PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5ª REGIÃO APELAÇÃO CÍVEL n.º AC434599-RN 2006.84.00.

004768-9

APTE : UNIÃO APDO : LUZIA ALVES DE ARAÚJO BRAGA ADV/PROC : CRISTINE BORGES DA COSTA ARAÚJO E OUTRO REMTE : JUÍZO DA 3ª VARA FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE (NATAL) ORIGEM : 3ª VARA FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE RELATOR : DESEMBARGADOR FEDERAL CESAR CARVALHO (CONVOCADO) EMENTA CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. CONCURSO PÚBLICO. DEFICIÊNCIA FÍSICA. CARACTERIZAÇÃO. ART. 37, VIII DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. ART. 5º, § 2º, DA LEI 8112/90. ARTS. 3º E 4º DO DECRETO Nº 3298/99. COMPATIBILIDADE DA DEFICIÊNCIA COM AS FUNÇÕES DO CARGO. - Na hipótese sub judice, tem-se a situação da autora que, após se inscrever em concurso público para o cargo de Analista Judiciário do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio Grande do Norte, em vaga reservada para deficiente físico, e lograr aprovação no certame, foi impedida de tomar posse em razão da junta médica oficial haver concluído não ser ela portadora de deficiência física. - Os peritos oficiais concluíram que a anormalidade encontrada no pescoço da autora é permanente e irreversível e se enquadra como uma deformação adquirida, confirmando, portanto, os laudos fornecidos por médicos particulares que acompanharam o desenvolvimento da doença da promovente. Também foi dito pelos senhores peritos que tal anormalidade gera limitação de mobilidade e neurológicas, devido à compressão causada na medula durante a fratura-luxação da coluna cervical, gerando para a autora limitação parcial definitiva da amplitude de movimento do pescoço. - Todos os elementos de prova carreados ao processo levam a uma só conclusão: ser a autora portadora de deficiência que compromete as suas funções física e neurológica, gerando para ela limitação parcial e definitiva da amplitude de movimento do ombro e do pescoço, por ter atingido diretamente a coluna cervical. Tal anormalidade se caracteriza como deformidade adquirida. Portanto, sua deficiência se enquadra perfeitamente na hipótese legalmente prevista (arts. 3º e 4º do Decreto nº 3298/99). - A incapacidade, neste caso, não deve ser total. Isto porque, se houvesse incapacidade total, o que se traduz como invalidez, seria um absurdo se falar em concorrer à vaga em concurso público, eis que o exercício da função seria impossível para essa pessoa. Na verdade, a pessoa deficiente tem a capacidade reduzida, mas não eliminada.

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não teria ela conseguido tomar posse. CESAR CARVALHO. 21 de fevereiro de 2008 (data do julgamento).O laudo fornecido pelo segundo perito oficial concluiu que a deficiência de que a autora é portadora não a impede de exercer as funções inerentes ao cargo de Analista Judiciário da área administrativa. de algumas modificações no seu ambiente de trabalho. ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas. negar provimento à apelação e à remessa obrigatória. talvez. para adequá-lo às limitações decorrentes da deficiência. a exame pericial realizado por junta médica daquele órgão. que integram o presente julgado. nos termos do relatório. . o que leva a supor ter ela se submetido. Apelação e remessa obrigatória improvidas. Se assim não fosse. Não há. voto e notas taquigráficas constantes dos autos. decide a Primeira Turma do Egrégio Tribunal Regional Federal da 5ª Região. apenas.No presente caso. necessitando. empossada na condição de deficiente física. por unanimidade.. predominantemente burocráticas. . naquele concurso. em afronta aos critérios fixados em lei e no edital do concurso.A requerente já era servidora do Ministério Público do Rio Grande do Norte. a averigüação procedida pelo Judiciário se limita ao aspecto da legalidade do ato administrativo que não considerou a autora deficiente física. incompatibilidade entre a deficiência apresentada pela autora e as funções do cargo para o qual foi aprovada no concurso público. desta forma. Relator (Convocado). a qual teria concluído ser ela portadora de deficiência nos termos da legislação pertinente. Recife. 2 .

nesta condição.Área Administrativa junto ao TRE/RN. com a conseqüente averbação do tempo de serviço e o pagamento da remuneração pertinente ao período em que ficou afastada. a União pugna pela reforma da sentença alegando não ostentar a postulante a condição de deficiente físico. Nas razões recursais. para fins de acesso a cargo público. Ao contra-arrazoar. a sua inscrição no concurso para o cargo de Analista Judiciário do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio Grande do Norte. afirma ser o edital a peça básica do concurso. legitimando. Entendeu o douto magistrado sentenciante ter restado provada.PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5ª REGIÃO APELAÇÃO CÍVEL n. devendo a recorrida se sujeitar as exigências nele contidas. antes de concorrer à vaga no TRE. que. com juros de 0. a autora reafirma os argumentos aduzidos na exordial: que. após sua aprovação no concurso do TRE/RN.00. que a segunda perícia judicial e os exames anexados à exordial são suficientes a provar a sua condição de deficiente. Argumenta que ao Judiciário é vedado apreciar o juízo de conveniência e oportunidade da Administração Pública em relação ao estabelecimento de critérios de avaliação e classificação de candidatos em concursos públicos.5% ao mês. "junta médica" esta formada em dissonância com as normas editalícias. ombro e braços. bem como a sua posse em vaga destinada a deficiente. vinculando tanto a Administração quanto os candidatos. chegara perto dela para fazer exames. a qual era formada por um único profissional que. a partir da citação. eis que fora aprovada no mencionado certame. nos autos. submeteu-se à exame clínico realizado por "junta médica". a contar do vencimento da remuneração. por terem diagnosticado nela deformidade adquirida. após ser aprovada no respectivo 3 . causada por traumatismo no pescoço.004768-9 APTE : UNIÃO APDO : LUZIA ALVES DE ARAÚJO BRAGA ADV/PROC : CRISTINE BORGES DA COSTA ARAÚJO E OUTRO REMTE : JUÍZO DA 3ª VARA FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE (NATAL) ORIGEM : 3ª VARA FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE RELATOR : DESEMBARGADOR FEDERAL CESAR CARVALHO (CONVOCADO) RELATÓRIO O Desembargador Federal CESAR CARVALHO (Convocado): Trata-se de apelação e remessa obrigatória contra sentença que julgou procedentes os pedidos para determinar a posse e a permanência da Autora no exercício do cargo de Analista Judiciário . portanto. nem sequer. a condição de deficiente física da autora. ocupava cargo no Ministério Público do Rio Grande do Norte. nos moldes do Decreto nº 3298/99. de acordo com o Manual de Cálculos da Justiça Federal. Por fim.84. e correção monetária.º AC434599-RN 2006.

RELATEI. mas de limitação para o exercício de qualquer função. e que deficiência não é sinônimo de invalidez nem de incapacidade. 4 .concurso em vaga também destinada à deficiente físico.

paraparesia. Por sua vez. a Lei nº 8112/90. 5º. 37. tetraplegia. e III .004768-9 APTE : UNIÃO APDO : LUZIA ALVES DE ARAÚJO BRAGA ADV/PROC : CRISTINE BORGES DA COSTA ARAÚJO E OUTRO REMTE : JUÍZO DA 3ª VARA FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE (NATAL) ORIGEM : 3ª VARA FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE RELATOR : DESEMBARGADOR FEDERAL CESAR CARVALHO (CONVOCADO) VOTO O Desembargador Federal CESAR CARVALHO (Convocado): A presente contenda tem como ponto central a discussão em torno do que se considera deficiente físico para efeito de inscrição em concurso público para concorrer à vaga reservada a tais pessoas. o Decreto nº 3298/99. triparesia. paralisia cerebral. definiu. amputação ou ausência de membro. hemiplegia. que o cargo para o qual concorram.deficiência . ostomia. da Constituição Federal ao reservar até 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas no concurso para as pessoas portadoras de deficiência física. acarretando o comprometimento da função física. considera-se: I .toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica.PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5ª REGIÃO APELAÇÃO CÍVEL n.) Art. monoparesia. deficiência permanente e deficiência física.deficiência física . apresentando-se sob a forma de paraplegia. exigindo.. no art. 4o É considerada pessoa portadora de deficiência a que se enquadra nas seguintes categorias: I . § 2º. triplegia. tetraparesia.84. as expressões deficiência. tenham atribuições compatíveis com a deficiência de que são portadoras. 5 . monoplegia. fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade.(. hemiparesia. ao regulamentar a Lei nº 7853/99. nos arts. Eis como restaram redigidos tais dispositivos legais: Art.00.alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano. dentro do padrão considerado normal para o ser humano.º AC434599-RN 2006. e 4º. Sobre o tema. 3o Para os efeitos deste Decreto. regulamentou o art. VIII.deficiência permanente ..aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere. II . apesar de novos tratamentos. apenas. I e II. 3º.

sentindo dormência nas mãos e dedos com maior desabilidade na mão esquerda. dor e formigamento. após se inscrever em concurso público para o cargo de Analista Judiciário do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio Grande do Norte. o que a tornou deficiente de modo permanente e irreversível. assinado pelo Dr. e lograr aprovação no certame. exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções. tendo fraturado e luxado as vértebras cervicais (C3 e C4). o que a incapacita para movimentação da cabeça. Afirma que sente muita tontura por falta de vascularização dos vasos (labirintose). assinado pelo Dr. teve que se submeter a uma neurocirurgia (artrodese) para fixação das vértebras (pp C2. da Neuroclínica. do Centro de Ortopedia e Traumatologia Ltda. No primeiro deles. por exemplo. Emanuel Matos Pinheiro. C3. após ter fraturado e luxado as vértebras (pp C3 e C4). levantar e manter os braços e ombros para cima. de forma permanente. fora submetida a uma neurocirugia (artrodose) para fixação das vértebras (pp CE. braço e mão). C3. a paciente conseguiu recuperar parte dos movimentos. após os tratamentos.nanismo. o que gerou à autora. estando assim enquadrada como deficiente físico (grifei). após vários procedimentos. No segundo. nos dias atuais. sendo impossibilitada de desempenhar atividades normais tais como levantar e baixar a cabeça. foi impedida de tomar posse em razão da junta médica oficial haver concluído não ser ela portadora de deficiência física. sendo impossibilitada. consta ter a requerente sofrido fratura luxação da coluna cervical C3 e C4. Posteriormente. seqüelas estas de caráter irreversível. Elson Sousa Miranda. aproximadamente 30%. de exercer a função de 6 . Passemos. O médico ainda informa que. 41 e 42. mas passou a apresentar. em decorrência de acidente automobilístico. do membro superior direito. nos moldes da legislação pertinente. ombro e desabilidade motora interessando o lado esquerdo (ombro. limitando as funções do pescoço e do ombro. havendo um comprometimento de sua função física e neurológica. Afirma a requerente ter sido vítima de acidente automobilístico. limitação funcional do pescoço e ombros. C4 e C5). dormência. ao exame das provas carreadas aos autos para averigüar ser a postulante portadora ou não de deficiência. apresenta quadro permanente de labirintose e disfunção envolvendo toda área do pescoço. falta de força do membro superior esquerdo. Na hipótese sub judice. Analisando o conteúdo dos laudos acostados pela requerente às fls. Em decorrência disso. então. em vaga reservada para deficiente físico. tendo sido feito tração esquelética cervical e posterior redução e atrodese com fixação de síntese metálica. ocorrido no ano de 1986. foi informado que a promovente. observa-se ter ela razão ao afirmar ser portadora de deficiência física de caráter irreversível. membros com deformidade congênita ou adquirida. C4 e C5). tem-se a situação da autora que. que legitime ou não a sua posse em cargo público.

Resta saber. 159 e 199) e se enquadra como uma deformação adquirida (fls. o médico ortopedista Eucimar P. 160 e 200). foi afirmado que a deficiência da postulante não a impede de exercer a função de Analista Judiciário do TRE/RN. mas necessitária que o médico do trabalho do órgão no qual exerce a função de Analista Judiciário. No caso da autora. fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade. apresentando deformidade adquirida (grifei). acarretando o comprometimento da função física. que é sua formação profissional. apresentando-se sob a forma de membro com deformidade adquirida. apresentando-se sob a forma de (. membros com deformidade congênita ou adquirida. Tal anormalidade se caracteriza como deformidade adquirida. vez que é uma atividade que requer os movimentos supracitados. define deficiência como toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica. Portanto.. devido à compressão causada na medula durante a fratura-luxação da coluna cervical. portanto.). gerando para ela incapacidade parcial para o desempenho de suas atividades habituais. e deficiência física como uma alteração completa ou parcial de uma ou mais segmentos do corpo humano. os laudos fornecidos por médicos particulares que acompanharam o desenvolvimento da doença da promovente.magistério. gerando para ela limitação parcial e definitiva da amplitude de movimento do ombro e do pescoço. a sua deficiência se apresenta como uma anormalidade que compromete a função física do seu organismo. 7 . todos os elementos de prova carreados ao processo levam a uma só conclusão: ser a autora portadora de deficiência que compromete as suas funções física e neurológica. Por parte dos peritos oficiais. por ter atingido diretamente a coluna cervical. sua deficiência se enquadra perfeitamente na hipótese legalmente prevista (arts. se a deformidade apresentada pela autora se enquadra legalmente como deficiência física a legitimar a sua posse em cargo público destinado às pessoas portadoras de deficiência. avalie a necessidade de mudanças no posicionamento de seus materiais de uso contínuo durante o período de trabalho (fls. foi dito que a anormalidade encontrada no pescoço da autora é permanente e irreversível (fls. Concluiu o doutor dizendo que tudo isso gerou para a autora o comprometimento da função física e neurológica. 201). envolvendo toda a área do pescoço. O Decreto nº 3298/99. confirmando. Guimarães. gerando para a autora limitação parcial definitiva da amplitude de movimento do pescoço. Portanto.. Também foi dito pelos senhores peritos que tal anormalidade gera limitação de mobilidade e neurológicas. 3º e 4º do Decreto nº 3298/99). no entanto. exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldas para o desempenho de funções. No laudo do segundo perito. dentro do padrão considerado normal para o ser humano. ao tratar do assunto.

Por todos esses argumentos. Na verdade. ASSIM VOTO. incompatibilidade entre a deficiência apresentada pela autora e as funções do cargo para o qual foi aprovada no concurso público. quanto à alegação de que não cabe ao Poder Judiciário se imiscuir nos procedimentos administrativos para averiguar a conveniência e oportunidade da prática dos atos. mas não eliminada. a investigação procedida pelo Judiciário se limita ao aspecto da legalidade do ato administrativo que não considerou a autora deficiente física. Por fim. para adequá-lo às limitações decorrentes da deficiência. também. neste caso. necessitando. deve ser total. naquele concurso. seria um absurdo se falar em concorrer à vaga em concurso público. ainda. 8 . a qual teria concluído ser ela portadora de deficiência nos termos da legislação pertinente. talvez. eis que o exercício da função seria impossível para essa pessoa. empossada na codição de deficiente física. que o laudo fornecido pelo segundo perito oficial concluiu que a deficiência de que a autora é portadora não a impede de exercer as funções inerentes ao cargo de Analista Judiciário da área administrativa. em afronta aos critérios fixados em lei e no edital do concurso. tenho a dizer que. mas tão-somente aferir a conformação do ato administrativo com a lei. não teria ela conseguido tomar posse. no presente caso. predominantemente burocráticas. Se assim não fosse. equivoca-se a União ao pretender defender a tese segundo a qual a incapacidade. de algumas modificações no seu ambiente de trabalho. o que se traduz como invalidez. a pessoa deficiente tem a capacidade reduzida. trazer à baila o fato de que a requerente já era servidora do Ministério Público do Rio Grande do Norte. Não se pode esquecer. apenas. Não há. Vale.Ademais. Isto porque. desta forma. nego provimento à apelação e à remessa obrigatória para confirmar a sentença. se houvesse incapacidade total. o que leva a supor ter ela se submetido. à exame pericial realizado por junta médica daquele órgão.

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