Planejamento a favor do aluno e do professor

Publicação original | 31.12.1969 | Brisa Teixeira

Dar significado ao que aprende é uma condição para que o aluno se estimule a aprender. Esta é a opinião defendida pelo educador Vasco Moretto, em seu livro Planejamento - Planejando a educação para o desenvolvimento de competências, da Editora Vozes (2007). Nesta obra ele contextualiza fundamentos e atividades que contemplam a intenção do autor, de promover um planejamento da teoria à prática. Mestre em Didática das Ciências pela Universidade Laval em Québec (Canadá), Vasco acredita que o aluno percebe quando o professor preparou suas atividades pedagógicas e tem atitude positiva em relação ao processo ensino-aprendizagem. Na sua obra, o autor, especialista em Avaliação Institucional pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e consultor na área educacional, traz uma abordagem consciente, avaliando os fundamentos da relação entre professor e aluno, tanto em conceitos psicossociais, epistemológicos, didáticospedagógicos ou éticos. Para Vasco, o bom professor deve desenvolver a aptidão para flexibilizar o planejamento, caso se fizer necessário. O planejamento, segundo ele, é o encontro da previsibilidade com a surpresa. Profissão Mestre - Quais os efeitos para o aprendizado do aluno nas ações pedagógicas bem planejadas? Vasco Moretto - O bom planejamento dará segurança ao professor, evitará a improvisação inoportuna e orientará o aluno em seu processo de construção do conhecimento. O aluno percebe quando o professor preparou suas atividades pedagógicas e tem atitude positiva em relação ao processo ensino-aprendizagem. O inverso também é verdade. Muitas vezes a indisciplina em aula pode estar relacionada à percepção de que o professor está “enrolando”, como dizem os estudantes. PM - O que você quer dizer quando escreve que o planejamento é o encontro da previsibilidade com a surpresa? VM - O planejamento é um roteiro de saída, sem certeza dos pontos de chegada, pois nenhuma situação complexa é exatamente igual à outra, ou seja, o planejamento deverá considerar que cada relação sempre terá os componentes da incerteza, da singularidade e do conflito de valores. Por esta razão julgo que o professor deve ser competente no ensinar, isto é, deve ter desenvolvido os recursos para flexibilizar o planejamento, caso se fizer necessário. Uma pergunta interessante de um aluno, a reação negativa dos alunos a uma atividade planejada, um acontecimento social relevante, podem ser fatores que levem o professor a altear seu planejamento. Esta alteração, no entanto, não pode descambar para uma simples improvisação. Ela exige do professor a competência para replanejar com base na reflexão-na-ação. PM - Como a personalidade do professor interfere no planejamento escolar? VM - Acredito que a escolha de estratégias de ensino não depende apenas de fatores técnicos relacionados à disciplina. Ela depende muito, a nosso ver, da personalidade do professor. Professor introvertido terá uma forma de agir, professor extrovertido outra. Um professor de temperamento melancólico escolherá formas de ensinar diferentes de um professor de temperamento sanguíneo. Devemos ressaltar que a personalidade do professor é um dos fatores a ser levado em conta no planejamento, com vistas a um processo de ensino eficaz e eficiente. PM - A cada dia são maiores as exigências na preparação dos alunos. Isso exige um ensino voltado a aprendizagens significativas, e não as meramente mecânicas? VM - Dar significado ao que aprende é uma condição para que o aluno se estimule a aprender. A simples “decoreba” mostrou, ao longo do tempo, sua ineficácia como aprendizagem desejável. Há

uma vez que a avaliação é uma forma do professor recolher indicadores da aprendizagem do aluno. PM . como desenvolver habilidades específicas para o magistério. precisa levar sempre em conta a possibilidade de encontrar alunos com conhecimentos prévios aos quais o professor ainda não teve acesso: é o fator surpresa na ação docente. há professores que conseguem separar o ensinar do avaliar a aprendizagem. na medida em que a avaliação é feita por meio de “provas”.Conhecer-se e conhecer seus alunos é um dos fatores essenciais para o eficiente processo de ensino. sociologia etc. conhecer seus alunos. é ter conhecimento de seus traços fundamentais de personalidade e saber até que ponto eles precisam ser trabalhados para favorecer a interação com o aluno. Esta é uma das razões que nos levam a afirmar que ensinar é uma situação complexa e que exige o desenvolvimento da competência do professor para tratar de forma diferente aqueles que são diferentes. o aluno hiperativo terá reações diferentes do quieto. Não queremos dizer que tanto o autoconhecimento do professor como o conhecimento de seus alunos seja o único fator que favoreça a aprendizagem. De igual importância é o conhecimento das características psicossociais e cognitivas dos alunos. As formas de aprendizagem são diferentes para cada sujeito.Cada aluno é um sujeito único.dois fatores a considerar. No entanto. exigindo do profissional a capacidade de aprender a aprender. PM . médicos davam aulas de biologia. Este nos parece ser o verdadeiro sentido da justiça no tratamento dos alunos. Ser bom professor é conhecer-se. Qual era o pressuposto? Quem sabe os conteúdos da disciplina pode dar aulas. as transformações sociais são cada vez mais rápidas e mais profundas. neste caso. precisa levar em conta as diferenças entre seus alunos: um aluno tímido reagirá de forma diferente de um expansivo. Você concorda com isso ou "ser professor é muito mais que ter o domínio do assunto"? VM . dominar conteúdos conceituais das disciplinas. O professor. mas ressignificá-las no contexto do processo ensino-aprendizagem. mas na prática docente. Mas há outros.A frase "Quem conhece o conteúdo pode dar aula". que na maior parte das vezes têm pouco significado para os alunos. dominar linguagens específicas da disciplina. O professor.No livro você diz que avaliar a aprendizagem é uma situação complexa a desafiar o professor. contextualizar problemas e problematizar. que não são momentos privilegiados de estudo e sim verdadeiros “acertos de contas” com seus alunos. Conhecer os conteúdos é um dos pilares da competência do professor para resolver a situação complexa de ministrar aulas. filosofia. por falta de professores licenciados para estas disciplinas. Na preparação para o magistério os professores estudam psicologia. Por isso. contextualizar o ensino e ter a capacidade de administrar seu . O segundo fator é o acesso rápido e fácil às informações que permite ao cidadão uma interação social contínua e atualizadora. dizemos que o domínio do assunto a ser ensinado é de fundamental importância para o bom professor. Primeiro. O grande desafio do professor não é simplesmente abandonar o uso de provas para a avaliação.Por que você diz que o professor precisa planejar suas estratégicas pedagógicas respeitando as características psicossociais e cognitivas de seus alunos? VM . ao planejar a atividade pedagógica com seus alunos.Em princípio ensinar e avaliar a aprendizagem deveriam ser inseparáveis. para o professor. com vistas a avaliar seu próprio processo de ensino e a necessidade ou não do (re)planejamento de novas atividades pedagógicas. Da mesma forma. PM . mas certamente é um fator que não deve ser negligenciado. em seu planejamento. parece que tudo fica esquecido e o que importa é “dar e cobrar conteúdos conceituais”.O autoconhecimento do professor e conhecer seus alunos colaboram para a resolução de situações complexas em sala de aula? VM . É possível separar o avaliar do ensinar? VM . para uma ação pedagógica que estimule a aprendizagem. Conhecer-se. PM . com sua história pessoal e a do grupo social a que pertence.Houve uma época em que o engenheiro era convidado a dar aulas de matemática ou de física. mas não basta.

esclarecer este assunto. sobretudo. habilidades. Eu digo: depende! Se no primeiro ano você deu aula e nos vinte e seis seguintes simplesmente repetiu o que fez no primeiro ano. No caso da aplicação do Modelo Pedagógico VM. VM . como exemplo. é possível que haja fatores novos que mereçam ser levados em conta. são cinco os recursos a serem desenvolvidos: conteúdos conceituais. pois mesmo que ela pareça igual às outras já vivenciadas. Como já afirmamos.O conceito de competência tem causado bastante confusão devido às múltiplas interpretações e.Num plano de curso devem. Quantos jogam futebol? Centenas! Todos desenvolveram o mesmo nível de competência? Certamente que não.Que características e elementos deverão estar presentes no plano de curso e qual a sua importância? VM . mas ser um rumo possível a ser seguido.emocional e o de seus alunos. sim. Importa ressaltar que o plano de ação.Por que a experiência do professor ligada à capacidade de flexibilização está intimamente ligada a um bom planejador? VM . que propusemos no livro Planejamento. aumentando seu nível de competência. Poderíamos ter escolhido outros recursos. a falta de clareza entre os conceitos de competências e habilidades. Certo dia. é essencial que seja apresentada com clareza a situação complexa que se deseja resolver. valores culturais e administração do emocional. PM . PM . Por isso afirmamos que a experiência do professor é muito importante. você tem apenas um ano de experiência e não vinte e sete”. No modelo pedagógico do desenvolvimento-de-competências para resolver situações complexas que apresentei no livro Planejamento. Mas como é um modelo e não o modelo para resolver situações complexas. desde que suas ações sejam sempre acompanhadas de uma reflexão sobre cada nova ação. A experiência do professor é o resultado de muitas vivências semelhantes. primeiramente estar postos os fundamentos epistemológicos que sustentarão as ações pedagógicas. Em terceiro lugar é preciso explicitar os recursos que devem ser mobilizados para a solução.Explique a frase contextualiza em seu livro: "Competência não se alcança. procurei. resultante do planejamento consciente. deixando sempre o lugar para a flexibilização consciente e a criatividade na interação. não deve ser uma camisa de força para o professor. o planejamento é o encontro da previsibilidade com a surpresa. na situação complexa “jogar futebol”. PM . Diante de uma situação complexa a ser resolvida o sujeito poderá continuamente desenvolver mais e mais recursos. Em segundo lugar. mas sobretudo da reflexão-na-ação destas vivências. . Isso seria um adestramento. alguém me disse: “Você afirma que tem vinte e sete anos de experiência como professor. linguagens. de certa forma. sim.Inicialmente queremos ressaltar que a experiência não é apenas o resultado da repetição dos mesmos comportamentos. fizemos nossa escolha. Conceituei competência como a capacidade do sujeito mobilizar recursos para resolver situações complexas. desenvolve-se”. Pensemos.

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