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A poesia lírica de Gregório de Matos

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A poesia lírica de Gregório de Matos pode ser dividida em lírica sacra, lírica amorosa (espiritual e carnal), lírica encomiástica

(poemas de circunstância, poemas laudatórios) e lírica filosófica. Analisemos, uma a uma, a poesia lírica desse autor barroco: 1. Poesia lírica sacra - A culpa e o arrependimento Expressa a cosmovisão barroca: a insignificância do homem perante Deus, a consciência nítida do pecado e a busca do perdão. Ao lado de momentos de verdadeiro arrependimento, muitas vezes o tema religioso é utilizado como simples pretexto para o exercício poético, desenvolvendo engenhosos jogos de imagens e conceitos. As idéias de Deus e do pecado, ao mesmo tempo que se opõem, são complementares. Embora Deus detenha o poder da condenação da alma, está sempre disposto ao perdão, por sua misericórdia e bondade; daí deriva Sua maior glória. A CRISTO N. S. CRUCIFICADO, estando o poeta na última hora de sua vida 1 2 3 4 5 6 7 8 Meu Deus, que estais pendente de um madeiro, Em cuja lei protesto de viver, Em cuja santa lei hei de morrer, Animoso, constante, firme e inteiro: Neste lance, por ser o derradeiro, Pois vejo a minha vida anoitecer; É, meu Jesus, a hora de se ver A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

9 Mui grande é o vosso amor e o meu delito; 10 Porém pode ter fim todo o pecar, 11 E não o vosso amor que é infinito. 12 Esta razão me obriga a confiar, 13 Que, por mais que pequei, neste conflito 14 Espero em vosso amor de me salvar. Nas duas primeiras estrofes, o poeta expressa a contrição religiosa e a crença no amor infinito de Cristo, para manifestar, no final, a certeza do perdão. O soneto encobre uma formulação silogística, que se pode expressar dessa maneira: o amor de Cristo é infinito (verso 11); o meu pecado, por maior que seja, é finito, e menor que o amor de Jesus (versos 9 e 10). Logo, por maior que seja o meu pecado, eu espero salvar-me (versos 13 e 14). BUSCANDO A CRISTO 1 2 3 4 5 6 7 8 A vós correndo vou, braços sagrados, Nessa cruz sacrossanta descobertos, Que, para receber-me, estais abertos, E, por não castigar-me, estais cravados. A vós, divinos olhos, eclipsados De tanto sangue e lágrimas abertos, Pois, para perdoar-me, estais despertos, E, por não condenar-me, estais fechados.

9 A vós, pregados pés, por não deixar-me, 10 A vós, sangue vertido, para ungir-me, 11 A vós, cabeça baixa p ‘ra chamar-me. 12 A vós, lado patente, quero unir-me, 13 A vós, cravos preciosos, quero atar-me, 14 Para ficar unido, atado e firme.

de condição social superior. especialmente as mulatas. 12 e 13 constroem-se com a omissão do verbo. 5.O espírito e a carne Apresenta-se sob o signo da dualidade barroca. e de "e por não" (v.. Juro-te.. o mais evidente é o trabalho com as palavras."correndo vou”.O soneto é construído a partir de um sistema de metonímias que vão relacionando as partes de Cristo ("braços". sermões e putas. desvelo e cuidado meu. Ou: E nos frades há manqueiras ?. Observe a repetição de “a vós” (v. destaca-se já certa “tropicalidade”. e a obscenidade. Em que ocupam os serões?. 10. Outro recurso empregado são as anáforas (repetição de palavra(s) no início de dois ou mais versos). e tu foras toda minha. na verdade. Enquanto no texto anterior o jogo de idéias é predominante (aspecto conceptista). divinos olhos (. 10.)" "A vós (correndo vou). Não se ocupam em disputas?. se não for estrebaria: Várias bestas cada dia. 2.. Que as lidas todas de um frade São freiras. o erotismo e o desbocamento são as tônicas. "sangue". que todo me hei de acender em ser teu amante fino pois por ti já perco o tino. o amor elevado. eu já fora todo teu.Freiras. com ser um mapa de festas. pregados pés (. Observe que o mesmo poeta contrito dos textos sacros é autor de sátiras violentas ao clero: A nossa Sé da Bahia. à maneira dos sonetos de Camões. substituindo todo o Cristo crucificado. e ando para morrer. 9. "cravos").. minha vidinha.. 12. quando o poeta se inspira nas mulheres de condição social inferior. Os versos 5. deve-se ler: "A vós (correndo vou). 11. Putas. "pés". que aparecera no 1º verso ... neste. é um presepe de bestas. Com palavras dissolutas Me concluís. oscilando entre a atitude contemplativa. 4 e 8). )" etc. "olhos". o carnalismo. "cabeça". Sermões. 9. nos versos -mencionados.. Em todos eles ocorre o procedimento estilístico denominado zeugma (= elipse de uma palavra ou expressão próxima no contexto). a antecipação de certo “sentimento brasileiro”. Assim. Neste sentido. Minha rica mulatinha. 11. É curioso que a postura platônica é dominante. 13). quando o poeta se refere a mulheres brancas. Poesia lírica amorosa .. se acaso minha qués ser.. e a libido agressiva. por meio das figuras de linguagem (aspecto cultista). .

Sois Anjo que me tenta. A mulher é vista tanto de modo espiritualizado. Enquanto estamos vendo a qualquer hora. E imprime em toda a flor sua pisada. Em teus olhos e boca. goza da flor da mocidade. É o que se nota em: Discreta e formosíssima Maria. mediante duas definições do amor. Oh não aguardes que a madura idade Te converta essa flor. e por galharda. Que o tempo trata a toda a ligeireza. O soneto marca-se pelo aspecto cultista. Fôreis o meu Custódio e a minha guarda. essa beleza. Posto que os Anjos nunca dão pesares. Ambas as visões podem aparecer no mesmo texto. quanto como objeto de desejo carnal. o Sol e o dia: Enquanto com gentil descortesia. Quando vem passear-te pela fria. Te espalha a rica trança brilhadora. conforma ocorre no soneto transcrito a seguir. O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos do poeta pela mulher. e anjo (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual. ÂNGELA Anjo no nome. Em quem. A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais: “Sois Anjo que me tenta e não me guarda. Mas vejo. Goza. Livrara eu de diabólicos azares. A consciência da fugacidade do tempo e das incertezas da vida leva à necessidade de fruição imediata dos prazeres. “flor” = “florente”. senão em vós. estabelecendo um conflito.. se uniformara? Quem vira uma tal flor que a não cortara De verde pé. que por bela. O ar.Observe os versos curtos e a aproximação com uma linguagem mais espontânea e popular. onde também encontra-se a atitude idealizante e a linguagem mais erudita: A D. E quem um Anjo vira tão luzente Que por seu Deus o não idolatrara? Se pois como Anjo sois dos meus altares. Em terra.” O tema clássico do carpe diem (= aproveita o dia) é freqüente. em pó. que fresco Adônis te namora. e não me guarda. O Amor é finalmente . Anjo no nome. Angélica na cara. da rama florescente. em cinza. em nada. Em tuas faces a rosada Aurora. Os textos que iremos transcrever demonstram cabalmente o conflito carne x espírito. que é simultaneamente flor (metáfora da beleza) e objeto do desejo.. desenvolvendo-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”. Angélica na cara! Isso é ser flor e Anjo juntamente: Ser Angélica flor e Anjo florente. em sombra.

uma homenagem ao desembargador Belchior da Cunha Brochado: O elemento lúdico (= de jogo) do Barroco é a marca predominante do texto. um breve tremor de artérias. que em um peito abrasas escondido. Ardor em firme coração nascido. em chamas derretido. humano. é besta. um rebuliço de ancas. ciente. quem diz outra coisa. nobre. afável. 1ª palavra do 2ª verso: reTO). Cada par de versos tem em comum as terminações das palavras (ex. Incêndio em mares de água disfarçado. assim sendo. prudente. Tu. Quando fogo. A leitura deve ser feita como se se tratasse de versos comuns. Uma confusão de bocas. que em um rosto corres desatado. uma batalha de veias. em cristais aprisionado. benigno e aprazíve . Poesia lírica encomiástica Gregório de Matos escreveu também poemas laudatórios (de elogio). de circunstância (festas. Reto.um embaraço de pernas. o que explica o estranho arranjo espacial do texto. homenagens. os dois primeiros versos lêem-se: Douto. uma união de barrigas.: 1ª palavra do 1º verso: douTO. 3. Quando cristal. Um exemplo curioso é o poema cujo inicio transcrevemos. Pranto por belos olhos derramado. fatos corriqueiros). Rio de neve em fogo convertido: Tu.

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