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Revista Teologia ano 1 número 5 - Pastor

Revista Teologia ano 1 número 5 - Pastor

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Revista Produzida por pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, em conjunto, com o objetivo de compartilhar material. Pode ser livremente copiada e distribuída desde que citada a fonte e os autores.
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Ano 1, Nº 5

Produzida por Pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

Pastor
- O pastor da IELB. Sua postura. Sua visitação, p. 4. - Noções de Teologia Pastoral, p. 30. - Duas faces de uma - O sofrimento humano mesma igreja, p. 28. e a compaixão de Deus - O culto nas Confissões em Lutero, p. 72. Luteranas, p. 66. - Simbologia, p. 115. - Sugestão Litúrgica, p. 116. - Lutero ensina sobre o Ministério, p. 104. - Meus amuletos, p. 107. - Um Ministério com medo?, p. 108. - Direto ao Ponto, p. 119.

EXPEDIENTE

Publicação mensal de pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) não oficial. Tem como propósito divulgar textos teológicos/pastorais, inéditos ou não, produzidos por pastores e teólogos da IELB, recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão disponíveis na Internet, divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica luterana confessional e a reflexão teológica na IELB, e ser uma ferramenta prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas. Os conteúdos são de responsabilidade dos seus autores.

ApresentAção dA revistA eletrônicA teologiA & práticA
A revista Teologia&Prática é uma iniciativa de pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Ela não tem caráter oficial. Seu objetivo básico é coletar e compartilhar bimestralmente, de forma organizada, via Internet, textos teológicos/pastorais, inéditos ou não, produzidos por pastores da IELB e que regularmente circulam em listas da Igreja. Além disso, procura recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão disponíveis na Internet. Um objetivo subjacente é a intenção de divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica luterana confessional e a reflexão teológica na IELB. Além de possibilitar a reflexão teológica, a revista quer ser uma ferramenta prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas.

Colaboradores desta edição:

Dieter J. Jagnow; Egon M. Seibert; Elieu Radins; Jarbas Hoffimann; Leandro Daniel Hübner; Marcos Schmidt; Martinho Rennecke; Nivaldo Schneider; Waldyr Hoffmann

Critérios
1. A produção da revista é coordenada por voluntários. Um (ou mais) editor é responsável para que exista um mínimo de organização na diferentes fases do processo. 2. A revista é fechada em PDF e carregada em um depósito da Internet, de onde poderá ser baixada livremente. 3. A revista tem circulação bimestral. Não há um número fixo de páginas. 4. Um blogue serve de apoio para as edições, a fim de possibilitar a sua divulgação pelos mecanismos de busca da Internet. 5. A revista é aberta a todos os pastores da IELB interessados em compartilhar seus textos (meditações, estudos homiléticos, sermões, resenhas, ensaios, etc.), inéditos ou não. Cada autor é responsável pelo seu texto (doutrinária, gramática e ortograficamente). Os textos devem ser enviados ao editor. Nota: O editor pode recusar — ou solicitar que seja revisado — algum texto, caso julgue que ele afronte a doutrina da IELB. Para tanto, se necessário, conta com voluntários para a avaliação. Não serão utilizados textos de conteúdo político-partidário, que promovam o ódio ou a discriminação ou que firam os princípios e valores da Igreja. 6. A publicação dos textos enviados não é imediata. Existe uma tentativa de se ter variação de conteúdos em uma edição e em edições subsequentes. O editor informa ao autor a situação de cada texto recebido. 7. Há uma pauta mínima, no sentido de se buscar conteúdos que de alguma forma abordem questões pontuais (exemplo: Reforma, eleições, Natal). A pauta completa é determinada de acordo com as colaborações recebidas, conforme a ordem de chegada. 8. O organograma de produção é este: a) Lançamento: até o dia 25 do segundo mês da edição b) Preparação / Diagramação: do dia 1 ao dia 20 do segundo mês da edição c) Recebimento dos textos: até o dia 20 do primeiro mês da edição e-mail: revistateologia@gmail.com blogue: http://revistateologia.blogspot.com tuíter: http://twitter.com/revistateologia

Imagens:

As imagens usadas nesta publicação são de livre acesso na Internet, ou foram cedidas pelo proprietário. Caso contrário aparecerá, ao lado da imagem, a referência ao seu autor.

Coordenadores:

Rev. Dieter Joel Jagnow (editor) Rev. David Karnopp Rev. Jarbas Hoffimann (diagramador) Rev. Mário Rafael Yudi Fukue Rev. Tiago José Albrecht Rev. Waldyr Hoffmann

Diagramador: Blogue

Rev. Jarbas Hoffimann diagramador.rt@gmail.com http://www.revistateologia.blogspot.com

Twitter

@revistateologia

Colaborações:

Os textos a serem publicados na revista devem ser enviados ao editor

Contato/Editor:

revistateologia@gmail.com

Leitura na Internet:
www.scribd/revistateologia

- O pastor da IELB. Sua postura. Sua visitação, p. 4. - Duas faces de uma mesma igreja, p. 28. - Noções de Teologia Pastoral, p. 30. - O culto nas Confissões Luteranas, p. 66. - O sofrimento humano e a compaixão de Deus em Lutero, p. 72. - Lutero ensina sobre o Ministério, p. 104. - Meus amuletos, p. 107. - Um Ministério com medo?, p. 108. - Simbologia - Espírito pentecostes, p. 115. - Sugestão Litúrgica, p. 116. - Direto ao Ponto, p. 119.

Teologia PasToral

Rev. Jarbas Hoffimann e Rev. Elieu Radins*

Sua postura. Sua visitação
Introdução
tema ao qual nos propusemos é muito amplo e jamais será completamente exaurido. Mas neste trabalho tentamos trazer à luz a real postura e atividade do “Pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB)”, bem como os pontos de vista Escriturístico, Confessional e Documental sobre o assunto. Conseguimos coletar muitíssimos dados bíblicos, mas nos ativemos à pesquisa bíblica no Novo Testamento, para delimitar o escopo da pesquisa. Assim tentamos abranger ao máximo o entendimento do Novo Testamento

O

sobre a função de Pastor. Pesquisamos também nas Confissões da Igreja Luterana e outros Documentos Oficiais Luteranos, sintetizando o que eles pensam e dizem sobre o “Pastor da IELB” e como este deveria ser e agir. Na parte final deste trabalho consideramos, entre tantos outros, o tema da visitação. Tema que para nós é de suma importância na igreja de hoje. Numa sociedade cada vez mais segmentada e individualista, a visitação é um meio de promover a comunhão. Um meio de promover a missão. Meio de chegar aos “cansados e sobrecarregados”. Da mesma maneira que o tema “Pastor da IELB” é amplo, a visitação também é. Mas procuramos resumir alguns dos pontos que julgamos mais proeminentes nesta sagrada atividade de entrar nas casas das pessoas, nos quartos de hospitais e em vários outros lugares onde Deus abre as portas e vai conosco.

1. O Pastor — Terminologia do Novo Testamento
No Novo Testamento aparecem vários termos relacionados ao ministério. Como veremos a seguir, esses termos se confundem no seu uso. Não são termos que segmentam, mas que completam a função do ministério. Apesar de às vezes parecerem ter tarefas distintas, a tarefa principal “anunciar a Palavra” cabia a todos os
*

Este trabalho de pesquisa é a compilação de dois que foram apresentados para o mesmo curso de Teologia Pastoral, no Seminário Concórdia de São Paulo. Curso ministrado pelo saudoso professor Ari Lange, que recomendou a publicação do mesmo (acrescentando-se as partes do segundo trabalho que aqui já constam) na revista Vox Concordiana, algo que nunca foi feito por ocasião do fechamaneto do Seminário de São Paulo. Da pesquisa do Rev. Elieu Radins, neste aqui, foram aproveitados os pontos: 5.4, 5.5, 5.6 e 5.7. O restante do trabalho foi preparado pelo Rev. jarbas Hoffimann.

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agente (Rm 13.4); [4] serviço para um alto oficial: atendente, servo (Mt 22.13).2 e. g. Rm 15.8; Ef 3.7, 6.21, Cl 1.7, 23, 25, 4.9; 1Tm 4.6. leitourgo,jà ou/à o` (substantivo) = estritamente: de um serviço público executado; no NT de alguém que leva a cabo a vontade de Deus servindo a outros; servo, ministro.3 e.g. Rm 15.16; Hb 8.2

1.2. Pastor
crentes em Cristo Jesus, qualquer que fosse o nome a eles associado. Vamos trabalhar com 7 vocábulos encontrados no Novo Testamento. São eles “u`phre,thjà ouà o`”; “dia,konojà ouà o`à h`”È “leitourgo,jà ou/à o`”È “poimh,naà e,nojà o`”È “avrcipoi,mhnà enoja o`”È “evpi,skopojà ouà o`” e “presbu,terojà te,raà on”. Estes termos normalmente são traduzidos por ministro, pastor, bispo e presbítero. Passemos a um estudo específico e individual dos termos. poimh,naà e,nojà o` (substantivo) = [1] literalmente: alguém que cuida de um grupo de animais pastoreia, pastor de ovelhas (Lc 2.8); [2] metaforicamente: alguém que assume a liderança sobre um grupo de crentes; [a] para “desenhar” o Cristo como cabeça da Igreja (Hb 13.20); [b] líderes humanos sobre uma comunidade de crentes, pastor, ministro (Ef 4.11).4 e.g. Mt 9.36; 25.32; 26.31; Mc 6.34; 14.27; Jo 10.2, 11-12, 14, 16; Hb 13.20-21; 1Pe 2.25. avrcipoi,mhnà enoja o` (substantivo) = literalmente: alguém que comanda outros pastores, chefe de pastores. Metaforicamente: de Cristo como encarregar dos líderes das comunidades cristãs (1Pe 5.4). e.g. 1Pe 5.4.

1.1. Ministro
u`phre,thjà ouà o` (substantivo) = significado básico: alguém que age debaixo das ordens de outro para levar a cabo a vontade dele: um assistente, um ajudante (At 13.5); um oficial do tribunal da lei, deputado (Mt 5.25); numa sinagoga: assistente, atendente (Lc 4.20); criado (Mt 26.58; Jo 18.12); na casa do rei: atendente, servo ( Jo 18.36); aqueles que trabalham com Cristo para realizar seus propósitos, servo de confiança, ministro, assistente (1Co 4.1).1 e.g. At 26.16; dia,konojà ouà o`à h` (substantivo) = [1] servo, ajudante (Mt 20.6); [2] um cargo oficial na igreja: diácono; diaconisa (Rm 16.1); [3] governo oficial: ministro,
1 Louw-Nida, UBS Greek Dictionary e Friberg Analytical Lexicon em Bible Works 3.5.026 (3103) — 1996 (tradução própria).

1.3. Bispo
evpi,skopojà ouà o` (substantivo) = inspetor, alguém que assiste o bem-estar dos outros; [1] de Cristo guardião, guarda (1Pe 2.25); [2] dos líderes da Igreja: bispo, inspetor, pastor (1Tm 3.2).5 e.g. 1Tm 3.2; Tt 1.7; 1Pe 2.25; At 20.28; Fp 1.1.
2 Louw-Nida, UBS Greek Dictionary e Friberg Analytical Lexicon em Bible Works 3.5.026 (3103) — 1996 (tradução própria). 3 Louw-Nida, UBS Greek Dictionary e Friberg Analytical Lexicon em Bible Works 3.5.026 (3103) — 1996 (tradução própria). 4 Louw-Nida, UBS Greek Dictionary e Friberg Analytical Lexicon em Bible Works 3.5.026 (3103) — 1996 (tradução própria). 5 Louw-Nida, UBS Greek Dictionary e Friberg Analytical Lexicon em Bible Works 3.5.026 (3103) — 1996 (tradução própria). Junho e Julho, 2011 | Teologia | 5

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1.4. Presbítero
presbu,terojà te,raà on (substantivo) 4245 — 04339 = [1] denota mais idade (comparando entre dois) velho (Lc 15.25); velho; como substantivo oi` presbu,teroi a geração antiga, os antigos (At 2.17); [2] denota geração anterior oi` presbu,teroi antepassados, ancestrais, pessoas que viveram há muito tempo (Hb 11.2); [3] denota os funcionários honrados dos conselhos locais, sinagogas, etc. anciãos (Lc 7.3); [4] indica os membros leigos do Sanhedrin de famílias distintas e importantes como os Sacerdotes e escribas velhos, anciãos (Mc 11.27); [5] denota líderes que presidiam assembleias cristãs ancião (At 14.23, 15.2); [6] em Ap, denota o conselho (humano) celestial em torno do trono de D. ancião (Ap 4.4). e.g. At 11.30; 14.23; 15.2, 6, 22-23; 16.4; 20.17; 21.18; 1Tm 5.1, 17, 19; Tt 1.5, Tg 5.4; 1Pe 5.1; 2Jo 1.1; 3Jo 1.1.

2. O Líder no Novo Testamento 2.1. Ministro
A passagem onde aparece a palavra u`phre,thj (At 26.16), traduzida por ministro, apresenta o Apóstolo Paulo quando este foi chamado pelo próprio Cristo “para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como naquelas pelas quais te aparecerei ainda”. E nesta ocasião Cristo já dá uma função a Paulo: “ministro e testemunha”. Também traduzido por ministro, a palavra dia,konoj aparece com mais frequência no Novo Testamento. Mas seu significado é basicamente o mesmo: ministro

(veja acima em 1.1). Nos textos relacionados acima aparecem algumas referências sobre o ministro e seu ministério. Rm 15.8 fala que Cristo foi constituído ministro sobre a circuncisão. Para que as promessas de Deus fossem confirmadas e para que os gentios glorifiquem a Deus. Ou seja, o ministério não existe por existir, ele existe para a finalidade de levar o testemunho cristão a todos, inclusive aos gentios. Isto também fica claro em Cl 1.23, onde Paulo fala do “evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu”, E em Cl 1.25 também está claro que Paulo se tornou ministro “de acordo com a dispensação da parte de Deus” a fim de “dar pleno cumprimento à palavra de Deus” Em Ef. 3.7 Paulo repete esta dádiva que é seu ministério, um “dom da graça de Deus a mim concedido segundo a força operante do seu poder”. A Timóteo Paulo diz que o ministro deve expor as verdades de Cristo para ser um bom ministro. Este também necessita estar alimentado com a fé e boa doutrina (1Tm 4.6). Em Ef 6.21 Paulo chama Títico de “irmão amado e fiel ministro do Senhor”. Na carta aos Colossenses, Epafras é chamado de conservo por Paulo e recomendado como ministro àquela igreja (Cl 1.1-8). Um dos textos que podem ser usados como exemplo do que se esperava do ministro é Cl 1.24-29, que diz que o ministro é feliz nos sofrimentos pelos outros, sofrimento a favor da igreja (v. 24). O ministério foi confiado por Deus (v. 25). O ministério se manifestou aos santos (v. 26) para dar conhecimento de Cristo aos gentios (v. 27). Para ensinar e admoestar e para apresentar todo homem perfeito a Cristo (v.28). E o Apóstolo Paulo dá o exemplo dizendo: “para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim” (v. 29). Este último versículo não quer dizer que Paulo acreditava em si mesmo, mas que ele acreditava que o dom derramado por Deus sobre ele não deveria ser desperdiçado. Assim, ele agiria e faria tudo o que estivesse a seu alcance para levar a cabo a vontade última de Deus: “o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm 2.4). Há ainda uma outra palavra que é traduzida por ministro: leitourgo,j. Ela aparece em Hb 8.2 e Rm 15.16. O primeiro texto fala que Cristo é o verdadeiro ministro do tabernáculo erigido pelo próprio Deus. O segundo texto aponta para o “sagrado encargo de anunciar o evangelho de Deus”, apontando assim para a finalidade do ministério: testemunhar.

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2.2. Bispo
A palavra bispo é tradução da palavra evpi,skopoj e aparece repetidas vezes no Novo Testamento. Seu sentido básico foi visto acima (veja 1.3.). Veremos abaixo alguns versículos que querem nos aclarar o sentido desta palavra e a função daqueles que eram os “bispos” de Cristo. Em At 20.28 está dito “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.” Aqui há uma mescla da palavra bispo com a atividade de pastorear. Ou seja, pastorear era a sagrada função dos bispos. E no texto de Fp 1.1 há uma diferenciação dos nomes, visto que Paulo envia sua carta para os “bispos e diáconos que vivem em Filipos”. Isso prova, no mínimo, que existiam as duas denominações diferentes para os cargos. Mas como veremos nos textos abaixo a diferenciação era basicamente nominal, pois todos tinham a função de testemunhar de Cristo e levar o evangelho adiante, assim como os demais crentes. Bispos, diáconos e presbíteros têm mais aspectos em comum do que discrepâncias entre si. Para aclarar o que afirmamos podemos ver dois textos: 1Tm 3.1-13 que fala dos bispos e diáconos e suas “qualidades”, e Tt 1.59, que começa falando dos presbíteros e termina falando de bispos, como se os dois fossem responsáveis por uma única função. Para visualizar esta comparação veja o Quadro Comparativo, na página 9. Apesar dos textos divergirem um pouco nas qualidades, elas são basicamente as mesmas. E ao contrário do que se possa pensar, os textos ao invés de se contradizerem se completam. Resultando assim uma soma do que seria um “presbítero ou bispo ou diácono aprovado e fiel”.

2.3. Presbítero
A palavra presbu,teroj aparece várias vezes no NT e aqui queremos completar a análise que tivemos no ponto 2.2. Os presbíteros eram escolhidos em cada igreja e consagrados ao Senhor (At 14.23; Tt 1.5). Os apóstolos e presbíteros conversavam para decidir questões diversas, havia diálogos e não uma atitude de tirania dos apóstolos para com os presbíteros (At 15.6). Os presbíteros e apóstolos conviviam como irmãos que realmente eram (At 15.22-23). Eles tomavam decisões em conjunto e,

da mesma forma que agiam entre si, eles agiam com os demais irmãos, que hoje chamaríamos de “leigos”. Todos os irmãos eram informados das decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros (At 16.4, 21.18-19). Pois todos eram renascidos no Sangue do Cordeiro e herdeiros da mesma herança: a vida eterna. Assim como os termos que analisamos anteriormente, os presbíteros também têm como finalidade especial a palavra e o ensino/testemunho (1Tm 5.17). E por exercerem função passível de inveja e outras contendas Paulo adverte: “Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas.” (1Tm 5.19). Para se notar que não havia muita diferença entre as funções de cada líder da igreja basta notar que Pedro e João se chamam de presbíteros “eu, presbítero como eles” (1Pe 5.1) e “o presbítero” (2Jo 1.1; 3Jo 1.1). Pedro diz também que o ofício dos presbíteros é pastorear “o rebanho de Deus que há entre vós” e insta que seja “não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer, nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho”. (1Pe 5.2-3).

2.4. Pastor
Destaca-se aqui o uso eclesiástico da palavra pastor, pois a mesma, em suas variações aparece como a simples função do
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pastor de ovelhas. Mas neste caso, nada tendo a ver com a função ministerial do pastor. Pastor ou poimh,na, também ocorre várias vezes no Novo Testamento. Mas há que se ressaltar uma particularidade desta palavra: ela sempre aparece relacionada diretamente ao nome de Jesus — a única excessão que encontramos é Ef 4.11, onde Paulo diz que alguns foram chamados para ser “pastores”, se bem que mesmo aqui, aparece o chamado de Jesus à função —. Em Mt 9.36 e Mc 6.34 se fala das ovelhas que não têm pastor, e

é Jesus que está falando isso. É Jesus que se compadece das ovelhas desgarradas e exaustas. Em Mt 25.32 Jesus aparece como o “pastor que separa dos cabritos as ovelhas”. Falando aos seus discípulos Jesus cita o Antigo Testamento para dizer que seria morto: “Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas” (Mt 26.31; Mc 14.27). O escritor de Hebreus fala de Jesus como “nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas”. Já 1Pe 2.25 fala que as ovelhas que estavam desgarradas foram convertidas “ao Pastor e Bispo” que é Jesus. E a passagem áurea a usar a palavra pastor é, sem dúvida, a de Jo 10.1-18. O texto que fala do “bom-pastor” Jesus e suas funções perante suas ovelhas. Jesus diz: “eu sou o bom-pastor. O bom-pastor dá a vida pelas ovelhas” (v. 11). Há ainda outra palavra para pastor no Novo Testamento: avrcipoi,mhn. A exemplo da palavra acima, esta também se refere a Jesus. Em 1Pe 5.4 Jesus é chamado de “o Supremo Pastor”. Estes exemplos mostram que Jesus é o paradigma máximo para o pastor. O paradigma máximo para aqueles que são assim denominados hoje. Não queremos santificar palavras. Mas a palavra Pastor, tendo esse pano de fundo, merece muito respeito e consideração. Se o pastor da IELB quer ser pastor no sentido bíblico da palavra, deve saber que é uma grande honra poder ser chamado (Ef 4.11) pela mesma palavra que é usada para designar nosso “Supremo Pastor” (1Pe 5.4).

3. O Pastor e as Confissões Luteranas 3.1. Todos iguais
O Livro de Concórdia, que traz as Confissões Luteranas, apresenta termos como “Bispo”, “Líderes”, “Pastores” e “Pregadores”. Todos estes, de uma forma ou de outra, estão ligados ao ministério pastoral, tal como concebemos. Para as Confissões, bem como para a Bíblia (Cf. cap. 2), não existe grande
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diferença entre os termos e as pessoas que ocupam tais cargos: Ensina, portanto, Jerônimo que os graus de bispo e presbítero ou pastor são distintos por autoridade humana. E a própria coisa diz, porquanto o poder é o mesmo, como disse acima.6

3.2. Função, Poder e Autoridade
O pastor é aquele que é chamado por Deus. Como vimos no capítulo 2, a Bíblia não faz grande diferença entre os diferentes termos. Também as confissões não
6 Livro de Concórdia: Tratado sobre o poder e o primado do Papa: 63-4.

fazem essa diferença (hierárquica?) que alguns julgam existir. Mas qualquer que seja seu nome, o ministro tem funções especificadas pela Escritura Sagrada. As Confissões dizem que pastor da IELB tem a função de... ...pregar o evangelho, perdoar pecados, administrar os sacramentos, e além disso a jurisdição, a saber, o mandato de excomungar aqueles cujas faltas são conhecidas e, por outro lado, absolver os que se arrependem. E segundo a confissão de todos, também dos adversários, está claro que esse poder de direito divino é comum a todos os que presidem às igrejas, chamem-se pastores, presbíteros ou bispos.7
7 Livro de Concórdia: Tratado sobre o poder e o primado do Papa: 62.

Quadro comparativo entre as designações
1Tm 3.1-7
irrepreensível esposo de uma só mulher temperante sóbrio

Bispo

Diácono
1Tm 3.8-13
de uma só palavra irrepreensíveis marido de uma só mulher

Presbítero/Bispos
Tt 1.5-9
irrepreensível como despenseiro de Deus marido de uma só mulher que tenha domínio de si sóbrio justo piedoso

modesto hospitaleiro apto para ensinar conservando o mistério da fé com a consciência limpa

não arrogante hospitaleiro tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem não dado ao vinho nem violento não irascível amigo do bem não cobiçosos de sórdida ganância governe bem seus filhos e a própria casa nem cobiçoso de torpe ganância que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina

não dado ao vinho não violento cordato inimigo de contendas não avarento que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito não seja neófito tenha bom testemunho dos de fora

não inclinados a muito vinho

sejam estes primeiramente experimentados respeitáveis

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acima da lei, senão que têm mandato fixo, palavra de Deus fixa, que devem ensinar, segundo a qual devem exercer sua jurisdição. Por conseguinte, ainda que tenham alguma jurisdição, não se segue que possam instituir cultos novos. Cultos de forma nenhuma pertencem à jurisdição. E têm palavra e mandato que lhes dizem até onde devem exercer a jurisdição, a saber, no caso de alguém fazer qualquer coisa contrária à palavra que receberam de Cristo.10 O poder do ministro é dado por aqueles que o chamaram (a igreja de Cristo). Ele não é um déspota sobre seus súditos, mas ele é um entre os outros cristãos, escolhido por Deus para exercer a liderança e primar pela sã doutrina. Resumidamente, o poder do qual fala o evangelho é “o poder das chaves ou dos bispos é o poder e ordem de Deus de pregar o evangelho, remir e reter pecados e administrar e distribuir os sacramentos.”11 Junto com a liderança que o pastor exerce vem a responsabilidade de estar sobre várias pessoas como guia e cura d’almas. Os problemas certamente existirão enquanto o mundo é mundo, por causa do pecado. Mas um fato que deveria servir para evitar tais problemas, principalmente de relacionamento entre pastor e congregação, é saber que todos somos iguais debaixo de um só Senhor e Salvador que é Jesus Cristo e... ...a igreja nunca pode ser melhor governada e conservada do que quando todos vivemos sob um só cabeça, Cristo, e os bispos, todos iguais quanto ao ofício (ainda que desiguais no concernente aos dons), diligentemente se mantêm juntos em unidade de doutrina, na fé, nos sacramentos, nas orações,
10 Livro de Concórdia: Ap: XXVIII: 13-4. 11 Livro de Concórdia: CA: XXVIII: 5.

Também a Confissão de Augsburgo acrescenta: Por isso, segundo o direito divino, o ofício episcopal é pregar o evangelho, perdoar pecados, julgar doutrina e rejeitar doutrina que é contrária ao evangelho, e excluir da congregação cristã os ímpios cuja vida ímpia seja manifesta, sem o emprego de poder humano, mas apenas pela palavra de Deus. E nisso os paroquianos e as igrejas têm o dever de obedecer aos bispos, de acordo com esta palavra de Cristo Lucas 10: “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim.” Todavia, quando ensinam, introduzem ou estabelecem algo contrário ao evangelho, temos a ordem de Deus de que tal caso não devemos obedecer. Mt 7: “Acautelai-vos dos falsos profetas.” ,E São Paulo em Gl 1: “Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema.”8 Para exercer esta função o pastor recebe autoridade de Deus, mas a autoridade do pastor não é tirânica. E “São Pedro proíbe aos bispos o domínio, como se tivessem o poder de coagir as igrejas ao que eles quisessem.”9 Ao contrário, seu poder se resume em... ...o poder da ordem, isto é, o ministério da palavra e dos sacramentos. Tem, outrossim, o poder de jurisdição, isto é, a autoridade de excomungar os que são culpados de crimes públicos, como também a autoridade de absolvê-los caso se convertam e procurem a absolvição. Mas seu poder não deve ser tirânico, isto é, sem lei certa, nem deve ser real, isto é,
8 Livro de Concórdia: CA: XXVIII: 21-4. 9 Livro de Concórdia: CA: XXVIII: 76. 10 | Teologia | Junho e Julho, 2011

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nas obras de amor, etc. Conforme escreve São Jerônimo: que os sacerdotes de Alexandria juntamente e em comum governavam a igreja, como também fizeram os apóstolos e, depois, todos os bispos, na cristandade inteira, até que o papa elevou sua cabeça acima de todos.12 O pastor não é o dono da igreja, serve numa função de liderança. Mas pode acontecer também, que alguns líderes leigos se achem donos da igreja e superiores ao ministro chamado e ordenado. Não são raros os casos em que a liderança faz sofrer os pastores, abusando de sua autoridade, normalmente dada por eleição. Assim, pastor pode vir a exercer sua função, sem a alegria própria do ministro de Cristo. Pois sofre debaixo da pressão, daqueles que se julgam superiores e chefes da Igreja, podendo “mandar”, inclusive no pastor como se lhes fosse um empregado. E se este não “dança conforme a música”, o demitem e buscam outro. Ou o levam a demitir-se, pois se sente inútil na situação em que está servindo. Como líderes da igreja de Cristo, bem como junto a todos os cristãos, os ministros não podem vacilar na defesa dessa igreja de Cristo. Precisam estar atentos a toda e qualquer impureza que queira atrapalhar. Principalmente se a Igreja é atacada. Seja pelos de dentro, seja pelos de fora. Cremos, ensinamos e confessamos também que em tempo de confissão, quando os inimigos da palavra de Deus anseiam de suprimir a doutrina pura do santo evangelho, toda a congregação de Deus, sim, cada cristão, especialmente, porém, os ministros da palavra, como dirigentes da congregação de Deus, têm o dever de confessar livre e abertamente, não apenas com palavras, mas também com obras e atos, a doutrina e o que pertence à religião íntegra, de acordo com a palavra de Deus. E neste caso nem mesmo em adiáforos se deve ceder aos adversários, nem devemos permitir que os adversários
12 Livro de Concórdia: AE: segunda parte — 4º: Art. 9.

no-los imponham, pela força ou astuciosamente, para debilitação do verdadeiro culto divino e plantio e confirmação da idolatria. Está escrito Gl 5: “Para a liberdade foi que Cristo nos liberou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão.”13 O poder do pastor é o de ser um humilde servo de Deus, assim como Cristo ensina nos evangelhos e em todo o Novo Testamento. O cristão não está no mundo para ser servido, mas sim para servir. E com os pastores isso não é diferente. O pastor é livre para servir. A perfeição, isto é, a integridade da igreja, é conservada, ao contrário, quando os fortes toleram os fracos, quando o povo se conforma com algumas inconveniências na conduta dos mestres, quando os bispos são indulgentes com uma ou outra fragilidade do povo.14 Isto resume a sagrada honra de servir no ministério. Respeito mútuo, como herdeiros da mesma herança. Tolerando-se em amor. Admoestando aos fracos para que sejam fortalecidos pela Palavra de Deus.

3.3. O cuidado com o ensino
Vimos acima a responsabilidade com o zelo pela igreja de Cristo que cabe a cada cristão e, especialmente, aos ministros como líderes desta Igreja. Um dos fatores que são essenciais ao zelo pela Igreja é o ensino. As confissões lembram que...
13 Livro de Concórdia: FC: X: 11. 14 Livro de Concórdia: Ap: IV: 234. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 11

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Entre os adversários não há nenhuma catequese das crianças, matéria a respeito da qual até os cânones preceituam. Entre nós os pastores e ministros das igrejas são compelidos a instruir e ouvir publicamente a adolescência. E esta cerimônia produz ótimos frutos. Entre os adversários, em muitas regiões não há prédica nenhuma durante um ano inteiro, excetuada a quaresma. Mas o culto principal de Deus é ensinar o evangelho.15 Para realizar este culto principal a Deus não podemos esquecer de ensinar, ensinar e ensinar. Incansavelmente. Com toda perseverança e esperança. Acreditando nas promessas de Deus que a palavra não volta vazia. Por isso rogo a todos vós, pelo amor de Deus, meus queridos senhores e irmãos que sois pastores ou pregadores, que vos devoteis de coração ao vosso ofício, vos apiedeis do povo confiado a vós e nos ajudeis a inculcar o catecismo às pessoas, especialmente à juventude. E aqueles que não podem fazer melhor, tomem estes livrinhos e formas e leiam-nos, palavra por palavra, ao povo, fazendo que esse repita as palavras, da maneira seguinte: Em primeiro lugar, tenha o pregador acima de tudo o cuidado de evitar textos e formas diversos ou divergentes dos Dez Mandamentos, do Pai-Nosso, do Credo, dos Sacramentos, etc. Tome, ao contrário, uma única forma e a ela se atenha e a incuta sempre, ano após ano. Porque pessoas jovens e simples devem ser ensinadas com um texto uniforme e fixo, pois de outro modo facilmente ficam embaralhadas, se hoje se ensina de um jeito e no ano seguinte de outro, como se a gente quisesse emendar o texto. Perde-se com isso todo o esforço e trabalho. Bem viram isso também os queridos Pais, que, todos, empregaram a mesma forma do Pai-Nosso, do Credo, dos Dez Mandamentos. Por isso também devemos ensinar essas partes às pessoas jovens e simples de maneira tal, que não desloquemos nem uma sílaba ou apresentemos ou repitamos o texto diferentemente de um ano a outro. Escolhe, por isso, a forma que queres e fica sempre com ela. Agora, quando pregas aos doutores e inteligentes, aí então podes mostrar a tua erudição, tornando essas partes: os Dez Mandamentos, o Credo, o Pai-Nosso, etc., segundo o texto, palavra por palavra, de forma que também o possam repetir assim e de15 Livro de Concórdia: Ap: XV:41-2. 12 | Teologia | Junho e Julho, 2011

corar.16 Para esta tarefa de ensinar é óbvio que o ministro há de se dedicar ao estudo diligente da palavra de Deus. Contudo este seu estudo não deveria ser para engrandecimento pessoal, mas deveria servir-lhe como uma ferramenta a mais para bem cumprir a sua vocação ministerial. O ministro não é o dono da verdade. A Bíblia é. Humildemente o ministro reconhecerá que o Senhor da missão o está guiando dia após dia e fortalecendo em todos os momentos. Nossas confissões chamam a atenção: Razão por que peço mais uma vez a todos os cristãos, especialmente aos pastores e pregadores, que não queiram ser doutores muito cedo e não imaginem que sabem tudo. Presunção e tecido novo encolhem muito. Antes exercitem-se bem nesses estudos diariamente e sempre os inculquem. Acautelem-se, além disso, com todo cuidado e diligência, contra o venenoso material contagiante daquela segurança ou presunção. Perseverem em ler, ensinar, aprender, meditar e refletir, e não desistam até fazerem a experiência e adquirirem a certeza de que mataram o diabo de tanto lecionar e se tornaram mais sábios que o próprio Deus e todos os seus santos. Se aplicarem tal diligência, prometo-lhes — e eles hão de percebê-lo — que alcançarão grande fruto e que Deus fará deles pessoas excelentes. Com o passar do tempo, eles mesmos bem hão de confessar que, quanto mais estudam o Catecismo, tanto menos dele conhecem e tanto mais têm de aprender. E só então, como a famintos e sedentos, lhes há de saber bem o que agora, por grande plenitude e saciedade, não podem cheirar. Que Deus conceda sua graça para isso. Amém.17
16 Livro de Concórdia: CMe: Prefácio: 7-10. 17 Livro de Concórdia: CMa: Prefácio: 19-20.

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Essa atitude de perseverança nos estudos servirá para evitar situações como a relatada por Lutero no prefácio do Catecismo Menor: Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino.18 Como está dito acima, o pastor não estuda, aprende e ensina para engrandecimento próprio. Não ensina para ser glorificado pelos homens. Ao contrário, o ministro estuda, aprende e ensina para glorificar a Deus. Seu trabalho não é vão nem inútil: Não é por razões somenos que inculcamos o Catecismo com tanto empenho e queremos e solicitamos que seja inculcado. Pois vemos que, infelizmente, grande número de pregadores e pastores são (sic) muito negligentes a esse respeito, e desprezam seu ofício e essa instrução. Uns por causa de sua grande e sublime erudição; outros, porém, em razão de mera preguiça e solicitude pela barriga. Sua atitude para com a coisa é como se fossem pastores ou pregadores por causa do estômago, e outra coisa não lhes cumprisse fazer enquanto vivessem senão a de consumir os bens, conforme estavam habituados a fazer sob o papado.19 Os frutos da pregação e ensino da Palavra de Deus são conhecidos por todos os cristãos. Já em Atos vemos que ao serem exortados por Pedro “quase três mil pessoas” (At 2.41) foram convertidas pelo Espírito Santo de Deus. Como bem sabemos Deus é eterno e imutável. A pregação de sua palavra deu frutos antes e dará até o fim dos tempos. E por que haveria de multiplicar palavras? Onde buscaria papel e tempo suficientes para enumerar todo o proveito e fruto que a palavra de Deus produz? Chama-se ao diabo mestre de mil
18 Livro de Concórdia: CMe: Prefácio: 2. 19 Livro de Concórdia: CMa: Prefácio: 1.

artes. Que nome daremos então à palavra de Deus, que espanta e aniquila esse mestre de mil artes com toda a sua arte e poder? Certamente deve ser mais do que mestre de cem mil artes. E nós desprezaríamos tal poder, proveito, força e fruto com tanta leviandade, especialmente os que queremos ser pastores e pregadores? Neste caso não só se nos deveria negar comida, senão ainda escorraçar-nos açulando os cachorros contra nós e correr-nos a esterco de cavalo. Porque não só precisamos diariamente de tudo aquilo como do pão de cada dia, mas também necessitamos tê-lo todos os dias para defesa contra os ataques e emboscadas diários e sem tréguas do diabo com suas mil artes. E se isso não bastasse para admoestar-nos a que leiamos o Catecismo dia após dia, já o só mandamento de Deus deveria ser o bastante para obrigar-nos. Seriamente ordena ele, em Deuteronônio 6, que meditemos sem cessar sobre os seus mandamentos, assentados, andando, parados, ao nos deitarmos, ao nos levantarmos, e que os tenhamos diante dos olhos e nas mãos como marca e sinal constantes. Indubitavelmente, não é sem propósito que o ordena e exige somado a isso, os contínuos e furiosos assaltos e ataques dos demônios, quer acautelar, equipar e proteger-nos contra eles como com boa armadura contra seus dardos inflamados e bom antídoto para sua venenosa e maligna infecção e ministração! Oh! Que néscios tresloucados e insensatos somos nós! Temos de morar ou alojar-nos em meio a inimigos tão poderosos como o são os demônios, e não obstante queremos desprezar nossas armas e defesas e somos demasiadamente indolentes para inspecioná-las ou lembrar-nos delas.20
20 Livro de Concórdia: CMa: Prefácio: 12-15. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 13

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dar com suas próprias forças.21 Esses são motivos mais que convincentes para animar o ministro a pregar, exortar, estudar, aprender e ensinar. Deus está seguindo junto à missão de sua igreja como sempre o fez e o fará até a consumação dos séculos.

3.4. O ministério e Ordenação
A igreja é quem constitui seus ministros e ela é quem “tem a ordem de constituir ministros, o que nos deve ser gratíssimo, porque sabemos que Deus aprova esse ministério e nele está presente”.22 O ministro está à frente do ministério, mas o “ministério do Novo Testamento não está preso a lugar e pessoas como o ministério levítico, porém está disperso pelo mundo inteiro e está onde Deus dá os deus dons, apóstolos, profetas, pastores, doutores”23. “Pois onde quer que esteja a igreja, aí existe o direito de administrar o evangelho. Razão por que é necessário que a igreja retenha o direito de chamar, eleger e ordenar os ministros”.24 Acima vimos que o pastor é um líder cristão entre os demais cristãos. Ele é um sacerdote entre os sacerdotes, mas “é conveniente que a assembleia cristã, por causa do amor e da paz, observe tais ordenações e obedeça aos bispos e pastores ... para que não haja desordem ou anarquia na igreja”25. E aqueles que chamam devem “infundir no ânimo do povo também o fato de que os que querem chamar-se cristãos têm, diante de Deus, o dever de ‘considerar merecedores de dobrada honra’ aos seus curas d’alma, fazer-lhes o bem e provê-los do necessário”26. Contudo não é difícil de encontrar entre os meios cristãos aqueles que não julgam necessário o ministério
21 Livro de Concórdia: FC: DS: II: 55. 22 Livro de Concórdia: Ap: XIII: 12. 23 Livro de Concórdia: Tratado sobre o poder e o primado do Papa: 26. 24 ivro de Concórdia:Tratado sobre o poder e o primado do Papa: 67. 25 Livro de Concórdia: CA: XXVIII: 55. 26 Livro de Concórdia: CMa: 1ª parte: 161.

Será que todos estes testemunhos são poucos para os ministros se sentirem incentivados a ensinar? Acreditamos que não. Deus exorta para que os ministros ensinem, não os obrigando pelo peso da lei, mas prometendo os frutos que serão produzidos pelo Espírito Santo. A motivação não é “legalista” mas sim “evangélica”. E... Ainda que ambas as coisas, o plantar e regar do pregador, e o correr e querer do ouvinte, seriam em vão e nenhuma conversão seguiria a isso se não fossem adicionados o poder e a operação do Espírito Santo, o qual ilumina e converte os corações pela palavra pregada e ouvida, de modo que faz com que os homens creiam essa palavra e lhe dêem assentimento, contudo, nem o pregador nem o ouvinte devem duvidar dessa graça e operação do Espírito Santo, porém devem estar certos de que, quando a palavra de Deus é pregada de maneira pura e impermista, segundo a ordem e vontade de Deus, e os homens escutam com diligência e seriedade e sobre ela meditam, Deus certamente está presente com sua graça, e dá, como dissemos, o que de outra maneira o homem não pode receber nem
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pastoral na igreja. Não era diferente no tempo de Lutero e hoje, pelas várias influências, possivelmente o ministro se chocará com opiniões contrárias a um ministro chamado e ordenado. Lutero diz no prefácio do Catecismo Maior: Até entre a nobreza, com efeito, é possível a gente encontrar alguns grosseirões e unhas-de-fome que afirmam já não se precisar de pastores e pregadores, que se tem tudo em livros, podendo-se bem aprender por si mesmo. E assim também confiadamente deixam cair as paróquias em ruína e desolação, e permitem que os pastores e pregadores sofram miséria e fome a valer. E proceder assim, aliás, se casa bem com esses alemães doidos; porque os alemães temos um povo desgraçado assim e temos de aturar a coisa.27 E ninguém, “exceto ao chamado corretamente, deve conceder-se a administração dos sacramentos e da palavra na igreja, aceitam-no com a ressalva de que usemos a ordenação canônica”28.

arroguem a si domínio ou superioridade sobre a igreja, não onerem a igreja com tradições, não valha a autoridade de ninguém mais que a palavra, não se oponha a autoridade de Cefas à autoridade dos outros apóstolos, conforme argumentavam naquele tempo: Cefas, que é apóstolo superior, observa isso; logo, tanto Paulo como os demais devem observar isso. Paulo remove de Pedro essa magnificência e nega que sua autoridade deva ser anteposta aos demais ou à magnificência e nega que sua autoridade deva ser anteposta aos demais ou à igreja. 1 Pedro 5: “Nem como dominadores dos que vos foram confiados”.29

3.6. A Eficácia do Ministério
Mesmo que os ministros sejam maus a eficácia dos sacramentos por eles aplicados é incontestável. O Batismo ou a Santa Ceia não dependem de quem os executa. Dependem do poder de Deus que vem junto a estes sacramentos executados de forma correta. Assim como Cristo ensina e exorta que sejam feitos. Graças a Deus não dependem dos frágeis, débeis ministros que são pecadores como todos os outros cristãos. Estes são membros da igreja segundo a sociedade externa dos sinais, e por isso ocupam cargos na igreja. E não priva os sacramentos de sua eficácia o serem administrados por indignos, porque, em virtude do chamado da igreja, representam a pessoa de Cristo, não suas próprias pessoas, conforme testifica Cristo: “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim”. Quando oferecem a palavra de Cristo e os sacramentos, no-los oferecem como substitutos de Cristo e em seu lugar. É o que nos ensina aquela palavra de Cristo, para que não nos ofendamos com a indignidade dos ministros.30 E a igreja, bem como o próprio ministro devem ter cuidado com o ministério. Evitando que falsas doutrinas e abusos tomem lugar entre os cristãos. Principalmente o ministro deve estar atento ao fato de que “não
29 Livro de Concórdia: Tratado sobre o poder e o primado do Papa: 11 30 Livro de Concórdia: Ap:VII e VIII: 28. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 15

3.5. Os Graus entre Ministros
Existem ministros em funções diferentes. Em algumas denominações, como entre os Católicos Romanos, estes seriam denominados de forma diferente: padre, bispo, arcebispo, papa, etc... E neste caso específico, como em outros pode ocorrer, há diferença hierárquica entre os diferentes nomes. Embora isso possa ser útil para a prática, não é biblicamente sustentável. Entre os ministros não importam os nomes. Importa saber que todos são iguais perante Cristo. Todos, indiferentemente dos termos a eles aplicados, são ministros do nosso Senhor Jesus Cristo. Este sim, o cabeça da igreja. Em 1Co 3 Paulo iguala os ministros e ensina que a igreja está acima dos ministros. Razão por que Pedro não se atribui superioridade ou domínio sobre a igreja ou os demais ministros. Pois diz assim: “Tudo é vosso: seja Paulo, seja Cefas, seja Apolo”, isto é: nem os outros ministros nem Pedro
27 Livro de Concórdia: CMa: Prefácio: 6 28 Livro de Concórdia: Ap: XIV: 1.

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existe abuso mais grave do nome de Deus que o de valer-se dele para mentir e ludibriar”31. E em “primeiro lugar, pois, quando se prega, ensina e fala em nome de Deus o que é falso e transviador, de maneira que seu nome tem de disfarçar e vender as mentiras. Esta é a maior infamação e desonra do nome divino”.32

o próprio Senhor Jesus citou: “Amarás o Senhor teu Deus... e o teu próximo como a ti mesmo.35 Mas não é apenas o Código de Ética Pastoral que trata do ministério em documentos oficiais da IELB. Nos Regimentos da Igreja Evangélica Luterana do Brasil aparece um artigo especial sobre o Ministério Pastoral. Este artigo, o 71, diz que “O ministério pastoral será exercido na

3.7. Confissões — Um resumo
É uma honra poder servir no ministério. O ministério é responsável pelo ensino e o ministro está em constante aprendizado. A administração dos Sacramentos e a pregação da Palavra de Deus são incumbências dadas por Deus à Igreja e o ministro é o responsável, escolhido e ordenado pela congregação, para cuidar que não ocorram abusos nem entrem falsas doutrinas na igreja. Não é uma tarefa fácil. Mas tem a promessa do Senhor da Igreja de que não é um trabalho vão e que o ministro nunca estará sozinho.

4. Documentos da IELB e Ministério
Nos capítulos que tratamos sobre o ministério do ponto de vista escriturístico e confessional já vimos que o ministério é muito bem firmado na Palavra de Deus. Não haveria necessidade de criar novas regras sobre o ministério e seus ministros. Deus já disse o que espera. Mas o diabo, o mundo e a nossa própria carne nos cercam a cada momento. Para tentar coibir estes, a IELB tem regulamentos que falam sobre o ministério. Estes regulamentos não vêm para tomar o lugar das Escrituras. Mas vêm pela fraqueza dos homens. O preâmbulo do Código de Ética Pastoral, por exemplo, que é “dirigido inicialmente aos pastores”33 diz de si mesmo: Deve ser visto como um conselheiro que, com palavras suaves e amigas, de maneira evangélica procura orientar as relações dos membros leigos e dos pastores e professores que desejam ser encontrados fiéis no serviço do reino de Deus.34 Concordamos com o Código de Ética Pastoral onde este diz: Sabemos que o Código não esgota todos os assuntos. Além disso, acima do Código estão as orientações invariáveis de Deus, abrigadas sob o resumo que
31 32 33 34 Livro de Concórdia: CMa: 1ª Parte: 52. Livro de Concórdia: CMa: 3ª parte: 41. Código de Ética Pastoral (2010): Preâmbulo, p. 82. Código de Ética Pastoral (2010): Preâmbulo, p. 82.

IELB, de acordo com o ensino das Sagradas Escrituras para o cumprimento das finalidades da igreja, mediante chamado ou comissionamento.”36 Essas finalidades nós conhecemos: Administrar os Sacramentos e proclamar a Palavra de Deus. Para o ministério está subentendido que existem ministros. Portanto o Art. 73 e seguintes tratam do cargo de pastor. Diz o Art. 73: “Será considerado pastor da IELB aquele que preencher os... requisitos”37. Estes requisitos se dividem em requisitos de ingresso e de permanência. Para ingressar ao ministério o ministro necessita “ter sido formado e recomendado ao ministério”38, “ter aceito chamado... ter sido
35 36 37 38 Código de Ética Pastoral (2010): Preâmbulo, p. 82. Estatutos da IELB (2010): Art. 71, p. 59. Regimento da IELB (2010): Art. 73, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 73, II, p. 61.

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ordenado”39, “ter solicitado... sua filiação à IELB”40. Para permanecer no ministério se pede ao pastor: “Aceitar a Escritura Sagrada como Palavra infalível, revelada por Deus e subscrever incondicionalmente os documentos confessionais da Igreja Evangélica Luterana, reunidos no Livro de Concórdia de 1580”.41 “Subscrever o Estatuto e o Regimento da IELB, bem como submeter-se ao Código de Ética Pastoral”42 “Usar formas cúlticas, hinos e manuais de instrução doutrinários que estejam de acordo com a Escritura Sagrada e as Confissões Luteranas”43. “Participar das atividades da IELB em todos os níveis, especialmente para as quais for convocado, apresentado carta de escusa quando impossibilitado”.44 “Renunciar ao unionismo que fira os princípios bíblicos e confessionais e ao sincretismo de qualquer espécie.”45 “Manter conduta irreprensível”46. Esses são os requisitos estatutários para a permanência de um ministro como ministro ativo da IELB. Por ministro ativo entende-se: “aquele que estiver atuando em função pastoral mediante chamado ou comissionamento e aquele que ingressar no rol de pastores eméritos”47. Documentalmente isto que acabamos de ver resume o que se espera de um pastor da IELB. Mas os pastores e leigos acharam por bem criar um “Código de Ética Pastoral”. Não duvidamos da intenção das pessoas que fizeram e estiveram presentes na idealização e elaboração deste documento. Contudo não podemos aceitar pacificamente que haja algo que queira nortear a vida dos cristãos que não seja a Bíblia. Não é uma questão de fundamentalismo. Mas precisamos refletir que temos mais facilidade em procurar obedecer leis, do que conviver com a liberdade que a Palavra nos dá. Prova disso é que o Código de Ética veio para o bem da igreja. E acaba por ajudar em situações diversas.
39 40 41 42 43 44 45 46 47 Regimento da IELB (2010): Art. 73, III, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 73, IV, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 73, I, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 73.V, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 73,VI, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 73,VIII, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 73,VII, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 73, IX, p. 61. Regimento da IELB (2010): Art. 74, p. 61.

Submetemo-nos sim a este Código de Ética Pastoral, como todo pastor da IELB, mas para evitar escândalos e desavenças. Contudo acreditamos que seria melhor se este não existisse, pois é um instrumento legislador sobre aqueles que foram libertados de qualquer lei (Hb 6.1). Aqueles que vivem pelo Evangelho. Será que a Bíblia não ensina qual deveria ser o comportamento de cada cristão? Ensina. Ensina e mostra que Cristo nos libertou e que tudo nos é lícito. Basta-nos firmar nosso parecer na Bíblia para sabermos que apesar de tudo nos ser lícito, nem tudo convém (1Co 6.12). Na verdade, nosso Código de Ética legisla. O que se opõe ao convite evangélico à pregação. Sem discutir o valor ou não do Código de Ética devemos lembrar que a Ética Cristã não se baseia em certo ou errado. Ao contrário, a Ética Cristã vê se há Cristo ou se não há Cristo. Daí a referida insipiedade (ainda que não completamente) do Código de Ética. O nosso Código de Ética diz que o “ministro será apegado à Palavra e terá cuidado da são doutrina (não pode ser neófito)”48. “O ministro pregará a Palavra”49, “será apto para ensinar e instruir”50, “exortará, convencerá, disciplinará, corrigirá, repreenderá com mansidão e longanimidade”51 e, também, “suportará aflições”52. Essas qualidades são bíblicas. Mas a Bíblia traz junto a elas a promessa de Cristo “eis que estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28.20), o que não aparece no código. Pessoalmente o ministro deverá ser “piedoso”53, “espontâneo e terá boa vontade”54, “terá cuidado de si e terá domínio sobre si”55. E o ministro deverá ter uma conduta social condizente com sua função. Deverá ser “irrepreensível, com bom testemunho dos de fora”56. Deverá ter “família padrão: uma só mulher, filhos educados”57. Será também “hospitaleiro, amigo do bem, padrão de boas obras, modelo”58. E ainda: “será temperante, sóbrio, modesto, cordato, inimigo de contendas, brando, paciente, justo”59.
48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 1.a, p. 83. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 1.b, p. 83. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 1.c, p. 83. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 1.d, p. 83. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 1.e, p. 83. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 2.a, p. 83. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 2.b, p. 83. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 2.c, p. 83. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 3.a, p. 84. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 3.b, p. 84. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 3.c, p. 84. Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 3.d, p. 84. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 17

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O Código traz todas estas “qualidades” necessárias ao ministro. Mas esses requisitos já estavam na Bíblia. Então porque criar uma “nova lei”? Será que a recomendação bíblica não basta? E segue o Código dizendo outra vez o que na Bíblia já se encontra: O ministro não será constrangido ao ofício, ganancioso (avarento, cobiçoso), dominador, violento, arrogante, irascível, que goste de contenda e de muito vinho (pessoa alcoólica).60 Segundo o Código de Ética o pastor deverá aceitar a autoridade (cap. I), aceitar a liberdade e seus limites (cap. II), Respeitar a escala de valores (cap. III), defender a honra do próximo (cap. IV), reconhecer os direitos de propriedade (cap. V), equilibrar responsabilidades (cap VI) e respeitar a responsabilidade dos outros (cap VII). Tudo isso já é abarcado pela Sagrada Escritura, sem a necessidade de nós criarmos nossas próprias leis. Mas parece que nós homens não gostamos de viver o evangelho. Gostamos, por outro lado, de estar presos à leis que possam ser impostas a nós e, especialmente a outros. E quando ninguém nos impõe leis nós mesmos nos impomos. Acreditamos que onde falta Palavra de Deus sobram Códigos de Ética, Estatutos, Regimentos e tantas outras formas de legislar. Leis, em si, não são ruins, mas algumas, são, no mínimo, redundantes. Mas não podemos discordar do caráter educativo do Código. Em vez de ser entendido como lei, deveria ser entendido como regulamentação. Para, quem sabe, esclarecer pormenorizadamente o que a Bíblia fala brevemente.

dois mil cristãos. O pastor deveria visitar. Essa visitação não deveria ser por obrigação. Ao contrário, o pastor deveria ter prazer nelas. Deveria visitar lembrado que é uma honra poder entrar na casa daqueles que lhe foram confiados pelo Senhor da Missão. Certamente quanto maior a congregação, tanto mais difícil é para o pastor visitar regularmente os congregados. Mas isso não deveria desanimá-lo. Ele deveria buscar auxílio no Senhor Jesus e humildemente pedir para as visitas que ele faz, embora sejam insuficientes, sejam o máximo possível. Este ministro também deveria saber que a visitação pode e espera-se que seja feita por todos os membros da congregação. Que os irmãos se visitem. Isso Deus também espera. Deus dá importância à visitação. Um dos livros que trata deste assunto (O Ministério da Visitação) diz que a visitação começou no Éden: Originou-se no coração e na mente de Deus. Foi primeiramente posta em prática pelo próprio Deus no Jardim do Éden. Deve ter sido uma gloriosa experiência para Adão e Eva, quando Deus ia visitá-los “pela viração do dia”. ... Não se sabe quantas vezes Deus andava e falava com aqueles que Ele havia criado à Sua imagem, porém aquelas devem ter sido visitas de uma comunhão cheia de gozo.62
62 Sisemore (1965), p. 11.

Senhora que recebeu lembrança feita pelas mulheres (Departamento de Servas) luteranas.

5. A Visitação 5.1. Visitação — Surgimento e Incentivo
Não se pode imaginar um pastor que não faça visitas. Como saber da vida da igreja sem ir ao encontro de seus membros? “Um ministério espiritual eficaz depende, em grande medida, da construção de níveis de confiança. Visitas pastorais adequadas fortalecem esta confiança e fidelidade mútuas”61. Por isso a visitação é e sempre deveria ser um aspecto fundamental na vida de qualquer pastor. Seja ele pastor de uma família ou de
60 Código de Ética Pastoral (2010), Introdução, 4, p. 84. 61 Teologia pastoral (1997), p. 125. 18 | Teologia | Junho e Julho, 2011

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Deus também visitou seu povo depois que Adão e Eva saíram do Éden. “Através da longa história de Israel, Deus continuou a visitar as Suas criaturas”63. Na “plenitude dos tempos” veio Jesus. Jesus pode ser chamado de um exemplo de visitador. Em cada cidade e aldeia Jesus entrava nos lares. Ele efetuou o seu primeiro milagre enquanto visitava um lar. ... Ele entrou no lar de Simão Pedro e curou-lhe a sogra. Entrou no lar de Levi, e banqueteou-se com os publicanos e pecadores. Entrou no lar de um dos fariseus, onde foi encontrado pela mulher que lhe lavou os pés com lágrimas.64 Jesus, nos anos que passou na terra, ensinou seus discípulos a visitarem. Quando Jesus primeiro enviou os discípulos, Ele especificamente, enviou-os aos lares. ... “ao entrarem nas casas, saudai-a” (Mt 12.12). Igualmente, quando enviou os 70, Ele esperava que fossem aos lares, porque fez-lhes a seguinte advertência: “ao entrardes numa casa, dizei antes de tudo: Paz a esta casa”(Lc 10.5).65 Por toda a vida de Jesus podemos encontrar referên63 Sisemore (1965), p. 12. 64 Sisemore (1965), p. 13. 65 Sisemore (1965), p. 13.
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cias à sua visitação, como na casa de Maria e Marta, na casa de Zaqueu, na casa de Lázaro e em muitos outros lugares. E Jesus passou essa necessidade da visitação aos seus discípulos. Pedro foi um dos que também visitou. A exemplo de seu mestre, ele visitava: É bem evidente que Pedro cria ser ele, como cristão, divinamente obrigado a visitar. Ele fazia frequentes visitas aos lares. Era ele um visitante frequente ao lar de Dorcas. Quando ela morreu, foi convidado a ir lá novamente, e Deus o capacitou a ressuscitá-la dentre os mortos.66 Só os fatos citados acima já justificam a necessidade da visitação. E poderiam ser citados muitos outros exemplos. A Bíblia traz muitas referências a visitas feitas por Jesus, por seus apóstolos, discípulos e pelos cristãos em geral. A visitação é uma oportunidade de pregar a palavra de Deus. Uma oportunidade de testemunhar. Uma oportunidade de ser conselheiro do irmão desesperado. Uma oportunidade de ajudar a fortalecer a fé daqueles que vacilam. E também uma oportunidade missionária. Não podemos perder essas oportunidades. Na revista Servas do Senhor, dirigida às mulheres, membros da IELB, nós encontramos singelas, porém significativas sugestões. As sugestões são dirigidas às mulheres, mas são aplicáveis a todas as áreas da igreja: a) Façam visitas a idosos e enfermos e colham alegrias, esperanças e experiências. b) Ao visitar, tenham paciência de escutar. c) Façam as visitas pré-organizadas com o pastor, preparando uma devoção, hino e oração (ler em alemão, importante para quem entende, principalmente textos bíblicos). d) Peçam permissão para cantar e fazer o devocional (há pessoas muito sensíveis) e não devemos nos impor. e) Convidem os demais familiares para cantar e que eles sugiram os hinos. (Segurem as mãos do enfermo, ao orar o Pai-Nosso). f ) Em casos mais delicados, levem ao conhecimento do seu pastor. g) Levem folhetos bíblicos ou mensagens para entregar (devoções do Castelo Forte em folhas avulsas). h) Não comentem coisas desagradáveis na visita, nem antes, nem depois.
66 Sisemore (1965), p. 16. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 19

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Duas crianças que nasceram com dificuldades de saúde e foram acompanhadas pela capelania hospitalar. A criança da direita viveu 1 ano e meio, dos quais, apenas 2 meses em casa. Já a criança da esquerda, viveu 2 anos e nesse período as famílias foram acompanhadas pelo capelão.

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i) Não vá só, leve uma ou duas amigas; (ou o marido aposentado). j) Deixem sempre a “porta aberta”, isto é, repita a visita, é importante. k) Convidem para os cultos e demais atividade (sic) da congregação, a participação é importante. l) Prestar pequeno relatório sobre a visita feita, na próxima reunião do grupo (outros tantos itens que a própria tarefa de visitar irá ensinar).67

5.2. O visitador
Algumas pessoas têm mais facilidade de agir em uma visita do que outras. Mas confiamos que Deus nos usa como seus cooperadores sempre. Também por meio das visitas. O que poderia ajudar o visitador é conhecer-se melhor. Saber o que ele pensa e o que espera das visitas que fará. Poderíamos nos auto-analisar respondendo às seguintes questões:
67 Servas do Senhor (2001), p. 10.

a) Será que sou um mensageiro da paz e boa vontade, ou simplesmente um propagandista da minha classe? b) Estarei representando Cristo ou simplesmente procurando desempenhar as obrigações que me foram confiadas? c) Estarei mais interessado em ajudar pessoas ou em cumprir um dever? d) Estarei prestando auxílio espiritual ou fazendo apenas uma visita de caráter social? e) Estarei procurando alistar as pessoas para estudo da Bíblia ou meramente tentando aumentar a frequência? f ) Estarei preocupado em melhorar o estado espiritual das pessoas, ou em fazer um relatório dos ausentes? g) Estarei seguindo os passos do Mestre ou apoiando o meu superintendente? h) Estarei procurando levar avante a Grande Comissão ou simplesmente procurando ser eficiente?68
68 Sisemore (1965), p. 55.

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São perguntas simples. Podem parecer até simplórias e sinergistas. Mas quantas vezes nós caímos na segunda parte delas (ali depois de cada “ou”)? Quantas vezes esquecemos que é Deus que age em e por meio de nós? Essas perguntas têm o objetivo de nos assentar o pé rente ao chão. Para que possamos reconhecer o que realmente pensamos sobre a visitação. Visitação esta que é parte importantíssima na obra do nosso Deus. Também não podemos esquecer da perseverança peculiar a cada cristão. Pode ser que nossas visitas, aparentemente, não estejam dando resultado. Especialmente quando tratamos do alvo missionário. Podemos nos perguntar desanimados: “Eu faço tantas visitas, por quê ninguém entra na minha igreja?” Não desanimemos. A palavra de Deus está sendo espalhada. A seu tempo Deus dará os frutos. Deus nos enviou a semear. A visitação é uma dessas formas de semear. Talvez não se tornem luteranos, mas ainda assim, podem crer na Palavra ouvida e ser salvos. A missão é de Deus. Portanto, se espera que a vida dos visitadores seja guiada pela reverência ao Deus todo-poderoso. Com orações e estudos da Palavra. Com frequência aos sacramentos. Em comunhão com os irmãos. Dando sempre graças e glórias ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Não semeamos para a nossa glória. Mas para glorificar o nome do Senhor que nos tirou das trevas para sua maravilhosa luz.

ele ser cada vez mais certificado deste fato é a visitação. Seja a visita feita pelo pastor ou por um irmão na fé, ela é importante. A palavra de Deus conforta àquele que não vê sentido na vida. A palavra de Deus conforta àquele que está terminando sua vida. A palavra de Deus conforta àquele que não se conforma com sua doença. Termos difíceis tais como doença, sofrimento, morte, luto, terminal, mexem com os desafios que a igreja lança nos dias atuais. Tendo como paradigma a ação de Cristo em relação ao ser humano em sua totalidade, analisar-se-á o campo de trabalho que pode ser desenvolvido por pastores e membros da IELB. A visita aos pacientes terminais exige coragem, dedicação, paciência e amor, muito amor. O amor de Deus Pai, o perdão e a graça de Cristo, e o real consolo do Espírito Santo motivam e capacitam os líderes da igreja a desenvolverem suas habilidades ao encontro dos doentes terminais.69 Nossa responsabilidade não abarca apenas aos doentes terminais. Abarca a todos os enfermos. Quer sejam eles jovens ou idosos. Quer sejam homens ou mulheres. Quer sejam responsáveis ou não por sua enfermidade. Nós não julgamos a “culpa” da enfermidade. Pois sabemos que o único culpado pela doença é o pecado. Pois pelo pecado veio a morte. E as doenças nada mais são do que meios de chegar à morte.
69 Vox Concordiana (2000), p. 47.

5.3. Os Enfermos
Não há conforto maior para um doente cristão do que saber que Cristo está com ele. Uma das formas de

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5.4. Jesus e os enfermos
Durante a vida de Jesus aqui no mundo, muitas foram as situações que vivenciou. Perseguições eram constantes por parte dos fariseus. Em certas ocasiões, multidões o seguiam. Em outros momentos vemos Jesus sozinho, orando. No ministério de Jesus as curas e milagres estavam frequentemente presentes. Jesus tratou diretamente com uma infinidade de doentes. As doenças eram as mais diversas: paralisia, cegueira, hemorragia, lepra, enfim, Jesus enfrentou muitos casos de enfermidade. Em nenhum momento de seu ministério Jesus despediu um enfermo que buscou auxílio. Nunca ficaram sem uma palavra do Mestre aqueles que foram até ele, ou aqueles que ele encontrava por onde passava.

5.5. A Importância da Visitação
Na IELB se tem consciência da grande importância que a visita aos enfermos deve ter no trabalho congregacional. Faz parte do bom senso e a própria IELB aconselha que se faça. Assim que os pastores iniciam no ministério ou então quando iniciam novo trabalho são aconselhados a que façam visitas aos membros das congregações. Essas visitas têm o objetivo de se conhecer os membros. Os primeiros a serem visitados são os doentes e os idosos. Esses têm sempre a prioridade. Por razões óbvias. Muitas vezes os pastores podem ser envolvidos pela correria dos dias atuais e não dedicam tempo suficiente para as visitas. Esse risco sempre existe, mas precisamos estar sempre cientes de que o pastor está em uma congregação para cuidar daquele rebanho. Jesus confiou dons aos seus seguidores e com os pastores não poderia ser diferente. Em certos casos pode ser que o pastor não se sinta muito à vontade na visita aos enfermos. O ambiente, todo clima que envolve uma enfermidade pode deixar o pastor “contaminado” com esse sentimento de tristeza a ponto de não querer mais visitar os doentes. É preciso buscar força em nosso bom Deus para nos ajudar a superar essas dificuldades. Deus quer que sejamos seus cooperadores para levar conforto nas enfermidades. Muitos pastores visitam somente por se acharem obrigados a fazê-lo, já que isso é parte do ministério. A verdadeira motivação para se fazer uma visita é o amor de Cristo por nós, ele nos lembra disso quando diz: “amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”. É ver-

dade que todos temos nossas fraquezas. Não teremos todos os dons do mundo, mas o amor ao próximo é o que nos motiva a ir até ele nesse momento difícil de sua vida. É muito importante também que o pastor tenha algumas coisas em mente quando visita um doente. Antes de mais nada o pastor lembrará que a visita provêm do amor ao próximo. O pastor precisa ser paciente, ter muito tato. Precisamos saber o que dizer nesses momentos, pois uma palavra mal colocada pode ter consequências muito desagradáveis. Nesses momentos, quando o doente pode falar, precisamos estar sempre dispostos a ouvir mais do que falar. Ouvimos o doente e também a sua família. A família sempre sofre junto com o doente e também precisa ser confortada. Sem dúvida nenhuma a visitação é muito importante e o pastor precisa estar preparado para enfrentar essa tarefa. O seu preparo se dá com muito estudo da Palavra de Deus. Momentos de meditação, devoções e momentos de oração pedindo que Deus o capacite são os mais importantes manuais de visitação que temos.

5.6. Onde Visitar
Geralmente existem dois locais onde se realizam as visitas aos enfermos: hospitais ou residências. O pastor procura estar preparado para ambos os casos. Nos hospitais precisamos levar em conta uma série de aspectos. Se o paciente está em quarto particular, as visitas normalmente podem ser em qualquer horário. No entanto, se o paciente está em enfermaria precisamos estar atentos e visitá-la no horário pré-determinado pelo hospital para as visitas. Em alguns hospitais, especialmente onde existem capelães, as coisas são mais fáceis e pastores conseguem visitar seus membros fora do horário normal de visitas. No caso de precisarmos visitar no horário pré-estabelecido pelo hospital, precisamos ter bom senso e saber que aquele é o único horário que a família também tem para visitar. Alguns hospitais dão cursos aos visitadores e lhes concedem uma credencial para poderem visitar. Quando o doente está em casa as coisas são normalmente mais fáceis. Podemos planejar, junto com a família, os horários de visitação. Se for possível seria interessante aproveitar os horários em que mais membros da família estivessem em casa. Quanto à frequência das visitas não existe nenhuma lei. Os hospitais, como já foi citado, são casos especiais.
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Precisamos estar atentos. Mais uma vez o bom senso deve determinar. Conversar com a família sobre esse ponto também é muito importante.

cessidade, ele faça o atendimento enquanto o membro estiver por lá. E se nós estivermos na situação de pastor em um grande centro deveríamos estar sempre dispostos a atender membros de outros locais quando houver necessidade. Também poderemos ser convidados a visitar pessoas que não têm religião nenhuma. Existem muitas pessoas que não têm igreja, mas em um momento de dificuldade procuram o conforto junto aos cristãos. Nada nos impede de dar assistência a essa pessoa, muito pelo contrário, seria muito interessante atender e dar o nosso testemunho de fé. Mostrar que Jesus é o médico dos médicos, e que ele é o único que pode nos curar da doença do pecado. E que, mesmo que a pessoa morra, no Senhor encontrará a vida eterna.

5.8. Alguns cuidados ao visitar
Algumas recomendações valem ser ressaltadas nas visitas a enfermos: De um modo geral as visitas deveriam acomodar-se ao seguinte esquema:

5.7. A Quem Visitar
Assim como nos demais aspectos do ministério, na visitação normalmente se dá preferência aos membros de sua congregação. O pastor foi chamado para ali exercer o seu ministério. Então ele cuida do seu rebanho. e pode ser que, querendo fazer o bem, esteja invadindo o espaço de outro cuidador responsável. Por isso é bom perguntar, quando for visitar alguém que não é da igreja, se há alguém responsável por ele (outro pastor, padre, ...). Dentro das congregações sempre existem aqueles que estão afastados. Em alguns casos existem pessoas que não se dão muito com o pastor. Esses casos não podem ser tomados como desculpa para não ir visitá-lo70. Pode acontecer de membros de outras paróquias solicitarem a visita. Nada impede o pastor de realizá-la, mas antes, deve-se entrar em contato com o pastor da pessoa a ser visitada, para se informar sobre a visita e para que o pastor responsável saiba que a pessoa está sendo assistida e visitada por um colega. É comum cidades, especialmente as de melhor estrutura como capitais ou cidades que tem melhores hospitais, receberem pessoas de outras cidades. Os membros luteranos também estão sujeitos a isso. Nesse caso é importante manter-se em contato com o pastor ou os pastores daquela cidade para que, havendo ne70 Lauterbach, p. 25 24 | Teologia | Junho e Julho, 2011

5.8.1. Para todos os enfermos:
a) Faça visitas frequentes, mas breves. b) Deixe que o paciente tome a iniciativa de dar a mão para cumprimentar. c) Fique de pé ou sentado onde o paciente possa vê-lo com facilidade. d) O lado da cama é mais adequado do que o pé da mesma. e) Dê ao paciente liberdade para falar livremente e ouça com atenção enquanto ele fala. f ) Use seus recursos como cristãos: oração, Escrituras, encorajamento de comentários, etc. O fato de você orar de forma audível ou não deve ser determinado pelo Espírito Santo e pela situação — paciente, sua base espiritual, as pessoas presentes, etc. g) Sugira orar em lugar de perguntar se isso é desejável e faça uma oração curta. h) Tome as precauções adequadas no caso de doença contagiosa. i) Deixe algum material devocional. j) Avalie cada visita para determinar como podem ser melhores no futuro.

5.8.2. Para os pacientes em casa:
a) Telefone antes da visita para certificar-se sobre a melhor hora em que deve fazê-la.

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b) Tente visitar num horário em que haja tempo para uma conversa particular.71

5.9. O Hospital
O hospital é um lugar de pessoas que, na maioria das vezes, estão enfraquecidas, preocupadas e, muitas vezes, desesperadas. Tanto os doentes, como seus familiares e amigos. É um lugar onde as pessoas podem perder as esperanças no Deus verdadeiro. E nós precisamos estar ali no momento da necessidade, para estender uma mão amiga. Assim como Cristo ajudou, curou, ressuscitou... Sempre que Jesus fez suas visitas a enfermos ou enlutados ele levou a certeza da vida eterna que virá. Nós também não podemos esquecer a derrota da morte conseguida por Cristo.

5.9.1. Para pacientes hospitalizados:
a) Ao chegar procure a mesa de recepção, apresente-se e verifique se a hora é conveniente para uma visita. b) Não entre num quarto que tenha na porta um cartaz com os dizeres “Visitas Proibidas” ou onde a porta esteja fechada. c) Tente visitar nas horas em que não haja muitos outros visitantes.72 Dos pontos acima poderíamos acrescentar ao terceiro algumas palavras. Onde ele diz “Não entre... onde a porta esteja fechada” acrescentaríamos: “sem a devida autorização”.

ciosa pode, geralmente, ser muito mais significativa. j) Não prometa que Deus irá curá-lo. Em sua sabedoria, Deus algumas vezes permite que a doença continue. k) Não faça visitas quando você estiver doente. l) Não fale alto. m) Não sente, apóie-se ou sacuda a cama. n) Não visite nas horas de refeições. o) Não fale baixinho com os membros da família ou pessoal médico à vista do paciente. p) Não transmita informação sobre o diagnóstico. q) Não interrogue o paciente sobre os detalhes da doença. r) Não diga à família o que deve decidir quando lhe são apresentadas opções medias (mas ajude-a a decidir). s) Não critique o hospital, o tratamento ou os médicos. t) Não espalhe informações minuciosas sobre o paciente ao terminar sua visita.73
73 Vox Concordiana (2000), pp. 67-8

5.9.2. Há também alguns princípios gerais a observar:
a) Seja amigável e alegre. b) Mostre-se cheio de confiança e ânimo. c) Ajude o paciente a descontrair-se. d) Reconheça que ansiedades, desânimo, culpa, frustrações e incertezas podem estar presentes. e) Fale ao paciente sobre a segurança do amor e cuidado divinos. f ) Prometa orar pelo paciente durante sua doença — e cumpra sua promessa. g) Não fale num tom de voz artificial. h) Não fale sobre suas próprias doenças no passado. i) Não force o paciente a falar. Sua presença silen71 Vox Concordiana (2000), p. 67. 72 Vox Concordiana (2000), p.67. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 25

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5.10. Visita — Parte da missão
Como citamos no início deste trabalho, Jesus visitava e ensinou a visitar. Um dos objetivos da visita é a propagação da palavra de Deus. Para cumprir a Grande Comissão podemos e devemos visitar. Pessoas conhecidas e desconhecidas. Pessoas da igreja, para fortalecimento. Pessoas estranhas, para mostrar toda a graça da fé em Jesus Cristo. Visiting is mission. We’re helping people with their lives and destinies in the name of Christ. Visiting is evangelism. We’re helping persons discover God in their lives. Visiting is sacred. We go knowing we are sent by God, that we have been given a sacred trust74.75 Nós tivemos a oportunidade de trabalhar em CPTLN (Cristo Para Todas Las Naciones) no ano de 2000. Fazíamos a visitação e entrega dos livretes solicitados por telefone. Foram 481 visitas. Na maioria das vezes as pessoas apenas pegavam seus livretes, agradeciam e voltavam para seus afazeres. Essas visitas podem parecer infrutíferas e até certo ponto “desperdício de trabalho e dinheiro”. Mas não são desperdício. Essas 481 pessoas receberam material cristão e foram convidadas a ter contato com a Palavra de Deus. Cada uma destas pessoas se relaciona em média com mais 5 ou 6 pessoas. Isso amplia o alcance a mais de 2.800 pessoas que têm a oportunidade de conhecer um pouco mais, ou pela primeira vez a graça Salvadora de Jesus Cristo. E na realidade muitos também iniciavam o curso Bíblico. Certamente poderíamos dizer muito mais sobre a visitação como missão e testemunho. Mas basta consi74 Tradução: Visitar é missão. Estamos ajudando as pessoas com suas vidas e destinos em nome de Cristo.Visitar é evangelismo. Estamos ajudando as pessoas a descobrirem Deus nas suas vidas. Visitar é sagrado. Vamos, sabendo que somos enviados por Deus, que nos deu uma confiança sagrada. 75 Callahan (1994), p. 4.

derar o mandado de Jesus Cristo: “Ide...” E a promessa: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20)

5.11. A visita nos grendes centros
Com a mudança da população do interior para os grandes centos, a igreja tem acompanhado o movimento. Muitos são os pastores que hoje se veem trabalhando em imensas cidades, mesmo tendo vindo de pequenas cidades ou mesmo da região do interior destas. O pastor da grande cidade certamente notará que as visitas esbarram em algo que ele não conhecia: trânsito, horário de trabalho, dificuldade de deslocamento, dificuldades para entrar em condomínios e certas regiões de criminalidade em horários específicos e muitas outras dificuldades que ele sequer conhecera em seu ministério anteriormente. Mesmo que tenha estudado em grandes cidades, quando vai trabalhar e quiser visitar as pessoas, enfrentará dificuldades. Normalmente, nos grandes centros, a programação da igreja ocupa o espaço do fim de semana, pois é quando os membros estão mais desimpedidos. Entretanto, é nesse momento também que eles estariam disponíveis para receber as visitas. Como fazer? O quê fazer? O pastor, junto com os membros, precisará encontrar as soluções. Um paliativo é o pastor acostumar-se com o telefone e e-mail, redes sociais... Ele não poderá visitar, mas poderá estar em contato com as pessoas por estes meios — como se fosse uma visita “virtual”. É uma oportundiade de cumprimentar pelo aniversário ou procurar saber da saúde, etc...

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Isso não deveria ocupar o lugar próprio da visitação, mas se não dá para visitar, telefonar ou mandar um e-mail ou mensagem no celular, lembrará ao congregado que o pastor está preocupaco com ele e que pensou nele naquele momento. Para alguém que estiver sofrendo, isso abrirá a oportunidade do sofrimento ser amenizado.

Conclusão
O Pastor da IELB é um servo de Deus na terra. Ele é o líder preparado pelo seminário, ordenado pela Igreja, eleito e chamado por uma congregação. Ele crê e ensina a Palavra de Deus e os Sacramentos. E acima de tudo, ele crê no Salvador Jesus Cristo. Muitas vezes nós homens queremos legislar e não “deixamos Deus ser Deus”. Aí surgem os “Códigos de Ética” que só não são inúteis, exatamente porque parece que não sabemos viver na liberdade que o Senhor nos deu. Como dissemos no capítulo que tratou desse ponto: “Onde falta a Palavra de Deus, sobram os Códigos de Ética”. Mas o pastor da IELB respeita os documentos oficiais aos quais subscreve, pois ele faz parte da igreja que os escreveu e, por amor ao próximo, ele se submete às leis feitas por esta igreja. E o Código de Ética não é anti-cristão, ele seria apenas desnecessário se conseguíssemos viver a liberdade cristã em amor a Deus e ao próximo. No capítulo final do nosso trabalho tratamos da visitação. Obviamente não exaurimos o tema. Muito

mais há sobre o assunto em uma gama infinita de livros. E isso mostra que muita gente já se preocupou e se preocupa com a visitação. Seja essa para aconselhamento, cuidado aos enfermos, missionárias ou qualquer outra finalidade que possa vir a ter. Acreditamos que um pastor que visita ajuda sua igreja a crescer na fé e na comunhão. Uma visita pastoral não é uma obrigação penosa. Ao contrário, ela é um prazer. Nela podemos levar o conforto da Palavra de Deus. Podemos dizer às pessoas quanto Deus as ama e as quer salvas. E que ele as quer nos céus no último dia, onde estas poderão ouvir: “vinde benditos de meu pai”.

Rev. Jarbas Hoffimann — Nova Venécia-ES, pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, da qual é membro da Comissão de Culto da IELB., diagramador e co-editor desta Revista.

Bibliografia
CALLAHAN, Kennon L. Visiting in a Age of Mission — A Handbook for Person-toPerson Ministry. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1994. CAVALCANTI, Eleny Vassão de Paula. No Leito da Enfermidade, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989. DEAN, Horace F.Visitation Evangelism Seminar. Chicago: Moody Press, 1962. ESTATUTOS, REGIMENTO E CÓDIGO DE ÉTICA PASTORAL: Igreja Evangélica Luterana do Brasil, Porto Alegre: Concórdia: 1998. GERHARD, Johann. Manual de Conforto — para pessoas angustiadas e doentes. Canos: Editora da Ulbra, 2000. GOERL, Otto A. Fórmula de Concórdia, Cremos por Isso Também Falamos, Porto Alegre: Concórdia, 1977. LANGE, Wanderley M. O Pastor e os Doentes Terminais. in Vox Concordiana — Suplemento Teológico. São Paulo: Instituto Concórdia de São Paulo, vol. 15. Nº 2. 2000. LAUTERBACH, William A. Estive Enfermo e me Visitastes, Porto Alegre: Concórdia. Lersch, Marta Ruth. Estive enfermo e ... ? in Servas do Senhor, Porto Alegre: Concórdia Editora: Abr/Mai/Jun de 2001. LIVRO DE CONCÓRDIA: As Confissões da Igreja Evangélica Luterana. São Leopoldo e Porto Alegre: Sinodal e Concórdia, 1981. LUTERO E O MINISTÉRIO PASTORAL: Textos do 1º Simpósio Internacional de Lutero. Apresentação e Organização: Paulo W. Buss. São Paulo: Instituto Concórdia de São Paulo, Escola Superior de Teologia, 1998. MANUAL DE MORDOMIA CRISTÃO PARA A COMUNIDADE LOCAL — A visita em todos os lares. se.: sl. sd. SISEMORE, John T. O Ministério da Visitação. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1965. TEOLOGIA PASTORAL. Eds. Norbert H. Mueller e George Kraus. Trad.: Paulo e Ivonelde Teixeira. São Paulo: Instituto Concórdia de São Paulo: 1997. NOVO DICIONÁRIO INTERNACIONAL DE TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO, O: Editor Geral: Colin Brown. São Paulo,Vida Nova,Vol. III. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 27

igreja luTerana

Rev. Waldyr Hoffmann

Duas faces de Igreja
ma das grandes preocupações da Igreja é manter a sua identidade teológica confessional e prática. Desde a formação dos seus pastores os elementos do “pode” e “não pode” estão presentes, mesmo que o discurso seja “você tem liberdade para mudar”. Entretanto, na prática, ou por ser mais cômodo ou por medo, as mudanças são tímidas e, ao que parece, em qualquer lugar em que a Igreja esteja o ritual é o mesmo. Isto tem trazido coesão no Sínodo, mas se perde muito o contexto no qual ela está inserida. Poderíamos ter duas faces da mesma igreja? Trabalhando por longos anos na Região Nordeste do Brasil pude observar sinais de que uma outra face é possível para a IELB, diferente do seu modelo tradicional e conservador e, mesmo assim, não sem descaracterizá-la. Mas isso não é propriedade das igrejas do Nordeste. Vejam como exemplo o porquê dos jovens voltarem animados depois de um congresso, independentemente da região do país. Porque lá eles têm

U

a oportunidade de programações alegres, músicas, instrumentos musicais, podem bater palmas, cantam com entusiasmo, participam, perguntam e estabelecem suas amizades. No primeiro culto em que vão se encontrar na sua congregação, tudo é diferente. Eles murcham! O mesmo ocorre com as servas e os leigos. Onde estaria o problema? Por isso este assunto é digno de uma reflexão mais séria, pois há uma carência, uma busca por uma igreja vibrante e que sirva de lugar para exteriorizarmos a nossa fé em Jesus. Até mesmo temos um desafio missionário “Aquecendo corações”, mas que não pode encontrar corações frios, sem entusiasmo porque queremos simplesmente preservar a pura doutrina e identidade luterana, com

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igreja luTerana

e uma mesma

cultos repetitivos, sem vida e que não empolgam ou atraem as pessoas para Cristo. É evidente que nem toda a igreja tem um bom instrumental. Estes equipamentos não são acessíveis a todos. Entretanto, à medida que há incentivo de alguém para os interessados em tocar violão, teclado, flauta ou outro instrumento musical isto poderá contribuir muito nos cultos. Ter dois ou mais violões, bateria, teclado, tudo isso deixará o culto mais dinâmico e participativo. O apoio e incentivo do pastor são fundamentais para que isso aconteça. É bom lembrar que o culto não é do pastor, mas da igreja, do povo de Deus. Até mesmo a expressão de que o pastor vai “dar culto” não confere, apesar de muito usada. O pastor é o dirigente e vai “celebrar” junto com a igreja e todos vão prestar culto a Deus. Compreendendo isso já fará uma grande diferença. O Salmo 150 nos ajuda nesta reflexão: “Aleluia! Louvai a Deus...” Ele menciona diversos instrumentos

musicais da época. Trazendo para a nossa realidade quais são os instrumentos possíveis? Foi-se há muito tempo o limite ao órgão. Por isso a igreja encontrará o caminho. A experiência da IELB no Nordeste tem sido interessante. Cidades como Recife, Salvador, no início do trabalho, os cultos eram em alemão. Hoje cada congregação tem cultos bem participativos, com palmas, utilização de diversos instrumentos musicais (órgão, violão, percussão, etc.) e as pessoas cantam com muito entusiasmo, como de fato se espera da gente. Assim é a nossa IELB. Ela pode ter duas faces. Ela não se descaracterizará se usar diferentes formas de culto. Depende da nossa iniciativa, da vontade em ver uma igreja alegre e mostrando ao mundo que Cristo é para todos.
Rev. Waldyr Hoffmann é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Joinville-SC

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Teologia PasToral

Rev. Egon Martin Seibert

É

um grande desafio Deus coloca diante daqueles a quem ele confia o ministério eclesiástico. É uma grande responsabilidade pregar a sua Palavra, que condena e salva, e administrar os seus sacramentos. Facilmente aquele que é candidato ao ministério pode pensar que ao tornar-se pastor será alguém muito importante. Contudo, antes de qualquer coisa, é bom lembrar àquele que aspira ao episcopado que é preciso manter-se sempre humilde, com os pés no chão, e que na verdade o ofício, não a pessoa, que é importante. Nosso propósito através deste “manual” é refletir com o aluno sobre o chamado ao ofício pastoral e tudo quanto o exercício do mesmo exigirá daquele que se dispõe a aceitá-lo. Além disso, pretendemos oportunizar a abordagem das tarefas mais comuns que aguardam o quem deseja ser pastor (ou é) e, finalmente, deixar uma palavra de incentivo a que todos sempre busquem na Palavra de Deus orientação e ânimo para o bom desenvolvimento de suas habilidades.

1. O Chamado Pastoral1 1.1. Introdução
Queremos iniciar esta aula lendo dois textos bíblicos: Mateus 10.1 e Mateus 28.19-20. O que vimos? Jesus chamou os 12 apóstolos e os enviou. Estes homens receberam chamado direto, sem intermediários. O que fizeram? Foram, batizaram, ensinaram, fizeram discípulos que constituíram congregações.
1 Nota RT: Este material do pastor Seibert foi originalmente utilizado por ele como subsídio para uma disciplina de Teologia Pastoral que ele lecionou em um curso de teologia da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (Ielb). Este caráter é mantido quase que integralmente. Trata-se de uma série de anotações doutrinárias e práticas fundamentais para o exercício do pastorado. Note, também, que os dados utilizados pelo pastor são de 1995. É possível que, por exemplo, dados regimentais da Ielb tenham sido modificados desde então. 30 | Teologia | Junho e Julho, 2011

Estas, por acaso foram abandonadas, entregues ao “Deus-dará”, à sua própria sorte? Não. Leiamos Atos 14.19-23; Atos 20.28-31; 1Tm 1.12-17; Tito 1.5. O que fizeram estas congregações? Elegeram bispos ou presbíteros. Temos aqui o chamado, não mais direto de Deus, mas indireto, também vindo de Deus, porém, por meio de uma congregação. Aspirar ao episcopado qualquer cristão pode. Vir a ser pastor, só por meio do chamado. A Confissão de Augsburgo, nos artigos V, Do ofício da pregação, e XIV, Da Ordem Eclesiástica, diz: Para conseguirmos essa fé, instituiu Deus o ofício da pregação, dando-nos o evangelho e os sacramentos, pelos quais, como por meios, dá o Espírito Santo, que opera a fé, onde e quando lhe apraz, naqueles que ouvem o evangelho, o qual ensina que temos, pelos méritos de Cristo, não pelos nossos,

um Deus gracioso, se o cremos... Da ordem eclesiástica se ensina que sem chamado regular ninguém deve publicamente ensinar ou pregar ou administrar na igreja.” Entre nós, luteranos, alguém que estuda teologia, ao se formar, torna-se bacharel em teologia. Pastor, porém, é somente alguém que recebe um chamado divino, regular ao ministério. Eu creio que Deus me chamou ao santo ministério (Ez 3.17; At 20.28; 2Co 5.18-20; Hb 13.17). Eu creio que como pastor sou de Deus, um cooperador de meus colegas (1Co 3.9), um despenseiro dos mistérios de Deus que tem sob os seus cuidados a pregação da palavra e a administração dos santos sacramentos. Eu creio que se por um lado, do mesmo modo como Paulo (1Tm 1.12-17), sou indigno do ofício da pregação, por outro lado fui distinguido pelo Senhor como seu embaixador, e recebi dele a honra, a dignidade, de ser uma das estrelas da mão direita de Jesus (Ap 1.20). Este conhecimento me consola mas me traz enormes responsabilidades porque sei que um dia terei que prestar contas de meu ministério ao Senhor (Hb 13.17).

1.2. Quem Chama?
A Igreja Cristã é formada por sacerdotes reais (Ap 1.5-6; 1Pe 1.1819; 2.5 e 9). Estes sacerdotes reais, os leigos, como tais não têm a pretensão de aposentar a figura do pastor. Embora o sacerdócio real pertença a todos os cristãos, Deus ainda

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assim instituiu o ofício pastoral (Ef 4.11; At 20.28; Tt 1.5). O ofício pastoral não é uma opção, é uma necessidade, e o pastor, aquele que ocupa este ofício, é alguém que procede de entre os sacerdotes reais. O ofício pastoral é um presente que Deus deu à sua igreja (Ef 4.11 e 1Co 12.28). Deus quer que o santo ministério seja estabelecido em seu meio através da eleição de um pastor, através daquilo que chamamos de um chamado (Tt 1.5). Neste chamado, porém, temos mais uma vez a mão de Deus agindo (At 20.28) através da congregação. Na nossa igreja as congregações legalmente estabelecidas têm o direito de chamar pastores sob a supervisão do pastor conselheiro ou por alguém a quem a presidência da igreja delegou tal poder (RI2 2.8 e 2.1 e At 1.24; 6.3; 14.23). Além disso nossas congregações, por vezes, delegam o poder para que a direção da Igreja preencha com um nome o chamado a ser remetido. Baseia-se esta maneira de agir na recomendação de Paulo que diz que todas as coisas devem ser feitas com decência e ordem (1Co 14.40). Além das congregações (e ou paróquias) também pode expedir comissionamentos a direção nacional da IELB conforme o que dispõe o Regimento Interno.... Para alguém exercer o ofício pastoral, não basta querer ser pastor. É preciso, antes de mais nada, que ele te2 Regimento da IELB.

nha sido eleito para este fim (At 14.23). E o pastor, que procede de entre os sacerdotes do Rei Jesus, que antes de ser pastor é sacerdote, ao receber a convocação de Deus através da Congregação, busca, com a ajuda de Deus, cumprir cabalmente o seu ministério (os seus deveres pastorais) para que o rebanho que lhe foi confiado (At 20.28) cumpra as suas funções sacerdotais na família e na igreja. Com respeito à eleição, não há nada que prescreva unanimidade no chamado de um pastor. Para tranquilidade do pastor chamado, nada melhor do que a congregação que o chama lhe dar esta unanimidade.

1.3. Quem pode ser chamado?
Nenhuma Comunidade tem a liberdade de eleger e de chamar ao ofício pastoral quem ela bem desejar, mas somente quem é competente e apto para o cargo. As qualificações pessoais e os deveres que se esperam de um pastor serão descritos em outro capítulo. Neste momento, porém, não podemos nos furtar de tratar de um assunto cujo interesse cresce nos meios luteranos, a saber: Podemos ou não chamar mulheres ao santo ministério? Embora as mulheres façam parte do sacerdócio real, a atuação de mulheres no ofício pastoral não encontra fundamento bíblico. Foram homens os sacerdotes de Deus no AT; foram homens os apóstolos de Jesus no NT. A palavra bíblica, porém, à qual sempre se refere para demonstrar que é da vontade de Deus que mulheres não exerçam o ofício pastoral é 1Tm 2.12. Ali o apóstolo Paulo afirma: “E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade sobre o marido.” De acordo com estudo apresentado pelo professor Donaldo Schüler (Igreja Luterana, ano XXXII, 1971, A função da mulher na igreja.), é dito que das suas origens helênicas, o apóstolo Paulo retém do verbo
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didaskein o sentido de transmitir conteúdos de modo contínuo e completo (Cl 3.16). Diante disso ele pergunta: O que significa a vontade apostólica expressa nas palavras: “E não permito que a mulher ensine”? Com certeza não significa que a mulher não possa ensinar nunca. Timóteo foi ensinado por mulheres e Paulo as elogia (2Tm 1.5 e 3.15). Priscila e seu esposo Aquila tomaram em sua residência a Apolo e com mais exatidão lhe expuseram o caminho de Deus (At 18.24ss). Diante disso o prof. Donaldo afirma que o “Não permito que a mulher ensine” fica circunscrito a um certo momento, àquele em que a comunidade cristã se reúne para adorar a Deus e a ouvir a sua palavra, ao culto público. Apesar disso ainda pergunta-se: Por que não? Por que pode a mulher ensinar crianças e adultos em outras ocasiões e não no momento do culto? O professor Donaldo responde apontando para as seguintes duas razões: 1) Para o fato de que Paulo quer que as mulheres participem discretamente dos cultos, aprendendo. Se a mulher liderasse o culto, este princípio seria ferido. 2) Para o fato de que por ter sido, na ordem da criação, formado primeiro Adão e depois a mulher, Deus concedeu ao homem a liderança no lar (Ef 5.22) e no culto (1 Co 11.3). Cabe a ele, em funções normais, a liderança no lar e, por isso, não precisava ser diferente no culto.

1.4. Exemplo de chamado pastoral
CHAMADO SOLENE Em nome do Deus Triúno, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém. A Comunidade Evangélica Luterana “Cristo” de Porto Alegre, RS, considerando necessário chamar mais um pastor para o trabalho na Comunidade, após invocar o Senhor da Seara, e no exercício da autoridade que Cristo conferiu à sua igreja, decidiu, por unanimidade, em sua assembleia extraordinária, realizada no dia 29 de agosto de 1993, entregar o presente chamado divino, ao sr. pastor EGON MARTIM SEIBERT para ser, junto com os outros pastores da Comunidade, seu pastor e cura de almas. Requeremos do nosso pastor que se comprometa a:
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• ensinar e pregar, em público e em particular, a palavra de Deus clara e puramente, em doutrina e praxe, de acordo com as Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, conforme as confissões da Igreja Luterana, contidas no Livro de Concórdia de 1580; • administrar os santos sacramentos, batismo e santa ceia, conforme instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo; • ser, para os membros da Comunidade (crianças, jovens, adultos e idosos), enfim, para todos os que lhe foram confiados, um verdadeiro cura de almas, que visita, repreende, consola, aconselha e busca com paciência os distanciados; • levar uma vida cristã exemplar, constituindo bom exemplo para toda a Comunidade e aos de fora, Tt 1.6,9; 1Tm 3.2-7; • fazer a obra de um verdadeiro evangelista e missionário junto àqueles que ainda não conhecem a palavra de Deus, fazendo tudo o que estiver em suas forças para promover, sob a graça e bênção de Deus, a edificação e o progresso do reino de Deus em geral. Nós, membros da Comunidade, nos comprometemos a: • receber o nosso pastor como ministro de Cristo e despenseiro dos mistérios de Deus e dar-lhe a honra e o respeito que lhe são devidos, 1Tm 3.1; 5.17; • facilitar os seus deveres ministeriais em nosso meio, sujeitando-nos à palavra de Deus de boa mente, 1Tm 5.1-2; Hb 13.17; cooperando espontaneamente mediante conduta verdadeiramente cristã em nossa vida e em nosso trabalho, mantendo um clima de paz, alegria e cooperação; • orar fervorosamente pelo pastor e seu trabalho; • contribuir para o sustento dele e de sua família, segundo as nossas posses,

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de acordo com a palavra de Deus, Lc 10.7; 1Co 9.14; Gl 6.6-7; 1Tm 5.17. Oramos a Deus Espírito Santo que dirija o pastor que elegemos na sua decisão. E, ao aceitar o chamado, que aqui lhe entregamos, o conduza sob sua proteção até nós, constituindo-o em bênção para muitos e fazendo do seu ministério entre nós uma glorificação perene do santo nome de Deus. Em nome e por ordem da Comunidade Evangélica Luterana Cristo”. Porto Alegre, 29 de agosto de 1993. (Seguem as assinaturas e carta explicativa com dados da Congregação, oferta salarial e outros benefícios.)

lisar com a mesma nosso chamado e nosso trabalho entre eles; 8) Falar com a esposa e os filhos; 9) Orar e orar, pesar bem os prós e os contras, para finalmente decidir-se, buscando com humildade, a honra e a glória de Deus.

1.6. Como proceder depois de ter aceito o chamado
Seguir o que recomenda o Regimento da IELB, edição 1994: 2.1.3: Quando receberem chamados e também quando tomarem sua decisão, os obreiros deverão comunicá-lo imediatamente às paróquias ou instituições envolvidas, aos conselheiros distritais respectivos e ao Presidente da IELB. 2.2.1: O candidato ao ministério será ordenado e receberá seu certificado de ordenação após ter sido recomendado pela Faculdade de Teologia, ter encaminhado pedido de filiação à IELB, haver recebido chamado legítimo ou um comissionamento, e solicitado, por escrito, sua ordenação ao Presidente da IELB. 2.2.2: A autorização para instalação de pastores e de outros obreiros da IELB é dada pelo presidente da IELB e efetuada por ele mesmo ou por outro pastor, por ele designado. 2.2.3: A ordenação poderá ser realizada na congregação de origem do candidato. 2.2.4: A instalação realizar-se-á na presença da congregação que expediu o chamado. 2.2.7: Ao aceitar novo chamado, o obreiro deverá acertar com a diretoria da congregação e/ou paróquia em que atua, na presença do Conselheiro Distrital, todos os assuntos atinentes ao seu trabalho, e solucionará possíveis questões pendentes, despedindo-se com culto solene devidamente marcado para este fim. 2.2.8: O pastor ou outro obreiro chamado que aceitar chamado para uma igreja irmã deve comunicar imediatamente sua decisão ao Presidente da IELB e dele solicitará a transferência. Além disso, sugerimos que o pastor, depois de já estar trabalhando por um bom período de tempo junto à Comunidade que o chamou (talvez 3 anos; o bom senso o mostrará):
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1.5. Como decidir diante de um chamado?
Com base na experiência adquirida ao longo de meu ministério pastoral, sugiro o seguinte procedimento: 1) Orar para que Deus dê sabedoria para decidir segundo a sua vontade; 2) Ler com atenção o chamado e a carta explicativa. 3) Falar com o presidente da IELB; 4) Falar com o Conselheiro Distrital de cada distrito envolvido; 5) Falar com o ex-pastor da congregação e colegas de distrito; 6) Falar com o presidente da congregação que emitiu o chamado e procurar saber qual a expectativa que têm a nosso respeito, por que nos chamaram, quais são as suas principais necessidades. Deste modo pode-se ver se os nossos dons encaixam com as necessidades e aspirações da Congregação que nos chama; 7) Falar com a diretoria da Comunidade a quem estivermos servindo e ana-

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• leia e analise sozinho o seu chamado para ver se está executando os compromissos que assumiu; • leia e analise com a congregação o chamado que dela recebeu para avaliar o seu ministério e o cumprimento dos deveres que a própria congregação assumiu para com o pastor chamado.

1.9. Quando o pastor pode ser demitido
De acordo com as Escrituras um pastor pode ser deposto: a) Quando ensina doutrina falsa (Tt 1.9); b) Quando sua conduta é indecente (1Tm 3.1-7); c) Quando é negligente em seu trabalho (1Co 4.12). No processo de desqualificação de um pastor do seu ofício age o Presidente da igreja que muitas vezes se utiliza dos préstimos do Conselheiro Distrital (RI 2.2.6, 2.12.2.8 e 2.12.2.9).

1.7. O tempo de validade de um chamado
Não há evidência escriturística que indique que todos chamados necessariamente valem até o fim da vida do pastor chamado ou que, por outro lado, devam ser determinados por um período de tempo. O chamado, geralmente, como é entendido na IELB, não é de tempo determinado. Enquanto o obreiro for fiel, zeloso, e tiver condições de exercer o ministério, ele continua no mesmo. Porém há casos, como por exemplo de empreendimentos missionários, em que pastores recebem chamados com tempo determinado para realizar determinada tarefa sem que haja depois continuidade do chamado.

1.10. Termos e funções do Ofício Pastoral
a) Mestre.
Talvez nada descreva melhor a função de um pastor do que esta palavra: Mestre (Ef 4.11). Para Lutero ensinar fazia parte da essência do ofício pastoral, seguramente porque Jesus dissera que discípulos seriam “feitos” pelo batismo e ensino (Mt 28.20) e porque Paulo afirmara que o pastor deveria ter aptidão para ensinar (1Tm 3.2). Aliás, todo o trabalho de ensino dentro de uma congregação deve ser realizado sempre sob a supervisão do responsável maior, o pastor. Quando falarmos do pastor e o culto público, nos deteremos especialmente com a tarefa de ensinar através do sermão.

1.8. A Ordenação e a instalação de um pastor
A ordenação que acontece tão somente uma vez, sempre precede a primeira instalação de um pastor. Por assim dizer o pastor recebe ali as ordens, isto é, ele é declarado e reconhecido como detentor do ofício pastoral, apto para aceitar o chamado que recebeu. Aqui ele também declara a sua intenção de fazer do ofício pastoral a sua vocação vitalícia. A ordenação, a imposição de mãos, embora não necessária, é um costume que já era praticado nos tempos apostólicos (At 6.6; 13.3; 1Tm 4.14; 5.22; 2Tm 1.6) e não deveria ser omitido pela igreja. Entre nós, uma praxe muito comum é realizar a cerimônia de ordenação na congregação de origem do Bacharel em Teologia que recebeu um chamado legítimo. O rito da instalação que acontece junto à congregação que expediu o chamado, declara o novo relacionamento entre pastor e congregação. Envolve promessas mútuas, do pastor e da congregação. Estagiários de Teologia não são considerados pastores; são estudantes que realizam determinadas tarefas do ofício pastoral sob a supervisão de um pastor e congregação que se dispuseram para tal fim.
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b) Bispo, presbítero, pastor.
Ao pastor compete como bispo (episkopos), presbítero (presbiteroi) ou pastor (poimainen) supervisionar, pastorear, proteger e julgar o rebanho (At 20.28-32; 1Tm 4.1-6; Tt 1.9, 1Pe 5.1-2). Interessante de se notar é o fato de que nunca pregadores ambulantes, apóstolos, evangelistas ou auxiliares foram chamados de bispos. A designação só aparece quando há congregações fixas

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onde bispos exercem a função como tais (Fp 1.1).

c) Como administrador dos Sacramentos.
Despenseiro dos mistérios de Deus (1Co 4.1) é uma das designações dadas ao que exerce o ofício pastoral. A Teologia Luterana define como tarefa de despenseiro a pregação da Palavra de Deus (enfocada no item Mestre) e a administração dos Sacramentos. A Confissão de Augsburgo declara: “... compete aos bispos, como bispos, isto é, àqueles que estão incumbidos do ministério da palavra e dos sacramentos, esta jurisdição: perdoar pecados, rejeitar doutrina que dissente do evangelho e excluir da comunhão da igreja os ímpios cuja impiedade é conhecida. Todavia, sem força humana, mas com a palavra. Nisso as igrejas necessariamente e de direito divino devem prestar-lhes obediência, segundo a palavra: “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim”(CA3, XXVIII, 21, página 88 do Livro de Concórdia, edição 1980). Em vista disso subdividiremos este ponto, administrador dos sacramentos, tratando separadamente o Batismo e a Santa Ceia em capítulo posterior, quando falar-se-á dos deveres do ofício pastoral.

10; Mt 6.25); h) Suportar sofrimentos como bom soldado de Jesus (2Tm 2.3); i) Exercitar-se na piedade (1Tm 4.7); j) Ser fiel (1Co 4.2; 1Tm 4.14); k) Ser exemplo para o rebanho (1Tm 4.12 e 1Pe 5.3); l) Zelar pelo seu bom nome junto à Comunidade em que vive(1Tm 3.7); m) Preparar pessoas para que sejam líderes (2Tm 2.2); n) Ser evangelista (2Tm 4.5); o) Ser atalaia (Ez 3.17-21); p) Ser visitador dos congregados (At 15.36; 20.20, 31; 1Ts 2.11-12); q) Cumprir cabalmente o ministério (2Tm 4.5).

3. Deveres do pastor como administrador dos sacramentos 3.1. A respeito do Santo Batismo
a) Da essência do batismo
Jesus dirigiu sua igreja a fazer discípulos batizando (baptizontes) e ensinando (didaskontes) conforme Mt 28.18-20. Todas as igrejas cristãs, com exceção das reformadas, aceitam a eficácia do batismo que é a aplicação de água em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. No batismo Deus oferece e dá a sua graça. O poder, porém, de regenerar não está na água mas na palavra de Deus.

2. Os deveres de um pastor 2.1. Deveres gerais de um pastor:
a) Orar pelo povo (At 6.1-4; 1Tm 2.1-3); b) Estudar a Palavra para ensinar corretamente as suas verdades (1Tm 4.13); c) Pregar a palavra (2Tm 4.2; At 20.20), anunciar o evangelho que reconcilia (2Co 5.18-19) e afadigar-se neste ensino (1Tm 5.17); d) Cuidar da doutrina (1Tm 4.16; Tt 1.9); e) Corrigir, repreender, exortar (2Tm 4.2); f ) Confortar (Is 40.1); g) Contentar-se com o que Deus lhe dá (1Tm 6.53 CA = Confissão de Augsburgo.

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Lutero afirma no Catecismo que o “batismo não é apenas água simples, mas é a água compreendida no mandamento divino e ligada à palavra de Deus (Livro de Concórdia, pg. 375, IV, 2). Por isso também ensinamos do batismo “que é necessário e que por ele se oferece graça; que também se devem batizar as crianças, as quais, pelo batismo, são entregues a Deus e a ele se tornam agradáveis” (CA, artigo IX, Livro de Concórdia pg. 32).

b) Do local do batismo
No culto público, para que o povo de Deus veja quão importante ele é e para que sejam relembrados sua razão e seu proveito. É quase sempre uma cerimônia breve que deve ser vista pela congregação como um ato sagrado da maior importância.

c) Quem o administra?
Aquele a quem foi confiado o ofício da palavra e dos sacramentos, o pastor. Em caso de emergência, qualquer sacerdote real o pode fazer (Tratado4 67). Neste caso, o pastor deve certificar-se de que o mesmo foi administrado corretamente para então, num culto público posterior, anunciar o batismo que foi feito na situação de emergência.

Pia Batismal do Período Bizantino. Hb 10.22). Aos que afirmam que o batismo só pode ser aplicado por imersão porque simboliza o sepultamento na morte de Cristo (Rm 6.3-4), replicamos dizendo que o batismo também simboliza o lavar dos pecados (At 22.16).

f) Meio da graça
O batismo é meio da graça e opera remissão dos pecados (At 2.38; At 22.16), ele concede o dom do Espírito Santo (At 2.38; Gl 3.25-27); ele regenera (Tt 3.5), ele salva (1Pe 3.21; Mc 16.15-16; Jo 3.3-6), ele santifica (Ef 5.26).

d) Quem deve ser batizado?
Na ordem dada por Jesus no dia da Ascensão fica claro que são feitos discípulos por meio do batismo e do ensino (Mt 28.18-20). Que adultos não foram discriminados do batismo podemos ver pelos seguintes exemplos: At 2.41; 8.38; 10.48; 16.15. Mas, quanto às crianças? Estas também não foram excluídas. A maior prova bíblica repousa em At 2.38-39. Muito embora o batismo seja sacramento que deve ser administrado tanto aos adultos quanto às crianças, existem evidências bíblicas de que os adultos eram batizados depois de já terem a fé (At 8.36-38) enquanto que com as crianças seguiu-se a ordem natural: batizando e ensinando.

g) Da fórmula batismal
A fórmula que temos é a de Mt 28.19: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.” Lucas fala no batismo em nome de Jesus Cristo (At 2.38; 8.16; 10.48), embora esta frase descreva o caráter do batismo cristão, distinto de rituais judeus e romanos que então existiam e do próprio batismo de João Batista. A frase de Lucas não é uma alternativa para a fórmula trinitária de Mt 28. Convém lembrar que o Senhor também não prescreveu onde derramar a água, nem quantas vezes devemos aplicá-la, nem a quantidade.

e) Da forma de batizar
Para nós é indiferente o modo de batizar — por imersão, derramamento de água (Lc 11.38; Mc 7.3-4;
4 Tratado sobre o Poder e Primado do Papa em Livro de Concórdia. 36 | Teologia | Junho e Julho, 2011

h) Dos padrinhos
Eles não são essenciais. Escritos da Igreja Primitiva

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falam do uso de padrinhos que atestavam a sinceridade dos adultos que queriam fazer parte da Igreja e sobre o desejo de os padrinhos em ajudar seus apadrinhados em sua vida cristã. Com o fim das perseguições, passou-se a usar o padrinho para o batismo das crianças. Como responsabilidade cabe aos padrinhos testemunhar que a criança foi batizada corretamente, orar pela criança e auxiliar seus pais em sua educação cristã. Por isso recomendam-se padrinhos cristãos e, preferencialmente, luteranos, que queiram assumir este compromisso.

para que as crianças também venham a atingir o alvo comentado no ponto 5. • Cabe aos padrinhos: a) testemunhar que a criança foi batizada corretamente; b) orar pelo(a) afilhado(a); c) dar-lhe bons conselhos; d) auxiliar os pais na educação cristã da criança. Conclusão: Que Deus abençoe pais e padrinhos no cumprimento de tão importante tarefa.

i) De quantas vezes deve-se batizar a mesma pessoa
A única coisa que justifica um novo batismo é a certeza de que o primeiro não foi feito com água e em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A pessoa, a intenção ou a fé do oficiante não entram em questão. O batismo depende da palavra de Jesus e de mais nada.

3.2. A respeito da Santa Ceia
a) Da instituição
“Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomou o pão, deu graças e o partiu e deu aos seus discípulos e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois, da ceia, tomou também o cálice, deu graças e lho deu e disse: Tomai e bebei dele todos. Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós, para remissão dos pecados. Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim” (CM5, Livro de Concórdia, pg. 486; 3). Com estas palavras Lutero, baseado nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e na narrativa do apóstolo Paulo, descreve o momento em que Jesus instituiu a Santa Ceia para que fosse comida e bebida por nós cristãos em memória dele. O “em memória de mim” nunca significou para nós luteranos fazer uma encenação do que há tantos séculos atrás aconteceu; pelo contrário, ao celebrarmos a Santa Ceia em memória dele o fazemos certos de que receberemos o benefício para o qual Jesus instituiu este sacramento, a saber, perdão de pecados, vida e salvação, baseados na sua promessa que diz “dado e derramado por vós para a remissão dos pecados.”

j) Exemplo de curso para pais e padrinhos de batismo
Introdução: O reformador Martinho Lutero escreveu em seu Catecismo Menor: “O batismo não é apenas água simples, mas é a água compreendida no mandamento divino e ligada à palavra de Deus.” Esta palavra de Deus “é a que nosso Senhor Jesus Cristo diz no último capítulo de Mateus: ‘Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.’” • Jesus é o instituidor do batismo (Mt 28.18-20). • O batismo salva (Mc 16.15-16). Lutero disse que o batismo “opera a remissão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá a salvação eterna a quantos creem...” • Ele não deve ser rejeitado pois: a) é necessário ( Jo 3.1-6); b) regenera (Tt 3.4-7). • Todos devem ser batizados, crianças e adultos. A todos é dada a promessa da remissão e do dom do Espírito Santo (At 2.37-39). • Após o batismo começa a nova vida em que o alvo do cristão é viver para a honra e glória de Deus buscando a santidade de vida (Rm 6.4; 2.o Co 5.14-17). • Cabe aos pais criar e educar os filhos na disciplina e admoestação do Senhor após o batismo (Ef 6.4)

b) Dos elementos
Não são outros além dos que Jesus tomou no momento da instituição: Pão (É usado no texto grego “artos” que é aplicado para pão em geral enquanto que o específico, “azumos” para pão sem fermento, não é encontrado nos textos que apresentam a instituição da Ceia. Contudo, pelo fato de que os três evangelistas lembram o tempo em que Jesus instituiu o sacramento,
5 Catecismo Maior em Livro de Concórdia. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 37

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no primeiro dia da festa dos pães ázimos, muitos fazem questão de que o pão não contenha fermento) e vinho (1Co 11.20-30). Quanto ao uso ou não de pão sem fermento ou de vinho tinto ou branco, a igreja sempre teve esta matéria como adiáfora.

c) Da consagração
O propósito da consagração não é transformar, como que por um passe de mágica, o pão em corpo e o vinho em sangue de Jesus, mas sim, deixar claro que os elementos estão sendo separados para uso sacramental. As palavras que são usadas não são totalmente as mesmas que Jesus usou quando deu graças; porém, usamos aquelas registradas na Bíblia e que lembram o que ele fez e disse quando instituiu o sacramento. Quanto ao uso destas palavras, a Epítome da Fórmula de Concórdia declara: “Quanto à consagração, cremos, ensinamos e confessamos que obra nenhuma de homem nem a recitação do ministro efetuam esta presença do corpo e do sangue de Cristo na santa ceia; isso, ao contrário, deve ser atribuído única e exclusivamente à virtude onipotente de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, ao mesmo tempo também cremos, ensinamos e confessamos, unanimemente, que na celebração da santa ceia as palavras da instituição de Cristo de nenhum modo devem ser omitidas, porém devem ser recitadas publicamente conforme está escrito: “O cálice da bênção que abençoamos, etc” 1Co 11. Sucede essa bênção através da recitação das palavras de Cristo” (Epítome da FC6 VII, 8 e 9, pg. 519 e 520; olhar DS7 da FC, VII, 75, pg. 624). As palavras podem ser lidas ou cantadas audivelmente, e o sinal da cruz sobre o pão ou o vinho pode ser como não ser feito. O pão não precisa ser partido na hora da consagração. Contudo, se alguém o quiser fazer, o momento próprio para isso seria durante o cantar do Agnus Dei, para se evitar que o povo pense que o partir do mesmo faz parte da Santa Ceia. Se faltarem hóstias ou vinho durante a celebração da Santa Ceia, recomenda-se que se consagre o necessário para que todos recebam os elementos.

sejoso de receber o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. O fato de que estejam presentes pessoas que não queiram receber o sacramento não pode tirar dos que o querem o privilégio de recebê-lo. Na Apologia (XXIV 1) os confessores dizem claramente: “Devemos, inicialmente, antecipar de novo que não abolimos a missa, senão que a mantemos e defendemos escrupulosamente. Pois entre nós realizam-se missas todos os domingos e em outros dias de festa, nos quais o sacramento é administrado aos que querem fazer uso dele, depois de terem sido examinados e absolvidos.” No Catecismo Maior Lutero diz: “Por isso o sacramento nos é dado para diária pastagem e alimentação, para que a fé se restaure e fortaleça, a fim de que nessa peleja não sofra revés, porém se faça incessantemente mais vigorosa” (Do Sacramento do Altar, 24 e 25; pg. 488 do Livro de Concórdia). Não podemos nem devemos coagir pessoas a participar da Santa Ceia. Contudo, quando alguém despreza a ceia por tempo indeterminado, Lutero diz “que não devemos considerar cristãos a pessoas que por tempo tão dilatado (um, dois ou três anos — 40) se ausentam e se abstêm do sacramento. Porque Cristo não o instituiu para que o tratássemos como espetáculo, senão que ordenou aos seus cristãos que o comessem e bebessem e o fizessem em memória dele” (CM, LC, pg. 490, 42).

e) Sobre quem admitimos à Santa Ceia
A Igreja Luterana convida para tomar parte da Santa Ceia apenas cristãos luteranos batizados e que receberam instrução nas partes principais da doutrina cristã (os 10 Mandamentos, o Credo, o Pai Nosso, o Batismo, o Ofício das Chaves e a Confissão, e a Santa Ceia). A nossa comunhão é fechada porque cremos que os que se reúnem junto à mesa do Senhor comungam da mesma fé, creem no mesmo evangelho, pois que no sacramento da Santa Ceia está o evangelho. Existem pressões de toda forma para que admitamos à Santa Ceia pessoas de outras religiões. Uma pergunta se impõe: Se podemos admiti-los à Ceia, por que não nos unirmos com os mesmos sem termos unidade doutrinária? Se o fizéssemos, seríamos fiéis a Cristo? (Rm 16.17) Se eles concordam com a nossa doutrina, por que não se filiam ao nosso corpo eclesiástico mostrando sua concordância de maneira clara? Além de não admitirmos à Ceia os não membros da Igreja Luterana, também não a alcançamos a quem não

d) Do número de celebrações mensais
A Ceia do Senhor deveria ser oferecida em todo o culto em que houver alguém que esteja preparado e de6 Fórmula de Concórdia em Livro de Concórdia. 7 Declaração Sólida em Livro de Concórdia. 38 | Teologia | Junho e Julho, 2011

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se pode examinar (1Co 11.28) e à pessoas que cometeram pecado e não removeram o escândalo.

da Ceia depois de terem recebido permissão da congregação e instrução para tal fim.

f) A respeito da confissão e absolvição
A CA declara no artigo XXV: “Os nossos pregadores não aboliram a confissão. Pois conserva-se entre nós o costume de não dar o sacramento àqueles que não foram previamente examinados e absolvidos. . . E da confissão se ensina assim: que ninguém deve ser constrangido a contar os pecados designadamente” (CA, XXV, 1, 7, pg. 47 Livro de Concórdia). Embora não seja prática de nossa igreja de constranger alguém a confessar seus pecados, providenciamos sempre quando da administração da Santa Ceia que ao comungante se ofereça a oportunidade de confessar os pecados (em particular ou em conjunto com os demais congregados no culto) e de receber o consolo da absolvição.

h) A respeito do preparo correto
Lutero escreveu que “jejuar e preparar-se corporalmente é, sem dúvida, boa disciplina externa. Mas verdadeiramente digno e bem preparado é aquele que tem fé nestas palavras: “Dado em favor de vós” e “derramado para remissão dos pecados.” Aquele, porém, que não crê nessas palavras ou delas duvida, é indigno e não está preparado, pois as palavras “por vós” exigem corações verdadeiramente crentes” (Catecismo Menor, VI, 10, pg. 379, Livro de Concórdia).

i) Pode um pastor dar a Ceia a si mesmo?
Claro que sim. Lutero e outros teólogos assim o ensinaram. O pastor, como todos os demais cristãos também tem a necessidade de receber as bênçãos deste sacramento. Se, porém, sua congregação não estiver habituada com esta prática é recomendável que o pastor ensine a respeito.

g) A respeito de quem distribui a Santa Ceia
Cabe ao pastor chamado, o despenseiro dos mistérios de Deus, que ele distribua a Santa Ceia. No caso de haver um pastor visitante para auxiliar o pastor local, cabe ao pastor local dar o pão pois que é ele quem recebe o seu “rebanho”, o conhece e o admite à Ceia. Para que se evite confusão recomenda-se que somente cristãos homens auxiliem o seu pastor na distribuição

j) Sobre a inscrição
A inscrição para a Ceia ainda é praticada em nossas congregações. Dá ao pastor a oportunidade de falar com o congregado sobre eventuais problemas que

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o podem impedir de participar da Ceia. Além disso, concede ao pastor a “temperatura” da fé do congregado (sua pouca participação pode ser sinal de problemas espirituais).

4. As virtudes de um pastor
• A brandura (2Tm 2.24) — o pastor não vive a contender; • A sabedoria (2Tm 2.15); • A paciência (2Tm 4.2); • A humildade (Tt 1.7); • A modéstia (1Tm 3.2); • A coragem (At 23.11); • A prudência (Mt 10.16); • A disciplina (Tt 1.7); • A hospitalidade (1Tm 3.2); • A liberalidade (1Tm 3.3; Tt 1.7) ao ponto do sacrifício (Fp 3.7 e 2 Tm 2.3); • A boa administração (1Tm 3.4); • A fidelidade no casamento (Tt 1.6); • A aptidão para ensinar (1Tm 3.2);

uma alternância entre a leitura da Bíblia, o Livro de Concórdia, Lei e Evangelho de Walther e uma das dogmáticas adotas pela IELB. Quanto ao orar, seria bom organizar um caderno que contenha as seguintes necessidades: minhas, de minha família e de meus familiares, IELB (diretoria, Seminários, distrito, ligas), Congregação (colegas pastores, diretorias, departamentos, passar o rol de membros), enfermos (orar pelo telefone), enlutados, aniversariantes da semana, noivos, problemas, ações de graças, Estado (município, estado, câmaras, congresso, presidência). Para se fazer isso, necessita-se de organização e de determinação. O tempo gasto em oração não é tempo jogado fora. Cuidado para não descuidar da participação da Santa Ceia.

6. O pastor e a sua família 6.1. O pastor casado
O apóstolo Paulo ao escrever sua carta aos Coríntios mostra que o pastor solteiro tem uma vantagem, se é que podemos assim dizer, sobre o pastor casado, a saber, que ele tem tempo suficiente para dedicar-se com exclusividade ao Senhor Jesus (1Co 7.32-35). No entanto, se o solteiro não tiver o dom da castidade, terá

4.1. O que um pastor não deve ser ou fazer
• • • • • • • • • • • Senhor do rebanho (Mt 20.25 e 1Pe 5.3-4); Ganancioso (Mt 6.25); Não discutir (Fp 2.14; 2Tm 2.24-26); Alguém que é relaxado, descumpridor de horários ( Jr 48.10a); Buscar o sucesso (o nome de Deus deve crescer e não o nosso — Jo 3.30); Um fofoqueiro (Pv 16.28; 17.9); Um crítico destrutivo (Tg 4.11); Um cínico (Pv 26.24-25); Alguém que faz distinção entre pessoas (Tg 2.113); Um imoral (Pv 6.23-29; 1Tm 3.2); Um que desfaz o seu antecessor (1Co 1.10-13; 1Ts 5.12-13).

5. O pastor e sua vida devocional
Não pode haver dúvidas de que é vontade de Deus que o pastor examine as Escrituras e que ele tenha uma vida de oração (1Tm 4.13; At 6.4). Vida devocional é, portanto, algo que devemos nos esforçar para manter. Para a meditação diária recomendamos que haja
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que vigiar e orar para não cair em tentação. Quando Deus criou o homem viu que não era bom que ele ficasse sozinho (Gn 2.18) e por isso criou a mulher e assim instituiu o matrimônio. Deus, porém, jamais proibiu os ministros religiosos de serem homens casados. Interessante que ele afirma que é doutrina de demônios a proibição do casamento (1 Tm 3.1-4. Em 1075 o Papa Gregório VII decretou o divórcio do clero católico). Pedro era casado (Mt 8.14). Paulo afirmou que tinha, como os demais, o direito de casar (1Co 9.4-5). Além disso, ao falar do presbítero, mostrou que o mesmo (no caso de ser casado) deveria ser esposo de uma só mulher (1Tm 3.2). Se um pastor ou alguém que aspira ao episcopado quiser casar, deve orar e olhar em sua volta, e agir com prudência na escolha de seu par. Entre as qualidades que se deve procurar numa futura esposa citamos: • ser cristã, entusiasmada pela causa de Cristo; • espírito de sacrifício (terá que conviver com pouco dinheiro, lugar pequeno); • tato e bom senso no tratamento com outras pessoas (não dada a revidar com ofensas; não fofoqueira); • humildade para não sufocar as demais lideranças; • ser a conselheira do esposo (corrigi-lo, admoestá-lo; observar a reação do povo aos seus sermões, estudos, etc.); • amá-lo (ser a “amante” do pastor, mulher de fato). Lembro que a esposa do pastor não recebe chamado para ocupar um lugar na congregação. O pastor é a pessoa chamada e é o único detentor do chamado. Se por vários motivos é bom que o pastor seja casado, é conveniente lembrar que o ministério pode atrapalhar um bom casamento. Pastores, por isso, precisam repetidamente ler o que Deus espera de um marido cristão (Ef 5.25-31; Cl 3.19). Pastores casados também precisam ser carinhosos, “amantes” de suas esposas (recomenda-se a leitura do livro de Cantares), lembrar que elas têm necessidades e, que muitas vezes, são abandonadas pelos seus maridos vivendo, por isso, na solidão. Jaime Kemp, em seu livro “Pastores em perigo” (pg. 60) destaca 12 necessidades de uma mulher de pastor que gostaria de citar aqui: 1 Necessidade de ter amizades verdadeiras, autênticas, confiáveis.

2. Necessidade de gastar tempo de qualidade com seu marido. Ela, muitas vezes sente-se em segundo plano, tendo a igreja como rival. 3. Necessidade de privacidade em sua casa. 4. Desejo de não ter que aceitar as expectativas da igreja sobre ela, entre as quais destacamos: a) vestir-se adequadamente; b) viver com pouco, mas mesmo assim oferecer sua casa com as comodidades de hotel e restaurante; c) estar presente a todas as reuniões da igreja e ainda levar os filhos; d) ser capaz de lecionar à qualquer classe da escola dominical; e) ser presidente da sociedade de senhoras, reger o coral e ser organista; f ) ter filhos sempre bem comportados; g) abdicar do seu marido em favor da igreja, a qualquer hora do dia ou da noite; h) fazer visitas com o seu marido; i) trabalhar fora para ajudar no sustento da casa e ainda fazer tudo que a esposa do pastor anterior fazia. 5. Necessidade de ser conhecida como si mesma e não como “a esposa do pastor”. 6. Liberdade para expressar seus talentos através dos serviços que ela mesma escolher. 7. Necessidade de sentir-se, de fato, participante do ministério e não somente através de afirmações inverídicas do marido que diz: “nosso ministério”, mas nem lhe dá ao menos o direito de verbalizar suas opiniões. 8. Necessidade de ser ouvida e valorizada pelo marido e pela igreja, não pelo que faz, mas pelo que é. 9. Necessidade de receber treinamento em alguma área que diga respeito ao seu dom, talento ou interesse. 10. Necessidade de “espaço” em relação a não ter sempre que ser o exemplo perfeito para todas as mulheres da igreja. 11. Necessidade de ser amada pelo marido. 12. Necessidade de ter o marido participando ativamente na criação e disciplina dos filhos. Um dos grandes cuidados que devemos ter é com a nossa agenda. Não esqueçamos da esposa e dos filhos e os incluamos na mesma. Escolhamos um dia, uma noite, e dediquemo-lo(s) com exclusividade à esposa e aos filhos. Tiremos férias e, se possível, peçamos para que a casa pastoral não seja construída ao lado da igreja.
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Aconselhável seria que junto à igreja existisse um gabinete pastoral.

6.2. O pastor como pai.
Valem ao pastor-pai as palavras de Efésios 6.4 e Colossenses 3.21. O pastor-pai ora pelos e com os filhos, leva-os à igreja, lê a Bíblia com eles, brinca com eles, passeia com eles, preocupa-se com eles, tem paciência com eles, os perdoa, pede perdão a eles, etc., etc. Se tiverem filhos, não esqueçam de: 1. dar-lhes tempo (ouvir e falar com eles); 2. não deixar que sejam pressionados (muitos querem os filhos de pastor como exemplo em tudo; saia curta, cabelos bem aparados, etc.); 3. pedir-lhes perdão; 4. que eles têm e precisam de amigos (muitas mudanças são prejudiciais); 5. não ficar se queixando do trabalho pastoral e dos congregados diante deles; 6. demonstrar-lhes seu amor por eles e pela mãe deles.

é composta de pessoas, entre as quais além de cristãos verdadeiros também podem encontrar-se hipócritas. Para a unidade da igreja, de acordo com a Confissão de Augsburgo, “basta que haja acordo quanto à doutrina do evangelho e à administração dos sacramentos” (CA, VII, 1-3). A igreja cristã se manifesta de maneira local como uma congregação. Entre as marcas da mesma podemos lembrar: 1. a palavra de Deus; 2. o sacramento do batismo; 3. o sacramento da santa ceia; 4. a absolvição; 5. a ordenação e o chamamento de pastores; 6. o culto a Deus; 7. a vida sob a cruz (toda a santificação). Para que a igreja consiga cumprir o objetivo para o qual foi constituída (levar o evangelho de Cristo a toda a criatura), ela, no decorrer dos séculos, tem se organizado. Contudo não existe na Bíblia um modelo de organização que foi proposto por Deus para que seja por

7. O pastor e a congregação, distrito e sínodo 7.1. O pastor e a congregação
a) A igreja, quem a constituiu, o que é, suas marcas e objetivo.
Quando falamos em pastor e congregação queremos deixar primeiramente bem claro que embora se use o linguajar “minha igreja”, ela na verdade não pertence ao pastor. A igreja sempre foi e será daquele que a formou, o próprio Deus. Lutero, com propriedade escreveu na explicação do 3.o artigo do Credo: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com os seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim como chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na fé verdadeira e única” (CM, II, 6). A igreja que é obra de Deus (Ef 2.19-22; 5.25-27; 1Pe 1.3-5; Ap 19.7) é também a sua propriedade. Ela
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nós seguido. Diante disso cremos que a igreja, para que tudo seja feito com decência e ordem, tem a liberdade de organizar-se do melhor modo possível para que o objetivo para o qual existe seja alcançado.

b) A divisão do objetivo maior em cinco áreas:
O professor Erni W. Seibert em seu livro “Congregação Cristã” afirma que o grande objetivo da igreja pode ser comparado “com um diamante lapidado com cinco faces. Cada uma destas faces enfatiza um aspecto diferente da mesma missão que se confere à igreja. Estas cinco expressões bíblicas são: adoração, educação, testemunho, serviço e comunhão.” (Congregação cristã, pg. 28). Sobre a adoração ele afirma que a mesma “é a ação da igreja na qual o povo de Deus ama, honra, respeita e aclama o seu Deus. Inclui tanto a adoração em público como em particular.” (pg. 28) Quanto à educação ele diz que com a mesma “se visa o nutrir do cristão. Inclui todo o ciclo do ensinar e aprender ... que prepara os cristãos para viverem integralmente a fé cristã” (pg. 29). Com respeito ao testemunho ele declara que “é a ação da igreja no sentido de levar aos que não crêem o amor que o Salvador Jesus Cristo teve e tem por todos” e que isto “inclui tanto o educar para a missão como o efetivamente agir na missão” (pg. 29). Do serviço ele coloca que o mesmo “inclui as maneiras pelas quais o cristão e a igreja respondem às necessidades das pessoas, a partir do amor de Cristo” (pg. 29). Finalmente, da comunhão diz que “é a atividade da

igreja cristã em que os cristãos participam da vida em Deus e das vidas uns dos outros”(pg. 30). Quanto à comunhão com Deus ele diz que a mesma se expressa de forma sublime na santa ceia e que desta comunhão com Deus os cristãos aprendem e derivam a comunhão com os seus irmãos na fé. Acreditamos que todas as congregações deveriam organizar-se tendo em vista sua atuação nestas cinco áreas. Julgamos oportuno apresentar neste momento o projeto que por nós está sendo apresentado à diretoria da congregação Cristo em POA para que sintam a nossa preocupação com respeito ao trabalho realizado na mesma e pela mesma.8

7.2. Projeto de estudo para planejamento da Comunidade Evangélica Luterana “Cristo”
Introdução:
A Comunidade Evangélica Luterana “Cristo” de Porto Alegre, de acordo com o artigo 3.o de seus estatutos, foi constituída para “conservação e propagação das doutrinas da Igreja Evangélica Luterana, conforme as Escrituras Sagradas e o Livro de Concórdia do ano de 1580.” Em conformidade com a clara vontade de Deus (Tt 1.5), a CELC estabeleceu em seu meio o ofício do ministério que tem como objetivo ensinar o evangelho e administrar os sacramentos para que a fé seja criada e fortalecida (CA 5). Além disso, ela desde o começo estruturou-se para colocar-se à serviço deste ofício. É do ministro chamado e ordenado a responsabilidade de todo o trabalho que envolve a pregação da palavra e a administração dos sacramentos. Ele é o cooperador de Deus (1Co 3.9), o despenseiro dos mistérios de Deus (1Co 4.1), a quem Deus, por intermédio da Congregação, confiou estes deveres. E quem auxilia dentro da Comunidade na execução deste trabalho o faz sob a responsabilidade e a autoridade concedidas por este ofício. Todo trabalho de uma congregação deveria conver8

Nota: Embora este “planejamento” se refira a uma Congregação em particular da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, a Revista resolveu mantê-lo para fins de exemplificação, especialmente no que se refere à fundamentação sobre as cinco áreas de atuação da Igreja.
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gir para a grande razão de sua existência. Com a intenção de contribuir para este fim colocamos à apreciação da diretoria este estudo que analisa as cinco áreas de atividade da igreja que são a adoração, a educação, o testemunho, o serviço, e a comunhão, e que propõe alguns passos para que o objetivo, acima exposto, com a bênção de Deus, possa vir a ser alcançado.

Áreas de atividade da “CELC” I - A Adoração
O professor Erni Seibert a respeito deste assunto diz: “A adoraçao é a ação da igreja na qual o povo de Deus ama, honra, respeita e aclama o seu Deus. Inclui tanto a adoração em público como em particular. Na adoração a Deus manifesta-se o cristão, pois, com a queda em pecado, o ser humano passou a render culto para a criatura e não para o Criador. Apenas quando está perdoado por Deus, em Cristo, que o ser humano pode novamente adorar verdadeiramente a Deus. Livre do pecado, se está livre para cultuar. Preso ao pecado, ninguém consegue cultuar a Deus (Erni Walter Seibert, Congregação Cristã. São Paulo, Escola Superior de Teologia — Instituto Concórdia de São Paulo, 1988. P. 28.) Quanto à adoração, queremos neste estudo enfatizar especialmente aquela atividade cristã que acontece em público, em nosso templo. Em vista disso, procuraremos analisar o que pode contribuir para que a mesma venha a ser realizada de maneira agradável a Deus bem como auxiliar na edificação do corpo de Cristo, a própria igreja. O culto público é, para nós cristãos, o momento ideal para adorarmos a Deus no seu templo. Esta adoração, como já lembrado anteriormente, só pode ser realizada por alguém que foi perdoado por Deus. Por isso, na ordem do culto a liturgia procura primeiramente levar o cristão à presença de Deus para confessar-lhe os seus pecados e receber dele, por meio da absolvição, o pleno perdão. A partir de então começa o culto propriamente dito. A explicação das ordens litúrgicas tradicionais e a introdução de novas, devem auxiliar o cristão para que o momento de culto alcance os seus objetivos: Apre44 | Teologia | Junho e Julho, 2011

sentar ao pecador a oportunidade de receber o serviço divino (proclamação do amor de Deus em Cristo Jesus através da palavra e dos sacramentos) bem como de receber o estímulo e a oportunidade para responder a este amor servindo a Deus (hinos e orações de louvor e gratidão, ofertas). Da mesma forma o entoar de hinos tradicionais ou novos, cujo conteúdo esteja de acordo com os princípios doutrinários da Bíblia, acompanhados ou não de qualquer espécie de instrumento musical, podem tornar nossos cultos alegres e agradáveis a Deus (Cl 3.16; Sl 81.1-3; Sl 96.1-2; Sl 100.1-4). Preferência dever-se-ia dar aos hinos cujas melodias são fáceis de cantar. Quanto aos hinos difíceis, cuja melodia não seja do agrado popular, uma solução seria usá-los em forma de leitura. A entrega da tarefa de realizar as leituras bíblicas do culto aos congregados e o envolvimento de departamentos para entoar hinos e apresentar jograis ou orações, podem contribuir para que se mude a mentalidade do “irei assistir” ao culto para “irei participar” do culto.

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Cultos especiais como, por exemplo, culto jovem, culto do idoso, culto para a criança, culto de renovação de voto de confirmação, casamento e etc., devem ser incentivados e poderão contribuir para aumento da frequência dos congregados na igreja. A introdução da celebração da Santa Ceia em todos os cultos, dando-se aos pastores que dirigem o culto e são responsáveis pela boa ordem dos mesmos a liberdade de os dirigirem de maneira prática sem ferir a doutrina, certamente contribuirá para o aumento da fé e para o progresso de uma vida piedosa e cristã. Definir o 5º domingo como culto de estudo bíblico, com a participação de um ou mais pastores, pode ser uma alternativa que auxilie para uma melhor compreensão por parte dos congregados das doutrinas da Bíblia. Realizar uma pesquisa junto aos congregados quanto aos horários de culto, pode talvez indicar soluções para o problema da fraca presença aos cultos. Para que o momento de adoração da CELC, o culto público, possa alcançar os objetivos para os quais existe,

propomos as seguintes comissões e passos: 1. Fortalecimento da comissão de recepção já existente com a indicação de um congregado responsável para a mesma pela diretoria da Comunidade, cujo nome será homologado pela primeira assembleia regular que terá lugar após a posse da nova diretoria (Observação: Todas as demais comissões seguirão o mesmo padrão). Proponho que os recepcionistas sejam identificados com um crachá e que além das atribuições já existentes, seja incluída a seguinte: Solicitar aos visitantes do culto, preenchimento de ficha com endereço, e encaminhar a mesma à comissão de evangelismo para um futuro contato. 2. Criação de uma comissão de culto. Entre as atribuições desta comissão deveriam constar: a) Apoiar o estudo da liturgia tradicional e a implementação de liturgias alternativas; b) auxiliar os pastores na distribuição da Santa Ceia quando necessário; c) coordenar a distribuição de leituras da Bíblia nos cultos; d) comunicar a secretaria da CELC para que providencie na compra de guardanapos, hóstias e vinho para a Santa Ceia, velas para o altar; e) propor a reforma ou aquisição de utensílios necessários para a administração dos sacramentos (cálices, etc) e de hinários e bíblias; f ) pesquisar, sempre que necessário junto aos congregados, sobre a necessidade ou conveniência de se modificar os horários de culto; g) outros. 3. Criação de uma comissão de artes sacras. Entre as atribuições desta comissão deveriam constar: a) zelar pelos paramentos de altar e púlpito já existentes; b) propor a confecção de novos paramentos; c) propor a aquisição de novos ornamentos ou utensílios para uso no altar ou igreja; d) proporcionar aos congregados uma compreensão dos símbolos litúrgicos usados na CELC; e) outros. 4. Criação de uma comissão de música. Entre as atribuições desta comissão deveriam constar: a) estimular o canto coral na CELC e a formação de novos grupos de canto; b) organizar a escala dos organistas; c) promover cursos de reciclagem para os organistas
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5º ficando a critério do pastor responsável pelo culto. Também dar-se-á aos pastores o direito de decidir no dia em que o culto é realizado quanto a fórmula que julgarem mais prática de se distribuir a Santa Ceia. 6. Realização de pesquisa e posterior plebiscito para horários alternativos de nossos cultos. 7. Definir o 5º domingo, como o culto do estudo bíblico. Nestes cultos, dever-se-ia estudar preferencialmente as doutrinas do Livro de Concórdia, dando-se prioridade aos Catecismos de Lutero. 8. Entregar aos membros da CELC a tarefa de realizar as leituras dos textos do AT e da Epístola nos cultos. 9. Implantar, com o objetivo de aumentar gradualmente a presença nos cultos da CELC, um programa tipo “Em 1996, queremos ser, no mínimo, 400 em cada culto dominical.”

II - A Educação
Valendo-nos do estudo do professor Erní Seibert, apresentamos aqui a sua definição sobre o que seja educação. Ele escreveu: “A educação é o aspecto em que se visa o nutrir do cristão. Inclui todo o ciclo do ensinar e aprender. A igreja deve criar oportunidades de educação cristã. Na educação cristã Deus pretende que a igreja firme os fiéis na palavra de Deus e os treine diligentemente a andar em seus caminhos. Na educação pretende-se que as pessoas se tornem adultas na fé (1Pe 2.2). A educação cristã se dá em particular, no lar, na escola e congregação. A educação prepara cristãos para viverem integralmente a fé cristã (Mt 28.20; Dt 6.6-9; Ef 4.11-16; 2Tm 3.16-17).” Ibid., p. 29. A educação cristã deve procurar acompanhar o congregado, desde o momento em que ele é recebido na comunhão da fé até o fim de sua vida, sendo criança ou adulto. Para tal fim a CELC procurará organizar-se na medida do necessário em departamentos e comissões.

já existentes e cursos novos para congregados que queiram vir a ser; d) estimular o surgimento e a participação nos cultos de congregados com novos dons musicais (violão, flauta, violino, trompete, etc.); e) propor à diretoria da CELC a aquisição de todo o material que julgar necessário para o embelezamento de nossos cultos através do canto e da música; f ) outros. 5. Introdução da celebração da Santa Ceia em todos os cultos da CELC, sendo que no 1º e 3º domingos será usado o cálice individual, no 2º e no 4º domingos o cálice coletivo, e quando houver
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A educação cristã oferece “leite” para as crianças em Cristo e “alimento sólido” para os adultos em Cristo (1.o Co 3.1-2). Para este fim, todos, pastores e congregados, precisam cooperar, cada qual no seu ofício próprio. Os pastores têm como uma de suas atribuições o ensinar (1.o Tm 3.2). Contudo podem valer-se do auxílio de irmãos e irmãs leigos que permanecem sob a sua supervisão, confiando-lhes tarefas auxiliares de ensino. Para tanto devem empenhar-se em apresentar currículos de estudo para todas as áreas de atividade da Congregação e ensinar, onde for preciso, todos os desígnios de Deus, bem como de preparar cursos para que estes irmãos leigos possam auxiliá-los. Como não é só dever dos pastores ensinar as verdades fundamentais da fé cristã, cabe aos pais, em seus lares, educar seus filhos ensinando-lhes desde a mais tenra infância os caminhos de Deus contidos na Bíblia Sagrada (2Tm 3.14-17; Ef 6.4). Além dos departamentos já existentes, Escola Dominical, Senhoras, Jovens e Idosos, bem como as agências de ensino (sermão, instrução de confirmandos, curso boas novas, curso de noivos e de padrinhos de batismo), propomos que, na medida do necessário e do possível, sejam formados os seguintes mais: Juventude Mirim, Leigos, Casais e Solteiros. Além dos grupos de estudo bíblico já existentes, propomos a criação de uma comissão de estudos bíblicos para a implementação de outros grupos sob a supervisão do pastor responsável. O preparo e o treinamento de leigos para o desempenho da tarefa de dirigir os mesmos é recomendável. Propomos também a formação de uma comissão de mordomia dos bens, que zele pelo ensino e pela prática da oferta cristã na CELC, que tenha como compromisso a promoção de cursos periódicos de mordomia a todos congregados, dando especialmente uma ênfase para que deles participem os novos congregados por conversão, os novos membros votantes e aqueles, sabidamente relapsos em seu ofertar. Também será dever desta comissão promover aos novos membros votantes um curso sobre os estatutos da CELC, para que estes conheçam melhor os seus direitos e deveres. Finalmente, propomos a criação de uma comissão de literatura cristã e afins que tenha sob sua responsabilidade a coordenação da “livraria” da CELC, promovendo periodicamente uma exposição da literatura luterana existente, informando através do boletim dominical a respeito de filmes de bom conteúdo e incen-

tivando a aquisição do devocionário Castelo Forte e a assinatura do Mensageiro Luterano.

III - O testemunho
O professor Erni Seibert define o testemunho em seu livro “Congregação Cristã” da seguinte maneira: “O testemunho é a ação da igreja no sentido de levar aos que não creem o amor que o Salvador Jesus Cristo teve e tem por todos. É através desta atividade que se manifesta com mais clareza o propósito de Deus salvar o mundo. Quando a igreja não se envolve no evangelismo, nega o que lhe é mais próprio. Pode-se dizer que no evangelismo encontramos a pedra de toque de todo o trabalho da igreja. Quando esta atividade não está presente, tudo falha. Toda a congregação, e mesmo toda a igreja, deveria ter um programa missionário que inclui tanto o educar para a missão como o efetivamente agir na missão (Gn 12.3; 1Rs 8.43; Mt 28.20; 1Jo 1.2; At 4.12, 20; 2Co 5.14). Ibid. Embora Deus não esteja preso aos meios da graça para operar a fé no coração de alguém, ele confiou aos seus filhos a sublime tarefa de anunciar o evangelho para que por meio dele o Espírito Santo opere a fé. Ele espera que cada um de nós, pastores e leigos, cumpra a sua parte. Para que haja um maior envolvimento de congregados da CELC na tarefa de evangelizar propomos a formação de uma comissão de evangelismo externo que ajude, lidere e prepare os congregados: a) a ter uma melhor compreensão do sacerdócio universal de todos os crentes; b) a aprender quem, onde, como e por que fazer missão. Propomos também a formação de uma comissão de evangelismo interno que tenha como área de atuação a busca dos relapsos de nossa Comunidade. Propomos que anualmente, preferencialmente no 2.o semestre, se envolva o maior número possível de congregados para, num esforço evangelístico, visitar e ou entregar convite para os cultos de nossa congregação aos moradores do nosso bairro.

IV - O Serviço Social
O professor Erni Seibert assim se expressou sobre este assunto: “O serviço inclui as maneiras pelas quais o cristão
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e a igreja respondem às necessidades das pessoas, a partir do amor de Cristo. O evangelho traz a pessoa a um novo relacionamento com Deus e com o seu semelhante. É, de forma bem especial, no serviço, no auxílio ao semelhante, que vai se manifestar o amor a Deus e ao próximo. Quando alguém crê em Deus, a consequência inevitável é o cuidado que esta pessoa vai ter com as necessidades de seu semelhante. A compreensão da importância deste serviço ao próximo levou este aspecto do trabalho da igreja cristã de uma atividade paralela a um dos aspectos mais discutidos e envolventes de toda a ação cristã... O crescente número de problemas sociais fêz com que se tornasse cada vez mais necessária a ação dos cristãos em obras de amor ao próximo (Ef 4.28; Sl 41.1; Dt 15.11; Tg 1.27). Ibid., pp. 29 e 30. O amor de Deus, sem dúvida, nos conduz a amar o próximo. No entanto, apesar de nosso amor a Deus querer levar-nos a realizar atos de amor ao próximo, especialmente o necessitado, temos dificuldades para decidir a quem dirigir nosso auxílio. Em vista disso propomos que a CELC forme uma comissão de Assistência Social para coordenar esta área de atividade, a fim de que se faça o bem a todos, mas principalmente aos irmãos carentes da família da fé (Gl 6.10). Entre as diversas áreas de ação desta comissão podem estar a assistência a desempregados, a crianças ou jovens que não vão à escola, aos idosos que têm dificuldades de adquirir seus remédios e até mesmo a vir aos cultos, aos que sofrem por causa de problemas com sua saúde, alimentação, vestuário, habitação, transporte, etc. Esta comissão deve cuidar para não gerar entre os assistidos dependência ainda maior e procurar desenvolver programas que permitam que os assistidos, tendo sido educados, consigam “andar” por suas próprias pernas.

cristãos aprendem e derivam a comunhão com seus irmãos na fé. A comunhão afasta o egoísmo. Ela trata da própria essência da vida cristã e é vital na obra do evangelismo. Deus quer que todos vivam nesta comunhão. A comunhão cristã é diferente daquilo que a humanidade em geral entende por comunhão. A comunhão cristã é comunhão entre aqueles que têm a mesma fé, o mesmo Senhor Jesus Cristo, e esta comunhão se manifesta como um fruto desta fé (At 2.42; 1Co 10.16; 2Co 6.14; Rm 16.17; At 4.32; 1Jo 1.3; Jo 17.21). Ibid., p. 30. Para que nossa comunhão com Deus, através da Santa Ceia, seja mais frequente, já propusemos numa seção anterior a administração do sacramento em todos os cultos. Por outro lado, para que nossa comunhão com os irmãos na fé, no plano horizontal, possa crescer, propomos a formação de uma comissão de comunhão que terá como objetivo um maior congraçamento dos congregados da CELC, promovendo para tal fim encontros de famílias, noites culturais, encontros esportivos, passeios, retiros, festas, etc. Será também uma das atribuições desta comissão organizar o preparo do cafezinho, chá e chimarrão para serem servidos após o culto dominical.

VI - Dos Pastores
Acredito que a CELC tem a necessidade de chamar mais um pastor e que este dedique, durante o expediente normal de trabalho, seu tempo para o serviço de capelania do Colégio Concórdia, sem, contudo, ficar desvinculado do trabalho pastoral. Este pastor capelão, cujo salário e encargos serão iguais aos pastores remunerados pelo caixa da CELC mas de responsabilidade do Colégio Concórdia, além das responsabilidades inerentes ao cargo que ocupará, deverá ser considerado pastor da CELC, ocupando seu devido lugar nas reuniões de diretoria da mesma e recebendo a responsabilidade de dirigir e pregar nos cultos de um fim de semana por mês e atuar com o pastor responsável pela área junto às crianças e jovens da Comunidade, visando assim uma integração maior com o Colégio, local especial para se realizar o trabalho de missão da Comunidade. Proponho que os demais cultos continuem sendo realizados havendo um revezamento entre os outros dois pastores. Proponho que o 1º domingo de cada mês bem como

V - A Comunhão
A respeito desta área o professor Erni Seibert assim se expressa: “A comunhão é a atividade da igreja cristã em que os cristãos participam da vida em Deus e das vidas uns dos outros. A comunhão fundamental é a comunhão com Deus, expressa de forma tão sublime na Santa Ceia. Desta comunhão com Deus, os
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o sábado que o precede e a segunda que o sucede sejam cultos nos moldes do culto jovem atualmente realizado, sendo que permanece no 1.o domingo o sermonete com a participação especial das crianças da CELC. Proponho, finalmente, que as áreas e comissões bem como as atividades que as mesmas exigem dos pastores, sejam distribuídas entre eles de comum acordo e sendo respeitados os dons que cada um recebeu de Deus.

Estrutura administrativa
A CELC obedecerá à seguinte estrutura administrativa: Assembleia (órgão legislativo máximo) Diretoria e pastores (executivos das resoluções e do estatuto) Conselho de planejamento (Pastores, diretoria e representantes dos departamentos, comissões e do conselho do Colégio Concórdia) que se reunirá no mínimo uma vez ao ano para planejar e avaliar as atividades da CELC.

tudo que vise tão somente a honra e glória de Deus através do trabalho que pode ser realizado pela nossa querida CELC que apresentamos este trabalho. Acreditamos que estas propostas, se colocadas em prática total ou parcialmente, aliadas ao contínuo estudo da Palavra de Deus (seja em particular ou com os irmãos na fé no culto ou nos departamentos) e a participação da Santa Ceia, haverão de contribuir para que a nossa Comunidade torne-se mais ativa. Finalmente convocamos todos a orar a Deus, para que ele nos abençoe a fim de que lhe sejamos fiéis na fé e nas obras até o fim. (Porto Alegre — Agosto de 1995, Egon Martim Seibert — pastor)

7.3. Pastor e adminstração.
a) O pastor na administração da congregação:
Como pastor chamado, o pastor tem lugar nas reuniões de diretoria da congregação porque tudo que uma congregação decide e faz deve obedecer ao que a palavra de Deus estabelece. Ao pastor, como despenseiro dos mistérios de Deus, cabe orientar a diretoria para que as suas decisões concordem com a sã doutrina. Diretorias existem para auxiliar o pastor na execução de tarefas necessárias e que não fazem parte do seu ofício pastoral. Por isso recomendo que o pastor se detenha especialmente a fazer o que é do seu dever. A administração das propriedades e dos bens deveria ser confiada a congregados cheios do Espírito Santo, eleitos em assembleia para tal fim. Convém que o pastor leia os estatutos de sua congregação, se certifique de que os mesmos foram aprovados pela IELB e zele para que sejam colocados em prática.

Conclusão
Foi com o propósito sincero de apresentar um es-

b) O pastor e o Distrito
Todo o pastor da IELB ao pedir filiação compromete-se a participar das atividades da Igreja em todos os níveis, entre as quais estão as de nível distrital (RI 2.3.5), como por exemplo: Conselho Distrital (onde ele é membro votante), congressos, encontros, etc. Espera-se dos pastores que eles estejam dispostos a cooperar em nível distrital com as “ligas” existentes para servirem as mesmas como conselheiros quando forem solicitados.
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c) O pastor e a IELB:
Como membro votante da IELB (Estatutos, Artigo 6º) espera-se sua participação nas atividades da Igreja em todos os níveis também (RI 2.3.1 e 2.3.5 — convenções, concílios, etc). Resoluções tomadas de comum acordo nas convenções nacionais, deveriam ser honradas pelos pastores e congregações filiadas ao Sínodo (RI 2.8.3.1.b).

8. O pastor e os seus colegas
Por que pastores também são justos e pecadores ao mesmo tempo, cousas negativas podem acontecer no relacionamento com seus colegas. Podem, por isso, vir a existir: a) falta de sinceridade; b) formação de grupos que isolam colegas; c) maledicência; etc. Diante disso recomendamos que pastores, em seu relacionamento com colegas, não: • procurem especular a respeito de vantagens ou defeitos dos mesmos nem tampouco descobrir os seus erros; • espalhem seus possíveis erros ou defeitos; • interfiram no seu trabalho a não ser quando exigidos; • oficiem cerimônias na paróquia do outro sem sua

permissão; • coloquem-se como juízes sobre suas atividades; • copiem suas ideias para depois expô-las como suas; • tenham inveja deles; • queiram sobressair-se sobre os mesmos. Por outro lado, julgamos positivo no relacionamento com colegas pastores que • sempre se use de sinceridade com os mesmos; • se confie na palavra dos mesmos; • se defenda o seu bom nome; • se aceite a autoridade do colega que é seu superior; • se ouça e aceite as ponderações dos colegas quando estas forem melhores que os nossos pontos de vista; • se peça perdão quando o ofendemos; • se perdoe aquele que nos ofendeu; • se aconselhe e admoeste com amor o faltoso; • se respeite a decisão do colega, mesmo que não possamos concordar com ele. Ele, no final das contas, deverá ser o responsável pela decisão que tomou; • se seja hospitaleiro para com ele; • se tenha paciência com ele;

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• se ore por ele; • se ame o mesmo como Cristo amou a cada um de nós.

zelar para que o culto público da congregação para a qual Deus o chamou expresse a fé das Escrituras.

9. O pastor e o Culto Público 9.1. O que dizem as confissões?
A Igreja Luterana, desde o princípio tem confessado: “Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituídas pelos homens” (CA VII, 2 e 3). Com isso ela tem deixado bem claro que não são os detalhes e as tradições de determinadas cerimônias que determinam e mostram qual é a “coisa” essencial à unidade da igreja, mas sim o conteúdo do culto cristão. As cerimônias são entendidas como adiáforas, isto é, coisas que não são proibidas nem ordenadas por Deus. No entanto, os nossos pais, mesmo assim advertem: “Para dirimir também essa controvérsia, cremos, ensinamos e confessamos unanimemente que as cerimônias ou ritos eclesiásticos que não são ordenados nem proibidos na palavra de Deus, porém foram instituídos apenas por causa de bem-estar e boa ordem, não são, em e por si mesmos, culto divino, nem parte dele. MT 15. Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Cremos, ensinamos e confessamos que a congregação de Deus de todo lugar e época tem o poder de mudar, conforme as circunstâncias, tais cerimônias, de acordo com a maneira que for a mais útil e a mais edificante para a congregação de Deus. Mas que se evite nisso toda leviandade e ofensa, e poupem-se especialmente, com todo o zelo, os fracos na fé” (Ep FC X, 1-3). Isso nos ajuda para que não sejamos desviados do cerne que é o evangelho de Cristo e os santos sacramentos para nos envolvermos em discussões a respeito de detalhes e cerimônias que nada têm a ver com o mesmo. Os ritos, cerimônias e formas de culto na Igreja Luterana precisam estar de acordo com as Escrituras Sagradas e as Confissões Luteranas que proclamam Jesus Cristo. O pastor luterano, por isso, não pode introduzir nenhum hino ou oração que contrariem a pura doutrina do evangelho e precisa com os seus congregados

9.2. Sugestões sobre o culto e sermão
Os cultos na IELB são, com raras exceções, dirigidos somente pelos pastores. É da competência dele fazê-lo. Contudo, isso não quer dizer que a congregação não pode participar dos mesmos mais ativamente. Muitos cultos são verdadeiras saladas de frutas porque não há uma unidade nas orações, leituras, hinos, mensagem. A liturgia, em muitas congregações, nunca foi entendida. Há sermões que muitas vezes dão a impressão de que não foram bem preparados. Diante disso sugerimos:

a) Para o culto
Explicar à congregação o que é a liturgia, ensaiar novos hinos, incentivar a formação de grupos musicais e de canto, envolver o elemento leigo (cultos de leitura, leitura de partes da Bíblia, orações, distribuição da Santa Ceia, etc.). Algo muito simples e que também tem provado sua eficiência como entidade auxiliar para a boa ordem de um culto é a formação de uma comissão de recepção.

b) Para o sermão
b.1. No preparo 1. Orar pedindo que Deus nos abençoe; 2. Meditar (fazer uso do texto original para conhecer o sentido das palavras quando foram escritas e de traduções diferentes), tomar nota dos pensamentos fáceis e difíceis; ler comentários, estudos e sermões; buscar o tema; iniciar segunda ou terça este trabalho; ter um dia fixo para escrever o sermão; 3. Trazer o texto para o cotidiano, procurar ver nossos problemas e de nossos ouvintes, a nossa e a luta deles contra o tentador; 4. Usar as perícopes; 5. Usar boas ilustrações (até mesmo anedotas); 6. Usar vocabulário simples; 7. Fazer aplicação correta de lei e evangelho. b.2.) Na apresentação: 1. Se o sermão for lido, ao menos deve-se fazer uma leitura vibrante; se o sermão for decorado, a comunicação torna-se melhor; 2. Constitui-se numa boa variante se de vez em
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quando, durante o sermão, o pastor fizer uma pergunta aos seus ouvintes. Deste modo pode-se saber se os mesmos o estão compreendendo; 3. O uso de sermonetes especiais para as crianças é uma maneira de tê-las, com os seus pais, em nossos cultos; 4. A substituição do sermão por um estudo bíblico, também é uma boa possibilidade.

10. O pastor e os enfermos
Uma das coisas que Jesus dirá no dia de seu retorno aos que nele creram, é: “Estive enfermo e me visitastes” (Mt 25.36). Com estas palavras Jesus deixa claro que espera dos seus discípulos esta atividade: A visitação dos enfermos. Enfermos são pessoas que necessitam do conforto de que Deus as ama e que ele trata com seus filhos com amor por causa de Jesus e que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28). Este conforto o pastor oferece aos seus congregados doentes através da palavra e, por vezes, da santa ceia. Na visitação pastoral aos doentes precisamos fazer mais uma vez uma correta aplicação de lei e de evangelho. Falar a verdade com amor e apontar para Deus e sua misericórdia é nosso dever. Somente a palavra de Deus poderá produzir arrependimento e fé. Ao visitar enfermos temos que ter em mente que muitas pessoas querem saber por que estão sofrendo. A fatalidade, as consequências naturais da poluição, da má alimentação, do pouco cuidado com a saúde ou ainda o castigo do próprio Deus são vistos por muitos doentes como a causa das suas enfermidades. Tudo isso pode ser verdade, mas nem sempre são a verdade única. Embora seja de difícil compreensão, a boa e misericordiosa vontade de Deus para com o cristão é o motivo da enfermidade (Ex: Paulo, 2Co 12.7-10). Querendo ou não, doenças sempre são lembretes de nossa fragilidade e do nosso fim mortal. Preparar o povo para o encontro com o Deus que não quer que ninguém se perca, mas que todos cheguem ao conhecimento da verdade e se salvem, faz parte de nosso trabalho com os doentes. Muitos não querem que falemos da morte; contudo, ao longo do meu ministério nunca deixei de falar da mesma e da viva esperança que temos em Cristo Jesus. Visitas a doentes não devem ser demoradas, na média de 5 a 10 minutos. Devemos ir bem vestidos, o que
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não significa que precisamos usar colarinho clerical. Podemos ler uma pequena mensagem, algumas passagens da Bíblia e orar. Mesmo com pessoas em estado de coma é aconselhável lembrar uma passagem de consolo e orar. Cuidar para não perturbar o ambiente nem tumultuá-lo. Cuidado com expressões como “meu tio morreu desta doença” e evitar comparações com outras pessoas portadoras do mesmo mal. Sem deixarmos de ser realistas devemos encorajar os doentes a confiarem no poder e misericórdia de Deus, pois que ele ainda faz milagres hoje, quando e com quem lhe aprouver. Por vezes, em vez de visitar, podemos orar com o doente via telefone. Se dermos a santa ceia numa visita a enfermos, devemos ter tempo para confissão, absolvição e para as palavras da instituição. Se dermos as mãos aos doentes, deveríamos lavá-las antes de sairmos do hospital ou antes de cumprimentarmos um outro enfermo. Ao entrarmos num hospital deveríamos proceder do mesmo modo. De preferência não beijar enfermos, nem sentar junto a eles em seu leito. Sempre que houver pacientes não luteranos no quarto,

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apresentar-se e pedir licença para orar. Incluir os não-luteranos também nas preces. Entregar folhetos bíblicos aos doentes com o endereço da congregação à qual servimos pode ser meio de missão. Preparar pessoas para visitação aos enfermos em casa ou no hospital é algo que deveria merecer nossa atenção. Orar pelos doentes no culto público e pedir que os congregados orem pelos mesmos em seus lares faz parte da prática do amor cristão.

11. O pastor e o casamento 11.1. Sobre o casamento:
a) Deus, o instituidor do casamento.
O primeiro ser humano criado por Deus foi o homem. Contudo, ao ser criado, ele não tinha companheira (Gn 2.20), o que foi considerado pelo próprio Deus como algo que não era bom (Gn 2.18). Por isso Deus resolveu criar-lhe uma auxiliadora que lhe fosse idônea (Gn 2.18).

Tendo formado o homem do pó da terra e a mulher de uma de suas costelas, o Senhor os une e lhes diz: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28). Em cumprimento a este mandato divino é que “deixa o homem pai e mãe, e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24). Aqui temos a base bíblica para a instituição do casamento. Deus o criou ao formar e unir o primeiro par, Adão e Eva.

b) O casamento, sua duração e finalidade.
Quando Deus instituiu o casamento (Gn 2.18-25), ele olhou para o mesmo e o incluiu no rol do que era “muito bom” (Gn 1.21). O “muito bom” de Deus estabelecia para o casamento uma união para sempre. Contudo, com a queda do homem e da mulher em pecado, o “muito bom” passa a ser contaminado pelo que é mau e, por sua vez, torna-se parte da realidade da união entre homem e mulher. A união que deveria ser para sempre, passa a ser apenas vitalícia (Mt 19.4-6; 1Co 7.10 e 39). Por causa da fraqueza espiritual, porém, esta mesma união passou a ser rompida por fatores os mais diversos. Entre estes podemos lembrar o abandono malicioso (1Co 7.11-15) e o adultério (Mt 5.32) que possibilitam à parte inocente que requeira a anulação do antigo casamento e a oportunidade de um novo. No entanto, estes não são os únicos. Deuteronômio 24.1-4 apresenta outro, não bem definido (a razão do divórcio aqui é chamada de “coisa indecente” que não é o adultério, pois isto acarretava a pena de morte ao infrator). A própria incompatibilidade de gênios é apresentada como fator determinante de uma separação. Nós, cristãos, diante da “incompatibilidade de gênios” sempre procuramos aconselhar o casal a que, em espírito de amor, estenda um ao outro a mão e perdoe-se (Cl 3.12-17) e mantenha-se unido. Contudo, quando houve o rompimento e o caminho da volta fica impedido, o que fazer? Condená-los à solidão, ao celibato? Ou dar-lhes a oportunidade de um novo relacionamento? Acreditamos não estarmos errados quando afirmamos que antes de mais nada o ideal bíblico do casamento enseja que os que se unem permaneçam assim até que a morte os separe. Contudo, quando, sem êxito, toJunho e Julho, 2011 | Teologia | 53

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dos os passos foram dados para que a união pudesse ser restabelecida, quando a separação é definitiva, por não haver lei absoluta que proíba um novo casamento, por poder a proibição de casar causar ao divorciado problemas ainda maiores (1Co 7.9), cabe-nos proclamar aos que fracassaram no casamento que Deus perdoa os arrependidos que creem em Jesus, que ele os quer ajudar para que sua nova união seja bem sucedida, e que ele lhes diz, individualmente: “Vai, e não peques mais” ( Jo 8.11). Tendo estabelecido que o ideal divino para o casamento é que ele dure até que a morte separe os cônjuges, vejamos agora para que finalidades ele existe. A primeira razão o próprio Deus dá quando, ao ver Adão sozinho, diz: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 1.18). O estar só, sem uma companhia, não é bom ao ser humano, ao ponto de a solidão ser hoje um mal do qual inúmeras pessoas estão sofrendo. A segunda razão é a preservação da raça humana. A bênção do “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra” acompanha a instituição do casamento (Gn 1.28). Filhos deveriam ser encarados naturalmente como uma bênção muito especial de Deus sobre o amor do casal (Sl 127.3). A terceira razão encontramos em Gênesis (2.18): “far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea”, ou, a outra metade, alguém que lhe sirva de encaixe. Aqui trata-se da relação sexual sem a necessidade de ser praticada com a intenção de gerar filhos. Paulo, no NT, fala do mesmo assunto em 1Co 7.4-5, deixando claro que esposas e maridos não têm o direito de abster-se de relações sexuais, a não ser “talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para vos dedicardes à oração e novamente vos ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência” (por falta de domínio próprio em matéria de sexo). Além disso, todo o livro de Cantares de Salomão é um cântico que enaltece o relacionamento sexual entre um homem e uma mulher e que merece uma leitura pormenorizada por todo noivo que aspira entrar no estado matrimonial.

não prescreve o número de filhos que cada casal deve ter. No nosso entender, ter filhos depende de planejamento. Por isso, a resposta que costumamos dar a esta pergunta é: Depende. Depende: • da doença ou saúde dos pais; • das condições financeiras (desemprego, salário); • dos projetos de vida (estudo, casa própria, etc).

d) O que fazer quando não se tem filhos?
Sim, o que fazer? Alugar o ventre de outra mulher? Parece uma solução fácil, contudo, não apresenta esta solução um número ainda maior de problemas? Existe, diante dos avanços impostos no campo da medicina, a necessidade de respondermos quando começa a vida. Na fecundação (Sl 51.5, 58.3; 139.13-15), ensinam os luteranos. E o que dizer sobre a fecundação que acontece no tubo de ensaio? No mínimo 10 óvulos são fecundados, dos quais 7 serão provavelmente eliminados. O que podemos dizer a respeito desta eliminação? Será crime ou não? O mesmo problema ético e moral existe na inseminação artificial. Convém que consideremos que na Alemanha e na Suíça a mãe de aluguel é condenada pela ética médica. Além disso, se a mãe de aluguel não quiser entregar a criança a quem deu à luz aos seus pais genéticos, ela assim poderá proceder porque legalmente o filho pertence àquela que o deu à luz (ML9 Nov 90). Não ter filhos não é algo vergonhoso. Por que não adotar uma criança como filho? Não seria isso a melhor solução?

e) Informações sobre adoção:
Com respeito à adoção as leis do Brasil deixam claro o que segue: 1. Todo maior de 21 anos, que seja 16 anos mais velho que o adotado, que tenha estabilidade emocional e ambiente familiar adequado, pode ser
9 Mensageiro Luterano, publicado pela Editora Concórdia.

c) Paternidade Responsável.
Uma das questões muitas vezes ouvidas por um pastor é a seguinte: Quantos filhos um casal deve ter? Ao examinarmos as Escrituras veremos que antes da queda Deus falou “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra.” Esta ordem que foi renovada a Noé (Gn 9.1),
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candidato à adoção; 2. O interessado deve dirigir-se à autoridade jurídica, cadastrando-se junto ao Fórum; 3. Caso a criança tiver mais de um ano, exige-se um estágio junto ao que quer adotá-la, supervisionado pela autoridade competente; 4. Toda a adoção é irreversível.

f) Algumas qualidades de cônjuges cristãos:
a) Qualidades do esposo cristão: Antes de apresentarmos as qualidades propriamente ditas, cumpre lembrar que se ouvem muitas vezes queixas a respeito dos mesmos. A maioria das mesmas parece querer revelar que os maridos se esquecem de facilmente dos aniversários de nascimento, casamento e das pequenas cortesias que fazem as mulheres sentirem-se mais alegres e românticas. Um elogio sobre a decoração e limpeza da casa, pela roupa limpinha e bem arrumada, pelo novo corte de cabelos, etc., uma flor, um abraço, um beijo carinhoso como demonstração de seu amor e apreço são sempre bem-vindos. Certamente o marido que quer a felicidade de sua esposa, procurará criar momentos especiais em seu convívio para que sua esposa sinta a sua importância e valor. Além destas pequenas demonstrações de afeto, o esposo procurará seguir os seguintes conselhos bíblicos: 1. Terá por sua esposa elevada consideração (Pv 31.10); 2. Confiará nela, sem ciúmes (Pv 31.10), louvando-a de público (Pv 31.28-29); 3. Ser-lhe-á fiel e a amará de todo o coração (Pv 5.23; Hb 13.4; 1Co 7.3-6); 4. Sacrificar-se-á por ela, se preciso, e não a tratará com amargura (Ef 5.25; Cl 3.19). b) Qualidades da esposa cristã: Do mesmo modo como o fizemos anteriormente, queremos também aqui apresentar primeiramente as queixas mais frequentemente feitas por esposos cris-

tãos a respeito de suas esposas. Parece que um número elevado de mulheres nunca sente-se contente com nada, se descontrola emocionalmente ferindo com palavras ásperas seu consorte. Há também aquelas que nunca estão dispostas para nada, frequentemente estão indispostas para o relacionamento sexual, oportunizando com isso o diabo a levar seus esposos à tentação de procurar fora de casa o que no leito nupcial lhes é negado. Quanto às qualidades podemos ressaltar: 1. o bom caráter e a boa administração dentro e fora do lar (Pv 31.10-31 e Tt 2.5); 2. o amor; 3. a submissão (Ef 5.22-24). Seria bom se todos lessem o artigo do professor Donaldo Schüler sobre a matéria, na revista Igreja Luterana, 1971, pg. 27 até 30.

g) Responsabilidades na família:
Cônjuges cristãos têm sobre si grandes responsabilidades com respeito a seus filhos. Antes de qualquer coisa precisam reconhecer que filhos são bênçãos dentro do lar e não estorvo, e que os mesmos de fato contribuem para a harmonia e amor entre os cônjuges. No entanto, é bem verdade, às vezes também servem para colocar em xeque o bom relacionamento entre o casal. Quanto às responsabilidades mútuas, destacamos as que seguem: 1. Pais deveriam providenciar bens materiais para os seus filhos (Pv 13.22); 2. Pais deveriam ensinar aos seus filhos os caminhos do bem (Pv 22.6; Dt 6.7); 3. Pais deveriam dar aos seus filhos o bom exemplo (Pv 20.7) e agir de tal modo que seus filhos possam orgulhar-se deles (Pv 17.6 e 31); 4. Pais deveriam cuidar para não provocar os filhos à ira (Ef 6.4; Cl 3.21); 5. Pais deveriam criar e educar seus filhos na disciplina e na admoestação do Senhor (Ef 6.4 e Pv 13.24). Contudo, pais não devem se exceder, ao ponto de a disciplina chegar a constituir-se em mau trato que se configura • na privação de alimentos e cuidados indispensáveis à pessoa; • na existência ou determinação de trabalhos ou encargos excessivos e inadequados; • na desumanidade e abuso do castigo imposto como correção ou disciplina.
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e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. § 8º: O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações. Incluo aqui os assuntos que abordo nos cursos de noivos que tenho ministrado.

h. O que a Constituição diz sobre o casamento:
Ao celebrar um casamento o pastor, por assim dizer, serve como “funcionário” do estado e da igreja. Por isso, precisa conhecer além das práticas de sua igreja com respeito ao assunto aquilo que a Constituição afirma. A Constituição de 1988 diz no capítulo VII, que trata “DA FAMÍLIA, DA CRIANÇA, DO ADOLESCENTE E DO IDOSO”, o seguinte: Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 1º: O casamento é civil e gratuita a celebração. § 2º: O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei. § 3º: Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. § 4º: Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. § 5º: Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher. § 6º: O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio, após prévia separação judicial por mais de um ano nos casos expressos em lei, ou comprovada separação de fato por mais de dois anos. § 7º: Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais
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11.2. Exemplo de curso de noivos:
1. Deus é o instituidor do casamento (Gn 2.18-25).
O casamento é união vitalícia de um homem e de uma mulher (Mt 19.4-6 e 1Co 7.31). O divórcio não está nos planos de Deus com respeito ao casamento. Sempre será consequência de pecado. Deixa marcas que o tempo nem sempre apaga (ódios, mágoas). Traz problemas para os filhos (a guarda faz deles objetos, joguetes). Traz a dor da separação e quase sempre é resultado do orgulho. Existe o abandono malicioso (1Co 7.15 e o adultério Mt 5.32 que dão ao inocente a oportunidade de um novo casamento. Direito e não dever.).

2. Coisas que se espera de noivos cristãos
Espera-se de noivos cristãos que reflitam se amam de fato e se querem um casamento para sempre, que orem, que se respeitem (cuidado com ofensas, agressões físicas), que aprendam a se perdoar, que sejam fiéis pois a infidelidade traz infelicidade e pode causar a pobreza (sustento de duas as casas), filhos e cônjuge doentes (AIDS, doenças venéreas — cegueira) e até mesmo a morte (crimes passionais).

3. Casar, para quê?
a) companhia — solidão (filia — amizade); b) prazer sexual — éros (livro de Cantares) c) preservação da raça humana (é ordem divina —

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Gn 1.28; é bênção e não desgraça ter filhos — Sl 127.3). Há pais aos quais é vedado ter filhos. A adoção pode ser uma saída.

4. Quantos filhos um casal deve ter?
Depende da saúde, das condições financeiras, projetos de vida do casal. Ter filhos depende de planejamento. A mulher não foi criada como máquina de produzir filhos. No máximo há 7 dias a cada mês em que existe a possibilidade de uma mulher engravidar. Evitando-se neste período a relação sexual, já acontece então o método natural de prevenção. Existem os artificiais: anticoncepcionais — pílulas, 90% seguros e evitam a fertilização. O DIÚ é abortivo pelo que se sabe. Existe a camisinha, vasectomia, laqueadura de trompas, sendo que estes últimos podem ser irreversíveis. Ao casal cabe escolher o melhor para ambos.

e) não permitir que os filhos tomem o lugar do cônjuge; f ) em tempos de crise cabe ao homem decidir pelo melhor (Ef 4.31-5.2 e 5.22-30).

7. Jesus abençoou o casamento.
Jesus abençoou com sua presença o casamento de Caná da Galiléia ( Jo 2.1-12). A presença dele será certamente abençoadora no vosso casamento. Buscai em 1º lugar o reino de Deus e a sua justiça e as demais coisas vos serão acrescentadas (Mt 6.25-34).

Conclusão
Não temos, infelizmente, famílias perfeitas. Muitos têm em seus lares discussões, brigas e falham na educação de seus filhos. Nada mais certo do que continuar na busca de aperfeiçoamento para a vida familiar nos lares cristãos. Para isso aconselha-se que cada cônjuge: a) reconheça sempre as suas próprias fraquezas; b) peça perdão ao cônjuge e, se necessário, aos próprios filhos bem como conceda o perdão incondicionalmente; c) peça perdão a Deus; d) busque o fortalecimento da fé nos meios da graça; e) ore pelo outro na certeza de que o Senhor tem cuidado dos seus; f ) incentive sua congregação para que sejam realizados encontros de casais em que todas as questões que envolvem o casamento sejam discutidas.

5. O que acontece no casamento religioso?
a) pregação = exortação, conselho, voto de felicidade; b) perguntas: 1) se casam de livre vontade; 2) se sabem que o casamento não deve ser desfeito; 3) se estão dispostos a serem auxílio e amparo um para o outro na alegria e na dor; c) troca de alianças: sinal de amor, respeito e fidelidade; d) véu: sinal de pureza. No entanto, hoje, para muitos é folclore; e) padrinhos: testemunhas do casamento que são conselheiros em tempos de crise.

12. O pastor e a confirmação
Originalmente a igreja cristã entendeu a confirmação como sendo a obra do Espírito Santo confirmando-se a fé expressa ao tempo do batismo. Esta compreensão levou ao estabelecimento de uma cerimônia que chegou a tornar-se, no catolicismo, um sacramento. Para o luteranismo a confirmação não tem o sentido de sacramento. Historicamente a instrução confirmatória estava associada ao batismo e, mais tarde, à primeira participação da Santa Ceia. Desde que Paulo recomenda que todo o comungante deve examinar-se para participar do sacramento (1Co 11.28) esta ênfase até que é natural. Contudo o período de instrução para a confirmação compreende as duas partes: estudo das partes principais da doutrina cristã para a confirmação
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6. Conselhos úteis para quem quer casar
a) exame pré-nupcial; b) administração conjunta dos bens (responsabilidades divididas). Caixa único para as despesas comuns ou percentual de compromisso. Bom é anotar os gastos no começo; poupar 10% da renda é ótimo investimento para o futuro. c) lembrar que a gravidez traz consigo mudanças físicas, contratempos (enjoos), gastos com roupa, quarto, médico, hospital e que a liberdade fica cerceada; d) orar a Deus;

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consciente do voto batismal e preparação para a Ceia. Todo confirmando deveria ter, ao final de seu período de estudos, condições para examinar-se a si mesmo e assim participar da Santa Ceia bem como de dar testemunho de sua fé. Quanto à ocasião própria para tal fim, não existe uma data que é preferencial à outra. Quanto à idade própria do confirmando e ao tempo de estudo, igualmente não há lei ou regra fixa. Cada congregação tem a liberdade de decidir quanto ao assunto. Seria interessante que não se passasse a imagem de que o confirmando é aquela pessoa que não mais necessita estudar a Bíblia nem o catecismo. O período da instrução é importante para a educação do mesmo, mas não é terminal. Igualmente deveria evitar-se passar a ideia de que a partir da confirmação o cristão passa a ser um cristão “responsável” diante de Deus e da igreja dos seus atos. Ele, desde pequeno, deveria estar sendo instruído para assumir tal postura. O pastor pode ser auxiliado na função de educador para a confirmação; contudo ele não pode fugir da responsabilidade de ser aquele que orienta e supervisiona este ensino. O rito de confirmação na Igreja Luterana geralmente consiste de três partes: a confissão pública da fé pelos confirmandos; as orações da congregação em favor dos confirmandos; a bênção de Deus sobre os confirmandos simbolizada na imposição das mãos.

13. O pastor e o sepultamento
Muito embora a Bíblia não nos fale do que ocorria nas cerimônias cristãs de sepultamento, sabemos que a morte é um dos momentos mais cruéis que todo cristão precisa viver. E, querendo ou não, nesta hora são esperados da parte dos que sofrem consolo e orientação para o prosseguimento da vida. Cabe ao pastor estar então ao lado dos sofredores e consolá-los com a palavra de Deus. Também cabe ao pastor procurar conhecer os costumes locais da congregação com respeito a sepultamentos. A omissão dos mesmos pode trazer sofrimentos aos familiares e dores de cabeça desnecessárias ao pastor (Ex.: Procissão; cânticos; bandeiras; costumes quanto ao posicionamento do pastor, família, flores, terra, etc). O funeral consiste num pequeno momento de culto
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que marca a passagem dum dos santos de Deus da vida, aqui, para a eternidade, lá. Por isso fazem parte do mesmo cânticos, leituras bíblicas, pregação, orações. O sermão deveria falar da esperança que cristãos têm a respeito da ressurreição. Jamais deve ser objetivo do sermão enviar o falecido às recamaras do céu ou às quintas do inferno. Toda a cerimônia deveria primar pela brevidade e jamais tentar apelar para o sentimentalismo. Isso não significa, de modo algum, que os sentimentos não possam ser expressos. O próprio Jesus chorou junto à sepultura de seu amigo Lázaro. Em muitos funerais existe o costume de se lerem os dados biográficos do falecido. Em várias congregações existe também o costume de se convidar parentes e amigos para um culto especial no qual serão relidos os mesmos dados biográficos e será proferida uma oração de agradecimento pelas bênçãos que Deus lhe concedeu enquanto vivo e de pedido de consolo e ânimo em favor dos enlutados. O momento do sepultamento não deverá ser de exaltação do morto mas sim do amor de Deus. Quanto à cremação não há nada que impeça tal vontade. Sempre haveremos de lembrar que no dia do juízo final Deus ressuscitará a todos, mesmo os cremados que o foram por não crerem na ressurreição. Existem ainda congregações que se reúnem no dia de finados para lembrar os que faleceram no último ano. A data é ótima para lembrar a todos sobre a mortalidade dos homens, da necessidade de estarem todos preparados para o seu encontro final com Deus e, acima de tudo, da realidade de que a ressurreição de Jesus Cristo é a garantia de nossa ressurreição no dia do Juízo Final. Embora não sejamos uma agência que realiza toda a sorte de serviços fúnebres, por vezes nos vemos às voltas com a cerimônia de pessoas que não foram membras da IELB. Para que o pastor possa oficiar a cerimônia de não luteranos deveria ter o testemunho de pessoas idôneas que lhe afirmem poder realizar a cerimônia na esperança da ressurreição do morto para a vida eterna. Esta cerimônia, contudo, não deveria ser realizada em nossa igreja pois tal privilégio cabe somente aos que são filiados à IELB. Quanto à cerimônia de suicidas, este é um assunto onde cada caso deve ser estudado em particular. Não há uma regra fixa para todos. Pessoalmente já fiz uma cerimônia de sepultamento na casa do suicida (no cemité-

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rio não participei; era este o costume) e me neguei uma vez em fazer um sepultamento com o respaldo de toda a diretoria da congregação (a pessoa era casada, morreu em acidente de automóvel ao lado de uma prostituta com a qual fazia um programa).

14. O pastor e o testemunho
Introdução
Na carta aos Romanos 10.12-15, o apóstolo Paulo apresenta uma sequência de questões que tem a ver, e muito, com o evangelismo. Por isso, ao iniciarmos este estudo pretendemos ler o que Paulo perguntou àqueles cristãos há tanto tempo atrás. Paulo, lembrando Joel 2.32, diz que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (v. 12) Este invocar significa crer em Jesus, como Deus e Salvador. No entanto, logo após esta afirmação, ele coloca o problema com o qual nós, como igreja, sempre nos defrontamos: Como invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? Como sacerdotes do Rei, que desejam como ele próprio a salvação de todos, cabe-nos conhecer cada vez mais e melhor nossa tarefa maior, a da evangelização.

seu trabalho. Na verdade a Escritura não usa substantivos quando fala de evangelismo, mas sim verbos, pois a ênfase está colocada na ação. E o termo bíblico, por excelência é evangelizar, que não significa ganhar conversos, mas trazer ou anunciar o evangelho, as boas novas, independentemente de resultados. Neste sentido os anjos evangelizaram quando trouxeram boas novas de grande alegria aos pastores (Lc 2.10), Jesus veio evangelizando, isto é, veio pregando as boas novas do Reino de Deus (Lc 4.18 e 43), e Paulo, ao descrever o seu ministério o apresentou como pregação ou evangelização (1Co 15.1-2).

b) O que o evangelho não é?
1. Não é a proclamação de que somos merecedores da salvação que Deus providenciou. Por natureza estávamos mortos espiritualmente (Ef 2.1-3) e merecíamos a morte (Rm 6.23); 2. Ele também não é a proclamação de que a salvação possa ser conquistada ou merecida pelo homem (Rm 4.5 e 11.6; Ef 2.8-9; Lc 10.25-37).

c) O que o evangelho é?
O Pastor Schwan, que escreveu a breve exposição do Catecismo Menor de Lutero, afirmou que o evangelho é a boa nova da graça de Deus em Cristo Jesus. Assim sendo, o evangelho é: a) notícia boa (Lc 2.10-11); b) notícia da graça, do amor de Deus, amor imerecido que é dedicado a todo pecador ( Jo 3.16; Mc l6.15-16); c) graça em Cristo Jesus que expiou (foi nosso substituto) com o seu sofrimento e morte os nossos pecados (Rm 3.24 e 1 Pe 2.24).

a) O que é evangelismo?
A palavra evangelismo não aparece na Bíblia. O termo mais próximo, evangelista, aparece três vezes: Em Atos 21.8, em Efésios 4.11 e 2 Timóteo 4.5. Porém nestas passagens não pode ser definido com clareza o

d) O evangelho é meio da graça:
Para dar a salvação que Deus oferece, ele usa meios, os chamados meios da graça. O evangelho é o meio da graça por excelência. Ele oferece a graça divina (At 13.38), opera a fé (Rm 10.17) e comunica o perdão que Cristo conquistou (Rm 1.16-17). Batismo e santa ceia também são meios da graça. Contudo, só o são, por causa do evangelho que está ligado aos elementos visíveis.

e) Por que evangelizar?
A tarefa de evangelizar não deveria ser realizada tenJunho e Julho, 2011 | Teologia | 59

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do como motivação o sentimento de pena das pessoas que se perdem nem tampouco alguma obrigação ou dever. Não é o “você deve” ou o “você precisa”, isto é, a lei, quem consegue motivar o cristão a ser um evangelista. O máximo que a lei pode no cristão é fazê-lo sentir-se culpado por tudo o que deixou de fazer na área do evangelismo. Somente o evangelho, o amor de Deus em Cristo Jesus, pode nos prontificar a que evangelizemos. Paulo deixou três importantes declarações no trecho de 2Coríntios 5.18-21 que comprovam este parecer, a saber: 1. Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, isto é, ele reconciliou-nos consigo mesmo através da ação redentora de seu Filho Jesus (v 19). 2. Ele confiou-nos a palavra da reconciliação que anuncia que “aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (v. 21). Quanta honra! Que privilégio! 3. Tendo sido reconciliados, tendo recebido e sentido o efeito do seu amor perdoador — a paz com Deus, como novas criaturas respondemos ao seu amor cumprindo com alegria o seu desejo, a saber, anunciando ao mundo: “Em nome de Cristo, rogamos que vos reconcilieis com Deus” (v. 20). Deus, o primeiro proclamador de boas novas. O movimento evangelístico não teve a sua origem em Francisco Xavier (missionário enviado à Índia por Loyola), Lutero ou na IELB. Também não foi o apóstolo Paulo, nem a igreja de Jerusalém. Na verdade foi o próprio Deus quem o inaugurou quando foi em busca do homem perdido, ainda no jardim do Éden, proclamando: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.8-15). Aqui o próprio Deus anuncia a boa notícia de que o descendente da mulher, o Salvador Jesus, viria um dia para destruir a cabeça, o poder de Satanás.

Em Gênesis 9.1 ele faz aliança com os descendentes de Noé. Em Gn 12.1-3 ele afirma que por meio de Abraão serão abençoadas todas as famílias da terra. Em Gn 28.14, ao falar a Jacó, o Deus Eterno diz que por meio dos seus descendentes todas as nações do mundo seriam abençoadas. No Salmo 67 é claramente pedido pelo salmista que Deus abençoe a Israel para que se conheça na terra a salvação que vem do Senhor e para que todos os povos o louvem. Em Isaías 49.6 é claramente colocado que o Servo do Senhor, o Salvador Jesus, seria luz para os gentios, salvador de todas as nações até à extremidade da terra. E no Novo Testamento, em Mateus 23.15 Jesus fala do esforço dos israelitas de fazer um prosélito no mundo inteiro.

g) Por que Deus elegeu a Israel?
Deus na verdade não escolheu um povo já formado. Ele escolheu Abraão e afirmou que de sua descendência viria a felicidade às nações. Os seus descendentes vieram a formar o povo conhecido como Israel. E é agora este povo de Israel que: a) deveria ser o recipiente e guardião da revelação especial de Deus ao mundo (Hebreus 1.1-3); b) seria o canal através do qual o Redentor haveria de entrar no mundo (Miquéias 5.2 e Isaías 7.14); c) seria o servo (Isaías 44.1-2) e mensageiro (Is 43.10) em meio às nações (Sl 96.1-4). A eleição de Israel não era um fim em si mesmo, mas um meio para um fim, para a consumação de um propósito: Alcançar a felicidade, a salvação, a todos os povos. E esta eleição, como qualquer outra, não conferiu somente privilégios, mas também responsabilidades. O Deus do AT não é um Deus cruel, mas que ama.

f) O Antigo Testamento e o anunciar das boas novas.
1. Deus quer a salvação de todos os povos: Estão errados aqueles que dizem que Deus somente queria a salvação de Israel. O Deus que se revelou na Bíblia não queria ser somente o Deus do povo de Israel; ele desejava ser o Deus de todos os povos.
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Muitos confundem a justiça divina com crueldade. Deus, embora justo, não é cruel. Ele é Deus de amor que deseja que os pecadores se arrependam, creiam e tenham a vida eterna (Ez 33.11). Lembremos alguns exemplos do seu amor: Num mundo que não o amava, no meio de uma terra corrompida e violenta, Noé e sua família são salvos (Gn 6.11-9.19). Sodoma e Gomorra, cujos pecados clamavam aos céus, não seriam destruídas se lá vivessem, ao menos, dez pessoas fiéis (Gn 18.16-19.29); Ló e os seus foram poupados. A grande cidade de Nínive recebe o profeta Jonas, e é poupada do castigo divino (livro de Jonas) por dar ouvidos à sua pregação e se arrepender.

tros. Não é o cristão quem converte o pecador, mas o Espírito Santo. Ele é quem faz renascer os mortos espirituais e ele é quem ilumina os cegos espirituais através do evangelho (1 Co 12.3 e Rm 10.17). Lutero, por este motivo, com razão afirmou na explicação do 3.o artigo do Credo: “Creio que por minha própria razão ou força, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho. Assim também chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra.”

j. O Espírito Santo pode ser resistido
Muito embora seja o Espírito Santo quem converte, por que, no entanto, nem todas as pessoas que ouvem a notícia são convertidas? A razão não se encontra na suposta ineficácia do evangelho, mas sim, na hostilidade natural do homem para com o próprio evangelho e no seu poder de resistir à proclamação da boa nova (At 7.51; 1 Co 1.18 e 2.14). Deus jamais obrigou alguém a crer no evangelho. Aliás, ele sempre permitiu que o homem resistisse ao Espírito Santo que nele quer operar a fé que salva (At 7.51; Ez 33.11; 1 Tm 2.4).

h) O NT e o anunciar das boas novas
O NT é, por assim dizer, o diário das ações evangelísticas de Jesus, dos seus apóstolos e dos primeiros cristãos. Ele dá testemunho disso deixando claro que a) Jesus, o descendente de Abraão (Mt 1.1), o Salvador dos pecados do povo de Israel (Mt 1.21) e de todo o mundo ( Jo 3.16), iniciou o seu ministério proclamando o evangelho de Deus (Mc 1.14-15 e Mt 4.17); b) aos apóstolos Jesus confiou a tarefa de pregar o evangelho e de serem suas testemunhas (Mt 28.19-20; Mc 16.15-16; Lc 24.44-47; Jo 20.21; At 1.8); c) à toda a Igreja Cristã, a comunhão dos santos, os sacerdotes do Rei, também foi dado o mesmo encargo (1 Pe 2.8-9). Resumindo, quem primeiro anunciou as boas novas foi o próprio Deus, ainda no jardim do Éden, após a queda em pecado. Esta proclamação foi feita através dos séculos pelo povo de Deus, pelo clero (sacerdotes, profetas, apóstolos, pastores) e cristãos em geral. Todos, pastores e leigos, receberam este privilégio: Evangelizar.

k) Obstáculos ao evangelismo
Na verdade existe uma série de obstáculos que procura prejudicar, sob todas as formas, a nossa tarefa de evangelizar. Podemos citar, primeiramente, o diabo, o mundo e a nossa própria carne. O diabo fará tudo que puder para impedir que o evangelho seja anunciado. O mundo, por seu lado, não quer ouvi-lo. Além disso, com os seus prazeres, ele afasta pessoas da boa nova (Lc 8.4 e seguintes — A parábola do Semeador). E, finalmente, encontram-se em nosso próprio interior, na nossa carne, barreiras que nos impedem de testemunhar. Por exemplo: a) Existem cristãos que têm conceitos falsos como os que seguem: 1. “Deus já está contente se a gente vive da melhor maneira possível.” No entanto, é preciso que se diga que só viver não converte ninguém. A vida cristã pode ser uma boa ponte ao testemunho. Contudo, em hipótese alguma, ela exclui o falar a respeito de Jesus (Jo 14.6). 2. “Não devo tentar mudar a crença das outras pessoas.” Se isso é verdade, por que Jesus ordenou ir e pregar o evangelho, o dele, a todas as criaturas? Devemos cuidar com o universalismo que apregoa
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i) Somente o Espírito Santo converte.
Muitos já atormentaram-se inutilmente ao se culparem pela não conversão de outras pessoas. Embora seja nosso dever apresentar a mensagem da salvação de maneira clara e compreensível, sendo oportuno ou não (2 Tm 4.2), não depende de nós a conversão dos ou-

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que todos, no final das contas, serão salvos. Lembremos sempre de que “não há salvação em nenhum outro. . .”(At 4.12). 3. “Isso é serviço do pastor. Afinal, ele é pago para fazer missão.” Não são raros os que pensam que o trabalho de evangelizar diz respeito, tão somente, ao pastor. O apóstolo Pedro, porém, deixou bem claro que todos os cristãos (pastores e leigos) são povo de Deus para proclamarem as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9-10). b) Além disso existem cristãos que têm temores. Muitos afirmam: “Não saberei responder todas as questões que me farão. Serei rejeitado e ridicularizado. A minha vida não é boa que chega e prejudicará meu testemunho.” Estas preocupações não deveriam tirar o nosso entusiasmo para testemunhar. Não é preciso saber tudo. Admitir nossa falta de conhecimento em determinado assunto não é vergonhoso. Dar uma resposta mais adequada noutro dia às vezes é melhor. Os discípulos de Jesus, nem sempre as tiveram também ( Jo 1.43-46). Quanto a sermos rejeitados, isso é bem possível. Ninguém nos estará esperando com faixas de boas vindas e banda de música. O próprio Jesus foi rejeitado (Mt 8.34). E quanto ao fato de nossa vida não ser boa que chega, lembremo-nos de que somos pecadores, redimidos por Cristo, que lutam contra o pecado e que precisam do seu amor, perdão e poder para prosseguirem firmes na fé e no testemunho a respeito de Jesus, o Salvador, e não de si mesmos, até o fim (At 1.8).

próprio Livro de Concórdia, e até mesmo uma dogmática cristã (ex: Sumário da Doutrina Cristã de Koehler), para adquirir maiores conhecimentos da doutrina bíblica, também é recomendável. Finalmente, não como meio da graça, que se faça uso constante da oração para pedir de Deus seu amparo, entendimento, amor e paciência para se perseverar na tarefa de evangelizar.

l) Como vencer as barreiras?
Deus, para que o desânimo não tome conta de nós, vem ao nosso encontro, oferecendo-nos o seu Espírito Santo que age através dos meios da graça. Por isso sempre recomendamos aos nossos congregados para que participem dos cultos na igreja. Ali, em sua casa, o próprio Deus oferece e dá seu amor e perdão por meio da proclamação do evangelho e da administração dos sacramentos do batismo e da santa ceia. Fortalecidos na fé, poderemos então enfrentar, sem medo, as barreiras que se erguem e que dificultam a nossa tarefa de falar a respeito da ação redentora de Jesus. Além do culto público, é recomendado que cada cristão, em seu próprio lar, estude e medite nos ensinamentos da Bíblia. Usar um dos nossos catecismos, o
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m) Onde podemos evangelizar?
De acordo com Atos 1.8, evangeliza-se em todos os lugares. Podemos começar em nossa própria Jerusalém que inclui família, amigos, vizinhos, colegas de trabalho e de estudo, etc. Então cruza-se a fronteira que nos cerca e passa-se à Judéia (outros bairros), para então partir à Samaria (outras cidades de nosso estado) até serem alcançados os confins da terra com suas diferentes etnias. Pode acontecer que nunca consigamos sair das fronteiras de nossa própria Jerusalém. Contudo, com outros cristãos podemos esforçar-nos e enviar mensageiros aos quais sustentaremos para que o evangelho seja pregado a todas as nações.

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h) de grupos de estudo bíblico nos bairros, dos departamentos e dos cultos (convidar os amigos e amigas para que participem dos mesmos); i) de visitas aos que nos visitam (livro de endereço de padrinhos nas cerimônias de casamento, de batismo e dos visitantes); j) de testemunho pessoal a amigos, familiares, colegas, vizinhos; l) da prática de esportes sadios, noites artísticas, momentos de confraternização.

o) O que falar?
Não há necessidade de se conhecer a Bíblia “de cor e salteada” para se falar de Jesus. No entanto, embora isso não seja necessário, é preciso, porém, que conheçamos como Deus salvou o homem. Tendo conhecimento do modo como Deus salvou a humanidade, precisamos ter em mente um esquema lógico que contenha lei e evangelho para que o Espírito Santo possa mover o nosso ouvinte ao arrependimento e à fé. Segue, por isso, a sugestão abaixo para que seja decorada e assim sirva de modelo. 1º. Sobre a humanidade: a) todos são imperfeitos e desobedientes à lei de Deus (Rm 3.23); b) todos estão separados de Deus e são espiritualmente mortos (Ef 2.1); c) todos são incapazes de conquistar ou de merecer o perdão (Ef 2.8-9). 2º. Sobre Deus: a) que ele não tolera o pecado e promete castigar o pecador (Rm 6.23); b) que, no entanto, ele ama o desobediente e quer salvá-lo ( Jo 3.16). 3º. Sobre Jesus: a) que ele pagou com o seu sangue o preço de nossa salvação (1 Pe 1.18-19); b) que todo aquele que se arrepender dos seus pecados e crer nesta boa nova será salvo (At 16.31). Cuidados que devemos ter ao falar a) Sempre devemos apontar para Jesus e não para nós mesmos; o evangelho é o meio da graça que nos concede, em e por causa de Cristo, o perdão. Não são as nossas atitudes para com Deus que salvam; elas, no máximo, serão resposta ao amor divino ou rejeição a ele. b) Devemos estar prontos para enfrentar rejeição, desprezo, deboche ( Jo 15.18) e lembrar-nos de
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n) Como podemos evangelizar?
Podemos fazê-lo por meio a) da distribuição de Bíblias, folhetos, devocionários e revistas, em hotéis, hospitais, asilos, orfanatos, creches, salas de espera de médicos ou dentistas, ruas, rodoviárias, saída de estádios, teatros, cinemas, escolas, fábricas, cemitérios, praças públicas, pontos turísticos, ônibus, aviões, etc.; b) dos meios de comunicação (TV, rádio, jornal, telefone); c) de nossas instituições de ensino. Podem ser usados quadros, versículos bíblicos, devoções, formaturas, convites aos pais e alunos para que se façam presentes em cultos e programas especiais; d) do trabalho de diaconia (distribuir literatura com o alimento; promover palestras e momentos de devoção com os auxiliados; fazer um cadastro dos que estão sendo ajudados e visitá-los); e) de uma noite evangelística; f ) de visitação de lar em lar aos estranhos e aos nossos relapsos; g) do envio de cartas em datas especiais a clientes e fornecedores;

que não estamos sós (Mt 28.20). Estejamos conscientes de que através de nossas palavras, por mais simples que sejam, Deus estará agindo (Mt 10.19-20) e que medo é algo que Deus nos ajudará a vencer ao surgir nos nossos corações (1Jo 4.15-18). c) Ao testemunharmos devemos procurar ouvir a quem estamos falando para melhor conhecer as suas necessidades e sofrimentos e deste modo levar-lhe a mensagem do amor de Deus. Muito cuidado para não tornar o momento do testemunho em discussão teológica. d) Antes de testemunhar a alguém devemos pedir em oração que Deus conceda, a nós e ao nosso ouvinte, o seu Espírito Santo. Conclusão A Bíblia Sagrada não deixa dúvidas com respeito ao desafio e privilégio que nos confiou aquele que nos adotou para sermos seu povo: Anunciar a boa nova da salvação a todos os homens (Mc 16.15 e 1Pe 2.9). Que todos, especialmente também os pastores, em resposta ao seu amor, anunciem com alegria o seu evangelho sabendo que a palavra que for anunciada não voltará para ele vazia (Isaías 55.10-11).

Uma palavra de conclusão
Julgamos que nunca foi fácil ser pastor. Sabemos, por experiência própria, quão difícil é ser pastor hoje. No entanto, apesar de todas as dificuldades sentimo-nos felizes e honrados por termos sido chamados por Deus para o exercício do ministério. Quem aspira o ministério continua almejando algo importante. Sem dúvida, é algo tremendo ter que anunciar o juízo divino sobre todos que não querem arrepender-se dos seus pecados. Contudo, por outro lado, como é maravilhoso poder ser pastor e anunciar que Deus recebe o pecador arrependido e concede perdão de todos os pecados aos que creem em seu Filho Jesus. Sabemos que não esgotamos o assunto proposto para o presente curso. Esperamos, porém, ter contribuído com o mesmo para que se reflita ainda mais sobre o chamado ao ofício pastoral e suas funções. Encerro desejando que Deus os ilumine para que, ao se decidirem pelo ofício pastoral, estejam certos de que este é o caminho que Deus colocou diante de vocês e que o abracem conscientes de que Deus os guiará e abençoará. Elaborado em outubro de 1995.
Rev. Egon Martin Seibert é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Canoas-RS

Bibliografia
ASTE. O ministério cristão. Boumann, H.J.A. A doutrina do ministério segundo Lutero e as Confissões Luteranas. POA, Concórdia. Caemmerer, Richard R. Toward a more excelent ministry. St. Louis, CPH, 1964. Coiner, Harry G. Mistério do plano de Deus. POA, Concórdia, 1988. CTRE da LC-MS. The Ministry. Offices, Procedures, and Nomenclature. Set. 1981. Diversos. The pastor at work. St. Louis, CPH, 1960. Diversos. The abiding Word. 3 vol. St. Louis, CPH. Diversos. Toward Total Ministry. St. Louis, CPH. 1972. Fritz, John C. Pastoral Theology. St. Louis, CPH. Fromming, Carlos R. A congregação local e a missão. Herrmann, J. E. The Chief Steward. St. Louis, CPH, 1951. Hoyer, George W. Chamados para Servir. POA, Concórdia, 1988 Jaime, Eduardo M. B. Minstério Eficiente. Editora Metrópole, POA. Kemp, Jaime. Pastores em perigo. São Paulo, Editora SEPAL, 1995. Mueller, N.H. & Kraus G. Pastoral Theology. St. Louis, CPH, 1990. Ortiz, Juan Carlos. O Discípulo.Venda Nova, MG, Editora Betânia, 1977. Rottmann, J. O ministério. Igr. Lut., I e II Trim. 1985. _____. Se teu irmão pecar. POA, Concórdia, 1980. _____. Servos de Cristo. POA, Concórdia, 1982. _____. Apostolado e episcopado no Novo Testamento. Monografias Luteranas 4. Scharlemann, Martin. Toward a more excelent ministry. (Why go into something else?) St. Louis, CPH. Seibert, Erni W. Congregação Cristã. São Paulo, Escola Superior de Teologia, 1988. Walther, C.F.W. Americanisch-Lutherische Pastoraltheologie. St. Louis, CPH. 64 | Teologia | Junho e Julho, 2011

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odemos dizer que enquanto o culto é primariamente uma “obra” ou “serviço” de Deus em nosso favor, como nos é colocado em Lutheran Worship — History and Practice (Fred L. Precht, ed. CPH, St. Louis, MO, 1993): “O culto começa com a Palavra de Deus. É ação de Deus, não nossa” (45), a liturgia envolve ambos — Deus e nós: “O Serviço Divino (liturgia) é Deus dando a nós e nós respondendo a ele. É algo teocêntrico e Cristocêntrico, não a atividade centrada no homem que comumente se define como culto” (op. cit., 45). Também as Confissões Luteranas são claras na distinção entre culto de Deus e culto a Deus: E pode discernir-se facilmente a diferença entre esta fé e a justiça da lei: fé a latreía que recebe os benefícios oferecidos por Deus; justiça da lei, a latreía que oferece a Deus méritos nossos. Pela fé Deus quer ser cultuado de maneira tal, que dele recebamos o que promete e oferece. (Ap1, IV, 49). Desta arte, o culto e a latreía do evangelho é receber bens de Deus; culto da lei, ao revés, é oferecer e apresentar a Deus os nossos bens. Todavia, nada podemos oferecer a Deus, a menos que antes hajamos sido reconciliados e tenhamos renascido. Traz, porém, máximo consolo essa passagem, porquanto o culto precípuo do evangelho é querer receber de Deus remissão dos pecados, graça e justiça. Desse culto diz Cristo, em Jo 6: “De fato a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer, tenha a vida eterna”. (Ap IV, 310). No Antigo Testamento, Deus deu instruções precisas e detalhadas sobre como o povo deveria conduzir e realizar o culto (liturgia). Nas palavras de Precht, “nada foi deixado ao acaso. Nada, se não o melhor e mais fino, deveria ser usado no culto ao Senhor (1Rs 5.17; 6.22,30)” (op. cit., 47). Já no Novo Testamento, “ensi1 Apologia em Livro de Concórdia. 66 | Teologia | Junho e Julho, 2011

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no, oração, comunhão e a santa ceia compreendiam o que a igreja fazia quando estava reunida. Ela se reunia para culto.” (op. cit., 50). Após a vinda de Cristo, que cumpriu as leis cerimoniais do AT, que eram sombras de seu advento (Cl 2.16-17), vemos que há uma continuidade no uso dos costumes de culto do AT com certa flexibilidade e liberdade, motivadas até pelas próprias circunstâncias — o caráter clandestino do cristianismo primitivo, que o privava de poder usar livremente templos e sinagogas, e a liberdade da fé, tão bem colocada pelo apóstolo Paulo na Carta aos Gálatas. Assim, como vimos também neste curso sobre a teologia e história da liturgia luterana, desde o início da igreja cristã houve uma preocupação com os dois aspectos do culto (Deus a nós, nós a Deus) e com a manutenção de ritos, cerimônias e costumes que ajudavam no verdadeiro culto ao Senhor, sem, no entanto, ser a igreja inflexível neste

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assunto. Dentro do tema — “Quem tem autoridade para fazer regras com respeito à liturgia?”, além do colocado acima, queremos ver brevemente o que as Confissões Luteranas têm a dizer. Antes de citá-las propriamente, cito novamente Precht: “Mesmo afirmando a importância das cerimônias, as Confissões enfatizam que cerimônias exteriores são instituídas por homens e não são culto no sentido estrito do termo. ... Ainda assim, as cerimônias humanas exteriores são uma condição necessária para o culto corporativo” (op. cit., 51, 52). Dentro do tema proposto, primeiro queremos colocar rapidamente o entendimento luterano da justificação pela fé e sobre a santa ceia. Sobre a justificação pela fé dizem as Confissões: Ensinam também que os homens não podem ser justificados diante de Deus por forças, méritos ou obras prórprias, senão que são justificados gratuitamente, por causa de Cristo, mediante a fé, quando crêem e são recebidos na graça e que seus pecados são remitidos por causa de Cristo, o qual através de sua morte fez satisfação pelos nossos pecados. Essa fé atribui-a Deus como justiça aos seus olhos. Rm 3 e 4. (CA2, IV). Para que esta fé salvadora chegue a nós, Deus nos deu o Evangelho, na Palavra e Sacramentos, através dos quais o Espírito Santo nos dá a fé em Cristo e nos mantém na mesma, como dizem os confessores: Para que alcancemos essa fé, foi instituido o ministério que ensina o evangelho e administra os sacramentos. Pois, mediante a palavra e pelos sacramentos, como por instrumentos, é dado o Espírito Santo, que opera a fé, onde e quando agrada a Deus, naqueles que ouvem o evangelho. Isto é, que Deus, não em virtude de méritos nossos, mas por causa de Cristo justifica os que crêem serem recebidos na graça por amor de Cristo. (CA, V, 1-3). Sobre a santa ceia, primeiro vejamos o que dizem as confissões sobre quais e o que são os sacramentos: Se chamamos sacramentos os ritos que têm mandamento de Deus e a que se adicionou a promessa da graça, fácil é julgar quais são propriamente sacramentos. ... São, portanto, verdadeiramente sacramentos o batismo, a ceia do Senhor e a absolvição, que é o sacramento da penitência. (Ap XIII, 3-4).
2 Confissão de Augsburgo em Livro de Concórdia. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 67

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E, então, o que crêem os confessores sobre a santa ceia: Confessamos crer que na ceia do Senhor o corpo e sangue de Cristo estão presentes verdadeira e substancialmente, sendo oferecidos verdadeiramente com os elementos visíveis, pão e vinho, aos que recebem o sacramento. Constantemente defendemos esta sentença como assunto diligentemente pesquisado e ventilado. Pois, visto dizer Paulo que o pão é a comunhão do corpo de Cristo, etc., seguir-se-ia, caso não estivesse o corpo do Senhor verdadeiramente presente, que o pão não é a comunhão do corpo, mas apenas do Espírito de Cristo. (Ap, X, 1). Dentro deste contexto de Palavra e Sacramentos, através dos quais Deus nos comunica e dá sua graça, os confessores tiveram que se posicionar, dentre muitas outras questões pertinentes, sobre as praxes eclesiásticas, o poder dos bispos, cerimônias e tradições, adiáforos e a liberdade cristã relacionada a estes pontos. Então, vem o nosso tópico: “Quem tem autoridade para fazer regras com respeito à liturgia?” Surpreendetemente, vemos que os confessores, ao contrário do pensamento de alguns em nosso tempo e igreja, eram bastante flexíveis na questão das cerimônias e tradições cúlticas, declarando que cada congregação tem o direito, autoridade e poder para modificá-las, sempre visando o bem da igreja e da fé: Por isso cremos, ensinamos e confessamos que a congregação de Deus, de cada lugar e tempo, tem bom direito, autoridade e poder de modificar, diminuir

e aumentar essas cerimônias, sem leviandade e escândalo, com ordem e propriedade, conforme a cada tempo pareça de maior proveito, mas benéfico e melhor para a boa ordem, a disciplina e educação cristã, o decoro evangélico e a edificação da igreja. (FC3, DS4, X, 9). Quem, pela autoridade dada pela Palavra e por seu ofício ministerial, guia a congregação nesta questão, é o pastor, ou “o bispo de acordo o evangelho”, que tem “o poder da ordem, isto é, o ministério da palavra e dos sacramentos” (Ap, XXVIII, 12,13). Mas seu poder neste assunto é limitado pela liberdade cristã e, principalmente, pela doutrina da justificação pela fé, como segue: Segue-se, portanto, que, visto as ordenações instituídas como necessárias, ou com a idéia de merecer a justificação, conflitarem com o evangelho, não é lícito aos bispos instituir tais cultos ou exigi-los como necessários. Pois é necessário reter nas igrejas a doutrina da liberdade cristã de que não é necessária a servidão da lei para a justificação, conforme está escrito em Gálatas: “Não vos submetais de novo a jugo de escravidão.” É necessário reter principal do evangelho: que alcançamos a graça pela fé em Cristo, não por determinadas observâncias ou por cultos instituídos pelos homens. (CA, XXVIII, 50-52). E também na Apologia:
3 Fórmula de Concórdia em Livro de Concórdia. 4 Declaração Sólida em Livro de Concórdia.

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Na Confissão, entretanto, acrescentamos também até onde lhes é lícito formar tradições, a saber, não como cultos necessários, mas de modo que haja ordem na igreja, por causa da tranquilidade. E essas tradições não devem atirar laços às consciências, como se prescrevessem cultos necessários, conforme ensina Paulo ao dizer: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão.” O uso de tais ordenanças deve, pois, ser deixado livre, contanto que se evitem escândalos, e que não sejam considerados cultos necessários. (Ap, XXVIII, 1516). Os próprios confessores dão exemplos do uso desta liberdade da congregação e bispo quanto às cerimônias e tradições, falando da Páscoa e outros dias litúrgicos: Tal é a observância do domingo, da Páscoa, do Pentecostes e de feriados e ritos semelhantes. Pois é incorreto o pensamento dos que julgam que a observância do domingo em lugar do sábado foi instituída como necessária, pela autoridade da igreja. Foi a Escritura que ab-rogou o sábado, não a igreja. ... Contudo, visto que era necessário estabelecer um dia determinado, a fim de que o povo soubesse quando devia reunir-se, é manifesto que a igreja destinou o domingo para esse fim, e parece que a solução agradou tanto mais por esta razão adicional: terem os homens um exemplo de liberdade cristã e saberem que nem o sábado nem qualquer outro dia é observância necessária. (CA, XXVIII, 57-60).

O poder dos bispos neste assunto está subordinado, como vimos, à doutrina da justificação pela fé e ao evangelho. Eles não podem ser dominadores, mas devem zelar pela pureza do evangelho e saber que prestarão contas a Deus, como lemos: Pedro proíbe que os bispos dominem e coajam as igrejas. O de que se trata agora não é que os bispos abram mão de sua dominação. Pede-se, isto sim, apenas o seguinte: que permitam seja o evangelho ensinado de maneira pura e relaxem algumas poucas observâncias que não se podem observar sem pecado. Se não fizerem isso, então vejam lá eles mesmos como responderão perante Deus pelo fato de com essa pertinácia darem causa a cisma. (CA, XXVIII, 76-78). Aqui vemos claramente a subordinação total ao evangelho puro que devem ter os bispos: Também citam esta passagem: “Obedecei aos vossos cabeças.” Essa passagem requer obediência ao evangelho. Pois não estabelece um domínio para os bispos à parte do evangelho. Não devem os bispos estabelecer tradições contrárias ao evangelho, ou interpretar suas tradições contrariamente ao evangelho. Quando fazem isso, é proibido obedecer-lhes, segundo o texto: “Se alguém prega outro evangelho, seja anátema.” (Ap XXVIII, 20). Por outro lado, em tempos e circunstâncias especiais, como na perseguição e “tempo de confissão”, a congregação e seus ministros da palavra podem, e mesmo devem, defender até mesmo cerimônias consideradas adiáforos, como segue: Cremos, ensinamos e confessamos também que em tempo de confissão, quando os inimigos da Palavra de Deus anseiam de suprimir a doutrina pura do santo evangelho, toda congregação de Deus, sim, cada cristão, especialmente, porém, os ministros da palavra, como dirigentes da congregação de Deus, têm o dever de confessar livre e abertamente, não apenas com palavras, mas também com obras e atos, a doutrina e o que pertence à religião íntegra, de acordo com a palavra de Deus. E neste caso nem mesmo em adiáforos se deve ceder aos adversários, nem devemos permitir que os adversários no-los imponham, pela força ou astuciosamente, para debilitação do verdadeiro culto divino e plantio e confirmação da idolatria. (FC, DS, X, 10-11).
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Momento do Culto Gaúcho em ponto de missão em Santo Ângelo-RS Nunca se deve, no entanto, ser suprimida a liberdade cristã dada a nós pelo evangelho, como claramente o expõe o apóstolo Paulo na carta aos gálatas. Este é um ponto bastante enfatizado pelos confessores, pois seu enfraquecimento abre o caminho para a idolatria, como vemos também a seguir: Trata-se também do artigo da liberdade cristã, a respeito do qual o Espírito Santo, pela boca do santo apóstolo, tão seriamente ordenou à sua igreja que o preservasse, conforme acabamos de ouvir. Pois, assim que esse artigo é debilitado e se impõem coativamente à igreja ordenações humanas como necessárias, como se omiti-las fosse erro e pecado, a idolatria já está de caminho preparado, e com isso depois se acumulam as ordenações humanas, sendo consideradas culto divino não só igual aos mandamentos de Deus, mas até são postas acima deles. (FC, DS, X, 15). Por fim, a Fórmula de Concórdia resume de maneira muito simples e clara a questão de “coisas indiferentes”, nas quais se insere a liturgia, dizendo o seguinte: Desta explanação cada qual pode entender o que uma congregação cristã, e cada cristão, particularmente os pregadores, pode ou não fazer, de sã consciência, em matéria de coisas indiferentes, especialmente em tempo de perseguição, de modo que não provoquem a ira de Deus, não violem o amor, não fortaleçam os inimigos da palavra de Deus, nem escandalizem os fracos na fé.
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Por isso rejeitamos e condenamos como errôneo considerar ordenações humanas em si mesmas como culto divino ou parte dele. Rejeitamos e condenamos também como errõneo impor tais mandamentos coativamente à congregação de Deus como necessários. Rejeitamos e condenamos igualmente como errônea a opinião daqueles que julgam ser permitido ceder, em tempo de perseguição, à vontade dos inimigos do santo evangelho em tais adiáforos ou chegar a um consenso com eles (o que serve ao quebrantamento da verdade). Da mesma forma consideramos pecado censurável fazer-se, em tempo de perseguição, algo, em obras e atos, quer em coisas indiferentes, quer na doutrina, e no mais que pertence à religião, em consideração aos inimigos do evangelho, contrariamente e em oposição à confissão cristã. Rejeitamos e condenamos, outrossim, o abolirem-se tais adiáforos de um modo que dê a entender não ser facultativo à congregação de Deus servir-se, em liberdade cristã, de um ou mais, em qualquer tempo e lugar, de acordo com suas circunstâncias, como for mais proveitoso à igreja. Assim, as igrejas não se condenarão reciprocamente em razão de dissimilaridade em cerimônias, quando, em liberdade cristã, uma tem menos ou mais, desde que estejam concordes entre si na doutrina e em todos os artigos dela, como também no uso correto dos santos sacramentos, confore o bem

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conhecido dito: Dissonantia ieiunii non dissolvit consonantiam fidei. Desacordo em jejum não dissolve acordo na fé. (FC, DS, X, 25-31). Concluímos então que quem tem autoridade para fazer regras com relação à liturgia é a congregação, especialmente seu guia, o pastor. Neste assunto, congregações e pastores têm liberdade, desde que não firam consciências e, principalmente, não prejudiquem o evangelho e a pregação da justificação pela fé. Outrossim, certa uniformidade e unidade em praxes, liturgias, hinos e coisas concernentes ao culto, como existe em nossa igreja luterana confessional no Brasil e, até certo ponto, no mundo todo, são úteis para a manutenção da boa ordem e do sentimento de irmandade e comunhão entre os cristãos luteranos. Na liturgia e em todas as áreas do trabalho da igreja o importante é mantermos nossa doutrina bíblico-confessional pura, com a clara distinção entre lei e evangelho e a centralidade do evangelho de Cristo, na justificação por ele conquistada na cruz e dada a nós na Palavra e Sacramentos, administrados por pastores e mestres fiéis, devidamente vocacionados, preparados e chamados por Deus através das congregações da igreja de Cristo.

A liturgia e as áreas de ação da igreja devem sempre servir ao evangelho, no espírito sempre atual do sola gratia, sola fide, sola Scriptura. Assim, tudo será feito e conduzido com o grande objetivo de levar a salvação de Cristo a muitos, libertando-os da escravidão do pecado e da submissão a falsos meios de salvação. Liturgia, culto, pregação e tudo mais servem à evangelização, para que tudo seja feito para a edificação do corpo de Cristo, como diz o apóstolo Paulo (1Co 14.12, Ef 4.11-13). Que assim seja sempre entre nós! Amém.
Rev. Leandro Daniel Hübner é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Rio Branco-AC

Bibliografia
PRECHT, Fred L., ed. Lutheran Worship — History and Practice. Saint Louis, MO, Concordia Publishing House, 1993. LIVRO DE CONCÓRDIA. Trad. Arnaldo Schüler. São Leopoldo, Porto Alegre, Sinodal e Concórdia, 1980.

Altar arrumado para a Festa da Colheita.
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Rev. Nivaldo Schneider

Sofrer é uma palavra triste. É um termo que traz à luz uma realidade cruel presente no dia a dia de cada ser humano. Como aconselhar e consolar alguém que está passando por sofrimento, respeitando a sua subjetividade, sem aviltar a sua dignidade humana com promessas vãs, sendo absolutamente ético no seu proceder? Todos os seres humanos querem e buscam bem-estar e qualidade de vida. Para que isto aconteça, eles pensam que precisam estar livres de angústias, dificuldades e sofrimentos. Eles se esforçam para se livrar de problemas na esperança de que isto lhes traga felicidade. Em contraposição a isso, os seres humanos sabem que é comum surgirem problemas e dificuldades nas suas vidas que são chamadas de sofrimentos e diante dos quais os seres humanos tantas vezes se sentem impotentes. O sofrimento não poupa ninguém. Sofrem ricos e pobres, fracos e poderosos, sábios e ignorantes. “O mundo está marcado pela tensão entre a vida e a morte, e viver sem experimentar uma tragédia, sem perder algo, sem passar por uma crise é impossível”1. O sofrimento de um ser humano não envolve apenas a pessoa, mas também outros seres humanos que estão ao seu lado e com ele convivem. É possível que o sofrimento de um ser humano não provoque nenhum sentimento de compaixão na
1 INHAUSER, Marcos R; MALDONADO, Jorge E. Consolação e Vida — Para uma Pastoral de Consolação, Conselho LatinoAmericano de Igrejas, 1989. p. 25. 72 | Teologia | Junho e Julho, 2011

grande maioria, mas alguém certamente vai se identificar com ele. É isto que afirmam Gerstenberger e Schrage: Meu sofrimento une-se aos demais. Não pelo simples fato de provocar compaixão e encontrar consolo. As relações entre o sofrimento individual e seu meio social são mais fortes e complicadas. Sofrimento jamais surge no indivíduo por causa exclusiva de sua culpa intrínseca. Outros estão envolvidos como causadores, expectadores ou amigos. O sofrimento que aflige um indivíduo jamais atinge só a ele, a não ser que esteja e permaneça desaparecido em definitivo. Quem morre abandonado e esquecido, sob uma ponte ou num asilo, comoverá, na morte, no mínimo o coveiro; às vezes ainda se encontra alguém que acompanha o sepultamento.2 É impossível ficar indiferente diante da presença do sofrimento na vida dos seres humanos. Por isso, precisamos estar preparados para entender o sofrimento e levar consolo e esperança para as pessoas com as quais convivemos e passam
2 GERSTENBERGER,Erhard; SCHRAGE, Wolfgang. Por que Sofrer? São Leopoldo, Sinodal, 1979, p. 8.

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por sofrimentos. Carlos Caldas no Prefácio à Edição Brasileira do livro de C. S. Lewis O problema do sofrimento afirma: Não há dúvida de que o problema do sofrimento é uma das mais angustiantes e difíceis questões enfrentadas pelo ser humano ... Filósofos, poetas, teólogos, escritores e pensadores propõem questões do tipo: Por que sofremos? ou por que há o mal no mundo? Vários sistemas religiosos tentam apresentar respostas satisfatórias a tais questões. Todavia, não raro muitas das respostas apresentadas só conseguem aumentar o dilema.3 O ser humano sofre por causas internas e externas. O ser humano sofre física, mental e espiritualmente. O ser humano sofre por períodos curtos e por períodos que parecem intermináveis. O sofrimento atinge a todos. Ninguém é imune, nem o indivíduo mais confiante e seguro de si, e nem a pessoa mais rica deste mundo. Todos sofrem, embora esses sofrimentos não sejam iguais para todos. O sofrimento humano está presente nas enfermidades, na dor, nas tristezas, nas guerras, no ódio, na perversão, na cobiça, na poluição e tantas outras coisas que produzem sofrimento direta ou indiretamente. C. S. Lewis mostra como “o próprio ser humano é responsável por grande parte do sofrimento que há no mundo. Conforme o autor, quatro quintos dos sofrimentos que enfrentamos são produzidos ou por nós mesmos ou por nossos semelhantes”.4 Ele diz ainda que “as criaturas causam sofrimento ao nascer, vivem infligindo sofrimento e em sofrimento a maioria delas morre”.5 Outros ainda, afirmam que: O sofrimento humano é causado por agentes externos e que a superação do mesmo depende da fé que a pessoa
3 LEWIS, C. S. O problema do sofrimento. São Paulo,Vida, 2006, p. 11. 4 LEWIS, 2006, p. 12. 5 LEWIS, 2006, p. 18. 74 | Teologia | Junho e Julho, 2011

tem. Ou seja, aquele que tem fé não deve passar por aflições.  Para serem curados precisam orar para fortalecer e restaurar a sua fé. Esta linha de raciocínio é encontrada na teologia pentecostal.6 Lutero tem muito a dizer sobre o sofrimento. Ele próprio passou por muitos sofrimentos em sua vida e estudou profundamente a questão do sofrimento, tendo como base a Escritura Sagrada, da qual tirava o consolo necessário para prosseguir na sua vida. Por isso, o capítulo primeiro está focado na vida de Lutero, nos sofrimentos pelos quais passou desde a sua infância até a sua morte. No capítulo segundo abordaremos o que Lutero entendia por sofrimento humano e também por compaixão de Deus. E no capítulo terceiro veremos as implicações éticas do pensamento de Lutero no aconselhamento e consolação em relação às enfermidades e em relação à morte e ao luto. E assim verificar como Lutero aconselhava e consolava as pessoas que passavam por sofrimentos, tendo em vista a compaixão de Deus.

O sofrimento de Lutero
Lutero sofreu muito em sua vida. Ele foi alvo de inúmeras perseguições tanto por parte do Império como da Igreja Romana. Foi passando por experiências amargas que Lutero aprendeu o que é sofrer. Foi estudando as Escrituras que ele descobriu o consolo certo para o seu sofrimento e para o de todos os demais seres humanos. Seus pais Hans e Margareta, segundo Just, “conscientes do seu dever, educaram o menino, desde a sua tenra infância, no temor do Senhor e na prática do bem”.7 Quando ainda menino Lutero experimentou o que é sofrer. Seus pais eram muito rígidos e lhe deram uma educação muito severa. Diz ele: Meu pai me corrigiu um dia de tal maneira, que fugi e tive medo dele, até que me acostu6 ROCHA, Violeta. Saúde dos corpos experiência de Deus? — Leituras pentecostais de saúde. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana., Petrópolis, n.49, p. 86, 2004. 7 JUST, Gustav. Deus Despertou Lutero. Porto Alegre, Concórdia, 2003, p. 41.

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mei de novo a ele... Meus pais foram muito severos comigo e me tornei tímido. Minha mãe me açoitou um dia por uma desgraçada noz, a ponto de sangrar. Meus pais só queriam o meu bem; mas não sabiam discernir os espíritos e eram desmedidos nos castigos.8 Sobre o relacionamento de Lutero com os seus pais afirma Valença: Martinho Lutero guardou em relação aos pais um misto de reconhecimento e terror, pela educação severíssima que recebeu. Sua natureza extremamente sensível deixou-se marcar pela pobreza em que nasceu e cresceu e principalmente pela severidade quase desumana a que foi submetido.9 Na escola o tratamento rígido não era diferente do regime de casa. Segundo Just, “assim como no lar, também imperava na escola uma disciplina muito rígida. Ali se encontrava um desses professores que tratam seus alunos assim como carcereiros e carrascos tratam os ladõres”.10 Em uma só manhã ele recebeu quinze açoites. Nesta época ele tinha apenas sete anos. Com quatorze anos ele foi enviado pelos pais para estudar em Magdeburgo, mas ali ele permaneceu pouco tempo, pois adoeceu e retornou para o seu lar. Com quinze anos foi mandado pelo pai para estudar em Eisenach e ali, junto com os seus companheiros, precisou mendigar pão de casa em casa. Foi um período muito duro e difícil para ele.11 Sobre este período afirma Valença: Esta estada em Magdeburgo foi extremamente penosa para o adolescente, em primeiro lugar devido às privações a que teve de sujeitar-se por sua condição de estudante pobre; e em segundo lugar porque a separação da família era dolorosíssima à sua natureza sensível.12 Sobre a vida dos monges, naquela época, Lu8 9 10 11 12 GREINER, Albert. Lutero. São Leopoldo, Sinodal, 19969, p. 16. VALENÇA, Raquel Teixeira. Lutero. São Paulo, Três, 1974, p. 44. JUST, 2003, p. 41s. GREINER, 1969, p. 16s. VALENÇA, 1974, p. 45.

tero diria mais tarde: Vi com meus próprios olhos como um príncipe de Anhalt, ostentando o capuz dos frades franciscanos, percorria as ruas e avenidas pedindo pão. Ele carregava o saco, como um jumento, arfando sob a pesada carga. Reduzido a pele e ossos, mais se parecia com um esqueleto humano. Quem o via assim, se enternecia em devoção, sentindo-se envergonhado de sua própria situação mundana.13 Lutero também sofreu em virtude das dificuldades financeiras pelas quais passava em Magdeburgo. Sobre esta realidade Just afirma: A situação financeira de Lutero em Magdeburgo era precaríssima, por isso ele lutava com sérias dificuldades para se manter. E ainda que houvesse casas de estudantes na cidade e o ensino fosse ministrado gratuitamente pelos monges, cabia aos próprios alunos cuidarem da sua alimentação. Assim Lutero viu-se obrigado a cantar diante das portas a fim de obter o sustento para a sua vida.14 Por causa destas dificuldades financeiras Lutero se viu obrigado a abandonar os estudos em Magdeburgo. Quando foi estudar em Eisenach, Lutero pensou que teria apoio dos seus familiares, parentes de sua mãe que ali moravam, mas seus parentes pouco fizeram por ele. Por causa disso, a sua vida em Eisenach também não foi fácil. Sobre este período escreve Just: Sem outra alternativa, Lutero teve de ganhar seu pão orando e cantando em frente das casas de pessoas ricas. Os donativos assim recebidos eram chamados de sobras de mesa. Comentando, anos mais tarde, esta etapa da sua vida, Lutero escreve: “Também
13 JUST, 2003, p. 43. 14 JUST, 2003, p. 43s. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 75

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eu fui um desses esmoleiros que recebia o pão de caridade diante das casas, principalmente em Eisenach, minha querida cidade”.15 Depois de quatro anos, Lutero terminou seus estudos em Eisenach. Quando ele tinha dezoito anos, ingressou na Universidade de Erfurt. Enquanto realizava seus estudos na Universidade Lutero sempre tinha em mente a ira divina. Nestes momentos se lembrava das cóleras paternas. Tudo isso o impressionava muito e assim foi até o fim dos seus dias. Seu amigo Melanchton relata que “ao pensar na ira de Deus e em seus juízos, ficava tão aterrorizado que quase perdia o alento”.16 Também o nome de Jesus lhe causava o mesmo espanto. É o próprio Lutero quem diz: Empalidecíamos ao mero nome de Cristo, porque somente nos era apresentado como um juiz severo, irritado contra nós. Dizia-se-nos que, no Juízo final, nos pediria contas dos nossos pecados, de nossas penitências, de nossas obras. E, posto que não pudéssemos arrepender-nos o bastante, nem fazer obras suficientes, não nos restariam mais que o terror e o pavor de sua cólera. ”17 E Just complementa: Todos nós éramos orientados no sentido de que nós mesmos deveríamos expiar nossos pecados, mas, sendo-nos impossível fazer tanta penitência e praticar tantas boas obras como era necessário, eles nos encaminhavam aos santos no céu, nos ensinavam a invocar o nome da virgem Maria, para que ela, intercedendo por nós, desviasse de nós a ira de Cristo e alcançasse para nós a sua graça.18 Lutero passou por várias situações de
15 16 17 18 JUST, 2003, p. 45. GREINER, 1969, p. 20. GREINER, 1969, p. 20. JUST, 2003, p. 42.

medo e sofrimento. Em 1503 se feriu gravemente no percurso de uma viagem e pensou que ia morrer. Sobre este acontecimento afirma Just: Quando ele viajava para a cidade de seus pais em companhia de um amigo, ele cravou, acidentalmente, a ponta do espadim que ele carregava na cintura à moda dos estudantes universitários, numa veia da coxa. Estando eles ainda perto de Erfurt, o amigo voltou apressadamente à cidade a fim de chamar um médico. Entrementes, só com muito custo, Lutero conseguiu estancar o sangue, ficando deitado de costas e apertando com força o ferimento. A perna inchou rapidamente e Lutero, sentindo a ânsia da morte, implorou a ajuda da virgem Maria.19 Depois, um de seus amigos perdeu a vida em circunstâncias trágicas. Esse fato, segundo Just, “deixou Lutero profundamente abatido, e em tal estado de ânimo que ele exclamava muitas vezes: ‘Oh! Quando, finalmente, serás uma pessoa piedosa e arrependida a fim de conseguires para ti um Deus gracioso”?20 Em 1505, quando retornava sozinho para Erfurt, depois de visitar os seus pais em Mansfeld, ele quase perde a vida, atingido por um raio numa tempestade. Neste exato momento ele faz um voto para Santa Ana, dizendo: “Santa Ana, se me auxiliares, tornar-me-ei monge”.21 Foi neste episódio que ele prome19 JUST, 2003, p. 48. 20 JUST, 2003, p. 48. 21 DELUMEAU, Jean. Nascimento e Afirmação da Reforma. São Paulo, Pioneira,1987, p.85.

teu à Santa Ana entrar para um convento se lhe fosse preservada a vida. Seu sofrimento agora era na alma. Dizia ele: “Eu, Martim Lutero, como serei salvo? Eu me dizia continuamente: Oh! Se pudesses ser verdadeiramente piedoso, satisfazer teu Deus, merecer a graça! Eis os pensamentos que me lançaram no convento!”22 Segundo Delumeau Lutero “perseverou em seu projeto, sem dúvida porque tinha ‘tomado subitamente consciência (ao longo da estrada de Erfurt) daquilo que se passava no íntimo de sua alma’. O relâmpago que quase o fulminou lhe pareceu um apelo solene de Deus”.23 Sobre este assunto Valença diz:
22 GREINER, 1969, p. 22. 23 DELUMEAU, 1987, p. 85s.

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o relógio, varria a igreja e até fazia a limpeza nas privadas. O mais difícil para ele, no entanto, era andar pelas ruas das cidades em busca de donativos. Os monges costumavam dizer-lhe: “É mendigando, e não estudando, que a gente presta serviço aos conventos e os enriquece”.27 Sobre sua passagem pelo convento Lutero diz: Fui um monge piedoso, posso afirmar, e observei a regra tão severamente que posso dizer: se algum dia um monge alcançou o céu pela vida monástica, eu lá chegarei também: todos os meus companheiros de claustro que me conheceram podem atestá-lo. Se isso tivesse durado por mais tempo, me teria matado à força de vigílias, preces, leituras e outros trabalhos.28 No convento Lutero iria conhecer “todos os tormentos do inferno” Em 1518 ele escreveu: Eu também conheci um homem bem de perto que afirmava ter suportado tais suplícios. Não por muito tempo, é verdade! Mas as torturas eram tão grandes, tão infernais que não existem língua humana nem pena alguma capazes de descrevê-las. Quem não as passou é incapaz de imaginá-las. Se alguém fosse capaz de suportá-las até o extremo, ainda que fosse por meia hora — que digo? — a décima parte de uma hora, pereceria tão inteiramente que até os ossos seriam reduzidos a cinzas.... É claro que Lutero estava se referindo ao seu sofrimento interno, ao seu estado da alma, pois ele se considerava um mau frade.29 Sobre este período no mosteiro Just afirma:
27 JUST, 2003, p. 50. 28 DELUMEAU, 1987, p. 86. 29 GREINER, 1969, p. 27. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 77

Dezesseis anos mais tarde ele escreveria no prefácio de seu De Votis Monasticis, que dedicou ao pai: “Lembro-me de te haver dito que um terrível apelo me fora dirigido do céu e não foi voluntariamente nem de bom grado que me tornei monge. Mas tomado pelo pavor de uma morte súbita, fiz uma promessa à qual fui irresistivelmente impelido”.24 No dia em que rezou a primeira missa Lutero estava muito inquieto. No momento em que consagrava os elementos, ele foi tomado de pavor, pois se considerava indigno diante de Deus.
24 VALENÇA, 1974, p. 48.

Delumeau afirma que “durante a refeição, conversando com o seu pai sobre o caráter divino de sua vocação e da vontade celeste manifestada no temporal, o pai respondeu: Queira Deus que isso não seja o apelo do diabo”.25 No convento Lutero também sofreu muito, pois ali as regras eram muito duras. Era preciso se submeter a um jejum rigoroso e se abstinham de comer carne, manteiga, queijo e ovos durante a metade dos dias do ano; trabalhavam e passavam a noite nas celas jamais aquecidas e se levantavam todas as noites para rezar o ofício.26 Sobre este período no convento Just afirma: No convento, Lutero se submeteu conscienciosamente a todas as lidas e penitências. Ele vigiava a porta, regulava
25 DELUMEAU, 1987, p. 86. 26 GREINER, 1969, p. 26.

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A intenção de Lutero era obter a graça de Deus mediante as boas obras. Dia e noite ele se afligia e atormentava com jejuns e orações, com cânticos e meditações, com vigílias, dormindo mal e passando frio, com gemidos e prantos. Ele esperava tomar o céu à força. Com toda a razão pode, pois, afirmar de si mesmo: “Com efeito, tenho sido um monge piedoso e, se alguma vez um monge ganhou o céu através da vida monástica, então eu também entraria nele. Se esta situação tivesse perdurado por mais tempo, certamente eu me teria atormentado até à morte com vigílias, orações, leituras e outras penitências... A dúvida morava em nossos corações, e dia e noite éramos atormentados por temores, desânimo e inquietação”.30 No mosteiro Lutero sofreu muito na continua prática de obras para alcançar o favor de Deus e a vida eterna. Por fim reconheceu que “nem remédio, nem consolo algum me teriam ajudado, se Cristo não tivesse vindo e não tivesse aberto a Bíblia e se tornado assim por meio de sua Palavra meu conselho e meu consolo”.31 Segundo Delumeau, Lutero se debatia com contradições quando vivia no convento. Contradições como estas: “Quem pode adivinhar o que pensa o Todo-Poderoso e como julga? Como saber, portanto, se os atos que nós cremos meritórios o são aos olhos de Deus”?32 Delumeau ainda afirma sobre Lutero: Tinha principalmente a sensação, não obstante seus esforços e boas obras, de ser sempre indigno de receber o ornamento da graça. Quando tiver descoberto sua doutrina, irá abandonar totalmente o voluntarismo de Biel, mas conservará a idéia da transcendência de Deus, de um
30 JUST, 2003, p. 51s. 31 GREINER, 1969, p. 34. 32 DELUMEAU, 1987, p. 87. 78 | Teologia | Junho e Julho, 2011

Deus que as boas ações dos homens não poderiam constranger, mas que morreu para nos resgatar. Foi Staupitz quem, parece, indicou a Lutero em que rumo acharia paz de espírito: não caminhar para o amor à força de mortificações, mas amar primeiro; depois o arrependimento virá naturalmente. A contrição verdadeira começa pelo amor da justiça de Deus.33 O sofrimento de Lutero continuou quando ele se deparou com a expressão “justiça de Deus” no primeiro capítulo do livro de Romanos. Lutero odiava essa expressão. Diz ele: Eu odiava esse termo “justiça de Deus”, porque o uso corrente e o emprego que dele fazem habitualmente todos os doutores me haviam ensinado a entendê-lo em sentido filosófico. Entendia-o no sentido da justiça “formal” ou “ativa”, uma qualidade divina que impulsiona Deus a castigar os pecadores e os culpados. Apesar de minha vida irreprovável de monge, sentia-me pecador aos olhos de Deus; minha consciência estava intranquila até ao extremo e não tinha certeza alguma de que Deus fosse aplacado por minhas satisfações. Ademais, não podia amar esse Deus tão justo e vingativo. Odiava-o e se não blasfemava em segredo, nem por isso deixava de indignar-me e murmurar violentamente contra ele, dizendo: “Não basta, porventura, que nos condene à morte
33 DELUMEAU, 1987, p. 87.

eterna por causa do pecado de nossos pais e que nos faça padecer toda a severidade da sua lei? Será que, além disso, ainda tenha que aumentar nosso tormento pelo Evangelho e, mesmo aí, fazer-nos proclamar sua justiça e ira?” Estava fora de mim, e minha consciência se sentia violentamente transtornada, e reexaminava sem tréguas esta passagem de São Paulo no ardente desejo de saber o que o Apóstolo queria dizer.34 Segundo Delumeau, “quando Lutero comentou a Epístola de Romanos ficou convencido de que o homem permanece pecador e indigno toda a vida e, portanto, incapaz de merecer a felicidade eterna”.35 Lutero entendeu pelo livro de Romanos que a pessoa é aceita por Deus mediante a fé, sem as obras da lei. Os pecados nos são perdoados, não por causa das nossas obras, mas apenas pela misericórdia de Deus que não os imputa a nós. Ele explica: Não se trata aqui apenas dos pecados cometidos por atos, por palavras ou por pensamentos, mas igualmente do pendor para o mal... E é um erro crer que esse mal possa ser debelado pelas ações,
34 GREINER, 1969, p. 38s. 35 DELUMEAU, 1987, p. 88.

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visto a experiência provar que, não obstante todas as boas ações, essa cobiça do mal subsiste e que ninguém dela está isento, até mesmo uma criança de um dia. Porém a misericórdia divina é tal que, embora esse mal subsista, não é tido como pecado para aqueles que invocam a Deus e lhe imploram com lágrimas sua libertação... Por conseguinte, somos pecadores a nossos olhos e, apesar disso, somos justificados perante Deus pela fé.36 Deus teve misericórdia de Lutero e o livrou de todo aquele sofrimento e angústia espiritual quando o fez compreender que a justiça de Deus é a “justiça passiva” pela qual Deus em sua misericórdia nos justifica por meio da fé. Nesse momento, diz Lutero: “Logo eu me senti renascer e me pareceu ter entrado pelas portas largamente abertas no próprio paraíso”.37 A respeito desta “libertação” de Lutero afirma Greiner: Libertado de si mesmo e do seu tormento pessoal, disposto a apresentar-se, doravante, na história como testemunha da graça de Deus. Seus olhos, abertos para Deus, estão abertos ao mesmo tempo para os sofrimentos dos
36 DELUMEAU, 1987, p. 88. 37 VALENÇA, 1974, p. 65.

homens. Suas conversações, suas preleções, suas prédicas e as confissões que recebe, provam-lhe que, em redor dele, milhares de almas travam, com menos veemência, sem dúvida, o combate que ele sustentou. O pensamento da morte atormentava-os; a idéia obsessiva da salvação

os angustia. Sentem-se fatigados de uma teologia que retalha a graça, e cansados de uma igreja que pretende administrá-la e infundi-la. Uma piedade mecânica e supersticiosa foi, por assim dizer, seu único refúgio. Inconscientemente, sem sabê-lo, aguardam aquilo mesmo que Lutero encontrou, aquele contato íntimo e direto do homem com Deus, aquela

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fé que dá a segurança da salvação. Será necessário, portanto, que Lutero pregue o Evangelho puro e que console a seus irmãos com a boa-nova que o consolou.38 Sobre esse assunto afirma Valença: A descoberta de Lutero do verdadeiro sentido da palavra de Deus não foi o resultado de pesquisas longas e pacientes e não foi o fruto de uma revelação súbita e miraculosa. O problema religioso que o preocupava desde sua entrada no convento era o da justiça de Deus. O texto que lhe trouxe a luz quanto ao sentido real da vida do homem guiada pela fé foi uma passagem da Epístola aos Romanos, que retoma uma afirmação do profeta Habacuque (2.439): “O justo viverá da fé”. A partir daí, interpretando justiça divina como misericórdia divina, Lutero dará uma nova compreensão à palavra de Deus, de acordo com o pensamento de Santo Agostinho.40 Depois que Lutero entendeu a verdade de que o ser humano é aceito por Deus por graça, pela fé em Jesus Cristo, ele enfrentou mais sofrimentos, agora como pastor e cura d’almas. O seu sofrimento era em razão de verem tantas pessoas sendo enganadas com a venda das indulgências. O frade dominicano João Tetzel afirmava: “Tão logo o dinheiro na arca tinir, a alma do purgatório há de sair”.41 Num sermão de 1516 Lutero afirma: “Tomai cuidado que as indulgências não produzam em nós uma falsa segurança, uma inércia culpável, a ruína da graça interior”!42 Greiner afirma: “Quando, no confessionário, Lutero se recusa dar a absolvição a um pecador
38 GREINER, 1969, p. 45. 39 Nota da RT: Sobre a justificação pela fé, veja artigo publicado na RT #1. Veja no blog: http:// www.revistateologia.blogspot.com. 40 VALENÇA, 1974, p. 64. 41 JUST, 2003, p. 63. 42 GREINER, 1969, p. 52. 80 | Teologia | Junho e Julho, 2011

endurecido, este o chacoteia às barbas, brandindo ante seus olhos o bilhete que acaba de comprar. Esta perversão do sentido religioso aterroriza o pastor”.43 O gemido angustiante do pastor e cura d’almas não encontra eco. Então Lutero faz uso do seu privilégio de doutor em teologia e a 31 de outubro de 1517, fixa as suas 95 teses na porta da igreja do castelo, em Witenberg. Greiner afirma que “dois meses antes já expressara nas mesmas formas, sua angústia e seus temores em uma série de 97 teses ... por amor à verdade e pelo desejo de pô-la à plena luz”.44 Valença dá mais detalhes da publicação das 95 teses. Afirma ele que tinha uma introdução com os seguintes dizeres: Controvérsia destinada a mostrar o valor das indulgências. Por amor à verdade e no afã de trazê-la à luz, é preciso que haja, em Wittenberg, uma discussão sobre as afirmações abaixo, de responsabilidade do padre Martinho Lutero, mestre em artes livres e em teologia e professor da universidade. Por esta razão, pede-se aos que não puderem comparecer ao debate verbal que o façam por escrito. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém”.45 Lutero também sofreu com as ameaças dos seus adversários. Numa carta endereçada a Staupitz Lutero escreve: Quanto às ameaças de meus adversários, não tenho outra resposta que estas palavras
43 GREINER, 1969, p. 52. 44 GREINER, 1969, p. 53. 45 VALENÇA, 1974, p. 81.

de Reuchlin: pobre não teme nada porque não tem nada a perder. Não tenho nenhuma fortuna nem tampouco desejo tê-la. Não me sobra nada mais do que meu pobre corpo cansado pelos perigos e pelas numerosas e contínuas adversidades. Se, por astúcia ou por violência, e, em todo caso, para a glória de Deus, eles me levam ao suplício, não farão mais que abreviar minha vida por uma ou duas horas, e me ajudarão deste modo a chegar mais rápido ao céu.46 Lutero denunciou as falhas que enxergava no ensino da Igreja e as denunciou. Segundo Valença “a descoberta dessas falhas produziu em Lutero um dilaceramento doloroso que foi origem de suas hesitações e contradi46 GREINER, 1969, p. 59.

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comparecer. Lutero respondeu da seguinte maneira: Se me chamarem, irei; se não tiver são, irei doente. Se César me cita, não há dúvida de que é Deus que me chama. Se usarem de violência contra mim, o que é bem provável, porque não há de ser para me instruir que eles me estão chamando, eu entregarei minha causa nas mãos do Senhor. Ele ainda vive e reina.49 Lutero recebeu uma intimação do imperador para comparecer em Worms. Afirma Valença: Seu estado de saúde era precaríssimo e seus amigos temiam por sua segurança. Ele escreve a Espaladino que lhe aconselhava prudência: “Irei a Worms, mesmo que nesta cidade houvesse tantos diabos quantas telhas nos telhados. Se Hus foi queimado, a verdade não o foi”.50 Just complementa com outra frase de Lutero: E ainda que meus inimigos fizessem, entre Wittenberg e Worms, uma fogueira que se erguesse até o céu, eu haveria de comparecer em nome do Senhor e me enfiaria na boca do diabo, entre os seus dentes enormes, para confessar a Cristo, entregando tudo em suas sábias mãos.51 Lutero sofreu muito depois do edito de Worms. Este edito pronunciava a proscrição sobre Lutero e sobre todos aqueles que lhe concedessem abrigo e ajuda. O edito
49 VALENÇA, 1974, p. 94. 50 VALENÇA, 1974, p. 95. 51 JUST, 2003, p. 75.

dizia:

ções, tornando-se vítima de um drama existencial lento e penoso”.47 Em 31 de outubro de 1518, data do primeiro aniversário da fixação das 95 teses na porta da igreja do castelo, em Witenberg, Lutero escreve a um amigo: “Graças a Deus! E eis-me aqui entrando são e salvo em Witenberg. Ignoro quanto tempo poderei ficar aqui, porque minha causa é tal que temo do mesmo modo que espero”.48 Lutero foi convocado pelo imperador Carlos V para comparecer a dieta de Worms. O imperador já tinha mandado queimar seus escritos a fim de tornar o papa seu aliado. O príncipe eleitor Frederico, da Saxônia estava ciente dos riscos que Lutero corria e se nega a levar Lutero. Pergunta, então, ao próprio Lutero qual seria a sua atitude se tivesse que
47 VALENÇA, 1974, p. 81. 48 GREINER, 1969, p. 63.

Visto que Lutero, a quem havíamos convocado para Worms, ainda persiste em suas opiniões públicas e heréticas, nós decidimos aplicar, como antídoto contra esta terrível moléstia contagiosa, segundo o unânime conselho dos príncipes eleitores, príncipes e dignitários do império, a execução da bula papal. Ordenamos, pois, a todos vós, sob pena de proscrição, que, a partir doa dia 14 deste mês de maio, não deis ao mencionado Lutero morada, nem comida, nem bebida, nem lhe presteis, de forma manifesta ou oculta, qualquer tipo de ajuda e adesão por meio de palavras ou atos, mas que, pelo contrário, se tiverdes oportunidade, o prendais e o remetais bem guardado à nossa presença. Também os seus adeptos, protetores e sucessores deveis subjugar e prender, tomando posse dos seus bens. Os livros e escritos venenosos de Lutero devem ser queimados e destruídos de qualquer jeito.52

Diz Delumeau: Exilado do Império, Lutero não devia ser recebido por ninguém. Reconhecido, podia ser morto não importa por quem, ou pelo menos entregue à justiça. Mas precisamente antes do edito ser publicado, alguns cavaleiros enviados por Frederico o Sábio apoderaram-se do reformador que se afastava de Worms e conduziram-no sob escolta ao castelo de Wartburgo. Aí ficou, sob o nome de cavaleiro Georges, até 6 de março de 1522. Passou depois o resto de sua vida em Wittemberg e não regressou à sua cidade natal de Eisleben senão para lá morrer (1546).53 Greiner, por sua vez, afirma:
52 JUST, 2003, p. 81. 53 DELUMEAU, 1987, p. 98. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 81

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A 25 de março, o edito de Worms, redigido por Aleandro e fraudulentamente antedatado, declara inimigo público o reformador, seus adeptos, seus parentes e seus eventuais protetores. Estão sem casa nem lar, entregues às mãos do primeiro milico que se apresente. Os livros de Lutero serão queimados em todas as partes. Seus bens e os de seus protetores serão confiscados. O édito de Worms, prescrevendo Lutero do Império, não será jamais levantado. Durante toda a sua vida, esquece-se disso muito seguidamente, o reformador não conhecerá jamais a segurança material à qual todo homem é tão apegado.54 Mesmo estando no castelo de Wartburg, depois das fadigas de Worms, Lutero sofre porque achava que se tivesse agido como devia, ele teria sido queimado. Segundo Just, “o desaparecimento de Lutero causou muita tristeza entre seus amigos”.55 Ele afirma: Albrecht Dürer, famoso pintor de Nuremberg, que desde o começo recebera com júbilo as mensagens de Lutero, escreveu em seu diário que “se ele ainda está vivo, eu não sei; mas, se o mataram, ele sofreu isso por amor às verdades cristãs e por ter censurado o injusto e opressivo papismo. Oh! Meu Deus, se Lutero está morto, quem nos pregará doravante o santo evangelho em toda a sua pureza”?56 Lá do castelo Lutero escreve para Espaladino, dizendo: “Estou em angústias e minha consciência se atormenta porque em Worms, cedendo aos teus conselhos e aos de teus amigos, deixei enfraquecer o Espírito em mim, em vez de fazer que se levantasse, frente aos ídolos, um novo Elias”.57
54 55 56 57 GREINER, 1969, p. 110. JUST, 2003, p. 81. JUST, 2003, p. 81s. GREINER, 1969, p. 114s.

No dia 24 de agosto de 1522, em Orlamonde, Lutero também passou por uma situação de sofrimento. A ira do povo contra ele era tão grande que Lutero teve que fugir às pressas com a multidão gritando para ele para “sumir daqui em nome de mil demônios! Oxalá partisses o pescoço antes de sair da cidade”58 Greiner complementa: Estas cenas de violência impressionaram profundamente o reformador que, mais uma vez, crê dever arrepender-se de ter, por falta de firmeza, escapado da fogueira em Worms. Profundamente ferido pelas divisões que surgiram entre seus próprios amigos, cheio de inquietudes pelo porvir da Reforma, escreve ao Cavaleiro Hartmut de Kronberg: “Todos os meus inimigos e todos os diabos, que tão forte me têm oprimido, não me feriram assim, como agora
58 JUST, 2003, p. 86.

sou ferido pelos nossos. Confesso que a fumaça (da revolta) me morde os olhos e me faz mal ao coração. É assim, diz o diabo, que tiro a Lutero a sua coragem e que abaterei a sua firmeza de espírito”.59 O ano de 1527 foi para Lutero um ano de provas e sofrimentos. Afirma Greiner: A peste grassa em Wittenberg. A maioria dos estudantes e dos professores deixaram a cidade, mas Lutero e sua família permaneceram no seu posto de combate, apesar de Catarina estar grávida. O reformador, enfermo, está à beira da morte. Até sobre o seu leito de dor o persegue o pensamento de seu combate. Se deve
59 GREINER, 1969, p. 133.

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morrer, quer ao menos que todo o mundo saiba que, face à eternidade, não se retratou de uma só de suas convicções. A Justo Jonas e a Pomeranus que o assistem, diz: “Como o mundo gosta de mentir, muitos dirão sem dúvida que antes de minha morte, tivesse revogado minha doutrina, eis porque vos peço insistentemente que queirais ser as testemunhas da confissão de minha fé. Digo, com boa consciência, que ensinei a verdade segundo a Palavra de Deus, seguindo a ordem de Deus que me atraiu e constrangeu, sem minha vontade. Sim, ensinei corretamente no tocante a fé, à cruz, ao sacramento e aos outros artigos da doutrina cristã...É verdade que, às vezes, fui muito mordaz e combati duramente meus adversários, mas não de maneira de que devesse arrepender-me. Seja que tenha sido impetuoso ou moderado, jamais busquei seu prejuízo; jamais, sobretudo, a perda da sua alma. Sempre quis a felicidade, a salvação de todos, inclusive de meus inimigos.60 Segundo Greiner “ao sofrimento físico de Lutero se
60 GREINER, 1969, p. 167.

ajunta o sofrimento moral. A 10 de novembro de 1527 escreve a Justo Jonas: Erasmo e os sacramentários escrevem contra mim. Fazem bem em pisar-me os pés, a mim, miserável; é preciso que sigam o exemplo de Judas e que me obriguem a exclamar com Cristo: “Perseguiram o inocente e o pobre; mortificaram aquele que tem um coração contrito”... E quem me salvará, quem me consolará, se o próprio Cristo, por causa de quem me odeiam, também me desampara? Mas não, ele jamais me abandonará a mim, mísero pecador, o último dos homens, estou certo. Oh! Queira Deus que Erasmo e os sacramentários possam provar, durante um só quarto de hora, tudo o que o meu pobre coração está padecendo!... Olha, meus inimigos são fortes, derramam sobre minha alma dor sobre dor.61 Junghans relata sobre o sofrimento físico de Lutero: Lutero foi atormentado por muitas enfermidades, que dificilmente podem ser atribuídas a uma única origem comum. Em seus últimos anos de vida sofreu especialmente em razão de fraqueza na cabeça e de dores provocadas por cálculos na bexiga... A 6 de julho de 1527 Lutero sofre um terrível acesso... Se sente fraco e se recolhe ao leito. Ao levantar, é importunado por um forte zumbido no ouvido esquerdo, que soa como ondas do mar, o que o leva a deitar61 GREINER, 1969, p. 168.

-se novamente. Sente que vai desmaiar e chama seu amigo Justo Jonas... Jonas apanha um vaso de água e despeja sobre o rosto e nas costas de Lutero. Este conta com a sua morte. Despede-se de sua esposa Catarina e de seu filho João, de um ano de idade. O médico que foi trazido, o Dr. Augustin Schurff, aquece-o com toalhas e almofadas aquecidas. O desmaio passa e as forças retornam.62 Em 1542 Lutero viveu um grande sofrimento com a enfermidade e a morte de sua filha Madalena, que tinha apenas 14 anos. A sua enfermidade se prolongou por mais 14 dias, prolongando o seu sofrimento e o do pai. Just afirma: Quando a esperança de restabelecimento se enfraquecia cada vez mais, Lutero orava: “Eu a amo muito, Senhor, e gostaria imensamente de ficar com ela entre nós; mas, Senhor Deus, como é da tua vontade levá-la desta vida, então me sentirei feliz sabendo que ela estará junto de ti, no céu.” E quando a morte já tocava a lívida face da menina, o pai lhe sussurrou no ouvido: “Madalena, minha filhinha, não é assim que gostarias de ficar aqui com o teu paizinho, mas também gostarias de partir para junto do teu Pai no céu?” Resignadamente, a menina respondeu: “Sim, paizinho do coração, seja como Deus quiser.63 Quando ela morreu nos braços do pai, a esposa de Lutero, Catarina, também estava presente. Ela chorava muito e estava desconsolada. Então Lutero a confortou, dizendo: Minha querida, pensa bem para onde ela vai! Lá ela se sentirá plenamente feliz. Quando a deitaram no
62 JUNGHANS, Helmar. Temas da Teologia de Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 2001, p. 85s. 63 JUST, 2003, p. 113. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 83

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ataúde, Lutero exclamou: que graça alcançaste, querida Leninha! Tu hás de ressuscitar e brilhar como as estrelas, como o próprio Sol! E para as pessoas que estavam presentes, ele falou assim: Estou alegre em espírito, mas, segundo a carne, estou muito triste. A despedida sempre nos causa uma profunda dor. Coisa esquisita é saber que ela está em paz no céu, e a gente, assim mesmo, sentir-se tão triste.64 Segundo Junghans, quando Lutero participou o falecimento de sua filha Madalena ao seu amigo Justo Jonas, ele escreveu: O poder do amor natural é tão grande, que nós não o podemos fazer sem soluçar e gemer o coração, sim, nem mesmo sem grande mortificação. Pois, os olhares, palavras e gestos da filha obediente e respeitosa ao extremo, quando viveu e quando morreu, se prendem no fundo de nossos corações, de maneira que nem mesmo a morte de Cristo pode retirar esse pesar como deveria.65 Depois deste triste episódio Lutero está constantemente enfermo. Para a duquesa Sibila ele escreve: “A idade já se faz sentir. É que já sou velho, frio, enfermo, doente e fraco. Tanto tempo vai o cântaro à fonte até que se quebra. Já vivi bastante. Que Deus me conceda uma morte pacífica”.66 Em 23 de janeiro de 1546 Lutero saiu
64 JUST, 2003, p. 114. 65 JUNGHANS, 2001, p. 93. 66 GREINER, 1969, p. 199.

de Wittenberg e foi a Mansfeld para tentar a reconciliação dos condes que estavam brigados por causa de herança. O esforço foi grande, mas no dia 16 de fevereiro, uma terça-feira, chegaram a um acordo. Greiner afirma: Quarta-feira de manhã assina uma das atas do acordo que põe fim ao conflito. O resto do dia passa em meio de sofrimentos crescentes e, na sexta-feira, 18 de fevereiro, pelas três horas da madrugada, Lutero morre na cidade de Eisleben.67 Fraz Lau dá outros detalhes sobre a morte de Lutero. Ele diz: Após poucas horas de extrema fraqueza física, ele faleceu rodeado de seus companheiros de viagem. Em torno dele estavam Justus Jonas, o pregador da corte de Mansfeld Michael Coelius, Johann Aurifaber, os filhos de Lutero e o educador dos mesmos, Rudtfeld. A causa da morte certamente não foi uma apoplexia (Lutero morreu em plena consciência), mas seu antigo problema cardíaco... No leito de morte Lutero usou uma arte de falecer medieval. Ao ser interrogado: “Reverendo pater, desejais manter-vos persistentes em Cristo e a
67 GREINER, 1969, p. 202.

doutrina que pregais?” E ele respondeu com um nítido “sim”.68

O Sofrimento humano e a compaixão de Deus em Lutero O que Lutero entende por sofrimento humano?
Deus não é indiferente ao sofrimento humano. Ainda assim, no intuito de revelar-se como Deus, age de forma diferente no sofrimento. Segundo Lutero, é necessário compreender de forma diferente o sofrimento de um cristão e das outras pessoas. Em relação aquele que não é cristão, ele diz: Pois outra gente também tem sua atribulação, cruz e infelicidade, ainda que passem um tempo num mar de rosas e desfrutem de felicidade e de bens segundo a sua vontade, a seu bel-prazer; mas, quando entram em
68 LAU, Franz. Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 1980, p. 103.

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provação e sofrimento, com nada conseguem se consolar, pois não têm as grandiosas promessas e a confiança em Deus, que os cristãos têm; por isso não podem ter o consolo que em Deus os possa ajudar e suportar a provação, menos ainda conseguem eles perceber nele que fará mudar para o bem essa provação e pena. Assim acontece então, como vemos, que em pequenas tribulações eles não conseguem subsistir. E quando advêm provações de grande vulto, eles até se desesperam, põem um fim à sua vida ou querem libertar-se da sua pele, como se o mundo inteiro estivesse apertado demais para eles. Por isso não conseguem moderar-se nem na felicidade, nem na infelicidade: quando estão passando bem, então é que se tornam as pessoas mais ultrajantes, petulantes e vaidosas que se pode encontrar; quando passam mal, ficam abatidos e desanimados... Assim é que acontece quando

não se tem as promessas e a palavra de Deus. Mas os cristãos têm seu consolo no maior dos sofrimentos e na maior infelicidade.69 Em relação ao cristão, Lutero diz que “o sofrimento de Jesus é um exemplo que devemos seguir em nosso sofrimento”.70. E acrescenta: É claro que o nosso sofrimento e cruz não devam ser apresentados como se por eles quiséssemos ser salvos ou alcançar o menor mérito que fosse. Mesmo assim devemos seguir a Cristo no sofrimento, para que nos tornemos iguais a ele; porque Deus decidiu que não só creiamos no Cristo crucificado, mas também sejamos crucificados e soframos com ele, conforme ele o indica claramente em muitas passagens nos evangelhos: ‘Quem não toma sua cruz sobre si’, diz ele, ‘e não segue a mim não é digno de mim’ (Mateus 10.38); igualmente: ‘Já que chamam o dono da casa de Belzebu, quanto mais não o farão com os seus domésticos?’ (Mateus 10.25) Por isso cada um tem que carregar uma parte da
69 LUTERO, Martinho. Um sermão sobre sofrimento e cruz. In: Pelo Evangelho de Cristo. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1984, p. 301s. 70 LUTERO, 1984, p. 298.

santa cruz, e nem pode ser diferente. S. Paulo também diz assim: ‘Em minha carne eu completo aquilo que ainda falta no sofrimento de Cristo’ (Colossenses 1.24), como se dissesse: Toda a sua cristandade ainda não está pronta por inteiro; nós também temos que seguir esse caminho, para que nada no sofrimento de Cristo falte nem se perca, mas que tudo seja reunido. Assim cada cristão precisa se dispor, para que a cruz não seja excluída de sua vida.71 Ainda sobre esse assunto Lutero afirma: O estado cristão é discipulado do sofrimento. Sua baixeza se revela no ato de levar ao sofrimento. O sofrimento de Cristo ainda se repete diariamente em nós. Por isso nossos sofrimentos são obra do Espírito Santo; Deus não quer sofrimento de escolha própria. A vontade de Deus pode acontecer quando a nossa não acontece. Nosso sofrimento, porém, é vontade de Deus. Quando nos manda ao sofrimento, Deus realiza sua obra alheia. Nisso, porém, visa sua obra própria, mesmo que não a reconheçamos. Devemos alcançar o sábado da alma através do sofrimento.72 Lutero, inclusive, define e descreve que tipo de sofrimento é esse. Ele diz: Entretanto deve e precisa ser uma
71 LUTERO, 1984, p. 298s. 72 LOEWENICH, Walther von. A Teologia da Cruz de Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 1988, p. 118.

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cruz e sofrimento tal que tenha um nome e realmente angustie e doa, como, por exemplo, quando estão em grande perigo os bens e a honra, o corpo e a vida. Este sofrimento se sente muito bem e ele angustia, caso contrário não seria sofrimento, se não doesse muito.73 Lutero também comenta o sentido e o objetivo desse sofrimento. Ele diz: E este outro não é outro do que desdobrar a fé e torná-la forte. Sem dúvida, Lutero conhece um sofrimento que é castigo do pecado; no entanto é característico da teologia da cruz justamente a interrelação de sofrimento e fé. O sofrimento revela-se como o caminho mais seguro para Deus, ou antes, no sofrimento Deus vem ao nosso encontro. Por isso o sofrimento deve ser considerado um santuário que santifica a pessoa, ou seja, separa a pessoa de suas obras naturais para o serviço de Deus. Os sofrimentos são sinal da graça de Deus, prova de nossa filiação divina. Pois os olhos de Deus estão voltados sempre para as profundezas, nada de grande pode subsistir perante eles; quando, porém, uma pessoa está oculta nessas profundezas, experimentará o maravilhoso, salvífico poder criador de Deus. É verdade que o sofrimento dos santos só acaba com o dia derradeiro, seu sentido, porém, não é castigo e destruição, ao contrário do que acontece com o sofrimento dos ímpios, mas, sim, graça e purificação.74 Lutero também afirma que o sofrimento não pode ser escolhido pela pessoa, mas que ele nos deve ser imposto. Quando esse sofrimento nos sobrevier, é preciso que seja carregado com paciência. Ele diz: Além disso, deve ser um sofrimento
73 LUTERO, 1984, p. 299. 74 LOEWENICH, 1988, p. 118s. 86 | Teologia | Junho e Julho, 2011

que não escolhemos para nós mesmos, como os espíritos sectários escolhem um sofrimento próprio para si mesmos; deve ser um sofrimento que, se possível, gostaríamos que fosse eliminado, o qual, no entanto, nos é imposto pelo diabo ou pelo mundo. E então é necessário que se permaneça firme e se conforme com ele... Que se saiba que temos que sofrer, para que assim assumamos forma igual a Cristo, nem podendo ser diferente; cada um tem que ter sua cruz e sofrimento. Quando a gente sabe disso, ela fica tanto mais amena e suportável, e agente pode consolar-se, dizendo assim: Tudo bem, se quero ser cristão, também tenho que vestir a camiseta, o caro Cristo não dá outro uniforme em sua corte. Sofrer é preciso. Isto os espíritos sectários não conseguem fazer, pois escolhem sua própria cruz; mas ficam de má vontade e reagem com os punhos — isto é que é um sofrimento bonito e louvável!

... Ensinamos que ninguém pode impor-se ou escolher uma cruz ou sofrimento para si mesmo. Se, porém, ela sobrevier, que a carreguemos e suportemos com paciência.75 Lutero afirma ainda “que o caminho passa por esta porta. Só que tem que saber o seguinte: Se não está disposto a sofrer, também não será servo na corte. Faça, então, o que dos dois preferir: sofrer ou negar a Cristo”.76 Ao cristão, segundo Lutero, “é grande o tesouro e consolo que lhe é prometido e dado, que bem deveria sofrer de bom grado e com alegria”.77 Nos momentos das maiores dificuldades, angústias e sofrimentos o cristão, segundo Lutero, poderá dizer: Ainda que eu sofra por muito tempo, o que é
75 LUTERO, 1984, p. 299. 76 LUTERO, 1984, p. 300. 77 LUTERO, 1984, p. 300.

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isso diante de semelhante tesouro que Deus me deu, que eu viverei eternamente com ele? Eis, portanto, que o sofrimento se tornaria doce e leve, e deixaria de ser sofrimento eterno, para ser algo moderado, que dura pouco tempo e logo passa novamente.78 Lutero também explica a razão dos cristãos encararem o sofrimento dessa maneira: Pois eles levam em consideração o enorme e abundante presente de Cristo que, com seu sofrimento e mérito, tornou-se inteiramente nosso. Assim, o sofrimento de Cristo é tão poderoso e forte a ponto de preencher céu e terra, rompendo o império e poder do diabo e do inferno, da morte e do pecado. Se agora você compara esse
78 LUTERO, 1984, p. 300.

tesouro com a sua provação e sofrimento, parecer-lhe-á um dano pequeno contra tamanho bem, caso perder um pouco dos seus bens, sua honra, saúde, mulher, filho, seu próprio corpo e sua vida; mas se não quer atentar para este tesouro tão grande, nem sofrer nada por ele, tudo bem, vá e largue-o: para quem não crê, para nada servirão esses inefáveis bens e dons.79 Lutero afirma que o sofrimento do cristão é diferente dos demais, pois eles se apegam à compaixão de Deus em Cristo e encontram consolo. Lutero diz: Portanto, nossa atitude diante do sofrimento deve ser esta: Dirigirmos nossa atenção maior para as promessas de que nossa cruz e provação deverão ser mudadas para o bem, como jamais teríamos desejado ou sequer pensado. E é justamente este ponto que constitui uma diferença entre as penas e provações dos cristãos e as das outras pessoas.80 Lutero orienta aquele que está vivendo em tribulação e sofrimento, dizendo que esta pessoa deve pensar assim: Esta cruz não fui eu mesmo quem a escolheu e preparou; ela é culpa da querida palavra de Deus que estou sofrendo isto e que eu tenho e ensino a Cristo. Deixe estar, em nome de Deus. Eu deixo que ele tome as rédeas e dê cabo disso, ele que já de há muito me falou desse sofrimento e
79 LUTERO, 1984, p. 300. 80 LUTERO, 1984, p. 301.

me prometeu sua ajuda divina e misericordiosa.81 Para Lutero a verdadeira arte no momento do sofrimento é esta: Atentar em sofrimento e cruz para a palavra e a promessa consoladora e dar fé às mesmas, como ele diz: ‘Em mim tereis paz, no mundo, porém, aflições’ (Jo 16.33), como se ele quisesse dizer: Não há dúvida de que vocês se defrontarão com perigos e terrores quando assumirem minha palavra; mas venha o que vier, isto virá sobre vocês e lhes acontecerá por causa de mim. Portanto, fiquem tranquilos, eu não os abandonarei. Estarei com vocês e lhes ajudarei. Por maior que seja a atribulação, ela lhe parecerá insignificante e leve, se puder tirar estes pensamentos da palavra de Deus. Por isso cada cristão deve preparar-se, para que na tribulação se proteja e guarde com as promessas excelentes e consoladoras que Cristo, nosso Senhor amado, deixou para nós quando sofremos por causa da sua palavra.82 Lutero também afirma que é importante verificar por que Deus nos manda o sofrimento. Ele diz: A razão está em que ele nos quer fazer iguais a Cristo, que nós fiquemos iguais a ele aqui em sofrimento e lá, na vida além, na glória e magnificência, conforme ele diz: ‘Cristo não teve que sofrer e assim entrar para a glória?’ (Lucas 24.26) Isso Deus não o pode ocasionar em nós senão através de sofrimento e tribulação a que ele nos submete através do diabo ou de outra gente perversa.83 Lutero tinha plena consciência que só na vivência, no agir e no sofrimento o
81 LUTERO, 1984, p. 304. 82 LUTERO, 1984, p. 305. 83 LUTERO, 1984, p. 305s. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 87

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cristão poderia experimentar o verdadeiro sentido do sofrimento de Cristo. Ele afirma: A obra própria e natural do sofrimento de Cristo é tornar a pessoa igual a ele, para que, como Cristo é torturado miseravelmente em corpo e alma em nossos pecados, também nós devemos ser martirizados desta forma, a seu exemplo, na consciência de nossos pecados; não há outro jeito: tens que assumir a mesma forma da figura e do sofrimento de Cristo, quer aconteça aqui ou no inferno; o sofrimento de Cristo não se faz com palavras ou aparência, mas com a vida e de fato ... Pois não importa que emolduremos em ouro e prata lascas da cruz, mas que carreguemos com alegria em nosso corpo os sinais do sofrimento de Cristo. Pois somente quando nos encontramos no sofrimento tornamo-nos partícipes do benefício que a cruz de Cristo nos conquistou, de acordo com a doutrina ortodoxa, o perdão.84 Lutero afirma ainda que Deus permite o sofrimento dos cristãos para que não se acomodem. Ele diz: É sumamente necessário que soframos não só para que Deus comprove sua glória, força e poder contra o diabo. Também é preciso sofrer pela razão de que o excelente tesouro que possuímos, quando não está passando necessidade e sofrimento, só nos põe a roncar e nos torna seguros, como estamos vendo e infelizmente é o caso em geral ... Por isso é necessário que sejamos atormentados pelo diabo através de perseguição ou senão por algum espinho secreto que nos fere o coração, como também se queixa S. Paulo (2Co 12.7). Sendo, portanto, melhor que se tenha uma cruz do que estar sem cruz, ninguém precisa se assustar ou apavorar com ela. Você tem uma
84 LOEWENICH, 1988, p. 120s. 88 | Teologia | Junho e Julho, 2011

promessa boa e forte com que se consolar. Senão o evangelho também não pode se manifestar, senão através e dentro do sofrimento e cruz... O sofrimento dos cristãos é mais nobre e de valor maior que o de todas as outras pessoas, porque Cristo, tendo-os colocado nesse sofrimento, também santificou o sofrimento de todos os seus cristãos... Através do sofrimento de Cristo também o sofrimento de todos os seus santos se tornou puro santuário, pois está ungido com o sofrimento de Cristo. Por isso não devemos aceitar todo sofrimento senão como santuário, pois também é de fato uma coisa sagrada.85 Importante ainda salientar que Lutero enfatiza que nos momentos de sofrimento pelos quais um cristão passa Deus não o abandona, mas providencia socorro e ajuda. Ele diz: Temos consolo e promessa segura de que ele não nos deixará presos no sofrimento, mas que nos ajudará a nos livrarmos, ainda que todas as pessoas se desesperassem disso. Por isso, ainda que doa, vamos lá, você tem que sofrer com alguma coisa de qualquer jeito, pois nem sempre pode estar tudo em ordem. Tanto faz, sim, até é mil vezes melhor sofrer por causa de Cristo, que nos prometeu consolo e ajuda no sofrimento, do que sofrer por causa do diabo e cair no desespero e perdição, sem consolo e ajuda.86
85 LUTERO, 1984, p. 307. 86 LUTERO, 1984, p. 308.

O que Lutero entende por compaixão de Deus?
Lutero viveu numa época em que o pensamento escolástico “faz o que está ao teu alcance” ensinava que a salvação é um processo que acontece dentro de nós à medida que nós nos aperfeiçoamos. Em outras palavras que “nós nos tornamos justos diante de Deus à medida que realizamos atos justos.”87 Lindberg afirma: Uma das ideias escolásticas centrais que levaram a essa incerteza com respeito à salvação exprimia-se na expressão facere quod en se est: faz o que está ao teu alcance; faz o melhor que podes. A expressão significava que o empenho de amar a Deus da melhor maneira possível — por mais fraco que ele pudesse ser — levaria Deus a recompensar os esforços da pessoa em questão com a graça de agir e fazer ainda melhor. Cada vez mais se percebia a vida de peregrinação do cristão rumo à cidade celestial como uma economia da salvação, e isso de maneira literal, não simplesmente teológica. Como se mencionou antes, essa “matemática da salvação” concentra87 LINDBERG, Carter. As Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001, p. 81.

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va-se em alcançar tantas boas obras quantas fossem possíveis a fim de merecer a recompensa de Deus. Na religião, assim como no capitalismo primitivo, o trabalho contratado merecia recompensa. Os indivíduos eram responsáveis pela sua própria vida, pela sociedade e pelo mundo com base nos limites e dentro dos limites estipulados por Deus. O objetivo da prática pastoral era o de oferecer um caminho para a segurança através da participação humana no processo da salvação. Essa teologia, porém, acabou aumentando a crise, pois ela fazia as pessoas depender de seus próprios recursos. Ou seja: por mais assistidas pela graça que fossem as boas obras, o ônus da prova em favor dessas mesmas obras recaía em seus executores.88 Segundo Lindberg esse conceito “faz o que está ao teu alcance, faz o melhor que podes” veio de Aristóteles. Ele explica: Se considerarmos por um instante a maneira como os teólogos medievais aplicavam apenas duas das idéias de Aristóteles, poderemos ver quão influente ele era. Na lógica, Aristóteles
88 LINDBERG, 2001, p. 78.

postulava que “o semelhante é conhecido pelo semelhante”. Aplicado à teologia, este postulado significava que a comunhão com Deus somente pode ocorrer quando o pecador é elevado à semelhança com Deus. O pecador precisa tornar-se santo porque Deus é santo e não se associa com os que carecem de santidade. À pergunta relativa a onde a comunhão com Deus pode ser alcançada, a resposta somente poderia ser: no nível de Deus. O pecador tem de tornar-se “como” Deus, ou seja, tem de se tornar perfeito e ser elevado à posição em que Deus se encontra... Mas como o pecador haverá de realizar esta proeza? É neste ponto que entra em cena a outra idéia de Aristóteles. Aristóteles falava do melhoramento de si em termos daquilo que ele designava de habitus, uma modificação pessoal através da prática. Uma pessoa torna-se violonista ao praticar o violão

ensaiando; torna-se um bom cidadão ao praticar virtudes cívicas; torna-se uma pessoa ética ao praticar virtudes morais; e assim por diante. Através desses hábitos ou práticas, á ética torna-se uma espécie de segunda natureza... Os teólogos medievais adotaram essa idéia, que basicamente faz parte do bom senso, e aplicaram à questão de como alcançar a justiça diante de Deus. Eles “batizaram” a filosofia de Aristóteles dizendo que através dos sacramentos Deus infunde em nós um “hábito” sobrenatural. Com base nessa graça habitual, somos responsáveis por torná-la efetiva, por fazer o que agora está ao nosso alcance. Na medida em que aperfeiçoamos os dons que Deus nos deu, merecemos mais graça. Tomás de Aquino (1225-74) afirmou que a graça não suprime a natureza, e sim a aperfeiçoa. Consequentemente, a famosa expressão escolástica “faz o que está ao teu alcance” significa que a salvação é um processo que ocorre dentro de nós à medida que nos torna mais perfeitos. Colocando a questão de outra maneira: nós nos tornamos justos diante de Deus à medida que realizamos atos

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justos, à medida que fazemos boas obras. Mais uma vez, contudo, a pergunta que se coloca é: “Como é que vou saber se fiz suficientes boas obras para merecer a salvação?” 89 Portanto, as pessoas continuavam com a dúvida se tinham feito o melhor que podiam. A resposta da igreja é que elas fizessem ainda melhor. Tudo isso gerava uma grande insegurança e ansiedade nas pessoas. Esta ansiedade está expressa no catecismo de Dieterico Kolde que afirmava: “Há três coisas que sei serem verdadeiras e que frequentemente me pesam no coração. A primeira aflige o meu espírito, porque eu terei de morrer. A segunda aflige mais meu coração, porque não sei quando. A terceira me aflige mais que tudo: não sei para onde irei.”90 Seguindo este ensinamento de fazer o melhor que pudesse Lutero se empenhou para obter a salvação. Diz Lindberg: Entre as seis celebrações religiosas de cada dia, que começavam às 2 horas da manhã, ele encaixou sessões de oração, meditação e exercícios espirituais intensos. Mas isso era apenas a rotina normal, que Lutero, em seu zelo por mortificar sua carne e tornar-se aceitável a Deus, logo ultrapassou. “Eu me torturava com
89 LINDBERG, 2001, p. 88s. 90 LINDBERG, 2001, p. 82. 90 | Teologia | Junho e Julho, 2011

orações, jejuns, vigílias e congelamento; só a geada podia ter me matado... Jejuei quase até a morte, pois muitas vezes passava três dias sem tomar uma gota de água ou aceitar um bocado de comida, eu levava o jejum muito a sério”91 Lindberg também explica que a teologia e a prática pastoral medieval haviam tentado oferecer segurança religiosa por meio da “teologia da aliança”. Ele afirma: Esta dizia que, se dermos o melhor de nós, Deus não irá negar-nos a graça. Embora os teólogos fizessem uso de inúmeras restrições sutis, o cerne do tema universal facere quod in se est (“dê o melhor de você”) era que as pessoas podiam pelo menos iniciar sua salvação. Isto é: se alguém se empenhar em amar a Deus da melhor maneira possível — por mais fraco que isso seja –, Deus irá recompensar a pessoa com a graça de agir e fazer ainda melhor. Os teólogos medievais sustentavam que Deus estabeleceu uma
91 LINDBERG, 2001, p. 83.

aliança conosco, com o fim de ser nosso parceiro contratual na criação e na salvação. Como no resto da vida, também na religião o trabalho merecia sua recompensa. Os indivíduos deviam ser responsáveis por sua própria vida, pela sociedade e pelo mundo com base na aliança estipulada por Deus e dentro dos limites desta aliança. Neste esquema a preocupação teológica e pastoral era a de oferecer uma rota segura por meio da participação no processo da salvação. Contudo, a consequência dessa teologia foi aumentar a insegurança e a incerteza pelo fato de fazer os indivíduos depender de seus próprios recursos.92 Apesar de se esforçar ao máximo para agradar a Deus e ter paz e certeza de salvação, Lutero se questionava constantemente. Sobre este fato Lindberg afirma: A prática monástica prezava a introspecção e o auto-exame que sondava a consciência. “Será que realmente dei o melhor de mim em favor de Deus? Será que realizei plenamente o potencial que me foi dado por Deus?” Nenhuma pessoa sensível, vivendo sob tal pressão introspectiva de alcan92 LINDBERG, 2001, p. 87.

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çar a justiça diante de Deus, tem condições de responder estas perguntas afirmativamente. Lutero vivia num constante estado de ansiedade no tocante a sua justiça. Ele buscava constantemente a orientação espiritual e confessores. Anos mais tarde, fez a seguinte observação a respeito disso tudo: “Às vezes meu confessor me dizia, quando eu discutia repetidamente uma série de pecados tolos com ele; ‘Tu és um idiota ... Deus não está zangado contigo, tu é que estás zangado com Deus.’” Ironicamente, Lutero entrou no mosteiro para superar a sua certeza de salvação, mas confrontou-se ali com a mesma introspecção que causara sua ansiedade diante de Deus, introspecção agora intensificada ao ponto de tornar-se uma arte altamente especializada.93 Foi estudando as Escrituras que Lutero mudou a sua concepção sobre a compaixão de Deus e a sua salvação. Sobre isso diz Lindberg: Ele aprendeu que a justiça de Deus não é uma exigência a ser cumprida por meio de realizações, mas sim um dom a ser aceito por fé. A experiência de conversão de
93 LINDBERG, 2001, p. 83s.

Lutero virou a piedade medieval de cabeça para baixo. Ele passou a ver que a salvação não é o objetivo da vida, mas sim seu fundamento... O que Lutero descobriu, e o que tanto sensibilizou seus colegas e estudantes, foi uma compreensão de Deus e da salvação que derrubou os ensinamentos catequéticos dominados por ansiedade de sacerdotes como Kolde. O estudo bíblico de Lutero levou-o à convicção de que não se supera a crise da vida humana através de esforços para alcançar segurança por aquilo que fazemos, mas sim pela certeza de que Deus nos aceita a despeito daquilo que fazemos. O evangelho sustentava Lutero, repudia “a idéia perversa do reino inteiro do papa, o ensinamento de que um cristão tenha de estar incerto a respeito da graça de Deus dirigida a ele. Se esta opinião for válida, então Cristo é completamente inútil”... Agora, Lutero jamais se cansava de proclamar que o ônus da pro-

va no que diz respeito à salvação não está nos atos de uma pessoa, mas sim na ação de Deus. Esta convicção o libertou daquilo que ele chamava de “o monstro da incerteza” que deixava as consciências em dúvida no tocante à sua salvação. Para Lutero a teologia está correta quando “ela nos arranca de nós mesmos e nos coloca fora de nós, de modo que não dependamos de nossa própria força, consciência, experiência, pessoa ou obras, mas dependamos daquilo que está fora de nós, ou seja, da promessa e verdade de Deus, que não podem nos iludir.94 A verdade do evangelho foi encontrada por Lutero na Bíblia e ela foi a fonte da sua clareza a respeito da compaixão de Deus. Althaus afirma: A razão não tem o conhecimento interno de Deus. A razão não pode tê-lo, porque isso está além dela. Esse conhecimento é dado a nós somente pela encarnação do Filho, quando Deus “revelou sua misericórdia” e assim abriu seu coração a nós; somente a Escritura transmite-nos tal conhecimento... conhecimento da Trindade inclui conhecimento da encarnação da segunda pessoa, e é esse conhecimento da encarnação que nos
94 LINDBERG, 2001, p. 86s.

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ensina o que Deus sente a nosso respeito em seu coração... o conhecimento geral ou natural de Deus permanece dentro dos limites da lei, para a qual o evangelho está oculto e é desconhecido. Também uma piedade legalista pode falar da bondade de Deus, mas isso não é o mesmo conhecimento de que Deus é misericordioso e aceita o pecador... A lei conhece somente a “mão esquerda” de Deus, o conhecimento evangélico conhece a “mão direita” de Deus. Para conhecer a Deus, alguém precisa “agarrar a mão direita de Deus”. Somente então conheceremos o que Deus pensa de nós e qual a sua intenção para conosco. O Deus que aprendemos a conhecer através da lei, mostra-nos suas costas (Ex 33.18-20); pelo Evangelho, que nos traz Cristo, “aprendemos a olhar diretamente para a face de Deus”.95 Com toda a experiência que teve, Lutero não acreditava que podia viver em paz com Deus por dar o melhor de si para a sua salvação. No final de sua vida ele escreveu: Embora eu vivesse como monge de vida ilibada, eu tinha o sentimento de ser um pecador diante de Deus e uma consciência extremamente perturbada... Eu odiava o Deus justo que pune os pecadores... Entretanto, eu batia de maneira inoportuna em Paulo no tocante àquele lugar, desejando saber com muito ardor o que São Paulo pretendia dizer. “Aquele lugar” é a passagem de Romanos 1.17: “Pois nele [i.é, no evangelho] a justiça de Deus é revelada pela fé e para a fé; como está escrito: ‘Aquele que pela fé é justo, viverá’”.96 A partir da compreensão deste texto houve uma mudança radical no pensa95 ALTHAUS, Paul. A Teologia de Martinho Lutero. Canoas: Ulbra, 2008, p. 34s. 96 LINDBERG, 2001, p. 89s. 92 | Teologia | Junho e Julho, 2011

mento e teologia de Lutero. Segundo Lindberg “até então Lutero, como tantos de seus contemporâneos, tinha ouvido o evangelho enquanto ameaça da justa ira de Deus como o padrão a que os pecadores deviam corresponder a fim de alcançar a salvação”97 Ele afirma: Mas nesse momento Lutero passou a se dar conta de que não devemos conceber a justiça de Deus no sentido ativo (de que precisamos nos tornar justos como Deus), e sim no sentido passivo (de que Deus nos concede sua justiça). De acordo com a descoberta de Lutero, a boa notícia é que a justificação não consiste naquilo que o pecador realiza, mas naquilo que ele recebe. Ou seja, não é o pecador que
97 LINDBERG, 2001, p. 90.

é transformado, e sim a situação dele diante de Deus. Em suma, o termo “ser justificado” significa que Deus considera o pecador justo. “Deus não deseja salvar-nos pela nossa própria justiça e sabedoria, e sim pela justiça e sabedoria externa; não pela que vem de nós e cresce em nós, mas pela que surge em nós vinda de fora; não pela que se origina aqui na terra, mas pela que vem do céu. Por conseguinte, precisamos ser instruídos por uma justiça que provém de fora e é alheia.”98
98 LINDBERG, 2001, p. 90.

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Althaus complementa: O homem, com o qual Deus trata, é um pecador, uma pessoa que experimenta e não sente nada exceto a ira de Deus. É precisamente esta pessoa, no entanto, que é desafiada a acreditar e crer na palavra do evangelho e pensar a respeito de si mesma como justificada e agradável a Deus. O “sim” de Deus a ela está oculto num severo “não”; mas a fé é a arte de apegar-se a Deus no oposto “em segurar firme o profundo e oculto ‘sim’ sob e acima do ‘não’, pois confia firmemente na palavra de Deus”.99 Althaus ainda afirma: Lutero chegou a esse conhecimento pelo conceito bíblico da justiça de Deus. Em primeiro lugar, ele a compreendeu como justiça julgadora e punitiva, então descobriu que a Escritura usa justiça como sinônimo de graça. Então ele a reconheceu como a justiça com a qual Deus, em sua misericórdia, torna as pessoas justas pela fé, isto é, atribuindo-lhes a sua própria justiça.100 Por isso, afirma Althaus: Quem quer ser justificado diante de Deus por seus próprios es99 ALTHAUS, 2008, p. 48. 100 ALTHAUS, 2008, p. 133.

forços éticos assume o lugar do Criador. Criar justiça, destruir o pecador, dar vida, tudo isso são obras exclusivas do Criador. “Ele nos fez e não nós a nós mesmos” — essas palavras do Salmo 100 não são verdadeiras somente com respeito ao dom da vida terrena, na primeira criação, mas são igualmente verdade com respeito à regeneração para a vida eterna, a segunda criação. Por esta razão, todo o sinergismo é uma completa distorção do conceito de Deus e do que o nosso fazer pode e deve significar. A idéia de que devemos e podemos buscar a comunhão com Deus através dos nossos próprios esforços, e assim conquistar a vida eterna, não é somente uma idéia tola, porque nenhum pecador está em condições de fazê-lo; mas também, como Lutero expressamente afirmou, isso é impiedade e blasfêmia, porque desta forma atacamos a posição de Deus como Deus. A reivindicação da pessoa de ter trazido algo a Deus que lhe assegura sua posição diante de Deus, não significa outra coisa do que colocar-se a si mesmo no lugar de Deus, fazendo-se seu próprio Deus e criador.101 Esta é a concepção de Lutero sobre a justiça de Deus, a compaixão de Deus, o somente a graça. Mas Lutero também enfatizou o somente a Escritura. Afirma Lindberg: De acordo com Lutero, a palavra de Deus é, em primeiro
101 ALTHAUS, 2008, p. 141.

lugar, Cristo. Em segundo lugar, a palavra de Deus é a Palavra proclamada ou falada. Lutero gostava de enfatizar que a fé vem pela audição da promessa de Deus porque estava ciente de que podemos afastar o nosso olhar de palavras escritas, mas temos mais dificuldade de fechar nossos ouvidos para palavras faladas. Somente num terceiro nível é que ele relacionou a palavra de Deus com as palavras escritas da Bíblia. A Bíblia é, antes, “os cueiros e a manjedoura em que Cristo está deitado... Simples e humildes são esses cueiros, mas precioso é o tesouro, Cristo, que neles está deitado”.102 E Lutero também enfatizou o somente a fé. Para ele “a fé não é assunto insignificante e trivial...; é, antes, uma confiança sincera em Deus, através de Cristo, de que o sofrimento e a morte de Cristo te dizem respeito e deveriam pertencer-te”.103 Lindberg acrescenta: Os seres humanos não possuem nenhuma capacidade intrínseca que lhes garanta o direito a um relacionamento com Deus. A pessoa como um todo, e não só algum aspecto “inferior”, é pecadora. Lutero compreendia o pecado em termos teológicos, e não em termos éticos. Pecado não significa fazer coisas más; significa, antes, não confiar em Deus. “A descrença é a raiz, a seiva e o principal poder de todo pecado. Em outras palavras, a pergunta da serpente a Eva é sussurrada nos ouvidos de todos. O pecado é a compulsão egocêntrica de afirmar nossa própria justiça contra Deus; é a recusa de deixar Deus ser Deus”.104 Quando o pecador reconhece o seu pecado e concorda com o juízo de Deus, ele
102 LINDBERG, 2001, p. 91. 103 LINDBERG, 2001, p. 92. 104 LINDBERG, 2001, p. 92s. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 93

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é capacitado a viver como justo, apesar do pecado. Lindberg acrescenta: Ao “deixar Deus ser Deus”, ou seja, ao interromper seus esforços para ser como Deus, o pecador obtém a permissão de ser o que é destinado a ser — humano. O pecador não é conclamado a negar a sua humanidade e buscar a “semelhança” com Deus. Antes, o perdão do pecado ocorre em meio à vida. O cristão diante de Deus é, portanto, a um só e mesmo tempo, tanto pecador quanto justo; “um pecador de fato, mas um homem justo pela segura imputação e promessa de Deus de que Ele continuará a livrá-lo do pecado até tê-lo curado completamente. Desta forma, ele é um homem inteiramente sadio segundo a esperança, mas de fato ainda é um pecador.”105 Lutero afirma: Aquela (pessoa), no entanto, que se esvaziou a si mesma pelo sofrimento, não continuará a fazer boas obras, mas ela sabe que Deus trabalha e faz todas as coisas nela. Por esta razão, se Deus faz obras ou não, é tudo a mesma coisa para ela. Ela não se inflama se faz boas obras, nem se perturba se Deus não faz obras através dela. Ela sabe que é suficiente se ela sofre e é humilhada pela cruz, a fim de ser destruída cada vez mais.106 Lindberg afirma que “o motivo teológico que relaciona a justificação com a antropologia é a distinção dialética entre lei e evangelho.”107 Ele afirma: Para Lutero, este é o nervo essencial do pensamento teológico; é o que faz um teólogo ser teólogo. “Quase toda a Escritura e o conhecimento de toda a teologia dependem da compreensão correta de lei e evangelho”. Ao longo
105 LINDBERG, 2001, p. 93. 106 ALTHAUS, 2008, p. 43. 107 LINDBERG, 2001, p. 93. 94 | Teologia | Junho e Julho, 2011

de toda a sua carreira, Lutero jamais se cansou de acentuar a distinção entre lei e evangelho como a chave para a correta teologia. Ele acreditava que sem essa distinção a palavra de Deus seria confundida com o julgamento humano... A lei é a comunicação de exigências e condições; é a linguagem da aliança. Ela impõe uma estrutura de “se (...) então” à vida. Toda comunicação do tipo próprio à lei apresenta um futuro que depende de realizações humanas: “Se você cumprir a sua parte no trato, eu cumprirei a minha.” O evangelho, porém, é a comunicação da promessa. Ele é a linguagem do testamento, cujo padrão estrutural é “porque (...) portanto.” “Porque te amo irei comprometer-me contigo.” (...) O evangelho é a promessa incondicional de Deus. Ela é incondicional porque Deus já satisfez todas as condições, inclusive a morte.108 Lutero mostra este evangelho e, com ele, a compaixão de Deus, no sermão sobre a Contemplação do Santo Sofrimento de Cristo. Neste sermão Lutero deixa claro que Deus se esvazia da sua condição divina ao assumir a forma humana em Cristo. Quando Cristo sofre e morre pregado na cruz por causa da desobediência da humanidade, para reconciliá-la com Deus, ele mostra o seu lado compassivo e amoroso. Primeiro Lutero afirma que ao contemplar o sofrimento de Cristo deveríamos nos assustar. Ele diz:
108 LINDBERG, 2001, p. 93s.

O sofrimento de Cristo é meditado autenticamente por aquelas pessoas que o encaram de forma tal que se assustam sinceramente por causa dele e sua consciência logo cai em desânimo. O susto deve provir do fato de veres a severa ira e o inexorável rigor de Deus para com o pecado e os pecadores, tanto é que nem seu único dileto Filho ele quis dar por resgatados os pecadores, a menos que o Filho fizesse uma penitência tão grave quanto àquela da qual ele diz através de Isaías: “Eu o feri por causa do pecado do meu povo.” (Is 53.5) O que será dos pecadores, se até o dileto Filho é ferido assim? Só pode tratar-se de uma gravidade indizível, insuportável, para que uma pessoa tão grande e incomensurável se exponha à mesma e sofra e morra por isso. E se pensares bem ao fundo

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que é o próprio Filho de Deus, a eterna sabedoria do Pai, quem sofre, não deixarás de ficar assustado, e quanto mais profunda for tua reflexão, tanto mais assustado haverá de ficar.109 Lutero complementa este pensamento, dizendo: É preciso que graves profundamente em teu coração e que não duvides de forma alguma que quem tortura Cristo dessa forma és tu mesmo, pois teus pecados são com certeza responsáveis por seu sofrimento... Por isso, ao vires os pregos atravessarem as mãos de Cristo, podes ter certeza de que são obra tua; ao vires a sua
109 LUTERO, Martinho. Um Sermão sobre a Contemplação do Santo Sofrimento de Cristo.In: COMISSÃO INTERLUTERANA DE LITERATURA. Martinho Lutero : Obras Selecionadas. Vol. 1. São Leopoldo, Sinodal, 1987, p. 251s.

coroa de espinhos, podes crer que são os teus maus pensamentos; e assim por diante... Quando um prego atravessa torturantemente as mãos ou os pés de Cristo, tu é que deverias sofrer eternamente com pregos tais e até piores. É o que também sucederá àqueles que fazem com que o sofrimento de Cristo tenha sido em vão para eles... São Bernardo ficou tão assustado com isso que disse: “Eu julgava estar seguro, nada sabia da sentença eterna sobre mim pronunciada no céu, até que vi que o Filho unigênito de Deus se compadece de mim, se apresenta e se submete à mesma sentença por mim. Ai de mim, se a coisa é tão séria, não é hora de brincar nem de estar seguro.”110 Falando ainda sobre a contemplação do sofrimento de Jesus Lutero afirma: Neste ponto é preciso exercitar-se muito bem, pois todo o proveito do sofrimento de Cristo depende de a pessoa chegar ao conhecimento de si mesma, assustar-se consigo mesma e ficar quebrantada. E se a pessoa não chegar a isso, o sofrimento de Cristo não lhe terá trazido proveito de forma devida. Pois a obra própria e natural do sofrimento de Cristo consiste em levar o ser humano à conformidade com Cristo.111 Depois Lutero conclui, destilando um evangelho doce que
110 LUTERO, 1987, p. 252. 111 LUTERO, 1987, p. 253.

aponta para a obra redentora de Jesus, que demonstra todo o amor, misericórdia e compaixão que Deus teve com a humanidade sofredora. Ele diz: Tiras o teu pecado de cima de ti e o atiras para cima de Cristo crendo firmemente que suas chagas e sofrimentos são teus pecados e que ele os carrega e paga por eles, como diz Is 53.6: “Deus fez cair sobre ele o pecado de nós todos”; e São Pedro: “Ele carregou em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” [1Pe 2.24]; e S. Paulo: “Deus o fez um pecador por nós, para que fôssemos justificados através dele.” [2Co 5.21] Em passagens como estas e outras deves confiar com toda a ousadia; quanto mais te atormentar a tua consciência, tanto mais deves confiar nelas. Pois se, ao invés de fazer isso, tiveres a presunção de tranquilizá-la através da tua contrição e satisfação, jamais terás sossego e, por fim, acabarás desesperando assim mesmo. Pois se permitirmos que nossos pecados ajam em nossa consciência, se permitirmos que fiquem conosco e se os enxergamos em nosso coração, eles são fortes demais para nós e vivem eternamente. Mas se vemos que estão sobre Cristo e que ele os vence através de sua ressurreição, e se cremos nisso com ousadia, eles estão mortos e foram destruídos; pois sobre Cristo eles não puderam permanecer, foram tragados por sua ressurreição. E agora não vês quaisquer chagas e dores nele, isto é, sinais de pecado. Assim, S. Paulo diz que Cristo “morreu por causa de nosso pecado e ressuscitou por causa de nossa justiça” [Rm 4.25] Isto é: em seu sofrimento ele torna manifesto o nosso pecado e, assim, o estrangula, mas através da sua ressurreição ele nos torna justos e livres de todos os pecados, desde que creiamos nisso... Mas tu podes animar-te para isso: em
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primeiro lugar, não deves mais contemplar o sofrimento de Cristo (pois agora este já efetuou sua obra e te assustou); deves ir em frente e contemplar seu amável coração, considerando quanto amor ele tem para contigo, amor que o obriga a carregar o fardo tão pesado de tua consciência e de teu pecado. Assim teu coração ficará doce para com ele e a confiança da fé será fortalecida. Continuando, passa então pelo coração de Cristo para chegar ao coração de Deus, e vê que Cristo não poderia ter te demonstrado esse amor caso Deus, a quem Cristo obedece com seu amor para contigo, não o tivesse querido em amor eterno. Assim acharás o coração paterno divino e bom e, e como Cristo diz, dessa maneira serás atraído por Cristo para o Pai. Então passarás a entender as palavras de Cristo: “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”, etc. [Jo 3.16] É isto o que significa reconhecer a Deus de forma apropriada: apreendê-lo não pelo seu poder ou por sua sabedoria (que são assustadores), mas pela bondade e pelo amor. Então a fé e a confiança podem subsistir e então a pessoa é verdadeiramente renascida em

Deus. (...) Como vês, em Cristo se podem encontrar força e alívio contra todos os vícios e desvirtudes. É nisso que consiste a verdadeira meditação do sofrimento de Cristo, são estes os frutos do seu sofrimento.112 Lutero, comentando num sermão o texto de Filipenses 2.5s: “Ele foi obediente”, afirma: Assim Paulo abre o céu com uma palavra e clareia o caminho para nós, para olharmos a profundidade da majestade divina e vermos a graciosa vontade e amor do seu coração paternal por nós, que não pode ser expressa em palavras. Paulo quer que sintamos que desde a eternidade Deus teve prazer no que Cristo, essa maravilhosa pessoa, deveria fazer por nós e fez. A quem o coração simplesmente não derreteria de alegria ao ouvir isso? Quem não deveria amar, louvar e agradecer e, por outro lado, tornar-se servo do
112 LUTERO, 1987, p. 254s.

mundo todo, e também alegremente tornar-se nada menos importante do que nada — ao ver que o próprio Deus o valorizou tanto e o serviu tão ricamente, e provou sua vontade paternal na obediência de seu Filho.113

Implicações éticas do pensamento de Lutero no aconselhamento e na consolação Nas enfermidades
Melanchton, num de seus escritos, escreveu perguntando: “Que pedimos nós à teologia? Duas coisas: Consolações contra a morte e contra o juízo final. Lutero no-las oferece.”114 Todos os seres humanos,
113 ALTHAUS, 2008, p. 205. 114 DELUMEAU, 1987, p. 82.

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em algum momento de sua vida, experimentaram ou experimentarão algum tipo de enfermidade. Nesses momentos é salutar e ético que o aconselhamento e o consolo apontem para aquele Deus que ama as pessoas e não as abandona nos momentos difíceis da vida. Ao contrário, está ao lado delas dando força e coragem, capacitando-as para enfrentar as dificuldades da vida com esperança num futuro melhor. Oliveira afirma que “a graça do Senhor não nos imuniza contra o sofrimento, mas capacita-nos a enfrentá-lo melhor”.115 E Lutero afirma: ”Temos consolo e promessa segura de que ele não nos deixará presos no sofrimento, mas que nos ajudará a nos livrarmos”.116 Lutero fundamenta esta certeza no fato de Jesus ter sofrido por toda a humanidade. Para ele esta verdade é motivo de consolo. Ele diz: “Aceite isso, console-se com isso e creia que isso aconteceu por sua causa e em seu benefício”.117 E acrescenta: Cristo não sofre por si mesmo, mas por você e por todo o mundo.
115 OLIVEIRA, Roseli M. Kühnrich de, HEIMANN, Thomas. Cuidando de cuidadores: um olhar sobre os profissionais de ajuda a partir do conceito de cuidado integral. In: Espiritualidade e Saúde: da cura d’almas ao cuidado integral. São Leopoldo: Sinodal, 2004, p. 55. 116 LUTERO, 1984, p. 308. 117 LUTERO, Martinho, O Inocente em Lugar dos Culpados. Castelo Forte. Porto Alegre, ano 15, 16 de março, 1983.

Esse é o motivo por que tudo acontece de forma tão contraditória. Ele é o Filho de Deus, totalmente santo e sem pecado qualquer, motivo porque deveria simplesmente estar livre da maldição e da morte. Nós somos pecadores, sob a maldição e ira de Deus, razão pela qual deveríamos simplesmente morrer e sermos condenados. Mas Deus inverte a situação. Aquele que não tem pecado, em quem nada há senão graça, tem de se tornar maldição e levar sobre si o castigo do pecado; nós, porém, estamos na graça de sermos filhos de Deus através dele.118 Noé acrescenta que “na redescoberta do Deus da graça e do amor, a pessoa atordoada poderá encontrar o alívio e o consolo tão veemente buscados.”119 Ele acredita que na Escritura Sagrada “está a fonte inesgotável para aquietar os corações quebrantados através de tempos e lugares” e que “cabe buscar nos seus subterrâneos, pois também ali encontramos resguardadas as lágrimas, a dor e o sofrimento de pessoas nas mãos de Deus”.120 Para Lutero “a cruz de Cristo e a do cristão formam uma unidade... Ao carregarmos nossa cruz, não fazemos com isso nada de especial, mas simplesmente demonstramos que estamos em comunhão com Cristo”.121 E acrescenta:
118 LUTERO, 1983. 119 NOE, Sidnei V. O pastor Lutero e sua contribuição para a teologia do Aconselhamento Pastoral. In: HEIMANN, Leopoldo. (org.). LUTERO O PASTOR. Fórum Ulbra de Teologia, vol. 4. Canoas: Ulbra, 2008, p. 120. 120 NOE, 2008, p. 124. 121 LOEWENICH, 1988, p. 119.

O sofrimento revela-se como o caminho mais seguro para Deus, ou antes, no sofrimento Deus vem ao nosso encontro. Por isso o sofrimento deve ser considerado um santuário que santifica a pessoa, ou seja, separa a pessoa de suas obras naturais para o serviço a Deus. Os sofrimentos são sinal da graça de Deus, prova de nossa filiação divina. Pois os olhos de Deus estão voltados sempre para as profundezas, nada de grande pode subsistir perante eles; quando, porém, uma pessoa está oculta nessas profundezas, experimentará o maravilhoso, salvífico poder criador de Deus. É verdade que o sofrimento dos santos só acaba com o dia derradeiro, seu sentido, porém, não é castigo e destruição, ao contrário do que acontece com o sofrimento dos ímpios, mas, sim, graça e purificação.122 Nas enfermidades o cristão encontra consolo e força nas promessas de Deus e assim suporta o sofrimento que lhe está imposto. O ímpio também fica doente e enfrenta sofrimentos, mas não encontra consolo. Sobre isso afirma Lutero: Nossa atitude diante do sofrimento deve ser esta: Dirigirmos nossa atenção maior para as promessas de que nossa cruz e provação deverão ser mudadas para o bem como jamais teríamos desejado ou sequer pensado. E é justamente este ponto que constitui uma diferença entre as penas e provações dos cristãos e das outras pessoas. Pois outra gente também tem a sua tribulação, cruz e infelicidade, ainda que passem por um mar de rosas e desfrutem de felicidade e de Deus segundo o seu bel-prazer; mas, quando entram em provação e sofrimento, com nada conseguem se consolar, pois não têm as grandiosas promessas e a confiança em Deus, que os cristãos
122 LOEWENICH, 1988, p. 118. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 97

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têm; por isso não podem ter o consolo que Deus os possa ajudar a suportar a provação, menos ainda conseguem eles perceber nele que fará mudar essa provação para o bem.”123 Para Frederico, o Sábio que se encontrava doente, Lutero escreve Quatorze Consolações para Cansados e Sobrecarregados “onde enfoca o sofrimento humano e as fontes de consolo que a fé pode buscar.”124 Ele afirma: Não posso ocultar que de teu corpo e de tua carne escuto a voz de Cristo clamando a mim e me dizendo: Veja, sou eu que estou aqui deitado doente! Pois, um tal mal, como doenças e outras coisas parecidas, não sofremos nós cristãos, mas o próprio Cristo, nosso Senhor e Salvador, em quem nós vivemos.125 E Lutero identifica a ação consoladora de Deus na comunidade ao dizer “assim, quando eu sofro, não sofro em solidão, mas Cristo e todos os cristãos sofrem comigo. Finalmente isso se concretiza no fato de que os mais honrados dos membros cuidam, servem e honram os menos respeitados”.126 Lutero também desenvolve uma compreensão de comunidade terapêutica quando afirma: “Quem ainda pode desesperar em seus pecados? Quem não se alegraria nas suas tristezas? Já não carrega mais seu pecado e punição, mas é suportado por tantos santos filhos de Deus, sim, pelo próprio Cristo. Coisa grandiosa é a comunhão dos santos da Igreja de Cristo.”127 Ainda segundo Lutero “Cristo não quer ninguém descendo o caminho
123 LUTERO, 1984. p. 301. 124 WEIRICH, Paulo P. O enfoque teológico das Catorze Consolações de Lutero. In: HEIMANN, Leopoldo. (org.). LUTERO O PASTOR. Fórum Ulbra de Teologia, vol. 4. Canoas: Ulbra, 2008 p. 137. 125 WEIRICH, 2008, p. 122. 126 WEIRICH, 2008, p. 140. 127 WEIRICH, 2008, p. 140. 98 | Teologia | Junho e Julho, 2011

da morte que a todos assusta. Ele vê que quando um cristão sofre e chora, toda a Igreja sofre e chora com ele.”128 Um aconselhamento e consolo ético é aquele “que se solidariza na fraqueza com a impotência humana diante da sua fragilidade e inconsequência” e que “irá calar-se para ouvir o gemido silencioso do desespero essencial, oculto aos olhos, em meio ao absurdo das situações de crise e sofrimento”.129 Noé define o conselheiro ético, dizendo que: Se esvazia e reconhece sua pequenez. Que se afirma e se realiza não através daquilo que pode e sabe, mas justamente a partir do que não pode e não sabe. Só então se podem abrir os olhos para o verdadeiro consolo, que não pode proceder do talento humano, mesmo que muito bem aparelhado técnica e cientificamente.130 Nóe continua o seu pensamento dizendo: Precisamos de tudo que as ciências e a técnica, que o método e a experiência podem nos ensinar, para perpassar e romper, camada por cama128 WEIRICH, 2008, p. 140. 129 NOÉ, 2008, p. 126. 130 NOÉ, 2008, p.126.

da, a sedimentação de nossas almas para chegar àquele núcleo último, frágil e essencial e descobrir o verdadeiro consolo: O Deus vivo que, embora não entendamos, carrega-nos e sustenta em meio ao nosso desespero e à nossa dor.131 Ele ainda fala sobre a autêntica resposta teológica, afirmando: A autêntica e genuína resposta teológica só pode ser aquela que busca em meio à angústia, ao medo e ao desespero, agarrar-se confiadamente em Deus, que, embora não possa ser visto e, muitas vezes, sequer sentido, está aí, no mais profundo abismo da existência humana, oculto em seu oposto. Somente ali está a força para desafiar com coragem de ser o sentimento da própria nulidade e insignificância.132 Em conclusão Noé afir131 NOÉ, 2008, p.126s. 132 NOÉ, 2008, p. 129.

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Em Lutero, encontramos alguém que exercita conosco “a arte de ajudar a fazer ver as coisas que não podem ser vistas”. E, justamente, ali, oculto aos nossos olhos e presente, onde o percebemos ausente, contrário senso, Ele se manifesta naquilo que essencialmente é, o Deus da Vida. “Ali está o tesouro: não na incapacidade, na falta, nas poucas possibilidades reais de cura ou salvação. E, sim, na potencialidade conferida a cada um de nós por Deus”. A prática dessa arte poderá acurar nossos sentidos para percebê-lo, agora sim, Onipotente e Onisciente que “afirma o triunfo da vida, em relação aos sinais de morte”.133

Weirich falando sobre o aconselhamento em Lutero diz: Tem como pressuposto a absoluta e definitiva falência do ser humano no que diz respeito a qualquer possibilidade de vir a não sofrer. O sofrer não é acidente. Sofrer é a condição. Sofrer não é apenas consequência, mas é necessidade. Sem o sofrimento, não acontece a consciência do mal, nem a disciplina que é bem-vinda e necessária... A
133 NOÉ, 2008, p. 129s.

teologia que não assume esta postura tem em mente um ser humano diferente daquele que a Escritura apresenta. O ser humano da Escritura exigiu a cruz na qual foi oferecido o sacrifício e sofrimento supremos. O que essa teologia tem a dizer ao ser humano?... acolhimento do ser humano agora inocentado por Deus. A Igreja que não acolhe pecadores e pecadores sofredores de toda a ordem, põe-se acima do próprio Cristo e inaugura uma religião em que seres humanos arrogam-se a perfeição que nunca poderão atingir, o que lhes tira o direito de esperá-la, especialmente se isto é feito em nome de Cristo. E aí exigem perfeição, matam a fé e criam o desespero ou a hipocrisia... Lutero jamais perde de vista as duas grandes verdades da Escritura: a absoluta perdição e a absoluta redenção do ser humano ao mesmo tempo. Entre as duas, Lutero vê a sua função como a de unir as pessoas em Jesus Cristo e denunciar tudo o que interponha na concretização dessa obra de Deus... Então, olhando o sofrimento de frente, conselheiro e aconselhando, pastor e comunidade, desenvolvem uma comunidade nova em que pecar e confessar pecados não é estranho, porque esta comunhão somente vive da alegria desses três artigos de fé: remissão dos pecados, da ressurreição da carne e vida eterna. O que, não por acaso, é a obra que Jesus delega ao Espírito Santo, que, desde o Batismo, habita e encarna

no pecador na mais perfeita unidade, daí recebendo forças e orientação para acolher outros que ainda ou de novo necessitam do único consolo que é completo para esta vida e antecipa a vida eterna.134 Cada ser humano que se apega à compaixão de Deus terá convicção que enfermidades e outros sofrimentos são para o seu bem. As promessas de Deus deixam claro que ele não só quer ajudar a carregar esse sofrimento, mas também o mudará para o nosso bem. Citando Hb 12.4-11 na sexta consolação Lutero afirma: Quem não se assustará com estas palavras paulinas nas quais define com clareza que não são filhos de Deus os que se encontram fora da disciplina de Deus? E quem pode ser confirmado com mais firmeza e consolado com mais eficácia do que aquele que ouve que são amados de Deus os que são castigados? Que são filhos, participantes da comunhão de todos os santos? Que não estão sozinhos os que sofrem? Esta exortação veemente inclusive fará amável a disciplina.135 E Scheunemann acrescenta que “a justiça de Deus não concorda e nem é conivente com o sofrimento humano. Ela quer e defende a ‘vida em abundância’ ( João 10.10). Deus, na sua justiça, pagou um preço altíssimo para defender a vida. Na cruz, Deus protestou contra o mal e o sofrimento.”136

Na morte e luto
134 WEIRICH, 2008, p. 141s. 135 LUTERO, Martinho. Catorze Consolações para os que Sofrem e Estão Onerados. In: COMISSÃO INTERLUTERANA DE LITERATURA. Martinho Lutero : Obras Selecionadas. Vol. 2. São Leopoldo, Sinodal, 1989, p. 27. 136 SCHEUNEMANN, Arno V. Deus nos carrega em nosso desespero e dor. In: HEIMANN, Leopoldo. (org.). LUTERO O PASTOR. Fórum Ulbra de Teologia, vol. 4. Canoas: Ulbra, 2008, p. 151. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 99

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Segundo Brakemeier “a morte é a mais profunda crise a ser enfrentada pelo ser humano”.137 Falar em enfermidade, sofrimento, morte e luto é lembrar a finitude do ser humano, a sua terminalidade. Como Lutero agiu eticamente nestes momentos? Qual foi a sua ação pastoral diante da morte e do luto? Para Lutero, Deus age com objetivos bem definidos, sendo que o maior de todos eles é a nossa salvação. Por isso cabe ao conselheiro na hora de transmitir consolo “crer e sinalizar que, na dor, doença e morte, Deus está presente, com misericórdia e graça, sendo preciso colocar-se em verdadeira confiança nas mãos dele”.138 Há uma grande semelhança em relação ao medo e angústia da morte no tempo de Lutero e hoje. Para Heimann e Tomm “essa angústia existencial diante da morte é um fenômeno universal, acompanhando o ser humano ao longo dos tempos”.139 Sobre a fatalidade da morte Brakemeier afirma: Ela humilha o ser humano e o desapropria de modo radical. Há ainda outros agravantes. A morte corta as relações, joga as pessoas no mais absoluto abandono, introduz num estado de completo “não relacionamento”. Ela provoca perdas dolorosas. Quanto maior o amor, tanto mais pesado o morrer... A consciência da culpa, ou seja, das dívidas no sentido mais amplo da palavra, é fator que igualmente contribui para o pavor frente à morte. Impede o morrer em paz com Deus e as pessoas... Há nela um mistério que angustia. É por isso que sempre tem sido importante a contribuição da religião — no nosso caso da fé
137 BRAKEMEIER, Gottfried. O ser humano em busca de identidade. São Leopoldo, Sinodal, 2002, p. 175. 138 HEIMANN, Thomas; TOMM, João C. O pastor e a visitação aos enfermos e enlutados. In: HEIMANN, Leopoldo. (org.). LUTERO O PASTOR. Fórum Ulbra de Teologia, vol. 4. Canoas: Ulbra, 2008. p.246. 139 HEIMANN;TOMM, 2008, p. 255. 100 | Teologia | Junho e Julho, 2011

cristã. Ela coloca a morte sob a perspectiva “Deus”, ou seja, numa perspectiva “teológica”. Isto não elimina a morte, mas lhe dá outro rosto, muda comportamentos, desenvolve força libertadora.140 No seu Sermão sobre a Preparação para a Morte, Lutero fala das três imagens terríveis usadas pelo diabo para povoar a mente e o coração do cristão às vésperas da morte: “a imagem horrível da morte; a imagem pavorosa e multifacetada do pecado; a imagem insuportável e inevitável do inferno e da condenação eterna”.141 Apesar disso, como contraponto, Lutero afirma aos cristãos, que “na hora da morte devemos ter diante de nossos olhos apenas a vida, a graça e a salvação”.142 Segundo Scheunemann “no sofrimento, na doença e na hora da morte, não é momento de aterrorizar a consciência, pois já basta o terror natural imposto pelo diabo e pela certeza iminente da morte”.143 E acrescenta: Nenhum ser humano está livre, nem isento, nem acima, nem imune ao sofrimento, à dor, à doença e à morte. Todos esses acontecimentos são inerentes à nossa condição de pecadores, surgindo como uma consequência natural da queda humana em pecado. Portanto, é inevitável que, em algum momento de nossa jornada como peregrinos por este mundo, sejamos assaltados
140 BRAKEMEIER, 2002, p. 174s. 141 LUTERO. Consolo no Sofrimento. São Leopoldo, Sinodal, 2000, p. 10s. 142 LUTERO, 2000, p. 13 143 SCHEUNEMANN, 2008. p. 246.

por eles.144 Lutero destaca a importância da Palavra de Deus e da Santa Ceia para enfrentar a solidão e o medo da morte. Ele diz: No fim da vida, nenhum cristão deve duvidar de que não está sozinho quando morre. Deve ter a certeza de que, como mostra o sacramento, muitos olhos o observam. Primeiro os olhos do próprio Deus e de Cristo, porque o cristão crê na sua palavra e se agarra ao seu sacramento. Depois, os queridos anjos, os santos e todos os cristãos. Não há dúvida de que, como mostra o Sacramento do Altar, todos vêm, como um só corpo, socorrer seu membro (cf. 1Co 12.26). Ajudam-no a vencer a morte, o pecado e o inferno e carregam todos junto com ele. Então se realiza com seriedade e poder a obra do amor e da comunhão dos santos. O cristão deve colocá-la diante dos olhos e não duvidar dela. Vai tirar coragem disso para morrer.145
144 SCHEUNEMANN, 2008, p. 246s. 145 LUTERO, 2000, p. 29.

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Para que a pessoa aceite a morte de boa vontade e não tenha medo dela e a vença, Lutero aponta para a ação graciosa de Deus em Cristo, dizendo: Ele mostra e concede a você, em Cristo, a imagem da vida, da graça e da salvação. Faz isso para que você não se amedronte diante da imagem da morte, do pecado e do inferno. Além disso, Deus coloca sobre o seu amado Filho a morte, o pecado e o inferno do ser humano. Derrota-os e torna-os inofensivos para você. Mais ainda: Deus expõe seu Filho ao tormento que a morte, pecado e inferno causam a você, ensina a você a perseverar em tal situação e torna esse tormento inofensivo e, além disso, suportável. Ele dá a você um sinal correto de tudo isso, para que você nunca duvide disso, a saber, os santos sacramentos. Ordena que você deve pedir isso dele e estar certo de que será atendido. Portanto, você nota que ele é um Deus verdadeiro e realiza obras apropriadas, grandes e divinas com você.146
146 LUTERO, 2000, p. 33.

Lutero não negava o sofrimento e a dor diante da morte. Sobre isso afirmam Thomas Heimann e João Carlos Tomm: Lutero, em nenhum momento, procura esconder ou negar o sofrimento e a dor diante da morte implacável, levando em consideração na sua prática pastoral, toda a profunda dimensão humana que é exposta nesta situação. Porém, Lutero também deixa claro que o cristão vive em função da esperança e confiança plena em Deus, que lhe permite superar e vencer toda a dor e todo sofrimento advindos da doença e da morte.147 Lutero teve a experiência do luto quando perdeu a sua filha Madalena. Após dois anos ele escreveu para André Osiander que “é singular o quanto me tortura a morte de minha filha Madalena, que até hoje não consigo esquecer. Mas sei com certeza que ela está onde há o refrigério e a vida eterna”.148 Comunicando para Jorge Hösel o falecimento do filho deste em Wittenberg, Lutero afirma que sabe por experiência própria o quanto isso dói, dizendo: Mas devemos resistir à dor e consolar-nos com o conhecimento da bem-aventurança eterna. Deus quer que amemos nossos filhos e que sintamos pesar quando nos são tirados. Só que a tristeza deve ser moderada e não violenta demais. A fé na bem-aventurança eterna deve nos trazer consolo.149
147 HEIMANN;TOMM, 2008, p. 252s. 148 JUNGHANS, 2001, p. 94. 149 JUNGHANS, 2001, p. 94s.

Para que possamos aconselhar e consolar os enlutados precisamos entender o luto. Heimann e Tomm afirmam: Definir luto não é fácil, visto que ele é um conjunto de elementos vivenciado num período de tempo após a perda de algo ou alguém. Luto implica um processo complexo de sentimentos que atingem o enlutado. Para William Worden, o luto pressupõe tarefas que cada indivíduo terá que realizar, após a perda. Começa pela aceitação da realidade da perda, isto é, a aceitação da morte, num plano intelectual e emocional. A segunda tarefa é elaborar a dor da perda. Se a dor não for expressada livremente pelo enlutado, poderá se manifestar em formas não saudáveis: doenças, fracassos, depressão ... A terceira tarefa está no ajustar-se a um ambiente onde está faltando a pessoa que faleceu. A tarefa, portanto, é a de aprender novas maneiras de lidar com o mundo, levando adiante sua vida. A quarta e última tarefa é reposicionar, em termos emocionais, a pessoa que faleceu e continuar a vida. É necessário que o falecido não permaneça ocupando um lugar exagerado nos pensamentos e na vida do enlutado. Segundo Worden, a tarefa do conselheiro/visitador não é de ajudar o enlutado a desistir de sua relação com a pessoa que morreu, mas sim de ajudá-la a encontrar um lugar adequado para o falecido em sua vida emocional, um local que irá capacitá-lo a continuar a viver bem no mundo. Isto significa que o enlutado tenha condições de reinvestir no mundo e no viver, realizando outros projetos, tendo alegrias e outras relações afetivas.150 Eles ainda acrescentam que “o luto é um processo inevitável e necessário para aquele que permanece vivo reequilibrar-se
150 HEIMANN;TOMM, 2008, p. 258s. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 101

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emocionalmente. Por isso, luto não pode ser considerado uma doença ou sinal de falta de fé, mas algo natural pelo qual todas as pessoas passam”.151 Sobre este trabalho de aconselhamento e consolação na morte e luto eles afirmam: É um ministério difícil e profundo, mas também maravilhoso e indispensável, pois em meio ao sofrimento e à dor, ele resgata a dimensão do amor, da compaixão, do consolo e da esperança. A partir dele, as pessoas em sofrimento podem sentir a vivência plena e corporificada do próprio Deus, que, através dos visitadores, pode abrir caminho para o Espírito Santo encher os corações angustiados da confiança redentora no Salvador Jesus Cristo.152 A perspectiva cristã da morte e do luto está ligada a esperança da ressurreição. Afirma Brakemeier: A esperança da ressurreição não tem em vista o mero reavivamento de defuntos. Ela não nega a realidade nem mesmo a necessidade da morte.
151 HEIMANN;TOMM, 2008, p. 259. 152 HEIMANN;TOMM, 2008, p. 261s.

Distingue-se nisto da afirmação da imortalidade da alma, se esta sugerir a existência de uma parte imortal nas pessoas. Ressurreição não existe sem a morte que a precede, mas não conduz às condições anteriores da vida. Integra na vida de Deus em novidade de existência. O termo “corpo espiritual” em Paulo o revela. Esse corpo é inimaginável. Ainda assim a esperança cristã não permanece no abstrato. Usa imagens e símbolos para expressar a alegria, a satisfação da fome da vida, o fim das angústias, o ver face a face. O destino da existência humana se cumpre em Deus, isto é, numa realidade transcendente, trans-histórica... Quem, porém, crê em Deus e não na morte, tem a promessa da vida eterna. Pois, morrendo, continua nas mãos de Deus que o ressuscitará.153
153 BRAKEMEIER, 2002, p. 178s.

Conclusão
Estudar Lutero, também na área do aconselhamento e consolação, tendo em vista o sofrimento e a compaixão de Deus, é um grande privilégio. Fico fascinado ao descobrir quanto consolo ele nos traz a partir da sua experiência e vivência de sofrimento e seu conhecimento e aplicação equilibrada da Palavra de Deus em Lei e Evangelho. Nos seus momentos difíceis de sofrimento ele encontrou paz e esperança nas promessas de Deus e teve o seu coração serenado. O ser humano deseja ardentemente ser libertado e salvo dos seus sofrimentos, por isso, nada melhor do que, no acompanhamento de pessoas que sofrem, tanto no aconselhamento quanto na consolação, apontar para aquele Deus que se compadece dos sofredores e que fez de tudo para tirá-los do sofrimento na pessoa de seu Filho Jesus Cristo. Quando a pessoa se apega à compaixão de Deus, ela também recebe forças no Evangelho para enfrentar os momentos de sofrimento, na certeza de que não está sozinha e abandonada à própria sorte, mas tem a companhia daquele Deus em cujas mãos tem o seu nome gravado e que a anima a não temer, mas confiar. O mundo se encontra ferido e enfermo. Precisa urgentemente da misericórdia de Deus. A paixão e a compaixão de Deus pelos que

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sofrem estão manifestas em Jesus Cristo, o autor da salvação humana. Aquele que veio conduzir todas as pessoas à plenitude eterna, livrando-as para sempre de qualquer espécie de sofrimento. Faço uso das palavras de Lutero para concluir este trabalho: Sabemos agora que é do agrado de Deus que soframos e que a glória de Deus se revela e se torna visível em nosso sofrimento, mais do que em qualquer outro ponto; e visto que somos do tipo de gente que sem sofri-

mento não consegue persistir na Palavra e na fé; e ainda assim tendo, ao lado, a nobre e preciosa promessa de que nossa cruz, a nós enviada por Deus, não é algo ruim, mas exclusivamente uma coisa sagrada, excelente e nobre, por que nos haveríamos de negar a sofrer? Quem não quiser sofrer vá lá e viva como um latifundiário. Nós pregamos isto apenas aos devotos que querem ser cristãos, ou outros, de qualquer forma, não o farão; nós, entretanto, temos o consolo e promessa segura de que ele não nos deixará presos no sofrimento, mas que

nos ajudará a nos livramos, ainda que todas as pessoas se desesperassem disso. Por isso, ainda que doa, vamos lá, você tem que sofrer com alguma coisa de qualquer jeito, pois nem sempre pode estar tudo em ordem. Tanto faz, sim, até é mil vezes melhor sofrer por causa de Cristo, que nos prometeu consolo e ajuda no sofrimento, do que sofrer por causa do diabo e cair no desespero e perdição, sem consolo e ajuda... Deus conceda que o compreendamos e o aprendamos. Amém.154
Rev. Nivaldo Schneider é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Vila Velha-ES

154 LUTERO, 1984, p. 307s.

Bibliografia
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Rev. Dieter Joel Jagnow

Qual é o trabalho mais difícil que existe?
reformador Martinho Lutero responde: É o trabalho pastoral, pois “nada é mais difícil do que tornar boas as pessoas” (em um sermão com base em Marcos 8.1-9, pregado em 1532). De outro lado, porém, ele diz, o trabalho do pastor é o mais importante trabalho que existe na face da terra, maior que todos os sinais e maravilhas, pois através da Palavra e do Sacramento pessoas são levadas à fé, libertadas da morte eterna e conduzidas à vida eterna no céu (sermão com base em Mateus 7.22-23). Esse artigo traz afirmações de Lutero sobre o ministro de ofício religioso, ou seja, o pastor (ministro). Citadas de forma indireta, elas refletem de forma sintética a teologia luterana sobre o assunto, e foram selecionadas de sermões de Lutero baseados em textos dos Evangelhos. (Os sermões citados podem ser encontrados em várias coleções de textos do Reformador, especialmente nas línguas alemã e inglesa. A ausência de algumas datas confere com os documentos pesquisados.)

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do pelo Pai ( João 3.34 — pregado em setembro de 1538). Este chamado não vem diretamente de Deus (como aconteceu com os profetas e apóstolos). Deus usa um instrumento humano — a Igreja (= congregação, comunidade). Isto significa que o ministro (de “ministério”, daí “ministério pastoral”) precisa ser escolhido ou comissionado pelo consenso dos membros (Lucas 14.1-11 — pregado em 5 de outubro de 1544). É no ritual da ordenação que os membros (ou a congregação) concedem ao ministro uma vocação especial a ser desempenhada em seu nome e em favor deste ofício. Por extensão, fica claro que o ofício do ministério não pertence ao pastor, mas a todos os membros; é um ofício público. ( João 3.34; 7.16-18 — pregado em julho de 1531; 10.1-11 — pregado em 1522). e mensageiro de Deus. Por isso, o Reformador chega a afirmar com veemência de que não existe praga e infortúnio maior na terra do que um ministro que não prega o que Deus lhe ordenou o que pregasse. Se a Palavra de Deus não é pregada, seu poder e seu ofício deixam de existir (Lucas 2.1-14 — pregado?; Mateus 5.1-2 — pregado em 1532; João 10.11-16). O ministro somente pode pregar os santos propósitos de Deus se estiver em permanente contato com ele. (Lucas 2.1-14 – pregado?). Sendo um verdadeiro mensageiro de Deus, as palavras do pregador são palavras de Deus. E sendo mensageiro de Deus, o pastor é um canal através do qual Cristo transmite seu Evangelho do Pai para todas as pessoas ( João 14.10 — pregado ?).

O ministro precisa ser chamado
Qualquer um que tenciona ocupar o ofício do ministério público precisa ser chamado. Antes de tudo, é preciso ser chamado pelo próprio Deus; é preciso ser enviado por Deus, assim como Cristo foi envia104 | Teologia | Junho e Julho, 2011

O ministro tem tarefas
O ministro ocupa este ofício para executar certas tarefas, diz Lutero. A mais importante é a pregação da Palavra e a administração dos sacramentos. Esta tarefa é tão importante porque por intermédio destes meios da graça as pessoas são — crendo em Jesus Cristo — guia-

O ministro é um mensageiro
O ministro é um mensageiro de Deus, diz Lutero. Como tal, ele precisa pregar a Palavra de Deus. Somente assim ele pode ser reconhecido como um verdadeiro ministro

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istério
Assim, ele é chamado para auxiliar a Cristo em seu ministério de repreender e perdoar pecados (Lucas 7.36-50 — pregado?). Ou seja, o ministro é chamado para servir às pessoas, para cuidar do rebanho (os cristãos) como um bom ou verdadeiro pastor ( João 10.11-16 — pregado em 1522). Ele executa esta tarefa através de meios como ensino, instrução, conforto e exortação com a Palavra de Deus. Este serviço precisa ser estendido a todas as pessoas, livre e gratuitamente (Mateus 20.24-28 — pregado em 5 de dezembro de 1537).

O ministro tem autoridade
Como mensageiro de Deus, o pastor tem o direito de julgar assuntos relativos à doutrina e à vida cristã (Mateus 7.1-2 — pregado em 1531?). O julgamento feito por ele é o de Cristo e de Deus (Mateus 16.13-19). Esta autoridade é espiritual e significa pregar e ensinar corretamente a Lei e o Evangelho. Certo disto, ele precisa pregar com poder e ser medo, pois “abrir a boca” é uma característica do seu ministério (Mateus 5.1-2).
Junho e Julho, 2011 | Teologia | 105

das à vida eterna no céu (Mateus 7.22,23 — possivelmente pregado em 1531) e fortalecidas na fé salvadora (Mateus 11.25-30 — pregado em 15 de fevereiro de 1546).

O pastor também é ordenado para fazer uso do Ofício das Chaves, que Cristo deu a Igreja; para julgar e absolver (Mateus 16.13-19 — pregado em 29 de junho de 1519).

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O bom ministro tem marcas
O bom ministro de Deus possui marcas que o identificam, afirma Lutero. Algumas: a) O ministro precisa ser verdadeiro, isto, pregar a verdadeira Palavra de Deus ( João 8.12 — pregado em setembro de 1531) e praticar o que ensina. A sua fé é provada pelas suas ações. Onde doutrina e obras combinam, frutos são produzidos (Mateus 8.1-13 — pregado?). Para tanto, é fundamental que ele esteja convencido que a sua doutrina e mensagem é verdadeira, isto é, a Palavra de Deus. Ele precisa poder sentir orgulho disso. Se não puder, é um traidor ( João 8.12); b) O ministro precisa ser humilde, isto é, servir às pessoas com humildade. Ele não é um ministro a fim de ser “grande” ( João 13.1-17 — pregado?), almejar pompa e glória ( João 10.11-16), poder ou um grande salário (Mateus 20.24-28). Como é chamado para servir, precisa resistir à maior tentação que enfrenta: honra e lucro ( João 10.11-16); c) O ministro precisa amar — amar o seu rebanho como uma mãe ama o seu filho ( João 19.25-37 — pregado?). Se ele não ama, seu rebanho será mal servido e logo se tornará preguiçoso e desgostoso; d) O ministro precisa reter a sua liberdade, isto é, ele precisa ser livre a fim de pregar a Palavra de Deus sem medo. Se ele almeja riquezas ou está preocupado em perder popularida106 | Teologia | Junho e Julho, 2011

de e amizades, ele não pode pregar o que deveria (Mateus 6.33 — pregado em 1532).
Rev. Dieter Joel Jagnow é jornalista e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Ribeirão Preto-SP, além de participar da equipe editorial da Revista.Teologia.

muleto é algo a que se atribui sorte (há alguns objetos e situações aos quais se atribui azar, mas estes não costumam ser chamados de amuletos). Você tem amuletos? Quais seriam? Um pé de coelho? Uma ferradura? Um galho de arruda? Um terço católico ou uma imagem de santo pendurada num colar ou guardada na carteira? Há piadas sobre amuletos: “se ferradura desse sorte o cavalo não puxava carroça!” Há também algumas afirmações: “Pode até não fazer bem, mas mal não faz!” Ou: “É só pra garantir! vai que dá sorte mesmo!” Neste mês, certamente ouviremos falar muito em sorte e azar. Lembraremos o 13 do Zagalo. E “Dunga é campeão” tem 13 letras. Mas ele é mesmo, não significa que será novamente. Embora, como brasileiro, espere e torça para que o Brasil ganhe o hexacampeonato. Pena que hexacampeonato tenha 14 letras. Pense novamente: Qual o seu amuleto? Qual a sua roupa da sorte? Quais as suas “manias inofensivas” para atrair a sorte? Lembre que nenhuma dessas manias inofensivas ou amuletos, são verdadeiramente inofensivos. Pois eles estão dividindo a nossa atenção com aquele que não aceita dividir o lugar com ninguém: Deus. Quando depositamos as esperanças de conquistas num colar ou numa certa cor de camiseta, estamos dizendo que nossa fé está na-

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Os meus amuletos
quelas coisas. E elas passaram a ser nossos “deuses”. Por isso o cristão jamais usará qualquer espécie de amuleto. Isto é, no mínimo, fraqueza de fé. Pois o ser humano não pode servir a dois senhores. Ou é de Deus, ou não é. Mas hoje existem amuletos para todos os gostos. Até pseudo-cristãos. Tem a água que faz isso, a cruz que faz aquilo. A rosa consagrada que trará o amor de volta. A caneta consagrada que lhe fará ter bons negócios. O celular que só lhe trará boas notícias... E o “Inferno vai bombando”. Não há amuleto que possa livrar a pessoa da condenação eterna. Pois é Cristo o único caminho, verdade e vida (João 14.6). Nem mesmo a cruz, usada como amuleto resolve nada. A cruz é um símbolo muito importante. Ela nos lembra o sacrifício de Jesus e sua vitória sobre o pecado. Mas não traz sorte a ninguém. Nem azar. Só a recordação de Cristo. Quando alguém lhe perguntar: “quais os seus amuletos ou as suas superstições?” Responda: não tenho nenhum, pois creio em Cristo e não preciso. Não tenho nenhum, pois o único Deus em minha vida é o Deus verdadeiro, que me salva e leva à vida eterna. Isso sim é sorte e ela está nas mãos do meu Senhor, que me abençoa.

arTigo

Rev. Jarbas Hoffimann — Nova Venécia-ES, pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, da qual é membro da Comissão de Culto da IELB., diagramador e co-editor desta Revista. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 107

Um Ministéri
Medo do pastor?!

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Rev. Martinho Rennecke

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as minhas muitas viagens que fiz e ainda faço pela nossa Igreja, em seus distritos, cidades e congregações, realizando treinamentos de pessoal para o evangelismo, tenho encontrado, através do diálogo, um certo sentimento de temor e desconfiança, por parte das pessoas, quando se tratar do assunto do chamado de um pastor. As pessoas deixam transparecer um certo medo de chamar um pastor que não se acerte com a congregação, ou talvez, não realize o trabalho conforme o anseio da mesma. Alguns receiam de como será a esposa do pastor, se ela será simpática ou chata, despachada ou retraída. Nos nossos tempos, já é possível avaliar o candidato ao chamado, através de um questionário, entrevista, ou até de uma pregação. Outros preferem fazer um chamado ‘no escuro’ deixando ‘para Deus’ decidir! O receio maior que se encontra entre o povo luterano é se o pastor vai ser um bom pregador, ter uma boa voz para cantar a liturgia nos cultos e gostar de fazer visitas. Creio que por trás destes temores, exista uma visão de missão da Igreja que esteja equivocada quanto a tarefa da Igreja no mundo e de quem seja a responsabilidade deste trabalho. Mais que isto, talvez seja necessário perguntar qual o tipo de relacionamento que a Igreja deseja ter com o mundo, no qual ela existe e para o qual ela dirige seus esforços. Se a grande tarefa da Igreja é defender a Verdade, lutando contra o

mundo e vencendo-o através da pregação, então esta tarefa será destinada aos especialistas e técnicos preparados, os pastores. Teremos então um sistema clericalista, centrado e dependente das qualidades do líder. Neste sentido, seria justificado o sentimento de temor e medo referente ao chamado de um pastor, que encontramos em nossas andanças. Neste tipo de relação da Igreja com o mundo, fica subjacente uma atitude apologética, de defesa e de ataque, como numa guerra. Os leigos comuns não são envolvidos devidamente neste embate, uma vez que existe o perigo de serem enganados pelo mundo e se perderem nele; ou se são envolvidos, precisam de um longo preparo para dominarem as sagradas letras, o que muitas vezes os desanimam. As quatro paredes do templo ou da casa servem como uma forma de defesa; retraimento e reclusão são a marca deste modelo de relacionamento da igreja com o mundo. Quais poderiam ser as causas de uma visão deste tipo e qual visão po-

deria ser uma alternativa, para que não seja um Ministério com medo, é o que vamos abordar a seguir.

O papel da Igreja no Mundo
Ao final do século e no início de um novo, apesar de todo avanço da ciência e da comunicação, o homem esta cada vez mais só, mais distanciado de si mesmo. A decepção com o materialismo, especialmente depois das duas guerras mundiais, levou a uma busca frenética por es-

108 | Teologia | Junho e Julho, 2011

io com medo?
antagônicas e irreconciliáveis, fruto das idéias platônicas da antiga Grécia. A idéia de que a natureza era essencialmente má, gerou esta dualidade entre Deus e a natureza, entre corpo e alma, sobrenatural e natural, igreja e mundo; inclusive trouxe dúvidas sobre a encarnação real do Filho de Deus, levando ao Docetismo, idéia que defendia a humanidade aparente de Cristo, e o Arianismo, que dizia que o Cristo fora criado. Nesta linha também ficava o conceito grego de verdade que adequava a mente à realidade através do conhecimento, da teoria, contrário ao conceito bíblico veterotestamentário, que levava a cabo a justiça através do compromisso, da ação. A partir dessa influência grega chega-se a um modelo sobrenaturalista de religião que desemboca facilmente em um desprezo do profano, uma desestima da ação do homem no mundo. Assim, algumas seitas simplesmente abandonaram o ‘mundo dos poderes do mal’ e se dedicaram completamente à contemplação de Deus e ao gozo da sua própria salvação.1 Esta concepção teve implicações profundas no conceito da missão. No início a missão era entendida como derivada da natureza de Deus dentro do contexto da doutrina da Trindade, e não com ênfase eclesiológica ou soteriológica. A clássica doutrina da Missio Dei em que Deus, o Pai, enviou o Filho, e que o Pai e o Filho enviavam o Espírito,
Amor, p. 153.

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foi expandida para um novo modelo.

Igreja e Reino de Deus
David J. Bosch, professor de missiologia na África do Sul, em sua magistral obra Missão Transformadora : Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão, aponta que Karl Barth teve influência crucial em um novo paradigma de missão: “Pai, Filho e Espírito Santo enviando a igreja para dentro do mundo. (...) na nova imagem, a missão não é primordialmente uma atividade da igreja, mas um atributo de Deus. Deus é um Deus missionário”2, ou seja, a Trindade convida a Igreja a participar da missão do Reino de Deus no mundo. No conceito anterior estava o exclusivismo da Igreja na tarefa de missão, sentimento que levou a profunda discriminação. Bosch retrata bem como seriam as pessoas cristãs dentro de um paradigma e de outro. Pessoas do Reino se importam primeiro com o Reino de Deus e a sua justiça; pessoas da Igreja colocam o trabalho da igreja em primeiro lugar, acima dos conceitos de justiça, misericórdia e verdade. Elas pensam em como trazer pessoas para dentro da Igreja, enquanto que as pessoas do Reino pensam em como levar a Igreja para o mundo. Pessoas da Igreja temem que o mundo possa mudar a Igreja, enquanto que as pessoas do Reino tra-

piritualidade. O ser humano está em crise; assim ele se volta para além de si, para o divino que tem uma função importante neste contexto, onde as forças humanas fraquejam. A Igreja com seu papel de porta-voz da mensagem divina, conduzindo Deus ao homem, assume o trabalho de reconduzir o homem a si mesmo e ao próximo, na crença de um mundo mais humano, harmônico e prazeroso. 2 Apud David J. BOSCH, Missão Transformadora : Mudanças Por muito tempo se entendeu 1 George W. FORELL, Fé Ativa no de Paradigma na Teologia da Igreja e mundo como entidades
Missão, p. 467,468. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 109

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balham para ver a Igreja mudando o mundo3. Concluindo, assevera que a Igreja não é o Reino de Deus: “a igreja não pode ser percebida como o fundamento da missão, também não é viável considerá-la o objetivo desta, certamente não o único objetivo. (...) a igreja não é o reino de Deus”.4 Assim também o ex-presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Dr. Gottfried Brakemeier, chama a atenção, falando sobre algumas inibições luteranas diante deste desafio: Há uma profunda diferença, portanto, entre missão e propaganda eclesiástica. Não a expansão da igreja é o que importa, mas sim, o crescimento do reino de Deus. (...) Proíbe-se, por isso, o proselitismo que, com métodos dúbios, procura aliciar pessoas e engrossar o fichário da comunidade.(...) Missão não deve ser confundida com um projeto humano, razão pela qual o fazer da igreja pode ter somente a função de serviço.5

cristão e o não cristão, exceto, como diz Lutero, que ele está na graça e isto não pode ser distinguido pelos sentidos. A diferença é que, como uma pessoa diferente, o cristão cria um ambiente diferente. Na interação com os outros age de uma maneira que produz um efeito diferente. Como diz William E. Hulme, teólogo luterano e psiquiatra, em sua obra Dinâmica da Santificação: raramente estamos cônscios da influência divina que pomos em ação. (...) Deixar Deus ser Deus significa permitir que o mistério fique além do perceptível. (...) Por trás do desejo lascivo de saber, está o nosso fetiche cultural para obter resultados. (...) Com efeito, este desejo é realmente o desejo de possuir e controlar a Deus — ‘de ser igual a Deus’.6 A própria fé no inicio é invisível e não pode depender de resultados. Carl Ferdinand Wilhelm Walther, teólogo luterano, em sua obra Lei e Evangelho, defende 25 teses da correta aplicação da palavra de Deus e nas teses 17 e 20 ele diz o seguinte: A palavra de Deus não é aplicada corretamente quando se faz uma descrição da fé, no que diz respeito a sua firmeza, conscientização e operosidade, que não se adapta a todos os cristãos em todas as épocas.(...) a palavra de Deus não é aplicada corretamente quando se faz com que a salvação de uma pessoa dependa de sua filiação a uma igreja ortodoxa visível, e quando se nega a salvação a todo aquele que erra em qual6 William E. HULME, Dinâmica da Santificação, p. 98,99.

quer um dos artigos de fé.(...) é um grave engano pensar que Lutero, antes de se tornar luterano, não tinha fé verdadeira.7 O cristão no seu envolvimento com o mundo, na interação com os outros, age de uma maneira que produz um efeito diferente. Da mesma forma Deus se envolve com o mundo e com as gentes criando uma vida diferente a partir do contexto da ação. Se o tema central das Escrituras é a ação histórica de Deus que culminou na pessoa e obra de Jesus Cristo, então não é possível entender a mensagem bíblica à parte do seu contexto histórico original. Somente se conhece o Evangelho como uma mensagem contextualizada na cultura. A palavra de Deus se fez homem: aculturou-se, já que o homem é um ser cultural. Assim como Deus amou o mundo de tal
7 Carl Ferdinand Wilhelm WALTHER, Lei e Evangelho, p. 60,68,70.

A Igreja transforma o Mundo
O novo paradigma da Missio Dei derruba assim a barreira que separava as pessoas da Igreja e as pessoas do mundo. Deus convida a Igreja a participar de Sua missão no mundo; o Reino de Deus é primeiro, é maior, vem antes. Neste sentido também não há diferença entre o
3 4 5 Ibid., p. 453,454. Ibid., p. 453. Gottfried BRAKEMEIER, Mercado religioso e religião de mercado, p. 67.

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maneira, assim também a Igreja se pesquisar a ação do Reino de Deus no mundo é necessário lembrar que volta para o Mundo. o propósito da revelação de Deus não foi a produção de um livro, mas A Igreja se a formação de um povo — a Igreja. contextualiza Sendo assim é papel da Igreja O conhecimento de Deus que respeitar a diversidade religiosa das se depreende das Escrituras pela via pessoas e assumir uma postura aberda exegese é verdadeiro, mas não ta e solidária de diálogo. O testemucompleto. Como ninguém conhece nho da fé pessoal deve ser relacionaDeus isoladamente do seu próximo, do com a postura diaconal na qual e sendo um conhecimento pessoal, se coloca à disposição e ao serviço cada cultura torna possível um en- da vida plena do outro. Nesta tarefa podem ser percebidos elementos de foque do evangelho. A compreensão do evangelho se injustiça e segregação e que podem ampliará à medida que for enrique- desafiar o compromisso mútuo com cido com esta multiexpressão de fé. a justiça neste meio de relações. A vida cristã é muito mais do Nenhuma cultura se conforma totalmente ao propósito de Deus; em que um modo de crer e confiar; é todas as culturas há elementos nega- um modo de fazer. Lothar Carlos tivos, desfavoráveis à compreensão Hoch, renomado teólogo luterano do evangelho. Quando o evangelho da área da Prática, em sua palestra se acomoda a algum valor prevalen- sobre Comunidade Terapêutica: Em te na cultura, o resultado é um sin- busca duma fundamentação eclesiocretismo. Muitas vezes a teologia é lógica do aconselhamento pastoral, um reflexo da situação histórica. Ao diz que muitas vezes esta ação não acontece porque as comunidades não encontram formas eficazes de se fazerem presente na vida dos seus fiéis em momentos cruciais de sua vida: Pessoas que não experimentam a solidariedade da Igreja em situações cruciais de sofrimento pessoal como doença, morte, perdas e problemas familiares acabarão duvidando da capacidade desta mesma Igreja de se solidarizar (...) o Aconselhamento Pastoral visa justamente isso, mediar algo do amor divino não só através da palavra falada, mas também através do gesto e da postura pessoal (...) A palavra de Deus precisa se tornar carne.8
8 Lothar C. HOCH, Comunidade Terapêutica : Em busca duma

Da mesma forma Howard J. Clinebell, conselheiro pastoral diz “para pessoas cuja capacidade de amar está dolorosamente diminuída, o aconselhamento (...) pode ser um canal (...) para receber a dádiva do amor restaurador e transformador de Deus”.9 A Igreja como instrumento precisa se expor ao sofrimento e à vida daqueles com quem deseja dialogar; precisa romper com a prática convencional restrita às quatro paredes confortáveis de um gabinete pastoral.

A Igreja serve o Mundo
É tarefa da comunidade auxiliar as pessoas de dentro e de fora, a se relacionarem de forma genuína através do servir de um para com o outro. Este é, seguramente, o fundamento da ousada afirmação de Lutero na sua obra Da Liberdade Cristã de que devemos tornar-nos Cristo uns para os outros10, ou como disse Bonhoeffer das prisões nazistas, em 1944, “A igreja é a igreja somente quando ela existe para os outros (...) A igreja deve compartilhar os problemas seculares da vida humana comum, sem dominar, mas ajudando e servindo”.11 A Igreja como sinal e instrumento do Reino de Deus, foi também a mensagem ratificada por documentos tanto católicos como protestantes. Bosch cita o documento católico de 1975, Evangelii Nunfundamentação eclesiológica do aconselhamento pastoral, p. 24, 27. 9 Howard J. CLINEBELL, Aconselhamento Pastoral : modelo centrado em libertacão e crescimento, p. 62. 10 Martinho LUTERO, Da Liberdade Cristã, p. 454. 11 Apud David J. BOSCH, op. cit., p. 450. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 111

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tiandi, 59: “Enquanto a igreja está proclamando o reino de Deus e o está edificando, ela está se estabelecendo em meio ao mundo como o sinal e o instrumento desse reino”. No círculo protestante a afirmação da assembléia do Conselho Mundial de Igreja, em Upsala, a Comissão para Fé e ordem afirmou: “A Igreja ousa ver a si mesma como o sinal da unidade vindoura da humanidade”.12 A Igreja não é o Reino de Deus, mas é um sinal de sua presença no mundo; é um instrumento que capta as manifestações de Deus na humanidade e as reinterpreta no contexto de cada segmento da sociedade, servindo ao mundo como
12 Ibid., p .449.

meio de salvação.

Um Ministério sem medo

Dirimindo o modelo sobrenaturalista de religião, a Igreja parte em direção ao mundo para identificar a Missio Dei e participar dela. Assim, sem discriminação e preconceitos, busca a integralização do evangelho em cada cultura servindo ao povo, assumindo o compromisso com a justiça nas relações humanas. Através do servir aclara o evangelho e encarna o amor de Deus ao próximo, especialmente no sofrimento, saindo de suas quatro pareSe esta é a grande tarefa da Igreja, des e sendo um sinal e instrumento do Reino de Deus, na busca de mais 13 James A. SCHERER, Evangelho, Igreja e Reino, p. 174. fraternidade. A Igreja poderá ser

confessional indo ao encontro das necessidades das pessoas. Fica a pergunta e o desafio de James A. Scherer, teólogo luterano: Será que o alvo da missão continua sendo converter pessoas e implantar igrejas em toda a parte onde não existam, ou a expectativa do Reino desloca as prioridades da Igreja para atividades que, de algum modo, antecipam um “novo céu e uma nova terra”?(...) A adaptabilidade à missão deveria ser um os testes usados para avaliar as estruturas eclesiásticas em todos os níveis.13

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então esta tarefa não pode ser destinada aos especialistas e técnicos preparados, os pastores. Uma tarefa tão ampla será tarefa de toda comunidade religiosa, com seus dons e vocações. Teremos então um sistema comunitário, descentralizado e independente das qualidades do líder. Neste sentido, será injustificado o sentimento de temor e medo referente ao chamado de um pastor, que encontramos em nossas andanças. Claro que quanto melhor for o pastor, melhor será o trabalho. Mas in-

dependente de quem for o pastor, os trabalhos continuarão, e as falhas de cada um serão cobertas pelas qualidades de outros. Novas missões poderão ser abertas pela congregação, sem depender de novo Chamado. Os leigos comuns poderão ser envolvidos devidamente neste desafio, uma vez que estão diretamente envolvidos com o mundo, servindo-o e amando-o, para o salvar e restaurar. Neste sentido, o amor lança fora todo o medo. Finalmente o sacerdócio geral de todos os cristãos

poderá iniciar seu maior crescimento no contexto luterano. Provavelmente causará um grande impacto, assim como aconteceu em 1520, causando a excomunhão do reformador Lutero. As quatro paredes do templo ou da casa servirão como um ponto de encontro, de diálogo, de envolvimento e de diaconia, sendo uma marca deste novo modelo de relacionamento da igreja com o mundo.

Rev. Ms. Martinho Rennecke — Caxias do Sul-RS — é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil e coordenador do Projeto Macedônia.

Bibliografia
ALTMANN, Walter. Lutero e Libertação. São Leopoldo : Sinodal, São Paulo : Ática, 1994. 352 p. BOSCH, David J. Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. São Leopoldo : Sinodal/EST, 2002.690 p. BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. 3. ed. São Leopoldo : Sinodal, 1980. 196 p. _______Vida em Comunhão. 2. ed. São Leopoldo : Sinodal, 1986. 85 p. BRAKEMEIER, Gottfried. Mercado religioso e religião de mercado. In: A Missão de Deus diante de um Novo Milênio, Porto Alegre : Concórdia, 2000. p. 63-75. CLINEBELL, Howard. Aconselhamento Pastoral : modelo centrado em libertação e crescimento. 2. ed. São Leopoldo : Sinodal; São Paulo : Paulinas, 1987. 427 p. FORELL, George W. Fé Ativa no Amor. São Leopoldo : Sinodal, Porto Alegre : Concórdia S.A.,1977. 189 p. HOCH, Lothar C. A crise pessoal e sua dinâmica. Uma abordagem a partir da Psicologia Pastoral. Palestra proferida em São Leopoldo, RS, 2000. 8 p. _______A cura como tarefa do aconselhamento pastoral. In: Prática Cristã — Novos Rumos, São Leopoldo : Sinodal/IEPG, p.17-28. Aconselhamento pastoral e libertação. Estudos Teológicos. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, v. 29, n. 1, 1989, p. 17-40. _______Algumas considerações teológicas e práticas sobre a pastoral de aconselhamento. Estudos Teológicos. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, v. 20, n. 2, 1980, p. 88-99. _______Comunidade Solidária (Visitação). Série Visitação, n. 04, São, Leopoldo, EST. Ano 1991. 12 p. _______Comunidade Terapêutica : Em busca duma fundamentação eclesiológica do Aconselhamento Pastoral. In: ABAC (Ed.) Fundamentos Teológicos do Aconselhamento. São Leopoldo : Sinodal, 1988. p. 21-33. _______O ministério dos leigos : genealogia de um atrofiamento. Estudos Teológicos, São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, v.30, n.3, 1990. p.256-272, _______Psicologia a serviço da libertação: possibilidades e limites da psicologia pastoral de aconselhamento. Estudos Teológicos. São Leopoldo: Escola Superior de Teologia, n. 25, v. 3, 1985, p. 249-270. HULME, William E. Dinâmica da Santificação. São Leopoldo : Sinodal; Porto Alegre : Casa Publicadora Concórdia S.A., 1976. 163 p. HUNTER, Kent R. Fundamentos para o Crescimento da Igreja. São Paulo : Instituto Concórdia/Escola Superior de Teologia, 1993. 188 p. LUTERO, Martinho. Carta à Nobreza Cristã da Nação Alemã. In: MARTINHO LUTERO: OBRAS SELECIONADAS. São Leopoldo: Sinodal, Porto Alegre : Concórdia, 1989, v. 2, p.277-340. Do cativeiro babilônico da igreja. In: MARTINHO LUTERO: OBRAS SELECIONADAS. São Leopoldo : Sinodal, Porto Alegre : Concórdia, 1989, v. 2, p.341-424. ________Tratado de Martinho Lutero sobre a liberdade cristã. In: MARTINHO LUTERO: OBRAS SELECIONADAS. São Leopoldo : Sinodal, Porto Alegre : Concórdia, 1989, v. 2, p. 435-460. SCHERER, James A. Evangelho, Igreja e Reino. Estudos Comparativos de Teologia da Missão. São Leopoldo : Editora Sinodal/ EST IEPG, 1991. 204 p. SCHOLZ,Vilson.A igreja como Sacerdócio Real. Igreja Luterana, ano 47, n. 2, São Leopoldo, Seminário Concórdia, p. 5-17, 1988. O Ministro. Igreja Luterana, ano 45, n. 1, São Leopoldo, Seminário Concórdia, 1985, p.17-52. VICEDOM, Georg. A missão como obra de Deus : introdução à teologia da missão. São Leopoldo : Sinodal/IEPG, 1996. 127p. WALTHER, Carl F.W. Lei e Evangelho. Porto Alegre : Concórdia S.A., 1977. 92 p. WESTHELLE,Vítor. Missão e Poder. Estudos Teológicos, São Leopoldo : Escola Superior e Teologia, v.31, n. 2, 1991, p.183-192. ZIMMER, Rudi. O Sacerdócio Universal dos Crentes.Vox Concordiana, ano 4, n. 1, São Paulo, ICSP, p.6-11, 1988. Junho e Julho, 2011 | Teologia | 113

Rev. Jarbas Hoffimann

Pesquisa e Adaptação

O Espírito do Pentecostes
A
representação mais comum do Espírito Santo é uma pomba em voo descendente. Esta é também uma das mais antigas imagens. E ela foi reproduzida lindamente na arte Cristã. Os melhores exemplos mostram a pomba com três raios em sua volta, para indicar que o Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. O lugar favorito para este símbolo aparecer em igrejas primitivas é a cobertura da pia batismal. A base para retratar o Espírito como uma pomba é encontrada no que os quatro evangelistas relataram sobre o batismo de Jesus, ou seja, que os céus se abriram e que o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma de uma pomba. A associação do Espírito Santo com o batismo repousa também sobre as palavras de Jesus a Nicodemos, que todos os que estariam em seu reino deveriam nascer de novo da água e do Espírito Santo. Além disso, São Paulo refere-se ao sacramento do Santo Batismo em Tito 3.5, dizendo que Deus “nos salvou por meio do Espírito Santo, que nos lavou, fazendo com que nascêssemos de novo e dando-nos uma nova vida.” No relato do derramamento do Espírito em Pentecostes (Atos 2), nenhuma menção é feita de uma pomba. O som naquela ocasião era como um vento muito forte e,

apareceram coisas parecidas com línguas de fogo. O texto continua: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (Atos 2.4). A partir do acontecimento de Pentecostes vieram outros símbolos do Espírito Santo, como uma chama de fogo (ou sete chamas) e os sete lâmpadas acesas simbolizando os sete dons do Espírito. Antigos monumentos cristãos para os mortos, mostram pombas para declarar a inocência daquele que partiu, em lembrança às palavras de Jesus: “Sejam espertos como as cobras e sem maldade como as pombas”. Inocência, também é um fruto do Espírito.

Junho e Julho, 2011 | Teologia | 115

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Rev. Jarbas Hoffimann - organização

Culto com participação Leiga na Liturgia
Veja uma sugestão de liturgia para o culto com a participação Leiga. Uma sugestão é que, mensalmente, um culto seja usada esta liturgia, alternando-se entre os departamentos da Congregação. É possível, inclusive, usar com as crianças da Escola Bíblica, que precisarão ser treinadas para as leituras e suas participações, mas fica um momento ímpar. Aqui aparece sem a formatação adequada para uso prático no culto. Caso queira formatar à vontade, este texto pode ser usado. Caso queira o material finalizado, verifique no blog da Comissão de Culto da IELB (www.liturgialuterana.blogspot. com). Lá você vai encontrar o material para imprimir, bem como para ser projetado. L.: O nosso Deus é o Deus que salva. C.: Louvado seja o Senhor, que dia a dia leva as nossas cargas!

5. Confissão dos Pecados
Caso o departamento que esteja participando seja a escola Bíblica o bom é o pastor fazer a oração e as crianças e congregação são convidados a repetir, assim como ensinamos crianças a orarem. As crianças podem chegar até o altar e então se fará a oração dirigida pelo pastor ou professor da escola bíblica. Pode ser outra pessoa que dirija a confissão de pecados, e, de pé e de frente para a congregação dirá como segue.

Legenda:
P Pastor - L Leigo C Congregação T Todos |: Repetir o canto. de pé sentados ajoelhados cantar

1. Acolhida
A Acolhida poderá ser feita pelo presidente do departamento ou, caso seja a Escola Bíblica, pode ser feita por uma das crianças ou ainda um dos professores.

L.: Vamos elevar os nossos corações a Deus e confessar os nossos pecados. Eu confesso a Deus e a vocês, irmãs e irmãos, que tenho pecado em pensamentos, palavras e ações: minha culpa, minha culpa, minha grande culpa. Por isso peço a vocês que orem por mim. C.: Deus Todo-poderoso tenha misericórdia de ti, perdoe os teus pecados e te guie para a vida eterna. L.: Amém. C.: Nós confessamos a Deus e a ti irmão(irmã), que temos pecado em pensamentos, palavras e ações: nossa culpa, nossa culpa, nossa grande culpa. Por isso pedimos a ti, irmã/irmão, que ore por nós. L.: Deus Todo-poderoso tenha misericórdia de vocês, perdoe os seus pecados e guie vocês para a vida eterna. C.: Amém. L.: O Senhor Deus salva a vida dos seus servos; aqueles que procuram a sua proteção não serão condenados.

6. Salmo do Dia
Pode ser outra pessoa para fazer esta leitura. Recomenda-se que seja lido pelo “L” alternadamente com a congregação. Mas pode ser feito, por exemplo, pelo departamento alternado com a congregação, ou seja, se as Servas estão dirigindo o culto, estas, em conjunto leem um versículo e o restante da congregação le o outro. Até o fim do Salmo. A pessoa que dirigiu o salmo permanece, pelo menos, até depois do ponto 8.

2. Hino
A pessoa que faz a acolhida anuncia o hino que será cantado.

3. Invocação
A pessoa que fará a invocação, vai até à frente e, caso a congregação esteja sentada, convida para que fiquem de pé. E, de frente para a congregação diz:

L.: Iniciamos este culto em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. C.: Amém.

7. Glória ao Deus triúno
Depois do Salmo segue:

4. Preparação
Ainda de pé e de frente para a congregação, a pessoa que fará esta parte, diz:

T.: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora é e para sempre será, de eternidade a eternidade, amém.

8. Senhor, tem piedade
T.: Senhor tem piedade de nós! Cristo tem piedade de nós! Senhor tem piedade de nós!

L.: Confiem sempre em Deus meu povo! Abram o coração para Deus, pois ele é o nosso refúgio. C.: Somente em Deus encontramos paz, e nele está a nossa esperança.
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liTúrgica: culTo

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9. Oração do Dia
Pode ser outra pessoa que vai à frente e, virada para o altar (caso o culto seja celebrado em frente ao altar e não atrás dele) dirige a oração.

L.: C.: Amém.

C.: P.: C.: P.:

10. Primeira Leitura
Nesse momento o pastor pode se dirigir à frente e conduzir as leituras.

L.:

Faz a Leitura e após a leitura

P.: O ser humano não vive só de pão, mas de tudo que Deus diz. (Dt 8.3)

C.:

11. Segunda Leitura
L.:
Faz a Leitura e após a leitura

pecadores para si e oferecendo seu corpo e sangue por sacrifício na cruz. Graças e louvor a ti rendemos! Por meio da tua Palavra e pelas dádivas da Santa Ceia nos concedes o livramento de todos os nossos pecados, nos assegurando o teu perdão. Graças e louvor a ti rendemos! Tu nos dás unidade e paz e nos unes numa só Igreja Cristã, a comunhão dos santos. Alegres nessa fé, encorajados pela esperança e decididos para o amor, nós te agradecemos e te adoramos juntamente com todos os anjos dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR Deus, Todo-poderoso que era, que é e, que há de vir. Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro seja o louvor, a honra, a glória e o poder para sempre. Amém.

21. Pai-Nosso
T.: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dá hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.

P.: Felizes para sempre são os que ouvem a Palavra de Deus e a praticam. Aleluia! T.: Aleluia! Aleluia! Aleluia!

12. Hino 13. Leitura do Evangelho
P.: O Santo Evangelho para hoje está registrado em... T.: Glórias a ti, Senhor!
Oficiante faz a Leitura e após a leitura diz:

22. Consagração dos Elementos 23. Paz do Senhor
P.: A paz do Senhor esteja com todos vocês! C.: E com você também. P.: Saudemos uns aos outros na Paz do Senhor!
Cada participante do culto poderá cumprimentar as pessoas ao redor, desejando: “A paz do Senhor esteja com você!”

P.: Assim termina a leitura do Evangelho. T.: Glórias a ti, ó Cristo!

14. Confissão de fé (Credo Apostólico) 15. Hino 16. Mensagem/Sermão 17. Hino e Ofertas 18. Convite para a Oração e Oração Geral 19. Hino 20. Preparação
P.: O Salvador Jesus convida: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso.” Por isso oramos: SENHOR nosso Deus, Deus Triúno e Todo-poderoso, a ti agradecemos e rendemos louvores. Deste-nos acesso à vida eterna em teu Filho Jesus Cristo, que demonstrou ao mundo a força do teu amor, chamando

24. Cordeiro de Deus
T.: Digno és, ó Cordeiro, de todo louvor, Graças nós rendemos por teu amor. Tua seja a glória e o domínio também. Para todo sempre. Amém. Amém. Teus são os poderes e os tronos também. Hoje e para sempre. Amém. Amém. Glória nas alturas, na terra também, Glórias, Aleluia! Amém, Amém.

25. Distribuição
Seguindo a recomendação do apóstolo Paulo (1Co 11.27-31) distribuímos a Santa Ceia apenas a membros confirmados em comunhão com a nossa igreja, que estão preparados. Aos visitantes, que têm vontade de comungar conosco, pedimos que primeiro falem com o pastor, a fim de serem melhor instruídos sobre todo o ensino acerca deste sacramento.

26. Despede-nos, Senhor
T.: Senhor, agora despedes em paz o teu servo, seJunho e Julho, 2011 | Teologia | 117

liTúrgica: culTo

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gundo a tua Palavra, pois os meus olhos viram a tua salvação, a qual preparaste perante a face de todos os povos. Luz para alumiar as gentes e para glória de teu povo Israel. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora é e por todo sempre há de ser. Amém.

C.: Conserva-nos nesta comunhão e estende o teu reino da graça. Amém.

28. Bênção
P.: O Senhor abençoe e guarde você. O Senhor faça resplandecer o rosto sobre você e tenha misericórdia de você. O Senhor sobre você levante o rosto e lhe dê a paz (†). C.: Amém. Amém. Amém.

27. Ação de graças
P.: Ó Senhor, Deus Pai, C.: Agradecemos por nos teres enviado o teu Filho, nosso alimento celestial. P.: Ó Senhor, Deus Filho, C.: Agradecemos pelo teu santo sacrifício em favor de nós, pecadores! P.: Ó Senhor, Deus Espírito Santo,

29. Comunicações, convites e despedida 30. Hino Final

Liturgia completa e em diversos formatos no blogue Liturgia Luterana. Inclusive as melodias para as partes cantadas, sugeridas nesta liturgia. www.liturgialuterana.blogspot.com

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118 | Teologia | Junho e Julho, 2011

Direto ao Ponto

Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos iniciou uma campanha de outdoors em Porto Alegre, que tenta “aproximar o ateísmo do dia-a-dia da sociedade e diminuir o preconceito contra ateus”. Num deles está a foto de Charles Chaplin com as palavras “não acredita em Deus”, e a de Adolf Hitler com “acredita em Deus”, e a frase “Religião não define caráter”. Em outro outdoor afirma-se que “A fé não dá respostas, só impede perguntas”. Não tiro a razão deles. Sobretudo quando processam o jornalista Datena que relacionou os descrentes com “pessoas do mal”, “bandidos”, “assassinos”. A moralidade não depende de religião. Conheço ateus honestos, bons cidadãos, e religiosos de mau carater. Ao afirmarem que a “fé impede perguntas”, acertam sobre o fanatismo e a intolerância religiosa — mas que não fazem parte da legítima teologia cristã, fruto de experiências baseadas em dúvidas e respostas bíblicas. As próprias Escrituras são histórias de complicados questionamentos e de interessantes conclusões. A campanha dos ateus deveria levar à reflexão. Primeiro, saber que não basta acreditar na existência de Deus para ter a fé cristã. Esta crença o próprio Diabo tem (Tiago 2.19). Lembrar que fé sem obras é morta (Tiago 2.26).

Campanha dos ateus
A

Por isso o recado “ninguém pode amar Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a quem vê” (1º João 4.20). E quando a moda são as marchas de orgulho, entender que “a salvação não é resultado dos esforços de vocês, portanto, ninguém pode se orgulhar de tê-la” (Efésios 2.9). E se a pesquisa está correta, que os ateus “são as pessoas mais detestadas no país, com repulsa, ódio ou antipatia de 42% da população” — então, neste percentual não há nenhum seguidor de Jesus. Pedro aprendeu isto quando cortou a orelha do soldado que prendia o Salvador: “Guarde a sua espada! Se eu pedisse ajuda ao meu Pai, ele me mandaria agora mesmo doze exércitos de anjos” (Mateus 26.53). Assim, a placa publicitária cristã é o gesto de Jesus que curou a orelha do seu agressor.

Rev. Marcos Schmidt é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Novo Hamburgo-RS

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