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Iniciação Científica CESUMAR jan-jun. 2004, Vol. 06 n.01, pp. 17 - 29

O FANDANGO NA CULTURA POPULAR PARANAENSE: ORIGEM E CARACTERIZAÇÃO
Roberta Baltazar de Oliveira1 Larissa Michelle Lara2
RESUMO: Compreender o fandango enquanto uma manifestação integrante da cultura brasileira e com características próprias no Paraná a partir de sua origem e caracterização, configura-se como objetivo principal deste estudo, que parte, inicialmente, da obra “Fandango”, de Fernando de Azevedo (1978). Trata-se de uma pesquisa histórica, alicerçada por contribuições advindas do contato com o Grupo Folclórico Mestre Romão, de Paranaguá-PR. Compreendido como uma festa típica dos habitantes da faixa litorânea do Estado, bastante presente em regiões como Antonina, Guaraqueçaba, Morretes, Ilha de Valadares, o fandango caracteriza-se pela reunião de várias danças chamadas “marcas”, que podem ser realizadas de forma batida (sapateada) pelo homem, valsada por homens e mulheres ou mista (batida e valsada). Tem como movimentos característicos o caminhar feminino, acrescido do balanceio das saias, o sapateado masculino ou arrastar dos tamancos, o oito, o palmeado, o meio giro, o arco, a roda, dentre outros. O instrumental é formado por viola, rabeca e adufo. Como outras manifestações brasileiras, sua origem está pautada em contradições a partir dos referenciais investigados que tratam a temática. Contudo, alguns dados nos levam a pensá-lo não enquanto uma manifestação advinda de Portugal ou Espanha, mas resultante da fusão e interação destas culturas, aliado às condições brasileiras. Por sua característica peculiar e pelo fato de não ser encontrado em outras regiões do país da forma como sobrevive no Estado é que consideramos o fandango como uma legítima manifestação cultural paranaense, de grande força expressiva e simbólica. PALAVRAS-CHAVE: fandango, Paraná, cultura.

THE FANDANGO IN THE POPULAR CULTURE OF PARANÁ STATE PEOPLE: ORIGIN AND CHARACTERIZATION
ABSTRACT: The objective of this study was to understand the Fandango as an integrating manifestation of the Brazilian culture and with specific characteristics to the Paraná State from the point of view of its origins and characterization, and taking the work “Fandango” by Fernando de Azevedo (1978) as its starting point. It is a historical research based on the contributions gained from the contact with “Mestre Romão Folkloric Group” of Paranaguá-PR. Known as a typical festival of the state’s sea-side inhabitants and extensively present in regions such as Antonina, Guaraqueçaba, Morretes, and Ilha de Valadares, the Fandango is characterized by the reunion of several dances called “marcas” that may be performed by the stumping of the feet (tap-dance) by men, or by the waltzing by men and women, or even of them mixed (stumping and waltzing). It has as its characteristics movements the female walking added to the swaying of the skirts, the male’s tap-dancing or the dragging of the wooden clogs, the eight, the half-turn, the arc, the circle, among others. The instrumental is composed by the viola, the fiddle and the “cuíca”. Like other Brazilian manifestations, its origin is full of contradictions based on the referential investigated that approach the theme. However, some of the data makes us believe that it is not a manifestation that came from Portugal or Spain, but a result of the merging and interaction of these two cultures combined with the Brazilian conditions. Due to its peculiar characteristics, and by the fact that it is not found in other regions of the country in the same way that it survives in the state, we consider the Fandango a legitimate manifestation of Paraná state culture with great symbolic and expressive force. KEYWORDS: Fandango; Paraná; culture.

INTRODUÇÃO Sereno da madrugada Caiu na folha da rama Ô lá-lá-lalá-ri-lai-lá Caiu na folha da rama (Andorinha- Fandango Paranaense)

As manifestações culturais brasileiras representam foco de pesquisa relevante para o reconhecimento dos traços culturais que identificam determinada sociedade ou comunidade. No que diz respeito ao Estado do Paraná, são muitos os trabalhos de pesquisa existentes, mas poucas as publicações e divulgação de estudos desenvolvidos. Um exemplo disto pode ser observado na matéria “Popular or

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Acadêmica do Curso de Educação Física do Centro Universitário de Maringá e bolsista do PROBIC-Cesumar Docente do curso de Educação Física do Centro Universitário de Maringá e Universidade Estadual de Maringá

2000. cadastrando danças. 2000). a dança tem suas origens nas cerimônias de coroação dos reis do Congo. o que não ocorre com o fandango. No Paraná. mas não haveria qualquer trabalho de tratamento de dados e divulgação da pesquisa4 . em homenagem aos Reis Magos. 2004.29 . folia de reis. Roselys Vellozo Roderjan.Fandango Paranaense) O Paraná é um Estado com grande diversidade cultural. foi desenvolvido a partir de investigações a livros. Este encontro possibilitou o acesso a novas informações para a pesquisa. Contudo. bastante comum em cidades como Maringá. Paranavaí e Sarandi. poloneses. no período de 03 a 05 de agosto de 2001. A primeira parte traça reflexões sobre o fandango enquanto festa litorânea. Compreender o fandango enquanto uma manifestação integrante da cultura brasileira e com características próprias no Paraná a partir de sua origem e caracterização concretiza-se como objetivo principal deste estudo. sendo formado por alemães.um dos representantes de fandango do Estado durante o Festival de Folclore e Etnias de Maringá. muitas vezes. 4 Informações sobre as manifestações populares no Paraná. O fandango é apresentado na matéria como sendo um bailado ou chegança dos marujos no norte e nordeste do país. Envolveram-se 200 professores e alunos de várias IES do Paraná. artesanato. de forma singular.. infelizmente. podem ser encontradas em Popular or not popular. Mas. Ilha de Valadares e região de Guaraqueçaba.01. São Paulo e Rio Grande do Sul. origem e caracterização. Realizada em louvor a São Benedito.18 O Fandango. de Fernando Azevedo (1978). já que os fandangos existentes são bastante diferenciados. Isso porque não há. Nessa matéria. uma das principais fontes de conhecimento a muitos estudiosos da área. inclusive a situação geográfica destas danças em mapa. sendo encontrada na cidade da Lapa. complementando as informações encontradas na literatura e. cavalhada. podem ser vistos em diversas regiões brasileiras e com traços similares. a cultura do Estado. simbolizando a chegada do Deus-Menino com cantos e louvor. cavalhada e fandango. levando a questioná-las. Azevedo (1978) e Giffoni (1982). o material teria sido entregue ao Departamento de Antropologia da UFPR (constituindo parte do acervo). Embora congo. os dados não foram sistematizados e analisados em detalhes para a composição de um Atlas do folclore do Paraná que apresentasse o que realmente ocorre em cada município. pp. o fandango representa a manifestação que retrata. sendo encontrada em várias regiões do Paraná. jornais e fontes online. em que se buscava mapear as manifestações populares paranaenses. pode ser encontrado em Paranaguá. uma das pesquisadoras. Dentre as danças mapeadas no Paraná. informações sobre grupos de fandango no Paraná e pesquisas desenvolvidas. 17 . devoção. sendo o último grande levantamento realizado para a Funarte entre 1977 e 1979.PR. conforme observado nas pesquisas realizadas. Vol. festa e dança. É um tipo de cerimônia que representa o conflito entre cristãos e mouros. ucranianos. foi nosso principal referencial e continua sendo. As fontes online pesquisadas tangenciam documentos do Governo do Estado do Paraná (2002) com dados sobre o fandango e formação do povo paranaense. e baile ou festa rural em estados como Paraná. as diferenças são evidentes. em parceria com a Fundação Projeto Rondon e UFPR. Como forma de melhor compreender o fandango em sua origem e caracterização. not popular”. A matéria em questão traz mapeadas as seguintes manifestações folclóricas: dança de São Gonçalo. fica evidente a inexistência de estudos recentes que busquem identificar as principais ocorrências de cultura popular no Estado. no fandango gaúcho. O Congo ou Congada conjuga fé. de caráter histórico (Marconi e Lakatos. 06 n. Santa Catarina. A dança de São Gonçalo está ligada à devoção a São Gonçalo do Amarante. passos básicos. referenciais utilizados neste estudo. lembra Roderjan. e dança de São Gonçalo tenham assumido características próprias da cultura paranaense. O estudo. publicada na “Gazeta do Povo” em 20 de fevereiro de 2000. perpassando conceitos. festas. congo ou congada. sendo apontado como uma dança de origem européia marcada pelas batidas com os pés. em termos de coreografias.. realizamos contato com Mestre Romão . santo casamenteiro. manifestação que seja executada da mesma forma.jan-jun. Traços comuns podem ser percebidos na catira paulista. como no norte e no nordeste. A cavalhada pode ser vista em Guarapuava. Muitos dos dados encontrados fazem menção a Pinto (2002). Iniciação Científica CESUMAR . O segundo momento discute as “marcas” danças que caracterizam o fandango. vestimentas e instrumental. Em 1977. histórico. resultado de um estudo realizado por profissionais diversos e coordenado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. no Brasil. afirma que já se produziu muito sobre o folclore paranaense. FANDANGO: FESTA LITORÂNEA Esta casa já foi casa Este terreiro cidade Marinheiro me leva (Marinheiro . folia de reis. principalmente no que se refere à sua origem. folguedos de 267 municípios do Paraná. A folia de reis acontece de 24 de dezembro a 08 de janeiro. A obra “Fandango”.

p. festa. Santo Antonio da Platina e Wenceslau Brás. A terceira entende o fandango no Paraná. L. A segunda. chula. Os primeiros povoamentos surgiram com a presença de colonos. recebendo. isto propicia elucubrações a respeito das origens do nome e. a agricultura. em 1823. espanhóis e árabes.01. da dança. A primeira aponta o fandango como sendo um folguedo dos marujos ou Marujada. Mas. os ucranianos e. aumentando a procura de mão-de-obra para trabalhar nas fazendas de café e. Lara. pega-fogo. principalmente. baile popular. sendo dividido em trinta e nove microregiões. Conforme informações obtidas junto ao Governo do Estado (2002). embora não tendo nada em comum. de jesuítas espanhóis e bandeirantes paulistas. acompanhado por viola”.29 . que ajudaram a consolidá-lo. observada desde São Paulo até o Rio Grande do Sul. espécie de cateretê. dedicando-se. Os novos imigrantes chegaram após 1850. entre 1895 e 1897. música e dança. possui seu território localizado na região sul do Brasil. Depois vieram os árabes. não estando diretamente ligada à dança ou música. o europeu. de influência hispânica. nascido de cantigas brasileiras e xácaras portuguesas. é uma das manifestações representativas do Estado. arquitetura. Côrtes (2000) esclarece que o atual território do Paraná somente despertou interesse dos colonizadores após a descoberta do ouro no início do século XVII. pagará. fugindo dos horrores dos conflitos. artesanais e relacionadas à indústria moveleira. e da lavoura de subsistência era heterogênea e nela estavam presentes os mesmos elementos que compunham a população das outras regiões Iniciação Científica brasileiras: o índio. alternadas com estrofes cantadas. A colonização “maciça” teria começado apenas após a proibição do tráfico de escravos. trazendo a tradição da lavoura. O fandango no Paraná. totalizando 399 municípios. desenvolvendo atividades comerciais.53). italianos. os primeiros holandeses. Novos municípios foram formados por esses imigrantes.. o Paraná é um dos Estados com maior diversidade étnica. ‘desentendimento’. Os alemães foram os primeiros a chegar ao Paraná. o negro e seus mestiços. ao som das castanholas. conforme apontam os dados do Governo do Estado (2002). O Estado do Paraná.” Já a compreensão de Côrtes parece estar pautada nas explicações de Aurélio e Cascudo. cantada e sapateada. qualquer baile ou divertimento. chegaram os poloneses. o maior número de imigrantes vindos da Alemanha chegou no período entre as guerras mundiais. os quais foram formando colônias no Estado. cerca de 20 mil imigrantes. especialmente da polícia. evidencia o fandango como um conjunto de danças de coreografias variadas. 17 . em 1909. japoneses e outros.M. função. música para a dança. Santa Catarina e Rio Grande do Sul como sendo “folguedo. À medida que as cidades prosperavam. para o desenvolvimento da pecuária. Além de alemães. Sua compreensão terminológica em Aurélio (1986) é a seguinte: dança espanhola. Os primeiros imigrantes espanhóis que chegaram ao Paraná formaram colônias nos municípios de Jacarezinho. R. Vol. caranguejo. especialmente. com o reforçamento de sua prática graças. também. em compasso ternário ou binário composto. concomitantemente. aos açorianos. compreendido enquanto festa própria da região litorânea. auto ou representação popular em torno da chegada de uma embarcação à vela a porto seguro. pp. canto popular espanhol. Esse povo trouxe ao Paraná as atividades a que se dedicavam. 2002). de andamento vivo. p. do Paraná de mineração. das indústrias extrativas do mate e da madeira. Entre 1942 e 1952. especialmente quando esclarece que: CESUMAR . entre elas a olaria. ‘confusão’. encontramos: “a palavra fandango é de origem espanhola e se refere a um baile ruidoso feito pelo homem do campo. Em 1930. tatu. totalizando vinte e oito etnias. de pecuária. isto é. o povo do Paraná já havia assimilado a cultura que os imigrantes europeus trouxeram. 2004. especialmente rural.19 Oliveira. à produção literária. rolo. Chegança dos Marujos ou Barca em alguns estados do Norte e Nordeste.jan-jun. os imigrantes passaram a exercer também atividades comerciais e industriais. ‘briga’. Bittar (2003. “Fandango pode ser ‘adaga’. Explica que a brasilidade do fandango seria indiscutível e a forma como é realizada no país não existiria em Portugal. Em 1871. interessados no aprisionamento dos índios locais. sabre. A população do Paraná tradicional. em que se dançam coreografias regionais”. Portanto. A última cita o fandango como sendo também espada. a imigração espanhola tornou-se mais intensa. entre 1853 e 1886. uma sociedade também marcada pela escravidão e na qual foi significativa a participação econômica e social dos escravos negros (GOVERNO DO ESTADO.B. facão. quando o Paraná deixou de ser província de São Paulo. embora parte de seus temas sejam de origem portuguesa. Em Pinto (2003. 06 n. caracteriza-se como um auto-popular evidenciado na primeira década do século XIX. sem canto. Procurando discutir os motivos que levam duas festividades folclóricas a terem o mesmo nome. e no qual se executam várias danças de roda e sapateadas. dança rural portuguesa. ao som da viola ou da sanfona. Os estudiosos estipularam duas denominações: Paraná Tradicional (até 1930) e Paraná Moderno (após 1930). Nestas regiões. O folclorista Cascudo (2001) contribui com maiores elucidações a partir de quatro caracterizações para o termo.15) afirma que a terminologia do fandango é algo curioso. outros povos contribuíram para o delineamento cultural do Estado. a marcenaria e a carpintaria. Os imigrantes japoneses fixaram-se no norte pioneiro.

171). Teriam se espalhado rapidamente pelos salões palacianos da Europa. assim como dança rural portuguesa e sem canto. No Norte e Nordeste denomina-se marujada ou chegança de marujos. pp. em contato com os silvícolas. Tradicionalmente. Tratava-se de uma dança realizada em roda.01. cuja dança também era de roda. numa linguagem mímica de conquista. assim como pelas colônias americanas de Espanha e Portugal.jan-jun. Ou ainda como um conjunto de danças de coreografias diversificadas cuja origem é espanhola. sentindo nostalgia. Foi considerado licencioso e hereje por ordenanças reais e eclesiásticas. menciona o conjunto de marcas e coreografias típicas presentes em festas de caboclos e pescadores nas regiões litorâneas do Estado e ao pé da Serra do Mar. com danças de sua terra. Prestigiadas antes pelas elites. Esclarece que autores portugueses mencionam o fandango como sendo dançado. fandango é festa que congrega várias danças regionais. sendo conduzidos a Rio Negro. Vol. alegando que a primeira tentativa de estabelecer colonos açorianos no Brasil teria se dado em 1816. Côrtes (2000) menciona que o fandango teria vindo da região do Prata dada a influência hispânica e açoriana ser visível na realização dos bailes. Pode-se observar que há uma aproximação conceitual entre os autores. Algumas danças próprias do fandango paranaense aparecem aqui delineadas. tirana e bolero. Informações online obtidas a partir do site do Grupo Folclórico Mestre Romão trazem as seguintes considerações: (. Outras contribuições podem ser encontradas em Roderjan (1981). 2004.) de origem espanhola. Roderjan (1981) refuta essa idéia. principalmente quando menciona que o fandango teria sido dançado nos salões aristocráticos desde o século XVIII. Este. Documentos de Antônio Vieira dos Santos levam Roderjan (1981) a supor que o fandango fosse dançado também em Paranaguá e Morretes no começo do século XIX. procuravam recordar a pátria distante. que no passado se espalharam pelos recôncavos do nosso litoral. (2000. cateretê ou catira. tatu. alternava movimentos do corpo com sapateados e braços geralmente erguidos. na Europa e. recebendo as seguintes designações: fandanguilho. Levam as designações de chula. chula e fandango. gradativamente. em algumas regiões castanholas. São encontrados documentos de viajantes que fazem menção à existência do fandango em fazendas no Paraná já em 1820. p.. sevilhana. E aí poderíamos incluir o Brasil. na América. Eram chamadas de fofa. Entretanto. mais especificamente. já indicando aculturação dessa manifestação. sempre envolvendo sapateados e executada exclusivamente por homens. estando apenas um casal posicionado no centro. depois. apenas de uma região portuguesa). No século XVIII. é uma dança que se aproxima do cateretê ou da chula. dentre outras. reforçando a idéia de baile popular. o paulista.. Pinto (2002) é um dos pesquisadores que discute a origem açoriana do fandango paranaense por volta de 1750 com os primeiros casais de colonos que o realizavam durante o entrudo. pelo porto de Paranaguá. de Lessa e Cortes (1974). assim como outras do fandango paulista e riograndense. Tais danças teriam sido apreciadas pelas classes altas de Madri e Lisboa. pandeiros. contrariando alguns dos dados levantados por outros autores. No que diz respeito ao Paraná.20 O Fandango. embora sem estabelecer nenhum contato. realizado por famílias de fazendeiros. deixando em evidência as peculiaridades de cada região do país. mas de contribuição açoriana (ou seja. podendo o mesmo ser encontrado como dança espanhola e canto popular espanhol. eles acabaram formando o fandango Parnanguara que é um misto de danças Espanholas e Portuguesas com as danças dos CESUMAR . E como era natural. Então. (e também com influências portuguesas) o Fandango é uma dança trazida pelos aventureiros. percebemos a presença do fandango já no final do século XVI. sendo proibido. O som era produzido por instrumentos de corda e. no Paraná. como em Morretes e Porto de Cima.29 .. cachucha. são realizadas de forma menos lasciva e mais românticas.. jota. 17 . A compreensão de fandango como espada e facão parece ser pouco utilizada. Em São Paulo. Outro aspecto relevante é que as tentativas conceituais já fazem alusão à origem do fandango. 06 n. região de onde teriam saído vários portugueses em direção ao Paraná. com a participação de homens e mulheres sem nenhum contato corporal. foi trazido por portugueses e luso-brasileiros. No Sul. vindo das danças da Idade Média. Se tomarmos como referencial a obra “Danças e andanças da tradição gaúcha”. na Espanha. Iniciação Científica palmas e castanholar de dedos. caranguejo. ao norte de Portugal. até as classes populares que as imitavam. principalmente. foram chegando. a palavra fandango tem diversos sentidos em todo o Brasil. Entende que o fandango.

o anu deve ser dançado primeiro como forma de espantar tristeza. pp. teria acabado com o fandango por não permitir a dança. congada) era comumente aceito como “baile” ou “função” nas chamadas casas decentes e os caminhos para sua extinção foram vários. realizado de forma individual ou por par solista. embora não seja este instrumento presente em fandangos observados no Paraná. que o fandango no Paraná teria sua origem nos portugueses e luso-brasileiros (especialmente o paulista).pássaro preto. explica Mestre Romão. Mestre Romão6 . as primeiras censuras ao fandango teriam ocorrido por volta de 1792 em Paranaguá. pássaro de azar. Outra contribuição com relação ao fandango parte de Azevedo (1978). quando esclarece que Paranaguá foi povoada em meados do século XVII por levas de paulistas e portugueses vindos de São Paulo ou diretamente de Portugal. requebros. Afirma que houve um choque entre os modismos europeus e as manifestações populares locais levando à censura do fandango pelas Ordenanças Reais e pela Igreja à medida que era considerado lascivo e prejudicial aos bons costumes. Giffoni (1982) também caracteriza o fandango como sendo de origem espanhola. Mestre Romão.13) elucida que “uma vez que muitas manifestações culturais estão intimamente ligadas a práticas religiosas. como evidenciado em Lessa e Cortes (1975). pois fontes indicam que caboclos paranaenses iam a São Paulo para “bater fandango”. e já modificado. agregada à cultura luso-brasileira. tanto que representa a primeira marca a ser realizada. O fandango gaúcho teria chegado ao Paraná após 1940. é importante observar que. são apontados por Mestre Romão7 : a chegada ao Brasil de música estrangeira.terrabrasileira. de “recordação”. desde que com autorização policial. Seria por este fato. rico em sensualismo e agilidade. Acesso em 12 de abril de 2003. p.21 Oliveira. Tal expressão levar-nos-ia a compreender essa manifestação cultural no Paraná como uma criação espanhola. influenciando o paranaense. proveniente das danças populares da Idade Média.M. A esse respeito. nossos índios carijós5 . com a expansão das religiões evangélicas junto às camadas populares. Os espanhóis. Alguns problemas que dificultaram a sobrevivência do fandango no Paraná. R. castanholas. informações em www. “era de tão longe”. os dançarinos entendem que para começar bem a noite de fandango. inicia o alistamento para defender a pátria e isso fez com que muitos deixassem de dançar o fandango. conta-nos que essa manifestação teria chegado a Paranaguá no ano de 1720. 5 6 Cf. dizendo haver anu também em sua terra natal.jan-jun.. mais ou menos. é preciso atentarmos para outros elementos que discutem o processo de aculturação existente ao longo do processo histórico. superstição e azar. sendo o fandango considerado uma manifestação popular do meio rural. Uma das histórias ligadas a esses espanhóis está relacionada ao anu . pois uniu o fandango de São Vicente-SP com cantigas de açorianos que povoaram o sul. E assim. um dos disseminadores do fandango no Paraná. A autora continua suas afirmações explicando que o fandango era dançado nos salões aristocráticos desde o século XVIII na Europa e depois na América. A forma como a autora o delimita talvez esteja voltada para o fandango em sua origem no século XVI. com a incorporação e transformação dialética destes elementos. fandangos e outras reuniões coletivas praticamente deixaram de ocorrer. trazida por um casal de espanhóis que veio ao Brasil para tentar a vida. entrando na ilha. Em 1920. Vol. partindo de informações transmitidas pela tradição oral. teria começado a primeira expressão do fandango no Paraná. apresentando sapateado.net/folclore/regioes/5ritmos/p-fandan. e não na forma como conhecemos hoje.html. 7 Ibid. o vôo de um bando de anu levou o casal de espanhóis a perguntar aos índios que pássaros eram aqueles. começaram a cantar versos como “do anu da minha terra”. Lara. com o anu. chula. A resposta foi : “é o anu”. momento em que os jovens foram envolvidos por esse tipo de dança. meneios.B. mais especificamente na Ilha de Valadares. Depois veio a religião evangélica que. Explica que na época do Brasil colonial o fandango. afirma Rando (2003). explica. Entretanto. Rando (2003. 17 . pelo porto de Paranaguá. L. jongo. 2004. Em 1830. em certo dia.29 . Informações concedidas por Mestre Romão Costa em 04 de agosto de 2001. No Paraná. Este casal tocava e cantava para relembrar a terra natal. A complexidade do tema se justifica. Iniciação Científica CESUMAR . 06 n. acompanhado de canto e guitarra. Por ser pássaro preto. A vinda de imigrantes europeus no século XX teria causado transformações sociais no Estado a ponto de diferenciarem as práticas culturais das diferentes classes da estrutura social. juntamente com outras manifestações culturais (batuque. explica que. mas “uma coisa de Brasil/Portugal”. o fandango foi sendo esquecido pelo ingresso no Brasil da música européia e da música argentina. pela dificuldade em determinar categoricamente as origens de uma cultura pela sua multiplicidade e pelo fato de se referir a diferentes momentos históricos e sociais. com características peculiares aos habitantes de cada região. explica o autor. sendo a realização liberada no século XIX. a disputa de terra e a religião evangélica.” Mestre Romão afirma que o fandango é de origem espanhola. os mutirões.01.

12). Porto de Cima. Poruquara. Guaraguaçu. pp. em dez anos de pesquisa. 06 n. treis roça enorme. É possível que alguns espanhóis. Não gastava nada. menciona o domínio espanhol nos séculos XVI e XVII. bem como artesãos que preservam a arte da fabricação dos instrumentos musicais utilizados nessa manifestação10 . Entretanto.21-30. Então na outra semana ele ia ajudá outro tanto. ao final do dia. Então ele plantava duas. Rio Itimirim. 2004. O fato curioso é que os dados do Governo do Estado (2002) apontam a vinda de espanhóis para o Paraná no século XX. Vol. 2003. oferecia um baile de fandango. A origem do fandango paranaense por um casal de espanhóis foi o que mais nos chamou a atenção. a confirmação de tais dados nos parece uma questão desafiadora. como veremos mais adiante. 2003. pôde-se observar a existência de fandangueiros e conhecedores do fandango em muitas comunidades litorâneas como Antonina. o meu pai. que ainda relatam o fandango e suas particularidades. não podendo ser descartada. Cf. como os grupos que mantêm viva a cultura fandangueira. Gemba. aniversário. os bailes de fandango passaram a ter locais determinados para sua realização. teria chegado ao Paraná no século XVIII. Elias (1976). Serra Negra. Sobre o pixirão. BRITO. Maria de Lourdes da Silva (org). sendo dançado principalmente nas festividades do entrudo (que daria origem ao carnaval) e em algumas festas de casamento.. Quando eu tinha 12 anos. nos acordes de um ou outro violeiro ou nas mãos de um ou outro artesão. cinquenta pessoa e fazia o plantio da mandioca. Superagüi. com exceção da Ilha dos Valadares (onde existe um grupo de fandango organizado pelo mestre Romão e mestre Eugênio e patrocinado pela Fundação Cultural de Paranaguá). As informações coletadas levaram-nos a observar Ibid. ele trabalhava de noite. especialmente na figura de “Cabeza de Vaca”. Então ele foi começando o Fandango8 . Isso porque não encontramos na literatura nenhuma observação dessa natureza.29 . Pedra Chata. 10 Dados obtidos junto a Andrade e Arantes (2003. nas demais comunidades o fandango sobrevive apenas na memória dos mais velhos.jan-jun. Cita os grupos de Mestre Romão e Mestre Eugênio na Ilha de Valadares e em Guaraqueçaba a Família Pereira. Faz parte da memória do mestre e da tradição oral. Wachowicz (1988) elucida que o território onde está situada a cidade de Curitiba pertencia teoricamente à coroa espanhola pelo Tratado de Tordesilhas. In: BRITO. Maria de Lourdes da Silva (org). 17 . ao mencionar o contexto de realização do fandango.43) indicam que o fandango como manifestação folclórica é dançado apenas pela família Pereira em Rio dos Patos . José A. litoral Norte do Estado do Paraná. vinda do Estado de São Paulo para o Paraná. como explica Mestre Romão. Barra do Ararapira. Contudo. outras pessoas jovens. como o plantio e a colheita. e com o trabalho da mandioca no Brasil. constituindo fonte de conhecimento relevante para melhor compreendermos essa manifestação.22 O Fandango. Guaratuba e Matinhos. Paranaguá. Rando (2003) observa ainda que o fandango subsiste em regiões onde o aparato tecnológico e a pluralidade de práticas religiosas não se consolidaram plenamente. Barra do Rio Verde. Curitiba: Mileart. era lavorista. só ajuda do pessoal.. o depoimento de Mestre Romão constitui-se em fonte pautada na tradição oral. trabalhava com mandioca e vendia muito. o meu bisavô. que fala em origem espanhola. (RANDO. ocasiões em que o dono da lavoura convocava um mutirão e. As informações que nos são passadas por Mestre Romão lembram também o exposto por Roderjan (1981) sobre a realização do fandango nos sítios por ocasião do pixirão9 . sendo que o fandango. As reflexões de Rando (2003) podem ser encontradas na fala de Mestre Romão. Mutirão ou pexirão: relatos do fandango paranaense. Curitiba: Mileart. Contudo. tenham se enveredado pelo Paraná no século XVIII e dado origem ao fandango.01.região costeira do município de Guaraqueçaba. Matinhos e pequenos vilarejos. na perspectiva apontada por Mestre Romão. p. Antonina. A família Pereira iniciou a comunidade de Rio dos Patos na década de 30. Assim. p. “No entanto. entre outras. afirmam os autores. Fandango de mutirão. p. 2003. Guaraqueçaba. da Silva e RANDO. e depois dava o Fandango para as pessoa se divertir. Morretes. Fandango de mutirão. Entende? O trabalho ajudava a enfrentar a roça. Ilha dos Valadares. salvo Giffoni (1982). quando os vizinhos se ajudavam nos trabalhos de roçada ou plantação. batismo. representante que declarava posses da terra em nome do Rei da Espanha por meio das expedições realizadas. passada de geração em geração. BRITO. Já nas regiões rurais as festas de fandango estavam vinculadas ao calendário da agricultura de subsistência. 9 8 Iniciação Científica CESUMAR . motivados pelo desejo de descobertas. ao se referir às origens do Paraná. Os dados apontam uma origem portuguesa e lusobrasileira para o fandango no Estado. fazia um mutirão e chamava quarenta. Existiriam ainda grupos isolados e algumas pessoas idosas em Morretes.” Cf. Maria de L.

luso-brasileira (mais especificamente paulista) e uma origem espanhola. mas sim porque era preciso ter muita força nas pernas. Morretes e Porto de Cima) e nas ilhas. haja vista que dançam na folga de sábado para domingo. feito com sapato ou tamanco. p. ao Paraná. Esse número é diferenciado na literatura e em dados obtidos na conversa com Mestre Romão. Isso porque. mesmo havendo um número reduzido de práticas dançantes. Fandango de mutirão. já que iam à frente limpando o caminho para elas passarem. Nazir. No caso da Barca. desde que as pessoas contribuam com a compra do necessário para a festa. da Silva e RANDO.171). Um dos fatos curiosos é o depoimento de Dona Isolina ao afirmar que as mulheres não batiam os tamancos porque fosse algo proibido. às diferenças na classificação de algumas danças podendo ou não serem consideradas marcas de fandango. explica. uma rabeca e um adufo. Tal informação nos leva a pensar o fandango a partir de origens diferenciadas no Brasil. O fandango de finta (que indica fandango de coleta) pode ser realizado em qualquer época do ano. A esse respeito: Observa-se. sendo a Nau Catarineta a décima sexta. As danças batidas são finalizadas com um sapateado forte e uníssono. No caso da marujada.15-19. mais especificamente. A expressão folgadeira é utilizada para as mulheres e folgador para os homens. sendo estes organizados em dois grupos (as danças batidas e valsadas ou bailadas). Maria de Lourdes da Silva (org). In: BRITO. Lara. dança e canto são realizados ao som de instrumentos de corda. apresentando vinte e quatro partes.jan-jun. dois aspectos fundamentais: o país de origem do fandango e sua difusão pelo mundo. Gemba. encontramos nos autores investigados uma possível origem espanhola e ramificação para Portugal e demais colônias 11 . tanto no que se refere aos instrumentos musicais. No Brasil. não há como pensar em pobreza das danças folclóricas paranaenses pela quantidade de manifestações existentes. gestualidade. Talvez esse motivo inicial tenha dado origem a uma forma cultural de movimentação. o fandango é realizado desde o século XIX. o seu potencial cultural. Em O fandango na Ilha de Valadares. constituindo as Cheganças ou Cheganças dos Mouros. 2000. onde existem grupos nas praias de Leste e Matinhos. seguido da expressão “Ô de casa!”. In: BRITO. 2003. tanto no Paraná como em Santa Catarina. Vol. Dança-se ao som da orquestra formada de rabeca. a sua representação é bem variada. Curitiba: Mileart. com características diferenciadas. gestual e estético é bastante rico. L. As músicas têm influência européia e as vestimentas caracterizam as fardas oficiais da Marinha e de marinheiros. uma acentuada tendência para congregar. Curitiba: Mileart. Maria de Lourdes da Silva (org). Roderjan (1981. pertencente à Romaria de São Gonçalo”. quando os vizinhos se ajudavam nos trabalhos de roçada ou plantação. Pinto cita aproximadamente 83 marcas que foram coletadas por ele no Litoral do Paraná. está presente nas regiões sul e nordeste do país. entremeadas de palmas. para ressaltar o sapateado masculino13 . O fandango na Ilha de Valadares. canto. a chegada do fandango ao Brasil e. sendo chamado de rufar.. No que se refere ao local de origem do fandango. Cf.23 Oliveira. Maria de L. os episódios dizem respeito aos mouros que atacam as barcas. sendo vencidos e batizados. p. Nos diversos estados brasileiros onde se conhece o fandango. É freqüente sua realização no carnaval e em festas de padroeiros. apresentando-se com mais frequência o Fandango e a Dança de São Gonçalo. Aos sapateados finais dá-se o nome de arremate. p. conferir BITTAR. 06 n. Maria de Lourdes da Silva (org). A pesquisadora também fala das danças valsadas e sapateadas. A pluralidade do fandango: dança. o Fandango passou a constituir. Mutirão ou pexirão: relatos do fandango paranaense. como é chamado o fandango em estados como Ceará. Fandango de mutirão. conforme as regiões em que se encontra.21-30. 2004. Trinta bailes 12 comporiam o fandango. Dona Bernardina fala ainda em batida dos tamancos pelos homens como forma de gentileza e cuidado com as mulheres. Fandango de mutirão. BRITO. teatro e baile. Paranaguá. 17 . 29) afirma que “O Paraná é pobre em danças folclóricas. por exemplo. Os cantos são tradicionais ou improvisados. Seriam comuns os desafios (porfias) entre os conjuntos musicais. 2003. 13 Brito e Rando (2003) trazem alguns relatos de pessoas que fazem o fandango paranaense. reforçando a batida dos tamancos apenas pelos homens. Enquanto Côrtes (2000) fala da tradição e vitalidade do fandango paranaense. ao pé da Serra (Antonina. Roderjan (1981) esclarece que a maior incidência dos fandangos é no litoral. enquanto manifestação cultural brasileira. as mais diversas danças e autos populares. Assim. p53-61. R. haveria contribuição portuguesa e/ou espanhola para a consolidação do fandango nas regiões sul e sudeste. No que diz respeito à sua chegada ao Paraná. 2003. p. pp. entre 1954 e 1974). José A.B.M. PINTO. In: BRITO. Curitiba: Mileart.01. No Rio Grande do Norte. divertindo os participantes enquanto bebem e se alimentam durante a festa. Era dançado nos sítios por ocasião do pixirão. sob um nome genérico. O fandango paranaense é normalmente realizado em recintos fechados e em chão de madeira. 12 11 Iniciação Científica CESUMAR . e origem portuguesa para o fandango do norte e nordeste. Morretes e Guaraqueçaba. Dai. comumente mencionadas na literatura Cf. Por mais que entenda que o Paraná possui poucas manifestações dançantes se comparado a outras regiões brasileiras.29 . A esse respeito. foram evidenciadas uma origem portuguesa (muitas vezes delimitada apenas a açoriana). levando-nos a constar um número bem maior que 30 marcas. Entende que “O fandango paranaense tem uma vitalidade e uma tradição que se mantiveram praticamente intactas nas danças e músicas executadas nestas festas” (CÔRTES. violão. quanto ao guarda-roupa dos participantes. viola. Inami Custódio. com base nos estudos de Cascudo (2001). Bahia e Pernambuco. cavaquinho e banjo. O pequeno grupo musical que executa a festa é geralmente composto por uma ou duas violas. O fandango. Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte não há mouros. na elucidação de Côrtes.

41-50. Tiraninha. são muitas as marcas existentes. mas alegres e ricas em coreografias (Cana-Verde. Caranguejo. 1981..Fandango paranaense) Marca é o nome que se dá às diferentes formas de expressar-se por meio da dança no fandango. Joceli de Fátima Tomio. Caranguejão. Tontinha. para a disseminação dessa manifestação. adufos e rabecas. pois sempre há aquelas que são realizadas com maior freqüência. ANDRADE. de difícil execução e com desenho coreográfico de oito coletivo (Andorinha. Borboleta e Marinheiro). pp. ora as crianças vão até sua casa. separado das paredes. Queromana.01. formado por músicos de maior idade e dançarinos jovens. valsada ou mista15 . 17 . Cf. porque a batida do tamanco é igual à batida do coração. Tal afirmação não pode ser tomada hoje como elucidativa da realidade do fandango. A primeira marca é o Anu (pássaro preto e agourento) para afastar o azar. O sapateado seria aprendido de forma rápida pelas crianças. acompanhados de palmas ou estalar dos dedos. ARANTES. o que será explicitado a seguir. 15 Andrade e Arantes (2003) elucidam que em Rio dos Patos as danças são chamadas modas e não marcas.29 . Vol. AS MARCAS DO FANDANGO O anu é pass´o preto O anu é pass´o preto Passarinho do verão. aos sábados.64). Realizado de forma peculiar no Paraná a partir da riqueza de suas músicas e do gestual dançante. Só os homens sapateiam. Tonta.. o fandango acontece tanto em dias rotineiros quanto no período carnavalesco. juntamente com os fandangueiros mais antigos. o fandango é visto como a mais legítima manifestação popular do Paraná. O mestre explica que ora vai à escola. Vilão de Lenço. Esclarece que todas têm que ter tamanco. batidas e valsadas. mais especificamente litorâneas. O fandango em Rio dos Patos. realizadas em roda por homens e mulheres (cujo sapateado é apenas masculino) ao som de violas. Os pares dançam enlaçados em círculos e em sentido anti-horário. Caranguejinho. ai (Anu. explica o autor. contribuindo. conforme as necessidades da comunidade. p. à medida que muitos projetos de incentivo e disseminação do fandango paranaense estão acontecendo e. Chico. não uma determinada dança. 2004. Estas são feitas em rodas e os pares dançam com passos valsados ou volteados. etc (AZEVEDO. batidas. No Paraná são chamados de “folgadeiros” e “folgadeiras” os que realizam as coreografias dos vários tipos de dança. das pertencentes ao projeto. Anu. Chamarrita. sem tamanqueado. podendo ser batida. Serrana e outras). Maria de Lourdes da Silva (org). Fandango de mutirão. E finaliza a parte referente ao fandango com o seguinte comentário: “Atualmente. embora sejam as pessoas mais velhas (em sua maioria) que ensinam o fandango. para que as batidas tenham uma ressonância a quilômetros de distância. mas um conjunto de danças regionais. ditando as formas de bater o tamanco14 . Sapo e Polquinhas) e rodas passadas. Roderjan (1981) explica que o fandango paulista é o que possui maiores aproximações com o nosso. Mesmo os fandangueiros acabam tendo dificuldades para guardar todas. No Estado do Paraná. Estrela e Balão do Ar). Isso nos leva a crer que pelo menos trezentas crianças. podendo ser de qualquer forma. embora algumas tenham se perdido no tempo. embora não tenhamos investigado as iniciativas para tal aquisição. que subsistem por si em outros lugares. p. repicadas e rufadas. palmeado e duplo oito (Porca. o que acaba inibindo as demais. Tatu. Um exemplo é o Grupo Folclórico Mestre Romão. Em Pinto (1999). Buscando similaridades do fandango paranaense com outros fandangos. no Paraná. sendo um conjunto de danças regionais. 2003. In: BRITO.24 O Fandango. Tal o caso da Caninha Verde. bailadinhos em que os pares se enlaçam seguindo o ritmo da música (Don-Dons. preferimos conduzir o estudo a partir de uma distribuição 14 Mestre Romão busca difundir a cultura do fandango também na escola através de um projeto em que mais de trezentas crianças estão envolvidas. que também dança e sempre no centro da roda. mas que aqui só sobrevivem integradas dentro do Fandango. Quanto à caracterização do fandango paranaense.32). são os jovens que integram os grupos como dançarinos. resultantes de um “pixirão” (mutirão) ou divertimento rotineiro. Curitiba: Mileart. 06 n. apresentando uma diversidade de marcas que o tornam ainda mais interessante. Iniciação Científica CESUMAR . parece ser comum nos autores a idéia de que esta manifestação cultural constitui-se de uma reunião de danças chamadas marcas que podem ser batidas.1973. tinham o tamanco para realizar as aulas. Sandra Mara Leite de. Embora seja interessante tal classificação. valsadas ou mistas. com sapateado simples. Tonta. Pinto (2002) divide as marcas em cinco grupos: batidas simples (Anu. Frade (1991) também designa fandango como uma série de danças populares (marcas). o fandango no Paraná é dançado somente por pessoas idosas” (RODERJAN. salvo Mestre Romão. As mulheres arrastam os pés e volteiam soltas. p. Faz isso para não deixar o fandango morrer. quando os violeiros agradecem aos patrocinadores da festa. Esclarece que o salão para a realização do fandango deve ter um assoalho de tábuas largas e flexíveis para resistir ao sapateado. Chamarrita).jan-jun. O início da festa dá-se com a “Chamarrita de Louvação”.

net/folclore/regioes/5ritmos/p-fandan.Marcas do fandango Marcas batidas Anu Xarazinho Andorinha Chamarrita (de 4. indicariam a repetição do passo ou dança e marcariam o final desta marca. Anu é pássaro preto conhecido em várias regiões do país. O sapateado e palmeado masculinos apresentam uma estrutura rítmica bastante interessante. 2 O site www. Lara. já que mesmo os fandangueiros acabam privilegiando certas marcas em detrimento de outras. Iniciação Científica CESUMAR . Maria de Lourdes da Silva (org). As letras falam de amor. de como os estudiosos interpretam cada marca. Curitiba: Mileart. p. Andorinha.deslocamento que procura desenhar virtualmente esse número. No Grupo Folclórico Mestre Romão 3. à própria dificuldade do pesquisador em resgatá-las frente às transformações sociais e à sua pouca vivência. mais simples. 2004.M. inicia o desenho do oito pela sua direita e para trás. sem maiores explicações. pp. sendo realizado pelo homem ao redor da dama.01. retornando ao lugar inicial. apresentando tanto sapateado quanto palmeado. passa por seu parceiro. Valsado). Os marcadores de roda. Vol. Inami Custódio. dependendo. como tira-espinho. 6. inclusive fotos de alguns dos dançarinos e músicos. O fandango na Ilha de Valadares e BRITO. saudade. site do “Grupo Brasilis” (danças populares) da Universidade Estadual de Maringá. Em “Região Sul – Paraná” (2003). formando um arco. vida. como outras manifestações corporais. Procuramos organizar o quadro abaixo para facilitar a nossa visualização e discussão. mulher. já que é esta marca que abre o fandango. lembrando que até mesmo essa classificação das marcas como sendo batidas. contorna o próximo dançarino e fecha o desenho do oito passando novamente pelo parceiro. Antes de cada oito as mulheres vão para trás e dão a sua mão direita ao homem que a segura com a esquerda. Quadro 1.29 . acrescido do oito simples. talvez. muitas vezes. O grupo teria surgido em 1994 por meio da Prefeitura Municipal de Paranaguá. 3 Observações realizadas em apresentações do Grupo Folclórico Mestre Romão durante o Festival de Folclore e Etnias de Maringá. Os palmeados servem de entremeios aos cantos. 2003. tristeza e saudade. em 8 escolas municipais e estaduais. 06 n. principalmente pela figura do oito . As marcas1 mencionadas em referências utilizadas neste estudo nem sempre apresentam informações satisfatórias. L. Nesse caso. a nomes próprios (Chico). dentre outros. Muitas são mencionadas apenas enquanto marca valsada. R.B. oito e olha o fogo. que se posiciona à frente de seu parceiro na roda. Côrtes (2000. Mesmo sendo difícil transformar em palavras o gestual do fandango. a mulher. sendo também uma marca caracterizada pelo sapateado masculino. consultar PINTO.187) explica que cada passo do Anu recebe um nome especial. tendo mais de 250 crianças em contato com essa manifestação. no período de 03 a 05 de agosto de 2001. aquelas caracterizadas pelo sapateado masculino. pautada nas investigações de Azevedo (1978). Frases como ‘Outra vez que ainda não vi’ ou ‘Não tem primeira sem segunda’. à vida no mar (Marinheiro).terrabrasileira. O mesmo efeito dar-se-ia ao passar o bico do anu no rasto da mulher desejada. mar. traz informações sobre o Grupo Folclórico Mestre Romão. O palmeado acontece com os braços levantados.. valsadas ou batidas e valsadas também não são consensuais na literatura. morte. valsada ou mista. As informações obtidas em literatura sobre o assunto foram complementadas com dados obtidos junto ao Grupo Folclórico Mestre Romão2 . Bailado. pela complexidade da tentativa de abarcar o que efetivamente representam. Sempre as mulheres giram e ocupam o lugar da dama anterior. Porca.html e intitulado “Grupo de Fandango no Paraná”. Maria de Lourdes da Silva.25 Oliveira. Cascudo (2001) relata que entre os 1 Para mais informações sobre as marcas do fandango paranaense.jan-jun. 17 . Fandango de mutirão. predominou a nossa interpretação das marcas a partir das leituras realizadas e das observações junto a grupos de fandango. Sabiá). sem elevações exageradas dos pés. a ações a serem desenvolvidas nas danças (Recortado. Andorinha é outra marca com nome de pássaro e também batida. sendo composto por 36 integrantes. praia e despedida. O sapateado é feito de forma rente ao chão. Apresenta mestre Romão como sendo aposentado do sindicato dos estivadores e com idade de 75 anos. Isso se deve. O Anu será o primeiro. pássaros. Cascudo (2001) lembra de uma lenda do Anu que diz que quem comer o coração deste pássaro pensando em uma mulher tornará esta apaixonada. Sapo e Tatu). o Anu é caracterizado por seu sapateado e pela figura do oito. Tonta). a animais (Caranguejo. enquanto a música fala de amor. o Anu é dançado em roda. ou seja. As mulheres ladeiam os homens nessa formação. a situações pelas quais se passa ao dançar (Caradura. iniciaremos a abordagem pelas marcas batidas. 8) Tonta Recortado Marcas valsadas Dondom Chamarrita simples Vilão de fita ou de lenço Meia-canja Valsado Caradura Coqueiro Sapo Cana-verde Bailado Marcas batidas e valsadas Xará Grande Queromana Marinheiro Lageana Chico Tiraninha Feliz Serrana Sabiá Estrala Porca Tatu Caranguejo Alguns dos nomes que identificam as marcas no fandango fazem alusão a pássaros (como Anu. Como lembra Azevedo (1978). In: BRITO. Nessa figura. As pernas ficam semi-flexionadas. lembrando que há divergências na classificação de uma marca como sendo batida. batida ou mista.

sendo considerada por Azevedo (1978) como marca difícil. segurando a sua mão esquerda com a direita. Informações organizadas pelo Grupo Brasilis e intituladas Região sul-Paraná: fandangos do Paraná (2002). servindo como inspiração coreográfica para o Chico. alternando-se homens e mulheres. tristeza. realiza um semi-giro para a esquerda. Esta. Cascudo (2001) menciona que os colonos açorianos dançavam muito o cará e o xará. A dama movimenta a saia várias vezes. Côrtes (2000) explica que o Xará-grande caracteriza-se como uma das principais danças do fandango. O site Região Sul. Serrana. A Chamarrita de quatro. palmeado. a dama gira duas vezes pelo seu parceiro e continua o oito normalmente.. amor e amizade. O Xarazinho é dançado em quatro casais. trocando-se. temos a Tonta e o Recortado. Há um cumprimento dos pares. passando ora por dentro. a Serrana e o Sabiá. Tiraninha. Cascudo (2001) explica que a Queromana é dança popular no Rio Grande do Sul. além das quadrinhas típicas. sendo acompanhada por violas e batida de palmas. ergue seu braço direito. Sua música fala sobre amor e desejo. onde viviam seus antepassados. dando as pontas dos dedos para o seu parceiro. a Lageana. formando quatro grupos de pares. A letra da música fala sobre um violeiro. 17 . gira e vai para trás. Apresentam esta característica o Xará-grande. São executados passos. Também é conhecida por Mantiqueira. 2004. disse que se não a matasse o levaria para o céu. palmeados e sapateados). somente com batida de tamancos. A Andorinha. no Grupo Folclórico Mestre Romão4 .jan-jun. fazendo com que os pares sempre sejam modificados. é denominada conforme a quantidade de casais a integrarem a dança. Lageana é considerada uma das mais melodiosas. que chegou a agarrar. Ibid. seguido de ligeiro aperto de mãos. saudade e amores.29 . A marca Marinheiro apresenta música que fala sobre um marinheiro que deixa seu amor. A Queromana também é uma marca que mistura batido e valsado. cuja música fala sobre amor e viagem. é dançada em roda (sentido anti-horário). também batida e valsada. com três casais. trazem o Recortado como sendo executado em uma grande roda. Para iniciar a figura. A letra de sua música fala sobre o sereno da noite. sendo realizados o oito. como: oito. pois não pode levá-lo ao mar. viagens e mulheres. A letra de sua música fala sobre novidades. o Recortado é uma mistura de coreografias de todas as marcas. As mãos tocam-se e afastam-se conforme a movimentação da roda. É uma das marcas mais difíceis. esperança. Sua música fala sobre recortes. o sentido anti-horário e o oito. 4 5 Ibid. Na Queromana do grupo observado 5 predominam o sapateado e o palmeado. Vol. Uma das características é a ponte. o Xarazinho. A diferença das demais é que possui um movimento em que a dama. Sabiá e Estrala. rodando em sentidos opostos. As mulheres que estão à frente realizam balanceios nesta figura com seus pares e giram indo para trás.26 O Fandango. Dentre as danças que costumam encerrar as festas de fandango. É considerada uma dança de descanso. é marca realizada em rodas de dois pares cada. A diferença é que o homem fica de frente para a dama. ora por fora. Como é realizada quando o sol está nascendo.Paraná (2002) traz a Lageana como sendo dançada por oito pares. valsado e grande roda. para a direita e giro completo pela direita. Por fim. sendo função masculina é sapatear e bater palmas.01. Brito (2003) comenta os movimentos de entrar e sair da roda das mulheres como sendo imitações do balanço do navio. Côrtes (2000) menciona a Tonta como a dança que marca o fim da festa. pp. até que passa por ponte e posiciona-se atrás de seu parceiro. segurando a saia com a mão esquerda à altura da cintura. Paraná e São Paulo. 06 n. É o que Brito (2003) chama de balanço do navio. sempre girando. de seis. sendo os dois termos homônimos. alternando-se homens e mulheres e girando da esquerda para a direita. 6 Ibid. A Tonta dançada em roda. na compreensão de Azevedo (1978). oito e sentido anti-horário. Como observado no grupo de Fandango Mestre Romão6 . Sua música fala sobre dor. visualizando o homem por seu papel de destaque (batidas. realizada pelas duas mãos. o Feliz. de oito. sendo muitas vezes usado para encerrar a noite de fandango. As marcas batidas e valsadas são aquelas em que os homens batem os tamancos e também realizam valsados com os mesmos. arco. Tiraninha seria uma dança vinda dos Açores. um pássaro chamado andorinha e o amor. Feliz. repetindo várias vezes este gestual. Não seria conveniente a figura do oito nem valseados. Marinheiro caracteriza-se pelo sapateado. as letras de suas músicas fazem referência ao sol. Sua música fala sobre solidão e desgosto consigo mesmo. Lageana.. posicionada à frente do homem e de costas para o mesmo. os casais. músicas e amigos. o palmeado e sapateado masculino. Sua música fala sobre mudança de vida. As marcas que apresentam poucas informações em Azevedo (1978) são: Chico. Iniciação Científica CESUMAR . formado por uma roda. portanto. tendo a mulher um papel limitado em termos de movimento. costurando. A marca Chico. indígenas caxinauás havia uma lenda da txunô (andorinha). Um menino brincava na roça perseguindo uma andorinha. Nessa posição.

acrescido do bailinho (valsinhas). como o Bailado. Sua música fala sobre alguém conversando com um caranguejo. A dama da frente. os pares formam uma roda e dançam no mesmo lugar. sua música fala sobre canavial. de 6 e outras. geralmente usadas para descansar daquelas em que há um maior desgaste corporal. e ninguém pode ficar sentado enquanto ela está sendo tocada. já que não encontramos maiores informações em Azevedo (1978). Lara. o violeiro. sendo outro o seu par. sucessivamente. Também é realizada em roda. A dança Feliz traz uma letra de música que fala sobre um pobre homem que possui apenas uma viola que ganhou de um “camarada”.B. Um esclarecimento sobre o Sapo é dado por Pinto (2003). respondem ao dançarino e param novamente. explica Azevedo (1978). L. 1978). Cascudo (2001) menciona que nesta dança os dançadores ficam em duas alas e. Sua música fala sobre o pássaro sabiá e amor. é uma marca que integra as rodas valsadas ou bailadas. em alguns lugares também é considerado como uma marca. afirma Brito (2003). A Meia-Canja também é uma dança toda bailada. as lembranças de cidades e amigos. na visão do autor. sendo toda ela em seqüência ascendente de números. dançada por ambos ao mesmo tempo. amor e saudade. bate com um bastão no chão e os pares têm que se soltar e trocar de casais.jan-jun. Era realizada anteriormente somente por homens ou mulheres. do lado de fora da roda. Contudo. por meio da fonte Região Sul . Dançada em rodas de dois casais. Dançada em todo o Brasil. Essa dança é uma espécie de desafio entre os dançarinos e os violeiros. A expressão “meia-canja” é de influência castelhana. e assim por diante.185) fala da marca Tatu como pertencente ao fandango gaúcho e. está o Dondom. pp. Vilão é o tipo que representa o elemento mau nas peças teatrais populares. porque tudo é feito na hora. Para Azevedo (1978). Sua música. esclarece que essa dança consiste em realizar evoluções com as fitas abertas ou fechadas. é igual à da Cana-Verde. conforme observado junto ao Grupo Folclórico Mestre Romão 7 .29 . Quando os violeiros param de cantar e tocar em dado momento.Paraná (2002). provavelmente. não sendo feita menção à sua música. Essa dança é comentada por Martins (1994) como sendo da região sudeste. sendo. em que se forma uma grande roda com os pares. tristezas e coração partido. ao elucidar que os casais dão pulinhos imitando este animal. Vol.01. valsada do começo ao fim. A Chamarrita Simples. Um homem. As músicas saem da imaginação dos tocadores e dançarinos. p. Iniciação Científica CESUMAR . A Porca também não é comentada em Azevedo (1978). até que todos os componentes da roda o tenham feito. salvo uma observação quanto à música. Integra o conjunto das rodas valsadas ou bailadas para descando dos folgadores. camponês) aparece em Portugal desde o século XV. Afirma que a música que lhe dá esse nome é resultado de um divertido conto popular que fala de um tatu que age como ser humano. alternando batido e bailado. O Grupo Brasilis. De origem açoriana. 1978). Bailado aparece como nome de marca. apresentando oito simples. Cada qual segura a ponta do lenço e vai. Explica que a dança de vilão (morador da vila. amor e saudade. mas é apenas um valsado sem sapateado. passa para trás. Sabiá é dançada com uma grande roda. pudéssemos fazer alusão ao paranaense. sendo convidada para passear. Já Serrana tem em suas letras a infância.27 Oliveira. Não se faz menção à letra de sua música. Por fim. Sua música fala sobre infância. Em alguns lugares é utilizada para fechar o fandango. agradáveis e também uma das mais interessantes. muitas vezes. 2004. formando arcos para que todos passem por baixo. em duas colunas ou fileiras. afirma Azevedo (1978). viagens e mulheres. talvez. em número par de casais.M. no meio da roda. meu benzinho. ao contrário da Chamarrita de 4. nela. O Coqueiro é dança caracterizada por rodas em pares. (AZEVEDO. após o valsado. O mesmo aconteceria com as fitas. Nessa dança sempre fica um dançarino sem companheira. até ficarem todos com a “Cara Dura”. Azevedo (1978) não faz menção à sua letra. sendo encontrada ainda no folclore gaúcho. na frente. Os pares seguram a ponta dos lenços. O Valsado. A Estrala é dança realizada em roda grande. Dentre as marcas apenas valsadas. Em alguns lugares. O que estava sozinho acha uma companheira e o outro fica sem par. O Vilão-de-Fita pode ser chamado também de Vilão-de-Lenço ou Sapo e também.. 06 n. sendo encontrada apenas a partitura. a Cana-Verde é uma das marcas mais alegres. sapateado e palmeado. comenta Azevedo (1978). afirma Azevedo. os dançarinos têm que cantar um verso em resposta. a marca Caranguejo já foi dança de roda e rural. em Brito (2003) pudemos encontrar a letra que faz menção a uma mulher que é chamada de moreninha. Outro dançarino canta o seu verso e assim segue. A Caradura é dança somente valsada. Sua música é a mesma da Chamarrita que fala sobre novidades. sendo valsado do começo ao fim aos pares. Os violeiros voltam a tocar e a cantar. que fala sobre infância. 17 . atualmente. embora não seja feita menção sobre o tipo de dança ou música. 7 Ibid. R. aos pares. Côrtes (2000. em que os pares são sempre os mesmos. aos pares (Azevedo. assume em cada região uma característica própria. passando sob a arcada feita com os lenços. infância. é somente valsada. a marca Sapo.

Temos claro que em determinadas regiões do Paraná. mais precisamente com um casal espanhol. já que os casais realizam o valsado de forma livre. o reconhecimento dessa manifestação enquanto um dos traços delineadores da cultura do Estado é facilitado. É pensar o fandango enquanto um conhecimento a ser apreendido. a forma mais despojada do corpo. embora não marcados pelo requinte europeu. pp. entendemos que as particularidades são fundamentais à compreensão do todo.29 . assim como a roda. ora para outro. Lembra a própria valsa surgida no século XIX. mas apenas sapateado com os corpos próximos. do fandango. tocam o que lhe vêm à memória e seguem a inspiração do momento. O toque pelas mãos e giros. Contudo. seja pela cultura formal ou informal. valsadas ou mistas apresentam elementos estéticos interessantes.28 O Fandango. 06 n. Paranaguá. Antonina e Guaraqueçaba. Historicamente. lembra a contradança francesa do século XVIII. fazendo parte de suas necessidades e da vivacidade que o folclore em si encerra. notamos que o fandango está mesclado de elementos das duas culturas. também realizado em roda e sem contato corporal entre homens e mulheres.. seu passado. como aborda Mestre Romão. como conhecemos. percebe-se pela história e pela análise da origem das marcas e suas caraterísticas que o fandango. sobretudo. cujos balanceios sutis do corpo acontecem ora para um lado. como acontece em Morretes. 2004. é difícil definir realmente o que se trata de cultura portuguesa e espanhola. Devido às relações estabelecidas entre estes dois países. o fandango é o representante característico presente no Estado. paulista. O estabelecimento de diálogos com os autores e diferentes fontes. a figura do oito e a ponte. também evidenciado nas marcas mistas. não existente em outros locais do Brasil da forma como está estruturado no Paraná. permitindo-se um outro tipo de cultura. As marcas valsadas possibilitam um contato corporal entre os casais. é fruto da contribuição portuguesa e espanhola em nosso país. As músicas das marcas nem sempre possuem uma letra fixa. embora muitas vezes sem maiores participações. aliado às condições brasileiras. os traços culturais que identificam uma sociedade. Temos ciência das Iniciação Científica limitações que nos cercam frente a problemáticas dessa natureza.01. É por isso que conhecer parte da cultura do Estado é perceber sua história. Muitas das marcas são tidas como de origem portuguesa e outras de origem espanhola. enquanto o cantador imita o coaxar. São contadas ainda histórias do sapo. mesmo que consigamos fazê-lo. foram primordiais na tentativa de melhor compreensão dessa manifestação cultural. em roda e independentes dos outros casais. acrescido da necessidade de seduzir e comunicar. a congada. marcas e caracterização. assim como as interlocuções realizadas com alguns dos construtores do fandango paranaense. Mesmo sabendo da relevância em tratar a cultura a partir de uma perspectiva mundializada. muitas vezes. Tal característica é bastante comum nos populares já que a capacidade de criar. por mais que existam outras manifestações populares dançantes no Paraná. Portugal e Espanha estabeleceram vínculos. a dança de São Gonçalo. Mesmo nos deparando com posicionamentos teóricos diferenciados. é importante o reconhecimento das possibilidades culturais existentes no Estado e. alguns encaminhamentos podem ser realizados no sentido de um melhor reconhecimento dessa manifestação.jan-jun. Nas marcas apenas batidas não há uma aproximação corporal dos casais. exposto por Lessa e Cortes (1975). o que faz do fandango paranaense único e de força representativa. ou ainda com os espanhóis. 17 . justamente porque possui elementos que lhe são próprios e que delineiam a cultura existente nessa região. já que os mesmos. levando a comunidade a reconhecer o que lhe está próximo. Contudo. formas de dançar e se expressar. já que sofreram o processo de aculturação. Esta forma de relação com o corpo lembra o fandango do século XVI. como a festa no céu. dentre outras. As “marcas” classificadas como batidas. percebendo estas diferenças nos autores. para a realização de ponte com balanceios e giros. até vestimentas. em que as pessoas têm acesso ao cotidiano dos fandangueiros. Sabemos ainda que esta cultura acaba sendo regionalizada. salvo pelas pontas dos dedos e mãos. Vol. Embora tenhamos encontrado a origem do fandango paranaense com os portugueses e lusobrasileiros. mas com traços populares. e outros. podendo mudar de acordo com seus tocadores. Embora existam fandangos gaúcho. estando presente em determinados locais a folia de reis. originando formas culturais que passaram a ser disseminadas também em suas colônias. inovar e improvisar é uma constante. nordestino. diferente do imposto pelos meios de comunicação. A primeira é a de que. É possibilitar que as pessoas vivam de forma mais enfática a sua comunidade.. percebidos na literatura investigada e no contato com Mestre Romão. desde intenção/ intencionalidade. Algumas políticas educacionais de incentivo estatal e/ou municipal poderiam ser delineadas rumo a estratégias que pudessem contribuir para o reconhecimento de tais CESUMAR . Algumas variações também podem ser percebidas na forma de bater os tamancos. as características são completamente diferenciadas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os estudos desenvolvidos sobre o fandango levamnos a algumas considerações acerca da compreensão de sua origem.

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