P. 1
Direitos_Humanos - Resumo Do Livro Da Flavia Piovesan[1]

Direitos_Humanos - Resumo Do Livro Da Flavia Piovesan[1]

|Views: 12.785|Likes:
Publicado porSandro Leony Costa

More info:

Published by: Sandro Leony Costa on Aug 23, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/27/2013

pdf

text

original

Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional de Flávia Piovesan Índice PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988

e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo I – Introdução Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e garantias fundamentais Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de Proteção Internacional dos Direitos Humanos Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a Comissão Interamericana de direitos Humanos Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil

PRIMEIRA PARTE A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO A proposta do estudo do livro é analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a efetivação dos direitos internacionais no Brasil. Assim, o primeiro passo do trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e seus impactos. Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e a garantir a eles direitos fundamentais. A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão sobre os antecedentes históricos do movimento de internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos discursos sobre direitos humanos. A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e preocupação internacional, sendo motivo de transcender e extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. Bilder, que assim expõe: “O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)”

A análise das normas internacionais buscará compreender a forma pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução no direito internacional. Um novo Código Internacional foi desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas no dever de proteção desses direitos. Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido os remédios adequados para se assegurar a justiça. Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil perante os tratados internacionais de direito humano, completando-se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia exercida, quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO DE ESTUDO a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se relaciona com as normas de direito internacional de direitos humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as normas internacionais de direitos humanos contribuem para a implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela Constituição de 1988. Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca responder a 3 questões:

1.

Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem internacional? O processo de democratização implicou a reinserção do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais para esse fim? Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização dos Estados Americanos? Qual o impacto jurídico e político do sistema internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de accountability, quando tais direitos são violados?

2.

3.

A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito constitucional internacional O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito internacional de direito público. Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele interagindo.

C) Justificativa para a opção metodológica Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela interage com os instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a respeito do sistema internacional dos direitos humanos. CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS. O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do processo de democratização no Brasil. a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988. Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a classificação de Guillermo O’Donell, no processo de democratização há duas transições: uma primeira do regime autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre as forças militares, exigindose, ainda, a elaboração de um código que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a promulgação da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 além de instituir um regime político democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos humanos já adotado no Brasil. A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições democráticas no país muda a política brasileira de direitos humanos, possibilitando um progresso significativo no reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna serviu como medida de reforço para que questões dos direitos humanos se impusessem como tema fundamental na agenda internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura à internacionalização da proteção dos direitos humanos. b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantias fundamentais. Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o Estado Democrático de Direito destacam-se a cidadania e a dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à ótica meramente formal. É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do processo de democratização política. Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita e paz perpétua. Para Kant

. Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores. além de alargar a dimensão do que se entende por direitos e garantias fundamentas. concretizando a emergência do Direito Internacional dos Direitos Humanos. a Constituição de 1988. a vertente “kantiana” concretizou a abertura das constituições à força normativa dos princípios. é um direito de princípios. 4º. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. 4º da CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações internacionais. conferindo suporte axiológico a todo o sistema jurídico. não podendo ser usadas como meios. Significa também que eles valem directamente contra a lei. c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais. da autodeterminação dos povos. são hoje. Ao tratar do tema J. Não são simples norma normarum. Sendo assim. mas simplesmente se moveu perante a vida. Consagra-se. Nesta ótica. Para Canotilho. seja no âmbito internacional ou interno. que a autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. . A interpretação das normas constitucionais advém. como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional. por um lado. 5º. a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao privilegiar os direitos fundamentais. além dos direitos civis e políticos. assumindo especial propriedade. liberdades e garantias se aplicam independentemente da intervenção legislativa. De fato. o que realça a força normativa de todos os preceitos constitucionais referentes a direitos. integrantes do sistema normativo. Os princípios morais. ou. como uma ordem axiológica ou teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira função ordenadora. §1º da CF/88. A Carta Magna de 1988 reforça. ainda. devendo tratar-se a humanidade na pessoa de cada ser. desse modo. Implica. o compromisso de adotar uma posição política contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. que se refere à independência nacional e à não-intervenção. pois. II. além de garantir os direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. e neste tema a Constituição também registra inéditos avanços. mas norma normata. o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério os princípios. assim. mas sim a busca pela plena integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. por via direta da Constituição e não através de actoritas interpositivo do legislador. são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e actuais. nos termos do art. fundamentado no valor da dignidade humana como valor intrínseco à condição humana. inc. incluindo. sendo certo. VIII e IX. Esta foi a primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na declaração dos direitos. tampouco. Os direitos e garantias fundamentais são.II). O art. ao mesmo tempo. não são meras normas para a produção de outras normas. unifica e centraliza todo o sistema normativo. assim. esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no Império. quando esta estabelece restrições em desconformidade com a Constituição” É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos humanos. econômicos e culturais. os direitos sociais. garantias. projetando-se por todo o universo constitucional e servindo como critério interpretativo de todas as normas do ordenamento jurídico. a orientar tanto o direito internacional como o direito interno. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano internacional. ainda. (. liberdades. o valor da dignidade da pessoa humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos. dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos humanos (inc. ademais. III. nos termos do art. Na realidade. para Kant. como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à defesa da paz. com ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. teve consciência dela. na medida em que salvaguardam valores fundamentais. foi a primeira constituição a fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. consagra o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. Já no plano do constitucionalismo local. liberdades e garantias fundamentais. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao sistema internacional de proteção aos direitos humanos. enquanto o direito do Estado de Direito do século XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do código.. isto é. Sendo assim. do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da humanidade. ineditamente. Canotilho afirma que “os direitos. não havendo como divorciá-los. A orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência dos direitos humanos.) Aplicação direta não significa apenas que os direitos. não é uma pessoa autônoma”. a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente significativas no plano das relações internacionais. por meio da ampliação de direitos sociais. ou. O sistema jurídico define-se. Uma pessoa que nunca teve uma escolha efetiva.as pessoas são um fim em si mesmas. mas sim normas diretamente reguladoras de relação jurídico-materiais. Kant afirma que “uma pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna resultado das escolhas derivadas destas opções. A prevalência dos direitos humanos. há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos Direitos Humanos com os direitos locais.J. de critério valorativo extraído do próprio sistema constitucional. a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da igualdade. Desse modo o Texto de 1988 apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e garantias elevadas a cláusulas pétreas. dotados de especial força expansiva. A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil na ordem internacional. consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de tutela. nunca exerceu o direito de escolha de forma verdadeira. Se. a dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio. a imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o princípio da aplicabilidade imediata de tais normas. A Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e. Ao definir o que seja uma pessoa autônoma.

consolidando os costumes internacionais ou. A assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório. concluída em 1969. 84. 27 da Convenção de Viena). ainda. convenções e acordos internacionais. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. não incluindo aqueles dos quais participam organizações internacionais. os tratados internacionais demandam. o que aconteceu na Convenção de Viena. Importante ressalta que. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais. sob a competência do Poder Executivo. expressão de consenso. para seu aperfeiçoamento um ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da República. reservas constituem “uma declaração unilateral feita pelo Estado. do prazo para que o Congresso Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo. A ratificação significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado ao tratado no plano internacional. Diante da crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o processo de formação dos tratados internacionais. Logo. que os aprova por meio de decreto legislativo. ou um prazo para que o Presidente da . não implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. por sua excelência. papel anteriormente ocupado pelo costume internacional. o motivo principal da instituição de uma particular forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos de alguns Estados. Há casos em que eles são criados apenas para codificar as regras preexistentes. a assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e definitivo. está-se conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da comunicada internacional. Para os constituintes. acessão. modificando-os. importa tãosomente os tratados celebrados entre Estados. para contribuir para a adesão do maior número de Estados. ao aceitá-los. acordos e atos internacionais. O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o poder de celebrar tratados. em virtude do movimento pós positivista. é o que prevê o art. Via de regra. o art. quando se sua aplicação naquele Estado”. Como etapa formal. Sendo assim.A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais Os tratados internacionais. contudo ela limitou-se a normatizar os tratados internacionais celebrados entre Estados. como foi. que são de competência do Poder Executivo. enquanto acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda). A Convenção de Viena determina. conclusão e assinatura. É o aceito definitivo. Sendo assim. prevenindo o abuso desse poder. adesão ou aprovação de um tratado. são inadmissíveis reservas que se mostrem incompatíveis com o objeto do tratado. inc. Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas regras de direito internacional. ou seja. o que acarreta uma variação significativa em relação às exigências constitucionais para o processo de formação dos tratados. uma vez que Estados soberanos.Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos humanos como fundamento das relações internacionais é uma mudança na concepção tradicional de soberania absoluta. tendo como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. No Brasil. por exemplo. pelo Estado brasileiro. VIII e o art. permite-se que o tratado seja formulado com reservas. que “Todo tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento do tratado” (art. não podendo criar obrigações para os demais Estados. com o propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas previsões do tratado. o processo dar-se da seguinte forma: Primeiramente inicia-se com os atos de negociação. I). Tal como no âmbito interno. por exemplo. haja vista que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas. o instrumento de ratificação deve ser depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. Nos termos da Convenção de Viena. Entretando. com a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José. inc. como era então a experiência européia. A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano interno. de instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. cada vez mais os princípios gerais do direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional contemporâneo. importa salientar que os tratados internacionais só se aplicam aos Estados-partes. Em geral. 19 da Convenção de Viena. Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da formação dos tratados internacionais em duas normas. Após a apreciação pelos parlamentares vem a ratificação. CAPÍTULO IV . Há uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos direitos humanos. b) O processo de formação dos tratado internacionais A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a critério de cada Estado. competindo exclusivamente ao Congresso Nacional resolver definitivamente sobre os tratados. Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados Internacionais. compromete-se a respeitá-lo. quando da assinatura. 52 da Convenção de Viena. quais sejam. A colaboração entre os Poderes Executivo e Legislativo é uma tradição na história das constituições do Brasil. nesta concepção. e a do Congresso Nacional. ainda. àqueles Estados que expressamente consentiram em sua adoção. mas o resultado foi o de evitar a concentração do poder de celebrar tratados no Executivo. que os celebra. 49. ratificação. a Constituição de 1988 determina que é de competência exclusiva do Presidente da República celebrar tratados. Para o estudo do trabalho do livro. em relação ao tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa. constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito internacional. sem haver uma normatização. Cabe ainda ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação. nos termos do art. Os direitos humanos. Enfatize-se que os tratados são. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode Legislativo. surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global.

5º. Há que densificar. os direitos implícitos são imprecisos. 5º. Um outro argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente constitucional. conforme art. se a Constituição prescreve que os direitos e garantias expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes dos tratados internacionais. ainda que não sejam enunciados sob a forma de normas constitucionais... especialmente tratando-se de norma de direito fundamental.J. Sendo assim. sendo de difícil caracterização a priori. os direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja parte. Observe-se que.. 5º. não podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. assim. em especial ao princípio do art. Contudo. ao ‘texto’ da Constituição. a relação ente Direito Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas acadêmica. explicitamente individuados no art. de sua estabilidade. o máximo de capacidade de regulamentação”. consagra que os direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes do regime de princípios por ela adotado. no parágrafo 2º do art. §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais não enumerados. Logo. bem como os decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. está-se a conferir a máxima eficácia aos princípios constitucionais. as normas e princípios da constituição. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem explicitamente enumerados. a ruptura da situação jurídica vigente”. ao entender que os direitos constantes dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos constitucionalmente previstos. Pois bem. b) os direitos expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e c) os direitos implícitos. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. “a uma norma fundamental tem de ser atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê. mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. Observe-se que a hierarquia . Para Canotilho.República encaminhe ao Congresso Nacional o tratado já assinado. José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art. os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte são expressos. os direitos enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos humanos apresentam valor de norma constitucional. subentendidos nas regras de garantias. Canotilho. o elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada. mas sim bastante pragmática. Os direitos internacionais integrariam. §2º o conteúdo constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. Ela. Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto Constitucional. É de suma importância enfatizar que. qual seja. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais. a Carta de 1988 está a incluir. a contrario sensu. como formas de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais positivamente plasmadas”. §2º da CF/88. em profundidade. Para o constutucionalista há 3 classes de direitos individuais: a) os expressos. chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos de que o Brasil é parte integram. uma natureza de norma constitucional. 5º da CF. alargando o ‘bloco de constitucionalidade’ a princípio não escritos. cedo ou tarde. Deste modo. A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes natureza de norma constitucional. Para J. vagos. Tal interpretação é consoante com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto Constitucional de tais direitos.) no caso de dúvidas deve preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos fundamentais”. quando. enquanto os demais tratados internacionais têm força de norma infraconstitucional. 5º. “(. Essa falta de normas acaba por contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito internacional. declara que os direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. “o programa normativo-constitucional não pode se reduzir. o chamado “bloco de constitucionalidade”. A Constituição assume expressamente no seu art. a cada norma constitucional é preciso conferir. A Constituição de 1967. mais ainda reconduzíveis ao programa normativo-constitucional. No dizer de Jorge Mirando. ao efetuar a incorporação. c) os decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil. no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos. Caso ela venha a faltar. enumerados e claramente elencados. Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela Constituição: a) os direitos expressos na Constituição. enquanto os direitos expressos na Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo claro e preciso. a Carta Magna de 1988 inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais. Para Konrad Hesse. densificando a regra constitucional positivada no §2º do art. 5º. caracterizada como cláusula constitucional aberta. que são os direitos que estão subentendidos nas regras de garantias. ligada a todas as outras normas. à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maior eficácia lhe dê. de forma positivista. torna-se inevitável. a classificação supramencionada peca pelo fato de equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela Constituição. §2º da CF/88. previa apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios que ela adotava. c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Diferentemente do que ocorria no passado. Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe retire ou diminua a razão de ser. b) os implícitos. Considerando os princípios da força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma. A eficácia desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas previsões no ordenamento interno de cada país. por conseguinte. diferentemente da Constituição Portuguesa. A Carta de 1988.) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui condição fundamental da força normativa da Constituição e. haja vista a crescente adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados. ao fim da Declaração de Direitos. portanto.. 5º. a Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados internacionais dos quais o Brasil seja parte. onde a cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional. “(. elásticos.

uma que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem ser recepcionados na norma interna com status de norma constitucional e a outra que. Além de não concordar com o posicionamento do STF supra. entende que deva ser integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a uma lei . esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito Internacional. b da CF. sobretudo em face das cláusulas inscritas no texto Constitucional. 5º. os autores André Gonçalves e Fausto de Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito Internacional contemporâneo foi. Acredita-se que. posicionamento adotado a partir do julgamento do recurso extraordinário nº 80. Este tratamento diferenciado. Contudo. Em suma. norma que confere competência ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância. em verdade. como os fundamentos de uma sociedade internacional.há duas outras correntes. 5º. Sustenta-se. enquanto os tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-partes. houvesse uma equiparação hierárquica entre as leis e os tratados internacionais foi que inexiste. Contudo. pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de direitos humanos apresentam caráter mais técnico. segundo o qual não cabe ao Estado invocar disposições de seu direito interno como justificativa para o não-cumprimento de tratados. contudo com força supralegal.004. contudo. formando um universo de princípios que apresentam especial força obrigatória. alínea b da CF. a tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um tratado anterior. inc. que apresenta hierarquia de infraconstitucional. na perspectiva do modelo constitucional vigente no Brasil. para o regime do direito internacional. sem os quais a inteira estrutura se romperia. bem como com a sua racionalidade e principiologia. Com base nestes argumentos. apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de determinado tratado internacional. pois. Os direitos humanos mais essenciais são considerados parte do jus congens”. Em relação ao tema. É aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei. O fundamento utilizado para. III. §2º não . III. §2º da CF justifica-se na medida em que. Em seu voto. ao observar que à expressão “não excluem” constante no art. podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos tratados. os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a salvaguarda dos direitos do ser humano. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. “Jus cogens é definido como um conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos interesses da sociedade internacional. em que. defende posicionamento contrário. aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei anterior que seja com ela incompatível”. insiste-se que. os seus defensores fundamentam as suas teses em que os mencionados tratados. vem adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os tratados internacionais têm a mesma hierarquia. Na percepção crítica de Hilary Charlesworth e Christine Chinkin. são normas supranacionais. porém supralegal. 102. anteriormente a 1977 há diversos acórdãos consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado internacional não pode ser revogado por lei interna. Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de direitos humanos. Vale dizer que. é interpretação que se situa em absoluta consonância com a ordem constitucional de 1988. ao interpretar o mencionado dispositivo constitucional.esta última a corrente adotada pelo STF . Sem o mencionado ato de denúncia. como uma ‘supra-legalidade internacional”’. Sendo assim. 102. particularmente da prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana. mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de norma constitucional. a consagração definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do Direito Internacional. 27 da Convenção de Viena. e um outro regime para os demais tratados internacionais. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos humanos. Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos humanos possuem um status supraconstitucional.infraconstitucional dos demais tratados internacionais é extraída do art. o Ministro Francisco Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional anterior com ele incompatível. a tendência é acolher a concepção de que os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma hierarquia jurídica. e que tem reflexo no art. eis que a ordem normativa internacional não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. com observância do princípio da prevalência da norma mais favorável. O Estado que firma um tratado internacional de direitos humanos assume compromissos perante os cidadãos que se encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado. além das duas correntes já mencionadas. sendo certo que a outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional. aceita em todas as nações. conferido pelo art. persiste a responsabilidade do Estado na ordem internacional. assim. pode-se sustentar que o direito brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos tratados. Importa salientar que. satisfazendo o superior interesse da comunidade internacional como um todo. §2º da CF em relação à Carta Magna. 5º. com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores. e não das prerrogativas dos Estados. Esse posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé. que os tratados internacionais que não tratem de direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma infraconstitucional. denominada jus cogens. O livro. por força do art. que na interpretação do art. sem dúvida. sem embargos das conseqüências pelo descumprimento do tratado no plano internacional. a hierarquia constitucionais das normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do art. O STF. 5º. mas também afronta a própria Convenção de Viena. §2º da CF/88. apresentam hierarquia de norma constitucional. Essa concepção compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito internacional. quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. a doutrina brasileira. Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos humano. ao conferir aos tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia constitucional. como expressão de uma convicção. qualquer precedência ou primazia hierárquiconormtiva dos tratados internacionais sobre o direito positivo interno. ao revés. Observe-se que. vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda).

mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional. . um ato isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do patrimônio popular. em face das argumentações já expostas. conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de interpretação conferida ao próprio art. após a passagem por um difícil processo de aprovação. Para finalizar. devendo ser interpretada também em caso de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional em matéria de direitos fundamentais. mas também pelo alto grau de legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso processo de sua aprovação. No direito brasileiro. a que entende que os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma hierarquia infraconstitucional. Isto se deve ao fato de que os direitos nele enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas pela materialidade que o vincula. que ao se admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais de direitos humanos. defendendo a tese de que o art. considera-se mais coerente a aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao ato de ratificação. ao defender o entendimento que os tratados internacionais. b) a lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica dos direitos humanos. Celso Lafer. sendo certo que em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5. 60. O quorum requerido pelo §3º do art. Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. c) a necessidade de evitar interpretações que apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica. foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º do art. que por força do § 2º do art. Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a interpretação sistemática da Constituição. §4º da CF. argumenta que p novo parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado como uma lei interpretativa. §2º acabou por traduzir uma abertura dos direitos significativa ao movimento de internacionalização de direitos humanos. contudo. quais sejam: a) os materialmente constitucionais. devendo ser este último que deve prevalecer. Devido à peculiaridade mencionada. lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma situação pré-existente. Por força da indigitada norma. e não o contrário. 5º da CF/88. Tendo sido prevista a regra da denúncia no tratado. todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de constitucionalidade. §2º da CF/88. se para a ratificação é necessário um ato complexo. Para os defensores da última corrente. 5º da CF/88. 5º está apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados de direitos humanos no âmbito interno. 60. ou seja. 5º é norma materialmente constitucional independentemente do seu quorum de ratificação. Entretanto isso não ocorre no Brasil. de forma a dialogar os §§ 2º e 3º do art. a norma será formalmente constitucional. a denúncia continua a ser ato privativo do Executivo. Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos humanos que são meramente materialmente constitucionais e os que são materialmente e formalmente constitucionais há uma diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. Neste último caso. §2º da CF. os tratados materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia.pode ser concebido um alcance meramente quantitativo. e não possam ser eliminados por Emenda Constitucional. 5º da CF. não há como se admitir que. equiparar os tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria esvaziar em demasia o alcance do art. Atente-se. mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já possuem status de norma constitucional. importa examinar de forma breve o modo pelo qual o direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de direitos humanos e a ordem jurídica nacional. destinada a encerrar as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º. A sistemática constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada. b) os materialmente e formalmente constitucional. e d) a teoria geral da recepção do direito brasileiro. Sendo assim. 5º. já que o último não revogou o primeiro. em dois turnos. 5º. § 4º da CF. á hierarquia dos valores deve corresponder a hierarquia das normas. tornar-se-ão cláusulas pétreas. embora os direitos internacionais sejam alcançados pelo art. Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem ser objeto de denúncia. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram com a ampla maioria dos deputados e senadores. surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos humanos. estar-se-á a admitir que os direitos neles vinculados. ao clarificar a lei existente. Sendo assim. não havendo apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta previsão. No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e jurisprudenciais. os tratados internacionais de direitos humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia por parte do Estado signatário. porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status das leis aos tratados internacionais de direitos humanos. Contudo. Para a doutrina. com o advento do §3º do art. porém supralegal. por meio do qual ficou determinado que os tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados em cada Casa do Congresso Nacional. qual seja. ainda. para o ato de denúncia mister a aplicação do mesmo procedimento. Enquanto os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de denúncia. por três quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas constitucionais. Cabe apontar. o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. que são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. que. assim como os demais direitos e garantias consagrados pela Constituição. 5º. sem qualquer participação do Legislativo. fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo com o Legislativo. que são os que possuem. 5º da CF. Sendo assim. nos termos do art. Os direitos internacionais apresentam esta peculiaridade. Este grupo recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a constituição. além de natureza material constitucional. 5º da CF/88 por meio da EC 45/2004. não podendo vir a serem modificados por meio de Emenda Constitucional.

É nesse contexto que se insere a inovação do art. Na Nicarágua. para os tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte. aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa físicas que sofreu violação a direito fundamental. a da CF. passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica internacional como na interna. completando os direitos e garantias constitucionalmente reconhecidos. que os tratados internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o direito interno. Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo. §§ 1º e 2º da CF. sob pena de invalidação e c)a partir da entrada em vigor do tratado internacional. porém supralegal. por atos. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de lei. os tratados internacionais de direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos e garantias. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de direitos humanos. refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas independente e autônomas. mas também e especialmente o Tribunal internacional competente. sem a necessidade da expedição do Decreto de Execução. Um outro exemplo é a Constituição da Guatemala. toda norma preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente a sua vigência. Ademais. na medida que contenham normas sobre o seu gozo e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do poder público. em se tratando de tratados sobre direitos humanos. passa a ser recorrível qualquer decisão judicial que violar as prescrições do tratado. na qual se prevê que os direitos e garantias nela previstos não excluem outros. adicionando. inicialmente. Neste sistema a ordem internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas. a Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos tratados de direitos humanos ao universo dos direitos constitucionalmente consagrados. há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado passe a ter vigência interna. com a ratificação. §§ 2º e 3º. há de se observar se o monismo é com o primado do direito nacional ou se é um monismo com primado da norma internacional. prevalece a norma de direito internacional. pela qual o direito internacional e o interno compõem a mesma unidade. invalidá-la. em que há norma expressa na Constituição que determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno. III. Na Constituição da Venezuela. se as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam aplicação imediata e se. . qual a sistemática adotada pelo país. ações ou omissões de sua país. 5º. Não há a necessidade de uma norma de direito interno. Sendo assim. conforme determina o art. os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. 5º. No Peru. têm vigência imediata. por sua vez. § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais. no plano interno”. para os tratados internacionais de direitos humanos. Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros. os tratados internacionais de direitos humanos possuem uma força de norma constitucional. Já na sistemática da incorporação legislativa. os tratados obrigam diretamente os Estados. No primeiro caso. na qual. 5º. consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais ratificados por aquele país. reformada em 1989. uma única ordem jurídica. Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais. a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. No que pese as argumentação explanadas no presente trabalho. conclui-se que tais normas merecem aplicação imediata. conseqüentemente. a monista ou a dualista. para os quais se exige a intermediação pelo Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas disposições tenham vigência no ordenamento interno. haja vista que. por este sistema há inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e internacionais. por força do art. § 2º da CF/88. 5º. já no segundo caso. Pela primeira. b) proíbe condutas e atos violadores a esses mesmos direitos. enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática da incorporação legislativa. Porém para o trabalho. Por isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista. enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma hierarquia infraconstitucional. A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades internacionalmente assegurados. em relação aos demais tratados não há qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. em caso de conflito entre a norma internacional e a interna. para quem. decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte. o Estado reconhece a plena vigência do direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do tratado. Ora. diferentemente do que ocorre com os tratados internacionais em geral. prevalece a norma interna. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência no direito interno. após a reforma constitucional de 1994. a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. conclui-se que no Brasil adota-se uma sistemática mista. Em outras palavras. ou seja. art. Também a Constituição do Chile. há a sistemática da incorporação legislativa. É o que se extrai da interpretação do art. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática monista. para a jurisprudência do STF a expedição do decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado ao ordenamento interno. o Estado recusa a vigência imediata do direito internacional na ordem interna. Essa sistemática de incorporação imediata reflete a concepção monista. § 1º da CF/88. não será mais possível a sustentação da tese a qual. necessitando da sua reprodução por uma norma interna. § 1º da CF/88. ainda. haja vista o Recurso Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados. “não apenas o Tribunal nacional. Diante dessas duas sistemáticas. fazendo-se necessário a intermediação de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem interna. 5º. Caso seja a dualista não há maiores esclarecimentos a serem feitos. 105.Na Constituição da Argentina. 5º. Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática do direito internacional. os mesmos têm aplicação imediata. nos termos do art. há de ser perquirir. os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a ordem interna. d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos humanos O art. estão expressamente facultados a declarar a antijuridicidade da conduta e. mas não geram direitos subjetivos.

mas também internacional. cabe ao Poder Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. todavia. no sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. na mesma base territorial. como primeira alternativa. em determinados casos. Logo. Sendo assim. e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito interno brasileiro. encontram-se enumerados nesses tratados. ou c) contrariar preceitos internos. porém instaurou-se a polêmica dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. Diante do que foi exposto. Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais de direitos humanos e normas de direito interno. como ocorre na Constituição portuguesa. não se aplica aos tratados internacionais tradicionais. com harmonia e consonância. nunca a restringir ou deliberar. em qualquer grau. É a escolha da norma mais favorável à vítima. prevalecendo as normas que melhor protejam o ser humano. representativa da categoria profissional ou econômica. Ocorre que o STF entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos permitem a integração da norma penal em aberto.Em síntese. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches. acolhe a sistemática da incorporação automática. O princípio da aplicação dos dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. Na medida em que os direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito interno. respectivamente. Já a Constituição Nacional consagrou o Princípio da unicidade sindical. por força do art. na holandesa. relator para o acórdão. três são as hipóteses que podem ocorrer. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. adota-se o critério da prevalência da norma mais favorável. às obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. . O Direito Internacional dos Direitos Humanos inova. titular do direito. da expedição de uma norma interna. Contudo ainda se faz possível uma terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de Direitos Humanos e o direito interno. No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento internacional. Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado internacional de direitos humanos e as normas de direito interno. ainda. conferindo-lhes. elas terão a função de reforçar a imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do direito interno. pode-se imaginar. na espanhola. b) integrar. coloca-se o caso do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. a Constituição. além de não possuírem força hierárquica constitucional. complementem ou ampliem as normas constitucionais. beneficiários dos direitos de instrumentos internacionais votados à proteção dos direitos humanos. havendo a necessidade. que prevê a proibição de mais de uma organização sindical. que estabelece o direito de toda pessoa a fundar. estende e amplia o universo dos direitos constitucionalmente assegurados. com outras. assim. na francesa. os tratados internacionais de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. de modo a ajustá-lo. 5º. Os direitos internacionais constantes nos tratados de direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer. o status de norma constitucional. refletindo a sistemática monista. A escolha da norma mais benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito. Neste caso ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos humanos podem integrar e complementar as normas internas. embora não previstos no âmbito nacional. em relação aos tratados internacionais de direitos humanos. na alemã. Os indivíduos tornam-se. quais sejam. O regime diferenciado. Vários são os casos em que direitos. sujeitando-se unicamente às restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. 5º. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura contra criança e adolescente. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite. como também revela a preocupação do legislador em equacionar o direito interno. As normas internacionais que consagram os direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. em seu art. Porém. 233 o crime de prática de tortura contra a criança e o adolescente. § 1º. Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos humanos no direito brasileiro. quando as normas dos tratados internacionais de direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na constituição ou quando integrem. levando-se em conta a hierarquia constitucional desses tratados. o direito enunciado no tratado: a) coincidir com o direito assegurado na Constituição. o preenchimento de lacunas apresentadas pelo direito brasileiro. portanto. sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha. tendo em vista que a primazia é da pessoa humana. para a sua vigência no ordenamento jurídico interno. Prevalece a norma que mais beneficia o indivíduo. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê em seu art. eles inovam e ampliam o universo de direitos nacionalmente assegurados. §§ 2º e 3º. a partir do reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito internacional e o direito interno movidos pelas mesmas necessidades de proteção. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que seja parte um dos referidos Estados”. em caso de conflito entre as normas de direito internacional sobre direito humanos e as normas internas. ou para proteger os direitos e liberdades alheias. passando a incorporar ao direito brasileiro. complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais previstos. a adoção do critério “lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”. Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas. Nesse caso. O próprio art. um exame mais cauteloso do assunto aponta para outro critério de solução. de forma que eventual violação do direito importará em responsabilização não apenas nacional. considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais de direitos humanos.

incorporando em seu conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no que diz respeito aos direitos humanos. os tratados internacionais de direitos humanos inovam significativamente o universo dos direitos constitucionalmente consagrados. Pois bem. Na segunda. Era também um meio de reforçar a idéia de relativizar a soberania dos Estados. condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política dos seus membros. A Constituição Nacional consagra o princípio da proibição por dívida. considerando a natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais de proteção dos direitos humanos. até porque as exceções previstas no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. em casos de guerra. ora reforçando sua imperatividade. direitos históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. a militares postos fora de combate (feridos. Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos. em constante processo de construção e reconstrução. a dívida de créditos alimentícios. Enunciado semelhante é o do art. a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional. se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais sem qualquer reserva no que tange à matéria. Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma internacional. conclui-se que merece ser afasta tal possibilidade de prisão. mas construído. nunca restringir ou debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo interno. ora adicionando novos direitos. direitos positivos. Foi necessário uma nova definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de soberania estatal. três hipóteses poderão ocorrer. o objetivo é desvendar os precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de internacionalização e universalização dos direitos humanos. Vale dizer. Em todas as três hipóteses. a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de direitos fundamentais. A Liga das Nações foi criada após a Primeira Guerra Mundial. SEGUNDA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS CAPÍTULO V . tanto do âmbito global quanto no regional. conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece prevalecer. O direito enunciado no tratado internacional poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição. “Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual”. Pelo critério da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da proteção dos direitos humanos. esses tratados estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais. A proteção humanitária se destina. a Organização Internacional do Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos humanos. doentes. aplicar-se-ia Constituição Federal. a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança nacional ou da ordem pública. Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos humanos. e sim o de protegê-los”. ainda. a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o Direito Humanitário. náufragos. Observe-se que se a situação fosse inversa. a fim de permitir o advento dos direitos humanos como questão de legítimo interesse internacional. o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los. nesta segunda parte o objetivo é aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos direitos humanos. na medida em que estes não são um dado. como na Convenção Americana. Criada após a Primeira Guerra Mundial. Pela norma. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que.Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata. Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos foram o Direito Humanitário. Por fim. é de questionar a possibilidade de prisão civil de depositário infiel. 7º da Convenção Americana. Além do Direito Humanitário e da Liga das Nações. As próprias regras de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem o alcance da proteção nacional de direitos humanos. no Brasil. Preleciona ainda Bobbio que. se eles são naturais e inatos. complementando e integrando a declaração constitucional de direitos. qual seja. ou seja. os direitos internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer. acrescendo apenas uma exceção. os tratados de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos constitucionalmente assegurados. prevalecerá a norma mais favorável à proteção da vítima.PRECEDENTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. Na lição de Norberto Bobbio. que estabelece que ninguém deve ser detido por dívida. possuindo como finalidade promover a cooperação. Como não houve qualquer reserva por parte do Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional. aceitou-se a plena liberdade de criação de sindicatos. ora suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos direitos humanos. Um outro caso que merece enfoque refere-se à previsão que consta no art. O presente trabalho defende a historicidade dos direitos humanitários. uma invenção humana. Neste primeiro capítulo desta segunda parte. tinha por finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar. contudo admite não apenas uma exceção. mas sim duas: dívida de crédito alimentício e depositário infiel. Na primeira hipótese. quanto à terceira hipótese. Foi preciso. para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos positivos universais. a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho. b) inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) contrariar preceito constitucional. presioneiros) e à população civil. Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados internacionais de direitos humanos. . ou para proteger os direitos e liberdades alheias. paz e segurança internacional.

). ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos princípios do Direito Penal. o pósguerra deveria significar sua reconstrução. pode-se concluir que tais institutos. de sobremaneira em relação à irretroatividade da lei penal. O Tribunal de Nuremberg teve a sua composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie cometidas). com a doutrina e com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações “civilizadas”. Hans Kelsen. mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos humanos. Simultaneamente. Essas obrigações visam a salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos Estados.. este princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito internacional. mas também sujeito do Direito Internacional. de detenções arbitrárias. A ficção legal que os indivíduos não participam da arena internacional e. previstos no Acordo de Londres. A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos. lecionou o seguinte: “Contudo. Nesse cenário. ou seja. 38 do Estatuto da Corte Internacional. Com a decadência do nazismo. o costume internacional é fonte do direito internacional. Atente-se para o fato de que o costume internacional tem eficácia erga omnes. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto. pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa. Note-se que. seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de trabalho no plano mundial. b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra.Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do Trabalho. enquanto os tratados internacionais só são aplicados aos Estados que os tenham ratificados. Os novos institutos rompem. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é apenas objeto. juntamente com os tratados internacionais. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam o tema dos direitos humanos na ordem internacional. embora crítico em relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio julgamento. Passa-se a não mais visar apenas arranjos recíprocos. passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos indivíduos. mas sim constituem matéria de legítimo interesse internacional. especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra. o direito a ser sujeito de direitos. (. diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto. mas sim o alcance de obrigações internacionais a serem garantidos coletivamente. (. com importantes exceções”. conseqüentemente. assim. c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem internacional e aceita como lei. Para a existência do costume internacional. da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das instituições internacionais. crimes contra a paz e em crimes contra a humanidade. que tiveram como fundamento os costumes internacionais. com as decisões judiciais. b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo.. a defesa da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada. tem sido repensada. cada qual ao seu modo. seja pelos líderes do partido.. com a antiga concepção de soberania nacional absoluta. na medida que admitem intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. pois os atos punidos não eram considerados crimes no momento em que foram cometidos. O processo de internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez. bem como a concepção de que os direitos humanos não mais se limitam à exclusiva jurisdição doméstica. contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos. a ser uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo paradigma. ao se pronunciar sobre o significado do Tribunal de Nuremberg assevera que “(.) Crimes de guerra e genocídios são hoje reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à responsabilização como indivíduos. ou seja. não era mais possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser. chega-se ao fim a época em que o Direito Internacional era confinado a regular meramente relações entre Estados. Com a competência para julgar os crimes cometidos ao longo do nazismo.)” c) A Carta das Nações Unidas de 1945 . faz-se a necessidade de: a) a concordância de um número significativo de Estados em relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática. emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos. o Tribunal de Nuremberg significou um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos humanos. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. Nesse contexto. não resta dúvidas de que a prática de tortura. Sendo assim. Neste prisma. o maior direito passa a ser o direito a ter direito. cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser considerados responsáveis por determinadas condutas. de desaparecimento forçado. seja pelos oficiais militares. No fim do século XX. segundo o art.. seja ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito armados. sofreram críticas sob o argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade da lei.. As condenações do Tribunal de Nuremberg. que haja o censo de obrigação. É um movimento extremamente recente que surgiu como resposta às atrocidades e aos horrores durante o nazismo. cometidas pelo nazismo constitui violação aos costumes. ainda. O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo direito internacional. Steiner. nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado. como referencial e paradigma ético que aproxime da moral. seja ao fixar como objetivos internacionais à manutenção da paz e segurança internacional. entre outras práticas. porque revela tema de legítimo interesse internacional. O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática de crimes de guerra. da Liga das Nações e do Direito Humanitário. sem sofrer qualquer responsabilização na arena internacional. não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos. por meio da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial. mas é válido apenas no plano do direito interno. Diante dessa ruptura. A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é perceptível por meio da criação das Nações Unidas.. Não mais se acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas que violam o direito internacional. Com o advento dos institutos supramencionados.

a Declaração Universal estabelece duas categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos. seja a Declaração Francesa (1789). Neste momento histórico. instaurando um novo modelo de condutas nas relações internacionais. tem competência para promover a cooperação em questões econômicas. Dispõe de competência contenciosa e consultiva. Sendo assim. posteriormente. A não-atuação estatal significava liberdade. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos. as Declarações de Direitos. Para a consecução dos objetivos supramencionados. Conselho de Tutela e o Secretariado. porém apenas Estados são partes em questões pertinentes ela. Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve submeter ao Conselho Econômico e Social proposta. na então República Soviética da Rússia. Todos os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral. consagravam a ótica liberal. na tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado. Corte Internacional de Justiça. titular de direitos iguais e inalienáveis. combinando o valor da liberdade com o valor da igualdade. O Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores. em que os direitos humanos se reduziam os direitos à liberdade. sociais e culturais. No final do Século XVIII.)”. Estados Unidos e. surge uma nova ordem com importantes transformações no Direito Internacional. Desde seu preâmbulo. veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades fundamentais”. converte-se em direito à atuação estatal. demarca o surgimento de uma nova ordem internacional. Conselho de Segurança. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança internacionais. recomendações e relatórios relativos aos instrumentos internacionais de direitos humanos. a partir do consenso de Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações. é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana. verifica-se que. (. Importante salientar que. Daí o desafio em desvendar o alcance e significado da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. Os membros permanentes são China. em que os principais são: Assembléia Geral. objeto de instituições internacionais e do direito internacional. que é o principal funcionário administrativo da ONU. Os não permanentes são escolhidos pela Assembléia Geral para mandados de dois anos. com a emergência dos direitos à prestação social. que foi anexado à Carta. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta. Ao definir o significado do que significa a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. a nova agenda internacional passa a conjugar a preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com preocupação em promover e proteger os direitos humanos. A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações Unidas. os direitos humanos surgem como reação aos excessos do regime absolutista. bem como elaborar projetos de convenções serem submetidos à Assembléia Geral. com direito a um voto. a partir da recomendação do Conselho de Segurança. foi criada a Comissão de Direitos Humanos da ONU. viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações de direito. França. O Conselho Econômico e Social. social e cultural. a adoção da cooperação internacional no plano econômico. Em definitivo. . que deveria se pautar na legalidade e respeitar os direitos fundamentais. Sob a concepção marxista e lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado. à proteção das minorias. e o direito à abstenção do Estado. a relação entre Estado com seus nacionais passa a ser uma problemática internacional. composto por vinte e sete membros. entre outras. considerando a colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição geográfica eqüitativa. especialmente após a Primeira Guerra. a Declaração de 1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com o dos direitos econômicos. A criação das Nações Unidas. cresce o movimento social e da cidadania. ao consagrar valores básicos universais. A solução era limitar e controlar a atuação do Estado. sociais e culturais. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte. que substituiu a antiga União Soviética. de 1948. Três anos após o advento da Carta das Nações. A Carta das Nações de 1945 consolida assim o movimento de internacionalização dos direitos humanos. O art. à prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos humanos. Dentre eles a maciça expansão de organizações internacionais com propósito de cooperação internacional. embora a Carta das Nações apresente uma enfática preocupação em defender. composto por quinze juízes. sociais e culturais. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados. Com a vitória do Aliados. desde 1992. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento.. que passam a integrar o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. ela não define o conteúdo dessas expressões. observa-se que até então era intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à igualdade. o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados. relevantes fatores contribuíram para o fortalecimento da internacionalização do direito internacional dos direitos humanos. segurança e propriedade. Conselho Econômico e Social. Reino Unido. indicando para mandato de cinco anos pela Assembléia Geral. Ao tratar da Comissão de Direitos Humanos. d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. seja a Declaração Americana (1776). a Declaração Universal dos Direitos Humanos. simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações.. Do primado da igualdade se transita para o primado da liberdade. Caminhando na história. É composto por cinco membros permanentes e dez não permanentes. Deste modo. ao lado do discurso liberal da cidadania. promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais. com suas agências especializadas. Rússia. 68 permite que o Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o desempenho das suas funções. À luz de uma perspectiva histórica. complementados pela resistência à opressão. neste sentido. com objetivos como a manutenção da paz e segurança internacionais. O Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral. incluindo os direitos humanos. em 1918. Além da universalidade dos direitos humanos. as Nações Unidas foram organizadas em vários órgãos. o que confere à Declaração o significado de um código e plataforma comum de ação. A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana.Após a Segunda Guerra Mundial. A dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos humanos é concepção que.

Os direitos da primeira geração não substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira. Há.. na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das Nações. por exemplo. entre outros dispositivos da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro internacional ou princípio geral do direito internacional. O universalismo induz. Todos os direitos humanos constituem um complexo integral. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se comprometem a respeitar e observar. que. interdependentes e inter-relacionados. como também infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua adoção. Na análise dos relativistas. Para os relativistas. como ocorre. pelo contrário. sendo certo que cada sociedade possui seu discurso sobre direitos fundamentais.. é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. três são as argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos humanos pelas Constituições nacionais. no que pese não tenha a forma de um tratado internacional. de maneira justa e equânime. b) as freqüentes referências feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos os Estados de observar a Declaração Universal.. direitos civis e políticos. econômico. em direito costumeiro internacional e princípio geral do direito internacional. desse mínimo ético. como proclama seu preâmbulo. passando a elencar tanto direitos civis e políticos quanto direitos sociais. As três gerações se interagem. assim. é porque consentiram em respeitar os direitos neles assegurados. de outro. e cultural. que concebe a cultura como a única fonte de validade de um direito ou regra moral. Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas por Jack Donnelly. ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. que está relacionado às específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. indivisíveis. há o que nós denominamos de relativismo cultural radical. poder-se-ia sustentar a existência de diversos graus de universalismos. Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948. independentemente de seu alcance. bem como que se diversos Estados optaram por ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos. sustenta que a cultura pode ser uma importante fonte de um direito ou regra geral”. a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado.) Um forte relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de validade de um direito ou regra moral. direitos sociais. qualquer afronta ao chamado “mínimo ético irredutível” que comprometa a dignidade humana. na diferença cultural entre o mundo ocidental e o induísmo ou com o islamismo. a noção de direito está estritamente relacionada ao sistema político. Nesse sentido. a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos. apresentando. por si só. a defesa. A Declaração de Viena. à tortura. Sendo assim. não podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação desses direitos. com os mesmo parâmetros e com a mesma ênfase. (. que a existência de normas universais relativas ao valor da dignidade humana é exigência do mundo contemporâneo. A essa crítica rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos que. há diversas correntes relativistas: “No extremo. força jurídica vinculante. Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a dignidade humana. Argumentam. Ademais.. Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social. (. e) Universalismo e relativismo cultural A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do relativismo cultural. ainda que em nome da cultura. Os Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela Declaração. único e indivisível. As particularidades nacionais e regionais e bases históricas.) Um relativismo cultural fraco. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente.Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado. constante da Carta das Nações Unidas. “Compreendeu-se finalmente que a . Ela não é um tratado. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações. sendo certo que foi adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução. nessa visão. Para Antônio Augusto Cançado Trindade. social e moral vigente em determinada sociedade. forte ou fraco. importará em violação a direitos humanos. Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade. que tenta universalizar suas próprias crenças. No entanto. a Declaração Universal. buscou acabar com esse debate ao estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais. com uma clara referência ao compromisso dos Estados em seu próprio preâmbulo. e conseqüentemente a relativização do conceito de soberania e jurisdição doméstica. pela qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível. A noção universal de direitos humanos é identificada como uma noção construída pelo modelo ocidental. mas é obrigação dos Estados. promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais”. econômico. ainda. mas a Declaração traz a definição. bem como seu peculiar sistema moral. aplicando-se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. força jurídica vinculante. c) decisões proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração Universal como fonte de direito. por isso a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”. não apresenta força de lei. econômicos e culturais. contudo. cultural. Para essa corrente. por sua vez. apresentando. O propósito da Declaração. Para esse trabalho. a depender do alcance do “mínimo ético irredutível”. a pretensão de universalismo desses instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do mundo ocidental. econômicos e culturais. quem entenda que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito. Exemplo é a proibição à escravidão. Considerando neste contexto. à destruição da diversidade cultural. defensor da corrente relativista. No entendimento de Jack Donnelly. Podem as normas de direitos humanos ter um sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a internacionalização. a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal com o discurso social. de 1993. culturais e religiosas devem ser consideradas. como valor intrínseco à própria condição humana. por esse motivo. ao tratamento cruel. o debate ganha força. independentemente de seu sistema político. apresenta força jurídica obrigatória e vinculante. os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos. defendem os relativistas que o pluralismo cultural impede a formação de um movimento universa. apontará para a corrente universalista – seja a um universalismo radical. com base no sofisticado argumento do relativismo cultural. tornando-se necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por cada sociedade. por sua vez.

A conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais significativa expressão do movimento internacional dos direitos humanos. que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no âmbito do direito internacional. Enquanto no sistema internacional de proteção dos direitos humanos. mas são incompletas. ao passo que a comunidade internacional tem a responsabilidade subsidiária. Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído em 1966 com a elaboração de dois tratados. sociais e culturais. a Assembléia Geral. Adotando-se a lição de Jack Donnelly. os tratados internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o equilíbrio de interesses entre os Estados. sociais e culturais. Ao revés. haver-se-ia que aumentar a consciência dessas incompletudes culturais mútuas. International Bill of Rights. a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos humanos. “(. Primeiramente. posteriormente. sobre o genocídio. que pudesse compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos econômicos. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Inicialmente. Sociais e Culturais. pode-se concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo cultural. a) Introdução O processo de universalização. Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de implementação das duas categorias de direitos. Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo. respeitando-se a diversidade e com base no reconhecimento do outro. ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. no sentido de permitir que sejam superadas omissões e deficiências. a partir da transformação cosmopolita dos direitos humanos. gerou a necessidade de implementação desses direitos mediante a criação de uma sistemática internacional de monitoramento – a international accountability. por sua vez. Assumindo a forma de declaração e não de tratado. o qual entende que há a necessidade de se superar o debate sobre universalismo e relativismo cultural. discursivo de diálogo (. com o reexame do valor da soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos humanos. Prevaleceu o entendimento de que a Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado internacional. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos Direitos Humanos. consagrando um código comum a ser seguido por todos os Estados. nos âmbitos europeu. b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1966. discutia-se qual a maneira mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal dos direitos nelas previstos. nas palavras do doutrinador. sob a argumentação de que sem os direitos civis e políticos. Para iniciar este estudo. O sistema global. pertinentes a determinadas e específicas violações de direitos. a Declaração Universal não possui força jurídica vinculante. insta relembrar que a Carta da ONU de 1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e liberdades universais a serem garantidos. assim.. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de força jurídica vinculante da Declaração. viria a ser ampliado com o advento de diversos tratado multilateral de direitos humanos. que passaram a incorporar os direitos constantes na Declaração Universal.. em 1951. Sociais e Culturais entraram em vigor. sob o enfoque estritamente legalista. é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos. sociais e culturais só poderiam existir no plano nominal. quando alcançaram o número de ratificações necessário. Todavia.universalidade é enriquecida pela diversidade cultural. a qual jamais pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos direitos humanos”. por exemplo.).) O que negamos é considerar o universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros. constituindo garantia adicional de proteção aos direitos humanos. com seus inúmeros instrumentos. os direitos econômicos. somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. como pressuposto para um diálogo intercultural.. o Estado tem a responsabilidade primária pela proteção desses direitos. O objetivo desse capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos direitos humanos. Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos. interamericano e.” Acredita-se que sem o diálogo entre culturas. Enquanto os direitos civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança imediata. a indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados pela ONU. Neste debate. Não obstante a elaboração de dois pactos em separado. destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza Santos. fazendo com que os Estados consentissem em submeter ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu domínio reservado. que conjugava as duas categorias de direitos. mas sim garantir o exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos. quando falham as instituições nacionais. a Comissão de Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de pacto. integrada pela Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais de 1966. como. A construção de uma concepção multicultural dos direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural. alcançado por um universalismo de confluência.. bem como que sem os direitos econômicos. Na medida em que todas as culturas possuem concepções distintas de dignidade humana. o sisyema global de proteção desses direitos. inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura. quais sejam. CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS. como ser pleno de dignidade e com base no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos. determinou que fossem elaborados dois pactos em separados. os direitos . situa-se como direito subsidiário e suplementar ao direito nacional. os direitos civis e políticos não deixariam o plano formal. Diversamente dos tratados internacionais comuns. faz-se necessário compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único. a tortura e a violação dos direitos das crianças. não visam substituir o sistema nacional. Posteriormente. africano. Este é o mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores. sob a influência dos países ocidentais. que sustenta um universalismo de chegada e não de partida.

constitui um mecanismo de proteção de marcante significado. que devem ser implementados de forma progressiva. raça. “mediante o qual veio a cristalizar-se a capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de petição individual). Importa salientar que o Comitê possui uma competência investigativa. para os direitos civis e políticos. diversamente do que ocorre com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos. Neste contexto nasceu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos. como também estende o elenco desses direitos. das comunicações interestatais. Por esse mecanismo. primeiramente. Importa ter-se em foco que a petição deve respeitar alguns requisitos de admissibilidade. limitações em relação a determinados direitos. no sentido que são vítimas de violações por parte do Estado. Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos assegurados. tecendo comentários e observações gerais a respeito. Sociais e Culturais. em se tratando de cláusula facultativa. impondo obrigações aos Estados-partes. o acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado. instituído pelo pacto. vindo posteriormente a encaminhá-lo. sociais e culturais seriam programáticos. para o exercício da sistemática das petições. haja vista tratar-se do objeto do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. que aleguem ser vítimas de violação de direitos humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. além de conquista de transcendência histórica”. ficando proibida qualquer medida discriminatória fundada em cor. instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos econômicos. sendo certo que o Comitê já determinou que um indivíduo só pode ser considerado “vítima”. A derrogação temporária fica condicionada aos estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e garantias não incluídos na Declaração.econômicos. Vale dizer. sendo limitado a receber e considerar comunicações de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes. cada qual relativo a uma categoria de direitos. ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos recursos de jurisdição interna. recentemente concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que sofreu a violação. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apresenta autoaplicabilidade. administrativas e judiciárias adotadas. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos internos. sociais e culturais assegurados pela Declaração Universal. de qualquer dos direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. Contudo. Neste raciocínio. com direito para protocolar reclamação perante o Comitê. sociais e culturais. Por essa sistemática. com um catálogo de direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria Declaração Universal. Em relação aos direitos econômicos. Segundo Antônio Augusto Cançado. o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal. reconhecendo a competência do Comitê para receber as comunicações inter-estatais. já que só assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para tanto. O pacto permite. Resta salientar que. c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Conforme se afirmou no tópico anterior. quando necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. opcional. língua. assegura que os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição. como. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e assegurar os direitos nele previstos. sexo. sociais e culturais. Ao comitê cabe analisar os relatórios. com os comentários. o Pacto prevê a sistemática das comunicações interestatais (inter-state communications). Os relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos. ao invés da nacionalidade. A petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo. o sistema de petições. o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas. o vínculo exigido. ainda. Deste modo o pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra. Cabe ao Estado-parte estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às violações dos direitos civis e políticos. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática. No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. a formação de dois pactos distintos acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos. ao final prevaleceu o posicionamento ocidental. as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-las. religião ou origem social. Esse argumento ganhou força a partir de que. devendo ser encaminhado pelo Estado-parte um ano após a ratificação do pacto. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos que enuncia. . um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto. com maior detalhamento. Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam autoaplicáveis e os direitos econômicos. sendo certo que as obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando positiva. Ao ratificar o pacto. Além da sistemática dos relatórios. A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa. embora na linguagem do Protocolo Facultativo a comunicação seja individual. A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por indivíduos. ao Conselho Econômico Social das Nações Unidas. por exemplo. mediante proposta de solução amistosa. O Pacto de Direitos Civis e Políticos. a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto. bem como toda vez que o comitê solicitar. o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a aplicação desses recursos se mostram injustificadamente prolongada. Contudo. sendo adotados dois pactos internacionais. Sociais e Culturais. esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. adotando medidas necessárias para esse fim. Contudo. foi desenvolvido uma sistemática peculiar de monitoramento e implementação internacional – uma special enforcement machinery. sociais e culturais são direitos programáticos. o Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos sobre as medidas legislativas. é antes o da relação entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que denuncia. Outro requisito é a comprovação de que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância internacional. se pessoalmente sofreu a violação do direito assegurado.

repousa uma visão social do bem-estar individual. consignar os fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do Pacto. As decisões do Comitê não possuem força vinculante. nas quais todos nós vivemos. Ao revés. sociais e culturais. todavia. d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. permite a sistemática das comunicações individuais. Os direitos assegurados no Pacto de Direitos Econômicos. Os relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos direitos reconhecidos pelo Pacto. compartilha-se do entendimento de que a insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de políticas sociais não deve prevalecer. em 1990. distinguir entre . o Pacto de Direitos Econômicos. A partir de então o Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria. por vezes. ainda. trabalhista. Sociais e Culturais tem enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar. Nos ensinamentos de Martha Jackman. “Ao ratificar esta Pacto. uma série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o Estado confere cumprimento às suas decisões. em parte. econômicos e culturais. Trata-se de uma idéia adotada. Essas novas medidas foram denominadas de Special Rapporteur for the Follow-up of Views.”. “O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto [sobre Direitos Econômicos. bem como os que satisfizeram a decisão do Comitê. o relatório anual do Comitê indicará os Estados que se negaram a responder a solicitação. ao menos. por meio de protocolo adicional. não sendo sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas determinações. o maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Embora não exista sanção no sentido estritamente jurídico. o Comitê “é importante. entre outros. o núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. apresentam realização progressiva. um mínimo standart técnico-econômico. Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e vinculantes. Sociais e Culturais. econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. que pode causar constrangimento político e moral. ele expandiu o elenco dos direitos sociais. bem como as medidas que eventualmente tenham sido por ele adotadas. já o segundo pacto usa a fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a . além do que. tampouco. a fim de alcançarem progressivamente a plena realização desses direitos”. Essa decisão será publicada no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. incluindo o mecanismo dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes.Ao receber a petição individual. ambientalista. A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do princípio da indivisibilidade dos direitos humanos. ainda que exista uma grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e responsabilidade governamental e da forma pela qual o social welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos específicos.. Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres endereçados aos Estados. não há a previsão do mecanismo de comunicação inter-estatal. Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político. Assim. o Comitê. a fim de que o mesmo possa enviar ao Comitê informações adicionais. enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece direitos endereçados aos indivíduos. pela ótica normativa internacional. os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos direitos enumerados no Pacto. até o máximo dos recursos disponíveis. por sua vez. importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos nele enunciados. Da obrigação da progressividade na implementação dos direitos econômicos. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos. Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais. os direitos econômicos. O primeiro o pacto determina que “todos têm direito a. a condenação do Estado no âmbito internacional enseja conseqüências no plano político. As Cortes criam políticas sociais não apenas quando interpretam a Constituição. Ressalte-se. Contudo.. os Estados que não satisfizeram a decisão. Sociais e Culturais] como aptas a ensejar a implementação imediata”.” ou “ninguém poderá. sobre as medidas adotadas em relação ao caso. da mesma forma que o Pacto de Direitos Civis e Políticos. abre o prazo de seis meses para que o Estado apresente esclarecimentos sobre o caso. Se os direitos civis e políticos devem ser assegurados de plano pelo Estado. o Comitê adotou. decorre a chamada cláusula de proibição do retrocesso social. Como resultado de fortes pressões.. o Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita observância do Pacto. Como bem observa Thomas Buergenthal. mediante o chamado power of embarrassment.. Além disso. mas sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos. e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto. sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade – os direitos sociais. sociais e culturais não são direitos legais.. bem como envolve a visão de que o Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos. Sociais e Culturais também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla. apesar de sempre buscar uma votação unânime. Sociais e Culturais são direitos que exigem. na medida em que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação desses direitos. continua. mas também por diversos outros tratados internacionais. no prazo de 180 dias. A idéia de proteção a estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta. Em suma. econômicos e culturais. Tais esclarecimentos serão encaminhados para o reclamante. os Estados se obrigam meramente a adotar medidas. o Pacto de Direitos Econômicos. que o Comitê Internacional de Direitos Econômicos. por trás dos direitos específicos consagrados nos documentos internacionais acolhidos pela comunidade internacional.. por todas as nações. além do que. Contudo. nesse aspecto. além de declarar a caracterização da violação alegada.”. não podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma prioridade na agenda nacional. é que no Pacto Econômico. como o direito de petição. mediante Protocolo Facultativo. Contudo.. ainda é grande a resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o poder de encaminhar petições individuais. embora a Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros métodos. para a sua aplicação. nos termos em que estão concebidos pelo Pacto. devendo. de condições econômicas. Porém. Sociais e Culturais Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. O Comitê solicita informações. sociais e culturais. após analisar a sua admissibilidade. Sociais e Culturais não cria um comitê próprio. que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho Econômico Social. mas também quando interpretam a legislação de direito econômico. o único mecanismo de monitoramento continua a se restringir à sistemática dos relatórios. Social e Cultural. O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. pelo menos no âmbito global. Ao decidir.

Cada uma delas ainda prevê a instituição do órgão “Comitê”. também conhecidas como ações afirmativas.acionabilidade (que se refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o exercício. considerando categorizações relativas ao gênero. A elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à luz do processo de “multiplicação de direitos”. algumas sobre direitos novos. como mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. ao menos. As convenções que integram o sistema especial são endereçadas a determinado sujeito de direito. sua primeira vertente de instrumentos nasce como vocação de proporcionar uma proteção geral. Ao ratificar esta convenção. Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que o sistema especial de proteção é voltado. A diferença não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos. No combate à discriminação. mas também aumentou a titularidade de direitos. O processo de internacionalização dos direitos humanos. segundo dados da própria Nações Unidas. a Convenção em tela assinala a intolerância sobre qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. posteriormente. que seja implantada uma política de compensação que acelerem a igualdade. Social and Cultural Rights. alimente ou reproduza as desigualdades”. Embora o perfil geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado. o qual concluiu que “(. em face de sua própria vulnerabilidade. e) Demais convenções de direitos humanos – breves considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. que merecem tutela especial. etnia. dos direitos humanos ou liberdades fundamentais. §4º a possibilidade de discriminação positiva. inúmeras outras Declarações e Convenções foram elaboradas. raça. em razão da realização em 1961 da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU. sociais e culturais. independentemente da retórica. alargando o conceito de sujeito de direitos. sociais e culturais têm sido uma conseqüência da ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. orientada pelos critérios gênero. f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de atividades nazifascistas na Europa. os grupos vulneráveis e a própria humanidade. outros sobre determinadas violações e outros ainda sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. Convenção contra a Tortura. Compartilha-se. marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema especial de proteção. Por essas razões a Convenção prevê em seu art. fundamentalmente. orientação sexual. políticos. sociais e culturais] que não poderia. mas ao indivíduo “especificado”. a globalização econômica tem agravado ainda mais as desigualdades sociais. mister. Logo a discriminação significa desigualdade. Desde o seu preâmbulo. que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. do entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis. as organizações sindicais. sociais ou culturais – são acionáveis e demandam séria e responsável observância. no sistema especial o objeto é a proteção de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. algumas dimensões passíveis de acionabilidade”. Destaca-se. 1º. idade. correspondente ao ideal de justiça enquanto ao reconhecimento de identidades. em 21 de dezembro de 1965. o Estado assume a obrigação internacional de.. Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher. para adotar a nomenclatura de Norberto Bobbio. assim. c) igualdade material. enquanto a discriminação implica a violenta exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. Essas Convenções mencionadas apresentam. Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente considerado. ser considerado como possuidor de. refletindo o próprio temor da diferença. buscada na Convenção. A igualdade. Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de Genocídio. mas sim para promoção de direitos. na grande maioria dos ordenamentos. Por vezes apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de comunicação individual. São essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais. incluindo os indivíduos. pois. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza. As violações aos direitos econômicos. Acrescente-se que. em recente relatório. esse processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados. . É nesse cenário que surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. Após o advento da International Bill of Rights.) Direitos sociais. idade.. a necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e particularizada. as três vertentes no que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”). progressivamente. Na visão de Bobbio. conjugado com o processo de multiplicação desses direitos. Sob o ângulo pragmático. etc. além do combate à própria discriminação. A proibição em si mesmo não resulta automática inclusão. agravando as marcas da pobreza absoluta e da exclusão social. ou seja. a discriminação significa toda distinção. b) a igualdade material. Convenção sobre os Direitos das Crianças. que ao seu tempo foi crucial para o abolimento de privilégios. eliminar a discriminação racial. resultou um complexo sistema internacional de proteção. o sujeito é visto em sua abstração. As ações afirmativas constituem medidas especiais e temporárias que. em regra. Até o próprio BIRD. buscam responder a uma específica violação de direito. em igualdade de condições. dente outros. exclusão. porém o alerta do Statement to the World Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on Economic. corresponde ao ideal de justiça social e distributiva. Não basta a legislação repressiva. reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização econômica. e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. significa a inclusão social. etnia e demais critérios. que é responsável pelo monitoramento dos direitos constantes na Convenção. orientada pelo critério sócio-econômico. Na esfera internacional. Enquanto no âmbito do International Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa. à prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de pessoas particularmente vulneráveis. Boaventura de Sousa Santos. Percebe-se. as entidades de classe. ao abordar o tema afirma o seguinte: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. que na era Hitler foi justificativa para o extermínio e a destruição. Fico. da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. É um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas. assegurando a efetiva igualdade. Pala Convenção. as violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos econômicos. raça. econômicos e culturais devem ser reivindicados como direitos e não como caridade ou generosidade”. não há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos. econômicos.

ao enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável. Tal como a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. direta ou indiretamente. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas. o Estado assume o compromisso de. esta exige que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as interestatais. ambos em 1975. Considerando que a tortura é um crime que viola o direito internacional. Tal preceito rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção dos direitos humanos. Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática da violência contra a mulher de forma explícita. esta Convenção estabelece os três mecanismos. A violência contra a mulher é concebida como um padrão de violência específico. aplicação de castigo. Assim como na Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial. Ao longo da Convenção. com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. a própria petição tem que responder a determinados requisitos. Sua decisão também é destituída de força jurídica vinculante. Embora seja uma Convenção com ampla adesão dos Estados. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação Racial. requisito este que não é necessário quando os remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente prolongados. desumanos ou degradantes. o direito de que a denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. aprovada pelas Nações Unidas em 1979. São medidas compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens históricas. são consagrados. b) a finalidade do ato (obtenção de informações ou confissões. além da habilitação do Comitê. com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi ampliada para receber e examinar petições individuais. cabendo a este examinar as petições individuais. tradição ou consideração religiosa para afastar tal responsabilidade. seja qual for. objetivam acelerar o processo de igualdade. caso conclua pela existência de violação.buscando remediar um passado discriminatório. que é obrigação do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher. o direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a probabilidade de sofrer tortura seja grande. a Convenção estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. intimidação ou qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer natureza). A comunicação individual deve ter como fundamento a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados pelos demais Comitês. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. Um significado número de reservas está concentrado na cláusula relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. que cause morte. os relatórios e as comunicações interestatais. que é. baseado no gênero. Com a Declaração e Programa de Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995). mas também alcança o domínio privado. Apenas em 1999. reconhecendo que a violação desses direitos humanos não se restringem à esfera pública. Compulsória porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores. sendo certo que. progressivamente. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados dentre os tratados internacionais de direitos humanos. fazendo recomendações às partes. cabe ressaltar que esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de supervisão. as petições individuais. adicionalmente. não invocando qualquer costume. eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero. h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis Desumanos ou Degradantes. concluí-se que não há como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres. Tais reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem religiosa. formula a sua opinião. Contudo. Universal porque o Estado–parte onde se encontre o suspeito deverá processálo ou extraditá-lo para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo. à luz dessas informações. encaminhado à Assembléia Geral das Nações Unidas. Ao ratificar esta convenção. assegurando a efetiva igualdade. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e. Há a sugestão de ser adotado o mecanismo de comunicação interestal. os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as comunicações interestatais. 1º da Convenção há a definição de tortura. No art. cultural ou mesmo legal. independente do território onde a violação tenha ocorrido e da nacionalidade do violador e da vítima. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. bem como para realizar investigações in loco. por sua vez. a qual envolve três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou sofrimento físicos ou mentais. a proteção contra atos de tortura e outras formas de tratamentos cruéis. integral e indivisível dos direitos humanos universais. Para que seja admitida a petição individual. pode ser invocada como justificativa para a tortura”. dentre eles o esgotamento prévio de recursos internos. que permitiria a um Estado-parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da Convenção. com o Estado. quais sejam. 2ºde que “nenhuma circunstância excepcional. dentre os direitos. A Declaração estabelece. contudo é publicada no relatório anual do Comitê. como também estimular a estratégia de promoção da igualdade. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar todas as formas de discriminação contra a mulher. O único mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. embora a violência seja uma grave discriminação. o sistema de petições individuais é cláusula facultativa. Quanto aos mecanismos de monitoramento. mas sem eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. Em relação ao sistema de monitoramento. g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Esta Convenção. fazendo-se necessário que o Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e examinálas. c)a vinculação do agente ou responsável. ainda. solicitará ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no sentido de . dano ou sofrimento físico sexual ou psicológico à mulher. Em relação ao seu sistema de monitoramento. Na Convenção há a previsão em seu art. teve como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a Mulher. Em suma. As suas decisões. esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados para acelerar o processo de obtenção da igualdade. igualmente às decisões dos demais Comitês. também são pautadas nas informações coletadas. independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. Alguns países acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a igualdade ente homens e mulheres na família.

em Roma. para quem “a Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. Apenas em 17 de julho de 1998. Vale ressaltar que. em face do chamado power of shame ou power os embarrassment. foram adotados. contrariamente. criança é definida como “todo ser humano com menos de 18 anos. 2º da Convenção entende por genocídio “qualquer dos seguintes atos. no todo ou em parte. o sistema global passou a contemplar um órgão internacional penal competente para julgar os crimes mais graves que atentem contra a ordem internacional. no que pese as decisões desses Comitês não terem força de decisão jurídica vinculante. o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos. Pelo seu art. principalmente os genocídios cometidos contra os judeus. um grupo nacional. sociais e culturais (como direito à liberdade de pensamento. A Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. Ela abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos direitos humanos – civis. em 1993 e 1994. sendo certo que o único meio de monitoramento é realmente os relatórios periódicos. em face de seu alcance. funcionários ou particulares. políticos. assumiu a tendência de enfatizar a indivisibilidade . não estabeleceu um sistema próprio de monitoramento. é necessário uma análise anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. para erradicar. Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido genocídio serão punidas. na devida consideração. Acrescente-se que a Declaração de Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção contra a Tortura. datado de 9 de dezembro de 1948. destaca-se como o tratado internacional de proteção aos direitos humanos com maior número de ratificações. Note-se que a importância da criação de uma jurisdição internacional para os graves crimes contra os . (como o direito de deixar qualquer país e de entrar em seu país. que. mediante a adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva implementação. por sua gravidade. desde 1948 era previsto a competência de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de genocídio. urge a ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e sua efetiva implementação por todos os Estados-partes. a Convenção evitou a distinção entre as áreas e. i) Convenção sobre os Direitos da Criança A Convenção sobre os Direitos das Crianças. Afirma ainda a Declaração de Viena que a não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à infância. sejam governantes. no que concerne à matéria dos Protocolos. Ao fazê-lo. consciência e religião. para a análise do Tribunal do Tribunal Penal Internacional. implementação recíproca e a igual importância de todos os direitos”. Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados. Os direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos civis e políticos. exigindo que os Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da Criança. Importa observar. afronta a ordem internacional. tal como: a) assassinato de membros do grupo. b) dano grave a integridade física ou mental de membros do grupo. na hipótese de recebimento de informações que contenham fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em determinado Estadoparte. e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. respectivamente. ao insistir no objetivo da “ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de direitos humanos adotados no âmbito das Nações Unidas. adotada pela ONU em 1989 e vigente desde 1990. sociais e culturais. há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de Tóquio. Importante notar que a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. a maioridade seja atingida mais cedo”. ainda. contudo. ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção. cometidos com a intenção de destruir. a prática da tortura. Esses protocolos visam fortalecer o rol de medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. Como precedentes históricos da criação da Corte Penal Internacional. A importância de um sistema internacional de justiça para o julgamento de graves violações de direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de Viena de 1993. seria razoável atribuir a uma corte internacional a competência para fazê-lo. Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston. c) submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial. dois Protocolos Facultativos à Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças. a fim de que se estabeleça um sistema preventivo de visitas periódicas a locais de detenção. 6º. inclusive com a alocação do máximo possível de recursos disponíveis. Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos enunciados na Convenção. ainda. j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já analisadas. as instituições nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus perpetradores. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio era um crime que. Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. d) medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo. têm efetivamente auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano internacional. é instituído o Comitê sobre os Direitos da Criança. levando. no tocante à exploração econômica e sexual de crianças e à participação destas em conflitos armados. A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação própria. fornecendo informações sobre as medidas para a implementação desses Protocolos. por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos Estados-partes. pela legislação aplicável. étnico. racial ou religioso. de forma definitiva. no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional com competência específica para julgar casos de violação de direitos internacionalmente assegurados. Não há a previsão de petições individuais nem de comunicações interestatais. e considerando ainda que. a não ser que. a requerer. maiores informações sobre aquelas implementações. além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda. Note-se que a Conferência de Viena. econômicos.satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. diferentemente dos demais tratados internacionais de direitos humanos. em 15 de maio de 2000. constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU. a opinião dos interessados. O Comitê fica autorizado. O art. Os Protocolos Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos Armados apresentam a mesma sistemática. o direito a um nível adequado de vida e segurança social). Nos termos da Convenção. Porém. com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal Internacional.

Na consideração dos casos em que a comissão possui competência. não o eximirá da responsabilidade penal. de caráter permanente. o sistema global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de controle dos direitos humanos. tampouco importará em redução da pena. o Estatuto impõe sanções de natureza civil. b) Câmaras (divididas em Câmara de Questão Preliminar. investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal). com relação ao julgamento de violação de direitos humanos. Note-se que a ratificação do tratado não comporta reservas. Em relação às penalidades. foi aprovado na Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional. a escolha de mecanismos não convencionais. ela tem seguindo basicamente dois procedimentos. ilustrativamente. propondo a ação pena cabível. o 1235 e o 1503. Kosovo. condicionada a incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. a fim de que esta investigue o crime. Adentrando. tratado que já previa a adoção de uma Corte Penal Internacional. concedem pouca atenção às questões normativas e são reticentes em estabelecer estruturas procedimentais específicas. Desse modo. o Estatuto de Roma prevê os requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição internacional. ficando. na ausência de ratificação pelo Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à violação. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato complementar às cortes internacionais. pautam-se mais fortemente nas informações fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a efetividade de seu trabalho. seja ela Chefe de Estado ou Chefe de Governo. Além da sanção de natureza penal. entre outros. Ruanda. geralmente focalizamse em uma gama diversificadas de temas. Timor Leste. o exercício da jurisdição é condicionada à adesão do Estado ao tratado. 5º do Estatuto de Roma. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a indisposição do Estado (ou seja. Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo Estado-violador. independente e vinculado ao sistema das Nações Unidas. em 17 de julho de 1998. admitindo excepcionalmente a prisão perpétua. Pode. sendo composto pelos seguintes órgãos: a) Presidência (responsável pela administração). na intenção de construir precedentes normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política. mas contra os Estados em defesa dos cidadãos. isto é. O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela limitada aos Estados-partes da convenção em questão. ou seja. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 1998. em último caso. até a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional. não dispondo de um aparato de garantias desses direitos. Como a jurisdição internacional é complementar à jurisdição nacional. o cargo oficial de uma pessoa. é do Estado. Câmara de Primeira Instância e Câmara de Apelação). determinando a reparação às vítimas e aos seus familiares. Neste sentido. uma preocupação particular com o desenvolvimento de um entendimento normativo dos direitos relevantes. sendo novamente eleito em 2000. em contraste. são utilizados outros mecanismos não convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos criados pela Carta das Nações Unidas. o Estatuto prevê como penalidade máxima a prisão por 30 anos. a sua composição integrada por 53 membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho Econômico Social. Porém. Em todas as hipóteses. a fim de se elucidar as vantagens e desvantagens de cada sistema. ainda. As atividades de promoção são as atividades correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. Conforme o art. a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições nacionais. A respeito da criação de uma jurisdição internacional. já mencionados. k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos direitos humanos Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos humanos. a responsabilidade primária. d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). controle e garantia. o Tribunal Penal Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime de genocídio (conforme conceituado no art. especialmente às Convenções de Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de definição). examiná-las. e um processo decisório baseado preferencialmente no consenso. 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio). tendo a comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. deixando de operar dentro dos Estados. devendo o Estado ratificá-la na íntegra. O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à Promotoria. em face dos genocídios que a marcaram. Social e a Comissão de Direitos Humanos. II) crimes contra a humanidade. na ausência de vontade política dos membros da Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por determinado Estado. quando houver demora injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e o julgamento do crime. Nesta linha. conclui-se que. dentre outros. poder-se-ia pautar na inexistência de convenções específicas sobre direito violado. pois. A Comissão foi criada com a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a direitos humanos. mais precisamente no estudo da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. preferindo uma aproximação ad hoc na maioria das situações. um número limitado de procedimentos para lidar com as violações. . primeiramente. no tema do tópico. Já as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. em ações conflitantes no tocante aos Estados. Por fim. cumpre assinalar. Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Genocídio. c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal. antes de adentrarmos no estudo da Comissão de Direitos Humanos. mister fazer-se a diferenciação entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção aos direitos humanos. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a Comissão de Direitos Humanos. Já o sistema não-convencional. como por exemplo nos conflitos da Bósnia. Importante observar que o Estatuto faz referência à existência de igualdade entre todas as pessoas. é necessário que o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional. observa Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção. III) crimes de guerra (violações ao direito internacional humanitário. insistem que todos os países são clientes em potencial e engajam-se. como a Assembléia Geral. o Conselho Econômico.direitos humanos foi revigorada na década de 90. agora. O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com mandatos de 9 anos. competente para receber as denúncias sobre crimes. como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos Humanos. haja vista esta comissão ocupar posição central no sistema não convencional de proteção aos direitos humanos. a própria Promotoria agir de ofício.

em 1950. Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização de um debate público anual (em que organizações não governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da Subcomissão). contudo. Houve uma grande resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um relator. 1235. alcançar qualquer Estado na ordem internacional. por vezes. hoje denominada de Subcomissão para a Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos.Vários foram os mecanismos temáticos criados. Essas características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento internacional para cada caso específico. Ao lado do sistema global. ou e) canelar o estudo da situação sob a Resolução n. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações encarregados de selecionar. Consolida-se. que apresentam características consideravelmente diversas. Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente preventivo. embora não haja na Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais e econômicos. América e África. com respeito à cultura. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos temáticos. as medidas urgentes são. requerendo ao Estado envolvido maiores informações. Ao apontar as vantagens do sistema regional. levando em consideração ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada. requeridas em procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para países determinados. 1503. A análise dos casos pode ensejar. particularmente na Europa. haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de proteção essencialmente políticos. existindo. como para a investigação e a análise de casos específicos pela Comissão e pela Subcomissão. portanto. M. procurando evitar a intransigência política de órgãos eventualmente existentes. Quando o mecanismo temático refere-se a execuções arbitrárias. No sistema europeu. a) Introdução O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta diferentes âmbitos de aplicação. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu procedimento. O sistema interamericano apresenta como principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem envolver a indicação. resistência esta que teve como motivo os interesses comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. existir ou não em construir precedentes normativos. mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. de um relator especial com mandato para países específicos. a proliferação desses mecanismos tem resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e humanos inadequados à sobreposição de mandados. ainda.O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a Proteção de Minorias. às tradições. Shimth destaca que. Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos humanos. assim. pela Comissão de Direitos Humanos. mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os remédios internos. possuindo. Rhona K. Fundamentalmente. integrado. a fim de se apurar o desaparecimento forçado na Argentina. estabelecido em 1980. esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) cancelar o estudo sobre a situação determinada. embora essa proliferação de novos mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo violações. a indicação de serviços de aconselhamento ao Estado. a conveniência do sistema global com instrumentos do sistema regional de proteção. podendo. a adoção de uma resolução determinando que o Estado apresente informações ou até o requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso e adote eventuais sanções. Todos os instrumentos analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de proteção. à língua. Um bom exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do primeiro mecanismo temático. CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. a examinarem informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas violações de direitos humanos. as comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho sobre Situações. além da imposição de confidencialidade ao procedimento n. seja com relação aos textos convencionais. 1503. “na medida em que um número menor de Estados está envolvido. no sistema nãoconvencional. que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana. a depender da autorização do Estado no que se atém aos instrumentos internacionais de proteção. c) apontar um especialista independente. b) manter a situação sob análise. em mecanismos convencionais e não convencionais. foi criada a Convenção Européia de Direitos Humanos. em tese. que estabeleceu originariamente a Comissão e a Corte . Porém não há como se negar a evolução e eficácia dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. para que seja efetivada a proteção buscada. 1503 e iniciar um procedimento sob a Resolução n. há três críticas a serem efetuadas à Resolução n. O reconhecimento de vantagens a essa possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos casos. sendo certo que seu campo de incidência do aparato global não se limita a determinada região. o que oferece vantagens”. pela elaboração de recomendações e pela decisão de submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. segundo critérios de admissibilidade. pelo sistema interamericano. É este último grupo o responsável pela análise dos casos. Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de Direitos Humanos. atualmente. surge o sistema regional. por isso fala-se em sistema global e regional de proteção dos direitos humanos. europeu e africano de proteção aos direitos humanos. entre outras medidas. em que a única situação em que é excepcionado é na divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e dos que deixaram de ser analisados. à insuficiência de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. Muitas regiões são ainda homogêneas. como por exemplo a inexistência de comunicação individual em alguns sistemas de proteção convencional. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas. Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico próprio. seja quanto aos mecanismos de monitoramento. A segunda crítica é sobre o fato de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao exame de violações de direitos civis e políticos. um incipiente sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional asiático. O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste. o consenso político se torna mais facilitado. o relator especial transmite a apelação aos governos.

e de outro. em 1998. a plena realização dos direitos. que consiste na obrigação dos Estados-partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao competente órgão de controle o estado de seu direito interno em relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a prática que tem se verificado com respeito às situações compreendidas no tratado. assinado em 1969 e entrou em vigor em 1978. os informes anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos direitos humanos em distintos países. eventualmente. solicitar aos governos informações relativas às medidas por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção. Esta é uma conseqüência da primazia da norma mais favorável à vítima. Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção Americana. através do debate interno que eles proporcionam ou. concernente aos direitos sociais.Européia de Direitos Humanos. precisar e difundir a objetividade de uma situação. O mais incipiente é o sistema africano. O propósito da existência de distintos instrumentos jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a proteção aos direitos humanos. A principal função da Comissão Interamericana é promover a proteção dos direitos humanos na América. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as medidas legislativas e de outras naturezas enunciados. Além de se constituir em um método para determinar atos. Um governo possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção Americana. havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. o mesmo direito pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance regional ou global. a depender do caso. cultural ou econômico. a Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou um Protocolo Adicional à Convenção. Ante esse universo de instrumentos internacionais. Dos três. a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. ela assegura a um catálogo de direitos civis e políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Para tanto. . c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana. em relação aos direitos nela consagrado. progressivamente. a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela Convenção Americana. preparar estudos e relatórios que se mostrem necessários.. A Convenção Americana não enuncia de forma específica qualquer direito social. o que for mais favorável à vítima deve prevalecer”. cabo ao indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é mais favorável. Na explicação de Henry Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e regionais. Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o regional. elencam as resoluções adotadas com respeito a casos particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. que rege o sistema de proteção dos direitos humanos. econômicos e culturais.. enquanto o instrumento regional deve ir além. os informes da Comissão servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência de direitos humanos. já que África apresenta uma recente história de regimes opressivos e graves violações aos direitos humanos. b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de Direitos Humanos O instrumento mais importante no sistema internacional é a Convenção Americana de Direitos Humanos. mas sim complementares. como aos Estados membros da Organização dos Estados Americanos. apresentam o trabalho da Comissão. ante situações que afetem gravemente a vigência dos direitos humanos. Posteriormente. mediante a adoção de medidas legislativas e outras que se mostrem apropriadas. Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981. haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em princípios e valores. Os informes sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos pela própria Comissão. do debate internacional. A Comissão é composta por sete membros eleitos a título pessoal para um mandato de quatro anos. Ambos podem ser conciliados em uma base funcional. em que o sistema de informes é um método de controle regular. por isso deve ser aplicada a norma que no caso concreto que melhor proteja a vítima. os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país devem ser respeitados. também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. sendo criada posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. adicionando novos direitos. cabe à Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados membros. 3) quando os parâmetros conflitam. podendo ser reeleito apenas uma vez. A CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos direitos humanos em determinado país e outro que encaminha anualmente à Assembléia da OEA. pelo contrário. O instrumento global deve conter um parâmetro normativo mínimo. 2) os parâmetros dos direitos humanos que integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser também observados. e submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos. Os sistemas globais e regionais não são dicotômicos. Substancialmente. tendo em vista que. Teoricamente. “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. De um lado há a obrigação de não violar direitos e liberdades dos indivíduos. Ambos são úteis e complementares. prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos desses direitos. que estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos. levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma região ou entre uma região e outra. Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Apenas Estados membros da Organização dos Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. os informes são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. sem qualquer discriminação. cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades. superando essa obrigação negativa. A convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia. em relação aos direitos consagrados na Declaração Americana de 1948. aperfeiçoando outros. refletindo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. (. relatório produzido pela Commission to Study the Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional para a promoção e proteção dos direitos humanos não são necessariamente incompatíveis. limitando a determinar aos Estados que alcancem. “diversamente do que ocorre no âmbito universal. que é proclamada como um código comum a ser alcançado por todos os povos.) Por outro lado. vez que estabelece um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. no sistema interamericano. o sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente. O que importa é o grau de eficácia da proteção.

Na sua função consultiva. Caso. a qualquer membro da OEA. Por fim. Sendo caso de injustificada demora ou de a legislação interna não promover o devido processo legal. de acordo com César Sepúlveda. ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos. Após a análise dos requisitos de admissibilidade. Durante esse período. Além do que foi descrito. Um outro requisito de admissibilidade é a inexistência de litispendência internacional. aconselhando os governos a adotar medidas adequadas para promover os direitos humanos. ou ainda entidades não governamentais. decide reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações. eleitos a título pessoal. ela pode rejeitar o caso que. diversamente do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. a Corte tem desenvolvido. determinará a . a competência da Corte para o julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção que reconheçam tal jurisdição expressamente. A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na observância do contraditório. a Comissão poderá. Cabe ressaltar que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte reconhecer. dano uma maior tônica de juridicidade. pode solicitar o parecer da Corte em relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos. 44. Não sendo alcançado o acordo. não estando prevista a legitimação do indivíduo. quando um Governo. investigar o fato e assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. a Comissão julgará o mérito. a competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da Convenção. a Comissão. Observe-se que outra diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos direitos humanos consiste no fato de que a Convenção Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão para examinar essas comunicações. após a investigação. poderá emitir a sua própria opinião e conclusão. a Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões pertinentes ao caso e. sendo observado todos os casos de admissibilidade. em decorrência do resultado de um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame. o caso será submetido à Corte Interamericana. eventualmente. o prévio esgotamento dos recursos internos. o caso pode ser solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de Direitos Humanos. Em relação ao plano contencioso. sendo comunicado posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados Americanos para publicação. a mesma realiza as seguintes funções: a) conciliadora. que contenham denúncias de violação a direito consagrado pela Convenção. salvo no caso de injustificada demora processual. atual presidente da Comissão Interamericana. A Corte. entre um Governo e grupos sociais que vejam violados os direitos de seus membros. é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de admissibilidade. por maioria absoluta de votos. A Comissão Americana inverte o padrão tradicional. adotada em 1º de maio de 2001. como ocorre nos sistemas globais. “(. e toda vez que resulte necessário. ou no caso de a legislação doméstica não promover o devido processo legal. nunca deveria ter sido recebido. a Comissão examinar as alegações do peticionário. análises sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção Americana. Na lição de Thomas Buergenthal. em que o direito de petição individual é opcional e o procedimento da comunicação interestatal é obrigatório”. se a Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as recomendações do informe aprovado. que suspenda a sua ação e informe sobre os atos praticados. não se fazendo necessária a elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. tal decisão ficou mais vinculada. e) promotora. ou seja. Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão Interamericana. buscar informações do respectivo governo. em retrospecto. com o novo regulamento. é também competência da Comissão examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. em caso de extrema gravidade e urgência.. após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de admissibilidade não foi observado.. ao informar sobre a situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA. assim. contra o qual se tenha apresentado queixa. será elaborado um informe que será transmitido ao peticionário ao Estado-parte. Feito o exame do caso. Se durante esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte. não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. f) protetora. podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais.Conforme Hector Fix-Zamudio. Se alcançado o acordo. recomendações ao Estado-parte. por exemplo. caberia a comissão uma análise discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte Interamericana. salvo decisão da maioria absoluta dos membros da Comissão. Conforme ensina Thomas Buerguenthal. c) crítica. Porém. a mesma questão não pode estar pendente em outra instância internacional. quando além das atividades anteriores. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte Interamericana a adoção de medidas provisórias. reconhecendo que efetivamente ocorreu a violação. sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e contenciosa. A petição. mediante declaração expressa e específica. a Comissão decidirá por maioria absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas atividades. d) legitimadora. sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir as recomendações feitas. utilizado pela Convenção Européia por exemplo. a Comissão buscará uma solução amistosa. o “controle da convencionalidade das leis”. a fim de promover seu respeito. para evitar dano irreparável à pessoa. A Comissão fará as recomendações pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas providências. b) assessora. No plano consultivo. como. por iniciativa própria ou mediante petição da parte.). efetuando. na Convenção Interamericana não apenas as vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação. ainda. Também sob a forma de cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação interestatais. deve apresentar alguns requisitos de admissibilidade. intervém em casos urgentes para solicitar ao Governo. d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete juízes nacionais de Estados membros da OEA. em casos de gravidade e urgência. solicitar ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar danos irreparáveis. parte ou não da convenção. sendo certo que apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter um caso à Corte Interamericana. Vencido o prazo. embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a jurisdição da Corte para determinado caso. Observe-se que o encaminhamento à Corte só pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica. Se anteriormente. em matéria ainda não submetida à Corte. podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas e certas organizações não governamentais. em seu art. de acordo com as informações disponíveis.

em Porto Velho. embora recente a sua jurisprudência. que se desenha a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional dos direitos humanos. poderá atuar a pedido da Comissão. deflagrado no Brasil em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco jurídico. conquanto denunciados. com a adoção pelos Estados de legislação interna relativa à implementação das decisões internacionais em matéria de direitos humanos. O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional. faz-se necessárias algumas providências para uma maior avanço. as denúncias sobre ocorrência de violações de direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que cada bloco oferecia de si mesmo e. aceitando expressamente a legitimidade das preocupações internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às obrigações internacionalmente assumidas. o sistema interamericano está se consolidando como importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos. os problemas de direitos humanos. com recursos financeiros. Rondônia. Dentre os casos já decididos pela Corte. TERCEIRA PARTE O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Nesta terceira parte do livro. como o da África do Sul. A afirmação dos direitos humanos como tema global vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente entre a democracia. 37 internos haviam sido brutalmente assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. pode-se concluir que. da Constituição de 1988. Esses fatores implicaram um avanço significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações internacionalmente reconhecidas. III) Uma maior democratização do sistema. A própria Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de medidas nacionais e internacionais para promover a democracia. O processo de democratização não implicou apenas mudanças no âmbito interno. descumprir decisões internacionais. Ainda que crescente a justicialização do sistema. pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos submetidos à Corte Interamericana. Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. busca-se avaliar o modo como o Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o reforço do sistema de proteção de direitos no País. A Corte ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de internos. Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a importantes instrumentos internacionais de direitos humanos. em 1º de fevereiro de 1984. a Corte pode dispor de medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. Note-se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e obrigatória. hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros. passando assim a ser preocupação legítima da comunidade internacional. e IV) Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte. Com exceção dos casos mais gritantes. O marco inicial do processo de incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo direito brasileiro foi a ratificação. assim. destaca-se o caso do Presídio Urso Branco. a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização e a afirmação dos direitos humanos como tema global. bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos humanos. quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. proporcionar vantagens políticas ao lado adversário. Uma outra vertente do processo de democratização foi a crescente participação e mobilização da sociedade civil e de organizações não governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. 63 da Convenção. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a sua atuação. o desenvolvimento e os direitos humanos. Pelo art. Caso trate-se de caso ainda não submetido a seu conhecimento. a decisão valerá como título executivo. em particular. cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. II) Previsão de sanções aos Estados que de forma reiterada e sistemática. Se a Corte determinar uma compensação à vítima. Se a Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no processo de internacionalização dos direitos humanos.adoção de medidas que se façam necessárias para a restauração do direito violado. b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos Desde o processo de democratização do país e. da Convenção sobre a Eliminação de . tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades estratégicas das duas superpotências. promovido em face do Brasil. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país no contexto internacional. permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana. Neste caso. ainda. desenvolvimento e direitos humanos. Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. haverá uma concentração no período de democratização. Será analisada a forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna nacional e nela repercutem. o Brasil tem adotado importantes medidas em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à proteção dos direitos humanos. podendo. consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global. o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução. Note-se que a Convenção Americana de Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente aplicáveis. em conformidade com os procedimentos internos relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. As propostas são as seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da Comissão e da Corte. sendo utilizados pelos mais diversos atores sociais. É nesse cenário que o processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de afirmação dos direitos humanos como tema global. técnicos e administrativos suficientes. condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. Com a Guerra Fria. mas também na agenda internacional do Brasil.

cabe ao Estado brasileiro rever determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. que o Brasil elabore declaração específica aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações interestatais. entre elas uma profunda revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção dos direitos humanos. o que realça o caráter indivisível e inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a democracia e o desenvolvimento. Acrescente-se que. com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos humanos. é de acrescer o elevado grau de universalidade desses instrumentos. ainda. bem como para com a idéia da legitimidade das preocupações da comunidade internacional no tocante à matéria. o Brasil é o único a fazer tal declaração. evitar que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. Uma outra providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos. De todo modo. bem como a revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro quando ratificaram determinados tratados internacionais. que trouxe importantes inovações jurídicas. que faça da forma mais restritiva possível. se ainda assim. . até porque é uma situação anacrônica. a sistemática de petição individual e de comunicação interestatal no âmbito internacional. Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas efetuadas pelo Estado brasileiro. ainda. não foi objeto de qualquer declaração. o Brasil assume. como país respeitador dos direitos humanos. previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. que contam com significativa adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. mister a ratificação de outros tratados internacionais que ainda se encontram pendentes. c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas. O Brasil buscou. Por ela o Brasil entende que o sistema de inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos não é automático. que essas obrigações sejam fiscalizadas pela comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo órgão de supervisão internacional. Primeiramente. Assim. Em razão dessa interação. É importante. o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de proteção internacional dos direitos humanos. Em 1992 foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. ainda. administrativas e judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade internacional. foram de suma importância para a ratificação pelo estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições individuais como as comunicações interestatais relativas às Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis. Desumanos ou Degradantes. por sua vez. haja vista que a Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação Racial possui dispositivo semelhante e que. A própria Convenção de Viena de 1993 encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas e. a obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger. Por fim. Lembre-se que o Programa de Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação e o exame de comunicações. é preciso reavaliar a posição do Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes do sistema internacional de proteção. O Brasil deve. ainda. Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional. Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos. bem como ratificar o seu Protocolo Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a locais de detenção. o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por qualquer dos Estados. o universo de direitos fundamentais se expande e se completa. não se encontrar um acordo. no âmbito nacional. por exemplo. Sociais e Culturais. que a adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de globalização dos direitos humanos. A partir da Constituição de 1988. dos vinte e cinco países que ratificaram esta Convenção. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa declaração. a partir da conjugação dos sistemas nacional e internacional de proteção aos direitos humanos. Além das inovações constitucionais. enviar aos competentes órgãos internacionais os relatórios pertinentes às medidas legislativas. perante a comunidade internacional. A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção de providências adicionais pelo Brasil. mas sim dependente de uma expressa autorização do Governo. Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de Direitos Humanos. em caso de disputa entre dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da Convenção. um núcleo de direitos básicos. Sendo assim. bem como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. ainda que em situação de emergência. a necessidade do Brasil de reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente com as transformações internas decorrentes do processo de democratização. Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio alcance do termo “cidadania”. mediante a declaração feita.todas as formas de Discriminação contra a Mulher. com o objetivo de prevenir a prática de tortura. Aceita. haja vista que. além dos direitos e garantias assegurados pela Constituição. principalmente no que tange ao primado da prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das relações internacionais. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a solução do caso. os indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados internacionalmente. de modo a habilitar o Comitê de Direitos Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. é importante que o Brasil ratifique o Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. a incorporação de tratados internacionais de proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou. há a necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos. O Brasil aceitou a competência da Corte Internacional de Justiça. se não for solucionado mediante negociação a questão será submetida à arbitragem e. Além da eliminação das reservas. no âmbito do sistema global das Nações Unidas. Depois desse vários outros se seguiram. quando formulá-las. Adicione-se. que estabelecem. a reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. O Brasil declarou não estar submetido à cláusula que estabelece que.

o Brasil ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. A inexistência da tipificação autônoma importou em descumprimento de obrigação assumida internacionalmente. previsto pelo Estatuto de Roma. A omissão estatal viola obrigação jurídica assumida no âmbito internacional. sem demora. de tipificação do crime de tortura. XLIII. em que um Estado-parte alegue que outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela Convenção. Deste modo. de modo a reconhecer a competência do respectivo Comitê para examinar petições individuais. Além das providências supramencionadas. Por esses motivos é que o estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. o que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos humanos internacionalmente assegurados. punir e erradicar a violência contra a mulher. a omissão do legislador constituiu violação tanto ao comando constitucional como à Convenção Internacional contra a Tortura. até abril de 1997. ratificada pelo Brasil em 1989. mas também no internacional. dispensando-se qualquer declaração expressa por parte do Estado-parte. desde junho de 2002. que definiu o crime de tortura. a falta. a responsabilidade pelas violações são da União. Atente-se que o Brasil. importando em responsabilização do Estado. todas as medidas apontadas mostram-se essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos direitos humanos no âmbito interno brasileiro. o Brasil assumiu que. até o presente momento. O preenchimento dessa lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 9. quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos violados. que junho em 2002. até porque. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir. Foram dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos direitos humanos. que prevê que a lei considerará a prática de tortura como crime inafiançável e insuscetível de graça e anistia. até a presente data. foi a aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional Criminal Permanente.455/97. exceto quando fosse em relação à criança ou adolescente. o Brasil não reconhece a competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições individuais. mister que o Estado brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados nos tratados de que o Brasil é parte. por meio da qual os atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle dos órgãos internacionais de proteção. devendo ter aplicabilidade imediata.Ressalte-se. e ratificado pelo Brasil em 2002. Tendo em vista que o reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente. Para tanto. o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência no posicionamento do Brasil. ainda. As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada do sistema de proteção dos direitos humanos. caracterizadora de violação à Convenção contra a Tortura. a democratização implica transformação não apenas no plano interno. até a presente data não consta qualquer caso contra o Brasil pendente de apreciação. verifica-se. bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter casos à ela. 5º. o que caracteriza violação ao dispositivo internacional. atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em relação à prevenção. De acordo com o direito internacional. Como já se ressaltou. que ocorreu em 1998. Viola ainda a própria Constituição Federal. além da omissão importar. em violação à própria Constituição. que no seu art. Tão relevante quanto o reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana. um número reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana. quando os a atuação do Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo direito. 5º. iria incluir em sua legislação normas penais. porém. cabo ao Estado brasileiro elaborar a declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar comunicações interestatais. nem acolheu os procedimentos facultativos constantes da Convenção contra Tortura. civis e administrativas necessárias para prevenir. pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos Civis e Políticos. que dispõe de personalidade jurídica na ordem internacional. serão apresentados os casos submetidos à apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A título de exemplo. O binômio democracia e direitos humanos se faz premente na experiência brasileira. a Comissão é relevante instância internacional competente para examinar petições individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do sistema interamericano. insta ressaltar que foi exatamente a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX Convenção Internacional Americana. No âmbito do sistema regional. ocorria em Bogotá no ano de 1948. Nesse sentido os princípio federativo e a separação dos poderes não podem ser . em 1998. como já abordado. não houve a elaboração de tal legislação. Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos. Como já mencionado anteriormente. combate e erradicação da violência contra a mulher. CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS A) Introdução. o Estado membro ao ratificar a Convenção Americana aceita automaticamente a competência da Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de preceito constante na Convenção. na medida em que esses direitos e liberdades foram incorporados ao Texto Constitucional. em 1998. Diante desse quadro. especialmente no momento em que se intensifica o processo de globalização dos direitos humanos. Essa opção deveu-se ao fato de que. Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil. tendo em vista que o projeto democrático está absolutamente condicionado à garantia dos direitos humanos. No entanto. Logo. Embora o Brasil. ilustrou grave caso de omissão do Estado brasileiro. Punir e Erradicar a Violência contra Mulher. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. §2º da CF. tenha ratificado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Preconceito Racial. por força do art. para o Brasil. reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana.

da comunidade Yanomami. paradoxamente. relativo à violação dos direitos dos povos indígenas no Brasil. Importa salientar. lideranças da Igreja Católica. Os 78 casos foram classificados de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. referente ao assassinato de 104 pessoas em 1973. 4) violência policial. nas hipóteses de grave violação a direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil. particularmente. em face da sistemática até então vigente. 1) Casos de detenção arbitrária. Com a federalização dos crimes de direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à impunidade desses crimes. Este caso se distingue dos demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não governamentais de âmbito . “exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em determinadas circunstâncias”. que de alguma forma apresentaram resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos é adicional e subsidiário e. exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”. Todavia. sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena Macuxi em uma delegacia em Roraima. A Comissão recomendou que o Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram efetivamente cometidos. o segundo tratava da detenção arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte. Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia. e o terceiro comunicava a existência de pelo menos 12. Contudo. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar. Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação. aumenta a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade das graves violações aos direitos humanos. há casos que já foram apreciados pela Comissão. sendo os respectivos relatórios publicados no relatório anual da Comissão. entre outros). Os fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de um padre em Recife em 1970. e 8) violência contra defensores de direitos humanos. que foi submetido no ano de 1997. os outros oito casos foram submetidos à Comissão entre o período de 1973 a 1974. que apontavam à prática autoritária do regime militar. 6) violência contra a mulher. que foram privadas de sua liberdade”. líderes de trabalhadores. abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos. A partir dessa resposta a Comissão decidiu publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao Governo brasileiro. não se verificando qualquer caso no qual a petição foi submetida por organização não governamental. em 1970. sendo certo que desse universo. tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar Do total dos 78 casos. as vítimas eram professores universitários. processa e punir violação pela qual estará internacionalmente convocada a responder. A comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos fatos por ela denunciados. apenas dois casos apontam responsabilidade direita da União. A prática permitirá que tais lacunas sejam gradativamente preenchidas. é há aqueles – a maioria – que estão pendentes perante a comissão Interamericana. 10 envolvem denúncias de detenção arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar. ainda. sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 1974. uma vez mais. denunciando a prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. Primeiramente. que foram privadas de sua liberdade. Além do Caso 1684. entretanto. Constata-se que nesses nove casos. Por maioria de votos a Comissão aprovou a Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de tortura. ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam. com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos Estados. entre outros. em qualquer fase do inquérito ou do processo. além do que. ao mesmo tempo que detém a responsabilidade internacional. 5) violação dos direitos da criança e do adolescente. A federalização. e o caso 1835. a federalização encoraja firme atuação dos Estados.invocados para afastar a responsabilidade da União em relação à violação das obrigações assumidas no âmbito internacional. O novo mecanismo permite ao Procurador-Geral da República. já era vista como meta do Programa Nacional de Direitos Humanos desde 1996. a União. 3) violência rural. optou por não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e recomendações. em 1980. sendo os mais contundentes o caso 1788. requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da competência do caso para as instâncias federais. Todos denunciaram a prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime militar. que na época era território federal. Adicionou. 2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas Também de grande impacto foi o caso 7615. sob o risco de deslocamento de competência. pressupõe o esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento. sem sucessos. A federalização dos crimes contra os direitos humanos. obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 vítimas. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou grupos de indivíduos.000 presos políticos. Diante desse quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos humanos. Desse total. introduzida pela EC 45/2004. 2) violação dos direitos indígenas. “assegurar o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de direitos humanos”. b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 1970 a 2004. ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos. Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram demasiadamente frágeis. Considerando que na época o Brasil não era signatário da Convenção Americana. 7) discriminação racial. reiterando que as provas coletadas no Caso 1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de tortura. nesse sentido. merece destaque o caso 1684. que denuncia a detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. Segundo Louis Henkin. acerca do qual três comunicações foram enviadas à Comissão. solicitando ainda informações sobre o resultado das investigações. que o Brasil se recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por militares ou autoridades policiais. Dentre os casos. já que não dispõe da competência de investigar. não é responsável em âmbito nacional. todas essas ações foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem.

O caso 11405 envolve situação de conflito no campo. por completo. na há como tecer comentários mais aprofundados. cabe ressaltar que as pressões internacionais contribuíram para a adoção de Lei 9. Cabe notar que os casos foram submetidos á Comissão Interamericana por organizações não governamentais de direitos humanos. que corresponderia ao território desses índios. a insuficiência de resposta por parte do governo brasileiro. o Governo brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do Amazonas para os povos Yanomamis. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis. e do direito à preservação da saúde e bem-estar”. Considerando que até 1994 não houve punição dos responsáveis. presidente dos Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. Denunciam. ou mesmo a inexistência de qualquer resposta. cabe observar que os casos foram encaminhados à Comissão Interamericana por organizações não governamentais de âmbito nacional e internacional. que implica o assassinato. à integridade e à justiça.000. 34 são relativos a violência policial. no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos direitos fundamentais dos Yanomamis. Com respeito à obrigação de investigar. Houve o pagamento de indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. à segurança. ainda. à segurança. à liberdade. Em 1982. O povo Yanomami. Como os casos ainda encontram-se pendentes. em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios Yanomamis. levaram o caso à Comissão. e por isso sob o regime de confidencialidade. ao reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia sido afrontados pelo Governo do Brasil. pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas sujeitas à jurisdição. à saúde e bem-estar. os indígenas estavam sendo impelidos a abandonarem suas terras. a plenitude de seus direitos. cinco trabalhadores foram assassinados e dois sofreram lesões corporais. 13 envolvem situações de violência rural. Em 1984. bem como indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não tenha ocorrido.internacional contra o Brasil. sendo que a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. todos ocorridos a partir de 1982. sob pressão internacional. Nesta denúncia. foi submetido à Comissão Interamericana o caso 11745. assegurada pelo fato de os agentes militares serem julgados por seus pares. seus direitos civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos índios e suas terras. Esses fatos. Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no Estado do Pará. Os peticionários querem a condenação do Brasil em razão da . em virtude do abuso e violência da polícia militar. decidiu a Corte Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma violação permaneça impune. Primeiramente. que denunciou a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. Recomendou. Em março de 1998 a Comissão Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso. Diante desse quadro. à educação. foi levado o caso à Comissão interamericana. em face de punição dos responsáveis pelas violações cometidas. do direito à residência e ao movimento. O caso 12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no Estado do Pará. o que estava a levar a extinção daquela comunidade. A impunidade viola o dever de garantir.000 a 12. ainda. Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos casos de violência da polícia militar. Enfatize-se que a maioria dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o assassinato de pessoas inocentes. o livre exercício do direito afetado. a Comissão Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para declarar que. os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial. no âmbito da Justiça Militar. A comunicação dos peticionários resultou no pedido de informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil. não restaurando à vítima. condenando o Brasil pela violação dos direitos à vida. 3) Casos de violência rural Dos 78 casos. o esgotamento dos recursos internos. à liberdade. O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto. afirmaram que os direitos dessas populações à vida. Devido ao plano do Governo de explorar economicamente a região. Com a ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores. de vítimas inocentes. cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro de suas obrigações internacionais. Sob a acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos dos demais trabalhadores rurais. por vezes adolescentes. doenças e mortes com a destruição de centenas de índios. expediu-se um decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios Yanomais”. no Estado do Pará. em 1989. em razão da insuficiência da resposta governamental no sentido de punir os culpados – a investigação criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – caracterizando-se. Em todos os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas. a fim de que os responsáveis sejam devidamente processados. Todos os casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos Humanos. com uma população de 10. deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples gestão de interesses particulares. o estudo se limitará a um breve relato destes casos. assim.299/96 que transferiu para a Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida cometidos por policiais militares. com a recomendação de que o Brasil confira maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso. que depende da iniciativa processual da vítima ou de seus familiares. pois a devastação deixou seqüelas físicas e psicológicas. no período entre 1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras dos Yanomamis. o que foi efetuado pelo Estado do Pará. ratificanda pelo Brasil em 1992. sem justificativa. sem que a autoridade pública busque efetivamente a verdade”. Pelos denunciantes. Como os casos pendentes são processados em regime de confidência. Além do caso 7615. A respeito. proteção médica e integração social dos Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas em cumprimento às recomendações. 4) Casos de violência policial Do universo de 78 casos. caracteriza-se a violação dos seguintes direitos reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem: o direito à vida. procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”. onde foi solucionado o caso de em acordo amistoso. conduzisse programas de educação. que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor dos familiares da vítima. Nessas situações se reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades policiais responsáveis. um foi seqüestrado e pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir. à segurança. À luz dessas considerações. Em todos os 34 casos. à liberdade. viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas e de Roraima.

compleição física e gravidade da infração. primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela envolvidos. marcado pela violência e abuso sexual. . Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão específico de violência que alcança as mulheres. entre nove e catorze anos. à superlotação e às condições subumanas a que são submetidos. os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos emasculados no Marahão”. Já o terceiro caso denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz. e. entendeu por encaminhar o caso à Corte. em face da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que negou direito à licença gestante à mãe adotiva. por grupo de extermínio. o que resultou no envio do caso à Comissão. Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil. Em um único caso a denúncia foi encaminhada por entidades não governamentais. culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. e o outro concernente ao processo de transição democrática. bem como no pagamento de indenização à vítima pelos danos sofridos. defensores de direitos humanos são todos os indivíduos. 3 denunciam a violência contra a mulher. processar e punir os agentes responsáveis. será analisado quem são os proponentes das denúncias. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. vítimas de espancamentos. As mudanças ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Além desses três casos. No período de 1991 a 2001. De pronto. que seja recomendado ao Brasil que proceda investigação na apuração dos fatos. no Estado do Maranhão. bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. 5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e adolescente. 100% dos casos foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa dos direitos humanos. em São Paulo. Requere. advogado do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Natal. Trata-se da violência baseada no gênero. dano ou sofrimento físico. grupos e órgãos da sociedade que promovem e protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentais universalmente reconhecidas. Recomenda-se. Contudo. O primeiro é o da “Candelária”. adotar-se-á como critério a demarcação de dois períodos na história política brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no período de 1964 a 1985. assegurados pela Convenção Americana. Os peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos dispostos na Convenção Americana. sendo certo que em um culminou com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a paraplegia da vítima. deflagrado a partir de 1985. processados e punidos. para que os responsáveis sejam investigados. Na mesma direção aponta o terceiro caso. pela atuação conjunta dessas entidades. em que crianças e adolescentes têm sido vítimas de asassinato.afronta ao direito á vida. com o fim da impunidade. dezenove meninos. maus tratos e violência sexual. por duas vezes a licença foi indeferida. Segunda a denúncia. em razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela imunidade parlamentar. observa-se que durante o regime militar. Em ambos os casos os autores encontram-se em liberdade. tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. Considerando-se a demarcação dos dois distintos períodos. só poderia ser processado com a prévia licença da Assembléia Legislativa do Estado. Embora esse padrão específico de violência seja distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera pública). assim. seja na esfera pública seja na esfera privada. em janeiro de 2005. merece menção a denúncia de discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos. relativo ao processo de democratização. no qual oito crianças e adolescente foram encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. A petição alega que os responsáveis são policiais militares. sem terem cumprido qualquer pena. de 1964 a 1985. capaz de causar morte. 7) Casos de Discriminação Racial Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o Brasil. c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos Para a análise do quadro de ações internacionais. os casos se assemelham aos demais casos na medida em que. de âmbito nacional ou internacional. acentuado o dever do Estado investigar. dois denunciam a violência por parte de companheiros contra a mulher. sem qualquer discriminação. à integridade pessoal. Por fim. apresentando como fundamento central a violação à Convenção Interamericana para Prevenir. os que merecem relevância cinco casos. o advogado tinha destacada atuação em defesa das vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério Público nos processos que examinavam possíveis atuações de grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Norte. por vezes. que o domínio do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a direitos humanos. Destaca-se o assassinato de Gilson Nogueira Carvalho. requerem o combate à impunidade. tornando públicas as providências tomadas para prevenir futuras discriminações. Atente-se para o fato de que a Comissão Interamericana. do mesmo modo. Já no segundo período. diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté. 8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos Para este trabalho. foram vítimas dessa grave violação. às garantias judiciais. 90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por indivíduos ou grupos de indivíduos. O segundo refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do Estado do Rio de Janeiro. 6) Casos de Violência contra a Mulher Dos 78 casos. sexual ou psicológico à mulher. Apontam como irregularidades a separação dos adolescentes por critério de idade. Desses três casos. ainda. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade física dos adolescentes.

ao Congresso Nacional de projeto de lei tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios adequados de tramitação nas instâncias judiciais.Estes dados. foi essencial para a aprovação da Lei 10. a população negra. ainda. que culminou na condenação do Brasil por violência doméstica. estudantes. as vítimas. estimulou e propiciou a propositura de ações internacionais junto à Comissão Interamericana. pelo Poder Executivo. Não mais pelo critério político. A diferença da violência policial do primeiro período para a violência policial do segundo. seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. examinar quem são as vítimas dessas violências. Ao dos 34 casos de violência policial no período de democratização. as mulheres. Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos oferece importantes estratégias de ação. contribuíram para a adoção do Programa Nacional para a Erradicação do trabalho Escravo. jurídicas – parecer ser a mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos humanos e da cidadania. especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados por policiais militares. agora. quais os direitos que são violados segundo essas denúncias. sociais. Já no período de 1992 a 2004. V) os casos de violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Já no período de democratização. 87% dos casos examinados. definitivamente. quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. constata-se que a ratificação da Convenção Americana foi um fator que. enquanto um caso envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. relativo ao processo de democratização. potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção dos direitos humanos no Brasil. políticas. Tanto o processo de liberalização do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil. Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa. integrantes da classe média brasileira. já no segundo a violência policial foram 50% dos casos. nacionais e internacionais. Verificou-se. e VI) os casos envolvendo violência rural e trabalho escravo. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de direitos humanos e de contra lideranças rurais. dos dez casos apreciados. 3 são denúncia contra a mulher. que não consegue ser controlada pelo aparelhamento estatal. observa-se que os demais 34 casos são violações aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos socialmente vulneráveis. não se verifica a punição dos responsáveis. dos 68 casos analisados. pode-se extrair que no primeiro período. seja no primeiro ou no segundo período. Dessa análise. em geral. A experiência revela que a ação internacional tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos humanos. ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no Brasil. que estendeu o direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos. nove denunciam a detenção arbitrária e tortura ocorridas durante o regime autoritário militar. o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros. todos. e um menciona violação aos direitos da população indígena. 90% dos casos denunciaram violência policial. foram fundamentais para a adoção da Lei 9. com o qual se conjuga um componente sócio-político. economistas e outros profissionais. Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão Interamericana. ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos direitos humanos. líderes de trabalhadores. e. haja vista que. é que no regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente por ação do regime autoritário. ilustram a dinâmica da relação entre o processo de democratização do país e a maior articulação e organização da sociedade civil. sendo ainda incipiente a apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos econômicos. por caracterizar-se pela permanência. no processo de democratização o padrão de conflituosidade se orienta por outro critério.421/2002. em 90% dos casos as vítimas eram líderes da Igreja Católica. vendedores. Após a análise de quais são os proponentes das denúncias. mas pessoas pores. motivou o encaminhamento. No período do regime autoritário militar. II) O caso do assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m que restringe a imunidade parlamentar no Brasil. nesse sentido. Nesse sentido as vítimas. 13 revelam violência rural. 5 referem-se à violação ao direitos da criança e adolescente. como os povos indígenas. I) os casos de violência policial. No entanto. Também notável é perceber. apresentando como reminiscência um padrão de violência sistemática praticada pela polícia. a configurar o requisito do prévio esgotamento dos recursos internos. cabe a demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das litigâncias internacionais. enseja a denúncia dessas violações de direitos perante a Comissão Interamericana. que determinou a transferência da competência da Justiça Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos contra vida praticados por policiais militares. Tal como no regime militar. Pela análise das datas das proposituras das denúncias. Mister analisar. III) o caso envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus respectivos filhos. aqueles que eram acusados de oferecer resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos por razões de natureza política. culturais. A título ilustrativo. a violência estrutural – a que reside na estrutura econômicas. as vítimas podem ser consideradas socialmente pobres. apenas 11 casos foram impetrado contra o Brasil. sem qualquer liderança destacada. passa-se a analisar. Já no segundo período. verifica-se que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais internacionais. tortura. referem-se à violação de direitos civis e/ou políticos. mediante a advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. pela profundidade e extensão de seu alcance”. por não ser capaz de deter os abusos de seus agentes. IV) o caso Maria Penha de Maia Fernandes. que os instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de atuação para as organizações não governamentais. advogados. professores universitários. sociais e culturais. Se no período de autoritarismo militar. em face da decisão definitiva do STF que negou o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade. mas sim pelo critério econômico. o que oferece o risco do constrangimento político e moral ao estado violador. agora. No segundo período. a sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação Estatal. por si sós. o impacto da litigância internacional na mudança no âmbito interno. lesões corporais. 34 envolvem violência policial. o importante papel assumido pelas organizações não governamentais no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos. Considerando o primeiro período. Esses dados comprova que a democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em absoluto com as práticas autoritárias do regime militar. não são mais dos setores da classe média. foram 67 as proposituras. via de regra. as crianças e os adolescentes. no período de 1970 a 1992. por vezes excluídas socialmente e integrantes de grupos sociais vulneráveis. Dessa estatística.299/96. mas sim como uma omissão do Estado. um discriminação racial e mais seis violência contra defensores de direitos humanos. surge como significado fator para a proteção dos . para quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis podem aparecer como homicídios. A insuficiência ou até mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é fator que. a partir da democratização. Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos violados.

novos sujeitos de direito passa a participar da arena internacional. para o modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira. Um exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. por meio da ampliação e do reforço do universo de direitos fundamentais por ele assegurados. impondo a flexibilização e relativização desses valores. a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e promoção de direitos fundamentais. Atentouse. independentemente do quorum de sua aprovação. ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. Na medida em que guardem relação direta com os instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. o que implicou os processos de universalização e internacionalização desses interesses. considerando a experiência brasileira. isto é. ao enfrentar a publicidade e a pressão internacional. 5º. que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro aplicável aos tratados internacionais tradicionais. como também de âmbito geral e específico. essa ratificação permitiu o fortalecimento do processo democrático. Esse processo possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos direitos humanos. com o intenso desenvolvimento das organizações não governamentais. como parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno constitucional. com base em toda a análise desenvolvida. os tratados internacionais de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados às emendas à Constituição. o Estado é praticamente compelido a apresentar justificativas às suas práticas. Ao acolher o aparato internacional de proteção. Por força do art. Como foi demonstrado. já que. o Estado passa a aceitar o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são respeitados em seu território.direitos humanos. A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da própria Constituição. vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados ratificados. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. É tema de legítima preocupação e interesse da comunidade internacional. interagindo como sistema nacional. uma das principais preocupações do movimento foi converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do processo de democratização. O Texto democrático inova em relação às demais constituições quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos tratados internacionais de direitos humanos. Enfatize-se que a Constituição de 1988. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004). a partir de articuladas e competentes estratégias de litigância. adicione-se também o fato de o processo de globalização ter implicado a abertura da Constituição à normatização . que permita maior atuação de indivíduos e de entidades não governamentais. Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados instituições internacionais. por sua vez. cabe ao sujeito o acionamento direto de mecanismos internacionais. As transformações decorrentes do movimento de internacionalização dos direitos humanos contribuíram. como resposta às atrocidades cometidas durante o nazismo. constatou-se a dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos humanos. se o processo de democratização permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de direitos humanos. Já em favor da natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados internacionais. marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática no país. CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL Neste último capítulo. até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. compondo o bloco de constitucionalidade. passam a integrar o Texto Constitucional. esses sistemas se complementam. como a soberania nacional e a não-intervenção. de âmbito global e regional. sendo sempre a ação internacional uma ação suplementar. ao reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos. tendo em vista que. iniciado em 1985. Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos sistema internacional de proteção dos direitos humanos e. Nessa condição. Tais processos levaram à normatização internacional de proteção aos direitos humanos. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. complementando e integrando o elenco dos direitos internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos. ainda. propiciando a “constitucionalização formal” dos tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. pode-se afirmar que. exige nova interpretação de princípios tradicionais. vindo a contribuir para reformas internas. § 2º da CF. como os indivíduos e as organizações não governamentais. o direito internacional de direitos humanos é um movimento extremamente recente na história. são materialmente constitucionais. Se a prevalência dos direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário internacional. Neste sentido. que hão de alcançar a maior carga de efetividade possível. bem como as obrigações internacionais dele decorrentes. surgindo no pós-guerra. Adotando a primazia da pessoa humana. Enfim. No Brasil. especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais. todos os tratados internacionais de direitos humanos. assim. conclui-se que se admite a concepção de que os direitos humanos é tema global para a CF/88. Conclui-se. Nesse sentido. Nesta hipótese. mediante a legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais. os instrumentos internacionais constituem poderoso mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção dos direitos humanos no âmbito nacional. para o processo de democratização do próprio cenário internacional. ao mesmo tempo. importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto. além do Estado. particularmente das normas concernentes a direitos e garantias fundamentais. contudo importantes medidas ainda necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a plena vigência dos direitos humanos. O sistema internacional institui mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos fundamentais. de modo que possam prover um espaço participativo mais eficaz. Ademais.

tem sido capaz de propor relevantes ações internacionais. assim. importante estratégia para o fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos humanos. o grau de proteção dos direitos consagrados no plano normativo constitucional. No momento em que tais violações são submetidas à arena internacional. todos esses argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime constitucional privilegiado. ainda. acrescente-se que os direitos internacionais. Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos Humanos no Direito brasileiro. por vezes. um sensível avanço na forma pela qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. conferido aos tratados de proteção de direitos humanos. invocando a atenção da comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves casos de violação de direitos humanos. permitindo. Diante da publicidade casos de violação de direitos humanos e de pressões internacionais. portanto. ampliado. A ação internacional constitui. a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos internacionais. Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos Humanos. jamais a restringir ou deliberar. elas se tornam mais visíveis. o que tende a implicar alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos humanos. embora seja incipiente no Brasil.internacional. mas também direitos internacionalmente anunciados. Em suma. que assegura a prevalência da norma que melhor e mais eficazmente proteja os direitos humanos. na medida em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano nacional. Tal abertura acarreta a incorporação de preceitos ao bloco de constitucionalidade. A sistemática internacional de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas garantias de natureza internacional. por força do princípio da norma mais favorável à vítima. o Direito Internacional de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. salientes e públicas. nacional e internacional assegurados. Hoje se pode afirmar que a realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. . a permitir a tutela. O conceito de cidadania se vê. Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do extenso universo de direitos que assegura. o Estado se vê “compelido” a prover justificativas. A sistemática internacional de proteção vem. apenas vêm a aprimorara e fortalecer.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->