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Reprodução felinos e caninos

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WALTHAM Focus

Vol 16 N° 2 – 2006
© Photo: UMES-ENVA (G.Casseleux)

Consultores Editoriais Dra. Denise A. Elliott BVSc (Hons), PhD, Dipl. ACVIM, Dipl. ACVN Comunicações Royal Canin, EUA Dra. Pascale Pibot, DVM Scientific Publishing Manager Royal Canin, França Dra. Pauline Devlin, BSc, PhD, Veterinary Support Manager Royal Canin, UK Dra. Karyl Hurley BSc, DVM, Dipl. ACVIM, Dipl. ECVIM-CA Global Academic Affairs, WALTHAM Visitante na Faculdade da Universidade de Cornell Editor Dr. Richard Harvey, PhD, BVSc DVD, FIBiol, MRCVS Secretário Editorial Laurent Cathalan lcathalan@buena-media.fr Ilustração Arnaud Pouzet Tradução (Português) Paula Cortes Revisão editorial para outras línguas: Dra. Imke Engelke, DVM (Alemão) Dra. M. Elena Fernández, DVM (Espanhol) Dra. Eva Ramalho, DVM (Português) Dra. Filipa Moreira, DVM (Português) Dr. Flavio Morchi, DVM (Italiano) Dra. Margriet Bos, DVM (Holandês) Prof. Dr. R. Moraillon, DVM (Francês)

Focus
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A Waltham Focus é publicada em inglês, francês, alemão, chinês, holandês, italiano, polaco, português, espanhol, japonês, grego e russo.
Esfregaço vaginal de uma cadela em estro

Sumário
Como tratar... Gatinhos órfãos ................................................................................... 2
Susan Little

Conceitos actuais sobre a infertilidade no cão .......................................................... 7
Cheri Johnson

Conceitos actuais sobre infertilidade na cadela ....................................................... 13
Autumn Davidson

Ultrassonografia ovárica e monitorização do estro na cadela e na gata .................................................................................................................. 22
Alain Fontbonne e Elise Malandain

O ácido fólico e a fenda palatina em cães braquicefálicos ...................................... 30
Aurélien Guilloteau, Eric Servet, Vincent Biourge e Claude Ecochard

Como abordar... A infertilidade na gata ................................................................... 34
Stefano Romagnoli

Publicado por Buena Media Plus PCA: Bernardo Gallitelli Morada : 85, avenue Pierre-Grenier 92100 Boulogne – França Telefone: +33 (0) 1 72 44 62 00 Impresso na União Europeia ISSN 0965-4577 Circulação: 80.000 cópias DEPÓSITO LEGAL: Junho 2006 Publicado por Aniwa S. A. S

Guia Destacável Royal Canin Esfregaços vaginais em cadelas............................................................................... 39 Boletim WSAVA......................................................................................................... 41

alemanha argentina austrália áustria bahrein bélgica brasil canadá china chipre coreia croácia dinamarca emirados árabes unidos eslovénia espanha estados unidos da américa estónia filipinas finlândia frança grécia holanda hong-kong hungria irlanda islândia israel itália japão letónia lituânia malta méxico noruega nova zelândia polónia porto rico portugal reino unido república checa república da áfrica do sul república eslovaca roménia rússia singapura suécia suiça tailândia taiwan turquia

As autorizações de comercialização dos agentes terapêuticos para uso em animais de companhia variam muito a nível mundial. Na ausência de uma licença específica, deve ser considerada a publicação de um aviso de prevenção adequado, antes da administração de tais fármacos.

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CONHECIMENTO E RESPEITO

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Como tratar...

Gatinhos órfãos
Susan Little, DVM, Dipl. ABVP
Bytown Cat Hospital, Ottawa, Ontário, Canadá K1K 1G6

A Dra. Little concluiu o Bacharelato na Universidade de Dalhousie (Nova Escócia, Canadá) em 1983, e a licenciatura em 1988 na Faculdade de Medicina Veterinária de Ontário, Universidade de Guelph. Trabalha em clínica de felinos desde 1990, tendo recebido o certificado de especialização em Medicina Clínica de Felinos em 1997. É sócia de duas clínicas veterinárias especializadas em felinos, em Ottawa, Canadá, e Presidente da «Winn Feline Foundation» (www.winnfelinehealth.org). A Dra. Little faz parte do Comité de Consultoria Editorial da «Pets Magazine» e desempenha a função de consultora sobre felinos para a «Veterinary Information Network» (www.vin.com).

Introdução
Frequentemente, os Médicos Veterinários são solicitados para proceder à avaliação e tratamento de gatinhos jovens órfãos ou abandonados. As crias são consideradas órfãs em caso de morte da mãe, se a gata se encontrar demasiado doente para cuidar da ninhada ou sempre que se encontrem gatinhos recém-nascidos na rua, aparentemente abandonados. O conhecimento das necessidades específicas destes pacientes pediátricos, em geral bastante frágeis, é o primeiro passo para o sucesso da terapêutica. temperatura rectal e a frequência cardíaca. Consulte a Tabela 1 sobre os valores fisiológicos em gatinhos. A determinação da idade aproximada do gatinho deverá basearse no peso vivo e no exame da dentição. O peso habitual à nascença oscila entre 90 e 110g (intervalo 80-140g). Os gatinhos saudáveis aumentam 50 a 100g por semana (1015g/dia) e, por volta das duas semanas de idade, já devem ter duplicado o peso de nascimento. Os incisivos são os primeiros dentes deciduais a irromper, seguidamente os caninos, por volta das 3 a 4 semanas de vida, enquanto que a erupção dos prémolares ocorre aproximadamente entre as 5 e as 6 semanas. A fórmula dentária dos dentes deciduais é a seguinte: 2(I3/3, C1/1, P3/2); não existem molares de leite. A pelagem do gatinho deve estar limpa e brilhante. É importante pesquisar a eventual presença de pulgas uma vez que qualquer infestação grave pode ser causa de anemia. Os recém-nascidos saudáveis podem apresentar mucosas hiperémicas até aos 7 dias de idade, enquanto que as mucosas das crias doentes, são
Figura 1. Para determinar o índice de crescimento de gatinhos órfãos pode ser utilizada uma balança de cozinha graduada em gramas para a pesagem dos animais.

Exame e Avaliação Exame Físico
O estado geral de um gatinho órfão deve ser imediatamente avaliado, de forma exaustiva, procurando recolher o maior número de dados sobre a história clínica do felino, ainda que, à partida, a informação disponível possa ser escassa. É indispensável prestar especial atenção ao ambiente em que o animal vive, tendo em conta factores como a temperatura e humidade relativa, higiene, densidade populacional, parasitismo e doenças infecciosas. O exame de felinos muito jovens deverá ser conduzido com muita delicadeza e paciência, numa superfície quente e limpa. Lave as mãos antes de manusear o gatinho e calce umas luvas para realizar qualquer procedimento. Utilize um equipamento simples, como uma balança graduada em gramas (Figura 1), um termómetro digital, um otoscópio com espéculos auriculares para pediatria, uma lanterna de bolsa e um estetoscópio com campânula (2cm) e diafragma pediátricos (3cm). Antes da manipulação do animal, procure observar a reacção deste ao meio envolvente, bem como a condição corporal, actividade cognitiva, postura, locomoção e respiração. Registe o ritmo respiratório antes de o manusear, e de seguida anote a

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frequentemente pálidas, acinzentadas ou cianóticas. Um abdómen distendido é normal num gatinho bem alimentado, mas no caso de um animal doente, a dilatação abdominal por vezes indica aerofagia. O edema, eritema ou presença de corrimento na zona umbilical constituem sinais de onfaloflebite, problema comum no período neonatal desta espécie. Deverá proceder-se a uma cultura do corrimento para orientar a selecção da antibioterapia. O animal deverá ser cuidadosamente inspeccionado para detecção de qualquer anomalia anatómica grave, como é o caso da fenda palatina, hérnia umbilical, deformações de membros ou da parede torácica, e a ausência de orifícios urogenitais ou rectais. Até às 3 semanas de vida os gatinhos não conseguem eliminar a urina e as fezes de forma voluntária, por conseguinte, é conveniente avaliar os reflexos de micção e defecação utilizando um cotonete embebido em óleo mineral para estimular a área anogenital. Em cerca de 60% dos recém-nascidos doentes regista-se a presença de diarreia. Pode também ser observável hematúria ou pigmentúria, assim como sinais de infecção do tracto urinário ou isoeritrólise neonatal. Os olhos devem ser examinados para pesquisa de eventuais anomalias do globo ocular, das pálpebras ou presença de conjuntivite. Corrimento ocular e pálpebras salientes, antes da abertura dos olhos, constituem sinais de oftalmia neonatal. O exsudado deve ser amolecido com compressas quentes, e as pálpebras devem ser cuidadosamente separadas. Aplicar uma pomada antibiótica oftalmológica, por exemplo 1% de tetraciclina (6,5mm, TID, 4 a 7 dias). A córnea poderá parecer ligeiramente turva quando os olhos se abrirem pela primeira vez. É muito difícil examinar o fundo do olho antes das 6 semanas de vida, ou até mais tarde, assim como também não é fácil observar os canais auditivos com um otoscópio antes das 4 semanas de idade. A auscultação cardíaca pode revelar-se uma dificuldade em animais neonatos. Por vezes, a presença de murmúrios funcionais deve-se a anemia, hipoproteinemia, febre ou sepsis. De forma geral, as patologias cardíacas congénitas produzem sopros facilmente audíveis associados a alterações da pulsação periférica e frémito pré-cordial. Os sopros ditos inocentes, não associados a doença, são mais comuns em cachorros do que em gatinhos. Consulte a Tabela 2 sobre as etapas fundamentais do desenvolvimento normal dos gatinhos.

Diagnósticos de rotina
Mesmo no caso de gatinhos muito jovens, é possível realizar testes diagnósticos de rotina. Pode proceder-se à recolha de sangue da jugular usando uma seringa pequena (1ml ou mais pequena) com uma agulha 25-26G de diâmetro. Coloca-se o animal em decúbito dorsal, com os membros anteriores posicionados junto ao abdómen, e a cabeça e o pescoço estendidos. A colheita de sangue deve ser feita muito lentamente para evitar o colapso da veia. São necessários cerca de 0.5ml de sangue para a realização deste tipo de testes: • Hematócrito (PCV) e proteína total • Contagem de glóbulos vermelhos e glóbulos brancos: colocar uma gota de sangue directamente da seringa num sistema de hematologia manual, como o Unopette™ (Becton, Dickinson) e realizar esfregaços sanguíneos • Glicemia: usar um glucómetro portátil concebido para uso doméstico. Uma anemia fisiológica em gatinhos entre as 2 e as 6 semanas de vida pode ser observada (nadir às 4 - 6 semanas). Os valores do hemograma normalizam para os níveis do gato adulto por volta dos 3 a 4 meses de idade. Consultar a Tabela 3 relativa aos valores habituais da química serológica e da hematologia em gatinhos, desde o nascimento até às 8 semanas. A colheita de urina deve ser realizada para análise química, determinação de sedimentos e gravidade específica, através de manipulação suave ou de estimulação da área urogenital. É conveniente evitar a cistocentese em gatinhos muito jovens, uma vez que é difícil imobilizar adequadamente o paciente, comportando um maior risco de provocar lesões nas paredes da bexiga e podendo desencadear um afluxo de urina para o abdómen. Durante as primeiras semanas de vida, a densidade específica da urina situa-se em níveis próximos de 1.020, ou inferior; os valores normais para um animal adulto são alcançados por volta das 8 a 10 semanas de idade.

Tabela 2. Etapas fundamentais do desenvolvimento dos gatinhos
Etapa Olhos Abertura das pálpebras Reflexos de ameaça e pupilares Visão normal Coloração adulta da íris Orelhas Abertura dos canais Audição funcional Locomoção Rastejar Andar Eliminação voluntária Idade

Tabela 1. Valores fisiológicos normais em gatinhos
Parâmetro Temperatura rectal Intervalo Normal Recém-nascido: 36-37°C (97-98°F) Cerca das 4 semanas: 38-39°C (100.4-102.2°F) 220-260 batimentos/minuto 15-35 inspirações/minuto

10 dias (referência entre 2-16 dias) 10-21 dias 30 dias 4 a 6 semanas

9 dias (referência entre 6-17 dias) 4-6 semanas

Frequência cardíaca Ritmo respiratório

7-14 dias 14 -21 dias 3 semanas

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Tabela 3. Valores da química sérica e da hematologia em gatinhos, desde o nascimento até às 8 semanas
0-2 semanas Albumina g/l (mg/dl) FA IU/l ALT IU/l Bilirrubina µmol/l (mg/dl) Cálcio mmol/l (mg/dl) Colesterol mmol/l (mg/dl) Creatinina µmol/l (mg/dl) Glucose mmol/l (mg/dl) Fósforo mmol/l (mg/dl) Proteína total g/l (mg/dl) Ureia mmol/l (mg/dl) Hematócrito (PCV) % Eritrócitos (RBC) x106/µl Leucócitos (WBC) x106/µl Neutrófilos Linfócitos Monócitos Eosinófilos 20-24 (2.0-2.4) 68-269 10-38 1.7-17.1 (0.09-1.0) -4.2-11.5 (161-442) 17.7-53.0 (0.2-0.59) 4.2-7.2 (76-131) 2.2-3.0 (6.81-9.28) 35-47 (3.5-4.7) 7.8-19.3 (21-54) 33.6-37.0 5.05-5.53 9.10-10.24 5.28-6.64 3.21-4.25 0.0-0.02 0.53-1.39 2-4 semanas 22-24 (2.2-2.4) 90-135 10-18 1.7-3.4 (0.o9-0.19) -5.7-11.2 (219-431) 26.5-44.2 (0.29-0.5) 5.5-6.2 (100-112) 2.4-3.1 (7.43-9.59) 41-47 (4.1-4.7) 6.1-10.7 (17-30) 25.7-27.3 4.57-4.77 14.10-16.52 6.15-7.69 5.97-7.15 0.0-0.04 1.24-1.56 4-6 semanas --9-41 -2.1-2.75 (8.4-11) -17.7-106.1 (0.2-1.2) -2.5-3.2 (7.73-9.9) 41-59 (4.1-5.9) 5.3-12.8 (14-36) 26.2-27.9 5.66-6.12 16.08-18.82 7.92-11.22 5.64-7.18 0 1.22-1.72 6-8 semanas --23-50 -2.2-2.8 (8.8-11.2) -35.4-88.4 (0.4-1.0) -2.5-3.1 (7.73-9.59) 51-57 (5.1-5.7) 8.9-13.6 (25-38) 28.5-31.1 6.31-6.83 16.13-20.01 5.72-7.78 8.02-11.16 0.0-0.02 0.88-1.28

Adaptado de Hoskins (1995) e Chandler (1992)

Deverá recolher-se uma amostra fecal para pesquisa da eventual existência de parasitas intestinais comuns, como a Giardia, a Isospora e nemátodos, tanto por meio de centrifugação como de esfregaço directo. Os gatinhos com 2 semanas podem ser tratados com pamoato de pirantel (5-10mg/kg por via oral, de 2 em 2 semanas).

Problemas comuns e tratamento Hipotermia
A hipotermia ocorre quando a temperatura rectal do gatinho é inferior a 34.4ºC (94ºF), e em geral está associada a um decréscimo do ritmo respiratório, falha do sistema imunitário, bradicardia e íleo paralítico. Os gatinhos hipotérmicos devem ser reaquecidos lentamente, durante um período compreendido entre 30 minutos a 2 horas, até se obter a temperatura rectal máxima de 36.3ºC (101ºF), evitando assim a desidratação. Uma incubadora ou uma câmara de oxigénio constituem uma excelente forma de reaquecimento, muito embora, com uma monitorização cuidadosa também se possam utilizar botijas de água quente ou lâmpadas de aquecimento. Em caso de gatinhos com hipotermia grave, pode recorrer-se à administração de fluidos aquecidos a 35-37ºC (95-98ºF) por via endovenosa (EV) ou intra-óssea (IO), ou ainda sob a forma de enema. Nunca tente alimentar um gatinho hipotérmico, uma vez que existe um risco considerável de pneumonia por aspiração.

administre 5-10% de dextrose, por via oral, na proporção de 1ml/100g peso vivo/hora, através de sonda gástrica, até que o animal recupere e atinja a normoglicemia. Só então deverá ser iniciada a alimentação com um leite de substituição (Figura 2). Os neonatos gravemente doentes requerem uma injecção em bolus de 10-20% de dextrose EV ou IO (1ml/ 100g), seguida por 1.25 a 5% de dextrose numa solução electrolítica equilibrada. As soluções hipertónicas de dextrose não devem ser administradas por via subcutânea para evitar a ocorrência de necrose dos tecidos.

Desidratação
A desidratação é facilmente desencadeada em gatinhos órfãos ou recém-nascidos com um quadro de diarreia, vómito ou de ingestão de líquidos insuficiente. Os mecanismos de compensação dos neonatos são muito limitados e o seu funcionamento renal é ainda imaturo. Por vezes pode revelar-se difícil atingir o estado de hidratação em doentes mais jovens. A turgência da pele não constitui um teste de hidratação fiável para gatinhos com menos de 6 semanas, uma vez que, comparativamente aos gatos adultos, a sua pele possui um elevado teor de gordura e um nível reduzido de água. As mucosas do animal devem apresentar-se húmidas e hiperémicas ou rosadas. A palidez das mucosas bem como o decréscimo do tempo de replecção capilar indicam uma desidratação, no mínimo, de 10%. A urina de um neonato é, normalmente, incolor e transparente; nos gatinhos desidratados, a urina é escura e apresenta uma gravidade específica superior a 1.020. Se o animal se apresentar normotérmico, com um grau de desidratação reduzido, e não evidenciar qualquer disfunção gastrointestinal, podem ser administrados líquidos aquecidos por via oral ou subcutânea (SC). Se a desidratação for moderada a grave, a administração EV de fluidos é a mais eficaz. Utiliza-se um mini-equipamento (60 gotas/ml) dotado de uma seringa ou uma bomba de fluidos, ou ainda uma bureta. Pode

Hipoglicemia
A hipoglicemia clínica produz-se em consequência de uma glucose sanguínea inferior a 3mmol/l (50mg/dl), um problema comum em gatinhos órfãos ou recém-nascidos doentes, devido à imaturidade da função hepática e à rápida depleção das reservas de glicogénio. A hipoglicemia pode ser causada por vómito, diarreia, sepsis, hipotermia e consumo alimentar inadequado. Os gatinhos com hipoglicemia apresentam-se debilitados, letárgicos e possivelmente anorécticos. Caso o felino não esteja hipotérmico nem desidratado,

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proceder-se à cateterização da veia cefálica ou jugular com um cateter de 24g 3/4-polegada ou de 22g 1 polegada. A solução de Lactacto de Ringer é ideal em termos de rehidratação, uma vez que esta substância pode ser utilizada como fonte de energia. Caso seja necessário, poderá adicionar-se 1.25-5% de dextrose. Poderão administrar-se fluidos EV aquecidos, em bolus de 30-40 ml/kg (3-4ml/100g peso corporal), seguidos por uma infusão de 80 ml/kg/dia (8ml/100g), como manutenção, na qual serão contempladas eventuais perdas contínuas. É importante monitorizar rigorosamente a fluidoterapia, uma vez que a sobrehidratação ocorre com bastante facilidade. Podem ser utilizados diversos métodos para avaliar o nível de hidratação, no entanto a pesagem do gatinho com intervalos entre 6 a 12 horas é importante e aplicável de forma imediata. Os outros métodos incluem medições sequenciais do hematócrito (PCV)/ proteína total, medição da pressão venosa central e medição da excreção urinária, por meio da colocação de um cateter urinário de borracha vermelha de 3.5Fr. Os níveis de electrólitos e glicose deverão igualmente ser vigiados. Se o acesso intravenoso for difícil, torna-se necessário recorrer a uma via alternativa para a administração de fluidos. A via intraperitoneal não deve ser utilizada em gatinhos recém-nascidos devido ao risco de peritonite. O acesso intra-ósseo, através da fossa trocantérica do fémur, constitui a melhor alternativa à abordagem EV e permite a administração de sangue, fluidos e medicamentos. Utilize uma agulha de 20 a 22G e de 1 polegada ou uma agulha hipodérmica de 18 a 25G como cateter. Através da acção da gravidade é possível obter velocidade de fluxo na ordem de 11ml/minuto. A administração de fluídos frios, um volume excessivamente elevado durante um curto período de tempo, assim como soluções hipertónicas ou alcalinas, irão provocar dor. O acesso EV deverá ser estabelecido com a maior brevidade possível. As complicações decorrentes da utilização da via IO incluem infecção, extravasamento de fluidos e trauma. coliformes (ex. E. coli) e os agentes responsáveis pelas infecções respiratórias, especialmente o FHV-1. Em recém-nascidos, a terapia medicamentosa pode ser afectada por diversos factores importantes que influenciam a absorção, distribuição, aglutinação e o metabolismo dos fármacos. De forma geral, os resultados da administração EV ou IO são mais previsíveis do que através da via oral, SC ou intramuscular (IM). A maioria dos medicamentos não foi estudada em gatinhos neonatos, pelo que, na maioria dos casos, as recomendações relativas à dosagem e frequência de administração constituem extrapolações. Habitualmente, procede-se a uma redução de 30 a 50% da dosagem para animais adultos ou ao aumento do intervalo de administração. Alguns antibióticos devem ser evitados em gatinhos jovens, como os aminoglicosídeos, o cloranfenicol, as tetraciclinas e as sulfonamidas e suas associações. Nestes felinos preconiza-se a utilização de quinolonas e ß-lactâmicos (consulte a Tabela 4 para obter informações sobre dosagens).

Imunidade
A imunidade passiva é essencialmente transmitida às crias pela progenitora durante as primeiras 18 horas de vida (antes do encerramento dos espaços intercelulares das células intestinais) através do colostro. Na espécie felina a transferência transplacentária de imoglubinas é muito reduzida. O nadir serológico de IgG produz-

Figura 2. Os gatinhos órfãos muito jovens podem ser alimentados com um leite de substituição através de uma sonda gástrica de 5Fr e seringa de 3ml.

Doenças infecciosas
As taxas de mortalidade mais elevadas devido a doenças infecciosas registam-se nas 2 primeiras semanas de vida e durante o período pósdesmame (Figura 3). Os agentes patogénicos mais comuns incluem: Mycoplasma, Herpesvírus-1 felino (FHV-1), Calicivírus, Vírus da Panleucopenia Felina, Peritonite Infecciosa Felina, Toxoplasma, E. coli, Pasteurella, Staphylococcus, Streptococcus, Bordetella e Chlamydophila. Os agentes patogénicos mais importantes são o Streptococcus canis (Beta-hemolítico do Grupo G), as bactérias

Tabela 4. Opções de antibióticos para gatinhos recém-nascidos
Medicamento Amoxicilina Amoxicilina + Ácido clavulânico Cefalexina, cefazolina Ampicilina Enrofloxacina Dosagem 6-20mg/kg, BID, PO 12.5-25mg/kg, BID, PO 10-30mg/kg, BID, PO 25mg/kg, TID, EV/IO/IM 5mg/kg, 1 vez por dia, SC ou EV

Figura 3. A conjuntivite dos gatinhos pode ser causada por diversos agentes, como o Hepervírus-1 felino, o Calicivírus e a Chlamydophila felis.

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se às 5 semanas e está correlacionado com um período de grande vulnerabilidade às infecções. A falha de transmissão passiva pode ocorrer em crias órfãs privadas da ingestão de colostro durante as primeiras horas críticas. É possível corrigir esta insuficiência através da injecção SC de soro de felino adulto com um tipo de sangue compatível, previamente submetido a despiste de doenças infecciosas (15ml/100g de peso vivo fraccionados em três doses, durante 24 horas). Os gatinhos sem qualquer tipo de imunidade passiva começam a produzir IgG por volta das 4 semanas. Consequentemente, são mais vulneráveis a infecções desde o nascimento até às 6 semanas de vida. No caso da maioria dos órfãos, o calendário de vacinação deverá iniciar-se entre as 6 e as 8 semanas de idade.

Nutrição
As crias órfãs devem ser alimentadas com um substituto comercial do leite materno, especialmente formulado para gatinhos, como o Vital Milk Royal Canin. É importante respeitar as indicações do fabricante em relação à mistura, armazenamento e quantidades a administrar. Durante as primeiras semanas de vida, as necessidades energéticas dos gatinhos são cerca de 20kcal EM/100g peso vivo/dia e as necessidades de água são aproximadamente 180ml/kg/dia. De início, deverá administrar-se apenas 50% da dose recomendada do leite de substituição para evitar o desenvolvimento de diarreia. Poderá adicionar-se maior quantidade de água ou uma solução electrolítica oral para compensar o volume e suprir a necessidade de líquidos. Ao longo das várias refeições, aumenta-se progressivamente a concentração do leite de substituição até atingir a dose recomendada pelo fabricante. O leite de substituição reconstituído deve ser aquecido a 35-38ºC (95-100ºF) através da imersão do recipiente em água quente. Nunca utilize o microondas, uma vez que pode sobreaquecer o leite. Os órfãos mais fortes e com um bom reflexo de sucção podem ser alimentados através de biberão, colocados em decúbito esternal, com a cabeça elevada para simular a posição normal de amamentação.

Em caso de gatinhos débeis, é mais eficaz recorrer à utilização de uma sonda gástrica. As sondas de alimentação deverão ser seleccionadas de acordo com o tamanho do animal: 5Fr para gatinhos com um peso inferior a 300g, 8Fr para felinos com peso superior a 300g. O leite é preparado numa seringa de 3 ou 10ml, que se acopla seguidamente à sonda de alimentação. O gatinho deve ser medido desde a ponta do nariz até à zona anterior à última costela, assinalando esta medida na sonda alimentar. A sonda deverá ser sujeita a novas medições e marcações semanais, acompanhando assim o crescimento do gatinho. A sonda é preenchida com o leite de substituição aquecido e colocase o felino em decúbito esternal, com a cabeça elevada. O tubo é facilmente introduzido através do lado esquerdo da cavidade oral até ao esófago, avançando depois até à marca. O líquido deve ser administrado lentamente. Antes de retirar a sonda, esta deverá ser dobrada para evitar a aspiração do leite. Evite a sobrealimentação. A capacidade máxima do estômago dos gatinhos é de cerca de 4ml/100g de peso vivo. Durante a primeira semana de vida, as crias devem ser alimentadas com intervalos de 2 a 4 horas, diminuindo a frequência após este período. A diarreia é o problema mais comum observado em gatinhos alimentados com leite de substituição. Para o seu tratamento, deverá reduzir-se temporariamente a dosagem, através da diluição da fórmula em 50% e administrando água ou uma solução electrolítica durante algumas refeições. Os gatinhos órfãos devem ser pesados de 12 em 12 horas, para assegurar que a nutrição é adequada para sustentar o crescimento. Se a sua idade for inferior a 3 semanas, é imprescindível estimular a área anogenital após cada refeição para induzir a defecação e a micção. Entre as 3 e 4 semanas de vida, deverá ser introduzido um alimento sólido para gatinhos, misturando uma pequena quantidade do produto com o leite de substituição numa tigela colocada ao alcance do animal. Logo que o animal aprenda a alimentar-se desta forma, vai-se reduzindo progressivamente a quantidade de leite até o gatinho ingerir apenas alimentos sólidos. De forma geral, o desmame termina por volta das 6 a 8 semanas de idade.

Bibliografia complementar
Chandler ML. Pediatric normal blood values. In: Kirk RW and Bonagura JD (eds) Curr Vet Ther XI Small Anim Pract. WB Saunders, Philadelphia 1992, pp. 981-984. Debraekeleer J. Data for neonatal, pediatric and orphaned puppy and kitten care. In: Hand MS, Thatcher CD, Remillard RL, et al. (eds) Small Anim Clin Nutr. Topeka: Mark Morris Institute, 2000; 4: 1012-1019. Freshman JL. Evaluating fading puppies and kittens. Vet Med 2005; 100(11): 790-796. Freshman JL. Initially treating fading puppies and kittens. Vet Med 2005; 100(11): 800-805. Hoskins JD. Fluid therapy in the puppy and kitten. In: Kirk RW and Bonagura JD (eds) Curr Vet Ther XII Small Anim Pract. WB Saunders, Philadelphia 1995, pp. 34-37. Levy J, Crawford P, Collante WR, et al. Use of adult cat serum to correct failure of passive transfer in kittens. J Am Vet Med Assoc 2001; 219(10): 14011405. McMichael M, Dhupa N. Pediatric critical care medicine: physiologic considerations. Comp Cont Educ Pract Vet 2000; 22(3): 206-214. McMichael M, Dhupa N. Pediatric critical care medicine: specific syndromes. Comp Cont Educ Pract Vet 2000; 22(4): 353-359. Miller E. Diagnostic studies and sample collection in neonatal dogs and cats. In: Kirk RW and Bonagura JD (eds) Curr Vet Ther XII Small Anim Pract. WB Saunders, Philadelphia 1995, pp. 26-30. Moon PF, Nassat BJ, Pascoe PJ, et al. Neonatal critical care. Vet Clin N Am Small 2001; 31(2): 343-367. Otto CM, Crowe DT. Intraosseous resuscitation techniques and applications. In: Kirk RW and Bonagura JD (eds) Curr Vet Ther XI Small Anim Pract. WB Saunders, Philadelphia 1992, pp. 107-112.

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Conceitos actuais sobre a infertilidade no cão
Cheri Johnson, DVM, MS, Dipl. ACVIM (SAIM)
Departamento de Ciências Clínicas de Pequenos Animais, Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade do Estado de Michigan, East Lansing, EUA

A Dra. Johnson é Professora de Medicina Interna de Pequenos Animais na Universidade Estadual de Michigan e diplomada pelo Colégio Americano de Medicina Interna Veterinária. As suas principais áreas de interesse são a endocrinologia e a reprodução. Recebeu o Prémio Daniels de 1999 pelo seu trabalho em prol do avanço do conhecimento sobre endocrinologia de pequenos animais. A Dra. Johnson é Directora do Serviço de Pequenos Animais do Hospital Universitário da Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Estadual de Michigan.

PONTOS-CHAVE
± Por vezes, a concepção é possível com sémen de qualidade inferior, se a inseminação se processar durante o período de fertilidade máxima da cadela. ± A função testicular pode ser restabelecida caso sobrevivam espermatogónias viáveis, mas a recuperação da qualidade do sémen pode demorar entre 3 a 12 meses. ± Testículos anormalmente pequenos acarretam um prognóstico grave de restabelecimento da fertilidade. ± Em caso de orquite ou neoplasia testicular unilaterais, poderá considerar-se o recurso à castração unilateral, preservando assim o testículo saudável.
decréscimo das taxas de gestação para 75% se tornariam evidentes no espaço de semanas ou meses. Contudo, quanto menor for a actividade reprodutora de um cão, mais tempo levará a ser detectada a infertilidade. Nalguns casos, esperar até que não haja concepção em 3 fêmeas consecutivas ou em 3 de 4 cadelas cobertas (75%) para avaliar a fertilidade do macho pode revelar-se contraproducente, uma vez que, nesse espaço de tempo, o grau de fertilidade pode sofrer uma deterioração progressiva. A redução do tamanho das ninhadas também constitui um sinal de infertilidade, no entanto é pouco provável conseguir detectar este problema num macho que não seja habitualmente utilizado como reprodutor.

Historial

N

ão foi ainda encontrada uma definição clara para a infertilidade do cão. Este facto não é surpreendente, tendo em conta que as oportunidades de cruzamento e as expectativas em relação ao desempenho reprodutivo do animal são totalmente diferentes para um proprietário de um animal de companhia muito apreciado, para o criador de cães de raça pura, ou para o director de um canil comercial. De forma geral, os cães são apresentados na consulta para avaliação de infertilidade devido à recusa ou incapacidade de copular, ou porque as fêmeas cruzadas com esses animais não geraram descendência. Na maioria dos casos, desconhece-se se a inexistência de gestação se deve à ausência de capacidades reprodutivas ou se a concepção foi seguida de morte embrionária, uma vez que o diagnóstico precoce da gravidez não é um exame realizado por rotina. A avaliação da fertilidade do cão está indicada se as taxas de concepção/gestação forem iguais ou inferiores a 75% (1), ou se 3 cadelas cruzadas consecutivamente pelo mesmo macho não ficarem gestantes (2). Esta circunstância é particularmente aplicável a um cão inserido num programa de reprodução intenso, em que 3 cruzamentos mal sucedidos ou o

A fertilidade óptima do macho requer condições normais da libido, da capacidade de cobrição e da qualidade do sémen. Também deverá ser considerada a contribuição relativa da cadela para o sucesso do cruzamento. Para complicar ainda mais a questão, raramente se permite que os cães e cadelas cruzem por iniciativa própria. O momento e a frequência da inseminação, assim como o tipo de sémen utilizado (fresco, refrigerado ou congelado) são determinados pelo proprietário. O historial deve registar o estado geral de saúde, incluindo a vacinação e o despiste de Brucella canis, qualquer doença observada no animal ou nos outros cães do canil, assim como a prática simultânea de esforços intensos, como a caça ou corridas de resistência. Para avaliar a libido do cão, o clínico deverá avaliar certas questões específicas: Qual o grau de excitação e interesse manifestado pela cadela, assim como o desejo que evidencia de cruzar? (Tabela 1). A cadela estava aparentemente receptiva? Uma vez realizada a monta, ocorreram impulsos pélvicos vigorosos e penetração? Por vezes é difícil distinguir os factores
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Tabela 1. Causas de ausência da libido
Imaturidade sexual Geriátrico Psicológicas/comportamentais O cão não se encontra no seu próprio território Submissão à fêmea Submissão a outro macho numa proximidade imediata A cadela não se encontra em cio Dor Distúrbios metabólicos/endócrinos Fármacos

Tabela 2. Patologias passíveis de afectar a cópula
Ortopédicas Neurológicas Na próstata No pénis No prepúcio Anomalia vaginal impeditiva da penetração

Tabela 4. Exemplos de medicamentos que afectam negativamente a reprodução
Libido e qualidade do sémen Cimetidina Hormonas • Glucocorticóides • Estrogénios • Androgénios • Esteróides anabolizantes • Progestagéneos Quetaconazol Espironolactona Anticolinérgicos Propanolol Digoxina Fármacos SNC • Clorpromazina • Barbitúricos • Diazepam Diuréticos tiazídicos

Tabela 3. Métodos utilizados para determinar o momento do cruzamento
• Cadela e cão domésticos juntos durante o período reprodutivo • Cópula em dias alternados, durante a fase de receptividade da cadela (estro) • Iniciar cruzamentos alternados num dia pré-determinado, normalmente no 10°-12° dia • Recorrer à citologia vaginal para confirmar o início do estro • Usar a endoscopia vaginal para confirmar o estro e o “momento da ovulação” • Medir as concentrações de progesterona sérica para prever o pico de LH* e realizar o cruzamento em consonância • Medir a LH sérica e cruzar os animais 3 a 5 dias após o pico de LH
* hormona luteinizante

Qualidade do sémen Anfotericina B Diversos fármacos anti-cancerígenos, vincristina

físicos dos factores fisiológicos, bem como distinguir os factores inerentes ao macho dos factores inerentes à fêmea em relação à avaliação da libido. Por exemplo, se as cadelas não estiverem em fase de estro não demonstrarão total receptividade. De igual forma, alguns machos não manifestam tanta excitação face a cadelas que ainda não se encontrem no período de estro. A libido diminui nos cães mais velhos. Por outro lado, os machos inexperientes ou submissos podem ser intimidados por uma cadela dominante ou por um ambiente desconhecido. Nalgumas ocasiões, foram observados cães cuja libido se apresenta temporariamente diminuída, em consequência da exaustão resultante da prática de uma actividade física intensa e prolongada. Certas anomalias físicas da cadela, por ex. septo vaginal, ou do cão, como é o caso de problemas ortopédicos, podem impossibilitar a monta normal e/ou a penetração apesar de uma libido normal. Esta situação por vezes é interpretada como ausência da libido. Qualquer distúrbio doloroso, incluindo afecções prostáticas, pode afectar negativamente a libido e a capacidade de cobrição (Tabela 2). Ocorreu o aprisionamento pós-coital após a cobrição? O sémen do cão é composto por três fracções. A primeira fracção, de origem prostática, é ejaculada durante o período de movimentos pélvicos rápidos, que em geral cessam quando começa a ejaculação da fase rica em espermatozóides (segunda fracção do ejaculado) (3). A ejaculação da terceira porção (líquido prostático) ocorre, sobretudo, durante o aprisionamento pós-coital. Embora a duração do aprisionamento não tenha influência directa na concepção, o facto de ter ocorrido

confirma não só que a penetração ocorreu, como a deposição do sémen na vagina foi provavelmente concretizada. Na ausência de aprisionamento pós-coital, não é possível confirmar a penetração ou inseminação vaginal. Um cão hiperexcitado e com uma erecção total não conseguirá realizar a penetração completa pois a glândula bulbouretral estará demasiado dilatada. Neste caso não ocorrerá aprisionamento após a cobrição. Os criadores de cães referem-se a esta situação como “aprisionamento exterior”. Poderá ter havido ejaculação, mas não necessariamente intravaginal. Deverá proceder-se à avaliação do registo reprodutivo prévio do animal, para determinar a taxa de concepção/gestação ao longo da sua vida reprodutiva. É importante determinar se as cadelas ficaram gestantes na sequência de cruzamentos com outros machos, anteriormente e/ou posteriormente à cobrição pelo macho em causa. Também pode ter interesse referir a frequência com que o animal é utilizado como reprodutor. Por exemplo, a ejaculação diária provoca uma diminuição substancial - muito embora não necessariamente significativa em termos clínicos - do número de espermatozóides em cada ejaculado (Consultar a secção “Avaliação do sémen”). Deverão ser revistos os métodos utilizados para a escolha das datas de reprodução, determinando assim se as inseminações ocorreram de facto durante o período de máxima fertilidade (Tabela 3). Comparativamente a uma inseminação única, duas cobrições durante o período fértil traduzemse em melhores taxas de concepção. O método de inseminação natural versus inseminação artificial vaginal ou intra-uterina (IA), também é um factor de extrema importância (4).

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Exame físico
Um exame físico completo e rigoroso deverá ser realizado por duas razões de extrema importância. Em primeiro lugar, uma doença sistémica, e/ou o seu tratamento pode afectar negativamente a fertilidade do macho (Tabela 4). A segunda razão prende-se com a detecção de potenciais afecções hereditárias. Os defeitos hereditários tornam o cão indesejável para reprodutor e tornam desnecessária uma avaliação suplementar da fertilidade. Se a história clínica sugerir uma libido reduzida ou uma fraca capacidade de cobrição, o cão deve ser avaliado sobretudo em termos de perturbações músculoesqueléticas e neurológicas, comuns à raça. Seguidamente, deve examinar-se cuidadosamente o tracto reprodutor inspeccionando-se a pele do prepúcio e do escroto. A palpação do conteúdo escrotal deve ser feita com particular atenção. Os testículos, os epidídimos e os cordões espermáticos devem ser avaliados em termos de localização, tamanho, forma, consistência e eventual desconforto. Os testículos e os epidídimos são macios e, de forma geral, a cauda dos últimos é ligeiramente mais firme do que os testículos. Os epidídimos distinguem-se facilmente dos testículos, sobretudo junto à cauda. Se estes órgãos não forem diferenciáveis através da palpação, um deles, ou ambos, apresentam uma anomalia. A espermatogénese de testículos com textura demasiado mole ou dimensões reduzidas poderá não ser normal. O registo da largura de cada testículo e a extensão total do escroto deve ser feita, pressionando suavemente os testículos até ao fundo do escroto e medindo-os de um lado ao outro da face caudal. Os testículos devem apresentar um alinhamento uniforme no plano sagital quando a largura total do escroto é determinada. Os resultados ajudam a monitorizar a evolução ou resolução da patologia. As causas das dimensões anormalmente reduzidas dos testículos incluem hipoplasia congénita, degeneração e atrofia. Em consequência, o prognóstico de recuperação da fertilidade em cães com hipoplasia testicular acentuada é grave. A eventual excepção será a atrofia testicular resultante da supressão do eixo hipotalâmico-pituitário-gonadal, como por exemplo em caso de excesso de estrogénios ou de outros distúrbios endócrinos. A palpação permite detectar tumores testiculares com dimensões suficientes, que em geral são irregulares e evidenciam uma consistência diferente do parênquima envolvente. Caso se constate a presença de uma alteração testicular unilateral, como uma orquite ou um tumor, deverá ser considerada a castração unilateral como forma de proteger o testículo saudável dos danos provocados pelo calor, pressão, extensão directa ou efeitos do testículo afectado. Se a historia clínica sugerir um problema ao nível do pénis, este órgão deverá ser examinado antes da recolha de sémen. Caso contrário, poderá ser observado no decurso da colheita. O exame da próstata realiza-se com maior facilidade utilizando ambas as mãos, por meio de palpação transrectal e transabdominal simultânea. Comparativamente à textura macia dos testículos, a superfície da próstata é ligeiramente áspera, possui um formato bilobado e simétrico, e a sua palpação não deve provocar dor no animal.

Avaliação diagnóstica suplementar
Em áreas endémicas, deverá proceder-se ao despiste de Brucella canis como procedimento de rotina para avaliação de fertilidade. Estes facto é particularmente importante se o último rastreio tiver sido realizado antes de se observar a infertilidade do cão, caso exista um historial de morte ou absorção embrionária no canil ou possibilidade de eventual exposição à bactéria (5). Devido à natureza insidiosa da infecção por B. canis, através do transporte internacional de sémen, o microrganismo pode ser inadvertidamente introduzido num canil de um país considerado isento de B. canis. Não há qualquer interesse em prosseguir o estudo da fertilidade de um cão com brucelose, mas a realização de uma investigação epidemiológica exaustiva é fundamental para o futuro reprodutivo do canil. As alterações constatadas durante o exame físico devem ser tratadas. É aconselhável realizar o hemograma, o perfil bioquímico assim como a urianálise para determinar o estado geral de saúde do cão. No entanto, na ausência de anomalias físicas ou sinais evidentes de doença, é pouco provável que estas análises possam revelar a causa da infertilidade. Em geral, recomenda-se a pesquisa de hipotiroidismo em machos inférteis, muito embora tenha sido demonstrado que, em cães adultos, o hipotiroidismo experimentalmente induzido não exerce qualquer efeito adverso sobre a libido, nem sobre o tamanho dos testículos, produção diária de espermatozóides, qualidade do sémen ou sobre as concentrações séricas de testosterona e de LH (6). A ultrassonografia constitui um excelente método para avaliar de forma mais pormenorizada qualquer anomalia detectada durante a palpação do escroto, do cordão espermático, dos testículos e dos epidídimos. Para o exame da próstata, a ecografia é um método mais eficaz que a palpação (7). A doença prostática é frequentemente referida como uma causa de infertilidade. A biópsia de aspiração com agulha fina orientada por ultrassonografia das lesões testiculares e prostáticas é um exame de fácil realização. As amostras recolhidas são utilizadas para análise citológica e microbiológica. Se não for encontrada qualquer explicação física ou comportamental para uma libido diminuída, o cão poderá ser examinado num ambiente que se considere seguro, na presença de uma cadela em cio. Se ainda assim continuar a evidenciar falta de libido ou ausência de erecção, deverá ser avaliada a secreção de testosterona. Em machos não esterilizados, por vezes o nadir da secreção episódica de testosterona situa-se abaixo do limiar de detecção de alguns ensaios. Assim, as concentrações séricas de testosterona devem ser medidas antes e após a administração de Hormona Libertadora de Gonadotrofina (GnRH Gonadotropin Releasing Hormone) ou de Gonadotrofina Coriónica Humana (hCG Human Chorionic Gonadothrophin). Raramente se observa uma produção inadequada de testosterona em cães inférteis mas normais nos restantes aspectos.

Avaliação do sémen
Em última análise, o factor mais importante da fertilidade masculina consiste na qualidade do sémen. A libido reduzida e a dificuldade de cobrição podem ser contornadas através de técnicas de reprodução
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Tabela 5. Parâmetros do sémen canino
Volume Cor N° total de espermatozóides no ejaculado % espermatozóides com motilidade progressiva % morfologicamente normal pH Leucócitos por campo de ampliaçao (HPF) Normal 2.5- > 80ml Opalescente 300-2,000 x 106 Anormal Clara, amarela, vermelha < 200 x 106 oligozoospermia < 50% astenozoospermia < 70% teratozoospermia

Tabela 6. Factores nocivos para os espermatozóides
• Água • Lubrificantes • Plástico • Látex • Frio • Calor • Urina

> 70% > 80%
6.3-6.7 ≤6

> 7-10

assistida, como a electroejaculação e a inseminação artificial. Segue-se uma discussão do diagnóstico e opções terapêuticas para um macho infértil mas normal, de acordo com os restantes critérios, que não tenha conseguido dar origem a uma ninhada quando adequadamente cruzado com uma fêmea fértil, durante o período de estro desta. O sémen deve ser recolhido, procedendo-se à sua análise e cultura citológica, tal como foi descrito (1, 8). O número de espermatozóides, respectiva morfologia e motilidade, bem como a presença de outras células, constituem os principais parâmetros a avaliar. Os resultados podem ser classificados como segue: normais, oligozoospermia, azoospermia, teratozoospermia, astenozoospermia, leucospermia e hemospermia (Tabela 5).

Sempre que se detecte uma amostra de sémen de qualidade anómala, em primeiro lugar o cão deverá ser submetido a uma reavaliação. Se o sémen evidenciar de novo características anormais, deverá conservarse ou efectuar uma cultura de uma alíquota enquanto se procede à realização de exames suplementares.

Teratozoospermia e astenozoospermia
É comum os espermatozóides morfologicamente anómalos não possuírem uma motilidade normal. As anomalias em termos de morfologia e motilidade podem ser iatrogénicas, em consequência de choque térmico (frio ou calor), de irregularidades ao nível do pH ou da osmolaridade, que serão abordadas de forma conjunta. Os espermatozóides normais avançam de forma rápida e imediata em linha recta. As causas iatrogénicas são a causa mais comum da fraca motilidade de espermatozóides normais do ponto de vista morfológico. Contudo, o decréscimo da motilidade também constitui um dos primeiros sinais de lesões testiculares. A teratozoospermia e astenozoospermia são observáveis em cães sexualmente imaturos e geriátricos. Após um período de abstinência, por vezes, o número de espermatozóides anómalos aumenta enquanto a sua motilidade diminui, devido à senescência espermática natural nos reservatórios extra-gonadais. Se apenas for colhida uma quantidade reduzida (por exemplo, inferior a 1ml), a presença de espermatozóides anómalos não deverá ser sobreavaliada. É preferível obter uma nova amostra. A diminuição da intensidade dos movimentos, numa colheita de aspecto normal, em geral, constitui um sinal de temperaturas baixas. Neste caso, uma segunda alíquota da amostra, estabilizada a 37ºC numa lâmina aquecida, deverá apresentar uma motilidade normal. Os movimentos dos espermatozóides em sentido retrógrado, em círculos, ou através de qualquer outra forma anormal, resulta na maioria dos casos, de defeitos morfológicos no corpo intermédio ou na cauda que impedem a sua deslocação para diante. A morfologia dos espermatozóides é classificada de acordo com anomalias ao nível da cabeça, do corpo intermédio e da cauda. A osmolaridade do corante utilizado ou um pH inadequados podem provocar alterações. Em caso de motilidade normal, se forem observadas anomalias excessivas no corpo intermédio ou na cauda,

Sémen Normal
Na presença de um animal saudável, deverá investigar-se em primeiro lugar o maneio da reprodução. É necessária a realização de 2 cobrições, no mínimo, durante o período de fertilidade óptima, determinado pelo momento da ovulação. Se anteriormente se recorreu à I.A., a técnica deverá ser analisada para garantir que o sémen não sofre qualquer tipo de dano durante o processo de recolha e/ou inseminação (Tabela 6). As taxas de concepção relativas ao sémen congelado são mais elevadas em caso de deposição intrauterina, comparativamente à inseminação intravaginal. A composição do meio, o método de diluição (uma ou duas fases), a concentração final de espermatozóides, a temperatura e nível de arrefecimento, a congelação e descongelação, assim como a temperatura de armazenamento (9-14) são passíveis de afectar a qualidade do sémen refrigerado ou congelado. Assim, um sémen normal pode sofrer danos num dado momento da recolha, do processo de arrefecimento ou congelação, do armazenamento, do transporte, do aquecimento ou descongelação, ou da própria inseminação. A segunda abordagem, face a um cão normal com sémen normal, consiste na pesquisa da fertilidade da fêmea, ou simplesmente no seu cruzamento com uma cadela diferente, de preferência, com fertilidade comprovada. A terceira situação é a recuperação de uma situação de uma infertilidade anterior.

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Figura 1. Esperma canino normal. Coloração da Sociedade de Teriogenologia, osmolaridade 189mOsm.

Figura 2. Caudas dobradas, provocadas pelo corante utilizado. A mesma amostra de sémen da Figura 1, corada com coloração da Sociedade de Teriogenologia, osmolaridade 137mOsm.

Figura 3. O espermatozóide central evidencia o defeito de Dag (microscópio de contraste de fases). Cortesia da Dra. Patricia Olson, Fundação Animal Morris, Englewood Colorado, EUA. .

deverá suspeitar-se de uma causa iatrogénica, por exemplo, um problema com o corante (15) (Figuras 1 e 2). Qualquer agressão a nível testicular pode dar origem a teratozoospermia. A recuperação é possível se as espermatogónias não ficarem lesadas de forma irreversível. Tanto uma amostra de sémen normal como anormal comportam, habitualmente, diversas anomalias morfológicas. Com base em observações realizadas em touros, se uma anomalia morfológica predominar sobre as outras, deve suspeitar-se de uma base genética (i.e., hereditária e não adquirida), sobretudo se essa alteração única representar ≥ 25% dos espermatozóides de uma amostra, e constituir um achado persistente (16). De entre estes, o defeito de Dag (Figura 3) e o defeito da “cauda amputada” foram identificados em cães cuja qualidade do sémen se adequava aos critérios estipulados para os defeitos genéticos. Com o envelhecimento, algumas anomalias genéticas observadas no esperma de touros passam a abranger maior percentagem de espermatozóides. Com excepção das situações sugestivas de defeitos genéticos, as anomalias morfológicas não são patognomónicas de uma causa específica (17). Algumas anomalias morfológicas, como gotículas distais e cabeças separadas das caudas, têm um impacto relativamente pequeno sobre a fertilidade canina, a menos que a percentagem de espermatozóides normais da amostra seja igual ou inferior a 60% (17). Este tipo de anomalia é considerada “compensável”, uma vez que a inseminação com um número superior de espermatozóides normais, em termos funcionais, deve permitir compensar, ou até ultrapassar, o problema (16). Outros defeitos espermáticos, como é o caso da ruptura do corpo intermédio, anomalias da cabeça, para além de cabeças normais separadas do corpo e caudas duplas, foram descritos como os principais defeitos observados no cão (17), e eventualmente são impossíveis de compensar.

ejaculado, esgotando as reservas extra-gonadais de esperma nos epidídimos e nos ductos deferentes (6, 8). Um segundo ejaculado, realizado no mesmo dia, apresentará um número reduzido de espermatozóides. Para maximizar a produção espermática, o intervalo entre ejaculações deverá ser de 3 a 4 dias. Os cães com oligozoospermia não conseguem repor as reservas de espermatozóides com a mesma rapidez que os cães normais. Uma pequena quantidade de espermatozóides normais também pode dar origem a uma gestação. As hipóteses serão maiores se a inseminação se processar durante o período de maior fertilidade, determinado pelo momento de ovulação. De acordo com algumas opiniões a inseminação intra-uterina – mais do que a intravaginal – pode ser de grande utilidade. Assim, e nestas circunstâncias, a cobrição natural parece ser preferível à IA intra-vaginal. Um volume reduzido significa quase sempre más condições de colheita, e também tem sido associada à ejaculação retrógrada e à doença prostática. De igual forma, pode dar origem à diminuição do número total de espermatozóides presentes no ejaculado. Habitualmente, alguns espermatozóides regridem para a bexiga. Não foi ainda definida a causa da presença de um volume anómalo de esperma na bexiga, supondo-se que seja segregado um maior número de espermatozóides em sentido antrógrado, através da uretra, do que em sentido retrógrado para a bexiga. A ejaculação retrógrada é confirmada através da análise urinária para identificar a presença de espermatozóides, antes e após a ejaculação. Preconiza-se o tratamento com fármacos -adrenérgicos, para aumentar a pressão do esfíncter uretral (8). Tal como anteriormente descrito, os cães que apresentem sémen anómalo deverão ser avaliados em termos de doença prostática. A azoospermia pode resultar da incapacidade de produzir ou ejacular espermatozóides ou de proceder à colheita da porção rica em espermatozóides do ejaculado. Para excluir a possibilidade de uma ejaculação incompleta ou a impossibilidade de recolher a fracção com maior teor de espermatozóides, deverá ser determinada a actividade de fosfatase alcalina no líquido seminal. A fosfatase alcalina é produzida nos epidídimos caninos. O líquido produzido nestes ductos deve conter espermatozóides e concentrações elevadas de fosfatase alcalina, em geral ≥ 5000 IU/l. A azoospermia com um nível elevado de fosfatase alcalina no fluído seminal é indicativa de insuficiência espermatogénica, ou obstrucção bilateral do fluxo dos testículos para os epidídimos. Existem causas congénitas e adquiridas para a incapacidade de produzir espermatozóides. Para o diagnóstico
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Oligozoospermia e azoospermia
O número de espermatozóides produzidos está directamente relacionado com as dimensões dos testículos. Muito embora o prognóstico da oligozoospermia seja, sem dúvida, melhor do que em caso de ausência total de espermatozóides, os pressupostos iniciais de diagnóstico são os mesmos. É previsível que cães sexualmente imaturos e geriátricos apresentem oligo- ou azoospermia. Em cães normais, a ejaculação diária diminui o número de espermatozóides em cada

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final poderá ser necessário realizar uma biopsia testicular, mas antes disso devem ser efectuados todos os testes não invasivos. Em presença de causas congénitas, dever-se-á considerar a avaliação do eixo hipotalâmico-pituitário-gonadal assim como a realização de um cariótipo. Se uma amostra azoospérmica apresentar baixas concentrações de fosfatase alcalina, existem várias possibilidades. A primeira, é que apenas tenha sido colhida a fracção inicial (pré-esperma) do ejaculado, com origem na próstata. Outra hipótese consiste na ejaculação incompleta. Existe ainda a possibilidade de obstrução bilateral do fluxo espermático proveniente dos epidídimos. A doença prostática deverá igualmente ser considerada, uma vez que ambos os ductos deferentes passam através da próstata, desembocando na uretra prostática. que o sémen de cães normais apresenta um valor igual ou inferior 2000Lc/µl, e igual ou inferior a 6Lc por campo de ampliação numa amostra de Cytospin (1, 8). Também se observam outras células inflamatórias, como os macrófagos. Em caso de inflamação, deverá efectuar-se a cultura de uma amostra para detecção de bactérias aeróbicas e Micoplasma, e eventualmente para a presença de bactérias anaeróbicas. (18). Face à probabilidade de contaminação do prepúcio e/ou do tracto urinário, as contagens bacterianas aeróbicas de 10,000 unidades formadoras de colónias/ml são consideradas clinicamente significativas (8, 18). Embora seja mais provável que as amostras com um número elevado de células inflamatórias comportem um crescimento bacteriano mais relevante do ponto de vista clínico, por vezes também se observa em cães com sémen não contaminado. Por conseguinte, a cultura deverá fazer parte da rotina analítica, independentemente da ausência de células inflamatórias no sémen (18).

Hemospermia
Em geral, o sangue presente no sémen é proveniente da próstata ou da zona superficial do pénis durante a colheita de sémen. Esta última situação pode ser excluída examinando o órgão logo que seja detectada a existência de sangue. Habitualmente, se o pénis sofrer um traumatismo no decurso da recolha de esperma, o sangue é vermelho vivo, enquanto se tiver origem na próstata apresenta uma coloração vermelha-acastanhada. Esta descoloração é visível em todas as fracções do ejaculado. As lesões poderão ser ao nível do prepúcio, da uretra, da bexiga ou das gónadas, mas não é provável que constituam a causa da hemospermia.

Monitorização
O ciclo espermatogénico canino dura cerca de 62 dias. É bastante improvável observar alterações substanciais na qualidade do sémen num período inferior, a menos que a causa na origem do sémen anómalo seja iatrogénica ou esteja relacionada com dificuldades “técnicas” durante a colheita. Partindo do princípio que se detecta e corrige a causa das lesões testiculares, e que ainda existem espermatogónias viáveis, a melhoria ou a recuperação são possíveis. Em cães que, para além deste problema, sejam saudáveis e normais, com testículos com dimensões e consistência igualmente normais, preconiza-se uma reavaliação passados 3, 6 e 12 meses (17). Se não for registada qualquer alteração no sémen ao fim de 12 meses, é pouco provável que ocorra futuramente.

Leucospermia
A presença de leucócitos no sémen canino é bastante comum, na maioria dos casos resultante de contaminação prepucial. Foi relatado

Referências bibliográficas
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Autumn Davidson, DVM, MS, Dipl. ACVIM
Hospital Universitário da Escola de Medicina Veterinária; Universidade da Califórnia, Davis, CA 95616 USA

A Dª. Davidson obteve a licenciatura e mestrado na Universidade da Califórnia, com particular destaque sobre a ecologia e maneio da vida selvagem. Licenciou-se na Escola de Medicina Veterinária, Universidade da Califórnia, Davis, tendo completado um internato em Medicina e Cirurgia de Pequenos Animais na Universidade A&M do Texas e uma residência em Medicina Interna de Pequenos Animais na Universidade da Califórnia, Davis. Especializou-se em medicina interna em 1992. A Drª.Autumn Davidson é Professora de Clínica Médica na Escola de Medicina Veterinária, Universidade da Califórnia, Davis, integrada no Departamento de Medicina e Epidemiologia. É especialista em teriogenologia e doenças infecciosas de pequenos animais. Para além disso, a Drª. Davidson trabalha no Centro de Saúde Animal de Sonoma, uma clínica privada de referência, onde recebe casos quer de medicina interna quer de reprodução.

PONTOS-CHAVE
± Na maioria dos casos, a infertilidade da cadela devese essencialmente ao maneio inadequado da reprodução e não à incapacidade de conceber ou levar a termo a gestação. ± Existem variações consideráveis no ciclo reprodutivo normal da espécie canina. Em geral, os criadores interpretam esta variabilidade como uma manifestação de anomalias. O clínico deve estabelecer a distinção entre cadelas que apresentem ciclos éstricos com padrões inesperados e reprodutoras com situações realmente anómalas. ± A monitorização do cio para detecção de anomalias constitui uma componente importante da avaliação de uma cadela com suspeita de infertilidade. Por vezes, as variações observadas em relação à sequência de acontecimentos num ciclo éstrico normal podem remeter para perturbações ováricas específicas. ± Em muitos casos, a avaliação completa do potencial reprodutivo de uma cadela deve de ser adiada até a ocorrência de um ciclo éstrico.
normais, e o insucesso conceptivo resulta sobretudo do maneio reprodutivo ou de problemas do macho reprodutor. Existem variações consideráveis no ciclo reprodutivo normal da espécie canina. Em geral, os criadores interpretam esta variabilidade como uma manifestação de anomalias. O clínico deve estabelecer a distinção entre cadelas que apresentem ciclos éstricos com padrões inesperados e reprodutoras com situações realmente anómalas. A detecção da variabilidade individual, em termos da sequência normal do ciclo, numa cadela fértil, pode revelar-se crucial para um aconselhamento eficaz sobre o maneio da reprodução. Para além disso, a monitorização do cio para detecção de anomalias constitui uma componente importante da avaliação de uma cadela com suspeita de infertilidade. Por vezes, as variações observadas em relação à sequência de acontecimentos num ciclo éstrico normal podem remeter para perturbações ováricas específicas.

Anamnese e exame físico, base de dados
Deve obter-se a história pregressa completa da cadela, de forma pormenorizada, incluindo, não só os dados relativos ao maneio da reprodução e condições de criação, como também, a história geral do estado de saúde do animal. Antes de proceder a uma avaliação centrada especificamente no aparelho reprodutor, o animal deve ser submetido a um exame físico rigoroso, exames complementares diagnósticos de rotina, compostos por hemograma, perfil bioquímico sérico, urianálise (com cultura, se indicado) e despiste de Brucella canis (nos países em que se considere necessário), para detecção de eventuais indícios de doença sistémica. Deve igualmente ser analisada a história de vacinação e desparasitação (1-3).
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Introdução
Na cadela, a infertilidade consiste na incapacidade de conceber e gerar crias viáveis. A maioria das fêmeas apresentadas na consulta de reprodução com suspeita de infertilidade são

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Fisiologia reprodutiva
Para avaliar a infertilidade de uma cadela reprodutora é indispensável um conhecimento aprofundado do ciclo reprodutivo da cadela, o qual se descreve de seguida.

anestro, uma vez que os inibidores da prolactina podem desencadear o final desta fase do ciclo. O fim do anestro está associado a um aumento da frequência dos pulsos de LH e a uma concentração superior de FSH, na fase terminal do anestro. O proestro tem uma duração média de 9 dias, se bem que possa durar entre 3 e 17 dias. Os machos demonstram interesse pelas fêmeas, mas não existe receptividade por parte das cadelas. A vulva apresenta-se dilatada devido à secreção de estrogénios pelos folículos em crescimento. É observável uma descarga sero-sanguinolenta na vulva, resultante da diapedese dos eritrócitos através dos vasos uterinos. Na vaginoscopia a mucosa vaginal apresenta-se lisa porque os estrogénios causam edema. A frequência dos pulsos de LH aumenta e a FSH é suprimida. Os estrogénios têm origem nos folículos em crescimento e atingem o pico máximo no final do proestro. De facto, o decréscimo dos níveis de estrogénios no final do proestro desencadeia os sinais clínicos de estro na cadela (receptividade). É interessante constatar que a testosterona se apresenta relativamente elevada neste período, talvez em resultado de um reforço na síntese dos estrogénios, que se pode traduzir num comportamento, até certo ponto masculino, por parte da cadela, tal como montar outros cães. A citologia vaginal realizada no proestro destaca um aumento diário, de cerca de 10%, do nível de queratinização até atingir aproximadamente 100% de células cornificadas (Consultar o Guia Destacável, página 39). A presença de eritrócitos e de descarga vulvar sanguinolenta é variável e, mesmo em caso de corrimento sanguíneo macroscópico, podem não ser observados eritrócitos na citologia vaginal. Na visualização vaginoscópica, a mucosa vaginal apresenta-se brilhante com rebordos arredondados, devido ao edema celular. Em média, o estro dura 9 dias, mas pode variar entre um mínimo de 3 dias e um máximo de 21 dias. Tanto o macho como a fêmea demonstram um interesse recíproco. A cadela “ergue” a cauda como sinal de receptividade. Este comportamento durante o estro é uma consequência da diminuição brusca dos estrogénios que atingiram o seu pico durante o proestro, enquanto a progesterona aumenta. A citologia vaginal realizada durante o estro apresenta uma elevadíssima densidade celular, com mais de 90% das células cornificadas, sendo a maioria anucleares. Regista-se a ausência de neutrófilos, porque a parede hiperplásica vaginal é demasiado espessa para permitir a sua passagem através da mucosa. Os eritrócitos estão frequentemente ausentes. O fundo do esfregaço é bastante claro. As células podem descamar à medida que se aproxima o final do estro. A vaginoscopia revela um epitélio vaginal com um aspecto enrugado (denteação) devido ao decréscimo acentuado das concentrações de estrogénios, responsável pela desidratação da mucosa. O pico da LH – que provoca a ovulação folicular - ocorre ao fim de 24 a 48 horas após o início do estro e é desencadeado pelo pico de estrogénios durante o proestro. A sua duração é muito reduzida, pelo

Puberdade
Habitualmente, a puberdade ocorre entre os 6 e os 24 meses, e de forma geral, os cães de tamanho grande atinjam a puberdade mais tarde do que as raças mais pequenas. O primeiro estro pode ser irregular e é comum a ocorrência de cios interrompidos (ou falsos cios), que traduzem um período de foliculogénese sem ocorrência de ovulação. No intervalo de 2 semanas a 2 meses mais tarde, produz-se um ciclo ovulatório normal. A puberdade tardia é rara na cadela e, se for consequência de uma etiologia nutricional pressupõe um mau prognóstico em termos da fertilidade futura. Por vezes, o primeiro cio pode ser desencadeado mantendo a cadela junto de outra fêmea do canil que se encontre em proestro, devido ao efeito das feromonas. Numa cadela normal de acordo com os restantes parâmetros, pode recorrer-se à indução médica (4, 5).

Intervalo do interestro
O interestro é composto pelo diestro - que habitualmente dura entre 45 e 60 dias - e pelo anestro, período bastante variável, embora a sua duração normal se situe entre 90 e 150 dias. Assim, o tempo médio do interestro é de 7 meses. Nas cadelas Pastor Alemão o interestro dura, em média, 6.5 meses enquanto nas cadelas Teckel é de 8.3 meses. De forma geral, nas fêmeas de grande porte este intervalo é mais curto do que nas cadelas mais pequenas. A variabilidade do período de interestro é normal e tende a prolongar-se ainda mais uma vez ultrapassados os 8 anos de vida. O factor sazonalidade pode existir nas cadelas, com ciclos mais comuns no Verão e no Inverno (4, 5).

Ciclo éstrico
As fases do ciclo éstrico canino são o anestro, o proestro, o estro e o diestro. O anestro é um período indispensável para o restabelecimento do endométrio, após o efeito proliferativo exercido pela progesterona durante o diestro, nos 45 a 60 dias anteriores. A fertilidade será baixa se não se verificar, no mínimo, um período de 90 dias de anestro (ou um intervalo de interestro de 150 dias), uma vez que o útero não terá tido o tempo suficiente para recuperar do diestro e, subsequentemente, estabelecer e manter a gravidez. Durante a fase de anestro, nem o macho nem a fêmea demonstram qualquer interesse sexual recíproco. A vulva não se encontra dilatada nem edematosa e a citologia vaginal apresenta-se hipocelular, com células parabasais não cornificadas (Consultar o Guia Destacável, página 39). A parede vaginal é muito fina, evidenciando uma coloração pálida na vaginoscopia. A progesterona situa-se na concentração basal (<1ng/ml). Note-se que mesmo as cadelas esterilizadas possuem níveis basais de progesterona, provavelmente de origem adrenal. A secreção de prolactina pela pituitária favorece o

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que é necessário realizar análises diárias para o detectar. A ovulação processa-se 24 a 48 horas após o pico de LH (3º- 4º dia do estro) e demora cerca de 24 horas até se completar. Em geral, o período fértil recomendado para reprodução situa-se entre o 3º e o 5º-6º dia após o pico de LH, devendo realizar-se o cruzamento em dias alternados durante o estro. Os níveis de progesterona aumentam durante o estro, coincidindo habitualmente a subida inicial com o pico de LH. Este acréscimo pré-ovulatório dos níveis de progesterona é causado pela luteinização éstrica dos folículos e por um back up da progesterona resultante da síntese dos estrogénios. O aumento da progesterona coincidente com o pico da LH, pode ser medido em dias alternados para prever o período fértil. Devido a esta simultaneidade, a progesterona situa-se bastante acima dos valores basais quando o estro termina. Por consequência, o diestro constitui o período de predominância de progesterona. Numa cadela não gestante, o diestro pode ser referido como pseudogestação oculta, uma vez que os níveis de progesterona se mantêm elevados se bem que não existam quaisquer sinais de gravidez. Em geral, durante o diestro, a cadela rejeita as aproximações do macho se bem que algumas fêmeas se mantenham receptivas após o período fértil. Na fase inicial, observa-se uma alteração brusca da queratinização, de 100% para uma percentagem inferior a 50%, nível que assinala o primeiro dia de diestro. Os neutrófilos regressam para remover todas as células mortas e resíduos celulares. Observa-se o regresso das células intermédias, bem como, das células do “metaestro” e das células espumosas. A progesterona é segregada pelo corpo lúteo, que constitui a única fonte desta hormona na cadela. No diestro, os níveis de prolactina são mais elevados nas fêmeas gestantes do que em cadelas não gestantes, embora aumente em ambas, face ao decréscimo das concentrações de progesterona. A prolactina é responsável pelo desenvolvimento mamário. Em cadelas não gestantes, a interrupção do diestro não parece estar associada à secreção uterina de PGF (4, 5).

hemorragia vaginal. Os protocolos para detectar a ovulação através de citologias vaginais sequenciais, repetição de vaginoscopias e doseamento sérico de progesterona e de LH, são úteis para identificar o período fértil real no qual o cruzamento se deve processar, e permite avaliar as decisões relativas ao maneio da reprodução (1, 6). É conveniente aconselhar os clientes criadores que informem a clínica logo que seja constatado o cio da cadela em observação, com base no corrimento vaginal ou na dilatação vulvar/atracção pelos machos. Mesmo os proprietários mais perspicazes podem não conseguir identificar o verdadeiro início do proestro durante alguns dias. O proestro precoce deve ser comprovado através de citologia vaginal (<50% de queratinização/células superficiais). Caso se desconheça o início real do ciclo, o nível basal da progesterona pode constituir uma boa informação (habitualmente 0-1ng/ml, no proestro). Devem realizar-se citologias vaginais com intervalos de 2 ou 4 dias até se observar uma evolução significativa em termos da cornificação, em geral >70% das células superficiais, momento em que se iniciam as análises hormonais sequenciais. Na rotina reprodutiva, a análise para determinar os níveis de progesterona pode ser realizada em dias alternados até se constatar um aumento de >2ng/ml. O dia «zero» corresponde à data em que se regista o aumento inicial da progesterona, pelo que se aconselha o cruzamento no 2º, 4º e 6º dias (1, 5, 7). Sempre que seja necessário maior rigor na determinação do momento da ovulação (p.ex. inseminação artificial com sémen congelado ou refrigerado, caso de infertilidade da cadela, cruzamentos com cães reprodutores sub-férteis), preconiza-se, na medida do possível, a realização de uma análise diária das concentrações de LH. Uma vez identificado o pico de LH, é possível planear os dias da cobrição partindo do princípio que esse é o dia “zero”. Tal como sucede com o doseamento de progesterona, a citologia vaginal determina o início das análises de LH (>70% células superficiais). As citologias vaginais podem prosseguir até ser identificada a transição para o diestro, que proporciona uma avaliação retrospectiva do cruzamento realizado (pico provável da LH, entre o 7º e 9º dias anteriores). Para além disso, deve efectuar-se pelo menos uma análise dos níveis de progesterona na sequência do aumento da LH, ou logo que seja detectada a sua subida inicial indicativa. Este exame terá como objectivo confirmar que os níveis continuam a aumentar acima dos 5ng/ml, e consequentemente, confirmar a ovulação e a luteinização. As I.A. mais prolongadas com sémen refrigerado devem ocorrer no 4º e 6º ou 3º e 5º dias, após o dia “zero”. Os dois dias escolhidos irão depender da viabilidade da rápida expedição do produto e dos horários dos clientes envolvidos. As I.A. com sémen congelado devem realizar-se 5 ou 6 dias após o dia “zero” (8). Se a capacidade financeira do cliente condicionar ao mínimo o número de testes, podem realizar-se colheitas de soro diariamente,

Diagnóstico diferencial da infertilidade: problemas de maneio e protocolo para determinar o momento clínico da ovulação
Em primeiro lugar, deve proceder-se à análise de eventuais erros de maneio do canil face a cadelas apresentadas na consulta devido à recusa de cruzamento ou não concepção, na sequência de um cruzamento induzido ou de inseminação artificial, durante o período fértil estimado. O momento dos períodos receptivos e férteis no decurso do estro varia consideravelmente entre cadelas normais, e até entre cios diferentes da própria cadela. Estes períodos podem não estar correlacionados com as datas predeterminadas escolhidas pelo tratador, tradicionalmente entre o 10º e o 14º dia após o início da

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efectuando-se os testes quantitativos de progesterona, tal como foi referido anteriormente. Logo que seja identificado o aumento inicial da progesterona, procede-se à avaliação do soro loteado especificamente para o dia da subida brusca da LH, de forma a confirmar a detecção do dia “zero”. Pode recorrer-se à vaginoscopia durante o ciclo como exame complementar à citologia vaginal e análises hormonais, sobretudo em caso de um ciclo invulgar. No decurso de cada exame, deve ser registado o comportamento, bem como outras observações, embora se tratem de parâmetros de menor importância. É importante o clínico estar ciente que a identificação mais rigorosa do momento da ovulação resulta da conjugação dos dados proporcionados por diversos testes (citologias vaginais, vaginoscopia e doseamento de progesterona ou LH) (9).

A ultrassonografia pode ser utilizada como meio auxiliar para a detecção da ovulação na cadela. As primeiras tentativas foram bastante desanimadoras; as pequenas dimensões dos ovários e a sua similaridade com as estruturas adjacentes dificultavam consideravelmente a observação. Contudo, relatórios recentes identificaram a ocorrência da ovulação sempre que se observa um decréscimo assinalável do número de folículos hipoecogénicos durante a imagiologia sequencial (3 vezes ao dia) (Figuras 1 e 2). Os dados demonstraram uma estreita correlação com a data da ovulação estabelecida através das concentrações de LH e de progesterona (Consultar artigo de A. Fontbonne e E. Malandain, página 22) (8, 9). Alguns problemas comportamentais ou físicos são passíveis de influenciar a aceitação do macho reprodutor, por parte da cadela. Cadelas dominantes expostas a um macho inexperiente podem não permitir o cruzamento, embora se encontrem no período adequado. Determinadas anomalias vulvares ou vaginais, como a estenose, a segmentação do sistema genital e a hiperplasia vaginal, tornam a cobrição natural dolorosa e levam a cadela a recusar a cópula, mesmo durante o cio (Figuras 3 e 4). O exame veterinário prévio ao cruzamento permite detectar precocemente este tipo de problemas anatómicos, assim como, a sua correcção ou a adaptação do planeamento reprodutivo (inseminação artificial versus natural) antes do início do proestro (1-3).

Problemas do macho
A fertilidade do macho deve ser confirmada antes de se iniciar a investigação da hipotética infertilidade de uma cadela não gestante. Embora os sintomas físicos e a avaliação do sémen - incluindo a contagem, a morfologia e a motilidade de espermatozóides - sejam úteis, não existe um método para avaliar a função espermática, para além da performance de concepção com outras cadelas próximo da altura em que esse reprodutor foi cruzado com a cadela suspeita de infertilidade (10).

Figura 1. Imagem ultrassonográfica de um ovário canino com múltiplos folículos. Cortesia A. Fontbonne / Escola Nacional de Medicina Veterinária de Alfort, França.

Infertilidade verdadeira Ciclos éstricos anómalos
Os ciclos éstricos anómalos podem ser agrupados e simplificados de acordo com diversos padrões que reflectem quer o prolongamento

Figura 2. Imagem ultrassonográfica de um ovário canino imediatamente após a ovulação. Cortesia A. Fontbonne / Escola Nacional de Medicina Veterinária de Alfort, França.

Figura 3. Estenose segmentada vestíbulo-vaginal.

Figura 4. Hiperplasia vaginal.

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quer a redução de uma fase do ciclo, ou ainda a alteração da sequência normal dos acontecimentos. A interpretação do comportamento e características físicas da cadela por parte do dono podem não corresponder às ocorrências fisiológicas reais, pelo que é necessário efectuar um estudo documentado do ciclo com citologia vaginal, vaginoscopia, análise comportamental e níveis séricos de progesterona e de LH, efectuados durante o cio do animal (11).

administração exógena (iatrogénica) excessiva de estrogénios quando a incompetência do esfíncter uretral da cadela é tratado com dietilestilbestrol (DES), ou na sequência de diversas tentativas para evitar uma gravidez indesejada através de DES ou de cipionato de estradiol. Uma vez obtida a confirmação de hiperestrogenismo de ocorrência natural, através de citologias vaginais (corroboradas pelo nível sérico de estrogénios), recomenda-se a realização de uma ultrassonografia abdominal, para identificar a eventual presença de quisto folicular ovárico ou de neoplasia funcional. Geralmente, os folículos préovulatórios normais medem entre 4 a 9mm de diâmetro e, como tal, são menores do que a maioria dos quistos foliculares e grande parte das neoplasias funcionais. A determinação das concentrações de estrogénios e de progesterona no fluído das estruturas ováricas quísticas anómalas permitem confirmar o diagnóstico. Estes exames realizam-se através de orientação ultrassonográfica e da análise histológica dos tecidos recolhidos por via cirúrgica. De forma geral, os níveis de estradiol registados nos quistos são bastante mais elevados do que os níveis séricos (9, 11). Uma vez que os quistos foliculares podem sofrer atresia ou luteinização espontânea, nem todas as cadelas com proestro ou estro prolongado requerem tratamento. É possível monitorizar a evolução dos quistos foliculares para um folículo atrésico ou um corpo lúteo

Proestro/estro persistente
O proestro ou estro pesistente ocorre quando uma cadela apresenta hemorragia vaginal durante um período superior a 21-28 dias consecutivos, associada à atracção por machos. A citologia vaginal revela uma percentagem de células superficiais superior a 80-90%. As cadelas nesta situação podem ou não mostrar-se receptivas ao cruzamento. Na maioria dos casos o proestro e/ou estro prolongado resulta de uma secreção contínua de estrogénios, com ou sem pequenos aumentos da secreção de progesterona. Quando segregada, a progesterona estimula a receptividade sexual. Na cadela, as causas endógenas da exposição prolongada aos estrogénios, com ou sem progesterona, incluem: quistos foliculares dos ovários e neoplasias ováricas secretoras, e teoricamente, causas com origem adrenal. Em geral, os quistos foliculares anovulatórios ováricos encontram-se isolados, ladeados por células granulosas e apresentam dimensões superiores aos folículos pré-ovulatórios normais, com um diâmetro compreendido entre 1 e 5cm (Figura 5). Os quistos foliculares bilaterais podem indiciar um problema no eixo hipotalâmico-pituitário-ovárico. Os quistos foliculares surgem habitualmente em cadelas com mais de 3 anos de idade. Podem igualmente ocorrer neoplasias ováricas com capacidade de produção de estrogénios, que incluem tumores de origem epitelial (cistadenomas e adenocarcinomas) e de origem gonadal-estromal (tumores das células teca-granulosas) (Figura 6). Em geral a neoplasia ovárica manifesta-se em cadelas com mais de 5 anos. Os tumores dos ovários podem ser unilaterais ou, com menor frequência, bilaterais. A neoplasia ovárica funcional e a patologia ovárica quística podem ocorrer em simultâneo. Os quistos observados no ovário contralateral e a hiperplasia do endométrio, associados a um tumor funcional, verificam-se com maior frequência em caso de tumores de origem gonadal-estromal. As perturbações adrenais capazes de provocar o hiperestrogenismo são raras (11). Existem alguns diagnósticos diferenciais para a hemorragia vaginal prolongada: • Hemorragia vaginal secundária a infecção, inflamação ou neoplasia do tracto urogenital • Corpos estranhos vaginais • Coagulopatia Estes diagnósticos devem ser distinguidos de proestro ou estro prolongados resultantes de doença ovárica. Por vezes, regista-se uma

Figura 5. Imagem ultrassonográfica de um quisto folicular ovárico. (Cortesia T. Baker).

Figura 6. Imagem ultrassonográfica de um tumor ovárico funcional. (Cortesia T. Baker).

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Figura 8. Imagem ultrassonográfica de alterações quísticas na parede endométrica (Cortesia T. Baker).

Figura 7. Quistos lúteos múltiplos no ovário de uma cadela.

através de ultrassonografia, de citologias vaginais, ou dos níveis séricos de estrogénios e de progesterona. Será necessário adoptar uma terapia direccionada para a interrupção do proestro ou estro prolongados caso: a regressão espontânea não se produza, a hemorragia vaginal constitua uma perturbação contínua, o comportamento característico do estro e a atracção por machos seja intolerável, ou caso se desenvolvam outros distúrbios (anemia devido a hemorragias, discrasias medulares, hiperplasia vaginal). Existem opções médicas e cirúrgicas para o tratamento de quistos foliculares patológicos persistentes. No entanto, as terapêuticas médicas nunca devem colocar em risco a saúde reprodutiva da cadela: • O tratamento com progesterona de cadelas com quistos foliculares funcionais aumenta o risco do animal desenvolver hiperplasia quística do endométrio/piómetra, pelo que não é aconselhável. • A administração de GnRH (50-100µg/cadela IM com intervalos de 24 ou 48h, até 3 doses) ou gonadotropina placentária humana (hCG; 22IU/kg, IM, com intervalos de 24 ou 48h) tem sido eficaz na indução da regressão ou luteinização quística, embora as taxas de sucesso relatadas em ambos os casos sejam variáveis. A GnRH não parece ser antigénica na cadela, pelo que pode constituir o tratamento de eleição. O êxito da indução da regressão ou luteinização quística reflecte-se na diminuição do corrimento vaginal e dilatação vulvar, em alterações

da citologia vaginal que traduzem a redução do efeito estrogénico, no decréscimo da atracção por machos e na normalização do comportamento. As concentrações séricas de estrogénios diminuem, podendo ocorrer um aumento das concentrações de progesterona, se a luteinização se produzir, embora se trate de uma situação variável. A monitorização ultrassonográfica da morfologia dos ovários evidencia regressão das estruturas hipoecogénicas. Foi sugerido, apesar de não ter sido ainda provado, que o insucesso das terapias médicas na resolução do proestro ou estro prolongado indicia uma maior probabilidade de neoplasia ovárica, do que de quistos foliculares. No entanto e, de forma geral, a terapia médica deste distúrbio é pouco compensadora pelo que a remoção cirúrgica do quisto constitui o meio mais vantajoso de tratar o problema. O ideal seria remover apenas o quisto, mas na maioria dos casos é necessário efectuar a ressecção do ovário associado. A avaliação histológica do tecido removido confirma o diagnóstico e, sobretudo, permite a análise de indícios de neoplasia passíveis de requerer uma terapia adicional e um prognóstico diferente (11).

Persistência dos intervalos de interestro
As cadelas com intervalos prolongados de interestro podem apresentar um período dilatado de anestro ou diestro. O anestro prolongado produz-se devido à ausência de actividade ovárica durante um período superior a 16/20 meses, numa cadela que anteriormente tenha evidenciado ciclos éstricos (anestro secundário). É indispensável estabelecer a distinção entre a ausência real de ciclos e cios silenciosos (ciclos normais não detectados pelo dono). Deve ser descartada a hipótese de uma doença subjacente ou de causas iatrogénicas através da elaboração de uma anamnese cuidadosa, do

Tabela 1. Fármacos utilizados em perturbações reprodutivas
Genérico GnRH hCG PGF2 Bromocriptina Cabergolina
* sempre que necessário

Dosagem 50-100 g IM 22 IU/kg IM 0.10-0.20mg/kg SC 0.01-0.10mg/kg 5.0 g/kg po

Via / frequência q 24-48h x 3 q 24-48h q 8-12h BID BID prn*

Descrição Hormona de libertação hipotalâmica Gonadotropina placentária Prostaglandina natural Anti-prolactina Anti-prolactina

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exame físico e de uma base de dados. Na cadela, o mecanismo através do qual se processa a interrupção normal do anestro não está perfeitamente elucidado. A dopamina inibe a secreção de prolactina e os níveis desta hormona diminuem desde o final do diestro até ao final do anestro. Tanto a FSH como a LH são referidas como as hormonas responsáveis pelo início da foliculogénese no proestro. Pode recorrer-se à administração de agonistas da dopamina (cabergolina, bromocriptina) para reduzir o período de anestro, tanto em cadelas normais, como em cadelas com anestro secundário, de etiologia desconhecida (Tabela 1). O mecanismo de indução do proestro exercido pelos agonistas da dopamina pode consistir na redução directa dos níveis de prolactina, numa acção dopaminérgica directa, quer ao nível do eixo gonadotrófico quer dos receptores ováricos de gonadotropina (4, 10, 11). Uma cadela apresentada na consulta para avaliação de intervalos prolongados entre cios pode encontrar-se sob o efeito de concentrações elevadas de progesterona (>2 a 5ng/ml). Se os níveis desta hormona permanecerem elevados por um período superior a 910 semanas, é provável a ocorrência de um diestro prolongado. O comportamento clínico da cadela será idêntico ao de outra fêmea com anestro prolongado. É indispensável realizar citologias vaginais, níveis serológicos sequenciais de progesterona e exame ultrassonográfico dos ovários, para poder estabelecer um diagnóstico. O diestro prolongado pode ser secundário à presença de um quisto ovárico luteinizado (secretor de progesterona). A progesterona induz um feedback negativo no eixo pituitário/hipotalâmico, impedindo a estimulação da actividade ovárica normal. Os quistos luteinizados podem ser únicos ou múltiplos, afectando apenas um ou ambos os ovários (Figura 7). A ultrassonografia abdominal permite identificar a presença de estruturas hipoecogénicas no interior do(s) ovário(s) afectado(s), bem como, alterações da parede uterina, resultantes de uma exposição prolongada à progesterona (Figura 8). A radiografia abdominal raramente fornece informação diagnóstica em virtude das reduzidas dimensões dos quistos. Níveis de progesterona >2-5 ng/ml confirmam o diagnóstico. De forma geral, o tratamento com prostaglandina F2 alfa (PGF2 ) produz apenas um decréscimo temporário dos níveis séricos de progesterona, indicativo de luteólise parcial. A terapêutica recomendada consiste na remoção cirúrgica do(s) quisto(s), seguida pela respectiva análise histológica. O ideal seria conseguir separar o quisto do ovário afectado, mas este procedimento é muito difícil do ponto de vista técnico, e requer habitualmente uma ovariectomia. É aconselhável realizar uma biopsia uterina para determinar a eventual presença e extensão de hiperplasia quística concomitante do endométrio, uma vez que este exame pode proporcionar informações importantes para o proprietário sobre a fertilidade futura da cadela. Contudo, devem ter-se em consideração as alterações endométricas normais do diestro e o facto da avaliação conduzida no anestro ser mais informativa, embora implique uma segunda intervenção. Em caso de presença de hiperplasia endométrica, a afecção pode regredir parcialmente após a remoção do quisto (11).

Os quistos ováricos não funcionais podem ser responsáveis pela ausência de ciclos, devido ao seu efeito de massa, como é o caso dos quistos Rete ovarii e os quistos sub-superficiais da estrutura epitelial. Não é detectável um aumento das concentrações de estrogénios plasmáticos ou de progesterona, apesar de estes quistos possuírem o potencial de produzir uma grande variedade de compostos esteróides com efeito sistémico. A suspeita inicial de diagnóstico por ultrassonografia abdominal, é confirmada através de avaliação histológica dos tecidos recolhidos por via cirúrgica (11). A insuficiência ovárica prematura pode originar a persistência do anestro. Embora se desconheça a longevidade funcional dos ovários das cadelas, em média, o declínio funcional não se deveria produzir antes dos 7-10 anos de idade. É possível confirmar um anestro persistente resultante de insuficiência ovárica prematura através da documentação de um acentuado aumento das concentrações de FSH e LH, tal como seriam registadas na sequência de uma ovariohisterectomia. A subida destes valores indica a ausência de feedback negativo à pituitária e ao hipotálamo, caso não se identifique outra causa para o anestro. A ooforite imunomediada, diagnosticada através de histopatologia ovárica, pode ser responsável pela persistência do anestro. Foi relatada a presença de infiltrado mononuclear, com predominância de linfócitos, células plasmáticas e macrófagos, em ambos os ovários de uma cadela com ciclo éstrico anormal, embora se trate de uma perturbação extremamente rara (11). A ausência de ciclo pode ser resultado de distúrbios de diferenciação sexual (Figura 9) (10). O hipotiroidismo constitui uma causa potencial para a ausência de ciclos, mas o diagnóstico deve fundamentar-se na presença de outros sinais clínicos (letargia, aumento de peso, alopecia bilateral simétrica) e em dados clínicos patológicos (hipercolesterolemia, anemia não regenerativa), bem como na confirmação de níveis séricos tiróideos subnormais (T4 total e T4 livre por equilíbrio de diálise), idealmente suportados por níveis endógenos elevados de TSH canina. Cadelas hipotiroideias submetidas a terapia de substituição adequada, devem começar a ciclar no intervalo de 6 meses após retorno ao eutiroidismo. A viabilidade da reprodução destas cadelas deve ser abordada com o proprietário. Os glucocorticóides podem actuar

Figura 9. Clítoris de uma cadela com ausência de cios. (Cortesia Dr. A Hughes).

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sobre as gonadotropinas pituitárias FSH e LH, e provocar a falha do ciclo. Consequentemente, em cadelas com anestro persistente, a administração de qualquer fármaco esteróide deve ser descontinuada (11, 12).

Encurtamento dos intervalos de interestro
Nas cadelas com intervalos de interestro curtos (inferiores a 4.5 meses) a concepção pode ser impossibilitada devido a involução e recuperação uterina incompleta, impeditiva da implantação e manutenção da gravidez. Em geral, as cadelas com diminuição dos intervalos interestro são normais em relação aos restantes aspectos. Ocorre ovulação e luteinização, o oócito secundário é fertilizado (embora seja difícil documentar do ponto de vista clínico) mas não consegue implantar-se com sucesso. A comprovação deste distúrbio implica a avaliação de citologias vaginais sequenciais, tanto no estro como no diestro, e dos níveis séricos de progesterona na fase lútea, durante um mínimo de 2 ciclos consecutivos. Actualmente, não existe qualquer método de pré-implantação fiável, disponível a nível comercial e consistente que permita confirmar a fertilização canina. Deve ser excluída a hipótese de foliculogénese sem ovulação (cio interrompido) e hipoluteoidismo (insuficiência lútea prematura). O encurtamento dos intervalos interestro resulta da redução do anestro. De acordo com algumas teorias, para esta síndrome podem contribuir o defeito no eixo hipotalâmico-pituitário ovárico com interferência na manutenção normal do anestro, ou o desequilíbrio nos níveis de dopamina versus prolactina. Numa cadela normal, é possível reduzir clinicamente o anestro através da administração de inibidores de prolactina, como a cabergolina e a bromocriptina. A intervenção só deve ser realizada se o animal tiver mais de 3 anos, uma vez que estas anomalias desaparecem por vezes de forma natural com a maturidade. Uma das terapias sugeridas consiste em prolongar o período de anestro através da administração de acetato de megestrol, durante os primeiros três dias de iminência de estro. No entanto, é bastante arriscado utilizar compostos progestacionais em cadelas reprodutoras de valor considerável devido ao risco de patologias uterinas associado a estes fármacos (10, 11, 13, 14).

repetidos de estimulação da progesterona que induzem a proliferação e secreção glandular endométrica. São observáveis alterações glandulares focais ou difusas, passíveis de interferir na implantação e na placentação. Eventualmente, pode provocar piómetra. O diagnóstico definitivo da HEQ implica a realização de biopsia da zona afectada. A ultrassonografia é bastante útil para avaliar as estruturas da parede uterina, ao longo do tempo. A hidrómetra ou a mucómetra podem ser percursoras da HEQ e da piómetra subsequente. Qualquer destas três perturbações comporta um mau prognóstico em termos de fertilidade (13). A piómetra aberta (com abertura do cérvix uterino), numa cadela valiosa e no apogeu da carreira reprodutiva, pode ser tratada com antibióticos específicos (determinados através de cultura e sensibilidade) e por indução da luteólise e esvaziamento uterino com PGF2 (1mg/kg SC BID, durante 2 dias, seguido por 0.2mg/kg SC BID até produzir efeito). É aconselhável cruzar a cadela no ciclo seguinte (15).

Doenças Infecciosas
As doenças infecciosas (contagiosas ou não) do tracto reprodutor canino, podem ocasionalmente ser responsáveis pela infertilidade e devem ser investigadas no início da construção do diagnóstico, uma vez que uma doença contagiosa pode constituir um problema adicional para além da infertilidade. As infecções bacterianas por Brucella canis (raramente B. abortus ou suis), salmonela, estreptococos e Escherichia coli, as infecções virais (herpes, esgana, parvovírus 1 e 2) e as doenças parasitárias (Toxoplasma gondii e Neospora caninum) são referidas como potenciais causas de infertilidade na cadela (16).

Infertilidade idiopática
Os processos fisiológicos que controlam a foliculogénese na cadela são complexos e envolvem quantidades específicas e diminutas de hormonas hipotalâmicas e pituitárias, sensivelmente controladas pelo feedback ovárico. De forma geral, a interrupção farmacológica do eixo hipotalâmico-pituitário-ovárico conduz a disfunção, em vez de aumento do sistema. A utilização racional de GnRH requer a administração pulsátil; o uso de análogos de GnRH resulta em inibição e a utilização de gonadotropinas apresenta bastante insucesso na indução de um estro produtivo, em cadelas férteis. Não existem evidências que sustentem a administração deste tipo de hormonas em cadelas com história de infertilidade ou de fertilidade reduzida. Recomenda-se, preferencialmente, uma avaliação cuidadosa das causas subjacentes à infertilidade e das condições de maneio ideal do cruzamento/reprodução, com monitorização da ovulação (i.e. avaliação sucessiva dos parâmetros necessários para determinar o momento da ovulação) (1).

Outras causas de infertilidade Perturbações uterinas
As patologias uterinas, tal como a hiperplasia quística do endométrio (HEQ), devem ser consideradas como potenciais causas de infertilidade, após exclusão de todas as outras possibilidades. É interessante referir que as doenças uterinas evidenciam menor incidência nos canis de reprodução em que as cadelas são cruzadas e concebem com regularidade, uma vez que a gestação exerce um efeito protector sobre o endométrio (10, 13). Nesta espécie, a hiperplasia quística do endométrio é uma perturbação previsível, hormono-dependente, resultante de ciclos

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Sumário
A infertilidade real da cadela deve ser diferenciada de erros no maneio da reprodução e do canil, bem como da variação normal entre ciclos éstricos. A necessidade de monitorizar o ciclo éstrico de cadelas torna frequentemente mais demorada a elaboração do diagnóstico de infertilidade. De forma geral, o diagnóstico confirmado de subfertilidade ou infertilidade na cadela acarreta um mau prognóstico, mas os problemas de maneio, na maioria dos casos, podem ser prontamente corrigidos, resultando numa reprodução normal.

Referências bibliográficas
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Alain Fontbonne, Conferencista, DVM, MSc, Dipl. ECAR
Centro de Estudos em Reprodução de Carnívoros, Escola Nacional de Medicina Veterinária de Alfort, 7 Avenue du Général de Gaulle, 94704 Maisons-Alfort Cedex, França

O Dr.Fontbonne licenciou-se na Escola de Medicina Veterinária de Nantes e realizou a pós-graduação em Medicina Interna de Pequenos Animais e Clínico Assistente em Medicina Interna de Pequenos Animais, na Escola Nacional de Medicina Veterinária de Alfort, França. Em 1993, foi nomeado Conferencista Principal do Departamento de Reprodução da Escola de Medicina Veterinária de Lyon, onde criou um departamento clínico e de investigação que abrange todos os aspectos ligados à reprodução e cruzamento de pequenos animais bem como um banco de esperma canino. Em 2000, foi renomeado para a Escola de Medicina Veterinária de Alfort. Presentemente, participa num projecto de investigação sobre a maturação e fertilização de oócitos caninos. O Dr.Fontbonne é Presidente da Sociedade Veterinária Europeia para a Reprodução de Pequenos Animais (EVSSAR) e Vice-Presidente do Grupo Francês de veterinários envolvidos na reprodução de pequenos animais (GERES).

Elise Malandain, DVM, MSc
Comunicação Científica, R&D, Royal Canin, 650 avenue de la petite Camargue, 30470 Aimargues, França

A Dra.Malandain licenciou-se na Escola Nacional de Medicina Veterinária de Lyon (França). Após trabalhar durante um ano no Departamento de Reprodução, onde redigiu a sua tese de mestrado sobre reprodução felina, ingressou na Unidade de Medicina de Reprodução e Desporto (UMES) da Escola Nacional de Medicina Veterinária de Alfort, com a função de desenvolver o sector da felinicultura. A Drª.Elise Malandain conduziu ao longo de 4 anos, ensaios clínicos sobre reprodução e doenças parasitárias e respiratórias em gatis de reprodução. Detentora de um Mestrado em Fisiologia da Reprodução, o seu trabalho de investigação centra-se na monitorização do estro em gatas e no desenvolvimento da inseminação artificial para criadores. Ingressou na equipa de comunicações científicas da Royal Canin em 2003. A Drª Malandain é também Vice-Presidente da Sociedade Francesa Felinotécnica, uma associação de felinicultores e médicos veterinários especializados em felinos.

Monitorização do estro em cadelas
Introdução
Estabelecer o dia da ovulação com a maior precisão possível é considerado, por muitos autores, um dos factores mais importantes para determinar o momento de proceder à inseminação das cadelas (Consultar o artigo de Autumn Davidson nesta edição, p. 13). Este facto adquire particular relevância em caso de utilização de sémen congelado, devido ao período de sobrevivência relativamente curto do sémen congelado/descongelado no tracto genital da fêmea, após a inseminação artificial. Neste sentido, foram testados diversos programas e técnicas de reprodução pelos médicos veterinários ao longo dos últimos 20 anos. Ultimamente, alguns autores realizaram estudos adoptando a ecografia ovárica como ferramenta de diagnóstico da ovulação em cadelas. Nesta espécie, nem sempre é fácil prever o momento da ovulação. É importante recordar que os oócitos da cadela

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são ovulados num estado imaturo, dois dias após o pico da LH, e requerem um período de maturação mínimo de 48 horas antes de poderem ser fertilizados. Foi recentemente demonstrado que os oócitos caninos não podem ser penetrados pelos espermatozóides quando ainda estão imaturos (1). Assim, é essencial determinar, com o máximo rigor, o dia da ovulação. É necessário distinguir entre a dificuldade em prever a ovulação e a altura da fertilidade máxima. Assim, o período em que o cruzamento ou a inseminação pode resultar em gestação abrange, por vezes, os 5 dias anteriores e os 5 dias posteriores à ovulação. Esta situação verifica-se sobretudo se o sémen do reprodutor for de boa qualidade e, deste modo, se mantiver vivo após a deposição no tracto genital da cadela e com capacidade de fertilizar os oócitos, durante um longo período de tempo (2). Salienta-se, no entanto, que em caso de inseminação da cadela com sémen congelado ou refrigerado - com menor tempo de vida in vivo - é aconselhável efectuar o procedimento durante o período óptimo de fertilização. Este ocorre entre 2 a 4 dias após a ovulação, altura em que os oócitos se encontram completamente maduros e sem terem sofrido qualquer deterioração.

Figura 1. Determinação do pico de LH através da análise à progesterona. O doseamento da progesterona, com o objectivo de detectar o pico de LH, pode induzir em erro. No caso desta cadela, poder-se-ia pensar que o pico de LH tinha sido atingido no 7º dia do ciclo (concentração de progesterona de 1.91ng/l), quando, de facto, este ocorreu por volta do 12º dia, e o dia da ovulação no 14º dia do estro.

Ovulação Progesterona sanguínea (ng/ml)

Pico de LH

Dia do estro

Técnicas clássicas utilizadas para detectar o momento da ovulação na cadela
Nenhuma avaliação clínica, como o edema vulvar, a quantidade e o aspecto do corrimento vulvar (com maior ou menor presença de hemorragia), o sinal de Amantea (desvio lateral da cauda, quando o veterinário toca na região perianal da cadela) ou a receptividade à cobrição pelo macho, é suficientemente rigorosa para detectar com exactidão a ocorrência e o dia da ovulação (2). Para além disso, é sobejamente reconhecido não existir qualquer fiabilidade na pré-determinação do dia de ovulação e, por consequência, numa data de cruzamento previamente estabelecida. Algumas cadelas podem ovular bastante cedo, no 5º dia do ciclo éstrico, enquanto noutras se processa mais tarde, ao 30º dia. Foi demonstrada a ocorrência de variações significativas em períodos éstricos sucessivos na mesma fêmea, em cerca de 44% das cadelas (3). A citologia vaginal não pode ser utilizada para detectar a ovulação de forma antecipada. No final do cio, o “início do metaestro vaginal” – altura em que se produz um aumento repentino das células intermédias e parabasais - ocorre cerca de 5 dias após a ovulação. Por isso, esta técnica serve apenas para verificar a ovulação em retrospectiva. Alguns autores recorrem à endoscopia vaginal para determinar o “período fértil” mas, uma vez mais, através deste método - que implica a utilização de equipamento dispendioso - é impossível estabelecer de forma precisa o dia exacto da ovulação.

Por consequência, as análises hormonais são frequentemente usadas pelos veterinários como meio auxiliar para prever a ovulação. Em teoria, as análises à LH são ideais, mas a detecção do pico da LH requer, no mínimo, duas recolhas sanguíneas diárias, todos os dias e, em muitos países, não estão disponíveis testes comerciais para a LH canina. Assim, os investigadores que pretendam obter as concentrações de LH dependem de radioimunoensaios dispendiosos e demorados. Foi sugerida a utilidade dos doseamentos de progesterona para determinar o dia do pico pré-ovulatório de LH. England e Concannon (2) referiram que a progesterona plasmática ultrapassa 2.0ng/ml (6.5nmol/l) no momento em que se regista a subida repentina de LH, ou no dia seguinte. Todavia, dados não publicados indicam que, pelo menos no caso de algumas raças (p.ex. Pastores Alemães), confiar apenas num aumento pré-ovulatório antecipado da progesterona plasmática pode não ser adequado para calcular o dia da ovulação (Figura 1). Deste modo, aconselha-se a realização de análises sequenciais à progesterona, até se obter um valor realmente indicativo da ocorrência da ovulação. De acordo com Arbeiter (4), uma identificação fiável do período de cruzamento em cadelas, requer a monitorização do aumento das concentrações de progesterona, pelo menos até 32.0nmol/l (11ng/ml). Em trabalhos recentes foi demonstrado que os níveis de progesterona plasmática na altura da ovulação são bastante constantes, independentemente da raça (5). Assim, o doseamento da progesterona parece ser uma das técnicas mais fiáveis para avaliar a ovulação da cadela.

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Figura 2. Detecção do período fértil numa cadela: árvore de decisão.

Para não negligenciar um estro muito curto, o primeiro exame deve realizar-se por volta do 6°/7° dia do cio

Análise de progesterona (Pg)

Esfregaço vaginal, aspecto do corrimento vulvar, observação de sinais comportamentais indicativos do estro

Pg < 1ng/ml O pico de LH ainda não ocorreu. Recolher amostra 3 a 4 dias mais tarde

Pg entre 1 e 3ng/ml. Recolher nova amostra no dia seguinte

Se a cadela estiver próxima do estro (esfregaço vaginal com > 60% de células superficiais)

Se a cadela se encontrar ainda no proestro

Pg entre 4 e 9ng/ml (intervalo variável de acordo com os padrões laboratoriais). Agendar cruzamento ou I.A.

Realizar a avaliação 3 a 5 dias mais tarde, consoante o aspecto do esfregaço vaginal Cruzamento natural ou I.A. com sémen fresco: - Programar o cruzamento para 1 a 3 dias após a ovulação Caso se utilize sémen congelado ou refrigerado: - Inseminar 2 a 3 dias após a ovulação

Na prática, a maioria dos clínicos utiliza uma combinação de citologias vaginais e determinação das concentrações de progesterona para optimizar a relação custo/benefício. (Figura 2).

Detecção da ovulação através de ultrassonografia ovárica
A última técnica para determinar a ovulação na cadela, e também a mais recente, é a exploração ovárica por ultrassonografia. Infelizmente, a interpretação da imagiologia ultrassonográfica dos ovários da cadela, perto da ovulação, é mais difícil do que em outras espécies. Estudos anteriores demonstraram que o aspecto dos folículos ováricos, imediatamente antes e logo após a ovulação, é muito semelhante (6). Alguns folículos não colapsam no momento da ovulação (7, 8) e para além disso, é frequente permanecerem folículos não ovulados, após a ovulação (9). Tendo em conta estas dificuldades, preconiza-se, no mínimo, a realização de dois exames diários, de modo a determinar a ovulação de forma rigorosa (10). No entanto, mesmo seguindo um protocolo muito preciso e conduzindo exames frequentes, só foi possível diagnosticar a ovulação em 15.4% (2 de 13) e 54.5% (6 de 11) das cadelas (7, 11). Actualmente, as clínicas veterinárias dispõem de aparelhos ecográficos modernos, com performances elevadas, pelo que talvez seja oportuno considerar a visualização do ciclo éstrico através da ultrassonografia. Com este objectivo, realizaram-se diversos ensaios na Escola Nacional de Medicina Veterinária de Alfort, França, para determinar o grau de fiabilidade e rigor do exame ecográfico dos

ovários em termos da detecção da ovulação nas cadelas. Este trabalho (5) foi apresentado no Simpósio Mundial de Reprodução de Pequenos Animais, em São Paulo, Brasil, em Agosto de 2004, e galardoado com a distinção “melhor relatório de investigação”. O estudo consistiu na monitorização do período éstrico através de ultrassonografia e análises hormonais (progesterona, LH), em diversas cadelas de 36 raças diferentes e com idades compreendidas entre os 9 meses e os 8 anos. Estas fêmeas, na sua maioria pertencentes a proprietários privados, foram examinadas durante o estro, com o intuito de detectar a ovulação por via ecográfica. O dia da ovulação foi claramente determinado em 91.7% das cadelas (44 de 48). Contudo, 4 fêmeas evidenciaram contornos ováricos imprecisos, próximo da ovulação. É interessante notar que todas pertenciam a raças de grande porte (2 Pastor Alemão e Pastor Belga, 1 Labrador Retriever e 1 Dogue da Argentina). Na maioria das cadelas, o processo de ovulação parece completado ao fim de 24 horas. No entanto, em 14 das 41 fêmeas, terminou em menos de 12 horas. Não foi observada qualquer diferença significativa entre o ovário esquerdo e o direito. Neste estudo, o doseamento da progesterona, no momento da ovulação, revelou-se bastante constante, com valores da ordem de 6.25 +/- 1.55ng/ml (Teste de quimioluminescência., Progesterona II®, Diagnósticos Roche, Alemanha). De forma geral, neste estudo conduzido em cadelas, a detecção da ovulação através de ultrassonografia ovárica demonstrou ser o método clínico mais rigoroso. Para além disso, uma vez que a

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ovários. Para a realização deste exame, é aconselhável posicionar os animais em decúbito dorsolateral esquerdo ou direito (Figuras 3), de modo a explorar ambos os ovários. Ocasionalmente, a presença dos intestinos perto do ovário direito dificulta a sua visualização, pelo que pode ser útil repetir o exame com o animal em estação. Na cadela, em geral, os ovários situam-se em frente da 3ª e 4ª apófise lombar. Podem ser observados em posição caudolateral à zona distal dos rins. Uma vez que o rim direito é mais cranial do que o esquerdo, a localização do ovário direito é cranial ao rim esquerdo. O melhor método consiste em iniciar o exame pelo ovário esquerdo, mais fácil de localizar. Através da sonda, o veterinário deve identificar o rim e, depois, examinar a região caudolateral deste órgão, tendo em conta a localização muito superficial do ovário sob a pele. O córtex ovárico surge menos ecogénico – “mais escuro” – do que o córtex renal. Pode ser mais difícil localizar os ovários em cadelas de raças gigantes ou obesas. Algumas raças (p.ex. Shar-Pei, Chow-Chow, Terra Nova) possuem uma pele espessa, que dificulta a obtenção de boas imagens em qualquer tipo de ultrassonografias abdominais. Durante o período de anestro, nem sempre é fácil observar os ovários. Não só têm dimensões reduzidas como também se apresentam ligeiramente heterogéneos, sobretudo em cadelas póspubertárias, nas quais é possível visualizar resíduos do corpo lúteo anterior. Nas fêmeas em proestro, a forma dos ovários é visualizada com maior facilidade e com frequência, numa posição mais caudoventral em relação aos rins. Contêm diversos pequenos folículos circulares anecogénicos, rodeados por uma parede ecogénica muito fina, com dimensões inferiores a 1mm. No final do proestro - durante o período pré-ovulatório - o tamanho dos ovários aumenta e, devido ao considerável volume de líquido anecogénico no interior dos folículos, tornam-se mais perceptíveis. Nesta fase, ocorre a pré-luteinização dos folículos, durante a qual segregam uma pequena quantidade de progesterona. Em termos ultrassonográficos, as paredes foliculares adquirem maior espessura, cerca de 1mm. Consoante o tamanho da raça, as dimensões dos folículos pré-ovulatórios variam entre 6 e 9mm. Em geral, consistem em grandes estruturas circulares anecogénicas, contudo, quando em número considerável dentro do mesmo ovário, podem parecer achatadas e aglomeradas (Figuras 4). De acordo com alguns dados não publicados, a ultrassonografia subestima o número de folículos. Nalguns casos e durante a ovulação, é possível visualizar o desaparecimento total das cavidades foliculares. No estudo

Figuras 3. Posicionamento da cadela para ultrassonografia ovárica. A cadela pode estar deitada em decúbito dorsolateral esquerdo ou direito. Por vezes, é mais fácil visualizar o ovário direito se a cadela estiver em estação sobre a mesa.

realização de dois exames diários não demonstrou qualquer contribuição adicional, foi recomendada uma ecografia diária dos ovários para determinar o momento exacto da ovulação.

Técnica
Recomenda-se a utilização de sondas lineares ou sectoriais de altafrequência, muito embora a maioria das imagens ováricas, mesmo nas raças mais pequenas, tenha sido obtida através de sondas de 7.5MHz. No entanto, em certos casos, a aplicação de frequências mais elevadas - entre 8 e 10Mhz - revelou-se útil para confirmar ligeiras alterações no aspecto dos ovários. Os criadores de cadelas de raça pura - de considerável valor financeiro e participantes assíduas de exposições e concursosmostram-se compreensivelmente relutantes em permitir a tosquia do pêlo abdominal para facilitar a monitorização ovárica para detectar a ovulação. De acordo com a nossa experiência, a tosquia é desnecessária. Mesmo em raças de pêlo comprido (ex. Galgo Afegão, Golden Retriever), a simples aplicação de gel ultrassonográfico em quantidade abundante na região a examinar, na maioria dos casos, é suficiente para obter boas imagens dos

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referido no presente texto, este facto só foi observado em 37.5% das cadelas (18 de 48). No entanto, em 58.3% das fêmeas (28 de 48) persistiram algumas estruturas hipoecogénicas intra-ováricas, que se caracterizam sempre por um aspecto muito diferente dos folículos préovulatórios, pois são pequenas e possuem uma forma irregular (não circular) (Figuras 5). Para além disso, em 45.9% das cadelas (22 de 48) foram identificados folículos aparentemente não ovulados, que permaneceram redondos e anecogénicos, no mesmo ovário, 3 dias após a ovulação. Esta percentagem elevada de folículos não ovulados está em concordância com o trabalho de Wallace et al. (9), que relatou a ocorrência deste fenómeno em 7 de um número total de 10 cadelas. É fundamental não esperar que todos os folículos ovulem, para determinar o momento da ovulação, uma vez que não será essa a situação num grande número de cadelas. Por último, nas horas seguintes à ovulação, foi observada a presença de líquido entre o ovário e a bolsa ovárica, em 39.6% das fêmeas (19 de 48). Provavelmente, trata-se de fluido intra-folicular acumulado na sequência da ruptura dos folículos durante a ovulação. A partir do 1º dia pós-ovulação, produz-se uma acumulação de sangue nos novos corpos lúteos hemorrágicos. Por vezes, apresentam um aspecto muito semelhante ao dos folículos pré-ovulatórios (Figuras 6). Por consequência, é muito importante realizar exames ováricos diários no período pré-ovulatório, para detectar a ovulação. Se a ecografia não for efectuada no dia do estro, o clínico não pode ter a certeza se a cadela ovulou ou não. Em conclusão, a ovulação da cadela pode ser determinada de modo rigoroso através da ultrassonografia ovárica. Contudo, comparada com as análises de progesterona, esta técnica aumenta apenas o nível de precisão em 10% dos casos. Assim, na prática clínica diária, apenas se a recorre à ultrassonografia se for importante determinar a data com a maior exactidão possível. Também se utiliza em caso de inseminação artificial com sémen congelado ou refrigerado, ou para verificar a ocorrência e os aspectos qualitativos da ovulação, em cadelas apresentadas a consulta para avaliação da infertilidade.

a.

b.

Figuras 4 (a e b). Aspecto ultrassonográfico dos ovários durante a fase final do proestro (período pré-ovulatório), na cadela. Devido à presença de grande quantidade de líquido anecogénico no interior dos folículos, estes são facilmente visualizáveis; as paredes foliculares tornam-se mais espessas, atingindo cerca de 1mm. Consoante o tamanho da raça, as dimensões dos folículos pré-ovulatórios variam entre 6 a 9mm.

a.

b.

c.

d.

e.

f.

Figuras 5 (a a f). Aspecto ultrassonográfico dos ovários da cadela, no momento da ovulação. É possível visualizar o desaparecimento total das cavidades foliculares (“colapsos foliculares”). (fotos a e b). No entanto, em 50% dos casos, persistem algumas estruturas intra-ováricas hipoecogénicas (fotos c e d). É frequente permanecerem folículos redondos não ovulados, no mesmo ovário (foto e). Em cerca de 40% dos casos, é observável a presença de líquido entre o ovário e a bolsa ovárica, nas horas seguintes à ovulação (foto f ).

Monitorização do estro em gatas: fisiologia distinta que requer uma abordagem diferente
Introdução
Nas gatas, é necessário existir cruzamento ou um estímulo vaginal equivalente para se iniciar a sequência endócrina e

a.

b.

Figura 6 (a e b). Aspecto ultrassonográfico dos ovários na cadela, após a ovulação. A partir do 1º dia pós-ovulação, produz-se uma acumulação de sangue nos novos corpos lúteos hemorrágicos, cujo aspecto por vezes é muito semelhante ao dos folículos pré-ovulatórios. Assim, é muito importante realizar exames ováricos diários no período pré-ovulatório, para detectar a ovulação.

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Figura 7. Obtenção de um esfregaço vaginal numa gata. A zaragatoa é introduzida dorsalmente na vagina. A inserção não deverá ultrapassar a ponta de algodão.

Técnicas actualmente disponíveis para a monitorização do estro na gata Observação do comportamento sexual
Alguns autores descrevem um período de proestro que inclui a atracção pelo macho, mas sem receptividade sexual. Na realidade, o proestro observa-se numa minoria de gatas (13). Nem a citologia vaginal, nem a análise hormonal permitem diferenciar facilmente o proestro e o estro. Na gata, o comportamento éstrico inclui vocalizações persistentes, rebolar, roçar-se contra todo o tipo de objectos, lordose, desvio da cauda e miados monótonos e repetidos. Durante o estro, a maturação folicular está associada à secreção de estrogénio (>20pg/ml). Ao contrário da cadela, os níveis de progesterona permanecem basais durante a fase folicular, anterior à ovulação. A avaliação citológica de esfregaços de células vaginais esfoliadas pode ser facilmente realizada através da introdução de uma zaragatoa com uma ponta de algodão humedecido, na zona vestibular e caudal da vagina (Figura 7). Aconselha-se a utilização de uma zaragatoa uretral humana, uma vez que possui dimensões menores do que as habitualmente empregues para a citologia vaginal das cadelas. De acordo com a experiência dos autores, as gatas toleram bem a zaragatoa humedecida. Alguns autores advogam a introdução de uma solução salina na vagina antes de inserir a zaragatoa, no entanto, constatámos que as gatas não toleram muito bem este procedimento. A zaragatoa deve ser introduzida cuidadosamente, avançando com um trajecto rectilíneo e horizontal, de modo a evitar indução da ovulação. Os métodos de coloração são idênticos aos utilizados na cadela, embora a interpretação seja bastante diferente. A citologia vaginal permite identificar com facilidade três fases do ciclo da gata: estro, anestro e interestro/diestro. Ao contrário da cadela, é impossível utilizar a citologia vaginal na espécie felina. A maioria das células são cornificadas e acidófilas (Figura 8), não se observando quaisquer variações estatísticas significativas durante o estro. Contudo, nalgumas fêmeas (mas não na totalidade), podem ser observados alguns aglomerados celulares próximo do dia da maturação folicular máxima, e um escasso número de neutrófilos, no final do estro. Na prática, a citologia vaginal da gata pode confirmar se o animal se encontra em estro (a gata nem sempre apresenta um comportamento característico). A citologia também permite confirmar a vaginite. A metodologia endocrinológica não é exequível na gata. O aumento da progesterona inicia-se 24 a 48 horas após a ovulação, pelo que esta análise apenas proporciona uma confirmação retrospectiva, após o período fértil. Uma vez que a ovulação ocorre pelo menos 24 horas após o cruzamento, recomenda-se a realização da análise de progesterona no mínimo 72 horas

a libertação de LH, que produz a ovulação. Foi relatada a variabilidade do intervalo entre a estimulação coital e a ovulação nesta espécie, que oscila entre 25 e 50 horas, muito embora seja habitualmente aceite 25 a 30 horas (12). Alguns autores sugerem que a ocorrência da ovulação pode reduzir o período de receptividade sexual. Outros estudos revelam a não existência de diferenças significativas na duração de estro, entre gatas em ovulação e gatas não cruzadas e anovulatórias. De acordo com a nossa própria experiência, algumas fêmeas podem ainda ser fecundadas três ou quatro dias após a ovulação, mesmo apresentando já um elevado nível de progesterona. A receptividade sexual não pode ser utilizada como um indicador rigoroso da ovulação. A inseminação artificial em gatas encontra-se ainda nos seus primórdios. As dificuldades práticas incluem o baixo volume de sémen do macho reprodutor, a escolha do produto para a diluição do sémen, a anatomia da gata e o método ideal de inseminação (intra-uterino ou intra-vaginal). Actualmente, a maioria das equipas que trabalham com felinos optam por inseminar no 3º ou 4º dia de estro induzido, sem qualquer monitorização. Poucos autores têm estudado a influência da duração do estro sobre o momento da cópula. De acordo com alguns pareceres, durante os dois primeiros dias do cio, a gata não consegue ovular se for coberta, devido à ausência de impregnação com estradiol. Na prática, não se trata de uma questão importante em termos de reprodução natural, uma vez que os gatos podem copular durante todo o período do estro. No entanto, passa a ser relevante caso se considerar a hipótese de inseminação artificial ou se a gata for infértil.

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(preferencialmente, ao fim de 96 horas) após a última cópula, para obter um resultado significativo. A ausência de ovulação está associada a uma concentração de progesterona sérica inferior a 1ng/ml. Inversamente, um nível de progesterona elevado 3 dias após a última cópula confirma a ovulação. Caso se suspeite de insuficiência ovulatória, recomenda-se a condução de uma análise prévia ao cruzamento, de modo a excluir a presença de um quisto lúteo (ou de um tumor nos ovários, secretor de progesterona). Os testes colorimétricos de progesterona utilizados na cadela são também eficazes na espécie felina (14). Porém, as análises de estradiol felino não se encontram habitualmente disponíveis e são difíceis de interpretar. Por último, a determinação das concentrações de LH felina é um processo difícil, apenas realizável em laboratórios de investigação e requer diversas amostras de sangue (15). Para além disso, a colheita contínua de amostras sanguíneas originam stress, que por sua vez compromete a ovulação!

visíveis. (Figura 9). Se a gata estiver no anestro ou no interestro, a localização dos ovários é mais difícil, uma vez que surgem como estruturas homogéneas com menos de 2cm de comprimento. Nesta situação, o ecografista pode tentar acompanhar as trompas uterinas (identificadas como estruturas redondas num plano transversal, dorsolaterais à bexiga) até alcançar os ovários. Durante os ciclos anovulatórios, o diâmetro folicular aumenta progressivamente durante o período éstrico, atingindo um diâmetro médio de 3.2mm (mínimo: 2.6mm; máximo: 4.1mm), em que pelo menos um folículo de cada gata apresenta dimensões superiores a 3.0mm. O tamanho folicular máximo é alcançado entre o 2º e o 6º dia do estro (média de 4.25 ± 1.5d), com grande variação individual e cíclica. Durante um ciclo normal, alguns folículos permanecem pequenos (cerca de 2mm) e não são observados de forma consistente durante o exame. Durante os ciclos ovulatórios, os folículos desaparecem subitamente no momento da ovulação e, por vezes, são observáveis estruturas hipoecogénicas (corpos lúteos) nos dias seguintes (Figura 10). Ao contrário do que se observa em cadelas, não se verifica o reaparecimento da estrutura anecogénica após a ovulação, o que facilita o diagnóstico. Apesar do padrão geral de crescimento folicular apresentar-se semelhante entre as gatas, a relação entre o momento em que ocorre e o comportamento no decurso do estro, varia consideravelmente de uma gata para outra. No 1º dia de comportamento éstrico específico, os folículos evidenciam tamanhos muito diferentes consoante as gatas. Nem a observação comportamental, nem a citologia vaginal parecem ser métodos exactos, apesar de se observarem aglomerados celulares nos

A ultrassonografia na gata
Até há relativamente pouco tempo, a utilização da ultrassonografia em gatas estava condicionada pela pequena dimensão dos folículos ováricos. Contudo, o desenvolvimento de equipamento de alta resolução permitiu a aplicação deste procedimento (16, 17). As técnicas são semelhantes às que foram descritas atrás para as cadelas e, em geral, o exame é bem tolerado pelas gatas. Os ovários situam-se em oposição ou 3cm atrás dos rins, e têm tendência para se mover no abdómen, durante o exame. Se a gata se encontrar no período de estro, antes da ovulação, a detecção dos ovários é relativamente fácil. Na ecografia os folículos ováricos surgem como estruturas esféricas anecogénicas, com 1.5 a 4mm de diâmetro, que podem ser muito pequenos, mas são

Figura 8. Esfregaço vaginal de uma gata em estro Habitualmente, o estro caracteriza-se por células cornificadas com tendência para a aglomeração.

Figura 9. Exame ultrassonográfico de uma gata durante o estro Durante o período de estro, os folículos podem ser detectados nos ovários sob a forma de estruturas redondas anecogénicas, com dimensões que variam entre 0.1mm e 0.4mm.

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esfregaços, próximo do dia correspondente ao diâmetro folicular máximo. Para além disso, o dia em que se observa o diâmetro máximo, após o início do comportamento éstrico, é variável nesta espécie. Uma vez que nalgumas gatas as manifestações do estro se iniciam quando os folículos entram em atresia, deve reconsiderarse a decisão de proceder à inseminação sistemática no terceiro dia do estro.

Figura 10. Exame ultrassonográfico de uma gata após o estro. A ovulação caracteriza-se pelo desaparecimento súbito da estrutura anecogénica. É difícil detectar os corpos lúteos e, frequentemente, os ovários apresentam o mesmo aspecto ecográfico tanto no anestro como no diestro.

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O ácido fólico e a fenda palatina em cães braquicefálicos
Aurélien Guilloteau, MEng
Royal Canin Research Center, Aimargues, França

Aurélien Guilloteau licenciou-se na ESITPA- (Engenharia Agrónoma) em 2002. Concluiu os seus estudos no Centro de Investigação Royal Canin, com uma pesquisa sobre o desenvolvimento de alimentos hipoalergénicos. Aurélien Guilloteau ingressou no Centro de Investigação Royal Canin onde trabalha com a rede de Canicultores e Felinicultores.

Eric Servet, MEng
Centro de Investigação Royal Canin, Aimargues, França

Eric Servet licenciou-se em 1999 numa faculdade de engenharia francesa, especializada em ingredientes e tecnologia alimentar. Entre 1999 e 2001 trabalhou na indústria de lacticínios, na área do desenvolvimento de projectos piloto e formulação de produtos. Após um ano nos Estados Unidos, na Royal Canin EUA, no sector da estabilidade e apetência dos produtos, em 2002, Eric Servet ingressou no Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Royal Canin, em França, como engenheiro de investigação.

Vincent Biourge, DVM, PhD, Diplomate ACVN and ECVCN
Centro de Investigação Royal Canin, Aimargues, França

O Dr. Biourge licenciou-se na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Liège (Bélgica) em 1985. Foi assistente no Departamento de Nutrição durante 2 anos, antes de ingressar no Hospital Veterinário da Universidade de Pensilvânia (Filadélfia, EUA) e, mais tarde, no Hospital Veterinário da Universidade da Califórnia (Davis, EUA), onde realizou o doutoramento e a residência em Nutrição Clínica. Em 1993, apresentou a tese de doutoramento em Nutrição, na Universidade da Califórnia, e obteve o Diploma do Colégio Americano de Nutrição Veterinária. Em 1994, entrou para o Centro de Investigação Royal Canin, em Aimargues (França) como Director de Comunicação Científica e Nutricionista. Desde Janeiro de 1999, é o responsável pelo programa de investigação nutricional da Royal Canin.

Claude Ecochard, MEng
Centro de Investigação Royal Canin, Aimargues, França

Claude Ecochard formou-se inicialmente em bioquímica (Mestrado da Universidade de Lyon, França) e em engenharia de produção alimentar (Licenciatura em Engenharia e Pós-graduação, em 1986, na ENSBANA de Dijon: faculdade de engenharia francesa, especializada em nutrição). Possui uma experiência de mais de 18 anos centrada na investigação e desenvolvimento de projectos para empresas do ramo alimentar. Desde 2000, Claude Ecochard desempenha um papel fundamental no R & D da Royal Canin, onde coordena o desenvolvimento de novos produtos e inovações nutricionais.

Introdução
Utiliza-se o termo genérico folatos para designar diversos complexos biológicos (>100) com estrutura química similar e idêntica actividade biológica (entre os quais se inclui o ácido fólico). O ácido fólico (vitamina B9) é uma forma sintética, não existente em estado natural, utilizada como suplemento e reforço de produtos alimentares. Quando combinados com a vitamina B12, os folatos exercem uma função importante na síntese dos ácidos nucleicos (bases purina e pirimidina do ADN), na divisão celular e no metabolismo de alguns aminoácidos, como a homocisteína. A sua acção é frequentemente associada à da vitamina B12. Os folatos são essenciais para a síntese de inúmeros

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Notícias da Investigação Científica Royal Canin.. O ácido fólico e a fenda palatina em cães braquicefálicos

neurotransmissores, como a dopamina, a noradrenalina e a adrenalina, e, por conseguinte, desempenham um papel relevante ao nível do sistema nervoso central (1). Nos embriões caninos, os lábios leporinos e/ou fendas palatinas resultam de uma malformação das estruturas nasais e maxilares, no decurso da embriogénese. Em geral, este processo ocorre por volta do 33º dia de gestação (3) (Figura 1). Foram experimentalmente induzidas fendas palatinas em cães através da administração de um antagonista do ácido fólico (diazooxonorleucina) entre o 25º e o 28º dia de gestação (2). Na origem destas patologias podem estar causas multifactoriais.

Os cães também parecem evidenciar uma boa resposta à suplementação com folatos. Um estudo de observação retrospectiva conduzido em Boston Terriers relatou uma redução de 17.6% (19741981) para 4.2% (1981-1993) na incidência de fendas palatinas nos cachorros, na sequência da administração de suplementos diários de 5mg de ácido fólico às cadelas, desde o cruzamento até 3 semanas após o parto, se bem que esta ingestão não produza a erradicação total do risco (8). Não foi demonstrada a existência de efeitos adversos resultantes da administração de ácido fólico (NRC, 1985). No entanto, na última edição (em fase de publicação, 2006), o NRC (National Research Council) aconselha que não se exceda em 1000 vezes a dose convencional recomendada de 0.18mg/kg de matéria seca. O estudo tinha como objectivo validar o efeito da suplementação com ácido fólico em cadelas Buldogue Francês (5mg de ácido fólico/dia/animal), durante 18 meses, sobre a prevalência de fenda palatina e lábio leporino nas respectivas ninhadas.

Causas ambientais
Em mulheres grávidas, a exposição a teratogénios pode afectar o desenvolvimento embrionário. Uma ingestão relativamente elevada de álcool, nicotina, vitamina A, corticosteróides, agentes alcalóides, fenitoína e de trimetadiona-troxidona tem sido associada à presença de fendas palatinas. Por vezes, o estado de saúde da mãe também contribui para o desenvolvimento de fendas palatinas/lábios leporinos, p.ex. diabetes mellitus, distrofia miotónica (3).

Materiais e métodos Animais
Foram monitorizadas 45 cadelas Buldogue Francês, nos canis de 5 criadores diferentes, i.e. num total de 66 ninhadas. 24 cadelas pariram apenas 1 vez, 15 cadelas pariram 2 vezes e 4 cadelas pariram 3 vezes. Peso médio das cadelas: 11.5 ± 1.9kg.

Causas genéticas
Alguns estudos explicam o aparecimento de fendas palatinas e/ou lábios leporinos como uma consequência de mutações ao nível do gene MTHFR (metileno-tetrahidrofolato redutase). O MTHFR desempenha um papel fulcral no ciclo do folato, uma vez que favorece a sua redução para a forma activa (4,5). A ocorrência de fendas palatinas e lábios leporinos tem sido observada em diversas raças caninas, incluindo: Boxer, Buldogue Francês, Buldogue Inglês, Cavalier King Charles, West Highland White Terrier, Collie, Pastor Alemão e Chihuahua. Contudo, os cães braquicefálicos, como o Boxer, parecem ser afectados com maior frequência (3). Verifica-se a mesma situação na espécie felina, em que as raças Persa e Siamesa são as mais afectadas por esta anomalia. 6.5% dos gatinhos evidenciam malformações ou defeitos congénitos potencialmente mortais, de entre as quais a fenda palatina surge como a mais frequente (6).

Dietas
Procedeu-se à comparação de 2 dietas distintas: 1. Dieta controlo: alimento premium de manutenção Royal Canin, contendo teores normais de ácido fólico (0.9mg/kg) (Tabela 1). 2. Dieta suplementada: alimento premium de manutenção Royal Canin + alimento suplementado com ácido fólico (Tabela 1).

Benefícios da suplementação com ácido fólico
Nos seres humanos, a prevenção destas patologias requer a suplementação com ácido fólico. A investigação demonstrou um decréscimo de 48% do risco de fendas palatinas em crianças cujas mães tenham ingerido suplementos multivitamínicos, antes da concepção ou durante o 1º mês de gravidez, muito embora não tenha sido registada qualquer redução em mulheres com início da suplementação ao 2º ou 3º mês de gestação (7).

Figura 1. Fendas palatinas em cachorros Pug. Fotos: UMES (Unidade de Medicina de Reprodução e de Desporto, Escola de Medicina Veterinária de Alfort). Vol 16 No 2 • 2006

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A dieta suplementada com ácido fólico foi preparada a partir do alimento controlo, através de um revestimento especial contendo 34.48mg de ácido fólico/kg de alimento. Esta quantidade corresponde a 5mg de ácido fólico/dia, com base num consumo aproximado de 145g de alimento com 4108kcal/kg, para uma cadela com 8kg de peso (peso standard da raça). Os criadores administraram apenas a dieta fornecida e as cadelas não receberam qualquer alimento adicional, para além dos alimentos em teste, previamente codificados. Os canicultores desconheciam o código do alimento suplementado (teste cego único). Ambas as dietas foram testadas em todos os criadores.

um valor-F com um valor-p inferior a 0.05. Recorreu-se ao teste de X2 para avaliar o efeito do tratamento na prevalência de fendas palatinas nas ninhadas.

Resultados
Foram monitorizadas 35 ninhadas alimentadas com a dieta controlo, e 31 ninhadas com a dieta em ensaio. As performances reprodutivas foram resumidas na Tabela 2. A prevalência de fendas palatinas situou-se em 8.57% para a dieta controlo e 4.41% para a dieta suplementada. A diferença observada entre os 2 tratamentos, no número de cachorros por ninhada, não é significativa (Tabela 2) (valor-p = 0.3123, p>0.05). O número de fendas palatinas por ninhada e dieta, no conjunto das ninhadas, diminuiu significativamente com o alimento suplementado com ácido fólico (p = 0.02, p<0.05) (Figura 2).

Protocolo
Os dois alimentos foram aleatoriamente distribuídos pelos dois grupos de cadelas, em cada criador. As cadelas foram alimentadas com um dos 2 alimentos durante o período de cio (i.e. por volta das 2 semanas anteriores ao primeiro cruzamento/fertilização) e no decurso das primeiras 6 semanas de gestação. Efectuaram-se todos os tratamentos veterinários necessários para assegurar o bem-estar dos animais. As fêmeas com patologias concomitantes, cujo tratamento pudesse provocar efeitos secundários nas crias, foram excluídas do estudo. À nascença, os cachorros foram sujeitos a um exame minucioso por parte dos criadores ou dos veterinários que efectuaram a cesariana, para detectar a eventual presença de anomalias.

Discussão e conclusão
Este estudo de campo tinha como objectivo validar os benefícios da suplementação de cadelas Buldogue Francês com ácido fólico (5mg/cadela/dia) sobre a prevalência de fendas palatinas das respectivas ninhadas, a partir dos 15 dias anteriores ao cruzamento até ao final do período de gestação. No Buldogue Francês, os resultados obtidos na sequência de 1,5 anos de investigação demonstraram que a suplementação com ácido fólico estava associada a um decréscimo de 48.54% do número de fendas palatinas. Estes resultados confirmam as observações de Elwood, que relatou uma redução de 76% no risco de fendas palatinas no Boston Terrier, graças à administração de suplementos de 5mg de ácido fólico por dia/cadela. Tal como sucede em relação às mulheres grávidas, a suplementação das cadelas com folatos não significa a prevenção total dos casos de

Análise estatística
Os dados obtidos foram submetidos a análise estatística (número de crias nascidas, número de fendas palatinas) com base nos questionários devolvidos. No sentido de identificar as diferenças significativas entre as 2 dietas, realizou-se uma análise de variância (ANOVA), através de um software comercial (Statgraphics Plus). Foi considerado significativo

Tabela 1. Análise das dietas
Dieta controlo Humidade (%) Proteína (%) Gordura (%) Fibra (%) Amido (%) Minerais (%) Ácido fólico (mg/kg) Vitamina B12 (mg/kg) 9 25 12 2.5 25.2 6.3 0.9 0.2 Dieta suplementada 9 25 12 2.5 25.2 6.3 34.5 0.2

Tabela 2. Performances reprodutivas
Dieta Dieta controlo suplementada 35 31 175 136 15 6a 4 6 3 3 0 3 0 2 3 1 5 ± 2.53 4.38 ± 2.10 5.47 ± 2.09 4.85 ± 1.86

Lista de ingredientes: milho, farinha de milho, carne de aves desidratada, gorduras animais, fígado de aves, polpa de beterraba, levedura de cerveja, óleo vegetal, minerais, oligoelementos, levedura hidrolisada (fonte de manooligossacarídeos), ovo desidratado, vitaminas

Número de cadelas Número de cachorros Com fenda palatina Nados-mortos Mortos pós-parto Outras malformações neonatais Abortos Cadela estéril Número de crias/cadela Número crias/cadela grávida
a

significativamente diferente do grupo controlo

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fendas palatinas, cuja justificação talvez resida na natureza multifactorial deste distúrbio. É essencial que estes suplementos sejam administrados logo no início do estro da cadela, uma vez que nesta espécie o canal medular se fecha durante o primeiro mês de gestação (antes do 33º dia). Não foi observado qualquer efeito da suplementação sobre o tamanho das ninhadas. Em conclusão, este estudo confirma que os suplementos de folatos durante os primeiros meses de gestação da cadela podem reduzir significativamente os riscos de fenda palatina.

Figura 2. Número de fendas palatinas / dieta.

10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0

Número de fendas palatinas / dieta

8.57%

4.41%*

Dieta controlo

Dieta suplementada

Número de fendas palatinas / grupo de cachorros alimentado com cada dieta *Significativamente diferente de acordo com o teste X2

Referências bibliográficas
1. Iskandar BJ, Nelson A, Resnick D, et al. Folic acid supplementation enhances repair of the adult central nervous system. Ann Neurol 2004; 56(2):221-227. 2. Jurkiewicz MJ, Bryant DL. Cleft lip and palate in dog: a progress report. Cleft palate J 1968; 5: 30-36. 3. Hennet P. Anomalies du développement du palais et des lèvres. Point Vét 1997; 28: 79-83. 4. Bianchi F, Calzolari E. Environment and genetics in the etiology of cleft lip and cleft palate with reference to the role of folic acid. Epidemiol Prev 2000; 24: 21-27. 5. Martinelli M, Scapoli L, et al . C677T variant form at the MTHFR gene and CL/P: a risk for mothers? Am J Med Genet 2001; 1: 98: 357-360. 6. John JM, Charlotte GM, William AP. Cleft palate in domestic animals: epidemiologic features. Teratology 1980; 21:109-112. 7. Itikala PR, Watkins ML, et al. Maternal multivitamin use and orofacial clefts in offspring. Teratology 2001; 63: 79-86. 8. Elwood JM, Colquhoum TA. Observations on the prevention of cleft palate in dogs by folic acid and potential relevance to humans. New Zealand Vet J 1997; 45: 254-256.

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A infertilidade na gata
Stefano Romagnoli, DVM, MS, PhD, Dipl. ECAR
Departamento de Ciências Clínicas Veterinárias, Faculdade de Medicina Veterinária, Agripolis, Legnaro, 35020 (PD) Universidade de Pádua, Itália

O Dr. Romagnoli licenciou-se em Medicina Veterinária em 1982 na Universidade de Pisa, Itália e concluiu o Mestrado em Reprodução Animal na Universidade de Minnesota, E.U.A., em 1986. Regressou a Itália onde foi nomeado Professor Catedrático da Universidade de Pádua, em Janeiro de 2001. Durante este período, tirou uma licença sabática para trabalhar como Professor Assistente de Clínica, em Reprodução de Pequenos Animais, juntamente com o Prof. Shirley Johnst, na Universidade do Minnesota. É autor de mais de 230 artigos em revistas nacionais e internacionais de referência, capítulos de livros da especialidade, actas de congressos e sinopses científicas. Os seus interesses na área da investigação centram-se no efeito das prostaglandinas no corpo lúteo canino, assim como, noutros aspectos da reprodução canina e felina e medicina pediátrica. Foi Presidente da Associação Italiana de Clínicos de Felinos (1993-1999) e desempenha actualmente (2000-2006) o cargo de Presidente da Sociedade Europeia de Medicina Felina. O Dr. Romagnoli exerce também as funções de Secretário do Conselho Europeu de Especialistas Veterinários (EBVS, 2004-2006) e da Associação Europeia de Institutos para a Educação em Medicina Veterinária (EAEVE, 2004-2006).

R

ed Surprise, uma gata adulta Maine Coon com 2 anos, (Figura 1) foi remetida para a consulta de referência devido à não concepção em dois ciclos reprodutivos consecutivos. O animal nasceu no dia 30 de Novembro de 2003 e entrou em puberdade aos 4 meses de idade, período após o qual passou a evidenciar comportamentos característicos de cio, com bastante regularidade, 1 a 2 vezes por mês, mas não foi cruzada durante os primeiros 6 meses (de Fevereiro a Agosto), devido aos regulamentos de Felinicultura1. Os episódios de estro duravam, aproximadamente, 7 a 10 dias, caracterizados pelo evidente rebolar, vocalizações e o postura em lordose após estimulação manual do dorso. Aos 7 meses, a gata desenvolveu um corrimento vulvar sero-sanguinolento e foi levada ao veterinário. No decurso da ultrassonografia abdominal, foi detectada uma pequena quantidade de líquido no útero, com um aspecto claro, distribuído uniformemente pelo corpo uterino e por ambas as trompas. Apresentava um diâmetro intra-uterino de 6mm, sem espessamento do endométrio. Os nódulos linfáticos ilíacos evidenciavam dimensões e ecogenicidade normais. Foi estabelecida uma terapia oral para a Red Surprise com administração de amoxicilina/ácido clavulânico (12,5mg/kg BID) durante 6 dias, que permitiu o desaparecimento do corrimento vulvar. Entre os 7 e 10 meses de idade, a gata continuou a revelar comportamentos de cio regulares e com uma intensidade semelhante. Voltou a apresentar corrimento vulvar sero-sanguinolento aos 8 meses e, de novo, aos 9 meses. Em ambas as ocasiões o dono instituiu a mesma antibioterapia

(tratamento com amoxicilina/ácido clavulânico na mesma dosagem, durante 6 dias), sem consultar o veterinário e, em ambas as vezes, o corrimento cessou. A gata foi cruzada pela primeira vez no início de Setembro de 2004 com «Gengis Khan», um macho adulto Maine Coon. No entanto, a gata não ficou gestante (não se procedeu ao diagnóstico de gestação). Mais tarde, a 30 de Novembro de 2004, Red Surprise encontrava-se em cio, pelo que voltou a ser cruzada com o mesmo macho, por diversas vezes, entre o dia 1 e 2 de Dezembro. O diagnóstico diferencial desta esta gata inclui corrimento vulvar recorrente e ausência de concepção. Os dois problemas estarão relacionados? Esta gata conseguirá
Figura 1. Red Surprise, gata Main Coon, com 2 anos de idade.

1. Em Itália, de acordo com os regulamentos da Felinicultura, os gatinhos cujas progenitoras tenham menos de 12 meses de vida não podem ter pedigree.

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Figura 2. Útero extirpado a uma gata com sinais clínicos de piómetra, que evidencia características anatómicas macroscópicas de hiperplasia quística do endométrio com distensão do lúmen uterino.

Tabela 1. Causas para o corrimento vulvar na gata
Fêmea inteira pré-pubertária • Vaginite • Lesão urogenital • Neoplasia urogenital • Incontinência urinária (pós-traumática) Fêmea inteira pós-pubertária • Vaginite • Piómetra • Doença uterina • Lesão urogenital • Neoplasia urogenital • Incontinência urinária (pós-traumática) Fêmea gestante • Perda fetal • Corrimento normal de líquido placentário • Lóquios • Metrite • Lesão urogenital • Neoplasia urogenital • Incontinência urinária (pós-traumática) Fêmea ovariectomizada/ovariohisterectomizada • Vaginite • Infecção dos cotos uterinos • Lesão urogenital • Neoplasia urogenital • Incontinência urinária (pós-traumática) A piómetra e a metrite constituem, sem dúvida, as causas mais comuns, enquanto as restantes são consideradas extremamente raras, embora tenham sido relatadas em gatas.

procriar? A questão da potencial fertilidade futura da gata é bastante importante para o dono, uma vez que se trata de uma fêmea adulta de valor considerável do ponto de vista reprodutivo, pelo que se impõe uma decisão quanto às eventuais vantagens de investir num diagnóstico e técnicas terapêuticas dispendiosas neste animal. Como se sabe o corrimento vulvar e a não gestação podem resultar de uma diversidade de razões. A primeira pergunta à qual se deve dar resposta é a seguinte: "Por que razão é que esta gata desenvolveu um corrimento sero-sanguinolento?" Tentaremos formular a resposta através da análise das potenciais causas para o corrimento vulvar em felinos, referidas na Tabela 1. Em geral, o corrimento vulvar nas gatas é pouco comum. Não existe qualquer tipo de corrimento durante o proestro ou estro; para além disso, a vaginite, a neoplasia ou lesão urogenital, bem como, a incontinência urinária, apesar de já terem sido relatadas, são patologias raras na espécie felina. Excluindo a excreção normal de fluidos relacionados com o parto, a única razão para uma gata apresentar corrimento no tracto reprodutivo, é por doença uterina, como é o caso da piómetra (Figura 2) ou da metrite. Enquanto a metrite é uma afecção típica pós-parto que ocorre numa fase de baixas concentrações séricas de progesterona, a piómetra só se desenvolve em presença de elevadas concentrações séricas de progesterona. A primeira consequência da estimulação exercida pela progesterona no endométrio é a hiperplasia quística do endométrio (CEH), que consiste na proliferação e dilatação das glândulas endométricas com acumulação de líquido no seu lúmen, patologia que se desenvolve, geralmente, durante a fase luteínica e regride em períodos de quiescência uterina. A secreção endométrica é indispensável para a nutrição dos embriões na fase de pré-implantação, mas a acumulação de líquido pode favorecer o desenvolvimento bacteriano em caso de contaminação uterina. A exposição a fases luteínicas repetidas (em consequência da utilização clínica de progestinas ou de ovulações repetidas), poderá originar uma CEH crónica, assim como uma acumulação de líquido endométrico – eventual responsável pelo corrimento vulvar sero-sanguinolento repetidamente observado nesta gata, na sequência de períodos com comportamento éstrico, entre Abril e Outubro de 2004. Observaram-se comportamentos de estro muito frequentes nesta fêmea, entre os 4 e os 10 meses, tendo sido cruzada em dois ciclos diferentes: entre os 10 e 12 meses de idade. Pode ter passado por

diversas fases luteínicas, devido a ovulação espontânea (antes dos 10 meses), ou induzida (após os 10 meses). Foi relatada a ocorrência de ovulação espontânea em cerca de 30-35% das gatas adultas. Assim, a acumulação de líquido endométrico nesta fêmea deve-se, provavelmente, a um período prolongado e repetido de estimulação progestacional. É discutível se a presença de líquido no endométrio justifica a antibioterapia. O conhecimento sobre os padrões de acumulação de líquido endométrico na gata é relativamente escasso. Com base nos registos ecográficos do útero felino, constata-se a presença de fluído em gatas normais, durante algumas fases do ciclo reprodutivo (nomeadamente na fase luteínica); no entanto, não foi ainda estabelecida a quantidade de líquido associada à doença. Pode revelar-se difícil estabelecer a distinção entre uma acumulação de líquidos fisiológica e patológica. No entanto, o fluido endométrico é habitualmente claro ou transparente. A presença de sangue no corrimento vulvar constitui uma indicação de provável reacção inflamatória que pode justificar o tratamento. Neste caso, a antibioterapia oral, parece ter favorecido a resolução do problema uterino da gata.

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Tabela 2. Causas da infertilidade responsáveis pela ausência de concepção na gata
Incapacidade de concepção na gata Maneio incorrecto da reprodução • Ausência de ovulação devido a cruzamentos realizados demasiado cedo ou excessivamente tarde Doenças ou defeitos de desenvolvimento do aparelho reprodutivo feminino • Hiperplasia e bloqueio dos oviductos • Obstrução parcial ou completa da vulva, da vagina, cérvix ou do útero • Hiperplasia quística do endométrio – piómetra Problemas do macho • Ejaculação retrógrada • Má qualidade do sémen Gestação não diagnosticada • Uma gestação não diagnosticada e, subsequentemente perdida, pode ser erroneamente interpretada como incapacidade em conceber.

Segunda pergunta: "Por que razão a gata não ficou gestante após cruzamentos sucessivos com um gato fértil?” As potenciais causas para a ausência de concepção são referidas na Tabela 2. As gatas normais podem não conceber devido: • a uma incapacidade em ovular, como se demonstra pela ausência de desenvolvimento de corpos lúteos, na sequência de cruzamentos sucessivos durante o estro (situação que, de forma geral, resulta de um maneio incorrecto dos cruzamentos); • apesar de existir ovulação, não se produzir concepção em resultado de uma anomalia congénita (obstrução parcial ou total) ou adquirida (piómetra), do tracto genital feminino; a ausência parcial de concepção foi demonstrada através do rácio entre corpos lúteos e pontos de implantação/fetos realizado no decurso de estudos em que gatas gestantes eram submetidas a ovariohisterectomia a meio da gestação; • a um problema por parte do macho, nomeadamente, má qualidade do sémen, libido fraca ou inexperiência (responsável por uma penetração incompleta, e por consequência, sem indução da ovulação) ou ejaculação retrógrada (uma deficiência rara, que só foi possível demonstrar em reprodutores felinos mediante utilização de anestésicos). De igual forma, uma gravidez não diagnosticada pode passar despercebida devido a reabsorção ou trauma e ruptura uterina (seguida por mumificação fetal no abdómen) simulando desta forma, a incapacidade de concepção. «Gengis Khan», o gato utilizado nos cruzamentos durante o período compreendido entre Setembro e Dezembro de 2004, era comprovadamente fértil, com uma última ninhada bastante recente pelo que, neste caso, se excluem os problemas relacionados com o macho. Durante o Outono de 2004, a gata permaneceu sempre no gatil do dono, não se observando

qualquer trauma ou doença, com excepção do corrimento vulvar sero-sanguinolento durante esse período. Assim, é muito improvável que a fêmea possa ter concebido, e subsequentemente, perdido a gestação. Em consequência, as duas únicas causas possíveis para a ausência de concepção são: um erro no maneio dos cruzamentos e uma malformação ou doença reprodutiva. Os defeitos de desenvolvimento do aparelho reprodutivo feminino responsáveis pela incapacidade de conceber, embora a gata apresente ciclos regulares, são raros e incluem: bloqueio e hiperplasia dos oviductos (aplasia segmentar) do útero e/ou cérvix, fusão miometrial e mucómetra ou hidrómetra devido a oclusão da vulva, da vagina, do cérvix ou do útero por anomalia congénita, neoplasia, inflamação, cicatrização ou laqueação acidental (Tabela 2). Para além disso, os embriões podem não conseguir fixar-se e implantar-se no útero devido a uma alteração das condições endométricas, em resultado de doença preexistente ou adquirida durante o cruzamento. A patologia uterina limitativa da fertilidade mais comum é a piómetra, que se caracteriza frequentemente pela presença de corrimento vulvar sero-sanguinolento. Embora a piómetra possa ser a causa de todos os problemas desta gata, antes de estabelecer o diagnóstico, é necessário avaliar o maneio da reprodução, uma vez que um cruzamento realizado no momento errado pode ser a razão da incapacidade de conceber. Quando questionado acerca do maneio da reprodução, o dono respondeu que a gata era colocada na sala do macho no 2º dia de cada estro, onde permanecia durante vários dias, no decurso dos quais se produziam diversos cruzamentos, confirmados a nível visual ou auditivo. Apesar deste maneio reprodutivo ser aceitável, ocasionalmente, as gatas não ovulam se a cópula se realizar na fase inicial do estro, sobretudo no 1º ou 2º dia do cio, porque os folículos ainda não atingiram o nível de maturação suficiente para reagir ao pico de LH ou porque não se produziu a necessária sensibilização da pituitária por parte dos estrogénios em circulação de forma a libertar a LH pós-coito. A ausência de ovulação pós-cruzamento no 1º ou 2º dia de estro foi relatada em gatas apresentadas à consulta com suspeita de infertilidade. Para maximizar a fertilidade, é aconselhável esperar pelo 3º dia do cio, no mínimo, para colocar a gata junto ao macho. Do ponto de vista clínico, confirmar a ocorrência de ovulação, pode revelar-se importante para avaliar o maneio da reprodução. Esta pesquisa pode efectuar-se pouco tempo após o cruzamento, através da simples colheita de sangue e análise da progesterona sérica. Devido ao rápido desenvolvimento do corpo lúteo na gata, o aumento das concentrações séricas de progesterona ocorre no em 72 horas a seguir ao cruzamento e dura entre 35 a 45 dias na fêmea não gestante. Um doseamento da progesterona superior a 1,5ng/ml indica que a gata ovulou. Como é óbvio, a análise da progesterona sérica pouco tempo após o cruzamento não ajuda a diagnosticar a gestação. No entanto, um valor de <1,5ng/ml exclui de imediato essa hipótese, e orienta a atenção do clínico

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para o maneio da reprodução. Consequentemente, observar a gata logo após o cruzamento, pode ser útil numa perspectiva prática, uma vez que se trata do momento em que o doseamento da progesterona sérica pode fornecer informações úteis. Pelo contrário, se se deixar passar demasiado tempo, uma concentração de progesterona da ordem de <1,5ng/ml, 35 a 40 após o cruzamento, pode não ter qualquer utilidade porque a regressão do corpo lúteo já se iniciou, pelo que permanecerá a dúvida se a gata terá realmente ovulado ou não. Após a elaboração de uma anamnese longa e exaustiva, a gata foi submetida a um exame físico, que revelou uma boa condição física: pulso, ritmo respiratório e temperatura corporal normais. Não foi detectada qualquer anomalia física e não tomava qualquer tipo de medicação. Durante a palpação abdominal, o útero pareceu ligeiramente dilatado. Devido ao cruzamento recente (15 dias antes, no dia 1 de Dezembro de 2004), optou-se pela não realização de uma ultrassonografia abdominal. Procedeu-se à recolha de amostra de sangue através da veia cefálica, dividida em alíquotas vacuolizadas simples e com ácido etilenodiaminotetracético (EDTA) para obtenção de um hemograma completo, análise bioquímica e doseamento de progesterona. Apresentam-se os resultados na Tabela 3.

Não foi constatado qualquer dado significativo no hemograma ou no perfil bioquímico da gata. O doseamento da progesterona situou-se em 0,47ng/ml, o que indica ausência de desenvolvimento do corpo lúteo. Duas semanas após a ovulação, a concentração de progesterona era sempre > 1,5ng/ml, sendo frequente e normal um nível >10ng/ml. Um valor tão baixo indica que a gata não ovulou, o que demonstra que o maneio da reprodução foi responsável pela ausência de concepção (pelo menos no cruzamento de 1 de Dezembro). Qualquer que seja a causa da incapacidade de concepção nos cruzamentos anteriores (quer devido a um maneio incorrecto, quer a doença uterina) é imperativo abordar a questão do maneio com o dono. Neste caso, o dono foi aconselhado a cruzar a gata múltiplas vezes durante o cio seguinte, mas nunca antes do 3º dia do estro.

Resultado - A gata voltou a estar em cio no dia 22 de Janeiro, foi cruzada diversas vezes com «Gengis Khan», a partir de 25 de Janeiro, concebeu e pariu dois gatinhos nados-vivos normais, a 27 de Março, ou seja 61 dias após o primeiro acasalamento. Um dos gatinhos morreu logo após o nascimento, em consequência de uma lesão abdominal considerável provocada pela mãe enquanto o limpava e mastigava o seu cordão umbilical. No dia 22 de Maio, Red Surprise entrou novamente em cio e foi cruzada por diversas vezes, com Tabela 3. início no dia 25 de Maio, com Resultados do hemograma e análise bioquímica de uma amostra de sangue «Silvestro», um gato jovem com 1 colhida 15 dias após o cruzamento de uma gata Maine Coon de 2 anos, apresentada à consulta devido a incapacidade em conceber ano e talvez inexperiente. A gata não concebeu. Voltou a apresentar novo HEMOGRAMA estro a 4 de Julho e foi outra vez Parâmetros Valores Intervalo de referência cruzada com «Silvestro», parindo 7 Leucócitos 15.13K/µl 5-19 gatinhos nados-vivos normais, no dia Eritrócitos 7.33M/µl 5-10 Hemoglobina 11g/dl 16 de Setembro de 2005. 10-15
Hematócrito MCV (Volume corpuscular médio) MCH (Hemoglobina corpuscular média) MCHC (Concentração de hemoglobina corpuscular média) Plaquetas Neutrófilos Linfócitos Monócitos Eosinófilos Basófilos Células Grandes Não Identificadas (LUC) Bioquímica sérica Glicose Ureia Proteínas Totais Albumina Bilirrubina Total Creatinina CK ALP ALT AST GGT Progesterona (ovulação) 34.9% 47.5fl 15 pg 31.6g/dl 243K/dl 8.35x103/µl 5.63x103/µl 0.85x103/µl 0.32x103/µl 0.03x103/µl 0.25x103/µl (55%) (37%) (5%) (1%) (1%) (1%) 30-45 39-55 13-20 30-36 156-800 35-75 20-55 1-4 2-10 0-0.5 0.0-0.2

64mg/dl 62mg/dl 78.5g/l 33.2g/l 0.07mg/dl 1.2mg/dl 171U/l 99U/l 57U/l 30U/l 2.4U/l 0.4ng/ml

73-134 20-65 54-78 21-33 0.15-0.50 0.8-1.8 63-273 25-93 6-83 26-43 1.3-5.1
> 1.5ng/ml

Tal como se pode verificar, o nosso aconselhamento introduziu uma mudança no maneio da reprodução, que passou a ser bem sucedida. É difícil avaliar a ausência de concepção no cruzamento do dia 25 de Maio. Os 42 dias de intervalo entre os dois cios, de 22 de Maio e 4 de Julho, constituem um indício de fase luteínica, mas não se realizou o doseamento da progesterona, pelo que é impossível averiguar o que terá sucedido. Red Surprise pode não ter ovulado devido a libido reduzida por parte do macho, ou pode ter ovulado mas sem concepção, como consequência da má qualidade do sémen. A falta de libido é a causa mais provável, tendo em conta a
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juventude e (provável inexperiência) de «Silvestro». A ausência de ovulação caracteriza-se muitas vezes por pequenos intervalos de interestro (1-3 semanas), no entanto, observam-se intervalos de interestro superiores a 2-3 semanas em gatas que não ovularam.

Em retrospectiva, a má qualidade do sémen também pode ser excluída, uma vez que o cruzamento seguinte com «Silvestro» foi bem sucedido.

Referências bibiliográficas
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Guia Destacável Royal Canin

Esfregaços vaginais em cadelas
Elise Malandain & Alain Fontbonne

E

sta técnica, desenvolvida durante os anos oitenta, baseia-se no facto da parede vaginal (epitélio) sofrer alterações durante o ciclo éstrico (Figura 1), em simultâneo com o aumento do teor de hormonas femininas.

Indicações
• Determinação das fases do ciclo sexual: estro, interestro ou anestro • Confirmação do cruzamento devido à presença de espermatozóides na lâmina • Detecção de estro silencioso • Diagnóstico ou tratamento de afecções vaginais ou uterinas (vaginite, endometrite, piómetra)

• corantes de cor diferencial (por exemplo Papanicolau, Isaac e Wurch) ou o método de Harris-Schorr, que cora as células queratinizadas de vermelho (também conhecidas como acidófilas ou eosinófilas) e de azul as células redondas não queratinizadas (basófilas). Assim, é possível definir o Índice Eosinófilo (IE), obtido através da divisão do número de células eosinófilas pelo número total de células. Durante a fase do estro, o IE deverá atingir um valor mínimo de 70 a 80%.

Interpretação dos esfregaços vaginais Anestro
O epitélio vaginal é composto apenas por algumas camadas de células parabasais: pequenas, circulares, com um núcleo grande e facilmente visível (Figuras 3 e 4).

Como realizar um esfregaço vaginal?
A zaragatoa é introduzida primeiro vertical e depois horizontalmente, para evitar a penetração na fossa clitoriana. Muito embora não seja obrigatório, pode utilizar-se um espéculo vaginal. Uma vez inserida, rodar a zaragatoa no interior das paredes da vagina antes de a retirar cuidadosamente. As células recolhidas com a zaragatoa são dispersas numa lâmina de vidro (Figura 2) e fixadas com fixador citológico de forma a que não se percam durante a coloração. De seguida, as células são mergulhadas numa série de soluções corantes. Existem diversos corantes disponíveis: • corantes unicolores: May Gründwald Giemsa, Diff Quick®

Início do Proestro
Na fase inicial do proestro, podem ser observados inúmeros eritrócitos. Verifica-se a presença de uma mistura de células de tipo epitelial – parabasais e superficiais (Figuras 5 e 6).

Proestro
O número de células superficiais aumenta, assim como o índice eosinofílico (proporção de células acidófilas queratinizadas) (Figuras 7 e 8).

Final do proestro
O índice eosinofílico aumenta e o fundo aparece mais claro (Figuras 9 e 10).

ng/ml

Estradiol Progesterona

sem gestação

gestação

Figura 1. Principais secreções hormonais durante o ciclo reprodutivo da cadela. Figura 2. Ilustra o processo de dispersão das células numa lâmina de vidro.

proestro

estro

metaestro

dias

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Estro
O fundo dos esfregaços realizados no estro apresenta-se muito claro e sem detritos celulares. As células eosinófilas superficiais constituem, no mínimo, 80% da população celular total (Figuras 11 e 12).

Metaestro
Uma alteração repentina, no espaço de 24 a 48 horas, do número relativo de células marca o início do diestro (Figuras 13 e 14).

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Figuras 3 e 4. Anestro: esfregaço vaginal Com a utilização de um corante diferencial (Harris Schorr), as células parabasais adquirem a cor azul (Índice Eosinófilo ≤ 10%).

Figuras 5 e 6. Início do Proestro: esfregaço vaginal As células tornam-se gradualmente maiores, mais angulares (aspecto de «cornflakes») e desenvolvem uma substância córnea, a queratina. Com a utilização do corante diferencial Harris Shorr estas células apresentam-se coradas de vermelho (Índice Eosinófilo ≤ 30%).

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Figuras 7 e 8. Proestro: esfregaço vaginal Frequentemente, o fundo dos esfregaços realizados durante o estro apresenta detritos celulares e um aspecto mucoso (Índice Eosinófilo = 50%).

Figuras 9 e 10. Final do proestro: esfregaço vaginal A proporção de eritrócitos pode variar consideravelmente (Índice Eosinófilo > 70%).

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Figuras 11 e 12. Estro: esfregaço vaginal Muitas vezes, o núcleo apresenta-se «picnótico» ou não diferenciável. As células tendem a agrupar-se. Relativamente ao proestro, o número de eritrócitos é inferior (Índice Eosinófilo > 80%).

Figuras 13 e14. Metaestro: esfregaço vaginal As células vaginais são redondas, não cornificadas e basófilas. Pode observar-se a presença de neutrófilos (Índice Eosinófilo ≤ 20%).

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