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Panorama histórico da filosofia política

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Panorama histórico da filosofia política, da Antigüidade ao período pósrevolucionário INTRODUÇÃO É verdadeira praxe, no universo acadêmico brasileiro, tratar-se a Ciência

Política ora como uma série de reflexões de cunho especulativo acerca do sistema de governo ideal, ora como um dado, embora ambas as abordagens sejam equivocadas, do ponto de vista técnico e mesmo epistemológico. A primeira, porque confunde a Ciência Política com a Filosofia Política; a segunda, por apresentar conceitos acabados, como se todo o arcabouço teórico da Ciência Política fosse fruto de uma sistemática constatação, e não de uma construção. Daí, cremos, a grande dificuldade apresentada pelo aluno de graduação, ao cursar as matérias de introdução à Ciência Política ou outras afins. Este ensaio pretende, em breves linhas, apresentar ao estudante de graduação, recémsaído do Ensino Médio, os conhecimentos e conceitos fundamentais para compreender o processo de formação das idéias políticas contemporâneas, através de uma análise histórica do pensamento acerca dessa temática – a política, desde os antigos gregos até a atualidade. Evidentemente, devido à própria simplicidade a que se propõe, este trabalho se não aterá às minudências do pensamento dos pensadores citados, tampouco preocupar-se-á em apresentar todos os pensadores, a fim de não tornar a leitura complexa e cansativa. Assim, nossa preocupação, ao contrário de formar experts em Filosofia Política, será a de facilitar ao estudante a compreensão dos textos com que deparar-se-á na Faculdade, no sentido de tornar sua leitura mais dinâmica e proveitosa. 1.A FILOSOFIA POLÍTICA NA ANTIGA GRÉCIA 1.1.O período mítico na Grécia Antiga Quando uma sociedade é demasiadamente simples e o grau de racionalidade de seus membros é pequeno, os indivíduos buscam as respostas acerca do mundo e da natureza em entidades sobrenaturais e metafísicas. Essas explicações vão se reunindo ao longo do tempo, e dessa maneira vão surgindo os Mitos, segundo os quais o governo da humanidade está ligado à vontade dos deuses. O discurso do mito se estende a todas as atividades desempenhadas pelo indivíduo, desde o seu nascimento, até a sua morte. Nesse mundo mítico, nada é natural: ao contrário, tudo é sagrado, e independe da vontade do ser, já que todo o seu destino é previamente traçado pelos deuses, e deles depende. Cabe, portanto, a esse estado de sacralização determinar quais ritos, leis e princípios normativos todos devem acatar, se quiserem estar em conformidade com a vontade dos deuses. O mito é, assim, determinista e trágico, absolutamente pessimista, uma vez que os indivíduos não têm controle sobre seu próprio destino: a determinação deste, cabe aos deuses. Foi nessa ordem de idéias que o mito foi o primeiro modelo de construção da realidade, na Antiga Grécia. Ele teve como função precípua, além de explicar a própria realidade, acomodar, tranqüilizar, apaziguar o indivíduo diante de um mundo tão assustador.

as primeiras leis que visavam a regulamentação das relações na cidade. O mito.A transição para a Democracia Ateniense Com o passar do tempo.) Uma segunda característica da polis é o cunho de plena publicidade dada às manifestações mais importantes da vida social. e suas relações tornara-me mais complexas. aos poucos. fazendo com que os indivíduos fossem.. Aliado a isso. perante a qual se tem de curvar todo o arbitrário. localizado no centro da cidade). 1.. À medida em que os indivíduos a foram dominando. levou os gregos à observação de que. convencionadas pelos cidadãos. em cada local. em detrimento da cidade dos deuses: surgia a polis. já não explica a realidade satisfatoriamente.A Democracia Ateniense A "invenção" da polis foi uma conseqüência direta da "descoberta" da racionalidade pelos gregos. Além disso. os indivíduos apreendiam e explicavam a realidade de formas diferentes. para os quais a lei dos deuses já não apresentava solução. assim. entrando em seu lugar as Leis. O grego inventou.) Sem embargo. detinha o poder não quem tivesse armas. assim. não se concentrava mais na força.3. O contato com sociedades e culturas diferentes. trouxe em seu bojo uma série de conflitos interpessoais. realizase com o aparecimento do eu racional a superação do individualismo mais rica de consequências: surge o conceito de verdade. Surgiram. a chave de toda autoridade no Estado. (. entretanto. O poder de mando.. a condução das ações dos governantes passaram a ser debatidas na agora (mercado. e deuse o início do processo de substituição das leis divinas pelas leis humanas.2. (. sendo remontado a esse período a criação da moeda. e sim quem possuísse o domínio da palavra. o meio de comando e de domínio sobre outrem.. a crescente complexidade da organização social.1. Tornase o instrumento por excelência. As mais antigas autoridades perdem o seu valor.) Tornando-se . as sociedades gregas começaram a se desenvolver. portanto. o novo conceito duma validade universal no fluir dos fenómenos. A partir daquele momento. perdendo o "medo" dos deuses. o progresso tecnológico alcançado pelos gregos os levou a superar algumas das limitações que outrora lhe impunha a natureza.. O que implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos de poder. (. nesse momento. aquilo que o "meu" pensamento consegue justificar perante si próprio. (..) O pensamento racional actua como material explosivo já neste primeiro estádio. Os gregos conquistaram os mares e expandiram seu comércio para outros locais.. a sua própria cidade.. Só é verdade o que "eu" posso explicar por razões concludentes. os deuses foram saindo do centro do poder.

sua publicação motivará exegeses. sobre qualquer coisa. a discussão. e sim convencer o outro de que o orados estava com ela.) Como todos os pensadores gregos. sujeitos à crítica e à controvérsia.) Quando pensamos que os sofistas. os conhecimentos. naturalmente. Entretanto. os sofistas procuram comunicar algo que tivesse utilidade para a vida. no recesso de tradições familiares. os valores.. a polêmica tornam-se as regras do jogo intelectual. os sofistas eram estrangeiros que residiam em Atenas. e quando nos lembramos de que eram estrangeiros. (. e os ricos naturalmente não eram simpáticos às instituições democráticas que Péricles havia estabelecido.elementos de uma cultura comum. percebemos imediatamente as dificuldades da sua posição.. Doravante. e a sua condição de estrangeiros se combinaram para criar-lhes dificuldades e para distorcer o sentido do que ensinavam. Esses professores foram chamados de sofistas. e inúmeras foram as conseqüências daqueles para o regime político ateniense. que freqüentar as aulas dos sofistas era um grande privilégio: seus ensinamentos custavam muito dinheiro.) Todos se tinham instalado em Atenas porque a cidade era o centro intelectual da Grécia. (. graças à expansão do Império. . que se tornava um grande centro de cultura. as condições políticas prevalecentes em Atenas. para os fins a que se propõe este trabalho. Em sua maior parte. era aquele indivíduo que sabia persuadir qualquer um. que eram pagos pelos atenienses mais abastados para ensiná-los a apresentar e defender suas idéias na Assembléia. uma outra movimentação ocorreu. (.. poder-se-ia eleger algumas dentre as principais características desses ensinamentos. os grandes matemáticos. Ensinavam a sabedoria prática. e apenas os abastados filhos da oligarquia ateniense podiam pagar. debates apaixonados. oposições. Não são mais conservados. a argumentação. estabelecidos em Atenas sem muita segurança. como metecos. artistas e pensadores dirigiram-se para Atenas.. ainda que involuntariamente. devem Ter exercido esse tipo de influência política..) Por outro lado. e o ódio que deviam atrair. sob regime de ampla igualdade social. No bojo dessas transformações. Percebe-se. fundado na liberdade de expressão e na condução coletiva dos negócios públicos. assim como do jogo político. interpretações diversas. estava um grupo de "professores de oratória". como garantia de poder. filhos de famílias ricas. b)o bom orador. mas privados de privilégios políticos. mas os alunos que tinham em Atenas eram.. as técnicas mentais são levadas à praça pública.. No intuito de ter liberdade para expor suas idéias. portanto. em sua concepção. arquitetos. que tiveram uma repercussão maior e mais sensível sobre a democracia vivenciada em Atenas: a)os sofistas procuravam demonstrar que o importante não era conhecer a verdade. Vários são os caracteres dos ensinamentos dos sofistas. (. dessa vez em termos migratórios. prometiam transmitir o conhecimento da arte de governar os estados e administrar as famílias adequadamente. Dentre esses pensadores..

Nada além disso. é impossível ao homem Ter acesso a ele". algum tipo de revolução acontece. Como muitos mártires. instalando na sociedade uma crise que a Grécia jamais superou. seria capaz de movê-lo. 1.2. quando provavelmente o poderia Ter feito mudando suas atitudes.4. Nenhum outro grande filósofo foi tão obcecado com o viver corretamente.C.1. através do questionamento. dentre os quais.Platão e "A República" . d)sua principal tese era: "todo conhecimento é relativo. O pensamento de Sócrates. A decadência da democracia ateniense se estendeu a uma decadência religiosa. É nesse exato momento. b)a relatividade como condição do exercício político. f)a derrota militar de Atenas para Esparta. ética. (. c)a construção de um saber fundamentado na opinião. que se busca e galgam novas respostas. e)a aliança entre a velha oligarquia ateniense e a oligarquia militar de Esparta. A História demonstra que. não existe um conhecimento verdadeiro. em si. sua maior contribuição foi legar sua forma de questionar a Platão. Sócrates escolheu não tentar salvar a própria vida. social e política. segundo a maioria.Sócrates Foi nesse contexto que Sócrates (469-399 a.) se eternizou.4. citamos: a)a superficialidade do discurso sofístico.A decadência da Democracia Ateniense Vários motivos concorreram para a decadência da democracia ateniense. Sócrates é o santo e o mártir da filosofia. Nesse sentido. d)a participação política dos herdeiros da velha oligarquia ateniense.) E. 1. sua fé consistia não em uma confiança na revelação ou em uma esperança cega. 1. seu discípulo. quando um sistema entra em crise. e se existe.. quando ocorre o enfrentamento do homem com ele mesmo. mas em uma devoção à razão argumentativa. não tem grande relevo para o pensamento político. moral. diferentemente dos santos de toda e qualquer religião.4..c)os sofistas apresentavam uma técnica de convencimento que impunha conseqüências gravíssimas ao desenvolvimento da política. pelo seu questionamento acerca do pensamento disseminado pelos sofistas.

Familiarizou-se com todo o desenvolvimento do pensamento grego anterior a ele. verbis: Fica evidente. Em seu livro Política. por natureza.). tal qual era. Esse fenômeno. viu Atenas e a Grécia serem subjugadas por Alexandre. a civilização grega. sem leis. Seu projeto político jamais foi posta em prática. para Aristóteles. Aristóteles intentou reaproximar o exercício da política ao exercício da ética. O que Platão pretendia era. e buscou uma maneira de "curá-la" desse mal. o homem seria.) foi o primeiro a estudar a política sob uma perspectiva "científica". Ele percebia que a polis estava "contaminada" pelas idéias dos sofistas. é tido como o mais erudito e sábio dos filósofos gregos. o Grande. e sua importância era tão grande. ainda em voga naquele momento. através da descrição do que seria. portanto. segundo Homero.3. 1. 2.). e o homem seria assim. nem a oligarquia.) deixa de participar de uma cidade. naturalmente um "animal da cidade" (em grego. como visto acima. Em seu livro A República. Assim conclui. nem a teocracia. e os que chegassem a se tornar filósofos (esse seria o mais alto grau de racionalidade atingível). não permitia que um homem isolado se desenvolvesse plenamente. Ruía. por natureza. para Platão. Através da educação. e que aquele que. nem a monarquia. que deveria ser assumida exclusivamente pelo Estado. em verdade. significava "ser justo"). a forma ideal de governo... que fora discípulo de Platão.. O grande equívoco de Platão foi imaginar que os filósofos. Para Platão. criar uma forma de governo perfeita. outrora símbolo de grandeza e prosperidade. que deve viver em sociedade. não fossem capazes de cometer injustiças. Para Aristóteles. Platão não desejava restaurar nenhum sistema político. Platão desenvolveu seu pensamento político. em sua concepção.Platão (427-347 a. cada homem poderia desenvolver suas aptidões. que a cidade participa das coisas da natureza. a educação era a base da vida social. para isso. Aristóteles.. através da racionalidade. na busca de restaurar a moral política grega.. deveria desenvolver suas aptidões. por instinto (.A FILOSOFIA POLÍTICA NA IDADE MÉDIA .A "Política" segundo Aristóteles Aristóteles (384-322 a. que o homem é um animal político. (. A experiência havia mostrado que. assim. os homens se uniam para a realização de um bem maior e mais importante: a constituição e manutenção da polis. conspurcada pela sofística. da cruel censura de um sem-família..C. ou seja. seriam incumbidos do governo do Estado. Por essa razão. A natureza. por supostamente terem o domínio da razão.) é merecedor.4. nem a democracia funcionavam bem ("funcionar bem". acontecia naturalmente. segundo Aristóteles. o grande objetivo da vida do homem era ser feliz. o interesse coletivo deveria necessariamente ser mais importante que o interesse particular.C. polis). Assim. baseada exclusivamente na racionalidade. sem lar (. um animal político.

A civilização romana foi. um panorama histórico das teorias filosóficas acerca da política. e a terra tinha um valor tão alto que era fator de prestígio econômico e social. naquele período. São Thomas Morus (1477-1535). onde havia justiça e igualdade para todos os cidadãos. alimentos e. julgando e queimando os pensadores divergentes. era predominantemente agrícola. Santo Agostinho (354-430). de acordo com a "Santa Fé Católica". e as pessoas buscavam a segurança dos muros feudais. em que afirmava que a cidade humana era essencialmente imperfeita. católico. e passaremos a relatar algumas teorias filosófico-políticas que se desenvolveram na Idade Média. 2. em caso de invasões ou ataques externos. em seu livro Utopia (1516). e manipulava a produção científica daquele tempo. A Igreja era. em verdade. Oprimidos pela estrutura do sistema feudal. eventualmente. Morus. sem qualquer sombra de dúvida. As famílias camponesas produziam seus próprios móveis. e excomungando. deixaremos o estudo da antiga civilização romana para outra oportunidade. . uma vez que viviam. na Cidade de Deus. como de fato diminuiu. trocavam o excedente entre si. 2.2. roupas. tornou-se o maior e mais poderoso "senhor feudal" do período. Entretanto. e que aqueles que vivessem em conformidade com os preceitos cristãos habitariam. na perspectiva de manter o seu poder político indefinidamente. os camponeses eram facilmente manipulados pela Igreja Católica. o poder do Papa. apresentou um modelo de sociedade ideal. determinante do poder político. que através da cobrança do dízimo. Dessa forma. em linhas gerais. além de cultivar as terras deste e prestar-lhe serviços militares.O modo feudal de produção Uma das características fundamentais do feudalismo é a reclusão e a auto-suficiência dos feudos. os camponeses pagavam ao senhor feudal com parte de sua produção. naquela sociedade. Para utilizar a terra. como a finalidade deste trabalho é expor. quem mais lutava para conservar o modo de produção feudal. de imensurável importância para a configuração das sociedades atuais. de doações de terras e de jogadas políticas. onde tudo era justo e perfeito. foi contra a instalação da Igreja Anglicana por Henrique VIII. após a morte. todo o pensamento político do mundo ocidental esteve cerceado pela ideologia moralista da Igreja Católica. uma vez que a grande maioria dos institutos jurídicos e instituições políticas e até mesmo culturais que conhecemos e cultivamos hodiernamente. escreveu o livro A Cidade de Deus. O trabalho. notadamente as do Ocidente.O papel da Igreja Católica no pensamento político medieval Ao longo de quase toda a idade média. têm suas raízes na antiga sociedade romana. publicando o que convinha. As invasões bárbaras criavam um grande clima de insegurança. o que diminuiria na Inglaterra.1. toda a produção teórica acerca da política buscava a formulação de um sistema de governo calcado na moral cristã. A Igreja controlava toda a produção teórica e filosófica do período clássico.

procuraram estabelecer as características de um Estado ideal. Com o passar do tempo e o desenvolvimento da atividade comercial. afastando-se um pouco da visão teocêntrica pregada pela Igreja Católica. assim. Começou a surgir. 4. Ademais. um grande contingente de camponeses se dirigiu para o Oriente. fazendo com que o homem olhasse mais para si mesmo. rejeitou completamente o idealismo dos clássicos e rompeu definitivamente com a velha moral católica. uma vez que Maquiavel procurou aprender com as ações dos grandes homens nos grandes momentos da . esquecendose um pouco de Deus. ao pensar e escrever sobre política. precisaram de alguém que lhes fornecesse os produtos que outrora produziam. com o intuito de desenvolver suas atividades. por um motivo bastante simples: ele foi o primeiro a dissociar a política da moral. esses primeiros comerciantes e seus descendentes começaram a acumular capital. fez alianças com os reis. até culminar.MAQUIAVEL: UM CAPÍTULO À PARTE Nicolau Maquiavel (1469-1527). no sentido de enfraquecer os senhores feudais e promover a expansão de suas atividades comerciais. e começaram a surgir pessoas que se dedicavam somente à sua prática. A característica mais marcante da obra maquiaveliana reside justamente no fato de que Maquiavel. Aristóteles. Além disso. lentamente. Começava a renascer. por exemplo. Maquiavel seguiu no sentido oposto: ao invés de se preocupar com o que o Estado deveria ser. que se desenvolveu paulatinamente. e que fosse pautado unicamente na razão. então. em busca de novas oportunidades de vida. no século XIX. com a consolidação da Ciência Moderna. O pensamento maquiaveliano se baseia na análise da história.O Renascimento Concomitantemente. procurou desenvolver uma teoria a partir do que o Estado era de fato. os pensadores começaram a buscar uma nova forma de conhecimento.As Cruzadas Com o advento das Cruzadas. especialmente para o campo da política. a atividade comercial. tempos depois. Santo Agostinho e Thomas Morus. Enquanto Platão. A classe média que emergia. o que possibilitaria a quebra de alguns privilégios políticos dos senhores feudais.1. especializando-se cada vez mais e criando e aprimorando técnicas e instrumentos comerciais. os artistas e pensadores começaram a resgatar os valores estéticos da Antigüidade Clássica. Como deixaram de produzir para se dedicar às lutas. é um dos mais importantes pensadores de todos os tempos. a diminuição do contingente de trabalhadores rurais fez com que os remanescentes passassem a exigir melhores condições de vida e mais liberdade.2. que se despojasse dos dogmas escolásticos. uma nova Ciência independente da dogmática cristã. 3.3. assim. lenta e progressivamente.A FILOSOFIA POLÍTICA RENASCENTISTA 3.

não deveriam ser previstos em nenhuma lei ou norma moral. diante da ausência de uma autoridade geral e de regras de convivência. usa até mesmo hodiernamente. na terminologia maquiaveliana) que pretendesse comandar o Estado deveria possuir duas características imprescindíveis: força e inteligência. que mais tarde deram origem às vilas e. toda sociedade poderia passar por três estados ("estado" com letra minúscula. Os expedientes utilizados pelo príncipe para a manutenção da ordem no Estado. bem como na psicologia. ao contrário. para conquistar o poder. A Itália. Essa "análise retrospectiva" dos fatos históricos levou Maquiavel à constatação de que.história. há um liame que "amarra" suas teorias. naquele momento. e como este se comportou ao longo dela. que eram a princípio desorganizados do ponto de vista do poder político. volúveis. e depois deixasse o governo e instaurasse a República. Como surgiram as primeiras sociedades? Foram famílias que cresceram e formaram os primeiros agrupamentos humanos. Nesse momento. que reorganizasse e unificasse o Estado Italiano. conseqüentemente. o termo "maquiavélico" para designar as pessoas malevolentes. covardes e ávidos por lucro. a Segunda. por quê as pessoas devem obedecer às ordens emanadas no âmbito do Estado? Como poder-se-ia justificar e legitimar o poder do Estado sobre os indivíduos? A doutrina contratualista procurou responder a algumas dessas perguntas. precisava de um príncipe virtuoso. Para Maquiavel. os indivíduos se uniram em grupos. a partir do século XIX. pelo fato deste ir de encontro a seus interesses. e que por fim. os homens mostraram-se sempre os mesmos: ingratos. 5. Para os contratualistas. acaba por caracterizá-los como tal. que era completamente avessa à velha moral católica. a sociedade antecedeu o Estado. embora esta somente tenha se firmado efetivamente como a concebemos hoje. principado e república. A primeira. e onde imperava. Por essa razão. Maquiavel inaugura. ao contrário do que haviam preconizado todos os pensadores anteriores a Maquiavel. Por conta disso. advindas do distanciamento entre a produção do conhecimento e a moral católica. Apesar das divergências existentes entre cada autor contratualista. assim. estava gravada pela anarquia. Pelo fato de ter atribuído ao estudo da política um caráter de independência. ao surgir um conflito de interesses entre dois ou mais indivíduos. Primeiramente. engendrou a procura por novas explicações acerca do surgimento da sociedade civil. ao longo de toda ela. já que quis compreender a natureza do homem na história. a "moral de circunstância". simuladores. posteriormente às cidades? E o Estado? Como surgiu? O Estado antecedeu a sociedade. ou a sociedade veio antes do Estado? Qual o fundamento que explica o surgimento do Estado e. para mantê-lo. moral ou imoral. astutas e impiedosas: a própria Igreja incumbiu-se de conspurcar a imagem de Maquiavel. a lei do mais forte. querendo significar "situação"): anarquia. era cada situação que determinaria o que seria certo ou errado. bom ou mal. Maquiavel é considerado por muitos o "Pai da Ciência Política". .A FILOSOFIA POLÍTICA CONTRATUALISTA O desenvolvimento das idéias acerca da origem do mundo e das coisas. como contratualistas. um governante ("príncipe".

Dentre os contratualistas. Assim. se julgasse necessário. não manter a palavra empenhada. guerras e disputas entre si. naquele momento em franca ascensão no cenário político e econômico europeu: a burguesia. os contratualistas chamam de estado de natureza. mentir. em contraposição ao absolutismo do rei. em verdade. foi o defensor por excelência da manutenção do poder político do Parlamento inglês. invejoso e egoísta. apenas dispondo de plenos poderes (já que fora o único a não participar do pacto). a humanidade tendia a viver sempre em conflito.1. . o homem era naturalmente mau. o homem. matar. Para ele. mesquinho. Locke. é o fato de Locke haver representado. 5. Seu grande objetivo na vida era obter mais vantagens do que os outros. uma vez que. em estado de absoluta natureza. talvez pela primeira vez. Através desse contrato. etc. todos concordaram em abrir mão de parte ou de toda sua liberdade. embora não sejam os únicos autores importantes: Thomas Hobbes. diminuindo assim as desigualdades relacionadas à força física. um ferrenho defensor do absolutismo. Para acabar com esse clima de "guerra eterna". avesso ao ideal político hobbesiano. através do qual abdicavam de parte de sua liberdade. impondo aos indivíduos a sua decisão. A esse estágio. vivendo no estado de natureza. à primeira vista. dessa forma. Vive aí. Locke foi um contratualista.Thomas Hobbes Para Thomas Hobbes (1588-1679). John Locke e Jean-Jacques Rousseau. em determinado momento.2. mesmo os mais fortes são vulneráveis quando dormem. seria difícil para o homem preservar seu bem maior – a vida. Os contratualistas pregavam que.. Hobbes foi. É a partir desse ponto que os autores começam a divergir: cada um acredita em uma forma de governo. Dessa forma. transferindo-a para um soberano. 5. preconizava que o pacto social tinha por fim a proteção da propriedade privada pelo Estado. sem dever quaisquer satisfações a quem quer que fosse. três merecem destaque. desejando os homens instaurar a segurança e a paz social. porém. ou pacto social. a que chamaram de contrato social. e a violência é a única forma de solução de conflitos. o ideal político de uma classe. À semelhança de Hobbes. e defende um projeto político. pela incerteza e pelo medo. os homens se reuniram e celebraram um pacto social. o soberano poderia manter a paz e a ordem na sociedade. Poderia. que passaria a ter plenos poderes para organizar a sociedade e dirimir os conflitos. reuniram-se todos e celebraram um contrato. O que chama a atenção.satisfaria sua pretensão aquele que fosse forte o suficiente para subjugar os demais.John Locke A importância de John Locke (1632-1704) para o desenvolvimento do pensamento político ocidental parece não ter. O estado de natureza caracteriza-se pela insegurança. que teria por incumbência organizar a sociedade e manter a paz. solucionando os conflitos. com as conseqüências advindas de sua eventual instauração. por exemplo. Este. segundo Hobbes. tanto relevo. em favor do soberano. em que predomina a força.

Não sendo. na medida em que não o estivesse fazendo a contento. Para o iluminista suíço. Porém. desde as revoluções burguesas na Inglaterra e na França. que ele chamou a vontade geral. da propriedade privada.3. o contrato social. o estado de natureza seria. seria perfeitamente possível e lícito desfazer o pacto. em prol do bem comum. entretanto. segundo Rousseau. já que o mesmo não cumpria sua finalidade. os pensadores enfrentaram um grande desafio: compreender e explicar as mudanças pelas quais passava a sociedade européia.Locke acreditava que cabia ao Estado proteger a propriedade privada. a ordem e a paz. firmaram um pacto. sendo tudo acessível a todos. estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!" Portanto. segundo o qual todos governariam juntos. portanto. Rousseau também foi um contratualista. não era capaz de fazer o mal. possível voltar ao estado de natureza. na concepção rousseauniana. melhor do que a sociedade civil. ao falar em "diferenças". guerras. Seu pensamento influenciou toda a geração posterior de poetas. principalmente. Sobre como isso se deu. Ao contrário de Hobbes.Jean-Jacques Rousseau Rousseau (1712-1778) foi um iluminista. Tudo começou a dar errado.A GÊNESE DA CIÊNCIA MODERNA 6. que o Estado existia não para defender interesses particulares. exceto para se defender. criadas pela sociedade civil. Quantos crimes. Seu ideal político serviu de mote para a Revolução Francesa de 1789. para ele. a opinião comum de todos os cidadãos de "soberano". para quem soberano era o rei. Os homens. busca desenvolver um sistema político que minore as diferenças entre os homens. lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. e sim para defender a "vontade geral". para Rousseau. Rousseau se referia. tendo cercado um terreno. quando surgiu a propriedade privada.1. afirma ele: O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que. ao contrário de Hobbes. Isso foi tão enfatizado por Rousseau. . não havia motivo para disputas interpessoais. a mãe e rainha de todas as misérias humanas.Contexto histórico do surgimento da Ciência Moderna No século XIX. acreditava que o homem era essencialmente bom: vivendo no "estado de natureza". arrancando as estacas ou enchendo o fosso. tivesse gritado a seus semelhantes: "Defendeivos de ouvir esse impostor. portanto. os homens seriam naturalmente bons. por exemplo. ou seja. Rousseau pregava. e que. 6. assim. romancistas e contistas. e seria a sociedade a lhes corromper. 5. assassínios. misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que.

e o aumento da criminalidade. comandado por uma lógica teológico-militar. 6. Criou. País com pequenas cidades. a-Igreja Católica perdeu parte de seu poder devido ao protestantismo. com uma população rural dispersa. c)Positivo: O homem deixaria de se preocupar com a origem dos fenômenos. estabelecendo conceitos gerais a respeito do mesmo. a Europa estava em crise porque. surgia uma nova ordem social. para Comte. b. nas quais se concentravam suas nascentes indústrias. inerente e exterior a esse objeto. Comte concluiu que a sociedade passaria por três estágios (Lei dos Três Estados): a)Teológico: O homem buscava as explicações para os fenômenos em agentes sobrenaturais. que espalhavam produtos para o mundo inteiro. a miséria. a crise seria solucionada pela Ciência. o contato com outras culturas fez com que as explicações acerca dos fenômenos naturais e sociais proferidas pela Igreja perdessem a credibilidade. assim.Surgiu uma nova classe social – a burguesia – que foi ao longo do tempo acumulando capital e poder. b)Metafísico: O homem buscava o sentido de algo em uma energia abstrata. a fome. analisando todos esses aspectos. comandada por uma lógica científicoindustrial. as duas ordens sociais coexistiam. assim. a Inglaterra havia mudado de forma marcante a sua fisionomia. entre 1780 e 1860.2. suscitando no homem o desejo de buscar o conhecimento por meios puramente racionais. Num período de oitenta anos. concluiu que as ciências que existiam não conseguiam explicar as mudanças que ocorriam na sociedade: era preciso surgir uma nova ciência.Auguste Comte e o Positivismo Auguste Comte (1798-1857). através da mitologia ou da religião. que sistematizasse os estudos dos fenômenos sociais. limitandose a qualificá-los e quantificá-los. A partir do momento em que o regime feudal fosse totalmente eliminado. Comte explicou o conturbado contexto social que a Europa vivia naquele momento da seguinte maneira: Ao lado de um regime feudal em franca decadência. Tais modificações não poderiam deixar de produzir novas realidades para os homens dessa época. . levando à derrocada da ordem social reinante (que Marx chamaria mais adiante de "modo de produção). no intuito de descobrir as leis que os regiam. a Sociologia. etc. passou a comportar enormes cidades. prostituição.Revolução Industrial trouxe como conseqüências o êxodo rural. naquele momento.

a humanidade teria acesso à cura de todos os males. imperfeições da sociedade industrial cuja correção é relativamente fácil. assumindo seu lugar. ela determina não só o que foi e o que é. . de um lado.. essencialmente antagônicas. Para Marx.) a primeira é o ponto de partida necessário da inteligência humana. e a burguesia. o que revela a natureza essencial dessas sociedades... tal competência: ciência do todo histórico.. ao mesmo tempo que permite prever o desenvolvimento histórico. Comte conclui: (. A doutrina política de Marx é revolucionária (. que ao fazer isso cria as condições para a abolição de todas as classes. em segundo lugar. a segunda está destinada unicamente a servir de transição (.. finalmente. ao plantar as bases de sua própria destruição. Comte acreditava no caráter redentor da Ciência: através dela. a terceira.. (.). CONCLUSÃO A partir da exposição que fizemos de um breve panorama histórico das principais teorias políticas. seu estado fixo e definitivo. E este é um processo que pode claramente requerer um grande espaço de tempo para ser levado a efeito. após apresentar os três "estágios evolutivos" das sociedades. Podemos observar aqui a característica peculiar do socialismo: o fato de que ele envolve a chegada ao poder da classe trabalhadora..) pelo fato de que ela passa pela expulsão de uma classe possuidora e sua substituição por outra.) são o fato mais importante das sociedades modernas.) A sociologia sintética de Auguste Comte sugere. as eventuais classes intermediárias tendiam a desaparecer. (... por haver destituído os proprietários de terras de seu papel de dominadores exclusivos do poder político e econômico.. de todos os desvios.3. desde a Antigüidade até o período pós-revolucionário. segundo ele. de outro. Quando isso acontecesse. algumas observações têm de ser feitas. para Marx esses conflitos entre os operários e os empresários. por provocar a substituição do modo de produção feudal pelo capitalista.Karl Marx Ao contrário de Comte. no sentido da necessidade do determinismo. Enquanto no positivismo os conflitos entre trabalhadores e empresários são fenômenos marginais. e em ininterrupto conflito entre si: o proletariado. ou ascendendo para a burguesa ou caindo para a proletária. Karl Marx (1818-1883) percebia que a sociedade estava dividida em duas classes sociais. 6. no futuro. segundo Marx. não haveria mais a necessidade de existir o Estado. pois este só existia para garantir a dominação de uma classe favorecida diante das outras. Primeiramente. mas também o que será.E. de todos os problemas. Marx reconhecia na burguesia uma classe que era. aliás. revolucionária por excelência.

impossível seria compreender o alcance das teorias do Estado estudadas nas disciplinas introdutórias. enquanto espécie do gênero "ciência social".Em primeiro lugar. faltando mesmo os requisitos caracterizadores do conhecimento filosófico. todos com um caráter e uma metodologia própria da Ciência Moderna criada por aquele. ao se falar em "Política". não deveriam. cuja ausência acarreta a sua classificação como conhecimento filosófico ou. constar deste texto. entretanto. caracteriza-se precisamente por utilizar-se dos métodos e metodologia próprios das ciências sociais. e não Ciência Política. essa busca incessante por um sistema de governo ou um modelo de Estado ideal. sem ter ao menos uma mínima noção do pensamento desses autores. Possui um caráter muito mais descritivo dos fenômenos políticos. Portanto. como vimos até o momento. julgamos que. Comte e Marx. e mais especificamente em "Teoria Política" ou "Ciência Política". Os próprios autores citados aqui. O conhecimento científico tem pressupostos metodológicos muito peculiares. esta. não se caracteriza como conhecimento científico. Evidentemente. em último caso. por exemplo. Entretanto. . dentre as quais a sociologia. como se concebe o termo científico hodiernamente. como senso comum. para que o estudante recém-ingressado na Universidade. deve-se fazer uma distinção muito clara das diferenças entre Ciência e Filosofia Política. nada mais é do que filosofia. do que propriamente especulativo. muitos outros autores seguiram os estudos acerca do fenômeno político após Comte e Marx. Daí a razão do presente estudo terminar com a sucinta apresentação da teoria de Karl Marx. pelo objetivo almejado por este breve estudo panorâmico. A Ciência Política.

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