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direitos fundamentais

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1 INTRODUÇÃO

O modelo de desenvolvimento assentado nas premissas do capitalismo trouxe além de alguns avanços tecnológicos, profundas desigualdades econômicas, sociais, além de profundas mudanças na natureza e no meio ambiente, tudo em nome do lucro e do “progresso” da humanidade. Diante a crise ambiental que se tornou evidente nos anos 60, pelo rápido crescimento econômico e a conseqüente degradação ambiental, pode-se perceber o surgimento da consciência ambiental, vindo a se expandir nos anos 70, depois da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, realizada em Estolcomo, no ano de 1972, sendo que nesse momento foram assinalados os limites da racionalidade econômica e dos desafios da degradação ambiental, pois percebeu-se que os recursos naturais não eram infinitos como se acreditava ser, e precisavam de medidas urgentes para proteger a humanidade do avanço predatório do capitalismo. A ação do Estado brasileiro segue a lógica do desenvolvimento capitalista neoliberal, que traz como conseqüências o crescimento da desigualdade, da ilegalidade no uso e ocupação do solo e a degradação ambiental. O modelo urbano-industrial intensivo e altamente predatório adotado pelo Brasil provocou profundas mudanças socioambientais, agravando a exclusão social e a degradação

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da qualidade ambiental das cidades. As conseqüências estão refletidas no processo de urbanização das cidades, extremamente rápido e desigual, levando as populações de baixa renda a ocupar terras periféricas, em geral desprovidas de qualquer tipo de infra-estrutura e impróprias para moradia como encostas dos morros, nas beiras dos córregos ou igarapés, nas áreas públicas que ainda não tem um uso público definido, nos loteamentos ilegais ou a se instalar em áreas ambientalmente frágeis. Pode-se observar que os grupos menos privilegiados estão mais expostos à degradação ambiental, isso revela uma profunda desigualdade na distribuição dos custos e benefícios da urbanização, gerados pelo padrão excludente e segregador do processo de urbanização nos países em desenvolvimento. As populações vítimas da exclusão social e econômica acabam sendo mais vulneráveis quanto à exposição desigual, por habitarem em condições ambientalmente inadequadas. A falta de alternativas habitacionais, seja por parte do mercado privado que não disponibiliza moradias acessíveis para a população pobre, ou pelo diminuto alcance das políticas públicas sociais leva ao gigantesco crescimento de invasões de terra. A cidade de Manaus não foge a regra, enfrenta sérios problemas sociais e ambientais, estando estes intimamente interligados como analisaremos no decorrer deste trabalho. As ocupações desordenadas e ilegais fazem parte do cotidiano da cidade de Manaus, desde a década de 1970, quando houve um aumento populacional de mais de 500%, devido à implantação da Zona Franca de Manaus, que passou a atrair um grande número de migrantes que buscavam oportunidade de emprego e melhores condições de vida. Por falta de políticas públicas voltadas para a questão habitacional e meio ambiente, uma grande parcela da sociedade pobre e marginalizada teve que invadir terras para fins de moradia, surgindo assim, por toda a cidade inúmeras invasões, sendo que, a maioria dessas

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invasões estão localizadas em áreas impróprias para moradia, como encostas, nascentes de igarapé, barrancos, antigos depósitos de lixo, e desprovidas de serviços essenciais urbanos. O agravamento dos problemas ambientais presentes nas regiões e aglomerados urbanoindustriais se superpõe aos problemas de infra-estrutura básica e exclusão social, principalmente nos países de industrialização recente e economia periférica. Com isso, ampliam-se os movimentos sociais que incorporam a discussão ambiental, sejam eles oriundos de grupos locais em áreas de risco industriais ou grupos ambientalistas organizados atuando em níveis regionais, nacionais e mesmo internacionais. Por outro lado, movimentos sociais - de trabalhadores e grupos sociais discriminados, como negros, mulheres e povos étnicos tradicionais-, passam a incorporar a questão ambiental em seus discursos e lutas, através do movimento de justiça ambiental. O movimento por Justiça Ambiental vem denunciando os problemas das sociedades profundamente desiguais como a brasileira, que acabam por destinar a maior carga dos danos ambientais decorrentes do desenvolvimento às populações marginalizadas e vulneráveis. Há pouco mais de cinco anos, diversas entidades da sociedade civil, entre elas ONG´s, movimentos sociais, sindicatos e pesquisadores, decidiram juntos fundar a Rede Brasileira de Justiça Ambiental. Essa rede tem como objetivo principal divulgar o fato de que os impactos ambientais atingem de maneira diferenciada os diversos segmentos da sociedade, opondo-se, assim, à idéia, que por muito tempo permeou o movimento ambientalista, de que a degradação ao meio ambiente seria democrática e, portanto, um problema de igual importância para todos os membros da sociedade. Sem dúvida, a importância em se ter um desenvolvimento realmente sustentável deve ser uma preocupação de todos, mas, não é possível ignorar o fato de que os impactos de um desenvolvimento predatório atingem, na maioria das vezes, as populações mais vulneráveis. Esse enfoque faz com que as questões ambientais passem a ser pensadas em termos de distribuição, justiça e eqüidade.

os impactos do processo de globalização econômica neoliberal geram a necessidade de elaborar formas de proteção dos direitos fundamentais sociais no âmbito do constitucionalismo contemporâneo. especialmente quanto à sua efetivação através de políticas públicas insuficientes ou inexistentes.enquanto crescia rapidamente o número da população excluída e marginalizada. muito distantes de serem alcançados.o . tratando de dois direitos sociais específicos . a proposta deste trabalho é inicialmente conhecer os Direitos sociais expressos na Constituição Federal de 1988. Nesse contexto as políticas públicas sociais surgiram para amenizar as mazelas da economia que elevava os índices de pobreza de grande parte da sociedade.via industrialização . Porém a concretização e o acesso a esses direitos sociais é privilégio de poucos. Estando entre o rol dos direitos fundamentais sociais o direito à moradia e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado essencial a uma sadia qualidade de vida e garantido a todos. além de sempre terem sido tratados de forma diferenciada. É sem dúvida um avanço da nossa sociedade o reconhecimento dos direitos sociais. ainda. A Constituição Federal representou um importante avanço no que diz respeito aos direitos sócio-ambientais. como é o caso do Brasil. As políticas públicas sociais no Brasil privilegiavam e priorizavam setores ligados ao desenvolvimento econômico . mas. se faz imprescindíveis demandas de políticas públicas concretas e a participação direta da sociedade. Nos países marcados pela extrema desigualdade social. mas a realidade nos mostra que a concretização desses direitos se encontra. Nesse sentido.15 A sociedade brasileira conquistou importantes garantias como os direitos fundamentais sociais expressos na Constituição Federal de 1988 e em convenções e tratados internacionais. tais direitos nunca foram objeto de um reconhecimento consensual. uma vez que.

que se constitui em um exemplo característico de ocupação desordenada. Ao mesmo tempo. verificando seus principiais aspectos teóricos relativos à sua proteção jurídica e posteriormente analisar alguns problemas práticos à sua efetivação. não dispõem de acesso aos direitos sociais à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.16 direito a moradia e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado -.000 famílias. . estando atualmente composta por aproximadamente 5. tendo em vista que o direito à vida é matriz de todos os direitos fundamentais do homem. Utilizaremos para análise o caso da “invasão” Nova Vitória. ocupação esta que teve início em 2003. Tendo este trabalho como principal objetivo identificar de que forma as ocupações desordenadas em Manaus revelam injustiças ambientais. pela importância que a garantia de uma sadia qualidade de vida representa à população. A escolha do tema justifica-se. considerando que as ocupações são reflexos da violação dos direitos à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. será feita uma contextualização do processo de urbanização acelerada e a intensificação das ocupações desordenadas no Brasil e especificamente na cidade Manaus. localizada na Zona Leste da cidade de Manaus. em uma área de propriedade da Superintendência da Zona Franca de Manaus. que além de serem vítimas da exclusão social e econômica.

Curso de Direito Constitucional. 2. 2 O processo de formação e consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos partiu das premissas de que os direitos humanos são inerentes ao ser humano. 1 2 BONAVIDES. p. José Joaquim Gomes. costuma ser mais empregado por autores anglo-saxões e latinos. Coimbra: Almedina. direitos fundamentais são os direitos do homem. 2006. 560. intemporal e universal. como se fossem sinônimos. enquanto que a expressão “direitos fundamentais” é de uso preferencial entre os publicistas alemães1. 369.17 2 DIREITOS SOCIAIS NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988: DIREITO À MORADIA E AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO. Esclarece J. CANOTILHO. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Paulo. p. Segundo sua origem e significado poderíamos distinguilas da seguinte maneira: direitos do homem são direitos válidos para todos os povos e em todos os tempos (dimensão jusnaturalista-universalista). 1999. . Gomes Canotilho: As expressões “direitos do homem” e “direitos fundamentais” são frequentemente utilizadas como sinônimas.1 OS DIREITOS SOCIAIS COMO DIREITOS FUNDAMENTAIS Os termos “direitos fundamentais” e “direitos humanos” usualmente são utilizados de forma indiscriminada. os direitos fundamentais seriam os direitos objectivamente vigentes numa ordem jurídica concreta. J. Paulo Bonavides explica que este último termo. São Paulo: Malheiros. Os direitos do homem arrancariam da própria natureza humana e daí o seu caráter inviolável. e. “direitos humanos” ou “direitos do homem”. jurídico-institucionalmente garantidos e limitados espaico-temporalmente.

. sendo ampliados e modificados a cada nova conquista. os direitos históricos que o homem possui em face do Estado.. encontrar um conceito preciso. momento do surgimento do Direito Internacional de Proteção dos Direitos Humanos diversos países passaram a incorporar em seus textos constitucionais normas de proteção dos direitos humanos.. p. ed. 1997. antecedem todas as formas de organização política.. cada Estado consagra um rol de direitos fundamentais específicos. 4 BONAVIDES. Do ponto de vista material. Tratado Internacional dos Direitos Humanos.18 como tais. 19. A. em “A Era dos Direitos” destaca a dificuldade de se definir os direitos humanos. Norberto Bobbio. uma vez que resultam da evolução humana. p. Porto Alegre: S. qual foi o resultado? A maioria das definições são tautológicas (.. não se pode deixar de introduzir termos avaliativos: Direitos dos homens 3 TRINDADE. Fabris. Os direitos fundamentais são. São Paulo: Malheiros. e não sobre o seu conteúdo (.) Finalmente quando se acrescenta alguma referência ao conteúdo. se tentamos. a espécie de valores e princípios que a Constituição consagra. 2006. ponto de partida do processo de generalização da proteção internacional dos direitos humanos. pois acredita que: Direitos do homem é uma expressão muito vaga. como resposta à expansão de cada vez mais necessidades e carências. A partir da Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948. Ou nos dizem algo apenas sobre o estatuto desejado ou proposto para esses direitos. ou seja. Curso de Direito Constitucional. Já tentamos alguma vez defini-los? E. 59. Paulo. os direitos fundamentais variam conforme a ideologia. Antonio Augusto Cançado. Ou seja.). 561. a modalidade de Estado. na essência. vem se multiplicando os tratados e instrumentos de direitos humanos. 4 Vários doutrinadores atribuem diferentes conceitos aos direitos humanos fundamentais. 3 A partir de 1948. e de que sua proteção não se esgota na ação do Estado.

Derechos humanos. não existe qualquer relação de hierarquia entre estes direitos. de nada servindo um sem a existência dos outros. Madrid: Tecnos. p. Norberto. mesmo porque todos interagem entre si. etc. 1992. afirma: 5 BOBBIO. Antonio Enrique Perez. ou seja. 17. 7 SILVA. o fato de variarem ao longo do tempo e do espaço. segunda. A Era dos Direitos. terceira e quarta geração). define os direitos humanos como um “conjunto de faculdades e instituições que. ou para o desenvolvimento da civilização. ainda que se fale em gerações. Vale ressaltar que.19 são aqueles cujo reconhecimento é condição necessária para o aperfeiçoamento da pessoa humana. 50. 175. Cançado Trindade ao argumentar sobre a universalidade dos direitos humanos. 2005. estado de derecho y constitución. 1999. Daí porque alguns autores prefiram classifica-los em “dimensões” ao invés de “gerações”. São Paulo: Malheiros. em cada momento histórico. Rio de Janeiro: Campus. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. José Afonso. p. . 6 LUÑO. as quais devem ser reconhecidas positivamente pelos ordenamentos jurídicos em nível humano e internacional”. os direitos fundamentais foram sendo reconhecidos pelo ordenamento jurídico dos países de forma gradativa. Antonio Enrique Pérez Luño. Curso de direitos constitucional positivo. 6 José Afonso da Silva conceitua os direitos humanos fundamentais como o “conjunto institucionalizado de direitos e garantias do ser humano que tem por finalidade básica o respeito a sua dignidade. 7 Dada a sua historicidade. p. por meio de sua proteção contra o arbítrio do poder estatal e o estabelecimento de condições mínimas de vida e desenvolvimento da personalidade humana”. 5 Não obstante as dificuldades de se chegar a um conteúdo preciso da expressão direitos humanos. 14ª Tiragem. da liberdade e da igualdade. concretizam as exigências da dignidade. num processo que pode ser observado através de sua evolução em gerações (direitos fundamentais de primeira.

afasta-se a equivocada idéia de sucessão ´geracional´ de direitos. que foi um dos principais responsáveis pela sua divulgação. todos essencialmente complementarem em constante dinâmica de interação”. buscando. então me ocorreu de fazer alguma reflexão. metaforicamente. como já ocorreu na prática). 39. 8 A expressão "geração de direitos" tem sofrido várias críticas da doutrina nacional e estrangeira. Desaparece uma geração.. cumulação e fortalecimento dos direitos humanos consagrados. e afirmou que nem o próprio Vasak levou muito a sério a sua tese. concordando com o autor Cançado Trindade utilizarei neste trabalho o termo “dimensões” ao invés de “gerações”. em 25 de maio de 2000. (Palestra proferida durante o Seminário Direitos Humanos das Mulheres: A Proteção Internacional. terceira e de todas as gerações.htm). como. em 1979. Isto é. Cançado Trindade discorda da tese das “gerações de direitos”. O processo é de acumulação e não de sucessão. proferindo na aula inaugural no Curso do Instituto Internacional dos Direitos do Homem. é um rechaço à tese de gerações de direitos. p. e os novos direitos enriquecem os direitos anteriores".br/direitos/militantes/cancadotrindade/Cancado_Bob. utilizada pela doutrina mais moderna. eu não tinha tempo de preparar uma exposição. São Paulo:Max Limond. É certo que houve as declarações dos séculos XVII e XVI1I e a Revolução Francesa. É uma construção perigosa. os direitos anteriores não desaparecem. No mesmo entendimento PIOVESAN. 1998. Noberto Bobbio. quando surge um novo direito. comentou que perguntou pessoalmente para Karel Vasak por que ele teria desenvolvido aquela teoria. porque creio que o próprio direito fundamental à vida é de primeira. pegou. e parece-me que a doutrina brasileira parou por aí.dhnet. pela primeira vez. em meu entendimento. Porto Alegre:Livraria do Advogado. 8 O jurista Karel Vasak utilizou. Ingo Sarlet afirma que o uso do termo "geração" de direitos pode levar à falsa impressão da substituição gradativa de uma geração por outra. em Estraburgo. 2002. essa tese não corresponde à verdade histórica. O referido conceito se refere praticamente a gerações de seres humanos que se sucedem no tempo. a expressão "gerações de direitos do homem". . Ingo Wolfgang. O autor prefere o termo “dimensões” dos direitos fundamentais.org. todos essencialmente complementares e em constante interação. Cançado Trindade cita como exemplo: “o caso dos meninos de rua. É civil. na proteção internacional dos direitos humanos passa pela indivisibilidade e pela inter-relação de todos os direitos”. por exemplo. tendo respondido: "Ah. cumulação e fortalecimento dos direitos humanos. mas antes o da expansão. Em primeiro lugar. vem outra geração e assim sucessivamente.20 O fenômeno que testemunhamos em nossos dias. A eficácia dos direitos fundamentais. Há um processo de cumulação e de expansão do corpus juris dos direitos humanos. demonstrar a evolução dos direitos humanos com base no lema da revolução francesa liberdade. na medida em que se escolhe a idéia de expansão. Cançado Trindade questiona a Tese de Gerações de Direitos Humanos de Norberto Bobbio. durante uma palestra que proferiu em Brasília. Acesso em 22/07/2007 Disponível: http://www. Na minha concepção. econômico-social e cultural. 9 SARLET. 149-150 “(. O discurso de Vasak logo ganhou fama e outros juristas passaram a repeti-lo e até desenvolvê-lo. igualdade e fraternidade -. p. Afirma ainda. mas com ela interage. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. político. porque faz analogia com o conceito de gerações.. Flávia.) compartilha-se do entendimento de que uma geração de direitos não substitui a outra. e eu me lembrei da bandeira francesa". 9 Sendo assim. Os direitos se ampliam. não é o de uma fantasiosa e indemonstrável sucessão “generacional” de direitos (que poderia inclusive ser invocada para tentar justificar restrições indevidas ao exercício de alguns deles. segunda. como tudo que é palavra “chavão”. Antônio Augusto Cançado Trindade. Houve a revolução americana e depois a Declaração Universal. Cançado Trindade “creio que o futuro.

564. do qual não se podem separar. p. os primeiros a constarem do instrumento normativo constitucional. p. à expressão. à manifestação. Paulo Bonavides afirma que os direitos da segunda geração “são os direitos sociais. ao voto. entre outros. culturais e econômicos bem como os direitos coletivos ou de coletividades.) direitos que valorizam primeiro o homem-singular. à vida. da linguagem jurídica mais usual”. à propriedade. Curso de Direito Constitucional. que em grande parte correspondem.. Ibid. introduzidos no constitucionalismo das distintas formas de Estado social. Ibid. 2006. o homem da sociedade mecanicista que compõe a chamada sociedade civil. sob um prisma histórico. remetendo-se ao ideário de igualdade.21 Os direitos fundamentais de primeira dimensão são os direitos da liberdade.direitos dos indivíduos frente ao Estado como o direito à liberdade. 19. 12 Complementa o autor que os direitos de segunda dimensão estão ligados ao princípio da igualdade. pois fazê-lo equivaleria a desmembrálos da razão de ser que os ampara e estimula. depois germinaram por obra da ideologia e da reflexão antiliberal do século XX”. No momento histórico marcado pelo liberalismo (século XVIII). sendo “(. p. a saber. ou seja. 562. deu-se o surgimento e o desenvolvimento dos direitos fundamentais de primeira dimensão.. direitos que cuidam da proteção das liberdades públicas . São Paulo: Malheiros. o homem das liberdades abstratas. Paulo. àquela fase inaugural do constitucionalismo do Ocidente10. 10 11 12 BONAVIDES. 11 A segunda dimensão de direitos fundamentais teve sua origem nos movimentos sociais do século passado. os direitos civis e políticos. .. 564. Pode-se observar que os direitos fundamentais de primeira dimensão estão intimamente ligados ao ideal de liberdade. ed..

569. o direito de greve. Em seguida. Têm primeiro por destinatário o gênero humano mesmo. ao meio ambiente. o direito à informação e o direito ao pluralismo. 13 Há ainda autores que passam a identificar uma quarta geração de direitos.) Emergiram eles da reflexão sobre temas referentes ao desenvolvimento.. os direitos de terceira geração tendem a cristalizar-se no fim do século XX enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um indivíduo. O constitucionalista Paulo Bonavides defende que esta quarta geração de direitos fundamentais seria resultado da globalização dos direitos fundamentais. da humanidade e até mesmo das futuras gerações. de um grupo ou de um determinado Estado. através de lutas sociais e políticas.22 Os direitos fundamentais de segunda dimensão exigiram do Estado sua intervenção para que a liberdade do homem fosse protegida de forma efetiva (o direito ao bem estar social. à paz. sujeito a novas ampliações. 13 Ibid. p. Paulo Bonavides menciona que: Um novo pólo jurídico de alforria se acrescenta historicamente aos da liberdade e da igualdade. tendo como exemplos o direito à democracia. . Previstos na Constituição Federal de 1988. ainda que não reconhecida pela unanimidade dos doutrinadores. os direitos sociais são compreendidos como garantias alcançadas ao longo do tempo e da história. encontram-se os direitos de terceira dimensão. o direito à saúde. Ao comentar os direitos fundamentais de terceira geração. em uma tentativa de universalizá-los no campo institucional. ao trabalho. à educação.. que remetem à idéia da solidariedade voltada para a proteção de grupos indeterminados de pessoas. à comunicação e ao patrimônio comum da humanidade. entre outros). num momento expressivo de sua afirmação como valor supremo em termos de existencialidade concreta (. tornando assim o rol dos direitos sociais dinâmico e aberto. Dotados de altíssimo teor de humanismo e universalidade..

23 Os direitos sociais são uma das dimensões que os direitos fundamentais do homem podem assumir. como conseqüência do reforço da dominação do poder econômico sobre as massas de excluídos. p. Ingo Wolfgang. nº 1. 2001. Revista Diálogo Jurídico. Os direitos Fundamentais Sociais na Constituição de 1988. Disponível em :http://www. somados ao enfraquecimento do Estado. processo sentido maior grau nos países periféricos e em desenvolvimento. no que concerne a iguais oportunidades e efetivo exercício de direitos. especialmente quanto à sua efetivação”. têm gerado a diminuição da capacidade do poder público de assegurar aos particulares a efetiva fruição dos direitos fundamentais.1. Sendo assim. demarcando os princípios que viabilizarão a igualdade social e econômica. 14 O autor ressaltar ainda que os efeitos nefastos da globalização econômica e do neoliberalismo. Nos países marcados pela extrema desigualdade social. CAJ – Centro de Atualização Jurídica.direitopublico.com. 15 Ibid. a crise do Estado Social leva a existência de uma “crise dos direitos fundamentais”. como é o caso do Brasil. verifica-se uma situação em que até mesmo a noção de cidadania como “direito a ter direitos” econtra-se sob grave ameaça. Acessado em 05/08/2007. como afirma Ingo Sarlet “tais direitos nunca foram objeto de um reconhecimento consensual. além de sempre terem sido tratados de forma diferenciada. Seu objetivo é concretizar melhores condições de vida ao povo e aos trabalhadores. Além disso. É sem dúvida um avanço da nossa sociedade o reconhecimento dos direitos sociais. 7-9 .. Salvador. 15 14 SARLET.br. v. mas. notadamente os relacionados com o aumento da opressão sócio-econômica e da exclusão social. os impactos do processo de globalização econômica neoliberal geram a necessidade de elaborar formas de proteção dos direitos sociais no âmbito do constitucionalismo contemporâneo.

especialmente no seio das classes mais desfavorecidas. fenômeno este ligado diretamente ao aumento dos níveis de desemprego e subemprego. Dentre esses reflexos destaca Ingo Sarlet: a) a intensificação do processo de exclusão da cidadania. 17 16 17 Ibid. Dissertação (Doutorado apresentado ao Departamento de Filosofia e Teoria Geral do . levando a uma “crise dos direitos fundamentais”. a “flexibilização” dos direitos dos trabalhadores. Clarice Seixas.24 A opressão sócio-econômica tem gerado reflexos imediatos no âmbito dos direitos fundamentais. 09 DUARTE. que passam a encarar esses direitos como verdadeiros privilégios de certos grupos. inclusive nos países desenvolvidos. no mínimo. cujas sociedades são profundamente marcadas por altos índices de exclusão social. 16 Dessa feita.1 O regime jurídico aplicável aos direitos sociais na CF/88. 2. e manter o equilíbrio social. p.. O Direito Público subjetivo ao ensino fundamental na Constituição Federal Brasileira de 1988. pode-se constatar que existe atualmente uma total descrença nos direitos fundamentais sociais. especialmente nos países em desenvolvimento. cada vez mais agudo na economia globalizada de inspiração neoliberal. previdência e assistência social).1. c) ausência ou precariedade dos instrumentos jurídicos e de instâncias oficiais ou inoficiais capazes de controlar o processo. educação. Os direitos sociais surgiram com o objetivo de atenuar e corrigir injustiças sociais pelo estabelecimento de um sistema de proteção direcionado prioritariamente àqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. por parte da maioria da população excluída social e economicamente. moradia. assim como o corte ou. resolvendo os litígios dele oriundos. b) redução e até mesmo supressão de direitos sociais prestacionais básicos (saúde. agravando o problema da falta de efetividade dos direitos fundamentais e da própria ordem jurídica estatal.

A acelerada industrialização da sociedade. no Estado liberal do século XIX. p. ao complementar os direitos civis e políticos com os direitos econômicos e sociais. promulgada em 1919. 2003. p. a Sociedade e o indivíduo. foi instituidora da primeira república alemã. a melhor defesa da dignidade humana. tendo em vista que os direitos somente eram exercidos por alguns membros da coletividade. 20 BONAVIDES. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. subtraindo-se o seu reconhecimento e garantia à disponibilidade do legislador ordinário. nas Constituições. Curso de Direito Constitucional. até o final do século XX. . 38. Coimbra-Portugal. e a conseqüente ampliação e mudança de perfil do mercado de trabalho trouxeram novas demandas dessa parcela da sociedade excluída e marginalizada. ou seja. Paulo. A mudança da realidade social e econômica da sociedade no século XIX fez com que a mera garantia de direitos a serem exercidos contra o Estado não fosse mais suficiente para permitir a plena realização do indivíduo em seu ambiente social. 20 Complementa o autor que. (CANOTILHO. Editora Almedina:1993.25 A constitucionalização18 dos direitos sociais teve como marco a Constituição de Weimar19. ed. Direito Constitucional.231. José Joaquim Gomes. decorrente da Revolução Industrial. p. 19 A Constituição dita de Weimar. tendo representado. de 1919. sendo que para os menos favorecidos faltavam meios que permitissem adquirir tais prerrogativas. São Paulo. a Constituição disciplinava somente o poder estatal e os direitos individuais (direitos civis e direitos políticos) ao passo que hoje o Estado social do século XX regula uma esfera muito mais ampla: o poder estatal. Direito). 499). Segundo Paulo Bonavides. 2006. tendo sido elaborada e votada durante a grande guerra de 1914-1918. 18 Designa-se por constitucionalização a incorporação de direitos subjectivos do homem em normas formalmente básicas. 19. São Paulo: Malheiros. os direitos fundamentais como direitos clássicos da liberdade foram gerados por uma sociedade que detinha o monopólio ideológico dos princípios a serem gravados nas Declarações de Direitos.

26 A decadência do modelo do constitucionalismo clássico começou a tornar-se mais evidente no fim do século XIX e início do século XX. isto é. ao lado das liberdades públicas. São Paulo: Saraiva 2005. 232.. ed. A afirmação histórica dos direitos humanos. mas uma atividade positiva do Estado. vez que deu início a uma nova fase do constitucionalismo que é a fase do constitucionalismo social. ao comentar a estrutura da Constituição de Weimar. seguindo a linha da Constituição de Weimar. em decadência. representou um grande avanço no campo dos direitos sociais. Fábio Konder. COMPARATO. para que este viabilize a plena fruição. e o Estado social. A referida Constituição se voltou basicamente para a sociedade e não para o indivíduo. por todos os cidadãos. 22 A Constituição Brasileira de 1934. buscando reconciliar o Estado com a sociedade. impositivos de uma conduta ativa por parte do Estado. acrescentando às clássicas liberdades individuais os novos direitos de conteúdo social. Os direitos sociais. programas de ação governamental”. ressalta o seu caráter claramente dualista: a primeira parte tem por objeto a organização do Estado. 189-190. tendo sido o primeiro texto constitucional que efetivamente concretizou. ao trabalho. sendo que esse período é tido como marco do constitucionalismo social. dos direitos fundamentais de que são titulares. p. p. Fábio Konder Comparato. pois o direito à educação. pois buscou formas de equilibrar o conflito ideológico entre o Estado liberal. subordinando a ordem econômica ao princípio da justiça e da existência 21 22 Ibid. delineando um Estado intervencionista. A Constituição de Weimar representou decisiva influência sobre a evolução das instituições políticas em todo o Ocidente. A importância desse texto constitucional é notável. e outros do mesmo gênero só se realizam por meio de políticas públicas. afirma o autor. “têm por objeto não uma abstenção. . 4. enquanto a segunda parte apresenta a declaração dos direitos e deveres fundamentais. dispositivos expressos. em ascensão21. à saúde.

24 SILVA. Eficácia e Acionabilidade à luz da Constituição de 1988. Eficácia das Normas Constitucionais sobre Justiça Social. 25 MELLO. . 2002.ed. Ano XIV Janeiro/Junho. o que. conforme José Afonso da Silva: Prestações positivas estatais. que culminou com a promulgação da Constituição de 1988. Valem como pressuposto de gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real. enunciadas em normas constitucionais. o que já se fez presente na Constituição de 1946. p. 2006. Além de apresentar um extenso rol de direitos e garantias individuais (direitos civis e políticos). Complementa o autor.58. Celso Antônio Bandeira. por sua vez. afirmando que o Estado ultrapassa o papel anterior de simples árbitro da paz. direitos que tendem a realizar a igualização de situações desiguais. em seus textos. p. Mas foi com o processo de redemocratização do Brasil. 199. proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade. que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos.27 digna23. Poder Constituinte e Poder Popular (estudos sobre a Constituição). Curitiba: Juruá. São Paulo: Malheiros. os direitos econômicos e sociais dos indivíduos foram introduzidos no constitucionalismo brasileiro. Direitos Sociais.. 1981. 235. uma série de direitos econômicos. Por influência da Constituição de Weimar. 1. 2ªtir. Alessandra Gotti. A Constituição de Weimar influenciou a elaboração de Constituições por todo o mundo. após vinte anos de Ditadura Militar.1. In: Revista de Direito Público. da 23 BONTEMPO. Os direitos sociais constituem. os dispositivos pertinentes aos direitos econômicos e sociais. ainda. José Afonso da. sociais e culturais. a atual Carta consagra. Revista dos Tribunais. as quais passaram a sistematizar. p. a consagração dos direitos sociais retrata a ereção de barreiras defensivas do indivíduo perante a dominação econômica de outros indivíduos 25. 24 De acordo com Mello. que os direitos sociais fundamentais como um todo receberam maior destaque. ed.

da segurança. “direitos do homem como produtor”. o trabalho. estabelecendo. à comunicação social. . a Constituição de 1988 dedicou um Capítulo específico aos direitos sociais. todos disciplinados no Título VIII – Da Ordem Social. a segurança. p. afirma Ingo Sarlet. ineditamente. Os direitos fundamentais sociais. José Afonso da Silva sustenta que os direitos sociais poderiam ser classificados como direitos sociais do homem como produtor e como consumidor. teríamos a liberdade de instituição sindical. o lazer. a moradia26. à ciência e tecnologia. José Afonso da. 289. o igual acesso das crianças e adultos à instrução. ao meio ambiente e aos índios. um capítulo próprio destinado à seguridade social. a assistência aos desamparados na forma desta Constituição”. incluiu o direito a moradia no rol dos direitos sociais. Na segunda classificação. o direito de o trabalhador determinar as condições de seu trabalho. SILVA. São Paulo: Malheiros. “direitos sociais do homem consumidor”. de 14/02/2000. a proteção à maternidade e à infância. Além dos direitos sociais acima descritos. que estariam no título da ordem social27. em seu artigo 6º: “são direitos sociais a educação. o direito de cooperar na gestão da empresa e o direito de obter emprego. a saúde. 1998. na medida em que pretendem fornecer os recursos fáticos para uma efetiva fruição das liberdades. Pois bem. o direito à greve. passaram a ser entendidos como uma dimensão específica dos direitos fundamentais. o bem-estar coletivo. Direito Constitucional Positivo. à segurança social. a previdência social. Na primeira classificação. à formação profissional e à cultura e garantia ao desenvolvimento da família. a Constituição de 1988 previu. ao desenvolvimento intelectual. ele próprio. teríamos o direito à saúde.28 ordem. para assumir o escopo mais amplo e compreensivo de buscar. de tal sorte que têm por objetivo a 26 27 A Emenda Constitucional 26.

que apenas pode ser alcançada com a superação das desigualdades e não por meio de uma igualdade sem liberdade. objetiva-se atingir uma liberdade tendencialmente igual para todos. A eficácia e a aplicabilidade são conexos. já que a eficácia é encarada como potencialidade (a possibilidade de gerar efeitos jurídicos) e a aplicabilidade.direitopublico. Acessado em 05/08/2007. Ingo Sarlet entende que todas as normas relativas a direitos fundamentais são dotadas de um mínimo de eficácia 30 possível. parágrafo 1º. nº 1. destaca Sarlet que os direitos fundamentais sociais encontram-se protegidos não apenas contra o legislador ordinário. 5º. 18. revela que as normas de direitos e garantias fundamentais não mais se encontram na dependência de uma concretização pelo legislador infraconstitucional. (Ibid. para que possam vir a gerar plenitude de seus efeitos. Revista Diálogo Jurídico. efeitos reforçados relativamente às demais normas constitucionais.29 garantia de uma igualdade e liberdade reais.br. O legislador da constituinte outorgou às normas de direitos fundamentais sociais uma normatividade reforçada. com a presunção de norma pronta. Além disso. 29 30 Ibid. como realizabilidade. e de modo especial. O constituinte pretendeu evitar um esvaziamento dos direitos fundamentais. p. que apenas podem ser alcançadas pela compensação das desigualdades sociais. Disponível em :http://www. outorgando-lhes. perfeita e auto-suficiente.1. Ingo Wolfgang. 28 Destaca Jorge Miranda que por meio dos direitos sociais. Isso significa uma exeqüibilidade instantânea derivada da própria constituição. exigibilidade ou executoriedade da norma. como possibilidade de sua aplicação jurídica. da Constituição Federal de 1988. razão pela qual eficácia e aplicabilidade podem ser tidas como as duas faces da mesma moeda. mas 28 MIRANDA. José Afonso da Silva. 25) . 29 O art. acabada. impedindo que os mesmos “permaneçam letra morta na Constituição”. apude Sarlet. Os direitos Fundamentais Sociais na Constituição de 1988.. dispõe que “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. afirma que a eficácia diz respeito à aplicabilidade. v.com. CAJ – Centro de Atualização Jurídica. nesse sentido. apud SARLET. 2001. Salvador.

32 Diante as interpretações divergentes de vários doutrinadores sobre a eficácia dos direitos fundamentais sociais. Revista Diálogo Jurídico. ou não. são de eficácia limitada e aplicabilidade indireta. Algumas considerações em torno do conteúdo. nº 10. as normas de direitos fundamentais não podem mais ser considerados meros enunciados sem força normativa. Os direitos Fundamentais Sociais na Constituição de 1988. do art.br. apresenta um caráter de 31 SARLET. nº 1. as normas que consubstanciam os direitos fundamentais democráticos e individuais são de aplicabilidade imediata. admitindo. dadas as circunstâncias.br. o qual afirma que mesmo contrariamente ao que propugna boa parte da doutrina.adv. ser objeto de concretização. inciso IV. da CF. 31 Já o autor José Afonso da Silva afirma que a própria Constituição faz depender de legislação ulterior a aplicabilidade de algumas normas definidoras de direitos sociais e coletivos. Por regra. Disponível em :http://www. CAJ – Centro de Atualização Jurídica.direitopublico. do legislador. 33 De acordo com Sarlet a norma contida no parágrafo 1º do artigo 5º da CF/88. dependendo única e exclusivamente da boa vontade do poder público.30 até mesmo contra a ação do poder constituinte reformador. Garantias Econômicas. Revista Diálogo Jurídico. eficácia e efetividade do direito à saúde na constituição de 1988.com. Políticas e Jurídicas da Eficácia dos Direitos Sociais. enquanto as que definem os direitos sociais tendem a sê-lo também na Constituição vigente. 33 SARLET. Salvador. O autor afirma ainda que.br/html/artigos/documentos/texto110. especialmente as que mencionam uma lei integradora. mas algumas. Acessado em 05/08/2007.mundojuridico. em especial.direitopublico. janeiro de 2002. CAJ – Centro de Atualização Jurídica. v.com. aplicável a todos os direitos fundamentais – inclusive aos direitos sociais -. já que integram o rol das “clausulas pétreas”.htm. Disponível em http://www. alguma relativização. parágrafo 4º. 2001. limitados a proclamações de boas intenções e veiculando projetos que poderão. tal postulado – o princípio que impõe a maximização da eficácia e efetividade de todos os direitos fundamentais – não implica em desconsiderar as peculiaridades de determinadas normas de direitos fundamentais. Acesso em 11/06/2006. 60. Disponível em :http://www. Salvador. Ingo Wolfgang. optamos pelo posicionamento de Ingo Sarlet. Ingo Wolfgang. Acessado em 05/08/2007. . José Afonso da. 32 SILVA.1.

Disponível em: http://www. São Paulo: Saraiva. ou dos tratados internacionais de que a República Federativa do Brasil seja parte”. 35 34 PIOVESAN. Vale dizer. 2006. 35 Sarlet classifica os direitos fundamentais em dois grandes blocos: os positivados e os não-positivados. nº 1. Salvador. Verifica-se nesse dispositivo a possibilidade da existência de outros direitos e garantias fundamentais inseridos ao longo de todo o texto constitucional. prevendo um regime jurídico específico endereçado a tais direitos. da CF. Ingo Wolfgang. .direitopublico. 1º ao 4º). e passarem a ter aplicabilidade imediata no direito interno. CAJ – Centro de Atualização Jurídica. está disposto que: “os direitos e garantias expressos nesta constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. Os direitos Fundamentais Sociais na Constituição de 1988. Flávia.com. No primeiro estariam inseridos os direitos expressos na Constituição Federal e os expressos em tratados.br. objetiva tornar tais direitos e prerrogativas diretamente aplicáveis pelos Poderes Legislativo. liberdades e garantias fundamentais.31 norma-princípio que se constitui em uma espécie de mandado de otimização. Já no segundo bloco estariam implícitos (posições fundamentais subentendidas nas normas definidoras de direitos e garantias fundamentais) e os decorrentes do regime e dos princípios (que se referem às disposições contidas no Título I – do art. (SARLET. como também o fato de os direitos e garantias decorrentes de tratados internacionais receberem o mesmo tratamento dos direitos fundamentais. parágrafo 2º. 34 Ainda no art. Revista Diálogo Jurídico. Nesse mesmo sentido. 5º. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. impondo aos órgãos estatais a tarefa de reconhecerem e imprimirem às normas de direitos e garantias fundamentais a maior eficácia e efetividade possível. destaca Flavia Piovesan ao tratar da aplicação imediata das normas definidoras de direitos e garantias fundamentais: Este princípio realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. Executivo e Judiciário. 59. cabe aos Poderes Públicos conferir eficácia máxima e imediata a todo e qualquer preceito definidor de direito e garantia fundamental. Este princípio intenta assegurar a força dirigente e vinculante dos direitos e garantias de cunho fundamental. ou seja. p. 2001. Acessado em 05/08/2007).1. v.

por força da natureza materializante aberta dos direitos fundamentais. Afirma ainda o autor: O critério da primazia da norma mais favorável às pessoas protegidas. incluindo-os no elenco dos direitos constitucionalmente garantidos. os direitos enunciados em tratados internacionais e proteção dos direitos humanos detêm natureza de norma constitucional. a Constituição Federal de 1988 atribui aos direitos enunciados em tratados internacionais uma hierarquia de norma constitucional. pois do aparato de proteção existente. Os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano e não têm como objeto a proteção de prerrogativas do Estado. contribui em primeiro lugar para reduzir ou minimizar consideravelmente as pretensas possibilidades de “conflitos” entre instrumentos legais em seus aspectos normativos. 2003. A autora ressaltar que. III. para obter maior coordenação entre tais instrumentos em dimensão tanto vertical (tratados e instrumentos de direito interno). num caso concreto. enquanto os demais tratados internacionais têm força hierárquica infraconstitucional. Temas de Direitos Humanos. A autora afirma que por força do art. na opinião da autora justificaria a força hierárquica diferenciada dos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. Cançado Trindade afirma que os diversos sistemas de proteção de direitos humanos interagem em benefício dos indivíduos protegidos. nos termos do art. 36 Nesse sentido. “b” da CF. 45-47. Contribui em segundo lugar. Flávia. que apresentam aplicabilidade imediata. parágrafos 1º e 2º. é possível utilizar. aquele que melhor proteja a dignidade do ser humano. . p.32 Vale ressaltar o posicionamento defendido pela autora Flávia Piovesan em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados em tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte. Já os tratados internacionais comuns buscam o equilíbrio e a reciprocidade de relações entre Estados-partes. 5º. consagrado expressamente em tantos tratados de direitos humanos. quando horizontal (dois ou 36 PIOVESAN. São Paulo: Max Limond. 102. Essa distinção.

54-55 . assim expresso: “não se admitirá qualquer restrição ou suspensão dos direitos humanos fundamentais reconhecidos ou vigentes em qualquer Estado-parte no presente Pacto em virtude de leis.) Contribui.. o parágrafo 3º do art. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. por três quintos dos votos dos respectivos membros. 37 38 Ibid. em dois turnos. p. sob pretexto de que o presente Pacto não os reconheça em menor grau”. Sociais e Culturais. regulamento ou costumes. como pode ser observado no artigo 5º (2) do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e no art. 5º.33 mais tratados). dispondo: “os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados.. somar e fortalecer. em cada Casa do Congresso Nacional. A Constituição Federal de 1988 assume expressamente os direitos provenientes dos tratados e convenções internacionais dos quais o Brasil se obriga. convenções. p.. 38 De acordo com Alessandra Bontempo o princípio da primazia ou prevalência da norma mais benéfica à proteção dos direitos humanos é consagrado nos instrumentos internacionais. adota-se o critério da norma mais favorável à vítima. Ibid. E através da Emenda Constitucional nº 45. de 2004. para demonstrar que a tendência e o propósito da coexistência de distintos instrumentos jurídicos – garantindo os mesmos direitos – são no sentido de ampliar e fortalecer a proteção. em terceiro lugar. 37 Em síntese. serão equivalentes às emendas constitucionais”. Os direitos internacionais constantes dos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar. foi acrescentado no seu texto. 5º (2) do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. 41. nunca a restringir ou debilitar.. na hipótese de eventual conflito entre o Direito Internacional dos Direitos Humanos e o Direito interno. (.

o maior problema hoje não está no campo da declaração de direitos. fruto dos direitos expressamente previstos em nossa. eles sejam continuamente violados. 39 Trataremos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Não se trata de saber quais e quantos são esses direitos. absolutos ou relativos. . 1992. se são direitos naturais ou históricos. mas jurídico e. (. apesar das solenes declarações. no próximo capítulo. mas político.) Com efeito. político. A Era dos Direitos.34 O catálogo de direitos fundamentais. 2. o problema que temos diante de nós não é filosófico. Norberto Bobbio defende que o principal desafio relativo aos direitos do homem encontra-se no campo de sua efetividade: O problema fundamental em relação aos direitos do homem. p. Norberto. qual a sua natureza e seu funcionamento.2 O DIREITO À MORADIA COMO UM DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL DE NATUREZA SOCIAL 39 BOBBIO. para impedir que. de dois direitos sociais específicos: o direito a moradia e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. nos documentos internacionais incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro e aqueles decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados é bastante extenso. Rio de Janeiro: Campus. analisarmos alguns problemas práticos à sua efetivação. Constituição. mas na sua concretização. num sentido mais amplo. 24-25. Assim. 14ª Tiragem. verificando os principiais aspectos teóricos relativos à sua proteção jurídica para. Trata-se de um problema não filosófico... não é tanto o de justificá-los. mas sim qual é o modo mais seguro para garantilos. mais o de protegê-los. a partir de agora.

35 2. O direito à moradia é reconhecido como um direito humano em diversas declarações e tratados internacionais dos quais o Estado Brasileiro é parte. Acessado em 25/10/06. p. Os cidadãos brasileiros são titulares desse direito e.doc.05. Nelson. Nelson Saule Jr. como tais.unhabitat. estão aptos a exigirem sua promoção e o seu cumprimento junto aos organismos nacionais e internacionais de proteção40. As Declarações resultam em compromissos políticos. 1999. o direito à moradia como um direito humano necessário e indispensável para uma existência digna. São Paulo: Max Limond. Instituto Polis. 73. Disponível em: http:www.20.1 Os instrumentos normativos internacionais que reconhecem o direito à moradia como um direito humano O direito à moradia é um direito humano protegido pela Constituição Brasileira e pelos instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos. isto é. que não têm natureza vinculante para os Estados.Analisis%20Brasil%202003. 41 40 SAULE Jr. afirma que as Declarações são estabelecidas por resoluções que não acarretam obrigações legais aos países signatários.org/downloads/docs/2649 61742 03.Direito à moradia no Brasil. Nos tratados e convenções. pelo contrário. faz-se necessário diferenciar. . Nelson. os efeitos que as declarações e os tratados e convenções internacionais possuem. 41 SAULE Jr. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. Relatório Nacional da Plataforma Brasileira dos DhESC. no aspecto jurídico..2. os compromissos assumidos pelos países têm natureza vinculante. acarretando obrigações e responsabilidades ao Estado pela falta de cumprimento das obrigações assumidas. Antes de analisarmos os principais documentos que reconhecem. tem força legal. em seus textos.

. São Paulo: Saraiva. sob pena de invalidação. Feita estas considerações preliminares analisaremos a seguir a proteção do direito à moradia no aparato internacional de proteção aos direitos fundamentais.36 Uma particularidade relativa aos direitos enunciados em tratados internacionais de proteção dos direitos humanos incorporados pelo ordenamento jurídico brasileiro é o seu status de norma constitucional. dos quais o Brasil seja signatário. p. por outro. passando a ser um direito integrado e positivado no direito brasileiro. 99. Destaca ainda. por força do princípio consagrado no parágrafo 1º do artigo 5º da CF de 1988. Flávia. em razão do Estado Brasileiro ser parte dos pactos e convenções internacionais. integrando e complementando o catálogo dos direitos e garantias previstos na Constituição de 1988. permite ao particular a invocação direta dos direitos e liberdades internacionalmente assegurados e. proíbe condutas e atos violadores a estes mesmos direitos. sem a necessidade de edição de ato com força de lei. essa incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo Direito brasileiro traz como conseqüências: de um lado. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. consequentemente. De acordo com o entendimento de Flavia Piovesan. voltado à outorga de vigência interna aos acordos internacionais. 42 Os tratados internacionais de direitos humanos fundamentam reconhecem o direito à moradia como um direito humano. Carta das Nações Unidas 42 PIOVESAN. a autora que. 2006. torna-se possível a invocação imediata de tratados e convenções de direitos humanos. Sendo que. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a vigência. a partir da entrada em vigor do tratado internacional.

org. dando prioridade ao estabelecimento das condições necessárias para a efetivação da justiça e o respeito às obrigações decorrentes da assinatura dos tratados internacionais. inaugurando-se um novo modelo de relações internacionais. Acessado em 10/05/2007. sendo ratificada em 21 de setembro de 1945 pelo Brasil. Podendo http://dhnet. que por duas vezes. RESOLVEMOS preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra. entrando em vigor no dia 24 de outubro daquele mesmo ano. A Carta da ONU é um importante documento deste século no tocante à matéria do reconhecimento e preservação dos direitos fundamentais do indivíduo do mundo pós-guerra. A partir da Carta da ONU. NÓS. na igualdade de direitos dos homens e das mulheres. em 26 de junho de 1945.br/direitos/sip/onu/doc/cartonu. momento em que era preciso evitar que atrocidades ocorridas durante a guerra se repetissem. assim como das nações grandes e pequenas e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos.htm. trouxe sofrimentos indivisíveis à humanidade. garantindo que as gerações vindouras não sofressem seus efeitos. na dignidade e no valor do ser humano. e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem. processou-se uma onda de transformações no Direito Internacional. A Carta também garante as condições necessárias ao progresso social e 43 Preâmbulo da Carta das Nações Unidas. realizada em São Francisco. ser consultado em . 43 A Carta da ONU contém as principais disposições com relação à manutenção da paz e segurança internacionais. e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla . no espaço da nossa vida.37 A Carta das Nações Unidas foi assinada por representantes de 50 países na Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional. OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS.

do direito à moradia como um direito humano fundamental. A Carta da ONU é um documento de extrema importância na proteção do direito à moradia no Brasil.. na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos do homem e da mulher.”. enfatizando a defesa dos direitos humanos e das liberdades pessoais. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. São Paulo/2005. como último recurso. e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla.à rebelião contra a tirania e a opressão. Considerando ser essencial que os direitos do homem sejam protegidos pelo império da lei. Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram. foi redigida sob o impacto das 44 COMPARATO. sua fé nos direitos fundamentais do homem.. A Declaração Universal é uma das principais conquistas das Nações Unidas no campo dos direitos humanos. A afirmação histórica dos direitos humanos. Fábio Konder. em seu texto. definiu uma estrutura internacional de proteção dos direitos humanos ligados à proteção dos direitos sociais. 4 ed. Preâmbulo . em 10 de dezembro de 1948. 232 45 Declaração Universal dos Direitos Humanos. Saraiva. pela aprovação unânime de 48 Estados. Declaração Universal dos direitos humanos A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada pela Assembléia Geral da ONU. na Carta.Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade. Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos do homem resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra. da justiça e da paz do mundo. 44 De acordo com Fábio Konder Comparato. pois. tendo sido proclamada “como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações. apesar de não ter tratado expressamente. como se percebe da leitura de seu preâmbulo45. de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum. para que o homem não seja compelido. Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a promover.38 melhorias nas condições de vida. em cooperação . Considerando ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações. p. utilizando-se da cooperação internacional. A criação da ONU teve como um de seus objetivos instituir a cooperação internacional para solucionar os problemas que afetavam a todos. com 8 abstenções.

Bobbio. A Declaração Universal dos Direitos Humanos. pode-se afirmar que a pessoa humana somente terá um padrão de vida adequado se os direitos à alimentação. da liberdade e da solidariedade entre os homens. (NORBERTO. fonte inspiradora do sistema de proteção internacional dos direitos humanos. cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis. 47 48 Ibid. que dispõe sobre o direito a um padrão de vida adequado47: 1. em âmbito universal.. toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar. enfim.. saúde e seguridade forem assegurados e respeitados. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. inclusive alimentação. Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso. doença.222). representou a manifestação histórica de que se formara. velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. o respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais do homem e a observância desses direitos e liberdades. p. ressalta que a Declaração Universal não esgota e não elenca todos os direitos humanos48. Sendo assim.todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. à moradia. o direito à segurança em caso de desemprego. (Ibid. habitação. retomando os ideais da Revolução Francesa.) 46 Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos. como ficou consignado em seu artigo I46. A Era .222. com base no artigo XXV. A Declaração. 231. numa época que tivera início com a Revolução Francesa e desembocara na Revolução Soviética”. vestuário. viuvez. p. tal qual se configurava na mente dos redatores da Declaração após a tragédia da Segunda Guerra Mundial.39 atrocidades cometidas durante a 2ª Guerra Mundial.. ao vestuário. p. (Ibid. invalidez. artigo I . Norberto Bobbio afirma que “os direitos elencados na Declaração não são os únicos e possíveis direitos do homem: são os direitos do homem histórico. pois esses direitos foram constituídos num momento histórico da com as Nações Unidas. o reconhecimento dos valores supremos da igualdade. Nelson Saule Jr. reconhece o direito à moradia como um direito humano.

Assegura o autor que o direito ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado e o direito ao desenvolvimento sustentável. 1992. 1999. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. embora não preconizados na Declaração Universal. 33).. 75 . Nelson. sociais e culturais é o principal documento de proteção aos direitos sociais no âmbito da ONU – Organização das Nações Unidas. p. acima referido. p. Instituto Polis. em que se buscava recuperar um período de paz. 49 SAULE Jr. O processo de especificação e de aperfeiçoamento dos direitos estabelecidos na Declaração Universal tem como marco os Pactos Internacionais de direitos civis e políticos e dos Direitos. Rio de Janeiro. São Paulo: Max Limond. 50 Ibid. telefonia. p. coleta de lixo.40 humanidade. sadia e dotada de infra-estrutura e serviços públicos urbanos (água. iluminação pública. Editora Campus.75. são exemplos de direitos humanos que se constituíram face às transformações econômicas e sociais das últimas décadas50. Pacto Internacional dos direitos econômicos. esgoto. com o final da Segunda Guerra Mundial49. sociais e culturais O Pacto Internacional dos direitos econômicos. O direito à moradia está incluído no rol dos direitos sociais e tem por objetivo garantir a todo ser humano o direito a uma moradia adequada.. varrição. Tal aspecto só comprova o caráter histórico dos direitos humanos. transporte. etc). Daí porque não foram reconhecidos naquele momento. drenagem.

52 Declaração Universal dos Direitos Humanos. 51 PIOVESAN. XXV . Flávia.1. O Pacto criou obrigações legais aos Estados-partes. velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. ambos instituídos pelas Nações Unidas em 1966. . passam a ter tratamento específico e força vinculante para os Estados signatários do documento. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. Art. cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis.Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar. da Declaração Universal52. sociais e culturais. 2006. os direitos previstos no artigo XXV. 51 Através do Pacto Internacional dos direitos econômicos. e direito à segurança em caso de desemprego.168. doença. reconhecendo. viuvez. a si e a sua família. São Paulo: Saraiva. inclusive à alimentação. inclusive alimentação. neste sentido. vestimenta e moradia adequadas. habitação. O Pacto Internacional dos direitos econômicos. invalidez. O direito à moradia encontra-se expressamente reconhecido como um direito humano no artigo 11 do Pacto. assim como uma melhoria contínua de suas condições de vida. vestuário. que estabelece: 1. a importância essencial da cooperação internacional fundada no livre consentimento. tendo sido ratificados pelo Brasil em 24 de janeiro de 1992. p. saúde e bem-estar.41 o Pacto dos direitos econômicos. e com entrada em vigor em 03 de janeiro de 1976. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa a um nível de vida adequado para si próprio e sua família. ensejando responsabilização internacional em caso de violação dos direitos que enuncia. Os Estados Partes tomarão medidas apropriadas para assegurar a consecução desse direito. sociais e culturais. sociais e cultural teve como objetivo incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes.

Os Estados Partes têm a obrigação legal de instituir organismos e instrumentos para a promoção de políticas públicas de modo a tornar pleno o exercício desses direitos53.54 53 SAULE Jr. Instituto Polis. isoladamente e por meio da assistência e cooperação internacional. 2º. São Paulo: Max Limond. 2006. tanto por esforço próprio como pela assistência e cooperação internacional. De acordo com Flávia Piovesan os direitos sociais. p.77. significa que os Estados devem tomar medidas. sociais e culturais. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. programas e planos visando a realização contínua e gradual. implementar políticas. sob pena de descumprir e desrespeitar os compromissos que legalmente assumiram perante a comunidade internacional. que visem progressivamente. mas os Estado se obrigam meramente a adotar medidas. nos termos que estão concebidos pelo Pacto (art. Flávia. . p. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. que tem por obrigação adotar medidas econômicas e técnicas. 1999. parágrafo 1º). Destaca o autor que os Estados não podem se isentar das obrigações imediatas e responsabilidades decorrentes do Pacto. cada Estado Parte compromete-se a adotar medidas. De acordo com Nelson Saule Junior. são direitos que estão condicionados à atuação do Estado. do Pacto. até o máximo de recursos disponíveis. Nelson. até o máximo de seus recursos disponíveis com vistas a alcançar progressivamente a completa realização dos direitos previstos pelo Pacto. Os Estados-partes não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. econômicos e culturais. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos. São Paulo: Saraiva. ou seja. sempre no sentido ascendente desses direitos. a adoção do termo “progressivamente” no Pacto Internacional de direitos econômicos.169-172.42 No artigo 2º.. apresentam realização progressiva. o pleno exercício dos direitos reconhecidos no Pacto. 54 PIOVESAN.

considerando que não podem ser implementados sem que exista um mínimo de recursos econômicos disponível e principalmente não podem ser implementados sem que representem efetivamente uma prioridade na agenda política nacional. criar instrumentos. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos.43 Sendo assim. item 09. tendo alcançado um certo nível de proteção dos respectivos direitos. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. 56 Conforme a Recomendação Geral nº 03. Sociais e Culturais e no contexto da utilização do máximo dos recursos disponíveis”. proteger e implementar tais direitos”. cabendo aos Estados o dever de respeitar. p. o núcleo essencial mínimo relativamente a cada direito enunciado do Pacto. ao menos. programas e planos de ação sobre política habitacional de modo a garantir esse direito para os seus cidadãos55. de elaborar uma legislação. (Ibid. Os direitos garantidos pelo Pacto são aplicação progressiva. cabe ao Estado adotar medidas até o máximo de seus recados disponíveis (art. não pode retroceder e baixar o padrão de 55 56 Ibid.. Sociais e Culturais: “qualquer medida deliberadamente regressiva requer a mais minuciosa consideração e deverá ser completamente justificada em relação ao total dos direitos previstos no Pacto Internacional de Proteção dos Direitos Econômicos. 2º). o que significa o dever de executar avanços concretos em prazos determinados. Dessa obrigação da progressividade na implementação dos direitos sociais. Assim.. o Estado Brasileiro tem a obrigação. econômicos e culturais decorre a chamada “cláusula de proibição do retrocesso social”. 78 “O Comitê de Direitos Econômicos. 171) . ou seja. p. no que diz respeito ao direito à moradia. Clarice Duarte destaca que a noção de progressividade dos direitos sociais não pode ser confundia com a possibilidade de sua não aplicação: De acordo com o que está previsto no próprio Pacto. a progressividade cria um empecilho ao retrocesso da política social do Estado que. do Comitê sobre os Direitos Econômicos. a cláusula proíbe o retrocesso ou a redução de políticas públicas voltadas à garantia de tais direitos.

57 Comparato afirma que os direitos declarados pelo Pacto de direitos econômicos. No entanto. sociais e culturais. p. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. a não realização de um deles compromete a realização de todos os outros. Dissertação (Doutorado apresentado ao Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito). têm por objeto políticas públicas ou programas de ação governamental e políticas públicas coordenadas entre si. econômicos e culturais são acionáveis e demandam séria e responsável observância. 334. São Paulo: Saraiva. O fato de terem por objeto a realização de políticas públicas torna a acionabilidade dos direitos sociais questionável para alguns autores. um programa conjunto de medidas governamentais no campo do trabalho. A afirmação histórica dos direitos humanos. já que a cláusula do não retrocesso social protege o núcleo essencial dos direitos sociais. São Paulo: Saraiva. 58 COMPARATO. De acordo com Flavia Piovesan. São Paulo. Complementa o autor que a elevação do nível e da qualidade de vida das populações carentes supõe. 2005. A autora afirma ainda que a violação dos direitos sociais. O Direito Público subjetivo ao ensino fundamental na Constituição Federal Brasileira de 1988. econômicos e culturais é um problema de ação e prioridade governamentais e implementação de políticas públicas. da educação e da habitação popular58. no mínimo. a comunidade internacional continua a tolerar freqüentes violações aos direitos sociais. Fábio Konder.44 vida da comunidade. 175-176.61. Direitos Humanos e o direito Constitucional internacional. p. Clarice Seixas. 2003. 59 57 DUARTE. Flávia. Sendo que a violação a esses direitos é resultado tanto da ausência de forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. . os direitos fundamentais sociais. 2006. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. da saúde. p. 4 ed. da previdência social. Por serem interdependentes esses objetos sociais. econômicos e culturais. 59 PIOVESAN.

celebrada no Rio de Janeiro. tendo sido difundido como novo paradigma na conferência mundial sobre a conservação e o desenvolvimento sustentável eqüitativo. O mito do desenvolvimento sustentável: Meio ambiente e custos sociais do moderno sistema produtor de mercadorias. Gilberto. tendo como objetivo regulamentar o processo de desenvolvimento com base nos princípios de sustentabilidade. (. à exclusão de vastas parcelas da sociedade dos benefícios do progresso e a consolidação de profundas desigualdades sociais e econômicas. da UFSC.. Além disso. Agenda 21 A Agenda 21 foi elaborada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade. realizada no Canadá. 177) 61 A partir da década de 1980 difundiu-se o termo desenvolvimento sustentável. 60 A globalização econômica está associada. Florianópolis: Ed. de 1987. satisfazer as necessidades humanas fundamentais. inclusive no Brasil. estabilidade e paz não podem conviver com condições de pobreza crônica. essa insatisfação criará grandes e renovadas escalas de movimentos de pessoas. p.. incluindo fluxos adicionais de refugiados e migrantes. 47-48). .) Direitos sociais. à supressão de conquistas sociais. 2001. tendo como princípios: integrar conservação da natureza e desenvolvimento.45 Com efeito. sociais e culturais pouco lograrão sem modificações profundas nas sociedades nacionais. p. retoma o conceito de desenvolvimento sustentável. denominados ´refugiados econômicos´. Social and Cultural Rights. 61 60 Flavia Piovesan destaca o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Comnittee on Economic. dando-lhe a seguinte definição: desenvolvimento que responde às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades. (Ibid. para que todos possam se beneficiar do progresso social. e perseguir equidade e justiça social. O Relatório Brundtland. ditadas pelos imperativos da justiça social. Os mecanismos internacionais de proteção dos direitos econômicos. da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. miséria e negligência. em junho de 1992. (MONTIBELLER FILHO. em 1986. democracia. com todas as suas tragédias e problemas.

como o item 6 . Este mesmo item estabelece que o direito à moradia é um direito humano básico. psicológico e físico da pessoa humana e deve ser parte fundamental das ações de âmbito nacional e internacional”. sobretudo da mídia. Agenda Habitat . principalmente através das ONGs. A participação ativa da sociedade civil nessas Conferências Mundiais. A Agenda não está sendo muito utilizada devido a pouca ou nenhuma implementação de ações voltadas a efetiva defesa ambiental. e estima que pelo menos um bilhão de pessoas não tem acesso a uma habitação sadia e segura. é essencial para o bem-estar econômico. Infelizmente uma das maiores críticas à Agenda 21 relaciona-se com o seu caráter genérico e às dificuldades de implementação prática. As Conferências Mundiais têm proporcionado grande mobilização. pois não obriga as Nações signatárias. social. A Agenda 21 transformou-se em instrumento de referência e mobilização para a mudança do modelo de desenvolvimento em direção de sociedades cada vez mais sustentáveis. e no Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Sociais e Culturais.46 No capítulo 7 da Agenda 21. estão expresso itens referentes ao direito à moradia. mas é um documento ético que se reduz a um compromisso por parte deles. que está inserido na Declaração Universal de Direitos Humanos. e movimentos sociais. mas político. A Agenda 21 não é um documento normativo. sendo assim. não é um documento técnico.“O acesso a uma habitação sadia e segura. A previsão do direito à moradia num documento que tem como objeto primário a proteção do meio ambiente demonstra a relação de profunda interdependência entre esses dois direitos. tem contribuído para pressionar as Nações Unidas e os Estados a assumirem as agendas da sociedade.

civis. a Convenção sobre todas as Formas de Discriminação contra a Mulher e a Convenção sobre os Direitos da Criança. A Agenda estabelece um conjunto de princípios e metas que vão nortear esses dois objetivos. dotada dos serviços básicos. No preâmbulo da Agenda é reconhecido o acesso à habitação sadia e segura. Os compromissos sobre a Adequada Habitação para Todos estão expressos no Capítulo III. social e econômico das pessoas. como condição essencial para uma vida digna e para o bem estar físico. Sociais e Culturais. como segue: . econômicos. O direito à moradia encontra-se expresso no capítulo II. O direito à moradia foi o principal tema e objeto de debates e de negociações entre os países e organizações não governamentais presentes na Conferência do Habitat II. tendo como objetivos principais: instituir padrões de habitação adequada para todos. e provido pelo Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. parágrafo 13. que dispõe: Nós reafirmamos e somos guiados pelos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e nós reafirmamos nosso compromisso de assegurar a plena realização dos direitos humanos a partir dos instrumentos internacionais. e o desenvolvimento sustentável em um mundo em urbanização. psicológico. interdependentes e inter-relacionados. políticos e sociais são universais. Nós reafirmamos que todos os direitos humanos. que foi realizada em Istambul. em particular nesse contexto o direito à moradia disposta na Declaração Universal dos Direitos Humanos. levando em conta que o direito à moradia incluído nos instrumentos internacionais acima mencionados deve ser realizado progressivamente. indivisíveis. em junho de 1996. culturais.47 A Agenda Habitat foi adotada pela Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos – Habitat II. a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. tendo sido o direito à moradia reconhecido no parágrafo 24.

94). Nós devemos implementar e promover este objetivo de maneira plenamente consistente com as normas de direitos humanos.revisão de legislações e instrumentos de modo a eliminar normas que acarretem algum tipo de restrição e discriminação sobre o exercício do direito à moradia. nós reconhecemos a obrigação dos governos de capacitar as pessoas para obter habitação e proteger e melhorar as moradias e vizinhanças. Instituto Polis. . provido por instrumentos internacionais. proteger e assegurar a plena e progressiva realização do direito à moradia62. o direito à moradia é reconhecido como um direito humano. mediante ações e processos judiciais eficazes destinados a proteção do direito à moradia. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. De acordo com o parágrafo 44. pelo qual todos terão adequada habitação.. as prestações e ações constitutivas desse direito. do Capitulo IV. p. saneamento e tratamento de resíduos. Nelson. que inclui serviços básicos.48 Reafirmamos nosso compromisso para a plena e progressiva realização do direito à moradia. acessibilidade física. sadia. . que pode gerar a inconstitucionalidade por omissão. A realização progressiva como obrigação.adoção de instrumentos financeiros. iluminação. . suprimento de água. . São Paulo: Max Limond. o direito de acesso à Justiça. que “essa obrigação de tornar efetivo o direito à moradia. ventilação e aquecimento.a constituição de um sistema nacional de habitação descentralizado. 1999. segurança. segura. dispondo ser aquela que “possui privacidade.a destinação de recursos para a promoção da política habitacional. Para realização progressiva do direito à moradia são necessárias as seguintes medidas: . Nós nos comprometemos com a meta de melhorar as condições de vida e de trabalho numa base sustentável e eqüitativa. o direito de participar da formulação e implementação da política habitacional. e o gozo de liberdades frente a discriminações de moradia e segurança legal de posse. Neste contexto. face a inércia do Estado. produz de imediato os seguintes efeitos: a faculdade de o cidadão exigir de forma imediata. incluindo segurança da posse. espaço. os Governos devem tomar apropriadas ações para promover. administrativos para a promoção de uma política habitacional. infra-estrutura básica. com mecanismos de participação popular. legais. facilidades e amenidades. A definição de moradia adequada encontra-se no parágrafo 43 da Agenda. devendo todos esses componentes terem um custo acessíveis e estarem disponíveis a todos os seres humanos”. durabilidade e estabilidade estrutural.” (SAULE Jr. desde a adoção da Declaração Universal de Direitos Humanos de 62 Sobre o assunto comenta Saule Jr. de forma progressiva significa que o Estado brasileiro tem que criar meios materiais indispensáveis para o exercício desse direito. Nos termos da Agenda Habitat. apropriada qualidade ambiental e de saúde. acessível e disponível. e adequada localização com relação ao trabalho e serviços básicos. protegida.

criação e promoção de incentivos ao setor privado para investimento no mercado de habitação mais baratas. cooperativas e associações sem fins lucrativos. Todos os Governos sem exceção.49 1948. desenvolvimento de modelos de ocupação territorial sustentáveis. 5º da Constituição Federal. da participação popular e do direito à moradia integram o nosso ordenamento jurídico. apoio a programas habitacionais para as comunidades de base. 2. sendo que tal direito foi recepcionado no art. provisão de subsídios para locação e outras formas de assistência à moradia para os mais necessitados. Os tratados internacionais integram o nosso ordenamento jurídico por força do que dispõe o § 2º e o § 3º do art. O Brasil é signatário de vários tratados e convenções sobre assentamento humano e meio ambiente. assegurar e promover: a expansão do suprimento de moradias. utilização de financiamentos e outros recursos públicos e privados de forma inovadora. voltadas a atender à demanda de moradias tanto no regime de locação como no de propriedade. sendo incorporado ao rol de direitos sociais fundamentais. 6º da Constituição Federal através da emenda constitucional nº. têm a responsabilidade no setor de habitação de proteger.2. Sendo assim. promoção de programas voltados aos sem teto e outros grupos vulneráveis. regulamentação e incentivos ao mercado para construção de casas a preços acessíveis. 26/2000. além da Agenda 21 e da Agenda Habitat. o direito à moradia tem sido reconhecido como um importante componente do direito a um nível adequado de vida. os princípios do desenvolvimento sustentável.2 O reconhecimento do direito à moradia na CF/88 .

p. Sociais e Culturais. em seu bojo. O primeiro passo para a proteção do direito à moradia foi o reconhecimento formal de que todo ser humano necessita de uma moradia para ter uma existência digna. localizada em um ambiente saudável que promova a qualidade de vida dos moradores da comunidade. Fernando Aith conceitua o direito à moradia como o direito humano fundamental de acesso à moradia habitável. de forma que a não realização de um deles compromete a realização de todos os outros. 77. o emprego e a saúde.Centro de Estudos Políticos e Sociais. Déficit Habitacional no Brasil. Ministério das Cidades. 2001. sadia. Fundação João Pinheiro .50 A Comissão das Nações Unidas para Assentamentos Humanos estima que 1. O Direito à moradia e suas garantias no sistema de proteção dos direitos humanos. 34. protegida e acessível. estima-se que 6.Mestrado em Filosofia e Teoria Geral do Direito. com fornecimento de água potável. todos têm o direito humano a uma moradia segura e confortável. 64 De acordo com o Pacto dos Direitos Econômicos. sistema de saneamento e serviços públicos básicos. ou seja.5 milhões de brasileiros não têm acesso a uma moradia digna. 65 63 BRASIL. ambiental e econômica das pessoas que não têm acesso à moradia. assim. segura. 65 Ibid. que são interdependentes. a exclusão social.São Paulo. apenas nas áreas urbanas. Dissertação . Fernando Mussa Abujamra. Belo Horizonte: 2001. Ou seja.. No Brasil. aumentando-se. p. todos têm direito a um lugar adequado para viver. torna-se difícil manter a educação. 64 AITH. 63 Fernando Aith afirma que o processo de generalização da proteção internacional dos direitos humanos trouxe. . sem um lugar adequado para moradia. a proteção do direito à moradia. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo . O direito a uma moradia adequada está vinculado a outros direitos humanos.1 bilhão de pessoas estão agora vivendo em condições inadequadas de moradia.

tais como água. Acessado em 15/06/2007. população de baixa renda etc. o trabalho. George Alex da. II) disponibilidade de serviços.. identificou sete componentes básicos para que uma moradia possa ser considerada minimamente adequada: I) segurança no direito de propriedade. protegendo-os de fatores climáticos e garantindo a sua segurança física. GUIA. que garanta a proteção contra os despejos forçados. III) disponibilidade a preços acessíveis. 66 O direito à moradia foi explicitamente incorporado à Constituição Federal por meio da Emenda Constitucional n° 26. que estabelece no artigo 6° da Constituição Federal que “são direitos sociais a educação. VI) localização que possibilite o acesso ao emprego. Monitorando o Direito à Moradia no Brasil (1992-2004). a previdência social. moradores de rua. Rubem de. a segurança.gov. equipamentos e infra-estrutura. para que o preço da moradia seja compatível com o nível de renda da população e não comprometa a satisfação de outras necessidades básicas das famílias. IV) habitabilidade. a assistência aos desamparados. de 14 de fevereiro de 2000. PAULA. A constitucionalização do direito à moradia convalida a indissociabilidade entre a garantia de condições de vida digna e o bem-estar do ser humano. a proteção à maternidade e à infância. Podendo ser consultado no http:/www.br/sites/000/2/publicações/bpsociais/bps . V) acessibilidade a todos os grupos sociais. a serviços de saúde e outros equipamentos sociais. Maria Piedade.ipea. a saúde. coleta de resíduos sólidos. energia para cocção. acolhe proposição da 2ª Conferência sobre Assentamentos Urbanos (Habitat II) 66 MORAIS. iluminação. Do mesmo modo. adotado em 1991. na forma desta Constituição”. esgoto. Sociais e Culturais. recomendação Geral nº 4. no sentido de fornecer aos seus moradores espaço adequado. seguindo expressão já consagrada pelo artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.51 O Comitê da ONU sobre os Direitos Econômicos. deficientes físicos. de 1948. crianças. e VII) adequação cultural. de modo a permitir a expressão das identidades culturais. o lazer. a moradia. levando em conta as necessidades habitacionais específicas de idosos. dentre outros.

que devem ser atendidas pelo salário mínimo (art. inciso IX que é dever do Estado.52 promovida em 1996 pela Organização das Nações Unidas (ONU). Dissertação .São Paulo. que “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. em Istambul. Considerando que o direito à moradia está expressamente reconhecido na Constituição Federal como um direito humano fundamental. na Turquia. o dispositivo contém ordem clara no sentido de que todos os direitos e garantias fundamentais que a Constituição defende possuem aplicação imediata. pois embora inserido no parágrafo 1º do art. 67 O direito à moradia foi reconhecido como direito humano fundamental ao estar expresso no Título “Dos Direitos e Garantias Fundamentais” da Constituição Federal. Sendo assim. o direito à moradia além de ter aplicação imediata. como também aqueles direitos e garantias expressos no artigo 6º ou ao longo do texto constitucional. 2001. O Direito à moradia e suas garantias no sistema de proteção dos direitos humanos. promover programas de construção de moradias e melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico. O direito à moradia também faz parte das necessidades básicas dos direitos dos trabalhadores urbanos e rurais. seção IV). entre eles o Brasil. parágrafo 1º. p. 7. 67 AITH. Conforme visto anteriormente. 5º. a Constituição Federal dispõe. Fernando Mussa Abujamra. que recomendou a todos os países participantes. A Constituição Federal estabelece ainda. o destaque normativo do direito à moradia em suas constituições. . De acordo como Fernando Aith não há dúvida que tal dispositivo aplica-se também aos direitos sociais. é uma norma de eficácia plena. nas suas três esferas. no art. A vontade do legislador foi clara. tanto que inseriu um texto que claramente abrange não só os direitos e as garantias fundamentais do art.Mestrado em Filosofia e Teoria Geral do Direito. que define os direitos e deveres individuais e coletivos. 96. 5º. em seu artigo 5º. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo . 23. concluí-se que o direito à moradia tem aplicação imediata.

embora possuam normatividade suficiente para produzir os efeitos necessários à proteção dos direitos nelas reconhecidos. 69 O Direito à moradia. 1999. As normas de eficácia plena possuem na Constituição normatividade suficiente para assegurar a sua incidência imediata. ações e demais medidas compreendidas e extraídas do texto constitucional para assegurar e tornar efetivo esse direito. dependentes de providências normativas posteriores para a efetiva proteção dos direitos por elas assegurados. Direito à Cidade: trilhas legais para o direito às cidades sustentáveis. Já as normas de eficácia contida. sendo assim. portanto. em especial voltadas à promoção de ações e políticas urbanas 68 José Afonso da Silva. As normas de eficácia limitada são as que não receberam do constituinte normatividade suficiente para a aplicação. em geral dependentes de integração com outras normas infraconstitucionais para operaram a plenitude de seus efeitos. deixando ao legislador infraconstitucional a competência de completar a sua regulamentação. essa obrigação não implica o dever de prover e dar habitação para todos os cidadãos de forma imediata e integral. prevêem a edição de meios normativos capazes de lhes reduzir a eficácia e a aplicabilidade. para ter eficácia jurídica e social. São Paulo: Max Limond. sim. (Ibid.. Instituto Polis. afirma haver três tipos de normas constitucionais. constituindo planos e programas habitacionais com recursos públicos e privados para os segmentos sociais que não têm acesso ao mercado e vivem em condições precárias de habitabilidade sem uma vida digna. p. através de execução de políticas públicas. sociais e culturais. mas significa. o dever de constituir políticas que garantam o acesso de todos ao mercado habitacional. apud Fernando Aith. 68 O direito à moradia é de aplicação imediata e eficácia plena. em especial aos que se encontram no estado de pobreza e miséria. mas existem também normas definindo algumas garantias do direito à moradia sem conter os elementos suficientes para que possam ser consideradas como de aplicação imediata. não estando. Sendo que essas normas são eficácia limitada. pois dependem de normas infra-legais. pressupõe a ação positiva do Estado. no que se refere à sua classificação quanto à eficácia e aplicabilidade. Nelson. como integrante da categoria dos direitos econômicos. sendo : I – as normas constitucionais de eficácia plena e aplicabilidade imediata. II) as normas constitucionais de eficácia contida e aplicabilidade imediata. de imediato o Estado Brasileiro tem a obrigação de adotar as políticas. 95) 69 SAULE Jr. . mas passíveis de restrição e IV) as normas constitucionais de eficácia limitada ou reduzida. oferecendo aos cidadãos garantias concretas para a defesa do direito à moradia.96.53 Existem normas que possuem aplicação imediata. Contudo.. p.

o seu grau de efetividade no Brasil ainda é bastante desigual entre os diferentes grupos socioeconômicos. nas camadas mais pobres da população. 70 Entretanto. Nas áreas urbanas brasileiras ainda há 59. Maria Piedade. p. Monitorando o Direito à Moradia no Brasil (1992-2004).2004 70 AITH. com o objetivo de prover a todos os seres humanos que vivem em seu território com moradias adequadas. apesar dos avanços obtidos com o reconhecimento do direito à moradia na Constituição Federal e em outros normativos legais. como pode ser constatado no gráfico abaixo. configurando violações do direito à moradia.br. Ainda existe no país uma vasta gama de necessidades habitacionais não satisfeitas. sobretudo. GUIA.Mestrado em Filosofia e Teoria Geral do Direito.ipea. 2001.gov. 71 Gráfico 1 – População urbana / tipo de inadequação de domicílio . a fim de garantir-lhes uma vida digna. Podendo ser consultado no http: www. que incidem. Dissertação .7 milhões de brasileiros que convivem com pelo menos um tipo de inadequação habitacional. 71 MORAIS. O Direito à moradia e suas garantias no sistema de proteção dos direitos humanos. .São Paulo. Acessado em 15/06/2007. Rubem de. Fernando Mussa Abujamra. 128. PAULA.54 e habitacionais. George Alex da. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo .

somadas à atual política econômica do governo são fatores que têm contribuído para o aumento da pobreza da população do Brasil.3 O DIREITO AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO COMO DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL DE NATUREZA SOCIAL 2. e que não tem como comprovar nenhum tipo de renda financeira ou endereço fixo. eleva o número de pessoas morando em áreas de risco. leva a população carente a construir abrigos nos morros. Isto porque os projetos sociais destinados às famílias de baixa renda não atinge nem de perto essas camadas sociais. A atual política desenvolvimentista. Em nosso país existem milhões de pessoas sem teto. Para essas pessoas não existe o direito à moradia digna. a partir dos anos 60. aprofundou-se quando da implantação da indústria moderna e se intensificou enormemente. sem emprego. o que realmente existe é a luta pela sobrevivência. sobretudo. nas beiras de rodovias e de vias de alta velocidade e outros lugares inadequados para o seu habitat.55 A falta de políticas públicas bem definidas e claras.3.1 Evolução da Proteção Jurídica do meio ambiente A degradação do meio ambiente esteve sempre presente desde quando se iniciou a concentração populacional e as atividades humanas. . Por falta de alternativa habitacional. caracterizada pela exclusão social e ambiental. seja pela concentração de terrenos urbanos de propriedade privada ou pela alta especulação dos mesmos. sem alimentação. sem escola. 2. nos fundos de vales.

com a publicação do livro intitulado a Primavera Silenciosa (sobre a revolução verde e os altos riscos para a saúde e o meio ambiente gerados pelo uso intensivo de agrotóxicos) 72 74 sendo que a preocupação com o meio ambiente se expandiu nos anos 70. denunciou pela primeira vez a crise ambiental. ainda. 2001. assim como os debates globais acerca dos impactos da poluição química no . os limites do crescimento econômico. Gilberto. 73 A naturalista norte-americana Rachel Carson. e quanto à poluição que suas atividades geram. dando início a crescente e continua preocupação de parte significativa da população com os problemas de deterioração ambiental. O mito do desenvolvimento sustentável: Meio ambiente e custos sociais do moderno sistema produtor de mercadorias. Bhopal (vazamento de gás tóxico de uma fábrica de pesticidas. substância química altamente perigosa. Nesse período começa a chamada revolução ambiental norte-americana. que matou 3. Pensilvância em 1979). na sociedade. a descoberta da dioxina. a degradação ambiental se manifesta como sintoma de uma crise de civilização da razão tecnológica sobre a organização da natureza. Florianópolis: Ed. largamente utilizado em plantações e na Guerra do Vietnã. racionalidade. a preocupação com o presente e o futuro do meio ambiente. da UFSC. não havia atingido uma situação crítica ou possuía caráter localizado ou. p. em 1962. 2001. no quadro do mundo capitalista. Enrique. RJ: Vozes.300 pessoas em 1984 e Chernobyl (1986). 72 De acordo com Enrique Leff. como contaminante presente no herbicida “Agente Laranja”. MONTIBELLER FILHO. marcando assim. ampliou a problemática ecológica e fez surgir. poder. embora relevante. Saber Ambiental: sustentabilidade. eventos como acidentes químicos e radiativos como Seveso (1976). não possuía a característica de irreversibilidade. p 16. A intensificação. refletindo a irracionalidade ecológica dos padrões dominantes de produção e consumo. são também símbolos do processo de reconhecimento da crise ambiental. 74 Além das denúncias feitas por Raquel Carson.56 A pressão das diversas atividades humanas sobre a natureza até por volta dos anos 60 do século XX. a partir da década de 60. aliada ao aumento da concentração espacial das atividades produtivas e da população. a crise ambiental se torna evidente nos anos 60. Portanto. 79-81 73 LEFF. complexidade. Petrópolis. seja quanto à exploração de recursos naturais. do processo de industrialização altamente impactante sobre o meio ambiente. o que bloqueava o despertar da consciência ecológica coletiva. Harrisburg (acidente nuclear ocorrido em Three Mile Island.

2003. 2001. Desse modo. . 75 A Declaração de Estolcomo76 estabeleceu com clareza que o homem tem direito fundamental à vida saudável. Petrópolis. se atribui à Conferência de Estocolmo o mérito de. graças à rápida aceleração da ciência e da tecnologia. Marise Costa de Souza. tudo que o cerca. 75 LEFF. poder. O homem é ao mesmo tempo obra e construtor do meio ambiente que o cerca. o qual lhe dá sustento material e lhe oferece oportunidade para desenvolver-se intelectual. 76 “Também foi em Estolcomo que. bem demonstra isso”. social e espiritualmente. inclusive o direito à vida mesma. 45). Daí a razão pela qual o conceito de meio ambiente inicialmente proposto na agenda de Estocolmo (que restringia as questões ecológicas em sentido estrito) passou a englobar também problemas como fome e pobreza. em 1972. sociais e econômicas mais amplas se inseriram no mesmo palco da questão ambiental. RJ: Vozes. Uma Terra Só. celebrada na cidade de Estolcomo. a partir dali. p. onde foram assinalados os limites da racionalidade econômica e os desafios da degradação ambiental. com destaque para o fato de que as questões políticas. Os dois aspectos do meio ambiente humano. p. passar a se visualizar a necessidade de adoção de novos instrumentos e políticas globais no tratamento dos problemas ambientais. o meio ambiente se constituiu em tema principal de uma reunião de governos de diversos países.57 depois da Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. Saber Ambiental: sustentabilidade. moral. em razão da percepção surgida quanto à interdependência planetária de todos os seres vivos. são essenciais para o bem-estar do homem e para o gozo dos direitos humanos fundamentais. complexidade. A partir da Conferência de Estocolmo. a comunidade internacional tomou consciência das questões ambientais planetárias e da necessidade de defender o ambiente. pela primeira vez. Curitiba: Juruá. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. a aquecimento global do planeta e no buraco na camada de ozônio). (DUARTE. Enrique. num ambiente de qualidade. o natural e o artificial. o homem adquiriu o poder de transformar. racionalidade. Por esta razão. o que ocorreu a partir da reação dos países do Sul. derivando daí uma perspectiva global e ampliada dos problemas ambientais. Em larga e tortuosa evolução da raça humana neste planeta chegou-se a uma etapa em que. de inúmeras maneiras e em uma escala sem precedentes.19. impondo a obrigação de proteger e melhorar o ambiente para as gerações presentes e futuras e estabeleceu um dever de cuidado com o ambiente. O seu lema.

por ocasião da publicação de sua “Estratégia Mundial para a Conservação”. . p. a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos (UICN) refere-se pela primeira vez à noção de “desenvolvimento sustentável”. O Relatório Brundtland oferece uma perspectiva renovada à discussão da problemática ambiental e do desenvolvimento. 1988). levaram a Assembléia Geral das Nações Unidas a criar em 1983. também conhecido como “Relatório Brundtland”. Tal relatório foi elaborado no bojo da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. para regulamentar o processo de desenvolvimento com base nos princípio 77 TEIXEIRA. A continuação de muitos fenômenos de degradação ecológica. 77 Em 1980. 2006. Porto Alegre: Livraria do Advogado. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental.. várias convenções de caráter internacional foram adotadas. A referida Comissão publicou um documento intitulado “Nosso Futuro Comum” (CMMAD. Nesta conferência foi elaborado e aprovado um programa global.58 conferência foi considerada ponto de partida do movimento ambientalista internacional. Foi incluído no relatório Brundtland a definição do conceito de desenvolvimento sustentável – aquele que responde às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de responder às suas próprias necessidades. e o agravamento da situação econômica das populações de grande parte do mundo. 30. uma Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. a insuficiência de resultados práticos obtidos dez anos após a Conferência de Estolcomo. sendo que. estabelecendo que: “Todos os seres humanos têm o direito fundamental a um meio ambiente adequado à sua saúde e bem-estar”. Orci Paulino Bretanha. conhecido como Agenda 21. em junho de 1992. a partir dela. com a finalidade de avaliar os avanços dos processos de degradação ambiental e a eficácia das políticas ambientais para enfrentá-los. celebrada no Rio de Janeiro. Ed.

racionalidade. naquele momento. tendo em 78 LEFF. Por ocasião da Declaração Universal. em face do uso incontrolável e predatório dos recursos naturais por parte do homem. houve a realização. pois. em 1992. Petrópolis. Hoje a consciência ética da humanidade evoluiu no sentido de reconhecer que o homem só pode conseguir assegurar a si e à sua família os direitos descritos na própria Declaração se lhe for assegurado um meio ambiente sadio. que “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família a saúde e o bem-estar. Desta forma foi sendo configurada uma política para a mudança global que busca dissolver as contradições entre meio ambiente e desenvolvimento. poder. em 1948. para a necessidade de buscar soluções para os problemas ambientas de caráter global. Henrique. em art. 2001. cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis”. 25. contando com a presença de 178 países e 100 chefes de Estado. habitação. não respeitando a natureza e sua capacidade de regeneração. como da sociedade civil em geral. no Brasil da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. a crise ambiental ainda não havia sido percebida com a gravidade que pautou os movimentos ambientalistas da década de 1960. RJ: Vozes. vestuário. Foi por esta razão que a questão ambiental não fez parte da pauta de reivindicações necessárias à garantia da dignidade humana constante da Declaração de 1948. complexidade.59 da sustentabilidade78. 20. Foi o momento do despertar da atenção tanto dos Governos. inclusive alimentação. Saber Ambiental: sustentabilidade. Vinte anos depois da Conferência de Estocolmo. o direito ao meio ambiente não foi reconhecido como um direito humano. tendo em vista a preocupação de grande parte dos países com a possibilidade concreta de um colapso nos ecossistemas naturais que permitem a vida humana na Terra. p. . A Declaração Universal dos Direitos do Homem já reconhecia. Mas o direito ao meio ambiente sadio propriamente dito só ganhou um enfoque mundial a partir da década de 1970. na cidade do Rio de Janeiro.

Porto Alegre: Livraria do Advogado. Orci Paulino Teixeira. O Fórum Global das ONG´s. p. composta pelos capítulos 2 à 8: 2Cooperação Internacional para Acelerar o Desenvolvimento Sustentável dos Países em Desenvolvimento e Políticas Internas Correlatas. 6 – Proteção e Promoção das Condições da Saúde Humana.000 entidades da sociedade civil de diversos países. popularmente denominados de ECO-92. do efeito estufa. Esses gases são responsáveis pela elevação da temperatura na Terra. entre muitos outros perigos que assolam a humanidade e tanto preocuparam a comunidade ambiental. realizado na mesma ocasião da Conferência. como a Agenda 21. que tinha por objetivo traçar um planto de ações político-normativas de promoção do desenvolvimento sustentável e política ambiental a serem adotadas pelos Estados até o século XXI. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. reuniu 4. 3 – Combate à Pobreza. a Declaração de Princípios sobre Florestas e a Convenção sobre a Biodiversidade. da gestão de recursos naturais. da poluição. teve como resultado a aprovação de diversos documentos. . a Convenção sobre Mudanças Climáticas 79. englobando convenções e declarações de princípios. o que igualmente jamais havia acontecido. da desertificação. se revelaram tímidas e pontuais. do desmatamento de florestas. 80 Dentre os documentos aprovados pela Conferência do Rio. Esta Agenda procurou auxiliar os Estados na procura de soluções para o problema da mudança climática. p. tendo como objetivo avaliar os avanços na área ambiental.. 7 – Promoção do Desenvolvimento Sustentável dos Assentamentos Humanos. dentre eles a Declaração do Rio de Janeiro sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. A Conferência do Rio e o Fórum Global das ONG´s. Cinco anos após a ECO-92 foi realizada. 8 – Integração entre Meio Ambiente e Desenvolvimento na Tomada de Decisões. 2006. 4 – Mudança de Padrões de Consumo. 33) 81 Destaca-se na Agenda 21 a seção “Dimensões sociais e econômicas.60 vista que nenhum outro evento voltado para questões ambientais havia conseguido congregar tantas lideranças mundiais. na cidade o Rio de Janeiro. 5 – Dinâmica Demográfica e Sustentabilidade. e que os Estados não 79 Os chefes dos Estados participantes da Convenção assumiram o compromisso de redução de emissões de poluentes da atmosfera aos níveis de 1990. 80 Os chefes dos Estados assumiram o compromisso de protegê-la. tendo se concluído que as iniciativas propostas em 1992. se comprometeram a paralisar o processo de extinção das espécies e se dispuseram a aplicar em seus países a Agenda 21. (Ibid. o mais importante foi a Agenda 2181. a RIO + 5. 31). (TEIXEIRA.

como pontos positivos desses movimentos. conhecida como RIO + 10. principal emissor de poluentes. foi realizado pela ONU na cidade de Johannesburgo. mas ainda estamos longe de alcançar os objetivos e compromissos firmados nas diversas Conferências e Cúpulas realizadas em diversos países. realizada no Rio de Janeiro em 1992. O último grande evento. a fim de avaliar a efetivação dos compromissos assumidos na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Destaca-se. no ano de 1997 o encontro realizado em Kyoto no Japão. 2003. e nem ocorrendo as necessárias mudanças nas matrizes energéticas. em 7. Tendo em vista a escassa implementação de políticas públicas para a efetiva defesa ambiental. . A preocupação dos chefes de Estados com a crescente degradação ambiental possibilitou o aumento das ações voltadas à proteção do meio ambiente. em questões ambientais. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. no ano de 2002. que trata das alterações climáticas em todo o Planeta. Marise Costa de Souza. sendo que os Estados participantes assumiram o compromisso de reduzirem suas emissões de gases do efeito estufa. a Agenda 21 está sendo pouco utilizada. ainda. tendo em vista que a crise ambiental continuava marcadamente crescente no mundo globalizado. (DUARTE. Os Estados Unidos. Curitiba: Juruá.6%. o balanço continua negativo. não se alterando o grave quadro da extinção das espécies. 52). inclusive no Brasil. o Japão. o surgimento e a difusão da consciência ambiental. e a América Latina em média 40%”. onde diversos países assinaram o Protocolo de Kyoto82. p. aumentaram em mais de 10% suas emissões de gases sobre o nível de 1990. a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável. na África. tornando mais enfática à 82 “Passado algum tempo. realizados mundialmente. deve-se destacar. em mais de 50%. Entretanto.61 estavam honrando os compromissos assumidos. a Ásia.

.3. em seu sentido inicial. p.62 preocupação em proteger. sociais e políticos da época. Cristiane.. (Ibid. era um direito oposto contra o Estado e perante o Estado. FIGUEIREDO. não-fragmentária. Entretanto.). que oferece uma nova compreensão de mundo a partir de sua integralidade. Meio Ambiente Ecologicamente Equilibrado: Direito Fundamental e principio da atividade econômica. De acordo com Cristiane Derani. ao revelar outras ameaças à liberdade que o exercício do poder de império do Estado e mostrar a inviabilidade da concretização de liberdades como campo isolado da atividade individual. o que em si já representa um grande avanço na história da humanidade.2 O direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. mas é aquele conjunto de elementos mantenedores e estabilizadores da sociedade. 1998. In: Temas de Direito Ambiental e Urbanístico. 3 – em qualquer conceituação de meio ambiente deve ser ultrapassar o modelo antropocêntrico passado. a partir de uma vertente ética onde se privilegiem interesses públicos abrangentes em termos de espaço e de tempo”. preservar e defender o meio ambiente83. São Paulo. 84 A respeito dos Direitos Fundamentais. Max Limond. o certo é que pressupõe a interação homem-natureza. Jose Purvin (org. p. essência de sua compreensão. O desenvolvimento das atividades sociais não se mostrava capaz de respeitar aquele conjunto de direitos fundamentais erigido. 2 – o conceito de meio ambiente pressupõe uma visão holística. A liberdade se desenvolvia na resolução dualista Estado/sociedade civil. Constatou-se que as liberdades escolhidas pelo Estado de Direito não eram ameaçadas pelo poder do Estado 83 “. um direito é fundamental quando seu conteúdo invoca a construção da liberdade do ser humano. os avanços da sociedade industrial frustraram as expectativas da sociedade do século XVIII. 2. observa Cristiane Derani: Direito Fundamental. sendo que essa liberdade não é uma liberdade genérica e abstrata. 84 DERANI. fruto do desenvolvimento da sociedade humana e dos movimentos econômicos. aspectos essenciais na compreensão inicial do conceito de meio ambiente e que podem assim serem resumidos: 1 – ainda que o conceito de meio ambiente não possua a precisão científica tradicionalmente esperada. Os direitos fundamentais surgem no século XVIII. complexidade e mutabilidade. . 94. 72).

95.” (ROSSIT.. Não havia garantia da efetivação dos preceitos individuais do início do Estado Moderno. em outras palavras. 86 A concretização do direito fundamental social pelo Estado e pelos cidadãos é um mandamento explícito no art. ou seja. mas pelos efeitos das atividades sociais. assim como vinculam igualmente a comunidade na orientação das suas atividades. executiva e judiciária.63 apenas. o patrimônio da humanidade. p. p. p. que passam a agir na conquista efetiva da liberdade juridicamente fixada. Sendo assim. Ibid. 2001. 5º da CF. faz parte do rol dos direitos fundamentais. 94. Ibid. 55). LTR. Sendo assim. 87 O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.. visa a assegurar direito fundamental que é a vida. ainda que não figure expressamente no art. 85 Para a autora. que tem como objetivo a defesa dos recursos ambientais de uso comum.. ou. São Paulo. o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito fundamental por ser essencial à vida humana. 85 86 87 88 Ibid. . “Não é demais assinalar que o direito ao meio ambiente equilibrado constitui-se em direito fundamental da pessoa humana. ao impor ao Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações. postulados na Constituição Federal88. Novos direitos deveriam ser postos no ordenamento jurídico para garantir uma real liberdade. a insuficiência dos preceitos legais para garantir a liberdade levou ao surgimento dos chamados Direitos Sociais ou coletivos. indispensáveis para uma vida digna. Liliana Allodi. p. por ser essencial à sadia qualidade de vida. Os direitos fundamentais sociais vinculam o Estado na sua atividade legislativa. 225 da Constituição Federal. 95. O meio ambiente de trabalho no Direito Ambiental Brasileiro. os direitos fundamentais sociais passam a vincular o Estado e a comunidade. justamente porque visa à sadia qualidade de vida.

Como visto anteriormente. à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequada em um meio. também. o reconhecimento do direito de todos os homens ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à sadia qualidade de vida. Ingo Wolfgang. citando em seu primeiro princípio: O homem tem o direito fundamental à liberdade. As dimensões são complementadas através de um processo cumulativo no qual uma dimensão não substitui a outra.64 O direito ao meio ambiente sadio foi elevado ao nível de direito fundamental do ser humano por meio da Declaração de Estocolmo. Sarlet afirma que “desde o reconhecimento nas primeiras Constituições. tanto no que diz com o seu conteúdo. em 1972. de instituir a obrigação do homem de proteger e melhorar o meio ambiente para as atuais e futuras gerações. Marise Costa de Souza. e tem a solene obrigação de proteger e melhorar esse meio para as gerações presentes e futuras. 86. os direitos fundamentais passaram por diversas transformações. cuja qualidade lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem-estar. mas vem com ela interagir. p. . 90 SARLET. 1998. Porto Alegre: Livraria do Advogado. não é mais ou menos importante que a outra. p. 2003. 89 Pode-se observar no princípio acima. Por ocasião da Declaração de Estolcomo. nem que se possa estabelecer uma relação de hierarquia entre elas. A eficácia dos direitos fundamentais. 48-49. tratou-se. 90 89 DUARTE. Nesse sentido. os direitos fundamentais passaram na ordem institucional a manifestar-se em três dimensões sucessivas. eficácia e efetivação”. o que significa dizer que cada dimensão é a expressão de um momento histórico. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. Curitiba: Juruá. que traduzem um processo cumulativo e qualitativo. quanto no que concerne à sua titularidade.

à cultura. os direitos de terceira dimensão tendem a cristalizarse no fim do século XX enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um indivíduo. 92 Nesse mesmo sentido. p. Ingo Wolfgang. isto é. em sua criação e implementação na busca da efetividade jurídica e social. . Ed. havendo em princípio. 1998. 53. deve-se atentar para a finalidade dos próprios institutos jurídicos. Curso de Direito Constitucional. que a discordância reside essencialmente na esfera terminológica. p. à autodeterminação dos povos. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. 2006. em prol do bem-estar social. todavia. de um grupo ou de um determinado Estado. à educação. ao meio ambiente saudável e sustentável e à qualidade de vida. direitos que transcendem o individual e o coletivo. afirma SARLET. pertencente à área dos direitos civis e políticos) a segunda.. afirma Ingo Wolfgang Sarlet. SARLET. Paulo. que na terceira dimensão. 94 TEIXEIRA. “Ressalta-se. o rol dos direitos sociais) e a terceira. 80.” (Ibid. ou seja. ao desenvolvimento. encontrou um fundamento e uma razão de ser num determinado 91 A respeito da terminologia dimensão e geração. são concebidos os direitos à humanidade. 2006. o direito à conservação e utilização do patrimônio histórico e cultural e o direito de comunicação). p. 49) 92 93 BONAVIDES. marcados por sua dimensão e titularidade difusa (são os direitos à paz.569. consenso no que diz com o conteúdo das respectivas dimensões e ‘gerações’ de direitos.. Teixeira94 destaca que. São Paulo: Malheiros. A eficácia dos direitos fundamentais. 93 Dessa maneira.. considerados os direitos de solidariedade. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Cada um deles. p. Orci Paulino B. São aqueles em que os interesses individuais ou privados se subordinam a interesses da maioria ou públicos. A primeira dimensão é referente ao direito do ser humano de não ser privado de sua vida (seria o direito à vida propriamente dita. Orci Paulino Bretanha. consistente do direito de todo ser humano de dispor dos meios apropriados de subsistência e de um padrão de vida decente (direito à saúde. à previdência social.65 O direito fundamental à vida há de ser considerado em três dimensões 91. Porto Alegre: Livraria do Advogado. De acordo com Paulo Bonavides. para uma perfeita compreensão da evolução do direito através de suas dimensões.

(transcrição parcial de ementa oficial). Min. A Constituição Federal de 1988. a defesa da vida em todas as formas. Celso de Mello. 225. pela nota de uma essencial inexauribilidade”. à própria coletividade social. Considerações doutrinárias. o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado tem a finalidade de proteger a vida humana e a sadia qualidade de vida. introduziu um capítulo próprio sobre o meio ambiente.1995 3920). O direito à integridade do meio ambiente. Constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva. enquanto valores fundamentais indisponíveis. DJU 17. que almeja a sadia qualidade de vida e. caracterizados.stf.66 momento histórico. num sentido verdadeiramente mais abrangente. a expressão significativa de um poder atribuído não ao indivíduo identificado em sua singularidade.3. Seguindo esta idéia. expansão e reconhecimento dos direitos humanos. Direito de terceira geração. reais ou concretas – acentuam o princípio da igualdade. Disponível em http://www. sendo este capítulo um dos mais avançados e modernos. refletindo. marcadamente ambientalista e considerada como uma das mais avançadas sobre o tema. em seu art.br. Princípio da solidariedade. Típico direito de terceira geração. trata do direito ao meio ambiente estabelecendo: 95 O Supremo Tribunal Federal se posicionou no mesmo sentido que Teixeira: “A questão do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. . 95 2.gov. A Constituição Federal de 1988.11. mas. MS 22164/SP – Tribunal Pleno. Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) – que compreendem as liberdades clássicas. dentro do processo de afirmação dos direitos humanos. negativas ou formais – realçam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos econômicos. em última instância. fundamentais à sobrevivência do homem. genericamente a todas as formações sociais. o direito ao meio ambiente teve tratamento constitucional específico e detalhado. sociais e culturais) – que se identificam com as liberdades positivas.3 O reconhecimento do meio ambiente sadio na CF Pela primeira vez na história das Constituições Brasileiras. destinatário do direito. consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento. rel. a exemplo do direito ao meio ambiente.

os direitos fundamentais são cumpridos pela ação do Poder Público.. passando a ser considerado bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. p. 98 DUARTE. Marise Costa de Souza. p. mas sim direitos assegurados pelo Estado através do exercício do Poder de Polícia Estadual. “(. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise. 2003. mas aquele que resultasse de um equilíbrio entre as (dinâmicas) relações travadas entre o homem e a natureza e que. embora a contraposição indivíduoEstado não desapareça. . incluindo às presentes e futuras gerações. Curitiba: Juruá. ou qualquer ambiente. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental.. Curitiba: Juruá. ao tratar do meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito fundamental do qual todos são destinatários e ao estabelecer a existência de um 96 Marise Duarte. 2006..) na tentativa de encontrar o sentido da expressão meio ambiente ecologicamente equilibrado destaca: a) a noção de meio ambiente a partir da ralação de interdependência entre o homem e natureza. impondo ao Estado97 e à coletividade um dever: a defesa e preservação do meio ambiente. 92). Porto Alegre: Livraria do Advogado. 2003. sistêmica e mutante e b) que a tutela ao direito ao meio ambiente sadio não se constitui numa simples garantia à vida humana. devendo ser compreendida também a qualidade de vida em todas as formas. De acordo com Marise Duarte. que deve definir e executar as políticas de defesa ambiental para que todos possam usufruir um ambiente hígido”. o objeto tutelado como direito de todos não é o meio ambiente em si.67 Todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. quis o constituinte tutelar não qualquer ambiente. 90). Por meio de leis e de atos administrativos. Pode-se observar no dispositivo acima que a intenção do legislador foi de consagrar o meio ambiente ecologicamente equilibrado96 como um direito de todos. mas. 98 A Constituição de 1988. impusesse a proteção e defesa para às presentes e futuras gerações” (DUARTE. p. Ed. sendo essa qualidade que se converteu em bem jurídico. definido constitucionalmente como bem de uso comum do povo. Disso decorre que ao considerar o meio ambiente como direito. portanto. com a qualidade de ser ecologicamente equilibrado. mas se estende à manutenção das bases que sustentam a vida de todas as suas formas (incluindo-se aí as demais espécies de seres vivos). Marise Costa de Souza. 97 “Os direito fundamentais exigem comportamentos positivos do Estado. impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. (TEIXEIRA. 92. bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. o meio ambiente qualificado. o que ocorre de forma dinâmica. o equilíbrio ecológico do meio ambiente. na medida em que os direitos não são em si direitos contra o Estado. Orci Paulino Bretanha. Meio ambiente sadio: direito fundamental em crise.

essencial à sadia qualidade de vida. inovou no sentido de criar um terceiro gênero. Guilherme José Purvin. Guilherme José Purvin (org. à proteção da maternidade e à infância e. Para que um bem possa ser considerado ambiental. pois.68 bem que tem duas características específicas – o fato de ser de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida -. ambiente marinho) e construído (as cidades. em face de suas peculiaridades e de sua natureza jurídica. 1.). Os bens essenciais à sadia qualidade de vida são aqueles fundamentais à garantia da dignidade da pessoa humana. além de uso comum do povo. que estão relacionados com os direitos fundamentais referidos no artigo 6º da Constituição: o direito à educação. In: FIGUEIREDO. SILVA. Solange Teles. águas. III) e. ele deve ser. todos os indivíduos podem exigir a 99 FIGUEIREDO. Temas de Direitos Ambiental e Urbanístico. à segurança. à previdência social. ar. solo. que constitui um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito (CF/88. p. 1998. não como um bem que integre o seu patrimônio – o que pode ou não ocorrer –. O objeto desse direito. Sendo assim. O Estado deve portanto defender e preservar o meio ambiente natural (fauna. à saúde. um bem que pode ser desfrutado por toda e qualquer pessoa dentro dos limites constitucionais. como um bem de todos. art. São Paulo: Max Limond. O meio ambiente ecologicamente equilibrado é um bem de uso comum do povo e como tal deve ser tratado. ao lazer. um bem de uso comum. ao trabalho. o patrimônio cultural e o ambiente do trabalho). cabendo ao Estado um papel primordial em dirimir os eventuais conflitos no uso dos recursos ambientais. mas sim dentro de uma perspectiva global. 139-143. Elementos balizadores da ação estatal da defesa dos bens ambientais para as presentes e futuras gerações. Assim é que o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado integra o rol dos direitos fundamentais sociais consagrados na Constituição Federal de 1988. à assistência aos desamparados. . o meio rural. tendo como destinatários as presentes e futuras gerações. 99 O bem ambiental criado pela Constituição Federal de 1988 é. não se confunde nem com os bens públicos e muito menos com os bens privados.

18). José Afonso da. ganharam definição legal infraconstitucional com o advento da lei 8078/90. de natureza indivisível. para efeitos deste Código. Ingo Sarlet trata do assunto afirmando que “o direito a um meio ambiente saudável e equilibrado. o direito ao meio ambiente é também de titularidade individual. nesta condição. O titular do bem ambiental é a humanidade. 2000. p. pode-se afirmar que a norma constitucional que constituiu o direito ao meio ambiente sadio possui uma natureza individual. o transindividuais. pois mesmo um dano ambiental que venha a atingir um grupo dificilmente quantificável e delimitável de pessoas (indivíduos) pode gerar um direito à reparação para cada prejudicado”. 100 Dessa forma. Orci Paulino Bretanha. Direito Constitucional Ambiental. Nesse mesmo entendimento.” (SILVA. quando a lesão ou probabilidade de lesão violar também interesse privado102. 1998. inciso I o que são interesses difusos: I – interesses ou direito difusos. cujos titulares são pessoas indeterminadas. coletiva e difusa101. O homem é destinatário do ambiente ecologicamente equilibrado e. p. São Paulo: Malheiros.. 101 Os direitos coletivos lato sensu. sendo que nessa condição mantêm a sua unidade com suporte no princípio. parágrafo único. dentre outros. 2ª. pois de um direito transindividual. embora seja de titularidade difusa. tendo em vista que a preservação do meio ambiente é de fundamental importância para a garantia da manutenção da vida humana. Ingo Wolfgang. Trata-se. de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato. também o são as gerações presentes e futuras. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. p. Ponto Alegre: Livraria do Advogado. Assim sendo. 81. Ed. A proteção jurídica em matéria ambiental tanto se refere a indivíduos como a associações representativas dos seus direitos e interesses. Porto Alegre: Livraria do Advogado. 103 As normas ambientais constitucionais visam assegurar o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. pode ser reconduzido a uma dimensão individual. 102 TEIXEIRA. Sarlet. 103 SARLET. mas também as pessoas coletivas e ainda as pessoas indeterminadas. já que são direitos fundamentais. o bem ambiental configura um direito difuso. da dignidade da pessoa humana. Ed. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. ou seja. assim entendidos. não limitado ao interesses privados ou públicos. . 2006. 88. de natureza indivisível. afirma que a base dos direitos fundamentais na 100 “O preceito constitucional confere a todos o direito ao meio ambiente sadio.69 defesa contra atos lesivos ao meio ambiente. pois admite uma dimensão individual. 366. que estabeleceu em seu art. referidos na Carta Magna. o que significa que não serão somente as pessoas individualmente consideradas os titulares desse direito. em que pese seu habitual enquadramento entre os direitos de terceira dimensão.

78 e 79. e que a coerência interna do sistema dos direitos fundamentais encontra justificativa na sua vinculação com os princípios ou valores fundamentais do ordenamento jurídico. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental. 105 No sistema do direito ambiental brasileiro..princípios que dão eficácia plena à norma de direito ambiental. concluí-se que esse direito possui aplicabilidade imediata. . § 1º. deriva do reconhecimento da progressividade dos direitos sociais. 2006. pelo fato do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado ser uma norma que assegura a preservação da própria vida humana. Orci Paulino Bretanha. assume o papel relevante a norma contida no art. p. 5º..70 Constituição de 1988 radica sempre no princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. TEIXEIRA. da CF de 1988. p. por se tratar de uma garantia assegurada aos indivíduos das presentes e futuras gerações. e de não depender de regulamentação. Porto Alegre: Livraria do Advogado. cabe ao Poder Público dar maior eficácia à norma constitucional que outorga aos indivíduos o direito ao ambiente ecologicamente equilibrado e que reconhece seus princípios básicos. O princípio da proibição do retrocesso visa inviabilizar toda e 104 105 Ibid. Em relação à eficácia dos direitos fundamentais. e tem por objetivo proteger o núcleo do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado – melhorar a qualidade ambiental recuperando áreas degradadas e defender o meio ambiente ecologicamente equilibrado -. capazes de gerar efeitos jurídicos imediatos104. A regra constitucional do direito ao meio ambiente é acompanhada pelos princípios da sadia qualidade de vida e da vida com dignidade. Portanto. e pela aplicabilidade imediata . portanto. Sendo assim. a cláusula da proibição do retrocesso. de acordo com a qual todos os direitos e garantias fundamentais foram elevados à condição de normas jurídicas diretamente aplicáveis e. Ed. 121-122.

com relação à própria teoria. ou da não-naturalidade. p. 76. Portanto. a degradação ambiental se manifesta 106 107 Ibid. Norberto Bobbio afirma. hoje capaz de perceber a importância da manutenção dos ecossistemas para a própria preservação da espécie humana. comentando a relação entre o surgimento de novos direitos sociais e o aprimoramento tecnológico das sociedades: (. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. BOBBIO. 106 A preocupação com o meio-ambiente decorre da progressiva deterioração das condições de vida. Nesse sentido. desses direitos. o risco do colapso ecológico e o avanço da desigualdade e da pobreza são sinais eloqüentes da crise no mundo globalizado. 123-124. Isso nos traz uma ulterior conformação da socialidade.. .. Rio de Janeiro: Campus. negando a natureza. 14ª Tiragem. são precisamente certas transformações sociais e certas inovações técnicas que fazem surgir novas exigências. tendo como conseqüência o surgimento de novos valores a serem tutelados.) as exigências que se concretizam na demanda de uma intervenção pública e de uma prestação de serviços sociais por parte do Estado só podem ser satisfeitas num determinado nível de desenvolvimento econômico e tecnológico. imprevisíveis e inexeqüíveis antes que essas transformações e inovações tivessem ocorrido. p. 107 A degradação ambiental. como exemplo a abolição de normas protetivas ao meio ambiente.. Esses fatores levaram ao surgimento de novos direitos. Norberto. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico. 1992. A Era dos Direitos. e que.71 qualquer medida regressiva em desfavor do meio ambiente. do avanço técnico na capacidade de verificar e estimar esse processo e de um avanço do pensamento humano.

espaços de lazer e cultura.72 como sintoma de uma crise da civilização. Direitos Fundamentais na constituição de 1988. Acesso em 22/05/2007). da Constituição Federal. Disponível em: http://www. (ROCHA. A urbanização irregular. marcada pelo modelo de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica sobre a organização da natureza. 48. 110 Destaca Rocha que “de acordo com o art. 182.com/publicações/cad_dout/caderno_dout 1 fase/dir_fundamen. esta situação determinou a instituição das funções sociais e ambientais da cidade. condições adequadas ao trabalho. 15. propiciando a existência de áreas verdes e equipamentos públicos. racionalidade. Significa realizar as funções de habitação. transportes públicos. 109 Nesse sentido. Isto é. a política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar dos seus habitantes. RJ: Vozes. Fernando Luiz Ximenes. p.htm). Orci Paulino Bretanha. Saber Ambiental: sustentabilidade. voltadas para a efetiva defesa do meio ambiente. O autor afirma ainda que. O direito ao meio ambiente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida é exclusivo de uma minoria.apamagis. romperam o equilíbrio que decorre do limite da aceitabilidade do risco de dano ambiental que deve atender a dois critérios básicos: o ambiental e o econômico. A cidade cumpre sua função ambiental quando garante à todos o direito ao meio ambiente urbano ecologicamente equilibrado. O pleno desenvolvimento dessas funções deve ser compreendido como o direito à cidade. 2001. pavimentação de vias públicas. p. luz. poder. recreação e de circulação humana. Ed. Henrique. A função ambiental atua sobre a cidade para concretizar o seu fim: efetivar o bem-estar dos habitantes da cidade e o meio ambiente ecologicamente equilibrado. Petrópolis. etc”.. 2006. . caput. esgotamento sanitário. complexidade. Rocha afirma que as atividades urbanas afetam o meio ambiente com a transformação de espaços naturais em áreas urbanas. com a extração e a degradação dos recursos naturais e com a liberação de resíduos domésticos e industriais. 108 A crescente crise ambiental nos mostra a escassa implementação. no Brasil. 110 A desigual distribuição do poder econômico e político entre alguns poucos países (no plano internacional) ou proprietários (no plano local) decorre em grande parte da adoção de 108 LEFF. as construções de grandes metrópoles com concentração humana e atividades a ela relacionadas levaram à ruptura do equilíbrio ambiental. sendo que a maioria da população não pode dispor do bem ambiental “de uso comum do povo”. 109 TEIXEIRA. serviços de água. Porto Alegre: Livraria do Advogado. de políticas públicas. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental.

Temas de Direitos Ambiental e Urbanístico. São Paulo: Max Limond. uma vez que há uma apropriação desigual dos recursos e riquezas naturais. Sendo assim. O acesso aos recursos ambientais não esta sendo garantido a todos. o ar. Elementos balizadores da ação estatal da defesa dos bens ambientais para as presentes e futuras gerações. .). In: FIGUEIREDO. garantindo o bem estar da população através de uma política de desenvolvimento urbano.73 modelos ecologicamente insustentáveis da sociedade industrial. A exclusão social e a 111 FIGUEIREDO. ordenando o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade. Guilherme José Purvin. A busca do meio ambiente ecologicamente equilibrado constitui hoje paradigma da atuação político-administrativa do Poder Público. 111 Da mesma forma. vale ressaltar a clara vinculação que existe entre o meio ambiente e as relações sociais. SILVA. 141-143. infelizmente a realidade nos mostra que essas garantias constitucionais não estão sendo aplicadas na prática. pois uma grande parcela da sociedade além de serem vítimas da exclusão social e econômica não dispõe de uma sadia qualidade de vida. contribuindo para o agravamento de desigualdades sociais. bens de interesse público. Solange Teles. Guilherme José Purvin (org. o Poder Público também tem o dever de garantir a proteção do meio ambiente urbano. essenciais à sadia qualidade de vida. sexo. os Poderes Públicos não podem e não devem privilegiar um determinado usuário em detrimento de outro. Antes de tratarmos no próximo capítulo sobre as ocupações desordenadas. mas. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial a sadia qualidade de vida é um direito fundamental. garantido a todos independente de raça. todos devem ter o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. O conceito de bem de uso comum pressupõe uma utilização conjunta dos elementos que constituem o meio ambiente. tais como a água. p. cor ou religião. 1998. tendo este o dever de defender e preservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado bem de uso comum de todos.

drenagem inexistente. ao qual vai caber principalmente a tarefa de executar a revolução socialista e de realizar o homem universal. transporte precário. Ralf. e nela também nasceu o proletariado industrial.1 URBANIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO A cidade é o lugar da história. maior exposição ás enchentes e risco de vida por desmoronamentos.. Renato Aguiar e Marco Antonio Esteves Rocha. nas favelas onde moram milhões de brasileiros. Françoise. São Paulo: Perspectiva. nos cortiços localizados em áreas centrais degradadas. numa primeira fase. 113 CHOAY. apresentando-se como um dos mais graves problemas enfrentados pelos países em desenvolvimento. 1998. onde há uma grande concentração de pobreza: nas periferias urbanas loteadas ilegalmente. etc. difícil acesso aos serviços de saúde.74 segregação ambiental estão intimamente relacionadas. . Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Tradução. Ed. mulheres e crianças tenham as mesmas prerrogativas e gozem dos mesmos provimentos. saneamento deficiente. p. Provavelmente esta condição não é possível. p.RALF DAHRENDORF) 112 3. 3. Não conhecemos nenhuma sociedade na qual todos os homens. Não conhecemos sequer uma em que todos os homens tenham o mesmo status. OCUPAÇÃO URBANA DESORDENADA E (IN) JUSTIÇA AMBIENTAL As chances de uma vida nunca são igualmente distribuídas. O Urbanismo. 113 112 DAHRENDORF. São Paulo: Edusp. 40. a burguesia se desenvolveu e exerceu seu papel revolucionário. O conflito social moderno: um ensaio sobre a política da liberdade. 15. pois foi na cidade que. 1992. dificuldade de abastecimento doméstico. (Origens da Desigualdade .

SPOSITO. p. promoveram um aumento crescente de população não empregada que se “aloja” nos maiores centros urbanos (não sendo possível falar que tal população “habita” os maiores centros urbanos). viabiliza a realização com maior rapidez do ciclo do capital. São Paulo: Contexto. ou seja. 01-03. além de alguns avanços tecnológicos.. ou seja. conurbações114. As cidades produzem metrópoles – espaços de concentração de capital.115 A cidade é o lugar onde se reúnem as melhores condições para o desenvolvimento do capitalismo. p. o capitalismo trouxe consigo. no entanto fracassa na ordenação desses locais. sociais e profundas mudanças na natureza e no meio ambiente. . cidades industriais e grandes conjuntos habitacionais. p. de meios de produção. para designar as aglomerações urbanas que invadem uma região toda. um lugar onde se aglomera a produção. diminui o tempo entre o primeiro investimento necessário à realização de uma determinada produção e consumo do produto. Como conseqüência. uma vez que o seu caráter de concentração. 116 A cidade transformou-se em sede do capital. 01. Os ritmos acentuados de crescimento populacional urbano e a concentração de capital nacional e internacional nas metrópoles para a criação de infra-estrutura necessária à reprodução capitalista. 70. Capitalismo e urbanização. 2000. relacionados ao “inchaço” populacional em que vivem. de densidade. e suas cidades manifestam todo tipo de problemas. Maria Encarnação Beltrão. (Ibid.) 115 116 Ibid. se amontoa a população e se degrada a energia. se congestiona o consumo. mas. profundas desigualdades econômicas. por uma drenagem dos campos em benefício de um desenvolvimento urbano sem precedentes.75 A sociedade industrial é urbana e a cidade é o seu horizonte. e locus da gestão do próprio modo de produção -. A Revolução Industrial é quase imediatamente seguida por um impressionante crescimento demográfico das cidades. pela influência atrativa de uma grande área. 114 O termo conurbação foi criado por Patrick Geddes. A segunda metade do século XX é marcada por uma urbanização acelerada nos países de economia dependente..

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que foram fustigados de tal forma como nunca se viu em milhares de anos na História humana. Florestas desapareceram, rios secaram, organismos e animais foram e estão sendo extintos, tudo em nome do lucro e do “progresso” da humanidade. Enrique Leff afirma que os processos urbanos se alimentam da exploração dos recursos naturais, da desestruturação do entorno ecológico, do dessecamento dos lençóis freáticos, da sucção dos recursos hídricos, da saturação do ar e da acumulação de lixo. Além disso, a concentração urbana permitiu desvalorizar a força de trabalho nos centros industriais, subvalorizando a natureza, explorando o meio rural e oprimindo suas populações. 117 Para Manuel Castells a crise urbana provém da crescente incapacidade da organização social capitalista de assegurar a produção, distribuição e gestão dos meios de consumo coletivos necessários à vida cotidiana, da moradia, às escolas, transporte, saúde, etc. Os serviços coletivos necessários para atender o modo de vida suscitado pelo desenvolvimento capitalista não são suficientemente rentáveis para serem produzidos pelo capital, com vistas à obtenção de lucro.
118

O sistema capitalista não tem como prioridade o oferecimento de

condições mínimas de sobrevivência para a população, a sua prioridade é e sempre será o lucro. De acordo com Milton Santos, a globalização119 é o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são

117

LEFF, Enrique. Saber Ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. p. 288.
118

CASTELLS, Manuel. Cidade, democracia e socialismo. Tradução de Gloria Rodriguez. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p. 20.
119

A globalização é um dos processos de aprofundamento da integração econômica, social, cultural, política, com o barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final do século XX e inicio do século XXI. É um fenômeno observado na necessidade de formar uma Aldeia Global que permita maiores ganhos para os mercados internos já saturados.

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aprofundadas. O mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. 120 Destaca o autor que, no final do século XX, e graças aos avanços da ciência, o mundo torna-se unificado – em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para uma ação humana mundializada. A globalização marca um momento de ruptura no processo de evolução social e moral que se vinha fazendo nos séculos precedentes, uma vez que o progresso técnico aparecia, desde séculos anteriores, como uma condição para realizar essa sonhada globalização com a mais completa humanização da vida do planeta, contudo, quando finalmente esse progresso técnico alcança um nível superior, a globalização se realiza, mas não a serviço da humanidade. Nesse sentido, a globalização que nos é imputada, mata a noção de solidariedade, devolve o homem à condição primitiva de cada um por si, como se voltássemos a ser animais da selva, reduzindo ainda as noções de moralidade pública e particular a um quase nada. 121 Os grupos hegemônicos passaram a justificar a globalização como sendo um avanço do processo civilizatório para o capitalismo, mas, na realidade o que se pode constatar é que a globalização impõe-se à maior parte da humanidade como uma globalização perversa. Não existe uma definição de globalização que seja aceita por todos, mas pode ser caracterizada basicamente como um processo ainda em curso de integração de economias e mercados nacionais sob a égide do neoliberalismo caracterizado pelo predomínio dos interesses financeiros, pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das empresas estatais, e pelo abandono do estado de bem-estar social. A globalização passa a ser responsável pela intensificação da exclusão social - aumento do número de pobres e de desempregados - e por provocar crises econômicas sucessivas, arruinando milhares de pessoas
120

SANTOS, Milton. Por uma globalização: do pensamento único á consciência universal. Rio de Janeiro:Record, 2002. p. 19.
121

Ibid., p. 64.

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e empresas. A globalização é chamada de "terceira revolução tecnológica" (processamento, difusão e transmissão de informações) e acredita-se que a globalização define uma nova era da história humana. Milton Santos destaca que, para a grande maioria da humanidade a globalização está se impondo como uma “fábrica de perversidades”. A fome deixa de ser um fato isolado ou ocasional e passa a ser um dado generalizado e permanente; quando os progressos da medicina e da informação deviam propiciar uma redução substancial dos problemas de saúde, milhões de pessoas morrem todos os dias, antes do quinto ano da vida; nunca na história houve um tão grande número de deslocados e refugiados; bilhões de pessoas sobrevivem sem água potável; o fenômeno dos sem-teto, curiosidade a primeira metade do século XX, hoje é um fato banal, presente em todas as grandes cidades do mundo; o desemprego é algo tornado comum; acabar com o analfabetismo ficou mais difícil do que antes; a pobreza cada vez mais aumenta assustadoramente. 122 A globalização e o neoliberalismo, conforme Milton Santos, disseminam a pobreza numa escala global, pobreza esta quase sem remédio, trazida não apenas pela expansão do desemprego, como, também, pela redução do valor do trabalho. A produção maciça da pobreza aparece como um fenômeno banal, sendo que uma das grandes diferenças do ponto de vista ético é que a pobreza de agora surge, impõe-se e explica-se como algo natural e inevitável. Essa pobreza é produzida politicamente pelas empresas e instituições globais, sendo que estas, de um lado, pagam para criar soluções localizadas, parciais, segmentadas, como é o caso do Banco Mundial, que, em diferentes partes do mundo, financia programas de atenção aos pobres, querendo passar a impressão de se interessar pelos desvalidos, quando,

122

Ibid., p. 59.

nacionais e mesmo internacionais. p. 124 A crise ambiental mostra a necessidade de revalorizar o fato urbano a partir da racionalidade.. beira de cursos d ´água sujeita a enchentes. ACSELRAD. 27.79 estruturalmente. têm o acesso desigual aos recursos ambientais como água. p. saneamento e solo seguro. 123 124 Ibid. e isso se dá com a colaboração passiva ou ativa dos governos nacionais. Além disso. situadas sobre gasodutos ou sob linha de transmissão de eletricidade. . de romper a inércia crescente da urbanização e repensar as funções atribuídas à vida humana. A partir daí ampliam-se novos movimentos sociais que incorporam a discussão ambiental. os trabalhadores são submetidos aos riscos de moradia em encostas perigosas. da desproteção social e da precarização do trabalho. A duração das cidades: sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. 123 O que caracteriza as cidades contemporâneas. sob os efeitos da globalização. Rio de Janeiro: DP&A. Henri (org). A degradação do ambiente emerge do crescimento e da globalização econômica. e o agravamento dos problemas ambientais – presentes nas regiões e aglomerados urbanoindustriais – se sobrepõe aos problemas de infra-estrutura básica e exclusão social. é o grande produtor da pobreza. 2001. é justamente a profunda desigualdade social na exposição aos riscos ambientais. 73. pois além das incertezas do desemprego. áreas contaminadas por lixo tóxico. sejam eles grupos locais em áreas de risco industriais ou grupos ambientalistas organizados atuando em níveis regionais.

Esse processo de crescimento urbano intensivo que acompanhou e tornou possível a industrialização brasileira provocou drásticas transformações sócio-econômicas e espaciais no país. por sua vez. Disponível em www. criando novas periferias. saúde126. transportes e demais serviços urbanos. cujo resultado materializa-se em uma dinâmica de modernização que recria exclusão social e segregação territorial para grande parcela da população. com diferenças de grau e intensidade. entremeadas de vazios. num verdadeiro círculo vicioso. abastecimento. p.. 126 Ibid. . Nelson. onde as carências dessa última criam diferenciais no valor da terra central e alimentam a especulação imobiliária. 15. caracterizam-se pela ocupação de vastas superfícies. Esta.ocasionou uma enorme concentração econômica.unhabitat. saneamento.125 O processo de urbanização brasileiro e latinoamericano se intensificou a partir da segunda metade do século XX.2 AS CONDIÇÕES URBANAS E HABITACIONAIS NO BRASIL A urbanização brasileira é resultado do modelo de industrialização e desenvolvimento vigente nos países em desenvolvimento.industrialização e urbanização .org. todas as cidades brasileiras apresentam problemas parecidos: carência generalizada de habitação. a qual tem determinado o processo de exclusão sócioespacial da maior parte da população do país. gerando um modelo de ocupação centroperiferia. heterogêneo e desequilibrado. Quanto à estruturação. fortalece o processo de extensão da área urbana. constituindo-se em um gigantesco movimento populacional e de construção de cidades para o atendimento de necessidades de moradia. educação.80 3. Milton Santos afirma que. A combinação de tais processos . e aumentando os 125 SAULE JR. Acesso em 25/10/2006. lazer. Direito à Moradia no Brasil. trabalho.

Direito à Moradia no Brasil.asp?conteudo_id. A extensão das redes de infra-estrutura realizada pelo poder público em direção às áreas distantes valorizava as áreas vazias localizadas neste trajeto. loteamentos e conjuntos habitacionais irregulares. Ao mesmo tempo. introduziu um novo e dramático significado: as cidades passaram a retratar e reproduzir as injustiças e desigualdades da sociedade. O Estado passa a investir em infra-estrutura para induzir o desenvolvimento industrial (substituição das importações) e o urbanismo reformador das cidades. Acesso em 22/11/2005.cidadania. Disponível em www. ao final de um período de acelerada expansão da economia brasileira. ao final.81 problemas.128 O modelo de desenvolvimento e expansão que comandou nossa urbanização acelerada produziu cidades marcadas pela presença das chamadas “periferias” e “favelas”. obras paisagísticas foram realizadas nas áreas centrais para favorecer a consolidação do mercado imobiliário capitalista que começava a surgir. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. autoconstruindo um habitat precário. mais visíveis se tornam essas mazelas. cortiços.129 Dezenas de milhões de brasileiros não têm tido acesso ao solo urbano e à moradia senão através de processos e mecanismos informais – e frequentemente ilegais -. Milton. 2ª Ed. 127 De acordo com Nelson Saule Jr. loteamento clandestinos.br/imprimir. Renato. arcaram com o custo destas obras. 105 e 106.org. A Urbanização Brasileira. . nas 127 SANTOS. Nelson. vulnerável e inseguro. beneficiando as atividades especulativas e penalizando os moradores das periferias e os contribuintes que. a urbanização brasileira nasceu marcada por reformas urbanas que primavam por obras de saneamento e embelezamento que expulsaram os pobres para as periferias como solução para eliminar epidemias e higienizar os espaços.unhabitat. que. quanto maior a cidade. p. 128 SAULE JR.org. Disponível em: http://www. 129 CYMBALISTA. ocupações em áreas públicas. 2005. Essa urbanização vertiginosa. Refundar o não fundado: desafios da gestão democrática das políticas urbana e habitacional do Brasil. Favelas. Acesso em 25/10/2006.. O autor afirma ainda.

nº. tipo de aglomeração urbana. Em 40 anos. p. 5. pela maior parte de nossos moradores urbanos. 131 Tabela 1 – Quantidade populacional urbana e rural do Brasil . Desde a década de 80. concentra domicílios com elevado grau de carências socioeconômicas.. 01 IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. . 132 BRASIL. Censo Demográfico 2000. Ministério das Cidades. p. Cadernos de Saneamento Ambiental. Em todo o mundo. no Brasil os índices de urbanização vêm atingindo patamares crescentes.IBGE/2000 Dados da ONU indicam que um terço de toda a população urbana mundial vive em assentamentos precários. expressa nas favelas. as cidades brasileiras receberam 106 milhões de novos habitantes. e 80% da população brasileira concentravam-se em áreas urbanas.. tanto em termos de oferta de serviços públicos. quanto relativas à infra- 130 131 Ibid. Rio de Janeiro.1960 e 2000 1960 População urbana População rural 45% 55% 2000 81% 19% Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística .82 encostas e beiras de rios – essas têm sido as principais formas de habitação produzidas diariamente nas cidades brasileiras. 130 Segundo dados do Censo Demográfico. 13. entre 1960 e 2000. cerca de 900 milhões de pessoas passam por problemas semelhantes aos enfrentados por brasileiros que não têm acesso à moradia digna132. Outubro de 2004. amplamente disseminada pelas metrópoles do país. a precariedade habitacional vem assumindo contornos cada vez mais graves. que podem ser assim descritas: “. Fundação IBGE.. quando se inicia um período de estagnação econômica. 2001.

quase sempre impróprios para moradia. malha viária e equipamentos de transporte coletivo deficientes etc. Além disso. de alguma forma. Aldo Paviani examina as periferias dos pobres .e a periferia “geográfica” . as periferias são a materialização de mecanismos de exclusão/segregação.Acesso em 25/10/2006. especialmente em locais onde as condições de salubridade são precárias e os terrenos. Podendo ser consultado www. As favelas e os cortiços multiplicam-se. não sendo exclusividade das grandes cidades como se acreditava. Disponível em: http://www.lugar da favela.”.pdf. tais como: habitações insuficientes e de má qualidade. com forte declividade ou mesmo inundáveis. Tamanho Populacional das Favelas Paulistanas. 134 MARICATO. Eduardo César. dotado de toda a gama de amenidades. Haroldo da Gama e Marques.br/pdf/abep2002. As relações sociais se degradam na mesma medida do ambiente miserável a que são sujeitadas. Ou os Grandes Números e a Falência do Debate sobre Metrópole. Ermínia. infra-estruturas e oportunidades de trabalho . De acordo com Ermínia Maricato. percebidas por toda a sociedade.usp/br/fau/depprojetos/labhab/04textos/favelas. . Acesso em 22/11/2005.doc.aqueles espaços gerados por ações periferizadoras e que tradicionalmente opunham-se ao centro.83 estrutura urbanística e renda pessoal dos moradores. 134 Nas grandes cidades.centrodametropole. 135 133 TORRES. as mazelas decorrentes do crescimento das favelas são.. da dimensão quantitativa que as favelas estão tomando e nem de suas causas. tendo como conseqüência o crescimento generalizado da pobreza e da violência urbana. Favelas – um universo gigantesco e desconhecido. muitas destas áreas estão também sujeitas a riscos ambientais. baixa possibilidade de acesso rápido e confortável aos lugares de trabalho..org. 133 A autoconstrução de barracos improvisados torna-se cada vez mais freqüente. inexistência de infra-estruturas básicas. no entanto. geralmente situadas em terrenos insalubres. Não há a consciência.

A lógica da periferização em áreas metropolitanas. Aldo. Maria Laura. de. pelo fato de não terem acesso aos meios para compreensão e captação da realidade à sua volta. a 135 PAVIANI. inclusive dos promotores de “mutirões para a casa própria”. SANTOS. 182-183. p. Os analfabetos. 136 Ibid. São Paulo: HUCITEC. p. está infiltrada em todo o tecido metropolitano e se qualifica desta forma por intermédio de diferenciadas ações no âmbito: 136 a) do trabalho . leva à precarização de vida de grande parte da população. não se habilitam a acessos diversos de moradia. 185-188. SILVEIRA. . sob o ponto de vista sócio-espacial e político considera-se que existe a cidadania conquistada e sua oposta.quando há contradições insuperáveis nas diversas políticas habitacionais que deveriam ser conduzidas com padrões éticos. hoje.em algumas metrópoles. 2002. menos esclarecidos. Milton.84 O autor destaca que a periferia pobre. medidas capazes de atrair os menos esclarecidos. SOUZA. ou próximo dos locais onde há a possibilidade de encontrar trabalho informal. b) da educação – a contínua manutenção de analfabetos ou alfabetizados incompletos. não assimilando as informações necessárias para melhor se posicionarem na tomada de decisões. os favelados procuram ocupar locais impróprios para moradia próximo de seu local de trabalho. os que são incapazes de vislumbrar a ações demagógicas de autoridades. Com o caráter de políticas habitacionais são implantados “conjuntos habitacionais populares”. muitas vezes erguidos para atender clientela entre uma eleição e outra. “assentamentos para população de baixa renda”: fixam-se favelas. In: Território – Globalização e Fragmentação. Org. de forma continuada e com o propósito de resolver o problema habitacional de modo eficaz.. Maria Adélia A. quando são extensivamente ocupadas por setores de moradia de baixa qualidade construtiva. c) da moradia . na maioria das vezes. As políticas incrementalistas no setor habitacional revelam as cidades como um caos. d) da cidadania pela qual se conquista o direito à cidade. Para o autor.

São Paulo: Perspectiva. em todos os níveis de ensino. mas em geral a ela é destinado um terreno à parte onde. nos entrechoques com forças repressoras.2. (CHOAY. nas greves. no cotidiano. É verdade que muitas vezes a pobreza reside em vielas escondidas bem perto dos palácios dos ricos. muitos inscritos na Carta Magna de 1988. não usufruem das possibilidades de abertura à consciência política e aos direitos elementares que a cidadania plena oferece. 141).. 138 O processo de urbanização concomitante à industrialização assumiu uma série de características. Françoise. p. cheias de detrito vegetais e animais. portanto presas fáceis dos que lhes concedem “benefícios” e “favorecimentos”. sendo assim. 1998. desestimulando o professorado com salários aviltantes e baixas condições para a atividade educacional. O Urbanismo.85 cidadania dada. mantendo enormes contingentes populacionais por meio de políticas assistencialistas e de favorecimento. A maioria da população vítima da exclusão social e econômica não teve acesso à alfabetização e à escolaridade.. 137 3. em troca de votos. bem ou mal.) As ruas são normalmente nem planas nem pavimentadas. renda e poder. em troca. ela tem de. não destinam recursos para a educação. p.. sem esgotos nem escoamento de água. A cidadania plena é aquela fruto de conquistas ao longo do processo histórico. mas.1 Segregação social e degradação ambiental Toda grande cidade tem um ou vários bairros ruins. sendo. nos protestos de ruas. onde se concentra a classe operária. Por esse motivo as elites dominantes mantêm e perpetuam a baixa escolaridade. semeadas de poças estagnadas e mal cheirosas. ajeitar-se sozinha. são sujas. que denunciou a miséria e a segregação do proletariado urbano nas cidades industriais inglesas. longe do olhar das classes mais felizes. (. . Esta emana dos que “assaltaram o aparelho de Estado”. A “industrialização com 137 138 Ibid. pelos movimentos sociais e na luta constante para o incremento dos direitos civis. 185-187 O problema das grandes cidades foi abordado por Friedrich Engels. dentre elas a concentração de terra.

As razões da ilegalidade decorrem tanto do baixo rendimento de uma grande parcela da população urbana. em um trabalho que discute as características do mercado de terras na América Latina. uma vez que os empreendedores imobiliários não têm interesse nem incentivos para investir nesse segmento do mercado. 02 . sistemas de esgoto e pluvial. é em geral considerada como um fator explicativo da dificuldade associada à aquisição de terra no mercado formal. MARICATO. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos.html. foram partes integrantes do crescimento urbano sob a égide da industrialização. 139 Cenecorta e Smolka. bem como da reduzida oferta de terras no âmbito do mercado imobiliário formal. buscando terra urbana através de mecanismos ilegais. Otília. incluindo o acesso (ainda que sem pavimentação) à rede viária urbana. enfrentada por uma ampla camada da população urbana. informais. afirmam defendem que a oferta insuficiente de terra servida 140 a preços acessíveis para os pobres urbanos e a necessidade de regularização das ocupações ilegais em áreas urbanas são duas das questões mais importantes da agenda latino-americana de política fundiária. 141 Afirmam ainda os autores que os extratos mais pobres da população urbana são “empurrados” para a informalidade. O custo da reprodução da força de trabalho não inclui o custo da mercadoria habitação. p.gov.fip. Alfonso Iracheta e SMOLKA. Martim O. 142 Ibid. iluminação pública. Ermínia. Podendo ser consultado: http://www. como terra designada para o uso urbano e equipada com infra-estrutura básica. 141 CENECORTA. p. a favela ou lote ilegal. água. grande parte da população urbana brasileira não tem condições de comprar uma moradia no mercado privado legal. Ou seja. fixado pelo mercado privado. Petrópolis/RJ: Vozes 2000.86 baixos salários” é um mercado de moradias restrito e concentrado. Carlos. 139 ARANTES. sendo assim. VAINER.154 e 155.mg. Acesso à terra servida para a população urbana pobre: o paradoxo da regularização no México. irregulares ou clandestinos.eg. 142 Pode-se afirma que essa situação.br/gestaourbana/arquivos/modulo10/mod10arq1. bem como serviços de eletricidades e telefonia. 140 Os autores Cenecorta e Smolka esclarecem que o termo “terra servida” deve ser entendido em seu sentido mais amplo.. combinados à autoconstrução. devido a seus baixos rendimentos.

.scielo. reforça a pobreza urbana.87 A ilegalidade. Raquel. estabelecendo um ciclo vicioso. justiça. Podendo se consultado em: http://www. portanto. ao contribuir para a exclusão social. Acessado em 30/11/2006. A noção de exclusão considera fatores ligados tanto aos direitos sociais quanto a aspectos materiais.br/scielo. a exclusão social é vista como uma forma de analisar como e por que indivíduos e grupos não conseguem ter acesso ou beneficiar-se das possibilidades oferecidas pelas sociedades. 144 143 144 Ibid.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88391999000400011. no diagrama abaixo: O ciclo vicioso da informalidade Urbanização da pobreza Necessidades sociais excedendo a base tributária Ausência de recursos públicos para financiar provisão de serviços Escassez de terras servidas/urbanizadas Supervalorização de terras servidas Preços não acessíveis Ocupações de terra ilegais/irregulares Custo de vida mais alto Aumento da pobreza urbana Segundo Raquel Rolnik. não apenas a falta de acesso a bens e serviços – que representam a satisfação de necessidades básicas -. p. abrangendo. mas também a ausência de acesso à segurança. 03 ROLNIK. demonstrado por Cenecorta e Smolka143. cidadania e representação política. Exclusão territorial e violência..

2001. Maricato ressalta que essa situação implica em uma exclusão ambiental e urbana. tendo em vista que diversas localidades urbanas possuem diferentes preços. In: Natures Sciences Sociétés. carente de equipamentos públicos sociais. Podendo ser consultado www. Em geral essa população é mais pobre. o número de negros e de mães solteiras é maior do que a média da cidade e. Daí concluí-se que a “exclusão é um todo”: territorial. além de regiões ambientalmente impróprias para moradia. que o processo de exclusão não se refere apenas ao território.Acesso em 25/10/2006. telefonia. 33-51.doc.88 A ilegalidade em relação à posse da terra. 02 . racial e cultural. 3. 148 Ibid. p. econômica. esgoto. As áreas ocupadas por favelas146 estão marcadas pela ilegalidade e a conseqüente ausência de direitos. o conceito de favelas que é utilizado no texto se refere à situação totalmente ilegal de ocupação do solo. etc. transporte.148 145 PEREIRA. varrição. 147 MARICATO. como a periferia urbana. A população de menor poder aquisitivo tende a ocupar áreas desvalorizadas no mercado imobiliário. Ermínia. drenagem. p. iluminação pública. torna-se mais difícil encontrar um emprego. jan/jun. A natureza (dos) nos fatos urbanos: produção do espaço e degradação ambiental. coleta de lixo. além de fator de segregação social da população de menor renda. A autora acredita que o solo ilegal parece construir a base para uma vida ilegal e esquecida pelos direitos e benefícios urbanos. as áreas ocupadas por favelas são áreas mal servidas pela infra-estrutura e serviços urbanos como água.. etc. Favelas – um universo gigantesco e desconhecido. ainda. Editora da UFPR. ou seja. estabelecidos pelo mercado imobiliário. 146 Para Maricato. Gislene. sendo uma conseqüência da situação jurídica que define uma relação social: o ocupante não tem qualquer direito legal sobre a terra ocupado correndo o risco de ser despejado a qualquer momento. n. mas seus moradores são também vítimas de preconceito. As áreas com melhor localização são as mais caras e são ocupadas pela população que tem renda para arcar com esses custos145. é o principal agente do padrão de segregação espacial que caracteriza as cidades brasileiras. ambiental. Desenvolvimento e Meio Ambiente. pela falta de endereço formal.147 Maricato ressalta.usp/br/fau/depprojetos/labhab/04textos/favelas.

151 De fato. entre outras. De acordo com Herculano. 149 150 Ibid. 145. 150 A população de maior renda tende a beneficiar-se do processo de produção da cidade e os mais pobres permanecem à margem. Favelas – um universo gigantesco e desconhecido.doc. mas como percalços inesperados e perversos. por não disporem de recursos financeiros que permitam sua inserção nesse processo.149 A relação entre pobreza e degradação do ambiente caracteriza a discussão sobre os problemas ambientais nas cidades brasileiras. o que gera. muito frequentemente. nº 5. governamentais em primeiro plano. Ermínia. p. na maioria das vezes. Ela influi ainda nas características da segregação territorial e na qualidade de vida de cada bairro. Selene.. Resenhando o debate sobre a justiça ambiental: produção teórica. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos coletivos – ambiente e saúde.Acesso em 25/10/2006 .usp/br/fau/depprojetos/labhab/04textos/favelas. 02 HERCULANO.89 Outra grave conseqüência que decorre desse expressivo crescimento das ocupações ilegais está relacionada ao meio ambiente. em áreas ambientalmente frágeis: beira de córregos. A pobreza e a degradação ambiental não são percebidas (. Conforme aponta Maricato. regulam quem e quantos terão o direito à cidade. áreas de mangues. uma situação ilegal. Curitiba/PR: Editora da UFPR. e privado em segundo. 151 MARICATO. passíveis de serem contornados e controlados através de ajustes e correções”. precária situação sanitária e habitações inadequadas. as áreas onde predomina a população de baixa renda nas cidades brasileiras caracterizam-se pela deficiência dos serviços urbanos básicos. As favelas estão localizadas. fundos de vales inundáveis. áreas de proteção ambiental. a natureza e a localização dos investimentos. Podendo ser consultado www. “a pobreza e a deterioração ambiental formam um círculo vicioso. encostas íngremes. p.. no qual um é causa do outro”.) “enquanto inerentes à lógica perversa de um modo de produção concentrador. 2002. breve acervo de casos e criação da rede brasileira de justiça ambiental.

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Ermínia Maricato discute a oposição entre cidade real e cidade legal, demonstrando que o uso ilegal do solo e a ilegalidade das edificações em meio urbano atingem mais de 50% das construções nas grandes cidades brasileiras, se considerarmos as legislações de uso, ocupação e parcelamento do solo, zoneamento e edificação. As razões da ilegalidade decorrem tanto do baixo rendimento de uma grande parcela da população urbana, como da reduzida oferta de terras no âmbito do mercado imobiliário formal, uma vez que os empreendedores imobiliários não têm interesse nem incentivos para investir nesse segmento do mercado. 152 A autora afirma, ainda, que, “(...) é preciso considerar que as periferias das cidades cresceram mais do que os núcleos centrais, o que implica um aumento relativo das regiões pobres. A ilegalidade na ocupação do solo torna-se uma verdadeira máquina de produzir favelas e agredir o meio ambiente. O número de imóveis ilegais na maior parte das grandes cidades é tão significativo que a cidade legal (cuja produção, pode-se dizer, é capitalista) caminha para ser, cada vez mais, espaço da minoria”. 153 De acordo com Nelson Saule Junior, a cidade marcada pela desigualdade social e pela exclusão territorial não é capaz de produzir um desenvolvimento sustentável. Afirma o autor que o direito ao desenvolvimento e o direito a um meio ambiente sadio devem ter o desenvolvimento sustentável como princípio norteador. O princípio do desenvolvimento sustentável fundamenta o atendimento das necessidades e aspirações do presente, sem comprometer a habilidade das gerações futuras atenderem suas próprias necessidades. A política de desenvolvimento urbano deve ser destinada para promover o desenvolvimento sustentável, de modo a atender as necessidades essenciais das gerações presentes e futuras. O

152

MARICATO, Ermínia. Metrópole, legislação e desigualdade. Podendo ser consultado http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000200013&Ing=ennrm=iso. Acesso em 02/09/2006.
153

MARICATO, Ermínia. Urbanização na periferia do mundo globalizado. Podendo ser consultado: http://www.scielo.br/scielo.php?pid. Acesso em 22/11/2006.

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atendimento dessas necessidades significa compreender o desenvolvimento urbano como uma política pública que torne efetivo os direitos humanos, de modo a garantir à pessoa humana uma qualidade de vida digna. 154

3.2.2 Ocupações Desordenadas e o Déficit Habitacional

O modelo de desenvolvimento e expansão que comandou a urbanização acelerada no Brasil produziu regiões marcadas pela presença de ocupações ilegais. Conforme aponta Maricato, são diversas as denominações para ocupações ilegais utilizadas nas diversas regiões do Brasil: chamadas “áreas de posse” em Goiânia, “vilas” em Porto Alegre e Curitiba, “invasão” em Brasília e “favelas” em vários Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, etc. Deve-se notar, contudo, que os movimentos sociais que lutam pela moradia rejeitam o termo “invasão”, por considerá-lo ofensivo, optando por adotar o termo “ocupação”. A autora considera que o termo “invasão” retrata a ocupação, em áreas públicas ou privadas, por falta de alternativas, na maioria absoluta dos casos. 155 Na cidade de Manaus, o termo comumente utilizado para denominar as ocupações ilegais é “invasão”, mas utilizaremos neste trabalho a denominação ocupações, uma vez que o termo “invasão” carrega consigo uma conotação pejorativa.

154

SAULE JR, Nelson. Direito à Moradia no Brasil. Disponível em www.unhabitat.org. Acesso em 25/10/2006.
155

ARANTES, Otília. VAINER, Carlos. MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Petrópolis/RJ: Vozes 2000. p. 153.

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De acordo com Edésio Fernandes, dezenas de milhões de brasileiros não têm tido acesso ao solo urbano e à moradia, senão através de processos e mecanismos informais – e frequentemente ilegais -, resultando em um habitat precário, vulnerável e inseguro. Favelas, loteamentos e conjuntos habitacionais irregulares, loteamentos clandestinos, cortiços, ocupações em áreas públicas, nas encostas e beiras de rios – essas têm sido as principais formas de habitação produzidas diariamente nas cidades brasileiras, pela maior parte de nossos moradores urbanos. 156 De fato, a rede urbana brasileira é extremamente desigual e concentrada. Enquanto treze municípios com mais de um milhão de habitantes respondem por cerca de 20% de toda a população brasileira, temos cerca de 4.600 municípios com menos de 20 mil habitantes concentrando menos de 30% da população do país. 157 Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, Censo 2000, as favelas existem em todos os municípios com população superior a 500 mil habitantes e em 80% das cidades cuja população está entre 100 e 500 mil habitantes. Após a realização, pelo IBGE, do Censo 2000 Brasil, a Fundação João Pinheiro em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), elaborou o estudo Déficit Habitacional no Brasil 2000, tendo como finalidade dimensionar e qualificar esse problema no Brasil. 158

156

FERNANDES, Edésio. Por uma política e um Programa Nacional de Apoio à Regularização Fundiária Sustentável: uma proposta inicial para consulta e ampla discussão. Disponível em: http:/www.irib.org.br/print/salas/boletimel743a.asp. Acesso em 22/11/2005
157 158

BRASIL. Ministério das Cidades. Caderno de Saneamento Ambiental nº. 5. Outubro de 2004. p. 13.

BRASIL. Ministério das Cidades. Déficit Habitacional no Brasil – Municípios Selecionados e microrregiões geográficas. Belo Horizonte/2004.

com renda familiar de até três salários mínimos. se aplica àquelas habitações que não proporcionam aos seus moradores condições desejáveis de habitabilidade. que moram em casa ou apartamento e que despendem mais de 30% de sua renda com aluguel.. às moradias sem condições de serem habitadas. acrescidos de uma parcela devida à depreciação dos domicílios existentes.93 A pesquisa partiu do conceito de que “todo mundo mora em algum lugar”. como o “déficit por reposição do estoque”. com problemas de natureza fundiária. portanto ser repostos. e como “déficit por incremento de estoque” que contempla os domicílios improvisados (locais destinados a fins não-residenciais que sirvam de moradia. p. p. o que indica claramente a carência de novas unidades domiciliares) e a coabitação familiar. portanto. Tais fatores não implicam a necessidade de construção de novas unidades..160 Agrega-se aos dois componentes acima citados o que se costuma denominar “ônus excessivo com aluguel”. (Ibid. O déficit habitacional pode ser entendido. sendo que os índices produzidos para caracterizar as necessidades habitacionais brasileiras abarcaram o “déficit habitacional” e a “inadequação de moradias”. 07 . seja devido ou à precariedade das construções. com adensamento excessivo de moradores. que corresponde ao número de famílias urbanas. 159 Domicílios rústicos não apresentam paredes de alvenaria ou madeira aparelhada. Em outras palavras. O conceito de “déficit habitacional” está diretamente ligado às deficiências do estoque de moradias. 07) 160 Ibid. os domicílios com carência de infraestrutura. de acordo com o Ministério das Cidades. Já o conceito de “inadequação de domicílios”. seja ao fato de terem sofrido desgaste de sua estrutura física. o que resulta em desconforto para seus moradores e risco de contaminação por doenças e devem. referindo-se aos domicílios rústicos159. isto é. em alto grau de depreciação ou sem unidade sanitária domiciliar exclusiva.

161 SAULE JR.374. constituindo mesmo uma das maiores do mundo.94 Entenda-se por carência de infra-estrutura a situação daqueles domicílios que não dispõem de: iluminação elétrica. ao passo que o déficit habitacional nacional se aproxima de 7 milhões de unidades habitacionais . Direito à Moradia no Brasil. inclusive banheiros e cozinha. rede geral de abastecimento de água com canalização interna. em 2000. ocorre o chamado “adensamento excessivo”. Nelson Saule afirma que os dados apontam um incremento absoluto no número de unidades habitacionais.656. para 6. como garagens e depósitos. Sobre a evolução do déficit habitacional brasileiro.org. Podendo ser consultado pelo site: www. Nelson. no Brasil. durante a década e um crescimento de 2.2% ao ano.380. Não são considerados os corredores.urbanas e rurais o que mostra que a concentração de terras é alarmante nesse país. o déficit habitacional aumentou em geral e aumentou principalmente para os moradores na faixa mais baixa da renda mensal familiar recebida. Ou seja. alpendres.7%. Deve-se esclarecer que o número de dormitórios corresponde ao total de cômodos. . varandas abertas e outros compartimentos utilizados para fins não residenciais. rede geral de esgotamento sanitário ou fossa séptica e coleta de lixo. há um total de cerca de 5 milhões de imóveis desocupados. em 1991.unhabitat. Verifica-se a necessidade de uma política de subsídio à política habitacional. que são todos os compartimentos integrantes do domicílio separados por paredes. Quando o domicílio apresenta um número médio de moradores superior a três indivíduos por dormitório.526. tendo em vista que os mecanismos de mercado e as políticas públicas têm sido insuficientes para a solução do problema. Acesso em 25/10/2006. representando um acréscimo de 21. de acordo com os dados do Ministério das Cidades (2006). que passam de 5. 161 Vale ressaltar que.

No entanto. NOME DA OCUPAÇÃO QUANTIDADE LOTES ESTIMADOS 1. sendo que 16 dessas ocupações foram consolidadas. o que representaria mais de 34% do déficit habitacional estimado pela FJP.95 Segundo dados da Fundação João Pinheiro .2004. aproximadamente 23.Relação de “invasões” consolidadas em Manaus – 2002 . quatrocentos e cinqüenta) lotes.450 (vinte e três mil.500 500 700 800 300 1.000 600 1.000 5.500 400 400 .000 3.000 3. somente nos anos de 2002.SPF. 2003 e 2004. cento e oito) domicílios. segundo dados da Secretaria de Estado de Política Fundiária . Tabela 2 . o déficit habitacional em Manaus no ano de 2000 está estimado em 68.JESUS ME DEU 2.108 (sessenta e oito mil.FJP.RIO PIORINI 3-CAMPOS SALLES 4-RIO SOLIMÕES 5-PARQUE RIACHUELO 6-ISMAIL AZIZ 7-PARQUE DOS GUARANÁS 8-ESPLANADA 9-RAIOS DE SOL 10-FAZENDINHA 11-NOVA VITÓRIA 12-CARBRÁS 13-PONTAL DA CACHOEIRA 14-CELEBRIDADES 3. surgiram 100 (cem) ocupações irregulares. gerando assim.000 2.

96

15-NOVO MILÊNIO 16-VITÓRIA RÉGIA TOTAL
Fonte: Secretaria de Política Fundiária do Amazonas - SPF

450 300 23.450

As invasões não atingem prioritariamente as famílias componentes do déficit habitacional, mas sim outro segmento social: os desempregados e subempregados que buscam nas ocupações ilegais uma forma de subsistência, uma vez que o mercado de trabalho passou a exigir qualificação profissional e nível escolar elevado. Os lotes que foram ocupados ilegalmente além de suprirem as necessidades de algumas pessoas sem moradia, também são utilizados como meio para obter uma fonte de renda, ou seja, pessoas sem alternativa financeira passam a ocupar os lotes para posteriormente vendê-los, sendo essa uma das poucas alternativas para garantir a sobrevivência. Isso nos mostra que, na realidade, as “invasões”, além de serem um meio de conseguir uma moradia, também desempenham outro papel, que é o de propiciar uma fonte de renda para os “sem-trabalho”, que, por necessidade de subsistência, acabam vendendo a terra invadida, e voltam a invadir outro local para moradia, gerando assim a “indústria da invasão”.162

3.3 O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO NA CIDADE DE MANAUS: A OCUPAÇÃO DE ÁREAS IMPRÓPRIAS E SEUS REFLEXOS PARA UMA SADIA QUALIDADE DE VIDA.

162

Centro pelo Direito à Moradia contra despejos – COHRE. Conflitos Urbano-Ambientais em Capitais Amazônicas: Boa Vista, Belém, Macapá e Manaus. Ano 2006. p. 32

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A cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas, está localizada na Região Norte do Brasil, no centro geográfico da Amazônia. Dentro da rede de cidades brasileiras, Manaus representa o 12º maior centro urbano, sendo considerada uma metrópole regional. Segundo dados do Censo 2000, Manaus apresenta uma população total de 1.403.796 habitantes, com uma concentração de 99,35% na área urbana – 1.394.724 habitantes. Vale ressaltar que, no ano de 2000, Manaus passou a ter a metade da população do Amazonas. Os indicadores de renda, pobreza e desigualdade para a cidade de Manaus podem ser observados na tabela abaixo: Tabela 3 - Indicadores de Renda, Pobreza e Desigualdade em Manaus - 1991 – 2000. 1991 Renda per capita Média (R$ de 2000) Proporção de Pobres (%) Índice de Geni (mede o grau de desigualdade na distribuição de indivíduos segundo a renda domiciliar per capita),
Fonte: Atlas do Índice de Desenvolvimento Humano - IDH do Brasil

2000 262,4 35,2 0,64

276,9 23,6 0,57

A partir da implantação da Zona Franca de Manaus, através do Decreto-Lei nº. 288, de 28/02/1967, teve início um novo ciclo econômico, com a instalação de um parque industrial de porte e a consolidação de um setor terciário baseado na comercialização de produtos importados. A Zona Franca de Manaus foi um momento importante para o processo de desenvolvimento do Estado do Amazonas, gerando milhares de empregos e postos de trabalho, diretos e indiretos. A Zona Franca de Manaus foi responsável pela atração de um grande fluxo migratório do interior do Estado e de diferentes regiões do país. Em conseqüência, houve um aumento da população em Manaus, levando ao agravamento da questão urbana, da saúde pública e da

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exclusão social, processo que provocou a redução da qualidade de vida da maior parte da população. O problema fica evidente quando analisamos o crescimento demográfico da população, uma vez que, em 1970, Manaus possuía 284.000 mil habitantes e, em 2000, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a população deste município saltou para 1.403.796 de habitantes.

Tabela 4 – Crescimento Demográfico da população de Manaus – 1970 - 2000 ANO 1970 1980 1990 2000 POPULAÇÃO 284.000 635.000 1.100 1.403.796

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE 1970-2000

Esse crescimento populacional foi causado pelo gigantesco êxodo rural e pelo fluxo migratório para a capital, sendo que enormes contingentes populacionais abandonaram seus locais de origem ancestrais, atraídos pelas expectativas de emprego e melhores condições de vida em geral resultantes da instalação da Zona Franca de Manaus. O crescimento acelerado da cidade, a partir da década de 1980, provocou a expansão indiscriminada da ocupação urbana, com o aumento das ocupações irregulares, principalmente nas zonas leste e norte, além do agravamento da situação às margens dos

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igarapés e da deficiência da infra-estrutura urbana, principalmente dos sistemas de esgotos sanitário, dos serviços e equipamentos sociais básicos. 163 De acordo com nosso sistema jurídico, cabe ao município o ordenamento territorial urbano e a disciplina do uso do solo nas cidades. 164 Contudo, observamos que, nas últimas décadas, o Município abriu mão dessa prerrogativa e o poder público ficou a reboque das “invasões”. Não foram desenvolvidas políticas públicas suficientes para enfrentar essa dinâmica populacional e houve um constante relaxamento no cumprimento das normas urbanísticas e edilícias previstas na Lei 1.213/75 (Plano Diretor Local Integrado de Manaus – PDLI). O PDLI, destinado a atender às necessidades da população e da cidade nos próximos 20 anos, deveria ter sido revisado em 1995, mas não foi. 165 Este plano desempenhou um papel importante apenas nos primeiros anos do processo de expansão urbana que se seguiu à instalação da Zona Franca e do Distrito Industrial. Entretanto, a ausência de planejamento continuado e a perda do controle do crescimento da cidade acabaram por determinar a ocorrência de vários problemas ambientais em Manaus.
166

Dessa forma, por total falta de alternativa habitacional, convivem nos dias atuais na cidade de Manaus milhares de famílias que residem em barrancos e encostas com riscos de

163

BRASIL. Ministério do Meio-Ambiente. GEO-CIDADES (2002). Relatório Ambiental Urbano Integrado de Manaus. p. 59.
164

Com relação à política habitacional, nos termos do artigo 23, inciso IX, a União, Estados e Municípios devem promover programas de construção de mordias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico. Compete aos Municípios, com base no art. 30, incisos I, II e VIII, promover o adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, parcelamento e da ocupação do solo urbano. O Município, com base no artigo 182 da CF, é o principal ente federativo responsável pela promoção da política urbana, de modo a ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade.
165

Durante mais de vinte anos, o PDLI não foi objeto de quaisquer avaliações ou revisões. Após a nova Lei Orgânica do Município, teve início a realização de estudos para adequação da legislação vigente à realidade municipal. Entre 1995 e 1997, foram editadas novas legislações entre as quais merecem destaque a Lei nº 2.79/95 que altera a divisão territorial do Município e estabelece as Áreas Especiais de Interesse Urbanístico, e a Lei nº 353/96 que estabelece normas para regularização de parcelamento do solo para fins urbanos, implantados irregularmente na Área Urbana, e cria as Zonas Especiais de Interesse Social ou ZEIS. (Centro pelo Direito à Moradia contra despejos – COHRE. Conflitos Urbano-Ambientais em Capitais Amazônicas: Boa Vista, Belém, Macapá e Manaus. Ano 2006. p. 31).
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BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. GEO-CIDADES (2002). Relatório Ambiental Urbano Integrado de Manaus. p. 60.

Essa opção dos movimentos de ocupação pela Zona Norte da cidade teve seu recrudescimento a partir do ano 2000.100 desabamento. em baixo de fios condutores de energia ou mesmo em antigos depósitos de lixo. evidencia uma forma de segregação espacial e social. com as invasões: Rio Piorini. Terra Nova e Santa Etelvina. barrancos. pelos seus inúmeros “vazios urbanos” 167 . Muitas das ocupações ou “invasões” ocorridas nos últimos anos. passa a ser a área escolhida para as invasões. Caracterizam-se.fez com que milhares de pessoas se vissem sem nenhuma perspectiva com relação a prover o seu próprio sustento. o município de Manaus vem se deparando com um número elevado de ocupações irregulares. 167 Os “vazios urbanos” podem ser definidos como áreas que não cumprem a função social. como o Novo Israel. servindo apenas como reserva para especulação. Segundo dados da Secretaria de Estado de Política Fundiária. como o caso do Bairro do Novo Israel. foram feitas em áreas impróprias para habitação. em baixo de fios de transmissão de eletricidade e também em locais com focos de malária. . situação que se agrava como resultado dos reflexos que recebem dos problemas macroeconômicos que abalam a economia nacional e global. Campos Salles. nos anos de 2002 a 2006. ascensão da política econômica neoliberal etc. Na década de oitenta. Esplanada. como encostas.ausência de políticas públicas. nascentes de igarapé. as chamadas invasões. aliada a outros fatores . ocorreram mais de 140 novas ocupações ilegais no perímetro urbano. Essa combinação. às margens dos inúmeros igarapés que recortam a cidade. a Zona Norte. Pontal da Cachoeira. Carbrás. a ausência ou insuficiência de políticas públicas voltadas para o problema habitacional e urbano. pelo estado de abandono das áreas. Ismail Aziz etc. Tal fato demonstra. Nas últimas três décadas. sendo assim locais propícios para as “invasões”. Jesus me Deu. mas. . por outro. Ocorre que a grande maioria dessas populações tem baixo nível escolar e pouca ou nenhuma qualificação profissional. na Zona Norte da cidade. por um lado. grosso modo. como acima afirmado.

que leva famílias inteiras a se submeterem à moradia em locais impróprios. principalmente nas épocas de campanhas políticas. sendo entrecortada por cursos d´agua. que não tem o direito de exercer sua cidadania no sentido de ter um teto para morar com dignidade. como resultado da situação climática e da cheia do Rio Negro. como a moradia nas margens de igarapés. causando riscos à própria vida e ao meio ambiente. rios e igarapés e. A forma desordenada de urbanização da cidade também traz prejuízos ao meio ambiente. como é o caso de invasões como “Jesus me Deu”. Após a consolidação das ocupações. “Nova Vitória” e outras. que ocorre anualmente. surgem situações de inundações e desmoronamentos. com poucos espaços verdes. ou de destruição quase que total de áreas verdes. reflexo do capitalismo crescente. passando a habitar locais que são impróprios para moradia. sem acesso à água de qualidade ou ar puro.101 A luta por moradia está sendo travada pela população de baixa renda. como é o caso do “Igarapé do Quarenta”. A cidade de Manaus está situada às margens dos Rios Negro e Solimões. em ambientes degradados. como áreas sem saneamento e coleta de lixo. diversos bairros da cidade de Manaus passam a receber algum tipo de saneamento ou infra-estrutura básica. As transformações fruto do processo de urbanização acelerada de Manaus não foram acompanhadas por uma política de controle ambiental compatível com seu elevado . A situação torna-se ainda mais dramática pelo fato de esses danos causados ao meio ambiente serem decorrência da total falta de oportunidade econômica. atingindo principalmente as populações que residem nas áreas impróprias à ocupação.

tais como febre tifóide.3. Os desmatamentos. 169 3. outro grave problema observado em Manaus é o crescimento da ocupação urbana direcionada para as áreas até então preservadas com florestas primárias. hepatite A e as diarréias tenham tido um alto índice de ocorrência na cidade. para fins de ocupações. regiões periféricas da cidade. 29 169 BRASIL. Relatório Ambiental Urbano Integrado de Manaus. A insuficiência da infra-estrutura existente fez com que os casos de doenças de veiculação hídrica. e depois foram sendo ocupadas e invadidas áreas na periferia da cidade. p. Primeiramente foram ocupados os espaços no centro da cidade. Ano 2006. os cursos d´água que cortam a cidade foram ocupados sofrendo alterações e degradação. levando um grande número de pessoas a ocuparem áreas impróprias para moradia. Em Manaus. Sendo assim.1. Macapá e Manaus. Conflitos Urbano-Ambientais em Capitais Amazônicas: Boa Vista.102 crescimento urbano. decorrentes do intenso desmatamento nas ocupações. às margens dos inúmeros igarapés que a recortam. onde ocorre intensa ampliação das fronteiras urbanas e o adensamento de áreas ocupadas. um número 168 Centro pelo Direito à Moradia contra despejos – COHRE. ocorridos nas últimas décadas. bem como os surtos de malária e dengue. p. Belém. devido ao intenso crescimento populacional. muitas delas irreversíveis. 118 . 168 Além das ocupações nas margens dos igarapés. como é o caso do Brasil. GEO-CIDADES (2002). Ministério do Meio Ambiente. A legalização das favelas à luz do Estatuto da Cidade As formas de ilegalidade nas cidades constituem uma das maiores conseqüências do processo de exclusão social e segregação espacial que tem caracterizado o crescimento urbano intensivo nos países em desenvolvimento. localizam-se nas Zonas Leste e Norte. houve uma redução das condições de salubridade dos habitantes. formando novos bairros. Nesse processo. levando assim a uma precarização da qualidade de vida.

São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. lei que regulamenta o capítulo da política urbana (arts. 182 e 183) da Constituição Federal de 1988. O Estatuto da Cidade passou a definir o que significa cumprir a “função social da cidade” e da propriedade urbana. p. 2001. somente em 2000.103 cada vez maior de pessoas tem tido de descumprir a lei para ter um lugar nas cidades. Coordenação Geral José Carlos de Freitas. especialmente desde a Agenda Hábitat da ONU. movimentos populares de luta por moradia propiciaram a criação do Fórum Nacional de Reforma Urbana. através de Emenda Constitucional n. em condições precárias ou mesmo insalubres e perigosas. Contudo. In: Temas de Direito Urbanístico 3. 190. foi aprovado pelo Congresso Nacional o Estatuto da Cidade. 21 a 30). vivendo sem segurança jurídica da posse. que salientou a importância fundamental do direito urbanístico. delegando esta tarefa para os municípios. Perspectivas para a regularização fundiária em favelas à luz do Estatuto da Cidade. Após longas negociações e adiamentos. foi incluído na CF/88 o direito à moradia. Pela CF/88. os Municípios passaram a ser co-responsáveis por promover as políticas habitacionais (arts. 170 FERNANDES. A partir da década de 1970. Ministério Público do Estado de São Paulo. A primeira grande conquista foi a inclusão de um capítulo na Constituição Federal de 1988 tratando da Política Urbana. geralmente em áreas periféricas ou em áreas centrais desprovidas de infra-estrutura urbana adequada. 26. Edésio. 170 A discussão crítica sobre a ilegalidade urbana tem ganho destaque nos últimos anos. .

a instituição de zonas especiais de interesse social. 01 Ibid.br/estatuto/artigo1. edificação ou utilização compulsórios.estatutodaciade. por ser um instrumento que vai frontalmente de encontro aos interesses da especulação imobiliária. mediante as seguintes diretrizes gerais: 171 Os Instrumentos de intervenção sobre os territórios estão divididos em três campos: a) Instrumentos de planejamento. Raquel. c) Instrumentos jurídicos e políticos. ou seja. as áreas vazias ou subutilizadas situadas em áreas dotadas de infra-estrutura estão sujeitas ao pagamento do IPTU progressivo no tempo.. b) Instrumentos tributários e financeiros. entre os quais se encontra o “IPTU progressivo no tempo”.257/01.104 oferecendo para as cidades um conjunto inovador de instrumento de intervenção sobre seus territórios171. 172 O Estatuto da Cidade visa à incorporação da cidade real à cidade legal. 01 . a edificação ou a utilização compulsória. Acesso em 15/09/2006). a concessão de uso especial para fins de moradia...html. instrumento utilizado para os casos de não cumprimento das definições municipais sobre parcelamento. uma nova estratégia de gestão que incorpora a idéia de participação direta do cidadão em processos decisórios sobre o destino da cidade e a ampliação das possibilidades de regularização das posses urbanas. o parcelamento. 173 Raquel Rolnik afirma que as inovações contidas no Estatuto situam-se em três campos: um conjunto de novos instrumentos de natureza urbanística voltados para induzir – mais do que normatizar – as formas de uso e ocupação do solo. (ROLNIK. até hoje situadas na ambígua fronteira entre o legal e o ilegal.org. a concessão de direito real de uso. reconhecendo os padrões de assentamento vigentes nestes espaços. através de processos de regularização fundiária e urbanística dos assentamentos populares. 174 De acordo com o art. além dos Estudos Prévios de Impacto Ambiental e de Impacto de Vizinhança. embora pouco utilizado ainda. 02 Ibid. Disponível em www. 172 173 174 Ibid. p. entre os quais destacam-se o plano diretor. zoneamento ambiental e gestão orçamentária participativa. entre os quais merece destaque a desapropriação. p. Estatuto da Cidade: instrumento para as cidades que sonham crescer com justiça e beleza. a usucapião especial de imóvel urbano e a regularização fundiária. além de uma nova concepção de planejamento e gestão urbanos. do uso e da ocupação do solo. a política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana. p. 2º da Lei 10. disciplina sobre o parcelamento.

como o IPTU progressivo para imóveis não utilizados ou subutilizados .ficam dependentes de formulação contida no Plano Diretor. inciso V: a) desapropriação. Art. 182 e 183).que dizem respeito ao direito à habitação e à cidade .105 (. O que parece ser uma . g) a concessão de direito real de uso. A primeira porque os adversários da chamada Reforma Urbana preconizada pelos movimentos sociais. com exceção dos instrumentos de regularização fundiária. O segundo porque remeteu a utilização dos instrumentos de reforma urbana à elaboração de Plano Diretor. consideradas a situação sócio-econômica da população e as normas ambientais. conseguiram incluir na redação alguns detalhes que remetem a aplicação de alguns instrumentos .) XIV – regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por populações de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização.para lei complementar. f) a instituição de zonas especiais de interesse social. h) a concessão de uso especial para fins de moradia. tanto a Constituição Federal de 1988. Segundo Ermínia Maricato. 4º. j) o usucapião especial de imóvel urbano e q) regularização fundiária.. em seus capítulos dedicados à política urbana (arts.. os demais .. Isto é. uso e ocupação do solo e edificação. como o Estatuto da Cidade contêm dispositivos de adequação controvertida.

as ações governamentais começam a reconhecer a necessidade de urbanização e legalização da cidade informal. oferecendo uma melhor qualidade de vida e segurança fundiária para seus moradores. Ermínia. sem perspectivas e recursos financeiros. p. 194. 177 Apesar de resistências.106 providência lógica e óbvia resultou em um travamento na aplicação das principais conquistas contidas na lei. Perspectivas para a regularização fundiária em favelas à luz do Estatuto das Cidades. invadem terras para morar. Deve-se salientar a enorme pressão para que respostas sejam encontradas para o fenômeno crescente de ilegalidade.php. Aparentemente. 176 Ou seja. legislação e desigualdade. ficando em segundo plano (e em alguns casos esquecida) as políticas públicas voltadas para o oferecimento de novas moradias para aqueles que. as agências públicas têm se concentrado mais na cura do que na prevenção do problema. Contudo... Judiciário. sobretudo no nível municipal. Destaca que a questão principal reside na aplicação dos novos instrumentos urbanísticos trazidos por essa legislação quando se deseja reestruturar (porque o problema é de estrutura) todo o quadro da produção habitacional de modo a conter essa determinação da ocupação ilegal e predatória pela falta de alternativas habitacionais.br/scielo. Metrópole. Disponível em www. assim como na própria sociedade. p. . In: Temas de Direito Urbanístico 3. São Paulo: Imprensa Oficial do Ministério Público do Estado de São Paulo.scielo. 175 A autora acima citada reconhece que a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Cidade de 2000 constituem paradigmas inovadores e modernizantes no que diz respeito às relações de poder sobre a base fundiária e imobiliária urbana. 176 177 Ibid. FERNANDES. Edésio. Legislativo. uma tendência crescente de admissão da regularização urbanística e jurídica das ocupações ilegais. 14. 2001. A regularização 175 MARICATO. a dificuldade está em apresentar alternativas para que grande parte da população não seja forçada a invadir terras para poder morar. Acesso em 02/09/2006. já se observa no Executivo.

180 178 MARICATO. com base nos estudos existentes sobre as experiências de diversas cidades brasileiras. foram insumos proibidos para a maior parte da população. 178 De acordo com Edésio Fernandes. já que confere mais estabilidade e segurança ao morador. um descompasso significativo entre os objetivos dos programas de regularização e as políticas adotadas. Ermínia. 200.php. quase todos os programas de regularização de favelas (combinando políticas de urbanização e políticas de legalização) têm sido estruturados em torno de dois objetivos principais: o reconhecimento de alguma forma de segurança jurídica da posse para os ocupantes das favelas. condição essa que interfere nas chances de obtenção de emprego. São Paulo: Imprensa Oficial do Ministério Público do Estado de São Paulo.br/scielo. crediário e até salários. Metrópole. . 179 FERNANDES. Acesso em 02/09/2006. Metrópole. legislação e desigualdade. que pode até livrar-se de uma condição penosa de morador de favela. 179 Contudo. Maricato.107 jurídica completa a melhoria das condições sociais. bem como a integração sócioespacial de tais áreas e comunidades no contexto mais amplo da estrutura e da sociedade urbana. por sua vez.br/scielo. Perspectivas para a regularização fundiária em favelas à luz do Estatuto das Cidades. In: Temas de Direito Urbanístico 3. como afirmado acima. há. Afirma ainda o autor. durante toda a história da urbanização brasileira. 2001. Disponível em www.. 180 MARICATO. legislação e desigualdade. Edésio.scielo. Ermínia.scielo. afirma que a democratização da produção de novas moradias e do acesso à moradia legal e à cidade com todos seus serviços e infra-estrutura exige a superação de dois grandes obstáculos – terra urbanizada e financiamento – que. no Brasil. Disponível em www. com freqüência. p. Acesso em 02/09/2006. o autor destaca que.php. que tais programas têm sido mais bem sucedidos no que toca às políticas de urbanização do que às políticas de legalização.

p. Perspectivas para a regularização fundiária em favelas à luz do Estatuto das Cidades. In: Temas de Direito Urbanístico 3. pois ampliam a cidadania dos seus moradores. para salvaguardar o direito à moradia. (Regularização da Terra e Moradia. As ZEIS são destinadas prioritariamente para a produção e manutenção de habitação de interesse social. 182 ZEIS – são zonas urbanas especiais de interesse social que podem conter áreas públicas ou particulares ocupadas por população de baixa renda. incorporando os territórios da cidade informal à cidade legal. O que é e como implementar”. 30 mil famílias. O primeiro passo é 181 FERNANDES. programa que beneficiará. passou a considerar uma parte do bairro Santa Etelvina como “Zona Especial de Interesse Social” – ZEIS182. e precisam ser combinados com investimentos públicos e políticas sociais e urbanísticas que gerem opções adequadas e acessíveis de moradia social para os grupos mais pobres que tem tido nas favelas e nos loteamento periféricos a única forma possível de acesso ao solo urbano e à moradia. tais iniciativas não atingem as raízes do processo de urbanização excludente. A prefeitura. onde há interesse público de promover a urbanização e/ou a regularização jurídica da posse da terra. 2001. Contudo. Edésio. Nesse sentido. mas oferecendo a uma pequena parcela dos moradores de invasões uma maior segurança fundiária. a partir do ano de 2007. Desde 2001. através da concessão de título definitivo. a fim de promover a regularização jurídica da área. São Paulo: Imprensa Oficial do Ministério Público do Estado de São Paulo. 193. 181 A regularização fundiária das invasões na cidade de Manaus está sendo implementada pelo Poder Público Estadual e Municipal. 2002) .108 Os programas de regularização têm um caráter essencialmente curativo. Instituo Polis. a partir do ano de 2006 emitido diversas concessões de uso para moradores em áreas da prefeitura. Ele exige medidas mais amplas. até o final do ano de 2007. sendo que ainda de forma incipiente. os favelados devem ter acesso garantido a um lugar na sociedade urbana e a um espaço na cidade. essas experiências de legalização das favelas ou invasões têm um sentido positivo. Enquanto cidadãos. o Estado vem regularizando a moradia de famílias que ocupam há mais de cinco anos terras do Estado. tendo. verdadeiro motor de produção contínua de favelas. a implantação de infra-estrutura urbana e equipamentos comunitários e a promoção de programas habitacionais.

Ermínia. que vivem perambulando pelas periferias urbanas ou mesmo pelas áreas centrais.183 A ausência de políticas públicas sociais que garantam o acesso à habitação resulta em imensas massas de desabrigados. A questão central está na destinação dos recursos públicos que.109 criar consciência social sobre a dimensão e a importância do problema. em particular. Acesso em 25/10/2006.doc. a cidade de Manaus. nos moldes da atual condução do processo de implementação das políticas públicas. certamente. que pela sua situação econômica. segregação ambiental. são obrigados a correr toda sorte e risco sócio-ambientais. os sem-teto. ou melhor. sendo as maiores vítimas os segmentos mais pauperizados das classes subalternas. desemprego. . observa-se um quadro crescente de desigualdade e discriminação social.usp/br/fau/depprojetos/labhab/04textos/favelas. o acesso aos direitos básicos é privilégio de poucos e os recursos naturais são cada vez mais dizimados. uma vez que estes vêm crescendo ano a ano. na falta de recursos públicos. Nas cidades brasileiras e. ainda que insuficientes até mesmo para pagar a locação de uma habitação subnormal. acaba promovendo a concentração da riqueza e ampliando as desigualdades sociais. da segregação sócio-ambiental não está. pobreza e violência. Favelas – um universo gigantesco e desconhecido. A questão que nos parece central sobre a deterioração da qualidade de vida da população brasileira. como um cômodo em uma ocupação ilegal qualquer. 183 MARICATO. onde conseguem desenvolver alguma atividade que lhes garanta uns trocados. Podendo ser consultado www. trazendo para a luz do dia uma realidade que é desconhecida.

Nos anos de 1970. e biológicas. PÁDUA. Alguns outros casos de injustiça ambiental nos Estados Unidos são emblemáticos. HERCULANO. caso fosse nela instalado um depósito de bifenil policlorado. humanas. no condado de Warren Couty. de contaminação química de locais de moradia e trabalho. Estado de Nova York. sindicatos. deitando-se diante dos caminhões que para lá traziam a carga perigosa contendo resíduos tóxicos. Justiça Ambiental – ação coletiva e estratégias argumentativas. não só no campo das ciências sociais.184 A constituição do Movimento por Justiça Ambiental teve como marco histórico a experiência concreta de luta desenvolvida nos Estados Unidos da América (EUA). O protesto contra a utilização de sua localidade de moradia para a instalação de um aterro de resíduos perigosos culminou na prisão de mais de 500 moradores de Afton. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford.110 3. assim como o de contaminação química em Love Canal. Jose Augusto. os habitantes do condado organizaram protestos maciços. 23-24. Da preocupação com o a crise socioambiental deu-se início a um conjunto de embates e discussões contra as condições inadequadas de saneamento. em 1982. como também chegaram ao tecido social. p.4 O MOVIMENTO POR JUSTIÇA AMBIENTAL A partir da década de 1960. Selene. os efeitos devastadores do desenvolvimento começaram a repercutir. Henri. No sul da Lousiana. 2004. ambientalistas e organizações de minorias étnicas articularam-se para discutir assuntos relacionados às “questões ambientais urbanas”. Niagara. além da disposição indevida de lixo tóxico e perigoso. Org. em uma região conhecida como a Cancer Alley. na Carolina do Norte. moradores de um conjunto habitacional de classe média baixa descobriram que suas casas estavam erguidas junto a um canal que tinha sido aterrado com dejetos químicos industriais e bélicos. Ao tomarem conhecimento da iminente contaminação da rede de abastecimento de água da cidade. Henri. em Afton. . que era composta de 84% de negros. In: Justiça Ambiental e Cidadania. ACSELRAD. A partir de 1978. e 184 ASCELRAD.

habitada por 150 mil pessoas. Selene. o primeiro estudo nacional a correlacionar instalações que manipulavam resíduos com características demográficas. o valor da terra e a propriedade de imóveis. Entre os fatores explicativos de tal fato. 100 fábricas (das quais 7 indústrias químicas e 5 siderúrgicas) e 103 depósitos abandonados de lixo tóxico na sua comunidade. Acesso em 22/06/07. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. 50 aterros de lixo tóxico. que recebe rejeitos retirados dos procedimentos de descontaminação. Henri. Org. onde os negros formam 90% da população e 75% dos residentes do Sumter County. . PÁDUA. havia contabilizado em 1991. foram 185 HERCULANO. segundo a Greenpeace. Jose Augusto. no Alabama.111 também no cinturão negro do Alabama.anppas. As empresas escolhiam uma localidade para fins de construir aterros de resíduos químicos de acordo com a raça de seus moradores. o primeiro estudo nacional a correlacionar instalações que manipulavam resíduos com características demográficas. frequentemente isoladas. O maior aterro comercial de lixo tóxico dos Estados Unidos. HERCULANO. das quais 70% negros e 11% latinos. Selene.org. se concentram-se incineradores e depósitos de rejeitos perigosos. Henri. In: Justiça Ambiental e Cidadania. 2004.br. Justiça Ambiental – ação coletiva e estratégias argumentativas. está localizado na cidade de Emelle. em 1987. (ASCELRAD. Disponível em http://www. O peso de tal variável mostrou-se mais forte do que a pobreza. Concluiu-se no referido trabalho que a composição racial de uma comunidade é a variável mais apta a explicar a existência ou inexistência de depósitos de rejeitos perigosos de origem comercial em uma área. Riscos e desigualdade social: a temática da Justiça Ambiental e sua construção no Brasil. 185 A luta de comunidades negras locais. contra agentes tóxicos e assentamentos de instalações perigosas. 186 Os protestos então conduziram a Comissão para Jutiça Racial (Comission for Racial Justice) a produzir Toxic Waste and Race. Teve como resultado que a raça foi percebida como variável mais potente na predição de onde essas instalações eram localizadas – mais forte que a pobreza. p. 26-45). conduziu a Comissão para Justiça Racial a produzir. As localidades com moradores negros eram as preferidas para construção de fábricas e depósitos de lixos químicos. 186 Foi a partir desta pesquisa que o Reverendo Benjamin Chavez cunhou a expressão “racismo ambiental” para designar “a imposição desproporcional – intencional ou não – de rejeitos perigosos às comunidades de cor”. ACSELRAD. A localidade do sudeste de Chicago.

) O comércio de 187 188 189 Ibid. a falta de mobilidade espacial das minorias em razão de discriminação residencial e. 189 Destaca o autor que o EUA. . No entanto. Enfrentando o racismo ambiental. p. BULLARD. Todavia. Selene. 43. p. Henri. como força econômica e militar dominante do mundo atual têm gerado massivo bem-estar. Robert Bullard. intelectual e ativista norte-americano. p.. o que autor define como a “anatomia do racismo ambiental”. essa máquina de crescimento tem também gerado resíduos. no campo real. 190 De acordo com Guilherme Purvin “as terras de uma nação pobre constituem um excelente ‘depósito de lixo’ e qualquer projeto dessa ‘nação-depósito’ visando a adoção de um novo paradigma econômico será considerado um perigoso entrave para o contínuo processo de expansão do poderio econômico dos países poluidores. a falta de oposição da população local por fraqueza organizativa e carência de recursos políticos típicas das comunidades de minoria. 26. HERCULANO.. ACSELRAD. mesmo possuindo uma das melhores legislações ambientais do planeta. altos padrões de vida e consumismo. 187 Robert Bullard188 indaga em seu texto “Enfrentando o racismo ambiental” sobre as razões de algumas comunidades serem transformadas em depósito de lixo enquanto outras escapam desse destino. poluição e destruição ecológica. PÁDUA. por fim. In: Justiça Ambiental e Cidadania. Org. professor do Clark Atlanta University – EUA. Algumas comunidades são rotineiramente envenenadas enquanto o governo olha para o outro lado. O autor afirma que as regulamentações ambientais são rigorosamente aplicadas em algumas comunidades e em outras não.. a sub-representação das minorias nas agências governamentais responsáveis por decisões de localizações dos rejeitos. Jose Augusto. (. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. assim como alguns trabalhadores são protegidos das ameaças ao ambiente e à saúde.112 alinhados a disponibilidade de terras baratas em comunidades de minorias e suas vizinhanças. 190 Ibid. nem todas as comunidades são tratadas de modo igual. 2004. enquanto outros são envenenados. 41-42. Robert.

191 Por conta disso. incineradores.. Esse fato ocorre tanto em países industrializados. . matou milhares de pessoas. como nos países em desenvolvimento. escolas inadequadas. pessoas negras em todo o planeta precisam lutar contra a poluição da atmosfera e da água para consumo. (Ibid. Rio de Janeiro: Portal Jurídico (Gazetajuris). O vazamento do venenoso gás de metilisocianto (MIC) EM 1984. 2006. que estabelecem políticas públicas e práticas industriais que. natureza e propriedade). como os EUA. 193 Como exemplo.113 resíduos e outras formas de desenvolvimento ambientalmente nocivo está agravando a desigualdade internacional e ajudando a sustentar as indústrias poluidoras em todo o planeta”. p. sendo que. Por conta disso. ainda do estabelecimento de instalações nocivas192. o único lugar onde era produzido o MIC. e. em áreas de propriedade privada ou do poder púbico. 43-44. que se aproveitam da mão-de-obra barata. a danos ambientais decorrentes das atuais políticas econômicas e de mercado. p. na planta industrial da Union Carbide na cidade de Bhopal (Índia). um vazamento de gás nessa instalação resultou na hospitalização de 135 residentes. de propriedade de empresas estrangeiras. Guilherme Purvin de. tais como aterros municipais. sendo que.. se situava em uma área de West Virgínia habitada predominantemente por afro-americanos.) 193 Ibid. essas áreas geralmente estão localizadas próximas ao local de moradia dos negros. ausência de investimentos econômicos. com maior intensidade. tratamento e emissão de resíduos perigosos. o Institute Union Carbide. direcionam os custos para os países do Sul. alta pobreza e sistema de atenção à saúde sobrecarregada. criando subempregos e 191 FIGUEIREDO. Curso de Direito Ambiental (interesses difusos. ao mesmo tempo em que garantem benefícios para os países do Norte. o autor destaca que na fronteira dos Estados Unidos da América – EUA com o México operam mais de 1. habitação precárias. 44. 192 Robert Bullard traz como exemplo a tragédia de Bhopal que ainda está fresca na mente de milhões de pessoas que vivem próximas a indústrias químicas. Nos EUA. em 1985. tornando-se o acidente industrial mais grave em todo o mundo. Robert Bullard observa que há um padrão de discriminação ambiental que submete determinadas comunidades. p.900 fábricas de montagem. observa-se que as comunidades mais poluídas são as comunidades com infra-estrutura desintegrada. desemprego crônico. 132-133.

. que passaram a ser pensadas em termos de distribuição e justiça. A partir de 1987. A conferência contou com a presença de mais de 1000 lideranças de base e de diversos países do mundo. A crescente globalização tornou fácil para o capital e as corporações transnacionais fugirem para áreas com o mínimo de regulamentação ambiental. esse fato é definido por Bullard como uma forma de discriminação institucionalizada. 46. alocação de recursos e empoderamento das comunidades. para incluir questões de saúde pública. No final dos anos 80. A partir das reivindicações contra a iniqüidade ambiental. p. organizações de base começaram a discutir mais intensamente as ligações entre raça. exploração predatória e escassez dos recursos naturais do planeta. ampliou o movimento por justiça ambiental para além do seu foco anti-produtos tóxicos. comprometendo assim a saúde dos trabalhadores e habitantes da região. segurança do trabalho. realizada em Washington. mão-de-obra barata e altos lucros. melhores taxas de incentivos. moradias. Os delegados participantes da conferência e aprovaram 17 princípios da justiça ambiental que foram desenvolvidos para guiar a organização e formação de redes de ONGs. pobreza. contando com a participação de delegados de 15 países. uso do solo.114 agravando o nível de poluição local. dentre eles o Brasil. surge.. poluição e as ligações entre problemas ambientais e desigualdade social. nos EUA. 194 Ibid. o movimento elevou a Justiça Ambiental à condição de questão central na luta pelos direitos humanos. em 1991. A Primeira Cúpula Nacional de Lideranças Ambientais de Pessoas de Cor. passando o movimento ambientalista a incorporar a desigualdade ambiental às desigualdades sociais. um movimento inovador que trouxe um novo enfoque das questões ambientais. 194 Os movimentos ambientais durante muito tempo se preocuparam com as questões ambientais apenas relacionadas à preservação. transporte.

HERCULANO. In: BULLARD. deva suportar uma parcela desproporcional das conseqüências ambientais negativas resultantes de operações industriais. ao contrário. Saber Ambiental: sustentabilidade. p. são produzidas externalidades negativas. incluindo-se aí grupos étnicos. 45). o risco e a incerteza. Robert. leis e regulações ambientais. complexidade. nº 5. Robert. 196 BULLARD. 2004. Org. Ainda sobre esse conceito. a degradação ambiental. p. Jose Augusto. ACSELRAD. a perda de valores e práticas culturais e a equidade transgeracional. bem como das conseqüências resultantes da ausência ou omissão dessas políticas. 196 Enrique Leff ao comentar a categoria de distribuição ecológica. busca compreender as externalidades197 ambientais e os movimentos sociais que emergem de “conflitos 195 ASCELRAD. locais ou tribais.115 Nesse sentido. São chamadas externalidades porque. PÁDUA. 41-42. Neste último. poder. o meio ambiente tende a ser visto como uno. RJ: Vozes. Henri. 2002. ao contrário do lucro. a degradação entrópica de massa e energia. In: Justiça Ambiental e Cidadania. Petrópolis. 195 A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) define justiça ambiental como sendo a condição de existência social configurada através da busca do tratamento justo e do envolvimento significativo de todas as pessoas. “Enfrentando o racismo ambiental”. 54. comerciais e municipais. estaduais. Enrique. 2001. desenvolvimento. A denúncia da desigualdade ambiental sugere uma distribuição desigual das partes de um meio ambiente de diferentes qualidades. Por tratamento justo. que é percebido pelo produtor privado. cor. 197 Leff define como externalidades a pobreza. raciais ou de classe. Curitiba/PR: Editora da UFPR. independentemente de sua raça. entenda-se que nenhum grupo de pessoas. racionalidade. origem ou renda no que diz respeito à elaboração. Selene. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. remete a uma distribuição equânime de partes e à diferenciação qualitativa do meio ambiente. A idéia de justiça. (LEFF. injustamente dividido. a produtividade natural e a regeneração ecológica. homogêneo e quantitativamente limitado. Justiça ambiental e construção social do risco. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos coletivos – ambiente e saúde. além do produto a ser comercializado. Henri. Enfrentando o racismo ambiental. p. Cristiane Derani afirma que “durante o processo produtivo. da execução de políticas e programas federais. embora resultantes da produção são recebidas pela coletividade. implementação e reforço de políticas. Daí a expressão ´privatização de lucros e . a noção de “justiça ambiental” permitiu uma articulação discursiva distinta daquela prevalecente do debate ambiental corrente – entre meio ambiente e escassez.

De acordo com Enrique Leff. chuva ácida. Assim. mas da luta pela sobrevivência em condições de uma crescente degradação socioambiental. devendo redistribuir esses custos entre os compradores e seus produtores. a carga desigual dos custos ecológicos e seus efeitos nas variedades do ambientalismo emergente. 198 LEFF. perda de biodiversidade) fatores que. Já nos países do Sul. rompendo os equilíbrios ecológicos do planeta. tanto os camponeses e os povos indígenas. podendo – desde que compatível com as condições da concorrência no mercado – transferir estes custos para o preço do ser produto final”. estão se organizando e lutando em resposta à extrema pobreza gerada pela destruição de seus recursos naturais. os produtores e fabricantes devem internalizar os custos exigidos para a prevenção. 198 socialização de perdas`.. p. racionalidade. Enrique. São Paulo: Editora Max Limond. Petrópolis. A categoria de distribuição ecológica incorpora o conflito gerado pela distribuição desigual dos custos ecológicos do crescimento e sua internalização através dos movimentos sociais em defesa do ambiente e dos recursos naturais. que nesta condição causar algum dano ambiental. 2001. 158).) O agente econômico (produtor. complexidade. controle e reparação dos danos advindo de sua atividade. o ambientalismo não surge da abundância. como a população urbana marginalizada. colocam em perigo a sustentabilidade do sistema econômico. p. espaciais. consumidor. incluindo os movimentos de resistência e justiça ambiental. (DERANI. Saber Ambiental: sustentabilidade. RJ: Vozes. deve arcar com os custos necessários à diminuição. distribuição ecológica designa as “assimetrias ou desigualdades sociais. temporais no uso que os humanos fazem dos recursos e serviços ambientais. comercializados ou não”. Nesse sentido.. à degradação de suas condições de produção e à falta de equipamento e saneamento básico. transportador). quando identificadas as externalidades negativas. sendo que seus problemas mais visíveis são o controle da contaminação e a disposição de rejeitos gerados pelos altos níveis de produção e consumo. eliminação ou neutralização do dano. poder. Cristiane. 1997. as preocupações dos países do Norte concentram-se nos problemas ambientais globais (mudança climática. através da distribuição ecológica. . Direito Ambiental Econômico. aquecimento da Terra. o autor procura explicar. (. Pois bem. 45-46. Ou seja.116 distributivos”.

que atualmente o número de pobres é maior do que nunca antes na história da humanidade. Jose Augusto. 199 O termo justiça ambiental é um conceito aglutinador e mobilizador. 2004. precarização do trabalho e fragilização do movimento sindical e social como todo. por integrar as dimensões ambiental. Org. In: Justiça Ambiental e Cidadania. associações de moradores. 46 ACSELRAD. ACSELRAD. frequentemente dissociados nos discursos e nas práticas. Henri.pobreza. O movimento ambiental passou a incorporar às suas demandas tradicionais novas reivindicações como melhoria da qualidade do ambiente e da qualidade de vida. como sindicatos. induzido pelo caráter ecodestrutivo e excludente do sistema econômico dominante. Estas lutas pela erradicação da pobreza vinculam a sustentabilidade à democracia. com a reapropriação de conhecimentos e práticas tradicionais e os direitos das comunidades para desenvolver formas alternativas de desenvolvimento. José Augusto. pela autogestão de processos produtivos e a autodeterminação de condições de vida”. assumese como campo de reflexão. A justiça ambiental e a dinâmica das lutas socioambientais no Brasil – uma introdução. desemprego. social e ética da sustentabilidade e do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. p. Selene. reivindicações por direitos culturais. PÁDUA. grupos de afetados por diversos riscos (como barragens e várias substâncias químicas). Justiça ambiental. 18. Henri. ainda. Tal conceito contribui para reverter a fragmentação e o isolamento de vários movimentos sociais frente ao processo de globalização e reestruturação produtiva que provoca perda de soberania. entrelaçam-se com a reivindicação de identidades culturais.degradação ambiental . p. mais que uma expressão do campo do direito. ambientalistas e cientistas. mobilização e bandeira de luta de diversos sujeitos e entidades. HERCULANO. 200 199 200 Ibid. . Selene. e a pobreza extrema avassala mais de um bilhão de habitantes do planeta. O autor afirma que os movimentos ambientais “são lutas de resistência e protesto contra a marginalização e a opressão. PÁDUA. pelo controle de recursos naturais. O empobrecimento das maiorias é resultado de uma cadeia causal e de um círculo vicioso de desenvolvimento perverso . HERCULANO.117 Enrique Leff destaca..

201 A Justiça Social constituía o objetivo maior da primeira metade do século XX. afirma que o movimento por Justiça Ambiental já começa a proliferar no Brasil. No estado atual do mundo torna-se cada vez mais necessário ampliá-la às dimensões da Justiça Ambiental em dois aspectos: Justiça no interior da Humanidade presente – significa que as necessidades essenciais de todos os seres humanos devam poder ser satisfeitas. São Paulo: Malheiros. Além do desemprego.4. SOARES. Curso de Direito Ambiental (interesses difusos. a maioria da 201 FIGUEIREDO. Ressalta o autor que a preservação ecológica do planeta é. 2006. p. In: KISHI. Desafio do Direito Ambiental no século XXI Estudos em homenagem a Paulo Afonso Leme Machado. 202 3. tendo como ideal a distribuição igualitária dos ônus ambientais decorrentes da produção e do consumo. . o autor que a opção pela vida no planeta só possa se dar com a superação histórica do modelo econômico e social contemporâneo. Alexandre. Sandra Akemi Shimada.118 Guilherme Purvin. natureza e propriedade). 2005. SILVA. Inês Virgínia Prado (organizadores).1 Injustiça Ambiental no Brasil A injustiça ambiental caracteriza o modelo de desenvolvimento dominante no Brasil. 133-134. condição para a sobrevivência da humanidade. Guilherme Purvin de. da falta de proteção social e da precarização do trabalho. 202 KISS. 49-59. p. e Justiça para com a Humanidade futura – significa que os humanos de hoje devem deixar às próximas gerações recursos naturais e outros. Rio de Janeiro: Portal Jurídico (Gazetajuris). Justiça Ambiental e religiões cristãs. mas “nada indica que haja interesse ou mesmo que seja viável distribuir eqüitativamente entre toda a população de um país e entre todos os países do planeta os ônus dessa preservação. dentro do modelo econômico capitalista”. Acredita ainda. em quantidade e qualidade suficiente para assegurar que esses recursos possam satisfazer suas necessidades essenciais. realmente. através de uma eqüitativa partilha dos recursos do Planeta-. Solange Teles da.

As gigantescas injustiças sociais brasileiras encobrem e neutralizam um conjunto de situações caracterizadas pela desigual distribuição de poder sobre a base material da vida social e do desenvolvimento. Os grupos sociais de menor renda. das más condições de moradia. sem condições de saneamento básico. Selene. populações tradicionais e grupos sociais mais vulneráveis estão expostos aos riscos decorrentes das substâncias perigosas. seja nos locais de trabalho. breve acervo de casos e criação da rede brasileira de justiça ambiental. à água potável. As dinâmicas econômicas geram um processo de exclusão territorial e social. da falta de saneamento básico. leva ao êxodo para os grandes centros urbanos. lagos e baías. todas essas situações configuram um quadro constante injustiça socioambiental. Os vazamentos e acidentes na indústria petrolífera e química. In: Justiça Ambiental e Cidadania. Resenhando o debate sobre a justiça ambiental: produção teórica. o tema da justiça ambiental vem sendo re-interpretado de modo a ampliar seu escopo. 204 HERCULANO. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos . no campo. principalmente em termos de distribuição de renda e acesso aos recursos naturais. 203 No Brasil. HERCULANO. a expulsão das comunidades tradicionais pela destruição dos seus locais de vida e trabalho. etc. Selene. José Augusto. p. as doenças e mortes causadas pelo uso de agrotóxicos e outros poluentes. o que. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. A justiça ambiental e a dinâmica das lutas socioambientais no Brasil – uma introdução. em geral. HERCULANO. 14. a existência de populações que ocupam áreas impróprias para moradia. são os que têm menor acesso ao ar puro. minorias étnicas.. 2004. por falta de expectativa de se obter melhores condições de vida. leva à periferização de grande massa de trabalhadores e. a morte de rios. 204 203 ACSELRAD. ACSELRAD. ao saneamento básico e à segurança fundiária. para além da temática específica da contaminação química e do aspecto especificamente racial da discriminação denunciada. PÁDUA. Jose Augusto. Os trabalhadores. Selene. Henri. país caracterizado pela existência de grandes injustiças. Org. nas cidades. de moradia ou no ambiente em que transita. Henri.119 população brasileira encontra-se hoje exposta a fortes riscos ambientais. PÁDUA.

p. o paradigma eco-socialista. Além disso. 206 No Brasil. nº 5. apud Santilli.. eco-socialista. em que o desenvolvimento social é medido essencialmente pelo crescimento econômico. Socioambientalismo e novos direitos. um novo paradigma de desenvolvimento deve promover não só a sustentabilidade estritamente ambiental – ou seja. São Paulo: Petrópolis. Boaventura descreve as características do paradigma capital-expansionista. apesar da luta de tantos movimentos e pessoas em favor de um país mais justo e decente. Curitiba/PR: Editora da UFPR.) Desenvolveu-se a partir da concepção de que. em nível global.120 Para Selene Herculano. publicada em coletivos – ambiente e saúde. o marco inicial de sistematização e divulgação da problemática referente à Justiça Ambiental foi a coleção intitulada “Sindicalismo e Justiça Ambiental”. sociais e populares. 206 Ibid. com ampla participação social na gestão ambiental. deve contribuir também para a redução da pobreza e das desigualdades sociais e promover valores como justiça social e eqüidade. (. 145. que se contrapõe ao paradigma capital-expansionista. num processo caracterizado pelo desprezo pelo espaço comum e pelo meio ambiente.. processo que se confunde com o desprezo pelas pessoas e comunidades. O exercício da cidadania e a reivindicação de direitos ainda encontram um espaço relativamente pequeno na nossa sociedade. . p. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos coletivos – ambiente e saúde. sendo que tudo isso se reflete no campo ambiental. é descrito por Boaventura com as seguintes características: o desenvolvimento social é aferido pelo modo como são satisfeitas as necessidades humanas fundamentais e é tanto maior. assentado na industrialização e no desenvolvimento tecnológico virtualmente infinito. e na descontinuidade total entre a natureza e a sociedade. Este tem sido o mecanismo pelo qual o Brasil vem batendo recordes em desigualdade social no mundo: concentra-se a renda e concentram-se também os espaços e recursos ambientais nas mãos dos poderosos. nº 5. o novo paradigma de desenvolvimento preconizado pelo socioambientalismo deve promover e valorizar a diversidade cultural e a consolidação do processo democrático no país. a partir de articulações políticas entre os movimentos sociais e o movimento ambientalista. breve acervo de casos e criação da rede brasileira de justiça ambiental. Nas palavras de Boaventura de Sousa Santos. também podem renovar e ampliar o alcance da sua luta se nela incorporarem a dimensão da justiça ambiental – o direito a uma vida digna e em um ambiente saudável. ecossistemas e processos ecológicos – como também a sustentabilidade social – ou seja. 2002 144. quanto mais diverso e menos desigual”.. Juliana Santilli ao comentar sobre o socioambientalismo afirma que: “o socioambientalismo brasileiro nasceu na segunda metade dos anos 80. 205 O ambientalismo brasileiro tem um grande potencial para se renovar e expandir o seu alcance social. Já o paradigma emergente. entre outros. Os movimentos sindicais. 31-36). os propósitos da justiça ambiental não podem admitir que a prosperidade dos ricos se dê através da expropriação ambiental dos pobres. 2002. Resenhando o debate sobre a justiça ambiental: produção teórica. a sustentabilidade de espécies. em um país pobre e com tantas desigualdades sociais. 2005. (SANTILLI. Selene. Curitiba/PR: Editora da UFPR. Juliana. trata-se de um novo paradigma de desenvolvimento. 205 HERCULANO. 145-146.

aos povos étnicos tradicionais.seja um grupo étnico. O Colóquio teve como objetivo ampliar o diálogo e a articulação entre sindicatos. 01 .fase. foi realizado o Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental207. Disponível por http://www. ONGs. no sentido de estimular o fortalecimento da luta por justiça ambiental. na defesa de um meio ambiente urbano sustentável e com qualidade de vida acessível a todos os seus moradores. organizações de afrodescendentes. aos grupos raciais discriminados. passou-se a entender por injustiça ambiental o mecanismo pelo qual sociedades desiguais. 209 Ibid. 208 Já o conceito de justiça ambiental designa o conjunto de princípios e práticas que: 209 a) determinam que nenhum grupo de pessoas . às populações marginalizadas e vulneráveis. TRABALHO E CIDADANIA: Declaração Final. movimentos sociais. ambientalistas e pesquisadores. do ponto de vista econômico e social. foi então criada a “Rede Brasileira de Justiça Ambiental – RBJA”. entidades ambientalistas. Estados Unidos. aos bairros operários. Em setembro de 2001. organizações indígenas e pesquisadores universitários do Brasil.suporte uma parcela desproporcional das conseqüências ambientais negativas de 207 Reuniram-se no Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental movimentos sociais. O objetivo era estimular a discussão sobre a responsabilidade e o papel dos trabalhadores e das entidades representativas. discutindo enfoques teóricos e implicações políticas da proposta da Justiça Ambiental. em conjunto com o Ibase.121 2000 pela Central Única dos Trabalhadores – CUT/RJ. p. uma das primeiras iniciativas de cunho acadêmico e político organizada no Brasil. racial ou de classe . Chile e Uruguai. o Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano – IPPUR da UFRJ e com o apoio da Fundação Heirich Böll. sindicatos de trabalhadores. 208 COLÓQUIO INTENACIONAL SOBRE JUSTIÇA AMBIENTAL. A partir da realização do Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental. Na ocasião. Acessado em 05/11/2006.br. destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento às populações de baixa renda.org. no Campus da Universidade Federal Fluminense em Niterói.

Selene. 2004. Henri. b) asseguram acesso justo e eqüitativo. planos. assim como da ausência ou omissão de tais políticas. In: Justiça Ambiental e Cidadania.122 operações econômicas. . Org. aos recursos ambientais do país. de decisões de políticas e de programas federais. de moradia da população pobre. moradora de bairros pobres e excluídos pelos grandes projetos de desenvolvimento. p. oriunda de 210 ACSELRAD. Henri. direto e indireto. PÁDUA. d) favorecem a constituição de sujeitos coletivos de direitos. PÁDUA. coleta adequada de lixo e tratamento de esgoto. na Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fundação Ford. de destruição de ecossistemas. área metropolitana do Rio de Janeiro. ACSELRAD. HERCULANO. HERCULANO. de alocação espacial de processos poluentes. Para os representantes do Colóquio. ocupadas predominantemente por loteamentos clandestinos. bem como processos democráticos e participativos na definição de políticas. estaduais. 11. locais. Selene. 210 Alguns casos de Injustiça Ambiental no Brasil são emblemáticos. c) asseguram amplo acesso às informações relevantes sobre o uso dos recursos ambientais e a destinação de rejeitos e localização de fontes de riscos ambientais. como o caso da “Cidade dos Meninos”. movimentos sociais e organizações populares para serem protagonistas na construção de modelos alternativos de desenvolvimento. José Augusto. a injustiça ambiental resulta da lógica perversa de um sistema de produção. Uma lógica que mantém grandes parcelas da população às margens das cidades e da cidadania. programas e projetos que lhes dizem respeito. de ocupação do solo. que assegurem a democratização do acesso aos recursos ambientais e a sustentabilidade do seu uso. As cidades da Baixada ficaram conhecidas como “cidades-dormitórios”. sem água potável. que penaliza as condições de saúde da população trabalhadora. Jose Augusto. A justiça ambiental e a dinâmica das lutas socioambientais no Brasil – uma introdução.

As famílias que ali se encontravam além de serem vítima da exclusão 211 HCH é um pesticida organoclorado. as famílias foram retiradas dos acampamentos e transferidas para um terreno da Companhia dos Distritos Industriais do Estado do Rio de Janeiro (CODIN) em Campo Grande. então endêmica na região. em uma área federal de 19 hectares. (HERCULANO. abandonando no local toneladas de matéria-prima (material tóxico). que resultou na intoxicação de 63 pessoas. p..123 migrações internas. no Rio de Janeiro. Em 1961. localizada no distrito de Pilar. Pouco tempo depois. o HCH (Hexaclorociclohexano). a fábrica cessou suas atividades. que estavam provisoriamente nos acampamentos Araguaia e Nova Canudos. 67 . Seu uso tornou-se restrito em alguns países e totalmente proibido em outros. No Brasil. deixando duas em estado grave. Selene. 211 para enfrentar a malária. com a promessa da construção de um conjunto habitacional. 212 Ibid. Após negociação do Movimento com o Governo do Estado. um conflito fundiário urbano. foram afetados por uma contaminação de resíduos tóxicos. com o passar do tempo. tal substância começou a se espalhar e se infiltrar pelo solo. Durante os sete meses em que ficaram acampados no local. Curitiba/PR: Editora da UFPR. 2002. aguardando a construção das residências. p. Em 1940 foi fundado um complexo educacional para crianças pobres. tal substância teve sua utilização na agricultura proibida por Portaria Ministerial em 1985. In: Desenvolvimento e meio ambiente: Riscos coletivos – ambiente e saúde. 62). provenientes das indústrias do entorno. que envolveu 360 famílias sem moradia. sem solução até hoje. 212 O Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) protagonizou no ano de 2000. o Ministério da Saúde instalou dentro do complexo educacional Cidade dos Meninos uma fábrica que produziria o pesticida conhecido como “pó-de-broca”. iniciando um longo processo de contaminação do meio ambiente e da população. Exposição a riscos químicos e desigualdade social: o caso do HCH na Cidade dos Meninos. sendo que. área esta que foi chamada de “Cidade dos Meninos”. na tentativa de erradicação e/ou controle de vários vetores de doenças transmissíveis e endêmicas. nº 5. isolado por Faraday em 1825 e que teve suas propriedades inseticidas descobertas em 1942. na França e Inglaterra. mas continua sendo utilizado em campanhas de saúde pública.

124 social e econômica. a mesma sociedade que a estes oprime e os marginaliza e fecha os olhos para essa realidade.2 A distribuição desproporcional de danos ambientais em Manaus 213 PEROBELLI. próximo das comunidades negras e carentes que ali habitavam. o lançamento de todo o lixo produzido na área metropolitana do município do Rio de Janeiro e. O papel fundamental do advogado na aplicação da Justiça Ambiental e no combate ao Racismo Ambiental. à espera dos imensos e carregadíssimos caminhões que até ali se dirigem. em acirrada disputa por restos da sociedade – paradoxalmente. de mais seis municípios vizinhos. São Paulo: RT. Ano 7. Importante mencionar. 214 3. o contraste entre o movimento das garças e dos braços de catadores. LOURDES. 213 Outro exemplo de injustiça ambiental é o caso do Aterro de Gramacho em Duque de Caxias. Humberto Adami.anppas. Conflito Ambiental e Luta por Moradia – o caso do depósito de lixo tóxico do Distrito Industrial de Campo Grande. p.br. Disponível http://www. há inclusive no Museu do Lixo uma tela chamada “O Negro do Lixo”. O aterro do Gramacho é um dos maiores aterros sanitários da América Latina e processa diariamente 7. 214 SANTOS JR. Flávia Tavares Rocha. desde a época do Império.000 toneladas de resíduos. In: Revista de Direito Ambiental. representando os negros que há tempos atrás conduziam o lixo da população abastada até seu destino final.org. município do Rio de Janeiro. estado do Rio de Janeiro. A esse respeito. O aterro vem suportando. que chega a 80% do total da população. a triste e desesperadora realidade das inúmeras famílias que vivem desse aterro. arcando injustamente com o ônus do desenvolvimento. chocante.4. Vol. de fato. Acesso em 04/10/2006. Julho-Setembro 2002. Kátia. 174. mais recentemente. passaram também a vítimas das externalidades dos empreendimentos industriais. comunidade composta por descendentes de africanos. 27. .

215 As ocupações desordenadas levaram a cidade a uma precarização da qualidade de vida. onde vivem aproximadamente 300 mil pessoas. agravando assim os problemas de injustiça ambiental. como a contaminação de lençóis freáticos. cerca de 70 mil moradias estão localizadas em faixas marginais dos cursos d´agua. GEO-CIDADES (2002). e depois foram ocupando e invadindo áreas na periferia da cidade. 119. Os igarapés que recortam a cidade de Manaus começaram a passar por problemas de contaminação principalmente como conseqüência da instalação de empresas com atividade 215 BRASIL. Relatório Ambiental Urbano Integrado de Manaus. Em Manaus. pois esse enorme contingente populacional e a expansão do Distrito Industrial. Ministério do Meio Ambiente. Os imigrantes primeiramente ocupavam os espaços no centro da cidade. áreas consideradas como de preservação permanente. com suas fábricas e indústrias. fazendo com que nos dias atuais a cidade enfrente inúmeras alterações ambientais.125 A implantação da Zona Franca de Manaus. implantadas sobre os espelhos d´água ou em áreas sujeitas a inundação. a contaminação dos peixes por metais pesados nos igarapés do Quarenta (os moradores dos igarapés pescam os peixes para consumo). trouxe um novo ciclo econômico à cidade. p. em 1967. às margens dos igarapés. a contaminação dos igarapés e mananciais com esgotos e lixo (tanto doméstico quanto industrial). formando assim novos bairros. passaram a fustigar incansavelmente a natureza e o meio ambiente. que foi responsável pela atração de um grande fluxo migratório oriundo de todas as partes do Brasil. inclusive às margens dos igarapés. assim. A maior parte dessas moradias corresponde a palafitas precárias. o desmoronamento de casas e barracos construídos em barrancos e ribanceiras. . a contaminação também por metais pesados de terrenos do Distrito Industrial e adjacências. na expansão de novas áreas de ocupações urbanas. resultando.

ou também com a intensidade da industrialização. Relatório Técnico. situado na zona sul da cidade de Manaus. pois compreende diversos bairros como: Japiim. O grande receio está no fato de talvez sermos incapazes de controlar essa poluição. sobretudo próximo ao Igarapé do Quarenta. um envenenamento dos terrenos. Os problemas ambientais dos igarapés foram estudados e revelados por diversos autores. Betânia. baixos salários. Sérgio Roberto Bulcão. 1986. com o desenvolvimento industrial da cidade de Manaus novas indústrias surgiram e. 1986. das águas e dos peixes. nas regiões adjacentes ao Distrito Industrial. Manaus. Um dos primeiros estudos realizados sobre a poluição aquática em Manaus foi de Sergio Bringel. haverá um aumento de consumo de energia e de despejos de detritos. assim. causando. pois. 216 216 BRINGEL. ambos provenientes das palafitas (casas muitos precárias construídas às margens dos igarapés). As indústrias que estão instaladas na Zona Franca de Manaus. .126 industrial às margens dos igarapés. com isso. infra-estrutura e leis ambientais frágeis e flexíveis. não tiveram grandes preocupações quanto ao destino de seus dejetos tóxicos. A avaliação do impacto ambiental do Igarapé do Quarenta começou a ser feita no início da década de 90. Destaca o autor que a poluição torna-se um problema mais sério quando há um crescimento populacional. entre outros. Educandos. mais pessoas. Outra causa de poluição é o esgoto sem tratamento e o lixo doméstico. Consequentemente. Aterro do Quarenta. além dos incentivos fiscais. sendo que os estudos realizados até o momento mostram que o Distrito Industrial de Manaus é o principal responsável pela poluição do sistema hídrico em termos de metais pesados. p 8. Estudo do nível de poluição nos igarapés do Quarenta e do Parque Dez de Novembro. Cachoeirinha. Japiinlândia. Vale ressaltar que essa área é densamente povoada. Instituto de Tecnologia da Amazônia – UTAM. como conseqüência da alta concentração de moradores nas margens dos igarapés.

Estudo de um espodossolo hidromórfico existente na bacia de três igarapes do Distrito Industrial de Manaus. Afirma. azul. que é comum encontrar nessa região colorações de diversos tipos (amarela. do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). 14 BENTES. Poluição aquática na microbacia do igarapé do quarenta. Dissertação (Mestrado em Química de Produtos Naturais) – Universidade Federal do Amazonas. ainda. 2003. Manaus. tais como níquel. sendo perceptível a existência nos despejos de constituintes de tintas em suspensão. Dissertação (Mestrado em Química de Produtos Naturais) – Universidade Federal do Amazonas. ao coletar várias amostras de solo da região do Distrito Industrial. Nívea Cristina de Carvalho. p. que tem aproximadamente 38 km de extensão e possui várias nascentes. ao longo da microbacia do igarapé do Quarenta. isopor. 217 Afirma a autora que. 2003. Dissertação (Mestrado em Química de Produtos Naturais) – Universidade Federal do Amazonas. . Destaca ainda. 2001. Manaus. constatou a existência de vários metais pesados. Manaus-AM. p. Manaus. 16. que poderiam contaminar toda a Bacia do Educandos. etc. Karime Rita de Souza. solventes e alguns resíduos sólidos. a observação das condições na área tornou evidente que muitas empresas instaladas no Distrito Industrial fazem uso dos igarapés para o despejo de seus afluentes. 219 Um outro estudo realizado por Nívea Guedes. benzina.). Distribuição de metais pesados em sedimentos na região do Distrito Industrial da Manaus. etc. 2002..) nas águas dos igarapés. p. pneus e subprodutos industriais. A autora evidenciou em seu trabalho a existência de substâncias contaminantes encontradas no solo em quantidades elevadas. p. que a formulação desses produtos contém uma série de metais pesados e compostos orgânicos reconhecidamente cancerígenos (thiner. 11. negra. observou que as empresas despejam diversos produtos químicos nos igarapés sem nenhum tipo de tratamento adequado. 2002. 23 220 GUEDES. manganês e cromo em limites acima do que recomenda a Resolução 020/86. 218 219 Ibid. Outra característica marcante é a existência de odores desagradáveis e lixo de diversas espécies: papelão. sacos plásticos. localizadas em sua maioria na Zona Leste de Manaus. ferro cobre.127 Um estudo realizado por Tereza Oliveira evidencia a contaminação química por metais pesados no igarapé do Quarenta. Tereza Cristina Souza de. 220 217 OLIVEIRA. 2001. 218 Karime Bentes.

é de 30. expondo a riscos geralmente os pobres. 223 O problema resultante dos poluentes está presente no cotidiano das cidades. que geralmente pescam em igarapés nos mais diversos locais da cidade de Manaus. do cobalto e do ferro tornam-se tóxicos e perigosos para a saúde humana quando ultrapassam determinadas concentrações-limite. Manaus 2005.06 mg/g a 79. uma vez que o pescado torna-se um alimento substancial para essas populações de baixa renda. p.0 mg/g.. o cromo e o arsênio são metais que não existem naturalmente em nenhum organismo.128 Os metais pesados como o zinco. ou através do simples contato direto e permanente com o meio aquático poluído. Vale ressaltar que o chumbo. 221 Em estudo realizado com o objetivo de analisar a concentração de metais pesados nos peixes que vivem no igarapé do Quarenta. p. são obrigados a construir 221 MENDES FILHO. enquanto a concentração máxima permitida pela Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS).. Ibid. 30 222 223 Ibid. a contaminação dos sistemas aquáticos pode gerar contaminações dos sistemas nos peixes e nos seres aquáticos. 63. o mercúrio. o cádmio. sem alternativa habitacional. p. A presença destes metais em organismos vivos é prejudicial em qualquer concentração. o que ocorre muitas vezes através das brânquias. As concentrações de cobre no igarapé do Quarenta chegaram a atingir valores duas vezes o limite admissível. Injustiça Ambiental: análise da problemática no bairro de Novo Israel/Manaus-AM. do magnésio. que. tampouco desempenham funções nutricionais ou bioquímicas em microorganismos. devido a cultura alimentar do povo amazonense e também pelos problemas econômicos próprios das populações excluídas. 222 A contaminação dos peixes por metais pesados se torna ainda mais grave. observou-se que os teores de cobre encontrados nesse igarapé variavam de 1. sendo que os maiores valores foram encontrados nos fígados dos peixes. .48 mg/g. Ivanhoé Amazonas. 62. Nesse sentido. A contaminação pode ocorrer tanto por meio da cadeia alimentar. Dissertação (Mestrado em Sociedade e Cultura) Universidade Federal do Amazonas. plantas ou animais.

e principalmente impossibilitados de exercer seus direitos sociais à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.149 moradias. disposição de resíduos sólidos e problemas de saúde. recebendo todo tipo de lixo. Desde o início da década de 1970. verificou os problemas ambientais e de infra-estrutura urbana do bairro. este local foi usado como lixeira pública pela Prefeitura Municipal de Manaus. tornando-se. instalações sanitárias e de higiene. No final de 1987. Outro caso expressivo de injustiça ambiental em Manaus é o do bairro de Novo Israel. desde resíduos industriais. domésticos e hospitalares. quando ainda era uma área semi-urbana. passou a ser ocupado por pessoas sem alternativa habitacional. além de serem vítimas da exclusão social e econômica. . sobre os igarapés.129 moradias erguidas nas margens dos igarapés. O bairro de Novo Israel possui 14. sem qualidade de vida. Sobrevivem em uma situação de total abandono. pouco tempo depois. identificação dos problemas domiciliares referentes às condições de água e de seu armazenamento. segundo dados do Censo 2000 IBGE. local que vem enfrentando sérios problemas socioambientais. uma vez que recebem uma maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento. Em seu estudo. quando um Decreto Municipal transferiu a lixeira para outro local. que muitas vezes são aproveitados para o despejo de dejetos industriais e domésticos. analisando a partir do entorno e do domicílio. Ivanhoé Mendes realizou um estudo no Bairro do Novo Israel com o objetivo de verificar as faces da injustiça ambiental sofrida pelos moradores da área. condições de moradia e poder aquisitivo. o local. que antes havia sido uma lixeira. isso até 1986. um bairro. localizado na zona norte da cidade. As populações que vivem em palafitas. condições de habitabilidade. também são vitimas da injustiça ambiental. servindo como sítios e chácaras.416 habitantes e conta com 3.

Esse é o preço a ser pago. afirma que. mas torna-se peculiar devido a um conjunto de mazelas e iniqüidades perpetradas contra moradores do bairro. principalmente. Curso de Direito Ambiental .vale destacar que os moradores utilizam os poços artesianos improvisados para conseguirem água -. da precariedade dos serviços públicos e da negligência ou omissão do poder público oferta de melhores condições de vida da população. inexiste rede de esgotos e de drenagem. Tais problemas são resultados. para que possam morar na metrópole. 224 Guilherme Purvin. Guilherme José Purvin de.130 O autor destaca que o bairro de Novo Israel poderia ser apenas mais um bairro de Manaus. natureza e propriedade. destacando-se o problema da água. relegados a uma terra contaminada pelo próprio poder público. Manaus 17/11/2005. 99. quanto na qualidade . lembrando que o solo era uma antiga lixeira. Dissertação (Mestrado em Sociedade e Cultura) Universidade Federal do Amazonas. “as áreas degradadas por aterros sanitários ou nas proximidades de “lixões” a céu aberto. A Critica. oriundo dos processos de ocupações ilegais. de acordo com dados da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semasc). constituem uma solução perversamente cômoda para alojar uma imensa multidão de pessoas socialmente excluídas do acesso aos bens minimamente necessários para existência digna”.5 Discurso x Práxis: o caso da “invasão” Nova Vitória A capital do Amazonas concentra 500 mil habitantes vivendo em situação de pobreza. 138. Manaus 2005. 2006. Rio de Janeiro: Portal Jurídico (Gazetajuris). tanto no abastecimento. 225 3. Por outro lado. Além dos problemas da água. 225 FIGUEIREDO.interesses difusos. por seu valor irrisório. p. 226 XIMENES. faltam locais adequados para o despejo de resíduos sólidos. Ivanhoé Amazonas. Injustiça Ambiental: análise da problemática no bairro de Novo Israel/Manaus-AM. evidenciam uma lógica de segregação espacial e social. p. . Antônio. Migração sem controle. que empurra e imobiliza as classes ditas subalternas para locais onde deverão pagar com a sua saúde e com as suas vidas. 226 224 MENDES FILHO.

a cidade de Manaus possui um grande contingente populacional vivendo em condições precárias de habitação. bem como a própria organização do espaço. deve-se levar em conta não somente as condições do imóvel em si. seja do ponto de vista de ausência de serviços de infra-estrutura. lazer e transportes. além do perigo de se contrair moléstias infecciosas decorrentes do acúmulo de lixo e de condições insatisfatórias de higiene. Nas últimas décadas. As formas de produção e distribuição da riqueza. aglomerados . mas também o que se refere a seu entorno e ao que é disponibilizado em termos de equipamentos de saúde. cultura.clandestinos ou não .carentes de infra-estrutura. Muitos apresentam risco de desmoronamento. . de inundação.131 De fato. seja considerando-se as condições de segurança do imóvel. ocorreu um empobrecimento da população de forma que muitas famílias não tiveram como arcar com o aumento das despesas de habitação e acabaram empurradas para as periferias. O poder aquisitivo da população está distante dos interesses do mercado imobiliário: não há ofertas para essa faixa da população e ela tem cada vez menos condições de adquirir o que é ofertado. sendo que essa única alternativa de moradia que encontram vem causando profundos danos ao meio ambiente e a sadia qualidade de vida. Ao ser observada a precariedade habitacional. da infra-estrutura e dos serviços urbanos determinam a qualidade de vida da população na cidade. atingindo atualmente proporções nunca imaginadas. educação. de incêndio devido a ligações elétricas precárias. Em tais locais passam a residir a mão-de-obra necessária para o crescimento da produção. A falta de alternativa habitacional leva os socialmente excluídos a buscarem na “invasão” de terras uma possibilidade de moradia.

Dessa forma concluiu-se que 22% da área urbana de Manaus. Com o objetivo de verificar o grau de desmatamento do município de Manaus. A zona leste tem 16 mil hectares. PESSOA. sendo que 40% pertencem à Superintendência da Zona Franca de Manaus – SUFRAMA. 5427-5434. cerca de 44 mil hectares. destruição de nascentes. no período de 1986 a 2004. que ocasionaram perdas de cobertura vegetal. Brasil. A intensificação desse processo transformou as zonas Leste e Norte da cidade de Manaus em áreas com pouquíssimo verde. Florianópolis. O levantamento foi feito apenas na área urbana de Manaus. assoreamento e poluição de igarapés. Fabio. Acessado em 23/06/2006. e com sérios problemas de alagamento. 21-26 abril 2007. . 227 O processo de “invasão” de áreas para a construção de moradias tem como principal característica à retirada das árvores e a “limpeza” do terreno. Anais XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. A expansão urbana e demográfica da cidade de Manaus e seus impactos ambientais. cerca de 9.emtempo.com. 228 De acordo com o estudo “a zona leste foi a última a ser ocupada e ainda assim. uma equipe do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) promoveu um estudo dos 18 anos de desmatamento na área.br/ . SANSON. sendo que 28 mil já estão desmatados. O total de 227 NOGUERIA. Ana Claudia Fernandes. INPE. p.132 A trajetória de evolução da urbanização em Manaus nos últimos 20 anos tem sido o grande desafio no processo de desenvolvimento e preservação ambiental. Disponível em http://www. Manaus está sendo desmatada.601 hectares. 228 Jornal Amazonas em Tempo. que corresponde a 4% da área total do município. foram desmatados. Na cidade de Manaus. é a mais devastada por conta do avanço populacional”. Essas zonas sofreram impactos ambientais significativos. A cidade de Manaus é uma zona urbana no meio da floresta e que atualmente está pagando um preço ambiental muito alto por conta do tipo de expansão urbana que vem sofrendo. perda da biodiversidade e ameaça de extinção de espécies de animais como o Sauim-de-coleira. desabamento e vulnerabilidade. Karen. as zonas Leste e Norte passaram a ser efetivamente ocupadas por meio de “invasões” na década de 1980 e são as mais atingidas atualmente pela degradação ambiental.

escolas. No ano de 2003.150. com o apoio do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Estado do Amazonas.133 área verde de Manaus atualmente é de 15. na qual as famílias locais passaram a se mobilizar coletivamente. munida de um verdadeiro arsenal de guerra . de acordo com o levantamento sócio-econômico realizado pela Universidade Federal do Amazonas. os equipamentos públicos sociais básicos não são colocados à disposição dos moradores dessa invasão. A área da “invasão” Nova Vitória caracteriza-se como um aglomerado de moradias precárias. cavalos. sendo que grande parte das habitações foram construídas em terrenos irregulares com riscos de desabamento. dezenas de viaturas. etc. transporte. engajando-se num discurso de reivindicação dos direitos à moradia e a uma sadia qualidade de vida. etc. -. é de jurisdição federal. 01 . p.helicópteros. entrou na área da “invasão” e deu-se início 229 Ibid. A Policia Federal. A referida reintegração de posse foi cumprida pela Polícia Federal no dia 15/11/2003. água encanada.265 hectares e de área desmatada é de 28. metralhadoras. pistolas. localizada na Zona Leste da cidade de Manaus.835 hectares. Ou seja.. destinadas à instalação de indústrias na zona urbana de Manaus. sendo que na época o número de moradores na área era de 3. tendo surgido em julho de 2003.SUFRAMA. luz elétrica. a Justiça Federal decretou a reintegração de posse da área para a SUFRAMA. por pertencer à União. não dispõem de infra-estrutura. A área. saneamento básico. 229 Em seguida será examinado um caso paradigmático de habitantes de uma “invasão” denominada Nova Vitória. Desde então a “invasão” tornou-se alvo de brigas judiciais na tentativa de se retirar os ocupantes da área. A ocupação ilegal se deu em terras de propriedade da Superintendência da Zona Franca de Manaus .

o Ministério Público Federal. em outubro de 2005. como o Ministério Público Federal . quando surgiu a “invasão” Nova Vitória. Foi uma verdadeira cena de guerra. Os moradores da “invasão” Nova Vitória. passaram a também viver com o medo de qualquer dia reviver a batalha de expulsão. Os impactos negativos causados pela forma violenta de expulsão dos moradores da “invasão” Nova Vitória foram muito criticadas pela opinião pública e até mesmo pelo próprio poder público. Após a reintegração de posse da área. sendo que dias depois a área foi novamente invadida pelos moradores anteriormente expulsos que não tinham para onde ir e haviam ficado nas calçadas e ruas próximas à “invasão” Nova Vitória. representantes da SUFRAMA e associações de moradores da . Constantemente os moradores eram ameaçados de serem expulsos novamente a qualquer momento. mas no final da batalha a reintegração foi cumprida. que entendeu que o processo de retirada “à força” seria traumático para as famílias residentes na região. Conseguiram expulsar as pessoas moradoras da área e todos os barracos foram destruídos por tratores. A liminar que garantia a reintegração de posse da área invadida que pertence a SUFRAMA foi suspensa pela Justiça Federal. a pedido do Ministério Público Federal. mas as famílias continuavam a resistir. balas de borracha. Todos foram para o confronto com os policiais.MPF. resistiram à reintegração. Além de estarem morando em local totalmente inadequado para moradia. No decorrer dos anos a Polícia Federal tentou novamente intervir na área.134 a “batalha”. Muitos moradores foram lesionados e alguns foram presos. Lutando por seus tetos. uma luta travada entre os moradores e a polícia. Desde o ano de 2003. ao som do hino nacional entoado por vozes inconformadas pela rotina de sofrimento. a SUFRAMA não tomou providências para fins de proteger a área de novas ocupações. os moradores enfrentaram a cavalaria. gás lacrimogêneo e cacetetes.

a fim de discutir uma forma pacífica de cumprir a reintegração de posse sem deixar os moradores da “invasão” sem moradia. mas eu não creio que isto se torne real.135 ocupação passaram a se reunir constantemente. Manaus 18 de fevereiro de 2006. C7. não temos para onde ir. em frente ao prédio do Ministério Público Federal. Entre os moradores que estavam na manifestação se destacou a menor Valéria da Silva Prado. Queria mesmo é que urbanizassem o bairro Nova Vitória. A Medida Provisória nº 334. p. Ambos declararam: Aquela é a nossa terra. a SUFRAMA. o Poder Executivo optou pelo uso da medida provisória como mecanismo mais ágil para permitir ao governo do Estado intervir na urbanização da comunidade.. Todos os que moram no Nova Vitória só têm aquele pedaço de terra. 231 Ao longo de quase quatro anos de existência da “invasão” Nova Vitória. 230 Uma outra cena marcante registrada pela imprensa. de 11 anos de idade. Ibid. A crítica. Sem-teto firmam resistência. Maria. Não podem nos retirar daquele local. também morador da “invasão”). de 19 de dezembro de 2006 autoriza a Superintendência da Zona Franca de 230 231 FERNANDA. Eles estão brigando por uma terra que é de Deus”. é tudo o que temos de mais precioso na vida. Várias manifestações já foram realizadas pelos moradores da “invasão” Nova Vitória. moradora da “invasão” Nova Vitória) Dizem que vão nos dar casa. afirmando que: “ninguém tem casa em outro canto. . os representantes do Ministério Público Federal e os moradores da área não entraram em um acordo. Devido à constatação da existência de moradias em área de risco de desabamento. (Manoel Firmino Trindade. (Eva Rodrigues. uma delas foi no ano de 2006. ocasião em que reivindicavam do poder público que revisse o pedido de reintegração de posse da área. foi a de um casal de idosos chorando e ajoelhados em frente ao prédio do Ministério Público Federal.

localizada na área de expansão do Distrito Industrial. O Governo do Estado do Amazonas.764 (61%) famílias moradoras da “invasão” suprem suas necessidades de abastecimento de água em reservatórios e poços fora de sua propriedade. correspondente à ocupação urbana denominada Nova Vitória.570. passou a assumir a responsabilidade de realizar uma política de urbanização na área doada pela SUFRAMA. as condições de habitabilidade e de identificar as famílias que moram em área de risco para que sejam transferidas para lotes mais seguros. A maioria das residências são de madeira. através da edição da Medida Provisória de nº 334/06. ou seja. Um dos principais problemas apontados pelo levantamento diz respeito ao abastecimento de água. um levantamento sócio-econômico na “invasão” Nova Vitória. conforme gráfico abaixo.707 (61%) das residências possuem apenas 01 cômodo e cômodos.298 famílias que moram na “invasão” Nova Vitória.136 Manaus – SUFRAMA a doar ao Governo do Estado do Amazonas a área 1. saem diariamente em busca de água para o consumo de sua família. 792 (17%) possuem dois Gráfico 2 – Situação do abastecimento de água na “invasão” Nova Vitória – 2007 . Com o objetivo de mensurar o número de habitantes na ocupação. O levantamento nos mostra que 2. Atualmente existem 5. de acordo com o levantamento realizado pela SPF.653 milhão de metros quadrados. sendo que 2. de fevereiro a março de 2007. a Secretaria de Estado de Política Fundiária – SPF realizou.

tendo sido constatado que 2.SPF Outro problema grave apontado é em relação ao esgotamento sanitário.8% POSSUI POÇO NÃO POSSUI POÇO ACESSO A REDE GERAL 2764.137 84. despejam seus afluentes sanitários de forma rudimentar.9% 1655.4% Fonte: Secretaria de Estado de Política Fundiária .025 (44%) não têm qualquer tipo de fossa. Gráfico 3 – Situação do esgotamento sanitário da “invasão” Nova Vitória . 61. ou seja.315 (28%) famílias possuem fossa negra e 1. Cerca de 1.294 (28%) fossa séptica.2007 . 36. despejam em vala a céu aberto. 1.

819) das famílias entrevistadas não possuem fonte de renda fixa. 44% FOSSA NEGRA FOSSA SÉPTICA NÃO TEM 1294. Os dados obtidos mostram o nível de precariedade em que os moradores da “invasão” se encontram atualmente. estando essa situação relacionada ao não acesso aos serviços públicos básicos e aos riscos ambientais decorrentes do fato de habitarem em uma área não urbanizada.355 (31%) famílias sobrevivem sem renda alguma. Em relação ao local da moradia.182 (27%) famílias ganham menos de 1 salário mínimo. podemos afirmar que os dados confirmam a existência de um padrão de desigualdades e exclusão sócio-ambiental dos moradores da “invasão” Nova Vitória.066) são autônomos e 32% (1.344 (32%) famílias adquirem por mês mais de 1 (um) salário mínimo como renda.SPF Em relação à situação empregatícia dos moradores da “invasão” Nova Vitória.428) das famílias estão empregados. Ao analisarmos os resultados do levantamento sócio-econômico realizado pela SPF.138 1315. 1. . constatou-se que 41% (1. enquanto 1. Enquanto que 24% (1. estando o chefe ou o responsável da família desempregado. 28% Fonte: Secretaria de Estado de Política Fundiária . o levantamento identificou que 1. como barrancos e encostas. O levantamento mostra também a faixa salarial de cada família: 1. 28% 2025.215 (21%) famílias estão com suas moradias localizadas em áreas de risco.

sobretudo na África. 232 A malária ainda persiste como um importante problema de saúde pública no Brasil. de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) pelo menos 300 milhões de pessoas contraem malária por ano em todo o mundo. Todos os anos. desde a Antigüidade. Atualmente a malária concentra-se na região da Amazônia Legal. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a malária é a doença infectocontagiosa tropical que mais causa problemas sociais e econômicos no mundo. Maranhão. Afeganistão e países asiáticos. embora com prevalência diferente. das quais cerca de um milhão morrem em conseqüência da doença. Amazonas.139 Além dos problemas da falta dos equipamentos públicos sociais.who. que responde por mais de 99% dos casos registrados no país. Roraima. um dos principais flagelos da humanidade. Por ano. relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e estudos dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) deixam explícita a realidade das "doenças negligenciadas". Os mais comprometidos são Índia. Tocantins e Mato Grosso. incluindo a China.int/countreis/bra/es/ (site da OMS em espanhol) Acesso 21/07/05 . a malária é considerada problema de saúde pública em mais de 90 países. entre 500 e 300 milhões de pessoas são infectadas. composta pelos Estados do Acre. os moradores da “invasão” Nova Vitória sofrem também com outro problema grave que vem constantemente ceifando vidas humanas. principalmente na Amazônia. Brasil (cerca de 300 mil casos/ano). Também conhecida como paludismo. A malária sempre foi. embora muitos países já tenham conseguido interromper sua transmissão.4 bilhões de pessoas (40% da população mundial) convivem com o risco de contágio. expressão designada para aquelas doenças que são deixadas de lado no quadro de pesquisa e 232 Disponível no www. Rondônia. Pará. e em algumas regiões do mundo. Amapá. Cerca de 2. Atualmente. a malária.

. a ausência de infra-estrutura básica e de investimentos públicos de saúde na prevenção da doença. A Malária era considerada uma “doença de pobre”. justamente porque ocorrem em países pobres e em desenvolvimento e. devido aos processos migratórios. sendo esta última a forma mais grave. mas o tratamento. que atinge cerca de 20% das pessoas acometidas da doença. Não existe vacina para a doença. de saneamento 233 A malária é uma doença transmitida pelo mosquito do gênero "Anopheles".gov.140 desenvolvimento (P&D) da indústria farmacêutica.br Acesso em 20/07/2005 234 Consulta através do www.org. a expansão desordenada na cidade. não têm como retornar os lucros esperados. de acordo com dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS/AM). Todo esse sofrimento a humanidade deve a dois inimigos que se aliaram há milênios para seviciar a espécie humana: um protozoário e um mosquito. onde estão 48% da população do Estado. em 2005 o Estado do Amazonas registrou 222. Não é à toa que as doenças tropicais afetam sobretudo as pessoas pobres. 233 No Estado do Amazonas. Situação Epidemiológica da Malária – 2005.545 casos de malária. assim. concentra 40% do total de casos de malária. a ponto de se procurar a cura através de incentivos à pesquisa. começou a se tornar um problema preocupante. Apesar do aumento de casos. mas a partir do momento que começou a atingir as outras classes sociais.saude. à base de comprimidos ainda é eficaz. tem-se conseguido diminuir a gravidade da doença. pois esta classe normalmente se concentra em áreas desprovidas de infra-estrutura. sendo que no ano de 2006 foram registrados 180. que possui 400 espécies. existem três tipos principais de malária: A vivax.br/svs. No Brasil.290 casos. Acesso em 20/07/2005. sendo que os outros 60% ocorrem em 32 municípios.funasa. Manaus vive hoje uma grave situação de ocorrência de malária. Segundo dados do Sistema de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde. Contudo. 234 Em Manaus. a malariae e a falciparum. a ocorrência de malária se deu inicialmente em maior proporção nas regiões interioranas e rurais do Estado. Disponível em www.

384 40. pelo desmatamento e pela exploração de recursos da floresta sem o devido cuidado. Ainda que se verifique o empenho das instituições de saúde no combate à malária. de acordo com dados divulgados pela Fundação de Vigilância em Saúde – FVS/AM. Pode-se observar no quadro abaixo os altos índices de casos de malária na “invasão” Nova Vitória: Tabela 5 – Comparativo de casos de malária em Manaus e na “invasão” Nova Vitória 2004 – 2006.622 “Invasão” NOVA VITÓRIA 3.933 64. como a leischmaniose e a febre amarela. de energia elétrica (que é obtida através de ligações clandestinas). locais onde outras doenças além da malária. encontram condições ideais de propagação. Os moradores da “invasão” Nova Vitória estão entre as principais vítimas da malária em Manaus.289 631 Fonte: Fundação de Vigilância em Saúde – FVS/AM A elevada proliferação dos casos de malária nessas áreas se dá pela ocupação desordenada de terras. Sem falar na falta de saneamento básico. ou água de cacimba.343 2.141 básico e de políticas de saúde pública. ANO 2004 2005 2006 MANAUS 55. tudo para dar lugar às construções de barracos. sendo que os moradores utilizam água dos igarapés próximos ao local ocupado. locais propícios para criadouros do mosquito. ao que parece não se tem uma política pública urbana de assentamento às famílias com o mínimo .

que se concentram a maioria dos casos. Figura 1 – A “invasão” Nova Vitória Figura 2 – Habitações precárias na “invasão” Nova Vitória .142 de infra-estrutura básica. A malária atinge primordialmente segmentos das classes subalternas uma vez que é nas áreas de “invasões”.

.143 Figura 3 – Habitações construídas em barrancos.

.144 Figura 4 – Habitações construídas próximo a um igarapé.

145 Podemos observar que a situação dos moradores da “invasão” Nova Vitória é dramática: suas casas. que morreram eletrocutadas. O esgotamento sanitário é direcionado para o igarapé. construídas nas encostas de barrancos ou em cima de igarapés. por falta de coleta adequada de . usufruindo de energia elétrica através de ligação clandestina que veio a vitimar nove pessoas desde o inicio da ocupação. sendo que tais populações abastecem sua casas de água através de poços artesianos precários ou da água dos próprios igarapés contaminados. O lixo doméstico é jogado sempre nas encostas próximas ao local de moradia.

A luta pela vida dos moradores das ocupações ilegais é incessante. saneamento básico. e outros. Mas ela se instala sem contar com qualquer serviço público ou obras de infra-estrutura urbana. Ermínia. Acesso em 02/09/2006. Disponível em www. Em muitos casos. por parte das camadas populares. sem alternativa habitacional. sobrevivendo sem a alternativa de uma vida com qualidade e digna. 235 235 MARICATO. os problemas de drenagem. Além de não disporem do acesso aos direitos sociais à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.146 lixo.br/scielo. onde longe dos olhos da sociedade. .scielo. está longe de significar uma política de respeito aos carentes de moradia ou aos direitos humanos. pobre e predatória de áreas de proteção ambiental ou demais áreas públicas. Tendo em vista que alguns (uma minoria) dispõem de água potável. como é o caso dos mananciais de água.php. cuja regularização foi promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda no primeiro turno das eleições do ano de 2006. são também vítimas da injustiça ambiental. moradias adequadas. sofrem para poder sobreviver. Essa tolerância pelo Estado em relação a ocupação ilegal. legislação e desigualdade. Não podem parar. Metrópole. Enfim. pois a sobrevivência de suas famílias depende da força para lutar. risco de vida por desmoronamentos. A população que aí se instala não compromete apenas os recursos que são fundamentais a todos os moradores da cidade. Destaca Ermínia Maricato que é notável a tolerância que o Estado brasileiro tem manifestado em relação às ocupações ilegais de terra urbana. tais populações carecem de todos os equipamentos públicos sociais. obstáculos à instalação de rede de água e esgotos torna inviável ou extremamente cara a urbanização futura. A Medida Provisória que autoriza a doação para o Governo do Estado da área ocupada pela “invasão” Nova Vitória beneficiará aproximadamente 6 mil famílias residentes no local. pelo fato de estarem arcando desproporcionalmente com o ônus do desenvolvimento. energia elétrica. são excluídos e empurrados para as periferias.

através de seus representantes políticos.147 Os projetos de habitação dos governos municipais e estaduais não dão conta da demanda nos grandes centros urbanos. sejam eles Presidentes. que ficam sujeitas a campanhas eleitoreiras e a paralisação de projetos com a mudança de mandatos dos governantes. da injustiça ambiental e da exclusão social. e que tendem cada vez mais a aumentarem. uma vez que a elaboração e a implementação de políticas públicas voltadas para as populações marginalizadas são incipientes. em defesa de uma sociedade mais justa. Contudo. transformam as Leis e a Constituição em meras peças de ficção. não ocorrendo. por outro lado. não importando as mazelas. Rasgam-se os falsos discursos da elite dominante e a Nova Vitória surge como um exemplo da luta e da resistência das classes ditas subalternas. As lutas travadas por uma moradia digna. Parece-nos que nunca vão acabar. . cobranças e fiscalizações rígidas pelos setores públicos que deveriam fazê-lo. o que se percebe na ocupação Nova Vitória é que faltam ações governamentais com vistas a minorar o grave problema do déficit habitacional. insuficientes e paliativas. Governadores e Prefeitos ou membros do Legislativo e Judiciário. pois não há uma padronização e um planejamento a logo prazo das iniciativas. A classe dominante. de eqüidade ambiental irradia-se como verdade inconteste. de democracia. O discurso da classe hegemônica de igualdade. por um meio ambiente ecologicamente equilibrado e uma sadia qualidade de vida são contínuas. as doenças e o sofrimento a que são diariamente submetidos.

203 BOBBIO. 990 . 987-992. ao analisar a práxis em Marx. São Paulo: Global Editora. 1986.. Nicola. Marta. Estes aparelhos institucionais e normas constituem a estrutura jurídicapolítico da sociedade e fazem parte da superestrutura. p. a define como atividade prático-crítica. possui um conjunto de aparelhos institucionais e normas destinadas a regulamentar o funcionamento da sociedade em seu conjunto. isto é. o fazer-se da história. o jurídico-político está assegurado por um aparelho autônomo: o Estado. 1993. passivamente contemplado. afirma que a Práxis é história. Gianfranco. O termo atividade nos adverte da superação do velho materialismo naturalístico. ou melhor. p. p. O Estado então é um instrumento de pressão das classes dominantes sobre as classes oprimidas.148 Harnecker. Dicionário de Política. p. 239 236 HARNECKER. citado por Bobbio. Isto é. o qual concebia a natureza como um dado intuitivo.. como atividade humana perceptível em que se resolve o real concebido subjetivamente. que monopoliza a “violência legítima” e cuja principal função é manter sob a sujeição de uma classe dominante todas as demais classes que dependem dela. de origem iluminística e chegado até Feuerbach. 237 238 Ibid. Brasília/DF: Editora Universidade de Brasília. Norberto.237 Bobbio. MATTEUCCI. esclarece que toda sociedade. PASQUINO. Os conceitos elementares do materialismo histórico. a vontade é racional porque suscitada por um pensamento historicamente baseado. além de possuir uma estrutura econômica e uma estrutura ideológica determinada. 197-202. 239 Ibid. acolhido pela grande maioria por responder às necessidades manifestadas num contexto ambiental que é marcado pela intervenção do homem e se transforma por isso em móbil de ação. fazendo uma análise marxiana. 238 Gramsci. a sua realização por obra da vontade racional. 236 Nas sociedades de classes.

Para Scherer-Warren. 3. A precária situação em que vivem milhares de 240 SHERER-WARREN. p. em sua busca da Práxis transformadora do social: Práxis que se realiza em conexão com a atividade teórica. Após quase vinte anos da promulgação da Constituição Federal de 1988. o descaso dos governantes em relação à efetiva prestação dos serviços essenciais para uma vida digna. na concepção marxista. a dramática realidade vivida pela maioria da população excluída e marginalizada. Uma outra alternativa são os caminhos institucionais para a solução de conflitos sociais. a história da humanidade é luta de classes e com ela se identifica a Práxis. podemos observar em nosso país a contraposição: de um lado. 240 Nesse sentido. mas Práxis que modifica. . Práxis que se realiza através da atividade produtiva e finalmente Práxis que se realiza por meio da atividade política. 1989. tomada numa acepção onde ela não é mais a Práxis que se modifica. Ilse. Movimentos Sociais – um ensaio de interpretação sociológica. de outro. É o que veremos em seguida.24. Florianópolis: Editora da Universidade Federal de Santa Catarina. na visão marxiana. que vivem em condições precárias de moradia e alimentam-se mal ou passam fome.6 O controle judicial da omissão do Estado na implementação de políticas públicas sociais.149 Portanto. a passagem de uma teoria crítica para uma Práxis revolucionária pode se dar através do movimento de libertação da classe social oprimida. pelo menos três atividades principais são enfocadas por Marx. que não dispõe de um atendimento de qualidade mínima nos serviços públicos.

conforme as circunstâncias. . As bases para o conceito de política pública foram elaboradas por Ronald Dworkin. Diante os anseios da sociedade em buscar a concretização dos direitos fundamentais sociais. Os direitos sociais não são direitos contra o Estado. evidencia o fracasso do Estado brasileiro em implementar políticas públicas sociais. exigindo do Poder Público certas prestações materiais. Antes de tratarmos do controle judicial diante da omissão estatal em implementar as política públicas sociais previstas em norma constitucional. Outubro/Dezembro 1999. 240. Andréas J. O Estado. executar e implementar. faz-se necessário apresentar algumas conceituações de políticas públicas. garantidos em nossa Constituição Federal.150 pessoas em nosso país. Revista de Informação Legislativa nº 144. saúde. com o objetivo de promover condições para que tais direitos possam ser efetivamente usufruídos. geralmente uma melhoria em alguma característica econômica. habitação. as chamadas “políticas sociais” (educação. impõem ao Poder Executivo que promova. trabalho.) que facultem o gozo efetivo dos direitos constitucionalmente protegidos. a elaboração de políticas públicas. tem crescido o debate acerca da função e dos limites da atuação do Poder Judiciário na efetivação dos direitos sociais. a constitucionalização dos direitos fundamentais sociais e a ratificação de tratados internacionais que dispõem sobre esses direitos para que possam ter efetiva implementação. política ou social da 241 KRELL. Brasília. deve definir. assistência. por meio de leis. previdência. enquanto responsável pelos atos de administração do Estado. p. mas sim direitos por meio do Estado. atos normativos e da criação real de instalações de serviços públicos. 241 Dessa forma. etc. o qual afirma que a política (policy) designa “um padrão de conduta que assinala uma meta a alcançar. Realização dos direitos fundamentais sociais mediante controle judicial da prestação dos serviços públicos básicos (uma visão comparativa).

Buscando um conceito de políticas públicas para a concretização dos direitos humanos. p. 35 n. 243 244 APPIO. . Maria Paula Dallari Bucci afirma que as políticas públicas são programas de ação de governo para a realização de objetivos determinados num espaço de tempo certo. Maria Paula Dallari. In: Direitos Humanos e Políticas Públicas. BUCCI. finalmente. a elaboração dessas políticas deve seguir os 242 DWORKIN. Eduardo./jun. Controle Judicial das Políticas Públicas no Brasil. ainda que certas metas sejam negativas. 242 Destaca Eduardo Áppio que a finalidade da política pública é assegurar igualdade de oportunidades aos cidadãos. racionalização e participação popular. 2001. sendo que. Os elementos das políticas públicas são o fim da ação governamental. 138 abr. Ensaio sobre o juízo de constitucionalidade de políticas públicas. 44. 1998. 2005. São Paulo. p. 243 A esse respeito. deve-se buscar a promoção da diminuição das desigualdades socioeconômicas e garantir igualdade real de oportunidades através da atuação dos órgãos da Administração Pública. o autor conceitua políticas públicas como “instrumentos de execução de programas políticos baseados na intervenção estatal na sociedade com a finalidade de assegurar igualdade de oportunidades aos cidadãos. tendo por escopo assegurar as condições materiais de uma existência digna para todos os cidadãos”. apud COMPARATO. os meios alocados para a realização das metas e. 244 Fernando Aith destaca que a promoção e proteção dos direitos humanos e demais direitos reconhecidos no ordenamento jurídico são realizadas pelo Estado.151 comunidade. Fábio Konder. as metas nas quais se desdobra esse fim. Curitiba: Juruá. Ressalta ainda que: políticas públicas funcionam como instrumentos de aglutinação de interesses em torno de objetivos comuns. Polis. ou seja. Revista de Informação Legislativa. que passam a estruturar uma coletividade de interesses. Sendo assim. os processos de sua realização. Segundo uma definição estipulada: toda política pública é um instrumento de planejamento. p. pelo fato de implicarem que determinada característica deve ser protegida contra uma mudança hostil”. Brasília a. 136. 13. através da execução de políticas públicas.

Fernando Mussa Abujamra. ou através dos demais poderes estatais constituídos (Legislativo e Judiciário). e toda e qualquer ação desenvolvida pelo Estado deverá ser feita no sentido da proteção desses direitos. entende-se que o Poder Executivo não poderá se eximir da responsabilidade de elaborar as políticas públicas sociais. Políticas Públicas reflexões sobre o conceito jurídico. 2006. São Paulo: Saraiva. 245 Compete ao Estado elaborar e planejar as políticas públicas. p. execução e financiamento de ações voltadas à consolidação do Estado Democrático de Direito e à promoção e proteção dos direitos humanos”. imperativa. Esclarece Fernando Aith que o Estado tem por finalidade a garantia dos direitos dos seres humanos que o integram. 232. In: BUCCI. por força de decisão judicial. A Constituição Federal de 1988 confere ao legislador uma margem substancial de autonomia na definição de forma e medida em que o direito social deve ser assegurado.152 ditames da Constituição e dos demais instrumentos normativos do ordenamento jurídico. bem como à efetiva implementação destas. seja através da Administração Direta ou Indireta (autarquias. inviolável e auto-aplicável. Políticas públicas de Estado e de governo: instrumentos de consolidação do Estado Democrático de Direito e de promoção e proteção dos direitos humanos. 246 Ibid. Maria Paula Dallari. Em 245 AITH. 218 . 246 Dessa forma. planejamento. Já os governos representativos têm por finalidade executar políticas que busquem a promoção e proteção dos direitos humanos. o autor considera a política pública como uma “atividade estatal de elaboração. a dar cumprimento às políticas públicas sociais. imediatamente. sob pena de descumprir norma constitucional de ordem pública.. Dessa forma. empresas públicas. sendo que qualquer política pública que não tenha essa finalidade torna-se. Partindo desse posicionamento passaremos para a discussão da possibilidade do Poder Executivo ser responsabilizado e compelido. uma política inconstitucional (ou ilegal). sociedades de economia mista ou fundações).

mas também os meios empregados para se atingirem esses fins”. 2006. p. Explica o autor que esse entendimento negativo teve origem na Constituição de 1934 que vedava “ao Poder Judiciário conhecer questões exclusivamente políticas” (art. Afirmando inclusive. para julgar “questões políticas”. Eficácia e Acionabilidade à luz da Constituição de 1988. . o que se queria vedar era o controle judicial sob questões ‘de política’ (lato sensu)”. Comparato que “o juízo de constitucionabilidade. Alessandra Gotti. o Poder Judiciário não deve intervir em esfera reservada a outro Poder para substituí-lo em juízos de conveniência e oportunidade. “que essa clássica falsa objeção de muito já está esclarecida. Realização dos direitos fundamentais sociais mediante controle judicial da prestação dos serviços públicos básicos (uma visão comparativa). 248 Comparato afasta a clássica objeção de que o Judiciário não tem competência. 138 abr. Brasília a. 46. de uma política pública. quando. nessa matéria tem por objeto não só as finalidades. pelo princípio da divisão dos Poderes.153 princípio. 68 CF/34). tendo em vista que os Poderes Legislativos e Executivos no Brasil se mostraram incapazes de garantir o cumprimento racional dos direitos sociais. Andréas J. nº 144 out/dez 1999. normalmente há uma delegação constitucional para o legislador concretizar o conteúdo desses direitos. na verdade.ed. p. Revista de Informação Legislativa. Curitiba: Juruá. 36. 249 COMPARATO. No atual ponorama jurídico brasileiro. Ensaio sobre o juízo de constitucionalidade de políticas públicas. expressas ou implícitas. faz-se necessária a revisão do dogma da “separação dos poderes” 247 em relação ao controle dos gastos públicos e da prestação dos serviços sociais básicos do Estado Social. insculpido no art. 249 Ressalta. 248 KRELL. 35 n.240-241. A eficácia dos direitos fundamentais sociais a prestações materiais depende naturalmente dos recursos públicos disponíveis. tendo em vista que se tratava apenas de uma hermenêutica pobre. ainda. Revista de Informação Legislativa. 2º da Carta de 1988. 1998. Direitos Sociais. No entanto.1. sendo que. tem por objetivo o 247 Afirma Bontempo que é recorrente no Poder Judiciário o argumento de que a viabilização desses direitos representaria uma violação ao princípio da separação dos poderes. (BONTEMPO. nessa matéria. Fábio Konder. p. defende-se que “o juízo de constitucionalidade./jun. 266). Brasília a.

não será um exame unicamente político – juízo sobre o meio mais adequado para atender o bem estar coletivo -. sendo apenas admitido um exame jurídico ou até jurídico-político – contemplação das finalidades predispostas pela norma.. que deverá ser excepcional. ano 2. no caso de haver divergências. a existência de algum poder jurídico que possa ser utilizado pelo titular do direito em caso de 250 251 Ibid. p. Abramovich entende como justiciabilidade a “possibilidade de reclamar ante um juiz ou tribunal de justiça o cumprimento ao menos de algumas das obrigações que derivam de um direito”. Linhas de trabalho em direitos econômicos. mas. Victor.154 confronto de tais políticas. (Disponível em formato eletrônico no site www. Nesse mesmo sentido é o entendimento de Victor Abramovich. dentro de um exame de compatibilidade ou não entre a atividade estatal e os ditames da norma. In: Sur – Revista Internacional de Direitos Humanos. ou seja. mas sim confrontar as políticas assumidas com os padrões jurídicos aplicáveis e. 45-46 ABRAMOVICH. sociais e culturais: instrumentos e aliados.surjournal. O que qualificará a existência de um direito social como direito pleno não é simplesmente o cumprimento de uma conduta por parte do Estado. mas também com as regras que estruturam o desenvolvimento dessa atividade”. . afirmando que “o Poder Judiciário não tem como tarefa projetar políticas públicas.org). 251 O reconhecimento dos direitos fundamentais sociais como direitos plenos só se alcançará quando forem superados os obstáculos que impedem a sua adequada justiciabilidade. 250 Dessa forma. pode-se afirmar que é possível o controle jurisdicional das políticas públicas. 205. O controle jurisdicional só será aplicado se houver por parte do Poder Executivo desvio ou abusividade governamental. SUR – Rede Universitária de Direitos Humanos. não só com os objetivos constitucionalmente vinculantes da atividade de governo. p. reenviar a questão aos poderes pertinentes para que eles ajustem sua atividade”. 2005. 2005.

p. Curitiba: Juruá. COURTIS. b) organização sindical. Alessandra Gotti. 2002. 253 Art.1. inciso LXXI. no caso. em defesa dos interesses de seus membros ou associados”. O art. 5°. ou associados. mediante uma demanda ou queixa. § 2º. 103. ocorrendo. os ditames de uma sentença que imponha o cumprimento da obrigação gerada pelo direito. inciso LXX. podem ajuizar para defesa. 5º. 37-38. será dada ciência ao poder competente para a adoção das providências necessárias e. instituída pela Lei 7374/85. . enumeradas expressamente na Constituição. Los derechos sociales como derechos exigibles. O mandado de segurança coletivo254 também é um instrumento que vem garantir o acesso à justiça. outros interesses difusos e coletivos. a bens e direitos de valor artístico. para fazê-lo em trinta dias”. mas de direito líquido e certo de seus membros. 252 A nossa carta Constitucional de 1988 estabeleceu alguns instrumentos jurídicos capazes de assegurar a concretização dos direitos sociais. § 2º) e o mandado de injunção (art. (BONTEMPO. Christian. ao consumidor. 252 ABRAMOVICH. inciso III. à soberania e à cidadania”.ed. turístico.155 descumprimento da obrigação devida. inércia ou silêncio do poder público que deixa de praticar determinado ato exigido pela Constituição. inciso LXXI). 253 Pode também ser utilizada como alternativa judicial a Ação Civil Pública. entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano. o instituto da substituição processual. 5º. estético. 254 Art. englobando ainda. resulta de abstenção. Considerar plenamente um direito econômico. e das prerrogativas inerentes à nacionalidade. não de direitos próprios. 2006. à soberania e à cidadania. Mandado de segurança coletivo é ação de rito especial que determinadas entidades. Madri: Trota. De acordo com Bontempo a concessão do mandado de injunção está condicionada a uma relação jurídica de causa e efeito: a uma causa – a falta de norma regulamentadora – a ordem jurídica atribui uma conseqüência – a inviabilidade do exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade. expresso no art. dispõe que “Conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdade constitucionais. 243 e 247). no art. a inconstitucionabilidade por omissão corresponde a um non facere. 103. inerentes a essas entidades. A esse respeito comenta Alessandra Bontempo. histórico. 129. Victor. podendo ser ajuizada no caso de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente. p. e prevendo-a. em se tratando de órgão administrativo. da Constituição Federal “Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional. Direitos Sociais. social ou cultural como direito é possível unicamente se – ao menos em alguma medida – o titular/credor está em condições de produzir. Eficácia e Acionabilidade à luz da Constituição de 1988. Os remédios jurídicos de proteção aos direitos sociais contra a omissão inconstitucional são: ação direta de inconstitucionalidade por omissão (art. 5º inciso LXX da CF/88: “o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: a) partido político com representação no Congresso Nacional. paisagístico.

) Não se pretende.. que tradicionalmente era voltada para a defesa do patrimônio público. instituída em 1999 através da Lei 9. Isso significa que. isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência. Renato Stanziola. abril de 2006. ficando o autor.. O que se sustenta – é. (Estando disponível pelo endereço eletrônico http://redalyc. a de produção de ato administrativo. 256 Art. o Poder Judiciário poderá ser acionado para o fim de aplica-lo. produzir efeito.. inciso LXXIII.256 O Poder Judiciário tem a responsabilidade pelo controle jurisdicional das políticas públicas sociais. parágrafo 1º. nisso. dever que se lhe impõe e mercê do qual lhe é atribuído o poder. 255 Em relação à proteção do direito social ao meio ambiente. 142. cumprir ao Poder Judiciário assegurar a pronta exeqüibilidade de direito ou garantia constitucional imediatamente aplicável. tendo sua previsão expressa do art. se a Administração Pública ou um particular – ou mesmo – o Legislativo – de quem se reclama a correta aplicação do direito. Política y Humanidades Nº 15. principalmente por força do artigo 5º. CF/88: “qualquer cidadão é parte legitima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe. que prevê a impossibilidade de o Judiciário deixar de apreciar lesão ou ameaça de lesão a qualquer direito.Espanã. . 5º. estando expresso no art. destaca-se como importante modalidade de ação judicial a Ação Popular. quer sob a consideração de política governamental. quer sob as vestes de norma jurídica.156 De acordo com Piovesan e Vieira outra alternativa judicial para defesa dos direitos sociais é a Argüição de Descumprimento de Preceitos Fundamentais. ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural. atribuir ao Judiciário o desempenho de funções que são próprias do Legislativo – ou seja. na autorização que para tanto recebe. Sevilla .pdf). meramente. sob o manto do princípio da supremacia da Constituição – é. Justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos no Brasil: desafios e perspectivas. 102. (. Esse mecanismo jurídico é utilizado com vistas a reparar lesão ou ameaça de lesão a preceito fundamental decorrente de ato do poder público.882. que lhe deu aplicabilidade. nega-se a fazê-lo. Araucaria Revista Iberoamericana de Filosofia.) o Poder Judiciário é o aplicador último do direito. de. 5º. da Constituição de 1988. Universidade de Sevilla. VIEIRA.uaemex. à moralidade administrativa. no caso.mx/redalyc/pdf/282/28281509. inciso LXXIII. salvo comprovada má-fé. em cada decisão que a esse respeito tomar. sendo que passou a partir de 1988 a tutelar também o meio ambiente e o patrimônio histórico e cultural. p. inciso XXXV da Constituição de 1988. Flávia. 257 255 PIOVESAN. Segundo entendimento de Eros Roberto Graus: (..

abril de 2006. existindo uma clara relação entre índice de desenvolvimento humano e litigância.mx/redalyc/pdf/282/28281509. Renato Stanziola. VIEIRA. Sevilla . p.251. ainda. apud BONTEMPO. 145. pelo fato de o Judiciário não querer assumir a responsabilidade desse controle. nº 144 out/dez 1999.pdf). ou. Aponta também a falta de meios compulsórios para a execução de sentenças que condenam o Estado a cumprir uma tarefa ou efetuar uma prestação omitida. (Estando disponível pelo endereço eletrônico http://redalyc. o que revela uma apropriação ainda tímida da sociedade dos seus direitos fundamentais sociais como verdadeiros direitos legais. Eficácia e Acionabilidade à luz da Constituição de 1988. há ainda uma certa resistência dos três Poderes (legislativo. Política y Humanidades Nº 15. seja pelo fato do Executivo não querer ter suas atividade controladas. Além disso. 36. Curitiba: Juruá. p. Flávia. 258 KRELL. 260. A grande maioria das 257 GRAU. p. 258 No Brasil ainda é incipiente o grau de provocação do Poder Judiciário para demandas envolvendo direitos sociais. Araucaria Revista Iberoamericana de Filosofia. Andréas J. acionáveis e justiciáveis.Espanã. mas a não-prestação real dos serviços sociais básicos pelo Poder Público.uaemex. judiciário e executivo) ao controle judicial do mérito dos atos do Poder Público. é acentuadamente maior a utilização do Judiciário nas regiões que apresentam índices mais altos de desenvolvimento humano. 2006. Realização dos direitos fundamentais sociais mediante controle judicial da prestação dos serviços públicos básicos (uma visão comparativa). ou seja. Revista de Informação Legislativa. 259 PIOVESAN. Direitos Sociais. . seja pelo fato de o Legislativo não querer outro agente criador de direito. 259 O maior problema que encontramos em nosso país não é a falta de leis ordinárias. Brasília a. Alessandra Gotti. De acordo com Piovesan e Vieira em nosso país apenas 30% dos indivíduos envolvidos em disputas procuram a Justiça estatal.1. ressalta Krell que a estrutura do Poder Judiciário é relativamente inadequada para dispor sobre recursos ou planejar políticas públicas.157 No entanto. Justiciabilidade dos direitos sociais e econômicos no Brasil: desafios e perspectivas. Universidade de Sevilla.ed.

pela crise ambiental cada vez mais eminente. Atualmente. proporcionalmente.158 normas para o exercício dos direitos sociais já existem. pois só assim poderá se discutir de quem é a culpa. uma reforma política em todas as suas esferas. e cobrar sua responsabilidade. O que fazer nessa situação? As demandas sociais são cada vez mais crescentes em nossa sociedade. Além disso. seja Legislativo. Após essas breves considerações. mas em exigir do Estado enquanto ordenador das condições de vida política e garantidor das condições de sociabilidade. pelas desigualdades regionais. mas. mas a garantia desses direitos esbarra na formulação. não usufruem de um meio ambiente ecologicamente equilibrado – “bem de um uso comum de todos”. O Estado se mostra incapaz de cumprir o seu dever de implementar políticas públicas sociais capazes de atender os direitos sociais. implementação e manutenção das políticas públicas sociais. segundo . Precisamos do empenho de todos – Estado e sociedade – para podermos alcançar o que José Reinaldo chama de Justiça Distributiva – pela qual se distribui. mais especificamente os direitos a moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado da sociedade. pela urbanização acelerada. Os problemas e dilemas gerados pelo desenvolvimento industrial revelam uma crescente tensão e conflitos no âmbito da sociedade marcada pela intensa migração interna. O Poder Judiciário não é o milagre por todos esperado para solucionar os problemas da sociedade. mas não têm o direito de usufruí-los. Possuem direitos sociais garantidos constitucionalmente. em nosso país milhares de pessoas ainda sofrem ao sobreviverem em moradias extremamente precárias e insalubres. Judiciário ou Executivo. e principalmente pelo fracasso das políticas públicas sociais. tratados neste trabalho. tendo em vista os graves problemas sociais existentes em nossa sociedade. partilhamos do entendimento de parte da doutrina brasileira que defende o controle judicial da omissão do Estado na implementação de políticas públicas sociais pelo Poder Judiciário. esse problema não se resume em responsabilizar os Poderes.

Direitos Humanos. corre o risco de ser entendido como sinalizando o voluntarismo irracional. In: FARIA. Direito subjetivo e direitos sociais: o dilema do Judiciário no Estado Social de Direito. As políticas públicas difundidas pelo neoliberalismo são injustas e excludentes. Os governos separaram a economia da sua dimensão social. observam-se nos dias atuais os descumprimentos constantes 260 LOPES. A globalização. ou. impondo às classes populares a conta do desenvolvimento nacional. p. cercados por anéis burocráticos e interesses privatísticos. de maneira igual os benefícios e os malefícios da vida comum. juntamente com a crise econômica mundial trazem reflexos sobre as políticas públicas. 142. José Eduardo.159 os méritos. José Reinaldo de Lima. 261 Não obstante a evidente incapacidade do Judiciário para resolver sozinho todos os problemas sociais. São Paulo: Malheiros. que em nome da defesa das liberdade burguesas auxilia a reprodução das distorções sociais existentes. ou legitimando uma ditadura do Judiciário.141 261 Ibid. Mas à falta de soluções gerais. Direitos Sociais e Justiça. podemos ver-nos diante de paradoxos incompreensíveis: ou legitimando uma tirania do Legislativo e do Executivo. 260 Claro está. a capacidade. p. é certo que “levar a sério” os direitos sociais implica em admitir a possibilidade do seu questionamento judicial em caso de inércia do Estado no tocante à sua implementação. Dessa forma. na alteração significativa das regras do jogo. pois. 2005. a necessidade. que o Judiciário transforma-se em arena de uma luta que o transcende. trouxeram como conseqüência a destruição da máquina pública e a diminuição de investimentos em políticas públicas sociais. .. social e econômica em que se encontra a sociedade brasileira. ao serem adotadas em nosso país. Suas decisões têm hoje a importância política de dar visibilidade às conseqüências concretas desta disputa política. 140 . sendo que. o neoliberalismo e as regras de mercado. em nome de uma atuação transformadora sem meios para agir globalmente. em termos culturais e jurídicos e práticas concretas.

acreditamos na possibilidade de um outro modelo de sociedade onde as políticas sejam de fato públicas.160 dos direitos sociais. meio-ambiente. moradia. Além disso. geração de emprego e de renda. Primeiramente os governos devem articular as políticas públicas para garantir uma vida com mais qualidade e a otimização dos recursos públicos. até hoje. saneamento. As políticas públicas no Brasil. não conseguiram beneficiar a todos em igualdade de condições. educação. uma vez que privilegiam uma minoria em detrimento da grande maioria da população pobre e marginalizada. Apesar de todos os problemas apontados. e o agravamento da questão social aumento da pobreza. da exclusão. o acirramento das desigualdades. isto é. alimentação e nutrição. da violência etc. . distribuição e acesso à terra. propondo e exigindo políticas públicas sociais capazes de propiciar uma vida digna para todos. em benefício de todos. é imprescindível a participação da sociedade organizada (especialmente os movimentos sociais). que somente tem acesso a políticas públicas sociais compensatórias. O Estado Brasileiro deve se responsabilizar pela formulação e implementação de políticas que integrem saúde. informação pública.

que passa a encarar esses direitos como verdadeiros privilégios das classes de maior poder econômico. O Estado passou a priorizar os interesses privados prevalecentes nas atividades econômicas. A não efetivação das políticas públicas sociais relacionadas ao direito à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado traz como conseqüência as ocupações ilegais.161 4 CONCLUSÃO O processo de desenvolvimento atrelado à lógica do capital vem gerando conseqüências danosas para as cidades e os seus habitantes. além de muitas vezes serem vítimas do desemprego e da precarização social em geral. pode-se constatar que existe atualmente uma total descrença nos direitos fundamentais sociais por parte da maioria da população excluída social e economicamente. sobretudo no que se refere à qualidade do meio-ambiente e à produção de condições de extrema desigualdade social e econômica. de não terem acesso aos direitos sociais que lhes são garantidos . as pessoas que vivem em ocupações ilegais. a população pobre. investindo na produção e na indústria. Sendo assim. muitas vezes. estando às margens da cidade e da cidadania. água e ar puro. No Brasil. além de serem vítimas da exclusão social e ambiental. Sem alternativa habitacional. deixando. Como conseqüência desse processo. a população pobre passa a ocupar os espaços desordenadamente. como a contaminação por substâncias perigosas. Frequentemente encontram-se expostas aos riscos decorrentes de más condições de moradia. a falta de saneamento básico. marginalizada e vulnerável não tem acesso aos direitos fundamentais sociais à moradia e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. as políticas públicas sociais relegadas a ações não prioritárias.

que muitas políticas públicas são deixadas de lado assim que assume um novo representante eleito. Para assegurar o direito à moradia e a proteção do meio ambiente para as presentes e futuras gerações. Contudo. assim como com eficiência e oportunidade. A efetividade dos direitos sociais depende de uma estruturação do Estado. numa democracia. o que significa. o serviço público nesses setores deve ser prestado de maneira contínua. constata-se uma conduta omissiva do Estado no cumprimento das políticas sociais públicas voltadas para a garantia de uma moradia digna em um ambiente saudável. principalmente. Ao analisar o caso da “invasão” Nova Vitória. são também vítimas da injustiça ambiental. instituindo outras políticas públicas. pois arcam com o maior custo do ônus do desenvolvimento. o que implica na sua oferta ao usuário com qualidade e regularidade. do planejamento a longo prazo. é necessário que existam instituições de caráter permanente no âmbito da administração. executiva e judiciária. o que significa dizer que não é passível de interrupção. do amadurecimento da política econômica e. Tais fatores é que permitirão a concretização dos direitos sociais e das políticas públicas sociais na busca de um ambiente socialmente justo e ecologicamente equilibrado. legislativa.162 constitucionalmente e por organismos internacionais. na prática. A implementação dos direitos fundamentais sociais depende sobremaneira da atuação estatal nas suas três formas de poder. muitas vezes começando tudo do zero. pressupõe-se a alternância do poder. Ocorre que. . Tal omissão propiciou o aumento das invasões de terras na cidade de Manaus. Isto porque. a prioridade deve ser a continuidade de políticas de médio e longo prazo. Isso ocorre pela própria importância de que o serviço público se reveste.

Em vista disso. uma alusão e uma diferenciação da ocupação vizinha. desabamentos. cabe à sociedade civil organizada cobrar dos órgãos fiscalizadores como o Ministério Público e o Legislativo o cumprimento dessas ações no Nova Vitória. existe uma luz no fim do túnel. falta de urbanização e de equipamentos públicos como escolas e hospitais. No entanto. a Grande Vitória. Se isso ocorrer. constituem o elevado preço a ser pago pelas classes ditas subalternas para que possam morar na metrópole. as classes mais desfavorecidas. inexistência de saneamento básico. tal fato demonstrará que as conquistas sociais para essas populações não vem de cima para baixo. A área em questão já foi doada ao Governo do Estado do Amazonas e existem recursos financeiros do Governo Federal para que o Estado realize a urbanização e a regularização da ocupação. que faz obras e melhorias nas áreas nobres da cidade. Felizmente para os moradores da ocupação Nova Vitória. pelas quais buscam resolver na luta e no sofrimento uma obrigação que é do Estado. para que palavras como justiça social e eqüidade não sejam apenas palavras. . percebemos que a dinâmica das populações empobrecidas é a do combate e da perseverança. mas sim direitos inalienáveis.163 A “invasão” Nova Vitória demonstra de forma crua e perversa a inversão das prioridades do poder público. É somente através da pressão popular que o poder público realiza o que deveria fazer como fruto de uma obrigação constitucionalmente estabelecida. ausência de água encanada. mais do que nunca. deveriam estar imobilizadas e não realizando ocupações. mas não realiza nem de forma mínima ações que possam ao menos mitigar o sofrimento e a injustiça ambiental a que são submetidos as mais de cinco mil famílias residentes na ocupação. Malária. daí o nome da ocupação: Nova Vitória. elas. Pela lógica da classe dominante. mas sim ao contrário.

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