Mikhail Bakhtin – Estética da criação verbal São Paulo: Martins Fontes, 2003. Texto: Os gêneros do discurso 1.

O problema e sua definição 1.1. Introdução Todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem. O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados* (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. O conteúdo temático, o estilo e a construção composicional estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso. Pode parecer que a heterogeneidade dos gêneros discursivos é tão grande que não há nem pode haver um plano único para o seu estudo. A isto provavelmente se deve o fato de que a questão geral dos gêneros discursivos nunca foi verdadeiramente colocada: como determinados tipos de enunciados, que são diferentes de outros tipos mas têm com estes uma natureza verbal (lingüística) comum. Começando pela Antiguidade, estudaram-se os gêneros retóricos. Estudava-se, por último, também os gêneros discursivos do cotidiano. Nota: *Bakhtin emprega o termo viskázivanie, derivado do infinitivo viskázivat, que significa ato de enunciar, de exprimir, transmitir pensamentos, etc. em palavras; este termo está no campo da parole saussureana. 1.2. Esquizofrenia discursiva Os gêneros discursivos secundários (complexos – romances, dramas, pesquisas científicas de toda espécie, os grandes gêneros publicitários, etc.) incorporam e reelaboram diversos gêneros primários (simples) no processo de suas formações. Já os gêneros primários se formam nas condições da comunicação discursiva imediata. Esses gêneros, que integram os complexos, aí se transformam e adquirem um caráter especial: perdem o vínculo imediato com a realidade concreta e os enunciados reais alheios. O desconhecimento da natureza do enunciado e a relação diferente com as peculiaridades das diversidades de gênero do discurso em qualquer campo da investigação lingüística redundam em formalismo e em uma abstração exagerada, deformam a historicidade da investigação, debilitam as relações da língua com a vida. 1.3. A solução metodológica A diferença entre os gêneros primário e secundário (ideológico) é extremamente grande e essencial, e é por isso que a natureza do enunciado deve ser descoberta e definida por meio da análise de ambas as modalidades. O estudo da natureza do enunciado e da diversidade de formas de gênero dos enunciados nos diversos campos da atividade humana é de enorme importância para quase todos os campos da lingüística e da filologia. Porque todo trabalho de investigação de um material lingüístico de concreto opera inevitavelmente com enunciados concretos (escritos e orais) relacionados a diferentes campos da atividade humana e da comunicação. Por isso, por exemplo, a réplica do diálogo cotidiano ou da carta no romance, ao manterem a sua forma e o significado cotidiano apenas no plano do conteúdo romanesco, integram a realidade concreta apenas através do conjunto do romance, pu seja, como acontecimento artístico-literário e não da vida cotidiana.

Todo enunciado é individual e por isso pode refletir a individualidade do falante (ou de quem escreve). o tom é dado por determinados gêneros do discurso.1. ou seja. Em cada época de evolução da linguagem literária. A relação orgânica e indissolúvel do estilo com o gênero se revela nitidamente também na questão dos estilos de linguagem ou funcionais. A passagem do estilo de um gênero para o outro não só modifica o som do estilo nas condições do gênero que não lhe é próprio como destrói ou renova tal gênero. íntimo. Pode-se dizer que a gramática e a estilística convergem e divergem em qualquer fenômeno concreto da linguagem: se o examinarmos no conjunto de um enunciado individual ou do gênero discursivo já se trata de fenômeno estilístico. [Nota mental] Gêneros primários: gêneros discursivos Gêneros secundários: gêneros textuais 1. Além do mais. seu produto complementar. de círculo. o estilo individual não faz parte do plano do enunciado. por assim dizer. Onde há estilo há gênero. filosófico. um epifernômeno do enunciado. familiar-cotidiano. Estilo e gênero Todo estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciador e às formas típicas de enunciados. muito importante para a estilística. . científicos) mas também primários (determinados tipos de diálogo oral – de salão. etc.5. mas ao mesmo tempo nenhum estudo de gramática (já nem falo de gramática normativa) pode dispensar observações e incursões estilísticas. aos gêneros do discurso. não serve como um objetivo seu mas é. Uma complexa questão metodológica: o chamado “fluxo discursivo” A gramática (e o léxico) se distingue substancialmente da estilística (alguns chegam até a colocá-la em oposição à estilística). sóciopolítico. entre gêneros primários e secundários).). e não só gêneros secundários (literários. publicitários. O estilo integra a unidade de gênero do enunciado como seu elemento. Na imensa maioria dos gêneros discursivos (exceto nos artísticoliterários). Os autores das classificações frequentemente deturpam a principal exigência lógica da classificação – a unidade do fundamento. Tudo isso é resultado direto da incompreensão da natureza de gênero dos estilos de linguagem e da ausência de uma classificação bem pensada dos gêneros discursivos por campos de atividade (bem como da distinção. o estudo do enunciado como unidade real da comunicação discursiva permitirá compreender de modo mais correto também a natureza das unidades da língua (enquanto sistema) – as palavras e as orações.4.

No diálogo real. Tais ficções dão uma noção absolutamente deturpada do processo complexo e amplamente ativo da comunicação discursiva. prepara-se para usá-lo. combinações de palavras. independente da comunicação. Outros. etc. ou seja. pela alternância dos falantes.2. Diferença entre essa unidade e as unidades da língua (palavras e orações) 2. todos os demais limites (entre oração. Com isso. O que acontece na lingüística é que os esquemas abstratos não são representados como reflexo da comunicação discursiva real nem tampouco completados por alusões a uma maior complexidade do fenômeno real. sílabas. também. Introdução A lingüística do século XIX. ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente). partidários de Vossler. O enunciado Cada enunciado é um elo na cadeia complexamente organizada de outro enunciados. essas alternâncias entre as enunciações dos interlocutores (parceiros do diálogo) são denominada réplicas. a subseqüente subestimação da função comunicativa com a consideração do ouvinte passivo em relação ao falante. palavras) são relativos e convencionais. Em comparação com os limites dos enunciados. às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante.2. 2. sintagmas. nem toda enunciação serve. O enunciado como unidade da comunicação discursiva. já não pode ser uma unidade da enunciação. por isso o discurso só pode existir de fato na forma de enunciações concretas de determinados falantes. a essência da linguagem se reduz à criação espiritual do indivíduo e há. O ouvinte. Pressupõe-se em silêncio a fala de um falante. aplica-o. Com muita freqüência a oração é definida como o enunciado mais simples. Consequentemente. 2. mas também nesse caso a multiplicidade de falantes. Portanto. começando por Wilhelm Humboldt. logo. promovia ao primeiro plano a função da formação do pensamento. A real unidade da comunicação discursiva é o enunciado. ao perceber e compreender o significado (lingüístico) do discurso. desprezando-se os sons harmônicos dialógicos. completa-o.. carece de substancialidade.1. combinações de palavras. toda compreensão plena real é ativamente responsiva e não é senão uma fase inicial preparatória da resposta.3. dos outros em relação a cada falante dado. Obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante. . Mutantis mutatis: introdução ao papel do ouvinte Às vezes o grupo lingüístico é visto como uma certa personalidade coletiva e se lhe dá grande importância (entre os representantes da “psicologia dos povos”). O que foi ouvido e ativamente entendido responde nos discursos subseqüentes ou no comportamento do ouvinte. essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início. O mesmo desconhecimento do papel ativo do outro no processo da comunicação discursiva e o empenho de contornar inteiramente esse processo manifestam-se no uso impreciso e ambíguo de termos como “fala” ou “fluxo da fala”. colocavam em primeiro plano a função expressiva. Uma enunciação como “Ah!” (réplica de um diálogo) não pode ser dividida em orações. dividem a enunciação (a fala) e chegam a unidades da língua. sujeitos do discurso. Os limites de cada enunciado concreto como unidade da comunicação discursiva são definidos pela alternância dos sujeitos do discurso. Demais.

quer no sistema da língua (no corte vertical). Mas aquelas relações que existem ente as réplicas do diálogo são impossíveis entre unidades da língua (palavras e orações). a oração não se correlaciona de imediato nem pessoalmente com o contexto extraverbal da realidade (a situação. ao término da oração. * As pausas são manifestações gramaticais calculadas e assimiladas. ou seja. quer no interior do enunciado (no corte horizontal). imediatamente correlacionado com outros pensamentos do mesmo falante no conjunto do seu enunciado. através do enunciado em seu conjunto. em relação a qual se pode assumir uma posição responsiva. isto é.7. a oração carece de capacidade de determinar a resposta. familiarizar-se com ela) apenas no conjunto do enunciado.4.5. que é definida e assimilada pelo próprio falante. ganha uma validade semântica especial: em relação a ela pode-se ocupar uma posição responsiva. se ela é um enunciado pleno e acabado (uma réplica do diálogo). pressupõem outros (em relação ao falante) e não se prestam à gramaticalização. Mas isso não leva uma unidade da língua a transformar-se em uma unidade da comunicação discursiva. Semelhante oração. depois delas espera-se uma resposta ou uma compreensão responsiva de outro falante. completa e fundamenta o primeiro. possíveis apenas dentro do discurso de um falante. a oração não está cercada pelo contexto do discurso do mesmo falante. depois destas já não vem a pausa*. o ambiente. Quando esquecemos disso deturpamos sua natureza e também a natureza do enunciado.2. O problema da oração como unidade da língua em sua distinção em face do enunciado como unidade da comunicação discursiva. que dá continuidade. A oração como enunciado pleno Se. um enunciado. mas tão-somente através de todo o contexto que a rodeia. etc. então ela está imediatamente (e individualmente) diante da realidade (do contexto extraverbal do discurso) e de outras enunciações dos outros. encontramos fenômenos que parecem contrariar essa tese.. . a oração adquire propriedades estilísticas pois é colocada em uma moldura de natureza diversa. o falante faz uma pausa para passar em seguida ao seu pensamento subseqüente. 2. O contexto da oração é o contexto da fala do mesmo sujeito do discurso (falante). avaliá-la. A oração enquanto unidade da língua Examinada em um enunciado pleno e do ponto de vista desse todo. 2. isto é. A oração é um pensamento relativamente acabado. no contexto. Essas relações só são possíveis entre enunciações de diferentes sujeitos do discurso. 2.6. a pré-história) nem com as enunciações dos outros falantes. A réplica e os limites do enunciado Cada réplica possui uma conclusibilidade específica ao exprimir certa proposição do falante que suscita resposta. gramaticalizando-o. Mas esses fenômenos não passam de representação convencional da comunicação discursiva nos gêneros primários do discurso. com ela se pode concordar ou discordar. ela ganha essa capacidade (ou melhor. particularmente nos retóricos. tornada enunciado pleno. Nos gêneros secundários do discurso. executá-la. intercambiam-se enunciados que são construídos com o auxílio de unidades da língua. Os limites da oração nunca são determinados pela alternância de sujeitos do discurso. Não se intercambiam orações como se intercambiam palavras. porém.

A intenção discursiva de discurso ou a vontade discursiva do falante determina tanto a própria escolha do objeto quanto os seus limites e a sua exauribilidade semântico-objetal. possuem um alto grau de estabilidade e coação. todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas de construção de todo. pois carrega toda sua individualidade e subjetividade. oficiais. O primeiro elemento pode ser quase eternamente pleno naqueles campos em que os gêneros do discurso são de natureza sumamente padronizada e o elemento criativo está ausente quase por completo. uma extensão aproximada do conjunto do discurso). Outros campos da comunicação discursiva Complexas por sua construção. Dispondo de um rico repertório de gêneros do discurso orais (e escritos).9.8. em todos os eleentos da idéia de sua obra. 3) formas típicas composicionais e de gênero do acabamento. nós os empregamos de forma segura e habilidosa. é determinada por três elementos (ou fatores) intimamente ligado no todo orgânico do enunciado: 1) a exauribilidade do objeto e do sentido. A obra. prevemos o fim. Nós aprendemos a moldar o nosso discurso em formas de gênero e. adivinhamos um determinado volume (isto é. isto é. já adivinhamos o seu gênero pelas primeiras palavras. A diversidade desses gêneros é determinada pelo fato de que eles são diferentes em função da situação. pela própria natureza.2. ao conservarem sua precisão externa. 2. na visão de mundo. isto é. 2. os limites do enunciado. adquirem um caráter interno graças ao fato de que o sujeito do discurso aí revela sua individualidade o estilo.10. . Estando nitidamente delimitados pela alternância dos sujeitos do discurso. está disposta para a resposta do outro (dos outros). mas em termos teóricos podemos desconhecer inteiramente a sua existência. desde o início temos a sensação do conjunto do discurso que em seguida apenas e diferencia no processo a fala. 2) o projeto de discurso ou vontade de discurso do falante. Esses gêneros particularmente o elevados. Nos campos da criação só é possível uma única exauribilidade semântico-objetal muito relativa: ao se tornar o tema do enunciado. o objeto ganha uma relativa conclusibilidade em determinadas condições. Em termos práticos. Essa possibilidade de ocupar uma posição em relação ao texto é um aspecto interno denominado conclusibilidade. já no âmbito de uma idéia definida do autor. da posição social e das relações pessoais de reciprocidade entre os participantes da comunicação. Esses gêneros requerem ainda um certo tom. uma determinada construção composicional. unidades da comunicação discursiva. para a sua ativa compreensão responsiva. incluem em sua estrutura uma determinada entonação expressiva. as obras especializadas dos diferentes gêneros científicos e artísticos também são. isto é. Tudo Chega o momento no discurso em que o falante já disse (ou escreveu) tudo o que quis dizer em dado momento ou sob dadas condições. A comunicação oral cotidiana Falamos apenas através de determinados gêneros do discurso. Esse tudo – da inteireza do enunciado – não se presta a uma definição nem gramática nem abstrato semântica. como réplica do diálogo. quando ouvimos o discurso alheio. A vontade discursiva do falante se realiza antes de tudo na escolha de um certo gênero do discurso.

Portanto. à interrogativa. à exclamativa e à exortativa: aqui se cruza de certo modo a entonação gramatical com a entonação de gênero (mas não com a expressiva no sentido preciso do termo). a expressão são estranhos à palavra da língua e surgem unicamente no processo de seu emprego vivo em um enunciado concreto. Todo enunciado concreto é um elo na cadeia da comunicação discursiva de um determinado campo. a questão é bem mais complexa. Saussure ignora o fato de que. isto é. evidentemente. Saussure define a enunciação (la parole) como ato individual da vontade e da compreensão. e ao mesmo tempo comensurabilidade como a oração. a inabilidade para dominar o repertório dos gêneros da conversa mundana não se trata nem de pobreza vocabular e nem de estilo abstrato.11. porém cala ou intervém de forma muito desajeitada em uma conversa mundana. com auxílio das quais o sujeito falante usa o código lingüístico com o objetivo de exprimir o seu pensamento pessoal. uns conhecem os outros e se refletem mutuamente uns nos outros. Ao apresentar um exemplo de uma oração com o fito de analisá-la. o elemento expressivo é uma peculiaridade constitutiva do enunciado. pela relação valorativa do falante com o elemento semântico-objetal do enunciado. Em si mesmo. a pessoa que domina magnificamente o discurso em diferentes esferas da comunicação cultura.2. Não enfiamos as palavras. Há palavras que significam especialmente emoções mas também esses significados são neutros como todos os demais. o juízo de valor. Assim. e esse colorido independe do significado de tais palavras. muitos lingüistas (principalmente pesquisadores do campo da sintaxe) tentam encontrar formas especiais que sejam intermediárias entre a oração e o enunciado. isto é. A oração só adquire entonação expressiva no conjunto do enunciado. além das formas da língua. Todos são indiferentes à alternância dos sujeitos do discurso. sempre trazemos de antemão o todo da nossa enunciação. Em realidade. existem ainda as formas de combinação dessas formas. obliteram o critério central da conclusibilidade do enunciado como unidade autêntica da comunicação discursiva. na forma tanto de um determinado esquema de gênero quanto de projeto individual de discurso. segundo a expressão de dado texto). não vamos de uma palavra a outra mas é como se completássemos com as devidas palavras a totalidade. costumamos abastecê-la de certa entonação típica transformando-a em enunciado acabado (se tiramos a oração de um texto determinado nós a entonamos. Portanto. O colorido expressivo só se obtém no enunciado. ignora os gêneros do discurso. A oração enquanto unidade da língua possui uma entonação gramatical específica e não uma entonação expressiva. que possuem conclusibilidade como o enunciado. fala magnificamente sobre questões sociais. Por isso. 2) mecanismo psicofísico que lhe permite objetivar essas combinações. o significado de uma palavra (sem referência à realidade concreta) é extra-emocional. . O repertório e o desconhecimento lingüístico Frequentemente. que ocorrem em qualquer comunicação viva e real. mas de falta de noção sobre todo um enunciado que ajude a moldar de forma rápida e descontraída o discurso nas (ou fora das) formas estilísticas composicionais definidas. Os enunciados não são indiferentes entre si nem se bastam cada um a si mesmos. Este tem seu estilo e sua composição determinados pelo elemento semântico-objetal e por seu elemento expressivo. Cabe um papel especial à entonação narrativa. Também por isso. A impessoalidade da palavra Quando construímos o nosso discurso. no qual cabe distinguir: 1) combinações. 2.12. por exemplo.

” Matizes mais sutis do estilo são determinados pela índole e pelo grau de proximidade pessoal do destinatário em relação ao falante nos diversos gêneros familiares de discursos. neste caso. Eles podem nem existir. Entre nós existem uns sabichões que falam com fazendeiros donos de duzentos camponeses de um modo inteiramente diferente daquele com que falam com fazendeiros donos de trezentos camponeses (.2. Reiteremos: o enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva e não pode ser separado dos elos precedentes que o determinam tanto de fora quanto de dentro. A entonação é particularmente sensível e indica o contexto. as unidades significativas da língua – a palavra e a oração por sua própria natureza são desprovidas de direcionamento. O enunciado está voltado não só para o seu objeto mas também para os discursos do outro sobre ele. A expressão desse direcionamento realmente nunca se esgota. que abrange todos os aspectos do estilo. em cartas. morfológicos (os respectivos casos. em suma. O enunciado tem autor (e. Portanto. por um lado. em gêneros autobiográficos e confessionais). A escolha de todos os recursos lingüísticos é feita pelo falante sob maior ou menor influência do destinatário e da sua resposta antecipada. Conclusão À diferença dos enunciados (e dos gêneros do discurso).. formas pessoais dos verbos).).. Envolvida pelo contexto. eles só atingem direcionamento real no todo de um enunciado concreto. A língua como sistema possui imensa reserva de recursos puramente lingüísticos para exprimir o direcionamento formal: recursos lexicais. e inserem uma original dramaticidade interior no enunciado (em algumas modalidades de diálogo do cotidiano. e sem levá-las em conta é impossível entender até o fim o estilo de um enunciado. Um traço essencial (constitutivo) do enunciado é o seu direcionamento a alguém. A consideração do destinatário e a antecipação da sua atitude responsiva são frequentemente amplas. a oração só se incorpora ao direcionamento através de um enunciado pleno com sua própria parte constituinte (elemento). só é possível como a análise de um enunciado pleno e só naquela cadeia da comunicação discursiva da qual o enunciado é um elo inseparável. respectivamente. e da relação expressiva do falante com esse conteúdo. e íntimos por outro. sintáticos (diversos padrões e modificações das orações). 2. Entretanto. A análise estilística. o endereçamento do enunciado é sua peculiaridade constitutiva sem a qual não há nem pode haver enunciado. evidentemente. Isto gera uma franqueza especial do discurso e é possível o enfoque especial.13. nesses recursos lingüísticos especiais (gramaticais). é impossível compreender o gênero ou estilo do discurso. Ademais. Entonação e comunicação O enunciado é pleno de tonalidades dialógicas. o seu endereçamento. expressão) e destinatário. gerando nele atitudes responsivas diretas e ressonâncias dialógicas. não oficial e livre da realidade. Sem levar em conta a relação do falante com o outro e seus enunciados (presentes e antecipáveis).. de endereçamento – não são de ninguém e a ninguém se referem. o direcionamento. Lembremos uma observação de Górgol: “É impossível contar todos os matizes e sutilezas do nosso apelo. do sentido do discurso. . o enunciado pode refletir de modo muito acentuado a influência do destinatário e sua atitude responsiva antecipada.. mas.14. vão encontrar matizes para estes. Nesses estilos revelam-se com especial clareza a estreiteza e o equívoco da estilística tradicional. pronomes. que procura compreender e definir o estilo apenas do ponto de vista do conteúdo do objeto. mesmo que apareçam donos de um milhão de camponeses. em si mesmas carecem de qualquer relação com o enunciado do outro.

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