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Ensino de LIBRAS - UNIDADE 2 - LÍNGUA DE SINAIS, LETRAMENTO, IDENTIDADES E CULTURA SURDA - IFPA

Ensino de LIBRAS - UNIDADE 2 - LÍNGUA DE SINAIS, LETRAMENTO, IDENTIDADES E CULTURA SURDA - IFPA

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UNIDADE 2 LÍNGUA DE SINAIS, LETRAMENTO, IDENTIDADES E CULTURA SURDA

OBJETIVO
Nesta unidade você irá estudar sobre a cultura e as identidades dos sujeitos surdos e sua influência no processo de escolarização, no intuito de: − Compreender o processo de letramento dos surdos; − Reconhecer a Língua de sinais como língua da educação dos surdos; − Identificar a língua portuguesa como segunda língua dos surdos − Analisar a língua a partir da constituição da cultura; − Conhecer as múltiplas identidades surdas.

2.1. letramento e educação de surdos
Antes de iniciarmos as discussões referentes à educação de surdos propriamente dita, é preciso entendermos o significado da palavra “letramento”. Letramento é uma palavra que circula desde a década de 1980, no Brasil, no campo da Educação e das Ciências Lingüísticas. Segundo Soares (2006) novas palavras são criadas quando os fenômenos passam a ser compreendidos de uma forma diferente, quando surgem fatos ou idéias novas. Neste caso específico, a autora argumenta,
Só recentemente passamos a enfrentar esta nova realidade social em que não basta apenas saber ler e escrever, é preciso também saber fazer uso do ler e do escrever, saber responder às exigências de leitura e de escrita que a sociedade faz continuamente – daí o recente surgimento do termo letramento (SOARES, 2006, pg. 20)

Tal termo foi criado, a partir da tradução literal da palavra em inglês “literacy”. De acordo com Soares “2006)
letra- do latim littera, e o sufixo -mento, que denota o resultado de uma ação (como por exemplo, em ferimento, resultado da ação de ferir). Letramento é, pois o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como conseqüência de terse apropriado da escrita. (pg. 18)

E porque falar de letramento quando falamos em educação de surdos? Antes de responder a essa pergunta, é preciso compreender os conceitos a seguir expostos:

2.1.1. Relação entre L1 (Libras) - e L2 (língua portuguesa)
Desde a década de 1980 ocorre um movimento mundial que aponta em direção à necessidade de se implantar uma política educacional bilíngüe quando se pensa em educação de e para surdos. Em termos gerais, esta educação considera que, inicialmente, os surdos devam desenvolver a língua de sinais como primeira língua (L1), no contato com surdos adultos usuários da língua e participantes ativos do processo educacional de seus pares. A partir da L1, os surdos são expostos ao ensino da escrita da língua majoritária e, para tal, toma-se como base os estudos sobre ensino-aprendizagem de segunda língua (L2) e os trabalhos sobre o ensino de línguas para estrangeiros (LODI & MOURA, 2006, pg. 2)

Segundo Skutnabb-Kangas(1994) apud Lodi & Moura (2006, pg. 5) o conceito de L1 é definido a partir dos critérios a seguir: a) origem: a L1 é entendida como a língua que é primeiro desenvolvida pelos sujeitos; b) identificação interna: a L1 e a língua que os sujeitos se auto-identificam como falantes; c) identificação externa: a L1 é a língua pela qual os sujeitos são identificados pelos outros como falantes; d) competência: a L1 é a língua que os sujeitos possuem maior domínio; e) função: relacionada ao uso, a L1 é aquela que é mais utilizada socialmente pelo sujeito. LÍNGUA DE SINAIS: primeira língua dos surdos Conforme dito anteriormente, desde a década de 1960, quando o Lingüista Willian

Stokoe iniciou os estudos sobre as línguas de sinais, comprovou-se que ela é uma língua como qualquer outra, composta por todos os elementos legítimos de uma língua. “Ao contrário do que muitos pensam, as línguas de sinais não são limitadas e nem empobrecidas quando comparadas às línguas orais” (PEREIRA, 2002, pg. 47). No caso do Brasil, a Língua Brasileira de Sinais é um sistema lingüístico legítimo e natural, utilizado pela comunidade surda brasileira, de modalidade gestual-visual e com estrutura gramatical independente da Língua portuguesa falada no Brasil. Enquanto 1ª língua, sua aquisição se dá por meio da exposição das crianças surdas à língua de sinais desde o mais cedo possível. “Entretanto, infelizmente, o desenvolvimento da LIBRAS como L1 é ainda restrita aos filhos de surdos usuários desta língua e às raras experiências educacionais que possuem, em seu quadro de profissionais, professores surdos.” (LODI & MOURA, 2006, pg. 2). Assim, a realidade brasileira revela que os surdos, principalmente os jovens e adultos, não conhecem a língua de sinais. Tal situação concretiza-se a partir das representações sobre surdos e língua de sinais compartilhadas pelo olhar clínico-terapêutico, que vê a surdez como deficiência e a língua de sinais como mímica ou como ponte para o aprendizado da língua falada. Nos últimos anos, no entanto, percebe-se o surgimento de outros olhares em relação aos surdos e à língua de sinais, no sentido do reconhecimento da língua de sinais como língua da comunidade surda. Além disso, outro problema pode ser evidenciado. Quando aceita nas escolas, a língua de sinais é inferiorizada e, na maioria das vezes, utilizada como ferramenta para a aprendizagem da língua portuguesa. Desse modo, Lodi & Moura (2006) ressaltam
torna-se necessário que haja o reconhecimento da LIBRAS, em seu valor social, pois se este processo não for realizado aos surdos cabe, apenas, a submissão ao português, na medida em que esta língua continua a ocupar um papel sócioideológico central na constituição dos processos lingüísticos e da subjetividade desses sujeitos (pg. 10)

É preciso ir além da garantia do conhecimento e do uso da língua de sinais pelos surdos. A LIBRAS precisa assumir o papel de L1 na vida dos surdos. Desse modo, faz-se necessário repensar as práticas educacionais atuais em relação aos surdos. De acordo com Pereira (2002, pg. 49) é através da língua de sinais que “[...] os alunos surdos poderão atribuir sentido ao que lêem, deixando de ser meros decodificadores da escrita, e é através da comparação da língua de sinais com o português que irão constituindo o seu conhecimento do português.” E é neste momento que podemos responder à pergunta: porque falar de letramento quando falamos em educação de surdos? Porque falar apenas em alfabetização não dá conta da complexidade da educação dos surdos. Segundo Soares (2006, pg. 16) “a ação de alfabetizar, isto é, segundo o Aurélio, de “ensinar a ler” (e também a escrever, que o dicionário curiosamente omite) é designada por alfabetização”(grifos da autora). Portanto, alfabetização é a ação de ensinar a ler e a escrever. E “alfabetizado nomeia aquele que apenas aprendeu a ler e a escrever, não aquele que adquiriu o estado ou a condição de quem se apropriou da leitura e da escrita, incorporando as práticas sociais que as demandam).” (Ibid, pg. 19). Portanto, considerar a aprendizagem da língua portuguesa isoladamente, é não considerar o sujeito surdo e sua língua. De acordo com Pereira (2002, pg. 49)

continua a prevalecer uma preocupação com a alfabetização, ou seja, com o ensino das letras, sua combinação em vocábulos, codificação e decodificação dos mesmos, sendo atribuída pouca ou nenhuma importância aos usos da escrita enquanto práticas sociais mais amplas (letramento). Como resultado disso, muitos alunos surdos, embora identifiquem significados isolados de palavras, e sejam capazes de usar as estruturas frasais trabalhadas, não conseguem fazer uso efetivo da língua, não se constituindo como sujeitos de linguagem

Portanto, é preciso proporcionar na escola, por meio das diferentes disciplinas do currículo escolar, práticas sociais de leitura e escrita. Além disso, é preciso que os professores tomem conhecimento que para o surdo, a língua portuguesa é sua segunda língua. Sistema Signwriting Em 1974 Valerie Suton, inventou um código para escrever passos de danças, o dancewriting. Foi a partir do dancewriting que o signwriting foi criado, e a bailarina Valerie Suton contribuiu para o seu aperfeiçoamento. Desde a sua criação, vem sendo modificado, padronizado e melhorado.

Figura 5: Valerie Sutton1

O Sistema Signwritint é a modalidade escrita da Língua de Sinais. É um código e pode registrar qualquer Língua de Sinais sem passar pela tradução da língua falada. No entanto, para escrever em signwriting é preciso conhecer uma língua de sinais. As línguas de sinais, até então consideradas ágrafas, passam, a partir do Singwriting, a possuir uma tecnologia escrita importante para a cultura das comunidades surdas, que podem registrar sua história, transmitir e preservar informações através de textos dos mais variados gêneros. Dessa maneira, a língua, antes presencial e imediata, pode ser transmitida através dos diferentes contextos, mediando autor e leitor distanciados no espaço e no tempo. Geralmente, para escrever e/ou ler um texto o surdo precisa realizar uma tradução de sua língua para o português e vice-versa, acarretando dificuldades de acesso a produção escrita, bem como na própria criação e leitura de textos, o que gera conflitos no contexto escolar e no decorrer da vida desses sujeitos, como mostra Perlin (2005), ao 1Fonte: <http://www.culturasurda.com.br/images/Valerie%20Sutton.jpg>

apresentar o depoimento de L. de 40 anos:
É tão difícil escrever. Para fazê-lo meu esforço tem de ser num clima de despender energias o suficiente demasiadas. Escrevo numa língua que não é minha. Na escola fiz todo esforço para entender o significado das palavras usando o dicionário. São palavras soltas, elas continuam soltas. Quando se trata de pô-las no papel, de escrever meus pensamentos, eles são marcados por um silêncio profundo. Eu preciso decodificar o meu pensamento visual com palavras em português que tem signos falados. Muito há que é difícil de ser traduzido, pode ser apenas uma síntese aproximada. (pg. 57)

Esse sistema está sendo difundido e pesquisado no Brasil há cerca de 15 anos. A precursora dos estudos no Brasil é Marianne Stumpf. Ela justifica a importância deste sistema, argumentando: “nós, surdos, precisamos de uma escrita que represente os sinais visuais-espaciais com os quais nos comunicamos, não podemos aprender bem uma escrita que reproduz os sons que não conseguimos ouvir”. (Stumpf, 2002, p. 63). Nesta argumentação de Marianne Stumpf, é possível perceber a importância e a necessidade da divulgação desse sistema, bem como da adoção dele nas escolas. Percebe-se a necessidade das crianças surdas em representar sua fala por meio de signos gráficos, pois muitas vezes para associar uma palavra em português a seu significado, desenham sinais, ou quando tem contato com o signwriting, inicialmente, tentam criar, espontaneamente, suas próprias representações para palavras conhecidas. A escrita da língua de sinais é formada por unidades que correspondem às configurações de mão, os movimentos e as expressões faciais gramaticais em diferentes pontos de articulação que formam palavras mediante algumas combinações. Para compreendermos em que consiste o sistema, vamos conhecer algumas unidades gestuais que ele representa. De acordo com Giraffa, Santarosa e Campos (2000), o sistema Signwriting é definido por três estruturas básicas: a posição de mão, através dos movimentos e pelo contato. As posições básicas das mãos são: fechada, circular e aberta, conforme a figura abaixo. A mão pode estar paralela ou perpendicular ao chão.

Figura 6: posições básicas das mãos2

Os movimentos podem ser classificados em duas categorias: movimento de dedos e de mãos, conforme a figura a seguir:

2Fonte:<http://www.c5.cl/ieinvestiga/actas/ribie2000/papers/273/index.html>

Figura 7: movimentos3

Desse modo, podemos ter uma idéia do que seja o sistema de escrita da língua de sinais. Existem alguns livros de histórias infantis que já estão sendo elaborados na modalidade bilíngue: língua portuguesa escrita e língua de sinais escrita. É o caso dos livros Rapunzel Surda e Cinderela Surda. São livros baseados nas histórias clássicas Rapunzel e Cinderela, que trazem adaptações de enredo e personagens, prevalecendo questões relacionadas à identidade e cultura surda.

Figura 8: Rapunzel Surda e Cinderela Surda4

2.2. as múltiplas identidades surdas
De acordo com Hall (2006), na atualidade
a identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos ... (pg. 13)

Portanto, as identidades são formadas e transformadas nas relações entre pessoas e grupos de pessoas; elas não são fixas ou estáveis, e sim móveis, múltiplas, e até contraditórias. Um exemplo claro dessa constante mudança das identidades, bem como das representações que as constituem, está no relato de Thoma (2004)
Recentemente, quando estava em aula com uma turma de jovens e adultos surdos em uma escola da rede municipal de Porto Alegre, fui surpreendida pelo convite de um aluno para participar de um jantar com desfile para escolha da Miss Brasil Gay Surda 2006. Diante de mim, estava colocada a complexidade das identidades em cenários contemporâneos. Aquele aluno, integrante de um espaço institucional que atende alunos surdos em turmas de surdos e que propõe um tempo de aprendizagem organizado por ciclos, colocou-me inúmeras inquietações e provocou questionamentos do tipo: qual identidade estaria sendo mais exaltada naquele convite? Pela ordem, podemos pensar que o concurso de beleza é o mais significativo, seguido da identidade de gênero, estando nesse conjunto a identidade surda em último lugar. Qual das identidades mais o posiciona em lugares de exclusão? De qual inclusão reclama? (pg. 14 e 15)

Desse modo, podemos dizer que a identidade é marcada por algo que une as 3Fonte: <http://www.c5.cl/ieinvestiga/actas/ribie2000/papers/273/index.html> 4Fonte: <http://www.c5.cl/ieinvestiga/actas/ribie2000/papers/273/index.html>

pessoas, mas que ao mesmo tempo as distinguem de outras. Nas palavras de Tomaz Tadeu da Silva (2000) “a identidade cultural ou social é o conjunto dessas características pelas quais os grupos sociais se definem como grupos: aquilo que eles são, entretanto é inseparável daquilo que eles não são, daquelas características que os fazem diferentes de outros grupos” (p. 58). Quando fala em identidades surdas, Perlin (2005), aponta a necessidade do afastamento dos olhares clínico-terapêuticos, que vêem a surdez como deficiência a ser “curada”. Perlin (2005) afirma a existência de múltiplas identidades surdas. A partir de sua pesquisa de mestrado, onde buscou depoimentos dos próprios surdos sobre si, a autora identifica algumas possibilidades de ser surdo. Veja a seguir:

1. Identidades Surdas (identidade política) Trata-se de uma identidade fortemente marcada pela política surda. São mais presentes em surdos que pertencem à comunidade surda e apresentam características culturais como sejam: 1. Possuem a experiência visual que determina formas de comportamento, cultura, língua, etc; 2. Carregam consigo a língua de sinais. Usam sinais sempre, pois é sua forma de expressão. Eles têm um costume bastante presente que os diferencia dos ouvintes e que caracteriza a diferença surda: a captação da mensagem é visual e não auditiva o envio de mensagens não usa o aparelho fonador, usa as mãos; 3. Aceitam-se como surdos, sabem que são surdos e assumem um comportamento de pessoas surdas. Entram facilmente na política com identidade surda, onde impera a diferença: necessidade de intérpretes, de educação diferenciada, de língua de sinais, etc; 4. Passam aos outros surdos sua cultura, sua forma de ser diferente; 5. Assumem uma posição de resistência; 6. Assumem uma posição que avança em busca de delineação da identidade cultural; 7. Assimilam pouco, ou não conseguem assimilar a ordem da língua falada, tem dificuldade de entendê-la; 8. A escrita obedece à estrutura da língua de sinais, pode igualar-se a língua escrita, com reservas; 9. Tem suas comunidades, associações, e/ou órgãos representativos e compartilham entre si suas dificuldades, aspirações, utopias; 10. Usam tecnologia diferenciada: legenda e sinais na TV, telefone especial, campainha luminosa; 11. Tem uma diferente forma de relacionar-se com as pessoas e mesmo com animais; 12. Assimilam um pouco mais que os outros surdos, ou não conseguem assimilar a ordem da língua falada, tem dificuldade de entendê-la; 13. A escrita obedece a estrutura da língua de sinais, pode igualar-se a língua escrita, com reservas; 14. Participam das comunidades, associações, e/ou órgãos representativos e compartilham com as identidades surdas suas dificuldades, políticas, aspirações e utopias; 15. Aceitam-se como surdos, sabem que são surdos, exigem intérpretes, legenda e

sinais na TV, telefone especial, companhia luminosa. 2. Identidades Surdas Híbridas Ou seja os surdos que nasceram ouvintes e com o tempo alguma doença, acidente, etc. os deixou surdos: 1. Dependendo da idade em que a surdez chegou, conhecem a estrutura do português falado e o envio ou a captação da mensagem vez ou outra é na forma da língua oral; 2. Usam língua oral ou língua de sinais para captar a mensagem. Esta identidade também é bastante diferenciada, alguns não usam mais a língua oral e usam sinais sempre; 3. Assumem um comportamento de pessoas surdas, ex: usam tecnologia para surdos...; 4. Convivem pacificamente com as identidades surdas. 3. Identidades Surdas Flutuantes. Os surdos que não tem contato com a comunidade surda. Para Karol Paden são outra categoria de surdos visto de não contarem com os benefícios da cultura surda. Eles também têm algumas características particulares. 1. Seguem a representação da identidade ouvinte; 2. Estão em dependência no mundo dos ouvintes seguem os seus princípios, respeitam-nos colocam-nos acima dos princípios da comunidade surda, às vezes competem com ouvintes, pois que são induzidos no modelo da identidade ouvinte; 3. Não participam da comunidade surda, associações e lutas políticas; 4. Desconhecem ou rejeitam a presença do intérprete de língua de sinais 5. Orgulham-se de saber falar "corretamente"; 6. Demonstram resistências a língua de sinais, cultura surda visto que isto, para eles, representa estereotipo; 7. Não conseguiram identificar-se como surdos, sentem-se sempre inferiores aos ouvintes; isto pode causar muitas vezes depressão, fuga, suicídio, acusação aos outros surdos, competição com ouvintes, há alguns que vivem na angustia no desejo continuo de ser ouvintes; 8. São as vitimas da ideologia oralista, da inclusão, da educação clinica, do preconceito e do preconceito da surdez; 9. São surdos, quer ouçam algum som, quer não ouçam, persistem em usar aparelhos auriculares, não usam tecnologia dos surdos. 4. Identidades Surdas Embaçadas As identidades surdas embaçadas são outro tipo que podemos encontrar diante da representação estereotipada da surdez ou desconhecimento da surdez como questão cultural. 1. Os surdos não conseguem captar a representação da identidade ouvinte. Nem

consegue compreender a fala; 2. O surdo não tem condições de usar língua de sinais, não lhe foi ensinada nem teve contato com a mesma; 3. São pessoas vistas como incapacitadas; 4. Neste ponto, ouvintes determinam seus comportamentos, vida e aprendizados. 5. É uma situação de deficiência, de incapacidade, de inércia, de revolta; 6. Existem casos de aprisionamento de surdos na família, seja pelo estereotipo ou pelo preconceito, fazendo com que alguns surdos se tornem incapacitados de chegar ao saber ou de decidirem-se por si mesmos; 7. Na família a falta de informação sobre o surdo é total e geralmente predomina a opinião do médico, e algumas clínicas reproduzem uma ideologia contra o reconhecimento da diferença; 8. Estes são alguns mecanismos de poder construído pelos ouvintes sob representações clínicas da surdez, colocando o surdo entre os deficientes ou retardados mentais. 5. Identidades surdas de transição Estão presentes na situação dos surdos que devido a sua condição social viveram em ambientes sem contato com a identidade surda ou que se afastam da identidade surda. 1. Vivem no momento de transito entre uma identidade a outra; 2. Se a aquisição da cultura surda não se dá na infância, normalmente a maioria dos surdos precisa passar por este momento de transição, visto que grande parte deles são filhos de pais ouvintes; 3. No momento em que esses surdos conseguem contato com a comunidade surda, a situação muda e eles passam pela des-ouvintização, ou seja, rejeição da representação da identidade ouvinte; 4. Embora passando por essa des-ouvintização, os surdos ficam com seqüelas da representação, o que fica evidenciado em sua identidade em construção; 5. Há uma passagem da comunicação visual/oral para a comunicação visual/sinalizada; 6. Para os surdos em transição para a representação ouvinte, ou seja a identidade flutuante se dá o contrário. 6. Identidades Surdas de Diáspora As Identidades de diáspora divergem das identidades de transição. Estão presentes entre os surdos que passam de um país a outro ou, inclusive passam de um Estado brasileiro a outro, ou ainda de um grupo surdo a outro. Ela pode ser identificada como o surdo carioca, o surdo brasileiro, o surdo norte americano. É uma identidade muito presente e marcada. 7. Identidades intermediárias. O que vai determinar a identidade surda é sempre a experiência visual. Neste

caso, em vista desta característica diferente distinguimos a identidade ouvinte da identidade surda. Temos também a identidade intermediaria geralmente identificada como sendo surda. Essas pessoas tem outra identidade pois tem uma característica que não lhes permite esta identidade isto é a sua captação de mensagens não é totalmente na experiência visual que determina a identidade surda. 1. Apresentam alguma porcentagem de surdez, mas levam uma vida de ouvintes; 2. Para estes são de importância os aparelhos de audição; 3. Importância do treinamento oral; 4. Busca de amplificadores de som...; 5. Não uso de intérpretes de cultura surda, etc...; 6. Quando presente na comunidade surda, geralmente se posiciona contra uso de interpretes ou considera o surdo como menos dotado e não entende a necessidade de língua de sinais de interpretes...; 7. Tem dificuldade de encontrar sua identidade visto que não é surdo nem ouvinte.
Fonte: Palestra proferida durante o Encontro de Instrutores de Língua de Sinais: As Diferentes Identidades Surdas. (12/12/2001) Disponível em: <http://sentidos.uol.com.br/canais/materia.asp?codpag=1347&cod_canal=11>

A partir dessas múltiplas possibilidades de ser surdo é possível perceber que existem diferentes modos de ser surdo. Quando Perlin(2001) realiza, por meio de sua pesquisa, a identificação dessas identidades, não o faz no intuito de classificar e determinar que só existem essas possibilidades de ser surdo e muito menos com o objetivo de possibilitar que encaixemos nossos alunos surdos nessas identidades. Ao afirmar a existência de muitos modos de ser surdo, a autora contribui para nossas reflexões sobre o respeito às diferenças. Pardo nos fala sobre o respeito às diferenças:
Respeitar a diferença não pode significar “deixar que o outro seja como eu sou” ou “deixar que o outro seja diferente de mim tal como eu sou diferente (do outro), mas deixar que o outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu, que eu não posso ser, que não pode ser um (outro) eu; significa deixar que o outro seja diferente, deixar ser uma diferença que não seja, em absoluto, diferença entre duas identidades, mas diferença da identidade, deixar ser uma outridade que não é outra “relativamente a mim” ou “relativamente ao mesmo”, mas que é absolutamente diferente, sem relação alguma com a identidade ou com a mesmidade. (Pardo apud Silva, 2000, p. 101)

2.3. marcas de diferença cultural na educação de surdos: artefatos culturais
Os surdos têm cultura? Essa é uma pergunta que, segundo Strobel (2008) as pessoas, de modo geral, fazem, duvidando da existência de uma cultura surda. Isso porque, geralmente, não conhecem quem são os surdos, e por isso, fazem suposições erradas sobre os surdos. Além disso, tais suposições partem, em sua maioria, de representações da surdez como deficiência. Ou seja, partem de uma perspectiva ouvintista. Ela afirma que cultura surda é
o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável ajustando-o com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das “almas” das comunidades surdas. Isto significa que abrange a língua, as idéias, as crenças, os costumes e os

hábitos do povo surdo” (STROBEL, 2008, pg. 24)

No entanto, um alerta precisa ser feito: nem todas as pessoas surdas compartilham da cultura surda simplesmente porque elas não ouvem. O que constitui a cultura surda não é o fato de não ouvir, e sim de compartilhar experiências, crenças, sentimentos, língua, etc. Desse modo, há diferentes culturas surdas, ligadas a diferentes espaços geográficos, sociais e históricos. Artefatos culturais do povo surdo Artefatos culturais, são, segundo Strobel (2008) “'tudo o que se vê e sente' quando se está em contato com a cultura de uma comunidade, tais como materiais, vestuário, maneira pela qual um sujeito se dirige a outro, tradições, valores, normas, etc.” (pg. 37). A autora apresenta alguns artefatos da cultura surda: Artefato cultural: experiência visual Artefato cultural: lingüístico Artefato cultural: familiar Artefato cultural: literatura surda Artefato cultural: vida social e esportiva Artefato cultural: artes visuais Artefato cultural: política Artefato cultural: materiais (Ler na íntegra: texto disponível na nossa disciplina – plataforma moodle)

2.4. RESUMO DA UNIDADE
Nesta unidade estudamos o surdo a partir de sua constituição enquanto sujeito cultural. Assim, aprendemos que existem culturas surdas espalhadas pelo mundo, e que tais culturas não estão condicionadas ao simples fato de não ouvir. O principal marcador da cultura surda é a língua de sinais, pois ao mesmo tempo que une esses sujeitos, os diferencia de outros grupos culturais. Porém, não significa que todos os surdos são iguais. Estudamos também que o surdo pode apresentar-se de diferentes formas, assumindo diferentes identidades. Assim, considerando-se que o surdo é um sujeito cultural e lingüisticamente diferente, sua educação merece um olhar mais atento. Se a língua de sinais é a primeira língua dos surdos, a escola precisa considerar esse fato. O surdo precisa ser educado em sua língua! Mas como isso pode ser viabilizado nas escolas. Há duas alternativas principais: inserção de intérpretes de língua de sinais na escola regular e professores surdos fluentes na língua de sinais em escolas bilíngües para surdos. Desse modo, a língua portuguesa é a segunda língua para o surdo, e deve ser ensinada e trabalhada na escola de modo contextualizado, em relação com a língua de sinais. E isso não é específico para o professor da disciplina Língua Portuguesa, e sim para todos os professores, já que todos se utilizam da língua portuguesa para ministrar suas aulas. É preciso considerar que o surdo seja inserido no mundo da leitura e da escrita de modo significativo, a partir de práticas sociais, pois não basta codificar e decodificar letras sem entender o que lê ou escreve.

2.5. QUER SABER MAIS?
Em relação à língua portuguesa como segunda língua para surdos, o Ministério da Educação tem algumas publicações: - MEC. Secretaria de Educação Especial. Ensino de Língua Portuguesa para Surdos: caminhos para a prática pedagógica. Vol. 1 – 2ª edição. Brasília: MEC/SEESP, 2007; - MEC. Secretaria de Educação Especial. Ensino de Língua Portuguesa para Surdos: caminhos para a prática pedagógica. Vol. 2 – 2ª edição. Brasília: MEC/SEESP, 2007; - QUADROS, Ronice Müller de e SCHMIEDT, Magali L. P. Idéias para ensinar português para surdos. Brasília: MEC, SEESP, 2006. Tais publicações estão disponíveis no site do MEC: www.portal.mec.gov.br, no catálogo de publicações da Secretaria de Educação Especial. Outro site importante referente a essa unidade é o site oficial do Sistema Sinwriting: www.signwriting.org.

2.6. REFLEXÕES SOBRE A APRENDIZAGEM
Seguem abaixo algumas perguntas que poderão auxiliar você a refletir sobre o que leu nesta unidade: 1. O que você entende por letramento? 2. Qual a diferença entre letramento e alfabetização? 3. Porque falar em letramento e educação de surdos? 4. Qual é a primeira língua do surdo? 5. Como essa língua constitui esse sujeito? 6. Existe apenas um modo de ser surdo? 7. O que é cultura surda? 8. Considerando-se que a língua portuguesa para os surdos é uma segunda língua, como você, futuro professor de Química, pensaria uma aula para esses sujeitos?

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