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4_Iconicidade, Simultaneidade e uso do espaço em Libras; Bernardino;Silva e Passos

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Iconicidade, Simultaneidade e uso do espaço em Libras

Elidéa Lúcia Almeida Bernardino Giselli Mara da Silva Rosana Passos 1. Introdução Na década de 60, Stokoe – um linguista norte-americano – pesquisou a organização fonológica e as partes constituintes dos sinais da Língua de Sinais Americana (ASL), e suas pesquisas possibilitaram uma mudança radical nessa área. Atualmente, há um crescente interesse de linguistas e educadores em compreender as línguas de sinais e tais pesquisas distinguem duas modalidades de línguas, no que diz respeito à forma de produção e recepção: a) línguas espaço-visuais1: Língua de Sinais Brasileira (Libras), Língua de Sinais Americana (ASL), Língua de Sinais Francesa (LSF); b) línguas orais-auditivas: Português, Inglês, Francês, entre outras. No Brasil, as pesquisas em Língua de Sinais começam a se expandir na década de 80. Ferreira-Brito (1993) apresenta-nos um panorama dos estudos que se desenvolveram nessa década na área da Educação e da Linguística no Brasil. De acordo com a autora, no início da década de 80, não havia pesquisas suficientes para se afirmar que se falava uma mesma língua de sinais em todas as regiões brasileiras. Somente após contato com a comunidade surda de algumas capitais e centros urbanos mais populosos, no Brasil, é que verificamos que a língua de sinais que havíamos estudado em São Paulo, é a mesma de outras regiões onde o português é língua falada. (FERREIRA-BRITO, 1993: 16) Durante o desenvolvimento das pesquisas sobre língua de sinais, Ferreira-Brito depara-se com uma língua de sinais diferente da Libras, utilizada pelos índios urubus-kaapor, de uma aldeia bilíngue do Maranhão. Atualmente, com a oficialização da Língua de Sinais Brasileira através da Lei Federal nº 10.436 de 24 de abril de 2002, a sigla Libras2 é utilizada e amplamente aceita pela comunidade surda, pelos profissionais da área educacional e pela mídia. Com o crescente interesse nas pesquisas em línguas de sinais no Brasil e em outros países, podemos contar atualmente com uma diversidade de pesquisas em áreas e linhas teóricas distintas, apesar de ainda termos muito a descobrir a respeito da língua de sinais e dos aspectos culturais e cognitivos relacionados à surdez. Analisar e entender uma língua espaçovisual tem sido um desafio para pesquisadores, já que demanda um olhar diverso que os leve a compreender o funcionamento dessas línguas. Contudo, essas pesquisas também trouxeram
1 Outras denominações são utilizadas, dependendo do aspecto ressaltado pelo teórico, tais como: língua gestualvisual, visual-motora e quiroarticulatória-visual. 2 Anteriormente escrita com maiúsculas – LIBRAS, a sigla passa a ser escrita apenas com a inicial maiúscula a partir do Decreto nº 5.626 de 22/12/05. Há uma discussão a respeito de qual sigla seria a mais adequada para a Língua de Sinais Brasileira, sendo que, em alguns meios, opta-se pela sigla LSB, conforme convenção internacional. Entretanto, a sigla Libras foi consagrada pelo uso no interior da comunidade surda.

novas reflexões para o estudo das línguas em geral, já que se impõe aos pesquisadores uma reflexão nova sobre conceitos talvez “cristalizados” nas pesquisas em línguas orais-auditivas. Ferreira-Brito apresenta algumas contribuições que os estudos em línguas de sinais podem trazer para a compreensão da linguagem humana e afirma: O canal visuo-espacial pode não ser o preferido pela maioria dos seres humanos para o desenvolvimento da linguagem, posto que a maioria das línguas naturais são orais-auditivas, porém é uma alternativa que revela de imediato a força e a importância da manifestação da faculdade de linguagem nas pessoas. (FERREIRA-BRITO ,1995: 11) Stokoe (1960) comprovou que a língua de sinais atende a todos os critérios linguísticos de uma língua genuína, tanto no léxico quanto na capacidade de gerar uma quantidade infinita de sentenças. Vejamos a seguir algumas características das línguas de sinais.

2. Características das línguas de sinais 2.1. Iconicidade e Simultaneidade A iconicidade e a simultaneidade são duas importantes características das línguas de sinais, que, de forma contrária, não se destacam nas línguas orais. Para compreendermos melhor essa questão, vamos trabalhar inicialmente com os pares Iconicidade/arbitrariedade e Linearidade/Simultaneidade. Segundo Ferreira-Brito (1993), a modalidade de língua gesto-visual favorece a representação icônica dos objetos do mundo real. Sendo assim, a iconicidade, característica fortemente explorada nas línguas espaço-visuais, foi responsável em parte pelo fato de se pensar que as línguas de sinais seriam compostas por mímica, gestos, e que só expressariam apenas conceitos concretos. Porém, esse argumento é falho por dois motivos: a) porque as línguas orais (Francês, Inglês, Português, etc.) também apresentam iconicidade; b) porque a iconicidade, além de convencional, funciona muitas vezes como sistemas elaborados e abstratos (metáfora – conceitos abstratos) O conceito de Arbitrariedade do signo foi desenvolvido na linguística no início do século passado por Saussure.3 A partir do conceito de arbitrariedade, afirma-se que não há nenhum laço que una o significante ao significado de um signo4. Por exemplo, não há nenhum motivo interno à palavra “cadeira” que justifique o fato de essa palavra nomear o objeto ao qual ela se refere. Assim, as palavras não teriam nenhuma ligação com o conceito expresso por elas. Talvez as cadeiras pudessem se chamar “casa”, se assim fosse convencionalizado. Prova maior disso, de acordo com Saussure (1977), é o fato de existirem diferentes línguas. Quando esse linguista desenvolveu o conceito de arbitrariedade, buscou mostrar que o que a possibilita é o uso social da língua.
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Saussure é considerado o pai da Linguística Moderna , sendo o principal representante do Estruturalismo. 4 Para efeito de compreensão dos conceitos de Arbitrariedade e Linearidade, desenvolvidos por Saussure (1977), estamos utilizando, também deste autor, o conceito de signo linguístico. O signo seria a unidade linguística composta de duas faces: o significante e o significado. O significante é a imagem acústica produzida em nosso psiquismo quando mencionamos uma palavra, independentemente da produção de fonemas. O significado é o conceito que relacionamos ao significante.

Uma questão levantada a respeito do status das línguas de sinais como sistemas linguísticos tão complexos quanto as línguas orais diz respeito à arbitrariedade. As línguas de sinais não poderiam ser línguas, já que alguns sinais não são arbitrários, ou seja, se “parecem” com o que representam. Por exemplo, o sinal de CASA lembra o teto de uma casa, o sinal de TESOURA lembraria o formato e o movimento de uma tesoura: esses sinais seriam icônicos, diferentemente das palavras que compõem as línguas orais, que são, em sua maioria, arbitrárias. Conforme apresentado anteriormente, nem as línguas de sinais seriam completamente icônicas, nem as línguas orais seriam completamente arbitrárias. A iconicidade, segundo Ferreira-Brito (1993), não restringe as propriedades linguísticas da língua de sinais e nem prejudica a codificação de conceitos abstratos: às vezes até favorece a existência dos sistemas semânticos elaborados e abstratos. No caso das línguas orais, como, por exemplo, o Português, temos as onomatopéias (por exemplo, au au – referindo-se ao som produzido por um cachorro. Temos também o toc-toc, referindo-se ao som produzido por alguém batendo numa porta). Fiorin nos dá outros exemplos de uma possível motivação em línguas orais: Os sons parecem ter um simbolismo universal. A oposição de fonemas graves, como o /a/, e agudos, como o /i/, é capaz de sugerir a imagem do claro e do escuro, do pontudo e do arredondado, do fino e do grosso, do ligeiro e do maciço. Por isso, quando se vai indicar, nas histórias em quadrinho, o riso dos homens e das mulheres, usam-se, respectivamente, ha, ha, ha e hi hi hi. Ainda nas histórias em quadrinho, as onomatopéias que indicam ruído, sons brutais e repentinos, como pancadas, começam sempre por consoantes oclusivas, que são momentâneas como um golpe (p/b; t/d; k/g): pum, pá, tá. (FIORIN, 2004: 62) Esse autor continua exemplificando, não só com relação aos sons, mas também no nível morfológico e sintático. Por exemplo, na estruturação de uma frase em que há dois elementos numa hierarquia, geralmente o elemento mais importante é colocado na primeira posição na frase. Essa ocorrência também seria um tipo de motivação que aconteceria nas línguas orais. Sendo assim, as línguas orais não seriam completamente arbitrárias: há algum tipo de motivação em suas estruturas. Com relação às línguas de sinais, discute-se atualmente a respeito dos conceitos de Arbitrariedade / Iconicidade / Convencionalidade. Segundo Ferreira-Brito, os sinais de casa, telefone e árvore5 seriam considerados icônicos.

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As ilustrações foram retiradas de Capovilla & Raphael (2001).

No sinal de árvore, o antebraço representaria o tronco, as mãos abertas, os galhos e o movimento da mão remeteria ao movimento das folhas. Porém, segundo essa autora, em outras línguas de sinais não se usa esse mesmo sinal, o que indica que cada língua de sinais escolhe um aspecto do objeto como motivação para a “criação” dos sinais. Outro exemplo citado por Quadros (2004) é o sinal de NÃO em Libras. Esse mesmo sinal em ASL significa ONDE.

Se os sinais fossem completamente icônicos, seriam iguais em todas as línguas de sinais. Porém, é justamente o contrário: cada povo vê os objetos, seres e eventos representados em seus sinais ou palavras sob uma determinada ótica ou perspectiva. Sendo assim, podemos concluir que a iconicidade é uma representação convencional relacionada à língua/cultura do próprio país, pois cada língua capta facetas diferentes do mesmo objeto através dos sinais. Vejamos o caso do sinal de cachorro em Libras e em ASL: em Libras, o sinal lembra o focinho do cachorro; em ASL, lembra uma pessoa chamando um cachorro, batendo, inicialmente, a mão na cintura e, em seguida, fazendo um ruído com os dedos. Acrescente-se a isto o fato de que toda arbitrariedade é convencional, pois, quando um grupo seleciona um traço como uma característica do sinal, outro grupo pode selecionar outro traço para identificá-lo. Assim, pode-se dizer que a aparência exterior de um sinal é enganosa, já que cada língua pode abordar um aspecto visual diferente em relação, por exemplo, ao mesmo objeto, diferenciando a representação lexical de língua para língua. (QUADROS, 2004: 32)

Outro ponto a se destacar é que, em variedades de uma mesma língua de sinais, os usuários podem selecionar diferentes aspectos visuais para sua representação lexical. É caso de dois diferentes sinais existentes, na Libras, para peixe. Um sinal lembraria o movimento de um peixe nadando, enquanto o outro, o anzol preso à boca do peixe.

2.2. Simultaneidade / Linearidade O conceito de linearidade, juntamente com o de arbitrariedade, foi desenvolvido por Saussure, que afirma que todo signo é linear, sendo que os significantes acústicos se organizam linearmente numa cadeia no tempo. Quando o linguista desenvolveu esse conceito, ele pensou exclusivamente nas línguas orais, no signo oral. Por isso, dizemos que o signo visual trouxe novos questionamentos ao estudo das línguas. Sendo assim, as línguas orais, a princípio, seriam lineares, e as línguas de sinais, simultâneas. Para Ferreira-Brito (1993), a simultaneidade ocorre, principalmente, nos níveis “fonológico” e morfológico. Ou seja, os elementos distintivos dos parâmetros se superpõem para constituir os sinais. Na língua de sinais, as unidades mínimas distintivas são produzidas ao mesmo tempo, pois não se trata de uma cadeia sonora, mas sim de um espaço tridimensional. As marcas morfológicas são obtidas através de alterações de um ou mais parâmetros, no interior do próprio sinal. No nível sintático, segundo Ferreira-Brito (1993), também se recorre à simultaneidade, principalmente quando o verbo da oração é direcional. Os elementos de anáfora, os clíticos, os “classificadores6”, o sujeito e o objeto podem ter informações contidas ou incorporadas ao próprio item verbal. A direção do movimento do sinal verbal, a configuração de mãos e/ou o ponto de articulação podem servir a esses propósitos. Devido ao fato de os sinais serem realizados em períodos de tempo mais longos do que os das palavras, as línguas de sinais recorrem à “lei da compensação”, procurando inserir o máximo de informação possível do mesmo item lexical e evitando, com isso, o acúmulo de elementos na cadeia linear. (FERREIRABRITO, 1993: 36) Vejamos melhor essa questão com exemplos. Observemos, por exemplo, o sinal de triste:

Segundo Ferreira-Brito (1993), classificador é um tipo de morfema gramatical que é afixado a um morfema lexical ou sinal para mencionar a classe a que pertence o referente desse sinal, descrevendo-o quanto à sua forma e tamanho, ou descrevendo a maneira como esse referente é segurado ou se comporta na ação verbal. Em Libras, como dificilmente se pode falar em prefixo e em sufixo, já que os morfemas ou outros componentes dos sinais se juntam ao radical simultaneamente, prefere-se dizer que os classificadores são afixos incorporados ao radical verbal ou nominal.

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Nesse sinal, ao mesmo tempo em que a mão assume uma determinada forma e toca o queixo, o sinalizador usa uma expressão facial que lembra uma pessoa triste. No nível da frase, também podemos encontrar elementos simultâneos. Se quisermos dizer, em Libras, que não conhecemos uma pessoa, podemos fazer o sinal de conhecer, balançar a cabeça em sinal de negativa, enquanto direcionamos o olhar para a pessoa que não conhecemos. Todas essas informações estão acontecendo simultaneamente: o sinal, o balançar da cabeça e a direção do olhar. As línguas orais são mais lineares que simultâneas, já que os fonemas são produzidos numa cadeia linear. Porém, se observarmos a entonação que damos às frases, podemos dizer que a produção de sons e a entonação são informações simultâneas que ocorrem nas línguas orais. Sendo assim, a simultaneidade não seria uma característica exclusiva das línguas de sinais.

2.3. Uso do espaço Quadros (1997) explica que as relações espaciais nas línguas de sinais são muito complexas. Na Libras, as relações gramaticais são especificadas através da manipulação dos sinais no espaço. As sentenças ocorrem dentro de um espaço definido, na frente do corpo, em uma área limitada pelo topo da cabeça e que estende até os quadris. O final de uma sentença, na Libras, é indicado por uma pausa. O espaço de articulação, segundo Quadros e Karnopp (2004), é uma área que contém todos os pontos dentro do raio de alcance das mãos em que os sinais são articulados. Dentro desse espaço de enunciação, pode-se determinar um número finito (limitado) de pontos de articulação ou locações, sendo que algumas são mais exatas (tal como a ponta do nariz) e outras são mais abrangentes (como a frente do tórax). Os mecanismos espaciais fazem com que a informação gramatical se apresente simultaneamente ao sinal. Esses mecanismos envolvem dois aspectos: a “incorporação” (numeral, pronome, negação) e o “uso de sinais não-manuais” (movimento do corpo e expressões faciais), que são fundamentais nas línguas de sinais para determinação de relações sintáticas e semânticas/pragmáticas.

3. Referências BRITO, Lucinda Ferreira. Integração social e educação de surdos. Rio de Janeiro: Babel Editora, 1993. ______________ Por uma gramática de língua de sinais. Tempo Brasileiro UFRJ. Rio de Janeiro, 1995. CAPOVILLA, F. C., & RAPHAEL, W. D. Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngüe da Língua de Sinais Brasileira. São Paulo: Edusp, 2001. FERNANDES, Eulália. Linguagem e Surdez. Porto Alegre: Artmed, 2003. QUADROS, Ronice Muller. Língua de sinais brasileira. Porto Alegre: Artmed, ,2004. ______________. A educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artmed, 1997. SACKS, Oliver. Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. (trad. Laura Teixeira Mota) SASSAKI, Romeu. Nomenclatura na área da surdez. 4/1/05. Texto disponível em: <www.mj.gov.br/sedh/ct/corde/dpdh/sicorde>. Acesso: em 12/05/06.

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