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Curso de Psicologia Geral a. R. Luria Volume 2

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Como se sabe, entre as sensações exteroceptivas situam-se as cinco "modalidades" acima
referidas: olfato, paladar, tato, audição e visão. Esta enumeração é correta mas não esgota os
cinco tipos de sensibilidade.
No entanto cabe acrescentar a essa relação duas categorias: as sensações intermediárias ou
intermodais e os tipos não específicos de sensação.

É fato notório que se o tato percebe sinais das influências mecânicas e a audição percebe sinais
das ondas sonoras com uma freqüência de vinte-trinta a vinte-trinta mil oscilações por segundo,
o homem é capaz de perceber oscilações de freqüência inferior à das ondas sonoras acima
referidas. Entre essas oscilações situam-se as vibrações cuja freqüência é calculada em
aproximadamente 10-15 oscilações por segundo. Essas vibrações não são percebidas pelo
ouvido mas pelos ossos (do crânio ou dos membros), enquanto que as sensações que percebem
essas vibrações são denominadas sensibilidade vibrátil. O exemplo típico dessa sensibilidade é
a percepção dos sons pelos surdos. Sabe-se que os surdos podem perceber a música mantendo a
mão na coberta do instrumento de som, percebendo os sons, às vezes, até por meio de vibrações
do piso ou de um móvel. Deste modo, a sensibilidade vibrátil é um exemplo de sensação
intermodal, que ocupa posição intermediária entre a visão e o tato.
Outro exemplo de sensibilidade intermodal é a percepção de alguns cheiros agudos por
sensações agudas de sabor, bem como de sons ultrafortes ou luz ultraforte; todas essas ações
provocam sensações mistas, situadas entre as sensações táteis, auditivas ou visuais e as
sensações de dor que se difundem a filamentos sensoriais não específicos. Na neurologia esses
componentes não específicos dessas modalidades de sensibilidade são conhecidos como
"trigeminais" do nervo trifacial cuja excitação é incorporada à sensação básica em caso de
irritações superfortes.
O segundo acréscimo à classificação comum das sensações exteroceptivas é a existência de uma
forma não específica de sensibilidade. Essa "sensibilidade não específica" pode ser constituída
pela fotossensibilidade da pele, que é a
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capacidade de percepção dos matizes de cor pela pele da mão ou das pontas dos dedos. Os
fenômenos da fotossensi-bilidade não específica foram descritos por A. N. Leontyev e outros.
Esse autor realizou um estudo preciso no qual a superfície da mão recebeu luz colorida (verde
ou vermelha), sendo que, neste caso, a temperatura dos raios luminosos foi igualada por um
filtro de água. Após várias centenas de combinações de determinado sinal colorido com o
estímulo de dor, foi demonstrado que, sob a condição de uma orientação ativa do sujeito, era
possível ensiná-lo a distinguir os raios luminosos pela pele da mão, embora essa distinção fosse
dúbia e difusa.
A natureza da fotossensibilidade da pele continua obscura até hoje, embora se possa supor que
ela esteja relacionada com o fato de o sistema nervoso e a pele terem sido originados por um
embrião de folha (ectoderma) e na pele possam encontrar-se elementos fotossensíveis difusos e
rudimentares que começam a agir com êxito sob condições especiais (particularmente sob
excitação elevada dos sistemas subcorticais, palâmicos).
Existem formas de sensibilidade ainda não suficientemente estudadas às quais pertencem, por
exemplo, o "sentido de distância" (ou o "sexto sentido") dos cegos, que lhes permite perceber à
distância o obstáculo que surge à sua frente. Há fundamentos para supor que a base do "sexto
sentido'' é a percepção das ondas de calor pela pele do rosto ou o reflexo das ondas sonoras do
obstáculo distante (essas ondas atuam à semelhança do radar). No entanto essas formas de
sensibilidade ainda não foram suficientemente estudadas, sendo ainda difícil falar dos seus
mecanismos fisiológicos.

Interação das sensações e o fenômeno da sinestesia

Alguns órgãos dos sentidos que acabamos de descrever nem sempre funcionam isoladamente.
Eles podem estar em interação, podendo essa interação assumir duas formas.
Por um lado, algumas sensações podem influenciar-se mutuamente, sendo que o funcionamento
de um órgão do

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sentido pode estimular ou reprimir o funcionamento de outro órgão do sentido. Por outro lado,
existem formas mais profundas de interação sob as quais os órgãos dos sentidos trabalham em
conjunto,
condicionando uma nova modalidade materna de sensibilidade que em Psicologia
recebeu a denominação de Sinestesia.
Examinemos. separadamente cada uma dessas formas de interação. Os estudos efetuados pelos
psicólogos (particularmente o psicólogo soviético S. V. Kravkov) mostraram que o
funcionamento de um órgão dos sentidos não deixa de influir no processo de trabalho de outros
órgãos dos sentidos. Verificou-se, por exemplo, que a irritação sonora (um assobio, por
exemplo) pode aguçar o trabalho da sensação visual, aumentando-lhe a sensibilidade aos
estímulos luminosos. Assim alguns cheiros também influem, aumentando ou diminuindo a
sensibilidade sonora e auditiva. Ao que parece, semelhante influência de umas sensações sobre
outras ocorre no nível das regiões superiores do tronco cerebral e no tálamo ótico, onde os
filamentos que conduzem as excita-ções de diversos órgãos dos sentidos se aproximam,
tornando possível uma realização perfeita da transmissão das excita-ções de um sistema a outro.
Os fenômenos do estímulo mútuo e da inibição mútua do funcionamento dos órgãos dos
sentidos constituem um grande interesse prático em situações sob as quais surge a necessidade
de estimular ou reprimir artificialmente a sensibilidade desses órgãos (por exemplo, nas
condições de vôo na hora do crepúsculo quando não há direção automática).
Em Psicologia são bastante conhecidos os fatos da "audição colorida", que é acionada em
muitas pessoas e se manifestam com nitidez especial em alguns músicos (em Skryabin, por
exemplo). Assim sendo, é fato amplamente conhecido que os sons altos são considerados
"claros" enquanto os sons baixos são considerados "escuros". O mesmo ocorre eom os cheiros,
pois, como é sabido, uns são considerados "claros" e outros, "escuros".
Esses fatos não são casuais ou subjetivos; são regidos por lei, o que foi demonstrado pelo
psicólogo alemão Horn-bosteí que sugeriu aos sujeitos uma série de cheiros e propôs compará-
los a uma série de tons e uma série de tonalidades de luz. Os resultados foram muito
interessantes e de-

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monstraram uma grande permanência; o que foi mais importante porém é que os cheiros das
substâncias cujas moléculas continham um grande número de átomos de carbono foram
comparados a tonalidades escuras enquanto que os cheiros das substâncias cujas moléculas
continham poucas moléculas de carbono foram comparados a matizes de luz. Isto mostra que a
sinestesia se baseia em propriedades objetivas (ainda não suficientemente estudadas) dos
agentes que atuam sobre o homem.
É característico que o fenômeno da sinestesia nem de longe se difunde em pessoas idênticas. Ele
se manifesta com nitidez especial nas pessoas de excitabilidade elevada das formações
subcorticais. Sabemos que ele predomina nos casos de histerismo, pode aumentar visivelmente
no período de gravidez e ser artificialmente provocado pelo uso de várias substâncias
farmacológicas (a mescalina, por exemplo).
Em alguns casos, os fenômenos da sinestesia se manifestam com absoluta nitidez. Um dos
sujeitos com manifestação muito acentuada de sinestesia, o conhecido mnêmico S., foi estudado
minuciosamente na Psicologia soviética (A. R. Luria). Esse homem percebia todas as vozes
como sendo coloridas e dizia freqüentemente que a voz da pessoa que a ele se dirigia era
"amarela e dispersa". Os tons que ele ouvia lhe provocavam sensações visuais de diversos
matizes (de amarelo-claro a negro-prateado ou violeta). As cores percebidas eram por ele
sentidas como "sonoras" ou "surdas", como "salgadas" ou "estaladas". Semelhantes fenômenos
são encontrados em formas mais obliteradas com muita freqüência como tendência direta a
"pintar" os números, dias da semana, nomes dos meses em diferentes cores.
O fenômeno da sinestesia representa grande interesse para a psicopatologia, onde a sua análise
pode adquirir importância diagnostica.
As formas descritas de interação das sensações são as mais elementares e parecem ocorrer
predominantemente no nível do tronco superior e das formações subcorticais. No entanto
existem formas mais complexas de interação dos órgãos dos sentidos ou, segundo Pavlov,
analisadores. Sabe-se que, às vezes, quase não percebemos as irritações táteis, visuais e
auditivas isoladamente: ao percebermos os objetos do mundo exterior, nós os vemos com os
olhos, sentimos

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pelo contato, às vezes lhes percebemos o cheiro e o som, etc. É natural que isso exige a
interação dos órgãos dos sentidos (ou analisadores) e é determinado pelo trabalho sintético
deles. Esse trabalho sintético dos órgãos dos sentidos ocorre com a participação imediata do
córtex cerebral e antes de tudo das zonas "terciárias" ou ("zonas de cobertura") nas quais estão
representados os neurônios pertencentes a várias modalidades. Essas "zonas de cobertura" (a
elas já nos referimos) são as que asseguram as formas mais complexas de funcionamento
conjunto dos analisadores, as quais servem de base à percepção dos objetos. Adiante faremos
uma análise psicológica das formas básicas de funcionamento desses analisadores.

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