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Romantismo

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Romantismo
O romantismo, mais do que uma revolução literária, marcou uma mudança na maneira de se olhar para os problemas da vida e do pensamento. Esse movimento, que repercutiu desde a segunda metade do século XVIII até a segunda metade do século XIX, é fruto de uma revolução histórico-cultural que abrangeu ³a filosofia, as artes, as ciências, as religiões, a moral, a política, os costumes, as relações sociais e familiares, etc.´ (Massaud Moisés, 2008, p. 169). Vejamos, resumidamente, quais foram essas transformações: ‡ Revolução Industrial; ‡ Burguesia em ascensão; ‡ Definem-se as classes: a nobreza, a grande e a pequena burguesia, o velho campesinato, o operariado crescente; ‡ Diminuição do poder das oligarquias reinantes em favor das monarquias constitucionais ou das repúblicas federativas; ‡ Aparecimento do Liberalismo em política, moral, arte, etc. ‡ A aristocracia de sangue aos poucos sede espaço na pirâmide social à burguesia, invertendo os papéis e estabelecendo uma nova escala de valores, marcada pela posse do dinheiro e não mais pelo famoso ³sangue azul´. ³Segundo a interpretação de Karl Mannheim, o Romantismo expressa os sentimentos dos descontentes com as novas estruturas: a nobreza, que já caiu, e a pequena burguesia que ainda não subiu: de onde, as atitudes saudosistas ou reivindicatórias que pontuam todo o movimento´ (Bosi, 2006, p. 91). ‡ Domínio amplo das formas burguesas de viver e pensar; ‡ Profissionalização do escritor: ser escritor torna-se uma profissão remunerada (desaparecem os mecenas), e a relação com o público muda. O escritor produz, e o leitor paga para consumir. Temas literários: ‡ Revolta contra as regras, modelos e normas neoclássicas em defesa da total liberdade da arte. Os românticos propagam a ³impureza´ dos gêneros literários, misturando-os; ‡ Em lugar do equilíbrio clássico, preferem o caos; ‡ Substituição da visão macroscópica da arte, ou seja, do universalismo clássico, por uma visão microscópica, centrada no ³eu´. Daí o subjetivismo e individualismo que contamina a arte romântica. Nas palavras do crítico Massaud Moisés, ³à semelhança de Narciso, o romântico contempla a si próprio, como se estivesse permanentemente voltado para um espelho real ou imaginário, e faz-se espetáculo de si próprio´ (2008, p.169). Sendo assim, a realidade é captada pelo romântico por meio de seu prisma pessoal; ‡ Ao culto da Razão, os românticos opõem a emoção, as razões do coração, substituindo o racionalismo pelo sentimentalismo; ‡ A insatisfação com o mundo é uma das constantes dos artistas românticos. Idealizadores, não se adaptavam à realidade, rebelando-se contra ela, por meio de atitudes revolucionárias, ou buscando a fuga, num escapismo que se projetou de diversas formas: morbidez, desejo de morrer, vida boemia, culto da solidão, gosto pelo passado, lugares exóticos e longínquos; ‡ Imerso no seu caos interior, o romântico desenvolve os sentimentos de melancolia e tristeza. O tédio repetido conduzia-o à angústia e ao desespero: é o chamado ³mal do século´; ‡ Em seu escapismo, o romântico recorre, assim como os árcades, à Natureza. Porém, no Arcadismo, ela é apenas decorativa, enquanto que no Romantismo ela é expressiva, individualizada, personificada, atuando como reflexo do estado de espírito do ³eu´ do poeta, pois este a toma como confidente e consoladora de suas amarguras. Nos escritores românticos ³o universo fictício constitui prolongamento do seu

lugares exóticos. e de O Mulato. que julgam perdidos para sempre na sociedade em que vivem. Recife e Rio de Janeiro (Macedo. Os nossos narradores iam aclimando à paisagem e ao meio nacional os esquemas de surpresa e de fim feliz dos modelos europeus. que precisa se redescobrir.. sendo. encontrando uma identidade própria. o escravismo e a economia de exportação. Gonçalves Dias. Castro Alves. Bosi (2006. Alencar. uma trama rica de acidentes bastava para um bom romance. de Aluísio Azevedo. lirismo. a Natureza deformada pelas suas emoções. a cor local. portanto. Pra esses leitores. Pedro II deu grande apoio às pesquisas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (criado nos fins da Regência. mítico e lendário. As exigências mais fortes desses leitores eram ³reencontrar a própria e convencional realidade e projetar-se como herói e heroína em peripécias com que não se depara a média dos mortais´. ‡ Na necessidade de se criar um passado heróico. Pedro Luís). de uma história em comum que nos . no romantismo. e filhos de comerciantes luso-brasileiros e de profissionais liberais (Pereira da Silva. enfim. o sentimento nacionalista. 128-129) afirma que ³O romance romântico brasileiro dirigia-se a um público mais restrito do que o atual: eram moços e moças provindas das classes altas e. Sendo assim. 92) ³O romance colonial de Alencar e a poesia indianista de Gonçalves Dias nascem da aspiração de fundar em um passado mítico a nobreza recente do país´. um tipo de leitor à procura de entretenimento´. Vigny)´ (Bosi. restos de civilizações. na antiga colônia. 2006. ‡ Sobre o público a que se dirigiam os escritores do Romantismo. medievalismo. Descontentes com seu próprio tempo. 95). ³que assume dimensões titânicas (Shelley. por Gonçalves de Magalhães. Sílvio Romero). ‡ Diferentemente do contexto europeu.2 ego´ (Massaud Moisés. o Brasil. médias. povos estranhos. que substituiu nas literaturas americanas a figura do cavaleiro medieval da literatura europeia. obras que inauguraram o Realismo e o Naturalismo. Término do Romantismo no Brasil: Seu fim. fruto de uma necessidade de autoafirmação da pátria. Joaquim Norberto. de Machado de Assis. por sua vez. é marcado pelas publicações de Memórias Póstumas de Brás Cubas. o passado histórico. p. eram os profissionais liberais da corte ou dispersos pelas províncias: eram. como Teixeira e Sousa e Manuel Antônio de Almeida. uma tradição que sustentasse o entusiasmo nacionalista descobriu-se o índio. Álvares de Azevedo. p. egresso do colonialismo. p. Franklin Távora. Foram raros os casos. 0 identificasse enquanto povo de uma mesma Nação. ‡ Os escritores românticos também são responsáveis por reinventar o heroi. Wagner) sendo afinal reduzido a cantor da própria solidão (Foscolo. é também aspecto do escapismo romântico. pureza. ainda era uma jovem (acabava de conquistar sua independência) nação agrária. tendo como características dessa economia o latifúndio. 171). Bernardo Guimarães. em 1836. ‡ O gosto pelo passado. 2008. excepcionalmente. costumes. ‡ Quem eram os românticos? Os intelectuais brasileiros do período romântico eram filhos de famílias abastadas do campo. respectivamente. que iam receber formação jurídica (quase nunca médica) em São Paulo. etc. Fagundes Varela. p. Segundo Alfredo Bosi (2006. Os escritores valorizavam os temas nacionais. ‡ Com a emancipação política do Brasil passa a surgir. ainda não havia se desenvolvido no Brasil o binômio urbano indústria/operário. em 1838) em busca do nosso passado. Poesia romântica: Romantismo ± Brasil Início do Romantismo no Brasil: A publicação de Suspiros Poéticos e Saudades. por ruínas. de escritores de origem humilde. espiritualismo. Casimiro de Abreu. os românticos buscam no passado os valores. foi considerada pela historiografia literária o marco inicial do Romantismo Brasileiro.

sobretudo do Rio de Janeiro. morte. Principais escritores: Álvares de Azevedo. Gonçalves de Magalhães. Sousândrade. religiosidade. a Niterói. volta ao passado histórico. tomado como símbolo e elemento formador da nacionalidade. Tobias Barreto. etc. Taunay. ‡ 2. Magalhães provou sistematicamente os ideais do novo movimento e o repúdio aos modelos . Gonçalves de Magalhães fundou. costumes e instituições. políticos e sociais. sendo o responsável pela nossa primeira publicação romântica: Suspiros poéticos e saudades (1836).ª Geração Romântica (Principais Poetas) Gonçalves de Magalhães: Gonçalves de Magalhães é considerado o introdutor do romantismo no Brasil. previsíveis). ‡ 3. Fagundes Varela. medievalismo. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político-social. tais como o Nordeste. Manuel Antônio de Almeida. águia que habita o alto da cordilheira dos Andes. o Pantanal Mato-Grossense. Junqueira Freire. a fim de idealizá-lo. Representada por: Castro Alves.ª Geração (condoreira. libertária): Geração que apresenta tendências do Realismo. Volta-se para a caracterização exterior das personagens: atos.3 ‡ 1. ou para o passado lendário. negativismo boêmio. visava à construção de um heroi mítico nacional na figura do índio. Principal representante: José de Alencar. comunhão entre a natureza e os sentimentos das personagens. intenção moralizante). elevação de sentimentos e nobreza de caracteres (triunfo do bem. Em Paris. juntamente com Porto Alegre.ª Geração (mal-do-século. social. Bernardo ‡ Romance regionalista: Explora as paisagens e costumes de regiões do interior brasileiro. detalhes de costumes e de cor local. gestos. também em 1836. ‡ Romance urbano: Fotografa com fidelidade os ambientes. Destacam-se nessa vertente: José de Alencar. revista brasiliense. Destacam-se: José de Alencar. Seu livro e data de publicação foram escolhidos pela história da literatura como marco inicial do movimento romântico brasileiro. ultra-romantismo): Exagero na exposição dos sentimentos. costumes e tipos humanos extraídos da burguesia. Contudo. individualismo. Principais escritores: Gonçalves Dias. Araújo Porto Alegre. Sales Torres e Pereira da Silva. pessimismo. daí ser conhecida como geração hugoana. ‡ Romance indianista: Diretamente relacionado ao romance histórico. 1. O termo condoreirismo é consequência do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor. Destacam-se: José de Alencar. roupas. Casimiro de Abreu.ª Geração (indianista ou nacionalista): Valorização da natureza e da figura do índio como heroi nacional. Franklin Távora. o Sertão de Minas e de Goiás. Ficção romântica Características gerais: maniqueísmo. seus hábitos. Guimarães. Joaquim Manuel de Macedo. tédio. ‡ Romance histórico: Volta-se para o passado histórico remoto. cenas. os Pampas Gaúchos. diálogos. por introduzir uma literatura mais voltada para os problemas regionais. essa volta ao passado não possui pretensões analíticas. Nesta revista. egocentrismo. palavras. Bernardo Guimarães. pois ela se restringe apenas a reproduzir o clima da época. complicação sentimental (final feliz retardado por situações adversas). linearidade das personagens (estereotipadas.

e de esperanças em Deus. Reparem no nacionalismo. pois ainda que teorizasse como romântico. Outros Uma das coisas vinculadas pela revista foi o ensaio redigido por Gonçalves de Magalhães ³Sobre a História da Literatura do Brasil´. sobretudo o Modernismo. Magalhães foi apelidado como ³O Romântico Arrependido´. O prólogo de Suspiros Poéticos e Saudades é considerado o primeiro manifesto teórico do nosso Romantismo. fundamentando as bases de uma poesia realmente brasileira. continuava escrevendo com influência da cartilha clássica. É de Gon çalves Dias também a iniciativa de escrever. 105). de modelo para os períodos posteriores. Não é a toa que Gonçalves Dias é um dos maiores expoentes de nossa literatura indianista. cheio de amor pela Pátria. OBRA Os mistérios (1857) Fatos do Espírito Humano. espelho da consciência crítica do grupo compilador da Niterói. dubiedade não permitida pela estrutura épica.´ Porém. bem como o paradoxo que a obra de Magalhães instaura ao defender tanto o índio com o catequizador. que trata de uma retomada com algumas ampliações de toda a nossa história cultural descrita por alguns escritores estrangeiros. Tal origem parece ter influenciado na construção de uma obra que buscou conquistar uma identidade estritamente brasileira. Maranhense e filho de português com cafusa (mestiça de negro e índio). ³o mito do bom selvagem. p. 2006. nós te enviamos. que contestou a validade de uma forma já ultrapassada. ideal pátrio e religiosidade expressa nas suas últimas palavras: ³Vai [livro]. . e no futuro. poesias (1864) A alma e o cérebro. após pesquisas na Amazônia. poesias (1862) Cânticos fúnebres. de entusiasmo por tudo o que é grande. sobretudo o referente à mitologia pagã.4 clássicos. um Dicionário da Língua Tupi (1858). servindo. constante desde os árcades. segundo Alfredo Bosi. tratado filosófico (1858) Urânia. Gonçalves Dias dizia ser descendente das três raças que formaram a etnia brasileira. *Esta publicação foi motivo de polêmica com José de Alencar. Gonçalves Dias foi quem consolidou de fato o movimento. ensaios (1876) Comentários e pensamentos (1880) Gonçalves Dias: Teatro Antonio José ou O Poeta e a Inquisição (1838) Olgiato (1839) Poema épico Confederação dos Tamoios (1856). Poesia Lírica: Suspiros Poéticos e Saudades (1836) Se Gonçalves de Magalhães foi o introdutor do Romantismo no Brasil. já que com ele. inclusive. acabou por fazer-se verdade artística´ (História concisa da literatura brasileira.

Sua simpatia pelo índio deriva. o poeta versou sobre vários outros temas. Sou filho do Norte. Da tribo pujante. Guerreiros. Reparem na força do ritmo nestes versos retirados do poema ³I-Juca Pirama´ (que significa ³aquele que vai morrer´). ouvi. Que um canto d¶inspirado Tem sempre a cada aurora. De luz. O poeta soube empregar Um som longínquo cavernoso e ouco Rouqueja. ouvi: Sou filho das selvas. E trêmulo E puro Se aviva.5 Além da poesia indianista. Que agora anda errante Por fado inconstante. No ar s¶encapela Já pronta a rugir! Não solta a voz canora No bosque o vate alado. na qual está facilmente identificada a relação interdependente entre a forma e o conteúdo: Um raio Fulgura No espaço Esparso. nasci. É mudo quanto habita Da terra n¶amplidão. Guerreiros. com versos breves e bem construídos. poesia saudosista. que narra índio Tupi que é aprisionado timbiras. ainda. que. pois nesta composição o poeta faz uso desde o verso dissílabo ao extenso alexandrino. [. poesia egótica e lirismo amoroso.´ ³I-Juca Pirama´. do poeta maranhense: ³Meu canto de morte. O céu.. sou forte. é uma das características mais marcantes de sua poesia. intercalando versos curtos e longos como se reproduzisse no ritmo o aumentar e diminuir da tempestade. descendo Da tribo tupi. A coma então luzente Se agita do arvoredo. Em A Tempestade temos um inigualável exemplo deste virtuosismo. e n¶amplidão do espaço . Seduz! [. multiplicidade que comprova a riqueza temática de sua obra. Gonçalves Dias abominava-o. ao contrário de Alencar que concebia o colonizador com certa simpatia. Guerreiros. S¶esquiva Rutila. Nas selvas cresci. selecionamos alguns trechos desta obra. vendo como símbolo do terror e da exploração indígena.] Um ponto aparece.. Sentindo opresso o peito De tanta inspiração.. No que se refere à sua literatura indianista. da sua convivência com os indígenas durante parte de sua infância no Maranhão. Gonçalves difere-se potencialmente do grupo de Magalhães ao conferir à sua poesia ritmo e cadência ágeis. É importante ressaltar. E o vate um canto a medo Desfere lentamente. Sou bravo. além do fato de ter descendência indígena.. a história do pelos inimigos poema épico da litera tura sabiamente todos os metros poéticos existentes na língua portuguesa. Meu canto de morte. Que o dia entristece. De negro a tingir. produzindo poesia religiosa. em Gonçalves Dias. Oh! vede a procela Infrene. onde cresce. é considerado o indianista mais perfeito brasileira. mas bela. em contraposição aos versos mais prosaicos e menos trabalhados de Magalhães.] A expressão do ritmo. Abaixo. Guerreiros.

tendo como motivo principal o ³amor não correspondido´. Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade e ouvir um sabiá com certidão de idade! . Que da praia arreda o mar.. Pobres regatos s¶empolam. insatisfação. Eu morro sufocado em terra estrangeira.] Cresce a chuva. qu¶inda há pouco No torrado leito ardia. Entre as poesias de sua lírica amorosa destacamos ³Se se Morre de Amor´. ³Lira Quebrada´ e ³A Minha Musa´. A poesia saudosista de Gonçalves Dias é marcada pela contemplação da natureza como manifestação divina e como confidente das angústias.6 morre. Mais desbotado. individualismo. tais como pessimismo.. Que alpestres cimos mais veloz percorre. E a curva altiva Sublima ao céu. E nas turvas ondas rolam Grossos troncos a boiar! O córrego. ³O Vate´. Palpita. O poeta teve seu pedido de casamento negado pelo pai de Ana Amélia por motivos de preconceito com relação à sua cor e à sua posição social. É neste segmento de sua poesia que encontramos alguns lugares-comuns do romantismo. Inda outro arqueia. cubistas. E a base viva De luz esquiva. INTERTEXTUALIDADE: A ³Canção do Exílio´ foi tema de várias paráfrases. ² dum ponto a outro corre: Devorador incêndio alastra os ares. e dentro em pouco Do Norte ao Sul. Troveja. os sargentos do exército são monistas. os rios crescem. Exemplo clássico desta poesia é a famosa ³Canção do Exílio´. inda mai s rouco. Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.. Tal visão é analisada por parte da crítica como decorrente de uma frustração amorosa pessoal do poeta. sentimentalismo. Mais grossa Hesita. [. estoura. Nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia.] A folha Luzente Do orvalho Nitente A gota Retrai: Vacila. Na poesia lírico-amorosa o tema do amor é tratado de maneira pessimista e trágica. [... A gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos.] Nas águas pousa. É já torrente bravia. entre elas está a de Murilo Mendes. Quase apagado. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista. Enquanto a noite pesa sobre os mares. que faz uma sátira da europeização da nossa terra e cultura: Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturamos de Veneza. E treme E cai. atroa. Como embotado De tênue véu. os filósofos são polacos vendendo a prestações. [. saudades e solidão do poeta. Eis outro inda mais perto..

noites da montanha Que minha alma cantou e amava tanto. à autocomiseração. do fumo e do sexo). ainda. intimismo. Que o espírito enlaça à dor vivente. Outros termos utilizados para se referirem à segunda geração romântica é ³ultraromantismo´ e ³byronismo´. Essa combinação de sentimentos foi denominada ³mal-do-século´ (mal du siècle). O crítico Alfredo Bosi (História consisa da literatura brasileira) fornece-nos um Segunda geração romântica ± Álvares de Azevedo Nos anos seguintes ao amadurecimento da tradição literária nacionalista. Se um suspiro nos seios treme ainda. individualismo e idealismo preconizados pelo Romantismo. Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto. e escrevam nela: Foi poeta . O poema acima. egocentrismo.. modalidade tipicamente romântica. melancolia.Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro. o poento caminheiro . é um exemplo disso. pessimismo e angústia. A melancolia e a presença constante da morte são temas que percorrem toda sua poesia. Sombras do vale.. a poesia brasileira começa.] Se uma lágrima as pálpebras me inunda....e amou na vida. produzindo não uma tragédia. [. por vezes. voltada para o vício e os prazeres da bebida. no que chamamos de segunda geração romântica. Lembranças de morrer Quando em meu peito rebentar-se a fibra. Onde o fogo insensato a consumia: Só levo uma saudade .. a se enviesar por terrenos de extremo subjetivismo. O primeiro se deve ao fato de essa geração do romantismo ter levado ao extremo (e. Por fim. O segundo termo se deve ao fato de os poetas da segunda geração romântica adotarem um estilo de vida inspirado na vida e na obra do poeta inglês Lord Byron (a saber: vida boêmia.. à maneira dos cancioneiros medievais. mas um drama. levada. muitas vezes.. dúvida e ironia. [.7 Além dessas. Os poetas desse período conduziram ao extremo a concepção romântica de exacerbação da sentimentalidade. poesia erudita. O byronismo é caracterizado pelo narcisismo. Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente. É pela virgem que sonhei. Entre as características de suas poesias estão o egocentrismo. desilusão adolescente.] Álvares de Azevedo foi o escritor mais bem dotado da segunda geração romântica. um dos mais conhecidos e citados. até ao ridículo) os ideais de subjetividade. quase sempre. tédio.. À sombra de uma cruz. Gonçalves Dias produziu. entusiasmo e tédio. satanismo.. pessimismo. tomando como principais eixos temáticos: amor e morte. erotismo difuso e obsessivo e negativismo boêmio. desejo de evasão. foi por ti! e de esperança De na vida gozar dos teus amores.é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia. Protegei o meu corpo abandonado.] Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida. o teatro do poeta maranhense rompe o padrão clássico. os poemas são escritos em português arcaico.sonhou . a fantasias mórbidas e. Se viveu. Como o desterro de minh'alma errante. E no silêncio derramai-lhe canto! [. que nunca Aos lábios me encostou a face linda! Só tu à mocidade sonhadora Do pálido poeta destes flores. Álvares de Azevedo (1831 ± 1852) . Na obra ³Sextilhas de Frei Antão´. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento.

É Ela. A primeira e terceira parte dessa obra revelam um Álvares de Azevedo casto. sentimental... Mas no meu peito Lábio de morte murmorou ± É tarde! Outra tendêcia temática do poeta é a que se refere a uma atmosfera de sonhos e evasão. tremendal sem fundo. Eu morro! eu morro! Leviana sem dó. Nela. Pousa a mão no meu peito. sem cor. Para Bosi. O vídeo abaixo é de uma cena da novela transmitida em 2005 pela Rede Record ³Essas mulheres´. alguns dos mais belos versos de Ávares de Azevedo ³são versos para a morte´. irônicos. leito pavoroso. idealista.. Mas. noite lutulenta. com a qual se cessariam todas as suas angústias: ³A dor no peito emudecera ao menos/ Se eu morresse amanhã´ (Se eu morresse amanhã).. bem como para a maioria da crítica.. só terá para ele solução na morte. Todo esse negativismo e pessimisto que assola a alma do poeta.. Leviana sem dó. pálidas crenças. contraditoriamente. deserto lodaçal. e. com tendências mais liberais. até mesmo. negros devaneios. tênebras impuras. É na segunda parte da Lira.. mais prosaico. por que mentias?1 . que se desenvolve num paradoxo típico do amor idealizado: o medo de amar impede-o de amar. astro nublado. tábuas imundas. Diante da frustração de não viver o amor profundamente desejado. por que mentias? Sabe Deus se te amei! sabem as noites Essa dor que alentei. uma espécie de auto-ironia. Qu¶esperanças. temos o contraste entre o sonhar o amor. fúnebre clarão. a bela virgem (única esperança e motivo que o mantém vivo) e a não realização desse amor. Por fim. Vale ressaltar que o tema do amor e o retrato da amada são quase sempre tratados por Álvares de Azevedo com especial erotismo.. Mas algo bastante curioso e particularizante da obra de Álvares de Azevedo é que ela parece estar fundamentada em um projeto literário baseado na contradição. É Ela.8 apanhado léxico da obra do jovem Álvares que retrata esse estado depressivo da existência: ³pálpebra demente.. É Ela. que tu nutrias! Sabe este pobre coração que treme Que a esperança perdeu porque mentias! Vê minha palidez: a febre lenta. por conter versos de crítica jocosa ao amor romântico (ex. Por tua causa desespero e morro. sem viço. matéria impura. meu Deus! E o mundo agora Se inunda em tanto sol no céu da tarde! Acorda. São exemplos dessa vertente os contos macabros de A Noite na Taverna e alguns versos febris de O Conde Lopo e do Poema do Frade. e minha vida Tu vias desmaiar. ainda.. desespero pálido. Traços de satanismo também se encontram na vasta e diversificada obra desse tão jovem poeta (Álvares de Azevedo morreu de tuberculose aos 21 anos). a segunda parte.. Este fogo das pálpebras sombrias. leviana e bela. Namoro a cavalo). anjo macilento´. Por que mentias.. tomado de contradições e medos adolescentes. produção esta que nos legou alguns dos mais belos versos escritos em língua portuguesa. traços precursores do modernismo. face macilenta. enganosas melodias. em sua obra. a juventude configurase para o poeta como uma fase. Tais características levou alguns críticos a considerar que Álvares de Azevedo já apresentava.. água impura. que vemos desenvolver um verso mais solto. revela-nos traços mais irreverentes. Relacionando-a à temática romântica do amor idealizado. Se minha face pálida sentias Queimada pela febre?. à curta duração da vida do poeta contrapõe-se a intensidade de sua produção literária. coração!. longo pesadelo. por que mentias? Acordei da ilusão! a sós morrendo Sinto na mocidade as agonias. o ator Fernando Seixas declama um belo poema de Álvares de Azevedo intitulado Por que mentias?.: O Poeta Morimbundo. surpreendentemente.. boca maldita. Esse dado fica bastante evidente na principal obra do poeta: Lira dos Vinte anos. como estes do poema Virgem morta.

há quem o admire justamente pela simplicidade de suas composições. .engoliu-te o temporal do norte! Teto. Da mesma forma. Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor. Casimiro de Abreu caiu no gosto do público pelo seu verso fácil e cantante. são exímio retrato dessa temática da saudade. essa temática é desenvolvida sem muita profundidade. Apesar disso ser alvo de fortes críticas ao poeta. retirados de seu mais famoso poema. sendo marcada pelos impulsos emotivos de um jovem adolescente. Fagundes Varela (1841 ± 1875) Cântico do calvário ³Eras na vida a pomba predileta Que sobre um mar de angústias conduzia O ramo da esperança. O amor também não escapa à pena do poeta. O poeta ama e até é amado. Com o lirismo bucólico de sua fase mais madura. tendo publicado um único livro de poesias: As Primaveras (1859). Eras a glória.varou-te a flecha do destino! Astro. Eras o idílio de um amor sublime. a pátria. Os versos que transcrevemos mais acima.Ah! no entanto. mais do que seus contemporâneos. já deixado de lado pelos românticos de seu tempo. que flores. pelo espírito de exaltação nacionalista. com os quais. o condoreirismo tão bem desenvolvido futuramente por Castro Alves.Crença. Pomba. sem grandes complexidades filosóficas ou psicológicas. Morre aos 21 anos.outros poetas Casimiro de Abreu (1839 ± 1860) Meus oito anos ³Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida. Teve uma curta produção literária. o que faz com que seus versos sejam de uma inocente ingenuidade e simplicidade. correi. o poeta descreve os costumes e os modismos da roça. Pelo ritmo musical de seus versos. oh! lágrimas saudosas. bem como pela ascessibilidade de sua linguagem. que sonhos. No entanto. já precedia.]´ Poeta da segunda geração romântica de menor destaque. as poesias de Casimiro de Abreu agradavam mais aos leitores menos exigentes. Mas. o poeta também fixou o mito do paraíso americano da liberdade em ³Vozes da América´. inclusive o do índio.caíste!. já não vives! Correi. Debaixo dos laranjais! [. tuberculoso. o que fez dele o poeta romântico mais popular de sua geração. Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras. o escravo´. que retrata a sua relação com a virgem desejada como um jogo de amor e medo. Dúbios archotes que a tremer clareiam A lousa fria de um sonhar que é morto!´ Fagundes Varela explorou todos os temas românticos. Eras a messe de um dourado estio. Varela também foi precoce em introduzir o tema do negro. tornando-o o poeta mais conhecido da segunda geração romântica.9 Segunda geração romântica . O tema mais constante de sua poesia foi a saudade da pátria longínqua. a inspiração. Mas o melhor da produção literária de Fagundes Varela encontra-se nos versos voltados para a dicotomia cidade/campo. . da infância e da família. em ³Mauro. só aprofundado mesmo na futura geração romântica. terreno em que sua obra alcança a completude. Eras a estrela Que entre as névoas do inverno cintilava Apontando o caminho ao pegureiro.. . O porvir de teu pai! .. mas tem medo de amar. Legado acerbo da ventura extinta. Varela é autor de versos de inspiração patriótica (³O estandarte auriverde´). .

³Mimosa´.. Pensamento gentil de paz eterna. vem. Daí seu intenso pessimismo e tristeza.] Por isso. Tu és a ausência das moções da vida. Leva-me ao nada.´ (³O porvo ao poder´. ² Dessa alma vã e desse corpo enfermo.10 São exemplos de poemas sobre esse tema: ³Antonico e Corá´. caindo. ó morte. como bem notou Alfredo Bosi. ³A Flor de Maracujá´. Castro Alves) . escrito em memória do filho que falecera ainda recém-nascido.. do prazer que nos custa a dor passada. retratam a angústia do indivíduo atado a uma falsa vocação. Deixai a terra ao Anteu. Leva-me à região da paz horrenda. fortemente centrada no ³eu´ não apresenta grandes qualidades formais. leva-me contigo. Sua única obra de poesia. pois quereis a praça? Desgraçada a populaça Só tem a rua de seu. Poema que deve ser visto à parte é o ³Cântico do Calvário´ (transcrito parcialmente logo acima).´ Terceira geração romântica ³A praça! A praça é do povo Como o céu é do condor É o antro onde a liberdade Cria águias em seu calor! Senhor!... na qual. sem nenhuma vocação e com uma sexualidade latente e reprimida.. Sua poesia. o que. Mas essa sua atração pelo campo é paradoxalmente alternada com uma intensa vida boêmia.. Morte ³Pensamento gentil de paz eterna Amiga morte. ³Inspirações do Claustro´. eu amo-te e não temo: Por isso. Varela se mostra original e particular. Sua obra pode ser mais propriamente caracterizada como autobiográfica. ó morte. no prosaico e no cerebrino. Amiga morte. em sua maioria. Os desejos carnais ardentes do poeta aparecem em seus versos como sexualidade reprimida. Tu és o termo De dous fantasmas que a existência formam. É marcante em seus versos o conflito do poeta entre a vida religiosa e a revolta com tudo o que presenciou dentro dela. vem. mais acima. Ninguém vos rouba os castelos Tendes palácios tão belos. do qual retiramos. consciência do pecado e sentimento de culpa.. finalmente. vista pelo poeta como alívio e paz eterna (como exemplo. [. para Alfedo Bosi (História concisa da literatura brasileira) significa no poeta ³a aversão radical a integrar-se no ritmo da vida em sociedade´. mas. apenas três estrofes). ³no genérico. veja o poema ³Morte´. tem mais valor de testemunho sincero das experiências do autor do que valor propriamente estético. Trata-se de uma exímia elegia composta em versos brancos. já que trata examente dos problemas do poeta com o sacerdócio. eu quero-te comigo. viveu atordoado pelo enclausuramento forçado. Tu és o nada. Junqueira Freire Junqueira Freire tornou-se monge por razões familiares. fiando aquém da síntese conteúdo-forma´ (História concisa da literatura brasileira). Seus versos.. que muitas vezes o levaram a desejar a morte.

como não podia de ser. marginalizados e negros escravos. o eu-lírico não fala a favor de si mesmo. convém que lembremos um pouco do contexto social e político que as motivaram. neste período. Esses apontamentos gerais que fizemos do poema de Castro Alves são exemplos das características mais marcantes da terceira geração romântica. os versos desse período estão voltados para os pobres. do poeta francês Victor Hugo. a rua). Esta ave. Ideias liberais. Esses ideais. mais importantes do que as suas crises existenciais internas. ainda. defensora da República e do Abolicionismo. justiça e igualdade. por isso mesmo. Outra analogia que se pode fazer com essas avessímbolo é com a ideia de liberdade. palácios) dos homens de grandes posses (que. para o poeta. que as figuras utilizadas no percurso do poema leva-nos a lê-lo de forma exaltada. diferentemente das tendências seguidas pelos poetas que o precederam. Grande é a influência. listamos abaixo as mais gerais: ‡ Poesia de fundo social. tornou-se símbolo da terceira geração do romantismo. Quer ser ouvida e. Trata-se de versos improvisados pelo poeta em um comício republicano de que participava e que fora dissolvido pela polícia. ainda. para que este também se conscientizasse de seus ideais de liberdade. é considerada uma geração de transição. Entre as principais características da poesia da última geração romântica. são chamados ironicamente de ³Senhor´) com um lugar público (a praça. Observe que esses versos em muito se distinguem do nacionalismo indianista dos primeiros poetas da escola romântica. A terceira geração do romantismo também foi chamada hugoana ou. como protesto. a democracia. A desigualdade social é colocada em pauta quando o poeta contrasta os lugares luxuosos e privados (castelos. Repare. Perceba que no poema de Castro Alves. por isso. mas do povo. o lugar público. . portanto. horizontes largos. cuja obra toma como eixo temático a liberdade. Fala dos homens e para os homens. A poesia dessa época recusa o lamento introspectivo e individualista da geração que a precede. assim como distancia-se substancialmente do individualismo mórbido e angustiante dos poetas da segunda geração romântica. incitará também à mudança o pecurso de nossa literatura. por isso. como na segunda geração romântica. e de preferência para um grande público. Entre as décadas de 1860 e 1870. Além disso. A primeira denominação é devido à forte influência que a obra de Victor Hugo exerceu nos poetas brasileiros da época. abolicionistas e republicanas se difundem entre a população mais esclarecida. Mas antes de falarmos mais detalhadamente das características que marcaram os veros dos poetas da terceira geração romântica. o poder monárquico no Basil passara por um processo de forte enfraquecimento. em alto e bom tom. por se mostrar mais preocupada com a realidade social. alcança as praças. A terceira geração romântica. para ocupar a praça. A poesia deixa de ser introspectiva. assim como a águia. Assim como essas aves. de voos altos e. condoneira.11 O poema acima pertence a Castro Alves. que pode ser associada ao alto voo. poeta do romantismo. fato que motivou-o. a igualdade social e reformas que venham a tornar o mundo melhor. aliados à fase não muito favorável do regime monárquico. ao improviso. o falcão e o albatroz. lugar onde as pessoas de menores posses (repare que o poeta os denomina ³povo´. pois nela podemos ver brotar as primeiras tendências do que posteriormente a história da literatura veio a chamar de Realismo. na qual a história da literatura situa o poeta. os poetas do período acreditavam ter eles também capacidade de enxergar mais longe e tomaram para si a missão de transmitir o que viam ao povo. o que leva o país a um clima de agitações políco-sociais. vão mudar os rumos políticos do país e. coletivo massificador) podem frequentar. pois os problemas do mundo passam a ser. o republicanismo. comum a todos e. dirigindo-se para muitas pessoas. A segunda é uma metáfora do ideais elevados dos jovens poetas: ³condor´ é o nome de uma ave que voa acima das Cordilheiras dos Andes. ‡ Há ênfase na função apelativa da linguagem. tão cara aos poetas da terceira geração.

começando. em busca de melhora. Morre um ano depois desta publicação. abusaram das hipérboles. Quer convencer o outro e. as multidões. revelaram o gosto pela frase pomposa e retórica grandiloquente. na Faculdade. Sousândrade e Tobias Barreto. A relação entre os amantes. o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça ² as lutas da Independência na Bahia. Já na adolescência. bem como pela nova condição do Brasil. para tanto. Neste período. único a ver publicado: Espumas Flutuantes. juntam-se à sua obra lírico-amorosa intensos e dolorosos versos. mais uma vez. de Caetano Veloso. a mulher passa a ser vista. considerado o maior poeta da terceira geração romântica. em negação ao amor platônico das gerações anteriores. o que o leva a amputá-lo. em suas virtudes e pecados. ³Vulgarmente melodramático na desgraça. original na obra do poeta será também os seus versos de substância amorosa pela franqueza e realismo no exprimir das paixões e desejos e na descrição erótica da mulher. Castro Alves conhece José de Alencar e Machado de Assis. ‡ A mulher deixa de ser idealizada para ser apresentada de forma concreta. Castro Alves foi inovador justamente pelo seu epos libertário. a tuberculose que se manifestara já no ano de 1863. o que levou ao desenvolvimento de ideais democráticos e o de repulsa pela ³moral do senhor-e-servo´. e acima de todas a campanha contra a escravidão´. Foi por isso chamada ³poesia de comício´. junto com o colega Rui Barbosa. antíteses retumbantes e apóstrofes violentas. agravou-se. o que leva Castro Alves a voltar para a Bahia. Além disso. que aos poucos deixava de ser puramente rural para se urbanizar. em 1871. Fortemente influenciado por Victor Hugo. o papel civilizador da imprensa. Castro Alves fez seus primeiros estudos em Salvador.12 os lugares públicos. O rompimento com Eugênia deixa o poeta desolado e. Os dois últimos acabaram sendo ofuscados pelo brilho reluzente do primeiro. na cidade que hoje leva seu nome. promove um nítido diálogo com os versos do célebre poeta baiano. Bastante debilitado. Matricula-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo. Castro Alves produzia precocemente seus primeiros versos. Para esquecer a perda. como ser carnal que é. Em viagem para o sul do país com a atriz. Estudou na Faculdade de Direito do Recife. cuida da edição de seu primeiro livro. assim falou de Castro Alves o também poeta Manuel Bandeira. Terceira Geração Romântica: Castro Alves (1847 ± 1871) Nascido no Estado da Bahia. simples e gracioso na ventura. que lhe rendeu boa parte dos seus versos líricos. acontece de fato e a atmosfera casta e divina na qual a mulher é envolvida nas gerações passadas é substituída por uma atmosfera de sensualidade e erotismo. Além disso. a insurreição dos negros de Palmares. tocável. com 24 anos. Dessa forma. hospedando-se em fazendas de parentes. Os poetas que mais se destacaram desta geração foram: Castro Alves. O samba. *Intertextualidade: O poema citado logo no início do tópico inspirou o famoso samba ³Um frevo novo´. Tinha uma vida amorosa intensa. a alcançar notoriedade. os poetas dessa geração ousaram nas metáforas. quando o poeta tinha apenas dezesseis anos. onde se juntou a Tobias Barreto e participou ativamente da vida literária acadêmica. não economiza retórica e eloquência. o poeta distrai-se em caçadas e em uma delas fere o pé com um tiro de espingarda. . na mesma turma que Rui Barbosa. da qual se pode destacar o romance com a atriz Eugênia Câmara. que começa com os versos ³A praça Castro Alves é do povo/ como o céu é do avião´. ‡ Com relação às figuras de linguagem mais empregadas.

Ao mostrar a sua bravura e coragem. pelo excesso e mau-gosto.. irmã traidora Qual de José os vis irmãos outrora Venderam seu irmão. enfim. Senhor Deus?. foi vate e profeta ao anunciar a abolição da escravatura e a instauração do regime republicano. Meus filhos . ele soube. com esses e outros recursos. é quase sempre concebido como um mulato com sensibilidades de um branco. Daí a épica retumbante de seus versos. teatros e grandes salas..13 Na poesia social. na poesia de Castro Alves. ³a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira´. Seus poemas são escritos com a intensão de serem declamados em praça pública. a de persuadir a todos da necessidade de mudança.] Cristo! embalde morreste sobre um monte Teu sangue não lavou de minha fronte A mancha original. por fado adverso. não tendo para a sociedade nenhum valor mítico. Que embalde desde então corre o infinito. Eu .. ocasionalmente. nas palavras de Manuel Bandeira.alimária do universo. as antíteses constantes. nela mesma. ao dar ao negro uma atmosfera de dignidade lírica. Ave da escravidão. o negro. verdade seja dita.. Ainda hoje são. Envolvendo-se em todos os acontecimentos históricos de sua época. Senhor! De teu potente braço Role através dos astros e do espaço Perdão p'ra os crimes meus! Há dois mil anos eu soluço um grito.. como verdadeiros discursos. segundo Manuel Bandeira. Mas o poeta baiano não foi o primeiro da literatura brasileira a tomar como herói o negro escravizado.. No primeiro. Castro Alves foi o arauto da liberdade e da justiça. De sua poesia social. Seus versos de temática social. de Steven Spielberg: Vozes d¶África Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo. por outro. Devido a isso. ao contrário do índio. da qual a oratória era a menina dos olhos. temos o continente escravizado a implorar justiça de Deus e no segundo temos o evocar dos sofrimentos dos negros em um navio que transportava escravos da África para o Brasil. Ela juntou-se às mais. as apóstrofes violentas. É essa a missão do poeta. de tom oratório e de excepcional comunicabilidade.. Onde estás. era tido como ser sem-alma. transcrevemos trechos do poema ³Vozes d¶África´ e indicamos um vídeo com uma declamação de trechos do poema ³O Navio Negreiro´ com o ator Paulo Autran e imagens do filme ³Amistad´. a de anunciar a todos o ³Novo Mundo´. humanitária e nacionalista. Castro Alves eleva o negro ao mesmo patamar do branco e do índio literário. Castro Alves atingiu ³a maior altura de seu estro´: ³Vozes d¶África´ e ³O Navio Negreiro´. ambos pertencentes ao livro Os Escravos. Basta. Abaixo.. Escolha não muito tranquila. já que o negro. por vezes. Castro Alves exibe toda a sua eloquência épica. porém. esquecendo-se. bem como suas dores e amores. destacam-se dois longos poemas com os quais. acabando em verborragia vazia.. pecando. Castro Alves o fez com o negro. Vale lembrar que o tom oratório dos versos de Castro Alves deve-se a um propósito pragmático dos seus cantos.pasto universal. em qu'estrela tu t'escondes Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito.. alcançar. Hoje em meu sangue a América se nutre Condor que transformara-se em abutre. se por um lado o jovem poeta abusou forçosamente da superposição de imagens e de aposições. Mas. as hipérboles e metáforas ousadas. Esse exagero advém das influências de sua época. aproximamse da retórica. o tom grandiloquente de seus cantos. ancorada em combinações sonoras sem nexo.. tornou-se o poeta por excelência dos escravos. o de alcançar multidões. [. Inspirado por Victor Hugo.. . Enquanto poetas de gerações românticas anteriores tomaram o índio como herói. sendo inclusive chamado de ³O Poeta dos Escravos´.

se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar... ... Dize-o tu... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares... Perante a noite confusa. Navio Negreiro (fragmento) Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós.14 escuta o brado meu lá no infinito. Meu Deus! Senhor. Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz. audaz!. meu Deus!!. severa Musa. Musa libérrima.. por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?.. tufão! Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala. Senhor Deus! Se é loucura.

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