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Cadernos 11.1 (2008)

Cadernos 11.1 (2008)

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Cadernos de Psicologia Social do Trabalho

ISSN 1516-3717 versão impressa ISSN 1981-0490 versão online volume 11, número 1, janeiro/junho, 2008

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitora Suely Vilela INSTITUTO DE PSICOLOGIA Diretora Emma Otta

Vice-Reitor Franco Maria Lajolo Vice-Diretora Yves Joel Jean Marie Rodolphe de La Taille

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA SOCIAL E DO TRABALHO Chefe de Departamento Eda Terezinha de Oliveira Tassara CENTRO DE PSICOLOGIA APLICADA AO TRABALHO Docentes Psicólogos Secretária Marcelo Afonso Ribeiro (coordenador) Anete de Souza Farina Tania M. F. de A. Silva Leny Sato Fábio de Oliveira Flavio Ribeiro Tatiana Freitas Stockler das Neves CADERNOS DE PSICOLOGIA SOCIAL DO TRABALHO Editores Leny Sato Fábio de Oliveira Conselho Editorial Alexandre Bonetti Lima (Universidade Estadual de Londrina, Paraná) Fábio de Oliveira (Universidade de São Paulo e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Francisco Antonio de Castro Lacaz (Universidade Federal de São Paulo – EPM) Iram Jácome Rodrigues (Universidade de São Paulo) Isaac Prilleltensky (University of Miami, EUA) Jorge Vala (Universidade de Lisboa, Portugal) José Miguel Sabucedo (Universidad Autônoma de Santiago de Compostela, Espanha) José Moura Gonçalves-Filho (Universidade de São Paulo) Josep Maria Blanch (Universitat Autònoma de Barcelona) Leny Sato (Universidade de São Paulo) Maria Elizabeth Antunes Lima (Universidade Federal de Minas Gerais) Maristela Dalbello de Araújo (Universidade Federal do Espírito Santo) Peter Kevin Spink (Fundação Getúlio Vargas de São Paulo) Sigmar Malvezzi (Universidade de São Paulo) Sylvia Leser de Mello (Universidade de São Paulo) Revisão e diagramação Fábio de Oliveira Capa Flavio Ribeiro Foto da Capa Trabalhadores em poste, São Paulo, 2007, por Tânia de Oliveira Baradel Idealização do padrão da capa Sandro A. Mazzio

Agradecimentos André Serradas, Maria Imaculada Cardoso Sampaio, Ari Edson Dario Ferreira, Tânia M. F. de A. Silva, Marcelo Afonso Ribeiro, Marinalva A. S. Gil, Maria Cecília Rodrigues de Freitas, Coordenação da Área de Concentração do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social do IPUSP.

Os Cadernos de Psicologia Social do Trabalho são uma publicação periódica do Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho que visa difundir a produção científica na área da psicologia do trabalho e dos processos organizativos a partir da leitura da psicologia social, compreendida como um campo interdisciplinar.

Endereço para envio de manuscritos, compra, permuta e assinatura: Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho Av. Prof. Mello Moraes, 1721, bloco D, sala 163, Cidade Universitária, São Paulo-SP, Brasil, 05508-030 Telefone: +55 11 3091 4188, fac-símile: +55 11 3091 4174 Correio eletrônico: cpst@usp.br, página eletrônica: http://pepsic.bvs-psi.org.br/cpst

A revista conta com a colaboração de consultores ad hoc. Tiragem: 300 exemplares. Indicadores de 2007: 36 manuscritos recebidos, 12 rejeitados, 1 retirado e 23 aceitos para publicação. Intervalo médio entre recebimento, aprovação e publicação de um original em 2007: 7,35 meses. Indexadores internacionais Citas Latinoamericanas em Ciencias Sociales y Humanidades (CLASE) – http://dgb.unam.mx/ Sistema Regional de Información en Línea para Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, España y Portugal (Latindex) – http://www.latindex.unam.mx/ Sociological Abstracts – http://www.csa.com Indexadores nacionais Index Psi Periódicos (BVS-Psi) – http://www.bvs-psi.org.br Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC) – http://pepsic.bvs-psi.org.br/ Disponível online em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/cpst Disponível nas bibliotecas da Rede Brasileira de Bibliotecas da Área de Psicologia (ReBAP) http://www.bvs-psi.org.br/rebap/

Cadernos de Psicologia Social do Trabalho / Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho (CPAT) do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.– Vol. 1, nº 1 (1998) – São Paulo: Instituto de Psicologia da USP, 1998 – Anual até 2005 ISSN 1516-3717 versão impressa Semestral desde 2006 ISSN 1981-0490 versão online

1. Psicologia do Trabalho; 2. Psicologia Social. I. Universidade de São Paulo. Instituto de Psicologia. Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho. CDD 150 LC HF5548.8 / HM251

Consultores ad hoc (2006-2007) Abrahão Costa Andrade (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) Alex Eduardo Gallo (Universidade Estadual de Maringá) Alexandre Bonetti Lima (Universidade Estadual de Londrina) Altemir José Gonçalves Barbosa (Universidade Federal de Juiz de Fora) Álvaro Roberto Crespo Merlo (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Ana Elizabeth Santos Alves (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) Ana Paula Leivas Brancaleoni (Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal) Anete Farina (Universidade de São Paulo) Ângela Maria Silva Arruda (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Ariane Patrícia Ewald (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Carla de Meis (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Carlos Minayo Gomez (Fundação Oswaldo Cruz) Carlos Rodrigues Ladeia (Universidade Estadual Paulista, Bauru) Cristiane Vercesi (Universidade Estadual de Londrina) Eda Terezinha de Oliveira Tassara (Universidade de São Paulo) Edith Seligmann-Silva (Fundação Getúlio Vargas, São Paulo) Eugênio Paes Campos (Fundação Educacional Serra dos Órgãos) Fábio de Oliveira (Universidade de São Paulo) Francisco Hashimoto (Universidade Estadual Paulista, Assis) Herval Pina Ribeiro (Universidade Federal de São Paulo) Ildeberto Muniz de Almeida (Universidade Estadual Paulista, Botucatu) Izabel Cristina Ferreira Borsoi (Universidade Federal do Espírito Santo) Jacob Carlos Lima (Universidade Federal de São Carlos) José Carlos Zanelli (Universidade Federal de Santa Catarina) José Luís Álvaro Estramiana (Universidad Complustense de Madrid, Espanha) José Newton Garcia de Araújo (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) Laura Belluzzo de Campos Silva (Universidade São Marcos) Lêda Gonçalves Freitas (Universidade Católica de Brasília) Leny Sato (Universidade de São Paulo) Lúcia Pintor Santiso Villas Bôas (Fundação Carlos Chagas) Luiz Carlos Canêo (Universidade de São Paulo) Maria da Graça Corrêa Jacques (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Maria da Graça Marchina Gonçalves (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Maria das Graças Barbosa Moulin (Universidade Federal do Espírito Santo) Maria Laetitia Corrêa (Sistema Integrado de Ensino de Minas Gerais) Maria Luiza Sandoval Schmidt (Universidade de São Paulo) Maria Machado Malta Campos (Fundação Carlos Chagas) Mário César Ferreira (Universidade de Brasília) Mary Sandra Carlotto (Universidade Luterana do Brasil) Mary Yale Rodrigues Neves (Universidade Federal da Paraíba) Nadya Araujo Guimarães (Universidade de São Paulo) Marcia Hespanhol Bernardo (Cerest Campinas) Neusa Maria de Fátima Guareschi (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) Paulo César Zambroni-de-Souza (Universidade Federal de Itajubá) Raquel Maria Rigotto (Universidade Federal do Ceará) Regina Heloisa Maciel (Universidade de Fortaleza) René Mendes (Universidade Federal de Minas Gerais) Rosemeire Aparecida Scopinho (Universidade Federal de São Carlos) Selma Lancman (Universidade de São Paulo) Sílvia Generali da Costa (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Suzana da Rosa Tolfo (Universidade Federal de Santa Catarina) Vera Lúcia Navarro (Universidade de São Paulo) Walter Melo Júnior (Universidade Federal de São João Del-Rei) Wilson Ferreira Coelho (Universidade de Ribeirão Preto) Yvette Piha Lehman (Universidade de São Paulo)

............................... 111 Claudia Osorio Um currículo para a expressão e a apropriação da subjetividade: análise de práticas de ampliação da escolaridade dos trabalhadores nas empresas ................... 134 ................................................ 121 Moacir Fernando Viegas Instruções para colaboradores .......... 83 Mário César Ferreira Intervenção em saúde do trabalhador com profissionais do sexo . 2008 Sumário Editorial .............................................................. janeiro/junho................................................................................................................. 69 Tatiana Cardoso Baierle e Álvaro Roberto Crespo Merlo A ergonomia da atividade se interessa pela qualidade de vida no trabalho? Reflexões empíricas e teóricas ............. 41 Izabel Cristina Ferreira Borsoi e Raquel Maria Rigotto Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social . número 1..Cadernos de Psicologia Social do Trabalho ISSN 1516-3717 versão impressa ISSN 1981-0490 versão online volume 11......................................................... 19 Carolina Calmon Ramalho....... Ana Luiza Silva Fanganiello................................. Leny Sato e Luana Flor Tavares Hamilton “É dando que se recebe”: as políticas de benefícios de uma fábrica de calçados no Ceará ..................................................................................................... 101 Maria Altenfelder Santos....... Renata Paparelli e Fábio de Oliveira ACAT: o trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho ........ 51 Alex Pizzio e Marília Veríssimo Veronese Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho ................................ Felipe Augusto de Azevedo Marques Arruda................ vii Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue ........ 1 Suzana Guerra Albornoz Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento ......................................................

.... 51 Alex Pizzio e Marília Veríssimo Veronese Mental health and subjectivity at the work of a municipal guard: a study in psychodynamic of work ...................... 2008 Summary Editorial ................................................. Renata Paparelli e Fábio de Oliveira Collective Analysis of Work Accidents: the worker as protagonist of the analysis of occupational accidents ........................................................................... 19 Carolina Calmon Ramalho....................................... Leny Sato e Luana Flor Tavares Hamilton “For it is in giving that we receive”: the benefit policies of a shoe factory in Ceará State ....... Felipe Augusto de Azevedo Marques Arruda.................................................. 1 Suzana Guerra Albornoz Living in a box: psychosocial dimensions of health and control in the work of telemarketing ................................. 111 Claudia Osorio A curriculum for the expression and appropriation of subjectivity: an analysis of the practices for schooling improvement among factory workers .................................... Ana Luiza Silva Fanganiello........................................................ vii On The right of laziness of Paul Lafargue ................... 69 Tatiana Cardoso Baierle e Álvaro Roberto Crespo Merlo Is the activity ergonomics interested by the quality work life? Theoretical and empirical reflections .......... 41 Izabel Cristina Ferreira Borsoi e Raquel Maria Rigotto Conceptuals possibilities of sociology of absences in contexts of social unqualification ............................ january/june................................................................................................... 134 ................ 83 Mário César Ferreira Health intervention with sex workers .......Cadernos de Psicologia Social do Trabalho ISSN 1516-3717 printed version ISSN 1981-0490 online version volume 11.......................................... 121 Moacir Fernando Viegas Directions for contributors ......................................................................................................... number 1........ 101 Maria Altenfelder Santos.......................................

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Além disso. os Cadernos de Psicologia Social do Trabalho trazem um conjunto diversificado de artigos. Leny Sato Fábio de Oliveira vii . artigo que encerra a série “Trabalho e utopia na modernidade”. dentre outros assuntos. Esperamos uma vez mais poder contribuir com o desenvolvimento do campo da psicologia social do trabalho. por sua vez. As reflexões teóricas. os trabalhadores das fábricas de calçados do Ceará. abordam a sociologia das ausências em contextos de desqualificação social. junho de 2008. a ergonomia da atividade na sua relação com a qualidade de vida no trabalho e a análise da obra O direito à preguiça de Paul Lafargue. que inclui análises de situações de trabalho específicas e reflexões teóricas sobre questões relacionadas ao trabalho.Editorial N esta edição. os guardas municipais de Porto Alegre e as profissionais do sexo. são discutidas uma metodologia de análise coletiva dos acidentes de trabalho e as práticas de ampliação da escolaridade dos trabalhadores promovidas pelas empresas. São Paulo. Em relação às situações de trabalho analisadas nos artigos a seguir. comparecem a esta edição os operadores de teleatendimento.

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La suma de trabajo supera las necesidades de la espécie (Vigil. respectivamente sobre Thomas More. 2007). 11. no qual se expõem questões de atualidade em nosso tempo. Ao pesquisar as relações tecidas entre a utopia social. Este texto dá continuação. de Paul Lafargue. que venho desenvolvendo com o apoio da Universidade de Santa Cruz do Sul. 1-17 Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue Suzana Guerra Albornoz Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) O texto analisa o manifesto O direito à preguiça (1880). Pero podrían pensar mejor. This essay finishes by considering. 1. desafiando os educadores para novas atitudes. Keywords: Lafargue. Preguiça. according of the classical traditions of humanism. 13). even of religious tradition. chega-se à crítica do trabalho tal como se dá no mundo capitalista da tecnologia industrial que. Palavras-chave: Lafargue. como Max Weber apontaria no início do século XX. the lessing of work and laziness as possibilities for human development – by contemplation. Este ensaio termina por reconsiderar. da cultura. 1959. Laziness. está intimamente ligado à moral protestante. 2008. Jean-Jacques Rousseau e Charles Fourier. Education. pp. of Paul Lafargue. Overproduction. Ócio. p. Superprodução. a experiência prática e o pensamento interpretativo do trabalho durante os séculos que constituem o que se convencionou chamar de modernidade. A crítica da ideologia do trabalho contida no discurso de Lafargue sugere o questionamento da moderna tábua de valores que toma o trabalho como valor maior. e mesmo da tradição religiosa. a quatro ensaios anteriores (Albornoz. vol. 2005.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. do espírito. Introdução E sta pretende ser a parte final da pesquisa intitulada Trabalho e utopia na modernidade – de Thomas More a Paul Lafargue. 1 . Piensan bien. where are shown problems still of our time. Trabalho. Desemprego. segundo as tradições clássicas do humanismo. designing new challenges for educators. spiritual activity. todos publicados nos Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 2003. culture. quando a automação da produção pelas novas tecnologias diminui a necessidade material de trabalho e cria uma situação mundial inquietante. Há uma quase inevitabilidade de abordar o manifesto de Paul Lafargue (1842-1911) numa pesquisa com o intuito de fazer aparecer o elo entre as idéias sobre o trabalho e a literatura de caráter utópico dos tempos modernos. suggests the discussion of the modern table of moral values organized around the leading value of work. 2006a. On The right of laziness of Paul Lafargue The text presents the manifest The right of laziness (1880). The criticism contained in the speech of Lafargue. Y piensan unos que no habría miséria si todos trabajaran. Unemployment. justificadora e estimulante das dinâmicas da economia burguesa. portanto. n. da saúde –. Tommaso Campanella. before the work ideology. Work. health –. when the automation of production through new technology lesses the material need of work and creates a disturbing world situation. a diminuição do trabalho e o ócio como possibilidades de desenvolvimento humano – da contemplação. Leisure. Educação. do pensamento.

apesar de que nele possam ser detectados alguns excessos de expressão. quando se ultrapassa a gigantesca performance teórico-prática de Karl Marx e Friedrich Engels desenvolvida ao longo daquele século. o texto é publicado como O direito ao ócio. situado ao mesmo tempo no plano literário da retórica e no centro do embate social. é-se levado ao encontro daquele pequeno manifesto publicado como O direito à preguiça (1880) por Paul Lafargue1. ciências humanas e a prática histórica. embora o seu famoso ensaio-panfleto seja animado de forte impulso antecipador e transformador. O enigma da esperança (Albornoz. apela fortemente para a questão ainda hoje não bem resolvida das relações entre filosofia. pois. tanto para a filosofia como para as ciências sociais contemporâneas que. na reflexão teórico-crítica formavam um amplo caminho aberto e concertado de uma única ciência social onde as contribuições da sociologia. 2002). sob muitos pontos de vista. Marilena Chaui sugere. co-fundador do Partido Socialista Francês. Por vários motivos. do marxismo. soando ainda hoje como provocador quando recomenda a jornada de três horas para todo cidadão. numa re-interpretação. Harvard University Press. foi recentemente traduzida para o Brasil pela Editora Contraponto (2006). 1999) e Violência ou não-violência (Albornoz. 3 Em Ética e utopia (Albornoz. 2006b). importante líder do movimento operário europeu. pois é a posição expressa pelo apresentador da primeira tradução brasileira. que já tive ocasião de apresentar3. das idéias referentes à economia política. da psicanálise. denominação que teria sido pensada pelo autor. segundo a reconceituação e revaloração procedidas por Ernst Bloch. contudo extraordinário pela grande expressividade retórica e admirável acerto econômico. antes de decidir-se pelo título O direito à preguiça. 1991. que constituem a realidade acadêmica de nosso tempo. O pequeno e famoso escrito de Lafargue lembra-nos que. que considera a obra herdeira da tradição do gênero das utopias. tanto o literário-expressivo e o da força de persuasão. A consideração de um texto como esse. Socialista de origem latino-americana e presença francesa. em relevância política O direito à preguiça só pode ser comparado ao Manifesto comunista. da psicologia social e da economia podiam combinar-se com as dos ensinamentos dos grandes filósofos clássicos gregos. da antropologia. 1998. do mesmo autor e editora: Paul Lafargue and the flourishing of french socialism. 2 o nome de Lafargue não só não consta dos dicionários de filósofos. 2 Para dados biográficos de Lafargue. 2 . e com as imaginações fecundas dos utopistas. das utopias concretas que movem a história e impulsionam o novo. Derfler: Paul Lafargue and the founding of french marxism. ao utilizar o paradoxo e a sátira para expressar a 1 Na edição organizada por Domenico De mais (2001). dos iluministas e idealistas de várias procedências. carregado daquele germe de real que ainda não se realizou.Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue Ao atravessar a crítica do mundo moral e social da revolução industrial no início do século XIX. ver as apresentações das edições de seus livros listadas ao final do artigo. as poucas páginas de O direito à preguiça superam em relevância milhares de produções auto-intituladas filosóficas ou científicas. o trabalho de L. para estudos mais pormenorizados. se não é prudente julgarmos o valor de um texto por sua inserção ou não no paradigma filosófico-científico da moda. Essa deve ser a constatação dos leitores mais atentos do manifesto de Lafargue. O princípio esperança. parece-me razoável situá-lo entre os autores da grande tradição das utopias. no sentido de perspectiva de futuro e antecipação de problemas extremamente atuais mais de um século após sua publicação. um texto de retórica política como o que aqui consideramos pode talvez parecer menos relevante. Opúsculo sem pretensão propriamente científica nem rigor filosófico. como também não se encontra naqueles que fazem o inventário das utopias. 1842-1882. A obra-prima de Ernst Bloch. como os da acuidade científico-econômica e da qualidade utópica. que de certo modo é também ético. E porque estão de momento como que postos em quarentena os postulados da teoria crítica. também não é lícito julgá-lo por seu tamanho.

ocorrida após 1930. não era desconhecido do movimento operário brasileiro no início do século XX e os historiadores interpretam que só a extrema burocratização da vida sindical brasileira. de considerarmos diretamente o texto que é nosso objeto neste ensaio. além da apresentação da primeira tradução. Marilena Chaui estabelece relação entre o discurso de Paul Lafargue e as teses de Max Weber em Ética protestante e espírito do capitalismo.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. enquanto o famoso trabalho de Weber é publicado mais tarde (pela primeira vez. de Francisco Food Hardman. contamos com as apresentações das professoras de filosofia Marilena Chaui e Olgária Matos. julgamos interessante relembrar o conteúdo das apresentações mencionadas. a religião adquiria a significação de 3 . cem anos após sua publicação na França. talvez mesmo. no contexto do determinismo econômico. Antes. 1980. pp. 2008. 11. acompanhadas de introduções ou prefácios assinados por intelectuais de renome. em 1904. sociólogo italiano bastante conhecido em nosso país. Assim. 1. sobretudo entre 1968 (quando Lafargue conheceu um renascimento de sua obra na França e em outros países) e 1979. As observações de Lafargue e os apelos críticos de seu manifesto soam muito fortes e verdadeiros ainda para os nossos dias. mas em sua forma completa recém em 1920). 12-13). e também dispomos em português da introdução feita por Domenico De Masi. ainda mais nelas que nas outras. vêm sendo entregues ao público brasileiro algumas traduções e reedições. ou seja. De 1980 para cá. quando o espectro do desemprego ronda o espírito da população jovem mesmo nas regiões mais desenvolvidas ou industrializadas do planeta. sendo que. que tanto marcaram a sociologia no século XX (Chaui. ao “ópio do povo” era atribuída a dependência das relações materiais de trabalho e de classe. pois. 18). consumo e comunicação. 1999. p. O nome de Lafargue. quando o Brasil começou a superar a censura da expressão de idéias com a anistia política. O direito à preguiça nas últimas décadas vem sendo publicado em traduções no Brasil e aqui recebeu apresentações de importantes intelectuais a que recorreremos como introdução ao nosso tema. o que dá ao discurso de Lafargue uma nota a mais de originalidade e antecipação. A relação entre economia e religião encontrava-se na análise marxista. p. 10). com o objetivo de nos inserirmos na rede coletiva do debate. n. de produção. Não se deve esquecer que Lafargue escreve em 1880. conforme quer-nos indicar a atual sociologia do trabalho. pp. pode fazer entender o longo eclipse de seu nome entre nós (Hardman. 1980. bem como os modos de interpretação do real e de seus sentidos. A atualidade desse inspirado manifesto manteve-se intacta no século que passou e é a mesma em nosso tempo de tão radicais mudanças tecnológicas que afetam os modos de vida. As apresentações de Lafargue para o Brasil A primeira tradução brasileira de O direito à preguiça veio a acontecer em 1980. no entanto. vol. Em sua apresentação de 1999. Deve ter contribuído para esse atraso a dificuldade para a circulação das idéias de esquerda durante a ditadura militar. 1-17 crítica social e a proposta de uma outra realidade. julgando haver Lafargue retomado considerações do socialismo utópico enquanto suas fontes remontam aos pensadores clássicos da Antigüidade (Hardman.

e pela proibição do ócio e do luxo que lhes é associada. Evidentemente. quando valoriza as razões econômicas. Se os operários não se deixassem explorar. pp. 30-31). expressando-se como um humanista sensível às dimensões humanas que se situam além da economia e do trabalho. esta que se torna patente na reivindicação pelos operários do direito ao trabalho. o gênero retórico em que se escreve o manifesto. os humilhados e ofendidos. aspecto da obra que reputa como ao mesmo tempo significativo e esquecido. para a liberdade. fica evidente a valoração oposta. ao mesmo tempo em que se estimula a disciplina. enquanto pela doutrina da predestinação e a ética da salvação pelo trabalho. no século XVI (Chaui. mas que merece ser mais considerado do que o foi nas análises anteriores (Chaui. 1909). Para Lafargue. a cultura e o caráter de um povo. justamente pela sua submissão. no caso o protestantismo. ou ao ouvinte. como se a arte do discurso significasse imediatamente abandono da aspiração à verdade. O interesse nessa publicação já aponta para a preocupação do organizador que. por razões compreensíveis ligadas ao intuito de destacar o conteúdo essencial do texto. para conquistá-lo à mesma convicção. pendendo a balança para o outro lado. como pólo influente na mesma ligação reconhecida entre economia e religião. ao tempo em que se mantém socialista revolucionário e na fidelidade à interpretação marxista da história. falseando. não cabe contudo. 27-30). 167). é claro. intenção legítima e própria das melhores causas e conquistas da cultura. de quem era genro. Na interpretação weberiana do mesmo problema (e Marilena Chaui interpreta que Weber escreve contrapondo-se a Marx). tendo sido muito ligado à luta concreta operária socialista bem como ao destino pessoal de Marx. assim como se tem diminuído o poder autocrático nas democracias modernas. não sem conflito e 4 . organizando. 1999. sua mulher. a intenção de substituir uma interpretação causal unilateralmente “materialista” da cultura e da história por uma outra espiritualista. que publicou em 1909 um ensaio sobre o determinismo econômico na concepção marxista (Lafargue. pp. de outro lado. a atividade sem descanso e a poupança. daquele discurso que tende a justificar. provoca a comparação com La Boétie em seu Discurso da servidão voluntária. é favorecida a acumulação capitalista e o desenvolvimento da economia burguesa. a publicação do célebre Do socialismo utópico ao socialismo científico (Engels. No tempo entre Marx e Weber situa-se Lafargue. quando o escritor alerta: embora o homem moderno geralmente não seja capaz de imaginar o efetivo alcance da significação que os conteúdos de consciência religiosa tiveram para a conduta de vida. o luteranismo e ainda mais o calvinismo. se os súditos não se deixassem mandar. os operários. como para La Boétie quem dá o poder ao tirano. sendo bem clara a observação que termina a obra. também abre janelas para a ação política não determinada. com a colaboração de Laura Lafargue. também ela unilateral (p. quando nela se trata de usar de maior arte. É de observação comum o quanto nosso tempo desconfia da retórica. são os súditos. evidentemente. os oprimidos. do artifício expressivo. 1988). 1999. para transmitir melhor o pensamento que se quer levar ao leitor. as submissões próprias da inserção nas tramas sociais da produção. as situações poderiam tornar-se mais de acordo com os melhores sonhos humanos e não teríamos tanta espoliação da força de trabalho nas engrenagens da indústria. aparecendo a religião.Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue ideologia. quem se deixa explorar na cadeia de montagem industrial. quando a finalidade é caprichar na forma até a veemência. as análises de Weber (2004) não são fáceis de compreender nem se devem simplificar. O “enigma” da servidão voluntária que aparece no texto de Lafargue como espanto ante a paixão do trabalho desenvolvida pela classe operária. Marilena Chaui ressalta.

1. pp. o ritual. no sentido de virtù. 46-47). no começo do XX. outras de modo mais criativo e inovador. quando. não há como negar uma clara força de verdade nas frases sonoras em que ele critica a religião do trabalho e a paixão pela atividade na rede profissional e produtiva. ou seja. Paul Lafargue procede a uma trans-valoração. não desaparecem definitivamente. 47). a diversão. no discurso de Lafargue. o descanso. p. a família. a festa. mesmo e especialmente após a simbólica “queda do muro de Berlim”. Ainda que se aceite a interpretação de haver um tanto de ironia.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. as horas do recolhimento. que se manteria marxista em sua valorização do trabalho como meio de sobrevivência e reconhecimento e. 33). a reunião da comunidade. e a paz e felicidade social. portanto. Nesse sentido da revisão do valor do trabalho ante o restante da experiência da vida. 1999. 2008. a que a autora se remete (Chaui. como força. “o sonho acabou”. Todavia. A liberdade dos trabalhadores assalariados e em geral dos indivíduos contemporâneos jogados nas novas situações do capitalismo tardio pródigo em invenção tecnológica. 44-45). pp. tão evidente e que tanto fazia sonhar na belle époque. Marilena Chaui termina a apresentação de O direito à preguiça referindo-se às observações mais recentes sobre os nexos do trabalho e do “tempo livre” desenvolvidas por Viviane Forrester (1997). As análises de Marcuse. o convívio com os amigos. a separação entre o progresso científico. que procede à análise dos caminhos mais controladores que 5 . 1999. como condição material (potencial) de libertar os escravos do trabalho alienado e do domínio do capital (Chaui. às vezes no sentido da destruição. apoio nas análises de Herbert Marcuse em Razão e revolução (Chaui. apareceu a todos. fazendo mesmo a preguiça aparecer como virtude. Para que não se interprete o texto de Lafargue como apenas uma utópica apologia do ócio. tendo vivenciado o mundo dividido pelo confronto ideológico que se convencionou chamar de Guerra Fria. 1999. 47-49). técnico ou tecnológico. a tecnologia progrediu. Pensava a máquina como potência libertadora. nessa recuperação conceitual. no sentido de que foram frustradas as esperanças de libertação dos trabalhadores através da técnica e da tecnologia (pp. em Eros e civilização como em O homem unidimensional. que enobrecem pelo menos tanto quanto a atividade útil. que julga ser a motivação mais profunda e permanece sob a crítica de Lafargue ao trabalho alienado na sociedade industrial capitalista. 1999. p. são algumas das críticas mais contundentes dos efeitos de manipulação e controle exercidos nas situações sociais da tecnologia avançada. Lafargue considerava com esperança o progresso técnico. na última quadra do século XIX. vol. hegeliano-marxista do trabalho. a dança. o século XX viu bem. como energia (Chaui. pela afirmação da dignidade do sujeito trabalhador e cidadão. a associação. onde aparece a proposta de revalorização do ócio. 11. n. Após as grandes desilusões do século XX. buscando. o encontro amoroso. própria da arte retórica. é questionada e revista pelos sociólogos e filósofos críticos. Marilena recupera o conceito positivo. ou desenvolvimento humano. muito nítida. 1-17 contínua tensão com a tendência ao retorno à tirania e à barbárie que. o partido? Quando houve a conversão geral ao trabalho profissional em detrimento da vida liberta dos cuidados menores da sobrevivência? Os antigos e os medievais teriam levado mais a sério que os modernos essas dimensões da existência humana para além do trabalho. Onde a classe trabalhadora teria esquecido que ser plenamente humano significa algo mais que produzir? Quando os trabalhadores abandonaram seu gosto e respeito pelo jogo. acentua Chaui. dilacerado entre as duas grandes guerras européias que se tornaram mundiais. pp. no entanto. retomando a antiga tábua de valores em que se prezava o ócio.

à improdutividade e ao superconsumo. que é o princípio de sua própria sujeição (Matos. da distribuição dos meios de sobrevivência. condenados. teria sido estender à burguesia a loucura de matar-se de supertrabalho e intoxicar-se com superconsumo. sorrateiras de servidão e dominação. 50-56). que faz com que a mesma tecnologia que dá condições a novas formas mascaradas. De Masi insiste em que Lafargue estabelece nítida associação entre supertrabalho e superconsumo. encarregados do cuidado do desperdício vistoso dos ricos. e ainda. finalmente. as sugestões de limitação do trabalho e desenvolvimento do ócio implicam em necessidades de profunda transformação humana. Em sua apresentação de 2001. mudar a sociedade. e este é ponto importante a que desejamos voltar mais adiante. 2001. pp. que caracterizava a sociedade da época em sua divisão: de um lado. pp. os capitalistas. tem a ver com outra série de problemas mal-resolvidos no plano da organização social. os serviçais subalternos. O polêmico sociólogo italiano ressalta as análises sociológicas de Lafargue. quando observou que libertar o trabalhador. pois efetivamente os maquinismos podem. ou melhor. Domenico De Masi também sublinha a visão positiva de Paul Lafargue sobre o poder emancipatório das máquinas. os agricultores. em vez disso sucumbiu ao “vício” do trabalho alienado (De Masi. também abra oportunidades concretas para a libertação do trabalhador. não acreditada nem bem aceita. e em como essas observações ainda são apropriadas para as realidades cada vez mais globais do novo capitalismo de nosso tempo. Em seu prefácio à tradução de O direito à preguiça de 2003. Sendo assim. os operários. entre as posições atuais não predominam as esperanças no poder libertador do avanço tecnológico. para a libertação do trabalho e a emancipação pelo trabalho. do esporte e do turismo no capitalismo contemporâneo (Chaui. aqueles únicos indivíduos que têm “amor pelo trabalho”. p. de outro. quando reconsideraremos também a posição de De Masi sobre as exigências educacionais das novas realidades. 8). ao ócio forçado. p. 30-31). A crítica de Lafargue é de que o proletariado. Como vimos na breve recuperação dos comentários de Marilena Chaui. 6 . a literatura crítica do trabalho no capitalismo tardio sabe salientar as armadilhas. de dimensão imaterial. que são os pequeno-burgueses no campo. de renda. em rebelandose. e os pequeno-burgueses na cidade. ética e moral. imerso em sua ideologia do trabalho. ou seja. 2001. entre eles. excitados uns e outros por necessidades fictícias criadas pela propaganda (De Masi. mas permitir ao operário livrar-se “de sua alma”. olhando sem preconceito os diversos lados da questão. bem como especialmente no da ideologia e das concepções filosóficas e religiosas.Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue libertários da indústria cultural. tomados pela “paixão funesta” do trabalho. podem-se perceber as possibilidades contraditórias. afetiva e mental. pela má distribuição do trabalho. Contudo. o proletário. 2001. sobre o sentido da vida e da existência humana. Olgária Matos começa por acentuar que Paul Lafargue foi um pioneiro. 32). como que as duas faces do mesmo fenômeno. não significa fazer desaparecer o capital ou os capitalistas. Após cem anos da publicação do manifesto de Paul Lafargue. p. 2003. assim como da indústria do lazer. poderiam ser usados como oportunidade de superação da escravidão do trabalho alienado (De Masi. Essa transformação está posta como tarefa para os educadores. que poderia se rebelar e. os comerciantes em suas lojas. A dificuldade que se prende a essa possibilidade de liberação. imaginária e ideológica. sobretudo de ordem psicológica. 36). 1999. a única vitória do proletariado. as metamorfoses da dominação que se escondem no progresso tecnológico. ou melhor. produção e consumo. com a que o sociólogo se identifica.

conforme já haviam demonstrado as análises marxistas. Os males do trabalho submetem e maltratam as multidões do tempo industrial. 12). Essa loucura traz como conseqüência misérias individuais e sociais que há séculos torturam a triste humanidade. recusa a moral tecnocrática e a economia subtraída ao controle humano. vol. obsessão doida porque se trata justamente de loucura pelo trabalho que. 2008. sendo o situacionismo um dos movimentos político-culturais mais importantes de nosso tempo. que no século XVI redigiu seu Discurso da servidão voluntária. a paixão moribunda que absorve as forças vitais do indivíduo e de sua prole até o esgotamento (p. bem como ao Discurso da servidão voluntária de La Boétie. autor de A sociedade do espetáculo. O lugar da skholé (palavra grega que se encontra. enquanto critica a ética da produção e do consumo. do cotidiano e da lógica do mercado. 19). o que já dá o que pensar) é uma questão que se torna um desafio. n. Como um La Boétie moderno. mais que o labor e ainda mais que a arte.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 1-17 Do mesmo modo que Marilena Chaui. Essa loucura é o amor ao trabalho. acrescentaríamos. 1. pois. na raiz da palavra “escola”. na situação da sociedade industrial capitalista. a começar por uma revisão de conceitos e novas formas de operar aos agentes do mundo educacional contemporâneo. como se nota facilmente. O texto acentua a revolução valorativa central produzida por Lafargue. grega e romana – que prezavam. Lafargue constata que a realidade da sociedade ocidental burguesa no capitalismo do final do século XIX carrega a contradição de. mas nasce da necessidade de uma vida diversa. 9). a skholé e o otium (p. pp. é alienado em seus aspectos e dimensões humanizantes. como insana obsessão pelo que avilta. e transforma-se em grande tarefa prática. 11. em suas conseqüências desumanas. Paul Lafargue teria encontrado uma posteridade em Guy Debord. tal como era próprio do pensamento autenticamente utópico do século XIX. Segundo a professora Matos. que encontrou inspiração nas tradições antigas clássicas. liberada da tirania do mercado e do Estado capitalista. às teses de Max Weber. p. no qual defendia que ser livre e desejar a liberdade são o mesmo. da ciência e da técnica. em um movimento de oposição e complementação. sem que os sujeitos tomem consciência do que os oprime. e nos situacionistas a ele ligados. que provoca a ordem das idéias e dos princípios morais. a autora associa o discurso de Lafargue. Consiste na antecipação da teoria crítica sobre a mais contemporânea das realidades. 2003. 7 . Lafargue considerava que ser livre seria não desejar a tirania do trabalho (Matos. ou seja. da indústria. Lafargue (2003) detecta a estranha paixão pelo trabalho mesmo este sendo aviltante e a denuncia. Não veicula diretamente reivindicações econômicas ou políticas. mas também consiste em crítica real à tábua de valores que tem o trabalho no cume: Uma estranha loucura dominou as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. O pequeno grande texto: excertos comentados Ponto de partida do veemente manifesto é a constatação da mania que se apossou da classe operária nos tempos modernos. na clave da ironia. o que é para entendermos em parte como linguagem retórica. O direito à preguiça seria a forma originária de uma teoria crítica da sociedade moderna.

ao emancipar-se. embora mudando o paradigma. Quanto a essa tese. esquecendo-se da sua missão histórica. Porque. até a segunda metade do século XIX. 23). nas manufaturas e fábricas. Os proletários. No final do século XIX. A superprodução e a superabundância de mercadorias aviltam ainda mais o trabalho e a vida da classe trabalhadora no mundo capitalista. a grande classe que abrange a todos os produtores das nações civilizadas. o reconhecimento social através do trabalho e. o proletariado. a injustiça. o de alguém que nada tem a perder. deixou-se perverter pelo dogma do trabalho. Todas as misérias individuais e sociais nasceram da sua paixão pelo trabalho (p. dizem. por haver superabundância de mercadorias e falta de compradores. a fome.Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue por um lado. por prestarem atenção às falaciosas palavras dos economistas. é a convicção dos operários. embrutecidos pelo dogma do trabalho. como sujeito privilegiado da história. ou seja. precipitam toda a sociedade numa dessas crises de superprodução que convulsionam o organismo social (p. de outro. Lafargue parece ser inteiramente fiel à sua orientação marxista: E não obstante. o proletariado. A modernidade havia posto grande expectativa sobre a libertação do excesso de esforço corporal pelas novas máquinas. prometer e esperar o bem-estar. como também as mulheres e as crianças. ou melhor. 2003. Tal é a lei inexorável da produção capitalista. criando a crise que os mais fracos suportam. não só os homens. continuavam a apostar no poder libertador do trabalho. pela passagem ao trabalho assalariado nas novas situações de trabalho urbanas e coletivas. da miséria e da corrupção” ( Lafargue. As fábricas modernas tornaram-se casas ideais de correção onde as massas operárias são encarceradas. na verdade. as fábricas fecham as portas e a fome fustiga as populações operárias com o seu chicote de mil tiras (p. bem como sobre a superação das submissões próprias dos regimes de servidão e escravidão. não compreendem que é o sobretrabalho que infligiram a si próprios durante o tempo da pretensa prosperidade a causa da sua miséria presente (p. observações críticas e conclusões. os proletários se entregaram de corpo e alma ao vício do trabalho. para instaurar a nova sociedade à altura do progresso técnico. a crença de que a salvação dos problemas da sociedade. onde se condenam a trabalhos forçados. O pressuposto. Dura e terrível foi a sua punição. Os reformadores sociais utópicos que antecederam Lafargue. durante doze e catorze horas. traindo os seus instintos. O proletariado teria por isso a vocação. apostavam no poder libertador do trabalho assalariado. o século do trabalho. a riqueza. como a miséria. 39). p. porque capaz de conhecer a sociedade desde o ponto de vista mais correto para conhecê-la. esperando e dando por cientificamente assentado que a classe trabalhadora fosse o sujeito detentor do poder transformador da sociedade. 29). como hoje ainda é bastante generalizada a 8 . no momento do auge da indústria e do progresso liderado pela burguesia. só depende do crescimento econômico. ainda parece estar vivo hoje como ontem. emancipará a humanidade do trabalho servil e fará do animal humano um ser livre. “A nossa época é. As análises da sociologia marxista. só reservar sofrimento e miséria para as massas trabalhadoras. carregam sobre os ombros. e são os que sofrem mais: Então. a classe que. 37). 37). é o século da dor.

vendem doze a catorze horas de trabalho duas vezes mais barato do que quando tinham trabalho durante um certo período. discursos lamentáveis. apesar da superprodução de mercadorias. mas sim. Limitar-me-ei a demonstrar que. que poderia extirpar grande parte de seus males. os operários. de que está imbuído. É assim caracterizada de modo dramático a irracionalidade do sistema. Uma vez que o vício do trabalho está diabolicamente encravado no coração dos operários. vão bater com a cabeça contra as portas da fábrica. quando basta olhar sem preconceitos para ver que é preciso algo mais que a multiplicação dos produtos para garantir a dignidade dos produtores. porque enfraquece e destitui o sujeito que o pratica. Em vez de aproveitar os momentos de crise para uma distribuição geral de produtos e uma manifestação universal de alegria. também não são apenas os outros coadjuvantes burgueses da cena capitalista que defendem a manutenção da intensidade de trabalho e produção. E os filantropos da indústria continuam a aproveitar as crises de desemprego para fabricar mais barato (p. 1. Lafargue procede à crítica da ideologia do trabalho e das recomendações de economistas e moralistas modernos. mas aspira mais. é perversa. O trabalho excessivo que vai colaborar para a superprodução. porque o trabalho desenfreado que o domina no século dezenove é “o mais terrível flagelo que já atingiu a humanidade”. 59). morrendo de fome. 1-17 convicção de que com mais trabalho se resolvem os problemas de sobrevivência da população. é preciso dominar a estranha paixão dos operários pelo trabalho e obrigá-los a consumir as mercadorias que produzem (p. e o trabalho só se tornará uma paixão útil à vida social quando for regulamentado e limitado a um máximo de três horas por dia. atendendo aos meios de produção modernos e à sua potência reprodutiva ilimitada. uma vez que as suas exigências abafam todos os outros instintos da natureza. 2008. uma vez que a quantidade de trabalho exigida pela sociedade é forçosamente limitada pelo consumo e pela abundância de matéria-prima. os operários entulham o mercado. são os próprios explorados que resistem em ver a causa de sua miséria. vol. corpos emagrecidos. Com rostos pálidos e macilentos. esta que. 11. por sua vez.) dêem-nos trabalho. pp. mas a paixão do trabalho que nos atormenta!” (p. do desejado bem-estar social.. n. 39). vai gerar a crise e despejar na rua multidões de trabalhadores. não é a fome. por que razão devorar em seis meses o trabalho de todo o ano? (p. 39). implorando: trabalho! trabalho! (p. 59). não fosse a teimosia em não ver suas verdadeiras causas. Mais surpreendente ainda é que não são apenas os empresários conscientes de suas intenções de lucro e acumulação. Sabe que é tarefa árdua tentar convencer o proletariado de que a ideologia do trabalho. 9 . apesar das falsificações industriais. que mal têm forças para se manter em pé. 43). do desenvolvimento humano. Numa linguagem que associa a franqueza à ironia e aponta que a superprodução tem efeitos negativos também sobre a classe ociosa. quando apenas uma pequena atenção sem viseiras mostra a independência da riqueza com relação ao bem-estar da população. assediam os fabricantes: “(. no entanto. E..Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. E esses miseráveis. quer justificar uma transformação de consciência e da valoração do trabalho e do ócio pelos operários. é claramente um vício.

mas proibi-lo (p. Lafargue refere uma especial resistência da valorização do ócio na cultura espanhola. e a prática da religião. mas ainda assim possível. “Os filósofos antigos discutiam entre si sobre a origem das idéias. sendo que os filósofos da Antigüidade ensinaram o desprezo pelo trabalho. sobre isso não tendo discordâncias. considerado como degradação do homem livre. e cantavam o ócio como presente dos deuses. no trabalho alienado e aviltante. pela diminuição drástica da jornada comum de trabalho. não para reclamar o Direito ao Trabalho. quão longe está a proposta de Lafargue dos esforços de produção máxima instaurados nas experiências socialistas realmente existentes no século XX! A sugestão mais ousada. que não é senão o direito à miséria. “sacrossantificaram” o trabalho: Homens cegos e limitados. mas para forjar uma lei de bronze que 10 . recuso-me a admitir as pregações dessa moral religiosa. Lafargue aponta perspectivas de emancipação por soluções revolucionárias. 63). com certeza utópica porque ainda não real. 19). Eu. A saída da armadilha em que as classes trabalhadoras foram presas. generalizada nas classes espoliadas. homens fracos e desprezíveis. mas eram unânimes quando se tratava de abominar o trabalho” (p. pela integração do trabalho vivo humano com a potência produtiva das máquinas e. quiseram reabilitar aquilo que até mesmo o Deus deles amaldiçoara. é aquela da jornada de três horas de trabalho para todos: Se extirpando do seu coração o vício que a domina e avilta a sua natureza. suas sugestões concretas vão no sentido da luta por menor jornada de trabalho à medida que a classe trabalhadora reconheça o seu poder e o imponha. passa pela melhor utilização dos recursos que a tecnologia possibilita. livre-pensadora. 21). nem tenho posição econômica e moral como a deles. mas onde as diferenças culturais locais conseguem sobreviver: “Para os espanhóis. Para forçar os capitalistas a aperfeiçoar as suas máquinas de madeira e de ferro. não para reclamar os Direitos do Homem. que não são senão os direitos da exploração capitalista. a causa dos antagonismos sociais e das guerras civis. Os proletários enfiaram na cabeça infligir aos capitalistas dez horas de forja e de refinaria. Em vez de reagirem contra a aberração mental que consiste em deixar-se escravizar pela atividade produtiva a ponto de não encontrar mais tempo para a contemplação e para as boas coisas da vida. Hoje. entre os quais o animal primitivo não está atrofiado. Contudo. que incluem a convivência afetuosa na família e na comunidade. a classe operária se erguesse com a sua força terrível. Paul Lafargue refere-se à Grécia Antiga. quando o número proporcional dos trabalhadores industriais se encontra reduzido. que não professo o credo cristão. aí reside o grande erro. dos sacerdotes. 81). apesar da constatação da insana obsessão pelo trabalho. considerando as terríveis conseqüências do trabalho na sociedade capitalista (p. o poder da classe operária se vê substancialmente atingido. mas não desaparece. econômica. dos economistas. quando trabalho e ócio recebiam a valorização contrária da tábua de valores moderna.Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue A obsessão do trabalho é alimentada nos operários pelos discursos dos moralistas. Oh. Será necessário não impor o trabalho. assim. com drástica redução da jornada permitida. o que não saberíamos dizer como se mantém em nosso tempo tão globalizado em seus valores e modos de vida. 69). quiseram ser mais sábios do que o próprio Deus deles. é preciso elevar os salários e diminuir as horas de trabalho das máquinas de carne e osso (p. É requerida uma nova reforma da lei referente à jornada de trabalho. o trabalho é a pior das escravidões” (p.

11. longe de realizar-se mas materialmente possível. Sua irmã. Essa concentrada quietude a ouvir a palavra é uma das dimensões abertas pela vida menos agitada. sentiria nela surgir um novo universo. A “melhor parte”. do ócio em seu sentido mais elevado – pode-se dizer assim. Aproximou-se e falou: “Senhor. sentou-se aos pés do Senhor. que tenham portanto a força para levar as situações na direção dessa nova diminuição da jornada de trabalho? Essa necessária potência política faz parte das capacitações que o trabalhador de hoje precisa adquirir através de sua educação. que é impedida pela insana obsessão moderna do trabalho como por toda agitação. chamada Maria. e ficou escutando a sua palavra. 21). seja teórica ou teorética. 76-77). respondeu: “Marta. da contemplação religiosa. A proposta da jornada de três horas contida no manifesto de Lafargue. vol. é confirmada em outra. X. da atenção prestada à palavra de Jesus.. Salomão. de nome Marta. que estão sendo escondidos de vocês com cioso cuidado: um cidadão que dá o seu trabalho em troca de dinheiro degrada-se ao nível dos escravos. sua capacidade política de imposição de reformas. digo-vos. porém. de atividade espiritual ou da contemplação. para convencê-los. corresponde ao conceito blochiano de utopia concreta. 28-29). por oposição à inquietação e atividade com os trabalhos domésticos. pregou a preguiça: “Contemplai o crescimento dos lírios dos campos.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. quando Jesus se encontra em visita às irmãs Marta e Maria. Mas a dúvida continua: onde se encontram os grupos de operários que se autoreconheçam como essenciais ao sistema e por isso manteriam seu poder de convencimento. onde o evangelho cristão ensina que a contemplação religiosa tem precedência sobre a atividade inquieta. VI. em que se ocupa Marta. não se vestiu com maior brilho” (p. O discurso inflamado de Lafargue dirige-se diretamente aos operários de seu tempo e. e certa mulher. Maria escolheu a melhor parte. não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!” O Senhor. como já vimos. 2008. Essa passagem evocada por Lafargue (Evangelho segundo São Mateus. e não obstante. onde se concentrou Maria. dos ensinamentos do Senhor. de sua formação individual e coletiva.. n. não hesita em reclamar o pensamento dos filósofos antigos: escutem a linguagem destes filósofos. a Terra. e sua resposta à pergunta de Marta esclarece que Maria escolhera “a melhor parte”: Enquanto caminhavam. 83). quer dizer. Marta estava ocupada com muitos afazeres. E para acordar os trabalhadores do encantamento pelo esforço escravo. porém. aquietado. comete um crime que merece anos de prisão (p. o recebeu em sua casa. eles não trabalham nem fiam. não hesita em evocar a herança cultural e moral da Bíblia. em seu sermão na montanha. Mas como pedir a um proletariado corrompido pela moral capitalista uma decisão viril? (pp. a parte da contemplação. 11 . 1. e esta não lhe será tirada” (Lucas. Jesus entrou num povoado. 38-42). especialmente a do Novo Testamento: Cristo. uma só coisa é necessária. em toda a sua glória. Marta! Tu te preocupas com muitas coisas. tremendo de alegria. no Evangelho segundo São Lucas. ainda hoje. a velha Terra. do ouvir atento. pp. 1-17 proibisse todos os homens de trabalhar mais de três horas por dia. o autor não se resume a evocar filósofos antigos da tradição pagã greco-romana.

é que se continua colocando o emprego estável como meta geral nas vidas pessoais. O trágico desse processo de corte do emprego na indústria. conseqüentemente. ao mesmo tempo. situando-as nas condições de nosso tempo – de alto desenvolvimento da tecnologia e. sem que se percebam exatamente quais as finalidades de tal esforço. É assim que se instala. servindo-se assim à educação.Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue Convite à revalorização da skholé Na direção aberta pelas provocações de O direito à preguiça. da cibernética e da robótica. entre ócio e atividade. é sentida quase exclusivamente em seus aspectos negativos. parecem continuar negando-se a constatar a transformação inevitável. de outro modo que pela solução moderna do trabalho como na sociedade industrial. que ainda há pouco continuavam a abrir-se nos países de industrialização recente. Os planejadores e analistas de economia. das novas formas de dar sentido à vida. nem que se façam reconhecer as dimensões da mudança. do respeito social como da capacidade de sobrevivência independente e. Por tudo isso. somos convidados a reconsiderar as possibilidades que se abrem à sociedade tecnológica. com maior consciência social e outras atitudes políticas. dependência e insegurança. os que não podem ser integrados no novo mercado de trabalho. reduzido. ou mesmo. a ausência de trabalho não é vivenciada como possibilidade positiva de reflexão. quando não é mesmo explorada no sentido de alienação ainda maior. o “horror econômico”. tomando a sério. Todavia. do respeito por si mesmos. a indústria não retrocederá dos avanços tecnológicos e a maioria das pessoas terá de encontrar seu modo de inserção na vida comunitária. é alvo de desaprovação e fonte de inquietude. que pode ser criativo e possibilitar a dedicação às atividades do espírito. portanto. através de outros serviços. Os discursos continuam a batalhar por mais emprego. transformou-se a equação entre tempo de trabalho e tempo de lazer. diminuição. são excluídos do reconhecimento social. A diminuição do trabalho hoje. algo parece não poder mais ser recuperado. que parecem confirmar as intuições de Lafargue –. no entanto. bem como os políticos. à felicidade coletiva e ao desenvolvimento humano. para usar a expressão de Viviane Forrester (1997). 12 . haveria a possibilidade de todos trabalharem menos podendo fazer melhor uso do tempo liberto da atividade produtiva. Na atual mutação das realidades econômicas nas sociedades pós-industriais. Atualmente. na era da automação da produção e das comunicações. assusta e desperta desconfiança. uma inversão da divisão do tempo de trabalho e do “tempo livre”. depois de vários séculos de doutrinação para a religião do trabalho. desaparecimento do emprego na indústria. em certas áreas. à cultura. O ócio. recriação. para o seu reconhecimento e sobrevivência. A automação na indústria e a globalização terminam rapidamente com os empregos que se abriram com a industrialização. como desvantagem no plano do consumo e exclusão. somos levados a sugerir que se pense sobre uma revalorização da skholè – palavra grega que quer dizer ócio e está na origem da palavra “escola”. como horizonte. Sendo assim. “enxugado”. como vulnerabilidade. estudo. Na evolução atual do mundo do trabalho. do ponto de vista humano. nãoindustriais. consideradas pelos filósofos como as mais próprias do ser humano porque correspondem àquilo que faz a sua diferença com relação aos outros seres. A transformação tem se realizado de modo imprevisto.

em torno dos quais a política atua (ou pretende atuar). são três os tipos de trabalho que impulsionam a pós-modernização da economia global: A atividade fabril é vista como serviço. as análises falam em crise do emprego. por sobrevivência dos conceitos válidos para a época anterior. a todos nós é exigido rever a ética do trabalho. também no domínio das ciências humanas. Os mais comuns retratos da situação partem da constatação do que está faltando. Segundo Hardt e Negri (2004). do chamado “trabalho imaterial”. ou melhor. na perspectiva do futuro. por conseguinte. Estamos vendo uma realidade transformada sendo compreendida de modo falso por expectativas e categorias do período passado. Os contemporâneos participam de uma nova era. 314). O sentido de “desemprego” é hoje inteiramente outro. deverá possibilitar que se encontrem novos rumos e formas positivas de enfrentar a mudança e. e como se não houvesse nenhum lado positivo a ser registrado ou a considerar-se pelo menos como esperança. 11. mas de uma mutação de caráter global. Nossos conceitos de trabalho e.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. a terceira espécie de trabalho imaterial envolve a produção e a manipulação de afetos e requer contato humano (virtual ou real). assim. que incluem a dimensão do afetivo. tornaram-se ilusórios e nossas lutas em torno deles. do cuidado social e pessoal. pela abolição da escravidão no Brasil. quando seria mais adequado e verdadeiro falar em mutação e não apenas mutação de uma sociedade. societário. educadores. bem como trabalho do tipo físico (p. porque sem participação ou reconhecimento. sem teimar no ponto de vista das situações que desaparecem. mesmo em sociedades do chamado primeiro mundo. um grande desafio aos humanistas. Finalmente. entre uma situação de emprego e outra. nem admitem nem percebem que a era anterior desapareceu. aos que lideram o avanço do conhecimento. mas nem conseguem observá-la. em crises do trabalho. 2008. sem que se consiga dar o passo para a compreensão e a boa relação dinâmica com a situação real. 1-17 O trabalho material e os serviços também sentem a influência das novas tecnologias. Não se trata mais de um período transitório que o operário atravessa. Como todos lamentam o desaparecimento do emprego! Não teria sido assim também quando o trabalho evoluiu da servidão feudal para o emprego assalariado no capitalismo industrial? Não terá sido também assim quando. Só uma reconsideração corajosa e paciente dos diversos aspectos da situação. com um olhar sem preconceitos. O segundo é o trabalho de tarefas analíticas e simbólicas. os negros foram lançados na estrada e se negaram aos empregos na recente indústria? Segundo Forrester (1997). tão alucinadas quanto as do Quixote contra os moinhos (p. consigamos evitar que as novas gerações sem “pleno emprego” venham a sentir-se menos humanas ou bem-sucedidas. A todos eles. sendo preciso cada vez mais desenvolver-se em atividades da ordem das relações interpessoais. 13 . n. pp. e o trabalho material da produção de bens duráveis mistura-se com o trabalho imaterial e se inclina na direção dele. pois. orientadores da opinião. do emprego que falta e do novo desemprego que se acentua. como se a perda fosse ao mesmo tempo inevitável e terrível. 7). repensar a ideologia da inserção social dos cidadãos enquanto trabalhadores para resgatar o valor e o sentido de outras dimensões do viver humano e do viver em comum. Está posto nas atuais circunstâncias. 1. de desemprego. problema psicossocial que pode também alimentar a violência dentro das sociedades. porque de fato é uma mudança muito importante e desafiante. em que os empregos não existem mais na mesma quantidade na área da produção material. vol. mas de uma civilização. que se divide na manipulação inteligente e criativa de um lado e nos trabalhos simbólicos de rotina do outro.

a armadilha do desaparecimento do emprego na indústria quando recém a escola começa a valorizar a profissionalização. A crítica do trabalho e a proposta de revalorização do ócio significaria uma revolução tão grande quanto o foi a inversa. confrontada à realidade do novo desemprego. para suspender o juízo e pelo menos não marginalizar socialmente os que a economia marginalizou ou determinou à dependência. todavia. possivelmente em combinação com a crítica do catolicismo na ótica da reforma protestante. da transformação do trabalho em valor moral e religioso. quase um preconceito que tomou forma de provérbio. não é demais lembrarmos. ela só poderia ocorrer de modo “parcelar” e em movimento. sobretudo das crianças. de modo um tanto diferente: embora a globalização tenda a uniformizar os modos de vida pelo planeta. uma verdadeira revolução ética ou “transvaloração”. ocorrida não se sabe precisar exatamente em que momento da passagem para a idade moderna. Porém. como Bertrand Russell. Para que pudéssemos. Ócio e pensamento Evidentemente. a exemplo dos filósofos antigos e medievais. hoje em dia o problema se coloca. A educação nas atuais circunstâncias não é tarefa simples. é imensa a tarefa de todos os que se ocupam com a educação e a orientação das pessoas neste mundo em transformação. educando para o ócio e o consumo o proletariado doente de supertrabalho e abstinência. em nosso tempo anda bastante esquecida. contudo. voltar a ter apreço pela não-atividade em boa consciência e para a recebermos como um dom que nos é possibilitado no bojo ou no avesso do progresso tecnológico. mas também dos adultos e ainda dos mais idosos. O “horror econômico”. é preciso proceder-se a uma revisão de valores e a uma reflexão coletiva sobre a ética que predomina. enquanto em algumas regiões do planeta é ainda necessário educar a massa de pobres para aprender a trabalhar (p. parece evidente que é preciso proceder-se a uma revisão de valores. torna-se necessária uma inversão no plano dos “valores” modernos. embora em círculos restritos: do ócio nasce o filosofar. para poder estabelecerem-se as três horas de trabalho para todos. e quem em nossa época teve a coragem de fazer efetivamente o elogio do ócio. A ligação do ócio com a filosofia e o cultivo do pensamento a partir do espanto admirativo parecem lugar-comum. Essa ligação do ócio com a reflexão. dos jovens.Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue Parece evidente que. dos adolescentes. 33). o manifesto de Lafargue tem um claro sentido prático dentro da luta política operária e não se trata em primeiro lugar de um elogio ao ócio em defesa da filosofia. exige uma nova educação e educação moral. esse é um aspecto que eu gostaria lhe fosse acrescentado. na compreensão de De Masi (2001). conforme linguagem mais ao gosto da moda filosófica. Enquanto Lafargue detectava que. como escola ativa e educação para o trabalho na produção material. 14 . com certeza prezando a filosofia. em nosso tempo trata-se de reeducar a população de alta renda nos países ricos para viver bem e redescobrir as virtudes do ócio. não aspirou a convencer multidões. diante da persistência da ética de trabalho burguesa. pois não pode continuar a ser o que foi na tradição nem pode transformar-se no que pretendia tornar-se ainda há pouco. em contínua modificação. Para que essa transvaloração possa ocorrer e. tinha-se o problema educacional de educar a burguesia para o trabalho e a sabedoria. em defesa da saúde física e mental das populações jovens.

que atravessou o período medieval até a sua modificação nos tempos modernos. vale retornar à interpretação de Hannah Arendt (1981). Um olhar brasileiro nos leva a ver com compreensão particular o lado positivo da diminuição e do anunciado desaparecimento do emprego na indústria. convém não deixar de perceber que em nosso tempo tudo tende a se transformar em “neg-ócio” e a mais pura das artes pode ser submetida às regras de mercado e à lógica comercial. tais como tiveram vigência na cultura e na história ocidental. depois. na concepção grega. De qualquer modo. Arendt apresenta a sua maneira de ver a evolução da escala de valores dividida entre ação e contemplação. “desassossego”) com a qual Aristóteles designava toda atividade. Temos no horizonte uma promessa de civilização que se parece menos com a utopia da modernidade. 23) do conceito de vita contemplativa por oposição ao de vita activa. o que é contrário de tal forma se assemelha que pode ser visto também o ócio como “neg-ócio”. Se fomos pegos na 15 . incluindo a consideração da história da filosofia e a do pensamento religioso. da Grécia homérica à platônica. Essa é uma perspectiva de pesquisa que devemos desenvolver com empenho. A expressão vita activa. mais à askholia grega (“ocupação”. 1-17 Descobrir as virtudes do ócio exige também entender em que o ócio pode servir à humanização. pp. corresponde. 2008. Arendt acentua a contraposição entre a filosofia e a política. Cabe exercitar pelo menos brevemente um olhar brasileiro sobre a questão da diminuição do trabalho e do aumento material do tempo livre prometidos pelas análises dos sociólogos contemporâneos da economia do trabalho e do ócio. contrariando o sentido das nossas observações. A apresentação de Arendt dá-nos o que pensar também sobre os desafios que estão postos em nosso tempo para as pessoas que desejam colaborar para minorar o sofrimento causado pela atual mutação na civilização industrial. de Aristóteles a Agostinho. como no do falanstério libertário de Charles Fourier. a concentração na ciência pura e na arte (o lúdico. contraposta ao ócio da vida contemplativa. cabe ainda dizer pelo menos algumas poucas frases que indiquem o lugar de onde falamos. em sua apresentação (p. revisando com atenção e cuidado o conceito de humano. por meio de renúncia e disciplina e. a festa e a criação artística). De modo inspirado e cuidadoso. embora ambas sejam também usadas para indicar isenção do labor e das necessidades da vida. A propósito do que pode servir à humanização um tempo que exceda a atividade de produção. em ambos. a autora esclarece em nota de rodapé na mesma passagem: A palavra grega skholè. do trabalho planejado nos detalhes. vol. E assim. portanto. o caráter de ação política da vida ativa. humanidade. 1. indicam sempre uma condição de isenção de preocupações e cuidados (p. 1981. e acentua. repletos de atividade produtiva. p. tanto no estilo da ilha fantástica de Thomas More. por meio do respeito às paixões e ao prazer. 11. o jogo.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. que ao bios politikos dos gregos (Arendt. portanto. 23). que inclui a atividade teorética. as jornadas devessem ser reduzidas porque melhor distribuídas – em More. em Fourier. humanização. compreendendo todas as atividades humanas e definida do ponto de vista da absoluta quietude da contemplação. 23). n. A propósito. que as novas situações tão mudadas chegam a colocar em dúvida. significa basicamente isenção de atividade política e não simplesmente lazer. Para terminar esta breve e provisória apresentação do sonho de Lafargue de uma sociedade de operários que superem a obsessão do trabalho alienado e se dêem o direito ao descanso e ao ócio prazeroso. muito embora. Apesar de nos posicionarmos de maneira positiva ante a vita contemplativa. como a latina otium.

S. Lafargue. G. I. Forrester. E. Chaui. Trabalho e utopia na modernidade. 9-56). 9 (2). D. trabalho e educação em O novo mundo industrial e societário de Charles Fourier. São Paulo: Global. G. assim como também. Rio de Janeiro: Forense Universitária. (1999). 6. em nosso país mais que em outros. M. que é abertura para a diversão e também para a filosofia. chance de encontrar um modo de vida mais humano e mais justo. que recebemos pela invasão cultural do cinema e das influências dos meios de comunicação em massa. Introdução. Albornoz. (2006a). Referências Albornoz. S. parece haver menos preconceito e inquietude por deixar invadir nossas vidas pelo tempo não controlado da liberdade. Não deveríamos nos assustar demais com esse aviso porque há entre nós talento e prazer em transformar em trabalho as artes da festa e do lazer. Façamos dele virtude. O horror econômico. Albornoz. (2007). do descanso. S. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. do ócio. Arendt. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. (2002). A condição humana. In P. (2005). (1981). 59-69. Na terra do carnaval. (2006b). de todos os esportes que cativam as multidões e conquistam também aquelas dos outros países centrais como se foram tão importantes quanto as grandes causas dos tempos modernos. Albornoz. II e III). Santa Cruz do Sul: Edunisc. O enigma da esperança: Ernst Bloch e as margens da história do espírito. que nos devemos. G. G. porque encontramos mesmo nelas meios de subsistência. Nosso lado Macunaíma é real. pelo sangue dos outros. 1-13. Rio de Janeiro: Sextante. de um lado. F. S. De Masi. 8. A economia do ócio. H. Albornoz. Engels. Atração passional. tanto das riquezas como também do próprio trabalho necessário. de outro. 16 . Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Bloch. (2006). São Paulo: Unesp. (Org. força para inventar o novo e o melhor. O princípio esperança (vol. 1-19. São Paulo: Hucitec. Albornoz. que nos foi transmitido no bojo do american way of life. S. na terra da música cadenciada e das telenovelas que se fazem cantar e contar em todas as línguas por todos os quadrantes da Terra. G. Do socialismo utópico ao socialismo científico. (1988). (1997). 10 (1). Violência ou não-violência: um estudo em torno de Ernst Bloch. S. (2000). não deveria assustar o aviso do fim dos empregos nas indústrias de bens materiais. V. Rio de Janeiro: Contraponto. S. como a “religião do trabalho” marcada pela hipocrisia porque alimentada pela exploração. (2003). 73-87. O direito à preguiça (pp. Porto Alegre: Movimento. G. não enfrentamos como devíamos ainda a questão da distribuição. Trabalho e utopia na modernidade II: o trabalho na Cidade do Sol de Tommaso Campanella.) (2001). Educação e trabalho nas Considerações sobre o governo da Polônia. Petrópolis: Vozes. para superar as obsessões aviltantes. G. Ética e utopia: ensaio sobre Ernst Bloch. do sistema capitalista. do futebol.Sobre O direito à preguiça de Paul Lafargue armadilha da desesperança e da angústia pela diminuição do trabalho é porque. ligados à ideologia do cristianismo ascético da ética puritana. é porque nos deixamos contagiar com a mentalidade do trabalho própria da época industrial. Albornoz. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho.

(Originalmente publicado em 1880) Lafargue. Lafargue. (Otto Lamy de Correa. trad. (2004). (1909). A religião do capital. O elogio ao ócio. Negri. Lafargue. A economia do ócio (pp. Rio de Janeiro: Sextante.). (1959). (2003) O direito à preguiça (ed. Vigil. São Paulo: Claridade. P. São Paulo: Kairós. recherche sur l’origine de l’évolution des idées de justice. Endereço para correspondência suzanaalb@viavale. a dignidade humana. Lafargue. Le déterminisme économique de Karl Marx. pp. (2003). O direito ao ócio (Carlos Irineu W. In D. B. (1999). P. vol. São Paulo: Kairós. 1. A dignidade da preguiça. Prefácio. & Hardt. 7-13). (2001). In P. (2004). Lafargue. Le droit à la paresse. De Masi (Org. El Erial.br Recebido em: 25/04/2007 Aprovado em: 25/05/2008 17 . P. (2001). De Masi (Org. 1-17 Hardman. A ética protestante e o espírito do capitalismo.). trad).). n. (2005). de l’âme et de Dieu. A religião do capital. 13-20). Teixeira Coelho Netto. Paris: Allia. A. P. Record: Rio de Janeiro. du bien.com. trad. Rio de Janeiro: Sextante. Weber. In P. M. O direito à preguiça (pp. São Paulo: Companhia das Letras. P. São Paulo: Claridade. M. (1980). In D. O direito à preguiça (J. A economia do ócio (pp. 11. O direito à preguiça. Lafargue. Introdução: trabalho e lazer no movimento operário (pp. 139-183). Matos. bilíngüe). F. O. Lafargue. 2008. (1983). Lafargue. P. Russell. Império.). Paris: Giard et Brière. C. Buenos Aires: Atlântica.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. São Paulo: Hucitec. da Costa. F. O direito à preguiça. 47-137).

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The literature review about Michel Foucault enabled to guide the description of the management control present in workplace architecture and in disciplinary mechanisms. A aluna Débora de Souza Sobral Riciolli também participou de algumas etapas da investigação. Accelerated work rhythm. Social psychology of health. 1 Este artigo foi desenvolvido no âmbito das disciplinas do curso de graduação em psicologia do Instituto de Psicologia da USP “Trabalho e saúde: a compreensão a partir da psicologia social” e “Prática de pesquisa em psicologia social I”. Living in a box: psychosocial dimensions of health and control in the work of telemarketing The objective of this paper is to study how telemarketing operators experience work in relation to their health. tendo como norte o nexo entre trabalho e saúde. Ritmo acelerado. Worker’s health. vol. entrevistas com ex-operadores de teleatendimento e acesso a sítios na internet (Orkut) que ofereciam testemunhos e avaliações sobre esse serviço. como uma proposta de estágio da disciplina Trabalho e saúde: a compreensão a partir da psicologia social. A leitura de Michel Foucault possibilitou orientar a descrição do controle gerencial presente na arquitetura do local de trabalho e nos mecanismos disciplinares. 1. Leny Sato e Luana Flor Tavares Hamilton Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo O objetivo desse artigo é estudar como operadores de teleatendimento vivenciam o trabalho em sua relação com a saúde. Trabalho penoso. Sociedade disciplinar. do curso de graduação em psicologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 11. que participou de alguns momentos de elaboração da investigação e ofereceu-nos bibliografia. O estudo empírico consistiu em visita a uma empresa de teleatendimento. interviewing former telemarketing operators and accessing internet websites (Orkut) that offered testimonials and evaluations on this kind of service. need to be friendly and fast in attendance are some of the reasons for heavy work. Introdução E ste artigo descreve uma investigação sobre as vivências de operadores de teleatendimento e sua relação com os contextos de trabalho. necessidade de ser cordial e rapidez no atendimento são alguns dos motivos de penosidade. 19-39 Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento 1 Carolina Calmon Ramalho. considerations were made about some motivational techniques adopted by telemarketing companies to deal with the demands of work. Palavras-chave: Teleatendimento.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Subsequently. which pointed to the effects of work in health. The concept of heavy work oriented the understanding of those workers’ experiences. O estágio tinha como objetivo conhecer as condições de trabalho de uma determinada categoria de trabalhadores os impactos dessas condições em suas subjetividades e em sua saúde. Felipe Augusto de Azevedo Marques Arruda. A noção de trabalho penoso orientou a compreensão das vivências desses trabalhadores que apontavam as repercussões do trabalho para a saúde. Agradecemos a Fábio de Oliveira. Psicologia social do trabalho. Laborious work. foram tecidas considerações sobre algumas técnicas motivacionais adotadas pelas empresas do setor para lidar com as exigências do trabalho. ministradas por Leny Sato em 2006. Saúde do trabalhador. n. Social psychology of work. 19 . inicialmente. pp. Posteriormente. 2008. Disciplinary society. Psicologia social da saúde. The field study consisted in visiting a telemarketing company. Keywords: Telemarketing. A investigação surgiu.

5 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Associação Brasileira de Telemarketing. A leitura dos conteúdos dessas manifestações identificou que o serviço ativava emoções fortes e que não havia posições neutras. criada há 19 anos. o Orkut. o atendimento vem ganhando rapidez e acúmulo de informações. esperava que em 2006 fossem contratados 675 mil trabalhadores. possibilitando um atendimento mais “personalizado”. mas seu crescimento deu-se na década seguinte. por nós. clientes que não “compreendiam” a lógica do teleatendimento etc. exige um trabalhador mais comprometido com a ideologia organizacional.3% dos postos de trabalho na indústria e crescimento de 11% no setor de serviços (Nogueira. 20 . esses depoimentos cogitavam que a raiz dos problemas e das insatisfações poderia estar na organização do trabalho.8% são mulheres. Teleatendimento pode ser definido como: 2 www. O teleatendimento no Brasil teve início no final da década de 70.orkut. Visitamos alguns sítios na internet e descobrimos que em um sítio de relacionamentos.Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento Para nós. período no qual o IBGE5 registrava retrocesso de 23. Cerca de 76. o Orkut abre espaço para a polêmica. segundo pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo publicada no sítio da ABT. dirigido ao perfil de consumo de seus clientes. isto é. A jornada de trabalho é de seis horas diárias. por nem sempre conseguíamos ter nossos problemas resolvidos. o serviço de teleatendimento era percebido como algo inconveniente. Di Pace & Passos. Essa tendência à personificação dos problemas coincide com a compreensão de Linhart (2006) de que o teleatendimento é um caso exemplar das novas formas de relações no mundo do trabalho atual3. Em termos comparativos. por invadir nossa privacidade. A Associação Brasileira de Telesserviços4 (ABT). em nossas casas. É um trabalho que requer pouca qualificação (oferecida pelo contratante). basta aprender a operar o sistema de informática usado. supervisores que não eram “realmente” líderes. 2002)6. o mundo do trabalho atual é menos propício à construção de um projeto coletivo dos trabalhadores.) e. porém bastante desconhecido. como clientes. dado o conteúdo e a forma dos depoimentos. que até então conhecíamos apenas “o lado de cá da linha”. houve crescimento de postos de trabalho no setor da ordem de 198%. que trabalhe sempre em busca da melhor “performance”. uma das conseqüências do desenvolvimento da tecnologia da informação combinada com o modelo taylorista (Fernandes. Havia ainda registros sobre o estresse no trabalho e outros problemas de saúde dos trabalhadores. 6 Esses autores também recuperam o debate sobre as conseqüências da tecnologia da informação no sentido inverso: o de requerer maior qualificação técnica dos trabalhadores.2 existiam comunidades nas quais operadores e supervisores de teleatendimento e clientes registravam suas opiniões a respeito desse tipo de serviço. por meio de ligações telefônicas e. com menos freqüência. 4 Antes de 2006. que ora defendiam e ora atacavam a qualidade do serviço. entre os anos de 1997 e 2001. quando empresas de diversos segmentos o adotaram como estratégia para se comunicar com os clientes. configurando esse setor como um dos mais importantes geradores de empregos. quando acionávamos esse serviço. do “lado de lá da linha”. Com a expansão da informática.com 3 Para Linhart (2006). Assim. adentramos no universo do teleatendimento motivados pela proposta da disciplina e inquietos com um serviço que é muito difundido. esfumaça a postura crítica. A mão de obra é jovem (entre 18 e 25 anos) e muitos experimentam seu primeiro emprego. Esses indícios nos levaram a buscar mais informações para caracterizar o trabalho no setor. Como é próprio de sítios desse tipo. 2006). cinco ou seis dias por semana. não sem buscar personificar um “culpado” (operadores considerados “incompetentes”.

Hamsen e Lebreton (1984). Quanto à saúde dos operadores. ter que alcançar metas de produção e ser um trabalho concebido para ser realizado por pessoas sem capacidade de discernimento e responsabilidade. O controle é objeto de disputa e. Em sua definição de trabalho penoso. como mostrou Marx (1980). quais as repercussões sentidas e como lidam com tal impossibilidade? 21 . tratava-se de um trabalho penoso. p. sentimento de lassidão. o poder para interferir nas regras e prescrições de trabalho e o respeito ao limite subjetivo.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Esses eram fortes indicadores de que se tratava de um trabalho que suscitava vivências de sofrimento e incômodo e que demandava esforços. Roelens. 2003. insônia. Fadiga. 19-39 quaisquer atividades por meio de sistemas de informação e múltiplas mídias. Não ter controle sobre os contextos de trabalho é o que os torna penosos. vol. Bégoin. em um clássico estudo de 1956. As características desse trabalho também nos levaram a Le Guilliant. pp. Ter o controle nas mãos é o que permite participar da definição do que. os diversos tipos de processos de trabalho na história da sociedade capitalista industrial foram transferindo o controle das mãos dos trabalhadores para as da gerência e do capital. astenia. baseado em Canguilhem. Béquart. com o objetivo de desenvolver ações padronizadas e contínuas de marketing ou favorecer a comunicação com clientes. problemas gastrointestinais. A arquitetura da sociedade disciplinar que pesa sobre os indivíduos com seus mecanismos e com sua estrutura foi buscada em Foucault (1994). o controle do trabalhador sobre o trabalho é central. Dejours (1986) forneceu-nos referência para compreender o que é saúde. que é calcada nas contribuições da fisiologia. da psicossomática e da psicopatologia do trabalho. Para o autor. 11). sentir-se com os “nervos à flor da pele” e humor depressivo são alguns de seus componentes. não sem conflito. A organização do trabalho era desenhada de modo a incentivar a competição entre as trabalhadoras. como. n. Trata-se de usar os sistemas de telefonia. Sato (1993) apresentou-nos elementos para compreender quando um trabalho é penoso (pois suscita sofrimento. Para ter controle. como eles vivenciam essa situação. tínhamos indícios de que suas condições deveriam ser compreendidas à luz de um trabalho repetitivo e monótono. ou seja. a neurose das telefonistas. que descrevem. 1. ter prescritas tarefas repetitivas e monótonas. o que exige que tenham meios materiais para tanto. incômodo e demanda esforços). quando e com quem fazer o trabalho. O objetivo do artigo consistiu em estudar como operadores de teleatendimento vivenciam o trabalho em sua relação com a saúde e norteamo-nos pelas seguintes questões: como o controle gerencial se expressa? O que ele demanda desses trabalhadores? Há possibilidade de os trabalhadores controlarem seus contextos de trabalho? Caso isso não seja possível. três requisitos são necessários: a familiaridade com o trabalho e seu ambiente social. O argumento de Dejours desenvolve-se a partir de uma crítica ao conceito de que saúde é um “estado de bem-estar bio-psico-social e não apenas a ausência de doenças”. informática e dados (Glina & Rocha. 11. sempre dinâmico. irritabilidade. saúde remete à possibilidade de as pessoas traçarem um caminho original em direção ao bem-estar. Sua crítica. público ou agências governamentais. 2008. é a de que o conceito de saúde sustenta-se na noção de variabilidade e não na de estabilidade. que exigia o contato contínuo com os clientes por meio de ligações telefônicas e que objetivava vender uma infinidade de produtos e de receber reclamações.

estudante universitária. de terem nível de escolaridade. para observar os operadores trabalhando e conhecer a estrutura física do ambiente de trabalho. Raquel. Lúcia. na época da entrevista havia pedido demissão para poder estudar. tínhamos um material muito rico e fomos apresentados à diversidade de termos. A partir disso pudemos entender melhor o funcionamento desse serviço. sem headset7 e sem monitoramento. Um segundo passo foi a conversa com uma psicóloga que trabalhava em uma grande empresa. Apesar de termos adotado esse formato aberto de entrevista. tanto a partir dos trabalhadores desse ramo. elementos que suscitaram mais questões sobre essa atividade de trabalho. sem tempo cronometrado. na visita e nas leituras. porém não próximas. ex-estagiária de uma central de atendimento ao consumidor de uma indústria farmacêutica. foi pesquisar no Orkut e na internet em geral como o teleatendimento mostrava-se. e optamos por realizar entrevistas de modo que os operadores pudessem falar sem script. que foram lembrados e lidos durante a análise dos dados. de os entrevistados serem de ambos os sexos. O pedido inicial para os entrevistados foi que falassem da sua experiência como operadores de teleatendimento e as perguntas subseqüentes foram guiadas pelo conteúdo do depoimento do entrevistado. funções. em todas as entrevistas o tema saúde foi trazido espontaneamente. 7 Fones de ouvido e microfone acoplados ao computador. A visita a uma central de teleatendimento foi de extrema importância para propiciar a vivência dos pesquisadores em um ambiente bastante peculiar. buscamos diversas formas de aproximação. As entrevistas foram concedidas por quatro pessoas. em diferentes funções e hoje é comerciário. de pertencerem a estratos sociais distintos. como já foi dito. Após essa etapa. sentíamos falta de conhecer o ponto de vista de trabalhadores e extrabalhadores de teleatendimento.Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento Aproximação e investigação Para responder a essas questões e pensar mais sobre o trabalho em teleatendimento. 22 . idade e se referirem a locais de trabalho distintos. 30 anos. como dos clientes e usuários desse tipo de serviço. A pesquisa então caminhou no sentido de compreender o que apareceu de comum nas entrevistas. tem um papel muito importante na modelagem e no controle dos trabalhadores em questão. Carlos. que trabalhou em teleatendimento por sete anos na mesma empresa. Com esse levantamento em mãos. que mantém contato com os clientes por meio do teleatendimento. possibilitando-nos construir sobre o trabalho de teleatendimento uma visão de trabalho penoso e gerador de sofrimento. administradora de empresas que trabalhou no início da carreira numa central de atendimento a clientes de um banco. que sempre trabalhou em teleatendimento. críticas e elogios aos serviços de teleatendimento. 24 anos. Pâmela. com diferenças na intensidade da emoção que carregavam e nos muitos pontos comuns descritos. tendo como embasamento teórico os autores citados na introdução. A primeira. que como será discutido mais adiante. conhecidas dos entrevistadores. 24 anos.

Expectativas diferentes mobilizaram modos diferentes de interpretar a experiência de trabalho no teleatendimento. independentemente do tom dado à vivência no teleatendimento. essa era a oportunidade para trabalhar numa grande empresa bancária. trata-se de uma ex-telefonista que “acabou entrando” no setor de teleatendimento. matizando o tom de suas vivências. No outro. No caso de Pâmela. Nas falas daqueles em que esse trabalho fazia algum sentido na trajetória profissional. Isso porque o teleatendimento estabelece a comunicação direta da empresa com o cliente. Em ambos os casos. 11. trabalhar no setor de telemarketing de uma importante indústria farmacêutica era a oportunidade para realizar estágio em sua área de especialização. da visita e dos depoimentos no site de relacionamentos Orkut. Isso pôde ser observado tanto nos temas espontaneamente verbalizados. Construindo o contexto de trabalho Através das entrevistas. trabalhar em teleatendimento fez parte de uma estratégia em termos de construção de uma carreira profissional numa empresa ou em uma profissão: o sentido desse trabalho na trajetória profissional é o de meio e não de fim. mas esses trabalhadores foram absorvidos pela oferta de emprego no mercado formal de trabalho. a entrada no setor foi a possibilidade de garantir emprego. Para Lúcia. pp. para alguns entrevistados o setor de teleatendimento funcionou como porta de entrada para uma área de trabalho que fazia sentido em sua trajetória profissional naquele momento. Raquel define o papel que o teleatendimento desempenha nas empresas: “a gente é porta de entrada”. aproximando-se de um tom de revolta. 19-39 Ponto de partida: distintas possibilidades de vivenciar o trabalho Depreendemos que a expectativa em relação ao trabalho no setor de teleatendimento variou de acordo com o projeto de trabalho na vida de cada entrevistado no momento de seu ingresso nessa atividade. Assim. Certo é que todos. estudante de farmácia. Esses fatos levam a concluir que o sentido do trabalho na vida dos entrevistados permitiu que encarassem diferentemente a experiência. n. um serviço de atendimento ao consumidor/cliente (SAC). 23 . Apesar de ela restringir a definição à área em que trabalha.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. desejo da então recém-ingressante em uma faculdade de administração e que anteriormente havia trabalhado em uma loja. Tonalidade próxima é também observada para aquele em que o trabalho no teleatendimento faz parte do passado e que agora trabalha em outro ramo (comércio). entretanto. tendo em vista o grande número de vagas oferecidas pelo setor. embora também tenha sido possível apreender uma lógica comum a eles. vol. não tendo configurado-se por uma intenção estratégica desenhada por eles. 1. trata-se do segundo emprego de um ex-office-boy. como na carga emocional emprestada aos depoimentos. Através de uma simples frase. relataram uma rotina pesada e estressante e que nunca sonharam em “ficar no mundo do telemarketing. Em todos os casos. o modo de lidar com as várias situações do contexto e com a rotina pesada e estressante (entre outros problemas) aparecia de uma maneira mais branda. o de Carlos. Para outros dois entrevistados. observamos o quão diverso é o campo de trabalho do teleatendimento. a crítica ao teleatendimento apareceu de modo mais contundente e explícito. é possível conceber que o papel do teleatendimento em geral é esse mesmo definido por Raquel. No caso de Lúcia. trabalhar no setor de teleatendimento não foi fruto de uma escolha. 2008. que por hora não vislumbra outra atividade de trabalho. pelo amor de Deus!”. Para Raquel. Assim.

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a pessoa do operador é o canal pelo qual se dá essa comunicação. Para o cliente, ele é a voz da empresa; é o operador, através dos recursos que tem, que encarna o discurso que a instituição quer transmitir. Da perspectiva do jovem operador, ele se configura em um porta-voz da empresa, forjado pela organização disciplinar. Que tipo de exigências a instituição faz ao operador para que seja um bom porta-voz? Como é a formação desse porta-voz e quais são os tipos de mecanismos de fiscalização para que esse porta-voz da empresa, “nunca se cale” e transmita a mensagem requerida e da maneira correta?

A arquitetura do espaço
Na visita aos diferentes setores de teleatendimento de uma grande empresa, uma primeira característica saltava aos olhos: a forma como o espaço era organizado. Os salões onde se encontravam os trabalhadores era esquadrinhados por um grande número de divisórias. Os operadores eram agrupados em células onde eram separados por divisórias individuais, as baias, conforme ilustrado pela figura abaixo.

Cada célula é composta por um número fixo de operadores e por um supervisor. O número de trabalhadores por célula depende da empresa e do setor de serviço de atendimento. No entanto, algo comum, relatado pelos entrevistados, era o fato de os operadores não poderem mudar de célula. Carlos explica o motivo:
Então, na frente de cada célula tinha uma mesa da supervisão, então, por conseqüência você é obrigado a sentar só naquela célula, o computador, a baia, você escolhe, mas basicamente você ficava sempre no mesmo lugar. Só quando a supervisão mudava ou você mudava de supervisão, mas basicamente era o mesmo lugar.

Portanto cada célula tem o seu supervisor que tem sob seus cuidados sempre os mesmos atendentes. A baia é composta por um computador, uma cadeira, um headset (que dependendo da empresa ficava em posse do trabalhador) e, eventualmente, um bloco de notas. Uma das

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entrevistadas descreve como se sentia dentro da baia: “é muito preso. É uma tela, um headset e um fone. Só. Você não vê nada diferente, é só aquilo e acabou” (Pâmela). Outro entrevistado também fala de sua impressão em relação à baia: “...ela é bem individual mesmo, tem empresa que você não consegue nem olhar para o colega do lado, de tão estreita e tão fechada que ela é. Aí você fica ali, é você, o computador e só” (Carlos). Assim, o atendente fica limitado e isolado em uma pequena área, sem possibilidades de contato com os colegas do lado e da frente; as divisórias da baia limitam a movimentação e no seu campo de visão encontra-se apenas o computador ao qual ele está ligado pelo headset. O espaço é esquadrinhado respeitando a lógica de: “cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar um indivíduo” (Foucault, 1994, p. 131). O trabalhador torna-se localizável, visível aos agentes de vigilância que têm como “saber onde e quando encontrar os indivíduos, instaurar as comunicações úteis, interromper as outras, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades ou os méritos” (Foucault, 1994, p. 131). A baia, portanto, é um espaço com o propósito de manter o operador concentrado, constantemente, no trabalho. Com todos os principais sentidos ocupados pela tela do computador, pelo headset e pelo teclado, o operador, assim como disse uma das entrevistadas, fica “preso”, enjaulado. Ao longo do tempo o corpo disciplina-se e realiza suas tarefas quase que de forma automática. Portanto, a estruturação do espaço físico permite apenas um tipo de comunicação, a com o cliente – e essa comunicação também tem suas restrições. Com isso, a manutenção do papel de porta-voz da empresa já é garantida pela conformação do espaço físico.

O script e a supressão do sujeito
Os entrevistados mostraram as exigências que lhes são feitas pela empresa para que ocupem de forma satisfatória a posição de porta-voz. Para sintetizar parte dessas exigências, valemo-nos da fala de Pâmela: “... você tinha que ser educado, cordial, do jeito que eles queriam, mas você tinha que ser pontual...”. Para que essas demandas da empresa sejam atendidas “tinha que seguir basicamente o script e tinha todas aquelas normas de tratamento, de postura, do lado de cá do telefone” (Carlos). Aqui aparece um outro instrumento disciplinar: o script. O script é um texto-base, fornecido pela empresa, que o operador toma como guia para orientá-lo em todos os atendimentos. O script pode ser usado no decorrer dos atendimentos como um texto a ser lido pelo operador, nesse caso, o script é utilizado de forma explícita. Há também outra modalidade, denominada de “script livre”, na qual o operador não precisaria repetir ao cliente os dizeres de um texto-padrão, mas segue determinados pontos pré-estabelecidos dentro de algumas regras de comportamento impostas pela empresa. O emprego de script também depende do tipo de serviço que o setor presta. Por exemplo, nos setores que demandam dos operadores atuação no sentido de persuadir os clientes, não se utiliza compulsoriamente o script. Esse é o caso quando se pretende convencer o cliente a não cancelar a compra de um serviço, visando reter a clientela (setor de retenção), ou quando se busca ampliar a clientela da empresa, como é o caso do setor de vendas ativo. Em serviços de atendimento ao consumidor (os SACs) pode-se utilizar compulsoriamente o script. Apesar das variações, o script “é mais para padronizar a resposta de todo mundo [operadores]” (Raquel). No caso do script livre, é possível supor que não há um controle disciplinar (que esquadrinharia cada movimento, cada palavra, cada tipo de resposta), mas sim um controle

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que visa a modulação. Molda-se o comportamento dos operadores dentro de determinados limites, como se tomássemos os comportamentos esperados dentro de uma curva normal, em que os desvios são aceitos dentro de certos limites, um desvio padrão. O controle sobre a fala do operador sempre existe, quer seja o script explícito ou não. No caso do script livre o controle é internalizado. O discurso, além de ser reproduzido de forma repetitiva pelo operador – o que permite que seja transmitido de forma automática –, é-lhe constantemente apresentado e atualizado por meio de treinamentos e palestras. Com isso, o controle sobre o trabalhador por meio do script é internalizado, parecendo não lhe ter sido imposto. O controle sobre a fala do operador dá-se pelo conteúdo (o quê se fala) e pela forma (como se fala). Porém, a exigência não pára aí. O operador, como relata um dos entrevistados, tem que “ler o script sem parecer que está lendo”. Além disso, ele “tem que mostrar naturalidade e falar de uma forma padronizada, mas não um robô”. Essa tarefa que parece paradoxal é uma das essências do trabalho do teleatendimento. O trabalhador vê-se frente ao trabalho de transformar o padronizado em singular. No entanto, nessa tarefa a singularidade do operador – e, parece-nos, a do cliente também – é esquadrinhada e disciplinada pela tarefa maçante de reprodução de um texto, de um discurso imposto pela empresa. Essa tarefa paradoxal não se restringe ao conteúdo do discurso, mas ao comportamento que os operadores devem exibir ao se relacionarem com os clientes. O operador deve ser cordial. A cordialidade não se desenvolve de forma natural, mas é imposta pela empresa. Nesse contexto, o afeto do operador é moldado dentro de um padrão que torna o discurso e a forma de se expressar instrumentos de trabalho. Essa obrigação é cumprida, mas não sem sacrifícios. Independentemente do estado físico e emocional do operador, durante a ligação telefônica ele deve se comportar orientado pelo padrão de regras pré-estabelecido pela empresa com vistas a ser cordial e educado com o cliente. O operador pode estar “com taquicardia, estar tremendo, e nem é tremendo de frio, é tremendo de raiva” (Raquel), mas a regra tem que ser mantida, sob pena de sofrer punições. Do outro lado da linha, o cliente, ao menos teoricamente, tem a liberdade de se expressar conforme seus sentimentos e age sem seguir padrões. Com isso, o operador situa-se entre dois pólos distintos que determinam sua forma de agir: de um lado, vê-se pressionado a seguir os padrões prescritos e, de outro, deve responder à diversidade das interpelações dos clientes. O operador, com seu “jogo de cintura” e com sua “maleabilidade”, deve contornar a situação e transformar o padronizado em singular. Deve transformar a presença da regra em algo imperceptível aos olhos do cliente; deve transformar o robô em ser humano, negando a sua própria humanidade, pois ao fazê-lo ele submete seus sentimentos à padronização fria e funcional. O script e as regras de comportamento visam, então, garantir que a mensagem transmitida pelo operador seja aquela que a empresa quer transmitir. São técnicas adotadas com vistas a tornar a relação com o cliente o mais eficiente possível. O script e as regras visam garantir, o máximo possível, que a conversa seja funcional, que seja mais eficiente e eficaz, contemplando, dessa maneira, tanto a demanda do cliente quanto a da empresa. Um outro aspecto também influi no atendimento: o tempo.

O tempo do capital
Segundo a lógica da empresa, ela deve estar sempre disponível para atender a demanda do cliente, portanto, seu porta-voz (o setor de teleatendimento) deve garantir que os operadores estejam sempre de prontidão para entrar em ação sempre que houver um

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no caso de algum imprevisto obrigar o operador a ultrapassar o tempo de intervalo estipulado. como o tempo despendido – sempre registrado e controlado. daí eu tinha uma planilhinha e justificava manualmente” (Pâmela). 11. você troca uma idéinha” (Lúcia). que também era rigoroso”. que mantém o operador sempre conectado. 1. Em geral existe o tempo de ligação médio (TMA) e. o operador. Enquanto o atendente permanece “logado” (conectado ao sistema) ele está apto a receber as ligações. sempre na posição de porta-voz. num intervalo entre uma coisa e outra. mas que com o tempo e a necessidade ele “sente a diferença de dois segundos” (Pâmela). a maioria dos sistemas de empresas grandes é automático”. Durante uma jornada de trabalho de seis horas e com o direito a quinze minutos de almoço. As empresas estipulam metas de atendimentos. Esse controle rigoroso do tempo apareceu com muita ênfase nas entrevistas e. como uma empresa de uma sociedade 27 . 'loga' no sistema e a partir daí recebe a primeira ligação. basicamente estão passando pelas mesmas coisas. ele deveria submeter-se a procedimentos de controle: “Se eu tivesse algum problema poderia justificar. Assim. Quando a fila se forma. Com isso. Esse intervalo. Ele tem que se adaptar da melhor forma possível ao ritmo que lhe é imposto. tinha que ser rigorosamente quinze minutos e tinha dez minutos de banheiro.. O operador vive constantemente essa exigência paradoxal. O controle do intervalo das ligações não é feito pelo operador. 2008. no final do dia. a única possibilidade de se relacionar com colegas é “de repente. a estrutura espacial (organização e distribuição das pessoas no local de trabalho) e o posto de trabalho em si. por exemplo. mas ai tem que ver se há ou não a possibilidade de se conversar sobre o que se passa.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. tinha que justificar porque você estava fazendo mais que dez minutos. a média de tempo de atendimento de cada trabalhador deve se aproximar do TMA. na empresa em que um dos entrevistados trabalhou a média de atendimentos diários era entre oitenta e cem ligações. o tempo considerado não produtivo torna-se um fator que deve ser controlado e medido a qualquer custo pela empresa. Dessa forma configura-se outra exigência. vol. “não tem muita intimidade” (Lúcia). n. Normalmente não tem tempo” (Lúcia). sendo que o operador “não tem amizade mesmo com quase ninguém” (Carlos). manter a cordialidade e submeter-se à objetividade do ritmo de produção. É automática. não respeita o tempo subjetivo do operador para preparar-se para o próximo atendimento. Um parâmetro da empresa para aumentar o ritmo dos operadores é a fila de espera (clientes em espera para serem atendidos). devendo responder a demandas opostas em um só ato: respeitar a singularidade do cliente. E vai atendendo” (Carlos). o ritmo das ligações não é cadenciado pelo trabalhador. O período em que o operador não se encontra “logado” é rigorosamente cronometrado. apesar de que “normalmente os operadores são bem unidos. sempre de prontidão.. então eu tinha quinze minutos de almoço. além da cordialidade e da pontualidade: o estado de prontidão. 19-39 cliente a ser atendido. Pâmela descreve assim essa situação: “cada pausa que eu ia fazer eu tinha que digitar o que eu ia fazer. Como conseqüência. “as ligações vão chegando. a pressão por parte da empresa aumenta e o operador vê-se em uma encruzilhada. O controle sobre o trabalhador faz-se a partir de uma arquitetura que combina controle do tempo e do ritmo de trabalho. mas sim por um sistema. pois a avaliação de seu desempenho leva em conta tanto a qualidade do atendimento. imposto de forma objetiva e padronizada. o sistema automaticamente encaminha outra ligação para ser atendida e o tempo “de uma ligação para outra eram dois segundos de diferença” (Pâmela). pois. pp. altera sua percepção de um tempo “que aparentemente não é perceptível” (Pâmela). Assim como em uma linha de montagem. talvez como uma forma de manter um mínimo de controle sobre o seu trabalho. Determinado o turno de trabalho o operador “chega no seu horário. Ao desligar o telefone. Dessa forma as relações interpessoais no trabalho ficam prejudicadas. que varia de empresa para empresa. que foi qualificada por um entrevistado como “tenebrosa”.

. negociado.. por que você treme. Os treinamentos podem ser teóricos (como. fazendo simulações. o período ideal de treinamento seria de três meses. esse período variou de dez dias a três meses. todo o tempo deve ser voltado para a produção. pois. Já no período de treinamento. caso contrário é punido e banido. O treinamento: adquirindo comportamentos O futuro operador de teleatendimento deve aprender essa rotina. Os autores apontam que os prazos de treinamento e qualificação são demasiado curtos e. A experiência dos entrevistados coincide com o que Vilela e Assunção (2004) identificaram em pesquisa com empresas de teleatendimento no estado de Minas Gerais. Segundo uma das entrevistadas. estudar procedimentos. É mais maçante. os comportamentos cordiais. Há diferenças em termos de capacitação. p. familiarizar-se com as siglas empregadas) e práticos (como fazer simulações). não sabe o que responder” (Raquel). que não cessa. Para tanto. “dependendo da empresa você tem mais informação. “todo o tempo deve ser consumido. mas é assim: você fica tremendo. “aí fica mais difícil. Nesse sentido. o operador experiencia a vigilância sistemática sobre si mesmo. você fica cheio de dúvidas. Essa vigilância – que ocorre por meio do trabalho de “monitoria” – tem 28 . a princípio. somado a outros fatores. dependendo da empresa você não tem informação nenhuma. fazer operações bancárias ou dirimir dúvidas com relação a medicamentos. ou seja. por isso. 298).. Há atividades em que informações técnicas especializadas são necessárias. Os primeiros atendimentos podem ser feitos com o auxílio de um colega.. como ouvinte. seria um espaço de preparação. é uma ofensa que a força de trabalho meramente passe o tempo” (Thompson. Comum a todos é a primeira experiência de acompanhar.o primeiro atendimento foi 'power' porque estava precisando de gente e como tava precisando eu tinha que aprender tudo muito rápido. Mas esse tipo de situação não é uniforme. em caso contrário. 2006).. Por meio desse relato é possível perceber a importância de um período de preparação. eles relatam que foram obrigados a atender antes de terminar o período de treinamento devido ao excesso de clientes. os treinamentos não têm como propósito propiciar formação e desenvolvimento profissional. Uma das entrevistadas relata como foi essa experiência: “. Também relatam formas variadas de tomar contato com o trabalho de operador de teleatendimento. Apesar de tudo. por exemplo. por exemplo. Assim o “tempo do assalariado pertence ao empregador. tempo em que aprenderia como um “carrapato” (ou “carona”). Assim. o treinamento (que pode ser feito em serviço) é o período em que o operador é introduzido à lógica dessa rotina. apenas um dos entrevistados obteve um treinamento dentro desse tempo ideal e valendo-se desses recursos. Carlos – que obteve treinamento. Na experiência dos entrevistados... O primeiro atendimento é péssimo. onde que estão as respostas e sempre no primeiro atendimento sempre fica uma pessoa que já tem experiência para te auxiliar. como. utilizado. No entanto. mais próximo ao ideal (por um período adequado e com os recursos devidos) – define-o como uma “lavagem cerebral” na qual se deve que decorar um número muito grande de siglas e de procedimentos.” (Lúcia). Na realidade. qualquer comportamento que não seja produtivo deve ser justificado. você aprende escutando” (Lúcia). pontuais e sempre a tempo para ser o porta-voz da empresa. o atendimento de um operador mais experiente.. levam a um aprendizado voltado para garantir eficiência e produtividade apenas. dá sono. tomando contato com os procedimentos. não sabe o que responder. 1998. portanto.Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento capitalista. que o comprou e pode usá-lo da maneira mais rentável segundo seu ponto de vista” (Linhart.

19-39 por finalidade promover o contínuo ajustamento. por um gerente ou pelo próprio supervisor. através da gravação das ligações e é realizada. Além da observação direta. que é a monitoria. 1994. o supervisor vale-se de outro recurso que aparece como constante em todas as entrevistas. Além desse tipo de avaliação há um outro: “logo que a ligação [de um atendimento termina]. sancionados”. um feedback” (Lúcia). 1. mas em intervalos mais esparsos – de quinze em quinze dias ou de mês em mês. a monitoria poderia ser equiparável ao exame descrito por Foucault (1994). Os entrevistados relatam que. Sua função é a de fiscalizar o trabalho do operador.. pois combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza. uma vigilância que permite qualificar. É um controle normalizante. já que tem consciência de que pode ser vigiado a qualquer momento. fora dos atendimentos. num lugar mais alto e tinha a visão de todos os atendentes (Pâmela).. Justamente o não saber mantém o operador em estado de alerta e preocupado em manter os padrões de qualidade e de produtividade impostos pela empresa. com bastante freqüência. ele liga para você. De forma silenciosa a monitoria avalia o trabalho do operador que não sabe que está sendo monitorado. ele ficava na ponta da célula. Os entrevistados também reconhecem no supervisor o papel de salva-guarda. “Eles fazem a monitoração ali ao vivo. como um cliente. também se compara ao exame. quando “inverte a economia da visibilidade no exercício do poder”.). Esse monitoramento não é realizado periodicamente. Essa descrição remete-nos à imagem do supervisor de fábrica no início da era industrial. Essa monitoria também pode ser feita em outro momento. tudo é sempre escutado.. p. de alguém que pode ajudar os operadores. Isso normalmente acontece “quando o supervisor via que [algum operador] estava há muito tempo em uma ligação” (Carlos) ou quando percebia que algum problema estava acontecendo. dependendo da empresa. tudo é sempre analisado” (Lúcia). você não sabe que eles estão te monitorando” (Carlos). 164). 29 . Além disso. padrão. 11. para te dar uma resposta. Ela consiste na escuta de um ou mais atendimentos dos operadores. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados. aí ele te passa alguma informação. “Tudo é sempre revisto. Assim. o supervisor é o superior imediato dos operadores. ela é realizada sem o conhecimento da pessoa que está sendo avaliada. 2008. (Foucault. pp. No entanto. A hierarquia Em termos hierárquicos. principalmente quando o intuito da monitoria é o de avaliar o desempenho do operador. variando de empresa para empresa. Como um vigilante no alto da sua torre ele observa cada passo de seus supervisionados: Cada célula tinha um supervisor. o tempo de atendimento (..Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. então qualquer problema que eu tinha durante o atendimento eu me reportava à supervisão e ela ficava controlando as ligações. n. vol. e você tem que ter toda a postura. pelos supervisores. classificar e punir. o supervisor tem a possibilidade de a qualquer momento escutar as ligações feitas pelos operadores.

“serviço pauleira”. os pontos fortes e fracos de cada pessoa em termos de produtividade e eficiência. dificuldade de construir uma carreira profissional. Definir o trabalho no teleatendimento é fazê-lo incluindo essa dimensão do sofrimento e da penosidade. Ligações sem intervalo. através de planilhas e gráficos. Com isso. trabalho que “pira”. No entanto. impossibilidade de ir ao banheiro. Essa avaliação pode ser através de “grandes reuniões com todo mundo. esses comportamentos podem ser formas de resistência a um trabalho que pode vir a ser prejudicial à saúde. São diversos mecanismos e instrumentos que visam disciplinar o comportamento do operador: a monitoria. o feedback. dava um feedback completo de como você de comportava do lado de cá da linha” (Carlos). Trabalho penoso “diz respeito aos contextos de trabalho geradores de incômodo. quando se apontam os erros e os pontos positivos. a monitoria torna-se um agente disciplinador poderoso. A partir dos dados coletados pela monitoria e daqueles de outras fontes é feita a avaliação de desempenho do operador e com base nela é dado um feedback. as avaliações de desempenho em grupo e individual. “estresse total”. sobre os quais o trabalhador não tem controle” (Sato.. a atuação do supervisor. 1993. as metas estipuladas. impossibilidade de interferir nas condições de trabalho.Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento Com isso. script. faz com que o operador reconheça aqueles comportamentos considerados não produtivos como algo a ser descartado. a rotatividade. esforço e sofrimento físico e mental. As entrevistas deixaram isso claro quando o tema é tratado sem que seja sugerido ou perguntado. Essa conversa consiste em uma análise de como estão sendo feitos os atendimentos. “loucura”. Assim. como você falava no telefone. dentre outros. a política de recursos humanos. 197). p. Além disso. ao colocar em evidência o atendente. e é a partir daí que você tem uma idéia de como você trabalha” (Raquel). rotina. a baia. entre outros. aos poucos. o controle gerencial. você conversa com o seu chefe. são aspectos que configuram um contexto de trabalho que se relaciona com o sofrimento desses trabalhadores e. “agüentar”. conseqüentemente. tal qual descrito acima. Com isso. Termos como. arquitetura. pois. então. O feedback pode ser uma conversa onde “te passavam uma espécie de gráfico de como você atendia. monitoria. deixa pouco espaço para que os trabalhadores controlem o contexto de trabalho de 30 .. de como você era educado. “guerra de nervos”. esses recursos de avaliações e gratificações tornam-se um meio eficiente de a empresa ter o conhecimento sobre o operador e ao mesmo tempo padronizar os procedimentos. a empresa. as punições salariais e verbais. além do treinamento. são reveladores da vivência desses trabalhadores. a lógica disciplinar. de prêmios ou de punições que podem ser desde advertências verbais. é a partir dessa avaliação que pode surgir a oportunidade para o recebimento de bonificações nos salários. sentido como demasiados. faz com que ele mantenha a produção e “sem isso o supervisor não consegue saber quem produz e quem não produz” (Carlos). má posição corporal durante o trabalho. apontando de maneira objetiva. A vivência e suas repercussões na saúde do trabalhador Diante dessa dimensão de controle. com a atribuição de penosidade a esse trabalho. pudemos constatar que esse trabalho gera sofrimento. até descontos nos adicionais de salário... onde eles falam de todo mundo” ou pode ser de forma pessoal sendo que “cada um tem a sua avaliação pessoal de estágio. é um trabalho penoso. o recurso a dados sistematizados em gráficos e tabelas.

. além do sentimento de não cumprir com sua função diante do cliente. 11.. cadeira. pontual e estar sempre de prontidão. Quinze minutos [de intervalo]. você senta numa cadeira onde você fica o tempo todo em cima do seu estômago. e só. mantido no trabalho pelo fato de os operadores não terem controle sobre o trabalho. eu desligava também e já entrava outra ligação. 19-39 modo a respeitar seus limites subjetivos. problema na coluna. provavelmente seria descontado.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Ainda que na perspectiva dos entrevistados seja o contexto geral de trabalho que se relaciona com os problemas de saúde. O fato de não poderem exercer nenhuma mudança no trabalho. leva os operadores a estabelecerem uma relação paradoxal com o cliente. de estarem impossibilitados de realizar qualquer tipo de mudança. reclamações do cliente. tenho umas vértebras fora do lugar. não estão preocupados com isso.. Há um tempo que não é um “tempo de si”... mas o da produtividade. eles não estão muito importados com isso.. que não é atendido em suas necessidades. Assim.. antes desse quinze minutos. 10).. Um aspecto que se destaca nesse ritmo é o estresse. estressa. era descontado do seu salário (Lúcia). e por último. geradora de estresse e sofrimento: de um lado. A fala de Lúcia expressa o fato de os sofrimentos físico e mental estarem simultaneamente presentes. relações interpessoais no trabalho etc. Diante desse controle gerencial sobre o tempo. ou seja. a percepção dos ínfimos intervalos entre ligações torna-se aguçada: “o tempo lá é muito cronometrado. 2008. você tinha que parar e pedir permissão. do atender o maior número de ligações possíveis. equipamentos etc. você fala mal. pois o poder da função de operador de teleatendimento é praticamente nulo. teoricamente. uma vez que “você está o tempo todo correndo atrás de uma merda que você sabe que nunca vai chegar.. “Tem consumidor que não entende (. dois segundos já entrava outra tela” (Pâmela). tanto devido a condições materiais (arquitetura... leva ao cansaço. O “tempo de si” fica restrito a: Quinze minutos. mas lá era (. com razão. Assim.). não entende e te trata mal. ritmo. Como as telefonistas de Le Guillant et al. né? Que aparentemente não é perceptível. de ser cordial... 1991). reforça o sentimento de “loucura”. Assim. você nunca vai chegar naquela perfeição [metas estabelecidas pela gerência]”. 31 . “não tomar nenhuma iniciativa. eu nunca tinha tido dor de ouvido e esse ano que passou eu peguei uma infecção. tem tendinite.). (1984). mas este vê-se impossibilitado de atender o primeiro justamente por seguir as prescrições da empresa. não acrescentar nada delas mesmas ao trabalho” (p. Se fosse antes. é a dimensão do controle gerencial sobre o tempo e sobre o comportamento que se destaca em suas falas. pp. o cliente espera ter suas necessidades atendidas e. não poder organizar elas mesmas o seu trabalho.. n. postura. Se fosse depois. Lúcia expressa sua vivência nesse contexto: você respira muito. ao desgaste físico e psíquico e à sensação de inutilidade. você não tem tempo de comer. você sente a diferença de dois segundos.) quando ele [cliente] desliga. E parece ser o aguçamento da percepção o que permite um grau mínimo de previsibilidade e de preparação para atender aos clientes. 1.. como se você 8 Protetores para os fones de ouvido (headset) usados coletivamente. Durante esses quinze minutos eu podia comer. a função do atendente seria essa.. provavelmente não. ir ao banheiro.). porque nessa empresa eles não tinham um protetor auricular8 que tem que ter e eles não tinham (Lúcia). de “estresse total” vivido no trabalho. isso eu descobri esse ano. vol. o controle gerencial sobre o tempo e sobre o comportamento. o limite subjetivo (Sato. o atendente ouve. posição. como à organização do trabalho (conteúdo da tarefa. tal.

.. Mas. você não é uma pessoa. cada operador faz cento e quarenta ligações num período de seis horas10. sobretudo. é proibido. tudo que é humano não deve aparecer no trabalho. ser o porta-voz da empresa e estar numa baia faz parte do contexto de “robôs”. seguir um script. Raquel revela que esse tipo de relação fortalece o grupo de operadores no sentido de auxiliarem-se mutuamente na realização das tarefas de trabalho. como relatou Lúcia: “a gente negociava”.. As relações interpessoais são coisificadas. 9 Aqui a entrevistada refere-se à alta rotatividade de trabalhadores. é atribuído pela empresa: “eu tinha um codinome. com o tempo.” (Lúcia). fazendo críticas e modificações no trabalho. Tudo isso é sentido como algo que prejudica a produtividade e que é impossível pela rotina diária – quando.. pois eles podem usar sua voz. mesmo diante dessa possibilidade de imprimir um caráter mais humano ao trabalho. Dessa forma. Porém. ter necessidade de ir ao banheiro. necessidades e vivências semelhantes. lidam com os imprevistos e com o desconhecimento no trabalho. de conversar com os colegas ou fazer amigos é bastante difícil em um ambiente em que são alocadas centenas de pessoas. não tem problema. 32 . em média. experiências e.. inclusive. citação de uma entrevistada. a constituição de um coletivo de trabalhadores de modo a identificar interesses. Operador: um número de prontidão A arquitetura disciplinar constrói o contexto no qual os entrevistados sentem-se como “robôs” que devem demonstrar “naturalidade”. mesmo estando em um ambiente extremamente controlado e artificial. mas depois. 10 Média para um grande SAC.. a ligação. você começa a se sentir mal assim. ouvindo-os em suas necessidades (mesmo que com a clara intenção de resolver seus problemas) é vivido como motivo claro de punição. uma equipe. Uma das entrevistadas informa que o nome fictício. então. Nesse sentido.. no começo era Ana Daiane (. sentir seu tempo.) eles escolheram.” (Raquel). de tomar água. o estabelecimento de laços sociais não se firma e. porque é muito preso” (Pâmela). mesmo estando num ambiente de condições tão artificiais. Por isso. muito menos. As necessidades mais básicas são experimentadas como desajustes. inclusive. Isso é vivido como sofrimento pelos operadores diante da “desorganização” da empresa. que compartilha informações... Assim. aí eles escolheram” (Pâmela). ter um nome fictício. e como tem essa troca9 muito forte de pessoas.Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento tivesse passando uma informação e a culpa fosse sua e isso tá acontecendo porque a culpa é sua. não sei explicar. os operadores passam a ser “um número. Raquel demonstra que se sentem fortalecidos individualmente quando se sentem participantes de um coletivo e podem. Dessa forma. sem regras e tempos rígidos.. A princípio. você olha aquela tela. que devem demonstrar “naturalidade”. e daí a sensação de desumanização. reivindicar mudanças. Falar livremente com os clientes. era Alícia. sentiam menos o peso do trabalho e do isolamento. de os operadores se sentirem mais “donos” do que fazem. como cresceu muito. eles [gerência] falam para você que você é só mais um. vemos que o tom da entrevista muda e sentem a necessidade de resgatar a humanidade perdida. suas necessidades. eu que escolhi. quando há a possibilidade de relacionarem-se. constituindo-se assim. Mais que isso. “parece que vai dando uma coisa. mas é uma sensação ruim.

as mãos o tempo todo trabalhando. E eu decidi parar... cada supervisor é responsável por cerca de vinte operadores e um gerente é responsável por quatro células. 2008. 11 Em média. sua visão o tempo todo. à impossibilidade de mudança no trabalho. em geral. tá usando no telefone. Ou é estresse ou depressão! (Lúcia). de imprimirem um tom personalizado ao trabalho. o negócio no seu ouvido o tempo todo. Afinal. fiquei alguns meses. “bater metas”. de controlarem e modificarem seu trabalho. Quando a gerência acena com essa possibilidade. de mudar de função dentro do setor. Porém. problemas gástricos. é uma vivência compatível com o fato de os operadores verem seu espaço de atuação restrito aos limites da baia. ajudar em treinamentos etc. mas as prolonga para a experiência psicológica. psíquico e físico permanente. eu não agüentava mais!” (Carlos). Um dos entrevistados mostra claramente que percebe tratar-se de uma estratégia de sedução da empresa.. vol. poucos dias. problemas respiratórios. não é preciso muito. hipertensão são algumas das patologias ou sintomas referidos pelos entrevistados como decorrentes do trabalho.) pô. eles ficam o dia inteiro com os cinco sentidos ligados. as exigências aumentam: fazer horas extras. como relatou a entrevistada Pâmela. você está digitando números de telefone ou teclando (. mas fiquei. da gerência e das metas e à impossibilidade de responder às necessidades dos clientes. Os entrevistados sentem-se cercados pela dificuldade. uns 15 dias mais ou menos. Problemas de saúde reveladores da amplitude do envolvimento físico e mental exigido dos operadores no trabalho. comecei a tomar remédio. são centenas de atendentes e apenas poucos supervisores e um gerente 11. 19-39 O cerco: vivendo na baia Mesmo que o tom dos depoimentos dos entrevistados seja bastante matizado no que se refere a sofrimento. no computador. problemas na coluna. quase impossibilidade. a baia não restringe suas repercussões ao corpo.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. não tem como não ficar estressado. Um dos entrevistados refere ter sido afastado do trabalho por motivo de saúde: “Eu tive crise de estresse. Sentir-se preso. eu tive hipertensão. n. Com os “cinco sentidos ligados” e entrando em curto-circuito Para de uma situação “momentânea” de estresse passar ao sofrimento. 33 . rouquidão. 1. Tudo que descrevemos acima facilita e desencadeia o surgimento de sofrimento e incômodo. sabem os operadores que não há lugar para todos no nível superior da hierarquia. Tendinite. estresse. de função e mesmo de atividade. infecção urinária. 11. esforço e incômodo no trabalho. depressão. pp. pois. Os operadores vêem-se cercados pelas impossibilidades de mudança e de serem eles mesmos. todos mostram que a baia que isola cada posto de trabalho tem repercussões para a vivência de estar-se em um cerco. O termo “estresse” é empregado pelos entrevistados para identificar o sofrimento ligado à pressão da rotina.. enquanto o termo “depressão” é empregado para qualificar a vivência relativa à falta de perspectiva. inflamação no ouvido. o que intensifica o sofrimento vivido. Fisicamente arquitetada. Fiquei afastado.

possibilidade aberta apenas em pouquíssimos contextos.. mas para a busca de novidades. os entrevistados apontam que não é possível. além de proibida.. já que depois de um período curto de tempo. A penosidade faz-se presente em todas as dimensões da vida do operador. tem dor de cabeça e tudo. tem gente que chora até. Ações adaptativas: o trabalhador em busca de algum nível de controle Para que possam sobreviver à falta de controle sobre seu trabalho. do “. Porém. e por isso ficam “ligadões” e “irritados” mesmo depois de saírem do trabalho. Para Lúcia. constroem ações adaptativas.Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento O estresse aparece não apenas durante o trabalho. “impaciente” ou de uma situação estressante. a repetição e a mecanização tomam conta do trabalhador. minha amiga. Porém. trabalhar muitos anos nessa atividade. essa prática é. Outra maneira de suportar o sofrimento é a busca por culpados. Daniele Linhart aponta como uma das características da lógica do serviço de teleatendimento o fato de o cliente transformar-se em bode expiatório. “é um telefonema atrás do outro e você não tem tempo de respirar” (Raquel). quatro meses. no entanto. mesmo considerando-se tais variações. de sair da monotonia. 2006). de novos desafios. difícil de ser executada. nas relações com a família e com os amigos. 34 . ela não agüenta mais atender”. Em uma central de atendimento em que há uma centena de atendentes e milhares de ligações. Há também a “pausa”. faz com que esse período seja maior: “Dizem que o tempo máximo que um atendente pode ficar é dois anos mesmo. na faculdade. para a maioria dos trabalhadores. É o que lhes resta para suportar o insuportável. para o qual são dirigidas todas as “frustrações ligadas às pressões no trabalho” (Linhart. A técnica de “colocar no mudo” é uma outra ação adaptativa criada pelos trabalhadores para suportar a rotina de trabalho. o tempo máximo suportável para permanecer no mesmo emprego era quase sempre o tempo mínimo de experiência: “se olhar minha carteira [de trabalho] não agüento mais de três. recurso utilizado para que os operadores possam resolver algum problema ou “respirar” um pouco enquanto o cliente aguarda na linha. não agüento” (Lúcia). que buscam amenizar o sofrimento. porque. a possibilidade de respirar um pouco antes de prosseguir. o fato de sua atividade estar fortemente submetida à exigência de alcançar metas de venda. Os operadores relatam que “demora muito para desligar”. os atendentes ativam a função “mudo” do fone de ouvido e deixam o cliente esbravejar sem que sejam incomodados com gritos e chateações. Diante de um cliente “chato”. mas tem gente que já está há cinco anos. utilizar o recurso “mudo” do terminal telefônico (deixar que o cliente fale sem que o operador o ouça) e usar o recurso da “pausa”. Os operadores referem três tipos de ações adaptativas: a rotatividade. Esse recurso permite um certo alívio. de ter que acessar sempre o mesmo sistema todo dia” (Carlos). bem como a de exercer uma atividade considerada menos “estressante”.falar todo dia aquelas mesmas coisas. o incômodo e os esforços no trabalho. o fato de ter a possibilidade de mudança de atividade. “mal educado”. mas também em casa. A rotatividade nem sempre aponta para a busca de melhores condições de trabalho e de melhores salários. Para Pâmela.

a viabilidade de uma promoção. vol. Esses valores. assim. 1. n. participar dos treinamentos. ao serem intrincados. pois caso não consiga. ao processo de trabalho. pp. o “aumento no salário”. que gerou o homem endividado – e a ideologia que nos leva a servir entes abstratos e de difícil localização e que nos levam a perguntar: a quem servimos? Quem é o “grande irmão”? O quê leva o trabalho a ser estressante? As empresas buscam de forma incessante aumentar a produtividade de seus trabalhadores. p. era difícil” (Carlos). Surgem duas perguntas: por que se motiva tanto? O que se quer produzir ou o que se quer esconder? Deleuze (1992) reflete sobre a persistência. atualizar-se sobre novos produtos e serviços na intranet da empresa. Para manter o ritmo frenético de produção. cooperativo. O trabalhador. um trabalho que é visto pelos próprios trabalhadores como repetitivo. isolado pelos mecanismos de controle impostos. a finalidade das disciplinas” (p. buscando sempre o máximo de cada um. Vendese o sonho da ascensão profissional. é bastante atrativa. não parece ser estimulante per se.. 1075). Nessa overdose de informações com as quais o operador tem de lidar. outro irá conseguir. tem que trabalhar em equipe. por exemplo. Então. não sem dor.muito difícil. as políticas de recursos humanos baseiam-se na suposta necessidade que haveria hoje entre os trabalhadores de serem permanentemente motivados para o trabalho. Assim “'campanhas motivacionais' contemplam o atendente com brindes e folgas e há estímulo à competitividade entre colegas. o apoio era composto por nove pessoas. mas sim adequar-se a eles. os trabalhadores acharam injusto o prêmio. No entanto. o “brinde”. sobra pouco tempo para pensar no trabalho que se está realizando.. Na empresa que visitamos. Aparentemente. mas o quadro que um outro entrevistado apresenta faz refletir sobre essa viabilidade. monótono e cansativo. de uma forte necessidade de motivar os trabalhadores. “Você tem que ter muita agilidade. já que não há espaço para refletir sobre o trabalho. pela empresa. uma das formas adotadas para motivar os trabalhadores era realizar uma competição entres as células. A organização é configurada de modo que os trabalhadores fiquem ligados o máximo possível à tarefa de ser porta-voz: sempre há algo a fazer. 19-39 Motivando para agüentar Práticas muito bem aplicadas. cabe a eles descobrir a que estão sendo levados a servir. na ótica capitalista e mercadológica. Assim. imagine uma equipe de cento e vinte operadores de teleatendimento. Porque. dar “carona” a novos operadores. a “promoção”. e pediram que ele fosse dado em dinheiro e dividido por todos os operadores da célula. pois os programas de produtividade são calcados na individualização excessiva da produção” (Vilela & Assunção. de lutar por sua recompensa. para que o teleatendente o faça da forma mais rentável. pois só contemplaria um membro da equipe. Assim ele reflete: “Muitos jovens pedem estranhamente para serem motivados e solicitam novos estágios e formação permanente. A seu ver. são dados como verdades e cabe ao trabalhador não os questionar.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. na atualidade. 2008. como por exemplo. Com isso. além de valer-se de métodos de motivação. da possibilidade de carreira e o que se pede em troca é 35 . 2004. vê-se na tarefa de garantir sua sobrevivência na empresa. assim como seus antecessores descobriram. ser ligado. a empresa cria uma ideologia que associa o trabalho a determinados valores que acabam por defini-lo. essa necessidade repousa em dois motivos: a eterna insatisfação – fruto da sociedade de controle. o prêmio era uma viagem com acompanhante para a Disney. a empresa vale-se de alternativas motivadoras extrínsecas ao trabalho.. 11. Ele fala da probabilidade de mudar de cargo: “. 4). Seria feito um sorteio entre os operadores da célula ganhadora. é um saco. tem sempre que procurar incentivar os outros” (Lúcia). Essa realidade particular não difere muito da situação geral apresentada pelos outros entrevistados. lógico..

essa troca que a empresa propõe ao trabalhador não vem sem custo. subir de cargo. Segundo. segundo os entrevistados varia. não vê outra saída se não deixar o trabalho. para você compensar. o que levaria ao questionamento de certezas já pré-estabelecidas e que são dadas como naturais.Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento uma dedicação robótica e a adaptação cega às condições de trabalho. “ginástica laboral”. essas estratégias adotadas pelas empresas têm a função de acolher. essas práticas visam a manter apenas a saúde dos trabalhadores necessária à reprodução do capital. nada muda. o trabalhador que não consegue adequar-se. Assim. onde se podia ir quando “tivesse um pico de estresse no atendimento. o processo de formação do porta-voz não se altera. mas dificilmente alguém fica mais de dois anos em uma mesma empresa. O profissional psicólogo que intermediava o uso da sala não estava presente na central de atendimento para auxiliar os funcionários e fazer um atendimento de “urgência”. “não era uma sala que se podia usar a qualquer momento”. você pode vir a ser. Pâmela conta que a sala era usada poucas vezes. Tomada como exemplo. de salário” (Lúcia). o trabalhador não consegue buscar forças por ver-se intricado dentro de uma organização na qual ele não pode ser um participante ativo. ao ter consciência dos limites humanos. Todas aparecem nas entrevistas como formas de compensar o trabalhador. parece não haver espaço para discutir-se o trabalho.. adota soluções pontuais para o problema: “sala de descompressão”. fazia seu trabalho e podia ser solicitado quando houvesse “algum problema”. é colocado sob a tutela da empresa. apoio “psicoterápico” emergencial. Pâmela diz que na empresa em que trabalhava havia a “sala de descompressão”. Tais mudanças implicariam em uma reestruturação do jogo de poder dentro da organização. A organização do trabalho não é pensada. Caso a tutela não seja efetiva. Nota-se que todas as atividades promovidas são voltadas para “amenizar” os efeitos da penosidade do trabalho (sala de descompressão. ou é o cliente. O que é por natureza um espaço construído torna-se naturalizado e estático. mas nunca a lógica de trabalho que retira do trabalhador a possibilidade de assumir o controle de seu trabalho. sem possibilidade de questionar o espaço no qual está inserido. “animação cultural”. que venha tão somente a responder às necessidades gerenciais. que o trata como uma criança. o trabalhador tem sua capacidade produtiva restituída. Você quer? Você vai ser analisado entre outros. A “sala de descompressão” é representativa dessa lógica.”. Mais que isso. 2006). ao simplesmente aplacarem o sofrimento sem a possibilidade de atuar-se sobre suas causas. ginástica laboral. Tutelado e isolado. dessa forma. a sala é representativa de uma função ambivalente dessas estratégias que visam aplacar o sofrimento. tornam-se uma forma de controle. nem para propor uma política que busque a melhoria das condições do trabalho. Intermediada pelo atendimento psicológico. mesmo que essas se façam necessárias. apesar da grande quantidade de estresse na central de atendimento. o sofrimento causado e proporcionam um momento de descanso frente à rotina estressante.. 36 . O tempo necessário para que isso aconteça. O trabalhador. No entanto. “Existe essa possibilidade. Com isso. essas estratégias. “festinhas”. ou é o supervisor. gincanas e festas durante o expediente). A empresa. Primeiro. com o passar do tempo. de alguma forma. Assim. Uma dinâmica que impede a atenção e a discussão desse fator no ambiente de trabalho. sem que haja alterações profundas no processo de trabalho. como o trabalhador ainda não é um “robô de sedução” (Linhart. o único culpado é ele mesmo. tendo que se adaptar a todo custo. como pudemos ver ao longo deste artigo.

quanto nas dimensões espacial e social. A baia é a rotina maçante de trabalho. A partir desse ator. Quando o trabalhador consegue uma brecha nos limites da baia. A análise do anexo II da Norma Regulamentadora 17 (portaria nº 153 de 14 de março de 2006. como suporia a perspectiva gerencial. para as telefonistas. é a falta de perspectiva de poder ter um cargo mais alto na hierarquia. Tal vivência não é experienciada sem uma grande carga de sofrimento. por fim. é a constante estimulação a que o operador está sujeito. da Secretaria de Inspeção do Trabalho. fomos adentrando esse universo. isolar-se e experimentar possibilidades restritas de construir laços de amizade e de ajuda. No entanto. 2008. em 2006. Ministério do Trabalho e Emprego) faz-nos pensar. que não há dúvidas sobre as péssimas condições de trabalho a que estão submetidos os operadores que vivem na baia. ter feições e repercussões para a saúde tão próximas às descritas por Le Guillant e seus colaboradores. o verbo “agüentar” continuará sendo muito utilizado. que nos serviu de guia. n. “Dentro do script. Do sítio de relacionamentos Orkut à visita e. A baia não se restringe apenas ao limite físico do espaço onde o operador trabalha.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. sobretudo. principalmente em sua dimensão subjetiva. mas quando o desenho organizacional assim possibilita. ele encontra alívio e uma maneira diferente de experienciar o seu trabalho. Discussão Através do caminho de pesquisa para conhecer a área de teleatendimento. e constatar. enquanto a “baia” for intransponível. às entrevistas. 2006) faz parte da lógica do poder e do controle organizacional. uma frase irônica que resume a impossibilidade de se mover no trabalho. No caminho. pode fazer tudo” (Pâmela). vol. Trabalhando em contexto distinto dos outros. A “atomização” (Linhart. Visto isso e apesar de toda a evolução tecnológica. a baia isola o trabalhador tanto na dimensão temporal. 1. tendo como horizonte carregar a pedra de Sísifo. como mostra a operadora Raquel. Desse modo. não é surpreendente o fato de o trabalho no teleatendimento. pudemos cartografar esse campo de trabalho. fomos aproximando-nos sucessivamente do trabalho de atendimento e descobrindo uma vasta e profunda área que antes parecia-nos nebulosa. ela estende-se a toda uma lógica disciplinar presente que restringe ao máximo o espectro de liberdade de atuação – conseqüentemente possibilidade de controle sobre o próprio trabalho – do operador. é ser constantemente vigiado. “Viver na baia” é. objeto de disputa constante por parte do trabalhador – na relação entre trabalho e saúde para o operador. evidenciando o peso de 37 . No decorrer da pesquisa observamos o que significa “viver na baia”. a solidariedade e a ajuda mútua entre os operadores possibilitam aliviar o sofrimento e resolver problemas do trabalho. em 1956. o do operador de teleatendimento. pp. é o script que limita a fala do operador. Os operadores estão presos na baia. 11. ela experimentou situação de trabalho submetida a menor pressão e mostra que muitas conversas com os colegas durante o expediente são trabalho e não “perda de tempo”. deparamo-nos com as dimensões do tempo e do controle e vimos o quanto essas dimensões eram centrais – não obstante. 19-39 ainda que haja aqueles que construam carreira no setor ou que nele trabalhem há muitos anos como atendentes. mais especificamente.

Béquart. Le Monde Diplomatique (dossiê Futuro do Trabalho). M. Ministério do Trabalho e Emprego (2006).. Di Pace. Porto Alegre. como por exemplo. Telemarketing nos bancos: o emprego que desemprega. M.. Fernandes. Glina. P. 7-11. (1994).). como única característica positiva. (2003). 201-223). quando não for mais possível agüentar. M. F. S. F.com. (1984). Universidade do Rio Grande do Sul. Post-Scriptum sobre a sociedade de controle. A representação social do trabalho penoso.. (1993).. Thompson. aí eu peguei e acabei saindo de lá”. sendo ainda possível vê-lo por outros ângulos diferentes. M. D. mas muitas questões ficaram em aberto. E. um ponto que foi levantado por um dos entrevistados sobre o fato de o teleatendimento ser ou não uma profissão. 17 (47). In O capital: crítica da economia política (livro I. Deleuze. R. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional. (1980). Organização e condições de trabalho em telemarketing: repercussões na saúde psíquica dos trabalhadores. L. de (2005). Dissertação de Mestrado. (1992)..267-304). ou eu faço alguma coisa da minha vida ou eu vou ficar louco trabalhando. mas também no Orkut. São Paulo: Companhia das Letras. 6ª ed. M. 10-18. R. não só nas entrevistas. & Lebreton. pp. 7-11. L.Viver na baia: dimensões psicossociais da saúde e do controle no trabalho de teleatendimento um trabalho que ultrapassa os limites do suportável e. como por exemplo. Além disso. J. Campinas: Unicamp. os operadores buscarão caminhos para não enlouquecer. J. M. D. Referências Dejours.). Le Guillant. vimos o teleatendimento por apenas uma perspectiva. Saúde mental e trabalho: leituras (pp. A neurose das telefonistas. In Conversações (pp. Petrópolis: Vozes. & Rocha. como diz Carlos: “quer saber. Foi possível observar muito sobre o mundo do teleatendimento. K. T. (2006). O que pudemos identificar. Venco. prevalência de dor muscular e de sintomas de estresse em estagiários do setor de cobrança de um banco internacional. Spink (Org. Foucault. volume I. Tempo. P. Nogueira. 14 (1). In M. Artigo disponível na Internet: http://diplo. Hamsen. Revista de Terapia Ocupacional. 38 . (1998). (1986). O conhecimento no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da psicologia social (pp. C. G. P. Anexo II da Norma Regulamentadora 17 (portaria nº 153 de 14 de março de 2006). Instituto de Psicologia.uol. Políticas de gestão e saúde em teleatendimento: das telefonistas aos teleoperadores. E. 54 (14). In Costumes em comum (pp. 247-270). Codo (Orgs. S. Rio de Janeiro: Editora 34. Oliveira. o do cliente ou o do supervisor.br/imprima1265 [22 março 2006] Marx. Bégoin. foi que o trabalho em teleatendimento possibilita aos operadores sentirem-se mais hábeis para se comunicar depois de terem entrado nesse mercado. Roelens. C. A caminho da desumanização. G. 188-211). São Paulo: Brasiliense. Processo de trabalho e processo de produzir mais valia. In M.. Revista Brasileira de Saúde ocupacional. disciplina do trabalho e o capitalismo industrial. D. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Por um novo conceito de saúde. Sato. Jacques & W. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. (2002). O trabalho duplicado – a divisão sexual no trabalho e na reprodução: um estudo dos trabalhadores do telemarketing. & Passos. S. (2003). Exigências do trabalho. L. é o que eu não quis. P. (2006). São Paulo: Expressão Popular. Petrópolis: Vozes. R. Linhart. 219-226).

Os mecanismos de controle da atividade no setor de teleatendimento e as queixas de cansaço e esgotamento dos trabalhadores. (2004). V. O. Endereço para correspondência carolramalho@yahoo. 2008.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. n. A. 1069-1078. A. L. pp. 1. 11. 20 (4).br Recebido em: 20/06/2007 Revisado em: 22/11/2007 Aprovado em: 17/04/2008 39 . 19-39 Vilela.com. Cadernos de Saúde Pública. & Assunção. vol.

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A análise indica que esse conjunto de práticas não impacta de modo efetivo sobre rendimento e o bem-estar dos trabalhadores. o Nordeste brasileiro tem atraído fábricas do Sul e do Sudeste. dos produtos e padrões de consumo. principalmente devido às vantagens oferecidas pelos governos e à mão-de-obra barata. Trabalhadores. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção 1 Psicóloga. n. 2 Médica do trabalho. Introdução A década de 1970 inaugura um novo momento do capitalismo. na incorporação de novas tecnologias ou modelos de organização do trabalho e na diversificação das formas de contratação dos trabalhadores. The discussion is based on observations and interviews with managers and workers. The analysis indicates that this set of practices doesn’t bring effective impacts on workers’ income and welfare. apontando para a flexibilização e para a precarização de diferentes dimensões do mundo produtivo. 41 . entre outros aspectos. em meio à crise do modelo fordista de acumulação e organização da produção. Benefícios. 2 I Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo II Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará Como parte do intenso reordenamento do mundo produtivo. Meio Ambiente e Saúde para a Sustentabilidade) e coordenadora da pesquisa na qual se fundamenta este trabalho. levando-os a sentirem-se em dívida com seus empregadores. 1. professora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. A discussão fundamenta-se em observações e entrevistas com gerentes e trabalhadores. This article intends to discuss some features of the working conditions and of the benefit policies in a shoe factory settled in Ceará State. 2008. pp. quando. doutora em sociologia e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo. Shoes.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Benefits. In fact. vol. it consists of an effort to make them more linked to the enterprise. 1 e Raquel Maria RigottoII. Na realidade. Este texto visa discutir aspectos relacionados à situação de trabalho e à política de benefícios de uma fábrica de calçados instalada no Ceará. due mainly to the advantages offered by governments and the inexpensive work force. 41-50 “É dando que se recebe”: as políticas de benefícios de uma fábrica de calçados no Ceará Izabel Cristina Ferreira BorsoiI. o novo modelo de acumulação apóia-se na flexibilidade dos processos de trabalho. na re-localização de empreendimentos produtivos. “For it is in giving that we receive”: the benefit policies of a shoe factory in Ceará State As a part of the productive world rearrangement. Calçados. Para Harvey (2002). Keywords: Factories. constitui-se num esforço para torná-los mais atrelados à empresa. doutora em sociologia. Coordenadora do Núcleo Tramas (Trabalho. dos mercados de trabalho. leading them to feel in debt to the employers. Palavras-chave: Fábricas. mestre em psicologia social. 11. the Northeast of Brazil has attracted many industrial enterprises from South and Southeast. Workers. inicia-se um intenso processo de reestruturação centrado.

que. 2004). tecnológica e organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual. de sua paisagem e de sua cultura local. elas encontram um conjunto de vantagens. Na maioria das vezes contratam pessoas jovens entre 18 e 30 anos. essas empresas buscam. novos mercados e. Dentre esses ramos de produção. 2004). em particular a partir do final da década de 1980. uma das que mais tem crescido. em um verdadeiro processo de des/re-territorialização (Haesbaer. as matrizes permanecem em seus lugares de origem. para não falar da vasta profusão de atividades dos países recém-industrializados) (p. ao instalarem-se. tanto entre setores como entre regiões geográficas. sofrendo. 2005. as fábricas migram de forma integral. então. que encontram nesses novos territórios os benefícios que deixaram de usufruir em suas matrizes. as significativas degradação e contaminação ambientais e a baixa qualidade dos postos de trabalho oferecidos. Alguns estados do Nordeste brasileiro têm sido alvo dessa mobilidade do capital. onde encontram dificuldades para impor aos trabalhadores um modo rígido de organização do trabalho. Dentre os vários aspectos do novo modelo de acumulação apresentados por Harvey. confecções. 1997. Humphrey (1995) afirma que essa rigidez tem sido comum em fábricas localizadas principalmente em regiões rurais. Outras vezes. do ponto de vista dos empresários. Em grande parte das vezes. os vários vales e gargantas do silício. embalagens etc. um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços”. Rigotto. destaca-se a indústria calçadista. contextos favoráveis ao rigor na escolha dos trabalhadores a serem contratados e a “moldar o trabalhador como a empresa quer” (Rigotto. Flandres.“É dando que se recebe”: as políticas de benefícios de uma fábrica de calçados no Ceará inteiramente novos. convém destacar a migração de fábricas localizadas em regiões densamente industrializadas para territórios sem experiência fabril. marketing. 140). tecidos. além de mão-de-obra barata e abundante (Borsoi. fechando as antigas unidades. insalubres ou penosos. muitas vezes. Sua falta de experiência industrial anterior e sua precária organização sindical conformam. De forma diversa do que ocorre em seus lugares de origem. são fábricas baseadas em trabalho intensivo e cujas atividades prescindem de força de trabalho qualificada. bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas (tais como a “Terceira Itália”. onde mantêm as atividades mais relacionadas à manutenção do centro de poder do empreendimento – design. por exemplo. novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros. preferencialmente mulheres. Essa transferência tem-se dado em razão da necessidade de expansão do capital e vem sendo motivada pelas vantagens encontradas nos novos territórios. Entre eles está o Ceará. onde as taxas de desemprego são elevadas pela carência de alternativas de trabalho. ainda. criando. estão experimentando uma espécie de surto de industrialização. Em geral. podem ser qualificados como perigosos. tais como o barateamento dos custos de instalação e de mão-de-obra. um intenso redimensionamento de suas estruturas populacional e urbana. sobretudo. Incentivadas pelo programa de atração de investimentos industriais do governo estadual – eixo de seu Plano de Desenvolvimento Sustentável –. mais especificamente do Rio Grande do Sul e de São Paulo. Rigotto. concessões de terrenos e de infra-estrutura por parte das prefeituras. tais como atraentes incentivos fiscais. dada a construção simbólica de que elas estariam mais 42 . Dessa forma. administração de pessoal etc. alguns deles próximos à capital. Populações historicamente vivendo situações de penúria social são vistas como mãode-obra abundante e barata. taxas altamente intensificadas de inovação comercial. Ressaltem-se. por isso. um trabalhador facilmente “adestrável” e que se submeta às rigorosas exigências da produção. vários municípios do interior do Ceará. As unidades subsidiadas que se instalam em solo cearense são de empresas originárias do Sul e do Sudeste. bebidas. 2007). que vem abrigando empresas oriundas das regiões Sul e Sudeste. alimentos. São fábricas de calçados.

tomando como referência dados das Comunicações de Acidentes de Trabalho (CATs). a partir de dados da Previdência Social. integra um conjunto de quatro unidades de uma mesma empresa no Ceará. e informações obtidas mediante entrevistas estruturadas. Sendo quase sempre a referência de emprego do lugar. essas empresas podem exigir o máximo dos trabalhadores. descrição e análise do perfil dos acidentes de trabalho com trabalhadores dessas indústrias oficialmente registrados no período de 2000 a 2005. a começar pela faixa salarial. conforme relatório elaborado por Raquel Maria Rigotto. a qual. atenção e capricho. ao todo. 43 . essas empresas oferecem aos trabalhadores o que denominam de política de benefícios. Izabel Cristina Ferreira Borsoi e outros colaboradores. pp. O tema discutido aqui é um desdobramento da pesquisa “Violência e trabalho: acidentes de trabalho e humilhação na indústria calçadista do Ceará”. 134 trabalhadores vítimas de acidentes nessas fábricas. embalagem etc. De acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).3 cujo objetivo foi descrever e analisar as formas de violência manifestadas nos acidentes de trabalho e em situações de humilhação em três unidades fabris de duas empresas calçadistas de grande porte. bem como de jovens com menos de 30 anos. vol. entretanto. dos programas de benefícios de uma fábrica de calçados femininos instalada no Ceará. O fenômeno da humilhação foi abordado por meio de entrevistas semi-estruturadas com 20 trabalhadores e trabalhadoras das três unidades referidas e que tinham vivenciado situações de constrangimento em seus locais de trabalho. além de não impactar de modo efetivo sobre os rendimentos e o bem-estar dos trabalhadores. 1. Como se verá. O objetivo deste artigo é discutir alguns aspectos da situação de trabalho e. havendo uma predominância de mulheres (em torno de 1. pouco dispondo-se a oferecer. A discussão apresentada especificamente neste artigo baseia-se em observações e em informações colhidas entre trabalhadores e ocupantes de cargos de direção e de recursos humanos de uma dessas unidades. envolvendo. procuramos mostrar que. n. caracterização aprofundada de diversos aspectos dos acidentes registrados em 2006. Além da remuneração. A fábrica e os benefícios: uma dívida que só se paga com trabalho A fábrica em questão. A forte presença feminina costuma ser associada ao fato de que a produção de calçados 3 Pesquisa realizada com financiamento do CNPq e concluída em novembro de 2007. 41-50 aptas para trabalhos que exigem paciência. tendo-se realizado por meio de entrevistas com informantes-chave (dentre eles.340 trabalhadores. tais políticas acabam atuando como meio de atrelamento destes à empresa.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 2008. bordado. Regina Heloisa Maciel. ao norte e ao sul do Estado –. acabamento. nem sempre consiste no que poderíamos relacionar a garantias de trabalho ou a algo que traga algum ganho efetivo para o trabalhador.500). que aqui designaremos de Sigma. como costura. fica em torno do salário mínimo. 2002). em geral. 11. ocupantes de cargos de direção e da área de recursos humanos) e observação direta. Seu quadro funcional é formado por cerca de 2. oriundas da região Sul e instaladas no Ceará a partir de 1995. A pesquisa consistiu no estudo do processo de trabalho em cada uma dessas unidades – situadas na Região Metropolitana de Fortaleza. fazendo com que se sintam em dívida com seus empregadores. cuja matriz está localizada na região Sul do Brasil. que. principalmente. a indústria coureiro-calçadista no Ceará chega a oferecer remuneração média mensal inferior em até 40% àquela que oferece no Sul e no Sudeste do País (Noronha & Turchi.

são responsáveis por realizar tarefas que envolvem costura manual e confecção de determinados componentes que servem de adorno para os sapatos. como mostra Rigotto (2004. por isso. Entretanto. devido ao sistema de “banco de horas”. No caso da fábrica de calçados em questão. as células introduzidas na produção. a fábrica mantém. e não para enriquecer o conteúdo das fragmentadas tarefas exercidas. que passa a ser não mais semanal e sim anual. o resultado disso tudo tem sido o aumento do ritmo de produção e o maior volume de trabalho. cujos contratos são regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). há a exigência de uma polivalência que. de modo que possam se revezar em tarefas distintas na linha de produção. Esses trabalhadores costumam atuar em suas próprias casas. introduz a possibilidade de compensação da jornada. um auxiliar e os demais trabalhadores que executam as operações de confecção do calçado. na verdade. podemos deduzir que. Além desses trabalhadores. seja no setor de serviços. como costura e bordado. 4 Trata-se de pequenas empresas contratadas pela fábrica para realizar determinadas etapas da confecção do produto fora de sua linha de produção. O controle externo sobre o trabalho tornou-se ainda mais intenso – as metas de produção são estabelecidas para o grupo. que. mediados pelos chamados ateliês4. ainda. isso se dá por serem as mulheres consideradas também mais dóceis. não significaram redução da carga de trabalho nem maior domínio dos trabalhadores sobre o processo de trabalho ou sua autonomia. uma célula costuma ser composta por um supervisor. montagem. recebendo por peça produzida e. um revisor. pois esse sistema permite reduzir o número de pessoas na linha produtiva sem que necessariamente as metas sejam revistas levando-se em conta a nova dimensão dos grupos. para implementar maior flexibilização das relações de trabalho. Para Krein (2001). as quais já não são computadas e pagas como horas extras. 5 Grupos de trabalhadores treinados para serem polivalentes. fazendo com que cada trabalhador interiorize parte das incumbências da hierarquia e fique atento ao desempenho dos colegas. Em épocas de maior demanda. costura. Isso significa que cada hora a mais trabalhada dará direito a uma hora de folga extra a ser compensada anualmente. 2000) e Hirata (2002). 2007). em meados da década de 1990. restringe-se à habilidade para realizar duas ou três operações simplificadas. como mostram Antunes (1995. é comum trabalharem em horas extraordinárias. que permite flexibilizar a jornada e desonerar o empregador pelo trabalho excedente. Essa prática tem sido permitida por força de uma medida adotada pelo governo federal. mais facilmente controláveis. 3). Para alguns trabalhadores. seja na produção. muitas vezes com vistas a possibilitar a substituição de colegas faltosos.5 Essas atividades incluem corte das peças que compõem o calçado. o banco de horas. Essa postura encontra-se em acordo com o crescimento da feminização do trabalho. São 10 linhas de produção distribuídas em dois grandes galpões que funcionam em dois turnos. A maioria dos trabalhadores realiza suas atividades em pé. sob ruído e calor intensos. aspecto de grande conflitividade das negociações coletivas nos anos 90. Ao contrário do que se poderia pensar. especialmente aquelas que exigem trabalho manual. A empresa pode organizar a utilização do tempo de trabalho conforme os seus ciclos de produção durante o ano (p. envolvendo também filhos menores. em parte. que tem ocorrido em todas as esferas do mundo laboral. colagem. vínculo indireto com outros grupos de trabalhadores. menos questionadoras e. 44 .“É dando que se recebe”: as políticas de benefícios de uma fábrica de calçados no Ceará envolve um grande conjunto de operações leves e delicadas. O cronômetro continuou sendo o grande parâmetro de avaliação de velocidade e destreza na realização das tarefas. Além disso. conjugando as atividades da esteira fordista e do sistema de células ou grupos. há menos de um ano. às vezes. acabamento e embalagem. A produção média diária da Sigma chega a 15 mil pares de calçados.

a remuneração da hora suplementar deve. integram também as ações previstas nos programas de responsabilidade social. propõem-se a atender à necessidade de manter o que consideram qualidade de vida no trabalho e. muitas vezes. costuma ter como base o salário mínimo. a prerrogativas. associações comunitárias e filantrópicas. há a noção clara de que cada um é qualquer um. Enquanto estes últimos “correspondem.7 não constituindo. oferecem o que chamam de “quadro de benefícios”. os benefícios sociais são considerados “facilidades. que implicam uma melhoria das condições de trabalho e de vida dessas classes. p. de um modo ou de outro. essas empresas precisam apresentar projetos que prevêem ações sociais e ambientais internas e externas (Ximenes. além de não remunerar as horas extras. salário em dia. n. as únicas ou. No que diz respeito aos benefícios sociais. em parte. reconhecidas pelo Estado capitalista às classes trabalhadoras. como escolas. entretanto. É importante salientar. a própria empresa assumindo. segundo. p. Movidas pela necessidade de manterem-se competitivas e conquistarem certificação internacional da qualidade de suas práticas organizacionais. sem poder planejar seu período de férias ou seu final de semana de acordo com a própria conveniência” (Rigotto. no mínimo. uma vez que. a maior referência de emprego. pois fazem parte da conduta da empresa a advertência e a ameaça de demissão para os que se negam a obedecer a convocação para o banco de horas. 2004. 2004). acabam. conforme já afirmamos). 94). folgas e licença-saúde remuneradas. é um aspecto crucial: freqüentemente. emerge entre os trabalhadores “a consciência aguda da própria descartabilidade. um reduto de garantias trabalhistas mínimas – leia-se: trabalho formal com direito a carteira profissional assinada.6 Frente às cobranças por trabalho em jornada suplementar. aqui. ser pelo menos 20% maior do que a da hora normal ou. bem como do nível de consumo das massas” (Saes. portanto. por si só. fábricas como a Sigma costumam ser. em tese. necessariamente. com prejuízo apenas para o trabalhador. em situações como essas. 26). 1.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. seja financeiro. vantagens e serviços que as organizações oferecem aos seus empregados” (Chiavenato. parece haver ainda uma agravante. O medo da perda do emprego. sequer por meio de folgas. conveniências. impacto negativo na vida do trabalhador. que suas diferenças individuais são igualadas quando se trata de comprar ou descartar sua força de trabalho”. 7 Ainda segundo o autor. movimentos ecológicos etc. que a expectativa em torno dos benefícios sociais que 6 Cabe lembrar que. não tanto pela política salarial praticada (que. produção gratuita para o empregador. 1983. ainda o constrange “a estar mais disponível para a empresa. na localidade. de acordo com a CLT. procuram beneficiar instituições ou grupos da localidade onde atuam. formalmente. que. na linha de produção. Afora isso. 11. no seu artigo 59. as alternativas de trabalho e de geração de renda mais compatíveis com a tradição histórica do lugar (no caso. a agricultura camponesa) são pouco apoiadas pelas políticas públicas. obrigatoriamente. mas por significar. igrejas. mediante ações internas. pp. Por causa disso. de forma a não ultrapassar o horário normal da semana ou a não exceder o limite máximo de 10 horas diárias (Costa & Ferrari. não há como os trabalhadores recusarem-nas. envolvendo os trabalhadores em seus programas: primeiro. 2008. tais benefícios “estão intimamente relacionados com a gradativa conscientização da responsabilidade social da organização”. a direitos sociais. o artesanato de cerâmica. cabe esclarecer que não se referem. algo cuja concessão seja obrigatória. Há informações que indicam que esse tempo de trabalho suplementar dificilmente é pago de forma integral. p. 2006). 41-50 O funcionamento do banco de horas de uma forma regular tem. 45 . o bordado. Para Borsoi (2005. Assim. Isso significa. que despendeu mais esforço sem qualquer retorno. 77). então. seja como repouso. 1990). No caso da Sigma. uma parcela das incumbências que antes cabiam ao Estado. vol. em parte dos casos. ser compensada pela correspondente diminuição de horas de trabalho em outro dia. os quais estabelecem fundamentalmente determinados compromissos da empresa para com a coletividade ou com o município no qual se instalam.

sem que a empresa precise assumir o ônus de uma ou outra licença médica. teatro e coral dos funcionários. não há como negar que interessam à fábrica o controle da natalidade. Do lado das trabalhadoras. nem sempre o protege. nesse caso. tem sido comum o médico do trabalho. kits escolares para filhos de funcionários.“É dando que se recebe”: as políticas de benefícios de uma fábrica de calçados no Ceará empresas ou instituições possam oferecer é de que eles tenham algum impacto efetivo na remuneração final de seus trabalhadores. ginástica laboral. poupando. de fato. as condições e a organização do trabalho não forem alteradas. Ainda na esfera da saúde. 1978. Vale ressaltar que tem implicações significativas um serviço de atendimento ginecológico oferecido por uma empresa na qual 66% de seus empregados são do sexo feminino. por exemplo. embora implementada para proteger o trabalhador. na qual quem perde é sempre o trabalhador. a ginástica laboral. as empresas são obrigadas a manter um serviço especializado de segurança e medicina do trabalho. tem sido vendida por empresas de consultoria e prestação de serviços como alternativa para mitigar o sobreesforço e o cansaço em funções repetitivas e penosas. com atribuições eminentemente preventivas. tempo de produção. massagem relaxante nas dependências da fábrica. Da mesma forma. a queixa do trabalhador. Scopinho. medicá-lo durante a jornada para que ele possa seguir trabalhando tão logo se constate a redução dos sintomas que apresentava. de acordo com seus contingentes de trabalhadores e graus de risco. 2003). Assim sendo. 46 . convênio com farmácia. assim. 1978) –. há o risco de os trabalhadores serem induzidos a crer que se trata de uma medida que previne determinados agravos. como uma espécie de “salário indireto”. No caso da Sigma. No caso da Sigma. Essa medida. o médico da empresa põe em dúvida tanto a atitude do colega de profissão como. Ao desenvolverem uma percepção positiva sobre o programa. diante de uma queixa do trabalhador. pode constituir-se como importante estratégia para evitar ausências ao trabalho. homenagem aos aniversariantes. criando o que Borsoi (2005) denominou “guerrilha dos médicos”. Na Sigma. cabe observar que. o serviço de fonoaudiologia viabiliza a realização dos exames complementares exigidos pela legislação trabalhista no caso de exposição a ruídos – em acordo com a NR-7 da Portaria 3214/78 (Ministério do Trabalho. Nesse caso. também. Também tem sido prática recorrente não aceitar a licença médica integral solicitada por um trabalhador quando o atestado médico é emitido por um profissional das redes pública ou privada. sem que os trabalhadores tenham que se deslocar do local de trabalho. embora não haja evidências científicas de que aquela prática contribua efetivamente para a prevenção das Lesões por Esforços Repetitivos (LER). conforme a NR-4 da Portaria 3214/78 (Ministério do Trabalho. a política de benefícios é extensa e inclui ações diretamente voltadas para empregados e seus familiares. que seriam justificadas pela necessidade de consultas ou de realização de exames preventivos preconizados pela saúde pública. os conflitos entre o médico da empresa e os de fora em torno do reconhecimento da queixa do trabalhador. isso implica dificuldades para justificarem a procura de um outro profissional da mesma especialidade fora de seu ambiente laboral. continuarão expostos às exigências de produtividade. a redução de afastamentos por possíveis desconfortos menstruais e o acompanhamento de trabalhadoras gestantes para que continuem produzindo sob condições inadequadas e em posições desconfortáveis. alguém com quem possam construir um vínculo médico-paciente que não passe pela relação enviesada com a própria empresa. como serviços de ginecologia e de fonoaudiologia. se. por ser uma empresa de grande porte. Por sua vez. por conseqüência. outra prática encontrada na Sigma. de acordo com sua gerência. culto semanal antes da jornada matutina. espera-se que existam tanto um serviço de medicina do trabalho como. Do lado da empresa. funcionando. sem que questionem seu real impacto sobre o corpo e a saúde. Em síntese. transmitindo aos trabalhadores a sensação de que estão sendo “cuidados” pela empresa.

A Sigma insere. distribuição de “sopão mensal” para famílias de “classes menos favorecidas” etc. 2008. também. que. colaboração com instituições filantrópicas. ficando os trabalhadores com o ônus do constante desgaste de seu vigor físico e de sua saúde. n. uma forma de racionalizar o uso (e o custo) dos recursos hídricos. Isso tem explicação. possa gerar conflitos entre os trabalhadores e a empresa. por sinal. Teme-se que a retirada de benefícios como esses. vêem nisso a única razão ou vantagem para se sindicalizar ou permanecer sindicalizados. 47 . também. “Sigma doa kits escolares a filhos de funcionários”. trata-se de benefícios sobre os quais não há certeza de que possam ser mantidos por tempo indeterminado. que. São iniciativas que visam a atingir tanto trabalhadores. pois tem crescido entre os jovens da cidade uma valoração negativa do emprego nessa empresa.. pois um deslize de quem entrou por indicação de alguém já contratado pode comprometer o emprego de ambos e. Segundo a gerência. para a empresa. 1. mesmo. São práticas realizadas de forma que possam integrar sua política de marketing: “Projeto Arte Sigma” para filhos de funcionários. 11. o que a empresa faz. não há planos ou convênios que contemplem atendimentos médico. é óbvio.. A economia nos gastos com transporte. comuns entre trabalhadores da empresa. a população local. é muito mais chamar a atenção para si mesma. cumprindo. Ao lançar mão de práticas como essas. utilizando-se desse expediente para forçar a sindicalização dos trabalhadores. No caso do transporte.. o pagamento de plano de assistência médica (comum em empresas de grande porte). embora essa seja uma exigência legal e. “Sigma doa cestas básicas à população carente”. são práticas simplesmente inexistentes. a empresa se libera de qualquer custo suplementar que possa ter impacto direto sobre a reprodução ou manutenção da força de trabalho. esta esforça-se para evitar. O outro conjunto de ações da Sigma tem como alvo tanto os próprios trabalhadores como. vol. em sua lista de benefícios à coletividade. Estes. laboratórios etc. alguma iniciativa que implique melhoria efetiva das condições de trabalho. “Sigma na caminhada ecológica”. Com isso. Nesse último caso. Nesses casos. é possivelmente uma motivação importante para que ela priorize a contratação de moradores da localidade ou dos distritos mais próximos. Ao fim e ao cabo. obviamente. normalmente. não se pode deixar de mencionar a política de contratação de novos trabalhadores por meio da indicação daqueles que já se encontram empregados. às vezes num esforço físico extra que desonera seus empregadores e os expõe ao risco de acidentes de trajeto – por sinal. na realidade. a cesta básica. tendo em vista a inadequação da maior parte das vias urbanas do município a esses meios de transporte. mas também os demais moradores do lugar. No que diz respeito à assistência.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. o tratamento da água e do esgoto da fábrica para reaproveitamento de água consumida pela própria empresa. alguns requisitos já previstos nos programas de responsabilidade social. pp. como convênios com clínicas. significativo contingente de trabalhadores faz o trajeto casa-trabalho-casa a pé ou de bicicleta. têm um parente em seu quadro funcional. dentário e laboratorial. desacreditar aquele que indicou. os prêmios por produtividade ou. Quanto a alguma premiação financeira por produtividade ou à concessão de cestas básicas. após serem concedidos. “Sigma vai à escola”. concretamente. é o sindicato que assume a concessão de algum auxílio. ainda. o que. referida por eles como “a senzala de. vêem aí uma oportunidade de empregar pessoas de suas próprias famílias. a empresa consegue fazer com que todos se esforcem para zelar por seus lugares na produção. Entretanto. quanto a população local. 2004). [nome do município]” (Rigotto. a Sigma já vem recorrendo à força de trabalho residente nos distritos mais distantes. 41-50 Não fazem parte dos benefícios oferecidos aos trabalhadores o transporte extensivo a todos. tornar-se referência no que tange à sua capacidade de absorver mão-de-obra e criar condições para cooptar não só os trabalhadores que contrata. quase sempre.

o que a Sigma oferece é apenas aquilo que. que possam causar impacto em suas condições de trabalho.“É dando que se recebe”: as políticas de benefícios de uma fábrica de calçados no Ceará Desse modo. Entretanto. a fonte de força de trabalho que ela precisa renovar com alguma regularidade. ou seja. segundo. garantindo. uma vez que condições laborais adequadas são. mesmo que se considerem as condições inadequadas de trabalho. determinadas iniciativas sequer poderiam ser consideradas benefícios. compromete os trabalhadores dentro da empresa. O primeiro diz respeito à percepção de que uma prática como essa pode se tornar um direito. Neste último caso. na realidade. O que parece haver. pode estar associada a uma vivência prévia na qual predominavam condições de vida mais precárias e maior carência de oportunidades de trabalho com garantias mínimas. todos devem participar da meta estabelecida pela empresa. em uma questão jurídica que poderia ser levada adiante por um sindicato que se comprometesse com tal causa. o emprego de todos. compromete suas famílias e o restante da população. Quanto à decisão de não oferecer benefícios que possam resultar em algum ganho que tenha impacto nos rendimentos do trabalhador. Portanto. é sabido que nem sempre interessa a elas investimentos nessa área – primeiro. de outro. além de não ser questionado como direito passível de perda. preocupa e solidariza-se com as pessoas do lugar. No caso da Sigma. ela tende a construir em todos uma espécie de sentimento de devedores. as condições de trabalho. sendo ela atribuída à empresa. é percebida como o elemento que possibilita essa nova vivência. se fossem retirados. pelos trabalhadores. seja direta ou indiretamente. Então. É o que se pode depreender. A julgar pelo que afirma Borsoi (2005. mesmo. essa percepção. de fato. de obrigatoriedade de vínculos que vão além da formalidade do contrato. até durante o tempo supostamente livre. aparentemente. sequer prevêem planos de preservação dos recursos naturais locais. as ações da Sigma não dão margem à construção de uma noção de garantia. por terem disponível um grande contingente de candidatos a um emprego. assim. uma experiência de vida e de trabalho menos penosa tende a ser vista com maior positividade. mas apenas da percepção de doação ou de dádiva da empresa. Algumas das práticas da empresa visam. Frente a isso. portanto. poderiam gerar um profundo descontentamento. Como resultado. os baixos salários e os benefícios pouco significativos que oferece. as jornadas extensas. portanto. um direito do trabalhador e uma obrigação das empresas. Podem-se até questionar os salários. se for suprimido. também não fará diferença significativa na vida do trabalhador. de alguma maneira. por parte da empresa. por exemplo. O segundo tem a ver com um aspecto prático – no caso. da denominação de um coral composto por um grupo de trabalhadores: “Vozes da Família Sigma”. Esse sentimento de pertinência que a empresa tenta incutir entre os trabalhadores parece aproximar-se do que Sennett (2006) entende como lealdade. a opção da empresa recai sobre programas que não interferem na situação salarial ou orçamentária do trabalhador ou. a qual. ela ainda surge como uma das melhores e únicas oportunidades para que os trabalhadores consigam manter uma condição de vida mais segura e algum acesso a bens de consumo naquele município. a Sigma atua em duas frentes: de um lado. em preservar. Dissemos “aparentemente” porque as medidas adotadas pela empresa em relação à população não se revertem em melhorias objetivas das condições de vida. Assim. a incorporação efetiva desses ganhos no orçamento doméstico regular do trabalhador. em termos mínimos. os quais. por considerarem significativos os custos correspondentes e. construir uma espécie de sentimento de família e. isso parece estar associado a dois aspectos. um 48 . é uma preocupação. de direito. 2007). os trabalhadores vêem-se convencidos ou mesmo forçados a manterem-se gravitando em torno da fábrica. de supostas dádivas por parte da empresa. antes de tudo. que é produzir o máximo para que ela consiga permanecer competitiva no mercado. Como uma família. o que implicaria. mas há sempre a possibilidade de defesa de uma empresa que. Agindo assim.

Ao final. o que a empresa parece tentar construir é um vínculo com base na dívida-dádiva. Isso porque. (2000). a coerção não convence. Para Borsoi (2005). sim. estava em sua capacidade de unir coerção e persuasão. São Paulo: Cortez. pp. Ao fazer com que os trabalhadores sintam-se “participantes” de seu grande empreendimento social e ao envolvê-los de maneira que se considerem colaboradores. a empresa lança mão de recursos que mais funcionam como meio de cooptação do que como benefícios propriamente ditos. o controle externo deve ser sentido como autocontrole. Considerações finais Gramsci (1978). apesar disso. colegas de seus empregadores. Referências Antunes. Com isso. poderá continuar a usufruir dos recursos naturais e sociais do lugar e a manter o controle sobre sua fonte de força de trabalho.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. oferece: tão-somente um emprego por um magro salário. Além disso. Por outro. 49 . os grupos ou células que correm contra o tempo para compensar trabalho demais para trabalhadores de menos. geralmente. ou seja. entre outras coisas. Diante disso. de outro. tornar intrínseco o sentido extrínseco. Antunes. 1. construir em todos – trabalhadores e moradores da localidade – o sentimento de que são devedores de uma empresa doadora. suas iniciativas fazem crer que todos são dependentes daquilo que ela. São Paulo: Boitempo. 41-50 relacionamento participativo o suficiente para que as pessoas tendam a se sacrificar pela instituição. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. mas que. 2008. a partir da lógica do “é dando que se recebe”. Em comum. pois. exige produtividade. Embora seja parte da profunda reestruturação do mundo laboral. De um lado. a empresa oferece condições precárias de trabalho. os indivíduos podem tornar-se arredios quando não vêem sentido naquilo que lhes é imposto. Por um lado. ao referir-se ao modelo fordista de produção. estão os trabalhadores que perseguem a velocidade da esteira e. de fato. 11. vol. a disciplina imposta precisa tornar-se autodisciplina. (1995). cada gesto deve ter justificativa plausível e ser percebido como oriundo da própria conduta e do próprio pensamento. R. todos têm o cronômetro como seu mais implacável controlador. fazendo-o percebido como construção do próprio sujeito. por exemplo. de fato. Parece ser essa a base da gestão da fábrica Sigma e a chamada política de benefícios cumpre importante papel na consecução daqueles objetivos. Assim. é preciso persuadir. n. cobra horas suplementares e ameaça de demissão aqueles que resistem a se submeter – e que o fazem por saber que não tirarão proveito disso. sem que se sinta obrigada a retribuir tais usos e controles com melhorias objetivas nas condições de vida da população. R. são denominadas de “benefícios”. oferece um conjunto de práticas que em nada impacta sobre o rendimento de “seus” trabalhadores nem suas condições objetivas de trabalho e de vida. como se pode verificar em organizações militares. o que ela adota é a conjugação de velhas e novas práticas no campo da organização e das relações de trabalho. dizia que sua efetividade. ela tenta. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho.

). C.com Recebido em: 27/09/2007 Revisado em: 17/11/2007 Aprovado em: 02/03/2008 50 . R. A. Niterói: EDUFF. In N. Maranguape. (2002). 11 (20). O modo de vida dos novos operários: quando purgatório se torna paraíso. In I. Cooperação e conflito: estudo de caso do complexo coureirocalçadista no Brasil (texto para discussão nº 861). D.). Programa de Pós-Graduação em Sociologia. G. Introdução à teoria geral de administração. Fortaleza: Edições UFC. (1978). novos dias: modos atuais de antigas atividades laborais (pp. São Paulo: Boitempo. (2001).br. R. São Carlos: EDUFSCar. I. Chiavenato. Scopinho. Fortaleza: Edições UFC. J. In Obras Escolhidas (pp. Rigotto. 77-101).“É dando que se recebe”: as políticas de benefícios de uma fábrica de calçados no Ceará Borsoi. (2005). Aprova as Normas Regulamentadoras do Capítulo V do Título II da Consolidação das Leis do Trabalho. de (2006). Haesbaert. Campinas: Unicamp. Rio de Janeiro: Record. Costa. M. V. R. Sennett. Portaria 3214 de 8 de junho de 1978. (2007). C. F. Universidade Federal do Ceará. Silva & C. Consolidação das Leis do Trabalho (15ª ed. In M. São Paulo: Paz e Terra. Ministério do Trabalho (1978). 103-122). M. raquelrigotto@gmail. Responsabilidade social e ambiental nas empresas: contribuições da psicologia social desde as áreas comunitária. o consumo e os novos operários: a experiência de trabalhadores em região de recente industrialização.com. São Carlos: EDUFSCar. O impacto das técnicas “japonesas” de administração sobre o trabalho industrial no Brasil. Borsoi & R. Brasília: IPEA. C. (2006). R. M. Velhos trabalhos. L. Brasília. Direitos sociais e transição para o capitalismo. ambiental e organizacional. M. Psicologia social: desdobramentos e aplicações (pp. A. R. In I. Scopinho (Orgs. I. & Ferrari. Borsoi. São Paulo: Martins Fontes. S. A. A. Hirata. (1995). (1997).113-143). Rigotto. Vigiando a vigilância: saúde e segurança no trabalho em tempos de qualidade total. (1983). F. (2007). Estudos de Sociologia. D. Condição pós-moderna. E agora? Tramas da (in)sustentabilidade e a sustentação simbólica do desenvolvimento. São Paulo: McGraw Hill. (Orgs. Scopinho (Orgs. M. Endereço para correspondência: cristinaborsoi@uol. de Castro (Org. de F. Tese de Doutorado. Ximenes. A. C. A máquina e o equilibrista: inovações na indústria automobilística brasileira (pp. F. I. H. São Paulo: Annablume e Fapesp. Americanismo e fordismo. C. (2003). 169-189). (1990). relativas à Segurança e Medicina do Trabalho. A. (2004). O “progresso chegou”. (2002). Saes. novos dias: modos atuais de antigas atividades laborais (pp. Fortaleza. 23-51. Fortaleza: Edições UFC. Relatório de pesquisa. B. São Paulo: Loyola. (2002). Nova divisão sexual do trabalho? um olhar voltado para a empresa e a sociedade.).). Harvey. Gramsci. Des-territorialização e identidade: a rede “gaúcha” no Nordeste.). As mudanças institucionais e as relações de trabalho no Brasil após o Plano Real. Humphrey. (2004). O trabalho.). São Paulo: LTR e EDUSP. A cultura do novo capitalismo. & Turchi. 311-339). São Paulo: Escrituras. Krein. agora entre células e esteiras. Aquino (Orgs. Velhos trabalhos. J. Noronha. F. Ceará: sapateiros e bordadeiras. A. D. Borsoi & R. I. E. A.

com efeitos dessocializantes no âmbito das famílias trabalhadoras e no aperfeiçoamento da cidadania (Ivo. Sociology of absences. Palavras-chave: Pobreza. mas com maior gravidade entre os menos qualificados (Antunes. It is assumed that the historic reconstruction of the social unqualification process can help understand how social structures stand out before actors with constitutive power. 51 . 2008. Na segunda parte. Social unqualification. eventualmente. Na parte inicial do artigo revisamos autores que tratam da questão da pobreza. this complex reality. we develop issues on situations of poverty experienced by a significant share of Brazilian workers in contemporaneity. n. Seguindo essa tendência. inclusive os mais qualificados. Assim. 2001). at least partly. Como destaca Véras (2003).Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. têm se constituído em situações catastróficas para o trabalhador. 11. Essa realidade tem sido objeto de interesse de vários setores da sociedade. intensificada com a adoção de procedimentos que priorizam a substituição do trabalho vivo por trabalho morto. In the second part. we review authors who deal with poverty issues. Conceptuals possibilities of sociology of absences in contexts of social unqualification In this work. forjando modos de subjetivação e atuando sobre a base psicossocial dos indivíduos. 1999). In the first part of the article. 51-67 Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social Alex Pizzio1 e Marília Veríssimo Veronese2 Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unisinos Neste trabalho. making up subjectivation modes and acting on the psychosocial base of individuals. a precarização das relações de trabalho. 2 Doutora em Psicologia pela PUCRS. Docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unisinos. pp. o sociólogo 1 Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unisinos. abordamos questões relativas às situações de pobreza vivenciadas por uma parcela significativa dos trabalhadores brasileiros na contemporaneidade. vol. Entende-se que a reconstrução histórica do processo de desqualificação social pode ajudar a compreender como as estruturas sociais impõem-se aos atores com poder constitutivo. tem fragilizado sobremaneira a situação dos trabalhadores em geral. seja através das idéias de marginalização. do enfraquecimento dos vínculos sociais e dos riscos de marginalização de segmentos amplos da população. observa-se um grave processo de degradação do trabalho e do trabalhador. marginal inclusion or social unqualification. entre eles o meio acadêmico. we propose the usage of theoretic concepts by Boaventura de Sousa Santos in his social research with subjects under situation of social unqualification. uma vez que implicam na sua exclusão ou na inclusão precária nesse universo. Em decorrência. as a referential source capable of explaining. como referencial capaz de dar conta (pelo menos parcialmente) da compreensão dessa complexa realidade. cada vez mais estudos têm se dedicado à compreensão dessa degradação. 1. be it through the ideas of marginalization. Desqualificação social. Sociologia das ausências. A pobreza e a desqualificação social A s transformações sofridas pelo mercado de trabalho. propomos a utilização de conceitos teóricos de Boaventura de Sousa Santos na pesquisa social com sujeitos em situação de desqualificação social. inclusão marginal ou desqualificação social. Keywords: Poverty.

Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social francês Serge Paugam. o aspecto da territorialidade. A pobreza.. problemas de saúde. por um lado. que produzem. o autor enfatiza as fases que a compõem: a fragilidade. Nesse sentido. o conceito de identidade. A noção de trajetória. que se encontram igualmente vinculadas ao conceito de exclusão. pelo fato de valorizar o caráter multidimensional e evolutivo da pobreza. A fragilidade está relacionada à experiência vivida da deslocalização social. a dependência é de fato a fase em que os serviços sociais responsabilizam-se pelas dificuldades enfrentadas pelos indivíduos. em quem as vivencia. tais como afastamento do mercado de trabalho.) estudar a diversidade dos status que definem as identidades pessoais. ao mesmo tempo em que supostamente exporiam um modo de vida caracterizado pela instabilidade conjugal. ou seja. por exemplo. ou seja. Se. enfim. de crise e de construção dessa identidade e. Segundo as conclusões do autor. 52 . 47). Sua abordagem traz à discussão os estigmas relacionados às condições de vida degradadas ou precarizadas e ganha complexidade teórica na medida em que não é apenas uma forma de referir-se a velhos problemas. dinâmico e de múltiplas dimensões. como o local de moradia. 38). por fim. Para Paugam. A ruptura constitui-se em uma experiência na qual os indivíduos vivenciam um acúmulo de dificuldades. Por fim. a construção conceitual da desqualificação social abrange situações de pobreza. desistiu de ter um emprego. Paugam enfatiza que “uma situação continuada de fragilidade pode conduzir à fase da dependência” (2003. o estudo da desqualificação social significa: (. De acordo com o autor. sua capacidade para cuidar do lar e exercer diversas atividades em suas comunidades” (Paugam. Trata-se de experiências tipicamente dolorosas. positiva ou negativa. Essa deslocalização diz respeito a experiências como a dificuldade de inserção profissional e a perda de referências. os sentimentos subjetivos acerca da própria situação que esses indivíduos experimentam no decorrer de diversas experiências sociais. 2003. ela corresponde a um status social específico. p. as relações sociais que mantêm entre si e com o outro (Paugam. e. caracterizada como desqualificante. 2003. a sensação de estar deslocado. p. 34). ela está vinculada a processos de exclusão. em boa medida. nas sociedades modernas a pobreza não é somente o estado de despossuir. p. Do mesmo modo. 1999). de que há um processo que deve ser percebido de forma longitudinal. a dependência e a ruptura. A maioria das pessoas que vivenciam essa situação. a continuidade da dependência pode levar à experiência da ruptura. 46). que marca profundamente a identidade de todos os que vivem essa experiência (Paugam. a base espacial que abriga processos excludentes. 2003. o que permite apreender o percurso temporal dos indivíduos. concluiu que essas mudanças seriam responsáveis por um processo que ele designou de desqualificação social (Paugam. ao analisar as transformações do mercado de trabalho e suas conseqüências para os indivíduos. mas aponta para a temática da chamada nova pobreza. p. Paugam articula três idéias ao conceito de desqualificação social.. “inferior” e desvalorizado. por outro. buscando destacar o caráter processual implícito na noção de desqualificação. Trata-se de um processo abrangente. alude a condições precárias de vida vistas como ameaça à coesão social. pelo baixo nível de participação nas atividades sociais e por uma vida familiar “inadequada”. falar em desqualificação social significa abordar questões relativas à situação de pobreza vinculadas aos processos de exclusão do mercado de trabalho. ou seja. fala-se aqui de uma precariedade econômica e social que revela a existência de um contingente de indivíduos economicamente desnecessários e supérfluos. Em outras palavras. Os que “vivem a experiência da dependência procuram compensações para suas frustrações tentando valorizar sua identidade parental.

o autor explicita ainda mais seu conceito do processo de desqualificação social: O movimento de expulsão gradativa. “permite dar prosseguimento à análise da designação ou da rotulagem. para fora do mercado de trabalho. passam a discriminar segmentos cada vez mais amplos da população (Véras. pp. é freqüente que um tal cuidado se manifeste já antes do nascimento e perdure após a sua morte. especialmente a francesa. A partir desses elementos e tendo a assistência social como eixo transversal do processo. de identidade ou outros. foram de certa forma mundiais. p. necessariamente experimentada pelo indivíduo em questão (. citado por Paugam. Para ele. de materiais iguais aos utilizados pelos outros para construir-lhe uma identificação social e pessoal. perda de contatos com a família etc. p. de um status e à condição social objetiva das populações reconhecidas como em situação de precariedade econômica e social. sobretudo em seus trabalhos relacionados ao estigma. A identidade pessoal e a identidade social de uma pessoa. de camadas cada vez mais numerosas da população – e as experiências vividas na relação de assistência. E ele não exerce nisso grau menor de liberdade quanto ao estilo de construção (Goffmam. n. A construção conceitual da desqualificação social empreendida por Paugam é realizada buscando compreender situações que ocorreram gradativamente em países que já conheceram razoável desenvolvimento econômico-social e que. 2003. Os efeitos dessa pobreza dizem menos respeito a situações de carências em termos materiais. ocorridas durante as diferentes fases desse processo. produto de uma soma de fracassos que conduzem a uma acentuada marginalização. então. vol. analisado mais de perto por Paugam. 61). não se trata de sentimentos. Desse modo o conceito de identidade social desenvolvido por Goffman. Nessa conjuntura. Se o seu trabalho teve como referência a experiência européia. pode-se transferir essa análise para a realidade da classe que vive do trabalho no Brasil. 11. a partir das novas etapas do desenvolvimento contemporâneo. embora tenham tido efeitos diferenciados na periferia do sistema-mundo globalizado. Goffmam (1988) examinou “a relação entre a identidade social e a identidade pessoal”. já que as transformações. p. o tema da desqualificação social não pode ser estudado de forma aprofundada sem referência a uma hierarquia dos status sociais. dependem do cuidado que os outros têm de a definir. no caso francês. 1999. bem como examinar o controle da informação que um indivíduo pode exercer sobre a deficiência ou descrédito que o caracterizam” (Paugam. 2008. 61). a desqualificação social revela uma nova forma de pobreza. 53 . dinâmico e evolutivo da pobreza e o status social dos pobres socorridos pela assistência (Paugam. ao fenômeno da exclusão dos trabalhadores do mercado formal de trabalho e à relação dos indivíduos inseridos nesse contexto com os serviços de assistência social característicos do modelo francês. O autor vincula a desqualificação social à construção de uma identidade. 2003. 51-67 falta de moradia.. Segundo Paugam. para essa pessoa. antes de mais nada.) Certamente. uma realidade subjetiva. Cumpre realçar que o conceito de desqualificação social valoriza o caráter multidimensional.. o indivíduo se vale. a desqualificação social encontra-se relacionada à crise do Estado Providência. Em contrapartida.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Sua teorização foi inspirada no pensamento de Erving Goffmam. a identidade em si é. para construir uma imagem de si mesmo. Pode-se dizer que. Trata-se da última fase do processo. antes de tudo. reflexiva. Quanto à identidade pessoal. 68). 1. 2003).

não se pode fazer referência à perda de um patamar social de cidadania e de assistência exatamente da mesma forma como no caso francês. Paugam retoma as idéias de Simmel. pois. nesse sentido. 55). em diversos status e ocupações. Isso faz com que tenhamos que adotar certas precauções quanto a sua aplicação em estudos que abordem a realidade brasileira. que como característica apresenta um contingente de trabalhadores que participam no mercado de trabalho como ofertantes de mão-de-obra sem serem necessariamente absorvidos. em se tratando de desqualificação social. para quem3 O fato de alguém ser pobre não significa que pertença a uma categoria específica de pobres. o tema da pobreza. 3 George Simmel (1971). talvez mesmo quando sua situação poderia normalmente lhe dar direito à assistência. os pesquisadores. ao analisarem o fenômeno da pobreza. eles não ficam ainda reagrupados de alguma maneira numa totalidade sociológica particular. mas as formas institucionais que esse fenômeno assume numa dada sociedade ou num determinado meio” (Paugam. em nosso país. p. Mas os indivíduos que. “o que é sociologicamente pertinente não é a pobreza em si. 2003).Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social passando a estar relacionados a situações de assistência. Contudo. Para Pereira (1971). que eles se tornam parte de um grupo caracterizado pela pobreza. sendo essa população uma decorrência da superabundância de mão-de-obra. p. mas continua se situando numa categoria definida por uma atividade específica ou posição. a marginalidade é uma forma específica de incorporação social. O debate sobre a pobreza e a exclusão no Brasil No Brasil. 2003. distinta da classe social à qual pertencem. a situação apresenta algumas diferenças. Nesse sentido. Nessa categoria. Naquele momento. entre outros. embora o fenômeno da pobreza seja recorrente em nossa sociedade. um pobre artista. O fato de não termos atingido um estágio avançado de cidadania como o constituído pelo Estado Providência deve ser considerado. mas pela atitude coletiva que a sociedade em sua totalidade adota em relação a ele (Simmel. faz parte da agenda de pesquisas há pelo menos meio século. mesmo antes desta lhes ser concedida. A construção conceitual da desqualificação empreendida por Paugam está atrelada a uma realidade diversa da nossa. Não obstante ser um pobre comerciante. Vários estudos envolvendo a temática foram produzidos entre as décadas de 1950 e 1970. 54 . ele pode ocupar devido à sua pobreza uma posição que se modificará gradualmente. Pereira (1971) e Paoli (1974). 2003. para que possamos ter uma maior clareza epistemológica do conceito de desqualificação social e de seu uso enquanto categoria analítica. recorriam na maioria das vezes à noção de marginalidade. É a partir do momento que passam a ser assistidos. como se pode verificar nos trabalhos de Foracchi (1982). O desenvolvimento econômico nas formações subdesenvolvidas periféricas é um desenvolvimento excludente. The poor (citado por Paugam. é conveniente que retomemos a literatura brasileira que aborda os temas da exclusão e da pobreza. citado por Paugam. O autor enfatiza ainda que nesse caso. Sua argumentação procura demonstrar que as formações capitalistas periféricas comportam em sua estrutura um contingente populacional marginal. se encontram nesta situação. um pobre empregado. 54). no Brasil. e conseqüentemente da desigualdade. Esse grupo não permanece unificado pela interação entre seus membros. Esse fato permite ao autor caracterizar a marginalidade como realidade estrutural ligada às contradições do modo de produção capitalista em uma dinâmica de participação-exclusão.

ao mesmo tempo.) a noção de marginalidade. Ou seja. a apreensão conceitual da marginalidade referenciada na participação-exclusão passa a não se esgotar nos níveis político e econômico. 1982. trabalhadores sem-terra. periférico. Contudo. 12).) sua existência é definida pela participação-exclusão e desta perspectiva é legítima a afirmação de que a marginalidade é uma forma específica de participação e essa marginalidade ocorre tanto nos setores afluentes ou dominantes. global. à cidadania e ao consumo. igualmente traduz-se por um tipo de exploração da força de trabalho requerida pelo capital nas economias dependentes. capitalista. a marginalidade é definida como carência em relação à inserção no mercado de trabalho. 55 . n. pp. à proteção social. ainda.. à proteção social e à cidadania. toxicômanos.) aparecem para a investigação como situadas nas fímbrias ou nos limites das necessidades de consumo da força de trabalho (. 11. No Brasil.. como esses níveis em estruturas distintas de significação (. as populações marginais averiguadas no campo de investigação (. contemporâneo (Foracchi. assim. permanecendo mesmo quando a noção de exclusão social surge com mais força no centro do debate. e suas variáveis configuram e determinam a noção de marginalidade.. Em alguns casos o termo se refere a situações diferenciais como a ruptura de laços sociais ou formas precárias de inserção ou. um tipo humano desqualificado socialmente” (Paoli. 145).Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 1.. um processo de interiorização da objetividade. desempregados mesmo de classe média. leia-se baixa qualidade de moradia. Com Foracchi (1982). Sob esse aspecto. Naquele momento. Também em Paoli (1974).. Dessa forma. pp. o debate acerca do tema ganhou corpo e intensificou-se fortemente. Essa maneira de perceber o problema não se transforma completamente nas décadas posteriores. 12-13). 1982. A marginalidade. seja no meio acadêmico ou fora dele. as ciências sociais passam a explorar a questão da exclusão... p. 1974. na qual o marginal seria considerado como “um tipo humano cujo papel é de ‘sobra’ em relação às estruturas fundamentais da sociedade em que se insere – no caso. com conotação de participação-exclusão. vol. essa maneira de conceber o problema da marginalidade ganhará contornos adicionais. 1974. “linguagem esta que identificava com base na maneira de morar. desde meados da década de 1980 e mais intensamente nos anos de 1990. Ela se esclarece na medida em que a investigação seja capaz de se propor à identificação do nível cultural como expressão simbólica do econômico e do político. Sua abordagem sugere que: (. ou seja. suas formulações em trabalho e marginalidade apontam para uma oposição entre os que eram reconhecidos como trabalhadores assalariados e os maloqueiros. As situações abarcadas pelo termo são múltiplas e distintas: “moradores de favelas. não se esgota nos níveis políticos e econômicos. 2008. a marginalidade surge como uma insuficiência em relação à inserção no mercado de trabalho. para a autora. um apanhado geral sobre as teorias da marginalidade demonstra que a noção diz respeito a vários fenômenos que significam uma forma de exclusão dos benefícios possíveis das sociedades urbano-industriais.. é menos uma definição de um enfoque segundo o qual o comportamento representa uma interiorização de uma situação objetiva (Foracchi. Além disso. ao não acesso a bens materiais e simbólicos. A situação de marginalidade é demonstrada pelos graus de participação econômica e cultural. quanto nos setores marginalizados de cada sistema econômico. 76). precário acesso a serviços de saúde etc. apreendendo. Assim.) a participação-exclusão expressa. idosos. à habitação. encontraremos presente tal visão. essa forma de perceber a questão contempla respectivamente o nível econômico (fatores de produção) e o político (relações de dependência). p. uma modalidade de experiência do campo das carências. 51-67 Para Foracchi (1982). p. as formações capitalistas periféricas” (Paoli. Segundo Leal (2004).

p. fazem parte deles ainda que os negando (p. um acúmulo de déficit e precariedades. 15-16). 18). Ponderando acerca da freqüência com que o termo exclusão social aparece e a diversidade de situações a que ele faz referência. de carência. Nesse caso. e também. 1999. Quando na verdade não explica nada (pp. importa para nós atentar para o fato de que. pode-se afirmar que toda situação de pobreza leva a formas de ruptura do vínculo social e representa. ao mudarmos o nome de pobreza para exclusão. Essas reações. 27). p. 2004. de precariedade. a categoria exclusão é resultado de uma metamorfose nos conceitos que procuravam explicar a ordenação social que resultou no desenvolvimento capitalista. Embora não se constituindo em sinônimos de uma mesma situação de ruptura. Cabe aqui uma pequena ressalva: pobreza e exclusão não podem ser concebidas simplesmente como sinônimos de um mesmo fenômeno. segundo suas observações. em favor da idéia de contradição.) todos os problemas sociais passam a ser atribuídos a essa coisa vaga e indefinida a que chamam de exclusão. Dessa forma. observa a permanência de uma intranqüilidade teórica em relação à exclusão proveniente de uma mudança nos modos de explicá-la conceitualmente. Dessa forma. por não se tratarem de exclusão. Dessa forma. embora encontrem-se articuladas. na maioria das vezes. seu mal-estar e sua reivindicação corrosiva. 22). o autor critica a generalização do conceito de exclusão ao mesmo tempo em que lança as bases para a sustentação da idéia da inexistência da exclusão. ela expressa uma incerteza e uma grande insegurança teórica na compreensão dos problemas sociais da sociedade contemporânea (Martins. Acrescente-se a essa consideração o fato de que. o que chamamos de exclusão corresponde ao que conhecemos por pobreza. como se a exclusão fosse um deus-demônio que explicasse tudo. torna-se difícil saber exatamente a que ele alude. 2). presenciamos uma espécie de: (. Assim.. Ao mesmo tempo. políticos e econômicos excludentes. p. existe o conflito pelo qual a vítima dos processos excludentes proclama seu inconformismo.) fetichização da idéia de exclusão e certo reducionismo interpretativo que suprime as mediações que se interpõem entre a economia propriamente dita e outros níveis e dimensões da realidade social. Assim sendo. Elas constituem o imponderável de tais sistemas. não oferecendo mais alternativa nem mesmo a possibilidade remota de ascensão social (Martins. 2004. podemos estar dissimulando o fato de que a pobreza hoje tenha mudado de forma. p. Na verdade. mais do que privação econômica. Mais do que uma definição precisa de problemas. há nela certa dimensão moral. o termo é adotado como sinônimo de pobreza. 2003. Autores como Martins (1997) criticam esse uso impreciso do conceito. mesmo com autores criticando o conceito de exclusão e afirmando sua não-existência. entre economia e outros âmbitos de interpretação do mundo da vida (... Martins (1997) propõe que: Rigorosamente falando não existe exclusão: existe contradição. de âmbito e de conseqüências. 56 . não se dão fora dos sistemas econômicos e dos sistemas de poder. No entanto. ainda que possa a ela conduzir (Sawaia. existem vítimas de processos sociais. a conclusão do autor consiste em demonstrar que a pobreza hoje inclui a negação subjetiva da pobreza.. 14). a pobreza não significa necessariamente exclusão.Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social mendigos e outros são considerados como excluídos. para interlocutores diferentes” (Leal.

o conceito aparece despido de uma compreensão histórica. Ou seja. 124). torna-se elucidativo o exemplo das meninas prostitutas de Fortaleza. 1. 2008. 8).. o problema da exclusão define-se na maneira encontrada pelos indivíduos para participar desta sociedade. Em sua ótica. nas formas utilizadas pelos indivíduos para realizarem sua inserção. apenas a idéia de excluído é insuficiente e não explica muito acerca do fenômeno. sua capacidade de ser cidadãos. que vivem em sub-habitações etc. que elas se incluem na economia. é característica desta sociedade o desenraizamento. 1999. experimentar trajetórias e modos de vida que comprometem sua dignidade. O que a sociedade capitalista propõe hoje aos chamados excluídos está nas formas crescentemente perversas de inclusão (p. desde cedo submetidos a uma socialização degradante. Vivenciar essa forma de inserção é. 1997. E tal modo de vida compromete sua dignidade. Trata-se de indivíduos possuidores de renda insuficiente. o sistema precisa transformar cada indivíduo em membro da sociedade e a maneira pela qual isso ocorre pode ser como produtores ou como consumidores de mercadorias. com baixa instrução. vol. uma vez que sua dinâmica baseia-se em processos de exclusão para incluir segundo regras e lógicas próprias. p. Destaca Martins (2003): (. que se desdobram para fora do econômico. Nesse sentido. elas alimentam esse sistema com a prostituição infantil. que constitui um processo de modificação dos indivíduos em relação àquilo que eles eram. o comprometimento do caráter desses membros. Por isso o problema está em discutir as formas de inclusão. 2003). incluindo a dimensão psicossocial de forma contundente (Sawaia. Além disso. precária e instável: a inserção marginal. é útil perceber que a nova dinâmica da sociedade capitalista exclui e demora a incluir: O momento transitório da passagem de exclusão para inclusão está se transformando num modo de vida que permanece: o modo de vida do excluído que permanece que não consegue ser reincluído. pois na sociedade capitalista não podemos versar sobre uma exclusão absoluta. n. 51-67 Em síntese. sua condição humana. sua condição humana. pp. 1999. A esse processo o autor dá o nome de inclusão precária ou marginal. do ponto de vista moral e político (Véras. Dessa perspectiva. Nessa direção. Dessa maneira. p. trata-se de um processo em que as escolhas oferecidas aos cidadãos são insuficientes para reverter o quadro de privação em que estão inseridos (Martins.. 11.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 40). sobretudo. o que deve ser analisado é a forma de inclusão na sociedade. ou seja. A inclusão marginal é um processo inerente à forma de produção e acumulação capitalistas. na sua exclusão moral. de algum modo. consumidoras. pois consideramos que no caso brasileiro o processo de desqualificação social surge em decorrência do modo pelo qual um contingente expressivo da população acaba por inserir-se na sociedade e as implicações dessa inserção nas suas condições de vida. 57 . sua capacidade de ser cidadão. Elas se tornam compradoras. para os críticos. Para Martins. sendo que a grande maioria encontra-se inserida através da insuficiência e das privações. Com esse dinheiro elas (e suas famílias) se tornam. através de uma forma subordinada de integração.) elas não são excluídas. estamos todos incluídos de alguma forma no circuito reprodutivo das atividades econômicas. ao contrário: elas são meretrizes justamente para ganhar o dinheiro que viabiliza sua inclusão na economia e no mercado. das novas gerações. Tal constatação adquire relevância. Porém essa inclusão nem sempre se dá de forma digna e decente. Porque é com o dinheiro que elas ganham na prostituição. Para Bader Sawaia.

inseridos de algum modo no circuito de atividades econômicas e com direitos reconhecidos. 2003.. há uma fratura cada vez maior e difícil de ultrapassar (p.) naquela época. no pequeno comércio. 58 . Isso equivale a dizer que o processo de desqualificação social está relacionado à convivência cotidiana dos indivíduos com um misto de situações de precariedade e de vulnerabilidade. como são chamados. A fala da coordenadora da Associação de Catadores de Papel.. realizado em Belo Horizonte por iniciativa do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR): Aprendi que os seres humanos. ou catadores. já que as agendas dos partidos não contemplam as aspirações dos mais excluídos e os sindicados não reconhecem formas de trabalho que extravasam do modelo do capitalismo industrial (p.. por aqueles que se encontram nessa situação. em entrevista sobre sua vida. as associações e cooperativas podem cumprir esse papel. de anulações e também de inclusão enganadoras (Martins.. trata-se de um processo percebido através de uma trajetória de vida (visto de forma longitudinal). 2007). com efeitos negativos sobre as condições sócio-políticas e sobre a auto-estima. mesmo os mais excluídos e nas condições mais indignas – aqueles para quem o nosso lixo é um luxo e o endereço é um viaduto ou uma soleira de porta – não desistem de lutar por uma vida digna.)”.. no setor de serviços mal pagos. Em texto recentemente publicado. traz embutido um sentimento de desumanização ou de coisificação do ser humano. assente na reivindicação de direitos de cidadania que. Aprendi que muitas das lutas mais exigentes pela inclusão social exigem formas de organização e mobilização autónomas. a coordenadora destacou: “(. ela apresenta-se como o processo no qual indivíduos em situação de marginalização revestemse de um status de inferioridade social. constituído por uma multiplicidade de dolorosas experiências cotidianas de privações. No caso dos catadores.. nós somos bichos mesmo (. lhes dão notícia da sua humanidade. p. enquanto uma categoria. A gente dizia. Em outros termos. Boaventura de Sousa Santos (2007) comenta sua experiência ao visitar o VI Festival do Lixo e Cidadania. Papelão e Materiais Recicláveis de Belo Horizonte (ASMARE) torna-se emblemática nesse sentido. atrapalhando os postais ilustrados e a indústria turística. a desqualificação social e as situações conseqüentes acabam por se correlacionar com o plano psicossocial dos indivíduos.) além da humanidade formada de integrados (ricos e pobres). crescendo rápida e tristemente através do trabalho precário. São milhares de sombras móveis coladas a carroças desengonçadas que percorrem as cidades. antes de participar da associação. 1). Um dos exemplos mais emblemáticos desses processos é a categoria profissional dos recicladores de lixo. vidro e plástico usados ou sucata. nós não nos considerávamos gente. apesar de impunemente desrespeitados. Essa forma de inclusão. destaca que: (. Nessa dinâmica. Uma das características centrais desse processo é que o indivíduo. serve de barreira que impede a inserção adequada como cidadão. conforme demonstra estudo recente (Pizzio. 21). que além de impedi-los de aprofundar um sentimento de pertencimento. A superação desse patamar passa a ser desejado e buscado. na qual experiências e situações estigmatizantes são vivenciadas e interiorizadas. há uma outra humanidade no Brasil.Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social do ponto de vista moral e político. tratados como cidadãos de segunda classe. quando entram em associação com outros atores sociais que lhes fazem vislumbrar essa possibilidade. ao comentar as formulações de Martins a respeito da inclusão marginal. Em face ao exposto – retornando à desqualificação social –. populações descartáveis apesar de ganharem o seu sustento colectando para reciclagem o que descartamos como papel velho. Entre esses dois mundos. 40). Sawaia (1999). perde ou não adquire qualidades que o recomendariam à consideração pública. ao tornar-se um desqualificado social. quando vivenciada no dia-a-dia.

2008. Por outro lado. vol. desenvolvida por Boaventura de Sousa Santos (2004). Mas já apontamos para a relação que existe entre o trabalho de Santos e as outras formulações sobre inclusão marginal ou desqualificação social. Esse artifício surge como resultado de um acordo social excludente. pois implica em perceber que a ausência constitui-se num artifício que permite a naturalização da desigualdade entre indivíduos supostamente mais qualificados e aquela população considerada desqualificada. 23). meramente como existe. como do próprio excluído. 2002). A sociologia crítica de Boaventura de Sousa Santos Na tentativa de responder à pergunta “porque se tornou tão difícil produzir uma teoria crítica?”. situações que podem conduzir a processos de desqualificação são percebidas em estratos sociais diferenciados. recorremos agora à sociologia crítica de Boaventura de Sousa Santos. que não reconhece a cidadania para todos. o autor realiza uma crítica da forma de conhecimento e das práticas sociais vigentes desde o advento da modernidade ocidental. 1. Segundo Sawaia (1999). Em Para uma sociologia das ausências e das emergências. no qual a cidadania de uns é distinta daquela de outros. Em sua perspectiva. expressa em afirmações como “isso é assim e não há nada para fazer”.) servem para explicar. como a compreensão da condição da exclusão social como fatalidade são reveladoras de processos nos quais os vínculos sociais estão no mínimo fragilizados. como aquilo que marca. O estigma definido como cicatriz. através de relações sociais injustas e predatórias.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. suas oportunidades e seus horizontes. Esse caráter natural do fenômeno vem contribuir com o denominado ciclo de exclusão. especificamente no caso da sociedade brasileira. assim como também são distintos seus direitos. mas sim a considera um devir pleno de possibilidades. em uma tensão dinâmica entre regulação social e emancipação social. a natureza da incidência dos mecanismos que promovem o ciclo de reprodução da exclusão. passando a ser ignorada pela sociedade. foi produzido para permanecer oculto. na próxima seção. pp. revela também uma fragilização do vínculo societal. a naturalização do fenômeno da exclusão e o papel do estigma (dois dos componentes centrais no processo de desqualificação social): (. a partir dos seguintes conceitos: dialética da regulação e emancipação social. 59 . Essa invisibilidade encontra sua melhor expressão na noção de ausência.. A partir de meados do século XIX. Essa constatação adquire relevância. em uma posição de existência tão “inferior” que não pode ser considerada como alternativa credível de vida. Por isso o autor refere a urgente necessidade de um novo contrato social (Santos. Por fim. 11. n. representado pela aceitação tanto do nível social.. na realidade. 51-67 Outra característica da desqualificação é que ela implica em uma invisibilidade produzida. no sentido de reforçá-lo e reproduzi-lo. o autor procura demonstrar que o que “não existe”. Como um referencial teórico capaz de dar conta (pelo menos parcialmente) da compreensão dessa complexa realidade. a partir dos séculos XVI e XVII. Tanto a atmosfera social de conformismo. noção de autoria e sociologia das ausências. sem perder de vista sua idéia de que teoria social crítica é toda teoria que não reduz a realidade ao que já existe. destacamos que o fenômeno da desqualificação social não é exclusividade de grupos isolados. pelo contrário. denota claramente o processo de qualificação e desqualificação do indivíduo no ciclo da exclusão (p. a modernidade ocidental emergiu como um ambicioso e revolucionário paradigma sócio-cultural. Iremos desenvolver em maior detalhe esse conceito.

assentava-se na distinção entre sujeito e objeto e entre natureza e cultura.Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social com a consolidação da convergência entre o paradigma da modernidade e o capitalismo. ao qual corresponde a dualidade entre estrutura e ação assumida pela teoria critica tradicional. É superação na medida em que a modernidade cumpriu algumas promessas. para a qual não há um processo único de transformação social. também a teoria social deve renovar-se. O segundo aspecto importante a destacar é que a teoria crítica de base marxista. segundo o autor. vivenciamos uma transição paradigmática. Em um contexto de grande diversidade social. multiplicidade de atores emergindo na esfera pública. Santos bebe na fonte da teoria social crítica moderna. com o colapso da emancipação na regulação. caracterizado pela gradual e crescente transformação das energias emancipatórias em regulatórias (Santos. enfatizando que mesmo aqueles que continuam a crer num futuro socialista o vêem como um futuro possível. por fim. 2004). para posteriormente buscar superá-la. até com excesso. a tensão entre a regulação social e a emancipação entrou em um processo histórico de degradação. ou seja. Ao desnudar a complexidade do paradigma da modernidade. o paradigma sócio-cultural da modernidade. em alguns casos. a racionalidade instrumental da ciência e da tecnologia e a racionalidade prático-moral da ética e do direito. transforma-se em modo de produção dominante e desaparecerá provavelmente antes mesmo de o capitalismo perder a sua posição dominante. é obsolescência na medida em que a modernidade não consegue cumprir outras promessas. o autor ressalta seus dois pilares de sustentação: a regulação e a emancipação social. Seu argumento central é que estamos vivenciando a crise desse conjunto de pressupostos e das práticas sociais que eles geraram. Santos assume. viu na industrialização o mote do desenvolvimento. alternativos. Disso decorre que não há agentes únicos. Ou seja. não 60 . já que é simultaneamente um processo de superação e um processo de obsolescência. Esse paradigma que. expressa nos níveis epistemológico e societal. dentre elas o progresso com prosperidade. no sentido de superar os traços reificantes e universalizantes da teoria crítica moderna. A conseqüência desse fato foi que a teoria crítica interpretou esse princípio com grande liberdade. 2002). o paradigma da modernidade deixa de poder renovar-se e entra em crise (Santos. (Santos. O primeiro aspecto é a idéia de agentes históricos. Como destacamos anteriormente. nesse caso. Assim. no principio da comunidade (princípio formulado por Jean-Jacques Rousseau). o equacionamento dos problemas sociais pela via da ciência e da tecnologia etc. recorre a Max Weber e suas três lógicas de racionalidade: a racionalidade estético-expressiva. Sendo estas últimas múltiplas e plurais. constituído antes do capitalismo. fragmentação do real. recorre a Hobbes para demonstrar que o pilar da regulação sustenta-se sob a égide do Estado. como também não há forma única de emancipação ou de dominação. Sua divergência com a dimensão mais necessitária do marxismo centra-se no fato de que a tradição marxista entendia a possibilidade de superação do atual estágio de desenvolvimento baseada em um principio único de transformação social. em concorrência com outros. Para Boaventura Santos. compartilhando com a sociologia convencional alguns aspectos importantes. Havia uma perspectiva emancipatória (o ideal revolucionário) com um ator social privilegiado para levá-lo a cabo (a classe operária). de base marxista. a exemplo da sociologia convencional. Ao fazer esse movimento. do mercado (princípio formulado por John Locke e Adam Smith) e. 2001). uma posição contrária. Esse desaparecimento é um fenômeno complexo. sendo que. Nisso reside sua proposição de uma teoria crítica pós-moderna ou póscolonial. poderia ser representado pelo positivismo – em suas várias formulações –. a relação desenvolvimento/industrialização é um embuste. variadas também serão as formas de resistência e de emancipação a serem empreendidas. Já no que diz respeito à emancipação.

relações mais recíprocas e igualitárias. em um movimento metodológico de dupla escavação. No colonialismo e no neocolonialismo. Para Santos (2001). processo que desemboca em uma ideologia mundial de consumismo. o objetivo último da ciência social crítica é ela mesma se transformar em um novo senso comum. 61 . numa concepção retrógrada da natureza. as tradições e alternativas que dele foram expulsas. assim. por outro lado. Nesse processo. procura. por esse motivo. Para tanto. entre os escombros das relações dominantes entre a cultura ocidental e outras culturas. p. Tais conceitos têm encontrado guarida e grande repercussão nas ciências sociais e. Passamos abaixo a apresentar os conceitos e justificar a sua utilização. para o autor o objetivo da vida não pode deixar de ser a familiaridade com a vida. todo pensamento crítico é centrifugo e subversivo. Sua argumentação sustenta-se no fato de a industrialização se assentar. Para ele. a industrialização não trouxe desenvolvimento traduzido por melhores condições de vida. no qual o pilar da emancipação míngua em relação ao da regulação. Mas as divergências do autor com a teoria social moderna não se esgotam aqui. no qual se pensem as transformações e as possibilidades para além do capitalismo e para além das alternativas ao capitalismo produzidas pela modernidade ocidental. para dois terços da população mundial. 57). Por isso. p. n. Aqui reside uma das idéias-chave do autor. outro ponto de relevância diz respeito ao estatuto e aos objetivos da própria crítica. 2000. por um lado. Assim. 11. o autor tem sido pródigo na criação de conceitos capazes de avançar nessa proposta. busca. A própria esquerda política – e veja-se o caso brasileiro com o governo Lula – ainda aposta no desenvolvimento. O paradigma da modernidade almejava um desenvolvimento harmonioso entre os dois pilares (regulação e emancipação) e pretendia ainda que esse desenvolvimento traduzisse-se na completa racionalização da vida coletiva e individual. 2008. constituem a condição determinante que levou a emancipação moderna a render-se à regulação moderna. A redução da emancipação à racionalidade instrumental e a redução da regulação ao princípio de mercado. tem dedicado-se a trabalhar na emergência de um novo paradigma epistemológico-sócio-político. a absorção da emancipação pela regulação neutralizou os receios outrora associados à perspectiva de uma transformação social profunda de futuros alternativos (Santos. a desfamiliarização é por ele concebida como um momento de suspensão. pp. 16). o que se viu foi um desenvolvimento desequilibrado. Mas enquanto na teoria crítica moderna o objetivo do trabalho crítico é criar desfamiliarização. tendo como conseqüência para o último a hipertrofia do mercado em detrimento dos princípios do Estado e da comunidade. incapaz de ver a relação entre a degradação desta e a degradação que ela sustenta. no “lixo” cultural produzido pelo cânone da modernidade ocidental. na medida em que visa criar desfamiliarização em relação ao que está estabelecido e é convencionalmente aceito como normal. Essa vinculação entre os pilares e a práxis social iria garantir a harmonização de valores sociais necessários ao equilíbrio das sociedades. necessário para criar uma nova familiaridade.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. incentivado pela conversão da ciência na principal força produtiva. Assim. consideramos possível sua aplicabilidade no contexto da análise da desqualificação social. já que todas elas estão condenadas a transformarem-se em outras tantas estratégias de regulação. 51-67 sendo esta a “parteira” do desenvolvimento. o que por si só já é significativo. no crescimento econômico baseado em industrialização e agrobusiness como forma de sanar os graves problemas sociais enfrentados pelos países de periferia. 1. um senso comum emancipatório (Santos. Resumidamente. Porém. 2001. a emancipação deixou de ser o outro da regulação para se transformar em seu duplo. inevitável e necessário. vol. aí residindo o seu caráter vanguardista. deixou de ser possível conceberem-se estratégias emancipatórias genuínas no âmbito do paradigma dominante.

consideramos que ela abre um leque de possibilidades de análise justamente pelo fato da sociedade brasileira ter no mercado seu agente de regulação e ter no Estado ainda um mediador. descredibilizadas ou ridicularizadas. possível a partir da globalização da esperança e da solidariedade. O todo. A expansão da ciência moderna como conhecimento-regulação (para o qual o ponto de ignorância é o caos e o ponto de saber é a ordem) ensejou um processo de destruição de muitas formas de saber e de ser. Tudo que não cabe 62 . a uma passagem do monoculturalismo para o multiculturalismo. 2004). a construção de um conhecimento multicultural implica em duas dificuldades: o silêncio e a diferença. reestruturação produtiva etc. concepções alternativas de vida. Tendo como base uma razão totalizadora. o autor distingue na modernidade dois pilares em tensão dialética: o pilar da regulação e o pilar da emancipação social. educado. pelo homem (branco. Sociologia das ausências Boaventura Santos destaca que a opção da sociologia pelo conhecimentoemancipação (para o qual o ponto de ignorância é o colonialismo e o ponto de saber é a solidariedade) remete-nos. movimentos sociais. (Santos. viver e sentir destruídas. o que acabou produzindo silêncios sociais. Ao feixe de projetos e lutas progressistas globalizadas. pelo patriarcado. comércio. A economia solidária pode ser descrita como uma prática do cosmopolitismo subalterno. onde se tornaram impronunciáveis as necessidades e as aspirações de povos ou grupos sociais que tiveram suas formas de saber. 2003) chama cosmopolitismo subalterno. as possibilidades de emancipação. é representado pelo capitalismo. heterossexual etc. mas sim poder apropriar-se de uma condição globalizada e irmanada com pessoas e culturas de outros lugares e olhares na busca de um mundo outro. aqui entendidas na forma de acesso a cidadania plena. não dando conta das relações nos países colonizados (Santos. pelos países ricos e seus agentes. à economia solidária em Porto Alegre ou na Índia. A esses projetos não subjaz uma teoria única ou uma estratégia una. Esse conceito expressa uma grande diversidade de práticas. 2004). os trabalhadores empobrecidos pelos processos de industrialização. Santos (2002. os de origem afro-descendente. Embora ele próprio considere que essa dialética fez-se presente de forma mais intensa na realidade da comunidade européia e países avançados. de economia. O uso do termo cosmopolita aqui não se confunde com “ser cidadão do mundo” – conceito sem dúvida da e para a elite –. Não há teoria social unificada que possa dar conta plenamente das realidades empíricas diversas que encontramos na contemporaneidade. Sua expressão pode ir do movimento zapatista no México. Dessa forma. através da diversidade de demandas que expressa. e é também nesse âmbito que se gestam as possibilidades de rompimento com a dependência social e a desqualificação por parte dos atores vulnerabilizados. os “loucos” ou portadores de sofrimento psíquico permanente. as mulheres. deverão dar-se no espaço público. os gays e lésbicas. sociedade e comunidade. entre outras implicações. Exemplos disso são os povos indígenas.). Entretanto.Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social Os conceitos e sua aplicabilidade Dialética entre regulação e emancipação Como já referimos anteriormente. que é na verdade uma das partes que se totaliza pela hegemonia. a ciência moderna colocou em movimento um processo onde não há compreensão nem ação que não seja referida a um todo e o todo tem primazia sobre as partes que o compõem. o que permite analisar todo um conjunto de resistências à dominação que ele chama de “cosmopolitismo subalterno”. o movimento Fórum Social Mundial é talvez sua principal forma de expressão. expansão capitalista.

transformar ausências em presenças. alta exigência em termos de resistência física etc. a tua mãe é uma lixeira. na concepção hegemônica. Citamos algumas falas onde se evidenciam tais constatações. brevemente.. na qual o crescimento econômico é um objetivo racional inquestionável. Assim sendo. Em outras palavras. na qual o global da globalização hegemônica (neoliberal) é a escala por excelência. a produtividade vem antes da saúde dos que trabalham e da preservação ambiental. Existem. como modos familiares de agricultura orgânica. como locais insalubres. etnias e classes sociais assumem caráter natural e quem é “inferior” jamais será alternativa credível para quem é “superior”. naturais e humanos. O seu objetivo é transformar objetos não credíveis em credíveis e. pp. 2004). de classificação social. dizem. têm-se uma imagem (construída a partir das monoculturas) desqualificada e estigmatizada àqueles que dela participam. A monocultura do saber. 11. rumo ao progresso futuro. e são imediatamente reconhecidos como sinais de inferioridade. São cinco as lógicas de produção das não-existências (2002. escalar e produtiva. ele diz. Os recursos. n. com base nisso. em nome do desenvolvimento econômico. eles têm preconceito com ele. de andar etc. São cinco. A monocultura do tempo linear. como possibilidade de presença reconhecida e válida na esfera social. respectivamente. Daí a necessidade de se proceder a uma sociologia das ausências. para o autor. que se corporificam em lógicas de pensamento e de práticas sociais. o não-existente será o ignorante. Se retomarmos o exemplo da atividade de reciclagem.. podem ser explorados de forma predatória. 51-67 nesses parâmetros é arrastado à condição de ausência social ou de uma existência desqualificada. objetivo inquestionável.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. essa desconsideração pública diz respeito a um conjunto de signos opacos. o estéril e o desqualificado para o trabalho não servem. vol. mas imediatamente compreensíveis por todos. a sociologia das ausências constitui-se em um procedimento investigativo que intenta demonstrar que aquilo que parece não existir teve essa invisibilidade ativamente produzida por relações sociais injustas e predatórias. temporal. assimetrias entre gêneros. Formas alternativas de produzir. as principais formas sociais de não-existência que assume aquele sujeito ou grupo social que foi excluído como alternativa credível. posto que inscritos no corpo. o local e o particular não constituem alternativas credíveis. Vejamos. o trabalho como elemento que serve de suporte para a inscrição daqueles sujeitos na estrutura social passa a fornecer elementos negativos que não recomendam os sujeitos à consideração pública. A lógica da escala dominante. ou produção em pequena escala oriunda de desenhos organizacionais alternativos. o residual. não minha mãe não é uma 63 . nomeando os agentes e os saberes marginalizados no intuito de dar-lhes credibilidade.. que considera a ciência moderna e a alta cultura como padrões únicos de verdade e qualidade estética. Lógica da classificação social. estatuto de existência legítima enquanto tal. que cria categorias sociais que naturalizam hierarquias. A lógica produtivista ou monocultura da produtividade capitalista hegemônica. 2008. Lixeiros! geralmente eles têm preconceito por não saber mesmo o que tem de bom aqui dentro que eles poderiam aproveitar. o inferior. Então. formas específicas de produzir não-existências. ou seja. 1. conseqüentemente. como uma alternativa não credível em relação ao que existe e é considerado como válido. que constituem monoculturas nas dimensões epistemológica. A lógica produtivista. Em outras palavras. “primitivos”. na forma de falar. como a natureza e o trabalho devem estar a serviço dessa lógica. perceberemos que afora todas as dificuldades relativas à sua realização diária. Até no colégio mesmo que o meu menino está. são “atrasados”. o local e o improdutivo. desigualdades e injustiças. cada uma delas. não pode ser questionada. a não ser que se submetam às regras dominantes. não de resíduo ou anacronismo. que se constitui na perspectiva hegemônica da temporalidade ocidental. devendo ser descartados.

. Profetas da Ecologia). na contração do presente e no desperdício da experiência. captar e compreender o processo através do qual têm sido produzidos os silêncios sociais nos mais diversos contextos empíricos e. A noção de autor encontra-se relacionada à noção de sujeito individual. achava placenta. A produção social dessas ausências resulta na subtração do mundo. nós temos o trabalho da minha mãe. Elas acham nojento porque “ah. no conceito de autoria. teve épocas como de quando inaugurou aqui o galpão. Profetas da Ecologia). no passado eu achava muita coisa. trazer a tona saberes e perspectivas diferenciadas que possam representar toda a riqueza social contemporânea. A desqualificação atribuída pela sociedade aos catadores manifesta-se igualmente no grupo familiar. Eu te digo que a gente é meio desclassificado quando passa na rua. Um dos caracteres inacabados da modernidade é a racionalidade estéticoexpressiva. No passado aqui. Eles acham muito nojento. o senhor ia dizer que era mentira. Todos meus irmãos têm. vocês vivem do lixo dos outros. Eles olham para gente como se a gente fosse uns lixeiros mesmos. Ainda tem muito preconceito (Sirlei. a recuperação do que no local não é efeito da globalização hegemônica. do lixo da gente”. a minha irmã que mora na Mathias Velho. Nesse questionamento. a partir daí. contudo esta última. ela mesma disse: que eu não era irmã dela porque a minha casa não servia nem de galinheiro pra ela. Assim. como sempre. a vivência de temporalidades diversas da frenética máxima de que tempo é dinheiro. a casa dela é um palácio.Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social lixeira. A sociologia das ausências coloca a necessidade de pôr em questão cada uma dessas lógicas. não. o que possibilitaria a disputa epistemológica entre diferentes saberes. Eles têm condições. olha o cara juntando lixo aí. Nesse processo. no qual uma combinação de vergonha e desprezo serve de obstáculo a apartar sujeitos e impedir uma convivência mútua. lixeiro (Gaudério. É aquela coisa.. meus irmãos têm carro. capaz de inventar outros mundos e 64 . os sujeitos fazem-se autores da sua própria vida e da vida coletiva. que reside. o desqualificado. ah. dentre outros. É por isso que ninguém me procura. Dessa forma. a não identificação da diferença com a desigualdade. Então. Noção de autoria Para Santos (2002). torna-se possível. através da sociologia das ausências. uma vez até fiquei sentida com ela. achava até pedaços de pessoas às vezes (Delmar. que eles eram tios e tia de sangue eles não foram (Iracema. Essa situação pode ser caracterizada através da passagem abaixo.. Nem no velório do meu filho. a valorização de sistemas alternativos de produção e consumo. a gente não come do lixo. CEA-Vila Pinto). derivou para o conceito de indivíduo autônomo como agente do mercado. a gente come do trabalho dela. todos eles. Vocês têm que mexer nisso. eco-feminismo etc. definindo-se o autor como um criador autônomo. A fixação da pobreza como marca de inferioridade e a dificuldade em se livrar dos estigmas operam de maneira contraproducente na construção das identidades sociais.. naturalizandoa e ainda culpabilizando-se o pobre. muito. chamam até. propõe substituir monoculturas por ecologias. O conceito de autoria por ele desenvolvido parte da racionalidade estético-expressiva das artes. a escadinha sobe tudo rodeando para os quartos. tendo sido desenvolvida no pilar da regulação. pela sua condição. CEA-Vila Pinto).. achava ferro.. vocês comem do lixo. que são meus irmãos. as representações inacabadas da modernidade representam elementos importantes para que o paradigma emergente efetivamente transcenda os limites da modernidade. se o senhor fosse visitá-los. reproduzem-se e cristalizam-se lógicas que justificam a suposta “inferioridade”. eco-socialismo.

a autoria do autor assenta na diferença entre a ação e as condições de seu desempenho. irá interpretar e buscar superar a sua condição através de lógicas e práticas próprias. percebem-se como autores de suas próprias trajetórias. e contra os saberes. buscamos compreender o contexto subjetivo em que se deram as escolhas e as ações por eles empreendidas.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 2000). abertos à partilha de poder. 2008. Essa perspectiva pode ser entendida como a aplicação da sociologia das ausências no campo da pesquisa social. o emprego precário ou mal remunerado. mas valorizada socialmente. informal. instável. os laços da impotência frente aos ditames que o sujeitam. a partir de historias de vida. É preciso. na qual a trajetória é vivenciada como um continuum que permite ao sujeito deixar de perceber-se como objeto e passar a conceber-se como ator. reconhecidas nos espaços públicos onde os atores se encontram para produzir a micro-política da vida cotidiana. assim o fazendo. n. contra o saber. em relação aos modos de ser. Assim. É dessa perspectiva que interpretamos os esforços de vários catadores que buscam na associação coletiva construir uma alternativa. contra-saberes (Santos. ao mesmo tempo em que permitam a singularização e a autoria de sujeito individual. que nos parece profícuo na investigação empírica dos variados contextos sociais. é uma perspectiva que pode abrir horizontes fecundos na busca de desenhos institucionais alternativos. criar saberes. assim. trabalhadores empobrecidos. 1. na busca da diminuição do déficit de cidadania e no fortalecimento dos seus vínculos sociais. gostaríamos de destacar que a adoção dessa perspectiva teórica para a análise do fenômeno da marginalização social permite perceber que os diversos sujeitos são afetados de diferentes formas pelos cenários de privação e. nesses contextos. por exemplo. Tácito a essa noção encontra-se a concepção de processo. Trazer as ausências para serem presenças. na ação e no discurso (Jovchelovitch. suas reações também serão diferenciadas. 2004). dissolvendo. Essa seria uma tarefa por demais abrangente e tampouco julgamo-nos. É nesse sentido que a noção de autoria permite que o pesquisador possa captar e interpretar as sutilezas que compõem trajetórias individuais e coletivas a partir de situações como o desemprego. Cada autor. 65 . Apresentamos alguns dos seus conceitos. A transição paradigmática é por demais complexa para que seus territórios sejam navegados apenas com o conhecimento e o instrumental hegemônico das ciências sociais. Considerações finais Cabe ressaltar que neste trabalho não pretendemos esgotar ou apresentar em todos seus aspectos a sociologia crítica elaborada por Boaventura de Sousa Santos. Tendo como ponto de partida a referida noção de autoria. enquanto a autoria do indivíduo se baseia no desempenho de ações normativamente reguladas. A partir dessa constatação. vol. pp. não só credível. sujeito capaz de experienciar e agir em relação às situações cotidianas. no âmbito deste texto. desempregados ou sujeitos a ocupações degradantes. em especial com sujeitos que sofreram processos de desqualificação social e de invisibilização. viver e trabalhar. como os sujeitos que sofreram processos de desqualificação social. capazes de realizá-la. 11. assim como suas possibilidades de superação. que tem como premissa básica a idéia de que os sujeitos são os autores de suas biografias e não resultados de situações contingentes. de maneira que. pode-se demonstrar. como. pudéssemos deixar clara a adequação que percebemos no que se refere ao uso do seu referencial teórico-metodológico. o trabalho exercido muitas vezes em condições desumanas e degradantes. Por fim. assim sendo. 51-67 novas realidades para si e para outrem.

comunidade e cultura. F. Pizzio. Desenvolvimento e marginalidade: um estudo de caso. (1978).). E.). Petrópolis: Vozes. 66 . C. A exclusão e a nova desigualdade. G. Rio de Janeiro: Paz e Terra. (1988). (2003). Teoria de la accion comunicativa. mas receamos que não nos reste outra escolha. Psicologia social. (1997). Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Kowarick. Leal. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho (6ª ed. S. (1985). 20-31. São Paulo: Cultrix. Kowarick.). Foracchi. (1974). Pereira. A noção de exclusão social em debate: aplicabilidade e implicações para a intervenção prática. Antunes. Buenos Aires: CLACSO. Evolução recente da miséria. Centro de Políticas Sociais/IBRE. (1981). pois não fazê-lo implica em aceitar a realidade como esgotando-se no que já existe. (1978).). (2001). Desqualificação social: ensaio sobre a nova pobreza. saber. Henriques. (1999). Madri: Taurus. J. J. (2000). M. (1999). (1982). 2 (1). Economia Solidária e Ação Cooperativa. A participação social dos excluídos. A. 67-86). Referências Bibliográficas Adorno. W. São Leopoldo. Metamorfoses da questão democrática: governabilidade e pobreza (Coleção Becas de Investigación). 61-85.Possibilidades conceituais da sociologia das ausências em contextos de desqualificação social Plena de novas proposições. B. L. S. M. 16 (2).). São Paulo: EDUC e Cortez. B. T. Desigualdade e marginalização no Brasil. L. Rio de Janeiro: Zahar. & Adorno. R. T. São Paulo: Duas Cidades. Capitalismo e marginalidade na América Latina (3ª Ed. não é fácil discernir as versões emancipatórias dos seus simulacros regulatórios. Fundação Getulio Vargas (2004). Petrópolis: Vozes. Freitag. A. S. B. Rio de Janeiro: Guanabara. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (4ª ed. Populações marginais. M. XIV Encontro nacional de estudos populacionais-ABEP. (2003). Horkheimer. Jovchelovitch. A qualificação social nos empreendimentos econômicos solidários de reciclagem. Rio de Janeiro: IPEA. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sócias. J. M. Caxambu. W. Dissertação de Mestrado. 18 (51).). Sobre vulnerabilidade socioeconômica e civil: Estados Unidos. São Paulo: Hucitec. M. Martins. São Paulo: Paulus. (Org. São Paulo: Brasiliense. Psicologia & Sociedade. (2007). (2004). São Paulo: Cortez. Martins. São Paulo: Biblioteca Pioneira de Ciências Sociais. França e Brasil. As artimanhas da exclusão: análise psicosocial e ética da desigualdade social (pp. Paugam. A. Revista Brasileira de Ciências Sociais. R. Pizzio. apenas. Ivo. S. In B. O enfraquecimento e a ruptura dos vínculos sociais: uma dimensão essencial do processo de desqualificação social. (2003). A economia solidária e a qualificação social dos trabalhadores empobrecidos. L. (Originalmente publicado em 1963) Habermas. A teoria crítica ontem e hoje (5ª ed. A sociedade vista do abismo: novos estudos sobre exclusão. (1988). (2007). Paoli. 23-34. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. pobreza e classes sociais (2ª ed. Sawaia (Org. P. Produzir ou re-descobrir saberes é tarefa desafiadora. (2004). Goffman. (Originalmente publicado em 1991) Paugam. (1994).). Temas básicos de sociologia (2ª ed.). S. L.

São Paulo: EDUC e Cortez.). Santos.ces. Petrópolis: Vozes. mariliav@unisinos.uc. S.br Recebido em: 05/10/2007 Revisado em: 19/02/2008 Aprovado em: 10/03/2008 67 . (Org. Prefácio da edição brasileira. Véras. (1978). B. P. Santos. B. 63.com. (2007. Lixo e cidadania. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. S. Populações marginais (pp. Exclusão social: um problema brasileiro de 500 anos. 3-76. São Paulo: Duas Cidades. (2004). (2002). (1999). Coluna Visão. B. S. 51-67 Quijano. B.br. 11-72). B. (2000). B.fe. Nota sobre o conceito de marginalidade social. Do pós-moderno ao pós-colonial e para além de um e outro. Para uma sociologia das ausências e das emergências.). P. As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social (pp. 1. B. Santos. Pereira (Org.). B. 27 de setembro). M. Revista Crítica de Ciências Sociais. S. 2008. Desqualificação social: ensaio sobre a nova pobreza (pp. Sawaia (Org. vol. (2003).pt. In S. Acesso em 30/09/2007. Santos. 65. 237-280. n. Endereço para correspondência: alexpizzio2@yahoo. 27 de Setembro 2007. Véras. Poderá o direito ser emancipatório? Revista Crítica de Ciências Sociais. As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social. São Paulo: Cortez. In L. Petrópolis: Vozes. B. (2003). pp. (1999). Santos. S. 27-52). Coimbra: Centro de Estudos em Ciências Sociais. 13-30). A.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. In B. Sawaia. Paugam. M. 11. Disponível em: www. B.

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Keywords: Municipal Guard. na subjetividade e na saúde mental de seus servidores. O sofrimento provocado pelo trabalho é amortecido pela cooperação mútua. A fundamentação teórica e metodológica empregada foi a psicodinâmica do trabalho. antes de tudo. Mental health. In the search of the promotion of the mental health in the work one reveals important to develop the institutional spaces of reflection and quarrel on the current paper of the municipal guard in the society. 69-81 Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho Tatiana Cardoso Baierle e Álvaro Roberto Crespo Merlo Universidade Federal do Rio Grande do Sul Este artigo é resultado de pesquisa de mestrado que teve por objetivo compreender as implicações da reestruturação da guarda municipal de uma capital brasileira sobre a dinâmica saúde/sofrimento mental de seus trabalhadores. p. Saúde do trabalhador. Mental health and subjectivity at the work of a municipal guard: a study in psychodynamic of work This article resulted from a master’s degree research that had as objective to understand the implications of reorganization of a municipal guard from a Brazilian capital on the dynamic health/mental suffering of its workers. Saúde mental. Palavras-chave: Guarda municipal.) O verdadeiro perigo existe quando não há mais desejo. 11.. The suffering produced at work is cushioned by the mutual cooperation. Social psychology. 9). 2008. vol.. The theoretical and methodological recital used was the psychodynamic of work. mostra-se importante incrementar os espaços institucionais de reflexão e discussão sobre o atual papel do guarda municipal na sociedade.. seu desejo. Psychodynamic of work. 1. Os trabalhadores desse serviço público municipal de segurança passaram a desempenhar diferentes atividades. A saúde mental não é certamente o bem-estar psíquico. 1986. and the mental health of its servers. Psicologia social. procurando identificar as estratégias defensivas desenvolvidas pelos trabalhadores para evitar o adoecimento. No desenvolvimento da pesquisa foi possível constatar que o atual período da instituição é um tempo de transformação. entretanto. Psicodinâmica do trabalho. (. (. which intervenes with the organization of work. In the development of the research it was possible to evidence that the current period of the institution is a transition time. que interfere na organização do trabalho. looking for to identify the defensive strategies developed by the workers to prevent illness.) O que faz as pessoas viverem é. pela possibilidade do uso da inteligência astuciosa e pelo reconhecimento advindo de uma atuação com maior visibilidade. parecem ser (re)descobertas a partir da análise de alternativas à problemática das políticas de segurança pública. Na busca da promoção da saúde mental no trabalho. the subjectivity. A saúde é quando ter esperança é permitido. Health of workers.. Introdução A s guardas municipais não são novidade no Brasil.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. quando ele não é mais possível (Dejours. n. pp. the possibility of the use of astuteness intelligence and by the recognition happened of a performance with bigger visibility. resultando na construção de um novo status social e 69 .

abre a discussão da participação dos municípios na segurança pública. realizada no período de julho a dezembro de 2006. Na busca de uma regulamentação nacional comum para as guardas municipais. Com essa premissa. o objetivo não foi buscar um perfil estatístico. Por essa razão. através de assistência social. Entretanto. Conseqüentemente. atravessando a estrutura socioeconômica. A inovação está em tratar esse campo não como subproduto. hierarquia ou gerenciamento de informações. mas realizar uma análise compreensiva dos efeitos do trabalho na guarda municipal sobre a subjetividade e a saúde mental de seus servidores. Sendo a escolha por um método qualitativo. estabelecendo que eles podem constituir guardas municipais para proteção de seus bens. Contudo. Frente a esse cenário torna-se imperativo que seja dedicada especial atenção a essas instituições e a seus trabalhadores. muitas guardas municipais ainda são formadas dentro de um perfil claramente militarizado. não é tarefa nova para os municípios. mas são as leis que irão dizer como as suas regras funcionarão. A Constituição Federal de 1988. Porém. a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) tem destinado particular atenção a estas instituições. a regulamentação deve ser feita no âmbito dos municípios. Escolhemos a Guarda Municipal de Porto Alegre (GMPA) pela antigüidade da Instituição (115 anos). organograma. Existem inúmeras guardas municipais que não têm metas claras. como alerta Guindani (2005). a constituição estabelece as normas gerais. Como destaca Dias Neto (2005). encontramos muitas diferenças na estrutura e atuação das guardas de um município para outro. pelo lugar de centralidade que ocupa na vida contemporânea. marcando a subjetividade de todos. no artigo 144. da prevenção do crime e das conflitualidades em âmbito local. balizando modos de ser e estar no mundo. por ser a guarda de uma capital e devido ao processo de reestruturação que atravessa. a condução da pesquisa foi fundamentada na abordagem da psicodinâmica do trabalho. no capítulo que versa sobre a segurança pública. não é possível estabelecer com clareza quais serão as atribuições e os limites de atuação.Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho reconhecimento profissional. O objetivo deste estudo consistiu em conhecer as implicações da reestruturação da Guarda Municipal de Porto Alegre sobre a dinâmica saúde/sofrimento mental de seus trabalhadores. foram elaborados no ano de 2005: a “Pesquisa do perfil 70 . Está justamente na proximidade da população e na penetração capilar do governo municipal sua vantagem. foram servidores públicos municipais que atuam nesta instituição. as normas constitucionais estabelecem regras. de articulação com a sociedade e de consideração às peculiaridades regionais. na busca do entendimento acerca da dinâmica saúde/sofrimento mental no trabalho do guarda municipal. enquanto a lei não existir. valores ou princípios. Os sujeitos da pesquisa. O trabalho foi tomado como eixo norteador da pesquisa. enfim. a atuação local na gestão da segurança é uma tendência não apenas do Brasil. Portanto. Nessa perspectiva. A questão da promoção da segurança. voltado para a repressão. com caráter indireto. Por reunir essas características acreditamos que o estudo desenvolvido e os resultados obtidos não são específicos dessa instituição. padrões comuns de atuação. mas mundial. mas como ação transversal das políticas públicas. No caso das guardas municipais. Dessa maneira é possível aprofundar os instrumentos de controle social. saúde e educação. cultural e ética da sociedade ocidental. o sentido concreto da norma. a prevenção sempre foi praticada pelos municípios. As guardas municipais são referidas no Plano Nacional de Segurança Pública como o único instrumento especificamente voltado para a segurança no âmbito municipal. serviços e instalações. refletindo o atual cenário das guardas municipais no Brasil. que devem ser levados em consideração na elaboração das leis. De acordo com Soares (2005).

O grupo alternou-se acompanhando a pesquisadora responsável (psicóloga e mestranda do PPGPSI da UFRGS) na realização das visitas e das entrevistas referentes à pré-pesquisa e no acompanhamento dos grupos referentes à pesquisa propriamente dita. 11. pesquisa e validação. 1 Médico do trabalho. uma fisioterapeuta2. incluindo aqui os guardas municipais. pensar ações de valorização profissional e de promoção e prevenção da saúde mental dos operadores da segurança pública. pp. Com isso. O desafio está em construir ações que viabilizem políticas públicas de segurança em âmbito local. A metodologia em psicodinâmica do trabalho prevê diferentes fases de desenvolvimento para a pesquisa: formação de grupo de pesquisadores. CNPq. que busquem a promoção da defesa dos direitos e da cidadania. que se traduzem nas estratégias defensivas. Voltadas não apenas para a punição. procurando compreender como os trabalhadores conseguem não adoecer ou enlouquecer frente às pressões cotidianas. uma administradora3. As reuniões desse grupo para discussão do material produzido no campo foram realizadas sistematicamente. com a finalidade de obter uma maior compreensão sobre o cotidiano de trabalho e as diferentes funções exercidas pelos guardas municipais. 3 Aluna especial do PPGPSI da UFRGS. Metodologia de pesquisa em psicodinâmica do trabalho A pesquisa em psicodinâmica do trabalho (Dejours. é fundamental. mas para respostas integradas de prevenção e de intervenção. vol. consulta à Gerência de Saúde do Servidor Municipal (GSSM) e à Gerência de Acompanhamento Funcional (GEAF) da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. 2 Mestranda em Engenharia de Produção pela UFRGS. Formação do grupo de pesquisadores A formação de um grupo de pesquisadores. 4 A participação na pesquisa consistiu em seu estágio curricular em psicologia do trabalho. Nessa etapa também foram realizadas entrevistas com chefias e gestores. busca romper com o modelo causal médico-biológico.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. de acordo com o fluxo da pesquisa. pré-pesquisa. Nessa etapa foram realizadas visitas a diferentes setores de trabalho da Guarda Municipal de Porto Alegre. investigação documental. Nesse sentido buscou-se contemplar a metodologia tendo como grupo de apoio à pesquisa: o orientador1. 1992) centra a investigação na normalidade e não na patologia. 2008. Pré-pesquisa O objetivo da pré-pesquisa é conhecer o campo. 71 . um aluno de graduação em psicologia4 e uma aluna de graduação em psicologia formada em direito5. balizado pela doença. Descrevemos a seguir como se deu o desenrolar deste trabalho. com caráter multidisciplinar. 69-81 organizacional das guardas municipais” e a “Matriz curricular nacional para a formação de guardas municipais”. Nesse sentido. congregando ações sociais e governamentais. n. 1. reforçando os mecanismos de luta e de resistência desenvolvidos pelos trabalhadores. reunir informações sobre o processo de trabalho e a estrutura da organização. preferencialmente de áreas de atuação distintas. para o acompanhamento da pesquisa é uma importante premissa. 5 Bolsista de iniciação científica.

com participação total de 38 guardas. Essa devolução dialogada foi realizada nos últimos três encontros com o grupo. Essa forma de proceder deu-se em função do grupo de pesquisa realizar reuniões sistemáticas para proceder à análise do material produzido. O número de mulheres corresponde a 6% do quadro (realidade que segue o perfil encontrado nas polícias militar e civil do Brasil). em dezembro de 2006. sendo respeitada a indicação. das funções e dos postos de trabalho da instituição. sugerindo alterações antes da escrita do documento final. optou-se por trabalhar com as funções que estavam mais diretamente vinculadas às transformações decorrentes da reestruturação da Guarda Municipal: patrulheiros. foram feitas gravações das discussões para posterior transcrição. Os locais de realização dos encontros foram escolhidos pelos próprios trabalhadores. motociclistas e fiscais. os sujeitos têm a oportunidade de concordar ou discordar da análise que está sendo realizada. as categorias elegidas e a análise dos dados. 7 O objetivo e o método da pesquisa foram esclarecidos aos trabalhadores que. algemas e rádio transceptor portátil. Dessa maneira. de modo a traduzir sua vivência. Nesse momento os guardas opinaram e discutiram os apontamentos realizados pelos pesquisadores. Seu efetivo. o bastão PR-24. Os encontros desenvolveram-se com duração média de uma hora e meia e periodicidade semanal. Apesar de não previsto pela metodologia. homens e mulheres. Os pontos de discordância foram debatidos e discutidos visando um entendimento comum e o aperfeiçoamento da escrita final. era formado por 598 guardas municipais. motoristas.Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho Em razão da amplitude do efetivo. 72 . Durante os encontros do grupo esses locais foram destinados especificamente para a finalidade da pesquisa. Pesquisa A metodologia de pesquisa propõe a realização de uma série de encontros com o grupo de trabalhadores em local identificado com seu trabalho. 6 Os guardas que ocupam essas funções correspondem a 31% do efetivo total da GMPA. Nos encontros procurou-se manter sempre o procedimento de haver pelo menos dois pesquisadores. reunindo de 4 a 10 participantes por encontro. também foi elaborado diário de campo. Os encontros dos grupos aconteceram no refeitório da sede da Guarda Municipal e na Sede do Grupo de Apoio (GAPO). com o objetivo de não perder acontecimentos significativos do grupo. com comentários dos pesquisadores envolvidos. O objetivo é constituir um espaço de participação e de apropriação por parte dos trabalhadores da produção de conhecimento construída na pesquisa. Caracterização da instituição A GMPA foi criada em 1892 e em sua existência atravessou diferentes períodos políticos e organizativos. Foram realizados ao todo 18 encontros em grupo. Validação e refutação A etapa de validação e refutação propõe a realização de reunião com os sujeitos participantes da pesquisa após a análise inicial dos dados. após completo entendimento e concordância. Como forma de registro complementar. operadores da Central de Operações.6 Os trabalhadores participaram da pesquisa por sua livre opção7. Tem como instrumentos de trabalho a arma de fogo. assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. não havendo circulação de outras pessoas e sendo resguardado o sigilo.

as horas extras. vol. Em cada Área Operacional existe uma sub-sede e um chefe de área. permanecendo em serviço até a idade máxima permitida por lei ou até o limite de sua saúde. a periculosidade. Parece ser uma característica do serviço público nos dias que correm. quando lotado nesse turno. via colaboração individual e coletiva. dentro da secretaria. Em 1997 ocorreu a primeira mudança significativa no funcionamento da instituição. 69-81 Entre o efetivo. não é incomum a insistência dos guardas em trabalhar mesmo quando doentes. 73 . distribuídos em nove regiões geográficas da cidade. postos de saúde e outros). com raras exceções. Em razão da perda das vantagens da remuneração. vestiário e setor administrativo. 66% dos guardas têm mais de 40 anos de idade. o Regime de Tempo Integral (RTI).90. apenas 16% do efetivo possui ensino fundamental incompleto. O vencimento básico do guarda municipal pode ser considerado baixo 8. A composição salarial inclui o vencimento básico. Esse processo de reestruturação foi intensificado a partir de 2002. Praticamente todas as secretarias e setores da prefeitura enfrentam essa mesma realidade. a instituição passa a ter maior visibilidade e assumir funções diferenciadas. 2008. banheiro. escolas. que só são obtidas na ativa. estando defasada em relação ao trabalho desenvolvido. muitos guardas foram deslocados do trabalho noturno para o diurno e a GMPA ampliou sua capacidade de atendimento. correspondente à sexta série do ensino fundamental. no caso da 8 Em novembro de 2006 correspondia a R$ 481. volante (serviço de patrulha executado por viaturas e motocicletas) e Sistema de Alarme Eletrônico (monitoramento realizado pela Central de Operações. a instituição apresenta muitas carências. Atualmente. que é responsável pelo gerenciamento de setores e guardas da região. denominadas Áreas Operacionais. é um equívoco. Apesar disso. n. não condizendo com as atuais demandas e funções da guarda. Em comum entre sede e sedes de área. Em janeiro de 2003. Com isso. Em termos de infra-estrutura de trabalho. e a função gratificada quando em cargo de chefia. Porém. repercutindo negativamente na relação estabelecida entre os setores da guarda e dos direitos humanos.600 reais). É importante destacar que 63% do efetivo encontra-se lotado no turno da noite. A improvisação criativa dos próprios guardas é o que permite acomodar em espaços mínimos cozinha. Essa condição de precariedade estrutural não é exclusiva da guarda. Entretanto. muitos guardas retardam a aposentadoria. Característica acentuada ao extremo nos setores que contam com atendimento fixo. A GMPA não possui plano de carreira específico. A estrutura de cargos e funções opera na informalidade. sua remuneração acaba sendo acrescida de uma série de vantagens pecuniárias que o aumentam (chegando em média a 1. Conseqüência também dessa política salarial. praças. após dez anos sem ingresso de novos servidores. quanto os guardas municipais entendem que a exigência formal de escolaridade para ingresso.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. O atendimento prestado pela Guarda Municipal divide-se em: fixo (prestado diretamente nos prédios). pp. com a implantação do Sistema de Alarme Eletrônico (SAE). estando sujeita ao mesmo regime de trabalho dos demais servidores estatutários da prefeitura. a GMPA atende mais de 300 setores (secretarias municipais. COGM). com a criação da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Segurança Urbana (SMDHSU). 1. com móveis e eletrodomésticos comprados em conjunto ou trazidos de suas próprias casas. 11. com a realização de concurso público. a precariedade de estrutura física e de equipamentos. o vale alimentação. essa fusão não contou com a participação dos guardas municipais. Tanto a administração da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. o adicional noturno. para evitar a redução de horas extras e do vale alimentação. que assume a gestão da Guarda Municipal.

motociclistas. Com isso. O uso abusivo de álcool e drogas é assinalado tanto pela GSSM.Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho GMPA. sobre os afastamentos para tratamento de saúde na GMPA. patrulheiros. Funcionamento que ocorre a tantos anos que se encontra incorporada à cultura da instituição.120 dias de afastamento. Entretanto. guardas que trabalham vinte e quatro horas. As patologias mais freqüentes são doenças do aparelho respiratório. Em levantamento realizado pela GSSM. essa situação parece ser agravada pela falta de prédios próprios. não a acompanhando. De forma alguma é o que acontece no dia-a-dia. Compõem o grupo antigo. os guardas acabam sempre tendo um número de horas extras a cumprir por mês (atualmente são 120 horas extras) e o dinheiro extra acaba incorporado como salário. escolas e secretarias. como pelo comando da GMPA como o principal problema de saúde encontrado entre os guardas municipais. por encontrar-se afastado das transformações em andamento e por apresentar maior desconfiança com relação às mudanças na organização do trabalho. As causas são múltiplas. essa segmentação não se restringe ao tempo de trabalho. Isso fez com que surgisse uma espécie de divisão entre guardas antigos e novos. São esses servidores que estão atuando e influindo nessas transformações. A extensa jornada de trabalho deve-se ao constante crescimento da demanda por serviços da Guarda Municipal. como motoristas. foram apontadas 260 Licenças para Tratamento de Saúde (LTS). de modo geral. tendo possibilidade de troca com os colegas e espaço de reconhecimento. Encontramos as mais diversas jornadas de trabalho: guardas que cumprem expediente durante a semana e hora extra nos finais de semana. no ano de 2004. plantões. O regime de trabalho oficial é de plantões de doze horas de trabalho por trinta e seis de descanso. e operadores da COGM. doenças do sistema osteomuscular e traumatismos. enquanto o efetivo continua estacionado. mais próxima da população e com diversidade de funções. Embora não se possa generalizar. mesmo quando consegue reeleger-se. chefes de área. São os mais diretamente expostos às mudanças de atuação geradas pela reestruturação da GMPA. guardas que trabalham todas as noites. Correspondem aos guardas que atuam em funções diferenciadas. que mascaram o real problema. Além disso. pessoal da sede da GMPA. essa realidade não se traduz no levantamento dos afastamentos. Essa característica traz inúmeras conseqüências em termos de saúde e organização da vida. muitas vezes o guarda entra em licença saúde por patologias secundárias resultantes do abuso de álcool e drogas. resultando num total de 5. Esse grupo caracteriza-se pelo maior tempo de serviço na guarda municipal. a grande maioria das funções de ponta (que sofrem diretamente o impacto da reestruturação) está sendo desempenhada por guardas que ingressaram na PMPA através do último concurso realizado em 2002. Os novos apostam em uma guarda mais atuante. Para suprir essa defasagem a solução encontrada é complementar a carga horária normal com horas extras. A explicação para essa questão está no fato de que alcoolismo e drogadição não geram LTS. parece mais indicar um diferencial sobre a concepção do trabalho na Guarda Municipal. mas um alto índice de absenteísmo. Contudo. os guardas que atuam no atendimento fixo: em prédios. mas talvez o essencial tenha a ver com a ausência de autonomia burocrática e a submissão à lógica da busca de resultados imediatos por parte de cada governo que chega ao poder. 74 . dentre outros.

Isso faz com que muitos guardas trabalhem além do seu limite para não perder salário. 2002. a GMPA sempre utilizou arma de fogo como equipamento de 75 . ao invés dessa questão surgir como um problema. Parece tratar-se de uma busca por entorpecimento frente a uma realidade por demais ansiogênica e dolorosa. O prejuízo à vida social e familiar é somado ao desgaste físico e mental provocado pela inversão do funcionamento diurno pelo noturno. No começo chegava a me cair as lágrimas. ou seja. O final do mês compensa todo o esforço. 2004. vinte e quatro horas. Às vezes fico até tonto. a família acaba. Característica que também é encontrada nas polícias. Entre os equipamentos utilizados pela GMPA nenhum é mais polêmico e simbólico do que a arma de fogo. a maior parte do tempo no trabalho. n. 1994) apontam que o trabalho em turnos acarreta não apenas distúrbios físico-biológicos. Mas. de mobilização criativa ou de acomodação e alienação. fechado. 35). vol. tem doze horas contigo mesmo. realizar trocas e ter um senso de coletivo. Diferentes autores (Amador. outro também. de fato. A grande verdade é que. A carga horária é de doze horas por dia e mais o plantão à noite. Os maiores problemas de saúde são o alcoolismo e a drogadição. confiança e a solidariedade. Quando a serviço da última situação. 2008. não acostumou. Por mais que se acostume. Dejours. Isso porque nos postos “móveis” ainda é possível encontrar respaldo e reconhecimento nos colegas. Com essa parte eu me acostumei. De fato. de doze horas diárias. que acabam por neutralizar o sofrimento. Quer dizer. mas também os sentimentos de indignação. trabalhar de noite dentro de um setor. Isso implica em um descompasso com feriados. porque compensa no final do mês. 1999. 69-81 Discussão O trabalho pode ser fator estruturante da pessoa e/ou fonte de sofrimento. A jornada de trabalho da GMPA também se diferencia por ser ininterrupta. então. são doze por doze. todo mundo festejando e eu ali. finais de semana e datas festivas. 2003. Spode. 1. pp. atingindo a vida familiar e desencadeando reações de agressividade e de intolerância devidas ao desgaste físico e emocional. só bêbado. É um sintoma que se reproduz a partir do modelo das polícias. quando vê. 11. A carga horária é muito extensa. essa é uma situação que se demonstra agravada para os guardas que prestam atendimento fixo. os trabalhadores justificam afirmando que já se acostumaram e que em outros postos de trabalho poderia ser ainda pior (citam a brigada militar e a segurança privada). Outra questão relativa à jornada de trabalho que é peculiar à Guarda Municipal é o trabalho em turnos. Minayo. Mas dá pra conciliar. Como ensina Dejours (2005): “não há neutralidade do trabalho diante da saúde mental” (p. dobro muito trabalho. Tittoni. nos operadores de usinas e na área da saúde. São as 120 horas extras que melhoram consideravelmente o salário. os prejuízos em termos de saúde e vida pessoal parecem ficar em segundo plano. fumando um ou dormindo o tempo todo.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Hoje um dia sim. De acordo com os relatos. Acabei me separando por isso. olhando para a rua. os sujeitos constroem defesas. mais as horas extras fazem com que os guardas municipais passem. mas também conseqüências psicológicas e sociais. funciona todos os dias da semana. O sofrimento no trabalho pode atuar em duas direções distintas. A extensa jornada de trabalho.

encontramos uma distorção em relação a esse aspecto. Então. Isso porque é justamente nesse espaço que é possível a invenção criativa pelos trabalhadores. que resulta em uma estrutura organizacional conflituosa. O eu se sobressai. tem que ver isso aí. No caso da GMPA. mais outro tijolo e no fim do dia tem uma parede. daqui a pouco estou num setor. é o modo como eu trabalho e não o modo como a guarda trabalha. lá no portão. O estresse é muito maior de trabalhar com a arma. não “és” chefe. Essa construção se 9 Lei 10. situação que veio a ser solucionada com o Estatuto de Desarmamento9. a menos que ocorra algum problema. quem está em cima daqui a pouco está lá em baixo. Os guardas referem que seu trabalho não apresenta uma produção concreta. Essa falha na prescrição faz com que o espírito de corpo seja quebrado de alguma maneira.. outros apenas em determinadas funções. Entra decisão de tiro. pois podem ser simplesmente guardas por toda a carreira. não havia respaldo legal para o porte de arma pelos trabalhadores das guardas municipais. 76 . A carência de um plano de carreira específico para a GMPA é apontada pelos guardas como fator de desmotivação. não é possível afirmar que exista uma definição ou uma tendência quanto à utilização da arma de fogo. (. o guarda é colocado em locais precários em termos de atendimento das necessidades básicas do trabalhador. Pauta de muitas discussões. Alguns defendem o uso em todos os setores e postos de trabalho. Curiosamente o pessoal mais operacional muitas vezes acaba sendo a voz contrária ao armamento. Por meio da imprensa local esse ponto ganhou destaque sendo foco de discussão pela população. Isso dificulta o reconhecimento. Para os guardas essa não é uma questão tranqüila. Não há garantias de que uma melhor qualificação leve a um posto diferenciado. que coloca um tijolo. O nosso trabalho não é como o pedreiro..826 de 22/12/2003. amanhã não sei. Uma vez que para fazer a segurança. Talvez por vivenciar em seu cotidiano de trabalho as agruras da rua. Também não há garantias de que uma vez alcançado um posto de chefia não se retorne à condição de subordinado. A psicodinâmica do trabalho valoriza a brecha existente entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Já te falei: hoje estou chefe de equipe. O trabalho pode não produzir uma parede no final do dia. como vais te posicionar e sacar uma arma em público. entra a tua atuação. “só é necessária a pessoa do guarda”. e a falta de uma instrução normativa para o trabalho. entra o teu comportamento. mas produz subjetividade. pois o trabalho da vigilância não aparece. sabem que a arma é o último recurso a ser utilizado e que muitas vezes pode ser mais um atrativo ao criminoso e um risco para o guarda.) A gente costuma brincar que “estás” chefe.Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho trabalho. Para a saúde mental muda muito. Não se é guarda municipal apenas durante as doze horas de trabalho. A ausência de uma normatização sobre os procedimentos a serem seguidos pelos guardas gera a falta de padronização nas ações. Também por não exigir materiais concretos. Entretanto. pois a brecha encontra-se dilatada pela má definição do prescrito. mais outro tijolo. A lacuna de prescrição no trabalho da GMPA dá-se por duas vias: a ausência de um plano de carreira. O nosso trabalho não aparece. algo que ao final do dia possa ser visualizado e mensurado.

A situação do imprevisto no cotidiano de trabalho aparece como fator de pressão e de estresse. agora não. Por ser guarda municipal. geladeira foi cada um que conseguiu. E esses materiais que vocês vêem aqui para treinamento.. mas por que vou fazer isso? Pelo pessoal que trabalha à noite. O risco é visto como inerente à função. mas mantemos uma academia aqui dentro. adaptarem e inventarem no ambiente de trabalho pode ser entendido como zelo.) Estou trocando a lâmpada. Um trouxe uma mesa. vol. [O que faz gostar de trabalhar na Guarda?] A adrenalina! Adrenalina. A inconstância do dia. O que nós temos aqui: micro. A crença de que a GMPA e seus trabalhadores estão protegidos pelos “deuses”: Só não acontecem coisas piores com a Guarda porque tem um grande anjo com as asas bem abertas aqui em cima da viatura. Nós estamos preparados para o quê? Para esta ação. Sem esses procedimentos. Outro destaque cabe ao pensamento mágico voltado ao misticismo. a bicicleta é de outro. Alguns admitem e chegam a apontar o medo como fator saudável. O fato dos guardas comprarem móveis. Mas. um dia nunca é igual ao outro. Antes eu andava pela rua bem desligado. pp. 77 .. O risco existe e é real no cotidiano de trabalho. Tinha que me impor para não sentir medo. As estratégias coletivas de defesa são ativadas na busca de driblar a ansiedade gerada pelo trabalho de risco. ser segurança significa ser o primeiro anteparo. nunca se sabe o que vai dar. 1. É essa emoção do dia-a-dia que faz com que o trabalho “vicie”. de tentar evitar se der. a espera.. não é meu serviço. que aparentemente destoam da imagem construída pelo senso comum sobre o comportamento do servidor público. Ou passam por cima de nós ou conseguimos barrar. n. Admitir o medo e o risco poderia implicar em uma paralisação da ação e conseqüentemente do trabalho. estou bem mais atento do que eu era antes. então é essa a condição de ser segurança. isso não significa que enfrente situações mais fáceis ou menos perigosas do que a polícia. mas é para o pessoal da noite. o trabalho da guarda não seria possível. Tem que ter um psicológico forte para agüentar. também. (.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. é difícil falar sobre o medo e mais ainda sobre o risco de morte. O sentimento de medo está presente entre os servidores da GMPA. A contaminação do tempo fora do trabalho é intensa. fator de limite na ação. A morte em serviço é uma probabilidade. sempre pode acontecer o inesperado. situação que gera intenso desgaste. Entretanto.) Então. Dessa maneira o guarda deve estar o tempo todo em alerta.. sermos assaltados. essa palavra não existe em mim. Às vezes quando retorno para casa. é justamente a adrenalina e o imprevisto do trabalho que atraem. assim. 69-81 estende para a vida como um todo. mas somos a primeira barreira. ó. mas é um receio. medo. 11. eu vou fazendo patrulhamento. incrementando características de desconfiança. fogão. (. Apesar de existir um planejamento das ações. não chega a ser medo. 2008. Eu sempre estou olhando o que está na frente. de noite. como mecanismo de defesa frente à ansiedade provocada pelas situações do cotidiano de trabalho. Já cansei de pagar lâmpadas. Outros negam. olhando para o lado. É a questão da amizade. pode existir o pequeno receio no enfrentar.

Colega que trabalha na noite. Nesse sentido. caso contrário pode-se incorrer em um funcionamento do tipo “operação-padrão”. Todavia. mas algo decisivo na dinâmica da subjetividade. que está baseada na confiança. Agora vocês vão receber arma? Estou a vinte e dois anos recebendo salário do senhor e o senhor não sabe o que eu sou e o que eu faço. favorecendo a construção de acordos (Dejours. gere uma postura mais condescendente. A proteção ao colega é justificada como sendo uma proteção à própria Guarda ou a si mesmo. Eu já vi colega colocando a arma numa bota. perturbam a ordem e a paz social” (p. tem se atribuído à polícia: “o papel de ‘lixeiro da sociedade’. em última análise. A mobilização subjetiva da inteligência sempre implica em transgressão. E também não sei. Poncioni (2003) aponta que historicamente. quando o guarda está ali pra cuidar da coisa. talvez fizesse a mesma coisa. Ninguém sabe o que é a Guarda Municipal e o que faz. criminosa ou não. por exemplo. Os riscos são minimizados pela cooperação entre o coletivo de trabalhadores. porque tu não tens parceiro fixo na guarda. O problema é sair no jornal uma denúncia. É necessário ter informações rápidas e precisas sobre os acontecimentos e sobre os companheiros de trabalho que não são divulgadas pelos canais oficiais. também faz com que algumas questões sejam encobertas pelos próprios guardas. Ao mesmo tempo em que esse funcionamento traz um sentido de coesão ao grupo. Infelizmente nem todas as pessoas são confiáveis. 2004). Além disso. por sua má conduta. os canais informais têm incrível agilidade. no preenchimento da lacuna entre o trabalho prescrito e o trabalho real. é dele a responsabilidade e dificilmente o gestor admite ter conhecimento de tais logros engenhosos. porque é colega. É com o colega que se conta no momento de enfrentamento. Contribuição que se dá a partir de sua inventividade. Na verdade. De acordo com Merlo (1999). Essa parte eu acho até bom [a rádio corredor]. é bom que saibas a história. são necessárias burlas e transgressões. Para que o trabalho funcione é necessária a burla. para o bom andamento do trabalho. Os estudos de Dejours apontam a importância do reconhecimento para a saúde mental do trabalhador. à chamada motivação para o trabalho. Arma pequena. embora isso sempre implique em riscos para o trabalhador. entende. a ausência de um plano de carreira que garanta a ascensão sem retrocesso de funções faz com que o receio de hoje ser chefe e amanhã subordinado. o reconhecimento é como uma retribuição que o trabalhador espera receber em troca de sua contribuição à organização do trabalho. as invenções criativas. tens que confiar nele. no que diz respeito. citado por Lancman. pois. cuja tarefa precípua é ‘limpar’ da sociedade aqueles que. A cooperação atua nesse momento para acobertar ou remediar uma situação que poderia se tornar mais grave. então o dia em que fores trabalhar com alguém. no Brasil. o fluxo de comunicação aparece como estratégia defensiva. ele está ali nas situações boas e ruins. Essa falta de conhecimento diz mesmo sobre uma falta de reconhecimento do trabalho prestado pela GMPA. vai até fazer que não viu. Uma questão abordada inúmeras vezes nos grupos é quanto à falta de conhecimento da população com relação a GMPA. Ninguém sabe. Na prática. Porque se o Brigadiano vir.Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho A vinculação com o colega é fator chave para o trabalho da GMPA. 78 . Os canais formais de comunicação por alguma razão não funcionam e as informações oficiais não circulam. 253). Não é uma reivindicação secundária do trabalhador. aí estraga mesmo.

vêem suas vidas particulares atravessadas pelas características do serviço na segurança. não sendo reconhecidos constitucionalmente como agentes de segurança pública. Para ter maior visibilidade e ser reconhecido como um agente de segurança diferente das polícias é necessário sair da zona de confronto. os guardas que exercem as funções de rua são privilegiados. Considerações finais Através da metodologia da psicodinâmica do trabalho foi possível apreender o cotidiano de trabalho da Guarda Municipal em seus aspectos objetivos e subjetivos. Por um lado. mas também não era alvo de críticas. característica do serviço público. Por outro. 79 . Entretanto. n. Nesse aspecto. como forma de recriar um pouco do ambiente de acolhimento doméstico que usufruem de forma reduzida junto às suas próprias famílias em função das jornadas exaustivas de trabalho. mas caseiras. a Guarda estava na berlinda. tanto em termos dos espaços físicos. a sociedade tem um julgamento negativo e preconceituoso. Modificações que levam à criação de novas funções e a uma maior visibilidade dos trabalhadores junto a população da cidade. principalmente nos últimos cinco anos. portanto. 11. Tornam-se mais desconfiados e atentos a tudo e a todos ao seu redor. ficando o reconhecimento ao sabor do chefe do momento. maior exposição. A vida social e os momentos de lazer também ficam prejudicados pelas características do trabalho em turnos e plantões. Não sendo conhecida. O reconhecimento à guarda parece vir pela atuação repressiva e não pela atuação comunitária. 69-81 O trabalho dos agentes de segurança pública é minado duplamente pela falta de reconhecimento. 1. O adoecimento dificilmente é atribuído ao excesso de trabalho. pp. têm maior visibilidade e chegam a receber diretamente o reconhecimento do público que atendem. provocada pela peculiaridade do lugar que ocupam hoje em nossa sociedade. são aspectos negados. como de equipamentos. 2008. Mas o conhecimento da GMPA. Ser identificado como agente de segurança significa hoje temer pela própria vida. As condições de trabalho enfrentadas pelos guardas municipais são precárias. Questionam-se até onde podem agir e como deixar de atender às situações que lhes aparecem e não são de sua competência.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. o que leva em muitos casos à separação conjugal. Por um lado. buscar maior participação e. Buscamos compreender quais são as implicações da reestruturação da Guarda Municipal de Porto Alegre na dinâmica saúde/adoecimento mental de seus trabalhadores. sofrem com a desvalorização. não era alvo de elogios. Esse funcionamento gera desgaste e adoecimento. dentro das próprias instituições. premidos pela limitação legal de suas atribuições. vol. Constatamos que o cotidiano de trabalho do guarda municipal em Porto Alegre está permeado pelas mudanças que vêem ocorrendo. Como resposta. buscando solucionar a falta de equipamentos e os problemas dos ambientes de trabalho com soluções próprias. que traz o reconhecimento da população também tem seu preço. Por outro lado. Passam mais tempo no trabalho do que com a família e amigos. esses trabalhadores fazem uso da inteligência astuciosa e da cooperação. Há intensa mobilização psíquica entre os guardas. pressionadas pela população e pela gestão da PMPA a adotarem uma postura mais proativa na área da segurança urbana. havendo servidores que preferem trabalhar doentes a tirar licença saúde. Elas são não apenas soluções próprias. Vivenciando uma extensa jornada de trabalho. pois se tornam conhecidos. principalmente daqueles que trabalham à noite.

caracterizando-se como zelo. é muito eficiente. Além disso. foi construída. parece que fazer segurança é não fazer nada. uma proposta de continuidade dos encontros em grupo. apenas o próprio guarda. a chamada “rádio corredor”. Depende de iniciativas individuais de alguns chefes. ou seja. Como não exige nenhum material para sua execução. O espaço de fala e de escuta criado pelos encontros em grupo pôde constituir-se em importante aspecto para a reelaboração das estratégias defensivas e para reflexão sobre a organização do trabalho. A guarda carece de uma formação comum. Para confrontar-se no dia-a-dia com essa realidade e retornar ao trabalho no dia seguinte. os espaços de encontro entre os guardas. visando um espaço de intervenção. devido à ênfase não apenas no sofrimento. sendo comum às guardas municipais em geral. colocam a vida de seus agentes em perigo. de um plano de carreira e de uma normativa de atuação. Foco de frustração para os trabalhadores. É necessário salientar que essa realidade não é exclusividade da GMPA. 80 . Dessa maneira. A não existência de um plano de carreira gera insegurança e instabilidade no quadro de chefias. A confiança entre os parceiros é destaque necessário. em parceria com os guardas municipais. seria possível contribuir para a reflexão do papel da guarda municipal hoje na sociedade e pensar um caminho que pudesse levar à construção de uma guarda cidadã. O trabalho da Guarda Municipal é percebido por seus integrantes como um trabalho sem produção concreta. em contraponto às tentativas de individualização e culpabilização do trabalhador pelo adoecimento no trabalho. seria importante incrementar os espaços públicos da instituição. Interfere diretamente na organização do trabalho. mas também na relação de prazer possível de ser estabelecida com o trabalho. que se diferencie das polícias por ter identidade própria. a comunicação informal. Levando também a um funcionamento em determinados casos de maior tolerância com as transgressões no trabalho. A cooperação é uma importante estratégia para enfrentar o cotidiano de trabalho. na subjetividade e na saúde mental de seus servidores. Podemos afirmar que a organização do trabalho na GMPA interfere de maneira muito direta na subjetividade de seus servidores. O atual período da Guarda Municipal é efetivamente um tempo de transição. A cada concurso realizado os servidores que ingressam recebem um tipo diferente de qualificação. Igualmente pelo número do efetivo e pela dificuldade em mobilizar as pessoas e os recursos necessários para uma formação integral e comum a todos os guardas municipais. Os vínculos entre os colegas são intensos e muito importantes. Sem essas providências e invenções criativas.Saúde mental e subjetividade no trabalho de uma guarda municipal: estudo em psicodinâmica do trabalho Podemos dizer que essa característica é o que garante em parte o funcionamento dos serviços da guarda. o fluxo de comunicação na GMPA apresenta algumas peculiaridades. o trabalho não seria possível. os guardas lançam mão de mecanismos de defesa. Identidade que ainda está por ser construída. Em compensação. oficial é muito lenta e às vezes inexistente. No sentido de contribuir para a saúde desses trabalhadores. o fato de visar sempre a coletividade e a organização do trabalho mostra-se fundamental. A serviço desse funcionamento. a produção parece não ser passível de mensuração. A comunicação formal. bem como de uma definição mais precisa e mensurável dos resultados esperados. Nesse sentido. A psicodinâmica do trabalho traz importante contribuição para a discussão saúde mental-trabalho. ou seja. que se encontra em andamento. como a negação e o pensamento mágico. As atividades desenvolvidas pela GMPA são atividades de risco. Isso porque é essa relação que pode definir entre viver ou morrer em uma ocorrência.

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Universidade de São Paulo. M. L. A criação de um novo paradigma em Diadema. Rio de Janeiro: Garamond. Brasil (1988). Rio de Janeiro: Fiocruz. Spode. Dissertação de Mestrado. M.).). (1999). I. T. F. 1. Brasília: Secretaria Nacional de Segurança Pública. Conferências brasileiras: identidade. Subjetividade e trabalho: a experiência no trabalho e sua expressão na vida do trabalhador fora da fábrica. Brasília: Secretaria Nacional de Segurança Pública. A loucura do trabalho: estudos de psicopatologia do trabalho (5ª ed. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social. L. T. C. 54 (14). Porto Alegre. (2002). Sento-Sé (Org. B. reconhecimento e transgressão no trabalho. Segurança urbana: o modelo da nova prevenção. & Sznelwar. (1999). (1992). São Paulo: Revista dos Tribunais e Fundação Getulio Vargas.com Recebido em: 11/10/2007 Revisado em: 12/12/2007 Aprovado em: 11/02/2008 81 . São Paulo. T. de S. Por um novo conceito de saúde. C. S. R. (2003). n. E. (Orgs.). 11. Dejours. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Dias Neto. Merlo. A banalização da injustiça social. Tittoni. (1986). Segurança municipal no Brasil: sugestões para uma agenda mínima. (1994). C. Relatório descritivo: pesquisa do perfil organizacional das guardas municipais. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Tornar-se policial: a construção da identidade profissional do policial no Estado do Rio de Janeiro. Soares. vol. Ministério da Justiça (2005a). (2005). Lancman. Guindani. de (Orgs. P. (2005). Rio de janeiro: Civilização Brasileira. pp. R. Dejours. 69-81 Referências Amador. In J. Constituição da República Federativa do Brasil. Ministério da Justiça (2005b).). (2003). Endereço para correspondência: tatibaierle@gmail. C. Dejours. São Paulo: Fundap e EAESP/FGV. J. Violência policial: verso e reverso do sofrimento. Minayo. São Paulo: Cortez e Oboré. Brasiléia: Paralelo 15. Porto Alegre: UFRGS. Tese de Doutorado. Poncioni. Rio de janeiro: Civilização Brasileira. Porto Alegre: Ortiz. Dejours. (2005). (2004). Sento-Sé (Org. & Souza. Matriz Curricular Nacional para Guardas Municipais. Prevenção da violência: o papel das cidades. subjetividade e saúde mental na polícia militar. E. S. Ofício de oficial: trabalho. C. 2008. Revista Brasileira de Saúde ocupacional. In J. Prevenção da violência: o papel das cidades. A informática no Brasil: prazer e sofrimento no trabalho. Missão investigar: entre o ideal e a realidade de ser policial. 7-11. Santa Cruz do Sul: Edunisc.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. (2005). Christophe Dejours: da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. C. A. C.).

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1994) e sua importante produção científica. The arrival place of such points gives answers elements to the first question. Afinal. sobre a relação entre a ergonomia e a qualidade de vida no trabalho (QVT). pp. mostrando que tanto os problemas existentes no mundo do trabalho. As reflexões apóiam-se. n. 83-99 A ergonomia da atividade se interessa pela qualidade de vida no trabalho? Reflexões empíricas e teóricas Mário César Ferreira Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília A relação entre ergonomia da atividade e o campo de intervenção denominado qualidade de vida no trabalho (QVT) não é evidente e. 1995). consiste em repensar essa relação com base em dois eixos: (a) dados empíricos que caracterizam os principais problemas contemporâneos das organizações e que convidam as ciências do trabalho para soluções. O ponto de chegada de tais reflexões fornece elementos de resposta à questão inicial. em ampliar seu campo de análise e de contribuições. 11. Keywords: Ergonomics.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Palavras-chave: ergonomia. na abordagem franco-belga da ergonomia (Wisner. e (b) os traços históricos e científicos da ergonomia da atividade que a credenciam para a promoção do bem-estar no trabalho. De entrada. is the activity ergonomics interested by the quality of work life? The aim of this theoretical-natured article is to rethink this relation based on two axes: (a) empirical data that characterize the main contemporary problems in the organizations and that invite the work sciences to find solutions. sem abandonar seus pressupostos epistemológicos. and (b) the history and scientific background of the activity ergonomics that enable this field to promote the well-being in the work. A outra grande vertente da ergonomia – de fato. objeto e objetivos da ergonomia. é importante explicitar de qual ergonomia o texto trata. Isso implica para a disciplina. QVT. engloba aspectos históricos. ausente. a ergonomia da atividade se interessa pela qualidade de vida no trabalho? O objetivo deste artigo. essencialmente. Is the activity ergonomics interested by the quality work life? Theoretical and empirical reflections The relation between Activity Ergonomics and the field of intervention named quality of work life (QWL) is not clear and. Introdução O objetivo deste artigo é apresentar reflexões. no limite. apoiadas em fundamentos empíricos e teóricos. showing that the problems present in the work life and also the scientific tradition of the activity ergonomic call the ergonomists for a wider spectrum intervention in the field of the quality of work life. quanto em resultados específicos de estudos e pesquisas em ergonomia. building a QWL approach of preventive bias and distinguishing itself from the assistential tradition of QWL practices. Qualidade de vida no trabalho. posto que ela se constitui em um campo científico rico e diversificado. Thus. Os fundamentos empíricos baseiam-se tanto em dados contemporâneos do mundo do trabalho. Quality of work life. This implies for the subject. QWL. without abandoning its epistemological presuppositions. in the limit. A fundamentação teórica. a majoritária em número de integrantes e de 83 . de natureza teórica. por sua vez. 1. 2008. a denominada ergonomia da atividade (Montmollin. no campo da qualidade de vida no trabalho. quanto a tradição científica da ergonomia da atividade convocam os ergonomistas para uma intervenção. de espectro mais largo. absent. in enlarging its field of analyses and contributions. construindo uma abordagem de QVT de viés preventivo e distinguindo-se da tradição assistencial das práticas de QVT. vol.

A ergonomia da atividade se interessa pela qualidade de vida no trabalho? Reflexões empíricas e teóricas indicadores bibliográficos –. As metamorfoses que se operam nas organizações públicas e privadas e. uma análise da literatura em ergonomia da atividade recomenda certa cautela para responder à questão provocativa que serve de título ao texto. trabalhadores e usuários/clientes) fundamentam a importância do debate sobre ergonomia e qualidade de vida no trabalho. vislumbra-se esboçar as bases de um campo novo: a ergonomia da atividade aplicada à qualidade de vida no trabalho (EAAQVT). Mas. o título deste artigo induziria o leitor a uma resposta afirmativa. Shamian & Almost. Por que é importante abordar as possibilidades de “diálogo e perspectivas” entre ergonomia da atividade e o campo da qualidade de vida no trabalho? Grosso modo. Olhando o horizonte. em conseqüência. suas implicações econômicas. a importância deste texto consiste em refletir sobre o papel e o campo de intervenção em ergonomia da atividade em uma perspectiva de problematizar para avançar. dois aspectos caracterizam as transformações: o fortalecimento dos regimes democráticos e. os desafios postos pela mundialização da economia são inúmeros e cobram respostas “para ontem”. a postura mais vigilante e reivindicatória dos cidadãos-usuários quanto ao acesso à qualidade dos serviços prestados pelas agências governamentais e por seus dirigentes. que vá além da tradição de estudos de casos cuja predominância é a abordagem qualitativa e o mérito indiscutível. Siegel & Lee. No âmbito do serviço público. a evolução da consciência ambiental e a defesa dos recursos naturais. 2006. para além da variante modismo. os indicadores econômicos e sociais críticos que têm sido produzidos robustecem o desafio de se compatibilizar o bem-estar de quem trabalha e a satisfação de usuários/clientes com os imperativos de eficiência e eficácia nos contextos de produção de mercadorias e serviços. Finegan. Todavia. 2001. a ergonomia pode e tem contribuído para a melhoria dos contextos de trabalho e o tema da qualidade de vida no trabalho. À primeira vista. 84 . principalmente. A compreensão de tal cautela interpretativa impõe. 2002. mapeando sintomas de disfuncionamentos e prescrevendo recomendações para o reequilíbrio satisfatório da inter-relação indivíduocontexto de trabalho. A tradição dos estudos e das pesquisas em ergonomia da atividade terminou produzindo a “clínica do trabalho” como um de seus traços: diagnóstico do indivíduo (ou de pequenos grupos) em situação de trabalho. portanto. ampliar e evoluir a sua abordagem clássica da inter-relação indivíduo-contexto de trabalho. a posição de coadjuvante neste texto. começar argumentando sobre a relevância do objeto do presente artigo. sem perder de vista o terreno teórico onde se pisa. 2001). Do ponto de vista acadêmico. No que concerne às empresas privadas. a atitude mais exigente e proativa de consumidores quanto à relação custo-benefício de produtos e serviços. Efraty. os motivos são muitos e diversos. Do ponto de vista social. a relevância inscreve-se numa perspectiva de enfrentamento de um elenco de problemas presentes no cotidiano dos ambientes de trabalho que colocam a qualidade de vida no trabalho como uma real necessidade (Laschinger. Sirgy. políticas. Pattanayak. 2000. Martel & Dupuis. tecnológicas e culturais para seus distintos e contraditórios atores (dirigentes. Kitsos. de filiação anglo-saxônica (human factors) ocupa. 2003. Do ponto de vista das organizações. Aspiotis & Psillas. Tal recorte visa somente delimitar fronteiras empíricas e teóricas do foco temático do artigo e não enfatizar diferenças epistemológicas dessas duas “escolas” de ergonomia. de modo residual. Nesse cenário. agregando um enfoque (de viés preventivo) de qualidade de vida no trabalho. merecendo destaque: o novo padrão de competitividade baseada no uso de alta tecnologia e na gestão flexível do trabalho. 2001). a relevância se manifesta pelo papel central que o mundo do trabalho assume na vida em sociedade. vem se configurando como uma necessidade para eliminar ou atenuar os indicadores críticos existentes (Labiris. Steijn. Petounis. sobretudo. A centralidade do trabalho e. três modalidades reúnem aspectos fundamentais que colocam em primeiro plano a importância desta incursão analítica. gestores. Lau.

o efeito combinado de diversos fatores (fortalecimento das reivindicações sindicais. Cenário de mudanças e principais indicadores críticos no mundo do trabalho O cenário contemporâneo do mundo do trabalho. Mattoso & Baltar. a expansão de formas atípicas de inserção laboral em frente do padrão assalariado anterior e. duas questões servem de “guias” no trajeto argumentativo do presente texto: (a) como se caracteriza o cenário atual de mudanças no mundo do trabalho em termos dos principais indicadores críticos existentes? e (b) quais são os traços característicos principais da ergonomia da atividade que a habilitam para a tarefa da promoção da qualidade de vida no trabalho? A primeira questão é o foco do tópico a seguir. principalmente. da tecnologia com a introdução de instrumentos de trabalhos baseados na microeletrônica. As marcas das metamorfoses do mundo do trabalho Na década de sessenta. Os aspectos históricos e os traços que foram sendo produzidos pela reestruturação produtiva marcam esse cenário de mudanças. O processo de transição para um novo paradigma produtivo tem sido marcado por diferentes experiências. marcadamente em ebulição. 83-99 Isso posto. 2008. vai paulatinamente dando forma e conteúdo à reestruturação produtiva propriamente dita (Castel. Nesse sentido. 1975). medidas e enfoques (Mattoso. 2003.) um processo de reestruturação capitalista que inclui formas diferenciadas de se produzir e organizar o trabalho num contexto de fragmentação e fragilização do movimento sindical. merecem destaque três características principais: . aumento das taxas de juros) produziu uma crise no modelo de acumulação capitalista. 1996). O fenômeno da reestruturação produtiva e industrial pode ser definido como uma busca por harmonizar (compatibilizar) mudanças. 2003. instaurou-se: (. das relações de produção. 11. n. de feição tayloristafordista (Braverman. um dos pilares principais do crescimento contínuo da 85 . A reestruturação da economia mundial. Registram-se a redução do emprego assalariado. É naquele período que se iniciava um processo de reestruturação produtiva. 1995). em especial a automação e a informatização do processo de produção de mercadorias e de serviços. impondo limites concretos nas taxas de mais-valia (Hobsbawm. aumento brutal do preço do petróleo.. Aqui reside.. como forma de superar a crise vigente no sistema produtivo dos países ocidentais. Conforme assinala De Toni (2006). do papel dos Estados nacionais e do quadro jurídico internacional com medidas voltadas para o fim de barreiras comerciais. pp. principalmente. a ampliação do desemprego e sua manutenção em patamar elevado (p. tem seu ponto de inflexão histórica no final da década de sessenta do século passado. 1996). especialmente na indústria. nos âmbitos do perfil das organizações produtivas.O primeiro traço marcante consiste no investimento intensivo em inovações tecnológicas. a proliferação de atividades em serviços. certamente. ora em curso. esgotamento do enfoque hard da chamada administração científica do trabalho. Leite.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. do modelo dominante de gestão do trabalho. que toma impulso nas décadas de 80 e 90 do século passado. vol. 127). 1. Estava nascendo a chamada reestruturação produtiva.

Nessa perspectiva. conseqüências e tendências apenas começam a se esboçar. Sem abandonar os pressupostos da organização científica do trabalho (OCT) de Taylor (radicalizada por Henry Ford). O primeiro nível é macro. Nesse âmbito trata-se das medidas voltadas para o estabelecimento de bases mais livres para as relações de compra e venda de mercadorias. buscando-se acelerar o processo de reestruturação produtiva (como o controvertido banco de horas na gestão da jornada de trabalho). o principal deles. no âmbito dos Estados nacionais e das relações econômicas internacionais. têm crescido. .O terceiro traço importante reside nas iniciativas de mudanças do aparato jurídico que normatiza as relações de trabalho e o próprio processo produtivo. no fundamental. A introdução de ferramentas informatizadas é um dos facilitadores do enfoque de gestão flexível da produção (fabricação com base na demanda) e do trabalho (gerenciamento mais eficaz do tempo e das performances dos trabalhadores). a crítica de Sennett (2001) contra o verdadeiro sentido da flexibilização é bastante ilustrativa (grifos nossos): A palavra “flexibilidade” entrou na língua inglesa no século quinze. Mas. A flexibilização pode ser conceituada como uma diretriz de gestão de processos produtivos que busca forjar organizações e trabalhadores resilientes às exigências. A sociedade hoje busca meios de destruir os males da rotina com a criação de instituições mais flexíveis. o comportamento humano flexível deve ter a mesma força tênsil: ser adaptável às circunstâncias variáveis. O suporte tecnológico da microeletrônica tem produzido mudanças estruturais profundas nas organizações públicas e privadas. seus contornos. com base nos avanços produzidos pela microeletrônica. seus galhos sempre voltavam à posição normal. Neste caso. O segundo nível é micro.A ergonomia da atividade se interessa pela qualidade de vida no trabalho? Reflexões empíricas e teóricas economia sem necessariamente vir acompanhado – e isto é historicamente inédito – da geração de empregos assalariados. cada vez mais. a revolução informacional. concentram-se mais nas forças que dobram as pessoas (p. 53). embora a árvore se dobrasse ao vento. As práticas de flexibilidade. . ocorre no interior das próprias organizações por meio do estabelecimento de novas normas. 86 . reiteram o papel de coadjuvantes dos trabalhadores nos processos produtivos. tais iniciativas manifestam-se em dois níveis. o paradigma da flexibilização vai se afirmando como um dos pressupostos centrais da chamada reestruturação produtiva (Leite. a tradição do controle normativo das relações de trabalho constitui – parafraseando Drummond – uma “pedra no meio do caminho” da reestruturação produtiva. cada vez mais complexas (como instabilidade. O processo de mudanças aceleradas com base na reestruturação produtiva e apoiada no paradigma da flexibilização está em curso. 1994). tem produzido estilos gerenciais diferenciados que. as experiências mais eloqüentes e dominantes – em curso nas grandes organizações públicas e privadas – têm revelado seu caráter ideológico. Seu sentido derivou originalmente da simples observação de que. Em termos ideais. De qualquer forma. situa-se na esfera da gestão organizacional e do trabalho. que resultam das relações de produção e de troca do mundo trabalho. os contratos por tempo determinado (causal-workers ou temporary-workers) e os trabalhadores em tempo parcial (part-time-workers). “Flexibilidade” designa essa capacidade de ceder e recuperar-se da árvore. Nesse cenário de metamorfoses. papéis e atribuições aos seus membros. ou seja. geração de tecnologias e intensificação do processo de comunicação. mas não quebrado por elas. o teste e restauração de sua forma. Entretanto. porém.O segundo traço. Os rumos da reestruturação são ainda incertos. A aplicação do paradigma da flexibilidade vem acompanhada da necessidade de um novo perfil dos trabalhadores (destaque para a polivalência funcional) e da delegação da atividade-meio para fora da empresa (prática da terceirização). Nesse sentido. imprevisibilidade).

de longa data. e . não raro.Perda e desperdício de material. aumentam os custos de produção. é preciso registrar que em grande parte das organizações públicas e privadas em países periféricos – como é o caso do Brasil – tal processo ainda permanece marcadamente ausente (Baumgarten. Não obstante a falta de dados estatísticos mais globais confiáveis sobre indicadores críticos na esfera da produção – o que forneceria uma base de análise com maior grau de confiabilidade – o exame de estudos. 2006). 87 .Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. decorrentes de desenhos de tarefas e processos de trabalho com baixos graus de eficácia e eficiência que. O velho e carcomido taylorismo-fordismo ainda prevalece como modelo de gestão organizacional e do trabalho. que impacta na redução da eficácia do processo produtivo. entre seus pilares de gestão. aumentando custos. acidentes e doenças entre trabalhadores. não tem conseguido sanar efeitos já bem conhecidos do mundo do trabalho os quais já existiam antes mesmo de sua inauguração a partir da década de setenta. por sua vez. sobretudo. De modo global.Retrabalho. gerando insatisfação. Indicadores críticos: impactos na produção O processo de reestruturação produtiva. posto que as causas mais profundas e os efeitos em cascata que produzem permanecem pouco conhecidos e estudados. . vol. tais indicadores críticos são ilustrativos dos dilemas contemporâneos da produção que inquietam dirigentes e gestores de instituições públicas e privadas. no aumento do custo humano do trabalho e. 2001): .Erros freqüentes na execução de tarefas em virtude. repercute na insatisfação de usuários e consumidores. em conseqüência. . 11. . repercutem no preço final das mercadorias (caso do setor privado) e comprometem a qualidade dos serviços públicos prestados aos usuários-contribuintes (caso do setor público). 1. comumente. É com base nesse cenário que um conjunto de indicadores críticos tem sido produzido e que coloca em primeiro plano a importância e o papel: (a) do resgate da qualidade de vida no trabalho no âmbito das organizações. de produtos oriundos de projetos industriais de concepção deficiente. o pressuposto do trabalhador como variável de ajuste. até onde se sabe.Danificação de máquinas e equipamentos que resultam de procedimentos inadequados e. 2008. de condições pouco adequadas de trabalho e formação profissional deficiente (por exemplo. decorrência inexorável da existência de erros ou falhas de concepção. relatórios e artigos diversos (inclusive em revistas não especializadas) mostra uma gama de indicadores que aparecem sob a forma de (Pastore. retardando tempo de produção. pp. Ademais. pesquisas. da ergonomia da atividade sobre os sistemas produtivos que têm.Queda e redução da produtividade e da qualidade almejadas de produtos e serviços que impactam na perda de competitividade (no caso do setor privado) e do afastamento da missão maior das agências governamentais de proporcionar o exercício da cidadania aos usuários-contribuintes (caso do setor público). aplicativos de computador com usabilidade deficitária que induz aos erros). Cabe salientar que esses indicadores se constituem numa espécie de ponta do iceberg. n. 83-99 Essa crítica de Richard Sennett guarda fina sintonia com a crítica. e (b) da intervenção dos profissionais que atuam no campo das ciências do trabalho.

proveniente da Pesquisa Mensal de Emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Brasil. por sua vez. um dado.Rotatividade de trabalhadores nas organizações privadas que.Doenças do trabalho e licenças-saúde que se multiplicam e desenham um perfil epidemiológico que fortalece o nexo com os contextos de trabalho nos quais os acometidos estão ou estavam inseridos.Absenteísmo crônico que invade o cotidiano de trabalho. organização. sem promover mudanças importantes em diversas esferas do contexto de trabalho (condições. o custo humano do trabalho transforma-se predominantemente em produtor de mal-estar. afastamentos das atividades laborais. Indicadores críticos: impactos sobre os usuários e consumidores Corolário dos dois grupos anteriores. suas atitudes/valores e. mostra que em 2006 cerca de 8. baixos salários). os trabalhadores podem ser duplamente vítimas. Não é demais lembrar que. Tais conseqüências se reportam. que se tornou um problema de saúde pública em diversos países ocidentais. relações socioprofissionais) para regular e implementar estratégias econômicas e empresariais tem limites. Nesse rol de indicadores críticos sobre os trabalhadores. Na linguagem popular.4 milhões de empregados estavam também em busca de um novo emprego em virtude da insatisfação com o emprego atual. Nesse cenário. são os usuários dos serviços públicos e os clientes/consumidores de mercadorias e serviços privados que acabam por “pagar o pato”. Esse grupo de indicadores críticos reforça uma tese central que nasceu de estudos e pesquisas em ergonomia da atividade (Daniellou. em muitos casos ausentar-se sistematicamente do trabalho termina funcionando para alguns trabalhadores como estratégia de preservar a própria saúde mental e física. ao estado de saúde. este grupo de indicadores críticos termina funcionando como uma espécie de desaguadouro dos problemas relativos à produção e aos efeitos nocivos sobre os trabalhadores de ambientes organizacionais igualmente nocivos. às suas performances nos ambientes de trabalho. fundamentam seus modelos de gestão do trabalho com base na rotatividade sistêmica (o setor de teleatendimento é ilustrativo).Acidentes que crescem sem cessar nas organizações e que produzem uma gama de efeitos nocivos: mutilação de vidas. do aumento da carga de trabalho. e . precarização das relações e condições de trabalho. físicas e inúmeros casos de suicídios (Valy. 2007). fundamentalmente. o custo individual. sua avaliação e medidas necessitem ser aprimoradas. transforma os trabalhadores em nômades que perambulam por organizações e estas. embora. neste caso. tornam-se uma banalidade nas organizações. social. inexoravelmente eles vêm acompanhados da manifestação de uma série de indicadores críticos relacionados às conseqüências produzidas sobre os trabalhadores. superando taxas administráveis e agravando as condições daqueles que permanecem trabalhando em virtude. . potencializando acidentes e doenças entre trabalhadores. pois quando ultrapassam as capacidades humanas geram doenças mentais. merecendo destaque: a epidemia dos distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). principalmente. empresarial e estatal dos acidentes é no caso brasileiro colossal. coletivo. 2004): o paradigma de tratar cada trabalhador como variável de ajuste. aposentadorias precoces. sobretudo. mencionados anteriormente. . em virtude do efeito combinado de diversos fatores (por exemplo. geração de incapacidades temporárias e permanentes.A ergonomia da atividade se interessa pela qualidade de vida no trabalho? Reflexões empíricas e teóricas Indicadores críticos: impacto sobre os trabalhadores Quando os problemas ligados à produção. paradoxalmente. merecem destaque: . pois fora das organizações são 88 .

em tese. 2005. 2002. Gonçalves. em 1948. Nesse caso. 2002.Queixas e reclamações da qualidade de serviços e produtos. Em síntese. Ocorre que. a 89 . que dá sustentação à necessidade de intervenção no campo da qualidade de vida no trabalho. a ênfase é na análise dos traços característicos principais da ergonomia da atividade. o percurso analítico seguirá por aspectos históricos. os indicadores críticos mais recorrentes têm se manifestado sobre a forma de: . Esse conjunto de indicadores globais desenha a criticidade dos problemas mais recorrentes vivenciados em organizações públicas e privadas. O êxito dessa experiência de natureza interdisciplinar a credenciou para ser exportada para o mundo industrial no pós-guerra. 2008. psicólogos e fisiologistas para remodelarem o cockpit dos aviões de caça ingleses. buscou-se até aqui esboçar a fundamentação empírica. No setor público. buscando fornecer os fundamentos teóricos que a habilitam para a tarefa da promoção de QVT. surgiu formalmente a ergonomia – “filha da guerra” como assevera Teiger (1993) – cujo estereótipo de “ciência do posto de trabalho” ou. Hostensky. pp. alguns dos principais resultados de estudos e pesquisas e elementos teóricos centrais. Os traços característicos da ergonomia da atividade Para responder a segunda questão deste texto. 1998) está na origem da disciplina foi a conseqüência da atuação conjunta de engenheiros. 2005. embora relativamente desconhecida do grande público. de cláusulas não cumpridas.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Assim. tem cerca de meio século de existência. n. na criação da Research Ergonomics Society. 83-99 eles também usuários e consumidores. Moraes & Mont’Alvão. O fato que. Breve histórico: diálogo entre pesquisadores e trabalhadores A ergonomia. ao final da Segunda Guerra Mundial. mais específicos. vol. Todavia. da falta sequer de acessibilidade aos serviços. oferecidos. No setor privado. permanece forte no imaginário social de leigos. mais global. 1. tais indicadores colocam em risco o exercício efetivo da cidadania e. com base nos resultados de pesquisas e estudos em ergonomia da atividade e ciências afins que convocam os profissionais para a urgência de intervenções no campo da qualidade de vida no trabalho. No tópico a seguir são apresentados também fundamentos empíricos. estabelecendo rankings de empresas/instituições campeãs de reclamações e a criação de órgãos de defesa dos consumidores que passaram a ter destaque bastante positivo na luta por direitos nas relações de consumo (Alves Júnior. 2003).Insatisfação de usuários e consumidores quanto à qualidade dos serviços prestados pelo setor público e dos produtos/serviços disponibilizados pelas empresas privadas que prejudica o próprio acesso aos produtos e serviços para satisfazerem suas necessidades individuais e sociais (Menezes. Ela surgiu oficialmente na Inglaterra. o crescimento sustentável e a fidelização de clientes/consumidores. . 2004). objetos de estudo. pejorativamente “cadeirologia”. conceitos de ergonomia. ele coloca em risco a tão desejada competitividade. Dois dados empíricos são eloqüentes de tais indicadores críticos: a diversidade de reclamações de usuários e consumidores que aparecem na mídia. em conseqüência. 11. de início. dos modos de tratamento recebidos em contextos de atendimento. Freire. segundo os manuais de ergonomia (Iida. fragilizam os valores sociais (como a descrença nos dirigentes) e políticos nos regimes democráticos.

estava centrada basicamente: a) no gestual. 2005). 90 . se ampliadas. o trabalho (sentido largo do termo) a quem trabalha. Sua história é marcada por forte preocupação social de pesquisadores que habitavam o mundo acadêmico na Europa no século XX.) a compreensão das exigências do trabalho. os instrumentos. a ergonomia da atividade esteve claramente articulada com o movimento operário. Nesse sentido. de natureza histórica. as condições de trabalho numa perspectiva antropocêntrica. alguns vestígios. Passado mais de meio século de existência a ergonomia desenvolveu-se teórica e metodologicamente e. Desde o início. com justeza. Tichauer. 1946): ao invés da adaptação do homem ao trabalho.) abordagem taylorista trabalha implicitamente com o pressuposto da regularidade e estabilidade de funcionamento do operador. cuja versão mais acabada ao final dos anos 40 tinha a face do taylorismo-fordismo. ela sustenta a necessidade de adaptar. 2004): (. em conseqüência. Laville. Entretanto.. Daniellou. 1987. Duraffourg & Kerguelen. c) nos procedimentos adotados no sistema de produção. o distanciamento entre as duas perspectivas toma forma e conteúdo (Ferreira. na “(. o objetivo da ergonomia centra-se primordialmente nos resultados. atender às demandas sindicais na perspectiva de promover a melhoria das condições de trabalho e garantir a saúde dos trabalhadores. em particular no que concerne aos modelos de ser humano e de trabalho que se encontram velados ou explícitos nos diferentes usos que se faz da ergonomia. especialmente entre os autores da língua francesa. 2001). A jovem ciência propunha uma inversão no paradigma taylorista vigente “one best way” (Bonnardel. Nesse sentido. de filiação teóricometodológica na produção científica franco-belga (Guérin. a segunda apesar de dizer que “a ênfase é no ser humano” coloca como primeiro objetivo a efetividade e a eficiência do trabalho e o aumento da produtividade. segundo Abrahão e Pinho (2002). O fato é que a ergonomia da atividade foi se construindo com base na constatação dos efeitos nocivos produzidos pela administração científica do trabalho.. Nos textos de alguns autores (Sanders & McCormick. O enfoque adotado neste texto. a diversidade de práticas em ergonomia deu origem a campos distintos de intervenção (projetos e correção) e de abordagens ou escolas igualmente distintas (human factor engineering e ergonomie de l’activité). Enquanto a primeira coloca em tudo o homem trabalhador em primeiro lugar. Essa distinção não é objeto de consenso na literatura (Iida. Rozestraten (2005): É interessante ver como há certa diferença entre a visão européia e a visão norteamericana. os postos de trabalho são tão-somente um dos objetos de análise da ergonomia.. isto sim. no campo da ergonomia da atividade. Eis. podem credenciá-la para o enfrentamento da temática qualidade de vida no trabalho no sentido amplo e preventivo dessa noção. tem características que. 1978). uma análise mais detida coloca em primeiro plano diferenças importantes entre as duas abordagens. portanto. b) no agrupamento das informações. sobre a origem e o papel da ergonomia da atividade na melhoria do bem-estar dos trabalhadores que apontam na direção de qualidade de vida no trabalho.. A ergonomia da atividade surgiu na França e na Bélgica na mesma época. e d) nos processos de pensamento” (p. hoje. 192). 47). conforme assinalado na introdução situa-se. Buscando provar que se pode mudar a técnica. Somente em segundo lugar vêm os “valores humanos” (p. a ergonomia opera uma inversão do paradigma homem-trabalho numa perspectiva de adaptar o trabalho ao homem (p. na produtividade. portanto. Essa abordagem. assinala. buscando transformar as situações de trabalho e. 3). Ao longo dos anos.A ergonomia da atividade se interessa pela qualidade de vida no trabalho? Reflexões empíricas e teóricas preocupação da ergonomia estava centrada.

(b) o foco no bem-estar dos trabalhadores e na eficácia dos processos produtivos. Tal horizonte pode ser interpretado como a busca também por qualidade de vida no trabalho. permite identificar um conjunto de resultados de análises ergonômicas do trabalho que dão origem ou subsidiam recomendações da disciplina para a melhoria do bem-estar no 91 . as definições aprovadas em congressos científicos têm sido as mais adotadas na literatura. para atuar na temática de qualidade de vida no trabalho. 83-99 Ergonomia: definições e objeto de estudo A revisão de textos clássicos em ergonomia (Daniellou. vol. métodos e informações pertinentes para a melhoria do bem-estar do humano e a eficácia global dos sistemas. convocando outros saberes e profissionais para produção de conhecimento sobre um mesmo objeto. considerando-se este homem. 11. cuja âncora bibliográfica principal encontra-se nos manuais dessa disciplina (Grandjean. buscando conforto e prevenção de agravos à saúde dos trabalhadores. Algumas de suas definições mais recorrentes na literatura colocam em evidência aspectos que interessam aos objetivos deste texto. pp... análise e intervenção da ergonomia da atividade é a interação entre os indivíduos e um determinado contexto de trabalho. um dos fundadores da ergonomia na Europa.). cabe destacar: (a) o caráter multidisciplinar e aplicado. 2008. com a física.. o termo ambiente não se refere apenas ao contorno ambiental. O mais importante: o objeto de estudo. A definição mais recente. tanto como indivíduo quanto como participante de um grupo de trabalho (. seus métodos de trabalho e à organização deste. 1998. mas também a suas ferramentas. n. adotada em agosto de 2000. gerente e com sua família (p. 2004) mostra que a identidade científica dessa disciplina está em construção. Isso não é por acaso. no qual o homem trabalha. mesmo uma “ferramenta”. princípios. Alguns dos principais resultados de estudos e pesquisa em ergonomia da atividade Um balanço analítico de estudos e de pesquisas em ergonomia. Nesse sentido. 1. começa a desenhar a identidade científica da disciplina (grifos nossos): Estudo científico da relação entre o homem e seu ambiente de trabalho.. Entretanto. Guérin et al.) estão as relações do homem com seus companheiros de trabalho. (c) a adaptação do contexto de trabalho a quem nele trabalha. A análise da evolução das definições de ergonomia coloca em evidência algumas de suas características. cuja perspectiva é promover o bem-estar de quem trabalha e o alcance dos objetivos organizacionais. Tais características habilitam a ergonomia como uma área científica. por exemplo. 2001).Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Na periferia da ergonomia (. pela Associação Internacional de ergonomia (IEA) é a seguinte (grifos nossos): A ergonomia (ou o estudo dos fatores humanos) tem por objetivo a compreensão fundamental das interações entre os seres humanos e os outros componentes de um sistema.. (d) a transformação dos ambientes de trabalho. Pode-se depreender que a razão de ser da ergonomia é compreender os problemas (contradições) que obstaculizam a interação (mediação) dos trabalhadores com o ambiente de trabalho. pois com apenas meio século de existência formal. seus supervisores. Ela busca agregar ao processo de concepção teorias. Nesse sentido. ela pode ser considerada uma jovem ciência se comparada. que autorizam inferir sua importância para uma abordagem de qualidade de vida no trabalho preventiva. 13). A definição pioneira do engenheiro inglês Murrel (1969).

A ergonomia da atividade se interessa pela qualidade de vida no trabalho? Reflexões empíricas e teóricas

trabalho e a garantia da eficiência e eficácia do processo produtivo. Tais resultados confirmam ou guardam semelhanças com outras descobertas das ciências do trabalho (por exemplo, psicologia, administração, sociologia, psicodinâmica). Entre tais resultados, objeto de relativo consenso entre especialistas, merecem destaque: a) O modelo de gestão do trabalho potencializa a ocorrência de mal-estar em trabalhadores e coloca em risco a eficiência e a eficácia duradouras do processo de trabalho quando:
- Inibe

ou restringe a autonomia na execução de tarefas, dificultando ou obstaculizando o estabelecimento pessoal de ritmos e cadências e a produção e o uso de savoir-faire; tarefas fragmentadas e de ciclos curtos; prazos exíguos para execução de tarefas;

- Prescreve

- Estabelece - Impõe - Induz

controle temporal por parte de chefias, clientes, colegas e, principalmente, de máquinas; a aceleração de performances por meio de recompensas monetárias; tarefas com base no pressuposto de “trabalhador médio” que, em conseqüência, não respeita a variabilidade (intra e inter) individual dos trabalhadores, padronizando performances sem considerar adequadamente as capacidades (fisiológicas e psicológicas) e limites de funcionamento do ser humano; metas, resultados e produtos sem a participação dos interessados e, principalmente, projeta tarefas, situações e produtos com base em modelo simplista ou simplificador de desempenho humano, pois não leva em conta que a ação humana (ainda que no nível do automatismo) pressupõe um mecanismo cognitivo (percepção, tratamento, tomada de decisão, execução, avaliação) que lhe serve de suporte psicológico; situações de trabalho que: (a) não explicitam de modo inequívoco o que se espera do comportamento dos trabalhadores; (b) não avaliam corretamente o estado de saúde dos trabalhadores; (c) não estabelecem, previamente, as atividades de formação e treinamento necessárias; e (d) desconsideram os fatores motivacionais que influenciam a conduta humana; adéqua os contextos de trabalho ao processo natural de envelhecimento de uma dada população de trabalhadores, dificultando os mecanismos de compensação que nascem – por “efeito idade” – da evolução de competências; ou impede a cooperação coletiva dos trabalhadores para gestão das exigências sociotécnicas das tarefas e, sobretudo, a construção e operacionalização de estratégias coletivas de superação e compensação dos limites e problemas presentes nas situações de trabalho; de modo inflexível, formatar as performances dos trabalhadores desconsiderando que na atividade humana trabalho há sempre alguma coisa de irredutível a qualquer tipo de previsão e regularidade stricto sensu, pois ela será sempre um compromisso a ser construído a cada momento com base em exigências endógenas (estado funcional momentâneo de cada trabalhador) e exógenas (provenientes do contexto de trabalho); e obstáculos à atividade humana de adaptação à situação real de trabalho, dificultando a mediação entre o que está formalmente estabelecido (prescrito) e as características e exigências concretas de cada situação de trabalho.

- Desenha

- Estabelece

- Projeta

- Não

- Dificulta

- Busca,

- Coloca

b) Os postos de trabalho aumentam os riscos de acidentes e doenças ocupacionais quando não proporcionam, de forma adequada e personalizada, a compatibilidade entre as

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características psicofisiológicas dos usuários, o ambiente físico e social no qual está inserido e as exigências sociotécnicas das tarefas. c) As condições disponibilizadas para a execução das tarefas aumentam o risco de incidências de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) quando: (a) não proporcionam uma variabilidade postural moderada, em conformidade com as características psicofisiológicas e antropométricas de cada trabalhador; (b) restringem ou impedem a liberdade de escolha de postura apropriada para cada situação; (c) induzem, em conseqüência, à solicitação intensiva de alguns segmentos corporais e respectivas musculaturas. d) O contexto de trabalho (com todos seus componentes: físicos, instrumentais, sociais, normativos e, em especial, as tarefas prescritas) aumenta consideravelmente o custo humano do trabalho e os riscos de acidentes, doenças, erros e retrabalho quando não incorpora adequadamente e de modo integrado as características singulares de um grupo de trabalhadores em termos de exigências:
- Físicas:

estrutura e funcionamento do corpo humano e seus limites em termos de posturas, gestos, deslocamentos, desgaste energético, ciclos circadianos; indissociabilidade entre conhecimento e ação, bem como, os limites neurossensoriais de cada ser humano; e produção ininterrupta de significação psíquica e sentimentos de mal e bemestar provenientes da atividade trabalho.

- Cognitivas: - Afetivas:

Ao longo de sua história, a produção científica em ergonomia da atividade tem, insistentemente, mostrado que a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real constitui uma descontinuidade fundamental, fundadora de um conflito de duas lógicas: (a) do modelo da realidade em geral e da (b) atividade em particular (Hubault, 1995, 2006). Como distância a ser identificada e analisada, ela é uma fonte produtora de conhecimento em ergonomia. Nesse sentido, estudos e pesquisas (Weill-Fassina, Rabardel & Dubois, 1993) colocam em evidência o caráter de imprevisibilidade da atividade, pois ela requer a cada instante a inteligência criadora dos trabalhadores. A atividade não pode, portanto, ser interpretada automaticamente como sinônimo de interesse ou de satisfação no trabalho, posto que os sentimentos de fadiga, monotonia e insatisfação podem estar presentes num mesmo posto de trabalho. Em conseqüência, o foco na análise da atividade em situações reais de trabalho evidenciou o papel estratégico do conhecimento sob a forma de savoir-faire dos trabalhadores, que é construído no dia-a-dia de trabalho para garantir os clássicos imperativos empresariais de produtividade, eficiência e qualidade e, ao mesmo tempo, suas condições de saúde. Assim, cabe destacar que o foco do olhar teórico-metodológico da ergonomia da atividade está voltado para a singularidade do ato de trabalhar de cada ser humano em contextos assemelhados ou diferentes. Tal singularidade tem múltiplas faces, uma delas – talvez a mais relevante – diz respeito à linguagem conforme salienta Motta (1997):
Os seres humanos vivem em um universo de significações. Eles decodificam sem cessar, não apenas as palavras de seus semelhantes, mas também suas expressões, suas posturas, suas ações dos mais variados tipos, sempre lhes atribuindo um sentido. Ocorre da mesma forma com os sentidos que vão assumir suas próprias ações. Essa significação está muito longe de ser universal e está sempre relacionada a uma espécie de linguagem particular (p. 26).

O elenco dos principais resultados de pesquisa, estudos e intervenções em ergonomia e disciplinas afins cumpre, portanto, duas finalidades neste tópico do texto: de um lado,

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complementam os fundamentos empíricos (apresentados acima) que justificam a importância do planejamento e da operacionalização de programas de qualidade de vida no trabalho; e, de outro, destacam aspectos que marcam a identidade da ergonomia da atividade que podem ser úteis para uma abordagem preventiva em QVT.

Traços teóricos distintivos da ergonomia da atividade
A análise da literatura em ergonomia da atividade, para além dos aspectos mencionados anteriormente, permite identificar alguns de seus principais traços teóricos que marcam sua identidade científica no campo das ciências do trabalho. Tais traços se reportam às dimensões analíticas centrais da ergonomia da atividade e que são conformadores do próprio objeto de investigação sobre o qual repousa sua produção de conhecimentos. Assim, um esforço de síntese aponta para as seguintes dimensões conceituais (Ferreira & Mendes, 2003): - Contexto de trabalho: designa o meio físico, instrumental e social onde se realiza a atividade de trabalho. Ele pode ser designado genericamente como um contexto de produção de Bens ou serviços (CPBS), no qual se encontram os parâmetros estruturadores da ação humana. Esses parâmetros manifestam-se, principalmente, sob a forma de informações econômicas ou institucionais, política de pessoal, determinações jurídicas externas, localização espacial, condições de trabalho, organização do processo de trabalho, tarefas prescritas. A compreensão da performance humana é inseparável do diagnóstico dos elementos do CPBS que podem estar na origem, por exemplo, de erros ou acidentes de trabalho. - Indivíduo: ele assume em ergonomia da atividade contornos singulares, cuja designação já é um distintivo de qual indivíduo se fala: o trabalhador ou a trabalhadora. Em ergonomia da atividade, o indivíduo é sujeito ativo que pensa, age e sente; por meio de sua atividade de trabalho, constrói e reconstrói sua experiência de trabalho cotidianamente. A acepção conceitual distancia-se – a rigor se opõe – das noções de filiação taylorista, de “trabalhador médio” e do “ser humano como variável de ajuste”. Nesse sentido, a diversidade e a variabilidade interindividuais (gênero, idade, dimensões corporais, experiência, competências) e intra-individuais (transformações físicas e mentais do próprio trabalhador em função das variações temporais em curto, médio e longo prazos) assumem valor heurístico central na concepção de indivíduo em ergonomia da atividade como fatores fundamentais para se compreender os comportamentos em situação de trabalho. - Trabalho: comporta dois eixos, cujos sentidos são complementares. Em primeiro lugar, o trabalho assume um sentido macro em função de seu caráter histórico e antropogenético como traço distintivo da espécie humana. Em poucas palavras, o trabalho é, historicamente, o “modo de ser” que possibilitou a espécie a sua acepção humana stricto sensu. Em segundo lugar, o trabalho é ação humana de mediação adaptativa (regulação) por meio do qual os trabalhadores respondem às contradições (problemas, dificuldades, limites, indicadores críticos) existentes nos contextos de trabalho com o objetivo (finalismo) de cumprir as tarefas prescritas e, ao mesmo tempo, garantir o próprio bem-estar. O trabalho-atividade ocupa lugar epistemológico fundamental no diagnóstico da interação indivíduo-ambiente. Eis, portanto, as três dimensões fundamentais que caracterizam o “olhar” da ergonomia da atividade sobre o indivíduo em seu contexto de trabalho. Daqui nascem as três questões básicas que, regra geral, norteiam a investigação dessa disciplina na busca de construir quadros elucidativos das mazelas que habitam o mundo do trabalho: Como se caracteriza um dado contexto de trabalho? Como se caracteriza o perfil (demográfico e profissiográfico) dos trabalhadores? Como se caracterizam suas respectivas atividades mediadoras de trabalho?

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Desse modo, a distinção conceitual “contexto de trabalho”, “indivíduo” e “atividade” (trabalho) é, antes de tudo, recurso didático de distinção teórica para melhor compreender os elementos básicos que são constitutivos e constituidores do mundo do trabalho. Desenhar cenários explicativos dos problemas encontrados requer fazer, metaforicamente, dois movimentos: um de zoom-in, para examinar exaustivamente cada dimensão analítica e outro de zoom-out, para compreender suas interações e nexo causal com base em uma perspectiva mais holística. É nessa ótica que o título de uma obra de referência clássica em ergonomia da atividade (Guérin et al., 2001) é bastante elucidativo da missão da ergonomia: Compreender o trabalho para transformá-lo: a prática da ergonomia. Por fim, cabe salientar dois aspectos que permeiam os traços teóricos da ergonomia da atividade e que são essenciais para a interlocução com o campo da qualidade de vida no trabalho. O primeiro diz respeito à centralidade do enfoque preventivo como diretriz estruturante do diagnóstico ergonômico. A ergonomia da atividade não se ocupa das doenças do trabalho em si mesmas; elas são, a rigor, um “ponto de partida” para a análise ergonômica que é, de fato, seu “ponto de chegada”. Seu foco de preocupação, ao diagnosticar as causas dos problemas, é a sua prevenção (por exemplo, acidentes, doenças, erros, retrabalho) nas organizações que colocam em risco o bem-estar dos trabalhadores e a eficiência e eficácia dos processos produtivos. O segundo se reporta ao seu caráter multidisciplinar que, por natureza, convoca outras ciências e cientistas do trabalho para a parceria na produção de conhecimentos. O bem-estar no trabalho e o alcance dos objetivos organizacionais, regra geral, não são obras somente de uma ciência ou um cientista isolado, mas fruto de distintas contribuições para elucidar os enigmas que habitam a interação “indivíduo-atividade-contexto de trabalho”.

Conclusão
Afinal, resgatando o título do presente artigo, a ergonomia se interessa pela qualidade de vida no trabalho? Certamente, a resposta é sim. Dois eixos de reflexão foram desenvolvidos ao longo do trajeto argumentativo buscando fornecer elementos de resposta a essa questão-bússola. A título de conclusão é pertinente retomar, sinteticamente, os motivos do sim. Do ponto de vista empírico, especialistas e pesquisadores que atuam no mundo do trabalho – com destaque para os que adotam a ergonomia da atividade sua abordagem central – têm um cenário macro e micro que os convoca para a ação voltada para a promoção da qualidade de vida no trabalho. Em linhas gerais, o cenário fornece os fundamentos empíricos para a necessidade de QVT com base em dois aspectos principais. Em primeiro lugar, as aceleradas mudanças no mundo do trabalho são, ao mesmo tempo, causa e conseqüência das transformações que ocorrem para além muros das organizações. Tais mudanças colocam no centro da cena um processo de reestruturação produtiva, cujo suporte principal localiza-se nas inovações tecnológicas (por exemplo, a telemática está permitindo ao dinheiro dar várias voltas ao mundo em nanosegundos) neste limiar do século XXI, que vem buscando instalar um novo paradigma produtivo com base no desenho de um novo perfil para as organizações, a gestão do trabalho e a competência esperada dos trabalhadores. O preceito da flexibilidade como instrumento de gestão, o forte investimento em tecnologias da microeletrônica e a alteração do aparato jurídico são os traços principais do processo de reestruturação produtiva. O “ponto de chegada” desse

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processo permanece uma incógnita. O sentimento é de que estamos somente entrando no “olho do furacão”. Em segundo lugar, até aqui as práticas dominantes da reestruturação produtiva (nas grandes corporações) revelaram-se ser mais uma modernização conservadora, do tipo neotaylorismo-fordismo. O trabalhador é a variável de ajuste – ele é quem tem que ser flexível – e o poder de decisão de quem trabalha cotidianamente permanece restrito, vigiado e, na maior parte dos casos, proibido. Nessa ótica, a reestruturação produtiva tem sido muito mais um obstáculo para o pleno exercício do autêntico sentido do trabalho humano e está na origem da produção e do agravamento de um rol de indicadores críticos que cobrem: a produção de serviços e mercadorias; os efeitos nocivos sobre a saúde dos trabalhadores; e a satisfação de usuários dos serviços públicos e clientes/consumidores do setor privado. É com base nesse contexto macro e micro conjuntural que a questão da qualidade de vida no trabalho se apresenta como prioridade de agenda de trabalho e intervenção para as ciências do trabalho, em especial para a ergonomia da atividade. Embora historicamente jovem, a ergonomia da atividade acumulou ao longo de meio século uma experiência analítica dos ambientes de trabalho bastante consistente, que a autoriza a ser uma das protagonistas da promoção da qualidade de vida no trabalho nos cotidianos das organizações. A história da ergonomia da atividade e, sobretudo, os traços que a caracterizam constituem um segundo bloco argumentativo do “sim” para a questão que serve de título deste artigo. Assim, em linhas gerais, o perfil dessa jovem ciência fornece os fundamentos teóricos que a habilitam a estender seu campo de ação, merecendo destaque: - Do ponto de vista histórico, a ergonomia da atividade tem sua origem marcada pelo envolvimento de pesquisadores com o mundo trabalho na busca, inicialmente, voltada para as condições de trabalho e, com o seu desenvolvimento, passa a englobar de forma evidente as dimensões da organização e das relações socioprofissionais de trabalho. Portanto, o bemestar, a eficiência e eficácia estiveram, desde o início, no centro das preocupações da ergonomia da atividade; - A definição da ergonomia coloca em primeiro plano seu objeto (interação indivíduoatividade-contexto de trabalho) e seu objetivo de propor, com base em uma perspectiva interdisciplinar, medidas concretas para uma melhor adaptação dos meios tecnológicos de produção e dos ambientes de trabalho e de vida ao homem; - A consolidação dos principais resultados de estudos, pesquisas e intervenção – muitos oriundos do diálogo com outras disciplinas afins – mostra os fatores principais (modelo de gestão do trabalho, condições de trabalho, custo humano) que potencializam a ocorrência de mal-estar no trabalho e que colocam em risco a saúde dos trabalhadores; tais resultados reforçam os argumentos de natureza empírica sobre a necessidade de qualidade de vida no trabalho em organizações públicas e privadas; e - Os traços teóricos principais da ergonomia da atividade enfatizam três dimensões analíticas interdependentes: contexto de trabalho, indivíduo e trabalho. Tais dimensões tecem a “tela de fundo” na qual se inscrevem os problemas práticos que são diagnosticados pelos que praticam essa disciplina. O caráter preventivo e a parceria multidisciplinar complementam os traços teóricos da identidade da ergonomia da atividade. Assim, a ergonomia da atividade, certamente, interessa-se pela qualidade de vida no trabalho. Mas, esse interesse tem contornos específicos. Eles devem, com certeza, distinguirse tanto das abordagens clássicas da quality of work life (Limonge-França, 2003; Hackman & Oldham, 1975; Walton, 1973), quanto dos enfoques de QVT assistencial, marcados pela exclusividade de práticas anti-estresse e pela natureza compensatória dos desgastes vivenciados no contexto de trabalho (Ferreira, Alves & Tostes, 2006). Enfoques que, em essência, apóiam-se no pressuposto do trabalhador como variável de ajuste. A ergonomia da

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Reestruturação produtiva e industrial. Ferreira. As transformações do trabalho e desafios teóricometodológicos da ergonomia. & Tostes. Evidentemente. sobretudo. Cattani & L. D. propor mudanças que englobem a organização como um todo. C. R. (2003). Dicionário trabalho e tecnologia (pp. Isso significa para a ergonomia da atividade avançar na sua história.. Instituto de Psicologia. J. (Org. Holzmann (Orgs. possa contribuir para as transformações humanizadoras dos contextos de trabalho. Brasília: LPA. 11. São Paulo: Artmed. Enfim. & Mendes. D. principalmente. Ferreira. cooperativa com outras ciências do trabalho e seus especialistas e. 45-52. (2006). (2006). Porto Alegre: UFRGS. Fim do trabalho versus centralidade do trabalho. C. M. Castel. 181-207). 127-131). desenvolvendo uma ergonomia da atividade aplicada à qualidade de vida no trabalho. L. Cultura e saúde nas organizações (pp. & Pinho. mas com base em outra perspectiva (Ferreira. 7 (especial). 219-222).). Brasília: CBPOT. In A. M. (2004). M. Holzmann (Orgs. Lisboa: Horizonte. Rio de Janeiro: Zahar. M. M. Porto Alegre: UFRGS. Petrópolis: Vozes.). 2006. Bem-estar: equilíbrio entre a cultura do trabalho prescrito e a cultura do trabalho real. Holzmann (Orgs. Gestão de qualidade de vida no trabalho (QVT) no serviço público federal: o descompasso entre problemas e práticas gerenciais. a tarefa posta é enriquecer o enfoque tradicional da ergonomia. A ergonomia em busca de seus princípios: debates epistemológicos. Resumos do II Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho. Referências Abrahão. n. 2004). (2006). Universidade de Brasília. Certamente. H. 1. A adaptação do homem ao trabalho. Mendes & Ferreira. In A. ampliar seu campo de análise. I. vol. Cattani & L. Avaliação de desempenho. Dicionário trabalho e tecnologia (pp. (Originalmente publicado em 1996) De Toni. T. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. (2005). L. São Paulo: Edgard Blücher. Qualidade de vida no trabalho. tal enfoque não pretende ser uma espécie de “panacéia” que resolva todos os problemas vivenciados pelos trabalhadores e gestores. Braverman. (1946). As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. N. Brasília. Uma perspectiva de QVT que se apóie em uma abordagem de natureza preventiva. M.). Alves. Estudos de Psicologia. 83-99 atividade pode e deve contribuir com a melhoria da qualidade de vida no trabalho. não obstante seus limites. M. In ª D. Trabalho e riscos de adoecimento: o caso dos auditores-fiscais da previdência social brasileira. 97 . atividade de atendimento ao público e custo humano no trabalho em uma empresa pública no Distrito Federal. Bonnardel. 237-239). estender o seu campo de ação e. Dissertação de Mestrado. R. mas uma alternativa que. essa perspectiva tem implicações de natureza metodológica no que concerne à análise ergonômica do trabalho. Ferreira. Baumgarten. (2006). Tamayo (Org. (2004). Dicionário trabalho e tecnologia (pp. Cattani & L. 2008. In A. (2003).Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Isso é um ponto fundamental na agenda para a construção da abordagem: ergonomia da atividade Aplicada à qualidade de vida no trabalho (EAAQVT). Porto Alegre: UFRGS. M. em uma concepção ontológica do sentido do trabalho que resgaste o seu papel humanizador no âmbito das organizações. (2002). pp. Daniellou.). (1975). Alves Júnior. D. Ferreira. C.). C. R. F. A.

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aos aspectos de vulnerabilidade. “Diálogos em Psicologia Social”. n. 1 Uma versão preliminar deste artigo foi apresentada durante o XIV Encontro Nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social. Analysis of work. and how bonds are established in that context. Promoção de saúde. Tomando-se a prostituição como um trabalho. Taking prostitution as a job. Promotion of health. as profissionais do sexo. 4 Docente da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Introdução A experiência apresentada a seguir ocorreu no contexto das atividades de estágios em psicologia do trabalho da graduação em psicologia da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2 Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ana Luiza Silva Fanganiello3. Análise do trabalho. em um Centro de Orientação e Aconselhamento Sorológico (COAS) localizado na cidade de São Paulo. an intervention with sex workers was conducted. issues was addressed concerning specific forms of organization for this type of work. caracterizado pela situação de vulnerabilidade. Palavras-chave: Profissionais do sexo. covering their complexity and ambiguity. 101-110 Intervenção em saúde do trabalhador com profissionais do sexo 1 Maria Altenfelder Santos2. its aspects of vulnerability. the prejudice experienced. A intervenção mostrou-se potencializadora da apropriação de significados pessoais e coletivos pelas participantes. foram abordadas questões referentes às formas específicas de organização desse trabalho. With a total of ten meetings. Psicólogo do Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. A intervenção realizada teve como ponto de partida a reflexão de uma das estagiárias sobre o tipo de atendimento oferecido a uma determinada categoria de trabalhadoras. Vulnerabilidade. Keywords: Sex workers. buscou-se instaurar dentro do próprio local de trabalho (o bordel) um espaço de discussão entre as profissionais do sexo sobre temas relacionados à sua ocupação. ao preconceito vivenciado e à maneira como os vínculos são estabelecidos nesse contexto. Renata Paparelli4 e Fábio de Oliveira5 Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo A partir de um estágio em psicologia social do trabalho foi desenvolvida uma intervenção com profissionais do sexo na perspectiva da saúde do trabalhador. from the perspective of the worker’s health. among the sex workers. Mestranda em psicologia social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. abarcando suas complexidade e ambigüidade. Doutoranda em psicologia social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Em um total de dez encontros. 5 Docente da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. characterized by its vulnerable situation. Doutor em psicologia social pela PUC-SP. 1. 2008. we sought to create within the work place (the brothel) a space for discussion. caracterizando-se como uma ferramenta para a ampliação da compreensão das trabalhadoras sobre suas próprias vivências. this intervention has proved to be an empowering tool for the promotion of a deeper awareness and broadening the understanding of workers on their own experiences. By helping the participants to retrieve their personal and collective meanings. Vulnerability. with the aim of promoting the workers’ health. 101 . Health intervention with sex workers Through an internship program. 11. on themes related to their occupation. vol. visando à promoção de saúde das trabalhadoras.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. pp. 3 Aluna do curso de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. em novembro de 2007.

uso de álcool e drogas.. configurados como aconselhamentos individuais ligados à prevenção de DST/Aids.Intervenção em saúde do trabalhador com profissionais do sexo serviço vinculado ao Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo e à Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. terão que dialogar daqui para frente (Sorj. na medida em que as profissionais estão constantemente expostas a riscos de sofrerem diferentes tipos de violência. por conseguinte. Ayres (1996) critica o fato de que esses conceitos abstraiam as determinações sociais e políticas dos fenômenos de 6 Estagiárias: Ana Luiza Silva Fanganiello e Maria Altenfelder Santos. constatou-se que muitas das profissionais traziam a demanda por um espaço de escuta ampliado que pudesse acolher suas vivências no ofício. de maneira a instaurar um espaço de construção coletiva das formas de enfrentamento dos problemas vivenciados no cotidiano de trabalho implicados no processo saúde-doença. 9-10). nem no conjunto da categoria nem na sociedade.). essa corrente surge em meio a um intenso processo de transformação social. 102 . marginais. hegemônicos nas práticas de atenção à saúde dos trabalhadores. a Igreja. Dejours (1992) entende que a palavra.. assumindo-se um posicionamento crítico ao julgamento moral da prostituição. ocorrido no mundo ocidental a partir do fim da década de 60. O trabalho apresentado a seguir foi. crítico aos modelos centrados na assistência médica. bem como as demais formas de expressão que possam emergir no espaço de discussão. O autor sugere uma ação de escuta e interpretação do conjunto de trabalhadores. foi desenvolvido um projeto de intervenção. infecção por DSTs (doenças sexualmente transmissíveis). a percepção da prostituta como trabalhadora já faz parte do léxico político atual. constituem o material a partir do qual se pode apreender tanto a experiência concreta quanto a representação da vivência subjetiva do coletivo. Segundo Dias e Mendes (1991).. (. A partir disso. em parte. o sindicalismo. Segundo Bila Sorj: abordar o universo da prostituição como um mundo de relações de trabalho e. ou mesmo que sua institucionalização possa sofrer idas e vindas. Seu trabalho é caracterizado por grande vulnerabilidade.. os poderes públicos. A perspectiva da saúde do trabalhador está vinculada ao campo da saúde pública. com o foco sobre o trabalho. Mesmo que esta nova concepção ainda não seja predominante. discriminação social. A noção de vulnerabilidade tem se consolidado como um instrumento fundamental no campo da saúde pública. entre outros. para citar apenas algumas instituições. pp. Dejours (1992) propõe como estratégia de intervenção. visando à promoção de saúde. sob a perspectiva da saúde do trabalhador. Trata-se de uma categoria de trabalhadoras bastante peculiar. Ayres (1996) descreve o surgimento dessa noção na área da prevenção como forma de superação do referencial epidemiológico. A proposta foi fundamentada no entendimento das profissionais do sexo enquanto trabalhadoras. libertinas. E será certamente com ela que as feministas. grupos ou comportamentos de risco. com uma equipe de duas estagiárias e dois supervisores6. que investe na possibilidade de articulação entre conhecimento prático (dos trabalhadores) e teórico (dos técnicos). A pesquisa bibliográfica revelou a escassez de estudos na abordagem da saúde do trabalhador voltadas particularmente à categoria de profissionais do sexo.. Dias e Mendes (1991) descrevem a saúde do trabalhador como um campo interdisciplinar.) [é uma escolha que] já contém em si mesma uma crítica avassaladora ao modo como usualmente as prostitutas são tratadas: vítimas. Supervisores: Fábio de Oliveira e Renata Paparelli. a constituição de espaços de discussão nos próprios locais de trabalho. Nessa perspectiva. baseado em conceitos discriminatórios como fatores. Nesses atendimentos. 1995. inspirado nessas idéias. a prostituta como mulher trabalhadora (..

Já no conceito de vulnerabilidade. na medida em que contribui para o enfrentamento coletivo das dificuldades vivenciadas no cotidiano de trabalho. pois a profissional é vista (e ela própria se vê) ora como vítima impotente. ela levantou a possibilidade de realizar o grupo em seu próprio local de trabalho. a serem convidadas pelas estagiárias. Partindo da perspectiva da saúde do trabalhador. era de que as profissionais do sexo falassem livremente sobre o seu trabalho. associadas às diferentes suscetibilidades de indivíduos ou grupos ao adoecimento.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. No entanto. Isto é. dona de um bordel localizado na mesma região. vol. perpetua esse círculo vicioso de exclusão. mas de avaliar as diferentes chances que todo indivíduo possui de maior exposição ou menor proteção diante do problema. contribui com a caracterização da situação de vulnerabilidade dessas trabalhadoras. nesse bordel. Compareceram a cada encontro de uma a quarto participantes. pp. A princípio. na medida em que ela própria incorpora sua invisibilidade enquanto sujeito social (Ministério da Saúde. A estigmatização. O Documento referencial para ações de prevenção das DST e da Aids. Objetivos O intuito da intervenção foi proporcionar um espaço de discussão e reflexão entre profissionais do sexo sobre os temas relacionados ao trabalho e à saúde. está contemplada uma síntese entre as dimensões sociais. assim. A proposta dos encontros. A prostituição é. não se trata de distinguir aqueles que têm alguma chance de adoecer. o preconceito mostra-se presente de maneira ambígua nesse contexto. políticas. 11. A intervenção ocorreu. institucionais e comportamentais. impossibilitando o acesso à condição de cidadania pela profissional do sexo. sem alternativas diante de uma condição de miséria econômica. Segundo o Ministério da Saúde (2002). da clandestinidade. discutindo a alta complexidade da atividade que exercem. de aproximadamente uma hora de duração. de acordo com características de seu cotidiano individual e social. 2008. 103 . insistentemente identificada com o território da marginalidade. 101-110 adoecimento. coordenados pelas estagiárias. 2002). na medida em que esta é permeada pela construção sócio-histórica de valores morais referentes à questão da sexualidade. com a participação voluntária das trabalhadoras do local. Metodologia A intervenção ocorreu entre os meses de setembro e novembro de 2006. segundo o autor. voltado às profissionais do sexo e publicado pelo Ministério da Saúde em 2002. totalizando dez encontros. entende-se o dispositivo grupal como um instrumento de promoção de saúde. n. quando a proposta foi apresentada a uma das usuárias e possível participante. planejou-se a realização de encontros com profissionais do sexo que fossem usuárias do COAS de um determinado bairro da cidade de São Paulo ou trabalhadoras das proximidades. por sua vez. então. nessa abordagem. enfocando a dimensão subjetiva de sua atividade. culpabilizando indivíduos e impedindo o diálogo necessário entre serviços e público-alvo. 1. ora como culpada por sua atividade sexual transgressora aos padrões vigentes.

Logo ao lado está o bar com uma decoração peculiar: CDs colados na parede. um balcão preto e uma pequena placa ao centro do bar com os dizeres “Deus fez o mundo. por exemplo). o Diabo fez o fiado”. tornando os recém chegados visíveis a quem estiver presente no recinto e viceversa. Os quartos eram pequenos e também iluminados pela mesma luz verde. em destaque. do lado oposto da janela. pois. no fundo do salão. ao lado de um caça-níqueis. um portão com grades e uma corrente com cadeado. Há também. A fachada é pintada de roxo. por ocasião de alguma comemoração específica (aniversários. uma saleta sem porta com a parede de espelho e uma mesa com duas cadeiras. Adão fez o dinheiro. as paredes eram feitas de divisórias. trazia a figura de um grande Papai Noel tomando um refrigerante e enunciando a frase “a magia é para todos”. com um toldo roxo sobre a pequena porta. Todas as paredes do salão são revestidas por um tapume de madeira. perceberam-se algumas de suas características. E no teto por vezes objetos decorativos estavam pendurados. transmitindo a sensação de um local mais reservado. Mesmo não tendo entrado nos quartos. Em seguida há uma escada e. Fixadas no alto. ainda em setembro. um corredor dá acesso a quatro quartos e a uma grande sala sem janelas. bebidas em prateleiras de vidro. o visitante depara-se com um grande espelho inclinado. duas televisões transmitem as imagens de DVDs comuns e pornográficos. Subindo os degraus vermelhos e desgastados. Ao lado desse espelho há uma grande foto de propaganda de uma revista masculina.Intervenção em saúde do trabalhador com profissionais do sexo Resultados Descrição do local de trabalho O bordel localiza-se em uma rua paulistana de comércio popular. Outro cartaz que estava logo ao lado chamou muito a atenção. Os encontros do grupo de profissionais do sexo com as estagiárias de psicologia foram realizados nesse local. sem janelas e sem forro. À direita fica a cozinha. Bem no meio do salão fica uma mesa de bilhar. aqui é garota de programa”) é financeira. as pequenas mesas espalhadas pelo salão são pretas e cada uma contém de duas a três cadeiras inteiramente revestidas de couro sintético preto. Logo na entrada há um capacho com ideogramas japoneses e. Por todo o salão existem arranjos com flores artificiais vermelhas. Ao lado dessa saleta. Nessa escada já havia um cheiro forte. Segundo o que elas relatam às estagiárias. que acompanhou as estagiárias ao longo do trabalho. Do lado esquerdo de quem entra há um pequeno palco espelhado. indecifrável. que por vezes foi usada pelas profissionais do sexo como cama fora do horário de trabalho. Em frente aos quartos há um pequeno escritório que contém uma mesa. “o dinheiro é rápido e não é fácil” e é de fundamental importância para sua sobrevivência e o sustento de seus filhos. caixas de cervejas e um grande quadro com a figura de Cristo. que reflete todo o salão. Eva fez o pecado. Em uma noite de muito trabalho pode-se ganhar o valor correspondente a um mês 104 . Na outra parede há uma janela e logo abaixo um sofá antigo. movimentada durante o dia e mais vazia durante a noite. Do outro lado da sala há uma jukebox. iluminada por luz verde. a palavra “amor” em português. Organização do trabalho Notamos que uma das grandes motivações para o trabalho das “garotas” (como elas fizeram questão de serem chamadas: “profissionais do sexo você deixa para seus professores. no meio do caminho.

O rigor das regras aumenta quando se trata de drogas ilícitas. é público por que qualquer um pode entrar”. pois isso implica em um risco para a dona do estabelecimento.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho.. como ter seguranças contratados e as paredes dos quartos vazadas. Diariamente fazem uso de álcool. lícitas ou ilícitas. pagos antecipadamente à dona do estabelecimento. ela vira peneira”. Ela conta que. 1. tanto no sentido dos lucros. n. como relatou uma das “garotas”. Para evitar o risco de contaminação por DSTs todas relatam que não abrem mão do uso de preservativos. Esses homens têm doença”. quanto para se sentirem encorajadas a realizarem os programas. De forma que. há o risco permanente de denúncia. A principal fonte de renda da casa é o comércio de bebidas. nessa profissão. Vulnerabilidade Todas as profissionais dessa instituição provavelmente fazem ou já fizeram uso de drogas.. Ela conclui esse pensamento falando ainda que prefere ser presa por dar trabalho para uma menor de idade que falsificou seu documento para garantir seu sustento. ausentar-se da casa por no máximo vinte minutos durante o período de trabalho. o que significa estarem expostas a desconhecidos. o que pode resultar no fechamento da casa e na prisão da proprietária. o volume de dinheiro recebido é muito maior do que a remuneração de qualquer outro emprego em que elas já trabalharam ou que consideram como uma possibilidade de trabalho. As demais combinações eram feitas à parte. que diz ter feito uma enquete com todas as profissionais que passaram pela casa. Elas dizem que seu trabalho “é um serviço público. tendo esse consumo uma função diretamente ligada à atividade de trabalho. eu desconfio. como: “só beijo na boca de cliente bonito”. Na casa onde foi realizada a intervenção havia uma exigência de que em cada programa fossem incluído “um sexo oral e um vaginal”. uma “garota” pode chegar a ganhar cerca de duzentos reais fazendo dez programas. A própria dona do estabelecimento incentiva as garotas a estarem sempre alertas para o uso de preservativos e para que seus clientes não o retirem sem que elas percebam. o que diminui a privacidade. Uma das falas que demonstra essa preocupação é: 105 . No caso de não cumprimento das regras. não portar nem fazer uso de drogas ilícitas dentro da casa. com aparente flexibilidade do trabalho. como relatou uma das trabalhadoras. 11. 2008. ela contorna essa situação através de propinas. pois. as “garotas” poderiam ser multadas a critério da dona do estabelecimento. Risco que se busca minimizar com as medidas de proteção tomadas pela casa. Embora possa ser presa por aliciamento de pessoas. Em uma noite de trabalho. como pelos clientes é paga por este últimos. vol. coisa que ela abomina. pois o corpo é percebido como instrumento de trabalho. como poder rejeitar um cliente. sendo que uma parte dessa quantia seria destinada à profissional. apesar de declararem que o número de preservativos distribuídos pelo sistema público de saúde é insuficiente: “esses homens que vêm no bordel e querem transar sem camisinha. faz parte do contrato com cada “garota” que ela estimule o consumo. que vai das dezoito horas até o último cliente. 101-110 atuando como empregada doméstica ou atendente de lanchonete. pp. As “garotas” contam. eles não sabem se eu tenho doença ou não. “ser penetrada por uma pessoa que você não conhece é muito difícil”. Toda a bebida consumida. se achar necessário. estabelecer seu próprio ritmo e suas próprias regras dentro do quarto. Ainda assim. Outras regras de funcionamento da casa estipuladas pela proprietária são: não beijar o cliente no salão. ainda. faz uma “operação pente fino” à procura de drogas: “se eu for para cadeia por menina que está passando droga aqui dentro eu mato ela. tanto por elas. correndo o risco de serem alvo de violência. mas garante maior segurança. entre o cliente e a “garota”. sendo que para tanto recebe uma porcentagem do lucro. a ser pega por drogas. por isso.

No início da relação com as estagiárias. referindo-se a mulheres que fazem sexo por prazer e com muitos parceiros. ao questionar-se uma das “garotas” sobre como cuidava da sua saúde. 106 . em suas palavras: “a mina que vai na balada e transa com qualquer um. pois as conversas possibilitavam levar para “fora” um pouco do que a equipe vivenciou lá dentro. onde fazem exames (HIV. o que poderia ajudar a combater um pouco do preconceito. no meio acadêmico e inclusive partindo das próprias profissionais.. que eu gosto. Preconceito A dificuldade de essa profissão ser reconhecida parece girar em torno da questão do preconceito. As profissionais relatam esconder sua profissão da maioria das pessoas. eu não tenho vergonha. perguntando se estavam preparadas para ser confundidas com uma delas ao saírem da boate. o preconceito está presente em todas as relações: com o cliente. A maioria das profissionais são usuárias do centro de saúde local e do COAS. Essas não seriam profissionais. Elas contam que às vezes acontece de serem xingadas na rua por clientes que já usufruíram de seus serviços. eu rezo”. Ao mesmo tempo. facilitando assim o anonimato. Apesar de serem uma minoria. tocando em alguns tabus da sociedade. pois. afirmam que não gostariam de ser registradas: “eu não quero uma carteira de trabalho escrito 'prostituta'”. muito menos de um desconhecido”. Ao final do trabalho. caracterizando “o mundo lá fora e o mundo aqui dentro”. No meio acadêmico que freqüentamos. mostraram de maneira clara a segregação que vivenciavam. Porém. mas também não tenho orgulho. Durante o estágio. hepatite) a cada quatro meses e recebem setenta preservativos por mês. gerando culpa por exercerem uma atividade considerada pecaminosa: “tem até um dos dez mandamentos que diz 'não se prostituirás'”. que é considerado fundamental no ofício em função do preconceito vivido por elas. algumas chegam a fazer dez programas por noite. como se houvesse uma barreira entre elas e o resto da sociedade. Todas fazem uso de um pseudônimo para se identificar dentro do local de trabalho e esse nome é trocado conforme a casa em que estão exercendo a atividade. deparamo-nos com reações que variaram do interesse ou da curiosidade à repulsa.Intervenção em saúde do trabalhador com profissionais do sexo “eu não quero pegar doença nem do meu namorado. há clientes que as maltratam verbal e fisicamente durante o trabalho e fora. Há ainda o preconceito das próprias “garotas” contra um tipo que chamam de “a puta de paredão”. ela respondeu que deixava “na mão de Deus”. mas não é aceito”. sentíamos que estávamos adentrando um território muito delicado. com a sociedade em geral. o que não supre a demanda.. vai com ele para o motel e não cobra”. Apesar de dizerem que consideram essa uma profissão como outra qualquer.. as “garotas” pareciam testá-las. mas mulheres promíscuas. acha o cara da balada bonitinho. sífilis. principalmente de suas famílias: “meu filho não vai saber que eu sou garota de programa. mostrando que elas são pessoas comuns. A dona da casa disse que nunca havia visto uma intervenção desse tipo “em dez anos de noite” e que o fato de as estagiárias escutarem o que elas tinham a dizer sem julgá-las já era uma forma de romper com essa barreira. é um trabalho como outro. De acordo com o que vivenciamos ao longo do trabalho. Outra frase marcante no sentido dessa culpabilização gerada pela religião é: “toda vez que um homem sai de cima de mim. valorizavam a presença das estagiárias ali. como apontado acima. A religião reforça uma ambigüidade de sentimentos. Percebemos que o tema por várias vezes gerou discordâncias e incômodos..

Atribuímos essa situação à dificuldade de serem mantidas relações estáveis na profissão. seja com os estabelecimentos de trabalho. mas nunca voltaram. foi através dessas dificuldades que se pôde analisar os sentidos de todo o nosso trabalho. rondando o grupo e às vezes fazendo algum comentário ou simplesmente escutando. Por outras. 101-110 Vínculos As maiores dificuldades encontradas na intervenção estavam ligadas à maneira como os vínculos são estabelecidos pelas profissionais. “legais” ou “simpáticas”. enquanto contava que seu ex-marido o havia tatuado na própria mão. após o contato intermediado pelo COAS. Relataram que um grupo de estudantes de comunicação esteve na casa para fazer uma pesquisa sobre a vida das prostitutas. eram encaradas como invasoras e curiosas. Consideramos isso um gesto de confiança. que contou com a participação da dona da casa e de mais três profissionais. dizendo que não estava lá por simples curiosidade. de maneira sutil. tinham a sensação de que estavam ali pela primeira vez. No primeiro encontro. Em alguns momentos. né?”. as estagiárias sentiram-se pessoalmente desprezadas. a partir de um questionário “invasivo”. Inclusive. Diversas vezes a equipe foi advertida. pois não era a primeira vez que via as estagiárias. inclusive na relação com a equipe de intervenção. afinal foi hoje que você me falou seu nome. essa mesma profissional revelou às estagiárias. ela disse à estagiária: “vou te procurar lá no posto pra gente conversar”. Toda vez que as estagiárias chegavam. Houve uma situação em que a “garota” que participou mais efetivamente dos grupos e envolveu-se com as discussões estava indo embora definitivamente da casa. satisfaz-se. ainda que várias “garotas” participassem de maneira indireta. mesmo com a já habitual freqüência semanal dos encontros e no mesmo horário. mas sim em função de uma mera curiosidade pelo exótico. Ao longo dos três meses. Ao final. Desses vínculos. Em outro encontro. uma das “garotas” questionou se seria obrigatório revelar seu nome verdadeiro e foi-lhe dito que isso não era necessário. Desde o primeiro dia. Quando teve início a intervenção. seu nome. vol. uma das estagiárias respondeu: “não deixa de ser muito prazer. Ao mesmo tempo. a equipe teve que reafirmar seu objetivo. de maneira sutil e com cumplicidade. prometeram que retornariam para mostrar o vídeo. 1. na ocasião em que uma “garota” deixava a casa definitivamente. a proprietária do estabelecimento ressaltou que.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. além de quatro outras “garotas” que também trabalhavam no local. 2008. o que mais chamou a atenção foi a sua característica de ambigüidade. que vem. havia oito moradoras fixas. segundo elas. Após o primeiro encontro. As entrevistas foram filmadas e remuneradas. Essa estagiária era uma referência para as “garotas”. que esperavam encontrá-la também no COAS. Imediatamente a outra “garota” que havia participado do grupo aproximou-se e disse: “eu posso falar meu nome também?”. esse quadro funcional modificou-se constantemente. da experiência anterior que haviam tido com outros “pesquisadores”. Por vezes. n. mas para fazer uma intervenção conjunta com elas. pp. 11. Esse episódio caracterizou de modo marcante uma repetição da relação comercial com o cliente. não acreditava que a proposta fosse levada adiante e disse a uma das estagiárias: “estou gostando de ver. Eram recebidas com surpresa. buscando criar momentos de conversa e de troca de experiências. presente em todos os momentos. pessoas que não estavam lá para prestar um serviço. sendo que ao final havia apenas duas moradoras remanescentes daquelas que estavam no início. Ao final. Em todos os encontros. como se sua presença ali não fizesse diferença. ela foi despedir-se e falou “muito prazer” e riu por ter falado isso. o que afirmaram diversas vezes. Por acaso as duas estagiárias a encontraram na hora em que ela estava saindo. paga e desaparece. você está levando isso em frente”. Então. as estagiárias foram tratadas como pessoas “do bem”. o grupo realizou-se com um número menor de participantes efetivas. seja com as pessoas. É notável a alta rotatividade de profissionais na casa. Ela 107 .

mas é isso que falamos aqui. que faz promessas e dá presentes. Por vezes. algo que. Essa ambigüidade também fica visível quando falam sobre casamento. as estagiárias depararam-se com clientes na casa. quando estava grávida e trabalhando. também falam sobre um outro lado da relação com os clientes: “oitenta e nove porcento dos clientes que vêm aqui nos tratam muito bem” ou “o cara me trata como uma princesa. é assim mesmo” (situação em que é usufruída como se fosse um objeto). serem descartadas. mostrando que a faca é um instrumento de proteção. é incentivado pelo próprio cliente. Freqüentemente as “garotas” sentem-se envolvidas pelos clientes. bem como de prática da violência. disse uma vez a proprietária. era rejeitada por alguns clientes. Por exemplo. Ao mesmo tempo em que dizem frases do tipo: “o único prazer que eu tenho é quando me pagam”. As brigas que terminavam em facadas eram relatadas freqüentemente. Ao mesmo tempo em que relatam esse desejo de serem resgatadas desse abismo relacional.. ainda que houvesse um combinado de que naquele horário o estabelecimento não funcionaria. Ainda assim. Algumas “garotas” de fato deixaram a profissão para casarem-se com ex-clientes. Isso. “não tem nada de bom neste trabalho”. a qualquer momento. Como em um dia em que a equipe chegou e dois clientes estavam no sofá. Algumas características das relações entre elas ficaram evidenciadas nas falas sobre a rivalidade e a desconfiança. naquele momento deparamo-nos com a frustração de um rompimento do contrato e de uma desconsideração para com a presença da equipe. Não havia mais ninguém no salão. chegando a imaginar que daqueles momentos fugazes pode surgir um relacionamento duradouro e estável. depois de meia hora. Embora imaginássemos que essa situação pudesse ocorrer. sentiam-se tratadas como clientes: “hoje não tem garotas pra vocês. muitas vezes. o que lhes casou certo embaraço. poucas frases depois: “eu não vou casar. carentes e que em alguns casos vêm à procura de companhia ou da realização de fetiches. o que alimenta o sonho de muitas. “não há prazer em dar para um cara e.. dita por uma “garota” enquanto relatava sua sensação de insegurança diante dos clientes. não vou depender de homem”. como se pode ver na frase: “tenho uma faca em cima do meu guarda-roupa”. A relação com os clientes é muito contraditória. melhor que meu namorado”. insistiu-se em continuar o trabalho. Há uma tensão constante inclusive nos momentos de descanso: “eu durmo com um olho aberto e outro fechado”. alegando que não poderia mais permanecer na casa e mal despediu-se. eu sei que o que eu falei foi estranho. uma das participantes contou que. meninas”. “ele me comeu e depois foi comer outra. seja pela disputa por clientes ou pelas intrigas que podem até levar a agressões físicas. ela já vem”. 108 . As estagiárias perguntaram pela proprietária e eles responderam maliciosamente: “senta aqui. em um mesmo enunciado.Intervenção em saúde do trabalhador com profissionais do sexo disse que não ficaria para o grupo. idealizam e rejeitam: “o cara que me tirar daqui vai ser pra casar de véu e grinalda” e. Em três ocasiões a reunião não aconteceu porque a casa estava para começar suas atividades. dar para outro”. redefinindo-se o enquadre de forma clara e analisando-se que a maneira como os acordos era quebrados revelava os tipos de relação e de compromissos possíveis de serem estabelecido por elas. porém outros vinham à sua procura e pagavam pelo programa “muitas vezes só para passar a mão na minha barriga”. Relatam que muitos clientes são carinhosos. Por vezes. Até que começamos a entender a enorme dificuldade de romper com um padrão de relação no qual todos são tidos como exploradores e descartáveis. como se de alguma maneira estivessem sendo traídas em tempo integral pelas colegas de trabalho. valorizam acima de tudo sua independência e parecem estar preparadas para. Isso foi algo que as estagiárias vivenciaram na prática. o que foi citado apenas nos últimos encontros. Foi a primeira vez que as psicólogas foram claramente confundidas com “garotas”. Elas estão em permanente estado de alerta.

o que representa um impacto considerável sobre as vidas afetivas dessas trabalhadoras. Reproduziam-se.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 122). as impossibilidades vividas cotidianamente por aquelas 109 . na dinâmica grupal. da relação inter-subjetiva. Para que algo seja isto ou aquilo e isto e aquilo é preciso que seja assim posto ou constituído pelas práticas sociais (. fugazes. referente não apenas às suas relações interpessoais. 101-110 Existe. sempre na noite”. com o possível e o impossível.) Ambigüidade não é falha. o que se refletiu nos encontros com as estagiárias. por formas de sociabilidade. o desejo de viver um romance (como relatou uma profissional mais antiga) é tido como uma “ilusão infantil”. com a sociedade em geral. ambíguas. Ambigüidade é a forma de existência dos objetos da percepção e da cultura. carência de um sentido que seria rigoroso se fosse unívoco. Pôde-se constatar a fragilidade dos vínculos estabelecidos pelas profissionais do sexo. da relação com o visível e o invisível. revela o modo como essa ambigüidade está presente na realidade. Dessa forma. 2008. elas também. Apesar disso. ao mesmo tempo. grupal. pôde-se analisar o quanto essas manifestações eram próprias dessa forma específica de organização do trabalho. como se não houvesse a possibilidade de rompimento com esse modo de vida: “ou a menina casa por dinheiro e trai por amor. o espaço de reflexão grupal mostrou-se potencializador da apropriação de significados pessoais e coletivos pelas participantes. defeito. que se mostram presentes em todas as relações (com o cliente. pp. são postos por práticas sociais e históricas determinadas. A partir da sugestão do trabalho como tema disparador. ao risco de sofrerem violência física e aos preconceitos. Seu sustento é uma motivação primordial para manterem-se no trabalho: “eu quero trabalhar para comprar uma casa para o meu filho. Isso revela que a profissão exige uma adaptação das formas pessoais de relação de quem a exerce. A situação de vulnerabilidade evidencia-se na recorrência dos temas ligados ao uso diário de drogas lícitas ou ilícitas. Nas palavras de Chaui (1996): ora. seja para ocultar o trabalho.. 11. Discurso ambíguo que. mas também à vinculação com o local de trabalho: notou-se uma acentuada rivalidade entre as colegas de trabalho e a alta rotatividade das trabalhadoras no estabelecimento. Nesse sentido. inúmeros assuntos foram abordados. Além disso. seres e objetos culturais nunca são dados. Considerações finais Apesar do curto período da intervenção. com as próprias colegas de profissão). conflituosas e ambíguas. As estratégias utilizadas para lidar com essas dificuldades também são citadas. a ambigüidade aparece repetidamente como característica da atividade. de classe. a proposta caracterizou-se como uma ferramenta para a ampliação da compreensão dessas trabalhadoras sobre suas próprias vivências complexas. mas de dimensões simultâneas (p. para ele ter um lugar para morar e não ter que se humilhar como eu”. as relações estabelecidas nesse contexto são muito íntimas e. percepção e cultura sendo. Na fala das profissionais. um pensamento de que “uma vez na noite. vol. com o tempo e o espaço. Diante desses obstáculos para a constituição do grupo. n.. 1. ou casa por amor e trai por dinheiro”. longe de expressar falta de clareza de raciocínio. Seria necessário desfazer-se de fantasias românticas. Os filhos são a única fonte de entrega desinteressada a uma pessoa. seja por outras razões. ao mesmo tempo. com o necessário e o contingente. constituídas não de elementos ou de partes separáveis. a maioria mantém-se afastada dos filhos.

faboli@uol.Intervenção em saúde do trabalhador com profissionais do sexo trabalhadoras. no qual as estagiárias e as participantes consideraram a relevância da intervenção realizada. (1996). manter compromissos. Brasil.br Recebido em: 30/10/2007 Aprovado em: 18/03/2008 110 . por exemplo.br. de C. bem como a importância de sua continuidade. Profissionais do sexo: documento referencial para ações de prevenção das DST e da Aids (Série Manuais. R. romper com determinados padrões de relação. bem como as possibilidades de intervenção sobre essa realidade. anafanganiello@gmail. In A.com. Ministério da Saúde (2002). Endereço para correspondência: marialtenfelder@gmail. M. M. J. (1986). como. R. Referências Ayres. rpaparel@uol. Chaui. diminuir a vulnerabilidade a que estão expostas essas trabalhadoras e promover a cidadania das profissionais do sexo. (1991). (1992). Dejours. Sorj. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho (5ª ed. B. Entende-se que essa proposta é uma dentre as ações possíveis tendo em vista o desenvolvimento de dispositivos de intervenção com profissionais do sexo que visem. ampliada). Prefácio. São Paulo: Cortez e Oboré. a contribuir com a garantia de maior eficácia das ações voltadas ao atendimento à saúde integral dessa população. Petrópolis: Vozes. elaborar conteúdos ambíguos que marcam constantemente o exercício da atividade. 25 (5). & Dias. Da medicina do trabalho à saúde do trabalhador. Mendes. no longo prazo. Mulheres da Vila: prostituição. 341-349. C. São Paulo: Brasiliense. E. F. essas questões foram retomadas em um encontro de devolutiva e avaliação da experiência. Acredita-se que essa intervenção tenha a contribuir para a construção de formas de atuação que busquem dimensionar o impacto subjetivo da atividade das profissionais do sexo. Ao término do processo. Moraes (Org. HIV/Aids. sair de um permanente estado de alerta e desconfiança. identidade social e movimento associativo. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. nº 47).com.com. (1995). C. São Paulo: Casa de Edição. Revista de Saúde Pública. Brasília: Ministério da Saúde. DST e abuso de drogas entre adolescentes: vulnerabilidade e avaliação de ações preventivas.).com.

The pair accidented worker-analyst registers in a diagram the succession of events. n. Work process. interrupções sofridas e outras. Introdução E ste artigo apresenta um método de intervenção em saúde do trabalhador que vem sendo desenvolvido. It consists in conducting the worker to recreate the situation of the accident. situado no bairro da Saúde. privilegiando a experiência do acidentado. deslocando-se para a posição de observador de seu trabalho. vol. The method is based on the theory of the clinic of activity. pp. Group discussions on several accidents are then held. Subjectivity. 111 . ações de promoção e prevenção em saúde do trabalhador voltadas para seus funcionários e trabalhadores terceirizados. Brasil. Os resultados demonstram que o dispositivo produz efetivamente o deslocamento do trabalhador para a posição de co-analista de seu trabalho. A dupla acidentado-analista registra em um diagrama a sucessão de eventos. O hospital dispõe em sua estrutura de um serviço de saúde do trabalhador que à época. Processo de trabalho. sobretudo.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. de 1996 a 2006. na cidade do Rio de Janeiro. Esse programa foi iniciado em uma visão pedagógica de transferência de conhecimentos e informações e foi sendo modificado com uma inclusão crescente do saber da experiência e de propostas de construção coletiva de conhecimentos sobre o processo de trabalho e de soluções para os problemas identificados. Colocou-se então como objetivo construir um método de análise dos acidentes de trabalho. interruptions occurred and others. buscando-se aperfeiçoá-lo e observar os efeitos que propiciava. o método consiste em levar o trabalhador a recriar a situação do acidente. We used it during two years in a public hospital. Nossa ação junto a esse serviço deu-se pela colaboração entre o hospital e o Curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense com fins de estágio e pesquisa. 2008. privileging the accidented person’s experience. desde 2002. o aumento da vitalidade dos ofícios. São então promovidas discussões grupais de diversos acidentes. Keywords: Activity. 1. Palavras-chave: Atividade. desenvolvia. Foi utilizado durante dois anos em um hospital público. rompendo cristalizações que impedem o desenvolvimento dos ofícios constitutivos do trabalho em saúde. A partir de 1996. O trabalhador é convidado a mostrar como deu-se o acidente e o analista do trabalho apresenta-lhe questões sobre suas escolhas quanto aos caminhos possíveis. Collective Analysis of Work Accidents: the worker as protagonist of the analysis of occupational accidents The Collective Analysis of Work Accidents device aims at analysing accidents and to propitiate the increase of the professions’ vitality. 11. The worker is invited to show how the accident came about and the work analyst presents him questions about his choices as to the possible ways. Work accident. que fizesse fluir o saber da 1 Trata-se do Hospital dos Servidores do Estado. Referenciado na teoria da clínica da atividade. searching to perfect it and observe the effects it rendered. a Comissão de Saúde do Trabalhador do hospital desenvolveu um programa de controle e prevenção de acidentes com exposição a instrumentos pérfuro-cortantes e fluidos corporais1. por uma via de análise participativa. em um hospital público da cidade do Rio de Janeiro. The results show that the device effectively transports the worker to the position of coanalyst of their work. shattering crystallizations that hinder the development of the professions which compose the health team. 111-120 ACAT: o trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho Claudia Osorio Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense O dispositivo de análise coletiva de acidentes de trabalho (ACAT) tem como objetivo analisar acidentes de modo a propiciar. Subjetividade. Acidente de trabalho. transporting himself to the position of observer of his/her work.

112 . das regras do saber de prudência. observando-se um quadro predominantemente defensivo frente a organização do trabalho. Dizendo de outra maneira. 1997. Esse método tem sido denominado ACAT: Análise Coletiva de Acidentes de Trabalho. o programa foi sendo modificado com a inclusão cada vez maior do saber da experiência e de propostas de construção coletiva de soluções para os problemas identificados. Minayo-Gomez & Thedim-Costa. não temos uma tradição de participação. exige a produção de novas subjetividades. num seminário de saúde do trabalhador. Buscando recursos para ultrapassar as dificuldades impostas por essa realidade. A saúde do trabalhador não se define por limites disciplinares. a representação sindical é frágil e não é substituída ou complementada por outras formas de organização política. Esse campo tem recebido aportes diversos no que diz respeito ao conhecimento das relações entre trabalho e subjetividade. considerando-se a participação dos trabalhadores como fecunda e indispensável. a ampliação do poder de ação do trabalhador. num caminho dito. Assim. recria-se também a prática tradicional do analista do trabalho: o especialista sai do lugar daquele que aconselha para o daquele que compartilha a produção de caminhos e soluções. subjetividade e saúde mental A saúde do trabalhador no Brasil situa-se no domínio da saúde coletiva. Trabalho. rompendo os limites das disciplinas e reconstruindo-se cotidianamente com suas múltiplas referências teóricas.ACAT: o trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho experiência na invenção de novos modos de fazer. Seligmann-Silva. O especialista deve oferecer-se como um apoio ao deslocamento do trabalhador para o lugar de observador de sua própria atividade. uma descrença acentuada na possibilidade de que os coletivos de trabalho possam influenciar a organização de suas próprias atividades. mas por metas e eixos de ação. Um outro eixo está na valorização das demandas e dos conhecimentos advindos da experiência. interdisciplinar e multiprofissional (Machado. Iniciado numa visão pedagógica de transferência de conhecimentos e informações. 1994).2 Nos hospitais públicos do Brasil. renovando os recursos objetivos e subjetivos de que o trabalhador dispõe para recriar a cada dia sua prática. confrontando-se com sua experiência e com a experiência coletiva. tomada como principal objetivo do método. Há ainda. recebendo contribuições de diferentes disciplinas. a produção de sujeitos capazes de produzir formas de enfrentar novas e velhas situações. dentre os quais temos a luta pela saúde. espera-se que os trabalhadores produzam ou incorporem a seus modos de fazer regras relativas a sua saúde e segurança. 1997. Com o desenvolvimento de seus ofícios. por diversos autores. na eliminação dos riscos e na superação das condições precárias de trabalho. produzida nas transformações dos processos. mas sim de centralização de decisões. Nessa perspectiva. o principal observador da atividade de trabalho deve ser o próprio trabalhador e não um especialista em análise do trabalho. tomamos como ponto de partida a análise e a prevenção dos acidentes de trabalho com pérfuro-cortantes e exposição a fluidos biológicos. Cabe questionar quanto e como essas concepções 2 Lembramos aqui a discussão clássica de Damien Cru. O programa de controle e prevenção de acidentes do hospital em questão surgiu como proposta em 1996. O método descrito neste artigo visa interferir positivamente na re-criação de conteúdos cognitivos. Pode-se também pensar a saúde do trabalhador como transdisciplinar.

Encontrando resistências no real à realização de si mesmo. Para fazer frente ao real que os limita.. Os pesquisadores do estresse buscam estabelecer os laços de causa e efeito entre variáveis psicossociais e respostas fisiológicas. Nascimento Sobrinho et al. A partir de 1980. havendo uma contraposição ao reducionismo de pensar o risco como algo exclusivamente observável e 113 .Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 1999).. 2006). As ferramentas conceituais produzidas nesses enfoques. a subjetividade é entendida “como produção psíquica da luta contra o sofrimento”. Uma outra contribuição aos estudos da subjetividade pode ser identificada nos estudos do estresse provocado nas relações de trabalho. Por essa noção. 1999. Tais estudos tendem a ter como conseqüência a indicação de saídas individualizadas para a gestão do estresse. Para a psicodinâmica do trabalho. O estudo dos sistemas defensivos. assim. No Brasil é bastante conhecida a concepção. o sujeito deve encontrar saídas para a angústia. virá reforçar essa orientação (Dejours. enquanto para a clínica da atividade. soluções de compromisso que se externalizam em atitudes defensivas. pp. é o principal recurso teórico da psicodinâmica do trabalho (Clot & Litim. 2003a.. 1990). de origem francesa. ampliando sua autonomia com relação à gestão de seu próprio trabalho. Existem também propostas que. Na década de 90 essa autora tomou a discussão sobre risco em uma forma crítica e qualitativa. partindo do conceito de estresse. intervenções voltadas para a regulação desse mecanismo (Chanlat. colocando a seguinte questão: como faz a maioria dos sujeitos que trabalham para fazer frente aos constrangimentos encontrados nas situações de trabalho sem sofrer graves descompensações? Mais tarde. p. os trabalhadores produzem estratégias coletivas ou individuais de defesa e. 198). embora venham sendo importantes na construção do campo de discussão da relação entre subjetividade e trabalho. ela é entendida “como produto da atividade” (Dejours.. que encontra na luta contra o sofrimento psíquico no trabalho seu ponto de partida. mas não fornecem dispositivos de intervenção com o objetivo de ampliação do poder de ação dos trabalhadores. Tais pesquisas podem ser um importante instrumento de gestão da saúde do trabalhador. em 1992. 1991). pelos quais os sujeitos buscam conjurar o real que resiste. 206). 2008. Porto et al. a partir de uma concepção de homem como mecanismo biológico. não fornecem recursos suficientes para intervenções que tenham como objetivo central propiciar a ampliação do poder de ação dos trabalhadores. as pesquisas de Christophe Dejours e seu grupo deslocaram-se da patologia para a normalidade. de psicopatologia para psicodinâmica do trabalho. destacando a noção de penosidade (Sato. da psicodinâmica do trabalho. o sofrimento é o ponto de partida e a origem da mobilização da inteligência e da subjetividade. a mudança de denominação de sua corrente de pesquisas. 2003b. 2004. Essa linha teórica informa um grupo crescente de estudos de caráter epidemiológico no Brasil (Alves et al. temos a contribuição de Leny Sato. Para a psicodinâmica do trabalho. p. 1.. os esforços exigidos pela organização do trabalho são avaliados. elegendo o sofrimento psíquico – aqui definido em função de sintomas relacionados ao estresse continuado – como categoria central de seus estudos. dando potência aos movimentos de produção de relações solidárias e de invenção de novos possíveis. suscitando. escapam à descompensação emocional e à doença mental. trazendo esclarecimentos acerca do perfil de morbimortalidade relacionado a determinado processo de trabalho. assumem causalidade sociológica. 2001). essas contribuições estão referidas a uma concepção de homem e de subjetividade que valoriza a noção de indivíduo. Araújo et al. Em uma outra linha. de ampliação da capacidade normativa dos trabalhadores. n. 1999. indivíduo esse regido pela racionalidade. 2006. na qual os conceitos da psicologia social têm um lugar central. 11. 111-120 respondem aos objetivos acima apresentados. Interessantes que sejam. vol. em busca de sua própria identidade e movido por uma angústia original da qual não pode se desembaraçar (Dejours. Araújo et al. como o modelo demanda-controle-apoio social proposto por Karasek (1979).

8). por Oddone e seus parceiros. aquilo que não se faz mais. para a clínica da atividade a subjetividade é entendida como produto da atividade (Clot. aquilo que se pensa ou sonha-se poder fazer em outro momento. Oddone teve o mérito e a originalidade de avaliar. o desgaste psíquico são compreendidos tanto por aquilo que os trabalhadores não podem fazer. passíveis de observação direta. nas polêmicas que aí se travam. foi originalmente desenvolvido na Itália. a compreensão da relação entre trabalho e subjetividade não é centrada na luta contra o sofrimento. proteger as suas de outras intenções concorrentes” (Maia. O real da atividade é também o que não se faz. A fadiga. aquilo que se desejaria ou poderia-se fazer. Re & Briante. trata-se de fazer uma outra psicologia do trabalho consagrando todos os esforços à busca de um só objetivo: aumentar o poder de ação dos coletivos de trabalhadores sobre o ambiente de trabalho real e sobre si mesmos. de atenção às possibilidades de superação de impasses pelos próprios trabalhadores. ficando a condução do processo em mãos operárias. não mais protestando contra os constrangimentos. A atividade não é somente aquilo que se faz. As ferramentas conceituais produzidas por essa visada abrem novas possibilidades de intervenção para a psicologia do trabalho. em seu trabalho junto aos operários da Fiat. 2002) a fim de analisar processos de trabalho (Sato. p. 9). A atividade possui então um volume que transborda a atividade realizada. 114 . normas. apontado por Oddone. Para Oddone (Clot. A atividade é sempre mais do que os gestos realizados. incluído nas Normas Regulamentadoras do Trabalho graças a uma luta empreendida pelos trabalhadores organizados. 1981). p. Sujeita a pressões. Sendo a atividade uma ação estabelecida entre outras concorrentes. de que eles podem lançar mão para a promoção e proteção de sua própria saúde (Oddone. recursos muitas vezes insuspeitados. em inventar ou reinventar os instrumentos dessa ação. situações mutantes. aquilo que não se pode fazer. Em matéria de atividade. em suas dimensões inter e transpessoal. A tarefa consiste. a autora adota uma abordagem etnográfica (Sato. por essa via dá-se um deslocamento do psicólogo da posição de protagonista da investigação e da produção de inovações. quanto por aquilo que fazem. o que se tenta fazer sem conseguir (os fracassos). então. A clínica da atividade retoma o caminho. 2006). aí situam-se os estudos da clínica da atividade (Clot. Temos aí um avanço na inclusão do subjetivo como material de investigação científica. Para além de uma concepção amorfa da atividade de trabalho. “a atividade sempre se realizar em um plano de interferências de intenções. Na clínica da atividade. 28). Mais adiante. 2006).ACAT: o trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho mensurável em sua ocorrência e em suas conseqüências. Oddone voltou-se para a pesquisa dos recursos dos próprios trabalhadores. É necessário acrescentar aqui um paradoxo freqüente: atividade é aquilo que se faz para não fazer o que tem que ser feito ou ainda o que se faz sem desejar fazer. o impasse produzido pela ação centrada na denúncia de condições de trabalho inaceitáveis. mas na atividade de trabalho como fonte permanente de recriação de novas formas de viver. exigindo decisões do operador que deve. o realizado não possui o monopólio do real. das atividades que nele se dão e dos trabalhadores. propõe incluir nesse conceito os conflitos do real. 2007). diz-nos Miguel Maia (2006): 3 O dispositivo que conhecemos no Brasil como Mapa de Riscos.3 Como dissemos acima. Sendo assim. inspirada nos trabalhos de Ivar Oddone e da ergonomia francofônica. 2006. Numa outra vertente. está na provocação que se dá na atividade. O motor da transformação e do desenvolvimento dos ofícios. sem contar o que deve ser refeito. 2001). Clot (2001) a definirá de uma forma ampliada. então. De acordo com Clot (2001. observamos o desenvolvimento de pesquisas sobre trabalho e subjetividade que tomam a atividade como categoria central de estudo e o trabalho como atividade dialógica. 2001. mas pela via de sua superação concreta (p.

Esse referencial elaborado em comum estabelece as regras não escritas e não imutáveis em uma situação comunicacional que supõe a elaboração comum”. Singular e coletivo ao mesmo tempo. de forma que podemos entender que em toda atividade que se processa concorrem gêneros diferenciados. Para a clínica da atividade. À clínica da atividade interessará. mas remete a um plano coletivo de constituição do trabalho.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. Na formulação de Maia (2006). fazendo com que “aqueles que trabalham estejam entregues a si mesmos em uma situação que se degrada” (Clot. 11. O gênero constitui-se na dimensão transpessoal do ofício. acima mencionada. mesmo que se desenvolva por um único trabalhador. só possível se privilegiarmos a formação de coletivos de trabalho. nós 115 . o trabalhador constitui e é constituído pela sua atividade. na realidade. o singular devém coletivo e o coletivo devém gênero da atividade. tornando todo trabalho uma atividade de criação. Ele. portanto. 30). 1. como se ele fosse o todo do qual os indivíduos seriam as partes. Ele inscreve o saber-fazer considerado na história de um coletivo. 2001) dentro de um contexto profissional. que dois trabalhadores que não se conhecem possam ser capazes de se coordenarem eficazmente para realizar um objetivo difícil dentro de um contexto complexo de trabalho. ter acesso ao gênero e dispor do tempo necessário para dele apropriar-se e expandilo é fundamental para o processamento da atividade. p. o gênero é sempre plural. para ser efetiva. sem essa formalização. o coletivo de ofício. precisará dispor de metodologias que levem em consideração a produção de subjetividade. 111-120 compreendemos que a atividade exige a mobilização da subjetividade e. atravessamentos múltiplos que se agenciam. um conceito que. n. Um trânsito no qual o coletivo devém singular e o singular devém trabalhador e. exigentes de um tempo diferente do prescrito para que possa haver a elaboração comum. No trabalho dá-se a construção coletiva de recursos para a ação. 28). pois ele possui um componente impessoal. não se refere à diferença entre os sexos dos trabalhadores. 2006) que permite. Mais do que um mero executor de tarefas. a análise do trabalho. no sentido de que sendo de todos a ninguém pertence. já que. já que. Esse referencial comum. em realidade impede de trabalhar. tão característico da organização do trabalho contemporâneo. ou genérico. O tempo de produção sem considerar o tempo necessário a essa elaboração comum. que lhes facilita a maneira de “pegar as coisas e lidar com as pessoas” (Clot. mas causas/efeitos heterogenéticos de atravessamentos de corpos (pp. vol. pp. é uma espécie de “corpo intermediário” (Clot. estudando detalhadamente aquilo que os trabalhadores fazem. 2008. Toda atividade de trabalho pode ser entendida como um encontro entre corpos. amputados em sua capacidade de agir. mas também aquilo que eles fazem do que eles dizem. nessa perspectiva. se interconectam. em sofrimento psíquico. de forma que a competência se produz em uma emergência no e através do plano no qual singular e coletivo não são dicotômicos. constituindo-se o gênero da atividade de trabalho. compreender as relações entre o real e o realizado e em que condições a experiência vivida pode ser ou vir a ser um meio de viver outras experiências. na acepção da clínica da atividade. então. demandando escolhas e decisões e. 1999a. o que dito de outra forma. 30-31). faz com que a análise do trabalho tenha que incluir em seus estudos o que se produz naquele que produz enquanto produzindo (p. dificulta-se que o gênero exerça sua função de meio de ação. combinando regras escritas e não escritas. portanto. sendo ao mesmo tempo produtor e produto. simultaneamente. não deve ser entendido como o somatório dos referenciais individuais. do qual o gênero é constituído e constituinte. por exemplo. o trabalhar é sempre uma dimensão coletiva. por possuírem um gênero de atividade semelhante. aquilo que eles dizem do que fazem. estando presente a capacidade de afetar e de ser afetado.

deslocando o trabalhador acidentado e seu grupo para a posição de observadores de seu próprio trabalho. diferenciado do falar a um pesquisador ou a um profissional de saúde do trabalhador. é orientado a ir a uma consulta com um infectologista e a notificar o acidente à CST. o trabalhador do hospital. em diferentes perspectivas. como portador de conhecimentos formalizados. Todas as demais etapas são de participação voluntária: o trabalhador de saúde é convidado a colaborar com a prevenção de acidentes e deve sempre saber que pode não aceitar. A tarefa de analisar o acidente não pode ser obrigatória. somente entre pares. e com o correr da encenação. o trabalhador acidentado. prescindindo de explicitação. ela tem necessariamente que ser uma demanda do próprio trabalhador. técnico de enfermagem ou qualquer outra. na medida do possível. que se inclua o trabalhador como pesquisador ativo de sua atividade. O analista do trabalho solicita ao trabalhador acidentado que mostre como ocorreu o acidente. 116 . por definição. quanto um meio de desenvolvimento dos ofícios e de formação dos trabalhadores. dirige-se em sua análise a si mesmo. a situação de trabalho em que o acidente se deu e poderia se repetir. O trabalhador é solicitado a levar o analista ao local de trabalho em que o acidente ocorreu. foi construída em parte pela legitimidade já alcançada pela Comissão de Saúde do Trabalhador (CST) do hospital. experiência que possibilita a renovação dos recursos objetivos e subjetivos que sustentam os modos de operar. Falar a quem participa do mesmo gênero profissional produz um outro discurso. no caso em questão.4 4 Essa relação. dirige-se a si mesmo. enfermeiro. o analista. Propõe-se. para o outro e para si mesmo. Por sua vez. Os materiais usados devem ser retomados. que desconhecem. como portador da experiência. as questões pertinentes ao curso de acontecimentos que culminaram em um acidente. ampliando-se a capacidade de ação dos trabalhadores. o trabalhador é levado a observar como ele próprio realizou ou realiza habitualmente a atividade em questão. Nesse método. propôs-se a Análise Coletiva de Acidentes de Trabalho (ACAT). propiciando que a dupla analista do trabalho e trabalhador acidentado possa vivenciar. na perspectiva da clínica da atividade. a seus colegas e ao analista. a seus pares e aos trabalhadores implicados. A experiência de trabalho construída até então servirá de instrumento para viver uma nova experiência. Na construção da análise do acidente.ACAT: o trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho desembocamos em um reconhecimento das possibilidades insuspeitadas pelos próprios trabalhadores (Clot. os detalhes da atividade específica do acidentado. o gênero profissional em questão pode ser renovado. poderia ser tomado como óbvio. O fato de que o analista não seja alguém do mesmo ofício propicia um estranhamento daquilo que. fazendo da análise do trabalho tanto um meio de desenvolvimento dos conhecimentos científicos e práticos. A ACAT Buscando construir um método de análise de acidentes situado nessa perspectiva. 2001). inclusive no que diz respeito à prevenção dos acidentes. a tarefa consiste em elucidar. é preciso que haja uma relação de confiança e de solidariedade entre ele e o analista do trabalho. os gestos devem ser refeitos em uma simulação da situação que anteriormente culminou no acidente. busca-se conhecer as múltiplas situações encadeadas que resultaram no evento em foco. Para que esse deslocamento do trabalhador possa ser um instrumento de desenvolvimento para ele próprio. A primeira etapa da ACAT é uma encenação do acidente. a de analisar sua própria atividade. Ao se acidentar. da clínica da atividade. A partir da solicitação do analista. Essa elucidação é fruto de deslocamentos que se dão numa relação dialógica. tenha ele a função de médico. Nesse diálogo.

o gênero da análise de acidentes e o gênero científico que é trazido pelos pesquisadores. vol. em seguida. Nesse segundo encontro podem ser discutidas algumas providências imediatas a serem tomadas pelo trabalhador ou a serem propostas a sua equipe ou a outras instâncias. A experiência de desenvolvimento do método No período de agosto de 2003 a abril de 2005. Ao ser atravessada por outros gêneros. Os resultados das análises feitas caso a caso são postos em discussão em duplas ou em grupos convocados especialmente para esse fim. em que o diálogo faz-se entre o trabalhador. 111-120 A segunda etapa é a construção de um desenho esquemático das diversas linhas e cruzamentos que culminaram no acidente. Nesse processo de análise. 117 . Procurando atingir o outro. Nesse processo. em uma colaboração entre o analista do trabalho e o trabalhador acidentado. na multiplicidade dos gêneros que se cruzam: o gênero da atividade comum. explicar-lhe seu ponto de vista. o seu trabalho cotidiano. No método proposto há uma análise coletiva da atividade. a atividade descola-se do gênero no qual ela realiza-se habitualmente. observar e discutir seu acidente. produz um efeito de distanciamento de si mesmo: permite ao trabalhador conhecer seu trabalho ao mesmo tempo em que conhece e recria seu modo singular de agir. No movimento provocado por essas etapas sucessivas dá-se a elaboração que possibilita novas estilizações da atividade profissional (Clot. passar a fazer parte do patrimônio do gênero. São postos em debate os acidentes sofridos pelos trabalhadores presentes. são diferentes do protagonista e são também diferentes entre si. n. a partir dos diagramas elaborados na primeira etapa. da dimensão transpessoal da atividade. produzindo novas possibilidades para o dia-a-dia de trabalho. 31). sem necessariamente ter procurado. As questões suscitadas nessa etapa não serão as mesmas que surgiram na situação anterior. pp. seja de forma explícita. Tais diferenças são introduzidas. foram analisados 79 acidentes e foram realizadas duas oficinas de discussão em grupo desses acidentes e do procedimento de análise adotado. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Um novo encontro põe em discussão as elaborações pessoais que foram suscitadas na e a partir da primeira etapa. pelos momentos de impaciência ou pela voz mais animada a partir de um determinado ponto. as mesmas certezas. Há agora um novo interlocutor. Contou com três bolsistas de iniciação científica (duas bolsas do CNPq e uma da FAPERJ). 11. seja pelos silêncios. 2008. tornando-o visível (Clot. a análise feita e refeita desenvolve a atividade. desenhar e ver desenhado o entrecruzamento de eventos que constroem uma atividade que poderia parecer simples. O pesquisador e os colegas de trabalho não têm as mesmas questões. seu objeto e o analista do trabalho. do diálogo interpessoal entre acidentados. em um processo de autoconfrontação com sua atividade. o trabalhador acaba por descobrir algo novo em si mesmo. Recebeu também apoio da FAPERJ na forma de Auxílio de Pesquisa. 1. as mesmas dúvidas. Descrever a ação para o analista. 2000. o colega que conhece e participa da mesma atividade profissional. os horizontes da atividade deslocam-se com os sujeitos. são chamados a debater essa experiência com seus pares. Os trabalhadores que passaram pela experiência de acidentar-se e. novos caminhos que poderão. a ACAT. Esse diagrama deverá ser construído coletivamente. p.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 2006).5 5 A pesquisa Análise coletiva dos acidentes de trabalho no hospital: aperfeiçoamento de uma metodologia para o desenvolvimento da saúde do profissional de saúde foi uma atividade vinculada ao estágio supervisionado e à extensão universitária realizados na Comissão de Saúde do Trabalhador do Hospital dos Servidores do Estado por alunos do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense.

são admitidos acompanhantes para outros pacientes considerados graves. deve contemplar essa realidade. ou suas preocupações. possivelmente mobilizado afetivamente pela situação. Um exemplo pode ser dado de modo sucinto. caracterizando o desenvolvimento ou a ampliação da relação do trabalhador com seu trabalho. seu braço ou seu corpo. O acompanhante não considerado torna-se um estorvo. que era inicialmente a veia do paciente. a movimentação do acompanhante e o espaço existente não são vistos como parte a ser considerada pelo profissional de enfermagem no seu trabalho. que pode movimentar-se de modos não esperados pela profissional. Observe-se que a realidade atual do hospital público faz com que o paciente seja. Se o acompanhante é figura presente. denotando uma ampliação do seu objeto de trabalho. Estando incluído o acompanhante no plano de trabalho. A presença do acompanhante representa uma mudança importante no processo de trabalho. freqüentemente. um paciente-que-tem-acompanhante6. desde a primeira encenação do acidente até a discussão grupal. O que importa não é propriamente produzir conhecimento sobre os ofícios. suas dimensões e mobiliário. passa a ser o paciente e seu acompanhante: alguém das relações pessoais do paciente. as dimensões consideradas nas reformulações espaciais e de organização do trabalho. Na fase seguinte da análise. enquanto finalizava o procedimento. O espaço existente no box é exíguo. a profissional refletia: “na próxima vez. espera-se que esse tipo de acidente tenda a ser menos freqüente. essa situação pôde gerar a ampliação do horizonte de atenção dos profissionais envolvidos. O espaço e o acompanhante existem como dados externos. se bem incluído pode ser um recurso. mas provocar o saber de 6 Estatutos específicos tornaram obrigatória a aceitação no hospital de acompanhantes para crianças e para idosos. a noção de objeto. Além disso. Conclusão O objetivo da perspectiva aqui adotada é intervir de modo a provocar o desenvolvimento dos ofícios. o que favorece esse tipo de acidente. o desenho dos boxes. Relatou que. 118 . no hospital considerado. o planejamento da atividade. seu objetivo não é recuperar o vivido da atividade. podendo haver o desenvolvimento de recursos objetivos e subjetivos para lidar com esse novo objeto. estão centradas no manejo dos instrumentos e no braço do paciente. Levada à discussão em grupos. O objeto de trabalho. Uma auxiliar de enfermagem dirigiu-se ao leito do paciente para fazer uma coleta de sangue para exame e feriu-se com a agulha utilizada. este passa a levantar as possibilidades de manejo daquelas relações. esbarrou na profissional e provocou o acidente. que não teriam porque serem incluídos como objeto da ação do profissional de enfermagem. O preparo dos procedimentos técnicos (colher sangue. No segundo diálogo entabulado entre analista do trabalho e o profissional acidentado. o acompanhante do paciente moveu-se. por exemplo) deve incluir a definição do lugar do acompanhante: deve-se pedir que ele se retire? Solicitar que permaneça em um local definido? Explicar-lhe o que vai ser feito? Deu-se uma ampliação do objeto de trabalho. No relato inicial. vou alertar o acompanhante a sentar-se para não atrapalhar”.ACAT: o trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho Foram observadas mudanças na descrição do processo de trabalho entre uma e outra etapa da análise. com freqüência cada vez maior. exigindo um desenvolvimento do ofício – do gênero profissional – que dê suporte a essa modificação nas exigências da atividade.

Na atividade realizada está sempre presente um conflito. L... Éditorial. vol.. 111-120 ofício para provocar seu desenvolvimento. Cadernos de Saúde Pública. Santos. Y. Faerstein. como portador do saber tácito e como aquele que mais diretamente pode transformá-lo. 2). G. Dissertação de Mestrado. A. Porto. Psychologie clinique du travail et tradition compréhensive. G. Machado. 11. 7-42. T. T. M. I. (2006). L. Silvany-Neto. (1997). L.. Araújo. Conservatória. da F. Abrasco..Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 195-219). 1. F.). Produz-se conhecimento sobre a atividade e seus revezes.. 13 (supl. Job demand. Aquino E. 13 (supl. E. Aspectos psicossociais do trabalho e distúrbios psíquicos entre trabalhadoras de enfermagem. M. Menezes.. Clot (Org.. um gesto seja feito. C. Travailler: Revue Internationale de Psychopathologie et de Psychodynamique du Travail. M. C. Kavalkievcz. T. Saúde mental e trabalho. Salvador. 183-212. Araújo. M. Revista de Saúde Pública. Administrative Science Quarterly. Araújo. A. Clot. Universidade Federal da Bahia. & Thedim-Costa. Nessa linha desenvolve-se o conhecimento que advém da experiência. M. 21-32. E. 38 (2). (2004). Y. (2006). S. Les histoires de la psychologie du travail: approche pluridisciplinaire (pp.. (1999). com as possibilidades que os trabalhadores têm de criar e recriar suas próprias relações com o mundo. (1999). Dejours. ao mesmo tempo em que se criam recursos para ultrapassá-los. outras intenções foram menos fortes. Éducation permanente: clinique de l’activité et pouvoir d’agir. (2003). R. D. job decision latitude. C. Toulouse: Octarès. Y. M.. (2003). Instituto de Saúde Coletiva. M. n. M. (2000). B. 119 . Clot. Universidade Federal Fluminense. Revista de Saúde Pública. & Wernick. 7-16. Processo de vigilância em saúde do trabalhador. 164-171. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. ampliando aquilo que nele é dizível. S. As intervenções propostas buscam mais do que conhecer. 4. Delcor. Versão resumida da “Job Stress Scale”: adaptação para o português. O. Paranhos. Saúde e trabalho: dando visibilidade aos processos de desgaste e adoecimento docente a partir de uma rede de produção coletiva. Referências Alves. (1997). Clot. C. 146. 285-308. 424-433. Niterói. Trabalho e distúrbios psíquicos em mulheres trabalhadoras de enfermagem. A inclusão das preocupações na análise das ocupações dá oportunidade ao trabalhador e ao analista do trabalho de acessar os processos de subjetivação que são parte integrante da atividade. (1979). Lopes. B. (2007). Educação em Revista. Maia. Reis. M. J.. 37 (4). Para que um caminho seja tomado. N. Tese de Doutorado. 2). S. buscam uma aliança. T. C. Nessa perspectiva importa que o protagonista da análise seja o trabalhador. & Werneck. F. Texto apresentado ao I Simpósio Brasileiro de Saúde do Trabalhador. and mental strain: implications for job redesign. M.. Minayo-Gomez. 37. Genres et styles en analyse du travail. Concepts et méthodes. Carvalho. outros modos de fazer foram deixados de lado. 33-45. & Aguiar. 2008. analisar ou denunciar as formas de dominação e sofrimento existentes. pp. Petrópolis: Vozes. M. 24. A função psicológica do trabalho. H. R. Karasek. [Digitado] Araújo. Chor. A.. (2001). J. Cadernos de Saúde Pública. A construção do campo da saúde do trabalhador: percurso e dilemas. In Y. O corpo invisível do trabalho: cartografia dos processos de trabalho em saúde. G.

11 (1). C. S. et al. Condições de trabalho e saúde mental dos médicos de Salvador. C.. (2002). Carvalho. 29-47. C.. L. F. Cadernos de Saúde Pública.. Associação entre distúrbios psíquicos e aspectos psicossociais do trabalho de professores. Rio de Janeiro. N. F. Sato. Re. L. 818-826. A. (2006). & Briante. Psicologia USP. Fiocruz. (2001). Brasil. Oliveira. N. F. Bahia. (2007). I. Sato. Intervenções em saúde do trabalhador: psicólogos numa comissão de saúde do trabalhador num hospital geral público no Rio de Janeiro. 21 (2). A. 22 (1). Bonfim. Oddone. Revista de Saúde Pública. A.br Recebido em: 06/11/2007 Revisado em: 23/01/2008 Aprovado em: 15/02/2008 120 . et al. 18 (5). Osorio da Silva. Escola Nacional de Saúde Pública.ACAT: o trabalhador como protagonista da análise de acidentes de trabalho Nascimento Sobrinho. Proposição de um método de análise de análise coletiva dos acidentes de trabalho no hospital. (2005). Carvalho. L. L. C. Redécouvrir l’expérience ouvrière: vers une autre psychologie du travail? Paris: Messidor. Sato. Cadernos de Saúde Pública. Machado. 40 (5). Osorio da Silva. M. L. 131-140. Psicologia & Sociedade. (1981). 95-102. (2006). Porto. 517-524. Osorio. T. J. C. G. Contribuindo para desvelar a complexidade cotidiana através da investigação etnográfica em Psicologia. 1147-1166. (1999). Endereço para correspondência: claudiaosorio@terra. 40-50. Tese de Doutorado. & Minayo-Gomez.. Prevenção de agravos a saúde do trabalhador: replanejando o trabalho através das negociações cotidianas. Processos cotidianos de organização do trabalho na feira livre.Vida de hospital: a produção de uma metodologia para o desenvolvimento da saúde do profissional de saúde. Cadernos de Saúde Pública. M. (2002). & Oliveira. 12 (2).com. 19 (especial 1). Revista do Departamento de Psicologia – UFF..

no Rio Grande do Sul. We have also sought to demonstrate that these pedagogical practices contribute for the dislocation of the prescribed work into the realm of the company's mission. work as a tool for the appropriation of the workers' subjective capacities. já há algum tempo. sem dúvida –. A base empírica para nossa discussão é uma pesquisa na qual investigamos as práticas pedagógicas de ampliação da escolaridade realizadas por dez empresas das regiões do Vale do Rio Pardo e da grande Porto Alegre. T ornou-se consenso no meio acadêmico educacional. universities and other companies. Palavras-chave: Educação e trabalho. estando longe de consegui-lo. O estudo revela que o currículo dessas práticas. ao longo da década de 90. no que diz respeito à formação do trabalhador “flexível”. no Rio Grande do Sul. vol. breaking with the taylorist-rooted education received by those workers in their few schooling years. e pela Ford. Educação de jovens e adultos. as universidades e outras empresas. que as mudanças na produção econômica ocorridas a partir da década de 70 resultaram em alterações significativas dos conhecimentos valorizados no trabalho e nas práticas educativas na escola. 2008. Subjetividade. é interessante notar como as empresas tomaram a dianteira das mudanças. 1 São exemplos desse pioneirismo as já clássicas experiências de educação de jovens e adultos desenvolvidas pela Azaléia.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. 121-133 Um currículo para a expressão e a apropriação da subjetividade: análise de práticas de ampliação da escolaridade dos trabalhadores nas empresas Moacir Fernando Viegas Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) O objetivo do presente trabalho é analisar as implicações do currículo dos cursos de ampliação da escolaridade dos trabalhadores que as empresas têm implementado enquanto unidades particulares de produção ou em associação com o poder público. The study reveals that these practices' curricula. Brazil. No que diz respeito à educação de jovens e adultos. funciona como instrumento de apropriação das capacidades subjetivas dos trabalhadores. ao instituir. Rio Grande do Sul. em São Paulo. Qualification. Procuramos demonstrar também que essas práticas pedagógicas contribuem para o deslocamento do trabalho prescrito para o terreno da missão da empresa. com a regulamentação das novas Diretrizes Curriculares. tem início apenas em 2000. As an empirical basis for our research is a survey where we have investigated the pedagogical practices for schooling improvement carried out by ten companies in the Vale do Rio Pardo and Greater Porto Alegre. Keywords: Education and work. uma série de iniciativas visando um aumento da escolarização de seus funcionários que atendesse às necessidades das novas tecnologias de informação e à globalização econômica 1. especially the one herein focused. pp. A reforma educacional na educação de jovens que adultos – que tenta ainda superar as concepções do velho ensino supletivo. A curriculum for the expression and appropriation of subjectivity: an analysis of the practices for schooling improvement among factory workers This paper aims to analyze the implications of curricula of courses for schooling improvement of workers which have been developed by companies while specific production units or in association with the government. 1. Tais cursos visam adequar a formação dos trabalhadores às necessidades das novas tecnologias de produção. Youth and adult education. Qualificação. especialmente o currículo em ação ao qual aqui damos destaque. n. nos anos 80 e 90. regarding the formation of “flexible” workers. 11. 121 . Such courses seek to align the workers' formation with the need for new technologies of production. rompendo com a educação taylorista recebida nos poucos anos de escolarização desses trabalhadores. Subjectivity.

para agir e administrar a situação (.. especialmente do currículo em ação. que opõe classes sociais com interesses distintos.)” (p.Um currículo para a expressão e a apropriação da subjetividade As empresas não podiam esperar.) Com isso. que seja totalmente dispensada a possibilidade de realização de escolhas pelos trabalhadores. 35).. em segundo. podemos traçar suas características mais importantes. pois o processo de globalização andava já a passos largos na década de 90 e era necessário adaptar-se urgentemente aos novos padrões de produção internacionais. que o currículo dessas práticas pedagógicas possibilita a apropriação das capacidades subjetivas dos trabalhadores. Obviamente que fizeram isso segundo seus interesses e atendendo às exigências de reprodução de sua força de trabalho e não por uma questão de “cidadania”. Para Schwartz (2002). Amparados em pesquisa que realizamos sobre as práticas pedagógicas de ampliação da escolaridade desenvolvidas pelas empresas. fazer efetivamente um melhor produto. b) o currículo em ação: forma de apropriação dos saberes dos trabalhadores. É fundamental destacarmos que os saberes disseminados nos cursos que ampliam a escolaridade dos trabalhadores fazem parte de um terreno de conflito. as empresas foram pioneiras na instituição de um currículo de educação de jovens e adultos no que diz respeito às necessidades da globalização. 122 . Toda e qualquer situação de trabalho é o “lugar de um problema.. Num certo sentido.. sob pena de perda de competitividade. citado por Rosa. E.. “os protagonistas devem construir para si mesmos normas para supri-las. não cessam de produzir história (. e c) o currículo em ação: deslocamento do currículo prescrito para o âmbito da produção do compromisso com a empresa. Assim. Não convém. 134).. de negociações e de lutas. p. que a gente possa ter um ganho em relação a isso. Com base nas informações levantadas. de uma tensão problemática. tornadas necessárias pela impossibilidade de padronização. as empresas que tomaram a dianteira obtiveram muitas vantagens. Os alunos eram portadores das informações dentro da fábrica. formadores de opinião”. A impossibilidade de uma análise determinista do fenômeno em questão deve-se a que a base para nossa discussão sejam as relações sociais entre seres humanos no modo de produção capitalista. todo mundo amigo. nas “brechas de normas” presentes nas relações de trabalho. com qualidade melhor. Como afirma Wood (2003). analisaremos as implicações do currículo dessas práticas. em primeiro lugar. como se pode ver pela afirmação da diretora de uma indústria produtora de alimentos: “quando a globalização começou a se acirrar. a diferenciação da esfera econômica propriamente dita quer dizer apenas que a economia tem suas próprias formas jurídicas e políticas. que. a partir da qual. mesmo ao taylorismo.. 1992. 1998. Consideramos o currículo como propriedade que caracteriza essencialmente a prática pedagógica. para conteúdos mais subjetivos. de fato. portanto. um ambiente melhor. em certo sentido. a padronização perfeita é algo irrealizável e. como a organização curricular e os objetivos das propostas pedagógicas. como afirma o diretor de uma indústria extrativista: é verdade isso. E. mas a gente quer também que esse conhecimento possa ser aplicado em benefício dos setores de produção. para efeito de exposição. 118). pretendemos demonstrar. organizamos da seguinte maneira: a) aspectos formais prescritivos.. “a esfera econômica tem em si uma dimensão jurídica e política. com um menor preço. Dividimos nossa análise em duas dimensões do currículo. espero que as pessoas cresçam como pessoas. a gente fez um trabalho muito grande dentro da escola. cujo propósito é ‘puramente’ econômico” (p. no que diz respeito à formação trabalhador “flexível”. as quais em certa medida fogem ao controle do trabalho prescrito. essas reações saudáveis. que tais práticas expressam um deslocamento do caráter prescritivo do currículo fundado em bases tayloristas. ligados ao compromisso com a empresa.. de um espaço de possíveis sempre a negociar” (Schwartz..

2008. Seis. oito supervisores de produção das empresas. confecções. que atuam nos seguintes ramos de produção: alimentos. visitas à área de produção das empresas e análise dos projetos pedagógicos. Evidentemente existem especificidades nas experiências investigadas. alunos e supervisores das instituições escolares envolvidas. higiene e limpeza. extrativista. em práticas que envolvem apenas o ensino fundamental de quinta a oitava séries e duas na quais o nível oferecido é apenas o ensino médio. duas secretárias da educação. Foram aplicados 120 questionários com os alunos-trabalhadores. móveis. no próprio lugar de trabalho. quatro supervisores ligados às secretarias de educação. locais e técnicos) da área de educação do SESI e do SENAI. O principal critério de escolha desses indivíduos foi seu grau de envolvimento com os trabalhadores que participam dos cursos. secretarias municipais de educação. seis gestores das empresas (diretores) e duas coordenadoras ligadas a uma universidade. podemos ver que entre os trabalhadores que fizeram parte da pesquisa. A grande maioria dos projetos são realizados em parceria com universidades. é destacar uma tendência geral que se apresenta nessas práticas. o que mostra que a força de trabalho que está passando pelo processo de formação é aquela para a qual foram exigidos quatro ou pouco mais anos de estudo para ocupar os cargos em que estão. 121-133 Aspectos metodológicos Na pesquisa que serviu de base principal para o presente artigo. 1. Em função dessa diversidade. Em sete das empresas os alunos-trabalhadores recebem certificação na conclusão dos estudos. n. O grupo mais numeroso é o de operadores (35). das capacidades subjetivas dos trabalhadores. condição necessária ao desenvolvimento do novo paradigma produtivo. em cinco delas as aulas ocorrem ou ocorreram. Um grupo bem 123 . Porém. no entanto. investigamos seis projetos de formação dos trabalhadores. Serviço Social da Indústria (SESI) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Eles envolviam dez empresas do setor industrial. a maioria possui entre a quarta e a sétima séries do ensino fundamental. 14 professores e professoras. funcionários de recursos humanos das empresas. metalúrgico. por um determinado período. Os grupos sociais que fizeram parte da pesquisa foram os gestores empresariais e educacionais. Também foram feitas nove observações semidirigidas das aulas. Nas demais. 14 funcionários (entre coordenadores regionais. Os dados totalizaram entrevistas com 19 alunos-trabalhadores. Últimas séries concluídas pelos trabalhadores 2ª 2 3ª 2 4ª 15 5ª 38 6ª 42 7ª 6 8ª 10 1ª 3 Não responderam 2 A quase totalidade dos trabalhadores que realizam os cursos ocupa funções bastante desqualificadas. 10 funcionários de recursos humanos. eles precisam realizar os exames supletivos oferecidos pelo Estado. Nosso objetivo aqui. professores.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. que serviram de base para a escolha dos entrevistados. supervisores dos setores em que trabalham os operários que freqüentavam os cursos. Apenas uma das empresas investigadas possuía escola própria. Duas das empresas estão inseridas em projetos que compreendem o ensino fundamental completo e o médio. artigos de borracha. depois os auxiliares de produção (15) e em terceiro lugar os que trabalham em serviços gerais (oito). pp. Conforme quadro abaixo. vol. optamos por nomear as ações investigadas genericamente de práticas pedagógicas de ampliação da escolaridade. na medida em que essa denominação reflete seu objetivo principal que é ampliar a escolarização dos trabalhadores para adaptar a sua formação ao novo paradigma produtivo. 11. para a produção econômica. que é o fato de proporcionarem um melhor aproveitamento.

o currículo prescrito representa apenas um aspecto muito limitado do currículo. ferramenteiro ou almoxarife e apenas três ocupam cargos de chefia. estão os “âmbitos” que modelam o currículo: o contexto exterior (influências sociais. Compreendido aqui não apenas na sua formalidade. a produção de meios didáticos. como torneiro. o que os autores chamam de “atividades curriculares”: a ordenação do próprio currículo (em séries. mas sim em todos os aspectos envolvidos na prática pedagógica. Entre esses elementos estão. do professor. De outro lado.). a participação da família. 124 . econômicas. Desse modo. a avaliação e a inovação curricular. os textos escolares. Seguindo Sacristán e Gómez (1998). taylorismo-fordismo e economia baseada na informação O currículo é.Um currículo para a expressão e a apropriação da subjetividade menor ocupa funções um pouco mais qualificadas. como dois supervisores de produção e um encarregado. os planos da escola. ciclos etc. o currículo é o instrumento por excelência da formação escolar dos trabalhadores. do ambiente da sala de aula e das atividades de ensino-aprendizagem. metálicas Separador Encarregado de expedição Pesador de produtos químicos 35 15 8 5 5 4 3 3 3 2 2 2 2 2 2 2 1 1 1 1 1 Chanfradeira Servente de pedreiro Controlador de atelier Auxiliar de almoxarifado Vendedora Camareira Conferente Líder de produção Almoxarife Ferramenteiro Caldeireiro Atomizador Prensista Fresador Mandrilador Serralheiro Auxiliar de expedição Vigilante Não respondeu TOTAL 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 120 Currículo. o aspecto essencial da escola. as regulações políticas e administrativas. de um lado. entendemos currículo como uma complexa articulação de elementos que se configuram na prática pedagógica. Cargos ocupado pelos trabalhadores Operador Auxiliar de produção Serviços gerais Ajudante Atendente de creche Manutenção mecânica Pintor Motorista Autônomo Marceneiro Supervisor Balconista Montador Soldador Torneiro mecânico Expedidor Ajudante Tratamento de sups. sendo seu efeito na formação dos estudantes mediado por um sem-número de elementos. O currículo sofre influência ainda da estrutura do sistema educativo. da organização e do ambiente da escola.). no nosso entender. culturais etc.

segundo Silva (1999). avaliação. predominava uma concepção de organização curricular que correspondia às necessidades da produção em massa. participação e ausência de comunicação) realizadas no taylorismo. nunca passando de duas horas e 45 minutos por dia. às vezes especialmente para as aulas. que possui como base as tecnologias da informação.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. o que facilitava os deslocamentos do trabalho à escola e para suas residências. de contribuir originalmente para resolver problemas complexos” (p. Além disso. 87). em geral. A carga horária dos projetos investigados não ultrapassava 12 horas-aula semanais. 2008. de criar métodos para enfrentar situações não previstas. o currículo “é um processo de racionalização de resultados educacionais. a extrema rotinização e a rígida hierarquia entre os sujeitos da escola eram as características essenciais desse modelo. que possuía 1050 horas. a concepção tradicional de qualificação se amplia. objetivo do paradigma taylorista-fordista de produção. Descreveremos alguns aspectos que ilustram essa realidade. cujos princípios básicos foram elaborados por Bobbitt. 13). n. no novo paradigma produtivo. Enquanto para a execução das tarefas (mecânicas. as aprendizagens e os conhecimentos presentes no cotidiano da prática pedagógica. por exemplo. No caso dos cursos de educação de jovens e adultos implementados pelas empresas. de planejamento. de reprodução da força de trabalho. que irá demandar um outro tipo de trabalhador. ligada a suas capacidades intelectuais. As empresas e instituições parceiras procuram estruturá-los de forma que estejam adequados às necessidades. na grande maioria dos cursos havia transporte para os trabalhadores. colocam em questão a construção de “uma nova proposta pedagógica de educação para os trabalhadores. 125 . principalmente. 12). do programa do SENAI. pp. A fragmentação dos conteúdos. 121-133 Desse modo. para quem. a flexibilidade será uma das características dessa organização. como afirma Kuenzer (1998). a ênfase recaía nas habilidades manuais. ou seja. físicas inclusive. o currículo sofre influência direta das mudanças na produção. Uma das propriedades essenciais do novo paradigma é a inovação permanente. Existia. “passando-se a exigir o desenvolvimento da capacidade de educar-se permanentemente e das habilidades de trabalhar independentemente. na qual interagem os vários elementos da formação do aluno. “tanto trabalhadores como estudantes verão negadas suas possibilidades de poder intervir nos processos produtivos e educacionais dos quais participam” (Santomé. 11. vol. as quais. p. Até o início dos anos 90. 1998. A maior parte das turmas variava de 10 a 25 alunos. organizativos e. Existia controle da freqüência. 73). repetitivas. conforme Kuenzer (1998). Sacristán e Gómez entendem o currículo como um processo que envolve aspectos prescritos. a característica principal do atual paradigma produtivo é o fato de que “a produção é gerada e a concorrência é feita em uma rede global de interação” (p. algum esforço para adequar o horário das aulas ao horário de trabalho e em muitos casos as aulas eram no próprio local de trabalho. o que demandará do trabalhador uma participação mais ativa. Assim. ocorrendo um pouco antes ou após a jornada. Aspectos formais do currículo: o currículo prescrito Uma das condições para que os cursos de ampliação da escolaridade proporcionem o desenvolvimento de capacidades subjetivas dos trabalhadores é que tais cursos organizem-se de forma a superar a organização escolar taylorista-fordista. nível primeira a quarta séries. Para Castells (2002). 73). sem iniciativa. 1. A carga horária total era reduzida. Os dias de aula variavam entre três e quatro. no Brasil. caso. cuidadosa e rigorosamente especificados e medidos” (p. o currículo em ação. Nesse paradigma curricular. sendo 75 horas à distância. que articula as capacidades de agir intelectualmente e pensar produtivamente” (p.

entre outros. “a política educacional da mantenedora”. 44). as aulas duram de três a quatro horas e as salas de aula possuem maior número de alunos. Os conteúdos prescritos do ensino. no curso realizado em uma empresa do ramo metalúrgico. sendo as provas supervisionadas pelo SENAI. afirma-se que o currículo “é essencialmente transformador. Em um projeto que envolve empresa do ramo extrativista e uma secretaria municipal de educação. uma prática também financiada em boa parte pelas empresas. não fogem às tradicionais listas. 2 Por uma questão de custos. flexibiliza aspectos ligados à organização curricular (como os conteúdos. horários. Os objetivos e os aspectos teórico-metodológicos que constam dos projetos pedagógicos são ilustrativos de como a empresa procura “equilibrar” a liberação da subjetividade do trabalhador e a necessidade de enquadrá-la nos mecanismos da produtividade. na substituição de professores que segundo empresa e alunos não estavam adequados. único em que a escola era da própria empresa.Um currículo para a expressão e a apropriação da subjetividade mas os trabalhadores não eram impedidos de entrar na aula se tivessem faltas em excesso. a empresa. SENAI e uma universidade. porém. Os alunos foram transferidos para um curso supletivo da Secretaria Municipal de Educação. como veremos melhor no próximo tópico. 126 . essa reunindo empresas. os objetivos revelam que as motivações das práticas pedagógicas estão claramente associadas às necessidades de formação de um novo trabalhador. SENAI e empresas. já que os turnos de aulas constituem um acréscimo à já extensa jornada de trabalho. os horários e a freqüência são mais rigidamente controlados. podemos dizer que. o diretor industrial tendo o poder de convocar o Conselho Pedagógico e Administrativo da escola. SESI. por um lado. como a classificação dos alunos independentemente da última série cursada na escola e pareceres descritivos no final da etapa de estudos. Nos projetos que envolvem SESI. resultando. é apontado que o currículo deve ser organizado em consonância com. a empresa desativou essa escola. apontam-se como objetivos. Porém. da qual eram funcionários. Porém. No geral. “elevar o nível de compreensão e participação dos funcionários no ambiente de trabalho” e “conscientizar os funcionários sobre a responsabilidade que possuem no processo de desenvolvimento da organização”.2 No âmbito de outra prática pedagógica. O Conselho Administrativo e Pedagógico era integrado pelos diretores da empresa. por exemplo. os objetivos parecem tão libertários que entram em contradição com as possibilidades reais de realização no trabalho. os professores possuem muita flexibilidade na escolha dos conteúdos. essas condições estão longe de serem ideais. se o currículo prescrito. nível de primeira a quarta séries. Do ponto de vista da classe trabalhadora. são bem melhores do que as oferecidas pela educação de jovens e adultos que ocorre à noite nas escolas públicas. por sua vez. Os projetos pedagógicos revelam também o controle que as empresas procuram exercer sobre a formação dos trabalhadores. inclusive. A avaliação também utilizava técnicas mais flexíveis. orientador educacional e supervisor educacional. em geral. Assim. todos os entrevistados colocaram que há um grande envolvimento da empresa no processo. ele revela já o deslocamento da prescrição curricular para os ideais da empresa. ou seja. além de representante do corpo docente. que periodicamente é avaliado. No projeto de uma empresa de alimentos. onde se busca alcançar uma consciência reflexiva para o desvendamento da realidade” (p. Além disso. as condições materiais são precárias. por exemplo. Por vezes. entre outros. nas quais. os direitos e os deveres dos trabalhadores escolares eram normatizados no livro de estatutos dessa empresa. os livros didáticos constituindo importante apoio às aulas. avaliação e outros).

que. por exemplo. 44). p. p. uma conseqüência do que 127 . as microescolhas e a solidariedade política e moral entre eles.a noção de qualificação desenvolve-se em um contexto industrial taylorista. E especialmente nas formas de trabalho atuais. ao menos em grande parte. . reúnem um grande número de habilidades e possuem um caráter muito mais subjetivo. O trabalhador passa a ser entendido como aquele que “pensa e age” em oposição ao trabalhador “executante” do taylorismo. Um aspecto essencial das competências. 25). 2003. o enfraquecimento das funções de controle ou de autoridade em proveito das funções de facilitação”. Ter uma qualificação é dispor dos conhecimentos necessários para cumprir da melhor maneira o trabalho prescrito correspondente a um posto cujo conteúdo é fixado de maneira imutável (p. Para Dugué (2004). as prescritivas de suas atividades. os contratos por objetivos.. Nossas pesquisas revelam que o currículo das práticas de ampliação da escolaridade desenvolvidas pelas empresas possibilita a expressão das capacidades subjetivas dos trabalhadores. conforme Nonaka e Takeuchi (1997). a qualificação representa rigidez em oposição à flexibilidade exigida na produção atual. “mesmo as tarefas mais rotineiras dão lugar a estratégias cognitivas: as competências seriam uma construção social dos próprios atores e não uma imposição da organização” (p. é que elas são. o trabalhador deve se moldar ao posto que ocupa. Segundo a autora.. pp. 1997). crenças pessoais. 1998. ao mesmo tempo em que se revelam as capacidades dos trabalhadores. De fato. “é o conhecimento pessoal incorporado à experiência individual e envolve fatores intangíveis como. 2008. envolvendo inclusive o conhecimento tácito. Já a competência está ligada ao trabalho nos moldes flexíveis. sua apropriação pelo processo produtivo. capazes de adaptação e aptos à criação “das condições necessárias para uma máxima eficácia”. Essas implicações das competências têm estado bastante ausentes das discussões sobre as novas diretrizes curriculares da educação básica. ao qual nem sempre a literatura dá a devida atenção. por exemplo. Um grande número de estudiosos afirma que as habilidades atualmente exigidas dos trabalhadores são diferentes da idéia presente no conceito de qualificação. As qualificações seriam formadas na escola. as quais aquelas têm invadido cada vez mais. assim como as regras que criam. estas capacidades e criação – sinergias. entendemos que o objetivo é “capturar o que é da ordem da subjetividade do homem como trabalhador. é o trabalhador quem prescreve seu próprio trabalho (Dugué. 121-133 O currículo em ação: currículo como forma de liberação e apropriação das capacidades subjetivas dos trabalhadores Na produção teórica da área da educação as mudanças no tipo de conhecimento valorizado na força de trabalho são expressas na polêmica discussão da qualificação e das competências. vol. enquanto as competências teriam sua validade atestada pelo uso efetivo nas condições de realização do trabalho (Kuenzer. 13). cumpridor das regras e métodos de trabalho.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. elas são apropriadas pelo capital. 11. 1. Nas formas de trabalho “neotayloristas”. A organização é predeterminada. No entanto. 7). 25). segundo Rosa (1998). a partir das já existentes. com os “processos participativos. 2004. n. Tanguy. perspectivas e sistemas de valor” (p. as novas formas de trabalho revelam as capacidades de intervenção dos trabalhadores. ou seja. Além disso. logo. as formas de auto-avaliação. tanto individuais quanto coletivas” que produzem e reproduzem “uma outra eficiência produtiva em relação à prescrita pela direção da empresa” (Rosa. imposta. Como afirma Roche (2004). que necessita de trabalhadores autônomos. forjadas pelos próprios trabalhadores.

As informações revelam. explicando sua metodologia. além de atendimento individual. constituía uma família mesmo”.. eu vou mais [atrás] do que eles precisam.Um currículo para a expressão e a apropriação da subjetividade Stroobants (1999) chama de “visibilidade das competências”. diálogo entre alunos e professora. no entanto. possibilitará que estes últimos construam formas menos rígidas de relacionamento social.. tinha que ver. ao descreverem como preparam suas aulas.. Se os trabalhadores têm a possibilidade de organizarem-se por eles mesmos. O relacionamento entre professores e alunos foi um ponto bastante ressaltado por todos os entrevistados. A perda desse “medo” que possuem os trabalhadores é apontada pelo diretor de uma empresa metalúrgica como uma exigência para que a empresa 128 . caem em um ecletismo muito grande ao misturar construtivismo. aí eles vão embora”. e aqui a gente constrói muito junto com eles”. agora ele fala bem. O supervisor de produção da empresa extrativista expressa esse fato ao afirmar que “o próprio curso faz com que eles trabalhem bastante em grupo. por exemplo. Também diz que utiliza muitas coisas do cotidiano dos alunos e que não gosta de se apegar a livros. A mesma professora citada acima afirma que eles eram “quietos” no início. Podemos observar esse processo no apoio teórico-metodológico que utilizam os professores. Uma professora da empresa extrativista. diz que usa um pouco de cada coisa. Mas há um clima de descontração. “construtivismo” é “construir junto.. melhor aproveitamento pelo processo de produção.. em função dessa discussão. O fato é que o espaço da sala de aula. A maior parte deles. Os alunos ajudam-se entre si e lêem materiais alternativos trazidos pela professora quando terminam suas atividades. Eu percebo que eles vêm com muito medo. Claro que. porém. O empirismo fica ainda mais expresso na fala de outra professora da mesma empresa. elas mostraram-se tradicionais no que diz respeito aos livros didáticos utilizados – os mesmos do ensino fundamental – e nos tipos de atividades. É comum. conseqüentemente. que não é necessariamente o trabalho com conteúdos cognitivos mais complexos o que gera a expressão dessas capacidades. que eles vêm que eles podem fazer. debates. Isso proporciona um envolvimento muito grande dos trabalhadores com a escola e a empresa. Seguem sobretudo um empirismo bastante adequado às intenções da empresa. Exemplifica dizendo que no início discutiu os conteúdos com os alunos e que. são plenamente capazes de construir as condições dessa organização.. mas que sempre procura ler Paulo Freire. se o professor utilizar técnicas como trabalhos em grupo ou formas de interdisciplinaridade. Na prática. cujo espaço é muitas vezes contíguo à sala de aula... convívio depois na própria escola. diz não seguir uma teoria específica. convivência com os próprios alunos [colegas de trabalho].. né. Alguns dizem basear-se no construtivismo e realmente parecem utilizar metodologias que têm algo dessa teoria. Nas observações das aulas nessa empresa. isso contribuirá para uma maior qualificação da prática pedagógica e. tirou e colocou coisas diferentes do previsto inicialmente. afirmarem que usam um pouco de cada coisa.. mas que depois mudaram: “a gente fez um trabalho. que tinha medo de dizer alguma coisa.. cada um botando sua idéia. espontaneísmo e pedagogia tradicional. desde que o trabalhador docente não proíba os trabalhadores de conversarem entre si. e a gente hoje precisa disso também”. depois que passa aquela barreira. A mudança nas formas de relacionamento entre os trabalhadores aparece na descrição que fazem as professoras quanto à forma como eles vão mudando suas atitudes no decorrer das aulas.. Ela também não segue “rigidamente” nenhuma teoria: “não vou muito atrás do papel. que diz que se guia “pela intuição e pela aceitação” dos alunos... aquele aluno. tendo como mediação as relações sociais de produção das empresas. aqui a gente ia trabalhar dentro da fábrica mesmo. quem diria. O currículo em ação da maioria das práticas investigadas é em grande parte construído espontaneamente por professores e alunos. Para ela. como mostra o depoimento de uma trabalhadora que disse se sentir compreendida pelos professores: “a gente sempre podia expressar a opinião da gente. exigem”.

expliquei como é que eu queria que ele fizesse e. trocando idéias entre si ou com a professora. Uma professora de português e inglês (de uma prática educativa que envolvia empresas.. a formação está ligada à necessidade de “entender” melhor a produção. secretaria de educação e universidade). que antes. de uma ruptura com um modo de se relacionar mais característico do taylorismo-fordismo. Eles estavam despertos. por exemplo. e que agora eles têm liberdade de dizer as coisas. dessa forma. por exemplo. Assim. apesar de expressarem fisicamente o cansaço do trabalho. Nas empresas japonesas. Se a pessoa tem instrução entende. n. outra funcionária de recursos humanos de uma empresa afirma que o conhecimento. pela força de trabalho. fica evidenciada também no modo como trabalhadores escolares e das empresas expressam as diferenças entre os métodos “antigos” das escolas e os atuais. O currículo em ação: deslocamento do currículo prescrito para o âmbito do compromisso com a empresa As empresas expressam claramente que o objetivo principal da ampliação da escolaridade é poder contar com trabalhadores mais participativos e integrados aos ideais da empresa. 10). 2008. do meio em que atuam. 11. os trabalhadores sentiam-se muito à vontade na aula. Explicam eles que.. duplas ou individualmente. Entreguei para ele o documento. organizaram-se como queriam. implicando esse entendimento em um maior compromisso dos trabalhadores: “as pessoas com educação. no sentido de que o trabalhador sintase mais à vontade para expor sua subjetividade. para aumentar a competitividade da empresa foi necessário investir em formação. a assunção. pp. A mudança para formas de relacionamento mais espontâneas. quando estudavam na escola regular. o que o professor dizia era o certo. Dizem que as conversas entre eles “fluem mais” e que pensam mais antes de realizar o trabalho. elas conseguem perceber melhor o papel delas numa organização como a empresa. com clareza das coisas do mundo em que vivem. “ficava muito na cabeça de cada um” e que hoje a empresa pode contar com esse conhecimento. O resultado é uma maior capacidade de uso das habilidades subjetivas pelos trabalhadores na produção. 1. afirma que os alunos comentavam que. qual é minha missão aqui?”. que possibilitam maior troca e sistematização de conhecimentos pelos trabalhadores. Na mesma direção. de que maneira ela pode fazer melhor com menor custo?”. 121-133 torne-se mais competitiva.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. O supervisor de produção de uma empresa metalúrgica. Nonaka e Takeuchi (1997) utilizam como metáfora para demonstrar essa questão o jogo de rúgbi. ele apresentou um trabalho que eu fiquei até impressionado com a maneira como ele desenvolveu”. antes. “a bola passa de um jogador para o outro à medida que o time avança no campo. Nas observações que fizemos nessa prática educativa. pois “se a pessoa não entende o que faz. aquilo que Nonaka e Takeuchi (1997) chamam de conversão do conhecimento tácito em explícito. Como afirma o diretor da extrativista. Outros supervisores destacam a melhor “capacidade de expressão” dos trabalhadores. para realizar uma atividade. vol. destaca que “precisava criar uma sistemática no setor com um funcionário que está estudando. não podiam olhar para o lado. Pensamos que o depoimento desse gestor expressa exemplarmente um dos aspectos mais importantes da ampliação da escolarização do ponto de vista das empresas. Na de língua portuguesa. da missão da empresa. Trata-se. em grupos. 129 . com professoras diferentes. como uma unidade” (p. qual seja. no final do horário. no rúgbi.

mais intelectual e mesmo emocional. o cara capricha. Elas devem estar em função do capital e do aumento da produtividade. vou ter que me cuidar. idéias. esse ambiente criado permite a liberação da subjetividade do trabalhador e. Como afirma um trabalhador. muitas vezes. o currículo dessas práticas de educação de jovens e adultos contribui decisivamente para o deslocamento da prescrição. portanto. uma exigência de qualidade do trabalho e de honestidade nas relações com a hierarquia e com os colegas” (p. O currículo em ação das práticas de ampliação da escolaridade desenvolvidas pelas empresas começa a realizar essa função modificando o ambiente nas salas de aula. essas capacidades não podem ser utilizadas como eles bem entenderem. que precisa daquele emprego”. o ambiente em muitas das salas de aula das empresas e das escolas públicas parceiras nas quais realizamos a pesquisa apresenta traços diferentes da escola taylorista. Assim. eles não podem dar a ela o conteúdo que bem entendem. levam “cada trabalhador a se considerar como parte constitutiva de uma enorme corrente que o liga. uma interiorização dos objetivos da empresa. a submissão dessa subjetividade aos objetivos da produtividade das novas formas organizacionais.. só que não tem aquele medo. Muitos dos trabalhadores entrevistados destacam a importância da busca de novos conhecimentos. 25). de “um alto nível de responsabilização dos sujeitos. já fica mais reprimido. 130 .Um currículo para a expressão e a apropriação da subjetividade a bola que é passada de um jogador para o outro encerra a compreensão compartilhada da razão de ser da empresa. Por outro lado. Tendo por base a metáfora utilizada por Nonaka e Takeuchi que apresentamos acima. Como descrevemos acima. intuições e pressentimentos altamente subjetivos também são levados em consideração. assim como a possibilidade de ajudar os filhos na escola. Desse modo. Como afirma Dugué (2004). pelos trabalhadores. Por trás de ambos está a intenção da formação do novo ideal de trabalhador. né. Logo.. como dissemos. 129).. ao mesmo tempo. É isso o que a bola contém – ou seja. em que tipo de mundo quer viver e como tornar esse mundo realidade. Segundo Castells (2002).. Insights. por essas últimas. das tarefas de execução. continuamente. valores e emoções (p. E essa possibilidade de se auto-organizarem em grupos. tu fica. o modelo das competências está associado à evolução dos modos de prescrição e à mobilização psíquica dos trabalhadores. das oportunidades de ampliação de seus estudos: “a gente tem tudo. podemos dizer que. se por um lado o currículo das práticas de ampliação da escolaridade dos trabalhadores das empresas serve para a expressão de suas capacidades subjetivas. Já Dadoy (2004) ressalta que os saberes relacionais e de cooperação impostos pelas novas condições de produção estão ligados à imposição. para o compromisso com a missão empresa. tem café. a necessidade de interatividade dos sistemas de inovação tecnológica implica sua dependência de “ambientes” propícios para trocas de idéias. ao modificar o sistema hierárquico da empresa. A criação de um compromisso com a empresa é manifestada já no sentimento de reconhecimento e agradecimento. Eles sabem que os estudos trazem a possibilidade de valorização ou manutenção do valor de sua força de trabalho. na qual os trabalhadores realizaram seus poucos anos de estudos. idéias. em que pese os trabalhadores tenham flexibilidade na condução da bola. material. como parte das mudanças nas relações de trabalho na empresa. as melhorias nas condições de vida proporcionadas pelo aumento de seus conhecimentos formais. à direção” (p. tem a Kombi que busca nós. contíguo às salas de aula. o rumo que está tomando. o que Arnold (2001) chama de “entorno” necessário para que a aprendizagem e a difusão do conhecimento se realize. tudo grátis. problemas e soluções. As novas formas de trabalho. lanche. A gente só entrou com a nossa vontade”. “se tu não tem o estudo... Um compromisso. de conversarem entre si. 11). mais subjetivo. de participarem com opiniões. encontra correspondência no ambiente maior das relações de trabalho da empresa.

o que tu estás aprendendo. é que a volta ao estudo proporcionou uma melhora no relacionamento entre os trabalhadores. 2008.Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. que afirma que é preciso vencer o tabu de que a empresa não é um lugar de relações pessoais e de afeto. livros. 11. Oliveira (2001) constatou que essa mescla dos ambientes de estudo e trabalho levava a que os trabalhadores “carregassem” os elementos de um ambiente para outro: o que acontecia na fábrica. vol. aí tu vem para cá [para a aula]. Tanto nessa empresa. os trabalhadores vão à aula com o uniforme. Os conteúdos formais da escola tradicional têm pouca importância nesse processo. através da quebra da rigidez instalada em suas relações sociais. ajudando a confundir o ambiente e o horário de trabalho com o de estudo. as relações que se travavam com as chefias nos diferentes setores. a gente tem mais entrosamento”. Um trabalhador da empresa extrativista. Em algumas empresas. A contigüidade física à produção dos ambientes de algumas das práticas investigadas é um importante elemento para a criação de um compromisso com a empresa. como diz o gestor desta última – contrasta com o caráter prescritivo que se percebe no conteúdo ideológico dessas mensagens. como na extrativista. Só aí é possível identificar o currículo atuando para formar o trabalhador flexível. juntamente com os cursos de ampliação da escolaridade dos funcionários. os trabalhadores são pelo menos um dos principais artífices. Nesse processo. acreditamos que ainda temos muito a caminhar no reconhecimento das formas como os trabalhadores expressam sua intelectualidade nas relações sociais de produção. para a empresa.. 1. como dissemos. A gente trabalha no mesmo turno. o que está sendo difícil prá ti. O conteúdo mais importante da formação realizada nas práticas pedagógicas investigadas só pode ser percebido mesmo no currículo em ação. Esse processo é facilitado pela implementação. pois são eles mesmos que. mas cada um no seu setor. murais são os da empresa e auxiliam no enquadramento dos trabalhadores nesse ambiente. das pessoas com as quais trabalha diariamente”. entravam para dentro da sala de aula e se misturavam aos encantamentos de um texto lido ou construído com os colegas. que ocorre dentro de uma empresa do Vale dos Sinos. Conclusão Embora na área da educação sempre lembremos da afirmação de Gramsci de que “todos os homens são intelectuais”. As empresas. pp. sobretudo. Rio Grande do Sul. Em pesquisa sobre formação de trabalhadores em nível de supletivo. como na de móveis. então o relacionamento melhorou. Como revela o boletim interno de uma empresa de confecções. 121-133 Mas o mais importante. n. ou à releitura de uma obra-de-arte (p. 2). deram-se conta das imensas capacidades produtivas reprimidas pelo autoritarismo taylorista e passaram a desenvolver formas de apropriar-se desses saberes. com “todo mundo feliz”. Os materiais. de técnicas de relações humanas que incentivam um maior relacionamento afetivo e emocional entre os trabalhadores. estabelecem entre si maiores possibilidades de interação e daí desenvolvendo melhor 131 . cartazes. por exemplo. diz que no início só falavam do “colégio”: “como tu foi em tal matéria.. em parte pelo seu caráter de “invisibilidade”. o ambiente – que parece de harmonia. Os aspectos informais do currículo das práticas pedagógicas investigadas expressam a intenção declarada da formação de um trabalhador flexível. tu fica quase três horas junto. Freqüentemente as aulas ocorrem no mesmo lugar onde são dados os demais cursos ou treinamentos. e que isso faz parte de uma cultura que contraria o lado humano do trabalho: “a identificação do colaborador com a empresa só é possível quando ele gosta do que faz e. acontecendo na sala de aula e sob influência direta das relações de produção da empresa. no entanto.

Esse caráter contraditório está presente também nas metodologias participativas utilizadas na escola regular. Da qualificação à competência: pensando o século XXI (pp. Educação & Sociedade. A sociedade em rede. Nuevos métodos en el trabajo de formación en las empresas. A. Desafios teórico-metodológicos da relação trabalho-educação e o papel social da escola. Campinas: Papirus. I. Rio de Janeiro. esse não é apenas um conteúdo que. Oliveira. 105-142). Referências Arnold. I. (1997). Tomasi (Org. G. Boletim Técnico do SENAC. (1998). M. 23ª Reunião Anual da Anped.). [Digitado] Kuenzer. J. Revista Eletrônica de Administração. L. (2001). desse modo. Rio de Janeiro: Campus. Trata-se de uma exigência das novas formas de organização do trabalho e. Tomasi (Org.Um currículo para a expressão e a apropriação da subjetividade capacidades como comunicação e iniciativa. 33-50). In G. M. Tomasi (Org. A dialética qualificação-competência: estado da questão. A lógica da competência: o retorno ao passado. Dadoy. M.). Kuenzer.) Porto Alegre: Artmed. Campinas: Papirus. (2001). H. (2002). Ela possui um componente prescritivo. em boa medida. 130-147. devemos nos perguntar quando tais metodologias participativas possuem como objetivo de fato levar à formação de alunos capazes de inserirem-se ativamente na luta por melhores condições de vida para si e quando tais metodologias visam apenas formar saberes que serão apropriados para a maior produtividade do capital. & Gómez. que diz respeito à utilização da “nova” capacidade a serviço da missão da empresa. Redes e flexibilidade: da mudança das práticas quotidianas a uma nova trama produtiva. M. que por sua vez permitem que um sem número de “conteúdos” do processo de produção seja também aprendido e dividido entre eles. como afirmamos. eles desejam desenvolver melhor porque lhes possibilitará um melhor relacionamento entre si. Dugué. J. 5-75). A. novas metodologias e novas áreas de pesquisa 1999-2000. Educação e crise do trabalho: perspectivas de final de século (pp. In A. Campinas: Papirus.). (6ª ed. R. A. entre tantos. I. São Paulo. Sacristán. Coletivamente passam a ser capazes de criar coisas que antes não eram permitidas. Da qualificação à competência: pensando o século XXI (pp. (1998). de (2000). Z. atualizada). 19 (64). Gitahy. Máquinas e silêncios: construindo significados no e para além do supletivo de trabalhadores. D. (2004). a prescrição não deixou de existir nesse novo currículo. (2000). Compreender e transformar o ensino (4ª ed. 6 (1). (2004). o desenvolvimento de uma melhor capacidade de comunicação se dê de forma espontânea pelos trabalhadores. P. uma exigência também do currículo das práticas pedagógicas desenvolvidas pelas empresas. 29 (1).). In A. E. Nonaka. In A. No entanto. Frigotto (Org. São Paulo: Paz e Terra. Castells. Roche. Competência como práxis: os dilemas da relação entre teoria e prática na educação dos trabalhadores. Seminário Temático Interdisciplinar Os Estudos do Trabalho: novas problemáticas. (2004). (2003).). 132 . Da qualificação à competência: pensando o século XXI (pp. Embora. Nesse sentido. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação (6ª ed. Petrópolis: Vozes. Rosa. As noções de competência e competências à luz das transformações na gestão da mão-de-obra. Z. 19-32). & Takeuchi. Do governo dos homens: “novas responsabilidades” do trabalhador e acesso aos conhecimentos.

2008. (2002). (1998). n. pp. P. Silva. Montevidéu: Cinterfor. Porto Alegre: Artes Médicas. 109-137). Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. (1999). Schwartz. A abordagem do trabalho reconfigura nossa relação com os saberes acadêmicos: as antecipações do trabalho. Linguagem e trabalho: construção de objetos de análise no Brasil e na França (pp. Belo Horizonte: Autêntica. T. El modelo de competencia y los sistemas productivos. C.br Recebido em: 03/12/2007 Revisado em: 18/03/2008 Aprovado em: 02/04/2008 133 . J. Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. Trabajo y competencias: recapitulación crítica de los enfoques sobre los saberes en el trabajo. vol. Endereço para correspondência: mviegas@terra. 1-11. 11. Oficina Internacional del Trabajo. M. T. (1998).Cadernos de Psicologia Social do Trabalho.com. Wood. T. M.). Souza-e-Silva & D. E. 1. da (1999). Faïta (Orgs. Stroobants. São Paulo: Cortez. Globalização e interdisciplinaridade: currículo integrado. (2000). Y. P. In M. Zarifian. Calificaciones y Empleo. 121-133 Santomé. 21 (1). São Paulo: Boitempo.

8) As referências seguirão o padrão da American Psychological Association (APA). 1721 Bloco D. fonte Times New Roman. em caso de discordância entre os primeiros. tabelas e notas de rodapé. imediatamente depois da frase a que digam respeito. desde que não alterem o conteúdo do manuscrito e as intenções dos autores. Pequenas correções poderão ser feitas pelos editores. 5) Os impressos deverão ser acompanhados de disquete ou CD-ROM contendo.Instruções para colaboradores dos Cadernos de Psicologia Social do Trabalho 1) Serão aceitos para apreciação e posterior publicação. Títulos e subtítulos deverão estar em negrito e ter apenas a primeira letra maiúscula. palavras-chave e keywords. O manuscrito não poderá ultrapassar 30 páginas. 3) A critério do conselho editorial. telefone e endereço eletrônico. estilo normal. b) folha de rosto sem identificação contendo apenas o título na língua original e em inglês. Prof. gráficos.odt. espaçamento duplo e até 80 caracteres por linha. manuscritos monográficos contendo relatos de pesquisas ou ensaios abordando temáticas da psicologia social do trabalho e dos processos organizativos. sem quebras de páginas e de seções. de que não foi enviado para nenhuma outra revista e de que todos os autores e as fontes de comunicações pessoais aprovam sua publicação por meios impressos e digitais. da recusa ou da necessidade de modificações no texto. 7) Resumo e abstract terão até 200 palavras e informarão: objetivos. corpo 12. 10) O material deve se encaminhado para: Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho Av. c) folha com resumo. o proponente deverá dar garantias de que se trata de um trabalho ainda não publicado. 2) Para que um manuscrito seja apreciado pelo conselho editorial. e) referências. em português ou espanhol. o manuscrito poderá ser enviado a consultores ad hoc para arbitragem. As notas devem ser apresentadas no rodapé da mesma página. Os originais não aprovados ficarão à disposição dos autores. resumos e referências. nome completo por extenso de cada autor. Mello Moraes. 9) As notas apontadas no corpo do texto devem ser indicadas com números seqüenciais. em um único arquivo. sala 163 Cidade Universitária. incluindo folhas de rosto. o manuscrito em formato compatível com os editores de textos Word ou OpenOffice. endereço para correspondência. metodologia (quando for o caso).doc ou . de preferência em . abstract. São Paulo/ SP 05508-030 136 . d) texto propriamente dito contendo o mínimo necessário de figuras. explicado a seguir. resultados e conclusões. 6) Cada impresso será composto por a) folha de rosto completa contento título na língua original e em inglês. Os autores serão avisados da aceitação. Serão dois os consultores a darem pareceres e um terceiro. deverá ser encaminhado em uma via impressas em papel A4. 4) O manuscrito. instituição. será convocado.

citado por Shotter. seguido do ano de publicação: (Associação Brasileira de Psicologia Social. J. utilizar a expressão “citado por”: Vico (1965. e-mail etc. 16. 1995) ou Lima e Oliveira (1993). 1997) ou Silva et al. 17.No caso de citações de autores com mesmo sobrenome indicar as iniciais dos prenomes abreviados: (A. esta deve ser delimitada por aspas duplas. 1 American Psychological Association (2001). quando citados no texto devem ser ligados por “e”: (Lima & Oliveira. 1973. citam-se o sobrenome do autor e os anos de publicação em ordem cronológica. 1993) ou Lacaz (1997). 1985c.Os autores devem ser apresentados pelo sobrenome e seguidos pelo ano da publicação. 1997) ou Silva. 1989). L. 1985c.Documentos cujo autor é uma entidade coletiva. seguida do sobrenome do autor. acrescenta-se a informação entre parênteses após a citação: (Comunicação pessoal. acrescentam-se letras minúsculas após o ano de publicação: (Gergen. 1992. As referências dos autores citados devem ser apresentadas no final do texto e não em notas de rodapé. Já em citações com seis ou mais autores. cita-se sempre o sobrenome do primeiro autor seguido da expressão “et al. 19. (nas referências. 1959/1985).. 14. Quando se tratam de publicações diferentes com a mesma data. no caso: Shotter. no entanto. Santos e Gomes.No caso de documentos com diferentes datas de publicação e um mesmo autor. iniciando com a linha avançada (equivalente a cinco toques de máquina) e terminando com a margem direita igualmente recuada. 1993) ou Vico (1965) citado por Shotter (1993). No caso de citação de trecho com 40 ou mais palavras. Rodrigues (1992) e L. sejam quantos forem): (Silva.”. devem ser citados pelo nome da entidade por extenso.Na citação indireta. aquela cuja idéia é extraída de outra fonte. p. 15. ou seja. Os editores entendem que para a maioria dos casos as orientações aqui constantes são suficientes. a consulta à adaptação para o português elaborada pelo Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Psicologia da USP: http://www. 1o de maio de 1999).Normas para citações 13. 18. data e página citada: (Ibáñez.). 1997. 1995) ou Associação Brasileira de Psicologia Social (1995). M. Nas referências mencionar apenas a obra consultada. Constarão apenas as obras a que são feitas alusões ao longo do texto.Obras antigas e reeditadas: citar a data da publicação original seguida da data da edição consultada quando isso for importante de ser informado ao leitor: Goffman (1959/1985) ou (Goffman. Nas citações seguintes: (Silva et al. devem aparecer os nomes de todos os autores. Rego. M.No caso de citações com três a cinco autores.”.. nas citações seguintes cita-se o sobrenome do primeiro autor seguido da expressão latina “et al.usp. conferência. Rodrigues. pp. 12-13).ip. Rodrigues (1990). M. 1992. a primeira vez em que aparecem no texto são citados todos os autores. (1993). Rego (1993). Washington. 1985b. 1989) ou Gergen (1973. 22. deve-se obedecer à ordem alfabética de seus sobrenomes e não à ordem cronológica: (Lacaz. 1997. ao final do texto. 1990) ou A. Santos & Gomes. Minayo-Gomez (1997). 1985a. Publication manual of the American Psychological Association. 22) ou Billig (1994.No caso de transcrição literal de um trecho de um texto. Minayo-Gomez. 21. Recomendamos.Para citações de informações obtidas através de canais informais (aula.Os Cadernos de Psicologia Social do Trabalho adotam as normas da APA1 na apresentação das citações no texto e das referências. 23. 1985a. este deve ser apresentado em parágrafo próprio sem aspas. 1997.br/biblioteca/pdf/ 137 .Em citações de vários autores e uma mesma idéia. 20. M. comunicação pessoal. 1985b. DC: APA. Rodrigues. Nas citações com dois autores os sobrenomes quando citados entre parênteses devem ser ligados por “&”. (1997).

O conhecimento no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da psicologia social (pp.). (1993). & Engels. Changing the subject: psychology. Sobre os fundamentos filosóficos do conceito de trabalho da ciência econômica. Mudar o trabalho: as experiências. social regulation and subjectivity. (46a ed.. A ideologia alemã (9a ed.). Deetz. (1994). trad. Memória e sociedade: lembranças de velhos (4a ed. mencionar todos os autores. São Paulo: Hucitec-Unesp. C. 2. (1988). (1999). as condições de experimentação social (H. na ordem em que aparecem na publicação original. P. 2) Livros com um ou mais autores: Mello. M. Henriques. In Cultura e Sociedade (vol. In M. (Originalmente publicado em 1880) Marx. & Briante. A organização como fenômeno psicossocial: notas para uma redefinição da psicologia do trabalho. 7-50).Normas para referências 1) As referências deverão ser apresentadas no final do artigo. O direito à preguiça.). Domingos. (1993). Título original: Die deutsche ideologie) Oddone. 6) Com indicação de data ou título da edição original ou título traduzido: Lafargue. Manifesto contra o trabalho (H. V. trad. Spink (Org. Portugal: Fundação Calouste Gulbenkian. Psicologia e Sociedade. P. L. & Walkerdine. Orstman. I. (Originalmente publicado em 1932. Critical Management Studies (pp. (1977). (1998). D. atualizada). Disciplinary power in modern corporation. Re. W. São Paulo: Atlas. A representação social do trabalho penoso. 8 (1). Cotidiano e sobrevivência: mulheres do campo e da periferia de São Paulo.).. London: Methuen. S. 138 . K. E. Lisboa. S. No caso de mais de uma obra de um mesmo autor. P. L. São Paulo: Labur. Marcuse. São Paulo: Hucitec. Sua disposição deve ser em ordem alfabética do último sobrenome do autor. Holloway. Turim. 5) Com indicação de edição ou tradutor: Bosi. São Paulo: Paz e Terra. os métodos. C. coscienza di classe e psicologia del lavoro [Experiência operária. K. independentemente de quantos sejam. 174-192. F. Esperienza operaia. London: Sage.. In M.). São Paulo: Brasiliense.). A. J. (1984). 4) Com entrada pelo título sem autoria específica: Consolidação das Leis do Trabalho (1977). Para cada referência. H. Venn. 21-45). (1992). as referências deverão ser dispostas em ordem cronológica de publicação. O. G. Alvesson & H. Willmott (Eds. Itália: Giulio Einaudi. São Paulo: Companhia das Letras. 188-211). J. 7) Capítulo de livro: Sato. São Paulo: Ática. (1984). Heidemann. consciência de classe e psicologia do trabalho]. (1996).. 3) Com autoria institucional: Grupo Krisis (1999). 8) Artigo de revista científica: Spink. Urwin. pp.

Barreto. 12) Texto da internet: Marazzi. O trabalho do camelô: trajetória profissional e cotidiano. L. A. Heloani.. 3-5.): Oliveira. F. Müller. R. A universidade operacional. Venezuela: Sociedad Interamericana de Psicología. Mortada.cfch. (1999).. Lugar Comum: Estudos de mídia. Dissertação de Mestrado. (1998). M. Folha de São Paulo. L. Amêndola.. (s. 15 (92). T. (1995).. S. C. Desemprego e psicologia. Artigo disponível na Internet: http://www. A.. Viégas. 9 de maio). In La psicología al fin del siglo: conferencias magistrales del XVII Congreso Interamericano de Psicología (pp. F.. (1999).).html [19 novembro 1999] 13) Trabalho em vias de publicação: Salvitti. São Paulo. Malvezzi. S. Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. & Tavares. 14) Texto não publicado (mimeografado. In Anais do VII Encontro Regional da Associação Brasileira de Psicologia Social: neoliberalismo e os desafios para a psicologia social (p. São Paulo. L. S. Desemprego e ideologia: explicações das causas do desemprego utilizadas por trabalhadores metalúrgicos. São Paulo. J. 139). Fábrica: aspectos psicológicos do trabalho na linha de montagem. D. F. C. Dadico. 5. M. P. 1. São Paulo. Costa. (1999. S. Desemprego: a dimensão psicossocial.. cultura e democracia. (1981). 11) Dissertação ou tese: Carvalho. Caracas. Modernidade e identidade: os bastidores das novas formas de exercício do poder sobre os trabalhadores. E... Bauru. A psicometria está superada. 337-359). S. Instituto de Psicologia. S. C. Jornal do CRP 6a Região. 3. R. M. Neves. F. Caderno Mais!. datilografado. M. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho. M. [digitado] 139 .br/lugarcomum/no1. A. (1991). Massola. T. Ortega.ufrj. H. d. Kim. Linguagem e pós-fordismo. A. São Paulo.9) Artigo de jornal: Chaui. G. Lopes. C. & Pires. Barros... 10) Trabalho de evento publicado em resumos ou anais: Seligmann-Silva. P. SP: Associação Brasileira de Psicologia Social. G. A atual reforma do estado ameaça esvaziar a instituição universitária com sua lógica de mercado. Universidade de São Paulo.. A. R. B. (no prelo). E. digitado etc. Tese de Doutorado.

Nome: Endereço: CEP: Cidade: Telefone: ( Data: / / ) Assinatura: E-mail: Estado: ... volume..br --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Quantidade volume 1 volume. Prof. 1721 Bloco D... volume.. Mello Moraes..Cadernos de Psicologia Social do Trabalho Pedido de assinatura e de exemplares avulsos Para fazer uma assinatura ou solicitar qualquer exemplar avulso. escreva ou telefone para saber os valores atuais de cada exemplar ou da assinatura. envie-nos a ficha abaixo preenchida e cheque nominal ao Instituto de Psicologia – USP. São Paulo/ SP 05508-030 Endereço eletrônico: cpst@usp. Por gentileza. Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho Av. consultem-nos a respeito dos valores antes de fazer seus pedidos. volume. sala 163 Cidade Universitária. Pedido Valor* esgotado Total esgotado assinatura por dois anos (quatro exemplares) Total: R$ * Por favor..

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