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Renata Martins
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Raquel é uma moça de vinte e
três anos, cristã, e que tem a sua vida
organizada e feliz. Cristiano tem vinte
e cinco anos e trabalha em um grande
empreendimento turístico com seu
pai, membro da Igreja dos Escolhidos,
uma seita satânica. Determinado
a destruir Raquel, seu pai e sua
comunidade cristã, Cristiano se vê
em apuros quando, à primeira vista,
apaixona-se por aquela a quem deveria
aniquilar. Ela, em contrapartida, está
com noivado marcado, mas também
se apaixona loucamente por Cristiano.
E agora? Como resolver esse dilema?
Como Raquel poderá escolher entre
seu amor e seu dever? E Cristiano?
Deixará de cumprir o que prometeu
aos demônios por amor a ela?
Mundos opostos, vidas opostas e
um mesmo desejo: como amar sob essas
circunstâncias? Cristãos x satanistas,
orações x sacrifícios humanos, culpa
x desejo — um embate assustador e
sombrio, mas também envolvente e
apaixonante.
a
Dragão
velha
O
Os escolhidos
e o
Renata Martins é natural de
Juazeiro do Norte, no Ceará, mas
vive há muito tempo em João Pessoa,
capital da Paraíba. É casada e mãe de
dois filhos. Um de seus maiores desejos
era cursar Arqueologia (sempre foi
apaixonada pela antiguidade). Porém,
optou por abrir mão desse sonho. Nesse
período, após oito anos de convertida,
juntamente com seu esposo, recebeu a
missão de iniciar uma igreja em um dos
bairros mais violentos de João Pessoa:
Mandacaru. Desse modo, nasceu a
paixão por pregar o Evangelho e hoje
eles já coordenam três igrejas na capital
paraibana. Renata é estudante de
Inglês e de Teologia. Também possui
o curso de capelania internacional, e é
conselheira cristã, trabalhando com a
restauração de famílias.
A batalha espiritual está presente no mundo o tempo todo, mas nem todas as
pessoas têm consciência disso. Para alcançar seus objetivos maléficos e destruidores, os
demônios procuram brechas entre os homens, oportunidades que lhes permitam atacar
as forças do bem. Destruindo-as, acreditam que poderão vencer Deus, dominar o mundo
e instaurar o mal sobre a terra. Assim é a guerra travada no mundo espiritual.
No cenário desta história, a igreja do pastor Carlos está conseguindo resultados
muito positivos junto à população da cidade. Muitas pessoas estão voltando a atenção
para Deus e para os valores cristãos. Porém, o sucesso da igreja é justamente o que
desperta a fúria dos demônios que, por causa da barreira criada pelas orações do Povo
de Deus, não mais têm livre acesso para causar malefícios às pessoas. Por causa disso, os
demônios decidem usar os satanistas, seus adeptos, elaborando um plano traiçoeiro e
diabólico para destruir a igreja, retomando de volta o terreno perdido.
Em meio a esse conflito, Raquel e Cristiano se conhecem. Ela, filha do pastor
Carlos; ele, filho de um rico e influente político da cidade, que está iniciando um grande
empreendimento imobiliário. Porém, o que Cristiano não sabe é que seu pai também é
um satanista influente, que o levará a ingressar na Igreja dos Escolhidos. Para ser aceito, é
obrigado a fazer um pacto com um poderoso demônio, que exige que ele destrua Raquel,
seu pai e a congregação inteira, retomando assim a liberdade para atuar livremente.
“Eu estava paralisado, começando a sentir muita dor.
Não entendi o que Coulobre estava fazendo comigo, mas a dor pelo corpo
e o sufocamento em minha garganta eram imensos. Eu não conseguia me mover,
muito menos respirar. Foram dois minutos eternos de tortura física e psicológica.
— Você tem até amanhã, às vinte horas, para me trazer a criança e
essa moça. Quero o sacrifício das duas juntas. Amanhã, na hora marcada,
virei para buscá-las. Faça o que for preciso, até matar alguma testemunha,
se for necessário. Não importam os meios... Ou elas estarão aqui amanhã,
ou seu pai morrerá, depois sua mãe. E logo após, você...”
emear
coleção
CAPA A OVELHA E O DRAGAO.job
C M
Y K

Renata Martins

A OVELHA E O
DRAGÃO
OS ESCOLHIDOS
13
PRÓLOGO
A Ovvin» N»vv»
Nem nos meus mais criativos sonhos ou pesadelos imaginaria algo assim...
Nenhuma mente humana e inocente — em sa consciência, claro — pre-
meditaria uma situaçao dessas para si, nem para os outros. Fazer isso seria
no mínimo maldade. E má e uma coisa que eu nao sou. Mas o fato e que,
boa ou má, permiti que essas coisas acontecessem. Simplesmente per-
miti. Como e que eu fui chegar a um ponto desses° É verdade: lutei contra,
tentei ser forte, bloquear a minha vontade, mas nao consegui! Deixei que
acontecesse. Quer dizer, deixamos. Escolhemos. Sofremos. E, o pior:
depois de tudo isso, ainda nao e o fim. É só o começo...
O Dv»oXo Co×:»
Nunca ouvi dizer que dragões existissem e muito menos que contassem
histórias. Mas, e verdade. Existem sim e contam as tais histórias. Por isso,
estou aqui! Aliás, quero esclarecer algo: sempre detestei contos (nao
importa o gênero). Mas tenho de admitir: este, bem que vale a pena contar.
É, no mínimo, fantasioso e ridículo. Tem opostos demais para o meu gosto,
mas e a minha história. E, nao sei como, permiti que acontecesse.
Simplesmente permiti. Quer dizer, permitimos. E, o pior: eu nem lutei
contra. A princípio, achei que era loucura, mas escolhi ir adiante.
Escolhemos. E quer saber° Se tiver de sofrer por isso, sofro. Agora, vem a
melhor parte: dessa história, isso e só o começo...
15
CAPÍTULO 1
O COMEÇO
Co×nvcv×oo » Ovvin»
O MEU COMEÇO
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me
seguem; e dou-lhes a vida eterna e nunca hão de perecer, e ninguém
as arrebatará das minhas mãos...
Joao 10:27,28
Escolhas... O início de qualquer coisa na vida vem atrelado às escolhas a
serem feitas. É fato! Uma vez, ouvi uma frase que retratava muito bem isso.
Dizia assim: “Existem duas coisas na vida que jamais deixaremos de fazer:
uma e pagar impostos, a outra e fazer escolhas!”
Engraçado° Pode ate ser, mas e a pura verdade! E eu começo a ver que
ela e bem coerente com a nossa realidade.
A vida, por exemplo, já começa com uma escolha bem dif ícil... Uma
grande decisao a ser tomada, a primeira sobre a nossa existência. Decisao
essa que nao compete a nós, tampouco nos e permitido dar opiniao sobre
ela... Escolher um nome, o meu nome, o que ajudará a definir quem sou.
Nomes, na sua maioria, sao profeticos e todo o cuidado e pouco sobre
essa escolha. Mas e aí, por causa dessa decisao sobre o meu nome, que
literalmente se inicia a minha história...
Meus pais, Carlos e Debora Oliveira, sao pastores evangelicos.
Morando em Joao Ppessoa, na Paraíba — lugar no Brasil onde o sol nasce
primeiro, de gente hospitaleira e que possui praias de natureza arreba-
tadora —, cidade com um alto índice de igrejas protestantes, isso nao era
16
A O V E L H A E O D R A G Ã O : O S E S C O L H I D O S
muito dif ícil de acontecer... Conheceram-se em um culto para jovens e
apaixonaram-se verdadeiramente à primeira vista. Ou, ao primeiro ver-
sículo, pode-se assim dizer!
Papai sempre foi o melhor partido da igreja: professor da escola bíblica,
instrumentista do louvor. Era o braço direito do pastor Nildo (na epoca, o
pastor da congregaçao). Se alguma coisa na igreja dava errado ou faltava,
lá estava o “Carlos” para resolver! Ah, o meu pai! Engraçado imaginá-lo
sendo disputado pelas irmazinhas... E ela, a mamae° A mais bonita, edu-
cada e esforçada moça da congregaçao (ele assim sempre contava). Os
irmaos tambem faziam fila! Mamae nao media esforços para evangelizar,
ajudar na parte social da igreja, entre outras tantas atividades... Daí, com
uma dupla dessas, só podia dar nisto mesmo: a uniao dos sonhos que
qualquer pai e mae poderiam desejar.
Alguns meses após o casamento, para surpresa de todos, o pastor Nildo
foi convidado a assumir uma igreja em outro estado, que passava por pro-
blemas, e o meu pai ocupou, com muito merito, o lugar dele.
Por meio da graça de Deus e do trabalho dos meus pais, a igreja cresceu
muito. Cresceu tanto que se tornou uma das maiores do estado, virando
referência como “igreja modelo” da cidade. Dessa maneira, dava-se início
a nossa história de vida como família.
O casamento dos sonhos começou a enfrentar dificuldades quando
meus pais decidiram que aquele era um excelente momento para mamae
engravidar. Gerar filhos, a realizaçao do complemento familiar. Dois anos
após a uniao, esse sim era o momento certo para tudo acontecer. Assim
eles planejavam... Entretanto, após um ano de tentativas constantes, nada
acontecia! Apenas alarmes falsos sustentavam a esperança da minha mae
de que ela poderia ter um bebê. Após muita insistência dos amigos, eles
decidiram procurar um especialista, e imensa foi a decepçao dos dois
quando ouviram do medico que ela jamais poderia ser mae por causa de
um problema uterino.
A partir desse momento, iniciou-se uma jornada de orações, jejuns e
ate de campanhas entre os irmaos, tudo isso com o intuito de que o mila-
17
C A P Í T U L O 1 - O C O M E Ç O
gre da concepçao finalmente acontecesse na vida deles. Ter um filho era,
sem dúvida, naquele momento, o maior desejo de seus corações.
Após três anos de clamores incessantes, uma nova esperança começou
a surgir durante um dos cultos de oraçao...
Uma irma, dona Mercês, tomada pelo poder do Espírito Santo, foi
usada pelo próprio Deus, naquela reuniao, para trazer revelações a res-
peito de uma nova promessa para os meus pais. Mamae foi orientada por
essa irma a abrir a Bíblia, no livro de Gênesis, no capítulo 29, versículo 9.
A irma pediu que ela lesse o texto em voz alta.
— “... estando ele ainda falando com eles, veio Raquel com as ovelhas
de seu pai, porque ela era pastora”... — Mamae leu, a princípio meio incre-
dula, e logo as dúvidas inundaram o seu coraçao. — O que exatamente
isso quer dizer, irma° Eu conheço bem a história de Raquel e Jacó. Esse
versículo para mim nao e novidade, e nao consigo ver ligaçao dele com a
minha situaçao! A senhora poderia, por favor, me explicar que promessa
de Deus e essa que eu nao consigo enxergar°
E lá se foi a paciente irma Mercês tentar explicar o que Deus havia
revelado à ela e que estava confundindo totalmente a incredula da
mamae.
— Minha amada... Você ainda nao entendeu que o Senhor quer te
abençoar com uma filha° O Senhor hoje começa a cumprir o desejo do
coraçao de vocês! Ele vai te dar uma única filha, a quem você dará o nome
de Raquel. E desde o seu ventre ela deverá ser totalmente consagrada ao
Senhor em todas as áreas da vida dela. A sua filha vai nascer com um cha-
mado para pastorear vidas!
E foi assim que tudo aconteceu. Nove meses após o ocorrido, no dia
7 de março, tive o prazer de vir ao mundo. Foi assim que nasci, e, dessa
maneira, o meu nome foi escolhido: Raquel Oliveira Braga, essa sou
eu!
Se pararmos para analisar bem, meu nome define exatamente quem eu
sou. Raquel e um nome de origem hebraica e significa: calma como uma
ovelha.
18
A O V E L H A E O D R A G Ã O : O S E S C O L H I D O S
Na realidade, tudo a meu respeito (ou quase tudo), meu tempera-
mento, o meu modo de agir com as pessoas, a minha maneira de reagir
praticamente tudo tem a ver com o meu nome. Eu sou muito calma
mesmo! É o meu jeito fleumático de ser. E, devido a essas características
tao marcantes, os outros passaram a me rotular como “a mansidao em
pessoa”, a “doçura em forma de gente”, a “perfeitinha filha do pastor”... É
isso o que sempre escuto por todos os lados.
Ugh! Ovelha, mansa e ainda por cima filha do pastor... É muita coinci-
dência bíblica pro meu gosto! Sao rótulos demais para uma única pessoa.
Isso ate que, às vezes, me incomoda um pouco: tao rotulada e sempre
na mira dos comentários dos irmaos. Entretanto, antes que o real aborre-
cimento chegue ate mim, lembro-me de que Deus e autor e mentor de
todas as minhas características, inclusive a mansidao. E, com certeza, Ele
sabe o que faz, mesmo porque, com um chamado desses para pastorear
vidas, mansidao eu preciso ter de sobra!
Quando criança, fui criada com toda a dedicaçao e regalia que os
meus pais podiam me proporcionar. Pastoreando uma das maiores igre-
jas da cidade, graças a Deus, ele tinha um bom salário e podia dar-se ao
luxo de viver exclusivamente para a obra do Senhor. Assim, sempre tive-
mos uma vida tranquila e confortável. Minha rotina sempre incluiu casa,
escola e igreja. Os amigos e as diversões que me atraíam estavam abso-
lutamente dentro desse círculo: acampamento nas ferias, retiros no
período carnavalesco. Tudo estava sempre pautado dentro dos padrões
cristaos em que vivíamos. Aprendi, desde cedo, a amar a Deus, a honrar
os meus pais, e aproveitava a vida da maneira mais saudável que alguem
possa imaginar.
Sempre procurei desenvolver bem os talentos que Deus havia me dado
e os aplicava onde eu pudesse servi-Lo. Esforçava-me, ao máximo, para
compensar a boa vida que tinha. Era a melhor aluna da turma de escola
bíblica (durante todos os anos), cantora do coral da igreja, ajudante do
ministerio infantil. Ah, tambem era uma excelente aluna no colegio secu-
lar! Meus pais nunca, ou quase nunca, precisavam se preocupar comigo.
19
C A P Í T U L O 1 - O C O M E Ç O
As coisas só se complicavam para o meu lado quando uma pequena por-
çao sanguínea em meu temperamento resolvia aparecer: o meu grande
defeito, e que, às vezes, me causava problemas, era falar demais!
Comecei a perceber que, com absoluta certeza, essa era a minha pior
característica. Falar sem pensar, nao por maldade, mas de forma inconse-
quente. E falar o que nao devo, numa hora totalmente inapropriada... Já fiz
isso demais! Coitado do meu pai! Só faltava enfartar com os meus comen-
tários desvairados... Revelar, sem querer, um segredinho de algum irmao
que eu ouvia lá em casa... Isso já me custou muita disciplina! Mas, afinal
de contas, algum defeito eu tinha de ter.
E foi entao que, diante de muito amor, cuidado e alguns deslizes orató-
rios, passei a tomar meu curso natural na vida.
Fiz faculdade de Comunicaçao (e claro!), entrei no seminário e hoje
estou aqui: aos vinte e três anos, trabalhando como repórter no maior
jornal da cidade e aguardando o momento apropriado para cumprir a
minha missao, o chamado de Deus para mim: o de pastorear vidas!
Essa missao, a minha missao, só dependeria de um novo passo que eu
estava prestes a tomar. Nao poderia assumir uma igreja e suas vidas sem
antes tomar esse outro passo crucial na vida. Um passo que, graças a Deus,
poderia escolher... O passo da aliança!
Co×nvcv×oo o Dv»oXo
O TAL COMEÇO
... E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o
Diabo e satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na
terra, e os seus anjos foram lançados com ele...
Apocalipse 12:9
Nunca tive a chance de fazer uma escolha... Quer dizer, mentira, tive sim!
Na realidade, nao tive a oportunidade de fazer uma escolha decente ate o
momento. Durante toda a vida, as minhas opções já surgiam meio defini-
20
A O V E L H A E O D R A G Ã O : O S E S C O L H I D O S
das pelas circunstancias. As minhas escolhas apenas terminavam por se
encaixar no rumo que a vida já havia tomado.
Nasci com o destino aparentemente traçado. Diria ate que determi-
nado. Uma coisa meio sinistra! Aliás, tudo em mim sempre foi muito
pesado, macabro, um negócio bem diabólico mesmo. E eu nunca recla-
mei, sempre convivi com tudo isso. Realmente, sempre achei esse nosso
estilo de vida o máximo, só oferecia vantagens... Mas, diante desse
nosso estilo macabro de viver, apenas uma coisa nao se encaixava nesse
contexto todo. Havia algo em mim que era totalmente fora da minha rea-
lidade. Algo que eu nao pude escolher, nem mudar. Se pudesse, caso tives-
sem me dado a chance, com certeza eu teria feito diferente...
Meu nome. Qualquer coisa em mim podia me definir: minhas roupas,
o lugar onde morava, meu comportamento. Mas o meu nome... Nao sei de
onde o tiraram! Um nome nada a ver comigo. Maldita a hora dessa esco-
lha. Definitivamente, isso só podia ser coisa da minha mae! Vê se tem
cabimento: Cristiano! Ah, nao notou nada de anormal, nao° Nome ate
bonito, alguns dizem... Mas o significado e o pior. É para rir de tao contra-
ditório, ridículo mesmo: seguidor de Cristo! É exatamente isso o que sig-
nifica. E eu poderia ser tudo, qualquer coisa, menos isso! Mas nao tem
jeito, só contando a história toda, tudo desde o início, para poder entender
o nível dessa contradiçao.
Meus pais, Alberto Cavalcanti e Vania Mello, sao de famílias muito
tradicionais aqui em Joao Pessoa. Ele, de uma família de políticos, ela, de
conhecidos advogados. Juntos, fizeram, na epoca, a grande uniao da
sociedade pessoense.
A família da minha mae sempre teve posses. Advogados famosos,
eram os mais requisitados da cidade. Mas a família do meu pai, os
Cavalcanti, nem sempre esteve por cima. Vovo Ronaldo, pai do meu pai,
constantemente procurou fazer carreira na política, mas após alguns anos
tentando carreira, nao havia conseguido se eleger nem para vereador.
Somente após conhecer uma mae de santo famosa do candomble, mae
Regina, e que as coisas começaram a melhorar.
21
C A P Í T U L O 1 - O C O M E Ç O
Os trabalhos feitos por mae Regina eram muito poderosos, e diante do
desejo de ascensao política do vovo, ela consagrou a vida dele a um orixá:
Xango. Os filhos de Xango possuem muita influência política, têm um
dom de convencimento muito grande, e era disso que o vovo precisava.
Após a consagraçao realizada, as coisas começaram a se encaixar...
Primeiro, foi a eleiçao para vereador, que finalmente deu certo. Depois,
prefeito, e daí entao, só sucesso! O lado financeiro deslanchou, e assim
começou a trajetória bem-sucedida da família Cavalcanti na política.
Contudo, essa história do meu avo com mae Regina era bem camu-
flada. Ninguem sabia de pacto algum entre eles devido à sociedade daquela
epoca ainda ser muito conservadora com esse lado espiritual da coisa.
Para todos os efeitos, ele era um católico bem devoto, de ir à missa no
domingo e tudo mais! Mae Regina, só às sextas-feiras, lá no terreiro dela.
Já estando muito bem financeiramente e sendo um político bastante
reconhecido, foi fácil para seu Ronaldo e toda a família começarem a ser
bem aceitos pela sociedade paraibana. Papai passou a ser “o partido” da
cidade e a viver no meio dos poderosos locais. Filho de político, um rapaz
bonito... Desse jeito, nao foi dif ícil encontrar Vania Mello e com ela for-
mar um belo par. Mamae era uma das moças mais bonitas e requintadas
da cidade e, desse modo, a uniao estava concretizada! Se houve amor entre
os dois, eu nao sei. Mas que havia vantagens para ambos os lados, isso
havia.
Algum tempo depois, vovo sentiu necessidade de fazer um sucessor
político e, como os outros filhos viviam apenas de farra e diversao, meu
pai foi o eleito para, juntamente com ele, dar sequência à carreira polí-
tica da família. Papai logo foi encaminhado pelo vovo ate mae Regina, e
assim como havia sido feito com ele, meu pai tambem foi consagrado a
um orixá. Seu “guia” passou a ser Ogum. Os filhos desse orixá cons-
troem coisas sólidas, que perduram, e ele tinha exatamente essas carac-
terísticas. Ele era um homem forte, que corria atrás do que queria, sem
depender de ninguem. As vezes, nao esperava nem pela palavra de seu
Ronaldo.
22
A O V E L H A E O D R A G Ã O : O S E S C O L H I D O S
Quando meu avo foi eleito deputado estadual e começou a apoiar
papai para vereador, foi firmada de vez uma das maiores dobradinhas
locais. As futuras eleições já pareciam garantidas e sempre giravam em
torno dos dois: Ronaldo para federal, Alberto para estadual... Era sempre
assim: eles levavam todas!
No entanto, a história imbatível da “dupla dinamica” começou a mudar
quando meu pai decidiu andar com as próprias pernas, espiritualmente
falando.
Papai, eleito deputado estadual (e o vovo para federal, claro!), começou
a se incomodar com a interferência de mae Regina. Ate entao, ela nao se
envolvia muito nos negócios e geralmente ficava apenas nos bastidores. O
problema e que mae Regina começou a querer aparecer com mais frequ-
ência na vida dos Cavalcanti. Dizia que eles deviam tudo à ajuda dela.
Começou a exigir estar sempre presente às cerimonias de posse, às sole-
nidades, às festas... E o pior e que as pessoas já estavam comentando, e isso
nao era nada bom para eles. Pegava muito mal andar com uma mae de
santo para todos os lados!
O ponto culminante para o rompimento dessa relaçao se deu diante de
uma negativa do papai em receber mae Regina durante uma festa na casa
que ele ocupava com mamae. A coisa desandou de vez! Ela ameaçou con-
tar da ligaçao deles para os jornais, ele a ameaçou de morte, e o relaciona-
mento foi totalmente desfeito.
Coincidência ou nao, vovo morreu dois meses depois, com um der-
rame cerebral. Já mae Regina apareceu logo depois, morta dentro de um
carro, com um tiro no coraçao. Ate hoje as pessoas falam que foi durante
um assalto malsucedido...
Entretanto, isso tudo sao histórias que me contaram. Na realidade, ate
que se chegasse a esses acontecimentos, eu nao havia nem nascido! Eu só
começo a fazer parte desse enredo um pouquinho mais para a frente.
Após as mortes de vovo e de mae Regina, papai ficou “descoberto”
espiritualmente. O doutor Alberto Cavalcanti nao podia se arriscar a
ficar muito tempo naquela situaçao, mas tambem nao queria voltar para
23
C A P Í T U L O 1 - O C O M E Ç O
o candomble, depois do problema com mae Regina, ele ficou malvisto
diante deles. Papai estava à procura de algo mais discreto, elitizado, um
lugar onde se sentisse acolhido e seguro. Foi quando um amigo advo-
gado, muito próximo a ele, contou que estava participando de um grupo
de “controle da mente”, misturado com uns trabalhos “para ficar com o
corpo fechado”. Era uma mistura de magia, mesa branca... Meu pai nao
entendeu direito, mas achou tudo muito interessante e aceitou o con-
vite. Chegando lá, para sua surpresa, encontrou várias pessoas conheci-
das. Só gente da alta! A nata da sociedade pessoense estava no local, e
papai tambem se encaixou direitinho. Mamae nao sabia absolutamente
nada sobre esse assunto.
O “seu Alberto” começou a participar do tal grupo e foi se adaptando
bem àquele pessoal. O mestre orientador de lá era um sujeito que havia
morado durante muito tempo nos Estados Unidos e gostou do meu pai
logo de cara! Esse mestre começou a separar o pessoal do grupo, de acordo
com alguns níveis:
• O nível de iniciados era para os principiantes. Aquele pessoal curioso
que estava chegando, conhecendo as atividades naquele momento.
• O nível intermediário era para aqueles que participavam do grupo
há, no mínimo, dois anos e que já demonstravam certo nível de confiança
e de conhecimento acerca das práticas do grupo.
• O nível avançado era para aqueles que desejavam tornar-se mestresi
magos dentro desse grupo. Era um nível altamente sigiloso e elitista, do
ponto de vista sobrenatural do negócio.
Esse mestre, de nome Waldeck, passou a desenvolver um forte relacio-
namento com meu pai. Observou que ele já possuía experiência na área
espiritual e, apenas um mês após sua frequência no lugar, colocou-o no
nível intermediário. O amigo do papai, aquele que o levou para conhecer
o lugar, continuou no nível de iniciado, apesar de frequentar há seis meses
aquele “ambiente”. Deve ter ficado chateado...
Entretanto, o que vale a pena contar era qual interesse esse grupo tinha
e o que eles ofereciam aos membros. O “ensino de controle da mente” na
24
A O V E L H A E O D R A G Ã O : O S E S C O L H I D O S
realidade era só uma camuflagem para o que eles realmente ensinavam.
Esse grupo se denominava, para os mais íntimos, A Igreja dos Escolhidos.
Eles nao tinham templo, nem placa. Os encontros aconteciam na resi-
dência do próprio Waldeck, em um escritório imenso e bem isolado do
restante da casa, assim me contou meu pai. Esse Waldeck era diretor de
uma multinacional e viera abrir uma filial na cidade de Joao Pessoa. Foi
dessa maneira que ele se instalou e trouxe essa “igreja” junto.
Quando começou a fazer parte do grupo intermediário, papai passou
a conhecer melhor o nível do assunto. Muito sutilmente, Waldeck — que
as pessoas chamavam de mestre, mas na realidade era mago — foi indu-
zindo o grupo intermediário em um estudo sobre Anton LaVey e seus
ensinamentos. LaVey foi o criador da Igreja de Sata, iniciada nos Estados
Unidos.
1
Como Waldeck já haviam orado em Sao Francisco, na Califórnia,
frequentou o lugar e aprendeu com os próprios discípulos de LaVey toda
a filosofia de vida deles. E a filosofia era exatamente essa: aproveitar ao
máximo a vida e o prazer pessoal, na totalidade. Nada dessa conversa de
renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz ou oferecer a outra face. Isso era
conversa de cristao idiota!
Para os membros dessa seita satanista, o Diabo era muito bom para os
seus filhos. Ele, sim, importava-se com seus seguidores a ponto de realizar
qualquer um dos seus desejos, e tudo o que ele exigia em troca era apenas
“a alma” dos seus seguidores... Contudo, o que realmente importava para
aquele pessoal eram as vantagens daquele estilo de vida e, sobre isso,
Waldeck sabia muito:
— As nossas exigências naturais nao devem ser reprimidas — dizia ele.
— A nossa satisfaçao pessoal e meta para o nosso pai Sata e vocês vao
1
Anton Szandor LaVey nasceu em Chicago, em 11 de abril de 1930. Esta é uma das poucas infor-
mações coerentes sobre a sua vida e há um grande conflito em sua biografia. LaVey teria recebido
ensinamentos ocultistas de sua avó cigana. Ainda teria viajado para a Alemanha ao lado de um tio
e trabalhado em circos, cabarés e até mesmo na polícia de São Francisco. LaVey também teria, su-
postamente, vivido romances com as atrizes Marilyn Monroe e Jayne Mansfield. Em 30 de abril de
1966 fundou a Igreja de Satã (Church of Satan). Faleceu em outubro de 1997 devido a um edema
pulmonar. Atualmente, a igreja ainda existe e é presidida por Peter Gilmore.
25
C A P Í T U L O 1 - O C O M E Ç O
descobrir que ele tem prazer em satisfazer cada uma das suas vontades...
— falava sempre o “mestre” Waldeck.
Maravilha! Satisfaçao pessoal, sucesso e proteçao dos demonios
bonzinhos era tudo de que papai precisava naquele momento conturbado!
E aliado a um pessoal tao bacana e influente daqueles... Ele estava na
“igreja” certa!
A reuniao semanal tinha a ver com o crescimento pessoal junto às
entidades demoníacas — para alcançar os seus desejos, ter um guia de
proteçao espiritual —, e tambem tinha a ver com a implantaçao da Igreja
dos Escolhidos aqui no Brasil, em Joao Pessoa, mais especificamente. Os
membros poderiam — dependendo do grau de fidelidade e do tamanho
do pacto — ter o que quisessem e da maneira que desejassem, só precisa-
vam ser fieis ao chamado do líder. Só um alienado, e com tendências à
autocomiseraçao, perderia uma oportunidade dessas. Acho que e por isso
que a maioria dos cristaos e pobre e sofre tanto... Burrice faz parte da
genetica desse povo!
E já deu pra perceber que burro papai nao era! Tornou-se discípulo
pessoal de Waldeck e uma das bases para a implantaçao da Igreja dos
Escolhidos aqui na cidade.
Após seis meses frequentando as reuniões uma vez por semana, meu
pai, o deputado estadual Alberto Cavalcanti, fez o seu primeiro pacto de
sangue. Esse pacto tinha como propósito obter a cobertura dos demonios
sobre a vida dele. Doenças, acidentes, problemas financeiros — nada
aconteceria ao meu pai, devido à proteçao do seu guia. A entidade escolhida
para acompanhar sua vida foi Agatodemon — um demonio poderosís-
simo, que acompanha a pessoa durante toda a sua vida, trazendo direcio-
namento e proteçao. Ele nunca comentou a respeito de como o pacto foi
feito, mas isso e apenas um pequeno detalhe. Para ter proteçao nesse meio
político, vale qualquer negócio!
Oito meses após o primeiro pacto, houve eleiçao para deputado federal
e papai foi eleito com a maior votaçao do estado. Na epoca, aos trinta e qua-
tro anos de idade, foi um fenomeno nas urnas. Por causa do mandato, ele
26
A O V E L H A E O D R A G Ã O : O S E S C O L H I D O S
e mamae tiveram de se mudar para Brasília, a fim de que ele assumisse a
cadeira de deputado federal. Devido à distancia, o doutor Alberto
Cavalcanti nao podia mais aparecer nas reuniões da igreja, mas nao se
afastou de Waldeck e da turma dele. Constantemente, entravam em con-
tato um com o outro por telefone. Waldeck ficou sendo uma especie de
guru à distancia, ajudando papai a tomar decisões importantes. Enquanto
isso, meu pai ajudava a igreja paraibana com recursos financeiros. Durante
esses acontecimentos, dona Vania, minha mae, achava que papai ia a uma
igreja normal. As vezes, ate pedia para acompanhá-lo — coisa que ele
nunca permitia, lógico!
Assim, a aliança deles continuou. Papai estava mais do que satisfeito
com a sua vida pública e espiritual. Apenas uma coisa faltava para comple-
tar a totalidade da sua alma: eu mesmo! É, um filho.
Apesar de tanto sucesso na carreira, ele ainda nao havia conseguido
gerar um herdeiro. Minha mae nunca havia pensado em engravidar devido
à falta de tempo de meu pai. Mas, com a ida deles para Brasília, afastan-
do-se da família, ela começou a sentir-se muito só e pensou melhor no
assunto. Decidiu que era a hora de tentar... E foi entao que, seis meses após
a mudança, dona Vania engravidou e cá estou eu.
Cristiano Mello Cavalcanti, natural de Brasília, nascido em 9 de maio.
Minha história só começa agora... Ah! E o nome, como eu falei no início,
foi coisa da minha mae mesmo! Falou que tinha sonhado com ele, que era
bonito e era proibido a papai opinar. E agora, eu que o aguente! Acho que
foi apenas uma fatalidade do destino.
Quando criança, conta mamae, eu era uma criança impossível de se
lidar: o demonio em forma de gente. Eu adorava quando ela me chamava
assim! Deixava um rastro de destruiçao por onde passava. Cheguei a
colocar uma ninhada de cachorrinhos no vaso do banheiro (nao queira
saber o resultado...), gato no freezer e por aí vai... Machucava-me quase
que diariamente. Nao conto quantas vezes fraturei perna, braço e outras
partes do corpo. Eu realmente possuía um tipo de “espírito destruidor”
comigo.
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C A P Í T U L O 1 - O C O M E Ç O
Entretanto, apesar de ser bem encapetado, o curioso e que tambem
conseguia ser uma criança extremamente cativante. Convencia fácil
minha mae, professoras e sempre me safava das coisas erradas que apron-
tava! Nao sei o que acontecia, mas desde cedo tive a impressao de que eu
tinha um orientador, alguem que me direcionava a fazer as coisas de modo
que eu nao seria pego. Sempre ouvia uma voz me ensinando, passo a passo,
como elaborar minhas peraltices, tudo direitinho... Nao falei que era
sinistro° Eu nunca entendi direito que sensaçao e que voz eram essas...

Ainda durante a minha infancia, papai foi eleito senador, mas aos pou-
cos foi cansando da vida pública e começou a investir em algumas empre-
sas. Como já possuía muito prestígio e bens acumulados, sentiu necessi-
dade de mudar o rumo da sua vida. Afinal, eram mais de vinte anos dedi-
cados à política.
Durante dezesseis anos vivemos em Brasília, mas a mudança de rumo
para a área empresarial despertou no meu pai o desejo de retornar à
Paraíba. Possuidor de tantos bens e prestígio, fomos recebidos com festa
no retorno a Joao Pessoa.
E assim fui crescendo... Filho único de ex-senador (mamae ficou
traumatizada com meu comportamento e nunca mais desejou outro
filho), estudando nas melhores escolas, frequentando os ambientes
mais seletos (e ainda aprontando muito), passei a ser bem assediado pela
sociedade local. Entretanto, mesmo diante de todo o entrosamento,
nunca tive amigos verdadeiros. Companheiros° Poucos, para os momen-
tos de farra. Era um “dragao solitário”. Na realidade, o trato com pessoas
me cansava... Adorava conviver comigo e com o meu “eu” — se e que me
entendem!
No campo profissional, optei por cursar Administraçao e passei a
assessorar meu pai nas empresas dele. Mas nunca deixei de seguir a orien-
taçao daquela voz interior que me perseguia desde a infancia. Sentia seu
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A O V E L H A E O D R A G Ã O : O S E S C O L H I D O S
direcionamento em tudo que fazia. O que eu nao sabia e que essa voz ainda
me acompanharia durante muito tempo.
A respeito da minha vida amorosa, sabe como e... Nunca me liguei de
modo serio a ninguem. Se uma mulher bonita chamava minha atençao,
eu ficava... Simples assim! Mulher para mim sempre foi um bicho muito
complicado e grudento. Nao tinha muita paciência. Meus namoros dura-
vam no máximo um mês e no mínimo uma noite... Isso que e simplici-
dade!
Hoje, aos vinte e cinco anos, e controlando mais o temperamento, fui
convidado por papai para assumir um empreendimento turístico que
estava sendo negociado. O doutor Alberto Cavalcanti pretendia assumir
o termino da construçao de um resort de padrao internacional, com inves-
timento de milhões de reais. Isso tudo em terras paraibanas. Algumas
outras empresas já estavam interessadas no investimento, mas saímos na
frente, em termos de prioridade para a negociaçao. Para fecharmos o con-
trato, precisaríamos investir todo o nosso capital para adquirir a sua
concessao e, consequentemente, o termino da obra. Um investimento
altamente arriscado, mas que, se bem-sucedido, seria a nossa galinha dos
ovos de ouro... Nao poderíamos vacilar a respeito desse empreendimento.
Se demorássemos a decidir, outro grupo compraria. Se investíssemos e o
retorno nao fosse o esperado, estaríamos arruinados financeiramente.
Qualquer deslize administrativo nosso, e todo o negócio seria perdido!
Sem muito tempo para decidir, e totalmente na dúvida a respeito do
que fazer, papai lembrou-se de alguem que poderia nos ajudar muito
nessa situaçao: seu velho amigo e conselheiro Waldeck, o qual seria a
peça-chave desse negócio. Uma aliança com mestre Waldeck teria de ser
feita para que o sucesso do resort estivesse garantido.
Uma aliança que determinaria nosso futuro financeiro. Uma aliança
que precisaria ser firmada entre nós, sendo totalmente decisiva para nos-
sas vidas. E eu estava totalmente disposto a fazer parte dela!

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