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aula 2 A Prática Educativa, a Prática Pedagógica e a Prática Docente

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Aula: 02 Temática: A Prática Educativa, a Prática Pedagógica e a Prática Docente

A prática educativa, como qualquer outro fazer humano, pertence a um contexto determinado, ou seja, constitui-se em uma situação histórica determinada sobre certas condições econômicas, sociais e culturais. Em geral, considera-se como prática todo o processo de transformação de certa matéria prima em um produto por um processo humano determinado. No agir sobre o meio, nos modos de se relacionar, nas formas de conhecimento das coisas e de si mesma, a humanidade vem transformando esse próprio meio. A vida social é uma complexa configuração de práticas. Na organização social temos um conjunto de práticas que cumprem funções mais amplas em relação às demais. Uma delas é a prática econômica que produz os meios materiais necessários para a manutenção e preservação da vida em grupo. A prática educativa está intimamente relacionada com a prática econômica, já que desenvolve, entre muitas outras, as capacidades necessárias para a manutenção da produção material e cultural. Desse modo, não podemos estudar a prática educativa no vazio, já que ela é condicionada tanto quanto condicionante de uma formação social determinada. A prática educativa também é uma forma de poder, uma força que pode atuar tanto a favor da manutenção do status quo como para deslocar o grupo hegemônico do poder. A prática educativa, por sua própria estrutura contém uma força reprodutora e transformadora. Algumas tendências pedagógicas carregam as tintas na manutenção da cultura, na instrução do sujeito; enquanto outras carregam na transformação, na crítica do sujeito para que este desenvolva as características humanas para a vida em uma sociedade em constante mudança. A manutenção e a transformação da cultura do grupo social são aspectos indissociáveis da prática educativa e cada educador terá que encontrar um possível equilíbrio nesse processo: manter, transmitir o conhecimento, normas, atitudes e valores aceitos como os necessários para a sociedade a que pertence e, ao mesmo tempo, desenvolver a capacidade de ampliar os limites, transgredir ou não o que é admitido como necessário para a sociedade em função de um horizonte, de uma representação desejável de contexto social, pois é nesse processo que a sociedade pode, quiçá, transformar-se. UNIMES VIRTUAL
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em qualquer sociedade. cujos resultados possam ser registrados e comprovados. A reestruturação dos cursos de Licenciaturas no Brasil. relações sociais e culturais vigentes. à atividade do educando ou à qualidade desta atividade? A prática pedagógica faz referência a todo esse conjunto de aspectos. nos sistemas de ensino. decretada pelo governo federal no ano de 2002. O domínio da leitura. Ainda que o propósito do “sistema de ensino” organizado seja reproduzir as relações de produção. é um passo em direção à autonomia do sujeito. em nosso curso. não se desgastam e têm efeitos multiplicadores. Na perspectiva comportamentalista. também cumpre uma função política. É por essa razão que. Vamos esclarecer sobre o que estamos falando quando utilizamos a expressão prática docente. do mesmo modo. em sua ação didática. vamos restringi-la àquela que acontece nas organizações escolares. A expressão “prática pedagógica” desencadeou uma polêmica entre os educadores que realizaram muitos debates nas diversas organizações profissionais para chegarem a um acordo sobre tal conceito e delimitar as atividades que seriam validadas nos novos currículos de formação de professores. a prática docente. a expressão “prática pedagógica” se refere à atividade exclusivamente observável e que gera uma atividade concreta.Como estamos estudando a prática educativa relativa à ação consciente e deliberada. assim como toda prática educativa e pedagógica cumpre sempre uma função política. mesmo que o educador não seja consciente desse fato e atue condicionado por toda a legislação educacional vigente. Para a abordagem interacionista. As aprendizagens geram mais aprendizagem. Quando afirmamos UNIMES VIRTUAL 16 DIDÁTICA . Diante dessa conceituação podemos nos perguntar se a prática pedagógica faz referência à atividade do educador. ou seja. a prática pedagógica se refere à atividade que desenvolve o raciocínio do educando e que o leve a resolver problemas. Vale lembrar que. lembrando sempre que a prática educativa é muito mais ampla que a prática docente em situações didáticas. vamos utilizar a expressão prática docente para referir-nos à ação consciente e intencional do professor com a finalidade de intervir nas aprendizagens dos grupos com os quais trabalha. a ação docente desperta poderes intelectuais e deflagra valores nos sujeitos com os quais trabalha. em qualquer coordenada de tempo/ espaço. instituiu a terminologia “prática pedagógica” nos cursos de formação de professores. estamos separando a situação didática do seu contexto e repartindo essa ação em aspectos diferenciados que só podem ser separados mentalmente para o estudo da mesma. mesmo que não se tenha consciência do fato. É importante considerar que neste curso estamos tratando da prática docente em um nível de “abstração da realidade”. da escrita e do cálculo.

não apenas precisa de ser apreendido por ele e pelos educandos nas suas razões de ser . É uma atividade intencional. (FREIRE. É preciso insistir: este saber necessário ao professor . vivido. também temos consciência da diferença e da desigualdade de oportunidades existentes na sociedade brasileira no início do século XXI para a apropriação do capital cultural e das formas em que se universaliza o conhecimento. às perguntas dos alunos a suas inibições: um ser crítico e inquiridor. ler. consciente e que só pode ser compreendida. política. A prática docente não é um procedimento robótico nem robotizado que o professor desenvolve de maneira inconsciente e mecânica. mais do que nunca. por meio das aprendizagens mais elementares. Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações. ética. a partir dos esquemas teóricos que o docente porta em sua bagagem cultural e que dão sentido a esse fazer. mas criar possibilidades para que a sua própria produção ou a sua construção. adequadamente. essas perguntas são importantes e vale a pena lembrar que são recorrentes na vida de um docente. epistemológica. E para você. é um passo em direção à autonomia do sujeito. mas também precisa ser constantemente testemunhado. justificam uma ação docente consciente para que o sujeito possa. escrever e contar. Como aprendemos com os demais. pedagógica.que ensinar não é transferir conhecimento . Isso significa que em muitas ocasiões da nossa vida profissional vamos nos deparar com as mesmas questões e vamos respondê-las de acordo com as aprendizagens que tenhamos sido capazes de internalizar. inquieto em face da tarefa que tenho . UNIMES VIRTUAL DIDÁTICA 17 .ontológica. isto é. São limites com os quais trabalhamos diariamente em nossa prática e que. o que significa intervir na aprendizagem dos grupos com os quais trabalha? É ensinar? É aprender? É uma ação impositiva? É uma ação autoritária? É uma ação participada? É uma ação monológica? É uma ação dialógica? É uma ação responsável sobre o estar no mundo ou sobre o passar pelo mundo? Sim.que o domínio da leitura. vamos buscar compreender como outros educadores têm respondido a essas questões: Saber que ensinar não é transferir conhecimento. tomar o seu rumo em direção à sua autonomia. da escrita e do cálculo.a de ensinar e não a de transferir conhecimento. 1997:47) Paulo Freire sinaliza que a prática docente refere-se à produção de conhecimento. à curiosidade.

porque acaba de ocorrer uma revolução na ciência matemática. (Chervel 1990: 180) UNIMES VIRTUAL 18 DIDÁTICA . a escola ensina as ciências. expressa a verdade da língua. PERRENOUD (1993) indica que a prática docente se refere à transposição didática. exercitáveis e passíveis de avaliação no quadro de uma turma. que analisou as transformações que sofre o “conceito de distância” desde sua produção no campo científico até a sua introdução nos programas de geometria do ensino fundamental. como a matemática. isto é. como por exemplo. em geral. por sua vez. ela ensina as ciências exatas. Isso quer dizer que a Ciência.. o saber científico sofre um processo de transformação ao se tornar um conhecimento a ser aprendido no espaço escolar que.) A tarefa dos pedagogos. só chega a ser aprendido em função dessa deformação. as da Biogenética com as células tronco. dependendo da bagagem cultural desse mesmo público. É o que Chevallard. Logo. antes de mais. de um ano. de um horário. A teoria da transposição didática teve origem na didática das matemáticas. consiste em arranjar os métodos de modo que eles permitam que os alunos assimilem o mais rápido possível e o melhor possível a maior porção possível da ciência de referência. Mesmo as pesquisas mais especializadas. A principal referência nos estudos sobre transposição didática é Yves Chevallard. Na opinião comum. tratam de resolver problemas de saúde de pessoas concretas. criação secular dos lingüistas. (PERRENOUD. na atividade de tornar compreensíveis conhecimentos complexos a diferentes públicos. pensa-se. o docente realiza essa mediação por meio da transposição didática desse conteúdo para que se torne inteligível para o grupo com o qual trabalha. as quais fizeram suas comprovações em outro local. também resolve problemas do cotidiano.. Ela ensina a gramática porque a gramática. na esteira de Verret. Para CHEVALLARD (1991). Ocorre que o procedimento científico possui uma determinada lógica e linguagem que se especializa e se torna distante da compreensão do senso comum.Ensinar é. de um sistema de comunicação e trabalho. supõe-se. designa por transposição didática. (. no trabalho de CHEVALLARD (1991). e quando ela se envolve com a matemática moderna é. fabricar artesanalmente os saberes tornando-os ensináveis. 1993:25). a prática docente encontra sua especificidade na transposição didática. Nesse sentido.

requer sínteses. critica as proposições existentes. não como forma de transmitir inovações e descobertas científicas. relaciona-se à possibilidade de compreensão dos estudantes de acordo com a idade ou. Também podemos perceber a busca pela adequação do conhecimento à compreensão do público escolar na seriação e estruturação dos graus de ensino... por exemplo. das seqüências didáticas compreensíveis. VADEMARIN (1998) afirma que o processo de transposição didática é um trabalho complexo que produz um saber específico. O conhecimento que a instituição escolar difunde é condicionado pelas possibilidades de compreensão dos estudantes. mas como a necessidade de preparar a criança e o jovem para pensarem matematicamente. com os estágios de desenvolvimento cognitivo. Para isso ele elabora o programa do curso. no modelo genético de Jean Piaget. Não se trata da transmissão pura e simples de saberes científicos. etc. Nesse sentido. Por esse motivo. divisões que só têm sentido na transposição didática. gramaticalmente (VADEMARIN. avalia a realização das atividades. elabora exercícios.O docente realiza a transposição didática à medida que traduz os saberes científicos em atividades. mas da seleção de determinados resultados científicos adequados à geração de aprendizagem. que não se esgota na aquisição de dados e informações (VADEMARIN. UNIMES VIRTUAL DIDÁTICA 19 . do tempo que destina às atividades. 1998:23). propõe modelos de raciocínio e investigação. estabelecem-se as “abstrações da realidade”. Em geral. VADEMARIN (1998) destaca (. recorta temas. o planejamento das aulas.) a necessidade do aprimoramento profissional docente nos aspectos relativos à produção científica. 1998:23). cientificamente.

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