P. 1
IONESCO Eugene - O Rinoceronte Texto

IONESCO Eugene - O Rinoceronte Texto

|Views: 49|Likes:
Publicado porMiguel Taiar Santos

More info:

Published by: Miguel Taiar Santos on Aug 24, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as TXT, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

08/24/2011

pdf

text

original

EUGÈNE IONESCO O RINOCERONTE Peça em 3 atos e 4 quadros TRADUÇÃO DE LUÍS DE LIMA PREFÁCIO DE ZOBA SELJAN CAPA DE MILTON RIBEIRO

1962

RIO DE JANEIRO

Copyright de ARTES GRÁFICAS INDÚSTRIAS REUNIDAS S. A. (AGIR) Traduzido do original «Le Rhinocéros» (edição NRP Desenhos de Ionesco B. Bráulio Gomes, (ao lado da Bibl. Caixa Postal 6040 R. México, 98-B Cxa. Postal 3291 Tel.: 42-8327 Av. Af. Pena, 919 Cxa. Postal 733 Tel.: 2-3038 Tel.: 34-8300 Rio Sfto Paulo, S. P. 125 Mun.) Gallimard)

de Janeiro Belo Horizonte Guanabara Minas Gerais

ENDEREÇO TELEGRAFICO "AGIRSA"

PREFÁCIO O teatro de vanguarda adota, hoje, uma posição anti-realista. Num livro sobre Ionesco, afirma Richard N. Coe que a expressão "teatro realista" é uma contradição de termos, porque a matériaprima do "real" passa por inteira transformação assim que é transferida para o palco, e tentar a "reprodução fotográfica" da realidade humana é, para Ionesco, ludibriar a platéia, levando-a a acreditar que só existe "realidade" quando enquadrada no "realismo". Daí, a luta de Ionesco pela sua "realidade". Num artigo intitulado "Descobrindo o Teatro", diz o autor de "Rinoceronte" que "o realismo" atenua a realidade, falsifica-a, não dando atenção às "nossas verdades básicas e nossas obsessões fundamentais: o amor, a morte, o espanto." Ao mesmo tempo, contudo, acrescenta Ionesco que o teatro sempre foi realista, no sentido de um realismo do mito, de uma anti-história, isto é, de que "todo sonho é capaz de realização", enquanto a realidade pura não se realiza além de si mesma: é o que é. A vanguarda do teatro francês obriga a considerações dessa ordem, porque a obra de Jean Genêt, de Henri Pichette, de Arthur Adamov, de Schehadé e, principalmente, do pioneiro Antonin Artaud, para quem o teatro devia "trazer os demônios à superfície", num processo de purificação através do perigo, essas obras fogem aos postulados do teatro naturalista predominante nos palcos do mundo desde o século passado. A ex

é a de que teatro é arte para a massa. É o que acontece na Broadway. para muita gente. revolucionar a poesia de seu tempo e publicar. e o importante é que as teses acabem em obras. na ficção. em Paris. Brecht e Ionesco seriam representantes de dois terrenos diferentes. enquanto as imitações de Tchekov e de Pirandello. como resultado do trabalho de um só homem. Teses sem obras não têm valor ponderá . numa revista. com mais de meio século de atraso. E vice-versa: há os que desejam opinar sobre Brecht em termos de Ionesco. Daí. em Londres. não consegue o teatro empreender. como na poesia. mas existem os que olham todas as coisas sob o ângulo de um grupo que precisa chegar ao poder. naturalmente. em Moscou. Ionesco foge a essas simplificações. por avançadas realizações do teatro de hoje. a reação contra a obra de Ionesco e dos demais renovadores do teatro francês. Não há. pelo menos. quase sempre coexistem campos opostos nas teses defendidas numa época. Chegar ao poder no teatro. no decorrer dos anos. na política. O teatro de êxito hoje ainda é o naturalista ou o ligado a certas veredas do realismo. passam. Julgar Ionesco em termos de Brecht é o equívoco mais comum nos comentários de jornais tanto parisienses como londrinos. o produto dessa revolução. a mesma renovação.plicação mais comum que se dá ao fato de o teatro chegar com atraso a certas conclusões e Richard N. em Roma. no Rio. de modo que é obrigado a obedecer a injunçoes comerciais. superioridade absoluta de uma corrente estética sobre outra. Assim. um grupo de pessoas capaz de manter uma bilheteria durante algum tempo. Se pode um poeta. É sempre necessário que o tempo passe e conquiste. O problema não é de partido estético. sozinho. Coe alude a isso .

constitui das melhores coisas escritas sobre teatro neste século. da Grécia antiga até hoje.. Io . Dizia Tynan que o teatro não podia rejeitar ideologias. São suas teorias que importam. Em "Victimes du Devoir".. põe Ionesco três críticos discutindo suas peças. Ou melhor. porém. Dizem que seu teatro não é "correto". Ionesco ironiza as críticas que lhe foram feitas. Transformar. perigoso e vazio". Orson Welles. Ionesco defende suas teses. Porque a não ser no que a obra em si não existe dela dizemos. Contra isto colocou-se Ionesco. Toda peça é uma investigação levada a uma conclusão bem sucedida. Há um enigma. Como o assunto é polêmico. uma série de artigos em que atacavam o excesso de "formalismo" do teatro de Ionesco. Brecht em palavra de ordem do teatro e em bíblia infalível do palco é o defeito de muitos brechtianos." As vezes.. Choubert afirma: "Todas as peças já escritas. não passaram de "thrillers".. A de Brecht. em artigos. traduzida para o inglês por Eric Bentley sob o título de "A Short Organum for the Theatre" e divulgada em todo o mundo. O teatro sempre foi realista e sempre houve um detetive por perto." É dessa forma idealista que Ionesco vê algumas discussões sobre a inexistente lã caprina de um rebanho. Num diálogo a respeito.... entrevistas e no próprio texto de algumas de suas peças. Obras sem teses podem ficar para sempre. que é solvido no final da peça.vel. não obedece aos princípios certos da construção dramática. Eles chegam a esta conclusão: "Suas obras não importam . o que nós pensamos de suas teorias.. sob pena de se tornar "estreito. Kenneth Tynan e Philip Toynbee publicaram. Pode-se dizer que "Rinoceronte" nasceu no verão de 1958. no "Observer".

Ionesco utiliza-se do "homem comum". Para muitos. A moral é anti-natural. De certo modo. como Jean. Os rinocerontes também argumentam. viverei lá!" No seu combate ao embrutecimento. nos fundamentos de sua força. você quer trocar a lei moral pela lei da selva.nesco respondeu. É por isto que. isto é. Agride-se em nome de uma cultura que. é uma negação de toda agressão. Jean diz: "É preciso ir além da moral! E Bérenger: E que é que você põe no lugar dela? Jean A Natureza! A Natureza? Bérenger Jean A Natureza tem as suas leis. A primeira implicação de "Rinoceronte" é sua luta contra todos os tipos de brutalidade. Bérenger Se estou compreendendo bem. de Bérenger. é a mesma que os rinocerontes adotam na sua dominação da vida e da sociedade. Primeiro em artigos. que não é intelectual. a lógica levada às suas últimas conseqüências pelo Calígula de Camus. O inimigo da vida e do homem aceita com facilidade que todos os que se encontram fora de uma comunidade de idéias devam ser condenados: não admite o perdão nem a caridade. Jean E eu viverei lá. é fácil a alienação de outros valores espirituais. depois com "Rinoceronte". em "Rinoceronte". Dessa busca do embrutecimento. também usam te . em si. Os rinocerontes da peça representam a volta a uma "inocência natural" e opõem-se não só à sensibilidade mas também à razão. a própria cultura perdeu sua contextura ética para se transformar em arma de agressão. mas que está mais perto dos sentimentos fundamentais do ser humano.

ZORA SELJAN . na França. A vanguarda teatral de Ionesco. em política. tinham os rinocerontes de hoje de confundir valores e lutar em favor do embrutecimento. &est parãonner". Adamov. domina grande parte do gosto teatral de nossa época. na sua luta em que existe perdão e compreensão. e a França é um dos lugares onde êle é mais bem sucedido. O teatro de tese estilo Camus continua. "Rinoceronte" é a obra de teatro mais importante desta segunda metade do século ainda com quatro quintos pela frente. o significado da peça de Eugène Ionesco. os recursos dos políticos. Levando para o plano da cultura e dos encontros entre os homens as armas da política mais comum. com atraso de dois séculos. Richard N. crentes de que lutam pela cultura e pelo aprimoramento do homem. Não desejam. Este. vem provar a adequação de uma frase do próprio Ionesco sobre o teatro pioneiro de hoje: "Vanguarda é liberdade". além de combatividade. E "Rinoceronte".ses e ideologias para a sua defesa. Coe cita a frase de Sukhanov de que "compreender demais. porém. é inadmissível. O teatro da linha Brecht espalha-se pelo mundo. Na sua força e na sua beleza de linguagem (é principalmente na forma que se concentram os ataques contra o teatro de Ionesco). porque usam. ir muito longe em seus raciocínios. parce que comprendre. e a França é exatamente o centro de sua floração. Schehadé procura. lutar contra o racionalismo científico que. Genêt. Pichette. em arte.

.Personagens por ordem de entrada: A DONA DE CASA A MERCEEIRA JEAN BÉRENGER A GARÇONNETTE O MERCEEIRO O SENHOR IDOSO O LÓGICO O PATRÃO DAISY SENHOR PAPILLON DUDARD BOTARD MADAME BOEUF UM BOMBEIRO SENHOR JEAN A MULHER DO SENHOR JEAN VÁRIAS CABEÇAS DE RINOCERONTES.

Assim que a cortina se abre.° ATO Uma praça numa pequena cidade do interior. duas janelas que devem ser as da casa dos donos da mercearia. mas bem para a esquerda. a dona da mercearia abre a porta para espreitá-la. uma mulher. Ao fundo. não longe dos bastidores. . Entre a mercearia e o lado direito. Entra-se por uma porta de vidro que tem dois ou três degraus. ouve-se tocar o carrilhão. a fachada de um café. Ê um domingo de verão. a fachada de uma mercearia. Na frente do terraço deste café: algumas mesas e cadeiras que vão até o meio do palco. ao longe. da direita à esquerda. alguns segundos depois. a torre de uma igreja. levando num braço uma cesta de provisões vazia e no outro um gato. um sobrado. Em cima da fachada está escrito em letras bem visíveis a palavra "MERCEARIA". o qual pára. paredes muito brancas. No primeiro andar. um andar com uma janela. luz crua. ligeiramente enviezaãa. atravessa em silêncio a cena. Percebe-se por cima da mercearia. Céu azul. não falta muito para o meio-dia. Jean e Bérenger irão sentar-se a uma mesa do terraço. A direita. a mercearia encontra-se no fundo do palco. A sua passagem. Por cima do café. Desta forma. No andar térreo.1. Antes de abrir a cortina. Uma árvore empoeirada perto das cadeiras do terraço. a perspectiva de uma pequena rua.

. tudo nele mostra negligência. tem o ar cansado. despenteado. acabo de chegar. quando penso ter a chance de encontrálo. Bérenger! BÉRENGER (vindo da esquerda): Bom dia. sem chapéu. BÉRENGER: Então me sinto menos culpado. Usa sapatos amarelados. olha aquela! (a seu marido que está dentro da mercearia): Aquela ali ficcu muito importante. Jean. Já não compra nada da gente. então chegou.. ao mesmo tempo pela esquerda surge Bérenger. JEAN (vindo da direita): Ora. Você está me esperando há muito tempo? JEAN: Não. JEAN: Eu não funciono como você. Pela direita aparece Jean. palco vazio alguns segundos. Como você nunca chega na hora. eu venho atrasado de propósito. (A Merceeira desaparece. as roupas amarrotadas. sonolento.A MERCEEIRA: Ah. (Os dois vão sentar-se numa das mesas do terraço do café). você bem viu. não tenho tempo a perder. Não gosto de esperar. BÉRENGER: Desculpe. visto que. Jpan está cuidadosamente vestido: terno marrom. É um pouco corado.. você mesmo. JEAN: Sempre atrasado. colarinho duro.. é claro! (olha seu relógio de pulso): Nós tínhamos encontro às onze e meia e já é quase meio-dia. chapéu marrom. de vez em quando boceja). Bérenger tem a barba por fazer. gravata vermelha. hem.. bem engraxados.

isso não resolveria o seu problema. me parece. BÉRENGER: O que você quer dizer com isso. BÉRENGER: Faria menos calor. então. Estou falando da aridez da sua güela.. É uma região insaciável... está certo. no entanto ... teríamos menos sede... se conseguissem achar um sistema de nuvens científicas. Não é de água que você tem sede. JEAN: Você não pode afirmar que chegou na hora marcada! BÉRENGER: Evidentemente... você acha? .BÉRENGER: Está certo. BÉRENGER: Num belo estado. JEAN (interrompendo): Você está num belo estado... meu caro. mais se tem sede. diz a sabedoria popular.. (Jean e Bérenger sentam-se). JEAN (examinando Bérenger): Ora. BÉRENGER: O que é que você bebe? JEAN: Você tem sede logo de manhã? BÉRENGER: Está fazendo tanto calor. BÉRENGER: Sua comparação. JEAN: Quanto mais se bebe. eu não poderia afirmar... meu caro Bérenger. meu caro Jean? JEAN: Você me compreende muito bem. JEAN: Bom.

BÉRENGER: Estou com a cabeça um pouco zonza. JEAN: Você está fedendo a álcool! BÉRENGER: Estou com um pouco de ressaca. sem contar os dias da semana. não. JEAN: Todos os domingos de manhã.JEAN: Eu não sou cego. é sempre o mesmo. JEAN: E sua gravata. perdeu mais uma noite.. você é muito gentil. BÉRENGER: Oh. por causa do escritório. Você está morto de cansaço.... JEAN: Você não fêz a barba! Olha a cara que você tem. está bocejando... BÉRENGER: Ah. obrigado. é verdade. JEAN (enquanto Bérenger põe a gravata de qualquer jeito): Você está todo despenteado! (Bérenger passa a mão pelos cabelos): Tome... ponha esta aqui. é verdade... na semana é menos freqüente. BÉRENGER (peganâo o pente): Obrigado. é gozado. onde é que está? Perdeua nas suas farras! BÉRENGER: (pondo a mão no pescoço): Ah. (Tira um pequeno espelho do bolso . use este pente! (Tira um pente ão outro bolso ão paletó). caindo de sono. onde será que ela foi parar? JEAN (tirando uma gravata do bolso do paletó): Tome.. (Penteia-se mais ou menos)..

.. (Sempre molemente Bérenger dá tapas nas costas. JEAN (a Bérenger que lhe quer devolver a gravata): Guarde a gravata.. meneando a cabeça): ai. (Bérenger estende molemente sua mão para Jean): Não. Tenho vergonha de ser seu amigo. que desleixo!. eu não trago escova comigo.. Jean. Você se encostou contra uma parede. BÉRENGER: Você é muito severo.. sua camisa está suja que dá medo. JEAN (retomando o espelho e ponão-o no bolso) : Não é de admirar!. BÉRENGER (aãmirativo): Você é cuidadoso.. para tirar a poeira branca. BÉRENGER: Estou com a língua muito suja. onde íoi que você se encostou? BÉRENGER: Já não me lembro... Vamos.interno do paletó.. .. guardanão-o no bolso): A cirrose te espreita. (Bérenger tenta esconder seus pés debaixo da mesa): Seus sapatos não estão engraxados. meu amigo. dá a Bérenger que se observa nele.. JEAN (continuando a inspecionar Bérenger): Sua roupa está toda amarrotada. é uma vergonha. BÉRENGER: O que é que têm minhas costas? JEAN: Vire-se. Isso enche muito os bolsos. JEAN: É lamentável.. ai. vire-se. Tenho mais de reserva.. ai. BÉRENGER (inquieto): Você acha? .. lamentável. (retoma também o pente que Bérenger lhe devolve... seus sapatos. olhando-se no espelho. suas costas. põe a língua de fora).

Um pouco de vontade. Não. JEAN (interrompendo): Eu valho tanto quanto você. todos os dias. também eu como todo mundo.. BÉRENGER: Ah. faço todos os dias oito horas de escritório. JEAN: Todo mundo tem que se habituar.. você está me vendo. não me habituo com a vida.. todo mundo trabalha e eu também. JEAN: Afinal.... sem falsa modéstia. a gente se aborrece nesta cidade. sim.. não sou íeito para o trabalho que tenho. Ou será que você é de uma natureza superior? BÉRENGER: Eu não pretendo. durante oito horas. por exemplo.. no escritório. estou tão cansado. O homem superior é aquele que cumpre seu dever! BÉRENGER: Que dever? JEAN: Seu dever.. e mesmo posso dizer. somente três semanas de férias no verão! No sábado à noite.. seu dever de empregado. Eu por exemplo não consigo me habituar. também. que diabo! BÉRENGER: Ora. vontade! Nem todo mundo tem a sua. que você compreende.. para me distrair. seu dever de empregado.. valho mais que você.JEAN: E o seria por muito menos! BÉRENGER: Escute. JEAN: Meu caro. Jean. Eu não tenho nenhuma distração. onde é que se passaram as suas libações desta noite? Se é que você se lembra? . não tenho senão vinte e um dias de férias por ano e no entanto.

ouve-se o seu bufar): Mas o que é que se passa? A GARÇONNETTE: Mas o que é que se passa? (Bérenger sempre indolente. GARÇONNETTE: (saindo do café): Bom dia senhores. (Os ruidos aumentaram muito): O que está acontecendo? (Os ruidos do galope de um animal potente e pesado estão bem próximos. como também um longo barrido). talvez porque você não foi convidado!. nosso amigo Augusto. ao assunto do convite. sem dar mostras de compreender o que se passa. porque. Não teria sido gentil. para o aniversário do nosso amigo Augusto... mas se aproximando bem depressa..... JEAN: Nosso amigo Augusto? A mim não me convidaram.. JEAN (a Bérenger e quase gritando por se fazer ouvir apesar dos ruidos que êle não percebe conscientemente): Não. JEAN: E eu fui? BÉRENGER: Justamente.. é verdade. não teria ido. de um ofegar de fera e de sua corrida precipitada. BÉRENGER: Eu não pude recusar... que desejam beber? (Os ruidos tornam-se muito fortes). (Neste momento.. responde tranqüilamente a Jean. Não me deram esta honra.. eu não fui convidado. escuta-se o ruído muito longe. De todo jeito. posso assegurar que mesmo que tivesse sido convidado. muito acelerados. mexe os .BÉRENGER: Estivemos festejando o aniversário do Augusto.

lábios; não se ouve o que ele diz; Jean ergue-se de um salto, deixa cair sua cadeira ao levantar, olha do lado esquerdo dos bastidores apontando com o dedo enquanto Bérenger, sempre um pouco indolente permanece sentado). JEAN: Oh, um rinoceronte! (Os ruídos produzidos pelo animal distandarseâo com a mesma rapidez, de tal forma que já se pode distinguir as palavras que se seguem: tôâa esta cena deve ser representada muito rápida). JEAN: (repetindo): Oh, um rinoceronte! GARÇONNETTE: Oh, um rinoceronte! A MERCEEIRA: (cuja cabeça apwrece através da porta): Oh, um rinoceronte! (A seu marido que está dentro da mercearia): Vem ver depressa, um rinoceronte! (Todos seguem com o olhar, à esquerda, o trajeto da fera). JEAN: Êle vai desembalado, raspando as vitrinas! O MERCEEIRO (na mercearia): Onde? A GARÇONNETTE (pondo a mão nos quadris) : Oh! A MERCEEIRA (a seu marido, que está sempre dentro da mercearia): Vem ver! (Justo neste momento, vê-se o merceeiro espreitando à porta). O MERCEEIRO (aparecendo): Oh, um rinoceronte!

O LÓGICO (entrando rápido em cena pela esquerda): Um rinoceronte, a toda a velocidade, na calçada da frente! (Todas essas réplicas, a partir de "Oh, um rinoceronte" ditas por Jean, são quase simultâneas. Ouve-se um "Ah" exclamado por uma mulher. Ela aparece; corre até o meio do palco; é a Dona de Casa com seu cesto no braço: uma vez chegada ao meio do palco, deixa cair seu cesto: suas provisões se espalham em cena. Uma garrafa quebrase, mas não larga o gato que tem no outro braço). A DONA DE CASA: Ah! Oh! (O Senhor Idoso, elegante, vindo da esquerda, em seguida da Dona de Casa se precipita para a mercearia, empurra-os e entra, enquanto que o Lógico irá se encostar na parede do fundo, à esquerda da porta de entrada da mercearia. Jean e a Garçonnette, de pé. Bérenger sentado, sempre apático, formam um outro grupo. Ao mesmo tempo, pode-se ouvir, vindos também da esquerda uns "Oh", e uns "ah"! e passos de pessoas que fogem. A poeira levantada pela fera, espalha-se pelo palco). O PATRÃO (cuja cabeça aparece pela janela num andar acima da entrada do café): O que está acontecendo? O SENHOR IDOSO (desaparecendo atrás dos donos da mercearia): Perdão! (O Senhor Idoso, elegante, usa polainas brancas, um chapéu de feltro, bengala encastoada de marfim. O Lógico está grudado contra a parede. Usa um bigoãinho grisalho, monóculo e na cabeça uma palheta).

A MERCEEIRA (empurrada e empurrando seu marido, para o Senhor Idoso): Cuidado com sua bengala, ora? O MERCEEIRO: Ora essa, mais cuidado! (Ver-se-â a cabeça do Senhor Idoso atrás dos merceeiros). A GARÇONNETTE (ao Patrão): Um rinoceronte! O PATRÃO (da sua janela à Garçonnette): Você está sonhando! (Vendo o rinoceronte): Puxa! A DONA DE CASA: Oh! (Os "oh" e os "ah" dos bastidores são como um "back-grounã" sonoro do "ah" dela; a Dona de Casa que deixou tíair sua cesta de provisões e a garrafa, não deixou cair seu gato que ela tem no outro braço): Pobre bichinho, êle teve tanto medo! O PATRÃO (olhando sempre para a esquerda, seguindo com os olhos o trajeto do animal, enquanto que os ruídos produzidos por este, vão decrescendo; ruído dos cascos, barrido, etc... Bérenger desvia simplesmente um pouco a cabeça por causa da poeira, um pouco sonolento, sem dizer nada; faz simplesmente uma careta): Esta agora! JEAN (desviando também um pouco a cabeça, mas com vivacidade): Esta agora! (Espirra). A DONA DE CASA (no meio do palco, mas virada para a esquerda: as provisões estão espalhadas pelo chão em volta dela): Esta agora! (Espirra) . O SENHOR IDOSO, MERCEEIRO E MERCEEIRA (no fundo, reabrindo a porta envidraçaãa da

menos Bérenger.. sentado. Ah. A GARÇONNETTE: Essa é boa!. que era um rinoceronte! Isso faz uma poeira! (Tira seu lenço 0 assoa-se).mercearia.. seguem ainda com o olhar.. que o Senhor Idoso tinha fechado): Esta agora! JEAN: Esta agora! (A Bérenger): Você viu? (Os ruídos feitos pelo rinoceronte e seu barrido... Cumprimenta-a galantemente. O LÓGICO: O medo é irracional. . TODOS (menos Bércnger): Esta agora! BÉRENGER (a Jean): Parece-me sim. A razão deve vencê-lo. sempre apático). A DONA DE CASA: Esta agora! que medo que eu tive! O MERCEEIRO (à Dona de Casa): Sua cesta. que susto que tomei... A GARÇONNETTE: Não o vemos mais. As pessoas de pé. o animal. PATRÃO: Ora essa. não lembra o diabo. Tenha a bondade de se cobrir. tirando o chapéu).. O SENHOR IDOSO (à Dona): Permite que a ajude recolher suas provisões? A DONA-DE-CASA (ao Senhor Idoso): Obrigada Senhor. (O Senhor Idoso aproxima-se da dama e abaixase para apanhar as provisões espalhadas pelo chão. suas provisões. ouvem-se muito ao longe.

JEAN (ao Patrão. que pena.O SENHOR IDOSO (à Dona ãe Casa. enquanto que o Senhor Idoso recolhe as provisões): O senhor quer pegá-lo um instante? A GARÇONNETTE (a Jean): Eu nunca tinha visto disso! O LÓGICO (à Dona de Casa. cavalheiro. Ela não comprou aqui. não é isso que falta. e à Garçonnette): O que é que vocês dizem disto? A DONA DE CASA: Apesar de tudo não larguei meu gatinho. mostrando o Lógico): Meu amigo é Lógico. pelo preço que está! O MERCEEIRO (à Dona de Casa): Eu também tenho. . pegando o gato nos braços): Êle não é bravo? O PATRÃO (a Jean): É como um cometa! A DONA DE CASA (ao Lógico): Êle é muito mansinho (aos outros): Meu vinho. A MERCEEIRA (ao marido): É muito bem feito. O PATRÃO (dando de ombros na janela): Não é sempre que se vê disto! A DONA DE CASA (ao Lógico. JEAN (a Bérenger): O que é que você acha disto? A GARÇONNETTE: Como vão depressa esses bichos! A DONA DE CASA (ao Lógico): Muito prazer.

ajudada pelo senhor idoso): O senhor é muito amável. cavalheiro. em garrafas inquebráveis! (Êle desaparece na mercearia). BÉRENGER (a Jean): De que é que você está falando? A MERCEEIRA (ao marido): Vai levar para ela uma outra garrafa! JEAN (a Bérenger): Do rinoceronte. A GARÇONNETTE: Muito bem. (Se dirige para a entrada do café). do rinoceronte! O MERCEEIRO (à Dona de Casa): Eu tenho bom vinho. . ora. O LÓGICO (acariciando o gato nos seus braços): Bichinho! bichinho! bichinho! A GARÇONNETTE (a Bérenger e a Jean): O que os senhores vão beber? BÉRENGER (à Garçonnette): Dois "Pernods". o que é que você acha disto? O MERCEEIRO (à Dona de Casa): E do bom! O PATRÃO Cd Garçonnette): Não perca tempo! Sirva estes senhores! (Mostra Bérenger e Jean. A GARÇONNETTE: Dois "Pernods!" (Entra no café). A DONA DE CASA (recolhendo suas provisões. senhor.JEAN (a Bérenger): Então. desaparece).

cara senhora. O MERCEEIRO (saindo da mercearia com uma garrafa de vinho. o que você diz? BÉRENGER (a Jean.. Ah.. a cortesia francesa! Não é como a juventude de hoje.. à Dona de Casa): Também tenho alho poro. à Dona de Casa. O LÓGICO (sempre acariciando o gato nos seus braços): Bichinho! bichinho! bichinho! O MERCEEIRO (à Dona de Casa): É cem francos o litro. depois dirigindo-se ao Senhor Idoso. O LÓGICO (ao Senhor. nada.. A DONA DE CASA (dá o dinheiro ao Merceeiro.O SENHOR IDOSO (à Dona de Casa): Nada mais que um servidor. (O Merceeiro entra). O MERCEEIRO (pegando o dinheiro da Dona de Casa): Precisa vir comprar na nossa casa. que estão recolhendo as provisões): Reponham-nas metòdicamente. JEAN (que voltou a sentar-se e pensa sempre no rinoceronte): Apesar de tudo é uma coisa extraordinária ! . isto levanta poeira. que conseguiu pôr tudo dentro da cesta): O senhor é muito amável. JEAN (a Bérenger): Então. Nem se arrisca a ter maus encontros! (Volta para a mercearia). não sabendo o que dizer) : Bem... Assim já não tem que atravessar a rua.

(Olhos lânguiãos. beija a mão da Dona de Casa): Muito prazer em conhecêla! A DONA DE CASA (ao Lógico): Obrigada. A Garçonnette reaparece. seguindo a Dona ãe Casa com o olhar): Deliciosa!. mostrando a Garçonnette. (Jean dá ãe ombros desdenhoso e incrédulo). de todo coração.O SENHOR IDOSO (tira seu chapéu. JEAN (a Bérenger): Um rinoceronte! Estou pasmado! 21) . Ela se enganou.. que entra de novo no café): Eu tinha pedido água mineral. senhor... depois sai pela esquerda). cara senhora. caro senhor. Obrigada. Ficará para uma outra vez! O SENHOR IDOSO (à Dona ãe Casa): Assim espero.. senhores! JEAN (a Bérenger): Incorrigível! O SENHOR IDOSO (à Dona de Casa): Posso acompanhá-la um pedaço do caminho? BÉRENGER (a Jean. A DONA DE CASA (ao Senhor): Eu também. BÉRENGER: Acabou-se a poeira. A GARÇONNETTE: Aqui estão os "Pernods". por ter segurado meu gato! (O Lógico entrega o gato à dona. com as bebidas). O SENHOR IDOSO (ao Lógico. A DONA DE CASA (ao Senhor): Meu marido me espera. (Jean dá ãe ombros).

O LÓGICO (ao Senhor Idoso): O silogismo compreende a proposição principal. Não deviam permitir.. na direção da Dona): Simpática.. a Bérenger: Mal posso acreditar! É uma coisa inadmissível. por onde vão sair. (Bérenger boceja). custa-me a acreditar. Já passou.. O SENHOR IDOSO (ao Lógico. não é? O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Eu vou lhe explicar o que é o silogismo. BÉRENGER: Sim. o silogismo! JEAN. vejamos. isso não surpreende? Não devia ser permitido! (Bérenger boceja): Ponha a mão na frente da boca! . BÉRENGER (a Jean): Está se vendo que lhe custa.(O Senhor Idoso e o Lógico dirigem-se para a direita. calmamente... É espantoso! Um rinoceronte à solta na cidade. nós estamos fora de seu alcance. depois de ter olhado uma última vez... O SENHOR IDOSO: Que conclusão? (O Lógico e o Senhor Idoso saem) JEAN: Ah. não.. para que servem. Não tinha pensado nisso. sim.. O SENHOR IDOSO: Ah. Conversam tranqüilamente).. vejamos. JEAN: Mas. Era um rinoceronte. Sim. JEAN: Deveríamos ir protestar junto às autoridades municipais! Afinal. as autoridades municipais? . É perigoso.. a secundária e a conclusão.. Não se preocupe. e daí? Era um rinoceronte ! Já está longe.

. . quando diz que o rinoceronte escapou do jardim zoológico.. um circo ambulante.. porque já não há jardim zoológico na nossa cidade desde que os animais morreram com a peste. JEAN: Qual circo? BÉRENGER: Não sei. eu sonho.. Talvez o rinoceronte tenha fugido do jardim zoológico! JEAN: Você está sonhando em pé? BÉRENGER: Estou sentado. Você sonha.. BÉRENGER (mesma indiferença): Então talvez tenha vindo do circo. JEAN: Você não compreendeu.. Sentado ou em pé. há uma diferença. JEAN: Sentado ou em pé. BÉRENGER: Mas mesmo assim. BÉRENGER: Você é que acabou de me dizer que dava na mesma. JEAN: Não se trata disso. quando se sonha!.. . JEAN (continuando): ... perdão. BÉRENGER: É isso... BÉRENGER: Eu disse talvez.. estar sentado ou em pé.... pondo rapidamente a mão na frente da boca): Oh. A vida é um sonho.BÉRENGER (bocejando.. e isso já foi há muito tempo. JEAN (continuando): ... dá na mesma.. dá na mesma.

elas vêm do estômago.JEAN: Você sabe muito bem. BÉRENGER: Isso é só hoje. JEAN: E transtornam-lhe o cérebro.. JEAN: Hoje como sempre! BÉRENGER: Nem tanto.. por causa de. que a prefeitura proibiu aos nômadas de permanecer na nossa região.. porque eu. JEAN (erguendo os braços): Florestas pantanosas dos arredores! Florestas pantanosas dos arredores! . você está completamente perdido nas brumas do álcool. apesar de tudo! . ora! talvez êle tenha se abrigado numa pedra ou talvez tenha feito seu ninho num galho seco! JEAN: Se você se acha muito espirituoso. Onde é que você já viu florestas pantanosas nos arredores?... .. mas meu pobre amigo. desde a nossa infância que eles não vêm aqui. a nossa região é conhecida como "pequeno Saara" de tão deserta que é! BÉRENGER (excedido e bastante cansado): Então não sei. fique sabendo que se engana! Você é muito sem graça com esses seus paradoxos! eu o acho incapaz de falar seriamente. BÉRENGER (ingênuo): Isso é verdade.. nas florestas pantanosas dos arredores.. BÉRENGER (tentando não bocejar e não conseguindo): Nesse caso talvez êle tenha ficado desde essa data.... (Indica sua cabeça com um gesto vago).....

ainda por cima... isso não..... você acabou de se per mitir! BÉRENGER: Como é que você pode pensar. BÉRENGER: Ah não.. JEAN (interrompenão-o): Meu caro Bérenger. que você está me gozando! BÉRENGER: Ora.. você se permite. JEAN (interrompenão-o): Não gosto que me gozem! BÉRENGER (a mão no coração): Eu nunca me permitiria... JEAN: Sim senhor. isso eu não me permito..JEAN: Os seus gracejos não valem nada! BÉRENGER: Eu não pretendo que. JEAN (interrompenão-o): Eu penso o que é! BÉRENGER: Mas eu lhe juro. você é cabeçudo.... JEAN (interrompenão-o): . mesmo daqueles que não a têm. Está vendo? Você até me insulta. JEAN: Há coisas que passam pela idéia. mas isso... meu caro Jean.. BÉRENGER: Isso nem podia me passar pela idéia. BÉRENGER: Por isso mesmo é que não podia me passar pela idéia. JEAN: Idéia? você não tem idéia. .. JEAN: E você me toma por imbecil.

. você bem sabe como o estimo... pelo contrário. visto que você pretende ser capaz de explicar tudo.. .. Um rinoceronte em liberdade. Esses não arriscam nada. JEAN: Isso não deveria acontecer. BÉRENGER: Eu nunca afirmei que não era perigoso deixar um rinoceronte à solta na cidade. e ainda na hora das compras. JEAN: Então explique porque que é impossível.BÉBENGER: Isso é impossível.. principalmente num domingo de manhã. JEAN: Se você me estima.. está bem. porque me contradiz.. JEAN: Porque é impossível? BÉRENGER: Porque é impossível. quando as ruas estão cheias de crianças.. não está certo. pretendendo que não é perigoso deixar à solta um rinoceronte em pleno centro. BÉRENGER: Eu nunca pretendi uma coisa dessas.... JEAN: Então. Eu disse muito simplesmente que não tinha refletido sobre esse perigo. e também de adultos. JEAN: Você nunca pensa em nada! BÉRENGER: Bem. por que é que você se dá ares? E mais uma vez: por que me insulta? BÉRENGER: Eu não o insulto. Nunca tinha pensado sobre o assunto. JEAN (interrompenda-o): Um momento.. BÉRENGER: Muitos estão na missa.

Isso não deveria acontecer. não há razão para você brigar comigo por causa de uma fera. não vou agora deixá-lo de presente ao Patrão! (Faz menção de querer beber mais). jovem datilografa loura que atravessa o palco da direita. meu caro Jean. BÉRENGER: Está bem. Não beba. o Lógico e o Senhor Idoso entram de novo.BÉRENGER: De acordo. desapareceu. (boceja. No entanto.. que nem se quer merece que se fale dele! E feroz. sem beber. Vamos agora nos preocupar de um animal que deixou de existir! Falemos de outra coisa. Bérenger levanta-se bruscamente. mas nesse momento passa Daisy. Você está querendo criar caso por causa de um perissodáctilo qualquer. (Vai para colocar o copo sobre a mesa. relativamente longe de Bérenger e de Jean. o que o leva a deixar cair o copo e molhar a calça de Jean): Oh. Daisy! . pela direita: irão instalar-se sempre falando. JEAN: Largue isso. que os assuntos não faltam. numa das mesas do café.) BÉRENGER: Também. (Jean bebe um grande gole do seu "Pernoã" e coloca o copo meio vazio sobre a mesa... já nem existe. já lhe disse. em 2° plano e à direita destes). Bérenger continua com o seu copo na mão. que além do mais. que acaba de passar por acaso diante da gente? Um estúpido quadrúpede. JEAN: Largue o copo. falemos de outra coisa. para a esquerda.. De acordo. ainda por cima. pega no copo): À sua saúde! (Neste momento. Vendo Daisy. É até uma coisa insensata.

. JEAN: Você se esquece de você mesmo! .. No estado em que me encontro. É como se eu tivesse medo.. logo que Daisy desapareceu): Desculpe maLs uma vez por. me descontrai.. no meio das pessoas. então bebo para não ter mais medo. absolutamente imperdoável! (Olha na direção de Daisy que desaparece): Esta moça lhe mete medo? BÉRENGER: Cale-se. JEAN: Veja só o que vale beber: você não domina os seus movimentos. meu caro amigo. ela não tem ar de fera! BÉRENGER (voltando para perto de Jean. JEAN: Você é imperdoável.. E no entanto. São umas angústias difíceis de definir. Não me sinto à vontade na vida.. (vai se esconder para não ser visto por Daisy): Não quero que ela me veja. Você está cavando o seu próprio túmulo... JEAN: No entanto.. se não bebo. E isso me acalma.. você está se perdendo... anda perturbado. cale-se. desculpe. BÉRENGER: Eu não gosto muito de álcool. perde a força nas mãos.JEAN: Cuidado! Como você é desastrado! BÉRENGER: É Daisy. recorro ao álcool.. então. JEAN: Medo de que? BÉRENGER: Não sei bem como explicar. estropiado.. me faz esquecer. não me sinto bem.

Eu não sei se eu sou eu. JEAN: Isso é neurastenia alcoólica. (senão empurrado): Oh! O SENHOR IDOSO (a Jean): Cuidado (ao Lógico) : Perdão.BÉRENGER: Estou cansado. Isso são elucubrações. Mas basta beber um pouco.. eu me torno eu mesmo. dão alguns passos em cena. esbracejando. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Não íoi nada. O Senhor Idoso e o Lógico. como se fosse voar. como se êle fosse de chumbo. BÉRENGER (continuando): Eu sinto a cada instante o meu corpo. eles passam perto de Jean e Bérenger. o fardo desaparece e eu me reconheço.. Bérenger. Jean. . JEAN (ao Senhor Idoso): Perdão. Custa-me a suportar o peso do meu próprio corpo. Precisamente neste momento. JEAN: Escute. empurra o Senhor Idoso. no entanto. é a melancolia do beberrão. eu me sinto leve! leve! leve! (Mexe com os braços. Olhe para mim: eu peso mais do que você. (O Senhor Idoso e o Lógico vão sentar-se numa das mesas do terraço. que vai cair nos braços do Lógico). ou como se carregasse um outro homem nas costas. um pouco à direita e atrás de Jean e Bérenger).. O LÓGICO (continuando a discussão): Um exemplo de silogismo. conversando familiarmente.. que voltaram a aparecer. Há muitos anos que me sinto cansado. Ainda não me habituei comigo mesmo... O SENHOR IDOSO (a Jean): Não íoi nada.

meu caro. a lógica. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): É bonito. o meu cão não passa de um gato. BÉRENGER (a Jean): Quanto a mim. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Logicamente sim. Em primeiro lugar. Talvez também não tenha muito interesse nisso. vejamos um silogismo exemplar: O gato tem quatro patas. O SENHOR IDOSO (ao Lógico. Isidoro e Fricot. JEAN: Sim. sinto pouca força para agüentar a vida. depois de ter refletido bastante): Assim. mas o contrário também é verdade. porque não sou alcoólatra. eu tenho força: Tenho força por várias razões. que na realidade o que pesa é o álcool. mas devo lhe dizer. Isidoro e Fricot têm cada um quatro patas. porque tenho força moral. Logo. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Então é um gato. BÉRENGER (a Jean): A solidão pesa-me. eu tenho força. eu tenho força. . E a sociedade também. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): O meu cachorro também tem quatro patas. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Assim. É a solidão que pesa ou é a multidão? Você se toma por um pensador e não tem nenhuma lógica.BÉRENGER (a JeanJ: Você tem força. E mais: também tenho força. porque eu tenho força e em segundo lugar. são gatos. JEAN (a Bérenger): Você se contradiz. logicamente. Eu não o quero magoar.

O número deles aumenta e os vivos são raros. ah. . um mentiroso. eu tenho um gato que se chama Sócrates. Você está apaixonado! O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Assim Sócrates era um gato! O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Como a lógica acaba de nos revelar. E a prova é que toda gente vive. O SENHOR IDOSO: E que tem quatro patas. BÉRENGER (a Jean): Viver é uma coisa anormal.O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Contanto que não se abuse. Sócrates é mortal. nada mais natural. JEAN: Pelo contrário.. BÉRENGER: Os mortos.. JEAN: Os mortos não existem. O LÓGICO: Está vendo? JEAN (a Bérenger): Você no íundo é um farsante. Sócrates é um gato.. no entanto. Você diz que a vida não lhe interessa. você não pensa! Pense e você existirá. meu caro. Logo. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Um outro silogismo: todos os gatos são mortais. há alguém que lhe interessa! BÉRENGER: Quem? JEAN: Sua colegazinha de escritório que acaba de passar.. é caso de dizer ! . são mais numerosos que os vivos. (gargalhadas) E esses também lhe pesam? Como é que podem pesar coisas que não existem? BÉRENGER: Pergunto a mim mesmo se existem ou não! JEAN (a Bérenger): Você não existe. É verdade. ah.

que nem tudo lhe é indiferente. BÉRENGER (a Jean): De qualquer modo me parece que ela ja tem alguém em vista. BÉRENGER (a Jean): Que poderia eu fazer? . O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Ah! Por hipótese ! JEAN (a Bérenger): E você vai renunciar assim sem mais nem menos?. O SENHOR IDOSO: Como é que você sabe? O LÓGICO: Por hipótese. não posso rivalizar com êle. BÉRENGER (a Jean): Êle é muito bem visto pelo chefe. Um colega de escritório: licenciado em direito. logo. JEAN (a Bérenger): Quem é? BÉRENGER: Dudard. grande íuturo na casa e também no coração de Daisy. Eu como não estudei não tenho futuro. jurista. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Estou ouvindo.. Mas como quer você que Daisy se interesse por um bêbado? O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Voltemos aos gatos. (gesto de Bérenger): Isso prova. com ela não tenho chance. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): O gato Isidoro tem quatro patas.JEAN (a Bérenger): Você não queria ser visto por ela no estado deplorável em que se encontra..

oito patas. Ponhase a par das coisas. . as armas da inteligência. O SENHOR IDOSO: Ela tem muitas facetas! BÉRENGER (a Jean): E onde encontrar as armas? O LÓGICO (ao Senhor Idoso): A lógica não tem limites! JEAN (a Bérenger): . depois de ter refletido com sofrimento): Oito.. JEAN: Arme-se. pela sua vontade... BÉRENGER (a Jean): Que armas? O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Você vai ver. meu caro. JEAN (a Bérenger): As armas da paciência. arme-se. BÉRENGER (a Jean): Que é que você quer? Eu estou desarmado.O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Pricot também tem quatro patas. Em você mesmo. (Bérenger boceja) : Torne-se um espírito vivo e brilhante.. O SENHOR IDOSO (ao Lógico. da cultura. O LÓGICO: A lógica leva ao cálculo mental. Quantas patas terão Fricot e Isidoro? O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Em conjunto ou separadamente? JEAN (a Bérenger): A vida é uma luta e quem não combate é covarde! O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Em conjunto ou separadamente. depende.

.. Tiram-se duas patas aos dois gatos. JEAN (a Bérenger): É preciso lhe explicar tudo. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Não consigo. O LÓGICO (ao Serhor Idoso): É preciso lhe explicar tudo. BÉRENGER (a Jean): Com franqueza. Quantas íicam a cada um? O SENHOR IDOSO: Isso é complicado.BÉRENGER (a Jean): Como se pôr a par? O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Eu tiro duas patas a estes gatos. (Faz cálculos numa folha de papel que tira do bolso). BÉRENGER (a Jean): Isso é complicado. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Talvez seja fácil para você. Para mim não. Aplique-se. JEAN (a Bérenger): Vejamos.. não consigo. BÉRENGER (a Jean): Talvez seja fácil para você. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Vejamos. é simples. Aplique-se. faça um esforço de vontade. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Pegue numa folha de papel e faça o cálculo. para mim não. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Pelo contrário. quantas patas ficam para cada gato? O SENHOR IDOSO: Espere. faça um esforço de raciocínio.

faz a barba todos os dias.. veste camisa limpa. JEAN (a Bérenger): Você é tímido. terno elegante. mas é dotado! BÉRENGER (a Jean): Eu sou dotado? JEAN: Você tem dons que é preciso valorizar. seus sapatos). BÉRENGER (a Jean): Custa caro. gravata como esta. . Ponha-se a par dos acontecimentos literários e culturais de nossa época. BÉRENGER (a Jean): Estou ouvindo. BÉRENGER (a Jean): Tenho tão pouco tempo livre. a lavanderia . JEAN (a Bérengerj: Economize no álcool. seu chapéu. (Falando das peças do vestuário. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Há várias soluções possíveis. BÉRENGER (a Jean): E depois.. sapatos bem engraxados. Mas isto é quanto ao exterior: chapéu. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Uma primeira possibilidade: um gato pode ter quatro patas e o outro duas. o que se deve fazer? Diga. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Estou ouvindo. Jean mostra com ênfase. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Diga.JEAN: Vejamos o que é preciso fazer: você se veste corretamente. sua gravata.

em vez de beber e ficar doente. JEAN (a Bérenger): Você tem oito horas de trabalho. O SENHOR IDOSO: Nunca tive tempo. JEAN: Aproveite o pouco tempo livre que roce tem. as outras soluções? Com método. como eu. JEAN (a Bérenger): Escute.. (O Senhor Idoso põe-se a calcular novamente). Eu era funcionário público. não é melhor estar são e bem disposto. e as noites.O LÓGICO: Você é dotado.. isso basta. . como todo mundo. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Então. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Para mim é tarde demais. e o domingo. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Sempre se encontra tempo para aprender. Mas. JEAN (a Bérenger): Sempre se encontra tempo. e as três semanas de férias no verão? Com método. com método. mesmo no escritório? E você pode passar seus momentos disponíveis de uma maneira inteligente. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Nunca é tarde demais. BÉRENGER (a Jean): Agora é tarde demais. JEAN (a Bérenger): Nunca é tarde demais. O que é preciso é valorizar os seus dons. Não se entregue.

Estão levando uma neste momento. JEAN (a Bérenger): Ainda bem que você reconhece.. JEAN (a Bérenger): Então aproveite. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): E um outro gato com uma pata. O SENHOR IDOSO: Podemos ter um gato de seis patas. . BÉRENGER: Será uma excelente iniciação à vida artística do nosso tempo. Em quatro semanas.. você será um homem culto. não seria preferível comprar bilhetes de teatro. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Tirando-se duas patas das oito dos dois gatos. Mas então podemos dizer que são gatos? O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Por que não? JEAN (a Bérenger): Em vez de gastar todo seu dinheiro disponível em bebidas. Isso acabará com suas angústias e lhe formará o espírito..BÉRENGER (a Jean): Como? JEAN (a Bérenger): Visite os museus. para assistir a um espetáculo interessante? Você conhece o teatro de vanguarda de que toda gente fala? Você já viu as peças de Ionesco? BÉRENGER (a Jean): Infelizmente não! Más já ouvi falar muito. BÉRENGER (a Jean): Você tem razão! O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Pode haver um gato de cinco patas.. leia revistas literárias. assista conferências.

O SENHOR IDOSO (ao Lógico): E um gato completamente sem patas? BÉRENGER: Você tem razão, tem razão. Eu YOU me pôr a par, como você diz. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Nesse caso, haverá um gato privilegiado. BÉRENGER (a Jmn): Eu lhe prometo. JEAN: Prometa principalmente a você mesmo. O SENHOR IDOSO: E um gato alienado de todas as suas patas, desclassificado? BÉRENGER: Eu me prometo solenemente. Manterei a minha palavra. O LÓGICO: Isso não seria justo. Logo, não seria lógico. BÉRENGER (a Jean): Em vez de beber, decido cultivar o espírito. Já me sinto melhor, ja tenho até as idéias mais claras. JEAN: Está vendo? O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Não seria lógico? BÉRENGER: Hoje à tarde mesmo, vou ao museu municipal e para esta noite vou comprar duas entradas para o teatro. Você vem comigo? O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Porque a justiça é a própria lógica. JEAN (a Bérenger): Vai ser preciso perseverar, para que as suas boas intenções sejam duradouras.

O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Compreendi. A justiça... BÉRENGER (a Jean): Eu lhe prometo, assim como a mim mesmo. Você quer vir comigo esta tarde ao museu? JEAN (a Bérenger): Esta tarde durmo a sesta. Está no meu programa. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): A justiça é ainda uma faceta da lógica. BÉRENGER (a Jean): Mas você virá comigo esta noite ao teatro? JEAN: Não, esta noite não. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): O seu espírito se esclarece! JEAN (a Bérenger): Desejo que você persevere nas suas boas intenções, mas esta noite eu tenho que encontrar uns amigos no bar. BÉRENGER: No bar? O SENHOR IDOSO (ao Lógico): De resto, um gato completamente sem patas... JEAN (a Bérenger): Prometi ir lá, tenho que cumprir a minha promessa. O SENHOR IDOSO (ao Lógico): Não poderia correr o bastante para caçar os ratos. BÉRENGER (a Jean): Ah, meu caro, é a sua vez de dar o mau exemplo. Você vai se embriagar. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Você já está fazendo progressos na lógica!

(Começa-se novamente a ouvir, aproximandose sempre muito depressa, um galope rápido, um barrido, os barulhos precipitados dos cascos de um rinoceronte, seu fôlego ruidoso, mas desta vez em sentido inverso, do fundo do palco para a frente, sempre nos bastidores à esquerda). JEAN (furioso, a Bérenger): Meu caro amigo, uma vez não é hábito. Nenhuma comparação com o seu caso, porque você... você... não é a mesma coisa... BÉRENGER (a Jean): Porque comigo é diferente? JEAN (gritando para dominar o barulho vindo do fundo): Eu não sou um bêbado! O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Mesmo sem patas, o gato deve caçar os ratos. Isto é próprio da natureza do gato. BÉRENGER (gritando): Eu não quero dizer que você seja um bêbado. Mas porque é que eu seria mais do que você, em situações idênticas? O SENHOR IDOSO (gritando ao Lógico): O que é que é próprio à natureza do gato? JEAN (a Bérenger, gritando): Tudo é uma questão de medida. Ao contrário de você, sou um homem ponderado. O LÓGICO (ao Senhor Idoso, com as mãos em concha na orelha): O que é que você disse? (Grandes ruídos cobrem as palavras dos quatro personagens). BÉRENGER (mãos em concha a Jean): Enquanto que eu o quê, que é que você disse?

JEAN (berrando): Eu disse que... O SENHOR IDOSO (berrando): Eu disse que... JEAN (tomando consciência dos ruídos que estão muito próximos): Mas o que é que está acontecendo? O LÓGICO: Mas o que é isto? JEAN (levanta-se, faz cair a cadeira ao levantarse, oíha na direção dos bastidores da esquerda, donde chegam os ruídos de um rinoceronte passando no sentido inverso): Oh! um rinoceronte! LÓGICO (levantando-se, deixa cair a cadeira): Oh, um rinoceronte! O SENHOR IDOSO (a mesma coisa): Oh, um rinoceronte! BÉRENGER (sempre sentado, mas mais abordado desta vez): Rinoceronte! Em sentido inverso. A GARÇONNETTE (aparecendo com uma bandeja e copos): O que é? Oh, um rinoceronte! (Deixa cair a bandeja: os copos quebram-se). O PATRÃO (saindo do café): O que é que foi? A GARÇONNETTE (ao Patrão): Um rinoceronte! O LÓGICO: Um rinoceronte a toda velocidade na calçada da frente! O MERCEEIRO (aparecendo): Oh, um rinoceronte! JEAN: Oh, um rinoceronte!

A MEBCEEIRA (assomando à janela, acima da entrada): Oh, um rinoceronte! O PATRÃO (à Garçonnette): Isso não é uma razão para quebrar os copos. JEAN: Êle vai desembalado, raspando as vitrinas! DAISY (aparecendo da esquerda): Oh, um rinoceronte! BÉRENGER (vendo Daisy): Oh, Daisy! (Ouvem-se passos precipitados de pessoas fugindo e exclamando oh\ e ah\ como há pouco). A GARÇONNETTE: Essa agora! O PATRÃO (à Garçonnette): Você ainda vai me pagar estes copos! (Bérenger procura esconder-se para não ser visto por Daisy. O Senhor Idoso, o Lógico, o Merceeiro e a Merceeira, dirigem-se para o centro do palco e dizem): CONJUNTO: Essa agora! JEAN (a Bérenger): Essa agora! (Ouve-se um miado dilacerante e depois o grito também dilacerante, de uma mulher). TODOS: Oh! (Quase no mesmo instante e enquanto os ruídos se afastam rapidamente, aparece a Dona de Casa de há pouco, sem a cesta, mas tendo nos braços um gato morto e ensangüentado). A DONA DE CASA (lamentanão-se): Êle esmagou o meu gato, esmagou o meu gato!

A GARÇONNETTE: Êle esmagou o gatinho dela! (O Merceeiro e a Merceeira, na janela, o Senhor Idoso, Daisy, o Lógico, cercam a Dona e dizem) : CONJUNTO: Vejam que coisa horrível, pobre animalzinho! O SENHOR IDOSO: Pobre animalzinho! DAISY e GARÇONNETTE: Pobre animalzinho! O MERCEEIRO E A MERCEEIRA (à janela); O SENHOR IDOSO e LÓGICO: Pobre animalzinho! O PATRÃO (à Garçonnette, mostrando os copos quebrados, as cadeiras caídas no chão): Que é que você está fazendo? Recolha logo isso! (Por sua vez, Jean e Bérenger precipitam-se cercando a Dona, que continua se lamentando, com o gato morto nos braços). A GARÇONNETTE (dirigindo-se ao terraço do café para recolher os cacos dos copos e as cadeiras espalhadas, sempre olhando para trás, na direção da Dona): Oh, pobre animalzinho! O PATRÃO (indicando a Garçonnette, as ca~ deiras e os cacos): Ali, ali! O SENHOR IDOSO (ao Merceeiro): Que é que me diz disto? BÉRENGER (à Dona): Não chore, minha senhora, que isso nos aflige muito. DAISY (a Bérenger): Senhor Bérenger... Estava aqui? o senhor viu?

senhorita Daisy.. A DONA DE CASA (lamentando-se): Meu gato. A MERCEEIRA (à janela): Ah. ao Patrão): Também. meu gato! O PATRÃO (à Garçonnette.BÉRENGER (a Daisy): Bom dia. só pensa no seu dinheirinho. todos os gatos são mortais! É preciso resignação. . estas réplicas devem ser ditas muito rapidamente. de costas viradas para a Dona): Pobre animalzinho! (Evidentemente. O SENHOR IDOSO (à Dona de Casa): Eu teria preíerido revê-la noutras circunstâncias! O LÓGICO (à Dona de Casa): Que se há de fazer. ande. quase simultaneamente). minha senhora. isso também já é demais! JEAN: Ah. O PATRÃO (controlando a recolha dos cacos e logo depois olhando rápido para a Dona): Pobre animalzinho! A GARÇONNETTE (recolhendo os cacos.. meu pobre Michin!. embalando o gato morto no seu colo): Meu pobre Michin. vá jogar isso na lata de lixo! (Levantando as cadeiras): Você está me devendo mil francos! A GARÇONNETTE (entrando no café. isso também é demais! A DONA DE CASA (lamentando-se.. mas eu não tive tempo de fazer a barba.. desculpe. que tem o avental cheio de cacos de vidro): Vá. meu gato.

O SENHOR IDOSO (à Dona): Sente-se minha cara senhora! JEAN: Pobre senhora! A MERCEEIRA (à janela): Pobre animalzinho! BÉRENGER (à Garçonnette): Em vez de água traga um conhaque. sempre embalando o gato morto): Um copo d'água para a madame. lá isso é verdade. é de dar dó mesmo assim. enquanto fazem sentar-se a uma mesa do terraço a Dona de Casa. . seguido por todos os outros): Sente-se aqui. A MERCEEIRA: A gente tem dó. minha senhora. acalme-se minha senhora. da janela): Então. até uma mesa do terraço. JEAN (ao Senhor Idoso): Que é que me diz disto? O MERCEEIRO (ao Lógico): Que é que me diz disto? A MERCEEIRA (à Daisy.A MERCEEIRA (à Dona de Casa. da janela): Que é que me diz disto? O PATRÃO (à Garçonnette que reaparece. O SENHOR IDOSO (à Dona de Casa): Então. O SENHOR IDOSO (agarrando a Dona de Casa e dirigindo-se com ela. A DONA DE CASA: Meu gato! meu gato! meu gato! DAISY: Ah. mesmo assim. acalme-se minha senhora.

JEAN (ao dono): não era o mesmo! O MERCEEIRO (a Jean): No entanto. este agora só tinha um.. BÉRENGER (subitamente enervaão. era o mesmo.. um conhaque! DONA DE CASA (soluçando): Eu não quero isso. não quero isso! O MERCEEIRO: Ainda há pouco. tinha dois cornos no focinho. a Jean): Você está dizendo bobagens! Como é que você conseguiu distinguir os cornos? O bicho passou a uma tal velocidade que a gente mal conseguiu enxergálo . era sim. A DONA DE CASA (chorando): Nãão. Aquele de há pouco. não era o mesmo rinoceronte. isso só pode lhe fazer bem! . DAISY (à dona de casa): Sim senhora. A MERCEEIRA: Ah.. DAISY: É a segunda vez que passa? O PATRÃO: Eu acho que era o mesmo. Era um rinoceronte da Ásia. era um rinoceronte da África! (A Garçonnette surge com um copo de conhaque e leva-o à Dona).... O SENHOR IDOSO: Aqui está um conhaque para animá-la. JEAN: Não. dizendo): A GARÇONNETTE: Está certo. êle passou ali na írente da minha porta.O PATRÃO (à Garçonnette): Um conhaque! (mostrando Bérenger): É aquele senhor que paga! (A Garçonnette entra no café.

. A MERCEEIRA (à Garçonnette. levando o copo aos lábios desta. BÉRENGER (a Jean): Você não teve tempo de contar os cornos. O PATRÃO (à Dona de Casa): Então êle não era bom? . ora. porque tenho o espírito lúcido! O SENHOR IDOSO (à Dona de Casa): Já está melhor? BÉRENGER (a Jean): Ora. DAISY (à Dona de Casa): Beba. coragem. Eu vejo rápido. êle ia de íocinho no chão. essa é boa. O SENHOR IDOSO (à Dona): Um golinho.. que esse é do bom.... êle ia a toda velocidade.. à Daisy): Pronto! JEAN (a Bérenger): O caso é que eu não estou no escuro. minha senhora. que faz uma expressão de recusa mas acaba por beber).O SENHOR IDOSO (a Bérenger): Isso é verdade. êle estava envolvido numa nuvem de poeira. O PATRÃO (à Dona de Casa): Prove um pouco. A GARÇONNETTE: Pronto! A MERCEEIRA (da janela. da janela): Faça com que ela beba.. minha querida senhora.. BÉRENGER (a Jean): E além disso. (A Garçonnette faz beber a dona.

continuando): Um pedante que não está seguro dos seus conhecimentos pois. para começar. é o rinoceronte da Ásia que tem um corno no focinho e o rinoceronte da África que tem dois. BÉRENGER (à Dona de Casa): Seja razoável! O PATRÃO (à Dona de Casa): Seja razoável! JEAN (a Bérenger): Eu nunca digo besteiras! SENHOR IDOSO (à Dona de Casa): Seja filósofa! BÉRENGER (a Jean): Você não passa de um pretensioso! (levantando o tom): Um pedante. meus senhores! BÉRENGER (a Jean. JEAN (a Bérenger): Como? Eu? Você ousa insinuar que eu digo besteiras? A DONA DE CASA (à Merceeira): Não quero outro! (Soluça e embala o gato).. viase melhor. O PATRÃO (a Jean e Bérenger): Meus senhores.. à dona de casa): Eu tenho um outro gato para a senhora. . A DONA DE CASA (depois de ter bebido): Meu gato! BÉRENGER (irritado..JEAN (a Bérenger): Justamente por isso. (Os outros personagens largam a Dona de Casa e vêm para junto de Jean e Bérenger que discutem em tom de altercação).. a Jean): Besteiras! Besteiras! A MERCEEIRA (da janela.

JEAN (a Berenger): Eu não aposto consigo. senhor Berenger. Os dois cornos quem os tem é você. Qual é a espécie de rinoceronte que só tem um corno no focinho? (Ao Merceeiro): O senhor que é comerciante. é justamente o contrário! A DONA DE CASA (sozinha): Êle era tão querido! BERENGER: Você quer apostar? A GARÇONNETTE: Eles querem apostar! DAISY (a Berenger): Não se enerve. O MERCEEIRO (à sua mulher): Nem pense nisso. deve saber! A MERCEEIRA (da janela.. é apenas uma aposta! O PATRÃO (a Jean e a Berenger): Não quero escândalos aqui.. . seu asiático! A GARÇONNETTE: Oh! A MERCEEIRA (da janela ao dono da mercearia): Eles vão brigar.JEAN (a Berenger): Você está enganado. ao marido): Você devia saber! BERENGER (a Jean): Não tenho corno e nunca terei. O SENHOR IDOSO: Vejamos. O MERCEEIRO (ao Senhor Idoso): Os comerciantes não podem saber tudo! JEAN (a Berenger): Tem.

São homens como nós. à parte. os asiáticos são homens como todos nós. (Soluça). Por outro lado. JEAN: Adeus.. senhor Bérenger.... (A Dona de Casa continua a lamentar-se durante toda esta discussão). JEAN (furioso): Eles são amarelos! (O Lógico. . DAISY: Então. O SENHOR IDOSO: Eu já tive amigos asiáti cos... Talvez não fossem verdadeiros asiáticos..BÉRENGER (a Jean): Nem sou asiático tampouco.. entre a Dona de Casa e o grupo que se formou em torno de Jean e Bérenger. sem participar nela). então senhor Jean.. O PATRÃO: Eu já conheci os verdadeiros. era como nós. os asiáticos são homens como o senhor e eu. A GABÇONNETTE: Sim senhor. A DONA DE CASA: Êle era tão meigo. está seguindo atentamente a controvérsia. meus senhores! (A Bérenger): De você nem me despeço! A DONA DE CASA (lamentando-se): Êle nos queria tanto bem. O SENHOR IDOSO (ao patrão): Exatamente! O PATRÃO (à Garçonnette): Ninguém pediu a sua opinião! DAISY (ao Patrão): Ela tem razão. A GARÇONNETTE (à Merceeira): Eu tive um namorado asiático..

pela direita. TODOS (na direção de Jean): Oh! A DONA DE CASA (lamentando-se): Só lhe faltava falar.A DONA DE CASA (lamentanâo-se): Eu o tive tão pequenino! JEAN (sempre furioso): são amarelos! amarelos! muito amarelos! BÉRENGER (a Man): Em todo caso. você é escarlate! A MERCEEIRA (da janela e à Garçonnette): Oh! O PATRÃO: Isto está íicando preto! A DONA DE CASA (lamentando-se): Êle era tão asseado! Só fazia chi-chi na serragem! JEAN (a Bérenger): Visto que é assim. no entanto. JEAN (a Bérenger): Bêbado! (Todos se entreolham consternados). você. pretos. azuis e outros como nós. BÉRENGER (na direção âe Jean): Você está indo muito longe. O SENHOR IDOSO (ao Merceeiro): Também há asiáticos brancos. você nunca mais me verá! Estou perdendo o meu tempo com um imbecil. antes de sair definitivamente) . A DONA DE CASA (lamentando-se): Êle se fazia compreender! (Jean sai furioso. . nem isso. apressadamente: volta-se.

O rinoceronte da Ásia tem dois cornos e o rinoceronte da África tem um.. minha senhora... mas eu acho que quem tinha razão era o senhor Jean. vamos encaixotá-lo.DAISY (a Bérenger): O senhor não devi'. A DONA DE CASA (soluçando perdidamente): Nunca! nunca! O MERCEEIRO: Desculpem. DAISY (a Bérenger): Ambos tiveram culpa! O SENHOR IDOSO (a Berénger): Mesmo assim. com seu gato morto.. BÉRENGER (a Daisy): Não foi culpa minha. na direção da entrada do café).. o senhor teve razão. o rinoceronte da África dois. minha senhora! (Daisy e a Garçonnette levam a Dona de Casa. DAISY (virando-se para a Dona de Casa): Seja razoável. . O SENHOR IDOSO (a Daisy e à Garçonnette) : Querem que eu as acompanhe? O MERCEEIRO: O rinoceronte da Ásia tem um corno. A GARÇONNETTE (à Dona de Casa): Venha. tê-lo enfurecido. O MERCEEIRO: Este senhor era de opinião contrária. O PATRÃO (à Garçonnette): Vá buscar um caixãozinho para este pobre animal. O SENHOR IDOSO (a Bérenger): Eu acho que o senhor tem razão. . E víceversa.

DAISY (ao Senhor Idoso): Não é preciso. se um tem dois. o rinoceronte da Ásia tem dois cornos.. O PATRÃO (ao Senhor Idoso): Ah.. BÉRENGER (à parte): No fundo êle tem um coração de ouro. (Daisy e a Garçonnette entrara no café. prestou-me inumeráveis serviços. A menor objeção. meu senhor! . sempre com idéias diferentes de todo mundo! BÉRENGER (à parte. torna-o furioso. levando a Dona ãe Casa. da janela): Ora você. enquanto que os outros continuam a discutir o assunto sobre os cornos do rinoceronte): Daisy tem razão. com licença. o da África deve ter dois e vice-versa. sempre inconsolável). O SENHOR IDOSO: Talvez seja um que tem um e o outro que tem dois. BÉRENGER (à parte): Êle não suporta a contradição. Eu não deveria tê-lo contrariado. O SENHOR IDOSO (ao Patrão): Você se engana. ao Patrão e ao Merceeiro): Talvez sejam ambos iguais. BÉRENGER (à parte): Sinto não ter sido mais . BÉRENGER (à parte): A raiva é o seu único defeito. A MERCEEIRA (ao marido. O PATRÃO (à Merceeira): Seu marido tem razão. O PATRÃO (à Merceeira): O outro não pode ter senão um. meu amigo. ao Senhor Idoso. A MERCEEIRA (de sua janela.

O PATRÃO: Admitamos que hajam dois. . O MERCEEIRO (a Bérenger): Sim. Mas porque é que êle é cabeçudo? Eu não quis exaltá-lo. o senhor tem provas? O SENHOR IDOSO (a Berénger): Como é que o senhor sabe. BÉRENGER: Para começar. O PATRÃO: Qual é bicórnio? O MERCEEIRO: Não é o da África. não se sabe se foram dois. O SENHOR IDOSO: Você tem provas? BÉRENGER: A propósito de que? O SENHOR IDOSO: Da sua afirmação de agora há pouco. Eu acho. O SENHOR IDOSO: Mesmo assim é preciso resolver este problema.conciliador. (Aos outros): Êle aíinna sempre coisas invulgares! Quer sempre empolgar todo mundo com a sua sabedoria e nunca admite que pode enganar-se. que um dos dois rinocerontes tem dois cornos e o outro um? E qual deles? A MERCEEIRA: Êle sabe tanto quanto nós. É o rinoceronte da África que é bicórnio. A MERCEEIRA: É muito difícil de chegar a um acordo. que provocou esta desagradável controvérsia com seu amigo. Qual é o unicórnio? O rinoceronte da Ásia? O SENHOR IDOSO: Não. Eu acho mesmo que há só um rinoceronte.

.. não é aí que está o problema. A DONA DE CASA (em lágrimas): É um Lógico! O PATRÃO: Ah! êle é Lógico! O SENHOR IDOSO (apresentando o Lógico a Bérenger): Meu amigo.O LÓGICO (saindo de sua reserva): Meus senhores. (Mostra sua carteira). . O SENHOR IDOSO: Ou bicórnio. LÓGICO: Deixem-me falar. O LÓGICO (continuando): . senhor Lógico.... é o que a gente gostaria de saber. o Lógico! BÉRENGER: Muito prazer. senhor. Permitam-me que me apresente. A MERCEEIRA: E se o rinoceronte asiático é bicórnio. O SENHOR IDOSO: Deixem-no falar.. Aqui está minha carteira de identidade. A MERCEEIRA: Os nossos respeitos. se o rinoceronte africano é unicórnio. O PATRÃO: Poderia nos dizer então. O MERCEEIRO: No entanto. BÉRENGER: Meus respeitos. senhores. . O MERCEEIRO: Ou então unicórnio. Não é aí que está o problema. O LÓGICO: Justamente.. senhor. Lógico profissional. Desculpem a minha intervenção.

O PATRÃO (mesma coisa): Com um corno só... com um corno só... O LÓGICO: Isso mesmo. da janela): Mas. senhor. Como também pode ter visto duas vezes um único rinoceronte com dois cornos. O debate baseava-se primeiramente num problema do qual o senhor inconscientemente se afastou. ou se é um outro. duas vezes.. O LÓGICO: Veja bem. O LÓGICO (a Bérenger): É principalmente ao senhor que eu me dirijo. um primeiro rinoceronte com um corno e depois um outro tendo igualmente um corno só. deixa-o íalar! O PATRÃO: Somos todos ouvidos.. há... .A MERCEEIRA (ao marido. com dois cornos.. O MERCEEIRO (repetindo.. A MERCEEIRA (da janela): Há. E às outras pessoas presentes também. O LÓGICO (continuando): .. O senhor pode ainda ter visto... No começo o senhor se perguntava se o rinoceronte que acabou de passar é o de há pouco. O SENHOR IDOSO (repetindo): Um único rinoceronte. O MERCEEIRO: A nós também. É a isto que preciso responder..... BÉRENGER: De que modo? O LÓGICO: Vejamos: o senhor pode ter visto duas vezes um mesmo rinoceronte.. para compreender melhor): Duas vezes o mesmo rinoceronte.

. O PATRÃO: De dois cornos. é possível que o rinoceronte anterior tenha perdido um de seus cornos e o que de há pouco seja o anterior.. O MERCEEIRO: Siiim! Siiim! (A Merceeira.. dando de ombros. O SENHOR IDOSO (interrompendo Bérenger): Não interrompa. O PATRÃO: Exato. se o senhor tivesse visto.... se a gente tivesse visto. mas.O LÓGICO: E também um primeiro rinoceronte com dois cornos... O LÓGICO: Isso não provaria coisa alguma. O LÓGICO: Agora.. O LÓGICO: Se tivesse visto a primeira vez um rinoceronte de dois cornos. O SENHOR IDOSO: Sim.. não compreendo nada. O LÓGICO: Também pode ser que os dois rinocerontes de dois cornos. O MERCEEIRO: Se a gente tivesse visto. O LÓGICO: . tenham perdido ambos. e a segunda vez um rinoceronte de um corno. um de seus cornos. BERENGER: Compreendo. O MERCEEIRO: Um como.. ..... O PATRÃO: Por que? A MERCEEIRA: Puxa. abandona a janela).. O LÓGICO: Na verdade...

possa crescer em poucos minutos. O SENHOR IDOSO: Asiático ou africano.O SENHOR IDOSO: Isso é possível. quer fosse asiático ou africano.. então nessa altura.. SENHOR IDOSO: De dois cornos... é possível. O MERCEEIRO: Africano ou asiático... O LÓGICO (continuando a demonstração): . O SENHOR IDOSO: Asiático ou africano... O LÓGICO: . O SENHOR IDOSO (a Bérenger): Não interrompa. de forma visível.. que um segundo corno.. quer fosse africano ou asiático. no entanto.. O PATRÃO: Sim... O LÓGICO: ...... O MERCEEIRO: Sim. O LÓGICO (encantado com seu raciocínio): . no focinho de um rinoceronte. . pois é pouco provável... porque não? BÉRENGER: Sim. O SENHOR IDOSO: É pouco provável. e a segunda vez um rinoceronte de dois cornos. O LÓGICO: .. O LÓGICO: Se o senhor pudesse provar ter visto a primeira vez um rinoceronte de um corno..... isso faria de um rinoceronte asiático ou africano . poderíamos concluir que há dois rinocerontes diferentes.. Um rinoceronte africano ou asiático.....

O MERCEEIRO (continuando): .. isso não é possível... a Dona de Casa. segurando um caixote e seguida por Daisy e pela Garçonnette. O SENHOR IDOSO: Até logo... na nossa frente. siiim. C LÓGICO (tirando o chapéu): Até logo. O LÓGICO: .O PATRÃO: Africano ou asiático. O LÓGICO (a Bérenger.. No entanto. O MERCEEIRO: Isso talvez seja lógico. O SENHOR IDOSO: Isso é perfeitamente lógico. mas não resolve a questão. como num enterro. (Tira seu chapéu e sai atrás do Lógico). sai do café. ora. BÉRENGER (ao Lógico): Isso tudo me parece claro. em boa lógica. visto uma mesma criatura não poder nascer em dois lugares ao mesmo tempo. O cortejo dirige-se para a direita).. de grande luto. .. isso talvez seja lógico. meus senhores. podemos admitir que nossos gatos sejam esmagados. rindo com ar superior): Evidentemente. meus senhores. seguido pelo Senhor Idoso). (Volta-se e sai pela esquerda. O MERCEEIRO: Siiim. (Neste momento. O SENHOR IDOSO: Nem mesmo sucessivamente. O LÓGICO (ao Senhor Idoso): Isso ainda está por demonstrar. caro senhor. apenas deste modo o problema pode ser exposto de maneira correta.

Não podemos permitir que nossos gatos sejam esmagados por rinocerontes ou por quem quer que seja! O MERCEEIRO: Não. isso não podemos permitir! BÉRENGER: Eu não devia ter discutido com Jean! (para o Patrão): Traga uma dose de conhaque! E das grandes! O PATRÃO: Sim senhor. não devia ter me irritado! (O Patrão aparece com um grande cálice de conhaque na mão): Estou deprimido demais para ir visitar o museu. CORTINA FIM DO I ATO . quer sejam asiáticos ou africanos? (Mostra de maneira teatral o cortejo que está saindo). no café). ao marido): Então. cultivarei meu espírito. Uma outra vez. (Pega no conhaque e bebe). O PATRÃO: Justíssimo. BÉRENGER (só): Eu não devia. êle tem razão.por rinocerontes de um corno ou de dois cornos. isso não podemos permitir! A MERCEEIRA (assomando a cabeça à porta da mercearia. entra! Os clientes vão chegar! O MERCEEIRO (dirigindo-se para a mercearia): Não. em seguida! (Vai buscar o conhaque.

Duas cadeiras. por exemplo. uma outra mesa. tendo assim. uma grande porta de dois batentes. Sobre a mesa: provas de impressão. uma outra mesa sobre a qual se encontra o livro de ponto que os funcionários devem assinar à chegada. ou o escritório de uma empresa particular como. No fundo. É a mesa de Dudará e do sr. o de uma grande casa editora de publicações jurídicas. uma mesa com duas cadeiras. A esquerda. com a máquina de escrever. Dudard sentar-se-á na cadeira que está contra a parede. de provas tipográficas. vis-à-vis. é a mesa onde trabalham Boiará e Bérenger. Vêemse os últimos degraus desta escada. este sentar-se-á na cadeira da esquerda. encontram-se perto desta mesa (maisbonitas. no alto da qual pode-se ler: "Chefe da Repartição" ou "Chefe do Escritório". ao centro. Suas funções são de subchefe. Na parede da esquerda.SEGUNDO ATO Primeiro Quadro Uma repartição. retangular. Entre a porta do fundo e a parede da di . os outros funcionários na sua frente.. o outro na da direita. a parte superior do corrimão e um pequeno patamar.. a mesinha de Daisy. ao fundo. perto da porta do Chefe. maior. Ainda à esquerda e em primeiro plano. a porta dando para a escada. mais "importantes"). Boeuf. Perto da parede da direita. entre a porta que dá para a escada e a mesinha de Daisy. Em primeiro plano. etc. um tinteiro. canetas. igualmente recoberta de papéis.

O Cheíe.reita há uma janela. Isto deve considerar-se como um quadro vivo. na parede da direita. Dudarã. entre eles. Ao abrir a cortina. Ao longo das paredes: estantes com livros e pastas poeirentas. No caso do teatro ter um poço âe orquestra. na posição em que será dita a primeira réplica. Dudard: 35 anos. perfil esquerdo para a platéia. por cima das estantes há tabuletas: "JURISPRUDÊNCIA. Ela tem na mão algumas folhas datilografadas. vestido corretamente: terno azul marinho. de pé. ão outro lado da secretária. No canto da direita. cercada pelos três personagens. "LEIS FISCAIS". "CÓDIGOS". ao fundo. frente ao público. ao fundo. terno cinza. vê-se. para preservar as mangas de seu pa 70 . um grande jornal aberto. gravata borboleta preta. no qual estão pendurados paletós surrados ou batas de cor cinzenta. por cima das provas tipográficas. No começo ão primeiro ato. está Botara. as tabuletas indicam: "DIÁRIO OFICIAL". durante alguns segundos. perto também da secretária. deve considerarse o mesmo processo. colarinho duro. em primeiríssimo plano. granãe bigode castanho. Sobre a mesa. Acima da porta ão Chefe um relógio marca: 9 h e 3 minutos. perfil direito para a platéia. A esquerda. Quando a cortina abre. um cabiãe. perto da cadeira que está junto da sua secretária. Daisy. usa mangas de alpaca preta. É o Senhor Papillon. seria preferível usar apenas a simples moldura duma janela. O cabide podia também estar colocado eventualmente. em primeiro plano. 50 anos. um pouco atrás e à esquerda do Chefe. que pode ser ligeiramente oblíqua. face ao publico. os personagens permanecem tonóveis. próximo à parede da direita. o Chefe. roseta da Legião de Honra.

com um sorrizinho incrédulo. sendo promovido Diretor. Daisy: jovem. mas não aparenta tanto. fundonário de futuro.letó. imóveis em torno da mesa da direita. Usa uma boina espanhola. com as mãos nos bolsos de seu guarâapó. um par de óculos sobre um nariz farto. alpaca preta. Daisy com as folhas datilografadas na mão. o Chefe mostra o jornal com o indicador. BOTARD: Conversa. Botard: professor primário aposentado. Os personagens estão de pé quando abre a cortina. O Chefe. esfalfada. parece dar razão a Duãarã. Na orelha usa um lápis e nas mangas. Mais tarde. chorosa. e compreende tudo). eu vi o rinoceronte! DUDARD: Isso está escrito. guarãaVó cinzento. loura. tem 60 anos. entre 40 e 50 anos. . está com a mão na direção de Botard ao qual parece dizer: "No entanto é isso mesmo!". Poderá usar óculos. Ao cabo de alguns segundos. Botard. Senhora Boeuf: mulher gorda. . bem claro. uma certa altivez e um bigodinho branco. o senhor não pode negar. Botard não gosta dele. é ele quem deverá tomar seu lugar.. conversa para boi dormir. (Êle sabe tudo. DAISY: Mas eu vi. Duãard. Botará ataca. parecendo dizer: "A mim ninguém engana". no jornal. É bastante alto.

entende por um paquiderme? Êle nada nos diz. Eles não dão mais pormenores. DUDARD: O que é que tem a ver com isso o espírito metódico? DAISY (a Botara): Senhor Botard. . Na minha qualidade de antigo professor primário. cientificamente provadas. faça o favor de ler a notícia. na seção dos gatos esmagados! Chefe. PAPILLON: É só isso. gosto das coisas precisas. PAPILLON: "Ontem. na praça da igreja.BOTARD (com o mais profundo desprezo): Pfff! DUDARD: Está escrito e bem escrito. pois eu sou um espírito exato. BOTARD: Isso chama-se clareza? Ora vejamos: que paquiderme é esse? O que é que o redator da seção de gatos esmagados. metódico. eu acho que a notícia é bem clara. nesta cidade. à hora do aperitivo. tenho as minhas opiniões. BOTARD: Pfff! DUDARD: Ê quanto basta. e está claro. BOTARD: Não acredito nos jornalistas. Veja aqui. um gato foi esmagado por um paquiderme. domingo. Os jornalistas são todos uns mentirosos. SR. E o que é que êle entende por gato? DUDARD: Toda a gente sabe o que é um gato. Por mim. Só creio no que vêem os meus próprios olhos." DAISY: Não foi bem na praça da igreja! SR.

SR. um rinoceronte passeando nas ruas da cidade? . PAPILLON: O racismo não está em causa. DUDARD: Certo! Estamos todos de acordo. SR. com os seus próprios olhos. BOTARD: Peço desculpas. PAPILLON (a Úudarã): Vamos tentar esclarecer o assunto. SR. ou de uma gata? E de que côr? De que raça? Eu não sou racista. Tratase muito simplesmente de um gato esmagado por um paquiderme: um rinoceronte.. Foi talvez muito simplesmente uma pulga esmagada por um rato e agora fazem disso uma coisa do outro mundo. Dudard. aquilo que se chama ver. neste caso. DUDARD: Mas eu já lhe disse que não se trata disso. Os meridionais têm imaginação de sobra... chefe. mas o senhor não pode negar que o racismo é um dos grandes erros deste século. Botard. antes pelo contrário. não se trata disso.. mas agora não se trata de. Os acontecimentos históricos já nos provaram que o racismo. BOTARD: Nunca se deve perder a oportunidade de o denunciar. PAPILLON: Ora. isto não é assunto de pouca importância.. está fora de questão. O racismo. aqui. sou anti-racista. O senhor viu. BOTARD: No entanto. sr.BOTARD: E trata-se de um gato. DAISY: Mas se já foi dito que aqui ninguém é racista! O senhor está desviando o assunto... BOTARD: Sr. BOTARD: Escutem: eu não sou do Sul..

DAISY: Êle não passeava. -um licenciado em direito? Ora. BOTARD (interrompendo): Ora. domingo. Deviam ser daqueles tipos boa-vida.. para servir patrões dos quais eles são lacaios! O senhor acredita nisso.. eu não queria magoá-lo.. SR. Ponho as minhas mãos no fogo. além do mais. BOTARD: Ora.. senhor Dudard. havia muita gente perto de mim que também viu. antes de . DUDARD: Pessoalmente. E. BOTARD: Ao domingo também trabalho. deixe disso. corria. eu não sofro de alucinações. Eu que pensava que era uma moça ponderada. BOTARD: Pfff! Eles viam com certeza outra coisa!. que nunca trabalham. está se vendo que são boatos! O senhor fia-se nos jornalistas que não sabem o que inventar para vender seus jornais infectos. Não é porque eu desprezo as religiões que se pode dizer que não as estimo. deixe-me rir! Ah! Ah! Ah! DAISY: Mas eu vi. (A Daisy): E. eu não o vi. PAPILLON (indignado): Oh! BOTARD: Desculpe. o senhor um jurista.. DAISY: Senhor Botard. eu vi o rinoceronte. pessoas dignas de crédito. não estava sozinha. No entanto. Não sou daqueles que se deixam levar pelos padres que nos fazem ir à igreja só para nos impedir de realizar a nossa tarefa e de ganhar o pão com o suor do nosso rosto.. DUDARD: Isso passou-se ontem.

à esquerda onde se encontra o livro de ponto. Pior para os retardatários! (Daisy dirige-se para a mesinha. BOTARD: É pena. Queira retirar o livro de ponto.. a senhorita gabase por ser clara! Senhorita. Nós não estamos na escola. Não estou atrasado? BOTARD (a Dudard e ao Sr. Papillon): Eu luto contra a ignorância onde quer que ela se encontre ! DAISY (a Bérenger): Rápido. enquando os outros continuam discutindo. no momento em que entra Bérenger. senhorita. senhor Bérenger. nas palhoças! ..) BÉRENGER (entrando. é um animal enorme. PAPILLON: O senhor não vai agora darnos uma aula sobre o rinoceronte. senhorita Daisy. o rinoceronte. feio! BOTARD: E ainda por cima... (Desde as últimas réplicas. a senhorita sabe o que é um rinoceronte? DAISY: É um.mais nada. PAPILLON (a Daisy): Bem.) SR. êle entreabriu prudentemente a porta do escritório.nos palácios. já se viu Bérenger subir.. os últimos degraus ãa escada. Que permitiu lêr-se a tabuleta em que está escrito: "EDIÇÕES DE JURISPRUDÊNCIA". já passa das nove. BOTARD: .. . SR.. com precaução. a Daisy): Bom dia.

PAPILLON (a Botard): O senhor não vai dizer que o meu colaborador e seu colega. eu acho que. PAPILLON (a Botard): Eu acho que o senhor está ultrapassando os limites da delicadeza. BÉRENGER (a Daisy.(corre para assinar o livro de ponto). Papillon): Eu também acho. chefe. as Faculdades e a Universidade em geral. SR. não chegam aos pés da escola primária. BOTARD (continuando): O lugar não importa! Até mesmo nas casas editoras. SR. SR. BÉRENGER: Já? Tão cedo? . aqui está o senhor Bérenger! . é um ignorante. DUDARD (ao Sr. Papillon): Aqui está. No entanto.. SR. já está aí. PAPILLON (a Botará): Sr.DAISY (a Bérenger): Assine depressa o livro de ponto! BÉRENGER: Obrigado! O chefe já chegou? DAISY (a Bérenger. ainda não são nove e dez. BOTARD: Não chegaria a afirmar tal coisa. senhor Dudard. PAPILLON (a Bérenger): Ora bem. pondo um dedo nos lábios): Cht! Já.. PAPILLON (a Daisy): Então. SR. Botard. licenciado em Direito e excelente funcionário. enquanto assina o livro): No entanto. (Entrega-lhe o livro). esse livro de ponto? DAISY (ao sr.

como querendo desculpar o seu atraso. DUDARD (a Botard): Bobagens! BÉRENGER (continuando a arrumar seus pertences de trabalho com um dinamismo excessivo. o seu paletó civil. Papillon. vai até a sua escrivaninha da gaveta da qual tirará as suas mangas de alpaca. PAPILLON: Diga-me uma coisa. BOTARD (irônico): Oh. senhor Papillon! Desculpe. o espírito de observação e o senso prático. pois embora não pareça êle é um galanteador. Bérenger: também viu rinocerontes? BOTARD (a Dudarã): Os universitários são espíritos abstratos que ignoram tudo da vida. colocando no seu lugar. (Bérenger ia justamente por detrás do Chefe contornando o grupo dos três personagens. são as idéias claras. senhor Papillon. o senhor Bérenger diz isso por galanteria. BOTARD (voltanáo-se): Pfff! DAISY: Ah! O senhor está vendo? Eu não estou louca. etc. no cabide. sim senhor. tenha paciência! BÉRENGER (ao sr. na direção do cabide. Bom dia. ao sr. aí ele pegará a sua bata de trabalho ou seu paletó usado. Dudard! Bom dia. depois de ter trocado de roupa. com toda a naturalidade): Certamente. Papillon): Bom dia. DUDARD (a Botara): Ora.BOTARD (a Dudard): O que falta aos universitários. SR. quase cheguei atrasado. Eu vi um. . e curilprimenta): Bom dia. senhor Botard.

BOTARD: Pfff! É possível que o sr. no entanto.DUDARD: Ah! é galanteria dizer que se viu um rinoceronte? BOTARD: Sem dúvida. BOTARD: Êle nem sabe ao certo quantos viu! BERENGER: Eu estava ao lado de meu amigo Jean!. que êle tinha dois cornos. E havia muito mais gente. pois acaba de chegar. PAPILLON: Não seja de má fé. então aí é preciso chegar a um acordo. (Faz atrás das costas de Berenger o gesto que indica que Berenger bebe): Êle tem tanta imaginação! Com êle tudo pode acontecer! BERENGER: Eu não estava só quando vi o rinoceronte! Ou talvez os dois rinocerontes. segundo ouvi dizer! BOTARD: Ah. o que é bastante compreensível. BERENGER (a Daisy): Não é verdade que a senhorita viu? Aliás. senhor Botard. BOTARD: Pfff! Eles estão bem combinados para troçar da gente! DUDARD (a Daisy): Parece-me. O senhor Berenger não tomou parte na controvérsia. BOTARD (a Berenger): Parece que está gaguejando! DAISY: Era um rinoceronte unicórnio.... quando se trata de apoiar as afirmações fantasistas da senhorita Daisy. Berenger acredite que viu um rinoceronte. SR. Toda a gente é galante com a senhorita Daisy. . nós vimos..

meus senhores. PAPILLON: Meus senhores. BOTARD: O sr. exceto em gravuras e nos livros escolares.. parece-me bastante imprópria. BOTARD: O senhor viu um ou dois rinocerontes. aquele que o senhor diz ter visto. PAPILLON (olhando o relógio): Vamos acabar com isto. mas tenho que confessar que não acredito nas vossas narrativas! Na nossa região nunca se viram rinocerontes! DUDARD: É só começar! BOTARD: Isso é coisa que nunca se viu. Esses tais rinocerontes só floriram nos cérebros das comadres. aplicada aos rinocerontes. o tempo está correndo. BOTARD (prosseguinão): O vosso rinoceronte é um mito. Isto é. é justamente aí que está o problema! BOTARD: Tudo isso não tem sentido. não sabe. BÉRENGER: A expressão "florir".. A senhorita Daisy viu um rinoceronte unicórnio. DUDARD: Também acho. DAISY: Oh! BOTARD: Eu não quero magoá-los. . DAISY: Um mito? SR.SR. e o seu rinoceronte. era unicórnio ou bicórnio? BÉRENGER: Se o senhor quer saber.. senhor Bérenger? BÉRENGER: Bem!. acho que já é hora de começarmos a trabalhar. senhor Bérenger..

exatamente como os discos voadores! DUDARD: E além disso há uma coisa ine gável: um gato que morreu esmagado! " BÉRENGER: Sou testemunha disso. PAPILLON (com firmeza): Bem. discos voadores ou não discos voadores é preciso trabalhar! A casa não vos paga para perderem tempo em discussões sobre animais reais ou imaginários! BOTARD: Imaginários! DUDARD: Reais! DAISY: Muitos reais! SR. sim senhor! BOTARD: Pfff! SR. PAPILLON: Meus senhores. Basta de tagarelices! Rinocerontes ou não rinocerontes. Têm que acabar definitivamente com esta polêmica estéril. meus senhores! BOTARD (a Dudard): Psicose coletiva. DUDARD (mostrando Bérenger): E há teste munhas disso! BOTARD: Uma testemunha dessas! SR. .. eu chamo mais uma vez a vossa atenção para o fato de que já estão no vosso período de trabalho.BOTARD (a Daisy): Um mito. sim senhora. psicose coletiva é o que isso é! É como a religião que é o ópio dos povos! DAISY: Pois eu creio nos discos voadores. senhor Dudard. PAPILLON: Meus senhores. basta! Já estão exagerando.. então.

queiram apressarse. em seguida. SR. PAPILLON: Senhores. passa o manuscrito a Botará. Bérenger e Botard. Bérenger está passivo. PAPILLON: Acabem logo essa correção que a tipografia está esperando. Botara está de mau humor. em suas escrivaninhas. O senhor é o chefe.) .BOTARD (ofendido. Papillon vai saindo para o seu gabinete. queira bater a correspondência o mais depressa possível e trazê-la. SR. Visto que o senhor ordena temos que o obedecer. no meu gabinete. Botara de costas para a porta da escada. apático. enquanto o sr. senhor Papillon. senhor Papillon. chefe. batendo a porta. SR. o qual senta-se resmungando. irônico). ambos de perfil para a sala. Não quero ver-me na triste obrigação de ter que aplicar uma multa sobre os vossos vencimentos! Senhor Dudard. E os senhores: senhor Bérenger e senhor Botard? Já acabaram de corrigir as provas da regulamentação dos vinhos de "appellation controlée"? BÉRENGER: Ainda não. para eu assinar. coloca as provas sobre a mesa. Duãard senta-se à sua secretária e começa a trabalhar. Quanto à senhorita. (Daisy vai até à sua escrivaninha e põe-se a escrever à máquina. DAISY: Está bem. mas já estão bem adiantadas. sr. De acordo. PAPILLON: Trate de terminar logo que é assunto urgente. em que ponto se encontra o seu comentário da lei sobre a repressão anti-alcoólica? DUDARD: Está quase terminada. Papillon.

região inferior das encostas superiores.. Só se ouve a sua voz. durante alguns instantes. enquanto Bêrenger faz as correções sozinho. DUDARD (a Bêrenger e a Botara): Não leia tão alto..... (corrigindo): Appellation tem dois LL e controlee um L só.SR. vi!... que nós vimos! .. por favor. sem ruído.. BOTARD (a Dudarã): Isso não está aqui! Pularam uma linha. retomando a discussão de há pouco. meus senhores! (sai) BÉRENGER (lendo e corrigindo. DAISY (deixando de bater à máquina): Mas eu já lhe disse que vi. ora! É a sua propaganda que faz correr esses boatos! DUDARD (interrompendo o seu trabalho): Que propaganda? BÉRENGER (intervindo): Não é propaganda. mexe os lábios. assim não posso me concentrar. BÉRENGER: Volto atrás: os vinhos chamados de "appellation controlée". continuando a leitura): Isso é uma mistificação! DUDARD: O que é que é mistificação? BOTARD: Essa história de rinoceronte. BOTARD (a Duãard por cima ãa cabeça de Bêrenger.. PAPELLON: Até logo. Os vinhos de "appellation controlée" da região de Bordeus. enquanto Botard segue o manuscrito com um lápis): Regulamentação dos vinhos de "appellation controlee"...

. dando um murro na mesa): Isso é um insulto! Eu não lhe permito. Botard. SR.... não se faça de inocente. sr. Dudard. (A porta do gabinete do chefe abre-se de repente: Botard e Dudarã voltam a sentar-se rapidamente. PAPILLON: Eu precisava dele justamente neste momento! (A Daisy): Êle mandou avisar que estava doente ou que tinha algum impedimento? DAISY: Êle não me disse nada. sr... hein?...DUDARD (a Botará): O senhor é muito engraçado! Propaganda. PAPILLON (abrindo completamente a sua porta e entrando): Se continuar assim. sr. SR. BOTABD (vermelho de raiva. deixe disso! O sr..) SR. Botard. está ausente. (Botara levanta-se). o chefe trás nas mãos o livro de ponto. sabe melhor do que eu.. eu não sou pago pelos pontenegrinos. DAISY: Então.. Já não é a primeira vez que me prega esta peça. à sua aparição restabelece-se subitamente o silêncio. BÉRENGER (solicitando): Então. BOTARD: Eu estou sendo insultado. vou ter que despedi-lo. . Mas qual o objetivo? BOTABD (a Dudarã): Ora. DXJDARD (zangando-se): Em todo o caso.. Até hoje tenho fechado os olhos. PAPILLON: O senhor Boeuí não veio hoje? BÉRENGER (olhando em torno): É verdade.

. Papillon.) BÉRENGER: Ah... SR. e uma cadeira.. que foi que aconteceu ao seu marido? Êle não está para se incomodar? SR.) . SR. PAPILLON: Então... senhora Boeuí. Está arfante e aterrorizada.....a BOEUF (mostrando um papel ao chefe): Faça o favor de ver... sim! Estava um pouco resf riado. É o que êle diz no telegrama.. Bom dia para todos.. desculpe o meu marido.) SR. (Quase ãesfalecendo): Um copo com água.mas agora acabou-se.a BOEUF (arfante): Peço que o desculpe... na qual ela cai prostraãa.. dá-lhe de beber durante algumas réplicas que seguem. aqui está a senhora Boeuí. Estava um pouco resfriado. Foi passar o fim de semana com a família dele. a sua própria cadeira. Já se tinha podido vê-la durante esta última réplica subindo os últimos degraus da escada. (Bérenger vem trazer-lhe... PAPILLON: Ah. DAISY: Bom dia. por favor. ao centro da cena. SR.. abriu bruscamente a porta.a BOEUF: Bom dia. sr. senhor Papillon. PAPILLON (a Daisy): Dê-lhe um copo com água.. Algum dos senhores tem a chave da secretária dele? (Justamente nesse momento entra a Senhora Boeuf. Conta estar de volta na quarta-feira. SR. DAISY: Imediatamente! (Traz um copo com água..

A poeira provocada pelo desmoronamento da escada.. Vêem-se os degraus da escada que desmoronam.a Boeuf. Mas não é caso para a senhora ficar nesse estado.. ai!. vindos de baixo.. barridos angustiados.. deixem-me rir!.... Papillon.. com ar de quem quer subir a escada..a BOEUF (fazendo grande esforço para dar esclarecimento e apontando na direção da escada) : Êle está lá em baixo. a um peso extraordinário. PAPILLON: É bastante desagradável que o sr.. abrem a porta.a BOEUF (sentada. sr. atro .. dálhe palmaãinhas no rosto e ajuda-a a beber água. Ouvem-se.DUDARD (ao chefe): Ela deve ser cardíaca. por um rinoceronte. (No mesmo instante ouve-se um grande barulho. SR. a mão sobre o coração) : Ai. eu fui perseguida desde minha casa até aqui.) BÉRENGER: Acalme-se! (Durante este tempo.. ai. ãissipanão-se. SR.a BOEUF (com dificuldade): É que. BÉRENGER: Unicórnio ou bicórnio? BOTARD (às gargalhadas): Ora. Dudará e Botara precipitam-se à esquerda.. é que... devido com certeza. à entrada. DAISY: Meu Deus!. DUDARD (indignado): Deixe-a falar. deixará entrever o patamar da escada suspensa no espaço). Boeuf esteja ausente. que diabo! SR.. (Bérenger corre para junto da sr. SR.

Lá está êle.pelanão-se e acham-se no patamar envoltos em poeira. (a Botard) Então. senhora Boeuf? SR. SR. rodando.. SR. Parece que está sofrendo. coitado. PAPILLON (a Berenger): "Seu" especialista de rinocerontes. PAPILLON (no patamar): Lá está êle! Lá em baixo! BOTARD: Não estou vendo nada. DAISY (à sr. já está vendo? .. êle está rodando. BERENGER: Estou indo. Que quer dizer isto? DUDARD (voltanão-se para Berenger): Venha ver! Venha ver logo o seu rinoceronte. Já não há escada. olhe bem agora. DUDARD: Não senhor! Olhe para baixo.. Que será que êle quer? DUDARD: Parece até que procura alguém. olhem como êle está rodando. olhe bem. meus senhores.a Boeuf). (Vai correndo na direção do patamar seguido de Daisy que também abandona a sr.. os barridos continuam a fazer-se ouvir). BERENGER: Não sou especialista de rinocerontes. BOTARD: Isso é muito estranho. É uma ilusão.a Boeuf): Está melhor. PAPILLON: Não há dúvida. DAISY: Olhem. DUDARD: Não vai poder subir.

BÉRENGER (a Dudard e ao sr. PAPILLON: Isto tinha que acontecer. . DUDARD (a Botará): O quê? Alguma coisa? SR. Chefe. eu enviei um relatório.. DAISY (ao sr.. na verdade. Papillon. Tanto melhor! Mais cedo ou mais tarde isto tinha que acontecer! Eu já tinha cansado de pedir à Direção Geral para mandar substituir esta escada podre por degraus de cimento.. tinha que acontecer. SR. asiático. Papillon): Ora vejamos: os dois cornos caracterizam o rinoceronte da Ásia ou da África? Um corno caracteriza o da África ou o da Ásia.. BÉRENGER: Êle tem dois cornos. Ê um rinoceronte africano ou talvez. irônica): Como sempre. Ah! já não tenho a certeza se o rinoceronte africano tem um ou dois cornos. Eu tinha razão.BOTARD (humilhado): É.. BOTARD: Eu nunca tenho alucinações. E o senhor também. SR. Mas há alguma coisa por detrás disto... não é? É o mesmo que o senhor já tinha visto? (a Daisy): E a senhorita também? DAISY: Sem dúvida. DAISY (ao sr. Estava previsto.. Papillon): Talvez estejamos todos sofrendo alucinações. jâ vi.. PAPILLON (a Bérenger): É um rinoceronte.. . PAPILLON: Êle desabou a escada. DUDARD: Ainda não faz uma semana.

não acha que é o de dois cornos que. michin. Que é que ele quer? Oh. êle existe ou não existe? BOTARD: Isto é uma conspiração infame! (Com um gesto de orador. êle não pára nem de se lamentar nem de rodar. Se dependesse de mim. Sr... No entanto.. senhores.DAISY: Pobre bicho. apontando para Duãarâ e fulminanâo-o com o olhar): A culpa é sua! DUDARD: Por que minha e não sua? BOTARD (furioso): Minha? A culpa tem sempre que cair sobre os pequenos. SR. êle está olhando para nós.. PAPILLON: Picou engasgado.. PAPILLON: De todo o jeito. (O rinoceronte dá barridos dilacerantes). michin. Agora não é o momento. êle está fora do nosso alcance.. O sr..... meu caro Bérenger. BOTARD: Como é possível uma coisa destas. porque êle não deve estar domesticado. (Na direção do rinoceronte) Michin. DUDARD: Não vá lhe fazer agrados. DAISY (a Botard e a Dudarâ): Acalmem-se. Botard tem razão.. sem escada. SR. PAPILLON: Estamos em maus lençóis. DAISY (a Botara): De acordo. DAISY: Pobre animal! BÉRENGER (prosseguindo.. num país civilizado. . a Botard): O senhor que sabe tanta coisa.

a BOEUF: Tenho sim. em baixo. Eu o reconheci. enquanto o rinoceronte não pára de barrir. meu pobre Boeuf.a Boeuf levantou-se e juntou-se ao grupo.a Boeuf): Que tem? Sr.a Boeuf): A senhora tem certeza? Sr. SR. DAISY: Talvez. num caso destes? . Mas como é que vamos descer? SR. que foi que te aconteceu? DAISY (à sr.a BOEUF: Meu Deus! Será possível? BÉRENGER (à sr. PAPILLON: Ora esta! Desta vez. a sr. (O rinoceronte responde com um barrido violento. PAPILLON: A culpa é da Direção Geral. PAPILLON: Eu estava brincando! (Entretanto. Ela olha fixa e atentamente o rinoceronte que continua rodando. PAPILLON (gracejando galantemente e acariciando a face da datilografa): Eu a pegarei ao colo e saltaremos juntos! DAISY (repelindo a mão do chefe): Tira de cima de mim essa mão rugosa. mas terno.) SR. seu paquiderme! SR. de repente ela dá um grito terrível).. DAISY: Como é que se pode pagar o seguro. não tem remédio: ponho-o na rua! DUDARD: Êle está no seguro? BOTARD (à parte): Estou compreendendo tudo.SR.a BOEUF: É o meu marido! Boeuf..

BOEUF (caindo. dão-lhe palmadinhas no rosto. pode ficar tranqüila que irei contar tudo ao meu comitê de ação. ela abre os olhos. senhora Boeuf? DUDARD: Está voltando a si.. sr. (Carinhosamente): Êle me chama. sem sentidos.. o que é que se pode fazer? DUDARD: É preciso perguntar ao contencioso. PAPILLON (a Dudard): Juridicamente.) DUDARD (enquanto andam): Não é nada. nos braços de Bérenger): Ai meu Deus!. meu pobre querido. (Ouvem-se barridos): Êle me chama.a BOEUF (voltando a si): Meu pobre querido. BOTARD (seguindo o cortejo e erguendo os braços): Isto é uma loucura! Que sociedade! (Ficam todos em torno da Sr* Boeuf. (Bérenger ajudado por Dudard e Daisy arrastam a sr.a Boeuf até a cadeira onde a sentam. leva mais palmadinhas no rosto.SR. exclama um "Ahl". SR. . torna a fechar os olhos. eu não posso deixá-lo assim.a Boeuf. BÉRENGER: Oh! DAISY: Vamos levá-la.. SR.. Sr.a BOEUF: Ah! Oh! DAISY: Talvez isto se arranje. DAISY: Está melhor. Eu não abandonarei um colega nas horas difíceis.. Isto vai constar. enquanto Botard fala): Em todo o caso.

Papillon faz menção de segui-la. DUDARD: E isso depõe certamente contra êle.a BOEUF (levanta-se bruscamente): Eu não posso deixá-lo assim. BOTARD: Eu sei donde isto vem. Pela janela.a Boeuf. largada na cadeira e Botará que permanece ao centro). a correspondência! DAISY: Primeiro é preciso saber como é que nós vamos sair daqui. (Dirigem-se todos para a janela. alô. Senhora Daisy. . Daisy sai pelo fundo. a senhora tem agora uma boa razão. SR. PAPILLON: Isso é um problema. PAPILLON: Se quiser divorciar. ouvimola retirar o fone do gancho e dizer): "Alô. (sr. BÉRENGER: Talvez seja melhor chamar os bombeiros.. SR. SR. não posso deixá-lo assim! SR. A senhora quer fazer parte do nosso comitê? SR. vá ao meu escritório telefonar aos bombeiros.. PAPILLON: Senhorita Daisy.BOTARD (à Sr* Boeuf): Conte com o apoio da nossa delegação. é dos bombeiros?" (e depois um vago rumor de conversa telefônica). PAPILLON: E agora o trabalho vai ficar todo atrasado. menos a sr. DAISY (na janela): É muito alto.

SR. exceto Daisy que continua telefonando. não pos so abandoná-lo. BÊRENGER: Ela vai se atirar. o barrido terno do rinoceronte.a BOEUF: Não coitado! Agora não é o momento. vindo de baixo. BOTARD: A senhora é uma mulher direita. Bérenger. aqui estou. PAPILLON: Que é que ela quer fazer? SR.a BOEUF: Aqui estou.a Boeuf): Mas então que é que vai íazer? (Correndo para a esquerda a sr. no patamar. (Todos.). DUDARD (à sr. na beirada do patamar): Já vou. ficou com a saia dela nas mãos). já vou. que tentou retê-la. BOTARD: É o seu dever. meu querido.a BOEUF: Não posso abandoná-lo.a Boeuf pula. encontram-se perto dela. BÉRENGER: Não consegui segurá-la. eu não posso abandonar meu marido naquele estado. BÊRENGER: Cuidado! SR. (Ouve-se. a sr. meu querido.SR. SR. DUDARD: Segurem-na.a BOEUF (preparando-se para saltar. DUDARD: Não poderá. .a BOEUF: Vou levá-lo para casa! SR.a Boeuf dirigese ao patamar).

. DAISY (aparecendo): Foi difícil conseguir os bombeiros! BOTARD (terminando um monólogo interior): Que loucura! DAISY: .. Botard. (Duãarã. DUDARD: Partiram a galope. Papillon vão à janela. SR. (virando-se para a porta do fundo. VOZ DE SR.DUDARD: Ela caiu montada em cima dele. BOTARD: É uma amazona.a BOEUF: Vamos para casa. PAPILLON: A cidade está ardendo? BÉRENGER: Estou de acordo com o sr. a Duãard): Ela ainda não acabou de telefonar!. Não os vejo mais.a Boeuf é verdadeiramente comovente. PAPILLON: Tenho um empregado a menos. Ela tem um grande coração. Preciso arranjar outro. Papillon): O senhor já praticou equitação? SR. BÉRENGER (seguindo com o olhar o rinoceronte): Já estão longe. voltemos para casa. meu querido. sr. SR...) BÉRENGER: Vão a toda.. PAPILLON: Há muito tempo. BÉRENGER: O senhor acha mesmo que êle já não poderá ser útil? .. um pouco. Botará. Bérenger. Foi difícil conseguir os bombeiros. A atitude da sr. DUDARD (ao sr.. .

BOTARD (menos convencido): Pfff! Estão exagerando. continua negando a evidência rinocérica? BOTARD: A nossa delegação opõe-se a que o senhor despeça o senhor Boeuf. Este número ainda não é oficial. Foram assinalados vários na cidade. PAPILLON: Vai ser preciso recuperar o tempo perdido.. senhor Botard. DUDARD: Então. DAISY: Vêm sim. DUDARD: Por causa de outros rinocerontes? Como assim? DAISY: Sim. Os bombeiros já estão a caminho! SR. PAPILLON: Será que eles vêm tirar-nos daqui? BÉRENGER: Eu estou com fome!. PAPILLON: E o trabalho! DUDARD: Eu acho que é um caso de força maior. SR. Os bombeiros foram chamados por causa de outros rinocerontes. SR.DAISY: Não. não há incêndios. sem aviso prévio. BÉRENGER: Por causa de outros rinocerontes. mas com certeza vai ser confirmado. por causa de outros rinocerontes. agora já são dezessete.. . BOTARD: É o que eu lhes dizia! DAISY (continuando): Há mesmo quem tenha assinalado trinta e dois. Esta manhã eram sete.

senhor Dudard. DAISY: Explique-nos. conheço muito bem os subterrâneos do fato. o senhor é de má íé. DUDARD: O senhor é de má fé. ameaçando): Nós é que nos explicaremos. . DUDARD: Estamos ouvindo. (A todos): Eu sei o porquê das coisas. PAPILLON: Não é a mim que cabe a decisão. poderia explicá-lo se.. um dia. Nunca neguei. DUDARD: E porque não agora? BOTARD (ao sr. PAPILLON: Explique.. BOTARD: Explicarei... Só queria saber até onde aquilo podia ir. compreendo-o e explico-o. muito breve.. Eu não constato simplesmente o fenômeno. Esperemos as conclusões do inquérito.SR.. BOTARD (a Dudard): Não.. Pelo menos. já que seus colegas estão pedindo. senhor Botard. BOTARD: Repito que eu nunca neguei. DAISY: Estou tão curiosa! BOTARD: Eu vos explicarei. entre nós. sei o que devo pensar. SR. DAISY: Quais subterrâneos? BÉRENGER: Quais subterrâneos? DUDARD: Eu bem gostaria de conhecer os subterrâneos.. DUDARD: Então. explique-nos. Papillon... DAISY: Isso mesmo. Quanto a mim. eu não nego a evidência rinocérica.

Hei-de denunciar o objetivo e o significado desta provocação! Hei-de desmascarar os provocadores! BÉRENGER: Quem estaria interessado em?. feroz): E também conheço os nomes de todos os responsáveis. PAPILLON: Não divaguemos. DUDARD (a Botará): Está divagando. DUDARD: Não há significação possivel. o senhor nos acusava de termos alucinações. os nomes dos traidores.. BOTARD: Eu? Eu divago? DAISY: Ainda há pouco. Eu não sou bobo.BOTARD (continuando. e os hipócritas fingem não compreender. isso é que é. meus senhores. Ouve-se também o ruído dos freios do carro que pára bruscamente sob a janela. que chega. é o segredo de polichinelo! Só as crianças é que não o compreendem. DUDARD: E então como é que o sr.. sim. Não há mais nada a dizer. senhor Botard. senhor Botard. . Agora a alucinação virou provocação. acha que isso aconteceu? BOTARD: Isso. BOTARD: Há pouco.) DAISY: Chegaram os bombeiros! BOTARD: É preciso que isso mude! Isto não pode ficar assim. SR. (Ouve-se a sirene do carro dos bombeiros. Os rinocerontes existem.

PAPILLON: Mesmo assim será preciso voltar ao escritório.DAISY (à janela. DUDARD: Se alguém quebrar uma perna. PAPILLON: E o que dirá a Direção Geral? DUDARD: Isto é um caso excepcional. indicando a janela): Faça o favor. SR. Papillon. o trabalho que espere. (Bombeiro pega Daisy nos braços e desaparece com ela). Temos que esperar que consertem a escada. BOTARD (apontando a janela): Não podem obrigar-nos a retomar o mesmo caminho. PAPILLON: Isso é verdade. Depois da senhorita. um sistema de interpretação que nunca falha.. BÉRENGER (a Daisy. (Vê-se a escada dos bombeiros encostar na janela) . SR. olhando para baixo): Senhores bombeiros: é para cá! (Ouve-se em baixo o barulho dos preparativos de salvamento. SR. .) VOZ de um bombeiro: Coloquem a escada! BOTARD (a Dudarã): Eu tenho a chave dos acontecimentos.. hoje à tarde. BOTARD: Ora. BOMBEIRO: Vamos. isso poderá causar transtornos à Direção. (Vê-se aparecer o capacete de um bombeiro e depois este). sr. senhorita.

Há mais gente que precisa de nós. PAPILLON (a Bérenger): Traga-me a pasta da correspondência da senhorita Daisy. na mesa. está claro. (Bérenger vai buscar a correspondência e entregaa ao sr. SR.DUDARD: Até logo. BOTARD: Depois do senhor. Está ali. Virá bater a correspondência em minha casa. senhor Papillon. BOTARD: Que é que eu dizia? . PAPILLON (à janela): Telefone-me amanhã cedo. senhor Papillon. BOMBEIRO (aparecendo à janela): De quem é a vez? PAPILLON (dirigindo-se aos três): Podem ir. BOTARD: Evidentemente. meus senhores! SR. senhorita Daisy. senhorita. (Aos outros dois): Os senhores me ouviram? DUDARD: Sem dúvida. Até breve. BOMBEIRO: Vamos logo. (A Bérenger): Senhor Bérenger. Papillon). chamo a sua atenção para o fato de que não estamos em férias. BÉRENGER: Depois do senhor. DAISY (desaparecendo): Até breve. retomaremos o trabalho logo que fôr possível. DUDARD: Depois do senhor. chefe. nós somos explorados até a alma. que eu estou com pressa.

DUDARD (interrompendo): Eu é que estou sendo insultado!. por sen lado. BOTARD (desaparecendo): Não estou insultando. PAPILLON (desaparecendo. BOTARD: Eu vou descer. Papillon. sim. (A Botará): É a sua vez. sr. já estivesse tudo esclarecido. sr.. ouve-se dizer): Cuidado com os papéis! VOZ do sr. SR. Papillon. DUDARD: Até logo. Papillon. BÉRENGER: Até logo. BOTARD (subindo à janela): Sua ironia não me atinge. sr. para sair).. Papillon: Dudard! Feche o escritório á chave. DUDARD (gritando): Não se preocupe. senhores. Papillon. SR.. sobe à janela). PAPILLON (aos bombeiros): Cuidado com as pastas. DUDARD: Isso é absurdo. e logo em seguida irei visitar as autoridades competentes para esclarecer este falso mistério. senhor Botard. senhores. (Voltando-se para Dudarã. BOTARD: O seu insulto. DUDARD (a Botard): Eu pensava que. as provas da sua traição. com a correspondência debaixo do braço.. Estou a caminho das provas. (Dirige-se à janela... O que eu quero agora é mostrar as provas.(Sr. Botará e Bérenger): Até logo. os documentos. .

.. não! Faz favor . ... vamos!. O Bombeiro ajuda-os a descer. BÉRENGER (apontando a janela): Paz favor ..VOZ do Bombeiro: Vamos. Vou aproveitar esta tarde livre para visitar o meu amigo Jean.. DUDARD (a Bérenger): Faz favor. eu também estava errado. BÉRENGER (a Dudard): Não. afinal... BOMBEIRO: Vamos.. BÉRENGER (a Duãard): Faz favor.. não! Tenha a bondade... DUDARD (a Bérenger): Que é que você faz hoje à tarde? Podíamos ir beber qualquer coisa.... vamos. . faz favor. faz favor.. enquanto) CAI O PANO FIM DO QUADRO 100 . à janela juntos. BÉRENGER (a Dudard): Ah. mas não posso. (A cabeça do Bombeiro reaparece á janela). faz favor. Nós brigamos e.. faz favor. Apesar de tudo. (Sobem.... BÉRENGER: Desculpe. quero íazer as pazes com êle. DUDARD (a Bérenger): De modo nenhum. depressa! DUDARD (a Bérenger): Paz favor.. BOMBEIRO: Depressa..

ocupando as três quartas partes ou os quatro quintos do palco. Mais em baixo. na qual se lê: PORTEIRA. a porta dando para a escada. A direita. uma porta dando para o banheiro de Jean. No meio. 101 . Se se quiser fazer um cenário menos realista. Êle bate à porta e Jean não responde. de costas para o público. subindo os últimos degraus da escada. no nível deste patamar. Ao cabo de alguns instantes. o palco está dividido em duas partes. a parte superior de uma porta envidraçada. Ao abrir a cortina. o corrimão e uma parte do patamar. uma porta áo apartamento vizinho. onde ele está deitado. uma cadeira ou uma poltrona onde Bérenger irá sentar-se. No meio do palco. no meio. deverá ouvir-se o barulho de água da torneira do chuveiro. um cenário estilizado. conforme a largura deste. Ao fundo. Jiean está deitado na cama. no fundo.SEGUNDO QUADRO Em casa de Jean. vê-se a escada. a cama de Jean. os últimos degraus dando para o apartamento de Jean. poder-se-á colocar simplesmente a porta sem a parede divisória. isto é. Quando este fôr arrumar-se. uma divisória corta o palco em dois. A esquerda do quarto. tapado com um cobertor. vê-se o quarto de Jean. A estrutura do cenário é mais ou menos a mesma do primeiro quadro deste segundo ato. A direita. vê-se Bérenger aparecer. Ouvimo-lo tossir. Ao fundo. Bérenger bate novamente. A esquerda do palco. encostada á parede.

Eu também me chamo Jean. VOZ da mulher do Velhinho: Jean! Deixa de conversa.BÉRENGER: Jean! (Bate novamente): Jean! (A porta ao fundo do patamar entreabre-se e surge um velhinho de barbicha branca). 102 . JEAN (deitado.. BÉRENGER (batendo na porta): Jean! VELHINHO: Hoje não o vi sair. Jean. VELHINHO: Talvez êle não queira abrir. Ontem encontreio e não parecia estar bem humorado. meu caro Jean! Vim fazerlhe uma visita. mas estou vendo que é com o outro. BÉRENGER (batendo): Jean! VELHINHO (à mulher): Um momento. e a culpa é minha. (Volta para dentro e fecha a porta). mas insista. BÉRENGER: Deve estar sim. VELHINHO: Pensava que era para mim.. VOZ da mulher do Velhinho (do fundo do apartamento): É para nós? VELHINHO (virando-se para a mulher. o senhor Jean. VELHINHO: O que é que há? BÉRENGER: Eu venho visitar o meu amigo Jean. Ai ai ai ai. de costas para o público. com vos rouca): Que é que há? BÉRENGER: Abra. que continua invisível): É para o outro.

BÉRENGER: Eu também não reconheci a sua. JEAN: Um momento! Ai ai ai ai. (Dá volta à chave na fechadura): Um momento. BÉRENGER: Você ainda está deitado? Não foi ao escritório? Desculpe. não estou incomodando? JEAN (sempre de costas): É estranho. JEAN: Ontem?. está ãespenteaão): Um momento. tapando-se com o cobertor) : Entre. Veste pijama verde... JEAN (deitado): Que horas são? Você não foi ao escritório? . (Vai-se deitar novamente. 103 .. fui muito besta em brigar com você..JEAN: Quem é? BÉRENGER: É Bérenger. BÉRENGER: Você está doente? (Jean responde com um som inarticulado. JEAN: Que história? BÉRENGER: Ontem.. você sabe.. não reconheci a sua voz.. Realmente está mal humorado... mais parecido com um grunhião): Jean. (Jean levanta-se. JEAN (continuando de costas): Sente-se. Onde?. BÉRENGER (tentando abrir): A porta está fechada. Jean. por uma história daquelas. é você? Entre. Não incomodo? JEAN: Ah... BÉRENGER (entrando): Bom dia..

. é que ambos tínhamos razão. JEAN: A propósito de quê?.. JEAN: Ah! sim. já me lembro... daquele infeliz rinoceronte. JEAN: Então que é que há? BÉRENGER: Faço questão de lhe dizer que lamento ter discutido assim. BÉRENGER: Sem dúvida é por isso que você está deitado.. meu caro Jean.. BÉRENGER: Você é um bom sujeito... não me admira. enfim. aqueles dois infelizes rinocerontes que nós vimos. mas vou ser breve.. O que eu queria dizer. com aquela violência. Agora. enfim.. não falemos mais nisso. com aquela teimosia. JEAN: Bem. BÉRENGER: A propósito. (Mudando de tom): Sabe. Você desculpe eu voltar mais uma vez ao assunto. da mesma coisa. JEAN: Não me sinto muito bem. (Tosse).. com aquele exagero.. Jean? Ambos tínhamos razão.BÉRENGER: Você esqueceu? Foi a propósito do rinoceronte. Mas quem lhe disse que os dois rinocerontes eram infelizes? " BÉRENGER: É um modo de falar.. já está provado que na cidade há tantos rinocerontes de um corno como rinocerontes de dois cornos.. JEAN: Isso.. de você. 104 . cada um a seu modo. fui besta. BÉRENGER: Desculpe... JEAN: Qual rinoceronte? BÉRENGER: O rinoceronte. ou antes..

talvez seja um excesso de saúde. no fundo. Talvez você tenha se resfriado.. uma fraqueza passageira.. Que será que você tem? JEAN: Não sei bem. tanto pior. Minha hereditariedade. BÉRENGER: É.. claro. (A sua voz vai ficando cada vez mais rouca). ou indisposições. de corpo e de alma. Desequilibra o sistema nervoso. pois. BÉRENGER (continuando): De onde vèm uns.. Energia demais. isso pouco importa. sinto um calor aqui dentro. Para mim.. antes pelo contrário.JEAN: É o que eu lhe dizia.. nunca. é uma indisposição. frente a Bérenger): Não me sinto nada bem. BÉRENGER: Claro. ou de onde vêm outros e uns. tanto pior.. Está com febre? 105 . JEAN (voltando-se e sentando-se na cama em desordem.. E afinal.. Sou muito são. nada bem! BÉRENGER: Isso é mau. JEAN: O meu equilíbrio é perfeito. BÉRENGER: Sente-se fraco? JEAN: Não. JEAN: A mim. conforme. BÉRENGER: Eu quis dizer. JEAN: Ou tanto melhor. de onde vêm outros. BÉRENGER: Então. a única coisa que importa é a existência do rinoceronte em si. às vezes também é mau. Isso acontece a toda a gente..

' JEAN: Rouco? BÉRENGER: Um pouco rouco. BÉRENGER: É uma simples dôr de cabeça. (Sua voz me. JEAN: Eu nunca sonho.. 106 . BÉRENGER: O choque o teria acordado. JEAN: Por que eu estaria rouco? A minha voz não mudou. Com certeza você sonhou que deu uma batida. Estou com dôr de cabeça. JEAN: Também não que você repara? que me dói mesmo batida. Se quiser. BÉRENGER: Teria sentido a dôr. sim. JEAN: Pode ficar. Devo ter dado uma está ainda mais rouca). BÉRENGER: A minha? JEAN: E porque não? BÉRENGER: É possivel. Você não me incomoda. JEAN: Talvez eu tenha batido enquanto dormia. não me lembro. talvez tenha um pouco de febre. Foi por isso que não reconheci sua voz. vou-me embora. a sua é que talvez tenha mudado. Sim.. BÉRENGER: Você também está rouco. BÉRENGER: Quando foi que deu essa batida? JEAN: Não sei.JEAN: Não sei. Nem tinha dado por isso. Em que é (Passando a mão na testa): O é a testa. admira.

JEAN: Procure ser mais claro.BÉRENGER (continuando): A dôr de cabeça começou durante o sono. você esqueceu que sonhou. JEAN: Onde? BÉRENGER (indicando a testa de Jean): Aí. logo acima do nariz. (Levanta-se bruscamente e dirige-se para o banheiro. um bem pequeno. (Olhando Jean): Ah. (Aproximando-se de Jean): Se você tivesse batido. dá a impressão de uma batida. não me deixo levar por eles. você tem um galo. Não é necessário dizer-me coisas desagradáveis. BÉRENGER: Você tem um espelho? JEAN: Ah. sim. sempre em frente! BÉRENGER: Eu sei. no banheiro. JEAN: Um galo? BÉRENGER: Sim. Eu vou em frente. bem vê que eu dei uma batida. sua tez está mais esverdeaâa): Afinal. você lembra-se disso inconscientemente! JEAN: Eu. inconscientemente? Sou senhor dos meus pensamentos. 107 . Vou ver. BÉRENGER: Muitas vezes a dôr de cabeça. Bérenger segue-o com o olhar. ou melhor. JEAN: Galo. essa agora! (Apalpando a testa): No entanto. parece que é. Acho que não me fiz entender. coisa nenhuma. tenho um galo. na verdade você tem um. (Êle volta. Na minha família nunca houve disso. deveria ter um galo. Do banheiro) : É verdade.

Sua tez está esverdeada. (Levanta-se e vai tomar o pulso de Jean). Está mal da garganta? (Jean vai novamente sentar-se na cama). isso está bom. Porque haveria de estar? BÉRENGER: Você tem razão. JEAN: Não tenho tempo para repouso. BÉRENGER: A sua respiração está com um ruído muito forte. eu não disse isso por mal. Mesmo assim você devia repousar alguns dias. Alguns dias de repouso. Preciso tratar de comer. já se olhou? BÉRENGER: Desculpe. visto que você está com fome. e pronto. Não se aflija. -JEAN (bastante aborrecido): Não é o que parece.BÉRENGER: Você está com mau aspecto. eu também já tive anginas. Já chamou o médico? 108 . BÉRENGER: Seu mal não é tão grande. JEAN: Eu não estou aflito. JEAN: Por que teria eu uma angina? BÉRENGER: Não é vergonha nenhuma. JEAN (cada vez mais rouco): Oh. Deixe tomar o seu pulso. Ê prudente. E você. Está mal da garganta? Talvez seja uma angina. JEAN: Você tem prazer em me dizer coisas desagradáveis. BÉRENGER: O seu pulso está normal.

É pelo prazer de cuidar das pessoas. como se eu fosse um bicho raro? BÉRENGER: Sua pele. pega-o de novo): Suas veias estão com jeito de inchar. BÉRENGER (que tinha largado o pulso de Jean. BÉRENGER: Isso parte de um bom sentimento.JEAN: Não preciso de médico. No entanto.. JEAN: Só tenho confiança nos veterinários. JEAN: Que é que tem a minha pele? Eu me ocupo da sua? 109 . BÉRENGER: Você está errado em não acreditar na medicina. inventam as doenças! BÉRENGER: Pode ser que inventem. BÉRENGER: Mas é preciso chamar o médico. Eu me trato sozinho. BÉRENGER: Evidentemente. JEAN: Você não vai chamar o médico porque eu não quero que se chame o médico.. JEAN: É sinal de força. JEAN: Por que é que você me olha. mas curam as doenças que inventam. é um sinal de saúde e de força. contra a vontade deste.. JEAN: Eles inventam as doenças. que consegue livrar-se violentamente). (Olha mais de perto o antebraço de Jean.. JEAN: Os médicos inventam doenças que não existem. Estão salientes.

JEAN: A amizade não existe.BERENGER: Parece que. nem se ouve. E está endurecendo. Sabe muito bem que sou seu amigo. está certo. Até parece que vai morrer de um momento para o outro. sim. BERENGER: Não há dúvida que não tenho a sua força. O que é que há consigo? Não me aborreça. também. JEAN (tossindo e respirando ruidosamente): Conheço o meu bem. (A Jean): É preciso chamar um médico. BERENGER (para si): Talvez isto seja mais grave do que eu pensava. Você tem uma respiração muito fraca. JEAN: Cada um respira como pode! Você não gosta da minha respiração. Berenger cambaleia): Meta-se na sua vida. melhor do que você. (Dirige-se para o telefone).. (Precipita-se sobre Berenger e empurra-o. JEAN: Largue esse aparelho. 110 . parece que está mudando de côr a olhos vistos. (Quer pegar de novo a mão de Jean). BERENGER: Você respira com dificuldade. JEAN: E eu estou mandando você ao médico para lhe dar força? Cada um faz aquilo que quer! BERENGER: Não se irrite comigo. e eu não gosto da sua. JEAN (retirando de novo a mão): Não fique me agarrando assim.. Era para o seu bem. Não acredito na sua amizade. BERENGER: Pronto. Está esverdeada.

porque eu os esmagarei. BÉRENGER: Você hoje está muito misantropo. não detesto os homens. justamente vim para me desculpar. não se enerve. Vou direto a êle.. Não se enerve. BÉRENGER: Meu caro Jean. que não se metam no meu caminho. Reconheço que foi minha culpa e. BÉRENGER: Com certeza você ainda está aborrecido comigo. A voz de Jean está cada vez mais rouca). BÉRENGER: Certamente! Você tem razão! No entanto. BÉRENGER: Você bem sabe que eu nunca serei um obstáculo.BÉBENGER: Você me magoa. desvia-se de vez em quando. JEAN: Não tem com que se magoar. misantropo. JEAN: Quanto a mim. misantropo. Você sabe. JEAN: Não sou seu caro Jean. de uma parede a outra. 111 .. Bérenger observa-o.. gosto de ser misantropo... estou misantropo. ligeiramente. para evitá-lo... JEAN: Qual discussão? BÉRENGER: Eu acabei de lembrar. eles me são indiferentes.. acho que você está passando por uma crise moral. mas. JEAN: Estou sim. ou então eles me dão asco. o rinoceronte! JEAN (sem ouvir Bérenger): Para ser franco.. por causa da nossa tola discussão de ontem. como uma fera enjaulada.. tenho um objetivo. (Há alguns instantes que Jean percorre o quarto.

BÉRENGER (olhando Jean nos olhos): Você sabe o que aconteceu ao Boeuf? Virou rinoceronte.. BÉRENGER: Prometi emendar-me. BÉRENGER: Que é isso? Que é que tem a sua pele? JEAN: De novo. Resisto as intempéries.. BÉRENGER: Que foi que você disse? JEAN: Não disse nada. JEAN: Isso é a conseqüência de um passado irregular. hoje não. JEAN: Hoje você está com a mania das cores. E agora também não suporto o meu pijama! (Abre e fecha o paletó do pijama). JEAN: O que é que aconteceu com Boeuf? BÉRENGER: Virou rinoceronte.... Você tem visões. 112 . BÉRENGER: Você está cada vez mais verde. a minha pele? É a minha pele e não mudarei certamente pela sua. BÉRENGER: Até parece couro.. antes pelo contrário. JEAN: Que me importa.. Isso me diverte. BÉRENGER: Bebi ontem. Não me sinto humilhado. Deve ter bebido. porque eu escuto os conselhos dos amigos como você. JEAN: É mais sólida.JEAN: Não me sentia bem dentro da minha roupa. você bem sabe. Eu íiz brrr.. Brrr.

. (Jean está no banheiro. Êle se disfarçou. o nosso Boeuf virou rinoceronte? Ah. BÉRENGER (enquanto Jean se precipita para o banheiro): Isso é da febre. Seu galo está um pouco maior. pois estou em minha casa. Está muito verde.. ah. Troçou de vocês.. BÉRENGER (andando pelo quarto sem olhar Jean): Garanto que isso era uma coisa muito séria. JEAN: Bem. BÉRENGER: Não brinque mais. Não faz mal. BÉRENGER: Está com arrepios... Estou com calor.. JEAN: Então. (Dirige-se de novo para o telefone.JEAN (abananão-se com o paletó). Brrr. JEAN: Faz bem em não me contradizer. ah. acima do nariz): Êle se disfarçou. Tenho todo o direito. com calor. e depois retira-se bruscamente porque ouve a voz de Jean). JEAN (de dentro): Brrr.. 113 . Espere um pouco que vou me refrescar. JEAN: Deixe-me soprar. Brrr. ouvimo-lo soprar e depois o barulho da água saindo da torneira). A mudança fêz-se contra sua vontade. isso é com êle... vou telefonar para o médico. (Põe a cabeça no limiar da porta do banheiro. BÉRENGER (viranão-se para Jean que desaparece no banheiro): Com certeza que êle não fêz de propósito.. ah. BÉRENGER: Não digo o contrário..

Brrr. entra de novo no banheiro.. A prova é que. BÉRENGER: Você se engana. JEAN: E se êle tivesse feito de propósito? Hein. BÉRENGER: Eu não devia fazer Tocê falar.. ah. JEAN: Muito unido? Você tem certeza? Hum. Reentranão e saindo). isso me alivia. por favor. Boeuf não punha a mulher a par dos seus projetos.... É um casal muito unido. Êle reservou um lugar secreto. Pelo menos a senhora Boeuf não tinha cara de quem sabia. ah! A gorda senhora Boeuf! Ai. BÉRENGER: Idiota ou não. que tem o peito e as costas verdes. no fundo do seu coração. Jean. BÉRENGER (dirigindo-se para o banheiro onde Jean lhe dá com a porta na cara): Muito unidos.. tudo nos leva a crer..JEAN (de dentro): Como é que você sabe? BÉRENGER: Pelo menos. Jean. JEAN (entra rapidamente. Está com jeito de fazer mal. ah. . JEAN (de dentro): Boeuf tinha a sua vida pessoal. 114 ... JEAN: Pelo contrário. JEAN (com voz muito rouca): Ah. deixe-me chamar o médico. enquanto Bérenger volta-se discretamente. BÉRENGER: Mesmo assim. se tivesse feito de propósito? BÉRENGER: Muito me admiraria. hum. ai! É uma idiota. tira seu paletó que joga na cama.

se êle virou rinoceronte.JEAN: Proibo-o solenemente. duvido que isso lhe dê prazer. JEAN: E por que. Sua vos está irreconhecível): E então.. BÉRENGER: Que é que você está dizendo? Como é que você pode pensar. JEAN: Você vê mal em tudo. BÉRENGER: Evidentemente que não há nada de extraordinário nisso. que têm direito à vida. que eu acho incompatível com a desses animais. 116 . então? BÉRENGER: É difícil dizer porquê. voluntária ou involuntariamente. entrando no banheiro e saindo): Você acha que a nossa é preferível? BÉRENGER: Mesmo assim. temos uma moral a nosso modo. Não gosto de gente cabeçuda. Bérenger recua um pouco horrorizado. Se isso lhe dá prazer virar rinoceronte. Você já pensou na diferença de mentalidade? JEAN (indo e vindo do quarto. (Entra no quarto. talvez seja melhor para êle. pois Jean está ainda mais verde e fala com bastante dificuldade. Compreendese. No entanto. hein? Não há nada de extraordinário nisso. se isso lhe dá prazer. JEAN: Eu lhe digo que não é tão máu assim! Afinal. os rinocerontes são criaturas como nós.. tal como nós! BÉRENGER: Com a condição que eles não destruam a nossa.

116 . indo e vindo): É preciso reconstituir a base da nossa vida. A moral é anti-natural. Você sabe muito bem que nós temos uma filosofia que esses animais não têm. está fazendo poesia. Você está brincando. Um sistema de valores insubstituível! São séculos de civilização humana! JEAN (sempre no banheiro): Derrubemos tudo isso! Assim ficaremos melhor! BÉRENGER: Impossível levá-lo a sério. BÉRENGER: Reflita um pouco. Precisamos voltar à integridade primordial. JEAN (soprando com violência): Quero respirar.JEAN: Moral! Lá vem a moral! Estou farto de moral! É linda a moral! É preciso ir além da moral! BÉRENGER: E que é que você põem no lugar dela? JEAN (mesma coisa): A natureza! BÉRENGER: A natureza? JEAN (mesma coisa): A natureza tem as suas leis. BÉRENGER: Se estou compreendendo bem. você quer trocar a lei moral pela lei da selva.. viverei lá. ninguém. BÉRENGER: Fácil de dizer. mas no fundo.. JEAN: E eu viverei lá. BÉRENGER: Não concordo absolutamente com a sua opinião. JEAN (interrompenão-o.

. BÉRENGER: Fale mais claramente. BÉRENGER: Muito me admira de ouvir você dizer isso.. o espírito. que o homem. (Entra no banheiro). BÉRENGER: Enfim. Pois você sabe tão bem quanto eu.. Você está articulando mal.JEAN: Brrr.... 117 .. que eu não estou compreendendo. JEAN (no banheiro): Frases feitas! Você só fala bobagens! BÉRENGER: Bobagens! JEAN (no banheiro. JEAN (sai do banheiro): Brrr. (Dá um novo barrido). Não diga mais essa palavra! BÉRENGER: Eu me referia ao ser humano à humanidade. BÉRENGER: Não sabia que você era poeta. para não acreditar que isso seja o seu verdadeiro pensamento.... JEAN: O humanismo caducou! Você é um sentimentalão ridículo. dificilmente compreensível): Completamente. meu caro Jean! Você perdeu a cabeça? Será que você gostaria de ser rinoceronte? JEAN: Porque não! Não tenho os seus preconceitos. JEAN (interrompenâo-o): O homem. mesmo assim. BÉRENGER: Eu o conheço muito bem.. com vos muito rouca.. (dá quase um barrido).

roupas. ãte palavras furiosas e incompreensíveis...JEAN (continuando no banheiro): Destape os ouvidos! BÉRENGER: Como? JEAN: Destape os ouvidos. Bérenger esquiva-se). Destruir tudo isso. BÉRENGER: Tais aíirmações partindo de você. BÉRENGER: Que é que você está fazendo? Nem o reconheço! Você sempre tão pudico! JEAN: Os pântanos! Os pântanos! BÉRENGER: Olhe para mim! Você parece que nem me vê. JEAN (soprando ruidosamente): Desculpe! (Precipita-se muito apressado ao banheiro). Oh! Realmente. JEAN (confusamente): Calor. coceira. 118 .. acalme-se! Você nem parece o mesmo.. isso dá coceira. Está todo verde. (Deixa cair a calça do pijama). . fazendo ouvir sons indescritíveis) : Mas não fique tão furioso assim... joga as cobertas no chão. BÉRENGER: Cuidado! . nem me compreende! ' JEAN: Compreendo-o muito bem! E vejo-o muito bem! (Investe para Bérenger. O galo de sua testa está quase como um corno ãe rinoceronte).... (Bérenger interrompe-se pois Jean faz uma aparição horrível. roupas. cabeça baixa. Eu disse: por que não ser um rinoceronte? Gosto de mudar. muito calor.. parece que você está perdendo a cabeça! (Jean precipita-se para a sua cama.

Enquanto a porta estremece toda. BÉRENGER (empurrando a porta): Êle é rinoceronte ! É rinoceronte! (Consegue fechar a porta. etc. vê-se aparecer Bérenger. Você é rinoceronte! JEAN (no banheiro): Eu te esmagarei! te esmagarei ! (Grande barulho no banheiro: barridos. dá meia volta e vai ao banheiro atrás de Jean. devido à pressão contínua do animal e o estrondo. ouvinão-se barridos misturados com palavras mal articuladas como: estou possesso. Bérenger precipita-se para a porta da direita): Nunca teria pensado dele uma coisas dessas! (Abre a porta dando para a escada e vai bater à porta do Velhinho. todo apavorado. aumenta cada vez mais. Jean! Você é ridículo. dizendo): Apesar de tudo não posso deixá-lo assim. um espelho que cai e quebra-se. (Do banheiro): Vou chamar um médico! Creia-me que é indispensável. ruião de objetos. que fecha com dificuldade a porta do banheiro. com murros fortes e repetidos): Vocês têm um rinoceronte no prédio! Chamem a polícia! (A porta abre-se). depois.. o corno do rinoceronte furou-lhe o paletó. BÉRENGER: Acalme-se.. apesar da pressão contrária que se imagina). Seu paletó tem um rasgão causado por uma cornada. No momento em que êle conseguiu fechar a porta.BÉRENGER (faz menção de fugir para a porta da esquerda mas. depois. 119 . no banheiro. é um amigo. indispensável! JEAN (no banheiro): Não. canalha. Oh! seu corno está crescendo a olhos vistos!.

. isto é. mas volta rapidamente. meu Deus! Ai. no proscênio. BÉRENGER: Sim.VELHINHO (aparecendo a cabeça): Que é que você tem? BÉRENGER: Chamem a polícia! Tem um rinoceronte na casa!. quase a desmaiar. depois volta novamente à porta ão Velhinho. correnâo a toda velocidade. Quer entrar no quarto de Jean. você tem um rinoceronte na casa! Chame a polícia! Porteira! (Vê-se abrir a parte de cima da porta da porteira e surgir a cabeça de um rinoceronte): Mais um! (Bérenger volta a subir a escada. VOZ da mulher do Velhinho: Que é que está acontecendo. Dirigese à janela. Está esgotado. dentro de casa.. Chamem a polícia! VELHINHO: Que modos são esses de incomodar as pessoas?! Tenha modos! (Bate-lhe com a porta na cara). porteira. passa quase do outro lado. enquanto a porta ão banheiro continua estremecendo. BÉRENGER (precipitando-se para a escada): Porteira. para a platéia. Jean? Que barulho é esse? VELHINHO (para a mulher): Não sei de que é que êle está falando. uma longa fila de 120 . Diz que viu um rinoceronte. hesita. rapidamente. a porta ão Velhinho abre-se e aparecem duas pequenas cabeças de rinoceronte): Meu Deus! Deus do céu! (Bérenger entra no quarto de Jean. que está indicada apenas por um caixilho. pois nesse mesmo instante vê surgir ão poço ãa orquestra. frente ao público. Nesse momento. balbucia): Ai. meu Deus! (Faz um grande esforço põe-se a subir na janela.

vê-se a rua ao fundo e êle foge gritando): Rinocerontes! Rinocerontes! (Estrondos. Quando ele se acha novamente diante da porta do banheiro. dirige-se para todas as portas e à janela. Berenger sobe o mais rápido que pode e olha um momento pela janela): Agora há um bando enorme na rua! Um pelotão de rinocerontes desembesta pela avenida abaixo!. Se ao menos se contentassem com o meio da rua! Eles ocupam a calçada! Por onde sair?! Por onde! (Apavorado. Isto dura alguns instantes: cada vez que nas desorientadas tentativas ãe fuga. CORTINA 121 . A porta do banheiro vai cederj.cornos de rinoceronte. é acolhido por cabeças de rinocerontes que dão barridos e o fazem recuar.. mas não consegue sair devido às aparições de cabeças de rinocerontes. Berenger se encontra frente à porta dos Velhos.. esta ameaça ceder. enquanto a porta do banheiro continua a ser empurrada ouvindo-se Jean dar barridos e proferir injúrias incompreensíveis... (Olha de todos os lados): Mas por onde sair. (Torce e retorce as mãos): Que fazer? (Dirige-se novamente para as diversas saídas. Berenger atira-se contra a parede do fundo que desmorona. ou nos degraus. por onde sair?!. Vai uma última vez à janela e olha): É um mar de rinocerontes! E diziam que era um animal solitário! Falso! É preciso modificar essa concepção! Eles destruíram todos os bancos da avenida.

com ar espavorião. no proscênio. Bérenger está estirado nele.TERCEIRO ATO (Mais ou menos a mesma estrutura de cenáriodo quadro precedente. levanta a tira que. É o quarto de Bérenge r. A escada com patamar. atenção aos cornos! (Pausa. todo vestido. pois constata que não tem galo na testa. Deve estar dormindo com pesadelos. Faz menção de se servir. Ouve-se o tumulto de uma grande quantidade de rinocerontes que estão passando em baixo da janela do fundo): Não! (Cai da cama. Suspira de alívio. Vai até à mesa. Apenas alguns pormenores.) BÉRENGER: Não! (Pausa): Os cornos. Porta ao fundo do patamar. indicam que se trata de um outro quarto. vai até ao divan. depois dirige-se ao espelho. Tem um pano amarrado em volta da cabeça. Passa a mão pela testa. enquanto se afastam os ruidos que vêm de fora. onde se estende. Bérenger está deitado. aberta. e levanta-se logo em seguida. Talvez uma outra mesa e uma cadeira. Uma poltrona e uma mesinha com telefone. ao fundo.lhe cobre a testa. de onde pega uma garrafa de conhaque e um copo. debatendo-se contra o que sonhou e acorda. Diva. Hesita. Não há portaria. à esquerda. Caixilhos de uma janela. Janela. de costas para o público. mas após uma breve hesitação volta a colocar a garrafa e o 123 . um ou dois móveis a mais. que se assemelha extraordinariamente ao de Jean. pois agita-se bastante. ao fundo.

124 . Dudard entra). com ar de quem está com sono Vê-se Dudard subindo os últimos degraus da escada. abre a janela. ai. Volta a olhar-se no espelho. Tosse. Tosse mais uma vez e procura escutar-se. Bérenger. fecha a janela. força de vontade. enche o copo de conhaque e bebe de um trago. Força de vontade.. bastante enervado. BÉRENGER: Um momento. ouve-se a respiração impetuosa dos rinocerontes e êle tosse novamente): Não. vim vê-lo. depois. Oh! (Encaminha-se para a janela do fundo. Esta tosse parece preocupálo. ai. vai até ao diva. DUDARD: Não incomodo? (Tenta abrir): A porta está fechada. hesita um instante e depois faz um gesto que significa: "tanto pior". não é igual! (Acalma-se. Bérenger põe a mão no coração). Dudard. BÉRENGER: Quem está aí? DUDARD: Sou eu. Os rumores cessam. tateia a fronte. por cima da tira. no lugar). sou eu. (Vai abrir.. Ai. Êle dirige-se para a mesinha. olha um instante.copo. Coloca a garrafa e o copo no seu lugar. (Vai novamente na direção do diva. BÉRENGER: Ah! É você? Entre. chegar ao patamar e bater à porta de Bérenger). tossindo. BÉRENGER (sobressaltando-se): Quem é? DUDARD: Vim vê-lo. BÉRENGER: Eu quem? DUDARD: Sou eu. fecha a janela. quando recomeça a ouvir-se o tumulto provocado pela correria dos rinocerontes que estão passando sob a janela do fundo.

..DUDARD: Bom dia. Mas não tenho galo. Isso acontece. nem dei nenhuma 125 . sim. estou um pouco melhor. Realmente.. Sente-se na poltrona. faça o favor. DUDARD: Minha voz não mudou e eu reconheci a sua muito bem. Bérenger. tinha-me parecido... acho. BÉRENGER: Bom dia. BÉRENGER: Melhor. A minha também não mudou. eu não reconheci a sua voz. Você me anima. Dudard. absolutamente.. Uma voz pode mudar.. DUDARD: Que é que se passa com você? BÉRENGER: Não sei.. (Vai abrir a janela): Sim.. Sente-se. todos os dias tenho dor de cabeça. nunca se sabe. DUDARD (sentando-se na poltrona): Você continua não se sentindo bem? Sempre com dor de cabeça? (Aponta a tira de Bérenger). sempre entrincheirado em casa? Você está melhor? BÉRENGER: Desculpe. espero que não. Dudard. a sua voz é a mesma. BÉRENGER: Desculpe. um pouco rouco? DUDARD: Não. infelizmente! DUDARD: Será que você apanhou vento? BÉRENGER: Espero que não. não é? DUDARD: E porque haveria de mudar? BÉRENGER: Eu não estou um pouco. BÉRENGER: Sim. Que horas são? DUDARD: Então..

não há nada de extraordinário que você esteja com dor de cabeça. nunca se dá! DUDARD: Evidentemente.. como poderia ter? BÉRENGER: Quando não se quer dar batida. BÉRENGER: Dor de cabeça? Não me fale de dor de cabeça! Nem me fale disso! DUDARD: Ê muito compreensível que sofra de dor de cabeça.. assim se sentirá melhor. espero.. Tenho medo de vir a ser outro.. BÉRENGER: Não tenho e nunca hei de ter. 126 . DUDARD: Se você não bateu. Mas então o que é que você tem? Está nervoso. BÉRENGER (correndo para o espelho e levantando a tira): Não. você sabe? É assim que pode começar. Mas. O que é preciso é prestar atenção. DUDARD: Não. Sem dúvida deve ser por causa da sua dor de cabeça. você não tem galo. BÉRENGER: Ainda não me refiz. Não se agite tanto.batida! . não há. agitado. pelo menos não estou vendo. (Levanta a tira e mostra a testa a Duãard). DUDARD: O que é que pode começar? BÉRENGER: .. DUDARD: Então. depois da emoção por que você passou..

. Mas não pense mais nisso. êle não fez isso para ir especialmente contra você! 127 . um verdadeiro defensor do humanismo! Quem haveria de dizer! Êle. é preciso calma. BÉRENGER: Sim. Fazer isso. só pode piorar o seu estado. E dos outros também. E a raiva dele. por causa de Jean. a mim. Eu tinha mais confiança nele do que em mim mesmo!.. BÉRENGER: Gostaria de o ver no meu lugar... sente-se. eu sei. Jean era o meu melhor amigo. mesmo assim não é caso para exagerar. BÉRENGER: Não é para menos. Andando assim de um lado para o outro. Nunca poderia suspeitar que êle evoluísse daquela maneira. êle mesmo! Nós nos conhecíamos desde. e aquela transformação que se produziu na minha cara! DUDARD: Está certo. como? Um rapaz tão humano. é claro.. desde sempre. você sabe? DUDARD: Por causa de Jean. BÉRENGER: Sim. você tem razão.. DUDARD: Compreendo que você ficou chocado. (Senta-se): Ainda não me conformo. pense bem! DUDARD: Afinal de contas.DUDARD: Esteja calmo. Isso não é motivo para você. BÉRENGER: Não pensar. DUDARD: Sem dúvida. Você ficou desiludido.....

de campo. levando em conta o nosso passado comum. DUDARD: Isso foi porque. Para dizer a verdade. Com outro qualquer teria acontecido o mesmo.. Se você o tivesse visto naquele estado. Não digo isso para o desculpar. por acaso. mesmo que me acusem de não ter espírito esportivo ou de ser um pequeno burguês enclausurado no seu pequeno mundo. isto me desconserta. hei de permanecer fiel à minha posição. estou tentando. você pensa que tudo o que acontece lhe diz respeito! Você não é o alvo universal! BÉRENGER: Talvez tenha razão. ou. o fenômeno em si. a expressão que êle tinha.BÉRENGER: No entanto parecia.. êle poderia ter se contido. DUDARD: Talvez êle gostasse de ar puro.. um desvio. Como posso explicar? DUDARD: De momento. deve haver uma explicação. de espaço. Isso existe. No entanto. Vou tentar ser razoável.. pelo menos... você se encontrava na casa dele.. quem sabe? BÉRENGER: Jean era muito orgulhoso... enquanto que eu não tenho ambições. caprichos.. Contento-me com o que sou.. logo. extravagâncias. talvez precisasse de se descontrair.. Apenas constato os fatos e os registro.. é aflitivo. No entanto.. BÉRENGER: Na minha frente. ainda não encontro uma explicação satisfatória. 128 . DUDARD: Você se acha o centro do mundo. BÉRENGER: Compreendo. São coisas estranhas da natureza.

Você mesmo disse que Jean era orgulhoso. Mas agora acaba de me dar uma explicação plausível. para ter chegado àquele estado. Por que é que você há de se preocupar por causa de alguns casos de rinocerite? Aquilo também pode ser uma doença.. Epidemias acontecem. você não pode querer que Boeuf e os outros tenham feito o que fizeram ou que se tenham transformado no que se transformaram só para o irritar. êle tinha argumentos. O exemplo de Jean não é nem sintomático nem representativo. não pense mais nisso. BÉRENGER: Mas nunca como esta. êle deve ter tido certamente uma crise. um pouco rústico. Não teriam se dado a esse trabalho.DUDARD: Nós seremos sempre os mesmos. É como a gripe. o nosso colega Boeuf estaria louco também?. excêntrico. Mas Boeuf. BÉRENGER: Então a coisa se esclarece. é claro. e eu tenho medo do contágio. êle era um sujeito inflamado. A média é que conta.. Na minha opinião. DUDARD: Ah. parecia mesmo ter pensado bastante no assunto e amadurecido a sua decisão. Será que esta veio das colônias? DUDARD: Em todo o caso.. desculpe falar mal do seu amigo. você há pouco não podia explicar o fenômeno.. Sim.. os outros?. Na verdade. 129 . os originais.. você está dando muita importância ao caso.. E no entanto. DUDARD: Há a hipótese da epidemia. E os outros. um acesso de loucura . BÉRENGER: Justamente. Veja.... E não se deve levar muito a sério.

Teve um choque. É muito sensato o que você diz. DUDARD: Deixe-os em paz! (Bérenger fecha a janela): Eles o estão incomodando? Sinceramente.. Até há doenças que são benéficas. ou talvez isso seja. muito mais grave? (Ouve-se o galope dos rinocerontes em baixo da janela ão fundo): Olhe. não se pode pegar esse mal. não se quer. Mas se você quer tomar. BÉRENGER: Você tem certeza? DUDARD: Eu acho. já sabemos... DUDARD: De qualquer maneira. mas não procure ter outros. é mesmo reconfortante. se quisermos. não se pode pegar! Você quer um conhaque? (Encaminha-se para a mesa onde está a garrafa).. Isso não está certo. sim. não se prenda por mim. BÉRENGER: Mas esta deve certamente deixar vestígios.. DUDARD: Não se incomode. Estou convencido que se pode achar a cura. 130 . que eles hão de melhorar.BÉRENGER: É verdade isso. você está ouvindo? (Corre para a janela). obrigado. BÉRENGER: Eu me pergunto se estou bem imunizado. não é?. isso não é mortal.. Deixe. Mas cuidado que isso pode aumentar a sua dor de cabeça. não se pode pegar. eu não bebo. Enfim. É uma doença nervosa. você está obsecado. beba. não se preocupe. BÉRENGER: Mas se verdadeiramente. Você gasta os seus nervos. pelo contrário. Um tal desequilíbrio orgânico não pode deixar de. DUDARD: Isso é passageiro. suponho. Agora o que é preciso é se recuperar.

BÉRENGER (indo colocar o copo e a garrafa em cima da mesa): Não era uma tosse diferente? Era uma tosse de gente? DUDARD: Que é que está imaginando? Era uma tosse humana. (Oferece um copo cheio a Dudard): Você não quer mesmo? DUDARD: Não.BÉRBNGER: O álcool é muito bom contra as epidemias.. continuando com a garrafa e o copo na mão. Pelo menos êle dizia. (Bérenger esvazia o copo de um trago. Que espécie de tosse você queria que fosse? BÉRENGER: Não sei. é talvez isso que explica a atitude dele.. Como foi que eu tossi? DUDARD: Como toda a gente quando bebe alguma coisa um pouco forte... BÉRENGER: Jean nunca bebia álcool.. DUDARD: Está vendo? Está vendo? Isso não lhe cai bem. Obrigado. É um imunizante. ainda não se sabe. dá-lhe tosse. não seja ridículo. não. isto me íez tossir.. É talvez por isso que êle. Por exemplo: mata os micróbios da gripe. Um rinoceronte tosse? DUDARD: Deixe disso. DUDARD: Isso não mata os micróbios de todas as doenças. Bérenger. Você se complica a existência fazendo per 131 .. uma tosse de animal. No que diz respeito à rinocerite. talvez. BÉRENGER (preocupado): É. antes do almoço.. tosse).

Repito que só estou bebendo para me proteger do mal.... você vê tudo preto. Quando acabar a epidemia. Cuidado. deixarei de beber. BÉRENGER: Você não quer me compreender. isso prova que até pode me fazer bem. BÉRENGER: Garanto-lhe que tenho. Eu só lhe quero lembrar que você mesmo afirmava há pouco que a melhor maneira de resistir era ter força de vontade.. (Passa a mão pelo rosto. Quando 132 . sim.. Isto é calculado.. Você se sentirá mais confiante. não bebendo mais conhaque.. DUDARD: . Já tinha tomado esta decisão antes destes acontecimentos.. ou que pelo menos. tateia a fronte por cima da tira): Nada mudou. (Vai até o espelho e observa-se): Será que por acaso?. Bérenger.. Prove a você mesmo. por exemplo.guntas absurdas. O álcool não me fêz mal. BÉRENGER (aterrorizado): Você acha mesmo? Você acha que isto está abrindo caminho? Eu não sou alcoólatra.. Em todo o caso. Agora deixo para mais tarde.. DUDARD: Ora. isso não tem nada que ver com o que está acontecendo. BÉRENGER: Sim. vai acabar ficando neurastênico. estava brincando... mostre que tem. DUDARD: Nunca se sabe.. DUDARD: Então. é inofensivo. está claro..... você acha?.. BÉRENGER: Ah. provisoriamente! DUDARD: Isso são desculpas. Eu quis mexer com você..

da sua depressão. eles nem o vêem. BÉRENGER: Por mim.. DUDARD: Mas eles não o atacam. será preciso. uma certa candura. Se os deixar tranqüilos.você estiver completamente restabelecido do seu choque. só de os ver. Eu participo.... até certo ponto.. Há mesmo entre eles uma certa inocência natural. BÉRENGER: Sair? Bem. Com certeza vou encontrar. fico perturbado. É preciso encarar as coisas com desprendimento. porque isso pode levar muito longe. Mas receio muito. Faço tudo para não ter raiva. Afinal. 133 . mas. Não consigo ficar indiferente.. DUDARD: E então? Você poderá evitar de se encontrar com eles. Não se deve ficar com raiva. eu fiz todo o caminho a pé. BÉRENGER: Não vejo senão eles! Você vai dizer que isso é mórbido da minha parte. No fundo. Você não tem senso de humor. É uma coisa nervosa. O seu mal-estar há de desaparecer. assim que puder sair e tomar um pouco de ar. pela avenida. para vir até aqui. DUDARD: Você tem razão de estar impressionado. também é demais.. Esse é que é o seu defeito: não ter senso de humor. BÉRENGER: Eu me sinto solidário com tudo o que acontece. vai ver que se sentirá melhor. E como está vendo cheguei são e salvo. Não fico com raiva. Mas eu sinto uma coisa aqui (aponta o coração) que me aperta o coração. eles não são maus. sem nenhum aborrecimento.. De resto... isso não. não são tão numerosos assim. Mas assim.

num outro país. não se pode deixar de sentir atingido diretamente. estou surpreso. foi posto diante da realidade brutal dos fatos. não consigo me habituar. apaixonante. escritores.. ou melhor.. juristas. DUDARD: Eu também estou surpreso como você. surpreso! Não me conformo. Por mim.DUDARD: Não julgue os outros se não quiser ser julgado. mas 134 . Eu o felicito. se a gente se preocupasse com tudo o que acontece. quando você. Talvez seja errado. poderia discutir calmamente sobre o assunto. no proscênio). evidentemente. instrutivo. E também gente do povo.. fartamos vir sábios. não se poderia viver. artistas. BÉRENGER: Você tem um sistema nervoso mais equilibrado do que eu. eu estava. estudá-lo sob todos os seus aspectos e tirar objetivamente todas as conclusões. Mas já estou começando a me habituar. DUDARD (interrompendo): Eu não digo que seja um bem. E não pense que tomo partido pelos rinocerontes.. não há nada a fazer. (Novamente ruídos de rinocerontes passando agora sob o caixilho da janela. mulheres sábias. A surpresa é violenta demais para mantermos o sangue frio. BÉRENGER: Se isso tivesse acontecido fora daqui. de repente. BÉRENGER (sobressaltando-se): Lá estão eles! Lá estão eles de novo! Ah. Mas quando você mesmo foi tomado de perto pelos acontecimentos. Organizaríamos debates acadêmicos. para tornar o assunto mais interessante. e eu tivesse tomado conhecimento pelos jornais. Mas você não acha que é uma desgraça. E além do mais. surpreso.

ou então. DUDARD: Tome soporíferos.eles me preocupam a tal ponto que não consigo dormir. Se as coisas são assim é porque não podem ser de outra maneira. pedirei ao adjunto. É esta causa que é preciso saber discernir. pedirei uma audiência ao prefeito. Sonho com isso. BÉRENGER: Isso é fatalismo. BÉRENGER (levantando-se): Muito bem. Vou pensar. DUDARD: Deixe as autoridades reagir por conta própria! No fundo. BÉRENGER: Isso não é solução. isto é sabedoria. tenho pesadelos. eu não quero aceitar esta situação. Estou soírendo de insônias. escreverei manifestos. Mandarei oartas aos jornais. eu continuo pensando que isso não 135 . DUDARD: Então compreenda o que se passa e siga para a frente. De resto. BÉRENGER: Juro que não sou masoquista. DUDARD: Não. eu me pergunto se moralmente. se êle estiver muito ocupado. confesse. Durante o dia cochilo um pouco quando estou morto de cansaço. Você gosta de se torturar. DUDARD: Aí está o resultado de levar tudo muito a sério. Quando um fenômeno destes se produz é porque certamente houve uma razão para se produzir. DUDARD: Que é que você pode fazer? Que pretende fazer? BÉRENGER: Neste momento não sei. Se durmo ainda é pior. você tem o direito de se ocupar do assunto.

porque você nunca será rinoceronte. Com certeza você deve ter o que fazer. nunca se chegará a decidir nada. Desculpe também retê-lo aqui. estavam no seu direito..é grave. DtTDARD: O mal! Que mal! Isso é uma palavra vazia! Pode-se saber onde está o mal ou onde está o bem? Nós temos preferências.. BÉRENGER: Eu creio na solidariedade internacional. . DUDARD: Você é um D. DUDARD: Você não vai querer que se peça auxilio no estrangeiro.. falta-lhe a vocação. evidentemente. Além disso. Você sabe que é para o seu bem. 136 . isso é que é a verdade. mas estou muito angustiado. BÉRENGER: Ê preciso cortar o mal pela raiz. Considero absurdo ficar desvairado por causa de algumas pessoas que quiseram mudar de aspecto. é preciso que você se acalme. aí está! Se as autoridades e os nossos concidadãos pensam todos como você... ora!. obrigá-lo a ouvir as minhas divagações. Vou tentar melhorar. São livres. Mas não tema. Quixote! Não digo isso por mal. Isto é uma questão interna que apenas diz respeito ao nosso pais. não é para o ofender. BÉRENGER: Ai está. Recebeu o meu pedido de licença? DUDARD: Não se preocupe que está tudo em ordem. BÉRENGER: Ainda não consertaram a escada? Que negligência! É por isso que tudo vai mal. porque afinal de contas. Desculpe. Você está com medo principalmente por você. Não estavam contentes com o que tinham. BÉRENGER: Está bem. o escritório continua fechado.

DUDARD: Não. BÉRENGER: E ainda se queixam do desemprego! Espero que.. pelo menos. O sr. Tem que se procurar outros. Os que vêm trabalham um dia ou dois e depois desaparecem para sempre. ainda não está na idade. então? DUDARD: Quis ir para o campo. Poderia ainda vir a ser diretor. O sr. mas madeira nova. Achou que precisava descansar. mas vai demorar. BÉRENGER: Vai se aposentar? No entanto. façam uma escada de concreto. 137 . Não é fácil achar operários. Em todo o caso. continuará a ser de madeira. êle queria tanto uma escada de concreto.DUDARD: Estão consertando. Papillon pediu demissão. não foi esse o motivo que êle deu.. DUDARD: Renunciou. BÉRENGER: Porque seria. BÉRENGER: Muito me admira. diz-se que não há fundos suficientes. BÉRENGER: Não é possível! DUDARD: Estou lhe dizendo. Que é que ele diz disso? DUDARD: Nós já não temos chefe. a rotina da burocracia! Esbanjase dinheiro e quando se trata de uma despesa útil. Foi por causa da escada? DUDARD: Não creio. BÉRENGER: Ah. Papillon não deve estar contente.

Cada um encontra a sublimação que pode. como o conheço muito bem. porque. DUDARD: Mesmo se se trata de uma transferência. estou certo de que se trata de uma mudança involuntária. Melhor para você que com os seus diplomas. Êle devia ter algum complexo. a coisa é bastante reveladora. êle virou rinoceronte.. DUDARD: Para não íazer segredo. BÉRENGER (erguendo os braços): Ora veja! O sr. BÉRENGER: Isso deve ter sido um ato falhado. Precisaria ter consultado um psicanalista.. Papillon virou rinoceronte! Essa agora! Essa agora! Não acho nada engraçado! Por que você não me disse antes? DUDARD: Está vendo como você não tem humor? Eu não queria lhe dizer. que vai precisar substituí-lo. DUDARD: Quem é que pode afirmar isso? É difícil penetrar nos motivos secretos das pessoas. tem bastantes probabilidades. Papillon! Êle que tinha uma boa situação! DUDARD: Apesar de tudo. isso prova a sinceridade da sua metamorfose..) BÉRENGER: Rinoceronte! O sr..BÉRENGER: Isso deve ser um transtorno para a Direção Geral. e aliás é engraçado. BÉRENGER: Êle não o fêz de propósito. 138 . sabia que você não ia achar graça e que até ficaria impressionado. (Ruídos longínquos de rinocerontes.

BÉRENGER (acalmando-se um pouco): Apesar de tudo. que é que êle acha disso. DUDARD: Isso pode acontecer a qualquer um! BÉRENGER (aterrorizado): A qualquer um? Mas a você não... BÉRENGER: Visto que não se pode... estou certo que Botard criticou severamente o comportamento dele. eu acho. Papillon poderia ter ânimo para resistir melhor. BÉRENGER: Claro. afinal de contas.... DUDARD: E êle também o julgava mal! 139 . diga? não é? não é? DUDAR: Mas claro. Tanto mais que eu não vejo qual poderia ser o seu interesse. que é que êle pensa do seu chefe? DUDARD. é alguém. claro. Poucas vezes vi alguém mais exasperado do que êle. Ou agravante? Agravante talvez. interesse material ou moral. não é? não é? hein. não é? Nem a mim! DUDARD: Assim o espero. E eu que o julgava mal.BÉRENGER: Estou certo que èle se deixou levar.. eu pensava que o sr.. desta vez eu lhe dou razão. Isso é uma circunstância atenuante.. O pobre do Botard ficou indignado. BÉRENGER: Pois bem. porque se êle fêz aquilo por gosto. Veja bem.. DUDARD: É evidente que a sua atitude íoi desinteressada. Pensei que êle tivesse um pouco mais de caráter!. é um homem sensato.. Botard.

E além disso. tem mais subtilezas do que você pensa. você mesmo também tinha opinião desfavorável sobre êle. por conseqüência.. o meu discernimento. É porque na verdade. muito simplista. Fico muito contente de estar de pleno acordo com êle. a atitude de Botard era. Papillon 140 . de modo algum. DUDARD: Não. complexo de inferioridade. Repito que também não aprovo os rinocerontes. Desta vez também não estive completamente de acordo. BÉRENGER: Sinto muito. sua incredulidade. êle só diz frases feitas. E não é freqüente encontrar um bom sujeito com todos os seus pés fincados na terra. Devo confessar que nem sempre estava de acordo com êle. Quanto ao sr. Quando o encontrar vou felicitá-lo. Botard não possuía argumentos precisos e objetivos. ressentimento. quer dizer. Seu ceticismo. BÉRENGER: É sim. e isso não me interessa. êle é um bom sujeito. é um bom sujeito. Isto quer dizer. mas desta vez estou completamente de acordo com Botard. BÉRENGER: Mas por razões opostas. Nem pense uma coisa dessas.BÉRENGER: Isso prova a minha objetividade neste assunto. me desgostavam. muito apaixonada e. DUDARD: Opinião desfavorável.. A minha capacidade de raciocínio. lugares comuns. Apenas... não é bem isso. como sempre. com os seus dois pés bem assentes no chão. mas isso não quer dizer nada. De resto. DUDARD: Não digo que não. talvez não seja a expressão. sua desconfiança. Sua tomada de posição parece-me ditada unicamente pela sua raiva contra os superiores. Afina*.

Eu não consegui. De qualquer forma. friamente. uma largueza de espírito que é o cunho da mentalidade científica. nem sei se conseguirei. devemos ter. pelo menos. E isto é necessário porque nós somos seres racionais. uma posição neutra. E quando se quer compreender um fenômeno e seus efeitos é necessário conhecer as causas. enfim. é preciso sempre tentar compreender. Compreender é justificar.. Isso é próprio dos inquisidores. que não há propriamente vícios naquilo que é natural. de começo. BÉRENGER: Você acha. DUDARD: Como você é intolerante! Talvea Papillon tenha sentido necessidade de um relaxamento depois de tantos anos de vida sedentária.. ou senão. um preconceito favorável.. repito. muita grandeza de espírito! DUDARD: Meu caro Bérenger. pelo contrário. através um esforço intelectual honesto.. BÉRENGER: Daqui a pouco você vai ficar um simpatizante dos rinocerontes. indiscutivelmente. BÉRENGER (irônico): Você. isso é indiscutivelmente anormal. tem muita tolerância.. mas um homem que vira rinoceronte. Quero ser realista. E penso também.eu o condeno porque acho que êle tinha o dever de não sucumbir. acha mesmo que é natural? DUDARD: O que há de mais natural que um rinoceronte? BÉRENGER: Sim. DUDARD: Ora. DUDARD: Não. Sou simplesmente uma pessoa que tenta ver as coisas de frente. não chegarei a tanto. Infeliz daquele que só vê o vício em toda a parte. Tudo é lógico.. 141 .

.. DUDARD: Foi você mesmo que falou nele e levantou o problema. não faça confusão. ainda ninguém poude resolver o problema. BÉRENGER (furioso): Isso é conversa! Senso comum.. Pouco me importa o Galileu. Poderemos saber onde termina o normal e onde começa o anormal? Você pode definir essas noções de normalidade e de anormalidade? Do ponto de vista filosófico e médico. 142 .. No caso de Galileu. dogmatismo.. Também se demonstra que o movimento não existe.. Você deveria estar a par do assunto. BÉRENGER (cada vez mais furioso): Isso não prova coisa nenhuma! Isso é conversa fiada.BÉBENGER: Sim. anda.. BÉRENGER: Talvez não seja possível resolver o problema. anda. são palavras. era o contrário: o pensamento teórico e científico vencia o senso comum e o dogmatismo. Você já nem sabe o que é ou não é normal'! Você me aborrece com esse Galileu.. mas você. como Galileu: "E pur si muove. absolutamente anormal! DUDARD: Você parece estar muito seguro de si." DUDARD: Você está misturando tudo! Por favor. anda. você está verboso.. Mas praticamente é fácil.. (Põese a andar de um lado para o outro): ... dizemos a nós mesmos.. Talvez tenha. mas só quando baseada na teoria! É o que nos prova a história do pensamento e da ciência. indiscutivelmente anormal. palavras! Talvez eu misture tudo.... insinuando que a prática tem sempre a última palavra. filosòficamente. é coisa de maluco! É loucura! DUDARD: Resta saber o que é a loucura. e a gente anda.

enquanto que eu não sei argumentar.. não quero ficar como Jean. eu me recuso a discutir! DUDARD: Não precisa se exaltar. você sim. BÉRENGER (desvairado): Você acha que estou exaltado? Parece que eu sou Jean. ora! Loucura é só loucura! Toda a gente sabe o que é loucura. Nós não somos da mesma opinião. cegueira.. aí está: intuitivamente. 143 . que a sua tolerância excessiva. nesse caso. Ah.. pronto! Eu sinto... sinto instintivamente. não... a sua generosa indulgência . E os rinocerontes. não tenho muito jeito. é a loucura. você tem diplomas. desta maneira. depois sob a janela da frente): Mas eu sinto. desta maneira. DUDARD: Que é que você entende por intuitivamente? BÉRENGER: Intuitivamente quer dizer:. ou melhor. eu sinto intuitivamente.. mas podemos discutir calmamente.BÉRENGER: A loucura. não estudei. sinto muito bem que você não tem razão.. quem tem instinto é o rinoceronte. (Ruídos mais fortes dos rinocerontes.. não quero parecer com êle. aquilo que se chama fraqueza.. são. de uma e de outra?! DUDARD: De uma e de outra ou de uma ou outra. Precisamos discutir. É assunto para ser debatido! BÉRENGER: Bem. (Acalma-se): Não sou forte em filosofia. na realidade.. passando primeiro sob a janela do fundo. BÉRENGER: Como. É por isso que você gosta de discutir. fazem parte da prática ou da teoria? DUDARD: De uma e de outra.

É uma pessoa do seu gênero. Mas espere. vou ver se encontro o Lógico. isto é. As palavras dos dois personagens são cobertas pelos ruídos das feras que passam debaixo das janelas. durante um momento vêem-se mexer os lábios de Dudard e de Bérenger sem que possamos ouvi-los): Eles continuam! Ah. É um lógico que eu conheci e que me explicou. Êle demonstrou o contrário.).. o filósofo. Se êle quiser me esclarecer 144 .. (Aumentam os ruídos dos rinocerontes. é um intelectual muito fino e erudito.. DUDARD: Que foi que lhe explicou? BÉRENGER: Explicou que os rinocerontes asiáticos eram africanos e que os rinocerontes africanos eram asiáticos. BÉRENGER: Comigo. que os africanos eram asiáticos e que os asiáticos.. Bem.. na direção deles. um lógico. Não é bem o que eu queria dizer. DUDARD: Não estou compreendendo muito bem. BÉRENGER: Não. você se entenderá com êle.. Bérenger faz um gesto com o punho cerrado.....DUDARD: Isso é o que você afirma. enfim. DUDARD (sentado): Gostaria muito de conhecer esse Lógico.. Você sabe melhor do que eu o que é um lógico. distinta. não é bem isso. isto nunca mais acaba! (Corre até a janela do fundo): Basta! Basta! Desgraçados! (Os rinocerontes afastam-se.. você sempre levará a melhor.. DUDARD: Qual lógico? BÉRENGER: O Lógico.. está claro. ingenuamente.

. rinoceronte! DUDARD: Mesmo assim êle conservou um vestígio da sua antiga individualidade! . está vendo? DUDARD: É o único rinoceronte de palheta. é uma grande personalidade.certos pontos delicados.) DUDARD: Deixe-os correr. aquele ali. Então aquele é o Lógico! BÉRENGER: O Lógico. E seja mais polido. meu Deus do céu! O Lógico é rinoceronte! DUDARD (indo para a janela): Onde está êle? BÉRENGER (apontando): Ali... Não quero senão isso. (Na janela.. É enternecedor. eu vou lhe apresentar e êle há de esclarecê-lo. ãiriginão-se aos rinocerontes): Desgraçados! (Mesmo gesto que há pouco.. Não é assim que se fala a criaturas. BÉRENGER (continuando na janela): Mais ainda! (Do poço da orquestra. sob a janela. é a palheta do Lógico! A palheta do Lógico! Mil vezes merda! O Lógico virou rinoceronte! DUDARD: Isso não é uma razão para você ser grosseiro! BÉRENGER: Não se pode confiar em ninguém.. BÉRENGER (enquanto vai à janela áo proscênio): Sim. vê-se aparecer uma palheta perfurada por um corno de rinoceronte que passa rapidamente da esquerda para a direita): Uma palheta espetada no corno de um rinoceronte! Ah. delicados e obscuros. Você vai ver.

estão batendo! (Puxa Berenger pela manga. Abre a janela e grita). isto dá que pensar! (Berenger fecha a janela do proscênio. encaminhase para a janela do fundo. Ela bate à porta de Berenger. Certamente. se quiser. Traz uma cesta debaixo do braço): Tem alguém aí. por onde passam outros rinocerontes que devem estar dando voltas em torno da casa. BERENGER (continuando a gritar à janela na direção do ex-Lógico e dos outros rinocerontes que também se afastaram): Não os seguirei! DUDARD (reinstalando-se na poltrona): Ê. BERENGER: Pode abrir. Berenger? Estão batendo.BERENGER (êle mostra novamente o punho cerrado. antes da decisão. BERENGER (gritando na direção dos rinocerontes): É uma vergonha! Uma vergonha. essa palhaçada! DUDARD: Não está ouvindo. 146 . à esquerda.). não os seguirei! DUDARD (sentado. deve ter pesado bem os prós e os contras. à parte): Eles estão rodando em torno da casa. Estão brincando! Crianças grandes! (Há já alguns instantes que se viu Daisy subir os últimos degraus da escada. não deve ter se deixado levar. desta vez na direção do rinoceronte de palheta. BERENGER: Não. que continua à janela. que desapareceu): Não te seguirei! Não te seguirei! DUDARD: Se você disse que era um pensador autêntico. Bérenger.

DAISY: Sou apenas uma boa colega. DAISY: Coitado. Que amável! DUDARD: Sem dúvida alguma. BÉRENGER (voltanâo-se. DAISY: Sim. a senhorita Daisy! Foi muito gentil em ter vindo. acho que sou uma boa colega. a senhorita Daisy! DAISY: Bérenger está? Êle está melhor? DUDARD: Viva. BÉRENGER: Sabe. reconheci-o agora na rua. senhorita Daisy. êle não tem ninguém e tem estado adoentado. cujos ruídos se afastam. deixando a janela aberta): Oh. DAISY (entrando): Bom dia. Então a senhorita vem muito à casa de Bérenger? DAISY: Onde está êle? DUDARD (apontando): Ali. sr. Bérenger? 147 . senhor Dudard. quando vinha vindo. para uma pessoa da sua idade! Está melhor.(Continua olhando para os rinocerontes. o Lógico é rinoceronte! DAISY: Eu sei. DUDARD: Tem bom coração. DUDARD: A senhorita Daisy é uma boa colega. É preciso ajudá-lo um pouco.). sem dizer mais nada. Duãarã vai abrir a porta. Êle corria bem depressa. DUDARD: Ora veja.

BÉRENGER: Mas então. Papillon. não é verdade.. Que é que pensa disto? DAISY: Penso que está precisando de repouso.. DUDARD: Ah! BÉRENGER: Isso não é possível! Êle era contra. Dudard acabou de me dizer. êle mudou de idéia! Todos têm o direito de evoluir. Dudard? DUDARD: Exatamente.. então tudo pode acontecer! 148 . DAISY (a Duãarã): Porque estaria incomodando? (A Bérenger): Ah.. A senhorita deve estar confundindo. Mas apesar disso. DUDARD: Bem..BÉRENGER (a Daisy): A cabeça. continua a dor de cabeça! É inquietante. DAISY: Eu sei que êle era contra. êle virou rinoceronte vinte e quatro horas depois da transformação do sr. DUDARD (a Bérenger e a Daisy): Espero não estar incomodando! BÉRENGER (a Daisy): Estava falando do Lógico. Êle tinha até protestado. de ficar calmamente em casa durante alguns dias... do Lógico? Não penso nada! DUDARD (a Daisy): Não serei demais aqui? DAISY (a Bérenger): Que quer que eu pense! (A Bérenger e a Dudard): Vou lhes contar a última novidade: Botard virou rinoceronte..

DAISY: Êle parecia sincero. BÉRENGER (a Daisy): Isso custa-me a acreditar. Os bons su 149 . BÉRENGER: Êle deu um motivo? DAISY: Disse apenas isto: é preciso acompanhar a evolução! Foram as suas últimas palavras humanas! DUDARD (a Daisy): Tinha quase a certeza que ia encontrá-la aqui. não me admira. é claro. eu sou discreto.. senhorita. êle fez de conta. a cabeçada de Botard. é bastante difícil encontrá-la.. BÉRENGER (continuando. BÉRENGER: Afinal. bastava telefonar! DUDARD (a Daisy): .DUDARD (a Bérenger): É um bom sujeito. muito discreto. sincero mesmo. pensando bem. A segurança dele era apenas aparente. à parte): Que ingenuidade! (mesmo gesto). Devem lhe ter mentido. Oh. BÉRENGER: .. Isso não impede. como você afirmou há pouco.. DUDARD (a Daisy): Desde que fechou o escritório. Acompanhar a evolução! Bela mentalidade! (Faz um grande gesto). DAISY: Eu assisti. DAISY (a Dudard): Se quisesse encontrar-me. BÉRENGER: Então foi êle que mentiu. senhorita Daisy. dele ser ou ter sido um bom sujeito.

DUDARD: Vocês vão ver que isso vai se alastrar pelos outros paises. visto serem a minoria.jeitos dão bons rinocerontes. viraram rinocerontes. por um complexo de inferioridade. para ajudá-la): Oh. BÉRENGER: E dizer que o mal partiu daqui! 150 .. Isto sem contar as personalidades: o Cardeal de Retz. como êle dizia. È é porque eles são de boa-fé que. DUDARD (a Daisy.... BÉRENGER: Os rinocerontes é que são anarquistas. perdão.. que os seus impulsos anarquistas. visto que êle seguiu justamente o chefe.. O meu primo e a mulher. infelizmente. ainda não. pelo contrário.. DAISY: É já uma grande minoria. que está aumentando. vou pôr a cesta em cima da mesa. foram vencidos pelo espírito associativo. DUDARD: Até agora. acompanhando-a até à mesa. podem ser enganados! DAISY: Com licença. Parece-me. o próprio instrumento da exploração. BÉRENGER: Mas era um bom sujeito com ressentimentos.. deíormado pelo ódio contra os seus chefes. BÉRENGER (continuando): . DUDARD (a Bérenger): O seu raciocínio está errado. DUDARD: Um prelado! DAISY: Mazarin. já devíamos ter pensado nisso antes. (Vai pôr a cesta).

DAISY (a Duãarã): Que está dizendo. Talvez um quarto dos habitantes da cidade. E aristocratas: o duque de SaintSimon. muito íortes..DAISY: .. DUDARD: É que eu estou com um pouco de pressa. a sua presença é sempre um prazer. BÉRENGER: Ainda há pouco você disse que não tinha nada que fazer.. muito gentil. DUDARD (à parte): É sim. muitos outros. DUDARD: Eles são muito íortes. DUDARD: Sabe muito bem que eu não gosto de incomodar.. BÉRENGER: Nós ainda somos a maioria. DAISY: Agora precisamos é almoçar. Dudard. DAISY (a Duâard): O senhor quer ficar conosco? DUDARD: Não gostaria de ser importuno. senhor Dudard? Sabe muito bem que só nos daria prazer. 151 . Eu trouxe comida. BÉRENGER (erguendo os braços): Até os nossos clássicos! DAISY: E outros mais. BÉRENGER: A senhorita Daisy é muito gentil. Tenho um encontro. BÉRENGER (a Duáard): Ora. É preciso agir antes de nos afundarmos. BÉRENGER (a Daisy): Não sei como lhe agradecer.

é que cada um tem. é o que está escrito nas tabuletas. o que complica mais as coisas. Uma grande quantidade de lojas foram fechadas: "Por motivo de transformações". A sociedade protetora dos animais seria a primeira a se opor. DUDARD (à parte): Ah. um parente. inimaginável! (A Daisy): Quer que a ajude a pôr a mesa? DAISY (a Bérenger): Não se incomode.). três pratos. O senhor fica. toda a gente está metida nisso! DUDARD: Todos estão solidários. um amigo. BÉRENGER: Mas como é que se pode ser rinoceronte? É inimaginável. ela conhece bem a casa.DAISY (tirando as provisões da cesta): Sabem. DUDARD: Esse projeto não me parece fácil de pôr em prática. Os armazéns foram devastados: eles devoram tudo. fique. entre os rinocerontes. BÉRENGER: Então. foi muito difícil encontrar comida. sabe? Já ninguém se preocupa dos bandos 152 .. DAISY (a Bérenger): É uma questão de hábito. BÉRENGER: Deveriam agrupá-los dentro de grandes cercas e obrigá-los a ficar sob vigilância. DAISY: Por outro lado. (Vai até um armário. não é? BÉRENGER (a Duãarã): Fique então. sei onde estão os pratos.. DAISY (a Duãard): Então. de onde trará os talheres e pratos.

DAISY: Depressa. BÉRENGER: Não se vê nada. 153 . DAISY: Por agora. A poeira invade uma parte do palco e. eu não consigo me habituar. a toda a velocidade. BÉRENGER: Que falta de higiene. (A poeira vai desaparecendo). as pessoas afastamse e depois retomam o seu caminho. como se nada tivesse acontecido. Que é que está acontecendo? DUDARD: Não vemos. um jurista. esta poeira deve cobrir os três personagens. de um bando de rinocerontes correndo a uma grande velocidade. vamos comer e não pensemos mais nisso. DUDARD: É o melhor que se pode fazer. vindo de tora. BÉRENGER: Isso não basta! DAISY: Esta poeira vai sujar os pratos. BÉRENGER: Como é que você.de rinocerontes que percorrem as ruas. continuando os seus negócios.. Quando eles passam. (Ouve-se o grande rumor. vamos almoçar. Ouvem-se também trombetas e tambores): Que é isto? (Correm os três para a janela do proscênio): Que será isso? (Ouve-se o barulho de uma parede que desmorona. BÉRENGER: Ah não.. pode afirmar que. senão possível. DUDARD (refletindo): Eu me pergunto se não valeria a pena fazer uma experiência. mas ouvimos. Ouvimo-los apenas falar).

com um prato na mão. depois um outro homem com um grande corno mesmo acima do nariz. Que bela oportunidade para controvérsias eruditas! 154 . DUDARD: É isso mesmo.) DUDARD: Já não estamos em maioria.. corre para junto dos dois) : Estão saindo. um homem que se dirige para a escada e desce apressadamente. BÉRENGER: Quantos unicórnios e bicórnios haverá entre eles? DUDARD: Os encarregados da estatística devem estar certamente fazendo os cálculos. (Vemos sair da porta do patamar. BÉRENGER: Todos os bombeiros! Todo um regimento de rinocerontes.BÉRENGER (apontando na direção da platéia) : Eles destruíram as paredes do quartel dos bombeiros. DAISY (que se tinha afastado da janela e se encontrava perto da mesa. e logo em seguida uma mulher com cabeça de rinoceronte. à esquerda.. DUDARD: E até pelas janelas! DAISY: Vão se juntar aos outros. elas estão no chão. com os tambores à frente. que ela estava limpando. mais rinocerontes saindo das casas! BÉRENGER: De todas as casas. DAISY: Eles enchem as avenidas! BÉRENGER: Isto já é demais! É insuportável! DAISY: Olha.

BÉRENGER (A Daisy): Não deixe que êle saia. Já pensou no perigo? DUDARD: Sinceramente.. não podemos obrigar.. (Afastam-se da janela. ou melhor. DUDARD: Não tenho muita fome. DUDARD: Não quero que fiquem sentidos. Eles não têm tempo.. Vamos. BÉRENGER: Mas se já lhe dissemos que. No entanto. Estou com vontade de comer no campo. eu não quero importunálos. Isto está indo muito depressa. BÉRENGER (a Dudard): O homem é superior ao rinoceronte! 155 . Bérenger.. DUDARD (interrompendo Bérenger): Não faço cerimônia. Dudard pára no meio do caminho). não deixe que êle saia! DAISY: Gostaria muito que êle ficasse. BÉRENGER: Não faça isso. cada um é livre.BÉRENGER: A percentagem de uns e de outros deve estar sendo calculada aproximadamente. É preciso se acalmar e refazer as forças. venha almoçar. não gosto muito de conservas... não têm tempo de calcular! DAISY: O melhor é deixar os estatísticos entregues ao trabalho. a quem Daisy pega pelo braço. DAISY (a Duãard): Se quer mesmo nos deixar. deixa-se levar facilmente.. (A Dudarâ): Dudard venha. Bérenger..

Dudard. Se há alguma coisa a criticar. mas também não o aprovo. BÉRENGER: Você não é casado com eles. firmemente. DUDARD: Conservarei a minha lucidez. Eu não sei de nada. (Começa a girar de um lado para o outro): Toda a minha lucidez.DUDARD: Não digo o contrário. (A Dudard. DUDARD: Renunciei ao casamento. o seu dever é de. vale mais criticar de dentro que de fora. BÉRENGER: Não. Isso é uma atração passageira que você ainda vai lamentar. mas não podemos fazer nada. Prefiro a grande família universal. e eu cumpro o meu dever. o perigo não será muito grande. para o que der e vier. BÉRENGER (a Duáará): Você também é um fraco. Dudard. Não os abandonarei. lücidamente. DAISY (preguiçosamente): Nós vamos lamentar bastante. DAISY: Êle tem bom coração! BÉRENGER: Bom demais. a experiência é que poderá provar.. você não conhece o seu verdadeiro dever. não os abandonarei. DUDARD: Tenho os meus escrúpulos! O dever me chama para junto dos meus chefes e companheiros... o seu dever é de se opor a eles. DAISY: Se for mesmo uma atração passageira.. e depois correndo para a porta): Você tem um grande 156 . DUDARD: O meu dever é não os abandonar.

deveria ter insistido. BÉRENGER: Todos sabiam. DAISY: Ah. do alto do patamar). Já não é possivel reconhecê-lo! BÉRENGER: São todos parecidos. Dudard! Nós somos seus amigos. Era um tímido e quis tomar uma grande atitude para a impressionar. DAISY: Que é que eu posso fazer? (Duãarã abre a porta e foge. BÉRENGER: Foi ter com eles. Não tem vontade de segui-lo? 157 .coração. não ousei. Foi por despeito que êle fêz aquilo. BÉRENGER: Volte. (A Daisy): Detenha-o! Êle está enganado. BÉRENGER: Qual será? DAISY: Não podemos saber. BÉRENGER: Você deveria ter sido mais enérgica. Êle é humano. vêmo-lo descer as escadas às pressas. (Ela fecha a porta e Bérenger corre para a janela da frente). Onde estará agora? DAISY (indo para a janela): Com eles. você é humano. seguido por Bérenger que grita na direção dele. Êle gostava de você. não se vá! Tarde demais! (Volta para dentro): Muito tarde! DAISY: Não se podia fazer nada. todos parecidos! (A Daisy): Êle cedeu. não? DAISY: Êle nunca se declarou oficialmente. Você deveria tê-lo retido à força.

DAISY: Absolutamente. No entanto. Daisy. 158 . enchendo a parede do fundo. deverão ser cada vez mais belas): Você não está desiludida. este rumor é harmonizado. não me abandone. (Aperta-lhe as mãos e os braços). não? Você não lamenta nada? DAISY: Não. Ah. BÉRENGER: É verdade. querido. Gosto muito de você. Unicórnios. não. que serão cada vez mais numerosas. Daisy. na parede do fundo. (Olha novamente pela janela da frente): Não se vê um único ser humano. A poeira está vindo até aqui e vai sujar tudo. BÉRENGER (olhando pela janela): Não há senão eles. (Corre para a janela do fundo): Não há senão eles! Você não devia ter deixado. Daisy. meio um meio outro. nada me dá medo. (Êle fecha a janela da frente e Daisy a de trás. pensava que nunca mais pudesse me apaixonar por uma mulher. Encontram-se no meio do palco): Enquanto estamos juntos. elas vão aparecendo e demorando mais tempo para sair. Eles fazem muito barulho. não saem mais. Vemos aparecer e depois desaparecer. Essas cabeças. Daisy. A prova é que eu estou aqui. até que finalmente. DAISY: Fecha a janela. BÉRENGER: Gostaria tanto de poder ajudála. A rua é deles. Mais para o fim. nas ruas. são os únicos pontos de referência! (Ouve-se o violento rumor da corrida dos rinocerontes. apesar de sua monstruosidade. até ao fim do ato. cabeças estilizadas de rinocerontes. bicórnios. nada me importa.

. 159 . eu também estou. Deixa que eu te beije. sentado naquela poltrona. Fique calmo e repouse ali... Eu estou aqui. BÉRENGER: Eu estou.. É verdade.DAISY: Viu? tudo pode acontecer? BÉRENGER: Como eu gostaria de te íazer íeliz! Você seria feliz comigo? DAISY: E porque não? Se você estiver íeliz. agora. Eu nunca amei Dudard. minha querida! Minha querida. mais seguro de si. Pensava que nunca mais pudesse me apaixonar assim! DAISY: Fique mais calmo. (Bérenger vai sentar-se na poltrona. Nós não temos o direito de nos intrometer na vida dos outros. BÉRENGER: Compreendo. Deixa que eu te beije. meu querido. levado por Daisy). DAISY: Não é a mesma coisa. meu amor!. a felicidade requer egoismo. Você diz que não tem medo de nada e. DAISY: Não pense mais em Dudard. BÉRENGER: Você se intromete na minha. teria sido sempre um obstáculo entre nós. BÉRENGER: Afinal. não valeu a pena que Dudard tenha se desentendido com Botard. tem medo de tudo! Que é que poderia nos acontecer? BÉRENGER (murmurando): Meu amor. Sabe ser enérgica comigo. DAISY: Estou muito cansada. afinal. Se êle tivesse ficado.

Você é linda... Principalmente quando te comparo com aqueles.. linda! (Ouve-se novamente os rinocerontes passando): .. DAISY: Quando você me conhecer melhor. pode beber um pouquinho. DAISY: Verdade mesmo? BÉRENGER: É sim. Onde está a garrafa? BÉRENGER (mostrando o lugar): Ali. você não acha? BÉRENGER: Eu te adoro. BÉRENGER: Era para não me dar tentação de pegar. DAISY (dirigindo-se para a mesinha. mas eles fazem sobressair ainda mais a tua beleza. (Bérenger quer se levantar imediatamente): Pique sentado. pode.. (Aponta na direção da janela): Você talvez me diga que isto não é um galanteio. meu querido. DAISY: Então. DAISY: Posso acreditar? BÉRENGER (um pouco confuso): Pode sim. 160 . BÉRENGER: Não. Daisy. talvez já não fale assim.. DAISY: Você hoje portou-se bem? Não bebeu conhaque? BÉRENGER: Eu me portei muito bem. de onde pega o copo e a garrafa): Estava bem escondida. Isso vai te fazer bem. garanto. só poderei dar mais valor. em cima da mesinha. te admiro.DAISY: É preciso lutar pela felicidade.

BÉRENGER (apalpando a testa): É verdade. que não te vai nada bem. BÉRENGER: Ah. com idéias negras. (Daisy beija Bérenger na testa): Que seria de mim sem você? DAISY: Nunca mais te deixarei sozinho. 161 . você me livrou dos complexos. sim. (Volta para junto de Bérenger): E a cabeça. meu querido. DAISY (dando-lhe o copo): Toma. aqui está a recompensa. DAISY (tirando a faixa. DAISY: Ah. deixa isso. apesar da oposição de Bérenger): Sempre com medos. não. nunca mais sentirei angústias. Por agora basta. BÉRENGER (bebendo áe um trago): Obrigado. BÉRENGER: Contigo. (Vai colocar o copo e a garrafa na mesinha): Não quero que isto te faça mal. como está? BÉRENGER: Muito melhor. Sua testa está lisa. DAISY: Eu saberei afastá-las. você está muito bem comportado.DAISY (depois áe ter enchido o copo. Vê? Não tem nada. meu amor. BÉRENGER: Contigo. dá-o a Bérenger): Realmente. BÉRENGER: Tenho medo que haja alguma coisa por baixo. (Estende novamente o copo). DAISY: Então vamos tirar essa faixa. DAISY: Sim. não. Está fazendo progressos. vamos tirar isso. farei ainda mais.

162 . Êle ficou impressionado com isso. No entanto. nas margens do Sena. BÉRENGER: As vezes fazemos o mal sem querer. Papillon. nas horas de ínenor afluência. BÉRENGER: Serei forte e corajoso. no jardim do Luxemburgo. que êle tinha as mãos rugosas. DAISY: Você acha? BÉRENGER: Êle não mostrou. poderia ter dito a mesma coisa com menos rudeza. DAISY: E principalmente.. DAISY: No jardim zoológico. Veja. no dia da transformação de Boeuf em rinoceronte. DAISY: Não precisará me defender.BÉRENGER: Faremos leituras juntos e eu ficarei erudito. Nós não queremos mal a ninguém. êle tinha mesmo. porque tinha amor-próprio. BÉRENGER: Sim. daremos grandes passeios... nunca deixarei de me acusar. Êle foi mal educado. Deve ter sentido muito. Talvez você pudesse ter salvo uma alma! DAISY: Não podia prever que estivesse para acontecer aquilo. você não gostava do pobre do sr. E sem dúvida foi isso que precipitou a decisão dele. ou então deixamos êle se propagar. meu querido. querida. DAISY: Mas era verdade. Mas talvez não precisasse ter dito assim tão cruamente. E também te defenderei contra todos os que forem maus.. BÉRENGER: Por mim. nem ninguém nos quer mal. por não ter sido mais afável com Jean. BÉRENGER: Está bem.

Você não tem imaginação? Há tantas realidades! Escolha a que mais convém e escape para o imaginário.Nunca consegui provar. pensava que você fosse mais poético. você fêz o que pôde. Perante nós mesmos. Não fui suficientemente compreensivo para com êle. temos direito de viver. temos o dever de ser felizes. muito! DAISY: Você vai estragar tudo com esses casos de consciência! Sem dúvida. DAISY: Não pensava que você fosse tão realista. BÉRENGER: Você acha mesmo? DAISY: Relativamente. Esqueça isso. A culpabilidade é um sintoma perigoso. você é boa e eu também. é sinal de que não há pureza. de uma maneira eíicaz. nós todos temos culpas. independentemente de tudo. BÉRENGER: Fácil de dizer! DAISY: Eu não posso te ajudar? BÉRENGER: Ah. toda a minha amizade. Mesmo assim. no entanto. Ambos somos bons. Isso é verdade. somos melhores que a maior parte das pessoas. muito. você e eu temos menos do que muita gente. Não se pode fazer o impossível. sim. BÉRENGER: Mas eu escuto e vejo essas recordações. DAISY: Não se atormente. Elas são reais. BÉRENGER: É verdade. 163 . DAISY: Então. Para que ter remorsos? Deixe de pensar nessa gente toda. Apaga as más recordações.

não estou? Ninguém nos pode separar. BÊRENGER: Talvez seja o senhor Papillon. isso pode levar àquilo.. minha deusa. Ninguém tem o direito. isso é o que vale. Temos o nosso amor. (Ouve-se tocar o telefone): Quem será? DAISY (apreensiva): Não atenda! .BÊRENGER: É sim. muitos deles começaram assim! DAISY: Vamos tentar nunca mais nos sentirmos culpados. Você mesma disse há pouco que aquilo não era senão uma atração passageira! DAISY: Não creio que eles tenham podido mudar de opinião assim tão depressa. Talvez seja melhor assim. 164 . Eles irão até ao fim dessa experiência. Botard. (Aponta na direção das janelas sob as quais passam rinocerontes. (Novo toque de telefone)..... DAISY: Isso me admiraria. BÊRENGER: Talvez sejam as autoridades que estão reagindo e nos pedem ajuda para as medidas que querem tomar. BÊRENGER: Por quê? DAISY: Não sei... ninguém pode impedir de sermos felizes. meu sol. BÊRENGER: Como você tem razão. querendo nos participar que voltaram atrás nas suas decisões. Jean. meu amor. aponta também na direção da parede do fundo onde aparece uma cabeça de rinoceronte) : . ou Dudard. Eu estou com você.. Ainda não tiveram tempo de refletir.

BÉRENGER: É sim, é sim, é o toque das autoridades, estou reconhecendo. É um toque prolongado! Tenho que responder a esta chamada. Só podem ser as autoridades. (Retira o fone): Alô? (Como resposta, ouvem-se apenas barridos): Você ouviu? Barridos! Escuta! (Daisy põe o fone no ouvido, recua e desliga precipitadamente). DAISY (apavorada): Que significa isso? BÉRENGER: Agora eles fazem-nos brincadeiras! DAISY: Brincadeiras de.mau gosto. BÉRENGER: Está vendo? Eu bem disse! DAISY: Você não me disse nada! BÉRENGER: Estava esperando. Já tinha previsto. DAISY: Não tinha previsto nada. Você nunca prevê nada. Só prevê os acontecimentos depois que eles passaram. BÉRENGER: Ah, eu prevejo sim, prevejo. DAISY: Eles não são nada corretos. Foram muito grosseiros. Não gosto que zombem de mim. BÉRENGER: Não ousariam zombar de você. É de mim que estão zombando. DAISY: E como eu estou com você, levo a minha parte, está claro. Eles se vingam. Mas o que é que nós lhes fizemos? (Novo toque de telefo ne). Desligue a tomada. BÉRENGER: A Companhia Telefônica não permite! 165

DAISY: Ah, você não arrisca nada, e quer me defender! (Desliga a tomada e o telefone pára de tocar). BÉRENGER (correndo na direção do rádio): Vamos ligar o rádio, para saber as notícias. DAISY: Isso, é preciso saber em que ponto estamos! (O rádio emite barridos. Bérenger desliga o rádio, rapidamente. Ouvem-se, ainda, no entanto, ecos de barridos, ao longe): Realmente está ficando muito sério! Ah, não gosto disto, não admito! (Daisy treme). BÉRENGER (agitaãíssimo): Calma! Calma! DAISY: Eles ocuparam as estações de rádio! BÉRENGER (tremendo e agitado): Calma! Calma! Calma! (Daisy corre para a janela do fundo, olha para fora; depois faz o mesmo na janela da frente; Bérenger faz a mesma coisa, em sentido inverso e, finalmente ambos encontram-se no meio do palco, um em frente do outro.). DAISY: Isto já não é brincadeira. Realmente eles se levaram a sério! BÉRENGER: Não há senão eles, só eles! As autoridades também aderiram. (Mesmo movimento de há pouco, dos dois personagens). DAISY: Não há mais ninguém, em parte alguma. BÉRENGER: Nós estamos sós, ficamos sozinhos. 166

DAISY: Era isso o que você queria. BÉRENGER: Era você que queria! DAISY: Era você. BÉRENGER: Você! (Ouvem-se rumores por toda a parte. As cabeças de rinocerontes tapam a parede do fundo. Dos lados direito e esquerdo da casa, chegam os ruidos de passos precipitados, de feras ofegantes. Todos estes ruidos apavorantes são, no entanto, ritmados, harmonizados. Ê principalmente do alto que vêm os ruídos mais fortes, as pataãas. O estuque cai do teto. A casa é violentamente abalada). DAISY: A terra treme! (Não sabe para onde correr). BÉRENGER: Não, são os nossos vizinhos, os perissodáctilos! (Com o punho cerrado, aponta para a direita, para esquerda, para todos os lados): Parem, parem! Vocês nos impedem de trabalhar! fi proibido fazer barulho! É proibido fazer barulho! DAISY: Eles não te ouvem! (Entretanto, os ruídos diminuem e transformamse numa espécie de fundo sonoro e musicai). BÉRENGER (apavorado, também): Não tenha medo, meu amor. Nós estamos juntos. Você não se sente bem, junto de mim? Eu não te protejo? Afastarei de ti todas as angústias. DAISY: Talvez a culpa seja nossa. BÉRENGER: Não pense mais nisso. Não se deve ter remorsos. O sentimento de culpa é perigoso. Vivamos a nossa vida, sejamos felizes. Te 167

você os compreende? 168 . Eles não são maus. com eles? DAISY (acalmando-se): Sejamos razoáveis. DAISY: Eles não vão melhorar. Que é que vamos fazer? BÉRENGER: Eles todos estão loucos. e nós não lhes fazemos mal. DAISY (tirando a faixa): Aconteça o que acontecer. eu te amo. BÉRENGER: Como é que poderemos viver em casa. BÉRENGER: E você. É preciso encontrar um "modus vivendi" para nos entendermos com eles. (Levaa até a poltrona): Acalme-se! (Daisy senta-se na poltrona): Quer um conhaque. não. É uma atração passageira. DAISY: No entanto é preciso.mos o dever de ser felizes. O mundo está enfermo e eles estão todos doentes. para se refazer? DAISY: Estou com dor de cabeça. Repouse ali naquela poltrona. Acalme-se. BÉRENGER: Eu te amo. eu te amo muito. Não há outra solução. BÉRENGER (pega a faixa de há pouco e ata-a na cabeça de Daisy): Meu amor. Aquilo é definitivo. Não se aflija. DAISY: Não seremos nós que os poderemos curar. que eles hão de melhorar. BÉRENGER: Eles não podem nos entender. Vão nos deixar em paz.

isso levará tempo. BÉRENGER: Mas você é mais forte do que eu. e aprender sua linguagem. não é preciso tanta assim. Adão e Eva. não vai se deixar impressionar. já não posso resistir.DAISY: Ainda não. mas assim. Primeiro é preciso almoçar. 169 . logo.. BÉRENGER: Você acredita no meu amor? DAISY: Acredito. DAISY: Sim. BÉRENGER: Eles não têm linguagem! Ouve. noutros tempos.. É por causa da tua coragem que eu te admiro. nós dois poderemos regenerar a humanidade. BÉRENGER: Também nós podemos ter coragem.. Isto é demais. Daisy. DAISY: Já não tenho fome.. DAISY: Você está se repetindo. E além disso. Mas nós deveríamos tentar compreender a psicologia deles. nós poderemos fazer alguma coisa. Poderemos ter filhos e nossos íilhos terão filhos. meu bem. DAISY: Você já me disse isso. Eles tinham muita coragem. DAISY: Regenerar a humanidade? BÉRENGER: Isso já aconteceu. BÉRENGER: Escute. você chama isso de linguagem? DAISY: Como é que você sabe? Não é poliglota! BÉRENGER: Falaremos disso mais tarde. BÉRENGER: Eu te amo.

. Salvemos o mundo. você está com febre. Tem um ar feliz. talvez sejamos nós que precisemos ser salvos. sejamos nós.fila vem por si mesma. são até bem naturais. então? DAISY: Salvar por que? BÊRENGER: Que pergunta!.. BÊRENGER: Como é que poderemos salvar o mundo.) DAISY: Isso é que é gente. DAISY: Afinal. 170 . com o tempo e um pouco de paciência. na porta do patamar e perto da ribalta. Não têm aspecto de loucos. Daisy. Talvez os anormais. DAISY: Você está vendo mais alguém como nós? BÊRENGER: Daisy. estão de acordo com eles mesmos. DAISY: Para quê? BÉRENGER: Um pouco de coragem. na direção dos rinocerontes cujas cabeças vemos ao longo das paredes. Daisy. sim. Está fora de questão. DAISY: Não quero nem pensar em vir a ter filhos. Faça isso por mim. BÊRENGER (juntando as mãos e olhando para Daisy desesperadamente): Nós é que temos razão. eu te asseguro. Devem ter tido razões. Daisy. Só um pouquinho. BÊRENGER: Você está delirando. não quero te ouvir dizer uma coisa dessas! (Daisy olha para todos os lados.

minha querida! Escuta. Você já nem sabe o que diz.. Isso não pode ser comparado com o ardor. BÉRENGER: Perdão.. DAISY: Bonito argumento! BÉRENGER: Não estou compreendendo você. querida! Perdoe. não sei como isso aconteceu! 171 . perdão! (Quer beijá-la e ela esquiva-se): Eu não queria fazer isso. BÉRENGER: Sim. não é você nem eu. BÉRENGER: Você sabe muito bem que tenho razão. nunca pensei. Daisy. Quem tem razão é o mundo.. você me entende. A prova está que quando eu falo. (Afunãase na poltrona). eu tenho razão. esse sentimento mórbido. BÉRENGER: Energia? Você quer energia? Toma lá energia! (Dá-lhe uma bofetada). o amor.. DAISY: Isso não prova nada. Daisy.. Não sei que foi que me deu. querida.DAISY: Que pretensão!. DAISY: Não existe razão absoluta. é eu te amar tanto quanto um homem pode amar uma mulher.. BÉRENGER: A prova. e da mulher também.. DAISY: Ah! Nunca. essa fraqueza do homem. com a energia extraordinária que irradiam todos estes seres que nos rodeiam.. Éo amor! O amor! DAISY: Sinto vergonha disso que você chama amor.

vai até Bérenger e abraçase ao pescoço dele): Meu pobre querido. eu te juro que não abdicarei. em poucos minutos. ficarei com você até ao fim. DAISY: Sem dúvida. DAISY: Eles cantam. BÉRENGER: Você conseguirá? DAISY: Mantenho minha palavra. Você acha talvez que eles são mais fortes do que eu. pode ser que eu já não tenha mais argumentos. mais fortes do que nós. já disse. DAISY: Você está louco. acabamos de viver vinte e cinco anos de casamento! DAISY: Também tenho pena de você.DAISY: Simplesmente porque você já não tem argumentos. eles dão barridos. você não tem ouvido musical! 172 . BÉRENGER: Dão barridos. eu não abdicarei! DAISY (levanta-se. está ouvindo? BÉRENGER: Eles não cantam. BÉRENGER: Infelizmente. BÉRENGER (enquanto Daisy chora): Muito bem. (Os ruídos dos rinocerontes tornaram-se melodiosos): Eles cantam. Su te compreendo. Tenha confiança. BÉRENGER: Pois apesar de tudo. BÉRENGER: Então. eles cantam.

" (Sai. êle é muito desagradável. observando bem seu rosto): A vida em comum tornou-se impossível. BERENGER: Não seja tola. Daisy. desculpe. meu bem. São bonitos. (Dirige-se novamente para Berenger querendo abraçá-lo. eles dansam. Olhe bem para eles. Pico com pena. BERENGER: Desculpa. e depois. ela dirige-se de mansinho até à porta dizendo: "Na verdade. Desta vez é Berenger que se esquiva. (Enquanto Berenger contínua a olhar-se no espelho. meu pobre amigo. DAISY: Ora. Não vamos nos pegar por causa deles. É preferível não discutir mais. olhe: eles brincam. DAISY: São deuses. DAISY: Pronto. Não seja ciumento. não seja mesquinho. muito desagradável.DAISY: Você não sabe nada de música. DAISY (a Berenger que está de costas para ela. BERENGER: Você chama isso de dansa? DAISY: É a maneira deles. BERENGER: Você exagera.) BERENGER: Estou vendo que as nossas opiniões são completamente opostas. Vêmo-la descer a escada muito lentamente. Êle está na frente do espelho.) 173 . BERENGER: São horrendos! DAISY: Não gosto que se fale mal deles.

no espelho): Não há outra solução: tenho que convencêlos. Daisy? Não faça isso! (Encaminha-se correndo para a porta): Daisy! Sobe! Volta. faz um gesto de desespero e volta a entrar no quarto): Evidentemente. cuidadosamente. a gente já não se compreendia. um homem não é tão feio assim. a culpa é minha. é que vocês não pegam! (Falando para todas as cabeças de rinocerontes): Eu não vos seguirei! Eu não vos compreendo! Continuarei como sou. Daisy! (Êle volta-se): Daisy! Daisy! Onde você está. (Procura em toda a parte): Não mè deixou nem uma linha. Vou pôr algodão nos ouvidos. o pior pode acontecer. nuvens de poeira): Não os quero ouvir mais. será possível? Será? Isso seria um trabalho de Hércules. Eu era tudo para Daisy. nem sou daqueles que fazem parte dos bonitos! Acredite. acima das minhas forças. Pobre menina abandonada neste mundo de monstros! Ninguém me pode ajudar a encontrála.BÉRENGER (continuando a olhar-se no espelho): Afinal. um ser humano! (Vai sentar-se na poltrona): Esta situação é insustentável. e agora que vai ser dela? Mais um para pesar na consciência. Sou humano. Já não era possível.. Se ela foi embora. corridas desenfreadas. Mas ela não devia ter saído sem uma explicação. pois já ninguém existe. Mas de quê? E o retorno à forma anterior. Daisynha! Você nem sequer almoçou! Daisy. não me abandone! Que foi que você me prometeu? Daisy! Daisy! (Desiste de chamála. (Põe algodão nos ouvidos e fala a si mesmo. E no entanto. é preciso falar com 174 . não me pegam! (Fecha cuidadosamente as janelas): A mim. Igual a um casal desunido. Isso não se faz. Agora estou completamente só. Primeiramente para poder convencer. (Novamente barridos.. (Vai fechar a porta à chave. mas com raiva): A mim. Estou imaginando o pior.

joga-os no chão com raiva e vai para o espelho): Eles é que são belos.. A fealãade destes retratos. Eu sou o único a falar esta língua. (Arranca os quadros. uma mulher gorda e um outro homem. contrasta com as cabeças dos rinocerontes que se tornaram belas. então? Com quê? (Corre para um armário. sou eu! (Assim que êle pendura os quadros. sou eu. olha-as): Fotos! Quem são estes? O senhor Papillon ou Daisy? E este aqui. Talvez nasçam. uma testa lisa.eles. Não tive razão! Ah. Mas o que é francês? Podemos chamar a isto francês. ao lado das cabeças dos rinocerontes): Sou eu. sou eu! (Vai pendurar os quadros na parede do fundo. não sou bonito.. Berenger recua para poder contemplar os quadros): Eu não sou bonito. será Botard. um homem! (Observase passando a mão pelo rosto): Que coisa gozada! Com que é que eu me pareço. Dudard ou Jean? Ou talvez eu! (Corre novamente para o armário de onde tira dois ou três quadros): Sim. vemos que eles representam um velho. tanto faz. Mas isto não nasce! (Observa as palmas das mãos): Minhas mãos estão suadas. para levantar os meus traços caldos. eu me reconheço. Mas infelizmente. será que eu me compreendo? (Vai até ao meio do quarto): E se fôr como Daisy me disse. não é feio. Ou que eles aprendam a minha? Mas que língua é que eu falo? Qual é a minha língua? Isto será francês? É bem possível que seja francês. poderei ir me encontrar com eles. e nessa altura. já não terei vergonha. como eu gostaria de ser como eles. 175 . Que é que eu estou dizendo? Será que eu me compreendo. de onde tira fotografias. ninguém pode provar o contrário. não tenho corno! Como é feio. * Eu precisaria de um ou dois. Para íalar com eles é preciso que eu aprenda a língua deles. que eles é que têm razão? (Volta ao espelho): Um homem não é feio.

Ahh. Ah. Ahh. Não quero nem olhar para a minha cara. enquanto era tempo. eu sou um monstro. âesabotoa a camisa e examina seu peito no espelho): Tenho a pele flácida. um pouco rude. nunca! Nunca mais poderei mudar. Agora é tarde demais! Infelizmente. Tenho vergonha! (Vira as costas ao espelho): Como eu sou feio! Infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! (Tem um sobressalto brusco): Muito bem! Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! Minha carabina. só dou berros. nunca. não é assim! Preciso experimentar outra vez. Brr! Berros não são barridos! Ah. Gostaria muito. minha carabina! (Voltase de frente para a parede do fundo onde estão as cabeças dos rinocerontes. hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo! CORTINA fim de "O RINOCERONTE" 176 . Infelizmente. não é isso! Isto é fraco. sem pêlos. gostaria tanto. como a deles! (Êle ouve os barridos): Há um certo atrativo no canto deles. sempre gritando): Contra todo o mundo. nunca serei rinoceronte. este corpo tão branco e peludo! Como eu gostaria de ter uma pele dura e aquela soberba côr esverdeada. como eu me arrependo. sou um monstro. mais forte! Ahh. Ahh. não tem vigor! Não consigo dar barridos. Ahh. Brr! Não. mas mesmo assim é atraente! Se eu pudesse fazer como eles. mas já não posso. eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem. (Tenta imitá-los): Ahh. Brr! Não. Devia ter seguido todos eles. uma nudez decente.Será que elas ficarão rugosas? (Tira o paletó.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->