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PSICOLOGIA JURÍDICA

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CURSO DE DIREITO
PSICOLOGIA JURÍDICA PROF. DR. WILSON B. DA CRUZ.
JOSILDA LIMA
01. INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA
Tentaremos apresentar a investigação psicológica, examinar os conceitos básicos da Psicologia e proporcionar um plano conceptual para melhor compreensão do comportamento humano. A palavra Psicologia disciplina que tem por objeto a alma, a consciência ou os eventos característicos de vida animal e em especial a humana, nas várias formas de caracterização de tais eventos com o fim de determinar sua natureza específica. Já o termo Psicológico diz respeito à Psicologia, nessa acepção se refere à consciência do indivíduo. Ou seja, às atitudes ou valorações individuais. O Psicologismo, no seu uso polêmico, o termo é constantemente empregado para designar a confusão entre a gênese psicológica do conhecimento e sua validade. Nesse sentido foi Kant a esclarecer, fazendo a distinção a propósito dos conceitos a priori, entre a quaestio facti de sua “derivação fisiológica”, isto é, do seu acontecimento na mente ou na consciência do homem, e a quaestio juris, que consiste em perguntar o fundamento de sua validade, exigindo como resposta a dedução. O mundo do homem primitivo é um bom lugar para iniciarmos o nosso estudo. Cotejaremos as suas especulações acerca do comportamento com o ponto de vista da Psicologia contemporânea. As culturas explicam o comportamento pressupondo um segundo ser – um homem interno que mora dentro do homem externo – que percebe, deseja, recorda e pensa. O homem interno também atua sobre o homem externo e o obriga a agir. Como ciência natural, a Psicologia surgiu de uma fusão de certos movimentos filosóficos com a nova Fisiologia experimental do século XIX. Os fisiologistas alemães mostraram como trabalham os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso. A escola filosófica inglesa do associacionismo insistiu em que todo conhecimento nos chega através dos sentidos e, assim, indicou a importância dos órgãos dos sentidos. A convergência dos dois movimentos produziu a Psicologia como ciência experimental. Como ciência do comportamento humano, a Psicologia define o comportamento muito amplamente. O “comportamento” inclui as atividades ocultas (processos perceptivos, ideacionais e emocionais), bem como o comportamento manifesto (atividades locomotoras, manipulatórias, expressivas e simbólicas).

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Originariamente, a Psicologia se ocupava sobretudo, das experiências conscientes dos seres humanos normais, relativamente complicados. Hoje em dia, todos esses adjetivos restritivos foram removidos. A Psicologia científica procura respostas generalizadas para perguntas sobre o homem como protótipo; também procura respostas utilizáveis para perguntas importantes acerca de determinada pessoa. As respostas psicológicas, que se referem ao homem em geral, são predominantemente normativas e constituem enunciados teóricos relativos a processos. As respostas e perguntas que se referem a um indivíduo são particularista e utilitárias, e proporcionam uma base viável de ação. A Psicologia deriva parte de seu vocabulário do vernáculo. Mas também cria a própria nomenclatura. Mercê da tendência popular para retificar processos psicológicos, é de toda conveniência empregar verbos substantivados em lugar de substantivos verdadeiros (“perceber” em lugar de “percepção”, “raciocinar” em lugar de “ razão”, etc.). A Psicologia faz perguntas à natureza e, a seguir, utiliza os métodos da Ciência para encontrar as respostas e verificar-lhes a correção. Ao passo que o método experimental modifica as condições, a fim de observar-lhes as conseqüências, o psicólogo também tenta deslindar e medir as relações existentes entre indivíduos, grupos e processos. Os métodos de observação da Psicologia diferem dos métodos de observação do leigo por serem rigorosos, mais objetivos, mais verificáveis, mais seguros e menos sujeitos à deformação pelas propensões inconscientes (esperanças e temores) do observador. O método científico supõe presunções filosóficas, plano de pesquisa e tecnologia.

02. O DESENVOLVIMENTO DO INDIVÍDUO.
Toda pessoa é o resultado de uma complexa história de desenvolvimento, em que se entrelaçam fatores hereditários e experiênciais. Começa a vida como uma célula única, cujo potencial hereditário total se apresenta em forma de mecanismos meticulosamente codificados. Durante o curso de sua existência, surge um número imenso de acontecimentos ambientais interagindo com o potencial herdado, para produzir um organismo cada vez mais complexo. O que se poderia chamar uma vista longitudinal do homem, o que se sabe sobre a interação da hereditariedade e da experiência, através das fases sucessivas do óvulo fecundado, do embrião, do feto, do recém-nascido, da criança, do adolescente e do adulto. Por onde vamos começar? Acaso a vida principia quando um espermatozóide e um óvulo se unem na concepção? É possível, mas as origens dessas células reprodutivas jazem no passado distante, pois os seus códigos são tão velhos, quanto o homem.

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Arbitrariamente, encetaremos o nosso estudo com as potencialidades hereditárias do indivíduo no momento da concepção. Assim recuaremos apenas o suficiente para discutir, em resumo, certas características importantes da transmissão hereditária dos traços. O desenvolvimento pré-natal e pós-natal do indivíduo envolve a interação dinâmica de fatores hereditários e ambientais. Na década de 1860, apresentaram-se provas indicativas da existência de caracteres genéticos, de traços dominantes e recessivos e do fenômeno da segregação. E 1920 os genes, foram localizados nos cromossomos. Durante a década de 1950, descobriu-se que os cromossomos consistem em longos cordões de DNA, e que os genes são seqüências codificadas de substâncias químicas presas ao longo dos cordões. O RNA opera como mediador entre o código do DNA e o arranjo dos aminoácidos que compõem as proteínas do corpo. Nos caracteres comumente denominados hereditários, a maior parte das variações registradas numa população se deve a diferenças nos genes; os caracteres "adquiridos" devem a maioria das suas variações a fatores ambientais. Quase todos os caracteres humanos de interesse psicológico são do tipo interativo, em que a variação não pode ser atribuída predominantemente à hereditariedade nem ao meio. A ordem geral do desenvolvimento anatômico pré e pós-natal é da cabeça para os pés (céfalo-caudal) e do centro do corpo para a periferia. As aberrações de uma norma estatística ou de uma norma ideal de crescimento físico têm considerável significação psicológica pessoal. O desenvolvimento assim orgânico como psicológico é produto de fatores genéticos e ambientais. Entretanto, o desenvolvimento psicológico, predominantemente, é resultado da aprendizagem. O processo da aprendizagem pode ser concebido como um contínuo, que vai desde o condicionamento clássico e instrumental, numa extremidade, através da aprendizagem por ensaio e erro e da imitação, até a aprendizagem cognitiva, na extremidade oposta. A primeira aprendizagem quase sempre exerce influências críticas sobre a aprendizagem subseqüente. O desenvolvimento perceptivo, o desenvolvimento conceptual e o raciocínio (solução ideacional de problemas) são formas de aprendizagem cognitiva. Embora vá subindo por esse contínuo à medida que se desenvolve, a criança continua a usar todos esses processos e os usará por toda a vida. Não há, provavelmente, processos de aprendizagem peculiares a crianças em oposição aos adultos. Em sua maior parte as mudanças, no plano do desenvolvimento, na aprendizagem das crianças são produtos da aprendizagem passada. O desenvolvimento social da criança ocorre quando ela aprende a diferenciar pessoas e coisas, diversas classes de pessoas, respondendo seletivamente a elas, e a separar indivíduos. A socialização da criança começa na família e continua pela vida fora em muitos grupos formais e informais. O desenvolvimento emocional supõe a emergência de padrões específicos, oriundos da emocionalidade difusa e generalizada da criancinha, uma extensão da série

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e da mudança de natureza dos excitantes emocionais, e mudanças progressivas na natureza e na direção da expressão emocional. À proporção que o indivíduo se desenvolve, passa a reagir emocionalmente a novos estímulos, mas também se torna menos receptivo (dessensibilizado) a outros estímulos. A expressão emocional utiliza-se igualmente, às vezes, para estabelecer comunicação com outras pessoas e para controla-Ias. O desenvolvimento da motivação começa com a total dependência do recémnascido para com as fontes orgânicas de impulsos, passa pelas fontes sociais de impulsos à medida que progride a aprendizagem, para chegar, finalmente, à motivação pessoal autônoma no mais alto nível de desenvolvimento. O desenvolvimento moral consiste na interiorização de controles do comportamento, no desenvolvimento da consciência e na emergência de princípios éticos e morais. Freqüentemente se diferenciam, no desenvolvimento moral, a fase prémoral, a fase da conformidade social e a fase da consciência individual. A consciência individual pode operar de maneira rígida e estereotipada ou de maneira discriminativa e racional. Esta última é comumente denominada a moral humanista.

03. BASE BIOLÓGICA DO COMPORTAMENTO HUMANO
Uma presunção fundamental da Psicologia é a de que toda atividade mental tem base fisiológica. Os dois principais sistemas de integração do corpo são o sistema nervoso e o sistema endócrino. Esses sistemas interagem continuamente. O sistema nervoso é composto de neurônios. O neurônio consiste num corpo celular, um núcleo, uma membrana e um ou mais processos, ou prolongamentos, que se estendem para fora do corpo da célula. Os processos estimulados pelos órgãos dos sentidos ou por outros neurônios conduzem os impulsos nervosos para o corpo da célula e denominam-se dendritos. Os processos que conduzem os impulsos nervosos para fora do corpo da célula chamam-se axônios. Quanto à função, os neurônios se classificam em sensoriais, motores e de associação. Os sensoriais conduzem os impulsos nervosos dos órgãos dos sentidos ao sistema nervoso central; os motores conduzem os impulsos do sistema nervoso central aos efetores (músculos ou glândulas); os neurônios de associação servem de elos conectivos entre dois outros neurônios. A função essencial dos neurônios é a transmissão dos impulsos nervosos. O impulso nervoso consiste num conjunto complexo de reações eletroquímicas, que passam ao longo do neurônio quando este é ativado. O impulso é um fenômeno do tipo tudo ou nada, como um tiro de revólver, que é ou não é "detonado". Imediatamente após a passagem do impulso nervoso, o neurônio se torna inexcitável. Refratário a uma nova estimulação. O período refratário absoluto, que se segue imediatamente à passagem do impulso, é seguido de um período refratário relativo, durante o qual o neurônio poderá responder, mas só a estímulos anormalmente intensos. O período refratário relativo, por seu turno, é seguido de um período de excitabilidade supernormal e, logo, de um período de excitabilidade normal.

primordialmente. às vezes. Tanto a fixidez quanto a plasticidade são características da função e do crescimento nervosos. necessários à vida. O mesencéfalo contém os núcleos dos reflexos auditivos e visuais. é uma substância química. O hipotálamo controla ou regula grande número de funções vitais. O sistema nervoso está continuamente ativo. os nervos cranianos e o sistema nervoso autônomo). na parte posterior do lobo frontal. e também provoca dilatação das artérias). O agente eficaz que atua na sinapse. O cérebro é a maior subdivisão do encéfalo humano. A medula é um centro vital de controle e regulação de muitos processos viscerais ou vegetativos. o tálamo. A relação entre as superfícies sensoriais e os órgãos efetores (agente regulador do metabolismo. raciocinar. Dois desses agentes químicos são a acetilcolina e a norepinefrina. O sistema endócrino é o segundo sistema de integração do corpo. as glândulas endócrinas devem ser encaradas antes como um sistema integrado do que como uma . e a ativação dos processos nervosos re-dirige o fluxo das atividades já em andamento. O sistema nervoso autônomo mostra-se particularmente ativo durante as emoções. As áreas funcionais do córtex cerebral (camada externa) são sensoriais. A função e a estrutura interagem na atividade nervosa. na região acima do ouvido. As diversas glândulas endócrinas se completam e interagem. motoras e de associação. funciona como transmissor. Durante muito tempo. bem defronte da cissura de Rolando. o cerebelo. o hipotálamo e o cérebro. O cerebelo é um centro de integração e coordenação das funções proprioceptivas (cinestésicas e de equilíbrio) do corpo. áreas de associação. falar) que são as prerrogativas essenciais do ser humano. Cada uma das suas duas subdivisões (o simpático e o parassimpático) inerva independentemente a maioria dos músculos lisos e das glândulas do corpo e opera antagônicamente em relação uma à outra. A ponte liga o cerebelo ao eixo encefálico. As principais subdivisões do encéfalo são o bulbo. Conseqüentemente. que se interligam para formar a mais complexa estrutura que se conhece. (substâncias existentes no organismo animal. A área de projeção sensorial da visão está localizada no lobo occipital (parte posterior do cérebro). As partes restantes do córtex são consideradas. mais ou menos como o faz a própria medula. O tálamo consiste principalmente em centros de relé (núcleos) da maioria dos trajetos sensoriais que vão para o córtex cerebral. pensar. embora nem sempre. o mesencéfalo. contração em resposta a um estímulo) e o cérebro parece descrever-se melhor em função de áreas anatômicas correlatas.5 A sinapse é o lugar onde dois neurônios estabelecem uma relação funcional entre si. o centro da audição se encontra no lobo temporal. Calcula-se que o córtex cerebral contém nove milhões de neurônios. O sistema nervoso autônomo controla ou regula a maior parte dos órgãos viscerais do corpo. A principal área cortical motora é paralela à área somestésica. a ponte. a área somestésica (cutânea e cinestésica) fica logo atrás da cissura de Rolando. O sistema nervoso se divide em sistema nervoso central (o encéfalo e a medula espinhal) e o sistema nervoso periférico (os nervos raquianos. o córtex foi considerado a “SEDE” das “mais elevadas” funções psicológicas (lembrar.

alheias ao sistema nervoso suficientemente. A mudança na intensidade do estímulo. . O estímulos dolorosos. Os estímulos auditivos consistem em freqüências de vibração. térmica ou mecânica. O zero fisiológico é a temperatura a que a pele está adaptada num determinado momento. Os receptores do frio respondem a temperaturas abaixo do zero fisiológico do corpo. que se faz mister para ser perceptível. OS PROCESSOS SENSORIAIS. A Filosofia trata do problema da natureza e da validade da experiência sensorial. intensas para produzir a resposta. principalmente. é proporcional à sua intensidade anterior. é o limiar diferencial. todos eles. A pele da língua. A grande variedade das experiências sensoriais humanas nasceu da irritabilidade do protoplasma relativamente não diferenciado. o calor. que vão desde 380 até 760 micromilímetros. O frio. Fatores nervosos. 04. situacionais e experiências podem ver-se. A altura. Os receptores do calor são estimulados por temperaturas acima do zero fisiológico. Uma deformação da superfície da pele constitui o estímulo adequado do tacto. hormônicos. Os bastonetes e cones da retina são os receptores visuais. O Psicólogo pode valer-se de todos esses campos ao tentar obter uma visão unificada das experiências sensoriais do ser humano. Os órgãos dos sentidos são essencialmente protoplasma altamente especializado para responder a certas formas de energia. A menor mudança na intensidade do estímulo. ela amplitude e da homogeneidade das ondas. do comprimento de onda (ou freqüência de vibrações). pela amplitude e pela homogeneidade da onda de luz. e independe da natureza do estímulo. Os bastonetes transmitem a visão acromática (sem cores). e os cones transmitem a visão cromática ( colorida) . A intensidade mínima de estimulação necessária à produção de uma experiência sensorial denomina-se limiar sensorial absoluto. implicados na ativação. A tonalidade. A qualidade da experiência sensorial é função do mecanismo neurossensorial interessado. que pode ser percebida. que podem ser de natureza química. dos lábios e das pontas dos dedos é mais sensível aos estímulos de contacto.6 coleção de glândulas independentes. Os estímulos consistem em determinadas formas de energia. no controle e na regulação de muitos tipos de comportamento. que constitui o estímulo visual. o brilho e a saturação das cores são principalmente determinados pelo comprimento. tendem a lesar o tecido. a intensidade e a qualidade do som dependem. a pressão e a dor são os quatro sentidos cutâneos. Os estímulos adequados da visão consistem em comprimentos de onda eletromagnética. como a que se encontra nos protozoários. ao passo que o meio das costas e as coxas são as áreas menos sensíveis do corpo.

o amargo e o salgado são as quatro qualidades sensoriais gustativas elementares. parecem situar-se nos órgãos externos do corpo. Entre as experiências sensoriais figuram a fome. Caracterizam-se pela má localização e pela natureza indefinida. que tanto facilita a percepção clara quanto a resposta motora eficiente. entre as qualidades do gosto e a composição química dos estímulos apropriados a cada uma delas. preparando-se para dar uma resposta motora. é um ajustamento preparatório e um ajustamento continuativo. ou “ disposição”. e. Atentar e perceber são dois aspectos do processo de observação. A atenção é um ajustamento preparatório. são a orientação dos órgãos dos sentidos. mas não exclusivamente. Existem relações gerais. O sentido labiríntico é importante na manutenção do equilíbrio e na manutenção da nossa orientação no espaço. o aumento da tensão muscular. os ajustamentos de postura. embora não universais. Quando certas dores. as mudanças que se verificam no funcionamento visceral e as atividades do sistema nervoso central. ao mesmo tempo. Exemplo: O pai que observa o filho empenhado em disputar uma corrida de cem metros rasos está percebendo atentamente. São estimulados por substâncias gasosas em solução no muco que cobre as células sensoriais. nascidas internamente. O atentar é um processo altamente seletivo. mal definidas. São estimulados por mudanças na velocidade do movimento do corpo ou da cabeça e pela força da gravidade.7 Os receptores cinestésicos localizam-se nas superfícies das juntas. mas também as características pessoais do indivíduo que percebe. Os órgãos do sentido labiríntico situam-se nos canais semicirculares e no vestíbulo (utrículo e sáculo) do ouvido médio. A atenção. denominam-se dores reflexas. fundese com a observação atenta ou da atividade motora intencional. promovem a filtração dos dados sensoriais. encontram-se principalmente. em seguida. na língua. do ponto de vista do comportamento. destinado a acentuar certos elementos sensoriais e a abafar ou bloquear outros componentes da entrada sensorial. O filho que espera o tiro anunciador do início da prova está atento. Mais complexa. A percepção sofre também a . e mais significativa do que a sensação. A atenção prepara organismo para a percepção ou para a atividade motora. São estimulados por mudanças ocorridas na tensão desses órgãos. Os receptores do gosto. Não se conhece o número das sensações olfativas elementares. a sêde. células especializadas dos corpúsculos gustativos. o azedo. que facilita a clareza perceptiva e a atividade motora eficiente. 05. a percepção é determinada por sensações que interagem com os significados que lhes são atribuídos em conseqüência da história experiencial do indivíduo. O ATENTAR E O PERCEBER. dores internas e extensas variedades de experiências vagas. oriundas dos órgãos internos do corpo. certas respostas copulativas. Não só as características do estímulo. O gosto e o cheiro são experiências intimamente relacionadas. Os cinco componentes da atenção. nos músculos e tendões. Os receptores olfativos ocupam uma área pequena na parte superior do nariz. O doce.

Mede-se o curso do esquecimento. As ilusões são perceptos flagrantemente falsos. A RETENÇÃO E O ESQUECIMENTO. Os psicólogos separam a memória da aprendizagem a fim de poder dividir esta última em componentes mais prontamente discerníveis para propósitos de investigação e discussão. 06. A percepção visual e a percepção auditiva da distância são bons exemplos da programação ordenada dos dados sensoriais. juntamente com os processos de maturação. A organização do mundo perceptivo do indivíduo consiste no desenvolvimento de um conjunto de configurações razoàvelmente coerentes e estáveis e categorias de experiências. Algumas nascem da incapacidade de quem percebe de isolar as variáveis pertinentes. os esforços de convergência e a disparidade retiniana. a velocidade aparente e a direção do movimento. Alguns princípios de organização perceptiva são relações entre figura e fundo. Uma das manifestações dessa predizibilidade ordenada do nosso mundo perceptivo é a constância perceptiva. Além disso. dos medos e das expectações do indivíduo. a perspectiva aérea. Os seus esforços iniciais trouxeram contribuições importantes ao estudo da memória e à sua investigação sistemática. A atenção e a percepção fundem-se no processo de observar. Outras são causadas pela ausência da combinação habitual de indicações perceptivas. num gráfico. sobretudo da configuração singular das esperanças. a interposição. a . proximidade. as luzes e sombras diferenciais. da fase e das diferenças de tempo na estimulação dos dois ouvidos. propiciam os fundamentos da vasta acumulação de significados específicos. a pessoa que percebe possui algumas tendências primitivas de organização que. o brilho relativo e a saturação das cores. os gradientes de contextura. que entram na composição do mundo perceptivo de cada um. (mácula) A percepção auditiva da distância entre a pessoa que percebe e a da fonte sonora depende da intensidade e da qualidade relativas dos sons. similaridade e fechamento (closure). ao passo que outras ainda derivam.8 influência das expectações e dos estados motivacionais daquele que percebe. da qualidade. os esforços de acomodação. Ebbinghaus foi o primeiro homem a investigar a memória quantitativamente. Faz muito tempo que os fenômenos da memória e do esquecimento vêm interessando tanto ao leigo quanto ao cientista. O organismo parece ingênitamente (de nascença) provido de um mecanismo destinado a sentir as qualidades do mundo perceptivo. Os fatores implicados na percepção visual da distância compreendem a perspectiva linear. A percepção auditiva da direção da fonte sonora depende da intensidade. que devem ser cotejadas. e quando se contrapõe. que proporcionam um elemento de predizibilidade e economia de esforço.

chama-se teoria da interferência. 07. Os processos de preservação-consolidação. As formas do pensar são sonhos. Os sonhos são . a prazo e a armazenagem a longo prazo. É provável que o esquecimento nunca seja realmente total. a significatividade do material. O estereótipo popular do pensador é a pessoa sentada. o recordar. assim retroativa como proativa. o pensador. o nível da aprendizagem original. à medida que o tempo passa. cada vez mais devagar. as circunstâncias da recordação e a motivação. depois. Já se sabe muita coisa sobre o curso do esquecimento. provavelmente. o imaginar e o raciocinar. Essa curva revela que o esquecimento se verifica muito depressa logo após a prática e. Vários fatores afetam a quantidade de retenção: a rapidez da aprendizagem original. curto prazo. Exteriormente inativo. Envolve a manipulação de símbolos e conceitos. porque ficou demonstrado que os acontecimentos que ocorrem no tempo e interferem na memória são mais importantes do que a simples passagem do próprio tempo. ou oculta. hoje em dia. e que está pensando em alguma coisa que aconteceu na véspera (recordando). mas a quantidade de retenção varia muitíssimo. que explique todos os descobrimentos da pesquisa empírIca. A mais comumente aceita e a que. olhos perdidos no espaço. a "intenção" ou "disposição". imóvel. Mesmo assim. ou que está pensando em como seria possível a vida em Marte (imaginando). mas é difícil também a sua verificação em laboratório.9 quantidade retida ao tempo decorrido a partir da aprendizagem. ou ainda que está pensando nas possíveis conseqüências da sua falta ao trabalho na manhã seguinte (raciocinando). aturadamente investigadas. O pensar é uma forma de atividade encoberta. O pensar é uma forma de atividade implícita. A estátua de Rondin tipifica essa concepção. são áreas sendo. A quantidade retida é uma função parcial da maneira pela qual se mede. Todos esses processos ideacionais são formas de pensamento. Diversas teorias tentam explicar os fenômenos da recordação e do esquecimento. os métodos de aprendizagem. surge uma "curva de retenção". Nenhuma delas é capaz de explicar todos os resultados das investigações empíricas. Essas teorias poderão ser atraentes. todavia. Se lhe perguntarmos no que está pensando. devaneios. alguns investigadores atuais invocam uma hipótese da decadência causada pelo passar do tempo. A teoria da interferência inclui os efeitos da inibição. que operam como substitutos de experiências perceptivas. é inteiramente ativo. A idéia da decadência passiva do traço nervoso foi em grande parte abandonada. Na área da memória a. O PENSAR. explica maior número de dados do que qualquer outra. poderá dizer que está apenas devaneando. ainda não temos compreensão suficiente dos processos e funções da memória para formular uma teoria adequada. Empregam-se teorias motivacionais para explicar o esquecimento em certas circunstâncias. e os meios de medir a retenção e o esquecimento são minuciosos.

Os componentes ideacionais dos sistemas de delírios. Verificou-se que os indivíduos altamente criativos diferem. em mudanças dramáticas da personalidade e até em sintomas psicóticos. Normalmente. Os tipos de devaneios do "herói conquistador" e do "herói sofredor" são de natureza autista. de muitas maneiras significativas. ligado à realidade. não passa de racionalização de desejos e. A redução prolongada do tempo de sonhar resulta. nos sistemas de valores e nos interesses. A maior parte dos devaneios. O pensar que se afigura sem sentido e patológico a outra pessoa pode ser significativo para o indivíduo. está . mais de uma hora e não são muito condensados no tempo. mas só o homem tem capacidade para empregar palavras a fim de simbolizáIos. a abstração e a generalização. a iluminação (súbita ou gradual). A aquisição de conceitos envolve a discriminação. como outrora se supunha. a preparação (análise do problema e estudo das informações disponíveis). se denomina "autista". Inúmeros devaneios se fabricam para nós em ficções. Algum devanear. ou central. as vezes. Os fatores que influem no curso do raciocínio incluem o nosso acervo de informações disponíveis. que se processa durante o sono. a incubação. como tal. mas a maioria é representada por experiências alucinatórias. conseqüentemente. A ideação autista de indivíduos psicóticos é uma forma do pensar patológico. atualmente. 08. Existe. as nossas predisposições emocionais e as estratégias de que dispomos. a nossa disposição mental. A linguagem e o pensamento estão intimamente relacionados. Alguns são ilusórios.10 uma atividade ideacional relativamente livre. todavia. As fases ou componentes do processo completo de raciocínio incluem a motivação. Muitos animais inferiores são capazes de desenvolver conceitos. é útil ao indivíduo. rejeição ou modificação). A emoção é parte de todo o sistema de resposta da pessoa e. idéias fixas. EMOÇÃO E AJUSTAMENTO. O raciocinar é o solucionamento ideacional de problemas. das pessoas menos criativas. A redução artificial do tempo de sonhar numa noite produz aumento de sonhos na noite seguinte. Se bem que não existam provas definitivas que confirmem uma ou outra concepção. às vezes. obsessões e circunstancialidade são outras formas de ideação patológica. Um conceito é uma resposta aprendida às propriedades comuns de uma série de estímulos e constitui uma forma de categorização adaptativa e útil. o reconhecimento do problema. a formulação de possíveis soluções (hipóteses). nas motivações. Como processo fisiológico. a pessoa passa sonhando mais de uma quarta parte de um período típico de sono noturno. o pensamento atual propende a endossar a concepção nervosa. a verificação (aceitação. Os conceitos diferem em grau de abstratividade. Diferem nos antecedentes familiares. a ideação tem sido considerada puramente nervosa (a gente pensa com o cérebro) ou neuromuscular (a gente pensa com o corpo inteiro). Os períodos de sonhos duram. considerável interesse pela natureza e pelas condições conducentes ao pensamento criativo.

Os adolescentes também frustram os pais em inúmeras circunstâncias. Na frustração. o atingimento de um motivo é bloqueado por barreira qualquer e faz-se mister lidar com a situação de alguma forma. Assim. projeção.11 provavelmente envolvida. os impulsos agressivos nascem da frustração. As namoradas entravam os namorados. . Podemos. frustração por entrave e frustração por conflito. Toda a gente reconhece que experimenta emoção. O comportamento alheio pode constituir uma barreira à satisfação dos nossos motivos. Frustração por demora. ainda destacar as palavras: Agressão. é retardado. b) Retraimento: Retrair-se é uma forma relativamente fácil de responder. é a frustração. diz-se que o indivíduo está frustrado. capazes de favorecer ou estorvar a satisfação. repressão. os professores frustram os alunos e os alunos frustram os professores. A frustração dos adolescentes pelo comportamento dos pais tem recebido muitíssima atenção em nossa cultura. Os processos básicos que produzem classificam-se em frustração por demora. Em qualquer ocasião que se impeça a ocorrência de uma resposta ou se interfira no comportamento motivado. Assim emoção e motivação estão ligadas ao fenômeno do comportamento. Quase toda interferência no comportamento motivado pode ser reputada entravante. freqüentemente. denominou-se comportamento de ajustamento. seja qual for. em maior ou menor grau. A frustração é produzida por uma série de situações. O comportamento dos outros se destinam muito mais a satisfazer os motivos deles do que os nossos. identificação. regressão. se a resposta foi bem reforçada e o reforço. o resultado é a frustração. em seguida. Já no conflito. entre as quais lhe é preciso escolher. a) Agressão: a agressão é uma reação típica à frustração. Outra causa de frustração é de natureza social. No ajustamento sempre que acontece alguma coisa que interrompa o comportamento motivado. Todas as pessoas se sentem frustradas de vez em quando e estão sujeitas a sentir-se agressivas em decorrência dessa frustração. em todos os tipos de respostas. As respostas que ela provoca chamam-se ajustamentos. e compensação. A frustração tem propriedades estimulantes para o organismo. racionalização. palavras apropriadas para descrever as situações em que uma pessoa é motivada para comportar-se de duas maneiras incompatíveis. os irmãos e irmãs frustram-se mutuamente. devaneio. ou não se acha à mão. O comportamento que visa a lidar com os motivos da pessoa e com as influências do meio. No conflito deparam-se ao indivíduo situações igualmente desejáveis ou igualmente desagradáveis. retraimento. as reações podem ser descritas como emocionais e influem no comportamento subseqüente. o resultado.

Repressão: As situações que despertam sentimento de culpa. Chama-se regressão à adoção de um comportamento. Respostas emocionais acompanham. Esse esquecimento seletivo de experiências desagradáveis é o fenômeno da repressão. i) Compensação: Compensação é o superdesenvolvimento de certo tipo de comportamento. em resposta à frustração. g) Identificação: O processo de acentuar os nossos sentimentos de valor pessoal pela vigorosa identificação com uma pessoa ou uma instituição ilustre denomina-se identificação. menor esforço do que o comportamento agressivo e a sua recompensa é imediata. o indivíduo superenfatiza as suas consecuções em outra. medo. d) Regressão: O comportamento de regressão é uma resposta freqüente à frustração. oriundas do fracasso. e) f) Racionalização: Racionalizar significa atribuir razões socialmente aceitáveis ao nosso comportamento. talvez. provavelmente. É também uma fuga aventurosa do tédio. Quando ele resulta de frustração em determinada área. e funciona como uma espécie de distração.12 Requer. O retraimento atua como uma espécie de seguro contra o malogro social. não raro. acarretando delírios gravíssimos de perseguição. O devaneio ministra uma fuga conveniente das possibilidades de perda de prestígio e de respeito próprio. h) Projeção: A pessoa que percebe nos outros os motivos que a preocupam estáse utilizando da técnica de ajustamento denominada projeção. a certas pessoas. com muita rapidez. que seria característico de pessoa muita mais jovem. Quem não tenta não falha e. As pessoas descobrem. Delírio é uma crença grosseiramente falsa. c) Devaneio: No devaneio. esquecem-se. As respostas regressivas são imaturas e raro construtivas. 09.que protege a pessoa da autocrítica e da ansiedade. Pode vir a ser uma forma seríssima de comportamento desajustado. todas as outras respostas . Mas parece concorrer muito pouco para a solução de problemas de ajustamento. CONCLUSÃO. característica de certos indivíduos psicóticos e neuróticos. o indivíduo se empenha na satisfação imaginaria dos seus motivos. afigura-se melhor nunca haver tentado do que tentar e falhar. não raro. Trata-se de uma forma de substituição. que as suas respostas podem interpretar-se como pertinentes a mais de um motivo. ansiedade e vergonha. Não pode ser criticado pelo outros.

como tal. que indicam a posição relativa da pessoa numa série de traços da personalidade. O ajustamento relaciona-se com as respostas que dá uma pessoa ou com a maneira por que essa pessoa aprende a lidar com os seus sentimentos. que influem na maneira por que os outros respondem a ele. motivos e circunstâncias ambientais. Os inventários da personalidade apresentam um conjunto de escores numéricos. A maior parte dos estudos longitudinais. Quando os hábitos de responder a essas situações se tornam bem estabelecidos. Os efeitos do físico sobre a personalidade são mais indiretos do que diretos. Os testes situacionais da personalidade apresentam uma amostra do comportamento do indivíduo numa situação simulada da vida real. o comportamento socialmente inaceitável . 10. se denominam ajustamentos. Assim. Podem ser encarados como respostas de natureza emocional ou motivacional. As variáveis que determinam os efeitos da privação infantil sobre a estrutura . não precisa ser concebido como avaliativo nem coaformativo. um aspecto de estímulo e um aspecto de resposta. orgânicas e sociais. As maneiras de lidar com os estados afetivos são aprendidas. O caráter diz respeito às tendências de comportamento socialmente pertinentes. denominam-se mecanismos de comportamento. A personalidade tem uma referência social fundamental. fornecendo informações sobre si mesmo. motivos e circunstâncias de outra pessoa .pode ser considerado ajustativo nesse sentido amplo. As determinantes da personalidade são genéticas. e enfatiza particularmente a dinâmica interação deles. da personalidade mostra que existe considerável constância dos traços da personalidade no decurso do tempo. e freqüentemente. Os inventários da personalidade consistem em questionários a que o indivíduo responde. A PERSONALIUDADE E O CARÁTER . e com o resultante despertar emocional.ou qualquer outro meio de lidar com a situação total das emoções. O ajustamento. A emoção e a motivação têm muita coisa em comum e ambas tendem a exercer um efeito excitante. Os meios de lidar com a frustração e o conflito. sobre o organismo. mais minuciosos. Não devem ser interpretadas como se ocorressem separadamente das demais. A personalidade tem. com implicações morais e éticas especiais. Empresta igualmente um peso especial às características únicas do indivíduo. adquirem-se no decurso da experiência. A personalidade diz respeito a uma organização única de padrões de reação e características relativamente permanentes do indivíduo. ou despertador.13 dos seres humanos. A frustração e o conflito fazem parte da vida de toda a gente. Os estudos transversais revelam escassa coerência nas manifestações dos traços do caráter e da personalidade entre uma situação e outra. ambientais. emoções. ao mesmo tempo. Os testes projetivos ministram índices mais "globais" do funcionamento da personalidade.

Os preceitos culturais adquirem a força de imperativos morais e tornam-se resistentes à crítica. até as psicoses. a terapia diretiva e a terapia baseada na teoria da aprendizagem. As esquizofrenias são classificadas em simples. a terapia do choque e a terapia das drogas. personalidades múltiplas. hebefrênicas (esquizofrenia). reações neuróticodepressivas e reações de somatização. catatônicas e paranóides. o "papel maternal" e a "conduta maternal em relação ao filho" e o ajustamento dos filhos. OS PROCESSOS SOCIAIS. reações dissociativas. e muitas formas de patologia pessoal e social se imputam atualmente . a terapia centralizada no cliente. partilhadas e transmitidas de uma geração a outra. As anormalidades da personalidade vão desde os limites do normal. A conformidade e a inconformidade constituem uma dimensão importante do comportamento social. se tenham encontrado formas complexas de organização social e comunicação entre os animais inferiores. As terapias médicas para os doentes mentais incluem as lobotomias. em função da cronicidade e do prognóstico (sendo a processiva a mais crônica). Uma pessoa não pode ser compreendida fora da sua história social e da natureza do meio social em que vive. 11. como a "estrutura do caráter". A conformidade se relaciona com variáveis situacionais. como o tamanho. e o seu grau de identificação grupal. as psicoses se classificam em funcionais e orgânicas. só o homem criou uma verdadeira cultura. As psicoses maníaco-depressivas assumem a forma de mania. Os mecanismos de defesa que operam em todo esse contínuo funcionam sem que o indivíduo se dê conta deles são auto-ilusivos e servem para reduzir ou afastar a ansiedade. Refere-se particularmente às aprendizagens sociais acumuladas. reações de conversão. são a terapia psicanalítica. as outras pessoas são o segmento mais significativo do meio da criança. O pertencimento a um grupo tem importantes funções positivas para o indivíduo. A partir do nascimento. reações de ansiedades. a natureza e a composição do grupo. melancolia ou de uma alternância entre as duas. e processivas e reativas. e com características da personalidade. Parece haver alguma relação geral entre as avaliações das características dos pais. reações obsessivas. A cultura ministra grande número de soluções já prontas para muitos problemas da vida e permite aos indivíduos que aprendam muita coisa sem os processos intermináveis de ensaio e erro. Em função da etiologia. Muito embora. A cultura diz respeito ao modo de vida total da sociedade.14 subseqüente da personalidade dos seres humanos ainda precisam ser calculadas. de acordo com os sintomas. As quatro formas mais comuns de psicoterapia. passando por perturbações menores e neuroses. como os sentimentos de adequação e competência do indivíduo. As neuroses incluem fobias. que se ministra aos doentes mentais. astenia. Não se estabeleceram relações uniformes entre a maioria das práticas específicas da educação de filhos e o desenvolvimento da sua personalidade.

em seus tempos de bacharel. a Psicologia atual é algo mais do que isso. oferece as mesmas garantias de seriedade e eficiência que. os resultados da atividade psíquica. baseado na ciência natural. mas. ou componentes. à de se o estado atual da Psicologia justifica ou não a tentativa de aplicar em forma científica seus conhecimentos ao campo do Direito. isto é. Não obstante. Os cinco elementos. PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA A primeira pergunta que o jurista fará a si próprio. a idéia de que esta matéria era pouco conhecida pelos que a ensinavam e a considerou como uma de tantas disciplinas que só podem ser apreendidas com a esperança de esquecê-las. de isolamento e de auto-afastamento. ou como ações da pessoa. Quanta gente adquiriu. Esta pergunta justifica-se. 13. da alienação são os sentimentos de impotência. A clássica o seu objeto de estudo era a alma e a moderna cujo objeto de estudo era a investigação dos fenômenos psíquicos. nossa experiência interna e que se acusam no ponto de vista objetivo como manifestações de funcionamento global do organismo humano.15 à alienação social. entre outras razões. não parecia poder abonar essa pretensão. a procura de maior perfeição de sua atuação em cada caso particular. Diversos investigadores descobriram técnicas diferentes que lhes permitiram chegar a diversas concepções para a descrição . pelo fato de que a Psicologia. de ausência de normas. A Psicologia como ciência ainda é demasiado jovem para achar-se constituída e integrada em só sistema de idéias. o conjunto de fatos que formam subjetivamente. que a maioria de nós estudou no curso secundário. CAPÍTULO I O ESTADO ATUAL DA PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA 12. de inexpressividade. A psicologia moderna não pretende estudar a essência. na observação e experimentação utilizando a análise e a síntese comprovando a cada passo o valor de suas afirmações. A diferença que poderíamos denominar seria a Psicologia clássica ou filosófica e a Psicologia moderna. Muitos movimentos de ação social da década de 1960 têm sido interpretados como manifestações de jovens afastados em busca de um sentido de identidade pessoal. A PSICOLOGIA EM RELAÇÃO A SUA APLICAÇÃO AO DIREITO . as outras disciplinas proporcionaram. É uma ciência que.

saber que estímulos puderam engendrá-la. A mais real e de mais sentido comum. se elas foram ou não “necessariamente mortais” etc. 3ª Psicologia da Psicanálise . a segunda. a volorização das influências externas (clima.. que nos interessam de modo especial para nosso estudo: Vamos verificar as principais diretrizes e contribuições de cada uma delas: 1ª. permite trabalhar sem nada preocupar-se com o que os figurantes do conflito jurídico “dizem”. o estado atual se caracteriza pela simultânea existência de distintas escolas psicológicas. Vale dizer que esta última é a de maior interesse para o jurista. Descobrindo objetivamente as “mentiras”. para o julgamento ou valorização da mesma. é inegável que representa. Considerando a questão de um modo geral. não só a “objetividade” com também a “técnica” necessária para a recoleção. 2ª Psicologia da Forma . É o que fazem alguns defensores hábeis. pode jactar-se de haver revolucionado com suas afirmações não só o domínio da Psicologia mas de todas as ciências do espírito. A primeira parte serve para predizer a conduta humana. compreensão e avaliação dos mal denominados “antecedentes do delito”. podemos afirmar que na atualidade há nove grandes direções metodológicas da Psicologia. Segundo ela o ato delituoso é também uma estrutura que não pode ser esmiuaçada ou decomposta – como fazem os juristas – para ser deduzida.16 compreensiva dos fatos e leis da vida mental. como veremos. Despojado de seus exageros e erros iniciais. O Condutismo – A vida psíquica inteira se traduz em movimentos ou ações e deve ser. dado um estímulo determinado. por conseguinte. em troca. estudada de fora. O lema desta psicologia é o de estímulo-resposta. cada uma delas em sua esfera é digna de atenção e respeito. alimentação. já que permite obter dados e juízos sem contar com o testemunho subjetivo do delinqüente.Aqui segue-se as técnicas e interpretações para o compreensão do vida psíquica criadas por Sigmund Freud. meio social etc) na produção dos diversos delitos. O condutismo é um auxiliar precioso para a Psicologia jurídica. um crime por ciúmes e completamente errado perder o tempo em considerar se o indivíduo deu uma punhalada a mais ou a menos. antes. etc. trabalho. as regras para a observação de “indícios” humanos e para o reconhecimento objetivo dos criminoso etc. médico vienense. o estudo experimental da eficácia dos diferentes “castigos”. os testes ou provas para a determinação de aptidões intelectuais e motoras. a situação dever ser. a técnica de registro das alterações emocionais. do pleiteante ou da testemunha: em uma palavra. que. ou seja. a que nos coloca ante os problemas psíquicos tais como se apresentam em nossa vida diária. registra com singular precisão o que “fazem”. por considerar o homem como um animal. correspondentes a outros critérios e fins desta ciência.. por conseguinte. sem nos preocuparmos nada com a “introspecção”.A Psicologia da Forma é a mais humana de todas. Toda tentativa de análise do estudo está sujeita a chegar a conclusões errôneas e assim por exemplo. mas falta-lhes para merecer o qualificativo de científico. concebida em suas origens e ser focalizada sem solução de continuidade até o desenlace. sólidos pontos de apóio para a compreensão . saber que a resposta se desencadeará no indivíduo e dada uma resposta determinada.

O “capital circulante” de nosso psiquismo. 3. Se à primeira vista esta asserção parece inexata é porque às vezes confundimos o inerte como o inibido ou reprimido. Não foi somente Freud. Quando a repulsa não se exerce sobre as lembranças. varia amplamente. depressão e estupor e máxima nos de elação. que traduzem tendências instintivas incompatíveis com a moralsocial vigente.A energia psíquica não se imobiliza e adere consbstancialmente aos conteúdos cognoscitivos. projeção = mecanismo de defesa-.1 Determinismo psíquico – O “aparelho psíquico” possui uma causalidade própria. e receba uma força (impulso) atrativa ou repulsiva tão grande que chegue a dirigir toda a conduta individual. até destruí-los ou evitá-los. 3.). catatimia = crise passageira. mesmo que o indivíduo – normal no restante – reconheça o absurdo de seu comportamento (como ocorre nas fobias. como um pássaro que pula de um ramo ao outro da árvore. 3. a energia libertada de nossa capacidade mental. em um momento dado.2 Princípio da transferência . tornando-se aparentemente ausente. mas seu valor total permanece constante. todo ato psíquico tem intenção. da psicologia do testemunho. isolado e indeterminado. holotimia = etc. para emergir. racionalização. pois explica uma infinidade de transgressões (simbólicas) observadas diariamente na vida judiciária. motivação e significação. por assim dizer. obsessões e compulsões). Em virtude de tal deslocamento das “cargas” psíquicas (afetivo-emocionais) é possível que uma percepção. De algumas atitudes pleitistas ou reinvindicadoras e – o que é mais importante – de não poucos erros judiciais cometidos por juízes probos e experimentados. foi a asserção de que o esquecimento não é conseqüência do desgaste ou usura das lembranças. saltar ou transferir-se de uns aos outros. indiferente e “neutro”. 3. mas sobre os pensamentos.4 Princípio da repressão ou censura – Eixo da escola psicanalítica. (e isso bem o sabe o delinqüente. agitação ou desespero. acidental. senão é capaz de deslocar-se. a força repressora toma o nome de “censura . mas de um elo de uma série causal. se concentra e aumenta de tensão. Este princípio tem enorme interesse penal e jurídico . não se trata de um fenômeno esporádico. uma idéias ou um pensamento qualquer. de acordo como grau dessa repressão inibidora: é mínima nos estados de sono. em um momento dado. mas da ação direta de uma poderosa força repressora que. De acordo com este princípio a vida mental apresenta-se como o perpétuo vir-aser de uma corrente energética que ao encontrar obstáculos em sua fluência. sob outro aspecto (graças aos processos de sublimação = processo inconsciente de desviar a energia da libido pra novos objetos de caráter útil -. alteração do humor. mas alguns de seus discípulos que fizeram ver a necessidade de os encarregados da aplicação da justiça conhecerem pelo menos os fundamentos das concepções psicanalíticas. incapaz de livrar-se de seu remorso). se anime subitamente. as expulsa do plano consciente e as mantém afastadas dele. ou seja.17 da conduta delituosa. Em virtude disso.3 Princípio do pandinamismo psíquico – “ Não há nada de morto no âmbito do aparelho psíquico” afirmam o freudismo. “custa mais esquecer do que recordar” é o lema da psicanálise.

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consciente”.

3.5

Princípio da Tripartição da Personalidade – Freud postulou que a individualidade psíquica é uma tentativa de síntese de três grupos de força: a) as provenientes do fundo orgânico-ancestral humano, e representadas por dois grupos de institintos (tânato-destruidores, sado-masoquistas ou da morte, uns, e criadores, vitais, expansivos ou libidinosos, os outros); o conjunto dessas forças, fundamentalmente irracional e inconsciente, é denominado de ID; b) as derivadas da experiência e educação (aprendizagem): individual, fundamentalmente conscientes racionais e lógicas que, criam a oposição entre o indivíduo e o objeto, e se orientam em um sentido puramente utilitário (assim como as anteriores o fazem no sentido hedonístico) constituindo o núcleo denominado EGO; c) as surgidas de um processo de introjeção (in-ducação) coercitivo e punitivo, que permite ao indivíduo superar o denominado “COMPLEXO DE ÉDIPO” (em virtude do qual tende a sua fusão amorosa com o progenitor do sexo oposto eliminando o do seu próprio sexo). Tal superação é conseguida baseando-se na incorporação à individualidade da imagem do progenitor odiado, infringindo o indivíduo a si mesmo sofrimento que antes desejou a esse e criando, assim, um princípio de expiação e autopunição que se denomina: “SUPEREGO”. A luta entre essas três instâncias, que se imbricam complexamnete nos diversos planos da vida individual, explica as oscilações entre o prazer, a utilidade e o dever, ou seja, entre as atitudes do gozo reflexivo, domínio racional e expiação salvadora. 3.6 Princípio da Autocomposição – Este assegura o restabelecimento do equilíbrio psíquico quando a pugna entre as três forças se tornam tão violentas que o indivíduo sofre a angústia do conflito intra-psíquico. Surgindo então mecanismos amortecedores e compensadores que permitem a readaptação e a nova síntese psíquica, imprimindo um desvio à tendência causadora do conflito. Tais processos são designados com diversos qualificativos (catatimia, racionalização, satisfação imaginária etc) e todos são de particular interesse para o jurista. 4ª Psicologia Personalística – Esta pressupõe a impossibilidade de fragmentar analiticamente a vida psíquica, uma vez que o fato psíquico em sua integração não pode se decompor sem perder características essenciais. O elemento psíquico que deve ser estudado é justamente a pessoa. Já não é possível julgar nenhum ato humano sem conhecer, não só as circunstâncias externas que o determinaram e o estado de quem o executou naquele momento, como também – o que é mais importante – sem saber qual é o tipo de personalidade do autor. Conforme for este, assim resultarão sua concepção do mundo, suas noções do SER e do DEVER SER, suas possibilidades de submissão ou domínio, de progresso ou regresso, de correção ou de agravamento nos diversos aspectos de sua conduta. A vida psíquica do indivíduo, será possível chegar a traçar o esquema de sua

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personalidade. E sem este toda tentativa de julgamento de sua conduta será deficiente. Este fato fundamental ignorado por tantos juristas (que acreditam, por exemplo, ter dito tudo quando afirmam que seu processado é um doente mental), conduz à possibilidade de predizer, com certas garantias de acerto, o campo delituoso em que com maior facilidade pode penetrar um determinado indivíduo e, o que não é menos importante, permite em entrever a possibilidade de uma modalidade de pena individualizada que será ditada muito menos tendo em conta o delito cometido do que a personalidade de delinqüente. 5ª Psicologia da Forma: - Este é o mais recente movimento de idéias observado no campo da Psicologia. Suas aplicações ao campo do Direito, embora, já possam ser pressentidas, ainda estão por realizar, mas a extraordinária fertilidade dos problemas que suscitou e o valor dos fatos que descobriu, justificam sua inclusão aqui. O maior mérito desta escola psicológica consiste em haver demonstrado a impossibilidade de estudar os fenômenos psíquicos empregando os métodos válidos para a físico-química. Um fenômeno psíquico é em si uma “unidade vital” que não pode se decompor pela análise sem perder sua essencialidade. A mais simples sensação é um complexo ou estrutura; nunca podemos conceber uma reação humana como derivada de mudanças para mais ou para menos de energias (afetivas, por exemplo), e sim que, embora obedeça em definitivo às leis conhecidas, temos que admitir nela, sempre, a existência de algo novo (a estrutura), diferente dos elementos que determinaram sua produção. Assim como o químico pode separar e isolar os corpos integrantes de uma combinação, porque os mesmos se lhe apresentam sob forma de realidade sensorial estável, o psicólogo não pode realizar esta tarefa nem seguir o processo analítico porque logo que tenta a decomposição do produto, este desaparece in totum. Ele tem que resignar, pois, a aceitar e estudar como fenômenos individualizados as estruturas psíquicas, que nada têm em comum com as antigas sensações artificiais e sem sentido vital. Sem exagero, podemos dizer que a psicologia da forma e a mais humana de todas, a mais real, a de mais sentido comum, a que nos coloca ante os problemas psíquicos tais como se apresentam em nossa vida diária. Segundo ela, o ato delituoso é também uma estrutura que não pode ser esmiuçada ou decomposta – como fazem os juristas – para ser deduzida. Toda tentativa de “análise” do delito, no sentido clássico, está sujeita a chegar a conclusões errôneas e assim, por exemplo, ante um crime por ciúmes é completamente errado perder o tempo em considerar se o indivíduo deu uma punhalada mais ou menos, se elas foram ou não “necessariamente mortais” etc., etc.; a situação deve ser, antes, concebida em suas origens focalizadas sem solução de continuidade até o desenlace. É o que fazem defensores hábeis, mas falta-lhes para merecer o qualificativo de científicos, não só a “objetividade” como também a “técnica” necessário para a recoleção, compreensão e avaliação dos mal denominados “antecedentes de delito”. 6ª Psicologia Genético-Evolutiva - Hoje já não se mantém a concepção do “criminoso nato”, todavia, ninguém duvida que a herança transmite a certos seres um acúmulo de predisposições para o delito muito maior que a outros. O Crime como delito, na qual

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demonstra alta correlação de delitos (crimes) que existe entre várias dezenas de gêmeos, inclusive algumas de gêmeos univitelinos, apesar de terem sido criados em, ambientes sociais bem distintos. São vários os autores que nos ilustraram acerca da mentalidade do homem primitivo e estabeleceram os paralelismos que podem nos ilustrar para compreender as reações de certos seres humanos que, por falta de formação atávica, sentem reativar-se normas de conduta que tinham sido superadas em nossos dias e lugares. 7ª Psicologia Neuro-Reflexológica – Seria o estudo denominado “reflexos condicionados” ou condicionáveis, atuando no sistema nervoso central e em especial no córtice cerebral: a excitação e inibição. Aqui é necessário considerar o fator “tempo” e o fator “rítmo de estimulação” para explicar muitas reações paradoxais que apresentam, não só os indivíduos patológicos, mas também os normais, convertendo-os em seres “imprevisíveis e absurdos” em mais de uma ocasião. A concepção neuro-reflexólogica explica, igualmente, a ineficácia das sanções (penas e castigos) para conseguir evitar a reincidência. 8ª Psicologia Constitucional, Tipológica ou Caracterológica – É sem dúvida uma das mais brilhantes direções no campo da Psicologia atual e apresenta extraordinárias sugestões para a compreensão das motivações e os efeitos das relações delituosas. O enfoque o psicossomático, ou seja a condições morfofuncionais (visíveis, corpóreas e mensuráveis) e ainda as condições psico-racionais (invisíveis, incorpóreas e imensuráveis mas até certo ponto avaliáveis). A tipologia oferece um firme apoio para a compreensão e previsão das reações sociais do homem, destacando a importância da assimetria funcional do ser humano – devida a preconceitos de ordem místico-mágico-religiosa – e, ao mesmo tempo, de haver proporcionado elementos para a elaboração de novas técnicas de exploração, entre as quais, destacamos o nosso Psicodiagnóstico Miocinético, por considerar que é uma das que melhor se prestam ao seu emprego sistemático no campo da Psicologia forense. 8ª Psicologia Patológica ou Anormal – Já se foram os tempos em que as psicopatias podiam ser explicadas como “enfermidades do cérebro”. Hoje já sabemos que qualquer enfermidade de qualquer órgão pode produzir uma anomalia no funcionamento mental, e que esta pode existir e persistir sem que seja possível notar uma lesão visível no sistema nervoso. Sendo assim a psiquiatria dever ser considerada mais do que a neurologia central, mas parte da Psicologia: A psicologia Anormal. O interesse extraordinário que esta apresenta para o jurista baseia-se em que por definição todo conflito com as leis que regulam a vida social pressupõe uma anormalidade, onde toda atuação profissional ver-se-á à frente de mentes normais colocadas em situações anormais ou, ante mentes anormais colocadas em situações anormais. Em todos estes casos a concepção psiquiátrica é de grande valor para a compreensão das ações resultantes e por isso cada dia se torna mais necessária sua intervenção no campo do Direito; mas não no sentido estritamente limitado da antiga psiquiatria forense, que só lida com os casos extremos, mas no sentido mais amplo e compreensivo da atual Psicologia Anormal, segundo a qual o problema não é descobrir

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quais pessoas normais e quais não são, mas sim que classe e que grau de anormalidade são próprios de cada pessoa, afim de que não se possa confundir o gênio com a loucura, o que favorece os psiquiatras e juízes diante de um processado em que segundo os primeiros, está louco e conforme os segundo, não está. Não se pode confundir gênio com loucura. Em realidade a discussão tem lugar quase sempre porque se quer aparelhar a noção de irresponsabilidade de delito com a loucura e a da responsabilidade com a saúde mental. Esta confusão persistirá, porque é possível ser um doente mental e ser responsável e vice-versa, é possível ser irresponsável de um delito cometido com os cinco sentidos, como se diz vulgarmente. Esta confusão é claro, desaparecerá quando desaparecer a palavra “loucura”, que não quer dizer nada, e por isso a fazem significar o que cada um quer. Ainda não faz dois anos um alienista escreveu que a loucura é uma enfermidade, esta afirmação é tão absurda como se dissesse que a dor de cabeça é uma enfermidade. Com efeito, dentro do extraordinário caráter vago do termo (etimologicamente vem a ser sinônimo de loquacidade, isto é, verborréia, excesso de falar), a loucura é um estado psíquico, capaz de surgir por mui diferentes causas (umas mórbidas, outras não) e em virtude do qual o indivíduo perde o contacto com a denominada realidade ambiental ou fenomenológica, perturbando-se sua capacidade discriminativa entre o mundo externo (sensorial) e o mundo interno (representativo ou imaginativo) e surgindo em conseqüências uma conduta, interna ou externa, que pode ser lógica (se se tem uma conta que se baseia em “vivências” anormais) mas se mostra inadequada. O indivíduo que só perde esse com tacto quando se refere a determinada série de estímulos foi denominado louco parcial ou semilouco e ao que só o perde durante certo tempo, embora, se totalmente, se denomina louco temporário. Porém estas denominações são, arbitrárias e grosseiras, pois existem infinitas gradações entre estes estados e por isso torna-se também insuficiente o estabelecimento de uma “responsabilidade atenuada” para protegê-los. A responsabilidade será individualizada pelos juristas, mas para isso é preciso que possuam as devidas noções de Psicologia aplicada à sua atividade. 9ª Psicologia Social – É sem dúvida a mais nova das direções da psicologia experimental. Suas origens são mistas. Obedecendo, de um lado, a certos princípios da psicologia da forma foi delineado um plano de investigação da conduta individual em relação em relação com as pressões e as aspirações (sucções) do grupo, ou grupos, com o qual, ou os quais, convive (grupo familiar, vicinal, congenial etc.) Tal investigação é planificada em “equipe”, isto é, contando com o concurso de antropólogos, sociólogos, psiquiatras, psicólogos, historiadores, economistas e pedagogos. Em primeiro lugar, são delimitados os conceitos de extensão e de estrutura do “campo” ou ambiente social em que vem confluir e entrechocar-se as diversas pressões dos grupos.. Em segundo lugar, é preciso investigar o papel relativo dos vetores pessoais na determinação dos impactos e contraposições que o sujeito em estudo (propositus) exerce em suas inter-relações com os membros do “campo”.

5º a reforma moral do delinqüente. 2º. uma vez que todo Direito está repletos de conteúdos psicológicos. isto é. a fundamentação psicológica do direito. já não se trata o delinqüente isolado. a descoberta da motivação psicológica do mesmo. 14. da sociologia e da filosofia. É Psicologia convocada para iluminar os fins do direito. a higiene mental que suscita o problema profilático em seu mais amplo sentido. das mutações radicais do nível de aspirações e dos fatores mais convenientes para uma mudança de atitude ou de opinião em diversos problemas de conduta. A Psicologia NO Direito: que estuda a estrutura das normas jurídicas enquanto estímulos vetores das condutas humanas. A Psicologia DO Direito: cujo objetivo é explicar a Essência do fenômeno jurídico. Áustria e Inglaterra lhe dedicam os juristas mais destacados. e no âmbito . No universo do direito tem-se usado o termo psicologia jurídica. a informação forense a respeito do mesmo. 4º. 3. A Psicologia jurídica é a Psicologia aplicada ao melhor exercício do Direito. da antropologia. De acordo com isto. 3º. As normas jurídicas destinam-se a produzir ou evitar determinadas condutas e. DEFINIÇÃO DA PSICOLOGIA JURÍDICA. contribuir na elaboração de leis adequadas à sociedade. em ordem cronológica: 1º a Psicologia do testemunho. 6º. conduziram a uma concepção e enfocação das transgressões legais. da engenharia legal. carregam inúmeros conceitos de natureza psicológica. aportando ao mundo jurídico. mas sim se procura também tratar e corrigir grupos delinqüenciais. A Psicologia Jurídica. isto é. Alemanha. baseada em fatos psicológicos irrefutáveis. e na tarefa de assessoramento judicial. podendo estabelecer-se uma verdadeira terapêutica social. da economia. pode sob forma de assessoramento legislativo. a compreensão do delito. Preenchendo do melhor modo possível essas condições foram realizadas investigações de singular interesse para a compreensão das diversas ideologias e aspirações. da contabilidade. Infelizmente. o estado atual da ciência psicológica não permite utilizar seus conhecimentos em todos os aspectos do Direito e isso faz com que a Psicologia jurídica se encontre hoje limitada a determinados capítulos e problemas legais que são.22 Em terceiro lugar. como evitar que o indivíduo chegue a estar em conflito com as leis sociais. Principalmente o estudo das oscilações da agressividade. Sendo o último o mais importante. A Psicologia PARA o Direito: colocada ao lado da medicina legal. 2. prevendo possíveis delitos ulteriores. a obtenção da evidência delituosa (confissão com provas). propósitos e condutas de diversos tipos de frustrados e desajustados sociais. colaborando na organização do sistema da administração da justiça. quanto à sua profilaxia e correção coletivas. nesse sentido. isto é. 1. torna-se necessário conhecer quais são os recursos mais eficientes – dadas as condições de tempo. e boa prova disso é a crescente atenção que os Estados Unidos. lugar e circunstância social – para assegurar o melhor ajustamento possível a esse dinamismo recíproco e dialético: indivíduo versus grupo e grupo versus indivíduo.

mas em ambos os casos é o organismo em sua totalidade.23 psicológico o termo psicologia judicial. PLANO EXPOSITIVO DO PROGRAMA. seguindo o atual critério pedagógico. CAPÍTULO II ESTÁTICA DA PERSONALIDADE HUMANA 16. em segundo lugar. se bater na cabeça de quem o tem. se quem o tem possui um cartucho de dinamite e um pavio. se acha representada pela chamada personalogia. conflito diplomático etc) Do mesmo modo que um pensamento dito ao ouvido deste magnata (referente à sua dignidade pessoal. mau humor. réplica furiosa ao vizinho. Do ponto de vista funcional. por conseguinte influenciar) uma pedra. responde-se a isso dizendo que um pensamento pode fazer desaparecer (e. Pois bem. A pessoa é uma. em estruturas (configurações) expositivas que constituem verdadeiros centros de interesse para o advogado militante. “antes de sabermos como é que a justiça se pode tornar sábia pelo recurso à psicologia. isto é pelo estudo da unidade humana considerando-a em suas relações com meio natural e social em que vive. intransigência. Ou seja. a quem nosso trabalho é principalmente dedicado. em consideração à brevidade e clareza expositiva. ou seja. Em primeiro lugar deve-se ter em conta a necessidade de dar antes ao jurista uma visão científica e moderna do homem. e ante um estímulo psíquico não é a alma que reage. a pessoa quem cria a resposta. convém fundir problemas e métodos. Dizia-se antes que um pensamento não podia influir sobre uma pedra e viceversa. temos de pensar como é que o saber psicológico se epistemologiza numa racionalidade de saber fazer justiça” 15. Uma das direções mais interessantes da moderna Psicologia. Um manjar estragado pode acarretar um conflito psicológico mundial se ingerido por um magnata político em um banquete internacional (indigestão. considerado como ser “psicobiossocial” e. inteira e indivisa e como tal deve ser estudada e compreendida pela ciência. O HOMEM CONCEITO CONSIDERADO COMO PESSOA O UNITÁRIO DA PERSONALIDADE. por exemplo) pode determinar nele uma brusca vasoconstrição . agressão pessoal. e uma pedra pode fazer dasaparecer (e por conseguinte influenciar) um pensamento. não existe barreira entre o físico e o psíquico: ante um estímulo físico não é o corpo que reage.

vamos dedicar-lhe a extensão que merece. alimentos etc. gráceis. para compreender o que estamos dizendo.. De modo análogo a constituição corporal imprime uma marca característica ao “aspecto” da pessoa e condiciona de modo amplo o estilo de seus movimentos. o tabaco. do ponto de vista endógeno ou pessoal. Permanecendo todos os fatores iguais. com efeito. Como este ponto é de uma importância crucial para a melhor compreensão da conduta humana. é um fato vulgar que a mesma frase pronunciada por um garoto ou por um carroceiro não desperta no ofendido a mesma reação e isso é. Em um palavra. Vamos dar um exemplo concreto para fixar idéias: suponhamos que um indivíduo “A” ao se encontrar na rua com um indivíduo “B” discute com este acerca da posse de um objeto determinado.24 coronária que lhe produza a morte e com ela venham as maiores mudanças materiais na país. mas também podem proceder diretamente do exterior (ar. efetuam-se pela via nervosa. de sorte que nosso tipo de tonalidade afetiva depende. de outra. conhecemos as relações existentes entre a constituição corporal e o temperamento. Que fatores determinaram esta reação pessoal de “A”? Vejamos: a) Constituição Corporal.). certas drogas etc. deprimido ou excitado etc. não existe – funcionalmente falando – solução de continuidade nem dualismo possível entre as denominadas manifestações psíquicas e as físicas. da especial proporção que entre si guardam as várias substâncias neurótropas circulantes no sangue.). ao passo que as modificações mais lentas e gerais têm lugar pela via humoral em virtude da libertação de determinadas substâncias denominadas "hormônios". a integração das múltiplas atividade orgânicas de forma que se ajustem em sua totalidade à sua unidade pessoal é conseguida mercê de um duplo mecanismo: nervoso e humoral. tais substâncias procedem em sua maior parte das glândulas de secreção interna. FATORES DOS QUAIS DEPENDE A REAÇÃO PESSOAL EM UM MOMENTO DADO. – Este é um fator capaz de imprimir uma modalidade especial à reações pessoais. As mudanças rápidas as reações especialmente ligadas à vida intelectual consciente. analisando-o com cuidado. Portanto os estudos tipológicos parecem. “A” bate em “B” com uma bengala. comprovar que a cada tipo constitucional somático . fazendo-os mais ou menos rápidos. 17. tais modificações se traduzem na vida consciente pelo denominado estado de humor (triste ou alegre. Basta lembrar a influência que sobre o ânimo têm o álcool. causando-lhe uma ferida na cabeça. enérgicos etc. não será a mesma reação de um homem corpulento e a de um homem magro e baixo. Em virtude disto a vida pessoal depende em todo momento de duas classes de influências: exógenas e endógenas. porque têm a propriedade de determinar modificações à distância. O Fator morfológico origina na pessoa um obscuro sentimento de superioridade ou inferioridade física diante da situação. e após várias frases ofensivas. trocadas entre si. de uma parte. e entre o temperamento e o caráter. Pois bem. devido a que o indivíduo se mostra e mostra subconscientemente superior em força ante o primeiro e inferior ante o segundo. que entra muito na determinação de seu tipo de reação. principalmente.

Um indivíduo de temperamento astênico. nas primeiras fases do desenvolvimento. c) Inteligência. “sangue de barata” e o hipertireóideo “sangue fervente”. Cada região somática consta. claramente se compreende que nem sempre a tendência primitiva de reação coincide com a reação exibida. somatotônica ou viscerotônica). e as segundas pícnicas. As primeiras são denominadas leptossômicas. poderá ser definido como “octomorfo”. Por isso. ou seja. Não obstante. em maior ou menor proporção. mas cada um apresenta peculiaridades que o fazem propender para um tipo de reação temperamental (neurotônica. órgão dos sentidos e sistema nervoso. críticas de julgamento) e das inibições criadas pela educação. Não há dúvida que . que dará. Um erro frequentemente cometido é o de confundir o temperamento com o caráter. abdome. já que entre ambas se interpõe todo conjunto de funções intelectuais (discriminativas. se quisermos ter a devida noção de todos os fatores determinantes de uma reação pessoal. músculos e articulações. tecido conjuntivo. A humanidade distribui-se – morfologicamente falando – em todos os infinitos pontos de uma área triangular. mesoderma: que forma todos os órgãos que asseguram a estática e a locomoção. ou astenicas. É assim que a periculosidade e as diversas tendências anti-sociais ou antilegais encontram uma expressão antecipada e também uma possibilidade biológica de correção. ou melhor. o denominado somático individual que somente nesses extremos. quantas vezes uma reação agressiva e um caráter violento tem sua explicação na existência de um temperamento medroso. b) Temperamento.Se entendermos por constituição “o conjunto de propriedades morfológicas e bioquímicas transmitidas ao indivíduo pela herança”. graças à denominada “terapêutica constitucional” que influi principalmente sobre as condições do trofismo e metabolismo celular. Assim. e os meios para sua explicação e diagnóstico. Aqui é preciso isolá-los se quisermos chegar a uma compreensão científica da motivação do delito. e por isso sua forma pode definir-se em função do predomínio relativo de cada uma delas. Em muitos casos o caráter da pessoa se desenvolve – por supercompensação psíquica secundária – em uma direção oposta à de seu temperamento. Dividido o organismo em cinco regiões em: cabeça. tórax. – É outro fator endógeno de importância decisiva. A maioria. A cada uma corresponde uma tríplice mensuração. que marca a cada momento a especial modalidade da primitiva tendência de reação ante os estímulos ambientais. de um volume tetraédrico. podemos definir o temperamento como resultante funcional direta da constituição. dos homens são variantes do “normotipo”. endoderma: formadora dos tecidos viscerais). De modo geral as pessoas nas quais predominam o diâmetro vertical (altas e magra) têm uma maior tendência à introversão e à dissociação (esquizoidia) que as apresentam um predomínio do diâmetro antero-posterior (gordas e baixas). por sua vez. “mesomorfo” ou “endomorfo”.25 corresponde a uma especial modalidade temperamental. braços e pernas. cujos vértices basais correspondem à formas resultantes do desenvolvimento de cada uma da folhas blastodérmicas (ectoderma: que forma a pele. de tecidos derivados dessas três folhas primitivas. este define-se objetivamente pelo tipo de reação predominante exibida pelo indivíduo ante a determinadas situações e estímulos. . é preciso conhecer bem as distintas modalidades de temperamento. os ossos.

o caráter. Isso quer dizer que. o problema é que em muitas vezes ou ocasiões o fato que põe o indivíduo em contato com o jurista é em si contrário ao seu caráter. cuja persistência na juventude ou no estado adulto é a melhor explicação de muitos atos delituosos. apresentam um déficit intelectual acentuado: são débeis mentais. isto é. O caráter constitui o termo de transição entre atores endógenos e os fatores exógenos integrantes da personalidade. era um fator de maior importância que todos os demais para a descrição da personalidade. a clássica posição entre o homem e o mundo (luta pela vida) a que é simbolizada na pugna entre o elemento endógeno e o exógeno isto é. ou falta de compreensão da responsabilidade moral. cabelos crescidos e desgrenhados e punhos contraídos. se diz que o “caracterizamos” isto é que damos conta de seu caráter. Mas. Os fatores exógenos. A exemplo do indivíduo “A” . Quem diria? quem o advinharia? “A”. cometeu um desfalque. o “arcabouço” ou “esqueleto”. porque dele depende a posse do denominado juízo moral. embora sendo o caráter um fator importantíssimo da reação pessoal – visto sua importância não deve ser exagerada até o extremo de se acreditar ser possível conhecer um indivíduo simplesmente por sua conduta externa. assinalar as propriedades pessoais de um indivíduo. isto é. há meia dúzia que parecem mais aficionados à pesca do que à tarefa de matar gente. e estes mais do que os outros processados por delitos de sangue. dentro da cabeça ficam muitas ações detidas e. Os fatores endógenos impeliram o homem a uma conduta puramente animal. É o fator puramente exógeno. Quando procuramos de um modo empírico. dentro de certos limites. As aparentes contradições entre o “modo de agir habitual” (caráter) e o modo de agir “acidental” se explicam por desequilíbrios súbitos dos núcleos energéticos das tendências que constituem os feixes fundamentais da “estrutura”. o conduziriam à completa submissão ao meio externo. existe na infância uma predisposição à delinqüência por ignorância. pacífico e inofensivo. “B”. tímido e recatado cometeu um delito sexual: “C”. ou “visível”. Em potência. baseada na satisfação de seus instintos e tendências apetitivas ou repulsivas. ao contrário. adquirida em vida a considerar. e representam em definitivo o resultado de sua luta. Mas.26 uma pessoa obtusa esgota antes os recursos para adaptar-se normalmente a uma situação que uma pessoa desembaraçada. – (hábito anterior). e) Experiência Anterior de Situações Análogas. do caráter individual. um grande número dos delinqüentes e dos indivíduos que entram em conflito com a sociedade. os larápios costumam ser mais inteligentes que os simples ladrões. prevenilas. – Dito e respeitado que o fator conativo. pode-se encontrar e destacar os motivos dessas compensações e permite. d) Caráter. isto é. o importante não é tanto ter a noção do nível intelectual da pessoa como sua capacidade de julgamento abstrato. Os juízes bem sabem que para cada criminoso que se apresenta diante deles com olhar feroz. o caráter. Via de regra os diferentes tipos de delitos estão relacionados com os diferentes níveis intelectuais: por exemplo. Através do exame miocinético. homem honrado e escrupoloso como poucos. chegar a ser autor de um crime horripilante. devemos ter presente que é preciso o conhecimento – na medida em que é possível obtê-lo – da conduta interna do indivíduo se quisermos completar os motivos da ação em geral. por conseguinte. “Onde acaba a razão começa a violência”.

seria capaz de reagir de um modo aproximadamente idêntico perante numerosas situações que poderíamos denominar "típicas" para o delito (delitógenas?). . a importância daquela é igual à desta. do que no caso de haver sofrido muitas. É evidente que um indivíduo que sai de um concerto de música ou acaba de ouvir um sermão religioso não se encontra em idêntica disposição para distribuir bengalada que quando acaba de ver uma luta de boxe ou uma partida de futebol. na imensa maioria das vezes. não há dúvida de que sentirá muito mais inclinado a repetir então este gesto. o interrogatório ou a conversação desliza sem um sistema ou plano preconcebido e o resultado é que somente uma minoria dotada de excelentes dotes naturais pode conseguir uma informação aceitável com respeito à matéria-prima de discussão. Infelizmente a atitude parcial (pró ou contra) que o jurista adota (segundo sua posição profissional perante o indivíduo) dificulta-lhe muita vez esse trabalho. todo advogado deverá saber traçar um esquema coerente da mesma.27 teve ocasião. prisões ou ter sido molestado em suas anteriores agressões. ao menos do ponto de vista humano. A “constelação”. a causa eficiente. Tudo é confiado à improvisação do momento. g) Situação Externa Atual. tem um intenso valor na determinação da reação pessoal – a pergunta: qual a melhor hora para pedir um favor ou fazer uma visita? È o que os juristas às vezes ignoram. Suponhamos que o indivíduo “B” cuspiu na cara do indivíduo “A” depois de insultá-lo grosseiramente. em sua vida. portanto. – Esta representa. dedicam luminosos parágrafos em seus relatórios em análise do delito e da personalidade do delinqüente sem levar suficientemente em conta qual era sua atitude de reação imediatamente anterior. como é natural. Por este mesmo fato explica-se o paradoxo de que o grau de inteligência dos delinqüentes se encontre em relação direta com seu potencial de reincidência (já que tem maior número de probabilidades de subtrair-se à ação penal) f) Constelação. se parta de dados incompletos para elaborar toda a ação ou atuação profissional secundária. e isso faz com que. de distribuir bengaladas sem outras conseqüências que as de experimentar satisfação de ver como inchavam os galos no adversário. Tal é a sua influência que entre nós uma maioria assustadora .apesar de nossas diferenças de personalidade e educação . são poucos os juristas que se preocupam em analisar a personalidade das testemunhas ou testemunhos com a mesma minúcia que a do interessado. – Designa a influência que a vivência ou experiência imediatamente antecedente exerce na determinação da resposta à situação atual. o estímulo desencadeante da reação pessoal. (pleiteante ou acusado). Devese ter em conta que quase sempre se dirige todo o esforço para ter uma visão exata da conduta do protagonista da situação e se passa por alto a conduta dos demais personagens que nela intervêm: erro profundo porque. do ponto de vista psicológico. Assim. Também as temperaturas extremas e o confinamento de pessoas excitam as pessoas. e assim se explica a maioria dos denominados erros judiciários (por excesso ou por falta). A análise de todos os elementos da situação desencadeante do conflito delituoso deve ser feita com a ajuda de um método e este não deve ficar limitado em seu uso aos policiais e detetives. e acharemos justificada a resposta deste se não do ponto de vista legal.

“imitação” o nome que corresponde a esse fato. . o fator mais importante de todos e. em múltiplos terrenos (político. em simplesmente.Como se comportaria a média dos cidadãos ante a situação originadora da atuação legal? Qual é o tipo da reação social latente ante a tal situação? Eis uma pergunta que o jurista deve fazer a si antes de esgotar a lista dos motivos da atuação de seu cliente. é possível que tenha interpretado mal uma de suas frases.colocou no terreno penal milhares de indivíduos. é preciso averiguar este ponto com especial tato antes de julgar definitivamente sua ação. . Pois bem. ou pública. sonha com riachos". E o resultado é uma pressão moral .. é claro. Note-se que não é. a maior ou menor sinceridade do indivíduo em sua primitiva narração. i) Modo de Percepção Subjetiva da Situação. e por isso é preciso saber até que ponto interveio no indivíduo que ocupa a atenção do jurista. Com efeito.É este. mas quase sempre é perdida sem anotar e quando o indivíduo é observado. o tipo médio de reação coletiva .falseado ou deformado pela parcial informação da imprensa . o indivíduo agressor “A” é possível que tenha agredido o adversário acreditando agir em defesa própria.neste caso negativa . ao mesmo tempo que. Quantos maridos mataram a mulher adúltera por acreditar que era seu dever proceder assim! Ao serem interrogados por que julgavam assim. para enaltecer. os nomes dos cidadãos cordatos que resolvem mais pacificamente seus conflitos amorosos. religioso. o que paradoxalmente faz agir de forma anormal a não poucas pessoas. tem que . coagido e julgado. repetiram a frase sacramental: porque é o que se faz para "lavar a honra". contribui para determinar o tipo desta. sem o interromper com objeções. a imprensa publica com todo luxo de detalhes o crime passional. em virtude do qual a percepção é alterada e deformada primitivamente sob a influência de tendência afetiva presente naquele dado momento. por isso. deixamo-lo para o final: quais foram as impressões (vivências) suscitadas no protagonista pela situação delituosa? Como viu seu conflito? Quais foram seus pensamentos e seus motivos conscientes de atuação? Em nosso caso concreto. denominado "catatimia". a deformação catatímica da situação justifica muita vez atos aparentemente absurdos.. Depois se contraporá esta descrição com a versão objetiva dos fatos e se deduzirá. um afã de publicidade. familiar etc). mediante perguntas e contraperguntas. os dedos parecem pessoas" e "quem tem sede. De fato. como é possível também que tenha praticado a agressão por um motivo completamente insuspeitado. Porque não há dúvida de que a conduta individual reflete a todo momento os vaivéns da conduta social. mas não publica. comercial. Dizem os provérbios: "a quem está com medo. O melhor meio de obter esta informação é deixar o interessado fazer um retrato espontâneo de todo o sucedido. nem tampouco o de “sugestão”. Quantos dados interessantíssimos se perdem pelo fato dos primeiros representantes legais não anotarem taquigraficamente as versões "frescas"! Quantas vezes as interrupções intempestivas deformam a espontaneidade do relato e nos privam de obter o ponto de vista pessoal do autor nos primeiros momentos! A primeira declaração espontânea é sem dúvida de máxima importância. o desejo de aprovação externa. por outro lado. por lhe ter parecido que ele começava a sacar de um revólver.exercida sobre o marido enganado.28 h) Tipo Médio da Reação Coletiva em Vigência. por exemplo. Isto porque todos nós sabemos que existe um processo psíquico geral.

as glândulas de secreção interna não controlam nem dirigem as funções nervosas. a simbolização etc. do qual dependem a iniciativa. À medida que subimos. é evidente sua intervenção nas variações do denominado "humor".não será abolido enquanto todos os elementos integrantes da complicada administração de justiça não tenham adquirido noções elementares de Psicologia. que se estende desde os lobos frontais do cérebro até a chamada cauda-de-cavalo (na extremidade inferior da raque). O cerebelo coordena os primeiros 6 níveis. por meio da ablação ou transecção das fibras nos correspondentes planos anatômicos. 3) 0 peduncular ou cerebral posterior. o organismo humano acha-se estruturado em uma série de "níveis funcionais". pública ou privada . 2) o espinhal ou medular. para os reflexos posturais complexos e a locomoção. 5) o esfriado (hipotalâmico) para as mudanças locomotoras e a suavização dos impulsos do nível seguinte. ou de desviar e dirigir a declaração . também denominado "via final comum". de maior integração e habilidade. correspondentes a outros tantos tipos de reação orgânica: 1) o neuromuscular. Contrariamente ao que se acreditou até há pouco.29 perder a esperança de que seja verdadeiramente sincero. porque nele estão explícitos e terminam todos os impulsos nervosos.oficial ou oficiosa. 6) córtico-motor. subimos também em complicação estrutural e integração funcional nervosa. que se encontram no plasma intersticial do denominado meio interno. A interrupção do fluxo funcional nesses diversos níveis. "tono afetivo". . O péssimo costume de contradizer e objetar. Distingue assim sete níveis de integração. para os movimentos "voluntários". e sim dependem mais da ação reguladora da totalidade do encéfalo. A BASE SOMÁTICA DA PESSOA. cada um dos quais atua sob a dependência de centros nervosos que se encontram dispostos em escala ascendente ao longo do chamado "eixo céfalo-caudal". produz uma desintegração da conduta. em altura física. mas neste interfere também uma infinidade de substâncias. onde se desenvolvem reflexos simples (como o rotuliano) de pequena influência na estática do corpo. "temperamento" ou "estado de ânimo". nesse eixo (estando o indivíduo em pé). não hormonais. 18. De acordo. que assegura os reflexos de estação (bípede) e posturais simples 4) o mesencefálico ou cerebral intermediário. a memória. ou "cerebrospinal". 7) córtico-associativo. Não obstante isso. com as mais recentes concepções neuro-reflexológicas.

por fim. assim também para chegar ao conhecimento do funcionamento pessoal será conveniente considerá-lo em suas diferentes manifestações. a imaginação. seres e paisagens que nos rodeiam. Suponhamos uma pessoa colocada em um quarto escuro e em perfeitas condições de repouso físico e moral. Pois bem: em nossa vida habitual não costumamos ter impressões tão simples. a memória. Segundo o qual a personalidade psíquica é única e indivisível. por exemplo) que projeta sobre nós um complexo feixe de raios luminosos. provocaremos uma sensação de contacto. já nos é conhecida por haver atuado repetidas vezes sobre nós. Isto quer dizer. Que são as Senso-percepções? . o comum é que não sejamos impressionados por um raio de luz. mas sim conjuntos das mesmas. os sentimentos. Do mesmo modo como no terreno morfológico.uma finíssima agulha. a saber: as senso-percepções. o julgamento. 20. De outra parte ocorre que a grande maioria de objetos. as emoções e. quando alguma coisa entra em contacto com nossa pele. será preciso fotografá-lo em diferentes posições.Em Psicologia Clássica. em condições normais. se em um ponto de nossa pele encostamos . denomina-se sensação ao ato ou impressão psíquica mais simples de que podemos nos dar conta. colocada também perpendicularmente. ATOS PSÍQUICOS DIFERENCIAVEIS NO FUNCIONAMENTO PESSOAL. Em virtude dessa circunstância ocorre que toda vez que um deles se apresenta diante de nós. . não é precisamente a agulha hafiestesiométrica. Se em tais condições se filtra um raio de luz monocromática através de um orifício punctiforme (feito em uma das paredes do quarto). as reações motoras voluntárias. e o indivíduo então conhece ao mesmo tempo que reconhece o objeto que tem diante de si. a associação de idéias. não há inconveniente em aceitar uma forma descritiva clássica em Psicologia e dar uma rápida explicação dos termos mais correntemente empregados na técnica psicológica. a pessoa notará um ponto luminoso se a incidência do dito raio em sua retina é perpendicular ao plano da mesma. assim também a sensação representa a menor porção de vida psíquica suscetível de ser considerada isoladamente. e poderemos dizer então que experimentou uma sensação de luz. São os estímulos que já possuem em nosso psiquismo marcas. Assim como o eléctron representa a menor parte que podemos conceber da matéria.30 19. Assim exposto o problema. mas ativa os traços que antes produziu (lembrança). e em seus diversos usos ou aplicações. como atos e aspectos que surgem nas etapas do funcionamento psíquico integral e que vêm a constituir os diferentes matizes expressivos. do mesmo modo. que em nossa vida nunca ou quase nunca temos ocasião de experimentar sensações puras. não se limita a provocar o correspondente complexo sensorial. se quisermos nos dar conta de um objeto. em suma. mas por um foco luminoso (uma lâmpada. De modo análogo. devemos conceber o que antes se denominavam funções psíquicas elementares.sem fazer pressão .

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Na mesma experiência psíquica (vivência) coincidem, portanto, o presente (sensações atuais) e o passado (imagem ou lembrança das sensações anteriores) graças a isso não temos dificuldade, geralmente, em averiguar a causa de nossas sensações, e a este processo em virtude do qual o indivíduo não somente se dá conta de que é impressionado por alguma coisa, mas também reconhece a natureza dessa alguma coisa, a classifica entre seus conhecimentos e lhe dá uma denominação que chamamos de percepção. Uma percepção não é, pois, mais do que um conjunto de sensações configurado, catalogado e diretamente relacionado com o estímulo ou estímulos que o produziram. Pelo fato de se processarem simultaneamente, (na prática) os conjuntos de sensações e as percepções correspondentes, se concordaram em englobar ambos os fatos psíquicos designando-os com uma só palavra: - senso-percepção. Quando nosso olho é impressionado por um corpo móvel, quando essa impressão reativa suas análogas anteriores, associadas a um nome e a uma experiência, surge o conhecimento identificador do estímulo e dizemos, por exemplo, "aí vai nosso amigo Pedro". Os psicólogos afirmam, então, que o percebemos, dando a entender com isso que nos impressionou, que nos lembramos dele e o reconhecemos e identificamos ao mesmo tempo. Por isso, o provador de vinhos treinado na percepção gustativa desses; descobre diferenças que não podemos apreciar, e o mesmo acontece com os diferentes profissionais, em seus respectivos setores, sem excluir os dedicados ao exercício do Direito e a sua proteção (isto é particularmente evidente na atividade de detetive, mas igualmente se dá em todas as demais atividades).

21. Que é Memória? – É a capacidade de fixar, conservar, evocar e
reconhecer os acontecimentos.O processo perceptivo não se esgota totalmente com a desaparição dos estímulos que lhe dão origem, pois doutra forma ser-nos-ia impossível reconhecê-los e adotar a conduta conveniente diante de cada um deles. Felizmente o tecido nervoso possui em maior grau que os demais, a capacidade de conservar latentes suas modificações estruturais para evidenciá-las no momento oportuno, dando lugar a uma revivescência de suas impressões - memória. Não há dúvida de que o processo mnêmico pressupõe diversos atos psíquicos; geralmente costuma-se incluir nele estes quatro: 1°. fixação das impressões; 2°. conservação; 3°. evocação e 4°. reconhecimento das mesmas. Isso é de suma importância, na Psicologia do testemunho, uma vez que na mesma pessoa podem se encontrar diversamente desenvolvidas estas fases de sua memória e, por conseguinte, é preciso examiná-las separadamente se quisermos saber que grau de confiança ou certeza podemos conceder a suas declarações. O fenômeno essencial da memória é o "ato evocativo", em virtude do qual a pessoa se projeta - em um especial esforço reconstrutivo - para o passado e procura colocar-se na mesma atitude ou postura de captação que determinou a percepção

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evocada, conseguindo assim, às vezes, reproduzi-la fragmentariamente. A concepção da memória é, pois, mais do que a "marca do passado no presente", a resultante da "retro-pulsão do presente para o passado". Havendo aqui essencialmente a intervenção da personalidade.

22. Que é a Imaginação? - Em realidade deve-se denominar imaginação
ao processo em virtude do qual, sob a influência de causas se reativam e combinam diversas imagens mnêmicas, ou fragmentos das mesmas, para constituir um composto que não corresponda a nenhuma sensação nem senso-percepção antes experimentada em sua totalidade. Assim a imaginação é um processo essencialmente criador que dá lugar a produtos sem existência real anterior, embora posteriormente a possam ter (como acontece com as obras de arte, as descobertas científicas etc.). Quando o processo imaginativo se desenvolve sem o freio crítico da razão, dáse-lhe o nome de fantasia O predomínio desta atividade nas funções pessoais dá lugar a um tipo especial de grande interesse legal, denominado confabulador ou mitômano, responsável por um grande número de intervenções forenses completamente desnecessárias.

23.

Que é Associação de Idéias? – Podemos dizer, que as idéias

são os produtos resultantes da fusão das lembranças, ou imagens procedentes de uma mesma classe ou categoria de estímulos. Disto se deduz que uma idéia será tanto mais completa e precisa quanto maior número de vezes, estivermos em contacto com os elementos de que resultar. Pois bem: um dos fatos mais importantes de nossa vida mental é a denominada associação de idéias, que, como seu nome indica, consiste na relação ou associação de todas nossas impressões (sensações, lembranças, imagens ou representações e idéias) de conformidade a certas leis (de semelhança e de continuidade), de tal modo que quando qualquer uma delas se torna consciente, outras tendem a tornar-se também associadas a ela. Assim, a visão de um objeto nos lembra não somente a de outros semelhantes a ele (por sua forma, seu uso, seu nome etc.) como também a daqueles que estão contíguos a ele (no espaço ou no tempo). A associação de nossas impressões se explica pela criação ou utilização de conexões ou vias nervosas entre os territórios neurônicos em que aquelas se produzem. Compreende-se facilmente, que a associação é um poderoso auxiliar da memória; já que ambas contribuem para que seja possível a revivescência e a lembrança de nossas impressões, independentemente dos estímulos que as originaram.

24. Que é a Capacidade de Julgamento? ou de Inteligência? - Eis outra pergunta difícil de se responder. Antes de tudo cabe
afirmar que não é nenhuma faculdade, nem estrutura, mas, uma resultante funcional de

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um conjunto de disposições em virtude das quais é possível ao indivíduo resolver os novos problemas que lhe são suscitados, utilizando para isso suas reações anteriores, mas ajustando-as e combinando-as, segundo as particularidades na nova situação. Podemos dizer que é a que permite aproveitar a experiência pessoal na solução das novas situações. Diante de todo problema cuja solução é desconhecida entra em função o julgamento ou inteligência, manifestando-se em três fases sucessivas, denominadas: delineamento ou compreensão, hipótese e crítica (comprovação lógica). Da mesma sorte que existem diferenças relativas na qualidade das distintas fases do processo mnêmico, essas são também observadas nos períodos de que se compõe toda operação intelectual e, assim, podem ser encontradas na vida pessoas muito aptas para compreender, outras para inventar e outras preferentemente dotadas para a crítica destruidora. Essas diferenças devem ser conhecidas pelos juristas que têm que agir nos tribunais, visto que em definitivo, conforme o tipo intelectual de seu oponente, deverá orientar sua informação de uma ou de outra forma. Tinha razão quem dizia que às vezes é mais interessante para o advogado conhecer a psicologia dos juízes que a psicologia de seus clientes.

25. Que é o Curso do Pensamento? - Dá-se este nome ao fluxo
ordenado dos conteúdos significativos, ligados uns aos outros, não somente pela força associativa, mas também por uma tendência diretriz que os seleciona e orienta de acordo com diversas leis ou princípios. Conforme for o resultado desta seleção o curso será mais ou menos tortuoso e confuso, oscilando entre a incoerência (observável nos momentos que precedem ao sono) e a nitidez meditativa. Além do mais, importa saber que no curso da evolução da mente humana os pensamentos foram orientados por vários tipos de critérios entre os quais cabe citar, o "mágico" e o "lógico". Os dois princípios essenciais do pensamento mágico (que vive ainda nos mitos, fábulas, tradições e sonhos atuais) são precisamente os que também se observam, implicitamente, nas leis da associação por contigüidade temporal espacial e por semelhança. Importa para o jurista lembrar estas duas leis do pensamento mágico, pois que elas regem o enlace discursivo dos débeis mentais, de muitos desequilibrados passionais e de não poucos indivíduos normais que se encontram em estado tóxico (por alcoolismo, fadiga, sono etc.). Ao contrário, o pensamento lógico - que somente se exibe em estados de total ou relativa "neutralidade" afetiva - se rege por vários princípios entre os quais se destacam, como é sabido, os de "contradição", "causalidade", "integração", "simplificação", "inferência" etc.,

26. Que são os Sentimentos? - Os sentimentos são mais facilmente
sentidos do que compreendidos “a tradução consciente das tendências de reação que tiveram origem em nossas impressões”. De um modo vulgar podemos dizer que o sentimento é o que anima, colore e vivifica nossas senso-percepções, representações e

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idéias, dotando-as de um cunho de personalidade e de uma força ou intensidade de incitação que é a principal responsável por nossos atos. Se em nossa vida mental não existissem sentimentos e se nossas operações psíquicas deslizassem sob a fria rigidez existente nas máquinas de cálculo, por exemplo, a existência se mostraria tão pesada que não valeria a pena vivê-la (e isso explica a tendência ao suicídio que se observa nos casos de depressão afetiva endógena). Se considerarmos o número de conteúdos psíquicos aos quais se pode ajuntar um sentimento, veremos que é enorme e isso fez originar a crença leiga de que são também infinitos os sentimentos. Não há tal coisa, pois os sentimentos elementares não são mais do que dois: o prazer e o desprazer (considere-se que este não deve se confundir com a sensação de dor, pois em determinadas pessoas e circunstâncias é possível que uma sensação dolorosa se mostre agradável e proporcione gozo ou prazer). Que se quer dizer então quando se fala de sentimentos de honradez, covardia etc.? Simplesmente que as idéias de honradez, covardia etc., se acham providas de um tono sentimental ou afetivo, que sendo positivo (prazer) engendrará um sentimento de honradez, covardia, confiança etc. Os dois sentimentos elementares, (prazer e desprazer) além do indefinível estado de gozo ou moléstia que proporcionam, dão origem a uma série de modificações corporais, em virtude das quais é possível chegar a conhecê-los externamente quando são suficientemente intensos. Assim são próprios do prazer a respiração ampla e profunda, o pulso tenso e regular e a vasodilatação ou rubor da face, ao passo que costumam ser encontrados no desprazer os sinais opostos; respiração acelerada e superficial, pulso rápido, pequeno e irregular, palidez facial e maior tensão muscular. Mas, logo que estas e outras alterações se tornem ostensivas a ponto de serem percebidas pelo próprio indivíduo e por quem o rodeia, tem origem um estado psíquico que recebe um nome especial – Emoções.

27. Que são Emoções? - A emoção é precisamente um estado de
sentimento exagerado. (e acompanhado de alterações somáticas mais extensas e intensas). O estado emocional sobrevem no indivíduo sempre que entram em jogo sua vida, seus interesses pessoais ou morais, os de sua família ou os da espécie. Isto quer dizer que a emoção parece ligada a tudo que contribui de um modo direto para o progresso ou o prejuízo do ser humano a função emocional aparece neste aspecto como um mecanismo primitivo de proteção do ser e da espécie. Os psicólogos mais afirmam que as emoções primitivas são o medo, a cólera e o amor ligadas respectivamente à tendência defensiva, à tendência ofensiva ou agressiva (instinto de conservação individual) e à tendência reprodutora eu sexual (constituindo o instinto de conservação da espécie). O medo e a cólera correspondem ao sentimento elementar de desprazer; aquele nos impele a fugir ou evitar os estímulos que julgamos daninhos; esta nos leva a destruí-los. Por um ou por outro mecanismo não há dúvida de que ambas as emoções tendem em suas formas leves, para a conservação do indivíduo. Deve-se ter em conta que a emoção do medo é mais básica do que a da cólera. Por isso, quando no encontramos diante de um perigo, nossa primeira intenção é fugir

o anteriormente colérico.por detrás de nosso rosto. Mas. há quem sustente que a vida mental seria impossível sem relações motoras. mas sem parecer que podemos detê-lo.35 dele. cuja síntese momentânea delineia uma "postura mental "ou "atitude" que se expressa em formas corporais mais ou menos típicas. às fases conativas do ciclo psíquico. dá explicações e mal levanta a voz ao passo que seu adversário gesticula e agita as mãos irado. Desde a simples apetência ou repugnância até a conquista ou fuga. cuja importância é enorme em jurisprudência. Pois bem: do mesmo modo. ao contrário. em ambos os casos. mais cedo ou mais tarde. correspondem. por exemplo. buscar um punhal.Todas as nossas impressões psíquicas tendem a exteriorizar-se sob a forma de atos. 29. caso em que parecem intencionados pelo próprio indivíduo e se denominam voluntários. é evidente que os movimentos desempenham um enorme papel em nossa psicogênese e na integração pessoal. Com efeito. isto é. Ou. sua voz torna-se forte. . pois de seu estudo pode evidenciar-se em muitos casos o "molde" do delito ainda não consumado (mas já preformado e diferenciado). uma vez percebida a mudança da situação exterior. o mais fraco dos contendores. sua voz baixa de tom. afiá-lo e deixá-lo em lugar seguro não pode afirmar-se que constituam atos de conduta criminosa. Pois bem: estes atos podem sobrevir de um modo reflexo. 28. Tais "esboços" íntimos. enquanto se encontram sós. é idêntica a força dominante ou diretora de nossa conduta: o instinto de conservação. determinam a afetividade de nossa conduta perante o mundo. mas não há dúvida de que são seus prolegômenos.. ou sejam. mostra-se medroso. ou reações motoras voluntárias. sobrevém uma brusca mudança emocional e nos lançamos ao ataque ou destruição do mesmo. Isto significa que o instinto de conservação. Sem chegar a uma conclusão tão absoluta. a ocasionar. Quem o duvidar. as fases do ciclo psíquico que se intercalam entre os sentimentos (atrativos e repulsivos) e os atos de conduta explícita. Que são Reações Motoras Voluntárias? . precisamente. torna-se prudente (primeiro estágio do medo) e sossega. até que nos mobilizamos para alcançá-lo ou para destruí-lo. logo se convencerá observando uma disputa. realizamos microatos (isto é.ou melhor . condensam-se na mente de qualquer de nós uma série de intenções. seus braços movemse com energia e ameaçam agredir.. ou então podem ser acompanhados de consciência. inconsciente. sucedem muitos fenômenos na corrente de nossa consciência. atos invisíveis e implícitos) que às vezes nos fazem sorrir ou estremecer sem que os que nos observam compreendam o que ocorre. modificou a atitude de ambos os indivíduos de um modo – isto é o importante – completamente independente de sua vontade. ou pré-ações. uma reação objetivável (movimento muscular ou secreção glandular). surge uma ajuda para o deprimido de um transfert emocional: o anteriormente medroso se enfurece agora. entretanto. dentro . Assim. Que são as Conações? -Designam as pré-ações. uma pessoa desprovida de todo movimento seria tão ineficiente para si e para a sociedade como qualquer outro objeto inanimado. seu rosto fica pálido. Os movimentos voluntários. Desde que "desejamos" ou "temos" algo.

dotado de uma personalidade bem manifesta. Surge então imediatamente a pergunta: é possível distinguir objetivamente. ao contrário. até certo ponto. isto é. andar. falar. tamanhos e distâncias etc. incapaz de evoluir no tempo. as diferenças . sem seu conhecimento não chegará nunca a compreender devidamente os problemas psicológicos suscitados por seus clientes. está condenado a morrer em poucas horas se não velarem por ele seus progenitores. a partir da diferenciação sexual. síntese funcional do organismo humano. externas e internas. de autoconhecimento. traz consigo um potencial energético considerável. pois. DINÂMICA DA PERSONALIDADE 30. de um modo impulsivo ou reflexo. Vejamos em linhas gerais em que consiste esta evolução: O homem vem ao mundo em condições verdadeiramente deploráveis: incapaz de valer-se por si mesmo. até criar-se uma vida interior. Como se efetua este processo de criação e integração? Lenta e penosamente. o caráter de serem voluntários (por ação ou por omissão. que lhe é transmitido pelo misterioso ato de herança. impostas por múltiplas circunstâncias. através dos anos e sofrendo mil alternativas. tem de comum.36 Graças a eles educamos nossas funções sensoriais. Levando em conta. PROCESSOS GERAIS DA ADAPTAÇÃO PESSOAMEIO EVOLUÇÃO DA PERSONALIDADE. como acontece nos denominados delitos por negligência ou imprudência) e isso faz com que a defesa do processado se baseie muita vez na demonstração de que o ato sub judice foi cometido não só sem intenção. uma norma geral de evolução da personalidade. o indivíduo modifica-se com a idade e.. para serem julgados como tais. Mas o recém-nascido. escrever. A personalidade. dão lugar também a alterações do aspecto de sua personalidade. aprendemos a conhecer as formas. e em virtude dele será possível. Como se compreende a extraordinária variedade de atos delituosos. mas também sem consciência de sua execução. utilizando os estímulos do meio em que vive.. e com garantia de acertar os movimentos voluntários dos involuntários? CAPÍTULO III. que o elevará à categoria de ser consciente. Isto sem contar que somente graças aos movimentos voluntários nos é possível comer. desenvolver com este uma série de reações de relação cada vez mais complexas. localizamos nossas sensopercepções. do mesmo modo como as marcas desta alteração se traduzem em modificações corporais morfológicas. Existe. não pode de modo algum ser concebida como alguma coisa rígida e estática. aparentemente inerme. de suma importância para o jurista. ou quem os substitui na missão tutelar.

suas relações e sua finalidade. "tocável". Por condicionalização reflexa começa a associar. Antes que desapareça a avidez colecionadora de palavras. Nesta idade em que o pensamento começa a manifestar-se é quando melhor podemos nos dar conta da natureza fundamentalmente egoística do homem. isto é.37 psicológicas que indubitavelmente existem entre o homem e a mulher. ao iniciar-se o quarto ano de vida. desde que sejam suscetíveis de movimento ou aplicação para o desenvolvimento de seus sentidos e seus músculos. embora deixem muito a desejar quanto à sintaxe. Graças a esta curiosidade lingüística. "quebrável" etc. a saber: 1° .Ao começar o segundo ano. e de dez a vinte palavras que era seu patrimônio ao finalizar o primeiro ano. estado adulto. baseados no processo chamado de experimentação aquisitiva e que se caracteriza pela presença na criança de uma verdadeira mania experimentadora: tudo ela quer imitar. passa a duplicar-se ao começar o terceiro. durante a qual o pequeno não se cansa de formular perguntas (para quê? por quê?) algumas das quais chegam a por em perigo a tranqüilidade dos pais. e tudo o que tem adiante é considerado globalmente em função da conduta sensorial que determina. a) A Infância . no curso deste a criança já constrói orações. É a chamada idade interrogante. entra a criança em um período da maior importância de sua evolução psíquica: o do desenvolvimento da linguagem. Podemos subdividir a etapa infantil da personalidade em quatro períodos.Período dos Interesses Glóssicos . a criança só se interessa . A evolução da personalidade deve ser considerada em cinco grandes etapas. Mal percebe um novo objeto pergunta o que é. .Do ponto de vista psicológico. 3°-Período dos Interesses Intelectuais Gerais. sua constituição. a saber: durante a infância. pelas pessoas e objetos (meio) que imediatamente a rodeiam. imitando os que ouve dos lábios dos que a rodeiam. tudo quer provar. e ao receber o nome fica muito satisfeita. cada vez com maior precisão as imagens visuais com determinados sons que produz seu aparelho de fonação. todo objeto novo é um tanto "chupável". maturidade e senilidade. Um pouco mais adiante a criança apresenta um extraordinário interesse por conhecer o nome das coisas que vê e dos dois aos quatro anos dedica-se a uma verdadeira caça de palavras. Neste período a criança é ainda incapaz de reconhecer as propriedades intrínsecas dos objetos. a criança começa a preocupar-se em saber a origem das coisas. juventude. 2° . "palpável". Com efeito.Período dos Interesses Perceptivos . cumprindo a lei biológica do utilitarismo. o caudal de vocábulos do Senhor Bebê rapidamente se enriquece.Durante este período a criança se sente atraída pelo que excita diretamente seus sentidos. a característica essencial desta etapa é a curiosidade nela desenvolvem-se os interesses pessoais fundamentais. tudo o que é novo a interessa de um modo absoluto e extraordinário.

“à sua imagem e semelhança". projeta nele sua personalidade e infunde a vida nas coisas inanimadas dotando-as de consciência e linguagem. buscar a causa direta ou o por quê imediato dos fenômenos que observa. em todas as fábulas e criações espontâneas da criança as coisas têm intenção. como um ser divino. Finalmente. Esta é uma especial função psíquica que se esforça em reconhecer. Por conseguinte. a) Modificação geral da atitude de reação da criança ante o mundo. a criança é capaz de passar por cima de todos os princípios da lógica e afirmar ao mesmo tempo duas relações contrárias (negação do princípio de contradição). Está convencida de possuir a verdade absoluta. a seu gosto. ou fantástica. sumamente pitoresco. nos responderá: é para sentar-se. passando a ponte da realidade para a fantasia e vice-versa.38 pelo aspecto . isto é. pela possível coexistência de tendências de reação apostas ante um mesmo estímulo: uma ditada por sua concepção autista. isolando-se no interior de sua forma corporal. A criança passa paulatinamente de uma fase na qual toda sua atividade psíquica se desenvolve em um plano a outra em que se diferenciam as duas realidades: subjetiva e objetiva. a interna e a externa. etc. por isso. exprimir seus desejos pela linguagem. professores e adultos que a rodeiam. adaptar seus movimentos.das coisas que lhe podem ser proveitoso conhecer e pelo uso que pode fazer delas. à medida que vai encontrando resistências na satisfação de seus desejos e na aprovação de sua conduta. o verdadeiramente real do imaginário. Aos três a seis ou sete anos se perguntarmos o que é uma cadeira. uma mamãe é para dar comida e cuidar de mim. e a outra dependente da concepção realista objetiva. ela vai se sentindo oposta ao meio e sua personalidade vai se recolhendo e retraindo do mundo. em um ou em outro plano psíquico. dos sete aos doze anos. tais como perceber. e concentra-se. Mas a vida é dura e pouco a pouco a criança tem ocasião de convencer-se de que os demais não pensam como ela em muitas ocasiões. seus . ocupações e problemas mais concretos. as árvores falam. que lhe é continuamente infiltrada por seus parentes. a personalidade supera o caos em que vivia e aprende a movimentar-se. . diante de cada situação. em virtude da qual a criança não pode distinguir bem as sensações das representações. com perfeito conhecimento de causa. Ela tem razão em pensar como pensa e os demais também. o vento ou a noite adquirem forma corporal etc. 4° Período dos Interesses Especiais .Uma vez desenvolvidas as funções psíquicas gerais. neste estágio. Há um curioso estádio intermediário no qual a criança aceita a coexistência das duas realidades distintas e igualmente válidas e verídicas. uma boneca é para brincar. O pensamento mágico corresponde a esta projeção da incipiente personalidade infantil para o exterior. Concebe o mundo. sua atitude sentimental se caracteriza igualmente então pela ambivalência. interna e externa. o interesse infantil se especializa. medir ou avaliar o espaço. entre os dez e doze anos. em projetos. pela simples razão de que não tem experiência de seus erros. do eu e do mundo. graças à atuação do denominado ''juízo de realidade". as pedras se movem.

o "desejo" da "ação" e o plano "intelectual" do plano "motor". Ninguém estranhará se dissermos que estes fatos crescem em importância na mesma ordem de sua formulação. psicologicamente falando. Finalmente. a incipiente lógica e o raciocínio do jovem encontram dificilmente seu caminho de atuação através dos remoinhos sentimentais que em seu espírito promove o funcionamento da glândula . até então não suspeitadas. de transição entre um "já não" e um "é". A consideração destes fatos psicológicos é da maior importância para compreender múltiplos problemas suscitados pela delinqüência infantil. A característica essencial. b) aquisição da responsabilidade social e. O indivíduo classifica e sintetiza sua bagagem de experiências infantis e estabelece seus conceitos e crenças gerais. mais transcendentais.É o final da infância e o estado adulto. Três fatos fundamentais caracterizam esta etapa: a) aparição do pensamento abstrato. o exagero da agressividade e o desejo de independência. c) finalmente. toda a afetividade encontra-se exagerada e transformada ao ter que se adaptar a novas concepções ideológicas. o começo da ação do indivíduo. Ao mesmo tempo descobre novos problemas. nos faz preferir uma descrição global. mas a dificuldade de estabelecer limites cronológicos entre os mesmos e por outro lado o ter todos de comum o caráter de transição e instabilidade dos fenômenos psíquicos neles observados. puberdade e juventude propriamente dita).é a organização. da capacidade de estabelecer relações lógicas entre conceitos gerais (sem existência no mundo fenomenológico). o término do desenvolvimento da sexualidade.39 caracteres de realidade ambiental ou subjetiva: em virtude dela a criança aprende a distinguir a "diversão" do "trabalho". daí o desequilíbrio que caracteriza esta época juvenil. Inversamente. Nesta idade que bem poderia ser denominada a idade dos contrastes. como tal. b) A Juventude . coincidindo com a denominada "crise puberal". A maioria dos autores divide esta etapa em vários períodos (adolescência. isto é. Com a maturidade do denominado instinto sexual. como se pode imaginar. que lhe embaraçam o ânimo e pela primeira vez em sua vida franze o sobrevenho ante o interrogatório de seu destino: qual será seu papel na vida? que lhe reserva o futuro? que direção tomará diante das interrogações filosóficas gerais? Momentos em que o coração manda que continue sendo menino e a razão o impele a pensar como homem. da época juvenil da personalidade . por conseguinte. o "sonho" da "vida". alternando com crises passageiras de medo do mundo (regressão ao período infantil). avaliação e ponderação dos conhecimentos concretos que até então foram adquiridos. diante da sociedade. com suficiente precisão para adotar a conduta social conveniente em cada caso. expressa por um "ainda não". que nesta etapa adquire o definitivo impulso para seu desenvolvimento. relaciona-se. O menino sente-se homem e a menina mulher antes de o ser em realidade.

De modo geral pode dizer-se que a família. isto é. mercê dos quais o adulto chega a conformar-se à satisfação de seus desejos. do maior egoísmo e do mais sublime altruísmo.40 sexual endócrina (testículo ou ovário). Muitas vezes esse é o motivo através do qual se trata de conseguir anormalmente o que não lhe foi possível obter normalmente (dinheiro. O estado adulto constitui a denominada etapa produtiva do homem ou mulher. Isso é devido a que o valor das forças em jogo é sensivelmente igual. por conseguinte. acusando o máximo vigor e permitindo. Do equilíbrio entre aqueles e estes resulta a conduta normal da personalidade. um ligeiro predomínio de qualquer deles e já nos encontramos diante de um tipo de personalidade mal preparado para a vida social e. quarto e quinto decênios da vida. porque durante ela é quando ambos rendem seu maior trabalho útil para a sociedade. uma vez que não a querem reconhecer sem penosas restrições. c) Estado Adulto. não se encontra absolutamente preparada para favorecer a normal evolução da personalidade do jovem. ao mesmo tempo. sem conhecer se seus fatos atuais correspondem ao observado em sua infância. a saber: o mecanismo de negação. Período de equilíbrio entre a atitude agressiva e romântica juvenil e a atitude medrosa e positivista da velhice. a saber: os mecanismos catatímicos (mau humor. peço vênia para resumi-Ias brevemente. devemos evitar bastante em estabelecer um prognóstico da definitiva evolução moral ou caracterológica de um jovem. isto obriga o adolescente a dissimular sua própria personalidade em sua casa. o meio afetivo mais imediato. apto para . por conseguinte o caminho seguido se aproxima da linha reta. 31. por isso. da mais fina sensibilidade e da mais fria indiferença ou impermeabilidade sentimental. até então absorvida por ela. nele encontramos a personalidade em pleno esplendor. a personalidade pode aproveitar todos os hábitos e experiência até então adquiridos. satisfação amorosa etc. o da realização imaginária e o de substituição ou sublimação. De outra. seu melhor reconhecimento e classificação.Período que compreende aproximadamente o terceiro.). Com efeito. por isso. Poucos são os pais que sabem deixar de o ser para converter-se em irmãos ou em amigos. de uma parte temos em pleno funcionamento os três mecanismos psíquicos gerais de adaptação. Sem dúvida é agora que melhor se acentuam as diferenças psicológicas entre o homem e a mulher e. sem ter que lutar ainda com o inconveniente do desgaste e declínio do organismo. por conseguinte. de projeção e de racionalização. os desejos (expressão consciente das tendências de reação) têm à sua disposição outros três meios. PERSONALIDADE ADULTA DO HOMEM Quais são suas características essenciais? O fato saliente na personalidade adulta normal masculina é sua capacidade de adaptação e de resistência às contrariedades da luta pela vida. . depressivo). graças aos quais podem chegar a realizar-se sem causar um maior mal-estar à consciência moral. Nesta época podem dar mostras.

por assim dizer. Vejamos em que consiste a atuação destes seis mecanismos: 1º.A adaptação por negação do desejo é a forma mais simples. sofrerá muito mais na vida. muito seriamente.. enquanto imaginava conquistar o príncipe com os vestidos comprados por meio do produto da venda do leite. porque realmente chegaram a ocultar à sua própria consciência . que não são movidas por nenhum "interesse". Assim. via de regra mais desenvolvido no jovem que no adulto e na mulher do que no homem. ou desejo. graças ao qual nasce a confiança em si mesmo toda vez que alguém se encontra em uma situação difícil de se resolver. em maior ou menor grau todo mundo possui este mecanismo de adaptação imaginária. mas também a mais ineficiente. 3º. canalizando-o em certo modo e fazendo-a dirigir-se por um caminho em que não tropece com obstáculos invencíveis.também de La Fontaine -. 2º. e somente guiada pela lógica objetiva. E o pretendente desprezado adapta-se à privação do objeto de seu amor.41 entrar em conflito com as leis e consigo mesmo.Eis aqui outro meio de adaptação. muitos "sonhadores" deixam escapar mil oportunidades de realizar verdadeiramente seus desejos por se encontrarem absortos em sua satisfação imaginária e não se lembrarem do velho provérbio de que "mais vale um pássaro na mão do que cem voando. satisfeito desde que se consiga por este meio descarregar a energia que traz . agora vemos o porquê dessa asserção. que. Uma pessoa desprovida inteiramente desta possibilidade. perdia este por cair o pote com leite que levava em sua cabeça. a não ser que seja possível privá-la também de todo sentimento. Quantas pessoas se apresentam ante o advogado pedindo sua intervenção em assuntos econômicos ou familiares e afirmam. NEGAÇÃO DO DESEJO ..Este é o meio mais eficaz de adaptar-se a um desejo irrealizável e também é o mais desenvolvido no adulto normal.os motivos de sua conduta neste aspecto! Alguém disse que uma negação demasiado enérgica é uma afirmação. Consiste simplesmente em apresentar objeções ao fundamento do desejo até o indivíduo se convencer de que seu desejo desapareceu. SUBSTITUIÇÃO OU TRANSFERÊNCIA .por meio de repetidas negações . O desejo é. As pessoas que o possuem em excesso "vivem de ilusões" e se encontram constantemente em situação parecida à da leiteira do conto . denegrindo-o ou dizendo que antes "tinha uma venda nos olhos" que o impedia julgá-lo tal como é. se não se tem uma boa espingarda e se não se é um bom atirador". o concorrente que fracassou chega a convencer-se de que nunca havia desejado o lugar que não obteve. no qual encontra agora múltiplos defeitos e inconvenientes. REALIZAÇÃO IMAGINÁRIA DO DESEJO . SUBLIMAÇÃO. Consiste simplesmente em desviar a tendência. Do mesmo modo. Mas.

o amante julga que sua amada não o quer suficientemente etc. o amante vê em sua amada o modelo de todas as perfeições. Os três processos que acabamos de descrever têm de comum o fato de que pressupõem certa mudança ou modificação na intenção primitiva da reação afetiva que chega a se realizar. mercê da canalização. a projeção e a racionalização. quando em realidade fez um galo sem importância. por assim dizer. CATATIMIA.42 acumulada. um rio que antes transbordava e ocasionava danos. Os grandes otimistas são também os grandes pessimistas. agora pode ser fator de progresso. o inimigo que odiamos nos parece dotado de todos os defeitos. Mas aqui surge uma complicação do maior interesse: em muitas ocasiões a influência da tendência afetiva é exercida em sentido negativo. apenas parcialmente. de sorte que às vezes parece como se víssemos as coisas como não quiséramos ver. embora não tenha por isso mudado seu destino definitivo: o mar. Se algum traço é essencialmente característico da fase adulta da personalidade.Em virtude dela nossa percepção sofre a influência de nossa tendência afetiva: vemos as coisas não como são. Nas mesmas pessoas em que se encontra exagerado um destes modos de percepção aparece exagerado o outro. Vice-versa. mas em troca não o é desde que os atos realizados não correspondam à intenção primitiva daquele. a energia dessas pode ser aproveitada de modo que se tome útil para a vida coletiva. Em uma palavra. Mercê da sublimação de nossas primitivas tendências de reação. da mesma sorte que. Mas hoje sabemos que o elemento gnóstico. deveríamos dizer: "tudo é visto de acordo com o que se deseja ver". Assim. Esses mecanismos são a catatimia. Este mecanismo de adaptação foi perfeitamente ilustrado e descrito pela escola psicanalítica que vê em seu desenvolvimento a válvula de segurança da personalidade. deve-se chamar a atenção para o fato de que toda sublimação pressupõe a possibilidade de que a energia afetiva se desloque ou translade de um a outro conteúdo mental. por exemplo. . é precisamente o predomínio que nela adquirem os processos de sublimação sobre os restantes mecanismos gerais de adaptação. a mãe antes citada corre como louca ao médico dizendo que "seu filho abriu a cabeça". De passagem. A mãe vê seu filho como a mais bela criatura da redondeza. em vez de dizer: "tudo é visto da cor do vidro com que se olha". Mas existem outros três mecanismos que permitem às vezes que essas tendências sejam abertamente manifestadas pela produção de uma mudança na concepção que das mesmas tem o indivíduo ou os que o rodeiam. Isso se explica porque o exagero do mecanismo catatímico é próprio de uma especial modalidade de personalidade (resultante do temperamento chamado ciclotímico). ou intelectual. mas como queríamos que fossem. e a catatimia atua então de um modo aparentemente inverso ao enunciado. na qual o fundamental é precisamente o predomínio do estado afetivo (humor) sobre todos . mediante a qual essa pode manter sua saúde mental apesar da constante reação do meio. Do mesmo modo. é secundário e constitui somente a roupagem ou vestido do elemento afetivo que a troca com igual facilidade como nós mudamos de roupa. 4º. achamo-lo barato etc. se um objeto nos agrada.

achando-se no jardim zoológico com seu avô e tendo se assustado por uma reação de cólera de um dos exemplares enjaulados. Como seu nome indica. Em realidade. é típica a reação projetiva em que seu filho. tão importante que se não aguçamos nossa critica ao aceitá-las poderemos nos ver depois obrigados a chegar logicamente a conclusões falsas. E isto é o que ocorre ao paranóico em condições normais e o que tende a ocorrer no indivíduo normal quando se encontra na anormal situação que o obriga a recorrer ao advogado. RACIONALIZAÇÃO . desempenha um papel primordial em todas as declarações forenses. 6º. 5º PROJEÇÃO. ou situar fora do indivíduo. o rábano pelas folhas. puxa a manga do velho e diz: "Vamos embora. por conseguinte. Mas é claro. projeção é um mecanismo presente desde os primeiros anos da infância e representa uma forma anormal de satisfação afetiva que alcança seu valor mínimo no adulto normal. A formulação das premissas é. Graças à "projeção" nossas tendências afetivas exteriorizadas e colocadas artificialmente no meio. as diferenças de um indivíduo para outro não são mais acusadas que as que existem nos diferentes períodos da evolução pessoal de um . se quiser poder destruir sua perniciosa ação.Este mecanismo é também de particular importância. não têm que lutar com a censura moral para serem satisfeitas. tanto de acusados como de acusadores.43 os demais fatores integrantes da reação pessoal. como se depreende. origem de conflitos e litígios nos quais aquele deve intervir profissionalmente. porque tu estás com muito medo". que. precedida de uma fina seleção do material de fatos que serão discutidos. A racionalização é. a causa de suas ações (tomando. no segundo nos julgamos ofendidos quando somos nós que ofendemos. pois é o responsável por um grande número dos denominados delírios de perseguição. A realização imaginária dos desejos é própria da juventude e a projeção é mais própria à velhice. Exemplos concretos deste mecanismo (freqüentemente observado nos tipos vaidosos e nos medrosos) são a facilidade com que nos parece que somos correspondidos em nossos sentimentos amorosos reprimidos e a facilidade com que nos sentimos ofendidos por qualquer ação de uma pessoa que odiamos.Este é o nome que se dá ao mecanismo em virtude do qual os pretextos são erigidos em razões para justificar a posteriori uma ação que se realizou ou vai se realizar em desacordo com o juízo ou censura moral. o que melhor pode ser evitado voluntariamente. consiste em projetar. de quatro anos. A racionalização. o mais consciente e. e o jurista deve conhecê-lo perfeitamente. No primeiro caso nos julgamos amados quando realmente somos nós que amamos. invertendo a seriação cronológica e etiológica real dos processos). isto é. com efeito. e é preciso de toda a severidade do raciocínio lógico. . Variedade especial deste caso é o temor de ser perseguido pela pessoa ou instituição cuja amizade ou proteção é ardentemente desejada. como se diz vulgarmente. de todos os mecanismos até agora descritos. A propósito.

De outro lado. O espírito de independência e sua maior agressividade inata impelem o adulto masculino a mudanças mais freqüentes em suas atitudes apetitivas do que na mulher. em primeiro lugar. Gravidez. contando com a tolerância dos demais. a conduta sexual é inteiramente distinta em ambos: ao passo que a função sexual começa no homem pelo incentivo ou interesse pela feminilidade e termina no ato da ejaculação. sem dúvida. propende a isso. assim. por ex. e conquistador ou produtivo do homem. a mulher necessita depender de um homem. aquisitivo e o impele para o trabalho. mais do que o homem da mulher. a) A identificação consiste em superar o conflito mediante a absorção do obstáculo que é.44 mesmo indivíduo. Tudo quanto quiser ignorar este papel predominantemente conservador e matriarcal da mulher. que tem. por conseguinte. lactação. Casada ou não. para a dissolução da célula social: a família. o ciclo funcional da mulher neste aspecto pode dizer-se que começa quando aquele acaba e se desenvolve num período de tempo muito mais extenso ou. em condições normais. por isso devemos nos mostrar cautelosos ao formular leis gerais neste aspecto. conservador no sentido de que tende ao cuidado e conservação do lar. mais tarde. por meio da ótima administração do poder (moral ou material) que seu companheiro lhe proporciona. A regressão é o retomo ao uso de respostas já utilizadas e deixadas atrás no curso evolutivo. parto. criando uma vida à parte dele e rompendo. e) A dissociação consiste em escotomizar. PERSONALIDADE ADULTA DA MULHER Se o ideal do homem adulto normal é. é antibiológico e tende. . d) O negativismo consiste em reagir de modo oposto. exagerando o próprio desamparo. a unidade funcional da pessoa. cuidado e educação dos filhos são funções completamente estranhas ao homem. f) O onirismo coincide com a denominada realização imaginária. psiquicamente fagocitado e passa a formar parte do acervo individual (o indivíduo deixa de odiar o rico no dia que se julga ser rico. invertendo totalmente o sinal da conduta desejável. isolar ou enquistar o núcleo do conflito. A maioria destes termos são: por si mesmos compreensíveis. c) O simpatismo é o toque à comiseração alheia.) b) O egocentrismo consiste em "armar escândalo" e ''tomar atitude" até conseguir o desejado. por assim dizer. ou à conquista. o máximo ideal da mulher é. pelo menos. como meio de assegurar sua vida e a de sua família. maior tempo e energias para cuidar de outras atividades. 32.

não sendo tampouco raro que se desperte. os motivos que impelem o homem ao delito costumam ser mais pragmáticos ou de imediata utilidade do que os da mulher. Com efeito. em geral. deixando de lado a infância. mais sugestionável aquela do que este. todavia. amiúde. é claro) oferece particularidades de sobra para estudar a evolução da personalidade. com efeito.). E vice-versa. uma atitude de cepticismo é. esta é a idade em que custa mais sugestionar ou convencer a personalidade. Mas. um argumento ou raciocínio que pode fazer mudar de critério o primeiro. É claro que se torna difícil e. Um matiz pessimista colore toda atividade feminina neste período. nunca. Por conseguinte. a inversão da fórmula afetiva pessoal. é capaz de se mostrar completamente ineficaz na segunda. não é necessário . tímidos ou severos) tendem . promoção a posições sociais ou profissionais diferentes etc. Por isso. Isso faz com que esta idade lembre a da juventude pela violência de suas paixões.fazer um quadro geral dos traços essenciais desta etapa da evolução pessoal. a resultante da situação na personalidade masculina.45 Mas esta diferença nos fins vitais do homem e da mulher adultos dá origem também a um distinto comportamento de ambos ante os problemas legais. diremos. foram tão fundas suas crenças nem tão profundo seu individualismo. sem dúvida sob a influência das modernas concepções sexológicas. sua posição perante a lei. como agora. Sem temor de objeção fundamental. . as pessoas que se acham neste período da vida são mais difíceis de tratar do ponto de vista psicológico. que é muita vez nela que se cometem os maiores disparates. Jung assinalou. diremos que. em primeiro lugar. mas também especialmente pela cessação ou diminuição da atividade genital normal e pela alteração das relações familiares (independência dos filhos. exasperar de certo modo o desejo de desfrutar o que se pode da vida. uma beatice com falsa aparência de humildade. que neste período se observa. Do ponto de vista criminológico. em troca. os promovidos pela mulher derivam em primeiro lugar da existência de um conflito afetivo. Parece por isso ser. a) Maturidade . De modo geral. em troca. A lógica do homem e a intuição da mulher fazem sentir por outro lado. de sorte que os indivíduos esquizóides (geniosos. por outro lado. Assim. a mulher guia-se em suas apreciações pelos pequenos detalhes e sente mais do que compreende as situações. tende a considerar os assuntos de um ponto de vista mais geral e objetivo. por motivo idêntico. Nele ocorrem importantes mudanças motivadas não só pela involução iniciada em todo organismo. além do mais. de um modo distinto. ao passo que a maioria dos litígios promovidos pelo homem tem por base uma questão econômica.O período de tempo compreendido entre os 45 e 55 anos na mulher e entre os 50 e 60 no homem (aproximadamente. não há dúvida de que a violência é mais usada pelo homem e a astúcia pela mulher. A visão da velhice próxima parece. O homem. é neste período que as tendências egoístas da personalidade adquirem seu máximo desenvolvimento e fazem sua máxima ofensiva para uma satisfação epicuriana.

uma diferença essencial do ponto de vista afetivo. pois determina a atitude de reação da personalidade. 33. preparado para desfrutá-lo e administrá-lo devidamente.46 agora a permitir-se licenças que antes não se concederiam. Quantos milhares de falsas denúncias de roubo. do mesmo modo que a capacidade de fixação de estímulos. em virtude de um exagero do mecanismo de projeção. desta para as idéias supervalorizadas de perseguição ou de prejuízo só há um passo. não obstante. Não menos interessante é a propensão a exibir reações psicológicas de prejuízo e perseguição. pois nem sempre coincidem os fatos de "ser" e "sentir-se" velho. formuladas por anciães poderiam ter sido abortadas se os juízes que as recebem soubessem desta particular propensão dos velhos a sentir-se prejudicados. própria desta concepção de seu valor. mas em todas essas mudanças não é possível a influência dos fatores ambientais.no bom ou no mau sentido . via de regra. Os endocrinologistas fizeram notar também que o homem tende a feminilizar-se e a mulher a virilizar-se. A característica essencial deste período é a progressiva diminuição da eficiência das funções psíquicas.os máximos bens materiais ou espirituais. perseguidos ou hostilizados. A atenção se debilita. apesar de sua boa fé. preferentemente revelável de início por sua maior fatigabilidade e depois pela pior qualidade de seu trabalho. isso faz com que os velhos sejam em geral maus testemunhos. em boa parte evitáveis. a obscura percepção de seu déficit interior quando aliás se alcança na vida social a máxima posição profissional ou política predispõe o velho à desconfiança. e é que a tonalidade sentimental da criança é via de regra alegre e seu ânimo ousado. . este último tem uma importância psicológica não menor que a do primeiro. pode dizer-se que a decadência das funções psíquicas se caracteriza pela repartição dos traços próprios da infância em (virtude do denominado processo de regressão. mas existe.Os limites desta etapa são impossíveis de serem fixados. . b) Velhice ou Senilidade . sociais) tornam-se sossegadas e até tristes e fechadas. A menor vitalidade. ao passo que no velho predominam a tristeza e o medo (insegurança. ao passo que as pessoas ciclóides (expansivas. alegres. E o resultado é uma série de conflitos e dissabores que dão à velhice uma tonalidade de tristeza e sofrimento. que justifica a asserção popular segundo a qual o velho é "um menino com barba branca"). Com efeito. como resultado de sua escassa capacidade de resistência ao meio! O meio jurídico deste período complica-se ainda mais se tem em conta que nele é quando se costuma fazer ou modificar o testamento e manejar . DIFERENÇAS PSICOLÓGICAS FUNDAMENTAIS ENTRE AMBOS OS SEXOS HUMANOS. desconfiança). a vida social está organizada de tal modo que quando o indivíduo chega a recolher o fruto de seu trabalho ou esforço anterior não se encontra. De um modo geral. que se toma visível nesta idade.

da Psicologia da personalidade. o plano intermediário. de conjunção e o plano externo ou objetivo. . segura. mas com as leves conseqüências dessa queda moral. assinalaremos agora a importância que para o jurista tem o conhecimento e a diferenciação dos três planos em que a atividade daquela pode desenvolver-se. que cada mente masculina tem um núcleo de tendências femininas e viceversa): CARACTERÍSTICAS MASCULINAS Culto ao “poder” e a força Propensão para a conquista Interesse fundamental Tendência à experimentação/bstração Prefere o “prestígio Usa mais o julgamento de “forma” Tendência à atitude sádica Encoleriza-se mais do que se assusta Maior resistência à pena que a dor física Decisões rápidas: Dificuldade de confessar seus erros Maior conhecimento lógico Mobilidade ampla. portanto. pois seu olhar parece vago e distraído. grácil. com a condição de que não se esqueça que todos os seres humanos possuem uma combinação . TRÊS PLANOS DA ATUAÇÃO DA PERSONALIDADE Seguindo nossa concepção. Vamos tentar defini-los com clareza. e é capaz de comportar-se corretamente em seu trajeto apesar de que nem por um momento tem consciência do que acontece em torno de si. FEMININAS Culto ao “querer” e á graça Propensão para a conservação Interesse pelo detalhe Tendência à contemplação Prefere o “gozo” Usa mais julgamento de “valor” Tendência à atitude masoquista Assusta-se mais do que encoleriza Suporta mais a dor do que a pena Tendência à dúvida: admite mais facilmente seus erros Maior conhecimento intuitivo Mobilidade suave. em troca á característica feminina a fácil “perda de controle”. 34. mas com maior intensidade desta.em proporções variáveis . delicada E curvilínea No campo patológico social. masculina e feminina. é característica masculina a menor freqüência com que faz uso da violência. embora evite habilmente todos os obstáculos que encontra em seu caminho. de conduta delituosa. a saber: o plano autístico ou subjetivo. por meio de exemplos concretos: suponhamos que temos diante de nossos olhos um indivíduo que caminha rapidamente pela rua. Elas podem orientar na descoberta de autores de delito. Esta pessoa utiliza nestes momentos a magnífica coleção de hábitos que sua experiência fixou de um modo automático. enérgica e Angulosa.de ambas as séries características (e.47 Vamos resumir. quais são as principais diferenças entre as duas mentalidades. isto é. de forma clara. essencialmente dinâmica. podemos nos convencer de que seu pensamento se encontra ausente. embora seus olhos percebam o mundo externo.

Toda sua personalidade se encontra projetada no mundo externo e concentrada na imagem de sua futura esposa. Finalmente no terceiro encontramo-nos diante da ação como manifestação livre e resultante direta da expressão dos desejos e tendências do indivíduo. e tendo sua noiva lhe antecipado quais são seus favoritos. Este indivíduo acha-se então no plano que denominamos intermediário. sua personalidade trabalha no primeiro plano que denominamos autístico ou subjetivo. como antes dissemos. seja pela especial ação (resistência) no meio em que se desenvolve. tratará de. Na imaginação pesa os prós e os contras das diferentes soluções que se lhe ocorrem e decide ordenar. misto ou de conjunção. externo e interno. a um plano predeterminado.48 Toda sua atenção. expondo aqui as opiniões que de antemão sabe que o vão agradar. sorri. Conversa. e devido a isso a atividade consciente deste indivíduo encontra-se dividida em duas: enquanto de uma parte atende a tudo o que se lhe diz e procura responder a isso do melhor modo. e vemos agora o noivo em íntimo colóquio com a amada. seja pela anterior decisão do indivíduo. no qual existe um completo acordo entre o propósito e a ação. Finalmente. visto por dentro. Sintetizando: no primeiro plano assistimos à elaboração de um propósito.que em nada afeta ou interfere com o . Já desapareceu a ruga vertical que em sua fronte indicava a meditação. Mas agora o encontramos no salão da casa para onde ia. Não é preciso ser psicólogo para compreender que todos nós ao fim do dia. A diferenciação prática destes tipos . durante dez minutos. sua conversa com ele: sabendo que seu fraco são as corridas de cavalo. para aproveitar este momento de satisfação e expor o verdadeiro motivo de sua visita. com efeito. cuja coordenação harmônica integra um quarto tipo que. desta vez toda a conduta externa corresponde nele à sua atividade interna. passamos mil e uma vezes por esses três planos de atividade. aparentemente espontânea. a cada qual corresponde uma específica atitude da personalidade. encontramos nele um propósito completamente distinto: toda sua conduta. segundo um plano que lhe parece eficiente. sempre precedido pela denominada ruminação mental e acompanhado da fixação de uma crença. que podemos denominar ingênuo ou objetivo. já teve lugar a declaração oficial.. que foi aceita.. encontra-se absorvida por um problema que o preocupa: vai pedir a mão de sua noiva e não sabe que atitude adotará diante de seu futuro sogro. o exercício da atividade conativa. Não obstante. não obstante.. encontrar-se completamente extrovertido e haver derramado sua personalidade no ambiente que o rodeia. e parece. obedece.. Este indivíduo se encontra nesses momentos em plena atitude de introversão. poderíamos denominar normal (mas que. mas esta nos parece deformada. que atua realmente e atende simultaneamente aos dois mundos. por conseguinte. de outra atende a seu propósito de dirigir a conversação para o fim proposto. é o menos comum de todos). segue agilmente todas as idéias que lhe são dadas como estímulo. Já se depreende que isso conduz à formação de três tipos bem distintos. No segundo plano vemos o começo de realização. O indivíduo se desenvolve no terceiro plano. finge ao mesmo tempo. agradá-lo neste particular.

de modo que é preciso conceber a mente patológica só como resultado de um desvio quantitativo da normal. sem repressões . visto que podem ser utilizados tanto para os bons como para os maus fins. todo delinqüente ou todo pleiteante pode ser considerado como acometido de um transtorno mental. O segundo . O tipo autístico se encontra particularmente entre as denominadas personalidades esquizóides. E o terceiro. como antecipamos. o quarto. uma vez que suas intenções se traduzem diretamente em ações. Com efeito. astuto ou sincero conforme a ocasião. Com efeito. Pode ser difícil de ser dirigido. existe realmente uma manifesta relação entre aqueles e os que resultam da consideração da atuação pessoal sob outro prisma: o que poderíamos denominar critério psiquiátrico para a diferenciação do tipo pessoal. o tipo ingênuo ou objetivo encontra-se ciclóides e epileptóides. pois sua falta de divulgação entre os juristas deu lugar a não poucas lutas forenses entre advogados e psiquiatras. o mais comum. A este pertencem os denominados indivíduos maquiavélicos. pois apresenta-se-nos sob as aparências do anterior. sincero. infelizmente. pois isso o ajudará enormemente a fixar sua própria atitude de reação pessoal perante eles. em princípio. mas tem um duplo fundo que devemos saber descobrir se não quisermos ser joguete inconsciente do mesmo.aparece como oposto do primeiro. com respeito a distintas situações) sonhador. que racionalizam sua atitude sob a conhecida frase de que neste mundo é preciso ser diplomático.49 estabelecimento é de grande interesse para o jurista. Em troca. ao qual denominaremos tipo autístico. pois mostra-se-nos como uma personalidade hermética cujas intenções não conseguimos adivinhar nem podemos deduzir pela observação direta. mas pelo menos é fácil de ser compreendido. A PARADOXAL CONCEPÇÃO PSIQUIÁTRICA PERSONALIDADE. É um tópico freqüente o de que os alienistas acreditam que todo o mundo está louco. Com efeito. gordo e . Suponhamos um homem no qual as tendências para ser baixo e ser alto. aqueles acusam estes de ver por toda parte sinais de anormalidade psíquica e de estender de tal modo o conceito desta que. é o mais difícil de tratar. participa igualmente de todos eles e é sucessivamente (ou concomitantemente. o tipo maquiavélico encontra-se com maior freqüência nas personalidades paranóicas.Finalmente. DA Esta última nota do esquema precedente merece ser ampliada e explicada em parágrafo à parte. compulsivas e sensitivas. produzida pela desproporção de alguns traços integrantes da personalidade comum. o estudo psiquiátrico serve somente para convencer-se da artificiosidade de toda separação essencial entre a saúde e a doença mental.tipo ingênuo. Tenha-se em conta que esta classificação de tipos não prejulga nada a respeito de sua concepção moral. o primeiro tipo. histéricas e amorais (perversas) 35. isto é. é o mais perigoso. não há um só sintoma psicótico que não possa ser encontrado em indivíduos normais. com o mesmo grau de veracidade poderia afirmar-se o contrário: que para os psiquiatras "todos os loucos são normais". Nada mais errôneo. sejam ou não clientes.

AS TESES UNITÁRIA E DUALISTA DAS ORIGENS DA MORAL. 37. AS TESES NATIVISSTA E SOCIAL DA MORAL Desde tempos imemoriais estiveram em luta na Ética a tese que postula a origem congênita da tendência ou do sentido moral (moral sense) e a que afirma sua aquisição no decorrer do desenvolvimento. forte e fraco. Assim considerando a questão.. se encontrassem equilibradas harmoniosamente. A moral penetra então . mas a diferença entre a saúde e a morbidez mental não pode deixar de ser estabelecida com perfeita clareza do ponto de vista prático. sob a forma de regras de conduta. A imensa maioria de psicólogos está. quando perguntadas acerca do motivo pelo qual não fazem esta ou aquela travessura. pois. impostas pela força.o fato de que a cor branca (personalidade normal) seja integrada pela combinação das sete cores do espectro (personalidades patológicas) não impede de modo algum sua distinção destas. 38. CAPÍTULO IV PSICOLOGIA DAS ATITUDES MORAIS Antes de entrar na análise das transgressões que o homem comete com as leis de convivência social que ele mesmo se impôs.de fora para dentro.50 magro. fazendo-a derivar necessariamente do contacto social. como assinalamos é capaz de descobrir sinais de normalidade em qualquer louco. à extroversão e à introversão. apesar de conter (e precisamente por isso) em germe todos os elementos da anormalidade. do ponto de vista morfológico. à cólera e ao medo. ao bem e ao mal etc. de acordo em que o homem não tem mais moralidade ao nascer do que qualquer outro animal.. (As crianças de quatro a seis anos.. teríamos então um homem normal. seria o protótipo do homem de mente normal. Os partidários da tese empirista se encontram divididos em dois grupos: unicistas . A criança é primitivamente amoral e só começa a exibir uma conduta moral na medida em que atuam sobre ela as proibições e as coações dos maiores. Pois bem: do mesmo modo podemos conceber que uma pessoa na qual as tendências à alegria e à tristeza. todas as variedades das denominadas personalidades psicopáticas. ruivo e moreno etc. 36. se encontrassem equilibradas. à generosidade e ao egoísmo. Igualmente. é necessário expor qual é o estado atual de nossas concepções acerca do desenvolvimento e evolução de suas diversas atitudes morais (diretamente relacionadas com sua capacidade estimativa das noções do bem e do mal). Mamãe não deixa"). compreende-se por que todo psiquiatra é capaz de descobrir em qualquer pessoa traços de anormalidade.na criança. respondem: "Não posso. como uma cunha . isto é.

Assim. uma vingança deslocada contra a tirania primitiva e opressora de seu progenitor. que em todos eles o complexo de Édipo se achava ainda em plena evolução. e este por sua vez. É claro que os psicanalistas admitem a existência de pessoas indiferentes. para os quais o desenvolvimento da moralidade individual passa por diversas fases. para purificar sua "consciência de culpa". Esse autor explica a transformação do "conformismo obrigatório" que rege nas sociedades primitivas (segmentárias) na solidariedade "orgânica" que se observa nas sociedades diferenciadas (democráticas). Esta é tão grande que nos casos extremos conduz ao denominado "delito autopunitivo"." Os psicanalistas (Freud. chefes ou inclusive agentes de Polícia). segundo a concepção psicanalítica. Sempre. Em troca. Rank) também se mostram unicistas e fazem derivar a origem de toda moral da evolução constante dos impulsos destruidores (instinto da morte) que primitivamente dirigidos contra o meio (sadismo) se voltam contra o próprio "ego" e se convertem em seu censor mais implacável. acusados de haverem assassinado pessoas de grande significação social. reduzida nos seguintes termos: Mau para os demais ou mau para nós mesmos. A passagem da primeira para a segunda fase (sadismo masoquismo) tem lugar em virtude do denominado processo de "introjeção". ou castiga a si próprio com auto lesões capazes de chegar ao suicídio. dependerá somente do grau de desenvolvimento do "superego". pela diminuição da vigilância do grupo sobre o indivíduo. Em suma. Segundo esta teoria. Ferenczi.51 e dualistas. isto é. O mecanismo da introjeção (identificação com o "ego") às vezes falha e persiste. "Plus la société est complexe. o mecanismo de introjeção . tanto maior facilidade existirá para que se forme um "superego" ou consciência moral robusta. magnatas. mas sem que exista a menor solução de continuidade entre elas. mediante o qual a imagem paterna é fixada e identificada no "ego". plus la personalité est autonome et plus importants sont les rapports de coopération entre individus égaux. isto é. representaria uma força oscilante. . Uma pessoa socialmente boa o seria na medida em que era má para si mesma. em virtude do qual o indivíduo se acusa de faltas que não cometeu e pede para ser castigado com severidade. derivada do fundo sádico do instinto destruidor (coincidindo com a fase do erotismo). uma atitude de hostilidade para a sociedade e em especial para todos os sinais representativos da autoridade (reis. então. quanto maior tenha sido a violência primitiva do "id" e quanto maior intensidade tenha alcançado o complexo de Édipo. a conduta moral. de sorte que o suposto delito político ou social que cometeram representava em realidade um parricidio simbólico. Por acreditar que seus atos terão más conseqüências.que dá lugar à formação do "superego" -: encontra-se exagerado nos denominados neuróticos compulsivos. A oposição clássica entre mau e bom fica segundo isto. acreditam agir mal e precisam desenvolver uma religião particular baseada em cerimônias e práticas expiatórias. através da idade adulta. No primeiro deles figuram Durkheim e seus discípulos. nem más nem boas. com a psicanálise de diversos criminosos anarquistas. Estes indivíduos vivem sempre atormentados pelo sentimento de uma grande responsabilidade e têm um verdadeiro pânico à ação (Peur de l'action). infligindo então o indivíduo a si mesmo os mesmos castigos que antes tentara dar ao pai (considerado como símbolo da autoridade social).

Foi castigado com duas bofetadas. fica reparado e restabelecido o equilíbrio da justiça. sobe em busca do bem absoluto. incluem os psicanalistas uma maioria de intelectuais e de homens de ciência! Felizmente para nós. o "id" e o "superego" quase não se contam: somente domina o "ego". em um dia de festa disse a sua mãe que havia comido a sobremesa preparada para uns convidados. quando se constituíam espontaneamente em sociedade para realizar diferentes tipos de brinquedos coletivos. em oposição à primeira atitude mecânica. E com uma técnica muito melhor que a seguida em suas experiências anteriores (sobre a evolução do pensamento infantil) pôde demonstrar que nos meninos de seis a quatorze anos coexistem dois tipos de conduta moral aos quais denomina heterônomo e autônomo.segundo dizia . A este propósito uma observação pessoal muito demonstrativa: trata-se de um menino de oito anos que se acusava das faltas antes de cometê-las. porque . resultante da pressão do grupo sobre o indivíduo. associados em relação causal. calculador e perfeitamente adaptado ao princípio da realidade. a regra (lei) é imutável. denomina moral fechada (morato fermée) e à segunda. ao passo que na segunda obrigação toma sua força no próprio impulso vital – Dans la seconde l’obligation est la force d’une aspiration ou d’um élan. fino investigador suíço não se limitou a estudar a conduta da criança diante dos maiores. sagrada. a obrigação representa a pressão que os elementos da sociedade exercem mutuamente entre si. senão que observou e experimentou as reações que a criança mostrava diante dos seus companheiros. L’humanité dont on se détourne alors est celle qu’on a decourverte au fond de soi. O primeiro. fundamentado na força e na coação. A primeira forma de moral. Lês deux sources de la Morale et de la Réligion.já a havia pago. Entre elas só citaremos . à la vie sociale”. existem outras concepções psicológicas mais suaves e merecedoras de igual atenção que as consideradas até agora para explicar a origem da conduta moral. sés propres faiblesses qu’on arrive à mèpriser l’homme. livre dos freios sociais. Nesta fase. de l’élan même. ao mesmo tempo afirma que existem no homem duas condutas morais que obedecem a origens distintas: na primeira. (Assim. baseia-se no respeito unilateral (criança para adulto e a sociedade em geral). O pior é que entre este tipo de seres incapazes de delinqüir (por medo ao castigo). Referimo-nos às teses dualistas . o conceito de dever e de castigo. primitivo. Este autor reconhece também a origem primitivamente amoral do homem quando diz: “C’est en notan.mas menos pronunciadamente materialistas. e a noção de justiça acha-se vinculada com o resultado da ação (conforme esteja ou não de acordo com a regra correspondente. moral aberta (morato ouverte). por exemplo.em passant – na obra desenvolvida por Bérgson. e incapazes também de sacrificar-se (por medo ao sofrimento). Toda infração do dever (o não cumprimento de uma regra) tem que ser castigada.” Mas. qui a abouti à l’espèce humaine. Piaget. mas uma vez que o foi. porque nela o indivíduo. recebia pacientemente o castigo e então praticava a falta com inteira satisfação. A moral heterônoma introduz. um ato mostra-se justo ou injusto).igualmente empíricas . adotando abertamente a que ele denomina atitude mística. que .52 estas carecem de vida afetiva.

parece estar traçado hoje com respeito à moralidade como o está. ao contrário. dando a todos seus atos uma intensidade uniforme. diante de todas as situações morais. com efeito. no qual já não se obedece a uma regra externa e sim a um impulso livre. é o que denomina autônomo. a bondade ou a maldade eram qualidades que atuavam de um modo constante em cada indivíduo. de grande interesse. como o peso. diferenciado por Piaget como resultado de suas experiências. mas por sua intenção. a força muscular etc. sobre a tipologia da conduta moral não seria completa se omitíssemos a teoria desenvolvida por Baldwin. AS MORAL TESES GERAL E ESPECIAL DA CONDUTA Deixando de lado o problema de saber se a moral acha-se pré-formada ou é adquirida e se reconhece uma origem única ou dupla. o problema. é um fator que intervém geral e uniformemente em todas as ações ou se. a de que. Esse grande investigador sustenta também um ponto de vista natural.a justiça distributiva à retributiva. uma vez adquirida. Por conseguinte. quando um indivíduo chegara a ser muito bom ou muito mau. na mesma medida. O segundo tipo. nenhuma das quais é considerada faculdade geral. mas resultado específico e concreto . inteiramente comparável á que pode ser obtida com relação a um índice ou fator biológico de tipo corporal. uma parte da personalidade que domina as demais. deu-lhe uma bofetada e disse: "Agora podemos comer tranqüilamente. ela lhe respondeu que sim e ele. Foi então procurar a irmãzinha disse-lhe se queria comer a sobremesa que tinha escondido. independentes entre si. porque já fomos castigados"). chamada "eu ideal". suscita-se outro. e preferem como diz Piaget . um novo eu. A concepção que imperava antes da época experimental da Psicologia era. acreditava-se que.podendo ser modificadas a cada instante por um acordo mútuo entre o indivíduo e a coletividade em que vive. representa a abstração de uma série de fatores concretos e específicos. tinha que comportar-se muito bem ou muito mal. Finalmente. que é o de saber se. isto é.53 recebeu sem pestanejar. Esta idéia levava a imaginar uma distribuição coletiva das pessoas com respeito aos "padrões" morais. com respeito às demais aptidões reacionais do indivíduo. democraticamente. Esta falta de harmonia origina-se no momento em que o menino pratica o primeiro ato de obediência (que não é simples imitação nem ejeção). e sim surgem . Neste segundo tipo. A obediência cria. a conduta moral obedece a certas normas. a altura. 39. de cooperação que surge do indivíduo e se baseia na existência de um respeito bilateral entre o indivíduo e o grupo. então. portanto. Os meninos que atingiram esta fase de autonomia moral julgam os atos não por seu resultado. nega a existência de deveres inatos e afirma que a consciência moral aparece sempre que existe uma oposição entre as diversas tendências internas constituintes do eu. Por conseguinte. mas estas não são fixas nem inexoráveis. muito sério.

étnicos e sexuais homogêneos. a outro seleto grupo de advogados. até o ponto extraordinário de que . em geral. sob a ação de influências paratípicas oportunas. 40. é bem sabido que se admite a possibilidade de que certas características genotípicas (herdadas) não apareçam no fenótipo senão em um período relativamente tardio de sua evolução. e a respeito deles podemos opinar com maior fundamento experimental: Existe nos indivíduos. o fato de que a criança nasça totalmente amoral não significa que não contenha em forma de disposição (Anlage) a capacidade de chegar a ser moral.54 da evolução experimental dos primitivos mecanismos emocionais de reação (e assim como é possível. num momento dado persistindo as mesmas influências ambientais e sem que seja possível invocar uma lesão dos centros nervosos (de neuraxite infecciosa) . pois. a sinceridade e. A experiência psiquiátrica nos proporcionou casos em que. RESULTADOS EXPERIÊNCIA PESSOAIS OBTIDOS EM A problemática empírica da moral. no imperativo categórico. de início diferiram conforme o sexo e a nacionalidade. só motivação moral ou várias? É compreensível a luta dos filósofos para descobrir a última ratio da conduta moral ou não existe tal última razão. No que se refere ao primeiro problema. que um mesmo indivíduo seja simultaneamente valente perante algumas situações e covarde perante outras. A prova foi feita coletivamente em um total de 1587 meninos e meninos seis a quatorze anos de idade de nacionalidade norte-americana e em 987 alunos de cinco a quinze anos de idade de nacionalidade Espanhola. (nativismo ou empirismo moral). A esse respeito. comerciantes e a de psicólogos.que perturbou a marcha de todo o processo da conduta moral. inteligente para estes trabalhos. Mas também é certo que os outros dois problemas são muito mais interessantes do ponto de vista prático. Por isso. segundo os casos. no prazer. Assim também é possível que a bondade. apresentaram considerável disparidade. por exemplo. uma. obtuso para aqueles.até então latente . impaciente com certas pessoas e paciente com outras etc. do ponto de vista teórico. Intitulada de “As más ações de Joãozinho na escola”. sendo igualmente lícito e humano fundar a moral na utilidade.. conforme os objetos sobre os quais exerce sua ação e os estímulos que a determinam). uma prova aparentemente inofensiva em experiências realizadas nas crianças. todas suas características e defeitos morais mudem de um momento para outro. a equanimidade. na justiça etc. na piedade. pode afirmar-se que escapa essencialmente às nossas possibilidades resolvê-lo. mesmo tratando-se de grupos cronológicos. os resultados obtidos por um selecionado grupo de filósofos.se observou uma brusca modificação das reações morais diante de situações concretas que pareciam haver determinado já um processo de reação perfeitamente habitual e quase automatizado no indivíduo. não foi ainda conseguida neste aspecto de nossa ciência. Não há dúvida de que nesses casos sempre fica aberta a possibilidade de admitir a brusca entrada em ação de uma disposição genotípica . médicos.

segundo a reação dos demais. é freqüente. em linhas gerais. isto é. no entanto. ou seja. Assim. está mal o que eles não querem. a considerasse como as mais imorais. ao mesmo tempo que mudam no fundo todas as normas morais de grupo. mal. segue um duplo ciclo. havendo quem a considerasse como a mais moral de todas e quem ao contrário. os resultados obtidos.".exageram-se novamente os individualismos. senão que. A primeira conclusão mais importante foi a grande variabilidade que através do desenvolvimento individual existe no julgamento de grau de moralidade ou de imoralidade das ações objeto da experiência. Praticamente pode-se dizer que cada ação foi julgada de todos os modos possíveis pelo grupo. Está mal tudo aquilo que se fizeres te repreendem ou te castigam. Não se interessa pela prova e tem-se a impressão de que. (Nos meninos submetidos à educação religiosa é freqüente encontrar Deus como árbitro definidor. a coação social imediata como única normal diferenciadora do bem e do mal. DE OITO A DOZE ANOS. respostas só nove casos de coincidência absoluta nas ordenações. Pela mesma razão um mesmo ato explicado livremente é melhor compreendido e melhor julgado em sua significação moral do que quando é explicado . De modo geral o critério moral está ainda tão pouco desenvolvido que se desorienta facilmente e tende a julgar as ações com uma severidade tanto maior quanto mais imediatas e palpáveis (concretas) forem as conseqüências prejudiciais que delas derivam. temos a impressão de que nesta idade o menino julga a moralidade dos atos a posteriori.nos meios homogêneos . más as que estão mal. 1. .484. Não obstante. o princípio de uma convicção independente do critério próprio.Dificuldade de compreensão e expressão neste aspecto. Se procuramos generalizar a questão e lhe perguntarmos como sabe se algo está mal feito ou bem feito. .55 de 2. é curioso fazer notar que esta condenação do que poderíamos denominar critério moral coletivo não tem lugar de um modo uniforme. Está bem tudo o que se pode fazer sem que te castiguem.tanto mais quanto maior é a idade de seus componentes. Respostas que de início parecem capciosas indicam. menos quatro por mil. 2. Assim. do critério moral). obter respostas como estas: "São boas as ações que estão bem. em grandes traços. DE SEIS A OITO ANOS. nesta idade. pôs os números um pouco a esmo. pois. Outra dedução indiscutível é a de que o critério de grupo se pronuncia . E que esta disparidade se mantém e se comparam as ordenações individuais dentro de um mesmo grupo. também a posteriori." Neste nível mental impera. Sua primeira fase termina em torno dos doze anos pela introdução da capacidade de compreensão de conceitos abstratos e pela revolução espiritual que acarreta o processo puberal . são muitos os meninos que respondem: "Está bem o que querem os papais. O menino refugia-se a cada momento no porque sim. (Indivíduos que passaram da meninice). perguntando aos executores da prova qual foi seu critério para distinguir moralmente as sete ações. Bom é o que me agrada. Vejamos agora.Bom número de meninos começa a dar sinais de critério próprio para a distinção dos graus morais. o que não me agrada etc. salvo em um ou dois casos concretos.

uma vez que as meninas continuam temendo mais a agressão física que a espiritual e os meninos tendem desde já para o contrário. o lápis adquirido pela luta ou pela discussão com fraude parece mais legitimamente possuído que o apanhado diretamente da gaveta do vizinho. DE QUATORZE ANOS EM DIANTE. mas pelo desenvolvimento do super-eu. que o critério para a distinção do bem e do mal é predominantemente utilitário: bom o que serve e mau o que prejudica. Assim. conforme analisado. De modo geral pode-se dizer.A partir dos quatorze anos o critério de utilidade social começa a impor-se ao de utilidade individual para julgar a moral idade de um ato qualquer.pelo temor a suas represálias. DE DOZE A QUATORZE ANOS .56 com todos os detalhes. De outro lado. Somente a título de curiosidade. É o momento em que o indivíduo começa a preocupar-se com o que diriam e a submeter-se voluntariamente ao controle moral do grupo. expomos a seguir as classificações estabelecidas por vinte e cinco advogados de Barcelona em exercício e que se submeteram voluntariamente a prova: Resultados da prova das más ações de Joãozinho. mas não já como nas idades iniciais . um estado evolutivo diferente. no entanto. não diferem dos registrados nos jovens desta idade. 4. Somente um grupo seleto de indivíduos adota neste período uma posição mais próxima do verdadeiro conceito e afirma que: bom é o que beneficia sem prejudicar a ninguém que não o mereça. a partir dos quatorze anos o critério coletivo não atinge. em torno do qual se orientam os critérios diferenciadores. é o que prejudica a quem não o mereça. uma notável diferença de origem sexual. O mais curioso e importante do caso é que ainda não encontramos ninguém que se negasse a julgar a prova por falta de dados ou elementos suficientes. e em troca se engloba em uma só a evolução do juízo moral desde esta idade até a morte? Simplesmente porque. contudo. Por que até os quatorze anos tantas divisões de critério. A coincidência com a tendência já delineada nos meninos a partir dos doze anos o pivot central. . ao contrário. apesar de existirem notáveis diferenças individuais no grau de desenvolvimento do juízo moral. como tal. Existe neste aspecto. 3. . Em troca vimos pessoas refletidas . mau. Assim.Existem neste momento grandes diferenças individuais. e como evidente comprovação desta asserção. operando com indivíduos adultos. os resultados obtidos. como acontece com o resto das investigações psicoexperimentais. em um grupo de 25 advogados barcelonenses que exercem sua profissão na capital (há entre eles três juízes municipais e dois magistrados). existe neste momento a curiosa tendência de considerar o esforço realizado para a execução dos atos imorais como uma isenção ou atenuante. antecedentes e acessórios. que tende a reprimir os instintos egoístas e procura merecer a todo instante da conduta a aprovação dos demais. ou consciência moral. Volta a dominar então a coação do meio.

com dez soluções. A conduta moral. fará o que dita seu desejo. preferível e aconselhável. e sim é preciso sentir a responsabilidade moral. na atualidade tem que se dizer: tal indivíduo se mostra moral (ou imoral) diante de tal categoria de estímulos ou situações sociais. mas o resultado de complexas influências e fatores. Quando aquela existe sem o elemento afetivo correspondente. ou seja. Antes bastava dizer: tal indivíduo é inteligente e tal indivíduo é obtuso. embora conhecendo qual é seu dever. Tudo isso nos leva a considerar a enorme influência que os fatores afetivos desempenham no denominado juízo moral. graças ao qual é possível ver em um mesmo indivíduo a coexistência de atos de imensa bondade e de cauteloso egoísmo. Analogamente. que permite estabelecer relações lógicas entre a ação e suas conseqüências imediatas. mencionados. em nossa opinião. agora é preciso dizer para que classe de problemas ou ações ele é inteligente ou obtuso. que você deverá classificar de acordo com seu critério pessoal. De qualquer modo.57 afundar-se em discussões violentas para defender seu critério contra o de outras não menos dignas de estima. como a religião e a arte – em oposição à ciência correspondente a atitudes mais primitivas e menos evoluídas do espírito. para assegurar uma conduta moral. . mas simplesmente prefere ser mau. pois que a moral. sem o que o indivíduo. mas não suficiente. Por isso vou me permitir expor os dados obtidos com outra prova. à qual tais objeções não podem ser aplicadas: a denominada prova da infidelidade conjugal. excessivamente artificial e as ações a julgar demasiadamente semelhantes para poder estabelecer entre elas diferenças morais apreciáveis. "Em seguida você encontrará exposto um conflito moral. a motivação do mesmo era procurada secundariamente em sua formulação subconsciente. além dos já. Nossos juízos morais respondem a um impulso sentimental. Mas não basta saber distinguir o bem do mal. Poder-se-ia objetar que esta disposição dos resultados foi devida a que o teste era inadequado. caso acreditamos que a moralidade não representa um traço unitário da personalidade. são mais intuição que pensamentos. da outra. parece-nos evidente que a distinção entre o bem e o mal se acha condicionada. depois porá um 3 na seguinte. assinalando com o número 1 a que julgar melhor de todas. a ponto de que. o indivíduo sabe como teria que agir para ser bom. pelo grau de socialização da mente (evolução centrífuga) e. este é precisamente o caso da maioria dos delinqüentes que carecem de um desenvolvimento suficiente do que se convencionou chamar sentimentos morais. Dito de outra forma: a capacidade de juízo moral é uma condição necessária. do mesmo modo como no complexo domínio intelectual se tende cada vez mais a considerar a inteligência como um resultado funcional e não como uma aptidão ou faculdade isolável e geral. assim também em nosso. a seguinte em ordem de bondade você assinalará com o número 2. que são mais subjetivos e irredutíveis no fundo. Pois bem. pelo desenvolvimento da inteligência abstrata. isto é. que foi aplicada em 578 casais. de um lado. na melhor das oito restantes e assim sucessivamente até marcar com o número 10 a que julgar pior de todas”.

o julgamento moral e a existência de múltiplos pontos de vista. até conseguir a mesma intimidade com ela. 5ª Procurar surpreender os dois amantes em flagrante e instituir uma ação de divórcio.possível infidelidade conjugal interessa ao indivíduo casado mais do que o roubo de um lápis. afastar-se. que você ordenará da melhor para a pior. mas vários grupos das soluções tiveram uma votação sensivelmente igual. isto é. Eis a situação e as dez soluções a classificar: "Pedro é casado e adora sua mulher. voltamos a ver classificadas essas ações em todos os lugares possíveis nas 1." 1ª 2ª 3ª 4ª Vingar sua honra. apesar disso. não obstante. É evidente que esta situação . com a ajuda da autoridade. 9ª Analisar as causas que puderam induzir sua esposa a ser-lhe infiel e procurar corrigi-las. fazendo a corte à mulher de Luís. a respeito dela parece que terá um critério mais definido. emigrando para terras distantes. Em síntese.156 respostas recebidas. uma vez que esta prova somente serve para saber como opina a respeito deste problema moral o maior número possível de pessoas em nosso pais" . Nesta situação. 10ª Expor o problema aos dois amantes e. Que pessoas dotadas de uma capacidade intelectual. 7ª Separar-se particularmente de sua mulher. não é suficiente para poder apreciar o grau de moralidade de sua reação pessoal em um momento dado. se se convencer de que. habitando os dois no mesmo domicilio e aparecendo juntos perante a sociedade. seu amor é sincero e indestrutível. E não somente isto. Assim. Matar Luís diretamente. Pois. Pedro pode praticar uma destas dez ações. apesar de serem essencialmente diferentes. Por outro lado. grandemente. 6ª Separar-se particularmente de sua mulher. se possível. pois. 8ª Procurar por todos os meios que Luís caia em ridículo ante sua esposa. diferem.58 "Além disso. 2° Que a simples observação da conduta. Podemos verificar que não houve um só caso de coincidência absoluta das ordenações. com respeito ao modo de julgar ou ajuizar problemas precisos de conduta moral. . você deve proceder com absoluta sinceridade e boa fé. Matar sua esposa diretamente. desafiando Luís à morte. de uma cultura e de uma experiência social sensivelmente iguais. a sociedade com outros motivos. indo cada um para seu lado e justificando tal separação ante. dos atos externos de um indivíduo. para reconquistar o carinho desta. Um dia encontra uma carta desta dirigida a seu amigo Luís e pela redação da mesma verifica que esse mantém relações intimas com ela. as soluções propostas (possíveis condutas) são suficientemente variadas para permitir uma escolha precisa. podemos afirmar: 1º. Vingar-se da afronta.

pois. não só ante situações abstratas e imaginárias como ante casos concretos. d) Não só varia consideravelmente o critério julgador dos atos morais de umas e outras pessoas. isto é. não é suficiente para poder apreciar o grau de moralidade de sua reação pessoal em um momento dado. para a fundamentação do critério moral individual. se mostraram mais generosos que os considerados como normais. se obedece a um propósito egoísta e imoral ou a um verdadeiro desejo de praticar o bem. à vitimas de um acidente com grande generosidade. mas também em uma só se observam notáveis diferenças de rigor ao colocarse em atitude crítica perante os diversos tipos de ações imorais. INTEGRAÇÃO DE RESULTADOS PESSOAIS EM UMA CONCEPÇÃO GERAL DAS TITUDES MORAIS Os fatos que expusemos precedente nos confirmaram que: a) A conduta moral não obedece à existência de um só fator geral. confessadas mais tarde. e) Existem grupos humanos que são coletivamente julgados como deficientes éticos e que.59 igualmente respeitáveis. não obstante. porém suas intenções. 2° que simples observação da conduta. O que podemos concluir é a de que os indivíduos considerados como menos sociais ou mais anti-sociais são os mais capazes de levar a termo uma ação altruística.com uma concepção sistemática (genérica) da conduta moral? . que os piores podem ser os melhores e que os extremos se confundem igualmente quando se trata de avaliar a qualidade moral em condições de situações diversas. era a de na esperança encontrar no gabinete médico alguma moça com pouca roupa (!). Por exemplo.e outros fatos experimentais não citados . era provas de conduta. c) Não existem critérios morais estandardizados que permitam uma valorização ética constante dos distintos tipos possíveis de conduta moral perante situações concretas. Como podem fazer-se compatíveis estes . 41. podemos afirmar: 1° que pessoas dotadas de uma capacidade intelectual. Confessando que seu intento era de poder contagiá-lo com sua sífilis. b) Em sua determinação intervêm muito mais eficazmente as atitudes afetivas que o raciocínio lógico. não obstante. Uma conduta moral explícita pode obedecer a motivos e propósitos que em si mesmo são imorais. dos atos externos de um indivíduo. Isto demonstra a impossibilidade de julgar em si mesma a conduta moral sem se conhecer antes se serve de meio ou de fim para o indivíduo. um certa porcentagem de jovens se ofereceram para doação de sangue. diferem. grandemente. com respeito ao modo de julgar ou ajuizar problemas precisos de conduta moral. Ou o soldado ao insistir doar a maior quantidade de sangue a seu oficial. isto é. ou. de uma cultura e de uma experiência social sensivelmente igual. dito de modo mais breve. Em síntese.

com efeito. não fazer nada que seja considerado mau. em vez de fugir do ambiente. É interessante que a segunda e a terceira moral introduzem já o conceito do bem. se se quiser. em virtude da qual o ser tende a fundir-se e confundir-se em um todo com o ambiente.propriamente vital. história revolucionária das espécies) nos confirma que. cólera e afeto. A ação praticada sob esta atitude (moral) será psicologicamente considerada como boa. considera-se ligado a ele. somente quando o indivíduo que a exerce se propõe livremente conseguir com ela um maior bem . parte de algo que o atrai. A história da evolução (onto e filogênica = evolução. este critério podemos definir a conduta moral dizendo que é a conseqüência direta e imediata de viver em atitude moral. pois. deduziremos que todo indivíduo no qual não se encontrem moderadamente satisfeitos os impulsos vitais essenciais. Mas. A segunda conduta . revolucionária e anárquica – no-la dá a denominada moral utilitária. seria incapaz de adotar tal atitude. uma vez satisfeita a primitiva violência do impulso. embora seus resultados possam ser discutidos do ponto de vista da utilidade social.sem ter em conta o proveito próprio que dele possa derivar. o indivíduo já deixa impressionar pelo meio sem medo nem raiva. Se.60 As condições essenciais para considerar uma conduta como moral ou imoral (isto é. que o faz adotar uma atitude prazenteira afetuosa. Correspondendo. em vez de repeli-lo. como boa ou má) não depende somente de seus resultados (aparentes ou definitivos). embora possa praticar – pela coação do meio – atos que se tornem aparentemente morais do ponto de vista social. que são de natureza egoísta. Nesta atitude é possível fundamentar a verdadeira conduta moral. sensu strictu. sob os qualificativos de moral disciplinar ou fechada. Em primeiro lugar aparece a atitude defensiva. na primeira o indivíduo faz somente o que lhe convém (isto é. às três emoções fundamentais citadas. um pouco mais tarde satisfeita. A terceira denomina-se de moral de cooperação. Eles constituem as armas da vida elementar.material ou psíquico . mas como esta atitude. solidário de sua sorte. . Preferimos a palavra afeto à de amor. no sem tido pejorativo da palavra. trata de dominá-lo absoluta e violentamente. Esgotando. por assim dizer. sente-se penetrado e invadido pela influência cósmica e experimenta em uma nova necessidade. baseada na inibição (retorno à pré-vida). ao passo que na segunda pratica o que crê melhor para o mundo psíquico. na qual o indivíduo. esta foi usada demasiadamente no sentido estritamente sexual. a luta do ser contra o meio. Bérgson a chama de moral aberta e eu a chamaria de verdadeira moral ou moral humana. Em seguida aparece a atitude ofensiva. Cada uma destas condutas tem seu aspecto moral: a primeira dá lugar à clássica e primitiva moral de que falam Piaget e Bérgson. ou agressiva. também do propósito que tenha seu autor durante a execução da mesma. pois. Uma conduta merece o nome de moral. mas. e a terceira é a da criação. foi por nós definida como exprimindo o propósito de praticar o bem pelo bem. O lema desta moral não é fazer nada que esteja proibido ou. existem três condutas humanas totalmente distintas: a primeira é a da inibição. a conduta dos seres vivos se encontram ligados ao sucessivo desenvolvimento dos três estados emocionais fundamentais: medo. pratica o que é bom para ele). mas existe uma radical oposição entre ambas. eliminando da ação os interesses egoístas. aceitamos. por sua vez. a segunda é a da destruição.

egoísta. melhor compreendida: na individualidade consciente existe um processo. não estranhamos tampouco. por força. Na mesma linha evolutiva notamos na história dos povos: primeiro. de destruição (anteposição do impulso egoísta) ou de criação (fusão generosa. Na puberdade predomina o impulso vital agressivo e. na maturidade. de certo pessimismo. que todos e cada um de cada um de nós viva sendo ao mesmo tempo inofensivo perante alguns estímulos. desconfiança e mesquinhez. é sumamente importante para a modificação da conduta moral. seguindo uma ordem inversa. sempre que uma causa ou conjunto de causas detém a normal evolução psíquica. Mas esta nova concepção d amoral requer umas tantas explicações suplementares para poder ser. isto é. sincero e pérfido ao mesmo tempo. por isso. de respeito à regra. e assim também exibe predominantemente uma moral: na infância predomina o medo ao mais forte. Em virtude desta nova modalidade do pensamento. por conseguinte.61 Se refletirmos em que o ciclo emocional não se cumpre uniformemente perante todos os possíveis estímulos em nenhum indivíduo e nos damos conta. e por isso a moral da criança é objetiva. próprias da maioria de anciões. ofensivos ante outros e favorável para terceiros. isto é. isto é a destruidora e a criadora. em virtude da qual a moral muda o compasso do tono vital em um momento dado. finalmente. uma vez que graças a ele se formam os ideais do “EU”. período de estabilidade alcança o máximo desenvolvimento normal de atitude criadora. mais ou menos sublimada sob a forma de prudência. mau e bom. física e psíquica). entretanto. . o pensamento que. o medo ao adulto. conforme a atitude emocional em que se tenha fixado frente a eles o leve a adotar uma conduta de inibição (obediência submissa à força. matizada agora. se nota a mesma lei. notamos. Logo se inicia a regressão vital. depois revolucionários e iconoclastas e. Na idade adulta. Por isso é a época em que se cometem as piores e melhores ações – se mais natural: generoso. submetidos ao terror de uma tirania. Nossas experiências demonstram uma vez mais o escasso valor da argumentação lógica na determinação da conduta moral. (hipercrítica destruidoura. a denominada modernamente intuição. livres. E no terreno da patologia. Principalmente o deslocamento para adiante. Cada idade da vida se caracteriza pelo predomínio de uma atitude emocional. a reaparição da atitude colérica. é a época da máxima rebeldia. disso não se vai deduzir a absoluta esterilidade do pensamento neste aspecto. existe aquele intelectto d’amore que Espinosa entrevia. Porém. é-lhe possível livrar-se das cadeias do tempo e viver no passado ou no futuro. que todos nós temos ao longo de nossa vida uma imbricação das atitudes de medo. E finalmente na velhice onde aparece a atitude do medo. democráticos e animados de um amplo espírito de fraternidade universal. modificará de algum modo a marcha automática dos primitivos mecanismos emocionais de reação. Na juventude nota-se uma ambivalência entre duas formas de atividade centrífuga: colérica e a amorosa. do máximo anarquismo fisiológico e da maior evolução de conceitos. no sentido prospectivo. cólera e afeto. além do frio juízo lógico. cepticismo). como o “não-eu” e integração do valor individual no cósmico). Porque.

. colérico e o amoroso) Acreditamos que no estado atual da organização social. Do ponto de visto objetivo existem outros tantos: Como acreditam os demais que o indivíduo se julga a si mesmo? Como acreditam que é? Como quereriam que fosse como crêem que ele quereria ser? 42. uma vez que. tendo todas as funções psíquicas aparentemente. a bondade. o resultado final de uma atitude moral baseada exclusivamente no amor seria menos eficiente para a humanidade que o conseguido por uma destilação que extraia de cada uma das três atitudes morais fundamentais sua melhor quinta-essência. A DENOMINADA LOUCURA MORAL. Mas o nosso entender que permite estabelecer a diferenciação é precisamente o caráter de inecessariedade que exibe grande número das ações amorais do louco moral. não aproveita as vantagens imediatas que este lhe proporciona. tal conduta.segundo o critério mais difundido um indivíduo que. exibindo. firmeza ou coragem. falta-lhe senti-lo para acreditar nele.62 É precisamente o conflito desses ideais com as realidades subjetivas o que determina no indivíduo adulto a adoção secundária de atitudes emocionais que mostram incompreensíveis para quem procura explicar em termos puramente mecanicistas (não psicológicos) o aspecto moral da conduta humana. embora conheça. e do amor faz derivar. não é raro observar que. TIPOLOGIA PRÁTICA DAS ATITUDES MORAIS Como síntese prática. podemos afirmar que. por sublimação. o código da moral. tal indivíduo cometem delitos por um defeito de seu juízo moral. tal indivíduo é capaz de pronunciar um belo discurso de elevados tons acerca da conveniência de exibir uma conduta moral. uma vez praticado o ato delituoso. da cólera retém unicamente o temperamento. Assim nosso super-homem eticamente ideal é aquele que do medo conserva somente a cautela. Por conseguinte. e possuindo uma inteligência normal – ou mesmo superior – se comporta de um modo contrário às normas morais. Como se julga ser o indivíduo? Como lhe parece que é julgado? Como imagina que os demais querem que ele seja? Como quereria ser? Eis quatro dados fundamentais para resolver a equação da conduta moral do ponto de vista objetivo. ao passo que o denominado louco moral encontra tal utilidade somente de um modo subjetivo no prazer que obtém ao praticar algo que sabe que não deve praticar. premeditadamente e sem necessidade. porque. cada pessoa humana orienta sua vida de acordo com a reação instintivo-emocional que predomina em seu “fenótipo”. 43. (medroso. será sumamente difícil estabelecer distinção. normais. é capaz de enganar a maioria das pessoas. Com efeito o delinqüente vulgar visa sempre a uma utilidade objetiva com seu delito. Em tal situação. aparentemente. por assim dizer. mas em realidade – internamente se ri de seus semelhantes e aproveita todas as conjunturas que se lhe oferecem para delinqüir sem perigo de ser descoberto. sob a multiformidade de reações verbais e histriônicas. Um louco moral é . Infelizmente tal situação ou atitude acontece e.

sem um penny. no qual foi descoberto seu vício da morfina por sofrer uma grave crise de desintoxicação brusca. Em 1914.ainda menino sua família decidiu enviá-lo para a Nova Zelândia e fazê-lo trabalhar em uma empresa agrícola. irresponsável. Quem diria. em virtude de não ser possível fazê-lo trabalhar. Teve que ser expulso de todos os colégios que freqüentou. e não obstante preferem levar uma vida infeliz. em seis semanas teve dois acidentes sérios com seu aeroplano.63 Considerada deste ponto de vista. Voltava tarde para casa. inscreveu-se cm um serviço de polícia montada no noroeste do Canadá. conseguiu a revisão do processo e Ronald True foi declarado louco moral. Ronald True. Pois bem. Pouco tempo depois. A melhor prova de seu transtorno no-la dá o fato de que. convicto e confesso de haver matado. de personalidade atraente e de trato agradável. reconduzido por quem tomara conta dele. Em poucas semanas apareceu de novo em casa. quando sua mãe tinha dezesseis anos. encontrava-se nosso homem em Xangai viciado na morfina. quem diria que era um louco? Mas. sua psicologia é acentuadamente antibiológica ao passo que a do delinqüente comum é somente anti-social. sobretudo. por meio da qual teve um emprego como instrutor de aviação no Texas. Detido na mesma noite em que cometeu o crime. mais. mas seu advogado recorreu. seu desenvolvimento físico foi normal. porque precisamente necessitam dela para encontrar-se satisfeitos. mas em setembro desse ano repatriou-se para a Inglaterra e foi admitido na aviação militar. que se dedicava à vida alegre. a grande maioria desses indivíduos tiveram no início de sua vida ocasiões de sobra para satisfazer normalmente (e com menos esforço do que depois realizam) seus desejos. Protegido novamente por sua família foi colocado em um emprego civil. uma jovem. Em conseqüência disso foi expulso do corpo. com um bom soldo. em vista disso . ao ver seu retrato. que este indivíduo era um criminoso e. este delinqüente era filho de família de recursos. na noite de 5 para 6 de março de 1922. onde foi admitido. e recolhido a um estabelecimento psiquiátrico (Broadmoor). antes sorria cinicamente ao olhar para o público que se apertava na sala. mas dentro de poucos meses o perdeu por se terem verificado algumas irregularidades nas contas. transportando-se então para os Estados Unidos e contraindo matrimônio em 1917 (5 de novembro) com Miss Roberts. no segundo dos quais feriu-se na cabeça e foi transportado ao Hospital de Gisport. na qual ostentava o pseudônimo de Olive Young. com brincadeiras de mau gosto. Vestia-se irrepreensivelmente e nem por um momento perdeu a serenidade durante a vistoria em sua casa. pouco antes de rebentar a guerra. foi dois meses depois julgado e condenado à morte. Cansou-se logo do mesmo e em 1918 apareceu de novo na Inglaterra com sua mulher e sem ter nem roupa para mudar. mas desde o início de sua vida deu mostras de um caráter violento e cruel. leiamos alguma coisa de sua história e dela obteremos dados de interesse: nascido em 1891. Um exemplo concreto ilustrará melhor a diferença que separa o louco moral do simples amoral por defeito de sua inteligência abstrata (necessária para o funcionamento do juízo moral): há poucos anos a opinião pública inglesa comoveu-se e protestou contra a absolvição de um criminoso. Gertrudes Yates. regressando em 1912. Apesar de apresentar boas aptidões nas provas. para desertar dentro de poucos meses e partir para o México. vezes ébrio que . Em 1911 fugiu de casa e foi para a Argentina. por perturbar o sossego da classe. no Hammersmith Palace de Variétés.

ao ser preso poucas horas depois. obtendo dinheiro e satisfações sem ter que recorrer a meios anormais.ao mesmo tempo. os que caracterizam . E tudo isso é praticado achando-se o indivíduo em aparentes condições de lucidez e normalidade. a incapacidade de adaptação social de Ronald True. que se nos mostre perfeitamente normal em todos seus restantes aspectos. mas não obstante. por outro lado. que o indivíduo não sofra de nenhuma outra psicose (esquizofrenia. mas permanente. loucura maníaco depressiva etc.) e. levando o cadáver para o banheiro e deixando aberta a torneira de gás para simular que morrera asfixiada por este. mau exemplo. designar o sentido da alteração moral. à qual sufocou com uma toalha em seu próprio quarto. pois bem: que se deduz de tudo isso? Em primeiro lugar. se tivermos que julgá-la por sua capacidade de compreensão. 3°. Com efeito. 2°. sem nenhuma justificativa lógica.64 sóbrio. Finalmente. sem sofrer tampouco de nenhum déficit intelectual suficientemente acentuado para explicar sua conduta por um defeito da capacidade de . que sua grave perversão moral não seja incidental. isto é. Mas. um fator interno que era o responsável por sua falta de adaptação social. não lhe faltaram ocasiões em sua vida para poder resolvê-la honestamente. de suprimir o velho termo loucura e. que quase nem conhece). necessidades vitais insatisfeitas por um regime econômico apertado etc. pois. Em terceiro lugar. além do mais. ninguém pôde constatar a menor alteração em sua disposição otimista e alegre. de invenção e crítica.) bem classificável. Este último tem a vantagem. Sem nenhuma briga anterior. pois "tinha sono e queria dormir logo". que não se ache justificada por um fator de ambiente (educação defeituosa. Em segundo lugar nos impressiona a falta de motivação aparente do delito. mas em troca era bastante apreciado nos cabarés. Foi detido pela polícia e levado à presença do juiz. por conseguinte. mata sua amiga para empenhar suas jóias por uma mísera importância que. de suas habilidades e de sua palestra agradável. Arrecadou as jóias que possuía sua amiga no boudoir. nos quais brilhava por seu espírito e elegância. uma vez que. que os atos perversos não tenham uma utilidade primitivamente biológica. estes três fatores são. convidando todas as artistas que encontrou. que limitam . Pois bem. Havia. a princípio. em 1921 estabeleceu amizade com sua vítima. notemos que a inteligência propriamente dita deste indivíduo era pelo menos normal. malbarata (vender com prejuízo) a seguir sem proveito próprio (pois convida aos demais. a nosso entender. a característica geral de seus atos era precisamente sua falta de correspondência com a situação que os originava.o conceito da denominada loucura moral que em realidade deveria ser designada com o nome de psicose perversa. empenhou-as por cinco libras e foi gastá-las em um cabaré. Em mais de uma ocasião mostrara-se generoso e desprendido. o qual não teve muito trabalho para arrancar-lhe a confissão de seu delito. Quem lidava com ele falava. tenha-se em conta que para aplicar este qualificativo a um indivíduo é preciso: 1°. Já relatamos o resto. era sua conduta que a cada instante contradizia esta opinião favorável e contrastava violentamente com seu aspecto.

).65 julgamento moral (inteligência abstrata).depende em grande parte de condições somáticas (grau de "ciúme" existente em um momento dado). fazendo-os depender de uma raiz comum (esquizofrenia abortada). difícil ou impossível de satisfazer por meios legais (delitos contra a propriedade por falta de alimentos. se desejamos adquirir dela um conhecimento científico: 44. precisamente o que define o tipo que descrevemos é a persistência de sua atitude geral de amoralidade através de todas as idades. pois não se pode esperar criar no indivíduo a fé moral por meio de raciocínio nem castigos. De qualquer modo. coincidindo com variações da atividade de diversos grupos hormonais. DELINQUENTES: 1º. . sobretudo certo para a conduta sexual. deve ser deixada de lado agora. por exemplo. mas ninguém nega. pertencente à denominada personalidade compulsiva ou obsessiva. . mas tal questão por não se achar ainda resolvida. vestidos etc.Educação defeituosa (desenvolvimento insuficiente das inibições. Até que ponto podem. a enorme massa de indivíduos que cometem delitos ou imoralidades deve ser classificada nos seguintes grupos. Resumindo.). impaludação etc. . Por causa ambiental: . ainda caberia considerar se devem ou não ser separados da psicose perversa os casos de brusca e definitiva perda do equilíbrio moral devidos a uma ação toxi-infecciosa e especialmente às diversas formas de encefalomielite e de neuraxite epidêmica. é uma questão que não nos interessa discutir aqui.Necessidade vital imediata.Mau exemplo (pessoal ou coletivo). a psicose perversa é de um prognóstico absolutamente desfavorável. se relacionar estes dois tipos opostos. talvez porque esta mais do que nenhuma outra modalidade do comportamento humano . não há risco de aplicarmos o nome de loucos morais ou de psicóticos perversos a outros doentes mentais nem que o utilizemos para designar a sem-vergonhice vulgar. . Isto é. . Em troca. Em realidade trata-se mais de um defeito do que de uma enfermidade da personalidade. Assim concebida. mas devemos assinalar a relativa freqüência com que em um mesmo indivíduo podem alternar-se fases de hipermoralidade e amoralidade. são muitos os autores que estabeleceram uma relação causal entre as lesões do tálamo (centro emocional) e a desaparição do denominado: "sentido moral" nestes casos e até deduziram de tal reação um modo sugestivo de tratamento para melhorar estes casos (emprego de substâncias piretógenas.Cultura defeituosa (desconhecimento das leis).Coação de superiores. Se considerarmos tais limitações. a existência do tipo escrupuloso.

a enfocação psicológica dos quatro conceitos que regem toda a atuação jurídica.loucos morais Assim podemos verificar que é mínima a chamada loucura moral no campo das causas eficientes da delinqüência. é preciso estruturar artificialmente uma série de critérios. Acabamos de ver como se condensam e cristalizam as diversas atitudes morais. GÉNESE E EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS DE DIREITO. bastaria para compreender a vida psíquica interpessoal em qualquer grupo humano mais ou menos amplo. LEI E JUSTIÇA. alucinações etc. impelidas pelo duplo jogo das reações emocionais primárias e as pressões do ambiente social. demência etc. que para introduzir uma "ordem social". sempre que neste não houvesse ainda surgido uma organização funcional especializada . Indivíduos que sofrem de psicose endógenas (epilepsia. inclusive entre pessoas cultas e peritas. se converterão no Código legislativo. se notavam profundas discrepâncias no ajuizamento ético das diversas condutas sociais.66 2º Por causa endógena: .). DEVER. psicopatas perversos . assumisse a missão de controlar essas ações e reações dialéticas. significa. (37x100 que puderam ser reconhecidos nos cárceres).Anormais. CAPÍTULO V 45. . . Isso.) Indivíduos psicopatas com os diferentes tipos de personalidade anormais .Desenvolvimento mental insuficiente a) Débeis mentais b) Imbecis c) Idiotas .que. esquezofrenia. neutros e objetivos.o Estado . aceitas pelo denominado Poder Executivo (sempre possuidor do máximo valor de força bruta capaz de atuar disciplinadamente se necessário). maníaco-depressivo. interposta entre o indivíduo e a coletividade. loucura. Já verificamos a não existência no homem de um fator geral de moralidade e que. dos quais derivam (como corolários dos postulados) uma série de preceitos ou instruções que.Indivíduos que sofrem de psicose tóxicas ou infecciosas (paralisia geral. Isto. submetendo-as a padrões normativos para cujo exato cumprimento dispunha de recursos supostamente eficientes. Neste momento de nossa exposição. é completamente inescusável e ponte necessária.Transtornos permanente ou temporário do equilíbrio mental por uma Psicose clinicamente determinada.

nem o macaco que no jardim zoológico cata as pulgas de sua companheira. 46. a retribuição homóloga da dor ou do prazer sentidos. o fazem usando de um direito ou em cumprimento de um dever. sabem que estão agindo de acordo com os princípios ou normas sociais que serviram de base a múltiplos códigos legislativos humanos: a vingança e o agradecimento. agindo assim. a função judiciária consistirá essencialmente em assegurar o cumprimento desse código. quando se acha ante. juiz e parte em uma seqüência de atos. quando se sente ofendido ou mimado. já não se comporta. em definitivo. enquanto esta o acaricia. desde os tempos pré-históricos até hoje. Pois bem: se aceitamos a progressiva complicação das organizações sociais deu lugar à eflorescência desses órgãos legislativos e judiciais. e procuremos também ver se nessas concepções pode existir algo que seja tão profundamente errôneo que justifique a falta de progresso observado. Nem a fera que mata outra ou que agrediu sua prole. E pouco se importam do juízo que qualquer um possa fazer de suas condutas. o homem adulto. que constituem hoje um dos pilares básicos de qualquer estado. inclusive. isto é. que não pode ser. em aparência.e que não se desvanece de vaidosa satisfação . situações. porque tinham que lhes dar algum nome.como os mesmos concebem as noções conceptuais que manipulam. habitualmente. normal e civilizado.de nosso prisma puramente psicológico .67 Dado esse passo. Todavia. isto é. Quiçá obedeça finalmente a essa mesma justiça retributiva universal e homeopática que deriva do grande princípio das compensações. PSICOGÊNESE DOS CONCEITOS DE DIREITO E DEVER Este problema. mas em realidade obedecendo fatalmente a impulsos engendrados em virtude da liberação de potenciais energéticos que os psicólogos concordaram em denominar "instintivos". Tampouco sabem que. semelhantes. na regulamentação das relações inter-humanas. Poderíamos. a vivência de imensa desproteção levou o . E isso ele o faz porque desde pequeno ouviu dizer que "não é bom fazer justiça com suas próprias mãos". Em que pese à considerável bibliografia acumulada. Agem espontaneamente. aplicando a posteriori um sistema de sanções para seus infratores.no segundo. de um modo tão simplista. será bom vermos . isto é. em condições normais. acerca deste importantíssimo tema. mas a imediata realidade observável é que. que pouco se desentranhou. ao mesmo tempo. aprende a simular que não se vinga . Para uma maioria de sociólogos. geralmente pouco atendido pelos psicólogos de cunho experimental e defeituosamente tratado pelos pré-historiadores e antropólogos.no primeiro caso . dizer que mais se aprofundaram neste tema foram alguns cultores da filosofia do Direito.

física ou bruta e. ou seja. O que houve aqui foi simplesmente a substituição de um estímulo absoluto (golpes) por um estímulo condicionado (presença física no local) na provocação de uma conduta inibidora no grupo previamente espancado. chegou o dia em que bastou a presença desse exemplar nas proximidades da caça para que seus precedentes opositores lhe deixassem o campo livre. Expresso em termos neurofisiológicos. mesmo. e homo stultus cuja aparência muscular fosse tão atlética e seus movimentos tão enérgicos que pudessem ser igualados aos do primitivo vencedor. Mas a realidade é que. às vivências religiosas. ao compasso da progressiva simbolização e hierarquização condicionada das motivações da conduta de domínio ou de submissão humanas. vez mais. como não negamos tampouco o papel que o fator sexual. sem necessidade de ter que conquistá-las à força. na ocasião de qualquer efeméride ou solenidade. isto é. aparentemente vinculadas a domínios espirituais e miríficos. e saíram espancados e vencidos da luta. se em diversas ocasiões procuraram disputar uma cobiçada presa a outro exemplar humano mais forte.pôde ser transferida sem novas lutas a outros exemplos. lhe fizessem sentir seu direito a escolher as peças que mais lhe agradassem. em um dado momento. através de 3 ou 4 elos.68 homo natura ao temor supersticioso das forças sobrenaturais e lhe impôs uma série de ritos de renúncia e auto-sacrifício. pode ter . as origens das atitudes de "conformismo" a determinados preceitos são mais amplos e anteriores. portanto. a preservação da exogamia. pela capacidade de ação material.mais tarde . O que sem dúvida determinou nós homens primitivos o acatamento de certas e ainda não formuladas nem socialmente impostas normas de conduta foi a observação empírica da sucessão inelutável de certos antecedentes e conseqüentes. por bem ou à força. Assim. será ditada por novas modalidades de força cada. fez nossos semelhantes preverem ou anteciparem a conveniência de adaptar-se às normas de conduta que sua experiência pessoal lhes havia demonstrado serem mais úteis. a ter preferência em qualquer ato de seleção. agora transformada em "direito" do mais forte (fisicamente). cristalizaram em códigos elementares de costumes. Daí o estabelecer-se e generalizar-se de um modo natural a denominada "lei do mais forte". por exemplo. ao serem transmitidos e conservados em várias gerações. aparentemente. a nosso entender. afastadas da força mecânica. chega-se sempre a estabelecer que o valor condicionante destas novas forças se acha regulado pela primeira. . Quem o divide poderá ter uma clara ilustração inspecionando os diversos personagens que se reúnem em qualquer palanque ou tribuna “oficial”. isto é. Mais tarde. aos quais os novos "membros" deviam se submeter. podemos afirmar que foi a capacidade de estabelecer reflexos condicionados entre certos "estímulos" (coativos ou propulsivos) e certas impressões ou vivências (de satisfação ou de sofrimento) o que. de proibições e compulsões. variáveis de uns a outros grupos que. Assim engendrada essa atitude como resultado da experiência . mais ou menos patriótica ou internacional.uma complicada legislação tribal (estudada por Freud em seu célebre livro: Totem e Tabu) mas. Não negamos a importância que o temor supersticioso teve na estratificação de algumas obrigações humanas.

que são. e a verdade é que estes são maioria. uma maioria de frustrados usou seu rancor para. expresso de modo mais claro: como chegamos a considerar eqüitativo (ou justo) este balanço de direitos e deveres que nos foram impostos de fora. desde que são estas capazes de entender. uma vez estabelecida a linguagem falada como meio de intercomunicação social. os pais. por pressão externa.69 Não obstante. A INTROJEÇÃO COMPULSIVA". por quê? Ora. não só em estrutura biológica como em destino vital. na melhor salvaguarda do odiado. E isso. a convicção com que afirmamos. mediante um ato de instrução (in-trudere) perseverante? 47. Não é a mesma coisa ser escravo. os sofrimentos e as frustrações. ou seja. pois logo que alguém sofreu na própria carne uma frustração. sejam igualmente compartidos". mesmo dando por suposto que."ditado de dentro" (correspondente à fase de "moral autônoma" do mesmo autor) teve que ser tão lento no curso histórico do homem como o foi o que vai desde a organização anárquico-tirânica à organização democrática. A melhor prova disto no-la dá a "santa indignação" com que reagimos contra os chamados "privilégios". isto é. ou "bicha". FASE INICIAL NA PSICOGÊNESE DAS NOÇÕES DE DIREITO E DEVER. da constrição. por sua vez. à maneira de "cunha".houvessem revoltado o homem primitivo e incitado sua cólera. não é o mesmo cumprir regras e ser submisso ou sentir-se obediente. destarte. como seres "conscientes de seus direitos e deveres". E do mesmo modo como esse não se acha ainda em suas etapas finais. nossos semelhantes. ou "sentir-se" escravo. a moral social de cada época e ciclo cultural. . Logicamente cabe pensar que as primeiras coações emanadas da natureza ou de seus companheiros circunstanciais: . em latim) da qual derivou. precisamente. mestres. ou "fazer-se" de escravo. só nos tranqüiliza e não nos causa remorso se chegamos a acreditar que os outros não são mais do que nós. isto é. tutores etc. preceitos negativos e positivos que as façam. transmitem às crianças. satisfaz-se ao saber que todos seus próximos (e que estão próximos) também a sofrem. Tampouco. porque nosso impulso de afirmação do ser nos levaria a querer ser mais do que os demais. aquele não terminou senão para uma escassa minoria de mentes seletas. aprender a comportar-se como seres "civilizados". falta responder à principal questão. mas se isso não é possível. que a "justiça será igual para todos" quando em realidade o que deveríamos dizer é que gostamos que "os males e contrariedades. Diz a gente que "mal de muitos é consolo de tolos". O trânsito do dever "imposto de fora" (correspondente à fase de "moral heterônoma" de Piaget). a saber: como se origina em cada um de nos a crença autóctona da existência de leis éticas? Ou. se interiorizou sob a forma de rancor e por uma misteriosa mudança se converteu.. ao dever. o armazém energético que assegurou a estabilidade dos costumes ("mores". mas quando esta se mostrou impotente para libertá-lo delas. quando estes não pousam em nossas cabeças. salvaguardar o frustrador contra todo intento de rebeldia esporádica de outros "fortes" e constituiu. mais tarde. realmente. ou seja. Foi assim que. em qualquer lugar. lentamente. nossos irados protestos quando alguém fura uma fila.

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Eis porque, uma vez imposto um preceito e adquirida força de costume, mais difícil cada vez se torna desobedecê-lo sem levantar a tremenda força de sua "tradição", que não é outra cousa mais do que a soma dos rancores que seu cumprimento determinou. Então, tal preceito ou hábito adquire o caráter de um axioma, isto é, de algo que não requer demonstração e que se toma válido per se. "O dever não se discute: cumpre-se", é uma afirmação ainda hoje freqüentemente ouvida de lábios dos que se julgam depositários da ordem e da paz sociais. Se, de fato com isso compreendemos a força crescente da tradição: - a imensa energia que acumula a inércia do passado - não nos explicamos porque é universal o sentimento de culpa e justiça, que separa a cada passo a linha do devido, do permitido e do proibido, mesmo em ausência de toda influência aparente ou coação exterior. Eis senão quando chega em nosso auxílio uma das mais sedutoras teorias de Sigmund Freud ao dizer-nos que o sentimento de culpa que pesa sobre a humanidade não é o do "pecado original", mas sim o do parricídio primitivo, e que é por sua influência que cabe explicar a adoção de uma atitude expiatória - consecutiva ao remorso e ao temor - que nos leva a todos a esperar que o mundo seja, realmente, "um vale de lágrimas" e a nos resignar ante o sofrimento e a renúncia de nossos desejos mais ambiciosos. Na horda humana, o homem-animal mais fisicamente forte e agressivo ditava seus tirânicos caprichos; por conseguinte, exercia o que depois foi denominado "direito da força", instituído nos países feudais e ainda hoje exercido em não poucos lugares do mundo sol disant civilizado. A posse das jovens donzelas por aquele bruto concitava os rancores dos jovens varões até que em determinada ocasião se uniram e o mataram. Mas, acostumados a serem guiados e orientados, estimulados e freados, por sua ativa presença, sentiram tremendo desamparo e angústia, ao verem-se, como no princípio, reduzidos às suas simples forças individuais. E originou-se neles um supersticioso temor de malefícios sem conta, que sobreviriam a menos que de algum modo, ressuscitassem ao até então odiado condutor e, por assim dizer: o eternizassem. Disparada a imaginação e posto em marcha o pensamento mágico, acreditaram que os primeiros males sobrevindos eram resultado de sua cólera e decidiram aplacá-la com presentes e sacrifícios ao mesmo tempo, que, os homicídios se submetiam a diversas e curiosas cerimônias de purificação e expiação. Foi assim que nasceram os diversos vislumbres de religião e que se originou, pela primeira vez, em conjuntos humanos, a crença de que "quem faz, paga", ou de que "quem com ferro fere, com ferro será ferido", ou "quem semeia ventos colhe tempestades", isto é: a crença numa justiça retributiva, em uma re-ação (oposta à ação) que somente poderia ser evitada aceitando o statu quo dominante. E essa geração já transmitiu a seus filhos o temor e o respeito ao chefe morto e posteriormente glorificado, erigindo-o ditador post-mortem e fazendo sentir às delicadas mentes infantis o medo à presença invisível de ausentes, aos quais é preciso obedecer e satisfazer para se poder viver em paz. (SI VIS PACEM PARAT BELLUM) Desta sorte, o que primitivamente era uma coação externa e imediata se transformou em uma coação interna, auto-imposta e mediata, isto é, em uma auto limitação de impulsos, por "introjeção" (ou, se se quiser, interiorização e apropriação

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identificadora), de uma vontade alheia. As crianças e os jovens sentiram que somente poderiam viver alegres e contentes se previamente contentassem e satisfizessem aqueles de quem dependiam: (pais, superiores etc.) e, portanto, tiveram que aprender a comportar-se não de acordo com seu gosto, mas de acordo com normas, regras, ordens ou preceitos que, em sua integrada variedade, eram designados com o qualificativo de DEVER. Em síntese: a introjeção do conceito e dever - sinônimo de obrigação que é preciso cumprir - se verifica por uma dupla via: na história social, pelo medo ao pulo no vazio moral, isto é, à entrada no desconhecido e imprevisível; na história individual, pela condicionalização progressiva de condutas que, cada, vez que são infringidas, acarretam fracassos e sofrimentos. A isso podemos juntar, além do mais, uma segunda condicionalização praxi-verbal, em virtude da qual cada série de atos imperativos é denominada com o qualificativo "dever", e este passa, assim, a ser não somente aceito como também a ser procurado, por vezes com afã, por suas vítimas. Quem não viu refletir-se a angústia em muitos rostos de pessoas que em qualquer emergência pergunta a si e aos outros: "Qual é meu dever? Que devo fazer?" Direito e dever nascem, pois - e depois se introjetam - como duas metades homólogas de um mesmo todo; qual irmão siameses ou monstros xifópagos, não pode um existir sem o outro: suas carnes se interpenetram até ao ponto de que hoje se começa a exigir das pessoas, como dever, a luta pelos seus direitos e, de outra parte, se reconhece o direito de realizar seus deveres (mesmo quando estes impliquem em atos lesivos a outros). Ambos os termos, contudo, tiveram uma existência artificial antes que suas interrelações fossem codificadas e fixadas em forma de lei. Se hoje as leis são primeiro, promulgadas e depois respeitadas, na história da humanidade sucedeu precisamente o contrário: certos atos, à força de repetição natural, converteram-se em costumes, estes em tradições e estas em leis que em certo dia foram verbalizadas e enunciadas ante algum estranho. A lei nada mais é do que o enunciado de certos limites morais que circundam "regiões de conduta", isto é: modelos de comportamento (físico se se trata de leis físicas, biológico ou social, se se trata de leis biosociais). Mas, do mesmo modo como o direito implica o dever e vice-versa, assim também a lei leva consigo a justiça. Vejamos, pois, com um pouco mais de atenção, a psicogênese deste outro par de idéias. Os Conceitos de Lei e de Justiça. - Podem os juristas e os filósofos do Direito discutir quanto quiserem acerca da fundamentação lógica destas noções, mas não resta dúvida de que, consideradas de um prisma puramente psicológico, sua formação deriva das precedentes e traduz, como aquelas, na consciência do homem, fatos de caráter universal, consubstanciais da vida cósmica: se direito e dever surgiam de uma certa estratificação das forças vectoras de um dinamismo grupal, lei e justiça não são mais do que pólos extremos do outro eixo de coordenadas em que se inscrevem todos os instáveis equilíbrios vitais. Estes seguem determinados princípios, obedecem a padrões reguladores permanentes, a cujo descobrimento os cientistas dedicam seu constante esforço. E também, quando por qualquer causa e motivo se altera uma dessas fórmulas de equilíbrio, vemos surgir uma série de efeitos (denominados reacionais) que atuando no sentido oposto ao do agente alterante, compensam sua ação e restabelecem a normalidade. A estes processos, se denomina, "compensadores", e ao princípio que os

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regula se designa com o qualificativo de "princípio ou lei das compensações". Este princípio rege em todos os domínios do existente e é imanentemente vital. Pois bem: é precisamente nesse princípio da "compensação" que se encontra implícita a noção de justiça que só surgirá na consciência quando o homem tiver alcançado um nível de evolução psíquica capaz do pensamento conceptual. Muito antes disso sua conduta já terá obedecido infinitas vezes ao impulso desse princípio; tantas vezes como diante do sentimento de frustração reagiu redobrando seu esforço para obter o triunfo; tantas como perante qualquer carência tentou assegurar para si o correspondente excesso ou vice-versa. Esse princípio cósmico da "compensação" - dirigente do equilíbrio cósmico universal - acha-se esplendidamente simbolizado na balança com que se costuma representar a justiça humana, mas infelizmente esta, na maioria das ocasiões, não corresponde a esse simbolismo, pois não é neutra, mas pejorativa, animada por tendências iracundas e destruidoras, bem distintas das que pregou herói do Calvário. Assim, a justiça humana se transforma freqüentemente em "vingança" e agrava, em vez de compensar, o desequilíbrio que inicialmente a pôs em marcha, como o denominado impulso reivindicador - ou sede de justiça - pouco tem de compensador e, portanto, de justo. Efetivamente, no terreno dos valores éticos o equilíbrio só pode ser conseguido mediante a anulação dos potenciais opostos: o feio só pode ser anulado com o belo, o mau com o bom, o prejudicial com o útil, o erro com a verdade etc. De acordo com este critério, um dano somente pode ser, equilibrado ou "compensado" com um beneficio e, portanto, a primitiva fórmula com que se concretizou a incipiente reação humana ante os desvios sociais - a famosa lei de talião é profunda e substancialmente injusta, já que aumenta os males, ao invés de anulá-los. Pode-se dizer que hoje a justiça, com sua imensa aparelhagem oficial e paraoficial, com seus poderosos recursos de investigação (policial) e sanção (penal), só intervém quando o pêndulo da conduta se inclina para o lado dos desvalores. Por isso é que seu nome produz na maioria das pessoas uma impressão desagradável, ao invés de suscitar um sentimento de segurança. Por isso, também, é que sua ação - em uma grande parte dos casos - resulta ineficaz (como o prova a percentagem de reincidências de delitos). E isso encontra fácil explicação psicológica: é preciso reconhecer que muitos dos órgãos e dos procedimentos de ação judiciária se acham dirigidos contra e não a favor do bem-estar de quem deles necessita. Em primeiro lugar, exige-se legalmente de uma maioria de seres muito mais do que estes - por sua natureza e cultura - podem dar. Em segundo, quando falham não são redimidos e sim castigados, criando neles a idéia de que, havendo pago a sua dívida para com a justiça (?) podem recomeçar, embora, pela experiência aprendida, procurem escapar melhor à ameaçadora sanção de seus novos delitos. Afirmam os sociólogos que existem dois tipos de justiça: distributiva (dar a cada um o que é seu, isto é, o que merece) e a retributiva (restabelecer a ordem anteriormente obtida, mediante o prêmio ou a sanção correspondentes). A realidade é, no entanto, que não existe atualmente justiça distributiva organizada, e que a retributiva existe somente para a sanção e não para o prêmio. Não são os juízes ou magistrados

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que concedem: bônus, donativos ou benefícios pelos grandes serviços sociais, mas as associações filantrópicas (mais ou menos de fachada e bem intencionadas), organizações de propaganda (comercial ou política), instituições pedagógicas etc. Qual seria a fórmula psicológica da justiça? Precisamente a que se deduz de seu profundo sentido de compensação: se alguém roubar a outrem, é preciso estimulálo não só a ganhar e restituir a quantidade que subtraiu, mas também a ganhar outro tanto e a doá-lo a quem roubou, em compensação pelo prejuízo havido; se alguém faz a outrem sofrer, é preciso dar-lhe os meios para que possa depois proporcionar uma alegria equivalente ao sofrimento que provocou. Em síntese: é preciso destruir o mal com a superabundância do bem. Enquanto a humanidade não conseguir trilhar esta orientação, crescerão e se agravarão as infrações sociais, na mesma medida em que aumentarão paradoxalmente os pressupostos das instituições chamadas repressivas. Nem a situação econômica florescente, nem a excelência de seus órgãos repressivos, nem a severidade de suas leis penais impedem de Washington, por exemplo, ser a cidade que conta com maior criminal idade de todo o continente americano; porque a criminalidade não se combate com dinheiro, nem com sapiência, nem com rigores: combate-se com o amor, isto é, com uma atitude de benevolência para o que existe e isto é, precisamente, o que não se desenvolve nos grandes centros urbanos da atual civilização, cujo ídolo é a ambição do êxito.

CAPÍTULO VI PSICOLOGIA DO DIREITO 48. CONCEITO PSICOLÓGICO DA CONDUTA DELITUOSA.
Para o jurista um delito é todo ato (positivo ou negativo) de caráter voluntário, que se afasta das normas estabelecidas pela legislação do Estado, transgredindo-as de maneira a encontrar uma qualificação predeterminada nas leis de caráter penal. Para o filósofo um delito é todo ato que não se ajusta aos princípios da ética. E para o psicólogo? Que saibamos, este último não tentou até agora estabelecer um critério definido do ato delituoso de seu ponto de vista, e acha-se mais preocupado com a tarefa de compreender os delitos (descobrindo sua motivação) que com a de definilos. Mas, não obstante, é claro, como conseqüência de seus trabalhos neste campo (psicologia Criminológica) elaborou um conceito psicológico do ato delituoso, independente do jurista e não de todo identificável com o do filósofo ou o moralista. A moderna tendência de incluir a Psicologia cada vez mais na biologia geral faz

Ainda discutem os penalistas se têm de castigar de acordo com os resultados ou com a intenção ao ato delituoso. de sorte que. uma tuberculose. que leva em conta a constituição do paciente e a evolução anterior de seu processo. A sanção não deve ser uma vingança que a sociedade tome contra o indivíduo que a ofendeu. mas nunca poderemos compreender este caráter predeterminado das ações humanas se descuidamos do estudo de qualquer dos nove fatores (variáveis) que as determinam. Porque não castigar de acordo com a motivação psicológica do mesmo? Pela simples razão de que lhes é desconhecida na maioria dos casos. e este é o trabalho psicológico que compete ao jurista realizar se quiser merecer este nome. Então. o tema central de sua atuação. Compreender e explicar um delito eqüivale. Há neste aspecto a mesma diferença de critério que existe entre a família e o médico quando no curso de uma enfermidade crônica. para ele. para o jurista é. mais com boa fé do que com acerto. Eis aqui a tarefa . mas um recurso por meio do qual aquela trata de conseguir com que este recobre ulteriormente a normalidade de sua conduta. a sanção jurídica de um ato delituoso não pode ser somente concebida sob o estreito campo do castigo. ao passo que o médico. integrando o denominado ato delituoso na cadeia das ações pessoais. pois. Isso porque na escolha da pena .na vida psíquica do indivíduo. dita suas ordens e concebe seus planos sem preocupar-se com este incidente.. uma hemorragia. o futuro de um delinqüente acha-se menos condicionado pela qualificação que mereça seu delito no Código do que pela ação que sobre sua consciência moral exerçam os acontecimentos provocados pela intervenção criminológica. ter uma significação inteiramente distinta e devem. Considerando o delito do ponto de vista psicológico. Igualmente. mas para isto é preciso não só conhecer os antecedentes da situação mas também o valor de todos os fatores determinantes da reação pessoal que antes estudamos. chegamos à conclusão de que sua execução representa uma conseqüência absolutamente lógica e fatal do conflito das forças e fatores que o determinaram: os mesmos mecanismos psicológicos intervêm na execução dos atos legais que na dos atos delituosos. mas a vida deste não depende tanto do curso de sua hemorragia como da modificação das profundas e invisíveis lesões que a prepararam e deram origem.e sobretudo na aplicação da mesma . por exemplo. a encontrar o valor das incógnitas na equação responsável pela conduta pessoal ante a situação delituosa. o delito é um episódio incidental.. Não é possível julgar um delito sem compreendê-lo. De outra parte. Para o psicólogo. Delitos aparentemente iguais e determinados pelas mesmas circunstâncias externas podem. por exemplo. jurídica e pedagógica se se quiser conseguir um efeito verdadeiramente útil da ação penal. no entanto. se produz uma complicação ou aparece um sintoma agudo e teatral.74 com que o psicólogo atual conceba esta questão de um ponto de vista essencialmente biológico. Neste ponto estão de acordo todos os penalistas modernos e por isso procuram implantar a teoria psicogógica da ação penal. na maioria dos casos. via de regra. como dissemos antes. o que constitui o motivo da atuação jurídica não representa mais do que um episódio nem sempre significante . social.devem colaborar os técnicos da psicologia anormal. por conseguinte. ser julgados e condenados de um modo absolutamente diferente. a família agita-se e trata de aplicar soluções heróicas ante a gravidade do acontecimento: "tudo para salvar o doente".

deliberação. Escolhendo o tipo comum de transgressão legal.intenção propósito ou delito "potencial". ou como "prospecção condicional": seria capaz de. isto é: prolongado) . não é para o psicólogo. cujos momentos iniciais remontam às vezes até várias décadas no passado individual. Colocando-as seriadamente.75 fundamental do jurista: diante de qualquer ato contra a lei. 49.vaga sugestão ou intuição do fim possível e a realização ativa do mesmo. nas ações forenses.. pode-se dizer que nunca é totalmente impulsiva nem totalmente premeditada. e sim percorre ao longo das restantes correntes de conduta. i) o modo de percepção da situação por parte do delinqüente. Na primeira fase surge. f) a constelação. tais fases são: intelecção ou "gnósia" . e) a experiência anterior. só agora podemos começar a entrever quão complicado problema é o de julgar. O indivíduo a percebe como simples sugestão condicional: e se não fizesse?. já está presente e por fim se põe em marcha o processo delitógeno. isto é.. ou como "tentação": que bom seria se.. do ponto de vista psicológico-legal.realização ou execução. b) o temperamento. o ato delituoso. proibido mas exeqüível. FASES INTRAPSÍQUICAS DA AÇÃO DELITUOSA O que para o jurista representa todo seu material de estudo. comportar-se de um modo distinto (positivo ou negativo. g) a situação externa desencadeante. portanto. em cada caso. .decisão . formando o que denominamos "complexos determinantes" da ação ou ações delituosas. na maioria dos casos. Tenha-se em conta que estes nove fatores podem. Todo delito passa. imbricada com elas e. às vezes com precisão.. por diversos estádios intrapsíquicos que podem ser ou não conscientes.desejo ou tendência . como já indicamos. determinar o papel que desempenhou em sua execução: a) a constituição corporal. h) o tipo médio da reação coletiva aplicável à situação.. pois.. favorecendo ou impedindo) e somar-se ou contrapor-se. Tanto num como noutro caso o pensamento da finalidade ou objetivo. E só agora podemos ter uma idéia de quão deficientemente se procede ainda. às vezes difusamente. a "idéia" delitógena.!. ou seja. ou dúvida (luta de motivos . a conduta humana. mais do que a fase explícita em que culmina e se descarrega um processo psíquico de gradativa carga delituosa. d) o caráter. c) a inteligência. passando pelas mesmas fases que vão desde a simples "gnósia" .

isto é. o impulso (desiderativo) ou o temor (frenador). de seu êxito ou fracasso dependem. ou seja. por uma determinada constelação de sinais situativos que desencadeiam a energia . Eqüivale ao parto. a "acaricia". que forneça uma derivação (sublimação) de sua tendência ou uma providencial reativação de suas tendências piedosas podem fazer abortar nesta fase a psicogênese do delito. 50. Nesta busca o indivíduo pode sacrificar o resultado à impunidade ou vice-versa. na qual o indivíduo se transforma em delinqüente em potencial por ter o propósito: "vou fazer". começa a condensar-se a' "intenção" delitógena (que. Fixar este propósito eqüivale a pensar. por haver carregado o revólver de sua agressividade. quando. em termos obstétricos. pois constitui o limite ou fronteira entre o pré-delito e o delito propriamente dito. ainda. tanto para o psicólogo como para o juiz. já é "pecado"). Um passo mais e surgirá a quarta fase. O indivíduo começa a "gostar" da idéia ou. são muitos os casos em que. em escolher o momento." A partir daí o indivíduo dicotomiza (divide) seu pensamento e oscila entre o "desejo" e o "temor". em período de libertação e execução) é do máximo interesse. segundo os teólogos. aproximandose. uma vez formulado o propósito e resolvida a dúvida. isto é. devido à perfeita correlação recíproca existente entre cada conteúdo significativo e seu oposto neste caso exagerado pelo maior hábito da reação correspondente ao oposto (exceto nos delinqüentes "habituais". agora. como se diz vulgarmente. em tendência).já previamente armazenada . as probabilidades de vida do produto elaborado. o indivíduo sente-se de tal modo aliviado em sua angústia que se dá por satisfeito por ter "tomado a postura ou atitude potencial". a ajuda exterior. distrai-se e abstrai-se de suas obrigações. Se não se produz essa detenção. sem que nunca saiam dele as balas. Apenas um súbito exagero do medo. pois para isso falta o último passo intrapsíquico: a decisão. tanto como da gravidez. come pior.necessária para . conforme predominem nele. do sofrimento ligado à dúvida e entrando na denominada deliberação de conflito. No entanto. isto é. recidivantes (recaída) e quase incorrigíveis) surge imediatamente a: Terceira fase: esta apresenta-se ab initio com caracteres de antítese: "não deves ou não podes.76 Na fase seguinte esse conteúdo gnóstico se "anima" e adquire força e clareza: a tentação cresce e converte-se em "desejo" (objetivamente. lugar e meios que melhor assegurem o êxito da ação. aproxima-se o momento em que já não lhe será possível subtrair-se à influência que o está convertendo em delinqüente. Poderia parecer a um observador superficial que esse passo estará somente condicionado pela "oportunidade". em suma. ou não queres ou não te convém fazer isso. Todo seu funcionamento pessoal altera-se: dorme mal. fatalmente. onde e como se vai realizar o ato delituoso. AS "FRONTEIRAS" PSICOLÓGICA E JUDICIÁRIA DO DELITO. importa consignar que este planejamento ou preparação nem sempre é consciente e se realiza "a frigore". Mas. A passagem do propósito (ação potencial-retardada) à decisão (ação em marcha.

Se o incipiente autor chega a compreendê-lo assim..de que os direitos dos criminosos serão tanto mais levados em conta quanto maior for a violência e a obcecação com que recorreram às últimas fases de seu processo delitógeno . muitos os denominados indutores de delitos que conseguem esquivar-se da sanção penal porque exercem sua influência de modo suficientemente solapado de forma a não se poder provar a relação de causa e efeito entre ela e o ato punível quase sempre praticado por um agente de melhor formação pessoal que a deles. em última instância.77 a realização do ato infrator. deve-se evacuá-lo.tanto das boas como das más ações . muitas vezes. também. a ulteriores complicações. sem se atrever a sair em cena. por exemplo. mas quando se trata de descobrir seu propósito e expô-lo perante o mundo .para o psicólogo . como diz o velho adágio. todo o conjunto das tendências antitéticas que havia sido reprimido (mas não suprimido) no final da fase deliberativa. onde há um propósito (mau) deve-se descarregá-lo na ação.aparentemente absurdo . nessa mesma "explosividade" evidencia-se a impossibilidade de mantê-lo freado e preso pela censura ética do indivíduo. verificará perfeitamente que . mostrar-se menos repreensível e censurável o indivíduo que chega a executar seu propósito delitógeno do que o que dá para trás no momento culminante de efetuá-lo (o chamado "delito profilático"). Outro motivo que pode levar o indivíduo a estancar na fase prépositiva . com que resolução inicia sua marcha para o trampolim um nadador novato aparentemente decidido a mergulhar de cabeça . se reativa. Dizem os cirurgiões: "Ubi pus. É claro que tal critério não pode ser mantido ou defendido no terreno puramente ético. por via associativa. pois sua simples repressão conduz.. às vezes.pode. Isto porque este último demonstra. assim ocorre com muitos delinqüentes em potencial que nunca chegam a ser atuais.onde há pus. São com efeito. ibi evacuat" . .pois. E por quê? Porque. Com isso entramos em um dos problemas de maior vigor e dificuldade que hoje suscita o Direito Criminal: o problema . optará pela permanência com seu traje por trás dos bastidores. Quem viu. além de à dissimulação e à hipocrisia.é que. ser mais egoísta que aquele: ambos decidiram "friamente" ser maus.e observa de que maneira amortece a velocidade de sua marcha à medida que chega à ponta do trampolim. por dar meia volta. é fácil terminar por decidir-se a favor da consecução do prazer mais imediato.que lhe será hostil do começo ao fim .o do juiz que somente faz cair o peso de sua sanção sobre os atos de infração. inibição ou negligência". que são os mais freqüentes. e outras vezes. deixar-se cair de pé (e tapando o nariz). qualquer desses fracassos acarreta maior sofrimento do que se propunha evitar cometendo o delito. total ou parcialmente tentados ou consumados.então. ao surgir a ocasião de converter seu propósito em realidade. mas tampouco o pode ser. "do dizer ao fazer há grande distância": enquanto o indivíduo se opõe a si mesmo. Isto é somente válido para os denominados "delitos por omissão. mas um se atreve a enfrentar as conseqüências e o outro não. em evitar a sanção. Com efeito. mas não o é para os demais. até terminar. não pode ao menos considerar o duplo perigo que o ameaça: falha do êxito da execução e falha. por menos previsor que seja seu intelecto.

. e os da lei bio-social (que ainda apresenta aspectos não desvendados pelo exame psico-experimental).. OS MOTIVOS DE DELITO.os mais repulsivos do ponto de vista psicológico. Exatamente como o médico imobiliza e anestesia o doente que vai operar. Ao passo que quem faz derramar o sangue é julgado como criminoso. cada vez mais iluminado pelo progresso da Psicologia. Cada vez se compreende melhor que os piores delitos . visto que procura satisfazer . da Pedagogia e da Sociologia. O indivíduo. 51. "austera firmeza de caráter e rígida submissão às normas do dever".78 Por isso. ou sejam. Entre ferir com um tiro o corpo . todos os experimentadores coincidem em afumar que a imensa maioria dos delinqüentes sofre de perturbações afetivas . os que mutilam ou destroem as ilusões e as fontes de prazer anímicas. DELITOS NÃO QUALIFICADOS Cada vez mais se afasta dos critérios rotineiros o conceito psicológico dos atos delituosos . CAPÍTULO VII MOTIVAÇÕES E TIPOS DE DELITOS 52.. Do que foi dito até agora já se depreende que a psicologia do delito é antes de tudo uma psicologia da afetividade e da conação (tendência consciente para atuar). Se estas existem é preciso imobilizar o delinqüente o tempo necessário para fazer-lhe o bem de evitar sua recaída. leva sua vítima ao suicídio ou ao sacrifício pode ser louvado por sua. mas a distância desse abismo tem sinais contrários em ambas. em muitos casos. contém em si todas as tendências delituosas. Por isso confiamos em uma contínua diminuição das duas grandes variedades de infratores: os da lei político-social. isso não será justificado tanto no sentido expiatório como no preventivo de maiores males.que ficará curado em poucas semanas . neste século. Mas se se aceitar este critério deve-se convir que a reclusão não será determinada tanto pela gravidade da infração como pelas probabilidades de uma imediata reincidência. à medida que avança a compreensão da psicogênese do delito. De fato.quantitativas ou qualitativas.. Essa compaixão: .conduz o juiz não tanto à sanção punitiva como à ajuda corretiva e. em nome da "defesa social".às vezes igual à sentida para com a vítima (seja esta uma pessoa. se for necessário. o primitivo ódio contra o delinqüente atual se transforma em compaixão para com ele. uma instituição ou um conceito) . Felizmente o mundo caminha. quem.e ferir de morte (com uma imprudente palavra) uma alma feliz (que nunca mais o será) existe um abismo de responsabilidade psico-ética como existe também na qualificação judiciária. ao nascer. privar de sua liberdade o autor do delito. às vezes.tanto em seu aspecto individual como coletivo. não estão qualificados como tais no Código Penal. já codificada.

Não Cumprimento Do dever. sua casa etc. Aprende então que deverá repartir sua comida.. calúnia.Trapaça. magarefe (?) etc... que deverá respeitar os bens dos demais.. de atuação dirigida para a vida política. a tendência ao roubo se canalizará. por meio do exercício de uma profissão em que seja permitido tomar o alheio sem perigo (agentes fiscais (?).. artística. Sedução. Morte. crime. Pois bem. ser estabelecida (do mesmo modo como se faz na luta contra as enfermidades ou desvios da saúde) no terreno da previsão (higiene mental) mais do que no terreno da correção (psicagogia. atentados verbais ao pudor. como um rio que transbordou. Agressão. galanteio. Se a sublimação se acentua ainda mais. por exemplo. por exemplo. com seus irmãos. como é natural. com efeito.. polícia (?)... todo indivíduo no qual tal aprendizagem foi insuficiente por qualquer das causas que depois analisaremos. violação e abandono de obrigações). a técnica de ensinamento.).).. que deverá tolerar em seu contradito e que seus desejos têm que ajustar-se a certas normas impostas pela sociedade para poderem ser satisfeitos sem entrar em conflito com ela. neste caso o delito terá lugar fatalmente quando a energia da tendência à ação transborde os limites compatíveis com sua satisfação ou descarga social. critica.. Somente a lenta e penosa ação coercitiva da educação o irá ensinando que sua conduta resultará sempre de um compromisso.. e assim sucessivamente. uma vez nele. A interposição do elemento intelectual entre o sentimento e a ação dá lugar ao processo denominado sublimação. está destinado à delinqüência. científica ou religiosa. de uma transação entre a satisfação de suas necessidades e as dos demais.. Esta aprendizagem depende. de atuação profissional que implique em uma liberdade tolerada de impulsos destruidores (executor da justiça. Evocação mágica dos mortos). negligência em seu cumprimento. de vários fatores: o meio em que se realiza. apropriação indébita de bens.. insídia. em virtude do qual estes motivos. veremos como as tendências delituosas se confundem então com traços caracterológicos tolerados pelas leis. Violação. A luta contra a delinqüência deve. da ação delituosa e. a capacidade discriminativa do indivíduo.. o indivíduo entrará no campo da ação anti-social. para não citar senão alguns.. social. a força ou intensidade de seus instintos etc. Omissão total ou parcial de obrigações. Assim. . em vez de dar origem ao delito direto que em potência representam (roubo.. então..79 suas necessidades vitais sem ter em conta absolutamente o prejuízo que isso possa ocasionar ao meio que o rodeia. insulto. furto. – entre os gregos cerimônia religiosa de invocação das almas dos mortos. plágio. será difícil voltar ao seu leito. seus brinquedos. empregados de agências executivas (?) etc. a tendência agressiva se dilui sob a forma de ironia. isto é.. falta de cooperação (acobertamento).. dão origem a outros delitos que poderíamos denominar derivados. cirurgião (?). E assim anotamos esta sucessiva diluição do impulso delituoso no seguinte quadro: Roubo.

Tais tipos são psicologicamente compreensíveis pelo estudo de suas respectivas motivações. teremos ocasião de tratar deste com a devida extensão. difundidas e até declaradas oficialmente obrigatórias em poderosos setores do chamado Velho Continente. exaltadas. nos denominados delitos por adultério. Igualmente pertencem às motivações exógenas as denominadas "cláusulas de honra". para depois abandoná-Io à sua sorte e assistir. Tal ocorre. pela mudança do tipo e da gravidade dos atos enquadrados como delitos nos Códigos jurídicos dos países soi-disant civilizados. como prescindindo absolutamente de seu conteúdo específico. mas.isto é. hoje . introduz algumas motivações que poderíamos denominar exógenas. isto é. para dominar aquelas. nos quais o "clamor" público reclama que o enganado "lave com o sangue a mancha feita à sua honra". indiferente. por exemplo. 53 MOTIVAÇÕES "EXÓGENAS" (PARA DELITO) FORA DE Embora seja certo que a causa ab initio das infrações morais e legais se radica na própria natureza do ser humano. no 5° ano da Guerra Mundial . Porém. em nosso mundo civilizado. Exemplos destes tipos de delito encontramos. Do mesmo modo estão incluídas nesta categoria várias motivações que poderíamos denominar "altruístas". segundo as épocas e lugares. em troca. de fora. ao nos ocuparmos dos diversos tipos psicológicos dos delitos. por exemplo. como se esta honra pudesse ser afetada pela falta de conduta alheia! Combinando as influências endógenas e exógenos chega-se a poder isolar diversos tipos de delito. a seu castigo penal. alheias ao ser individual e atuando sobre ele. Finalmente. capaz de fazer pressão sobre o indivíduo para que se converta em delinqüente. nos praticados por alguns "vingadores" que acreditam ter sido chamados a agir como braços justiceiros. também o é que a organização social. é preciso contar como força delitógena exógena a da chamada "opinião pública". as segundas.é delito em muitos países sul-americanos ter ou propagar certas ideologias políticas que são. com o fim de obter um beneficio para um terceiro (pessoal ou ideal). em virtude das quais todos nós delinqüiríamos se não fosse porque a educação e as sanções penais nos criam um freio interno. nos cometidos por guerrilheiros quintacolunistas e espiões. deve-se buscar a origem de todos os delitos na natureza profundamente antisocial (egoísta) das tendências congênitas do homem. Estas motivações são as responsáveis. que impelem o indivíduo ao delito. por exemplo. antes de passar a descrevê-los. que levam não poucos cidadãos a infringir abertamente a moral do sentido comum. vale a pena eliminar um dos que com maior insistência foram objeto de discussão entre os peritos criminalistas: refiro-me ao denominado delito "por sugestão". tornam-se aparentemente absurdos se julgados pelo objetivo diretamente visado. Mais adiante.80 Em síntese. Assim. em troca. reparando desaguisados alheios etc. . a primeira e externo. isto é.

podemos prever que toda idéia ou conteúdo conceptual que se relacione diretamente com elas (no sentido de favorecê-las) será capaz de colocar o indivíduo no denominado "estado sugestivo". com os sinais máximos da masculinidade. com efeito. De uma parte temos. Segundo este.. Isto nos faz compreender que quanto mais inteligente e menos emocionável for uma pessoa. de sorte que se engendra uma falsa persuasão no ânimo do futuro delinqüente. ao passo que aquelas tendem à ação imediata. o estado emocional resultante da reativação da tendência reprodutora ou sexual (de conservação da espécie). nossa cólera ou nosso amor. tanto mais difícil será sugestioná-la. o hipnotizador que poderíamos denominar "clássico". E. isto é. Assim se compreende por que o estado hipnótico . só por esse fato. assim é o medo. por outro lado. induzir e sugestionar. Que dedução se pode obter de tudo isso? Simplesmente que a palavra sugestão é um nome que não designa nenhum fato novo nem misterioso e. Pois bem: se quisermos compreender o critério psicológico acerca do "delito sugerido". do ponto de vista psicológico. pois com isso se evitariam múltiplos erros e confusões. conservando-se normais todas as demais funções psíquicas da mesma. olhar terrível. seria mais conveniente suprimi-Ia. ao mesmo tempo que cochicha suavemente em seu ouvido palavras que lhe antecipam o prazer que experimentará ao dormir (?) e ficar submersa em êxtase. por conseguinte. Se consideramos agora que as duas tendências mais básicas da personalidade são as de conservar sua própria vida e a vida da espécie.é conseguido. Avancemos um passo mais e digamos que de modo automático todas as idéias que coincidem com a satisfação de uma tendência instintiva têm. OU DELITO INDUZIDO. pelos experimentadores que o provocam. e nossa sugestibilidade aumenta na mesma proporção que aumentam nosso medo. m é: são as duas melhores armas de que pode se valer qualquer um para conseguir a inibição da capacidade de crítica em uma pessoa. No primeiro caso se juntam à sugestão outros fatores e entre eles a racionalização dos motivos. DISCUSSÃO DO DENOMINADO " DELITO POR SUGESTÃO ".. que trabalha numa câmara escura e ordena com gesto imperativo. Mas. Nós todos nos mostramos sugestionáveis diante do que tememos. voz grossa. Antes de tudo é preciso distinguir bem os termos: não é o mesmo. De outra temos o sugestionador moderno: elegante. acaricia a fronte da histérica e todo seu corpo com "passes". sabemos que esta capacidade de crítica se acha em razão inversa do grau de afetividade e em razão direta do grau de inteligência. homem de imponente aspecto. sorridente. por meio da associação de processos que tendem a determinar no indivíduo tais emoções. a cólera e o amor. será necessário fixar antes o conceito moderno da sugestão. Julgamos necessário dedicar um parágrafo à parte a esta questão: por ser na atualidade ainda freqüentemente debatida na prática forense e por suscitar discussões tão acaloradas como estéreis.81 54. do que odiamos ou do que amamos. uma vez que estas por si são inertes. uma "força sugestiva" muito maior que as denominadas idéias neutras. o estado sugestivo não é senão o resultado da supressão da capacidade de crítica da pessoa. .grau máximo do estado sugestivo . com efeito.

é como este um efeito dependente da afetividade do indivíduo. e que dispõe de considerável quantidade de energia latente. toda idéia tende à ação. representa empregar um argumento para afastar sua responsabilidade. por se achar apoiada por (ou ser a expressão de) uma tendência instintiva de reação (tendência agressiva ou de domínio. Nesta fase de deliberação intervêm. O caminho a percorrer entre o pensamento e o ato acha-se normalmente representado pelo processo deliberativo que conduz à crença e desta à decisão. mais do que causa do delito. tendência defensiva ou de fuga. O natural seria expor por que e como chegou a germinar nele a crença de que tinha que realizar o ato. mas de uma idéia dotada de grande carga afetiva. pois. Quando um indivíduo acredita que tem que roubar. estas são as menos freqüentes. não se pode dizer que seu valor como elemento que exime de responsabilidade é o mesmo que se deduz da análise psicológica de suas crenças relativas à situação de delito. mas a recíproca não é verdadeira. pela simples razão de que uma crença não é mais do que a antecipação do ato. correspondentes às três classes de delitos mais comuns). Dizer. Com efeito. Toda sugestão pressupõe uma crença artificialmente engendrada. não de uma misteriosa sugestão. isto é. Nossa missão imediata seria neste caso explicar por que se reativara nele esta tendência com tal energia e neste momento já nos encontraríamos ante o problema de determinar a intervenção que os nove fatores já descritos (como responsáveis pela ação pessoal) tiveram no caso que nos ocupa. mais rapidamente terá lugar o aniquilamento da função de crítica. uma crença não é mais do que uma idéia que passou pelo crivo do juízo crítico ou o evitou. Agora podemos deduzir a conclusão interessante para o jurista: se a sugestão. Quanto maior a força dessas tendências. e do outro. disposta a converter-se em ação ante a presença do estímulo desencadeante. apesar de sua consciência moral e seu juízo crítico se oporem a isso. mas de modo algum constitui uma explicação. De acordo com isto pode-se desde já afirmar que toda a psicologia da sugestão fica reduzida ao estudo da influência que o estado emocional exerce sobre a capacidade de percepção crítica . mata. o juízo crítico. as tendências de reação. E se tais tendências pertencem a um instinto (mecanismo congênito de reação). isto é. porque estava sugestionado. pois. determinado pela cólera ou pelo medo) que paralisa ou inibe os processos de discriminação e crítica. em síntese. ou negativo. rouba. tendência reprodutiva ou de posse sexual. e quando acredita que matará.processo catatímico. isto é. Infelizmente.82 Todos os fenômenos que se quiseram explicar por meio da sugestão (e do hipnotismo) encontram sua racional explicação na existência do transfert afetivo (positivo. desprovido de tonalidade afetiva. Digamos. o primeiro formulando objeções (resistências) e as segundas vencendo-as. pois há crenças que resultam de um processo deliberativo frio. a fase . e por isso só se origina quando a tendência afetiva venceu todas as resistências e inibições. Então seguramente descobriríamos que “A” se achava sob a influência. que o indivíduo “A” cometeu o ato sem pensar. de um lado. determinado pelo amor. como tão freqüentemente ocorre.

os delitos de motivação endógena podem ser devidos a: 1°. ou a da espécie. Conforme for. Empregando uma linguagem neurológica poderíamos dizer: sempre que. delitos contra objetos. ou seja. fornecendo ao indivíduo estímulos capazes de despertar a máxima atividade de seus mecanismos instintivos de reação. "violação") sua origem endógena aparecerá de um modo mais ou menos claro.e levar muitos indivíduos. violência excessiva dos mecanismos instintivo-emocionais primitivos. delitos contra a integridade psíquica pessoal. o delito adquire caracteres de impulsividade transbordante e avassaladora. debilidade excessiva dos mecanismos inibidores que asseguram a condicionalização reflexa negativa daqueles. a suas duas tendências básicas. agora.83 deliberativa pode ser suprimida sob sua pressão. achando-se o indivíduo em condições normais de funcionamento psíquico. ira. no terceiro não existe consciência de culpa. Já sabemos que a primitiva violência dos dispositivos de reação emocional primária (medo. atração amorosa de posse) pode tomar ineficaz. todo intento de classificação por forma ou conteúdo. e nos ativermos à sua pura motivação psicológica. MOTIVAÇÓES “ENDÓGENAS” DE DELITO Estas correspondem aos fatores congênitos da delinqüência que foram exaltados pela escola lombrosiana. Mas. ligados. no qual a impulsão foi provocada do exterior. conservar sua vida. e nesse caso a idéia conduz diretamente à ação ou à crença (ação latente). à delinqüência em seus grandes campos: delitos contra a integridade física pessoal. o indivíduo perde sua capacidade de crítica. "exógenos" ou extrínsecas à tendência delituosa que aparece aqui como propriamente autóctone e auto-suficiente. Um delito sugerido não é mais do que um delito vulgar. a posteriori. 2°. a tarefa inibidora ou "inducativa" de repressão. derivação ou sublimação social. conceitos e valores. o tipo de ato delituoso ("roubo". como dissemos. responde de um modo instintivo a suas necessidades e se comporta de um modo automático (sugestão). por sua vez. Um exemplo manifesto deste mecanismo temos nos freqüentes delitos cometidos pelas pessoas que sofreram de encefalite epidêmica. se substituem os centros cinzentos corticais pelos centros cinzentos subcorticais (talâmicos) na direção de sua conduta. de tal sorte que o ambiente só lhe oferece o . 3°. originando-se o fenômeno denominado impulsão. o segundo afirma "Tornaria a fazê-lo o terceiro pergunta: "Por que está mal o que fiz?" Mas é comum aos três a ausência de argumentos e considerações alheias a si mesmo. de uma misteriosa sugestão no segundo caso? 55. Que diferença faz ser uma infecção ou uma influência pessoal a que inibe a atividade discriminativa da córtice se o resultado é idêntico? Por que falar. se deixarmos de lado. periodicamente. por meio da reprodução (satisfação sexual). então. "crime". coincidência de ambos os fatores. no segundo observa-se uma total identificação do indivíduo com sua tendência delitógena. O primeiro tipo de delinqüente diz. "Não pude evitá-lo". por meio de agressão (cólera) ou a defesa (medo). No primeiro caso.

outra. umas com motivação plenamente consciente e outras com motivação sub inconsciente. para compreender esta atitude. Do ponto de vista psicanalítico. Outras vezes. que infringe a lei. Vejamos algumas das mais ilustrativas: 1º DELITO EUTANÁSICO. lembrar que no fundo de toda paixão amorosa pulsa um componente sádico-masoquista. que continua obstinadamente classificando-os por suas conseqüências.como no aborto terapêutico . a) Delito Profilático. De um ponto de vista médico. As características mais peculiares deste tipo de delito são: a) a ausência de remorso. mas acha-se convencido de que com isso evita um mal maior que. apesar do que são muito pouco tidos em conta na prática forense corrente. é que pela sua prática não recebe uma direta utilidade. do outro modo. clara inteligência e ampla cultura. ainda em ocasiões. DE MOTIVAÇÓES DE DIREITO Vamos estudar alguns tipos delitógenos. nos quais não cabe supor vida psíquica nem possibilidade de melhora. ao cometê-lo. sobretudo se quem se beneficia do delito é uma pessoa querida por ele. com morte próxima e grande sofrimento) é . ALGUNS TIPOS "MISTOS". sentimento de culpa. POUCO CONHECIDOS. uma legislação que até agora é inexistente no ambiente latino americano.embora seja praticado a pedido da vítima e por meios não cruentos . c) plena aceitação da responsabilidade do ato. como também de que pratica um bem. Uma característica deste tipo de delito é a de que o indivíduo não evita sua confissão.É o mais conhecido em Jurisprudência e o mais debatido em seu aspecto penal. em troca. o que é mais importante. em vez de compreendê-los e tratá-los por sua significação psicológica. a eutanásia somente pode ser defendida nos casos de monstruosidade com idiotia. mas a enfrenta convencido de que com ela evita outra maior. Em algumas ocasiões o autor deste delito chega a convencer-se não só de que evita um mal.uma libertação de impulsos agressivos (reprimidos) contra ela. b) possibilidade de ser praticado por pessoas de fina sensibilidade.o consentimento de vários facultativos e. 56. cujo exagero ou libertação tanto pode levar ao suicídio como ao homicídio. .84 pretexto e a ocasião para satisfazer-se. . mas imutabilidade da atitude íntima do indivíduo perante o acontecimento. nos quais se imbricam as motivações endógenas e exógenas de modo particularmente interessante para o jurista. o delinqüente se convence de sua punibilidade.Assim se chama o delito cujo autor sabe. Isto é fácil. passividade na defesa e no cumprimento da sanção. São diversas as variedades que podem ser descritas neste tipo. . É preciso. mas para isso se requer . seria irremediável. apesar de existir consciência do dano e. o suposto "homicídio por piedade" (doença incurável.

deste tipo de delito nos dá o uso dos chamados "reféns" de guerra. pode ser considerado como profilático no sentido de permitir descarregar o potencial destruidor sem ocasionar dano irreparável ao ser odiado). Um dos casos mais freqüentes é o observado entre irmãos. CHANTAGEM INVERTIDA. que conhecem suas recíprocas falhas de conduta e tacitamente as mantêm secretas.. 4º. mas convertem-se então em infratores anuais da legalidade que desejam preservar. mas logo que um deles infringe o silêncio. mas mesmo assim. companheiros de trabalho etc. se não fosse às vezes praticada tardiamente . o que primeiro "faz público" o processo costuma ser considerado como o maior ou único culpável.. dado o encadeamento da contra-chantagem. e outras para evitar abuso. nos quais domina o pensamento mágico. AGRESSÃO PREVENTIVA. às vezes um dito é mais nocivo que um fato). originado pelo processo denominado de "deslocamento".dá-se também.de outra coação anterior e maior. . . dizendo que a discussão não suscita sob o ponto de vista “sub specie júris”. Claramente se compreende que. mas em vez de praticar essa agressão "física" limita-se à ameaça (agressiva) ou de prejudicar seus interesses ou agredir algum bem que é apreciado por seu inimigo. Uma forma. o indivíduo sente acumular o ódio contra alguém e passa por sua mente a idéia de "eliminá-lo". então eu.. afinal de contas. exclusivamente.Acusar alguém de um delito que não cometeu. o que agora não nos interessa. quando o denunciante julgar conveniente. devendo ser tratada. em que um vizinho envenena algum animal doméstico pertencente a quem.retardar a ocasião de praticar o delito.O indivíduo é coagido por outro. É freqüentíssimo nos povos selvagens. o outro usa seu segredo . mas . como um tema próprio dos estudos relativos à morbidez ou inferiorização do psiquismo. . . e sim através de uma complexa relação associativo-simbólica.iminente de outro. Nessas condições. FALSA DENÚNCIA.Até certo ponto poderia ser considerado como uma variante de delito profilático. 3º. "se. verdadeiramente repugnante.ou ameaça usar . mas não se troca a postura mental de quem o projetou. Este tipo de delito. a denúncia deverá ter preparado um álibi capaz de anulá-la." (pouco importa que sejam os verbos "dizer" ou "fazer" os que entrem em jogo nesta frase. para assim salvá-lo de comissão . O que toma típico este delito é que quem sofre suas conseqüências não está diretamente relacionado com o delinqüente. desejaria ver morto. Delito Simbólico. . em realidade. (Tal é o caso.Neste caso.. 2º. é um ato que muitas vezes foi praticado por parentes ou amigos do potencial delinqüente. porque.por estranho paradoxo .algumas vezes como vingança. usa . para evitar esta ação. pois. deve atribuir-se periculosidade e punibilidade a seu autor. de freqüente observação nas povoações. com fins utilitários e. para esses casos.85 OBS. b. quase sempre com isso só se consegue no melhor dos casos .: Importante a opinião de Nelson Hungria que mostra radicalmente contrário a eutanásia.. mas em realidade não deveria ser assim.como liquidação de anteriores atos puníveis.

passa grande parte de seu tempo no quarto da sogra. cobrindo as aparências legais de uma submissão a ele. ao ficar grávida. Esse é o mecanismo mental tipicamente operante também nos casos individuais. "Uma recémcasada. cultos e intelectuais. apresenta um feio capricho: só se alimenta de frutas cruas e deixa cair os caroços e as cascas de preferência nos vasos que a sogra cultiva com especial esmero. por sua curteza de espírito e falta de valor.além de sua autoridade comum fez com que no subconsciente surgisse a tendência. se.além do mais . então. Neste caso o simbolismo da ação é tão claro que não necessita de explicação. esta "assassina simbolicamente" sua sogra ao matar o ser que lhe resta (depois de lhe haver tirado o filho). Nos tempos de ditadura. Nessas condições. à rua". obrigada a viver com sua sogra. filho de um homem de negócios. Para isso se valem do recurso de criar histórias ou alegorias. impulsiva. também na gaiola do canário desta alguns caroços de uva e o bichinho. são muitas as mentes de publicistas opostas ao regime dominante que conseguem escrever e agredir tal regime. para preparar a roupinha do neném com a máquina de costura que existe no referido quarto. a quem está dirigida a intenção delituosa. o curioso é que se entretém em mordê-los e a jogá-los. um ato aparentemente absurdo e afastado de sua primitiva intenção. A desculpa ou motivação aparente de tal conduta é a de que não tolera outros alimentos e. por outro lado. mas não o suprime por completo e verifica. Uma rápida investigação psicanalítica põe de manifesto o seguinte: este menino. opressão e terror político. Mas. juntamente com sua relativa hipertrofia das funções intelectuais. nos quais o indivíduo consegue inibir o impulso delitógeno direto. em indivíduos civilizados. o fato de o professor ter por acaso o rosto parecido com o do pai . ao qual . Trata-se de um rapazinho que tem recursos e não precisa para nada desses lápis. . o que é pior. Ele admirava e temia seu pai. livrando-se assim da coação que sobre ele mesmo exercia. de praticar o delito simbólico: roubar e destroçar os lápis do professor simboliza o prazer de deixar e destruir o órgão viril do pai. não se produziu uma correspondente inibição das pulsões instintivas. "Um empregado que se considera injustamente despedido por seu patrão aguarda pacientemente uma noite de neblina para passar sobre a fachada da casa deste várias pinceladas de piche".86 ocasionalmente. fora por este duramente reprimido em várias ocasiões. nas quais há apenas uma "correspondência simbólica" entre os protagonistas da ficção e os personagens realmente odiados. uma ligeira observação do caso nos assinala que essa conduta na realidade significa um duplo delito simbólico: os vasos da sogra são usados para receber as sobras (dejeções simbólicas) da nora e. engasga-se e fica sufocado". porém também o odiava intensamente: considerava que nada podia fazer diretamente para livrar-se de sua enorme pressão. ao engoli-los junto com o farelo. em pedacinhos. Um belo dia caem. Vejamos alguns exemplos de nossa casuística que esclarecem este interessante tipo de transgressão: "Um adolescente de 13 anos tira freqüentemente os lápis que guarda em sua gaveta o professor de sua classe.está ligado aparentemente por um bom afeto.

de crescente intensidade. recorrem então às puníveis: apoderam-se de dinheiro. submissos. cair em prantos ou sofrer uma "crise de nervos". ao reformar seu plano de vida. dizer que "não sabem o que se passou com eles" e aceitar. para ''tomar a justiça em suas mãos". Delito Reivindicador.87 c. O indivíduo que comete um desses delitos nunca afirma que o fez para descarregar um ódio vingativo. Prova de que o indivíduo. sentem crescer em seu psiquismo um mal-estar. a sanção penal correspondente. desaparece sua reincidência.As circunstâncias em que vive uma multidão de seres humanos são tão pouco propícias para satisfaze-los que. no qual o ator delinqüe impelido pela necessidade de libertar sua "sede de vingança" ante uma (real ou suposta) afronta pessoal. . excessos sexuais e escândalo. este tipo de delito apresenta duas características essenciais que justificam para ele um lugar à parte: primeiramente. mas o certo é que constitui um "pretexto" procurado e não uma causa. mas na América do Norte são freqüentemente observáveis em ambos os sexos e em todos os níveis. uma inquietação e uma avidez (paulatinamente irresistíveis) de "sair da horrível monotonia da vida cotidiana" e proporcionar a si. que supera em muito o motivo que aparentemente a provoca. nem sequer. é típico dele que seu autor não se acha diretamente implicado no assunto do qual se erige em paladino. Incapazes de criá-las pelas vias legais. Este tipo de ação delituosa é freqüentemente achado entre os exaltados das doutrinas político-sociais extremistas e constitui a base da multidão de lamentáveis excessos nas guerras civis. como poderiam arrancar os cabelos. nesses casos. Passado esse momento e "recobrado o juízo". o prazer de uma aventura. . costuma desenvolver uma ação agressiva. o que toma o caso interessante. complicando-se com bebida. arrasta perigos muito superiores aos prazeres que pode obter. que seja motivo de vanglória e prêmio nas especiais circunstâncias de ambiente e lugar que o motivam. precisamente. E que. No Uruguai constituem a denominada "batota" quando se produz em grupos masculinos reduzidos. abrindo novas possibilidades de satisfação honesta. tampouco. em segundo lugar. com freqüência. . age para libertar sua angústia interior é o fato de que. Esta desproporção entre o estímulo e a resposta é de observação típica nos denominados "desenvolvimentos paranóides". d) Delito Libertador ou de "Aventura". os atores dessas infrações não têm outra desculpa que a de se chamarem a si mesmos de "estúpidos". de baixo nível social. não sendo raro cometer-se coletivamente e. Quase sempre afirma que agiu movido por um sentimento de "dever" ou de "generosidade social" e isto é. mesmo momentaneamente e à custa de males ulteriores. Quase sempre o álcool leva a culpa. mesmo. amiúde.A um observador superficial poderia parecer que é um caso particular do delito vingativo. e que enquanto não se conseguir modificar seu modo íntimo de encarar qualquer sanção será contraproducente. No entanto. Quase sempre essas ações têm lugar em companhia de "amigos de diversão ou farra". rompem violentamente com suas obrigações morais ou cometem qualquer disparate.

ou que foram muito censuradas por estes. não confessáveis. a ter essa "consciência de culpa" que as conduziria. mas não acarreta perigos tão graves como nesta. As pessoas que sentiram ódio intenso por um dos progenitores. as facilidades cada vez maiores que foram dadas para que qualquer pessoa medianamente inteligente consiga o título de advogado ou. sem nenhum outro proveito imaginável que o de "bater um recorde" e provar que podem. de juiz ou magistrado. Sua fórmula parece ser: "Eu sozinho contra todo o mudo". de saber. depois. Tais indivíduos delinqüem para serem castigados e terem ocasião de calmar um remorso procedente de atos anteriores. Defeitos Psicológicos do Processo Judiciário . nos primeiros anos de sua infância. de modo a lhes ser permitido libertar-se do remorso. CRÍTICA DOS DOCUMENTOS JUDICIÁRIOS 57. Hoje há tantos advogados que vivem da justiça. pois o que se confia a esses profissionais é o que de mais precioso . segundo Freud e Reik. inclusive. quantos vivem para a justiça. CAPÍTULO VIII ESTUDO PSICOLÓGICO DAS DIVERSAS FASES DO PROCESSO JUDICIÁRIO NOS FOROS CIVIL E CRIMINAL. fizeram diminuir sensivelmente as vantagens que tal especialização poderia ter comportado. . é cousa difícil. um castigo infamante. Mas. depois. inclusive. Se tal propósito obedece a essa obscura consciência de culpa ou a qualquer dos outros motivos apontados. ao desejo de "estar em foco" e chamar a atenção pública como um ser extraordinário em algo (mesmo sendo em maldade) tem na determinação da conduta dos casos que traz como exemplo de sua tese. propenderiam. não há dúvida que é de freqüente observação o caso de delinqüentes que parecem se comprazer em acumular contra si provas de perversão e de culpabilidade. por desgraça. De qualquer modo. de um delito realizado por certos indivíduos que procuram merecer a repulsa social. resistir ao opróbrio e à sanção social.88 e) Delito de Expiação (Autopunitivo). mas em todo caso o evidente é que tais indivíduos parecem mais interessados com a sucessão de acontecimentos pós-delituosos do que com o delito em si mesmo. tal crítica poderia ser feita também a outras profissões. e assim satisfazer a necessidade de expiar uma culpabilidade inconsciente. . Evidentemente. às vezes.Tratar-se-ia. inversamente.Não há dúvida de que a administração de justiça requer a existência de um pessoal técnico especializado no vasto campo do Direito. sem tomar em conta suas condições de honestidade e equanimidade caracterológica. O que Freud não esclareceu é o papel que uma propensão à "autopiedade" e ao "masoquismo" ou. a acusar-se de delitos não cometidos (como sucede no denominado delírio de auto-acusação) ou a cometer atos de violência para convencer aos demais de sua maldade e assim serem punidos.

Claro é que o advogado demandante. têm que desconfiar tanto de uns como de outros litigantes e tratar de encontrar a verdade através de duas séries de referências que contêm poucas verdades. nos quais cada representante das partes contendoras procura acumular "pontos a seu favor" para que. ao proceder assim. pois não recaindo sobre eles a total responsabilidade moral e legal do acerto ou erro das sentenças. se produzem os resultados da mesma.Estes têm origem. quando o processo alcançar a fase da "sentença". Processos Cíveis .a seu pedido . os recursos de que disponham etc.ou fiscal. Facilmente se depreende que na elaboração de tal sentença entram algumas variáveis que nada têm a ver com a substância jurídica debatida e sim com os meios econômicos das partes contendoras e com seu acerto na escolha de seus advogados. seu prestígio e habilidade profissional. do cuidado e da generosidade com que qualquer destes profissionais atua em um caso concreto. com efeito. não são devidos somente à falta de equanimidade que. e igualmente razão jurídica por parte destes. Tivemos ocasião de ler centenas de demandas judiciais do foro cível. ou seja: destacar os fatos favoráveis a seu representado e deformar. do acerto. Mas isto significa apenas que as duas partes contendoras exibem ante os ''juízes'' uma luta de poderes dialéticos e sofísticos. freqüentemente. relatados em parte ou deformadamente no que possam favorecer ao demandado. ao invés de uma colaboração de esforços lógicos e honestos para que estes juízes possam conhecer "toda a verdade e nada mais do que a verdade" das situações objeto da controvérsia. em definitivo. É certo que tais juízes dispõem de assessores próprios (peritos judiciais) que os informam . e em nenhuma só vimos fazer uma referência objetiva.aos procedimentos técnicos que estes usam para seu trabalho e ao modo como.introduz na prática.. Tais fatos são relatados in extenso somente quando favorecem ao demandante e. lograrão acumular mais ou menos pontos a favor de seus clientes.sobre os dados contraditórios ou em litígio. como se sabe. quais as críticas que desse ponto de vista podem ser dirigidas aos denominados: 58. em muitos casos. neutra e completa dos fatos que as motivam.talvez em maior proporção . o faz na suposição de que o advogado do demandado replicará usando a tática inversa. muitos exageros e alguns falseamentos. omitir ou explicar de um modo torcido os que lhe são adversos. agem não poucas vezes inspirados por . em troca. por uma demanda judicial. . As conseqüências psicológicas deste erro não se fazem esperar: os juízes. seus bens e sua honra dependem. Num caso como noutro o demandado: (que pode ser o próprio Estado) tem o direito à defesa e destarte.89 o homem possui: sua vida. representando o Estado. mas também.louvável em teoria . por seu turno. Mas a intervenção destes peritos: . Os defeitos da administração de justiça considerados o prisma puramente psicológico. . em muitos casos têm os administradores. Conforme o interesse destes na causa. Vejamos. outra fonte de erro. esta seja favorável aos interesses de seu representado. são omitidos. o processo decorre em uma série de "rounds". que pode ser realizada por qualquer advogado particular representando um cliente .

por não ter tido ocasião de seguir os cursos e estudos necessários à sua augusta missão de compreender e julgar as condutas humanas. se restringem ao parecer do de maior prestigio dos peritos privados. comprovação de fatos etc. em troca. E ainda mais: é o . Por isso o Estado desempenha geralmente o papel de acusador. em ausência de demandante privado e. sem os meios e recursos que cientificamente precisariam para o fazer com êxito. uma vez que perante aqueles todos os personagens não estão interessados em proclamar o que é certo. a sorte final dos pleiteantes depender de um fator de teimosia ou de poder econômico. em função de suas múltiplas motivações. na maioria das ocasiões. ampliação de informe. pela simples razão de que todos eles seguem apenas uma "inspiração" ao invés de um sistema bem organizado e planejado de investigação e ponderação. convertendo-se destarte em um dilettante. À parte estas falhas de ''processo''. Estas. estão os derivados da insuficiente preparação dos juízes nos problemas de psicologia moderna. mesmo que este exista. não renuncia a seus direitos de fiscalizar em nome da sociedade ultrajada ou ferida . Desta sorte. pode-se dizer que os julgamentos e processos do foro civil são realizados. portanto. tanto mais necessária. vezes é dado a estes técnicos investigar por si mesmos a objetividade ou veracidade das afirmações e negações feitas nos escritos de demanda e defesa. pois poucas. . 59. o que faz. para assim economizar trabalho ou. acareação. pelo que se vêem os juízes e tribunais obrigados a realizar um gigantesco esforço de detectar e adivinhar.90 um espírito de "companheirismo" para com seus colegas mais amigos e. como verdadeiras "disputas" onde exibem sua astúcia e sua habilidade dialética personagens inteiramente alheios à situação debatida e somente interessados nela por motivos econômico-profissionais. de tal sorte que se vêem obrigados a opinar sobre perguntas e questões que constituem verdadeiros sistemas de equações logisticamente indeterminadas.Se é possível fazer-se uma crítica acerba e justa aos defeitos do processo na justiça civil.. Em suma. ganho na apelação e volta a perder no Supremo Tribunal. vemos muitos juízes empregando os mais diversos recursos e meios de interrogação. pois nesta se acham em jogo não somente a vida e interesses de seus réus. por acreditar que aquele está mais autorizado para opinar do que eles mesmos. é efetua-la no campo da justiça criminal. Assim. mas também a tranqüilidade e a segurança públicas. mas o que a cada um convém seja aceito como certo para ganhar a causa. de sorte que cada um se sente obrigado a formar independentemente um critério acerca dos mesmos. simplesmente. na imensa maioria dos países. ou viceversa. se baseiam em um insuficiente material de fatos.o desenvolvimento do processo. não é raro ver que um mesmo processo é perdido no julgamento de primeira instância. É proverbial a série de comentários teórico-especulativos com que os técnicos forenses costumam "fundamentar" suas conclusões. quando não acontece de depender puramente de influência ou de tempo. outras vezes. Processos Criminais .

decrescer. Se no foro cível estes fatos eram apresentados por profissionais que tinham. para esse fim mantém numeroso pessoal e custosos estabelecimentos. ao invés de crescer a hierarquia e a preparação intelectual dos personagens do processo judicial à medida que este se afasta dos fatos que o determinaram. mas abrangem os fatos e informações que podem ter relação com sua motivação e execução. inversamente. aqui os erros cometidos são muito mais graves. delinqüentes. sempre em nome dessa sociedade por ele representada. além do mais. Isto é. um interesse em deformá-los (em beneficio de seus representados). Tais antecedentes. Pois bem: psicologicamente deve-se postular que seria muito melhor se esses relatos fossem feitos pelos magistrados e os delitos passassem a ser julgados pelos investigadores.91 próprio Estado que se apresta. subsiste ainda a possibilidade nos delitos criminais cuja culpabilidade não foi demonstrada ao imputado (ou naqueles cuja gravidade de culpa . pois acarretam com freqüência não somente longos sofrimentos. na maioria das vezes. e fotos do ocorrido. em conjunto. é claro. de acordo com a importância de tais dados. mas infelizmente tais funcionários carecem de preparo psicológico e de elementos necessários para sua função. de antemão. registro e expressão informativa. um marco de referência para uma qualificação provisória do delito pelo juiz em cuja jurisdição dê entrada o expediente. mas sim. de todos os instrumentos e meios modernos de inscrição e gravação de expressões. Porque. Mas passemos. com uma descrição completa e verídica de tais fatos e de seus antecedentes. Esses in vestigadores. parciais ou falsos. verídicos e significativos a respeito do processo a julgar. a assegurar o cumprimento das sanções impostas. ao passo que com elementos deformados. é bem sabido que a base de todo juízo equânime é a coleta de dados suficientes. ao delito em si. uma rápida vista pelas falhas sucessivas do procedimento processual: como é sabido. inversamente. Portanto. agora. dotadas. aqui. devem elaborar um relato circunstanciado do caso em apreço. tais fatos chegam ao juiz através de um "atestado policial". deveria. de sorte que constituem. Em primeiro lugar. mas hábeis. qualquer pessoa de bom senso é capaz de ajuizá-los. como também a perda da vida de inocentes ou. como auxiliares da justiça não devem confiar na sua memória. isto é: de um informe recolhido ("in situ" e na delegacia) pelos chamados "investigadores" policiais e revisto e referendado pelo comissário responsável pelo distrito onde ocorreu o delito criminal. estes deveriam ser recolhidos por pessoas excepcionalmente peritas em sua observação. deixam impunes e em condições de continuar causando danos ao país numerosos e perversos. Vejamos rapidamente as falhas processuais nas diversas fases de qualquer processo criminal. não há quem seja capaz de ditar uma sentença justa. não se limitam. Desta forma as declarações originais de protagonistas e testemunhas (quando os acontecimentos ainda são "frescos" e não se organizou a "parada" ante a ação judicial) ficam perdidas por não terem os investigadores registrados através de gravações. no caso de ficar demonstrada a culpabilidade do réu. ainda denominados "penitenciários".

animado a levantar sua voz para uma reforma de tais hábitos. O cinema. Nenhum se sentia. ao invés de imaginados através de pesadas e insuficientes descrições verbais? É claro que nem todos os dados a julgar poderiam ser apresentados em forma de filme.é a de sua extensão excessiva: qualquer processo começa a acumular laudas e ao cabo de certo tempo se transforma em um calhamaço cuja leitura não há quem resista. a menos que lhes seja explicada em outros termos. para não se perder nesse mar de palavras. cuja redação está feita de tal modo que não pode ser bem compreendida pela maioria das pessoas. vai para a prisão. mas por que o há de fazer o Direito? Por que. Crítica dos Documentos Judiciais . significa que se o acusado tem dinheiro. Compreende-se que a religião seja obrigada a conservar sua liturgia tradicional. mas não há dúvida de que uma grande maioria deles o poderia ser. Mas. Este defeito pode ser assinalado também nos documentos redigidos pelos peritos nos laudos médicos. se trata de modo diverso o rico e o pobre? Porventura não dizem os códigos que todos os habitantes ou cidadãos são iguais perante a lei? Porventura não se compreende que o delinqüente. em diversos países e todos estão de acordo em afirmar que uma grande verborréia e graforréia tiram eficácia e prestígio às atuações de sua profissão. por exemplo. seladas e assinadas. no caso da maioria dos documentos jurídicos. não foi autorizado ainda a entrar como valioso auxiliar nas práticas judiciais.92 não atinge um certo nível). Uns metros de filmes podem ser mais valiosos para a justiça do que milhares de páginas documentais. mas não atingem a gravidade daqueles. contudo. que já penetrou em uma série de atividades científicas. já que tais laudos não estão destinados a ser lidos e objetados pelos interessados. por exemplo. Por que não se adota na prática documental judiciária o sistema de fichas. Isto em linguagem simples e chã. com evidente economia de tempo e aumento de precisão. não se substituem as enfadonhas e confusas descrições pela apresentação de curtos e demonstrativos filmes? Por que não há uma sala de projeções em cada audiência ou em cada julgamento. continua em liberdade e se não o tem. precisando . de que o juiz decrete uma prisão com fiança. em troca. Falamos particularmente com muitos profissionais do foro.esta de ordem econômica .assinalar constantemente com lápis vermelho e anotações à margem as partes essenciais.até os próprios advogados . Outra crítica . de esquemas e de organização expositiva que impera. o que acontece. vai pôr em jogo todos seus recursos (inclusive os de seus amigos e parentes) com muito maior eficácia.Já assinalamos a linguagem esotérica que costuma ser empregada nestes documentos. de investigação. de forma que possam ser "vistos e ouvidos diretamente" os dados dos fatos em litígio. nos informes comerciais e técnicos de outra ordem? É difícil fazer-se um juízo claro através de uma expressão confusa. sustentando que eram ''tradicionais''. para eximirse de sua responsabilidade criminal do que se estivesse isolado e imobilizado na célula? 60. desde quando alguém pode demonstrar que a justiça possa continuar merecendo esse nome. já focalizado pela ação judicial e mantido em liberdade. . docência e aplicação de técnica.

grau de precisão expressiva. é puramente psíquico e seu estudo experimental objetivo. O primeiro fator depende por sua vez de condições externas (meios) e internas (aptidões) de observação. Kraepelin. PSICOLOGIA DO TESTEMUNHO Eis um dos capítulos mais brilhantes da Psicologia jurídica. juntamente com a modernização estática e teórica. apesar do tempo transcorrido desde o aparecimento dos primeiros estudos de Neumann. O segundo. estudar cada um desses cinco fatores isoladamente e. c) do modo como é capaz de evocá-lo. isto é. E não obstante. muito maior que o dedicado ao resto dos problemas desta disciplina. (arte técnica de desenvolver e fortalecer a memória mediante processos artificiais auxiliares. se consiga a modernização dinâmica dos processos judiciais. bem pouco pode-se dizer que os juristas aproveitaram deles. d) do modo como quer expressá-lo. seria a memorização de dados já conhecidos). encontra-se somente influenciado por condições orgânicas do funcionamento mnêmico. O quarto. isto é. confrontar o testemunho em sua totalidade com a realidade. sem dúvida. isto é. e) do modo como pode expressá-lo. grau de fidelidade e clareza com que o indivíduo é capaz de descrever suas impressões e representações até fazer com que as demais pessoas as sintam ou compreendam como ele. . b) do modo como sua memória o consertou. pois nele intervêm poderosos mecanismos psíquicos. é talvez o mais complexo. psico-orgânico. com a verdade dos fatos testemunhados. é um dos menos estudados e talvez dos mais importantes. A Psicologia devia. o quinto. Toda percepção será sempre uma apercepção (realidade mais valor). grau de sinceridade. puramente neurofisiológico. O terceiro. em primeiro lugar.93 Esperemos que. CAPÍTULO IX PSICOLOGIA DO TESTEMUNHO 61. misto. Binet e Stern (mais de um quarto de século). Finalmente. Vejamos primeiramente o delineamento teórico do problema: O testemunho de uma pessoa sobre um acontecimento qualquer depende essencialmente de cinco fatores: a) do modo como percebeu esse acontecimento. O número de trabalhos publicados sobre ele é. depois.

o esquecimento forçado que se observa nas lembranças emocionais. dinâmico. não levando. contudo. isto é. global e como tal irredutível. A seguir adotou-se o critério qualitativo e determinou-se: a).de que maneira podia ser alterada uma percepção por outras sensações coexistentes ou anteriores (contraste e adaptação). Começou-se com o método quantitativo e tentou-se estabelecer: 1°. pois conduzem. para constituir um ato psíquico. isto é. à . 62. de máximo interesse forense. até que ponto diferem de uma pessoa a outra (casos. Os segundos tendiam. a marcha do processo natural de embotamento das lembranças neutras e as "curvas de repressão". elementos intelectuais. Hoje em dia sabe-se que toda percepção. isto é. quais são os tipos individuais de percepção (isto é.94 Os estudos experimentais mais antigos foram os dedicados às condições em que se efetua a percepção dos fatos a testemunhar. pessoais. as figuras ou formas constituídas pelo especial agrupamento dos elementos percebidos.). 2°. afetivos e conativos. são essencialmente subjetivos. é algo mais do que a soma de um conjunto de sensações elementares. a estudar as deformações de ambas as classes de lembranças (pseudomemórias). qual era a diferença mínima que devia existir entre dois estímulos para dar lugar a duas percepções diferentes. por exemplo. e sim se fundem. ou seja. em que territórios sensoriais um determinado indivíduo percebe melhor). seja no sentido de depressão. que grau de intensidade devia atingir um estímulo para poder chegar a determinar uma percepção. uma experiência psíquica complexa na qual não se misturam. a declarações de boa fé. em suas duas fases (de conservação e evocação) realizaram-se também estudos quantitativos e qualitativos. Sabemos também que os "esquemas perceptivos". b). como se compreende. DE FATORES CAPAZES DE INFLUENCIAR O MODO PERCEPÇÃO DE DETERMINADO ACONTECIMENTO Em primeiro lugar deve-se apressar em fazer constar que os recentes estudos experimentais levados a termo pelos adeptos da denominada "psicologia da forma" modificaram profundamente os conceitos que até agora vinham imperando acerca do mecanismo perceptivo e puseram de manifesto o fracasso da teoria analítica para compreendê-lo. c)). É tão imenso o valor do mecanismo catatímico (já estudamos que a catatimia no estudo psiquiátrico é o que se caracteriza por intensa alteração de humor. antes de tudo. por simples que seja. Com respeito à memória. de acromatopsia. mas errôneas. em que condições e em que proporções se associam as diferentes percepções do mesmo território sensorial. surdez parcial etc. da expansão da passividade. Os primeiros tenderam a estabelecer as denominadas "curvas do esquecimento". Toda percepção supõe uma "vivência". e como tais.

Existe uma tendência normal a superestimar os números inferiores a dez e os períodos de tempo menores de um minuto. Em geral esta é maior pela manhã do que à noite e também diminui sob a influência da digestão. vemos as coisas como queríamos que fossem más. em troca. percebem com mais exatidão os detalhes que aqueles. Em troca. 3°. Um fator importante que condiciona a precisão e a extensão da percepção é o grau de fadiga psíquica em que se encontre o indivíduo perceptor. 2°. por conseguinte. nunca podemos chegar a conhecer a realidade exterior senão baseando na multiplicação até o infinito do número das pessoas que a percebem simultaneamente. Se sua intensidade é muito forte. que nem sempre as relações entre as tendências afetivas e as percepções externas são diretas. Para a percepção geral de uma situação estão mais capacitados os homens que as mulheres. no entanto. dando então lugar à produção de uma pseudopercepção. as pausas superiores a dez minutos e os números ou espaços grandes tendem a ser infra-estimados. à mania ou a esquizofrenia) praticamente não se pode falar de percepções neutras e. uma vez que a imensa maioria dos delitos é cometida perante um número limitadíssimo de testemunhas).95 melanconia. 63. com respeito às impressões procedentes dos restantes territórios sensoriais. mas estas. mesmo nos casos mais favoráveis. Os testemunhos referentes a dados quantitativos são em geral mais imprecisos que os qualitativos. que não só é certo que. Deste ponto de vista demonstrou-se que uma mesma pessoa tem variações horárias de sua capacidade de apreensões de estímulos. Toda tendência afetiva poderosa é capaz de seguir um caminho ascendente (a partir do mesencéfalo) e chegar a zonas de elaboração de imagens do córtice cerebral. As impressões ópticas podem ser testemunhadas. com maior facilidade que as acústicas. Eis alguns resultados concretos das experiências realizadas acerca da fidelidade das percepções: 1°. INFLUÊNCIA DA TENDÊNCIA ÁFETIVA PRESENTE (CONSTELAÇÃO) NO PROCESSO DA PERCEPÇÃO Em diversas ocasiões assinalamos o papel do mecanismo catatímico na deformação da percepção da realidade exterior. esta pseudopercepção tem lugar à custa dos elementos psíquicos anteriores . 4°. em igualdade de condições. por conseguinte. Devemos insistir agora. É curioso verificar que nos testemunhos referentes a fatos sucedidos mais de seis anos antes há também uma tendência a encurtar o tempo de seu acontecimento. são reproduzidas muito vagamente e. Os termos inicial e final de uma série de acontecimentos costumam ser percebidos melhor que os intermediários. coisa impossível na prática. e sim que em determinadas circunstâncias as vemos como queríamos que não fossem. (e muito mais na prática jurídica. isto é. é preferível recorrer sempre que se possa ao seu reconhecimento e não à sua evocação. mas sim que muito freqüentemente são inversas.

como são as pessoas. os casos. a gravata era de laço curto?. a ação da citada tendência limitase a deformar a percepção externa no sentido que ela representa. por ser a mais geral. será fácil que a resposta se encontre de acordo com a realidade.pouco a par da Psicologia e. mas se não. pouco certo do que pode perguntar . Por muito que queiramos não podemos subtrair-nos à ação de nossos automatismos mentais. Quem quiser se convencer de quão fragmentariamente nos damos conta dos detalhes em nossas percepções de pessoas. bastará que numa roda de amigos pergunte qual era a cor do traje. Mas. E se destes detalhes grosseiros se desce a outros mais finos (trazia ou não um anel?. Estas são geralmente percebidas e reconhecidas em virtude de alguns detalhes prepotentes e assim se explicam as dificuldades em que qualquer testemunha se encontra quando um juiz . criam-se o que se denominou "a sugestão da espera" em virtude da qual a consciência antecipa por assim dizer .96 (representações) e constitui o que se denomina uma alucinação. em linhas gerais.) verá com . sobretudo tratando-se de estímulos um pouco complexos e muito dinâmicos. Precisamente por faltar esta sugestão da espera se explicam os resultados tão diferentes que se observam nas experiências acerca da fidelidade do testemunho feitas sem prévia advertência do indivíduo. tanto mais facilmente estes tomarão por real a simples aparência do fenômeno anunciado. dando lugar ao que se denomina uma ilusão. É certo. por não serem essenciais para o "esquema de reconhecimento". Todos os prestidigitadores e os médiuns sabem perfeitamente que quanto mais prolonguem a espera dos espectadores. do chapéu. lhe passaram totalmente inadvertidos. ao passo que na segunda é positivamente favorável. Em ambos. tanto o desejo positivo como o desejo negativo (medo) de que algo ocorra podem dar lugar a fazer o indivíduo acreditar que esse algo já ocorreu. Se sua intensidade é menor ou se as circunstâncias externas são propícias. que basta que se encontrem presentes alguns de seus elementos para que nosso juízo de realidade se dê por satisfeito e aceite a presença do todo. Na primeira série de experiências a "constelação" é neutra. do que se ia passar.o tempo e dá por acontecido o que ainda não foi ou só o foi em parte. a última vez em que compareceu (mesmo quando passaram apenas poucos dias) à reunião. de qualquer companheiro ausente. alguém disse que em rigor não percebemos a realidade e sim sua caricatura subjetiva. Por motivo dos modernos estudos acerca da psicologia da forma. por conseguinte. É claro que se se tratar de um indivíduo que sistematicamente vai vestido da mesma maneira. tinha alguma mancha na roupa? etc. 64. será certo que não haverá maneira de chegar a um acordo. quando os comparamos com as efetuadas em indivíduos que foram previamente advertidos. por assim dizer. INFLUÊNCIA DO HÁBITO NA PEERCEPÇÃO Esta é sem dúvida a mais importante de quantas possamos estudar. e este é um ponto importante por ser insuficientemente conhecido. dos sapatos etc.o interroga acerca da presença ou ausência de outros detalhes que. Em virtude do hábito completamos de tal modo as percepções da realidade exterior.

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surpresa que no meio de lacunas enormes, nas quais não existe a mínima percepção concordante com a realidade, surgem ilhotas de reprodução exata da mesma. E agora vem o ponto essencial: estas ilhotas diferem segundo as testemunhas, de modo que o que um recorda perfeitamente, o outro esqueceu também perfeitamente. Desde que se dêem, pois, estes elementos essenciais, a percepção se efetua e o objeto se identifica mesmo quando tenham mudado detalhes importantes do mesmo (em sua forma ou em seu fundo). Podemos passar horas em um dos nossos quartos melhor conhecidos sem nos darmos conta de que foram mudados de lugar ou que desapareceram alguns objetos de ornamentação. Podemos ler um livro qualquer sem notar um só erro de imprensa, apesar de os haver em abundância. A razão destes fatos é bem simples: nem ao estar no quarto nem ao ler o livro nos interessa especialmente contemplar os quadros ou reconhecer os erros. Por conseguinte, a menos que exista um determinado propósito que dirija voluntariamente a atenção de um modo sistemático para a percepção completa de um estímulo ou situação; (em cujo caso será necessário considerá-lo sucessivamente em seus diferentes aspectos), pode-se dizer que nossa mente efetua sua percepção mais de acordo com a lembrança de como era do que com o conhecimento de como é. Dito de outra maneira: o passado intervém mais do que o presente em nossas percepções. A isso sem dúvida se deve o refrão de "ganha fama e deita-te na cama". Isto é tão certo que uma mudança de caráter ou de conduta pode ser notada antes pelas pessoas que não têm intimidade, do que pelos parentes do indivíduo; uma vez que estes, por seu maior hábito em lidar com ele levarão mais tempo em desligar-se do conceito que dele formaram. (independentemente de que este seja bom ou mau).

65. INFLUÊNCIAS QUE DETERMINAM UMA MUDANÇAS NO PROCESSO EVOCADOR DAS PERCEPÕES.
Passamos uma revista superficial nos principais fatores capazes de influenciar a percepção de um acontecimento. Vejamos agora quais são os que podem fazer mudar sua evocação (e tenha-se em conta que evocação não quer dizer expressão ou testemunho, mas simplesmente reprodução voluntária interna). Em primeiro lugar encontramos aqui as tendências afetivas como o mais eficaz instrumento capaz de perturbar a marcha do processo evocador. É desde antigamente conhecida a "amnésia emocional" que se observa uma infinidade de vezes como conseqüência de um brusco abalo moral. As pessoas atingidas desta falta de memória são incapazes de lembrar-se do que se refere à situação desencadeante do choque psíquico. Uma lacuna de memória se estende a partir daquele momento até que o tempo transcorrido ou a intervenção médica consegue pouco a pouco fazer emergirem novamente as lembranças daquelas

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percepções determinantes da comoção emocional. É um fato constante a relação que tais percepções esquecidas guardam com tendências afetivas desagradáveis para o indivíduo. Quando um fato é deste modo esquecido é porque comoveu algum dos mecanismos emocionais que se mostram mais dolorosos para o espírito (repugnância, horror, remorso etc.). Nesse caso, o esquecimento da situação tem a finalidade de defesa psíquica, já que pressupõe o esquecimento do doloroso sentimento anexo a ele. Qual é o processo responsável por esta amnésia emocional? Deve-se, de saída, afastar os casos nos quais existiu não só um trauma psíquico como um trauma físico, pois neles a amnésia já não é emocional, mas "comocional", e vai acompanhada de outros sintomas cerebrais orgânicos. Quando se trata, por conseguinte, de casos puros deve-se invocar uma patogenia psíquica; esta foi bem posta de manifesto por Freud, que demonstrou que na prática tem mais importância que o esquecimento espontâneo (devido ao desgaste fisiológico das células em que se fixam as impressões) o esquecimento forçado, isto é, ativo. Este último é devido à ação de um processo que Freud denomina repressão e que é considerado - do ponto de vista fisiológico sinônimo de uma inibição.

66.

IMPORTÂNCIA DA REPRESSÃO NA EVOCAÇÃO DAS LEMBRANÇAS LIGADAS A NA TENDÊNCIA AFETIVA DESAGRADÁVEL OU IMORAL.

Se se tem em conta que quase todos os interrogatórios judiciais versam sobre situações delituosas ou, pelo menos, sobre fatos que giram em tomo de um núcleo emocional intenso, compreende-se a freqüência com que a amnésia emocional se apresenta não só nos autores, como também nas testemunhas. Nesses casos é errado o processo geralmente seguido pelos juízes que acreditam obter dados aproveitáveis forçando por meio de ameaças ou sugestões as respostas das testemunhas. Quando um interrogado diz "não me lembro", surge evidentemente diante do juiz o dilema de se em realidade não se lembra ou não quer exprimir sua lembrança. O juiz, por sistema, acredita que quanto mais viva e emotiva foi uma situação, tanto melhor será lembrada pelo indivíduo e, por conseguinte, se se mostra transigente em aceitar essa resposta para detalhes sem importância, acredita em troca que deverá ser severo ao exigir uma lembrança precisa dos detalhes fundamentais. Pois bem, são precisamente estes detalhes os que se esquecem, umas vezes em bloco, isto é, ligados a todos os outros fatos que então ocorreram, e outras vezes de um modo fragmentário. Mas - e aqui é onde reside o interesse deste processo - são esquecidas involuntariamente porque a força da repressão age de um modo absolutamente inconsciente. Nestas condições, quanto mais, esforços faça o indivíduo para vencer seu esquecimento, tanto mais o tomará firme, do mesmo modo como quanto mais esforços fizer um preso para desfazer suas ligaduras, tanto mais

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profundamente estas entrarão em suas carnes. Quem duvidar deste paradoxo logo o compreenderá se se fixar no que às vezes lhe ocorreu ao esquecer um nome comum: apesar da impressão de o ter "na ponta da língua" quanto mais concentrou sua atenção para recordá-lo, mais aquele se afastou e só surgiu espontaneamente após um tempo mais ou menos longo, quando provavelmente já não era útil sua evocação e por conseguinte não tinha por que se despertar a tendência afetiva que o reprimia. (Este fenômeno se explica na teoria de Pavlov pela denominação "inibição paradoxal", e é, quase sempre, um sinal de fadiga neurônica). A importância da repressão nas declarações judiciais é enorme e só pode ser compreendida pelos especialistas que tiveram ocasião de examinar psicanaliticamente enfermos psiconeuróticos, nos quais essa força repressora atua intensamente, se bem que por motivos diferentes. E o interessante do caso é que nem sempre sua ação se manifesta de um modo tão aparatoso como nos casos de "amnésia emocional", e sim que em uma grande maioria de vezes a repressão age de um modo fragmentário, não suprimindo, mas dificultando a evocação das lembranças. Então estas surgem, mas de um modo incompleto, como os restos de um navio naufragado, do plano subconsciente. E o que é pior, surgem deformados e misturados com falsas lembranças (pseudomemórias) que são produto da ação do mecanismo catatímico, continuada mesmo depois do fato perceptivo. Mas se isso fosse pouco, o indivíduo, ao dar-se conta da pobreza de suas lembranças, as completa automaticamente utilizando as cadeias de associações que logicamente devem se encontrar relacionadas com eles e isto faz com que mesmo contando com sua absoluta boa fé, o resultado da evocação acha-se tão distante da realidade como o poderia estar um sonho. Quem considerar detidamente a influência dos processos afetivos ao longo da vida psíquica, chega a estranhar, não que os testemunhos sejam imprecisos e deformados, mas que não mais o sejam, até o ponto de mostrarem-se praticamente inúteis para a reconstituição da verdade objetiva.

67. FATORES EXPRESSÃO

QUE

INFLUENCIAM

O

ATO

DE

DO TESTEMUNHO.
Suponhamos por um momento que uma mente foi suficientemente equilibrada e hábil para resistir à influência perturbadora de todos os fatores que até agora estudamos. Essa Psique ideal pôde observar com toda exatidão os fatos, conservá-los intactos em seu registro subjetivo e reproduzi-los com fidelidade sob o esforço da evocação voluntária. Poderá agora exprimi-lo de tal modo que quem ouvir seu relato chegue a vê-los e

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compreendê-los como acontece com ela? Eis aí, outra, dificuldade certamente, não a menor das que terão de ser resolvidas. Com efeito, são poucas as pessoas que possuem a suficiente cultura e inteligência verbal para dar uma expressão exata de suas vivências ou impressões de experiência. Basta dar um objeto qualquer, banal, a uma pessoa, deixá-la que o examine e pedir-lhe que no-lo descreva, para que nós, sem ver o objeto, cheguemos a uma compreensão do mesmo bem diferente de sua realidade. E isso simplesmente porque o indivíduo não acertou em transportar para nós em palavras tudo quanto percebeu; é uma aptidão pouco freqüente a que permite descrever bem. Apesar de tudo, será sempre preferível deixar ao indivíduo a iniciativa em suas descrições do que intervir ativamente nela sob o pretexto de ajudá-lo. O que ocorre na maioria dos interrogatórios judiciários é que se não existe um deliberado propósito de resistência por parte do interrogado, este insensivelmente vai descrevendo os fatos e as situações, não como os viveu, mas como parece ao juiz que ele os devia ter vivido. Achamo-nos aqui diante de um processo parecido com o que se observa em muitos interrogatórios médicos nos quais quando o clínico formou determinado conceito diagnóstico da enfermidade que é objeto da consulta, orienta suas perguntas de tal forma que o paciente, mesmo quando não a tenha, lhe proporcionará respostas que coincidem com o diagnóstico aprioristicamente formulado. Com isto atingimos o ponto mais interessante do problema, a saber, a averiguação das normas que devem ser seguidas para obter testemunhos puros, isto é, não deformados de antemão pelos próprios que têm interesse em procurar a verdade. Com efeito, é triste que a testemunha tente premeditadamente, deformar a fidelidade de seu relato, mas muito mais o é que involuntariamente o chegue a fazer em virtude de perguntas sugestivas, capciosas ou de resposta forçada que lhe são dirigidas por um interrogador demasiadamente cioso de sua obrigação e pouco preparado para cumpri-la tecnicamente. Em que disciplina da carreira do Direito estudam os futuros juízes ou advogados o modo de obter cientificamente as dec1arações judiciais? Esta falta de preparação psicológica para um ato tão essencial no processo jurídico justifica que agora nos detenhamos um pouco para estudar os elementos que integram o testemunho obtido por interrogatório.

68. DIFERENÇAS ESSENCIAIS ENTRE O TESTEMUNHO POR RELATO ESPONTÂNEO E O OBTIDO POR INTERROGATÓRIO
É evidente que o relato espontâneo - sempre partindo da existência de um propósito de sinceridade - se mostra mais vivo e mesmo mais puro (menos deformado) que o obtido por interrogatório. Mas aquele tem o defeito de ser, de um lado, incompleto

2ª. podemos dizer que o testemunho obtido por interrogatório costuma fornecer dados mais concretos. de outro. 3ª. Diferenciais (sim ou não?). como também as representações e tendências afetivas evocadas pela pergunta a que responde. não concordante coma realidade a testemunhar. E ANÁLISE DAS CLASSES MAIS IMPORTANTES NOS PERGUNTAS EMPREGADAS INTERROGATÓRIOS JUDICIAIS De um ponto de vista psicológico e gramatical podemos distinguir. Só uma percentagem pequena de testemunhos espontâneos dizem tudo o que interessa e nada mais do que interessa. que os do relato espontâneo. Em troca. na qual entram não só as vivências espontâneas do interrogado. Afirmativas condicionais (sim?). Negativas condicionais (não? ). porém menos exatos via de regra. estas sete classes de perguntas: 1ª. uma reação mista. Determinantes (perguntas pronomes interrogativos). e o que as perguntas que se lhe dirigem tendem a faze-lo saber. com efeito.101 e. Facilmente pode ocorrer então que se origine uma resposta falsa por um destes três motivos: a) porque a idéia implicitamente contida na pergunta evoque por associação outra. 4ª. c) porque a pergunta determine uma sugestão direta ou coloque o indivíduo em condições de inferioridade (medo) que o impeçam de dar a devida resposta. Disjuntivas parciais. de um lado. Toda resposta é. Afirmativas por presunção. irregular (o indivíduo não se estende uniformemente em sua explicação) e além do mais apresenta em múltiplas ocasiões elementos interpolados que em nada são úteis e antes servem para aumentar o tamanho dos processos e fazer com que os que os consultam se percam em detalhes sem importância. b) porque a pergunta faça sentir ao indivíduo a existência de uma lacuna em sua memória que tentará encher aventurando uma resposta ao acaso ou baseada em uma dedução lógica (muitas vezes feita à base do que é mais comum ou freqüente. por cálculo de probabilidades que pode ser inexato). Em resumo. Disjuntivas completas. 5ª. pelo menos. . 6ª. 7ª. o testemunho obtido por interrogatório representa o resultado do conflito entre o que o indivíduo sabe. 69.

Também devem ser proscritas de um interrogatório imparcial. Ainda que pareça mentira. isto é. suponhamos que depois de perguntar se o acusado trazia ou não gravata e. Assim.a classe das perguntas condicionais em sua dupla forma: afirmativa ou negativa. já que a testemunha sabe reagir a ela com maior facilidade. nas quais se coloca o interrogado em situação de decidirse entre duas possibilidades excluindo as demais. isso é igual) de cor azul. mas admitindo. mas condicionando-lhe previamente a resposta de acordo com o que o interrogador espera. entre as quais pode muito bem encontrar-se a que seja certa.. Felizmente a coação que acarreta a forma gramatical destas perguntas se mostra mais visível que nas anteriores e por isto tornam-se um pouco menos perigosas. que supõe a existência de uma lembrança na mente da testemunha sem haver-se certificado antes. mas também parcial. admitirá secretamente seu erro e por semelhança responderá: preta. b) (condicionada negativa): por acaso era branca a gravata? Pela forma de formular ambas as perguntas a testemunha depreende implicitamente que se espera dele uma afirmação no primeiro caso e uma negação no segundo. . por exemplo. formulamos esta outra pergunta: a gravata era amarela ou preta? Pode-se dar o caso de que ela parecesse à testemunha (certa ou erradamente. Segue-se agora . Vejamos um exemplo desta forma: a) (condicionada afirmativa): não era preta a gravata que trazia o acusado?.102 Esta última classe. a prática demonstra que são maiores as de uma resposta afirmativa. e se não está muito seguro de si mesmo. pois acarreta uma sugestão de obrigar o indivíduo a decidir-se entre um sim e um não. Um pouco menos sugestiva. das perguntas disjuntivas parciais. por exemplo. pois é a que acarreta uma maior capacidade sugestiva para o erro. ambas as classes de perguntas são freqüentemente empregadas e. preferirá sempre responder de acordo com o que o interrogador parece esperar dele. sem antes perguntar-lhe se levava ou não gravata e se a vira.o que é pior.continuando a ordem inversa de sua enumeração . ou seja. é a pergunta diferenciadora seguinte: era preta a gravata? Parece à primeira vista que as probabilidades de obter uma resposta afirmativa são as mesmas que as de provocar uma negação. Assim.de um modo implícito por parte da testemunha.às vezes de um modo premeditado por interrogadores que para evitar o perigo de serem enganados acreditam que não há melhor meio que o de começar enganando a testemunha. receber uma resposta afirmativa. Não obstante. mas ao ver que se lhe manda escolher entre essas duas cores. não obstante. a certeza de que o acusado levava gravata. o que não teria acontecido se antes lhe fosse feita a pergunta pertinente (lembra-se se o acusado levava ou não gravata?). formula-se uma pergunta de presunção que tem muitas probabilidades de ser respondida vagamente. é a que deve ser evitada com mais cuidado nos interrogatórios. se se pergunta a uma testemunha de que cor era a gravata que o acusado levava no dia em que foi autuado. Algo semelhante pode-se dizer acerca da categoria precedente.

conforme sejam os fatos ou pessoas a que se refiram. Não será demais que digamos alguma coisa acerca dos meios de que podem se valer para aumentar essa sinceridade. toda ela se baseia na atemorização do indivíduo. Em troca. são menos sugestivas que as que estudamos até agora.) ou então resulta simplesmente do desejo egoísta de ficar bem e comprometer-se o menos possível. Pois bem. por quê?) merece o qualificativo de imparcial.não reagem nem pouco nem muito perante ele. Sucede o fato curioso de que as testemunhas mais morais são precisamente as que costumam impressionar-se mais diante das ameaças e da severidade e cerimonial que se desenvolvem durante o interrogatório. deve-se analisar ainda se esta parcialidade que se pode pressupor nele deve ser atribuída a um propósito nobre (compaixão.). os imorais ou amorais . as duas primeiras classes: determinantes e disjuntivas completas. ou seja a pergunta determinante (como?. MEIOS PARA SE OBTER A SINCERIDADE POSSÍVEL NAS RESPOSTAS MÁXIMA Vimos em os processos de que se podiam valer os juristas para comprovar o grau de sinceridade das respostas nos interrogatórios. isto é.103 que uma maioria de testemunhas tende a responder de acordo com o conteúdo representativo positivo (presente) da pergunta diferenciadora.aqueles sobre os quais em realidade se precisaria exercer o estímulo . de um modo geral pode dizer-se que o único fator que convém conhecer para resolver este problema é a consciência moral dos declarantes. Por isso julgamos supérfluo o juramento e acreditamos absolutamente insuficientes (mesmo quando necessárias) as advertências sobre a responsabilidade inerente ao ato de testemunho.). Em primeiro lugar será necessário deixar estabelecido que a técnica geralmente seguida na atualidade para este fim nos parece absurda e contraproducente. 70. Estas últimas. com o fim de poder predizer qual será a intenção que o guia ao fazê-lo. Não é raro encontrar somados estes fatores. pelo simples fato de formular explicitamente as duas possibilidades (era assim? ou: não era assim?). quando?. Por tudo isso faz-se indispensável uma sutil análise psicológica destes "imponderáveis" e "inconfessáveis" que tanto influem na . (Por exemplo: como ia vestido o acusado? onde você. mas não há dúvida de que só a primeira classe. lucro etc. finalmente. Muito mais prático mostra-se o reconhecimento prévio da personalidade da testemunha e de sua posição na situação a testemunhar. ameaçando-o com castigos humanos e divinos no caso de declarar em falso. de sorte que as declarações de uma mesma testemunha se inspiram sucessiva ou alternativamente em todos eles. generosidade etc. imoral (vingança. se da análise prévia das relações afetivas do indivíduo deduz-se que seu testemunho não será imparcial. Ficam. Então. viu X pela primeira vez? etc. o grau de seu amor à verdade e a justiça.

isto é.nos ombros da atuação judicial com a condição de que essas manifestações fossem recolhidas por pessoas moralmente puras. deveria ser concedido .mesmo quando em todas exista uma mesma intenção . Estes.o mais provável é que o juiz opte por não dar crédito a nenhuma. se lhe pedirmos uma informação completamente indiferente . Consideraremos. Quando se suspeita de parcialidade por fins altruístas (compaixão. que esta é a solução teórica. assim a consideramos. Esta informação oficiosa e secreta daria a conhecer muito mais verdades que a informação oficial. Por isso o melhor é ater-se à verdade pura quanto à descrição dos fatos. suponhamos que desejamos saber de uma testemunha se esteve presente em um local em determinado momento. por um momento. Por exemplo. no entanto. Em primeiro lugar é fácil fazer com que ele note que entre duas ou mais declarações diferentes . quais serão seus princípios ou normas. afeto etc. Mas.) será desde já mais fácil corrigi-Ia que no caso contrário.104 obtenção de atestados inexatos e injustos. dando por válidas todas as manifestações que fizessem os testemunhos de um modo espontâneo . suponhamos. Dissemos. Vejamos agora as soluções práticas. mas. Para isso convirá fazer chegar ao espírito da testemunha a convicção de que uma atuação parcial seria contrária ao invés de favorável ao acusado. Sua realização exige em cada caso uma técnica especial criada para ele. Se perguntarmos diretamente este extremo pode nos responder negativamente.como fizeram os norte-americanos . corre o risco de que ao constatar-se esta se anule a outra. como se depreende. Por outro lado. seria muito mais elástica que ela e proporcionaria uma visão sincera do que cada testemunho conhece acerca do assunto a julgar. E isto não é tão difícil como parece à primeira vista. em contacto direto com a vida. se baseiam na aplicação dos conhecimentos de psicologia individual ao problema particular da situação de cada declarante. confundidos com o público. A primeira se basearia em destituir as declarações judiciais de todo seu caráter de oficialidade e predeterminismo. Muito amiúde se pode obter uma declaração sincera perguntando os extremos que se deseja conhecer. por ora. Da mesma forma que se dá por válida a cada instante a fé do tabelião. se uma testemunha declara uma grande parte de verdade e uma pequena parte de mentira. em nosso país. mas relacionando-os com a atuação de uma pessoa neutra ao invés de referi-los à pessoa a quem se deseja favorecer. Que fazer para contrabalançar esta tendência e conseguir a maior veracidade possível? Aqui estamos seguros de que divergirão a solução teórica e a solução prática.este privilégio às informações dos ''trabalhadores sociais" que trabalham fora do foro. no entanto. que podemos prever qual será a tendência que a testemunha terá ao declarar acerca dos diferentes extremos que lhe vão ser apontados. as que podem ser aplicadas sem abalar as bases da rotina jurídica e sem levantar os protestos dos zelosos conservadores da tradição em matéria de Direito forense. ficando em troca a testemunha em liberdade absoluta para interpretar suas causas do melhor modo que lhe pareça.

meu filho é honrado e incapaz de tal ação. P. Suponho que em coisas úteis e em alguma distração. Trata-se do pai e da mãe de um jovem de quinze anos que. mas nada tem de particular que o fizesse para Informar a algum amigo que lhe tivesse perguntado. mas isso ele responderá melhor do que eu. por inferência. Eis alguns de seus fragmentos mais interessantes: P. P.105 acerca de um detalhe do local. Que quantia semanal entregava a seu filho para gastos pessoais? R. até o centro ou núcleo da situação a julgar. P. Em que seu filho empregava esse dinheiro? R. baseado em duas declarações obtidas de pessoas de inteligência sensivelmente idêntica com igual desejo de favorecer ao acusado e possuidoras dos mesmos dados acerca do fato dos autos. . a não ser por seu desejo de ficar só por algum momento? R. mas em troca nos dá os fios condutores que são necessários para chegarmos. foi acusado . Deste modo a testemunha não estabelece nenhuma associação entre sua declaração e um perigo para quem deseja favorecer. embora modestas. Não o sabia. R. Porque é muito cioso de sua obrigação e sempre gosta de exceder-se em cumprimento. Sabe que seu filho foi visto em uma casa de penhor e que foi ali perguntar se era preciso de um recibo de compra para poder penhorar jóias? R. tendo em conta sua colocação. mas em troca se solicite informação acerca dos processos reacionais secundários à ação ou conduta que se deseja esclarecer.. na qual não se fala nada do acusado ou do extremo acerca do qual se suspeita a propósito de insinceridade. Crê você que seu filho praticou o roubo de que é acusado. estando empregado em uma joalheria. mas por suspeitas justificadas . é bem possível que nos dê o dado desejado. Como explica que nunca tivesse pressa de sair da loja. Porque ficou de tal modo afetado pelas suspeitas que recaíram sobre ele. A declaração do pai foi obtida de acordo com os processos que poderíamos denominar clássicos (método centrífugo: partir da ação delituosa e remontar-se aos antecedentes ou seguir suas derivações). P.. ou então se lhe dirigirmos uma pergunta de tal natureza que para favorecer indiretamente o acusado tenha que referir-se a fatos ocorridos no referido local. Vejamos um exemplo prático. O produto integral de seu soldo menos 30 mil cruzeiros mensais com que contribuía para pagar a casa. Que classe de amizades tinha seu filho? R. que caiu doente e teve de guardar o leito.sem provas.de haver subtraído um bem avaliado em 200 mil reais. de momento. Por que não compareceu ao trabalho três dias na semana seguinte ao furto? R. Muito amiúde dá bons resultados obter o que se denomina uma declaração "centripeta". P. P. As que nós conhecemos são muito dignas. De modo algum.

P. que o trabalho de seu filho era suficientemente recompensado e era devidamente apreciado pelos que estavam na joalheria? R. pedindo sempre o testemunho a partir da periferia do complexo ambiental delituoso: P. é possível que entrasse alguém no estabelecimento sem ser visto por meu filho. mas eu lutei quanto pude para fazê-lo sentir uma nobre ambição e. Que opinião faz a Sra. mas o que vi com mais freqüência. De um modo geral não davam o devido valor a meu filho. Porque é o comércio mais distinto. Não o creio. em troca. Eis. Que opinião faz a Sra. mas um pouco sugestionável e muito impressionável. Estas aspirações de seu filho eram espontâneas ou foram inculcadas nele pela senhora? R. Crê a Sra. Não conheço todos eles. do dono da joalheria onde esteve empregado seu filho? R. pois.. Porque em mais de uma ocasião zombaram dele quando dizia que algum dia poderia ser patrão ao invés de empregado. o que se obtém da mãe seguindo o método centrípeto. P. Parece-me no fundo muito boa pessoa. Se temos nos mostrado sempre amáveis com ele é porque o merecia. P.. P. Como se vê. Isso deu motivo para que um pai atento ao que julga seu dever rebata com aparências de lógica os frágeis indícios da acusação.106 P. Em primeiro lugar não sei se a jóia desapareceu então. É certo que sua mãe o mimava muito e satisfazia todos seus gostos? R. se não foi ele quem a roubou? R. o Sr. Meu filho é um tanto tímido. atarefado em afazeres mais próprios a uma criada que a um rapaz que tem instrução. Como explica que desaparecesse a jóia quando seu filho estava só na loja naquele momento. sentimento de dignidade. nunca confiavam a ele trabalhos delicados e o tinham. P. Como surgiu em si a idéia de empregá-lo em uma joalheria? R. Qual o futuro que imaginava para seu filho? R. Por que diz isso? R. P.Parés. dos diversos companheiros de trabalho de seu filho? R. em troca. já que este se encontrava ocupado em limpar estojos durante aquele intervalo. Além do mais. em realidade o são muito menos que as aparentemente inocentes dirigidas à mãe. É certo que seu filho freqüentava assiduamente os cabarés? R. Além do mais. isto é. sobretudo. P. isto é. Creio que pode chegar a ser encarregado de uma boa joalheria e talvez encontrar então alguma pessoa que lhe empreste dinheiro para estabelecerse. Bem pode ter desaparecido antes. P. me parece muito formal. de que por ser pobre não deve deixar ser pisado. Basta ler esta parte da declaração e compará-la com a anterior para ver como apesar das perguntas dirigidas ao pai parecerem mais adequadas para fornecer dados interessantes. . todo este interrogatório gira em tomo do fato delituoso ou da conduta de seu suposto autor.

CAUSAS MAIS COMUNS DA INEXATIDÃO DO TESTEMUNHO Recordemos em primeiro lugar o hábito. P. Sim. outra seria nossa posição.valha a expressão . isto é. Em virtude deste descreveremos os sucessos mais como costumam ocorrer do que como podem ter-se passado ou passaram em realidade. Se assim não fosse. não tardaremos a nos inteirar de que esse motivo tinha que vencer resistências quase nulas para conduzir à ação: P. Eis por que insistimos. senhor. apesar de não gostar. As vantagens deste método centrípeto derivam também de outro fato: dando por suposto o afã de alterar a verdade dos fatos (a favor ou contra o acusado) por parte de qualquer testemunha.que . como é o caráter de seu marido? R. Graças a isto já sabemos que o rapaz tinha um motivo para poder desejar apoderar-se de uma jóia. sabemos agora que a mãe exerce um domínio da personalidade do rapaz.. fatores ambos da vaidade. a ambição e o desejo de ostentação. Com meu marido. queremos obter uma máxima sinceridade nos testemunhos é preciso que evitemos neles cuidadosamente as perguntas . Perdoe a curiosidade. é evidente que. Ter aprendido de memória. O pobrezinho. Seguindo aparentemente sem rumo. 71. Com efeito.. Isso quer dizer que lhe falta um pouco de força de vontade? R. sabemos que é uma mulher insatisfeita de sua posição e que infiltrou em seu filho. é claro. para me satisfazer. fez tudo o que pôde e saiu-se muito bem no papel. ou melhor. energicamente. Qual é a maior demonstração de vontade que se lembra de seu filho? R. Se. ser-lhe-á mais fácil compreender em que sentido orientar suas respostas quando estas corresponderem a perguntas diretamente relacionadas com o delito do que quando se referem a questões muito afastadas dele. Em segundo lugar citemos a sugestão.107 Contornando. Muito bom.predispõem à insinceridade. acerca da necessidade de preparar e meditar cuidadosamente todo o interrogatório. esta nos fez compreender algo que não pudemos obter atacando pela raiz o pai. a transposição cronológica que com freqüência se produz e em virtude da qual . pois. seu papel em uma comédia que fizemos em casa de uns amigos. P. com seu marido ou com a senhora? R. mostra-se tanto mais difícil de ser percebida quanto mais distante é sua relação com o fato que a testemunha tem interesse em deformar. com o valor dele. A intenção da pergunta. como é natural. embora às vezes convenha dar-lhe uma aparência de espontaneidade. P. não possuindo este outra psicologia que não a do seu senso comum. Em terceiro lugar mencionaremos a confusão no tempo. Com quem acredita que seu filho se pareça mais de caráter. hâ anos. mas demasiadamente tímido e retraído. infelizmente. o automatismo originado pela presença nas perguntas de elementos que condicionam a resposta em um sentido determinado.

por exemplo).108 o indivíduo acredita que sucederam depois fatos ocorridos antes. segundo os casos) que aquele exerce ao longo de todo o processo psíquico que. sustentam pontos de vista contrários a propósito de uma mesma jogada. tornam-se absolutamente impossíveis de satisfazer-se e só servem para aumentar a confusão que já pudesse existir. Só em teoria pode falar-se. referentes a datas de acontecimentos. Em quarto lugar. Homens imparciais. mas para tudo o que existe. com efeito. citaremos como causa de inexatidão dos testemunhos a tendência afetiva que inevitavelmente se engendra no indivíduo diante de qualquer situação e que o faz sentir simpatia ou antipatia não só pelas pessoas. Só um dado pode dar-se como norma. já que as pessoas diferem enormemente entre si com relação à sua memória temporal. e enquanto um afirma que o jogador A deu uma canelada em B. não costuma ter noção do que é minuto nem meia hora.fugir à influência deformante (no sentido de exagero ou de dissimulação. mas já ninguém pode dizer se ao fim de certo tempo tenderão a parecer mais próximas umas ou outras. Mas os fatos ocorridos durante estes intervalos influem . Um boçal. que as coisas não são vistas e julgadas como são. ou seja.como já se disse . lembram-se dela mais distintamente ainda e a exprimem ainda com maior divergência. ao passo que existem outros (e certamente estes são a maioria) que procedem de modo inverso. e por isso uma infinidade de dados precisos que os juízes costumam pedir às testemunhas. outro afirma com a mesma convicção que ocorreu o contrário. que se mostra vantajoso fazer com que as testemunhas de pouca cultura calculem os intervalos cronológicos de forma concreta (por comparação direta) ao invés de relaciona-los em função do sistema horário. e note-se .nesta determinação. com efeito um dos processos psicológicos mais instáveis e influenciáveis. culmina no juízo. ou seja.que esta influência nada tem que ver com a deformação voluntária e consciente da realidade que o indivíduo pode exercer secundariamente com uma determinada finalidade.por seu conteúdo emocional agradável ou penoso . na prática tudo o que percebemos e lembramos encontra-se tão intimamente ligado a um tono afetivo que se torna impossível-até para os espíritos superiores . Todo mundo sabe que as horas passadas agradavelmente se mostram mais curtas que as passadas sofrendo. inteligentes e acostumados a observar. mas como . (e vice-versa) da situação a testemunhar. mas pode comparar diretamente com estes intervalos outros que conhece melhor (tempo que demora a ir de um lugar a outro. com efeito. Há tipos que costumam superestimar os intervalos curtos e subestimar os longos. de vivências neutras. A localização das vivências no tempo é. De um modo geral nada se pode dizer que sirva para compensar as lacunas dos testemunhos neste aspecto. mas em primeiro de importância. Quem já ouviu as discussões que acerca de uma jogada de uma partida esportiva mantêm os partidários das equipes contendoras pode chegar a convencer-se de que ambos os grupos viram a realidade de um modo diferente.

é interessante conhecer que os denominados tipos psicastênicos ou melhor. Não existe relação (direta ou inversa) . mitômana ou imaginativa e os de personalidade paranóide são os mais suscetíveis de dar testemunhos falsos. para estes indivíduos só pode ser aconselhado o emprego de perguntas disjuntivas. por sua grande autocensura. mas. é preciso que o interrogador se carregue de paciência e não aperte excessivamente o testemunho deste tipo obrigando-o a dar uma resposta precipitada para ele. Além do mais. por isso mesmo duvidam que estejam dizendo exatamente a verdade e tendem a fugir o mais que podem às precisões. não nos cansaremos de aconselhar que o interrogatório destes tipos psicopáticos muito mais . parece-nos desnecessário fazer ressaltar a enorme influência que o tipo de personalidade exercerá . os primeiros.como pretenderam alguns . De um modo gerar a precisão não está sempre unida à veracidade. Estes indivíduos têm quase sempre um imperativo desejo de dizer a verdade. com a condição. não obstante. Porém pode afirmar-se que quanto maior for o grau de extroversão do indivíduo tanto mais fácil será . isto é. menos influenciáveis pelas circunstâncias exteriores e pelo tempo.a obtenção do testemunho. de que um dos dois termos do dilema corresponda exatamente à verdade que se deseja constatar. os tipos de personalidade histeróide. parece existir uma relação positiva entre a precisão dos testemunhos visuais e a disposição eidética que . pois.dentro de certos limites . porém mais constantes. o indivíduo introvertido nos proporcionará declarações mais escassas e mesmo mais subjetivas.segundo as últimas investigações é encontrada com maior freqüência nos tipos introvertidos. como conseqüência do predomínio que neles têm os processos catatímicos e de projeção Em troca. mas costuma estar em razão direta dela. já assinalamos que às vezes o medo nos faz vêlas como não quiséramos que fossem.entre o grau de extroversão e a fidelidade ou veracidade do testemunho. se expõe a fechá-lo em mutismo ou a que a posteriori faça contínuas retificações. Por isso. apresentam. nesse caso.109 quiséramos que fossem (não obstante. Desde já. e os segundos. com a condição de que se saiba interrogá-los de maneira que não possam defender-se com palavras vagas.na moralidade de um testemunho qualquer. tipos compulsivos ou obsessivos. uma grande veracidade em seus testemunhos.em igualdade das' demais circunstâncias . 72 INFLUÊNCIA DO TIPO DE PERSONALIDADE NA CLASSE DO TESTEMUNHO Depois do que foi descrito. mas haverá tanto mais probabilidade de que o mesmo não seja constante. no entanto. por isso. Isto é tão certo que o valor de uma declaração só pode ser julgado conhecendo-se quem a fez (e isso basta para justificar a necessidade de submeter previamente toda testemunha a um exame psicológico). precisamente para acelerar a produção de nossos mecanismos de defesa diante do perigo). Em troca. Está claro que tampouco se deve cair no extremo oposto e permitir que o compulsivo fique submerso em seu habitual estado de indecisão e dúvida. por não ter ficado satisfeito com sua resposta. em virtude de sua tendência confabulatória irrefreável.

Mas esta prova tem o inconveniente de . não há dúvida de que o reconhecimento ou exame não só deve ser psíquico. os meios de que disponha o tribunal etc.) percebidos pelo seu aparelho auditivo. (A este respeito assinalaremos. pode-se. sem nada prejulgar acerca do modo como vão utilizá-la no ato da declaração. diremos acerca da necessidade de proceder a um reconhecimento da capacidade auditiva em todas as testemunhas que devam informar sobre dados (ruídos. Sem dúvida. Tendo em mira esse ponto. a idade das testemunhas. Por outro lado. que é a reconstituição semelhante dos atos testemunhados. e verificando se é então capaz de perceber detalhes equivalentes aos que afirma ter percebido na situação sobre a qual testemunha. eis o capítulo de maior importância prática dos que integram este estudo. naturalmente. isto é. como poderá ela ser determinada? Esta questão é tão árdua e escorregadiça que nem mesmo obras tão completas e modernas se atrevem a formular normas concretas para resolvê-lo. TÉCNICA DO RECONHECIMENTO PRÉVIO DAS TESTEMUNHAS. a todos os dados fisiológicos que for preciso conhecer para avaliar o que pode ver nas circunstâncias em que se encontrava. segundo a importância das declarações que devam ser tomadas. em primeiro lugar. Toda testemunha que tenha de fazer declarações de fatos que "viu" deve ser. Não obstante. em todas as testemunhas que devem depor sobre fatos ocorridos na obscuridade ou em condições defeituosas de iluminação). Quantas vezes uma testemunha afirma ter visto ocorrências que pelas condições especiais de seu aparelho visual é facilmente demonstrável que não pode ver ! O mesmo. à extensão de seu campo visual e. por exemplo. como também fisiológico e mais exatamente sensorial. a necessidade de efetuar uma verificação da "nictopsia". colocando a testemunha em idênticas condições de observação às primeiramente supostas.seja confiado ao psiquiatra judicial. da visão noturna. ao invés de ao juiz.110 freqüentes do que se acredita . É freqüente que uma testemunha diga ter surpreendido uma conversa "cochichada". como quanto à sua capacidade cromatopsíquica (de apreciação de cores). 73. não há dúvida de que tampouco é possível enunciá-las com excessiva rigidez. Uma vez convencidos a maioria dos juristas modernos e os psicólogos e psiquiatras da necessidade de efetuar a avaliação prévia da "capacidade de testemunho" em cada caso. recorrer a outro processo. não só quanto à sua agudeza visual. nessas condições um exame de sua agudeza auditiva pode demonstrar facilmente se isso é ou não possível dada a distância a que se encontrava a testemunha dos interlocutores. desde que este não tenha suficiente preparo psicopatológico. conversações etc. Se não se pode ou não se quer confiar a um médico especializado este reconhecimento sensorial das testemunhas. pois as técnicas variarão segundo os casos. em geral. pareceu-nos necessário dar uma norma "geral" e ''mínima'' de exame de testemunhas em busca de sua "capacidade de testemunho". quer dizer. submetida a um exame oftalmológico que nos mostre qual é sua capacidade visual.

(em virtude do reforço que lhe comunica a atividade de sua "atenção espectante"). pode ser examinada simplesmente por meio de um cronógrafo ou relógio de bolso qualquer. não há dúvida de que o exame psicotécnico é o que proporcionará os dados mais interessantes e sob este aspecto devemos considera-lo dividido em várias partes. Depois submete-se o mesmo a um interrogatório previamente formulado para cada uma. A primeira delas. Concedem-se vinte segundos para examinar cada uma delas e a seguir toma-se exatamente a descrição que o indivíduo faz das mesmas. pode ser avaliada por meio de provas ou reativos especiais. isto é. Quanto à acuidade auditiva. É sabido que os optótipos nos permitem apreciar a agudeza visual em décimos da visão normal. embora feita por pessoal não técnico. conforme sejam as disposições do declarante que se procura pôr em evidência. CAPACIDADE EXAME. Por tudo isso será preferível associá-Io pelo menos à verificação superficial de sua capacidade visual e auditiva. a capacidade de testemunhar em seu sentido mais restrito. a testemunha costuma colocar-se em melhores condições de observação desta segunda vez e. por outro lado.111 que inconscientemente. PSICOEXPERIMENTAL DA DO TESTEMUNHO. nas quais se reproduz uma pluralidade de objetos estáticos ou se fixa instantaneamente uma situação dinamicamente complicada. Esses optótipos constam de sinais literais e simbólicos arbitrários. que será aproximado lateralmente ao indivíduo até que ouça seu tique-taque primeiro com um ouvido. denominados pelos autores alemães e pelos ingleses "Rapportfidelity-tests" (provas de testemunho ou de fidelidade de declaração. ou de um modo deliberado. Só em ocasiões excepcionais pode ser de interesse a determinação prévia da capacidade gustativa ou olfatória de uma testemunha (para o que se recorrerá ao emprego do geusiestesiômetro e do olfatômetro. respectivamente). estando o outro tapado. o simples fato de estar prevenido sobre o que vai testemunhar aguça notavelmente sua capacidade perceptiva. Quantas pessoas existem na gravura? Quantos animais? Que classe de animais? Que está fazendo a pessoa situada à sua esquerda na gravura? Que objeto está situado atrás dela? Que faz a pessoa situada no centro da gravura? Essa pessoa tem barba ou não? O homem que cuida do cachorro o traz preso por uma correia ou o segura . Quase sempre são utilizadas séries de gravuras em cartolina. no qual são feitas as diferentes classes de perguntas. e depois com outro. 74. que devem ser lidos a distâncias determinadas. No entanto.

de sorte que é menos perceptível quando se opera com indivíduos jovens do que quando são utilizados adultos ou pessoas maduras. mesmo quando para um determinado indivíduo não haja dúvida que estes dois fatores variam na razão inversa. dez por cento de erros nas declarações juradas. apesar disso. d) PRECISÃO E CONVICÇÃO.112 diretamente pela coleira que está em seu pescoço? Que fazem as pessoas no fundo? As pessoas situadas no primeiro plano vestem alguma coisa mais do que a roupa de montaria? De que cor é sua pele? De que cor é o cachorro? Qual é o traço mais peculiar que notou no aspecto das pessoas na gravura? Que objetos existem no primeiro plano. uma precisão de 75%. embora sucintamente. . Deve-se advertir que a superioridade dos homens com respeito às mulheres aumenta com a idade. pois quando o número de erros no testemunho jurado é a metade do que se observa nas declarações espontâneas. Somente uns 2% de indivíduos foram capazes de não cometer nenhum erro na descrição espontânea e 0. . c) EXTENSÃO DO TESTEMUNHO E OUTRAS CONSTANTES. isto é. adiante de tudo? Há alguma água representada na gravura? O homem branco está situado à sua esquerda ou sua direita? O Sol parece iluminar a gravura pela sua esquerda ou pela sua direita? Como é que você sabe? Quanto tempo. A média de indivíduos adultos normais apresenta. e) INFLUÊNCIA DO SEXO. . persistem.5% não o cometeu na declaração (interrogatório posterior). em troca sua extensão foi um pouco menor (ou seja que o homem tende a afirmar menos dados.Em todas as experiências espontâneas ou sob o interrogatório a precisão dos testemunhos dos homens excedeu globalmente de 25% à das mulheres. . . alguns dos resultados gerais obtidos com esta classe de provas: a) PRECISÃO. mas em troca testemunha com maior objetividade que a mulher.Não se pode tampouco estabelecer nenhuma relação entre a extensão de um testemunho e o valor dos coeficientes. . aproximadamente. você contemplou esta gravura? Vejamos agora. quando se empregam perguntas sugestivas no interrogatório.O primeiro (e talvez o mais importante) dos resultados é que praticamente se pode dizer que ninguém chega a dar um testemunho perfeito (isto é.O grau de convicção da certeza de um testemunho não é garantia suficiente para acreditar em sua veracidade. b) EXTENSÃO E PRECISÃO.Não existe relação alguma entre a extensão e a precisão do testemunho. completo e totalmente verídico) do que viu.

retoques ou complementação dos dados mnêmicos em virtude de uma intenção determinada: ficar melhor. 4°. erros de imaginação (confabulação. De um modo geral pode-se dizer que com o tempo o testemunho perde mais em extensão que em precisão. 3°. Em todo testemunho intervêm. erros de julgamento (interpretação errada de dados. As crianças são extremamente sugestionáveis e por isso deve-se conceder mais confiança a suas declarações espontâneas que as obtidas com o interrogatório. quanto mais tempo transcorreu.113 f) INFLUÊNCIA DA IDADE.Para não complicá-la demasiadamente bastará distinguir quatro classes deles: 1°. Não obstante. 2°. . erros de lembrança (esquecimento completo. uns 25% do total dos dados ou idéias depostas.Nem as crianças nem os velhos são testemunhos dignos de confiança em geral. tanto menos preciso costuma ser o testemunho. Tendo em conta os dados que apontamos antes. falta de autocrítica ou excesso da mesma etc).). cresce em troca sua convicção na certeza de suas declarações (isso se explica pela debilitação simultânea de sua capacidade de apreensão de estímulos ou memória imediata e de juízo de realidade). é preciso ser muito cauteloso ao dar-lhes valor como testemunhas. não obstante.). sobretudo a partir do sétimo decênio. embora este seja bem conduzido. apesar de que a precisão de seus testemunhos seja sensivelmente igual.A experiência obtida com estas provas demonstrou que a narração espontânea é menos extensa. Nas pessoas de idade. . pseudo-memórias etc. o processo natural de obscurecimento das lembranças. . convém assinalar que a curva de perda dos detalhes do fato não coincide de modo algum com as curvas de esquecimento que se obtêm nas experiências feitas para o exame da memória. Dos sete aos dezoito anos se duplica o número de dados corretamente testemunhados. DEDUÇÃO PRÁTICA DO EXAME. uns 10% e na segunda. em média. porém mais precisa que a obtida com o interrogatório. dar a si maior importância etc. fatores afetivos que são capazes de resistir ou exagerar.Como é natural. I) ANALISE QUALITATIVA DOS ERROS DO TESTEMUNHO. a precisão do testemunho (relação entre o número total de dados testemunhados e verídicos e o número dos testemunhos certos) só aumenta nesse lapso de tempo de 20%. g) INFLUÊNCIA DO TEMPO TRANSCORRIDO ENTRE A OBSERVAÇÃO E o TESTEMUNHO. 75. Com efeito. . segundo os casos. os erros na primeira alcançam. É curioso o fato de que a tendência ao juramento seja maior nas mulheres que nas mocinhas. h) INFLUENCIA DA FORMA DE OBTENÇAO DO TESTEMUNHO. pois dá-se o raro caso de que à medida que diminui nelas suas precisão de observação e testemunho. com efeito. erros de observação (apreensão ou percepção insuficiente ou deformada). deveriam ser eliminados como .

Com efeito. Seja qual for a intervenção que o jurista tenha no assunto judicial suscitado (defensor. aparentemente. acusador ou simplesmente perito). do declarante. tudo o que tende a conseguir melhorar ou aumentar o grau de certeza das declarações judiciais (tanto do autor.na medida do possível. atitudes e intenções. que as respostas sejam registradas exatamente. melhor. 2°. Não pode haver justiça absoluta sem certeza absoluta. Tenha-se em conta que esta parte do exame psicotécnico só se aplica para descobrir a capacidade de testemunhar sobre fatos. pausas. Porque não há dúvida que é possível introduzir um grande aperfeiçoamento no modo como hoje se procede para a obtenção da evidência do delito. preciso e claro. 3°. estamos aqui em face do primeiro problema em que a Psicologia jurídica deve e pode intervir praticamente com êxito. por isso. mas sim por meio da cópia taquigráfica ou. Não há dúvida de que. não como atualmente acontece por meio da simples cópia gráfica. que as perguntas sejam premeditadas. como das testemunhas e peritos) será visto com simpatia pelo jurista que mereça este título. formuladas de um modo coerente. como é natural. na imensa maioria das vezes o jurista procede de um modo intuitivo em seus interrogatórios e ações. deveria ir então acompanhada ainda de um exame de sua capacidade de julgamento intelectual e moral. Não obstante. como infelizmente acontece. CONFISSÃO COM PROVAS. Igualmente deveriam ser julgados com grande precaução os testemunhos de indivíduos cujo índice de erro oscilasse entre 10 e 20% no relato espontâneo e 25 e 35% no provocado. pois. a obtenção da verdade. por meio do registro parlográfico que nos permitirá em todo momento reconstruir as inflexões da voz.comprovar a sinceridade ou a falsidade do indivíduo ao declarar. deve interessar-lhe. como também a intervenção do acusado no mesmo. E se. . CAPÍTULO X A OBTENÇAO DA EVIDÊNCIA DO DELITO 76. deve. vacilações etc. é preciso preencher estas três condições: 1°. ser completada com o uso dos processos antes descritos para a verificação da sinceridade nos testemunhos reais. quaisquer que eles sejam. este é o problema central que se suscita nas ações judiciais: conseguir precisar não só a natureza do delito cometido. se pede à testemunha não só a descrição como também a interpretação de fatos. guia-se pela psicologia ditada pelo seu senso comum e confia o êxito de seu trabalho à inspiração momentânea e à sua agilidade mental.114 testemunhas todos aqueles que na prova psicoexperimental prévia proporcionassem um testemunho espontâneo de mais de 35% de erros. que por meio de processos (que a seguir descreveremos) se possa . obtendo sua convicção e confissão com provas objetivas tais que não reste dúvida acerca da mesma. e. Pois bem. se se quiser atingir a máxima eficácia nos interrogatórios judiciais.

J. J. senhor. A. havendo testemunhas que presenciaram o fato. J. mas ao aproximar-me o vi cair dando um grito e ao querer levantá-lo do solo. conforme você diz. . Eu não fiz nada. senhor. Não sei o que o Sr. E por que você o queria agarrar? A. senhor. J. Eu não fiz nada. J. N. saber não perder-se em detalhes sem importância e em troca não deixar de perguntar nenhum dado de interesse. Ter uma norma a partir do primeiro interrogatório eqüivale a conhecer o grau de sugestão que produzem as diferentes perguntas. Não negue a evidência. Nestas condições. sim. J. o juiz procura obter em seguida a confissão do acusado. Todos estão unidos. Então quem o fez? A. J. De que podia você denunciá-los? A. Você faz mal em acrescentar a mentira à sua má ação. Mas confessa que se levantou da mesa para agredi-lo. J. após uma discussão surgida por motivos de jogo. E você diz em troca que não sabe quem o apunhalou. Para agarrá-lo. A Deve haver um engano: eu me aborreci com N. J. os demais me afastaram e o levaram. senhor.115 Um questionário elaborado com antecedência. senhor. Por que deu você uma punhalada em seu amigo? A. estão contra mim porque lhes disse que poderia denunciá-los e por isso querem prender-me. J. Para agarrá-lo. Então você insiste em negar que tenha apunhalado N. É um delito banal e ao juiz chega a parte da Guarda de Segurança junto com o laudo do facultativo que descreve a ferida da vítima como causada por um instrumento pontiagudo que alcançou os intestinos e produziu uma grave hemorragia interna. quer dizer. E melhor que você nos diga por que o fez. A. Porque falou no nome de minha mãe e isso não tolero de ninguém. A. Com a finalidade de mostrar o que propugnamos. Várias coisas que fizeram e não se deve fazer. e levantei-me para baterlhe. Que interesse teriam as testemunhas e a vítima em acusá-lo se você fosse inocente? A. Sim. (a vitima) certamente tem motivo para não dizer quem o feriu. A. A. são várias as testemunhas que presenciaram o delito e a própria vítima declarou que foi você quem a feriu. sem prejuízo de que a ele sejam acrescentadas outras perguntas que surjam no momento à mente do interrogador ao considerar as respostas anteriores do declarante. Sim. só sei que não fui eu. Eis uma parte das perguntas do sumário que poderíamos considerar como típica ou clássica: J. Pense que negar seu ato de nada serve. isto sim. Isso é o que o senhor deve averiguar. eu esperei e então me prenderam. suponhamos que diante de um tribunal de guarda é conduzido um homem que acaba de dar uma punhalada em outro numa taberna.

mas N. pois é ele que com suas respostas determina as perguntas ou comentários subseqüentes do juiz. está pior com Y do que com ninguém. que sucederia. N. Haverá dúvida de que neste segundo modelo de interrogatório se obtêm com seis perguntas dados mais interessantes que no primeiro com doze? Vejamos o porquê da diferença: no primeiro interrogatório o juiz discute com o acusado e dá mostras de um critério apriorístico. Eu me limitei a dizer-lhe que fizera uma "sujeira". Descreva exatamente neste plano a posição em que vocês estavam em torno da mesa quando isso aconteceu: J. mas cada um o e de modo diferente. Y. Foi ele quem me provocou. A. Z e começamos a falar de um assunto em que N e X haviam feito uma "sujeira" comigo. talvez. No momento em que ele se levantou para defender-se caiu dando um grito e fui afastado dele por X e Z. é também muito mau. é antes de tudo . finalmente. depois. Então ele me disse que porca era minha mãe e eu não pude conter-me e levantei-me para bater-lhe. em troca. depois deste. . quem você acredita que é o pior de todos seus companheiros? A. traçado de antemão. quem segue e. J.X. vice-versa. tendendo obter mais do que a confissão. a quem você quer menos. mas todos me odeiam. Ye Z. isto é. mas não é verdade. me disse que eu era um "tolo" e eu respondi-lhe que ele era um "porco". A. Diga-me para que lado e onde caiu N. A. Diga quais são as relações de amizade ou inimizade que existem entre N e as outras testemunhas. Diga-me mais ou menos qual é o grau de amizade que o une a N. senhor. Vejamos. levantou-se para vir sobre mim pelo lado onde estava Y e ao dar o grito caiu de bruços sobre a mesa. Veio gente que o levou e me prendeu dizendo que eu o havia ferido. porque têm inveja de mim. Diga-me.116 J. o que se denomina a "evidência do delito". Y. que no fim fica como de início. todos se odeiam uns aos outros. uma confissão de nada serve se não for acompanhada de provas que a tornem desnecessária. Y. enquanto Y. Com efeito. No segundo.X. N. o é sempre. De nenhum deles se pode saber.o é quando há necessidade. qual é seu preferido. Quantas vezes alguém se acusa de um delito não cometido e. as perguntas discorrem de um modo imperturbável. Não é preciso ser muito perspicaz para ver como neste caso o interrogatório é uma luta na qual a direção é assumida pelo acusado. porque N. N. Isso não é verdade. pois. ao ser ferido.. Diga-me o que aconteceu. se esse mesmo juiz houvesse preparado de antemão seu plano de interrogatório e o tivesse levado a termo integralmente: J. X. J. Eu gosto de todos. É esquisito que as demais testemunhas digam que foi você que insultou a dele primeiro. A. J. a qual deles você quer mais. Z. Estávamos jogando cartas N. sem ter obtido um dado de proveito. quantas vezes o acusado nega a evidência! O que importa.

a menos que as circunstâncias sejam de tal natureza que dispensem. Nada há que desoriente mais o acusado ou a testemunha que procura enganar em suas declarações do que ver como suas respostas são registradas sem comentários e como as perguntas que lhe são feitas obedecem a um plano premeditado que o coloca em condições de inferioridade para prosseguir em seu embuste. será cada vez mais difícil justificar a mentira anterior com a seguinte.no sentido que lhes convenha . perdem-se numerosos detalhes interessantes que podem ser obtidos observando a expressão verbal do indivíduo no que tem de mímica afetiva. Deve-se proceder seguindo uma seriação lógica dos acontecimentos e em vez de voltar do delito a seus antecedentes deve-se procurar seguir o caminho inverso. se o juiz pudesse dispor de métodos que lhe permitissem conhecer quando um declarante procura enganá-lo deliberadamente. devem ser taquigrafadas pelo menos por dois taquígrafos. Não há dúvida que. quando não. Mas. qualquer função investigadora. para deduzir a motivação do delito e preparar devidamente a ação do sumário e o trabalho do tribunal de sentenças. E ainda. . Sua descrição. feita à base da racionalização de sua conduta. Para isso é preciso não se deixar influir pelas respostas das testemunhas e acusados. será fácil. por assim dizer. pois bem. o resultado de seu trabalho. quando se trata de indivíduos que falam um pouco depressa é impossível. a isso tendem os psicólogos cada vez mais e hoje em dia já nos encontramos de posse de técnicas capazes de proporcionar resultados interessantes. análises e comentários bem merecem parágrafo à parte. independentemente. se partirmos de uma mentira nos antecedentes e o interrogatório nos leva avante. inventar novas mentiras que a justifiquem. . que a todo momento procuram fazer o juiz penetrar na corrente de sua argumentação. nada se perde em seguir este método (que poderíamos denominar cronológico natural) como norma geral. A razão disto é muito simples: se partirmos de uma mentira. anotar suas próprias palavras. Não obstante. até chegar a mentiras não comprováveis. a comprovação do grau de sinceridade das declarações. ter-se-ia dado um passo agigantado na prática forense. até chegar ao momento atual em que qualquer afirmação a ele referente pode ter uma comprovação imediata. ir dos antecedentes ao delito. voltando para o passado. ou seja. porque vai se tomando cada vez mais fácil a comprovação dos extremos afirmados. o máximo concurso que a moderna Psicologia pode prestar ao jurista refere-se ao terceiro aspecto do problema discutido. O processo seguido de tomar as respostas pela escrita ordinária ou à máquina tem o gravíssimo inconveniente de acarretar uma perda de tempo que é sempre aproveitada pelos declarantes para fazer sua retomada de posição e poder deformar melhor . Além.117 reconstruir os latos com a menor veracidade e objetividade possível. ou seja. Vejamos agora o segundo extremo: as respostas devem ser registradas com o parlógrafo sempre que se tratar de interrogatório de importância. E como ao juiz deve interessar ter uma visão exata não só do delito como de seus antecedentes. que darão ao juiz. do mais. indicadora de seu estado emocional e de seus propósitos alternos. no melhor dos casos..sua declaração.

Jung propôs sua prova de associações determinadas. serem muito mais emocionáveis e nervosas que ela. pois. apesar de duas de suas companheiras. infelizmente. isto é. pois. com efeito. esta prova tem um fundamento científico. menos para o que procura nos ludibriar. do conjunto de experiências ou "vivências' que um indivíduo qualquer quisesse ocultar. por afirmação de mentiras ou ocultando verdades. isto é. no entanto.118 77. TÉCNICAS UTILIZÁVEIS PARA O CONTROLE DA SINCERIDADE DOS DECLARANTES O propósito de burlar a justiça nas declarações. Trata-se. mas também muito nos . que há muitos anos os juristas se preocupam com o meio de obter uma prova objetiva do grau de sinceridade nos testemunhos. que as diferenças pessoais de emotividade são suficientemente intensas para secar a garganta de um inocente ingênuo e não alterar em troca a de um delinqüente ou astuto declarante. de tão remotas datas é preciso transportar-se para uma década de nossos dias para encontrar algo que represente um avanço técnico neste sentido: há dez anos. por ação ou omissão. nas duas formas. associada ao registro do tempo de reação e às particularidades desta última como meio indicador dos "complexos". Na remota antigüidade os juízes persas empregavam uma prova que chegou a se tomar célebre: " a prova do arroz". não somente serve para pôr em evidência o "complexo" que o indivíduo procura ocultar. sem a qual é evidentemente impossível engolir-se um punhado de arroz seco. Facilmente se depreende. em conseqüência desse critério. no caso mais favorável. e. Não obstante. A importância psicológica desta prova é enorme. anulavam as declarações das mesmas. a primeira é um fator constante que intervém em todas as associações (respostas). mas não se era ou não sincera em seu testemunho. O fundamento da técnica de Jung é o seguinte: se em uma lista de palavras se intercalam umas tantas direta ou indiretamente relacionadas com o que o indivíduo procura ocultar. que consistia em fazer engolir rapidamente certa quantidade deste cereal imediatamente depois de terminada uma declaração. ao passo que a segunda só reage em determinado número delas que não conhecemos a priori. Diziam eles que por vontade dos deuses todas as pessoas que tivessem declarado em falso ficavam impossibilitadas de engoli-lo. inocentes. ver-se-á como este vacila um pouco antes de responder (procurando uma palavra que sirva para dissimular sua reação primitiva) ou sua resposta exibe alguma anormalidade. Apesar de sua aparente ingenuidade. Nesse caso a comparação entre as reações às palavras-estímulos "específicas" e às "neutras" dá uma base para distinguir a influência da emotividade geral e a da emoção despertada pelo medo de ser descoberto. ou seja. de uma prova que permitia. e assim se compreende que Jung pudesse. reconhecer entre nove enfermeiras suspeitas de um furto em sua clínica a que o havia praticado. que todo estado emocional intenso inibe a secreção salivar. com o emprego desta prova. Sempre é possível formar uma lista que contenha palavras que sejam "neutras" para qualquer indivíduo. conhecer se a pessoa encontrava-se ou não emocionada ao declarar. é tão geral.

de você colocar-se em uma atitude passiva. diga-o com toda a ingenuidade. todos os sinais objetivos que a acompanharam (mudança da voz. eqüivale a convidá-lo que nos manifeste qual é a impressão dominante que esta lhe produz. Nesta segunda parte da prova anotam-se igualmente o tempo que demora em produzir-se a resposta. uma vez será uma lembrança. para os fins da prática forense convirá sempre preparar especialmente esta lista. Como se investiga a sinceridade do indivíduo por meio da prova psicanalítica de Abraham-Rosanoff-Jung. "Vou dizer-lhe uma série de palavras. sem pensar em nada. Como dissemos. dizer a um indivíduo que nos comunique o que primeiro lhe ocorre diante da palavra "honradez". terá a bondade de fixar-se bem em cada palavra das que lhe direi e responder-me com o que primeiro lhe ocorrer depois de ouvi-la. ex. uma imagem. Mas. por estranho e absurdo que lhe pareça. Quais são os sinais de tal desadaptação? Mais claramente. a resposta em questão. outra será um comentário. incluindo nela algumas palavras "específicas" em substituição a outras neutras. deixa-se o indivíduo descansar por alguns instantes convidando-o em seguida a ouvir novamente a lista de palavras-estímulos e a repetir para nós as mesmas respostas que nos deu na experiência original. titubeios. e por isso a pessoa que se encontra defeituosamente adaptada à situação. se utiliza a lista clássica estabelecida por Jung. Uma vez terminada a prova." O examinador deve registrar durante a prova: 1°. uma palavra ou uma frase: seja o que for. por isso nos parece justificada a intenção de expor com detalhe sua técnica e os resultados que se podem obter. A necessidade de proceder assim será facilmente compreendida se tivermos em conta que a prova de Jung não é em definitivo outra que um interrogatório dissimulado e comprimido. pois. sem pensar se está bem ou mal. Com efeito. que foi objeto de uma cuidadosa elaboração prévia. Quando se trata de examinar um indivíduo sem nenhum propósito concreto ou predeterminado. na qual se encontram contidos os estímulos mais apropriados para despertar conflitos da vida. etc. a. e me comunicar o que primeiro lhe ocorrer.O examinador coloca o indivíduo comodamente estendido e venda seus olhos para evitar qualquer distração. Senta-se a seu lado com a lista de palavras-estímulos. p. 2°. de cem palavras. copiada ad litteram. não saberá adaptar-se tampouco à experiência associativa. movimentos de impaciência etc. Você. uma de cada vez. os décimos ou quintos de segundo transcorridos entre a enunciação da palavra-estímulo e a obtenção da resposta. uma a uma.119 informa sobre sua personalidade. Trata-se. . 3°. quais são os sinais reveladores de que a pessoa oculta seus verdadeiros sentimentos com respeito à questão implicitamente suscitada por meio da palavraestímulo? . repetição da pergunta.. entendemos por estímulo especifico o que se acha direta ou indiretamente relacionado com a situação delituosa. pessoa ou objeto que aquelas representam. a reprodução correta ou incorreta da mesma e a conduta da pessoa durante o tempo da evocação. As palavras estímulos tomam-se símbolos da realidade.). deixar seu cérebro ser impressionado pelas palavras que irei dizendo.

mas não costuma exceder de dois ou três segundos. como resposta às palavrasestímulo seguintes. sucede às vezes que o indivíduo afirma. .120 Ei-los: 1° Atraso na Resposta.A mesma significação tem esse fato semelhante.Quando uma mesma palavra é repetida várias vezes pelo indivíduo na prova. diante de alguns destes. .A duração média do tempo que transcorre entre a pronúncia da palavra-estímulo e a resposta do indivíduo é bastante variável. antes de responder. 9° Repetição Defeituosa da Reação. repete a palavra-estímulo. comumente conforme os indivíduos e segundo a natureza dos estímulos.padrasto).É possível que o indivíduo dê uma resposta aparentemente absurda e depois explique dizendo que confundiu a palavraestímulo com outra mais ou menos semelhante. 8° Mudança de Sentido da Palavra-estímulo. 5° Repetição da Palavra-estímulo. ódio . ser considerada suspeita de insinceridade. honradez . Por isso todos os tempos de reação superiores a quatro segundos são indícios de que o indivíduo se acha preocupado em nos ocultar sua primitiva intenção de resposta. 4° Associação Superficial Anormal. 2° Ausência de Resposta.pai. . 7° Persistência. ou então nos afirma que respondeu de outra . . suspeitaremos que isso seja devido a seu desejo de nos ocultar a associação primitiva por considerá-la por demais expressiva. (Exemplo. sorte . quando observada. . 6° Repetição das Palavras-resposta . que não os ouviu antes. mais ou menos deformada.Este sinal costuma aparecer junto com o primeiro e supõe.Às vezes a pessoa.parede. Tal conduta deve.Quando o indivíduo nos dá uma associação superficial vulgar (uma associação de som. é indubitável que tem para ele uma significação especial. se pede ao indivíduo que nos tome a dar as mesmas respostas ao ler para ele pela segunda vez a lista de estímulos. Nunca se deve esperar mais de trinta segundos para passar à palavra seguinte da lista. o indício passa à segurança de que o examinado não é sincero. . como se depreende. por conseguinte. em virtude do qual uma associação persevera. uma mudança de direção voluntariamente introduzida pela pessoa examinada no curso das associações. 3° Reação Absurda. É inteiramente análogo ao que fazemos no curso de uma conversação quando mudamos bruscamente de tema para fugirmos de ser interrogados a respeito de algo que queremos ocultar. uma vez terminada a experiência.Quando. que é preciso averiguar.É um exagero do fenômeno anterior e. . Tal atitude é devida quase sempre à ação perturbadora da resposta que se acaba de ocultar. Este é um modo de garantir a si um pouco mais de tempo para preparar uma resposta que julga difícil. . por exemplo) em meio de uma série de associações intrínsecas corretamente estabelecidas.

b. Essa irregularidade não só se observa na amplitude e no ritmo da respiração e da circulação.121 maneira. por meio de um cronógrafo de Jacquet. se se observa detidamente seus registros gráficos. Na linguagem psicanalítica denomina-se esta técnica o método da metralhadora. isto é. no qual propunha utilizar o registro gráfico da pressão arterial e da respiração associado ao interrogatório judicial comum. O controle da sinceridade por meio do denominado "detetor de mentiras" e seus derivados. segundo Larson. marcando com um estilete sobre o papel enfumaçado o momento em que se pronuncia a palavra-estímulo: é ainda melhor se se associam a este gráfico o da respiração e o do tempo medido em quintos de segundo. que trabalhava no laboratório de investigações da Escola de Policia de Berkeley. o psicólogo norteamericano J. tomados do trabalho original do autor. o dispositivo constituído pelo oscilógrafo ou o esfigmomanômetro e o pneumógrafo merece. o de dirigir rapidamente sobre o indivíduo uma série de projetis (verbais) cuja ação se soma até conseguir finalmente o efeito desejado. publicou um interessante trabalho. se registra nas curvas dos traçados uma acentuada irregularidade. Se isto acontece com palavras que despertaram nossas suspeitas na primeira parte da experiência. Quatro ou cinco . DE APERFEIÇOAMENTOS TÉCNICOS DA PROVA JUNG-ÁBRAHAM ROSANOFF. De todas as técnicas propostas. Nessas condições. para verificar o grau de sinceridade dos declarantes. "The cardio-pneumopsychogram in deception" (o cárdio-pneumo-psicograma na fraude). no curso de várias respirações que podem parecer normais à primeira vista. 78. descobrir a inversão dos tempos relativos da inspiração e da expiração. . A. Deve-se advertir que via de regra os sinais reveladores de complexo. porque. se é de certa importância. porque se baseia no mesmo princípio desta. possivelmente. sempre que o indivíduo diz uma. servirá para terminar de confirmá-las. Larson. Nos casos de dúvidas deve-se ter um especial cuidado na elaboração da lista de estímulos. Poucos são os indivíduos que tenham intervindo nele diretamente e que sejam então capazes de responder normalmente.No mês de dezembro de 1923. como também. se apresentam associados de sorte que na prática é sempre fácil o diagnóstico da reação "reveladora". a melhor é sem dúvida a que consiste em obter o registro gráfico das oscilações de tensão arterial no tornozelo durante a prova. o nome de "detetor de mentiras". conforme se pode ver nos gráficos que expomos a seguir. O valor desta prova aumenta extraordinariamente se à inscrição gráfica das reações verbais se associa ao registro de alguns dos fenômenos somáticos concomitantes do choque emocional despertado pelas palavras estímulo específicas.

criar uma técnica metodológica que una dinamicamente as atividades centrais e as periféricas até fazê-las constituir um sistema unitário. que é uniforme. o emprego do referido aparelho para ajudar a investigação criminológica. muito ligeiramente. o contorno das mesmas.representa o método preconizado recentemente pelo psicólogo russo Luria para verificar o grau de sinceridade dos declarantes em função das alternativas que uma série de movimentos musculares ordenados experimentam no decurso de sua declaração. A marcha do fenômeno invisível será estudada então em função das mudanças que determinar no visível ou registrável. a forma do movimento pode ser um indicador que nos dê a possibilidade de observar diretamente (através de suas modificações) as alterações que se produzam no aparelho nervoso. E este autor sustenta que quando se torna impossível a observação direta de um fenômeno. e ao mesmo tempo que deve se encontrar na dependência direta do primeiro. Wollmer. como dissemos. pois.122 respirações antes e depois do estímulo provocador da mentira. Com ele se obteve um êxito retumbante num assunto que apaixonou em 1929. observaremos que a curva das pressões exercidas adota uma forma sensivelmente idêntica. ou seja. diferindo em todo caso. nesses casos o ciclograma demonstra a constância do "esquema" motor. a intensidade ou altura das elevações. prensão de um objeto etc. a opinião estadunidense: com o desaparecimnento do secretário do Almirante norte americano em Manila (Eugêne Besset). . de Criminologia na Universidade de Chicago.). independente. com a condição de que saibamos isolar as influências endógenas alheias ao sistema neuro-motor. c). Prof. O método da "expressão motora" Um positivo progresso :.por tratar-se de um princípio original . obtém-se um cociente positivo no caso de sinceridade e negativo no caso de resposta falsa. de sua maior ou menor intensidade. Esta constância da forma se observa também quando se trata de movimentos de maior extensão e complicação (movimentos circulares da mão. todos eles baseados na inscrição gráfica e simultânea das curvas de respiração. propôs então. De todos eles. Foi acusado como suposto responsável. Torna-se necessário. em troca. justifica-se sua observação indireta por meio de sua associação artificial no tempo (por coexistência temporal) com outro que se mostre mais facilmente registrável. Por conseguinte. É claro que este último deve preencher determinadas condições de regularidade e simplicidade de registro. Earl Mayer e o fiscal Ewing Calvin. tensão sangüínea e volume de extremidades." Vejamos agora como procedeu para encontrar a solução deste problema: se a um indivíduo não treinado e ignorante dos fins da experiência se pede que exerça durante muito tempo uma pressão digital rítmica sobre uma membrana pneumática (em comunicação com um tambor). Luria assim formula seu pensamento: "Para encontrar uma expressão fenomenológica adequada dos processos centrais deve-se utilizar um sistema que se encontre em conexão direta com eles e este não pode ser outro senão o dos movimentos voluntários. mas conservando-se. o mais completo é o de A. Os êxitos proporcionados pelo "lie detector" nos diferentes processos criminais nos Estados Unidos impeliram um grande número de investigadores a aperfeiçoar a técnica de registro e não tardaram a surgir vários outros dispositivos.

Que diferença existe então na curva de "expressão motora" quando se apresenta uma alteração. a reação associativa. de ordem intelectual e quando esta é de ordem afetiva (por insinceridade)? A resposta é bem simples: o curso da resposta motora não se desfigura no primeiro caso e sim no segundo.devido a essas condições . Isso se explica porque na.123 Luria começou suas experiências usando simultaneamente a clássica prova das associações livres com o batismo digital rítmico sobre a membrana pneumática. além do mais. 2°. mensurável em sua duração e complexidade. independente de toda influência afetiva e ligado somente às flutuações da atenção e do funcionamento cerebral. Este processo associativo . e. a resposta fora sincera. ao passo que os demais sinais "reveladores" até agora conhecidos podiam também apresentar-se simplesmente em conseqüência de alterações intelectuais (não afetivas) provocadas pela complexidade ou dificuldade associativa da palavra estímulo. Nestas condições.fora utilizado (assim como o das associações determinadas) com fins de exame psicanalítico criminológico. acha-se influenciada do modo mais direto pela afetividade e sobretudo pelas tendências subconscientes ou reprimidas (complexos). por outro lado. realidade esta última só se altera nos casos em que surge no interior do indivíduo um conflito entre duas tendências afetivas potentes. os resultados eram bem evidentes: quando a palavra-estímulo não havia despertado a atividade de um "complexo". então a inibição (ativa) que o indivíduo efetuava sobre suas reações ídeo-verbo-motoras traduzia-se imediatamente em uma irregularidade manifesta da curva de expressão motora. no curso associativo. Um ponto muito interessante é a falta de correlação perfeita entre o tempo de reação ou a originalidade da resposta verbal (sinais agora admitidos como indicadores seguros do "complexo") e a irregularidade da curva de "expressão motora". sendo.as fases intermediárias (que por motivos fáceis de se compreender não podem ser tampouco examinadas por hetero-introspecção). mas quando o estímulo verbal se achava relacionado com alguma coisa que o indivíduo desejava reprimir (isto é. a reação associativa tem sempre um conteúdo psíquico (central) e acha-se em relação determinável com a natureza do estímulo. de sorte que constitui. A diferença entre a reação correspondente a uma resposta sincera e a outra falsa reside no fato de que a primeira se mostra coordenada (organizada) e a segunda incoordenada (desorganizada). o mais fino reativo das comoções afetivas. o indivíduo era convidado a bater com o dedo no mesmo momento de pronunciar a palavra reação. por conseguinte. Por exemplo. por assim dizer. duas curvas onde em ambas se nota uma anormal duração do tempo de reação associativa (uma. ou por um súbito "vazio" ou paralisação do processo do pensamento. ao fim de sete segundos e quatro décimos de ser . ocultar).embora indiretamente . capaz de pôr de manifesto a nós seus mecanismos característicos. Nesse sentido serve maravilhosamente para provocar transtornos da atividade central normal. obtinha-se uma curva de "expressão motora" completamente regular. mas os pesquisadores haviam se limitado a notar somente os extremos do mesmo (estímulo e reação) sem poder dispor de um meio que lhes permitisse seguir . Para escolher esta prova teve dois motivos: 1°.

a que bate na membrana. idealizamos um dispositivo que permite a cômoda inscrição ." . de modo que não se detenha nem antes nem depois do local em que antes se detinha.Por nosso lado. deve procurar fazer o movimento o mais regular e monótono possível. pelo que aconselha obter cinegramas de ambas as mãos . Este fato é facilmente compreendido se se tem em conta que a pessoa examinada cometera um crime e teve que enxugar as mãos . isto é. que Luria se mostra excessivamente entusiasmado com o método. seguindo o compasso deste metrônomo. É preciso que você se fixe bem na velocidade deste movimento. Não obstante. damão. . de modo que cada pancada do metrônomo corresponda ao início de um novo movimento de ida e volta. as tiraremos. na outra. e você deverá procurar então continuar movendo-a na mesma extensão. de princípio. aos sete segundos e três décimos de ouvir "toalha". "Para começar pomos estas duas escoras à direita e à esquerda. mas não há dúvida que representa um positivo progresso na pesquisa comprovadora da sinceridade dos declarantes. porque ao fim de um minuto pararemos o metrônomo e você deverá continuar seu trabalho com o mesmo ritmo. que servem para ensinar-lhe a extensão do deslocamento da manivela. respondeu: "de lenço"). mas então se traduzem embora de modo mais atenuado . de modo que o gráfIco não assinale nele nenhuma alteração.124 pronunciada a palavra "livro".em alterações da mão esquerda (sincinésias). na mão direita. por conseguinte. Seu principal defeito é o de necessitar cooperação voluntária do indivíduo para poder ser efetuada. ou algumas delas. Parece-nos. sem fazer os movimentos nem mais depressa nem mais devagar. Um detalhe de importância é o de que em determinados indivíduos as reações chegam a ser inibidas (voluntariamente) com a prática. neste último o método levaria a resultados menos brilhantes. Nossa modificação da técnica de Luria.ainda ensangüentadas com uma toalha. Em geral existem variações individuais com respeito à facilidade de expressão motora dos conflitos psíquicos.de um movimento de vaivém. também ao cabo de um minuto. Tudo isto quer dizer que você. d. Para isso pedimos que pegue na manivela deste aparelho e a desloque da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. facilmente automatizável. Eis nossa técnica: Diz-se ao indivíduo: "Desejamos saber o tempo em que você é capaz de aprender um movimento.com lápis ou tinta . conservando sempre a mesma velocidade e a mesma extensão. na primeira curva a "expressão motora" é inteiramente normal (organizada) e na segunda. não. mas. e por conseguinte Luria parece disposto a aceitar a existência de pelo menos dois tipos extremos que se denominam moto-lábeis e motoestáveis. se o declarante é medianamente desembaraçado pode voluntariamente deformar todas as suas respostas motoras. nesse caso podemos chegar a crer que nos disse mentiras quando nos disse verdades e nos desorientar ao julgá-lo.se bem que a mão direita seja a ativa. o indivíduo respondeu: "branco". com o objetivo de aperfeiçoar a técnica de Luria. isto é.

com efeito. convém misturar com essas questões especificas outras de caráter neutro. não só para dar a máxima eficiência a estas. à qual se passa sem advertir ao indivíduo. se adverte ao indivíduo que sem deixar de executar o mesmo movimento deve responder verbalmente às perguntas que iremos fazendo. profissão. Assinala-nos também particularidades muito interessantes de seu tipo temperamental (conforme se observe a tendência à diminuição gradativa ou o aumento insensível da velocidade) que agora não tem importância. estado civil.125 O primeiro gráfico assim obtido dá-nos idéia do grau geral de emotividade do indivíduo naquele momento. Se o indivíduo percebe o verdadeiro significado da experiência e se prepara. for obrigado a deformá-las em sua resposta. Esclarecemos em seguida que estas perguntas são feitas para distraí-lo de seu trabalho e ver como prossegue este em más condições. retiram-se as escoras (que foram colocadas a uma distância de 8 cm uma da outra) e pede-se ao indivíduo que continue a executar o movimento da mesma maneira durante outro minuto. Uma vez que o traçado adquiriu uma regularidade satisfatória. É um fato sabido. a confecção do questionário de perguntas deve ser efetuada com particular cuidado. As perguntas devem. que a intervenção da vontade na marcha dos processos automáticos só consegue perturbá-los (esforços para reprimir o espirro ou a tosse para andar displicentemente. O caráter especial destas . uma amostra da capacidade de controle motor que o indivíduo tem naquele momento. Isto quer dizer que a forma como devem ser feitas estas perguntas será de uma grande ingenuidade aparente. mesmo no caso de ser espontâneo e responder a verdade. por conseguinte. pois basta para isso intercalar nas perguntas neutras as que nos interessam e de que suspeitamos que não teremos resposta sincera. como as que constituíam o núcleo da experiência precedente. para respirar "com naturalidade" etc. Além do mais.). Graças a isso podemos descobrir o retorno do indivíduo à normalidade quando sente afastar-se o perigo do interrogatório que deseja evitar. pois quanto mais esforços realize no momento oportuno para evitar que suas mentiras se manifestem no gráfico. Insistimos em que procure não alterar seu trabalho e ao mesmo tempo procure responder-nos com absoluta sinceridade e franqueza tudo o que perguntarmos. por quaisquer outras circunstâncias. Começa então a terceira parte da experiência por meio de perguntas banais e precisas (idade. como dissemos antes. Se estas são respondidas sem alterações notáveis no gráfico. deduz-se que o movimento está suficientemente automatizado para tentar-se a experiência propriamente dita. parase o metrônomo. Como é natural. Este segundo gráfico confirma os resultados do primeiro quanto ao grau de emotividade e particularidades temperamentais. ser formuladas de tal maneira que somente se tornem emocionantes para o indivíduo se ele é o autor dos fatos que desejamos investigar ou se. tempo de residência e domicílio etc. naturalidade. Ato seguido. tanto melhor. entre outras coisas para não justificar a interrupção da experiência que fatalmente teria lugar se acusássemos o indivíduo de falso. e dá-nos além do mais. como para evitar que sua intenção se tome tão clara que possa determinar um sobressalto no indivíduo.). tanto maior será -a alteração deste.

de conhecimento mais antigo que os precedentes. até obter o estado de semiconsciência que o autor designava com o nome de "automatismo onírico". com efeito. nos põem de manifesto que nossos antepassados conheciam empiricamente o fundamento desses métodos. Assim. um médico americano. isto é. até há pouco mais de dois decênios não haviam adquirido categoria científica. nos impede de nos estendermos na exposição dos protocolos experimentais. sem deformação voluntária alguma.) permitissem obter em qualquer pessoa. pois as tentativas de obtenção das declarações sob o estado hipnótico haviam ficado reduzidas a experiências . cuja finalidade é a de suprimir o domínio consciente dos declarantes. O antigo provérbio: in vino veritas. Por isso a maioria dos autores dirigiram recentemente suas investigações para o emprego de substâncias estupefacientes que. mesmo nos mais astutos e hipócritas dos delinqüentes.este método não poderá generalizar-se por exigir. dial. com o qual pretendia obter declarações de 100% de sinceridade. ou fingindo estar dormindo sem o estar.126 investigações. e). . que auxiliariam a polícia de um modo semelhante aos detetives. de sorte que suas respostas sejam ditadas de um modo automático.de laboratório. aqui e tudo ao contrário.deixando de lado outras considerações . os preparados barbitúricos (sonifênio. Essas experiências foram desacreditadas pelo desejo dos que a efetuaram de estender sua ação até pretender aplicá-las ao descobrimento criptestésico dos delinqüentes e das circunstâncias do delito por meio de ''videntes'' profissionais. que espera um bem de sua submissão ao hipnotizador. condições de receptividade especial na pessoa que será objeto da hipnose. e o não menos antigo costume de embriagar os prisioneiros antes de obter suas declarações. além de um bom hipnotizador. A técnica consistia em injetar-se este soro (que na realidade não era mais do que uma solução de 2% de cloridrato de morfina e 1 por mil de bromidrato de escopolamina) cada meia hora. para conseguir uma máxima veracidade nas respostas foi levantada e resolvida em sentido afirmativo pelas investigações de Sanches Herrera. Mas não há dúvida de que . deve-se ter em conta. Aqui a principal eficácia se deva à coação moral que para o declarante represente o simples fato de saber que se pode chegar a conhecer quando mente. ou seja. o suposto delinqüente ou testemunha se oporá com todas suas forças psíquicas a ser hipnotizado. mas em 1905 a possibilidade de utilizar o hipnotismo de um modo científico. luminal etc. A obtenção da verdade jurídica pelos métodos baseados na supressão consciente dos declarantes. Não obstante. desviando sua atenção e seu olhar. . e ainda contra sua vontade. a hioscina. Rouse. um estado de obnubilação suficiente para obscurecer o poder de sua vontade sem suprimir por completo sua capacidade de expressão ou reação automática. à dose de um ou dois centímetros cúbicos (conforme o peso e a idade do indivíduo). como o éter. com as necessárias limitações. para evitar a confissão do que deseja ocultar.Eis um segundo grupo de métodos. lançou em 1918 seu famoso (soro da verdade). ainda inéditas até hoje. que enquanto nas experiências de hipnotismo terapêutico se conta com a boa vontade do doente. a morfina.mais ou menos teatrais .

. uma contraindicação normal para seu emprego). De qualquer modo. isto é. o que faz que não seja igualmente útil sua investigação em todas as pessoas. . Sua inocuidade justificaria seu emprego nos casos contumazes. De qualquer modo. isto é. Posteriormente se utilizaram outras substâncias. mas não temos experiência pessoal neste campo. quando sua consciência fica obnubilada.) e. Por isso julgamos interessante o emprego desta técnica em seu aspecto forense. uma declaração ou uma situação ou estímulo qualquer não nos proporciona dados acerca da classe ou natureza dessa emoção (medo carinho raiva etc. . tal como propôs Féré em 1888. este tipo de técnicas pode ser útil quando se trata de delinqüentes de delitos graves e se encontrem em bom estado de saúde (nem é preciso dizer-se que a idade avançada do indivíduo é. apesar de o reflexo psicogalvânico constituir sem dúvida um dos meios mais sensíveis para conhecer o grau de emoção que em uma determinada pessoa desperta uma pergunta.Muito mais humana e inofensiva é a utilização do denominado reflexo psicogalvânico para constatar o grau de sinceridade do declarante. tem-na suficientemente clara para não responder com a sinceridade desejada e quando já não é dono de si. F) O emprego do reflexo psicogalvânico para o controle da sinceridade. verificamos que após a perda da consciência nos choques frustros (com passagem de corrente entre 0. mas tem o inconveniente de não dar um registro gráfico das reflexões galvanométricas.4 de segundo e voltagens oscilantes entre 50 e 80 volts) se produz freqüentemente uma "libertação" ou ab-reação emocional de complexos pela transitória debilidade da auto crítica. por conseguinte. O psicogalvanoscópio mostra-se facilmente portátil e manejável.1 e 0.127 Os resultados iniciais obtidos e publicados pelo autor com este processo fizeram surgir grandes esperanças quanto à sua eficácia prática. Devido ao emprego do "eletrochoque" com fins terapêuticos em Psiquiatria. pelo medo que a experiência determinasse sua morte (caso em que declarou a verdade para fazer interromper a experiência e salvar a vida). mas estas diminuíram rapidamente quando sua técnica foi posta nas mãos de investigadores mais imparciais ou talvez menos hábeis. falsa. de outro lado. nos parece preferível o psicogalvanógrafo. tendo em conta a necessidade de que em qualquer momento possa comprovar-se a reação do acusado ou da testemunha. o clorofórmio etc. Nos casos em que se obteve um resultado brilhante. mesmo contando tal limitação. tais como o éter. então não responde absolutamente nada. ou então a produção de uma força eletromotriz quando não se usa nenhuma corrente externa. isto é. por isso. Neste método se pressupõe que toda declaração forçada. mas todos estes processos têm o inconveniente de que na maioria dos casos não se pode chegar a conseguir com eles o estado que se procura. acarreta aumento da resistência elétrica da pele à passagem de uma corrente galvânica de intensidade conhecida (fraca). enquanto o indivíduo conserva sua consciência. este surgiu com o doente ainda consciente. acha-se demasiadamente influenciado por fatores locais (cutâneos).

E. Para melhorar o contato com ela foram introduzidos assistentes sociais nesses ambientes e foram até camuflados como detentos (falsos presos) alguns observadores para merecerem a confiança dos investigados e "arrancar". surge perante os organismos judiciais penitenciários uma dupla causa de erros possíveis: libertar presos que vão cometer novos delitos e reter injustamente presas pessoas inofensivas ou mesmo úteis à sociedade (isto independentemente de quais tenham sido as causas de sua reclusão penal). g. NECESSIDADE DE AMPLIAR A INVESTIGAÇÃO PSICOLÓGICA DOS DELINQÜENTES COM PROVAS "OBJETIVAS" PARA DETERMINAÇÃO DE SUA PERICULOSIDADE ATUAL E POTENCIAL É sabido que há uma elevada percentagem de delinqüentes reincidentes. Por outro lado. psiquiatras e técnicos penalistas estiveram procurando resolvê-los por meio da contínua observação da conduta e das intenções da população presa e confiada à sua responsabilidade. seus propósitos de fuga. com maior facilidade. inclusive.O rápido aperfeiçoamento do registro eletroencefalográfico nos faz pensar que não tardarão os anos em que possa ser aplicado ao controle da sinceridade dos testemunhos (assim como agora já se mostra aplicável para demonstrar a objetividade de diversos transtornos mentais). parece-nos que a aplicação de um ou outro dos processos assinalados até agora deve ser questão de oportunidade e que em cada caso particular estudaremos a qual deles será conveniente preferir. . Este problema é tão grave que inúmeros psicólogos. Isto significa. de reincidência. CAPÍTULO XI TÉCNICAS ACONSELHÁVEIS PARA O ESTUDO ATITUDES PÓS-DELINQUÊNCIAIS 79. dispor de meios objetivamente válidos para predizer o grau de probabilidades de reincidência delinqüencial em qualquer caso. Mas todos esses recursos são caros e incertos em seus prognósticos. por conseguinte. Possível emprego da técnica "electroencelalográfica". há também outro contingente de delinqüentes nos quais cabe esperar uma profunda reforma de atitude e uma inofensividade social antes de completado o período de cumprimento de sua pena. que a periculosidade de tais delinqüentes não se ajusta às datas precisas marcadas pela sentença judicial: os processos afetivos mais íntimos não conhecem calendário. reforma etc.128 Em síntese. . é claro. Esse pessoal (encarregado da tarefa de reformar as atitudes pessoais hostis) precisa. porque a capacidade de dissimulação ou de simulação se encontra aumentada no delinqüente que se sente dentro das malhas da justiça. sempre tendo em conta que a ser possível deveriam ser empregados todos com o fim de estabelecer-se com maior segurança um juízo acertado.

inventando um argumento para cada uma. realizar. inteiramente livres. Que gostaria de fazer quando recobrar completamente sua liberdade? Que acredita poderá V. rapto. isto é. Em nenhum caso. e em caráter estritamente confidencial. isto é. pudesse ditar algumas leis para evitar que outras pessoas sofram o que V.) podem ser tabulados e dar uma idéia acerca do estilo vital com que o examinado gostaria de enfrentar a vida que o aguarda. que é que julga mais provável? Que é que mais deseja lhe aconteça? E o que mais teme? De um modo geral. resignação. já sentenciado. conflito ou tese e desenlace. roubo etc. renúncia. Basta para isto ver como termina suas histórias: arrependimento. A finalidade do teste consistia inicialmente em explorar a zona afetivo-caracterológica da personalidade e suas atitudes de reação ante a problemática vital. O que de mais interessante da prova é o estudo dos desfechos. de parecer-se com alguém? Por quê? Se tivesse V. da catamnese dos heróis (com os quais se identifica inconscientemente o narrador). qual é a postura pessoal com que enfrenta o futuro. em branco) que servem de ponto de partida para que o indivíduo construa histórias. crê que a vida que lhe resta será igual. às seguintes perguntas.Esta prova. e que julga não poderá conseguir? Quais os obstáculos que V. tem uma interessante aplicação em psicologia jurídica. serão tanto maiores para você quanto com maior lealdade e sinceridade responder. como a resolveria? Se V. convencimento. isto é. entretanto. Os beneficios. quais seriam essas leis? Em sua vida futura. sofreu. 80. que escolher a causa de sua morte. estarão condicionados à sua franqueza. qualquer prejuízo pode lhe advir. Também os recursos usados (morte. . poderá enfrentá-los? Como pensa viver daqui a 10 anos? Com quem? Como? Se lhe tomasse a surgir uma situação idêntica ou semelhante a que o trouxe aqui. supõe encontrará? Como supõe V. ludíbrio. seja qual for a resposta que der. melhor ou pior que a já vivida? Por quê? As perguntas anteriores devem ser formuladas uma de cada vez. rebeldia etc. passada e presente. com objetivo. a esta prova pode-se conseguir um juízo prognóstico de quais são suas intenções de reação. qual escolheria? Tem algum pressentimento com respeito ao futuro? De tudo o que lhe pode acontecer. que figura entre as técnicas denominadas "projetivas" para o estudo da personalidade. FAC-SÍMILE DO QUESTIONÁRIO PROSPECTIVO Para melhor conhecimento de sua pessoa.129 O técnica empregado por Murray. gostaria V. Consta de 20 lâminas nas quais se reproduzem quadros artísticos (exceto uma. Submetendo um delinqüente. pedimos-lhe responder com inteira sinceridade. .

controlada com outros meios . que é. avaliando assim sua inclinação delinqüencial. tal propósito deverá encontrar-se refletido na distribuição relativa de seus tonos musculares. se possível. antes de serem executadas. Finalmente. nos quais a natureza de seu estado é quase óbvia. mas. ao mesmo tempo. passam por sucessivas fases de condensação e preparação implícita. que sejam relativamente grosseiras. isto é. Nossas ações. por fim. Daí a conveniência de associar a esses recursos uma técnica que permita captar a atitude profunda de reação do delinqüente perante o meio. acontece que para se apreciar à simples vista tais "figuras" ou "disposições" musculares. que não se alterem sob a influência momentânea da distração ou concentração atenta. já que são os braços os que permitem nossa principal ação sobre o meio ambiente. registrando-se as respostas. é preciso em primeiro lugar que o paciente esteja despido. 81. revelar este fenômeno de modo prático? Como acontece que são os braços os que executam a imensa maioria de nossas ações. Pois bem. pois. em segundo lugar. ocorreu-nos que um bom meio seria o de verificar o que acontece quando o indivíduo é convidado a executar uma série de movimentos lineares nas três dimensões fundamentais do espaço. o contexto. especialmente nos braquiais. Mas. Usando esta técnica .São encontrados na denominada ''teoria motora da consciência" segundo a qual não existe fenômeno psíquico consciente que não tenha um correlato muscular. correspondentes a casos quase extremos.é. aumentando-o no grupo de músculos que serve para sua realização e diminuindo-o no grupo antagonista (que se oporia à consecução desse propósito). estes e outros dados semelhantes serviram à época do cinema mudo para caracterizar devidamente os personagens da ação. é claro. Como. isto . . determina uma mudança no equilíbrio do tono muscular. intencional. o tom e a acentuação prosódica das respostas). um indivíduo atento ao ambiente e exaltado se nos apresenta muscularmente em atitude de "extensão". não se pode dar esta imagem por válida uma vez que muitos são os que "cantam bem mas entoam mal". A cada uma dessas atitudes corresponde um propósito intencional.130 sucessivamente. O PSICODIAGNÓSTICO MIOCINÉTICO DA PERICULOSIDADE DELINQUENCIAL a) Fundamentos. que fixam a denominada "postura mental" ou "atitude" perante qualquer situação ou constelação de estímulos.temos obtido visão da abertura ou encerramento do futuro imediato e mediato de cada delinqüente. sua agressividade potencial e sua maior ou menor periculosidade. de modo calmo e carinhoso. esta suposição em linhas gerais se vê confirmada pela observação corrente: um indivíduo ensimesmado e deprimido aparece à nossa vista em atitude de "flexão" e em troca. e. no parlógrafo "sound-mirror" (para depois estudar-se as pausas. . Por conseguinte. isto é. se na vida de um indivíduo existe um propósito de ação predominante.

resumida com maior concisão possível. – 1° O caderno para traçados miocinéticos. deve realizar a prova sem apoiar-se sobre o papel nem sobre a mesa: com seu antebraço e punho no ar.). 3°.131 Com esse objetivo iniciou-se no Instituto Psicotécnico de Barcelona.K. ou cadeira de assento graduável. Um banco giratório. baseada nos conceitos precedentes. O lápis deve ser seguro por sua parte média e colocado perpendicularmente sobre o princípio das linhas ou figuras que se seguem. sua diminuição (depressão).delinqüente. e que a nosso juízo têm uma aplicação imediata no campo da medicina legal e da criminologia. também fabricável com indicações dadas no mesmo lugar. Um cronógrafo.O indivíduo se senta bem no centro em frente à mesa. preferentemente com intervalo de uma semana para conseguir obter um valor da denominada "flutuação individual" (modificação das tensões psicomotoras devidas a . uma série de experiências. 2°.O P.por meio de uma técnica simples e rápida. Referimo-nos à possibilidade de encontrar um critério objetivo não só da agressividade atual.2. destinadas a comprovar se os diferentes tipos de caracteres individuais resultantes do exame dos consulentes pelos meios correntes se revelavam de algum modo na execução de tais movimentos.M. sem interromper os traçados e procurando trabalhar com a maior regularidade e atenção possíveis." d) Execução da Prova. os descendentes. Primeiro você controlará seu trabalho com a vista. . juntamente com alguns de seus rsultados: b) Material. 4°. 5°. isto é. . e. c) Instruções. Uma coleção de lápis. Em troca. padronizado pode ser reproduzido facilmente pedindo-se as medidas ao Instituto de Seleção e Orientação Profissional da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. porque vamos interpor um anteparo entre seus olhos e os traçados. aos quais denominamos: psicodiagnóstico miocinético. depois o continuará às cegas. as oscilações e desvios dos movimentos realizados no plano vertical pareciam corresponder às variações da tensão conativa (psicomotora). sem mudar a posição de seu corpo. as oscilações e desvios no plano sagital se achavam relacionadas aparentemente com a atitude de reação egocípeta do egocípeta do indivíduo ou. Bastará dizer que logo puderam entrever que era possível estabelecer uma relação entre ambas as classes de dados. doente mental ou suposto normal . como também da agressividade potencial de um indivíduo qualquer . Eis. com a intensidade e o sentido de sua agressividade.K. A mesa especial para a prova. Dela deduziremos alguns dados de interesse para o melhor conhecimento de suas funções nervosas (se se trata de pessoa inculta pode dizer-se: "para saber qual a firmeza de seu pulso" etc. em 1935. De modo singular. V. de tal sorte que os desvios ascendentes refletiam seu aumento (elação). Mas o material de fato que dá motivo à atual consideração refere-se somente a um aspecto desse conjunto de investigações. é fixada sobre a mesa e diz-se: "Vamos efetuar uma prova destinada a explorar a segurança e a precisão de seus movimentos. dito de outro modo. deve ser realizado em duas sessões. sem ver. A primeira folha do caderno P. um lápis vermelho e outro azul (para assinalar as extremidades dos lineogramas). preferentemente Faber n.M. a técnica proposta.

K. nossos gráficos assinalaram determinado desvio a partir do qual podemos considerá-lo hipertrofiado... era de . Na primeira sessão se obtêm os traçados correspondentes a a). depressão muito natural.. "Evidentemente. d) cadeias. c) escadas e círculos.. b) ziguezagues..M.132 motivações fortuitas). 12 "Sem pericuIosidade. Concluímos que a combinação de agressividade supermediana com qualquer grau de excitação nos dava direito a considerar esse indivíduo como perigoso para a comunidade. Quanto ao grau de excitação. com delito e sem delito.. segundo o P.K. dos quais 12 mostraram tendência à excitação. havia também um fator de erro. que consistia na notável tendência à depressão. f) paralelas egocípetas e UU sagitais. . em 1942.K. Desde 1940 vimos a possibilidade de aplicar esta prova para a investigação da agressividade e da periculosidade (pré e pós-delinqüencial). as condições psicológicas de um indivíduo que espera a decisão dos tribunais são muito distintas das de um indivíduo condenado definitivamente. e) paralelas egocífugas e UU verticais. Desde então. os resultados foram: "Periculosidade. na segunda sessão. como há duas classes de periculosidade. excitação e extroversão direitas. foram expostos inicialmente em Londres. "Mas. e) Resultados Experimentais. em sua tese de doutorado em medicina. "Com alguma dificuldade submetemos 16 deles à prova. De certo modo encontramos ainda fresco o delinqüente na Casa de Detenção. contra 20% dos condenados na penitenciária. como se compreende. mediante a associação de três elementos: agressividade.. denunciada pelo P. selecionamos 20 delinqüentes da penitenciária. em outro local dissemos que bastava que o indivíduo se mantivesse no nível da linha modelo. Era preciso ensaiar de novo em delinqüentes que não estivessem nessas condições.abreviadamente designado com suas iniciais P. em prejuízo da prova. descreve: "O psicodiagnóstico de Mira é capaz de indicar a existência do estado periculoso... para considerá-lo com tendência à excitação. e escolhemos o cárcere para nossa experiência. apresentada pela imensa maioria dos recolhidos à penitenciária. 8 "Quer dizer que havia uma alta percentagem de perigosos que passariam despercebidos. Mas. em maior ou menor grau. para os quais o respectivo processo indicava a existência de periculosidade real.M. Isto é.. se nos ativéssemos ao teste somente.. a 20 de outubro de 1939.. "Para sua comprovação. Conclusões de Gilberto Ortiz González. Cada caderno da prova se divide em 6 partes: a) lineogramas fundamentais... o resto. o método se internacionalizou..Os fundamentos teóricos experimentais do psicodiagnóstico miocinético . como em todos os indivíduos existe agressividade.M.. Aliás. b) e c) e a primeira metade de d. 75% dos processados da detenção mostrava excitação.

Do mesmo modo. O que não quer dizer que os dois grupos sejam estritamente diferentes. decidiu-se investigar somente indivíduos adultos e do sexo masculino. Efetivamente neles encontramos sinais de periculosidade. Propósito Fundamental.indicavam ser a periculosidade dos psicopatas delinqüentes e diretamente relacionada com a ansiedade. adquirissem relevância estatística. cadeias e UU. cujos resultados. decidimos centralizar a investigação no grupo dos delitos de sangue. mas em percentagem tão reduzida que chama a atenção.K.K.M. no conjunto não se revelaram muito exagerados. 4 apresentaram periculosidade potencial esquerda. serviu. de Oliveira Pereira apresentaram ao Congresso Internacional de Criminologia. já que não seria difícil demonstrar nas populações carcerárias certa percentagem de anomalias diversas. "A conhecida periculosidade dos alienados é acusada igualmente pelo P. embora em menor escala. escalas. pois. . a elevação da energia e do tono vital e a emotividade (evidenciáveis respectivamente nos grandes desvios nos cumprimentos lineares dos lineogramas e ziguezagues. indicadores de agressividade. Conclusões de E. círculos. assim como sua maior benignidade relativa. círculos e UU). por sua maior freqüência ou intensidade. devidamente tabulados e estatisticamente elaborados. Arruda é A. maior violência do ato delituoso. O P. Oliveira. entre os quais seria verdadeiramente surpreendente encontrar algum caso de periculosidade social. ausente na atualidade. Esta baixa percentagem poderia ser explicada pela circunstância de que 30 de nossos normais correspondem a médicos e internos. . e desvios secundários dos lineogramas.Desejava-se saber se era possível assinalar uma série de características nos traçados miocinéticos de delinqüentes que. preferentemente com morte da vítima. . desvios no plano vertical dos lineogramas. 82 ESQUEMA EXPERIMENTAL DA NOVA INVESTIGAÇÃO (TEMA APRESENTADO NO CONGRESSO DE CRIMINOLOGIA REALIZADO NO RIO DE JANEIRO). demonstraram que desvios significativos predominando nitidamente na mão direita . significativa de característica de grupo.M. e somente um com periculosidade atual. um trabalho sobre "A Pesquisa do Estado Perigoso em Psicopatas Delinqüentes". em termos genéricos. Para demonstrar que a periculosidade dos psicopatas delinqüentes difere da periculosidade dos homicidas.Em 1950.133 esperar que no grupo de normais se apresentasse também. reunido em Paris. Poder-se-ia dizer que a periculosidade de alienados e delinqüentes se diferencia quanto à "qualidade". os professores Elso Arruda e A. e é condicionada pela sua maior tendência à excitação. a deficiência da inibição. já que nos primeiros é dada pela excitação e nos segundos pela hiper-agressividade. já que entre 100 indivíduos. que corresponde a um conscrito em cuja folha de serviço há anotados mais de um castigo por diversas inflações à disciplina militar. o que indica. Tendo em conta a mais ampla motivação exógena dos delitos contra a propriedade e sexuais. Os desvios sagitais egocífugos.

precisava-se tabulá-lo e estudar. Em seguida. principalmente. de instrução secundária. desporto e distração. os valores de tendência central.M. A dos índios foi conseguida explicando-se-lhes que se queria saber se sofriam de paludismo. d) um pequeno núcleo de casos "marginais".K. A dos adultos normais foi conseguida explicando-se-lhes que se queria saber o resultado.134 Como termos de comparação e contraste dos resultados. A dos desajustados foi obtida no decurso do rotineiro exame de sua personalidade. e atendendo às suas significativas diferenças ou coincidências de intra e intergrupo. professor de sociologia de São Paulo. por seus documentos pessoais e informadores sociais. a) Identificação dos Indivíduos. isto é. b) Cooperação dos Indivíduos para o Teste. b) um grupo de adultos de condições culturais e intelectuais semelhantes às do grupo de delinqüentes. pelos dados que proporcionou seu chefe ao Prof. de desajustamento neurótico e social. propusemos usar: a) um grupo de homens primitivos (índios selvagens. .Verificou-se: a) na Penitenciária Federal do Rio de Janeiro. sem precisa definição psiquiátrica ou penal. 2) no grupo de adultos normais. precisava-se obter sua cooperação para a obtenção de todos os traçados miocinéticos e proceder à prova em duas sessões com o intervalo de uma semana. com o fim de ver se. pelos dados proporcionados pelos funcionários administrativos. Baldus. c) um grupo de adolescentes normais. dizendo-se-lhes que era uma prova a mais de segurança e precisão de . 3) nos casos selecionados para demonstrar a correlação entre a periculosidade social e o P. na adolescência. 1) na tribo kaigang. . de variabilidade e de correlação. kaigangs). e na da Bahia. para comprovar seu estado de saúde e determinar eventuais possibilidades de trabalho. . para compreender a flutuação individual no âmbito do teste.A dos sentenciados foi obtida dizendo-se-lhes que se procurava ver se tinham "bom pulso". para o melhor conhecimento de suas "habilidades" e defeitos de movimento. Plano de Trabalho.Tratava-se de identificar cada um dos indivíduos de experiência com o mínimo de dados necessários para a compreensão de sua "classe". Uma vez acumulado o material. podiam ser obtidas conclusões válidas para definir um certo número de características cujo acúmulo defina progressivamente o traçado miocinético do delinqüente. ao qual temem. comparando entre si tais valores. pelas informações do Centro de Orientação Juvenil do Rio de Janeiro. depois.

entretanto. adotou-se o intervalo de classe de 5 mm.O método usado para esse exame foi descrito pelo autor com o nome de psicodiagnóstico miocinético e apresentado pela primeira vez à Royal Society of Medicine de Londres em 20 de outubro de 1939. como se demonstra pela coerência de seus resultados. com as características de um grupo eqüivalente de adultos -"testemunho".Para a obtenção das curvas de distribuição. e) Tabulação. seguindo-se em todas as experiências idêntica técnica. Baldus. caixotes etc. procedeu-se à sua centralização e se iniciou sua mensuração. de acordo com as normas estatísticas da análise de "pequena amostra". o único modo de conseguir uniformizá-las durante a prova consistia em criar neles um certo interesse cooperador. sociais e intelectuais dos fenotipos delinqüenciais. Tal modificação coadjuvante não interferiu. portanto. Poderia parecer um inconveniente o falo de que tenham sido dadas explicações diferentes para cada "classe" de indivíduos. além do mais.A técnica usada mostrou-se eficaz. sensivelmente. por requerer respostas verbais. que vivem em organização tribal quase selvagem.135 movimentos. d) Colheitas e Ordenação do Material. isento de emoção e angústia.K. . 2° . . já contando atualmente com bibliografia internacional de mais de 40 trabalhos. . relacionando-as.M. dada a diferença de suas atitudes de reação prévias. sobrecarregado de objetos. tanto mais que no P. 3° . frio. seguiu-se escrupulosamente a técnica geral da medição. os cálculos estatísticos se realizam sempre com franjas ou feixes. -1° O exame das atitudes de reação pessoal em um grupo de delinqüentes graves. Quanto aos cálculos de correlação. segundo anotou o prof. tendo podido obter-se com relativa facilidade a cooperação sincera dos indivíduos explorados.5 mm e de 0. e em um grupo de índios kaigangs. Isso significa um positivo avanço sobre a maioria dos métodos de exame delinqüencial que.Uma vez na posse do mínimo de traçados exigidos. É preciso esclarecer que as medidas foram feitas com a precisão limite (individual) de 0. centrando-o em torno de “0”.1 mm para a freqüência de grupo. de estimular inicialmente alguns de seus movimentos acompanhando suas mãos ou fazendo o examinador os gestos pedidos. permitiu comparar as coincidências e diferenças cinéticas e conativas de ambos os grupos. já estão livres das interferências iniciais da prova. foram feitos adotando a fórmula clássica de Pearson e usando máquina de calcular. Mas a uma pequena reflexão se compreende que. e. mas atendendo a leves variações no caso dos índios kaigangs. c) Obtenção dos Traçados. Estas variações se achavam justificadas pelas próprias condições em que se experimentava: em um pequeno quarto. especialmente selecionado para corresponder às condições culturais.Foi obtida pelos meios usuais. com predomínio de delitos de morte. Não obstante. Houve necessidade. na espontaneidade dos traços. Conclusões da Investigação. são mais suscetíveis de .

fazem do número de criminosos potenciais. de outro. sempre coincidentes com elevado sentimento de culpa e mesmo com tentativa de suicídio ou nada no terreno psicomotor deste grupo.K. pois trata-se de manipular mais 8. 11°. por conseguinte.A precedente conclusão é de singular relevo. a presente investigação permitiu distinguir outras características. 9º.O número relativamente de adultos supostamente normais.000 dados. No segundo adolescente que compareceu ao Centro de Orientação Juvenil do Rio de Janeiro -comprova-se. pois justifica a possibilidade de utilizar o P. a saber: a episódica presença de sinais de auto-agressividade (valores negativos no plano sagital). para o despistamento e a Psicagogia profilática dos casos de inclinação para a delinqüência. pela reclusão e. .M. E. fica confirmada objetivamente a existência de dados concretizáveis do fenômeno da delinqüência e.baseando-se em experiências "a posteriori" . com depressão atual (pós-delitual). o grupo penal estudado apresenta as características gerais de reação cinética que já haviam sido assinaladas pelo autor e seus colaboradores em trabalhos anteriores: a) maior agressividade potencial e reativa.A elaboração estatística não pôde ser totalmente realizada. assim. portanto. Mas.De maneira ostensiva. autoriza a formular um apelo às autoridades pedagógicas no sentido de . permitiram pela primeira vez.Os dados obtidos foram avaliados de acordo com a técnica proposta pelo autor. o antecedente de uma tentativa criminal (homicídio frustrado) e. independente de outras variáveis. que existe a possibilidade de se estabelecer uma escala objetiva de propensão pessoal à reação anti-social. em que aparecem sinais cinéticos da falta de inibição voluntária dos impulsos primitivos de reação. como o cálculo das distribuições de freqüência e dos valores de correlação. e a excepcional confissão espontânea da tendência criminal do indivíduo (transcrita com seu punho e letra nas folhas finais de sua autobiografia). 10°. além disso. justifica a elevada estimativa que os criminologistas norteamericanos . c) elevada introversão (provocada.136 deformação.K. Esta possibilidade é demonstrada pela adição de dois casos: no primeiro coincidem a presença dos sinais de fenótipo delinqüencial evidenciados nos traçados do P. por conseguinte. A utilização das medidas de tendência central. 4° . 8º. 5° . mas pode-se chegar a obter valores de correlação e variação suficientemente significativos para justificar as conclusões seguintes. o que abre caminho para ulteriores investigações. De acordo com este critério. . Fica. b) bom "tono" psicomotor primário.M. aumento da problemática do Eu). sem dúvida. objetivar a posição interpolada que o grupo de delinquentes ocupa entre o homem civilizado e o homem selvagem. 6° . simulação ou dissimulação subjetiva. de um lado. (mão esquerda – mão direita – mão direita – mão esquerda). evidenciado o valor prático do "dépistage". 7º. a existência de sinais miocinéticos de inclinação para o delito que ultrapassam as escalas elaboradas para os adolescentes normais.

centrou-se quase toda higiene mental do delinqüente em torno da trágica idéia do "criminoso nato". se mostram melhor na média geral das medidas de igual significação psicológica. por si só. nem a inteligência.137 intensificar nos diversos níveis escolares a formação caracterológica social. sem dúvida sob a influência das doutrinas lombrosianas.M. uma vez comprovada em uma pessoa a existência dos sinais anàtomo-fisiopsíquicos do "tipo" delinqüente. ou meio social. facilmente se compreende que existirão casos em que o esforço profilático deverá ser exercido preferentemente sobre o indivíduo e outro em que deverá recair sobre seu ambiente. Segundo o qual. Vejamos sucessivamente: a) Profilaxia do Delito. A segunda. c) tratamento dos delinqüentes ocasionais. consideraremos este ato. ou defeituoso ajuste (maladjustment) ao ambiente. d) tratamento dos delinqüentes recidivistas incorrigíveis. TERAPEUTICA DA DELINQUENCIA NORMAS GERAIS Este problema apresenta quatro aspectos: a) profilaxia do delito. se quisermos evitar delitos. por exemplo. Em nossa opinião. cuja vida anterior é também amostra de sua grande desadaptação social. a mesma devia ser isolada da sociedade e evitar sua perpetuação. como na de . por conseguinte. CAPÍTULO XII 83. Nem a sabedoria. . individual e coletiva. diretamente derivado da interação dos nove fatores estudados como responsáveis pela modalidade das ações pessoais. que os índices caracterológicos do P. Em princípio toda anomalia (por falta ou perturbação) desses fatores acarreta uma diminuição do limiar do delito e. no caso da "confissão de tendência criminal" apresentado. como todos os atos humanos. mesmo às expensas da informação escolar de rotina. b) descoberta precoce. são eficazes para assegurar o controle da conduta pessoal. Concebido assim o delito como um simples desvio da conduta. Assim.K. teremos que lutar para obter a máxima normalidade possível. De tudo que foi exposto é lícito concluir. das variantes.Atendo-nos ao conceito psicológico do ato delituoso. trata-se de um adulto de bom nível cultural e de elevado nível intelectual. com base na elaboração estatística. e sendo esta sempre o produto do choque entre as tendências do indivíduo e do ambiente. Na Europa. ao passo que na América do Norte se orientaram em sua tarefa profilática da criminalidade partindo do conceito mais otimista da simples "desadaptação". em troca. dos presumíveis delinqüentes. nos levaria em cada caso a procurar a necessária modificação do ambiente para conseguir a readaptação da conduta do delinqüente.

são quase abandonadas a seu espontâneo desenvolvimento. por outro lado. que só espera uma influência desencadeante para se manifestar. Tudo que contribua. em maior ou menor grau. tanto em um como em outro caso. Ou seja : 1° O delito é o termo final de um processo psíquico interno (e portanto diretamente inacessível à observação). por outro lado. um grande temor às conseqüências. da conduta delituosa. b) De modo especial é preciso difundir entre as massas humanas as noções elementares de ética e cidadania. simplesmente. para aumentar o desenvolvimento dos sentimentos de grupo (sublimação do denominado "instinto gregário") é também trabalho encaminhado contra a delinqüência. Pode-se dizer que o delito se acha pré-formado em todos os indivíduos. ações que teoricamente são delituosas (e como tais. é necessário juntar as duas concepções em vez de opô-las. que é precisamente quando a grande maioria das crianças não vai ainda à escola e além do mais. até o ponto de não existir seguramente nem uma só pessoa sobre a terra que não tenha praticado. E por isso mesmo a profilaxia deve ser sempre simultânea e harmonicamente coletiva e individual. e corresponde sempre à satisfação de tendências vinculadas às emoções primitivas. c) O Estado deve intervir cada vez mais na função educativa infantil. adquiridas na vida social. 2° As pessoas não devem ser distinguidas em delinqüentes e não delinqüentes. Neste sentido urge difundir entre os pais e encarregados da tutela de crianças as modernas noções de pedagogia do caráter. Mas deve basear-se. mais morais que materiais. o que eqüivalerá a elevar o valor do umbral ou limiar de delito (entendendo-se por tal o grau de intensidade que precisa alcançar o desejo do delito para conduzir à prática do ato que em potência representa). Tal processo conduz. em alguns postulados. isto é. O problema diante de cada delito não é o de saber se sua causa reside na pessoa ou no meio ambiente. o período que vai do nascimento aos quatro ou cinco anos. em umas normas psicológicas. não se limitando à . que sirvam para fazer cada indivíduo sentir sua interdependência social. uma clara compreensão da razão dos mesmos. dificultará o exercício dos mecanismos primitivos (atávicos) de conduta diante dela.138 muitos autores. 3° Tendo em conta os dois postulados anteriores. por conseguinte. em aumentar a capacidade de inibição das tendências primitivas da reação. uma intensa convicção da superioridade real dos atos sociais sobre os anti-sociais (delituosos) e. via de regra. à libertação dos mecanismos primitivos de reação com prejuízo das demais soluções civilizadas. mas sim em menos ou mais resistentes às tendências delituosas. Vejamos agora quais são as conclusões derivadas destes postulados no que se refere à prática da profilaxia do delito: a) Tudo o que contribua para o aumento da cultura será a priori útil para a luta com ele posto que. isto é. isto é. dotando a pessoa de maior número de possibilidades e elementos de reação diante de cada situação. e sim até que ponto e de que forma contribuíram ambos para sua gênese. toda profilaxia do delito deve ser destinada a conseguir que cada pessoa tenha um exato conhecimento de seus direitos e deveres sociais. uma vez que à época mais favorável para influir sobre os defeitos e perversões afetivas e caracterológicas é a primeira infância. antisociais). Toda profilaxia coletiva do delito se baseará.

Orientação profissional. i) Criação urgente de consultórios jurídicos públicos. tivessem sabido vencer. exercer uma racional educação sexual e um controle do exercício sexual para suprimir as enfermidades venéreas. Logo será criada outra: eugenesia. a quem sofra não só de um transtorno. sem ter praticado nenhuma ação espetacularmente heróica ou altruísta. mas de qualquer dificuldade moral. em lugar das dos delinqüentes.. . Intervir no cultivo da espécie humana. Tal medida se faz ainda necessária no que se refere à "literatura sexual" e à "literatura criminológica". nos quais juristas abonados. a sugestão do delito. da imprensa diária! h) Deve-se desenvolver ao máximo os Comitês locais da Liga Nacional de Higiene Mental. exaltando os denominados "heróis anônimos" e publicando amiúde suas biografias na imprensa. Nesse caso deve ser omitido todo luxo de detalhes e fotografias "ilustrativas". 3°. Assistência a psicopatas. 4°. Quantas centenas de vidas exemplares não deveriam ocupar as colunas. em dispensários abertos e gratuitos para todos. Propaganda e divulgação popular da higiene psíquica. entidade de caráter oficial. e) Deve-se extirpar pela raiz a literatura perniciosa para a mente. 5° Luta contra o alcoolismo. Para tanto deveria ser estimulado o uso de distintivos e a concessão de preferências sociais a todos aqueles cidadãos que. Toda produção bibliográfica deveria passar pelo prévio exame e censura de comitês especiais. f) Do mesmo modo deveria ser proibida à imprensa a publicação de toda notícia referente a delitos cujos autores não tenham sido capturados. com o fim de levarem a termo seu programa de luta contra todas as causas de loucura. mas recorrendo a todos os meios de propaganda gráfica (e especialmente cinematográfica). d) É absolutamente imprescindível que todos os professores e educadores tenham noções e prática de psico-higiene com o fim de realizar de modo mais racional e científico a educação intelectual e moral de seus alunos. guiando-o e aconselhando-o. g) Deve ser fomentado o estímulo à conduta altruísta. referentes ao uso de seus direitos ou ao cumprimento de seus deveres. atender precocemente. examinar suas aptidões físicas e mentais para indicar-lhe o tipo de trabalho profissional em que com maior facilidade pode obter o melhor rendimento para si e para a sociedade. 6°. Luta contra a vagabundagem. respondam gratuitamente às consultas que lhes possam ser feitas pelas pessoas desprovidas de recursos econômicos. as toxicomanias e as intoxicações profissionais. Na Espanha republicana a Liga de Higiene Mental. desequilíbrio ou deficiência mental.. deve-se ter em conta que grande número de pessoas.139 publicação de folhetos e conferências. Com efeito. 2°. nomeados pelo Estado. Luta contra a prostituição e as enfermidades venéreas. encontra-se: 1°. tantas vezes insípidas ou prejudiciais. É preciso explicar a enorme importância que cada uma destas atuações tem para a prevenção dos delitos? Bastaria expor as estatísticas compiladas em todos os países para demonstrar que a grande maioria de delinqüentes teria deixado de o ser se tivessem praticado em sua vida os princípios da higiene mental. vigiar o desenvolvimento espiritual da criança. extirpar pela raiz as pragas do alcoolismo e das toxicomanias. Higiene mental escolar. do ponto de vista médico-psiquiátrico. em condições difíceis. 7°. evitando o nascimento de seres degenerados (graças à prática do conhecimento pré-nupcial dos cônjuges e a difusão entre eles dos conhecimentos básicos de higiene matrimonial). especializados nos diversos aspectos do Direito. evitar o mau exemplo e a vadiagem (dando por bom ditado: "a ociosidade é a mãe de todos os vícios"). pelo menos em nosso país.

infelizmente. substituindo-se por recreações sadias. costuma ainda ficar com os objetos de valor "perdidos" que encontram. mais numeroso que o primeiro e menor que o segundo. Neste sentido deve-se figurar disciplinas fundamentais para a atuação do social worker (trabalhador social) como é concebido nos países anglosaxões. próprias à elevação espiritual dos assistentes. m) Revisão dos códigos e nova promulgação. podemos considerá-las divididas pelos menos em três grupos: o primeiro seria constituído por uma pequena minoria de indivíduos dotados de uma superconsciência moral. Até esta idade os meninos assistirão somente sessões especiais de cinema educativo. isto é. de acordo com a Ética e o Direito atuais. ativos ou propriamente ditos. fato que reforça. uma vez adotada. a cada passo. tanto mais quanto a experiência da vida lhes demonstra. é integrado pelas pessoas que não delinqúem por medo ao castigo (moral ou material) que a sociedade pode impor a seus delitos. l) Supressão dos espetáculos teatrais de tipo novelesco. Finalmente. A este grupo pertencem os delinqüentes latentes ou potenciais até o momento de sua transformação em delinqüentes reais. em uma rua ou caminho ou cujo dono é-lhe desconhecido).140 comete delitos por ignorância das leis que os definem e fixam sua responsabilidade individual.com capacidade de intervenção fiscalizadora na vida privada individual. . sua primitiva atitude. de um ponto de vista prático. de sorte que. O segundo grupo.como sabemos . Não obstante quando podem praticá-lo em condições de absoluta impunidade raramente resistem (a maioria das pessoas. ser um excelente psicólogo e não um depósito de conhecimentos político-sociais). em definitivo -. Em tais pessoas a força coativa da organização social reforça sua fraca consciência moral e as mantém afastadas do delito. que com sua conduta exemplar despertam a admiração e a benevolência nos demais. deveria ser exercida a censura das películas para adultos. suprimindo absolutamente todas aquelas que direta ou indiretamente possam servir de estímulo à prática de delitos. a comissão do delito é inevitável e só espera a ocasião propícia em que um acontecimento (externo ou interno) rompa tal equilíbrio instável em favor das primeiras.É certo que todas as pessoas levam no âmago de seu espírito os germes da delinqüência. aliás o mais numeroso. incapaz de permitir a si a mais leve transgressão das severas normas éticas que foram traçadas e que. da mesma forma que quem adquire fama de gracejador se vê obrigado a se esforçar constantemente para obter a confirmação dessa habilidade. antes de tudo. n) Criação do "Serviço Social" . j) Controle da entrada nos cinemas. existe um terceiro grupo. Tais pessoas praticam sistematicamente o bem porque assim gozam mais e se autosatisfazem melhor do que se não o praticassem. o) Descoberta de supostos delinqüentes. "guinholesco" ou pornográfico. Todas as técnicas para o exame experimental da .são o resultado de uma superação de suas primitivas tendências agressivas. Além do mais. que deveria ser proibida como na Bélgica .aos menores de dezesseis anos. por se acharem sensivelmente equilibradas as forças das tendências delituosas e a de suas inibições. quando sós. mas não o é menos que sua capacidade de inibição dos mesmos difere enormemente de uma para outra. como um agente de profilaxia social (que deve. Preferem a ufania de poderem julgar-se boas e virtuosas a qualquer outra satisfação. no qual.

Eis. d. pelo menos em dois movimentos. desfiada. cada qual se mostraria mais benévolo diante daqueles para cuja prática se achasse mais predisposto. 7° Excesso de fragmentação das palavras (indicando que a pena foi levantada demasiadas vezes no transcurso da escrita). impedimento mecânico ou dificuldade do texto. por exemplo. 3° Grafia instável ou lábil (filiforme. g. despistar os delinqüentes potenciais se. 4° Numerosos retoques. pelo que a mulher do colono os admoestou e os convidou a sair do cercado. desnecessários. não explicável por imaturidade gráfica. ao imputar penas aos diferentes delitos supostos da prova. Com eles transcreveremos as respostas dadas por um jovem médico 1° "Ao indivíduo B.. indicando que foram escritas. 6° Presença de pontos entre os grafismos (indicando o descanso da pena no papel entre palavras que deveriam ter sido escritas em um só impulso cinético). Uma prova denominada de "penalização livre". com o encargo de não deixar ninguém caçar nela.. pudermos chegar a colocá-los em um estado de ânimo de tal natureza que possam manifestar seu modo de sentir íntimo diante das possíveis exteriorizações de suas tendências delituosas reprimidas. por meio de um ardil experimental. 10° Abertura inferior das letras o. simulação de algumas letras por outras ou de grupos silábicos por outros na escrita. os sinais de "caráter desonesto" reveláveis pelo exame grafológico: . Uma tarde. os nove delitos. 9° Ênfase inicial acentuada.. ao ver invadida sua propriedade e insultada sua mulher. Advirto que .141 perversidade são passíveis de objeção. neste sentido espera que. q. durante sua ausência apareceram dois caçadores que apanham ali duas caças que mataram. 8° Omissão de partes importantes das letras. por seu ato impulsivo. a." Você é o juiz: Que faria ao guarda? Admoestaria a B. de que "quando alguém desculpa uma falta de outro é porque se julga capaz de cometê-la".sinais de desonestidade: 1° Escrita lenta. Para isso parte da idéia. matando-o no ato. que daremos em seguida. das letras. apesar de tudo. completamente apriorística. Os caçadores insultam então a mulher no momento que chega o marido que. de 30 anos.. 2° Impressão geral de artificiosidade (originada pelo aspecto extraordinariamente uniforme da escrita. Mas as palavras o vento leva. agora. Daria por isso uma sova que certamente doeria menos que uma prisão de vários meses.. Vejamos. Pois bem. por sua inversão angular ou por seu caráter hiper-estilizado). com a qual tencionávamos conhecer as tendências delituosas dos indivíduos em função do critério com que julgassem aos demais. se confiou como colono a guarda de uma propriedade cercada. sem pressão). de tipo popular (como se fossem parênteses). parece possível. dispara a espingarda sobre um dos caçadores. 5° Descuido na proporcional idade intrínseca das partes do grafismo.

A. vive na maior miséria com sua mãe e três irmãs menores.. 3° "Uma família que mora em um chalézinho situado nos mais distantes arredores do povoado vai veranear..... no leito. não vamos fuzilar todo mundo. pesa a que diz desta qualidade.. solteira. deixando fechada a casa. vem observando.. B. os fuzilaria.... 4° "Um comprador vai a um armazém de farinhas. que é produzida pelo trigo especial e que é paga. recorre ao tradicional meio de fingir uma viagem. com dolorosa surpresa. Você é o juiz: Que faria com A. corrigi-los-ia.e B.. O ... Fazê-lo viver de suas rendas.. mas como meio para que ele fosse mais prudente daí por diante. "A. que ocupa somente a parte superior dos sacos e de outra farinha de classe muito inferior. além do mais o peso tinha sido diminuído. B..? Bem.. por exemplo).. para produzir um aumento aparente do peso. procura sem descanso seduzi-la. empregada em um Banco. onde não fica pessoa alguma. concebe veemente suspeitas que se concretizam em C. planejam um roubo no chalé.142 não a daria como castigo. e B.. dar-lhe-ia algumas pauladas. Você é o juiz: Que faria com o matador? eu o poria em liberdade. O sistemático retraimento da mulher faz o marido pensar que outro homem enche seus pensamentos e.e C. de valor inestimável...." Você ê o juiz: Que fada com o comerciante B. A mãe acha-se doente há dezoito meses e na casa não entra mais dinheiro que o ganho por A.. que tem vinte e cinco anos de idade.... maiores de idade e ladrões de profissão. mas o condenaria se voltasse a casar-se. de dedução em dedução. Em sua própria casa surpreende B. e na noite arrombam a porta de entrada da casa e apoderam-se de grande quantidade de prata em bandejas e talheres e de dois magníficos tapetes... que visita assiduamente o casal. uma mudança notável da conduta desta... de 20 anos. mas ao chegar a sua casa verifica que o que se lhe vendeu como farinha especial é uma mistura desta. e mata-os utilizando-se de um revólver que por prevenção levava”.. dono do armazém. ? Se fossem corrigíveis. seja do que for. regressando inopinadamente a seu lar na noite. 2° "O Sr. para adquirir mil quilos da melhor. sem lograr obter dela a menor promessa.. vendo-se depois que a balança do comerciante B.fora descentralizada por este. "Transcorrido um mês desde que os donos saíram. Fechar seu armazém e proibi-la de abrir outro.. Por tolo. amigo da casa.. 5° "Uma graciosa jovem chamada A. A.. senão. profundamente enamorado de sua esposa.. de 36 anos. pagando o comprador.. depois de uma boa multa que seria dedicado a uma obra benéfica (luta contra a tuberculose. um alto funcionário do estabelecimento em que a jovem trabalha. que enche o resto. "Há três meses que B...

. B..... é o único e o verdadeiro autor de tão horrível crime.. é casado e não é justo que sua esposa.. de “B”. "B”.. por sua má ação..que conhece perfeitamente a situação de A.... e a infeliz filha sabe muito bem que isso é impossível com o mesquinho ordenado que percebe. se mantida por ele. vive feliz com sua esposa e três filhos de pouca idade em uma casinha situada nos arredores da cidade.. que está profundamente enamorada dele. sofra também.. sendo surpreendido por “A”. 6° "A”. absolutamente toda. Eu o faria aumentar o oferecido de acordo com sua fortuna.000. "No dia 3 de maio. Parece-me que também aqui faz falta um psiquiatra. passaria para “ A”... acede com muita repugnância. matando-a também quase instantaneamente... deve uma soma importante a “A”. “A” ameaça “B”. ...143 teimoso galanteador é um maduro senhor de 52 anos e muito rico. “B”.. sobre a qual avança “B”. O médico que visita sua mãe disse à jovem que a doença só pode ser combatida com uma alimentação escolhida e abundante.. casado...00 reais mensais... "B. de 25 anos... é casado.. mantém relações amorosas com “B”.. enquanto durarem suas relações.00 reais em outro estabelecimento bancário e além disso entregar-lhe-á..." Você é o juiz: Que fada neste caso? Toda a fortuna. formosa jovem solteira de dezoito anos. a mocinha chega ao Banco presa de profundas preocupações. ? O garrote vil.. o que parece ser confirmado ao ser descoberta em sua casa a mencionada arma.. Aos gritos da vitima acode sua esposa. que o havia despedido no dia anterior ao do crime.. que sabe que “B”. Mas. acovardada pela miséria e desejosa de curar sua mãe e levar uma vida mais cômoda. insiste nesse dia em suas pretensões e faz-lhe promessas concretas para que consinta em satisfazer seus desejos: depositará em seu nome a soma de 1... jardineiro de “A”.. “B”. penetra furtivamente à noite no domicilio de seu credor com o propósito de apoderar-se dos documentos que comprovam a dívida. Dois dias depois desta reclamação..Se estivéssemos na Idade Média o supliciaria durante ditas horas ou até que morresse. Quando “B”.. a quem deviam duas mensalidades. guardando no domicilio daquele a arma homicida.... A tanta benevolência responde “B”.... aguarda impassivelmente durante o julgamento a condenação do inocente.”...... dá-lhe facilidades para o pagamento e o perdoa. que reclamou daquele de forma comedida o pagamento de seu crédito. ameaçou de despejo a família. É demais! 7° "A. de 35 anos.deflora a jovem virgem e depois nega redondamente a cumprir o prometido. uma rara casualidade permite demonstrar que “B”. Dias antes o senhorio... no momento que roubava aqueles. insultando-o grosseiramente e ferindo-o mortalmente com um punhal que premeditadamente levava. “A”. foi detido e sobre ele recaem fortes suspeitas de ser o autor do duplo assassinato. "C”. O assassino foge sem ser visto e corre à casa de “C”. 500.." Você é o juiz: que faria com o assassino “B”.

...." Você é o juiz: Que faria neste caso? Eu não os casaria.e com “B”. tem a noção exata da doença que o ataca e constantemente diz a seus pais que o matem para livrá-lo dos espasmos que já começam a sufocá-lo. conhecido delinqüente contra a propriedade. entra em uma farmácia e enquanto o caixeiro prepara o medicamento pedido. Apesar de tantas precauções a policia detém “A”.. Não me agrada. e advirto que isto é muito relativo... o médico da família confirma o diagnóstico e receita morfina e cloral em grandes doses.. depõe então que ocultou seu amigo sem ter exato conhecimento do delito perpetrado. padecer espantosamente. Avisado... de 25 anos. "A”. na madrugada do quarto dia. pai do doente... sem ser visto.. que é estudante de medicina.? Pena igual para os dois. vitima de terríveis sofrimentos.. sobrevem terríveis contrações que fazem “A”. faltando com a verdade.. o qual por sinais pede que lhe abreviem suas angústias mortais.. a qual sobrevem. .” "B”. “A”... depois de duas horas de tranqüilidade. advertindo à família que não há meio algum de cura e que o jovem morrerá irremediavelmente... aproveitando-se do amor que inspira.. " Você é o juiz: Que faria com “A”. foi condenado duas vezes por furto e três por roubo em casa habitada.. lhe proporciona uma fortissima dose do medicamento. o qual se inteira. que não se afasta dele desde o primeiro dia em que se declarou a enfermidade... companheiro de oficio que sabe de suas penas anteriores e diz.. em sua casa durante dois dias e depois fornece-lhe roupa de mecânico para que fuja sem ser conhecido... oculta seu amigo “A”. foi mordido por um cachorro e ao fim de um mês apresenta sintomas de raiva.. que.. abusando de sua credulidade e a abandona poucos dias depois de satisfeitos seus desejos. Quanto ao tipo de pena... como calmante. "Foge rapidamente e.. "Transcorrem assim três dias e. relativíssimo! 8° "O jovem “A”.. Não dou para juiz... com palavras e promessas falsas deflora “B”. a importância de que realmente se apoderara. do fato cometido por “A”. corre à casa de “B”. "C”. jovem de 20 anos.. e remédio sintomático..força com uma pequena alavanca a caixa registradora e apodera-se de uma certa quantia. Isso é condenar a jovem à cadeia perpétua. tirou da caixa. sabendo que lhe causaria a morte. que estava aberta. com efeito. aproveitando um descuido do caixeiro da farmácia.. e mais tarde “B”. 9° "A”. consciente de que nenhum remédio pode curá-lo. prefiro dizer que não sei.144 "A”..Eu o castraria... no sumário.

de grande importância para a orientação do problema: 1º De um modo absoluto. Esta insensiblidade. A estas conclusões . por conseguinte. empregando com mais freqüência que os normais o castigo corporal e recorrendo em maior proporção ao assanhamento quando castigam com pena capital. pois se bem que em geral os delinqüentes dão menores penas. . e especialmente os que cometeram delitos de sangue.145 "Um vizinho que se inteira do fato denuncia a “C” como parricida”. d) como que se fere aos delitos contra a propriedade e contra as pessoas. É que em realidade o que parece caracterizar mais a consciência moral dos delinqüentes . Isto quer dizer que nossa primitiva idéia só era exata parcialmente. tanto os indivíduos delinqüentes como os não delinqüentes têm um critério mais benévolo que o do Código para a penalização dos delitos. e) as correlações entre diferentes provas de inteligência geral e os resultados da prova de penalização foram tão extraordinariamente baixas que permitem afirmar a ausência de qualquer identidade entre as funções mentais que intervêm em sua execução..por intermédio desta prova . 2° Os delinqüentes.. Que faria com “C”.? Nada.por si mesmas interessantes . ou anestesia moral. Você é o juiz. os delinqüentes subestimam sua gravidade de modo notável. é mais evidente nas respostas que acusam uma manifesta perversidade ou cinismo.não é tanto sua falta de tendência punitiva como a irregularidade ou falta de coerência da mesma diante das diferentes situações de delito. Não distingue matizes nas ações morais e imorais e reage. sempre de modo desproporcionado diante delas. existem alguns deles que as dão maiores que os normais. para o bem ou para o mal.podemos acrescentar por nossa parte outras duas. diante desta última classe de delitos recorrem com freqüência ao castigo físico com fúria. rato que se acha em oposição ao que esperávamos. 84. PUNIÇÃO LIVRE As conclusões mais importantes que deduz o estado são as seguintes: a) os delinqüentes mostram em geral menos severidade no castigo dos delitos e menos precisão na formulação das penas. para a absolvição ou a pena excessiva. o delinqüente habitual carece de ponderação no julgamento dos atos delituosos e em virtude disso tende mais facilmente para os extremos. para as soluções do tudo ou nada. são mais severos que os indivíduos normais na aplicação das penas aos delitos sexuais e tão severos como eles na penalização dos crimes. c) os delinqüentes mostram com freqüência uma especial crueldade nas penas. Em troca se mostram mais severos nos atentados ao pudor que os não delinqüentes. b) os delinqüentes revelam uma deficiência do sentido moral na grande percentagem de casos em que absolvem o autor ou autores dos delitos da prova. Dito de modo mais claro.

146 Se esta afirmação é certa. de ambos os sexos. que podem ser considerados como delinqüentes potenciais no aspecto sanitário. Perguntar à farmácia em que foram aviadas as receitas o que convém fazer ao doente... a solução que teria dado ao caso se fosse e enfermeira em questão. toleráveis ou dignos de louvor. . um dois (2) na segunda e assim sucessivamente até pôr o número mais alto na que julgar ser a pior. parece estar tranqüilo. Na parte da prova que acabamos de descrever. por conseguinte.... Suspender a medicação cardiotônica e dar o resto do purgante. No entanto. de seis em seis horas) outra porção cardiotônica. dirigindo-a para o campo do que poderíamos denominar delitos profissionais e para tanto. . pondo um (1) na que acredita preferível.. Naquele momento a enfermeira pode: . elaboramos outra prova que servisse de reativo à capacidade de discriminação ética das pessoas destinadas a cuidar de doente. depois. Vejamos. de acordo com seus resultados. dizendo-lhe que seu aspecto lhe inspira cuidado.. de sulfato de sódio e xarope.. Ir falar com o médico e explicar o sucedido. Escreva. O doente. A natureza deste trabalho não autoriza sua descrição in extenso. Após dar ao doente duas doses de cada uma verifica que as confundiu. por terem preferido reagir contra a saúde dos demais e em proveito próprio. Classifique as anteriores soluções da melhor para a pior. Seguindo este mesmo caminho particularizando essa investigação.. Confessar à família seu engano para que ela determine. Mudar os rótulos sem que ninguém o veja e esperar os acontecimentos . . foram encontrados sete por cento de atuais doentes. de acordo com sua consciência. cremos que a melhor prova para examinar e descobrir os delinqüentes potenciais será aquela que os obriga a por em evidência esta primitiva falta de fineza discriminativa. . cinco por cento dos indivíduos escolheu como solução melhor mudar os rótulos (!) e seis por cento preferiu consultar a ..... composta de substâncias (estrofantina e estricnina) que são venenosas em doses maiores que ao assinaladas. possa opinar se se trata de atos puníveis... Corrigir seu erro sem dizer nada e acabar de dar os medicamentos na forma prescrita. Avisar o médico para que venha ver o doente. ... a seguinte situação: Uma enfermeira encarregada da assistência a um cardíaco. de sorte que administrou duas colherinhas do purgante e 2/3 do medicamento cardiotônico.Consultar um livro de terapêutica para ver que medicamentos convém administrar. recebe do médico ordem de administrar-lhe em três vezes uma porção purgativa. . apesar de tudo. e em colherinhas. julgamos interessante dar uma parte do texto e dizer que. colocando-os artificialmente diante de tipos de conduta não definidos no sentido moral e perante os quais.

Dorado Montero é. aplicar uma penalidade limitada isto é. 2° Todo delinqüente não deve ter a sensação de que desperta piedade.M. sendo feita com maior ou menor intensidade conforme for o estado moral deste nos diversos momentos de sua existência. A todas essas técnicas é preciso acrescentar. assegurarão a formulação de um plano eficaz para a prevenção de novos delitos.ocasional ou habitual. nem tampouco no grau de perversidade de suas intenções delituosas. mas no reduzido número de casos em que a experimentamos entre pessoas diplomadas (156). é suscitado o problema profilático de evitar que se torne um delinqüente habitual. admiração.147 terapêutica (!) e dois por cento se limitou a dar o resto do purgativo e suspender a medicação cardiotônica.K. E o que é ainda mais alarmante. jurídico. treze por cento avisaria ao médico sem confessar sua falta! É certo que tais resultados correspondem a pessoas que se faziam de enfermeiros sem possuir um título regular. pois alguns passam por inteligentes e de grandes dotes morais.A existência deste item em um capítulo de higiene mental se explica dizendo que. certamente não reveláveis a priori. nem tampouco medo ou indignação na sociedade. a prazo fixo. a um exame psicológico persistente. c) Tratamento dos Delinqüentes Ocasionais. em teoria deve prolongar-se durante toda a vida do indivíduo. levado a termo por pessoas peritas que convivam com ele durante o tempo necessário para observá-lo em suas reações espontâneas. capacitadas para desempenhar tal cargo. Somente a reunião destes três elementos. como até agora se fez. ou melhor. quem tratou da questão com maior acerto ao defender um critério psicobiológico. além do exame médico e psiquiátrico. encontramos também uma percentagem de delinqüentes potenciais. Do tratamento acertado. tensão pela qual estes e não aqueles são os responsáveis. Do resultado deste duplo exame e das ações judiciais se deduzirá um duplo critério (resultante de considerar o ato delituoso por dentro e por fora do autor).não cabe. Uma vez que a ação de tutela social a ser exercida sobre eles não se orienta no sentido de castigo. sem dúvida. e sim nas particularidades do processo de motivação das mesmas. . Acerca deste ponto se escreveu muito e não é intenção entrar na discussão teórica das vantagens e inconveniências das diversas escolas penalistas. mas no da prevenção. Entre nós. a do P. A reação social ante o delinqüente tem que estar sempre inspirada em um sentimento de serena justiça. . Por nossa parte julgamos suficiente a formulação das normas psicológicas que servirão para a correção destes casos: 1° Diante de delinqüente . Neste sentido é lamentável a tensão das relações que ordinariamente se estabelecem entre os delinqüentes e seus juízes. da adequação da resposta que o meio social dê à ação delituosa depende a reiteração desta ou sua definitiva repressão. psicológico e médico-psiquiátrico e sua interação. 3° O tratamento do delinqüente ocasional tem que ser individualizado e não deve basear-se na consideração das conseqüências de seu delito. 4° Todo delinqüente deve ser submetido. diante de um delinqüente ocasional. como valioso auxiliar.

Procurar-se-ia estimulá-Ios para que dêem uma reparação dele à sociedade. fábricas. Os dois primeiros grupos devem incluir a maioria dos delinqüentes ocasionais e o terceiro. utilizando todos os recursos da moderna psicagogia e insistindo sobretudo em oferecer ao indivíduo a necessária satisfação de si mesmo (por meio de uma orientação profissional conveniente) para que não sinta hostilidade para com o meio ambiente nem excessiva inveja para ninguém. 9° Os delinqüentes ocasionais do terceiro grupo serão isolados nos denominados "Institutos de Readaptação Social". Os delinqüentes habituais o serão do "Instituto de Defesa Social". Realizarão seu trabalho profissional em condições controladas e viverão em instituições especiais e adequadas a seu estado (clínicas psiquiátricas. substitutos dos atuais presídios.mais ou menos absoluta . ao mesmo tempo que se procurarão corrigir as causas ambientais que motivaram seu delito. b) seu contato direto com pessoas de menor nível moral (delinqüentes habituais). no entanto. 6° Os delinqüentes . . no terceiro são incluídos os casos em que este tratamento requer a privação . 10° A reeducação moral dos delinqüentes ocasionais deve ser individualizada. oficinas ou granjas disciplinadas ad hoc. serão somente o objeto de uma vigilância por parte do "serviço social". uma vez que os casos que nele seriam recolhidos deviam forçosamente ser casos psiquiátricos. e qualquer que seja a gravidade de seu delito. terão. no segundo são compreendidos os que serão submetidos a um tratamento corretivo de suas atitudes morais compatível com o prosseguimento de sua ordinária.148 5° Qualquer que seja a classe de estabelecimento onde se recolha o delinqüente ocasional. 7° Os delinqüentes do primeiro grupo por circunstâncias ambientais.ocasionais e habituais . internatos ou residências especiais etc.devem ser reconhecidos e julgados com a máxima celeridade possível e uma vez de posse dos dados convenientes serão classificados de acordo com a motivação de seu delito e distribuídos em três grupos: no primeiro figuram aqueles sobre os quais não recairá nenhuma sanção direta. uma orientação e funcionamento totalmente distintos.). deve-se evitar igualmente estes dois males: a) seu isolamento absoluto (nas denominadas células individuais). O núcleo fundamental de seu dinamismo um serviço psicopedagógico e um serviço médico-psiquiátrico. por considerar que a etiologia do delito radica totalmente nas circunstâncias ambientais. Esses institutos. dos habituais. cuja característica comum será a de servir para a privação da liberdade aos delinqüentes e sua submissão a uma disciplina moral. prestando a esta um serviço extraordinário e eventual. substitutos dos cárceres atuais. 8° Os delinqüentes do segundo grupo serão submetidos à tutela social durante o tempo necessário para sua total significação moral.de sua liberdade de ação. Seria somente condicionada pelo critério de curabilidade ou incurabilidade (possibilidade ou impossibilidade de uma readaptação social) dos delinqüentes.

paranóicos etc. como ficam. o primeiro pode voltar a praticar seu delito dentro de poucos dias. de fatores gerais (pessoais e ambientais) que agem de modo uniforme e determinam a maior ou menor facilidade de correção da mesma. ao passo que quando um criminoso comete um assassinato tem diante de si a perspectiva do patíbulo. têm ocasião de habituar-se a seus delitos.e submetidos a uma estrita vigilância médica.149 d) Tratamento dos delinqüentes reincidentes incorrigíveis. A nosso entender isto é um erro: a tendência à reiteração delituosa é independente da classe desta e depende. O mesmo ocorre com os que delinqúem em matéria sexual. ficando. ao passo que o segundo. devem ser isolados em uma seção especial destes centros. Quis-se estabelecer certa relação entre a natureza da ação delituosa e o maior ou menor grau de incorrigibilidade de seus autores. raras são as vezes em que se os submete ao devido tratamento corretivo. impunes a maioria das vezes. ou sendo muito pequeno o castigo que se lhes impõe. embora o quisesse. já que. por outro lado. médico ou psiquiátrico. Assim. A nosso ver os delinqüentes reincidentes incorrigíveis. por exemplo. Em troca. ao passo que os autores de atentados contra a propriedade ou o pudor tendiam a ser habituais ou incorrigíveis. não incompatível com sua vida ao ar livre e inclusive com certas distrações inofensivas jogos de tipo infantil etc.nem mesmo contando com os benefícios de uma orientação profissional adequada. O maior contingente desses indivíduos é integrado por casos decididamente psiquiátricos (epilépticos. Quando um descuidista pratica um furto.) e mais precisamente por débeis mentais profundos. Se são presos. escreveu-se que os autores de delitos de sangue costumam ser ocasionais.). por conseguinte. impediu mais eficazmente sua repetição pelo mesmo indivíduo. não suscetíveis tampouco de uma reeducação pelo trabalho . Por isso acreditamos que nesses casos devem ser simplesmente esterilizados do ponto de vista sexual . sabe que o paga com quinze dias de cárcere. não poderia reincidir até ao cabo de muitos anos ou talvez jamais. em troca. CAPÍTULO XIII . Para todos estes casos nem é preciso dizer-se que não existe a possibilidade de uma liberdade social e devem ser considerados como verdadeiros inválidos sociais. esquizofrênicos. O que se passa é que até o presente a reação da sociedade aos delitos de sangue foi mais enérgica que aos demais e. não suscetíveis de adaptar-se ao regime de trabalho e liberdade relativa que impera nos "Institutos de Defesa Social". pode merecer consideração especial o subgrupo dos reincidentes incorrigíveis. -É impossível estabelecer uma exata linha de demarcação entre o delinqüente ocasional e o habitual.por meio da ligadura tubárica se são mulheres ou do cordão espermático se são homens .

na medida por eles solicitada e necessária . espécie de varredura social. em que pese o grande número de escolas já existentes. casas de saúde. para ganhar o céu.150 85. . uma certa tranqüilidade de consciência. ao invés de querer "controlar". o mesmo acontece com o entrosamento desses técnicos com os restantes elementos que . Por outro lado. nem sempre confessáveis. os apoiem. não são somente os delinqüentes saídos das Prisões que enfrentam dificuldades de reajustamento na engrenagem social: também outro exército de pessoas que egressam dos asilos. Amplitude do Problema. a percentagem de delinqüentes reincidentes é alarmante em todos os países. a não ser precisamente.. é evidente que continuará existindo um extraordinário número de delinqüentes. Mas essa tarefa não pode ser confiada nem deixada em mãos privadas e trêmulas por emoções de tipo pessoal. sustentem. e não forem corretamente cumpridas. Como? Mediante a criação de centros ou serviços jurídico-sociais que.. Em diversos países foram criadas numerosas sociedades mais ou menos caritativas e filantrópicas. NECESSIDADE DE CONSTITUIR OS "SERVIÇOS DE ASSITÊNCIA JURÍDICO-SOCIAL" COMO MEIO DE COMBATE EFICAZ A REINCIDENCIA NO DELITO 01. e sim devem ser organismos técnico-sociais. nos denominados "bas-fonds" sociais.Enquanto não estiverem suficientemente difundidas. a poder ficar impunes da vez seguinte. Estes fatores se unem (inclinação delinqüencial. Com efeito. desconfiança ou repulsa. Ao Estado cabe inapelavelmente realizar essa tarefa. dos quais convida afastar-se.para permitir sua livre readaptação à sociedade. quase todas de tipo religioso ou político. "catequizar" ou "aproveitar" esses convalescentes morais. tampouco é segredo que a atual organização social priva o delinqüente sinceramente arrependido dos recursos necessários para voltar a reintegrar-se normalmente nela: por todas as partes é recebido com apreensão. pelo menos. Por outro lado. e ainda maior seria se se tivesse em conta que muitos desses reincidentes aprenderam.. que constitui uma endemia nas grandes cidades e um mau exemplo nas pequenas. as normas de higiene mental e de convivência social baseadas no conhecimento exato do que se pode esperar do homem destas gerações. durante o cumprimento de suas condenações. infelizmente. insuficiência da reforma pessoal e maior dificuldade da vida pósdelinquencial) Para formar o tipo denominado "delinqüente habitual". a formação dos técnicos de assistência social está ainda bastante atrasada. No mundo latino. Como também é evidente que este número pouco diminuirá por efeito das sanções penais. informem e guiem . Esses centros ou serviços não podem ser concebidos como patronatos. da mesma dignidade e responsabilidade que os demais encarregados de conservar e aumentar a saúde social do país. vê-se diante de dificuldades enormes para conseguir uma supervivência não "parasita" nem "ilegal" em seu ambiente. ganhar votos ou ganhar. juntas etc. hospitais e outros estabelecimentos assistenciais. que procuram se aproveitar de tais "detraqués".

médico. pois o candidato deverá comprovar seus méritos técnico-profissionais ou suas habilidades e conhecimentos. centros de assistência social da indústria e comércio. Tal serviço funcionaria em conexão. porventura. profissional. de qualquer tipo que fossem. b) Um serviço de emprego (ligado ao serviço central que. Tais informações seriam dadas por escrito. se a informação não pudesse ser dada no momento e tivesse que ser solicitada. . sem exigir identificação e somente convidando a deixar um nome ou senha qualquer. destinados não tanto a proteger a sociedade contra o delinqüente como. horários. . igualmente preencherá fichas de solicitação de emprego aos candidatos cuja ocupação não tenha vaga em espera. g) Uma biblioteca especializada. condições de ingresso etc. qual seria o dinamismo de tais dependências: 03. Este serviço. embora só funcionasse completamente nas horas de expediente. em centros e serviços especializados. j) Um auditório (para concertos) e salão de cinema (filmes culturais e de passatempo). jurídico. existir na cidade). se desejar pedir a apresentação do serviço ao possível empregador. não só da cidade como do perímetro regional correspondente à zona de ação do serviço a que pertence. estaria em conexão com as bolsas de trabalho. por sua vez.Qualquer pessoa que acudisse ao balcão desta seção poderia pedir dados referentes a direções. 02. c) Um consultório jurídico. como mínimo: a) Um serviço de informação urbana. assistencial. religioso. Informação. de caráter cultural. Estrutura e Dinamismo de um Serviço Modelo de Reajustamento JurídicoSocial.Este terá à vista e disposição dos consultantes as oportunidades de emprego na zona. Vejamos agora. l) Dependências administrativas e de serviço. ao contrário. assim como os requisitos exigidos. mantendo fora delas apenas uma guarda de emergência. se fosse o caso. a proteger o exdelinqüente contra a ameaça da reincidência. Também poderia receber conselho referente ao modo de conseguir informações mais especificamente pessoais. técnico-educativo etc.. 04. e) Um consultório médico-psiquiátrico. . econômico. . brevemente. laboratórios psicotécnicos. Aberto dia e noite.Um serviço desta natureza deveria estar localizado em um lugar central e visível da cidade. devidamente classificadas. favorecida pela incompreensão hostil da sociedade. Para tal fim esse serviço estaria em conexão com todos os organismos. Constaria das seguintes dependências. d) Um serviço assistencial econômico-social. associações. Serviço de Emprego. em caráter gratuito. f) Um consultório psicológico. h) Um restaurante econômico i) Uma sala de exposições e conferências. Por isto cremos conveniente delinear o que deveria ser um desses serviços.151 hão de colaborar na missão de reajustamento que agora consideramos. centros etc.

para solicitar deles a colaboração precisa em cada caso cuja solução não seja imediata. Outro aspecto deste serviço é o de proporcionar amizades e ambientes agradáveis aos que se encontrassem isolados da família. dada sua situação).152 sindicatos trabalhistas etc. reingressam automaticamente no círculo delinqüencial. 07. neste caso.A existência de um psiquiatra não exclui.Deverá ter extraordinária autonomia. é claro. para informação ou distração . 05. o núcleo das atividades convergentes dos demais. imprescindíveis. se não legal. colaborariam de bom grado nela (como acontece com o grupo dos ex-alcoolistas). Serviço Assistencial Propriamente Dito. Esse consultório deveria. chegamos à conclusão de que há uma grande quantidade de delinqüentes por «ignorância". ou . 08. . após mais de 30 anos de experiência. b) as que tratam de assuntos culturais.Terá esta dois tipos de obras: a) as que tratam de temas de psicologia normal ou anormal. Há. pois. indicando-lhes possíveis carreiras. do psicólogo que. dentro da zona de sua normalidade (sempre relativa. dando-lhes oportuno tratamento ou indicando-lhes onde poderiam recebê-lo. mas completa os serviços. . uma grande quantidade de pessoas que desanimam ante a prolixidade e dificuldade dos trâmites que precisam seguir para "se pôr em dia" ou "se pôr em regra". .Teria por principal finalidade o exame mental periódico dos consultantes do serviço que apresentassem sinais de desequilíbrio ou insuficiência mental. o que é evidentemente perigoso. em forma amena e científica (para ilustração direta dos casos).a procurar documentos falsos e. Isto as priva de outros direitos e as leva progressivamente a. sem omitir uma seleção de exdelinqüentes reformados que. . de cometer seu delito. Consultório Jurídico. 06. como vulgarmente se diz. será um especialista em psicotécnica. Seu responsável deverá ser pessoa perita e experimentada em ciências sociais. Biblioteca. além disso estar sempre pronto a ajudar seus consultantes na reivindicação de seus direitos de cidadão que lhes fossem negados a pretexto da ausência ou irão cumprimento de trâmites durante o tempo que se viram privados de liberdade.Consideramo-lo de extraordinária importância. que acreditam que lhes assiste o direito.ainda pior .. por sua vez. tato e técnica flexível para adaptar-se às peculiaridades de cada caso. então. se utilizaria para conseguir o propósito central de toda a obra: a reintegração ou reajustamento social de seus casos. Consultório Psicológico. – Este seria. quando lhes faltam documentos ou comprovantes de qualquer natureza. sem dúvida. dadas as circunstâncias e o modo como concebem eles o que é "justo" perante elas. isto é. 09. aos quais serviria e dos quais. lúdicos etc. é claro.submergir-se no anonimato social. capaz de efetuar um diagnóstico preciso dos "valores pessoais" (ao passo que o psiquiatra atende principalmente aos "desvalores") dos consulentes. Consultório Médico-psiquiátrico. capacidade de iniciativa. pelo menos moral. dispondo de uma ampla rede de colaboradores de ambos os sexos. com efeito. normas racionais de vida etc. novos modos de readaptação.

a terapêutica pela música e pelo cinema. Esse . Naturalmente. . Nas segundas.que não alcança. 13. porá de lado sua atitude defensiva e solicitará a ajuda que mais precisa. Uma vez satisfeita essa necessidade. O Restaurante. mas que pode reunir elementos pertencentes a ela. . atraída pelo cheirinho de uma boa comida. . pode interessar-se na leitura de alguma revista. ainda. até agora foram reservados à clientela dos grandes e luxuosos sanatórios e casas de convalescença. 11.Nas primeiras se concentrará o estudo dos expedientes individuais. isto é. Uma especialista em bibliotecnia ou biblioteconomia poderá guiar os leitores na escolha dos livros mais convenientes. da embriaguez. PSICOLOGIA DE ALGUNS DELITOS DE –GRUPONORMAS DA TERAPEUTICA SOCIAL DE GRUPOS Até agora nos limitamos a tratar dos problemas derivados do conflito legal de indivíduos isolados. Auditório e Salão de Cinema. haverá uma boa parte da clientela capaz de ser guiada e reajustada por esse serviço que somente a ele acorrerá.). em troca da comida. infelizmente. para não dar a impressão que são atendidos por caridade. mas não cabe ignorar que entre o homem individual e a sociedade existe o denominado "grupo" . . Sala de Exposições e Conferências.de diversa extensão e estrutura .As exposições deverão estar abertas em caráter permanente e versar sobre temas de interesse para seus especiais visitantes. embora a entrada seja livre. concerto ou filme e. Com isto se lhes mostrará que merecem a confiança do pessoal e que se lhes julga capazes de "dar" algo útil. 10. da jogatina desonesta ou do suicídio. viverão os membros permanentes do serviço ou os que farão as guardas noturnas. realizando assim uma verdadeira "biblioterapia". quando vir que tudo isto não lhe custa nada. se lhes pedirá. CAPÍTULO XIV 86. capazes de substituir os prazeres que lhes faltam (família.Nele se alternará a "meloterapia" e a "cineterapia". 12.153 de seus leitores. embora menos confesse necessitar: a ajuda psicoterápica. mas. adquirirá confiança. êxito profissional etc.É imprescindível para atrair e fixar uma parte dos casos. criando neles um progressivo deleite e atração pelos valores culturais e artísticos. Ambos recursos são hoje considerados excelentes e eficazes na psicoterapia coletiva. de início. mais tarde. de acordo com suas possibilidades. Contudo. Portanto. assistir a uma conferência. não se pode esquecer que o impulso nutritivo divide com o sexual a primada nas motivações das personalidades imaturas. algum pequeno serviço. Dependências Administrativas e de Serviço. é preciso fazê-los chegar até essa outra clientela que podem ser salvos do crime. da contabilidade e correspondência. as características de "classe".

Tais bandos têm sempre um chefe. killer. que só aceitam a disciplina livremente consentida (anárquica) e que são capazes de devolver "golpe por golpe" e que são capazes de devolver “golpe por golpe” em qualquer ocasião. Para estudar a psicologia destes delitos de grupo ou coletivos. Delitos de Grupo Contra a Propriedade. Surge então (como foi típico dos bandos de "gangsters" norte-americanos) uma série de graus hierárquicos que constituem uma organização disciplinar e semimilitar no grupo de malfeitores. a ação policial. Com efeito.De um modo geral chama-se "bando" ao grupo de malfeitores organizado em "grupo" para o roubo. mas controlando-a de um esconderijo. cujos méritos consistem em ser mais inteligente.a psicologia configuracional (Gestalt) e a psicologia adleriana . era preciso antes recordar quais são as condições que regulam o dinamismo psicológico dos membros constituintes do grupo. e isto leva.de tipo uniforme ou semelhante. . A medida que o bando aumenta de importância. esse chefe passa a ser caudilho. Cabe a duas escolas psicológicas modernas .à maneira de pessoa coletiva ou superpersonalidade .o mérito de haver progredido mais na investigação de todos aqueles fatores. que implica diversos encargos de trabalho e perigo. em português. Podem surgir por três motivos principais: a) insatisfação no modo de conduzir as "operações". explícita ou implicitamente reconhecido. depois. em inglês) que tem a dupla missão de "liquidar" os insubordinados. confiada a outro tipo de membro chamado "guardacostas" ou "capanga").154 grupo constitui uma nova entidade psicológica . em suas diversas modalidades hierárquicas. delitos que adquirem especiais características de estilo e gravidade. membros ativos e auxiliares: encobridores. padrões ou normas .codificadas ou não . à criação do tipo de verdugo (carrasco.). e de "proteger" os altos cargos do bando (essa ação é. obedecendo igualmente a motivações que podem ser diversas das que impelem aos delitos individuais isolados. não tomando parte direta na ação (como se fosse o estado maior). Todo grupo tem uma série de características comuns. que com eles "ninguém pode". também. A medida que se produz este afastamento e cessa o contato pessoal direto entre o chefe e os diversos elementos. por vezes. . As tensões nestes grupos ou bandos são sempre de dramática intensidade nos três planos de nível que as constituem (diretor. geralmente. 01. um grupo é algo mais e também algo menos que uma soma ou agregado de indivíduos. uma série de objetivos mais ou menos idênticos e uma tendência a comportar-se como que de acordo com estilos. é preciso aumentar a gravidade das sanções para evitar que estes procedam por sua conta própria. vai ficando atrás. fracos ou traidores. c) insatisfação quanto ao modo de comportar-se pessoalmente (dentro ou fora da vida grupal) um ou vários membros. Essas tensões se agravam pela necessidade em que todos os bandidos se encontram de mostrar que possuem um caráter indomável. perito ou experimentado no trabalho de conseguir a presa e de evitar. cúmplices etc. isto é.capaz de praticar. b) insatisfação no modo de retribuí-Ia (divisão da presa).

Exemplo de delitos grupais por "projeção".durante várias horas de tumulto . perde uns elementos e adquire outros: sua coesão se mantém apenas pela ânsia comum de praticar algum ato deliberadamente "proibido e inesperado". E esse algo será determinado por qualquer circunstância fortuita: se encontram algumas moças. no primeiro caso está agindo dentro de sua "família". uma noite qualquer. ou melhor. Delitos de Grupo Contra a Vida. conjuntamente. dirigiramno e projetaram-no contra os estabelecimentos vizinhos e descarregaram-no contra os que nestes se encontravam.Um grupo de "patota" compõe-se de um núcleo inicial de "cumpinchas". Assim. Desviados em seu impulso. . Psicanaliticamente falando. tem geralmente lugar por motivo de vingança (direta ou projetada) ou de satisfação compensadora de anteriores frustrações agressivas. ou. principalmente formados por adolescentes e elementos sociais marginais. alguém sugere a idéia de sair à rua para armar "confusão" ou fazer "barulho". por exemplo. Perambulando. encontramos nos "linchamentos de negros". que se reúnem em bares e estabelecimentos suburbanos para constituir o que nas zonas platenses sul-americanas se chamam "patotas". hostilidades legendárias entre membros de diversos grupos étnicos. 02. se encontram gente . são mais nefastas para a existência dos grupos que a própria ação repressora da polícia. 03. encontramos.empregados de lojas vizinhas a um cinema no qual não lhes fora permitido entrar. em qualquer lugar da área grupal. É o caso de uma variedade especial de grupos delituosos de grande instabilidade. quando um bandido ataca e mata outro. é possível que o motivo da delinqüência criminal de grupo seja a necessidade de afirmar a "onipotência" pessoal coletiva como meio de compensação a sentimentos de frustração individual anteriormente sentida e contida. estas serão assaltadas e violadas. em busca de possíveis vítimas. pode estar realizando assim o parricídio. o fratricídio ou o suicídio simbólicos com maior facilidade do que quando pratica igual ação com desconhecidos. Psicologia Delinqüencial da "Patota". se transmita em "cadeia" e possa alcançar além das fronteiras. ou criado o atrito. Um dia. em 1947. no segundo. grupos de estudantes de uma grande cidade continental agrediram fisicamente e feriram . que costuma beber e jogar. e o grupo se lança à via pública em atitude agressiva. isto é. em casos de agressão vingativa do grupo contra algum inocente elemento que tem apenas uma relação associativa circunstancial com a causa motivadora do impulso vingativo. Finalmente. o que não ocorre. antipatias legendárias entre famílias. Exemplo típico desta natureza. evidentemente. . Com efeito. No primeiro caso se encontram os delitos grupais que são o clímax de antigos "ódios mortais". ainda observados atualmente na América do Norte e só atribuíveis a um intenso preconceito racial. também.155 Isto faz com que uma vez iniciada a violência. ou divertir-se. religiosos ou sociais.O ataque do grupo a uma ou várias pessoas. independentemente de um propósito de lucro. com freqüência. invadindo a dos grupos correlativos e desencadeando verdadeiras guerras intra e intergrupais que.

4° . se enfrentam alguém jovem. chegando a comprometer sua saúde total se atingem um elevado grau de difusão. b) Índices Econômicos e Industriais: 1 ° . ou cronicidade. então pode ser que o agridam ou matem. se se tem em conta. em nossa opinião. c) Índices Criminológicos: 1° . políticos e culturais.156 velha. que há muita delinqüência ignorada. c) a conversa e as libações criaram um "crescendo" de excitação que favorece o desencadeamento dos impulsos agressivos até então inibidos. 3° . econômicos.Emergência da "liderança para destruição".Diminuição na discriminação de características sexuais. poderíamos dizer que os desvios do grupo são uma espécie de enfermidade que ataca suas partes orgânicas. d) Índices Políticos: 1°.Aumento dos suicídios. . Por isso estabelece cinco categorias de índices: biológicos. revivescência de .Aumento da morbilidade.Aumento da indiferença da opinião pública pelos delitos.Diminuição da produção individual.Discriminação da fertinatalidade. criminológicos.Aumento da perversidade e gravidade desses). intensidade e freqüência.Aumento do absenteísmo (faltas ao trabalho). Qual a razão dessa conduta? O remanescente de agressividade insatisfeito e reprimido se liberta agora com facilidade por três motivos: a) a ação coletiva dilui o sentido de responsabilidade.Aumento da delinqüência juvenil. Então se observam sucessivamente os sintomas de "desequilíbrio" e de "desintegração" social. 4° . 2° .Concebendo a sociedade como um macrogrupo (grupo gigante) capaz de produzir e reproduzir-se assegurando sua persistência econômica e biológica na História. 2° . Normas da Terapêutica Social de Grupos. talvez a molestem ou roubem. (A estes índices poderiam juntar-se.Diminuição da média de idade nos grupos atingidos. 4° . Percentagens de delitos não bastam para avaliar esse fenômeno.Aumento do desempenho forçado.Aumento das alterações psicossomáticas.Aumento das greves. 2° . 04. 3° . que não pode figurar nas estatísticas oficiais. 2° . 5° .Fragmentação social e política (desagregação de partidos) e nacionalismos regionais. a) Índices Biológicos e Médicos: 1° . os seguintes: 3° . b) cada um "exibe" sua valentia a um pequeno público amigo. entre outras cousas. Vejamo-los em detalhe.

Psicotécnica e Higiene Mental. isto é. de formação de um sólido "plateau" social (como se conseguiu. por exemplo.). isto é.ao território nacional. Economia. perda do sentido e do propósito da vida e do destino cósmico. a paz e o equilíbrio psicobiológico à maior quantidade possível de habitantes que melhor se conseguirá esse objetivo. propondo. A difusão de conhecimentos científicos acerca da "difícil arte de viver sadiamente" deve ir acompanhada de disposições que permitam a todos utilizá-los. 87. é preciso agora planificar a luta terapêutica. Conhecidos esses índices e analisadas suas causas. em uma pequena área (experimental) controlando seus defeitos e efeitos. Devem ser convocados para reuniões os melhores especialistas em Direito. hierarquizando-as em sua prioridade e em seu custo.Declínio da fé vital "religiosa". fazendo-os chegar a conclusões relativas à série de medidas a tomar. primeiro.Aumento do intelectualismo e do planejamento obsessivo. e hoje difundidas pela World Health Organization. Sociologia. e) Índices Culturais: 1 ° .Aumento do "escapismo" (jogo. na Suíça) será o modo mais eficaz de completar essa obra. é assegurando a saúde.Emigração maciça. diversões licenciosas etc. Eis porque a primeira tarefa a realizar consiste agora em alertar . O plano assim elaborado deve ser posto em marcha. 3° . não utópicas.a opinião pública. Política. soluções realizáveis. para depois estendê-lo com as devidas modificações . Algo de concreto pode ser afirmado e não é aumentando a severidade das leis penais nem diminuindo os direitos democráticos que se poderá conseguir a reintegração da normalidade. ao mesmo tempo. Uma tarefa desta natureza exige a mais estreita colaboração do governo e das organizações públicas extra-oficiais que tenham ideais de reintegração nacional. Pedagogia.157 3° . Daí a necessidade de estabelecer um regime tributário que permita ao Estado atender aos grandes serviços de saúde e educação. que é preciso fazer cumprir as normas de "higiene mental" delineadas e aprovadas nos grandes congressos internacionais da matéria.Instrução crescente do primitivo e visceral (inclusive o sexo). em primeiro lugar. 4° . Uma hábil política de mescla de grupos. Não há dúvida.sem deprimir demasiadamente . Ao contrário. Medicina. 2° . AJUDA PSICOTÉCNICA PARA A DETERMINAÇÃO DOS DIVERSOS GRAUS DE – CAPACIDADE E CAPÍTULO XV . também. A descoberta precoce dos pequenos desajustamentos individuais evitará o fracasso na correção tardia dos grandes desajustamentos coletivos.

nos casos limites. conduzir-nos a erro por múltiplas circunstâncias. que o critério social nos conduziria. previamente experimentadas em grandes massas de pessoas com o fim de estabelecer unidades artificiais (mas absolutamente comparáveis) de medida de desenvolvimento intelectual. o conceito de "oligofrenia" ou "debilidade mental" é puramente quantitativo e além de certa relatividade. não chegam a poder valer-se por si mesmos na vida. em primeiro lugar. Com efeito. conforme seja o nível intelectual médio do grupo humano que se utiliza como referência. . a experiência com os reativos mentais (testes) que nos oferece a psicotécnica pode. pode ocorrer que um mesmo indivíduo apareça nele como um débil mental ou não. O resultado é que seu pensamento carece de uma base lógica e os conduz a conclusões e atitudes erradas e absurdas. ou ao social. ou "debilidade mental". Por conseguinte falta nestes indivíduos a capacidade de comparação (identificação e diferenciação) de qualidades que é a base de todo Julgamento e raciocínio. que se baseia nos resultados de uma experiência artificial. designa-se o estado consecutivo a um desenvolvimento insuficiente das funções psíquicas principalmente denotável em seu aspecto intelectual. A qual destes dois critérios devemos dar a preferência: ao científico. O déficit intelectual comprovável por meio do exame com esses reativos se traduz. o valor dos mesmos. Tal critério é o que define a existência da debilidade mental em função do rendimento que o indivíduo proporciona diante de uma classe especial de "provas mentais de inteligência".Ao débil mental falta a disposição intelectual necessária (embora não seja suficiente) para compreender os problemas suscitados pela vida social.158 RESPONSABILIDADE JURÍDICA . a posteriori. É claro que além deste critério social de valorização existe um critério científico absoluto que ainda não pôde ser fixado por falta de experiências. de acordo com os resultados de sua experiência pessoal.Com o qualificativo de "oligofrenia". que se apoia. Conceito de debilidade mental. Dito mais precisamente: ao débil mental falta a inteligência (em suas três modalidades de compreensão. se o aplicássemos estritamente. distribuindo seus gastos de acordo com aquele. mas não é menos certo. Por essa razão (carência de conceitos gerais . imposta pela variabilidade do padrão (standard) social que servirá para defini-lo. conquistando com seu trabalho o mínimo de ganho econômico necessário para seu sustento e. Como se vê. por outro lado. pois não sabem abstrair ou retirar de suas vivências os elementos comuns. pela ausência da capacidade de síntese e a falta de compreensão das relações abstratas. Falta aos débeis mentais o mundo conceptual vivem somente diante de realidades concretas e imediatas e isso faz com que não saibam aproveitar a experiência para a resolução de situações novas. Com efeito. pois nos faria confundir com os débeis mentais o grande número de indivíduos que por ter uma anomalia afetiva (personalidade psicopática). a mais erros ainda. ou sofrer de alguma enfermidade (mental ou corporal). na verificação do rendimento do indivíduo na vida humana? Devemos mostrar-nos ecléticos e apoiar-nos nos dois se desejamos nos aproximar da verdade. criação e crítica) requerida para poder auto-conduzir-se em nosso mundo civilizado. para criar os hábitos de adaptação convenientes e para criticar. por outro lado.

Com isto queremos dizer que todo débil mental é só por este fato um débil moral (falta de capacidade de julgamento moral). abreviadamente) que. devemos atribuí-lo somente a que diante de um número determinado de estímulos e situações aprendeu. melhor. de idade intelectual. e além do mais. de um modo não contingente. No entanto.90 e 1. como se compreende. ou do Estado se aquela não oferece garantias suficientes. não ser possível estabelecer a priori limites bruscos entre a normalidade e a anormalidade. de acordo com sua idade.10. no qual seus deveres profissionais e sociais se encontram reduzidos ao . O resultado da divisão da idade intelectual (mental) pela idade cronológica (somática) de um indivíduo nos dá o denominado quociente intelectual (Q. I. De um modo geral torna-se difícil estabelecer um limite abaixo do qual a deficiência intelectual seja incompatível com a vida social.50 e 0. É preciso agora acrescentar que as pessoas cujo quociente intelectual está compreendido entre 0. podemos assinalar como limite mínimo compatível um Q.50. quando encontramos um débil mental que mostra uma vida moral. A este último valor se dá o nome de idade mental ou. como já sabemos. mas podem conduzir-se em troca com normal correção em um ambiente rural. será possível. necessário. Facilmente se compreende que significando a debilidade um déficit quantitativo de inteligência com relação à idade do indivíduo. designando-se com o nome de oligofrênicos todos os indivíduos cujo quociente intelectual é inferior ao primeiro valor e com o qualificativo de superdotados aos que têm um quociente intelectual superior ao segundo. qual será sua reação para evitar o castigo material ou espiritual que o ameaça (cárcere ou inferno). embora a recíproca não seja verdadeira. de modo mais ou menos automático. de 0. convencionou-se admitir como valores compreendidos na zona de inteligência normal os dos quocientes intelectuais compreendidos entre 0. para distingui-la da idade cronológica. ser posto sob a tutela familiar. Esta dificuldade deriva de dois fatos: a) da comum e quase constante associação de transtornos quantitativos e qualitativos da afetividade aos defeitos puramente intelectuais nos débeis mentais b) das diferentes exigências do meio social segundo suas particularidades fisiopsicológicas. estabelecer graus desta debilidade. como em toda outra demonstração da atividade biológica.159 e de inteligência abstrata) são incapazes de compreender os determinantes éticos da conduta. só por este fato. De nenhum modo é capaz de decidir sua conduta diante de uma situação nova por seu próprio discernimento e de forma a conseguir a tranqüilidade de consciência e a satisfação de si mesmo. em função da diferença que se observa entre a inteligência que o indivíduo tem em realidade e a que lhe corresponderia normalmente. isto é.80 são também incapazes para a vida social nos grandes núcleos urbanos. maior do que a unidade nas pessoas inteligentes ( sagazes) e menor do que ela nas pobres de inteligência ou débeis mentais (oligofrênicos). deixando de lado estas causas de variação. de sorte que. Pois bem: visto na inteligência. será igual à unidade nos indivíduos normais. independentemente de toda sanção ou recompensa externa (humana ou divina). I. Todo indivíduo que examinado nas escalas métricas de inteligência exibe um quociente intelectual inferior a esse valor deve.

apesar de sua limitada capacidade intelectual.50. Com o objetivo de distinguir melhor o aspecto do funcionamento mental que se mostra mais insuficientemente desenvolvido nos oligofrênicos é aconselhável denominálos de: oligonóicos. e portanto seu possuidor é um imbecil. e mesmo de imbecis. ademais deve-se sujeitá-lo a uma tutela social. Idade mental: 10 anos e 3 meses). deve-se proceder à sua incapacitação.Quais foram as impressões mais fortes que você teve de sua vida? R. com efeito. que se acham legalmente incapacitados do ponto de vista econômico. 1°. grande número de débeis mentais.160 mínimo. Uma tarde em que quase me vi debaixo de um automóvel que ia muito depressa e me sujou a roupa. em virtude da qual não podemos aplicar diretamente o critério de valorização que é válido para os diferentes meios em que são experimentados. QUESTIONÁRIO ÍNTIMO (37 Anos. . Em troca. da qual será responsável sua família ou o Estado. Não deixar meu tio que eu saia às noites. O principal inconveniente apresentado pela maioria deles é a falta de observações nacionais. não são poucas as pessoas bem dotadas intelectualmente que deveriam ser incapacitadas por carecerem de uma inibição eficaz de diversas tendências anti-sociais ou antifamiliares. QUE PROVAS MENTAIS PODEM SER EMPREGADAS PARA O RECONHECIMENTO DA DEBILIDADE MENTAL? O número de reativos propostos para a determinação do grau de desenvolvimento intelectual é extraordinário e sua descrição não está dentro dos limites normais. solteiro. Não obstante. . Para melhor conhecimento de sua pessoa responda com absoluta sinceridade às perguntas que se seguem. quando o quociente intelectual desce de 0. mas gozam de liberdade social quase absoluta (pois seu conselho de família só se reúne uma vez por outra) e constituem com sua conduta um mau exemplo e uma causa perturbadora da moral coletiva. Ter sido repelido por uma pequena. a MORTE DE MINHA MÃE. Existem. se suas condições de caráter os impelem a levar uma vida simples e metódica. 88. Tenha a certeza de que somente o médico examinador terá acesso às mesmas. Para os fins da incapacitação é preciso considerar que grande número de oligofrênicos pode merecer o direito de reger livremente sua pessoa. oligotímicos ou oligopráxicos.

Se lhe dessem a escolher entre ser: sábio.Por quê? R. que não gosto de mim. .Se você voltasse a nascer. Se meu tio não fosse de tão mau gênio eu já trabalhava e teria meu dinheiro para tudo. . Que não querem compreender que sou um homem e necessito ais liberdade.Quais acredita você serem seus principais defeitos? R. Henriqueta. R. R. porque minha mãe me deixava. poderoso. Porque sou muito valente e faze bem à humanidade.Qual a pior ação que acredita ter cometido em sua vida? R.161 . . sem ofender a ninguém. Meu tio. Sair só. Estar com minha namorado eu comprava uns trajes baratos que existem na loja e com pouco dinheiro fiaria bem. belo. . . sou muito antipático a meu pai. Se voltasse a nascer seria militar.Quais são as lembranças mais desagradáveis (que mais lhe fizeram sofrer) de sua vida? R. .Por quê? R. que modificações faria em sua vida? R. Fazendo tudo o que quero. Também me aborreço se estou certo de uma coisa e não me querem dizer. . . forte. às vezes também meu pai. ativo. . ter dinheiro e casar-me com a moço que amo. .Quais seus maiores desejos? R. inteligente. Não. Ir ao teatro. Todas as noites rezo para minha mamãe e os pobres pecadores.Quais acredita V. Porque sim.Qual a maior injustiça que acredita V. Gostaria de ter muito dinheiro e poder sair só à noite até me casar e depois sairei com minha esposa e nos divertiremos muito.Como? R.Como crê você que poderia realizá-los? R. também gostaria de dirigir um automóvel e passar os verões na montanha junto com meus amigos. Quando era criança eu brincava e fazia o que queria. . . Logo me casei com uma moça muito bonita. muito. As anginas que tenho. Não sei. . . mas não sou muito galante. As vezes zombo do que me dizem quando não me compreendem. Ser um pouco pesudo e muito bom. Creio sempre em meu confessor.Crê você que há maneira de ajudar seu futuro? R.Quais são as lembranças mais desagradáveis de sua vida? R. rico.Escreva três nomes de pessoas que lhe sejam antipáticas. quase me fazem sofrer muito também. Ser muito virtuoso e religioso. Julio e Pilar. Eu não fiz nada de mau. Paco. Sim. . porque não me deixam comer. Minha mãe. Não sei o que dizer. . ter sofrido em sua vida? R. Abusei um pouco de meu natural e gosto muito das pequenas.Escreva os nomes das três pessoas que você mais admira. . serem suas principais qualidades ou virtudes? R. gostaria muito de aviador.Você está satisfeito de viver? R.

Quais acreditas V. . . quais escolheria? R. . -Como crê V. Não quero ser virtuoso. mas eu sou mais digno do que eles. ter sofrido em sua vida? . QUESTIONÁRIO ÍNTIMO (Perfil:18 anos. Meus pais . Meus irmãos fazem bem em aproveitar-se. . Porque assim manda a justiça e a religião.Como? R. Sim. e Primo Rivera. . Belo e fino. .Quais foram as impressões mais fortes que V. 2°. Ter um pistola para não me deixar pisar por ninguém.162 feliz nos amores.Escreva o nome de três pessoas que você mais admira. não serve para nada.Qual a maior injustiça que acredita V. nem agüentaria sermões nem entupidezas dos pobres.Quais são as lembranças mais desagradáveis ( que lhe fazem sofrer) de sua vida? R. Fui demasiado crente em meus pais que não merecem nada mais que desprezo. solteiro. que modificações faria em sua vida? R. Não sei.Por quê? R. Porque me fizeram sofrer muito injustamente meus pais e amigos. que ninguém lhes direito a isso.paciente e só pudesse ter duas qualidades. Uma vez que apanhei uma peseta e nada disse. teve em sua vida? R. . . Iria com outras pessoas para terras livres. Lenine. Há três dias quando meus pais se converteram em meus verdugos. Nada. . .Escreva três nomes de 3 pessoas que lhe sejam antipáticas. Fazendo o que penso. sem justice e sem ordem. Cornélia. Queme deixem em paz e já verão como os realizo. R. Não posso estar porque não sou bem tratado. . . V. minha famíla e os menores que me aborreceram. .Quais acredita V. Ter sido trazido para aqui com maus fins. Todas as pessoas me queriam. . . -Se voltasse a nascer. R. serem seus principais defeitos? R. fino.Por quê? R.Idade mental 1º anos e 5 meses) . nada.Crê V. Ser livre e poder gozar de minhas faculdades.Por quê? R.Qual a pior ação que acredita ter cometido na sua vida? R. Ver o mundo com é. serem suas principais qualidades ou virtudes? R. pensa que porei a corda em meu pescoço.Quais são as lembranças agradáveis de sua vida? R. que poderia realizá-los? R.Você está satisfeito de vier? R. Não sou tolo. Viajar com quem me agradar. que há maneira de mudar o futuro? R.Quais são os seus maiores desejos? R. Não tenho nenhum direito reconhecido e devo tê-lo como homem e como cidadão. Não me deixaria meter no colégio.

em relação com sua responsabilidade e com sua capacidade civil? Eis aqui uma pergunta certamente difícil de responder em termos gerais. antes de tudo. no terreno da oligofrenia. por conseguinte. quais escolheria? R. Sempre estou cheio de injustiça porque ninguém me respeita e todos me maltratam meus pais são uns verdugos e os que lhes dão atenção são uns ladrões. Cumprem-se. . como diante de qualquer outro indivíduo. Enquanto aquele se limita a sonhar com um inofensivo poder. que carece da possibilidade de basear sua conduta em uma motivação abstrata. rico.163 R. e se pudesse. ser também feliz nos amores. No débil mental. não devemos nos contentar em saber qual é o valor de seu desenvolvimento intelectual. mas qual é a carga de tendências anti-sociais e qual o grau de inibição que guarda seu espírito. inteligente. conforme for o resultado da luta entre sua agressividade e seu desejo de evitar o sofrimento. determinar uma conduta anti-social ou associal. sendo ambos débeis mentais. saber se sua raiva ou cólera diante do meio é superior. VALORIZAÇÃO MENTAL JURÍDICA DA DEBILIDADE Que valor devemos conceder à constatação de um estado (congênito ou adquirido) mental de debilidade do indivíduo. 89. bom. este procura consegui-lo sem reparar nos meios.Por quê? R. De fato já é um delinqüente banal e logo chegaria à criminalidade se a ação profilática e tutelar da higiene mental não o impedisse. Seu instinto de conservação individual pode adotar uma forma preferentemente ofensiva ou defensiva e. por conseguinte. Uma resposta acertada à mesma só pode ser dada estando de posse de outras duas classes de dados: 1° Quais são as exigências do meio em que vive o indivíduo? Dito doutra maneira: qual é a grande complicação psíquica das reações que deve efetuar habitualmente para adaptar-se a seu ambiente? 2° Quais são as características de sua personalidade do ponto de vista afetivo? Também dito de outra maneira: qual é a modalidade e a violência de suas tendências apetitivas e repulsivas e por conseguinte qual é seu potencial de delito. belo. -Se lhe desse a escolher entre ser: sábio. nos interessa. igualou inferior a seu medo diante dele. Isto quer dizer que diante de todo débil mental. os mesmos postulados que já assinalamos no campo da psicologia normal: na determinação da conduta o valor do fator intelectual é muito menos importante do que o tipo temperamental e a modalidade caracterológica (resultante de ambos e da experiência vital). ao passo que a do segundo é considerável. paciente e só pudesse ter duas dessas qualidades. no entanto. poderoso. Dito de modo mais claro: todo débil mental no qual predomine a cólera sobre o medo é um delinqüente certo. feliz nos amores. Forte e belo. a pessoa mais leiga compreenderá que a valorização que juridicamente deva ser dada a seus futuros atos deveria ser com justiça bem diferente. O observador mais profundo verá imediatamente que a periculosidade social do primeiro indivíduo é praticamente nula. todo débil mental no qual predomine o medo sobre a cólera é apenas um .e agradam. Para termos uma idéia de seu valor bastará compararmos as respostas dadas a dois questionários íntimos para o estudo da afetividade por dois indivíduos cujo quociente intelectual é idêntico. Por que . Estes indivíduos são igualmente dotados do ponto de vista intelectual e. forte.

Valorização da capacidade testamentária. mas essa lei não considera que nem na carreira de Direito nem no programa de oposições a Cartórios figura o estudo dos meios de que pode e deve se valer quem pretende tomar tal decisão para levá-la a termo de uma maneira justa. dando lugar. e. cheia de contradições lógicas. com pleno conhecimento de se o que testa tem ou não a suficiente capacidade e independência de juízo. procurando submeter todo mundo a sua interpretação. em geral. por outro lado. Daí a maior necessidade de investigar nos oligofrênicos suas modalidades temperamentais (que. mas. o débil mental com reação reivindicatória. Por exceção podem ser encontrados débeis mentais nos quais a libido sexualis insatisfeita se sublime grosseiramente sob a forma de bajulação pegajosa e obediência às pessoas que o rodeiam. incapazes como são de inibi-las ou dissimulá-las) se se quiser chegar a lhes poder dar um trato e assistência convenientes. se manifestam com muito mais nitidez. uma vez que o mundo parece caminhar rapidamente para uma nova organização social. que via de regra são seus próprios parentes ou tutores.criando então uma pobre fantasia temática. mostra-se um indivíduo cujo potencial de delito está aumentado. que interpreta de um modo egocêntrico. . Do ponto de vista jurídico convém assinalar a existência de um tipo de oligofrênico que à primeira vista pode confundir-se com o do paranóico pela tendência litigante de ambos.saber que um indivíduo quer realmente fazer um . Não basta . isto é. Se na prática grande número de oligofrênicos não chega à criminal idade.comumente dotado de uma inteligência brilhante . Mas não há dúvida de que atualmente se faz tanto mais necessário escrevê-lo. Não obstante. só pelo fato de o ser. ao contrário. mesmo neles se observa com freqüência a transformação colérica ou angustiosa de suas tendências reprodutoras.164 delinqüente latente e circunstancial. Nestas condições uma valorização exata de sua responsabilidade só pode ser levada a termo após prévia ponderação de cada uma das poderosas forças emocionais que são capazes de dirigir sua conduta sem ter que lutar com o obstáculo sempre presente nos indivíduos normais .como se faz ordinariamente .e portanto seu medo . enquanto o paranóico . por conseguinte.da consciência moral. cedo ou tarde. é praticado (ou deveria ser praticado) pela grande maioria dos mortais e. costuma partir de fatos mal observados (dados incompletos ou deformados) que exaltam a íntima convicção de sua insuficiência . a idéias delirantes de tipo reivindicador (agressivo) ou persecutório ( defensivo). baseado nisso. dá largas a seu orgulho (hipervalorização do eu) de um modo centrífugo. respectivamente. com a qual procura obter a todo momento a proteção (ação centrípeta) dos demais contra seus supostos ofensores ou inimigos. De um modo geral. quanto o ato de testar. costuma ser efetuado com as mínimas garantias práticas de justiça. sua psicogenia é absolutamente diferente. é devido ao maior desenvolvimento que neles adquire o medo ao castigo e ao sofrimento.parte de fatos certos. apesar de ser um dos mais difíceis de executar na vida e dos que. todo débil mental. pois. A lei deixa ao critério do tabelião a decisão de outorgar ou não o testamento. isto é. exige uma melhor disposição de todas as aptidões psíquicas.Talvez de todos os dados que integram o presente estudo seja este o que mais cedo perca sua atualidade.

se se deseja evitar o número notável de injustiças que diariamente são cometidas neste aspecto. 90. é capaz de responder corretamente às perguntas que costumam ser formuladas no ato de testar. QUE DEVE O TABELIÃO SABER OU PROCURAR AVERIGUAR ANTES DE ACEDER A AUTORIZAR UM TESTAMENTO.os suficientes ensinamentos de psicologia. obtendo-os não só do interessado. que o tabelião deveria conhecer sempre.165 determinado testamento. isto é. deve-se estudar a motivação das decisões testamentárias em toda sua amplitude e complexidade. de um ponto de vista prático e humanitário. Como se compreende. para deduzir que se encontra em condições de outorgar o testamento. mas sim. acontece aqui o mesmo que em todos os demais problemas psicojurídicos: o jurista tende somente a valorizar como sinal patológico as perturbações da inteligência e em troca descuida as da afetividade. Ou dito de outro modo. em consciência e de lato não se encontra em condições de arbítrio para poder testar. 3°. e sim deve-se averiguar se sua volição é determinada por motivos psíquicos normais. 2°. uma vez que tal atuação tem que evitar que o testador seja enganado (por sua própria razão ou por outrem). com o maior escrúpulo possível. quando sua ação é menos eficaz e científica. mas também do maior número possível de pessoas (e não somente como agora se faz. o testador se acha com dificuldades de expressão verbal (diversas formas de afasia). se o testador está ou não em condições de integridade mental suficientes para praticar o ato que deseja. em casos de urgência. E note-se que isso não supõe absolutamente a restrição dos direitos individuais. de um ou dois parentes). É de esperarse que não demore muito tempo para legislar-se acerca desta matéria. cuja ausência é a causa de grande número de processos de nulidade de testamento. e. constitui sua melhor Salvaguarda. o testador pode falar bem. Por isso não se poderia outorgar nenhum testamento sem a intervenção de um perito psicológico. mas coincidem. nos quais os peritos quase sempre intervêm a posteriori. em troca. mas acha-se gravemente enfermo. é conveniente que os tabeliães tenham à sua disposição algum meio de reconhecer. Uma pessoa com idéias obsessivas. Vejamos agora quais os meios gerais de que se pode valer para isso. cola idéias sugeridas ou mesmo com idéias delirantes bem sistematizadas. ao contrário. normal e patológica. os meios a empregar para seu reconhecimento psicológico têm que ser diferentes no que se refere ao exame direto do indivíduo. entretanto. Mais prático talvez seria ministrar aos tabeliães para que pudessem livrar-se de seu empirismo em matéria tão delicada . Por isso à grande maioria dos tabeliães basta ver que o testador é capaz de manter uma palestra banal. o testador goza de boa saúde aparente. SE QUER EVITAR UMA ULTERIOR E JUSTIFICADA IMPUGNAÇÃO ? O melhor. é valer-se de um questionário-tipo que como norma deveria ser . quando se dirigem à recoleção de seus antecedentes psicobiográficos. Três casos principais podem apresentar-se: 1 °. Com efeito. no entanto.

Se possível. 8. Responda se entre seus parentes existe algum ou alguns que lhe têm antipatia. Exponha também as razões que tem para proceder assim. Sofreu você alguma vez um transtorno nervoso ou mental? 11. 7. diga quais os motivos que o levaram a modificar o testamento anterior. Vai fazer o presente testamento por seu próprio impulso ou acedendo a insinuações ou petições de alguma ou algumas pessoas? No segundo caso. 1.166 preenchido pelo indivíduo. a sós. qual lhe parece ser a causa da aversão do mesmo a você. Diga se fez outro testamento antes deste. por conseguinte. Diga quais de seus parentes você acredita que atualmente estão dispostos a fazer se necessário . e de que forma lhe parece poderia ser impugnado e por que motivos suspeita você que isso poderia ser feito? Que acredita você deveria ser feito com quem procedesse assim? 14. Por isso não há inconveniente em que as anteriores perguntas lhe sejam explicadas e postas ao alcance de sua cultura e inteligência. indicando em cada caso o grau de parentesco. 6. ponha o tempo aproximado que viveu com elas. tem. com seu testamento. Acredita você que seu modo de ser e seu caráter são normais? 12. Em caso afirmativo. Mas. conhece melhor. Em caso afirmativo. Acredita você que este testamento possa ser impugnado com argumentos razoáveis no dia de amanhã? 13. diga quem pode ser prejudicado. em todos os casos o que nos importa é apresentar ao indivíduo uma oportunidade para que nos mostre seu estado mental com a maior espontaneidade e independência possíveis. Enumere do modo mais exato possível quais são os bens que você pensa outorgar no testamento e o valor aproximado de cada um deles. tem para favorecê-lo. se puder. 3. V. em caso afirmativo diga. com seu testamento. Enumere quais são os parentes que V. . Se possível. este questionário será respondido por escrito pelo interessado. 10. 2. Diga de que forma deseja que sejam distribuídos seus bens no caso de seu falecimento. antes de praticar o ato testamentário. Se isso for feito. acredita que favorece a alguém. quem são estas? Compreende-se claramente que o questionário só poderá ser inteiramente respondido e nas condições antes citadas em um pequeno número de casos. acredita que prejudica a alguém. Você não deve incluir nesta lista mais do que seus nomes e sobrenomes e sua idade aproximada se os conhecer. Diga se. Em caso afirmativo. V.um sacrifício de dinheiro em seu favor. Conhece você atualmente alguém que julga capaz de impugnar seu testamento? Em caso afirmativo diga: quem é. confidencialmente. Enumere quais são as pessoas de sua família com as quais viveu sob o mesmo teto e às quais. podemos dizer que bem poucos serão os casos de anormalidade mental que não cheguem a ser postos de manifesto com esta técnica. em casa do tabelião. mas em troca deve fazerse com que o testador fique só com o tabelião para responder-lhe (por escrito ou verbalmente se não souber escrever). diga quem pode ser favorecido e quais são as razões que V. Diga se. 4. 5. 9.

como no caso anterior. Com efeito. a questão décima quarta é igualmente respondida de um modo anormal por esses indivíduos. oitava. UM TESTADOR QUE TEM DIFICULDADES DE EXPRESSÃO OU QUE SE ENCONTRA MORIBUNDO ? Nossa opinião concreta é: no primeiro caso. servirá de ponto de partida para um interrogatório oral que. No segundo. não fica uma só função mental que não seja examinada através das perguntas antes expostas. ou servirá para afastar tal hipótese. em troca. décima primeira e décima terceira. Por outro lado. seja qual for. neles evidencia-se também a maior ou menor coerência da atividade discursiva (direção do pensamento) em função da ordem ou sistematização com que o indivíduo expõe os dados exigidos. sexta. é freqüente que se manifeste tipicamente pela pobreza e indecisão de suas respostas (geralmente do tipo dubitativo: "não sei") e pela autoconsciência de seu transtorno. As perguntas terceira. é destinado a pôr em relevo suas qualidades afetivas e caracterológicas e a evidenciar toda atitude patológica .relacionada com o ato de testamento. o mesmo se dando com a quinta. isto é. expressa na resposta que Costumam dar à questão décima primeira. O primeiro grupo (indivíduos com idéias de perseguição ou de prejuízo) responde preferentemente de modo anormal às perguntas quarta. não tardará a confirmar a existência de uma anormalidade. décima segunda. se dirigido com certa habilidade. Em tais casos.delirante ou não . O segundo evidencia-se principalmente por sua reação agressiva diante da totalidade do questionário (raramente se consegue que o termine sem protestar) e por suas anormais respostas às questões décima. sétima. Quanto ao terceiro. 91. décima terceira e décima quarta. como já se depreende. As duas primeiras servem antes de tudo para pôr a descoberto sua memória e sua atenção. mas em troca se deixam facilmente reconhecer por suas respostas ao questionário antes citado. décima segunda e décima terceira são as mais aptas para pôr de manifesto a capacidade de compreensão e de crítica. os impulsivos e os abúlicos (sugestionáveis). se é impossível QUE CONDUTA DEVERIA SEGUIR-SE ANTE . Todos eles são capazes de se mostrarem normais em um exame superficial. se ainda não o tiver. nem é preciso dizer que uma resposta suspeita. são três os grupos de indivíduos aparentemente normais que com maior freqüência fazem testamentos injustos: os perseguidos. especialmente.167 Com efeito. recusar absolutamente todo ato testamentário se o interessado se encontra em período agônico e solicitar. O resto. sistematicamente o parecer pericial. pedir colaboração de um perito neuropsiquiatra. o valor intelectual do examinado.

uma ordem inversa. lençol. isto é.168 obter a colaboração pericial. o fracasso na mesma do que pretende testar indica que naquele momento não dispõe da capacidade de concentração da atenção e da intelecção que são próprias dessa idade. feita a seguir. me repetirá as mesmas palavras que eu disse. donde a conveniência de comprimir as palavras destinadas a certificar-se . Você procurará gravá-las bem em sua memória e em seguida as dirá. Tratando-se de indivíduos de pouca ou nula cultura pode-se permitir a divisão da prova em duas partes. a reprodução invertida. Tenha-se em conta que todos os meninos normais de nove anos a efetuam satisfatoriamente e que. de nos citar datas de acontecimentos passados e mesmo manter uma conversação corrente acerca de ato que vão efetuar! Naturalmente se compreende que. cadeira. Suponha. seguindo porém. para decidir se o testador tem ou não lucidez de consciência. Mesmo os indivíduos menos cultos (iletrados) são capazes (se não tiverem antes uma oligofrenia que os inabilite por si mesmos para testar de fIxar de ouvido quatro símbolos verbais simples e reproduzi-los na ordem inversa. na primeira será pedida a reprodução direta das palavras ou algarismos e na segunda. às vezes. em casos de extrema urgência. mas começando pela última e terminando pela primeira.a um longo interrogatório. você deverá então dizer-me: "tinta. cama. isto é." Corrige-se o indivíduo se ele cometeu um erro. existe uma prova que permita orientar-se rapidamente com relação ao estado de lucidez do indivíduo? Atrevemo-nos a propor para isso a de inversão de símbolos. Apesar de sua aparente ingenuidade. tinta". ao contrário de como eu as disse. a prova que acabamos de expor é a melhor de que o tabelião se pode valer. lápis". prato. as instruções que devem ser dadas lentamente e elevando a voz suficientemente para ter a segurança de ser ouvido: "Para ver se você se acha em condições de poder outorgar testamento agora. papel. capazes de recitar de memória (por conservação dos automatismos) longas orações ou versos. é impossível submeter o testador em grave estado físico . A impossibilidade de efetuar essa operação mental com êxito é um dado mais do que suficiente para demonstrar a ausência no indivíduo da lucidez necessária para testar. por exemplo. sob nenhum pretexto repete-se a experiência. rogo-lhe que se fixe em umas palavras que lhe vou dizer. A prova é considerada "passada" se a pessoa é capaz de inverter corretamente pelo menos quatro das seis séries de estímulos. explica-se-lhe em que consiste e se renova a experiência (mesa. E eis aqui o importante: muitas das pessoas que fracassariam nesta prova seriam. escada. no entanto. papel. e sim passa-se à série seguinte. porta. por conseguinte. Esta consistirá em pronunciar com intervalo de um segundo e de um modo monótono três séries de quatro palavras e três séries de quatro algarismos (advertindo antes o indivíduo que vão ser dados algarismos e dando também um exemplo de três algarismos para ver se se adapta ao novo material). deve-se poupar-lhe esforços e tempo de atenção. de modo concreto. aguarda-se a resposta do indivíduo. Depois de cada série. Compreendeu?" Com o fim de ver se estas instruções foram realmente compreendidas faz-se uma experiência com as palavras: "casa. travesseiro) até que se tem a certeza de poder passar à prova propriamente dita. Eis. que eu digo: "lápis.

da personalidade normal à psicótica através das personalidades psicopáticas. 12°) Propensão aos vícios. a caricatura dela e. assim também. seu grau de autodeterminação e de autocrítica. 2°) Ausência de delírios. 13°) Vida sexual desajustada. que motivem respostas inexatas. ESTUDO E VALORIZAÇÃO JURÍDICA DAS PERSONALIDADES PSICOPÃTICAS Ao tratar do conceito da personalidade normal manifesto que esta contém em germe todas as tendências de reação que. conduzem aos diferentes tipos de personalidade psicopática. Mas também é interessante conhecer sua capacidade de resistência à sugestão. além das perguntas e provas citadas.Para a compreensão . embora. apesar do que continuamos reconhecendo. 4°) Falta de constância. mal se distinguem da primeira. assim resume suas características mais comuns: 1°) Atração pessoal superficial e boa inteligência. em suas formas mais leves. 8°) Egoísmo exagerado. 11 °) Tendência à fantasia. segundo os elementos faciais sejam exagerados ou diminuídos. isto é. o tipo denominado mitômano: Personalidade Mitômana. Assim concebidas as coisas. de sorte que estas. esta pode adquirir um aspecto monstruoso que nos impeça o reconhecimento de sua identidade com o retrato ou modelo que primitivamente a originou. assim também a partir da personalidade normal podemos considerar vários tipos de personalidades psicopáticas. Confabutadora ou Pseudológica. Tão difícil é encontrar uma pessoa que não apresente nenhum traço psicopático como encontrar um corpo ou uma face de proporções perfeitas do ponto de vista estético. se se chega a exagerar uma caricatura. 5°) Falta de sinceridade. . por conseguinte. esta pode transformar-se em personalidade psicótica. será conveniente submetê-lo a algumas perguntas sugestivas e a outras coativas. 6°) Falta de pudor e ética. Esses vêm a ser. No entanto. se se chega a exagerar uma personalidade psicopática. compreendemos que se pode passar. 92. O professor Hervey Cleckley. do mesmo modo como a partir de um retrato concebemos de versos tipos de caricaturas. primeiramente. é claro.169 se sua capacidade de julgamento está conservada. por isso não incorremos em exagero ao dizer que a imensa maioria dos indivíduos normais é possível incluir em alguns dos tipos. para ver como reage. por isso. ao se exagerarem. em síntese. Vejamos. 10°) Incapacidade de seguir um plano de vida. 9°) Pobreza afetiva. 3°) Ausência de crises. sua identificação essencial como o "facies" normal. 7°) Falta de autocrítica. em uma personalidade decididamente mórbida e totalmente distinta da normal. isto é. ao passo que em suas formas mais exageradas se confundem com a segunda. do mesmo modo que numa caricatura é freqüente que exista mais de um elemento caricaturado. só uma minoria atingirá uma exata superposição com eles. que estudou detidamente a vida e a conduta de numerosos psicopatas "superiores" (que triunfaram em diversos aspectos da vida social). sendo freqüente na prática que coincidam duas ou mais modalidades das mesmas em um mesmo indivíduo. por gradações insensíveis.

Se nos fixarmos no que acabamos de expor. projetando-as no plano da realidade exterior. entretanto. acreditamos que são como queremos que sejam. 2°. Que acredite na certeza da mesma e esta exista em realidade. por outro lado. também assinalada por Dupré com o nome de "ideoplastia". diz-se então que o indivíduo está enganado e o produto de tal estado denomina-se erro. o perverso apresenta uma abundância da terceira e o neurótico mostra. mas a recíproca não é exata e. Quando um indivíduo faz uma afirmação podem acontecer os seguintes casos: 1°. no entanto. 4°. Que não acredite em sua certeza. autosugestiva. Tal crença parcial. se confunde em muitos casos com o tipo de personalidade histérica. isto é. a personalidade histérica apresenta outra característica. mas a afirme com um propósito utilitário. o ignorante e o débil acusam um predomínio da segunda. Que acredite na certeza dela. 3°. Na prática estes tipos mitômanos passam por pessoas de grande fantasia e pouca vontade. mentiras e confabulações. Este tipo. mas não deve. ser identificado com ela. veremos que qualquer de nós tem em seu haver uma relativa proporção de cada uma destas quatro classes de elementos do conhecimento que se denominam verdades. é sua reduzida capacidade de autocrítica refletida. O que distingue estes tipos dos "perversos" . de um lado. nesse caso afirma em falso. em virtude da qual seu juízo de realidade se deixa vencer facilmente pelas aparências internas. o que resulta da supressão da função de autocrítica e a formação de um curto-circuito que conduz à convicção sem a fase deliberativa anterior). O que essencialmente as caracteriza. isto é. Todas as personalidades histéricas são confabuladoras. o tipo de personalidade mitômana. por Dupré. O homem de ciência distingue-se pela maior quantidade da primeira. também denominado "imaginativo". erros. invertendo-se então a direção do processo psíquico normal e dando lugar a que ao invés de acreditar nas coisas tais como são. de outro). mas se entregue a essa crença insuficiente e a admita como verdadeira sob a influência de um estado sugestivo (entendendo por este. que consiste em uma maior facilidade para a conversão do potencial psíquico das tendências em energia fisica (manifestada sob a forma de ações ou inibições musculares. mas a afirmação seja falsa. em troca. que vivem de ilusões e são amigas de fazer enredos. e da sinapse medulo-esplâncnica. Pois bem. diz uma mentira. confabuladora ou pseudológica se encontra caracterizado pelo predomínio e riqueza de suas confabulações. como já indicamos antes. Que somente acredite parcialmente no que diz. é encontrada sempre que uma intensa tendência afetiva encontra nela sua satisfação.que também criam complicações e . um grande número das últimas.170 psicológica deste tipo é preciso uma ligeira aquisição anterior que defina claramente em que consiste o processo pseudológico (mitomaníaco ou confabulatório) que o caracteriza. contraturas e paralisias). Pode-se dizer sem temor de exagero que no histérico todo estado psíquico tem sua correspondente tradução em uma modificação orgânica (graças à diminuição do limiar da sinapse córticoestriada.

O máximo que os meninos podem dizer é "sua" verdade e esta só excepcionalmente coincide com a dos adultos. grandemente. o perverso mentiroso. os tipos confabuladores se distinguem por sua grande expressividade emotiva. a satisfação direta do seu desejo de poder. o mesmo pode dizer-se acerca do grau de confiança que é possível conceder a todos seus testemunhos. teremos que confessar que o tipo mitômano é mais facilmente encontrado nos temperamentos sinfônicos ou ciclotímicos. pode passar por ser totalmente o contrário. além disso.171 situações falsas .ao contrário do que faz o autêntico mentiroso.por alguma coisa que se falou da "comédia da vida". a puerilidade do arcabouço mitomaníaco dos primeiros. No fundo. mas esta tendência confabuladora que para nós é "uma brincadeira" se transforma em uma "necessidade" e adquire o caráter de um "impulso" os tipos que acabamos de descrever. só o preocupa o efeito imediato. além disso. sem preocuparse com as conseqüências ulteriores. Não sei quem foi o iludido que afirmou que os meninos dizem sempre a verdade. já dissemos que o tipo mitômano. tem raízes no temperamento psicológico normal. confabuladores ou pseudológicos são encontrados em personalidades débeis (crianças. o confabulador. Em troca. débeis mentais etc. ao passo que o tipo perverso ou mentiroso é mais freqüente entre os temperamentos esquizóides. O mentiroso rodeia sua mentira do maior número possível de verdades para que passe inadvertida. quando se vê cercado pelos fatos. ao passo que os perversos. que se defende até o último instante e é capaz de negar serenamente a evidência contrária. costumam ter um grande domínio de seus estados afetivos (menos intensos. armado de sua hipocrisia. Do ponto de vista do jurista interessa. precisamente. porquanto a responsabilidade que se lhe pode imputar por seus embustes (falsas acusações.tendem fisiologicamente à confabulação. lança sua confabulação envolta em um acúmulo de inexatidões. facilmente comprováveis. Considerados em seu conjunto. todos nós confabulamos diariamente e até mentimos . embora capazes de fingi-Ia admiravelmente.como o resto das mentalidades primitivas . é conseqüente em sua atitude confabuladorae isso faz com que logo seja conhecido pelos que o rodeiam. por exemplo) se mostrará enormemente modificada conforme se admita ou não sua existência e. O tipo confabulador. em oposição à perfeita conexão lógica com que os segundos preparam suas mentiras. como todos os demais. Ainda mais.é. por outro lado. . mulheres.). que os dos primeiros). como é natural. E como não é guiado por uma verdadeira intenção perversa. deixando-se levar por sua corrente afetiva. Em troca. se nisso vir uma utilidade. Ainda se pode acrescentar que os tipos mitomaníacos. se admitimos com Kretschmer a dualidade temperamental do gênero humano. Com efeito. ao passo que os perversos podem ser encontrados em personalidades de grande nível intelectual e conativo. e só mente de novo quando se vê "apanhado" ou a ponto de o ser. a distinção deste tipo. mitômano ou pseudológico. bate em retirada e respondendo cada vez com maior veracidade . inclusive perante seus parentes (e mais comum ente diante destes que diante dos demais). velhos. quando todos eles . qualificando-o pelo menos como "exagerado".

as reações instintivas. a saber. No tipo de personalidade histérica predominam os fatores afetivos sobre todos os demais da vida psíquica.Trata-se de indivíduos. Com efeito. alguma coisa semelhante ao contínuo ir e vir dos esquilos ou ao repetido desfile de poucos comparsas que dão a sensação de multidão nas representações teatrais. confabulador ou pseudológico.proporcionar a falsa ilusão de sua abundância. emocionais. Não obstante. e em realidade tem muitas características comuns. Com efeito. inconstância e influenciabilidade de seus sentimentos e emoções. nos quais uma grande mobilidade de seus processos psíquicos pode .O mais prático é o de solicitar seu concurso para obter uma descrição minuciosa de qualquer fato ou situação que foram observados diretamente pela pessoa em questão. TIPO PITIÁTICA DE PERSONALIDADE HISTÉRICA OU É apresentado em seguida ao anterior porque é geralmente confundido com ele. 93. imaginativas e inconscientes. a imaginação verdadeiramente rica encontra-se sempre a serviço do talento e repousa sobre um fundo perceptivo muito amplo e preciso. a tendência à desagregação ou dissociação da personalidade. como acontece geralmente. por serem confundidas com as personalidades perversas. .diante de um observador pouco experimentado . mas muito simplista e cândida. com detalhes secundários completamente falsos mas sem importância. que se manifestam sob a forma de uma grande auto e hetero-sugestibilidade. Valorização jurídica do tipo mitômano. o essencial do mesmo não é tanto sua persistente tendência à ficção como a intensa habilidade. o que leva o indivíduo a uma fácil confusão dos planos subjetivo e objetivo.172 De que meios pode se valer o jurista para reconhecer um tipo mitômano? . Como traços distintivos das pessoas de constituição histérica podem ser assinalados: a insuficiente distinção entre o mundo real (lógico) e o imaginativo (autístico ou fantástico). será bom assinalar que se trata de uma pobre imaginação. Por tudo isto é de convir que o jurista considere sempre este tipo de personalidade como um tipo verdadeiramente inferior ao normal e inclusive mais apto para merecer medidas de proteção do que de ataque. a superficialidade e o aparente exagero (dramatismo) das reações psíquicas e. tom quase sempre declamatório e enfático na narração. automáticas. as pessoas mitômanas se vêem muito a miúdo envoltas em processos por difamação ou calúnia. isto é. e isso acarreta um tipo de conduta no qual preponderam todas as formas inferiores (primitivas) de reação psíquica. de baixo nível mental. Somente as pessoas que têm bons materiais elaboram boas obras. sempre ilustrada com multiplicidade de gestos e onomatopéias). No entanto. de elementos representativos. a . como já indicamos. facilidade para aceitar as modificações que de forma sugestiva se proponham à descrição espontânea. (Descrição hiperbólica. por fim. de uma capacidade de combinação muito viva. superficialidade na observação dos caracteres essenciais do fato ou situação referidos. As pessoas cobrem piedosamente esta pobreza intelectual dos confabuladores outorgando-lhes o título de pessoas de grande "imaginação".

isto é. pois quer atuem como vítimas. No segundo e terceiro casos lutará o jurista contra as "amnésias". contraturas etc. daí assim dizer. isto é. espasmos.pela grande sugestibilidade dessas pessoas . vestir-se. passando a constituir "complexos" e deixando-a. sua brusca apresentação. Torna-se impossível e tampouco é nosso objetivo . Os indivíduos de constituição histérica se acham predestinados a exibir reações patológicas quando entram em conflitos sérios com o ambiente... uma impotência para andar. No primeiro caso (acidentes do trabalho. O terceiro caráter é responsável pela "distratibilidade". ou se mostrará completamente desorientado (estado onírico histérico) durante um tempo mais ou menos longo. 5°. O primeiro dos caracteres que assinalamos explica a tendência involuntária à deformação da verdade que se observa em tais pessoas (deficientes na distinção entre o que "é" e o que "parece ser").) os potenciais das tendências de reação reprimidas (emoções e desejos insatisfeitos). mas exibirá. Isto explica igualmente a facilidade com que estes indivíduos são hipnotizados ou exibem estados de semivigília (sonambulismo histérico). empobrecida). atos nos quais intervém o conjunto da personalidade psicofisica).). 2°. como acusados ou simplesmente como testemunhas ou informantes. sua extensão a "conjuntos orgânicos". durante os quais "sonham acordados" ou "vivem sonhando". seu caráter teatral. ou seja a grande facilidade com que todo estado psíquico se manifesta numa modificação somática ostensiva. impressionante.173 denominada ideoplastia. de sorte que em nenhum indivíduo como no histérico pode-se dizer tão bem que o "corpo reflete o que ocorre no espírito". p. Os sintomas então observados (de psiconeurose histérica) costumam ser reconhecíveis como de caráter histérico em virtude destas particularidades: 1°.descrever a multiformidade de manifestações patológicas que podem ser observadas nos tipos histéricos quando sua . comer. Nem é preciso dizer que os tipos de personalidade histérica apresentam grande interesse para o jurista. 4°. segundo as circunstâncias e segundo a experiência de quem o tratar. ou sofrerá de dores insuportáveis. sua intencionalidade (têm um fim: obedecem às denominadas "direções volitivas subconscientes". O segundo dá conta por sua vez da denominada "estreiteza do campo da consciência" que se observa nestes casos (uma vez que um bom número de vivências ou experiências psíquicas se desagregaram do núcleo da personalidade consciente.darão lugar à apresentação de” falsas lembranças" que confundirão enormemente o sumário. sofrimento de uma agressão física qualquer) as conseqüências aparentes do traumatismo sofrido serão agravadas pela predisposição antes citada e o indivíduo ficará cego. ou paralítico. sua exclusiva modificação e supressão por meios puramente psíquicos. ou mudo. ex. aos quais só afetam em determinadas funções (um histérico não terá esse ou aquele músculo sempre paralisado. escrever etc. complicarão enormemente as ações judiciárias. e o quarto o é da facilidade com que nas pessoas deste tipo ficam corporeamente fixados (sob a forma de paralisias. 3°. perdas de memória que se agravarão pelo interrogatório inadequado “ou então .

um observador atento poderá ver de todos os modos o desejo de obter a aprovação (compassiva ou admiradora) dos estranhos utilizando sempre mecanismos inferiores de reação (hipnóticos e hipobúlicos de Kretschmer). sem o quererem. com as quais podem alternadamente confundir-se. ou instável como um ciclotímico. exatamente como procedem as mentalidades pré-lógicas (falou-se com razão de um histerismo infantil normal ). No entanto. uma pessoa de tipo histérico pode apresentar em certas ocasiões sintomas de desagregação psíquica e afastamento da realidade que nos fazem pensar no tipo esquizóide ou se mostrará impulsiva como um tipo explosivo ou inerte como um psicastênico. com efeito. Ruiz Maya. ou suscetível e desconfiada como um paranóide. ou complicadora como um mitômano. de acordo com as relações afetivas que saiba despertar nos julgadores. Bleuler lhes concede plena responsabilidade fora de suas crises. Moracha declara irresponsáveis todos os histéricos. ao passo que outros são desprezados ou mesmo odiados.Talvez este tipo seja aquele cuja valorização sofra mais modificação na vida social. sem que por isso lhes deva ser aplicado o título de "personalidades psicopáticas" (histéricas). pode bem dizer-se que são os maiores inimigos dos administradores de justiça. Através de toda sua conduta. ou reage aparentando sublimes sacrifícios silenciosos. Assim. . Valorização jurídica da personalidade histérica. pois segundo o estado em que os comete pode ser julgado com maior ou menor benevolência. existem tipos desta personalidade verdadeiramente mimados por seus parentes e conhecidos. Em geral não há dúvida de que a personalidade histérica adota quase sempre um papel de vítima queixosa em todas as situações. os inclui (por insuficiente capacidade de inibição) no primeiro parágrafo do artigo 65 do moderno Código Penal espanhol (1928). Tende a considerar que os indivíduos de constituição histérica devem estar sujeitos a um regime de responsabilidade atenuada.174 natural hiperexcitabilidade se encontra exaltada por sua intervenção em um assunto judicial. 94 TIPO PILEPTÓIDE DE PERSONALIDADE EXPLOSIVA OU . em troca. Com efeito. KraftEbing solicitava a irresponsabilidade para os atos delituosos cometidos pelas mulheres histéricas durante a menstruação (psicose menstrual). ou mal intencionada como um perverso. que são muitas as pessoas que exibem traços histéricos a posteriori de seu conflito com as leis. Deve-se ter em conta. quando em realidade atua como pequeno tirano dos seus. De qualquer modo. a condição prévia para qualquer conclusão é a de poder delimitar com exatidão a influência que os fatores constitucionais puderam ter na ação delituosa. pois contêm um pouco de mau de cada uma das diversas personalidades psicopáticas. tudo depende do crédito outorgado a suas atuações pelos que os rodeiam. a nosso ver acertadamente. torna-se difícil ditar normas gerais para a valorização de seus atos. Entre nós.

A elas se aplica o ditado: "É pacífico. embora um tanto concentrado e apresentando distrações inexplicáveis”. As informações sobre G. sadismo etc. mas quando mostra o gênio é terrível. de alcoolismo ou de temperamentos psicopáticos (assim como também a presença de sífilis). Estes indivíduos costumam exibir certa preguiça e lentidão (bradipsiquia) que contrasta com a contínua e aparente agitação dos tipos anteriores. do tipo anterior. originando então a aparição de paixões amorosa mais ou menos absurdas. longe de serem superficiais. ele sofreu graves queimaduras e morreram no sinistro onze pessoas. surge a reação "explosiva" que os caracteriza e durante a qual são capazes de levar a cabo as maiores atrocidades e injustiças. os indivíduos de tipo explosivo caracterizam-se pela violência de suas reações afetivas que. como indicamos. mas. sempre de um modo desproporcional aos estímulos que as desencadearam. Em sua infância registram-se com freqüência "fugas" da casa paterna e não é raro apresentarem acessos de dipsomania. e por isso os que as conhecem as temem mais do que apreciam. o mesmo incendiou a loja cheia de gente. particularmente da sexual.) é cometida por pessoas desse tipo que por sua aparência dócil e conduta comum (que pode até chegar a ser humilde e beata) despistam o leigo em seu diagnóstico." Em alguns casos a reação explosiva é posta a serviço de outras tendências emocionais. Eis um exemplo típico de conduta de um explosivo: "Por terem feito G. Do ponto de vista jurídico as pessoas deste tipo são as que com maior freqüência cometem os denominados delitos de sangue imotivados. . Os indivíduos de personalidade explosiva são epilépticos latentes e. voltando a ela com uma lata de gasolina e ateando-lhe fogo. pederastia. uma grande parte dos atos sexuais perversos ou repugnantes (exibicionismo. durante os quais ingerem grandes quantidades de líquidos (espirituosos ou não). Por isso. até certo ponto. São freqüentes em seus antecedentes familiares os casos de enxaqueca.175 Ao contrário. A forma de reação emocional mais freqüente nessas pessoas é a cólera. não sabia por que estava ferido nem se lembrava do que fizera desde o momento em que entrou na sapataria. se concentram ou acumulam para descarregarem-se bruscamente. nas quais o característico é o modo brusco de sua aparição e a grande agressividade de que dão mostras os que a elas estão sujeitos. embora não sofram verdadeiros ataques do mal comicial (crises convulsivas) necessitam em sua maioria de um tratamento médico. sem que se possa logicamente predizer sua aparição. O indivíduo nega de boa fé ter pronunciado tais ou quais palavras ou praticado estas ou aquelas agressões e só conserva uma vaga idéia de sua conduta anormal. e pela lentidão habitual de suas reações intelectuais (fatores que foram reunidos sob o qualificativo comum de "viscosidade psíquica"). sodomia. contrastam ainda mais suas crises de violência. esperar para vender um par de sapatos. revelam em muitos casos uma afetada amabilidade que se mostra até pegajosa. coincidiam em afirmar que de tratava de um jovem extremamente serviçal. Como se quisessem conscientemente reparar os defeitos de seu temperamento. as personalidades explosivas. sendo a regra em tais casos a falta ulterior da lembrança das mesmas. de vez em quando. Interrogado no dia seguinte.

. na velocidade com que se desenvolvem os processos mentais em um e outro caso: enquanto nos tipos genuinamente explosivos essa é ordinariamente lenta. oposto à pegajosidade dos explosivos.176 Diagnóstico Diferencial. . maior que a dos anteriores. uma ofuscação total do conhecimento. apenas se se recorre então às atenuantes de "arrebatamento e obcecação". mas se acelera de repente. mas uma impotência dos mecanismos inibidores (vontade) para opor-se à reação agressiva que se desencadeia com toda a intensidade de sua energia atávica e não dá tempo para que aqueles atuem. acaba por complicar a distinção. ocasionando com isso um comportamento completamente automático do indivíduo perante um determinado . isto é. ser estabelecida fixando-nos no tempo psíquico. Em troca. para demonstrar que apesar de sua aparente rigidez mental se trata de um irresponsável. A agressividade destes tipos é desde já.. praticado de acordo com as modernas técnicas psico-experimentais. e ganha a luta o segundo. ao passo que a dos tipos explosivos (epileptóides) o está somente em função do tempo.Com os dados já apontados será bem fácil distinguir este tipo de outros que também podem cometer reações violentas. no entanto. um caráter seco. como que impelida por uma mola ou explosão. sua frialdade para com o ambiente.. tão difíceis de comprovar-se a posteriori. Valorização Jurídica. justificação que a posteriori procura dar dela. são muito pobres de afetos e quase sempre se mostram ensimesmados. quando a ocasião é propícia. Finalmente. Também pode dar lugar a confusão aparente o tipo paranóide. Esses indivíduos têm. não é. dão mostra de uma agilidade mental muito maior do que a que aparentam.Esta é clara nos casos em que a presença de ataques convulsivos ou de "equivalentes" manifestos do mal comidal (Epilepsia) assinala que o indivíduo é um verdadeiro doente mental. isto é. detalhe por detalhe. nunca falam mais do que o necessário. no entanto. mas se encontra estendida igualmente no tempo e no espaço. Mas o distingue nitidamente não só o caráter de premeditação anterior da reação. baseada na interpretação torcida de seus antecedentes. quando em realidade bastaria o reconhecimento psicopatológico do indivíduo. sua falta de interesse pelo meio. por sua tendência ao isolamento e suas inexplicáveis mudanças de atitude. como o exigido pelos penalistas. Pode-se dizer que em tais casos se estabelece uma corrida entre o cérebro e o mesencéfalo para ver qual dos dois se apodera antes das vias finais (final common paths) de eferência. que descreveremos a seguir. Mas pode tornar-se muito difícil estabelecer com justiça se faltam esses concomitantes. O paranóide quer sempre ter razão e discute. podem induzir a erro as reações um tanto bruscas e desproporcionadas que as personalidades ciclóides apresentam quando se encontram em período de exaltação (hipomania). Em primeiro lugar surgem os tipos de personalidade esquizóide. nos tipos ciclóides que se encontram em período de exaltação se observa um uniforme aumento da velocidade do pensamento e da intensidade de suas reações psicomotoras. para moderar-se de novo. No entanto é preciso assinalar que em tais casos o que existe sempre. capaz de reagir violentamente diante de estímulos de pouca importância. Nestes casos a distinção pode. capazes também de praticar graves delitos sem motivação aparente. Por outro lado dão a impressão de originalidade e raridade (lunáticos) por seus maneirismos. como também a ampla. sua conduta com quem quer que seja.

segundo a escola psicanalítica . o paranóide produz. a teimosia e a desconfiança.177 número de estímulos. o que se traduz em uma conduta desprovida de altruísmo.Com efeito. da autovalorização do mesmo. mas esquece que os dados elementares que manipula (impressões ou vivências) lhe são fornecidos. PERSONALIDADE DE TIPO PARANÓIDE Assim como os tipos até agora descritos. injusto. a impressão de ser antes de tudo um indivíduo raciocinante em alto grau e amigo. parece escrita a máxima: "Dize-me do que te gabas e te direi do que careces”. Um autor francês (Genil Perrin) e outro alemão (Gaupp) cada qual publicou recentemente trabalhos nos quais com grande fineza psicológica são analisados os traços característicos deste tipo de personalidade. em verdade. mas umas vezes o alimenta defeituosamente e outras o aplica ou dirige de modo inadequado. E.nos dizem intimamente muitas destas pessoas mas uma força irresistível me impele então a executá-las"). por sua conduta. até o exagero. de inicio.e esquece também que . como um menor de idade para os efeitos penais. pelo simples fato de possuir uma constituição mental deste tipo deveria ser considerada. melhor do que para qualquer outro tipo. a direção em que estes se desenvolvem é falsa. à primeira vista. O critério eclético de considerar estes indivíduos irresponsáveis pelos atos que praticam durante uma descarga explosiva. em cada caso. em principio. chegando sempre ao resultado de convencer a si próprio. Esta última explica-se . a plena responsabilidade nos períodos de aparente normalidade é. sem que por isso se possa dizer que se encontra de todo suprimida a capacidade de raciocinar de um modo puramente passivo sobre o que está fazendo. o tipo paranóide se comporta como os maus poetas. ao contrário. a influência de um profundo desequilíbrio afetivo. Destarte. cujos versos umas vezes não dizem o que querem (por encontrar antes o término que o princípio) e outras o dizem mal.em aparência . Para ele. continuamente infringe os princípios que pretende defender. da verdade e da justiça. ou se depreende. no entanto. dando-lhes.continuamente o instrumento de sua lógica. ("Vejo que faço barbaridades .mais intensos nele que em nenhum outro tipo de personalidade . o que ele chama amor à verdade e à justiça não passa de um apaixonado culto a seus modos de ver subjetivamente. já deformados pelo processo catatímico .pelo . em troca. mas poucas vezes consegue satisfazer aos demais. pois toda pessoa. pelo menos. De qualquer modo o tipo paranóide utiliza . dão uma impressão de falta de lógica e neles se vê desde o primeiro momento. 95.. a verdade e a justiça. melhor. na prática de sua vida.em virtude de um processo de racionalização suas conclusões acham-se predeterminadas e embora cada um dos membros de sua cadeia silogística seja em si indestrutível. Ambos coincidem em afirmar que nela se dá uma hipertrofia do "eu" ou. de todo o aparato de uma argumentação silogística. Os três defeitos principais que disso resultam são: a suscetibilidade. partindo de fatos certos que interpreta torcidamente ou observando torcidamente fatos que então interpreta como se fossem certos. O paranóide julga-se infalível em seus julgamentos e os reveste.

Um modo fácil de confirmar as suspeitas de que se pode tratar de um desses tipos é o de pedir-lhe sua opinião acerca de matérias diferentes das que motivam a intervenção judicial.a seus direitos. noos. convém recomendar ao jurista a maior prudência ao lidar com o indivíduo que se estenda em argumentações minuciosas. "loucura pleitista" ou "psicopatia reivindicadora" ao conjunto de vivências e atos que nas personalidades deste tipo costumam desencadear-se em conseqüência de qualquer atentado . e ainda hoje. de um lado. é pouco feliz por sua impressão (para.real ou suposto . Convém fazer notar que a etimologia da palavra paranóia.Do ponto de vista jurídico este tipo paranóide é do maior interesse. E. a facilidade com que utilizam a função de autojustificação (Claparêde) e. pois este pode ser observado em toda sua pureza em outros tipos de personalidade psicopática (nos melancólicos. de outro. a energia com que sempre procuram impor aos demais os resultados (conclusões) a que chegam em virtude de seu desviado modo de pensar. com efeito. Neste caso o paranóide costuma assinalar-se pela sua linguagem . O que verdadeiramente as define é. no entanto.do tipo normal. São.178 fundo moral perverso destes indivíduos ("pensa o ladrão que todos são de sua condição"). Valorização Jurídica. pedindo satisfações (morais ou materiais) por vexames ou injustiças que. ao contrário. se tenha confundido por muitos a constituição mental paranóide com a denominada constituição ou predestinação delirante (de. mas das circunstâncias exteriores (sua maior ou menor influência. digamos que os limites dessas denominações são tão fictícios que em muitos casos não depende do indivíduo em si. as síndromes delirantes não são exclusivas nela sequer características das personalidades paranóides. No entanto. segundo a qual a desconfiança não seria mais do que a tradução mais ou menos dissimulada do medo que todo o paranóide sente (por exagero de seu instinto de conservação) perante os ataques do ambiente. partícula negativa. embora podendo ser em parte inicialmente certos. Daí que durante vários decênios. bastará o fato de que não queira fazer com que os outros não acreditem neles para lhe ser negado o qualificativo de paranóide. . Tanto isto é verdade que em presença de um indivíduo que pense e acredite nos mais absurdos disparates. destinadas a provar axiomaticamente a veracidade de suas deduções. mais acertada parece a interpretação de Gaupp. nem mesmo para o caso do denominado "delírio de interpretação". conhecimento). No entanto. pois aparece com a maior freqüência quase sempre como acusador. muitas as atuais obras de Psiquiatria que descrevem como formas clínicas da paranóia todos os delírios não infecciosos. Por isso deu-se o nome de "delírio querulante". não estão em relação com o vigor e a tenacidade empregados pelo indivíduo para obter sua reparação. Na realidade. da qual deriva o vocábulo paranóide. dando-lhes uma aparência de verossimilhança. por exemplo). isto não está certo. liros. sulco). Precisamente pela dificuldade de o distinguir-em seus graus leves . pois na realidade poderia ser aplicada a quase todas as formas psicopáticas. por exemplo) o poderem ou não lhe ser atribuídas. ao lado.

Outro processo é o de contradizê-lo suavemente. a psicose de invenção (delírios dos inventores) e a psicose reivindicatória. TIPO DE PERSONALIDADE COMPULSIVA Este tipo tem de comum com o anterior o desejo de justificar até o extremo todos os seus atos. a violência de sua luta. às vezes. chegando às vezes a julgar-se um duplo ser. um composto de duas personalidades opostas entre si e encerradas em um mesmo corpo. mas um verdadeiro processo paranóico . com argumentos razoáveis. Os três gêneros de reações mais freqüentemente descritos nestes tipos são: o ciúme mórbido (mal denominado delírio de ciúmes). Praticamente o tipo paranóide . como um ajuste. isto é. se dá o nome de cerimoniais. Aos atos em virtude dos quais as pessoas desse tipo chegam a evitar o sofrimento que Ihes imporia a realização direta de suas tendências censuradas. nega toda vali dez às objeções que lhe são feitas ou então finge aceitá-las. por conseguinte. sempre se encontra em oposição com os demais. enquadra-se na mesma classificação que os demais e merece apesar da aparente lucidez de seus raciocínios . têm de si mesmas um íntimo conceito de insuficiência e em troca impõem a si a posse de um ideal de . 96. de um modo brusco e impulsivo. Não obstante. suas opiniões são via de regra absolutas e raramente confessa não conhecer suficientemente o assunto em questão para poder opinar. o tipo compulsivo tem sua agressividade dirigida para o interior e se opõe a si mesmo. pela evolução e características formais de seus delírios. longe de ceder terreno. a ação que em potência representa. as conseqüências de seus atos como o indivíduo normal. O característico destas personalidades é que. assim como toda agressividade do paranóide se dirige para o exterior e. que sem satisfazer a nenhum dos dois exércitos em luta (censura moral consciente ou superego e sadismo inconsciente) acalma embora só momentaneamente. O resultado desta oposição sistemática entre os aspectos positivo e negativo de seus raciocínios (duplicidade do curso do pensamento) é a contínua dúvida que caracteriza os indivíduos deste tipo e que por sua vez provoca sua indecisão e sua falta de eficiência para a vida prática. não uma reação.ser considerado como um deficitário psíquico. Mas. por conseguinte. mas o faz então em tom reticente. os casos de paranóia se enquadram).mesmo quando chega a sofrer. isto é. fugindo à discussão por desconfiança e mudando desde aquele momento sua atitude de relação com o contraditor. para o psicopatologista. Todos eles representam uma satisfação especial de seus potenciais energéticos e os indivíduos os efetuam como um mal menor. uma das tendências em luta escapa momentaneamente à ação inibidora de sua contrária e então tem lugar. se bem que esta se efetue suficientemente deformada para que em realidade perca sua primitiva virulência. (Os modernos estudos vieram reforçar ainda mais esta noção ao determinarem (KolIe e outros) por meio da catamnese e da psicopatologia que. de um lado. Não obstante.179 retumbante. Neste caso o paranóide.não costuma ser reconhecido como patológico pelos juízes e sofre.

das duas tendências em luta há uma que carece de base lógica (a que representa a satisfação autística dos desejos subconscientes) e a outra. da personalidade. como já indicamos. contrariamente a seus propósitos. o indivíduo se vê aprisionado entre duas tendências igualmente potentes. sua conduta. mas é extremamente difícil. mas de direção contrária. e se consome numa inquietação crescente sem decidir-se por nenhuma delas. Em nenhum outro tipo de personalidade dá-se tão intensamente a antinomia entre os dois planos. tanto mais sujo se torna. 96. portanto. pois. opostas entre si. se bem que o faça de um modo deformado e em aparência irreconhecível. Quanto mais limpo deseja ser um compulsivo. porque os argumentos que em seu favor sejam exibidos já são antecipadamente conhecidos pelo indivíduo e nada de novo lhe dizem. facilmente compreensível depois do que dissemos. é a crença na onipotência de suas idéias. O compulsivo acredita. se em um momento dado lhe ocorre pensar que o praticar ou deixar de praticar um determinado ato pode acarretar-lhe tal ou qual prejuízo. chegar a impor este critério a quem a sofre. Este é o estado de dúvida obsessiva que com freqüência se observa nestes tipos de personalidade. Isso se compreende. O tipo de personalidade compulsiva tem. É fácil. tanto mais orgulhoso se mostra. nesses casos o que precisa é argumentar contra os motivos reais da dúvida. a modalidade de pensamento mágico que é característica das mentalidades primitivas e em virtude dela concede força e existência real a tudo que não é senão um produto de sua imaginação. O desejo consciente é. graças ao mecanismo de simbolização que utiliza.180 perfeição ética e intelectual tão difícil de alcançar que seus esforços se acham de antemão condenados ao fracasso" E. por conseguinte. feito por uma pessoa perita. em muitas ocasiões. vê-se obrigado a ajustar sua conduta a tal pensamento com a mesma sujeição como se esse prejuízo já existisse em realidade.Quantos litígios e quantas delongas poderiam os juristas evitar se ao se encontrarem diante de um destes tipos patológicos cuja escrupulosidade . subjetivo e objetivo. Outro traço essencial deste tipo de personalidade. com efeito. que a possui (a que emana da censura consciente e se apóia no juízo da realidade exterior). a supercompensação (sob a forma de oposição afetiva) do verdadeiro inconsciente que é o que triunfa em realidade. tendo esse caráter. para não dizer impossível. a pessoa normal ver qual a decisão que tomará em cada caso concreto desta dúvida. que tudo que pensa é verdade absoluta e por isso é o ser mais difícil de convencer-se. Via de regra. só serve quase sempre para patentear ainda mais a primitiva anormalidade de sua consciência. tanto mais herege será e quanto mais humilde quer se apresentar. quanto mais religioso deseja se mostrar. que se encontram em um plano mais profundo e que somente podem chegar a ser descobertos por meio de um exame psicanalítico. Dá-se o caso de que todos seus pensamentos. . e como acontece que estas sejam. tendem igualmente a impor-lhe as condutas pertinentes. Valorização Jurídica. Assim. com efeito. por exemplo. em troca.

de uma mesma causa: a parada da evolução da libido no denominado período sádico-anal. brusquidão e falta de coerência externa constituem o obrigatório acompanhamento de sua conduta. TIPO DE PERSONALIDADE HERMÉTICA OU ESQUIZÓIDE. que se apertam automaticamente toda vez que se empurra o acelerador. O que devemos acentuar é a freqüência com que nas pessoas deste tipo psicológico se assinala a coexistência de transtornos digestivos (especialmente a constipação). que foge a toda previsão lógica e. Em menor grau de intensidade a personalidade compulsiva oferece numerosas vantagens que compensam de sobra seus inconvenientes. A melhor imagem para compreender a conduta de uma personalidade compulsiva é a de um automóvel de poderoso motor. isso permite estabelecer um diagnóstico médico de predisposição mórbida. tão original e interessante como suscetível de discussão. ao contrário.a nossos hábitos e sentimentos. não é este o lugar oportuno para desenvolver esta concepção psicanalítica. Freud afirmou que estes traços psicológicos favoráveis se originavam . capaz de surpreender e exasperar ao mais paciente. 97. os entregassem a um psiquiatra para que analisasse as causas da mesma e as pusesse de manifesto diante do interessado. caprichos idade. de fato. grande consumo de gasolina etc.) e de perturbações vegetativas parassimpáticas (hipersudorese. Inicialmente.). Sem dúvida. mas de freios muito fortes.e assim mesmo nem sempre . a que poderíamos denominar "virulência delituosa" dos tipos compulsivos é extremamente pequena em realidade. palpitações. o característico dos tipos esquizóides é precisamente a perpétua contradição de sua conduta. ebulição da água e do óleo. capaz de orientar em mais de um caso o jurista a respeito das particularidades de sua conduta. se o quiserem. apresenta os sinais (aquecimento do motor. Nunca se chega a saber o que realmente pensa. mas não vive conosco.181 aparente os leva a uma anormal conduta. honradez e ordem. seriedade. etc. de alterações hepáticas (colemia etc. Assim como diante dos demais tipos psicológicos o homem soi-disant normal pode chegar a conhecê-los suficientemente para saber predizer. O tipo esquizóide vive em nosso mundo.) de ter comido muito. com certas probabilidades de acerto. Não há dúvida de que estes indivíduos sofrem muito. enjôos etc. pois sem necessidade nem proveito os obrigam (com súplicas ou ameaças) a se ajustarem a seu especial modo de viver. Originalidade. mas talvez façam sofrer mais ainda aos que os rodeiam. se mostra psicologicamente incompreensível. embora se mostre extraordinária se a considerarmos somente em seu aspecto potencial. sente e . este é da mais difícil compreensão psicológica. como se fosse um misterioso habitante de algum distante planeta que só aparentemente se adaptasse . No entanto. apesar de que os que a exibem demonstrem encontrar-se perfeitamente orientados no ambiente que os rodeia. Aquelas são sua grande escrupulosidade.igualmente como os defeitos antes citados . de sorte que o veículo mal se movimenta e. quais serão suas reações perante uma situação determinada. mas ao nosso lado.

sejam como protagonistas. De saída disputam com os tipos explosivos (epileptóides) a primazia do delito criminoso. Alguém disse que falta a estes tipos uma personalidade e que em seu lugar se observam núcleos fragmentários de diferentes personalidades elementares. não obstante. entretanto. Contraste contínuo. Este tipo sugere mais a idéia de uma mentalidade selvagem. deixarão indiferentes estes tipos. ato contínuo. será completamente indiferente ao mesmo. capazes de rir quando choram os demais. de aborrecer-se quando deveriam estar alegres. parece. se bem que não possam apagar de suas atitudes certa frialdade e afetação. senão que no mais dão a impressão de serem um tanto extravagantes (lunáticos chamam os ingleses aos indivíduos deste tipo). em todo caso é preciso fazer notar (se se quiser aceitar esta concepção) que tais núcleos nada têm que ver em sua essência com os tipos de personalidade que até agora descrevemos e continuaremos a descrever. isto ê. com efeito. e sem causa capaz de justificar tal mudança. . reunião de traços psíquicos contraditórios que não chegam a constituir uma individualidade temporária. sente ou quer) uma personalidade hermêtica. acontecimentos que preocupariam a generalidade das pessoas. devido precisamente à destruição parcial de tal ponte e à debilitação de seu juízo de realidade. a reunião de uns tantos traços de cada uma delas não daria jamais um tipo esquizóide. que o esquizóide vive em um estado de certa confusão dos planos subjetivo e objetivo de sua personalidade. completamente livre da censura imposta pelos valores do ambiente. em conseqüência da qual aparecem absurdas associações entre idéias e sentimentos que não lhe correspondem. primitiva. Bem escreveu Strindberg . Nestas condições pode-se observar certa desagregação ídeo-afetiva. A).Estes tipos são de desesperar quando submetidos a um interrogatório judicial.tipo desta personalidade . de sentir e lazer o contrário do que se era de esperar logicamente (negativismo). mas sim um tipo inteiramente normal (se se estabelecerem as devidas compensações intrapsíquicas).que era "sensível como uma pomba e frio como gelo". O particular do caso ê que a este desacordo interior de sua personalidade nem sempre corresponde uma aparência francamente mórbida. grosseiramente unidos e no qual não é possível chegar a descobrir uma forma nem um estilo próprios. com freqüência suas ações demonstram uma refinada crueldade. subjetiva. que dificilmente podia ser suspeitada pelo leigo. Todos nós podemos atravessar a ponte entre a realidade e a fantasia a nosso prazer e sempre sabemos em que borda estamos. podem mover-se em geral com correção e até com relativa firmeza no ambiente social. Um dos elementos essenciais deste tipo de personalidade é sua "introversão". antinomia perpétua. Vive e sonha ao mesmo tempo. a não ser. em uma palavra. sejam como testemunhas.182 quer (e não somente o fato de se pensa. a mente de tipo esquizóide parece um estranho produto elaborado com distintos elementos. à vida irreal. . esta será capaz de mostrar-se algumas vezes exageradamente sensível a um determinado estímulo e. inferior à pré-lógicaque chega a se impor e a conviver simultaneamente com a normal do homem civilizado. em virtude disso. precisamente. Valorização Jurídica. em seu aspecto negativo de todos os demais conhecidos. mas. sua tendência ao "autismo". imaginativa.

de todos os tipos de personalidade psicopática este é o que proporciona mais aparência de normalidade. que faltando no ciclóide a grande capacidade ideoplástica do tipo histérico. preocupado somente em divertir-se. não se observam . procurando sempre excitar a compaixão dos demais. o medo é a emoção fundamental do histérico. no entanto. tristes. como modernamente se diz. no entanto. o ciclóide é . . tais vantagens são anuladas por sérios defeitos: sua moral é algo frouxa e acomodatícia. como já indicamos. muito mais adaptável para a vida e o trabalho social que esta. ao passo que no ciclóide são a alegria e a tristeza os estados afetivos mais constantes. se adapta perfeitamente. assim como o histérico tem uma personalidade infantil. E. cordial e simpático. não podemos nos fiar em sua palavra.) criam várias formas ou subtipos. Lentamente seu rosto . ao furto e mesmo ao roubo e "afoga suas penas em álcool". coléricos etc. que tendo nascido de boa família e dotado de certa cultura e inteligência leva uma vida de ócio.183 98. Com efeito. A personalidade ciclóide é muito mais compreensível que a histérica e. Nem é preciso dizer. Um dos mais comuns é o denominado vagabundo hipomaníaco. por isso. mas uma ligeira análise permitirá. exceto em seus momentos de depressão. o fator essencial do tipo ciclóide. Além do mais. Valorização Jurídica. desde o primeiro momento dá uma impressão de morbidez que falta neste. Finalmente. o ciclóide conserva em sua conduta os traços próprios do estado adulto. nos produz a mais agradável impressão e.Como já indicamos antes. este tipo coincide com o "extrovertido" de Jung. sobretudo. TIPO DE PERSONALIDADE CICLÓIDE Em franca oposição com o anterior. como um camaleão. é exagerado em suas coisas e muito superficial e inconstante em seus afetos.os sintomas neuróticos de todo gênero que traduzem corporalmente os diferentes conflitos anímicos.em cada um de seus períodos . Boêmio empedernido. o tipo ciclóide deseja muito mais ser admirado e. muito superficiais e volúveis). a alternância de estados de leve excitação e hiperatividade com estados de tristeza e depressão. seu "eu" se dissolve no ambiente. Por outro lado. sua distinção. se encoleriza e se mostra amável. o tipo histérico. Sua afetividade neste aspecto tem não poucos traços comuns com os do tipo de personalidade histérica (ambas são. quando se vê em apuros recorre à "facada".como neste . um tipo que sintoniza com o meio que em cada caso o rodeia e ao qual. eufórico. Com a mesma facilidade ri e chora. regular e típica que as oscilações do ânimo observadas no tipo histérico. com o qual se acha sempre em contato. O dualismo de sua tonalidade psíquica (excitada ou deprimida) e a multiformidade de seus estados de ânimo (alegres.dono de si mesmo e não se deixa influenciar com tanta facilidade. assim como a grande sugestibilidade do tipo histérico (pitiático) o torna até certo ponto incapaz de persistir em uma determinada direção. é de todos o que com mais facilidade sabe fazer amigos. Em troca. É. apesar de sua apresentação um tanto jovial por vezes. se mostra jocoso e propício do altruísmo (coisa excepcional no histérico). com efeito. o histérico faz da ficção a arma de sua vida e dramatiza a todo momento as situações. Tipo franco. para finalizar. é muito mais saliente.

Convertido em parasito dos que o rodeiam. TIPO DE PERSONALIDADE ÁMORAL OU PERVERSA Assim como os tipos de personalidade psicopática que até agora descrevemos chegam geralmente ao delito movidos pela excessiva intensidade de suas paixões. isto é. De qualquer modo. intuitivos e oportunos. Pela grande importância deste tipo para a jurisprudência tratamos dele extensamente ao nos ocuparmos do problema da loucura moral. ciclóidehipomaníaco. sua agressividade é pequena ou. De vez em quando seu rosto recobra a alegria e denuncia o componente hipomaníaco próprio do cicloide. o tipo de personalidade perversa pratica o delito por carecer de superego ou consciência moral e não ver motivo lógico que o impeça de praticá-lo. sabem adaptar-se sem vaidade nem orgulho a todas as situações e são capazes de conservar seu humor no asilo como no cárcere ou no hospital. é o denominado por Birnbaum pessimistaangustioso. pois sempre surpreenderemos em cada uma delas traços e momentos próprios de sua oposta. especialmente). Outro tipo. não se deve procurar nele arrependimento nem tampouco devese esperar sua correção com medidas disciplinares riais ou menos violentas. do que acontece com o tipo anterior. Este indivíduo. que escapa à ação inibidora de sua consciência. menos conhecido. . melhor. orientado sempre para o futuro cheio de maus presságios. é a consideração de sua evolução (perfil longitudinal em oposição a sua seção transversal em um momento dado). Este tipo é reincidente habitual de pequenos delitos. por trás da qual se escondem a inação e o parasitismo.184 traduz sua vida infeliz e de vez em quando pequenos acessos melancólicos ou hipocondríacos confirmam o diagnóstico do tipo. mas predomina neles a veia alegre e ressurgem cheios de ânimo à medida que as circunstâncias externas os ajudam. como o outro. O máximo que pode conseguir o regime carcerário em um tipo amoral é aumentar sua astúcia e conseguir que aprimore suas técnicas de delito para escapar posteriormente à ação da justiça. Por conseguinte. Basta lembrar que felizmente é menos freqüente que os demais estudados até agora. Não se estranha se este terminar suicidando-se. alguns dos quais poderiam ser confundidos com ele em um exame superficial (tipos esquizóide. confabulador ou mitômano e histérico. É de interesse seu conhecimento pela possibilidade de que em certas ocasiões manifeste idéias delirantes de auto-acusação e corra à justiça declarando-se culpado de delitos não cometidos. pelo predomínio da componente instintiva da personalidade. leva uma vida inquieta e começa mil trabalhos sem terminar nenhum. sua eloqüência serve para criar neles uma intensa corrente de afeto e tolerância. tão contraditórias em aparência. o que permite integrar estas duas formas. 99. oradores de palavra fácil e de grande poder de persuasão. em uma só. se acha (como no tipo compulsivo) dirigida contra si mesmo e em virtude disto não tarda a decair e adotar novamente a postura pessimista e fatalista. mas capta a simpatia por seus dotes de altruísmo e generosidade para com os que sofrem. mas ao contrário. e agora é desnecessário repetir o que dizíamos então para caracterizá-la. ele mesmo os converte em realidade com sua conduta.

"indiscretas". "frívolas". PERSONALIDADE INSTÁVEL Os psicopatas deste tipo (inquietos. se sua astenia é acompanhada de atimia e indiferença geral. Se. Quando o tipo astênico (e note-se que falamos em sentido psicológico) fixa sua atenção em sua cenestesia e desenvolve sua autoscopia corporal até erigi-la em sua principal preocupação. . Predomina nele a tendência a seguir a linha de resistência mínima (e portanto. "que não param". De qualquer modo. a conduta do mínimo esforço). . A característica essencial do mesmo é o rápido esgotamento de seus ciclos de atividade psíquica.185 100.Os delitos cometidos pelo tipo astênico são mais freqüentemente praticados por "omissão" ou "negligência" do que por violação ou falta de seus deveres e obrigações. acessos de distimia (mau humor ou "nervosidade") logo substituídos por uma depressão ainda maior que a habitual. . aquelas mostram que o são pelo que enredam. Não obstante. uma maior colaboração médica e psicoterápica. Mas. ou "halt lose". nessas condições podem tomar-se delinqüentes. que "são como cata-vento" e não sabem o que querem. podem ser hábeis no ardil para ocultar sua má conduta. se desenvolve nele uma tendência ao isolamento e à substituição da realidade exterior pelos dados de sua fantasia (introversão autista) se aproximará insensivelmente do tipo esquizóide ou esquizotímico. em troca. se se preocupar mais pelo aspecto ético ou pelas conseqüências psicofísicas de sua conduta (a famosa ''peur de I'action". psicastênica. PERSONALIDADE ASTÊNICA Este tipo é freqüentemente confundido com as variedades neurastênica. Janet). e os leigos o caracterizam perfeitamente ao dizer-lhe que é um "frouxo". em geral sua periculosidade é menor que a dos restantes tipos psicopáticos e seu tratamento reeducador requer. mas convém separá-las do ponto de vista jurídico. finalmente. "metidas". também. de vez em quando. deve-se recorrer ao qualificativo de "apático" ou "indolente" para caracterizá-lo melhor. Muitos destes tipos são detraqués ou frustrados. que recorrem secundariamente ao álcool e excitantes para "se encherem" ou sentir que vivem. ingressará no campo da psicastenia. indolente e esquizotímica. Valorização Jurídica. esta parada racional na barreira afetivoconativa acarreta. apesar da vagueza e imprecisão dessas delimitações. a maior parte dos quais não chega a alcançar uma expressão motora adequada à natureza dos estímulos desencadeantes. ou seja. Quase sempre têm. mas dificilmente chegam à criminalidade. Em troca. o tipo astênico tem uma indiscutível realidade. sendo amiúde inteligentes. de P. porque enquanto estas últimas se mostram especialmente perigosas pelo que fingem. segundo os alemães) são descritos na vida comum como pessoas "levianas". características corporais infantis e continuam sem linha de transição com as personalidades histéricas. 101. se transforma em neurastênico. que não tem a energia necessária para levar a cabo eficazmente os atos que suas situações vitais requerem.

mesoderma e endoderma) é expresso por um número que oscilará entre 1 e 7. mas. se os comete.Este tipo costuma levar os casos de um para outro lado e aparece quase sempre no cenário jurídico. cada um dos 3 componentes (correspondentes ao desenvolvimento das 3 folhas blastodérmicas . como um incontinente. por meio de um estudo sistemático de sua estrutura corporal. costumam ser hiper-emotivas e um tanto ansiosas. definiram o somatotipo como a "quantificação (isto é.A clássica obra de Lombroso (L 'Uomo Delinquente) ainda exerce uma influência na mente de muitos juízes e penalistas de cabelos brancos. DO DAS DE LOMBROSO A SHELDON A SOMATOTIPO COMO MEIO DE COMPREENSÃO CARGAS E INCLINAÇÕES DELITOGÊNICAS De Lombroso a Sheldon. dois autores norte-americanos. Sheldon e Stevens. ou seja. ademais. o genial pensador italiano estava em bom caminho. sendo capazes de desenvolver uma boa quantidade de esforço em curtos períodos. entretanto. mas simplesmente.186 As pessoas instáveis. hoje se admite que os fatores genotípicos responsáveis pela chamada "inclinação à delinqüência" não aparecem ingenuamente em típicos sinais "degenerativos". . embora não possa ser considerado como simples fabulador ou mentiroso. correspondendo ao grau mínimo e ao grau máximo de desenvolvimento desse .ectoderma. são leves mas contumazes. Destarte. novos estudos vêm mostrar que. mas não podem perseverar regularmente nele. a expressão quantitativa) dos componentes primários da estrutura morfológica de um indivíduo". Valorização Jurídica. mediante a investigação do chamado somatotipo. Dificilmente pode ser reeducável sem a ajuda de uma modificação total em seu plano de vida e em sua arquitetura temperamental. de modo que cheguem a poder ser evidenciados no fenótipo individual. são capazes de condicionar o relativo desenvolvimento regional das 3 folhas blastodérmicas. não tanto como autor mas como elemento que desencadeia. RECENTES CORPORAL ESTUDOS CAPÍTULO XVII SOBRE CONSTITUIÇÃO E ESTILO DE DELITO INVESTIGAÇÃO 102. mantém ou complica conflitos e questões. mas já dificilmente impressiona os jovens bacharéis em Direito. . meio século depois de ter sido escrita. E no entanto. Seus delitos. Em realidade. embora errasse o trem. de certo modo.

Caracteriza-se pela tendência à ação direta. caracteriza-se pela tensão nervosa. .). o segundo ao da mesomorfia e o terceiro ao da ectomorfia). que desta forma tem facilidade para locomover-se e atuar. Cerebrotonia. Viscerotomia. pois.Ectomorfia. imediatista e confortável aos que têm esse componente em excesso. à dúvida ou à meditação e à conduta contraditória. Miotonia (também denominada somatotonia). propensão à oposição interna. ou seja: a pele. Vejamos agora como se definem aparentemente tais componentes: 103. Na vida prática não é freqüente encontrar tipos corporais em que haja predomínio .Vinculada à ectomorfia. se se irritam o fazem por pouco tempo e esquecem a ofensa com qualquer comentário humorístico. . uma aparência atlética. a fórmula 1-71 indica mesomorfia extrema e a 1-1-7. . dormir etc. pelo que estão mais expostos aos estímulos do ambiente. assim. isto é. músculos e tecido conjuntivo. por exemplo. O corpo parece delgado e delicado. Um somatotipo de fórmula 7-1-1 corresponde ao tipo endomorfo extremo. um corpo em que estariam em perfeito equilíbrio de desenvolvimento os órgãos e formações procedentes do primitivo blastoderma. .Ligada à mesomorfia. Isso dá uma aparência maciça e forte ao corpo. um somatotipo de fórmula 4-4-4 representaria o normotipo ideal. São empreendedores e possuem facilidade para dominar fisicamente o ambiente. O predomínio visceral (tecidos procedentes do endoderma) dá uma atitude vegetativa. temperamental.Predomínio dos órgãos derivados do mesoderma: ossos. ectomorfia extrema. Os viscerotômicos gostam da comodidade e dos prazeres fáceis (comer. os que têm este componente em forma exagerada propendem a adquirir uma forma globosa e possuem pouca densidade. 105 . constituindo o arquétipo dos chamados "homens de ação". . os miotônicos propendem a reagir com rapidez e energia a qualquer solicitação do ambiente. A cada um desses componentes corporais corresponde uma tendência natural. tendões. Deste modo o somatotipo de qualquer indivíduo é expresso por uma seqüência de 3 números (o primeiro correspondente ao valor da endomorfia. portanto. Assim. Endomorfia. Mesomorfia.Neste terceiro componente predominam os tecidos do ectoderma. o mesomorfo típico adquire. 107. o tipo clássico do "bon vivant".Predomínio das vísceras e do aparelho digestivo. sem circunlóquios. a saber: 106. . 108. brusca. apresentando maior superfície relativa que volume. facilmente. flutuando. O cerebrotônico complica a vida sem necessidade e sente angústia porque não há proporção entre sua exagerada sensibilidade e sua limitada eficiência motora. quase disrítmica. 104. constituem. o sistema nervoso e os órgãos dos tecidos. A linha de ação é irregular.Intimamente ligada à endomorfia: é definida pela propensão a tomar uma atitude epicureana e simples (de Sancho Pança) perante a vida. são afáveis e conciliadores.187 componente.

e que tais indivíduos são os que com maior facilidade tendem a descarrilar-se na vida.188 de 2 componentes com restrição do terceiro. Estes componentes psiquiátricos são designados com os nomes de "Dionisíaco" (correspondente aos traços característicos da psicose maníacodepressiva). sintonia. os "orais" seriam os viscerotônicos mórbidos. pronunciadamente. Sheldon se interessou em estabelecer a correlação que pudesse existir entre os diversos tipos de delito e os de versos somatotipos.A incansável atividade de Sheldon levou-o. temos com maior facilidade. em 1945. Desta sorte. Cuidadosas histórias clínicas e sociais completaram o estudo somatotípico e psicológico. p. A investigação do somatotipo como meio de compreensão das cargas e inclinações delitógenas. . 109. prometeísmo) e "fora de" (ab. Operando com 155 destes casos foram estabelecidas as correlações entre os componentes morfológicos e temperamentais. ingressando no contingente dos neuróticos. Em primeiro lugar: a maioria desses delinqüentes são.. por sua vez. "contra" (projeção. ''para'' (extroversão. descritas por Freud. são respectivamente características do erotismo oral. 3-5-3 é um tipo de mesomorfo compensado). em alemão: autismo. erotismo uretral e erotismo anal. . Pouco tempo depois estendeu sua investigação a 3.800 casos dos hospitais psiquiátricos e comprovou que quanto mais se aproxima um doente mental da fórmula somatotípica correspondente a esses componentes (5-5-1. 4-1-5 respectivamente) tanto mais facilmente será ele designado de maníaco-depressivo. a efetuar um estudo somatotípico. mesomorfos ou ectomorfos compensados. e os chamados componentes psiquiátricos de outro.) passam pelos mais diversos diagnósticos quando apresentam alterações mentais. 1-5-5. sendo depois . Phyllis Wittman. a possibilidade de encontrar tipos de endomorfos. "Prometêico" (correspondente aos traços da paranóia pura) e "Hebefrênico" (ligado às características da esquizofrenia). misticismo) que. psicóticos e delinqüentes. Dirigindo estes estudos para o lado das condutas anti-sociais. dos casos que oferecem sérios problemas de adaptação social. juntamente com o Dr. dionisismo). tipos em que o ligeiro predomínio de um componente é contrabalançado pela equipotência dos outros dois (p. os uretrais seriam os somatotônicos mórbidos e os anais seriam os cerebrotônicos mórbidos. extrair algumas das conclusões de positivo interesse para os juízes e penologistas. de um abundante material de doentes mentais. de um lado. paranóide ou esquizofrênico. Tais componentes correspondem "grosso modo" às 3 atitudes fundamentais da personalidade. ex. Mas o que nos interessa é saber que existem tipos caracterizados pela pobreza exagerada de um ou dois componentes. ao contrário.recolhido todo o material objeto de cuidadosa tabulação e análise estatística. dureza. a saber. nos quais foi simultaneamente obtida sua fórmula corporal (somatotipo) e a lista de seus traços psicóticos. isto é. ex. fuga da realidade. em troca os que têm somatotipos médios (4-5-3. repulsa do ambiente. O relato minucioso desse trabalho constitui um denso livro do qual vamos apenas. Para isso empreendeu um novo e meditado estudo com 200 jovens delinqüentes recolhidos no Hayden Goodwill de Boston. isto é.

se pôde dizer que os "grandes santos foram grandes pecadores". Por outro lado. a conclusão mais revolucionária do estudo que estamos comentando é a de haver mostrado que os somatotipos dos delinqüentes mais perigosos são quase idênticos aos dos homens mais apreciados pela sociedade. oscilante entre o egoísmo e o altruísmo. principalmente. que o homem médio. Essas mães tinham que carecer de serenidade e de ponderação: suas reações ante os conflitos da vida diária aumentavam a tensão de seus filhos ao invés de diminuí-la e apaziguá-la. sem compaixão. a nosso juízo. o fracasso dos educadores na consecução de seu objetivo: dar uma filosofia de vida baseada na cooperação criadora. um anti-social sublimado podem não só adaptar-se à vida do grupo humano. o mesopênico procurará atuar como instigador ou organizador. E este grande homem sob o signo da cólera é extremamente maléfico. ou melhor baixa. p. o delinqüente profundamente ectopênico e visceropênico terá propensão para os delitos duros. à desconsideração das regras sociais) como eles mesmos. isto é. ao invés de baseada na competição ou rivalidade apropriadora e dominadora. . o somatotipo influi no estilo do crime condicionando a estratégia e a tática do delito.de uma linha trêmula e inoperante. parecem ser tão propensos para o ato delituoso (isto é. de acordo com sua eficiência e valor pulsional. precisam combate contra a sociedade à qual tão heroicamente se devotam. Seus parentes. ou eixo. rápidos e quase sempre sangrentos. insignificante e "coisinha" até o "grande homem"ou seja. a parte realmente interessante no trabalho de Sheldon é a que destaca a enorme influência dos fatores sociais e. Essa "disturbing relationship between delinquency and heroism" chega a ponto de fazer Sheldon afirmar que os heróis são delinqüentes que. maciços e no entanto com elementos astênicos. um criminoso arrependido. Esta conclusão representa para nós uma confirmação dos resultados que obtivemos em nosso estudo experimental das atitudes morais já conhecidas e expostas: as pessoas não se distribuem ao longo de uma linha. Assim. Em troca. contraditórios. por isso. misticismo). Mas. e também de inteligência geral medíocre. violentos. só dá a impressão . isto é.189 mesomorfos ectopênicos com endomorfia normal. deixando a seus cúmplices a tarefa mais pesada e combativa. cuja linha de conduta. Mas.quando vista à vol ´d'oiseau . ex. É curioso que as mães dos delinqüentes estudados por Sheldon tivessem somatotipos displásicos. Isto nos leva a pensar que um delinqüente regenerado. de sorte que os verdadeiros pólos éticos se estendem do homem medíocre. destacam Sheldon. como também converterse em elementos mais propulsores de seu progresso. psiquiatricamente aparecem como dionisíacos levemente paranóides e carentes do terceiro componente psiquiátrico (autismo.. são de estatura média. que vai da extrema maldade à extrema bondade. Ou em outras palavras: o melhor e o pior se confundem na linha axiológica e. E mais adiante sublinha: delinqüência e heroísmo tornaramse um "continuum" em nossa vida institucional. para sobreviverem. senão que nesse eixo centram círculos de diâmetro diversos. cujo impacto sobre o grupo social é colossal. os heróis e grandes caudilhos civis e militares.

de acordo com os modernos resultados da psicanálise crimilológica. Finalmente. Intencionalmente afastamos todo alarde de erudição e todo delineamento unilateral de problemas. em troca. no qual ressaltamos como contribuição original. objetiva. Igualmente indicamos as diretivas psicológicas a seguir para a obtenção da evidência do delito e demos a conhecer investigações originais e inéditas que podem abrir um novo curso à obtenção da verdade judicial. Assinalamos as deficiências dos processos forenses. e como resultado de tudo isso tentamos demonstrar que o exercício honesto do Direito é impossível sem uma prévia base de psicologia. à sociologia e à psicobiologia normal e patológica.) foram indistintamente utilizadas por nós. condutista. as mais diversas escolas psicológicas (psicanalítica. terminá-lo sem dirigir nosso pensamento aos leitores. deve-se procurar acercar o Direito a outros campos de atividade psicossocial e em especial à pedagogia. Com todos os modernos penalistas. capacidade de testar. Nosso propósito. considerando-os desviados ou doentes sociais e assinalando suas semelhanças e diferenças com os neuróticos. de um conjunto de forças que se encontram em contínua luta desde que nascemos. diferencial etc. como também. Ademais. dinâmica. todas as pessoas que intervêm profissionalmente na prática judiciária. dar ao jurista. que deviam possuir não só os juizes e letrados. No capítulo da Psicologia do testemunho resumimos todos os processos de que pode e deve valer-se o jurista para fazer do "teste" um elemento útil ao invés de um fator perturbador. ao mesmo tempo em que indicamos os meios mais adequados para o reconhecimento das mesmas. urgentes dos meios psicológicos que conduzem ao reconhecimento das pessoas que devem ser destituídas de sua capacidade civil (oligofrênicos) e das que não têm em um momento dado. para não citar mais do que os espanhóis. como o é agora. a descrição das provas que conduzem à descoberta dos "delinqüentes potenciais ou latentes". Demonstramos a necessidade de um tratamento individualizado dos delinqüentes. para a aplicação da justiça. a nosso entender. tipo lógica. uma exposição dos dados e conhecimentos que a Psicologia atual lhe pode oferecer para tornar mais eficiente seu trabalho. CONCLUSÃO Se pudéssemos evitar o clássico ridículo de pôr um prólogo ao nosso trabalho. E completamos nosso trabalho com um capítulo de "higiene mental do delinqüente". evidenciamos que o delito era uma reação terminal. uma vez chegados a seu fim não sabemos. assinalamos as normas psicagógicas que devem inspirar a . Analisamos a nova concepção da consciência moral e pusemos de manifesto o caráter subjetivo das normas morais.190 CAPÍTULO XVIII 110. A seguir tratamos do estudo e divulgação.

embora muito menos profundas que as existentes entre os códigos e os tratados de psicopatologia forense antigos.848. instituído pelo Decreto-lei n° 2. Alcântara Machado. A razão é clara. psiquiatras e sociólogos. como ciência normativa. bem como que certas práticas legais sejam abolidas ou modificadas. o fato é que. ao passo que a Psicologia e a Sociologia. ao jurista o psicólogo e o sociólogo aparecem como ávidos de invasão do campo da lei. pois o Direito. em virtude do qual pretendemos. 111. contraproducentes. no entanto. sem o perfeito conhecimento das mesmas e do seu espírito. não forem elaboradas por comissões integradas também por psicólogos. de 7 de dezembro de 1940. inspirados e apoiados em seus conhecimentos. réus convictos e confessos de um delito de "usurpação de poderes". que sem falsa modéstia não nos recomendaríamos à benevolência dos que nos julgarão. Estas duas categorias de ciências só poderão evitar mal-entendidos quando se encontrarem numa nova ciência. Depois de sua instituição. analisando sua valorização jurídica. É claro que divergências existirão enquanto as leis. e sustentam que a eles cabe a última palavra e que devem estar atentos ao que Foerster denomina perigo funcional. quando não prejudiciais ao indivíduo ou ao meio em que vive. procuram a determinação e a explicação do que é. acompanha de perto os progressos da criminologia e do Direito penal.essa alada e sutil figura e a atitude psicológica que se denomina compreensão. quiçá por não terem sido consideradas consistentes ou porque julgassem prematura a total aceitação das mesmas. ao psicólogo e ao sociólogo o jurista aparece como refratário às aspirações e problemas humanos e ao desenvolver mento científico. capaz de conciliar essas duas atitudes metodológicas. É por isso que a leitura dos artigos do Código após a leitura do texto desta Psicologia Jurídica. os cientistas naturais. depois de 1950 ainda mais se acentuou a necessidade de uma revisão profunda na maneira de tratar o crime e o criminoso. . muito têm evoluído esses estudos. porá em evidência algumas divergências. de tal modo que. apenas desejam que certas leis sejam adaptadas à realidade da vida. APÊNDICE/COMENTÁRIOS O atual Código Penal Brasileiro. com muita razão. se não acreditássemos que depois de nos lerem mostrar-se-ão mais tolerantes conosco. no que tange à criminologia. Os juízes são. e tão fundado nosso receio. Acertamos em nossa tarefa? É tamanha nossa dúvida. ciosos de suas prerrogativas. tendo por base o projeto do eminente Prof. Por outro lado. Ao longo de nossos estudos procuramos nos manter em um plano estritamente psicológico e procuramos evitar também todo tecnicismo exagerado.191 reeducação dos delinqüentes e descrevemos os tipos mais freqüentes de personalidade anormal. procura estabelecer o que deve ser. como ciências naturais. se àquela época muitas das aquisições da criminologia não foram nele introduzi das. por serem inúteis. nada menos que sentar no trono da Justiça .

baixa do autocontrole instintivo e outras anomalias. suas anormalidades costumam resistir. o Código procurou superar a controvérsia da responsabilidade diminuída. mesmo deixando de lado a secular discussão sobre determinismo versus livre arbítrio. o livre arbítrio é um a priori com relação à experiência moral. O atual Código penal adotou uma atitude eclética ao tomar por base o método biopsicológico. aceitam eles que o último "comprovado ou não. As causas biológicas que excluem a responsabilidade são a doença mental. Rejeitado o pressuposto da vontade livre. porque. por não possuir a plena capacidade de entendimento ou de determinação. o código penal seria uma congérie de ilogismos" (F. não são doentes mentais. Não há um meio termo entre elas. e a idade menor de 18 anos. isto é. sem cujo postulado "o Direito penal deixaria de ser uma disciplina de caráter ético para tornar-se mero instrumento de utilitarismo social ou de prepotência do Estado. a embriaguez por álcool ou substância de efeitos análogos plena e acidental. o qual. para o especialista o problema das personalidades anormais não é tão simples. Mas. o desenvolvimento mental incompleto ou retardado (oligofrenias). quando muito podem se valer da redução facultativa da pena. sob pena de acentuar-se demasiadamente o divórcio entre esta e a realidade da vida. o certo é que as coisas se passam de maneira toda peculiar e não há argumento que invalide um fenômeno que se repete com uma precisão notável. No dizer de Nelson Hungria. no entanto. obedecem a determinadas motivações regidas por "leis" que lhes são próprias e relegam a uni plano secundário a consciência livre e desperta do indivíduo. como a vida e a morte. Por absurdo que pareça aos poucos afeitos a determinados aspectos dos problemas humanos e sociais. mal compreendidas. é o ponto de ligação de todas as normas jurídicas" (N. exatamente como o princípio de causalidade o é para a experiência física. as personalidades anormais (mal denominadas psicopáticas). à dura lex. Por outro lado. Infelizmente. Campos). exige que a responsabilidade (que se baseia na capacidade de culpa moral) só se exclua se o agente em razão da alteração da saúde mental era no momento incapaz de entendimento éticojurídico e autodeterminação. Dentro desta orientação. de fatos humanos e sociais que. sem desprezar o critério biológico que condiciona a responsabilidade à normalidade mental.192 A responsabilidade continua a ter por fundamento a responsabilidade moral. embora ao juiz seja autorizado a reduzir a pena. suas anomalias são motivadas por causas tão complexas em cada caso. razão por que. Desta maneira. dado científico ou conceito filosófico. acontece que a Psicologia e a Sociologia são ciências de fatos. já que a assim denominada não era senão responsabilidade com menor culpabilidade. Esses fatos devem ser adequadamente considerados pela lei. Hungria). se de um lado elas não são consideradas patológicas. pessoas com decadência do senso ético. Para os juristas. como tais. seja aos mais suasórios e compreensivos métodos . a responsabilidade subsiste quando a causa biológica não suprime totalmente a capacidade de entendimento. seja à repressão pura e simples. Non datur tertium sive medium inter duo contradictoria. que. responsabilidade e irresponsabilidade são antônimos.

psicopatas. do ponto de vista psicobiológico. sociais e legais. em um novo critério de política criminal. Nos indivíduos de vida irregular. antes são medidas de prevenção e assistência social que visam à periculosidade dos que. o que reconhecemos ser sumamente difícil na prática. os casos de embriaguez anômala. É claro que o Código só previu o caso de embriaguez simples. Que o problema da profilaxia do crime está sendo enfrentado com decisão. em 1894. os índices médico-psicológicos nos dão meios para determinar sua periculosidade. O Código também não se deixou mais envolver. pois. imputáveis ou não praticam ou se supõe venham a praticar atos previstos como crime. que freqüentam ambientes de pervertidos e amorais. Para o atual. por exemplo) a pena é agravada. exclui a responsabilidade do agente. os índices sociais orientam o diagnóstico. a primeira sem delito e a outra com delito. No tocante ao problema das medidas de segurança. toxicômanos etc. pois essa condição é apenas um epifenômeno.193 de recuperação. Coube a Carl Stoos. mas apenas são dirimentes da pena quando provocadas por ato injusto de outrem. relacionam-se estes aos antecedentes policiais e ás . quando a embriaguez foi provocada (préordenada) para realizar o crime (criar coragem. o problema da embriaguez em suas diferentes formas não é tão simples. a embriaguez é encarada sob o ponto de vista da teoria da “actio libera in causa seu ad libertatem relata”. dita patológica. como o anterior. mais. parasitária. legais. posteriormente. Todavia. ao crime. Quanto aos índices. não isenta de responsabilidade. Ainda. o mérito da iniciativa de aliar a medida de segurança à pena. voluntária ou culposa. Nos doentes mentais. mostra-nos o que foi resolvido no Congresso Internacional de Criminologia (Paris. 1950) onde ficou estabelecido que existem duas formas de periculosidade: a pré e a pós-delitual. hoje definitivamente aceito. uma conseqüência de desordens da personalidade que podem ou não entrar no terreno do patológico. Ambas são fundadas sobre índices médicopsicológicos. cabem perfeitamente dentro do critério de exclusão da responsabilidade. a emoção e a paixão não excluem a responsabilidade. embora plena. alguns comentários merecem ser feitos. Quando. comum. As medidas de segurança não têm caráter repressivo e não são pena. Somente a embriaguez completa e acidental por caso fortuito ou força maior. um instituto jurídico introduzido em nosso Código. mas que trazem no bojo os conflitos vitais que a levam inexoravelmente ao vício e. Não resta dúvida que a introdução das medidas de segurança constitui um grande progresso. A medida de segurança só é aplicável post delictum e pressupõe a periculosidade do agente. pelo problema dos "passionais" que conseguiram até então ser considerados irresponsáveis por terem agido em "completa perturbação de sentidos e da inteligência". anormais sexuais. mas o fato delas se aplicarem somente depois do delito (diríamos do primeiro delito) demonstra que ainda não alcançamos a fase verdadeiramente profilática do crime. erroneamente denominada fisiológica. Igualmente.

O valor diagnóstico e prognóstico dos índices legais é pequeno e. de "olho por olho. Os que combatem as novas idéias sobre a prevenção do crime se apegam ao fato de que a pena é necessária. sistema "pão-de-ló" e outros termos depreciativos. não tardará a modificar essa mentalidade. o desemprego. Estas medidas têm uma dupla finalidade: de um lado a segurança social. podem ser atacados muito antes do ato criminoso ser desencadeado. e os motivos ecológicos. A tendência da moderna criminologia é não só aos poucos suprimir a pena como medida retributiva. Todavia.194 formas de delito. a par de constituírem um perigo social. de dentro de seus gabinetes. redundará na diminuição do índice de criminal idade e na redução do número de criminosos que oneram os cofres públicos. Os futuros criminosos já revelam suas tendências desde cedo. como também estabelecer normas que possibilitem uma profilaxia do crime de resultados práticos. fora da esfera policial. o tratamento do indivíduo perigoso. entre as quais sobressai a mentalidade policial que ainda está impregnada nos diversos setores da sociedade. e que em sua grande maioria. o crime seria lei da maioria. a ignorância e os vícios. pois. já que muitos outros progressos científicos anteriores conseguiram furar a barreira imposta pelos que se julgam senhores da verdade. o que se deve visar é mais do que defender e curar: é a profilaxia do crime. mas a realidade demonstra que a criminalidade não desaparece com a punição. descobrindo o que apresenta periculosidade e estabelecendo melhorias nas suas condições vitais. A própria admissão das medidas de segurança constitui uma vitória científica. através da psico-higiene. psicológicos e sociais que podem levar ao crime. podem os mesmos contradizerem os sociais e médico-psicológicos. um fim defensivo e um fluir curativo. amparando a juventude de todas as maneiras. melhorando suas condições de vida. de outro. "moo-cow sentimentalities". educando-a. diz Oswaldo Loudet. entretanto. por múltiplas razões. ou seja. Este é um ideal ainda longe de ser atingido. enfim desenvolvendo a profilaxia do delito. A evidência dos fatos. o combate deve ser feito conta o criminoso. mas sim combatendo suas causas. retaliativa. todo o esforço da ciência em prol da humanidade. consideram as modernas aquisições como um "cream-puff criminology". e combatendo a miséria. Todo dinheiro que se gastar protegendo a infância. ignorando. dente por dente" ou da compensatio mali cum malo. já . Partidários que muitos são da lex talionis. para em seu lugar instituir medidas reeducadoras. que será feita desde cedo. A terapêutica do estado perigoso é efetuada mediante medidas de segurança pré e pós-delituais. recuperadoras e protetoras do indivíduo e do meio em que vive. Para aqueles que não acreditam nessas medidas por não verem os resultados imediatos. em realidade devem ser psico-higiênicas e ter início na infância e na adolescência. como castigo ou repressão. mas não devemos perder de vista que isto é apenas o começo. punindo-o de acordo com a gravidade do delito cometido. exige jurisdição e competência especiais. suprimida esta. as medidas preventivas devem ser pré-delituais. A legislação sobre o estado perigoso pré-delitual.

Antes de finalizar estes comentários. tendo em vista o desenvolvimento científico do presente século e. Nelson Hungria achou que os quesitos poderiam ser reduzidos a dois.195 que haveria (no dizer de Patrizi) em cada um de nós um criminoso em latência que a supressão do castigo estimularia.O acusado. inteiramente incapaz de entender o caráter criminoso do falo ou de determinar-se de acordo com esse entendimento?”. dos últimos 30 anos. tirando a água por cima com baldes. ao utilizarmos um sinônimo mais usado pelos técnicos). a expressão "por motivo de perturbação da saúde mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado" pela "por motivo de embriaguez". pois nem todo portador de perturbação mental pode ser considerado "louco" (ou "alienado". injustíssima por Raul Camargo. tem um significado limitado. "2° . infelizmente apresenta alguns anacronismos. Seria o mesmo que querer salvar um barco que faz água por um rombo. já julgada infelicíssima e.O acusado. Além disso. O legislador. tem sido tentada inúmeras vezes. entre cujos autores avulta a figura genial de Rui Barbosa. desejamos transcrever aqui os quesitos que os juízes redigem quando desejam obter do perito esclarecimentos sobre a responsabilidade do agente. Aquela expressão "loucos". ao tempo da ação (ou da omissão) não possuía. para escoimá-lo desses pequenos senões. por motivo de doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. acrescentando à palavra "loucos" a expressão "de todo gênero" pretendeu abranger as diversas incapacidades por insanidade mental. em realidade não se trata aqui de abolir a pena e sim de preocupar-se menos com o criminoso declarado. comportam quatro quesitos. por motivo de perturbação da saúde mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. a plena capacidade de entender o caráter criminoso do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento?" Quando está em lide o problema da embriaguez. do que com a prevenção do crime e a higiene psíquica.afirmou que. a seu ver. A revisão do Código. pois de nada adiantará segregar os criminosos sem ao mesmo tempo debelar as causas que incessantemente conduzem o homem ao crime. pois além de ser muito vaga. um 3° quesito pode ser formulado com os seguintes dizeres: "A embriaguez do acusado proveio de caso fortuito ou força maior?" 112. contém também um erro técnico. e no 2° quesito. a saber: “1° . quando necessária a consulta. mas o ilustre Prof. acarretando a implantação no convívio social da lei das selvas. os quesitos costumam ser redigidos substituindo-se no 1 ° quesito a expressão "por motivo de doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado" pela "por motivo de embriaguez completa". Mas. COMENTÁRIOS Nosso Código Civil. notável peça jurídica. imprecisa e não ser usada senão pelos leigos. Heitor Carrilho . Mas o vício . mas até hoje não foi concretizada. especialmente.solicitado a emitir parecer sobre o assunto . O Prof. ao tempo da ação (ou da omissão) era.

mas hoje em dia. Haveria necessidade então de se inverter o raciocínio para justificar daquela maneira a diferença . Pois bem: comparando-se o novo Código Penal com o Código Civil. Impossível se toma. com a educação e a instrução. encontrar-se uma expressão que abrangesse as diversas incapacidades por insanidade mental. ao passo que o Código Civil só considera capaz o maior de 16 anos. o qual. usando o método biopsicológico. não era esta. verifica-se que o primeiro agora só confere plena responsabilidade aos maiores de 18 anos. no dizer de Clóvis Beviláqua um conceito jurídico superado e anacrônico. na evolução do sentido ético. Outro fato que demonstra a arbitrariedade da lei em face das condições psicobiológicas dos indivíduos é o que se patenteia na delimitação diversa da idade nos Códigos Penal e Civil. a sociedade evoluiu de tal modo que a prodigalidade é. A curatela e a incapacitação parcial dos pródigos visa à proteção dos bens do indivíduo. ao instituir as expressões: "por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado" e "por perturbação da saúde mental". prodigalidade não condiz com normalidade psíquica. de significação precisa e limitada. ou então se faz como no atual Código Penal. em face do desenvolvimento da especialidade. sem os riscos de estender demasiadamente o conceito e permitir. No antigo Código Penal a responsabilidade só existia depois dos 14 anos. como também a Medicina demonstra que a idéia que Beviláqua sustentava por uma simples consideração da lei. psicopatas fanáticos e querelantes que gastam tudo o que possuem num invento ou numa demanda etc. O resto dos artigos seria completado com estas outras expressões: "é inteiramente incapaz de exercer pessoalmente os aros da vida civil" ou então: "não tem a plena capacidade etc. representa a verdade psiquiátrica. Portanto. Ou se faz uma enumeração daquelas perturbações ou doenças psíquicas que incapacitam. com o raciocínio e a experiência das relações jurídicas do homem em sociedade. v. no período médico-legal da demência paralítica e na fase maníaca da psicose maníaco-depressiva) ou sob a forma de uma anomalia típica da personalidade (personalidade compulsiva com oniomania.).. razão por que a alínea sobre pródigos deveria ser supressa. a incapacitação de indivíduos que." Ao evitar o uso de um termo que tem seu correspondente técnico.196 persistiu porque a especificação original de "loucos" invalida qualquer possibilidade de acerto se não for substituída. nem quantitativa nem qualitativamente suficiente para o incapacitar para os atos da vida civil. g. Há uma diferença de dois anos entre a aquisição pelo indivíduo da responsabilidade e da capacidade. não só remonta ao direito romano a equiparação do pródigo ao alienado. na evolução intelectual. seja sob a forma de uma psicose (como ocorre. Outro fato que corrobora esta asserção é o uso destacado que o Código fez da expressão "pródigos". embora tendo sofrido uma perturbação do funcionamento psíquico. Como afirmou Nina Rodrigues. Alegavam os defensores da diferença que a noção de responsabilidade criminal é adquirida desde a infância. A prodigalidade só é admissível como manifestação de um desequilíbrio mental. ao passo que a capacidade civil só chega mais tarde. o legislador moderno contorna eficazmente as dificuldades práticas que surgem. como acontecia no antigo código penal. situou muito melhor o problema.

que é mais fácil dizer-se que um indivíduo está louco do que alguém ser considerado mentalmente são. Segundo esse autor. considerados antes deformatórios. constitui um progresso. em parte. como por exemplo. Já se disse com foros de verdade. os antigos denominavam delírio (de: fora. se mostraram ineficazes e mesmo prejudiciais. no dizer de Erwin Frey. responsáveis por 85% da delinqüência de menores. devida principalmente a fatores exógenos ou sociais e. que é maior no penal do que no civil. e a prática ensina que o critério para determinar se o indivíduo ao testar estava em perfeito juízo. mas hoje em dia a palavra delírio tem uma acepção mais restrita e se refere somente ao desenvolvimento de idéias mórbidas que progressivamente afastam o indivíduo da lógica e da realidade. de valor. e mesmo ao médico não especialista. o problema dos intervalos lúcidos. não pode ser senão médicopsicológico. identificá-los. Toda política de assistência a menores que pretender continuar a encará-los com vistas à sua "periculosidade". Os denominados reformatórios. de realidade. sem atender antes àquelas circunstâncias que são. de espírito não policial. Falaremos agora rapidamente sobre alguns aspectos do problema dos menores. a delinqüência juvenil pode ser assim compreendida: "85% dos menores são pseudodelinqüentes e sua delinqüência é apenas uma fase passageira de seu desenvolvimento. estes delinqüentes não recidivam mais. mas isso iria estender demasiadamente. de identificação etc. Um paranóico está perfeitamente lúcido. por faltar neles a exata compreensão do problema do menor. Quando a intervenção e modificação visar preferentemente o mundo circundante do menor. a distúrbios psicógenos. . O fato de os menores escaparem à ação penal e estarem sujeitos a legislação especial. obteremos muito melhores resultados práticos. embora venham mais demoradamente. sua "conduta" etc. fora do que há sempre a possibilidade de uma futura impugnação. O indivíduo que não está em perfeito juízo não é necessariamente um delirante. ou muito raramente. Aos desvios da normalidade do juízo. Muitos outros comentários poderiam ser feitos em tomo de pontos discutíveis da lei civil em face da psico-biologia. para demonstrar que esta alínea contém uma redundância que deve ser afastada. de base rigorosamente científica. está fadada ao fracasso.Quando um especialista emprega a expressão "juízo" o faz como sendo o aspecto funcional do pensamento que permite estabelecer relações de significação lógica. liros: sulco). por vezes habilmente dissimuladas. Um ponto também digno de comentários das primas psiquiátrico e psicológico é o que vemos assinalado. Querer recuperar ou corrigir um menor atuando somente sobre ele. "São incapazes de testar os que ao testar não estejam em perfeito juízo”.197 no limite de idade. uma vez atingida a maioridade. constitui uma grave falha psicopedagógica. Muitos exemplos podem ser citados. embora essa legislação não permita um adequado desenvolvimento da assistência ampla. mas apresenta graves alterações do juízo. mas apresenta distúrbios em uma esfera psíquica tão elevada que difícil se toma ao leigo. aos menores. pois os fatores familiares e sociais desempenham papel ainda mais decisivo na criança e no adolescente que no adulto.

A Lei 10. zelando inclusive. exige-se que o . sob pena de prejudicar as mais bem intencionadas das assistências. interpretação analógica da Constituição Federal. É claro que devemos levar em consideração algumas peculiaridades do nosso meio. quando determina que não haverá pena de caráter perpétuo. Para ser imputável." Por outro lado. e que o tempo de prisão não excederá 30 anos. A assistência ao menor é. Outro entendimento é no sentido de que na internação compulsória poderá ser até de até 30 anos. NOÇÕES DE IMPUTABILIDADE E INIMPUTABILIDADE: A imputação de uma pena pressupõe que o agente do fato (autor) seja capaz de compreender o caráter de sua conduta ou de agir de acordo com esse entendimento. pois no Brasil muito se tem que fazer ainda por eles. uma tarefa psico-higiênica e como tal deve ser empreendida e servir de base a uma política de assistência aos menores bastante eficaz. pela segurança de todos os cidadãos. Existem entendimentos jurisprudenciais no sentido de que o tratamento não poderá exceder o tempo da pena cominada ao delito cometido. 114. o Poder Público tem a função de proteger os direito dos indivíduos e o dever de garantir a ordem pública e a paz social.216/01 dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. CAPÍTULO XIX APÊNDICE FINAL 113. INTERNAÇÃO INVOLUNTÁRIA : O Estado Moderno. dada a extensão do conceito. Então poderemos pôr mãos à obra. sendo determinado pelo Código Penal o intervalo de um a três anos. isto é.198 15% são o que podemos chamar criminosos precoces que desde a primeira infância apresentam os sinais mais diversos de abandono moral. antes de tudo. que não toque no seu elevado sentimento de liberdade. bem como algumas das mais recentes aquisições no conhecimento do problema dos menores. O artigo 96 do Código Penal determina que o tratamento deverá ser feito em hospital de custódia e tratamento. O prazo deve ser estabelecido pelo Juiz que aplica a medida. toda atuação sobre o menor deve ser feita de tal maneira que não seja recebida como "castigo" ou "imposição". através da internação voluntária. . involuntária e compulsória – judicial. para receber um juízo de reprovabilidade. sendo que o presídio não pode ser considerado estabelecimento adequado para tratar doente mental.

mas sim.199 indivíduo tenha uma estrutura psicológica que lhe permita entender a ilicitude de seu ato. É de se esperar que o legislador. ou seja num hospital psiquiátrico-forense por um período de 45 dias. marcada por uma certa demonização da violência. Por fim. A JUSTIÇA TERAPÊUTICA: UMA NOVIDADE: No Brasil. até o momento ainda não bem compreendido por uma sociedade em busca do castigo. o caminho a seguir será não o de castigos alternativos. deverá ser internado em local adequado. 115. de ofício ou requerimento do Ministério Público. 26. quando houver dúvida sobre a integridade mental do acusado. a submissão do exame mental. O Estatuto da Criança e do Adolescente veio colocar fim às ambigüidades existentes a proteção e a responsabilização do adolescente infrator. Do ponto de vista jurídico-processual-penal. com os quais sempre coexistiram as idéias de redução da maioridade penal como fórmula de combate à criminalidade. mas o de alternativas ao castigo. no futuro. possa incorporar novos conceitos posto à disposição da ciência jurídica e de seu aperfeiçoamento. caput CP). REDUÇÃO DA MIORIDADE PENAL: UMA QUSTÃO RECORRENTE: O estudo da redução da imputabilidade penal traz implícita a sensação de que não é possível prescindir do questionamento acerca do direito de punir. Da história da inimputabilidade penal do adolescente surgiram os antigos Códigos de Menores e o atual Estatuto da Criança e do Adolescente. criando um complexo de responsabilidade. qualquer modalidade de intervenção só legitimará se for expressão de um ato pedagógico e de um gesto de amor. Assim. A Psicologia Jurídica não tem por tarefa questionar a lei. tema de permanente recorrência na sociedade moderna. Justiça Terapêutica é uma expressão que conjuga os aspectos legais e sociais próprios do direito (Justiça) com a relação de cuidados. houve estudos pioneiros sobre a justiça terapêutica. O exame poderá ser ordenado pelo juiz na fase do inquérito policial. (Art. as discussões a favor e contra a redução da menoridade penal são ferrenhas e envolvem pontos de vista significativos para a psicologia. Nosso ponto de vista vai se tornando cada vez mais claro no sentido de que. Se o acusado estiver preso. características das intervenções de orientação e reabilitação de uma situação . mais do que movimentos radicais pela redução da idade penal. o juiz ordenará. que deve prevalecer até sua revogação. curativa e de reintegração do indivíduo na sociedade. 116. embora possa impulsionar avaliações críticas e reflexivas. A medida de segurança não tem finalidade punitiva.

inclusive para atos semelhantes. . determinando um claro limite ao poder jurisdicional. ainda existe uma tendência de “criminalização da vítima”. desde que as infrações sejam praticadas sem violência ou grave ameaça. da ciência da vitimologia para ampliar o conceito de que a vítima é também culpada por ter contribuido para o delito ou acidente. atende aos princípios constitucionais que gravitam em torno da dignidade da pessoa humana. que podem se expressar das mais variadas formas: físicas. psicológicas. a justiça terapêutica. onde devem questionar sempre os fundamentos em que se baseia a própria sociedade. sua dinâmica familiar e a rede social de apoio. e partindo do pressuposto da adesão voluntária. suas características de personalidade. QUEM SE PREOCUPA COM A VÍTIMA?: Outra questão de fundamental importância.. a elaboração de um diagnóstico e de um plano de atendimento global. O programa de justiça terapêutica pressupõe a integração de disciplinas. Por isso. sexual etc. em relação ao estudo da vítima. pois muitas vezes é co-responsabilizada pelo fato. preocupação de todos. Reflete uma visão conjunta do direito com a psicologia e traduz-se como um novo enfoque para o enfrentamento do problema de sujeitos em conflitos com a lei. A revitimização pode assumir várias formas. por isso uma missão de difícil execução. No âmbito processual. a sua desvalorização e a sua culpabilização pelo evento. artificiosamente. que leve em consideração aspectos constitutivos de personalidade do agente. essa violência pode acontecer dentro da própria família ou fora dela. Trata-se de um artifício de defesa do verdadeiro réu que. tanto dos psicólogos. quanto dos operadores judiciais. abuso e dependência de drogas. muitas vezes. principalmente para o entendimento dos processos de revitimização. desde a minimização do sofrimento até a evitação da pessoa da vítima. Violência de diversos tipos. Esse modelo de justiça proporciona ao infrator cuidados de restauração da saúde em substituição à persecução acusatória do Estado. A CRINAÇA E A VIOLÊNCIA: Qualquer pessoa pode ser vítima de violência. quanto do direito. O simples fato de a Psicologia Jurídica se preocupar com a vítima pode contribuir para melhor compreensão da vitimologia. se utiliza. e que o infrator esteja com dificuldades relacionadas com o uso. Embora o princípio da reserva lega não permita a imposição de penas que não estejam previamente estabelecidas no ordenamento legal. que fica sempre jungido à lei. configurando uma perspectiva moderna de enfrentamento da problemática relação entre uso de drogas e crime. há necessidade de um olhar atento tranto da psicologia. 118.200 (tratamento). recaindo sobre ela acusações como se estivesse “sentada no banco dos réus”. 117. sua capacidade de resposta ao evento traumático e suas competências psicossocias capazes de estabelecer conseqüências distinta.

120. e os pedidos. a partir de uma ação formalmente ajuizada. Sabese que os efeitos mais prejudiciais da violência costumam ser de natureza psicológica. podem estender a . Por outro lado. a separação e o divórcio implicam também um processo psicológico que corresponde a um conjunto de sentimentos. se sentem perplexos e imobilizados. que têm a missão de julgar. as questões são prementes e exigem ações rápidas de profissionais que. o homem é um cidadão de dois mundos (ser e dever-ser). fazem com que não se consiga ver aquilo que está perto e que faz sofrer. como é o caso das crianças. Conclui-se que há necessidade do esforço de todos. São dois mundos pelos quais transitam o mesmo sujeito. divórcio. deparar-se com o abuso sexual infantil é um fato que vai se tornando cada vez mais freqüente. Dentro do Judiciário. e por isso os acontecimentos lhe afetam de muitas maneiras diferentes. ABUSO SEXUAL INFANTIL: Para os profissionais que trabalham com crianças. amigável ou litigiosa. O processo psicojurídico de separação e de divórcio inicia com uma crise conjugal na relação entre marida e mulher. A questão é de se saber se existe associação entre o tipo de maus-tratos sofridos na infância e formas específicas ou inespecíficas de desordens de conduta ou delinqüência futura. um procedimento judicial que envolve um conjunto de atos destinados a resolver um conflito legal. para a qual a única alternativa é a ruptura judicial.201 A violência é excepcionalmente pesada para quem tem menos recursos para resistir ou dela escapar. padastro etc”. “Casos de incestos. A literatura sobre o abuso e maus-tratos na infância tem reforçado a importância do papel da família na formação do indivíduo e na sua predisposição para conduta violenta ou delinqüente. isto é. pode ficar a dúvida se os sinais percebidos – as provas – são mesmo indicadores suficiente do abuso. pensamentos e comportamentos destinados à resolução do conflito emocional de duas pessoas. das instituições e do próprio Estado. As emoções muitas vezes enganam a percepção. que conterá a exposição de determinados fatos. A violência do abuso sexual é diferente. cujas conseqüências. família. Este é o sofrimento da perplexidade e da impotência. A SEPARAÇÃO OU DIVÓRCIO DOS PAIS: EFEITOS SOBRE OS FILHOS: Processo psicojurídico: Direito e Psicologia abordam o comportamento humano. natureza e cultura. por exemplo. das mulheres e dos idosos. ser e dever-ser. implicam um processo jurídico. muitas vezes. De fato. Separação. pois envolve um segredo familiar (e social). O Direito regido pelo princípio da finalidade e a Psicologia organizada pelo princípio da causalidade. porém fazem-no sob ângulos e perspectivas diferentes. o embasamento legal. Para os profissionais do direito. Para ver é necessário estar preparado para enfrentar as emoções que a realidade espera. 119. por sua natureza. guarde de crianças.

de modo que a crise conjugal se dimensiona como uma crise familiar. A persistência da vítima em punir o agressor forçou as autoridades a olhar a violência doméstica e os procedimentos judiciais com mais atenção. para tentar obter a reforma do veredicto desfavorável aos interesses de seu cliente. que colaboraram demasiadamente para a morosidade da Justiça. Uma novidade na legislação acerca da violência doméstica. os advogados devem conhecer todos os pontos sobre o quais se baseou a sentença do Juiz e. Eis uma pergunta difícil de responder. Por certo. Do ponto de vista jurídico. encontra-se a perícia . mediante recursos jurídicos. Entre outras formas de avaliação psicológica.340/06 leva o nome de um caso real e trágico. devem proceder a uma profunda reflexão antes de executar a Lei. “dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência e Familiar contra a Mulher” e “estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar”. 122. principalmente os filhos. incluindo os fundamentos da intervenção psicológica. Duas semanas depois de regressar do hospital. o processo envolve interesses em conflito. na qual o psicólogo emprega seus conhecimentos para esclarecer o funcionamento da personalidade de uma pessoa. Ente a prática dessa dupla tentativa de homicídio e a prisão do criminoso transcorreram 19 anos e 6 meses. que “cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher”. todos os pontos da demanda. LEI MARIA DA PENHA: A violência é um ponto importante a destacar na medida em que a agressão se une às relações afetivas. 121. A tentativa de homicídio deixou como seqüela permanente uma paraplegia nos membros inferiores. que se consubstanciam na lide. Por isso os operadores do direito. estão psicologicamente preparados para enfrentar os conflitos familiares e as conseqüências decorrentes da separação ou do divórcio de sus pais. especialmente as crianças. a biofarmacêutica Maria da Penha foi vítima de violência doméstica praticada por seu exmarido. paradoxalmente. ainda durante o período de recuperação. têm o direito e o dever profissional de contraditar. na demanda ou na disputa. A pergunta lógica que cabe fazer é se os filhos. alegando uma tentativa de roubo. A Lei 11. Em 1983. num instrumento de opressão para quem pretende justamente proteger.202 outras pessoas. responsáveis pela interpretação e pela aplicação da lei. a Lei Maria da Penha. graças aos procedimentos legais e instrumentos processuais brasileiros vigente à época. AUTÓPSIA PSICOLÓGICA: Uma das técnicas mais importantes para o entendimento do comportamento humano é a avaliação psicológica. sob pena de transformá-la. pretensões resistidas. seu ex-marido tentou eletrocuta-la enquanto se banhava. que disparou contra ela enquanto dormia.

A Psicologia Jurídica. Esse procedimento é considerado como um processo de coleta de dados do periciado que permite reconstruir seu perfil psicológico e o estado mental antes do fato juridicamente questionado. a inauguração de um novo território epistemológico. no amplo espectro de suas contradições. A Psicologia Jurídica é importante para o Direito. o que se exige é a passagem à fidelidade. mas das razões psicológicas que podem estar associadas à morte. securitário e infortunísitco. . Se a resposta for não. por fim. CONSIDERAÇÃO FINAL: a Psicologia jurídica. mas cujo conhecimento é de interesse ou de utilidade judicial. que é o homem e seus conflitos. Portanto. na ordem e na cultura. emoção e criatividade. à humanidade e aos direitos do homem. A aproximação entre direito e psicologia é uma verdadeira questão de Justiça. mas essencial à Justiça. Isso exige lidar simultaneamente com sentimento e com a liberdade do homem que sofre e que. A Psicologia Jurídica. as leis e as instituições. como disciplina ainda por fazer. ambos compartilhando o mesmo objeto. uma compreensão transdiciplinar do homem e da sua conflitualidade. antes de embaraçar nesta viagem. além de um traçado científico. o sujeito deve questionar se esse caminho. Fidelidade à razão e às leis. civil. Ela pode ter lugar em matéria de direito penal. A Psicologia Jurídica. trabalhista. ele haverá de procurar outra direção. Na verdade. de um modo geral. de não ser indigno daquilo que a humanidade fez de si e de nós. pelo menos. pode auxiliar e compreender o “homo juridicus”. um tipo de perícia que se denomina Autópsia Pasicológica. Trata-se. possui também uma coração. está irremediavelmente marcado por sua inscrição na lei. unindo razão. poderá representar essa nova leitura. constitui uma aventura. poderá ajudar o direito a cumprir sua imensa responsabilidade com a justiça. A Psicologia. particularmente. precisa-se do direito e da psicologia. às Luzes e à tradição. Fidelidade. ao amor da verdade e ao amor do amor. É razoável considerar que o desconhecimento do Psicologia Jurídica insere-se entre as causas do erro judicial.203 psicológica e. em particular. não do ponto de vista médico. O que sem dúvida devemos examinar é a parte maior e mais elevada dessa ciência que nos conduz a uma contemplação mais factível da idéia do bem. os outros e a si próprio. Serve para esclarecer os aspectos psicológicos de uma pessoa que já faleceu. pode permitir ao homem conhecer melhor o mundo. para se chegar à Justiça. 123. Diante da necessidade de uma conexão ética com uma sociedade em busca de valores. A autópsia psicológica destina-se a esclarecer casos de morte duvidosa.

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