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A RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA NA CONTEMPORANEIDADE E O CONCEITO DE MEDIAÇÃO FAMILIAR. EDNO GONÇALVES SIQUEIRA; ENILZA RIBEIRO DOS SANTOS

A RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA NA CONTEMPORANEIDADE E O CONCEITO DE MEDIAÇÃO FAMILIAR. EDNO GONÇALVES SIQUEIRA; ENILZA RIBEIRO DOS SANTOS

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Trabalho monográfico
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Centro de Ciências Humanas e Sociais – CCHS Pedagogia Para Os Anos Iniciais Do Ensino Fundamental PAIEF/UNIRIO/CEDERJ Pólo São Francisco de Itabapoana

A RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA NA CONTEMPORANEIDADE E O
CONCEITO DE MEDIAÇÃO FAMILIAR.

ENILZA RIBEIRO DOS SANTOS.

SÃO FRANCISCO DE ITABAPOANA 2009

ENILZA RIBEIRO DOS SANTOS.

A RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA NA CONTEMPORANEIDADE E O
CONCEITO DE MEDIAÇÃO FAMILIAR.

Projeto de Monografia apresentado ao programa de Graduação em Pedagogia Para Os Anos Iniciais Do Ensino Fundamental PAIEF/CEDERJ da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UNIRIO, como requisito parcial para obtenção do Grau de Licenciado, sob a orientação do Prof. Ms. Edno Gonçalves Siqueira..

SÃO FRANCISCO DE ITABAPOANA 2009

ENILZA RIBEIRO DOS SANTOS.

A RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA NA CONTEMPORANEIDADE E O
CONCEITO DE MEDIAÇÃO FAMILIAR.

Projeto de Monografia apresentado ao programa de Graduação em Pedagogia Para os Anos Iniciais Do Ensino Fundamental –PAIEF/CEDERJ – da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UNIRIO, como requisito parcial para obtenção do Grau de Licenciado. Aprovado em ____ de ___________ de 2009.

COMISSÃO EXAMINADORA

______________________________________________

______________________________________________

______________________________________________ Prof. Ms. Edno Gonçalves Gonçalves Siqueira. Orientador

"Não me preocupa que não exerça um cargo, o que me preocupa é como me tornar capaz de um. Não me preocupa o não ser conhecido, mas procuro tornar-me digno de ser conhecido”.

Agradecimento a Deus "Que nos deu o dom da vida, nos presenteou com a liberdade, nos abençoou com a inteligência, nos deu a graça de lutarmos. Para a conquista de nossas realizações, cabe o louvor e a glória. A nós só cabe a nós agradecer. (Rui Barbosa)

Mensagem aos colegas:
"No início, unidos apenas por um objetivo comum. Recuados, desconfiados, aos poucos a convivência. Foi nos aproximando, encantando. Sempre colegas, soubemos conviver e respeitar-nos. Lutamos, sobrevivemos, crescemos.... acima de tudo como seres humanos. E, por tudo, a saudade há de ficar. "

Mensagem a todos aqueles que amamos: nossos pais, companheiros e filhos: "O amor é, certamente, a razão última da existência humana, seu objetivo maior. Tudo, sem amor é nada. Aos que amamos, pois, dedicamos esta obra de aperfeiçoamento do ser que importa, também, em aperfeiçoar o amor”.

Mensagem aos nossos professores, do CEDERJ/UNIRIO, ao nosso orientador Edno Siqueira e a todos que direta ou indiretamente contribuíram para o nosso desenvolvimento e conhecimento pessoal: "Hoje nossos caminhos se partem, para que possamos andar sozinhos, na certeza de que todas as estradas se unem em um ponto comum, onde nos encontraremos para falar da vida, das lágrimas, das alegrias, das conquistas e dos fracassos, e é claro, dos sonhos que ainda ousaremos realizar!" Obrigada por tudo!

SUMÁRIO
RESUMO.......................................................................................................................08 CAPÍTULO I Conflito Familiar na Sociedade Contemporânea. 1.1. A utilização de mecanismos pacíficos de solução de conflitos. 1.2. A mediação introduz a cultura do diálogo. 1.3. Mediador Familiar. CAPÍTULO II Mídia e “Violência”: A Pedagogia Crítica como Agente Influenciador da Cultura............................................................................................................................18 2.1. A Mídia Televisiva.................................................................................................23 2.2. A “Violência” Midiática.........................................................................................24 2.3. O Advento do Espetáculo como forma de “Violência Midiática........................26 CAPÍTULO III Globalização: Características e Efeitos sobre a Educação e o papel das NTICs.....28 CAPÍTULO IV Capacitação de Professores para o uso Reflexivo das NTICs na Educação.............33

Capítulo V
A Família como representação nas sociedades capitalistas modernas. A representação da célula mater como uma estrutura fundamental à formação do humano. 5.1. Histórico da representação célula mater.............................................................38 5.2. Valores no século XXI e as mudanças ocasionadas no ambiente familiar.......45 5.3. A importância da participação familiar no desenvolvimento da criança e do adolescente em fase escolar..........................................................................................47

CONCLUSÃO...............................................................................................................49 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................53

A RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA NA CONTEMPORANEIDADE E O
CONCEITO DE MEDIAÇÃO FAMILIAR.

RESUMO Ao longo das últimas décadas, a família vem enfrentando um processo de profundas transformações. Hoje, não existe apenas o modelo patriarcal de família, consolidada com o casamento indissolúvel, cuja estrutura é marcada por uma forte hierarquia. Vários fatores econômicos, sociais e culturais contribuíram de forma decisiva para as alterações na estrutura familiar. Apesar da resistência do patriarcalismo, pode-se afirmar que as famílias de hoje não mais possuem uma forte hierarquia, cujo controle era exercido pelo homem, em detrimento da mulher e dos filhos. Em uma perspectiva de confronto com o antigo modelo, a família contemporânea é inovadora, democrática e igualitária. Os diversos modelos de família que hoje existem possuem seus relacionamentos baseados na igualdade, solidariedade, afetividade e liberdade. Os membros da família precisam sentir-se seguros e protegidos, bem como precisam sentir-se encorajados a exercerem sua independência. Esses fenômenos ainda não foram assimilados pela sociedade de uma maneira geral. Todas essas transformações proporcionam instabilidade familiar, uma vez que, com a ausência de papéis pré-estabelecidos, os familiares agora precisam negociar a todo instante suas diferenças. Tais negociações muitas vezes não são adequadas, principalmente quando inexiste nas relações familiares uma boa comunicação, gerando, em muitos casos, a violência doméstica. Os índices de violência doméstica apresentam-se de modo estarrecedor, vitimando, principalmente, as mulheres, as crianças e os idosos, fato noticiado cotidianamente. Diante de toda essa conjuntura, verifica-se a necessidade da utilização nas relações familiares de instrumentos adequados de solução de conflitos. O presente trabalho abordará a mediação, que se apresenta como um eficaz meio de intervenção em relação às desavenças familiares, uma vez que, através do diálogo, pode-se realizar um verdadeiro tratamento dos conflitos, facilitando a continuação da relação entre os

parentes. Além disso, sabe-se, mesmo a partir de nossas observações cotidianas no trabalho escolar, que a família representa uma importante variável a intervir no desempenho escolar dos alunos. A mediação consiste em um procedimento não adversarial, em que um terceiro, competente, capacitado, diligente, imparcial, denominado mediador, auxilia as partes a entenderem seus reais problemas. Note-se que o mediador nada decide, apenas estimula e viabiliza a comunicação entre os mediados na busca por melhores e mais criativas soluções, de modo a facilitar a celebração de um acordo mutuamente satisfatório. Desse modo, a mediação confere autonomia aos mediados, possibilitando que a solução dos problemas seja oferecida pelos mesmos. Trata-se de um processo de responsabilização, em que as pessoas participam ativamente da resolução dos seus conflitos. A mediação familiar incentiva a comunicação aberta e o exercício da solidariedade. Em outras palavras, incentiva as pessoas à mútua compreensão de realidades distintas, diminuindo os traumas que podem advir com a má administração desses conflitos bem como, deve funcionar como uma medida a influir diretamente nas condições de qualidade para que a criança possa alcançar um bom desempenho nas aprendizagens escolares. Palavras Chaves: Família; Conflitos; Escola; Fatores Econômicos; Violência e Sociedade.

CAPÍTULO I O CONFLITO FAMILIAR NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Como salientado, hoje não existe apenas o modelo patriarcal de família. Na verdade, coexistem diversas formas, que são marcadas pelos traços da igualdade, individualidade e afetividade. As famílias enfrentam um processo de instabilidade, uma vez que as mudanças ainda não foram assimiladas pela sociedade de um modo geral. Homens, mulheres, idosos, adolescentes e crianças ainda não conseguem administrar as diferenças que estão surgindo em meio aos novos modelos de família. Como não mais existem papéis pré-estabelecidos, verifica-se a necessidade de constantes negociações no seio familiar.
“As rupturas das tradições provavelmente propiciam uma quebra nas relações vinculares. Por isso representam um desarrumo no percurso do ritmo familiar, o que transforma os laços em desenlaço, e a ordem de desconcerto, criando-se, assim, vivências de transgressões. Em decorrência, abrem espaço para a violação dos direitos e deveres individuais e coletivos”. (ZÉLIA MARIA DE MELO E ZULEICA DANTAS PEREIRA CAMPOS).

Na verdade, o conflito sempre fez parte da vida social e familiar, uma vez que a família é dinâmica, composta por teias complexas de relações entre seus membros. Nessas teias, estão presentes constantemente desavenças, ou seja, no cotidiano das pessoas, as brigas familiares são uma realidade. Assim, a história de uma família é marcada por momentos de crescimento, de estagnação, encontro, desencontro e reconciliação.
Numa família, entretanto, solidariedade e conflito coexistem. Toda família funciona como uma unidade social contraditória em que os recursos, os direitos, as obrigações e os interesses competitivos se confundem. Além dos conflitos por divergência de opiniões, de idéias, de crenças ou de poder, ocorrem os conflitos decorrentes da disputa pelos afetos. Sua dinâmica e organização se baseiam na distribuição dos afetos, o que tende a criar um complexo dinamismo de competições e disputas motivadas pelo desejo de conquista de espaços que garantam o amor, o reconhecimento e a proteção, uns dos outros, necessidades básicas da condição humana. (MALVINA MUSKAT).

A existência de antagonismos, por si só, não é prejudicial às famílias. Os conflitos são essenciais ao ser humano e, se bem administrados, podem promover

crescimento. Por isso, os familiares devem aprender a resolver seus problemas de modo a tirar lições proveitosas para suas vidas. Cumpre salientar que a quebra nas relações vinculares de natureza familiar é marcada por inúmeras peculiaridades. Quando há a presença de problemas dessa natureza, existe uma carga emocional que dificulta uma resolução adequada, uma vez que influenciam as partes, não permitindo que elas consigam argumentar ordenadamente para defender seu ponto de vista. Os conflitos familiares são bastante complexos, tendo em vista que envolvem emoções e sentimentos ocultos, tais como: mágoas, dores, vinganças, entre outros. Muitas vezes, ele não eclode por um único motivo, sendo um conjunto de mágoas somadas ao longo da convivência.

O conflito familiar não eclode de uma hora para outra; ele é também uma construção ao longo do tempo e das experiências relacionais. Na maioria das vezes, ele é a somatória de insatisfações pessoais, de coisas não ditas, de emoções reprimidas, de desinteresses, desatenções constantes, traições ou sabotagem ao projeto de vida estabelecido. É em geral, conseqüência do diálogo rompido ou interpretado incorretamente; do silêncio punitivo. Enfim, ocorre pela constatação de que o modelo imaginado e vivido foi incapaz de garantir a realização pessoal, magicamente esperada. (ANA CÉLIA ROLAND GUEDDES PINTO).

Muitos conflitos de natureza familiar são frutos de decepções e frustrações que surgem a partir da constatação de que as expectativas criadas em torno da relação não poderão ser satisfeitas. Em muitos casos, os compromissos firmados anteriormente dão lugar a intermináveis discussões. É comum os conflitos familiares também serem frutos de mal entendidos. As pessoas não conseguem ouvir outros pontos de vista e argumentam aparentemente a mesma coisa, de modo diferente. Vale ressaltar que os conflitos podem se mostrar de imediato, referindo-se às reais causas de sua origem. Trata-se do conflito real, em outras palavras, daquele que está relacionado ao verdadeiro problema que deu início à desavença. Por outro lado, os conflitos podem exigir uma análise mais criteriosa para desvendar sua real motivação. Trata-se do conflito aparente, que se exterioriza por outras razões distintas das reais causas que originaram a disputa. Popularmente, tais razões são conhecidas como “a gota d’água”.

Nas discussões é comum as pessoas exporem o conflito aparente, em detrimento do real. Muitas vezes, as discussões envolvem ataques pessoais que se revelam como as motivações dos conflitos, mas na verdade são conseqüências de uma razão maior: o conflito real. Isso ocorre principalmente em relação aos conflitos de natureza familiar, uma vez que, como já salientado, envolvem emoções que dificultam o diálogo. Geralmente, sobretudo quando há violência, quase todos os familiares sofrem direta ou indiretamente com os conflitos entre parentes.
Na violência doméstica não há vencedores. A destruição paulatina do sentimento de amparo, amor e auto-estima, atribuições normalmente providas dentro de uma família funcional fundamentais para a estruturação do sujeito, é geral e atinge a todos os membros, incluindo-se aí o agressor. (SUSANA MUSKAT).

Os índices de violência doméstica mostram-se estarrecedores nos últimos anos, devido aos mais variados fatores: desemprego, falta de diálogo, adultério, alcoolismo etc. A violência doméstica constitui o abuso físico, emocional, sexual ou mental de uma pessoa por outra, com quem teve ou tem um relacionamento íntimo; familiar. qualquer indivíduo, independente da sua idade, classe social, raça, capacidade ou estilo de vida. Nas relações familiares, a violência muitas vezes é caracterizada pela agressividade como um mecanismo de defesa. Quando se sentem ameaçados, os integrantes da família não argumentam ordenadamente para defender seus propósitos, assumindo uma conduta agressiva, violenta. Logicamente, a violência não constitui o instrumento mais adequado à solução de conflitos. No próximo tópico, será analisada a mediação como instrumento adequado de solução de conflitos familiares. 1.1. A utilização de mecanismos pacíficos de solução de conflitos. Diante dessa realidade, marcada pela atual instabilidade familiar, constata-se a necessidade da utilização de mecanismos pacíficos de solução de conflitos, que primem pelo diálogo, tais como a mediação. Quando existe a possibilidade de comunicação, para os problemas dessa natureza, a própria vontade das partes consiste em uma verdadeira justiça.

a realidade dos conflitos familiares contém um indistinto emaranhado de conflitos legais e emocionais, e quando não são resolvidos pelos protagonistas,transformam-se em disputas intermináveis nas mãos de terceiros, deixando sérias marcas na sociedade.(MARIA NARZARETH SERPA).

A autora Danièle Ganância afirma que “Os conflitos familiares, antes de serem conflitos de direito, são essencialmente afetivos, psicológicos, relacionais, antecedidos de sofrimento.” Logo, para uma solução eficaz, é importante a observação dos aspectos emocionais e afetivos. Nesse sentido, necessário se faz a utilização de outros métodos de composição de conflitos que tratem das questões familiares de modo eficaz, a exemplo da mediação. Note-se que a mediação é adequada aos conflitos familiares, apresentando-se como uma eficiente técnica de resolução de controvérsia, proporcionando, em tempo adequado, um intenso tratamento dos problemas e facilitando a continuação do relacionamento entre as partes por meio do diálogo e da mútua compreensão. Desse modo, a mediação pode ser utilizada nos mais diferentes tipos de conflitos, tais como: questões cíveis, familiares, comerciais, escolares, de vizinhança, ambiental e conflitos provenientes de relações de consumo. Para a solução de questões familiares, há necessidade da co-mediação, devendo participar, além do mediador, um psiquiatra, psicólogo ou assistente social. Com isso, o conflito familiar possui melhores chances de ser abordado de forma eficaz, contemplando as peculiaridades que o mesmo possui. É nas questões de família que a mediação encontra sua mais adequada aplicação. Há muito, as tensas relações familiares careciam de recursos adequados, para situações de conflito, distintos da negociação direta, da terapia e da resolução judicial. A mediação vem-se destacando como uma eficiente técnica que valoriza a co-participação e a co-autoria. Como já analisado, a mediação consiste em um método eficaz de composiçãode conflitos, em que um terceiro capacitado e imparcial, denominado mediador, auxilia as partes na consecução de um acordo mutuamente satisfatório, melhorando o diálogo e a comunicação entre as mesmas.
A mediação Familiar e conjugal vem ao encontro dessa necessidade de obter instrumentos de intervenção sobre questões relacionadas à violência, em que as partes estejam envolvidas na busca de soluções para conflitos, que não as agressões físicas. A mediação como possibilidade de desenvolvimento de um contexto flexível para o manejo de disputas tem

demonstrado sua eficácia e congrega uma série de vantagens; o mediador é o terceiro elemento que possibilita a criação de um contexto favorável à negociação das diferenças e ao estabelecimento de uma comunicação funcional.(LILIA GODAU DOA ANJOS PEREIRA BIASOTO).

A pacificação social e a prevenção da má administração de novos conflitos são objetivos da mediação. Na verdade, por sua grande aplicação nas questões familiares, esse procedimento constitui um importante instrumento de combate à violência doméstica.

1.2. A mediação introduz a cultura do diálogo. Ressaltando a importância da comunicação. Na mediação não existem adversários; as partes devem buscar a solução do problema de forma pacífica, construindo conjuntamente uma solução satisfatória. É justamente nos conflitos familiares que transparecem sentimentos como: hostilidade, vingança, depressão, ansiedade, arrependimento, ódio, mágoa etc., dificultando a comunicação entre os mediados. Quase sempre, durante uma crise, os parentes não conseguem conversar de forma ordenada e pacífica para resolver suas controvérsias. Assim, a mediação familiar incentiva a comunicação entre as partes, responsabilizando-as pela formação de uma nova relação baseada na mútua compreensão. A autora Danièle Ganância, a respeito do assunto, acrescenta que: “A mediação familiar é, antes de tudo, o lugar da palavra em que as partes, num face a face, sem outra testemunha, poderão verbalizar o conflito e assim tomar consciência de seu mecanismo e do que está em jogo”. Esse instrumento proporciona às famílias a oportunidade de uma comunicação destinada a esclarecer mal-entendidos, evitando rupturas desnecessárias. A mediação, sobretudo a familiar, objetiva pôr fim ao conflito real, e não ao aparente, pois assim estará sendo solucionado o verdadeiro problema. Deste modo, a mediação propõe um trabalho de desconstrução do conflito, fazendo com que os mediados encontrem as reais motivações de suas disputas e as solucionem. Além disso, a mediação busca a valorização do ser humano e a igualdade entre

as partes. Portanto, nos conflitos familiares, que muitas vezes são marcados pela desigualdade entre homens e mulheres, a mediação promove o equilíbrio entre os gêneros, na medida em que ambos possuem as mesmas oportunidades dentro do procedimento. Outra vantagem oferecida pela mediação familiar é a resolução do conflito em tempo adequado. Neste procedimento, dependendo da complexidade, os problemas podem ser resolvidos em um curto lapso temporal, observando a natureza de urgência das disputas familiares. Isto posto, é notável a eficiência da mediação nos conflitos familiares, na medida em que seu procedimento busca uma escuta diferenciada das partes, dando-lhes oportunidade de pensar na reorganização de suas relações parentais. Assim, este processo possibilita inúmeros benefícios para os que dela participam, sendo amplamente utilizada nas separações e nos divórcios.

1.3. Mediador Familiar. O mediador familiar, assim como o de qualquer outra área, deve observar os princípios e os objetivos da mediação, entretanto, a natureza da matéria exige uma maior atenção desse profissional. Para atuar na área de família, o mediador deve conhecer a natureza desses conflitos, bem como suas peculiaridades. Além disso, deve compreender as transformações que ocorreram nas estruturas familiares, entendendo que todas as formas de constituição familiar devem ser respeitadas. Cumpre salientar que o mediador diferencia-se do terapeuta. O processo da mediação familiar é breve e objetiva solucionar de forma pacífica os problemas dessa natureza, possibilitando uma convivência futura, mesmo depois dos conflitos. A terapia, por sua vez, é mais duradoura e objetiva ocasionar mudanças profundas no comportamento dos familiares. Além disso, o mediador focaliza as discussões no presente e no futuro, enquanto o terapeuta enfoca problemas anteriores ou passados. Como já salientado, os conflitos familiares possuem uma carga emocional que muitas vezes dificulta uma resolução adequada do conflito. Geralmente, as pessoas que chegam a uma sessão de mediação para resolver uma querela familiar, já possuem um

ponto de vista formado, que foi construído ao longo das discussões, e que deve ser defendido a qualquer custo. Assim, quando é facultada a palavra a um dos mediados, esse já possui um discurso pronto, que é proferido de modo contínuo, sem pausas. O outro, por sua vez, também possui seu ponto de vista que é proclamado da mesma forma. O mediador familiar deve proporcionar a desconstrução desses discursos, fazendo com que os parentes consigam restabelecer a comunicação. Nesse processo, o mediador deve permanecer atento, buscando compreender a realidade daquele núcleo familiar. Em muitos conflitos de família, as pessoas comparecem à sessão de mediação apenas para serem ouvidas; elas buscam uma oportunidade de exporem suas mágoas e seus anseios. Na prática, é comum mulheres falarem que querem a separação a todo custo e, após desabafarem, voltarem para a companhia do marido.
(...) Cabe ao mediador entender o que se passa na família e qual o lugar queocupam os indivíduos, sobretudo as crianças, fazendo o exame do sistemafamiliar, fortalecendo-o para que encontre o caminho da autonomia (...). (ANA CÉLIA ROLAND GUEDES PINTO).

Cumpre ressaltar que a mediação não se destina somente a restabelecer relações rompidas, evitando separações. Na verdade, também se destina a possibilitar aos familiares o enfrentamento dessas situações de forma adequada, em outras palavras, a mediação possibilita o crescimento a partir da boa administração dos conflitos. Desta feita, o mediador deve sempre frisar a capacidade que os familiares possuem de resolver seus conflitos, salientando que os efeitos da sessão de mediação devem contribuir para a reorganização e manutenção das relações parentais. Ao salientar tal capacidade o mediador também deve utilizar palavras que sirvam para aumentar a auto-estima dos mediados. Geralmente, nos conflitos familiares, as pessoas ingressam no processo de mediação depressiva e desanimada, tendendo para a autodestruição. Para uma mediação ser bem sucedida, é necessário que o mediador conquiste a confiança das partes, principalmente em relação aos conflitos familiares. Isto porque as pessoas precisam sentir-se confortáveis e confiantes para exporem suas intimidades: traições, desilusões, amor não correspondido, abusos físicos e mentais etc. Para tanto, o mediador precisa esclarecer o princípio da confidencialidade, informando que as

intimidades da família não serão expostas. Principalmente na mediação familiar, o mediador precisa permanecer atento às suas próprias emoções, no sentido de conservar sua imparcialidade. Desafiadora é a função deste profissional, uma vez que, mesmo se tratando das sensíveis questões de família, deve controlar seus instintos, não deixando transparecer suas opiniões préestabelecidas a respeito deste delicado tema. Assim, para uma eficaz mediação familiar, o mediador precisa compreender o dinamismo das relações dessa natureza. Nos casos de separações e divórcios, é aconselhável que os mediadores incentivem primeiramente as soluções pertinentes às questões patrimoniais - divisão dos bens. Quando envolvem filhos, o mediador deve sempre ressaltar a importância da coparentalidade e da solidariedade para que sejam resolvidas as disputas sobre: guarda, regime de visitas, pensão alimentícia. Nesse processo, o mediador utiliza-se de perguntas abertas, que auxiliam na conscientização dos mediados, tais como: você acha que essa quantia é necessária para a manutenção de seus filhos? O que você acha que pode ser feito para amenizar o sofrimento? O que você sentiria caso estivesse no lugar de seu parceiro? Etc. Em todo o procedimento é necessário que o mediador permaneça atento para averiguar se a mediação realmente é o instrumento mais adequado à solução daquele conflito familiar. Quando houver desinteresse do casal em resolver o conflito ou quando não existem a boa-fé e o equilíbrio entre as partes, o mediador deve encerrar a sessão. Outra situação que exige o término do processo configura-se quando há violência conjugal, muitas vezes influenciada por sentimentos de vingança. Em suma, a cartilha sobre mediação familiar utilizada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (no. 23) aponta como papel do mediador familiar: - Estabelecer sua credibilidade como uma terceira pessoa imparcial e explicar o processo e as etapas da mediação; - Acompanhar os pais na busca de um entendimento satisfatório a ambos, visando aos interesses comuns e de seus filhos; - Favorecer uma atitude de cooperação, inibindo a confrontação freqüentemente utilizada pelo sistema tradicional; - Encorajar a manutenção de contato entre pais e filhos; - Equilibrar o poder entre os cônjuges favorecendo a troca de informações; - Facilitar as negociações. Diante do exposto, para atuar nos conflitos familiares, o mediador precisa estar

constantemente capacitado, tendo em vista a complexidade dos problemas dessa natureza.

Capítulo 2
A Família conforme representada nas sociedades ocidentais contemporâneas.

5.1. Histórico da representação célula mater. O conceito de família tem passado por processos contínuos de redefinições nas várias áreas onde o estudo deste conceito é necessário. Entre os cientistas sociais prevalece a convicção de que essa noção, para ter lastro com a coerência interna com a lógica própria a esta área do conhecimento, dever ser sempre usada no plural. Também

foi decisiva a contribuição da Antropologia para a compreensão deste conceito, centrado em três linhas de pesquisa: universalidade e particularidade nos estudos da família; problemas envolvidos no estudo do parentesco e das relações entre gerações; a oposição entre público e privado e os significados da família e do casamento nas sociedades ocidentais contemporâneas. Outra referência marcante é o estudo empreendido por Engels sobre a formação histórica da família vinculando ao método dialético de compreender o desenvolvimento histórico:
A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (em alemão:Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staats) é uma obra de Engels, a qual, por influência do marxismo (Karl Marx companheiro de lutas e estudo e grande amigo), resgata desde o início dos tempos a análise materialista do desenvolvimento da civilização. A obra constitui-se em um estudo aprofundado baseado nas descobertas de campo de Lewis Henry Morgan e em seu livro A sociadade Antigua(Ancient Society) sobre a gens dos indígenas norteamericanos da nação iroquesa que foi adotados pelos (senecas). que ainda era infuênciado totalmente pelo evolucionismo.em seu livro Morgan A sociadade Antiga (Ancient Society) sobre a gens dos indígenas norte-americanos da nação iroquesa que foi adotados pelos (senecas). O livro também demonstra a passagem do matriarcalismo ou comunismo primitivo ao patriarcalismo correlacionando ao início da propriedade privada que por sua vez se correlaciona com o início do Estado.1

A evolução da família e do conceito da instituição família ao longo da história tem-se revestido de características específicas. No Séc. II, o conceito de família vinculava-se à ordem legal e patrimonial. A família transmitia-se por herança e a este termo estava referido um forte conceito patrimonial, ou seja, a família era mais vista no sentido de propriedade e sucessão de propriedade material do que era vista no sentido das pessoas (seres humanos livres e escravos / servos) de que ela se constituía; bastante distante dos conceitos que posteriormente irá adquirir, sobremodo do conceito corrente. Com a queda do Império Romano (Séc. V), são introduzidas de formas de direito típicas dos povos bárbaros chamadas de direito costumeiro bárbaro conjuntamente com resquícios de direito romano. Este conjunto conceitual que posteriormente fica depositado na Instituição Igreja que lhe aplica concepções cristãs; codificação de que somos donatários. O conceito de família é então, como os que se referem a outras instituições, uma construção histórica. Os antropólogos nos ajudaram a perceber que sobre o ''familiar'' o “natural” repousa um emaranhado de relações históricas, que apesar de complexas, são socialmente estabelecidas (BILAC, 2000). Durante a segunda metade do século XIX e
1 Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Origem_da_Fam%C3%ADlia %2C_da_Propriedade_Privada_e_do_Estado; acesso em 07/06/08.

princípios do século XX, os antropólogos trabalharam sob a influência do evolucionismo darwinista. Organizaram seus dados de maneira a que as instituições de outros grupos sociais correspondessem a um estágio primitivo da evolução da humanidade, ficando nossas próprias instituições relacionadas com as formas mais avançadas ou desenvolvidas, fruto ou efeito do etnocentrismo que mais tarde, como num trajeto corretivo, se utilizaram para a redefinição de suas abordagens teóricas e os conceitos que delas decorrem.
Etnocentrismo é uma atitude na qual a visão ou avaliação de um grupo social sempre seria baseada nos valores adotados pelo seu grupo, como referência, como padrão preconceituoso. Basicamente, encontramos em tal posicionamento um grupo étnico considerar-se como superior a outro. Não existem grupos superiores ou inferiores, mas grupos diferentes. Um grupo pode ter menor desenvolvimento tecnológico (como, por exemplo, os habitantes anteriores aos europeus que residiam nas Américas, na África e na Oceania) se comparado a outro mas, possivelmente, é mais adaptado a determinado ambiente, além de não possuir diversos problemas que esse grupo "superior" possui. A tendência do homem nas sociedades é de repudiar ou negar tudo que lhe é diferente ou não está de acordo com suas tendências, costume e hábitos. Na civilização grega, o bárbaro, era o que "transgredia" toda a lei e costumes da época; este termo é, portanto, etimologicamente semelhante ao selvagem na sociedade ocidental. Incluem-se aqui as pessoas que observam as outras culturas em função da sua propria cultura, tomando-a como padrão para valorizar e hierarquizar as restantes. Daí resulta incompreensão em relação aos aspectos das outras culturas, incluindo sua raça com centralização. Uma cultura com ideia de superioridade a outra. É uma visão do mundo onde o “nosso grupo” é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos próprios valores e nossas definições do que é existência. No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc. O etnocentrismo é a procura de sabermos os mecanismos, as formas, os caminhos e as razões pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções, pensamentos, imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. De um lado, conhecemos um grupo do “eu”, o “nosso” grupo, que come igual, veste igual, gosta de coisas parecidas, ou seja, um reflexo de nós. Depois, então, nos deparamos com um grupo diferente, o grupo do “outro”, que às vezes, nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. E, mais grave ainda, este “outro” também sobrevive à sua maneira, gosta dela, também está no mundo e ainda que diferente, também existe. O grupo do “outro” fica como sendo engraçado, absurdo, anormal ou ininteligível. E a sociedade do “eu” é a melhor, a superior. O “outro” é o “aquém ou o além, nunca o “igual” ao “eu”“. Privilegiamos ambos as funções estéticas, ornamentais, decorativas de objetos que, na cultura do “outro” desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. O etnocentrismo passa por um julgamento de valor de cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. 2

Existem duas maneiras de interpretar essa preeminência da família em ambos os
2

http://pt.shvoong.com/books/1706507-que-%C3%A9-etnocentrismo/ .

extremos da escala de desenvolvimento das sociedades humanas. Alguns autores sustentam que os povos mais antigos podem ser considerados um remanescente daquilo que poderia definir como "idade áurea", anterior à submissão do homem às agruras e perversidades da civilização: assim, o homem teria conhecido nesse “estado primitivo” a felicidade da família monogâmica para perdê-la até seu mais recente redescobrimento cristão, (BERQUÓ, 1995, p.309). Se for possível manter a identidade legal, econômica e sentimental da família, mesmo em um esquema poligínico ou poliândrico, não é tão certo que o mesmo ocorra quando a poliandria coexiste com a poligamia. Aproximamo-nos do chamado "casamento em grupo" ao considerarmos a evolução dos todas, no século XIX. Eles possuíam originalmente um sistema poliândrico, tornando possível por meio do infanticídio feminino. Quando essa prática foi proibida pela administração britânica, restaurando assim a proporção natural entre os sexos, todos continuaram a praticar a poliandria, mas agora, em vez de vários irmãos compartilharem uma esposa, tornou-se possível desposarem várias. Assim, pois, começa-se a ver por que o problema da família não deve ser encarado de uma maneira dogmática. Alias, esta é uma das questões mais ilusórias de todo o campo da organização social. Entre as chamadas sociedades poligâmicas existe sem dúvida um número considerável que automaticamente o são: outras, porém, estabeleceram acentuada diferença entre a "primeira" esposa, a qual é a única verdadeira, investida de todos os direitos ligados ao estado matrimonial, e as demais, que às vezes pouco mais são que todo matrimonial, e as demais, que às vezes pouco mais são que concubinas oficiais. Nas sociedades modernas, razões de ordem econômica, moral e religiosa oficializaram o casamento monogâmico (regra esta, na prática, é violada de maneiras diversas, como a liberdade pré-nupcial, a prostituição e o adultério). Existindo vários tipos diferentes de casamento a serem observados nas sociedades humanas, quer monogâmicos, quer poligâmicos, o fato digno de nota é que, em toda parte, existe uma distinção entre o casamento, isto é, um vínculo legal e aprovado pelo grupo entre um homem e uma mulher, e o tipo de união, permanente ou temporária, que resulta da violência ou do simples consentimento.
A forma de organização da família é um elemento relevante no modo como ela conduz o processo de socialização dos imaturos, transmitindo-lhes valores, normas e modelos de conduta e orientandonos no sentido de tornarem-se sujeitos de direitos e deveres no universo doméstico e no domínio público. (ROMANELLI, 1995, p.74)

A diversidade na composição da instituição doméstica e em suas relações internas não elimina, entretanto, o predomínio da família nuclear, constituída por marido, esposa e filhos, biológicos ou adotivos. No entanto, a importância da família nuclear não reside apenas no fato de ela ser arranjo estaticamente preponderante, mas resulta do significado simbólico de que foi revestida, convertendo-a em modelo hegemônico, isto é, em referencial e em ideal de ordenação da vida doméstica para

a grande maioria da população. Como grupo de convivência, a unidade doméstica é, na prática, elemento mediador essencial para disciplinar e orientar as possibilidades de concretização de aspirações e interesses individuais, dentro e fora da própria instituição. Mas não se deve esquecer que a essa instituição é atribuído o papel de atuar como instrumento disseminador das representações que sustentam, em última instância, uma estrutura social, segundo uma linha de pesquisa da qual Luis Althusser é representante através do conceito de Aparelho Ideológico do Estado:
Na verdade, os clássicos do marxismo, em sua prática política, trataram do Estado como uma realidade mais complexa do que a definição da teoria marxista do Estado; porém, não a exprimiram numa teoria correspondente. Gramsi também o fez: para ele, o Estado não se resumia ao Aparelho (repressivo) de Estado, compreendendo também um certo número de instituições da sociedade civil. Entretanto, Gramsi não sistematizou suas intuições, que permaneceram no estado de anotações. Na teoria marxista, o Aparelho (repressivo) de Estado compreende o governo, a administração, o exército, a polícia, os tribunais, a prisões, etc. Repressivo porque o Aparelho de Estado em questão funciona através da violência (física ou não, como a violência administrativa), pelo menos em situações limite. Os Aparelhos Ideológicos de Estado designam realidades que se apresentam na forma de instituições distintas e especializadas Embora diferente, constantemente combinam suas forças. Apesar de sua aparência dispersa, os Aparelhos Ideológicos de Estado funcionam todos predominantemente através da ideologia, que é unificada sob a ideologia da classe dominante. Então, além de deter o poder do Estado e, conseqüentemente, dispor do Aparelho (repressivo) de Estado, a classe dominante também é ativa nos Aparelhos Ideológicos de Estado. De fato, nenhuma classe pode, de forma duradoura, deter o poder do Estado sem exercer sua hegemonia sobre e nos Aparelhos Ideológicos de Estado simultaneamente. Comprovando sua afirmação, Althusser alerta para a preocupação de Lênin em revolucionar, entre outros, o Aparelho Ideológico de Estado escolar, de modo a permitir ao proletariado soviético que se apropriara do poder garantir o próprio futuro da ditadura do proletariado e a passagem para o socialismo. A partir dessa afirmação, pode-se concluir que os Aparelhos Ideológicos de Estado são meios e também lugar da luta de classes, pois neles a classe no poder não dita tão facilmente a lei quanto no Aparelho (repressivo) de Estado e também porque a resistência das classes exploradas pode neles encontrar formas de se expressar. Assim, de forma bastante resumida, distingue-se o poder de Estado do Aparelho de Estado, o qual compreende dois corpos: o corpo das instituições que constituem o Aparelho Repressivo do Estado e o corpo das instituições que representam a unidade dos Aparelhos Ideológicos de Estado. Atualmente, todo Aparelho Ideológico de Estado concorre – cada um da maneira que lhe é própria – para um mesmo fim, que é a reprodução das relações de produção, isto é, das relações de exploração capitalista.3

Mesmo após revisado tal conceito a luz da complexidade das relações sociais, neste caso, é, a partir dele, procedente considerar a família como uma das instituições fundamentais da sociedade, no sentido de que ela é a instituição primeira pela qual o indivíduo se faz sujeito, onde a humanização se dá, onde ocorre a socialização. Neste sentido, o sociólogo francês Pierre Bourdieu, pode contribuir para esta
3 Disponível em

http://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Althusser#Os_Aparelhos_Ideol.C3.B3gicos_de_E stado; acessado em 20/05/08.

pesquisa quando associa o conceito de socialização ao de violência simbólica:
Bourdieu, permitindo ter seu pensamento rotulado, adota como nomenclatura o construtivismo estruturalista ou estruturalismo construtivista. Esta postura consiste em admitir que existe no mundo social estruturas objetivas que podem dirigir, ou melhor, coagir a ação e a representação dos indivíduos, dos chamados agentes. No entanto, tais estruturas são construídas socialmente assim como os esquemas de ação e pensamento, chamados por Bourdieu de habitus. Bourdieu tenta fugir da dicotomia subjetivismo/objetivismo dentro das ciências humanas. Rejeita tanto trabalhar no âmbito do fisicalismo, considerando o social enquanto fatos objetivos, como no do psicologismo, o que seria a "explicação das explicações". O momento objetivo e subjetivo das relações sociais estão numa relação dialética. Existem realmente as estruturas objetivas que coagem as representações e ações dos agentes, mas estes, por sua vez, na sua cotidianidade, podem transformar ou conservar tais estruturas, ou almejar a tanto. A verdade da interação nunca está totalmente expressa na maneira como ela se nos aprensenta imediatamente. Uma das mais importantes questões na obra de Bourdieu se centraliza na análise de como os agentes incorporam a estrutura social, ao mesmo tempo que a produzem, legitimam e reproduzem. Neste sentido se pode afirmar que ele dialoga com o Estruturalismo, ao mesmo tempo que pensa em que espécie de autonomia os agentes detêm. Bourdieu, então, se propõe a superar tanto o objetivismo estruturalista quanto o subjetivismo interacionista (fenomenológico, semiótico)4.

E é neste contexto que este sociólogo elabora o conceito de violência simbólica:
Conceito elaborado pelo sociólogo Pierre Bourdieu. Forma invisível de coação que se apóia, muitas vezes, em crenças e preconceitos coletivos. A violência simbólica se funda na fabricação contínua de crenças no processo de socialização, que induzem o indivíduo a se enxergar e a avaliar o mundo seguindo critérios e padrões do discurso dominante. Socialização é a assimilação de hábitos características do seu grupo social, todo o processo através do qual um indivíduo se torna membro funcional de uma comunidade, assimilando a cultura que lhe é própria. É um processo contínuo que nunca se dá por terminado, realizando-se através da comunicação, sendo inicialmente pela "imitação" para se tornar mais sociavél. O processo de socialização inicia-se contudo, após o nascimento, e através, primeiramente, da família ou outros agentes próximos, da escola, dos meios de comunicação de massas e dos grupos de referência que são compostos pelas nossas bandas favoritas, actores, atletas, super-heróis, etc. Socialização é o processo através do qual o indivíduo se integra no grupo em que nasceu adquirindo os seus hábitos e valores característicos.É através da Socialização que o indivíduo pode desenvolver a sua personalidade e ser admitido na sociedade.A socialização é, portanto, um processo fundamental não apenas para a integração do indivíduo na sua sociedade, mas também, para a continuidade dos Sistemas Sociais. É o processo de integração do indivíduo numa sociedade, apropriando comportamentos e atitudes, modelando-os por valores, crenças, normas dessa mesma culturas em que o indivíduo se insere. a) Socialização Primária: ocorre na infância e na adolescência, e durante este período o indivíduo adquire competências sociais básicas; b) Socialização Secundária: ocorre na vida adulta sempre que ocorre um processo de adaptação a novas situações.5

4 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Bourdieu ; acesso em 26/05/08. 5 Ibiden.

Para Bourdieu a socialização tem lugar privilegiado na família. E é aqui que se estabelece o nó entre família e escola: não se podem desprezar a força da herança familiar e suas implicações escolares. Como sabemos, o sucesso ou fracasso de um aluno em sala de aula, em grande medida, não está nas mãos do professor, uma vez que recai sobre o valor que a família do aluno atribui ao processo educativo escolar e a capacidade dessa mesma família em contribuir para sua formação escolar. Ao menos em hipótese, podemos indicar que a escola e família atuam como agentes promotores da reprodução da estrutura social. Neste sentido, atuam também desta forma como agentes de mediação das representações da violência6.

Quanto aos índices estatísticos, segundo Berquió, (BERQUIÓ, 1995, pp.413414) pode-se deduzir que o comportamento matrimonial dos brasileiros nas últimas décadas alterou-se em alguns aspectos, mantendo-se em outros. Aumentou o número de separações e divórcios, conservou-se o da média das idades ao casar, e o papel das uniões não legalizadas cresceu na preferência das pessoas. Com bases nos censos brasileiros, a composição da população por estado conjugal nos últimos cinqüenta anos revela que a maior parte da população de quinze anos ou mais se declara casada, legalmente ou não, vindo em seguida os solteiros. Enquanto a proporção de casados apresentou tendência média ascendente entre 1940 e 1991, caiu a de solteiros, que passou de 40,8% a 31,8% no mesmo período. Em contrapartida, as taxas brutas de separações judiciais, isto é, desquites e divórcios (por mil pessoas) sofTeramalta ao longo do período, atingindo, em 1994, valor quatro vezes maior do que o correspondente em 1979. Acredita-se que o intenso crescimento na primeira metade da década de 80 reflita, em grande medida, a oficialização de separações anteriores à lei n. 6.515, de dezembro de 1977. Uma linha de pesquisa em Psicologia e na teoria do Serviço Social indica que podem existir relações causais entre as separações e problemas no desenvolvimento em época escolar, psicossocial, interferindo diretamente no aprendizado, causando também, além de outros agentes estressores: a raiva, ódio, perda de auto-estima, depressão, distorções no processo de socialização, a agressividade, que acaba conduzindo crianças, adolescentes e jovens a atitudes violentas na escola. Esta abordagem é similar a que vemos nos discursos cotidianos, sobretudo na escola e que nos levam necessariamente á reflexão.
6 Disponível em: http://64.233.169.104/search?

q=cache:PhSx_Epe6YoJ:www.samuelduarte.pro.br/files/educacao.pdf+a+fam %C3%ADlia+segundo+bourdieu&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br; acesso em 26/05/08.

5.2. Valores no século XXI e as mudanças ocasionadas no ambiente familiar. Falar em valores em pleno século XXI está tornando-se um problema, já que a partir da intensificação da globalização ocorrida na década de 90, a sociedade brasileira, assim como a sociedade num todo, sofreu um grande impacto. Primeiro, pela revolução tecnológica, movente da globalização-glocalização. Tais influências assim como as novas modalidades de desequilíbrios sociais e econômicos passaram a repercutir como variáveis causais na estrutura familiar (BILAC, 2000, p.45) A política social no Brasil não tem logrado alterar o quadro de pobreza e exclusão da população brasileira, ao menos na proporção objetivada pelas Políticas Públicas. Ao contrário, observa-se, a cada década a ampliação das taxas de desigualdade social, ao mesmo tempo em que a concentração de renda atinge índices insuportáveis. As características da nossa política social podem ser expressas por algumas de suas ações: a. Marcadamente elitista, privilegiando, preferencialmente, os segmentos minoritários da população já bem aquinhoados, de outro lado, é assistencialista e tutelar quando direcionada aos segmentos empobrecidos da população. b. A política social brasileira reflete uma cultura enraizada historicamente no Estado e na sociedade que legitima o autoritarismo, a tutela dos dominantes e a subalternidade dos dominados. (CARVALHO; 1995, pp.12-13) A crescente interdependência causada pela globalização da economia e os conseqüentes ajustes econômicos ocorridos nos últimos dez anos conforme apresentado acima, têm colocado a família brasileira em acelerado processo de empobrecimento, alterando profundamente sua estrutura, seus sistemas de relações, papéis e formas de reprodução social. Levando-se em consideração as características da estrutura familiar e as condições de ocupação dos seus membros, podem ser identificadas algumas das fronteiras que se estabelecem entre a pobreza e a miséria, haja vista que a inserção no mercado de trabalho é crucial para a obtenção de renda e garantia de direitos sociais, elementos essenciais para a satisfação das necessidades básicas para a sobrevivência. As condições vigentes de trabalho, tendo como eixo a inserção diferenciada de homens, mulheres, jovens e crianças em cada um dos momentos de vida familiar, associada ao conhecimento das estratégias que a família articula para superar o quadro de pauperismo potencial no mercado de trabalho, podem fornecer indicações suficientes para construir a heterogeneidade das situações de pobreza. As chances de escapar da pobreza ou miséria são diferentes e desiguais conforme situações familiares, tais como o número de seus provedores, o modo como se inserem no mercado de trabalho e as possibilidades de cada um em função de suas características de sexo e de lugar na hierarquia familiar. A instabilidade no trabalho, inscrita no desemprego, na mudança sucessiva de emprego ou mesmo no trabalho desqualificado, precarizado e com baixos salários, determina para a família uma situação em que, para escapar do pauperismo, pelo menos

mais de um de seus membros deve contribuir com o seu trabalho no sustento da casa. A política social brasileira reflete uma cultura enraizada no Estado e na sociedade que legitima o autoritarismo. Nesse contexto, a pobreza se generaliza e vai criando na sociedade uma população voltada para o consumo de massa pobre e desigual cujo impacto sobre a família e sobre crianças e jovens ainda está por ser avaliado corretamente. O grupo familiar maximiza as chances de garantir a sobrevivência dos membros que possuem baixos rendimentos, mesmo que em conjunto a renda per capita tenha seu valor reduzido. Um fator que chama muita atenção neste novo século é a ausência de privacidade no seio familiar, a promiscuidade da co-habitação, e a liberdade gerada dentro dos lares causados pelos incentivos dos canais de informações, e a ausência dos pais no acompanhamento de seus filhos, já que a maioria leva horas fora de casa devido ao trabalho. Atualmente, crianças (em termos de creche e pré-escola), e adolescentes (em diversos cursinhos, ginásticas, etc.) ficam horas nas escolas (em termos de creche) e outras são acompanhados por prestadores de serviços, que em sua maior parte também fazem parte de um quadro de vida voltado para a pobreza, e com sérias desigualdades sociais. De acordo com Bilac (2000) as condições do cotidiano enfatizam os altos índices de maus-tratos, tanto dos pais como dos prestadores de serviços provocados nas crianças, que por sua vez são produzidos pela família. Sem dúvida é possível constatar que a família tem sido uma ilustre desconhecida nas diretrizes e programas propostos pelas políticas sociais, que não criam condições que propiciem educação de melhor qualidade. 5.3. A importância da participação familiar no desenvolvimento da criança e do adolescente em fase escolar. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente lei n°. 8.069, de 13 de julho de 1990 (p.ll) diz que: I. De acordo com o art. 2°. Considera-se criança, para efeitos desta lei a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre doze e dezoito anos de idade. II. Art. 3°. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta lei assegurando-se lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e finalidades, afim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. III. Art. 4°. É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao 1azer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar comunitária. IV. Art. 5°. Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação. Exploração, violência, crueldade, opressão, punido

na forma da lei qualquer atentado, por ação, omissão, aos seus direitos fundamentais. Segundo Lopes (2003, p.15), a infância e a adolescência são períodos de fundamental importância na vida e formação do ser humano. Além do desenvolvimento físico e mental que habitualmente são referidos, não podem ser ignoradas as conquistas e experiências que transcorrem nessas fases e que são fundamentais no processo de construção da identidade e das características essenciais para um convívio social e sadio. Quando na escola, a maioria já adota atitudes que demonstram que os ensinamentos familiares foram realmente apreendidos e absorvidos, torna-se mais fácil o processo de interação entre escola-família-criança. Para esses jovens, a escola representa a sua segunda chance para conquistar sua identidade e a habilidade em saber dividir o espaço escolar entre todos, sem que nenhum deles perca o quinhão a que tem direito. O comportamento violento que tanto nos preocupa e atemoriza, resulta, portanto, da interação entre o desenvolvimento individual e os contextos sociais, como a família, a escola e a comunidade. O termo "violência na escola" em seu sentido amplo, diz respeito a todos os comportamentos agressivos e anti-sociais que ocorrem em ambientes relacionados à escola, incluindo os conflitos interpessoais (aluno-professoraluno). De toda forma, sejam os atos agressivos derivados de influências familiares e/ou das comunidades, ou originadas dentro da escola, importa aqui ressaltarmos que como agentes de mediação estas instituições podem influir na reprodução e, mais importante, na transformação.

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