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RIPARDO.Língua portuguesa e matemática-reduzindo a um denominador comun (TCC)

RIPARDO.Língua portuguesa e matemática-reduzindo a um denominador comun (TCC)

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Referências para citação.
RIPARDO, R. B. Lingua portuguesa e matemática: reduzindo a um denominador comum. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Letras) - Faculdade de Letras, Universidade Federal do Pará, Altamira, 2006.
Referências para citação.
RIPARDO, R. B. Lingua portuguesa e matemática: reduzindo a um denominador comum. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Letras) - Faculdade de Letras, Universidade Federal do Pará, Altamira, 2006.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE ALTAMIRA CENTRO DE ARTES E LITERATURAS VERNÁCULAS COLEGIADO DE LETRAS

LÍNGUA PORTUGUESA E MATEMÁTICA: reduzindo a um denominador comum

UFPA ALTAMIRA – PARÁ 2006

RONALDO BARROS RIPARDO

LÍNGUA PORTUGUESA E MATEMÁTICA: reduzindo a um denominador comum

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Colegiado de Letras da Universidade Federal do Pará, Campus de Altamira, como requisito para obtenção do grau de Licenciado Pleno em Letras, orientado pelo Prof. Adelson Luis Bayma.

ALTAMIRA – PARÁ 2005

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE ALTAMIRA CENTRO DE ARTES E LITERATURAS VERNÁCULAS COLEGIADO DE LETRAS

RONALDO BARROS RIPARDO

LÍNGUA PORTUGUESA E MATEMÁTICA: reduzindo a um denominador comum

PARECER: ________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________

________________________________ Prof. Adelson Luis Bayma. Conceito: _____________________

Data de aprovação: ______/______/_______

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho a meus pais, Felisardo e Ascenpção, que são para mim matéria-prima constante de exemplos em respeito, sabedoria e dignidade.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus Pai, por me abençoar com saúde e perseverança na busca de meus objetivos. Por me conceder serenidade e sabedoria para agir nos momentos mais conflituosos e difíceis de minha vida. Por me premiar com uma família tão família em minha existência. Por me permitir conviver com amigos de verdade. Por me deixar relutar diante das incertezas. Por me dar coragem para sempre seguir em frente, mesmo diante das dificuldades. Por tudo isso, sou grato.

À minha irmã Cristina, pelo exemplo de força e determinação e pelo apoio nas horas em que mais precisei.

Ao meu cunhado Vilmar, por me garantir condições, sendo paciente e amigo, para que buscasse a minha realização pessoal e profissional.

À minha irmã Vera, confidente e cúmplice nas incertezas deste trabalho e exemplo vivo de que “Quem é brasileiro não desiste nunca”.

À minha querida prima Kátia, companheira de todas as horas.

Às minhas amigas do peito, mães, vizinhas e irmãs, Silene e Maria Natividade, por serem presença afetiva e amiga quando minha família e amigos estavam e quando não estavam presentes fisicamente ao meu lado.

Aos colegas do curso de Letras e do curso de Matemática, pelos momentos felizes e tristes por que passamos e pelas horas de companheirismo durante nossa jornada acadêmica.

À Universidade Federal do Pará – Campus de Altamira e à Universidade do Estado do Pará – Núcleo de Altamira, por terem propiciado a continuidade de minha formação acadêmica e profissional.

A todos que de uma ou outra forma contribuíram para a realização deste trabalho e para a conclusão dos meus cursos de graduação.

(...) a separação entre as “letras” e a matemática parece refletir uma dualidade inerente à realidade humana, e sua colocação em questão, desde que não seja somente o objeto de discussões acadêmicas e, por assim dizer, intraliterárias, desde que ela toma corpo numa prática efetiva, tem o efeito de uma violação de tabus.

Ducrot

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO................................................................................................................. I. QUESTÕES SOBRE LINGUAGEM ......................................................................... 1.1. Uma questão de linguagem ......................................................................................... 1.2. Caminhos para pensamento matemático...................................................................... 1.3. A influência do pensamento grego para a Matemática e para a Língua Portuguesa.... II: SISTEMAS DE REPRESENTAÇÃO........................................................................ 2.1. Língua e signo lingüístico............................................................................................ 2.1.1. A gramática .............................................................................................................. 2.1.2. Gramática da língua ................................................................................................. 2.2. A Língua Portuguesa ................................................................................................... 2.3. Linguagem matemática ............................................................................................... 2.3.1. Gramática da linguagem matemática ....................................................................... 2.5. O que é a Matemática .................................................................................................. III. A PRODUÇÃO DE SIGNIFICADOS NA LÍNGUA PORTUGUESA E NA MATEMÁTICA ............................................................................................................... 3.1. Interseção lingüística.................................................................................................... 3.2. A simbiose Língua Portuguesa & Matemática ............................................................ 3.3. O denominador comum ...............................................................................................

11 15 15 18 22 26 26 29 30 32 34 37 40

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46 50 58

CONSIDERAÇÕES FINAIS ..........................................................................................

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...........................................................................

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Triângulo retângulo........................................................................................... Figura 2: Repetição de uma regra simples de reprodução ................................................ Figura 3: Lilás eletrônico .................................................................................................. Figura 4: Funcionamento dos signos ................................................................................ Figura 5: Piadinhas do Donald .......................................................................................... Figura 6: Receita para preparar um suco artificial ............................................................ Figura 7: Capa de um panfleto publicitário ...................................................................... Figura 8: Parte interna de um panfleto publicitário ..........................................................

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RESUMO

O ser humano possui características físico-biológicas que o torna apto para a linguagem. Essa aptidão é endógena à estrutura do cérebro. A não ser que por má formação ou em caso de haver danos físicos a ele, todo ser humano é capaz de falar uma língua. Essa mesma capacidade é a que necessita-se para lidar com o conhecimento matemático. Pensar simbolicamente propiciou para construção do arcabouço cultural de conhecimentos matemáticos que dispõe-se atualmente. Sendo a língua e a Matemática frutos da mesma faculdade humana é natural, pois, que elas guardam semelhanças entre si. Essa proximidade existe nas funções que desempenham, são sistemas de representação da realidade. Nessa representação utilizam-se de signos para mapear nosso espaço. Em cada uma esses signos estão organizados em uma gramática específica, embora os signos formais guardem estreita relação de dependência para com a língua, visto que não possuem autonomia em termos de oralidade. No desenrolar de suas funções Língua Portuguesa e Matemática recorrem uma a outra, seja na simples fala corriqueira das pessoas, seja na composição mais elaborada de uma mensagem. Em ambos os casos revelam-se essenciais para as nossas vidas, o que imprime no cidadão a necessidade de conhecê-las muito mais que ao nível da trivialidade. Essa função é buscada pela escola, que nem sempre consegue cumprí-la. Prova disso são os altos índices de repetência e evasão escolar, caracterizando elevadas taxas de analfabetismo funcional, até mesmo entre alunos, e a aversão ao ensino das disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. Reconhecer as relações de interdependência entre ambas, portanto, é criar possibilidades para que o cidadão possa fazer usos sociais da leitura e da escrita e exercer a cidadania.

INTRODUÇÃO É crescente em nossa sociedade, a cada dia que passa, a necessidade de uso da leitura e da escrita. Tais conhecimentos de leitura e de escrita apresentam-se como indispensáveis não só àqueles que não desejam ficar no apertado gargalo das largas estatísticas de analfabetismo, mas também para aqueles que buscam diminuir as possibilidades de sucumbirem às mazelas sociais que podem vir com a ausência dessas habilidades.

Face a estas demandas a escola tem se mostrado como local a oferecer tais condições de acesso à leitura e à escrita, entendidas, ou confundidas, como alfabetização. Porém, a busca e o acesso a este saber institucionalizado não tem possibilitado literalmente às pessoas fazerem uma leitura dos conhecimentos e das informações veiculadas à sua volta, tampouco interagirem com eles utilizando-se das atividades de escrita. Pode-se constatar que os mecanismos criados pela instituição escolar para alcançar este fim tem tido pouco ou quase nenhum êxito. A alfabetização, logicamente, tem se mostrado como caminho a ser perseguido para a formação do sujeito crítico, no entanto, saltam aos olhos a dificuldade e a ineficiência que a escola tem encontrado na tentativa de promover esta alfabetização. Além dos problemas internos enfrentados com o ensino, fatores de ordem social, cultural e econômico condicionam o sucesso e/ou o insucesso deste modelo de educação.

Muitas pessoas escolarizadas não conseguem mobilizar habilidades de leitura e escrita mais complexas do que ler e escrever simples bilhetes no desempenho de suas atividades pessoais e sociais. Deveriam fazer usos da leitura e da escrita frente às necessidades de seu contexto social e delas tirarem proveito para se lançar no desenvolvimento e no conhecimento ao longo da vida, competências necessárias à alfabetização. Neste sentido, outros termos têm sido utilizados para designar essas habilidades. Termos como letramento e alfabetização funcional referem-se às habilidades do cidadão em fazer uso da escrita como sistema simbólico para contemplar necessidades sociais específicas e em contextos específicos, ou seja, práticas sociais de leitura e escrita. Todavia, o emprego de uma ou outra terminologia não pode ofuscar o objetivo da escola no ensino da escrita e da leitura, que seria fazer o aluno
“(...) dominar a escrita para resolver questões práticas, ter acesso à informação e às formas superiores de pensamento e desfrutar a literatura. Além dos

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usos sociais da escrita, os alunos também deveriam chegar a dominar os usos sociais das distintas formas notacionais que se utilizam em nossa sociedade: gráficos, esquemas e ícones convencionais”. (TEBEROSKY & TOLCHINSKY, 2003: 07)

Consoante com a discussão sobre a alfabetização e/ou letramento as autoras chamam a atenção para um outro aspecto desse processo. No campo de ensino da leitura e da escrita não cabe enfatizar somente o sistema de escrita alfabético, próprio das línguas maternas; mas também outros sistemas de escrita notacionais formais próprios da Matemática.

O nível de complexidade que os sistemas de comunicação alcançaram se reflete na maneira como o conhecimento é neles veiculado. Num mundo em que é posto em relevo a necessidade de economia, desde o dinheiro ao tempo, as informações são repletas de esquemas de representação, principalmente visuais, como gráficos, tabelas etc. O uso dos sistemas formais são extremamente favoráveis, não só por atenderem a esse propósito, mas por também solidificarem bases para a construção do conhecimento e de relações sociais intrínsecas com o uso da língua, sejam eles escritos ou falados.

A relação tão natural entre a Língua Portuguesa e a Matemática deveria ser normal aos olhos de quem participa do processo de alfabetização. Entretanto, a Matemática e a Língua Portuguesa são vistas como uma mistura heterogênia. O aluno que sabe Matemática não “domina” Língua Portuguesa, e vice-versa. Ou então, comentários do tipo “A Matemática é chata” ou “Não consigo aprender o Português” refletem essa visão dicotômica.

Essa concepção, porém, é detectada quase sempre em pessoas que tiveram contato com uma educação formal, ou seja, com o conhecimento veiculado nas instituições escolares. Uma questão simples, no entanto, curiosa, é que antes de entrarem na escola não se faz nítido na cabeça das pessoas uma linha divisória entre o Português e a Matemática. Usam-se esses conhecimentos de forma natural, sem dissociações.

Com a alfabetização o aluno deveria entrar em níveis mais profundos dos conhecimentos matemáticos e dos usos da língua, possibilitados pelo contato com os sistemas de escrita. Contudo, ou ambas são tolhidas, ou pouco se avança em direção a conhecimentos mais sistematizados, implicando quase sempre em altos índices de evasão escolar e em baixas taxas de alfabetismo. Poucas vezes ocorre o contrário.

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O Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional – INAF3, em suas últimas pesquisas, anos de 2004 e 2005, revelou que apenas 2% da população brasileira é analfabeta em Matemática, ou seja, não conseguem dominar habilidades matemática mais simples como ler o preço de um produto ou anotar um número de telefone ditado por alguém; e 7% é analfabeta em leitura e escrita. Apesar de não serem tão altas essas taxas, apenas 23% atingem o nível pleno de alfabetismo em Matemática: habilidades para fazer cálculos proporcionais e para a criação de um algoritmo na resolução de problemas envolvendo várias operações, além de certa familiaridade com gráficos, tabelas etc; e 26% estão no nível pleno de alfabetização em leitura e escrita: conseguem ler textos mais longos, relacionar mais de uma informação, comparar textos, identificar fontes.

Um dado importante revelado pela pesquisa é que à medida que aumenta o nível de escolaridade, aumenta a taxa de alfabetismo em matemática e em leitura e escrita. Dos que estão no nível pleno em Matemática, 55% possuem onze ou mais anos de escolaridade; e dos que são considerados alfabetizados plenos em leitura e escrita 57% possuem o ensino médio completo. Tais estatísticas evidenciam o quão necessário é a educação na formação do sujeito. Vem reforçar a urgência em proporcionar à população oportunidades de acesso à níveis mais profundos de conhecimentos relacionados ao cálculo, à contagem, à ordenação, à orientação, à leitura e à escrita.

Comprovadamente o nível de escolaridade tem influência direta nessa construção. Mas não se pode esquecer que a escola deixa mostras de não ter atendido a esse propósito, pelo menos como deveria. De acordo com o Sistema de Avaliação da Educação Básica SAEB4 / 2003, na região Norte é baixíssimo o índice de alunos que terminam o ensino médio em estágio adequado em Língua Portuguesa e Matemática, cerca de 2% apenas. Em estágio crítico e muito crítico somam-se 51,1% dos estudantes em Língua Portuguesa e 82,1% em Matemática. São dados suficientes para revelarem a deficiência existente no ensino dessas duas disciplinas e que a aversão dos alunos ao ensino de ambas se reflete nesses resultados. É intrigante perceber a contradição existente no ensino dessas disciplinas. Tanto a Matemática quanto a Língua Portuguesa estão presentes no currículo escolar desde os anos iniciais da escolarização e durante toda a educação básica ocupa a maior carga horária dentre

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http://www.ipm.org.br. http://www.inep.gov.br.

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todas as disciplinas. Além do mais os conhecimentos usados com tamanha naturalidade fora do espaço escolar parecem não ter lugar nas atividades escolares.

É razoável concordar com Teberosky & Tolchinsky que é imprescindível ampliar os níveis de conhecimento dos meios notacionais de escrita e leitura desde os anos primários, uma vez que são os problemas com o aprendizado, tanto na Língua Portuguesa quanto na Matemática, que determinam os índices de evasão escolar e as taxas de analfabetismo entre os estudantes e o restante da população brasileira.

A tarefa a que se propõe este trabalho é investigar as relações existentes entre a Língua Portuguesa e a Matemática, partindo da desconfiança de que não há tantas dissemelhanças entre as duas áreas como se é pregado.

No primeiro capítulo discute-se a(s) origem(s) da Matemática e da linguagem procurando delinear em que contextos surgiram ou por quais deles foram favorecidas. Ou seja, é um pequeno passeio pela história da linguagem. Cabe advertir, porém, que as tentativas de remontar as origens tanto da Matemática quanto da linguagem são moldadas em hipóteses cuja aceitabilidade passa pelo crivo de muitas polêmicas. Isto porque coexistem entre os pesquisadores e estudiosos do assunto várias formas de conceber o que primeiramente pode ser entendido como Matemática. Da mesma forma é complexo precisar no tempo e no espaço o surgimento da linguagem face às diversas concepções de linguagem elaboradas pelo homem. Sendo ambas fruto das relações sociais, advém daí a dificuldade em formular uma teoria segura de sua origem, haja vista o desenrolar das práticas sociais em diferentes épocas.

O segundo capítulo vem caracterizar o que é a Língua Portuguesa e o que é a Matemática. Antes de entrar nessa discussão alguns conceitos e noções sobre objetos particulares a cada uma são debatidos, com vistas à facilitar a compreensão do que elas realmente são.

O terceiro capítulo apresenta alguns aspectos em que a Língua Portuguesa e a Matemática são semelhantes, como elas se articulam no desenrolar de suas funções, exemplificando a mescla simbólica existente entre ambas.

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I. QUESTÕES SOBRE LINGUAGEM

“Pertence ao pensamento tudo o que tem de ser estabelecido pela linguagem”. (Aristóteles)

1.1. Uma questão de linguagem

A atividade grupal foi algo que sempre favoreceu o ser humano em suas diversas fases de evolução. Se hoje vivemos em uma sociedade que favorece a individualidade, nas tribos antigas a situação era exatamente o oposto. As conquistas e o nível de complexidade do mundo atual foram impulsionados por ações realizadas em torno da atividade coletiva. Inclusive pode ter sido um fator preponderante na aquisição da linguagem.

Há alguns milhares de anos os antropóides (do qual o homo sapiens é descendente), para resolverem o problema da escassez de alimentos, se aventuraram saindo da floresta para explorarem espaços com vegetação menos densa. Essa alternativa ajudou-os a solucionarem um grave problema que ameaçava a sua sobrevivência, no entanto, criou outro que, do mesmo modo que a falta de alimentos, punha em risco ainda mais a existência desses povos. Se aventurando em espaços mais abertos ficavam mais expostos ao ataque de predadores. De acordo com DEVLIN (2004) a atividade grupal mostrou-se extremamente favorável à sobrevivência daquela espécie, dada à vantagem numérica de um grupo diante de predadores. Aliada a essa convivência em grupo e também como conseqüência de explorarem um novo espaço totalmente diferente do anterior, foram ocorrendo algumas alterações físicas no seu corpo. Ao andarem eretos, apoiando-se somente nos pés, uma mudança drástica ocorreu no sistema vocal desses antropóides, possibilitando-lhes vocalizarem consoantes; ou seja, sons muito mais complexos que os simples grunhidos que evocavam quando andavam com pés e mãos no chão.

Com o passar de alguns milhares de anos essas atividades foram favorecendo a sobrevivência de uma linhagem de hominídeos, a que deu origem ao homo sapiens. Nesse período evolutivo, há cerca de três milhões de anos, o cérebro daquela linha hominídea aumentou significativamente de tamanho. BICKERTON (apud DEVLIN, 2004) entende que

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esse aumento considerável foi estimulado pelo fato desses seres intensificarem suas relações no grupo fazendo uso da protolinguagem. Essa protolinguagem só conseguia correlacionar emoções e atitudes com o mundo exterior em um momento específico, utilizando-se de sons, gestos e expressões faciais. Contudo, eram ineficazes quando precisavam comunicar mensagens com alto teor de complexidade, ou mesmo informações simples fora de um ambiente imediato.

Para DEVLIN (2004) a articulação de sons mais elaborados propiciou a criação de sistemas de comunicação, que eram palavras que, associadas a gestos corporais, expressavam um conteúdo geral, sem conectivos gramaticais, para facilitar as interações no grupo. Denotavam características gerais de objetos e situações concretas. Por isso mesmo não podiam ser considerados uma linguagem. Essa conquista acentuou as suas possibilidades de sobrevivência, estimulando-os a explorarem-no cada vez mais. De maneira inconsciente, é claro.

Em virtude dessa interação grupal mais eficaz aperfeiçoaram seus mecanismos de coleta de alimentos, passaram a planejar melhor suas estratégias de ataque e defesa, a terem uma visão mais detalhada do mundo e a tomarem decisões mais inteligentes que os favoreciam em sua constante luta pela sobrevivência. As experiências adquiridas nessas novas relações com o grupo intensificaram o uso da protolinguagem. O repertório de palavras aumentou significativamente. O mundo tornou-se demasiadamente rico e as informações mais complexas para serem transmitidas por uma protolinguagem. Aumentava a necessidade de modernizarem os sistemas de comunicação que dispunham para representarem internamente situações cotidianas sem necessariamente receberem um estimulo sensório. Ou seja, pensar o mundo virtualmente.

Essas atividades passaram a ser tão intensas, a protolinguagem evoluiu de tal maneira que possibilitou aos nossos ancestrais pensar desconectadamente. O cérebro adquiriu a capacidade de pensar simbolicamente. Não necessitava receber estímulos provenientes da vida cotidiana para pensar sobre o espaço a sua volta, tampouco seus processos mentais geravam respostas físico-motoras, como anteriormente. Já não era mais necessário ver um bicho para se referir a ele. Pronunciando a palavra bicho a imagem do animal se fazia presente na mente deles. Parafraseando DEVLIN (2004), o cérebro tornou-se capaz de pensar

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desconectadamente, ou, simbolicamente. Em poucas palavras, o cérebro mudou sua estrutura estando apto para a linguagem: uma protolinguagem acrescida de uma sintaxe.

Para KRISTEVA (1988: 17) a linguagem “(...) é uma cadeia de sons articulados, mas também uma rede de marcas escritas (uma escrita), ou um jogo de gestos (uma gestualidade)”. A linguagem reveste-se de características físicas, fisiológicas e psíquicas, tanto de ordem individual quanto social; possui regras de organização que são invariáveis em qualquer contexto, por isso é capaz de funcionar nos mais diversos ambientes, mesmo carregando em seu corpo inúmeras possibilidades de materialização, tanto pessoal quanto social.

Segundo DEVLIN (2004), a plausibilidade dessa teoria pode ser justificada. Atualmente um ser humano é capaz de produzir aproximadamente 36 fonemas, e muito provavelmente nossos ancestrais tiveram um trato vocal com tal capacidade, conseguido com um exercício gradual dos músculos vocais, encadeando mudanças na garganta. Prova disso é que quase todas as línguas do mundo têm praticamente a mesma estrutura silábica.

Com o uso de tal estrutura silábica ao longo dos anos para gerar sílabas e palavras usadas na protolinguagem, o cérebro terminou por exaptar os circuitos que as geravam para a produção de frases, surgindo, paralelamente, a capacidade para criar uma sintaxe. Segundo ele, a veracidade dessa teoria pode ser justificada também pelo fato de que tanto a produção de sons quanto a linguagem serem processadas no lobo frontal esquerdo do cérebro. Uma lesão nessa região afeta a produção sonora e pode acarretar problemas no uso da gramática.

Corrobora com essa teoria, a visão de LÉVI - STRAUSS, para quem

“Independentemente do momento e das circunstâncias do seu aparecimento, a linguagem só pode nascer subitamente. As coisas não começaram a significar progressivamente. Na seqüência de uma transformação cujo estudo não revela das ciências sociais, mas sim da biologia e da fisiologia, efectuou-se uma passagem de um estádio em que nada tinha sentido, para outro em que tudo possuía um sentido” (apud KRISTEVA, 1988: 65).

Para ele, esse universo já significava muito antes do aparecimento da linguagem. As componentes lingüísticas significante e significado, que representam simbolicamente esse

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mundo, é que nasceu subitamente. Entretanto, não se tinha a noção de que o signo lingüístico representava esse universo. As transformações fisiológicas que possibilitaram a articulação elaborada dos sons fizeram de súbito criar condições para a produção desse recurso lingüístico, contudo, não se tinha essa percepção.

Essa nova faculdade conseguida abriu caminhos cognitivos para que o ser humano pudesse entrar no mundo matemático. Na Matemática é necessário pensar nos padrões, nas regularidades existentes no mundo, ou até mesmo criá-los; em suas propriedades, reais ou abstratas; criar conexões entre elas; etc. tudo o que exatamente a linguagem nos permite fazer: especular, investigar, imaginar, estabelecer hipóteses, propor e planejar, dentre outros atributos (DEVLIN, 2004).

Essa é uma concepção contemporânea da linguagem, o que não descarta totalmente outras definições da linguagem elaboradas no decorrer da história. Nessa tentativa de reconstruir um passado da origem, ou das origens, da Matemática e da linguagem é aceitável outras visões, face às suas transformações em época e povos distintos.

Como já foi dito, a linguagem surgiu como conseqüência dos nossos ancestrais verem o mundo de uma maneira complexa, fruto de sua relação mais rica com a natureza. De posse da capacidade para a linguagem as relações pessoais e sociais estabelecidas nos agrupamentos e com a natureza se modificaram drasticamente. Nas relações com a natureza não se mostravam tão submissos a ela. Em suas novas interações manifestavam-se diferentes linguagens, e com ela, caminhos para contornar os problemas oriundos de algumas limitações.

Intensificaram-se as relações sociais. Buscou-se impulsivamente explorar os recursos naturais e descobrir neles meios mais vantajosos para facilitar a sobrevivência. É daí que vão surgir os rudimentos da Matemática e da língua que usamos hoje.

1.2. Caminhos para o pensamento matemático

Para BOYER (1974) mesmo a Matemática tendo evoluído e estruturado-se como ciência, com inúmeras ramificações, seu princípio está fundamentado nos conceitos de

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grandeza, número e forma. As noções primitivas desses conceitos estão presentes nas sociedades ditas primitivas.

No período Paleolítico as tribos eram nômades e sobreviviam do que a natureza oferecía-lhes. O alimento era conseguido por meio da coleta de frutas, sementes e raízes e por meio da caça. O cotidiano desse homem era uma luta constante para garantir a sobrevivência de sua espécie, ameaçada tanto pela fome quanto pelo perigo inerente à sua convivência com animais selvagens. Suas relações com a natureza eram limitadas pela falta de domínio sobre as técnicas de aquisição de alimentos e mecanismos de defesa. Desse modo, para os problemas aparentemente sem explicações eram buscadas soluções em rituais sagrados, ligados ao sobrenatural. Segundo MIORIM (1998) o homem primitivo representava animais e seus órgãos internos nas pinturas rupestres, associando-os a rituais religiosos. Provavelmente acreditavam garantir alimentos em maior quantidade e melhor qualidade. Essas pinturas, além de atenderem a este objetivo, representaram uma fase pictográfica do longo percurso que culminou com o simbolismo gráfico e com a escrita. Eram os mais variados desenhos que retratavam uma situação sem referência a uma forma lingüística, estavam associados à imagem que queriam representar.

De acordo com BOYER (1974) a visualização permitiu observar contrastes e semelhanças em objetos, animais e no próprio ser humano. As noções de grandeza, forma e número podiam ser percebidas na diferença de quantidade entre um único lobo e muitos; na enormidade de um antílope em contraste com o tamanho de um coelho; na dissemelhança entre as formas retilínea de um pinheiro com a circular de uma lua; na paridade de partes do corpo humano, como olhos, orelhas, etc. Nessas comparações vai emergindo a percepção de que certos grupos possuem propriedades abstratas comuns ou não.

Com o homem sedentário foram aperfeiçoadas suas interações com a natureza, tendo reflexos nas relações com a própria natureza e nas relações sociais com o grupo: fabricação de armas e instrumentos de caça, a prática da agricultura, a domesticação de animais etc. construindo uma relação em que não mais dependiam dos recursos naturais tal como a natureza oferecía-lhes. Nas pinturas rupestres desse período são bastante comuns as simetrias e congruências nas representações esquemáticas, e não mais a busca pela reprodução fiel das pessoas e animais e seus órgãos internos. De acordo com MIORIM (1998) isso pode ter

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acontecido pelo fato deles começarem a perceber certas regularidades nos elementos que os rodeavam, sendo deles extraídos os recursos favoráveis à sua busca por sobrevivência.

O aumento das populações e das sociedades organizadas ampliou as necessidades de contagem com meios menos efêmeros auxiliando nesse processo. Punha-se em relevo aprimorar os recursos disponíveis para o controle de contagens e registros. Para superar essas dificuldades implementadas pela vulnerabilidade dos materiais existentes usados naquela época, bem como nos processos de contagem e registros por meio de pedrinhas e entalhes em ossos, foram buscadas outras soluções. Uma das saídas encontradas foi recorrer ao corpo humano, associando a partes do corpo certa quantidade. Nesse processo aritmético havia uma associação entre o gesto e a quantidade. Consistia numa técnica de enumeração em que, na seqüência de gestos, a última parte tocada do corpo simbolizava o último elemento de um grupo determinado.

A percepção de um conhecimento numérico como uma entidade simbólica já existia nesses processos de contagem primitivos. Entretanto, a idéia de um conceito numérico com propriedades abstratas só foi alcançada posteriormente. Com o passar do tempo a seqüência de gestos foi sendo substituída por um único toque na parte do corpo representando uma quantidade específica, começando a surgir a idéia do número como uma propriedade abstrata. Nesse momento ainda não haviam construído palavras para expressarem esses números. As frases verbais existentes identificavam apenas coleções concretas específicas, e não situações mais gerais. Inexistiam na fala entidades sonoras que tratassem especificamente de um significado numérico.

As práticas de linguagem nesse período são as mais variadas, desde as pinturas rupestres em rochas até a comunicação oral. O conceito de número adquire finalmente o status de pensamento abstrato quando os nomes das partes do corpo vão ser usados para representar uma quantia sem tocar o corpo e sem referir-se a um conjunto modelo, ou seja, serve-se da oralidade para ter uma representação simbólica. Com o surgimento da escrita esses conceitos numéricos ganham uma notação gráfica: os algarismos.

Até o surgimento da escrita a educação nessas sociedades era responsabilidade de todos os adultos, transmitiam-se os conhecimentos às crianças através de ações práticas, ouvindo, vendo, falando e praticando. No entanto, o aumento da complexidade da vida da

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aldeia faz surgir a necessidade de liberar alguns das atividades práticas para cuidar de interesses da comunidade: distribuir alimentos, cuidar do calendário agrícola etc.

Com a criação das cidades e dos dirigentes surgem dois tipos de educação: uma transmitida oralmente por meio da prática, para os artesãos, e outra baseada na escrita, para os dirigentes futuros. Com o passar do tempo a escrita passa a ser cada vez mais valorizada, e, conseqüentemente, a profissão de quem fazia uso dela, o uso “intelectual”. A partir de então, acentuou-se absurdamente o prestígio a quem foi tendo acesso à escrita, de modo que, na sociedade moderna é amplamente valorizado o sujeito que detém o conhecimento dos sistemas de escrita. À escola tem cabido a responsabilidade de ensiná-la, assumindo especial relevo a necessidade de aprendizagem da escrita usada na Matemática e na Língua Portuguesa.

Nessa busca pela reconstituição da linguagem e da Matemática há o interesse não só de entender como aconteceu tal processo nas sociedades primitivas, mas também de entender como tais sociedades organizaram-se e construíram o arcabouço cultural que nos foi legado. Desse modo, o estudo não satisfaz apenas aos caprichos de antropólogos, sociólogos, lingüistas, historiadores e matemáticos, mas atende, dentre outras necessidades, a de compreender desde o princípio como a linguagem e suas interfaces foram evoluindo até chegar ao nível em que se encontram hoje e o grau de importância que representam para quem tem um domínio mais amplo dos conhecimentos lingüísticos e matemáticos.

As representações simbólicas por meio de pinturas rupestres evidenciam nos povos ditos “sem historia” a crença de que a fé nos seres criados por uma força divina, expressa por uma linguagem especifica associada a ritos sagrados solucionariam os problemas para os quais não tinham explicações. A natureza, com quem se relacionavam quase que exclusivamente, é um mundo material, palpável, sólido. As práticas sagradas, portanto, são concebidas como algo real. A linguagem é entendida como extensão do corpo e da natureza.

A Matemática, portanto, surge das práticas cotidianas do homem primitivo. Está profundamente ligada às noções de forma, grandeza e número, dois ramos ainda existentes na Matemática: a Aritmética e a Geometria. Entretanto, não se configuram como os únicos existentes, a Matemática é formada por inúmeras ramificações que nem sempre estão ligadas a números ou a noções geométricas. Contudo, os progressos da Matemática a partir dos

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passos iniciais descritos possibilitaram, segundo IFRAH (1997), os seus maiores avanços. Tais progressos são acelerados quando surge a escrita e quando a Matemática é inserida no contexto da educação escolar.

Pode parecer demasiado e insignificante dedicar atenção a essa parte da história da Matemática. Considerando-se a dimensão e a complexidade do assunto, pelo menos é uma modesta tentativa de entender como foi esse trajeto inicial. Talvez possa parecer sem sentido dedicar tanta atenção a uma reconstrução matemática dada a superficialidade com que tratamos o assunto e a irrelevância que pensamos ter ele na atualidade. Contudo, “Números e culturas são conceitos totalmente solidários, pois saber como um povo conta é saber como ele é” (MORAZÉ apud IFRAH, 1997: 690).

Assim, remontar a um passado matemático é saber como as sociedades conseguiram organizar-se e evoluírem no decorrer do tempo. E isso inclui uma reflexão sobre a linguagem. Ambos são indissociáveis.

1.3. A influência do pensamento grego para a Matemática e para a Língua Portuguesa

O povo grego estabeleceu, com grande parte do conhecimento que forneceu, as bases da cultura ocidental. A Matemática que se apresenta atualmente tem suas estruturas moldadas ainda na Grécia Antiga. Até então, como veremos, não se tinha feito um exercício de aprimoramento sobre ela. Do mesmo modo, a contribuição grega foi determinante, não só para o latim, mas o desenvolvimento da Lingüística. Lá foram feitas as primeiras reflexões sobre a linguagem, que a Lingüística atual cuidou de aprimorar.

Nas sociedades mesopotâmicas e egípcias o ensino dos conhecimentos matemáticos era baseado numa coleção de situações problemas sem nenhuma justificativa de uso, inclusive com situações improváveis. Havia uma prioridade no treino do algoritmo, e não à prática. Na verdade, eram atividades lúdicas usadas para recreação, um treino para a abstração. Diga-se, de passagem, até hoje problemas como esses são usados com a justificativa de desenvolverem o raciocínio. Foram essas civilizações que desenvolveram a base para a Matemática que conhecemos hoje.

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A Matemática teórica, com características lógicas, exatas, vai ser desenvolvida com os gregos, num momento em que as preocupações eram voltadas para a formação do homem ideal. Tales de Mileto e Pitágoras de Samos viram na Matemática um caminho para a compreensão da essência do mundo, ou seja, a conquista da racionalidade por meio da Matemática.

Com a escola pitagórica a Matemática é introduzida na educação como um elemento de grande valor formativo voltado para a Filosofia. Mas as inovações nesse campo vieram com os sofistas, que viam na educação a porta para a formação do homem político com habilidades para a oratória.

No campo da linguagem as primeiras reflexões teóricas foram filosóficas. Na verdade, uma aplicação das teorias atomísticas. Segundo os pré-socráticos, as palavras eram formadas por estruturas mínimas, tal como os átomos, que se uniam e formavam uma estrutura fônica. Essas estruturas mínimas eram as letras. A linguagem era o ato de falar, dar nomes às coisas.

Nessa corrente filosófica coexistiam duas vertentes. A primeira considerava que a linguagem possuía uma essência natural. O nome dado a um determinado objeto era uma imitação desse objeto, havia uma relação nome/objeto que os tornavam um amálgama. A segunda vertente considerava que não havia nada de natural nessa relação, era apenas uma convenção humana.

Segundo Platão é o sujeito que cria nomes para as coisas, sendo a linguagem, portanto, uma convenção. Porém esse processo de criação envolve o conhecimento da essência da coisa a ser nomeada, cabendo desvendá-la para colocar um nome que a revele. Por esse lado, é natural.

A linguagem é entendida como um ato de fala. Falar é dar nomes as coisas. O nome seria formado por estruturas mínimas, as letras, que se uniam e formavam as sílabas. Da união das sílabas formavam-se os verbos e os nomes. Com eles se constituía o discurso.

Em suma, Platão entendia que a essência das coisas podia ser materializada por uma palavra. A construção do conhecimento da essência envolvia um processo reflexivo com

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subsídios sólidos na Matemática. Para ele, o ensino de Matemática deveria começar no nível elementar, não pelo seu valor prático, mas por despertar o pensamento do homem. Assim, linguagem e Matemática davam ao homem condições para a compreensão da essência do mundo.

No plano da linguagem a correspondente sonora não podia ser confundida com o objeto nomeado, visão similar à defendida por Saussure sobre o signo lingüístico, para quem o significante é um correspondente do referente que exprime uma idéia (significado) acerca desse referente, sem ser confundido com ele.

Com Aristóteles apresentam-se distinções mais específicas sobre o discurso e suas categorias, embora carregadas de convicções filosóficas. Para ele, o que é absorvido pelo pensamento é antes estabelecido pela linguagem, cabendo exercitá-la para melhorar a qualidade do pensamento.

“Ora o que diz respeito ao pensamento deve caber nos tratados consagrados à retórica; porque é próprio dessa investigação. Pertence ao pensamento tudo o que tem de ser estabelecido pela linguagem. As suas partes são: demonstrar, refutar, excitar as paixões como a piedade, o medo, a cólera e todas as paixões desse gênero e alem disso engrandecer e rebaixar. Pois qual seria a obra própria da personagem falante se o seu pensamento fosse evidente e não resultasse da sua linguagem? (ARISTÓTELES apud KRISTEVA, 1988: 135).

A linguagem é entendida como uma manifestação do discurso, e com o discurso seria possível saber o que pensa uma determinada pessoa. As elocuções que o formam seriam compostas por letras, sílabas, conjunções, artigos, nomes e casos.

Até o momento vão sendo delineadas as bases de uma gramática carregada por reflexões de cunho lógico-filosófico, e não como um estudo de organizações puramente lingüísticas calcadas na língua grega.

Por volta de 490 a.C. foi elaborada uma teoria compacta sobre a língua grega, apresentada como uma gramática pormenorizada: ficaram distintas as noções de significante e significado, foi feito um estudo minucioso sobre características fonéticas, além de sistematizações sobre as partes do discurso. Num período próximo a queda da cidade da

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Grécia, em Alexandria, rompem-se as barreiras lógico-filosóficas e surge a gramática como um estudo orientado especificamente para a linguagem como um objeto em si.

Na Matemática a Filosofia também diminuía suas influências. Segundo Isócrates a Filosofia não passava de um jogo inútil, sem utilidade na vida prática, apenas divertia. A retórica, esta sim, é que tornaria o homem moral e espiritualmente realizado. Via na Matemática a possibilidade de habituar o espírito ao trabalho disciplinado por seu caráter abstrato e difícil, favorecendo a retórica. Essa visão, acredito, já refletia o nível de conhecimento construído projetado na Matemática e nos estudos lingüísticos.

Apesar disso as concepções aristotélicas e platônicas persistem vivamente nos dias atuais. Acredito que tenha começado aí o equívoco em achar que a gramática é um compêndio de dispositivos lingüísticos, que só com eles e por meio de um exercício constante e gradual se consegue fazer uso eficaz da língua. Quando afirma ser o pensamento influenciado pela linguagem Aristóteles deixa claro que também a língua pode ser um mecanismo de domínio, pois o pensamento é condicionado pela linguagem. Do mesmo modo, a abstração existente nos conhecimentos matemáticos, natural em qualquer área do conhecimento, já era vista como um mecanismo de acesso aos conhecimentos superiores, em outras palavras, uma porta de seleção para os “mais inteligentes”.

Em contato com o povo grego os romanos procuraram fazer uma adaptação dos conhecimentos lingüísticos da língua grega para o latim, esquecendo-se que o latim possuía uma estrutura diferente com inúmeras particularidades. Forçadamente muitas categorias da língua grega, entendidas como lógicas e universais, foram adequadas ao latim. Como não era possível encontrar no latim essa similaridade lingüística constante buscou-se a formação de uma gramática latina postulando regras gramaticais para um uso correto da língua. É difícil imaginar a formação de uma gramática prescrevendo regras para uma língua influenciada por diversos fatores socioculturais que impactavam vivamente a língua latina e o império romano. Mesmo assim não se pode desconsiderar que foram esses conhecimentos que nos foram legados pelos portugueses. Não bastassem todas as imposições trazidas, a concepção de que a língua é “a arte do bem falar”, um discurso sem variações de uma gramática prescritiva, é também uma herança da colonização portuguesa.

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II: SISTEMAS DE REPRESENTAÇÃO

“Matemática, como o vernáculo, é um instrumento de trabalho intelectual, altamente indispensável na vida”. (LIMA)

Analisando o que afirma o autor no texto em epígrafe, não é difícil concordar que conhecimentos relativos à Matemática e à Língua Portuguesa são indispensáveis ao homem moderno. Porém é difícil compreender porque ambas sendo tão distintas, aparentemente, assumem essa importância. E mais ainda, porque a complexidade e a dificuldade que apresentam nos custam tão caro em sua compreensão. Talvez, parte dessa confusão aconteça pelo conhecimento equivocado que se tem sobre ambas, o que exige um estudo menos superficial distinguindo o que elas são. A começar por entender o que os estudiosos definem como sendo a língua.

2.1. Língua e signo lingüístico

A língua é uma parte do conjunto da linguagem, a parte social desta, que pode ser entendida nos diferentes contextos de interação por causa da existência de uma sintaxe.

Para ROBINS (apud LYONS, 1987: 19) “(...) são sistemas de símbolos (...) quase que totalmente baseados em convenções puras ou arbitrárias”. SAUSSURE (1987: 19) entende que “A língua é um sistema de sígnos que exprime idéias”. Segundo KRISTEVA (1988: p. 21) “A língua é a parte social da linguagem (...) formada por um sistema de signos em que o essencial é a união do sentido à imagem acústica (som)”. Tais signos estão organizados segundo regras específicas de combinação criadas pela sociedade. A existência do signo lingüístico torna a língua uma linguagem sólida, dinâmica, eficiente e atemporal.

Segundo PEIRCE (apud KRISTEVA, 1988: 24) o signo “... é aquilo que substitui qualquer coisa para alguém. O signo dirige-se a alguém e evoca para ele um objeto ou um fato na ausência desse objeto e desse fato”. Reside no signo lingüístico a capacidade de representar a idéia que se tem de um objeto, pois o objeto em sua totalidade é impossível de ser

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representado. A representação simbólica por meio do signo lingüístico, de acordo com SAUSSURE (1987), imprime no sujeito falante e no ouvinte uma imagem psíquica ativada por uma relação entre uma marca acústica (significante) com o conceito (significado) do objeto referido. Assim, de maneira simples, podemos entender a língua como um sistema formal de signos, e ao conjunto da linguagem como uma manifestação humana materializada sobre múltiplos significantes organizados seguindo leis específicas.

Esta definição enquadra o signo lingüístico como elemento pertencente a um sistema de representação. Segundo FERREIRO

“A construção de qualquer sistema de representação envolve um processo de diferenciação dos elementos e relações reconhecidas no objeto a ser apresentado e uma seleção daqueles elementos e relações que serão retidos na representação (...)” (apud MACHADO, 1991: 94).

O processo de diferenciação dos elementos das relações e objetos a que se refere a autora nada mais é do que a construção e uso do signo lingüístico. A diferenciação dos objetos é feita com base no reconhecimento de determinadas propriedades desses objetos, materializadas na construção dos sígnos lingüísticos. Cria-se um significante que remete à idéia do objeto. Porém, na criação e no uso do signo lingüístico inexiste qualquer propriedade física correlacionando significante e significado com o objeto. A existência do signo é sustentada por força de um contrato social. Por mais que ativemos nossos sentidos para absorver uma idéia representada por um significante, esta só se fará presente perante a construção de um significado socialmente já construído para o objeto.

A língua, então, entendida como um sistema formal de signos constitui-se num sistema de representação. Esse sistema é entendido como sendo uma estrutura capaz de mapear a realidade, não no sentido de construir uma representação à maneira de um protótipo, mas de elaborar um conjunto de símbolos sistematicamente organizados que a expressem. Ou melhor: exprimam uma idéia que fazemos dessa realidade. (MACHADO, 1991).

A aquisição da faculdade humana para a atividade simbólica permitiu-nos reconhecer o espaço e as relações empreendidas nesse espaço, ampliadas e dinamizadas pela criação e o uso essencialmente simbólico dos signos. De fato, com a língua é possível interpretar o

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mundo e descrevê-lo, compreender seus matizes e significá-las, imaginar alternativas e projetá-las.

A arbitrariedade do signo, contudo, não pode fazer-nos incorrer no equívoco em crer que a língua, por ser uma construção simbólica, é completamente arbitrária, que cada um, à sua maneira pode criar e/ou modificar esses signos. Enquanto membro de uma comunidade lingüística minha participação só se efetiva com o grupo se formar um todo com o corpo lingüístico, embora possa fazer uso pessoal da língua. As possibilidades de interação com o grupo são minimizadas caso não haja comum compreensão do sistema lingüístico. Todavia, do uso individual da língua pode decorrer mudanças na estrutura dos signos, uma vez que a cadeia sonora da fala é passível de sofrer alterações de pessoa para pessoa. O significado e suas relações internas também são vulneráveis à mudanças, mas tais mutações só acontecem no seio da comunidade e acarretam alterações na estrutura da língua. Em poucas palavras, a arbitrariedade do signo confere ao uso individual possibilidades de mudanças fonéticas, mas no campo semântico e sintático só se operam mudanças efetuadas por todos os falantes de uma língua.

A Língua Portuguesa em suas origens, ainda no latim vulgar, refletia as características sociais do povo romano, ou seja, era como um mapa social do espaço desse povo. Na vastidão do Império Romano em cada região era pincelada com características diversas, absorvendo as influências sócio-culturais daqueles povos. A elaboração da gramática latina representou uma pretensiosa tentativa de abafar essas variedades face à dissonância lingüística que se acentuava em oposição à unidade política do império.

A língua, portanto, é um sistema sólido de representação da realidade. A língua herdada por nós, o português, foi construída há alguns milhares de anos, as alterações por que passou não aconteceram abruptamente fazendo-a adquirir a forma que possui atualmente. Em um processo lento e gradual foram operando-se inconscientemente mudanças parciais e consecutivas, sem os indivíduos terem a percepção de que operavam-se tais transformações. Ao longo desse período inúmeras foram as características adquiridas e suprimidas pelo português. É bem verdade que, de uma maneira geral, as alterações em sua estrutura não foram profundas. O que se afirma é que em cada momento refletiu as características de um povo e suas relações em um dado momento histórico. Representou e continua representando

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complexamente as crises políticas, sociais e culturais, bem como as formas do homem interagir socialmente com o mundo e consigo próprio.

2.1.1. A gramática

Como já discutido no 1º capitulo, o que caracteriza a linguagem é a existência de um sistema complexo de organização que permite-lhe cumprir suas funções, chamado de gramática. De acordo com o afirmado, as diversas linguagens existentes possuem uma gramática própria, coordenando os seus elementos e coordenando-se de modo a alcançar seus fins.

Neste sentido, o termo gramática pode ser aplicado a qualquer conjunto de objetos que possuem estratégias especiais regulando as relações entre seus elementos internos, bem como seus valores dentro desse complexo sistema. Muito além está a abrangência dessa expressão, é bem maior o conjunto de atividades que a possuem do que a gramática específica a que nos habituamos a ter referências, que é a gramática da Língua Portuguesa. O sentido empregado ao termo gramática é o mesmo que se pode aplicar ao comportamento natural regulado por valores coexistentes em um jogo de xadrez, em uma partida de futebol, à bolsa de valores etc. (SAUSSURE, 1987). Existe uma gramática da língua, da poesia, das linguagens de programação, da música e em muitos outros objetos do conhecimento humano.

As engrenagens que põem esses sistemas em funcionamento são, de um modo geral, de três tipos distintos, mutuamente interligados e coerentemente afinados. Pela precisão com que funcionam não é possível impor limites claros entre um e outro, as classificações atribuídas apenas veiculam noções sobre essas subdivisões e atendem, principalmente, a fins didáticos.

A sintaxe é a parte da gramática que cuida da relação interna entre os elementos do sistema, de modo a conectá-los obedecendo às regras específicas existentes dentro desse sistema. Na gramática as componentes estruturais não estão correlacionadas aleatoriamente, sobrepostas umas as outras. Os elementos-núcleos se ligam a outros por meio de conectivos especiais. São esses elementos de ligação que estabelecem adequadamente a correlação de idéias. Caso haja incoerência nessa organização precedente, a função pretendida pelo sistema

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ao qual pertence essa gramática ficará comprometida, pois haverá fissuras na estrutura semântica.

Por sua vez, todo conjunto sistematicamente organizado busca construir significados para os envolvidos. Esse significado é construído com a organização complexa entre as suas partes, que são coordenadas pela sintaxe. O conteúdo semântico dessas proposições complexas é, pois, o seu significado. A semântica é o estudo do significado (LYONS, 1987).

O sincronismo entre a organização sintática e o conteúdo semântico caminham em direção ao pragmatismo. A pragmática é tida como a parte da gramática em que as relações entre os elementos estruturais do sistema com o significado criam significações para os interpretantes, os usuários desse sistema, ou seja, buscam praticidade para os mesmos. Desde o início da construção desse sistema o pragmatismo se faz presente.

Distinguir esses três níveis de articulação, portanto, é imprescindível para a compreensão dos conceitos envolvidos na definição do que são a Língua Portuguesa e a Matemática.

2.1.2. Gramática da língua

Como um sistema de representação construída por sígnos, a gramática da língua apresenta um grau bem maior de complexidade, com a agravante de os sígnos serem objetos de uso de uma comunidade lingüística. As regras de um jogo de xadrez são pensadas passo a passo, criadas desde o princípio tendo em vista alcançar fins criteriosamente definidos, os elementos são formados por uma decisão racional conjunta entre os participantes. A criação dos signos da língua e as suas regras de uso são operadas inconscientemente pelo falante, a própria língua é um acordo social feito em tempo real entre milhares de pessoas, distintas no modo de pensar e agir, convivendo em situações sociais e geográficas das mais variadas.

Embora os usuários de uma língua possam influenciá-la de inúmeras formas, na criação e manipulação dos signos a estrutura é a mesma para todos. As pessoas que falam uma língua utilizam-se de uma sintaxe única para que a língua possa cumprir com os fins sociais a que buscam com o seu uso diário. Como são infinitamente ricas as interações sociais

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estabelecidas entre uma comunidade, uma gramática da língua que descreva todos os pormenores sintáticos dessa língua é, sem sombra de dúvida, uma impossibilidade.

O processamento de um enunciado não envolve somente os conhecimentos da sintaxe. Na verdade, os propósitos de significação manobram à sua maneira os procedimentos sintáticos. As estratégias de processamento não se completam unicamente com o conhecimento gramatical, pois são vetores coordenados pela situação e pelo tempo (SLOBIN, 1980).

A língua é usada em contextos que assumem particularidades conforme as necessidades dos falantes naquele momento e da comunidade na qual estão inseridos. A comunidade influencia seu comportamento e ele apóia-se na solidariedade lingüística para adequar-se a essas necessidades sociais, implicando em variações sintático-semânticas nas proposições lingüísticas.

Atribuir à sintaxe a exclusividade na construção do significado de um enunciado é ignorar o caráter dinâmico da linguagem e aceitar que uma compreensão dos mecanismos sintáticos da língua seria suficiente para gerar frases com conteúdo semântico.

A gramática da língua, portanto, não pode ser vista como uma porta estreita por onde transitam apenas regras de organização entre sujeito, verbo e complementos. Deve ser entendida como um conjunto harmônico entre signo e significado em relações intrínsecas e múltiplas com os interpretantes.

Como afirma LYONS (1987: 106), por gramática deve-se conceber às “(...) regras imanentes que, na ausência de quaisquer fatores lingüisticamente irrelevantes que causem inibição ou distorção, os falantes nativos de uma língua inconscientemente aplicam”. A agramaticalidade é o não respeito a essas regras gerais do sistema lingüístico.

A gramática se faz presente em cada ato de fala e dela necessitamos para interagir de maneira compacta e eficiente em ambientes interpessoais, e assim, cumprir com as diversas funções sociais que a língua possibilita ao ser humano (SLOBIN: 1980).

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2.2. A Língua Portuguesa

Partindo da concepção de que a língua é um sistema de representação da realidade, como tal o português reflete as características do povo que o fala, além de diferenças sociais, geográficas e temporais existentes no Brasil.

Originado do latim o português é feito de uma transformação lenta e gradual. É a soma de sucessivas alterações provenientes de vários povos em momentos históricos anteriores, representa sistematicamente as crises políticas, as diferenças sociais, a simbiose cultural desses povos. Interagindo com o mundo e consigo próprio os celtas, iberos, romanos, árabes, portugueses, índios, africanos etc. o marcaram de diferentes maneiras, tendo cada um influência no processo de formação dessa língua.

Na formação do estado brasileiro, Portugal impôs aos povos indígenas, legítimos habitantes dessa terra, o seu modelo de sociedade, que, como em qualquer sociedade, é condicionada por regras econômicas, políticas, sociais, culturais etc. Essas regras conferem a sociedade sua dinamicidade, a sua pluralidade.

Assim, quando portugueses e índios se misturam há uma fusão entre certas características desses povos. Sendo Portugal o país colonizador, predominou neste contato as regras do seu sistema, não livre totalmente das especificidades indígenas. Com a “importação” de pessoas oriundas de nações africanas foram incorporadas características dessas nações, e assim como aconteceu com os índios, também foram subordinadas a uma outra cultura. Portanto, na mistura entre índios, portugueses e africanos houve uma fusão marcada por diferenças sociais, étnicas, culturais etc. caracterizando a essência do povo brasileiro e da língua falada por esse povo.

A língua falada nesse território não poderia deixar de refletir a complexidade do seu povo, a realidade vivenciada por eles. O sistema lingüístico que predominou foi o imposto pelos portugueses, contudo, não deixou de sofrer influências de outros falados por índios e africanos, de modo que hoje temos uma língua em que a estrutura é a do português trazida de Portugal, mas com traços lingüísticos em profundidade dos povos indígenas e africanos e do sincretismo entre esses e os portugueses.

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Segundo COUTO (1994) a Língua Portuguesa é um sistema lingüístico complexo, e como a nossa realidade, marcada por diferenças de classes, históricas e regionais sendo impossível considerá-la como um bloco lingüístico compacto. Como produto histórico acumula as experiências que cada geração propiciou. Evoluiu e continua evoluindo do mesmo modo como o homem mudou no decorrer do tempo. Transformou-se como qualquer fato de cultura (idem: 22).

Em suas dimensões territoriais continentais o Brasil apresenta subdivisões geográficas marcadamente distintas em sua estrutura física (clima, relevo, hidrografia, etc.), cultural (hábitos e práticas culturais), populacional etc. solidárias com as características socioculturais do seu povo. É natural, pois, que a Língua Portuguesa falada na região norte apresente traços dialetais peculiares, ao mesmo tempo em que na região sul tais traços apresentem-se estranhos e destoantes aos primeiros. No mesmo sentido, variações lingüísticas existem entre uma pessoa que mora no campo e outra que mora em centros urbanos. As características geográficas, portanto, contribuem para a variedade da língua, no português, com contornos mais salientes por causa da enormidade territorial do Brasil.

À imagem da divisão da sociedade brasileira em classes o português reveste-se de características singulares em cada uma delas. Entre ricos e pobres sobrelevam-se não só diferenciações econômicas, mas, sobretudo lingüísticas. Uma pessoa que sobrevive à margem de benefícios sociais básicos tem um falar característico, um membro de uma família de classe média usa a língua de acordo com a realidade desse grupo. É indiscutível que entre ambas não há uma unidade lingüística. Por vezes essas variações temporais, geográficas e sociais são tão acentuadas que temos a impressão nítida de que são línguas diferentes. O português falado no século XVIII e o português falado atualmente, ou o português comum entre os gaúchos e o “português cearense”, ou o do caboclo e o do milionário, são, um para o outro, respectivamente, uma língua completamente estranha.

Ao lado das diferenciações históricas, regionais e sociais somam-se variações de gênero, de níveis de instrução, de faixa etária etc. que contribuem em maior ou menor grau na quebra do que ANTUNES (87) definiu como o “mito da unidade lingüística no Brasil”. Segundo ela a idéia desta unidade é falsa, equivocada. Primeiro porque no país coexistem línguas indígenas faladas ainda por determinadas tribos de índios. Segundo porque a Língua Portuguesa, por razões já explicitadas, não é um bloco compacto, homogêneo, sólido.

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2.3. Linguagem matemática

A Matemática possui alto grau de abstração, bem maior é a abstração envolvida no conhecimento matemático que a verificada em outras áreas do conhecimento humano, mesmo considerando-se a abstração peculiar de qualquer ciência, natural em qualquer produção do conhecimento humano. Os procedimentos de que utiliza-se a Matemática podem ser comprovados dedutivamente em seus mecanismos internos de funcionamento, pois são capazes de captar a essência das relações matemáticas. Essa característica da Matemática é conseguida graças a sua linguagem estritamente formal que representa a substância do conhecimento gerado.

Os símbolos matemáticos e as relações imbricadas no interior dessa linguagem emergiram de discussões feitas ainda na Grécia Antiga, coordenadas por princípios filosóficos. Para alguns filósofos, como Leibniz e Descartes, o pensamento carecia de uma linguagem com rigor matemático para representá-lo, pois as línguas naturais eram cheias de defeitos, imperfeitas, e por causa disso permitiam a existência de ambigüidades quando expressavam algum conhecimento. Numa época em que a Filosofia estava impregnada em quase todas as ciências e a Lógica era um princípio a ser aplicado a tudo, buscavam construir uma linguagem livre das “patologias” existentes nas línguas naturais. Desse modo, inauguravam o percurso inicial do caminho que as linguagens formais percorreram até assumirem a forma atual, como a linguagem matemática.

Na verdade, o que tais filósofos pretendiam era propor uma forma de exercício do pensamento filosófico que eliminasse ao máximo as influências de elementos exteriores ao pensamento envolvido que pudesse interferir na(s) conclusão (es) obtidas. Ou seja, uma forma de expressão que intermediasse diretamente o pensamento e o interior das coisas, que fosse uma conexão da razão com as esferas do pensamento e do mundo. Para isso, o veículo de expressão não poderia ser uma linguagem que usasse as palavras como símbolos, visto que são subjetivas por excelência, mas que fosse composta por signos que representassem com objetividade a essência legitima das coisas. Portanto, a eficiência e a eficácia dessa linguagem prescindiam o uso de palavras.

Foi com esses princípios que as linguagens formais se delinearam. A linguagem matemática assume essa postura diante do conhecimento matemático. Traduz para um código

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próprio um conhecimento que também pode ser gerado por uma linguagem natural, de modo a torná-lo universal. Determinado conhecimento expresso em linguagem matemática pode ser compreendido em qualquer parte do mundo, independentemente da língua falada, é claro, considerando-se que em tal cultura tenha-se o mínimo de conhecimento dos meios de notação da linguagem matemática.

A universalidade conseguida pela Matemática é possível graças ao sentido estrito dos símbolos que compõem a sua linguagem. O simbolismo das expressões matemáticas consegue com muito êxito desconsiderar os fatores que envolvem características da situação envolvida, manipulando internamente os símbolos convencionais do seu domínio, e chegar à conclusões consistentes.

No exemplo a seguir pode-se visualizar como se processam tais relações no domínio da Matemática, como pode ser pensado um conhecimento matemático. Um dos teoremas do triângulo retângulo pode ser enunciado das seguintes maneiras: Þ Formulação em Língua Portuguesa: “Em todo triângulo retângulo o produto dos catetos é igual ao produto da hipotenusa pela altura”. Þ Formulação em Linguagem Matemática: “h. a = b . c”

Figura 1: Triângulo retângulo.

As duas formulações citadas no exemplo dizem exatamente a mesma coisa, sem acrescentar nem tirar informação alguma. A diferença entre uma e outra consiste basicamente na linguagem usada, nos símbolos utilizados. Contudo, pode haver diferenças no processo de compreensão do teorema.

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Na primeira formulação qualquer falante do português, desde que possua certo grau de instrução, poderá entendê-la. Na segunda, dependerá do conhecimento de regras do cálculo algébrico, além de maior esforço em compreender a abstração envolvida nos signos a, b, c, = e h.

A convencionalização existente na linguagem matemática permite captar somente a essência do conhecimento sem comprometer os resultados obtidos, possibilitando passar de um nível elementar para outros mais aprofundados, do empírico para o científico; ao passo que em linguagem natural o processo de resolução ocuparia mais espaço e seria mais dificultoso compreender as relações e conceitos envolvidos.

No exemplo citado, o triângulo retângulo poderia ser uma estante com uma televisão sobre o vértice do ângulo de noventa graus, e sendo a base da estante o lado oposto a esse ângulo. O teorema ajudaria, dentre outros problemas, a descobrir a altura da televisão em relação ao chão. Certamente que o algoritmo para encontrar a resposta seria mais propício se formulado na linguagem própria da matemática. É interessante observar que ha = bc é um modelo matemático pronto que possui validação interna. Conhecendo-se os demais teoremas e propriedades existentes no triângulo retângulo é possível conferir a sua autenticidade. Vê-se, portanto, que a relação ha = bc existe mesmo sem ser relacionado a alguma situação específica, a um contexto prévio.

A maleabilidade conseguida pela Matemática é conferida em grande parte pelas características dos meios notacionais da linguagem matemática. Os meios notacionais auxiliam na ampliação da nossa capacidade de lidar com o conhecimento, tanto para retê-lo como para manipulá-lo. Símbolos e notações que simplifiquem determinados procedimentos ajudam em muito no trabalho com as informações, pois a notação simbólica da matemática sugere um envolvimento do ser com o objeto e com o mundo que transcende a relação direta com o conhecimento manipulado. O mundo assume novos significados para os interpretantes, uma objetivação em si mesma, excluindo elementos exteriores à essência do pensamento envolvido, dinamizando os processos de interação do homem com o conhecimento matemático e com o mundo.

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2.3.1. Gramática da linguagem matemática

O grande problema que se coloca na linguagem matemática diz respeito à compreensão das regras que regulam as relações entre os símbolos notacionais, que, de modo análogo às línguas, possuem uma gramática própria, signos próprios intermediando as relações simbólicas do homem com o mundo.

Com exceção das línguas ideográficas, como chinês, a maioria das línguas existentes atualmente no mundo são alfabéticas, como a Língua Portuguesa. Os principais símbolos gráficos dessas línguas, as letras, são organizados para registrarem uma cadeia fônica, o significante de um signo lingüístico. O modo como portam-se em uma estrutura vocálica representam a seqüência dos sons produzidos. O que difere de uma língua para outra são os significados construídos com a marca sonora dos signos. Ou seja, há uma universalidade nos símbolos alfabéticos enquanto entidades para representar sons (fonemas), entretanto, o vocábulo (monema) formado por estes e o significado atribuído diferem de uma cultura para outra.

Os signos da linguagem matemática, bem como as suas múltiplas categorias, são os mesmos em qualquer civilização, possuem significado único na representação de idéias em qualquer país. O seu caráter universal provém da característica do objeto de estudo da Matemática e da capacidade de tais símbolos estabelecerem em conexões internas a essência do conhecimento matemático. Assim, uma idéia matemática expressa em linguagem matemática possui os mesmos símbolos e a mesma gramática independentemente da cultura e/ou de quem os manipula.

O simbolismo formal matemático, contudo, é dependente de uma formalização lingüística de quem o utiliza, de uma interpretação em linguagem natural. Isso deve-se ao fato de inexistirem nos signos matemáticos uma oralidade própria, uma entidade simbólica representando uma marca acústica, isso só é possível por empréstimo à estrutura alfabética da língua do interpretante. Desse modo, embora representando a mesma idéia, uma expressão matemática adequa-se à estrutura morfossintática de cada língua no que concerne a uma tradução lingüística.

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A propriedade fundamental das proporções, expressa em linguagem matemática, pode ser enunciada diferentemente de acordo com a língua de quem a interpreta. Þ Linguagem matemática: a / b = c / d, → a . d = b . c. Þ Português: Em toda proporção o produto entre os meios é igual ao produto entre os extremos. Þ Inglês: In a ratio the product between the ways is equal to the product between extremities. Þ Espanhol: Em um cociente el producto entre las maneras es igual al producto entre las extremidades.

No exemplo, “a . d” não representa a justaposição dos fonemas [a] e [d], mas a expressão lingüística em português “o produto entre os meios é igual ao produto entre os extremos”, ou seja, uma expressão já constituída por vários sons. A lógica, nesse caso, é a estruturação de símbolos sistematizando um conjunto de idéias que também pode ser expressa lingüisticamente.

Ao invés de tornar a matemática um sistema de signos débil e limitado, as idéias matemáticas expressas por esse código versatiliza o conhecimento matemático devido à estruturação sintática dos signos nesse sistema.

Observe que a . d obedece à regra dos produtos cruzados na proporção a / b = c / d; é interna ao sistema matemático e produz um significado próprio na expressão que determina a propriedade fundamental das proporções, é a condição que valida a existência de uma proporção – igualdade entre duas razões. Tal regra orienta a existência da proporção, mas não possui qualquer vínculo com uma situação externa, e mesmo assim estabelece conexões internas e externas verdadeiras.

Para conferir a validade dessa proposição podemos substituir as variáveis a, b, c, e d por 5, 3, 10 e 6 respectivamente. Então, teremos a sentença 30 = 30.

O que comprova a veracidade regra fundamental das proporções não é o simples fato de temos encontrado uma sentença verdadeira, pois se substituíssemos as variáveis por 2, 4, 5

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e 6 nessa ordem teríamos a sentença 12 = 20, que é falsa, mas o fato da equação 30 = 30 validar a igualdade entre as razões 5 / 3 e 10 / 6; ou seja, 5 / 3 = 5 / 3.

Nesse caso, a propriedade fundamental nos dá a garantia de poder usá-la em um contexto real e, além de chegarmos a uma resposta satisfatória, comprovar mais uma vez a sua veracidade.

Imaginemos uma situação hipotética em que dois times de futebol A e B participaram de um mesmo campeonato. O time A jogou 5 partidas e ganhou 3, o time B jogou 10 partidas e ganhou 6. Utilizando-se da propriedade fundamental das proporções podese analisar a participação das duas equipes no campeonato fazendo, dentre outras possibilidades, uma comparação do número de vitórias para o número de derrotas. Desse modo, teríamos que: Þ A equipe A teve uma razão de 5 / 3, ou seja, para cada 5 partidas ganhas perdeu 3; Þ A equipe B teve uma razão 10 / 6, que também é igual a razão 5 / 3, ou seja, também teve 3 derrotas para cada 5 vitórias.

Chegamos à conclusão, portanto, que as equipes tiveram o mesmo desempenho no campeonato (comparando-se apenas a relação do número de vitórias para o número de derrotas). O número de vitórias e derrotas da equipe A é proporcional ao da equipe B, e viceversa.

Essa exemplificação permite ver que o rigor formal e a abstração dos signos matemáticos possibilitam uma estruturação sintática capaz de produzir significados internamente sem a necessidade de um contexto prévio orientando essas relações. A sintaxe matemática constrói um campo semântico em si mesma, com regras autônomas de uma situação previamente determinada.

Apesar dessa estrutura fechada, essa gramática não inviabiliza a aplicação desse conhecimento a contextos reais, não rompe com as chances de haver um pragmatismo nas expressões matemáticas.

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“Poderíamos dizer resumindo, que os símbolos matemáticos possuem dois significados. Um deles, estritamente formal, que obedece a regras internas do próprio sistema e se caracteriza pela sua autonomia do real, pois a validade das suas declarações não está determinada pelo exterior (constatação empírica). E o outro significado, que poderíamos chamar de ‘referencial’, que permite associar os símbolos matemáticos às situações reais e torná-los úteis para, entre outras coisas, resolver problemas” (GÓMEZ - GRANELL in TEBEROSKY & TOLCHINSKY, 2003: 264).

O autor, portanto, clarifica que a produção de significados na matemática pode ser feita no desenrolar das relações sintáticas de sua simbologia. Não existe um pragmatismo buscado de imediato nas relações matemáticas. O conteúdo semântico não é almejado com vista à interpretações múltiplas, mesmo que seja apresentado à vários interpretantes, ao invés disso, é formatado de um modo que é único face à diversidade de olhares feito sobre ele. Como afirma MACHADO (1991), se na língua há uma semântica interna e externa ao signo, na Matemática eles nada dizem isoladamente, senão no interior das relações que o expressam.

Portanto, os signos matemáticos não modificam em nada a natureza do objeto que representam, simplesmente mediam a relação do objeto com o homem na gradativa construção de um sistema de representação do real. Em suas interrelações o signo adquire sentido por ocorrência de uma interação psicológica do ser com o mundo, revelando a mescla simbólica homem x linguagem x mundo na cristalização de um olhar sobre a realidade que se mostra universal na Matemática.

2.5. O que é a Matemática

Se indagarmos uma pessoa sobre o que ela pensa ser a Matemática, muito provavelmente obteremos como resposta que é uma ciência abstrata, que lida com números e um monte de símbolos sem utilidade. Não é difícil reconhecer a atração que exerce em nós essas afirmativas e outras nesse sentido, pois a Matemática que conhecemos, ou pensamos conhecer, é de fato muito parecida com estas definições. Aliás, em obras de autores e estudiosos não mais leigos no assunto é comum encontrarmos assertivas que reforçam um conceito de Matemática como abstração.

“A matemática é uma ciência abstrata, isto é, que se liga a idéias e não a objetos físicos, reais, ou objetos do mundo sensível, e seus conceitos foram

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elaborados não apenas por motivos racionais, mas também por motivos práticos” (LUNGARZO, 1993: 97).

Como define o autor, a Matemática trabalha muito mais com idéias do que com objetos concretos, físicos. Contudo, as idéias estabelecidas no campo da Matemática muitas vezes aborda objetos reais, a relação entre eles;e também objetos com existência apenas numa situação idealizada. Em ambas tais relações e idéias são abstrações, mas daí afirmar que por envolvê-las no campo da abstração a torna uma ciência abstrata é um equívoco incomensurável.

As ciências, de modo sui generis, têm em seus objetos de estudo um envolvimento muito grande com abstrações, mesmo aquelas que tem como característica legítima a manipulação de objetos concretos, como a Geografia, as Ciências Naturais (Física, Química e a Biologia), a Astronomia e muitas outras. Porém, em nenhuma delas é comum ouvirmos referências considerando-as ciências abstratas. Algo deve existir para que tenha se tornado tão arraigado esses juízos a respeito da Matemática.

Em um ponto de sua afirmação o autor tem razão: os conceitos matemáticos podem ser elaborados como mero exercício do pensamento, mas também podem emergir como resposta a uma necessidade pragmática. O que torna possível essa dubiedade é a existência de uma linguagem própria, a linguagem matemática. Essa linguagem permite expressar os conhecimentos matemáticos de maneira particular, diferente da linguagem natural. Na grande maioria das vezes, a linguagem matemática é entendida como sendo a própria Matemática.

“A Matemática não tem objeto próprio concreto, como a Física. O professor de Matemática, pois é professor de pensamento. (...) Pode-se dizer, portanto, que a Matemática é uma “linguagem” altamente purificada, desligada dos símbolos dos objetos e ligada aos símbolos das relações” (LIMA in BRASIL, 1977: XV).

Assim como Lungarzo, Lima confere à abstração condição sine qua non para a existência da Matemática, com especial relevo para a linguagem desta. Ou melhor, diferencia a linguagem matemática (símbolos das relações) da linguagem natural (símbolos dos objetos) e confere à primeira o estatuto de ciência. Para ele, a Matemática é uma linguagem. Nesse

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caso, também, nada mais equivocado. A Matemática possui sim uma linguagem “altamente purificada”, mas nem de longe estas podem ser confundidas. Muito menos o professor de matemática ser considerado professor de pensamento.

Mas, se a Matemática não é uma ciência abstrata, pelo menos em sua totalidade, e também não é uma linguagem, o questionamento inicial continua sem resposta. Contudo, embora não saibamos ainda o que ela é, já sabemos o que ela não pode ser.

Frente às muitas conceituações existentes, a que me parece mais coerente e completa seria:

“Matemática é a classificação e o estudo de todos os padrões possíveis”. A palavra padrão é usada aqui de uma maneira com a qual nem todos concordarão. Ela deve ser entendida num sentido bem amplo, cobrindo quase qualquer tipo de regularidade que se pode imaginar na mente. A vida, e certamente a vida intelectual, somente é possível porque há certas regularidades no mundo. Uma ave reconhece as listas pretas e amarelas de uma vespa; o homem reconhece que o crescimento de uma planta se segue ao plantio da semente. E, em cada caso, uma mente está ciente do padrão” (SAWYER apud DEVLIN, 2004: 94 - 95).

Os padrões a que se refere o autor são todos os objetos e fenômenos físicos reais ou imaginários que o ser humano consegue detectar. Existe um padrão quando uma pessoa vai a um posto de gasolina e abastece o seu veículo, que é comum ao existente em uma compra de casas: em ambos o valor a ser pago é determinado pelo valor de uma unidade do produto e a quantidade a ser comprada, que, matematicamente podem ser representados pela função f(y) = ax (sendo a quantidade de objetos, x o valor unitário e y o valor da compra).

Esses padrões citados são mais simples de serem percebidos, pois fazemos uso deles freqüentemente em nossas ações cotidianas. Todavia, existem outros padrões que exigem um olhar menos superficial para entendê-los e uma linguagem mais elaborada para estudá-lo. É o caso da trajetória descrita por uma pedra quando a lançamos ao ar.

Quando, há 75.000 anos, as sociedades tribais encontraram soluções para os problemas contábeis, estavam reconhecendo padrões numéricos. Na comparação entre tipos de animais eram detectadas semelhanças e diferenças com base na observação de certas

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regularidades como cores, tamanho, parte do corpo, etc. Desses rudimentos matemáticos simbólicos, aparentemente simples para um observador há aproximadamente 70 milênios depois, é que formou-se o vasto conjunto de ramos da Matemática existentes atualmente.

Se, no passado os padrões podiam ser classificados basicamente em dois tipos, numéricos e geométricos, hoje é consideravelmente grande a classificação dos padrões estudados pela Matemática. Vale a ressalva de que muitos desses não envolvem números. Está relacionado a isso grande parte da confusão e do estranhamento quando se fala em Matemática, pois a aritmética é o primeiro conhecimento matemático a ser ensinado nas escolas. Como muito dos alunos interrompem a vida escolar sem avançarem a outros tópicos, cría-se a falsa conclusão de que a Matemática trabalha apenas com números. Para estes e para aqueles a que foi negado o direito de ir à escola, o conhecimento matemático mais utilizado, e que se tem noção disso, são os relacionados à aritmética. Soma-se a isso o aparecimento de uma linguagem cada vez mais elaborada tratando dos conhecimentos matemáticos e o esforço por estabelecer notações que contemplem tanto a linguagem como o conhecimento. Citando mais um exemplo dos padrões existentes, com vistas a descortinar ainda mais esse universo complexo, pode-se contemplar o caso dos fractais descrito por DEVLIN (2004: 112 - 115).

Figura 2: A aplicação de uma regra repetidas vezes pode criar uma estrutura parecida com a de uma árvore.

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O desenho vislumbrado na Figura 2, semelhante a uma árvore, pode ser obtido por meio da aplicação de uma regra simples várias vezes. Nesse caso, essa regra consiste em dividir cada ramo em três partes iguais, e, à distância de dois terços da base dos ramos mais altos, acrescentar dois novos com cada um tendo o comprimento de um terço do ramo original.

Na Figura 3, analogamente ao exemplo anterior, foi aplicado um mesmo sistema de regras repetidamente e, com o auxilio da computação gráfica, obteve-se uma planta (Lilás).

Figura 3: Um lilás eletrônico gerado com recursos existentes na computação gráfica a partir de regras de crescimento simples.

Como afirma PRUSINKIEWIWZ (apud DEVLIN, 2004) uma estrutura tão complicada diante dos nossos olhos, como a estrutura de uma planta, não passa de uma organização complexa de coisas simples. E isso pode ser estudado pela Matemática.

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Diante disso podemos ficar perplexos ao imaginar a quantidade e a diversidade de conhecimentos que estão a nossa volta e que não conhecemos, ou quanta Matemática existe ao nosso redor que pode nos ajudar a perceber esse espaço e agir inteligentemente sobre ele.

Assim, podemos acreditar, como MACHADO (1991) que a Matemática é um sistema de representação da realidade, construído gradativamente pela humanidade ao longo de sua história, do mesmo modo que as línguas. Ou ainda, que

“(...) a matemática constitui uma maneira determinada e específica de interpretar, de observar a realidade. Que usa uma linguagem específica, diferente das linguagens naturais e cuja aquisição não pressupõe a mera ‘tradução’ para a linguagem natural. E que, portanto, aprender matemática significa aprender a observar a realidade matematicamente, entrar na lógica do pensamento e da linguagem matemática, usando as formas e os significados que lhes são próprios”. (GÓMEZ – GRANELL in TEBEROSKY & TOLCHINKY, 2003: 282).

Portanto, a Matemática não se encerra na simples observação e compreensão dos padrões existentes, sejam eles completamente abstratos ou não; tampouco fica circunscrita a uma linguagem pesada, limitada a operar tecnicamente sobre signos formais. A Matemática, assim como a Língua Portuguesa, torna possível ao ser humano lançar um olhar crítico sobre o espaço que habitamos e (re) pensar nossos conhecimentos, atitudes e valores diante da sociedade.

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III.

A PRODUÇÃO DE SIGNIFICADOS NA LÍNGUA PORTUGUESA E NA

MATEMÁTICA

“Entre as coisas e as formas, entre os nomes e as figuras, entre os signos e as substâncias existe talvez uma incessante circulação, uma simbolização recíproca, universal e permanente”. (J. Ladrière)

3.1. Interseção lingüística

Duas idéias estão fortemente ligadas à definição do que é a Língua Portuguesa e a Matemática: ambas são sistemas de representação da realidade e também utilizam-se de signos nessa representação. Portanto, compreender como as pessoas, o espaço, as coisas etc. se interrelacionam e se fazem representadas implica entender como o signo interage nesse processo.

De acordo com PEIRCE (apud YUNES: 1980), referência em estudos semióticos, um ato de cognição só se realiza sob a existência de uma cognição prévia, pois todo pensamento requer a interpretação de alguma coisa por outra coisa. Ou seja, na medida em que não é capaz de interpretar-se a si mesmo o pensamento fica ligado a representação sígnica.

De acordo com a teoria peirceana, o funcionamento do signo, ou semioses, envolve três componentes: o signo, o objeto e o interpretante, sendo que o essencial nessa colaboração é a colocação do signo no lugar do objeto. Assim, o signo se relaciona com um objeto e com um interpretante, construindo uma representação da seguinte maneira: “(...) X é sinal de Y para A, na medida em que, estando diante de X, A se dá conta de Y – onde Y é objeto, A – interpretante e X signo” (PEIRCE apud YUNES: 1980: 29).

A produção de significados dessa relação triádica acontece no momento em que o receptor, em contato com o signo, se remete ao objeto designado pelo signo. Para que isto seja possível é necessário que tal interpretante tenha familiaridades com o objeto. Daí a existência de uma cognição prévia.

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A relação do signo com o objeto é complexa, uma vez que o signo representa apenas alguns aspectos do objeto. O objeto, por sua vez, faz parte de um conjunto ilimitado de seres, coisas, situações etc. conferindo ao signo diferentes nuances. Por exemplo: o signo cavalo expresso pelo significante /kavalo/ nos remete a imagem do animal mamífero, quadrúpede, herbívoro etc. que é o significado. Na frase “A folha era verde” toda a sentença é um signo, que envolve a compreensão de dois objetos particulares, folha e verde.

Face a esta complexidade, Peirce classificou os signos em três categorias distintas, de acordo com a natureza do objeto.

O signo é um ícone quando possui características físicas visuais que o assemelha com a coisa que representa. É uma espécie de caricatura, um desenho do objeto. A Matemática é uma ciência que se utiliza muito de ícones em sua linguagem para auxiliar a representação e o estudo de um objeto. As figuras geométricas, por exemplo, geralmente são usadas ao lado de cálculos para ajudar a fixar com mais nitidez as características do padrão estudado, em virtude de ter uma representação visual próxima do objeto. O ícone também é mais apropriado em determinadas circunstâncias por propiciar um reconhecimento mais rápido do objeto representado, freqüentemente quando esses são situações que esperam orientar um comportamento específico. É o caso dos signos usados na linguagem de trânsito.

O signo pode ser um índice quando o significado deste é compreendido pelo reconhecimento de efeitos que o objeto nele produz. Nesse caso, a conexão do signo com a “coisa” é reconhecida mediante uma relação existencial entre os dois. O signo possui semelhanças com o objeto que não são mais à nível de imagem, como no ícone, mas pela identificação de um efeito produzido pelo objeto no signo. A fumaça pode ser entendida com um signo-índice na medida em que remeter o interpretante a imagem do fogo. Um numeral com três algarismos é índice de um número compreendido entre 99 e 1001. O verbo no plural em uma oração é índice de sujeito composto (considerando-se que em tal oração o verbo esteja flexionado de acordo com a norma padrão da Língua Portuguesa).

O símbolo é o signo cuja única característica que o identifica com o objeto é uma convenção adotada por um conjunto de pessoas. Fora dessa comunidade lingüística nada significam. As palavras e a maioria dos signos usados na notação matemática são símbolos.

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Convém lembrar que nenhum sistema semiótico contém exclusivamente um tipo de signo específico, ou seja, somente ícone, índice ou símbolo. Na Língua Portuguesa e na Matemática é predominante o uso de símbolos, entretanto, coexistem paralelamente a esses signos-ícone e sígno-índice. A Língua Portuguesa, como a Matemática, possue signos que pertencem a diferentes sistemas semióticos, podendo servirem tanto a um sistema de representação quanto ao outro, e também serem enquadrados numa dessas três classificações.

A ação semiótica (relações entre signo-objeto-interpretante) é pertinente tanto à Língua Portuguesa quanto à Matemática, evidenciando a relação de impregnação entre os dois sistemas, como aponta Machado (2001).

Matemática e Língua Portuguesa, portanto, possuem signos particulares que se adequam à sintaxe de cada um desses sistemas de representação, mas que também se entremeiam reciprocamente para produzirem significados em uma representação.

A relação do signo com o interpretante, do mesmo modo que com o objeto, é complexa para detalhar. A principal dificuldade é inerente à complexidade em conceituar o que é o interpretante de um signo. Segundo PEIRCE (apud YUNES, 1980: 98) “(...) o interpretante de um signo é o significado intencional (...) do signo”.

Para YUNES (1980) termo interpretante envolve um universo ilimitado de significações, assim como o tema interpretação. Admite que o interpretante de um signo seja uma interpretação dada a ele por alguém. Contudo, tal interpretação não é fechada, unívoca. Cada pessoa atribuirá a um signo uma interpretação que corresponde ao conhecimento ativado num dado momento, sendo, inclusive, vulnerável a sofrer influências de diversos fatores que envolvam a situação em que o signo foi usado.

Assim concebida a idéia geral do conceito de interpretante, admite-se que a relação do signo com o interpretante é plural e torna dinâmica a semiose.

PEIRCE (apud MACHADO, 2001: 111) propõe um modelo ilustrativo para a relação signo-objeto-interpretante:

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S

I1

I2

...

In

O
Figura 4: Esquema proposto por Charles Peirce para ilustrar a relação do signo com o objeto e com o interpretante.

O signo media a relação entre o objeto e o interpretante numa seqüência de relações triangulares. Posto em contato com o signo o interpretante se remete ao objeto, no entanto, o objeto será particular a cada interpretante.

Esse esquema é bem significativo para ilustrar o funcionamento dos signos lingüísticos. Nesse caso, eficaz para exemplificar as relações de representação e significação empreendidas na Língua Portuguesa, a nível sintático, semântico e pragmático. Porém, uma objeção poderia se posta sobre sua eficácia no campo da Matemática a partir do seguinte questionamento: a Língua Portuguesa se utiliza de palavras (signo lingüístico no sentido definido por Saussure), mas, no caso da Matemática, que se utiliza de signos formais em sua linguagem, a relação signo-objeto-interpretante assim definida não seria inaplicável?

O equívoco em tal objeção reside no fato de não se considerar os signos formais unitários como signo lingüístico. Uma das componentes do signo lingüístico, o significante, é uma marca acústica que remete ao significado. As palavras, de fato, comportam esses dois componentes. Os símbolos usados na Matemática também, só que de maneira diferenciada.

Na língua, a composição do signo comporta dois níveis de articulação. Segundo MARTINET (apud MACHADO, 2001) a primeira articulação é aquela que acontece quando uma comunidade lingüística nomeia o objeto, ou seja, atribui-lhe um sentido, um nome, uma forma vocal. A segunda articulação é aquela que acontece no interior dessa formas vocais, é quando os fonemas se articulam na composição dos monemas. Os signos formais, por sua vez, não contêm esse segundo nível de articulação que as palavras possuem. Aliás, ela existe,

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porém não é própria deles. Ela ocorre por empréstimo à estrutura fônica de uma língua dada. No entanto, não se pode dizer que eles não possuem um significante, até mesmo porque no plano da escrita esse significante tem uma forma própria. Assim, o signo Î possui um significado (inclusão) e um significante (“pertence”), mesmo que emprestado. Portanto, a objeção acima não se concretiza.

Outro aspecto que merece ser abordado é quanto à natureza dos símbolos da linguagem matemática. Eles nada dizem isoladamente. O conteúdo semântico é estabelecido a partir do momento que, em relações sintáticas, formam um sintagma. E como afirma Peirce, uma sentença também é um signo.

É indiscutível que a maioria das pessoas que nunca foram à escola, ou nunca partilharam de experiências similares às que lá são trabalhadas, estabeleçam sólidas diferenças entre a Matemática e Língua Portuguesa. As experiências diárias e os conhecimentos vivenciados e partilhados transitam livremente sob os signos da Matemática e da Língua Portuguesa sem as pessoas perceberem. A freqüência e a eficiência com que isso acontece é tão natural que sequer cogita-se a existência de um mundo figurado sob o domínio de duas áreas distintas, dado o caráter utilitário com que tais conhecimentos são utilizados. Essa simplicidade está presente desde o uso de medidas, contagens, classificações até expressões lingüísticas enxertadas de termos da Matemática e da Língua Portuguesa na linguagem corriqueira.

3.2. A simbiose Língua Portuguesa & Matemática

No uso diário de nossas falas, em nosso discurso, é comum a troca de termos entre essas duas áreas. Na Matemática as palavras são muito mais usadas para denotar um conhecimento do que os próprios símbolos da linguagem matemática. Usamos a expressão “oito reais”, embora pudéssemos usar a representação “R$ 8,00”, falamos “meio dia e meia” ao invés de “12:30 h”, e assim sucessivamente. Do mesmo modo costumamos empregar termos matemáticos em lugar de expressões da língua, como é o caso do termo “quarto” para nomear um cômodo da casa que, geralmente, corresponde a 1/4 desta.

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Vejamos na tira abaixo a naturalidade com que se interpenetram estes termos em nossa linguagem cotidiana.

Figura 5: DISNEY, Walt. Piadinhas do Donald. In: Almanaque Disney. Editora Globo. Nº 231.

No primeiro quadrinho o teor da mensagem é estritamente referencial. Apesar do pronome de tratamento você está sendo usado em lugar do pronome pessoal tu, a principal função da mensagem não é influenciar diretamente o comportamento de quem passar por ali, dizendo, por exemplo, a direção que ele deva seguir. Pelo contrário, busca informar apenas o lugar onde ele está.

No último quadrinho o aviso já assume uma conotação diferente. Predomina a função conativa da linguagem no discurso. Além de informar que o personagem encontra-se perdido, visa a fazê-lo aceitar que não é capaz, ou não foi, ou não usou suas habilidades cognitivas para ler e entender a mensagem do cartaz anterior, orientar seu percurso no local e chegar ao destino desejado. Em outras palavras, está chamando o Donald de “burro”. Para imprimir na personagem essa conclusão, foi usado na primeira oração o advérbio ainda e o vocativo panaca, e na segunda oração o termo círculos. Ou seja, buscou auxílio de um termo matemático que já é comum no uso diário em nossos atos de comunicação, só que para cumprir um papel bem diferente.

Nota-se que a palavra círculos é usada como sinônimo de perdido. Na Matemática, círculo é definido como a reunião da circunferência com a área interna da região delimitada pela circunferência. Circunferência são os pontos de um plano eqüidistantes de um ponto fixo. O termo círculo, emprestado do português para nomear um padrão estudado pela Matemática, pode ser substituído por um ícone que representa a idéia, tornando-se um signo da linguagem matemática.

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A substituição do termo está perdido por andar em círculos não foi uma escolha aleatória. Ela cumpre um papel preponderante na composição final do significado do enunciado, pois sua força retórica produz um efeito especial para o leitor.

De acordo com a Teoria Imagística, de E. Sapir, “O significado de uma palavra é uma imagem” (YUNES, 1980: 48). Á luz dessa teoria podemos inferir que está perdido não produz uma imagem específica para o interpretante. Esse problema é solucionado substituindo esse termo por andar em círculos, pois este último relaciona-se mais diretamente com uma imagem, que é com a de uma circunferência. O significado atribuído separadamente a cada termo em nada se assemelha com relação à univocidade de uma imagem. Contudo, esse vácuo se dispersa a partir da aproximação dos campos semânticos estabelecidos em torno de tais palavras quando elas são tiradas de suas respectivas áreas de atuação – da Matemática e da Língua Portuguesa.

O ícone usado pela Matemática para representar simultaneamente a circunferência e o círculo foi sendo associado, de um modo geral, à imagem de outros objetos com a mesma similitude imagística, como a de um pneu. Como principal característica de um pneu temos o fato de ele rodar. Pneu foi sendo associado a carro, por ser uma peça deste, e por último a andar sem direção, devido carros, em algumas situações, andarem sem direção. “Andar sem direção”, “falta de direção para seguir”, “estar sem rumo”, são expressões sinônimas de estar perdido. Logo, o signo verbal círculo foi aos poucos se afastando do sentido usualmente atribuído pela Matemática e adquirindo outro significado na Língua Portuguesa de tal modo, que, às vezes, nem compreendemos a carga metafórica que lhe é peculiar.

Essa troca de termos anfíbios entre a Matemática e a Língua Portuguesa pode revelar uma beleza incomparável quando arranjadas com uma atenção toda especial, como na poesia. Num jogo de palavras perfeito, Millôr Fernandes5 combinou expressões e conceitos matemáticos para compor uma linda poesia.

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http://blog.webcalc.com.br/2006/05/17/poesia-matematica-millor-fernandes/

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POESIA MATEMÁTICA Um Quociente apaixonou-se Um dia Doidamente Por uma Incógnita. Olhou-a com seu olhar inumerável E viu-a, do Ápice à Base… Uma Figura Ímpar; Olhos rombóides, boca trapezóide, Corpo ortogonal, seios esferóides. Fez da sua Uma vida Paralela à dela. Até que se encontraram No Infinito. “Quem és tu?” indagou ele Com ânsia radical. “Sou a soma do quadrado dos catetos. Mas pode chamar-me Hipotenusa.” E de falarem descobriram que eram - O que, em aritmética, corresponde A alma irmãs Primos-entre-si. E assim se amaram Ao quadrado da velocidade da luz. Numa sexta potenciação Traçando

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Ao sabor do momento E da paixão Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais. Escandalizaram os ortodoxos Das fórmulas euclideanas E os exegetas do Universo Finito. Romperam convenções newtonianas E pitagóricas. E, enfim, resolveram casar-se. Constituir um lar. Mais que um lar. Uma Perpendicular. Convidaram para padrinhos O Poliedro e a Bissetriz. E fizeram planos, equações e Diagramas para o futuro Sonhando com uma felicidade Integral E diferencial. E casaram-se e tiveram Uma secante e três cones Muito engraçadinhos. E foram felizes Até àquele dia Em que tudo, afinal, Se torna monotonia. Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum…

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Freqüentador de Círculos Concêntricos. Viciosos. Ofereceu-lhe, a ela, Uma Grandeza Absoluta, E reduziu-a a um Denominador Comum. Ele, Quociente, percebeu Que com ela não formava mais Um Todo. Uma Unidade. Era o Triângulo, Chamado amoroso. E desse problema ela era a fração Mais ordinária. Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade. E tudo que era expúrio passou a ser Moralidade Como aliás, em qualquer Sociedade. Millôr Fernandes

Está claro que a representação sígnica busca muito mais que a simples representação de objetos, visa também estabelecer a comunicação, a troca de experiências entre as pessoas. Aristóteles, preocupado com fenômenos da comunicação, percebeu a existência de três elementos em qualquer ato locutório: quem fala (emissor), o discurso que se pronuncia (mensagem) e quem escuta (receptor) (YUNES, 1980). Tal teoria abriu novos caminhos no estudo da comunicação, resumindo as principais funções da linguagem, propostas inicialmente por Bühler e aperfeiçoadas por Jakobson. É sob essa ótica que será analisado como a Língua Portuguesa e a Matemática se interrelacionam

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mutuamente em níveis mais complexos na composição de uma mensagem, uma vez que a linguagem se reveste de múltiplas características para ajustar-se à comunicação.

Enquanto signos verbais e formais transitam livremente pela Matemática e pela Língua Portuguesa sem que os usuários necessariamente reflitam sobre tais usos, por vezes há a necessidade de que haja conhecimentos teóricos mais profundos sobre a natureza da significação dos signos em contextos interativos mais complexos, como é o caso da mensagem da publicidade, dos receituários, do texto jornalístico etc. Nesses casos, na escolha dos signos para a formulação da mensagem é imprescindível ter noções precisas sobre as possibilidades de significação individual deles e como estes ficarão interligados. Só assim a mensagem poderá adequar-se as funções da linguagem, sendo decodificável ao receptor e, ao mesmo tempo, atendendo aos propósitos do emissor.

O texto abaixo ilustra bem essa necessidade.

Figura 6: Receita pertencente ao rótulo de suco artificial produzido por uma empresa.

A elaboração de um receituário sempre busca a objetividade na informação veiculada. São instruções dadas a um público específico, mas com características bem diversas. Não pode deixar margens para uma interpretação diferente da pretendida pelo emissor. Cumpre as funções referencial e conativa, de acordo com as funções da linguagem estabelecidas por Jakobson. Para isso, os signos escolhidos, sejam individualmente ou organizados sintaticamente em sentenças, não podem permitir divagações com relação ao

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significado. Ou seja, a relação signo-objeto-interpretante não pode conduzir os interpretantes à construção de diferentes imagens no feixe de relações criadas com o objeto.

No título do texto já se faz presente um comando. Modo de preparo deixa implícito ao consumidor que este deverá seguir as instruções ali determinadas no processo de preparação do suco. O advérbio modo dá essa conotação à frase. É uma ordem. O consumidor deverá agir conforme as prescrições dadas para obter o produto final que comprou, e, conseqüentemente, a satisfação comprada.

Porém, nesta receita as instruções não são dadas em sentenças enormes da Língua Portuguesa, como quase sempre acontece. Ao invés disso são usados signos numéricos em uma equação. Como auxiliares desses símbolos, ícones representando a água e o suco completam a idéia do que exatamente deve se feito, uma vez que os números 1, 9 e 10, por si só, não fazem referência a um objeto em particular. Buscando eliminar possíveis dúvidas, abaixo de cada ícone há uma referência da quantidade que deve conter cada um deles, além das palavras suco e água escritas em caixa alta explicando o que as cores em cada copo poderá não deixar claro. Uma receita contém duas partes, uma identificando os ingredientes a serem usados e a outra dando as instruções de como esses ingredientes deverão ser arrumados. Na receita acima, a equação 1 + 9 = 10, juntamente com a imagem dos copos e mais umas poucas palavras, sintetizou essa duas partes sem perder a precisão das informações, se ajustando perfeitamente a falta de espaço no rótulo do produto. Aliou num curto espaço aspectos visuais e lingüísticos de forma resumida.

O produto final desse conjunto de microtextos é uma mensagem altamente objetiva e eficiente com a Matemática e a Língua Portuguesa inteligentemente bem articuladas. Se, separadamente, cada sintagma exprime uma capacidade comunicacional exuberante, interligadas são indiscutivelmente eficazes na representação.

Essas duas situações exemplificadas vêm mostrar de que modo a Língua Portuguesa e a Matemática constroem significados, referindo-se a relações, objetos, ações etc. Longe de estarem separadas por um vácuo, estão interligadas mutuamente. Ora são autônomas, ora são dependentes uma da outra. Em ambos os modos dependemos delas.

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Tudo isso aponta para a plausibilidade em reconhecer que mantê-las em campos separados não conduzirá a um conhecimento mais profundo da realidade e a um aprendizado consistente de como a usamos ou podemos usá-las em nossa sociedade.

3.3. O denominador comum

Recordemos que na parte inicial deste trabalho é feita uma referência aos altos índices das taxas de analfabetismo funcional no Brasil. Medir as competências e habilidades necessárias para estabelecer parâmetros que classifiquem pessoas em alfabetizadas plenas ou não é um desejo de se obter respostas sobre o desempenho da escola no processo de educação escolar. É uma possibilidade de dimensionar como está o acesso da população brasileira à escola. Mas, também visa a estabelecer noções concretas sobre o nível intelectual e cognitivo em que os cidadãos brasileiros encontram-se frente à diversidade de linguagens do qual se reveste-se o processo de desenvolvimento social, tecnológico, econômico, cultual etc. É que esses avanços imprimem novas sofisticações nas demandas de leitura e escrita em nossa sociedade, nas nossas atividades corriqueiras.

Faz-se necessário, hoje em dia, uma mobilização considerável de habilidades necessárias à leitura e à escrita para que uma pessoa se coloque diante dos acontecimentos sociais com um olhar crítico, principalmente pela quantidade e diversidade de informações veiculadas em nosso meio social. Isso faz com que o termo alfabetização e analfabetismo superem a noção de “aprendizado ou não aprendizado inicial da leitura e da escrita”, respectivamente. A substituição destes conceitos pelos de Alfabetismo Funcional e Analfabetismo Funcional refletem o alargamento das necessidades em “utilizar a leitura e a escrita para fazer frente às demandas de seu contexto social e de usar essas habilidades para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida” (RESULTADOS DO INAF – 2004: 03).

Tal concepção, portanto, ultrapassa o conceito de leitura como um processo de decodificação de letras e se estende à compreensão das diferentes linguagens e códigos usados pela Matemática:

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“Enfatiza também o papel social da Educação Matemática, sua responsabilidade de promover o acesso e o desenvolvimento (cada vez mais democrático e consciente) de estratégias de leitura do mundo para as quais os conhecimentos matemáticos são fundamentais” (RESULTADOS DO INAF – 2004: 05).

Desse modo, reconhecer as relações de interdependência entra a Língua Portuguesa e a Matemática é superar a visão de que ambas “não tratam de conhecimentos do dia-a-dia”, de que cada uma trata, à sua maneira, de “coisas do outro mundo”, ou de que a Matemática é cálculo e a Língua Portuguesa é gramática. É aceitar que elas podem propiciar conhecimentos muito mais atraentes e necessários à sobrevivência do que aqueles que usamos em situações triviais.

Vamos analisar mais um exemplo de como lidamos constantemente com situações que nos colocam diante da necessidade de ler diferentes informações veiculadas pela Língua Portuguesa e pela Matemática, e de como essas necessidades vão ao encontro daqueles parâmetros adotados pela Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura - UNESCO (base para a pesquisa realizada pelo INAF) na caracterização de uma pessoa considerada alfabetizada funcionalmente. Trata-se de um texto publicitário, de uma propaganda dos possíveis benefícios concedidos por uma operadora de telefonia celular em uma promoção. O fato do texto escolhido pertencer a esse gênero textual se deve a dois motivos principais: primeiro porque estamos, a todo momento, tendo contato com algum tipo de informação veiculada no campo da publicidade, dado o estágio de inovação tecnológica que os meios de comunicação alcançaram; o segundo é porque o teor do conteúdo da maioria desses textos é de cunho consumista, ou seja, trata de propagandear a venda de algum produto ou serviço. Por isso uma leitura adequada é necessária para verificar o que se esconde por detrás de propagandas desse tipo.

A elaboração da folha-capa deste panfleto (Figura 7) foi cuidadosamente pensada, aliando conhecimentos da Língua Portuguesa com o de intertextualidade como estratégia de marketing.

Segundo KLEIMAN (1999), atribuímos significado a um texto porque relacionamos o significado deste texto com o de outros textos. Para ela,

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“Texto (do latim textus, tecido) é toda construção cultural que adquire significados devido a um sistema de códigos e convenções (...) um texto funciona como um mosaico de outros textos, alguns mais próximos, alguns mais distantes, alguns mais pertinentes, outros menos, mas todos eles influenciando a leitura. (KLEIMAN, 1999: 62.)

Os elementos dos microtextos que compõem a parte inicial do panfleto (Figura 7) foram criteriosamente elaborados para conduzir os leitores a mesma leitura, que é a que a empresa quer que eles façam.

Figura 7: Capa de um panfleto divulgando promoção de uma empresa de telefonia celular.

No slogam da promoção, Fale grátis com qualquer vivo ou fixo, o verbo está flexionado na 3ª pessoa do singular, no presente do imperativo afirmativo. Ao mesmo tempo que denota uma ordem, sua impessoalidade caracteriza a oração como uma oração sem sujeito. Com isso, indica que os fatos desencadeados pelo comando do verbo acontecerão independentemente da vontade do leitor, conclusão que é reafirmada com o texto situado logo

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abaixo do slogam. Ainda no slogam, verbo e advérbio estão escritos em fonte maior que o restante da oração para chamar a atenção do leitor: quem fala, fala algum coisa, nesse caso, “a coisa” é gratuita. O objeto indireto, com qualquer vivo ou fixo, é escrito em fonte menor porque evidencia aspectos restritivos da promoção: embora se possa falar gratuitamente, tais benefícios só são válidos para ligações efetuadas entre celulares da mesma operadora responsável pela promoção e entre celulares desta com aparelhos de telefone fixo.

Abaixo do slogam, o desenho de um boneco, ícone de um ser humano, expõe sucintamente o que é a promoção. Isso é feito dispondo elementos das orações períodos em pares contrastivos: fale/pague, até/apenas e 45 min/3 min estabelecendo, assim, comparações que levam a conclusão óbvia: a promoção permite que se fale um período de tempo longo e se pague apenas uma parte desse tempo utilizado. Os numerais 45 e 3 são também escritos em fonte maior para que se tenha a noção do tamanho da economia.

Por último, tudo isso é diretamente relacionado à empresa responsável pela promoção, seja com o desenho do boneco, símbolo da empresa, ou com o nome da empresa escrito verticalmente ao lado do slogam.

Logicamente que o leitor não está consciente de todos esses aspectos lingüísticos e visuais envolvidos no panfleto. Mas, ao ter contato com as informações obtidas nele uma série de conhecimentos já interiorizados com outras experiências são acionados. Exemplo: a palavra vivo lembra de “qualquer aparelho celular habilitado pela empresa de telefonia celular chamada de Vivo”. Embora não se pronuncie a palavra “promoção”, o conteúdo da capa do panfleto leva a essa conclusão. Por sua vez, “promoção” remete à idéia de economia, e assim sucessivamente. É a prática da intertextualidade de que fala Kleiman que está sendo acionada.

Na parte interna do panfleto (FIGURA 8) está o nome da promoção, VIVO PRÉ FALA MAIS, e o regulamento da mesma. No quadro geral dos itens contidos no regulamento está o que descreve os benefícios da promoção.

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Figura 8: Parte interna do panfleto.

Na primeira parte, um texto escrito em português descreve minuciosamente o funcionamento e as vantagens da promoção. Sabendo ser um texto informativo deste tipo, para muitas pessoas, tedioso e complicado, ou até mesmo incompreensível, é proposto um esquema ilustrativo envolvendo recursos gráficos e conceitos matemáticos. Assim, é criada mais uma oportunidade para que o leitor compreenda como funciona a promoção. Procura restringir, também, as múltiplas possíveis interpretações dadas ao texto.

Apesar de seu uso ser favorável ao contexto citado, o recurso gráfico acima possui uma falha que pode revelar-se gravíssima para a empresa. Ao representar o tempo de duração de possíveis chamadas telefônicas em uma reta numérica, o tempo que compreende a gratuidade nas ligações (o intervalo ]3 min, 45min]) não segue na reta a idéia de proporcionalidade. Veja que este espaço possui apenas quatro módulos, e, apesar da seta → (acima deste intervalo) e da equação 42 min = grátis (abaixo do intervalo), não produz visualmente a idéia da dimensão que corresponde aos 42 minutos de gratuidade. Portanto, para algum leitor, em situação particular a um contexto, o uso de tal esquema, com seus códigos e símbolos poderá não surtir o efeito desejado pela empresa, que é o de vender mais aparelhos celulares desta empresa com habilitação pré-paga.

Este exemplo ilustra como funcionam os mecanismos que usamos para representar aquilo que queremos. Uma idéia pode ser representada de várias maneiras, envolvendo códigos e linguagens das mais diversas. Contudo, os mais usados são aqueles que situam-se

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no domínio da Língua Portuguesa e da Matemática. Conhecê-los significa aumentar o leque de possibilidades de interação com o meio social, favorecendo a postura de um olhar crítico diante das situações por eles representados.

Se, como diz MACHADO (2004), Matemática e língua materna representam a realidade, então é imprescindível conhecê-las com mais profundidade para que possamos ao máximo compreender essa realidade. A esse respeito, LELLIS & IMENES (1994) acrescentam que informação e educação são as condições essenciais para o exercício da cidadania, uma vez que a falta de informação interfere em escolhas e decisões, e informação precisa ser interpretada. Como boa parte das informações são veiculadas sob uma língua materna e em linguagem matemática, um certo nível de educação é necessário para ajudar a interpretar informações e transformá-las em conhecimento.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Língua Portuguesa e Matemática sempre foram áreas do conhecimento consideradas estanques. À elas quase sempre são atribuídas características que se afastam em muito do que elas realmente são. São definidas como uma estrutura fechada em regras que exigem um esforço doloroso do pensamento para que se possa compreendê-las. Chega-se mesmo a atribuir a uma força divina a condição necessária para que uns poucos iluminados possam entendê-las. A principal conseqüência dessas visões distorcidas é a imposição de uma lacuna distanciando as duas áreas quando estas são tomadas como objetos de estudo, gerando uma indisposição para o aprendizado de novos conhecimentos.

Está claro que fora do espaço escolar dificilmente nota-se limites separando as áreas de atuação da Língua Portuguesa e da Matemática. À propósito, parece mesmo até ser improvável que o aprendizado da língua materna e da Matemática sejam provenientes da mesma faculdade humana – a linguagem.

Comprovadamente a escola pode promover o ser humano a níveis mais elevados de conhecimento, a aumentar os índices de alfabetização. Mas, para isso, é preciso romper com velhos paradigmas que giram em torno do ensino, pois estes estão condicionando parte do fracasso escolar em sua tentativa de alfabetização.

É preciso considerar o meio social como fonte primária de elementos necessários ao aprendizado do português e da Matemática. O arcabouço cultural com que interagimos hoje é conseqüência de conhecimentos gerados a partir de relações estabelecidas no interior da sociedade. Isso não pode ser menosprezado.

Conhecer mais a nossa língua e a Matemática é compreender com mais detalhes como é a nossa sociedade, o mundo; facilitando a interação entre os seres humanos.

Hoje a escrita ocupa relativa importância na vida das pessoas. Sem a compreensão dela muitos obstáculos surgem para que se possa exercer de fato a cidadania. Dominar conhecimentos relativos aos sistemas de escrita é possuir mecanismos que possibilitem ao cidadão conviver num Estado democrático, proteger seus direitos, assegurar seus deveres,

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escolher com mais consciência seus governantes, participar ativamente na sociedade. Enquanto sistemas de representação a Matemática e a língua comporta dois níveis: a oralidade e a escrita, sendo, inclusive, as principais detentoras dos sistemas de escritas mais utilizados. Para o aprendizado da língua e da Matemática, portanto, é indispensável olhar com atenção aspectos relativos a essas duas componentes lingüísticas. Ver, ouvir, falar e praticar são os passos iniciais no aprendizado de qualquer conhecimento, com elas não poderia ser diferente. Cabe aos professores de Língua Portuguesa e de Matemática promoverem ações que pontuem a oralidade como suporte de significados no aprendizado da escrita, para que, assim, possam orientar a prática.

Cabe ressaltar, por fim, que, a despeito das especificidades existentes na Língua Portuguesa e na Matemática, existe uma complementaridade endógena às suas naturezas que se não compreendidas, ou mal compreendidas, podem se tornar instrumentos de domínio e poder.

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