como ela só". uma familiaridade cordial e pronta. trazia o cabelo em duas tranças caídas pelas costas abaixo. e disse-lhe adeus. Tudo demoras. entusiasmo. um licor. e mais alguma coisa. D. Maria dos Anjos beijou com muita ternura a amiga.— Imagino. e nada mais. via a amiga. desconfiada. filha. a amiga. depois abraçou e beijou também a Eulália. olhou para cima. — ou parecia contá-los. começavam a compreender-se. D. ouviu? . Benedita. Maria dos Anjos explicou que tinha de ir a outras visitas. Maria dos Anjos. com a mão. — Já? D. pôs a cabeça de fora. Pode acrescentar que. Como trouxesse um mantelete de renda preta. ternura. Maria dos Anjos. curiosa. achava nela todas as qualidades que melhor se ajustavam à sua alma e aos seus costumes. mas foi obrigada a ficar ainda alguns minutos. quando lhe lançou uma ou duas vezes os olhos. confiança. Benedita enchia-lhe o coração. Eulália dava à conversação das duas a soma de atenção que a cortesia lhe impunha. D. Sentada na cadeira fronteira à mãe. um doce. D. ao pé da outra ponta do sofá em que estava D. — Palavra? — Palavra. porque puxava-a para a frente e contava-lhe os fios do cabelo. estudavam-se. — Como ela tem graça para dizer as coisas! Comentou D. — Que quer que lhe faça se não for? Há de ser um castigo bem forte. apresento-lhe os meus respeitos. Benedita é que não via nada. Chegava a parecer aborrecida. Benedita levou a amiga até o patamar da escada. como lhe chamou duas ou três vezes. vieram oferecimentos de alguma coisa. Uma e outra mediam-se. um sorriso de favor. imagino. — Quinta-feira. um refresco. Benedita olhando para a Eulália sorriu sem convicção. muito elegante. Veio o mantelete. D. apesar de ser tudo isso. — era de manhã. depois de entrar no carro. — Não falte. — Bem forte? Não me fale mais. Assim o creu D.

e leu os cinco primeiros capítulos naquela mesma noite. sem demora. querendo ler alguma coisa. exausta. é naturalíssimo. dois abertos. passados oito dias. Agora. tão namorada que abriu as folhas. e era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas! III Era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas! Esta palavra. é um moço formado em direito este ano. dormiu. desconfio de outro sujeito que outro dia esteve conosco nas Laranjeiras. depois esqueceu-o. e a filha saiu com a carta sem saber que tratava dela e do seu futuro. que. Benedita correu a acabar a carta. pois nada menos de três estavam ali. até a lição de piano da filha. custou-lhe não pouco trabalho. namorada do livro. no dia seguinte não pôde continuar. um marcado em certa página. nem já agora podia fazê-lo. Eulália já não estava na sala. com muitos elogios. Benedita ama os romances. fecho do capítulo passado. Deram-lhe notícia na rua. é conservador. todos em cadeiras. é natural. agora. mas não quero fazer nada sem que você me diga. Era tarde: não relatara o jantar da véspera. os olhos e o coração na leitura tão desastradamente interrompida. e adora os romances bonitos. ela deu-lha para mandar. Voltou ansiosa. escreveu estas palavras: "O cônego Roxo falou-me em casar Eulália com o filho de D. que eu chorei. porém. Eu não sei se Eulália quererá ou não. sem que . aconteceu-lhe justamente achá-lo à mão. ao correio. se o Itaboraí não deixar o ministério. enfim. apesar de ser longe e tarde. encareceu muito as novas relações. Mas você que pensa? Devo limitar-me a aconselhá-la. jantando. fez um brinde a você. Eu acho que o casamento é o melhor possível." Acabou e fechou a carta. chegara da Europa na véspera. Um deles. Benedita. que abre o livro com amor. correndo nada menos de três livrarias. que mergulha o espírito. Achou o livro. D. tudo. ergueu-se um pouco. D. O Dr. — Ah! E ei-la que torna ao sofá. Sendo preciso dormir. A carta era muito comprida apesar de não dizer tudo. Essa coisa era um livro.— Quinta-feira. O melhor seria se você viesse cá. Benedita deixou-se cair no sofá. e percorreu o gabinete com os olhos. cheio de palavras tão bonitas. e podia dizer achou os livros. ou impor-lhe a nossa vontade? Eu acho que devo usar um pouco da minha autoridade. como procurando alguma coisa. Resumiu tudo. Maria dos Anjos. D. Leandrinho (é o nome dele) é muito bem educado. Eulália entrou nessa ocasião. explica a longa prostração de D. note-se. Benedita ficou tão entusiasmada. cujo professor chegou e saiu. cansada. e espera uma promotoria. Meia hora depois de cair no sofá. perto de casa. Não admira que esqueça tudo para ler este. Eram três romances que D. arrepiou caminho e foi ela mesmo comprá-lo. Benedita lia ao mesmo tempo. D.

que mandava perguntar se estavam em casa naquele dia. Já não pensava na carta. apanhou-o. declarando ao cônego. pensava o cônego. abriu a porta. principalmente. a idéia de ir jantar com elas era antes um pretexto. Não gostava de barbatanas duras. — Mas. fechou-o.ela fosse à sala. depois foi ao gabinete. que absolutamente não queria casar. ou porque adivinhasse isso mesmo. merecia-lhe muito. ficou logo preocupada. Nesse momento vieram trazer uma carta a D. — Pois não! bradou D. Era um bom homem o cônego. venha. agora parou. pode vir. D. velho amigo daquela casa. caminhou pé ante pé até o sofá. o famoso romance. tinha o corpo mui sensível. Aposto que mamãe esqueceu-se de dar lembranças a papai? Pois olhe. mas calou-se logo. — Dorminhoca! — Ainda chove? — Não. aborrecida. era do cônego Roxo. Daí a três quartos de hora fazia o cônego a sua entrada na sala de D. ou porque a pessoa do cônego lhe lembrasse o Leandrinho. não quer dizer triste ou desconsolada. vira-a pequena. Eulália. pensava no colete que encomendara à Charavel. e acordou a mãe com um beijo. Eulália despediu-se do professor. Benedita. um colete de barbatanas mais moles do que o último. o cônego queria tratar o negócio diretamente com a filha do desembargador. Eulália. — E se mamãe quiser? . estamos em casa. na qual. travessa. como vimos. — Palavra de moça bonita? — Palavra de moça feia. e resistiu. galante. quando ele naquela noite lhe falou do Leandrinho. Benedita. podia resistir. Eulália escreveu o bilhetinho de resposta. — A carta foi? — Foi. Eulália falou ainda algum tempo do pai. e nenhum noivo melhor do que o Leandrinho. exercia o papel de conselheiro. e vendo no chão o livro aberto. eu não me esqueço nunca. e criou-lhe uma afeição paternal. por quê? — Porque não quero. amiga dele. Benedita. porque iria ao enterro dos ossos. mandei o José a toda a pressa. Mas. além de trinchar o peru nos dias solenes. e exercia-o com lealdade e amor. Naquele dia. pô-lo em cima da mesa. tão paternal que tomara a peito casá-la bem. preocupada ou aborrecida. Era resoluta. senhora. tinha têmpera. Benedita bocejou.

sobre se tinha alguma preferência em outra parte. — Já agora nem espero resposta do pai. O cônego ainda tornou ao assunto. E ainda consigo. mas consigo. sem afetação. a resposta invariável era esta: — Já disse tudo. Queria casá-la bem. O desconsolo do bom cônego era profundo e sincero. Maria dos Anjos não deseja que se faça nada à força. levantou-se fresca. alegre. cheio de melodia. com todas as janelas da alma abertas ao sopro azul da manhã. A mãe acordou ouvindo um trecho italiano. Mas quando o cônego formulava de um modo direto a questão. depois de sair o cônego: — Tinha que ver! um tico de gente. lépida. mas tornou logo a si. declaro-lhe que ela há de casar. e declarou ao padre que a filha não tinha vontade. Mas Eulália. Quinta-feira vou jantar com D. não queria casar. no mais fundo de si mesma. não violentaremos qualquer outra afeição que ela possa ter. concluiu. Eulália deixou-se estar. Maria dos Anjos.— Não quero eu. ela ouvia tudo. faria o que ela quisesse. era ela que cantava. faltava-lhe o trato suficiente das mulheres para ler através de uma negativa. respondia que não. Quando referiu tudo a D. mas receou também que não fosse assim. as esperanças da família. — o tico de gente. com fumaças de governar a casa! A quinta-feira raiou. Eulália. disse D. que D. — Mau! isso não é bonito. não queria nada. O cônego refletiu um instante: ele. loquaz. — Qual força! Não é preciso força. acontecesse o que acontecesse. Eulália. ponderou o cônego. que não tinha nada. esta ficou assombrada com os termos da recusa. Benedita. a filha seria nora de D. e não achava melhor noivo. Benedita não respondeu nada. as vantagens do casamento. Chegou a interrogá-la discretamente. — Em todo caso. — Não quer? — Não. jurou que. louvou as qualidades do candidato. — Devo dizer-lhe. não menos discretamente. Ele creu que era assim. Maria dos Anjos. e combinaremos as coisas. com a indiferença das aves que cantam para si ou para os seus. que as ouve e . sem contestar nada. e não para o poeta. e ela queria o casamento. houvesse o que houvesse.

E nada! Em vez de uma filha rebelde. olhos nos olhos. Era começar mal o dia. lembrava-lhe o vidrinho dos sais. vestiu-se. Conversou mais.traduz na língua imortal dos homens. mas Eulália advertiu que era prudente esperar um ou dois dias até que os . explicou de si mesma a diferença. manjares comidos entre carícias mútuas. realmente. com uma grande vontade de esganar a filha. calçou as luvas. carrancuda. D. ou uma suspeita de possibilidade de ameaço. a doença não era grave. Era começar o dia muito mal. Enfim. etc. e que. depois do jantar. a cantar. descrevia a ansiedade de D. alegrou a alma de D. Benedita estava doente! Realmente. cumularam-no de esperanças. conversado. tudo isso foi para a alma do cônego uma renovação de esperanças. deu as últimas ordens. dizendo consigo que a pior coisa do mundo era ter filhas. era caiporismo. era tarde para deixar de ir. e em todo caso. ostentar energia e força. a maneira expansiva da conversa. e dar com uma cidade aberta. esteve quase a dizer que definitivamente ficava. uma criatura gárrula e submissa. fazem carreira por si. porque os modos eram arrebitados. Maria dos Anjos. saiu exasperada. Maria dos Anjos. Os filhos ainda vá: criam-se. D. chegou mesmo a propor que fosse logo no dia seguinte. uns modos de pessoa constrangida ao que não quer. Benedita foi um ameaço de enxaqueca. mas a filha ponderou que talvez a visita lhe fizesse bem. — Mamãe veja que D. Benedita reanimou-se um pouco. foi o mais que alcançou o cônego. por esta razão fina e profunda: antes a frieza da amiga fosse originada na doença do que na quebra do afeto. Ao espelho. Amável cônego! As disposições de Eulália. aceitou o reparo. mas não prometi ir doente. A filha animava-a muito. a tocar. Maria dos Anjos aquietou-a. Um jantar apenas conversado. às três horas da tarde. Demais. Uma amofinação. redargüiu a mãe. D. discutiu um projeto de passeio ao Jardim Botânico. — O que tu estás é me amofinando. com que ouvia e falava ao Leandrinho. Benedita não eram os do costume. não houve nada do jantar de domingo. ela. A segunda causa do tédio de D. e gastara uma certa soma de imaginação em compor os seus modos. naquele dia. mas as filhas! Felizmente. instava que saíssem. disse-lhe a mãe. o jantar de D. à noite. chegou a insinuá-lo à filha. que trazia na cintura. noticiando o ameaço da enxaqueca. delinear os seus atos. Benedita afagara muito a idéia de a ver abatida. E que fosse grave! Não houve naquele dia mãos presas. consultava de dois em dois minutos o pequenino relógio. e não digo que a enchesse de grande satisfação. era sair aparelhada para destruir uma fortaleza. ou quase secos. Logo hoje é que D. E saiu. pacífica. hospedeira. Benedita não teve remédio. Os modos de D. disse-lhe Eulália. o riso que brincava nela. porque não foi assim. a docilidade com que se prestava a tudo. que lhe pedia o favor de entrar e partir o pão da alegria e da concórdia. Maria dos Anjos conta com a senhora. meigo. um ameaço. — Pois sim. e devia doer-lhe muito a cabeça. penteandose. não alegre. porém. e o rosto afável. aliás. eram frios. secos. notícia mais triste do que alegre. Chegou a transferir a visita.

Mandou ver as malas que tinha. da persistência das caras. tornou a fechá-lo e guardá-lo. não só por ter bigodes. e tão depressa a idéia do mando lhe penetrou no cérebro. tinha a ponta aguda de um punhal. satisfeita de si. e o sangue pulou-lhe num tal ímpeto de ir ver o desembargador que. ela embarcaria logo e logo. à janela: — Isto acaba. mamãe. Que fazias tu. ao despentear-se. naquela doce intimidade da alma consigo mesma. calculou o tamanho. curiosidade. Depois mirou-o. roída de saudades e desejos. ou dois. impaciência. inquieta. entre as estrelas e os lampiões de gás. que não vinhas arrancar às mãos e à boca da filha um veneno tão sutil e mortal? D. olhava a noite. não era preciso levar muita coisa. Benedita cogitou seriamente em ir ter com o marido. oito ou dez dias. comunicou a resolução à filha. disse ela a meia voz. então. à janela. — um retrato. D. Mas a filha não tinha medo dos olhos matemos. era o tempo de arranjar as malas. nós não vamos por três meses? — Três. — Bem. logo de manhã. D.efeitos da enxaqueca desaparecessem de todo. Benedita confessava. De quando em quando. e o olhar que mereceu à mãe. com a imaginação vagabunda. se não chegarem. recapitulando o dia. Eulália achava-o bonito. não vale a pena. não sabia bem de quê. Se bonito ou feio. no dia seguinte. é matéria de opinião... o paquete devia estar prestes a sair. — fastio. Ei-la que se consola da grande cidade fluminense. Maria dos Anjos não prestara para nada. puxou uma certa gaveta. De noite. abriu-a. e que a própria amiga não estava provavelmente nos seus dias de costume. é . Não importa. — Pois. As duas malas chegam. bocejava ao modo preguiçoso e arrastado dos que caem de sono. aventou um cartão de alguns centímetros de altura. antes de dormir. um oficial de marinha. em troca do conselho. que ignorava. por uma inspiração súbita: — Mas. e desejos. que o jantar de D. e determinou comprá-la. Eulália. E mamãe mesmo escolhe. da similitude dos dias. da mesma fixidez das modas. era. quando muito. Tinha saudades. mas se alguma coisa tinha era fastio. Não era retrato de mulher. se o paquete do Norte estivesse na esquina da rua e as malas prontas. mas três. que a recebeu sem abalo. desde manhã. Com efeito. E. com saudade. Benedita. a prova é que o beijou. mãe cautelosa e ríspida. vou ao Pará. dias antes. Iria por três meses somente. como por estar fardado. não há que ver. não digo uma vez. achou que era preciso mais uma. O dia tinha-lhe saído mal. que era um dos seus árduos problemas: — por que é que as modas hão de durar mais de quinze dias? — Vou. da escassez das coisas. como se lhe apertou o coração de saudades e remorsos. tirou uma caixinha. Eulália repetiu consigo a palavra que lhe ouvimos. pode-se comprar na véspera. — Não chegam.

Benedita disse quatro palavras no princípio: — Vamos para o Norte. A filha sorriu para dentro. quatro passagens. Não digo que não. um presente para o marido. daquela vez era certo. E duas no fim: — Passe bem. Não foram no outro. mas pode não achar mais. a indiferença. Ela pediu as quatro passagens. Iriam no outro paquete. o senhor guarde os bilhetes: eu mando buscar.melhor do que mandar esta gente que não sabe nada. quando a amiga se despediu dela. há de supor-se que a reflexão da moça era profundamente maquiavélica. Na rua. e guardou o dinheiro. tirou uma nota. D. D. A . durante os quais D. nós viremos três dias antes de sair o vapor. depois duas. visitas. mas D. e. — Basta vir na véspera. comprar as passagens. Eulália ainda tentou arredá-la da idéia. mas desta vez os motivos escapam inteiramente ao alcance do olhar humano. o olhar fixo no chão. sabendose que ela não desejava ir para o Norte nem para o Sul. propondo a transferência da viagem. Benedita. enfim. — Pode ser. foram as atitudes geladas. não? — Basta. o silêncio. E os beijos? Dois tristes beijos de pessoa morta. refletiu um instante. No escritório da Companhia de Paquetes disseram-lhe que o do Norte saía na sexta-feira da outra semana. IV A viagem não se fez por um motivo supersticioso. advertiu que o paquete seguia na sexta-feira. D. que sabia da viagem pelo cônego. D. entretanto. salvo na fragata em que embarcasse o original do retrato da véspera. lista das coisas que precisava comprar. e o melhor alvitre em tais casos é não teimar com o impenetrável. Ah! que alegria que ele ia ter! Depois do meio-dia saíram para fazer encomendas. e achou que o dia era mau. Maria dos Anjos. Benedita achou a reflexão judiciosa. abriu a carteirinha. levavam uma escrava consigo. Benedita declarou peremptoriamente que não. Um chegou a perguntar-lhe se. Uma visita de dez minutos apenas. Talvez repetisse consigo a famosa palavra da janela: — Isto acaba. Naturalmente ainda haverá bilhetes. Benedita. — Bem. nenhum dos quais a ouviu espantado. se alguma coisa a assombrou. no domingo à noite. Eulália observou que era melhor ter comprado logo os bilhetes. noticiou a viagem aos amigos e conhecidos. A mãe foi cuidar dos arranjos. — O seu nome? — O nome? O melhor é não tomar o nome. escolha de roupas. — Há de haver. etc.

o oficial de marinha era um galhardo rapaz. cabelos. e abrir a porta a um genro: era o cúmulo do inesperado. O oficial agradeceu comovido. são os mesmos do retrato que o leitor entreviu há tempos na gavetinha de Eulália. Maricota. mas deve ter sido esplêndida. cujos bigodes. e principalmente parecia adorá-la. vá amanhã. era impossível ser mais amável. Mascarenhas foi. — Mas o desembargador? disse ele. Benedita ainda falava dela três dias depois. entre os outros moços à paisana. Petronilha. Quanto à família. porque ela mesma o empregou: é um documento humano. Lembrou-se. esposa do conselheiro Beltrão. Benedita ficou sem voz. pasmada. é verdade. ele pediu-lhe licença para fazer uma visita. Benedita voltou do pasmo. porque D. que deixaram encantada a esposa do desembargador. Benedita. A irmã casada tinha trinta e dois anos. que o conselheiro Beltrão proclamou futuro almirante. Benedita. umas maneiras tão bonitas. D. e lho disse. Quanto à irmã solteira era uma flor. elegante. Mas o sonho era bonito. . a impressão que deixou na alma de D. — Olhe. disse D. a ela. que o preferiu a todos. a festa não se sabe a que propósito foi. mas iria no terceiro paquete. e foi mais cedo. e D. nas Laranjeiras.verdade é que D. Tinha a filha inventado uma festa e uma amizade nova. namorada de D. Benedita falou-lhe da vida do mar. a atitude séria. metia toda a gente no coração. Benedita. Em casamento! Mas seria mesmo em casamento? Não podia ser outra coisa. porém. Por exemplo. achou-o tão distinto. Benedita. um dia. e de uma irmã dela. — Aquela gente? Oh! deixou-me uma impressão intensíssima. Ela ofereceu-lhe a casa. cara. — Uma visita? Vá jantar conosco. Benedita. Mascarenhas fez uma cortesia de aquiescência. D. a não ser um incidente que lhe trocou os planos. 1º tenente Mascarenhas. a perfídia do oficial: vinha fardado. que não altero com receio de entibiar a verdade. Benedita foi intensíssima. D. Um dos pontos mais obscuros desta curiosa história é a pressa com que as relações se travaram. uma das pessoas que estiveram em Andaraí. que ia casar com um oficial de marinha. que amava os espetáculos novos. Agora não os vira conversar nem olhar uma só vez. Mascarenhas pegou-lhe na mão e beijou-a filialmente. mas a suspeita acabara. implorativa do rapaz dizia bem que se tratava de um casamento. que Eulália era sua. ao menos. Vede. ele pediulhe a filha em casamento. e os acontecimentos se sucederam. irmão de outro oficial de marinha. com D. e respondeu que sim. E toca a andar para Andaraí. era demais. Três dias! Realmente. uma flor de cera. tão bonito. Que sonho! Convidar um amigo. Que magnífico sonho! D. outra expressão de D. porte. forte. respeitosa. que desconfiara dele. A nova amizade era uma família do Andaraí. Benedita não foi. foi o oficial de marinha retratado no cartão particular de Eulália. Uso este superlativo. D. e uma seriedade. simpático. olhos.

esplêndida. lembrou-se do carro que iria buscar . até à última hora um bilhete de participação. na escolha dos convidados. Maria dos Anjos não esteve presente. a semana do enxoval não era a do preparo da festa. Ela esperou. tudo com a sua habilidade natural. Benedita. mas abençoava de longe os filhos. é verdade. cercear as demasias. e dizendo dele por toda a parte as mais belas coisas do mundo. longas e secretas.— O desembargador concordará comigo. morrendo ainda mais. — Uma pérola! uma pérola! — E um bonito rapaz. D. ora a pé. teve idéia de que D. seria vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do desembargador. com certa confusão. uma visita. Vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do Pará efetuou-se o casamento. dá cá mais açúcar. Não se detinha no mesmo objeto muito tempo. Cumpriu-se o acordo à risca. que eram contínuas. Mas aí estava a filha para suprir as faltas. o desembargador deu o seu consentimento. antes e depois de receber a resposta da primeira. no plano e nas encomendas da festa. etc. banhos corridos. este não as importunava. Estava atônita.! Ela ia de um lado para outro. A mesma coisa repetia ao marido nas cartas que lhe mandava. confirmou D. parece que não mandamos participação a D Maria dos Anjos. marcou-se o dia do casamento. Ao contrário de todos os noivos. um convite. supôs alguma intriga. acrescentando que lhe doía muito não poder vir assistir às bodas. D. voltava atrás. ela. Matava as saudades por meio de cartas. e pedia o retrato do genro. no dia do consórcio. ora de carro. fizesse chuva ou sol. — Não é? De truz. disse ela à filha. de manhã. por achar-se um tanto adoentado. que foi uma festa admirável. O copeiro deu-lhe o açúcar. quando ela morria por ele. Benedita. e visitava-as uma vez por semana. Benedita. mexendo o chá. Benedita não podia explicar uma tal esquivança. nem a das visitas. Maria dos Anjos não recebera participação. segundo lhe pedia a dona da casa. quando a contou a algumas amigas. e claro é que D. e menos ainda o filho. note-se. jantava aos domingos. como no tempo do namoro. almoçando. mas não recebeu nada. corrigir os defeitos. — Eulália. Oficiou o cônego Roxo. — Parece que não. Certidões passadas. mamãe é quem se incumbiu dos convites. Tudo andou assim depressa. e então vingava-se da esquisitice. embora se abstivesse de comparecer. revolvia a memória a ver se descobria alguma inadvertência sua que pudesse explicar a frieza das relações. não achando nada. — Não sei. João. pois foi um simples esquecimento. não jantava todos os dias com elas. E supôs mal. no dizer de D. Que alegria a da boa mãe! que atividade no preparo do enxoval. alternava as coisas. acrescentavam. A resposta veio.

Nesse quadro apareceu-lhe uma figura vaga e transparente. Benedita contava tanto com a sinceridade da sogra que nunca teimava. O túmulo fez-se. não havia teimas. erigir um túmulo ao marido. dando desde logo todas as ordens necessárias à construção do túmulo. porque ele devia seguir para o Norte daí a três meses em comissão do governo. O primeiro ano da viuvez estava passado. para onde se mudara desde alguns meses. que em breve estaria a caminho de São Paulo. D. e o genro. O genro tornou do Sul. Benedita. Primeiramente uma claridade opaca. o genro de D. aprimorava o plano com todos os floreios da imaginação vivaz e súbita. e beijar a terra em que ele repousava. Benedita chorou todas as lágrimas de uma esposa austera e fidelíssima. à janela da casa de Botafogo. Benedita achou-se só e triste. também viúvo. na rua ou em casa. que se apaga logo. mas aceitou o prazo. o governo lembrou-se de o mandar ao Sul. e apontou-lhe logo um pretendente. espécie de luz coada por um vidro fosco. Não casou. embora sem alvoroço. Benedita mandara construir uma casa no caminho da Tijuca. chegou a notícia do óbito do desembargador. Os noivos. achou melhor ficar. pois desde muito. Não descrevo a dor de D. pode-se dizer que era viúva. uma companhia. Mas a fortuna é caprichosa. Eulália. deixava que ela própria se desmentisse dias depois. a filha deu à luz um menino robusto e lindo. O negociante gozava do melhor conceito: a escolha era excelente. A idéia de viajar tornou a rutilar-lhe na mente. depois disse à sogra que era melhor irem juntos.o cônego e reiterou uma ordem da véspera. Cinco meses depois. D. etc. o genro. fronteira à janela. foi dilacerante e sincera. antes mesmo da morte do marido. Felizmente. quanto que o genro começava a parecer-lhe insuportável com a sua excessiva disciplina. mas a comissão não veio. adventícia. O casamento seria uma consolação. D. e o ato era tanto mais honroso para ela. grávida. teve idéia de cortejar D. Defendia-se consigo. consultou a filha e o genro acerca da idéia de ir ao Pará. que devaneavam na Tijuca. era uma vida nova. com o pretexto de uma interrupção na obra. impertinências. com as suas teimas. que foi a paixão da avó durante os primeiros meses. Benedita consentiu. Foi por esse tempo que um negociante. Depois. mas como um fósforo. a filha e o neto foram para o Norte. Benedita este problema. Benedita acolheu a idéia com muita simpatia. D. viu um singular espetáculo. viúvo. propôs acabá-la. Uma companhia lírica. D. E consigo. e D. e restituiu-a à sociedade. nas horas disponíveis. nesse particular. volvendo D. Viajar sozinha era cansar e aborrecer-se ao mesmo tempo. alegava a idade e os estudos do filho. Verdadeiramente. deu-se um pequeno incidente na família. A sociedade incutiu-lhe outra vez a idéia do casamento. — Casarei? não casarei? Uma noite. desta vez um advogado. vieram ter com ela. Mascarenhas trocou um olhar com a mulher. Quinze dias depois do casamento. ficou com a mãe. o filho não bastava aos seus afetos. sozinha no mundo. Depois da missa do sétimo dia. Benedita não pôde ir. Benedita recalcitrou um pouco. Mas pode ser que isto mesmo a mortificasse. Benedita. vestia o espaço da enseada. sacudiu-lhe o torpor. trajada de . deixando-a só. D.

. e todo redundava em glória do reino de Bungo. Benedita. que esteve a ponto de ensurdecer-nos.. matemático.. e alçou nos braços o homem. se por ter aventado tão sublime verdade. e casas. que discorria com grande abundância de gestos e vozes. ele a aceitaria ali mesmo.. dispersou-se na noite e no silêncio. Benedita: Meu nome é Veleidade. D. varões somente. quando andou com bandeira de veniaga (agora ocupava-se no exercício da medicina. que tiveram por acertado disputar ao padre as primazias da nossa santa religião.. e que. Agora direi de uma doutrina não menos curiosa que saudável ao espírito. mas enfim.. A figura veio até ao peitoril da janela de D. que melhor conhecia a língua da terra. depois respondeu que era a fada que presidira ao nascimento de D. porque morriam todos no ar. Benedita ficou aterrada. em torno a um homem da terra.. pois ali estivera muitos meses. A figura achou um princípio de riso. e em que era exímio) ia-me repetindo pelo nosso idioma o que ouvia ao orador. na conjunção da lua nova.. que estudara convenientemente. com uma voz de criança. O povo. viva . e. trabalhos e até perigos de vida. como um suspiro. casando . como ele. nesta mesma cidade Fuchéu.. à esquina de uma rua. Um dia. com o padre-mestre Francisco. era fruto de dilatados anos de aplicação. experiência e estudo. sem contornos definidos. mexer-se. Diogo Meireles. A multidão. que este descobrimento. naquele ano de 1552. andando a passeio com Diogo Meireles. e digna de ser divulgada a todas as repúblicas da cristandade. levantou um tumulto de aclamações. estava feito. seria passante de cem pessoas.nevoas. e todos embasbacados. sucedeu deparar-se-nos um ajuntamento de povo. Patimau. não casarás. capital do reino de Bungo. mas ainda teve a força de perguntar à figura quem era. -------------------------------------------------------------- O SEGREDO DO BONZO Capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto Atrás deixei narrado o que se passou nesta cidade Fuchéu. toucada de reflexos. impossível a quem não fosse... mas perdeu-o logo. tanto que ele acabou. segundo o esmo mais baixo. se casas. concluiu.. disse-lhe estas palavras sem sentido: — Casa. físico e filósofo. e especialmente da cidade Fuchéu. e. os quais procediam do ar e das folhas de coqueiro. fosse necessário aceitar a morte. era o seguinte: — Que ele não queria outra coisa mais do que afirmar a origem dos grilos. bradando: Patimau. casarás. em resumo. cuja filho era. sem poder.. não casarás. e de como el-rei se houve com o Fucarandono e outros bonzos.. tão certo era que a ciência valia mais do que a vida e seus deleites. e de um gesto sonolento.

visto que também este falava apressado. em outra esquina. daí provinha a excelência da vaca para habitação das almas humanas. — Haveis de entender. alparqueiro. chegaremos a praticá-la à nossa vontade. — contou-lhe este o que víramos e ouvíramos pouco antes. onde lhe deram refrescos e lhe fizeram muitas saudações e reverências. iniciou-nos primeiro com várias cerimônias e bugiarias necessárias à recepção da doutrina. Ficamos espantados com a semelhança do caso. porém. uma no sujeito que as possui.Patimau que descobriu a origem dos grilos! E todos se foram com ele ao alpendre de um mercador. por ser obra de experiências repetidas e profunda cogitação. e era nada menos que uma certa gota de sangue de vaca. porque nem nos parecia casual a semelhança exata dos dois encontros. No dia seguinte. em que o alparqueiro chamou as mais galantes coisas a Diogo Meireles. com a diferença que o trepou a uma charola. que assim se chamava o outro. quando a terra houvesse de ser inteiramente destruída. ao modo concertado. e Diogo Meireles. a pouca distância daquele alpendre. Sucedeu. não havendo nenhuma distinção entre eles. ali chegando. que se finavam de puro ciúme. e grandemente aceito a toda aquela gentilidade. fez o mesmo alarido e levou o homem ao dito alpendre. e acrescentou: — Dizem que ele não a confia a nenhuma pessoa. não mais. nem outra competência nos banqueteadores. dizem que inventada por um bonzo de muito saber. Ficamos sem saber nada daquilo. O povo. achamos outra multidão de gente. morador em umas casas pegadas ao monte Coral. que enfim descobrira o princípio da vida futura. e só depois dela é que alçou a voz para confiá-la e explicá-la. outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam. E tendo ouvido o dito bonzo a Titané quem éramos e o que queríamos. costearmos a casa de um certo Titané. que a virtude e o saber. e. Diogo Meireles e eu. de quem era amigo. E porque ficássemos cobiçosos de ter alguma notícia da doutrina. E dizia este outro. e se for boa. Ao que Titané acudiu com grande alvoroço: — Pode ser que eles andem cumprindo uma nova doutrina. consentiu Titané em ir conosco no dia seguinte às casas do bonzo. Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito . E. e por isso mesmo malvisto de outros bonzos. falando do singular achado da origem dos grilos. vínhamos nós. começou ele. fomos às casas do dito bonzo. foi regalado com obséquios iguais aos que faziam a Patimau. ou o princípio da vida futura. que escutara esta fala com muita veneração. que é em extremo obsequioso e cortesão. podemos simular que o queremos unicamente com o fim de a ouvir. que não fosse a de dar graças a ambos os banqueteados. obra de seis credos. com grande admiração e aplauso da gente que o cercava. dada por Patimau. repetiu-me na mesma maneira o teor da oração. um ancião de cento e oito anos. à maneira deste gentio. descobrimento que ele podia afirmar com fé e verdade. tais como — ouro da verdade e sol do pensamento. escutando a outro homem. têm duas existências paralelas. descoberto por Languru. o qual correu a falar a Diogo Meireles. e o ardor com que esse distinto animal era procurado por muitos homens à hora de morrer. por nome Pomada. não desejando nem pedindo outro galardão mais que dar glória ao reino de Bungo e receber dele a estimação que os bons filhos merecem. quando. senão às que de coração se quiserem filiar a ela. feitos os cumprimentos. nem racional ou crível a origem dos grilos. Desandando o caminho. sendo assim. muito lido e sabido nas letras divinas e humanas.

na conjunção da lua nova. antes de cair a tarde. como lhe dissesse Diogo Meireles que a língua da terra me não era familiar. dá claridade a uma campina inteira. Uma tal pedra. que não relato. Não sabíamos em que maneira déssemos ao bonzo. tínhamos os três combinado em pôr por obra uma idéia tão judiciosa quão lucrativa. o que alcancei. Neste ponto. e. e depois de reconhecer que a entendíamos. então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo efeito. sem existir na realidade. despediu-se de nós com a certeza (são palavras suas) de que abalávamos dali com a verdadeira alma de pomadistas. o qual. considerei que. incitou-nos a praticá-la. nada chegaria a valer sem a existência de outros homens que me vissem e honrassem. mas muita gente crê que existe e mais de um dirá que a viu com os seus próprio olhos. Tão depressa fiz este achado especulativo. e entendi que. poupando tais trabalhos. não valem nada. para o fim de alumiar um pouco o entendimento. com tal arte souberam meter estas duas idéias no ânimo da multidão. se ninguém os gostar. as mostras do nosso vivo contentamento e admiração. e ninguém jamais a viu. denominação esta que. conquanto não dê para comprar damascos ou chaparias de ouro. porque eu nada perdesse. Para compreender a eficácia do meu sistema.solitário. e determinei-me a verificá-lo por experiências. Um dia. que é outra e melhor espécie de moeda. à guisa de experiência. mas porque a má compreensão dela podia daná-la e perdê-la em seus primeiros passos. estando a cuidar nestas coisas. com tais quilates de luz. pois. Ele interrogou-nos ainda algum tempo. ainda a mais dilatada. meter cada um de nós. essa insigne pedra tão luminosa que. E continuou dizendo: — Mal podeis adivinhar o que me deu idéia da nova doutrina. como dei graças a Deus do favor especial. e existir na realidade. entendeu Titané que lhe cumpria . que é apenas conveniente. Combinamos. senão também o que traz consideração e louvor. pois não é só lucro o que se pode haver em moeda. varões astutos. Com efeito. e por outro lado. tão certo é que o homem não olvida o seu interesse. valem tanto como as urzes e plantas bravias. por outras palavras mais enérgicas. sem existir na opinião. compridamente. pois me deu a doutrina salvadora. aliás. Considerei o caso. mediante a qual houvéssemos os mesmos benefícios que desfrutavam Patimau e Languru. o princípio da vida futura não está em uma certa gota de sangue de vaca. tinha consumido os meus longos anos. Os frutos de uma laranjeira. acerca da doutrina e dos fundamentos dela. não existiu nunca. que hoje desfrutam a nomeada de grandes físicos e maiores filósofos. enfim. não há espetáculo sem espectador. lhe era em extremo agradável. não porque houvesse nada contrário às leis divinas ou humanas. no ânimo da cidade Fuchéu. e. ia falando com grande pausa. por vos não tomar o tempo. uma certa convicção. não a da realidade. remoto de todo contacto com outros homens. ou. mas Patimau e Languru. a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião. foi nada menos que a pedra da lua. basta advertir que os grilos não podem nascer do ar e das folhas de coqueiro. é como se eles não existissem. e têm consigo pessoas capazes de dar a vida por eles. mas. se ninguém os vir. e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens. por se derivar do nome dele. se uma coisa pode existir na opinião. a divulgá-la cautelosamente. posta no cabeço de uma montanha ou no píncaro de uma torre. afiamos os ouvidos e ficamos pendurados da boca do bonzo. em mais de um caso.

pelo preço que lhes taxo. conforme já fizera declarar a elrei e o repetia agora. conforme as quais não havia outro cuidado que não fossem as famosas alparcas dele Titané. apenas estimadas. o essencial dela. que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo. às quais ele Titané ia acudir. e nunca se julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da glória do reino de Bungo. em vista do esplendor das famosas alparcas de Titané. título expressivo. que eles talham depois em pedaços de dois palmos de comprimento. assentaram os dois que era a minha vez de tentar a experiência. atalhei. pois. isto é. as notícias da semana. com muitas e extraordinárias anedotas acerca da sua mercadoria. nos quais desenham com vivas e variadas cores. as novas leis do reino. todavia. que nada menos de vinte e dois mandarins iam requerer ao imperador para que. e distribuídas ao gentio da terra. e pela língua do país. as primeiras do universo. que a há freqüente. o nosso Titané não quis melhor esquina que este papel. em grande cópia. começaram de ser buscadas com muita curiosidade e ardor. que as vem comprar agora. Ora. que eram grossíssimas as encomendas feitas de todas as partes. A leitura desta notícia comoveu naturalmente a toda a cidade Fuchéu. que apesar da primazia no fabrico das alparcas assim reconhecida em toda a terra.lucrar de duas maneiras. As alparcas de Titané. políticas. vendendo também as suas alparcas: ao que nos não opusemos. e sim a opinião de uma qualidade que não possuímos. e ainda mais nas semanas seguintes. que cada um dá de bom grado para ter as notícias primeiro que os demais moradores. que foi a mais decisiva das três. do propósito em que estava e ficava de dar de graça aos pobres do reino umas cinqüenta corjas das ditas alparcas. que tenhais cumprido a doutrina em seu rigor e substância. religiosas. fosse criado o título honorífico de "alparca do Estado". mas deixo de a relatar em todas as suas partes. e a melhor . balões e toda a casta de barcos que navegam estes mares. obra mui prima. antes as tenho por obra vulgar. um papel feito de casca de canela moída e goma. — Não me parece. ele sabia os deveres da moderação. Dito isto. pois não deixou ele de entreter a cidade. este é. a troco de uma espórtula. ou em guerra. os nomes das fustas. porque as ditas folhas são feitas de oito em oito dias. Usam neste reino de Bungo. o que imediatamente fiz. chamado pela nossa língua Vida e claridade das coisas mundanas e celestes. mas fi-lo crer ao povo. durante algum tempo. por nos parecer que nada tinha isso com o essencial da doutrina. fez inserir no dito papel que acabavam de chegar notícias frescas de toda a costa de Malabar e da China. para recompensa dos que se distinguissem em qualquer disciplina do entendimento. menos por amor ao lucro do que pela glória que dali provinha à nação. e em outros destas remotas partes. por serem mui sólidas e graciosas. ainda que um tanto derramado. E digo as notícias da semana. por não demorar a narração da experiência de Diogo Meireles. e meio de largura. Consistiu a experiência de Titané em uma coisa que não sei como diga para que a entendam. lancharas. cobrando da experiência ambas as moedas. pois não estou persuadido da superioridade das tais alparcas. E dizia-nos com muita graça: — Vede que obedeço ao principal da nossa doutrina. ao certo. enfim. pois não nos cabe inculcar aos outros uma opinião que não temos. E. não recuando. mercantis e outras. ou de veniaga. não se falando em outra coisa durante toda aquela semana.

em que aliás era mediano. ali presentes. preferindo o excesso à lacuna. bonzos. que desde algum tempo praticava a medicina. e declararam que havia bons fundamentos para uma tal invenção. Assim foi que. e os doentes começaram de buscá-lo. e não só a punham horrenda. ao tom alto e convencido com que ele expôs e definiu o seu remédio. não se davam por defraudados. os quais vieram. e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são. que quase me persuadiu do meu merecimento. A assembléia aclamou a Diogo Meireles. que tomavam metade e mais da cara ao paciente. . um nariz metafísico. filósofos. sendo que a maioria não sabia que acreditasse. mais de um recorria à morte voluntária. antes era vantajoso por lhes levar o mal. cura esta praticada por ele em várias partes. certos e certíssimos de que ali estava o órgão substituto. não alcançou. senão o fato de que todos os desnarigados de Diogo Meireles continuaram a prover-se dos mesmos lenços de assoar. como digo. isto é. e tendo por mais aborrecível que nenhuma outra coisa a ausência daquele órgão. não quiseram ficar-lhe atrás. e não viam nada no lugar do órgão cortado. e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado. Nenhuma outra prova quero da eficácia da doutrina e do fruto dessa experiência. O que tudo deixo relatado para glória do bonzo e benefício do mundo. segundo ficou dito atrás. comunicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o órgão. Foi então que alguns filósofos. e juravam ao povo que o efeito era o mesmo. visto não ser o homem todo outra coisa mais do que um produto da idealidade transcendental.prova desta deliciosa invenção do bonzo. para alívio e melhoria dos enfermos. que me foi trazida em uma bandeja de prata. da graça em arquear os braços para tomar a charamela. que ele não tinha mãos a medir. a qual neste ponto rompeu em um tal concerto de vozes e exclamações de entusiasmo. mas de pura natureza metafísica. foi a de Diogo Meireles. um tanto envergonhados do saber de Diogo Meireles. persuadir os infelizes ao sacrifício. E confesso que alcancei um tal resultado com o só recurso dos ademanes. todavia. por algumas luzes que tinha de música e charamela. autoridades e povo. lembrou-me congregar os principais de Fuchéu para que me ouvissem tanger o instrumento. cedia entretanto à energia das palavras de Diogo Meireles. com toda a verossimilhança. assim curados e supridos. pois se lhe repugnava a metafísica do nariz. sem trazer fealdade. Neste apertado lance. olhavam uns para os outros. e não menor a incredulidade de alguns. reunindo muitos físicos. como um remédio. em tanta cópia. da unção com que alcei os olhos ao ar. não digo de todos. e a tristeza era muita em toda a cidade Fuchéu. Diogo Meireles. Conquanto os físicos da terra propusessem extrair os narizes inchados. Então ocorreu-lhe uma graciosa invenção. e do desdém e ufania com que os baixei à mesma assembléia. pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum. que consistia em fazer inchar os narizes. e tornavam aos seus ofícios. colhia um e aplicava-o ao lugar vazio. mas. estudou a moléstia e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes. tanto e tanto. depois estendia delicadamente os dedos a uma caixa. O assombro da assembléia foi imenso. da rigidez do busto. inacessível aos sentidos humanos. Lavrava então na cidade uma singular doença. a mais engenhosa de todas as nossas experiências. Os enfermos. e muito aceita aos físicos de Malabar. Diogo Meireles desnarigava-os com muitíssima arte. nenhum destes consentia em prestar-se ao curativo. escutaram e foram-se repetindo que nunca antes tinham ouvido coisa tão extraordinária. donde resultava que podia trazer. senão que era molesto carregar tamanho peso. onde fingia ter os narizes substitutos. Mas. e que este era inacessível aos sentidos humanos. Direi somente que.

Um dia enamorou-se loucamente de uma senhora de alto coturno. e enviou-lhe de mimo três estrelas do Cruzeiro. tudo era admitido no harém do Xavier. Era assim o Xavier. todas as perfeições de uma raça. digo-lhe eu. a exuberância turca. para acendê-los. E mulheres! Nem toda a pompa de Salomão pode dar idéia do que era o Xavier nesse particular. e não pense que o portador foi aí qualquer pé-rapado. Comia línguas de rouxinol. os diamantes. com aqueles mesmos dedos cor-de-rosa. obra finíssima. tudo teve e devia ter. as estrelas. Pobre Xavier! Tudo o que o capricho e a riqueza podem dar. a tez romana. Capeava os cigarros com um papel de cristal.. e assim também a esteira que forrava o sofá de repouso.-------------------------------------------------------------- O ANEL DE POLÍCRATES A Lá vai o Xavier. empregava areia nas cartas. o raro. o esquisito. a poltrona da secretária e a rede. porque era um galhardo rapaz. podre de rico. Nunca usou papel mata-borrão. as nuvens purpúreas? Tudo perdeu. o inimaginável.. Sabe quem lhe fazia o café. que Homero lhe pôs. o maravilhoso. o néctar . Ah! fortuna. Tinha um serralho: a linha grega. de manhã? A Aurora. e um bom coração. rico. mas uma certa areia feita de pó de diamante. que o Xavier chamou na ocasião em que ele cortava o azul para levar a admiração dos homens ao seu velho pai inglês. As colchas da cama eram nuvens purpúreas. e. todas as prendas de um clima. por achá-lo vulgar e mercantil. Bebia pérolas diluídas em néctar. Z Conhece o Xavier? A Há que anos! Era um nababo. tudo deixou ir por água abaixo. fortuna! Onde estão agora as pérolas. senhor. Z Que rico? que pródigo? A Rico e pródigo. que então contava sete. mas pródigo. Não. O portador foi um dos arcanjos de Milton. o indescritível. trazia consigo uma caixinha de raios do sol.

Mas nem só de pão vive o homem. e teatro. não acho explicação.. acordou com o plano de arrasar o morro do Castelo. e até contrárias. e filosofia. Você fala de Marta. não manda estrelas às senhoras. Se alguma expede aos amigos é pelo correio. que poema. descreveu minuciosamente os objetos.virou zurrapa.. um medicamento. um derramado. os coxins são a pedra dura da rua. um livro. Imagine uma cachoeira de idéias e imagens. qual mais bela.. A Upa! Conheço-o há muito mais tempo. A Desde quando o conhece? Z Há uns quinze anos.. uma história. esse é o Xavier exterior. é um homem poupado. A Creio. mil contos. do que eram obras de arte e pedrarias. e não escreve cartas a namoradas. que quadro . desde que ele estreou na rua do Ouvidor. Não é mendigo. em certo balão que inventara. Quem conversava com ele sentia vertigens.. falo do Xavier especulativo. porque não as tem. e arqueologia. nem tem arcanjos às suas ordens . outra ao sertão de Minas. deu-me dois tocheiros de ouro. etc. deita-se com as galinhas. inventariou-as com muito cuidado.. uma viagem à Europa. Note que ele tinha a convicção dos seus mesmos inventos.. Um dia.. por exemplo. outra à lua.. um libelo político.. às vezes sublime. Calculou-as logo em mil contos. etc. separou o que era moeda. acorda com os galos. etc. Z Você está enganado. a troco das riquezas que os jesuítas ali deixaram. . sóbrio. um romance. Era um endiabrado. eu falo-lhe de Maria. Era um saco de espantos. em pleno marquês de Paraná. às vezes extravagante. não me consta nada dele. planeava todas as coisas possíveis. um discurso. Que livro. qual mais original. um poema. Z Ah! — Mas ainda assim. uma candidatura política. segundo o povo crê. nunca foi nababo. um jornal. O Xavier nababo! Mas o Xavier que ali vai nunca teve mais de duzentos mil-réis mensais. O Xavier? Esse Xavier há de ser outro.

quelque part qu'il aille. Z Entretanto. citando Rabelais: Comme vous sçavez estre du mouton le naturel. e sabe o que é que ele respondeu? Respondeu com um apólogo.. e a sociedade uma banheira. esquecera-se da paternidade. os palácios.. os ritos. Um amigo nosso. A Gostava da sociedade. e resolveu ir logo ao sertão da Bahia. A Ah! impagável! Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do cônego Benigno. e jurava que antes comer um mau bife em mesa separada. os templos.. com entusiasmo. o Pires. os costumes. gênero etrusco. foi a sua conclusão. Comparava a trivialidade a uma mesa redonda de hospedaria.. — Ora. fez-lhe um dia esse reparo. os vasos. dizia ele. Engraçado é que o Xavier ouviu o apólogo no teatro. daí a tempos... Z Nada modesto. as roupas. . procurar a cidade misteriosa. mas não amava os sócios.Z Realmente. Odeio os carneiros de Panúrgio. em que cada sócio figurava ser uma cuia d'água. tousjours suivre le premier. mas a voz do sangue. e aplaudiu-o muito. Isto leva-me à explicação da atual miséria do Xavier. Que lhe disse o Pires? A O Pires achou o apólogo tão bonito que o meteu numa comédia. Z Era então doido? A Originalão apenas. eu não posso lavar-me em cuias d'água. Expôs-me o plano. gostava da sociedade. descreveu-me a arquitetura provável da cidade.

fez-se trivial. a não ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens. A Justamente: cuia.Z É verdade. despendendo à toa. e depois no papel. por uma necessidade física. Meu amigo. Z . mas até exauriu a faculdade de as criar. As páginas que então falava. A primeira é que era impaciente. Mas. alguns admiráveis.. sem cálculo. chocho. mas a porção límpida superava a porção turva. O Xavier não só perdeu as idéias que tinha. come à mesa redonda. na rua e em casa. morreria de congestão mental. o semeador tinha a paixão das coisas belas. Se não tivesse o verbo fluente.. sem ver onde as sementes iam cair. não lhe perguntava nunca pela semente sua mãe. A segunda é que varria com os olhos uma linha tão vasta de coisas. Z Cuia. uma vez que a árvore fosse pomposa e verde. um verdadeiro pródigo. A Como a das cuias. enfim. não admira que ficasse pobre e miserável. algumas pegavam logo.. e. para serem páginas e capítulos excelentes. a palavra era um derivativo.. não sei como se possa explicar que um nababo. não sofria a gestação indispensável à obra escrita. Ele espalhava idéias à direita e à esquerda. só precisavam de uma arte de os imprimir no ar. Gasta o seu lugar-comum. ficou o que sabemos. de noite e de dia. Z Como a das cuias.. como o céu chove. às mãos cheias. A Explica-se facilmente. rafado das mãos dos outros. Espalhava tudo.. e ainda por duas razões. a imaginação e o espírito têm limites. Nem tudo era límpido. sem fruto. que era a ausência de regime. que mal poderia fixar-se em qualquer delas. ao acaso. Viveu assim longos anos. Com tal regime. os capítulos que lhe borbotavam da boca. Que moeda rara se lhe vê hoje nas mãos? que sestércio de Horácio? que dracma de Péricles? Nada. como a vigília de Homero paga os seus cochilos. nada conheço inesgotável debaixo do sol.

e tão alegre. De noite. chupado. Aceite o meu braço. formulou-a de vários modos. A Quero referir-lhe a passagem mais interessante da vida do Xavier. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo. Ele repetiu-a dez ou doze vezes. depois o complemento. sonhou que efetivamente montava um cavalo manhoso. A Vai a negócio? Z Vou a um negócio. Tinha perdido tudo. que esse cristal pareceu-lhe um diamante. Então o Xavier. Foi ali por 1869 ou 70. sem acrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa chaparia de algibebe. ora na ordem natural. triste. Então lembrou-se. A Dá-me dez minutos? Z Dou-lhe quinze. não era uma idéia extraordinária. Não sabia nada disso. estando à janela. — "uma bonita rosa". imaginou que talvez o cavaleiro não tivesse ânimo nenhum. ora dando-lhe a marcha inversa. Realmente. pondo primeiro a definição. mas a penúria do Xavier tocara a tal extremo. dos jantares opíparos. ele mesmo é que me contou. tão alegre como casa de pobre em dia de peru. um dia. adeus.. e acrescentou sentenciosamente: Quem não for cavaleiro. o cavalo corcoveou. estéril. meteu-se a ler e a cismar. trocando palavras. Vai para a praça? Vamos juntos. trazia o cérebro gasto. e meteu as esporas e o chicote no animal. e o taful veio quase ao chão. Um caso interessantíssimo. ainda mais o entristeceu. Fico inteirado. no fim de dez minutos de luta. Começara a ficar hipocondríaco.Pois muito me conta. falava do luar saudoso. e. que o pareça. sem a sombra de um conceito. a coragem. e isso lhe deu a força de domar o cavalo. este empina-se. de uma imagem. o sangue-frio. aconteceu passar na rua um taful a cavalo. a manhã. não me recordo. ele teima. mas sustentou-se. muita gente parada na rua e nas portas.. Acordou triste. consigo. medindo-as. que este pinoteava com ele e o sacudia a um brejo.. etc. Conhece o caso do anel de Polícrates? . vendo-se chegado a nada. nada. desabusado das coisas. De repente. que era de domingo e chuvosa. o cavalo cedeu e continuou a marcha. do sacerdócio da imprensa. E daí veio uma idéia: comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso. e vamos andando. a arte do cavaleiro. não quis cair diante de gente. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora.

determinou fazer um grande sacrifício: deitar ao mar o anel precioso que.. Dias . Resignou-se. O Xavier naturalmente comparou a vida. intenções diversas. como o anel de Polícrates. não. "Meu pobre anel. encontrou um amigo. crê-se. o Xavier quis tentar o caiporismo. Saiu de casa. e fugiu a meter-se em casa. eis-te enfim no peixe de Polícrates.. ação idêntica. lhe servia de sinete. Polícrates governava a ilha de Samos. mas a Fortuna andava tão apostada em cumulá-lo de obséquios. ou antes os efeitos da imprevidência. que nunca mais lhe ponha a mão. o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei. digo. disse ele. Cerca de três semanas depois.. foi ele quem me contou. pode tornar ao meu poder. mas aqui vai o que me disse o Xavier. Z mas. o desconsolo dos anos. não me lembro bem.. para aplacá-la antecipadamente. um cavalo xucro ou manhoso. lançada ao mar. repito o que ele me disse. não a um cavalo. Experimentemos a fortuna. segundo alguns. Z Ora essa! A Não é estrambótico? Polícrates experimentara a felicidade. e quando o peixe ficou de boca aberta. citando. Não ponha mais na carta. foi que ele lhe atirou o anel. e quem não for cavaleiro que o pareça. A Nem eu. Era o rei mais feliz da terra. Dita assim. por isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza. mas agora começa a juntar-se à realidade uma alta dose de imaginação. o malogro dos esforços. A Nada disso. Assim fez. que começou a recear alguma viravolta da Fortuna. e acabou dizendo o que era a vida. Não é capaz de adivinhar o plano estrambótico do pobre-diabo. e ouviu de outra mesa a mesma frase sua. quando a comoção do amigo chegou ao cume. Seja o que for. o Xavier jantava pacificamente no Leão de Ouro ou no Globo. Não afirmo nada a respeito desta anedota. travou conversa. escolheu assunto. disse ele. tão feliz. vejamos se a minha idéia.Z Francamente. citando Plínio. e. ou se o meu caiporismo será tal. não é impossível." Mas a idéia bateu as asas e voou. talvez com a troca de um adjetivo. que assim voltou à posse do anel. que o anel foi engolido por um peixe. sem que ele pudesse guardá-la na memória. no bucho de algum peixe. Isto que lhe conto é natural. esta frase era talvez fria.

uma página fulgurante. porque entre o sorvete e o chá ouviu de um grupo de pessoas que louvavam a carreira do barão. como a vida. plás.depois. e ainda bem que foi. não podendo ser bom cavaleiro. o anel fugira-lhe outra vez. sem querer ouvi-lo. a propósito disto. meu querido anel. — são as suas próprias expressões. plás. lá se vão os quinze minutos. disse-me ele. e leu estupefato estas palavras: "O ministério parece ignorar que a política é. — e pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. porque nunca o foi. quero dizer-lhe três. pontuada de mistérios. rígida. Z Não posso. entra no dedo de Polícrates. Z Adivinho o resto: uma série de encontros e fugas do mesmo gênero. Outro peixe a engolia e trazia... "Meu caro A. nomeio-te meu ministro honorário e gratuito. o Xavier chegou a crer que podia enfim agarrar a fugitiva. A Um dia só. e perdia-se no ar. e foi ao baile. O Xavier aceitou o convite. plás. à maneira de Edgard Poe. e o barão era-o excelente. e sempre o mesmo desenlace. Abriu um jornal de oposição. Quando ele supunha pôr a mão em cima da idéia ela batia as asas. como as figuras de um sonho. devia ao menos parecer . Fui. tens em mim o Polícrates do caiporismo. e foi então que me contou o caso digno de memória. modelo.. que celebrava a sua recente distinção nobiliária. apanhou-o um dia. e fincá-la perpetuamente no cérebro. A Justo. Tão contente que ele estava nesse dia! Jurou-me que ia escrever. Dias depois. um cavalo xucro ou manhoso. foi convidado a um baile: era um antigo companheiro dos tempos de rapaz. enfim. Mas o panegirista explicou que a vida não é mais do que um cavalo xucro ou manhoso. disse o Xavier." Mas de novo a idéia bateu as asas. "— Entra. sobre o qual ou se há de ser cavaleiro ou parecê-lo. Um dia. e. porque o barão não montava a cavalo. ouviu comparar o barão a um cavaleiro emérito. um conto fantástico. com um sorriso fino e sarcástico." Daí em diante foi sempre a mesma coisa. Z Mas.. Mas dos casos que ele me contou naquele dia. a sua vida próspera. A Conto-lhe só três. Pasmo dos ouvintes.

que lhe achasse a filosofia. não sei. Como deveis saber. -------------------------------------------------------------- O EMPRÉSTIMO Vou divulgar uma anedota. metendo-se no cérebro de alguns sujeitos. que é também um cavalo xucro ou manhoso. Sombrio. já me não podes fugir. depois estalou um risinho de escárnio. ides ver se me engano. Esta é verdadeira. que o vulgo ampliou às historietas de pura invenção. Nem ela andou recôndita. O Xavier corre a vê-lo. entrou." Não se ria. uma comédia nova. e fugiu como das outras vezes. cravar-lhe um longo olhar baço da última hora. estremeceu. há em todas as coisas um sentido filosófico. senão por falta de um espírito repousado. era uma comédia do Pires. ingrato e parricida. sem deixar outro vestígio mais do que uma confusa reminiscência. cá estás engastado no bucho do peixe. soluçar-lhe: "Cá vou. A O último foi o primeiro. com tal gravidade que em quatro dias estava à morte. estender-lhe a mão fria e trêmula. com a voz sumida. com o olhar tímido. mas forcejei por parecê-lo bom. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de empréstimo. Cúmulo de benefícios." Z Et nunc et semper. cena VIII. que ele cria ser diamante. muito antes da loteria do Ipiranga. transidos de dor." Mas. muita gente. com sincero amor de artista e de irmão. Adeus. passando por um teatro. começou a andar. formavam o sistema de Pitágoras.que o é.. ele contou-me isto com lágrimas. Uma semana depois da comédia cai o amigo doente. mas uma anedota no genuíno sentido do vocábulo." — "Ah! enfim! exclamou o Xavier. que são horas. que ali estavam. o do vestuário. "D. No segundo ato. enquanto o Xavier repetia a mesma súplica das outras vezes: — "Meu querido anel. .. e recolheram com saudade esse pio legado do defunto. e. ou. e o infeliz ainda o pôde conhecer. e ninguém ignora que os números. Carlyle descobriu o dos coletes. em vão! a idéia fugia-lhe. mais propriamente. Eugênia. podia citar algumas pessoas que a sabem tão bem como eu. muitas luzes. Contou-me também que a idéia ainda esvoaçou alguns minutos sobre o cadáver. meu caro Xavier. o cavalo pode ser comparado à vida. o cavalo xucro ou manhoso da vida deitou-me ao chão: se fui mau cavaleiro. desesperado. amigos da casa. deve cuidar de parecer que o é. Sentou-se ao pé do autor. quem não for bom cavaleiro. diz o galã a uma senhora. aplaudiu a obra com entusiasmo. eco do sepulcro.. muita alegria. espiava no rosto do Xavier o efeito daquela reflexão. Já lhe disse que o Xavier transmitira a idéia a um amigo. o coração aquietou-se-lhe." O autor. faiscando as belas asas de cristal.. a andar. Venha o último encontro. até que a noite caiu.

alguns que mudavam de paletó à entrada. Ele adivinhava o caráter das pessoas que o buscavam para escriturar os seus acordos e resoluções. . e. Vaz Nunes estremeceu e esperou.. Vaz Nunes ficou só. Tinha cinqüenta anos. fecharam as gavetas. Vaz Nunes pediu-lhe o favor de entrar. como todos os tabeliães de teatro. era viúvo.E. em si mesmo. apertado. uma coroa de visconde. ao contrário. Veja se se lembra do Custódio. correto. uma pasta de ministro. para falar como alguns outros serventuários. olhava por cima deles. à rua do Rosário. se pretendia não ser visto. farejava as manhas secretas e os pensamentos reservados. Tinha um olhar de lanceta. é. há alguns meses. estendeu-lhe a mão. Usava óculos. e sentou-se na cadeira ao pé da mesa. circunspecto. e através deles. Não trazia o acanho natural a um pedinte. — Estivemos juntos uma noite. despiram o do trabalho e enfiaram o da rua. lavaram as mãos. não obstante. emendemos Sêneca. arrumaram os livros. todos saíram. roía muito caladinho os seus duzentos contos de réis. — Não se lembra de mim? — Não me lembro. ao parecer daquele moralista. parecia que não vinha ali senão para dar ao tabelião alguma coisa preciosíssima e rara. E. Cada dia. por sinal que lhe fiz uma saúde. Estava à porta. Vestia pobremente. um homem que ele não conheceu logo. concertaram os papéis.. que até então inclinara um pouco. Em todo o caso. Tudo isso que se passou em trinta anos.. Os escreventes deram ainda as últimas penadas: depois limparam as penas de ganso na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado. pode algum Balzac metê-lo em trezentas páginas. vamos achá-lo simples apontador de alfândega. ele obedeceu. um báculo pastoral. e mal pôde reconhecer daí a pouco. cumprimentou-o. uma vida dentro da vida.. mas por que não acrescentou ele que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição. Era um homem de quarenta anos. quando queria ver. Não digo que não. Não se lembra? Em casa do Teodorico. Aos cinqüenta anos. por que não há de a vida. mas escovado. cortante e agudo. não sendo míope. diziam os escreventes. uma vida singular. aquela grande ceia de Natal. Este honesto tabelião era um dos homens mais perspicazes do século. sem filhos. um Banco. ou sacristão da roça. mas. parado na soleira.. — Quem é? perguntou ele de repente olhando para a porta da rua. apertá-lo em trinta ou sessenta minutos? Tinham batido quatro horas no cartório do tabelião Vaz Nunes. por outros termos. Usava unhas longas.. para começar. que foi a mestra de Balzac. na Tijuca. Finório como ele só. Está morto: podemos elogiá-lo à vontade. conhecia a alma de um testador muito antes de acabar o testamento. — Ah! Custódio endireitou o busto.

Estremeceu de alegria. que prometia dar. entre a alma e a vida. estrelados de algarismos. e deixavamse estar nas arcas. macias. um artista. E saiu dali. venho pedir-lhe um grande favor. O caiporismo. e conto que o meu amigo. que era agreste. Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza. e escolhia sempre os que não prestavam para nada. andando. leu um anúncio de alguém que pedia um sócio. quando aconteceu subir a rua do Rosário e ler no portal de um cartório o nome de Vaz Nunes. que ele não entendia. — Venho pedir-lhe uma escritura. uma fábrica de agulhas. explicou o Custódio. as frases com que ele lhe respondeu ao brinde.. sacudiam incredulamente a cabeça. e metia ombros a ela. os desenhos da fábrica. Tinha perdido as esperanças. de imenso futuro. ao contrário da pele do rosto. porque o Custódio não recusava meter-se em alguns negócios. que. e tinha as mãos muito bem talhadas. Notícias mínimas. Vinte e quatro horas. não respondeu: espiou para cima dos óculos e esperou. E os planos. adivinhava logo a insensata.. davam-lhe dinheiro. para entrar em certo negócio. Mas não tinha dinheiro. dos tapetes finos. menos dóceis ou menos vagabundos que os cinco mil-réis. capaz de reger a vila Torloni ou a galeria Hamilton. Nada. por exemplo. com cinco contos de réis. as respostas dos alfaiates. até certa ponto. as maneiras do tabelião. etc. outro cinco. Custódio foi ter com o anunciante. Il faut bien que je vive. os mapas de importação. um dez. e. Era uma grande idéia. e de tais espórtulas é que ele principalmente tirava o albergue e a comida. sem almoço e sem vintém. da boa chira. outro vinte mil-réis. um favor indispensável. oitenta a cem contos de lucro. animado pelo anunciante. nem dinheiro. que o perseguia. Mas os cinco contos. Je n'en vois pas la nécessité. disseram-lhe que nem dispunham agora da soma pedida. Ninguém dava essa resposta ao Custódio. Na rua. . Tinha o faro das catástrofes. e a vigésima lhe estourasse nas mãos. tolhidos de medo e de sono.. nem acreditavam na fábrica. aparelhava-se para outra. Vaz Nunes. não pedia mais de vinte e quatro horas para trazer os cinco contos. dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. dos donos de armarinho. — Uma escritura de gratidão. e aliás necessárias ao complemento de um certo ar duplo que distinguia este homem. o amor do supérfluo. e disse consigo que este era o salvador da situação.. por outro lado. redargüiu friamente o ministro. indústria nova. cortejado. Agora. Oito ou dez amigos. Tinha o instinto das elegâncias. nem aptidão ou pachorra de o ganhar. parecia levar após si um exército. um ar de pedinte e general. um voluptuoso. ainda à porta. e que por isso mesmo lhe pareciam dogmáticos. Entre vinte empresas.curadas com esmero. fazia com que as dezenove prosperassem. precisava viver. nos primeiros seis meses. todos os documentos de um longo inquérito passavam diante dos olhos de Custódio. a quem falou. sem a vocação do trabalho. Não importa. A causa não era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situação.. dos móveis raros. os relatórios de Birmingham. das belas damas. armado para outro começo. Digo que principalmente vivia delas. com resolução. o afogou numa torrente de saldos. recordou a Tijuca. com a condição de os escolher.

nenhum céu. ora pedinte.. — Quero. — ou a três. decerto. respirando grosso. a seis meses. Se a quantia fosse menor. Sr. eu é que lhe peço desculpa de não poder servi-lo. note-se bem. disse ele. Venho pedir-lhe esta quantia. acomodada aos meus recursos. O pobre-diabo sentiu enterrarem-se-lhe no corpo os milhões de agulhas que a fábrica teria de produzir no primeiro semestre. Adeus. Tinha de voltar ao precário. que continuariam a fitálo e a ouvi-lo. digo-lhe que se se tratasse de uma quantia pequena. se o senhor quisesse. não disponho de tão grande quantia. que com a esquerda pegara maquinalmente no chapéu.. A coisa está pronta. girando entre os dedos a boceta de rapé. Era a última esperança. Estendeu a mão ao Custódio. Subira pela escada de Jacó até o céu. e justamente por ter sido inesperada. com uma pontazinha de despeito. Quem é que pode esperar cinco contos de um modesto tabelião de notas? — Ora. Repito: se fosse alguma quantia menos avultada. mas. rolou abaixo e caiu de bruços. ao adventício. ora general. às velhas contas. pois.. há de perdoar o incômodo.. Custódio. Custódio ergueu-se. Nem eu me metia a incomodar os outros sem certeza do resultado. e ainda que andassem muito bem. O olhar empanado do Custódio exprimia a absorção da alma dele. que lia isso mesmo na alma do Custódio. que se compadecesse. senhor. — O negócio é excelente.. Mas cinco contos! Creia que é impossível. . alongando para ele os algarismos implacáveis de fome. mas em vez de descer como os anjos no sonho bíblico. como desejava. a minha parte são cinco contos. com um certo chiado nasal e implicante. estava também calado. tudo voara a um piparote do tabelião. a ouvi-lo e a fitá-lo.. olhou para o tabelião com um gesto de despedida. agulhas! A realidade veio tomá-lo outra vez com as suas unhas de bronze. um negócio magnífico. é que ele supôs que fosse certa. e é provável que dentro de dois meses esteja tudo montado. — Mas. Que queda! e que abismo! Desenganado. como todos os corações que se entregam ao regime do eventual. foram já encomendas para a Inglaterra. — Não há que perdoar. — Bem. Vaz Nunes . apenas convalescida da queda que lhe tirara as últimas energias. uma idéia súbita clareou-lhe a noite do cérebro. Custódio ensaiou todas as atitudes. — Cinco contos? — Sim. com os grandes zeros arregalados e os cifrões retorcidos à laia de orelhas. mas o tabelião.— Se estiver nas minhas mãos. A alma do Custódio caiu de bruços. que lhe desse alguma aberta. não teria dúvida em adiantá-la. com juro módico.. Nenhuma escada misteriosa. é uma indústria nova. . não poderia dispor de tanto. o do Custódio era supersticioso. Somos três sócios. mas. esperou que o tabelião continuasse. O tabelião não se mexia. Os negócios andam mal. Calado. com os olhos no chão.. não teria dúvida.

mas. Diga-me..poderia servi-lo. nada queria saber do passado. Custódio interrompeu-o... — Pois bem. não para a empresa. um diabo. a dois ou três credores.. nem parece que seja essencial ao caso. como um alvará de liberdade. tivera em mente acudir também a um credor pertinaz. pois adotava o conselho dos amigos: ia recusá-la. e eu irei ter com outros amigos. se o senhor os pedisse. parece. dou-lhe coisa melhor do que quinhentos mil-réis. falarei ao ministro da justiça. tenho relações com ele. Os duzentos mil-réis.. mas tivera a aleivosia de trocar de posição. batendo uma palmada no joelho. O presente eram os quinhentos mil-réis. A alma do Custódio empertigou-se. e.. nem saudades. e com prazer. eram para uma necessidade urgente. e tenho certas obrigações particulares. mas agora.. Cem mesmo.. estão acima das minhas forças nesta ocasião. que ele ia ver surdir da algibeira do tabelião. disse ele. é o que totalmente ignoro. não posso. um judeu. e uma soma razoável. veja o que me pode dar. nem temores. quinhentos mil-réis. não ando com elas no bolso. — Olhe. vinham a ponto. vivia do presente. respondeu à franqueza com franqueza: era a regra da sua vida. e não tenho dúvida. — "tapar um buraco". por que não seria uma quantia menor? Já agora abria mão da empresa. replicou firme o tabelião. por exemplo. nem remorsos. visto que o tabelião estava disposto a ajudá-lo. Não podia dar quinhentos mil-réis? Aceitava duzentos. etc. De que se admira? Não lhe nego que tenho algumas propriedades. O essencial é que ele teimou na súplica. — Nem quinhentos mil-réis? — Nem isso. mas. enfim. Se foi um movimento natural. ou uma diversão astuciosa para não conversar do emprego. E então relatou tudo. senhor. — Quinhentos mil-réis? — Não. — Realmente. nem os duzentos milréis posso dar. porque realmente só uma coisa muito modesta. meu amigo. bastavam-lhe duzentos. ao tratar da grande empresa. O presente era tudo.. — Não imagina os apuros em que estou! . e dez. uma vez que o tabelião tinha a boa vontade de emprestar-lhos. custa-me repetir-lhe o que disse. que rigorosamente ainda lhe devia. mas não podia fazer o mesmo a uns aluguéis atrasados.. Eram duzentos e poucos mil-réis.. não está empregado? — Não. Quanto? — Não posso dizer nada a este respeito. mas aceitava duzentos. Noutra pode ser. Confessou que.

repito. e. Vinte. — Tivesse eu um pote! suspirou Custódio. o tabelião abotoou-se. não de raiva. — Não digo que não. o freguês examinava o pano com a vista e com os dedos. Que horas são? Levantou-se. findara tudo. embora modesto. o lenço. Lá vai ela. O que digo é que não basta ter casas para não ter cuidados. a carteira. Mas. e até credores.. morava longe.— Nem cem. um convite ao menos. Vaz Nunes cotejava o relógio da parede com o do bolso... Mas os momentos supremos pedem energias supremas. para jantar. transpirando por todos os poros impaciência e fastio. Custa-lhe crer. mas é verdade. mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo. Creia o senhor que também eu tenho credores. a matéria mesma do precioso receptáculo. nada. quis ser algibeira. — Pronto! disse-lhe Vaz Nunes. Sociedades. Nem vinte! Não. os consertos. pesa-me dizê-lo. invejou a casimira. Custódio sentiu toda a força deste lugar-comum. alisou o chapéu devagarinho. dez que fossem. Quem é que não tem cem mil-réis consigo? Cogitou uma cena patética. as décimas. maçonaria. meu amigo. — Nem cem mil-réis! — Nem cem mil-réis. e o tabelião. Era o fatal instante. Era tarde. pensava ele. . era impossível que ele não tivesse cinqüenta mil-réis.. porque entardecia depressa. Olhou para fora. tudo mentira. pluma a pluma. Dizendo isto. depois as costuras. Custódio veio também. nada. Estavam a pingar as cinco. seria ridículo. quis ser o couro. restava ainda uma penugem curta e fina. é muito bom ter casas: o senhor é que não conta os estragos. etc. não é? Naturalmente: um proprietário. desesperado. chegava este ao ouvido. ao menos? Nem vinte. Oh! a carteira! Custódio viu esse utensílio problemático. subscrições. mas vinte. falso tudo. Mas o outro.. Não podia acabar de crer que o tabelião não tivesse ao menos cem mil-réis. com o chapéu na cabeça. . Este incidente rasgou-lhe um horizonte novo. — não de desdém. Mas nem cinqüenta mil-réis podia dar-lhe o tabelião. mas de amargura e dúvida. Custódio tirou o lenço. concertou a gravata. as penas-d'água. arrastado. O caixeiro segurava a obra no ar.. . como um tiro. enfim. São os buracos do pote. mudou de um para outro a boceta de rapé. que lhe metia umas veleidades de voar. Na loja fronteira. Nenhuma palavra do tabelião. com um ar misto de esperança e despeito. Nem cem mil-réis. súbito. à porta. Tenho tido muitas dificuldades nestes últimos tempos.. Custódio sorriu. e veio ao meio da sala. que as esperava. limpava o mostrador.. um sujeito apreçava uma sobrecasaca. por onde vai a maior parte da água. era tempo de aposentar o paletó que trazia. não diria duzentos. despesas. e vestiu o de casimira. mas o cartório abria para a rua. os calotes. perguntou ao tabelião se não lhe podia dar ao menos dez mil-réis. Nem vinte mil-réis! Era impossível que não levasse ali vinte mil-réis... invejou a alpaca. e o interior era escuro. o seguro. o forro. calado. apalpou-o com os olhos. depois guardou o lenço. despiu o paletó de alpaca. Viera cerceando as asas à ambição. desengatilhou a despedida.

a não ser o Globo. Minha descoberta não é recente. Oxalá possa eu corresponder a ambas. Depois saiu. Mas o Globo noticiou que um sábio inglês descobriu a linguagem fônica dos insetos. Nunca o céu lhe pareceu tão azul. disse ele. e ora habita modestamente as asas de frango rasteiro. invento do padre Bartolomeu. todos os homens traziam na retina a alma da hospitalidade. como se viesse de conquistar a Ásia Menor. Sendo certo. de verificações e experiências complementares. mas não ignoro também. — um até breve cheio de afirmações implícitas. encarando fraternalmente os ingleses do comércio que subiam a rua para se transportarem aos arrabaldes. não triste. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com ansiedade. não a divulgaria ainda agora. o general é que foi por ali abaixo. que ainda há pouco saíra contra o sol. — que um pouco de simpatia pessoal se mistura à vossa legítima curiosidade científica. e mostrou-lhe duas notas de cinco mil-réis. enquanto o do nosso patrício mal se pode dizer lembrado dos seus naturais. que pela navegação aérea. é glorificado o nome estrangeiro. num ímpeto de águia. ou de má cara. Não a divulguei então. resíduo de uma grande ambição. que reputo de algum lustre para o nosso país. tirou a carteira.— Quer ver? E o tabelião desabotoou o paletó. — e fora ingratidão ignorá-lo. o que posso fazer é reparti-los com o senhor. . data do fim do ano de 1876. — por uma razão que achará fácil entrada no vosso espírito. pisando rijo. — e. interessante diário desta capital. o pedinte esvaiu-se à porta do cartório. deixai que vos agradeça a prontidão com que acudisses ao meu chamado. carece de retoques últimos. dou-lhe uma de cinco. e fico com a outra. e cita o estudo feito com as moscas. — Não tenho mais. mas risonho. serve-lhe? Custódio aceitou os cinco mil-réis. despediu-se até breve. -------------------------------------------------------------- A SERENÍSSIMA REPÚBLICA (Conferência do cônego Vargas) Meus senhores. nem a tarde tão límpida. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui. agradeceu-lhe o obséquio. palpitante. Com a mão esquerda no bolso das calças. abriu-a. ele apertava amorosamente os cinco mil-réis. Era o jantar certo. Esta obra de que venho falar-vos. Estendeu a mão ao outro. porém. Antes de comunicar-vos uma descoberta.

com vós todos. Estudei-as longamente. conjugações. vencendo dificuldades aspérrimas com uma paciência extraordinária. a matéria. isto feito. A aranha. os seus verbos. é claro que me restrinjo à homenagem cabida a dois sábios de primeira ordem. O objeto desta conferência é. vou assombrar-vos. A mesma formiga. se lhe perguntasse: Credes que se possa dar um regime social às aranhas? Aristóteles responderia negativamente. solitário. tão gabada por certas qualidades boas. prezais o gato e a galinha. Citando Darwin e Büchner. porque é impossível crer que jamais se chegasse a organizar socialmente esse articulado arisco. A aranha parece-vos inferior. não nos leva o sangue e o sono como a pulga. como disse. um modesto naturalista descobriu coisa idêntica. Ouço um riso. de ordem. uma língua. não cacareja como a galinha. que muito antes daquele sábio. nada menos que uma língua rica e variada. proclamar alto e bom som. Nada.determinei evitar a sorte do insigne Voador. Desde Plínio até Darwin. fia. e funda a sua propriedade roubando a alheia. trabalha e morre. e não advertis que a aranha não pula nem ladra como o cão. que com tanta subtileza estudou a vida psíquica dos animais. com a sua estrutura sintáxica. notai bem. e dificilmente ao amor. senhores. casos latinos e formas onomatopaicas. mas quase todos. vindo a esta tribuna. que de todo me cativou a atenção. uma língua que estou gramaticando para uso das academias. sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as teorias gratuitas e errôneas do materialismo. não zune nem morde como o mosquito. hoje declaro. esta excelente monografia de Büchner. se me sobrasse tempo. de respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos. não mia como o gato. Senhores. como teria assombrado a Aristóteles. tão rápida nos movimentos. esse impossível fi-lo eu. Vinte vezes desanimei. e as quatro tomaram posse de um recanto de minha chácara. descobri uma espécie araneida que dispõe do uso da fala. e a análise da língua. excede o prazo. Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. Senhores. por meio de um protesto em tempo. porém. não todos. porém. senhores. no meio do sussurro de curiosidade. e fez com ela obra superior. como o fiz sumariamente para meu próprio uso. de previsão. não nos aflige nem defrauda. sou constrangido a abreviá-la. Pois bem. nossas inimigas. mas o amor da ciência dava-me forças para arremeter a um trabalho que. dá no nosso açúcar e nas nossas plantações. E fi-lo. No dia seguinte vieram mais três. cumpre vencer os preconceitos. Que melhor exemplo de paciência. Sim. tece. à face do universo. transversais. não há duas opiniões. justamente porque não a conheceis. dizer-vos a parte em que reputo a minha . coligi alguns. Guardo para outro recinto a descrição técnica do meu arácnide. e organizei-os socialmente. e às vezes tão alegre. com listras azuis. e. se pode comparar ao pasmo que me causou a descoberta do idioma araneida. depois muitos dos novos articulados. Eu repetiria agora esses juízos. os naturalistas do mundo inteiro formam um só coro de admiração em torno desse bichinho. dorso rubro. tenho. ressalvar os direitos da ciência brasileira. senhores. Era tão vasta. tão colorida. cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso criado destrói em menos de um minuto. apenas disposto ao trabalho. apanha as moscas. entre eles. achei-as admiráveis. Amais o cão. e fora das ilhas britânicas. Tenho-os aqui. não chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem. declinações. O primeiro exemplar dessa aranha maravilhosa apareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876.

é a perseverança. Duas forças serviram principalmente à empresa de as congregar: — o emprego da língua delas. não obstante as incertezas da idade. dispondo de algumas virtudes. e até o mesmo epíteto. eles caminham. desde que pude discerni-la um pouco. ou restaurar alguma outra abandonada. Era um saco de cinco polegadas de altura e três de largura. e extraía-se anualmente um certo número. tratando-se de um povo tão exímio na fiação de suas teias. as vestes talares. Entre os diferentes modos eleitorais da antiga Veneza. fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas. ou achar uma forma nova. roçagante. Ele exclui os desvarios da paixão. com qualquer outro governo vivo. A flauta também foi um grande auxiliar. trataram de o exercer com a maior atenção. ficando os eleitos desde logo aptos para as carreiras públicas. A proposta foi aceita. o uso do saco eleitoral era de fácil adaptação. no mês seguinte cinqüenta e cinco. desde que compreenderam que no ato eleitoral estava a base da vida pública. segundo vou mostrar-vos. formam um povo recente. Devo demonstrá-lo. iniciação dos filhos da nobreza no serviço do Estado. Era-me preciso. O que posso afirmar-vos é que. quase uma planta indígena. Dentro de um mês tinha comigo vinte aranhas. — o que era meter à prova as aptidões políticas da jovem sociedade. Não bastava associá-las. próprio a engrandecer a obra popular. tecido com os . lançando em um livro as observações que fazia. Como sabeis. como já disse. Este sistema fará rir aos doutores do sufrágio. Com efeito. que a obra chegou à perfeição. ele fará mais e melhor do que as teorias do papel. mas todos tinham contra si o existirem. Não direi. ou deveis saber. Metiam-se as bolas com os nomes dos candidatos no saco. e desde então adoraramme. figurava o do saco e bolas. que não pode trepar de um salto ao cume das nações seculares. alguns excelentes. à maneira de Veneza. expansivo. a mim não. dar-lhes um governo idôneo. cuidaram que o livro era o registro dos seus pecados. cabia-lhe ainda a vantagem de um mecanismo complicado. era preciso. Uma delas. O fabrico do saco foi uma obra nacional. senhores. sem nenhuma analogia. elas são doidas por música. Explico-me. os desazos da inépcia. que presumo essenciais à duração de um Estado. e para este ponto chamo a vossa atenção. muitos dos atuais pareciam-me bons. o mesmo molde. Naturalmente adotei o segundo alvitre. Mas não foi só por isso que o aceitei. Uma forma vigente de governo ficava exposta a comparações que poderiam amesquinhá-la.obra superior à do sábio de Inglaterra. E vede o benefício desta ilusão. e fortaleceram-se ainda mais na prática das virtudes. uma longa paciência de Penélope. Outro motivo determinou a minha escolha. e nada me pareceu mais acertado do que uma república. e o sentimento de terror que lhes infundi. Sereníssima República pareceu-lhes um título magnífico. o congresso da corrupção e da cobiça. Nem o tempo é operário que ceda a outro a lima ou o alvião. A minha estatura. Obsoleto. Os meus pupilos não são os solários de Campanela ou os utopistas de Morus. Como as acompanhasse com muita atenção e miudeza. o uso do mesmo idioma. Hesitei na escolha. nem que lá chegue tão cedo. válidas no papel e mancas na prática. em março de 1877 contava quatrocentas e noventa. em suas feições gerais.

tivesse agora duas. A eleição fez-se a princípio com muita regularidade. considerando que a estreiteza do saco podia dar lugar a exclusões odiosas. político obscuro. — é o partido curvilíneo. As suas bolas saíram do saco. o partido anti-reto-curvilíneo. Este declarou que não se lembrava de ter visto o ilustre candidato. como a bajulação. limitando-se a capacidade do saco. os próprios chefes do partido retilíneo e do partido curvilíneo. revogou a lei anterior e restaurou as três polegadas. a toleima. denominado "das inscrições". mas só dois importantes. Para compô-lo foram aclamadas dez damas principais. com este postulado: — as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos. a presunção. a inteireza. No dia da eleição. um dos legisladores declarou que ela fora viciada. porque é a expressão da modéstia e da humildade. Isto que era um simples processo inicial na antiga Veneza. a justiça. Como a geometria apenas poderia dividi-los. requereram uma devassa. mas foram inutilizadas. até ali de três polegadas de largura. que a linha curva é a da virtude e do saber. e finalmente. e proclamou a simultaneidade das linhas como a exata cópia do mundo físico e moral.. senhores. que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos. mas distração. Os adversários respondem que não. é a geometria que os divide em política. a perfídia. até perfazer o número dos elegendos. como é a distração. um candidato deixou de ser inscrito na competente bola. Há ainda um terceiro partido. Aconteceu. combinou os contrastes. que subiu logo à poltrona ducal. Uma obraprima. a probidade. obra sólida e espessa. desbastou a exageração de uns e outros. que provarem certas condições. A . logo depois. A assembléia. é o partido retilíneo. adotaram uma simbólica. a parlapatice. menos exclusivista. A assembléia verificou a exatidão da denúncia. que na eleição seguinte. duramente retas. Nem Hazeroth nem Magog foram eleitos. em que não há linhas de espécie alguma. diante de um fenômeno psicológico inelutável. sem chegar a apaixoná-los. a ignorância. ao contrário. O nome restante e triunfante era o de um argentário ambicioso. as bolas são metidas no saco e tiradas pelo oficial das extrações. Devo explicar-vos estas denominações. e são escritas por um oficial público. e três cidadãos apresentaram-se candidatos ao posto. restringia-se o espaço à fraude. Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos. porém. O quarto limita-se a negar tudo. são retas. são perfeitamente curvos. obra transparente e leve. podeis crê-lo. As bolas recebem os nomes dos candidatos. Nesse ínterim. menos anguloso. a linha reta exprime os bons sentimentos. faleceu o primeiro magistrado. com espanto geral da república. e decretou que o saco. não pôde castigar o oficial. serve aqui ao provimento de todos os cargos. não se sabe se por descuido ou intenção do oficial público. O terceiro partido. ao passo que os sentimentos ruins ou inferiores. Mas os vencidos não se contentaram de dormir sobre os louros do vencedor. Como eles são principalmente geômetras. mas acrescentou nobremente que não era impossível que ele lhe tivesse dado o nome. neste caso não houve exclusão. — outros pensam. a deslealdade. mas. a do primeiro por faltar a primeira letra do nome.melhores fios. misto e central. por terem entrado no saco duas bolas com o nome do mesmo candidato. que receberam o título de mães da república. era o mesmo que suprimi-la. a do segundo por lhe faltar a última. é o partido reto-curvilíneo. ao contrário. é verdade. Hazeroth e Magog. além de outros privilégios e foros. etc. a fraude. que fez tábua rasa de todos os princípios litigantes. O processo eleitoral é simples. a constância. mas. Para uns. uma quarta divisão política. e propõe o uso de umas teias urdidas de ar.

funcionário encarregado de cobrar as rendas públicas. da minha afirmação primeira pela anexação da sílaba ca às duas Cane. simbólicas e outras. Tudo parecia findo. modificações. — Cané. deveis notar que não é fortuita a ausência da última letra do nome Nebraska. que assim teriam tempo de corrigir as inscrições. suas origens e efeitos. é certo. do nome Nebrask. mas o dele. suposta a demonstração. todavia. que nenhuma lei destruiu. Infelizmente. pois. e não vulgar matemático. puramente literário. volta-se ao princípio. Logo. aí fica a última prova. ipso facto. e a intenção não pode ser outra. para evitar outras elipses. Este novo estatuto deu lugar a um caso novo e imprevisto. vede: há ainda espaço para duas ou três sílabas. senão chamar a atenção do leitor para a letra k.devassa mostrou que o oficial das inscrições intencionalmente viciara a ortografia de seus nomes. E. clara. mas explicou-os dizendo que se tratava de uma simples elipse. para haver um lugar na assembléia. por um efeito mental. dedutivas ou indutivas. quando a bola pegada foi a sua. os candidatos três. senhores. O oficial confessou o defeito e a intenção. cuja redução a esta outra sílaba ca. quando o candidato Caneca requereu provar que a bola extraída não trazia o nome de Nebraska. um simples a. Não era preciso mais para condenar a idéia das malhas. Por que motivo foi ele inscrito incompletamente? Não se pode dizer que por fadiga ou amor da brevidade. com exemplar paciência. conseqüências lógicas e sintáxicas. Mas. através das quais as bolas pudessem ser lidas pelo público. dando este nome Caneca. nos termos da lei. que só deixou de abanar negativamente a cabeça. ficando abolida a faculdade da prova testemunhal e . pelos mesmos candidatos. A vaga era uma. O juiz de paz deferiu ao peticionário. Eram candidatos. Tratou-se de eleger um coletor de espórtulas. que o eleito era o próprio e único Nebraska da república. visto faltar-vos o preparo necessário ao entendimento da significação espiritual ou filosófica da sílaba. entre outros. A bola extraída foi a de Nebraska. A mesma porta aberta à lealdade serviu à astúcia de um certo Nabiga. — Resta a sílaba do meio. delito. última do nome Caneca. mas. o movimento natural do espírito é ler o nome todo. Isto posto. desamparada. esta primeira sílaba: Ca. Carência de espaço? Também não. senhores. e. Ora. — talvez o primeiro da república. mas. se o era. Veio então um grande filólogo. não a demonstrarei. — o qual provou a coisa nestes termos: — Em primeiro lugar. a letra reproduz-se no cérebro de dois modos. solteira. pois só falta a última letra. decretou a validação das bolas cuja inscrição estivesse incorreta. Estava errada. à inicial ne. o oficial extraiu as bolas com os olhos no cúmplice. um certo Caneca e um certo Nebraska. sem sentido. restaurou o tecido espesso do regime anterior. no nome escrito. como ides ver. chamando os olhos para a letra final. evidente. uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome inscrito o próprio nome do candidato. O defeito. disse ele. A assembléia. fases. sob a forma de espórtulas voluntárias. cinco testemunhas juraram. além de bom metafísico. que se conchavou com o oficial das extrações. é a coisa mais demonstrável do mundo. bras. por lhe faltar a última letra. pareceu acertado rever a lei. A lei emendou-se. Nesse mesmo dia ficou decretado que o saco seria feito de um tecido de malhas. última escrita. a forma gráfica e a forma sônica: k e ca. Não sendo possível perseguir ninguém por defeitos de ortografia ou figuras de retórica. incrusta desde logo no cérebro. o comentário da lei é a eterna malícia. a falta é intencional.

e o restante terá igual destino. cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. e então adotou-se a forma de um crescente. A casa ficava no morro de Santa Teresa. que fazia e desfazia a famosa teia. além deles. Muitos abusos. e o saco foi restituído às dimensões primitivas. Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam. refazei o saco. e o céu. a sala era pequena. decerto. cochilando. sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. era provinciano. cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. capitalista. astuto e cáustico. até que Ulisses. uma conseqüência: ficavam muitas bolas no fundo. aliás. contestou-lha um dos presentes. disse ele ao terminar. etc. com as suas agitações e aventuras. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros. -------------------------------------------------------------- O ESPELHO Esboço de uma nova teoria da alma humana Quatro ou cinco cavalheiros debatiam. cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao triângulo. todavia. uma noite. Compreendeis que esta forma trazia consigo. alumiada a velas. e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada. calado. Entre a cidade. tendes a mesma castidade. — Vós sois a Penélope da nossa república. inteligente. à espera do esposo Ulisses. Erasmus contou-lhes a fábula de Penélope. Daí a mudança para a forma cilíndrica. dando-se-lhe. pensando. mais tarde deu-se-lhe o aspecto de uma ampulheta. como uma herança bestial. amigas minhas.interpretativa dos textos. Como desse esta mesma resposta naquela noite. e. Erasmus. pois a perfeição não é deste mundo. ao que parece. em que as estrelas pestanejavam. eram a perfeição espiritual e eterna. e . e defendia-se da abstenção com um paradoxo. Encarregado de notificar a última resolução legislativa às dez damas incumbidas de urdir o saco eleitoral. e introduzindo-se uma inovação. várias questões de alta transcendência. Ulisses é a Sapiência. descuidos e lacunas tendem a desaparecer. através de uma atmosfera límpida e sossegada. Esta emenda não evitou um pequeno abuso na eleição dos alcaides. e. cansado de dar às pernas. mas. não sem instrução. o corte simultâneo de meia polegada na altura e outra meia na largura do saco. mas na medida e nos termos do conselho de um dos mais circunspectos cidadãos da minha república. estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas. que jaz no homem. paciência e talentos. não inteiramente. Refazei o saco. resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo. havia na sala um quinto personagem. venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. cujo último discurso sinto não poder dar-vos integralmente. Não discutia nunca. dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador. a forma triangular. entre quarenta e cinqüenta anos.

uma cavatina. alma exterior. em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. acabo o charuto e vou dormir.. não há uma só alma. um fluido.. com a qual disse o Camões que morria. Espantem-se à vontade. perdê-los equivalia a morrer. uma máquina. por exemplo. ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. cessando a estação. e não dois ou três minutos. era a morte para ele. metafisicamente falando. — uma conjetura. talvez. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora.desafiou-o a demonstrar o que dizia. diz ele a Tubal. Petrópolis. Não aludo a certas almas absorventes. como sabem. um tambor. um livro. mas a mesma discussão tornou-se difícil. — Duas? — Nada menos de duas almas. Cada cabeça. embora enérgicas. um homem. mas trinta ou quarenta. Quem perde uma das metades. como a pátria. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante. o voltarete.. e o poder. não admito réplica. cada sentença. sucedeu que este casmurro usou da palavra. podem ficar de boca aberta. não só o acordo. Se me replicarem. e casos há. conheço uma senhora. Durante a estação lírica é a ópera. seis vezes por ano. Shylock. nem opinião. tudo. em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Mas. "Nunca mais verei o meu ouro. posso contar-lhes um caso de minha vida. — que muda de alma exterior cinco. outra que olha de fora para entro." Vejam bem esta frase. Em primeiro lugar. em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa. Há cavalheiros.. pela inconsistência dos pareceres. Há casos. perde naturalmente metade da existência. que é. uma ou outra pode dar lugar a dissentimento. muda de natureza e de estado. talvez o senhor tenha razão. um baile do Cassino. A conversa. uma operação. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida. gentilíssima. — na verdade. redargüiu ele. São almas enérgicas e exclusivas.. uma laranja. . etc.. em seus meandros. por exemplo. — Não? — Não. e. que foi a alma exterior de César e de Cromwell. não raros. eu não discuto. e mais tarde uma provedoria de irmandade. é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma. veio a cair na natureza da alma. dar de ombros.. como a primeira. senão impossível. no meio da noite. mas há outras. um par de botas. ao menos. as duas completam o homem. um objeto. Agora. por exemplo. cuja alma exterior. e respondeu: — Pensando bem. pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco. — e assim também a polca. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados. se era capaz. se querem ouvir-me calados. Pela minha parte. é um punhal que me enterras no coração.. há duas. a alma exterior substitui-se por outra: um concerto. foi um chocalho ou um cavalinho de pau. muitos homens. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião. de natureza mudável. — Nem conjetura. A alma exterior pode ser um espírito. nos primeiros anos. senhor. suponhamos. Vai senão quando. a rua do Ouvidor. a perda dos ducados.

— Espelho grande? . ansiosos de ouvir o caso prometido. Eis aqui como ele começou a narração: — Tinha vinte e cinco anos. era a tradição. até há pouco ruidosa de física e metafísica. fruta divina. e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. e que esta herdara da mãe. Não sei o que havia nisso de verdade. chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. que ali morava. e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. e era o primeiro servido. Os quatro companheiros. alferes para lá. porque iria longe. chama-se Legião. e tem o mesmo nome. és também o pomo da concórdia. como na Escritura. que morava a muitas léguas da vila. não por gracejo. Não as relato. viúva do Capitão Peçanha. durante algum tempo. esqueceram a controvérsia.. Um episódio dos meus vinte e cinco anos. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. João VI. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. comido em parte pelo tempo. E assim outros mais casos. apenas me pilhou no sítio. A sala. uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista.— Perdão. bradando que não. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante.. não me chamava de outra maneira. choro e ranger de dentes. Na vila.. é agora um mar morto. Achava-me um rapagão bonito. recolhendo as memórias. cuja mobília era modesta e simples. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização. Fui. desejou ver-me.. e passaram a olhar-me de revés. Tudo velho. D. pelo menos. e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. era alferes para cá. que daí a dias tornou à vila. escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês. obra rica e magnífica. uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura. foi tudo uma alegria sincera e pura. mas via-se-lhe ainda o ouro. que naturalmente foram pelo mesmo caminho. essa senhora quem é? — Essa senhora é parenta do diabo.. Marcolina. Em compensação. todos os olhos estão no Jacobina. de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. Na mesa tinha eu o melhor lugar. que se davam comigo. Não imaginam. Um cunhado dela. Como era um tanto patusca. Primos e tios. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho. e ela abanava a cabeça.. Lembra-me de alguns rapazes. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. E sempre alferes.. mas a sério. que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação. e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos. irmão do finado Peçanha. e à vista dos escravos. houve alguns despeitados. porque a tia Marcolina.. note-se bem. que conserta a ponta do charuto. acompanhado de um pajem. como dantes. era pobre.. Era o "senhor alferes". Vai então uma das minhas tias. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho. Era um espelho que lhe dera a madrinha. que destoava do resto da casa. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. alferes a toda a hora. O espelho estava naturalmente muito velho. mas bom.. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. que era o "senhor alferes". num sítio escuso e solitário.

Vamos aos fatos. Imaginam. . armou logo uma viagem. se bem me lembro. fizeram em mim uma transformação. Nhô alferes. Vamos ver como. sobrinho! adeus. nhô alferes há de ser coronel. alferes! Era mãe extremosa. que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. atenções. O alferes continuava a dominar em mim. creio eu? — Não. um concerto de louvores e profecias. era outro. obséquios. — Matá-lo? — Antes assim fosse. filha de general. Ora. ficou-me uma parte mínima de humanidade. Adeus. Ah ! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados. No fim de três semanas. Mas não houve forças que a demovessem do propósito. que eles redobravam de respeito. disporia o contrário. os olhos das moças. alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere. nada do que me falava do homem. Era a alma exterior que se reduzia. e. Mas o certo é que fiquei só. que era dantes o sol. pediu ao cunhado que fosse com ela. subitamente levantadas em torno de mim. naquela noite. que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. estava mal e à morte. embora a vida fosse menos intensa. que me deixou extático. Creio que. nhô alferes há de casar com moça bonita. totalmente outro. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão. tudo o que me falava do posto. Aconteceu então que a alma exterior. as alegrias humanas. como digo. nhô alferes é muito bonito. mas não tardou que a primitiva cedesse à outra. carinhos. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. a outra dispersou-se no ar e no passado. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada. porque o espelho estava na sala. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se. e a mim que tomasse conta do sítio. e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. E foi. não? — Custa-me até entender. se não fosse a aflição. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias. mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor.— Grande. de protestos. As dores humanas. — O alferes eliminou o homem. Notei mesmo. se eram só isso. que era só por algumas semanas. de minuto a minuto. respondeu um dos ouvintes. mudou de natureza. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente. um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave. uma enorme fineza. e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa. de alegria. com os poucos escravos da casa. o campo. estava agora limitada a alguns espíritos boçais. a do alferes tornava-se viva e intensa. ao tempo em que a consciência do homem se obliterava. um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. — Vai entender. era a melhor peça da casa. O certo é que todas essas coisas. e a consciência mais débil. o ar. deixaria o cunhado e iria comigo. casada com um lavrador residente dali a cinco léguas. respondia que não fazia falta. uma de suas filhas. Era exclusivamente alferes. Custa-lhes acreditar.

mas por outra. for ever!— For ever. Eu saía fora. que teimava em não tornar. que me chamavam alferes.. e topei este famoso estribilho: Never. visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. O sono dava-me alívio. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: — Never. Nos sonhos. Ninguém. que me elogiavam o garbo. nos corredores. Dormindo. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. um cochicho do nada. tudo. Minha solidão tomou proporções enormes. um molequinho que fosse. tinham resolvido fugir durante a noite. tic-tac. a senzala. tal qual como na lenda francesa. finalmente. deixava atuar a alma interior.. Voltava para casa. sacudindo as moscas. dia claro. um sonâmbulo. Não por medo. seduzidos por outros. eu ia somente aumentar a dor da mãe. creio que de Longfellow. Riem-se? — Sim. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala. parece que tinha um pouco de medo. nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. Nenhum ente humano. para não desamparar a casa. não sabendo se devia ir ter com ela. no meio da família e dos amigos. Mas a manhã passou sem vestígio dele. não pela razão comum de ser irmão da morte. Corri a casa toda. e ficava dependente da outra. ou ficar tomando conta da casa. never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. coisa nenhuma. isto é. ou mais larga. ninguém. a ver se descobria algum sinal de regresso. ou de movimento próprio. Quando. soeur Anne. no terreiro. Acheime só. e porque. Nunca os dias foram mais compridos. — Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. outro o de capitão ou major.. tanto que não senti nada. Mas a noite era a sombra. Adotei o segundo alvitre. à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa. como um piparote contínuo da eternidade. Não tornava. era um diálogo do abismo. li uma poesia americana. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Soeur Anne. feria-me a alma interior. Era como um defunto andando. Na manhã seguinte achei-me só. um par de mulas. se a minha prima enferma estava mal. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia. . Galos e galinhas tão-somente. muitos anos depois.— Coisa pior? — Ouçam-me. Tinha uma sensação inexplicável. que filosofavam a vida. esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único —porque a alma interior perdia a ação exclusiva. e assim fizeram. e prometia-me o posto de tenente. nem em toda aquela semana. ne vois-tu rien venir? Nada. for ever! — For ever. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. era um pouco atrevidinho. cuja pêndula tic-tac. e tudo isso fazia-me viver. Tic-tac. ninguém em parte nenhuma. sem remédio nenhum. tic-tac. a um lado e outro. era a solidão ainda mais estreita. esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro. diante do terreiro deserto e da roça abandonada. eliminando a necessidade de uma alma exterior. fiquei também um pouco perplexo. sem mais ninguém. e não tivesse consciência da ação muscular. e três bois. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina. era outra coisa.. Mas quando acordava. Nenhum fôlego humano. o medo vulgarmente entendido. vinha um amigo de nossa casa. O silêncio era o mesmo que de dia. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: — o sono. fardava-me orgulhosamente. na varanda. durante as primeiras horas. Os velhacos. never! Não eram golpes de pêndula. juro-lhes que não tinha medo. um boneco mecânico. para lhe dar a triste notícia. entre quatro paredes. nem no outro. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. nas salas.

infinito. por um impulso sem cálculo. décimas. — Diga. Recitava versos. não tinha motivo. naquela casa solitária. com uma persistência de desesperado. — Mas não comia? — Comia mal. Vesti-a. mutilado.. Entrei a vestir-me. soeur Anne. tossindo sem tosse. esfumada. deixava-se estar. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente.. As vezes fazia ginástica. sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas. Tictac. ao mesmo tempo. Não. como . passeava.. assim devia ter sido. Não era abstenção deliberada. E levantei o braço com gesto de mau humor. e enlouquecer. atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava. para intercalar no estilo. Olhei e recuei. afligindo-me a frio com os botões. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa. um artigo político.. Então tive medo. Mas o estilo. a imagem era a mesma difusão de linhas. não me estampou a figura nítida e inteira. difusa.. Tudo silêncio. Continuei a vestir-me. um silêncio vasto. aprontei-me de todo. a mesma decomposição de contornos. o gesto lá estava. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo. mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço. — Vou-me embora. diga. quando tive o pensamento. diga. Subitamente por uma inspiração inexplicável. lembrou-me. — Estava a olhar para o vidro. Convém dizer-lhes que. trechos latinos. com os mesmos contornos e feições.. esgaçado. receei ficar mais tempo. para dizer alguma coisa. tic-tac. mas vaga. Coisa nenhuma. — Vão ouvir coisa pior. e ao mesmo tempo de decisão. Soeur Anne. — Na verdade. algumas raízes tostadas ao fogo.. disse comigo. uma nuvem de linhas soltas.. De quando em quando. uma antologia em trinta volumes. olhava furtivamente para o espelho.. frutas. Levantava-me. não são capazes de adivinhar. Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia. e. era de enlouquecer. farinha. olhando para o vidro. outra dava beliscões nas pernas. Tic-tac. oitavas de Camões. discursos. porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. enorme.. contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas.... — Lembrou-me vestir a farda de alferes. desesperado.. — Mas. conservas. estirava-me no canapé da sala.nervoso. e se tal explicação é verdadeira. não olhara uma só vez para o espelho. como tia Marcolina. se não fora a terrível situação moral em que me achava. tic-tac. apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Mas tal não foi a minha sensação. nada prova melhor a contradição humana. era um impulso inconsciente. sombra de sombra. um receio de achar-me um e dois. mas suportaria tudo alegremente. liras de Gonzaga. desde que ficara só. informes. mas disperso. não escolhi nada definitivamente. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel. um romance. sacudindo a roupa com estrépito. e mais nada. murmurando comigo. assobiava. tamborilava nos vidros das janelas. uma ode.

acabado o jantar. Quinze ou vinte minutos de vida antiga. sorria e o vidro exprimia tudo. levantei os olhos. desde rapaz. distingue as pessoas dos objetos. admirava o mais guapo dos atenienses. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana. e. o circo Chiarini. Não era mais um autômato. Desaparecem os tempos modernos. o alferes. com a mesma firmeza e donaire com que sabia reger as batalhas. pouco. Essa alma ausente com a dona do sítio. ao chefe de polícia da Corte Corte. guiando magnificamente o carro. aquele é Sicrano. à tardinha. Cada dia. devoção ou mania. e de graça. despia-me outra vez. não lhes digo nada. lendo olhando. Desculpe V. Abri o tomo. Daí em diante. Olhava para o espelho.. a insurreição da Herzegovina. Ex. Tudo volta ao que era antes do sono. a uma certa hora. e tão intensa que me ia fazendo reprovar em outras disciplinas. ia de um lado para outro. Foi o que se deu hoje.ª se vivi! . Imagine V. Depois de jantar é excelente.. que achava. vestia-me de alferes. emerge de um letargo. A página aberta acertou de ser a vida de Alcibíades.. ali um sofá. que era o nome que V. a alma exterior.. no fim de duas. a rua do Ouvidor. aqui está uma cadeira. mas não conhece individualmente uns nem outros. fui outro. e sentava-me diante do espelho. Quando os outros voltaram a si. Ex. sabe que este é Fulano. meditando. era eu mesmo. Uma verdadeira digestão literária. nenhum contorno diverso. nenhuma linha de menos. três horas. abre os olhos sem ver. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir. o narrador tinha descido as escadas. era um ente animado. enfim. dispersa e fugida com os escravos. entendê-los-á daqui a Hoje. estirei-me no sofá e abri um tomo de Plutarco. 20 de setembro de 1875. depois começa a ver. V. enfim. pouco a pouco.estava defronte do espelho. enquanto esperava a hora do Cassino.. padeci esta devoção do grego. os cidadãos e os próprios sentidos. há de lembrar-se que eu. Assim foi comigo. gesticulava. Ex. ao pé de um pórtico grego ou na loja de um gramático. e sucedeu o que sempre se dá comigo quando leio alguma coisa antiga: transporto-me ao tempo e ao meio da ação ou da obra. Deixeime ir ao sabor da loqüela ática. Imaginai um homem que.ª lhe dava.. daí a nada entrava nos jogos olímpicos.ª. ei-la recolhida no espelho. recuava. o vidro reproduziu então a figura integral. -------------------------------------------------------------- UMA VISITA DE ALCIBÍADES Carta do desembargador X. que foi meu companheiro de estudos. Ex. a guerra dos carlistas.ª o tremido da letra e o desgrenhado do estilo.

no paletó de alpaca e nos sapatos de cordovão. não um homem "de verdade". Era ele. ou.ª. portanto. sem o pensar. Era claro que. o moleque entrou e acendeu o gás. Não se demorou Alcibíades em acudir ao chamado.. fitei-os. sim. nas calças de brim branco. mas não era a sombra impalpável que eu cuidara ter evocado pelos métodos da nossa escola. Determinei. mas também útil à solução dos problemas históricos. mas. Ex. e.Mas.ª? No fim de poucos minutos conversávamos os dois. Como eu estivesse frio e trêmulo (ainda o estou agora) ele que o percebeu. Convencido de que todos os sistemas são puras niilidades. Ele repetiu a pergunta. Ao ouvir isto. não foi preciso mais para fazer voar toda a arqueologia da minha imaginação. perto da parede. Atenas volveu à história. tão cabalmente como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do cão. um simples eflúvio do quilo. disse-lhe . Escusado é dizer a V. Nutri ainda a esperança de que tudo aquilo não fosse mais do que o efeito de uma digestão mal rematada. do que gastar as forças críticas. não podia acabar de crer que tivesse ali. além do gosto de admirar a minha própria habilidade. tão sabedor da história. E então refleti comigo: — Que impressão daria ao ilustre ateniense o nosso vestuário moderno? Sou espiritista desde alguns meses. ele repotreado e natural. na minha sala. e tratou de rir e gracejar para o fim de devolver-me o sossego e a confiança. evocar o ateniense. em grego antigo. pedi-lhe que comparecesse em minha casa. enquanto os olhos me caíam das nuvens. como dizem as crianças. Limitei-me a responder ao que ele queria. não ignora que também houve pataus em Atenas. e também. Juro a V. porque não há raciocínio nem documento que nos explique melhor a intenção de um ato do que o próprio autor do ato. vero homem. um morto de vinte séculos. é mais sumário evocar o espírito dos mortos. Ex. não havia duvidar que era ele mesmo. aos seus pataus. grego autêntico. acabava eu de dar um grande passo na carreira do espiritismo. eu pedindo a todos os santos do céu a presença de um criado. se tanto fosse necessário. Ex. resolvi adotar o mais recreativo deles. através da luneta de Plutarco. — Que me queres? perguntou ele. sem outra vantagem. Tempo virá em que este não seja só recreativo. de uma visita. em minha casa. e deixei-me ficar assombrado. sem demora. e gastá-las em pura perda. pedira um espectro. ai de mim! não o entendi logo. — de um incêndio. não a sombra de Alcibíades. o mais puro ático. Hábil como outrora! Que mais direi a V. dois minutos depois estava ali. pediu-me notícias de Atenas. falou-me com muito carinho. trajado à antiga. dei-lhas. por mais fiel que fosse o testemunho dos sentidos. e esse precedente é uma desculpa.ª que abri mão da idéia de o consultar acerca do vestuário moderno. restituído à vida. O vulto falava e falava grego. E tal era o meu caso desta noite. mas o próprio Alcibíades redivivo. V. era o próprio Alcibíades. Atenas também os possuiu. de uma patrulha. Conjeturar qual fosse a impressão de Alcibíades era despender o tempo. logo. cheio daquela gentileza e desgarre com que usava arengar às grandes assembléias de Atenas. Ex. carne e osso.ª que não acreditei. E aqui começa o extraordinário da aventura. arrepiaram-se-me as carnes. olhou em volta de si e sentou-se numa poltrona. e então esfreguei os olhos.. um pouco. isto é.

Esta idéia gelou-me. que estes se fazem naturalmente desencontrados. porque eles lá congregam-se. senão por categorias de índole. Ex. Para um homem que acabou de digerir o jantar e aguarda a hora do Cassino. Mas eu não podia mais. Já disse que Alcibíades escutava-me com avidez. atento. atenienses! Se entro nestas minúcias é para o fim de nada omitir do que possa dar a V. que foi um magnífico orador. provavelmente o século XX não dançará as deste. explicou-me que à porta do outro mundo afrouxavam muito os interesses deste. em resumo. e. compunha o manto. Alcibíades. — em primeiro lugar. e. em segundo lugar. não saía de certas atitudes esculturais. — Vá. Ex. estadistas seus patrícios. mostrava-se simples. interrompeu-me: — Bravo. costume e profissão: assim é que ele. falei-lhe do parlamento helênico e do método alternativo com que Bulgaris e Comondouros. achava tudo possível. a pírrica já lá vai. continua. Não vira Botzaris nem lord Byron. assim. no maravilhoso. não por nacionalidades ou outra ordem. mirava os borzeguins. porque é tanta e tantíssima a multidão de espíritos. que as academias do século passado . a independência. que o paganismo acabara. mas no geral dela. revezando-se no poder. entendia as coisas sem largo dispêndio de palavras. mostrando-me admirado de que os mortos lhe não houvessem contado nada. narrei-lhe a dominação muçulmana. Em seguida pediu-me notícias atuais. com o duque de Buckingham. o Garrett. Cada século. meu caro Alcibíades. — Um baile? Que coisa é um baile? Expliquei-lho. Ele. — Ah! ver dançar a pírrica! — Não. olhava de soslaio para o espelho. emendei eu. E gamenho. assim como estes. Se pudesse fugir. Entrado no inextricável. ao menos assim me pareceu em um ou dois pontos da nossa conversação. muda de danças como muda de idéias. acrescentarei que era esperto e arguto. etc. não iria eu ter com ele à eternidade. como ele vinha ter comigo ao tempo. como fazem as nossas e outras damas deste século. note V. O grande homem tinha os olhos pendurados da minha boca. não atinava por que razão. — Com os numes? Repeti-lhe que sim..ª o conhecimento exato do extraordinário caso que lhe vou narrando.. o nosso Maciel Monteiro.ª. anda no grupo dos políticos elegantes e namorados. lord Byron. dizia-me ele.que ela era enfim a cabeça de uma só Grécia. correto. a golpes de discurso. sensível e digno. a morte é o último dos sarcasmos. Animei-me: disse-lhe que ia a um baile. imitam Disraeli e Gladstone. quando eu parava de lhe dar notícias. tão gamenho como outrora. Nós já não dançamos as mesmas coisas do século passado. com os homens de Plutarco e os numes de Hesíodo. A pírrica foi-se. Botzaris. Era também sarcástico. relatei-lhe o que sabia.

Já agora não vou sem comparar as danças. — Dionisos. e naturalmente postiça. murmurava de quando em quando. que o vulto ia desfazer-se. O que eu queria era deixá-lo. radicalmente curadas. um ilustre dissimulado. declarou-me que iria ao baile comigo.ª. acrescentei. não iria ao Cassino.. que não o admitiriam. porque Alcibíades. — Ao baile. Eu teria certamente a maior honra. deliberante. Caleime. não acho prudente um tal desejo.. — Quero ir ao baile.. detendo-se repentinamente.. e uma vez na rua. contendo a indignação. Morto. o mais gentil. Mas o diabo do homem não se movia. Dionisos..ainda lhe deram abrigo. Lembrou-me então que ele fora uma vez acusado de desacato aos deuses e perguntei a mim mesmo donde vinha aquela indignação póstuma. repetiu ele. um grande desvanecimento em fazer entrar no Cassino. com aquele trajo. salvo se ele queria ir lá representar alguma comédia de Aristófanes. mas sem convicção. De longe em longe. — um devoto do grego! — esquecia-me que ele era também um refinado hipócrita. pareceria doido. vamos ao baile. e que eu ficava ali com as minhas calças. Esquecia-me. — Ao baile? repeti atônito. os velhos. os rapazes. Afrodita?. O homem de Plutarco levantou-se. é impossível. Ex. disse-lhe que não. escutava-me com os olhos no chão. — Tudo morto. pensativo. E quase não tive tempo de fazer esse reparo. andou um pouco. mas só o faz por gala ou brinco. tudo morto. os meus sapatos e o meu século.. . acrescentei rindo. um ou outro poeta. essas mesmas estavam curadas. entregar-lhe a casa. imitando o outro: — Ah! se lá estou com os meus atenienses! — Zeus. nem alma. que não era possível. cheguei a cuidar que o pesadelo ia acabar. ao passo que a ciência reduziu todo o Olimpo a uma simbólica. um ou outro prosador alude aos restos da teogonia pagã. iria ter com V. Evoé! padre Bassareu! Evoé! etc. as moças. Afrodita. mas os outros homens de hoje. — Morto Zeus? — Morto. honesto passatempo de alguns desembargadores pacatos. para disfarçar o medo. — Meu caro Alcibíades. que as mesmas bebedeiras arcádicas. Fiquei aterrado. o mais feiticeiro dos atenienses. como se dissesse consigo.

mais recatado e útil do que artista. como digo. um risinho em que o espanto vinha mesclado de escárnio. Irei à maneira do século. porque essa roupa. — Canudos pretos! exclamou ele. os quadros. ansioso por sair à rua. E vendo que ele abanava a cabeça: — Meu caro. — Pois bem. a palhinha. Respondi que por maior comodidade. — Eu vestia-me. Levantei-me também. e então disse-lhe que sim.. — Enfim! Seguimos para o meu quarto de vestir.ª ainda que o nosso tempo nos pareça digno de crítica. acrescentei que o nosso século. tornou ele levantando-se. perguntou por que motivo trazia aqueles canudos de pano.. Não respondi ao ateniense. Não tens alguma roupa que me emprestes? Ia a dizer que não. para eu aprender e imitar-te depois. disse-lhe. Mas a arte de vestir é outra coisa. a boca aberta. embora preto. e pedi-lhe que me acompanhasse. franzi um pouco o sobrolho e continuei a abotoar os suspensórios. tu podes certamente exigir que o Júpiter Olímpico seja o emblema eterno da majestade: é o domínio da arte ideal. desinteressada. e trabalhado com muita perfeição. o que ofendeu grandemente o meu melindre de homem moderno. e que uma vez na rua. estava assombrado. Não se moveu logo. imaginarão que és um doido ou um comediante.. determinara trajar de um modo compatível com o seu decoro e gravidade. Porque. e até de execração. nem os . que é de verniz.. às pressas. irei à maneira do século. não sem elogiar o espelho. não gostamos de que um antigo venha mofar dele às nossas barbas. Creio que o lisonjeei com isto. mas séria. Ele perguntou-me então por que motivo usava uma cor tão feia. Exclamou e riu. entretanto. — Que tem? A roupa muda-se. sobravam-me recursos para escapar-lhe.— Por quê? — Já disse. Eram as calças pretas que eu acabava de vestir. Demais nem todos seriam Alcibíades. Isto que parece absurdo ou desgracioso é perfeitamente racional e belo. Olha. note V. a graça do corte. — Feia.. Vi que só então reparara nas minhas calças brancas. não sem elogiá-lo. vê como cai sobre o sapato. ele sorriu e deu de ombros. e comecei a mudar de roupa. — belo à nossa maneira. enfim. Só peço que te vistas primeiro. Alcibíades sentou-se molemente num divã. Ex.. que não andamos a ouvir na rua os rapsodos recitando os seus versos. superior aos tempos que passam e aos homens que os acompanham. mas ocorreu-me logo que o mais urgente era sair. às pressas. por meter-me no primeiro tílburi que passasse. olhava para elas com os olhos arregalados. disse-lhe.

Estás todo cor da noite — uma noite com três estrelas apenas — continuou apontando para os botões do peito. despendurei o chapéu. posto usássemos também gravatas pretas. e expliquei-lhe o uso da gravata e notei que era branca. põe o que te falta. abertos. E. Antes de entender a causa do grito e do gesto. acabarás por gostar de nós. vivíamos.. toda a elegância que vos legamos está reduzida a um par de canudos fechados e outro par de canudos abertos (e dizia isto levantando-me as abas da casaca). eu acabava de enfiar a casaca. se escolheu para uso uma cor tão morta e tão triste. trêmulo. Tu mesmo. estava pálido. Nós éramos mais alegres. estava morto. segundo confessou depois. não posso crê-lo! Venha alguma coisa que corrija isso. depois vesti o colete. Ex. Obedeci. não preta. em suores frios.. — Oh! venha alguma coisa que possa corrigir o resto! tornou Alcibíades com voz suplicante. e tudo dessa cor enfadonha e negativa? Não. fui dali ao cabide.ª se digne de expedir suas respeitáveis ordens para que o cadáver seja transportado ao necrotério. morto pela segunda vez. Como eu passasse a gravata à volta do pescoço e tratasse de dar o laço. mas (com dor o digo) era tarde. O que é que. — Por Afrodita! exclamou ele.ª agora mesmo (dez da noite) em atenção ao profundo abalo por que acabo de passar. e tratei de apressar ainda mais a saída. — Desgraçado! bradou ele atirando-se a mim. relevando-me de não ir pessoalmente à casa de V. — Põe o que te falta. O mundo deve andar imensamente melancólico. cambaleou e caiu. Caíram-lhe os braços.. Ri-me. Atei-a enfim. Alcibíades supôs que ia enforcar-me. Só depois de tudo isso explicado é que ele consentiu em restituir-ma. se te acostumares a ver-nos. Corri ao ilustre ateniense. antes das oito. — Não: falta o chapéu. Agora quem se riu fui eu. na verdade.oradores os seus discursos. Venha. Creia V. não podia articular nada. venha. Ex. para levantá-lo. grandes. Não pôde concluir a frase. A causa era uma ilusão. meu caro. — Estás completo? perguntou-me ele. falta. Assim pois. porque. -------------------------------------------------------------- . ficou sufocado. o que aliás farei amanhã de manhã.ª que fiquei com medo. Rogo a V. e a consternação do ateniense foi indescritível. Ex. Alcibíades olhou para mim.. És a coisa mais singular que jamais vi na vida e na morte. fiquei sem pinga de sangue. dizes tu? — O chapéu. tinha os olhos cravados em mim. nem os filósofos as suas filosofias. e pu-lo na cabeça. e se proceda ao corpo de delito.

mas é digno da distinção. Joaquim Soares não me conhece. Sim. à rua da Alfândega. mas os que são melhores ou mais ricos. que um dia chegou em que a ação de Nicolau mergulhou de todo no olvido. finalmente. que viveu com certo luzimento. clamaram que o testamento era um despropósito. e. Obra de lápis e esponja. con amore. pediu licença para não receber nenhuma remuneração. os sucessos acumulam-se em tanta multidão. precisa apagar o caso escrito. Desejo que ele tenha conhecimento desta disposição. Só desejava uma coisa: a cópia autêntica da verba. Os outros fabricantes de caixões. Estava pago. Tudo isso é obscuro. esse menino não é um produto são. O impulso interior do Nicolau era mais eficaz do que todos os . Mas a vida universal é tão variada. não digo os que são iguais aos dele. Mas nem admoestações. venho mostrar uma das maiores curiosidades mórbidas deste século. desde os mais tenros anos. e com tal presteza. por ser dos nossos melhores artistas. passado o assombro. O pai era um honrado negociante ou comissário (a maior parte das pessoas a que aqui se dá o nome de comerciantes. Esquecer é uma necessidade. ele mandou-a encaixilhar e pendurar de um prego. na loja. A vida é uma lousa. e um dos homens mais honrados da nossa terra. nunca menos de um. vamos entrar em plena patologia. tinha o Nicolau sessenta e oito anos). Não. — felizmente.." Cumpriu-se à risca esta verba testamentária. ou somente raro. Menos ainda se compreende que. Era em 1855.. Felizmente. em que o destino. nem castigos. manifestou por atos reiterados que há nele algum vício interior. não se falou de outra coisa. no fim. e comidas do esquecimento. leitor amado. que também será pública. para escrever um novo caso. Não se pode explicar de outro modo a obstinação com que ele corre a destruir os brinquedos dos outros meninos. seja fabricado em casa de Joaquim Soares. Não venho restaurá-la. castigava-o. de C.. austero. homem ríspido. sendo necessário. Venho dizer que a verba testamentária não é um efeito sem causa. não é um organismo perfeito. Joaquim Soares fez o caixão em que foi metido o corpo do pobre Nicolau B. nada mais são que uns simples comissários). ou ainda mais bonitas do que a do Nicolau. todas as demais classes acharam que aquela mão. que admoestava o filho. valiam nada.. e. não venho restaurá-la. saindo do abismo para abençoar a obra de um operário modesto. ou ainda inferiores. Item. a memória dos homens é tão frágil. Culpa do pai não pode ser. — e esta é uma das vantagens do estado social. Esse menino que aí vês.VERBA TESTAMENTÁRIA ". Ao contrário. donde passou à das províncias. o jovem Nicolau console a vítima com dois ou três pontapés. alguma falha orgânica. a população estava mais conchegada.. nos casos em que o brinquedo é único. e. é minha última vontade que o caixão em que o meu corpo houver de ser enterrado. O nome do Nicolau reboou por muitos dias na imprensa da Corte. no último quartel do século. fabricou-o ele mesmo. dizia o marquês de Lavradio. nos fins do século passado (em 1855. Deram-lha. praticara uma ação rara e magnânima. Há milhares de ações tão bonitas. por um movimento cordial. quando morreu. o favor do defunto era em si mesmo um prêmio insigne.

curtiu muita dor. dócil. interromperam por alguns instantes as cerimônias eclesiásticas. corrigia esse ponto da anatomia gentílica. excelente. deixe-o comigo. Enquanto durou a reclusão. o despeito de ter ficado atrás alguns dias. é duvidoso que ele tenha vontade de maltratar os companheiros. tenente e alferes. a troco de donativos pecuniários. A rua em que ele residia. atentas as proporções escassas da cidade. atirou-se sobre o jovem alferes e rasgou-lhe a farda. engendrou um expediente não menos suave que profícuo: distribuir. está nas leis de Manu.. fora daquele sestro mórbido. depois. ao ver os dois. que o pai resolveu trancá-lo em casa durante uns três ou quatro meses. O vice-rei hesitou. sugeriu-lhe um arbítrio de mau gosto e. Tudo correu em segredo. sem perigo. era tempo de o meter com um professor de leitura e gramática. Deu-se mesmo um caso. O mesmo passou a acontecer às roupas. vindo o menino com uma fardinha. que seria hoje um simples episódio municipal. na galeria militar do século. o pai soltou-o. que era então o conde de Resende. que com ele competia em tudo. no nosso caso. Manuel. e com esta (apontava para a palmatória). conspurcadas. Desgraçadamente. entendeu o pai do Nicolau que era ocasião de figurar. adquirindo o despacho de capitão. por suas gravíssimas conseqüências. Divulgada a resolução. as queixas do agredido. andava preocupado com a necessidade de construir um cais na praia de D. depois do episódio. era naquele tempo. e provavelmente filósofo. — Este rapaz há de ser a nossa desgraça! bradava o pai de Nicolau. Com efeito. e. . pai e filho. apenas teve notícia do despacho. por galanteria. uma empresa importante. O vice-rei. pontual nas rezas. o pai de Nicolau só teve notícia do caso no domingo próximo. Nicolau. na igreja do Carmo. obediente. chorou. antes que os pais pudessem acudir. Isto. foi também levar a sua pedra ao cais. no adro. que também ali estava. amigo da família. merece ser contado. Mas o vice-rei não tinha recursos. fora. — Deixe-o comigo. e. O rebuliço do povo. As coisas chegaram a tal ponto. lhe meteram no corpo. embora familiares e amigos. e do ventre os agricultores e comerciantes. único modo de escapar às unhas de Nicolau. em casa. Os pais trocaram algumas palavras acerbas. ou tidas como tais. o pequeno reincidia no mesmo delito. mas o pretendente. num ímpeto. era meigo. contava um sem-número de caras quebradas. O outro comerciante. Os meninos mais ricos do bairro não saíam fora senão com as mais modestas vestimentas caseiras. estendeu ele a aversão às próprias caras. que dos braços de Brama nasceram os guerreiros. ao mesmo tempo que desmentia uma doutrina bramânica. que. a indignação dos devotos. quando eram bonitas. uma ou duas vezes por semana. além de duplicar o donativo. soluçou. o cofre público mal podia acudir às urgências ordinárias. funesto. meteu grandes empenhos. No fim dos quatro meses. Um escândalo. mas de emenda coisa nenhuma. Com o andar do tempo.bastões paternos. e ficaram brigados para todo o sempre.. e o menino saiu nomeado alferes. postos de capitão. arranhadas. o pai do Nicolau. Foi um paliativo. foi assim que ele pediu ao vice-rei outro posto de oficial do cais (tal era o nome dado aos agraciados por aquele motivo) para um filho de sete anos. que. Nicolau apanhou então muita pancada. disse o professor. Os desgostos da família eram profundos. como tal. Nicolau mostrou-se nada menos que angélico. Com esta. Homem de estado. Os brinquedos dos outros meninos não ficaram menos expostos. fez-se lívido.

Se acrescentarmos que ele não pôde estudar nada seguidamente. Morreu-lhe o pai em 1807 e a mãe em 1809. não perdoou aos que se mostravam mais adiantados no estudo. Nicolau recuou. e ainda bem que dormia. que não podia encarar nenhum outro. e da única em que o conseguiu fizeram-se-lhe tão vesgos. em levantar os olhos. teremos visto algumas das dolorosas conseqüências do fato mórbido. Um dia. treze meses depois. que o obrigava às vezes a trincar o beiço até deitar sangue. padecia dobrado. que lhe doía nas pupilas ao mesmo tempo que a face ia ficando verde. e mal. e perseguia os cães. com reflexo de verde bronze. Rixas. mas a trancos. e foi ter com o ministro de estrangeiros. sem desaparecer a lesão do Nicolau. e lançava-os fora. e fugiu. Enfim dormia. vendo-se obrigado a estrangular mais essa ilusão. disse ele. dando-lhes do melhor que tinha. fazia-se mais lívido. alma de patriarca. oculto e desconhecido. E o resto não era menos cruel. em certos casos. para ele. a engolir o impulso. cães e escravos. para não arrebentar. que iam partir-se também. Nicolau arranjou uma carta de apresentação. vou ver. namorados. era compelido a voltar os olhos ou fechá-los. — Tens razão. se deixou de perseguir os mais graciosos ou melhor adornados. estendeu a mão trêmula ao reposteiro.. como os vagabundos comem. prestes a ir ao paço. foi a mãe que o salvou. chamando aos escravos as coisas mais familiares e ternas. tudo incômodo. O sono reparava tudo. estando ele em casa da irmã. outras de escorrer-lhe pelo canto da boca um fio quase imperceptível de espuma. levar a notícia da segunda queda de Napoleão. ódios. entrou outro. obrigado a conter-se. e que a família teimava em não entender. nada fixo. tirava-lhes os livros. sangue. deixando-se lamber por eles. ou portador de algum colete especial sem padecer uma dor violenta. perguntou-lhe esta por que motivo não adotava uma carreira qualquer. tudo nauseabundo. não sossegava dez minutos. Teimou. Acordava lhano e meigo. Achou-o rodeado de alguns oficiais da secretaria. feria a cabeça aos escravos com os pratos. em casa achava tudo mau. além das dores cruéis que padecia. a irmã casou com um médico holandês. beijando os cães entre as orelhas. e. Por outro lado. ou comia mal. e não o outro. seis ou oito vezes. alguma coisa em que se ocupasse. O pai. tudo isso deu um tal rebate ao coração do Nicolau. ou só uma sombra. Interveio o cunhado e opinou por um emprego na diplomacia. não há dúvida. um vulto. ou fosse mais gentil de feições. dizia ele. não comia. castigando as primeiras investidas do pobre Nicolau.Frívolo! três vezes frívolo professor! Sim. que ele conseguiu poupar os meninos bonitos e as roupas vistosas. Nicolau passou a viver só. Saiu um século. Tinha ocasiões de cambalear. esteve prestes a amaldiçoálo. espancava-os. era um dos petimetres da cidade. que ele não pôde encarar o ministro. Tinha vinte e três anos. tais eram os frutos da vida. nas praias ou no mangue. mas um singular petimetre. tão violenta. nada metódico. como se este fosse o verdadeiro senhor. mas em que é que este sarou da moléstia? Ao contrário. A figura do ministro. as reverências dos oficiais. e acudiam às vozes dele obedientes. que não via ninguém. Nicolau ficava então ríspido. O cunhado principiava a desconfiar de alguma doença e supunha que a mudança de clima bastava a restabelecê-lo. . a pontapés. esqueciam as pancadas da véspera.. as circunstâncias do momento. que sonhava para o filho a Universidade. E tudo. notícia que chegara alguns minutos antes.

mas.. maçudo. Talvez aplaudisse in petto o decreto da dissolução. disse-lhe a irmã. e para isso. chegando a casa. sem olhos vesgos. não só eles lhe poupavam a natural irritabilidade. mas também porque lhe era difícil encarar certos homens. era um verme do baço. apesar das mostras exteriores. E se essa conjetura é verdadeira. como os doentes amam a droga que lhes restitui a saúde. mas. como teria de padecer muito mais vivendo com eles. pontual. Não era só porque os debates lhe pareciam insuportáveis. por exemplo. tragava a situação. diziam-he as maiores finezas do mundo. sabia conter-se e pôr a idéia da pátria acima do alívio próprio. patriota. Veio o grito do Ipiranga. sem cambalear. mas à custa de muita tempestade moral. Cada discurso. que a freqüência da câmara custava-lhe sangue precioso. que se nutria da dor do paciente.. distribuía-lhes mimos. E. Valeu? Era um plano do marido. restava o recurso de obstar à secreção. com alguma moça bonita e prendada. Portanto. tranqüila. Isto prova que ele tinha um certo conhecimento empírico do mal e do paliativo. isto é. ou com uma certa familiaridade inferior. com esses companheiros. Montezuma. cuja ausência daria igual resultado. em atitudes cativas. a moléstia do Nicolau estava descoberta. Na opinião deste. fico com vocês e os meus amigos. Integro. Em 1823 vamos achá-lo na Constituinte. parecia-lhe balofo. não conhecendo nenhuma substância química própria a destruí-lo. Nicolau meteu-se na política. mas há bons fundamentos para crer que o Nicolau. separá-lo do povoado. mas dos secundários. Além disso. urgia casar o Nicolau. declarados inimigos públicos. para . Vergueiro. não menos padeceu com o exílio. não menos o será esta outra: — que a deportação de alguns dos chefes constituintes. veio aguar-lhe aquele prazer. Nicolau amava em geral as naturezas subalternas. como porfiavam em tornar-lhe a vida. sem nada. Pode-se dizer. situações ou pessoas. Não afirmo. vulgares e ínfimos. não exercia de graça essas virtudes públicas. execráveis. metê-lo em alguma fazenda. — Arranjo-lhe uma. que padecera com os discursos deles. A questão era matar o verme. desapareciam todas as perturbações fisiológicas do Nicolau. não obstante. posto lhes desse um certo relevo. produzida pela vista de alguns fatos. Qualquer que fosse o seu desespero. especialmente em certos dias. nunca o nome dele soou sem eco pela augusta sala. — Não tenho noiva. abria-lhes a alma. Os amigos eram os rapazes mais antipáticos da cidade. firme. Se ele também fosse exilado! — Você podia casar. metaforicamente. acariciava-as paternalmente. Não há que dizer ao modo por que ele cumpriu os deveres do cargo. dava-lhes o louvor abundante e cordial. A verdade é que. Ele fitava-os sem lividez. não só dos principais oradores. emprestava-lhes dinheiro. desinteressado.— Não quero ser nada! disse ele à irmã. gostou de ver dissolvida a assembléia. era para o Nicolau verdadeiro suplício. Nicolau escolhera-os de propósito. Viver segregado dos principais era para ele um grande sacrifício. os Andradas. Nicolau. senão deliciosa. mano. Nunca a votação o achou ausente. de uma secreção especial.

Mas comecemos pelo princípio. se ela não morresse daí a pouco. nas casas alheias. posto não ficasse prova do ato. Mas a natureza. Esse homem. e. Parece mesmo que chegou ao ponto de não poder encará-la muito tempo. dispersas. mas a moléstia caminhara. fez-se o jornal. porque ele desceu ao Rio de Janeiro. daí o fervor com que ele meteu a mão no movimento de 1831. recordando os seus modestos. no teatro. Era tão melindroso o estado dos seus órgãos auditivos. como os que diziam mal do imperador. Nicolau. que é casá-lo. se puder alcançar de alguma modista. A noiva escolhida era a mais esbelta. e o que parecia remédio excelente foi simples agravação do mal. os mais reles amigos. que o ruído dos aplausos causava-lhe dores atrozes.. e há quem afirme que ele se filiou ao partido caramuru ou restaurador. Nicolau ia. recuando na solidão. são um recurso eficaz. de quando em quando. mandaram-se as cartas. Verdade é que a Regência o achou dentro de pouco tempo entre os seus adversários. mas a cura interrompeu-se logo. etc.. ao fim de certo tempo. O que é certo é que a vida pública do Nicolau cessou com a Maioridade. de ordinário. cujo nome era repetido onde quer que o Nicolau estivesse. freqüentar certas casas. Não podia fazer certas visitas. penso que não estará longe da verdade quem supuser que — foi o raciocínio de um ateniense célebre e anônimo. tinham enchido as medidas ao Nicolau. receberá o Nicolau um jornal que vou mandar imprimir com o único fim de lhe dizer as coisas mais agradáveis do mundo. rasgos de coragem. A dor do Nicolau foi profunda e verdadeira. cujo carro puxaram alguns braços humanos. Conquanto pareça temerário dizer as causas que levaram o Nicolau para o Campo da Aclamação. onde o vamos achar. A doença apoderara-se definitivamente do organismo. . continuou ele. obséquio tanto mais insigne quanto que o não fariam ao próprio Platão. na noite de 6 para 7 de abril. Tanto os que diziam bem. — Todas as manhãs. tornou-se uma verdadeira perseguição mórbida. a Gudin. ajudará muito a cura de seu mano. que ponha o nome de Nicolau em um chapéu ou mantelete. O teatro mal chegava a distraí-lo. entre os revolucionários de 1831. vá ter com Nicolau algum dos nossos oficiais dizer-lhe que não podia voltar para a Haia sem a honra de contemplar um cidadão tão eminente e simpático. em quem se reúnem qualidades raras. e dizê-las nominalmente. vieram algumas rixas. agudezas de espírito. e atribuindo-lhe muitas aventuras namoradas.onde levaria a melhor baixela. a elegância e as virtudes da mulher. Cartas amorosas anônimas. peitaram-se as visitas. Um dos meios de agradar ao Nicolau era elogiar a beleza. Você. Já falei ao almirante holandês para consentir que. O entusiasmo da população fluminense para com a famosa Candiani e a Meréia. e a impaciência a produzir-lhe a fatal secreção. os melhores trastes. A abdicação foi um alívio. que inspirava entusiasmos e ódios. foram com ele somente alguns de seus mais triviais amigos. mostrou ainda desta vez que ela possui segredos inopináveis. mas profícuos trabalhos da Constituinte. a pouco e pouco. apostada em lograr o homem. enviadas pelo correio. Durante três meses tudo caminhou às mil maravilhas. Nunca um plano foi mais conscienciosamente executado. na rua. e bastava isto a impacientá-lo. achava ociosos e excessivos tantos elogios à mulher. tempos depois. por exemplo. que seriam o princípio de uma. Casou-os o próprio bispo. e a encará-la mal. ou uma das mais esbeltas da capital. mas a Candiani principalmente. separação. Recolhido à fazenda.

não duraram muito tempo. As tarefas literárias a que se deu. por insinuação do cunhado. Explica-se menos o desalinho com que daí a meses começou a vestir-se. e os aplausos ao Gonçalves Dias. e assim aconteceu algum tempo. e quase que inteiramente os teatros. nada melhorou o nosso triste Nicolau. foi necessário recorrer à simulação. por exemplo. dava dois jantares por semana. Esse sentimento literário. uma sege. e os convivas eram unânimes em achar que o cozinheiro dele primava sobre todos os da capital. A menor ou maior coisa triturava-lhe os nervos: um bom discurso. mas enfim era a do cunhado. que o queria distrair. olhos vesgos. enfim. alguns ótimos. despedisse ele um varão tão insigne. e pode ser até que lhe dobrassem o mal. que o tiveram algum tempo na cama. teoria que não sei se é verdadeira. A morte levou-o ao cabo de duas semanas. . A secreção do baço tornou-se perene. Realmente os pratos eram bons. — Era um ladrão! foi a resposta que ele deu ao cunhado. Os últimos anos foram crudelíssimos. não passando um só dia em que não fosse pentear-se ao Desmarais e Gérard. fruto de uma lesão orgânica. mas o elogio era um tanto enfático. Não era por exageração de patriota que ele gostava de ouvir o João Caetano. padecendo consigo ainda muito mais do que fazia padecer aos outros. causa indireta de alguns dos seus mais deleitosos momentos na terra? Mistério impenetrável. coiffeurs de la cour. um dia. excessivo. versos de família. Já não bastavam os recreios domésticos. mas afinal deixou-o também. Educado com hábitos de elegância. De fato. ao ver a impassibilidade com que rejeitou os remédios dos principais médicos da Corte. tudo dava de si uma crise. nem os bens. Mas era tarde. repito que é inteiramente obscuro.esse entusiasmo foi uma das maiores mortificações do Nicolau. O cunhado aproveitou o momento para desterrar-lhe da casa todos os livros de certo porte. — Está perdido! pensou o cunhado. pareceu-lhe que essa ocupação era a coisa mais ridícula do mundo. Parece que achou enfatuada esta denominação de cabeleireiros do paço. um soneto. um dito. Ele chegou ao ponto de não ir mais ao teatro. Quase se pode jurar que ele viveu então continuamente verde. o Plum. A despedida do cozinheiro é outro enigma. Nem os esforços deste nem os da irmã e dos amigos. deram-lhe idéia de um povo trivial e de mau gosto. Quanto ao motivo que o levou a trocar de traje. de achar a Candiani insuportável. que um domingo. Se pudéssemos dar-lhe um baço novo. acabado o jantar. era antigo freguês de um dos principais alfaiates da Corte. Quis ele deixar-se morrer? Assim se poderia supor. que fora magnífico. porém. à rua do Ouvidor. um sonho interessante. e dá-los. irritado.. uma gravata. e castigou-os indo pentear-se a um barbeiro ínfimo. nos primeiros tempos.. e preferir a Norma dos realejos à da prima-dona. glosas a prêmio e odes políticas. como receitados por um ignorantão do tempo. para o fim justamente de ser agradável ao Nicolau. Nicolau. Como entender. e a não haver sugestão da idade é inexplicável. Como pensar em semelhante absurdo? Estava naturalmente perdido. e o verme reproduziu-se aos milhões. ao ponto de produzir graves crises. reagiu sobre a mesma lesão. um artista hábil.

Não sabendo como responda ao meu estimável correspondente. Os espanhóis também os possuem. na Época. fl. com que assinei outros artigos daquela folha efêmera. II. Nem reproche nem reprochar. Morais cita. Nunes de Leão e D. pela qual respondia . acho que é insuportável. O redator principal era um espírito eminente. encontra o substantivo reproche. O programa era não ter programa. Daí a minha insistência em preferir o outro.. mas quando a idéia o traz consigo. pela primeira vez. ordenando que o caixão fosse fabricado por aquele industrial. Mas os caixões desse sujeito não prestam para nada. escritas por pessoa inteligente e simpática.. e. Posso dizêlo sem indiscrição. Éramos poucos e amigos. de 14 de novembro de 1875. 259: "hum non tinha que reprochar ao outro". Reproche não é galicismo. Reproche não parece malsoante. -------------------------------------------------------------- NOTAS Nota A "Deste modo. em que me foi notado o uso do vocábulo reproche.. Resta a questão de eufonia. que a política veio tomar às letras: Joaquim Nabuco. a vontade do mano há de cumprir-se. venha donde vier o reproche" "Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche" Cerca de dois anos para cá. nº 1. devendo notar-se que não o vou buscar para dar ao estilo um verniz de estranheza. o vocábulo que lhe está mais próximo no sentido. Tem contra si o desuso. Trazia o pseudônimo de Manassés. Nota B A CHINELA TURCA Este conto foi publicado. aproveito esta ocasião.— Joaquim Soares? bradou atônito o cunhado. Francisco Manuel de Melo. recebi duas cartas anônimas. exprobração. em que se. para o verbo. ficando a cada redator plena liberdade de opinião. como declarou o artigo inicial. Em todo caso. este trecho dos Inéd. e aponta os lugares de Fernando de Lucena. — Paciência! interrompeu a mulher. ao saber da verba testamentária do defunto.

O tom (feita a natural reserva da parte de um colaborador) era elegante. se fosse só isso. mas toda aquela pujança de espírito. Nota D "Era um saco de espantos" Em algumas linhas escritas para dar o último adeus a Artur de Oliveira. e podem crer que era então o que foi aos trinta. CCXIII e CCIV. Para completá-lo darei aqui mesmo aquelas linhas impressas na Estação de 31 de agosto último: "Quem não tratou de perto este rapaz. "Um organismo daqueles era naturalmente irrequieto. Aos trinta lera muito. morto a 21 do mês corrente. vivera muito. Menos a vaidade. O bonzo do meu escrito chama-se Pomada. Há algumas semanas. veio com a flor da adolescência. disse que era ele o original deste personagem. pouco depois. Nota C O SEGREDO DO BONZO Como se terá visto. não há aqui um simples pastiche. ático. Era a mesma torrente de idéias. desabrochara com os primeiros dias. que pôde alguma vez ficar prostrado. entre os caps. no colégio dos padres do Caraça. teria bem pouco valor. trabalho que. e pomadistas os seus sectários. e para tornar a narração sincera. se o da minha invenção morreu exausto de espírito. com a sua poderosa loqüela e extraordinária fantasia. — foram escritas com o fim de supor o capítulo intercalado nas Peregrinações. Para os curiosos acrescentarei que as palavras: Atrás deixei narrado o que se passou nesta cidade Fuchéu. começando os estudos. não aconteceu o mesmo a Artur de Oliveira. meu triste amigo. defini a alma de um personagem com esta espécie de hebraísmo: — chamei-lhe um saco de espantos. Mas. Um saco de espantos. Era-me preciso. colocá-la a distância grande. nem esta imitação foi feita com o fim de provar forças. Pomada e pomadista são locuções familiares da nossa terra: é o nome local do charlatão e do charlatanismo. com dezessete ou dezoito anos de idade. mas não exauriu nunca a força genial que possuía. literário. mal poderá entender a admiração e saudade que ele deixou. este Xavier era o Artur. que não tinha. em algumas partes. para dar a possível realidade à invenção. Esse personagem (posso agora dizê-lo) era. em escrito que viu a luz na Gazeta de Notícias. Minas o viu. "Conheci-o desde que chegou do Rio Grande do Sul. A folha durou quatro números. nada me pareceu melhor do que atribuí-la ao viajante escritor que tantas maravilhas disse. o nosso mesmo Artur. que interrompeu logo. no espaço e no tempo. e salvo alguns rasgos mais acentuados.exclusivamente. para continuá-los na . todo esse raro temperamento literário que lhe admirávamos. a mesma fulguração de imagens.

em Guanabara. é necessária).. Sem controvérsia. sem proveito para si. E o Artur. A forma rara No Pó. père de la foudre! dizia-lhe ele. Que andar não usa No chão. ainda das reminiscências literárias. sem desfalecimento.' Grande e divino! Vede bem que esta admiração é de um moribundo. não hesitaria um só instante. uma dessas visitas. a 14 deste mês. amadas. Sim. até à morte.. desfibrou-o com a paciência dos grandes operários. e cuja estranha musa. palpitante da divindade. em assinar esse pirão mirabolante. De folha e flor. prestes a tropeçar na cova. apreciava-lhe a alta compreensão artística. e fala na intimidade da correspondência particular. Encararia alguma vez o enigma da morte? Poucas horas antes de morrer (perdoem-me esta recordação pessoal. em que a urdidura dos fatos é breve ou nenhuma. entre outros. como Adora a inércia. como diria o grande. E dizia-me aquilo serenamente. E no 'Scamandro. escrevia-me ele a propósito de um prato do jantar. assim definido familiarmente pelo grande artista. A doença fê-lo padecer muito. A palheta de Ruysdael. Ultimamente. não raro de desespero e de lágrimas. Que nunca dorme. no Sena.. entrava no templo. Onde outra mais sincera? "Não escrevo uma biografia. 'O verde das couves espanejava-se em uma onda de pirão. A vida dele não é das que se escrevem. prostrado na cama. sem ódios. com uma força de ânimo rara. Teófilo Gauthier. ora da ogiva . a vida da arte que ele amou com fé religiosa. Calça o pé melindroso e leve. lia um livro meu. os deslumbramentos súbitos de raio. Ele como vimos. de sol e neve. Foi ao sair de. Venez. E mergulha. Sete dias antes de o perdermos. E tanto adora o estudo. sentidas. poucas horas antes de morrer. em podendo. regalava-se. referese a um morto. que escrevi estes versos. admirativo como tinha de ser até à morte. Como uma pluma. Cristal e espuma. roído pelo dente cruel da tísica. "Não o deixou mais: comeu-lhe a seiva toda. uma resignação de granito. mas. e dizia-me que interpretava agora melhor algumas de suas passagens.Europa. mal o Artur assomava à porta. pelo incendido do ouro. mas a doença tomou-o entre as suas tenazes. querialhe muito. a natureza impetuosa e luminosa. o das Memórias Póstumas de Brás Cubas. tal qual os romances psicológicos. Ora do fuste. evocava a palheta de Ruysdael. sem jamais poderem converter-se à narração. para não o deixar mais. exercia o professorado no Colégio de Pedro II. recordando os arrojos dele comparados com o atual estado. e dou-os aqui para os seus amigos: "Sabes tu de um poeta enorme. sem invejas. isto é.. Talvez as que entendiam com a ocasião. olhando para a vida que lhe ia sobreviver. e divino Teo. cor de ouro. é das que são vividas. Não lhos mostrei. Ouve a Tupã e escuta a Momo. Gauthier foi uma das religiões que o consolaram. como Leandro. Na Europa travou relações literárias de muito peso. reagia. teve instantes de dor cruel. sem cálculo.

Trepa de um salto. Não menos ama Os hipopótamos tranqüilos. Gosta das longas Solidões em que se ouve o grito Das arapongas. brancas. Potente e largo. não do riso antigo. zumbe. de cima posto. Toda a casta de bestas-feras E voadores. Roxas. Que se aborrece . Onças. Onde não chega o riso oblíquo Dos fraudulentos. Para o oceano. Então olha. E os crocodilos. E se ama o rápido besouro. Vaga-lumes e borboletas Da cor da chama. rajadas. Onde morre o clamor iníquo Dos violentos. Ora o Deus do ocidente esquece Pelo deus Siva. E mais os búfalos nadantes. E hás de rir. Se não sabes quem ele seja. Como o riso de um deus enfermo. Verás num longo rosto humano Teu mesmo rosto. Riso de eterno moço amigo. Como as girafas e as panteras. Que zumbe. onde mais alto A águia negreja. Gosta do estrépito infinito. E os elefantes. E a mariposa que sucumbe Na flama de ouro. Azul acima.Sair parece. condores. Mas de outro amargo. pretas.

. editora@costaflosi. através da forma alegórica. nada tem com um homem que passou pela terra sem o convidar para coisa nenhuma. publicado em 1882. O primeiro foi dado com um pseudônimo e passou despercebido. O público." "Os amigos dele apreciarão o sentido desses versos. porque era meigo. publicado primeiro na Gazeta de Notícias.com. não aproveitando mais do que a idéia..Da divindade. um forte engenho que apenas soube amar a arte. é o único em que há um sentido restrito: — as nossas alternativas eleitorais. Nota F UMA VISITA DE ALCIBÍADES Este escrito teve um primeiro texto. generoso e bom." Nota E A SERENÍSSIMA REPÚBLICA Este escrito. como tantos cristãos obscuros amaram a Igreja. e amar também aos seus amigos. e que apetece Também um termo. Edição eletrônica produzida em Microsoft Word 97 Março de 1998 Costa Flosi Ltda.br ------------------------------------------------------------------------------ . por Lombaerts & C. que reformei totalmente mais tarde. Papéis avulsos Machado de Assis Volume de contos. Creio que terão entendido isso mesmo. como outros do livro. em geral.

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