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O FUTEBOL ENTRE O PASSADO E O PRESENTE

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A maneira como o futebol tem sido representado no jornalismo esportivo brasileiro é o tema da presente monografia. Para tanto, o estudo partiu da constatação de que as referências ao passado são recorrentes quando o futebol é objeto de textos jornalísticos, particularmente as crônicas esportivas. Assim, buscou-se verificar o tratamento nostálgico dado ao esporte pelo jornalista Armando Nogueira, expoente brasileiro nessa área, nas crônicas publicadas em seu livro A Ginga e o Jogo (2003), uma coletânea de textos escritos ao longo de sua carreira.
A maneira como o futebol tem sido representado no jornalismo esportivo brasileiro é o tema da presente monografia. Para tanto, o estudo partiu da constatação de que as referências ao passado são recorrentes quando o futebol é objeto de textos jornalísticos, particularmente as crônicas esportivas. Assim, buscou-se verificar o tratamento nostálgico dado ao esporte pelo jornalista Armando Nogueira, expoente brasileiro nessa área, nas crônicas publicadas em seu livro A Ginga e o Jogo (2003), uma coletânea de textos escritos ao longo de sua carreira.

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06/13/2013

David Maia Rocha

O FUTEBOL ENTRE O PASSADO E O PRESENTE
análise das crônicas de Armando Nogueira quanto à glorificação ao futebol do passado

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

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David Maia Rocha

PASSADO E O PRESENTE
análise das crônicas de Armando Nogueira quanto à glorificação ao futebol do passado
Monografia apresentada ao Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à obtenção do título de bacharel em Comunicação Social, com habilitação Jornalismo. Orientadora: Cristina Leite

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2011

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EPÍGRAFE

“Se Pelé não fosse gente tinha nascido bola” (ARMANDO NOGUEIRA).

4 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................. 5 2 O FUTEBOL NO BRASIL E O JORNALISMO ESPORTIVO ............................................................................................................................................. 08 2.1 O surgimento do esporte no Brasil ............................................................................................................................................. 08 2.2 O futebol como característica identitária do Brasil ............................................................................................................................................. 14 2.3 O jornalismo esportivo no Brasil ............................................................................................................................................. 17 3 A Crônica Esportiva no Brasil ............................................................................................................................................. 24 3.1 Principais representante da crônica esportiva no Brasil ............................................................................................................................................. 24 3.2 Nostalgia na crônica esportiva brasileira ............................................................................................................................................. 27 3.3 Os primeiros craques do Brasil ............................................................................................................................................. 28 3.4 A crônica como gênero jornalístico ............................................................................................................................................. 31 4 ANÁLISE DAS CRÔNICAS DE ARMANDO NOGUEIRA ............................................................................................................................................. 33 4.1 Metodologia de pesquisa ............................................................................................................................................. 33 4.2 Análise das crônicas ............................................................................................................................................. 34 5 CONCLUSÃO

5 ............................................................................................................................................. 42 Referências bibliográficas ............................................................................................................................................. 44

INTRODUÇÃO A maneira como o futebol tem sido representado no jornalismo esportivo brasileiro é o tema da presente monografia. Para tanto, o estudo partiu da constatação de que as referências ao passado são recorrentes quando o futebol é objeto de textos jornalísticos, particularmente as crônicas esportivas. Assim, buscou-se verificar o tratamento nostálgico dado ao esporte pelo jornalista Armando Nogueira, expoente brasileiro nessa área, nas crônicas publicadas em seu livro A Ginga e o Jogo (2003), uma coletânea de textos escritos ao longo de sua carreira. Conforme brevemente exposto, podemos verificar no jornalismo dedicado ao futebol uma característica marcante e que o acompanha desde os primórdios no Brasil: a nostalgia. Não é difícil encontrar um jornalista comentando na televisão, opinando no

6 rádio ou escrevendo nos jornais e revistas sobre a superioridade do futebol praticado no passado em relação ao presente momento. Acreditamos que esta pesquisa possui relevância para o campo da Comunicação Social e para a prática do jornalismo esportivo, uma vez que, ao verificar as representações do futebol nas crônicas escolhidas, obteremos indícios sobre a evolução social desse esporte, reafirmando a importância do jornalismo como referência para o acompanhamento e compreensão das mudanças sociais gerais. Podemos lembrar também que, dada a importância do futebol na sociedade brasileira, as pesquisas ligadas ao jornalismo esportivo tornam-se importantes, já que essa especialidade jornalística representa um campo de trabalho extremamente amplo para os profissionais de comunicação. Muitos dizem que o Brasil é o país do futebol ou que os melhores jogadores saíram daqui. Não há como separar o futebol da imagem do povo brasileiro. Com certeza, as cinco conquistas da Copa do Mundo, contribuíram para consolidar mundialmente essa imagem. O espaço dado à cobertura jornalística do futebol afirma essa importância. Dentro da cobertura jornalística esportiva, o profissional de comunicação tem a possibilidade de trabalhar com um texto mais opinativo e literário, principalmente através da crônica. A escolha de Armando Nogueira se deu pelo fato dele ter sido um dos primeiros cronistas esportivos do país e ser reconhecidamente uma referência na crônica esportiva nacional. Da Copa do Mundo de 1950 ao seu último mundial como cronista esportivo, em 2002, Armando Nogueira testemunhou as grandes conquistas e decepções do futebol brasileiro. Como o objetivo do trabalho foi verificar as referências ao futebol brasileiro do passado, o critério para seleção das crônicas foi intencional, privilegiando os textos das décadas de 1990 e 2000, por falarem do futebol mais atual, em comparação àquele dos primeiros tempos. Em uma observação empírica preliminar pudemos observar na imprensa esportiva brasileira, em todos os tempos, a emissão de juízos de valor e de julgamento do futebol atual a partir das referências ao passado, identificado como “futebol-arte”. Outro ícone

7 da crônica esportiva do país, Nelson Rodrigues, muitas vezes criticou jornalistas esportivos, comentaristas e até mesmo torcedores por exaltarem o futebol do passado. O saudosismo daquele futebol considerado arte genuína e que teria emergido da mistura de um povo simples e alegre é, repetidamente, ativado e renovado em nossa memória. O brasileiro quer sempre um novo Pelé ou então uma seleção tão competitiva e dominante como a de 1970. O presente e o passado do futebol coexistem nas narrativas que constroem a mitologia deste esporte, principalmente no Brasil. Os jornalistas e torcedores brasileiros costumam relembrar e comparar os feitos do passado de times e jogadores, como por exemplo, a Seleção de 1970, o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Flamengo de Zico, o milésimo gol de Pelé etc. E muitas vezes citam esses exemplos para falar e descrever o futebol do presente. Os craques de 1970 e alguns jogadores de outras gerações são acionados pelos jornais para recriar a imagem do “futebol-arte”. As imagens veiculadas remetem à ginga, à improvisação e aos dribles, como uma forma totalmente particular de se jogar futebol. Não é difícil encontrar uma crônica ou uma notícia qualquer ressaltando a qualidade técnica dos jogadores do passado. No rádio ou em programa da TV essa questão também é levantada e os comentaristas observam a diferença técnica entre o futebol do passado e o praticado no presente. Para eles, o futebol do passado é clássico e centrado nos valores individuais, enquanto que o praticado no presente privilegia a força física e o conjunto; o antigo “amor à camisa” também é contraposto aos interesses financeiros e à transformação do futebol em negócio lucrativo. O primeiro capítulo deste trabalho compreende o surgimento do futebol em nosso país e o seu desenvolvimento, assim como a relevância desse esporte e a sua importância na cultura brasileira. Em função dessa relevância, tratamos no segundo capítulo da presença do futebol no jornalismo impresso; das origens do saudosismo do futebol no Brasil e da criação da mitologia desse esporte no país, com seus primeiros craques e jeito especial de jogar. A seguir, consideramos especificamente a crônica, que é um gênero entre o jornalismo e a literatura, e sua vertente esportiva. Por fim, no terceiro

8 capítulo, dedicamo-nos à análise das crônicas de Armando Nogueira e suas representações do futebol brasileiro.

2 O FUTEBOL NO BRASIL E O JORNALISMO ESPORTIVO 2.1 O surgimento do esporte no Brasil Oficialmente, o futebol no Brasil começou em 1894, quando as primeiras duas bolas chegaram ao país por intermédio de Charles Miller, um brasileiro que estudou na Inglaterra, segundo Witter (1996). Contudo, o autor ressalta que há informações de que, antes disso, já se praticava futebol no país. Os primeiros jogos teriam sido disputados nos litorais de Pernambuco e de Santos, em São Paulo, por marinheiros ingleses e por brasileiros residentes nesses locais. Mas segundo o autor, essas informações são difíceis de serem comprovadas.

9 Conforme Oricchio (2006), no ano seguinte foi realizada a primeira partida oficialmente reconhecida no Brasil, na Várzea do Carmo, em São Paulo. De acordo com alguns historiadores, assim nascia o futebol brasileiro. O autor observa que já se praticava futebol no Brasil quando Charles Miller voltou da Inglaterra trazendo o esporte. Oricchio acredita que a introdução do futebol no país é imprecisa, uma vez que existem inúmeras versões, como a da chegada no Rio de Janeiro de marinheiros ingleses com uma bola em 1872, ou do primeiro jogo que teria sido disputado em São Paulo, no ano de 1894, numa partida realizada entre operários. Mas ele ressalta que a versão mais aceita é a que atribui o surgimento do futebol no Brasil a Charles Miller. Inicialmente, o esporte no Brasil era praticado por filhos de famílias com posses, a elite em formação no final do século XIX e início do século XX, conta Witter (1996). O autor diz ainda que eram necessários recursos para adquirir as chuteiras e dividir as despesas com a compra de bolas e dos uniformes. Era material importado que não custava barato. Por isso, inicialmente, era um esporte praticado somente por rapazes ricos. Segundo Mário Filho (2003), no início do século XX, o esporte era praticado quase que, exclusivamente, por funcionários de fábricas inglesas em seus respectivos clubes, que compunham a elite da sociedade carioca. Neste período, o futebol dividia as atenções com outro esporte: o cricket, tanto que dois dos primeiros clubes cariocas tinham essa modalidade em seu nome. O Paissandu Cricket Club e Rio Cricket and Athletic Association. Esses dois times, inclusive, só aceitavam ingleses e filhos de ingleses nas equipes. Porém, o cricket não despertava o interesse dos brasileiros, ao contrário do futebol. O The Bangu Athletic Club, apesar de ser inglês, foi o primeiro clube cariocas que abriu as portas para os brasileiros, despertando seu fascínio pelo futebol, principalmente nos jovens da elite metropolitana que conviviam com os ingleses, como relata Mário Filho (2003). Aos poucos o futebol foi se popularizando e chegando às camadas mais pobres, assim como aos negros, que deram uma nova dimensão a este esporte. De acordo com Witter (1996), o público começava a freqüentar os campos onde eram disputadas as partidas,

10 tanto em confrontos nacionais quanto internacionais. Assim, o esporte ia se tornando gradualmente mais popular. Contudo, não contava com a divulgação e a acolhida dos esportes considerados nobres. Mas começava a ocupar um espaço importante na vida esportiva do país, para não mais cedê-lo a qualquer outra modalidade esportiva. Consolidava-se, ano a ano, a platéia e o número de jogadores aumentava, afirmando a importância do futebol como recreação e esporte. Com o interesse crescente dos brasileiros pelo futebol, foram surgindo os chamados grandes clubes, segundo Mário Filho (2003). O autor afirma que Fluminense e Botafogo foram os primeiros e foram fundados por famílias tradicionais da elite carioca. E, logo no início, houve a distinção dos times, pela localização dos clubes. Por exemplo, Fluminense e Botafogo eram considerados “grandes clubes” por estarem localizados na zona sul do Rio de Janeiro e serem frequentados pelas famílias tradicionais. Por sua vez, o Bangu foi considerado um “clube pequeno” por ter a sede na zona norte e ter entre os associados a população mais simples dos morros. Mário Filho (2003) destaca que os chamados times grandes levavam o público para as arquibancadas, que na época custavam dois mil réis1. Já o público dos times pequenos preferia ir aos jogos na “geral”, onde o preço não passava de dez tostões. No entanto, o futebol não era um esporte que mobilizava massas. Na primeira década do século passado, o remo era a modalidade que reunia multidões. Os organizadores do futebol tomavam a precaução de não marcar partidas no mesmo dia das regatas, uma vez que perderiam público para o remo, como ressalta Mário Filho (2003). As duas primeiras décadas do século XX foram as da consolidação do esporte em nosso país. Witter (1996) conta ainda que nesse período aconteceram os primeiros amistosos entre clubes de cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo. O primeiro torneio internacional envolvendo a seleção brasileira foi em 1919. O Brasil sagrou-se campeão sul-americano vencendo o Uruguai por 1 a 0. Os times nessa época jogavam com cinco atacantes, três no meio de campo, dois zagueiros e o goleiro.

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Moeda do Brasil na época. 1812 a 1942.

11 Witter (1996) afirma que na seleção de 1919, cujo sucesso foi um grande incentivo para o futebol no Brasil, todos eram jogadores amadores. A profissionalização somente seria discutida alguns anos depois. Tanto é que o Flamengo, um clube tradicionalmente do remo, relutou muito em fazer um time de futebol, de acordo com Mário Filho (2003). Mesmo recebendo uma equipe quase completa de campeões do Fluminense, que se mostrou interessado em sair do bairro das Laranjeiras e partir para o clube rubro-negro. No entanto, o Flamengo só aceitou fazer o time se os atletas também participassem do time de remo. O surgimento do time de futebol do Flamengo serviu para consolidar o crescimento do esporte. Rapidamente, o clube se popularizou com títulos e trouxe torcedores para a agremiação esportiva, conforme diz Mário Filho (2003). Gradativamente, o remo foi perdendo espaço para o futebol.
“A regata não atrapalhava mais. Muitas moças preferindo ver um match do que uma regata. Os clubes de futebol, por isso, não precisavam mais saber, com antecedência, quando ia haver uma regata. Para transferir um jogo. Os clubes de remo, sim. Um bom match de futebol estragava as regatas”. (MÁRIO FILHO, 2003, p.58)

Com a popularização do futebol, os negros passaram a ter mais espaço no esporte. No entanto, apesar dos times passarem a aceitá-los, a discriminação social fazia com que os negros buscassem se parecer com os brancos. Os negros e os mulatos passavam pó-dearroz na tentativa de mascarar a cor da pele, observou Mário Filho (2003).
“Era o momento que Carlos Roberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. Não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz” (MÁRIO FILHO, 2003, p. 60).

Com a presença do negro, para Mário Filho (2003), o futebol passou a adquirir características genuinamente brasileiras. O esporte passou a transpirar alegria e ter a ginga, tornada peculiar no jogo vistoso dos brasileiros. O futebol inglês, lento e burocrático, deu lugar ao drible, à agilidade e ficou mais bonito. Segundo Mário Filho (2003), o Brasil passou a ter um ídolo negro, Arthur Friedenreich, que na década de 1910 a 1920, defendeu várias equipes em São Paulo. Um mestiço

12 rico, filho de pai alemão e mãe negra. Mulato dos olhos verdes, Friedenreich era o último a entrar no campo pelo time e o mais aplaudido. A demora se justificava pelo fato de ele tentar amaciar o cabelo e se parecer com os brancos.
“A popularidade de Friedenreich se devia, talvez, mais pelo fato de ele ser mulato, embora não quisesse ser mulato, do que pelo fato de ele ter marcado a vitória dos brasileiros sobre o Uruguai em 1919. O povo, descobrindo, de repente, que o futebol devia ser de todas as cores, futebol sem classes, tudo misturado, bem brasileiro”. (MÁRIO FILHO, 2003, p. 69).

O sucesso de Friedenreich contribuiu para democratizar o futebol no Brasil. Uma democratização lenta e gradual, não só nos clubes da zona sul do Rio de Janeiro, mas também nas outras agremiações pelo Brasil. Segundo Coelho (2003), no início do século passado, o Rio de Janeiro pulsava e impulsionava o Brasil. E, na então capital do país, os jornais dedicavam mais espaço ao futebol do que em qualquer outra cidade. O autor afirma que os jogos dos grandes times da época aos poucos foram ganhando destaque. Até que o Vasco, em 1923, venceu o campeonato da Segunda Divisão apostando na presença dos negros em seu elenco.

Era a popularização que faltava. Os negros entravam de vez no futebol, tomavam a ponta do esporte. O Vasco foi campeão pela primeira vez2 em 1924, apesar da oposição dos outros grandes, que sonhavam tirá-lo da disputa alegando que o clube dos portugueses e negros não possuía estádio à altura de disputar a Primeira divisão. (COELHO, 2003, p. 9)

O Vasco foi o primeiro clube a ter um jogador negro no Rio de Janeiro e, ao conquistar o campeonato estadual, os outros times se mexeram e fundaram um novo campeonato. Os clubes de elite como Flamengo, Fluminense, Botafogo e América, resolveram fazer sua própria liga denominada Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), no qual mantinha sérias apurações sobre a genealogia e condição social dos atletas que disputavam por suas equipes.

O sucesso do Vasco foi abrindo as portas para os negros daquela época. Assim o Flamengo conquistou uma grande simpatia nacional ao trazer os ídolos da época: Leônidas da Silva, Domingos da Guia e Fausto.
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Campeão da primeira divisão do Campeonato Carioca.

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Em 1925, o futebol já era o esporte nacional, de acordo com Coelho (2003). O Brasil havia sido bicampeão sul-americano em 1919 e 1922, além de faltar apenas cinco anos para a primeira Copa do Mundo, que seria realizada no Uruguai.

A primeira entidade fundada com o objetivo de organizar o futebol (e outros esportes) no Brasil, em oito de junho de 1914, foi a Federação Brasileira de Sports, de acordo com Witter (1996). Em 1916, passou a se chamar Confederação Brasileira de Desportes. Regulamentou e dirigiu as modalidades esportivas do país e organizou competições nacionais. Aos poucos, cada esporte foi fundando uma confederação própria, até a criação da própria Confederação Brasileira de Futebol, que rege até hoje o futebol brasileiro. Oricchio (2006) observa que o futebol não parava de evoluir e ganhar popularidade ao longo das décadas e que nosso “país boleiro” divertia-se com seus times, campeonatos com estádios cheios, torcidas apaixonadas e alimentava o desejo de se vencer uma copa do mundo. Witter (1996) ressalta que a popularidade do futebol foi tamanha que quase todos os seres humanos desse mundo conhecem algumas das regras que regem o jogo dentro de campo. O autor ressalta, por exemplo, a inclusão de termos futebolísticos no uso cotidiano do brasileiro, como “jogo de cintura”, “pisou na bola”, “na marca do pênalti”, etc. para mostrar a importância que o futebol possui, sendo discutido por todas as classes sociais, tornando-se um fenômeno maior que um simples esporte. Na década de 1920 começava-se a debater a questão da profissionalização dos jogadores, segundo Witter (1996). Essa discussão ganharia força no final da década e passaria a ser objeto de discussão e implantação nos anos trinta. Muitos clubes resistiam à idéia de profissionalizar o futebol, inclusive a própria Confederação Brasileira de Futebol, inicialmente.

14 Segundo Coelho (2003), pagar os jogadores de futebol provocou grandes polêmicas. O autor cita que em 1929, o Paulistano, clube que tinha conquistado o maior número de campeonatos estaduais de São Paulo, até então, decidiu não continuar a manter equipes de futebol. Ainda tratando dos fatos históricos, Witter (1996) conta que a Segunda Guerra Mundial, deflagrada em 1939, interromperia a seqüência dos campeonatos mundiais. As transações envolvendo jogadores de futebol comprovaram que o regime profissional, implantado em 1933, foi vitorioso. Era como que um período de preparação para a nova fase que se delineava logo após o fim da guerra com os preparativos para o Campeonato Mundial de 1950. Entre os anos de 1950-1970 houve alterações acentuadas na vida dos jogadores, na prática do futebol e na preparação dos atletas, em função da profissionalização do esporte. Witter (1996) observa que, a partir de 1970, a evolução do profissionalismo se acentuou no futebol, e o grande sucesso desse esporte consolidou-se com as disputas das copas do mundo, tendo o Brasil participado de todas elas. Segundo constatação de Witter (1996), o futebol não se situa à margem dos grandes problemas da sociedade. Ele é sim um evento que gera interesses econômicos consideráveis, que produz ideologias que se confrontam e que causa manifestações políticas nacionais e internacionais. Para o autor, o futebol é um espelho dos problemas do nosso tempo.

2.2 O futebol como característica identitária do Brasil Segundo Coelho (2003), o futebol faz parte da construção da identidade nacional brasileira. Em 1998, na Copa do Mundo, a França e a Croácia utilizaram a competição como mote para a unidade ética e nacional, recurso que foi também utilizado pela ditadura militar brasileira na Copa do Mundo de 1970. A cultura brasileira influencia o estilo de futebol jogado no país, o “futebol-arte” em que se prioriza a improvisação, os dribles e a criatividade. O autor defende que a felicidade e a hospitalidade do povo brasileiro são demonstradas em campo, em comparação com o futebol praticado na

15 Europa que é o “futebol-força”, que prioriza a força física e os esquemas táticos, um reflexo da sociedade europeia. Por sua vez, o antropólogo Roberto DaMatta (2006) diz que o futebol, nos primeiros anos do século XX, fazia parte de um movimento modernizador que provocava duas reações bem diferentes na população, de amor e ódio. O autor cita alguns escritores que fizeram campanha contra o futebol, caso do escritor Lima Barreto que, inclusive, fundou uma liga denominada “Liga Brasileira contra o Futebol”. De acordo com DaMatta (2006), Barreto, um nacionalista exacerbado, acreditava que o futebol era uma “estrangeirice” e sua adoção significava imitar os conceitos vindo da Europa. Entretanto, algumas personalidades se mostraram a favor do esporte bretão. DaMatta (2006) cita algumas pessoas que defenderam o futebol no início da sua implantação no Brasil, tais como o barão do Rio Branco (1894 – 1912) e os escritores Coelho Neto (1864 – 1934) e Olavo Billac (1865 – 1918), que descreviam que o esporte como exemplo do bom uso do corpo, além de ser um instrumento de serviço à pátria. O antropólogo atenta o leitor sobre a identificação do futebol com a cultura nacional. De acordo com o autor, existe um ditado que no Brasil só existem três coisas sérias: a cachaça, o jogo de bicho e o futebol. DaMatta (2006) comenta sobre os três aspectos da identidade nacional, já que é composta por uma bebida alcoólica, uma loteria socialmente aprovada e legalmente clandestina e um esporte nascido na Inglaterra, mas que se popularizou em terras tupiniquins. Segundo DaMatta (2006), o esporte, de uma forma geral, tem duas funções no mundo moderno. A primeira é a disciplina das massas às quais ele se dirige, fazendo com que todos cheguem ao horário determinado, paguem a sua entrada, numa lógica contratual pré-determinada. A segunda função é a sua ligação com a paz, expressa pelo chamado fair play3 na vitória ou na derrota. DaMatta (2006) salienta que, dessas três instituições (futebol, bebida e jogo do bicho), o futebol é a mais moderna e chegou ao Brasil por meio de um processo de difusão cultural. Segundo o antropólogo, o futebol ajudou a consolidar a vida esportiva
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Fair-Play é o jogo limpo, jogo leal que respeita as regras.

16 nacional, através do seu universo de competição e ascensão social em contraposição ao ambiente duro e penalizante para a maioria dos brasileiros. Para DaMatta (2006), o fato de o futebol ter chegado do maior império do fim do século 19, a Inglaterra, foi bem recebido pela sociedade brasileira, principalmente pelas elites, que viam o Brasil como um país atrasado em relação às grandes potências. Conforme Ramos (1984), o futebol pode ser usado como recurso ideológico pelos governos. Segundo o autor, os políticos usam o esporte para que a população esqueça os problemas do país, ligados à saúde, economia, educação e inflação. O autor também cita o nazismo alemão e o fascismo italiano como governos que tentaram ligar suas imagens ao esporte. Ramos (1984) explica que o futebol é um viabilizador de ascensão social para os jogadores, pelo talento e atuações nos estádios. Já DaMatta (2006), observa que esse esporte se transformou no principal instrumento para redefinir as possibilidades e as capacidades do Brasil. DaMatta afirma que o futebol se transformou em uma fonte de amor do brasileiro pelo país, principalmente com as conquistas das Copas do Mundo. Para o autor, o futebol fez com que os brasileiros acreditassem na possibilidade de uma ordem moral baseada na igualdade, fornecendo subsídios para a articulação da identidade social do país. O autor reforça a ideia de que o futebol tem a capacidade de poder agregar valores culturais locais, assim como fez no Brasil. Segundo DaMatta, o futebol é um extraordinário código de integração social que ajuda uma sociedade, como a brasileira, tão segmentada e dividida internamente, a afirmar-se quanto ao seu patriotismo.
[...] a sua capacidade de proporcionar ao povo, sobretudo ao povo pobre, enganado, mal-servido pelos poderes públicos – povo destituído de bens e, pior que isso, de visibilidade social e cívica -, a experiência da vitória e do êxito. (DAMATTA, 2006, p. 164).

17 É através do futebol que o povo brasileiro pôde juntar os símbolos do Estado: a bandeira, o hino e o verde e amarelo, símbolos antes restritos à elite e aos militares, no entendimento de DaMatta (2006). De acordo com o autor, foi através do esporte bretão que se estruturou o patriotismo da população brasileira. DaMatta (2006) ressalta que o futebol reforçou a institucionalização da malandragem como arte de sobrevivência e o jogo de cintura como uma característica do brasileiro. O autor ressalta o estilo único de jogar futebol do brasileiro, com muita técnica e força, além de honrar as 17 regras que normatizam o esporte. O fato de o futebol ter entrado em conflito com alguns valores da sociedade tradicional é um dos pontos analisados por DaMatta (2006). Segundo o autor, os brasileiros estavam acostumados a jogar e não a competir. A sociedade teve que aprender a separar as regras das competições e da própria partida para apreciar o esporte. Roberto Ramos (1984) revela três hipóteses em seu trabalho sobre a influência do esporte na população brasileira. A primeira delas é que o futebol institucionalizado é um aparelho ideológico do Estado. Segundo o autor, o futebol é um esporte ideológico, escamoteando as hierarquias e reprimindo pacificamente o conflito de classes. Para comprovar a sua teoria ele usa exemplos do envolvimento do ex-presidente da República Emílio Garrastazu Médici (1969 – 1974) no momento mais autoritário e repressivo do país, além de publicidades do governo associadas ao esporte e dados sobre o investimento da TV Globo para a Copa do Mundo de 1982. A segunda hipótese é que o futebol mascara a realidade. Segundo o autor, o futebol diminui a compreensão das condições sociais, pois preenche espaços consideráveis na vida dos brasileiros. Os meios de comunicação são ferramentas fundamentais na introdução de uma avalanche de gols, vitórias e campeonatos no cotidiano das pessoas, em detrimento do conhecimento dos reais problemas nacionais. Para o autor, o futebol evidencia somente dois sentimentos: o sucesso ou fracasso. Como exemplo dessa teoria, o autor lembra o título da Copa Libertadores da América, conquistada pelo Grêmio em 1983. O autor analisa como os jornais Zero Hora e Jornal da Tarde de Porto Alegre, nos dias subsequentes à conquista, se esqueceram da ditadura e dos problemas do país, dando um espaço exarcebado ao futebol.

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A terceira hipótese formulada por Roberto Ramos (1984) é a de que o futebol compactua com o capitalismo, pois consegue mobilizar e dividir a classe trabalhadora em vários times do Brasil, ao invés de uni-la em torno de seus interesses de classe. De acordo com o autor, o futebol ocupa todo o espaço na mente dos brasileiros com a ajuda dos meios de comunicação. Através de uma análise detalhada dos principais meios de comunicação impressos brasileiros, o autor mostra como os espaços dedicados a outras editorias, como por exemplo, política e economia, são quase que insignificantes em relação ao futebol. Roberto Ramos (1984) revela o valor e o espaço atribuídos ao futebol em detrimentos dessas editorias. Atualmente, Roberto Ramos (1984) afirma que o futebol é um grande mercado, que produz e vende espetáculos, em busca de lucros. Segundo o autor, o futebol proporciona grandes transações para os donos do capital e atua como poderoso aparelho ideológico do Estado, auxiliado pelos meios de comunicação. 2.3 O jornalismo esportivo no Brasil A história do jornalismo esportivo no Brasil é ainda pouco explorada pelos pesquisadores da área da comunicação. Segundo Silva (2006), apenas nos últimos anos o assunto tem sido objeto de investigação. No entanto, o autor ressalta que praticamente todos os estudos direcionam para o fato de o jornalismo esportivo no país ter começado com Mário Filho no fim da década de 1920. Stycer (2009) compartilha desta opinião e afirma que os principais pesquisadores da comunicação no país, ignoram o surgimento da imprensa esportiva nas duas primeiras décadas do século XX. Ele cita Nelson Werneck Sodré 4e Juarez Bahia5, autores que falam do surgimento da imprensa no Brasil, mas que dedicam pouco espaço em seus trabalhos sobre o assunto. O autor observa que o primeiro apenas destaca as datas de nascimento de alguns jornais esportivos da época, enquanto o segundo dedica um capítulo sobre o tema, mas com pouca profundidade.

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Nelson Werneck Sodré, História da imprensa no Brasil, 1999. Juarez Bahia. Jornal, história e técnica, 1990.

19 Para aquelas pessoas que se interessam pelos primeiros momentos do jornalismo esportivo no país, as principais informações disponíveis se encontraram em papéis secundários ou acessórios nos estudos de historiadores, sociólogos, antropólogos, professores de literatura e jornalistas sobre o início do futebol no Brasil, observa Stycer (2009). Silva (2006) corrobora esta opinião e ressalta que o jornalismo esportivo dos primeiros anos do século passado tem recebido pouca atenção. Para ele, na maior parte das vezes, o foco dos trabalhos recai em períodos posteriores, a partir da década de 1950.
Por isso o jornalismo esportivo daquele período tem recebido um tratamento extremamente superficial, tautológico e, em certos casos, até mesmo contraditório e mistificador. Fala-se sempre no pequeno interesse jornalístico despertado pelo futebol, na linguagem empolada e repleta de anglicismos, na incógnita pobre e marcada por fotos de jogadores e dirigentes em poses sérias, nos textos eventualmente publicados em nomes consagrados da literatura como Olavo Bilac, João do Rio, Coelho Netto, Lima Barreto etc. (Silva: 2006: p. 32).

Para Stycer (2009), há um grande preconceito no campo de estudos acadêmicos de jornalismo em relação a quem estuda o ramo esportivo. Um grande desafio, por exemplo, é diminuir a barreira entre a academia e a prática jornalística. Em seu livro, o autor afirma ter conseguido discutir o assunto com quem estuda, mas teve grande dificuldade em discutir com quem atua no jornalismo esportivo. Na opinião de Stycer, diminuindo essa barreira entre a academia e a prática profissional, vários problemas seriam resolvidos. Stycer (2009) tenta mostrar que o jornalismo esportivo é de alguma forma uma especialidade com menos prestígio dentro do jornalismo do que outros ramos como economia, política e entretenimento. Para sustentar sua afirmação, enumerou alguns problemas enfrentados pelo jornalismo esportivo brasileiro, como por exemplo, baixos salários, dificuldades de promoção, falta de interesse dos profissionais da área em conhecer outras editorias, e certa rejeição às mulheres atuarem nesse ambiente de trabalho. Mário Filho (2003) afirmava que os jornais na primeira década do século passado só servem como base para estatísticas e resultados dos jogos. O autor afirma que só a partir da década de 1910, o futebol passou a ser transformado em assunto jornalístico pelos veículos de comunicação.

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Uma das primeiras publicações esportivas no Brasil foi o Fanfulha, que surgiu em São Paulo, na década de 1910. De acordo com Coelho (2003), o jornal visava atender à população italiana no Brasil, imigrantes que cresciam a cada dia na capital paulista. Segundo o autor, o Fanfulha não era um jornal voltado para as elites e não formava opinião. A publicação trazia relatos de páginas inteiras e informava as fichas de todos os jogos do Palmeiras, antigo Palestra Itália, em um tempo que o futebol ainda não cativava multidões. Conforme Stycer (2009), os jornais reforçavam o caráter elitista dos primeiros momentos do futebol. Citando Leonardo Affonso de Miranda Pereira6, ele relata que os jornais cariocas preocupavam-se menos com as partidas de futebol e mais com o evento social que girava em torno delas. Segundo o pesquisador, os jornais utilizavam fotos dos atletas e lances das partidas, mas também imagens da platéia, destacando os rapazes elegantes e as moças bem vestidas. Com a profissionalização do futebol na década de 1930, Stycer (2009) ressalta que também houve um avanço no jornalismo esportivo. O autor revela que o número de publicações esportivas saltou de cinco, em 1912, para 58, em 1930. Neste período surgem duas publicações que por 50 anos seriam o sinônimo de imprensa esportiva brasileira: o Jornal dos Sports e o Gazeta Esportiva. O Jornal dos Sports surgiu em 13 de março de 1931 e cinco anos depois adotou uma marca que mantém até os dias atuais, a cor rosa em sua capa, copiada do jornal italiano La Gazeta dello Sport. Em outubro de 1936, a publicação foi adquirida por Mário Filho em sociedade com Roberto Marinho, então co-proprietário e diretor do O Globo, de acordo com Stycer (2006). Já o Gazeta Esportiva surgiu de um suplemento esportivo do jornal A Gazeta, e fazia o acompanhamento diário de todos os times da cidade de São Paulo. Segundo Stycer (2009), a grande novidade da publicação era o volume de informações, que, de acordo com o autor, passou de 12 páginas nos primeiros anos para 72 na década de 1970.
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PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do Rio de Janeiro, 1902 – 1938.

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De acordo com Stycer (2009), o jornalismo esportivo se desenvolveu ao mesmo tempo da popularização do futebol. O autor ressalta que desde o início foi uma editoria menos relevante do jornalismo e atraía profissionais com menos habilidades e ambições do que os redatores políticos ou literários. Stycer cita depoimento do jornalista esportivo e historiador Adriano Neiva sobre o profissional desta área no início do século XX.
As funções não eram fixas nem, muito menos, compensadoramente remuneradas. A maioria dos “cronistas” trabalhava de graça, só para ter o ensejo de escrever em jornal, já que essa era a sua inclinação, e para poder, principalmente, defender o seu clube, porque, naquele tempo, tal como hoje, o“cronista” tinha seu clube preferido, com a diferença de que, antes, àquela época, ninguém fazia segredo disso. Pelo contrário: eram comuns os escudos à lapela dos “cronistas” e indispensável a sua presença nas comemorações dos triunfos. O redator profissional, mas que fazia da imprensa um simples “bico”, tanto podia ser “cronista” de esportes no domingo, como redator policial na segunda-feira, crítico teatral na terça, repórter de rua na quarta, observador político na quinta ou – o que não era raro – tudo isso ao mesmo tempo... Não havia especialização. . (STYCER, 2009, p.172).

Seguindo a evolução do jornalismo esportivo brasileiro, Stycer (2009), afirma que as décadas de 1940, 1950 e 1960, períodos em que o Jornal do Sports e a Gazeta Esportiva, se tornam referências, a imprensa brasileira passa por uma série de mudanças técnicas. O autor afirma que os jornais considerados mais importantes e de prestígio, vão se distanciar mais claramente dos jornais populares ao incorporarem o modelo da liberdade de imprensa e objetividade adotadas pelo jornalismo norte-americano, no início do século XX. Fazendo uma comparação com o atual modelo do jornalismo esportivo no Brasil com o do passado, Coelho (2003) afirma que os principais jornalistas esportivos de cada época se referem aos jogadores de forma diferenciada e isso cria distorções que ficam difíceis de serem corrigidas. O autor cita o exemplo do zagueiro Bellini, capitão do primeiro título do Brasil em 1958. Segundo Coelho (2003), Bellini era um zagueiro que se notabilizava por jogar sério, dar bicos para os lados e errar pouco. No entanto, ele ficou marcado na imprensa pela sua aparência física e por ter eternizado o gesto de erguer a taça acima da cabeça. Nelson Rodrigues e Mário Filho, de acordo com Coelho (2003), produziram crônicas cheias de emoção e celebraram Bellini como um zagueiro de classe, elegante e um verdadeiro mito do futebol brasileiro.

22 Em contraponto ao exemplo de Bellini, Coelho (2003) trata do caso da Seleção Brasileira tetracampeã em 1994. O Brasil vivia um jejum de 24 anos sem títulos mundiais e, desde que Pelé anunciou a sua aposentadoria da Seleção, nunca mais o Brasil chegou à final da Copa do Mundo. Em 1994, a Seleção dirigida pelo técnico Carlos Alberto Parreira era famosa pelo estilo pragmático. Segundo Coelho (2003), o treinador orientava os atletas a tocarem a bola pacientemente, sem pressa, até que surgisse a chance de fazer o gol. A imprensa da época afirmava que Parreira tinha um estilo “europeu” e Parreira contra-argumentava que o Brasil jogava com a bola no chão, com uma linha de defesa de quatro jogadores, com destaque para o trabalho técnico. Para Coelho (2003), faltou paciência para a imprensa brasileira avaliar o trabalho do volante Dunga, capitão do tetracampeonato em 1994. Dunga havia deixado a Copa anterior como o símbolo de uma geração fracassada. Em 1990, o Brasil teve a pior colocação em mundiais desde a campanha de 1966, quando caiu na primeira fase. Depois do mundial de 1990, Dunga só voltou a ser convocado em 1993 e, mesmo assim, o técnico Carlos Alberto Parreira foi muito criticado. Na final da Copa de 1994, Dunga cobrou o último pênalti antes da batida do atacante italiano Roberto Baggio e poucas pessoas lembram-se disso. Dunga, que foi o capitão da Seleção nesse mundial, passou a ser reconhecido como líder da equipe, mas segundo Coelho (2003), jamais mereceu o tratamento de lenda do futebol mundial. Outro exemplo citado por Coelho (2003) é o tratamento dado pela imprensa nacional para Ronaldo no mundial de 2002. Segundo o autor, poucos jogadores na história do futebol mereceram tanto tratamento de lenda quanto o camisa nove da Seleção do pentacampeonato mundial. Coelho (2003) lembra dos problemas que Ronaldo teve na final da Copa de 1998, quando sofreu uma convulsão, momentos antes da partida. Logo em seguida, em 1999, o jogador sofreu uma contusão no joelho direito, e precisou de uma cirurgia para corrigir o problema. O atacante teve que ficar parado durante quatro meses. No ano seguinte, no retorno de Ronaldo aos gramados, o time dele, Internazionale de Milão, enfrentava o Lazio na decisão da Copa da Itália. O atacante atuou por seis minutos e caiu sozinho, em uma cena que rodou o mundo. Ronaldo havia rompido o

23 tendão patelar do joelho direito. O jogador teve que ficar dois anos em tratamento e voltou a atuar em um amistoso promovido por ele próprio, em agosto de 2001. Nos meses seguintes, Ronaldo entrou e saiu da equipe no Campeonato Italiano. Em nove jogos o “Fenômeno” marcou sete gols, uma média altíssima para um atacante. Com a recuperação de Ronaldo, o técnico Luiz Felipe Scolari, técnico do Brasil em 2002, decidiu levá-lo para a Copa. Ronaldo conquistou o quinto título do Brasil, foi o artilheiro da Seleção com oito gols e o melhor brasileiro do torneio.
Ronaldo mereceu o apelido de ‘Fenômeno’ e foi extremamente elogiado. Mas ninguém escreveu uma única crônica sobre a incrível proeza de Ronaldo. Toda a imprensa estampou os feitos do Fenômeno, em relatos repletos de realidade! Realidade demais para história tão irreal. (COELHO, 2003, p.22).

Coelho (2003) ressalta que faltou aos jornalistas dramaticidade nos relatos sobre o tetra e o pentacampeonato que acompanharam as conquistas de 1958, 1962 e 1970. Para o autor, a noção de realidade que o jornalismo esportivo carrega nos tempos atuais, faz com que a cobertura esportiva seja tão brilhante como qualquer outra área do jornalismo. Entretanto, o autor adverte que, muitas vezes, tal cobertura exige mais do que a noção de realidade. Na segunda metade da década de 1990, a internet trouxe uma nova dimensão para o jornalismo esportivo no Brasil. Segundo Coelho (2003), o fenômeno já havia acontecido nos Estados Unidos e na Europa, anos antes, mas os sites ainda não eram difundidos a ponto de se tornarem negócios. A partir desta configuração, como destaca Coelho (2003), sites dos mais variados assuntos pipocavam e tiravam gente das redações mais importantes do país. O autor observa que muitos profissionais acreditavam que, com esta nova opção, os jornalistas passariam a ser remunerados corretamente. Porém, essa realidade durou pouco, menos de um ano. Em 2001, vários sites anunciaram falência e muitos jornalistas ficaram desempregados. Segundo Coelho (2003), uma grande editoria de esportes costumava ter 30 pessoas na metade de 1990. Este número serviu de base para o surgimento da redação do jornal O Lance!. O autor ressalta que a estabilidade no setor voltou em 2002 e se mantém.

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3 A Crônica Esportiva no Brasil 3.1 Principais representantes da crônica esportiva no Brasil Como já afirmado, o futebol faz parte do nosso país. Integra a memória coletiva e está presente no cotidiano da enorme maioria da população. É difícil pensar neste esporte sem associá-lo ao Brasil. Arte e paixão se confundem no futebol brasileiro. São seus emblemas e dínamos. Não há, certamente, assunto capaz de despertar mais polêmica e gerar, ao mesmo tempo, tanta discórdia e convergência. (SOUZA; RITO; LEITÃO 1998). O cronista esportivo é um autor que vê a bola, o estádio, os jogadores, o juiz, os bandeirinhas, o público, os locutores e os críticos, como elementos de um drama, uma tragédia, que se desenrola no gramado (COSTA; NETO; SOARES, 2007). Uma curiosidade do jornalismo esportivo brasileiro é que todos os profissionais da área são

25 chamados de cronistas esportivos, inclusive colunistas e os repórteres. Com o sucesso de Nelson Rodrigues, Mário Filho e Armando Nogueira, a expressão cronista esportivo se popularizou e todo jornalista esportivo no Brasil é também chamado de cronista esportivo. A partir da década de 1930 a imprensa esportiva no Brasil toma outra dimensão, com Mário Filho e Nelson Rodrigues. De acordo com Coelho (2003), as crônicas de Nelson Rodrigues e Mário Filho tinham vida própria e nem poderiam ser chamadas de jornalismo. O autor comenta um pouco sobre o estilo e a importância destes dois cronistas.
Crônicas recheadas de drama e poesia enriqueciam as páginas dos jornais em que Nelson Rodigues e Mário Filho escreviam. (...) Essas crônicas motivavam os torcedores a ir ao estádio para o jogo seguinte e, especialmente, ver o seu ídolo em campo. A dramaticidade servia para aumentar a idolatria em relação a este ou àquele jogador. Seres mortais alçados da noite para o dia à condição de semideuses. (COELHO: 2003: p. 17).

Para estes cronistas, o futebol foi motivo de poesia e, por essa razão, eles muitas vezes partem de seus comentários do campo técnico e tático do futebol para pensar a natureza humana a partir daí. Segundo Stycer (2009), para entender a trajetória de Mário Filho e Nelson Rodrigues, que eram irmãos, é preciso falar brevemente do pai deles, Mario Rodrigues, um pernambucano que fez muito sucesso na imprensa no Rio de Janeiro nas décadas de 1910 e 1920. Formado em direito, Mario Rodrigues nunca exerceu a profissão e, desde cedo, dedicou-se ao jornalismo e à política. O cronista faz uso de citações de personalidades e fatos históricos. Inserido em um contexto que possibilita o uso do recurso “ficção”, busca soluções criativas na sua imaginação, sem comunicar agressividade. A crônica transita entre o ficcional e o não ficcional, ela também o faz entre o literário e o jornalístico. Pensamos que a crônica esportiva pende mais para o lado jornalístico, analisando os fatos recorrentes, porém com o adicional da liberdade do cronista em transformar a notícia. (COSTA; NETO; SOARES, 2007).

26 Segundo Coelho (2003), No jornalismo esportivo brasileiro, Armando Nogueira é um exemplo da construção da crônica poética, ficcional. Esse cronista usou adjetivações valorativas, ritmo, jogo de imagens, metáforas. Em outra direção, Tostão situa sua narrativa na dimensão não ficcional (real) enfatizando as análises táticas e técnicas do futebol. Essas formas diferentes de escrever nos levam a crer que a crônica pode ser construída no campo poético e no campo jornalístico. A crônica “poética”, “atemporal”, “ficcional” tem suas características próximas do conto, mas se diferenciam quanto ao tamanho e, principalmente, quanto à intensidade poética. Já a crônica jornalística, temporal, tem a coluna como sua semelhante. Porém, a coluna procura relatar e à crônica é permitida a opinião. Para Melo (1985), a caracterização das colunas na imprensa brasileira dá margens a esta ambigüidade. Segundo o autor, há uma tendência de se chamar de coluna toda seção fixa de jornais e revistas. Por isso, muitas vezes o conceito de coluna abrange a crônica, o comentário e a resenha. Sobre Armando Nogueira, o autor diz que
Sua crônica reveste-se, assim, dos efeitos catárticos, por transmudar em palavra poética, pelo viés da subjetividade, os sentimentos que subjazem à representação das coisas e objetos e por evocar as imagens mítico-simbólicas que ressoam no imaginário do futebol [...]. Desta forma, Nogueira redefine a crônica de futebol, ao reorientar para o poético, em função de uma linguagem mítico-metafórica, um percurso supostamente referencial e, ao inserir nele as aspirações humanas dos aficionados por esse esporte [...] sua crônica, pelas implicações lingüísticas da subjetividade do narrador, contribui para a classificação da crônica de futebol como um subgênero (COELHO, 2003, p. 26).

Para Coelho (2003), o único compromisso de Nogueira era com a estética, a beleza e a emoção manifestadas na prática esportiva. Com tal iniciativa, transcende até os limites da imagem, pois, paradoxalmente, a beleza do futebol torna a sua criação literária impar. Deste modo, por mais que o público tenha observado o jogo em detalhes através da TV, tem uma possibilidade diferente ao ler a crônica: a de vislumbrar como ele é manifesto através do “olhar” artístico. Ainda segundo o autor, em algumas circunstâncias o tema da prosa-poética de Nogueira sequer chegava a ser um personagem, mas sim a própria dinâmica do esporte e/ou os

27 movimentos dos atletas. Como o drible, fundamento que sempre foi considerado um dos mais plásticos e um dos mais característicos dos jogadores brasileiros. Coelho (2003) aponta que, com o passar dos dias, a crônica sofre com a perda do seu vigor. Com sua fase áurea, entre as décadas de 1950 e 1970, a crônica teria perdido sua força, talvez por dois motivos: o surgimento da televisão e a inexpressividade dos cronistas que surgiam. Porém, Melo (1985) afirma que, ao contrário disso, a crônica conquistou mais espaços.
Estas previsões pessimistas caem por terra se examinarmos jornais e revistas de grande circulação. Em quase todos [...] há um espaço cada vez maior destinado à voz dos cronistas. E pode-se afirmar que a crônica revitalizou-se de tal forma que, hoje, encontra-se em grau de especialização. Assim se explica a crônica humorística de Jô Soares e Luís Fernando Veríssimo, publicada em jornais e revistas da atualidade, ou a futebolística de Armando Nogueira. (MELO: 1985: p. 46).

3.2 Nostalgia na crônica esportiva brasileira Isabel Ferin (2009) destaca que nostalgia deriva etimologicamente do grego nostal, que significa retorno à casa, e gia, que é uma ocasião de dor prolongada. Por muito tempo o termo foi utilizado na medicina no diagnóstico de uma doença que possui os sintomas de melancolia, provocada muitas vezes por um distanciamento do lar. Em situações mais extremas, essa doença poderia levar à anorexia e ao suicídio. Foi a partir dos séculos XIX e XX que o vocábulo libertou-se da medicina e entrou na literatura e no cotidiano das pessoas para significar um sentimento de recordação do passado perdido, como ressalta Ferin (2009). Segundo a autora, a reinvenção de sentido demonstra, ainda, um deslocamento do vocábulo da esfera física para o domínio temporal, do presente para o passado. De acordo com Ferin (2009), múltiplos usos metafóricos e cruzamentos de sentidos do conceito de nostalgia tornam-se uma ferramenta crítica para interrogar a articulação do

28 passado com o presente e os processos de memória que levam ao apagamento ou à sobrevalorização de determinadas vivências do passado no presente. Seguindo essa linha, Ferin (2009) salienta que o conceito transforma-se em um instrumento para avaliar como as representações do passado são recriadas no presente e como a saudade, real ou imaginada, motivada pelo afastamento de um passado, construído e ou idealizado, pode intervir nas representações coletivas da memória. Para Ferin (2009), os meios de comunicação de massa, sobretudo aqueles que estão fundados na imagem, como o cinema, a fotografia e a televisão, contribuíram de forma definitiva para a expansão do conceito e do sentimento do saudosismo, na medida em que, em conformidade com os ritmos da sociedade capitalista, incutem uma crescente velocidade ao consumo do tempo, passado, presente e futuro. Nogueira (2003) afirmava que em matéria de futebol foi muito mal acostumado, pois viu as seleções do Brasil que encantaram o mundo, tais como as de 50, 58, 70 e 82, além de grandes seleções de outros países que também praticavam o futebol-arte e que se tornaram inesquecíveis, tais como a Hungria de 54, a Holanda de 74, a Alemanha de 66 e 74. Como grande defensor do futebol-arte e do futebol do passado, mesmo nas vitórias, especialmente brasileiras, Nogueira não deixava de tecer críticas quando a tônica não se encontrava nesse estilo de jogar do passado. Para Nogueira (2003), também percebe o futebol-arte como uma identidade clara do futebol brasileiro. Para ele, o brasileiro não se contenta apenas com a vitória, mas além de vencer, é obrigatório que se jogue bonito, que as vitórias sejam inquestionáveis e que a superioridade técnica dos brasileiros fique clara. Essa é a imagem que o futebol nacional não apenas crio de sim mesmo, mas que também ganhou o mundo. Desta forma, para que a Seleção represente o brasileiro é preciso que o último se identifique com ela e esse processo só se completa quando o Brasil apresenta um futebol virtuoso. Nesse caminho, o jornalista realiza aproximações entre o futebol praticado no Brasil e a dança, ambas expressões criativas nacionais. No esporte tal aproximação se daria pelos floreios e pelo inusitado, elementos que são encontrados na dança e que não se vêem mais com tanta freqüência no futebol moderno.

29 Nogueira (2003) discorda dos comentaristas contemporâneos que afirmam que os tempos mudaram e que não há mais espaço para a prática do futebol-arte tal como em décadas passadas. O craque, para o cronista, com seus passes, com seus dribles e com sua técnica, continua sendo capaz de criar o encantamento em todos aqueles que o assistem, além, é claro, de desequilibrar e decidir uma partida. É exatamente essa capacidade técnica, a existência de jogadores realmente diferenciados, capazes de realizar jogadas inusitadas, que caracteriza a história do futebol brasileiro e o faz não só vencedor como respeitado. 3.3 Os primeiros craques do Brasil Já o jornalista mineiro Plínio Barreto (1976) trata da época em que o esporte ainda era amador, quando os atletas jogavam pelo amor e identificação com o clube. Entretanto, o autor conta um caso do atacante Niginho, do antigo Palestra Itália, hoje Cruzeiro, que, na véspera dos clássicos contra o Atlético-MG, simulava uma contusão. Entretanto, isso era apenas um pretexto do jogador para arrancar dinheiro do presidente do time, uma vez que Niginho era o principal astro do Palestra. Plínio Barreto (1976) afirma que o profissionalismo chegou ao futebol do Brasil, em 1933, para evitar o êxodo de craques para a Europa. Na capital mineira, apenas os três clubes considerados grandes adotaram o modelo (América-MG, Atlético-MG e Palestra). Já na região metropolitana, o Siderúrgica, de Sabará, e Villa Nova, de Nova Lima, também seguiram o profissionalismo para “segurar” seus ídolos.
O que de fato mais terá influído para a concreta adoção e aplicação do profissionalismo no futebol brasileiro há de ter sido o êxodo de grandes jogadores, que em certa fase passaram a trocá-lo pela realidade, materialmente mais compensadora do futebol europeu. Atraídos pelos francos suíços e pelas liras italianas, grandes astros nacionais partiram para a Europa. (BARRETO, 1976, p.22).

Apesar do profissionalismo no futebol brasileiro, Minas Gerais, em especial o Palestra Itália, perdeu os seus três grandes astros: Ninão, Nininho e Niginho seguiram para a Lazio-ITA. A contratação dos jogadores brasileiros fazia parte de um ambicioso projeto do ditador fascista Benito Mussolini de reforçar a sua popularidade, dando para a Itália um título de expressão mundial na área esportiva, o que aconteceu com a Copa do Mundo de 1934.

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Plínio Barreto (1976) destaca que, entre 1934, 1935 e 1936, o futebol mineiro foi dominado pelo Villa Nova que se sagrou tricampeão do Estado com um grande esquadrão.
O Vila (sic) Nova se criara e se robustecia de mansinho, sem alarde, escondido entre as montanhas. O regime amadorista estava findo com o advento do profissionalismo em 1933. Enquanto Palestra, América e Atlético se consumiam vindo partir para os outros centros maiores seus melhores elementos, o alvirrubro de Nova Lima ia mantendo os campeões de 32. (BARRETO, 1976, p.48).

Passada as glórias do time de Nova Lima, Plínio Barreto (1976) destaca os grandes ídolos do futebol em Minas Gerais. Primeiro foi Bengala que formava o meio-campo do Palestra, segundo Barreto, Bengala atuava dessa forma: “Quem viu Bengala nos gramados, sempre com a camisa verde do Palestra ou com a blusa vermelha dos escretes de sua época, guarda dele uma ternura e uma recordação que nunca se acaba. (BARRETO, 1976, p.42). Depois é a vez de Nininho, lateral-esquerdo que saiu do Palestra para se tornar o melhor do mundo sua posição na Itália. Nininho foi titular absoluto da Lazio-ITA e participou da campanha que deu a Itália a Copa do Mundo de 1934. Nininho morreu devido a um choque na partida entre Lazio x Torino. A sua morte abalou o mundo esportivo. Plínio Barreto (1976) menciona outros craques do passado como Canhoto, ex Villa Nova, Ninão, Kafunga, Paulo Florêncio, Taian, Lucas Miranda, Mário de Castro e outros atletas. Quando se refere a esses jogadores, Barreto mostra nostalgia a falar desses atletas. O atacante Guará, artilheiro do Atlético-MG nos anos 1930, é retratado por Plínio Barreto (1976) por seu talento desde jovem. Segundo o autor, o jovem louro de Ubá, terra de Ari Barroso, chegou ao Atlético-MG junto com Nicola. Nicola, mais velho, não demorou a se firma na equipe. Guará demorou um pouco, mais logo se tornou um dos maiores atacantes do Brasil. Ele construía uma prodigiosa carreira até que um choque de cabeça com um zagueiro do Palestra encerrou a sua promissora carreira em 1939.

31 Plínio Barreto (1976) também abre espaço para uma série de histórias do futebol mineiro. Ele procura desvendar o famoso gol de bengala que aconteceu em Nova Lima , no jogo final do Campeonato Mineiro de 1934, entre Villa Nova e Atlético-MG, quando a bola saiu e um torcedor jogou-a de volta ao campo utilizando a sua bengala. Esse lance resultou no gol que deu o título ao Villa Nova. Os atleticanos reclamaram, mas ninguém nunca conseguiu provar que o lance saiu da forma contada pelos alvinegros. Plínio Barreto (1976) também traz um tópico dedicado à conquista da Taça do Brasil de 1966 pelo Cruzeiro. No intervalo do segundo jogo, quando o Cruzeiro perdia para o Santos de Pelé por 2 x 0, um fato inusitado motivou os cruzeirenses a virar o jogo. Um representante da federação paulista foi marcar a data da terceira partida, antes do fim da segunda. Plínio Barreto narrou assim o acontecimento.
Quando tudo parecia perdido, um homem entrou no vestiário à procura do presidente Felício Brant. Uma bomba que ali explodisse não causaria efeito tamanho. Foi quando uma derrota que parece iminente começou a ser transformada em vitória que garantiria ao time azul a conquista da Taça Brasil. (...) Já havíamos visto técnico ganhar jogo, através de uma preleção mais feliz, a alteração certa na hora exata. Já vimos à atuação isolada um jogador garantir a vitória para o seu time, já vimos até mesmo juiz garantir uma vitória a custo do seu apito, mas, um presidente de clube surgir como responsável direto por reviravolta no placar, sinceramente, foi a primeira vez. (BARRETO, 1976, p. 194).

3.4 A crônica como gênero jornalístico A Crônica é um gênero bastante comum no jornalismo brasileiro. Muitos estudiosos destacam que a crônica é um gênero criado no Brasil. Sá (1992) afirma que a carta de Pero Vaz de Caminha a el-rei de Portugal D. Manuel é o primeiro registro da paisagem brasileira por um escritor. Segundo o autor, é o marco inicial da estruturação que do pensamento dos descobridores sobre a realidade tupiniquim, através de um ângulo brasileiro, apesar de ser descrita na linguagem lusitana. O autor ressalta que Pero Vaz de Caminha descreve em seu texto tudo que ele registra no contato direto com os índios e seus costumes, o choque de culturas e alguns fatos insignificantes e banais da tripulação. Para Sá (1992), carta de Caminha constituiu o essencial da crônica, registrar o

32 circunstancial. De acordo com o autor, a história da literatura brasileira se inicia com o descobrimento, ou seja, em uma crônica. A crônica é a forma de expressão do escritor sobre fatos, ideias e estados psicológicos pessoais e coletivos, segundo Beltrão (1980). Para o autor, como os demais gêneros jornalísticos, a crônica está ligada aos acontecimentos atuais e do dia-a-dia. A crônica hoje se enquadra como gênero literário de assunto livre, de registro de pequenos fatos do cotidiano sobre política, arte, esporte e variados temas. Por se tratar de assuntos considerados menos importantes e por ser um texto limitado espacialmente nas edições dos jornais nas colunas ou em artigos opinativos, a crônica é tida como um gênero menor, o que, talvez, seja essa característica que permita ao cronista analisar “as pequenas coisas que as grandes vistas não percebem. (COSTA; NETO; SOARES, 2007). O cronista faz uso de citações de personalidades e fatos históricos. Inserido em um contexto que possibilita o uso do recurso “ficção”, busca soluções criativas na sua imaginação, sem comunicar agressividade. (COSTA; NETO; SOARES, 2007). Já Melo (2003) destaca que a crônica é o embrião da reportagem, um texto onde a narrativa circunstanciada sobre os fatos observados pelos jornalistas em um determinado espaço de tempo. Citando Martínez Albertos7, o autor afirma que a crônica tem uma origem eminentemente latina e diz que esse gênero assume caráter tipicamente informativo, mesclado, porém de elementos valorativos que revelam a percepção pessoal do redator. A crônica tal como a conhecemos hoje no Brasil, nasceu nos rodapés dos jornais franceses do século XIX com o objetivo de entreter os leitores. Nestes espaços, começaram a aparecer textos que diferiam do caráter jornalístico do conteúdo editorial.8 Melo (2003) cita Afrânio Coutinho9 para afirmar que é como folhetim que a crônica no jornalismo brasileiro. Segundo o autor, o folhetim começou em 1852 com Francisco
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MARTÍNEZ ALBERTOS, José Luis. Redacción Periodística. Moisés, 1982, p.246 9 Coutinho, Afrânio. Ensaio e crônica.
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33 Otaviano no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Depois dele, grandes nomes da literatura brasileira seguiram este caminho, como Machado de Assis, José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Raul Pompéia, Coelho Neto etc. Contudo, segundo Melo (2003), o folhetim não tinha as características que conhecemos hoje da crônica. Era uma seção de jornal dedicada a assuntos variados e com comentários. Para ilustrar, o autor faz uma analogia entre o folhetim brasileiro com as colunas dos jornais norte-americanos, no final do século passado. Atualmente, a crônica se enquadra como gênero literário de assunto livre, de registro de pequenos fatos do cotidiano sobre política, arte, esporte e variados temas. Por se tratar de assuntos considerados menos importantes e por ser um texto limitado espacialmente nas edições dos jornais nas colunas ou em artigos opinativos, a crônica é tida como um gênero menor, o que, talvez, seja essa característica que permita ao cronista analisar as pequenas coisas que as grandes vistas não percebem10.

4 ANÁLISE DAS CRÔNICAS DE ARMANDO NOGUEIRA: A SAUDADE DO FUTEBOL-ARTE 4.1 Metodologia de pesquisa Esta monografia, como já foi escrito anteriormente, tem o objetivo de analisar as crônicas do jornalista Armando Nogueira, publicadas no livro A Ginga e o Jogo, com foco naquelas que evocam o futebol do passado. O objetivo é analisar a forma como esse futebol foi visto pelo autor considerado. Da Copa do Mundo de 1950 ao último mundial em 2002, Armando Nogueira testemunhou as grandes conquistas e decepções do futebol brasileiro. O critério para seleção das crônicas foi a presença de elementos que remetiam ao passado do futebol. Das 78 crônicas do livro A ginga e o jogo, nove contem tais referências.

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Lucena, 2003, p. 162.

34 Armando Nogueira foi um jornalista e cronista esportivo do Brasil. Pioneiro do telejornalismo, foi responsável pela implantação do jornalismo na Rede Globo, com destaque para a criação do Jornal Nacional, primeiro jornal com transmissão em rede e ao vivo da história da televisão brasileira. A ginga e o jogo é o último livro de Nogueira, que faleceu em 2010. O autor era um grande defensor do futebol do passado e de jogadores como Garrinha, Zizinho e Pelé, que tiveram crônicas dedicadas a eles. As crônicas analisadas serão É a Vez do Drible; Além do Real Madrid; A Camisa 10; Está Faltando Um; O Leão da Copa; O Cochilo de Craque; Garrincha, um espanto!; A Melhor de Todas; e O Galã da Área. A análise tem a proposta de verificar as principais personalidades do futebol citadas pelo jornalista, as suas referências em relação ao passado, as principais comparações com o futebol praticado atualmente.

4.2 Análise das crônicas Esta monografia procurou verificar a impressão pessoal de um autor a respeito do futebol, notando-se que, em geral, há a recorrência de um discurso saudosista dos cronistas esportivos contemporâneos. Ao se ler o livro A sombras das chuteiras imortais de Nelson Rodrigues, é verificável que essa particularidade acompanha a imprensa esportiva brasileira há muitos anos. Na Copa de 1958, por exemplo, o exjogador, um dos maiores de todos os tempos, e comentarista de uma rádio Leônidas da Silva (conhecido como Diamante Negro) é criticado por Nelson Rodrigues por ter chamado Pelé, então com 17 anos, de perna-de-pau. Atualmente, Pelé é considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos e um dos ícones do esporte no século XX. Com pouco mais de 80 anos de organização, o futebol já era, na metade do século XX, o esporte mais popular do planeta. No Brasil, a hegemonia aconteceu a partir dos anos 20. E essa popularidade tem uma significação: das várzeas aos estádios, joga-se onde

35 der. Das bolas de meias às bolas desenvolvidas cientificamente para dar o máximo de potência ao chute do atleta, joga-se com o que der. As regras são simples e adaptam-se a qualquer circunstância. Democrático, o futebol está ao alcance de todos e ganhou as ruas e o povo, transformando-se em um dos fenômenos culturais que marcam a vida brasileira e mundial neste século. (SOUZA; RITO; LEITÃO, 1998). Por ser um esporte dominado por ingleses e ter atraído, inicialmente, os jovens de famílias tradicionais do Rio de Janeiro, Mário Filho (2003) afirma que na década de 1920 surgiram os primeiros saudosistas, aqueles que lembravam o tempo em que só os brancos praticavam a modalidade. Nelson Rodrigues foi um marco na imprensa esportiva do Brasil. Se a crônica é um gênero da literatura marcado pelo cotidiano, Nelson Rodrigues elevou esse mesmo gênero à categoria da ficção. O cronista esportivo é um autor que vê a bola, o estádio, os jogadores, o juiz, os bandeirinhas, o público, os locutores e os críticos, como elementos de um drama, uma tragédia, que se desenrola no gramado. (COSTA; NETO; SOARES, 2007).

Natural de Xapuri, no Acre, Armando Nogueira se mudou para o Rio de Janeiro com 17 anos, formou-se em Direito e iniciou a carreira de jornalista em 1950, ano em que o Brasil perdeu a final da Copa do Mundo para o Uruguai jogando no Maracanã, no Diário Carioca, onde ocupou o cargo de redator de esportes e, com o pseudônimo Arno, assinava a coluna “Bola Pra Frente”. Trabalhou nas revistas Manchete, como redador-principal, sob o comando de Otto Lara Resende. Anos depois chegou à revista O Cruzeiro, onde foi repórter fotográfico entre 1957 e 1959. Ao fim desta passagem, ainda em 1959, Armando Nogueira ingressou no Jornal do Brasil, onde foi redator e colunista Assim como outros importantes cronistas esportivos brasileiros, tais como Nelson Rodrigues, João Saldanha, Carlos Drummond de Andrade e Juca Kfouri, os textos de

36 Armando Nogueira dão um ponto de partida para a criação e elaboração de idéia que em muito transcendem o universo do futebol. Armando Nogueira cobriu 15 Copas do Mundo desde a sua estreia no Diário Carioca, em 1950, e seis Jogos Olímpicos. Criou frases e descreveu Garrincha como o "anjo das pernas tortas". Foi um dos precursores dos debates esportivos na TV. Participava das mesas redondas com comentários inflamados e polêmicos. Até 2009, mantinha o fôlego para os debates esportivos no SporTV e na Rádio CBN. Na cobertura da Copa do Mundo de 1954, Armando Nogueira ficou encantado com o futebol artístico apresentado pela vice-campeã, a Seleção da Hungria, que contava com o grande craque Puskas. A partir daí, o destaque dado ao time húngaro, já evidenciava a sua preferência pelo futebol artístico, criativo e habilidoso. Ao continuar a sua carreira, Armando Nogueira ingressou no telejornalismo em 1959, na antiga TV-RIO. Na emissora carioca, participou, a partir de 1963, nas noites de domingo, juntamente com Nelson Rodrigues e João Saldanha, entre outros, da “Grande Resenha Facit”, precursor debate esportivo na televisão. O jornalista nos legou crônicas de grande beleza. A Melhor de Todas Na crônica “A melhor de todas”, de 1993, Armando Nogueira analisa a Seleção Brasileira de 1958, que, segundo ele, foi a maior equipe de futebol de todos os tempos, discordando de uma pesquisa feita pela TV Globo11, com jornalistas e atletas, que elegeu a Seleção de 1970 como a melhor seleção de futebol de todos os tempos. Ao mesmo tempo, a escolha do grupo de 1958 desvalorizou a contemporânea Seleção de 1994, Campeã do Mundo nos EUA. Nogueira inicia a crônica usando uma linguagem crítica para falar do título da Seleção Brasileira de 1994, que para ele foi conseguido por uma equipe que não jogava tão bonito, quanto os outros esquadrões que conquistaram Copas do Mundo para o Brasil.
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Pesquisa sobre qual a Melhor Seleção de Todos os Tempos, feita pela TV Globo, em 1992, que que contou com o voto de jornalistas.

37 “O quarto, meio mortiço, é de julho de 94. Se não é o caso renegá-lo, eis que um triunfo é sempre bem-vindo, manda a verdade que o regozijo seja mais discreto. Eu diria que foi uma vitória correta, porém, sem trombetas”. Nesta passagem, o autor desvaloriza o título conseguido e pede que as comemorações sejam contidas, em nome da consciência das limitações do time campeão. Para Nogueira, o passado apresentou grupos com melhor desempenho. Ele faz uma comparação entre duas seleções, que pertenceram a uma “era romântica do futebol”: as Seleções Brasileiras de 1958 e a de 1970. Para o autor, a equipe de 1958 era muito superior e ele questiona a pesquisa da TV Globo, ao afirmar que quem não votou na Seleção de 1958 foi porque não a viu jogar. Mostra-se assim, testemunha de um passado glorioso e coloca em xeque as opiniões dos que, provavelmente, não puderam presenciar a Copa de 1958. Nogueira não poupa elogios à primeira Seleção Brasileira a conquistar uma Copa do Mundo, neste ano de 1958, na Suécia, e usa de metáforas para descrevê-la. “Aquela, sim, era de fazer sonhar. Reluzia e suava. Suava e reluzia. De Gilmar a Zagallo, a seleção era irretocável. No espírito de luta, na força mental, na técnica refinada”. O autor demonstra toda nostalgia ao se lembrar de um tempo “romântico” do futebol. Armando Nogueira relembra também, com uma linguagem exaltadora, de um dos principais jogadores da conquista na Suécia, Didi, chamado por ele de “príncipe”, e seu desempenho nas partidas finais da Copa do Mundo contra França e Suécia, onde o jogador não errou nenhum passe e foi reconhecido por um jornal francês como um “jogador magistral”. Nogueira finaliza a crônica com um tom nostálgico, ao citar Pelé e Garrincha como os maiores expoentes do futebol daquela época, e afirmando que a Copa do Mundo da Suécia foi o maior momento dos seus 50 anos de arquibancada. “Ah, que saudades que eu tenho daquela Seleção!”, finaliza o jornalista.

Está faltando um...

38 Na crônica “Está Faltando Um...”, Armando Nogueira analisa a eliminação da Seleção Argentina da Copa de 2002 e remete a antigos confrontos entre Brasil e Argentina, como no fim dos anos 40, da já extinta Copa Roca12 e da técnica refinada por parte dos brasileiros contra o fulgor e a “raça” argentinos. Armando Nogueira faz uma analogia entre o futebol sul-americano da década de 1940 e o da Copa de 2002. Do seu ponto de vista, se antes jogadores habilidosos defendiam Brasil e Argentina, no futebol contemporâneo não é diferente. “Ontem, como os pés imortais de Zizinho e Pedernera, hoje; como os pés auspiciosos de Ronaldinho Gaúcho e de Pablo Aimar.” Em um dos raros momentos, o autor faz uma comparação entre os principais craques, brasileiros e argentinos, de 1940 e 2002 e não demonstra nostalgia ao elogiar os atletas contemporâneos. Nogueira também relembra, em um tom nostálgico, do futebol da década de 1940, em que ele foi uma testemunha visual. “No fim dos anos 40, eu via, deslumbrado, os confrontos da Copa Roca, entre brasileiros e argentinos. Eram partidas mumentais.” Nesta passagem, o autor mostra-se nostálgico em relação a um passado glorioso.

Além do Real Madrid Neste texto, Armando Nogueira comenta sobre o Real Madrid de 1960, equipe eleita o time do século. O autor discorda da eleição e cita como exemplo o time do Botafogo da década de 1960, evocando mais uma referência do passado como símbolo de futebolarte. “Mas não o vejo acima do Botafogo, exuberante na passagem dos 50 pros 60, com o trio Garrincha-Nilton Santos-Didi que vale uma enciclopédia de futebol”. Torcedor do time carioca, Armando Nogueira era um apaixonado pelo futebol botafoguense e principalmente pela época de Garrincha, citando a equipe e o jogador de forma recorrente no livro.

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A Copa Roca era uma competição de futebol instituída em 1913 e disputada entre as seleções nacionais de Brasil e Argentina.

39 Nogueira destaca que o futebol argentino na década de 1940 era muito mais desenvolvido do que o brasileiro e que foi atrapalhado pela política do governo Perón. 13 Isso remete à análise de Ramos (1984), o futebol pode ser um aparelho de dominação do governo, já que inclui em seu universo as questões econômicas, políticas e sociais. Segundo o autor, os políticos usam essas características para que a população esqueça os problemas do país, como saúde, economia, educação e inflação. O autor também cita o nazismo alemão e o fascismo italiano como governos que tentaram ligar suas imagens ao esporte e usá-lo ideologicamente. Nesta crônica Nogueira cita várias outras equipes, que se não foram melhores, eram do mesmo nível que a equipe do Real Madrid da década de 1960, porém nenhum time contemporâneo faz parte dos melhores, na opinião do cronista. O time mais recente comentado com Nogueira é o holandês Ajax, de 1974, um outro claro exemplo de exaltação ao futebol do passado.

A camisa 10 Na crônica “A camisa 10”, Armando Nogueira discorda das autoridades do futebol argentino, que decidiram aposentar a camisa 10 da seleção nacional, numa homenagem a Diego Maradona. Segundo ele, o país teve outro jogador melhor que o “Pibe”: Alfredo Di Stéfano, atleta da década de 1960. Ele afirma que se a Confederação Brasileira tivesse a mesma idéia para homenagear Pelé, teria que imortalizar outras camisas de outros craques brasileiros. “Se um dia a CBF resolvesse cometer a tolice de canonizar a camisa 10, em honra a Pelé, certamente, teria que fazer o mesmo com a número sete, por gratidão a Garrincha e a oito para Zizinho”. Armando Nogueira poderia ter citado algum jogador contemporâneo como Romário e Ronaldo, mas sua preferência por jogadores do passado é mais que evidente.
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Juan Domingo Perón foi um militar e político argentino. Foi presidente de seu país de 1946 a 1955 e de 1973 a 1974.

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Personalidades citadas: Di Stéfano, Maradona, Pelé, Garrincha e Zizinho O Galã da área Neste texto, Armando Nogueira faz uma homenagem a Mauro Ramos, zagueiro que ergueu a taça de campeão do mundo de 1958, que por seu estilo bonito e elegante de jogar ganhou o apelido de "Marta Rocha"14, mas que também sabia jogar sério quando preciso. “Digo apesar, amigos, porque, naqueles tempos, o papel do zagueiro era limpar a área, com chutões, a esmo que aliviavam a angústia da torcida”. Amante do futebolarte, o autor admite que o futebol do passado nem sempre era jogado de forma plástica, como era de seu agrado. Armando Nogueira fala da característica principal de Mauro, a qualidade de sair jogando com a bola nos pés. “Era um virtuose, membro nato da realeza de Domingos Da Guia, de Nilton Santos, de Carlos Alberto Torres, gente que sempre teve com a bola uma relação da mais terna convivência”. O autor compara Mauro a outros importantes defensores da história do futebol brasileiro, todos com uma característica em comum: eram zagueiros, mas zagueiros que jogavam bonito, o futebol-arte, que para Nogueira é algo que só existia no futebol do passado.

É a vez do Drible Neste texto Armando Nogueira faz mais uma menção a Garrincha, ex-jogador brasileiro que se notabilizou por seus dribles desconcertantes apesar do fato de ter suas pernas tortas. O autor fala da devoção que Garrincha, citado na maioria de suas crônicas, tinha no drible e o compara com o jogador Denílson, que fez sucesso na Seleção Brasileira no final da década de 1990. “É pelo drible que se conhece o ponta. Este provérbio saiu de moda. É do tempo de Tesourinha, de Julinho, de Garrincha e Canhoteiro”. Neste trecho, Armando Nogueira
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Miss Brasil na década de 1950

41 faz uma clara alusão saudosa ao futebol do passado, ao citar atletas da década de 1940 a 1960 e ao dizer que o provérbio saiu de moda, ele claramente desvaloriza o futebol contemporâneo, onde supostamente o drible perdeu o lugar. “O drible de Garrincha tinha ecos. Até hoje, ressoa pelos quatro cantos do campo, como um canto”. Nesta crônica podemos perceber a importância que o autor dá ao futebol do passado, ao colocar Garrincha como um Deus.

O Leão da Copa Armando Nogueira nesta crônica relembra uma história de seu tempo como repórter, em que viajou de trem, na Copa do Mundo da Suécia de 1958, com a Seleção Brasileira. Na oportunidade, Nogueira viajou ao lado de Vavá, jogador de razoável técnica, mas que ficou conhecido por sua raça. O autor conta que Vavá estava com o pé machucado e mesmo assim entrou em campo contra França, onde inclusive marcou um dos gols da vitória. “Bom, amigos de hoje, eu só posso dizer a vocês uma coisa: Vavá jogou a partida contra a França como um bravo. Não refugou uma só disputa com os zagueiros franceses”. Nogueira valoriza a força de vontade do jogador, que segundo ele, jogava sem o pé, mas com o coração. Saudosista, Armando Nogueira finaliza a crônica explicando o apelido de “Leão da Copa”, recebido por Vavá, após a partida, e se mostra nostálgico em relação ao futebol praticado naquele tempo. “Mas, desde aquela partida contra a França, eu fiquei sabendo por que alguém teve a feliz idéia de batizá-lo de Leão da Copa. Quanta saudade!”

O Cochilo de craque O autor começa a crônica questionando a mudança do esquema tático no futebol que extinguiu do futebol o ponta-de-lança e o meia-de-ligação, que na década de 1950 eram importantes funções dentro de campo. “A grande verdade, amigos, é que a evolução tática acabou com duas preciosidades de um time de futebol: o ponta e o meia. Nos bons tempos a seleção tinha em Zizinho e Jair da Rosa Pinto o mais ilustre “par de meias” do

42 Brasil”. Saudosista, o autor faz uma menção a uma época do futebol que não volta mais, em que o esquema tático era de 4-2-4, quase sem nenhum marcador, o que seria inviável hoje, já que a defesa é supervalorizada. Em seguida, Armando Nogueira cita antigos meias-de-ligação que, na sua concepção, não existem mais no futebol moderno. “Ah, que saudades de Zizinho, de Didi, de Gerson, de Ademir da Guia!”. Nogueira ignora grandes nomes do futebol contemporâneo, como por exemplo, o Zinedine Zidane, que também é um meia, nos moldes dos antigos meias de ligação e com tanta qualidade quanto os que foram comentados. Armando Nogueira comenta um artigo de outro cronista, Tostão, em que o ex-jogador comenta da falta dos meias-de-ligação no futebol moderno e de como temos cada vez mais jogadores de meios que só se preocupam com a marcação, os chamados volantes cabeças-de-área. Garrincha, um espanto! Em mais uma crônica Armando Nogueira volta a homenagear Garrincha e comenta sobre a Copa do Mundo de 1962, quando Pelé se machucou e o jogador das pernas tortas ficou com a responsabilidade de conduzir a Seleção Brasileira para o título. “Garrincha sai da ponta e vai pro meio e, sozinho, consegue transtornar a defesa britânica. Dribla, passa, cabeceia e chuta. Ao mesmo tempo, faz todo mundo lembrar e esquecer Pelé”. Pelé e Garrincha foram os melhores jogadores que o autor afirma ter visto jogar e, a todo momento, cita ambos com saudade de um tempo que não volta mais. Ao longo da crônica, Armando Nogueira tenta comparar e decidir sobre quem foi melhor jogador: Pelé ou Garrincha, o que no final e ele considera impossível e os eleva a o patamar de deuses. “Se Garrincha era capaz de encarnar Pelé e se Pelé era, igualmente, capaz de encarnar Garrincha, só me resta canonizá-los neste meu instigante dogma: Pelé e Garrincha são as duas principais pessoas da santíssima trindade do futebol.

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5 CONCLUSÃO De acordo com Ferin (2009), os múltiplos usos metafóricos e cruzamentos de sentidos do conceito de nostalgia tornam-se uma ferramenta crítica para interrogar a articulação do passado com o presente e os processos de memória que levam ao apagamento ou à sobrevalorização de determinadas vivências do passado no presente. Nas crônicas de Armando Nogueira, essas vivências sobrevalorizadas se referem ao futebol do passado. O futebol é um esporte integrado à cultura brasileira e presente no dia a dia de toda a população. Todos os dias os meios de comunicação de massa dão espaço para um universo de 190 milhões de treinadores. Por tantas pessoas acharem que possuem conhecimento sobre esta prática esportiva, há tantas posições contraditórias sobre o tema. Algumas delas adquiriram posição proeminente para emitir análises, opiniões e julgamentos, caso do cronista aqui considerado.

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Em nove análises de crônicas do jornalista Armando Nogueira, em seu livro A Ginga e o Jogo, foi proposta a verificação da presença da nostalgia no texto do autor, que não esconde do seu leitor que prefere a época romântica do futebol-arte. A palavra “saudade” aparece por 12 vezes nas crônicas escolhidas. Na concepção de Armando Nogueira (e de vários outros cronistas como Nelson Rodrigues e Mario Filho, por exemplo) o futebol de antigamente era praticado por jogadores dotados de uma capacidade técnica acima dos contemporâneos, os quais utilizam mais da força para sobressair neste esporte. Apesar de não esconder a sua preferência pelo futebol praticado no passado, Nogueira adota uma postura defensiva acerca desse atributo, chegando a citar em sua crônica “A melhor de todas” que não é saudosista; porém, ressalta que nunca mais na história haverá uma seleção formada por Pelé, Didi, Garrincha, Gilmar e Zagallo, recordando assim a escalação da Seleção Brasileira de 1958, considerado por muitos o maior esquadrão de futebol de todos os tempos. Outra crônica que podemos evidenciar especialmente o saudosismo de Armando Nogueira é na “É a vez do drible”, na qual o autor fala de Garrincha e da falta que sente de ver mais jogadores como ele, que tinha o drible como “uma devoção”. O sentimento nostálgico e saudosista é muito percebido nos media, sobretudo em anos de Copa do Mundo. Muitos comparam o futebol da atual Seleção Brasileira com o dos esquadrões que vestiram a camisa amarela em outras épocas. Por isso, ser saudosista, parece ser pré-requisito para ter sucesso na imprensa esportiva brasileira. A nova geração precisou crescer ouvindo que o futebol não é o mesmo que se jogava antes e que a comparação de qualquer jogador ou equipe de hoje com craques do passado seria um absurdo por ofender a qualidade muito superior do jogo antigo. Armando Nogueira contribuiu decisivamente para tais impressões. É lógico que não podemos esquecer os craques e do belo futebol que era praticado no passado. Mas subestimar os jogadores e a forma que esse esporte é praticado em nossa

45 época talvez seja indevido, apesar de muito comum no nosso jornalismo. Jogadores como Van Basten, Messi, Ronaldo, Romário, Buffon, Zidane, Baresi entre outros, poderiam, sem dúvida, jogar nos grandes esquadrões citados por Armando Nogueira.

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