A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS

Trata-se de uma obra que traça o limite entre os artigos pré-psicanalíticos de Freud e o início da psicanálise. Na edição brasileira das obras completas de Freud (Editora Imago) encontra-se representada por dois volumes (IV e V), tendo sido também publicada em várias edições avulsas. Obra atual por sua obrigatoriedade na formação de todos os psicanalistas e mesmo psicólogos, pululam resenhas e comentários introdutórios. Quanto aos comentários, para os iniciantes pode-se destacar a Introdução à Metapsicologia Freudiana de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Zahar Editores), com um volume inteiramente dedicado a A Interpretação dos Sonhos. A obra de Freud provoca uma ruptura absolutamente radical na maneira de abordar o homem em 25 séculos de pensamento. Todas as filosofias, toda a psicologia incipiente, toda a ciência até Freud se preocupava com o homem em seu aspecto consciente. Segundo o próprio Freud, o conceito de inconsciente e a formulação de que o homem não é senhor em sua própria morada tem importância equivalente às rupturas causadas pela passagem do teocentrismo para o heliocentrismo e pela comprovação da ascendência animal do humano. Se há um texto, na obra de Freud, que possamos indicar como primeiro responsável por esta ruptura é A Interpretação dos Sonhos. Nele encontramos a tese que se tornaria a mais popular (e mais mal utilizada): a do complexo de Édipo. Neste texto, também, Freud formula a divisão da mente entre o consciente e o inconsciente. É também ali que a clínica psicanalítica vai encontrar sua justificativa teórica, ainda que não fosse esta a preocupação inicial de Freud. A gestação e o parto da obra Na verdade a obra foi publicada em 04 de novembro de 1899. Por uma decisão do editor, no entanto, a data impressa é a de 1900. A correspondência de Freud a Fliess (publicada em português pela Imago) nos fornece os dados a seguir. Durante dois anos Freud se dedicou ao preparo deste que seria um exemplo excelente de estrutura de tese. Sua pesquisa não deixa de fora nenhuma obra conhecida que abordasse o tema dos sonhos, nem mesmo os sempre populares livros de sonhos egípcios. Cada possível argumento, cada possível interpretação é examinada com seriedade e rigor científico. A magnitude do trabalho poderia responder pela lentidão com que o texto foi produzido, mas em suas cartas ao amigo Fliess podemos entender que as razões da demora foram mais pessoais. O livro é pleno de exemplos. Muitos sonhos são analisados e interpretados. O que mais custou ao autor, portanto, foi o fato de que, devido ao sigilo com que deveria resguardar os sonhos de seus pacientes, Freud utiliza os próprios sonhos para dar seqüência à obra. Como o pesquisador que se contagia com a doença que pretende estudar, Freud se expõe aos efeitos de sua própria tese, tira as conseqüências de seus próprios sonhos trabalhando suas próprias neuroses. E corajosamente, nos expõe todo o processo. Não poucas vezes em sua correspondência confessa que prefere não publicar o livro, se mostra

pessimista quanto às conseqüências de suas teses e apreensivo quanto à recepção que o livro teria no meio científico e em seu círculo familiar. Suas preocupações se mostrariam fundamentadas. O livro vendeu 228 exemplares nos primeiros dois anos após sua publicação, e a tiragem de 600 exemplares demorou oito anos para ser esgotada. Não houve comentários em boletins científicos a seu respeito e as poucas menções ao trabalho raramente eram elogiosas. Somente dez anos depois, com o reconhecimento da importância de Freud e o fim do ostracismo a que foi entregue pela comunidade médica é que a obra passou à categoria de trabalho sério. Esta acolhida, no entanto, é plenamente justificada. Freud se lançara em um caminho vedado à comunidade científica. Se preocupar com sonhos era uma coisa para poetas e artistas, nunca um cientista consideraria este um tema de trabalho. O romantismo alemão, em pleno vigor, tematizava a alma, as aspirações e os sonhos do homem alemão. A ciência, por sua vez, saía do tratamento moral da doença mental e entrava no organicismo. Neste contexto, as preocupações e métodos de Freud eram, no mínimo, excêntricos. Freud, no entanto, não era um filósofo. Seu interesse pelos sonhos tem uma justificativa completamente científica. Seu rigor se demonstra em cada linha de seu texto na seriedade com que aceita tirar as conseqüências dos fatos, mesmo que em prejuízo de sua teoria ou de seu status médico. Um pouco da história envolvendo a obra e a própria psicanálise devem esclarecer este ponto. A origem das idéias contidas na obra Como o observador que se despe dos preconceitos para apreender um fato inusitadamente novo, Freud criou o que seria um método de pesquisa pela escuta. Pouco antes da escritura do livro passara pela experiência de ouvir de uma paciente que deveria calar-se e escutar mais. Obedeceu. Aos poucos percebia que os sintomas histéricos cediam à palavra. Ao narrar a origem dos sintomas as histéricas se curavam. A primeira teoria formulada para lidar com este fato foi a da catarse. Em poucas linhas a idéia central era a de que o sintoma histérico (no exemplo clássico paralisias, cegueiras, convulsões etc…) consumia uma quantidade de energia originalmente vinculada à idéia que provocou o sintoma. Assim, o acesso desta idéia à memória e à palavra deveria recanalizar esta energia represada no sintoma, eliminando-o. Como conseqüência desta teoria o mais importante a se objetivar seria a rememoração do evento desencadeante. Para facilitar esta rememoração Freud fez uso da sugestão e da hipnose. Começava aí seu isolamento do meio médico. A hipnose tinha uma pré-história acientífica de charlatanismo e apresentações espetaculares, e Freud se encontrava em Viena, capital cultural que costumava não tolerar tais práticas no meio médico. Não por acaso Freud precisa visitar Paris para estudar a hipnose com Charcot, a quem sempre dedicou um profundo respeito. A teoria da catarse seria progressivamente abandonada na medida em que Freud começava a perceber a presença de algo que se opunha ativamente à

Nas tentativas iniciais do que se tornaria mais tarde o método da associação livre Freud simplesmente se submeteu a ouvir o que vinha à mente de seus pacientes. Freud se viu obrigado a considerar. mais resistência seria encontrada na rememoração de uma determinada idéia. Imbuído de uma crença profunda na lei da causalidade supõe que algum fator desconhecido justificaria que os sonhos surgissem na fala dos pacientes. Com este conceito consegue juntar fenômenos distintos como o sonho e os sintomas histéricos. Este esquecimento será descrito como conseqüência de um mecanismo chamado 'recalque'. Ainda em busca da memória perdida. Vejamos rapidamente alguns pontos. A tese central do texto é a de que "O sonho é a realização de um desejo". Esta seria outra idéia responsável pelo isolamento da comunidade científica de sua época. nos diz Freud. Quando não se trata de um desejo aceitável. Nos pontos em que localizava alguma resistência aprendeu a reconhecer a necessidade de fazer valer sua presença. preferimos esquecê-lo. mas também a sexualidade infantil. Os sonhos são apenas um exemplo destes efeitos.rememoração. associando-os a eventos relevantes à sua neurose. A importância dada aos sonhos começava aí a tomar força. digamos desde já. Freud formula as leis e as características do inconsciente. não é necessariamente um desejo que possamos aceitar em nossa vida em vigília. o que. seria cernido pelo conceito de inconsciente. . fazendo com que o paciente se detivesse neste ponto. o tipo de defesas com que se protegiam da investigação e a ferocidade com que resistiam à cura. em sua insistência e incitação. Freud não se autoriza a legislar o que teria ou não pertinência na narrativa do paciente. de modo que pudesse seguir por uma trilha inicialmente bloqueada. entendamos. Freud começava a apreender o funcionamento dos sintomas. Em outras palavras. Os pacientes também traziam lembranças de sensações sexuais prazerosas vividas na infância. Se os sonhos se impunham desta forma à observação do pesquisador. A hipnose escamoteava este fator. Deixados livres para falar o que viesse à cabeça os pacientes logo começaram a narrar sonhos. se esforçasse um pouco mais. servindo portanto de indicador do valor de uma determinada idéia para a doença histérica correspondente. Os sonhos e a neurose Em A Interpretação dos Sonhos. no entanto. À guisa de comentário paralelo notemos que não só os sonhos adquiriram seu valor desta forma. quanto mais relacionada à doença. derrubando todas as resistências. Só em A Interpretação dos Sonhos será possível encontrar suas teses a este respeito. apesar do choque. nada mais legítimo que decifrar sua estrutura. Este fator de resistência se relacionava exatamente àquelas lembranças mais importantes. Este desejo. O desejo recalcado. Este fator desconhecido. Uma nova abordagem se faria necessária se o que se pretendia era tirar as conseqüências desta descoberta. permanece em algum lugar exercendo seus efeitos.

O que Freud formula é que os sonhos seguem uma lei própria. cujos efeitos nos surpreendem por seguir uma lógica diferente e desconhecida (ainda que sempre familiar). Freud decifrou a gramática destes processos. O inconsciente tem suas leis e particularidades rigorosamente formuladas e a precisão deste conceito se faz mais necessária com sua popularização. É nos capítulos 6 e 7 do livro que Freud desenvolve o mecanismo de trabalho dos sonhos e o funcionamento do aparato mental. por ser um dos mais importantes pontos de A Interpretação dos Sonhos. Mas dissemos que o sonho e os sintomas possuem uma estrutura comum. Desta forma. com o quê . buscar a realização de seus impulsos. Aos processos que ocorrem no inconsciente Freud chama processos primários. que tende a deturpá-lo. O sonho pode ser entendido como a expressão de uma série de desejos. A principal diferença é que no sintoma uma solução é encontrada para que o desejo se apresente na consciência. de modo que fatos ou imagens aparentemente sem importância podem ter sido amenizadas. sua não obediência às leis que nos regem na vigília. que encontram nele a única via para a consciência. este desejo se manifestará com as distorções necessárias para que possa ser aceito pelo consciente. no inconsciente. mas o conceito de inconsciente é algo inédito. cujas regras reconhecemos. um desejo que não condiz com nossa posição social. seguem uma lógica que não é a lógica cotidiana. não conhecer a temporalidade e acima de tudo. No inconsciente.Mas os sonhos têm por característica sua falta de senso. Têm por característica não levar a realidade em consideração. Também neste caso. mas digamos desde já que o sintoma neurótico é também uma manifestação de um desejo. como sub-consciente ou como algo que não sabemos mas que podemos saber com algum esforço de nossa parte não é falar do inconsciente freudiano. O funcionamento do sonho O inconsciente é freudiano. É levado assim a demonstrar que nosso aparato mental é formado pela consciência. do consciente. provocando o recalque). Se não é possível que ele se expresse conscientemente (por que no consciente atua aquela resistência que mencionamos acima. Falar do inconsciente como franja da consciência. nossa situação civil etc…é 'jogado' naquele campo que não segue as mesmas regras de nossa consciência. Apresenta o mecanismo de deslocamento na possibilidade que as idéias têm. Isto ficará mais claro no próximo ítem. este desejo vai procurar sua expressão a qualquer custo. nosso sexo. em oposição aos secundários. Antes de Freud já se falava de inconsciente. tolerar contradições. e pelo inconsciente. É por isto também que o sonho será entendido por Freud como a via régia para o inconsciente. de 'emprestar' seu valor para outras idéias. Dois mecanismos básicos são localizados: a condensação e o deslocamento. contudo. descobriu os meios pelos quais atinge seus objetivos. ele vai buscar alguma expressão substitutiva que consiga escapar à censura. uma vez que é sua manifestação mais direta. nos diz Freud. Nos estenderemos nisto.

a ficar relegado ao ics. uma vez que tenha sido censurada. Todo o material que não pode passar pela censura está condenado a ser recalcado. são também realizações de desejo. no entanto. De forma inversa fatos que aparecem no sonho como extremamente nítidos ou valorizados usualmente ganharam seu relevo por uma associação a outra idéia. O trabalho do sonho é entendido. sem. O passo seguinte é o que permite a intervenção clínica da psicanálise. lembrando que no ics as idéias buscam sua expressão. mas as idéias com as quais se associa. Desta forma um desejo mais 'amenizado' é realizado. levando a realidade em consideração. o trabalho do sonho é a maneira pela qual um desejo pode se realizar por seus substitutos. não poderá ser reconhecida no consciente.burlam a censura. e é por provar isto que o trabalho de Freud adquiriu seu valor. Se nossos desejos devem levar em consideração a realidade para que possamos aceitá-los. como o trabalho de distorção necessário para que o material do ics possa se manifestar. Nos exemplos de Freud vemos como características isoladas de uma pessoa podem representá-la por inteiro ao se compor com outras características que representam outras pessoas. podem ser utilizadas para representá-la (deslocamento). A diferença em relação aos sonhos é que nos sintomas um compromisso se estabelece entre o desejo e a censura. por toda uma gama de possibilidades. O que importa é que a idéia 'principal'. ficar com isto silenciado. A natureza desta relação é muito abrangente. Este mecanismo permite que um pequeno detalhe possa representar uma idéia completa. enfim. fazendo com que nem o desejo se realize por completo nem a censura seja totalmente eficaz. Então. Vale dizer ainda que a distorção a que o material do sonho foi submetida nunca é casual ou caótica. Os sintomas. No sonho há também em funcionamento o mecanismo da condensação. mas a realidade que lhe chega já passou pelos processos do ics. ou nos termos de Freud: os desejos buscam sua realização. assim. Uma conseqüência direta desta explicação do sintoma é muita incômoda para todos nós. Como intermediário entre os dois sistemas figura a censura. pela similaridade. um personagem pode estar ocupando a função (que tem na realização do desejo) de toda uma multidão de personagens que não figuram no sonho senão por fragmentos. pela homofonia. uma vez que esta associação não seja óbvia. Freud demonstra. As razões deste trabalho de montagem são explicadas pelo aparato psíquico proposto no capítulo seguinte do livro. esta sim. O ics recebe seu material do sistema perceptivo. ou seja. podendo ser determinada pela contigüidade espacial ou temporal em que ocorreu. e entre eles o pcs (préconsciente). compondo o material do sonho. uma intenção ou mesmo uma percepção) está permanentemente relacionada a outras. Neste aparato o ics (inconsciente) figura em um extremo e o cs (consciente) no outro. Assim. de grande importância. mas não tem acesso ao sistema motor. Uma idéia (um desejo. como saber se o que reconhecemos como nossos . uma função que determina o que pode e o que não pode aceder à motilidade. O cs controla as ações.

tendo que considerar suas regras. Cada vez mais o homem é tratado como um objeto sem desejos. se há falta de interesse sexual pela esposa há uma pílula que o resolva. vemos a procura de oráculos e gurus que prometem soluções prontas. A psicanálise hoje A transmissão da psicanálise foi garantida. Em sua leitura desta obra de Freud propõe que o que é formulado é um inconsciente estruturado como uma linguagem. Vemos brotarem novas crenças e novas terapias ditas alternativas a cada dia. o pragmatismo americano se empolga em afirmar que a psicanálise está em crise. por Jacques Lacan. e etc…Nos tempos do Viagra e do Prozac. estes inconscientes? Em outras palavras. uma vez que vivemos em sociedade. se há falta de empolgação pela vida há uma outra.desejos não são amenizações de nossos 'verdadeiros' desejos. absorvendo bravamente os golpes em seu centenário. A condensação e o deslocamento podem ser entendidos como a metáfora e a metonímia e a estrutura associativa das idéias como a cadeia de significantes (que só podem existir entre dois outros. A descrença americana na psicanálise é equivalente à descrença freudiana nos americanos (afirmou algumas vezes que os americanos jamais compreenderiam a psicanálise . o homem se encontra na necessidade de encontrar saídas menos mecânicas para a angústia que a vida em sociedade cobra como preço. Como a ciência atual se encontra cada vez mais marcada pelo funcionalismo e utilitarismo tão típicos do american way. enfim. (*) Augusto Cesar Freire é psicanalista associado ao Tempo Freudiano Associação Psicanalítica e doutorando em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. os efeitos colaterais da coisificação do homem. vemos. a partir da década de 50.e a história o confirmou). A razão para isto é muito simples. Paralelamente. Partindo da clínica das psicoses (Freud partiu da neurose) Lacan amplia o campo psicanalítico e encontra a precisão necessária ao ensino e à transmissão da psicanálise. em associação). . cada vez mais se mostra como a única prática fundamentada a se propor trabalhar nesta realidade em que vivemos. A psicanálise. somos todos neuróticos. a psicanálise encontra seu campo (ao contrário do que se previu) cada vez mais valorizado.

A distinção encontra-se na observação de que durante o sono REM os olhos saltam de um lado para o outro. de descrevermos as descobertas de Freud. Ocorre também nos indivíduos femininos uma reação correspondente no tecido vaginal. Os estudos que decifraram este movimento dos olhos no sono foram realizados em 1953 pelo Dr. Estudos do campo da Psicologia têm determinado que a privação do sono acarreta sérias consequências mentais e físicas. Neste. Sabe-se também que há quatro estágios no sono REM. Mais especificamente. a ereção peniana. deixando de lado o sonho que. Temos que concordar com Freud. porém. as variações musculares. há também a ocorrência nos indivíduos masculinos (de todas as idades). uma estrada real que leva aos recessos inconscientes da mente. Nathaniel Kleitman.com. para a Psicanálise é de suma importância. Dormir é sonhar e sonhar é uma necessidade neurofisiológica.br/monografia/ A IMPORTÂNCIA DO SONHO EM PSICANÁLISE Sem dúvidas o marco na obra do pai da Psicanálise foi a publicação de sua obra acerca dos sonhos. a Psicologia se dedica em desvendar o funcionamento do sono.pregaapalavra. Pensamos que para retratarmos bem os mecanismos que envolvem o sonho. de que os sonhos são verdadeiramente. através do eletromiograma. onde cada um . julgamos necessário expor o processo do sono. como explicou o pai da Psicanálise.http://www. O primeiro aspecto importante que a Psicologia desvendou sobre o sono é que existem tipos de sono: NREM (No Rapid Eye Movements) e REM (Rapid Eye Movements). em nenhum outro fenômeno da vida psíquica os processos inconscientes da mente são revelados de forma tão clara e acessível ao estudo. com a respiração e o ritmo cardíaco tornando-se mais rápidos e irregulares. Na verdade. como se observassem uma cena. a pressão arterial mais elevada e um aumento da secreção dos hormônios supra-renais. ganhou sua devida notoriedade. para depois centrarmos nossa atenção nos sonhos que. através do eletrooculograma. Entendendo o Processo do Sono O fenômeno do sono é de interesse tanto para a Psicologia como para a Psicanálise. observa-se também uma variação no Sistema Nervoso Autônomo. são os guardiões do sono. Dentro das distinções presentes no sono REM. Antes. Tais pesquisas de laboratório mediram as ondas cerebrais de pessoas durante o sono através do eletroencefalograma. devemos mencionar algumas das principais descobertas da Psicologia quanto ao fenômeno do sono. Este fenômeno psíquico que até então não tinha grande importância para a ciência. e a movimentação específica dos olhos. no que tange à compreensão dos mecanismos que regem o sonhar.

Gastão Pereira da Silva define o sonho de uma forma que bem demonstra sua relevância. o resultado final de uma atividade mental inconsciente durante este processo fisiológico que. No quarto estágio. Por isso a Psicanálise vê com tanta atenção este produto da mente. Leon L. O segundo estágio é o sono intermediário.uma área associada ao funcionamento primitivo de impulsos e afetos . com o mais completo desligamento do mundo exterior. enquanto dormimos. apenas. satisfeitos em pleno campo psíquico. podendo já neste estágio ocorrer sonhos. na sociedade em que vivemos.está em jogo. após o despertar.caracteriza-se por um padrão de onda cerebral. gozam. por outra. O primeiro estágio é o sono leve. que marca o iniciar do sono. seguidas de sensações de queda. É nesta fase que podem ocorrer irregularidades como o sonambulismo. com os pensamentos mais ou menos descoordenados. provocados por estímulos fisiológicos. de suavizar. o qual nos devolve aos estados primitivos da infância. Em seu livro sobre o sonho. de que o sonho é um fenômeno regressivo. durante o sono. Seus vários elementos são designados como conteúdo . As descobertas de Freud. há uma total relaxação. mesmo. de que os sonhos têm um conteúdo psicológico fundamental revolucionaram o estudo da mente. quando o indivíduo se torna insensível aos sons e oferecerá resistência em ser acordado. quando o indivíduo fica relaxado. uma realidade que nos é hostil. totalmente diferente. disfarçados ou não. O Sonho na Teoria Psicanalítica de Freud O conteúdo onírico é de suma importância para a compreensão do inconsciente de quem o produz. que é o sonho. Altman explica que as mudanças neurofisiológicas que têm lugar durante os períodos REM sugerem que a ativação da área límbida do cérebro . Chama-se sonho manifesto a experiência consciente. Antes os sonhos eram tidos como meros efeitos de um trabalho desconexo. onde um novo mundo se descortina diante da alma e onde todas as nossas ações parecem absurdas. Os conhecimentos desenvolvidos por Freud trouxeram os sonhos para o campo da Psicologia e demonstraram que estes são tão somente a realização de desejos. ameaça interferir com o próprio sono. justamente porque as mais censuráveis. que a pessoa pode ou não recordar depois de despertar. quando se expandem nos sonhos. O autor vê essa retrogressão como uma corroboração à teoria de Freud. de substituir. tem a duração de alguns minutos . Uma função psíquica encarregada de compensar. ocorrendo um relaxamento maior. por sua natureza ou intensidade. chamamos de sonho é. o sono mais profundo. O terceiro estágio é o do sono profundo. Podemos sintetizar a teoria psicanalítica dos sonhos da seguinte maneira: a experiência subjetiva que aparece na consciência durante o sono e que. de uma espécie de liberdade condicional. podendo ocorrer experiências sensoriais sem base real (alucinações) e crispações súbitas e desordenadas do corpo.

de certo modo. Uma objeção que geralmente é feita à teoria freudiana do sonho como realização de desejo fundamenta-se nos pesadelos. chamamos de elaboração do sonho. não tinha quase sensibilidade alguma para a linguagem poética”. Para alguns críticos há pesadelos dificilmente explicáveis como realização de um desejo. No terceiro capítulo de nossa pesquisa incluiremos um ítem específico sobre este tipo de sonhos. por si só. Assevera também que o analista que acredita no contrário e que encoraja seu paciente a relatar sonhos. esta carência em Freud o levou a aceitar um conceito limitado dos símbolos. Thomas S. ao tratar especificamente da teoria freudiana da interpretação dos sonhos. Os pensamentos e desejos inconscientes que ameaçam acordar a pessoa são denominados conteúdo latente do sonho. Erich Fromm. no que tange à capacidade de Freud em compreender os símbolos. As operações mentais inconscientes por meio das quais o conteúdo latente do sonho se transforma em sonho manifesto. reconhece que suas descobertas neste campo. ainda que reconheça o valor da interpretação dos sonhos em terapia.manifesto do sonho. uma vez que chegam a ser tão penosos que até interrompem o sono. por conseguinte. Uma crítica é feita a Freud por Erich Fromm. declara que não crê que esta seja o caminho principal para o inconsciente. 1 Reconhece que Freud foi o primeiro a conferir à interpretação dos sonhos uma base sistemática e científica. 1 . Szasz. Demonstrou que existem desejos sádicos e masoquistas que produzem grande ansiedade. Por exemplo. seriam suficientes para elevá-lo à condição de uma das figuras mais notáveis na ciência do homem. Para este. Freud era um “racionalista carente de inclinações artísticas ou poéticas e. mas nem por isso deixam de ser desejos que o sonho satisfaz. a quem considera muito influenciado pelo pensamento burguês de sua época. salientamos que Freud anulou esse argumento de modo engenhoso. quase sempre relacionando-o ao sexual. A concepção de que o sonho é a principal via para se acessar o inconsciente é refutada por vasta corrente de psicanalistas. Na opinião de Fromm. Refutações à Teoria Freudiana da Interpretação dos Sonhos Mesmo fazendo críticas às teorias de Freud. De antemão. distorce o procedimento analítico.

Vamos explicar cada uma destas partes e como colaboram na formação deste conteúdo. receio termos de admitir que quase nada ficamos sabendo a respeito do modo como Freud interpreta o sonho. Quando.Para referendar suas críticas à capacidade de Freud de entender os símbolos. O Conteúdo Latente do Sonho Esta é. o autor se propõe a fazer a sua análise do sonho de Freud. Estas distinções são imprescindíveis na Psicanálise. o relato que o indivíduo faz após acordar do que sonhou e pode lembrar-se. antes do adormecimento) e os impulsos do id. eu folheava uma prancha colorida e dobrada. a primeira parte do processo de sonhar. publicado por Freud em 1900. bem como explicaremos como o conteúdo latente chega a ser o sonho manifesto. Por . dando um sentido para cada símbolo que ele identifica no sonho acima. Erich Fromm critica: Se perguntarmos que insight obtemos de Freud através de sua interpretação do sonho. Passaremos a detalhar estes conceitos. nos referimos ao significado de um sonho estamos especificando o conteúdo latente do sonho. na verdade. os pensamentos e idéias relacionadas às atividades do dia (os restos do dia. Erich Fromm reanalisa alguns dos sonhos narrados e auto-analisados por Freud. Fromm utiliza o próprio método freudiano para interpretar o sonho do pai da Psicanálise. Um destes. via de regra. A primeira. OS PROCESSOS DE ELABORAÇÃO DO SONHO Ao falarmos em sonho. é o seguinte: Eu escrevia uma monografia sobre certa planta. E. no entanto. Comentando a longa análise que Freud publicou sobre este seu sonho. que são as impressões sensoriais do indivíduo que dorme. como se tivesse sido retirado de um herbário. Após este comentário supra. referemse às impressões que os sentidos captam mesmo durante o sono. e se forma da soma de três componentes: as impressões sensoriais noturnas. Apesar de pensar que Freud não tivesse o espírito poético necessário para se compreender o sentido de um símbolo. O livro estava diante de mim e. estaremos nos referindo ao que chamamos de sonho manifesto. extremamente importante como chave para se entender a personalidade de Freud. o significado do sonho é tão óbvio e. podemos dizer. Preso a cada exemplar havia um espécime dessecado da planta. porém. no momento. ou seja.

Esta é a parte que contribui com maior parcela de energia psíquica necessária ao sonho. o conteúdo latente é composto ainda por impulsos do id. Além disso. com todos os sentimentos de esperança ou medo. citamos também os restos do dia como participantes em potencial da latência do sonho. sem esta contribuição não pode haver sonho. Eis como Brenner explica esta presença de impulsos reprimidos da infância no conteúdo latente do sonho: Uma vez que as defesas mais importantes e de maior alcance do ego contra o id são as que se formam durante as fases pré-edipiana e edipiana da infância. comumente acessíveis ao ego. banidos da consciência pelas defesas do ego (portanto da gratificação direta durante o estado de vigília). não acordar e nem sonhar com ela. Ele explica sua opinião afirmando que no sonho manifesto a . envolvimentos do dia. a sirene de um carro dos bombeiros. consistente em desejos apropriados à primeira infância ou dela provenientes. as impressões sensoriais captadas durante o sono são pertinentes ao sonho latente.exemplo. a parte do conteúdo latente do sonho que deriva da reprimida é geralmente infantil ou pueril. a programação de um aparelho de TV. pela lógica e pela coerência. provocar isto sim o despertamento imediato da pessoa e não provocar nenhum sonho. Referem-se às preocupações. Por conseguinte. interesse ou repugnância que os possam acompanhar. Para Freud. calor. que permanecem ativos no inconsciente durante o sono. frio. apesar de sua audição estar normal. Brenner afirma que os exemplos para este tipo de influência são inúmeros: “incluem toda a variedade de interesses e recordações. que pode ser um ou vários. ao invés de somar-se ao conteúdo latente. tudo o que nossos sentidos puderem captar pode tornar-se parte do conteúdo latente do sonho. a grande maioria dos impulsos de nosso aparelho sensorial não tem efeito discernível sobre a mente durante o sono: uma pessoa pode dormir durante uma tempestade. a parte essencial do conteúdo latente é a que provém do id reprimido. isto é. atividades. Segundo ele. nem mesmo a ponto de participar da formação de um sonho. Brenner explica que a maioria dos estímulos sensoriais noturnos não perturbam o sono. enfim. Altman aponta como o aspecto mais atraente do sonho manifesto a sua indiferença pela racionalidade. orgulho ou humilhação. O Conteúdo Manifesto do Sonho Uma definição muito simples de sonho manifesto é: as imagens do sonho tal como são recordadas ao despertar. Há também que se levar em conta que a impressão sensorial poderá. conclui-se que os impulsos do id nesses primeiros anos são o conteúdo principal do reprimido.”. sede. Ressalvados estes dois aspectos. Além delas. desejo de urinar. a dor de algum ferimento.

Toda esta elaboração é necessária para que o sonho possa passar pela censura (os mecanismos de censura da parte inconsciente do ego). Este mesmo princípio é retratado pelo autor em outros exemplos: um episódio da infância poderá se concretizar nas roupas dos personagens. compreende vários mecanismos: dramatização ou concretização. pode manifestar-se no sonho através de uma imagem concreta. Ao todo são sete fases que passaremos a expor. é um desejo de livrar-se dele. Quanto à relação entre o conteúdo latente do sonho e o sonho manifesto. cria o disfarce e a distorção que formam a fantasia em que se mostra o sonho manifesto. Este processo de deformação do conteúdo latente. pois são exatamente a mesma coisa. representação pelo oposto. a atração com a repugnância. Primeiro. sem preocupação com a lógica da tradução. dependendo do sonho.agressão e a violência física se tornam indistintas da paixão erótica. do sonhante folheando a revista Veja. esta pode ser muito simples ou muito complexa. desdobramento ou multiplicação. Tallaferro explica isto assim: um pensamento abstrato. porque não se pode ainda estabelecer uma distinção clara entre a parte reprimida e o resto do id. Os sonhos da primeira infância são os que nos fornecem a relação mais simples. Segundo. Dramatização ou concretização Nos sonhos não existem pensamentos abstratos. deslocamento. Um exemplo deste tipo de sonho é o de uma criança de dois anos que sonha na noite em que a mãe chegou da maternidade com o irmãozinho recém nascido. É óbvio que o conteúdo latente. como por exemplo. A Elaboração do Sonho O processo psíquico de elaboração do sonho. porque em tais sonhos não precisamos distinguir entre preocupações infantis e habituais. mas somente imagens concretas. O conteúdo manifesto trata-se de uma fantasia que simboliza o desejo ou impulso latente já satisfeito. o horror com o fascínio e a condenação com a aprovação. uma senhora que deseja . a partir dos impulsos reprimidos do id. o prazer se funde com a dor. Na elaboração do sonho os pensamentos abstratos tornam-se imagens concretas. Explicaremos agora os processos envolvidos nesta elaboração do sonho e como cada um destes atua na formação do disfarce do conteúdo latente. uma vez que o ego da criança muito nova ainda não se desenvolveu a ponto de haver criado defesas permanentes contra qualquer impulso do id. representação pelo nímio e representação simbólica. Brenner explica que. ou de elaboração. como a consideração da própria vida. um impulso infantil para com o recém nascido. até torná-lo irreconhecível na forma do sonho manifesto. condensação. Em seu sonho o bebê vai embora. A fantasia consiste essencialmente na satisfação do desejo ou impulso latente.

Quando o deslocamento não é de imagem. chama-se isto de projeção. A pessoa que sonhou falara no dia anterior com um homem que se parecia com o irmão. Era a casa em que vivíamos quando o meu irmão nasceu. mas de determinada emoção. inexplicavelmente. que está de calça listrada e paletó verde. Deslocamento É tido como o processo mais importante da deformação do sonho por Tallaferro e consiste na substituição de uma imagem do conteúdo latente por uma outra no conteúdo manifesto. um outro homem que usava sempre um paletó verde e um parente que o fizera sofrer durante a infância e era ruivo. de tirar do caminho um indivíduo que tinha calças listradas. se um personagem do conteúdo latente tem desejos agressivos contra outro. poderá sonhar que estava plantando sementes que rapidamente produziam raízes e convertiam-se em árvores. verifica-se que o sonhante dera curso na vivência onírica ao seu desejo. muito . cada um dos elementos pode indicar um aspecto ou qualidade da pessoa/objeto relacionado. logicamente reprimido. Altman apresenta o seguinte sonho para exemplificar este conceito: Eu estava de pé num lugar muito definido de uma casa muito bem definida. ao dobrar rapidamente uma esquina. Tallaferro apresenta o seguinte exemplo para explicar este processo: a análise dos sonhos de um indivíduo que em seus sonhos sempre via suas mãos com oito dedos cada uma revelou a existência de sua angústia de castração. atropela e mata um homem de meiaidade. Várias pessoas ou elementos do conteúdo latente costumam aparecer no conteúdo manifesto como uma única pessoa.fervorosamente não ter que abandonar sua casa. que ele tentava superar multiplicando seus dedos. no conteúdo manifesto é este quem os tem. símbolos do pênis. Assim. sensações e desejos que compõem o conteúdo latente do sonho. mas com as características condensadas de cada uma delas. ruivo. Neste caso. Tallaferro dá um exemplo de como isso acontece: um homem sonha que está dirigindo um caminhão e que. Vi uma bola parada diante de mim e dei-lhe um violento pontapé. Estava no que se tinha sido o meu lugar de recreio. Condensação Na vasta maioria dos casos o sonho manifesto é uma versão altamente condensada dos pensamentos. Interpretando o sonho. Desdobramento É o contrário da condensação: uma pessoa ou objeto do conteúdo latente corresponde a duas ou mais do conteúdo manifesto. fazendo com que chegasse em casa.

se retirou para o seu quarto.” Representação pelo oposto Tallaferro explica que isto ocorre quando um personagem. desfeita em lágrimas. Representação simbólica Esta representação simbólica pode também ser entendida como uma forma especial de deslocamento. Afirma que é o que também ocorre quando no conteúdo manifesto o indivíduo está partindo. Neste processo. Nota-se um símbolo quando em diferentes sonhos observa-se que determinado elemento concreto do conteúdo manifesto está relacionado. com certa constância. criticou-o asperamente e. na realidade. que no conteúdo latente do sonho tem uma intensa emoção. no sonho. Com relação ao sonho realçam que o deslocamento está ligado à censura: “A censura utiliza o mecanismo de deslocamento privilegiando as representações indiferentes. O marido. é voltar.irritada. Desta forma. em casa. localizar. ou o próprio sonhante. o que ele pretende fazer. que consiste em sublinhar no conteúdo manifesto algo que nos pensamentos latentes tem valor secundário e. e a bola. Um exemplo: o desejo inconsciente de despir uma mulher pode aparecer no sonho manifesto representado pela ação inocente de lhe tirar um brinco. Representação pelo nímio Quando uma representação do conteúdo latente se faz no sonho manifesto mediante uma imagem de seus detalhes mais insignificantes. Laplanch e Pontalis informam que nas diversas formações em que é descoberto pelo analista. o deslocamento tem uma função defensiva evidente. ainda é possível que um intenso desejo de amor no conteúdo latente se expresse no conteúdo manifesto por ódio ou rejeição. ao passo que. Tallaferro ainda expõe outra forma desta representação. Sem qualquer provocação do marido. circunscrever a angústia. com um elemento reprimido do conteúdo latente. mas representado . Citam o exemplo de uma fobia. colocar o principal em segundo lugar. uma representação simbólica consiste num objeto ou um ato que não aparece como tal no conteúdo manifesto. aparece no conteúdo manifesto como totalmente calmo. em contrapartida. onde o deslocamento sobre um objeto fóbico permite objetivar. atuais ou suscetíveis de se integrarem em contextos associativos muito afastados do conflito defensivo. sofreram o que era destinado ao irmão da mulher. segundo o seu desejo do conteúdo latente. depois.

inclusive o sonho. como já demonstramos. PRINCÍPIOS PARA A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS Sendo os sonhos o produto do psiquismo e. podendo também produzir acréscimos. Este processo visa tirar a aparência de absurdo e incoerência do sonho. Esta elaboração secundária. . A Psicanálise nos oferece diversos recursos para este propósito. nem sempre fica satisfeito com os resultados. é um último esforço para tornar o sonho aceitável. faz-se necessário interpretá-los. Afirma que todas as minuciosas medidas empregadas para disfarçar os pensamentos oníricos latentes estão às ordens do nunca totalmente adormecido ego do sonhador. Constitui um segundo momento de trabalho do sonho e incide sobre os produtos já elaborados pelos outros mecanismos. Freud ainda definiu a elaboração secundária como um efeito da censura. portanto. com a finalidade de apresentá-lo sob a forma de uma história relativamente coerente e compreensível. É nesta fase da elaboração que o sonho ganha continuidade e alguma lógica. A censura. mesmo considerando que esta tem um papel não apenas negativo. o sonho sempre será a manifestação dos desejos inconscientes. Especificamente sobre os símbolos nos sonhos trataremos no próximo capítulo de nossa pesquisa. sendo mais um fator para a distorção onírica. essenciais para a compreensão do inconsciente. Acrescente ainda que. forneça o motivo para a distorção do sonho. A Elaboração Secundária Consiste num processo psíquico em que o sonho é remodelado. tapar seus buracos. Altman explica este fator chamando-o de “revisão secundária”. Garcia-Roza afirma que interpretar um sonho é tarefa fascinante para a lógica e para o senso comum e sugere aos psicanalistas tratar cada sonho como se fosse uma das peças de um quebra-cabeça.mediante um símbolo. que proíbe a expressão de impulsos inconscientes nas formas que naturalmente assumiriam. O ponto inicial de todo trabalho no sentido de interpretar um sonho é que ressalvados os “restos do dia” a que se submeteu o indivíduo que sonha. remanejar seus elementos. embora o ego muitas vezes impulsionado pelos requisitos do superego. quando enfocarmos a interpretação dos sonhos. opõe-se aos fenômenos regressivos. realizando uma escolha entre eles e fazendo acréscimos.

provérbios. pelos mitos. Noutro experimento. Disto concluímos que a “chave” não nos permitirá abrir exatamente todas as portas. pelo folclore. foi-lhe ordenado que sonhasse ter tido uma relação homossexual. Estar numa ilha solitária representava o isolamento social e a chuva. Mas as passagens que eram repelidas pela sua moralidade apareciam no conteúdo manifesto de forma simbólica.Os desejos quanto mais inconfessáveis. a simbologia. Freud percebeu que tal simbolismo não pertence exclusivamente ao sonho (ao inconsciente de quem sonha). representadas por elementos que se encontram nos sonhos de todos: montar a cavalo. e então a mulher sonhou que punha objetos numa mala rotulada “somente para senhoras”. dentre outras coisas. chistes correntes na comunidade de quem sonha. subir ou descer uma escada. Tallaferro informa que também se verificou nestes experimentos que os sujeitos em estado de hipnose são capazes de interpretar os símbolos que se apresentam a eles. Para interpretarmos um sonho temos que entender a linguagem dos símbolos. Esta é a linguagem dos sonhos. solteira. se por um lado há em muitos casos a comunidade entre o símbolo e o elemento por ele representado. quanto mais queremos que eles fiquem encobertos. um pesquisador de nome Scroetter fez a experiência de hipnotizar uma mulher e lhe ordenar. Faber e Fischer. Observou-se que tudo o que não aparecia como imoral a mulher sonhava como tal. dois pesquisadores. Assim. que sonhasse ter tido um intercâmbio genital. Freud descreveu o extenso emprego de simbolismo nos sonhos. o que não conseguem fazer quando se encontram fora da hipnose. rodeada de enormes ondas e suportando uma chuva forte e incessante. as críticas que uma mulher solteira com um filho teria que suportar. A mulher sonhou então que sua amiga estava numa ilha solitária. . No ano de 1943. fica pronto um enredo cheio de fantasias. dançar. propôs ele ser possível compor uma “chave dos sonhos”. sobretudo para a representação do material sexual. Para ele tais símbolos podem ser comparados a sinais da taquigrafia. ser atropelado por um veículo. claro que alertando que. Ou seja. Foi possível demonstrar experimentalmente o uso dos símbolos. cair de uma certa altura. mais disfarçados surgem no desenrolar desses filmes de que somos espectadores quase todas as noites. realizaram experimentos com uma mulher a quem hipnotizaram e ordenaram que sonhasse que uma amiga dela. mas que é referendado pelo popular. Em 1912. com uma significação fixa. estava grávida. noutros também acontece de se manter oculta esta relação. Nossos desejos são elaborados por um mirabolante mecanismo e após um maravilhoso trabalho psíquico. Simbologia dos Sonhos Em sua obra Interpretação dos Sonhos.

A polidez. claras e coerentes nos sonhos. o modo disfarçado pelo qual nós a exprimimos. por outro. de amplexos. É só debaixo desta forma simbólica que a linguagem nos permite aludir à mais obscena das operações. conclui: “o símbolo é. estamos pensando. Gastão Pereira da Silva propõe a maneira como o analista haverá de comportar-se para distinguir os símbolos nos sonhos: A melhor maneira de distinguir um símbolo da idéia em si mesma. a urbanidade. de preparativos para o coito. portanto. que aprendeu a falar para saciar seus desejos de nutrir-se e procriar e. Como então explicar os sonhos aflitivos. não tenho a menor dúvida de que o sonho nada mais fez senão satisfazer o desejo de me ver livre do dente e não porque o sonho revele uma advertência de ordem sexual. Mas será que tudo no sonho é simbólico? Não. Tendo já apresentado os motivos pelos quais sonhamos e a linguagem típica dos sonhos. E isto só nos pode fornecer a alma do analisado. ou que o dente caiu por si mesmo.. E é interessante. estou com um dente me incomodando e sonho que o arranquei. Pesadelos Já explicamos que os sonhos são produzidos para trazer satisfação ao sonhador. ou não. só que em menor proporção. Uma indagação muito interessante é feita por Gastão Pereira da Silva quando escreve sobre isto: por que os símbolos nos sonhos referem-se quase que unicamente aos objetos sexuais? Sua resposta passa pelo conceito de evolução do homem primitivo. Se eu. por exemplo. é verificar se a representação se relaciona. atormentadores. então. julgamos por bem enfocar um tipo de sonho que para alguns desmerece o que já vimos expondo. revestiando-a de inúmeros símbolos. uma das mil e uma maneiras pelas quais a cada instante o homem civilizado procura encobrir a sua grande preocupação (para não dizer obsessão) sexual. de fato. Os símbolos são a linguagem dos sonhos..tudo isso se constitui como um censor rigoroso para impedir a expressão real daquilo em que nós. E para o iludir nós só temos um recurso: usar de símbolos. mostrar simultaneamente duas coisas: por um lado a obsessão sexual.. responsabilizando a “censura onírica” por isso: .”. O que leva ao aplauso uma platéia vendo certas danças muitíssimo artísticas é que plasticamente elas não são mais do que movimentos estilizados de conquistas. A maioria dos símbolos oníricos. Cabe à interpretação determinar o que é símbolo do que não o é. Há também representações diretas. encobre idéias sexuais. Dessas conclusões muitos recuam. com o objeto sexual. chamados pesadelos? Uma explicação é apresentada por Gastão Pereira da Silva.Por que dos simbolismos nos sonhos? Para a representação disfarçada de suas idéias latentes. a moral corrente ..

existir a possibilidade de estar satisfazendo desejos masoquistas ou de o sonho estar a serviço do superego. Para ele estes sonhos funcionam para o inconsciente exatamente como a febre funciona para o organismo em certas e determinadas condições. interpretar um sonho é descobrir seu sentido. perde a sua significação? Absolutamente. Ainda é comum que pessoas atribuam os tidos pesadelos ao “estômago cheio”! Já houve época em que os próprios médicos atestavam como causa para pesadelos as perturbações digestivas durante o sono. o que se está satisfazendo é também um desejo. Verificamos no conteúdo das obras propostas para este trabalho que uma das razões para os sonhos de angústia. Assim. a interpretação anda para trás nesse mesmo caminho. É que. é a produção de uma falha na elaboração do sonho. defendendo o psiquismo. quando ele não consegue essa finalidade. Neste caso. Com a Psicanálise aprendemos que de estômago cheio ou vazio qualquer pessoa pode ter o mais impressionante pesadelo. Mas. Princípios para a Interpretação dos Sonhos Interpretar é próprio à Psicanálise. É a teoria onírica desenvolvida por Freud que vem explicar cientificamente a verdadeira origem destes e de todos os sonhos. Assim. A prova disto. Basicamente. como a febre quando defende o organismo. são satisfações de desejos inconscientes. ou pesadelos. pela angústia que causam. Dá-se então o pesadelo. nem sempre os sonhos podem ser límpidos. simples ou compreensíveis. fantasiadas. os sonhos se utilizam de um outro recurso para alcançar o mesmo fim. também consideramos que em muitos pesadelos em que o indivíduo não chega a despertar. A realização de um ou de muitos desejos é sua única função. mesmo os sonhos tidos como “pesadelos”. seu único fim. castigando e angustiando o ego. interpretar é percorrer o caminho da compreensão por parte do analista que começa no conteúdo manifesto e chega às idéias latentes. como afirma Etchegoyen: “a elaboração vai desde as idéias latentes ao conteúdo manifesto. Mas. realizamno de maneira frustrada. até mesmo para a pessoa que sonha. a satisfação dos desejos reprimidos. É percorrer o caminho inverso ao da elaboração. é o despertamento de quem sonha. . qual o ganho para o indivíduo se a realização do desejo ocorre sem a participação da consciência? O mesmo autor responde a esta indagação explicando que tais sonhos são o desafogo da “tensão do Eu”. realizam. às vezes. As idéias recalcadas. entendemos. Porque quando a realização de desejos não pode ser elaborada de maneira clara. disfarçadas. Por outro lado. A febre está para o organismo como as idéias simbólicas estão para os sonhos.Se é o sonho uma realização de desejos.”. embora sem a pessoa ter consciência disso.

Numa terceira possibilidade. utilizado por Freud. Laplanche e Pontalis expoem que a palavra interpretação não traduz exatamente o significado do termo Deutung. Aqui o sonho satisfaz o desejo de acabar com a vida. tendo então mantido no inconsciente a apreensão. interpretar é transcrever o conteúdo manifesto em pensamentos latentes. para quem a interpretação dos sonhos é preponderante ao tratamento. devemos lembrar que cada paciente. O autor propõe três possibilidades para esta paciente. com o auxílio do psicanalista. Esta é chamada por Altman de “interpretação clínica” e visa apresentar estes pensamentos latentes ao paciente de uma forma que os possa digerir. Como se interpreta um sonho? Altman responde que o analista tem que. Para eles. machucando-se com facilidade. Primeiro. Na segunda possibilidade. por um absoluto descuido. não haveria dúvida em pensar que há na alma desta paciente sentimentos hostis à personalidade e que é vítima de culpa inconsciente e que. a paciente é uma mulher que vive desejando ser possuída por alguém e. Cada sonho compartilhado pelo paciente é uma carta que. dada noite. o que na verdade explica duas fases do mesmo trabalho. que se retratou no sonho da noite seguinte. precisa dessas autopunições para desafogar os seus complexos. cada situação. a tal paciente é uma pessoa com “complexos de suicídio”. Na primeira. principalmente. acidentando-se freqüentemente. partindo do exemplo de uma mulher que sonha ter sido atropelada. ardentemente desejada. segundo o referido autor. este autor diferencia dois conceitos de “interpretar”. do alemão. Há um exemplo de como agir na interpretação dos sonhos na obra de Gastão Pereira da Silva. que o atropelamento ocorrido no sonho não passa de uma agressão sexual.No trato do significado do termo “interpretação” em Psicanálise. Ao expor a “arte” de interpretar os sonhos. Sua linguagem tipicamente simbólica se apresenta como um desafio ao psicanalista no exercício de seu trabalho. Isto é realçado por Leon Altman. Sobre os procedimentos clínicos para se interpretar os sonhos. desastrada nas menores coisas. sonha ter sido atropelada. Em segundo lugar há a interpretação que ele oferece ao paciente e que se constitui na atividade suprema da terapia analítica. Conclusão Os sonhos nos oferecem a principal via para adentrar ao inconsciente. haverá de ser compreendida. Há de se concluir. Num caso destes. cada sonho é diferente de todo e qualquer outro. viu-se à mercê de ser apanhada por um automóvel. a interpretação que o analista faz para si próprio. Penso que é como uma luta de braço de ferro: por um lado o paciente com suas . trata-se de uma mulher que no dia anterior. ou seja. Deutung se aproxima mais de explicação e esclarecimento. portanto. aprender pela experiência como avaliar e selecionar o essencial na massa de informações e impressões que se lhe oferecem. exigindo a maior dedicação por parte do analista.

Erich. Lopes. trad. Porto Alegre: Artes Médicas. R. Alvaro Cabral. 1975. Karl. ed. Fundamentos da Técnica Psicanalítica. O Sonho em Psicanálise. J. trad. Alvaro Cabral. NUTTIN. Cícero G. 1970. 1989. 2a. 1980. A Interpretação de Sonhos demonstra a importância da interpretação dos sonhos em Psicanálise. ed. Rio de Janeiro: Zahar. volumes II e III. 281 p. São Paulo: Martins Fontes. Thomas S.Ensaios e Experiências. Jean e PONTALIS. Rio de Janeiro: Zahar. A. A obra prima de Freud. LAPLANCHE. Curso Básico de Psicanálise. 115 p. Charles. Pedro Tamen. da Rocha. Leon L. II. 1996. FREUD. B. Ana M. Spira. 235 p. WEISSMANN. Alzira S. . Alvaro Cabral. Psicanálise e Personalidade. 2a. 3a. Gastão Pereira. Rio de Janeiro: Agir.resistências que tornam o sonho numa fantasia bem elaborada e do outro o analista com sua perspicácia. A Ética da Psicanálise. 203 p. 2a. São Paulo: Martins Fontes. trad. Sigmund. trad. ed. trad. Rio de Janeiro: Zahar. 1971. vol. 2a. 231 p. Enciclopédia de Psicologia e Psicanálise. Obras Completas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Itatiaia. TALLAFERRO. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. trad. Assim. Horacio. trad. 1998. 1967. ed. trad. 552 p. Odilon Gallotti. Regina M. Bibliografia ALTMAN. trad. 347 p. Noções Básicas de Psicanálise. Rio de Janeiro: Delta. FROMM. 1958. bem como os princípios para sua devida interpretação. Grandeza e Limitações do Pensamento de Freud. 500 p. Joseph. Rio de Janeiro: Imago. 262 p. SZASZ. s/d. BRENNER. ed. Vocabulário da Psicanálise. ETHEGOYEN. 235 p. 1975. Fernandes. fundamental ao psicanalista em formação é compreender os mecanismos de elaboração do sonho. da SILVA. Psicanálise .

Ora. para não falar do óbvio -a sexualidade-. Ela faz parte de um conjunto de trabalhos que ocupou Freud na segunda metade da década de 1890. após a publicação dos "Estudos Sobre a Histeria". O livro saiu em novembro de 1899. Roentgen descobre os raios X e em Paris se publica a "Iconographie de la Salpêtrière". o editor Deuticke colocou no frontispício do livro a data de 1900. quanto a escandalosa disciplina da qual a "Traumdeutung" é o primeiro monumento e ao mesmo tempo uma das mais impressionantes realizações. os exemplos certamente não escasseiam. muitas vezes. o século que ora se encerra foi ao menos no campo das humanidades o século freudiano. dez anos após a publicação da primeira. as obras inaugurais de uma nova área da invenção humana atingem um grau de perfeição dificilmente alcançado pelas que se seguem. ocorre a primeira Bienal de Veneza. em 1895. das relações interpessoais. Nenhuma outra corrente de pensamento influenciou tanto nossa visão do homem. a histeria era na época o grande mistério da medicina e discutiase até mesmo se se tratava ou não de uma doença. dos conflitos emocionais. Aliás. da "Divina Comédia" e dos "Contos de Canterbury" para o italiano e para o inglês ou ainda no "Cravo Bem Temperado" para o sistema tonal na música. um livro adornado com gravuras mostrando com riqueza de detalhes as contrações." Assim se expressa Freud no prefácio à segunda edição de "A Interpretação dos Sonhos". É como se a descoberta de um novo campo expressivo trouxesse consigo um potencial de criação de idéias e de padrões que já nas primeiras concretizações se encontra realizado em grau superlativo. Havia os que pensavam que as histéricas eram apenas simuladoras em busca de atenção. a corrente de pensamento mais influente do século.A descoberta revolucionária de Freud Publicado em novembro de 1899. em 1909. à perda mais pungente que ocorre na vida de um homem: a morte de meu pai. 28 de Novembro de 1999) "Este livro é minha reação ao fato mais importante. do "Pentateuco" para o idioma hebraico. paralisias e contorções das histéricas internadas naquele hospital. A "Interpretação" é algo do mesmo gênero: referência para todas as realizações futuras e demonstração impressionante da fecundidade de um pensamento revolucionário.. Freud. mas sua redação se iniciou bem antes. Como que para saudar o novo século com um progresso decisivo no conhecimento da alma humana. RENATO MEZAN (Jornal "Folha de São Paulo". esse foi um ano fértil em inovações sem as quais nosso século não teria a feição que teve: os irmãos Lumière realizam a primeira projeção de cinema. Marconi inventa o telégrafo sem fio.. "A Interpretação dos Sonhos" é o primeiro monumento da psicanálise. Pense-se no caráter ao mesmo tempo original e modelar dos poemas homéricos para a língua grega. de fato. E. da educação das crianças. nos concertos de Mozart para o piano da sua época e das sonatas de Beethoven para o da sua. Domingo. É interessante pensar que. nas pegadas de . cujo centenário estamos comemorando por estes dias.

A correspondência com Fliess é assim uma espécie de "making of" da "Traumdeutung". a descoberta da sua causa e da sua significação. Freud necessitava. abria caminho para a cura da paciente? Essas e outras questões impuseram a Freud a tarefa de construir toda uma psicologia. Tentando compreender por que as histéricas não conseguiam nem se lembrar nem descobrir o sentido dos seus espetaculares sintomas. E. Esse esforço o conduziu a diversas consequências. e esperava ansioso as críticas e comentários do seu "único público".frequentemente contavam sonhos nas sessões. nós o vemos debater-se com esses mistérios. impasses e conflitos que acompanharam a sua redação. Naturalmente. aliás. sentou-se à sua mesa de trabalho e dedicou-se a associar sobre cada fragmento de um longo sonho que tivera na noite anterior: o da "injeção em Irma". Por mais de 15 anos. tateando. remetia também a Fliess os capítulos do livro sobre os sonhos. até conseguir criar o arcabouço do que seria a psicanálise. os sintomas eram resultado de diversas combinações entre os impulsos proibidos e as defesas contra eles. essas idéias e lembranças penosas se encontravam separadas da consciência. ao longo dos anos que vão de 1895 até 1900. isto é. em outros à de uma neurose obsessiva. judeu como Freud. como o chamava carinhosamente. Esse é o pano de fundo contra o qual se organizam suas pesquisas no final da década de 1890. Freud se visse pouco a pouco a braços com toda a psicopatologia. Por elas sabemos das suas dificuldades teóricas. à medida que os ia escrevendo. uma teoria da mente capaz de dar conta tanto do seu funcionamento normal quanto dos diversos tipos de desarranjo que o podem afetar. além do fato de que seus pacientes -como os de hoje. um médico de Berlim. Esse foi o motivo que o levou a se interessar pelos sonhos.Charcot. E assim. de um acesso ao inconsciente menos cheio de obstáculos do que os que lhe proporcionavam as neuroses. Freud foi levado a postular a existência de uma região psíquica na qual se alojavam a recordação de certos traumas. entre as quais a descoberta do método para interpretar os sonhos. o filme paralelo que documenta as peripécias. propondo e descartando hipóteses. bem como narrativas detalhadas do seu dia-a-dia e comentários acerca dos acontecimentos políticos. os conflitos conduziam à formação de uma histeria. a combinação da associação livre com a interpretação do sentido. Não é difícil compreender que. de 1887 até 1902. em outros ainda a outros quadros? Por que a sexualidade desempenhava em papel tão essencial nesse conjunto de perturbações? Como funcionava a memória. em alguns casos. talvez o mais rico e fecundo da sua longa vida. Freud enviou quase diariamente a seu amigo uma vasta série de esboços teóricos e relatos clínicos. Freud teve a idéia de aplicar ao sonho o mesmo método que aperfeiçoara para investigar as neuroses. era dos que se opunham a tal concepção e se dedicara nos anos anteriores a elucidar o problema da histeria. Em virtude da ação de mecanismos a que denominou defesas. assim. seu professor. culturais e científicos que o interessavam. isto é. para construir sua psicologia. . e que durante anos foi seu principal interlocutor. na época território tão desconhecido quanto o interior da África. na manhã de 25 de julho de 1895. para que o ato de recordar e de reviver os traumas esquecidos tivesse a extraordinária consequência de extinguir os sintomas? Por que a interpretação deles. frequentemente de natureza sexual: o inconsciente. em particular a repressão. porém conservavam seu poder patógeno. Por que. As afinidades eletivas Temos dessa época um documento extraordinário: as cartas trocadas com Wilhelm Fliess. tendo partido de um problema específico -a natureza e o tratamento da histeria-. clínicas e pessoais durante esse período.

foram incluídos no livro. Isso implicava postular que o conteúdo latente se apresentava transposto e como que deformado no conteúdo manifesto e que a responsabilidade de tal deformação incumbia às defesas encarregadas de censurar o que. como lemos nas cartas do outono de 1897. Freud toma cada elemento do sonho -o cenário. A auto-análise E então. forma-se uma trama paralela de idéias. as análises são interrompidas pelos pacientes antes da solução dos seus sintomas. perdido em meio aos enigmas que o atormentavam. seguindo duas vertentes simultâneas. com as experiências. o luto pelo pai inibe sua criatividade. estes se tornam mais vívidos e detalhados: no dia seguinte. descreve a Fliess os motivos que o levaram a abandonar essa hipótese e. por meio de condensações e de deslocamentos. decide aplicar a si mesmo o método terapêutico que inventara e empreende uma auto-análise sistemática. O resultado não se faz esperar: em poucas semanas. ou seja.dos sofrimentos delas. os personagens etc. Confirma com sua mãe certos detalhes factuais surgidos da interpretação desses sonhos. no qual encontra os impulsos incestuosos e agressivos que posteriormente denominou "complexo de Édipo". buscando extrair desse material absolutamente individual características constantes e mecanismos que pudessem ser válidos para todos -ou ao menos para uma certa categoria de pessoas. ele os anota e interpreta. desvenda todo um período da sua primeira infância. fosse reprovável pela consciência moral -isto é. lembranças e fantasias próprias a ele e apenas a ele. bem como as tentativas de teorização dos problemas clínicos: Freud se persuade de que as histéricas haviam sido seduzidas pelos pais e de que esse trauma era a causa última -o "caput Nili". e sua interpretação.Esse sonho. e a teorização em escala mais vasta. que desde então se encontram indissociavelmente vinculadas à psicanálise: a exploração de um psiquismo singular (o seu). No final de 1896. ao conteúdo manifesto. em setembro de 1897. os desejos sexuais e agressivos. Na dramática carta de 21/9/1897. fato que o lança numa grave depressão. resolve valer-se da "estrada real para o inconsciente" que os sonhos lhe ofereciam. a descoberta de que eram verídicos o anima a continuar. imagens e sentimentos. inibido em seu trabalho. Ele já tinha o costume de anotar seus sonhos e os interpretar sistematicamente.. intitulado "Análise de um Sonho-Modelo". a cabeceira do Nilo. Como não podia consultar um psicanalista -pois era o único praticante da arte-. Publica essa hipótese e é saudado com sonoras gargalhadas por seus colegas médicos. Ele prossegue em sua aventura solitária.. inclusive o que teve na noite da morte do pai. compõem o capítulo 2 do livro. percorrendo todas as veredas a que o levam suas recordações e fantasias.. comenta que seu trabalho dos últimos cinco anos desmoronava como um castelo de cartas. chegou à definição do que é a função psicológica do sonho: "Um sonho é a realização disfarçada de um desejo reprimido". um dos quais chega a dizer que a teoria da sedução era um "conto de fadas científico". Desse modo. Desesperado. Freud está inquieto: seus esforços para construir a "psicologia" se revelam infrutíferos. ela daria origem ao sonho "sonhado". Durante o ano de 1897. os diálogos. Noite após noite. A essa trama ele denominou conteúdo latente do sonho e postulou que. no conteúdo latente. sobrevém a catástrofe: Freud se dá conta de que a sedução era mais uma fantasia do que uma realidade. ao mesmo tempo. na qual certos fios se cruzam e se recruzam. vários deles. As cartas documentam esses momentos difíceis. morre o pai de Freud. . na fórmula que se tornou célebre.e segue as associações que ele lhe suscita: com isso.

às dimensões extra-individuais que de um modo ou de outro determinam a vida psíquica do indivíduo. Um breve capítulo 3 enuncia a tese de que todo sonho é uma realização de desejos. os mecanismos pelos . de exame e da morte de pessoas queridas. especialmente os sonhos. E. Mas. que formará o capítulo inicial da "Psicopatologia da Vida Cotidiana". tal como existia em 1899. Pensador de Cultura". Um é o da análise de suas próprias produções psíquicas. como os de nudez. de conteúdo latente e de conteúdo manifesto. deslocamento. o infantil. no fundo não muito diferentes dos gases intestinais que às vezes acompanham a digestão. Vem em seguida o capítulo 4. no qual se debruça pela primeira vez sobre a questão da agressividade. de fundamental importância. ou seja. O capítulo 5 trata do material e da fontes do sonho -as vivências recentes ("restos diurnos"). o leitor encontra a análise do sonho de Irma.). cujos detalhes naturalmente não é o caso de evocar aqui. procurei traçar as principais etapas e ramificações desse trajeto. que lhe permite vencer a depressão e descobrir modos mais eficazes de trabalhar na clínica. é o da referência à cultura e ao social-histórico. Freud decidiu que era necessário provar à comunidade médica que sabia do que estava falando. Atravessada essa "selva selvaggia". e seu plano aparentemente simples oculta uma riqueza que até hoje os analistas não acabaram de explorar. é que Freud opera constantemente em três níveis ou registros. o estudante tresnoitado que sonha já ter chegado ao seu local de trabalho etc. ou era apenas resultado de processos fisiológicos no cérebro. decide no início de 1898 escrever um livro sobre a interpretação dos sonhos. o somático. Freud adiou sua redação o quanto pôde. O primeiro capítulo foi na verdade o último a ser escrito: é uma revisão da literatura científica sobre os sonhos.e discute alguns sonhos típicos. que acabara de organizar suas próprias idéias. Dessa maneira. a saber. nas quais discerne a operação dos mesmos mecanismos e elementos postos em relevo pelo estudos das neuroses e dos sonhos: defesas. como desenho geral. "O Chiste e sua Relação com o Inconsciente". Estão nessa categoria suas reflexões sobre a moral e seu papel coercitivo quanto aos desejos. A obra concentra praticamente tudo o que Freud havia descoberto até então. à transferência. Síntese das descobertas O que disse até aqui basta para perceber como a "Traumdeutung" é muito mais do que um manual para interpretar os sonhos. que conhecia o que se fizera antes dele e podia dar razões convincentes para recusar o ponto de vista predominante na época. ou seja. Freud se interessa pelos atos falhos e em 1898 envia a Fliess a análise do esquecimento do nome de Signorelli.Em "Freud. à resistência e a outros aspectos do processo analítico) quanto no plano psicopatológico (a distinção e classificação das diversas neuroses). porque esse material era árido e pouco trazia de interessante tanto para ele. O capítulo 6. fantasias etc. O que fica claro. animado pelos resultados da sua auto-análise. quanto para o leitor. ilustrando-a com exemplos de sonhos infantis e de "comodidade" (o sedento que sonha com água. condensação. O terceiro. depois de um debate epistolar com Fliess. que seria obrigado a percorrer dezenas de páginas antes de chegar ao que de fato era relevante. que ou o sonho não tinha sentido algum. com seu cortejo de associações. estuda o trabalho do sonho. o pintor dos afrescos da catedral de Orvieto. mas também os primeiros estudos de obras literárias. Também começa sua coleção de piadas judaicas. Outro é o das questões clínicas colocadas por seu trabalho. que fornecerão o material ilustrativo de um de seus livros mais importantes. o mais longo. que introduz as noções centrais de deformação. tanto no plano técnico (questões ligadas à interpretação. especialmente no segundo capítulo.

Essa breve enumeração dos tópicos do livro não pode transmitir a sensação de maravilhamento que se apodera de quem o lê pela primeira vez. é leitura obrigatória para quem se interessa pelas origens da psicanálise: "L'AutoAnalyse de Freud" (PUF. e se introduz o conceito capital de processos primários e secundários. uma outra. Aqui surgem as idéias de inconsciente. Zola e inúmeros outros ficcionistas. como talvez fosse previsível. Shakespeare. na qual Fliess desempenhou sem saber o papel de um analista -um tanto obtuso e atuador. Aliás. a "consideração pela figurabilidade". de realização do desejo como aquilo que move o "aparelho psíquico" e ao mesmo tempo o emperra. comenta obras literárias -na seção "sonhos típicos". ou seja. 40 anos após sua publicação. que levanta objeções que o leitor certamente também faria. porém.quais de todas as fontes e materiais latentes se elabora o sonho manifesto. Freud é um escritor magnífico. Pouco a pouco. Discute-se também a questão da angústia. Anzieu reconstitui todo o trajeto de Freud por seu próprio inconsciente.oculta. que a rigor bem se poderia chamar de "paixão transferencial". extraídos de sonhos próprios e de pacientes. isto é. cujas roupas pegam fogo porque sobre elas caiu a vela funerária. Oferece mais do que uma introdução à teoria das neuroses. quando se abre o capítulo "teórico". cargo honorífico cujo prestígio na sociedade austríaca . cercado de inúmeros outros que ilustram tópicos mais específicos. a da auto-análise. além de fornecer as justificativas metapsicológicas para a técnica psicanalítica. Aqui se amplia o exposto no capítulo 4 sobre a condensação. de regressão. Dá inumeráveis exemplos de cada tema que aborda. comparando seguidas vezes aspectos da vida onírica a questões da psicopatologia. Paris). a conclusão do livro sobre os sonhos trouxe também o fim dessa relação. fala de "Édipo Rei" e de "Hamlet" a propósito dos desejos edipianos na criança. mas aqui e ali salpica seus argumentos com referências a Cervantes. Goethe. o deslocamento. vai persuadindo o leitor de que a tese defendida no livro é verdadeira e por vezes utiliza o recurso de conversar com um interlocutor imaginário. do capítulo 5. como materiais tão díspares se combinam para formar uma sequência de imagens que funciona como uma narração. Quando começa o novo século. a guerra de 1898 entre os Estados Unidos e a Espanha etc. Utilizando referências cruzadas entre os sonhos. a eleição de um prefeito anti-semita em Viena. materializada no fenômeno tão comum do pesadelo. mas indispensável para que o processo se instalasse e se desenvolvesse. Freud dá os passos necessários para ser nomeado "Professor Extraordinarius". No capítulo 7. os mecanismos pelos quais idéias se transformam em imagens -e se aborda a questão da lógica do sonho. Um trabalho de detetive A ordem lógica dos capítulos -cada qual com um grande sonho cuja análise faz avançar o argumento. Devemos a Didier Anzieu um paciente trabalho de reconstrução dessa auto-análise. elucida os fundamentos neuróticos da amizade com Fliess. Freud enfrenta o grande problema de construir um modelo da psique que possa explicar como o sonho é possível. Mostra de que modo os sonhos abriram caminho para a análise de seus desejos infantis. consciente e consciência. com a comovente narrativa do sonho da criança morta. Assim. o cenário está armado para a construção da "psicologia" que Freud perseguira com tamanho afinco nos anos anteriores e que serve como fundamento tanto para a teoria dos sonhos quanto para a teoria das neuroses. é verdade.-. num livro que ainda hoje. a correspondência com Fliess e os fatos históricos a que Freud alude ao comentar certos sonhos -a queda de um gabinete ministerial. das angústias que os acompanhavam e dos sintomas que ambos colaboraram para organizar no adulto Freud. expõe as etapas da elaboração do luto pelo pai.

Em breve. que sabia ser muito capaz. coordenador da revista "Percurso" e autor de "Escrever a Clínica" (Casa do Psicólogo). professor titular da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Tem encaminhados o "Caso Dora" -a primeira amostra mais consistente do seu trabalho. Freud era um cientista talentoso. como sabemos. membro do departamento de psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. que formariam o núcleo inicial do movimento psicanalítico. isto era o início de velhice) sem atingir os altos objetivos que sua ambição e seu talento lhe haviam fixado. o livro sobre os atos falhos.poderia lhe granjear clientela e algum respeito por parte de seus colegas médicos. engendrando cada um uma neurose diferente. Conseguiu finalmente construir um sistema de psicologia fundamentado em hipóteses claras sobre a estrutura da psique. que saiu em 1901. e o esboço do "Chiste". 21 Agosto 2006 O SONHO DA INJEÇÃO DE IRMÃ: DE EURÍPILO A ÉDIPO Por Pablo Cúneo As sílabas trafio estão sem dúvida em consonância com Trafoi. As cadeias se cruzam. como escreveu em 1931 no prefácio à terceira edição inglesa do seu livro: "Insight such as this falls to one's lot but once in a lifetime" -descobertas como esta só se fazem uma vez na vida. bem como o ajuste de contas de Sigmund com seu pai. começaria a reunir em torno de si jovens médicos interessados em suas descobertas. mas perturbado por sintomas que ele mesmo chamava de histéricos e por inibições e depressões que às vezes o incapacitavam para seu trabalho. Tem os elementos para fundamentar sua prática e dar conta do sucesso ou do fracasso de seus tratamentos. com a sociedade tacanha em que se sentia sufocado e com seus próprios demônios interiores. "A Interpretação dos Sonhos" é o marco central nesse trajeto: antes de a concluir. Obviamente. e muitas descobertas ainda estavam por se associar ao seu nome. mas que chegara aos 40 e poucos anos (na época. Pensador da Cultura" (Companhia das Letras). Ainda teria pela frente 40 anos de vida produtiva. publicada somente em 1905-. Renato Mezan é psicanalista. Mas certamente estava justificado em considerar. entre outros. Era um homem um tanto frustrado. (Gilberto Koolhas) . A gramática do falo produz anagramas ao escrever o texto onírico no qual o sujeito é subvertido literalmente. "Tempo de Muda" e "Freud. capaz de dar conta tanto de seu funcionamento normal quanto dos transtornos que o podem perturbar. que eu vi na primeira viajem! Mas a quem poderei fazer acreditar nisto? (Carta de Freud a Fliess) O escrito é hieroglífico. a publicação do livro não mudou isso do dia para a noite: mas o que ele continha era o início de uma nova disciplina.

tem sido considerado em relação com a transmissão. e o sonho me vem em julho devolvendo essa reposta".4) no sonho de Irma: "O resultado do sonho. o Otto do sonho. como assinala Erikson (1960) e marca Lacan (1992). a compreensão que Freud podia ter do sonho da injeção a Irma. em 1899. sem o desejo que expressa é um desejo pré-consciente? Esta é a pergunta que se fez Lacan. sem Otto. Marianne Rie. Freud o segredo do sonho". .O sonho de Injeção de Irmã ocupa um lugar único na história da Psicanálise. É desejo de Freud que façamos isto? Em todo caso não deixa de surpreender e causar impacto que os filhos dos envolvidos no sonho se fizeram psicanalistas. ocorrido em 1897. me deixou irritado. Freud (1994) expressa o desejo de que na casa aonde teve o sonho da injeção de Irma possa ler-se algum dia uma placa de mármore: "Aqui se revelou em 24 de julho de 1895 ao Dr. filha de Oscar Rie. Pois bem. este com sua observação sobre a incompleta cura de Irma. sonhado na noite do 23-24 de julho de 1895. é que não sou o culpado de que persistam os padecimentos de Irma. Vemos. num verdadeiro enigma a resolver em nossa identificação com o criador da psicanálise. com efeito. o que nos relata Freud (1979. a través da fórmula da trimetilamina vista em grossos caracteres por Freud. Retomado em várias ocasiões e reinterpretado para o ensinamento da psicanálise. não é a mesma de quando publicou A Interpretação dos sonhos. ao deixar de lado a teoria da sedução. Anny Rosenberg filha de Ludwig Rosenberg. o Leopold do sonho). a través dele . o complexo de Édipo. (Este é o caso de Anna Freud. O sonho da injeção de Irma parece ter-se transformado. resolver o enigma dos sonhos. Desejo pré-consciente. Numa carta a Fliess do 12 de junho de 1900. que Freud em 1900 dará ao sonho de Irma um lugar de descobrimento ao compreender. sem dúvida. Por que Freud teria dado esse lugar especial ao sonho da injeção de Irma. sem dúvida. Foi o primeiro sonho que Freud submeteu a uma interpretação detalhada e que permitiu. segundo ele.T. Contudo ainda não havia começado a sua auto-análise nem havia descoberto. Robert Fliess. desde que Lacan assinalou que é um sonho dirigido por Freud a seus futuros leitores. Sigm. que o sonho é uma realização do desejo.

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