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Alvaro Cardoso Gomes - Para tão longo amor

Alvaro Cardoso Gomes - Para tão longo amor

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Para tão longo amor

Álvaro Cardoso Gomes

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Para tão longo Amor

³A vida é uma droga!´ Mas, mesmo no fundo do poço mais escuro, de repente, pode brilhar a pequena luz de um vagalume.

Não dava para conversar com a mãe; com o pai, menos ainda. Então bebia, fumava, brigava, namorava a tonta da Neuza, tudo ³para dar prazer ao corpo e esquecer que existia´. Por fora, um bobo alegre, por dentro, um infeliz, Toninho já se convencera de que era um ³perfeito imbecil´. Era garoto, não esperava mais nada da vida. Até que Regina apareceu. Não tinha muito a oferecer, só um breve amor, ligeiro e fugaz, como o brilho de um pequeno vagalume. Só isso seria capaz de iluminar o mundo de Toninho?

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O resul tado: acabei ficando na cidade para jantar com meu amigo. Duas ou três vezes por semana. ² Quem é seu pai? ² O Toninho. Autografei o livro. É um modo de a gente descobrir o quanto se é amado por pessoas que nunca viu na vida. ² Toninho? Que Toninho? 4 . E se não fosse a filha desse meu amigo. Uma história de amor um pouco triste. respondi a várias perguntas dos alunos. tivemos uma longa conversa noite adentro e voltei para São Paulo com uma história comovente na cabeça. vivida pelo Toninho. Vivi nessa cidade dos catorze aos dezenove anos. onde estudei. muita coisa acon teceu. Mas estou me adiantando aos fatos. Como aconteceu quando me encontrei com o Toninho. Mas é uma história de amor verdadeira. e ela me disse: ² Meu pai conhece o senhor.1 Esta é uma história de amor. Gosto muito de fazer iss o. fui até Americana. quan do estava terminando de autografar os livros. costumo visitar cidades do interior para falar sobre meus livros. Fui recebido com festa na escola. Acontece que toda minha família mudou -se de lá. uma menina se aproximou com um exemplar de A hora do amor. acabo achando assunto para novas histórias. Sou escritor. nem me lembrava mais do Toninho. dei minha palestra e. Depois vim para São Paulo e não voltei mais para Americana. Numa de minhas viagens. e meus amigos dispersaram-se pelo mundo. Até que surgiu a oportunidade de vol tar ao velho Colégio Presidente Kennedy. No final de tudo. de vez em quando. eu teria ido embora de Americana sem falar com ele. como de costume. De modo que eu não tinha mais nenhum laço com a cidade. Para falar a verdade. Mas sua filha veio conversar comigo depois da palestra. Antes disso. colega meu dos tempos da escola. Mas essas pequenas viagens também são boas porque. para fazer uma palestra. E esta história que conto agora seria apenas uma lembrança do Toninho.

embora também esti vesse muito curioso para saber quem era o tal de Toninho. E acho que foi esse olhar que me fez decidir. Sabe. o Toninho. depois. pensei comigo mesmo. Se eu convidasse o senhor pra jantar em casa. e eu tinha alguns negócios para resolver. e todos gostam muito do senhor. como se quisesse falar alguma coisa e estivesse com vergonha. Enquanto eu pensava nisso tudo. E. ² Que bom que você gostou. o senhor aceitaria? Agora complicou. Disse que estudou com o senhor aqui no Presidente Kennedy." Então. eu disse: ² Ah. A menina olhou para mim e sorriu. que falei: Foi à vez de eu ficar sem graça. mas tinha gostado tanto da carinha da meni na. ² Por favor ² disse a menina. "Quem seria esse Toninho. Ela parecia sem graça. estaria em casa. Preciso voltar pra São Paulo ainda hoje. ² A gente vai ficar feliz.. ² Preciso voltar pra São Paulo ainda hoje.. a menina continuava a olhar para rnim.² O nome dele inteiro é Antônio Carlos Fonseca. ² Ele disse que gosta muito do senhor. ² Mas tem certeza mesmo de que sua família está 5 . acabou por me dizer: ² Adorei seu livro! Chorei tanto na hora em que a mãe do Beto morreu.. Ele vai ficar muito contente. Puxa vida. Podia dormir em Americana na sex ta e embarcar sábado de manhã para São Paulo. o que custava mudar meus planos? No dia seguinte era sábado. o senhor aceita? ² Você venceu ² eu disse... sorriu de novo e me perguntou: ² ² ² ² Se eu pedisse uma coisa pro senhor. Depois de uma hora e meia de ônibus. "Toninho". Eu ia dizer "depende". A menina baixou a cabeça. levantou a cabeça. e eu não teria que trabalhar. O que você quiser. O que ia dizer para a garota? Eu não estava mentindo: minha família me esperava.. o senhor faria pra mim? Claro. ² Eu também gosto muito dele. Por fim. ² tornei a dizer.. meu bem.. mamãe faz uma comida deliciosa.. para não desapontar a menina. Me lembro dele sim.. ² Foi meu pai que convidou.. eu tenho mais dois irmãos. ² Então..

fiquei contente de ter aceito o convite. ² eu disse para encorajá-la. Ela se animou e perguntou: ² Qual seu doce preferido? ² Meu doce? Como assim? ² A sobremesa que o senhor mais gosta. ² Bem. papai que falou pra convidar o se nhor.. para falar a verdade..me esperando? Fiz essa última pergunta porque sei que.. Já pensou eu aparecendo na casa do tal de Toninho. às vezes. A menina estava tão feliz que. mas voltou logo a sorrir e disse. A menina pareceu desapontada. Mas parecia que ela queria me fazer outra pergunta. as crianças ima ginam coisas.. Falo isso pra ele. ² Vamos fazer o seguinte: vou para o hotel e fico esperando uma ligação de seu pai. enquanto se dirigia para a saída da escola: ² Duvido que o senhor não goste do pudim de ameixa da mamãe. ² Tá bem. 2 6 . que podia nem saber quem eu era? ² Claro ² disse a menina ². não gosto muito de doce. na hora. ² Então.

² A minha filha.. Foi o caso do Toninho. não consegui me le mbrar de mais nada do Toninho. Não posso dizer que sou seu fã número 1.. a que falou com você. só que muito mais forte. Vivi muito pou co tempo em Americana e. se soubesse a impressão que havia causado nele. E isso explica por que ele fez questão de que eu fosse jantar em sua casa. Às vezes. Telefonei então para minha mulher. não cheguei propriamente a ser seu amigo. avisando-a que passaria a noite de sexta em Americana. Veio-me à mente a imagem de um rapaz calado. enquanto dava um passeio pela cidade. Esta é uma das coisas interessantes da vida. nunca mais o vi. mas não me lembrava de nenhum deles do tempo da escola. fazia perto de trinta anos que eu tinha ido embora de Americana. fora isso. Desci as escadas e. que pouco me lembrava dele. muito mais alto. E só vim a saber disso naquela noite que passei em sua casa. Mas. A coisa mais fácil é causar uma impressão das mais fortes numa pessoa que teve um contacto superficial com a gente.Depois do almoço. imediatamente reconheci o Toninho. Conheci muitos Toninh os em minha vida. porque senão a Ana Lúcia me mata. que costumava sentar-se no fundo da classe. o Toninho guardava uma ótima recordação de minha pessoa e me admirava muito. tinha me esquecido. E. o telefone tocou. 7 . depois que vim para São Paulo. Foi o que ele me disse.. em busca da cidade grande. fiquei imagi nando quem poderia ser esse tal de Toninho. Mas. Não é verdade. temos um contacto superficial com uma pessoa e nem desconfiamos da impressão que causamos nela. Na realidade. Geralmente achamos que só causamos impressões muito fortes nos grandes amigos ou nas pessoas a que amamos. com uma pequena mala.. ² Ah. Afinal. Ao contrário de mim. Álvaro. o Toninho me ligou no hotel e disse que me pegaria às seis. enquanto dirigia o carro: ² Li todos os seus livros. ² Ana Lúcia?. As seis em ponto... Era um homem de meia -idade como eu. ² perguntei. foi chegar ao saguão.

Paramos diante da porta. O Toninho entrou na Anhangüera. Oh. me cedendo à passagem : ² Sinta-se como se a casa fosse toda sua. desculpe ² ele disse... bater um bom papo. em meio a um bosque de ipês-amarelos. muito bonito. e os pequenos trouxeram os carrinhos para eu brincar com eles. acelerou o carro e continuou a explicar: ² É um lugar calmo. logo nós já estávamos à vontade. mas. perguntei se ele morava fora da cidade. Tinha uma varanda. e ele disse. Lá podemos jantar sossegados. ao Flávio e ao Cláu dio. como eu reparasse que o Toninho estava saindo de Ameri cana.. muitas vezes as pessoas pensam que gosto de cerimônia. Mas não demorou muito. O Toninho foi para a cozinha ajudar a Sandra. como tam bém sou tímido. Nem preciso dizer que eles nem sabiam o que fazer comigo. 8 . Fui então apresentado à Sandra. sua mulher. os irmãos menores da Ana Lúcia. Esqueci de dizer que vamos pro meu 3 A casa do Toninho era mesmo muito bonita.Depois. Sou uma pessoa simples. ² sítio. Ficava às margens da represa. deixando-me na sala com um copo de uísque. A Ana Lúcia aproveitou para me mostrar sua pequena biblioteca com todos os meus livros. com redes e cadeiras de vime que eram um convite ao descanso. Tenho certeza de que você vai gostar..

os colegas. à diretora que era brava como o diabo. E. para minha surpresa. Falamos sobre a escola. começamos a conversar sobre os "velhos tempos". Mas às vezes o Toninho ficava sério e dizia: ² Agora. Não só as crianças se divertiram bastante comigo. sou meio burrão. Demos tantas risadas quando lembramos dos tipos engraçados. nunca aprendi a escrever direi to.Foi a Sandra entrar na sala com uma travessa na mão e já começou a dar bronca nos meninos: ² ² Mas o que que é isso? Deixem o Álvaro em paz! Não tem nada de mais ² eu disse. o Toninho contou para a Sandra e para os filhos uma redação que eu tinha escrito não sei quando e de que não me lembrava mais. A Sandra também parecia contente. pois não perdia uma só palavra minha ou do Toninho. o Bagulhão. como o Carniça. 9 . o Cetáceo. Cada uma de lascar. ² Gosto de brincar com danças. mas sempre soube que você ia ser um escritor. Álvaro. Enquanto jantávamos. vocês precisavam ver as redações que o Álvaro fazia. Você se lembra de uma história de terror que escreveu? Como é que eu podia lembrar? O Toninho pôs a mão sobre meu braço e disse: ² Sabe. sobre os professores. o Jamanta.

² Que cansado o quê ² disse o Toninho. mando o caseiro buscar ainda hoj e. Contei episódios engraçados de meu primeiro emprego num banco. E. ² Acontece que vocês devem estar cansados. o tempo foi passando. sem esperar que eu respondesse. o Toninho saiu para falar com o caseiro. Escuta uma coisa. Álvaro. Os meninos. refletindo o disco prateado da lua. Além disso. e resumi algumas histórias que trazia na cabeça para um futuro livro. ² Isso mesmo ² disse a Sandra. encolhidos e abraça dos. conversando com aquela gente carinhosa.. por que você não passa a noite aqui com a 10 . ² Amanhã é sábado. O céu estava limpo. A Sandra olhou para mim e sorriu. Com isso. Quanto às suas coisas. mostrando o relógio. Fazia uma noite maravilhosa.4 Terminado o jantar. as dificuldades para começar a publicar. Ana Lúcia. cheio de estrelas. ² Quase onze horas ² falei. Falei sobre minha ida para São Paulo. ainda que interessada na con versa. já havia bocejado umas duas vezes. é cedo ainda. As águas da represa ondeavam sob a brisa quente e perfumada. O Toninho se apressou a dizer: ² Que nada. de vez em quando. Tam bém contei como tinha virado escritor. (dia de descanso. Álvaro. Você come mais um pedaço de pudim. O olhar do Toninho se iluminou e ele me perguntou: ² gente? O convite era tentador. a companhia era agra dável e eu me sentia bem como nunca. Eu me sentia tão bem. saboreando um café delicioso. Ouvia-se o cricrilar dos grilos e. ² Você não tem outra coisa a fazer senão concordar. minhas coisas estão no hotel. dos anos da faculdade. A noite estava linda. fomos para a varanda. faço mais um café. dormiam num sofá de vime. sentado numa cadeira confortável. o pio de uma ave noturna. Olhei para o relógio e disse: ² Acho que está na hora de ir. os anos de luta na cidade grande..

E que eu não sabia se os donos da casa continuavam acordados só por minha causa. Mas uma hora a Sandra se levantou e disse: ² Álvaro. não pára mais ² ela disse já da porta. concordo com prazer. O Toninho me perguntou: 11 . que eu ia ficando. mas vou dormir. Ana Lúcia havia adormecido no colo da mãe. Ela se despediu de mim. 5 Continuamos a conversar até perto da meia -noite. Na realidade. Ele deve estar cansado. Não porque tivesse sono. Quando pega alguém pra conver sar. Daq ui a pouco vou dormir. A Sandra foi para dentro com a Ana Lúcia no colo. Acho que nada neste mundo me tiraria hoje desta cadeira.Dei uma risada e disse: ² Pra falar a verdade. abaixou -se para beijar o Toninho e falou: ² Vê se não aluga o Álvaro. A Sandra levantou-se e disse: ² Então. amor. vou providenciar outro café e arrumar seu quarto. ² O Toninho é assim mesmo. você me desculpe. Mas o Toninho parecia tão entusiasmado conversando comigo. ² Só mais um pouquinho. Eu já estava pensando em ir dormir. estava aceso como nunca.

Começamos a beber em silêncio. quebrando o silêncio. ² Então. Não estamos aqui pra conversar? 12 . Toninho. ² Não posso me queixar. que estava com a cabeça baixa. que eu amo. uma família maravilhosa. Tenho a Sandra. ² Que bela vida você tem. Parecia que tínhamos esgotado toda a conversa. Ele levantou a cabeça e vi que. é uma longa história. Tomei a olhar para o Toninho. Ficaria a no ite inteira conversando. hein... Toninho? ² eu disse quase sem pensar. Mas nem sempre as coisas correram bem assim. deixa eu pegar uma cerveja lá dentro. Olhei para o Toninho. no fundo de seus olhos. posso dizer que sou muito feliz.. mas acon teceram algumas coisas em minha vida. ² Uma casa linda.. as crianças. Não posso mesmo me queixar da vida.² Você não está com sono. Hoje. O que mais alguém precisa? ² Realmente. não é? ² De jeito nenhum. porque ele tinha dito aquilo com uma certa amargura na voz. como se pensasse em alguma coisa. havia uma luz diferente. ² Como assim? ² perguntei. ² Bem ² ele explicou ². você tem razão. O Toninho levou os meninos para o quarto e voltou com uma cer veja. ouvindo os ruídos da noite e bebendo uma cerveja gelada. O que teria acontecido ao Toninho no passado que o havia deixado assim tão triste? ² Posso saber o que foi? ² Você tem paciência para ouvir uma longa história? ² Claro. Mesmo assim era tão bom estar sentado naq uela varanda.

bebeu mais um gole de cerveja e começou a contar a história: Volto a lhe dizer que amo a Sandra. com isso. porque a gente não tinha nada a ver com a crise econô mica ou com o mau humor de papai. Quando conversavam era pra brigar. E saía pra rua. mas certas coisas do passado não consigo apagar. batendo a porta com força. de poucas amizades. e a gente não tinha dinheiro pra quase nada. Papai não pagava mais as mensa lidades do Rio Branco. digo isso de boca cheia. Quantas e quantas vezes não era suspenso por ter brigado no pátio ou por ter respondido a um professor! 13 . as coisas não iam nada bem: papai havia perdido o emprego. Na escola era outro inferno. Papai e mamãe mal conversavam. não estudava. que ela é tudo pra mim na vida. parecia uma mosca morta. Em seguida. tudo bem. Chegava tarde em casa. Eu ficava louco da vida com aquilo. continuo u: Tive uma adolescência difícil. Lembro que ele reclamava de tudo: ² Só tem arroz com lingüiça? Não quero comer essa droga. Ouvia tudo de cabeça baixa ou então chorava. qua se não tinha amigos. coitada. Por isso mesmo era difícil ser convidado pra uma festinha. Eu vivia matando aula. Em casa. apesar de trinta anos já terem passado depois de tudo que aconteceu. sempre de mau humor e descon tava tudo em mim e em mamãe. Certas coisas que ainda estão muito vivas dentro de mim. como se tentasse organizar o pensamento. Era um menino rebelde. Sou feliz. como eu fosse uma pessoa meio enrustida. ele começou a beber. eu não sabia o que era. O Toninho calou-se e ficou algum tempo olhando para a represa. Se fosse só problema de dinheiro. de mal com a vida. Divertimento. Mas . Há quanto tempo não ia a um cinema! A um baile então nem se diga. Mamãe. E. Eu podia dizer que minha vida era um inferno.6 O Toninho acomodou-se melhor na cadeira. não respeitava ninguém .

revidei. ² Te espero na saída ² ele disse. Como aconteceu quando enfrentei o Clóvis. Mas odiava ser provocado. grandalhão metido à besta. ²Não era só você que não gostava. Quando me provocavam. não podia mesmo ser amado pelas pessoas. U m que morava perto da estação. ficava uma fera e brigava por qualquer motivo. Pois então.Eu não gostava de ninguém. sem que esperasse. ² Nunca gostei daquele cara. eu não gostava de mim. ²Ah. 14 . ² O Clóvis Teixeira. Assim mesmo. levei um tabefe na orelha. Com isso. o Clóvis veio encrencar comigo. ficava na minha.. fui encrencar justo com o Clóvis. O resulta do: quantas e quantas vezes não apanhei que nem cachorro vadio. ou melhor. me lembro dele. E uma forma de mostrar que não gostava de mim era piorar o que eu tinha de pior.. No recreio. em vez de ficar quieto. 7 ² Clóvis? Que Clóvis interrompi o Toninho. esbarrei nele e. E eu. ² Esse mesmo. ² Vai ver com quantos paus se faz uma canoa.

quando o bedel da escola apartou a briga. e ele recuou. sempre me xingando e cuspindo. parecia uma máquina de bater. ² Então. Por causa disso. Logo de cara foi me gozando: ² O nervosinho está pronto pra apanhar? Eu sabia que ia apanhar mesmo. Limpou o sangue com as costas da mão e disse: ² ossos. se eu fugisse. e o Clóvis me prendeu entre as pernas. Mas ele se recuperou logo. O sangue espirrou. O Clóvis me esperava na pracinha em frente à escola. ² Não vou fugir coisa nenhuma. Caí de costas. Mas uma hora ele me acertou em cheio. Protegi a cara com os braços. Por isso. e que nada neste mundo podia me salvar. ² Não tem vergonha de bater em alguém mais fraco que você? ² s 5 perguntou. E o Clóvis não parava de gritar pra mim: ² Vou te pegar de novo! Aí não vai ter ninguém pra te salvar. Um murro passou assobiando pert o da minha orelha e um pontapé me pegou de raspão na canela.Naquele tempo. mas. dei-lhe um soco no nariz. Já estava quase desmaiando. Eu só me defendia. o medo havia passado. Ninguém iria dizer que eu era um covarde. antes que o Clóvis tomasse a iniciativa. e meus braços doíam de tanta pancada. um corte na boca. ninguém ia levar a mal. Mas já estava cansado. Só de saber que ia apanhar de cabeça erguida. Dei de ombros. Mas era também muito orgulhoso. vai apanhar pra burro. E veio com tudo pra cima de mim. com a força que tinha. a gente vê quem pode mais. O Clóvis brigava mal. isso nem contava. eu era magro que nem um palito e sabia que o Clóvis ia me massacrar. Mas não queria apanhar à toa. O Macedo tinha razão. O Clóvis. ² Na hora. pra depoi s contar que eu era um covarde. Sabia que ele estava me propondo isso. o bestinha do Macedo me disse que. mas nunca eu ia mostrar que estava com medo do Clóvis. E pra te falar a verdade. já estava contente. porque todo mundo conhecia o Clóvis. Ia te bater só um pouquinho. Nunca que ia afinar. Na saída da escola. Tinha um olho fechado. vou te quebrar todos os 15 . ² Tá na cara que ele pode mais.

Além disso. Em seguida.Eu mal podia ficar de pé. Toninho? Não disse nada e joguei a roupa no tanque. Mas bastava papai erguer a voz. O que aconteceu. Quando um não quer. Entrei em casa e troquei de roupa no quarto. A cabeça doía. Mesmo assim. ² Seu pai vai ficar louco! Por que você vive se metendo em encrenca? ² Não fui eu que provoquei. Você sabe como é se j pai. Papai era muito machista e vivia dizendo que. Mamãe veio correndo de dentro com iodo. água oxigenada e começou a limpar meu nariz. e papai não era de esquecer assim fácil. Quem é que poderia dizer que eu era um covarde? 8 Mas o pior ainda estava por vir. ² Mas quem vai agüentar amolação sou eu. ué. ² Deitar por quê? 16 . alguma coisa dentro de mim dizia que era melhor ter apanhado do que ter afinado. mamãe me viu e começou a gritar: ² Pelo amor de Deus! O que que aconteceu. o canto da boca. se eu apanhasse na rua. dois não brigam. apanharia dobrado em casa. Fui pra cozinha. ² Vê se come e depois vá se deitar. Deixei mamãe falando sozinha e fui pro quarto. E nun ca eu conseguiria esconder que tinha apanhado. O que vai dizer a seu pai? ² Nada. eu não podia tirar da cabeça que ai ia chegar e ficar uma fera comigo. ela disse: ² Já não chegam os problemas aqui de casa. Ela estava nervosa e a ponto de chorar. coisa que era muito rara. Às vezes. Pensei até em sumir de casa. o corpo doía. Mas uma hora teria que voltar. Como eu odiava aquele tipo de conversa! Que mania mamãe tinha de ficar atrás de mim resmungando sem parar. E eu não podia contar mesmo com ninguém. que fia afinava. ² Você sempre diz a mesma coisa. e mamãe pôs um prato de comida na minh a frente. aconteceu. Quando levava o unifor me todo sujo e rasgado pra lavar. e ainda você traz mais um da rua. mamãe me defendia.

como costumava fazer. ainda por cima não tinha um amigo. ² O que é que foi. Otávio. E. depois. ² Não vai me dizer que brigou também com seu Nagibe! ² Claro que briguei! O safado me disse uns desaforos. Já da porta. Mas logo ergui a cabeça.. Vai sobrar pra mim! Empurrei o prato de comida. não precisa inventar que estou doente.. Mamãe. pra que tanto brim? ² Foi o jeito que o turco achou pra me pagar. você não pode ficar chorando por uma bobagem dessas. Pus a cabeça entre os braços e comecei a chorar.² ² ² Quando seu pai chegar.. eu disse pra mim mesmo. uma garota pra conversar. sentei na escada. ² Mas. "você tem que ser forte. percebi que ia sobrar mesmo pra mim. Por que minha vida era tão ruim assim? Parecia que tudo que fazia dava errado. Otávio? Por que essa gritaria? ² Me ajuda aqui com estas peças de tecido. ² Quanto brim! O que vai fazer com isso. Otávio? ² Turco safado! ² papai xingou. pôs a mão na cabeça e disse: Saí pro quintal. Além do que acontecia em casa. ² Pensa que todo mundo é trouxa. Toninho.. Não estou com fome.. começou a gritar o nome de mamãe.." 9 Quando papai chegou naquela tarde. você vive brigando à toa. 17 . falo que você está doente. ² Mas.

Seu Pois então taça fogo. Otávio. Eu sabia que ia sobrar pra mim. Otávio. ele p areceu se lembrar de alguma coisa e me perguntou sempre aos b erros: ² Espera aí uma coisa. ² Pois eu brigo! Ninguém me faz de cachorro! Só você é que acha que devem me fazer de cachorro! Até em minha própria casa não tenho razão. onde é que ele anda? Não está se sentindo bem.. ² seda! Como eu odiava quando papai falava desse jeito irônico.. ² Mas ele já tem tanta camisa dessa cor. Onde está seu uniforme? ² Estava sujo.. Depois que papai tinha começado a trabalhar com seu Nagibe. Elvira. Seu Nagibe. Queima esta droga toda de brim! Vocês só querem luxo. ² Diga. ² protestou mamãe timidamente.² Como que à toa? Como que à toa? Os berros de papai chegaram até mim e encheram meu coração de raiva. o que não me faltava eram camisas amarel as de brim. Por que à toa? ² É que eu acho que você não devia brigar tanto. Ele sempre achava de descontar toda sua frustração em mamãe ou em mim. o que é que a gente vai fazer com tanto brim? ² Camisa pro Antônio Carlos.. dois não brigam. depois. Ele. Quando um não quer.. Elvira. ² Onde é que andou metido. Entrei na sala. Eu mesma pus pra lavar ² mamãe disse um voz 18 . Quanto antes levasse a bronca e apanhasse era melhor. Escutei alguma coisa sendo jogada contra a parede. seu moleque? Papai começou a gritar comigo feito um louco. me cha mando de "príncipe"! ² ² ² Falando no príncipe. Salvador disse que viu ele brigando em frente à escola.. porque não podia mais suportar aquilo... ² 0 que é que tem seu Nagibe? Não vai me di zer que o safado tem razão? ² Não foi isso que eu quis dizer. E. ué. ² Mas fazia pouco tempo que você estava com seu Nagibe. é? Mas pra brigar na rua estava ótimo.. Daqui a pouco vai me dizer que qu er vestir o príncipe de Papai começou a bufar como se fosse um boi. Não está se sentindo bem.. De repente.

² Que se danem os vizinhos! Estou na minha casa. Mamãe procurou segurar papai. enquanto gritava: ² Seu moleque! A gente se mata pra educar um filho. E vou bater em meu filho. Papai tirou a cinta da calça. Elvira! Quando papai viu o uniforme. eu soube que ia apanhar. Essa era a lei em casa: se apanhasse na rua. apanhava dobrado em casa. Não faça isso. Jogou -o na minha cara. Otávio. enquan to dizia: ² Pelo amor de Deus. aí é que ficou louco de vez.trêmula. e você fica badernando pela rua! Ainda por cima apanhou! Quando ele disse aquele "ainda por cima apanhou". ² Me traz aqui esse uniforme. 19 . Olha os vizinhos.

Depois. Hoje.. Ele se sentia tão frustrado que descontava tudo nas pessoas que mais amava.. só de lembrar das surras que ele me deu. a gente acabou se reconcilian do. O Toninho bebeu mais um gole de cerveja e disse: ² Mas. o Toninho me explicou: ² Isso mesmo.. Mas não sabia como mostrar isso. 20 . se você quer saber. Ante meu olhar de espanto. Pobre de meu Ve lho. O Velho era forte e batia pra valer. parece que o corpo todo me arde. Era um homem muito orgulhoso. descobri mais tarde que ele gostava muito da gen te. ² Mas você não bate nos seus filhos.. não guardo mágoa dele.10 O Toninho deu um sorriso e comentou: ² Puxa vida.. compreendo melhor a razão de seu comportamento. como eu..

² Seu pai morreu? ² O ano passado. Nunca encostei a mão neles. eles punham a casa de pernas pro ar. Pobre Vel ho. A Sandra é que é meio brava e de vez em quando dá umas chineladas nas crianças.. Teve um problema cardíaco. Se não fosse ela. Mais tarde. compreendo o Velho. descobri que ele me amava. O Toninho ficou calado por algum tempo e depois disse: ² Não acho mesmo que se deva bater em filho.² De jeito nenhum.. É uma covardia. 21 . Justo quando nossa vida tinha melhorado bastante. Mesmo assim. E éramos grandes amigos quando ele morreu.

. Você vem ou não vem? ² Estou vendo se o Toninho come um pouquinho. Por que devia fazer a vontade de mamãe? No fundo. tinha certeza de que ela queria que eu comesse porque era uma ordem de papai. ² Deixe de mimá-lo. Ela acabou desistindo e me deixou ali sozinho. Era cobrança em tudo quanto é lugar. remoendo minha raiva. mas não falei com ela. você não pode imaginar a raiva que senti dele. porque precisavam estudar. papai gritou lá de dentro: ² Elvira. não queria ninguém por perto.. Papai achava que a família devia comer junto. Mas que família era aquela que só fingia que era uma família? Nisso. Quando me sentia infeliz daquele jeito. Só fui chorar depois. ² Vamos. Não pode ficar sem comer. E se 22 . senão ficava maluco. Fiquei ali sentado até de noite. ora! Se ele quiser comer. Os mais velhos queriam que os jovens fossem exatamente como eles queriam. Toninho. Mas o que eu podia mudar em minha vida? Na verdade.11 Mas. era assim na escola. Deviam obedecer. coma. Então. o que estava começando a perceber é que era impossí vel viver em paz. quando mamãe veio me cha mar pra comer. que venha comer à mesa! ² Toninho.. Queria ficar sozi nho. ² mamãe insistiu mais uma vez. Era assim em casa. no fundo mesmo.. Reparei que mamãe estava quase chorando. ² Por favor. Mas não chorei. mas pela humilhação. sen tado na escada atrás de casa. Cheguei à inclusão de que precisava mudar alguma coisa em minha vida. Chorei nem tanto pelas cintadas. naquele dia em que ele me deu essa surra. porque os mais ve lhos queriam ser obedecidos. Os jovens deviam estudar tudo quanto é roga. à noite. Toninho.. voltei a pensar em tudo o que vinha acontecendo comigo nos últimos tempos. fazendo de conta que ela não existia. Não respondi.. Mas eu não queria comer.

Bastava eu ficar tão ou mais forte que ele. porque sabia que seria a única forma de resolver pelo menos o problema do Clóvis. ele vai comer. 12 Depois do jantar. 23 .. ² Otávio! ² disse mamãe pondo arroz em meu prato.. O jantar aqui em casa é às seis horas. E.ao menos eles agissem direito. porque sabia que precisava madrugar no dia seguinte. comer verdura e acordar cedo todos os dias. os quilômetros que devia correr. resolvi comer. dava pra mudar. Por exemplo. com boa vontade e muito exercício. fiquei sabendo dos sacrifícios que teria de fazer pra ficar forte. ainda que não quisesse comer. já nas primeiras páginas. Li o livro do começo ao fim. Depois. E naquela noite fui dormir cedo. ainda tinha a chatice dos colegas. Quando me sentei. Mas agora estava firmemente decidido a seguir o manual. Será que eu ia suportar a humilhação do Clóvis me perseguindo o tempo inteiro? Foi nesse dia que tomei uma decisão. Mas viviam fazendo burrada! Como é que queriam então que a gente fosse certinho? Não bastasse a chatice dos mais velhos.. Não dava pra mudar tudo mes mo no mundo. mocinho ² disse papai se levantando. Era um manual de exercícios físicos. Mas fica sem sobremesa. ainda tive que suportar outra bronca de papai: ² O príncipe então resolveu nos dar a honra de sua presença. Eu havia desistido de seguir as instruções quando.. marquei numa folhinha o número de flexões a fazer cada dia. no que dizia respeito ao Cló vis. mas. me fechei no quarto com um livro que tinha comprado pelo reembolso postal. ² Comer. ² Deixa ele comer sossegado.

agora o príncipe ainda quer ovinho quente de fazer pela tarde. Estava numa outra. quando ela pôs o leite em minha xícara. por cima da copa das árvores. tomei um copo de leite. Sentei-me pra tomar café. Cheguei em casa suado. e o frio foi passando. Nem prestei atenção nele. mas logo fiquei cansado. Fui até a cozinha. Quando o sol subiu de vez. Fiquei ali. Não. olhando pro céu. que nem um bobo. já imaginando que exercícios teria 24 . como tinha planejado. Ela devia estar mesmo assustada. eu nunca tinha visto o nascer do sol. já estava quase na hora de ir pra escola. ² gozou papai. Percebi que já estava quase fora da cidade. Pra dizer a verdade. Pulei da cama e me vesti correndo. De manhã fazia muito frio. ² Toninho! Onde você foi nesta friagem? ² Por aí. Mamãe foi pegar o leite e o pão. No jardim. Terminei então de tomar o café.. Corri. O sol nasceu cor de laranja. Pensei que se me levantasse às cinco e meia não iria fazer muita diferença. pensei. As bicicletas dos operários desciam a ladeira no meio da neblina. O despertador tocou às cinco. Precisava levantar às cinco.E só a certeza de que realmente alguma coisa iria mudar em minha vida é que tirou um pouquinho da infelicidade daquele dia horrível. Mamãe ficou espantada quando entrei na cozinha. fiz algumas flexões pra esquentar. Há quanto tempo não fa zia ginástica! Comecei a correr ao lado do ribeirão. sentindo dor em tudo quanto é parte do corpo. eu não podia começar daquele jeito. comi umas bolachas e saí pra rua. tomei um banho rápido e saí voando pra escola. "Esses é que tinham mesmo coragem". ² Queria um ovo quente ² eu disse. corri até perder o fôlego. porque o maior trabalho era me tirar da cama pela manhã. Sen tei então na guia da calçada pra descansar. ² Ah..

Eu estava com a idéia fixa de acertar contas com o João Leite. Ele me deu outro safanão e disse: ² Isso é pra você deixar de ser besta. não podia fa zer o jogo dele. hein. disse pra mim mesmo. e alguém me deu um empurrão. 25 . "Um dia. Se eu fosse enfrentá-lo. meu? Estava brincando. cara? Era o João Leite. Como meu corpo estava doe ndo! Voltei então a correr junto ao ribeirão e fui olhar o sol nascer. Quem manda aqui no pedaço sou eu. Inclusive. com o Clóvis e com quem mais se metesse em minha vida. eu sabia que podia. O que eu podia fazer? "Calma. No dia seguinte. mamãe não mais estranhava que eu saí sse de madrugada. Comecei então a fazer exercícios de barra e levantamento de peso. Era o Clóvis. você me paga". nervosinho?Vai encrespar? Olhei praquele estúpido. eu disse baixinho. Eu não conseguia suportar a humilhação. Mas a humilhação que eu tinha sofrido só serviu pra re forçar a minha força de vontade. ² Como é.13 Nem bem entrei no pátio da escola. ela se acostumou a me esperar com o ovo quen te ao lado da xícara de café. mas eu continuava muito magro. Deixei aquele idiota e entrei na classe. morrendo de ódio. Com um mês. Com ele. O Clóvis me deu um tapa na orelha e saiu contando vantagem. Avancei contra o idio ta. Toninho". ² Afinou. Depois de uma semana. acordei cedo de novo. meu fôlego estava bem melhor. Improvisei uns halteres com umas latas cheias de cimento e um cano velho. Não. ² Que que é isso. que afinou na hora. na certa iria apanhar de novo.

E as coisas continuavam como sempre. Por qualquer coisinha, o Clóvis me provocava. Eu fazia que estava afinando e saía sob os olhos zom badeiros dos colegas. E, se por fora eu parecia à pessoa mais calma do mundo, por dentro era um vulcão, morrendo de raiva e querendo bater em quem aparecesse na minha frente. Em casa, papai continuava o mesmo. Sempre de mal com a vida e reclamando de tudo: ² Não me sujeito a trabalhar nessas condições! Que que o Nagibe esta pensando? ² Você precisa ter mais paciência, Otávio ² mamãe dizia. Às vezes, me sentia muito parecido com papai. Eu t ambém não vivia de mal com a vida? Eu também não vivia sozinho, sem amigos? Era talvez por isso que eu não gostava de mim. Por me achar parecido com papai, a quem detestava do fundo do coração. Mas havia uma diferença entre nós, eu pensava. Tinha certeza d e um, um dia, ia acertar as contas com o Clóvis. Quanto a papai, o que podia esperar da vida? Ficar pulando de emprego pra emprego? Ficar su portando humilhação em tudo quanto é lugar? Se esse pensamento me deixava contente, por outro lado eu des confiava que as coisas não eram tão simples assim. Com certeza, eu iria acertar contas com o Clóvis. E depois? Quando iria acertar as contas co migo mesmo?

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Foi nessa época que comecei a namorar a Neuza... ² Que Neuza? ² perguntei. ² A Rovelli. Irmã do Gilson. ² Uma loira de olho verde? ² Essa mesmo ² confirmou o Toninho. A Neuza foi minha primeira namo rada. Como já disse a você, eu era como um bicho e nunca tinha saído com garota alguma, nem namorado ninguém. A Neuza era minha vizinha. Acho que vinha me espiando fazer os exercícios, porque um dia me 26

disse, quando eu tentava erguer uns halteres mais pesados: ² Duvido que você consiga erguer esse daí. Levantei a cabeça e encarei a garota. Coisa que nunca tinha feito, porque morria de vergonha que elas tirassem sarro da minha cara. ² Então? ² ela insistiu. ² Você duvida, é? ² Claro que duvido. A Neuza estava rindo. Pela primeira vez reparei como ela era bonita. ² Anda, quero ver se é capaz. ² Claro que sou capaz. ² Duvido ² ela tornou a repetir. Na verdade, eu estava com um pouco de medo. E se desse um vexame? Eu havia feito aqueles halteres, pensando numa etapa posterior de meu desenvolvimento físico. Se me atrevesse a erguê-los, só para me mostrar pra garota, poderia correr o risco de falhar. ² Ergo essa joça aí quando quiser. ² Pois eu pago pra ver. ² Não paga, que você perde. ² Perco nada. O que você quer apostar? ² Bem... você é que sabe... ² Um sorvete? Agora é que não dava pra recuar. Bem que eu podia dizer que estava cansado e que já havia feito todos os exercícios. ² Olha, eu... ² Um sorvete. Aceita ou não aceita? Não, não dava mais pra recuar. ² Está bem. Ergo até a cintura, o.k.? ² Até a cintura, não. Acima da cabeça. ² Tá bem, tá bem. Cuspi nas palmas das mãos e me concentrei. ² Como é? Vai ou não vai levantar o peso? Já é quase noite... Concentrei-me mais um pouco, respirei fundo, contei até três e agar rei os halteres. Suspendê-los até a cintura até que foi fácil. O difícil veio depois. Centímetro a centímetro, comecei a erguê -los peito acima. Parecia que ia estourar. Quando os halteres estavam a cima do queixo, dei um ultimo arranque e joguei tudo pro alto. Eu tinha conseguido! 27

²

Você conseguiu... ² disse a Neuza, toda sem graça.

Joguei os halteres no chão, e a vontade que senti foi de deitar na grama. Mas agüentei firme, desafiando a Neuza com os olhos. ² Ufa! Nunca pensei que conseguisse. Como você é forte, hein! Não disse nada, e a Neuza sorriu, vencida. ² Está bem, você ganhou a aposta. Quando vai passar aqui, pra Dente tomar o sorvete? ² Depois do jantar²eu disse num fio de voz. ² Tá legal. Estou te esperando. A Neuza entrou em casa, e eu caí sentado na grama. Eu tinha conse guido! Eu tinha conseguido! Só de pensar que pouco tempo antes eu mal p odia correr... E meses depois já erguia aqueles halteres pesadíssimos!

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15 A Neuza estava me esperando em frente à casa dela. E comecei a contar vantagem.. 29 ... O Steves Reeves era o Arnold Schwarzenegger do nosso tempo. ² Steves Reeves? ² perguntei.. Tinha trocado de vestido e soltado o cabelo. ² Eu seria capaz de jurar que você não ia conseguir. ² Você não se lembra? Um artista musculoso que fazia o papel de Maciste no cinema. Disse pra ela que em pouco tempo ia ficar como o Steves Reeves. Tudo aqui lo porque ia tomar um sorvete comigo? Eu não podia acreditar. ² Pois é ² eu disse.

Quando ela começou a me apalpar o braço. dei um beijo rápido nela. sem pensar no que fazia. ² Uau! Você é mesmo forte! Na sorveteria. Por isso. Embora não fosse ainda um Steves Reeves. ficamos con versando em frente à casa dela. Meu coração acelerou. dobrei o braço e disse: ² Pode apalpar. fechei o punho. Melhor pra mim porque eu não tinha um tostão no bolso. Pela primeira vez na vida eu sabia o que era beijar uma garota na boca! ² ² Neuza! Amanhã a gente se vê na escola.Nem preciso te contar que a Neuza ficou toda ouriçada quando eu disse aquilo. tirei a camisa e fiquei me olhando no espe lho. a Neuza insistiu e acabou pagando o sorvete. Tranquei-me no quarto. Era o pai dela. Assustada. a Neuza me abraçou e me beijou na boca. vinha comendo como um cavalo.. Aquele Toninho que me olhava de dentro do espelho com a maior confiança era um outro. não tinha mais que ter medo de ninguém. Também. já estava bem mais forte do que antes. Ela me pediu então que lhe mostrasse o muque.. Não podia acreditar que a Neuza realmente tivesse me dado um beijo na boca. Não podia acreditar que fosse verdade. Na volta. Além disso. Arregacei a manga da camisa. 30 . Sorri satisfeito. ela me empurrou e disse: Entrei lentamente em casa. Pra minha surpresa. Uma hora a Neuza disse que gostaria de ver meu muque de novo. depois de quase um ano de exercício.

² Carinha besta ² eu disse. De preferência. Enquanto isso.. raramente encontrava o Clóvis. ao lado de um poste com a lâmpada quebrada. amor.16 O engraçado é que. eu já andava cheio da Neuza. só porque ele fez umas gracinhas comigo. quando a gente se encontrava. mas não é dois. Há quanto tempo não me dava o habitual murro nas costas! Ou ele estava cansado da brincadeira ou já estava me respeitando. E. o Clóvis não mexia comigo. Por isso mesmo. dei uns tabefes no João Leite. quando estivesse no máxi mo da minha força. ² Você é grande. Ainda mais porque a Neuza estava do meu lado. agora que estava mais forte. fui pondo or dem na casa. E era um beijo atrás do outro. Como nunca tivesse dinheiro. Só sei que não agüentava mais ouvir a Neuza falando pelos cotovelos com aquela voz enjoadinha. Sei lá. eu tinha começado a cuidar melhor da aparência. Um dia. quando o pai dela saía. Como ninguém passava por ali. mas queria uma vingança completa. eu não achava ela tão bonita assim. ia apanhar de verdade. A gente estava namorando firme. depois que descobri que a coisa mais fácil do mundo era conquistar uma garota. Cala a boca. Tomava banho todos os dias e gastava quase um potinho de brilhantina por semana. ela deixou de ter importância pra mim. pra falar a verdade. a gente ia até o jardim e sentava num banco. Agora não. Dei-lhe um tapa na cabeça e disse: ² Sou grande e sou dois. ² Falou. ficava namorando no portão da casa da Neuza. 31 . Às vezes. senão apanha mais ainda. ² Isso não vai ficar assim ² ele disse. andava sujo e mal vestido.. Mas eu não tinha pressa. Mas. Queria me vingar daquela besta. Se não fechasse. Mostra quem você é. O João Leite fechou o bico. a gente ficava realmente sossegado. Antes. A empolgação inicial tinha passado. Além disso. ² Não vai ficar assim como? ² perguntei.

olhando pras unhas. ² O que foi desta vez. a Neuza disse que não queria me ver porque estava com dor de cabeça. sem contar aquelas garotas que conhecia num dia e esquecia no outro. Mas descobri que as garotas achavam graça quando eu dizia alguma bobagem na classe. Até que. Não havia semana que um profess or não me mandasse pra fora da classe. já marcando a 32 . A Neuza sabia que eu nã o tinha dinheiro e que não adiantava falar em baile no Rio Branco. Eu era o pior aluno da classe. um dia. Finalmente. às vezes. não. elas diziam rindo. e ela vivia reclamando comigo porque a gente não ia ao cinema e aos bailes. o bedel me achava e me levava até a diretoria. fui até a Casa Verde jogar sinuca com a turma do Tuta. dançava mal e nem podia dizer que fosse bonito. também fiquei conhecido na diretoria. e entrou em casa. Ela dizia isso só pra me provocar. Mas. 17 Depois da Neusa namorei a Ada. Os colegas me respeitavam pela força. a Denise. estava no maior desânimo. Aonde a gente vai? ² Tem um baile no Rio Branco. Mas. seu Toninho? ² me perguntava a dona Fioli. Nem liguei.Mas eu desconfiava também que o mesmo se passava com a Neuza. Disse "ah. A Neuza reparou nisso e perguntou: ² Que que foi Toninho? ² Nada. num sábado. No outro sábado. foi a minha vez de dizer que estava doente. não agüentei mais aqu ilo e disse que a gente preci sava dar um tempo. Quando conseguia me esconder no banheiro. por outra coisa. Nesse tempo. "Só podia ser o Toninho". sem ao menos me falar "tchau". eu havia me tornado muito popular na escola. Eu nunca tinha dinheiro. A Neuza nem ligou. é?". a Maria Clara. É claro que não podia ser coisa boa. se fiquei conhecido entre as garotas. No domingo. tudo bem. e as garotas.

Eu não esquentava a cabeça com a suspensão. se fizesse um dia bonito. de muito sol. Papai tinha arranjado um emprego de viajante. Coisa mais fácil imi tar a assinatura de papai na caderneta. Acabei ficando sócio do Rio Branco e já podia ter roupas novas. E minha vida corria na santa paz. ² Nada ² eu dizia cinicamente. ganhava uns dias de folga. Eu chegava em casa na hora em que bem entendia. Aprendi a dançar e não perdia um baile. 33 . esperava bater o sinal.. porque era bom de briga. e mamãe nunca foi de pegar no meu pé.suspensão em minha caderneta. Ainda mais. Três dias de suspensão. pulava o muro e ia nadar ou jogar futebol. Corria vários quilômetros todos os dias. Na escola. Quando fazia frio. as coisas melhoraram ain da mais. comia como um cavalo. depois.. ² Alguma coisa o senhor deve ter feito. A única coisa que levava a sério mesmo eram os exercícios físicos. não matava muitas aulas para não dar na vista. fazia flexões. voltava pra casa. nem levantava da cama. Quando papai se fixou no novo emprego. Nesse tempo. Mamãe cansava de me chamar e depois desistia. Mas. como sempre. erguia os halteres e. eu fazia parte da turma do Tuta.

Elvira. a gente arruma. ² Elvira. não vai dizer que perdeu de novo o emprego! ² Se você quer mesmo saber ² o papai disse com raiva ² não perdi. está bem. já da porta. "Agora. festa. Não precisa ficar nervoso. O que isso me deixava irritado! ² Uns canalhas. ² Calma. Larguei. Na hora desconfiei que alguma coi sa de errado havia acontecido. ² Vocês não querem cooperar. Vamos cortar tudo que seja supérfluo. estou cheio. começou a gritar chamando mamãe. pensei. como tudo que é bom dura pouco. Acabou essa história de baile.18 Mas. Mas agora chega. Pensam que sou uma fábrica de dinheiro. ele chegou de viagem e. 34 . Nunca mais quero saber de patrão. e o príncipe aí deitado! De novo aquela história de príncipe! ² Otávio. Otávio? E dinheiro? ² Dinheiro? Dinheiro. Onde se viu? Com quinze anos. adeus. venha me ajudar com estas porcarias. Otávio? Não disse que só vol tava no fim de semana? ² Disse. Estou cheio de tratar com gen te ordinária. carregando malas e paco tes. minha vida mansa acabou de repente. Chega de gastança. Quando passaram perto de meu quarto. Vou montar um negócio meu. farras da ma drugada. sossego. ² Montar um negócio. Já me decidi. Os canalhas pensam que a gente é burro de carga. Uma noite. Já estou indo. papai disse: ² A gente cheio de coisa. e daí? ² Está bem. O importante é eu ter um pequeno capital pra começar. estou até aqui! Fiquei escutando os murros que papai dava na mesa. "Que droga". Aprendi muita coisa nessas viagens. ² Gastança. Otávio? Que gastança? Impossível economizar mais do que economizamos." ² Tão cedo. Adeus . adeus. já dava um duro ajudando meu pai. Estou cheio. matação de aula. só fal ta agüentar papai em casa. Mas todos têm que cooperar aqui em casa. Papai voltou a perder o emprego. Otávio.

ao contrário do que papai pensava. Otávio. Encheu a sala de rolos de tecido e atendia ali mesmo os fregueses.² Mas. e apenas 35 . anotando as encomen das. ² Hoje. Mas. pense i. enchendo meu copo e o dele com o resto da cerveja. gritando comigo. Só de imaginar que ele ficaria em casa resmungando pelos cantos. Era a coisa mais chata do mun do. inventou que eu deveria ajudá -lo. o negócio não começou nada bem. não fazia nada mesmo. ² Divertir? E eu tenho diversão? Não quero nem saber. Tinha de ficar o dia inteiro ao lado do telefone. como precisava sair muito. mas acabei ajudando. às vezes. senão vai ter. Que custava ajudar o Velho um pouquinho? ² E você ajudou? Chiei bastante.. Parecia que ninguém tinha dinheiro. acho que ele tinha razão ² o Toninho disse. pensando bem. o Toninho também precisa se divertir. "Por que papai tinha de perder o maldito emprego?". eu ficava uma tarde inteira ali. gritando com mamãe. De maneira que. Ele que tra te de entrar na linha. ² Eu era um vagabundo. Mas. papai resolveu montar o tal do negócio em casa. 19 Para piorar as coisas..

² Deixou o telefone pra vadiar! E veja o qu e aconteceu. Sempre me xingando. Mamãe tentou intervir. Eu nunca tinha visto papai tão bravo assim. ela disse: ² É melhor você ficar no telefone. Mas. sem parar de me bater. além de ter me cortado à mesada. Não era à toa que o velho tinha ficado doido. E só parou quando cansou o braço. Se papai entrava na sala. que hoje ele vai se arrepender do que fez! Fui recuando ante a fúria de papai. ² Viu o que aconteceu. Tenho uma encomenda pra entregar na Colina. tentando me proteger com o braço. Encomenda mesmo era muito raro. cego de raiva. Mas um dia. me dava uma cintada atrás da outra. quando me lembrei que a essa hora a turma do Tuta deveria estar jogando sinuca na Casa Verde. ² O que foi que eu fiz? ² perguntei. E parecia que a encomen da era razoavelmente boa. Mas foi só chegar em casa. Só depois é que soube o motivo da fúria de papai. ainda queria que eu trabalhasse de graça. e papai estava me esperando com a cinta na mão. então não come coisa nenhuma! 36 . Quando mamãe viu que eu ia sair. ² Se ele não quer comer comigo à mesa ² um dia ele disse à mamãe ². ² É melhor que você fique.duas ou três pessoas ligavam pra saber dos preços. eu ia pro quintal. ² Saia da frente. Nem assim ele parou. Uma hora tropecei numa cadeira e caí de costas. Fui pra Casa Verde e passei a tarde bebendo cerveja e jogando sinuca com a turma do Tuta. deu um empurrão nela. o que me deixava louco da vida. um homem tinha ligado várias vezes. Como ninguém atendesse. Esperei mamãe sair. mandei tudo aos diabos. Enquanto jogava sinuca. ² Ficar pra quê? Ninguém tá ligando. eu saía. A partir daí. E continuou a me bater. não podia aceitar que me surrasse daquele jeito. acabou por comprar os tecidos em outro lugar. porque não estava afim de discutir. Se ele aparecia na cozinha. Papai. Eu não ganhava nada pelo trabalho. seu moleque? E me deu uma cintada. e ele. passei a evitá -lo. se eu entendia o motivo da fúria de papai.

ele fazia de conta que eu não existia. não sei se por ordem dele ou se por vontade própria. 37 .. Só de pensar em ficar sem almoço e sem jantar. De modo que tive de engolir meu orgulho e sentar junto com a pessoa por quem sentia o maior ódio do mundo. Comia com a cara enfiada no prato. ² Parece um animal ² ele dizia.. Acabei afinando. me dava uma fraqueza. E comer se tornou a coisa mais desagradável pra mim . Papai acabou descobrin do e deu a maior bronca nela: ² Você está proibida de dar comida pra ele! Ou come conosco à mesa ou não come nada. porque sabia que mamãe me levaria comida escondido no quarto.E eu não comia mesmo. Mamãe também pouco falava comigo. Limpava o prato e saía correndo da mesa. Eu fazia que não lhe dava confiança. Mas uma coisa era certa: afora me xingar. porque não podia ficar sem comer. Mas bancava o durão. sempre ouvindo os desaforos de papai.

Ao meio-dia. E a casa havia se tornado para Toninho ape nas um local de 38 . e isso facilitava as coisas. jantava e tornava a sair. de muita loucura. Voltava para a rua. e ia para a escola. jogava futebol. os dois não discutiam mais. sempre ouvindo desaforos de seu Otávio. Levantava bem cedo. Assim. nadava. fazia ginástica até se cansar. para não dar de cara com o pai. ele me resumiu rapidamente um tempo de muita agitação. almoçava correndo. pescava ou jogava sinuca na Casa Verde. E. De tarde. Passava quase que o dia inteiro na rua.20 E assim minha vida caiu num buraco sem fundo. como se não gostasse de se lembrar nem um pouco daquilo tudo. Seu Otávio tinha voltado a viajar. Toninho me disse isso dando um fundo suspiro.

Por isso. passou a ser expulso de t udo quanto é baile. E só namorava 39 . porque eles eram muitos. E as coisas de que gostava antes. e ele um só. aí que a turma caía na gargalhada. assobiando e vaiando a coitada. depois que ficou conhecido dos vigias. E o tempo fechava. Dona Elvira. Mas. Apanhou mais do que bateu. "Se você é assim quando verde. E não era nada difícil que isso acontecesse. à toa com as pessoas na rua. falando bobagens desse tipo: "Oi.passagem. "Me dá o telefone do seu cachorrinho?". mas isso acontecia raramente. De vez em quando. beber cerveja nos botecos noite adentro. Era só ele aparecer no salão. Mas o que parecia diverti-los mesmo era mexer com as garotas. para a alegria do Toninho. ele e a turma costumavam fazer as brincadeiras mais estú pidas com quem passasse. Chegou então à conclusão de que não dava para ficar brigando com o mundo. e nada no mundo parecia interessá -lo. vivia recolhida. Mas até com essa espécie de prazer ele teve de parar. Mesmo assim. Sua fama de desordeiro acabou se espalhando. jogar sinuca. Toninho começou a pular o muro do clube. Não respeitavam nem as pessoas mais velhas. a mãe lhe arrumava uns trocados. E essas brincad eiras de cafajeste eram as únicas que divertiam Toninho. Ele vivia fechado em si. No jardim. Um dia. era só para arrumar encrenca. gostosinha". Voltou pra casa com o olho roxo e a roupa rasgada. Não havia jeito de conseguir dinheiro. como dançar ou namorar. Sempre havia um cara de coragem que resolvia enfrentá-lo. como será quando madura?" Quando a garota era tímida e às vezes chorava. Mexia à toa. E nada de escândalo". Ele tinha ficado uma pessoa invocada à beca. pelo hábito que havia adquirido de comer de cabeça baixa. Muitas garotas pas saram a ter vergonha de sair com ele. Se ia a um baile. por isso mesmo. Mas Toninho nem reparava nisso direito. resolveu encarar os vigias. Seu Otávio estava realmente obcecado em levar adiante o próprio negócio. e o dinheiro era cada vez mais raro na casa. E metia a mão sem dó em quem tivesse peito de reclamar. tinham perdido todo o interesse para ele. Toninho gostava mesmo era de sair com a turma. e já tinha alguém do seu lado: "Vamos saindo. conseguia namorar. triste.

Toninho fazia questão de tratá-las mal. 40 .aquelas garotas parecidas com ele. Aquelas garotas que não queriam nada com nada e que não tinham amor-próprio. e não tinha o menor respeito por elas.

Claro que me desforrei! Com juros e correção monetária. você não se desforrou dele? ² Puxa vida. O Toninho deu uma risada e levantou -se para pegar mais cerveja. E só estava esperando a hora certa pra dar o bote. eu não queria só descontar a surra que tinha levado. Queria descontar também a humilhação por que havia passado. eu ia me esquecendo do Clovis. eu estava mesmo no fundo do poço. 41 . sentou-se e recomeçou a contar a história: Mas. ² O Clovis? Que que tem o Clovis? ² Ué.21 ² Como você pode ver ² continuou o Toninho ². toda minha frustra ção. Eu tinha projetado naquele cara toda minha revolta. Quando ele voltou com a garrafa. como lhe dizia. ² E o Clovis? ² perguntei.

Dei-lhe as costas e fui caminhando. O Clóvis então resolveu engrossar pra ver se eu afinava: ²Parece que você gostou mesmo de apanhar. na aula de ginástica. mas termi nou pulando na minha frente. Não tive dúvida e dei-lhe um tapa na cara. o covarde saía de fininho. pulei pra cima dele e imobilizei-o com uma gravata. por milagre. tá fugindo. Dei a volta no colégio e pe guei-o em flagrante pulando o muro dos fundos. Numa jogada banal. Hesitou um pouco. Se eu entrava num bar onde o Clovis bebia uma Coca. meu? O Clóvis quase caiu de cima do muro. lá na pracinha. ficamos em times diferentes. Surpreso. ele pouco aparecia no pátio. Se n ão se mandar logo. Quando chegamos na pracinha. Fomos expulsos da aula e suspensos pela diretora. esperei em vão pelo Clovis. Eu queria mesmo era meter a mão nele na frente de todo mundo. Pus a mão no peito dele e dei-lhe um empurrão. Quando uma pessoa quer meter a mão na outra. O Clóvis não perdeu tempo e me deu um pontapé na costela. Na escola. 42 . O Clovis reagiu com uma cotovelada. te arrebento de novo. Em seguida. ² É pra já! ² Não aqui ² eu disse ². Mas logo desconfiei que ele estava me evitando.Comecei então a caçá-lo. antes que me virasse. entrei com tudo nele. eu escutava o Cl óvis gritando: ²Seu lazarento! Pensou que podia comigo? Tentei me levantar e levei outro murro. evitei um pontapé que teria acabado comigo. Sem perder tempo. Percebi que ele estava af inando. tropecei e ca í. Na saída. agarrei-lhe a perna e joguei-o no chão. Enquanto o sangue me enchia a boca. logo. Até que um dia. e outro pontapé me pegou na cara. ²Como é. ²O que é que foi? Quem é que está fugindo? Cruzei os braços no peito e o encarei. Ap roveitei o descuido do Clóvis. Rolei na grama. ² Quero ver você me arrebentar. ele me acertou um murro na nuca. e não fica com conversa mole. vai logo metendo a mão.

Não deixei que ele fugisse. e só meus braços é que agiam. Prendi o entre minhas pernas e comecei a socá-lo. tirei o bra ço do seu pescoço e acertei-lhe um murro na cara. Mas tinha a cabe ça do Clóvis presa numa gravata. O Clóvis deu um berro e rolou na grama. depois de ter sofrido os maiores estragos. Não via nada em minha frente. Agora que nada mais havia pra desfor rar. Quando percebi que havia chegado a hora. Sentia as costelas doendo e ainda estava zonzo daquele soco na nuca. Só fui parar quando me cansei. O que eu tinha ganho batendo no Clóvis daquele jeito? Era como se o ódio que sentia por ele me ajudasse a suportar a vida. Deitado de costas na cama.A briga ainda não estava decidida. Voltei pra casa com a alma lavada. senti um vazio dentro de mim. Mas essa euforia logo passou. Eu havia me transformado numa máquina cega de bater. Agora eu levava uma pequena vantagem. 43 . O Clóvis estava grogue e nem com a ajuda dos colegas conseguia ficar de p é. eu estava triste. e só esperava o momento em que ele per desse o fôlego.

voltei a namorar a Neuza. Fazer o quê? Eu não tinha a menor vontade de voltar a namorar aquela garota. Tenho umas coisas pra fazer. você acabou com aquele cara. ² Que mentira. ² Puxa vida. ² Não sei. a Neuza perguntou se eu não queria tomar um sorvete. No fim das contas. ² É verdade que ele tinha batido em você antes? ² Bateu. Talvez porque não tivesse nada pra fazer. Parece que quebrou o nariz. Ela é que veio me procurar no quintal de casa. hein? Não respondi e continuei a le vantar e abaixar os halteres.. mas voltei assim mesmo. ² Você sabia que machucou ele de verdade? ² Era mesmo pra machucar.22 Logo depois da briga com o Clóvis. Dei de ombros. quando eu fazia levanta mento de peso. Esse pelo menos era carta fora do baralho. mas levou o troco. A única coisa que 44 .. ² O Clóvis teve que ir pro hospital.

² Você está pensando na Amanda! 45 . não sentia nada por ela. ninguém falou de outra coisa na escola. porque. Eu não sentia a menor vontade de dizer que a amava. A compensação praquele namoro é que a Neuza tinha encorpado e estava realmente bonita. ² Seu estúpido! Custa dizer que me ama? ² Não estou com vontade. na verdade. Na turma do Tuta. Talvez por um efeito de inércia. ela tinha um corpo muito bem -feito. eu a tratava sem consideração alguma. tivemos uma discussão muito séria por causa disso. fazia programa com outras meninas. deixava-a falando sozinha e ia jogar sinuca. Às vezes. o Clóvis era quem ditava as regras. ela estava mesmo ali do lado. Os sorvetes dela e as minhas cervejas. Um pouco antes de entrar no bar. Se eu quisesse. deixei tudo como estava. olhava pras garotas. de cabelos compridos. dava até pra tomar o lugar do Tuta. ² Fica quieta. a Neuza dizia pra mim: ² Você me ama? Diga que me ama. A Neuza ficou de pé. ao lado do poste com a lâmpada quebrada. Eu podia ter a garota que quisesse.mudou foi que a Neuza estava apaixonada por mim. Eu continuava duro como sempre. por isso mesmo. a Neuza enfiava o dinheiro em meu bolso e dizia com malícia: ² Me paga um sorvete. Mas no outro dia estava lá em casa. tremendo de raiva. Afinal. Ninguém tinha coragem de me encarar. fala que me ama ² uma hora ela me disse. Mas. quem pagava era sempre ela. Os efeitos da briga com o Clóvis haviam sido muito grandes. A única coisa que me dava prazer era ficar com ela na parte mais escura do jardim. Quando achava que ela estava perturbando muito. Gostava de beijá -la. passaram a me tratar com muito mais consideração. A Neuza chorava. ² Anda. me convidando pra sair. amor? Nosso amor então se restringia aos beijos e abraços no velho banco. Você fala demais. Neuza. E nem sabia por que tinha voltado com a Neuza. eu era o rei incontestável. jurava nunca mais me ver. Às vezes. Morena. Agora. A Neuza nem mais se importava de não ir ao cinema e aos bailes. de sentir seu corpo junto ao meu e só. Durante aque le mês. como isso não fosse coisa que interessasse. Um dia. esperneava. Na cara dela. De chamar a atenção de qualquer um. Antes da briga. Mas.

A Neuza começou a chorar. pensando em quando é que iria me encontrar com a Amanda. ² Trouxa é você. ela saiu correndo e me dei xou ali sozinho.² Que Amanda o quê! Deixa de ser trouxa e senta aí. Senta aí e pára de encher. 46 . Dei de ombros e deitei de costas no banco. ² A Cleide é uma imbecil. De repente. seu nojento! A Cleide me disse que viu você con versando com ela.

Era a polícia. tropecei numa raiz e caí. fomos à pracinha. Pois é. tudo continuava na mesma. Do boteco. Por isso. e não sei quem teve a infeliz idéia de praticar tiro ao alvo nas lâmpadas. e mamãe vivia triste pelos cantos. seu vagabundo! 47 . Quando já havíamos quebrado algumas delas. Mas minhas relações com papai chegaram a um ponto insuportável no dia em que fui pra cadeia. Quando tentei me erguer. Pra você ver até que ponto cheguei. Cada um correu prum lado. ² ² Você foi pra cadeia? ² perguntei. saí com a turma e fomos beber no bar do Carioca. O Toninho me serviu um pouco mais de cerveja e continuou: Uma noite. ² Levanta daí. O dinheiro andava curto como sempre. eu não conversava com papai. me derrubaram com uma cacetada nas costas. Eu estava mais bêbado que os outros. E tudo por ter bancado o cafajeste. ouvimos um apito.23 Em casa.

48 . Papai abaixou-se pra ler o documento. ² Espera aí! Que prejuízos são esses? ² As lâmpadas que ele quebrou. de cabeça baixa. ² Infelizmente.Me levantei. Na delegacia. não podemos fazer isso. o delegado começou a gritar comigo: ² Moleque safado! Sem-vergonha! E eu ali quieto. ² Mas ele fez tudo isso sozinho? ² Os outros fugiram. pode deixar que em casa eu vejo se ele não conta. Não vi quem era ² disse com o maior cinismo. Continuei calado. ² É que estava escuro. O guarda que estava atrás de mim se invocou e me deu um safanão. papai apareceu na delegacia. desembucha logo. ² Quem mais estava com você? ² Ninguém. Claro que estava escuro! Vocês quebraram as lâmpadas. o delegado disse: ² Pena que você seja menor. iria ver o que é bom pra tosse. ² Como não quer contar? Desce o cacete nele. Se fosse maior de idade. ² Leva ele pra outra sala e deixa de pé num canto. ² Não escutou o doutor? Vê se entrega os outros. Tarde da noite. ² O senhor vai ter que assinar este termo de responsabilidade. poderá levá -lo. Como não me dispunha a falar. depois de ouvir o que eu tinha feito. e os guardas me empurraram até a perua da polícia. ² Como ninguém? ² O delegado socou a mesa com raiva. Vamos. e ele não quer contar quem foi. ² É esse aí o seu filho? Sem ao menos olhar pra mim. ² Mas antes o senhor assina o termo de responsabilidade e paga os prejuízos. ² É do tipo durão ² disse o delegado. ² Então. quando eu não me agüentava mais de cansaço com a cara enfiada na parede. ele disse com raiva: ² Ele mesmo. Depois disso.

disse com a voz cheia de ódio: ² Não quero levá-lo agora. ² O senhor é que sabe. martirizado por uma ter rível dor de cabeça. Um guarda me acordou com pontapés. Uma hora acho que adormeci e caí no chão. Que noite horrível. Fui pra ca sa.Papai apertou a caneta en tre os dedos com tanta força que chegou a quebrá-la. Tive cãibras. 49 . Voltei à mesma posição. não sem antes ouvir a maior bronca do delegado. e eu continuei ali de pé. de ficar na mesma posição horas a fio. Fazia frio. Quero que passe a noite aqui. Só fui libertado pela manhã. Papai saiu pisando duro. e minhas pernas doíam. Depois.

Como eu desconfiava. Ainda mais depois da noite que havia passado na delegacia. depois. ele estava me esperando na sala com a cinta na mão. Eu só me defendia. atirei a cinta pela janela. não adiantava nada adiar o problema. ele me acertou um murro. na segunda. E se fosse pra casa de um amigo? Mas quem me receberia em casa? E. Não sei por que. Mas.24 Pensei duas vezes antes de entrar em casa. O melhor era enfrentar papai o quanto antes. Agarrei-lhe os braços e 50 . Em resposta. Alguma coisa me impedia que batesse nele. puxei com mais força e tomei dele. não arredei pé quando papai me deu a primeira cintada. Não estava disposto a apanhar nem a ouvir sermão. Uma hora. Por isso. porém. branco de raiva. movi rapidamente o braço e agarrei a cinta. Papai perdeu de vez o contro le e veio com tudo pra cima de mim. ² Seu moleque! ² ele gritou. Queria era um café bem forte e uma boa cama. Papai puxou-a. mas eu estava calmo. ² Me dá essa cinta! ² berrou papai.

De repente. papai! O senhor. nunca mais vai encostar a mão em mim. pensei.empurrei-o pra longe. 51 . enquanto mamãe vinha correndo com um copo d'água. Mas eu estava exausto. Agarrei-lhe de novo os pulsos com força. A partir daí. Empurrei -o então com toda força. papai passou a me ign orar de vez. Só mamãe conversava comigo. tor ci-lhe um pouco o braço e disse: ² Esquece. Ao ouvir aquilo. E. tendo razão ou não tendo. ficou pálido. Deitei e dormi até a noite. começou a suar e a respirar fundo. pôs a mão no coração e gritou por mamãe: ² Elvira! Seu filho quis me matar! "Que exagero". Mas papai não desistia: veio pra cima de mim outra vez. De lá escutei papai e mamãe discutindo. e ele caiu sentado no sofá. papai tentou resistir. Quando tentou se erguer e não conseguiu. Mas de um jeito tão triste que eu preferia que também ela me esquecesse. fui pro meu quarto.

. Toda tarde.25 ² Foi uma época de loucura quase completa ² disse o Toninho. Que prazer podia sentir tornando -se uma montanha de músculos? Nenhum. apesar dos cuidados da mãe. a mãe olhava com a cara muito triste. 52 . Era como se um monstro existisse dentro dele. Aquele olhar triste da mãe o deixava absolutamente indiferente. Toninho passava quase que o dia inteiro na sinuca. se alguém lhe perguntasse se era feliz. enquanto crescia como um monstro. Seu quarto. uma pessoa que possa ouvi -lo? Eu me sentia como um barco desgovernado. lá estava ele no quintal. começou a mexer na bolsa de Dona Elvira. Mas. E novamente. balançando a cabeça. não era feliz.. levantando os halteres.. para esquecer de vez o que ia em sua cabeça. ² Você já não fumava antes? ² Um pouquinho só. a resposta não seria difícil. mas depois era como se fosse à coisa mais natural do mundo. De inicio ainda sentia um pouco de remorso. sem rumo. Isso tudo porque sua vida se havia transfor mado numa coisa sem sentido.. na hora da janta. Na escola. ² Sabe quando você está perdido. como se tivesse vergonha de contar tudo aquilo. Vou te confessar uma coisa: sabe que che guei até a experimentar maconha? ² E onde arranjava dinheiro pra isso? ² Se eu te contasse tudo o que fiz pra arranjar dinheiro. Pensar que tive coragem de roubar mamãe. nem mais assistia às aulas. A única coisa de que não se descuidava era a ginástica. Parecia que o Toninho só se interessava em desenvolver o corpo. em compensação. e não sabe o que fazer? Sem um amigo de verdade. Toninho havia se tornado um vaga bundo. As vezes. obrigando -o a fazer as piores coisas. foi reprovado no final do ano. de onde só voltava de madrugada. Toninho rapidamente resumiu aqueles mese s de loucura.. Comecei a beber como nunca. Não. a fumar. Como não poderia deixar de ser.. pare cia um chiqueiro. Mas. Estava sempre brigando. Para poder comprar bebida e mesmo a droga. Mas Toninho havia perdido todo o respeito pelo próxi mo.

Mas ela não tinha coragem de dizer que o amava. ² E foi nessa época de maior loucura.esquecia-se de que tinha uma cabeça.. era só para dar prazer ao corpo e esquecer que existia. e Toninho ficava triste. Sentia -se sozinho no meio daquela gente com quem não tinha nada em comum. As águas brilhavam sob o clarão da lua. Uma pessoa que estava quase pedindo pelo amor de Deus que o entendessem e o amassem. fumava. ² Regina? Que Regina? ² Você logo vai saber quem é a Regina. por fora era o mais feliz dos garotos da escola. encher a cara. Bater nas pessoas. sempre agarrada nele e insistindo: "Você me ama? Diga que me ama". E. Dona Elvira. Assim. Toninho vivia usando uma máscara que escondia seu verdadeiro eu. dis so ele tinha certeza. achava -se um perfeito imbecil. Se bebia. pelo contrário. se por dentro ele sofria. reparei que em seus olhos havia um brilho dife rente. mexer com as garotas. brigava. O Toninho encheu novamente os copos de cerveja. Quanto à Neuza. um cérebro. esquecia -se de que tinha um filho. mas não via nada que o levasse a mudar de vida. só tinham em comum a imbecilidade. porque er a assim que as pessoas queriam. apesar de tudo. O Toninho disse isso e voltou os olhos para o lado da represa. O pai. O que isso valia? Toninho tinha a respos ta na ponta da língua.. de maior sofrimento. Mesmo sua voz parecia ter mudado. gostava dele. fazer cafajestada. Toninho tinha certeza de que não a amava.. a brutalidade. deixava de pensar no quanto era infeliz.. Fi camos longo tempo calados. como não via nada em si. Não via nada nela. não passava de uma tonta. Sabia que o respeito que provocava nos outros era uma coisa sim plesmente ridícula. Por dentro. Ou melhor. que conheci a Regina. Mas era só parar um pouquinho para pensar. Toninho me confessou que vivia completamente infeliz. Quando ele voltou a falar comigo. Estava sempre rindo como um bobo alegre. 53 . e a brisa perfumada chegava até nós em suaves lufadas.

Talvez por isso mesmo mexeu comigo.²A Regina era bem diferente das garotas que conhecia. mudou toda minha vida e me ajudou a enxergar quem eu era de verdade. 54 .

A dona Cleide ficou doida e me 55 .26 A Regina apareceu na escola logo depois das férias. tão delicada. não tinha coragem de chegar nela. Uma coisa indefinível que havia em seu olhar. A Regina positivamente não era desse tipo. Eu. A turma morreu de rir. olhando. Havia qualquer coisa na Regina que me atraía. que me fazia ficar de longe. pálida. Logo de cara.. só olhando. É magrinha. Um dia. Mas se eu olhava muito pra Regina. mas a Regina. Talvez porque fosse diferente. só olhando.. caprichei numas piadi nhas na aula de história. Era como se eu não existisse.. Um dia. ² Você já viu aqueles cachorros magros diante de uma máquina de assar frango? ² me perguntou o Toninho. como era costume no Presidente Kennedy. tinha os cabelos pretíssimos e os olhos azuis. e ele concluiu: ² Pois é. olhando. Então. Mas assim mesmo me causou uma impressão muito forte. mas gostei dela logo à primeira vista. Comecei a rir. Muito tímida. etc. achava aquilo um absurdo. branquela. que estava acostumado a ter a garota que quisesse. Ela era magra. "gostosa". Os colegas não entendiam por que eu olhava tanto pra ela. As garotas não gostavam de minhas piadas na classe? Era tiro e queda. Eram as do tipo que as pes soas costumam classificar como "boazuda". eu era como um cachorro magro. em seu jeito de ser. resolvi acabar com a situação. foi ganhando ape lido: Copo de Leite. A Neuza é que é mulher. E o pior de tudo é que ela não me dava bola nenhuma. "avião". o Macedo chegou mesmo a me dizer: ² Não sei o que você vê nessa garota. As garotas com quem costumava sair eram o oposto da Regina. ela dava a impres são de ser frágil como uma flor... A Regina tinha alguma coisa que me inibia.. Não sei por que. Branca de Neve. nada. Talvez porque fosse tão frágil.

me espiando co m aqueles olhos azuis. Que vontade de dizer que palhaço era o pai dela. E era sempre assim: quando a gente se encontrava. Mas a Regina ficou séria. Aquela resposta atravessada me irritou. E o despeito cresceu dentro de mim. Olhei pra Regina. Mas era tarde pra recuar. ainda fiz a última gracinha: juntei os calcanhares. inclinei-me e disse: ² Às suas ordens. apesar de eu ser o único que olhava pra ela com tanta insistência. isto é. Fui em frente: ² Por que você não ri das minhas piadas? ² Porque não acho graça. Ela simplesmente me deu as costas e foi embora. consegui fugir da Neuza e fiquei esperando a Regina na praci nha. todo mundo riu. Todo mundo riu. Resolvi caprichar. madame. contando a melhor de todas. Quem era ela pra não achar graça nas minhas piadas? Foi o que lhe disse. no recreio. Como se fosse um colega qualquer. Na saída da escola.. Quando ela passou por mim.. Só aí reparei que tinha sido grosseiro.mandou pra fora. Na porta. Mas a única coisa que consegui dizer foi outra forma de insulto: ² Sua magrela! 56 . perguntei: ² Qual a sua. Outra vez. Ela estava séria. Mas o que me deixou furioso foi que seus olhos pareciam dizer: "Como você pode sertão bobo? Não tem vergonha de bancar o palhaço?". Regina? ² Qual a minha o quê? Ela me olhava assustada. entrei numa rodinha e comecei a contar piadas. Como de costume. Minhas orelhas ficaram ardendo. E acho também que você já não está mais na idade de bancar o palhaço. a Regina não me dava a menor atenção. ² Vocês conhecem aquela do. resolvi chegar nela de vez. Até que resolvi dar o bote. A Regina me encarou da quele seu jeito sério e disse: ² Pois não acho graça mesmo.

Mas. sua branquela! Tá cheio de mulher no mundo! 57 . gritei a plenos pulmões: ² Vai te catar. não podendo mais me conter. Que raiva senti da Regina por ter me submetido a tanta humilhação. O que eu era senão um verdadeiro palhaço? O ódio cresceu dentro de mim e. ela me deu as costas e foi subindo a ladeira.Sem dizer nada. o que me doía era saber que ela tinha razão. no fundo.

Pra me enganar. quando estava com a Neuza. às vezes nossos olhos se cruzavam. me acostumei a segui-la disfarçadamente. A Regina nem olhava pra mim. Na verdade. me surpreendia escrevendo o nome dela na carteira. por culpa da Regina. eu era o pior aluno da classe.27 Mas a Regina não me saiu mais da cabeça. a Regina baixava a cabe ça ou me dava as costas. Não foi difícil chegar à conclusão de que realmente amava a Regina. ficava pensando na Regina. enfiei na cabeça que realmente amava a Neuza. Na escola. Eu mantinha o olhar. E. Mais um motivo pra me afastar dela: positiva mente. Olhando. todos os dias depois da aula. Mas. um dia. ² Fala de novo. A Regina não era cuidadosa só com as roseiras. co mo se a Regina fosse um ser de outro planeta. deixei de matar aula. Descobri que ela morava com a mãe numa velha casa que tinha um jardim cheio de roseiras. Tentei então afastá-la do pensamento. amor. A garota ficou assustadíssima quando. mesmo sabendo disso. Outras vezes. quando me surpreendia olhando pra ela. uma coisa curiosa começou a acontecer comigo. Quantas e quantas vezes não a surpreendi ocu pada em revolver a terra. Também na escola se mostrou ótima aluna. Às vezes. como sabia que ela não gostava das minhas piadas. Mesmo assim. em arrancar as ervas daninhas. Pra poder vê-la. Não sentia vontade nenhuma de repetir uma coisa que era puro fin gimento. Neuza. estava distraído na classe. Fala de no vo que me ama. 58 . Descobri também que ela tinha o maior xodó com as rosas. olhando. eu era infeliz porque não acreditava que pu desse chegar nela. lhe disse: ² Te amo. definitivamente deixei de fazer bagunça na classe. Mas.

eu estava perto dela.Isso tudo. caiu no chão. Como de costume. no recreio. 28 Um dia. Toninho. E a quase certeza de que jamais teria a Regina me doía tão fundo que. uma coisa impossível de ser alcançada. me surpreendia odiando -a. por dentro. Quando a Regina caiu. ficava rodeando. de repente. Pra que que você vai precisar dessa branquela?". A indiferença dela me deixava tão furioso que. Desde que havia descoberto que a amava. sem mais nem essa. prometia pra mim mesmo. quase que implorando um sorriso. Rê? ² Rê! Pelo amor de Deus! Fala com a gente. suas amigas começaram a gritar: ² Que que foi. 59 . Até que aconteceu um incidente que me fez aproximar da Regina. a Regina conversava com umas colegas.. a xin gava e jurava nunca mais voltar a olhá-la na cara. porém. às vezes. não fez com que a Regina me desse a mínima atenção.. Mas eu precisava dela. Talvez porque ela fosse inacessível. mas precisava da Regina como nunca. quando. a garota mais bonita da escola. olhando pra ela. Eu já era até motivo de go zação dos colegas. Não sabia por que. Como se ela fosse a responsável por todo o sofrimento que havia em meu coração. "Você tem a Neuza.

mas o doutor está atendendo. doutor. ficou assustada e perguntou: ² O que é isso?! ² Ela está passando mal ² dissemos todos juntos. ² ² Não dá pra atendê-la aqui ² ele disse.²Vocês estão doidas. Ela desmaiou na escola. Felizmente. Mas eu também não sabia o que fazer. Enquanto isso. ² Sinto muito. Passei por eles sem responder nada. que vou pegar minha bolsa. A caminho do hospital. Sempre seguido pelos colegas. pegando o telefone. ² Acho que eu tinha saído. ² O que que ela tem? ² perguntei. Desmaiou na escola ²expliquei. Mesmo assim peguei-a no colo e comecei a andar.. Subi a ladeira cor rendo até a casa dela. os colegas me ce rcaram pra perguntar sobre a Regina. a mãe da Regina. Lembrei então que em frente à pracinha havia um consultório médico. Em seguida. ² Mas o que está acontecendo? ² ele perguntou. que se chamava dona Berta. Dona Berta hesitou um pouco e disse: 60 . Meu coração batia disparado quando apertei a cam painha. . Tentamos ligar pra se nhora.. ² Chamar aquele molóide? ² eu disse. em vão. mediu-lhe o pulso e tentou. ² Pois não? ² disse a mãe dela.. o doutor Pompeu não perdeu tempo e me pediu que co locasse a Regina na maça. Como queriam que a Regina falasse. você poderia avisar a fa mília dela? O doutor Pompeu deu uns telefonemas e depois me disse: Quando saí do consultório.Fiquei irritado com aquelas tontas. Empurrei -a e entrei com a Regina na sala do doutor Pompeu. me contou que era a segunda vez que isso ac ontecia naquele ano. Vou levá-la pro hospital. se ela estava desmaiada? ² É melhor chamar o seu Salvador ² alguém sugeriu. Espere um pouquinho. ² Ela está passando mal. ² Onde ela está agora? ² O doutor Pompeu levou ela pro hospital. ² A Regina. reanimá-la com um pouco de éter. assustado. passei pelo portão da escola e fui até lá carregando a Regina. Quando a secretária viu aquela gente t oda.. Não esperei que ela terminasse de falar..

. fiquei na sala de espera. Apareça em casa.² Bem. Estava morrendo de fome. ² Até amanhã. ² O doutor Pompeu deu-lhe umas injeções²me disse dona Berta. 61 . No hospital. Levantei da cadeira e disse: ² Bem. E justo pra alguém que tinha na mais alta conta. ² Felizmente. Só no final da tarde é que recebi as primeiras notícias da Regina. ela agora está dormindo. Acho que a Regi na gostaria de lhe agradecer. ² Então. Pela primeira vez em minha vida. não sei direito. Ela ainda precisa fazer uma série de exames. então até amanhã. até amanhã. havia feito alguma coisa de cente. mas a senhora pode me chamar de Toninho. mas por nada deste mundo arredaria o pé dali.. sentia orgulho de mim mesmo.. ² Quando que ela sai do hospital? ² Terá alta amanhã.. Como é mesmo que você se chama? ² Antônio Carlos. Afinal. Toninho.

No dia seguinte. Ao mesmo tempo. Afinal. só pensando como seria o encontro com a Regina. O pior de tudo foi agüentar os colegas que queriam saber da Regina: ² O que aconteceu com ela? ² A Regina está melhor? Até mesmo cheguei a desestimular umas garotas que queriam visitá-la: 62 . eu é que a tinha levado ao mé dico.29 Naquele dia. Fiquei rolando na cama. E se ela se recusasse a me ver? Não. fiquei preocupado. voltei pra casa feliz. mal consegui dormir. À noite. ela não faria uma coisa dessas. não via a hora de vê-la.

saí correndo pra casa.² Acho que não pode. fiquei contente de saber que tinha sido você. Ao contrário do que fazia. deixei papai bufando ali na mesa e saí correndo pra casa. ² Você tem visita. tomei coragem e apertei a campainha. Embora a gente não conversasse. Que bom que você veio. Toninho? ² disse dona Berta. ele não perdia oportunidade pra me provocar. Antes. ² Você está melhor? ² afinal. sem saber o que falar. tomei banho. perguntei.. se antes eu não lhe dava bola. Foi preciso dona Berta pegar uma cadeira e pedir que eu sen tasse perto da Regina.da Regina. Escutei o doutor Pompeu dizer que a Regina precisa de muito repouso. 63 . Ela estava deitada numa cama perto da janela. Fiquei parado na entrada do quarto. A seu lado. Papai ficou louco: ² Esta casa não é pensão! Quem que você está pensando que é? O presidente da República? Sem comer a sobremesa. havia uma mesinha cheia de re médios. Mas. Por fim. ² Muito obrigada por ter me levado ao m édico. A Regina então pegou minha mão. Aliás. como se tivesse sido picado por uma cobra. Quando deu o sinal. me arrumei. ² Mas foi você que fez. Mas no caminho parei de correr e fiquei pensando se teria mesmo coragem de aparecer na frente dela. Acompanhei dona Berta até o quarto da Regina. Regina ² disse dona Berta. Foi o bastante pra deixar papai irritado. abrindo a porta. ² Oi. Ela deu um suspiro e disse: ² Um pouquinho. não fui logo almoçar. agora então é que não iria ouvi -lo mesmo. mas me sinto ainda muito fraca. Qualquer pessoa teria feito o mesmo. ² Não foi nada. Levei um susto. Como era possível que ela me inibisse tanto? Mas era verdade: a Regina me inibia de tal maneira que fiquei um temp ão parado em frente da casa dela. Comi com a cara enfiada no prato. ² Como vai. que nem um bobo.. Toninho. ² A Regina está esperando você. sem me animar a entrar.

ainda disse: ² Vê se come tudo. Lá pelas quatro horas... Mas não consigo comer. ² Você não comeu nada.. bacon. ² Vai. passa o sanduíche aqui. salada. eu faria isso na hora. desanimada. ² Não estou mesmo com fome ² ela disse. mamãe não dá bron ca em mim. Dona Berta. Quan do deu a primeira dentada. se você não comer. O que você quiser. Eu nunca tinha visto um sanduíche daqueles.. De repente. ² Bem. come também o meu sanduíche. é pecado... você promete que faz? ² Claro. Ela sorriu e me perguntou: ² Toninho. hein? A Regina suspirou e ficou olhando sem vontade pro sanduíche.. E não faria? Mesmo que ela pedisse pra me atirar da janela. ² Mas. comer outra vez. ² Está uma delícia. ² Está bem. ² Hora do lanche.. ² Mas é você que precisa comer. Sabe quando a gen te vive um instante de tanta felicidade que n ão presta nenhuma atenção no que faz ou no que diz? Pois bem. dona Berta veio com uma bandeja de san duíches e uma jarra de suco de laranja. parei de comer e notei que a Regina não tirava os olhos de mim. queijo. antes de sair. eu já estava na metade do meu. 64 . Regina. mamãe. foi o que a conteceu naquela tarde. ² eu disse.Meu coração saltou de alegria. não me lembro direito sobre o que falamos... com presunto. se eu te pedir um favor. ovo. ² Não tem mas nem meio mas. ² Deve estar. E mamãe fica tão brava quando não como. Assim. Depois. jogo tudo fora. sem graça. Os pormenores daquela conversa desapareceram da minha memória. Aí. O doutor Pompeu disse que você precisa se alimentar. Não podia acreditar que a Regina tivesse dito aquilo. ² Não estou com fome.

balançou a cabeça e saiu do quarto. ² Quis ajudar você. também comecei a rir. A Regina começou a rir. ² De nada. Mas. começamos a falar da escola. A Re gina olhou pra mim. o que está acontecendo aqui? ² perguntou dona Berta. Como não soubesse por que ela ria. ² Gosto de ver você comendo. Regina. A Regina pegou novamente em min ha mão e disse: ² Pelo amor de Deus. Pa recia que estava sempre com fome. Como já contei. Toninho.. mamãe. Regina.Pra falar a verdade. Riu tanto que engasgou e teve um acesso d e tosse. ² Acho que engoliu a dentadura.. ² Precisa tomar cuidado. Nem acredito. pára. mamãe . ² Ainda bem que comeu todo o sanduíche. Depois. a gente não tinha pesquisa de história pra quinta? E eu me lembrava da pesquisa? ² E a prova de matemática na sexta? A Regina fez uma cara de aborrecimento e comentou: 65 . de súbito. não tive a menor dificuldade em comer o outro sanduíche. Regina deu uma gargalhada e disse: ² Sabe que a senhora tem toda a razão. Onde se viu engasgar com san duíche? Regina me fez um sinal com os olhos e deu mais uma risada. Regina? Ela não parava de rir. Dona Berta abriu a porta do quarto e perguntou: ² Que que aconteceu. ela ficou séria e perguntou: ² Puxa vida. ssssssss? ² ela perguntou. ² Não sei o que está achando engraçado. A Regina me olhava de um jeito divertido. naquela época eu comia como um cavalo. Acho que a presença do Toninho aqui fez um milagre. Já estou chorando de tanto rir. eu olhei pra ela. A Regina quase morreu de rir quando imitei o professor de português. mamãe? Dona Berta franziu atesta. Rimos tanto que f icamos cansados. ² Ora. ² Por que ele fica fazendo aquele barulhinho. ² Engasguei com o sanduíche. Parece boba .

² Ué. posso copiar a matéria pra você... você já não está boa? ² Estou bem melhor. 66 . Mas o doutor Pompeu acha que devo ficar mais uns dias de repouso. Toninho. Regina... A partir de amanhã.²Vou perder todas essas aulas.. ²Você é mesmo um amor.. ² Se quiser. ² Que bom! Você jura que faz isso pra mim? ² Claro.

Me transformei num outro Toninho. Quando a aula acabou. além de agüentar gozação dos colegas. não sabia o que era prestar atenção numa aula. Como tivesse me acostumado a sentar no fundo. Voltei pro qua rto e comecei a passá-los a limpo. Logo vi como era difícil acompanhar uma aula de português. Eu não entendia nada daquilo de oraç ão subjetiva. minha mão doía de tanto escrever... mas eu havia prometido que só levantaria da cadeira quando terminasse tudo. ten tando entender. o rei da bagunça sentadinho aqui na frente. oração objetiva. Me dava uma vontade de desistir daquela joça e de partir pra bagunça. Depois. os olhos grudados na lousa. Mesmo assim. Mas não pense que foi assim tão fácil. ora. É que me lembrei de que não poderia mostrar meus cadernos daquele jeito pra Regina. Mas continuei firme. Ainda mais depois de tanto tempo sem estudar. em que o professor explicou uma coisa complicada de seno e cosseno. Meu estômago roncava de fome. que se sentava na primeira carteira e q ue não tirava os olhos da lousa. Qual é a do príncipe agora? ²escutei papai resmungando na sala. Mesmo assim. copiando tudo que o mestre escre via na lousa. Fingi que não era comigo e abri o caderno. estava cansadíssimo. que nem um maluco..30 E assim mudei radicalmente minha vida. Quando deram o sinal.. não me sentei logo pra comer. prestei a maior atenção. ainda tive de escutar umas do professor Aristides: ² Ora. que não perdia mais aulas. Nunca havia assistido às aulas com tanta concentração. Parece que está estudando. De vez em quando. 67 . ouvia uma piadinha vinda do fundão. veio a aula de matemática. Sem contar que. E eu ali. Voltei pra casa morto de fome.

Estudando? Aquele vagab undo? Continuei a copiar os pontos de português e matemática. Só fui aca bar lá pelas duas horas. Comi correndo o almoço frio que mamãe havia deixado no forno, escovei os dentes e fui pra casa da Regina. ² Tem ponto novo de matemática ² eu disse, quase sem poder respirar. ² É pra fazer os exercícios das páginas trinta e cinco, trinta e seis, trinta e sete. E de português é pra fazer os exercícios da página vinte e oito. A Regina folheou os cadernos e disse: ² Acho melhor começar pela matemática... Senti um calafrio. Eu havia copiado tudo da lousa, mas não tinha entendido nada daquilo. Olha, Regina, eu... Não podemos perder tempo, Toninho. Você ainda tem que me explicar direito o que o professor deu. Regina... O que foi, Toninho? Olha, pra falar a verdade, nã o entendi nada o que ele explicou. Como não entendeu? Não entendi, ué. Nunca prestei atenção nas aulas. Mas hoje você prestou, não é? Prestei. ² Então, tudo bem. Se você não sabe, eu também não sei. Vamos aprender juntos. Eu, que detestava estudar, recebi aquele convite como a melhor coi sa do mundo. Mas me sentia um verdadeiro burro perto dela. Como a Regina era inteligente! Quando ela me perguntava se tinha entendido, pra não passar vergonha eu dizia que sim, embora não tivesse entendido nada. ² ² Então, resolve este daqui. Toninho! É muito simples: basta olhar a tabela dos cossenos... Ficava vermelho, olhando feito um tonto pro problema. Quando a dona Berta veio com o lanche, minha cabeça estava estourando. Comecei a comer meu sanduíche. E a Regina só me espiando, com aquele

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jeito divertido. Depois, sem falar nada, empurrou o sanduíche dela na minha direção. Voltamos a estudar e liquidamos os problemas num instante. Levan tei pra ir embora, e ela disse, me beijando: ² Amanhã, então, te espero pra estudar as subordinadas...

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Não foi fácil aprender aquelas matérias que tanto odiava. Mas acabei aprendendo. E tudo graças à Regina. Que paciência ela tinha pra me explicar português, matemática... ² Sou burro demais, Regina. Não adianta, q ue não entendo ² eu dizia, desanimado. ² Você não é burro, Toninho. Acontece que ficou muito tempo sem estudar. Era verdade. Há quanto tempo não ficava em cima dos cadernos e livros como agora! A gente passava quase todas as tardes, lado a lado, estudando. E que ciúmes eu sentia quando aparecia uma colega da Regina, perguntando se ela não precisava de alguma coisa. Mas a Regina dizia: ² Obrigada. O Toninho já vem me ajudando. Quando o doutor Pompeu disse que ela precisava ficar mais uns dias de repouso, confesso que fiquei contente. ² Mas... e a escola? ² protestou a Regina. ² Não se incomode com a escola, querida ²disse dona Berta. ² O Toninho pode continuar te ajudando. ² E minhas rosas, mamãe? ² A gente dá um jeito, filha. Contratamos um jardineiro. ² Se você quiser²eu disse ² cuido pra você. ² Jura, Toninho? Você cuida mesmo pra mim? ² Claro, com o maior prazer. No outro dia, lá estava eu com uma pá, um regador, cuidando das rosas da Regina. Eu nunca tinha cuidado de plantas em minha vida. E no começo past ei bastante. Sem contar que sentia a maior vergonha. Já imaginou se algum

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tirando as ervas daninhas? 32 Toninho me contou também que. o que é você sair de um lugar onde as pessoas se respeitam.colega passasse por ali e me visse adubando a terra. sentia-se feliz naquele tempo. se amam. e cair num outro lugar onde ninguém sabe que você existe? Era como me sentia em casa. Sentia-me como um estranho. ² Sabe. embora estivesse preocupado com a saúde da Regina.. 71 . onde as coisas iam mal como sempre.. Mas essa breve felicidade era logo quebrada quando ele tinha que voltar pra casa. Álvaro.

Pra falar a verdade.. ² Bem. acho que nunca conheci uma pessoa tão boa como você. das brigas que aconteciam quase todos os dias. triste.² Tão bom que fui capaz de te dizer umas coisas estúpidas. Até que um dia desabafei com a Regina. eu fiz. Você está distraído. lembrei a ela um de nossos primeiros encontros: ² Aquele dia em que perguntei por que não achava graça em mim... ² Não acredito. ² Que que é isso. Falei sobre o gênio difícil de papai. Ela me explicava não sei o quê. bebeu mais um gole de cerveja e continuou a contar: Evidentemente. 72 .. ² Que coisas estúpidas? Morrendo de vergonha.. esperando que eu começasse a falar. Toninho? O que passou. não.O Toninho deu um suspiro. fico ofendida. Além disso. Contei tudo o que acontecia em casa.. sem esconder um só detalhe. Eu não presto. você estava com a razão quando ficou bravo comigo. Toninho. passou. ² Se você não me contar o que é. Tomei coragem e disse: ² As coisas que estão acontecendo em casa. abri o coração pra Regina.. ² Não fala isso. ² O que está acontecendo em sua casa? ² Sei lá. ² Nada. ² Pois é. Estava a ponto de explodir. E depois eu sou mesmo branquela. Você é uma pessoa tão boa. queria te pedir desculpa. ² Larga de ser mentiroso. Contava ou não contava? A Regina continuava olhando pra mim.. ² Não acredito que você tenha feito isso ² uma hora ela me interrompeu. eu não podia continuar com aquela situação insustentável. Toninho? Por que não está prestando atenção? ² Eu estava prestando. ² Eu?! Você não me conhece. Resumindo. A Regina começou a rir: ² Eu tinha até esquecido. Uma hora. ela me perguntou: ² O que foi.. Tá tudo ruim. e eu distraído do lado... Regina. Te xinguei de "branquela"..

que fazia aquilo só pra aparecer. tão idiota. Mas minha felicidade durou pouco. E tive certeza disso quando. Mas achei que você exagerava um pouco. um idiota. Toninho. ouvia os gritos de papai e o choro de mamãe. quis brigar com os vizinhos e ainda discutiu com mamãe a noite inteira. Você é muito melhor que todos eles juntos. Devo ter feito uma cara tão idiota que a Regina não agüentou e começou a rir.. Às vezes. porque papai chegou bêbado da rua.² Como assim? ² Já que está me pedindo desculpas. Pra minha vergonha. ² Sou um estúpido. também queria te pedir desculpas. Então. Em seguida. voltei pra casa feliz como nunca. me segurava pra não rir. pensando que ela me desprezava! Como tinha podido sertão burro? ² Eu achava que não valia a pena você ficar bancando o palhaço praqueles tontos. te ac hei muito engraçado. De meu quarto. olhei pra você e te achei tão triste. a Regina havia reparado em mim! E eu. um dia.. fez um escândalo na porta. tão e stúpido. ² Essa é sua opinião. 73 . E isso só serviu pra que me sentisse novamente infeliz. Te acho uma pessoa cem por cento. ² Tenho minhas dúvidas ² eu disse. minha casa era mesmo um verdadeiro inferno. ela disse: ² Desde o primeiro dia de aula.. Naquele dia.. Menti quando disse que não via graça em você. Sou feliz de ser sua amiga. Positivamente.

eu tinha acabado de tomar o café quando tocaram a campainha. Abri a porta. e meu coração começou a bater mais depressa. Ao vê-la sorridente ali no portão. Você por aqui? O doutor me deu alta.33 Pela manhã. Era a Regina. Mas o que ela fazia na port a de minha casa assim tão cedo? ² Não está contente de me ver aqui? ² ela perguntou. eu disse: 74 . E agora? Já que a Regina podia voltar pra escola. Mas. afastando esse pensamento egoísta. não iria mais precisar de mim. uma coisa me preocupou.

E sentia uma vontade de pegar em sua mão. eu sempre a acompanhava. melhorei bastante minhas notas. Subíamos a ladeira bem devagar. Eu tinha dado adeus pra sempre à turma do fundão. ficava olhando pra Regina e me perguntava se ela gostava mesmo de mim.. a Regina me abraçou entusiasmada: ² Você conseguiu. preferia ficar quieto a seu lado. ² Você já está pronto? ² Pronto? ² Ué? Você não vai pra escola? Passei aqui pra gente ir junto. seis de matemática. que era um cara -de-pau com as outras garotas. Então. Não tinha o que queria? Por que estragar tudo. porque a Regina não podia fazer muito esforço. ² Ir junto? Claro. não podia ser verdade. Não pensa que você vai se livrar de mim assim. pra minha felicidade. Coisa engraçada: eu. sentava do meu lado. Com isso. Não. A Regina me procurando pra gente ir junto à escola. 75 .. Todos os dias a Regina passava em casa.² Claro que estou contente! Que ótimo que você esteja boa. sentia a maior timidez perto da Regina.. de lhe dar um beijo.. No fim do mês. ficaria tão envergonhado que nunca mais a procuraria. Às vezes. Por isso.. Na sala de aula. Se a Regina dissesse "não" ou dissesse "gosto de você como amiga"... seis e meio de geografia. querendo uma coisa que não era pra mim? Mas de vez em quando esquecia disso tudo e ficava pensando que ela podia ser só minha.. descia correndo a rua. a caminho da escola. quando fazíamos a lição. ² Perto das suas notas. aquilo se tornou um hábito. Toninho! Você conseguiu! ² Consegui o quê? ² Veja: cinco de português. Eu achava que não a merecia e que nunca teria coragem de pedi -la em namoro. Deixava-a no portão de sua casa. almoçava às pressas e voltava pra junto dela. O que você queria? Mas vamos apostar que até o fim do ano você me alcança? Saindo da escola...

.... senhor. sim. ² Estava olhando.. ²Ahn? ² O que tanto está olhando pra mim? ² Olhando pra você? Eu não estava olhando.. Eu nem sabia onde enfiar a cara .Eu ficava tão alheado pensando nisso que era preciso que a Regina me tirasse daquele sonho de olhos abertos: ²Toninho. 76 .

. Mas um dia ela me viu no quintal e veio querer tirar satisfação comigo: ² Como é? Não faz mais ginástica? Não tenho tempo.. Ocupado com quê? 77 . Pobre Neuza. você deve ter adivinhado que eu nem mais tinha tempo de pensar nela... Bem. A Neuza me olhou com raiva. ia me esquecendo. Já lhe conto logo o que aconteceu A Neuza. uma coisa ² interrompi o Toninho ². Era como se não mais existisse pra mim. e a Neuza? A Neuza? É mesmo.34 Escuta com ela. Ando muito ocupado.

o que você tem com isso? ² Não esquece que você ainda está namorando comigo. é? Você não sai do lado daquela branquela. ² Ajudando? Não me faça rir. segurei-lhe o pulso. Quando ela tentou me dar outro. porque. Ela está doente. A Neuza me xingou de tudo quanto é nome e entrou ch orando em casa. Não te amo. Toninho. Você está é gamado nela. afinal. Neuza. A Neuza esticou o braço por cima do muro e me acariciou o rosto. nunca te amei. ² Eu estava mentindo. E. ² E se estiver. terminava com aquela comédia. Fala a verdade. Mas a gora não sentia vontade alguma de agredi -la. ² Não pode ser verdade. Respirei aliviado. Eu estava errado. seu bruto! Você está me machucando! Eu sabia que era fita. ²Acho que chegou a hora da gente terminar.Com umas coisas por aí. Toninho. como pode me querer trocar por aquela branquela? Em outros tempos. 78 . A Neuza ficou louca da vida e me deu um tabefe na cara. Neuza.. Me segurei pra não xingar a Neuza. mas acabei largando do braço dela. ²Terminar? Sem mais nem essa. ² Não posso dizer uma coisa dessas. eu já teria mandado a Neuza calar a boca. É melhor pra mim. ² Me larga. Toninho. Toninho? ² Vamos terminar. é melhor pra você.. Diga que me ama. depois.. Diga. ² Desculpa. Tô falando a verdade. Larga de ser cínico.. ² Não pode ser verdade. ² Você disse que me amava. ² Estou ajudando a Regina. Neuza. Pensa que sou boba.

Quando se sentou pra jantar. faltava ainda resolver os problemas de casa. Mamãe disse que eram ordens do médico. jogou o prato de comida no chão. veio reclamando do governo. Ainda mais ela que dava um duro danado. sempre xingando. mamãe se ofen deu de verdade. dando um murro na mesa: ² Que diacho! Até o médico quer mandar em minha casa! Pra evitar briga. ele chegou bêbado em casa e. trabalhava o dia inteiro. dava um duro. papai não ficou contente e inventou de reclamar de outra coisa: ² Cenoura? Não agüento mais comer carne moída com cenoura. e a gente continuava a viver mal. Mesmo assim. Foi o bastante pra ele explodir. ² O que vocês estão pensando que eu sou? ² ele gritou. Por acaso. e vocês não passam de dois vagabundos! Quando ele disse aquilo. da crise econômica. o que irritou ainda mais papai. também não podia aceitar o jeito com que tratava a gente. reclamou da falta de sal na comida. se compreendia em parte os problemas do Velho. Papai olhou com raiva pra mim e falou: ² Ah! Então o príncipe vai ajudar a rainha da Inglaterra? Fiz que não tinha ouvido nada e continuei a varrer o chão. mamãe trouxe o sal da cozinha. Uma noite. já da porta. do s negócios. tenho cara de coelho? Mamãe começou a explicar qualquer coisa quando. 79 . Mamãe abaixou -se pra limpar a sujeira. ² Pois sou eu que sustento esta casa. Papai estava cada vez pior. Coitado. de repente.35 Se eu tinha resolvido meu problema com a Neuza. Mas. Levantei de meu lugar e disse: ² Pode deixar que eu limpo isso. papai.

você chega bêbado. jogando a cadeira longe. ² Quem você pensa que é. papai! Depois de muitos meses. ² Como não entra? ² Não entra mesmo. Uma hora. Agarrei -o pelos pulsos e disse: ² O senhor está ficando doido? Papai parecia um bicho bravo. Ainda por cima. Papai me olhou assustado. ² Sai da minha frente! ² ele berrou. me cansei daquilo e dei -lhe um empurrão. Otávio? Que ingratidão? ² Ingratidão. Comecei então a fala r tudo o que tinha vontade de lhe dizer há muito tempo: 80 .² Otávio! Papai nem se tocou e continuou a gritar: ² Que Otávio o quê! Estou cansado de bancar o burro de carga e ter como resposta só ingratidão! ² Que ingratidão. sim! Trabalho feito um doido. tentando se libertar de mim com pontapés e cabeçadas... e ele caiu sentado na poltrona. Quando ela falou aquilo. ² Quem é você pra me dizer isso? Sai da minha frente! Papai tentou me afastar. ² Pára com isso. Eu nunca tinha visto papai agir daquele jeito. Mas eu era bem mais forte e agüentei o tranco. porém. ² Porque não entra dinheiro nesta casa. pra me dizer uma coisa dessas? Você está pensando que sou o quê? ² Otávio! Você está louco? ² Você vai ver quem está louco! E papai veio com tudo pra cima de mamãe. e gritou: ² Fico bêbado quando quero! Quem é você pra me chamar a atenção? Mamãe ficou branca que nem cera e recuou. me coloquei entre os dois. ² Sabe por que só tem cenoura com carne moída? ² disse mamãe com raiva. chego em casa e só encontro cenoura com carne moída. Mais que depressa. papai se levantou. eram as primeiras palavras que lhe dirigia.

Empurrei -o de novo pra poltrona. Vê se te manca. mas eu também era orgulhoso. dei-lhe uma última bronca: ² O senhor fica o dia inteiro fora e não vê o quanto a mamãe está sofrendo por sua causa. Acordei pela meia -noite e ainda ouvi os dois conversando. Percebi também que sob a sua casca de orgulho havia uma ternura que ele não conseguia ou não queria mostrar. Saí da cozinha e fui pro quarto. Foi aí que percebi o quanto ele era infeliz. ² O senhor não sabe que mamãe anda se matando pra ge nte comer direito? Não. papai pôs a cabeça entre os braços e começou a chorar. se o senhor quiser se danar. Assim mesmo.² Pô. Mas não vou deixar que maltrate mamãe! Mamãe chorava baixinho. achava que não era o momento certo. Senti tanto dó dele. E. De tão cansado. estava branco que nem cera. não sabe nem quer saber de nada. Pensei em lhe dizer alguma coisa. O senhor só quer saber de encher a cara. Papai. Pensei que ele fosse ter um treco. Além disso. quando papai afinal disse que jurava mudar de vida. o senhor chega de fogo quase todos os dias. A gente não tem culpa se os negócios não vão bem. Papai rangeu os dentes de raiva e tentou se levantar. papai! Então. pude dormir sossegado. ainda escutei papai chorando por algum tempo. De lá. mamãe começou a conversar com ele. tem a coragem de xingar e levantar a mão pra mamãe! Não dá pra gente viver assim. Quando ele parou de chorar. que naquel a hora eu tinha é mesmo de ser duro com ele. 81 . mas ele acabou baixan¬do a cabeça e ficou quieto. Ainda por cima. tudo bem. os lábios cerrados. dormi. ² Se o senhor quiser encher a cara.

como se lhe devesse uma explicação. você não ia nem acreditar. nunca mais chegou de fogo em casa. Mas parecia que era de vergonha. finalmente sua casa começou a se parecer com um lar de verdade. a partir daquela briga. para surpresa de Toninho. Mas não só isso: outra coisa que o Toninho estranhou foi que a mãe parecia mais vaidosa.. o Velho me amava e respeitava à beca. Álvaro. também não lhe dirigia a palavra. porque. toda vez que seus o lhos se cruzavam. ² Se eu lhe dissesse há quantos anos aqueles dois não saíam juntos. ela disse que ia ao cinema com seu Otávio. 82 . as coisas melhoraram bastante em sua casa. ela troca va de roupa. imediatamente o pai desviava os dele. com isso. conforme ele me disse. mas seu Otávio nunca mais maltratou dona Elvira.. O Toninho me serviu mais cerveja e contou que. Todas as noites. Sei que ele agia daquele jeito porque faltava alguém que lhe mostrasse o quanto estava errado. Por isso valeu a pena a dura que dei nele.. "meu querido"... entendo-o melhor.36 ² E você sabe. antes de seu Otávio chegar. Na verdade. "minha querida". Acho até que se fosse mamãe que fizesse isso ele nem a ouviria. embora o pai não o ofendesse mais. Uma noite. No fundo.. Sem contar o jeito com que se tratavam agora: era um tal de "meu bem" pra cá e pra lá. Hoje. que o Velho cumpriu mesmo a palavra? Desde aquele dia. Mas eu precisava mostrar a ele que também o amava e respeitava. Quanto a Toninho. ² disse o Toninho balançando a cabeça. passava batom. E. E. O dinheiro continuava pouco. acredite se quiser. a melhor maneira de mostrar isso foi fazendo o que eu fiz. ele viu dona Elvira se aprontando pra sair. papai era um sujeit o bom. Muito sem graça.

estava tão nervosa que nem me cumprimentou direito. No hospital. por favor.37 Uns dias depois a Regina teve outra de suas crises. Mas não demorou muito. quando. Ela estava na aula de matemática. de repente. ela voltou e me perguntou aflita: ² Toninho. fiquei na sala de espera. Quando dona Berta chegou. e o Rh é positivo ² eu disse. como da outra vez. parou de escrever. pôs a mão na cabeça e caiu. qual seu tipo de sangue? ² Tipo O. resolvendo um problema na lousa. Ela deu um suspiro de alívio. 83 .

Mas naquela noite tive pesad elos horríveis. Só com a insistência de dona Berta é que voltei pra casa. vesti um shorte corri até os limites da cidade. voltei pra sala de espera e passei grande parte da noite só pensando nela. oferecendo meu braço. Que felicidade saber que meu sangue ia correr nas veias da Regina! Depois. porque antes ela nem ligava pra hora que eu chegasse. a febre vem baixando. e eu pergunt ava: ² E a Regina. ² Graças a Deus. como está? ² Melhor. dizendo que. e senti uma angústia tão grande que não consegui mais dormir. Toninho. Mas agora eu havia parado de chegar d e madrugada. Fui dormir mais sossegado. ² Pode contar comigo ² levantei. Vamos lá pra dentro. a Regina estava precisando mesmo de mim! Embora estivesse preocupado com o estado dela. Isso era novidade. Enquanto eu jantava. Pra me acalmar. Mamãe acabou me acalmando. 84 . Acordei de madrugada. Eu tentava em vão despertá-la. o pior havia passado. mas ela permanecia de olhos fechados. se a Regina não tinha mais febre.² Ainda bem. Então. Era só uma enfermeira ou um médico passar. e mamãe tinha estranhado. Mamãe me esperava aflita. Eu via a Regina deitada numa cama e coberta de rosas. todo suado. não podia esconder minha alegria. contei -lhe rapidamente o que havia ocorrido. A Regina está precisando urgentemente de uma transfusão.

Adivinhando o que era. A enfermeira entrou com a bandeja. por favor. ela voltou -se e disse: ² E. Regina. fui logo dizendo: ² Não. de tão ansioso que estava. não.. Você tem que comer. Começamos a comer. não é? Dona Berta foi até a porta. e a Regina disse: ² Estou sem vontade alguma de comer. ²Toninho. não come. ela disse: ² Regina. ² Você precisa comer. Foi bater o sinal. vou até o banco.. Dona Berta pegou o telef one e pediu um almoço pra mim. Você precisa se aliment ar bem. mamãe vai ficar zangada. telefonei pro hospital. antes de sair. ué... ² Que bom que você veio ² disse a Regina me beijando.. Estou sem fome.. e saí correndo pro hospital.38 Quando amanheceu de vez.. ² Não tem importância. ² Por favor. mas. Toninho. nem assisti às aulas direito. ² Se eu te pedir um favor. 85 . ² Então. ² Quer dizer que não comeu nada ² disse dona Berta. não.. ² Se não comer. Dona Berta atendeu e disse que a Regina ia ficar uns dois dias internada. ² Ahn?²respondi com a boca cheia. Naquele dia. Em seguida. O Toninho lhe fará companhia. A Regina pegou um pouco de purê com o garfo e ficou balançando aquilo no ar. coma todo o almoço. ² Vim direto da escola. ² Claro que tem importância.

Meu sangue vai te dar indigestão. Toninho. A Regina deu um sorriso triste e me disse: ² Toninho. limpando as lágrimas. sua mãe não vai 86 . enquanto ela me espiava com aquele olhar divertido. É que a Regina gostava de me ver comer. ² Você é mesmo doido. ela me pegou a mão. por minha força. Mas dessa vez não fiquei encabulado. A Regina começou a rir. agora. porque sabia que ela não estava se divertindo à minha custa. Regina. sentia a maior admiração por minha saúde. Eu amava a Regina e. tenho uma parte de você correndo dentro de mim. e ela tornou a falar: ² Gosto tanto de você. ² Pronto ² eu disse. chega aqui pra mais perto de mim. Senti uma felicidade tão grande quando ouvi aquelas palav ras. Limpei também o prato da Regina. ² Agora. ² Que comer o quê! Você me deu tanto sangue que estou empanturrada.. você precisa comer. tinha certeza de que ela me amava também. Um dia ela me explicou que. Ela riu tanto que chegou até a chorar. ² Você é uma vampira. Toninho ²disse ela. empurrando o prato poder te dar bronca. me passa o seu. Aproximei a cadeira. O que mais eu podia querer na vida? ². Baixei a cabeça. Acabei de comer e disse: ² Está bem. sendo tão fraca..² Mas.

87 .

. dizendo que elas não voltariam tão cedo. ² Você parece tão preocupado. Na verdade. mas desconfiei que dona Berta estava mentindo. não é nada grave. ² Vai ver que não é coisa grave. por exigência do doutor Pompeu... ² Nada. Toninho? Aconteceu alguma coisa? Eu estava tão imerso em meus pensamentos que nem havia percebido que mamãe estava perto de mim. Diz que está morrendo de saudade.39 Depois.. temos de ficar mais uma semana. ² A Regina? O que houve? ² Ela está com uns problemas. estamos de volta. a Regina teve de ir pra São Paulo. Pra aumentar minha aflição.. Ninguém sabe direito o que é. ² É coisa grave o que ela tem? ² Não. Ela foi pra São Paulo fazer uns exames médi cos... ² Infelizmente. Fiquei em dúvida se lhe contava o que estava acontecendo ou não. mamãe. ² O que ela tem? ² Não sei. Por que não lhe contava o que estava acontecendo? ² É a Regina. Eu não sabia por que. Desliguei o telefone e fiquei ali sentado. Dentro de poucos dias. mamãe. ² 0 que foi. É que eu não estava acostumado a falar com mamãe. só pensando nela.. não tinha confiança nela. Olhei pra mamãe e achei que estava sendo injusto. uma noite recebi um telefonema de dona Berta. 88 . não. não ² dona Berta pareceu hesitar ². ² A Regina mandou um beijo pra você.

Ao dar com a porta fechada. Mamãe me disse que talvez a Regina estivesse com anemia. Quantas e quantas vezes. Ela estava de volta! Ela estava de volta! Subi correndo a ladeira. mesmo sabendo que ela não estava em Americana. eu já an dava meio doido. Não fica preocupado.² Sei lá. ² Isso se resolve com superalimentação. Toninho? ² dona Berta me abraçou. Mas como eu podia deixar de ficar preocupado? Mamãe sentou -se a meu lado. 40 Quando a Regina voltou. ² Oi. Eu adoro a Regina. fui à sua casa.. Até que uma tarde recebi um telefonema dela. me abraçou e disse: ² Você gosta muito dela. Ela não come direito. está sempre cansada. sentia uma tristeza. Toninho! Acabei de chegar. ²A Regina nem bem chegou. 89 . Mas não perdia a via gem.. enquanto repetia aquelas palavras. ² Como vai. Aproveitava pra cuidar das roseiras. mamãe.. e a primeira coisa que fez foi telefonar pra você. que estavam cada dia mais I bonitas.. não é? Senti de novo a angústia apertar meu peito e disse: ² Gosto.

Como ela havia emagrecido! É bem verdade que a Regina tinha sido sempre magra. dona Berta mediu-lhe a temperatura. Quando dona Berta trouxe o lanche de costume.. nem toquei no prato. como está furado. dentro de poucos meses. ² Não consigo.Foi entrar no quarto da Regina e levei um choque. Na hora da janta.. 90 . Dona Berta já havia entrado e saído do quarto umas duas vezes. Toninho. Ela então me contou que quase tinha ficado doida com tanto exame. ² É cedo. Regina! Estou tão feliz porque você voltou. inventava pra mim mesmo que tudo não passava de uma simples anemia e que. mas agora era demais. Fiquei o tempo inteiro pensando naquela doença que a consumia pouco a pouco. Levantei da ca deira.. ² Olha meu braço.. Achei que a Regina precisava de descanso. só de ver a comida. Depois. mas. ² Que bom. não é? ² Que feia o que. ela estaria curada. ² Não vai ainda não ² me disse a Regina. Regina! Você está linda. Todo dia tinha de tirar sangue e de tomar injeção. me dá enjôo. Pra não sofrer mais ainda. Minha cabeça ainda estava na casa d a Regina. Só que dessa vez nem procurou esconder da mãe. Estava muito pálida e em volta de seus olhos havia uma sombra.. ² Não mente pra mim. Ela me disse com tristeza: ² Estou feia. Procurei disfarçar o choque e corri pra abraçá -la. Pareço um palito.. ² Amanhã eu volto. ² Estou com febre. mamãe? ² Um pouquinho. como sempre Regina se recusou a comer. Sei que preciso comer.

sempre ia à casa da Regina. Como eu sofria em vê-la nesse estado. eu ia aos bancos. Contava-lhe piadas. ela pode se recuperar. 91 .. tomei coragem e perguntei pra dona Berta no portão: ² Dona Berta. Mas eu fazia de tudo pra esconder meus sentimentos. com um cobertor sobre os joelhos. Os médicos disseram que. alimentação. o que a Regina tem? ² A Regina. por iniciativa minha. No fim da tarde. é grave. ela permanecia sentada numa poltrona. Não era nada de especial. ² Como você demorou! ² ela me abraçava. Mas.. com bastante repouso. sim.. mas eu adorava ouvi -la. Mas eram raros os dias em que a Regina estava bem. e mamãe acertava com papai. depois. Um dia. mas não é tão grave que não tenha cura. Papai deixava as duplicatas e o dinheiro com ela. recebia. A maior parte do tempo. ² ela pareceu hesitar.41 Foi nessa época que.. Parecia que fazia um ano que a gente não se via. afinal. 0 menor esforço deixava-a muito cansada. ² É coisa grave? Dona Berta respirou fundo e. disse com determinação: ² Pra te falar a verdade. A gente se sentava no banco do jardim. O engraçado é que a gente continuava sem conversar. Quantas e quantas vezes ela não estava me esperando no portão. voltei a ajudar papai nos negó cios. Percebi que ele andava muito ocupado viajando. e a Regina contava tudo o que tinha feito durante o dia. Só faltava dar piruetas pelo quarto. efetuava os pa gamentos. aos clientes e fornecedores.. e me ofereci pra receber e pagar as duplicatas. Todo o acordo se deu por intermédio de mamãe.. as últimas da escola.

E. e a Regina não saiu do quarto. e a Regina não melhorou. Segundo. 92 . Alguma coisa dentro de mim não queria saber o que era leucemia. Depois da aula.Não sei por que. ² Não quero. porque achei melhor não saber mais do que sabia. como sempre também. A Regina punha sua mão fria e úmida sobre a minha e dizia: ² Quando acabarem as férias. mas acabei não perguntando. Não estou com fome. Primeiro. pensei comigo mesmo. eu fazia de tudo pra acreditar nas palavras dela. fui à casa da Regina. Eu passa va a maior parte do tempo ao lado dela. ² Mas que doença ela tem? ² Uma espécie de leucemia. mas achei que dona Berta não estava falando com muita convicção. En tão. porque percebi que dona Berta não queria continuar falando daquele assunto. De uma forma ou de outra. iremos de novo à aula juntos. 42 Vieram as férias. com um cobertor sobre os joelhos. Fiquei com vontade de perguntar o que era leucemia. Fui pra escola completamente desanimado. estarei bem melhor. ela continuava sentada no sofá. Mas vieram as aulas. Dona Berta insistiu pra que ela comesse. vou à biblioteca dar uma olhada numa enciclopédia". "Quando tiver tempo. Mas acabei não indo à biblioteca. mamãe. Como sempre.

Amanhã já estou boa. mas a Regina acabou percebendo. não consegui segurar as lágrimas. Dançamos umas três vezes. Mas amanhã vou de qualquer jeito. ² Está bem. Como eu queria que aquele instante durasse pra sempre! Uma hora. Você tem tanto jeito. e ficamos longo tempo abraçados. Mas ela parou logo de rir. Toninho. como se se sentisse muito cansada. ² 0 que você quer ouvir? ² Qualquer coisa. Tentei esconder que estava chorando. está bem. Pus de novo a música. Dona Berta olhou pra mim com a maior expressão de desânimo. ² Põe de novo a música. sentia um aperto no coração. Ela parou de dançar e me perguntou: 93 . ² Me ajude a levantar²ela falou.² Mas você precisa comer. quando dona Berta teve de sair. ² Veja se convence a Regina a comer. Estava tão gostoso. Sem que eu esperasse. mamãe. Não. abracei-a e saímos dançando ao som da voz de Paul McCartney. Bota um disco dos Beatles. eu como tudo. ² Uma febrinha de nada. E eu abraçava a Regina o mais forte que podia. eu pensava. Toninho. Segurei a mão da Regina.. beijou -me e me disse junto ao ouvido: ² Te adoro. Quando o Toninho está do meu lado. a Regina disse que queria escutar uma música. da última vez que dancei com ela. coração contra coração. ela não podia estar mal. ² Ir como. Quando começou a tocar And I love her. Apertei-a contra mim. Ficamos sozinhos. a Regina disse que queria dançar comigo.. Toda vez que a música terminava com os versos"/know this love's mine/'Will never die". recomendou à Regina que tomasse os remédios na hora certa e que comesse todo o lanche. A Regina começou a rir. Mais tarde. Ela parecia uma pluma de tão leve. mamãe ² disse ela com impaciência. e mamãe não quis q ue eu fosse à escola. apoiando -se em mim. Era tudo mentira. Regina?²perguntou dona Berta. ela aproximou a cabeça de mim. Eu estava tão comovido que. ² Tive febre esta noite. mamãe. minha filha. mamãe. Toninho. ² É mesmo.

não chora. despedindo -me de dona Berta. quase sem respirar. Como ela estava quente! Não demorou muito. 94 . Pela cara que ela fez. ² Estou com tanto sono. e a Regina dormiu. Quando dona Berta chegou. ²Acho melhor telefonar pro doutor Pompeu. Beijei Regina e levantei-me pra ir embora. seu bobo. Também gosto muito de você. Regina? ² Preciso prometer isso.. A Regina disse que estava cansada. ² Volto amanhã²eu disse. Dona Berta pôs a mão na testa da Regina. Sentei-me ao lado da Regina. apesar disso. ² Então. Ajudei-a a sentar-se na poltrona e cobri-a com o cobertor. Toninho? ² Nada. não. ² Fala. com medo de acordá-la. ² Promete que nunca vai me deixar... Regina. ela não parava de suar. desconfiei que alguma coisa não ia bem. Fiquei ali sentado. ² Gosto tanto de você.. porque ela sentia muito frio. foi logo me perguntando: ² Como está ela? ² Acho que está com febre.² Que que foi. Toninho. Mas o estranho é que. segurando -lhe a mão. Toninho? Você é a pessoa que mais adoro no mundo.

tá bem. ² É o que a gente pode pagar. fica pelo seu preço. mas pensei também que podia resolver rapidamente o negócio e ir depois à casa dela. ainda perdemos tempo discutindo preços. Fui de bicicleta até Carioba. ² Você é pior que seu pai. Chegan do lá. havia um recado de papai. quando cheguei da escola. ² Tá bem. eu já estava mais ou menos por den tro do negócio. não fui na conversa do seu Natale. Naquela época. Quando ele chegou.43 No outro dia. de tanto pagar e receber duplicatas. tive de esperar um tempão até que o homem do depósito chegasse. 95 . hein? ² uma hora ele me. Ele me perguntava se eu podia ir com urgência até Carioba olhar um lote de tecidos. seu Natale. Pensei em Regina. Mas as coisas se complicaram. Por isso. dando uma risada.

caí exausto. Dona Berta. tivemos a maior dificuldade em achar o en carregado do depósito. andei pelos pastos até cansar. subi as escadas até o quarto da Regina. Mamãe me abraçou e disse: ² Toninho. carregamos a perua. Pra minha surpresa. estava já nos limites da cidade. mamãe? Anda. Passei empurrando as pessoas. No caminho. Sempre bebendo. Pela cara dela. e tal. Sei que entrei num boteco e comprei uma garrafa de pinga.Depois. E da porta mesmo a vi deitada. E isso me fazia fi car mais nervoso ainda.. em Americana. meu querido. ainda tivemos que descarregar a perua numa salinha que papai havia alugado. Cheguei em casa morto de cansaço. quando dei por mim. ² Aqui só tenho as amostras. logo fiquei sabendo que algo não ia bem. E. Foi a última vez que vi a Regina. seu Natale não tinha estepe! Quando.. as mãos cruzadas no peito. Nem esperei mamãe acabar de falar e saí correndo como um louco. era quase meia -noite. ² Em Sumaré?! Pensei que fosse aqui. os olhos fechados.. afinal. E toca a gente ir pra Sumaré. etc. porque não tinha visto a Regina naquele dia. As lembranças daquela noite não estão muito claras dentro de mim. seu Natale disse que a gente precisa va pegar a mercadoria em Sumaré. Toninho. ² Que que foi? ² perguntei alarmado. 96 . Saí da casa dela como um autôma to. Eu estava bastante chateado. acho que pulei umas cercas de arame farpado. atravessei a sala.. sentada a seu lado. chorava sem parar. quando chegamos lá. Afastei-a de mim e tornei a pergunt ar: ² Que que foi. Pra piorar ainda mais as coisas. deitei de costas e senti como se o mundo tivesse acabado. quase sem fôlego. A cabeça girando. Mas. Eu não sabia pra onde ir. Ela. por isso comecei a andar a esmo e. Cheguei na casa da Regina. Eu estava tão ansioso pra ir embora! E seu Natale ali falando com a maior calma que o mundo não ia acabar. como você pode ver. diga! ² A Regina. Havia um monte de gente logo à entrada. furou um pneu. conseguimos trocar o maldito pneu. Quando perdi o fôlego. Por fim. Depois. mamãe me esperava acordada.

Fui acordar com o dia clareando. Havia chovido. dobrei o corpo pro chão e vomitei. completamente molhado. Então.Eu nem conseguia chorar. 97 . Um cansaço absurdo tomou conta de mim. dormir pra sempre. não entendi o que estava fazendo ali. girava. mas logo me lembrei do que havia acontecido. e eu tremia de frio. Eu queria dormir. De início. Minha cabeça girava. Voltei pra casa morrendo de frio e tremendo de febre. Comecei a chorar e só consegui me levanta r com muito esforço.

mamãe me contou que delirei o tem po inteiro. 98 . mamãe? Por quê? Mal me podia ter nas pernas. Meu corpo inteiro doía. Me sentia como uma criança perdida. Deixei mamãe me levar até o quarto e caí exausto na cama.44 Toda aflita. falando coisas in coerentes. Fiquei uma semana in teira deitado. que me dava os remédios e me fazia beber um pouco de sopa. correu a me u encontro e me abraçou. coisa que dizia era: ² Por que. eu tremia da cabeça aos pés. Quando ela me viu. Se não fosse a paciência de mamãe. Depois. Acho que perdi os sentidos. mamãe me esperava. A única . me recusei a comer. Quando voltei do delírio. não sei o que teria sido de mim.

. Mas fez de tudo pra que ninguém desconfiasse disso. Toninho. Eu não tinha nada contra ele. Dona Berta voltou a assoar-se e disse: ² Por isso que você não pode ficar desse jeito. Queria sofrer a minha dor sozinho. meu querido. A vida é um b em inestimável.. sem ânimo pra nada.Recuperei um pouco as forças. voltei o rosto pra parede e disse com raiva: ² Levantar pra quê? Dona Berta me segurou pelos ombros e me obrigou a encará -la. ² Toninho. ² Responda. apesar de saber que ia morrer. ² Então. assoou-se com um lenço e disse: ² E você? Quando se levanta daí? Dei um soluço. mas continuava ainda de cama.. Toninho. dona Berta? ² Ela sabia. e chorava até me cansar. o que está esperando? Você deve viver. Passava os dias olhando pro forro do quarto. Eu sei que ela sabia. mas também não queria ninguém por perto.. Mas ela se recuperou logo. ² A vida é uma droga! ² Não era o que a Regina pensava.. de vez em quando. você não pode fazer isso. Foi a vez de dona Berta chorar. como se nada mais me importasse na vida. acho que não. Mas um dia dona Berta veio me visitar. ² disse com muito esforço. segurando o choro. comecei a chorar.. Quando ela me abraçou. Você acha que a Regina ia gostar? Fiquei quieto.. ² Como assim.. Você acha que ela ia gostar? ² Não. Ela.. Não fica assim. 99 . apesar de doente. ² Não fica assim. parava na porta do quarto e olhava pra mim por um longo tempo e saía sem dizer nada. Papai. em nome do amor que teve pela Regina.. Só sentia vontade de chorar. Dona Berta me beijou e disse: ² Ela também gostava muito de você.

No meio delas. amor. A Regina aproximou -se pra me beijar. ² Mas eu não te deixei. Havia rosas que não acabavam mais. e eu acordei. 100 . E o peso de sua ausência fez com que eu me sentisse tão só. talvez por influência do sonho. Pus a cabeça entre os braços e chorei até que meus olhos ardessem.Naquela noite. Corri a seu encontro e lhe disse. senti como se houvesse um forte cheiro de rosas no ar. Quando. Sonhei que estava num roseiral imenso. me levantei. e todas brancas. Não te deixarei nunca. tive um sonho com a Regina. afinal. magoado: ² Você prometeu que não ia me deixar. A Regina me abraçou. a Regina me esperava sorrindo.

. mal conseguia ficar de pé.. meu amor. Comecei a chorar e disse: ² Regina. E subitamente me baixou o desespero. fui visitar a Regina. logo me recuperei. 101 . Ajoelhei -me e troquei as flores do vaso. tomando coragem.45 Nos primeiros dias desde que saí da cama.. Respirei fundo e segui em frente. Como ela estava linda no retrato oval. E uma tarde. Na entrada do cemitério. que me forçava a tomar os re médios e a comer. Passava a maior parte do tempo sentado numa poltrona.. Graças à mamãe. Por que você me deixou? Você tinha pro metido que ficaria comigo pra sempre.. Parei diante do túmulo da Regina.. Pelo fim do mês. pude ir à escol a. minhas pernas tremeram. com aquele seu sorriso triste. com um cobertor sobre os joelhos.

De lá. Toninho! A Regina gostava tanto delas. olhando pra mim de um jeito que me fazia lembrar a Regina. segurando -me pra não chorar. . ² Trouxe um lanche pra você. arranquei as ervas daninhas. Apertei a campainha. ² Por que dois?²perguntei. 102 . Na primavera. Na bandeja. os botões desabrocharam. E terminei por faze r uma promessa: ² Eu juro. não é?²ela disse. a senhora sabia que a Regina. ² Queria continuar cuidando das roseiras ² eu disse. ² Você costumava comer dois. havia dois sanduíches e uma jarra com suco de laranja. Regina. Por você. Ela sentou-se no banco e balançou a cabeça dizendo que sim. Mas a pobrezinha ficava tão feliz me enganando. Adubei a terra. e as roseiras estavam murchas com a falta d'água. Levantei -me e saí do cemitério. Sentei ao lado de dona Berta e comecei a comer. eu juro que vou viver. conversei com ela um tempão. De repente. Peguei o ancinho. ² Sim. Segurei um soluço. Era dona Berta. Estremeci e ergui o ros to. ² Que bom. Eram rosas pálidas e perfumadas como a Regina.. O mato havia crescido. Dona Berta veio a meu encontro. Passei horas de bruçado sobre os canteiros. fui pra casa dela. o adubo e comecei a trabalhar. O que eu podia fazer? Lavei as mãos na torneira.Como um doido. eu sabia. ² Então. só por você. alguém se inclinou sobre mim. me abraçou e disse: ² Que bom que você esteja melhor. Os olhos de dona Berta encheram-se de lágrimas.

cortamos uns pastos e. sentamos num barco à margem de uma lagoazinha. Passamos por cercas de arame farpado. finalmente. ² Claro que eu quero.. Com os farelos do pão que caíram na água. era uma pessoa decente. ² Briguei com o homem por causa de ninharia. Peguei mais uns três. Ficamos em silêncio por muito tempo. Voltamos a pescar. 103 . ² Isso não é problema. .. De repente. Lá pelas tantas.. pela primeira vez em muito tempo. Olhei assustado pra ele. ² O que você acha do seu Nagibe? ² Seu Nagibe? Papai deu um suspiro. pensei.46 Um sábado. "Papai me convidando pra pescar?" ² Pescar? Nem temos vara. saímos da cidade. As varas no ombro e um embornal com lanche. "Papai me consultando?!". ² Está um dia bonito. papai. apareceram mais lambaris. a gente arranja. apesar de estourado. papai abriu o embornal e me deu a metade de um pão com mortadela.. Acho que era a falta de costume em ouvi -lo falar meu nome. E ninguém dizia o contrário na cidade. eu peguei dois. pensei. Se o senhor quiser. ² Acho seu Nagibe um cara legal. Que acha da idéia? ² Tudo bem. Seu Nagibe. Vamos pegar uns lambaris pra janta.. papai me disse: ² Toninho. papai me dirigiu a palavra: ² Toninho.. eu queria te consultar sobre uma coisa. Papai pegou um lambari. sem mais nem essa. Eu não estava mentindo. E se a gen te fosse pescar? "A gente pescar?".. uns quatro. Parecia que a gente tinha per dido o hábito de conversar.

.. sem nunca ver a cor do dinheiro. papai. ² Você está dizendo que vale a pena aceitar dinheiro do homem? ² Acho. Acho uma boa idéia. ² O senhortambém merece uma vida melhor. Papai me deu um tapa no ombro.. ² Claro que é capaz! Naquele negócio de Carioba. Papai gritou de tão contente: ² Vamos fazer uma dupla fantástica! Otávio Fonseca & Filho. Já pensou? Sua mãe vai ficar felicíssima. ² E. papai. O Nagibe não impôs nenhuma condição. sem que pedisse nada. ² Plena liberdade. depois. Hã? O que acha? ² Se o senhor pensa que vale a pena. De fazer os negócios que quiser. 0 senhor entende como ninguém do assunto. . Em seguida. O que acha da idéia? ² Não sei se sou capaz.. Uma espécie de gerente. Não sou mais criança. Tem o seguinte. ele se aproximou mais de mim e disse: ² Mas voltando ao negócio da loja. 0 senhorvem dando um duro nestes anos. o que acha? ² Legal. ² O que seu Nagibe quer em troca? ² Uma parte dos lucros. você levou seu Natale na conversa. 104 . Sua mãe merece uma vida melhor. Enquanto tirava o peixe do anzol. ele está querendo ajudar.. É um negócio bom. .. eu aceito. Nem eu conseguiria aquele preço! Preciso de alguém assim. Papai deu uma tragada no cigarro e perguntou: ² Então. Papai pegou mais um lambari.² Sabe.. dis se que estava cansado de ficar andando pra cima e pra baixo.. Papai me olhou comovido e disse: ² E você tem sido um bom filho. Se o senhortiver liberdade. Estava pensando em você. preciso tomar juízo. ele me ofereceu um empréstimo praeu montar uma loja. Preciso de al guém de confiança pra me ajudar.

pois ainda tinha a cabeça envolta em muitas recordações dolorosas.com.br/Community. Mas.br/Community.orkut. pelo menos.aspx?cmm=20985974 Ebooks de A a Z http://www.aspx?cmm=47749604 105 . FIM Créditos e Agradecimentos Renata Sara Comunidades Traduções e Digitalizações http://www.orkut. sempre falando de seus planos.Papai me abraçou com força. Eu mal o ouvia. o calor do braço de papai sobre meus ombros serviu pra atenuar o peso daquela dor que parecia insuportável.com.

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