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___________________________________Pedagogia Social: aspectos essenciais e definitórios

Universidade da Beira Interior

Mestrado em Educação Social e Comunitária

Pedagogia Social: conceitos essenciais


e definitórios

Pedagogia Social
Autor: Steven Casteleiro
11 de Fevereiro de 2008

Orientado pelo Professor Doutor Manuel Loureiro

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“A principal esperança das nações reside na educação da sua juventude”


Erasmo

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Índice

1. Introdução 4
2. Objectivo do Trabalho 4
3. Conceito de Pedagogia Social 5
4. Origens históricas da Pedagogia Social 6
5. Educação Social na Europa 8
Âmbito da Educação Social 9
Perfil do Educador Social 11
Ameaças à Educação Social 12
6. Experiências pertinentes na área da Educação Social 12
7. Conclusões 13
Referências Bibliográficas 15
Anexo I – Código deontológico do Educador Social 17

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1. Introdução

O trabalho de síntese que se apresenta constitui uma súmula final das


principais definições e conceitos associados à disciplina de Pedagogia Social.
Ao exercer funções de professor do ensino secundário numa escola pública,
espaço de excelência para a expressão da pedagogia social, os conceitos e definições
intrínsecos a esta área científica podem contribuir para melhor compreender a
realidade social patente na escola e também aperfeiçoar a acção operada no mesmo
local.
A escola portuguesa constitui no momento actual, um espaço palco de
importantes mudanças, quer do ponto de vista das políticas educativas emanadas a
partir do Ministério da Educação, quer do ponto de vista social devido às profundas
transformações e problemas que afectam a sociedade actual e que acabam por atingir
directa ou indirectamente os adolescentes e jovens estudantes.
A realidade escolar portuguesa do momento coloca à pedagogia social um
desafio: o de conseguir, numa perspectiva mais geral, contribuir para uma resposta
mais eficaz aos inúmeros problemas que existem no seio escolar, desenvolvendo e
promovendo a qualidade de vida de todos os alunos e a sua inclusão social,
prevenindo possíveis desequilíbrios sociais que possam surgir.
Se por um lado a pedagogia social constitui a disciplina científica que fornece
as ferramentas teóricas e práticas e os modelos e métodos para a acção do educador
social, por outro o profissional da educação social actua pedagogicamente sobre os
indivíduos inseridos nas diferentes comunidades a que pertencem. Esta tarefa,
efectuada através de projectos de intervenção, deve contar com a colaboração de
equipas interdisciplinares e visa atingir, a qualidade de vida e bem-estar físico, mental
e social dos indivíduos.

2. Objectivo do trabalho

Com o presente trabalho pretende-se sintetizar os aspectos essenciais e


definitórios da pedagogia social enquanto disciplina científica de carácter teórico e
prático, que deve permitir, em última instância, a educação social dos indivíduos,
através da sua plena integração no meio social em que vivem.
Numa primeira fase efectua-se uma clarificação do conceito de pedagogia
social. Em seguida procuram-se as raízes históricas desta área científica, através de
uma síntese de algumas tendências clássicas.

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Uma vez que o curso de mestrado pretende orientar os formando para a área
da educação social, faz-se um esclarecimento das obrigações e responsabilidades do
educador social, enquanto actor que detém o conhecimento necessário em pedagogia
social a as ferramentas para intervir no meio social que o envolve.
É ainda feito uma reflexão acerca das ameaças à acção do educador social.
Para atingir os desideratos acima mencionados recorre-se às referências
bibliográficas fornecidas no início do semestre pelos professores que leccionaram a
disciplina.

3. Conceito de Pedagogia Social

Actualmente considera-se a pedagogia como uma ciência transdisciplinar, mas


na Grécia antiga, o pedagogo não era mais do que o adulto que acompanhava as
crianças até à escola, como um tutor.
O termo “pedagogia social” é de origem alemã tendo sido utilizado pela primeira
vez em 1844, por Karl Mager; na revista Pädagogische Revue e pretendia inicialmente
caracterizar o conceito de “ajuda à juventude” isto é, ajuda educativa, profissional e
cultural (Caro et al, 2004).
“Educação social” e “pedagogia social” são muitas vezes utilizados de forma
indistinta mas correspondem a conceitos diferentes. Segundo Diaz (2006:91)
pedagogia social e educação social correspondem a dois conceitos que têm em
comum a área social e a área educativa. A pedagogia social corresponde à disciplina
científica com carácter teórico e prático que fornece as ferramentas para a intervenção
prática com e sobre os indivíduos, através da educação social.
A pedagogia social implica um conhecimento do indivíduo para melhor poder
actuar sobre ele, quer numa situação normalizada, quer numa situação de conflito ou
de necessidade. A socialização do indivíduo é efectuada em contextos diversificados e
não apenas na escola, pelo que a educação social pode ser efectuada em todos os
contextos onde se desenvolve a vida do ser humano. O objectivo primordial é o de
contribuir para a integração social do indivíduo estimulando a capacidade crítica, para
que consiga melhorar e transformar o meio social em que vive.
Fruto das políticas sociais e do contexto específico da cada nação não existe
uma forma única de entender a educação social.
Segundo Esteban (2004:2), a globalização económica e a mundialização estão
a condicionar as acções a nível educativo. Segundo este autor a sociedade
multimediática está a transformar o tempo e o espaço da educação e das instituições

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escolares. Assim, os objectivos da educação social correspondem à integração e


convivência entre os membros de uma comunidade, família ou centro escolar.

4. Origens Históricas da Pedagogia Social

As ideias e conceitos associados à pedagogia social enquanto ciência surgiram


na Alemanha, num contexto claramente relacionado com as consequências da
Revolução Industrial assim como com a crise que se abateu na indústria bélica, na
primeira metade do século XX. Surge progressivamente a ideia de que é na educação
das pessoas que poderá estar a resposta para os inúmeros problemas sociais e
humanos. A partir da Alemanha difundem-se as ideias sobre esta ciência para o resto
da Europa.
Diaz (2006) decompõe a evolução histórica da pedagogia social em quatro
períodos distintos, tal como o autor Pérez Serrano (2004):

Período entre 1850-1920

Paul Natorp (1854 -1920) defende que o homem individual é uma abstracção
pois só tem sentido quando inserido numa comunidade. O ser humano é portanto um
ser social. Este autor é hoje reconhecido como o inventor da pedagogia sociológica,
corrente ideológica que foi seguida e que fez escola nalguns países.

Período entre 1920-1933

Os problemas associados à primeira Grande Guerra – desemprego,


delinquência, ausência de protecção social, principalmente às crianças e jovens devido
à perda de familiares na Guerra, leva ao nascimento do movimento pedagógico social
dos anos 20.
Nohl (1879 -1960) entende a pedagogia social como uma parte da pedagogia
geral que se destina à formação popular dos adolescentes e jovens. Entende que o
objectivo primordial é o de perseguir o bem-estar do sujeito, desenvolvendo as suas
capacidades e também a sua vontade.

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Período entre 1933-1949

A Imposição das ideias de Hitler leva a que a educação se manche de uma


ideologia política. Baumler e Krieck dois autores referidos por Diaz (2006) como os
mais representativos deste período, não contribuíram para o desenvolvimento da
pedagogia social mas limitaram-se à sua aplicação aos inúmeros problemas
pedagógicos existentes na sociedade do momento.

Período entre 1950- Presente

Neste período surge a pedagogia social de cariz mais crítica que tem em conta
o passado histórico e os valores culturais da sociedade. A intervenção junto dos
indivíduos assenta num modelo teórico e prático, comunicativo e consensual. Um dos
seus defensores, Mollenhauer atribui os problemas que afectam a juventude à
estrutura da sociedade moderna e não à má qualidade da pessoa que é reeducada
para a sociedade.

Refira-se que se por um lado o período do pós - Guerra relativo à primeira


Guerra Mundial foi um período fértil para o desenvolvimento da pedagogia social, o
período a seguir à Segunda Guerra Mundial foi ainda mais importante pois permitiu o
surgimento de novas correntes que defendem o ideal do homem como um ser que
aspira a viver bem em sociedade.
O contexto histórico e social europeu no final da Segunda Grande Guerra,
extremamente complexo, era marcado pela ruína económica dos países envolvidos
neste acontecimento. Este contexto desfavorável marcado pelo desemprego, fome,
miséria e fenómenos de exclusão social acaba por constituir um terreno propício ao
desenvolvimento da pedagogia social moderna.
A ideia de Estado - Providência como o responsável pela produção e
distribuição de bens e serviços contribuiu para que os políticos se consciencializassem
acerca dos direitos sociais de toda a população.
A educação social actual apenas terá sentido se a sua acção estiver
fundamentada no reconhecimento e defesa dos direitos humanos. Assim, os
documentos legislativos de grande importância que entretanto foram elaborados
servem de referência para a educação social. O século XX testemunhou em 1948 à
adopção pelas Nações Unidas da Declaração Universal dos Direitos Humanos1, à
aprovação da Declaração dos Direitos da Criança2 e da Convenção dos Direitos da
Infância, documentos aprovados em Novembro de 1959 e em 1989 respectivamente,
pela Assembleia Geral da ONU.
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Sendo actualmente a acção da educação social bastante complexa e vasta,


pelo número e dimensão dos problemas que afectam certos grupos de indivíduos,
existem uma série de elementos que segundo Rodriguez Fernandez (1999) citado por
Diaz (2006) devem ser tidos em conta, como o âmbito sócioeducativo do sujeito e o
desenvolvimento da autonomia, quando estes se encontram em contexto de
institucionalização, promovendo estratégias de desenvolvimento da autonomia pessoal
dos indivíduos.
A intervenção da pedagogia social através da acção do educador social deve
estar alicerçada na promoção de estratégias de desenvolvimento pessoal e
enpowerment dos indivíduos para que os efeitos da intervenção sejam duradouros, ao
longo do tempo.

5. Educação Social na Europa

A tarefa de educar é uma função de todos apesar de ser uma tarefa


multidisciplinar (Esteban, 2004:9).
Segundo o mesmo autor, Esteban (2004:5) pode-se admitir a existência de três
correntes na forma como os fenómenos sociais são entendidos e analisados pela
pedagogia social:
“Uma corrente centroeuropeia com influência nas península Ibérica e Itálica que
encara a pedagogia social como uma “reflexão organizadora, armonizadora o
iluminadora general de los diversos aspectos, campos y problemas de la educación
social”;
Uma corrente anglo-saxónica em que os problemas e fenómenos sociais são
analisados através da sociologia da educação. Encara-se os sujeitos excluídos como
constituindo uma percentagem pouco significativa e sendo um problema inevitável em
sociedades dinâmicas e de mercado livre;
Uma corrente francófona que influencia vários países europeus. Esta orientação
defende a democratização do ensino assim como o ensino da educação cívica.

_______________________
1
A DUDH – Declaração Universal dos Direitos Humanos, surge no período do pós - Guerra e pode ser consultada a
partir de http://www.fd.uc.pt/hrc/enciclopedia/onu/textos_onu/dudh.pdf (Consultado dia 06de Fevereiro de
2008).
2
A Convenção dos Direitos da Criança, aprovada pelas Nações Unidas em 1989 pode ser consultada a
partir de http://www.unicef.pt/docs/pdf_publicacoes/convencao_direitos_crianca2004.pdf (consultado dia
06 de Fevereiro de 2008).

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A pedagogia social é extremamente complexa, devido às especificidades dos


problemas da pessoa alvo da intervenção, mas também pelo tipo de intervenção que
se adopta.
A planificação da intervenção deve ser elaborada com o máximo rigor, após
uma recolha exaustiva de dados provenientes de diferentes fontes. O objectivo da
intervenção deve estar perfeitamente clarificado, não deve ser esquecido nem
confundido e os efeitos a produzir devem ser bem perspectivados para que o projecto
de intervenção surta o efeito desejado. A acção do educador social junto das pessoas
pode constituir um pântano se estes aspectos não forem devidamente tidos em conta,
uma vez que a resolução da totalidade dos problemas é impossível e portanto utópica.
Os valores a alcançar (pertencentes a concepções filosóficas, políticas ou outras)
devem ser bem delineados.
Segundo Esteban (2004) a corrente melhor ajustada aos problemas sociais é a
centroeuropeia.

5.1. Âmbito da Educação Social

A pedagogia social constitui a disciplina científica enquanto que a educação


social constitui a acção, um espaço de intervenção pública. Até há pouco tempo a
educação social era considerada informal, sem regras; a educação e pedagogia
autêntica estavam remetidas para o sistema educativo (Esteban, 2004:11).

A profissão de educador social em Portugal é recente. Os primeiros educadores


sociais com habilitação adequada conheceram-se nos anos 90 e avançaram para o
mercado de trabalho com o objectivo de demonstrar a validade e as vantagens da
intervenção qualificada junto de autarquias, instituições e em comunidades, apesar de
muitas vezes as tarefas destes técnicos da educação poder ser substituída por outros
trabalhadores menos habilitados para uma intervenção mais eficaz.

O educador social estabelece-se intervindo com as mais diversas faixas etárias


- crianças, jovens, adultos e idosos, e nos mais diferentes contextos sociais, culturais,
educativos e económicos. Esta polivalência interventiva favorece a profissão ao nível
da empregabilidade, embora possa dificultar ligeiramente a construção de um conceito
profissional facilmente delimitável.

Carvalho e Baptista (2004) consideram que o educador social deve ser um actor
social, um educador e um medidor social. Segundo estes autores, qualquer ser
humano constitui em sí, um actor social na medida em que vive em sociedade, e como

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tal, possui um papel de cidadão pleno com capacidade de intervenção; como educador
deve confrontar o outro com alternativas perante o problema, devendo possibilitar a
construção de projectos autónomos; o perfil profissional inclui ainda o papel de
mediador social pois deve gerir as relações intergrupais e as situações mas sem tomar
partido nem apresentar as soluções; “Cabe-lhe sobretudo, escutar e estar atento,
criando situações de encontro e de proximidade favoráveis à emergência de respostas
pessoais por parte dos educandos, os verdadeiros protagonistas da acção” (Carvalho e
Baptista, 2004. 93).

O campo de intervenção de um educador social é vasto. A profusão de


problemas existentes na sociedade actual constituem um desafio à pedagogia social e
à intervenção dos técnicos na área da educação. Carvalho e Baptista (2004:93) citam
g. Chepellier e P. Richard – de Polis (2002) para expressarem as funções
correspondentes aos técnicos da área da educação:

 Práticas de prevenção e de acompanhamento quotidiano de pessoas


diminuídas;

 Desenvolvimento sócioeducativo das pessoas como sujeitos dos


processos de inserção social;

 Restauração pedagógica, constituição e desenvolvimento dos


mecanismos cognitivos e de aprendizagem;

 Integração social de indivíduos e de grupos na vida comunitária pela


fruição dos direitos e cumprimentos dos deveres que lhes são
reconhecidos;

 Ajuda à (re) inserção profissional das pessoas;

 Apoio à participação das pessoas nos processos de produção e de


difusão cultural.

O educador social deve ser capaz de intervir em projectos de intervenção de


cariz pedagógico, em equipas multidisciplinares, prestando a sua colaboração como
alguém com conhecimento especializado na área da educação dos indivíduos. Os
territórios de intervenção são ocupados e partilhados com outros profissionais, com
competências nem sempre bem definidas e com campos de acção nem sempre
delimitados, pelo que estas indefinições podem trazer problemas na elaboração de
estratégias para uma intervenção adequada.

O educador social deve contribuir para a construção de identidades pessoais e


da autonomia inerente, levando à edificação de uma sociedade inclusiva assente na
partilha, na co-responsabilização e na contratualização (Carvalho e Baptista, 2004:95).

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O conhecimento profissional destes agentes educativos assenta em modelos e


princípios reguladores de actuação. Segundo Brichaux (1997) citado por Carvalho
(2004:103) nas últimas décadas a acção do educador social seguiu três modelos: o
modelo tutelar (até1965) em que a acção do educador assenta numa relação de
paternidade em relação ao educando, utilizando na acção a autoridade; o modelo
técnico (1965 a 1990) caracterizado por colocar em causa os riscos, ambiguidades e
insuficiências da intervenção tutelar e o modelo reflexivo (a partir de 1990) que defende
o papel de um educador que não resolve problemas mas antes problematiza a
complexidade, a incerteza, a singularidade e a indeterminação das situações levando a
que haja uma partilha, uma responsabilização e uma contratualização junto da pessoa
a intervir.

Um conceito -chave na intervenção feita pelo educador social é a inclusão


social do indivíduo.

5.2. Perfil do Educador Social

Para caracterizar o perfil ideal de um educador social é necessário ter em


consideração a formação especializada, a acção destes profissionais, o perfil
psicológico e as características de personalidade do educador social imprescindíveis
para um bom relacionamento interpessoal.
A formação profissional e pessoal exigente devem permitir a interpretação
rigorosa da realidade, a avaliação das situações, a empatia com os outros, e a
superação das dificuldades que possam surgir.
Segundo Carvalho e Baptista (2004:83) “é necessário que o educador social se
afirme como um bom intérprete da realidade social, realidade essa inevitavelmente
problemática e multifacetada”. O mesmo autor refere ainda que estes profissionais são
possuidores de uma formação académica que potencia uma percepção globalizante
que lhes permite estar em posição privilegiada na promoção de um sentido integrador
que preside ao trabalho social em rede.
Existe uma grande necessidade de profissionais com uma acção coerente
perante as questões sociais e com grande dedicação ao conhecimento de áreas
interdisciplinares. As características de personalidade deste educador devem incluir a
auto estima, a empatia, a resiliência, a reflexividade, a polivalência técnica, e a
criatividade na forma como lida com todas as etapas da sua intervenção.
O educador social deve estar preparado para evitar os fenómenos relacionados
com a descriminação e o preconceito que podem constituir um bloqueio no processo

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de intervenção junto das pessoas. Apesar dos educadores sociais deverem ser
imparciais, podem ser influenciados pelo ambiente dominante e caírem em juízos
generalistas que acabam por minar a sua intervenção.
A profissão de educador social revela um rol considerável de lacunas quer ao
nível da própria carreira profissional, característica de uma profissão "nova", quer ao
nível da relação laboral com as entidades empregadoras.

No anexo 1 é possível encontrar o Código Deontológico para a profissão de


Educador social em Portugal, aprovado a 17 de Novembro de 2001, no II Fórum
Nacional de Educação Social, que decorreu em Santarém. Pode-se consultar os
deveres e direitos do educador social em relação a sí mesmo e à profissão, em relação
aos utentes e às instituições e em relação aos outros profissionais e à sociedade em
geral.

5.3. Ameaças à Educação Social

A realidade actual do mundo é vulnerável e incerta e pode levar o educador


social a uma maior dificuldade em conduzir os outros para um processo de construção
da sua autonomia.
Por outro lado, muitas vezes a intervenção junto dos indivíduos pode não dar os
frutos que se pretendem, se ocorrer a desistência ou alheamento dos educandos.
Os educadores sociais são profissionais que Carvalho e Baptista (2004:95)
designam por técnicos da relação, obrigados a intervir de forma a evitar a desistência e
a não indiferença, ajudando o outro a encontrar um sentido para a vida.
Outro aspecto a ter em conta prende-se com a forma como a profissão é
encarada pela sociedade. A educação social pode ser considerada como uma quase
profissão diluindo-se em outras profissões que lhe estão próximas. Este aspecto pode
comprometer a eficácia da intervenção do educador social.
Outra ameaça prende-se com a possibilidade da educação social poder ser
corrompida pela política ou outras condicionantes que podem descaracterizar a acção
destes profissionais.
O trabalho de um educador social é muitas vezes lento e carece de visibilidade
em termos de resultados a curto prazo, pelo que o esforço e a dedicação dos técnicos
podem ser injustamente avaliados de forma negativa. Outras vezes as situações
podem tornar-se rapidamente mediatizadas, pela pressão da comunicação social que
se exige aos técnicos da educação social, soluções urgentes sobre crianças,
adolescentes, idosos ou pessoas em situação de vulnerabilidade social.

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6. Experiências pertinentes na área da Educação Social

A educação social corresponde ao lado interventivo da pedagogia social e


permite a actuação pedagógica sobre os indivíduos.
Descreve-se sucintamente, um exemplo de um projecto de intervenção junto da
população de Ferreira do Zêzere levado a cabo em 2008, por um conjunto de autores,
através do Programa Rede Social (PRS). Perante a diversidade de problemas
diagnosticados orientou-se a acção interventiva para o problema do abandono e
insucesso escolar e a desestruturação familiar. A intervenção ocorreu ao nível da
promoção, treino e desenvolvimento de competências parentais para se proceder à
alteração das práticas parentais. Os objectivos traçados correspondem à atenuação
/prevenção do abandono escolar, redução do insucesso escolar e consequente
prevenção do fenómeno da exclusão social. Foram delineadas as estratégias
concretas a seguir assim como a população beneficiária do projecto.
Apesar dos educadores sociais não terem geralmente uma resposta para
grande maioria dos problemas que encontram, os resultados globais mostram ter
existido um benefício para os sujeitos alvo da intervenção.

Outro projecto de intervenção o “InSERções3: da investigação à acção –foi


iniciado em 2005 e finalizou em 2007. O projecto foi promovido pelo Centro de Estudos
da Universidade da Beira Interior (UBI_CES) e teve como principal objectivo promover
e apoiar o desenvolvimento social através de acções que visaram conhecer a realidade
dos públicos excluídos e/ou vulneráveis à exclusão nos concelhos da Beira Interior, de
modo a construir um suporte para uma intervenção mais eficaz.

7. Conclusões

A pedagogia social como ciência constituiu-se a partir de meados do século


XIX. Durante bastante tempo, pedagogia social e educação social correspondiam a
dois termos considerados indistintos.

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Projecto Inserções - Disponível a partir de :http://www.insercoes.org/ (consultado dia 10 de Fevereiro de 2008).

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Hoje considera-se a pedagogia social como um conceito que corresponde à


teoria pedagógica enquanto a educação social corresponde à acção realizada sobre o
indivíduo.
Em Portugal o reconhecimento do papel do educador social enquanto agente
fundamental na intervenção junto dos indivíduos é ainda recente.
Para que o educador social actue sobre um indivíduo necessita de um
conhecimento amplo sobre o próprio para melhor poder trabalhar, quer numa situação
normalizada, quer numa situação de conflito ou de necessidade.
A socialização do indivíduo é efectuada em contextos diversificados e não
apenas na escola, pelo que a educação social pode ser efectuada em todos os
contextos onde se desenvolve a vida do ser humano.
O objectivo maior é o de contribuir para o desenvolvimento físico, mental e
social de qualquer pessoa e levar à integração social estimulando a capacidade crítica,
para que cada pessoa consiga melhorar e transformar o meio social em que vive.
Um dos conceitos - chave essenciais da intervenção do educador social é o da
inclusão social.
As transformações sociais ocorrem de forma cada vez mais intensa e
constituem um desafio à pedagogia social, como ciência que fornece as bases teóricas
para a acção do educador social.
A educação formal possui limitações para a inclusão social de certos grupos
sendo por isso necessário explorar as possibilidades que as práticas de educação não
formal oferecem para a construção da identidade, a recuperação da auto - estima, a
preparação profissional e o desenvolvimento da consciência política e social de cada
indivíduo.
O educador social corresponde a um profissional especializado na área da
educação que deve reunir um conjunto de características que o distinguem no seio de
uma equipa multidisciplinar, pela sua formação profissional e pela sua formação
pessoal. É detentor de um conhecimento vasto acerca da realidade social e por isso
encontra-se bem colocado para intervir junto dos indivíduos através de projectos de
intervenção.
Existem ameaças ao papel do educador social, desde a forma como a profissão
é encarada até à provável corrupção do papel do educador social, por questões
políticas ou outras que podem comprometer a eficácia da sua intervenção.

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A educação social apenas tem sentido através de uma componente interventiva como
é o caso de variadíssimos projectos de intervenção social: é o caso do Projecto
“Educar à beira do Zêzere - Das margens do ri(sc)o à Rede Social, levado a cabo por
uma equipa de investigadores, entre os quais O Doutor Manuel Loureiro, da UBI e o
projecto InSERções, que finalizou em 2007, coordenado por uma equipa do CES –
UBI)..

Covilhã, 11 de Fevereiro de 2008

Steven Casteleiro

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Referências Bibliográficas

Aronson, E. (2000). Prejuicio in El Animal Social. Madrid. Alianza. 269 – 332.

Caro, S. M. P. et Guzzo, R. S.L. (2004). Educação Social e Psicologia. Editora Alínea e


Átomo. 1ª edição. 108 pp.

Carvalho, A. et Baptista, I. (2004). Educadores Sociais – Uma Identidade profissional


em construção in Educação social: Fundamentos e Estratégias. Porto. Porto Editora.
83- 105.

Convenção dos Direitos da Criança. Pode ser consultada a partir de


http://www.unicef.pt/docs/pdf_publicacoes/convencao_direitos_crianca2004.pdf
(consultado dia 06 de Fevereiro de 2008)

Diaz, A. S. (2006). Uma Aproximação à Pedagogia – Educação Social. Revista


Lusófona de Educação., 7, 91-104.

Esteban, j. O. (2004). Pedagogia Social, realidades actuales y perspectivas de futuro.


Comunicação apresentada ao I Congresso Ibero-americano de Pedagogia Social (XIX
Seminário Interuniversitário de Pedagogia Social). Santiago do Chile.

Galinha, S.,Antunes, A. Freire, Z. & Loureiro, M. J. (2008). Educar à Beira do Zêzere –


Das Margens do ri (sc)o à Rede Social. Psicologia e Educação.

Goleman, D. (1996). Literacia Emocional in Inteligência Emocional. Lisboa. Círculo de


Leitores. 252 – 328.

Projecto InSERções. Disponível a partir de: http://www.insercoes.org/ (consultado dia


10 de Fevereiro de 2008).

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ANEXO 1

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Código deontológico para a profissão de Educador Social em Portugal 4

Aprovado a 17 de Novembro de 2001 no II Fórum Nacional de Educação


Social, Delegação Regional de Santarém do Instituto Português da Juventude,
Santarém

Deveres e direitos do Educador Social

Ponto 1- Em relação a si mesmo e à profissão

1. O Educador Social deve reger o seu trabalho pelo critério da eficiência e


competência profissional, tomando como referência as técnicas e metodologias
reconhecidas pela prática social e interventiva e pela ética profissional.
2. O Educador Social tem o direito e o dever ao seu desenvolvimento profissional,
através de actividades de formação permanente, sendo também promotor da sua auto-
formação e actualização científica e metodológica tal como agente activo na inovação
e investigação sócio-educativa.
3. O Educador Social deve assumir responsabilidade profissional nas matérias para as
quais esteja capacitado pessoal e tecnicamente e com as quais se compromete.
4. O Educador Social deve desenvolver uma atitude de análise crítica e reflexiva
permanente em relação a si próprio e ao seu desempenho profissional.
5. O Educador Social não deve praticar e tem o dever de denunciar às entidades
competentes qualquer exercício sócio-educativo anti-ético, prejudicial ou com efeitos
nocivos quer para o utente, para as instituições ou para a sociedade, praticados por
Educadores Sociais ou por outros profissionais.
6. O Educador Social deve contribuir através da sua acção profissional para a
dignificação social da sua profissão.
7. O Educador Social deve defender e fazer respeitar os direitos e deveres inerentes à
sua profissão, tal como os constantes neste código.
8. O Educador Social deve ter para com os seus colegas respeito, consideração e
solidariedade que fortaleçam o bom conceito da categoria.
9. O Educador Social deve esforçar-se para desenvolver em si qualidades pessoais
que optimizem o seu desempenho profissional, tais como a paciência, a tolerância, o
auto controle, a empatia, o altruísmo, o equilíbrio.
10. O Educador Social deve associar-se e prestigiar as associações e órgãos
representativos da profissão, contribuindo para a harmonia e coesão profissional e
para o desenvolvimento da profissão, enriquecendo-a através da investigação e da
partilha de resultados.
11. O Educador Social deve programar e planificar as suas intervenções sócio-
educativas não as deixando ao acaso e à aleatoriedade, recolhendo o maior número
possível de informação que fundamente a sua intervenção.
12. Deve-se considerar Educador Social o profissional que detém uma formação
adequada, de acordo com os diversos graus formativos previstos e ministrados e a
devida comprovação pelas entidades competentes.
13. O Educador Social deve gozar de privacidade na sua vida particular, devendo no
entanto ser coerente com a sua postura profissional durante o seu relacionamento
informal, considerando a pedagogia do exemplo.
14. O Educador Social tem direito ao exercício autónomo e reconhecido da sua
profissão nas instituições públicas e privadas.

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Ponto 2- Em relação aos utentes

1. é dever do Educador Social informar, esclarecer e promover a participação dos


utentes nos diversos momentos do processo pedagógico.
2. O Educador Social deve procurar desenvolver nos utentes competências que lhes
permitam uma positiva integração social no contexto em que vivem. Deve procurar o
desenvolvimento integral do pessoal sustentado em atitudes de respeito, criatividade,

iniciativa, reflexão, coerência, sensibilidade, autonomia, fomentando a confiança e


auto-estima.
3. Durante a relação educativa o Educador Social não deve manter um relacionamento
com o utente que condicione nocivamente a boa prestação do seu desempenho
profissional.
4. O Educador Social deve consciencializar o utente do problema que ele atravessa e
esclarecer os objectivos e a amplitude da sua actuação profissional.
5. O Educador Social deve desenvolver com os utentes uma relação educativa
ideologicamente desinteressada que promova o auto conhecimento cultural e o
reconhecimento da multiculturalidade.
6. O Educador Social deve guardar o sigilo profissional, não utilizando indevidamente
as informações que dispõe sobre os utentes e as famílias, só podendo ser transmitidas
em situação de trabalho multidisciplinar, quando daí advenha benefício para a acção
sócio-educativa.
7. O Educador Social não deve usar metodologias que afectem a dignidade dos
utentes, respeitando a sua integridade.
8. O Educador Social deve ser cauteloso mas objectivamente crítico nas afirmações
que profere e nos juízos que efectua sobre questões que possam dar azo a
generalizações e a estigmatizações.
9. O Educador Social não deve na sua prática profissional criar expectativas no utente
que não sejam possíveis de concretizar.
10. O Educador Social deve respeitar os direitos educativos das famílias com relação
aos utentes numa postura de cooperação entre a família e a equipa sócio-educativa,
entendendo a família como agente de socialização essencial ao utente.
11. O Educador Social deve ser conhecedor do contexto familiar da sua intervenção,
desenvolvendo o contacto directo e contínuo de forma coordenada com a família.
12. O Educador Social tem o direito ao respeito por parte dos utentes e das famílias.

Ponto 3- Com relação às instituições

1. O Educador Social deve respeitar de forma plena os compromissos assumidos com


os contratadores, assim como, cumprir as normas institucionais vigentes.
2. O Educador Social deve salvaguardar a autonomia de critérios e procedimentos
essenciais ao desempenho da sua função profissional, podendo recusar tarefas que
comprometam a sua integridade profissional.
3. O Educador Social não deverá aceitar substituir profissionalmente um colega que
tenha sido exonerado por defender os princípios e normas deste código no exercício
da profissão.
4. O Educador Social deverá ver garantida a confidencialidade dos documentos e
arquivos do seu uso profissional, assim como a inviolabilidade do local de trabalho.
5. O Educador Social tem direito a um contrato de trabalho e remuneração adequados
às funções que desempenha, assim como de usufruir de condições e recursos
adequados à sua prática profissional e de ser correctamente informado das tarefas que
deverá desempenhar.
6. O Educador Social deve assumir a identificação com os objectivos e com o projecto
institucional, desde que não contrariem os seus princípios deontológicos.
7. O Educador Social deverá ser promotor de princípios de parceria e
intersectorialidade entre instituições, quando essa estratégia for ao encontro dos
objectivos da prestação profissional.
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___________________________________Pedagogia Social: aspectos essenciais e definitórios

8. O Educador Social tem direito a despender de algumas horas do seu horário de


trabalho para actualização das suas competências profissionais através de
experiências formativas.

Ponto 4- Com relação aos outros profissionais

1. O Educador Social deverá manter em relação as outras profissionais, princípios de


cooperação interdisciplinar, sem desrespeito pela autonomia e pelas competências
específicas de cada profissional.
2. O Educador Social não deve tecer comentários pejorativos e desvalorizadores em
relação ao trabalho desenvolvido por outros profissionais. A sua crítica deve ser
construtiva e dirigida ao profissional, assumindo o educador plena responsabilidade por
ela.
3. O Educador Social não deverá compactuar com o exercício ilegal da profissão,
correspondendo-lhe o direito de denunciar actos ilícitos, usurpadores ou faltas éticas
dos outros profissionais.
4. É dever do Educador Social fornecer à equipa ou seu substituto, toda a informação
necessária à prossecução e continuidade positiva do trabalho sócio-educativo.
5. O Educador Social não deve prejudicar deliberadamente o trabalho e a reputação de
outro profissional, nem imiscuir-se na prestação e no relacionamento profissional dos
outros profissionais.
6. No seu desempenho profissional o Educador Social deve atribuir prioridade ao
profissionalismo em detrimento da afectividade no relacionamento com os elementos
da equipa de trabalho.
7. O Educador Social deve assumir como suas aquando da implementação, as
decisões apuradas em equipa de trabalho, mesmo quando haja manifestado a sua
discordância no momento da decisão.
8. O Educador Social deve elaborar e planificar em parceria com os outros
profissionais da equipa sócio-educativa um projecto educativo que oriente a sua
intervenção.
9. O Educador Social tem direito ao apoio, à informação sobre o trabalho, à
participação como elemento de voz activa e a ser consultado e informado das
decisões, em contexto de trabalho de equipa.

Ponto 5- Com relação à sociedade em geral

1. O Educador Social deve caracterizar a sua relação pelo critério da igualdade, sem
aceitar ou permitir discriminações em função do sexo, idade, raça, ideologia, credo,
origem social e cultural, condições sócio-económicas, nível intelectual, promovendo o
respeito pela multiculturalidade e pela diferença.
2. O Educador Social deve manter uma postura isenta, valorizando equitativamente e
procurando um relacionamento equilibrado com os diversos actores sociais, individuais
ou colectivos, com os quais se cruza na sua prestação profissional.
3. O Educador Social deve ser sensível à sua participação activa nos programas de
socorro à população vitimada sem requerer remuneração ou outra compensação, nas
situações de calamidade pública.
4. O Educador Social deve participar e contribuir activamente para a dinamização do
movimento sócio-cultural no contexto social envolvente à sua intervenção, numa
perspectiva de valorização e promoção dos aspectos socioculturais locais.
5. O Educador Social deve subordinar a sua actuação profissional a princípios como a
igualdade de direitos, o exercício da liberdade, a promoção da paz, a prática da justiça,
o exercício da tolerância e o respeito para com a Natureza.

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4
Disponível a partir de: http://educacao-social.blogs.sapo.pt/1065.html (consultado dia 09de Fevereiro de 2008).

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