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CARTOGRAFIA POLÍTICA - AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE (Tese de Doutorado)

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL MUSEU NACIONAL

CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto

2006

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CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Antropologia Social. Orientador: Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho

Rio de Janeiro Julho de 2006

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CARTOGRAFIA POLÍTICA: AS FACES E FASES DA POLÍTICA NA BAIXADA FLUMINENSE

Alessandra Siqueira Barreto
Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho

Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Antropologia Social.

Aprovada por: ____________________ Presidente: Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho ____________________ Prof. Dr. Moacir Gracindo Soares Palmeira (PPGAS/ MN/ UFRJ) ____________________ Prof. Dr. Antônio Carlos de Souza Lima (PPGAS/ MN/ UFRJ) ____________________ Profa. Dra. Karina Kuschnir (PUC – RJ) ____________________ Profa. Dra. Alzira Alves de Abreu (CPDOC – UFRJ)

Rio de Janeiro Julho de 2006

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Barreto, Alessandra Siqueira. Cartografia política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense/ Alessandra Siqueira Barreto – Rio de Janeiro: UFRJ/ MN, 2006. xi, 392f.: il; 31 cm. Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho Tese (doutorado) – UFRJ/ Programa de Pós-Graduação/ Museu Nacional, 2006. Referências Bibliográficas: f. 352-374. 1. Baixada Fluminense. 2. Política. 3. Trajetórias 4. Eleição 5. Processos de identificação. 6. Projeto. I. Velho, Gilberto Cardoso Alves. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. III. Título.

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SUMÁRIO Resumo............................................................................................................................6 Abstract............................................................................................................................7 Agradecimentos................................................................................................................8 Introdução........................................................................................................................11 Capítulo I. Versões e Proposições...................................................................................25 Capítulo II. Jorge Gama: o articulador (ou visionário?) de uma Baixada......................64 Capítulo III. Zito: da Baixada para o mundo................................................................127 Capítulo IV. Lindberg: do mundo para a Baixada........................................................200 Capítulo V. Sobre o tempo da política na Baixada: entre festas e guerras...................267 Considerações finais: Construindo (e des/ re-contruindo) reis, ídolos e bacharéis......320 Bibliografia Geral..........................................................................................................352 Bibliografia sobre Baixada Fluminense........................................................................370 Anexos...........................................................................................................................375

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RESUMO Cartografia política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense Alessandra Siqueira Barreto Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho

Esta tese visa, a partir da apresentação de três trajetórias de políticos que atuam na Baixada Fluminense, apreender os sentidos e as imagens acionadas sobre este “lugar” e em que medida se relacionam com os projetos políticos em questão. Ao apresentar as possibilidades de se construir a categoria Baixada, as práticas, os discursos e os projetos políticos são pensados como operadores dos movimentos de expansão e retração das fronteiras simbólicas (assim como as espaciais), enfocando o estatuto adquirido pela política no que tange à enunciação desta multiplicidade. Jorge Gama, José Camilo dos Santos Filho – o Zito e Lindberg Farias são apresentados como algumas das faces da política local. Através de suas trajetórias, buscamos compreender os processos de interação e de trânsito dos atores políticos entre os diversos repertórios e universos socioculturais, dando destaque aos conflitos e alianças que tornam possíveis seus projetos, acionando diferentes imagens sobre Baixada em negociações cotidianas entre atores e agências. Os atores políticos são pensados então como enunciadores-políticos que, ao lhe conferirem sentido, reinventam-na.

Palavras-chave: Baixada Fluminense, Política, Trajetórias, eleição, Processos de identificação, Projetos políticos.

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ABSTRACT Political Cartography: the faces and phases of Baixada Fluminense’s politcs Alessandra Siqueira Barreto Adviser : Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho

This PhD Dissertation inquires into the political career of three politicians from the Baixada Fluminense so as to understand the extent to which their political projects relate to the meanings and images commonly associated to this “place”. While presenting the possibilities of constructing the category Baixada, the practices, discourses and political projects are conceived as operating the movements of expansion and contraction of the symbolic (as well as of spatial) borders, with a specific focus on the status held by politics in regard to the enunciation of this multiplicity. Jorge Gama, José Camilo dos Santos Filho – Zito and Lindberg Farias are pointed out as some of the local politics’ faces. Through their trajectory, we seek to understand the processes of interaction and the passage of political actors through the various repertoires and socio-cultural universes, while outlining the conflicts and alliances that make their political projects possible as they trigger different images of the Baixada in their daily negotiations. The political actors are here thought as political enunciators that reinvent the Baixada while signifying it.

Key-words: Baixada Fluminense, Politcs, Social Trajectory, Election, Political Projects.

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autores — foram co-partícipes nessa empreitada. jamais precisarei caminhar sozinha. Estar agora agradecendo a quem compartilhou comigo todos esses momentos. À minha família devo a sensibilidade. e a meu pai por buscar na construção de diálogos (por vezes. de quem herdei o “gosto pelo mundo”. elas foram produzidas em conjunto. finalmente chega ao fim. a mim mesma e aos outros. aqui é a hora e o lugar para dizer: obrigada. a obrigação de dar. ele se fez presente com conselhos e atitudes amigas. Ter compartilhado com ele esses quase oito anos me fez perceber. meu orientador. o afeto e a confiança. pois foram tantos que me apoiaram. Afinal de contas. seja por seu bom humor. E como na dádiva maussiana. seja por seu rigor.AGRADECIMENTOS É neste momento ritual. receber e retribuir não se encerra nessas linhas. funcionários. amigos. entrevistados. cada qual a seu modo é claro. que é alguém com quem poderei contar sempre e que mesmo finda esta etapa. Ao menos desta etapa. é ter a oportunidade de lembrar. família. mas por vezes irritante e angustiante. professores. Por isso. 8 . utilizar-me-ei de generalizações e sentimentos. Particularmente à minha mãe. Nomear parece injusto. que eu me veria diante da missão de escrever outras tantas páginas. como no ato imediato de um ponto final. que doa. que também incluo aqui como “da família”. devaneios) entre a (sua) matemática e a (minha) antropologia um caminho para estar sempre próximo. pois mais do que alguém que simplesmente ensina. bons e ruins. Agradeço a Gilberto Velho. que sentimos uma mescla de dever cumprido e de certa sensação de vazio. A escrita prazerosa. que por mais que tenha sido eu à frente de uma tela em branco a escrever as páginas que aqui estão. Todos – meu orientador.

os quais não nomearei por excesso de cuidado. com quem compartilhei ótimos momentos. Federico Neiburg. Cristina Patriota. Sandra Costa. Álvaro e Marcelo (Informática). Fernanda Piccolo. Aos professores que jamais esquecerei: Moacir Palmeira. dispostos a tornar mais simples meus problemas cotidianos. A Roberta Ceva que compartilhou comigo alguns momentos de tensão durante esta tese e.Aos amigos de toda uma vida. Carla e Cristina (da Biblioteca). Andréa Moraes. principalmente. pela água gelada compartilhada em dias de caminhadas políticas. Vicka. Pedro Alvim e Marcelo. acompanhando-me em caminhadas e eventos políticos. Aos moradores anônimos da Baixada pelas conversas de portão. por ter me recebido por vezes seguidas. José Sérgio Leite Lopes. coletando dados. Giralda Seiferth. pelos papos bem humorados e pela recepção sempre cordial. Afonso (Contabilidade). Renata e Michele. agradeço carinhosamente e também àqueles com os quais convivi durante meus dias de Quinta: Adriana Facina. Lygia Sigaud. aqui representados por Fernando. sempre bem humorado e disposto a ajudar. Luis Cláudio e Marcelo (Secretaria). Bugre. PTB e PMDB que se dispuseram a conversar comigo. A Zito e Andréia Zito por terem dispensado algumas horas de seus dias em entrevistas. Jackiele. fazendo entrevistas com moradores. Patrícia Delgado. Roberto e Miguel (Cantina) por se colocarem sempre como amigos. A todos do PT. Assim como a Antônio Carlos de Souza Lima e Karina Kuschnir que acompanharam o processo de “fabricação” desta tese. Rogéria. À Gisele e Thamara que me auxiliaram durante um período da tese. Agradeço igualmente a Jorge Gama. por seu apoio indispensável na edição deste trabalho. Certamente você foi responsável por tornar a leitura dessas páginas bem mais agradável. Sua dedicação e amizade foram mais que “assistência de pesquisa”. A Isabel. 9 .

Aos colegas da UFU. Sérgio. À Vitória que traz em seu nome a marca de quão querida e desejada é. Aos já bons amigos que fiz em meus dias nas Gerais. pela infinita paciência diante de minhas réplicas e tréplicas. Aos seus breves sorrisos entre choros e sonecas. pela compreensão em meus dias de fúria. 10 . Você é indispensável na minha vida e os dias em que posso estar contigo são sempre ensolarados. Obrigada pelas leituras durante as madrugadas. A Juarez Humberto. Por fim. um agradecimento especial. Deise. especialmente. agradeço ao CNPq que me concedeu bolsa durante os dois primeiros anos de minha tese neste Programa. por me amar sem limites. Lilia. Christy e Karen. Simplesmente por me fazer desejar ser sempre melhor.

sem que se notasse precisamente seus limites. de alguma maneira. às vezes incluído como o último município da Baixada. Era uma forma de participar da vida da cidade de uma maneira ou de outra. ainda. A visão cotidiana e repetitiva das cidades que se sucediam. É difícil precisar quando exatamente comecei esta etnografia. transferido o meu título de eleitor até a eleição de 2004. município localizado a 80 km do Rio de Janeiro. de forma mais ampla. Afinal. mas também porque sempre mantive algum vínculo de identificação com a localidade. deuse não apenas porque meus pais. um outro. o que pretendo elaborar aqui pode ser. marcou os meus dias durante muito tempo. por exemplo. Apenas reconheço que fiz uma opção consciente 11 . Não havia. O movimento era uma prática constante e uma exigência iminente. O destino: o Rio de Janeiro. Não que isto me torne uma “nativa” (se é que posso classificar-me desta forma). As idas e vindas pareciam-me. Os trilhos que levavam à Central do Brasil. em um primeiro momento. A Rodovia Presidente Dutra era um de meus caminhos habituais. intermináveis. que autorize o meu discurso ou. muito mais como moradora e observadora da Baixada Fluminense e somente mais tarde como questão sociológica propriamente dita. outros parentes e alguns amigos ainda moram por lá.INTRODUÇÃO Começo com um mapa da viagem. A política sempre permeou meus interesses. às vezes. A manutenção de meus laços com Paracambi e com a Baixada. pensado como uma cartografia (ainda que breve) da política na Baixada Fluminense. de certa forma. Acho importante refletir. sobre o fato de que nasci e morei até os 15 anos de idade em Paracambi. que me coloque em posição privilegiada.

de repente. 1995). Os tropeços foram intercalados por conversas com motoristas de vans e moradores em filas de ônibus. parecia que todas se faziam uma só: “Aqui na Baixada é assim mesmo!” “Você não tem cara de Baixada!” “Se você é de 12 . caminhadas e a procura por elas. Outro aspecto de meu “trabalho de campo” foi o trânsito entre “meus diferentes mundos”. portanto. Nova Iguaçu. tendo antes a pensá-la como multi-referenciada. Tudo me parecia fora do lugar. foram mesmo contraditórios. amigos dos amigos. onde residi de 1994 até 2004 (com alguns intervalos). assessores e eleitores. heterogêneo e perpassado por outras formas de pertencimento e processos de identificação que. um desejo de conhecer e desvendar a “casa”. cada paisagem. morei por dois anos e trabalhei por quatro e Paracambi. de uma etnografia multi-situada (Marcus.de transformar em objeto algo que fazia parte do meu cotidiano. cidade na qual estudei quando adolescente. agora. o Rio de Janeiro. A partir da pesquisa de campo. descortinavam-se diante de mim outras tantas Baixadas que eu não conhecia e. Os amigos. festas e chuvas. Novos lugares e novos sentidos. As inúmeras viagens operavam. nativos e mediadores. transformei-me numa pesquisadora em trânsito. De repente. cidade onde nasci e fui criada. políticos em campanha e outros que delas já desistiram. em pequenos diálogos. múltiplo. mais especificamente e geograficamente. Eu mesma estava fora do lugar. Cada dia era novo e cada fala. Não se trata. cada cidade me exigia mais e mais. conhecidos e estranhos viravam interlocutores. A própria alteração em meu status me fez redirecionar o olhar. O “movimento” foi parte constitutiva do meu cotidiano antes e durante todo o processo do doutorado e as pessoas que conhecia foram peças-chave para que esta pesquisa se desenvolvesse. em algumas situações. “marketeiros”.

tendo na figura de seu presidente. conflitivos (dentre os quais os projetos políticos analisados nesta tese). Farei. Não retomarei aqui a discussão sobre uma suposta imparcialidade — já exaustivamente abordada pelas ciências sociais — tampouco aquela relativa à possível interferência da proximidade (espacial e/ ou sociocultural) do pesquisador que opta pelo estudo no mesmo universo de que faz parte — questão explorada e problematizada por Velho (1980 e 1981) e Velho e Kuschnir (2003). sabe do que estou falando”. A decisão de estudar a política e. O “trabalho de campo” tornou-se a partir de então referência e marco para a antropologia. algumas observações sobre as condições de realização de minha pesquisa. Esta dissertação tratou da articulação — entendida em termos amplos e não restrita à articulação partidária — de uma associação de moradores em um bairro carioca. muitas vezes. Eu não segui o modelo tradicionalmente instituído pela antropologia clássica. marginal e estigmatizada ou ao lugar secundário que ocupa na historiografia da política regional. deu-se a partir do trabalho realizado para a conclusão do curso de mestrado. o 13 . Estas foram apenas algumas das falas “roubadas” de seus contextos e registradas aqui no intuito de expressar distanciamentos e acolhimentos que fizeram parte de minha vivência. mais especificamente. informando um novo fazer etnográfico. a partir de projetos diversos e.Paracambi. algumas trajetórias de políticos da Baixada Fluminense (assim como a de situá-los nas redes de que fazem parte). mais especificamente nas Ilhas Trobriand (1922). Minha opção pelo recorte socioespacial da Baixada Fluminense não se deve apenas à sua classificação como área periférica. mas também ao fato de que este “lugar” estaria em processo constante de construção. fundado por Malinowski a partir de sua pesquisa na Melanésia. no entanto.

a segregação socioespacial (Park (1967 [1916]). tentando pensar as relações entre a política e o mundo empresarial. logo se mostrou um tanto complicada devido à dificuldade — quase impossibilidade — de acessá-los e. 1918-1920). finalmente. Burgess (1928). com o apoio obtido da Fundação Rockfeller e a partir da atuação de diversos intelectuais. referindo-se antes a estudos marcados por influências diversas. Em 1929 o Departamento foi desmembrado e os pesquisadores se dividiram entre as duas áreas. Entre seus principais temas e autores encontramos: a integração e imigração (Thomas e Znanieki. mas as relações sociais dentro do próprio bairro) (Barreto. Voltei-me então para a idéia mais geral motivadora de minha entrada no doutorado: a Baixada Fluminense. Wirth (1928). passando por aqueles que procuravam dar conta das especificidades estabelecidas pelo novo ritmo das metrópoles (Simmel. Este estudo insere-se na área que se convencionou chamar Antropologia Urbana. Tal empreitada. pela interdisciplinaridade e que. Meu projeto inicial consistia em analisar as trajetórias de dois políticos locais. mais ainda. A Escola de Chicago não configura propriamente uma “escola” em termos de uma referência teórica específica. 14 . nos estudos da Escola de Chicago1 1 A Universidade de Chicago foi criada em 1892.mediador e porta-voz autorizado para lidar com o problema da eminente construção de um túnel urbano (que reconfiguraria não apenas o espaço físico. Os trabalhos produzidos pelos pesquisadores da Escola de Chicago. continuaram a exercer influência entre diversos pesquisadores preocupados com as cidades e com sua própria sociedade. o estilo de vida urbano. Seja nos trabalhos que enfocavam a cidade como objeto (Weber. o mundo empresarial da região. entre eles de pastores protestantes como Albion Small. Becker (1967 e 1973). A origem do que se convencionou chamar Escola de Chicago foi o Departamento de Sociologia e Antropologia que funcionou entre 1892 e 1929. Hughes (1971a e 1971b). apesar das variadas experiências que originaram. tiveram em comum a cidade e os grupos urbanos como objetos de estudo. a partir desta dupla inserção dos atores escolhidos. Wirth (1967 [1938]). as carreiras. no entanto. procurei unir dois interesses primordiais: a política e a Baixada. também empresários. no entanto. Becker (1977 e 1982). o desvio. 1967 [1902]) e. Ao ingressar no doutorado. 2001). 1967 [1921]). A passagem para uma antropologia das e nas cidades fomentou debates e buscou novas opções para lidar com os objetos produzidos a partir desse “encontro” do pesquisador com sua própria sociedade e da exigência de se constituir uma outra alteridade.

organizado por Valladares (2005). ainda que de forma incipiente. Impacto de uma tradição no Brasil e na França. A partir desta afirmação. no Rio de Janeiro. fundamentalmente pelo intercâmbio entre pesquisadores de Chicago. Mas se a escolha recaísse sobre a análise da trajetória de um único político. A amplitude de meu recorte e minha proximidade com o universo pesquisado foram os primeiros obstáculos enfrentados para a realização desta pesquisa. minhas escolhas e meus dados. as reuniões. 1974 [1961]. então. como seria possível contemplar o objetivo inicial de entender a multiplicidade de imagens e interpretações sobre este “lugar”? Provavelmente. pelos trabalhos desenvolvidos por Gilberto Velho e seus orientandos. por quê? A política surgiu. com a possibilidade de me fazer presente o maior tempo possível. seria um trabalho mais minucioso que me permitiria acompanhar pari paso o dia a dia do político. 1975 [1963]. com marcada influência dos trabalhos supracitados. além do próprio lugar ocupado pelo pesquisador. consultar o livro A Escola de Chicago. consultar Bulmer (1986). Becker (1990). 1969). como uma tentativa de tornar possível tal empreitada bem como de estabelecer algum tipo de estranhamento.me sobre meu recorte. Como enfrentar a Baixada Fluminense? E. p. influenciando toda uma geração de cientistas sociais e. “As idéias crescem. em parte. O trabalho de Foote Whyte (2005 [1943]) é exemplar para pensarmos a constituição da pesquisa com grupos urbanos. Sobre as experiências e diálogos de pesquisadores brasileiros e franceses com os pesquisadores de Chicago. a metodologia de trabalho empregada. 284). a heterogeneidade e a complexidade dos grupos sociais e das interações foram se impondo frente às transformações por que passavam as cidades em todo o mundo. como Donald Pierson em São Paulo. o estigma e as performances (Goffman (1975 [1959]. gostaria de debruçar. como resultado de nossa imersão nos dados e do processo total de viver” (idem. as alianças. afinal de contas. Esses autores tiveram papel de destaque na produção antropológica brasileira.que consagraram as pesquisas em meio urbano. 15 . Sobre a Escola de Chicago.

a aproximação com tal político mostrou-se dificílima2. no entanto. enfoquei o estatuto da política no que tange à enunciação da(s) Baixada(s). por intermédio de seus projetos individuais e na medida em que possibilitariam ou não a constituição de projetos coletivos. procurando abordar os projetos políticos como operadores dos movimentos de expansão e retração das fronteiras simbólicas e espaciais do que se convencionou chamar Baixada Fluminense. a meu ver.O segundo problema surgia justamente daí. visto que se encaixava exemplarmente no perfil do político-empresário e tinha sua imagem pública constantemente associada a uma representação da Baixada condizente com os noticiários jornalísticos dominantes na década de 1980. Tentei. descreveriam não apenas as práticas políticas locais como trariam à tona tal multiplicidade de formas de identificação e de constituição das diferentes Baixadas. 16 . montar um pequeno quadro de referência sobre repertórios e imagens mobilizados. após recorrentes tentativas. por recomeçar de outra forma. criminalidade e assistencialismo. quais trajetórias deveriam ser selecionadas? E por quê? Desde o início. em seguida. Logo em seguida. Se uma única trajetória não era suficiente para pensar na multiplicidade da Baixada a partir das práticas políticas locais. O critério adotado para a definição dos nomes a serem abordados nesta tese passou a ser a possibilidade de acionarem imagens diversificadas sobre a Baixada — e sobre o fazer político local — e não somente aquelas remetidas às idéias de violência. Ao tentar definir o lugar dessas práticas e discursos. privilegiando as narrativas construídas por políticos que. 2 Retomarei tal questão no capítulo 3 desta tese. eu estava decidida a abordar o caso de Zito. então. Acabei optando.

Levou apenas dez ou quinze minutos neste “atendimento” e logo me mandou entrar. que a agendou para a semana seguinte. Meu primeiro passo foi telefonar para a prefeitura de Paracambi e marcar uma entrevista com a secretária de André Ceciliano. O prefeito chegou às 9horas. falar comigo. conversamos sobre sua trajetória política. aproximadamente. A entrevista foi marcada para o dia 15 de setembro de 2003. não invadir o mundo da política. Cheguei antes das 8 horas e fiquei aguardando na sala de espera onde também estavam mais quatro pessoas que desejavam uma audiência com o prefeito (uma enfermeira. Logo em seguida. Minha condição de ex-moradora e os laços desse tipo de pertencimento foram. quando por fim me decidi a estudar as relações políticas locais.Achei adequado. uma mulher de aproximadamente 45 anos que era representante de uma associação de moradores e dois moradores de bairros da periferia). a partir daquele momento. decisivos. em 2003. após as inúmeras negativas que recebi da equipe de Zito. busquei imediatamente um possível mediador. portanto. naquele momento. seus projetos – entre os quais a reeleição – e também sobre a Baixada – sobre imagens veiculadas pela mídia. Na reformulação do projeto inicial. às 8h30min. André Ceciliano. André tornou-se um interlocutor e mediador fundamental. 17 . resolvi recomeçar a pesquisa entrevistando outros prefeitos da Baixada. Sendo assim. segundo um ditado comum nas cidades pequenas. Nesta primeira entrevista. Conversamos por mais de duas horas e. Este acesso foi facilitado porque já nos conhecíamos de Paracambi e. em seu gabinete na Prefeitura. para meu ingresso nesse universo. solicitou à secretária que me pedisse para aguardar um pouco pois atenderia a enfermeira para. em seguida. todo mundo se conhece”. “em cidade pequena. mas tentar entrar como convidada. Meu primeiro contato foi com o então prefeito de Paracambi (pelo PT). responsável por um projeto junto à Secretaria de Saúde.

E foi neste mesmo dia que. problemas estruturais. principais agências etc. pois ele iria “dar o que falar”. Naquele momento. Após algumas conversas e ponderações de meu orientador. ainda não havia decidido por que políticos “recortar” a Baixada. tendo assumido o cargo quando Nelson Bornier elegeu-se deputado federal nas eleições de 2002 — junto a quem permaneci pesquisando até o final da eleição de 2004. venceria a eleição. André me garantiu que. “de olho”. Belford Roxo. escolhendo entre nomes diretamente envolvidos com os novos 18 . Na ocasião. São João de Meriti. certamente. “Você pode anotar isso: o Lindberg vai ganhar essa eleição em Nova Iguaçu. mas percebi que seria inviável trabalhar com todo o material coletado de forma adequada. resolvi definir as trajetórias políticas a serem abordadas.” Contou-me sobre sua relação com Lindberg e alertou-me que ficasse “ligada”. ficou evidenciada a ligação de André com Lindberg Farias. Nilópolis. Mesquita. personalidades políticas e empresários. já estava acompanhando a articulação da campanha para a reeleição de Mário Marques — eleito vice-prefeito de Nova Iguaçu em 2000.violência. Ele é um cara com carisma. o grande nome do partido para as eleições de 2004 seria o de Lindberg Farias e que ele. a partir de uma pergunta sobre os novos nomes do PT para a Baixada (referindo-me mais explicitamente a Narriman Felicidade que há pouco havia ingressado no PT. Ao mesmo tempo. Queimados. já que seu marido era ninguém menos que o polêmico Zito). pesquisando a maioria dos municípios da Baixada Fluminense — ou seu núcleo mais conhecido. com potencial e não entra pra perder. Realizei diversas entrevistas com prefeitos. apesar do alvoroço em torno de Narriman. fato este que provocara grande repercussão no partido e também na imprensa. constituído por Duque de Caxias. Resolvi partir dos executivos municipais em seu cotidiano. Nova Iguaçu. Japeri e Paracambi.

mas posteriormente estabeleci uma relação similar com Pedro Cezar (o PC. Dentre eles. em um determinado momento da pesquisa. pela importância política. A opção por Lindberg deveu-se ao fato de. Zito foi um dos escolhidos. André Ceciliano foi o primeiro. desde os anos 1970. a eleição não seria objeto de análise deste trabalho e as movimentações e a organização do dia a dia das campanhas políticas não constava de meus planos de investigação.rumos que a política na Baixada poderia tomar. Os três perfis aqui analisados são bastante contrastantes. Concentrei meus esforços em três personalidades políticas. cit. e por sua “sobrevivência política”. cada qual mantendo uma relação bastante singular com a região. 19 . Lindberg Farias. fui engolida pelos acontecimentos políticos que tiveram início no fim de 2003. permitiram-me contrapor os estilos e as atuações desses atores sociais que. Até então. intensificando-se nos primeiros meses de 2004: a entrada em cena de um político outsider. O pertencimento a distintos partidos políticos e as carreiras de rumos diversificados. guardavam alguma similaridade: seus projetos políticos tinham a Baixada Fluminense como locus privilegiado. Tal escolha justifica-se. termos sido confrontados a uma situação inusitada. Durante a pesquisa não tive a sorte de deparar-me com um Doc como Foote Whyte (op. mesmo sem conseguir dele me aproximar. mas contei com a colaboração de diversos (e valiosos) informantes ativos (em contraposição à sua idéia de “informante passivo”). como se a tese ganhasse vida própria.). os outros dois foram Jorge Gama e Lindberg Farias. A escolha de Jorge Gama explica-se em grande medida por seu papel central na política da Baixada. mesmo estando há muitos anos sem mandato legislativo. Entretanto. no entanto. pela especificidade da vida pública e pelas imagens e projetos de Baixada suscitados por esses atores — como procurarei demonstrar ao longo desta tese. de forma geral.

Eles não se contentavam em informar-me. eu procurava esquivar-me de temas delicados e de “questões melindrosas”. Em face da opção por conduzir o estudo a partir de três trajetórias específicas. op. Além da pesquisa bibliográfica sobre a Baixada Fluminense. Na maioria das vezes. no entanto. os jornais (impressos. Desde 2003. O “estilo” de pesquisa adotado me possibilitou trabalhar com abordagens e técnicas diversas.). p. a publicação de um artigo. consistia no fato de que.). a todo momento. os nomes muitas vezes omitidos.assessor de comunicação de Mário Marques).. as entrevistas e conversas com políticos. também significava que a trajetória pública destes homens despertava interesse — e quem sabe minha aceitação poderia ser capitalizada (como o foi e tratarei disso mais adiante) em alguma visibilidade (nota em jornal.. cit. mas a “conversa” era o instrumento por intermédio do qual se dava a aceitação e a justificativa para a minha interferência inoportuna (cf. exigiam que eu me posicionasse. televisionados e on line) foram fontes 20 .. Assim como Foote Whyte. particularmente sobre a política na Baixada. a escolha das palavras mais cuidadosa. não trabalhei com histórias de vida ou estudos de caso. A peculiaridade do objeto e do tempo que cada político dispunha para estar comigo obrigavam-me a criar alternativas ao “contato o mais íntimo possível” — bem como o fato de estar morando em outro estado. ao mesmo tempo em que a minha presença poderia ser problemática e desconfortável (as conversas deveriam ser “controladas”. 305). O reverso da moeda. de um livro etc. Foote Whyte. emitindo. com Jorge Gama e com Kayo (assessor de comunicação de Lindberg Farias). pessoas a eles ligadas e moradores foram realizadas como forma de penetrar aos poucos no “mundo” da política local. desde agosto de 2004. suas opiniões sobre “a política” e sobre “a Baixada”.

assim como sítios eletrônicos de partidos políticos e páginas pessoais de alguns políticos na Internet. pelo político mencionado e. Jornal do Comércio. englobando o início da década de 1980 até o final de novembro de 2004. Gazeta Mercantil. motoristas. Estado de Minas. As matérias foram classificadas. com eles sendo realizadas entrevistas formais. Revista Veja. As matérias coletadas provêm. majoritariamente. inicialmente. juntamente com os moradores dos municípios da Baixada e com pessoas diretamente ligadas aos políticos. Nesses dois recolhi todas as matérias publicadas sobre Jorge Gama. Entre o staff de cada um. Já que não haveria como mapear as relações de cada ator analisado e entrevistar/ conversar com pessoas que acompanharam tais trajetórias. ou seja. também realizei pesquisas on line — cujas buscas foram realizadas pelos nomes dos políticos e/ ou da Baixada Fluminense em periódicos e semanários diversos até o fechamento desta tese: Folha de São Paulo. Também foram entrevistados secretários de governo. os assessores de comunicação foram privilegiados. Extra. O Dia. Lindberg Farias e Zito até o momento imediatamente posterior à eleição de 2004.privilegiadas de análise. 21 . mesmo porque a imprensa (em suas diversas modalidades) foi trabalhada como um “informante” identificado. Jornal de Hoje. Revista Isto É. como fonte de informações que traduz interesses próprios. Não houve nesta abordagem qualquer intenção de mensuração quantitativa. dos jornais cariocas O Globo e Jornal do Brasil. utilizei os meios de comunicação — mais do que como fontes — como informantes mesmo. por assunto. Além dos jornais mencionados. Também foram consultadas atas de sessões da Assembléia Legislativa que diziam respeito a algum acontecimento marcante para os políticos escolhidos. em seguida. ou por vínculo profissional ou por familiar e de amizade.

qualquer hora era hora. Além das entrevistas. Lindberg e Zito. comprar algo) como parte de uma “vivência de campo”. o que implicava em transformar minhas “idas e vindas” à Baixada (para encontrar amigos. quando possível. A suposição (ou presunção) de um domínio sobre as distâncias processadas caiu por terra. Nesses movimentos de “abertura” e “fechamento” fui. casas. mas também pelas pessoas com quem fui me relacionando e que me classificavam ora como pesquisadora-moradora. corredores.fotógrafos de campanha. candidatos às Câmaras Municipais. às vezes. aos poucos. curiosamente. com o mundo da política na Baixada tornou-se instigante e prazeroso. Alguns deles solicitaram que eu desligasse o gravador em alguns momentos da entrevista. Elas aconteceram em locais diversos: gabinetes. ora como moradora-pesquisadora. ou ainda só como pesquisadora ou só como (ex-)moradora. Como eu estava sempre “armada” com meu gravador. mais ou menos duradouro. carros etc. coloquei-me como etnógrafa em tempo integral. diversas outras situações e conversas informais colaboraram para minha “imersão nos dados”. encontrando o meu lugar — não definido apenas por mim e pela idéia inicial de que eu poderia “controlar tudo”. para que a informação pudesse ser dada “em off”. só puderam ser construídos a partir da aproximação com meus interlocutores. restaurantes. Optei por entrevistas abertas e gravadas. Apesar de não residir em um dos municípios da Baixada durante o período da pesquisa. festas. ainda que. e. eu me cobrasse um certo distanciamento e alteridade que. e o convívio. 22 . ir a um restaurante. bares. alguns políticos próximos a Jorge. assim preservava-se o “clima de conversa” — nenhum dos meus interlocutores tendo demonstrado qualquer constrangimento diante de meu pedido para realizar a gravação. Minha familiaridade com lugares e pessoas não se revelou um empecilho à pesquisa.

vereadores. à primeira vista. no entanto. por acreditar que as fases da política na Baixada podem coexistir em situações que. Adianto que não foi este o objetivo. inicio a tese com uma síntese (no primeiro capítulo) de algumas considerações a respeito de como a categoria Baixada Fluminense vai sendo formada e transformada ao longo do tempo. na medida em que traduzem repertórios culturais diversificados e distintas possibilidades para se pensar o “lugar” em diferentes contextos. Destaco apenas que nenhuma delas fez qualquer objeção ou restrição ao uso de seu nome. apresentam-se como antagônicas. Tal fato deve-se à tentativa de — juntamente com apontamentos sobre as práticas políticas e as imagens acionadas sobre a Baixada — seguir os acontecimentos no tempo. por vínculos profissionais e/ ou pessoais. Enfatizo. a partir dos discursos dos diferentes atores e agências sociais em jogo. foram alterados visto que em função quer das informações. exponho as trajetórias de Jorge Gama. 23 . Zito e Lindberg Farias. quer de suas opiniões. Nos três capítulos subseqüentes. A construção da tese implicou em uma ordenação dos capítulos que. estariam expostas a constrangimentos e algum tipo de retaliação. músicos. deputados e moradores de um município recém-emancipado. Já os nomes dos moradores e de pessoas ligadas aos políticos. à primeira vista. Sendo assim. procurando apreender as formas como a política é por eles entendida e vivenciada. abordo os trabalhos mais recentes que lidam com a Baixada e com a multiplicidade de suas construções: de historiadores.A respeito dos nomes. decidi-me por mantê-los em função do caráter público das trajetórias abordadas. A partir dessas classificações. que minha escolha por três políticos (as faces) que ainda atuam na vida pública justifica-se. enfatizando as imagens e discursos acionados sobre a Baixada. além dos projetos políticos de cada um. em grande medida. respectivamente. pode parecer marcada pelo recorte cronológico.

buscamos compreender os sentidos atribuídos à política e a suas práticas e a relação entre os projetos individuais e coletivos. de outro. mencionamos algumas considerações sobre a construção dos sistemas de visibilidade e do papel dos meios de comunicação para se falar de política e de cidadania nas sociedades contemporâneas. Por fim. O quinto e último capítulo focaliza o tempo da política na Baixada — tomando como base as eleições de 2004 — sintetizado nas idéias da festa e da guerra. uma estrutura específica de visibilidade e da relação políticoeleitor propiciada pelos showmícios e. 24 . a dimensão conflituosa das contendas eleitorais e das disputas entre projetos políticos diferenciados. Desse modo.Pensando essas trajetórias como interligadas a redes políticas mais amplas. privilegiamos de um lado.

cabem aqui algumas considerações iniciais. 1991 e 1999. Paracambi. Duque de Caxias. matizar tal abordagem a fim de pensar o “lugar” de cada um na Baixada. divulgado pelo TSE. Queimados. sua delimitação ainda permanece algo polêmica. Mesquita. São João de Meriti e Nilópolis). Não há consenso quando o assunto é Baixada Fluminense. Magé e Guapimirim — que. Com uma população de mais de 3 milhões de habitantes4. Os municípios de Itaguaí. Nova Iguaçu.290. como construção simbólica. Seropédica. formam a Região Metropolitana do Rio de Janeiro ou o Grande Rio. São João do Meriti. no entanto. São João de Meriti. Belford Roxo. Mesmo não sendo o objeto da maioria destes estudos. 1947 (de Nova Iguaçu). juntamente com as cidades do Rio de Janeiro. 5 As datas das emancipações são respectivamente: 1943. 2. 1947 (de Duque de Caxias). Por este motivo. Seropédica (desmembrados em 1997).890 eleitores.508 habitantes e. Belford Roxo. as últimas tendo ocorrido na década de 1990 (Belford Roxo. 1990. a Baixada Fluminense — com a configuração acima exposta — teria 3. de acordo com o Quantitativo de Eleitores de março de 2005. 25 . Hoje.370. Niterói e São Gonçalo. Japeri. 1990. Paracambi. a temática em questão figura. Queimados. a Baixada tem como núcleo os municípios de Duque de Caxias. Nilópolis. Apesar de hoje já contarmos com um número mais expressivo de trabalhos sobre a região. De acordo com dados do Censo 2000 do IBGE. entre as 3 4 As razões desta escolha serão explicitadas ao longo deste capítulo. Procurarei. Japeri e Mesquita)5.CAPÍTULO 1: VERSÕES E PROPOSIÇÕES “Há tantas maneiras de representar o espaço quantos são os grupos” (Halbwachs. 1950:166). por meio das emancipações que tiveram início na década de 1940 (Duque de Caxias. Nilópolis e Nova Iguaçu —este último tendo sido historicamente desmembrado em quase todos os demais que hoje compõem a região. a configuração mais ampla da região (da qual me utilizo)3 abrange 13 municípios — Itaguaí. Magé e Guapimirim (desmembrados em 1990) possuem características que os singularizam frente aos demais municípios. de uma forma ou de outra.

Sendo assim. grosso modo. 8 Peixoto (1968). portanto. 2005). mais Paracambi. Diante disso. café. atualmente estendendo-se pelos municípios situados ao longo da Rodovia Presidente Dutra. a uma mudança de status nos meios de comunicação. Por questões relacionadas ao escopo desta tese. Costa (2006). Enne. partindo do principal porto da Vila. Alves (1991. os mesmos. Ferreira (1994). que serão utilizados ao longo desta tese. Pereira (1970 e 1977). Mangaratiba — somada aos 13 municípios já mencionados acima. 2002 e Freire. 2001) e três teses de doutorado (Alves. identifica a Baixada como uma área de planícies baixas constantemente alagadas entre o litoral e a Serra do Mar. Na primeira delimitação exclui-se Itaguaí e Seropédica e. carne etc. Ainda nessa mesma direção. Magé e Guapimirim. 9 Abreu (1988). distribuídos quase eqüitativamente por todos os trabalhos.preocupações de seus autores6. Andrade (1993). entre outros. 1999 e Monteiro. numa extensão de aproximadamente 80 km a partir da cidade do Rio de Janeiro7. selecionei — dentre as pesquisas acadêmicas mais recentes na área de ciências sociais — seis trabalhos com os quais pretendo dialogar mais sistematicamente neste capítulo: duas dissertações de mestrado (Oliveira. Fernandes (1992). Há. Provavelmente. entre outros. Oliveira (2004). Percebemos a confluência em torno de alguns temas. práticas políticas e organizações coletivas/ arenas públicas. Costa (1999). na segunda. Peres (1993). 7 Para citar apenas alguns trabalhos: Beloch (1986). Peres (2004). podemos agrupá-los a partir de alguns dos assuntos por eles abordados: identidade social. Pedro II. Enne (2002). violência. Prado (2000). o reconhecimento desses trabalhos e de seus objetos. Souza (1997). um dos processos mais significativos de ocupação da localidade teve início com a construção da estrada de ferro D. dada a singularidade de seu objeto e de sua importância para esta tese. Outro fato que acabou definindo esta escolha foi o uso recíproco entre os próprios autores e. acompanhando a ascensão da categoria Baixada a uma outra ordem de visibilidade. preocupados em definir a(s) Baixada(s) e/ ou a política local e suas práticas. em qualquer restrição aos demais trabalhos produzidos até então sobre Baixada. ressalto que esta produção — novamente exceção sendo feita ao trabalho de Beloch — data da segunda metade da década de 1990 em diante. “Desde 1840. quem inclua ainda nesta composição. 1999 e 2003). como apontado pela maioria dos trabalhos aqui analisados. 26 . Torres (1998). Apesar de uma ocupação lenta verificar-se já a partir do século XVI e da região ter sido fornecedora e distribuidora de matérias-primas diversas (cana-de-açúcar. A maioria considera a Baixada como sendo composta por 11 municípios — quando não apenas por 8. a idéia da construção de uma estrada de ferro que. no século XIX9. No “recorte” que fiz. privilegiei autores que estivessem. O grande esforço dos pesquisadores atualmente envolvidos com a análise de grupos sociais na região é o de refletir sobre a multiplicidade de suas práticas. no entanto. Silveira (1998). Barreto (2004). 2003 [1998]. Keller (1997). Tal opção não implicou. em alguma medida. no entanto. Souza (2000). estarei utilizando aqueles mais recentes ou que tenham ligação direta com a questão das práticas políticas locais. exceção feita ao trabalho de Israel Beloch (1986) sobre a trajetória de Tenório Cavalcanti.) à capital (Rio de Janeiro)8. a definição preliminar mais utilizada nos trabalhos acadêmicos seja a de Geiger e Santos (1956) que. fosse 6 Diversos são os trabalhos produzidos sobre a Baixada Fluminense — ou a ela relacionados — durante as últimas décadas.

de Japeri cuja história é marcada pela morte de centenas de homens que trabalhavam na construção da ferrovia — acometidos de malária ou mortos em acidentes. Nova Iguaçu era uma das maiores exportadoras de laranja do país (Pereira. em 1858.terminar à foz do rio Sarapuí. 1977. por exemplo) que acabaram assoreados. A ampliação da estrada de ferro até Queimados. obtiveram lucros ainda maiores (Pereira. em um porto chamado da Armação. tendo se deslocado para as margens da linha do trem. estabeleceu um padrão de ocupação ainda hoje marcante na quase totalidade das cidades que compõem a região10. devido às péssimas condições de trabalho e de salubridade na região. 12 É importante salientar que um primeiro movimento para sanear e drenar as terras da Baixada ocorreu entre 1844 e 1900. que dependia da maré enchente. repercutindo em uma nova leva populacional. tal migração acentuou-se devido fundamentalmente à citricultura e às mudanças na configuração do espaço na região. autorizadas pela Fazenda Real. A chegada de migrantes de várias regiões do país e do estado — mas sobretudo nordestinos — em busca do sonho de um pedaço de terra e/ ou da possibilidade de morar mais próximo ao local de trabalho (o município do Rio Sobre a extensão da linha férrea. e mesmo assim com a ajuda de escravos que impulsionavam as canoas por meio de varas escoradas no fundo da lama. pela criação da Comissão de Saneamento da Baixada e do Departamento Nacional de Obras de Saneamento que ocasionaram inúmeras mudanças na região. Até o início da Segunda Guerra Mundial. era um sonho alimentado pelos fazendeiros e financistas da região. por exemplo. Souza. 11 Este fato provocou mudanças consideráveis na região da vila de Iguassu (mais tarde Iguaçu e. Prejudicados com o atraso em despachar e receber suas mercadorias. Tal processo implicou no abandono das vias fluviais — até então fundamentais para a economia local — que acabaram por tornar-se obsoletas11. a partir de 1916. cit. 1992).). Um segundo momento crucial da história local foi marcado. tendo como maiores beneficiários os proprietários de terra locais — que já haviam lucrado com a valorização advinda da construção da estrada de ferro e que. temos o caso. 10 27 . fizeram com que esse desejo fosse levado à sede do Império e. Nova Iguaçu) até então tendo uma economia voltada para os portos (como os de Iguaçu e Estrela. já na década de 193012. abriram-se subscrição de ações através da Lei Providencial para tal empreendimento” (Peres. 13 Na década de 1930. a partir da década seguinte13. com a drenagem e canalização dos rios. promoveu a atração e fixação da população que. no dia 9 de maio daquele mesmo ano. 2004:24). op.

dinheiro ou mesmo uma ocupação. sozinhos ou com toda a família. minha irmã também trabalhamos em feira. por fim. 16 A este respeito. O desembarque. 1996. consultar Barreto (2004). é […] ajudante de caminhão. a chegada ao Rio de Janeiro16. Contar com o auxílio. assim como os investimentos gerados graças aos loteamentos que surgiram a partir daí. a construção da Avenida Brasil. o sol e a chuva enfrentados pelo caminho e. 15 Fonte: IBGE. no Campo de São Cristóvão — local onde os homens eram avaliados para possível trabalho na construção civil — e o destino final era. bastante superior às taxas observadas para o restante do estado (crescimentos de mais de 100%. né? Meus pais são analfabetos. meu irmão. por exemplo. só na década de 1950)15. uma das favelas cariocas ou alguma cidade da Baixada Fluminense. cunhado.de Janeiro14) —resultou no período de maior crescimento populacional da região (décadas de 1950 e 1960). geralmente. prima ou amigo era essencial para quem não tinha casa. passando pela viagem de muitas horas em ônibus precários ou em paus-de-arara. em barraca. em 1946. enfim nós trabalhamos muito pra chegar onde nós Algumas obras também contribuíram para tal processo. é uma família humilde. 14 28 . ainda que temporário. né? Mas as condições […] como é normal no Rio de Janeiro. As redes familiares e de amizade apresentavam-se como fatores decisivos no momento da escolha do local de moradia. Alguns poucos já chegavam empregados — via de regra. mencionado em muitos dos relatos que escutei. acho que no país todo […] Édifícil para as pessoas que não têm condições e a vida muito sacrificada. por intermédio desses parentes/ amigos — mas nem todos tinham a mesma sorte. da Rodovia Presidente Dutra (inaugurada em 1951). É pai trabalhando em feira. ocorria. como por exemplo. eu. vieram do Nordeste [Pernambuco] tentar a vida no Rio de Janeiro e sempre trabalhando pra que pudesse[m] nos sustentar e dar estudo para a gente. As narrativas de moradores locais confirmam os dados e retomam a saga — desde a cidade de origem. de um irmão. “Minha família.

minha atenção passou a se voltar para os cenários cinzentos oferecidos pela Avenida Brasil e pela Rodovia Presidente Dutra. “Minha família veio pra Nova Iguaçu sem nada. casada. iam passar fome. em Belford Roxo. de imagens aponta. Além disso. pp. em seguida. não” (M. o olhar seqüencial e indistinto de quem simplesmente passa por ali e a percepção matizada de quem se atreve a parar.. de carros. tal como dos moradores da Baixada Fluminense que trabalham no Rio de Janeiro e andam de ônibus ou de carro (Freire. Eles organizavam um curso de capacitação de liderança da Baixada. pelo deslocamento necessário até a escola. Em primeiro lugar. A primeira vez que fui à Baixada Fluminense estava na companhia do professor Luís César de Queiroz Ribeiro. essencialmente no Rio de Janeiro) e. Pedro II (atualmente.. para uma estética homogeneizante e para a multiplicidade de significados em jogo. só com a coragem mesmo. 03/02/2004).. ao mesmo tempo. cit.chegamos” (Waldir Zito. do IPPUR. e de dois educadores da FASE. lá pra casa dos meus parentes [Sergipe]. 29-30). o hospital etc. ex-prefeito de Belford Roxo. assim. fora da Baixada. pelo movimento pendular diário entre a casa e o trabalho (na maior parte das vezes. a circulação se faz 29 . Os seus moradores poderiam ser caracterizados como errantes.] Porque senão. [. 2004). Duas vias que farão parte da minha experiência quotidiana de deslocamento. né? Eu nasci aqui. mas eu não troco isso aqui por lá. op. Haveria. SUPERVIA) e a Rodovia Presidente Dutra (BR 116).. mas já fui lá pro Norte. 36 anos. a desvendá-la (Barreto. por fim. 09/06/2004). A circulação incessante de gente. No trajeto. pela própria condição de migrante cuja saída da cidade natal constitui o primeiro ato de deslocamento. professora primária. Duas principais a atravessam diametralmente: a Estrada de Ferro D. sou daqui da Baixada mesmo. As estradas que atravessam e cortam a Baixada demonstram o seu fluxo permanente.

31). privilegiando trabalhos de autores de diversas áreas . Nilópolis.17. Heredia (2001). A múltipla apropriação de que nos fala Enne demonstra a inadequação de uma abordagem em termos de unidade espacial. de 6h00 às 9h00. 77). chamou de produção múltipla de sentidos. p. (1983). tais como Roncayolo (1986). território e lugar18. Ricq. e no sentido contrário. o que nos permite pensar que tal uso remeteria a um duplo sentido: o da distância física. Weber (1999). entre pessoas desta região e do Rio de Janeiro. de “rush”. 17 30 . de vagões de metrô e de ônibus no sentido “Baixada Fluminense” / Rio de Janeiro. vão trabalhar diariamente na cidade do Rio de Janeiro (idem. de 16h00 às 20h00. Foucault (1986). Tal unidade é desmentida e recusada pela autora. A delimitação do que se poderia denominar Baixada Fluminense é alvo das preocupações de diversos autores que atualmente trabalham na ou a Baixada. é a melhor demonstração da intensidade das situações de copresença. Belford Roxo. Briggs (1985). Gomes (1995). Japeri. Mesquita. Queimados. influenciada pelos trabalhos de Bakhtin. a um show ou para encontrar amigos do trabalho. mas também simbólica que o Rio representa para uma parcela considerável da população da região. Ainda assim. Para além dos espaços geográficos. Duque de Caxias e São João de Meriti. Nova Iguaçu. 18 Ana Enne faz uma apresentação minuciosa desta problemática. denotativos e conotativos da categoria Baixada Fluminense (p. O processo polifônico em questão refere-se ao que a autora. não podemos perder de vista que os atores e agências que constituíram os interlocutores em sua pesquisa têm interesses bem delineados sobre a história e a memória Alguns moradores da Baixada costumam referir-se às idas ao município do Rio de Janeiro como “viagens”. estaríamos lidando com construções sociais que extrapolam tal lógica. Cerca de 250 mil a 300 mil pessoas que residem nos municípios de Magé. Paracambi. espaço. A tese de doutoramento de Enne (2002) é exemplar ao apontar para a pluralidade de significados construída pelos diversos agentes e agências locais. A superlotação de trem. entre outros. de coexistência. Pellegrino (1983).presente de forma tão arraigada que constitui também os momentos de lazer: “viaja-se” para ir à praia. o que a obriga a recuperar a bibliografia sobre região. do estudo etc. nos horários de trabalho.

da televisão. Adorno e Horkheimer (1990). do que uma “idéia-sensação” experimentada. 22 Refiro-me. com relação à imprensa escrita. produto das construções discursivas (desses atores e agências. permitiram à autora vislumbrar. como tratada por Weber (1999: 155-186) em “As comunidades políticas”. consensos e ambigüidades por trás da pretensa uniformidade que o uso da categoria no singular —forjada ou não a ferro e fogo pelo discurso político — nos sugere.cit. a polifonia de que nos fala Enne é. por exemplo. com os moradores da cidade do Rio de Janeiro. Seria importante salientar também a relação entre as noções de poder. pela administração pública que opera divisões e delimitações espaciais. Em um primeiro momento. as representações negativas remetiam às imagens da violência e da criminalidade (em seu sentido mais amplo). ver.locais. Benjamin (1990). Este potencial — vinculado à produção de uma cultura de massa — é percebido em relação aos diferentes discursos (“de fora” e “de dentro”) postos em cena21.). No trabalho de Enne (op. Seguindo esta trilha. aqui. do Estado etc. 20 Nora (1984). a contextualização das transformações ocorridas nas imagens divulgadas sobre a Baixada. seu enorme potencial de comunicação e de influência na conformação das identidades locais. no plural. Eco (1993). 21 Sobre o fenômeno da indústria cultural e da cultura de massa. 19 31 . território e política.) e dos projetos coletivos e/ ou individuais em disputa na região. ao mesmo tempo. ao longo das últimas cinco décadas (de 1950 ao ano 2000). Rocha (1995). entre outros. aqui. da mídia impressa. A meu ver. desqualificando os moradores da Baixada sob uma designação estigmatizante e generalizada22. à construção de uma marca física e moral estruturante de algumas relações dos moradores da Baixada — fundamentalmente. constituiria muito mais o resultado do esforço — e do rigor — do pesquisador em demonstrar as interações. Sendo assim. de fato. Grosso modo. a mídia foi analisada como importante produtora de imagens e identidades e pensada como um lugar de memória20. Thompson (1995). o segundo capítulo de sua tese destina-se à discussão bibliográfica sobre o tema em questão e às construções discursivas de três grandes jornais do estado do Refiro-me. falar em Baixadas. ao sentido atribuído. conflitos. por seus moradores19.

em 1954. Refiro-me a Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque. no qual o coronel – o proprietário de terras – é também o chefe político) e operacionalizando-o em um contexto urbano. através da percepção do político como um mediador que privatiza a obtenção dos bens públicos. Trinta anos antes. ver. como o próprio autor nos chama a atenção. posteriormente sua urbanização incipiente que o transformava num misto de cidade pequena/ de interior e periferia do Rio de Janeiro. a Baixada ainda não tinha muita visibilidade regional ou nacional — esta adquirida a partir da década seguinte e consolidada ao longo das duas posteriores (1970 e 1980) como sinônimo de criminalidade e violência. Em Capa preta e lurdinha. com um eleitorado preponderantemente de classe média. por exemplo. os jornais A Última Hora e O Dia são tidos como “sensacionalistas”. possuía uma imagem de “partido de elite”. Beloch (1986) analisa a singularidade da trajetória de Tenório Cavalcanti para pensar as práticas políticas e a participação das camadas populares no interior do sistema que convencionou chamar de coronelismo urbano26. Benevides (1981). retirando-o de seu universo original (o meio rural. Tenório Cavalcanti mudou-se para o Rio de Janeiro em 1926. foi filmado Carnaval em Caxias. incompatível com seu estilo político24. 26 Beloch (op. foi auxiliado num primeiro momento por A autora faz uma exposição detalhada dos critérios utilizados para esta escolha. desenvolvido e consagrado por Victor Nunes Leal (1975). personagem inspirado em Tenório Cavalcanti. cit. Enquanto o JB — como é mais conhecido o Jornal do Brasil — goza de reputação nacional e um público considerado mais “elitizado”. imortalizado como O Homem da Capa Preta25. No entanto. Durante esse período. 24 A UDN (União Democrática Nacional). no qual José Lewgoy interpretava Honório Boamorte. 23 32 . no qual os diferentes mundos se encontrariam sob o impacto da industrialização da cidade do Rio de Janeiro. Por intermédio da rede de relações familiares. Alagoano. tendo José Wilker no papel de Tenório Cavalcanti. apesar de não ter sido um partido homogêneo. essa noção seria “um amálgama de elementos de populismo e de coronelismo. criada em 1945 aglutinando nomes contrários a Getúlio Vargas e ao Estado Novo. ainda jovem. apesar deste último ter passado por significativas mudanças ao longo dos últimos quinze anos23. um personagem local ganhou notoriedade diante de sua apresentação pouco comum e de sua vinculação partidária. Nos anos 1950. Tal transposição seria facilitada pela próprio processo de transição sofrido pelo município: inicialmente de distrito à município.Rio de Janeiro: o Jornal do Brasil. O Dia e A Última Hora.” (p.) toma emprestado o conceito de coronelismo. Sobre este tema. após a morte do pai. 25 Título de um filme produzido em 1986. a princípio. constituindo um movimento de transição entre as duas formas. por Sérgio Resende. bem como da metodologia de trabalho com esta fonte.106).

a polêmica trajetória que inauguraria a vinculação entre Baixada e violência no imaginário político carioca. o “corajoso” que tinha a gratidão “do povo” de Caxias. Logo em seguida. com 2. ou ainda “faz porque mata (os maus)”. pelo que recebeu “uma gorda indenização”. 27 Sobre a trajetória política de Amaral Peixoto. foi convidado a administrar a fazenda de Edgar de Pinho (cunhado do então ministro das Relações Exteriores [no governo de Washington Luís]. e graças às boas relações mantidas com Ricardo Xavier da Silveira. o homem de “corpo fechado”. elegendo-se em seu primeiro mandato político como vereador em Nova Iguaçu (1936). Tenório filiou-se à UDN (União Democrática Nacional). e com o Secretário de Segurança por este nomeado. Com a deposição de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo. em Duque de Caxias. ingressou na União Progressista Fluminense (UPF). Beloch.76-77): era aquele que “mata mas faz”.cit. Começaram nessa época as desavenças com Amaral Peixoto27. com o qual protagonizou inúmeras cenas de violência. em 1927. 33 . envolveu-se em diversos conflitos armados pela posse de terras na região e acabou deixando a fazenda. consultar DHBB (2001). em 1946. assim. Tinha início. A trajetória de Tenório e a construção de sua persona pública nos permite pensar na possibilidade de utilização da violência e da coerção como expedientes políticos legítimos.). Tenório foi nomeado fiscal em Duque de Caxias. op. Nesse sentido. por intermédio de Getúlio de Moura (eminente político iguaçuano). então interventor. encerrava um paradoxo ético. sigla pela qual se elegeu deputado estadual. como ressaltou Beloch (p. Otávio Mangabeira). Agenor Barcelos Feio.São Paulo. Tornou-se um próspero proprietário de terras e.800 votos (cf. Com o advento do Estado Novo. Nessa época.Hildebrando Góis — que lhe arranjou um emprego na construção da estrada Rio .

capítulo 4: “A ovelha negra”. mas contra toda a coletividade’” (idem. ora valendo-se de pseudônimos. Durante o período É importante destacar que. Tenório elegeu-se deputado federal com uma votação bastante superior à anterior – 9 mil votos. sua concepção sobre a aplicação da justiça pelas próprias mãos coincide com a noção dominante em parcelas da população trabalhadora. a partir de 1954. Tenório Cavalcanti tinha uma poderosa máquina a seu favor: o jornal A Luta Democrática. consultar DHBB (2001). com 46 mil votos)28. sua situação dentro da UDN tornou-se insustentável. com 42 mil votos — posteriormente repetindo a façanha (em 1958. As punições que prescreve têm inclusive finalidade de defesa moral e dos bons costumes.1). Eu. é porque ele tá maconhado e é uma cobra venenosa que eu não posso deixar solta na rua […] Os covardes é que se omitem e deixam o cachorro louco e a cobra venenosa agredir(em) o indefeso. motivo pelo qual deixou o partido. logo em seguida. candidatou-se ao governo do estado do Rio de Janeiro já pelo PST (Partido Social Trabalhista). quando dou um tiro na barriga da perna de alguém.“Aliás. Em 1962. herói destemido. pra ver se ele reage. Em 1960. ficando em terceiro lugar. irmão do exgovernador fluminense. Aludindo a ‘um marginal que urina perante moças’. ver Beloch (1986). Tem que matar o agressor injusto. assim como a de homem justo e valente. 28 34 . 70). No pleito seguinte foi reeleito como o mais votado de sua legenda. que se traduz nos linchamentos amiúde repetidos. no qual escrevia regularmente ora em coluna assinada. Quatro anos mais tarde. sublinha: ‘Eu então dou um tiro na perna do marginal. Após este episódio. morto em um acidente. Roberto Silveira30. que é injusto não só contra você. 30 Sobre Roberto Silveira. disputou o governo do estado da Guanabara. Dois anos mais tarde. mas foi derrotado pelo petebista Bagder Silveira. em 1950. seu perfil polêmico e sua vida pública pouco ortodoxa foram motivos suficientes para que tivesse os direitos políticos cassados pelo AI-1 (Ato Institucional no. com 23% dos votos válidos29. O jornal foi fundamental para a consolidação de sua imagem de “benfeitor”. 29 Sobre este pleito e o papel da candidatura de Tenório Cavalcanti para a vitória de Carlos Lacerda. para depois atirar no peito. preocupado com as classes populares. p.

Soares (1955). por exemplo. Alves (2003[1998]) privilegiando o recorte a partir do tema da violência. Tenório novamente candidatou-se a um cargo eletivo (de deputado federal) pelo PDS. destacam-se os trabalhos de Geiger e Santos (1956). Entre os geógrafos. 32 31 35 . Queimados e Japeri (Mesquita ainda não havia sido emancipado de Nova Iguaçu no período em que o trabalho em questão foi redigido [1998]). Já em relação à COPPE/UFRJ. Nilópolis. anteriormente mencionados. matéria-prima a partir da qual se produziu a vinculação da região com a violência. Penteado Filho (1978) e Bronstein (1979). “Nessa definição. cit. Tenório manteve-se afastado da cena política caxiense. recorte que coincide com os dados coletados e as imagens divulgadas sobre a violência local.16-17). São João de Meriti. Belford Roxo. também problematizou a categoria Baixada até chegar ao contorno aproximado das UUIO (Unidades Urbanas Integradas de Oeste). Seu nome já não contava com o mesmo prestígio de antes e. que determinaram um tipo de ocupação marcado pela presença majoritária das camadas populares (ou como preferem alguns A vida política de Hydekel de Freitas será abordada no capítulo 3. nesse meio tempo. Aos loteamentos. seu genro31. o tema foi amplamente debatido. Freire (2005) e Monteiro (2001. partindo das definições formuladas por geógrafos e recorrendo aos órgãos públicos de administração e pesquisa (FUNDREM.). temos as contribuições de Silva (1975). no qual analisarei a trajetória de Zito. Nova Iguaçu. Bursztyn (1976). outras lideranças já haviam surgido na Baixada. IBGE. COPPE/UFRJ)32.). ele foi retomado como foco principal da tese de Alves (idem). Se nos trabalhos de Enne (op. assim como da dissertação de Souza (1997). passados dezoito anos. sobretudo através dos meios de comunicação” (pp. mas foi derrotado. entram os elevados índices de homicídio. Esta definição restringiria as fronteiras da Baixada aos municípios de Duque de Caxias. Em 1982.da ditadura militar. mas continuou atuando em seus bastidores — sobretudo por intermédio de Hydekel de Freitas.

autores, classes operárias33) em áreas que não apresentavam as mínimas condições de infraestrutura34, somaram-se as disputas pela terra, desencadeando um violento processo que teve à sua frente jagunços e capatazes dos grandes proprietários da região que, na grande maioria dos casos, jamais residiram nessas localidades35. Alves (op.cit.) traçou os rumos da violência na região, desde os primórdios do processo de ocupação da Baixada até a constituição de seu caráter político — tema que nos interessa particularmente, visto a imbricada relação entre a estrutura de execuções sumárias e a dominação política, trazida à tona por este trabalho 36. Como nos mostra o autor, a marca distintiva da ocupação na Baixada passava a ser, por um lado, a violência privada dos empregados a mando dos grandes proprietários e, por outro, o abandono do poder público, permitindo que tais loteamentos — em muitos casos ilegais — fossem levados adiante. “Para abrigar a vaga populacional através de loteamentos, as prefeituras locais realizarão seu papel de favorecer ao máximo o estabelecimento das pessoas em seus territórios. Taxas mínimas eram cobradas para serem aprovadas as plantas das obras, que eram impressas e fornecidas pela municipalidade[…] Na sede de Nova Iguaçu, até 1944, o número anual de autorizações de construções não chegava a 100. No ano seguinte, chegaram a 251 e em 1950, somaram 897. Sete anos mais tarde, esse número seria duplicado[…] Na Baixada Fluminense, até 1929, tinham sido aprovados 21 loteamentos com 20.524 lotes. Entre 1930 e 1939, há um aumento pequeno de loteamentos, 22; porém uma redução do número de lotes, 15.419. De 1940 a 1949, sente-se o primeiro grande impacto da vaga loteadora.
Ver, a este respeito, Monteiro (2001). As primeiras áreas loteadas localizavam-se nos distritos, hoje municípios, de Duque de Caxias, São João de Meriti e Nilópolis devido à sua proximidade com a cidade do Rio de Janeiro. 35 Beloch (op.cit.), Grynszpan (1990a e 1990b), Monteiro (op..cit.), Alves (2003). 36 Enquanto Alves (op. cit.) trata das execuções sumárias e da relação entre violência e política em diferentes municípios da Baixada — a ela referindo-se como “um lugar”, ou seja, aludindo a uma possível unidade — Souza (op.cit.) aponta para as especificidades de Duque de Caxias.
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São aprovados 447 loteamentos com 373.025 lotes. De 1950 a 1959 os números praticamente triplicaram, 1.168 e 273.208, respectivamente. Já de 1960 a 1969, inicia-se a tendência à redução, com 615 loteamentos e 120.158 lotes. De 1970 a 1976, os números são praticamente reduzidos à metade dos da década anterior. Nessa trajetória dos índices apresentados, está presente também um outro fator. A tendência à redução da área média dos lotes” (Alves, op.cit., pp.64-65)37. Muitas famílias perderam suas economias na compra de terrenos que não conseguiram regularizar e outras tantas tiveram que esperar muitos anos para ter acesso aos equipamentos urbanos básicos como luz, água e esgoto — além do calçamento das ruas e da coleta de lixo que ainda constituem graves problemas na região. “Isso aqui sempre foi uma lama só. Chove e a gente tem que andar com os pé(s) coberto(s) com saco plástico pra não ficar de lama até o joelho. É uma vergonha. Nós tá(sic) aqui abandonado. Ninguém olha por nós” (I., 65 anos, moradora da Estrada de Madureira, em Nova Iguaçu, 10/08/2003). “Morar em casa alugada sempre é um sufoco pra gente que é muito pobre. Pensa bem chegar... chegar aqui no Rio, vindo de onde eu vim e ter que encarar ao mesmo tempo uma sacaria ganhando pouco[…] — pra quem tava acostumado com uma enxada é ruim demais — […] e, ao mesmo tempo, morar de aluguel e ter de sustentar mulher, mãe e filharada. Rapaz! A única coisa que eu pensava naquela época era comprar o terreno e fazer o barracão” (Clenio de Lima Santos, entrevista concedida em 01/11/1995 apud Monteiro, 2001:20). O modelo de habitação então adotado por este segmento foi o da autoconstrução, que tinha na dupla jornada de trabalho e nas relações de parentesco e vizinhança sua forma por excelência38. A participação dos filhos — independentemente da idade — e às vezes de vizinhos e/ ou amigos na construção da casa própria acabava por fundar ou fortalecer os
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Até 1949, o tamanho dos lotes ficava em torno de 1.083m2 e, nas décadas seguintes, diminuiu para cerca de 492m2. 38 Tal questão será tratada no capítulo que aborda a trajetória de Zito e de sua família.

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laços de solidariedade e de vizinhança entre os moradores da localidade. Outro aspecto que apontaria para a consolidação de tais laços é aquele apresentado por Monteiro (idem) em sua dissertação de mestrado — e corroborado pelos discursos nativos e matérias de jornais — a rede de resolução de problemas práticos39. Tal rede teria origem na necessidade de se criar alternativas à escassez de aparatos coletivos disponibilizados para esta população — desde aspectos básicos como coleta de lixo, água encanada, calçamento de ruas até a questão propriamente da segurança. “E você acha que a gente é porco pra deixar a rua virar um chiqueiro? O jeito foi ir cavando vala, tirando o matagal da rua, fazendo cobertura para os pontos de ônibus e mais um bocado de coisa que não era pra gente fazer” (Antônio de Souza Leite, entrevista concedida em 21/08/1995 apud Monteiro, op. cit, p.22). Em pesquisa, realizada em maio de 1990, portanto anterior a de Monteiro e às demais até o momento apresentadas, Angélica Drska e Rosana Heringer apresentam dados e representações sobre a violência em Nova Iguaçu e Nilópolis a partir da análise qualitativa dos depoimentos de moradores dividos em seis grupos de faixas etárias distintas (metade composto por mulheres e a outra, por homens)40. Segundo as pesquisadoras responsáveis, em 1987, 77% dos moradores da Baixada eram empregados, mas 33% sem carteira assinada e 35% dos trabalhadores não contribuíam para a Previdência. 1,7 milhões dos habitantes da Baixada residiam em Nova Iguaçu e Nilópolis e 80% desses moradores empregados recebiam até três salários mínimos. Ainda de acordo com os dados da

Mais adiante me deterei especificamente nesta questão, a fim de elucidar alguns aspectos relativos às práticas políticas na Baixada Fluminense. Por hora, limito-me a mencioná-la en passant. 40 A pesquisa “A gente enterra o morto, silencia e se conforma. A violência em Nova Iguaçu e Nilópolis na visão dos seus moradores” foi realizada pelo IBASE a partir da iniciativa da Comissão Justiça e Paz da Caritas Diocesana de Nova Iguaçu e Nilópolis e contou também com a colaboração da Retrato Consulturia e Marketing. Esta pesquisa foi publicada no Cadernos IBASE 8 (1990).

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pesquisa, no ano de 1989 ocorreram 1906 mortes violentas na região noticiadas por diversos jornais. A partir deste panorama, as diferentes formas de entender e classificar a violência foram trazidas à tona pelos discursos de moradores, demonstrando a ambigüidade do tema. Se a violência estava presente nesse cotidiano, ela foi mencionada por eles de formas distintas, dependendo dos contextos. “...não é de ninguém da área [o corpo], são apenas desovados...Então não há violência, há morte que vem de fora...Porque se todo dia aparece quatro, seis, oito, dez conforme se vê na ladeira da rua, não existia mais nenhum morador. Então esses crimes são praticados fora e jogados lá.” (idem, p. 13) Os sentimentos de medo e insegurança são tratados no trabalho, principalmente ilustrados nas falas que enfatizam a preocupação com a noite. Mas se a rua é lugar de medo, a casa também pode sê-lo. Esses sentimentos são agravados pela relação com a polícia, percebida como “verdadeiros ladrões” ou a estes associados (grupos de extermínio e roubos de carga, por exemplo), em contraposição aos “bandidos da área” que, de alguma forma, “prestam serviços”, suprindo a ausência do Estado e/ ou sua ineficiência41. Assim, os policiais seriam equiparados aos “bandidos de fora”, àqueles que não convivem com a “comunidade” e que não coloboram com ela. “Uma dona uma vez em Nova Iguaçu saiu chorando porque ela foi assaltada, levaram carteira, levaram tudo dela, ela chegou lá na delegacia e teve que pagar uma taxa de 150 cruzeiros. Ela veio desesperada, gritando no meio de todo munod: ‘Esses são os verdareiros ladrões!’” “Eles [os bandidos da área] não assaltam, eles não fazem sujeira ali na área...É todo mundo unido, é tudo crescido ali. Cresceu e cada um tem seu jeito, cada um faz aquilo
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Consultar Lengruber (1985), Pinheiro (1983), entre outros.

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que tem vontade...Então eles não fazem ali. Por isso que ali no meu lugar eu me sinto segura. Eles dão proteção a todo mundo.” (idibem, p. 14) "Lá não tem liberdade, à noite não há liberdade, ninguém é de ninguém. Muitos são os mortos por policiais à paisana, disfarçados. Se te olharem e não forem com tua cara, te botam no camburão, e aí, tudo é possível...” (idem, p. 15) “É polícia mineira...tem uma caixinha que corre entre eles. É proteção da área. Aquilo ali é o serviço da madrugada. Se tiver alguma coisa errada, é só ir lá, reunir a turma, na madrugada aquele camarada desaparece.” (p. 17) A insegurança e o medo são seguidos de relatos de moradores sobre a sensação de impotência frente à ação de policiais, seus atos violentos e às “queimas de arquivos”. O silêncio torna-se a estratégia mais comum nesse universo. “Tem só um jeito: enterrar o que morreu e silenciar. É a lei do morro, da favela e da Baixada” (p. 15). Assim, a Baixada se aproxima da favela como lugar de medo e de morte, conferindo sentido ao desabafo do morador citado anteriormente. Mas não podemos esquecer que, por outro lado, é recorrente nas falas de moradores a tentativa de se diferenciar dos “favelados” (Cardoso, 1978; Silva e Leite, s/d). A Baixada aparece como a opção frente a morar na favela. Ao recusar a comparação com o “morro”, rejeita-se também a sua associação direta à violência explorada reiteradamente pelos meios de comunicação. Sandra Regina S. da Costa (2006), em sua tese de doutoramento, nos traz um exemplo oriundo de sua própria vivência — enquanto pesquisadora e ex-moradora da Baixada — da articulação de parcelas da população para a resolução dos problemas locais, bem como da concepção de justiça e de legitimidade implicadas nessa relação: “Recorro a minha própria memória para explicar este ponto. Lembro que na minha infância, a ocupação do meu 40

bairro [no município de São João de Meriti] não tinha se dado por completo. Não tínhamos favelas próximas, como as que existem agora, e havia muitos terrenos ainda não ocupados, cobertos de mato. Lembro que uma fonte de medo constante era os boatos acerca dos ‘tarados’. [...] Em algumas vezes, e eu me recordo de pelo menos uma meia dúzia delas, os moradores localizavam o suposto ‘tarado’, que era linchado e tinha as partes do seu corpo expostas em vários postes da localidade. A idéia de ‘justiça feita com as próprias mãos’, sem a intervenção do Estado, que se figuraria na Polícia (Civil ou Militar, nesse caso tanto faz) era a tônica desses momentos de extrema dramaticidade” (Costa, 2006:49). Se o caso de Tenório é emblemático da visibilidade do fazer político na Baixada Fluminense durante as décadas de 1950 e 1960, nas décadas seguintes outros personagens não deixaram de fazer jus ao legado do “homem da capa preta”. A partir de 1964, a região passaria por um processo de intervenção política e de supressão de qualquer forma de oposição ao regime militar instalado. Os últimos anos desta década e toda a seguinte seriam marcados por cassações de políticos e pela imposição de interventores, contribuindo, assim, para o surgimento de uma nova elite no poder42. A década de 1980 significou o ápice da vinculação entre Baixada e violência — apontada na amostra dos jornais selecionados por Enne (op. cit.), principalmente a partir de notícias que abordavam a questão da violência política também ligada aos interesses de comerciantes locais. Se, conforme destacou Alves (op. cit.), a atuação dos grupos de extermínio na região teria se iniciado essencialmente a partir da década de 1960 — como forma de “garantir a ordem” frente aos saques e à ausência de segurança local diante da omissão do poder público — a partir de 1970, esta situação intensifica-se, estimulada por autoridades (policiais e militares) locais e por políticos. A “polícia mineira” (Souza, op. cit.), como ainda é conhecida, estampava os jornais e imprimia o medo.
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Tal fato será analisado no próximo capítulo.

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Para a Baixada (em termos de sua visibilidade externa), os primeiros anos de 1980 configuraram a “fase dos justiceiros e matadores43”. Mão Branca foi o mais famoso dentre eles, povoando os jornais cariocas do período (cf. Enne, op. cit.). Além daqueles que se enquadravam melhor na categoria “matadores profissionais”, proliferavam também os assassinatos e a coerção física com fins políticos. Apesar disto, a década de 1980 marcaria ainda o período de emergência dos movimentos sociais na Baixada, fundamentalmente ligados à questão da casa própria44. Além da violência e do surgimento dos movimentos sociais, um outro fator apontava, naquela década, para uma alteração nas relações de poder na região: a eleição de Brizola, em 1982, que teve forte impacto sobre a escolha dos prefeitos locais. O voto brizolista ou “fenômeno Brizola” refletiu o caráter oposicionista daquelas eleições assim como a ênfase no discurso voltado para as classes populares. Enquanto a tese de Enne (op.cit.) nos trouxe uma discussão refinada sobre a configuração da Baixada, colocando-nos frente a frente a discursos (e projetos) os mais diversos, ressaltando esse “movimento” e a fluidez dessas fronteiras; a dissertação de Oliveira (1999) concentra-se na política e pouco problematiza a categoria Baixada, focalizando seu estudo no caso de Nova Iguaçu, local onde realizou seu trabalho de campo. Tal dissertação (idem), defendida no Instituto de Ciência Política da UFF, teve por objetivo analisar a dinâmica legislativa da Câmara Municipal de Nova Iguaçu, no período compreendido entre 1997 a 2000, apoiando-se igualmente em dados sobre a legislatura anterior (1993-1996), sobre a produção legislativa e as práticas dos vereadores daquela
Dentre eles: Mão Branca, Carlinhos Blá-blá-blá, Paulo Cigano, Jorginho da Farmácia, Beto da Feira, De Souza, Careca, Paulo Hulk, alguns sendo policiais militares. Para uma análise mais detalhada sobre a atuação dos grupos de extermínio na Baixada Fluminense, ver no trabalho de Alves (op.cit.) o capítulo intitulado “Da ditadura militar ao neoliberalismo: o poder e a violência recente na história da Baixada”, pp. 101-172. 44 Ver Lesbaupin (1982), Bernardes (1983), Simões (1993), Tavares (1993), Freire (2005), entre outros.
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adquiriram força no quadro políticoinstitucional vigente e significado como órgão legislativo e co-partícipe do governo local. a de fiscalização é a mais prejudicada. 4) entretanto. 2001) com a intenção de apreender os limites que tais “cultura” e prática políticas acabam impondo à vida democrática. a CM não precisa de mudanças institucionais para melhor desenvolver suas atribuições legais no atual contexto de democratização” (ibidem. o artigo de Carneiro e Kuschnir (1999). pp. 43 . tem um caráter essencialmente assistencialista e não produz mudanças substantivas na vida dos cidadãos. pratica atividades de assistência social e acredita que o seu papel na política municipal é de intermediar serviços públicos junto à população. 1975. Apesar da preocupação em não construir 45 Sobre a noção de “cultura política” ver. Lopez. a produção legal da Câmara. portanto. 7) por isso. 2) a relação Executivo-Legislativo em nível municipal é diferente da estabelecida em nível federal. essa maioria acredita que assim cumpre bem o papel político para o qual é eleita e. força essa jamais vista no cenário político municipal brasileiro. 1998. diferente do seu similar em nível federal. sob o ponto de vista constitucional. Bezerra. 3) com isso. Concluindo com o destaque à fraca institucionalização e à subordinação da Câmara Municipal de Nova Iguaçu ao prefeito. 6) a maioria dos vereadores de Nova Iguaçu pretende seguir carreira política. O autor preocupou-se em analisar a “cultura política”45 de Nova Iguaçu. partindo do pressuposto de que o papel político dos vereadores não tem sido cumprido. considerandose as iniciativas exclusivas dos vereadores. devido ao fato de o poder institucional do Prefeito ser menor do que os poderes garantidos ao Presidente da República. Para isso. o Poder Legislativo municipal possui maior liberdade e amplitude para desenvolver seus próprios trabalhos. principalmente por meio de reeleição. o autor retomou algumas discussões existentes na produção sociológica acerca das relações entre executivo e legislativo (Leal. entre outros. 5) dentre as principais funções do Poder Legislativo. Para embasar sua premissa foram testadas algumas hipóteses: “1) as Câmaras Municipais.22-23).Casa.

segundo a qual Duque de Caxias. Belford Roxo. o autor privilegiou a reconstituição de uma parte da história do município. as práticas políticas sendo assim analisadas como estando em consonância ou não com ela. A alusão a esta última categoria. pp. cuja origem remonta à época colonial” (p. Em consonância com o anteriormente exposto. se a Câmara e seus membros buscarem o aprimoramento e o aperfeiçoamento da instituição legislativa local em direção ao exercício das suas atribuições constitucionais. tais como a de “conservador-clientelista” ou a de “populistaclientelista”. São João de Meriti. reproduzo as próprias palavras do autor: “[…] diante dessa conjuntura sócio-urbana e desse cenário político. 92-93). reproduziu o entendimento do contexto político a partir do que ele idealmente deveria ser. 87). Queimados e Japeri seriam os municípios que integrariam a Baixada. no caso do autor. Oliveira resume em mais ou menos três parágrafos as contradições decorrentes dos processos de urbanização pelos quais a Baixada passou. na violência e nas práticas políticas “típicas” das periferias e zonas desfavorecidas do país. o autor se utiliza de uma classificação mais tradicional para delimitar a região. em detrimento das distintas formas de se entender a Baixada Fluminense. Sendo assim. remete exclusivamente à tentativa de se criar um nós. A própria opção por operacionalizar o debate em termos de classificações. Nova Iguaçu (antes da emancipação de Mesquita). 46 44 . por intermédio da ênfase na escassez. significará um grande avanço para a democratização e melhoria da qualidade de vida na cidade de Nova Iguaçu” (ibidem.uma visão normativa ou em sugerir “soluções” para tal impasse. de problemas sociais crônicos e de conflitos políticos. na pobreza. mencionado sua condição de subalternidade em relação à cidade do Rio de Janeiro. Nilópolis. Para ilustrar a minha afirmação. quando ocorre. uma identidade coletiva. atribuindo menos ênfase às falas (e a seus significados) — que. a democracia é tomada como um valor durante todo o trabalho. Tal recorte justifica-se a partir de um “quadro de contrastes sócio-econômicos. foram “recolhidas” — do que ao implacável olhar jurídico-legal (formal)46.

119)48. por exemplo. nesta parte do trabalho. próprios da estrutura social e urbana brasileira. Ianni (1975 e 1991). a “cultura política tipicamente brasileira”. referindo-se ao clientelismo. 47 45 . Diretamente vinculada ao processo de ocupação da região. a refinaria e o jornal Extra de Duque de Caxias. Quando as indústrias e o setor de serviços tiveram um significativo incremento. Uma das imagens mais comuns sobre a Baixada. já que era empregada pejorativamente. 1995)49. No entanto. Debert (1979). Numa tentativa de negar uma pretensa singularidade à Baixada. o parque industrial de Queimados e a central termoquímica de Japeri são alguns exemplos da mudança no cenário do mercado de trabalho nos municípios da Baixada. Após efetuar esse breve apanhado. referindo-se novamente à Baixada apenas na conclusão. no fim da década de 1980. bastante propagada nas décadas de 1960 a 1990. Rodrigues (1996). Nova Iguaçu ganha mais visibilidade em sua análise: “até bem pouco tempo era considerada a segunda maior cidade do Estado [do Rio de Janeiro] e a quinta do país. obrigou seus moradores a novamente buscar emprego fora dos limites de sua cidade. o fechamento de algumas indústrias (principalmente as têxteis) importantes em municípios como Paracambi. Nesse sentido. remetenos à categoria cidades-dormitório. 49 O autor refere-se ainda a dados relativos à educação e à saúde. de falta. com reflexo nas áreas adjacentes. por exemplo. No caso da Baixada. assim como o setor terciário e as diversas indústrias de Nova Iguaçu (a Embeleze. que tendem a privilegiar a dimensão representativa de nossos objetos e não a simbólica. ao populismo e ao assistencialismo (p. de propriedade do deputado federal Itamar Serpa – PSDB/RJ ou a Compactor do Brasil). na qual afirmou que esta estaria inserida numa “cultura” mais ampla. tal imagem sintetizou. consultar. Sua menção à Baixada Fluminense praticamente pára por aí. remetendo à idéia de um “lugar” de escassez. o autor concentrou-se nos dados referentes à Nova Iguaçu. Como veremos mais à frente. alterou-se em parte a configuração do mercado interno desses municípios. a outros “bolsões de miséria”. o autor enfatiza seu caráter de “periferia” comum a outras áreas carentes do país ou. entre outros.e finalizando com a alusão à caracterização das cidades-dormitórios47. Por outro lado. Oliveira nos apresenta percentuais que não se restringem à Baixada. Munido de estatísticas. 48 Sobre populismo. Weffort (1980).2 milhões de pessoas em situação de pobreza e miséria na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ. tal classificação acabou tornando-se um estigma. o setor de comércio e serviços e o funcionalismo público representam a quase totalidade das possibilidades de absorção de mão-de-obra nos municípios da Baixada. de certa forma. o dado relativo aos 3. como chama. a realidade da população e da economia locais até pelo menos meados da década de 1980. como por exemplo.

) nos apresenta este panorama: Após a primeira metade dos anos 90. numa reedição moderna e situacionista do “homem da capa preta”. cit. A partir das notícias de jornais. que somados aos seus municípios vizinhos. Alves (op.721 eleitores. ocupando a terceira posição em nível estadual e a décima sétima no país. 46 .188 habitantes. o grupo comandado por Raunheitti.79). as redes assim constituídas delineavam os contornos que a vida política tomaria dali por diante. a década de 1990 trouxe novidades para a Baixada.).cit. Enne demonstra como tais discursos vão construindo representações sobre a Baixada Fluminense. Associando nomes novos a lideranças já consolidadas. essa posição ainda é mais significativa. Na dissertação de Oliveira. segundo Enne (op. tudo financiado pelas irregulares subvenções sociais do Congresso. pois com 526. o problema da violência é mencionado — essencialmente ligado às características dos processos de urbanização locais — mas não chega a ocupar um lugar de destaque em sua análise. ora aproximando-se às do senso comum. Zito e Joca. distribuindo vagas em escolas e creches. pp. formam uma das maiores regiões eleitorais do país” (idem. embora muito 50 O autor se utiliza de dados referentes à contagem populacional de 1996 do IBGE. Em termos políticos. em tamanho populacional […] Em termos eleitorais. ora vinculadas a projetos diversos. 89-90. conforme inúmeras denúncias. tanto pelo clientelismo como pelas formas ilegais de ação: os Abraão David. marcaria a construção de um novo olhar — agora positivado — que passava a ser dirigido à localidade. conviviam na Baixada diferentes projetos políticos que se aproximavam. e oferecendo consultas e operações médicas gratuitas. como os políticos. combinando favor e medo. A década de 1990. Hoje possui cerca de 826. ou da notícia como discurso (p. Nova Iguaçu ocupa o segundo lugar no Estado e o décimo quinto no país. com a eficiente fusão da contravenção com o carnaval e com o clientelismo político. O brizolismo sobrevivia.ultrapassando a marca de 1 milhão de habitantes. grifos meus)50.

. p.. a redução dos homicídios estava diretamente associada à sua capacidade de interferir na nomeação de delegados. revelou-se exemplar. 1996: 102-103 e 111-114). destituindo aqueles vinculados ao esquema de execuções. assim como o lugar dos partidos na conjuntura política da Baixada. O que explicaria o fato de que em anos de eleições municipais a permanência de Hélio Luz à frente do cargo que ocupava tornava-se insustentável.eleito no final dos anos 80 suplente de vereador.19 Assim. 2005:25) A escassez e a violência que marcaram os discursos sobre a Baixada construídos pela mídia durante as décadas de 1960. do que como força política de resistência. 1970 e 1980 foram atenuadas a partir da década de 1990. [. movimentos sociais e CEB’s. responsável pela indicação das suas nomeações e sustentação no cargo. Zito e Lindberg Farias. sem os dois deputados estaduais que não se reelegeram e sem a mesma força mobilizadora dos anos 80 (idem. era assíduo freqüentador do Fórum e possuía uma carteira de oficial de justiça Ad Hoc dada pelo então juiz. concomitantemente ao início da publicação do “Caderno Baixada” (um dos suplementos Os projetos políticos serão retomados na análise das trajetórias de Jorge Gama. que por sua vez agiam associados ao poder político local.] Para Hélio. o Neca. A grande fragilidade ficava por conta do Partido dos Trabalhadores. (Alves. após ter sido apreendida em um outro crime (MOREIRA. alegando ausência de tempo paraoperacionalizálos. por Nova Iguaçu. 51 47 .mais como estratégia eleitoral e política de um prefeito. A arma com ele encontrada tinha lhe sido entregue pelo próprio juiz. Desnecessário dizer que Pedro Capeta foi absolvido no processo por falta de testemunhas. A atuação de Tânia Maria Salles Moreira como promotora pública na comarca de Duque de Caxias desconstruiu a rede que a partir do próprio Fórum de Justiça da Cidadecoordenava as execuções. que represava processos de homicídios por anos em suas gavetas para arquivá-los em seguida. um dos mais famosos matadores da época agia com arma e carteira fornecidas pelo juiz. Preso numa tentativa de assassinato. em Nilópolis. pelo PTB. ainda com seu único vereador na Baixada.116)51. O caso de Pedro Capeta.

já que tido como compulsório. tendo mudado para o Rio de Janeiro — mais especificamente para Niterói — há alguns anos e. Os mecanismos de aproximação (materiais e simbólicos) entre moradores da Baixada Fluminense e de cidades próximas — mas principalmente do Rio de Janeiro — expostos acima criaram novas alternativas. cit. pp.sobre bairros já publicados no município do Rio de Janeiro. Ainda segundo a autora. 53 E neste caso. A leitura da tese de Freire e sua auto-avaliação como pesquisadora duplamente estrangeira54 fornecem elementos decisivos para pensarmos esses “novos” A tese de Costa (op. durante a última década do século XX as matérias sobre a “efervescência cultural e social” já apontavam para uma alteração das representações sobre a região52. residiu cerca de dois anos em Nova Iguaçu.. posteriormente estendido para outras regiões do estado) do jornal O Globo. a autora nos permite acompanhar o processo de reformulação de suas identidades locais. possibilitando que o fluxo de pessoas pudesse se dar em outras direções que não apenas o sentido unilateral tradicionalmente estabelecido — da capital como único pólo de atração53. o sentido oposto (Baixada – Rio) acaba sendo desconsiderado nas análises sobre o tema. Entre as hipóteses levantadas por Enne para dar conta de tal fato (op. 52 48 . Foi somente a partir de 2000 que as notícias sobre assassinatos e pobreza divulgadas na imprensa foram reduzidas de maneira mais significativa. Por meio do estudo das carreiras de alguns músicos da região.90-91) estão a percepção de que o fenômeno da violência era agora generalizado. 54 A condição de “dupla estrangeiridade” é explicada pelo fato de a autora ser francesa. As antigas imagens — bem como os antigos problemas — evidentemente não desapareceram de todo.) ilustra este “outro lado” da Baixada. durante a pesquisa. além da diminuição das distâncias físicas e simbólicas entre a Baixada e a cidade do Rio de Janeiro — possibilitada pelo incremento do fluxo de pessoas com as construções das Linhas Vermelha e Amarela — além da visibilidade alcançada por movimentos sociais locais e da percepção da região como um novo mercado consumidor em potencial. cit.

em frente ao seu portão. neste momento. Pegue meu braço!”. Penso: “é agora que vou me perder”. Dia de temporal. de repente. No meio do caminho. você pode ter maus encontros e ninguém vê (p. que se vê subitamente confrontada ao “lugar”55. jogando os passageiros no meio da via que se A extensão das citações faz-se necessária. Ela indicava detalhadamente como me deslocar. no horário de rush. 55 49 . numa das ruas que conduz à estrada onde passa o ônibus. ouço. Estranho andar no escuro no meio de um lugar que desconheço. A presidente da Associação olhou para seu relógio e me aconselhou que pegasse meu ônibus. a escuridão de repente tomou conta de tudo e substituiu as tonalidades alaranjadas do pôr-do-sol. Às vezes. um pouco para a esquerda. Isso é o que tem de menos. Nos minutos que se seguiram. um pouco para a direita. diz: “Sabe. Entrevia. vozes e risos vindo de um grupo de pessoas um pouco atrás de mim. Precipitadamente. Apenas alguns fios de luz vindos das janelas das casas não confirmavam uma escuridão total.09). para evitar outro. interpelei o grupo. na Via Light. O sol se esconde e tira aos poucos a luz que permitia ver com nitidez as ruas de terra batida e as casas de tijolos do bairro. comento minha surpresa com a situação e outra pessoa que caminhava junto. Centro de Nova Iguaçu. o clima estava quente e abafado. Pedi alguma ajuda. diante do objetivo proposto de entender a condição de dupla “estrangeiridade” da autora e sua mudança de “olhar” com relação à Baixada. Dezenove horas. por vezes. De repente.olhares sobre a região. Fascinante é a forma como constrói a passagem do tempo em seu relato. Tropeço nos buracos. Os acontecimentos ditam sua temporalidade. num fim de tarde de um mês de março. para evitar um buraco. A Baixada é o seu acontecimento. a gente tá acostumada. um céu cinza anunciava desde cedo uma chuva prestes a cair. Os ônibus paravam rapidamente no ou fora do ponto. Despedi-me às pressas e acelerei o passo para chegar até o ponto. Momentos cotidianos na vida comum dos moradores locais ganham cores novas para a pesquisadora. ela desabou sobre a cabeça dos transeuntes. sentado numa cadeira. já conhecemos perfeitamente o mínimo buraco. Uma mulher me respondeu: “Estamos indo pro ponto também. Naquele dia de março de 2004. Sem saber se ainda estou no caminho certo. a sombra de um morador.

o caminho escolhido garantiu pés menos molhados. as águas da Via Light escorrem pelas ruas perpendiculares à avenida. permitisse chegar na hora para dar minha aula. o motorista sentisse piedade de meu rosto. torcendo para que. menos observador. É seguido por vários outros.. 11-12). pela minha programação mental. se não um pouco adiantada. Resultado: o tempo da viagem foi de duas horas e meia. Preocupada em entender a pluralidade de sensos de justo em Nova Iguaçu. se passasse. Nesta época. Alguns transeuntes estavam nos pontos mais elevados das calçadas esperando que as águas baixassem. Saía num horário que. quando a demora normal é de cerca de 1h30. Sem trânsito poderia até durar uma hora. De fato. corpo e mãos encharcados. como muitos moradores de subúrbio. A autora prossegue descrevendo outros acontecimentos: os dias de verão de 45 graus. novos congestionamentos em vários eixos da via. surpreendeu os passageiros[…] Ao chegar à Avenida Brasil. ela procura definir seus “usos”. o Dia Internacional da Mulher. o Hospital da Posse. embora um dos seguidores. Pensava.. Uns 45 minutos se passaram[…] Se eu e aquela moça pensávamos estar salvas e que apenas chegaríamos com alguns minutos de atraso no Rio de Janeiro. […] Viagem chuvosa para o Rio de Janeiro Realizava um estágio de docência no IFCS. no “tempo de margem” em caso de imprevistos. Um engarrafamento de cerca de uma hora e meia. nossa presunção acabou quando o ônibus chegou na Via Presidente Dutra. um “parador”[…] Esperava o ônibus. foram 3h30 para chegar ao centro da cidade do Rio de Janeiro (pp. partindo da problematização de situações específicas vividas pelos 50 . eu morava em frente à Prefeitura[…] Na rua que faz esquina com a Prefeitura havia um ponto de ônibus direto para o Rio.alagava cada vez mais[…] Quando chove. o Juizado Especial de Pequenas Causas. apenas na Dutra. às vezes 1h45. Acrescentado o tempo de espera. um homem com mais reflexo já fez sua escolha para atravessar a rua Bernardino de Mello e chegar até o ponto. alagando boa parte daquelas próximas à Prefeitura. a reunião do MAB. pés.9-10). tivesse torcido o pé num buraco coberto de água no meio da via (pp. […] Na entrada do túnel.

a mudança de status do grupo a partir da visibilidade alcançada56. mas como espaço de problematização. 56 Freire (op. 1984). Com este intuito.cit.69). as mobilizações e debates públicos são analisados a partir de uma gramática política (dispositivos e repertórios) orientada para a dramatização (Turner. de circulação. 51 . enquanto recorte cognitivo. a autora tenta reconstruir — a partir da noção de arena pública — a definição de espaço público para esses atores. buscando apreender os mecanismos de constituição de novos públicos. Freire apresenta uma pluralidade de visões acerca “da Baixada” (em geral). passeatas. ocupa no espaço público (entendido não só do ponto de vista comunicativo. As percepções dos “problemas sociais” dignos de publicização e da revolta frente a eles são contextualizadas no repertório de reivindicações locais e de construções coletivas. a autora desvenda as “competências” dos atores ao definirem as situações problemáticas e mobilizarem-se coletivamente. Desmascarando as alegações de ilusão ou alienação. Nesse sentido. A autora coloca-se a seguinte questão: “que lugar a ‘Baixada Fluminense’. A autora busca enfatizar a passagem do problema a um nível de generalidade a partir do uso de recursos políticos e dos dispositivos acima enumerados. atos públicos.moradores da cidade e integrantes do MAB (assim como dos múltiplos pertencimentos de seus principais interlocutores). bem como do sentido de pertencimento a ela atrelado — igualmente fundamentados nas percepções dos sensos de justo. 1975b). de reservas e acessibilidades)?” (p.) vai abordar esta questão a partir do que chamou de dispositivos de publicidade: jornais. Baseando-se na noção de identidade social tal como formulada por Goffman (1975a. ou seja.

“cafonas” ou advertem a autora sobre os perigos do “lugar”: “Você é louca!. nos quais as arenas públicas constituíam “os bastidores do espaço público” (Freire. da TV a cabo Globo News. A autora pôde observar que os sentimentos acionados para operacionalizar os distanciamentos e aproximações giravam em torno de um repertório de acusações mútuas. Os “da Baixada”..cit. mesmo quando constituída a partir de um projeto político de reinvenção do “lugar”. assumido pelos interlocutores da pesquisa.o morador do Rio de Janeiro .45).para os nativos) acusam os “da Baixada” de “bregas”. Tais imagens manifestam-se em relações jocosas. utilizando-se de adjetivos como “babaca”. 1992). durante o Fórum Mundial de Educação. A Baixada é outro mundo!. estava implícita a todo momento a referência à pobreza e à violência da região. portanto. enfatiza a dimensão profissional como responsável por parte significativa das relações entre os moradores da Baixada e aqueles residentes no Rio de Janeiro. por sua vez. 58 Freire utiliza-se da personagem da empregada doméstica (como um tipo ideal) para pensar no contato e nas possíveis trocas entre os distintos “mundos sociais”. a arrogância e a “metidez” dos “da Zona Sul”. Boltanski e Thévenot (1991) e Gusfield (1981). No referido programa foi mostrada uma exposição fotográfica realizada com apoio da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e da Prefeitura de Nova Iguaçu. e um certo desconforto que se faz notar pelo tom de confidência. além de os acusarem de “viver em outro mundo”58. Freire procurou compreender os “olhares” sobre a Baixada a partir dos contatos mistos (entre “normais”/ “estigmatizados”)57. enfatizam a “frescura”. quase privado. “otário” para caracterizá-los. p.” (p. Esta impossibilidade de desvinculação na fala dos “de fora” — dos fotógrafos estrangeiros — evidencia-se. A partir da A revista eletrônica Almanaque.Novamente dialogando com Goffman (idem). Os “da Zona Sul” (uma referência generalizada na construção do outro . 59 A autora desenvolve um debate entre noções de espaços públicos e processos de publicidade a partir. fundamentalmente. Dando destaque aos momentos de prova e à idéia da ordem pública59 como “ordem negociada” (Strauss. Freire demonstra como os processos de definição implicavam compromissos e acordos assim como conflitos e tensões. as manifestações de emoções por ambos os “lados” sendo percebida durante todo o tempo da pesquisa. 57 52 . Pudemos perceber que ao se tentar mostrar “o que a Baixada tem de bonito”. op. Nesse sentido. demonstrando ao mesmo tempo a existência de pré-noções e preconceitos. 73). de Habermas (1992). exibiu em 17 de abril de 2006 um programa intitulado Baixada bonita. Ali é lugar de desova! Eu realmente nunca moraria lá.

cit) aproxima-se igualmente deste tipo de abordagem. 1999 apud Freire.cit. a autora enumera suas características: dramaturgia. a complementaridade entre ambos os estudos será aqui evidenciada. 46-47). portanto. embates. regras de publicidade coercitivas e dispersão (cf. visibilidade e encenação nelas encerrados. A denúncia pública traduziria a passagem de um problema de ordem particular (e portanto de menor grandeza) a um problema generalizado. cit. Interessado em desvendar os processos de construção das identidades locais em relação às 53 . Apesar de Freire não mencionar a dissertação ou qualquer outro trabalho de Monteiro (op.cit. negociações. op. O que Freire (p.62) denominou “repertório do próximo” e que serviu de base para o entendimento da construção do bem comum. op. A dissertação de Monteiro (op.cit. pp. p. a partir da definição de uma situação problemática num contexto coletivo bastante específico. o segundo conferiu destaque à explicação nativa das práticas de resolução de problemas cotidianos englobada por uma concepção particular de cidadania. bem como uma “criatividade no agir” (Joas.) em nenhum momento. op. idem. Tal elaboração supõe formas de classificação e utilização de recursos do mundo da política: a publicidade gera o “caso” — recurso operador e amplificador de grandeza. coletivo (de maior grandeza).. estaria bem próximo da dinâmica da rede de resolução de problemas práticos (Monteiro. Enquanto a primeira preocupou-se em compreender os processos de constituição dos sensos de justo a partir das arenas públicas e. 140). os processos de dramatização. ambos trazendo à tona uma reflexividade prática (Boltanski e Thévenot. atrelada a operações cognitivas e morais.). pluralidade. tornaria possível sua publicização. O evento referencial seria fundamental para a constituição do “problema” em si que.diferenciação entre espaço público e arena pública.).

mas é a partir deste levantamento que o autor estabelecerá uma série de implicações com as práticas políticas locais e com a trajetória política que utilizará para ilustrar tal vinculação.0% 20.5% 0. O segundo equívoco revelado sobre a ação proletária na Baixada Fluminense relaciona-se com o entendimento de A própria alteração do nome da coluna é significativa de um processo de transformação nas imagens produzidas sobre a Baixada Fluminense.5% 100% 60 apud Monteiro (op. intitulada Seu Bairro60. abandonada pelo poder público e não o tendo como legítima instância a se recorrer. Monteiro deparou-se com uma população que. escolas Iluminação pública Lotes abandonados Opções de lazer TOTAL NÚMEROS TOTAIS 500 400 340 240 180 180 120 20 10 10 2000 PORCENTAGEM 25. O levantamento desses dados ocorreu entre os anos de 1982 — escolhido pela significativa queda na taxa de migração observada — e 1997. Sua hipótese inicial era a de que os principais problemas diriam respeito a situações de difícil resolução informal. definindo “situações problemáticas” e administrando seus sensos de justo. A tabela que se segue traz a tipologia dos problemas e sua hierarquização.. ano em que foi extinta a coluna de reclamações Boca no Trombone. pp.0% 9.cit.0% 0.0% 12. o autor analisou o “caso Belford Roxo”.0% 1. o autor procurou estabelecer uma tipificação e hierarquização das reclamações a fim de perceber a classificação “problema” ou “situação problemática” para os moradores da Baixada. Por intermédio da análise do processo de emancipação do ex-distrito iguaçuano.práticas políticas (e ao poder público) e às percepções de cidadania em jogo. Não me alongarei na análise desses dados. criava suas próprias alternativas.0% 17. Examinando as colunas destinadas a reclamações do Jornal de Hoje. PROBLEMAS Hospitais Lixos e pragas Segurança pública Saneamento básico Transporte deficiente Telefones públicos Creche.0% 9. substituída por outra.32-33). 54 . agindo coletivamente.0% 6.

Boschi (1983 e 1987). Sader (1987 e 1988). Monteiro inicia seu relato sobre a rede de resolução de problemas práticos a partir de uma disputa política — e por visibilidade — entre um vereador local e um líder comunitário. Cessado o conflito. Distingue-se deste último por seu caráter espontâneo (não-formal). Aquele tradicional entendimento de que cabe ao governo a responsabilidade por resolver todos os problemas. a situação merecedora de cobertura da imprensa — a criação do movimento “roça limpa” — não se desarticulou. sobre “serviços” prestados à comunidade e sobre a “cobrança por proteção (o líder comunitário pertenceria a um grupo de extermínio). permanente e não-reivindicativo (no sentido de não privilegiar as manifestações públicas)61. no entanto. aspecto do paternalismo extremamente aprofundado em nossas instituições políticas. p. Alguns conflitos públicos foram desencadeados até que os dois finalmente entraram em acordo. A rede de resolução de problemas práticos não configura. 61 55 . 44). Oliveira (1987). sua forma de organização. Tal prática é mais comum do que se imagina na Baixada. D’Incao e Botelho (1987). é criticado involuntariamente por esse morador que se orgulha do fato de não depender do governo para manter sua rua transitável e seu bairro parcialmente organizado (idem. como um todo. um movimento social. Cardoso (1983). Jacobi (1987). entre outros. consultar. Doimo (1995). improvisando latas para seu acondicionamento e utilizando-se de um caminhão particular (de propriedade de um morador da região) para seu transporte até o “lixão”. entre outros. A população local continuou revezando-se para a coleta do lixo. Ammann (1991). suas características.que existe passividade popular no desconhecimento de deveres e direitos e na negação das reivindicações como algo efetivamente solucionador de problemas políticos inerentes à ação de governos. É neste aspecto que a abordagem de Monteiro diferencia-se daquela elaborada por Freire — que Sobre movimentos sociais.

os proprietários dos meios materiais de gestão). Em consonância com tal abordagem.volta seu olhar para um movimento social constituído. a análise relativa à constituição das redes. cujo surgimento remete à relação de oposição entre o príncipe e “as ordens” (ou seja. à auto-resolução dos problemas e à concepção de cidadania por parcela de moradores da Baixada nos dá indicativos da concepção de política local — e de sua experiência efetiva. Para Monteiro (op. Utilizo a definição weberiana de político profissional.). tal rede seria mais ampla do que as organizações populares formais: os moradores da Baixada. ao tratar das organizações coletivas (op. Seria justamente essa invisibilidade (não necessariamente desejada. O agir no mundo (em seu mundo). o MAB. diariamente constatada na relação morador-poder público) e sua percepção como “forma de convivência” por excelência a pautar esta relação que permitiriam a atuação efetiva da rede de resolução de problemas práticos e sua manutenção mesmo após a “resolução” de um problema específico. o patriciado. por intermédio de práticas solidárias cotidianas. despidas de um caráter de “serviço” (como empregado por políticos e alguns líderes comunitários) e a busca por visibilidade vão novamente na direção oposta daquela abordada por Freire. nobreza da corte. o autor chama a atenção para o surgimento de diversas categorias privadas dos meios de gestão públicos (clérigos. Grosso modo. seriam compulsoriamente envolvidos na “ação coletiva”. mas percebida como um fato. letrados.).cit. Interessa-nos 62 56 .cit. A despeito da generalização desta afirmação. Analisando momentos históricos distintos. os juristas etc. o autor assim analisa o surgimento do líder marginal — em oposição ao político profissional62. por conviverem com uma realidade extremamente dura.). esses moradores não percebem a cidadania em associação à reivindicação de direitos. Mas qual seria a singularidade de uma organização popular não-reivindicativa como esta? A resposta popular à sua invisibilidade pelo poder público se dá justamente a partir de uma concepção particular de política.

o líder marginal poderia surgir unicamente como mais um dos “políticos” que pululam na região ignorando o trabalho mudo da rede de resolução de problemas práticos. ele não existiria sem a informalidade de resolução de problemas práticos. Não deixa. p. o líder marginal e o político profissional. Ao insistir na nítida diferenciação entre tal líder e o político profissional. apareceria de maneira exemplar na trajetória de Joca: particularmente a noção de “funcionário” e a relação entre a empresa política e a empresa de interesses. 96). 97).O perfil do líder marginal da região da Baixada Fluminense traçado até aqui permite-nos chegar às seguintes conclusões: é esse elemento alguém necessariamente integrado à comunidade em que vive. de destacar a necessária transição de um pólo ao outro. segundo o senhor Antônio. pois. Desvinculado da rede. tomaram assento primeiramente nos legislativos municipais e depois nas prefeituras dos distritos iguaçuanos emancipados” (ibidem. cuja figura política central seria o boss (EUA). ou — mais comumente — se aproveitando da boa vontade de alguns inocentes para conseguir votos através da realização de “obras de maquiagem” que. porém de forma decisiva. conforme vimos. Essa “invasão”. 57 . “Não seria. Para ilustrar a imbricada relação entre estes dois tipos ideais. é ele parte integrante dessa informalidade. prefeitos ou deputados estaduais num movimento mais voltado à mobilização popular — com fim às emancipações distritais — do que a profissionalização em si. o autor acaba por reforçar a caracterização do sujeito que vive “para a política”. tendo na vocação sua marca distintiva (Weber. p. conforme chama. “acabam com a primeira chuva” (idem. completo o perfil do líder marginal se não entendermos que grande parte desses líderes lentamente. agindo como um elemento facilitador na medida em que organiza os trabalhos realizados dentro da rede. o autor relata como os primeiros acabam tornando-se vereadores. portanto. no entanto.1971).

Joca lançou seu nome para possível 58 . No período em questão. o prefeito do município era Aluísio Gama. pedreiro. Acompanhar tal ascensão permite-nos compreender ao mesmo tempo as razões que orientam o desenvolvimento da liderança marginal e a mutação que tal estilo de lidar com o poder público imprime no próprio poder público: a chegada de Joca à prefeitura de Belford Roxo determinou a inauguração de um estilo diverso de governo. do PDT que.O primeiro prefeito de Belford Roxo surgiu-nos como um exemplo lapidar da liderança marginal baixadense na medida em que experimentou uma rápida ascensão política completamente ancorada na sua eficiente ação social substituidora do poder público e no seu forte carisma pessoal. “Belford Roxo.98. no entanto. nunca mais será a mesma” (idem. algumas lideranças de Nova Iguaçu começaram a vislumbrar possíveis alianças. Jorge Julio da Costa. Em lugar da negação da reivindicação política como algo eficiente na resolução dos problemas. em 1988. filiado ao PL e convencido de que poderia alçar vôos mais altos. Em 1991. p. 117). Com prestígio em alta junto ao eleitorado de Belford Roxo. Grifos do autor). Com uma trajetória política marcada por um estilo próprio e pelas trocas constantes de partido. em 1992. Joca mantinha ambulâncias (vans adaptadas) para atender a população de Belford Roxo (ainda distrito de Nova Iguaçu) mesmo antes de candidatar-se a um cargo público. manifestando-se a favor da emancipação do distrito. Sua vida pública começou. o Joca — ex-baleiro. a população belforroxense aposta que se Joca comportar-se à frente da prefeitura como comportou-se como um líder marginal de seu bairro e como vereador iguaçuano. “matador” e/ ou “justiceiro” — foi eleito com mais de 80% dos votos válidos como o primeiro prefeito de Belford Roxo (após a emancipação). tinha como diferencial sua relação com o “povo”. como vereador em Nova Iguaçu pelo PMDB. já próximo a Bornier. conseguiu atrair Joca para seu partido. carroceiro. Sua liderança na região passa a ser reconhecida já a partir do final da década de 1980. na época já “um bem sucedido empresário do setor de transportes e construção” (p.

O Dia) vão colocar-nos diante de um processo que. nos eximindo de pensar tal violência como um aspecto da própria relação com o Estado. ainda que minimizadas pela grande imprensa (jornais como O Globo. urbanização desordenada. ocupação rápida. As redes políticas a que atores como Joca estão vinculados trazem à tona o movimento e a circulação de imagens e indivíduos. Contudo. associado às questões anteriormente elencadas (pobreza. construindo formas de perpetuação de poderes e lógicas sociais de justificação do recurso à violência: a sua relação com o poder e com o estado” (Alves. mais regionalmente. a violência e a fala do crime (Caldeira. no Rio de Janeiro63. poder local e esferas de poder “supra locais” (idem): o rápido crescimento urbano ocorrido na região a Mais detalhes sobre sua trajetória e sobre os desdobramentos políticos de sua morte serão abordados no capítulo 3 desta tese. viabilizará uma instrumentalização da violência política.candidatura em Belford Roxo — tendo como vice um político ligado às elites tradicionais. pp. Foi eleito e governou Belford Toxo até 1995. 21-22). 2003. 63 59 . para o autor. Ricardo Gaspar.). um conjunto de fatores explicaria a permeabilidade da máquina estatal e a consolidação de grupos políticos graças às relações entre violência. 2000). 64 Ver. globalização do crime64 etc. abandono. Alves nos chama a atenção para o fato de que as imagens da violência veiculadas pela mídia e cristalizadas pelo senso comum generalizam a violência/ criminalidade — naturalizando-a — assim como transmitem a sensação de estarmos todos inseridos em um “estado de barbárie”. Zaluar (1996). Nesse sentido. ano em que foi assassinado após reagir a um suposto assalto na saída do túnel Santa Bárbara. Jornal do Brasil e. “A instrumentalidade política da violência relaciona-se com a subjetividade de uma determinada população. a este respeito.

em Belford Roxo e Zito. tomados anteriormente. O contraste entre a antiga oligarquia rural e o selfmade man inaugurou um novo cenário para as relações políticas na região. a presença de matadores operando numa linha bastante tênue entre público e privado — além de sua ligação com setores do capital privado (empresariado local e regional) e as relações dos atores envolvidos nesses esquemas de dominação política local com as esferas do Executivo. a família Raunheitti (em Nova Iguaçu) e até os populares “justiceiros/ matadores” — Joca. As trajetórias políticas de figuras como o Barão-fazendeiro (ibidem. A associação entre a política local. o período de ditadura militar e a “atomização das relações sociais”. em Caxias — sem dúvida lançam luz sobre os processos e relações sociais igualmente constitutivos do “lugar” Baixada Fluminense. permitem-nos mergulhar na multiplicidade desses sentidos e em sua polifonia. tendo no município de Nilópolis e na família Abraão David seus exemplos paradigmáticos. o emblemático Tenório Cavalcanti e sua “Lurdinha”65.partir de 1930 e os conseqüentes loteamentos de terrenos. a dimensão política nos apresentará algumas formas de instrumentalizá-los. A composição da Baixada em treze municípios — tal como mencionada no primeiro parágrafo deste capítulo — corrobora alguns desses projetos. p. As elites políticas da Baixada não estiveram isoladas como se poderia supor dadas as precárias condições infra-estruturais e o abandono de seus moradores. os projetos — de atores políticos coletivos e individuais — vão também delineando novas fronteiras para a Baixada. 60 . Se os discursos dos moradores. 1993).31). Legislativo e Judiciário. Tal composição está presente. Nesse sentido. o incremento populacional. o jogo do bicho e as escolas de samba também constituíram outra faceta deste quadro (Cavalcanti. fazendo despontar novos nomes. 65 Nome pela qual era conhecida sua inseparável metralhadora. o eloqüente orador Getúlio de Moura.

E por outro lado. em projetos sociais ligados à música (Costa. op. entre outros que procuram redimensionar o “lugar”. 2006). no Relatório Impunidade na Baixada Fluminense. abordado no próximo capítulo.).). op. quer seja na tentativa de obtenção de verbas públicas. E eu acho que têm meios de comunicação que estão aliados a esses grupos políticos. cit.cit. 66 61 .cit. já em 2005. op. por exemplo — como no caso de um de meus interlocutores. Outros exemplos serão aqui apresentados a partir de imagens divulgadas pelas campanhas políticas durante o período eleitoral de 2004 em Nova Iguaçu e em Duque de Caxias. que a gente não vê. 110-111). é também abordada por Freire (op. via Secretaria de Governo da Baixada.) ou da constituição de identidades (Freire. assim como por Alves e outros pesquisadores. op.cit. cit). Freire.. você tem grupos políticos ligados a grupos de extermínio que não querem mais ser associados a isso. op.. pelo ‘grande avanço’ de infraestrutura. referindo-se a uma configuração que incluiria ainda Paracambi ou Itaguaí. Mas talvez porque esses políticos que tinham uma representação mais a nível regional começaram a ganhar espaço nacional […] não querem ser associados à barbárie. visando a ampliação de poder e prestígio. Alguns discursos políticos mencionam a necessidade de se “pensar a Baixada como um todo”. que a Baixada ganhou [espaço na mídia]. nos discursos de agentes ligados à Secretaria de Estado de Desenvolvimento da Baixada e município adjacentes (conhecida apenas como Secretaria da Baixada)66. Deste A importância da configuração adotada pelo Estado. pp. 2000) ou ainda em torno “da memória” (Enne.por exemplo. “Até mesmo o poder público. às mobilizações coletivas pela Universidade Pública da Baixada (cf. quer construir uma outra imagem pra região. ou na disputa por acessos privilegiados (Kuschnir. o poder político. porque não foi tanto assim. porque essas chacinas estão próximas da barbárie e eles não querem mais estar associados a isso” (Maria dos Carmo Gregório apud Enne. Monteiro. Eu não digo nem pelo avanço cultural.cit. à Associação de prefeitos da Baixada Fluminense. querem buscar estar agora próximos à modernidade.

a busca por uma “outra imagem” para a Baixada — por intermédio de projetos políticos traduzidos em ações com repercussão coletiva — acaba por exacerbar a fluidez desse “lugar” e a ampliação da interpenetração com outros “lugares” (como a cidade do Rio de Janeiro. daqui por diante estaremos remetendo a um tipo específico de “territorialização”: a efetuada pelo discurso político e por suas práticas (Deleuze. fundamentalmente. 1992). Se não muda. a Baixada permite que pensemos esta coleção de lugares a partir do aspecto não exclusivamente racional do espaço. 62 . 26 anos. “coisa pessoal”. A conjunção do espaço e do território aos usos e significados a que estão submetidos redimensionam a qualidade banal de “meio” e operam uma religação. comerciária e estudante de administração. quer pela associação com bairros da Zona Oeste (Campo Grande) e subúrbios da Avenida Brasil (Irajá e Pavuna). sem dúvida. Caracterizada pela circulação de informações e imagens. quer com a Zona Sul e. com a Barra da Tijuca. agências etc.). A noção anteriormente mencionada de rede de resolução de problemas práticos nos dá algumas pistas dos caminhos a seguir. “A Barra [da Tijuca] é o paraíso dos ricos da Baixada.. mas pelo fluxo e pela interação de elementos diversos.modo. muda pra lá. Todo mundo que fica rico. por exemplo). palavras e pessoas. conformados em modos de ser e experiências sensíveis. A política na Baixada é. e às vezes ambíguos. tem apartamento e sexta-feira pega o carro e só volta na segunda” (I. moradora da Posse – Nova Iguaçu). nos referimos ao “lugar” como a “territorialização” operada pelos múltiplos sentidos possíveis (através de atores. Se no início deste capítulo.

Sarmento (1999). Ela tornará possível a existência de outras Baixadas e será por essa multiplicidade atravessada. demonstraremos. políticas) buscando apresentá-las como razoáveis e coerentes. voltam a nossa atenção às experiências cotidianas e vivências. Piovezzani Filho (2003). e aos discursos e projetos políticos. Ou seja. assim como os lugares-eventos (Borges. Desse modo. as pessoas envolvidas interpretam o mundo e expressam alternativas (no caso. p. O conjunto desses discursos. aparecem como justificativa para a ação. 2003) enfatizam as “palavras” e os “feitos” nativos. como uma espécie de “razão prática”. Castilho (2000). Sargentini (2003). A política. portanto. o político é pensado como fundamento das relações sociais —importância fundamental sendo conferida. Para Guimarães. Courtine (2003). à linguagem (o político é o homem que fala) —e caracterizado pela contradição que encerra entre a distribuição das desigualdades e a afirmação de pertencimento ( cf. como os diversos sentidos atribuídos ao “lugar” serão cruciais no repertório acionado pelos atores políticos no momento de sua apresentação. os lugares de dizer (Guimarães.17). Puls (2000). Carvalho (1995). também a rede de resolução de problemas práticos ou mesmo a construção das arenas públicas a partir da problematização de situações específicas. entendida também como espetáculo trará novos personagens. E. através das narrativas. técnicas e interlocutores68. ao longo desta tese. 68 Balandier (1982). 67 63 . Chaia (1996). 2005) para que a Baixada faça sentido na própria enunciação67.As trajetórias políticas selecionadas nesta tese serão os enunciadores-políticos. É a partir desta visão que a articulação entre imagens da Baixada (e as possibilidades para sua expansão) e projetos políticos individuais e coletivos serão apresentados como forma de apreender os sentidos da espetacularização do mundo político.

aglutinação e reformulação. ser entendida através de duas ou três redes compostas por partidos políticos determinados a priori.CAPÍTULO 2: JORGE GAMA: O ARTICULADOR (OU VISIONÁRIO?) DE UMA BAIXADA Neste capítulo. Minha escolha por iniciar por sua trajetória não foi arbitrária. Pretendo. para tanto. Com isso. operada a partir de indivíduos-chave e da busca por seus interesses particulares. meu primeiro contato. ainda apenas por telefone. Ferreira. pretendo apresentar algumas observações sobre as relações políticas na Baixada Fluminense – fundamentalmente a partir de 1964 – utilizando-me. uma das dinâmicas constitutivas das redes políticas da região. 2003). Pensar. 1990b. de modo algum. a política local e seu modus operandi. Destaco que. além de entrevistas e conversas informais que realizei com ele. 1994. ora de redes mais amplas para atingir seus objetivos (Beloch. 1986. enfim. foi 64 . devemos excluir o ponto de vista estático para pensá-lo em processos constantes de abertura e fechamento. Grynspan. Para compreendermos este quadro. espero ilustrar o papel de alguns de seus atores sociais na construção de projetos políticos que trouxeram à tona imagens da região. desde sempre. A “personalização” é. transformar Jorge Gama no primeiro narrador de uma das versões sobre a Baixada. assim. de documentos históricos sobre a trajetória de Jorge Gama. ao começar o trabalho de campo em Nova Iguaçu. a multiplicidade da conceituação referente à Baixada a partir dos discursos políticos aqui apresentados. densidade e esvaziamento. Alves. delas se apropriando e tornando-as visíveis a outros universos sociais. ora valendo-se de partidos. A prática política na Baixada não pode.

761 votos. Reeleito pela quarta vez em 1982. Na mesma ocasião. Iniciou-se nesta atividade como assessor de Moreira Franco e Francisco Amaral. trabalhando também com Nelson Bornier em suas duas últimas campanhas (para o executivo municipal de Nova Iguaçu. em 1990. realizada na Secretaria de Governo da Baixada. Reelegeu-se vereador pela sexta vez consecutiva em 1992. perdendo para o candidato do PT. quando atuou como Relator da Lei Orgânica de Nova Iguaçu. localizada no km 15 da Rodovia Presidente Dutra72. o ex-deputado federal Jorge Gama que se tornou um importante interlocutor desta pesquisa. por intermédio de sua narrativa de si. como relator. trabalhou nos jornais O Globo e O Dia. foi o 3º mais votado do município. Foi reeleito vereador. Aos 63 anos. entre 1967 e 1970. de 1999 a 2000.com o assessor de imprensa do então prefeito Mário Marques69.772 votos e foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu.024 votos. em 2000. no qual permaneceu até 1990. quando julgar que tal empreendimento se justifique. Advogado. ainda pelo PDS. em 1981. 23 de setembro de 2004 e 15 de outubro de 2005) – dada a importância. na Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu. Minha presença exigia uma redefinição da “situação” pelos 69 65 . almoçávamos juntamente com outras pessoas (outro secretário.882 votos – ficando na 5ª suplência. em duas legislaturas (1970/ 1972 e em 1976). Foi suplente de Deputado Estadual (1974-1978) pelo mesmo partido e participou da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal. Tanto as entrevistas quanto as “conversas” foram feitas em seu gabinete.025 votos. em 1970. em alguma medida. um político tradicional do PMDB do estado. tornou-se pela primeira vez prefeito de seu município. Foi reeleito vereador pela terceira vez em 1976 (ARENA) com 3. sendo reeleito em 1972. e secretário de administração da prefeitura de 1967 a 1968. com 4. sendo o 1º da coligação PTR/ PST. obtendo 1.615 votos. após 30 anos de mandatos legislativos. pelo mesmo partido. em 1988 e em 1990. 72 Geralmente. da identificação da rede política em que Jorge Gama se insere. Foi por seu intermédio que tive acesso aos secretários. mas já está na política há quase vinte anos. Apesar de não registrados sistematicamente. PC. prosseguindo com suas atividades de assessoria com a transferência do mandato ao vice-prefeito Mário Marques. Repetirei este artifício com outros atores. que na época era do PP. 71 Esclareço o uso extenso das transcrições das entrevistas – realizadas em três ocasiões (10 de agosto de 2004. Reeleito vereador pela 7ª vez consecutiva. com 2. 70 Jornalista de formação. principalmente ao secretário de governo. após as entrevistas. como é conhecido. além de ser um personagem com destaque na história política regional – e. O prédio da Mário Pereira Marques Filho é natural de Nova Iguaçu. pela legenda do PTR. em 1986. obteve 2. também nacional71. foi novamente candidato à Prefeitura de Nova Iguaçu pela coligação Crescer sempre com Deus e com o Povo. Pedro Cezar e algum outro assessor). foi juiz de paz da Comarca de mesmo nome. tendo assumido o cargo em 2002. Lindberg Farias. Filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS). em 1996. com 3. em julho de 200370. obtendo 4. elegeu-se também 2º Vice-presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. Elegeu-se vereador em seu primeiro mandato pela ARENA.180 votos. e para a Câmara dos Deputados. Foi líder da bancada do PDS e fundador do partido (1980/ 1982) no município. Candidatou-se à Câmara dos Deputados. em 2002). com exceção da última delas. Em 2004. Pedro Cezar. tais eventos também são considerados fontes importantes para a pesquisa.397 votos. já pelo PPB. para esta tese. em 1988 com 1.

alertavam-me. Após aproximadamente uma hora de conversa. Lá. O gabinete do secretário de governo está localizado no andar superior. juntamente com o gabinete do prefeito. o procurasse na secretaria de comunicação (que ficava no prédio anexo. ligado. ao terminar. fazendo trabalho sobre política na Baixada”. A primeira entrevista não foi previamente agendada. andar). O dia estava muito quente e o ar-condicionado. no qual há uma ante-sala com ar-condicionado. Ofereceu-me água e café. uma vez que vários dos encontros marcados já haviam sido cancelados. Pedro Cezar saiu e pediu-me que. próximo ao maior shopping center da cidade. com aproximadamente dez cadeiras. resolvi dirigir-me diretamente à Prefeitura para tentar estabelecer contanto com alguém próximo ao prefeito Mário Marques. do outro lado da rua. 10 de agosto de 2003. Após alguns telefonemas. certamente. 66 . além do piso subterrâneo onde costumavam ficar as assessorias de comunicação e outras afins. Jorge Gama estava de terno escuro. assim. camisa bege e gravata. não conversavam sobre qualquer assunto e. quando desejavam falar algo que não deveria ser divulgado. Este último foi muito receptivo. Levou-me ao gabinete. Nesse dia. prometeu agendar uma entrevista com o prefeito e resolveu apresentar-me a seu secretário de governo para que. O gabinete é amplo: tem duas escrivaninhas – uma para uso próprio e a outra. para uso de seu assessor pessoal – e uma grande mesa oval. dizendo que determinado assunto deveria ficar em “off”. entrando sem ser anunciado. convidando-me a sentar. 528. uma sala de reuniões e salas de alguns secretários) para acertarmos a data da entrevista com o prefeito. “a viagem não fosse perdida”. no bairro central.Prefeitura situa-se na Rua Ataíde Pimenta de Moraes. pedindo à secretária que providenciasse presentes já que. o Top Shopping. porque teria que dar alguns telefonemas antes de falar comigo. no. conheci Pedro Cezar pessoalmente. algumas poltronas e a mesa de sua secretária. apresentou-me a Jorge Gama como “pesquisadora. Tem dois pavimentos (térreo e 1º.

uma das melhores e mais tradicionais instituições educacionais privadas da cidade e referência local. Sua mãe. era o de entender como se fazia política na Baixada Fluminense. mudou-se para Nova Iguaçu com seis anos de idade. sobre sua trajetória. Deixei que falasse sem interrompê-lo. Como de praxe. Carioca “do Rocha” (subúrbio do Rio de Janeiro). Jorge fez o primário (hoje chamado de ensino fundamental) no Colégio Iguaçuano – na época. Noêmia de Oliveira Gama de Barros. Só mais tarde. foi nomeado 67 . era imigrante português nascido durante o regime salazarista.os mesmos. quase duas horas depois. localizado onde hoje situa-se o município de Mesquita. foi trabalhar no Fórum. intervim. juntamente com o pai. estudando à noite no Colégio Monteiro Lobato (uma tradicional escola da rede pública). Aos 12 anos. narrando sua entrada no MDB. perguntando se ele havia nascido em Nova Iguaçu. ao que respondeu-me imediatamente. Afirmou que. Jorge Gama mencionou o fato de gostar de antropologia. aos 18 anos. citando sua leitura de Darcy Ribeiro. Manuel de Barros. dono de uma carvoaria em Nova Iguaçu e de um botequim. só retornando quando estávamos terminando a entrevista. Continuou trabalhando no cartório e. então. Sua narrativa recomeçou. Seu pai. ainda hoje. ao que ele não fez nenhuma objeção. certamente teria direcionado seus estudos para alguma carreira na área das ciências sociais. centrada em seu nascimento e nas histórias sobre seus familiares. se não tivesse feito Direito. Era comerciante. Expliquei que se tratava de minha tese de doutoramento pelo Museu Nacional da UFRJ e que meu interesse. era dona de casa. Perguntei se poderia gravar a entrevista. a mãe e os três irmãos. estava com meu gravador. a princípio. Seu assessor retirou-se. A primeira entrevista teve início formalmente e pedi que ele me falasse um pouco sobre si. Jorge Gama nasceu em 19 de setembro de 1942.

pouco defrontava o partido do governo. mas não porque seus programas políticos fossem ao encontro do desejo da maioria do eleitorado. a princípio.. O problema dessa estratégia foi que ela criou um processo político que não levava à legitimidade. A autora faz uma análise da máquina chaguista – desde sua estruturação e ascensão. 2001). op.). Nessa O MDB surgia. 1975) já que necessitava angariar apoio. da sociedade política e garantindo sua legitimidade com base na percepção de que tal situação seria transitória73. negociando cargos e privilégios com os antigos – e tradicionais – donos do poder (Ferreira. 170-171). 1975. oficialmente (registrado na Justiça Eleitoral. ainda que parcial. e sim porque isso lhe possibilitaria manipular o processo eleitoral de modo a assegurar o controle a longo prazo do aparelho estatal. a ARENA. Em um primeiro momento. 74 Segundo Avritzer (2000).escrevente. Leal. congregando diferentes facções que disputariam a hegemonia interna pelo poder no partido. em 24 de março de 1966. o regime autoritário cassou mandatos parlamentares e instituiu o AI-2 (que implicou a extinção dos partidos políticos) e. e sim ao autoritarismo” (pp. 2000)74. Quando concluiu o curso de direito pela Universidade Federal Fluminense. op. No entanto. O regime militar e o momento posterior da “abertura” são significativos para o entendimento da política na Baixada Fluminense. suas implicações dentro da estrutura urbana e sua relação com as massas. Assim. cit. “o regime autoritário permitiu o funcionamento parcial da sociedade política. cit. 73 68 . apesar de existir desde finais de 1965). Senador pelo Acre e. Alves. em 1969. Segundo Diniz (1982). a estratégia de manter dois partidos políticos visava evitar a desconfiança e o descrédito gerados por um sistema autoritário strito sensu (Avritzer. contanto que esta se sujeitasse aos objetivos primordiais do regime (. (DHBB. logo em seguida.. além de constituírem o contexto de surgimento de algumas trajetórias políticas expressivas em termos mais gerais. Sua fase adulta transcorreu durante os anos de ditadura no Brasil. o processo político implementado pelo novo regime não conseguiu diferir das antigas relações patrimonialistas e clientelistas (Faoro. o bipartidarismo (ARENA e MDB). até a articulação de suas bases de apoio – demonstrando a construção de um aparato ligado essencialmente ao clientelismo. permitindo o funcionamento. optou por não fazer concurso e permanecer no cartório onde “ganhava bem”..) O regime autoritário entendia que a vitória nas urnas dar-lhes-ia legitimidade. Oscar Passos. o MDB fluminense caracterizava-se (no período de 1965-1979) por um alto grau de heterogeneidade. Nascido sob o signo da oposição ao regime – e “batizado” por Tancredo Neves (Ulysses Guimarães preferia a palavra ação a movimento) – o partido foi inicialmente presidido por um general.

tais mudanças resultaram na nomeação de/ ou na eleição de oito prefeitos diferentes. em 1967) e dois vice-prefeitos (João Luiz do Nascimento. fato que. com cassações de prefeitos e vereadores da oposição e a imposição de interventores na região. vinculados ou não aos militares. Em Nova Iguaçu. Amado (2003). culminou na interferência direta sobre o poder local. dois presidentes da Câmara Municipal (José Lima. irmão mais velho e “padrinho político” de Fábio Raunheitti que. nesse período. mais especificamente. Fábio 75 69 . Santos (2003). Enne (op. e Rui Queirós. em 1966. Sobre os processos de construção da memória. pela UDN (União Democrática Nacional. mais tarde. em 196776) e viu despontar nomes como o de Darcílio Aires Raunheitti. Darcílio iniciou sua vida pública ocupando a quinta suplência na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Entre 1963 e 1969. em 1962). 76 Fonte: TRE-RJ e Arquivo da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. em 1969). tal situação explicitava-se pelo grau de intervenção nos municípios75. diante da situação política conturbada que se estabeleceu após a instauração do regime militar. em 1968). dois prefeitos eleitos (Aluísio Pinto de Barros. dois interventores (Joaquim de Freitas. Apesar de qualquer menção ou análise da situação de Nova Iguaçu estar ausente da narrativa de Jorge Gama durante a primeira entrevista que me concedeu. entre outros.cit. em 1963 e Antônio Joaquim Machado. assim como sua reelaboração sob diversas perspectivas. e Nagi Amalwi. a região passou por significativas mudanças políticas. surgiria como uma das principais lideranças dentro da Baixada77. entraram em cena novos atores que. 77 Do outro lado do campo político. mesmo após 20 anos de democracia. A cidade teve como chefes do executivo. perpetuaram-se na vida política local e ainda demonstram sua influência e prestígio. em 1966.época. Sarmento (1999). em 1963 e Ari Schiavo do MDB.). na Baixada Fluminense como um todo. da ARENA. consultar Pollak (1989 e 1992).

a Companhia Municipal de Desenvolvimento até 1982. João Batista Barreto Lubanco. Também fez oposição à volta das eleições diretas para presidente da República. dirigiu a Sociedade de Ensino Superior de Nova Iguaçu (SESNI) que atendia à demanda de toda a região. nasceu em Nova Iguaçu em 1928. Em 1969. adquiriu não somente knowhow. a ela somando-se a de odontologia). que conseguiu projeção regional ao eleger-se deputado federal. informação que veio à tona no escândalo em que ganhou a alcunha de “anão do Orçamento”. representada pela emenda Dante de Oliveira. Bezerra 1994 e 1998). 78 Duque de Caxias será administrada por interventores até 1985. 79 Em 1965. apesar disso. foi conquistando cada vez mais alunos (majoritariamente trabalhadores de segmentos populares e de camadas médias assalariadas que precisavam e/ ou desejavam aperfeiçoamento). por sua vez. Faleceu em 1986. ano em que finalmente elege seu primeiro prefeito desde a instauração da ditadura militar. que esteve rodeada de denúncias de compra de vagas. elegeu-se vice-prefeito de Nova Iguaçu. ciências contábeis e direito. no entanto. 70 . Joaquim de Freitas. no qual a população não se pronunciou. tornou-se área de segurança nacional devido à presença de uma refinaria de petróleo e de uma rodovia interestadual (a Rodovia Washington Luís). por fim – fato decisivo para a trajetória política de Fábio Raunheitti: uso de dinheiro público em sua instituição privada e nos hospitais da Posse e São José. que há pouco se havia filiado à ARENA. O carro-chefe da antiga SESNI – transformada em universidade em 1992 – agora Universidade Iguaçu (UNIG). iniciou sua vida profissional como tabelião substituto em sua cidade natal. As relações políticas que têm o município como locus serão objeto do próximo capítulo que analisará a trajetória de Zito. Em São João de Meriti. perdeu Raunheitti. era (e ainda é) a faculdade de medicina (posteriormente. ocorrida em 1986. Fábio Raunheitti. Em 1979. envolvendo-se em acusações de corrupção e mau uso do dinheiro público mas. em seguida. assumiu a prefeitura após a renúncia do prefeito de Nova Iguaçu. A entrada de Fábio na vida pública deu-se como Secretário de Educação e Cultura entre 1968 e 1970.449. não escapou da cassação e João Batista Lubanco – ligado aos Raunheitti (Darcílio e Fábio) – foi nomeado interventor. visto que as instituições de ensino superior na Baixada eram escassas nesse período. impôs resistência às eleições para governadores. apresentada na Câmara em 25 de abril de 1984.Após a morte do irmão. também. op. por exemplo. em um processo aparentemente sem conflitos. Inicialmente. João Cardoso. articulando alianças e financiando as campanhas de seu irmão e de outros políticos locais sem. Defensor do regime militar. casado com Lígia Gonçalves Raunheitti. Os dois estiveram vinculados à prefeitura de Nova Iguaçu durante a gestão de Rui Queirós. seu prestígio e liderança foram transferidos para Fábio. já filiado à ARENA (Aliança Renovadora Nacional) – partido que dava sustentação política ao governo militar instaurado em 1964 – iniciou uma relação de apoio incondicional ao regime. reelegendo-se em 1982. Em 1974. pelo PTB. Nilópolis também substituiria seu prefeito. Presidiu a Fundação Educacional de Nova Iguaçu de 1975 a 1976 e. integrante do mesmo partido de Darcílio e ligado aos irmãos Raunheitti. candidatar-se. elegendo-se deputado estadual em 1970 e deputado federal em 1974 e 1978. em 197079. Tornou-se uma das principais lideranças políticas locais a partir da década de 1960. senadores e deputados e colocou-se a favor da transferência do pleito de 1982 para 1986. a situação de ingerência era a mesma. Fábio fundou e. de venda de diplomas e. pois teria que “fazer frente” a seu irmão. Darcílio. por sua vez. No mesmo ano. por intermédio da empresa responsável pela limpeza urbana na cidade – CONDENI. juntamente com o exinterventor. nessa ocasião prefeito também pela ARENA. mas praticamente o monopólio de tal atividade na região. transferindo sua base eleitoral ao irmão.). de 4 de junho de 1968. nesse mesmo ano. Advogado. Duque de Caxias. mantendo a pretensa aparência de “ordem” (Alves. de gabaritos de provas. ampliando assim a oferta de cursos e seu orçamento particular. no entanto. cit.Nos municípios adjacentes. contando apenas com faculdades de pedagogia. em 1972. Com isso. formado pela UFF. José Amorim. do MDB. após a lei 5. filiou-se ao PDS. tendo como primeiro interventor Carlos de Medeiros78. não sofreram qualquer sanção (sobre corrupção ver.

Já em São João de Meriti. ambos do PTB. a vinculação das relações políticas com o jogo do bicho no município. iniciou-se. elegeram Simão Sessim deputado federal (pela primeira vez) e Jorge David. novamente. pela quinta vez. em 1990. na qual Nelson Abraão não se elegeu. assim. a família Abraão David sairia derrotada nas eleições municipais de Nilópolis. Em 1985. Jorge David (Alves. deixou a prefeitura para ocupar o cargo de assessor da presidência da Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (Fundren). Vamos votar no cara. No ano de 1976. foi nomeado presidente da Câmara. da nossa patota. em Nova Iguaçu. foi diretor do Instituto de Educação Rangel Pestana. deputado estadual. reelegendo-se deputado federal em 1982. atrás do candidato do PDT. Simão Sessim filiou-se ao PFL – partido formado pela dissidência do PDS – no qual se reelegeu pela terceira vez.).o mandato como resultado de um processo judicial movido contra ele – e cujas testemunhas foram Miguel Abraão e Aniz Abraão David. uma espécie de liderança na turma e botava ele na Câmara. saiu do PSDB e filiou-se ao PPB. Pegava um nome. elegeu-se prefeito de Nilópolis pela ARENA. Filiado ao MDB desde 1967. Simão Sessim. Em 1972. logo em seguida. De acordo com Alves (op. nas eleições para a Câmara dos Deputados e Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. demonstrando. Denoziro Afonso elegeu-se o único prefeito de oposição (MDB) nas eleições de 1972. Lançava-se um candidato. Miguel Abraão David. Nas eleições municipais de 1996. Sessim não conseguiu eleger-se prefeito pelo PSDB. cit. neste momento. No ano seguinte. em 1962. ano em que ingressou na ARENA. Foi sob esse clima político que teve início a vida pública de Jorge Gama. a Roberto e Bagder da Silveira. da nossa turma e aí. irmão de Jorge David e primo de Aniz Abraão David. tendo ocupado o cargo de secretário de Educação de Nova Iguaçu. de São João de Meriti. em 1986 e. No entanto. tornou-se chefe de gabinete na mesma cidade sendo. legenda pela qual se reelegeu no pleito de 1998 e também no de 2002. nós apoiávamos. cujos antecedentes remetem ao apoio financeiro da família Razuk. em alguns casos. sua posição quanto ao assunto em questão. mantendo relações com interventores federais. “Aqui. José Carlos Cunha (TRE/RJ). mas ainda com certa distância e muito ligada às suas relações pessoais e a um “estilo contestador”. a política lhe interessava. (1971) nomeado procurador-geral em Nilópolis. durante a década de 1950. Em 1977. nesse período já emancipada de Nova Iguaçu. Em 1979. 71 . Mudou-se para a Baixada quando criança e sua aproximação com a política deu-se ainda quando estudante. esteve ausente da sessão em que foi votada a emenda Dante de Oliveira. mesmo tendo Nilópolis como uma de suas principais bases eleitorais (além de Itaguaí e Magé). em 8 de dezembro de 1935. Em 1994. vamos botar ele na Câmara. 2003)80. nasceu no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito pela Gama Filho. em 1969. parentes do sucessor de Cardoso. inicialmente ocupando cargos nas prefeituras da Baixada com o apoio do aparato do governo federal e. assim. Era um modismo. muito eleitoral. Simão Sessim filiou-se ao PDS. ficando com o segundo lugar. candidatou-se outra vez e foi eleito. No ano seguinte. dessa forma. Em 1984. Iniciava-se. tinha um fato interessante. Era uma coisa muito despolitizada. Nós fizemos isso 80 As famílias David e Abraão David ingressaram na política durante o período da ditadura. a união entre política e contravenção que marcaria a imagem de Nilópolis. em Nova Iguaçu. momento em que se filiou à UDN. enquanto seu primo. Aos 19 anos.

Paulo Faria. o jornal publicava o que saía dali. o “Pasquim misturava política. Todo mundo ia pra lá de noite tomar cerveja. em formato de tablóide e com circulação irregular. sua periodicidade é semanal. um símbolo da luta de resistência ao regime militar. Aos domingos. num bar que tinha na esquina. perto do Fórum. de circulação local..23). Reproduzia a linguagem coloquial e incorporava o palavrão – muitas vezes utilizando um asterisco como substituto do termo. E aí se criou. Era um cenário meio boêmio e meio contestador. Editado no Rio de Janeiro.. compositor e pintor). Aquilo ali era um cenário. comportamento e crítica social. (. que conversava... Hugo Freitas (artista). Os últimos números do jornal saíram no final dessa década. E esse grupo se reunia.. A relação e as implicações entre as diversas mídias e a política perpassam a análise da trajetória de Jorge Gama e conferem tons distintos aos O Pasquim – assim como Opinião. boêmio. amigo. que trocava idéias. uma coluna chamada ‘O Negócio é o seguinte’. Movimento. à política da ditadura. um pouco influenciado pelo grupo do Pasquim81. 82 O jornal Correio da Lavoura. o Pasquim teve várias edições apreendidas.. Era o Robson. no Correio da Lavoura. depois com a ditadura começou a ter um grupo que pensava. o Eliasar Diniz. de certa forma. Bom. Enfim. 81 72 . Aquilo era um centro de debate. foi lançado em 1969. Tarso de Castro. com prisão de seus editores e processo judicial (. Era quase semelhante àquele grupo do Pasquim. Paulo Amaral. era o bar do Zuza. Araújo (2000).” (p. um jornal de protesto e de oposição. tornando-se um dos principais jornais do gênero. o Roque Bone (Roque da Paraíba. de contestação ao prefeito.) Durante os anos 1980 sua tiragem foi se tornando extremamente rarefeita. Teve em seu quadro de redatores nomes como os de Sérgio Cabral. mais ou menos. De acordo com Maria Paula N. Claudius Ceccon etc. foi criado em 22 de março de 1917. Chegou a ter uma tiragem de 200 mil exemplares (. Eu usava pseudônimos: ‘o Transeunte’ e ‘Maria Auxiliadora da Paz’.. Carlos Propseri. o ‘Geraldinho boca de trombone’. Atualmente. e foi um sucesso muito grande. que é dono do Correio da Lavoura. Fazia uns artigos uma vez ou outra. Coojornal e Versus – era um jornal alternativo. ninguém tinha um projeto eleitoral.82 eu..) Naquele ano [1970] o Pasquim representou. Demos uma força e o elegemos. O jornal era semanal e todo mundo comprava pra ver as piadas e as críticas. conversar e trocar idéia.” Os personagens criados trazem à tona o papel dos jornais como um dos poucos espaços possíveis para a crítica ao regime. Era uma coluna livre e cada um fazia uma frase. Jaguar.) Atingido pela censura prévia. em frente à estação [ferroviária]. Em Tempo. que esculhambava todo mundo.com o Mauro Miguel. o Sérgio Fonseca.. informalmente. Depois criei um outro personagem.

em suma. por fim. “a escolha do jornalismo como profissão era uma forma de exercer o engajamento político. Jorge Gama era um advogado recém-formado que. pela coragem e pela imprudência.marcos temporais. com o medo. o escritor livre. Os codinomes utilizados são emblemáticos: “Transeunte”. o agitador. da crítica e do engajamento. conforme ressaltou Abreu (2003). divulgar uma ideologia e atuar politicamente” (p. depois “Geraldinho boca de trombone” vão compondo e divulgando discussões políticas e informações proibidas e censuradas como alternativa às notícias dos jornais tradicionais. limitadas pelas exigências do regime e do mercado. uma valorização simbólica da ligação entre jovens quadros a partidos. Primeiramente o “Transeunte” e “Maria Auxiliadora da Paz”. ainda não propriamente vinculado a uma adesão ideológica. sem destino. “Maria Auxiliadora da Paz”. o escracho: “Geraldinho boca de trombone”. A conjuntura política do país transformou o papel das mídias – principalmente do jornal e dos jornalistas – gerando. com a incapacidade de agir. sem limites. que fala sem que o detenham. de alguma forma. indignado com o cerceamento. do humor (sarcasmo). O período da ditadura apresenta-se como basilar para a constituição de sua identidade política a partir do viés da expressão artística. Assim. E. Estes novos veículos trazem para o cenário local (Nova Iguaçu) uma forma de mobilização e de provocação (aos políticos locais) marcada pela criatividade. Na época de sua atuação como colunista no Correio da Lavoura. principalmente o PCB. O marginal (e marginalizado) por excelência. que carrega no próprio nome um apelo. sem paradeiro fixo.21). simplesmente. aquele que se move. Manifesta-se. aos “momentos históricos” por ele vivenciados. o homem comum que fala. mulher. portanto pertencente a uma minoria. traduziu 73 .

Jorge coordenou a campanha vitoriosa de Betinho (como Humberto era conhecido). manter uma relação de proximidade com o partido. mas inorgânico”. além de 74 . O primeiro turning point de Jorge Gama deu-se. uma parte do “Partidão”.PCBR e ex-preso político). contudo. considerada “mais conseqüente. mas Jorge não aceitou. que ficava próximo ao fórum. exmembro do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário . apenas dois anos depois. Em 1972 (ano em que se casou e residiu no bairro carioca da Ilha do Governador).esse espírito de seu tempo como porta-voz local da insatisfação. por ele considerados “mais de esquerda”: Paulo Faria (um político do interior do estado) e Paulo Amaral (advogado da Comissão de Justiça e Paz. ex-prefeito de uma cidade do interior do estado pelo MDB. Sua firma foi a responsável pela articulação da campanha de Francisco Amaral –apoiada pela esquerda (segundo Jorge. envolvendose na candidatura de João Luis Nascimento. que fez um mandato “combativo” sem. no entanto. da contestação e do anseio pela mudança. Este “movimento” (como Jorge o denomina) teve início na década de 1970. Um candidato “mistura de boêmio e contestador. Alguns membros do partido queriam que ele se candidatasse a deputado estadual. alegando que o nome de Francisco Amaral (Chico Amaral) seria o mais adequado. “uma esquerda independente. mais de esquerda”. De seu escritório. influenciando em sua entrada na vida político-eleitoral local com a candidatura pelo MDB do advogado Humberto dos Santos. naquele momento. gerenciava uma prestadora de serviços de assistência jurídica e administrativa juntamente com dois outros políticos. deu prosseguimento à sua atuação como articulador e coordenador de campanhas.

de 13-081973. O escritório de Jorge figura. Uma formação mais social”. Havia. sem dúvida. A relação com Francisco Amaral. ao mesmo tempo em que era desconfortável (para alguns atores sociais) ser rotulado de conservador. “ser de esquerda” aludia a um rol de atributos. realizada pelo Colégio Eleitoral (composto de membros do Congresso Nacional e de delegados das Assembléias Legislativas dos Estados). caput e § 1º da Emenda Constitucional n. a mudança de seu estatuto político foi conferida por intermédio da relação com nomes “mais da esquerda” e se apresenta como fundadora de um novo ciclo: sua entrada como ator político na arena local. Se a “origem” dessa ligação localiza-se nas “conversas políticas” com os amigos boêmios e contestadores. (Tribunal Superior Eleitoral) 83 75 . Da mesma forma ocorreu a eleição para Presidente da República. 1º e 2º.º 15. anterior à sua vinculação com eleições. a eleição para governador deu-se por meio de eleição indireta. de 9 de Maio de 1972. em sua narrativa. na forma do artigo único. da Lei Complementar n.setores da Igreja”) – que foi eleito e tornou-se um dos principais nomes da “esquerda local”83. na forma dos arts. De um lado. um significativo peso simbólico em classificar-se (e/ ou ser classificado) como “de esquerda”. havia a preocupação em não ser vinculado a uma postura radical (“esquerdista”). do contato com os dois advogados que trabalhavam no escritório e com Francisco Amaral que Jorge marca sua passagem para a “política de verdade”. Grosso modo. como o espaço no qual se deu sua formação ideológica. “Eu tinha uma formação crítica. estreitou-se a partir de sua entrada no cenário eleitoral de Nova Iguaçu e das possibilidades abertas por um contato direto com a Assembléia Legislativa. É a partir da criação desta prestadora de serviço. A atuação no cartório (“desde criança”) e sua profissão foram decisivas para o estabelecimento de contatos com diferentes segmentos Nesse ano. Depois eu adquiri uma formação ideológica.º 2. conhecimentos e práticas remetidos fundamentalmente à postura de crítica ao regime militar. realizada pelo sufrágio de um Colégio Eleitoral nas Assembléias Legislativas. no máximo.

no Regimento Sampaio. assim como a vida boêmia e o estilo contestador. Jorge. Na ocasião. pelos “personagens” que criou e por seus escritos nos jornais locais. As eleições para prefeito. vice-prefeito e vereadores deram-se em 20 de dezembro. em algum nível mediado pelos locais por ele freqüentados. embora o partido pretendesse lançá-lo como candidato à prefeitura84. 84 76 . de âmbito nacional. foram reguladas na forma da Resolução n. Já não era mais aquela aristocracia rural. sendo perseguido. Ali. segundo este último. Não era esquerdista. não conseguiu se eleger. algumas das características que o distinguiriam e o tornariam um candidato vitorioso naquele momento.041. contudo. que pertencia ao empresário Manuel Góes Teles e que. que tinha as idéias. Estavam em jogo os processos de identificação que resultariam na constituição de sua persona pública. de 16-06-1976. Forjavam-se. ao mesmo tempo em que o associavam a um tipo de sociabilidade e de trânsito entre a classe média (na qual se incluía na época da entrevista) e setores populares. “Nessa época. nos municípios em que não foram realizadas em 15-11-1976. no entanto. Jorge foi inquirido a respeito do jornal e de sua ligação com Manuel Góes Teles e depois liberado.º 10. mas essencialmente por sua ligação com o jornal O Pontual. 1º da Resolução n. Preferiu. estes atributos compunham a imagem de um profissional responsável. por sua vez.242.” Jorge Gama disputou. assim.º 10. Eu também estava buscando uma identidade. de 10-12-1976. sua primeira eleição para a Câmara Municipal de Nova Iguaçu. estava surgindo uma classe média em Nova Iguaçu. novamente apoiar Francisco Amaral que. não somente por estar à frente da campanha de Francisco Amaral. foi eleito vereador pela legenda do MDB (Movimento As eleições de 15 de novembro. que conversava com todo mundo. em 1976. fora “aproveitado” por seu grupo (dada a coragem e ousadia de seu proprietário) para fazer ataques políticos. tendo sua candidatura ameaçada de impugnação e seus colaboradores coagidos85. eu apareço em [19]76 como um personagem que transitava entre todo mundo. do Tribunal Superior Eleitoral. Juntos. mas não era conservador. do Tribunal Superior Eleitoral.sociais. na verdade. (Tribunal Superior Eleitoral) 85 Jorge Gama foi intimado – “convidado para ter uma conversa” – com o major Carneiro. Consoante disposto no art.

apesar de representar interesses específicos. tão cara à política em geral – como. em uma alusão direta a seu vínculo profissional. ao voto expressivo dos “servidores da Justiça”. Nesse mandato. A representação espacial. A noção de rede é aqui retomada privilegiando-se seu aspecto mais centrado no ego. Jorge Gama não tinha como reduto eleitoral um bairro ou área da cidade específicos. o ator político. Bott. interessando-me refletir sobre a forma como as relações diádicas são travadas e operacionalizadas para a prática da política local (Mitchell. 2001) – não era predominante e tornava possível ao candidato (Jorge Gama) ampliar suas possibilidades eleitorais por intermédio de uma “bandeira” que. 77 . as relações de Jorge com algumas pessoas em Nova Iguaçu foram fundamentais para sua decisão de ingressar no cenário político-eleitoral. durante o governo do prefeito da ARENA. e sim uma determinada camada social e um grupo profissional mais facilmente identificável. Desde o período de sua “formação política”. segundo o próprio. 1969. A dinâmica das relações pessoais é outro fator que merece atenção. Rui Queirós presidiu a Comissão de Justiça e a de Redação da Câmara Municipal e foi um opositor incessante do governo municipal e das políticas administrativas que o executivo implementava. Mayer. 1971. de Belford Roxo. diferentes áreas da cidade. 86 O mais votado foi Ricardo Gaspar.847 votos86 – graças à sua inserção junto às camadas médias de Nova Iguaçu e. Nesse primeiro momento. por exemplo. à política dos vereadores (Lopez. ainda não havia delineada uma geografia eleitoral de contornos nítidos. ex-interventor agora eleito. filho do então deputado estadual Antônio Gaspar. no caso de Nova Iguaçu. perpassava. 1969.Democrático Brasileiro) como o segundo mais votado do partido – com 3.

tendo sido um dos mais votados da região (TRE/RJ). apenas em Nova Iguaçu (no total de 38 mil votos). portanto. Com a vantagem de que era a única instância. com sindicatos. Alves (1991). Paulo Faria. Trabalho com um conjunto limitado de contatos diretos. no entanto. por fim. 87 78 . Dom Adriano morreu em 1996. de Dom Paulo Evaristo Arns.167). Acontece que. 1994)87. o que permitiu sua inserção no universo dos movimentos populares89. Dom Hélder Câmara. também se lançara candidato. cit) também mostraram-se relevantes para o entendimento do conjunto das ações. com associações. tornando-se uma instância crítica e uma caixa da ressonância da insatisfação com o Regime. Tais relações não foram constitutivas apenas dos processos de identificação política de Jorge Gama. o apoio Sem desconsiderar as observações desenvolvidas por Barnes (1969). por exemplo. quanto mais a repressão policial-militar fazia cair a sua pesada mão sobre a Igreja. os contatos a partir de terceiros. como a Igreja Católica. Eles podiam fazer isso com universidades. 89 Sobre a relação entre política e Igreja Católica na Baixada. desenvolvo minha análise levando em consideração os nódulos da rede. Dom Adriano Hipólito e de tantos outros bispos. tanto mais a Igreja se unia e se afastava do apoio ao golpe. pelo MDB. auxiliando a formação das Comunidades Eclesiais de Base na região. em 1978 – com 25 mil votos. tornando-se um símbolo pela luta contra a repressão e a ditadura. da democracia. posterior à primeira eleição e deu-se por meio de sua relação com membros da Igreja Católica da Diocese de Nova Iguaçu – fundamentalmente por intermédio de Francisco Amaral que o apresentou a Dom Adriano Hipólito88. sejam exclusivamente referidas aos contatos concretos – levando em consideração. as relações travadas a partir de um ego sem que.Bezerra. dividindo. havia setores da Igreja que apoiavam o golpe e outros que fizeram resistência ao regime. portanto. 88 Dom Adriano Hipólito foi um personagem marcante na Baixada entre 1966 e 1981. Foi Bispo de Nova Iguaçu e atuou junto aos movimentos sociais. da Agência Brasil. O depoimento de Frei Beto à jornalista Deigma Turazi. Sua aproximação definitiva com as camadas populares foi. op. Essa ligação – e o reconhecimento de seu lugar legítimo como político na cidade – favoreceu sua eleição para deputado federal. O suporte (político e financeiro) do partido não foi imediato e irrestrito já que seu antigo colega de escritório. de sementeira de movimentos sociais que renasceram nos anos 70/80 e. mas não com uma instituição duplamente milenar. mas qualificaram sua inserção local a partir da rede a que resolveu aderir. de defesa dos direitos humanos. como foi o meu caso e o de um grupo de dominicanos de São Paulo. consultar. Isso fez dela um grande espaço da conquista. Dom Mauro Morelli. fator de derrubada da ditadura”. para quem a rede seria um “conjunto de relações interpessoais concretas que vinculam indivíduos a outros indivíduos” (p. a única instituição do país para a qual os militares não teriam como nomear um general da reserva para comandá-la. no entanto. Foi seqüestrado em 1976 e torturado. mas os indiretos (denominados de segunda ordem por Barnes. exemplifica o papel da Igreja e de personagens como Dom Adriano: “Na verdade.

Japeri […] era bem maior. Mesquita. que antigamente era Queimados. repito. o movimento popular estava começando a ter um crescimento aqui. possibilitando a Jorge a operacionalização de um fazer político informado por seu fazer profissional: o Direito. tal problemática mobilizou discursos políticos e organizações civis. na sua organização do ponto de vista legal. E depois teve uma luta específica que também fortaleceu muito o movimento popular90. [fui] o segundo mais votado. Jorge Gama enfatizou sua independência com relação aos nomes mais importantes do partido na cidade – como o de Francisco Amaral – assumindo a responsabilidade pelas despesas da campanha com a ajuda de alguns parentes. “A minha eleição. peguei o meu mandato e coloquei o meu mandato à disposição do movimento popular. tornando possível aos indivíduos perceberem-se como cidadãos ao expressarem relações de significação entre espaço e política e sua dimensão na configuração de modos de vida. Em seu relato. e aí o Francisco Amaral.” A partir de sua relação com as associações. Mas. e na Baixada de modo geral. Francisco Amaral foi advogado da Diocese de Nova Iguaçu. Assim como o lote (Borges. de conhecidos (“um ou outro me dava alguma coisa.. em todo o município de Nova Iguaçu. Em Nova Iguaçu. Nós dávamos uma assessoria [sobre] como fazer e tal . a “casa própria” não representava somente um sonho de consumo. só mais tarde. já estava na política antes de mim. Os despejos em massa consistiram acontecimentos decisivos para 90 É importante destacar que. esse crescimento. foi pela classe média. a bandeira política de Jorge Gama passou a ser a da “casa própria”.dentro do MDB.”) e. que nós já tínhamos feito a eleição dele em (19)74. Nós tínhamos reuniões intermináveis aí.. 79 . de sua legenda. 2003). política. muito ligado à Diocese de Nova Iguaçu – a Dom Adriano. mas a própria incorporação social. na formação das associações de moradores. logo depois de eleito. Então. nesse período. Eu me engajei totalmente no movimento popular. principalmente política.

aqui na Baixada. e aí. construía-se a mobilização. foi realmente importante essa luta porque nós conseguimos – aí eu já era deputado – modificar toda a legislação para atender aos conjuntos habitacionais de baixa renda. De acordo com Pedro Cezar – que estava presente durante uma das entrevistas – “aquilo ali era um aparelho. ingressaram aqui com uma série de despejos e houve um pânico generalizado. na época.” Para Jorge. na região central da cidade. ainda que se partisse de uma questão pessoal – como a casa da família A ou B – o mecanismo de articulação desenvolvido junto às associações conseguia originar debates de natureza política. Nós fundamos mais ou menos umas 23 associações de conjuntos habitacionais. Estava 80 . aquele era o momento oportuno para “plantar a crítica e a conscientização” e mobilizar as pessoas para a ação política. “O BNH produziu. A centralidade da “casa própria” para os envolvidos nos movimentos sociais da cidade refletia-se na dinâmica local. Aí as financeiras. A “casa própria” aparece então como palavrade-ordem para criar e organizar a ação.solidificar essa aproximação e reformular as imagens que compunham sua identidade política. uma centena de conjuntos habitacionais. mas a organização financeira não foi a melhor e gerou uma enorme inadimplência. Para ele. nos símbolos adotados e no discurso tornado público pelos atores legitimamente constituídos (investidos) durante o processo. fomentava-se o debate. Reuniões eram articuladas no escritório de Jorge. estes conjuntos habitacionais acabaram […] gerando um adensamento populacional grande. esta última se realizava. Através dela (e por ela). já também engajando no movimento popular das associações de moradores tradicionais. Nós pegamos aquele movimento e demos uma organizada. nos domingos à noite. O referido escritório situava-se na rua Moacir Marques Morado – atualmente rua Paulo Machado – em frente ao Fórum.

ocupado pelo movimento social local). uma coisa horrorosa […] Tinha até um mimeógrafo a álcool. Assim. A gente tomava na tampinha. e sempre levava um whisky pra gente abrir. uma coisinha […]”. uma fumaceira. que vendia um whisky. aparecia um amigo meu. o Roque Bone. conversar com as lideranças das associações de moradores. por excelência. Neste contexto. o Paulo Amaral. seu irmão ou algum assessor conduzia as reuniões e os atendimentos até a chegada do deputado. 2000). Esse mimeógrafo produziu os primeiros panfletos. ao mesmo tempo em que funcionava para o atendimento ao eleitor (Kuschnir. O escritório funcionava como ponto de encontro para falar de política. de troca. o Chico Amaral […] Às sextas-feiras. o Robson. “de crítica”. “A gente também convivia no escritório com o cara que ia pedir uma ajuda. ou seja. o Paulo Faria. “Ia todo mundo. conversando. por parte do eleitor. artistas e boêmios. o atendimento como uma atividade eleitoral.sempre cheio. sobre lotes de graça no Nova Aurora” (atualmente. Além de receber eleitores. Jorge Gama costumava voltar às quintas-feiras à Nova Iguaçu para atender os eleitores e reunir-se com as lideranças locais em seu escritório. Durante o mandato de deputado federal. aposentado do Ministério da Saúde. tal troca não consistiria uma dimensão política. o lugar era. a capacidade do político de obter o bem desejado 81 . um ponto de sociabilidade. o Hugo Freitas. visando apenas a maximização de votos por parte do político. Para Jorge. organizando as prioridades. tinha sempre alguém que precisava usar o telefone e ia lá”. feitos pelo Laerte Barros sem a minha autorização. Era freqüentado também por sambistas. o “eleitor tradicional” é concebido como aquele que corrobora a “política dos vereadores”. um bairro popular de Nova Iguaçu. o escritório era pequeno. Na sua ausência. uma calça Lee. em contrapartida à satisfação de necessidades e interesses individuais.

Diferentemente do exposto por Kuschnir (2000) sobre a concepção de política dos Silveira (seus interlocutores: Fernando e Marta).cit. Jorge Gama – ao falar de si e de sua prática política –afirma não priorizar o atendimento. Kuschnir.pelo eleitor lhe garantiria. deputados. Tradição mantida por vereadores.. retribuição em termos de voto e apoio (Bezerra. No entanto. por todos os atores sociais envolvidos no processo político. mesmo atribuindo um caráter negativo a tal sistema. conferindo à sua identidade política a marca da opção ideológica e da ‘função de fiscal’ do Executivo – mais presente em seu mandato como vereador. Tal explicitação é. em detrimento do que considera o real fazer político: a doação desinteressada. o bem da coletividade. no entanto. 2001 e 2004). 1999. É 82 . reconhece sua necessidade. prefeitos. 2003. evitada e. sua ambigüidade: de um lado. justificando-o pelo argumento da “tradição”. Lopez. sem dúvida. de outro. do cálculo egoísta. A doação (do tempo do político. ao se pensar a relação de “generosidade” e de “benfeitoria” do político com seu(s) eleitor(es). da “bandeira”) é pensada então em relação diametralmente oposta à troca (reificada em termos do caráter imediato do bem). Borges. do dom gratuito e sem retribuição.1996: 7). Jorge Gama atribuiu um juízo de valor negativo à “política de resultados”. nunca exclui completamente a consciência lógica da troca” (Bourdieu. eleitores (“eleitores tradicionais”) enfim. Segundo Jorge. da atividade política. a carência de aparatos e serviços públicos somada à pobreza em que vivem muitos dos moradores da região promovem a utilização desse tipo de recurso político. essa experiência é (ou pretende ser) vivida como uma rejeição do interesse. como exaltação da generosidade. op. o foco recai sobre algo já observado por Bordieu: “[…] o caráter primordial da experiência do dom é. que estaria ligado a interesses individuais. em algum nível. Em todas as entrevistas que me concedeu. possibilitando sua reprodução.

portanto. Consideradas “um problema da coletividade”91. a participação de Jorge Gama. o auxílio prestado aos grupos nelas envolvidos era tanto político. as invasões de terra ocuparam boa parte das preocupações e ações de Jorge Gama. Viegas. apresentar-se como ator legítimo. Colocar-se como doador significaria. Nesse sentido. 1993. que remetia à formação profissional de Jorge. render homenagens públicas a “cidadãos ilustres” etc. Já o saber técnico. Em seu primeiro mandato como deputado federal. Nova Aurora e Monte Líbano são algumas das áreas invadidas – hoje bairros majoritariamente ocupados por conjuntos habitacionais – cujos processos de ocupação tiveram. os parlamentares. socialmente investido para atender às demandas da população por meio dos canais gerados pelo próprio status do político e por acessos angariados no exercício dessa função. 2001). configurava um aspecto distintivo. O acesso é um bem escasso e que não pode ser comprado. Coradini (2001). mesmo por quem tem muito dinheiro. 91 83 . 1996. Tal diferenciação passa pela construção de um discurso coletivo sobre o bem em questão – que envolve a constituição de um “movimento” – autorizando-o.interessante notar que o político benfeitor e/ ou doador nos termos de Chaves (1996) pode tanto atender aos pedidos de pessoas de camadas populares (por remédio. uma vez que remetia à negociação entre parcelas da população e esferas do poder público. 92 Ver. quanto técnico. singularizando-o frente a outros atores políticos locais92. 1998: 237). a tomá-lo como demanda coletiva. Para se obter acesso. então. das demais pessoas. Lopez. lotes ou gasolina). A relação entre “movimento” e interesse é fundamental para entendermos as formas de classificação operacionalizadas por Jorge Gama com relação ao seu fazer político. Político. em especial. quanto intermediar concessões políticas a empresários. em algum nível. é preciso entrar para a política” (Kuschnir. Sua atuação nestes episódios proporcionou sua aparição na É interessante notar como Jorge Gama diferencia a “casa” ou o “lote” de um bem em termos mais gerais. “ter acesso é o que diferencia os políticos e. (Kuschnir.

permitindo que algumas pessoas se coloquem em evidência devido à singularidade de seu potencial de trânsito por distintos segmentos. Ela não é o extraordinário. No entanto. como enfatiza Castro (op. Para os políticos profissionais. tais movimentos sociais configuram loci de atuação privilegiados.). singulariza determinados indivíduos. distinguiria o mediador? Neste trabalho. afinal de contas. como pensar a mediação quando nos referimos a atores políticos? Falamos de mediação em geral ou seria necessário qualificá-la. Kuschnir (2000) já nos advertiu que nem todo político é necessariamente um mediador. diferentemente da análise elaborada por este autor. propiciando um espaço de visibilidade e de exaltação da mediação como ferramenta necessária. É a execução constante do projeto pessoal e não uma qualidade “natural” de certos indivíduos. a mediação será pensada como uma atividade quando – conforme ressaltou Castro (2001) – relacionada a um “projeto pessoal de se tornar mediador”(p. Os atores políticos engajados nesses movimentos originavam-se de diversos segmentos sociais: políticos profissionais. Este gostar é definido por sensações tanto quanto pela crença no sucesso ou na possibilidade de conquistá-lo. cit. moradores da periferia.mídia e a conexão de seu nome ao de outras personalidades de grande carisma. como Dom Adriano Hipólito. Portanto. mas realça a dimensão “voluntarista” assim como a condição necessária para essa atuação: gostar de desempenhar tal papel. Esta especialização na articulação e/ ou negociação. A vontade de atuar como mediador e 84 . membros da Igreja Católica etc. adjetivando-a? O que. defendo que o político profissional não é um mediador apenas ou mais facilmente em períodos de transição e de mudança – apesar de tais momentos potencializarem sua visibilidade e seus atos. Por esta razão. lideranças de bairros. a mediação política é tratada aqui como uma atividade. mas o cotidiano.210).

característicos dos anos de regime militar. No caso específico de Jorge Gama. do que a suposta origem ou finalidade da mediação. há uma grande ênfase em tal atuação. consagrou-se como uma demonstração de sua capacidade de articulação e mediação. Mário Andreazza. de seu 85 . O processo de investidura requer dos atores políticos a demonstração de seu capital simbólico. conseguindo expor suas reivindicações – mesmo em um espaço cerceado pela insegurança e pelo medo da exposição. assim como qualquer outra liderança. Paulo Amaral e Ubaldo Rodrigues. no processo político. Atuando como mediador em um determinado segmento da população. podemos dizer que seria mais apropriado pensar no mediador como uma situação (estar mediador) e não. mas um complexo de significados. O episódio em que agendou uma audiência para Dom Adriano com o então Ministro do Interior. Jorge presenciou tal reunião em Brasília. “Quem marcou a primeira audiência de Dom Adriano com um membro da ditadura fui eu”. como uma qualidade ou propriedade (ser mediador). ações e motivações intersubjetivas.a aptidão em desenvolver tal atividade são proporcionais à capacidade de lidar com a diversidade de códigos. necessariamente. portanto. precisa constituir seu espaço legítimo de atuação e conformar seu discurso a um público específico –seu eleitorado. O político. juntamente com Francisco Amaral. interessando-nos mais especificamente o between. para a reprodução incessante dessa atividade apenas o desejo do ator ou algum atributo inato. Não é garantia. No entanto. para que tratassem de um novo modelo de financiamento habitacional que melhor atendesse às necessidades e restrições econômicas da população de baixa renda de Nova Iguaçu. Jorge demonstrou possuir algum trânsito entre as diferentes esferas e atores públicos. símbolos e interesses envolvidos – neste caso.

A partir do final de década de 1970. os projetos políticos individuais aqui analisados demandavam conciliação. necessariamente. conformando projetos coletivos em alguns momentos e circunstâncias específicos. as delimitações sócio-históricas implicam uma estrutura mais ou menos rígida que. Apesar dos limites. Esse “atuar” ou “agir no mundo” leva em consideração o potencial de metamorfose (Velho. Foi justamente a partir deste momento que o 93 Bourdieu (1974 e 1989). Em um universo político no qual a mobilização era vigiada e os direitos políticos. 1994) dos atores em questão para a concretização de seus projetos (individuais ou coletivos). três deles traziam suas próprias propostas de modernização e de reação ao regime autoritário: o novo sindicalismo. pelo trânsito entre os militares (nas instituições de direito). tal demonstração passava. De acordo com a análise de Avritzer (op. no entanto. dentre os quais o da redemocratização brasileira que conseguiu aglutinar.178]) e as associações de classe média. o campo de possibilidades de indivíduos-chave é sempre colocado em evidência por meio de suas ações e projetos. Assim sendo. sociais e civis restringidos.CEB’s [p. tanto quanto entre as associações civis e a Igreja Católica – que passou a ter uma postura de contestação e crítica aos militares com o recrudescimento do regime.poder e prestígio93. cit. 86 . um grande número de atores individuais e entidades civis.). os movimentos sociais urbanos (chamados pelo autor de “organizações dos pobres das áreas urbanas”. pode ser flexibilizada a partir da atuação dos sujeitos (alguns mais. Ou seja. dentre as quais destaca o papel das Comunidade Eclesiais de Base . os movimentos sociais começaram a imprimir sua marca por meio da articulação de alguns grupos civis pela busca do exercício de seus direitos. da cidadania. em torno de um objetivo comum. outros menos) no mundo social. a partir da década de 1970.

A reivindicação de autonomia para os trabalhadores nunca fez parte do programa do MDB. Alencar Furtado. Ganha espaço na mídia interna e alcança grande repercussão no exterior. Por outro lado. 94 87 . No grupo. apoiando suas críticas quanto à queda no desempenho da economia nacional devido à crise do petróleo e quanto ao fim do “milagre econômico brasileiro”94. A ligação de políticos do MDB com o passado populista. […] Incorporar o discurso de mudança na atuação política equivaleria a afastar o eleitorado patrimonialista. mas era o ‘nosso exército’. Chico Pinto. o que deu legitimidade ao Colégio Eleitoral e à eleição do general Ernesto Geisel. Em companhia de Barbosa Lima Sobrinho. criando uma dissociação entre a lógica dos atores sociais criados pela modernização e a política Ulysses Guimarães teve um papel crucial nesse processo. um passado rejeitado pelos movimentos sociais. o “almirante”. é bastante ilustrativo desta situação . o “marechal”. incapaz de fazê-lo. mas Ulysses foi além do combinado com os autênticos. “O Grupo Autêntico do MDB. Como o adversário era um militar. o que mais irrita os militares. Ulysses percorre as capitais do País com a pregação das idéias oposicionistas. o “coronel”. também não ajudava no relacionamento desses movimentos com o partido de oposição. o MDB. “O papel de oposição institucional desempenhado pelo MDB não incluía o desafio radical às políticas do regime autoritário do governo no âmbito do eleitorado operário. Nem todos gostavam dessa brincadeira. que já vinha amadurecendo a idéia no início de 70. lembra Chico Pinto” (site do Diretório Regional do PMDB.que obrigou Ulysses a enfrentar literalmente os cachorros da polícia baiana do governador Roberto Santos em visita a Salvador . Alceu Collares.os autênticos tinham lá o seu humor. A idéia era que renunciasse no dia da eleição. cada um tinha uma patente: Fernando Lyra era o “cabo Lyra”. no final da década de 1970. o MDB apresentava todas as condições para a incorporação dos movimentos surgidos ao longo do período ditatorial. abrindo espaço para a incorporação das lideranças populares. narrado a seguir. A semente estava lançada. Apesar do clima de chumbo da época . (ou os militares). não levava a sério a sua reivindicação de uma nova forma de atuação política. enfraquecendo o MDB nos estados onde o patrimonialismo predominava.MDB tornou-se mais combativo. apesar de sua reação positiva inicial aos movimentos sociais. o “sargento”. no entanto. consultado em 12/03/2004). resolveu lançar Ulysses como anticandidato na passagem do governo Garrastazu Médici para Ernesto Geisel. Ele resolveu ir até o fim. O episódio da anti-candidatura. sendo. Ainda de acordo com este autor (idem). Marcos Freire. o vice. Os movimentos sociais e o MDB seguiram caminhos diferentes entre o final da década de 1970 e o começo da de 80. resolveram montar também a sua hierarquia de caserna.

não. ou melhor. as associações estão em declínio. em decadência. narrado com desconfiança e descrédito por Jorge Gama – e coincidindo com seu afastamento do “movimento”. Eu. em particular. depois de ter tido um auge na década de 1970. […] A originalidade. o inimigo: em um primeiro momento. por exemplo. em 1982. A partir de 1979. Foi justamente a partir deste panorama que surgiu o “outro político”. tendo as siglas 88 . eu fui excluído pelo sectarismo deles. porque no caso de Nova Iguaçu. “[…] daí a Igreja se identificava com o PT e aí ruiu tudo. infelizmente.182-183). logo em seguida. Eles não têm uma visão democrática da sociedade. eu parti pra dentro do partido político. infelizmente. o PDT. com o fim do bipartidarismo e o início do processo de organização e criação dos partidos políticos. pior que isso. a FAMERJ acabou. eu me excluí do movimento popular. A contenda em torno de quem seria o porta-voz autorizado desses movimentos aumentava as rivalidades ideológicas. o PT. é uma tragédia total.de oposição ao autoritarismo no nível institucional” (pp. sucessor direto do MDB.” A legitimidade na condução dos movimentos sociais em Nova Iguaçu aparece como um dos nichos de maior disputa pelo poder político no momento em que a sociedade civil começa a se organizar e a se manifestar. Hoje. aí. 1980. a autenticidade do movimento popular se dilui na medida em que você partidariza e depois. A aproximação de partidos de esquerda e das CEB’s com as associações de moradores é o mote desse conflito. tem uma visão corporativa. e no Rio de Janeiro. O PT. eleitoraliza. quando vi isso aí. Jorge Gama filiou-se ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). até mesmo do processo político. larguei isso aí pra lá.

reeleito em 1958. cit. 1970 e 1974. foi eleito Presidente da República. Em 1966. Faleceu no Rio de Janeiro. 97 Tancredo Neves nasceu em São João del Rei (MG). redigida no final dos anos 1970 e início dos 1980. Foi deputado federal pelo PSP em 1954. foi um dos articuladores da organização do MDB. Iniciou sua vida pública como vereador em sua cidade natal. a forma como se deu a criação do PP –congregando nomes como Tancredo Neves97 e Chagas Freitas98 – do PDT de Brizola. O multipartidarismo provocou uma fissura interna na frente de oposição ao regime militar e sua pulverização em uma gama de partidos que agora disputavam a arena política95. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (op. Em 1989. em 1991. após a fusão. elegeu-se governador do mesmo estado. tornandose vice-presidente do partido. Elegeu-se pela primeira vez como deputado para a Constituinte de São Paulo em 1947. seu vice-presidente. Foi deputado federal por oito mandatos. Segundo Skidmore. Em 1962. por exemplo. 98 Antônio de Pádua Chagas Freitas nasceu no Rio de Janeiro. Foi Ministro da Indústria e Comércio no governo de João Goulart. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (op. Em 1982.” (1999: 27/28). em 1914. Apesar de ter mantido nomes importantes em seus quadros. Em 1985. elegeu-se deputado federal pelo PSD.). a impossibilidade de entendimento entre alguns deles possibilitou a criação de outros partidos – dada a incapacidade de atrair para si políticos que se apresentavam como adversários.) e Diniz (1980 e 1982). vindo a falecer no dia 21 de abril do mesmo ano. Para mais informações ver Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro (2001). Tal foi. foi derrotado na primeira eleição direta para a Presidência da República. do estado do Rio de Janeiro (ambos por via indireta). dos quais 17 tinham representação no Congresso. Essa tolerância exagerada com a proliferação partidária podia ser em parte explicada como uma reação retardada à manipulação anterior da legislação eleitoral pelo regime militar. Foi primeiroministro em 1961. O MDB. reelegendo-se em 1966. como Ulysses Guimarães96. então Distrito Federal. Foi governador do estado da Guanabara. cit. Morreu em um acidente de helicóptero no litoral de Angra dos Reis em 12 de outubro de 1992. 95 89 . levara à rápida criação de 40 partidos políticos. foi eleito senador por Minas Gerais. visando a garantir a vitória do partido governamental. Elegeu-se deputado estadual pelo PP em 1947. do PCdoB etc. pelo PMDB. Em 1978. disputando cada qual o seu quinhão. ficando em sétimo lugar.partidárias – agora passíveis de expressão e visibilidade – entrado em cena. no dia 4 de março de 1910. sofreu um grande impacto eleitoral com tal dissenso. do PTB. em 1962 (pelo PSD) e em 1966 (pelo MDB). em 1970 e. em 1978. em “A queda de Collor: uma perspectiva histórica”: “a legislação eleitoral altamente permissiva. que congregou em sua sigla frentes ideológicas diversas desde a exigência do bipartidarismo. 96 Ulysses Silveira Guimarães nasceu em Rio Claro (SP) em dia 6 de outubro de 1916 e morreu em um acidente de helicóptero no litoral fluminense em 1992. em 1935.

entrou na disputa com Ivete Vargas pelo capital simbólico representado pela sigla do PTB. O que. o senador Mário Martins – teve que lidar com os diversos nomes que pleiteavam o cargo: Rafael de Almeida 99 Ver. como o político gaúcho. no entanto. Sento-Sé (1999) 90 . anunciando que o vice de Miro Teixeira poderia vir da Baixada. no entanto. reaparece a figura de Leonel Brizola que.Dentro desse panorama. Luis Carlos Medeiros. Essa “escolha”. precisando de espaço e convencido de seu poder e prestígio políticos. já que a região representava o segundo maior colégio eleitoral do estado. A criação do PDT foi. Em 1982. já findado seu primeiro mandato de deputado federal. Restaria ao partido escolher entre os nomes de Jorge ou Francisco Amaral. não se deu sem esforços. Ivete Vargas – da “ala” de São Paulo e ligada a Golbery do Couto e Silva (Ministro-chefe do Gabinete Civil do presidente Ernesto Geisel) – saiu vitoriosa. não deixando a Brizola outra alternativa senão a da criação de um novo partido. o presidente do PMDB – na época. Segundo Jorge. Jorge Gama foi escolhido para concorrer como vice-governador do Rio de Janeiro ao lado de Miro Teixeira. publicada no jornal O Globo. Depois de uma batalha judicial. com a missão de desempenhar o papel de “governador da Baixada”. já possuía sua própria história e legado. que achava que o vice-governador deveria ser alguém da Baixada. marcada por negociações e pelo fortalecimento da figura política já emblemática de Brizola99. Com a divulgação de uma nota do jornalista Pedro Cezar. acabou gerando um outro impasse. A aproximação com o PC do B e com o “novo sindicalismo” (representado por Lula) também resultou infrutífera e a criação do novo partido significaria colocar Brizola como o seu núcleo – diferentemente do que aconteceria com a conquista da sigla do PTB que. tudo começou com um amigo seu. assim.

Valter Silva também desistiu. os outros pleiteantes. assim. Jorge propôs que a reunião fosse realizada no sítio de Noel de Carvalho (em Três Pinheiros. Percebendo que a disputa seria difícil. com exceção de Valter Silva. foi anunciada a decisão do “encontro dos vices”. agora. Noel de Carvalho desistiu e lançou o nome de Rafael de Almeida Magalhães que. Optaram então por impedir que Miro Teixeira decidisse 91 . Paulo solicitou quinze minutos para conversar com Jorge em particular. Sobravam apenas Jorge Gama e Paulo Rattes. que um dos pleiteantes (o mais forte. Em uma reunião do partido. mais tarde.Magalhães. indicassem Arthur da Távola como o segundo nome do partido para concorrer ao Senado – conseguindo. na reunião do partido. que mandou um representante. Restavam. na conferência do partido que ocorreu no escritório de Jorge Leite. por não ter possibilidade de fazer frente a ele nas eleições”). Arthur da Távola. Paulo Rattes e Jorge Gama. Esses dois. próximo a São Lourenço – MG). já que todos tinham suas pretensões. tinham um acordo prévio – e mesmo anterior ao “encontro dos vices” – de que não se enfrentariam e caso a disputa ficasse entre eles. Em seguida. concorreu também para o Senado – no lugar de Flávio Castreoto. segundo ele) se retirasse da disputa sem o ônus e o desgaste de um embate. Valter Silva. no entanto. mas rejeitado por Miro Teixeira que encarregou Jorge Gama de negociar com ele sua desistência. mas foi voto vencido. Mário sugeriu que os interessados conversassem e tentassem resolver a questão sem a necessidade de uma disputa mais acirrada e pública. Jorge sugeriu que. Noel de Carvalho. escolheriam entre si sem a interferência da esfera partidária. em conjunto. depois de algumas negociações. que fora indicado por Mário Martins (“por ser um político de pouco expressão e. Diante desta situação. pois a candidatura de Arthur – que concorreria com o próprio Mário Martins – já estava lançada. Sendo assim. O presidente do partido protestou contra a decisão do grupo. O encontro foi marcado para um fim de semana e todos os pleiteantes compareceram.

tal “arranjo” foi um dos principais obstáculos à consolidação de sua imagem e a seus avanços como “partido de oposição”. com 10. Este episódio demonstra. com 30. com 21. abalando a estrutura do poder vigente até então na Baixada. pois isso enfraqueceria a candidatura do escolhido e colocaria o outro em uma posição politicamente desconfortável. Nessas eleições. quase absoluto. com 3.o destino dos pleiteantes. um período em que o brizolismo reinaria. optando por candidatar-se à prefeitura de Petrópolis (cuja eleição venceu). o que acabou desencadeando o chamado “fenômeno Brizola”.71% e Lysâneas Maciel (PT).455. assim. o PDT elegeu o advogado trabalhista Paulo Leone e. O fenômeno do brizolismo. de 16-09-1982 e teve o seguinte resultado: Brizola (PDT) em 1º. Moreira Franco (PDS). a chapa composta por Miro Teixeira e Jorge Gama tendo ficado em terceiro lugar 100. Miro Teixeira (PMDB). uma vez mais. devido ao número de cadeiras obtido pela oposição nas Câmaras Municipais da região.. Foi Leonel Brizola. no entanto. nos municípios da Baixada Fluminense e no qual o partido de Brizola – juntamente com seu líder excelência.60%. o voto vinculado gerou a obrigatoriedade de se votar na mesma legenda partidária para todos os cargos. quem se elegeu governador.45%. Para a política desenvolvida pelo PMDB na localidade. com 34. analisado por Sento-Sé (1999). Manoel Valêncio Opasso. do Tribunal Superior Eleitoral. Paulo pediu a palavra e desistiu em favor de Jorge Gama. Lugar.19% dos votos.. Sandra Cavalcante (PTB). Inaugurava-se.. em 2º.º 11. Em Nova Iguaçu. deve ser concebido como processo de construção de uma imagem pública – da persona Brizola – e dos elementos 100 – passaria a configurar o novo “inimigo” por Essa eleição foi regulada na forma da Resolução n.. em São João de Meriti. em 3º. a capacidade de articulação de Jorge Gama e o reconhecimento desta habilidade por seus pares políticos – além de ressaltar os laços pessoais de amizade entre ele e Paulo Rattes e alguns interesses comuns. em 4º. 92 . em 5º.05% (Tribunal Superior Eleitoral).

). A austeridade de seus atos políticos e sua disposição para a “briga” compuseram sua imagem. a família Abraão David ainda assegurava seu poder em Nilópolis. 1994) ressaltando as formas de identificação com a figura de Brizola desde seu retorno do exílio. assim. em certas ocasiões.” (p. Tendo como mito fundador o trabalhismo (e o legado varguista). este autor reflete sobre os contextos de sua produção e atualização. apesar da militância junto aos movimentos sociais. incorporar o tom mais radical do PT que. em 1979. elegendo Miguel Abraão pelo PDS – por meio de uma associação entre a política e a contravenção. semi-ocultos em outras.conformadores de seu discurso. não conseguiu penetrar em áreas já cooptadas por um tipo muito específico de política. a formação das redes que configurariam o campo político (Bourdieu. seu “nacionalismo moreno” e. pela pobreza e pelo alto índice de criminalidade. em uma região marcada pela escassez. sem. no entanto. ajudando a defini-lo como “um guerreiro disposto à auto-imolação.cit. A influência do “brizolismo” na região fazer-se-ia 101 Alves (op. Delineava-se. no entanto. enfrentando adversários ocultos. 93 . só conseguiu eleger um vereador em Nova Iguaçu101. seu discurso dirigido aos excluídos. Nesse sentido. preocupado com a (re)definição dos processos eleitorais como dramas (Turner. Sendo assim.62). Sento-Sé demonstra a construção da persona Brizola como um “todo coerente” – desde sua infância “de luta”. 1974 e 1989) na Baixada Fluminense. cujo emblema seria a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. Particularmente no tocante à Baixada. filiando-se ao PTB. até o seu ingresso na vida pública. O brizolismo. sua verborragia consagraram-no como a grande liderança popular. segundo Sento-Sé (idem).

1971). então. do poder em si. se assim o contexto exigir. valor ético (de convicção) e valor de eficiência (de sucesso).sentir até a década seguinte. Eurico Lima Figueiredo. Em seu relato. que marca a construção de uma memória e de uma identidade política ancoradas na idéia de vocação (Weber. Aquele político capaz de sacrificar algumas de suas convicções. Após a derrota nas urnas. em contraponto com a lógica da política do poder (idem. uma resposta negativa. Jorge Gama afirma ter percebido ser aquela “a hora do partido político”. Tal idéia estabeleceria uma relação entre sujeito político. PTB e PFL. Obteve. 94 . Carlos Alberto Muniz. o político responsável. procurou Miro Teixeira para que este concorresse à presidência do PMDB. apesar de progressivamente ir perdendo força para partidos como PSDB. Com esta “intuição”. Ao mesmo tempo em que diz ter tomado as rédeas da situação. durante as entrevistas que me concedeu. afirma que sua candidatura foi cogitada por seus pares. Jorge Gama oscila entre duas alternativas. a opção pela máquina partidária e começou as articulações para concorrer à presidência regional do PMDB. no entanto. em 1983. “Comecei a trabalhar esta possibilidade”. “tendo surgido” nas reuniões e começado a ganhar força a partir daí. Miro argumentou que precisava pensar em outros projetos. Esta aparente ambigüidade entre fazer a escolha (um projeto) e ser escolhido (investido) deve ser compreendida. seu projeto político naquele momento. “O verdadeiro político de vocação seria. diz. das quais também participavam Gilberto Rodrigues. tendo em vista uma apresentação de si a posteriori. Carlos Alberto Direito. fazendo da presidência do partido. 108). Começaram a discutir a reformulação do partido no estado. p. portanto. Jorge fez. Hércules Correia e Paulo Rattes. As reuniões tiveram início na casa do professor de ciência política.

demonstrando como o conceito de carisma é fundamental para a compreensão da construção da persona Brizola. pode vir a dizer: "Não posso fazer de outro modo. Assim sendo. Na verdade. sim. A justaposição da figura de Brizola à do partido é de tal ordem que a sigla pouco é mencionada nas entrevistas realizadas com Jorge Gama102. A política não é em si o reino das intenções e da força. no limite de seus princípios. A disputa pela presidência do PMDB possibilitou. pois “trocou” secretarias por apoio além de ter conseguido aliar-se a alguns deputados estaduais “brizolistas” (ainda segundo meu entrevistado. conseqüentemente. enfatiza tal colocação. A chapa concorrente era composta por Miro Teixeira e majoritariamente pelos chamados “euros”. a política é por excelência o mundo das realizações comprometidas em contexto” (Grifos meus) (Teixeira. esforços responsáveis por uma causa que. o partido simbolizava justamente essa adesão. Naquele momento. É sempre o nome de seu líder que aparece e se apresenta como grande opositor do PMDB no estado do Rio de Janeiro. “de cooptação”. 1999: 5). 95 . apesar de transcendente ao indivíduo. requer convicções pessoais. no entanto. Brizola tornara-se um empecilho na conquista da presidência do partido. em sua análise sobre o brizolismo. Aluisio Gama. a evidenciação das nuances e matizes internas ao partido. eleitoralmente dentro do panorama estadual. Cláudio Moacir. pois ao governador não interessava um “PMDB hostil”. nomes por ele mencionados: Átila Nunes. o chefe do executivo estadual promoveu um governo de coalizão ou. Para Jorge Gama. Simbolizava a crença na possibilidade de construção de uma unidade ideológica que o fortificaria politicamente e.mas que em determinado momento. nos termos de Jorge. na ação política não estão em jogo apenas o poder ou a paz e a satisfação individuais — embora estes existam — mas. Jorge Roberto da Silveira). bem como a cristalização do novo inimigo político pós-eleições de 1982: Brizola. detenho-me aqui" (Weber 1998: 122). os “intelectuais de 102 Sento-Sé (1999).

E ainda tinha um poder paralelo na Assembléia Legislativa. tive uma longa conversa com Miro Teixeira pra que nós não deixássemos o PMDB do Rio de Janeiro se esvaziar e tal. o PCdoB todo. meu querido amigo e saudoso Joca Serran. E aí achei. várias correntes. depois de ter sido candidato a vice-governador. O PMDB totalmente dividido: várias tendências. Jorge Gama contava com membros do “Partidão”. Ele disse que não. mas não quero’. marcou mais um episódio em que ficou evidenciada também a capacidade de trânsito e articulação de Jorge Gama por intermédio das alianças por ele costuradas. percebi que a minha campanha de vice-governador.. A vitória (por 66%). Analisei. Carlos Lessa. eu disse não […] Eu vou […] O meu espaço tava muito reduzido e eu. já era conhecido suficiente pra pleitear a presidência do partido. era o deputado federal Jorge Leite — personagem 96 .. o estado [do Rio de Janeiro] negativo pra nós. por exemplo. verifiquei. e aí. os euros. com os “chaguistas”. pra quem tava de fora era difícil de entender. Então tinham vários PMDBs.. ao longo de todo estado […] Numa campanha ampla... Monteiro de Barros. Joca Serran. “Bom. uma parte.. ‘Não. presidente do PMDB do estado do Rio de Janeiro... Como aliados. que eram mais localizados na Zona Sul. todo ano de [19]83. Então. aconselhei o Miro a ser candidato à Presidência do PMDB do Rio de Janeiro. que figura sempre como aliado político e amigo de confiança . vou pensar. Seu vice. Logo depois da eleição. um setor do “Partidão”. que eram os brizolistas do PMDB […]”. eu me dediquei à campanha da presidência do PMDB e acabei eleito em 20 de outubro de [19]83.. eu já tinha conhecimento suficiente.. tinha os independentes — eu era um dos independentes — tinha o MR-8. João Roberto. não.Ipanema”. com os prefeitos e com setores de uma esquerda dividida — liderados por Paulo Rattes. pensei. Milton Temer. No ano de [19]83. Era preciso fazer aquela leitura e a leitura daquilo era. intelectuais – Maria da Conceição Tavares. Tinha o chaguismo tradicional.

82. Se eu assinar isso daí. Lidar com a diversidade das frentes de apoio que tornaram possível tal empreendimento e. um advogado experimentado. para expulsar o vereador Jorge Felipe que tinha traído o Jorge Leite na eleição. derrotando. que tem agora como Presidente o ex-Deputado Jorge Gama. De qualquer maneira. Olha que coisa! Ele diz: ‘O Jorge Leite mandou isso daqui. Disse: ‘Não assino’.. e meia hora depois. entre outros. a chapa de Arthur da Távola também perdeu na composição da no va Comissão Executiva. se eu assinar perco a minha independência. do jornalista Paulo Alberto Monteiro de Barros. que nós vamos expulsar o Jorge Felipe porque ele traiu a gente lá em Bangu. a chapa de Arthur da Távala.. chegou o advogado do Jorge Leite.político conhecido por sua forte vinculação ao “chaguismo”. você avisa ao Jorge que eu vou evitar levar o partido para o Judiciário. com 66 por cento dos votos para o diretório. de Marcelo Cerqueira e Cláudio Moacyr. que era um advogado da Assembléia. se não assinar vou pro enfrentamento.’ […] Eu pensei. com o estilo político de seu vice transformou o mandato de Jorge em uma constante mediação e negociação de conflitos — além da fragilidade de sua condição de político sem mandato. O Deputado federal Jorge Leite e o Prefeito de Petrópolis. em 20 de outubro de 1983. que mantinha uma máquina política eficiente em todo o estado103. Paulo Rattes. 97 . Os problemas. chamado Francisco Romão de Lima […]. Olha Romão. na convenção do PMDR-RJ. com uma procuração pra eu assinar. principalmente. analisei. no entanto. ele é meu maior inimigo.líderes da chapa “Unidade” – confirmaram ontem seu favoritismo. Se eu não assinar. 103 Diniz (1982). na Zona Oeste. não haviam cessado com a conquista da presidência do partido. na Almirante Barroso no. [. A convenção do PMDB-RJ transcorreu em clima de muita disputa e a tônica foi a troca de provocações e de ameaças de agressão entre militantes das duas chapas. 21/11/1983) “Naquele dia — eu não vou esquecer — eu cheguei no partido. eu sou um escravo do Jorge Leite. (O Globo.] Devido à impugnação na justiça eleitoral de alguns Diretórios zonais e ao impedimento do voto plural. Isso é uma questão política. .

uma região vinculada a símbolos de violência e pobreza. fui embora pensando que não ia ficar mais dez dias”. mais ainda. pouca atenção sendo dada às notícias políticas que não estivessem a tais temas relacionadas. Já entrei na presidência do partido estigmatizado”. Depois.eleitoral e vamos resolver isso aqui. corroborada pela mídia 104. Os confrontos foram. De um lado. no entanto. Não vou assinar. Para ele. de fato. fazendo alusão a “algo de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava”. o discurso acusatório —aquela facção não dispunha de poder e influência dentro do partido e acabou se ausentando das reuniões e eventos — e sim o 104 É importante relembrar que nesse período — e até a década de 1990 — as imagens veiculadas pelas mídias televisiva e impressa sobre a Baixada Fluminense faziam referência constante a questões sobre violência. “Fizeram uma reunião pra me dizer que eu não podia ser o presidente do partido. constantes. com os “intelectuais”. seu pertencimento determinante dava-se pela associação a uma imagem que denunciava. o maior problema não era. Independentemente de outras possíveis pertenças sociais. mas não vai acontecer aqui levar o partido pra Justiça. De acordo com Goffman (1975b: 16). 98 . as acusações de suburbano. quem vai representar o partido na Justiça. como uma das principais formas de vinculação a uma identidade de “originário da Baixada”. E as matérias de jornais que traziam o nome de Jorge Gama geralmente enfatizavam sua origem: filho de carvoeiro. Estes “sinais” marcavam socialmente a pessoa como uma metáfora da poluição que esta representava. O partido só irá pra Justiça em último caso. com Jorge Leite e. Baixada Fluminense. Jorge vinha da Baixada. “da Baixada” e “sem muita expressão política” constituíam a tônica dos discursos oposicionistas por parte dos “intelectuais”. incriminava e segregava. A acusação aparece. sou eu mesmo. de outro. Segundo Jorge. aqui. naquele momento em particular. peça a ele desculpas. os gregos foram os criadores do termo estigma. sobretudo por causa de acerto eleitoral […] Foi um sinal de guerra. E. criminalidade e pobreza. não é nada contra o Jorge. morador de Nova Iguaçu.

intensificando-se na presidência do general Ernesto Geisel (1974-1979). ou não. O peso da propaganda política eleitoral – mesmo com as limitações impostas pela Lei Falcão – foi demonstrado nas urnas. do governo” (LattmanWeltman.“chaguismo”. 2003: 140). a ampliação de sua “bandeira de luta” e de sua mobilidade política (ascensão e declínio). por força do bipartidarismo e da insatisfação popular – mediada agora pela TV se transformou em autêntico plebiscito de aprovação. porém. que prometia uma abertura “lenta. gradual e segura” (Soares. Como já mencionado. o feitiço voltara-se contra o feiticeiro já nas eleições de 1974. É a partir desta vinculação que se dá. No relato sobre a constituição de seu papel como ator social e político legítimo (e legitimado). “Por ironia típica das artes da política. O MDB obteve considerável vitória eleitoral (basicamente nas eleições majoritárias para o Senado) em pleito que. a movimentação de grupos da sociedade civil teve início na década de 1970. promover a destituição da executiva. um acontecimento marcou a história política nacional e definiu um lugar para Jorge Gama dentro do partido. inclusive. o Movimento Democrático Brasileiro. representado principalmente por Jorge Leite. em 1983. Todavia. Jorge atribui um peso decisivo à sua atuação junto ao movimento popular local como conformadora de um modus operandi que o singulariza frente aos políticos atuais — aos por ele chamados de “políticos de realização”. quando a institucionalização da propaganda eleitoral gratuita na televisão acabou favorecendo a campanha do partido de oposição. que tentou. também. 2001). 99 .

“O PMDB que eu estava descrevendo. ali.. A articulação pelas “Diretas Já” teve seu pontapé inicial. (risos) Mas já tava começando esse negócio. um zumbi pensando: ‘Meu Deus. então eu diria que. no entanto. começou a acontecer a campanha das Diretas Já”. com o Brizola. Entretanto. a criação de partidos políticos (além da organização das siglas que já possuíam uma história anterior ao golpe de 1964).. logo. o brizolismo contra mim. foi somente durante o governo Figueiredo (1979-1985) que se assistiu a uma intensa mobilização de distintos setores da sociedade. o que é que eu vou fazer aqui? Ganhei uma eleição duríssima. Dante de Oliveira (emenda esta que ficaria conhecida pelo nome de seu autor). por intermédio da apresentação de uma emenda constitucional para o restabelecimento das eleições diretas. entendeu? Ficava.. as vitórias angariadas pela oposição (MDB) — ainda em 1974 e também em 1976 — anunciavam que o regime ditatorial chegara ao fim. ele fica com o diário oficial – já não havia isso. feita pelo deputado federal do PMDB/MT. em 18 de março.. sendo noticiada apenas pelo jornal Folha de São Paulo — em um artigo assinado por Tristão de Athayde. o partido rachou no meio. eu era uma rainha da Inglaterra. conseqüentemente. Tal iniciativa. ainda em março de 1983. né?’ Daí. danou a vir aquela expressão de que o PMDB não abria – entre a bíblia e o capital. que eram os governistas que fizeram um acordo.o partido fracionado e tal […] Mas aí aconteceu. teve pouca repercussão em um primeiro momento. aqui. exigindo o retorno ao regime democrático por intermédio do voto direto para presidente da República (idem). tinha um nicho na Assembléia.Com o fim do bipartidarismo e. Então foi uma dificuldade grande pra mim juntar aquilo tudo e coisa e tal. Eu fiquei totalmente ilhado no PMDB. e no editorial do 100 .

no qual o jornal colocava-se a favor do retorno do pleito direto em todos os níveis. Tancredo Neves. na época presidente regional do PMDB/RJ. A movimentação de setores políticos. Os principais nomes do PMDB circulavam entre os diversos estados. intensificou-se a partir de abril daquele ano. que buscava se articular aos demais partidos sob a bandeira do retorno à democracia. os jornais — principalmente a Folha de São Paulo — passaram a noticiar as ações e articulações que pretendiam restaurar a democracia representativa em sua íntegra. entre outros. tornaram-se figuras-chave nesse movimento. Se desde abril. como Dom Evaristo Arns e Dom Ivo Lorscheiter. volta-se para a construção de um discurso visionário. negociando alianças e dando maior visibilidade à campanha pelas Diretas Já. entre outros. Miguel Arraes (do PMDB). Em novembro. percorrendo o país em diversos comícios e shows em prol da campanha. além de Lula.dia 27 de março daquele ano. e com a aproximação do PT ao PMDB. O ano de 1984 começa com intensa mobilização. o processo dava indícios de sua intensidade. Ulysses Guimarães. Nesse sentido. com o pronunciamento de lideranças diversas. que contou ainda com a participação de vários intelectuais e artistas. segundo o qual seu potencial de observador atento aos fatos e hábil articulador lhe garante o privilégio de estar um passo à frente dos demais atores políticos — dentro e fora de seu próprio partido — o que lhe assegura um lugar na história (como denota a narrativa na primeira pessoa do singular) . Jorge Gama. a partir de outubro a movimentação dos atores políticos em diversos estados cresceu consideravelmente. 101 . relata sua inserção e seu papel neste processo como uma espécie de “revelação”. religiosos. entidades de representação profissional.

“Quando eu percebi a campanha das Diretas Já, eu me conectei imediatamente com Brasília, com Dr. Ulysses. Quando nós fomos fazer a campanha com a sociedade civil, a campanha já estava dando mídia, que a mídia da época ali não foi […] A mídia ali foi conquistada, os movimentos foram crescendo e a mídia não pôde ignorar mais. A TV Globo demorou... ignorou até quando pôde... depois não... e aí, o partido começou a receber não só a sociedade civil — que o partido curiosamente também tinha uma sociedade civil que era PMDBista, MDBista e tal; ela não era militante permanente, mas quando o movimento cresceu, eles se aproximaram do PMDB e eu consegui (como eu estava ali convivendo, conhecia o partido, eu conheço o conveniado do PMDB ) ... Eu consegui interpretar o que cada movimento pensava das Diretas Já: todos eram a favor das Diretas Já. Eu digo: ‘bom isso já nos une’[…]”

Diante da heterogeneidade do partido — que se colocava como um dos grandes obstáculos a um projeto coletivo de unidade política — e da necessidade de lidar com frentes de matizes ideológicas distintas, Jorge Gama torna-se um dos principais articuladores e mediadores do movimento pelas Diretas Já no Rio de Janeiro. Fundamentalmente por estar à frente do partido — mas também por apresentar um projeto político unificador — seu discurso dá o tom da fragilidade da experiência de presidir o partido, ao mesmo tempo em que marca sua importância para o processo de consolidação política do PMDB na região e em todo o país. A capacidade de negociar com as variadas frentes internas e de “aproveitar o momento” para colocá-las sob o imperativo do devir histórico deve ser entendida de acordo com a complexidade simbólica com que é narrada. Corroborando a narrativa acima, as mídias viram-se obrigadas a posicionar-se. Conforme ressaltou Lattman-Weltman (op. cit.),

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“[…] a campanha das Diretas Já marcou a necessidade de uma nova relação entre a cobertura midiática da política e seu público mais amplo. O movimento ofereceu a alguns veículos a oportunidade de afirmar uma nova identidade editorial, mais conforme com os novos tempos – caso da Folha de São Paulo— assim como obrigou outros a uma inflexão de enfoque. Foi o caso da Rede Globo, que tentou ignorar o movimentos pelas diretas em seus primeiros passos, mas acabou se rendendo, diante do crescimento da participação popular e da cobertura a ela conferida pelos concorrentes” (p.143). A partir do ato público realizado em São Paulo com a presença do governador Franco Montoro (PMDB) e de lideranças políticas de diversos partidos — no qual Jorge Gama esteve presente — as primeiras movimentações no Rio de Janeiro começaram a ser organizadas. Em torno à reivindicação do retorno às eleições diretas, o PMDB conseguiu mobilizar suas diferentes facções internas, possibilitando a reaproximação dos “intelectuais” com o partido presidido por Jorge. O passo seguinte consistiu em uma reunião entre as entidades civis e profissionais, juntamente com o PMDB, com as comissões do PTB, do PC do B, do PT e com o governador do estado, Leonel Brizola, para planejar a manifestação pública. A partir daí, o PDT — e principalmente Brizola — é alçado ao patamar de inimigo número um do PMDB, o que se prolonga por toda a década de 1980. As relações tensas e os conflitos deram o tom das interações entre, por exemplo, Jorge Gama e Brizola, remetendo-nos ao quadro mais amplo das relações partidárias e político-eleitorais no estado e, fundamentalmente, na Baixada. “O PMDB naquela época elegeu nove governadores e, no Rio de Janeiro, elegeu o Brizola, que não queria as Diretas Já. O Brizola queria uma Constituinte com o Figueiredo, mais dois anos de mandato com o Figueiredo. Então até nós alavancarmos a campanha das Diretas Já e organizarmos a campanha no Rio de

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Janeiro, nós tivemos muitos embates com o Brizola no Palácio (da Guanabara). O primeiro embate foi quando eu cheguei com umas 12 associações, 12 entidades, OAB, ABI ... Várias outras entidades: CUT, PT, comissões provisórias de partido etc. O Brizola disse: ‘Não […] nós só vamos fazer campanha com os partidos legalizados’, o que era uma bobagem do ponto de vista político na época e, outra coisa, era uma coisa autoritária, prepotente, excludente, da cabeça dele, caudilho como sempre – e não tira uma palavra disso que eu digo, digo e repito. Aí eu digo: bom, eu me lembro que saiu de dentro do gabinete — nós estávamos na ante-sala — o falecido deputado Brandão Monteiro, aos berros, dizendo: ‘Não... só com os partidos legalizados!’.. e eu: ‘Que isso companheiro? A sociedade civil está participando disso, o partido está em vias de organização. Isso é uma bobagem!’ Aí vira ele pro Hélio Sabóia — que era presidente da OAB — e pro Augusto Villas Boas — que era representante da ABI — e também estavam o Drº Barbosa Lima Sobrinho não ia e o Augusto que disse que queria ouvir, mas peraí...o Dr Barbosa Lima sobrinho disse vamos nos retirar daqui; aí entrou o Talarico, José Gomes Talarico, que disse: ‘Calma, Brandão!’ Brandão vociferava pra poder […]aquela subserviência ao Brizola, uma coisa horrorosa […] ‘Não é bem assim, isso aqui não é assim... você está falando com o presidente do partido!’. Aí a coisa evoluiu, nós ameaçamos nos retirar. Ia ficar mal, o Brizola ia ficar isolado ali; ele, aí, instaurou o plenário permanente das Diretas Já; chegamos a ter 19 entidades, ele era minoria, o governo era minoria mas, de qualquer maneira, pagava a conta... Tinha que ser... Então a luta pra colocar a campanha das Diretas Já, no Rio de Janeiro, foi uma luta dura, tivemos que enfrentar o Brizola, principalmente o Brizola, que queria uma Constituinte com o Figueiredo, outro fato curioso neste particular. Quando nós fizemos a caminhada no centro da cidade, que o Lula veio depois pra Niterói, nós colocamos 300 mil pessoas. Nossa caminhada foi em substituição ao comício que o Brizola resolveu adiar, nós fizemos uma caminhada; depois nós viemos a descobri que o Brizola só permitiu que se fizesse o comício na Cinelândia [o que agregou 1 milhão de pessoas], ele marcou aquela data porque sabia que o Figueiredo ia pra Espanha e não queria fazer nada que 104

desagradasse o Figueiredo. Era o Aureliano Chaves que estava na Presidência, e aí o Brizola apareceu com uma data estranha, mas vamos fazer, não interessa. Depois, nós descobrimos que o Figueiredo deu uma entrevista à Veja, dizendo o seguinte: “se eu tivesse no Rio de Janeiro, seria um milhão e um” mas, na verdade, o Brizola procurou saber quando o Figueiredo ia viajar pra fazer na ausência dele, pra passar por ‘bonzinho’ pra ditadura. Esse que era o papel do Brizola, mas aí, com o sucesso, não teve jeito. Esse foi outro episódio que eu vivi com muita profundidade e que precisa ser contado”.

A emenda Dante Oliveira foi, então, votada pelo Congresso, recebendo 298 votos a favor, faltando 22 para a maioria exigida de 2/3105. Duas expressivas lideranças políticas da Baixada não integraram esse movimento: Darcílio Aires, que votou contra e Simão Sessim, que se absteve. Restava, então, à oposição articular-se para a disputa do Colégio Eleitoral. A partir daí teve início uma acirrada negociação política em torno dos nomes que disputariam a eleição. “A costura deste apoio, conhecido como o ‘acordo de Minas’, foi iniciada ainda na noite da renúncia106 de Sarney, quando este recebeu a visita do deputado Ulysses Guimarães e do senador peemedebista Fernando Henrique Cardoso e, confessando-se traído pelo presidente, deu o sinal de que ele e seu grupo se dispunham a apoiar um candidato da oposição […] Com o intuito de deter o retrocesso da redemocratização, os governadores do PMDB, sob a presidência do deputado Ulysses Guimarães, reuniram-se em Brasília no dia 29 de junho e decidiram lançar o nome de Tancredo Neves à disputa no Colégio Eleitoral. Quatro dias depois a Frente Liberal do PDS rompeu definitivamente com o governo federal, passando a atuar no Congresso e nas assembléias legislativas estaduais como bloco parlamentar independente
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É interessante notar que a oposição detinha apenas 244 cadeiras, o que significa dizer que membros do partido do governo votaram a favor da emenda, em uma demonstração de que o regime militar chegava, de fato, ao fim. 106 Tal renúncia refere-se à intenção de concorrer à Presidência da República pelo PDS.

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e dando início às negociações com a oposição em torno do lançamento da candidatura do governador de Minas à presidência. A formação da Frente Liberal implicou, automaticamente, as desistências de Aureliano Chaves e Marco Maciel da disputa pela indicação do PDS na convenção partidária, ficando esta restrita aos candidatos Andreazza e Maluf. No dia 14 de julho, no palácio Jaburu, sede da vicepresidência da República, foi firmado o pacto da Aliança Democrática para enfrentar a caminhada de Paulo Maluf, o mais cotado dos pré-candidatos pedessitas, rumo ao palácio do Planalto[…] O pacto foi consolidado em encontro realizado em Brasília no dia 7 de agosto, quando foram abordados os itens essenciais do programa do candidato aliancista: constituinte, problemas sociais, eleições diretas, dívida externa, casa própria, pleno emprego, previdência social, liberdade sindical e estado de direito. Na ocasião, ficou decidido que a Frente Liberal faria a indicação do candidato à vice-presidência da República, recaindo a escolha no senador José Sarney. A coordenação da campanha ficou a cargo de Ulysses Guimarães” (DHBB, 2001).

Os episódios das Diretas Já e a movimentação política em torno do nome de Tancredo Neves para disputar a Presidência da República pela Aliança Democrática demonstram também a proximidade e fidelidade de Jorge Gama a Ulysses Guimarães, há todo instante evidenciada107. Tais acontecimentos descortinam os processos de disputa pelo poder no interior do partido, entre Ulysses e Tancredo Neves. Diante deste quadro, Jorge Gama mais uma vez enfatiza uma percepção de si como articulador político —sem, no entanto,
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O primeiro contato com Ulysses Guimarães deu-se durante o mandato de deputado federal, em 1978. Jorge Gama nunca havia ido à Brasília. Com pouca experiência, não conseguia estabelecer uma relação de proximidade com o então líder do partido, o deputado Freitas Nobre. Começou a freqüentar os gabinetes de Ulysses e de Amaral Peixoto e, com isso, foi construindo uma aproximação. Com a escolha de seu nome para disputar as eleições de 1982 como vice-governador, passou a chamar mais atenção mas foi a eleição para a presidência do partido que, de fato, estreitou a relação — porque, segundo o próprio Jorge Gama, “Dr. Ulysses era muito institucional. Ele não vinha ao Rio sem falar comigo”. As viagens de Ulysses ao Rio de Janeiro eram sempre comunicadas ao presidente do partido e encontros agendados. Assim, a relação entre os dois foi ficando cada fez mais próxima, a “fidelidade” de Jorge Gama sendo colocada à prova com o movimento em torno da escolha do nome peemedebista para a disputa do colégio eleitoral de 1984.

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romper com os laços que inicialmente o prenderam ao partido e à “ala” que escolheu/ aderiu. Colocando-se no “olho do furacão”, seu relato traz à tona os melindres e agruras de liderar um partido heterogêneo, em momentos de definição de poder. A visibilidade angariada pelo PMDB como partido-aglutinador da oposição produzia um duplo (e crucial) desafio para Jorge: posicionar-se a favor do movimento que ajudara a articular e organizálo, anunciando o nome de Tancredo, ou manter-se fiel à sua facção? Diante de tal encruzilhada, sua opção recaiu, segundo ele próprio, “sobre a coerência”. “Partimos pra campanha do ‘Tancredo Já’. É, eu era presidente do PMDB e tal, mas eu era ‘ulyssista’, não era ‘tancredista’ e surgiu um manifesto dos artistas, dos intelectuais, de todo mundo assinando, aqui, para ser publicado no Jornal do Brasil. Quem tinha que encabeçar o manifesto era eu, e eu disse: ‘Eu não assino’. Eu não assinei porque – vim a assinar mais tarde – porque não havia uma definição de quem seria o candidato, se seria Ulysses ou Tancredo e no PMDB havia uma luta interna e tal, que a imprensa já (es)tava anunciando (não era bem interna, já era pública); e eu era ‘ulyssista’, não vou assinar um manifesto ‘Tancredo Já’ e aí fiquei esperando a solução, porque o Dr. Ulysses, sabiamente, se lançou candidato à Presidência da República numa viagem que ele fez a Nova York. Quer dizer, está logo ali, mas vai interpretar esses sinais... É uma dificuldade! Se ele se lançou lá fora foi pra poder retirar, isso é um código interessante, mas quem não interpretava esse candidato, Ulysses é candidato só em Nova York […] Bom, quando o Dr. Ulysses esteve na famosa visita que ele fez ao Palácio da Liberdade, ao Tancredo e ali resolveu, aí eu assinei o manifesto. Mas aí já estava na mão, desesperado... ‘Assina’; ‘Não vou assinar, não adianta’; ‘Mas por quê’? ‘Não vou assinar […] eu sou presidente do partido, sou de uma corrente, não vou assinar […]’. Eu diria pra você que historicamente era até um fascínio assinar aquilo, era uma sedução você assinar ao lado de Chico Buarque […]. Nada disso, o político não pode entrar nessa, tem que ter pensamento estratégico, senão ele cai numa sedução 107

momentânea e se perde e não é por aí […] Eu disse: ‘Não!’ Uma pressão violenta dos intelectuais [que diziam]: ‘você está atrapalhando’. ‘Eu não estou atrapalhando nada […], cada coisa no seu tempo […]’ Aí, logo em seguida, eu assumi a campanha do Tancredo no Rio”.

Se a assinatura ao lado de intelectuais de renome poderia significar atrair – ainda que apenas momentaneamente — os holofotes para si, os frutos políticos a serem colhidos posteriormente poderiam ser desastrosos. Jorge já enfrentava muita oposição dentro do partido para colocar-se contra seus próprios aliados; isso poderia significar um suicídio político. O movimento pelas Diretas Já também delimitou sobremaneira os campos para a atuação política. Os aliados — bem como os adversários — são explicitados e suas posições marcadas nas disputas pelo poder. O caráter acusatório e o tom denunciativo da narrativa do ex-presidente do PMDB são exemplares para se pensar a constituição da identidade política de Jorge Gama em oposição a outros homens públicos como Brizola, Jorge Leite, entre outros — além de evidenciar a importância de sua relação com Ulysses Guimarães para a constituição de tal identidade. O período à frente da presidência estadual do partido (1983/1986) foi marcado também por festividades. Uma delas, em particular, evidenciou novamente sua performance de hábil articulador, garantindo visibilidade à sua filiação institucional. Foi uma homenagem e uma demonstração pública de apoio político a Ulysses, realizada logo após a escolha do nome

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durante um almoço. a gente podia dar alguns pra quem não podia comprar e pra algumas personalidades” (Jorge Gama). A partir daí “o telefone não parou de tocar. realizada pelo Colégio Eleitoral no Congresso Nacional. Diante disso. no entanto. sugerindo que a festa fosse realizada no Copacabana Palace. da Lei Complementar n. Jorge Gama resolveu. A realização de uma festa foi cogitada como meio de se conseguir tal resultado. Após conversar com Paulo Rattes — que sugeriu fazer a festa no hotel Quitandinha. Nessa reunião. Debaixo de muitos aplausos. evitando com isso custos com aluguel do local — Jorge convocou uma reunião para comunicar sua decisão aos membros do PMDB/RJ. Encerrada a reunião. dispôs-se a levar Jorge Gama ao hotel para que tratassem dos detalhes. cotado para tornar-se o novo presidente da Câmara e membros do PMDB pensavam em uma forma de colocá-lo na mídia e reafirmar o seu prestígio. restabelecendo assim os “tempos de glamour do partido”. 1º. Era gente querendo dez convites. de 22-10-1984 (Tribunal Superior Eleitoral).º 47. O almoço havia saído por Cr$25 mil. dinheiro em caixa para organizá-la.00. trabalhando junto à colunista Teresa Cruvinel — e. na forma do art. Não havia. que era amigo de José Eduardo Guinle. mas eu coloquei logo por R$50. em 15 de janeiro de 1985. 109 . 108 A eleição de Tancredo Neves foi indireta.de Tancredo Neves para disputar a Presidência da República108. de Albino Pinheiro. querendo cinqüenta. pediu a ele que “soltasse uma nota” dizendo que Tancredo viria à festa e que os convites já estavam esgotados. então. Assim. O orçamento da festa ficou muito alto e o partido não dispunha daquele dinheiro. o que acabou não se concretizando. Ulysses era. surgiu uma nova proposta. Rodrigo Faria Lima. entrar em contato com a bancada federal para tentar algum tipo de ajuda financeira. Era assim. então. em Petrópolis. ligou para Pedro Cezar — na época jornalista de O Globo. a idéia foi aprovada. Pedro Cezar acatou o pedido.

Deputado Ulysses Guimarães. A dinâmica temporal de quem “vive da política” é reinventada pela necessidade de angariar apoios (de outros políticos.A festa foi um sucesso. de empresários e dos eleitores) e conseguir acessos. Jader Barbalho. Hélio Garcia e José Richa – e centenas de Senadores e Deputados. Nabor Júnior. estabelecendo contatos. 1995.200 pessoas vão homenageá-lo numa festa organizada pelo partido no Rio com a finalidade de lançá-lo publicamente à Presidência da Câmara [dos Deputados]. 2003. 1996. Franco Montoro. O trabalho de Palmeira e Heredia (idem) é pioneiro e acabou influenciando diversos pesquisadores que lidam com o tema das eleições e da política em geral. uma vez mais. Gilberto Mestrinho. como também “preparando o terreno” para as eleições futuras. sendo noticiada em jornais como O Globo e Jornal do Brasil109. Para o político profissional. Tancredo Neves e José Sarney. firmando ou consolidando alianças. Wilson Martins. 2000. Kuschnir. Jorge Gama. Jorge Gama viajou por todo o estado do Rio de Janeiro. Os candidatos da aliança Democrática à Presidência e VicePresidência da República. receberá hoje o troféu de “Campeão da Democracia” durante o jantar no Copacabana Palace em que mais de 1. Prefeitos e Vereadores de todos os partidos. Jorge conseguira atingir seu objetivo: demonstrou a Ulysses sua fidelidade e aptidão frente à presidência do partido. a festa acabará se transformando num grande fato político nacional. Viegas. Borges. Nesse sentido. ainda. já confirmaram sua presença na festa de que participarão. Chaves. (O Globo) À frente da presidência regional do partido. presidir o partido significava não somente 109 110 Ambas as matérias de 06/12/1984. além de conseguir. o tempo da política não se restringe ao período eleitoral. estão esgotados há uma semana. O Presidente nacional do PMDB. Os convites. oito Governadores – Leonel Brizola. a Cr$25 mil. 110 . projetar-se na mídia nacional. como assinalam diversos autores que se debruçam sobre este tema (Palmeira e Heredia. 1996 etc110). Para o Presidente do PMDB do Rio. Estava “em campanha” pela busca de uma possível (e desejada) unidade para o partido.

Jorge Gama alega ter sido convidado e cogitado algumas vezes para disputar a prefeitura da cidade. Em 1986 (sem mandato eletivo desde 1982). assumiu a Secretaria de Trabalho. foi nomeado Sub-secretário de Governo em maio de 1987 e. Jorge Gama foi escolhido como o articulador da campanha de Moreira Franco para o governo do estado do Rio de Janeiro. Jorge Gama teria planos de disputar a prefeitura de Nova Iguaçu na próxima eleição municipal. ficando com a primeira suplência. Em conseqüência dos argumentos anteriores. disputou uma vaga na Câmara dos Deputados. afiançar apoio para uma possível candidatura. isto jamais foi mencionado em qualquer das entrevistas que me concedeu durante todo o tempo da pesquisa. dado seu envolvimento na coordenação da campanha de Moreira. A posse de Jorge Gama como novo Secretário de governo de Moreira Franco foi também noticiada pelo jornal O Globo de 22/05/1987. mas nunca como um projeto político próprio. o afastamento de suas bases (a Baixada) acabou revelando-se muito longo para quem tinha pretensões eleitorais. mas também dispor de recursos (humanos e financeiros) – além de alguma visibilidade. Representava também a possibilidade de se fazer notar pelas lideranças mais importantes do partido em nível nacional e. 111 . Ainda assim. Tal resultado foi atribuído à falta de (ou pouca) dedicação à sua própria campanha. De acordo com o exposto neste capítulo. 111 Segundo matéria publicada pelo Jornal do Brasil em 28/05/1987. desse modo. ficando com o cargo de secretário geral do partido no estado). e as inúmeras atividades que lhe ocupavam no partido (em 1986 passou o cargo de Presidente para o Senador Nelson Carneiro. depois da extinção da pasta. No entanto. Seu projeto político havia suplantado sua expectativa eleitoral. corroborando a identidade de articulador e mediador político – e sendo recompensado pelo trabalho durante a campanha do governador eleito (Moreira Franco) com um cargo que viabilizava contatos e acessos111.manter seu status. No mesmo ano.

um agrado que se dá a todos os tipos de insatisfeitos. fizemos a carta de São Paulo. porque eu atendia com calma. Eu tinha como finalidade. – o que eu podia resolver. Em 1982. elegendo-se prefeito em 1972. (Jornal do Brasil. nada de atender o político … ele não gosta de ser atendido com pressa.. prefeito e tal. É um político de centro esquerda. Em 1978. 112 . administrativa. foi eleito deputado federal. em suma. eu resolvia.. me designou para ir para a secretaria do trabalho […] Fiz alguns acordos internacionais: fiz acordo com a Organização Internacional do Trabalho. sempre pelo MDB. ficou uma coisa fria. aí a coisa caminha bem. no universo vocabular do governador. eram 11 horas da noite – o secretário do Moreira me contou depois – ele abriu a cortina e falou: ‘Mas ainda tem gente aí’? Tinha muita gente. tem que ter calma.” (Jorge Gama) Jorge Gama: Só por ser o ocupante da Secretaria de Governo. e me pediu. já teria um considerável poder de influência: ao contrário dos demais secretários. é atendido em 2 minutos. Foi Secretário de Governo de Moreira Franco durante o primeiro semestre de 1987. 23/08/1987) “Um belo dia. que despacham com Moreira só de quinze em quinze dias. Então. conversar com os partidos porque nós fizemos uma coligação imensa com todo mundo […] Então eu diria o seguinte botaram aquele abacaxi na minha mão: atender deputado eleito.“Eu fui nomeado sub-secretário. Chuveirinho. ainda. ninguém ia mais lá. como exercício da minha atividade.. De relevância. transformá-la em gabinete civil – cometeu um erro – despolitizou o Palácio. os que vêm em forma de emprego. ligava pra um secretário.. tornou-se novamente prefeito de Petrópolis. É ele. depois que saiu o Paulo Rattes [que] voltou pra Petrópolis112. chamálo pelo nome pra facilitar. despacha todo dia. que administra a distribuição dos melhores chuveirinhos de Moreira. marcava uma audiência pra ele ir na mesma hora. reafirmando todos os 112 Paulo Rattes foi vice-prefeito de Petrópolis em 1966. Chegar: ‘Ó. Jorge Gama amortece os conflitos que surgem entre as centenas de políticos da Aliança Popular Democrática. já pelo PMDB. é um afago. eu atendia o cara do interior – o cara demorava 5 horas pra chegar no Rio de Janeiro. com o curso de instrutores sindicais. companheiro […] Outra coisa: de preferência. o Moreira resolveu acabar com a secretaria de governo. não dá. Eu me lembro uma vez.

Evidenciados. há alguns turning points (Becker e Strauss. ligando-se preferencialmente ao desempenho de um papel político específico – crucial para a consolidação de projetos e de sua própria existência política – e possibilitado por seu enorme potencial de metamorfose e mediação. ao longo da narrativa. depois. apesar das derrotas nas urnas. nota-se como seu discurso foi re-semantizado. (Jorge Gama) A mediação aparece. suas “bandeiras” reconstruídas e – ao mesmo tempo em que se manteve fiel a uma determinada facção – suas alianças internas e externas edificadas em etapas capitais para o partido a que pertencia. “da Baixada”. A construção de sua persona pública não é remetida ao carisma individual ou a algo que o designe um líder nato. de sua apresentação de si (Goffman. 1970) na trajetória de Jorge Gama. ora à profissão de advogado. Em sua atuação junto aos movimentos sociais. às características anteriormente aludidas somava-se a prudência na escolha do repertório de símbolos – dada sua origem social e profissional – ora referindo-se à origem “popular”. queria era reformular o governo”. “do Rocha”. Os múltiplos processos de identificação acionados em contextos sociais específicos demonstram o grau de percepção de Jorge Gama acerca de sua própria capacidade de atuação no mundo político. nós tínhamos um compromisso. e aí. novamente.poderes da Constituinte. como um conceito-chave para a compreensão da trajetória de Jorge Gama. 1975a) e sua aptidão como mediador transformaram-no em político singular na Baixada. bem como a consciência na aplicação de determinados meios 113 . fui eleito secretário geral do Fórum Nacional dos Secretários de Trabalho. Nesse sentido. Eu conduzi. A habilidade com as palavras e a postura de “distinção” foram atributos selecionados em momentos cruciais e diferentemente utilizados segundo os contextos em questão. A composição de sua fachada.

depois da Constituição. que teria sido beneficiado com 381 votos. não conseguindo. Em 1990. Sua sobrevivência enquanto figura pública deve-se fundamentalmente à sua “função” (de articulador/ mediador) e à sua manutenção dentro da arena política por intermédio do exercício de cargos públicos (administrativos ou de assessoria). Militante da resistência ao regime militar. Nessa eleição. Jorge voltou a substituir Aluísio Teixeira na Câmara dos Deputados (primeira substituição tendo ocorrido em 1989) e. “[…] Então. concorreu às eleições. no entanto. novamente a ligação entre política e corrupção foi trazida à tona. em outubro deste mesmo ano. a impossibilidade de um ressurgimento. com 418 votos. dada as características particulares de sua atuação. (grifos meus) 113 Entre os demais nomes de políticos de Nova Iguaçu citados estavam o de Nelson Bornier (PL). Estar apartado deste meio e de suas relações implicaria sua morte política e. a platéia presente ao plenário ficou surpresa com a inclusão de um novo nome entre os acusados – o do deputado Jorge Gama. Ernani Boldrim (PMDB). Segundo o Jornal do Brasil. Eu infelizmente não participei da Constituinte”. de 13 de novembro de 1990. José Távora (PFL). talvez. eu assumi o meu segundo mandato de deputado federal. já em (19)89.para atingir os objetivos desejados. Na noite da última quinta-feira. 114 . o nome de Jorge Gama aparecia entre os citados pelo relatório final do TRE/RJ113. quando o TRE divulgou o relatório final sobre fraude nas eleições de 3 de outubro. manchando uma longa carreira política. um filho de carvoeiro que se formou advogado trabalhista a duras penas. se reeleger. beneficiou-se com 100 votos em fraude comprovada. com 248 votos. Gama.

eu tinha que ter criatividade. “Nesse período.. surgiu Itamar Serpa e o Bornier. pertencente à outra rede política local. dono da UNIG (Universidade Iguaçu). surgiram forças políticas insuperáveis. 114 Carlos Chiarelli foi Ministro da Educação no governo do presidente Fernando Collor de Mello. no entanto. foi importante. irmão e sucessor de Darcílio Raunheitti. Mas aconteceu uma coisa curiosa que. O Itamar é um empresário de sucesso.Tal derrota foi. Eu ainda era deputado. 115 . de alguma maneira. atribuída por Jorge à falta de recursos financeiros. e aí. encaminhei ao ministro – na época era o Carlos Chiarelli.. […] estruturados. Alves. Com os novos padrões de propaganda e marketing políticos (Scotto. ou o candidato dispunha de uma “bandeira forte” ou precisaria de muito dinheiro para custear as despesas de campanha –– além do assistencialismo e clientelismo recorrentemente praticados (Diniz. E aí eu bolei e fiz um projeto de implantação de uma universidade pública no município. Então. eu comecei o projeto de implantação da universidade pública. 2003). 1998. Então.. e aí. fiquei ‘batendo uma lata’ com o meu projeto. 1982. 1994. Castilho. ministro do Collor114 – solicitando. o Fábio tinha uma universidade atrás dele.. só me restou isso. Bezerra. Como eu não tinha dinheiro. eu fiquei sem espaço porque todos os três são poderosos do ponto de vista econômico. 2000). Eu preparei um projeto de lei ‘autorizativo’ no meu mandato de (19)90 ainda Eu fiquei preocupado: ‘Que é que eu vou fazer? Que bandeira que eu vou levantar?’ Eu não tinha. Estava olhando o panorama econômico: candidatos com mais potencial. 1999a e 1999b. um abaixo-assinado imenso para que nós tivéssemos uma universidade pública. Eu fiz toda a minha campanha recolhendo assinaturas. Jorge tentou criar a sua “bandeira” através de um projeto de implantação de uma universidade pública na Baixada. 2004. essa coisa toda. aqui em Nova Iguaçu. Surgiu o Fábio Raunheitti. o que a partir de então seria condição necessária para o sucesso nas urnas. mas não teve êxito. Tal projeto desagradou (e acirrou a briga com) outro nome importante da política local: Fábio Raunheitti.

“Bom. eu fiz esse movimento.. Parece que foi arquivado. não vou dar um parecer favorável? Claro que vou! Mas eu nem sei pra que foi distribuído porque eu já vim pra campanha e nunca mais tomei conhecimento do projeto. Esse campus contava com três cursos: direito. veja bem. um movimento eleitoral. profº Manoel Martins. há uma memória disso’. Eu me lembro que eu encontrei o Roberto Freire. terminado isso […] Aí nós já estamos falando em [19]91 mais ou menos.” Em 1992. eu estou com um projeto de lei ‘autorizativo’. Que é que eu fiz? A Constituição Federal obriga a interiorização das universidades quando existem aquelas só na capital. A Constituição percebeu isso. Tal empreendimento (que funcionou por apenas cinco anos) demonstra novamente seu trânsito por diversas esferas e sua habilidade em conceber arranjos suprapartidários. Roberto. Se ele for distribuído pra você como relator. e falei: ‘Ó. é evidente. mas 116 . Baseado nisso – tendo em vista que eu perdi o meu projeto – na época havia uma comissão e ela considerou um projeto eleitoreiro – então nem dei bola pra eles. Fui lá: ‘Ó. você é da comissão. você me dá um parecer favorável’? Ele disse: ‘É evidente’ (Foi interessante) ‘Você acha que eu comunista. durante o mandato do prefeito de Nova Iguaçu Aluísio Gama (PDT). nas capitais de um modo geral. A Constituição consagrou em um dos seus artigos a obrigatoriedade de expansão das universidades pro interior. é verdade. [19]92. obrigou em 10 anos que as universidades fizessem uma política de interiorização.. não foi possível. criando uma universidade pública pra Baixada Fluminense.Terminou. Jorge articulou as negociações e depois presidiu a comissão que instaurou uma unidade da UFF (Universidade Federal Fluminense) em Nova Iguaçu. não pude acompanhar e depois perdi a eleição. Aí eu fui procurar o diretor da faculdade de Direito de Niterói. no entanto. Manoel. eu tenho um projeto para a sociedade iguaçuana na qual houve uma mobilização. Aí que é que eu faço: ‘peraí. ciências contábeis e administração.

ele assinou. Eu digo: ‘Sim. Depois outros governos não puderam prosseguir. Aluízio. que era o reitor.. ‘Então.. Tem gente formada aqui em Direito. em 92. seja PDT. é. Aí eu fui. Administração. não iria andar’. funcionando muito bem” (grifos meus). do Aluísio Gama’. vim pelo município. Aí marquei uma audiência. Então. Ciências Contábeis.. Aluísio.. a grade curricular. lançamos o edital do 1º vestibular com 3 cadeiras: Direito.. Qual o município’? Eu digo: ‘A região da Baixada Fluminense. mas eu não vim reivindicar uma universidade para o PMDB. está aqui o abaixo assinado’. Você é do PDT e me nomear […]então. o convênio foi extinto. Em 120 dias nós fechamos o projeto e. E ele respondeu: ‘Prepara que eu assino’. 4 mil e tantos inscritos. eu liguei pro Aluísio Gama. que eu presidi. a interiorização da UFF. Aí eu fiz a portaria. está nos planos fazer uma parceria com a UFF pra botar uma universidade em Nova Iguaçu? É possível?’ ‘É possível. Se eu fosse ficar lá com o secretário. Ele falou: -‘Vou te levar na Reitoria’ – foi uma audiência com o José Raimundo Martins Romeu. cobrindo tudo. claro que é!’ ‘Eu já estive na universidade e ele quer nos receber lá’. nós tivemos uma universidade pública aqui. na época. Falei: ‘vai dar problema. não me lembro bem aí o número […] E funcionaram as 3 universidades [faculdades] aqui. Ele até estranhou porque falou: ‘Mas Nova Iguaçu é do PDT. conversei com o Romeu. o curso todo feito aqui no Monteiro Lobato. levei o Aluísio lá.. as cadeiras. Há um espaço pra gente negociar uma interiorização da UFF’? Ele falou: ‘Há.. Está aqui o meu projeto. Administração e Ciências Contábeis sem nunca ter ido à Niterói. Criamos uma comissão. e digo: ‘Olha. uma projeção da UFF. eu vou fazer o seguinte.aí tem a Constituição. O Reitor disse: ‘[…] não vamos fazer um convênio guarda-chuva inicialmente. qualquer partido serve’. E ele falou: ‘Nós temos interesse. é claro’. 117 ... que eu vou indicar a maioria da comissão […] pra eu ficar à vontade. Aí ele perguntou: ‘O prefeito de lá topa’? Aí. Vamos evoluir.. mas com sede em Nova Iguaçu’. vinculado ao seu gabinete e com classe específica... Fizemos o vestibular com 150 vagas – se eu me lembro – pra cada cadeira. eu vou te pedir algumas considerações: não remunerado. eu gostaria de discutir isso. janeiro de 92. O projeto tem que ser detalhado. as faculdades’.

Partido Progressista Reformador. ressaltando apenas que nada havia sido provado contra ele. Aniz Abraão David. Em uma lista. nomes de vários políticos apareceram como receptadores de doações – dentre eles também o de Simão Sessim.No início de 1993. Na primeira entrevista. que foi apoiado por Moreira Franco. 118 . entretanto. outro acontecimento marcaria a sua carreira. irmão de Simão Sessim (deputado federal) e de Farid (atual prefeito de Nilópolis) e chefe do jogo do bicho 115 Segundo verbete do Dicionário Aurélio. passivo é conjunto de dívidas e obrigações de uma pessoa ou empresa. admitiu o peso político dessa denúncia – e da subseqüente cobertura da imprensa – em sua derrota. já filiado ao PPR. as eleições no estado do Rio de Janeiro foram anuladas devido a suspeitas de fraude e remarcadas para dezembro. influenciando também sua decisão de não concorrer novamente. justificou tal decisão alegando que estava com um enorme déficit – um passivo acumulado desde 1990115 – e que sua família também o pressionava para “deixar a política”.Nas entrevistas que me concedeu. e perdeu. Nelson Carneiro disputou. Nenhum processo foi instaurado contra ele e Jorge afirma que sua ligação com Castor de Andrade era distante – visto que conhecia apenas Anísio. Nesse mesmo ano. desligando-se do partido e filiando-se ao PP. onde permaneceu por menos de um ano –vinculados ao bicheiro Castor de Andrade. Jorge Gama pouco falou a respeito da denúncia. mas Jorge Gama não voltou a concorrer. Um novo escândalo vinculou-o à contravenção do jogo do bicho. o conjunto de contas que registra a origem dos recursos da empresa: capital próprio. apreendida pelo Ministério Público. Em solidariedade ao Senador. a presidência regional do partido para Renato Archer (presidente da Embratel). financiamentos etc. No entanto. Jorge também saiu do partir e disputou as eleições de 1994 já pelo PP. Em outras conversas e entrevistas. depois de anulado o primeiro pleito.

reassumiu o seu mandato. em 1950. que as portas do mundo da política fecharam-se para Jorge. a projeção política de Jorge não se restringia aos limites territoriais da Baixada. filiou-se ao PL (Partido Liberal) e presidiu o diretório do partido até 1989. elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu (com 184. tais como: obras na Linha Vermelha. por exemplo. Neste mesmo ano. Tal episódio não significou. A distância relativa da imagem de Jorge Gama dos estereótipos acionados para falar de política na Baixada dessa vez não se concretizou. desligando-se imediatamente depois para retomar as atividades à frente da Secretaria da Baixada. quando este o convidou para a sub- 116 Nelson Bornier configura uma peça-chave para se pensar a política na Baixada a partir da década de 1990. reelegeu-se pela sigla do PL com 105 mil votos (TSE). em 1977. tomando posse na Secretaria Especial da Baixada no princípio do ano seguinte. Em 1996. a essa altura. no entanto. Em 1994. A ligação com Nelson Bornier (que. quando se tornou vice-presidente regional (cargo no qual permaneceu até 1993) (DHBB. Em 1986. dedicando-se. com votos provenientes fundamentalmente da Baixada. onde 119 . mantendo assim seus vínculos com políticos profissionais e retornando ao partido de origem. elegeu-se deputado federal. Mesmo minimizando os efeitos políticos da associação com o jogo do bicho em termos gerais (a partir de uma percepção nãonegativa sobre o seu papel na região). esta eleição foi anulada. integrou diversas comissões e defendeu projetos de interesse para a região. sendo uma outra realizada em novembro do mesmo ano – na qual confirmou a vitória de 3 de outubro. à atividade de contador e empresário em Nova Iguaçu. filiou-se ao PSDB (em dezembro de 1994). de Desenvolvimento Urbano e Interior e de Defesa Nacional. já era um dos nomes mais influentes da política local )116. formou-se em direito por uma faculdade particular de Valença. Em 1990. ele decidiu dedicar-se ao escritório de advocacia.563 de Arthur Messias do PT). situado no Centro do Rio de Janeiro. de Viação e Transportes. estreitou-se em 1998. em fevereiro de 1995. motivo pelo qual tal ligação repercutiu negativamente em esferas mais amplas. Diz ainda. durante a gestão de Marcelo Alencar. por intermédio de um conhecido– vindas de Nilópolis [de Anísio]. 2001). dada a decisão do TSE quanto à anulação do pleito de outubro de 1994. instalação do pólo petroquímico de Itaguaí. Nascido no Rio de Janeiro. Como já mencionado anteriormente. Durante seu mandato.240 de Cornélio Ribeiro do PDT e 56. de Fábio Raunheitti – e. Fez parte também da CPI que investigou irregularidades na Previdência Social e na privatização da VASP. Nelson reativou o hospital da Posse – ligado à UNIG.640 votos contra 66.na mesma localidade. comissões de Finanças. onde prestava consultorias diversas a deputados e vereadores. que desconhecia a origem das camisas recebidas para a campanha. Após o ocorrido. além da política.

em 2002118. o PP foi incorporado ao PMDB. teve a oportunidade de exercitar seu poder de mediação junto às lideranças locais. contra 83. que as desavenças entre Bornier e Fábio tiveram início. Em 1982.” 120 . Segundo ele: “o Mário nem tirou a foto do Nelson da parede das repartições públicas. A situação complicou-se ainda mais a partir da campanha de 2004. elegeu-se deputado estadual pelo PPB. a relação de Jorge com Bornier ficou abalada. Os indícios de que os conflitos existiriam apareceram logo no reorganizou a administração e retomou o pagamento do funcionalismo público municipal. ficando com a suplência. 119 Um fato ilustrativo dessa preocupação de Jorge com relação a Mário Marques foi explicitado por Pedro Cezar. ameaçado de cassação.9). mas saiu derrotado. tendo o sobrinho de Raunheitti. Em 1979. e não a dele. sua influência política no governo do sucessor devido à permanência de parte de seu secretariado na administração seguinte. fundamentalmente porque o primeiro via como ingerência a atuação do ex-prefeito na administração municipal. até então. tentou a reeleição. Em 2000. Ele é muito grato ao Nelson por seu apoio. mas sua postura era de certa submissão. Jorge acreditava que Mário Marques deveria ser mais independente em relação a seu antecessor. com atrasos superiores a três meses. ainda no governo de Marcelo Alencar (1995-1998). Jorge e Bornier discordavam com relação a algumas “políticas” do governo de Mário. diretamente vinculado à família Garotinho. Mas com isso. Em 2002. como vice-prefeito. mas sentia-se isolado. afastou-se da prefeitura de Nova Iguaçu. Advogado. em 1989.645 de Sheila Gama do PDT e 28. A partir daí. 118 Jorge Gama foi convidado primeiramente para assumir a Secretaria de Saúde no lugar de Gilberto Badaró em outubro de 2002. Você chega numa secretaria e vê a foto do Nelson. no entanto. A notícia foi veiculada pelo Jornal O Globo. em 27/10/2002 (p. de fevereiro de 1995 ao início de 1997. candidatou-se a uma vaga na Câmara dos Deputados. mas acabou permanecendo apenas na Secretaria de governo. e entre 1990-1991 – em ambos os casos porque era suplente – ocupou respectivamente a vaga dos deputados Flávio Palmier da Veiga – que se tornou Secretário de Turismo. no Caderno Baixada. Fernando Gonçalves. “um misto de gratidão e admiração”119. Em 2002. Ex-deputado federal pelo PMDB. Chagas Freitas. que promoveu obras como o Baixada Viva e o projeto de construção da Via Light. liderado pelo então governador do Rio de Janeiro. Ernani foi também deputado estadual. À frente da nova secretaria. Este cargo significava a possibilidade de novamente dispor dos acessos. filiou-se ao MDB em 1977 e foi um dos fundadores do diretório de Nova Iguaçu. No mesmo ano. Em 1986. reelegeu-se com maioria absoluta sobre o segundo colocado (204. ninguém sabe que ele é que é o prefeito agora. tornou-se secretário de Desenvolvimento da Baixada e Municípios Adjacentes em 1998. Manteve. Foi em seu mandato executivo. em uma das entrevistas que me concedeu.520 de Adeilson Teles do PT) (TRE/RJ). 117 O secretário da Baixada era.716 votos. já pelo PMDB. com apoio popular e político. Ernani Boldrim. Jorge permaneceu neste cargo até receber o convite de Mário Marques para assumir a secretaria de governo de Nova Iguaçu. principalmente devido a problemas com a transferência de dinheiro público para o hospital vinculado à instituição de ensino deste último. filiou-se ao PP (Partido Popular). sendo eleito deputado federal com 140 mil votos . Esporte e Lazer no governo de Moreira Franco – e de Gustavo de Farias – que renunciou.secretaria de Desenvolvimento da Baixada e Municípios Adjacentes117. Sem mandato.

Com a derrota de Mário para a prefeitura de Nova Iguaçu. Délio César Leal (PMDB). o afastamento deste último do dia-a-dia da campanha possibilitaram a reaproximação de Jorge com a equipe de Mário. Jorge foi ocupar novamente o cargo que já ocupara anteriormente na Secretaria de Desenvolvimento da Baixada – cujo secretário era seu “afilhado” político. A Secretaria em questão configura uma importante máquina política visto que abriga a Fundação Leão XIII. A partir daí. Não era um porta-voz autorizado. além de diversos projetos sociais como o pólo de distribuição de leite em pó. de fato. Mais tarde. PHS. a Secretaria de Trabalho. PSB e PC do B). Ia aos comícios. Durante o período da campanha. as discordâncias entre Mário e Bornier e. PMDB. PSL. coordenou de perto e que sempre 121 . a Secretaria de Administração. PTN. mas sem fazer uso da palavra. PSDB. PSC. PRP. A condução de todo o processo foi gerenciada pelo primeiro. PMN. a Serla (Superintendência de rios e lagos). quando Bornier deixou Jorge Gama totalmente à margem das principais decisões. PFL. o projeto de inclusão digital. conseqüentemente. PPS.início da campanha. além do Detran e da Escola de Serviço Público. PRONA e PT do B) e ‘Hora da Mudança’ (PT. PDT. tendo como braço-direito Pedro Cezar manteve boa relação com Jorge. PSDC. PL. PRTB. o ex-prefeito de Paracambi por dois mandatos e deputado estadual por três. ele esteve presente nas carreatas. Jorge permaneceu à distância. – quem. nas caminhadas no centro comercial da cidade – o calçadão – inclusive na que acabou em um confronto físico direto entre os cabos eleitorais das coligações ‘Crescer sempre com Deus e o Povo’ (PP. PV. limitando-se a preparar algum material escrito – fundamentalmente o programa de governo e algumas críticas ao adversário do PT.

Antes de sair. mas colocados no plano do narrador. Falamos sobre a “situação política” para as eleições de 2006 e sobre as comemorações pelo dia da Baixada (30 de abril). São Gonçalo e Tanguá. Assim que cheguei fui muito bem recebida e fiquei aproximadamente uma hora conversando com ele em sua sala. ligado ao jogo do bicho etc. dirigi-me à Secretaria da Baixada para falar-lhe. Encontra-se atualmente envolvido com novos projetos como a criação e implantação do curso de formação política para mulheres. a criação de uma universidade à distância. as práticas necessárias para perpetuar-se no mundo político da Baixada remetem ao assistencialismo/ Assim que cheguei ao Rio. Sendo assim. Jorge Gama é um dos defensores da centralização das atividades da Secretaria da Baixada exclusivamente nos municípios da região e não o formato que vem sendo adotado. Agradeci e disse que pensaria a respeito. De tal perspectiva. englobando também a região Metropolitana – agregando assim os municípios de Itaboraí.No fim de março de 2006. onde também estava presente um professor do campus da UERJ na Baixada. Devemos atuar somente nos treze municípios da região” (Jornal de Hoje. telefonando-me em seguida para me comunicar seu novo posto120. 120 122 . com a necessidade de desincompatibilização de Délio Leal para disputar ou uma vaga na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro ou a de vice-governador nas eleições deste ano. Jorge Gama perguntou sobre a defesa de minha tese e sobre o “lançamento do livro” e disse que gostaria que eu o fizesse na Secretaria da Baixada e que a secretaria estava à minha disposição para a organização de um seminário ou qualquer evento que dissesse respeito à Baixada Fluminense. após ter sido avisada dos telefonemas de Jorge Gama. os discursos acusatórios (corrupto. “trabalhar pela região metropolitana e pela Baixada fica muito extenso e pouco produtivo.) não foram rechaçados. 19/04/2006). Jorge Gama foi indicado para assumir a Secretaria da Baixada. Para ele. numa quarta-feira 19/04/2006. inclusive cogitando a possibilidade de se lançar uma revista com alguns artigos sobre a Baixada e seus “tipos”. além das atividades culturais para a comemoração do Dia da Baixada (30 de abril). Persiste a seguinte pergunta: por que Jorge Gama não tentou disputar novas eleições? Por que ainda atua como mediador se não possui mandato eletivo há mais de 15 anos? Minha opção recaiu em pensar as possíveis respostas a tais perguntas a partir de sua própria narrativa. Niterói. Fui presenteada com uma camisa comemorativa da Baixada e também fui convidada a participar de alguns eventos desta comemoração.

conseguindo manter os acessos. política. portanto. “Eu acho – do ponto de vista dos políticos da Baixada – eles talvez ainda não tenham percebido a importância da Baixada como um todo. ainda não têm uma atuação 123 . o único modo de efetivar sua permanência na política. sua gente. sobretudo os parlamentares.clientelismo de um lado e/ou ao marketing político. já estão entendendo mais. Desde o início de sua apresentação. mas os deputados estaduais e federais ainda não interpretaram a Baixada. eles defendem a Baixada ainda de forma isolada e cada um fazendo o seu pedacinho. A mediação tornou-se. no segundo. Seu projeto político foi então analisado tendo-se em vista a vocação de mediador tanto quanto a dedicação à atividade. de outro. Em ambos os casos. Claro que isso daí é até a questão da sobrevivência. Criando espaços de visibilidade. Fazer da Baixada sua “terra” e a de seu “povo”. ele acredita em um possível alinhamento de forças no intuito da região conseguir unidade política para pleitear mudanças relativas ao tratamento que recebe dos governos estadual e federal. por falta de recursos. os prefeitos não. mas eles não entenderam a necessidade de se ter uma atuação mais conjunta. por opção e. a Baixada aparece como uma escolha. Jorge Gama sempre manifestou uma grande preocupação com a posição política da região em relação ao estado do Rio de Janeiro. Nas entrevistas. tendo trânsito livre em diferentes esferas do poder (Executivo e Legislativo) — desde presidentes nacionais de partidos a vereadores de cidades do interior do estado etc – em uma palavra. essas coisas todas. Jorge Gama coloca-se à parte. No primeiro caso. Enfatizando iniciativas como a da Associação de Prefeitos da Baixada e do consórcio de municípios na área da saúde e meio ambiente. foi determinante para a concepção de seu devir político. e em outras conversas. circulando entre diferentes atores políticos. eu compreendo – concorrência eleitoral.

não é nada estruturante. não é capaz de engendrar objetivos comuns que pensem a Baixada como um todo – mas ao contrário. e muito menos como a outra. não é nada disso”. na medida em que o político com maior capital simbólico for capaz de viabilizar alianças para este fim. A preocupação com a criação de um projeto coletivo é por ele manifestada frente aos conflitos e ao caráter “pouco orgânico” das lideranças da região. com a entrada de Anthony Garotinho e da governadora Rosinha Matheus. o caráter segmentado acaba sendo enfatizado diante das realidades diversas dos distintos municípios. faz[em] leis. Ele próprio não se define nem como uma coisa. via de regra. ora agrupando-se em facções rivais. em um trânsito constante de atores políticos que. e a associação a outros projetos não visa uma “construção coletiva”. Neste universo. A Baixada aqui apresentada é multifacetada e englobada por redes políticas que se intercomunicam. 1994) dos atores políticos são. redimensionam as forças presentes no campo político. Apesar de estar mais próximo da classificação de ideológico do que de assistencialista. mas a capitação de recursos (simbólicos e econômicos) em benefício próprio. faz um estudo. não me parece que essa dicotomia dê conta satisfatoriamente da trajetória de Jorge Gama. ao se moverem. ora configurando novas “alas” e dissidências. sempre defendem a Baixada isoladamente. mas que não liga coisa nenhuma. a aproximação com Moreira Franco e a devoção a Ulysses Guimarães. A adesão a uma determinada facção não o impediu de galgar posições e constituir alianças diversas dentro do partido 124 . tomados individualmente. os projetos (Velho. Vai lá. Tal configuração. no entanto.parlamentar satisfatória em direção à Baixada como região. Sempre esteve muito ligado ao intrincado processo de constituição de seu partido e das mudanças pelas quais ele passou – desde o vínculo com os independentes. até a configuração mais recente.

Dentro dessa composição relacional. o depoimento de Jorge Gama ilumina a posteriori aspectos da trajetória de nomes importantes da política na Baixada. é a partir da construção narrativa sobre eventos de uma memória da política nacional – e de suas implicações locais – que se encontram os elementos que possibilitam recompor um quadro de forças no qual os atores em questão disputam espaço.como forma de manter as condições para sua sobrevivência política. neste caso em particular. Entretanto. as formulações de uma história ou de suas versões (como prefiro) são determinadas pelos discursos e transformadas pela possibilidade de recontar e reinventar. Entremeado de emoção. lidar com trajetórias implica. satisfação e críticas. 1996: 183). 125 . decerto. numa fluidez relacional na qual não só o tempo. Mesmo não utilizando a expressão “história de vida”. esteve vinculada a notícias de uso político. em alguma medida. por exemplo. num mover-se constante entre diversos campos. e com a própria Fundação Leão XIII. que desde o governo de Chagas Freitas. através da apreensão de práticas próprias e de formas de experiência significativas. Suas ligações com chaguistas como Jorge Leite. mas o espaço e os possíveis interlocutores configuram distintos planos para a construção narrativa. unidirecional” (Bourdieu. em termos de visibilidade nacional e regional. e portanto dinâmica. remetida a “um deslocamento linear. A tentativa de apreender as relações políticas travadas na Baixada por intermédio da narrativa de alguns de seus atores merece algumas considerações. operar com a idéia de sucessão temporal dos acontecimentos pertinente a um (ou mais) ator (es). empreguismo e clientelismo nos mais diversos contextos (fundamentalmente eleitorais) foram ilustrativas dessa atuação. Assim. o universo político é conformado. poder e cargos/ mandatos.

revelando assim a preocupação em apresentá-lo como um continuum coerente e conciso. atribuindo constância e conseqüência aos momentos selecionados. ao mesmo tempo. Apresentar as intrincadas relações políticas na Baixada a partir da versão de Jorge Gama não significa retirá-las de seu campo e das relações de poder aí existentes. O sujeito da narrativa constrói seu próprio romance. da Baixada. há uma lógica retrospectiva e prospectiva no relato do entrevistado que é organizada a partir de fatos significativos para si e para quem o “interroga”. Nesse sentido. ou seja. 1989). pensados aqui como sujeitos fracionados. surgindo como vocação. como o inquisidor (Ginzburg. da cidade. a percepção de que o mundo social é marcado por acontecimentos cuja sucessão no tempo não é unilinear evidencia a multiplicidade e a profusão das relações que perpassam os indivíduos. mas interligados no interior do campo social. a justificativa de sua transformação/ conversão em ator político aparecendo como uma seqüência de proposições verdadeiras e significativas para além do âmbito de uma escolha individual e/ ou egoísta. A Baixada como palavra de ordem é possível a partir do entendimento sobre sua aparição centrada na análise dos processos que desencadearam sua expansão em meio ao campo político. encarála como potencialmente produtora de realidade(s): da Baixada como palavra de ordem121. No entanto. O antropólogo. o discurso sobre si funde-se com a história da nação. mas antes. contribui para o condicionamento da produção desta “fala”: tanto a relacionada a uma acusação de feitiçaria quanto àquela ligada à narrativa de acontecimentos nacionais como as Diretas Já.Reestruturado. 121 126 . afirmar o caráter de artefato da narrativa e. omitindo outras. a partir da perspectiva de Jorge Gama. marcando passagens.

Em uma última tentativa. decidi tomar sua biografia (autorizada ou encomendada?) como fonte primeira de dados a respeito de sua trajetória pessoal. A dificuldade em conseguir contactá-lo acarretou a diversificação de possíveis entradas e a captação de dados das mais diversas fontes. muito solícito. Também foram analisados trabalhos acadêmicos sobre a cidade. Sua redação se deu sem que eu tivesse acesso ao personagem principal. 1999) e em entrevistas realizadas com alguns de seus secretários (em seu segundo mandato como prefeito de Duque de Caxias) e com membros da família Camilo dos Santos. Sendo assim. e fui atendida por Aurélio que. além de matérias de jornais. Belford Roxo e Guapimirim. assim como documentos dos arquivos das Câmaras Municipais de Duque de Caxias. não foi possível entrevistar Zito. Após diversas tentativas sempre frustradas. a política local e seus atores. a construção do capítulo baseou-se principalmente na biografia de Zito (Gramado. bem como entrevistas com pessoas próximas a ele (com vínculos de parentesco. Pedi então a Aurélio o telefone celular de Marcela Dutra (a chefe de gabinete) para que eu pudesse contactá-la o mais 127 .CAPÍTULO 3: ZITO: DA BAIXADA PARA O MUNDO Entrevistando Zito Optei por iniciar este capítulo de maneira um pouco diferente dos demais. pediu-me que ligasse mais tarde para falar com a chefe de gabinete. foram também utilizadas fontes oficiais. profissionais e/ou de amizade). apesar de muita insistência. Durante mais de dois anos. Zito. telefonei para o gabinete da deputada estadual Andréia Zito (o que já havia feito antes sem sucesso). Com relação à sua vida política. depoimentos de moradores de Duque de Caxias sobre sua administração. mas não consegui encontrá-la. no dia 17 de abril de 2006. Liguei na hora recomendada.

caminhadas. Esta passou-me diretamente para o secretário pessoal de Zito. explicando que já havia tentado entrevistá-los sem sucesso. eu lhe telefonasse para confirmar o encontro. Marcela Dutra perguntou se a entrevista seria por telefone e se eu desejava falar apenas com Andréia ou se também gostaria de falar com Zito. queria falar com os dois. Ora como anônima – como mais uma – ora como pesquisadora. Fernando. Forneci. liguei para o telefone do gabinete. A princípio. O encontro com Zito seria em seu escritório. então. eu falava de meu telefone residencial. uma vez no Rio. em Uberlândia. no entanto. mas não consegui encontrá-la. enfatizando a minha área de atuação e minhas filiações institucionais (Antropologia. meus telefones para. explicando que se tratava de uma pesquisa em fase de redação final. Uma vez obtido o número de telefone. explicando no que consistia a pesquisa. Aurélio. acompanhando políticos ou entrevistando/ conversando com moradores/ eleitores. Durante as caminhadas. com Andréia. Como combinado. entrevistas. às 10 horas. mencionei tratar-se de minha tese de doutoramento e da redação de um livro sobre a política na Baixada. a 128 .rápido possível. carreatas. constituíam momentos particularmente interessantes. marcando a entrevista para quinta-feira. Respondi prontamente que. dos mais variados tipos. showmícios e reuniões. Museu Nacional/ UFRJ e UFU). 20 de abril e solicitando que. reuniões. em seu gabinete. forneceu-me outro número no qual finalmente conseguiria encontrar Marcela. Durante esses mais de três anos. participei de diversos eventos: jantares. em Duque de Caxias. almoços. às 16 horas. Como. No dia seguinte. agendar e confirmar a data e o local das entrevistas. Marcela telefonou-me. posteriormente. na ocasião. Todos eles eram repletos de rituais. liguei imediatamente. As entrevistas. O dia 26 de abril de 2006 certamente foi o mais tenso (talvez porque o mais esperado) de toda a minha pesquisa de campo. então. carreatas. que agendou o dia e o horário para as duas entrevistas. conversas informais. se possível. no prédio anexo à ALERJ.

minha presença (apesar de nunca deixar de contar como um dos elementos em jogo) podia ser diluída ou atenuada e não se colocar como peça-chave nessas situações. Nas entrevistas, por sua vez, o pesquisador é parte fundamental do ritual, tendo um papel ativo e explícito no processo de construção da própria interação. Trata-se de um diálogo, no qual as intervenções marcam lugares específicos para cada ator envolvido. Apesar de todas elas terem marcado momentos singulares e excepcionais para a elaboração desta pesquisa, a entrevista com Zito me fez confrontar todas as imagens e pré-noções que eu mesma já havia construído acerca de sua persona pública. Cheguei no escritório, na rua Prefeito Carlos Lacerda, em Duque de Caxias, às nove e meia da manhã. O prédio onde ele está situado é estritamente comercial e localiza-se ao lado da Câmara Municipal da cidade, próximo à praça central. Dirigi-me à sala que fica no sétimo andar. Para entrar ali, há um interfone por meio do qual a secretária, Simone, monitora a entrada e a saída de pessoas. Na recepção, há também algumas poltronas que comportam cerca de oito pessoas. Quando cheguei, dois homens já aguardavam para falar com Zito. Após minha identificação, Simone (a secretária) avisou a Lucas (um assessor) que eu havia chegado. Ele imediatamente veio falar-me, pedindo que eu esperasse alguns minutos. Em seguida, entraram os dois homens que haviam chegado antes de mim. Esperei por cerca de trinta minutos. Enquanto aguardava, as pessoas não paravam de chegar ao escritório e eu aproveitava para prestar atenção nas conversas que elas mantinham sobre política e a atual administração municipal122.

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Dentre os relatos que ouvi, o que narro a seguir chamou particularmente minha atenção. Uma mulher negra, apelidada pela secretária de “Luana Piovani”, reclamava sobre a forma como vinha sendo tratada pela equipe do atual prefeito. Tentando entender do que se tratava, puxei conversa. Ela explicou-me, então, que a atual administração estaria promovendo uma “caça às bruxas” e que todas as pessoas ligadas ao antigo prefeito estariam “com um X nas costas”. Tal moça cursa faculdade de serviço social e trabalha como “parceira” em um projeto social, não sendo funcionária da prefeitura. Alegando que vinha sendo discriminada

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Fui recebida, finalmente. Na sala, que deve ter aproximadamente 12 metros quadrados, estavam Zito e Dr. Moretti, ex-secretário de governo de Waldir Zito na prefeitura de Belford Roxo. Ao que tudo indica, aquela era a sala de Moretti, pois este estava sentado atrás de uma escrivaninha, de costas para uma grande janela — de onde se via o viaduto e a linha férrea — enquanto Zito encontrava-se em uma das cadeiras à sua frente, onde também me sentei. As imagens do homem arrogante, quase rude, de voz imponente e estatura marcante propagadas por fontes variadas – moradores, políticos, jornalistas etc. – foram reavaliadas no mesmo instante em que pisei naquela sala. Ao entrar, fiquei frente a frente com um homem modestamente vestido (tênis, calça jeans e camisa de malha verde) que não ocupava a cadeira principal e colocava-se como um “convidado”. Este homem levantou-se e cumprimentou-me respeitosamente, pedindo que eu me sentasse a seu lado. Sua voz imponente, entretanto, contrastava com a postura curvada e com o olhar que me fitava por não mais que alguns poucos segundos, sempre dirigido ao chão, como se estivesse fechado em si mesmo. Após as apresentações (Zito apresentou-me a Dr Moretti, que permaneceu conosco durante toda a entrevista) e alguns minutos de conversa sobre o meu trabalho, perguntei se poderia gravar a entrevista.A autorização foi imediata. Iniciei com uma pergunta geral: “Como foi sua entrada na vida política” ? A resposta foi sintética. Um breve resumo de cerca de 15 minutos, sem mencionar partidos ou nomes de aliados e adversários, centrando-se em sua origem familiar “humilde” — filho de “pais analfabetos” que chegou a ser vereador, deputado e prefeito.
e boicotada, afirmava sua vinculação a Zito dizendo não ter um X nas costas como os outros, e sim um Z, de Zito.

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Fiz então uma nova intervenção: “O senhor começou sua vida pública no PTR, um partido pequeno, e depois integrou vários outros. Poderia falar um pouco mais sobre estas ‘passagens’” ? Obtive a seguinte resposta: “Você está sabendo bem da minha vida, né?!” (risos). Em seguida, Zito reiniciou seu relato contando em detalhes os diversos momentos de sua trajetória que serão agora explorados ao longo deste capítulo, revisitado após as entrevistas123.

Os Caminhos Que Levam À Baixada José Camilo dos Santos Filho – Zito – nascido em 15 de outubro de 1952, é o segundo dos três filhos de José Camilo (conhecido como Seu Zé) e de Dona Luzia. Pernambucanos, Seu Zé e Dona Luzia deixaram sua cidade natal e foram para Paulista, cidade da zona da Mata, em busca de um emprego na indústria têxtil Companhia Paulista de Tecidos que sustentasse a família inteira124. Após anos e anos de trabalho, Seu Zé foi demitido por testemunhar a favor de um ex-funcionário da empresa, um conhecido seu que moveu um processo trabalhista contra a companhia. A partir daí, a família precisaria prover seu sustento da
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A entrevista com a deputada Andréia foi marcada em seu gabinete, no prédio anexo à ALERJ, na sala 407. Cheguei às 15hs50 e fui recebida por Aurélio, com quem já havia falado algumas vezes por telefone e que me forneceu o telefone de Marize. Logo na entrada do gabinete, há uma pequena ante-sala com duas cadeiras, separada da parte interior na qual se encontram as mesas de trabalho do staff da deputada, além de sua sala e a de sua chefe de gabinete. Há também uma pequena copa com bebedouro, máquina de café, geladeira e pia. O espaço não é grande, mas bem organizado por divisórias. Após esperar por alguns minutos, fui atendida por Marize que me levou à sua sala onde aguardei um pouco mais conversando com ela. A deputada me recebeu por volta das 16hs30. Conversamos sobre a minha pesquisa e Marize fez algumas perguntas sobre o trabalho: como havia começado, quais os meus interesses etc. A entrevista teve aproximadamente quarenta minutos de duração. Após a conclusão, ainda conversamos por cerca de vinte minutos sobre Zito e as “imagens” divulgadas a seu respeito. Marize indagou-me novamente, agora sobre minha impressão sobre a deputada e seu pai. Discorremos sobre sua visão enquanto não-moradora da Baixada e sobre o tratamento da imprensa aos políticos da região. Ao final, Marize perguntou à deputada se poderia me fazer um convite e ela concordou. Propuseram que em caso de publicação da tese, fizéssemos o lançamento na ALERJ, na tentativa de aproximar “a casa ao meio acadêmico”. 124 Consultar, por exemplo, os trabalhos de José Sérgio Leite Lopes (1979 e 1988) e Maria Rosilene Alvim (1979).

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forma que lhe fosse possível. Teve início, assim, a ciranda de empregos e ocupações pelas quais Seu Zé passaria. Tentou de tudo um pouco. A princípio, montou uma “venda” no quintal de casa, na qual comercializava desde bebidas até frutas e mantimentos. Depois de algum tempo, no entanto, a empreitada não deu certo devido à dificuldade em receber pelas mercadorias compradas “fiado” — na maior parte dos casos por amigos ou pessoas próximas, em situação semelhante ou pior do que a da família Camilo dos Santos. O esgotamento de todas as alternativas da família fez Seu Zé decidir “tentar a vida” em outro lugar. Saíram de Paulista em fevereiro de 1954, tendo como destino o Rio de Janeiro e a busca do “sonho da cidade grande”. Na ocasião, a filha Maria José tinha 4 anos e Zito, pouco mais de um ano de idade. O mito fundador da trajetória de Zito é reforçado tanto na narrativa de seu irmão Waldir, quanto em sua biografia (Gramado, 1999). Essa construção o transforma em um personagem com um passado em comum, um passado partilhado com muitos moradores da Baixada: o de migrante nordestino. A viagem para o Rio de Janeiro corrobora a saga nordestina: o pau-de-arara, a fome, a sede, o medo e, às vezes, até mesmo a morte. Há uma espécie de ilíada conferindo um desencadear espetacular aos acontecimentos (no sentido mais amplo, de não-ordinário), envoltos em dramas pessoais que, no entanto, marcam ligações com um todo maior — no caso, o percurso transcorrido por muitos migrantes de diversas localidades das regiões Norte e Nordeste do país. Esses nordestinos, saídos de suas cidades-natais, deixam para trás familiares, amigos, enfim, tudo o que possuem, em troca do sonho de uma “outra vida”. No caminho, a poeira, o sol, a chuva e a sensação ambígua da esperança e do medo do porvir. A designação comum a tantos que narram suas histórias a partir desses fatos, ricos em incidentes e acontecimentos, é apenas um dos aspectos que

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unem pessoas diferentes e lugares distantes. Mas se a viagem, por mais penosa que possa ser, é carregada de desejo e confiança, a chegada pode trazer à tona uma realidade nem sempre parecida com as imagens idealizadas. O acordar pode ser abrupto, um despertar quase cruel. O relato do caminhão chegando ao Rio de Janeiro, desembarcando todas aquelas pessoas — algumas com rumos já traçados, outras ainda não – marca a expatriação, mas também formas de integração. Alguns lugares constituíam destinos certos. É o caso da Baixada Fluminense que aparece, novamente, como um destino partilhado. Sendo assim, a chegada ao recém emancipado município de Duque de Caxias reintegrou a família de Zito, a partir dos laços de parentesco originais. Os Camilo dos Santos foram acolhidos na casa de um parente de Seu Zé que tinha lhe arrumado um emprego em uma empresa de ônibus. Pouco tempo depois, no entanto, a convivência na pequena casa da rua Itatiaia, em Duque de Caxias, tornava-se complicada devido ao grande número de pessoas dividindo um espaço exíguo. A mudança para um lugar exclusivo da família deu-se ainda naquele mesmo ano, quando Seu Zé optou pela permanência no município, alugando um cômodo na rua Itacolomi. Diante das possibilidades de tal segmento social, a Baixada Fluminense aparece como o espaço privilegiado para moradia. As razões são variadas. Desde a proximidade com a cidade do Rio de Janeiro e, portanto, com o local de trabalho, até a possibilidade de se conseguir ocupar ou adquirir um terreno/ lote ou casa125. O problema da habitação é então recolocado, agora sob a ótica do morador e não a do político como anteriormente abordado (capítulo 2). Da perspectiva dos indivíduos que buscavam a “casa própria”, a Baixada foi

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Soares (1962), Abreu (1988), Souza (1992), Costa (1999).

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ao mesmo tempo eldorado e lugar de expiação. Representava a possibilidade da crença em um futuro melhor, com terrenos baratos e adequados aos restritos orçamentos dos membros das camadas populares. Mas também encerrava inúmeras outras relações: de abandono, de dominação e de submissão. Se por um lado tornava possível o surgimento do selfmade man, por outro mantinha os moradores sob o jugo de práticas políticas coronelistas e clientelistas, quase invariavelmente associadas à violência (Ferreira, op. cit.; Leal, op. cit., Alves, 1991, 1999 e 2003). Em nosso país, a estrutura latifundiária favoreceu a transfiguração do poder público por meio dos usos (e abusos) do poder privado, ancorada no poder político que tinha como contexto a profunda desigualdade da distribuição de renda e de terra, criando vínculos de obrigação e de compromisso entre o “coronel” e a população a ele submetida. O coronelismo funcionou então como “uma forma específica do poder político brasileiro que floresceu durante a Primeira República, e cujas raízes remontavam ao Império; já então os municípios eram feudos políticos que se transmitiam por herança não configurada legalmente, mas que existia de maneira informal” (Queirós, 1976:165). Grosso modo, o mandonismo local operaria uma diferenciação de poder ao colocar em cena a figura do chefe político, impondo a premência do estabelecimento de uma relação com o “coronel” para o funcionamento e a manutenção do referido sistema
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. Este último oferecia o

eleitorado, enquanto o chefe político, os serviços públicos e o fortalecimento de seu poder privado. Tal estrutura, entretanto, vai se enfraquecendo com o crescimento urbano e a industrialização, responsáveis pela reconfiguração das relações de poder tradicionais. Essa alteração no panorama político refletiu nos primeiros anos da família Camilo dos Santos em
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Ver, também, a este respeito, o artigo de Castro Faria (1999) sobre poder local e municipalismo, no qual enfatiza a centralidade do trabalho de Oliveira Vianna (1920), Populações Meridionais do Brasil: História, organização, psicologia, para se pensar em tais questões.

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Duque de Caxias, correspondendo a um período de agitação e conflitos (Grynszpan, 1987). Mesmo ausentes da biografia de Zito e dos relatos de Waldir, os saques e as revoltas camponesas representaram um levante popular inédito na região e marcaram a história local (idem)127. Desde seu início, a trajetória de Zito evidencia a diversidade de códigos culturais e campos de possibilidades em jogo. A chegada ao Rio de Janeiro ainda bebê, com pouco mais de um ano de idade, tendo viajado por quase oito dias em um caminhão com mais de 40 pessoas foi o começo de tudo. A infância foi marcada pela dificuldade financeira, a questão da moradia constituindo sempre um grande problema — a família passou por seis endereços diferentes, desde o cômodo da rua Itacolomi, até conseguir adquirir o terreno onde finalmente construiu a casa própria. Tal terreno foi comprado na rua Ipanema, no bairro de Copacabana, em Duque de Caxias, em 1957, antes do nascimento de Waldir, o caçula e o único filho a nascer no Rio de Janeiro. O lote – como os demais oriundos do retalhamento das grandes áreas destinadas às culturas agrícolas como, por exemplo, a citricultura – ficava em uma rua sem calçamento, sem rede de esgoto e sem luz, como a maioria das ruas do município nessa ocasião. A especulação imobiliária somada ao descaso com que o poder público lidava com a problemática da moradia na Baixada Fluminense definiam o panorama encontrado pelas famílias de migrantes que ali tentaram fixar-se, fugidos da miséria da cidade-natal, da falta de oportunidades de trabalho ou das favelas cariocas. Desde a falta de infra-estrutura básica até loteamentos irregulares, as questões relativas à terra e à casa própria foram tomando vulto e, dessa forma, capitalizando os discursos políticos que visavam arregimentar os
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Consultar também Torres e Menezes (1987).

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mãe e filharada. né”? (D. chegar aqui no Rio.. vindo de onde eu vim e ter que encarar. Foi Dona Luzia quem teria “corrido atrás” do terreno e mobilizado a família para tal empreendimento. mas pelo menos não pagamo(s) aluguel pra ninguém. A casa própria surge como valor e fonte de segurança frente às incertezas do “lugar desconhecido” e das parcas possibilidades financeiras familiares. consultar. 55 anos. os artigos organizados por Valladares (1980) e o trabalho de Borges (2003). ao mesmo tempo. conseguiu um terreno barato — tendo. ao mesmo tempo. moradora de Duque de Caxias). que era muito pobre. 129 Sobre o processo de ocupação e desenvolvimento da Baixada Fluminense. representada pela atriz Suzana Vieira. Pensa bem: chegar. a compra e/ ou ocupação dos lotes deu início ao processo de expansão da cidade (e da região) com a ampliação da construção de imóveis residenciais129. por exemplo. ver capítulo 1. por fim. É dinheiro jogado fora.votos daquela (grande) parcela da população128. inúmeros problemas para a sua legalização. como tantos outros. entre outros. constituiu um exemplo do uso dos estereótipos relativos a alguns tipos sociais para falar da região da Baixada: o bicheiro. Maria do Carmo. morar de aluguel e ter de sustentar mulher. a gente não conseguiu acaba(r) ela.. “A gente tinha uma coisa na mente: a casa própria. né? Isso ninguém pode tirar da gente. ainda. da Rede Globo de televisão. Apesar das dificuldades. 130 A novela “Senhora do Destino”. o baixadense (como sinônimo de nordestino pobre) e a mulher nordestina. O terreno foi comprado graças aos esforços da mãe que procurou em diversas imobiliárias e. Era em suas mãos que Seu Zé entregava o pagamento e era sua a responsabilidade de zelar pelas economias da família. Rapaz! A única coisa que eu pensava naquela época era comprar o terreno e fazer o 128 Entre os trabalhos recentes sobre o tema. . Até hoje. 136 . uma sacaria ganhando pouco — pra quem tava acostumado com uma enxada é ruim demais — e. neste caso. A figura materna (e o papel da mulher numa “cultura nordestina”130) é ressaltada como personagem-chave para a concretização do sonho da casa própria. “Morar em casa alugada sempre é um sufoco pra gente. I.

Maricato (1976) e Lima (1980). 131 Ver. natural de Pernambuco e morador do Morro da Cocada. cit. mas também nos novos laços adquiridos: os de vizinhança131. p. nos feriados e fins de semana”. op. os moradores da Baixada têm que enfrentar inúmeros outros problemas. A autoconstrução foi o modelo (possível) adotado pela família que. A rua — lugar de todos. vender ou alugar a casa. portanto. tendo também um potencial mercantil (podendo ser vendida ou alugada) – além da tendência observada neste segmento populacional de se construir no mesmo local de residência. principalmente os do chefe da família. para as vias públicas. uma “venda” ou uma mercearia. “O morador entrará em cena como construtor e mantenedor precário dos equipamentos urbanos necessários às mínimas condições de salubridade e conforto” (Monteiro. Lima (1980). No artigo em questão. no momento da pesquisa. O trabalho na Garagem Bom Retiro durante o dia era seguido pela construção da casa. para a qual contava com a ajuda dos filhos e de Dona Luzia. assim como grande parte dos moradores da região. em nota de rodapé. a este respeito. A autora não discute o valor afetivo e simbólico da casa própria. como uma loja. contava com uma rede de solidariedade fundada nos laços de parentesco.barracão” (entrevista com Clenio de Lima Santos. um lugar para o trabalho. A maneira pela qual eles conseguem lidar com adversidades e privações do cotidiano consiste em estender tal padrão de resolução privada para fora de suas casas. ao afirmar que nenhum dos entrevistados pretendia. sendo esta apenas uma possibilidade em caso de real necessidade. A dupla jornada marcava os dias dos Camilo dos Santos.23). Além da empreitada privada da construção da casa própria. 137 . reapropriada pelos moradores que elaboram um modo de atuação para tentar converter o abandono e o descaso — com a falta de aparatos coletivos e de infra-estrutura — em soluções imediatas. principalmente. em Belford Roxo apud Monteiro. Outro questão por ela destacada refere-se ao fato de que a casa própria não teria apenas um valor de uso. então. explica a categoria autoconstrução como “o processo através do qual o proprietário constrói sua casa sozinho ou auxiliado por amigos e familiares […] nos seus horários de folga do trabalho remunerado. 2001). a autora analisa as motivações para escolha da casa própria além das alternativas adotadas para prover os recursos necessários à construção. mas responsabilidade do poder público — é. mas deixa entrever esta questão.

adquirindo uma gramática pautada na ação como meio e fim. Apoiando-se no entendimento da ideologia como sistema cultural (Geertz. natural do interior do Rio de Janeiro. porque.A partir da categoria rede de resolução de problemas práticos132 — que nos possibilita apreender a realidade do morador da Baixada assim como sua relação com a política e os políticos locais — as noções de escassez e precariedade são re-significadas. a construção das identidades na região respeita a “situação desvantajosa”.. não. pp. Até hoje. exprimindo suas idéias sobre o mundo e sobre o lugar nele ocupado.. não se paga nada pra eles” (Guilherme Antônio Novaes. eles só aparece(m) […] fazer obra aqui. Conforme sugere Monteiro133. pp. A fala dos entrevistados ilustra exemplarmente esta questão: “Não foi somente na época que eu vim pra cá que a prefeitura não se interessa(va) por isso aqui. 1989).26-27. Monteiro aponta a criação das redes de resolução de problemas práticos como mais do que uma resposta ao poder público: como um sistema que dá sentido à vivência desses moradores. 138 . 132 133 Idem Ibidem. morador do bairro Prata em Belford Roxo apud Monteiro. Acho também que a gente não pode reclamar muito.24-25). o autor adota o conceito para pensar as construções ideológicas das camadas subalternas — para além da imposição das classes superiores — sobre a própria prática cotidiana da política. A prefeitura daqui só faz obra no centro ou no bairro onde mora(m) os parentes do prefeito. só quando tem política. na verdade. a gente nem existe pra eles: isto aqui era um loteamento ilegal e ninguém paga imposto nenhum. a “não-possibilidade de atrair a atenção do poder público para si” para pensar a constituição de ideologias e de uma cultura política própria (“cultura política baixadense”). Fundamentalmente preocupado em repudiar as alegações de alienados dirigidas aos moradores da Baixada frente à não sistematização da reivindicação como ação fundadora de sua cidadania (a reivindicação seria uma “besteira”). aposentado do setor químico. Até hoje.

Eu me orgulho disso.. p. cabeleireira. da cidade e a ação dos políticos] (entrevista realizada em 2003 com A. político. 33 anos. Foi besteira reclamar e a gente comprou os bocais e foi roubando luz da Light e colocando luz em cada poste" (Fabiano Queiroz. comerciário.. eu faço” (entrevista realizada em 2004. apesar da gente pagar todo mês iluminação pública na conta de luz.. moradora da Palhada.29). vizinho. Senão. jogado” [sobre os problemas do bairro. é só dá (sic) uma chuva que inunda tudo. mas também como valor social e elemento constitutivo dos processos de identificação locais. 67 anos. Uma leitura da composição de processos de identificação pela oposição 139 . Adianta reclamar? (Fernando Matos. “O destino do pobre é o trabalho. os vizinhos. aposentado. morador do bairro Barro Vermelho em Belford Roxo. O trabalho aparece como solução para os problemas. ibidem. com W. Um ethos do trabalho é aqui acionado. não. morador do Lote XV em Belford Roxo.29) “Todo mundo trabalha um pouco. morador da Posse. "Água é a mesma coisa. foi a presença maciça de trabalhadores de camadas populares. p. Nunca pedi nada pra ninguém. sem que isso signifique uma característica exclusiva dos membros de camadas populares. Nada. natural de Duque de Caxias. Não tem moleza aqui. durante o período eleitoral. tem que faze(r). Os filhos ajuda(m). bairro de Nova Iguaçu). bairro de Nova Iguaçu)."[…] você deve ter visto que não temos luz nessa rua. idem. nadinha. Não dá pra ninguém ficar parado.. mesmo. Todo mundo aqui tem porque pagou para uns cara(s) furar(em) o cano da adutora que passa na rua de trás. A característica primeira de uma ocupação a partir do crescimento e urbanização da região.. Se a gente não faz. Até hoje. A CEDAE nunca veio aqui legalizar e a gente vai gastando sem pagar. fica aí.. já no século XX.

com a obra ainda em andamento. tendo Dona Luzia principalmente — mas também as crianças — à frente do negócio (“birosca”) durante o dia. normalizador do comportamento. O estabelecimento funcionou por mais de vinte anos. Vendia-se de tudo. em outros. sendo recodificado (na categoria trabalho social) e transformado por Zito. Nos discursos da família Camilo dos Santos. poderíamos utilizar a conjunção aditiva e acumular papéis — como no caso do justiceiro Miranda. mantinha os meninos ocupados e “longe dos problemas”. a diferenciação pode ser definida pela confrontação desses “tipos ideais”. durante os finais de semana. no qual o trabalho é fortemente enfatizado em sua narrativa e opera como um “elemento legalizador e. zona Norte do Rio de Janeiro). Zaluar (1985). A “tendinha” — modelo de pequeno comércio realizado no próprio terreno da casa e já adotado pela família em Paulista — começou a funcionar em 1958. Todos os membros desta família aprenderam desde muito cedo a importância do trabalho. 134 Sobre a relação entre os tipos “trabalhador” e “bandido” para a construção de identidades entre membros de camadas populares ver. transformando-se em alguns momentos na principal fonte de renda da família. 1998:105). O lugar tornou-se ponto de referência. Se em alguns contextos. 140 . A ajuda deles era fundamental também para complementar o orçamento familiar. o trabalho tem um lugar de destaque. por exemplo.trabalhador versus bandido seria por demais simplificadora da realidade social que encontramos na Baixada134. Além da real necessidade de mão de obra. Seu Zé sempre levava os filhos para a barraca que montava na feira. enquanto Seu Zé trabalhava no laboratório Monteiro Lázaro (em Vila Isabel. Com a experiência acumulada desde os tempos de Pernambuco. ao mesmo tempo. Seu Zé logo percebeu a escassez desse tipo de comércio na nova localidade e a demanda da população do bairro por algo que suprisse suas necessidades mais imediatas. introjetado como desviante” (Barreira.

Zito via no esforço individual. “Era uma verdadeira aventura […] Saíamos de casa de manhã bem cedo e só voltávamos à noite. o trabalho em parceria é tido como o veículo desta união. um ethos do trabalho vai constituir uma marca identitária forte. ao longo de toda sua biografia. Inicialmente sozinho e depois com a ajuda de amigos e do irmão.48) e a relação entre os dois ainda não era marcada pela proximidade. permeando todo o discurso sobre si construído na biografia e a composição de sua persona política. mas sempre encontrava tempo para jogar futebol e. Foi a partir da venda das pipas que os irmãos deram início à uma relação de extrema cumplicidade que se estenderia também à vida política.A educação dos filhos era prioridade do casal que não queria que os meninos fossem “analfabetos como eles”. cit. Seu primeiro empreendimento autônomo consistiu na confecção e venda de pipas na feira livre do Aterro do Flamengo. Waldir era apresentado na biografia de Zito como o irmão caçula. op. inaugurada durante o governo de Carlos Lacerda. “fofoqueiro” (p. Estudavam em escola pública e auxiliavam no trabalho preferencialmente nos finais de semana. pela partilha e pela amizade. fazendo pequenos serviços. principalmente.:108). devido à diminuição do número de freqüentadores do parque. Ganhava um bom dinheiro” (Zito apud Gramado. Zito nos é apresentado como alguém que não valorizava o estudo como forma de ascensão social. “preguiçoso”. Zito conseguiu juntar algum dinheiro — até a chegada do inverno que representava uma queda no movimento. Se até este episódio. Começou a trabalhar como faztudo: carregando areia. no “ganhar dinheiro”. Ele entrou e saiu de alguns colégios (todos públicos). de “mudar de vida”. Nesse sentido. diferenciando-se dos pais que tinham a educação como única via de mobilidade possível para os filhos. 141 . No entanto. a única maneira de “crescer”. para fazer “uns bicos”.

fosse por meio da confecção de pipas que ele próprio vendia nas feiras livres no Rio de Janeiro (no Aterro do Flamengo. reestruturando o lugar e fazendo obras de expansão. Tais bens parecem simbolizar as conquistas e a própria ascensão social de Zito. No ano 135 Na biografia de Zito. sendo enfatizados como fatores de distinção com relação aos “colegas de bairro” e ao próprio irmão. A carroça. indo trabalhar com o pai na “tendinha” da família. outra moto. a moto. o carro etc. uma “meiaágua”. Zito foi empregado em uma estamparia. A falta de recursos do bairro era por ele convertida em oportunidades e a “independência” (leia-se: saída da casa e da jurisdição paterna) chegou cedo. O dinheiro de suas economias e da rescisão trabalhista foi investido na abertura e legalização da firma que. 142 . abriu um laboratório na mesma rua em que morava. Interessava-lhe apenas “ganhar dinheiro”135. a televisão. por exemplo) ou transportando água para os moradores de seu bairro e de bairros vizinhos em sua carroça. decidiu deixar o emprego que o pai lhe havia arrumado — ainda na juventude. quando se casou. na Monteiro Lázaro — e tornar-se seu próprio patrão. no entanto. Nessa época. é marcante a referência constante aos bens materiais adquiridos ao longo de sua trajetória. Sua casa foi construída nos fundos do terreno de seus pais. — aspecto central de sua persona pública. seus “serviços” eram empreendimentos exclusivamente particulares. sempre conseguia um jeito de arrumar “um dinheiro extra”.Com 15 anos. aos 17 anos. Zito estava sempre envolvido em atividades que lhe rendessem algum lucro. Associado a um amigo formado em química. Ainda assim. Aos 25 anos. e Andréia nasceu no ano seguinte. então. À frente da “tendinha” foi responsável por sua reorganização e transformação em loja. O espírito empreendedor configuraria a primeira delas. a geladeira. não havendo qualquer menção à prestação de assistência à população do bairro. não foi pra frente. Zito acabou. A partir destes episódios são elaboradas as características que o transformariam no selfmade man.

Mais pela imposição da própria vizinhança. inaugurou uma outra no bairro Jaqueira e Seu Zé. op. agora. um episódio ali relatado vai de 143 narradas como revanches da época de criança — . inclusive) enquanto “homem de bem”. cit.seguinte. “[Zito] Não deixava de resolver seus problemas com qualquer um e começou a ser respeitado no bairro. O “pedágio” era uma das formas de extorsão habitualmente realizadas: para carregar ou descarregar a mercadoria ou para entregá-la em outros bairros. alcançaria.:116/117). alguns prejuízos e a agressão a um de seus funcionários. ficou responsável pela loja da rua Ipanema. mas se preciso fosse. Enfrentou os bandidos. Nesta narrativa são claramente ressaltadas sua coragem e disposição para o embate (físico. um novo patamar. O pagamento por “proteção” era uma prática comum na região e. Indícios Da Violência Como Marca Os problemas com a criminalidade local começaram a aparecer e a postura de Zito foi distinta da dos demais comerciantes. Zito não pestanejava em utilizar os punhos para se impor” (Gramado. dando os primeiros contornos no homem que se tornaria um líder comunitário. entretanto. gravemente ferido pelos bandidos locais. A primeira providência para resolver os impasses era sempre uma boa conversa. Por outro lado. em larga medida. Em um dos episódios narrados em sua biografia. Zito rebelou-se e não aceitou fazer parte desse sistema local. A fama de “valente” — que teria começado ainda na juventude com as brigas de rua. obrigatória. que via nele uma pessoa que não admitia injustiças. sua postura de enfrentamento lhe rendeu. chegando inclusive a ir “tomar satisfações”. os comerciantes tinham que pagar uma taxa. à essa altura já aposentado.

no entanto — a morte de duas meninas próximo ao bar — levou os irmãos a mudarem de ponto. O primeiro deles. Mas foi somente a partir de sua entrada para a política que à sua fama de “valente” somou-se a de “justiceiro” ou “matador”. portanto. sendo estampado nos cancioneiros. Zito já havia conseguido ampliar seu patrimônio e começava a explorar um outro tipo de estabelecimento: os bares/ botequins. Segundo Gramado (p. indo. Algumas versões apresentavam Zito como “mancomunado” com os bandidos e. cit. ele ingressou. p. A essa altura. em 1985. ele teria conseguido adquirir alguns pontos comerciais de pessoas que preferiram fugir da insegurança a enfrentar a criminalidade. Um trágico incidente. tornando-se proprietário de alguns estabelecimentos comerciais — desde mercearias e lanchonetes até bares e boites — mas a sociedade com o irmão foi rompida depois da falência de um deles — e retomada algum tempo depois. tal episódio foi mencionado. Zito já conquistara relativa ascensão. especificamente da nordestina”. foi em sociedade com o irmão. É a partir de tal atributo em particular e 144 .10). contando com shows de música ao vivo e serviço de bar. no entanto.encontro a relatos de moradores sobre a relação de Zito com a violência e o banditismo locais. era outro. o Bar e Mercearia Compre Bem. A esta altura.122). compraram um galpão na rua Copacabana onde abriram o Zitu’s Bar. na Guarda Municipal de Duque de Caxias. O tom. Conforme Barreira (op. na história oral e em relatos jornalísticos. o pistoleiro é um “tipo lendário da sociedade brasileira. para a Praça Dr. Entre fracassos e novos negócios. usurpando os comerciantes. primordialmente agrário (mas não exclusivamente). nos romances. obrigando-os a venderem seus pontos e saírem da região. Em algumas das entrevistas que realizei com moradores. então. Tal personagem povoa o imaginário social. Waldir. Laureano. Pouco depois.

) e Freitas (2003). Já nos trabalhos relacionados à Baixada ver. Peristiany e Pitt-Rivers (1992). Se os problemas estruturais e o retorno à democracia são levantados como questões-chave para se pensar a violência e o aumento da criminalidade no Brasil (Peralva.da composição desse personagem que serão feitas algumas considerações relativas às “falas” sobre Zito e sobre a violência política. Souza.12) é também acionada — tanto nos discursos nativos quanto em trabalhos acadêmicos — quando se trata da violência na Baixada136.cit. 1990b. dos grileiros. mais tarde. 145 . dos posseiros faz parte da história local desde o século XIX137. assim como os de Marques (1999) e Villela (1999). políticos. cit. em mais de 90% dos casos de homicídios não consegue identificar a autoria dos crimes nem constituir processo (Soares. 136 Sobre a relação entre uma “cultura nordestina” e práticas violentas. Grynszpan. O descaso do poder público implicou na centralização do poder e da força nas mãos dos poderosos locais — nesse caso. a referência à “cultura nordestina” (p. 2000). eleitos a partir da notoriedade adquirida enquanto matadores. A violência do cangaço. Alves. 137 Tais discursos remetem à dimensão dos valores sociais. entretanto. Beloch (1986). também abordados nos trabalhos de Peristiany (1971). 1997). Pitt-Rivers (1977). dos coronéis.. por exemplo. assim como Herzfeld (1988) sobre honra mediterrânea. políticos e fazendeiros e. op. tais como a masculinidade. pelo menos. Conforme tratado no primeiro capítulo. consultar Barreira (op. empresários e policiais (Benevides. 1996). A trajetória política de vários membros de grupos de extermínio. pelo controle exercido recentemente por traficantes e pela atuação comprometida do aparelho judiciário que. a honra e a lealdade. É no campo político. a região foi palco de diversos episódios de violência e esteve à mercê de sua própria sorte. que se estabelecem as maiores ambigüidades desta realidade na qual se insere a Baixada. dos jagunços. nos dá toda a dimensão da tragédia das milhares de pessoas cuja única referência de segurança pública foi dada pela atuação dos esquadrões da morte. 1983.

refere-se à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre Pistolagem. diretamente relacionada a crimes políticos. Barreira deparou-se com a notoriedade desse fenômeno. Existem localidades onde nenhum crime foi apurado. A segunda. legal ou ilegal). Ao desenvolver sua pesquisa.646 pessoas assassinadas no campo. 1994: 63 apud Barreira. A impunidade é uma regra: das 1. marcado pelos aspectos urbanos. O autor preocupou-se em entender a articulação dos valores culturais por intermédio das narrativas sobre o cotidiano do pistoleiro e das falas sobre a violência (legítima ou não. p.54).O trabalho de Barreira (op. 1998:54). deixando de ser um fenômeno apenas rural. enfatizando os pistoleiros — alguns deles tendo sido entrevistados. O fenômeno da pistolagem é. cit. como no caso estudado.. sendo mais de 50% através de “pistolagem”. instaurada em 1992. dos intermediários e dos discursos sobre as vítimas. cit. inclusive – bem como o papel e o lugar dos mandantes. trata das eleições municipais de 1996 em Maracanaú. os capacetes passam a fazer parte dos crimes de aluguel. op. O relatório da CPI corroborou as conclusões de Barreira. mas presente também nas cidades. ao campo. sendo vários os casos de homicídios que sequer deram origem a inquéritos policiais (Relatório final da CPI. apenas 22 casos foram a julgamento.) consiste no estudo da pistolagem enquanto sistema. passaram a ser encarados como “questão de segurança pelo Estado”138. entre o fim de 1987 e o começo de 1988. promovida pelo governo local. município do estado do Ceará. no Congresso Nacional. A cidade de São Paulo tem uma média de 20 assassinatos por dia. apresentando um cenário preocupante. a partir da iniciativa do deputado Edmundo Galdino (PSDB/TO). As motos. 146 . e a terceira. onde a atuação de pistoleiros e os “crimes por encomenda” adquiriram formas mais complexas e. cometidos em movimentadas vias públicas (Barreira. não mais restrito ao universo rural. 138 O autor analisa mais especificamente três situações: a primeira referente à campanha para acabar com a pistolagem no estado do Ceará. através de sua Secretaria de Segurança Pública. atualmente.

SOS QUEIMADOS e VIVA RIO. FASE. Não obstante essa indiscernibilidade. Laboratório de Análise da Violência / UERJ. Segundo o relatório Impunidade na Baixada Fluminense. Ainda de acordo com as conclusões dos pesquisadores. o estado do Rio de Janeiro aparece em terceiro lugar em número de homicídios no Brasil. Nessa análise. Os episódios violentos e crimes que permaneceram impunes e estamparam os jornais cariocas e fluminenses — desde os mais populares aos de circulação mais ampla — refletem esse cotidiano no qual proliferaram a utilização da coerção física por particulares ou mesmo os crimes de vingança. a região apresenta índices alarmantes de criminalidade139. apresenta uma taxa de homicídios 21% superior a do município do Rio de Janeiro e a do estado como um todo. em 2002. 147 . à violência policial ou a crimes políticos. em 1998. O Laboratório de Análise da Violência da UERJ fez um levantamento dos índices de violência letal a partir de dados fornecidos pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e pelo DATASUS (certidões de óbitos). Acontecimentos como a chacina de 31 de março de 2005 refletem a dura realidade dos moradores da região. 139 As instituições responsáveis pela elaboração de tal relatório foram: CESEC. desenvolvido em 2005 por diversas entidades e pesquisadores. não há como distinguir os homicídios ligados a grupos de extermínios. Não há unanimidade quanto ao tema da violência e do uso privado/ particular da força/ coerção física.A situação no estado do Rio de Janeiro e. A Baixada. e em quinto. os crimes na Baixada estão presentes nas diversas narrativas sobre o modus operandi da política local. no entanto. a despeito dos índices. A ambigüidade da conceituação revela-se no processo contínuo que engendra sua constituição por atores diversos. JUSTIÇA GLOBAL. particularmente. na Baixada Fluminense não é diferente do quadro delineado acima.

realizando agora obras públicas de impacto coletivo. na Baixada. No entanto. ao mesmo tempo em que tais associações relacionam-se a um certo imaginário do medo. a notoriedade desejada e necessária em determinados contextos (ser escolhido para um “serviço” específico. os crimes podem conferir fama e prestígio em um universo social marcado pela falta de segurança pública e pela privatização da coerção (física e moral). em particular. neste absurdo da legislação brasileira que. Arrolado como réu em um processo de homicídio doloso e após ter sido preso duas vezes pelo Ministério Público. executando não só os possíveis ladrões e bandidos como qualquer um que o contestasse. 140 Tais conexões. a identidade nordestina. em troca do apoio e sustentação dados ao prefeito. Eleito vereador com base na limpeza que realizou no bairro onde morava. ser considerado um “vingador” por certos grupos) pode transformarse em um predicado pouco interessante em outros (conseguir votos para além do seu universo eleitoral de origem. De forma análoga. 148 . Dessa forma. garantia imunidade também para crimes comuns. Tendo acesso às máquinas da prefeitura. na tentativa de deter seu êxito eleitoral.No caso de Zito. por exemplo). ganhando imunidade parlamentar por quatro anos. elegeu-se deputado estadual. naquela época. Uma espécie de “cultura do medo” — como assinalou Barreira (p. 2005: 27). ao tratar da relação entre pistolagem e eleições — apontaria os policiais como uma das categorias menos confiáveis no universo estudado pelo autor. assumiu a presidência da Câmara Municipal. ampliou sua já notória rede de clientelismo.63). (Alves. de “homem valente” — constantemente acionada — e provavelmente seu histórico de inserção no “mundo policial” — por ter integrado a Guarda Municipal — podem ter fornecido elementos para algumas dessas construções narrativas140. no entanto. são descartadas pela deputada Andréia Zito e pelo próprio Zito. alegando que tais acusações foram forjadas por “inimigos políticos”. tais atores também estão sujeitos à mesma classificação negativa.

acontece um crime de grande repercussão na cidade. 149 . Que achava que seria bom pro lugar. taxista. morador de Duque de Caxias). Era a cartada que o grupo que tentava se perpetuar no comando da cidade precisava para prejudicar o fenômeno de votos da Baixada [referindo-se a Zito]” (Gramado. A ambigüidade e a ambivalência são constitutivas das narrativas sobre a violência. O agente de determinada ação ilegal pode ser considerado “pistoleiro” ou “vingador”. baleado na garagem da prefeitura. principalmente quando associada às práticas políticas. seriam representados de modos variados e. referente ao universo do trabalhador do mundo da cana). apesar de dispostos em uma estrutura socialmente reconhecida. p. “De repente. Freitas (2003: p. cit. 26/04/2006).89) já nos chamava a atenção para o fato de que. no plano da análise narrativa (em seu caso. Entretanto. à vida como valor universal (Arendt. legítima ou ilegítima. pra defender as pessoas” (Andréia Zito. os fatos/casos e agentes.“A bandidagem daqui se encolhe com ele […] Mas é assim mesmo: se fez. a violência seria sempre tomada como referência de negatividade por aludir. por vezes. “E teve gente que achou bom [referindo-se à fama de ‘matador/justiceiro’]. 150). prossegue o autor. implicando em um sistema classificatório com remissão direta a valores e à sua hierarquização.. em 14 de agosto de 1993. O assassinato do subsecretário municipal de Serviços Públicos. op. não o são necessariamente a partir das perspectivas dos diferentes grupos atingidos por sua ação. Ary Vieira Martins. A internalização de valores sobre a violência por determinados estratos sociais implicará na maneira como esta é percebida e engendrada como aceitável ou não. a princípio. 1989). normativamente ou não. ambíguos. tem que paga(r)” (47 anos. Se ambos são criminosos sob o olhar jurídico-legal.

seja para afirmá-las ou negá-las. não somente legitimando a ação. 150 . Os processos de identificação geralmente remetem a tais experiências. O rol de valores associados a um tipo ou outro reporta-nos a visões mais ou menos sedimentadas socialmente que tanto podem implicar em manifestações de apoio. ao crime profissional. do seu bairro a partir das narrativas (endógenas e exógenas) sobre a violência 141. passionais ou ligados à honra são diferentemente percebidos e avaliados em relação aos crimes encomendados. 141 Ver. A Baixada Fluminense. sempre esteve envolta em histórias de crimes e de violência (dos criminosos. 1997) pode produzir a imagem desejada e ser acolhido por determinados grupos ou segmentos. a vítima – (Wieviorka. da cidade. como também sobre ela elaborando algum consenso e justificação moral.Os crimes por vingança. mas também do poder público – via abandono e/ou atuação dos policiais). quanto resultar em atribuições de “crueldade” ou “ambição” quando envolvendo a dimensão do dinheiro e sua subordinação. são desqualificados pelo Estado que se outorga o monopólio da força física e da aplicação dos valores sociais vigentes por meio do Direito e da legislação. um homicídio de um rival político). indistintamente enquadrada como ilegal pelas esferas oficiais. ainda assim. Quaisquer que sejam os argumentos e valores acionados a favor de determinada ação (por exemplo. Zaluar (1985. 1994). mas de todo modo tornando-as palpáveis. o recurso bastante comum à diabolização do outro — no caso. quando se trata de “lavar a honra” ou de “pagar com a mesma moeda”. Campos (1987). Soares (1996). Contudo. assim como Duque de Caxias. os crimes políticos oscilariam entre a legitimidade ou não da ação. acaba construindo um mapa da região. Silva (1999). Velho (1987). Sendo assim. Peralva (2000). Reais mesmo para quem não as vivenciou diretamente e que.

a violência é difundida. ou melhor. os políticos conseguiram transformar tais carências em capital político que lhes rendeu votos. a violência deu o tom dos mais diversos discursos sobre a Baixada e sua população. A falta de infra-estrutura. Se. assim como de entendê-lo a partir da ruptura gerada pela experiência violenta.cit. criada. Responsabiliza-se o poder público pela condição marginal da região. Falar do crime é uma maneira de se (re)colocar no mundo. ainda hoje gozando da infame reputação de “faroeste fluminense”. as acusações não foram levadas adiante — ou pelo silêncio como “tática de preservação da vida” (Freitas.). op. proliferasse. Tampouco explica por que alguns policiais ligados a grupos de extermínio conseguem eleger-se e outros não. no caso de Zito. de aparatos coletivos e de segurança criariam as condições para que a violência. ou por que alguns deles utilizam de maneira mais recorrente a temática da violência/justiça. mas reconfigura e re-semantiza o universo social mais amplo. Mas a política. com a mudança brusca na percepção da cidade e das relações sociais nela engendradas. A re-siginificação do mundo a partir dos acontecimentos violentos é. muitos votos. enquanto outros preferem expor outros temas. nas suas formas mais diversas. Nesse sentido. levantar outras bandeiras. não marcaria apenas o cotidiano das grandes cidades. Somente o recurso ao uso da violência não seria capaz de dar conta do sucesso de alguns atores políticos e o fracasso de outros. apropriada e transformada. ou por falta de provas materiais — sua apresentação de si foi igualmente deslocando o foco na violência e evidenciando seus 151 .A fala do crime (ou da violência). como ressalta Caldeira (2000). por intermédio das narrativas. para quem os sofre — mas também para os demais — uma maneira de lidar com o corte. Mais marcante (ou será presente?) em alguns momentos do que em outros. pelo abandono.

A estruturação de tal narrativa conferiu inteligibilidade às ações de mediação com o poder público e seus agentes. Por fim.cit. é um agente dessa informalidade. Jornal do Brasil. Joca foi vereador por Nova Iguaçu durante três mandatos consecutivos — sempre por partidos diferentes (PMDB. ou seja. como vereador em Nova Iguaçu. Zito — assim como anteriormente Joca. Ligado a acusações de uso da violência e participação em grupos de extermínio (Sousa. Como anteriormente abordado (capítulo 1).95). por vezes. PDT. diferenciando-se do Jorge Júlio Costa dos Santos. o Joca — um dos principais nomes da política baixadense com quem Zito é. em 1992.) como um líder marginal. ao mesmo tempo em que o autorizou a “falar por seu bairro”. tal líder se destacaria em sua comunidade por privilegiar a atuação em termos da resolução dos “problemas práticos”. A partir das relações que estabeleceu por meio das reivindicações de melhorias para o bairro. Zito guardaria algumas semelhanças com o que Monteiro (p. um “trabalhador como outro qualquer”..predicados como “um igual”. transformando-se numa espécie de herói local142. op. Teve expressiva votação no distrito de Belford Roxo que. em 1982. A ascensão política de Joca foi bastante rápida. elegeu-se o primeiro prefeito de Belford Roxo. com mais de 80% dos votos. Sua heroicização teve como desfecho seu assassinato. PL) — e mantinha uma máquina assistencialista que distribuía desde brinquedos a comida. Exatos treze anos de vida pública. 1997. em Belford Roxo (Monteiro. Nesse sentido. na época. 142 152 . As carências e a falta de infra-estrutura do bairro Dr. Corroborando a informalidade da resolução de problemas como regra geral. Houve grande comoção e manifestações de tristeza e indignação por sua morte. 8/7/1992. A praça central de Belford Roxo foi tomada de gente e seu enterro acompanhado por uma multidão de moradores. 2001) — atualizará a relação entre tais ações e as práticas políticas142. Laureano permitiram que Zito começasse a travar contatos com políticos e funcionários da prefeitura e se constituísse como porta-voz e mediador das reivindicações de sua vizinhança. comparado — ingressou na vida pública. cit. Zito construiu o discurso sobre sua vocação política e sobre o imperativo do exercício desse papel. p. pelo PL. Em um primeiro momento destaca-se como líder comunitário e só mais tarde torna-se um legítimo mediador político. Alves. em 20 de junho de 1995. O Globo. assim como seu fim. mas também um facilitador. 13/10/1992) ficou menos de três anos à frente da prefeitura. É apresentado por Monteiro (op. ainda não havia sido emancipado. A princípio. como alguém integrado à sua comunidade e cuja existência só é possível frente à informalidade da resolução dos problemas locais. Um dos primeiros contatos foi com o então vereador Dr Heleno. na medida em que é ele próprio quem organiza e operacionaliza tal rede (idem.92) denominou líder marginal.

me parece complicado estabelecer uma separação estanque entre tais classificações. para Monteiro (op. depois como vereadores e finalmente como 143 Nesse sentido. empreendedores — selfmade men — envolvidos em acusações de pertencimento (ou contato com) grupos de extermínio. possibilitando-nos pensar tais atores enquanto “[…] individuals act in politics largely as members of groups” (Landé. como demarcar a intencionalidade de suas ações? Como determinar a priori se ele tem ou não interesses político-eleitorais? Grosso modo. capital ou propriedades para ‘servir’ à comunidade em épocas de campanha eleitoral” (idem). Novamente. a idéia de um destino compartilhado. Não obstante a percepção da experiência cotidiana do líder marginal. occupation or social class” (Landé.líder assistencialista “que se aproximaria de uma determinada comunidade com a única e exclusiva intenção de através da prestação de determinado serviço auferir benefícios eleitorais”. O caso de Zito guarda algumas semelhanças com o de Joca: ambos são oriundos de camadas populares. Contudo. adoto o conceito de grupo enquanto “a set of individuals who share an attitude. no entanto. compartilhar seus problemas. Seriam “geralmente profissionais liberais ou comerciantes que disponibilizam parte de seu tempo. não haveria relações de vizinhança nem tampouco uma rede de resolução de problemas práticos permanentemente implementada. age. Não haveria. de uma experiência comum é acionada. religion. um cotidiano. cit. They act together because they perceive that by doing so they are most likely to attain objectives consistent with the attitude which they share. portanto. and thus to gain similar individuals rewards.). Groups often […] consist of persons whose common attitude stems from the fact that they have some similar 'background' characteristic such as sex. o agente assistencialista — ou “benfeitor” — parece ser aquele que “presta” um determinado serviço à população sem. tendo ingressado no mundo da política inicialmente com ações comunitárias. 153 . 1977:76). 1977: 75)143.

o que implicou uma condução ainda mais personalista da administração e a resolução dos problemas nos moldes adotados em sua época de vereador. ainda. como agentes políticos. a atuação a partir da rede de resolução de problemas práticos não pode ser pensada apartada das demais relações sociais. ver capítulo 2. sublinhado por Monteiro (op.1 A municipalização de distritos baixadenses. suas soluções e a intencionalidade da ação nos possibilitará refletir sobre a atuação política desses atores (líderes marginais ou não) em relação a um espaço físico específico (ao menos em um primeiro momento. ver a dissertação de mestrado de Josinaldo Aleixo de Souza (1997). Qualquer que seja a justificativa adotada. estando estas comprometidas ou não com atores políticos145. obtida por intermédio dos contatos com o poder público e seus agentes. o uso deliberado da condição de “líder local” ou. Este último governou um município recém-emancipado. 2001). a velha conhecida alegação de “chamado do povo” ou “a pedido dos amigos” e assim por diante. a relação entre a vivência de problemas. item 1. 154 . 146 Apesar das semelhanças anteriormente apontadas. Suas ações implicavam a resolução dos problemas práticos em seu bairro e. só pode ser mensurado após a sua explicitação e.prefeitos144. nas adjacências. nesse caso. creio que o conceito em questão vincula-se à especificidade dos municípios recémemancipados. intitulada “Os grupos de extermínio em Duque de Caxias . nos quais se destaca o papel dos líderes comunitários e das expectativas das populações locais quanto à continuidade do “trabalho” por estes desempenhados como líderes marginais — agora. Deste modo. O fato de ser um comerciante/empresário local não desvinculou Zito de uma experiência comum e tampouco de sua vizinhança. A cooptação de vereadores —convertidos em clientes — e de empresas locais operacionalizaram o exercício de seu mandato através de uma espécie de repartição/ divisão das áreas da cidade entre estas duas categorias. 145 Por outro lado. portanto. possibilitando assim que serviços básicos como a coleta de lixo. O fim exclusivamente eleitoral.Baixada Fluminense” (UFRJ). Surge o Político Zito Meu sonho era chegar a ser prefeito em minha cidade 144 Sobre grupos de extermínio. por exemplo. Sobre essa questão. com carências de todos os tipos.). sua percepção a partir de discursos diversos: o do interesse pessoal e. fossem finalmente disponibilizados para a população local (Monteiro. em alguma medida.cit. ligado às relações de vizinhança e à rede de resolução dos problemas práticos)146. há também diferenças significativas entre Zito e Joca.

contando com o apoio de familiares e vizinhos. op. […] Eu entrei para a vida pública em 1988 — candidato a vereador — na vontade de fazer alguma coisa pras comunidades nos bairros onde eu tinha uma certa credibilidade política. me filiei e me candidatei a vereador.Zito. Lopez (2001). a convite do então deputado federal e candidato à prefeitura de Duque de Caxias . eleitoral.). uma geografia política evidencia-se imediatamente. em 26/04/2006 Quando analisamos o surgimento de Zito como ator político147. Em 1988. o “cálculo egoísta” é minimizado (Bourdieu. Kuschnir (1993 e 2000). que não era filiado a nenhum partido. Borges (2003). cit. Começava assim a vida política de Zito. que não gostava de política. cit. A construção de um lugar para si dentro do bairro e. A própria noção de “ideal” já nos remeteria à percepção da entrada na arena eleitoral como involuntária. sendo eleito com 1. novamente. “Eu. a obtenção do reconhecimento de sua capacidade em “resolver problemas” e de lidar com políticos foi o ponto de partida para sua transformação de liderança comunitária a candidato “ideal”. entre outros. os trabalhos de na coletânea organizada por Palmeira e Goldman (1996). Sua campanha direcionou-se ao bairro de sua residência e áreas adjacentes. como demonstraremos aqui. no próprio desenrolar de sua carreira. exaltando-se o engajamento como comprometimento desinteressado. A trajetória de Zito corrobora este modelo não apenas no que tange seu aparecimento como personagem político mas. Messias Soares. E tive uma sorte imensa de ser eleito […]”. Ver. 147 É importante destacar que muitos trabalhos sobre trajetórias políticas e eleições de modo geral marcam a pertinência do conceito de geografia eleitoral para a compreensão da atuação de políticos e cabos eleitorais. dada pela vocação (Kuschnir. a este respeito. com isso. op.770 votos. e sua escalada rumo ao poder regional. Zito candidatou-se a vereador pelo PTR (Partido Trabalhista Republicano). 155 . Chaves (1996).). Aqui.

Zito não tinha qualquer intimidade com a rotina da Câmara e desconhecia o habitus político. Segundo. distanciado dos demais parlamentares. A afirmação recorrente de alguns moradores referindo-se a políticos/ candidatos: “ele é como a gente” ou.) — por “estar sempre sujo de lama”. “desarrumado” diluía a fronteira entre o mundo ao qual ele pertencia anteriormente — como um “morador comum” da cidade — e seu novo status. Era chamado de “peão” — segundo ele mesmo contou a Gramado (op. Nesse sentido. de homem público. expressar a hierarquia como valor social. a apresentação de si demarca de maneira mais imediatamente visível fronteiras simbólicas — no caso. É interessante perceber que distinguir-se do eleitor-morador é também condição para o reconhecimento do político enquanto tal.A entrada na arena política municipal não foi fácil. A importância da apresentação de si e da performance dos atores sociais (Goffman. Primeiro. em determinadas circunstâncias e lugares. cit. Seus pares não o receberam de braços abertos. ainda. entre o morador pobre e o político profissional — forjando distinções. em eleições futuras. relações sociais e autoconstrução de imagens. porque configurava uma ameaça no momento de disputar os votos. “ele é um de nós” não contradiz a percepção do político como alguém especial. da mesma forma em que pode. 156 . porque aquela forma de apresentar-se “simplesmente vestido”. tanto quanto seu “estilo”. Sua apresentação. “como um qualquer”. de vereador. 1975) nos remete à relação entre identidade. colocavam-no à margem. A suposta igualdade anteriormente mencionada refere-se muito mais ao reconhecimento de possíveis laços identitários e/ ou de relações específicas do que à persona política em si. Sua proximidade com o eleitor pobre incomodava duplamente.

143). como potência virtual. na época. Achou o bairro uma tragédia. por exemplo. tudo feio. Eu falei que era melhor só ficarmos namorando. suas cidades são melhores do que alguns bairros cariocas. Esta é aqui pensada como uma ordem instauradora do real. “que mal havia estudado”. porque dali não sairia”. No ano de 1988. Narriman. era formada em engenharia e cursava pós-graduação na Fundação Osvaldo Cruz. ela moradora do Rio (ainda que do subúrbio carioca) e ele. sujo. da Baixada148. Por outro lado. À companheira. Assim. que mais tarde será bem mais do que uma aliada política. A partir desta conversa. Disse que ali não moraria de jeito nenhum. perigoso. a Baixada Fluminense aparece como um lugar violento. é atribuído um lugar de destaque na biografia — exaltando-se sua escolaridade. então. com ruas de barro e barracos amontoados. conheceu Narriman Felicidade em uma festa. a contextualização de tais classificações permite evidenciar o lugar de onde se fala. Sobre as imagens do subúrbio carioca e as identidades a elas relacionadas. Sua família residia em Bangu. para o morador da cidade do Rio de Janeiro. pós-graduanda e ele. para o morador da Baixada. em seu primeiro mandato como vereador. Heilborn (1984) e Kuschnir (2000[1998]). A diferença social entre as famílias expressa-se na narrativa de Gramado quando o autor menciona a surpresa (“susto”) de Narriman ao conhecer o lugar onde os Camilo dos Santos residiam. houve a princípio alguma resistência ao relacionamento. sua formação. De acordo com a biografia de Zito. Narriman voltaria atrás em sua posição e a ênfase do relato biográfico recai sobre o engajamento/ identidade de Zito com o lugar de moradia e sua população. distante. colocada em termos da diferença social entre os dois – ela.As mudanças na vida de Zito não foram ocasionadas somente por seu ingresso na vida pública. Segundo o depoimento de Zito ao jornalista (p. ver. para quem se fala e o que se pretende demarcar com tal “fala”. 157 . principalmente quando a comparação se dá com favelas ou bairros do subúrbio carioca. 148 A alusão à resistência da família de Narriman ao namoro reflete a hierarquia de cidades e bairros existente no mapa social e a própria flexibilidade da atribuição valorativa a lugares. bairro da Zona Oeste carioca. com 33 anos. “com pós-graduação” — que coincide com a ascensão política de Zito. por intermédio de um amigo casado com a irmã dela. Neste caso. “ela ficou horrorizada quando foi à minha casa.

Mas o restante dos cargos seriam [sic] meus. à “limpeza do bairro”. op. 158 . Se a votação demonstrava o prestígio de Zito (relacionado ou não à questão da violência). 149 Sobre o PTB. Na eleição municipal de 1992. A inexperiência em lidar com seus pares e as desavenças com o deputado caxiense Alexandre Cardoso.148). já pelo PSB. com o ingresso no PTB e a candidatura para a ALERJ.Seu projeto político delineia-se mais claramente a partir de 1990. foi o vereador mais votado da Baixada Fluminense.100 votos — e Moacyr do Carmo (PFL) voltava novamente ao executivo de Duque de Caxias. Na disputa por uma vaga na ALERJ. Na ocasião. mesmo tendo obtido 11. Independente desse controle. um dos nomes em evidência no cenário estadual — e o responsável pelo convite para que Zito ingressasse no partido — o levou a deixá-lo . Nem exigi que me dessem o secretário. Um dos que estavam observando-o era o Alexandre Cardoso.300 votos (TRE/RJ). Fiquei sem nada’” (Gramado. ele não era suficiente para garantir-lhe a condição de mediador político. ver Ângela de Castro Gomes (1988). não conseguiu ser eleito. acompanhada por Lacerda. “[…] Zito resolveu correr por conta própria. [citando Zito]: ‘Por quê? Porque queria trabalhar. já casado com Narriman. cit. O que acabou não acontecendo. Zito decidiu apoiar Moacyr do Carmo. ficando com a primeira suplência149. já que tive que sair do PSB porque o Alexandre Cardoso não aceitou o que eu fiz. com 7. Zito havia conquistado seu eleitorado valendo-se da imagem de “homem de ação” (relacionada à violência. Arranhou o prestígio negociando apoio sem ouvir os líderes do partido. já teria promovido uma verdadeira modificação no município. Numa reunião entre os dois. Se a tivesse nas mãos naquela época. p. ou não) e costurado algumas alianças locais. ficou determinado que ficaria com a Secretaria de Obras. que seria um nome deles mesmo.

Narriman Felicidade. 159 . a fim de buscar “equilíbrio” — na época em que seu marido já estava no segundo mandato como vereador. Heleno e sua família são mencionados em tal passagem.). por sua vez. No biênio 1992-1993. De acordo com Gramado (op. os desafetos teriam se aproveitado de um assassinato — mesmo o mandante e o assassino sendo réus confessos — para imputar a Zito a responsabilidade pelo ocorrido e “sujar” o seu nome. cit. por continuar seu mandato e posteriormente conquistar a presidência da Câmara Municipal. com um acontecimento dramático. Zito teve a oportunidade de assumir a vaga na ALERJ e ficou seduzido pela idéia. Segundo depoimentos divulgados por jornais. Marca-se assim. já que teriam sido eles os responsáveis por levar membros da Assembléia de Deus à casa da família. Diferentes discursos e versões foram construídos a respeito do episódio. sua esposa. a acusação não passava de uma armação de inimigos políticos. se auto-classifica como cristão sem. a conversão de Narriman. vincular-se a nenhuma uma religião em especial. assim como de importantes jornais da época: “[…] A maquiavélica engrenagem foi colocada em movimento e o passo seguinte foi mais covarde […] A prisão foi decretada.149). ele chegou a ser acusado e teve até mesmo a prisão preventiva decretada150. fiquei alucinado vendo o palco de importantes decisões de todo um estado. Dr.Ainda em 1992. nessa mesma noite. o defendendo. Assim. teria se convertido ao protestantismo. em 25 de agosto de 1993. Zito. enfurecidos com seu sucesso eleitoral e com a promessa política que representava. Mas não deixei o poder me subir à cabeça” (idem. na noite da prisão de Zito. Afirma que sua esposa e filha são evangélicas — Andréia pertencendo à Igreja Maranata. O contato com o mundo evangélico seria anterior. Na ocasião. materiais e equipamentos teriam motivado o crime. alguns o incriminando. Zito foi acusado pela morte de Ary Vieira Martins. A sua própria versão é reproduzida abaixo. no entanto. as desavenças entre ele e o subsecretário de Serviços Públicos da Prefeitura de Caxias em torno de obras. no entanto. Optou. outros. enquanto era Presidente da Câmara Municipal de Duque de Caxias. com base 150 Grande destaque é atribuído ao fato de que. p. os carros dos parlamentares. “Aquilo era um verdadeiro mundo para mim.

DP (Caxias). 27/11/1993) Apresentando o “caso” como uma “armação” dos adversários políticos. pp. indiretamente.] Para o delegado. colocou sobre a mesa o mandado de prisão temporária. (Jornal do Brasil. Um dos policiais. […] Ao chegar à Câmara. dados referentes ao tombamento dos autos. por Sadarx [filho da vítima]. O Presidente da Câmara de Vereadores de Duque de Caxias. Só que não podia falar nada porque estava ameaçada de morte.numa suposta ameaça de morte sofrida. na época. preso desde quita-feira na 59ª. com prazo de cinco dias. Quer dizer. segunda-feira. “a viúva mesmo declarou que meu pai era inocente e que ela sabia quem era o mandante. Anilton [advogado de Zito] notou a presença de vários policiais em torno do prédio. foi pedida pela promotora Tânia Moreira Salles. lembra Anilton”(ibidem. entre outros. 160 . A prisão temporária de Zito. ‘Logo verifiquei que não constava[m] números de processo ou de inquérito. decidirá. com medo. Vara Criminal de Duque de Caxias. DP [.. onde está numa cela comum.. foi preso no início da noite de ontem sob a acusação de estar ameaçando de morte a principal testemunha de um homicídio encomendado por ele. O filho e a própria viúva tinham certeza que não era meu pai” (26/04/2006). (Jornal O Globo. Ele foi levado para a 59ª. Quatro deles cercavam Zito no interior do gabinete. Ari criou o projeto Mãos Limpas do município e afastou 20 pessoas acusadas de desviar combustíveis e peças de carros de garagem. após perguntar a Anilton se ele era o advogado de Zito. Começava ali a polêmica com a promotora Tânia 151 Tal episódio é extremamente marcante (e controverso) na trajetória de Zito. é claro. 26/11/1993) O juiz da 4ª. o principal motivo do assassinato do subsecretário – que consta do inquérito – foi a política de moralização adotada por ele na administração da garagem municipal. porém individual. se renova ou não a prisão temporária do presidente da Câmara de Vereadores do município. José Camilo Zito dos Santos Filho. Caio Ítalo. Zito conseguiu habeas-corpus e foi solto no dia seguinte. 151-152)151. Andréia Zito afirmou em entrevista que. José Camilo dos Santos. tinha alguma coisa diferente por ali’. De modo distinto ao que é relatado na biografia de seu pai. o Zito (PSDB).

26/04/2006). A seguir. Fernando Henrique Cardoso e levado ao Ponto Zero em Benfica152. com 34. foi noticiada pelos jornais O Globo e Jornal do Brasil de 16/12/1994. Em 1994. no entanto. com ênfase na acusação de homicídio. No entanto. Messias Soares e. Em 1993. voltou atrás em sua decisão e juntamente com outros desembargadores cassou a liminar. Lacerda. aí. — e ainda sob a acusação de homicídio — foi eleito deputado estadual. enquanto aguardava a chegada do candidato de seu partido à Presidência da República. um encontro marcante resultaria em uma nova troca de partido e em uma aliança que se mostraria decisiva ao longo de toda a trajetória de Zito. agora através do procurador-geral Hamilton Carvalhinho. conheceu Marcello Alencar. do Tribunal do Júri de Duque de Caxias. Getúlio Gonçalves. eu fui para o PSDB junto com o Marcello. Hydekel. como presidente da Câmara dos Vereadores. no entanto. “Achei ele um político diferente de todos que eu já tinha conhecido. agora candidato a deputado estadual. ver Soares (1996) e seus desdobramentos para a Baixada Fluminense em Benevides (1983) e Souza (1999 e 2000). ficando entre os dez mais votados para a ALERJ153.” (Zito.Maria. 153 Sobre a relação entre política e violência. já pelo PSDB. O vereador e.). Em 1995. 161 . noticiada nas páginas dos jornais e abordada na tese de doutoramento de Alves (op. Zito estava à frente da Comissão de Orçamento da ALERJ e era novamente denunciado. 14/09/1993 também deu destaque à prisão e à concessão do habeas corpus pelo desembargador Mário Magalhães que. 13/09/1994. teve novamente a prisão decretada. 154 A diplomação. Os jornais cariocas apresentavam as acusações e a 152 Jornal do Brasil.cit. O jornal O Globo. foi detido no dia 9 de setembro. Em 7 de dezembro de 1994 conseguiu novo habeas corpus concedido pelo desembargador Décio Góes e em 15 de dezembro foi diplomado deputado estadual154. agora pelo juiz Cairo França Davi.373 votos (sendo 30. Zito.484 somente em Duque de Caxias). Alexandre Cardoso. no Aeroporto Internacional. não ficou preso.

Eleito prefeito de Japeri.383 votos contra 31. Japeri e Mesquita descortinaram novos arranjos políticos. pelo PDT. já fazia articulações para o pleito municipal mesmo antes de 1996157. respectivamente. Zito. Outro nome que remete à vinculação entre violência e política é o do advogado criminalista Carlos Moraes. 157 Em outubro de 1995. de agressões físicas. o capital simbólico acumulado por Joca — já falecido — ainda garantiu a eleição de sua viúva que. esteve envolvido em diversos episódios de conflito e.824 votos contra 21. com o slogam “Maria Lúcia é Joca”. por 22. por sua vez. Dessa vez. de envolvimento em mais três assassinatos publicada pelo jornal O Dia de 03 de outubro de 1995. Desse modo. Washington Reis (na época filiado ao PSC e deputado estadual como Zito) foi consultado sobre uma possível coligação e sobre a viabilidade de lançar seu nome como vice na chapa encabeçada pelo PSDB. Nomes como os de Joca — que. o deputado estadual pelo PSDB. Acusado de ligações com “bandidos” e de fazer ameaças de morte a seus adversários. na eleição de 1996. e a pretensão de ser prefeito. tentou a reeleição (PSC). José Renato de Jesus — mesmo amparado em um sistema de distribuição de sacolões e perpetuando no poder a rede política ligada a Bornier156.097. que declarou que Zito também era o mandante do assassinato de um jovem de 14 anos e de um feirante de 35 anos em 1988 e 1989. 162 . sob novas denúncias que ligavam seu nome a mais três assassinatos.920 do segundo colocado. em 2000. outra denúncia rondava Zito. com o mesmo conteúdo. conseguiu 90. Na década de 1990. Em outra matéria. até mesmo. mas foi derrotado pelo pastor Bruno (PSDB). E eu disse a ele que se 155 156 Jornal do Brasil 08 e 12/09/1995. 20/09/1995. as emancipações de Belford Roxo. chamando atenção ao fato que talvez o sonho do deputado de concorrer à prefeitura de Caxias estivesse arruinado155. apesar de curta vida pública é lembrado como um dos principais políticos da Baixada — ou da família Paixão conquistaram significativo espaço na vida política local. guarda-municipal e principal testemunha de acusação no inquérito sobre a morte de Ary Vieira.reabertura do processo contra Zito que poderia ser cassado. “Ele também tinha as pretensões políticas dele. o jornal em 17 de janeiro de 1996 dava voz a Sidney Tavares. O Dia. A intenção de disputar o cargo de prefeito não se concretizaria sem alianças importantes.

Na política.778 votos. Foi a partir deste momento que Zito ganhou visibilidade na grande mídia.866 votos. que também ficou 163 . Hydekel de Freitas. contra 142. 26/04/2006). E que nós fizéssemos uma dupla que seria quase imbatível porque o que faltava pra eu ganhar as eleições era o apoio dele […] Ele aceitou ser o meu vice. com 114. eu me candidatei para prefeito.] César Maia saiu vitorioso em São João de Meriti. de origem humilde e ao cansaço e à perda de esperança nos políticos que por Duque de Caxias passaram” (idem). O tucano virou o jogo no segundo turno e derrotou io exprefeito Hydekel de Freitas (PPB) [. os dois ganharam – e perderam. ele ganharia. com a intenção enorme e a vontade de fazer da minha cidade uma cidade diferenciada. venceu o deputado estadual José Camilo Zito dos Santos. Até então era vista como a cidade do bangue-bangue. a cidade da sujeira. No último round da briga entre o governador Marcello Alencar e o prefeito César Maia na Baixada Fluminense. Atribuindo esta vitória à “credibilidade que o povo deu a um homem que veio das bases. Hydekel (PPB). nós perderíamos a eleição e novamente o Hydekel venceria. No primeiro turno. estava tecnicamente empatado com Zito. dos doutores. E ele foi o meu vice e ganhamos as eleições”(Zito. até porque ele era muito jovem e o desejo dele era ser o prefeito de Caxias.. Zito entrava para a história política de Caxias. Ainda nessas eleições. ibidem).302 votos. Em Duque de Caxias. a cidade do mal. que obteve 114. venci as eleições e comecei um trabalho muito sério..309 do adversário. “Em 1996. dos políticos sem credibilidade. eu que vim das bases humildes. tornando-se prefeito de Duque de Caxias em um pleito disputadíssimo com o ex-prefeito e ex-senador. As alianças no segundo turno possibilitaram uma reviravolta e a eleição deste último com 195. onde o deputado estadual Antônio de Carvalho (PFL).viéssemos nós dois candidatos. ele — no PSDB — conseguiu eleger-se para o primeiro mandato em um cargo executivo. tinha a chance de mostrar o outro lado de uma política mais direcionada ao trabalhador” (Zito. dos coronéis.

nesse sentido.135. Assim. a categoria trabalho passa a ser evocada como sinônimo de serviço de assistência. o vereador é percebido como alguém que tem como obrigação servir à população e.000.. 158 De acordo com dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Comunicação e Promoção de Duque de Caxias. Tais iniciativas possibilitaram a arregimentação de um séquito de vereadores.em segundo lugar no primeiro turno. do passe livre para estudantes da rede pública e do aumento do salário do professor em início de carreira para R$1. praças etc. 1996) que legitimava o atendimento sob a rubrica de “ação pública”. sua administração caracterizando-se pelo clientelismo interno à Câmara Municipal — de maneira similar ao analisado por Lopez (2001) em seu trabalho sobre Araruama.69. 16/11/1996) Durante o primeiro mandato. 164 . Tais afirmações nos levam de encontro à própria lógica em jogo. um dever que. incluindo projetos diversificados — como o para a terceira idade. por outro também remetia à própria construção de identidade no interior deste universo. como provedor ou doador desinteressado159. É comum escutarmos frases como “Fulano sempre trabalhou pra comunidade” ou ainda “Ele faz um trabalho muito bom aqui no bairro”. venceu o deputado federal Candinho Mattos. Kuschnir (2000) já nos havia alertado para tal percepção acerca do papel do vereador. nesta administração teriam sido pavimentadas três mil ruas na localidade. colocando-se. assim. O atendimento era uma obrigação. p. além da extensão do serviço de coleta de lixo. postos de saúde. da instalação de nova iluminação (a vapor de sódio). se por um lado implicava em “amarrar” o eleitor e garantir ao vereador seu lugar no mundo da política. era justamente dessa forma que a vereadora de Roseiral concebia sua atuação política. da drenagem de rios. por exemplo — fazia com que sua gente o visse como um benfeitor (Chaves. (Jornal do Brasil. construindo e reformando escolas. ele se fez notar158. Calçando ruas. como trabalho assistencial. Zito promoveu uma administração de muitas obras. Como ressalta este autor. A construção de um aparato assistencial municipal para a população caxiense. 159 Idem. do PSDB. No caso por ela estudado.

era mais administrativa. Andréia trabalhava diretamente com o pai na Secretaria de Governo e.a lógica da dádiva (idem) pode ser estendida para outros cenários pesquisados como Buritis (Chaves. No caso de Narriman. na realidade. traz à tona a dimensão da obrigação social (Queiroz. segundo a qual trata-se de um dever para com a família e a forma mais eficaz de impedir que tais cargos sejam ocupados por outros grupos políticos formados no momento da eleição — mas que. Era dessa forma que Zito costumava justificar sua escolha para quem o acusasse de nepotismo. 160 Ver. no caso desta tese. sua nomeação tinha dupla justificativa. ao mesmo tempo em que garantia uma importante secretaria a um aliado. cit. cit. Araruama (Lopez. por outro lado. a chapa como vice-governadora ao lado de Luiz Paulo Corrêa da Rocha pelo PSDB — obtendo o terceiro lugar em votos (110 mil só em Duque de Caxias).cit.) ou. “não era uma função política. continuam a disputar acessos fundamentais para manterem-se na arena política160. cit. Zito colocou sua esposa. op. como ela própria ressalta. Narriman. interna”. alguém de extrema confiança — e.). que ganhou visibilidade por intermédio das polêmicas em torno do aterro sanitário de Gramacho. op. Kuschnir (op. sendo pós-graduada pela Fundação Osvaldo Cruz. Bezerra (1995).). 1976). 165 . A alocação de parentes em cargos “de confiança” é uma prática antiga e recorrente em nosso país que. op.) e Lopez (op.).cit. em 1998. Nesse meio tempo. A visibilidade na Secretaria de Meio Ambiente rendeu a Narriman o capital político necessário para que pudesse compor. À frente da Secretaria de Meio Ambiente. possuía habilitação técnica. a Baixada Fluminense. segundo a lógica em questão: ela era a esposa do prefeito — portanto. a este respeito. para além de explicitar o nepotismo. Recanto das Emas (Borges.

‘O povo diz que sou um mito. C. Segundo todas as evidências.. Zito faria um de seus maiores inimigos políticos. por exemplo. Ele mudou a cara da cidade. Ele se dá ao luxo de realizar sonhos acalentados na infância de menino pobre. 14/10/1998). justifica. Especial Eleição 98. tem interesses”. com quase 60 mil votos.“Aqui. Garotinho e até do Paulo Maluf". O prefeito caxiense aproveitou a oportunidade para demonstrar seu peso político e atrair a imprensa. se fazem e desfazem com relativa rapidez. de 24 anos (pelo PSDB). Andréia Zito. Garotinho ser aqui tomado como inimigo não impede que em outros contextos as alianças possam vir a constituir-se. jura. Anthony Garotinho (PDT)161. César Maia (PFL) e Garotinho disputavam o apoio do prefeito de Caxias que já gozava de prestígio — tendo conseguido eleger a filha. a gente pode falar que tinha Caxias antes e depois do Zito. Isso não dá pra negar” (Entrevista com Sr. três ônibus com ar-condicionado e videocassete para levar os alunos da rede pública a pontos turísticos como o Pão de Açúcar e o Corcovado no Rio. “na política. "Não conhecem o mar". O Luiz Paulo (Corrêa da Rocha) teve em Caxias uma de suas melhores votações. Sinalizo aqui a constituição de grupos e de redes políticas que. [Zito] está fazendo uma boa administração. o ex-deputado federal cassado. Ainda naquelas eleições. no entanto. Nesse sentido. (Revista Isto É. Fábio Raunheitti. Zito é o Rei da Baixada. Zito gosta de lembrar que se elegeu prefeito contra "a oligarquia que mandava em Caxias há 30 anos e que tinha o apoio de Cesar Maia. Durante a campanha para o segundo turno. Afinal. 166 . falecido em dezembro de 2005. mas o poder não me subiu à cabeça’. As vagas nas escolas públicas subiram 35% e os professores ganham R$ 700 mensais. Ninguém ousou discordar. “César Maia e Garotinho estão me procurando por causa de minha performance nestas eleições. 2004: 54-55). Como me disse em entrevista. Eu transfiro votos por isso querem meu apoio”. morador de Duque de Caxias apud Barreto. Comprou. 64 anos. o então candidato ao governo do estado. a gente não tem amigos nem inimigos. 161 Ressalto que as classificações operadas para (e pelos) os atores políticos são bastante dinâmicas.

Andréia. Zito afirma não mais possuir qualquer centro de assistência e que o QG que mantinha. o prefeito [Zito]. colocou os dois candidatos frente a frente. depois de ser eleito deputado — e. Anthony Garotinho — quando perguntado a respeito de sua própria utilização desta prática política. os candidatos passaram por uma espécie de sabatina pelos presentes no auditório. há muito havia sido desativado. Zito decidiu-se então pelo apoio a César Maia que acabou perdendo a eleição — e. em seu caso. de sua base eleitoral — que. desde então. de modo geral. desativado assim que Zito ganhou o primeiro mandato executivo. a representação máxima da territorialidade do voto. mais tarde. o QG de trabalho é um “ponto de referência”. a política a ser desenvolvida não seria estritamente “local”. “Movimento Popular da Zitolândia”. em um debate promovido em Duque de Caxias para uma platéia por ele escolhida — e denominada. 07/10/1998) Em uma situação. por sua vez. a relação com Garotinho é extremamente complicada. 167 . Perfil. em vários momentos. prefeito — não havia mais sentido em sua manutenção pois. Andréia retomou a atividade desenvolvida pelo pai durante a atuação como vereador. pela Revista Isto É (14/10/1998). no mínimo. Apesar de seu discurso durante nossa entrevista ter sido pautado na crítica ao assistencialismo difundido. Laureano. e sim “mais ampla. suas críticas ao ex-governador do Rio. Há portanto em sua fala uma diferenciação marcante entre o fazer político do vereador (local e de assistência) e. em todo o território nacional e não apenas na Baixada — e apesar de ter direcionado. Zito costumava oferecer atendimento à população. Em seu primeiro mandato como deputada. Laureano. de outro lado. sem modéstia. concentrava-se no bairro Dr. Ainda segundo ele. 162 Para Zito. Entre promessas de ajuda política e juras de fidelidade a Zito. a resposta que deu contradiz o depoimento dado por sua filha. pra população como um todo”. geral. Em um espaço no terreno da própria casa.diz. a partir daí. o do deputado e o do prefeito (mais geral). (Jornal do Brasil. inusitada. ou seja. reocupando o QG do bairro Dr. O QG de trabalho162 — como preferem chamar — teria sido uma exigência da população.

[ênfase dada pelo entrevistado]. esses são vítimas dos políticos profissionais. não posso aqui avaliar — e fazer centros sociais pra atender a uma população aqui. é contra o restaurante popular a R$1. mas que é muito melhor ele estudar. o necessitado. Zito. Aquilo é um sustento naquele momento.menciona ter sido procurada pela população do município. a gente não tem opção. Então essa é uma opção pra eles. Funcionava com o trabalho de médicos do município. trabalhar […] Eu sou contra essa coisa de assistencialismo. Trabalhava como ponto de referência enquanto eu era político-vereador. Aqueles olhinhos brilhando de frente pra tela. ali. depois deputado. Meu pai tinha o QG quando era vereador. Você precisa ver a felicidade deles. prefeito. porque o pobre quer comida. 26/04/2006). Eu era vereador. da Dr. “Agora.. pela universidade pública [. eu cedia. barata […] Grande parte dos políticos não quer acabar com a pobreza..] pra ele. mas depois parou. acolá. Depois que eu fui eleita. a gente não tem atividades culturais. porque senão acaba com os currais eleitorais que eles têm 168 . aí não tem porquê mais” (Zito. Tem que ajudar o pobre. Tem gente que nunca foi ao cinema na vida” (idem). Essa coisa de assistencialismo. Eu não tinha como negar. Esses políticos não trabalham. solicitando a reabertura de tal centro. a gente tem lá um cinema comunitário. “Os pobres.00’. “Eu não acho certo isso. “Eu tive um QG de trabalho. Não pode incentivar a ele que aquilo ali é bom. essa política vergonhosa. pelo ensino profissionalizante. Eu não sou contra. Então nós voltamos a atender a população. Laureano. talvez seja mais fácil concentrar força no dinheiro — não sei se legal ou ilegal. 26/04/2006). ali. mas tem que fazer com que ele cresça. Nós não temos centros assistenciais porque não acreditamos nesse tipo de política” (Andréia Zito. as pessoas vieram me procurar e solicitaram que eu reabrisse. quer assistencialismo de qualquer jeito […] O cara fala: ‘Mas você. os trabalhadores. Mas é só esse. Na Baixada. você sabe. Talvez pra eles seja muito mais fácil não lutar pela escola pública de qualidade.

foi instaurada na ALERJ. 169 . pondo em dúvida “a verdadeira intenção das denúncias que [o advogado] encaminhou a esta CPI”. à população desses dois municípios[Belford Roxo e Magé]. o trabalhador é um acomodado por natureza”. em fazer os dois prefeitos. mas sim que eles fossem úteis às cidades em que governavam. Isso vai gerar o que? Vai gerar violência”. o crescimento desordenado da família. Naquele ano. Paulo Baltazar e Wanderley Martins — deram por concluído o inquérito164. foram realizadas algumas diligências em lugares apontados pelas denúncias entre novembro de 1999 e junho de 2000 quando. No ano seguinte. perdão. o nome de Zito foi novamente associado à violência. novamente o caso do assassinato de Ary Vieira é retomado. os sub-relatores — deputados Laura Carneiro. Ascensão e Declínio Do Mito Eu peço desculpas. pobreza e prostituição etc. Mas não foi possível. mais uma vez eu quero deixar bem claro que foi um erro meu. segundo as quais “o pobre. 164 Em abril desse ano. por fim. Zito. ou ainda a associação entre pobreza e violência. 21/04/1999). 26/04/2006). que tinha como finalidade apurar algumas denúncias sobre a rede de narcotráfico que atuaria no Rio de Janeiro e a relação de seus membros com alguns agentes políticos. Zito corrobora algumas imagens sobre a pobreza e as camadas populares. Agora pelo procuradorgeral Muinos Pinheiro Filho (Jornal do Brasil. chegou-se à conclusão de que não havia provas materiais contra o prefeito de Caxias. 163 Na tentativa de desvincular-se do discurso acusatório do assistencialismo. mas infelizmente não foi de vontade minha fazer tão somente com que eles tivessem o poder. em novembro de 1999. político. “O que mais você percebe nessa classe é a jovem grávida. 26/04/2006. Após terem sido apuradas as denúncias do advogado Edson Lourival dos Santos contra Zito (de que fazia parte de um grupo de extermínio na Baixada Fluminense e de que teria recebido ajuda do narcotraficante Niltinho do Dendê). uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). a mãe de família sem o pai.como o senhor daquele campo eleitoral que ele domina”163 (Zito. Sendo assim.

por 89. Geraldo Moreira (do PDT) — sendo apresentado pela imprensa como um “fenômeno eleitoral” (TRE/RJ) e deixando o genro de Tenório Cavalcante.679 contra 27.640. derrotando a ex-prefeita. talvez.950 votos do segundo colocado. é muito mais político. não tinha como ele vencer. não duraria muito. deram o voto a mim e me fizeram prefeito. Hydekel de Freitas. Ele não foi candidato a prefeito em 2000 porque sabia que não tinha condições de me vencer. sede pelo poder”. foi por uma falta de opção e uma vontade de mudança. Senão.06% de aprovação e a expressiva votação de 315.495 votos contra 73. Bastante assediado pela imprensa. pela coligação PPS/ PTB / PRN / PMN / PST. Eles viram [a população/ os eleitores] em mim uma chance muito remota. Mas nós tivemos sempre um bom diálogo. “Minha segunda eleição foi por mérito. reassumindo o mandato de deputado na Assembléia. Na primeira. Eu sei também que ele só foi meu vice porque não tinha jeito. uma boa convivência. Maria Lúcia. E ele é esperto. do que eu. 170 . Ou a gente se unia pra vencer ou o Hydekel ganharia.Mesmo em meio a denúncias. Washington “faz de tudo para alcançar os seus objetivos. Waldir foi eleito em Belford Roxo. Este último deixou o cargo de vice em 1998.” A aliança com Washington Reis. nessa visão de negociação e de interesse pelo poder. colocou à mostra todo o seu poder e influência políticos e não apenas por meio de sua reeleição — com 81. em quinto lugar. Zito também teve papel fundamental nas eleições de sua esposa e de seu irmão para prefeituras-chave da Baixada. alinhavada para o primeiro pleito executivo. mas cansados e sem esperança. 2000 revelou-se irrefutavelmente o ano de Zito. Para Zito. ele seria candidato contra mim.

589 e 27. “Presidente do diretório local do seu partido. dois caciques locais — com 35. tendo sido um dos nomes-fortes do ex-prefeito de Caxias e um de seus mais importantes articuladores. Nesse caso.27).802. deputada estadual no terceiro mandato e do deputado federal Dr.). por exemplo. é advogado e contador e foi um dos responsáveis pela entrada de Zito na vida política. Andréa Zito. conseguiu emplacar dois parentes seus como prefeitos em outras duas cidades da Baixada e um outro familiar ocupando a Assembléia Legislativa do Estado. Nesta reeleição [2000]. Pollak (1989). Somados os votos dessa família. Azair Ramos (prefeito de Queimados) e o governador do Rio de Janeiro. Heleno Augusto de Lima. aproximamo-nos do meio milhão de votos” (Soares. o que poderia explicar o “esquecimento” representado pela 165 Zito contou também com o apoio de sua filha. Hoje está em seu segundo mandato. Joca166.Em Magé. do PDT) e.cit. apesar de sua força conjunta. Tendo como base eleitoral Duque de Caxias — mais especificamente o bairro Dr. Bornier apoiou Maria Lúcia.. Narriman derrotou Nelson do Posto (PDT) e Núbia Cozzolino (PTB). como salientou Monteiro (op. Anthony Garotinho (na época. a memória de Joca estava diretamente relacionada às suas ações anteriores e não a objetos ou lugares de memória (Nora. 1984). Em Belford Roxo. p. juntamente com Antônio de Carvalho (prefeito de São João de Meriti). conhecido como Dr. A derrota de Maria Lúcia significou mais do que a inclusão de um novo município no rol de influência de Zito. ambos do PSDB. garantiram a vitória contra uma adversária de prestígio local. 171 . mas excessivamente ancorado na figura de seu marido. conjuntamente. Heleno. 32. Heleno. cit. Correspondeu a uma tomada de posição frente à rede política do exprefeito de Nova Iguaçu e deputado federal Nelson Bornier na região. 166 Sobre os processos de conservação e reelaboração da memória. ver. elegeu-se prefeito e se reelegeu. Laureano e adjacências — foi eleito deputado federal (pelo PSDB) pela primeira vez em 1998. A transferência do capital político de Zito ao irmão foi possibilitada por diversos fatores que. não foi possível deter a popularidade de Zito — cuja estratégia de construir a campanha de Waldir como um elo de ligação e de continuidade com a sua foi extremamente eficaz. op.453 votos respectivamente165.

Waldir Zito. numa vontade enorme de retornar a ser prefeito em 2008” (Zito. Waldir167. foi eleita prefeita de Magé (Folha de São Paulo. Núbia pode comemorar também a vitória do sobrinho Renato Cozzolino (PSC). que o processo de mitificação política de Joca se restringisse a objetos concretos como um túmulo. Não era possível. por outro lado. 168 “Outra família tradicional da política fluminense a manter seu espaço parlamentar é a Cozzolino.inexistência de um culto ao político após a sua morte e. fui pro PDT e agora retornei ao PSDB.109-110) afirma que a “mitificação política de Joca é fluida porque na realidade todo o seu carisma embasava-se muito menos nos seus atos espetaculares e muito mais na percepção popular de que Joca era parte do povo belforroxense e de que suas soluções somente diferiam em grandeza das soluções tradicionalmente encontradas pela população baixadense. cuja mulher. 11/10/2002). Em 2001. Narriman Felicidade. na Baixada Fluminense. vencer Núbia Cozzolino significou romper com um reinado de mais de uma década na região de Magé e Guapimirim168. A deputada federal Núbia Cozzolino (PPB). no caso. que foi eleito hoje. ficando com a última vaga de seu partido. Ele me deu muita credibilidade política. O candidato do PPS. “Num momento da minha vida enquanto prefeito. Muito mais próximo que todos os objetos que possam lembrar Joca está a convivência diária com problemas para os quais Joca significava em primeiro lugar uma solução. 172 . José Camilo Zito. pp. reeleito para o segundo mandato consecutivo. é o irmão caçula de Zito. se reelegeu. A prefeitura de Belford Roxo. é mais uma a ser controlada pelo clã Zito. alegando insatisfação com a forma como o partido vinha tratando Marcello Alencar. Eu tenho ele como um pai. cit. 26/04/2006). ele me deu uma chance de mostrar quem eu era e hoje eu me encontro no PSDB e sou candidato a deputado estadual. Da mesma forma. teve o problema da doença do Marcello e houve assim uma falta de respeito para com ele que eu não gostei e saí do partido. quase entrei no PMDB. a busca por outro salvador. 167 Na tentativa de explicar tal esquecimento. por intermédio de seu irmão. portanto. Solução que mesmo parcialmente já era proporcionada pela rede de resolução de problemas práticos. liderado pelo prefeito de Duque de Caxias. uma estátua ou uma rua. Monteiro (op. reeleito para a ALERJ” (Agência Carta Maior. novamente pelo convite do Marcello. um clã muito forte na região de Guapimirim e Teresópolis. 29/10/2000). Zito deixou pela primeira vez o PSDB. Zito. após a sua doença. que responde a processo por supostamente ter encomendado o assassinato de um jornalista no ano passado. um livro de memórias.

sempre defendeu o Brizola. o deputado Geraldo Moreira fez críticas à filiação de Zito. na cidade do Prefeito. para sabermos quem. como diz o Governador Garotinho. mesmo tendo força na Baixada. deflagradas a partir do discurso do deputado André Luiz. Já lhe ouvi dizer que Brizola era o grande líder: perdeu o poder. Houve manifestações contra e a favor e. Não reconhecer que. quero falar sobre o regozijo que todos nós temos com a entrada do Zito no PMDB. a população que o elegeu deu para o Zito o maior atestado que um político pode ter — 80% dos votos — é desconhecer a própria realidade. S. garanto. o PMDB. perdeu o companheiro. teria que haver uma ficha criminal limpa. mas a leviandade nas declarações tem que ser medida e comedida. talvez. esse negócio de pedir ficha criminal. 05/06/2001). Também gostaria de dizer ao nobre Deputado que me antecedeu que. Na ocasião. Em primeiro lugar. Exa. Presidente. que saíram em defesa de Zito e do partido que o acolhia. tenha experiência de abandono. tem que pedir a de muitos companheiros. se o Zito fosse à margem da Lei. de fato. temos história. Zito significava capital político para qualquer partido e. Respeito o Deputado que me antecedeu pela sua história e pela sua trajetória. cenas de confronto entre deputados na ALERJ dias antes de sua filiação. afinal de contas. se for pedida a de muita gente. não podia abrir mão dos cerca de 500 mil votos representados por sua rede política na região. Sr. Agora. As acusações que pesavam sobre ele eram 173 . porque. Obrigado. não teria sido reeleito Prefeito de Caxias. (Deputado Paulo Melo. (Deputado André Luiz. Tal declaração foi imediatamente respondida pelos deputados André Luiz e Paulo Melo. é a pessoa”.O “flerte” entre Zito e o PMDB não passou incólume. [eles] nem nesta Casa estariam. alegando que “no meu Partido. 05/06/2001). nas eleições de 2002. Como Deputado. inclusive.

com destaque até mesmo em jornais de âmbito nacional como. assessor da deputada estadual Núbia Cozzolino (PTB). do PTB). por volta das 18 horas do dia 16 de agosto de 2001. os confrontos foram se tornando cada vez mais acirrados. Trazendo novamente à tona a questão da violência política na Baixada. Foi apontado como possível mandante do assassinato do jornalista Mário Coelho de Almeida Filho. o episódio marcou a disputa entre duas famílias pelo poder político em Magé: a de Zito e a de Núbia Cozzolino. chegando até mesmo a responder a processo como mandante do assassinato. 174 . do jornal A Verdade. Conforme ilustra a matéria reproduzida abaixo. Ainda nesse ano. Núbia. tendo como principal estratégia de ataque as denúncias feitas por intermédio da imprensa escrita. a matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 19/09/2001. ele novamente teve seu nome vinculado a acusações de violência.minimizadas em prol das possibilidades eleitorais advindas da ligação com o “rei da Baixada”. insinuando que Narriman Zito. A Polícia do Rio está investigando se o assassinato de Marílton dos Santos. como era conhecido. ocorrida no último 169 Houve grande repercussão no assassinato do jornalista. quando chegava em casa. 49. foi assassinado com cinco tiros. 42. de Magé. por exemplo. Mariozinho. As denúncias contra Zito foram motivadas devido à ação que movia contra o jornalista — por ter usado o espaço em seu jornal para reproduzir uma declaração da deputada estadual Núbia Cozzolino (na época. prefeita de Magé e mulher do prefeito de Duque de Caxias. diretor administrativo do jornal "A Verdade". estaria tendo um caso com um segurança169. tem alguma ligação com a morte do jornalista Mário Coelho de Almeida Filho. um dos alvos preferenciais do jornalista assassinado — que freqüentemente publicava matérias contrárias a ela e a sua família no jornal — também foi acusada neste inquérito.

uma delas uma pistola 380 — mesmo calibre da arma utilizada para matar Mário Coelho Filho.dia 16. prefeito de Belford Roxo e irmão de José Camilo Zito dos Santos. Em seu apartamento. Em depoimento ao 66ª DP (Piabetá). em Piabetá. 175 . reconheceu que Manoel foi guarda-costas de sua filha. por suspeita de assassinato no caso do jornalista Mário Coelho Filho. duas testemunhas que ajudaram a fazer o retrato-falado e que haviam reconhecido Manoel Daniel de Abreu Filho por foto não sustentaram o reconhecimento pessoalmente. Negou-se a dar declarações sobre esse assunto e afirmou que só vai responder em juízo. na presença de um advogado. Santos foi encontrado morto com um tiro na barriga. mantinha um romance com um ajudante-de-ordens. Narriman Zito (PMDB). O juiz de Magé decretou a prisão preventiva do sargento a pedido do delegado Hallak. foi preso no dia 14 de setembro de 2001. Abreu ficará preso no 20º Batalhão de Polícia Militar. em Belford Roxo. às perguntas sobre seu trabalho com a família do prefeito de Duque de Caxias. esposa de Waldir Zito. A família Zito nega qualquer relação com os crimes. José Camilo Zito dos Santos (sem partido). depois que uma denúncia anônima em 13 de setembro levou-o até Abreu Filho. A relação de trabalho do suspeito foi confirmada pelo próprio prefeito Zito dos Santos que. que disse à polícia que não vai a Magé há 10 anos. no município de Mesquita. até que seja feito o exame de balística para comparar se os tiros que atingiram o jornalista saíram de sua pistola. Manoel Daniel de Abreu Filho. 55 anos. foram encontradas duas armas. O sargento reformado da Polícia Militar. Mas ainda falta confrontar o preso com outras testemunhas. 23/08/2001). Manoel Daniel de Abreu Filho. a família de Santos afirmou não acreditar que o crime tenha ligação política (Folha de São Paulo. mulher do prefeito de Duque de Caxias. em uma entrevista para os jornais do Rio de Janeiro. A deputada insinuou no jornal "A Verdade" que a prefeita de Magé. distrito de Magé (a 60 km do Rio). na madrugada de ontem. parte da Baixada Fluminense. Segundo o delegado Hallak. a deputada estadual Andreia Zito. trabalha como guarda-costas de Maristela Corrêa Nazario. mas que deixou de trabalhar com Andreia "para ficar mais perto de casa". O delegado pretende pedir a quebra de sigilo telefônico do suspeito e sua ficha de antecedentes criminais para verificar se teve participação no crime e o motivo.

uma pessoa do povo. com acusações recíprocas. a deputada do PPS criou uma comissão para acompanhar o assassinato do jornalista de A Verdade. 176 . Se a imprensa era o palco mais visível das disputas entre as famílias Zito e Cozzolino. há cerca de 20km da cidade. Eu. Lídia não tinha experiência política. mais um caso de assassinato. Através do requerimento 490/2001. André Luiz e. foi solicitado o adiamento da votação e a não inclusão de deputados com qualquer suspeita de vinculação com o caso na comissão que acompanharia o assassinato do jornalista — além de terem sido feitas severas críticas ao “comportamento” da deputada e à sua tentativa de “fazer politicagem” a partir do episódio da morte do jornalista170. na estrada MagéManilha. foi encontrada carbonizada dentro de seu automóvel. Com o apoio dos deputados José Távora. Afirmou que é vítima de perseguição política por ser candidato à sucessão do governador do Rio de Janeiro. declarando apoio a um lado ou a outro. Em 2002. "não era muito esclarecida. engenheira. matéria de Clarinha Glock. Lídia Menezes (PSDB). uma boa mulher que me representava publicamente” (Folha de São Paulo. por ser uma negra. Desta vez. Sivuca. Washington Reis. inclusive. Segundo Narriman. Anthony Garotinho (Jornal Impunidade. fazia o trabalho técnico e o planejamento da cidade. o prefeito disse ao jornal O Dia que pretende processar o delegado Ricardo Hallak e o Estado por perdas e danos e calúnia por vincular seu nome ao crime.Depois de saber que duas testemunhas não reconheceram o suspeito. transformando a sessão de 3 de outubro daquele ano em um palanque no qual aliados e adversários pronunciavam-se com veemência. 02/06/2002). setembro de 2001). a ALERJ tornou-se igualmente cenário de confrontos entre Andréia Zito e Núbia. Mas fui eu quem a coloquei ali. a vice-prefeita de Narriman. 170 A transcrição integral da sessão ordinária de 03 de outubro de 2001 pode ser consultada no Anexo.

em todas elas desviando o foco das atenções para Narriman. Também no ano de 2002. realizada em fevereiro daquele ano. Segundo Jorge Cosan. Dessa forma. segundo ele próprio. motivo pelo qual a cidade transformara-se em um imenso barril de pólvora. o PSDB cogitava o nome de Zito para uma possível candidatura própria ao governo do estado. lhe causou algum ônus. Apesar das acusações e conflitos. presidente do PSDB de Magé. com 30%. 177 . aparecia a vice-governadora. “Qual o objetivo de matar a vice-prefeita? Será que querem tirar a prefeita do cargo? Será que alguém está interessado em ocupar o Executivo com a ocorrência destes crimes? Estas mortes são por motivação política e nunca são investigadas a contento” (idem). acompanhou as caminhadas e comícios do presidenciável em Duque 171 No início do ano. era ser candidato a governador e eu confesso que deixei um pouco a cidade meio que de lado. “A minha intenção. Jorge levantou algumas hipóteses sobre o ocorrido. naquela época. Em primeiro lugar. mas quando eu percebi que a minha ausência [es]tava fazendo falta. Alertando que mais pessoas poderiam morrer. De acordo com a pesquisa de intenções de voto do Datafolha. acabou se ausentando bastante da cidade o que. os crimes políticos não eram apurados. Com o lema “vamos serrar”. assim como as declarações da prefeita e de membros de seu secretariado. Zito foi escolhido coordenador da campanha presidencial de José Serra no estado (e anunciado como tal em abril daquele ano). Viajando pelo estado. já de volta ao PSDB e seduzido pela possibilidade de disputar as eleições para o governo do Rio de Janeiro171. as expressivas vitórias nas urnas em 2000 e em 2002. Deixei o time trabalhando na cidade. eu retornei”. Sérgio Cabral (PMDB) e Zito (PSDB) apareciam tecnicamente empatados — com respectivamente 18% e 17% — em hipótese que excluía a candidatura de Garotinho (PSB).As versões sobre o crime giraram em torno de questões políticas. Benedita da Silva. na tentativa de formar alianças e de fortalecer-se politicamente. possibilitaram a Zito começar a trabalhar no projeto político de tornar-se governador do Rio de Janeiro. os adversários da prefeita eram automaticamente colocados sob suspeita e a morte capitalizada em revolta e solidariedade.

Viegas (1997) e Heredia (1999). ver. O apoio subseqüente aos candidatos Jorge Roberto Silveira (PDT) ao governo do estado do Rio de Janeiro e Ciro Gomes. Ele deixa o partido para anunciar o apoio a Jorge Roberto Silveira (PDT). As tentativas de alianças (com o PDT. Benedita173 da Silva (PT). no entanto. seu desafeto — além da perda de prestígio do partido após as sucessivas derrotas de seu fundador. à Presidência da República.de Caxias. Zito queria ser candidato ao governo estadual. o governador Anthony Garotinho teria se desentendido com ela. ele se reuniu com a governadora. O prefeito ainda não anunciou quem irá apoiar para presidente. 173 A aproximação com Benedita havia ocorrido desde o início do mandato de vice-governadora. mas não contou com o apoio da direção do PSDB. com quem almoçou. por intermédio dos projetos sociais vinculados à Baixada Fluminense. a executiva nacional resolveu não lançar candidato próprio ao governo do estado do Rio de Janeiro172. O prefeito encaminhou o pedido de desfiliação para a Executiva Estadual. da Frente Trabalhista. alegando que Benedita o traíra ao receber dois de seus desafetos políticos: César Maia e Zito (p. na sucessão a governador. acaba de deixar a seção do Rio de Janeiro do partido. mas deve 172 Sobre as disputas no interior de uma mesma facção e de como a política é percebida pelos próprios políticos. Insatisfeito com a falta de apoio da Executiva Nacional do PSDB. fracassadas. exprefeito de Niterói. por exemplo) foram. Pela manhã. o prefeito de Duque de Caxias. que ainda não se pronunciou. Tal filiação o colocaria como um dos principais nomes do partido no estado. sendo assim. José Camilo Zito dos Santos. tendo em vista seu esvaziamento após a saída de Anthony Garotinho. Leonel Brizola. conforme já vinha sinalizando desde a semana passada. Zito é disputado pelos atuais candidatos. Por contar com forte influência na região de Duque de Caxias. 178 . que fechou coligação em torno da deputada estadual Solange Amaral (PFL). foi o primeiro passo na direção da futura migração ao PDT (concretizada apenas em 2003).6). Em notícia divulgada pelo Jornal do Brasil de 12/11/2000. O apoio do partido à candidatura de Solange Amaral (PFL) para o governo do estado do Rio de Janeiro frustrou o projeto político de Zito de ascensão ao Palácio Guanabara — deixando-o extremamente contrariado.

sua trajetória política esteve desvinculada de uma ideologia partidária. visto que Zito somente conseguiu levar consigo quatro vereadores de Duque de Caxias (dentre eles. eles aproveitaram e fizeram a imposição de uma candidatura apoiando a Solange Amaral. acabou se desentendendo com os tucanos e aderindo a Ciro Gomes (PPS) ainda no primeiro turno. E essa imposição fez com que eu me afastasse do partido e do grupo político que lá estava. “Pelo Marcello [Alencar]. Belford Roxo. No segundo turno. 15/07/2002). O prefeito. Tal mudança de sigla também não significou demonstração de força ou adesão a seu nome. por intermédio da então governadora Benedita da Silva. Desde o início. com recursos de R$ 1.3 milhão (Agência Carta Maior. Sua filha e esposa optaram por não mudar de partido. 16/09/2003). apoiou Lula. por considerar que o candidato teve atuação tímida em favor de sua candidatura ao governo (Folha de São Paulo. Resolvi abandonar a campanha do Serra e não aceitar a candidatura da Solange” (Zito. durante a campanha presidencial. nós teríamos candidatura própria e quando o Marcello adoentou-se. 179 . que é minha amiga. foi incluído no programa de erradicação dos lixões do programa Fome Zero. 26/04/2006). um dos municípios mais pobres do Rio. atrelando-se diretamente à construção de sua persona pública — e a constante troca de partido só reforçava esta situação. A direção nacional do PT começou a se aproximar de Zito no fim do ano passado. foi deputada comigo.descartar um apoio a José Serra (PSDB). que começara 2002 como coordenador da campanha de José Serra (PSDB). Laury Villar). que tem 450 mil habitantes e deu a Lula mais de 90% dos votos no segundo turno das eleições. A saída do PSDB não implicou a perda de prestígio de Zito. Os agrados em retribuição vieram primeiro para o irmão Waldir Zito.

Para Andréia. mas ele me escuta. E eu. a saída do partido marcava a posição de Zito na queda-de-braço interna ao PSDB. sim. que eu gostava do partido — me identifico com suas ideologias — e que eu preferia continuar. Que eu ia continuar porque pra mim era melhor. Ele entendeu a minha posição e não me criticou. respectivamente. 11/10/2002). pois seu prestígio “não havia sido abalado”. Agora. deputada estadual com 56 mil votos. Zito conseguiu. Andréia Zito. “Ao contrário do que todo mundo fala. a deputada Andréia afirma que ele não manifestou qualquer contrariedade com relação à sua decisão. seu poderio se alastra ainda mais (Agência Carta Maior. Com um mandato já cumprido e alguma experiência acumulada — de lidar com o eleitor. Como seu trânsito entre alguns partidos e pessoas importantes ainda estava garantido e sabendo que seu peso político certamente não seria descartado. e eu fui conversar com el. Há dois anos. Decerto. Andréia.Apesar de muito criticada por não ter acompanhado o pai. bancar as eleições do irmão Waldir e da mulher Narriman para as prefeituras de Belford Roxo e Magé. Mas a minha vida política é uma coisa e a do meu pai é outra. eu falo com ele. José Camilo Zito (PSDB). Zito pôde arriscar-se. ele me ouve muito. Falei que não achava uma boa idéia a saída dele do partido. mas eu resolvi que era melhor ficar” (26/04/2006). Nós temos um projeto sim. meu pai não é um ditador. inclusive — Andréia esperava uma 180 . A gente conversa muito. sou quem resolvo as minhas coisas. a saída do pai do PSDB não repercutiu negativamente em sua votação em 2002. mas relacionava-se mais imediatamente à busca pela operacionalização de seu projeto político. não entenderam. Os outros. escuto ele. O rei da Baixada Fluminense. não teve dificuldades para eleger a filha. é que criticaram. a gente conversa muito. até então barrado pelo partido. E o fez. além de se reeleger prefeito de Duque de Caxias.

Cláudia Cataldi. ela foi bem votada. alegando precisar ficar “independente na política”. percorri as ruas. Na eleição estadual. foi o principal motivo de comentários ontem nas duas cidades e no meio político. os problemas com Narriman começavam a aparecer e a imprensa não deixou passar em branco.] quem não gostou nada das insinuações dos políticos da região de que o coração de Zito já teria dono foi a Secretaria de Comunicação [Duque de Caxias]. por exemplo. para Ciro Gomes. Eu fui aos showmícios. O jornal O Dia. conseguindo reeleger-se. Benedita da Silva (PT). Nessa eleição. em São João mesmo. Apesar de sua avaliação pouco otimista. teriam que votar nele e preferiram abrir mão de votar em mim”. Heleno]. explorou bastante a crise conjugal e sua repercussão em termos políticos para ambos os lados.votação mais expressiva. a confirmação de problemas em outro setor da vida marcou Zito. depois. Ela afastou as pessoas próximas a Zito da prefeitura de Magé. eu fiz mais campanha. outdoors juntos. Assim como na eleição para a Presidência da República: o apoio de Zito foi para Serra (PSDB) em um primeiro momento da campanha e. “Eu fiquei muito chateada. Se desde o final de 2001 os boatos envolvendo o casal já apareciam. José Camilo Zito dos Santos. Narriman Felicidade. e da prefeita de Magé.. em 2002 (junho). Dr. ele apoiou Jorge Roberto Silveria (PDT) e ela.. que se votassem em mim. mas a ligação de meu nome ao de um candidato a [deputado] federal me prejudicou um pouco [referindo-se ao candidato a deputado federal de seu partido. Muitas pessoas não queriam votar nele e acharam que como fizemos campanha juntos. apoiando Lula apenas no segundo turno. [. “A notícias da separação do prefeito de Caxias.” 181 . Apesar da vitória com sua absolvição do assassinato de Ary Vieira em março daquele ano. Já sua esposa manifestou seu apoio ao PT de Lula desde o início da campanha presidencial. um momento difícil.

as atividades da família Abrahão David são incompatíveis com o ideário petista.Naquele mesmo ano. José Genoino. prefeito de Caxias) utilizam-se de práticas políticas condenáveis e são suspeitos de outras atividades ilícitas”. A prefeita e seu marido (José Camilo Zito dos Santos. 182 . “No momento em que parlamentares éticos são punidos pelo partido. No ano seguinte. “Essa não é uma questão partidária. Exprocurador de Justiça do Estado do Rio. O problema é que pesa sobre esse grupo político uma vinculação com o bicho”. Leal (1975). defendida pelo presidente nacional do PT. anteontem: “Sou do tempo em que quem era recém-admitido no partido era soldado raso e não general cinco estrelas. que já criticara a punição do deputado Chico Alencar por ter se abstido na reforma da Previdência. Carlos Minc. A bancada do PT na Assembléia Legislativa decidiu ontem. por seis votos a um. Chico disse que ficou surpreso com a participação de Narriman no programa do PT na televisão. “O patrimônio ético do PT não pode ser atingido por filiações como esta. Parte do PT fluminense reage à estratégia. parte da estratégia de tornar o partido uma das duas maiores forças políticas no Estado do Rio em 2004. o PT cogita a filiação desse tipo de pessoa”. disse Minc. além do capital político advindo de uma vinculação ao nome de Lula174. dividiu o PT. em outro episódio polêmico. criticou Biscaia. A ofensiva petista nos municípios fluminenses. “Estou namorando meu ex-marido”. Só Palmares foi a favor. que tampouco trouxe as vantagens esperadas (e desejadas) — a possibilidade de angariar recursos financeiros junto ao governo federal. foi a vez de Narriman trocar o PSDB pelo PT. No Câmara dos Deputados também houve protestos. entre outros. O programa era discutido. disse Biscaia. enfatizando a necessidade de “união da família”. ser contra a participação na prefeitura de Nilópolis. havia critérios rigorosos para participar desses veículos de massificação do ideário 174 Sobre a relação entre captação de recursos e redes políticas ver. Para o líder do PT na ALERJ. disse Narriman ao jornal O Dia de 22/12/2002. Bezerra (1999a e 1999b). os dois se reconciliaram. o deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) criticou a filiação de Narriman.

Houve contestação do diretório regional tanto da filiação de Narriman quanto da aliança com Abrão David. enviar sua 183 . José Camilo Zito dos Santos (PDT). o Anísio. no entanto. (O Globo. demitir funcionários. Ambas ações haviam sido aprovadas pela direção fluminense. A filiação de Narriman Zito ao PT. 10/09/2003). ao clientelismo e ao uso da máquina política com fins eleitorais. A Executiva Nacional do PT aprovou a filiação ao partido da prefeita de Magé (RJ). dos discursos que o ligavam à violência. Sobretudo ao presidente regional do PT. que criticou sua filiação (Agência Carta Maior. acabou se revelando mais problemática que qualquer ajuda financeira do governo federal. A imagem política de Narriman não podia ser desconectada da de Zito e. As duas decisões dividiam os petistas do Rio de Janeiro. Narriman causou desconforto. Antonio Carlos Biscaia (PT).petista”. inconformados com a nova postura adesista. Mas a participação no governo do PP de Nilópolis foi agora derrubada por meio de pressões da Executiva Nacional (Folha de São Paulo. 14/10/2003). irmão do banqueiro de bicho Aniz Abrão David. portanto. que viu sua intenção de levar o partido a participar do governo de Farid Abraão David (PP) em Nilópolis ser rejeitada pelos outros seis deputados da bancada petista na Assembléia do Rio. Narriman piorou as coisas ao anunciar que pretende processar o deputado federal e ex-procurador-geral de Justiça do Rio. A Executiva pressionou e obteve do Diretório Municipal de Nilópolis (RJ) a rejeição à participação de petistas na gestão do prefeito Farid Abrão David (PP). eleita pelo PSDB e mulher do prefeito de Duque de Caxias. 16/09/2003). O ex-deputado Milton Temer preferiu ironizar: “Ou não era o programa do PT ou não era a Narriman”. Elevada à condição de estrela do programa de TV do partido sem consulta prévia às lideranças regionais petistas e apenas dois dias após ter sido filiada. acusado de envolvimento com grupos de extermínio que atuariam na Baixada Fluminense. Conduzir reuniões. deputado estadual Gilberto Palmares. A ingerência de Zito na administração dos municípios chefiados por seus parentes era alardeada pelos jornais. Narriman Zito.

os Cozzolino não tinham desistido de Magé. e eleitos foram. 175 Na entrevista que me concedeu. Zito referiu-se a este assunto da seguinte forma: “Não é verdade. alterou as demais relações. Os conflitos acompanharam todo o mandato de Narriman — por meio de denúncias em jornais (como as acima apresentadas) ou dos atendimentos realizados pela deputada Núbia e sua equipe. ao mudar de posição. Além disso. mais impulsivo na demonstração de que eles não [es]tavam agindo corretamente como deveriam. mas do outro lado foi bom porque. hoje. sem dúvida. eles não podem dizer que se não fizeram um bom governo. um bom trabalho. assim. Além disso.. a aspectos ideológicos. Eu sou um homem que respeito muito a condição de qualquer um e o exercício da eleição — que por ela passaram os dois. desejosa de uma atuação semelhante à de seu marido em Duque de Caxias. que eles levassem pra que eles pudessem atuar lá como eles atuaram aqui. foi por intervenção minha ou coisa parecida”. Tanto que ninguém nunca me viu lá mandando em nada.mas nunca desrespeitando a democracia e a posição que eles ocupavam enquanto prefeitos. Narriman era uma peça importante no tabuleiro político da Baixada que. E eles governaram a cidade deles sem nenhuma intervenção minha.. noticiadas pela imprensa como comprovação da existência da “Zitolândia”. Se eles assim pretendessem. 184 . produzindo efeitos sobre outros atores e outras possibilidades de alianças eleitoralmente relevantes para alguns projetos políticos de membros do PT. o que gerava inquietações. quando eu percebia que alguma pessoa ligada a mim pudesse ajudá-los. O município governado por Narriman não contava com uma arrecadação tão expressiva quanto a de Caxias. marca registrada do governo Zito. eu sempre deixava à disposição. Sua administração à frente da prefeitura de Magé tampouco trouxe os resultados esperados pela população. mas evidentemente não podemos menosprezar as questões eleitorais implicadas em sua adesão ao novo partido. Eu confesso que eu até deveria ter sido mais duro. de ser um mero fantoche do marido175. seu nome e suas relações políticas poderiam gerar uma alteração na configuração das forças internas ao partido no estado.equipe para “dar suporte técnico” foram algumas de suas ações. que eu tinha por eles um respeito enorme. A objeção de membros do diretório estadual à sua filiação ligava-se. funcionário nunca me viu nem sequer sentado na cadeira deles. inviabilizando uma administração voltada exclusivamente para a realização de obras. Claro que. Narriman era acusada.

já me afastei e na reeleição. a filiação de Narriman ao PT foi um equívoco. “Eu não estive nenhuma vez lá [na reeleição da Narriman] porque nós tivemos alguma divergência política.Na avaliação de Zito. Isso não foi feito. deixaram ela à deriva. de governo. 176 Em 2003. greves de motoristas de vans e todo tipo de denúncia sobre uso ilícito de dinheiro público. Desde o ano anterior. ela não era reconhecida pelos demais membros do partido como “um deles”: “[Era] um peixe fora d’água no PT. estreitou relações com José Genoíno e Gilberto Palmares na tentativa de uma coligação PDT-PT contra a força de Garotinho no estado. Eles usam você” (idem). No entanto. teria levado até Magé muitos recursos através de deputados federais. Zito já havia desistido da reeleição de seu irmão. Está bem claro atualmente que o PT não sabe governar. não hove conciliação nas negociações em torno do nome para disputar a eleição em Duque de Caxias e Zito acabou escolhendo um nome do próprio partido. tanto quanto na de Andréia. Para o primeiro. Começavam aí os desentendimentos que resultariam na ausência de Zito durante toda a campanha para a reeleição de Narriman176. Ela já se achava pronta para caminhar sozinha politicamente e eu. Freqüentou reuniões em Magé juntamente com sua esposa. no governo dela. Waldir tinha um grande índice de rejeição: em sua gestão. “Se o PT quisesse. A eleição municipal de 2004 traria novas surpresas. […] Eles [o PT] têm as cartas marcadas. então. estaduais e feito com que o trabalho dela e de tantos outros prefeitos que eles governam pudesse aparecer. Pelo contrário. a cidade sofreu com paralisações de servidores municipais. 26/04/2006). 185 . Zito parecia inclinado à adesão ao PT. Só dão a César o que é de César. também não fui mais lá” (Zito. em Belford Roxo. Foi usada sem que lhe dessem retorno político e governamental. E não souberam ajudá-la para que ela fosse uma prefeita melhor do que foi”. A cidade continuava com os mesmos problemas de antes e as promessas de que “Waldir é Zito” não se concretizaram.

a bandeira da continuidade desse projeto político e o apoio do Zito. a minha competência na forma de administrar essa cidade” (entrevista com Laury Villar. em agosto de 2004). Diante da impossibilidade da transferência de seu capital político a um dos membros da família. Eu acho que hoje o governo que o Zito fez na nossa cidade resgatando a auto-estima e a cidadania do povo de Duque de Caxias tem sido uma marca muito grande. e isso. Narriman. hoje. no entanto. o projeto que não é mais uma pessoa. fazendo a opção por um candidato que não era o preferido. Andréia não podia disputar a prefeitura como “sucessora natural” de seu pai. e sim o de toda uma cidade e o apoio dele é fundamental. Não que ele não seja 186 . com certeza. é fundamental. eu vou poder mostrar a minha capacidade. tentava a reeleição e Waldir não havia demonstrado habilidade no exercício do mandato executivo — estando. aí sim. eu tenho certeza que o Laury será prefeito muito mais pelo apoio de tudo aquilo que o Zito fez na nossa cidade. Laury não era o nome mais indicado para concorrer ao pleito. por sua vez. a alternativa foi escolher entre um dos aliados “de fora”. e eu tenho certeza que com o apoio dele. Que nome seria capaz de substituir Zito? Seu carisma seria transferido ao sucessor? Quem seguiria o seu estilo político? Devido à legislação eleitoral. por conseguinte. Laury Villar — que ingressou no PDT juntamente com Zito — foi o escolhido pelo partido para concorrer à prefeitura de Duque de Caxias. mas diante da hesitação partidária frente às demais opções. não tenha dúvida. descartada a possibilidade de manter-se como um dos peões no jogo político de Zito. acabou apoiando tal candidatura. Sob o lema da continuidade política. com projeto político próprio. “Eu tenho consciência de que. “Eu cheguei ao término [do mandato]. é a minha bandeira. eu represento o ‘Projeto Zito’. a sucessão tornou-se uma questão complicada. Na avaliação de Zito.Em Duque de Caxias.

em 1989. Formado em Administração de Empresas e em Direito. Mas você sabe que o poder é o poder. na época. Após cinco mandatos consecutivos. Mas eu tinha outras idéias. eu acho que ele ainda está jovem pra isso”. deixaria a vida pública em 1988. de Madureira (subúrbio carioca). no noroeste fluminense. Laury permaneceu por onze anos — atravessando distintas administrações — sendo responsável pela implantação de projetos de vulto como a Vila Olímpica de Duque de Caxias (através de verba do Ministério do Esporte. mesmo que eu tivesse por trás. não é isso. e sua mãe. pelo conhecimento político dele. Nesta função. que foi vereador comigo. de casamento e tal e isso traria um desgaste enorme na campanha. no governo do então prefeito José Carlos. sob o comando de Pelé). A trajetória de Laury Villar está intimamente relacionada com a de seu pai. Muito ligado ao meio esportivo e com um bom trânsito político. Este último era natural de Campos. Eu acho que era um grande nome pra cidade. mas ele resolveu não ser candidato. o escolhido foi o Laury já que eu sempre tive por ele uma grande admiração. Não que eu perdi a empolgação com ele. Laury é casado e disputou a primeira eleição em 187 . pela vivência que nós tínhamos. né? Eu acho que ele pode até ser um bom vice. mas aí teve um problema na vida dela familiar. não é isso. Mudaram-se para Duque de Caxias em 1945. né? Sondei um grande amigo meu que foi presidente da Câmara na minha época. cujo nome herdou. O ingresso de Laury (pai) na vida política daria-se apenas em 1966 (como vereador). mas não o titular. conseguiu que seu filho fosse nomeado Secretário de Esporte do município. se tivesse na minha vontade. pessoal. Volto a frisar que não seria o meu candidato enquanto prefeito porque ele era vereador — foi meu Presidente da Câmara — mas eu não via ainda uma experiência avantajada para que ele viesse a ser prefeito. Depois eu achei que a Secretária de Educação [Roberta Siqueira] seria um grande nome pra ser a minha sucessora. Então. a caneta seria dele então […] não era o nome que eu escolheria. Não porque eu vim a perder as eleições com ele.uma pessoa que não tenha qualidades para exercer o poder e não que eu não tenha confiança e não que eu não gostasse.

“Estudado” e sempre “bem vestido”. e a secretaria que comandava. lança mão de características como a discrição e o equilíbrio em contraposição à impulsividade de Zito. Não reunia características que possibilitassem sua associação a Zito ou mesmo a seu discurso. de segundo escalão. A transferência do carisma de Zito. M. não podemos dizer que Laury seja um político carismático ou de grande expressão eleitoral. com seu linguajar simples e trajes “de gente do povo”. 58 anos.2000. como mencionado por um de meus entrevistados (Sr. para o qual foi eleito com 4. A associação com a “gente de dinheiro”. no entanto. Grosso modo. Apoiado pelo prefeito. bastante vinculado à imagem de “homem do povo”. segundo ele próprio — ao cargo de vereador pelo PSDB. Fui candidato a presidente da Câmara para o biênio 2003 e 2004. Sua atuação sempre foi mais técnica. o discurso de Laury centra-se no tema da continuidade. diferenciando-se do prefeito de Caxias. concorrendo — a pedido de Zito. ficou entre os dez mais votados no município. Fui eleito por unanimidade” (entrevista com Laury Villar. “Assumi meu mandato e o prefeito já me deu uma incumbência muito grande que foi ser o líder do Governo na Câmara. “pessoa direita” e de pautar a construção de sua fala e de sua apresentação de si na ética e na responsabilidade — que também parecem ter marcado a vida pública de seu pai — ele não era conhecido por parte significativa da população do município. Laury não exercia a mesma “mágica” de Zito. Sua 188 . morador da Vila Operária). não impedia que Laury fosse também classificado como “gente de bem”. Na definição que elabora a respeito de si mesmo. sempre enérgico e veemente.594 votos. não seria fácil já que o candidato por ele apoiado era oriundo das camadas médias caxienses. Representando o que ele próprio chamou de “projeto Zito”. Apesar de localmente percebido como “homem de bem”. evangélico. eu fiquei 2 anos como líder de governo. 05/04/2004).

A participação de Zito na campanha de Laury à prefeitura foi intensamente criticada. falta de cuidado. em 1992. op. aos 28 anos de idade. op.194 votos. Em 2002. ligando-se também a projetos esportivos e culturais..atuação como vereador pautava-se na “fiscalização e execução do orçamento municipal”. sob a alegação de que a ela não estaria dedicando-se a contento. de fato. com 2. cit. Zito. de dedicação. foi reeleito deputado estadual após desentender-se com o prefeito e deixar o cargo de vice. a rotina de campanha. “em fazer as leis”. não se afastou dos trabalhos da prefeitura. Em 1994. empresário e membro da Igreja Evangélica Assembléia de Deus.. descrédito ou mesmo demonstração de descontentamento pela escolha de Laury. op. Em 1998. Washington iniciou sua vida política aos 24 anos. Queiroz. Na eleição municipal seguinte (1996). Soares. idem) — exemplificada na Baixada pela atuação de centros assistenciais dos mais diferentes tipos. elegendo-se vereador por Duque de Caxias (PSC). opostas): maximização do tempo e /ou estratégia de campanha ou. até mesmo. por outro lado.788 votos. Nesse sentido. concorreu à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Andréia. op. em Duque de Caxias. O prefeito em exercício costumava privilegiar o horário noturno para a promoção de seu sucessor e eventos de maior repercussão.) e da constituição da prática política a partir do trabalho social (Lopez. Casado. afastava-se da lógica da política dos vereadores (Leal. compôs a chapa como vice-prefeito de Zito. Durante o período eleitoral. fato ao qual caberiam interpretações distintas (ou. cit. ligados a vereadores e membros de suas famílias. Lopez. O principal adversário de Laury Villar na eleição de Caxias foi o deputado estadual Washington Reis (PMDB). cit. Zito não compareceu a alguns dos eventos dos quais participei em 189 . já pelo PMDB — seu atual partido — foi reeleito com 64. sendo eleito o deputado mais jovem da casa. cit. a eles destinando o período da manhã — momento em que deixava a cargo da filha.

4%. Segundo a mesma pesquisa. no entanto. Transmitido pela emissora de TV CNT. com 42% das intenções de voto e Laury Villar. A pesquisa foi registrada no TRE de Duque de Caxias sob o nº 086/04. por exemplo. e de 03/10/2006. No final do mesmo mês. 5% para Dica (PFL) e 3. O Globo de 29/09/2004. no dia 21 de setembro.5 da seção “O País”. No primeiro momento da campanha. contra 33. Tais anúncios. tornava-se cada vez mais acirrada e a entrada em cena da propaganda televisionada significou um capítulo à parte na corrida eleitoral. com 35% (PDT)178. os índices favoreciam o candidato do PDT — com 41. A princípio. Washington liderava com 47. A disputa. 190 . Zito parecia acreditar que seu nome por si só já seria suficiente para promover a candidatura do sucessor. apesar de sua presença amplamente propagandeada. A participação de Anthony Garotinho e da governadora Rosinha Matheus.8% para Alexandre Cardoso (PSB)177. sem dúvida. manifestando publicamente seu apoio a Washington Reis. foram fundamentais para a reviravolta nas intenções de voto. A vinculação ao nome de Zito 177 Pesquisa realizada pelo GPP com 600 pessoas.1% para Washington Reis (PMDB).6% de Laury Vilar. entre o eleitorado evangélico (que somou 32. em setembro. além do uso da máquina do governo do estado.1% da amostra). o HGPE dos candidatos ao pleito municipal de Duque de Caxias redimensionou o cenário político local. p.7% das intenções de voto contra 37. p.Caxias.11 da mesma seção em matéria na qual Washington Reis (PMDB) aparecia com 47% e Laury Villar (PDT) com 39% das intenções de voto. a disputa seguia acirrada e os jornais anunciavam empate técnico entre os dois primeiros colocados: Washington Reis (PMDB). faziam parte de uma estratégia de marketing para cooptar o maior número de pessoas para tais atividades — sua ausência sendo lida como descaso e abandono e deslegitimando o apoio alardeado em panfletos e propagandas políticas. 178 Ver.

As negociações para as alianças no segundo turno começaram antes mesmo do resultado de 3 de outubro. recebeu Laury e Sandro Matos (candidato do PTB à prefeitura de São João de Meriti) no Palácio da Cidade para formalizar seu apoio e marcar as gravações dos programas eleitorais. a costurada com César Maia. as matérias publicadas nos jornais Folha de São Paulo. Jornal do Brasil e O Globo de 25/09/2004. sendo. 191 . totalizando 45. também aliou-se a Washington Reis (PMDB). no segundo turno das eleições. O primeiro turno acabou com vantagem de Washington Reis. no dia 8 de outubro. portanto. inconcebível seu apoio ao candidato de Zito. sem dúvida. O PDT não favoreceu a ampliação de capital político de Laury e o apoio da executiva nacional do partido ao PMDB.não conseguiu fazer frente à distribuição de cestas básicas pela Fundação Leão XIII e pelos centros assistenciais do candidato do PMDB em Caxias.2% dos votos válidos contra 41. A mesma tática utilizada na campanha em Nova Iguaçu era implementada nos demais municípios da Baixada e em outros do estado do Rio de Janeiro: entremear o discurso religioso com as ameaças de corte de verbas estaduais aos municípios que elegessem os adversários da rede política de Garotinho179. por exemplo. que. Apesar do apoio de César Maia (PFL) ao candidato do PDT. A aliança de maior peso foi. todo o arsenal do PMDB voltou-se contra o candidato do PDT. adversário de Garotinho. alegando ser um adversário de longa data do prefeito caxiense.6% de Laury Villar (TRE/RJ). No fim de setembro. Dica. deixou seu candidato em situação complicada. O prefeito reeleito do Rio visitou Duque de Caxias diversas vezes nas últimas semanas antes da eleição — o PT demonstrando seu apoio por intermédio das visitas da ex-governadora Benedita da Silva e de gravações para a propaganda televisiva das quais participaram seus principais líderes 179 Ver. o candidato pefelista. Este tema voltará a ser abordado mais detidamente no capítulo 5.

o Jornal do Brasil de 31 de outubro dava o tom da disputa no segundo turno daquela cidade: Na véspera do 2º turno. ressaltou a importância da aliança com o governo estadual. . contra 43% do adversário.O povo deixou bem claro que quer mudanças.O povo de Caxias abraçou nossa campanha.comentou Laury.nacionais. Outra importante aliança foi com o pastor da Assembléia. Por toda a cidade. apesar da situação ser apontada como empate técnico. Duque de Caxias era o retrato da eleição não decidida. Washington Reis. . Na queda de braço com Garotinho. Lindberg Farias. 192 . dentre as muitas derrotas sofridas nas eleições municipais de 2004. ambos interessados em derrotar o grupo político de Garotinho com vistas às eleições de 2006. Laury Villar — este com o apoio do PT e do PFL de César Maia. como os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Humberto Costa (Saúde). no segundo turno das eleições) participou de algumas caminhadas com Zito e o candidato Laury. Tenho certeza de que o eleitor vai saber reconhecer quem é o melhor . após rompimento com o grupo político do ex-governador Garotinho (e apoiando também o candidato à prefeitura de Nova Iguaçu pelo PT. havia outdoors e bandeiras dos dois candidatos — Washington Reis (PMDB) e Laury Villar (PDT). que representa o grupo político do exgovernador Anthony Garotinho. Em matéria intitulada “Caxias tem guerra de caciques”. os dois candidatos optaram por seguir em carreatas e demonstraram confiança. que tem o apoio do atual prefeito. Os últimos dias da campanha já apontavam uma certa vantagem do candidato do PMDB. Ontem. José Camilo Zito. conseguiu com Duque de Caxias uma das vitórias político-eleitorais mais importantes do estado. venceu este último que. isso vai se refletir nas urnas. Manoel Ferreira (PP) que. Washington Reis aparecia na pesquisa Ibope com 46% das intenções de voto.

mas não como executivo. Sempre vi nele um político trabalhador. muitas promessas que foram trazidas na época de eleição e que não […] que eu tinha certeza que não teria condição de fazer. com certa experiência no campo legislativo. Eu confesso que estou consciente. Com as derrotas amargadas pela rede política de Zito. foi com 12 milhões de reais. Mas isso vem a fortalecer a minha visão da época em que eu achava que ele não deveria ser o meu sucessor”. Uma cidade que entregamos com 100 mil alunos e que pegamos com 30 mil alunos. tentando viabilizar uma eleição do candidato do partido dele [Anthony Garotinho]. não serei eu […] o autor disso aí. com o professor mais bem remunerado de todo o estado do Rio de Janeiro — ganhava cinco salários mínimos. mas sim imaginando que a cidade não teria essa continuação desse desenvolvimento e ele tá mostrando aí.699 votos contra apenas 31. Núbia Cozzolino conseguiu ser eleita em Magé (com 46. ser o seu candidato. na vida pessoal e isso faz com que os políticos não cresça[m]. Uma cidade que hoje eu vejo falar em empréstimo no BNDES. né? Uma cidade que eu deixei sem débito nenhum — quando eu peguei o município.“Muitos me perguntam assim: ‘Mas. no piso inicial. Zito. inteligente. não venham a evoluir […] isso eu sentia no meu coração. Então. nós entregamos com 68 milhões de reais/ mês. será que não houve falha da tua parte? Porque o Washington poderia estar com você até hoje. Já que eu percebia a vontade de riqueza. ele nunca seria um nome escolhido por mim. Porque eu via sempre nele uma sede enorme de poder. Uma situação de uma série de problemas que estão aparecendo e que vão aparecer e que eu prefiro não ser aqui o denunciante porque a imprensa e os órgãos responsáveis certamente irão trazê-los no momento certo. não evolua[m]. mas a riqueza na vida particular. que não seria o nome que eu poderia trazer e dar a responsabilidade da minha sucessão. Uma cidade que entregamos nas mãos dele. cada vez mais convicto que acertei em não fazê-lo o meu sucessor ou o meu candidato a meu sucessor. até porque não me sinto feliz com isso. por isso. né? Não a riqueza política. Então. a renda mensal. e ele acabou com isso. Uma cidade que eu vejo muita bravata. uma cidade que eu vejo falar com tanta parceria com o estado. eu não via nele um grande sucessor pra vir a me suceder e ser um grande prefeito. Não porque eu quisesse continuar comandando o município. seu sucessor haja visto que ele foi o vitorioso nas eleições e tal’.397 de Narriman) e Maria Lúcia voltava à 193 .

eu jamais faria isso” (Grifos meus). A aproximação com César Maia foi. Se perguntar se eu faria isso de novo eu vou dizer que não faria. Não foi uma criação minha. O Dia. de forma alguma desistira de seu projeto político. pela vontade própria e por interesses de amigos que moram em Belford Roxo que tinham assim. eles começaram pelo terceiro degrau. Nós não somos iguais.. concretizada com o convite e a criação de uma secretaria para Zito. E não farei isso mais porque as pessoas que votaram no Waldir e na Narriman votaram pelo Zito e achavam que eles pudessem fazer o mesmo que eu fiz em Duque de Caxias. a sua eficácia. como eu acho que todo mundo deve fazer. Começar como vereador. Sua campanha não contou com o apoio esperado do partido. É o ABC da política […] Tem que começar pelo primeiro degrau. 04/11/2004. O Waldir. Tanto que eu pedi ao Waldir que não se candidatasse e ele foi […] ele respeitosamente aceitou o meu pedido e não se candidatou. 06/11/2004 e O Globo. por exemplo. 06/11/2004. E as pessoas ficaram frustradas em não ter tido a sorte de que eles pudessem fazer com que o sonho deles virasse uma realidade. as matérias publicadas nos seguintes jornais: Jornal do Brasil. do mesmo jeito. né? […] Confesso a você que não foi de minha vontade e isso mostrou a minha força política — que eu elegi os dois — mas também serviu de desgaste político enorme pra mim e de problemas com vários políticos. mas tá cada vez mais comprovado que cada pessoa é uma pessoa. Narriman não apenas não havia conseguido se reeleger.. então. Ele — acho eu — dificilmente retornará à vida pública em qualquer cargo eletivo. uma vontade minha fazê-los políticos. Mas não é a mesma coisa. em Magé.prefeitura de Belford Roxo. interesse pessoal na ida dele pra lá e a Narriman. Como eu fui. Ele. “Foi um grande erro político meu.tinham uma vontade.. cada um tem seu lado forte. Zito estava Ver. Hoje. como ficara com o segundo lugar com uma diferença considerável de votos. não sendo considerada “estratégica”. À frente da Secretaria de Relações Institucionais. os jornais anunciaram amplamente que Zito havia perdido o posto de “rei da Baixada”180. Falta de experiência e visão. como outras na Baixada. o seu conhecimento.. a não ser que tenha uma passagem pelo legislativo. no entanto.hoje eu vejo. 180 194 . Na ocasião.

agora no PP e aliado do atual prefeito de Caxias.incumbido de conseguir apoio onde o prefeito carioca não gozava de grande prestígio: na Baixada. 195 . não podia dispensar seu capital político que. Dr. “Meu pai havia desistido. e depois com o próprio PDT. poderia significar votos em uma região tradicionalmente resistente a seu discurso. Segundo Andréia. em setembro de 2005. O Marcello diz que foi por minha causa que meu pai voltou. O projeto político de César Maia era coincidente. O seu retorno ao partido. O lugar dele é no PSDB” (Andréia Zito. somado ao de Lindberg Farias na prefeitura de Nova Iguaçu. Nesse momento — não mais contando com a aliança com o antigo aliado político. depois da derrota em Caxias e dos desgastes com o PSDB. por sua vez. Heleno. A gente conversa muito. César. uma vez que se cogitava seu possível ingresso no PFL de César Maia. Sendo assim. Foi preciso muita conversa. Em seguida. Eu o convenci a retornar ao PSDB. o retorno ao PSDB marca a retomada do projeto inicial de Zito. a deputada estadual Andréia Zito. Zito teria inclusive desistido de cargos políticos no ano de 2005. Washington Reis — sua filha. Zito deixou o cargo que ocupava na Prefeitura do Rio de Janeiro a convite do prefeito para dedicar-se à campanha de 2006. E eu falei pra ele que achei um erro ele ter saído do partido. ao de Zito. acabou provocando um certo mal-estar. destaca-se na operação de retomada de sua trajetória política. 26/04/2006). Se este último desejava continuar no cenário político. Mas foi mais como filha. mantendo seus acessos e reconhecimento como mediador legítimo. nesse momento. foi mais com o coração que eu falei com ele do que como deputada. no início deste ano. Mais do que apoio para a volta ao PSDB. Andréia configurou uma peça-chave para a retomada de Zito à vida pública.

“Nas eleições em Caxias.Para viabilizar seu retorno e seu projeto político de retomar a administração de Duque de Caxias. me deixou. porque o Dr. em 2008. eu pedi que a Andréia fosse candidata a federal e eu a estadual para que eu venha a recomeçar o meu trabalho não só aqui em Duque de Caxias. nós estamos indo de casa em casa. Zito optou por candidatar-se a deputado estadual nas próximas eleições e tentar fazer de sua filha uma aliada na Câmara dos Deputados — posição até então ocupada por Dr. nós batemos na trave. E pretendo fazer a Andréia nossa deputada federal. as verbas federais. Os convites aconteceram para que eu fosse candidato a governador do meu partido. para que fosse senador. Fazemos reuniões em casa de família. Por isso. A campanha de rua é o nosso forte. Enfim. podem significar maior proximidade do objetivo final de Zito: o governo do estado em 2010. Esse é o meu caminho. para que fosse vice. “Agora. 26/04/2006). Mas eu quis e quero reiniciar minha vida pública no cargo de deputado estadual. Nós trabalhamos assim” (Andréia. As articulações nesse momento giram em torno dessas duas candidaturas que. A minha filha que tem dois mandatos de deputada estadual […] houve uma lacuna nessa nossa caminhada. pra que os projetos federais. porque eu quero voltar a ser prefeito e fazer um grande trabalho. em 2010 me credenciar de novo a ser candidato a governador. com pequenos grupos para conseguir apoio e mostrar o que pretendemos. eu quero fazer um trabalho enquanto deputado estadual que venha a abranger todo o estado do Rio de Janeiro. Eu quero poder ajudar os prefeitos em outras cidades. eu quero voltar a ser deputado estadual por dois anos. fazendo o fechamento do PSDB com outros partidos. Por que? Porque eu vou ficar mais próximo às bases no meu estado. as emendas venham e pra que eu possa ajudá-la e que ela me tenha como guia para que esses recursos possam chegar nas 196 . Heleno — que sempre foi o meu federal — acompanhou também o Washington. a minha pretensão política e eu vou trabalhar para que eu tenha uma votação expressiva em todo o estado do Rio de Janeiro e não só em Duque de Caxias. Mas minha credibilidade política cresceu. Heleno. Então. porque é muito importante pra mim. na sua reeleição e com algumas outras lideranças que por ventura venham a surgir. se concretizadas.

197 .cidades onde nós certamente iremos trabalhar” (Zito. o abandonou. Os demais políticos com quem mais recentemente manteve estreitas ligações — César Maia. já que. Seu mais antigo aliado político. Heleno. Lindberg Farias. Zito parece relativamente isolado. apesar de seu prestígio pessoal em Caxias estar aparentemente intacto. 181 O Dia. Dr. Em relação a Narriman. As diversas falas aqui apresentadas permitem-nos apreender a multiplicidade de interesses em jogo e as formas pelas quais as práticas políticas são operacionalizadas. implicou no afastamento de César Maia — a relação de proximidade com Lindberg e o PT sendo imprevisível. O retorno ao PSDB. 26/11/2004. Apesar do discurso de que “há um exército [de aliados] atrás de mim”. Não foi objetivo desta tese classificar ou mesmo rotular este ou aquele político de assistencialista. por exemplo. Laury Villar. mencionou apenas dois: sua filha Andréia e o candidato derrotado nas eleições municipais de Duque de Caxias. indo para o lado adversário. entre outros — são nomes de ocasião. Os jornais parecem concluir que a união do casal não durará muito. segundo ele ainda estariam juntos. 26/04/2006). Quando perguntado sobre seus aliados políticos no momento. acertos políticos momentâneos e instáveis. a ex-prefeita teria sido convidada a disputar as próximas eleições como candidata do partido à Assembléia Legislativa. Todo o desgaste oriundo da insistência em levar a cabo o projeto de candidatar-se a governador acabou lhe rendendo um grande ônus político. contrariando os interesses políticos do marido que afirmar que ele deveria sair da política181. mas durante a entrevista Zito não usava aliança. ainda filiada ao PT. ou seja.

a preocupação em tampouco diluir ou mesmo suprimir a pecha de populista ou assistencialista remete à percepção de que as relações em questão estão sempre envoltas em tipologias e classificações (nativas ou não) associadas a julgamentos de valor. Nunes (1997). particularmente. op. messias ou salvador183. no período pós-1985. são novamente acionados quando nos depararmos com o insucesso de Zito na efetivação de 182 183 Leal (op. Nesse sentido. a análise da trajetória de Zito permitiu-nos expor com minúcia as estratégias e os obstáculos enfrentados para a concretização de seu projeto pessoal — e em que medida tal projeto podia associar-se a outros e. 198 . cit. Por outro lado. cit. obter êxito. nem mesmo de benfeitor. o papel e a influência dos partidos — apesar do “sentimento de inferioridade” com relação a estes últimos184 — mesmo que minimizados em trajetórias como a aqui abordada.populista ou clientelista182. independentemente de seu carisma pessoal. sobre os partidos políticos no Brasil. Weffort (1980). Harris (1978) e Girardet (1987). podemos relacionar os projetos em jogo. A incapacidade de manter-se como mediador político (mesmo que temporariamente). assim.. Ao traçar as possíveis relações entre os discursos sobre ou para uma determinada pessoa e ressaltar a polifonia existente na constituição dos processos de identificação sociais vinculados às práticas políticas e eleitorais. op. cit). op. as disputas internas ao próprio partido – a luta entre “os mais iguais entre os iguais” (Heredia. Assim. herói.). Velho e Kuschnir.) – ou mesmo o desgaste nas relações familiares (com Narriman e Waldir) puderam ser entendidos em relação às estratégias individuais e às mudanças por que passaram os projetos políticos dos atores em questão. foi demonstrada através da tentativa mal-sucedida de imposição de sua vontade e projeto a outras lideranças. Grosso modo. 184 A expressão entre aspas é de Jairo Nicolau (1996) quefaz uma análise sobre o sistema político e. os campos de possibilidades dos atores e sua capacidade de mediação (Velho.cit.

seu carisma. Novamente.seu projeto de candidatar-se ao governo do estado. por si só. 199 . sua vitória ou derrota para a ALERJ — e a de sua filha para a Câmara de Deputados — definirá os destinos políticos de sua família. não foi capaz de garantir a concretização de suas intenções. Testando o seu carisma pessoal e sua capacidade de mediação política. Aparentemente isolado politicamente. tampouco de lhe assegurar a prefeitura de Duque de Caxias como base para projetos futuros. Zito enfrentará sua prova de fogo nas eleições de 2006.

2001). 04/10/2004). novos) discursos (e projetos – individuais e coletivos) sobre a região e o próprio fazer político. Fiz observação participante. acompanhando o cotidiano de sua campanha pelo maior tempo 200 . expondo os diferentes (e em alguns casos. Utilizei-me. documentos de partidos políticos e material obtido por meio de pesquisa em sítios eletrônicos diversos. em 2004. tampouco sem esforços. como ponto de partida.. Embora tenha conversado com Lindberg.CAPÍTULO 4: LINDBERG: DO MUNDO PARA A BAIXADA O Brasil está olhando para esta eleição em Nova Iguaçu. devido à inexistência de uma biografia até o momento — além de matérias de jornais de âmbito nacional e regional. seus atores e processos de identificação nelas envolvidos. ainda. Esta apresentação visa refletir a respeito da multiplicidade em termos representativos e expressivos. meu acesso ao candidato petista não foi imediato. não realizei uma entrevista formal. de entrevistas com alguns assessores e pessoas ligadas à sua campanha. Neste capítulo abordarei a trajetória de Lindberg Farias. Sendo assim. trabalhei com fontes documentais sobre sua vida política — fundamentalmente com o Dicionário Histórico e Biográfico Brasileiro (Abreu et al. afirmou Lindberg Farias (Jornal do Brasil. a última selecionada para pensarmos a Baixada como o resultado da multiplicidade de práticas políticas locais. Conforme demonstrarei no decorrer do capítulo. acionados durante a campanha eleitoral para o pleito municipal de Nova Iguaçu.

). Nova Iguaçu contava com a terceira maior população do Estado do Rio de Janeiro (817. Durante o trabalho de campo. De acordo com o IBGE. em 2004. 186 Ver capítulo sobre a(s) Baixada(s) e seus municípios. abordada no capítulo anterior. Posse (117.199 hab.). Nova Iguaçu sempre teve um papel crucial na Baixada Fluminense — até a década de 1980. Cabuçu (76. 750. Fernando Gonçalves (PTB).117 habitantes) e. constituía uma das cidades mais importantes política e economicamente dentro da região.possível. Conforme tratado em capítulo anterior186. trazendo à tona a complexidade do fazer político numa arena ampliada para além das fronteiras fluminenses e de seus “caciques”.). Km 32 (57. Nova Iguaçu pertence à Região Metropolitana do Rio de Janeiro e constitui um dos núcleos do lugar Baixada Fluminense.872 hab.). disputando a hegemonia política regional somente com Duque de Caxias. Nesse sentido. distribuídos por nove unidades regionais (URGs): Centro (175.467 hab. em 2004. em 2004.350 hab.).562 hab.) e Tinguá (13. cada vez mais dinâmicas e fluidas.).614 hab. Miguel Couto (50. Segundo as estimativas deste mesmo órgão. foram: Lindberg Farias (PT).487 habitantes. conversei também com moradores dos mais diversos bairros da cidade em circunstâncias variadas e participei de eventos — showmícios. a cidade possuía. ilustra exemplarmente o processo que culminará. caminhadas. ao lado de Duque de Caxias (a segunda no ranking.679 hab.). Vila de Cava (63. com 830.). Nova Iguaçu transformou-se no cenário 185 Os candidatos à prefeitura de Nova Iguaçu. carreatas e encontros — dos três principais candidatos à Prefeitura de Nova Iguaçu185. Comendador Soares (108.328 hab. Mário Marques (PMDB). em 2002. A trajetória de Zito. 201 . Austin (96. bem como a dos demais atores políticos aqui apresentados. Carlão (PSTU) e Zé Renato (PCB).035 hab.834 hab. na reconfiguração das relações de poder locais.).

No pleito em questão. Garotinho foi eleito para a prefeitura de Campos.379 votos de Benedita da Silva. Rosinha Matheus e seu marido. fazendo greve de fome como protesto ao que chamou de tentativa de “derrubá-lo”. obteve 4. em seu primeiro mandato eletivo. Benedita da Silva. os holofotes para a Baixada Fluminense187. 188 Ver. Em 1988. o PMDB ainda não havia tomado qualquer decisão sobre possíveis coligações e. em 2002. assim. as redes políticas que atuam na Baixada polarizaram o campo político (pensado em termos de lutas entre concorrentes pelo poder político na cidade e na região como um todo188). representando 51. em segundo turno. Bourdieu. contra os 1. tendo sido derrotado. 1989: 163-164.101. membro da Igreja Assembléia de Deus (Barreto. na gestão do então governador Leonel Brizola. elegeu-se para a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Marcello Alencar. totalizando 24. ambos do PMDB) e o governo federal (o presidente Lula e o PT). Rosinha Matheus. do Partido dos Trabalhadores (PT). pelo PT). a este respeito.de uma das eleições mais noticiadas daquele ano — tanto pela imprensa escrita carioca. Apesar de ter sido o candidato mais votado da cidade. com 58% dos votos válidos para o mandato de 1999 a 2003. as coligações para o cargo de Presidente implica no respeito a tais coligações também nas esferas estaduais para a eleição de Governadores. tendo como vice.954. quanto por alguns jornais de caráter mais abrangente (O Globo. em seguida tornou-se Secretário de Segurança do estado. entre outros). 187 202 . mas não teve sucesso. 2004:60). A cobertura da imprensa nacionalizou as campanhas locais e transformou a cidade no palco da guerra política entre o casal Garotinho (a governadora do Rio de Janeiro. redirecionando. deixou o cargo para lançar-se novamente candidato do PDT ao governo do estado do Rio de Janeiro. pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). Folha de São Paulo. As disputas internas ao partido e interesses em possíveis coligações impediram que o projeto de Garotinho se concretizasse. entre 1993 e 1994. não conseguiu eleger-se porque seu partido não atingiu o coeficiente eleitoral mínimo.45% do total da votação (Dados do TSE). Foi. Neste mesmo ano foi candidato ao governo do estado pelo PDT. Foi Secretário de Agricultura do estado do Rio de Janeiro. Estado de Minas. Estado de São Paulo. secretário de governo de sua esposa. candidatou-se à prefeitura de Campos. onde disputou sua primeira eleição (em 1982. pelo candidato do PSDB. em torno de dois candidatos principais: Mário Anthony Garotinho nasceu em Campos.423 votos. Gazeta Mercantil. Em 1998. Até o momento da revisão final desta tese. Anthony Garotinho. Em 1996. ainda pelo PDT. de “tirá-lo do campo” maculando sua imagem de homem público. Ele foi alvo de diversas denúncias de mal uso do dinheiro público feitas pelo jornal O Globo. o exgovernador e ex-secretário de segurança do estado. para a Câmara dos Vereadores.30% do total dos votos válidos. do PT. No ano de 2006 tentou lançar-se pré-candidato à Presidência da República pelo PMDB. Tais eleições acarretaram uma visibilidade política inédita para a região. Elegeuse. devido à verticalização. Já Rosinha Matheus é Governadora do Rio de Janeiro. Em 1986. O casal é evangélico. em segundo turno. fundamentalmente.

com 2. PSB e PC do B). PRONA e PT do B) — e. e Secretário de Administração da Prefeitura. PSC. em duas legislaturas (1970/ 1972/ 1976). conforme retratado por Silvia Ramos e Anabela 189 203 .397 votos e reeleito. PMN.Marques189. tendo assumido o cargo em 2002. em 1972. obtendo 2.761 votos. pelo mesmo partido. momento em que atuou também como relator da Lei Orgânica de Nova Iguaçu (em 1988 e 1990). PRP. Foi reeleito vereador pela 7ª vez consecutiva. por constituir o primeiro passo em direção a um projeto político coletivo do PT para o Rio de Janeiro. da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal. Reelegeu-se vereador pela sexta vez consecutiva em 1992. PFL. obtendo a 5ª suplência. PV. mas também do país de forma mais ampla — mas. Faz-se necessário. Pela primeira vez. Em 1976.025 votos.615 votos — sendo o 1º da coligação PTR/ PST. foram minimizadas em relação às demais regiões do estado e.024 votos. PTN. Aos 63 anos. reelegeu-se vereador. Em 1990. PPS. foi o 3º mais votado do município. Foi suplente de Deputado Estadual (1974-1978) ainda pelo mesmo partido. em muitos anos. 190 Tais “imagens” não desapareceram por completo. De 1999 a 2000. PSL. principalmente. com 3. em 1996. ainda pelo PDS. Mário Pereira Marques Filho é natural de Nova Iguaçu. participando. criminalidade ou pobreza da região190.180 votos. do outro lado. Em 1970. PL. Nova Iguaçu e a Baixada. entre 1967 e 1970. Filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS) em 1981. de forma mais ampla. ao município do Rio de Janeiro. de 1967 a 1968. Em 1988. após 30 anos de mandatos legislativos. eram alçadas a manchetes nacionais sem remissão direta (ou exclusiva) à violência. com 4. o paraibano Lindberg Farias. PSDC. PSDB. um breve resumo de sua biografia. PRTB. no qual permaneceu até 1990. sobretudo. já pelo PPB. composta por 16 partidos (PP. como relator. posteriormente eleito 2º Vice-presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. foi eleito vereador em seu primeiro mandato (pela ARENA). PDT. Advogado. obtendo 1. PHS.882 votos. Neste trabalho. foi Presidente da Câmara Municipal de Nova Iguaçu. A opção pela análise da trajetória de Lindberg deveu-se não somente à novidade representada por sua candidatura — em termos do lugar que a Baixada (via Nova Iguaçu) passaria a ocupar na política do estado. Reeleito pela quarta vez em 1982. PMDB. foi Juiz de Paz da Comarca de mesmo nome. candidatou-se à Câmara dos Deputados pela legenda do PTR. com 3. escolhido para disputar a eleição na cidade pela coligação “Hora da Mudança” (PT. Foi líder da bancada do PDS e fundador do partido (1980/ 1982) no município. tornou-se pela primeira vez prefeito de seu município. com 1. não abordarei a campanha de Mário Marques. com implicações para as eleições futuras (de 2006). do PMDB — através da coligação “Crescer sempre com Deus e o povo”. no entanto. com um total de 4.772 votos. reelegeu-se vereador pela terceira vez (ARENA).

organizados em conjunto por diversas entidades e centros de pesquisa (2005). realizado pelo CESeC. em maio de 1992. entretanto. Em 1991. Porque Nova Iguaçu é só o começo. Luís Lindbergh Farias Filho nasceu em João Pessoa (PB). Luiz Inácio Lula da Silva. integrou. como secretário-geral. a prefeita de São Paulo. João Amazonas191. foi eleito presidente. Lindbergh filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). começou a vida adulta trilhando o caminho do pai — ao optar pelo curso de Medicina da Universidade Federal da Paraíba. assim como no relatório Impunidade na Baixada Fluminense. Luiza Erundina. o presidente da CUT. durante a sua campanha em 2004. Em 1988. 191 Jornal do Brasil de 16/07/1992. o presidente da SBPC. Enio Candotti. e o presidente do PC do B. no palanque. de certa forma.” Lindberg Farias. em 1961. tornou-se secretário-geral da UNE (União Nacional dos Estudantes) e. 204 . o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Paraíba. em 8 de dezembro de 1969. O “encontro” com a política também deveu-se. No ano seguinte. Sua inserção na vida política universitária iria. Paiva no relatório completo. no qual permaneceu por dois anos. à influência paterna —seu pai tendo sido ex-militante da Ação Popular (AP) e vice-presidente da UNE. Filho da professora Ana Maria Nóbrega Farias e do médico Luís Lindbergh Farias. levá-lo em outra direção.Destinos e Projetos “Eu vim pra cá pra mudar Nova Iguaçu. em cerimônia na USP na qual estiveram presentes o então presidente do PT. Jair Meneguelli.

organizou diversas manifestações públicas estudantis (e de cidadãos. quando reataram o casamento. ótimo. 192 É importante destacar que a própria grafia de seu nome foi alterada. 2001)192. formar-se em Direito e trabalhar pela causa “dos trabalhadores e camponeses”. que naturalmente estão participando [. a década de 1960 e a luta armada. A resposta negativa enfatizava os planos de “acabar os estudos”. de modo em geral). terminando com a seguinte pergunta: “Você pretende seguir carreira política?”. Cuba. o jornal Folha de São Paulo. publica uma entrevista feita com ele sobre as manifestações estudantis. temos um objetivo muito claro: unir toda a juventude que está indignada com os rumos que o país está tomando. Não interessa por que partido têm simpatia.. referindo-se a Lindberg como “o novo herói”. “Na passeata de sexta-feira às 10h30m. Serão muito bem recebidos” (O Globo. partindo da Candelária. Se os simpatizantes do PFL que defendem o impeachment quiserem participar. Lindberg conheceu Maria Antônia Goulart durante uma das passeatas. 193 Nesse mesmo ano. os que defendem o impeachment do presidente Collor. A partir de agosto daquele ano. 20/08/1992). a Central Única dos Trabalhadores (CUT).] Vamos unir todos que são contra a impunidade. 205 . os que são contra a corrupção. também chamado Luís. a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). a UNE. suprimindo o H ao final e tornando-se conhecido apenas como Lindberg Farias.Meses depois. Mas não queremos apenas os jovens. exigindo o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello (PRN) 193. No dia 31 daquele mesmo mês. sua companheira e mãe de seu filho. juntamente com outras entidades civis como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Maria Antônia e Lindberg se separaram e permaneceram assim até meses antes da eleição de 2004. Lindbergh se transformaria em um dos principais líderes do movimento dos “cara-pintadas” (DHBB..

Apesar de não assumir qualquer intenção de ingressar na vida pública. ele esteve à frente das manifestações estudantis contra o aumento das mensalidades e participou ativamente do Movimento pela Ética na Política (DHBB. “De fala arrastada e jeito sedutor. 194 Poucos dias após essa entrevista à Folha de São Paulo. desde o impeachment de Collor. agita a moçada. sem dúvida. Em matéria publicada em 5 de maio de 1993. Através da visibilidade nacional alcançada com o “Movimento pela Ética”. Lindberg é a estrela da chapa. a revista Veja ressaltava alguns dos atributos de Lindberg. A conquista de um cargo eletivo. [. cit. 13/09/1992)... a ele referindo-se como o “astro do impeachment”. É também a esperança do PC do B. já sob o comando de Itamar Franco (PSDB/MG) — a despeito das críticas de seu partido a esta administração. que tem sete deputados e nenhum senador no congresso”. Lindberg tornou-se um interlocutor privilegiado com o governo federal — na ocasião. que hoje comanda a maioria das entidades estudantis do país. Lindo.] No movimento estudantil. mudar-se para o Rio de Janeiro e “com certeza.). o partido responde pelo nome de Viração. constituindo um projeto pessoal. Foi eleito por mais da metade dos votos dos representantes dos 1. o bonitão modelo anos 60 que se tornou o muso dos cara-pintadas. provoca paixões e distribui autógrafos. outro jornal — o Jornal do Brasil — afirmava que o sonho de Lindberg era diplomar-se. 206 . No ano seguinte (1993). O mais famoso dos “cara-pintadas” tornara-se importante e disputado politicamente. fazer política” (Jornal do Brasil. O ano de 1993 foi de muitas conversas e de articulação política. já figurava entre seus interesses. liderando os estudantes a favor do impeachment.5 milhão de estudantes universitários. op. suas palavras finais acabaram sendo um presságio: “Eu sempre vou querer estar no olho do furacão”194.

Mainwaring. Santos. assim.cit.) de Lindberg foi vitorioso: ele conseguiu eleger-se o deputado federal mais votado de seu partido (PC do B). pensados como números. 195 O tema em questão é abordado por inúmeros pesquisadores — historiadores (Beloch.Em 15 de agosto de 1993. como crítica à perda do caráter ideológico dos partidos ou. para o movimento estudantil e contra a corrupção. 2000. com 57. veiculada pelo jornal da Liga Bolchevique Internacionalista. antropólogos (Palmeira e Goldman (orgs. o projeto individual (Velho.544 votos — pela Frente Brasil Popular (PC do B. 1997. não se concretizou. na maioria dos casos. o Jornal do Brasil anunciava uma possível aproximação com Brizola que. Viegas. sociólogos (Diniz. com uma postura crítica ao “provão” — apoiando. Lindberg desligou-se do PC do B. PT. no contexto da disputa eleitoral — como no caso da matéria. para pensar a operacionalização de um sistema partidário fragmentado — como no caso brasileiro — e a dinâmica dos números196. É interessante perceber como a lógica dos partidos é correlata à lógica da dádiva. particularmente. ainda. Em 1994. 1982). 196 O que denomino dinâmica dos números refere-se essencialmente à expressão numérica e percentual da representação política. Sento-Sé. Borges. 2001). de fato. PSB. filiando-se ao PSTU. Sarmento. a prática da “ciranda das siglas” adotada por muitos políticos convive. 2001). 207 . a mediação operada pelo ator político. no Brasil. Bezerra. A lógica dos partidos pode ser acionada de diversas maneiras195: do ponto de vista do político que participa de uma “ciranda de siglas” com o objetivo de eleger-se. 1996. os votos. 2001. Soares. sendo a primeira possível graças a um sistema multipartidário que qualifica como atendimento. 2003) — com ênfases diversificadas. influência de Mauss na re-significação operada por Kuschnir. No processo da dinâmica eleitoral. a posição sustentada pela UNE — e à abolição do monopólio estatal das telecomunicações e do petróleo. no entanto. Em setembro de 1997. como denúncia. Kuschnir. harmoniosamente com o tipo de Estado constituído na América Latina e. que pretendia fazer uma análise da saída de Lindberg do PC do B.). op. muito ligada à educação. 1986. 1997. 1999. mas com o objetivo comum de tentar entender o sentido e as formas de operação da política e da democracia no Brasil. Sua atuação durante este primeiro mandato eletivo esteve. 1999. deixando de lado o caráter expressivo — de seu sentido e de sua dimensão de valor. Dessa forma. são tratados sob o prisma da quantificação. PV e PSTU) — com um discurso voltado para a área da educação. cientistas políticos (Schmitt e Araújo. 1999.

. afirmou o deputado Inácio Arruda (PC do B . deputado federal pelo Rio recebe críticas de colegas” (Folha de São Paulo.. larga o PC do B e adere ao PSTU” (06/08/2001). procurando apagar as traições de seus antigos adversários. Alertávamos. sem qualquer reserva ou exigência de autocrítica profunda. uma figura de ponta do PC do B em seus acordos com a burguesia. A saída é a luta 208 . 08/10/1997). via ameaçada suas pretensões de reeleição em 1998. porém. eleito em 1994 em função das mobilizações do Fora Collor.“[…] a saída de Lindberg do PC do B e seu ingresso no PSTU seguia unicamente suas conveniências eleitorais. Jandira Fegalhi.] ‘Acho que o PC do B é burocrata e tem ilusão de que é possível mudar o país aos pouquinhos. a forma como Lindberg ingressava no PSTU acabava por tornar esse partido uma espécie de legenda de aluguel da esquerda[…] O ex-presidente da UNE e garotopropaganda do impeachment. no momento em que estes se filiam ao partido. 28/09/1997). “‘Não entendi nada. algumas situações de conflito vindo à tona nesta reportagem da Isto é (idem). em um processo de re-acomodação partidária no mesmo marco da frente popular. Os jornais também conferiram destaque à mudança de sigla. Pelas posições que defendia [Lindberg]. porque o PC do B do Rio de Janeiro decidira priorizar a reeleição da também deputada federal. que mais grave que a conduta de Lindberg era a orientação levada a cabo pela direção do PSTU ao acolher.CE) [. Lindberg Farias. parecia estar mais próximo de pessoas como Leonel Brizola e Miguel Arraes do que dos trotskistas’. às vésperas do encerramento do prazo para mudanças de partidos. Vários políticos também comentaram a troca de partido. ou “O desbunde do carapintada: o deputado Lindberg Farias troca a cartilha do PC do B pelo trotskismo do PSTU e é vítima de insinuações no Congresso” (Revista Isto é. Em uma conduta eleitoral típica dos mais marginais políticos burgueses. Com manchetes como “Lindberg troca o PC do B pelo PSTU: militante no partido desde 87. Em resumo.

único representante do Partido Verde na Câmara. refletia um recrudescimento de suas posições políticas. No entanto. líder do PSB de Arraes.] Antes de radicalizar de vez. para outros (para uma parte da imprensa. avalia o deputado Ricardo Gomide (PC do B .. valendo-lhe a designação de “radical”. apesar da expressiva votação obtida (74 mil votos) naquele ano (1998). Lindberg vinha emitindo sinais a seus colegas de que estava perdendo o eixo. p. alfineta Ricardo Capelli.] ‘O Alexandre Cardoso é o tradicional político da Baixada Fluminense.PR). 209 . Enquanto para alguns atores (fundamentalmente de “alas”. como acima exposto).popular’. defende um aguerrido Lindberg [.] As críticas [de Lindberg a Miguel Arraes] tiveram resposta imediata. [.... por exemplo). fez um discurso malicioso insinuando que Lindberg estaria envolvido com cocaína [. O deputado federal Alexandre Cardoso.. mas também de redes políticas diferentes. a troca de partido efetivada por Lindberg significava uma simples manobra eleitoral. ‘Ele apostou no PSTU porque acha que vai haver uma aliança com o PT e assim fica mais fácil para se reeleger’. contraataca Lindberg” (Grifos meus. Nos últimos quatro meses. atual presidente da UNE e militante do PC do B. ‘Chamei o Lindberg porque no PV ele poderia desbundar à vontade’..32).] ‘O que ele fez foi uma mistura de oportunismo eleitoral com vontade de brilhar sozinho num partido pequeno. José Rainha Júnior [... Ele acha que no PSTU só vai ser menos importante que o Trotski’. Gosta de baixar o nível’. foi convidado a ingressar em partidos menos ortodoxos. a mudança de sigla não reverteu necessariamente em sua reeleição e Lindberg não conseguiu ser reeleito. brinca Fernando Gabeira. Ameaçou renunciar ao mandato na hipótese de condenação do líder dos sem-terra.

são: Gaglietti. entretanto. mas alguma noção culturalmente situada. em 1997. mas sobre sua criação. obtendo 40. sendo consciente. Em 2001. em 1999. Keck (1991). Conforme assinalou Velho (1999:29). considerado um coeficiente alto para um partido do porte do PSTU197. por exemplo. após estes episódios. mas que não o tomam necessariamente como objeto. Nobre (2004). “Hoje. Ainda pelo PSTU. aos 29 anos. neste mesmo ano e. Soares (2004). “badboy”. mudou um bocado. Lindberg. trajetórias ver. Gadotti (1989). decidiu mudar seu visual (emagreceu.] São 88 quilos sarados em 1. não do tipo homo economicus. de riscos e perdas quer em termos estritamente individuais. Nas eleições de 2002.À fama de “radical”. a correr). trocando cotoveladas com seguranças da Câmara dos Deputados. Lindberg efetuou uma nova troca de partido. Florestan Fernandes (1991). [.. “o projeto. partido no qual ingressou em 1997. “encrenqueiro”. projetos. somava-se também a de “bêbado”. começou a praticar esportes. Pereira (2004). O visual. grifo do autor). (1999). Lindberg protagonizou confusões dos mais variados tipos: com policiais. Dacanal (2002). Lindberg Farias pode até continuar o mesmo radical de sempre – tanto que permanece filiado ao ultraxiita PSTU. quer em termos grupais”. Outros trabalhos recentes que se referem ao PT. em 1998. 25/06/2000. Tais mudanças visavam o ano eleitoral de 2000. 198 O Partido dos Trabalhadores não é objeto desta tese. disputou uma vaga para a Câmara dos Deputados. envolve algum tipo de cálculo e planejamento.468 votos e sendo o terceiro 197 Chamo a atenção para a noção de risco intrínseca à própria concepção de projeto. durante leilão da Vale do Rio Doce. no intuito de transformar também sua imagem pública. por fim. Meneguello (1989). saindo vitorioso com 83.86m de altura” (O Dia. seja ele individual e/ou coletivo. disputou uma vaga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. envolvendo-se numa briga em uma lanchonete. filiando-se ao PT — o que gerou novas críticas e acusações de ex-colegas do PSTU198. 210 . Silva (2000)..503 votos. arremessando pedras em policiais militares durante leilão de privatização da Telebrás. mas novamente não conseguindo eleger-se — sendo necessário um mínimo de 85 mil votos. por achar os comunistas do PCdoB ‘muito conservadores’.

afastando-se dos “radicais” que acabaram expulsos do partido 199 É importante destacar que a vitória de Lula no segundo turno contra José Serra (PSDB). Dirceu tem dito que o grupo de deputados mais sectários deve sair do PT. 06/09/2003. De acordo com matéria publicada na Folha de São Paulo de 04/02/2003. o que implicou em embates e até em ameaças de expulsão do partido. Essa não foi a única manifestação dos conflitos internos ao partido. O episódio em questão recebeu abundante atenção da imprensa. Em seguida. integrando a “ala radical” juntamente com Heloísa Helena (a quem fez juras de amizade e fidelidade200). ficando cada vez mais tensa a relação entre os “radicais” e os “governistas”.848 votos) (TSE)199. por vezes. atrás apenas de Chico Alencar (com 169. na mesma matéria: “nas conversas reservadas. entre outros. a cúpula do partido estaria insatisfeita com as declarações e tomadas de posição de alguns de seus correligionários. Babá. 21/05/2003. Lindberg colocou-se contrário a decisões da “ala governista”. ‘O PSTU e o PCO receberiam esse pessoal de bom grado’. o então ministro da Casa Civil teria dito que “gostaria de ver fora do PT as senadoras Heloísa Helena e Ana Júlia e os deputados federais Lindberg Farias. agora pela primeira vez no governo. ele parecia estar assumindo uma posição de conciliação. Lindberg foi procurado por nomes importantes do PT. segundo Luiz Antonio Magalhães. que contaram com a presença do Presidente Lula. Luciana Genro e o Deputado Babá”. 200 Folha de São Paulo.131 votos) e Jorge Bittar (com 140. A trajetória no PT seguiu caminhos. marcaria uma nova fase para o Partido dos Trabalhadores. sendo alçado ao patamar de “questão de Estado”. Ainda segundo seu autor. do Observatório da Imprensa. 211 . Convidado a participar de reuniões. Em alguns momentos. Seguese. Luciana Genro. Revista Época. disse Dirceu a um grupo de deputados no último final de semana” (idem).mais votado do partido no estado do Rio de Janeiro. o jornalista Kennedy Alencar. polêmicos. entre outros.

a meu ver. já falam em sair do PT. Como retaliação e prenúncio do que estaria por vir. Na ocasião. Esse. “O deputado Lindberg Farias (PT-RJ) confirmou que está costurando uma declaração de voto. Querem ser expulsos do PT. Essa declaração envolverá parlamentares de outros partidos da base. E de nosso grupo. Alguns.— e que vieram a fundar o PSOL. A saída do partido dos que têm posição mais à esquerda favorece a consolidação das forças mais conservadoras no governo e fora dele. Do presidente do PT. ficando explícita na coluna por ele escrita. no início de maio. em plenário. para que os radicais possam marcar sua posição.”. de 02 de abril de 2003. em especial sindicalistas do funcionalismo público. a partir dos episódios em questão. Crêem que chegou a hora 212 . A votação da reforma da Previdência esquentou o debate sobre o governo Lula entre velhos militantes da esquerda. “A proposta de reforma da Previdência merece apoio dos deputados do PT? – Sim. a respeito da votação da reforma da Previdência — e publicada pela Folha de São Paulo. acompanhando os parlamentares que votaram contra o governo e que provavelmente serão expulsos do partido. De acordo com matéria do Jornal do Brasil. Sua aproximação definitiva de membros governistas do PT (e de seus projetos) deu-se a partir de então e foi sendo aos poucos estruturada. que consegui garantir um debate amplo sobre a autonomia do BC e o Pl9’. Quero alertar aos mais desavisados que a opção que alguns fizeram pelo tensionamento às últimas conseqüências faz parte de uma estratégia política. os jornais elencaram os motivos e as alianças que começavam a descortinar-se. em 09/05/2004. é um grave erro político. ‘A reunião de hoje foi uma dupla vitória. disse o deputado. Lindberg foi ameaçado de afastamento da vice-liderança da bancada do partido na Câmara dos Deputados. que demonstrou disposição no diálogo e capacidade de trânsito de todas as correntes.

da construção de um novo partido. estão presos a um velho esquema: o da Revolução Russa. naquele momento específico. Volta a direita. "Acho que a bancada pode ainda mudar muito a 213 . Se persistir a política atual. apesar de parcial. será importantíssima. que. a uma leitura equivocada e esquemática de seus feitos. Não é hora. os setores da esquerda do PT e dos movimentos sociais com a parte do governo que começa a entender que essa é a hora de iniciar o descarte desse entulho monetarista. de criar um movimento de oposição pela esquerda. Ou melhor. Os pronunciamentos de Lindberg — ora criticando duramente o governo. este verdadeiramente revolucionário. o governo entrar em uma outra fase que privilegie o crescimento econômico e a geração de empregos. Lindberg Farias (RJ). está esquentando. teremos uma vitória. É nessa batalha que o futuro do governo Lula será decidido. O fato é que o jogo não acabou. Se. mas de fortalecer uma ala à esquerda no governo e no PT que pressione e exija mudanças de rumos. 09/05/2004). não vem o PSTU. quando na verdade estão sendo usados como inocentes nas mãos da direita. Folha de São Paulo. portanto. 33. por outro lado. afirmou que não recuou em suas críticas ao governo e que não decidiu ainda qual será a sua posição na votação dos pontos polêmicos das reformas. voltam os tucanos e o PFL. Ao contrário. Temos de apostar em uma aliança ampla de forças que juntem do mesmo lado os trabalhadores e os setores produtivos do empresariado contra essa hegemonia asfixiante do sistema financeiro. A falta de uma avaliação equilibrada dessa correlação de forças pode levar uns a pensarem que agem como os portadores da coerência. perde o Lula e toda a esquerda. No fundo. de 1917. ora pedindo calma aos “companheiros” — revelavam a ambigüidade de suas posições ao mesmo tempo em que testavam suas possibilidades no interior do partido. Se o governo for derrotado. Ela nos dará um tempo maior na espera de uma alteração na correlação de forças em nível internacional que poderá abrir possibilidades para saltos maiores” (Tendências e Debates. Não creio na possibilidade de uma ultrapassagem pela esquerda a Lula e ao PT.

pelo então Ministro da Fazenda/ Economia. Acho que a bancada pode ainda mudar muito a opinião em relação à proposta. por uma importante parcela do PT nacional. recuou da decisão de ir contra a proposta do governo? Lindbergdigitação Farias . não irá para a comissão deéticaFarias . A impossibilidade de manter-se unido aos “radicais” e de dar continuidade aos seus projetos políticos fez com que Lindberg buscasse o alinhamento com o chamado Campo Majoritário (composto.Mas o sr. Folha . que entendo ser errada.O sr. já vinha se delineando anteriormente.Não vou dizer de antemão qual será o meu voto. Continuo articulando contra a cobrança dos aposentados.Por que o caso do sr. na época. pelo Presidente Lula.O sr.Eu não recuei um milímetro.Acho que eles quiseram dar um exemplo agora. mas consolidados somente após o rompimento com os “radicais” — e a tomada de posição a favor de projetos de interesse dos governistas — lhe renderam. Mas eu continuo contra determinados pontos da reforma. Folha . 13/05/2003). mais especificamente em meados de 2003. Os contatos iniciados desde o fim de 2002. Folha .Fui contra. o apoio a seu nome como pré-candidato à eleição majoritária em Nova Iguaçu. Eu não antecipei o voto. José Genoíno. concordou com a proposta do Campo Majoritário de o debate ser interno e o voto em conjunto? Farias . Folha . disse o deputado federal. de alguma forma. José Dirceu). pelo presidente do PT. Mas quero ganhar a bancada (Folha de São Paulo. entre outros. vai votar contra a proposta de reforma previdenciária do governo? Farias . Vou trabalhar para isso. Antônio Palocci e pelo então Ministro da Casa Civil. alinhamento este que.opinião". 214 .

José Dirceu. no entanto. mas também para fazer nome.A pré-candidatura de Lindberg não foi. divulgado a partir das investigações sobre corrupção dos Correios. 215 .Paulo. Ela refere-se a um suposto esquema de pagamento mensal a parlamentares da base governista. com a reeleição na maioria delas. para afirmar nomes. por exemplo. e Verena Glass. Em 2000. Primeiro. deu origem a uma Comissão Parlamentar de Inquérito que colheu depoimentos de diversos nomes envolvidos no escândalo e culminou na cassação do mandato do deputado Roberto Jefferson. quando nos reelegemos em apenas 30% dos municípios que governávamos. em matéria do dia 6 de junho de 2005. disputamos para acumular forças. temos que vencer nas cidades pólos. a primeira prioridade é disputar essas eleições para ganhar. Em algumas das eleições anteriores. Ottoni Fernandes Jr. do ex-Ministro Chefe da Casa Civil . da Agência Carta Maior. Tal esquema. em troca de apoio nas votações do plenário. Através. Genoíno traçou um panorama das disputas anteriores e da posição que o partido deveria tomar a partir de 2003. “Como o PT é governo. lançamos candidatos para ganhar. Além de garantir a reeleição dos nossos prefeitos. um ato isolado do PT. Eu estou insistindo muito nesta tese. e sim uma das jogadas no tabuleiro político regional com implicações para um projeto político nacional: as eleições de 2006. em 16 de setembro de 2003 — podemos perceber como as lideranças do partido ponderaram suas resoluções e preocuparam-se em construir um projeto coletivo (para o PT). José Genoíno — em entrevista concedida aos jornalistas Marcel Gomes. mantendo as prefeituras que o PT já governa. temos que entrar para ganhar. A primeira ocorrência da expressão em um veículo de comunicação de grande reputação nacional foi no jornal Folha de S. A expressão “mensalão” foi cunhada pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e imediatamente adotada pela mídia. feitas pelo então presidente do PT. de olho na eleição presidencial. evitando o que ocorreu em 2000. e do deputado Pedro Corrêa (PP/PE). nas capitais de estados importantes e nas cidades com mais de 200 mil habitantes. Na entrevista em questão. não podemos deixar de mencionar o episódio conhecido como “mensalão”. de declarações sobre as estratégias para as disputas eleitorais de 2004. Também queremos prefeituras de pequenas e médias cidades e pelo menos um vereador em todos os municípios”.201 201 De um ponto de vista retrospectivo. Em 2004.

apoiando quem for enfrentar o César Maia. ocorrendo apenas localmente. Genoíno afirmava. Já com [relação a]o PMDB: nós vamos lançar candidato próprio no Rio. que se colocava contrária a candidaturas “estrangeiras” à Baixada. então. PL. também condenou tal candidatura. Não foi o que ocorreu em Nova Iguaçu. poderemos fazer aliança com o PTB. em algumas cidades do Rio de Janeiro. PP e PMDB). Por exemplo. mas que não se processariam em nível nacional. Fazendo coro às declarações da vice-governadora — e sendo o mais interessado no desfecho negativo para Lindberg — Adeilson Telles. exsecretário estadual de Trabalho durante o governo de Benedita. e o PMDB também. PSB. E faremos aliança no segundo turno. o presidente do PT afirmou que a eles caberia: “[…] com recurso ao diretório estadual e no limite ao nacional. Com relação à autonomia dos diretórios municipais na constituição dessas alianças. alegando que o pré-candidato desconheceria a realidade da Baixada e que sua participação iria “contra todos os princípios defendidos pelo PT. O critério ético terá que ser respeitado na escolha dos candidatos e não vamos apoiar um prefeito de partido coligado ao Lula se existir um dossiê ou denúncia contra ele” (Grifos meus). o PTB tende a fazer aliança com o César Maia. Lindberg contava com as manifestações de apoio de Bittar. Mas na capital. PPS. que as articulações para acordos com os demais partidos — mesmo o PFL e o PSDB — não estariam descartadas. PTB. que é oposição ao governo e ao PT. Já tivemos exemplos de prefeitos de Nova Iguaçu que moravam na Barra da Tijuca e sempre nos colocamos contra 216 . por outro. como Benedita da Silva. enfrentava as críticas de outros nomes de peso dentro do PT. por exemplo. Se por um lado. no entanto.Enfatizando sempre a constituição das alianças a partir dos partidos que já integravam a base governista (PC do B.

23/09/2003). como Jerry Simões. a situação de prova (Boltanski e Thévenot. fundamentar o discurso e o projeto políticos (de tornar-se candidato do partido) na gramática da identidade social. De origem grega. 205 A escolha do candidato que concorreria à Prefeitura de Nova Iguaçu pelo PMDB também não foi consensual. apesar de desautorizar o anúncio da coligação com o PSDB. porém é mais aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal”. eram partidários de uma candidatura “nativa” — como a de Adeilson Telles. O descontentamento de 202 217 . investindo na condição estigmatizante vivenciada pelo “povo da Baixada”204. ela remete aos “sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava[…] Mais tarde. 21. Tal matéria também menciona o fato de Lindberg ter sido vaiado durante a inauguração do CEFET no bairro Santa Rita. p. um dos fundadores do PT em Nova Iguaçu. na qual também estavam presentes o Ministro da Educação. 204 Utilizo a noção de estigma tal como a define Goffman (1975:11).isso” (O Dia. Sendo assim — e conforme abordado por Freire (2003) — lançar mão desse status significava operar sob a lógica do estigma. e o deputado federal Nelson Bornier (PMDB). referia-se a sinais corporais de distúrbio físico. Já o presidente do diretório. A apresentação dos repertórios de ambos os A fala de Adeilson é novamente citada pelo jornal em matéria de 23/08/2003. ex-vereador. O mal-estar ocorrido no diretório local do PT deveu-se ao fato de a pré-candidatura de Lindberg trazer à tona as fissuras internas e a briga de facções no interior do próprio partido. de um morador. O mais cotado era o do deputado José Távora que também disputava a candidatura. o termo é amplamente usado de maneira um tanto semelhante ao sentido literal original. Atualmente. 23/07/2003. o prefeito em exercício. Nomes como os dos deputados estaduais Cornélio Ribeiro e Walney Rocha também foram “testados”. ou seja. na Era Cristã. houve um “racha” no diretório municipal e nomes locais pronunciaram-se contrários à candidatura “estrangeira” e às alianças que se delineavam. Mário Marques. Percival Tavares. O nome de um “nativo”. uma alusão médica a essa alusão religiosa.19202). desde setembro de 2003 (Hora H. manifestava seu apoio à Lindberg. por exemplo. 203 Alguns membros locais. dois níveis de metáfora foram acrescidos ao termo: o primeiro deles referia-se a sinais corporais de graça divina que tomavam a forma de flores em erupção sobre a pele. Em seguida. No caso estudado por Freire. uma vez que encarnaria a “identidade da Baixada”. 1991) enfrentada pelos pré-candidatos concerne justamente à uma reunião do partido cuja pauta era a escolha do nome que disputaria a eleição de 2004205. p. “a cara do iguaçuano” 203. Cristóvam Buarque (PT). Mas a escolha acabou recaindo sobre o “candidato natural”. como Adeilson — ainda que vinculado à ala mais “à direita” do PT (a Articulação) — parecia a escolha mais acertada. o segundo. candidato a prefeito na eleição de 2000 e ex-secretário estadual de Trabalho — e contrários à candidatura de Lindberg Farias.

trabalhando em serviços diversos até ingressar na faculdade de Engenharia Química da Universidade do Brasil. não se elegeu. ocupação. Ele será o capitão da minha equipe” (O Dia.lados — cada qual tentando adequar-se à situação dada pela “ala” oponente. Foi eleito deputado federal em 1994. no entanto. 09/06/2004) — preocupou peemedebistas. transferindo-se para o PDT antes mesmo de sua posse. religião. vindo a exercer o mandato na legislatura 2003-2007 — de 19 de fevereiro a 5 de agosto de 2003 — reassumindo o mandato em 15 de agosto de 2003 (Câmara dos Deputados). tendo recorrido ao Tribunal Superior Eleitoral. não prescinde ou desconsidera tal pluralidade. filiou-se ao PSDB. Mudou-se para Nova Iguaçu na década de 1950.” (p. ao incluí- Távora ficou patente e seu possível apoio (ainda que velado) ao candidato petista — que. elegendo-se vice-prefeito no pleito de 1982. mais tarde. Itamar Serpa206 — e com o PFL207. no dia 24 de junho de 2004. teve seu mandato cassado pelo TRE. partido político etc. Espírito Santo. Reassumiu novamente como deputado . 207 A homologação da candidatura de Lindberg Farias à prefeitura de Nova Iguaçu foi realizada pelo PT na Câmara Municipal da cidade. ficou novamente com a suplência. Em 1995. grupo de status. mas procura tratá-la a partir de algo que a englobe ou que. Nas eleições seguintes. sendo efetivado em 21 de novembro de 2000. ao menos. A dificuldade de aceitação — pela “ala mais à esquerda” do PT local — de determinadas alianças não impediu. 218 . no qual permaneceu até sua diplomação. grupo étnico. assim que soube da decisão.33). que. entrecruzaram-se na medida em que a viabilidade política do primeiro também estaria implicada (mas não exclusivamente) em estratégias eficazes para o projeto coletivo do segundo que. A formação de um projeto supra-individual. sintetize interesses comuns de “[…] classe social. acusado de abuso de poder econômico e corrupção eleitoral. Neste mesmo ano. todos esses foram fatores elencados no momento da disputa. originário do PC do B. 206 Itamar Serpa nasceu em Vitória. Reelegeu-se em 1992. a alusão a projetos específicos. na chapa de Pedro Ivo. De volta à política depois de alguns anos afastado. a ênfase nas trajetórias. família. em 1969. ficando com a primeira suplência. foi eleito vereador já pela sigla do PSB. de forma mais ampla. assim manifestou-se publicamente: “A camisa 10 da minha campanha está guardada no meu armário à espera dele. a candidatura de Lindberg firmasse uma coligação com o PSDB — por intermédio do vice. Exerceu o mandato de Deputado Federal de 30 de junho de 2000 a 25 de outubro de 2000. vizinhança. foi absolvido. Na eleição seguinte. Em 1998. Participou do movimento estudantil e filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PC do B) em 1965. nos termos de Velho (idem). filiou-se ao PMDB em 1980. Os projetos políticos de Lindberg e do PT. Ficava explícita a fragmentação dos interesses na luta interna ao partido e na diversidade dos repertórios arrolados.

de 23/08/2003. Em Busca Da Vizinhança “Se deixá-lo [Lindberg] sozinho em Santa Rita [ bairro de Nova Iguaçu]. entre dezembro de 2003 e agosto de 2004).lo como ator privilegiado. Neste período. no entanto. mas também com alguns políticos locais. que no início da corrida eleitoral. ele não sabe chegar ao Centro. Lindberg fosse acusado de “pára-quedas” e “forasteiro” e que sua candidatura sofresse fortes resistências. Não sabe chegar à casa dele” (Nelson Bornier. 21). tanto de políticos de partidos adversários quanto de militantes do próprio PT de Nova Iguaçu. A primeira delas seria traduzida no desconhecimento da população iguaçuana sobre a candidatura petista e seu candidato — período compreendido entre sua (alegada) mudança para a cidade em 2003 e agosto de 2004. Esta situação não impediu. 219 . procurou estabelecer contatos não apenas com os moradores da região. de 24/01/2004. Morando em um apartamento alugado no centro da cidade desde agosto de 2003 — pelo qual pagaria mil e duzentos reais de aluguel. com a intensificação da campanha de rua (com destaque para os showmícios) e com o apelo a um projeto novo de cidade e de Baixada. em matéria do jornal O Dia. mais quatrocentos reais de condomínio — Lindberg tentava desde o mês seguinte a transferência de domicílio eleitoral208. tornando-se conhecido e buscando criar laços de pertencimento à cidade (mais especificamente. A segunda teve início com o horário gratuito de propaganda eleitoral. A campanha caracterizou-se por duas fases. 208 Os valores foram divulgados pelo jornal O Dia. como aglutinava discursos potencialmente envolventes para os mais variados perfis. p. gerava não somente um repertório de interesses comuns.

aos três bairros que compõem a localidade. finalmente.Foi o momento de consolidação das alianças. portanto. de modo geral. tais comunidades esperam que os novatos se adaptem a suas normas e crenças. a busca pelos nomes certos significava o passaporte de entrada no campo político de Nova Iguaçu. se estes se submetessem a sua proteção e se contentassem em assumir. como pessoas que precisavam de ajuda. Destarte. “Os antigos residentes poderiam ter aceitado os recémchegados.63). 220 . ser um “nome conhecido”. a posição inferior que costuma ser destinada aos recém-chegados. assim como o ônus das escolhas e alianças compostas a partir daí. O autor chama a atenção para o fato de que não se trata de uma diferenciação de status “pura e simples” (p. mais estreitamente unidas e conscientes de sua posição. Não bastava. e implicaria arcar com o benefício. pelo menos durante um período de experiência pelas comunidades já estabelecidas. a disposição de ‘se enquadrar’” (Elias. na hierarquia de status. esperam que eles se submetam a suas formas de controle social e demonstrem. como também de segregação. a confirmação e. nesse caso. em um primeiro momento. havia a necessidade de entrar no jogo político local e de dialogar com seus “caciques”. 209 Como nos mostra Elias. em seu trabalho sobre Winston Parva (2000). a primeira forma de classificação social. assim como os antigos moradores de Winston Parva esperavam a “adequação” dos novos moradores às suas regras. Em regra. constitui-se na dicotomia entre antigos residentes e recém-chegados. em torno de sua identidade outsider209. O fato de “vir de fora” tornava esse início mais complexo em termos de conjunção de forças e composições partidárias. O rol de acusações que cercaram os indícios. os atores políticos “nativos” também tentaram impor as suas ao candidato recém-chegado. mas de uma diferença relacional de posição social relativa. o anúncio do nome de Lindberg como pré-candidato do PT à prefeitura da segunda cidade em população e importância econômica da Baixada Fluminense gravitou. 2000: 64-65). Diferenças à parte.

o nome de Lindberg foi capaz de fazer convergir repertórios a princípio inconciliáveis (identidade local X identidade mais ampla. a todo momento ameaçada de ruptura. Tinha ao seu lado membros da “ala” mais à esquerda (o Refazendo). Sem o apoio de uma rede política forte na cidade. não se desgrudam”. A aliança era mantida por uma linha tênue. O PT local discordou. uma caminhonete) com Rogério Lisboa. Apesar de todas essas dificuldades. op.. cit. Ainda nessa linha. pobre X rico) graças. para o movimento popular iguaçuano” (Freire. outsider X established. Eram inaceitáveis o nome de Itamar Serpa como candidato a vice-prefeito bem como a ligação de Lindberg com Rogério Lisboa. o discurso de um projeto “para os pequenos. vereador. membros da Diocese local e de alguns movimentos sociais.A escolha do nome do vice era fundamental para o ingresso na vida política local. 221 . à sua trajetória que o colocava (na ótica de alguns) mais à 210 Em uma das caminhadas das quais participei. mostrou-se bastante desconfortável ao perceber que este havia chegado junto (no mesmo carro. p. candidato à reeleição pelo PFL e inimigo declarado de alguns membros do partido em Nova Iguaçu210. No contexto do diretório local. Lindberg conseguiu contabilizar alguns importantes aliados locais. um membro do PT local. A frase dita naquele contexto ilustra exemplarmente o quão problemática era a relação entre os diversos atores da coligação firmada para a disputa eleitoral em Nova Iguaçu. por um lado. fazendo o seguinte comentário: “Esses dois estão igual irmãos siameses. conversando comigo sobre a campanha enquanto aguardávamos a chegada de Lindberg. além de lideranças do Movimento Amigos do Bairro de Nova Iguaçu (o MAB).4) conseguiu reverter os argumentos utilizados em defesa de uma candidatura nativa e operar a (re)definição da situação. Para uma parte dos petistas do diretório local — como Jerry Simões. um de seus fundadores e partidário de uma candidatura “nativa” — geravam desconforto a escolha de alguém “de fora” e as alianças que o partido havia feito. Lindberg não quis arriscar. talvez fosse ainda mais difícil levar adiante a campanha e obter sua aceitação.

Lindberg teve negados o pedido de transferência — em setembro de 2003. como já mencionado anteriormente. Gilberto Gil. 222 . pela ex-juíza da 27ª Zona Eleitoral de Nova Iguaçu. Mesmo alegando residir na cidade desde abril de 2003 (na casa de uma amiga) 212. A transferência do domicílio eleitoral configurava o primeiro passo para tornar-se. de fato. Clara Maria Jaguaribe213 — bem como seu recurso — no dia 21 de janeiro de 2004. de indivíduos capazes de conferir legitimidade/ poder/ acessos por intermédio da apropriação/ utilização de suas imagens/ falas por outrem. por outro. No dia 15.esquerda do partido e. em Nova Iguaçu. mais especificamente. Quando a transferência de domicílio foi negada a Lindberg. Mas isso não era suficiente para que a população o conhecesse. não havendo documentação em seu nome que fornecesse tal evidência. ou seja. A notícia de sua “entrada” na Baixada e. pelo juiz Joel Teixeira de Araújo — permanecendo em uma situação indefinida até 16 de junho de 2004. o Ministro da Cultura. ou seja. a seu acesso a uma constelação política. conseguiu uma liminar do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) garantindo não apenas a transferência almejada mas a possibilidade de disputar a eleição. 212 O verbo alegar é utilizado neste parágrafo. na medida em que o candidato não comprovou residência fixa. por fim. Lindberg ainda era um estranho. Serpa lançou-se imediatamente como pré-candidato em seu partido. desde o início. não foi bem recebida pelas redes políticas adversárias. o que provocou grande mal-estar e constrangimento. bastante complicada. foi à cidade participar do encerramento do seminário Cultura para 211 Utilizo a idéia de constelação política no sentido de uma configuração de notáveis. de “grandes nomes” (lideranças políticas nacionais do PT)211. o que somente ocorreu após a locação de um apartamento no bairro central da cidade. A agitação em torno de seu nome não parou e os conflitos exacerbaram-se a partir de dezembro de 2003. alegando que a conjuntura política havia mudado e que pretendia buscar alianças com outros partidos para viabilizar uma candidatura própria. A articulação política em busca de alianças locais significava um fôlego extra para a campanha. um morador (e candidato) de Nova Iguaçu. As pessoas ainda não o reconheciam nas ruas. além de dinheiro e de colaboradores. quando. 213 A aliança com Itamar Serpa foi.

de Bittar. O Dia. pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. Estavam presentes importantes personalidades políticas além de um público estimado. ao lado do Sesc de Nova Iguaçu. sendo a principal em torno do uso da máquina política federal para fazer propaganda com fins eleitorais no município. Em janeiro. entre 500 a 1000 pessoas (Jornal do Brasil: “mais de 500 pessoas”. que defendeu as alianças feitas pelo PT em Nova Iguaçu e em nível nacional. Na ocasião. o ato contou com a presença de José Genoíno. a equipe de Lindberg e o PT organizaram o primeiro ato político na cidade para o lançamento do programa de governo participativo214. de Gilberto Palmares. presidente regional do PSDB. dentre eles: O Globo. a ex-governadora e ex-ministra da O evento foi anunciado. mais precisamente no domingo dia 18. deputado estadual pelo PSDB. 214 223 . Tal visita provocou muito alvoroço e troca de acusações. protagonizou cenas de confronto público com o pré-candidato Lindberg Farias. ex-vereador carioca. 19/01/2004 e Estado de Minas. representando a mulher. Realizado no Centro de Formação de Líderes.Todos realizado no Sesc. deputado estadual e presidente regional do PT. de Adeilson Telles. o secretário municipal de Cultura. de Luiz Paulo Corrêa da Rocha. 16/01/2004 e 19/01/2004. 19/01/2004. ex-governador do estado. membro do PT local. em uma manifestação escrita e assinada pela Comissão Organizadora da Associação de Secretários da Cultura da Baixada. 19/01/2004. 16/01/04 e 19/01/2004. Estado de São Paulo. acompanhado e noticiado por diversos jornais. declarando repúdio à sua candidatura. importante nome da política regional e liderança estratégica na Baixada. 14/01/2004 e 19/01/2004. Nelson Freitas. Estado de São Paulo: “reuniu mais de mil militantes”). Este fato foi agravado — segundo nota oficial da Prefeitura de Nova Iguaçu — pois nenhum representante do município foi convidado a participar do evento. de Marcello Alencar. segundo os jornais. além de Antônio Pitanga. Jornal do Brasil. de Alexandre Cardoso. deputado federal e presidente regional do PSB. Folha de São Paulo. apesar de toda a querela judicial por conta do domicílio eleitoral.

o PFL de César Maia e um grupo do PSDB ligado a Marcello Alencar). No mês seguinte. Genoíno e Marcello Alencar permaneceram todo o tempo lado a lado. cercados por uma pequena multidão que vestia camisas com o nome do pré-candidato —concentrada atrás da mesa principal. em fevereiro de 2004. com isso. a promoção do nome de Lindberg e de suas propostas. A presença de personalidades importantes da política nacional e regional evidenciou qual era o lugar desta candidatura para o partido e para os interesses mais amplos de alguns partidos (uma parcela da executiva nacional do PT. ganhou o primeiro. Na queda de braço entre Lindberg e o PT de Nova Iguaçu. A importância do evento deveu-se não apenas ao lançamento do nome de Lindberg. configurando também uma demonstração de força do PT nacional frente às hostilidades de um grupo pertencente ao diretório local do partido. Benedita da Silva. mas a insistência na obtenção de apoio local acabou resultando na escolha de Adeilson Telles para a coordenação da campanha. Lindberg. como forma de apaziguar as diferenças e os problemas iniciais. juntamente com outros políticos. mencionando a possibilidade de mais verbas para a Baixada e a importância das alianças ou criticando partidos por “racionalizar(em) demais”.Assistência Social. de onde orquestrava as saudações e manifestações de maior entusiasmo juntamente com a platéia logo à frente. o deputadocandidato conseguiu — por intermédio de emendas individuais — que fosse destinado à cidade o maior montante do Orçamento Federal para um município do estado do Rio de 224 . Usando bonés de campanha. Tratou-se de um evento eminentemente voltado para correligionários. visando a cobertura da imprensa e.

do Ministério da Educação. André Luiz (PMDB).15 milhões dirigidos à Associação de Caridade Hospital Nova Iguaçu […]”. que sempre apontaram as emendas individuais como fator de clientelismo e de cooptação de parlamentares pelo governo. O suplente de deputado Fernando Gonçalves (PTB-RJ). destinou R$ 1. candidato em São João de Meriti. Eles destinaram R$ 63 milhões em emendas individuais aos municípios onde concorrerão à prefeitura[…] Os congressistas do PT. 225 . “Um grupo de 110 deputados e senadores parte para a disputa das eleições com uma arma a mais em relação aos seus adversários: as verbas do Orçamento da União. Foram mais de 9 milhões de reais. São R$ 2.Janeiro naquele ano. Em segundo lugar. aprovou três emendas para o seu município. Fernando Gonçalves (PTB). pré-candidato a prefeito de Nova Iguaçu. além de projetos ligados à área da saúde. Nelson Bornier (PMDB). mas deixou três emendas para o município. o PSB. onde o jornal Estado de Minas de 11/04/2004 dava o tom do debate.46 milhão ao Hospital de Caridade da cidade. R$ 300 mil para a unidade de saúde do bairro Venda Velha. outro candidato em Nova Iguaçu. dos quais Lindberg foi responsável isoladamente por quase 2. Serão R$ 750 mil para unidades especializadas em saúde. cedeu a vaga na Câmara para o titular Miro Teixeira. Os 22 petistas que disputam a eleição apresentaram um total de R$ 19 milhões em emendas para os seus municípios – média de R$ 860 mil. R$ 950 mil para a ampliação de oferta de cursos de graduação e R$ 800 mil para a instalação de um espaço cultural. com um total de R $6 milhões e média de R$ 680 mil[…] Os campeões do clientelismo são do Rio de Janeiro[…] O petista Lindberg Farias. foram os que mais utilizaram este instrumento. R$ 740 mil para revitalização de áreas centrais. aparece outro partido governista. A questão foi amplamente noticiada. Leonardo Picciani (PMDB).5 milhões215. Consórcio de Universidade Públicas. Os demais deputados fluminenses com emendas individuais ao Orçamento da União foram: Itamar Serpa (PSDB). Eduardo Cunha (PMDB). Na matéria intitulada Orçamento vira arma eleitoral. do Ministério da Cultura. 215 O dinheiro seria destinado a projetos como: Base de Apoio à Cultura. Sandro Matos (PTB). Laura Carneiro (PFL) e Jandira Fegalhi (PC do B).

que deveria agir como um bombeiro. reportagem de Evandro Éboli). Jornal do Brasil (O País.As “atuações” de Lindberg em projetos importantes do governo federal o inseriram no circuito das dádivas da máquina governamental. Folha de São Paulo (Brasil. a controvertida proposta/ avaliação do deputado-relator foi manchete dos principais jornais. Dia Internacional da Mulher. Em 29/04: O Dia (coluna de Cláudio Humberto). Indicado como Relator da Comissão Externa da Câmara para avaliar a polêmica demarcação de terras indígenas. O caso da reserva indígena Raposa Serra do Sol foi exemplar nesse sentido. Agravando ainda mais os conflitos. Em 20/04: Jornal Extra (Coluna Extra Extra. Em 22/04: O Globo (Opinião. o deputado federal e relator Lindberg Farias acusou o presidente da Funai de incentivar a violência. outras figuraram nos seguintes jornais: Jornal do Brasil (coluna do Boechat). artigo de Lindberg Farias). em hipótese nenhuma. Ainda envolto em problemas relacionados à comissão da reserva Raposa Serra do Sol. em 8 de março. para jogar mais fogo[…] Não se pode. Em 21/04: O Estado de São Paulo (Editorial.de Berenice Seara). sugerindo que ele renunciasse ao cargo. Em 28/04: O Globo. partiu como se tivesse um balde de querosene. apagando o incêndio deste conflito. além da matéria supracitada. em matéria publicada no Jornal do Brasil de 19/04/2004. reportagem de Luiz Queiroz). O Globo (reportagem de Ilimar Franco). devido às suas atividades na Câmara dos Deputados. sendo associada algumas vezes a “outros interesses”. 226 . Ainda em fevereiro. desde fevereiro de 2004. diversos jornais publicaram matérias a respeito da demarcação das terras e do relatório da comissão. Jornal do Brasil. O Globo (Caderno O País. se ausentou de Nova Iguaçu devido à viagem a Roraima. Em suas palavras: “ele. Em 27/04: Agência Câmara (reportagem de Tatiana Azevedo e Natália Doederlein). Em 19/04. indo — 216 Durante todo o mês de abril. A10). Lindberg já estava de volta à cidade. Lindberg apresentaria dois meses depois uma proposta que implicava na redução de até 45% do território da reserva Raposa Serra do Sol. página A3). tentar justificar o que foi uma verdadeira chacina” (referindo-se à morte de 29 garimpeiros na referida reserva)216. Em meio a críticas da Funai e de setores diversos da sociedade civil.

Jorge. foram liberados R$ 950 mil para a abertura das primeiras turmas e anunciada a liberação de mais R$ 30 217 O “calçadão”. Até porque ele não quer ser só um rostinho bonito na política fluminense” (Jornal O Dia. criando um grande shopping a céu aberto.juntamente com alguns assessores e candidatos à Câmara Municipal — para o “calçadão”217. O que a entrada no governo não faz com o cidadão. dirigir galanteios. Lindberg gostou da experiência. a publicidade angariada com os projetos governamentais e com a vinculação de seu nome ao da cidade de Nova Iguaçu possibilitava a criação de laços. líder dos cara-pintadas e hoje deputado federal Lindberg Farias (PT). o galã e ex-rebelde cara-pintada resolveu fazer um agrado e saiu pelo calçadão distribuindo flores às necessitadas. Começava a partir daí um cortejo219 que acabaria caracterizando a segunda fase de sua campanha: a habilidade — e o enorme sucesso — em lidar com o eleitorado feminino. na qual a maior parte das ruas é interditada ao tráfego de veículos. não reconheceria o radical de anteontem. Ainda em março de 2004. tampouco reeleger-se. do jornal O Dia. Tal evento revelou um tom apaziguador no discurso do deputado e de seu novo alinhamento no interior do PT. 227 . corresponde à área comercial no centro da cidade.” 219 Utilizo o substantivo no duplo sentido: denotando o ato de cortejar. ontem. Sendo assim. Segunda-feira. de 17/03/2004: “Quem ouviu o discurso do ex-presidente da UNE. corre-corre. sol a pino. gritinhos. Conforme nota de Arnaldo César. mas também como séquito e comitiva. “Lindberg Farias. mas não deve repetir. em Brasília. o de maior repercussão foi o da Universidade Pública da Baixada Fluminense220. no entanto. Ele disse que é contra extremismos e a favor de conversar sempre para atingir um ponto em comum. As ações de Lindberg como deputado federal visavam um único propósito: a eleição. não conseguiu aprová-lo. 218 Ainda naquele mesmo mês. 10/03/2004). constituindo sua bandeira de campanha. e beijos-ventosa ‘partout’. em 1992. no debate sobre o oleoduto Rio-São Paulo. distribuir flores para as homenageadas do dia218. no Centro. 220 Note-se que um projeto semelhante já havia sido proposto por Jorge Gama.. Lindberg participou de debate realizado em Brasília sobre a questão do oleoduto. Dentre os projetos por ele apresentados. foi o grande destaque do Dia Internacional da Mulher naquela cidade. Resultado: filas. convertidos em capital simbólico. Coluna Lu Lacerda.. como é popularmente conhecido. gato e pré-candidato à prefeitura de Nova Iguaçu pelo PT.

é bastante procurado pelos partidários de Bornier. PC do B). definindo os lugares específicos de cada rede e/ou facção política. Os locais são ponto de encontro nos fins de tarde e cenários das negociações e embates políticos em qualquer época do ano. por membros do PMDB e seus aliados —as reuniões e almoços do staff da prefeitura que pude 221 222 O Dia. por sua vez. O Siri do Galeão. não apenas um esporte mas também uma forma de sociabilidade tradicionalmente masculina foi. 228 . A presença cada vez maior de mulheres para assistirem aos jogos. das “peladas” (jogos de futebol222). 15/03/2004 e 18/03/2004. A sociabilidade política na Baixada passa necessariamente pelos bares. transformando-se em dos “lugares” do cortejo. Bar do Daniel e Bar das Meninas — todos próximos à prefeitura e às sedes desses partidos. Os membros de partidos considerados “de esquerda” (PT. O Pólo Universitário de Nova Iguaçu. Não é comum encontrarmos. A partir de então. Se durante o ano de 2003 e os primeiros meses de 2004. Um quadro espacial é montado no tempo da política. os restaurantes e bares locais. botequins e restaurantes. como foi batizado. Lindberg começou a participar mais ativamente da vida da cidade. tornar-se-ia uma das principais bandeiras da campanha de Lindberg e um dos elos fundamentais com seu eleitorado preferencial: a juventude iguaçuana. numa cidade do porte de Nova Iguaçu. Guebel (1996). costumam “bater ponto” nos bares Raízes. das festas.milhões até 2006221. como também alguns integrantes de movimentos sociais. mas fundamentalmente para verem Lindberg era marcante e noticiada pelos jornais. Os jogos de futebol. Lindberg procurou costurar as alianças político-partidárias (internas e externas) que possibilitariam uma candidatura com chances reais de vitória. ao longo da campanha. freqüentando as escolas de samba. no momento seguinte precisava confirmar sua inserção como morador de Nova Iguaçu. as diferentes redes políticas locais freqüentando os mesmos bares e restaurantes223. localizado próximo ao Corpo de Bombeiros. 223 Silva (1980).

a atribuição dos adjetivos variará de acordo com outros elementos em contextos específicos — como poderemos ver mais adiante ao abordarmos os ataques dirigidos a Lindberg por seus adversários na eleição municipal Lindberg. ou simplesmente tomando um chope224. Lindberg também se encaixou no circuito da boêmia política iguaçuana225. de 30/05/2004. ou seja. “paraíba”. Do mesmo modo. De um lado. de Conforme mencionei no capítulo 2 desta tese. Não me refiro apenas à dimensão da comensalidade. possibilitando à equipe de Lindberg um contra-ataque baseado na menção a (e reinvenção de) uma identidade maior.acompanhar durante as últimas duas administrações ocorriam costumeiramente nesse espaço. Paralelamente às iniciativas visando o reconhecimento e a aceitação de Lindberg. com dizeres como “Trate bem o turista. Esta polarização é. mas à tênue fronteira entre a política e a alegria/ vadiagem/ vida desregrada representadas pelo consumo algo excessivo de bebida alcoólica pelos políticos e seus afins. circunstancial. Testando a capacidade de mobilização desse discurso — inicialmente surgido como acusação — Lindberg procurou utilizá-lo como mote para o estabelecimento de um vínculo com os moradores da região. É comum encontrar ali alguém ligado à família (por parentesco ou afinidade) jantando semanalmente. O Pizza e Pasta é um dos restaurantes prediletos da rede política dos Raunheitti. ressurgiu a discussão em torno de sua condição outsider. 226 Ver Anexo. A ênfase em tal pertença social acabou redimensionando as posições no interior da arena política local227. no entanto. 227 A mídia. mais especificamente a imprensa escrita. agora redefinida sob a égide da identidade nordestina. 225 Os “encontros” políticos em bares/ botequins/ restaurantes foram matérias de jornais como: O Dia. político-irresponsável. por sua vez. A distribuição de panfletos apócrifos por toda a cidade. “fundadora”: a identidade nordestina. desconsiderava a composição da Baixada em termos de origens sociais e regionais. a oposição (os candidatos Fernando Gonçalves e Mário Marques) o acusava de forasteiro. Há uma lógica operando a classificação dos agentes políticos em político-boêmio-alegre e. teve um papel primordial nesta ênfase. Tal consumo é por vezes acionado como categoria acusatória. mas não vote nele” marcou o início da ofensiva226. no extremo oposto. 224 229 . que será tratada mais adiante. a política em Nova Iguaçu relaciona-se intimamente à boemia. A acusação de “forasteiro”.

no caso em questão? Ou. 1992. a identidade nordestina da Baixada é um lugar-comum. no caso da eleição em questão. pelo candidato do PSTU. por exemplo). quem é “mais nativo”? A questão da identidade social e da busca por uma origem que se apresenta como o cerne da problemática da representação é aqui recolocada. de fato. 1999. mas seus autores têm se esforçado para reverter esse quadro. entre os não acadêmicos. 1992 e Viana. Apesar de a Baixada ser. revelando possibilidades para sua utilização pelos atores sociais aqui analisados. o morador da Baixada a ponto de fazê-lo sentir-se mais ligado a um candidato que a outro? Ser iguaçuano ou nordestino? Em que espaços e momentos 230 .outro. Prado. Que identidade marcaria. Monteiro. Lindberg — e sua equipe de assessoria —defendia-se. composta por um número significativo de migrantes nordestinos — sendo que em Nova Iguaçu este percentual sobe para 40% do total da população — é importante mencionar o fato de que há também uma forte presença negra na região. 2001 e. apresentando dados significativos sobre a composição desta parcela da população na região (Gomes. Levanta-se então a seguinte interrogação: quem é o nativo. aos trabalhos acadêmicos (Souza. único candidato negro à prefeitura de Nova Iguaçu. Carlão. o resgate da presença negra na Baixada é operado apenas pelos movimentos sociais ou. Gramado. reiterado em discursos diversos: desde a fala oficial de representantes políticos. 2000. No campo político. Tal questão é abordada em apenas alguns poucos trabalhos que pesquisam a história local. criando estratégias como a da alegação de uma origem social comum entre ele e a maioria da população da Baixada Fluminense e de Nova Iguaçu — ele era “um nordestino. de fato e de direito. da imprensa. com muito orgulho!”. Mais que um argumento. 1998).

de modo geral. a convenção do partido. de fragmentação dos símbolos e discursos empregados na constituição dos personagens políticos. A satisfação de condições gerais não é dada a priori. não se confirmou. de fato. ao mesmo tempo. Sua resposta foi pontual e sua campanha acabou não se apoiando (mais do que para responder às acusações) na identidade nordestina. O início da campanha de rua foi marcado pela sensação de total desconhecimento da população com relação a quem ele era. apesar do apelo à identidade. que contou com a presença do Ministro da Educação. incapaz de qualificar um dos candidatos de maneira a singularizá-lo frente aos demais e. a preocupação central era com a conquista do eleitorado iguaçuano. oficializou a candidatura de Lindberg Farias à prefeitura de Nova Iguaçu. o campo político tendo uma incrível capacidade de mover-se e transformar-se. Pela própria fluidez de tais classificações e pela incerteza a respeito da identidade que cada candidato deveria assumir — além do ônus da contra-partida do adversário — a adoção do discurso identitário como bandeira de campanha seria excessivamente arriscada e imprevisível. como já se esperava. qual a sua ligação com a cidade e com os grupos que detinham (e ainda detêm) o poder. mais eficaz. As reuniões com 231 . Aldo Rebelo.aciona-se uma ou outra identidade? Para a política local. Tarso Genro. Tal discurso se demonstrou inócuo. A dinâmica do processo eleitoral e dos processos de identificação. o que parecia a melhor estratégia para desacreditar e deslegitimar o candidato “forasteiro”. o cotidiano da campanha seguiu em outras direções. Assim. a identidade local (de morador) ou a regional (de migrante)? Não há uma resposta única para todas essas questões. o que se mostraria. como alguns chegaram a prever. e o da Coordenação Política. No dia a dia da campanha. Em junho. o que fazia ali. revelam o poder de aglutinação e.

recorrendo inclusive ao expediente de registrá-lo em cartório228. Responderam-me que isso vinha acontecendo com freqüência e. 232 .associações de moradores e lideranças dos bairros foram as primeiras atividades desenvolvidas em busca de possíveis interlocutores e da conquista de contatos e alianças. A rotina de Lindberg — quando teve início o período eleitoral oficial (6 de julho de 2004) — começava bem cedo. a atitude foi pensada para gerar publicidade e render-lhe algumas notas e matérias na imprensa. o que revelou-se diferente na periferia. Suas caminhadas pelos bairros centrais praticamente não tinham repercussão. legitimidade. Assim. o candidato tentava diferenciar-se da “politicagem local”. momento em que indaguei alguns funcionários dos guichês da rodoviária sobre a periodicidade dessa ação. Apesar de contar com o apoio de Marcello Alencar — que enfrentava seu ex-pupilo Bornier. Testemunhei tal fato num dia em que esperava o ônibus para voltar ao Rio. Uma frase bastante ilustrativa de tal inadequação inicial foi retirada de uma entrevista feita com um assessor de imprensa que acompanhou 228 Aqui novamente percebemos a eficácia da estratégia de marketing da equipe de Lindberg. Lindberg costumava ser visto acompanhado apenas por alguns poucos candidatos à Câmara Municipal e por seu staff. “o menino (referindo-se a Lindberg) bate ponto aqui”. segundo um deles. já era possível encontrá-lo distribuindo material de campanha. A partir da apresentação de um programa de governo anunciado como tendo sido concebido “em conjunto com os moradores” e. portanto. “sólido e bem construído” a partir da “realidade da cidade”. no Terminal Rodoviário da cidade onde procurava aproximar-se das pessoas comuns. Às 6 horas da manhã. o discurso “para os pequenos” ganhava contorno e sua candidatura. com elas conversar e tornar-se conhecido. agora ligado a Garotinho — desde o início da campanha. Segundo um de seus assessores.

acompanhei algumas das caminhadas na periferia e na região central do município. Além do desconhecimento do candidato. a campanha também não dispunha de material físico e humano adequado. 233 . Ainda nesse primeiro momento da campanha. Lindberg chegava. segundo este mesmo assessor. que anunciava a chegada de Lindberg e reproduzia o jingle da campanha. quase invariavelmente acompanhado do candidato Rogério Lisboa (PFL). partido do presidente Lula.Lindberg desde o início da campanha: “Era preciso que a gente falasse assim: Esse aqui é o deputado federal Lindberg Farias. Ainda assim. invariavelmente a pequena banda — que se assemelha àquelas que 229 Tais críticas também vinham dos candidatos às prefeituras do Rio (Bittar) e de Niterói (Godofredo Pinto). Adeilson Telles. que vai ser nosso prefeito aqui em Nova Iguaçu”. mesmo. era praticamente necessário “arrastar” as pessoas para que o candidato pudesse conversar com elas. Dependendo do bairro que se visitava. a falta de recursos era evidente e. o candidato à Câmara de Vereadores local reunia um grupo de pessoas (o tamanho dependia do prestígio de cada candidato e dos recursos disponibilizados) que ia de casa em casa chamando os moradores com um carro de som (uma kombi). exigindo o apoio do PT para que houvesse chances reais de disputa contra a máquina do governo do estado229. as críticas dos candidatos petistas à executiva nacional eram constantes. contando apenas com algumas kombis — com a logomarca da candidatura — e com uma banda composta por músicos locais. do PT. Somente após uma ou duas horas do horário marcado para a concentração. distribuir seus “santinhos” etc. De início. declarada pelo então coordenador de campanha. de líderes de bairro e. Nestas eleições. Na ocasião. havia também a presença de lideranças de movimentos sociais locais como o MAB (Movimentos Amigos do Bairro de nova Iguaçu).

necessário e. Ela constitui o local privilegiado da interação. Lindberg costumava chegar no mesmo momento que os candidatos do PT — e de partidos aliados — à Câmara Municipal. cumprimentava funcionários. onde a corporalidade. em parte. então. disse um dos assessores políticos de Lindberg. Essas 230 Denomino imantação política. o evento por excelência do contato entre corpos que produz efeitos como se aí operasse uma espécie de imantação230. Entrava nas lojas. É importante para o eleitor tocar. “A rua é a casa do candidato”. ressignificada pela virtualidade da aproximação dos corpos. abraçar ou. por onde circulam milhares de pessoas todos os dias. conversava com as pessoas. pelo olhar dentro dos olhos. o primeiro detendo forte poder de atração. portanto. o responsável pelo grupo. apertar a mão do candidato. As eleições municipais propiciam. a hora e o local de concentração do evento eram anunciados com antecedência. a interação intensa. caminhando por quase toda a extensão da rua principal. cujo grau de proximidade/ contato não é avaliado a priori pelo sujeito político e os demais atores sociais. É a expressão de uma proximidade não existente nas eleições estaduais e federais ou. pela troca de palavras e gestos. em algumas até mesmo entrava. conta com várias ruas de circulação exclusiva para pedestres. até mesmo exigido. A imantação distinguiria-se do carisma na medida em que seu tempo-espaço específico seria o tempo da política. o contato físico se faz mais evidente. às vezes. O predomínio das relações face a face garante que a política (distante. No bairro central. vazia e impura) seja. de autoria de um dos músicos. encantamento sobre os demais. sempre acompanhado pela bandinha de música. 234 .tocam em coretos de praça ou em festas de igreja de cidade pequena — cujo repertório era. ao menos. cumprimentava. não necessariamente. Sendo assim. Região de localização do centro comercial da cidade. a organização dos encontros adquiria outros contornos. Lindberg parava nas portas das casas. sedução. pelo menos.

Em uma das visitas de Benedita. A essa altura. a convidada reclamou em tom de brincadeira. Meu primeiro contanto pessoal com o candidato do PT foi travado em um jantar com um empresário — e potencial financiador de campanhas na Baixada — em junho de 2004. Miguel Couto. Tal episódio foi motivo de piada tanto entre eles como entre os adversários232. No 231 Apesar de não atingir o objetivo almejado. assim como em campanhas dos demais candidatos. Havia também as carreatas pelas ruas da cidade e por bairros mais afastados. Tinguá. tentando conhecê-lo. as tensões ficavam à margem e as críticas. ainda não tinham aderido à campanha. segundo militantes e um dos assessores de Lindberg. não foi capaz de mobilizar o número esperado de moradores nesse início de campanha231. eu conversava com pessoas próximas. prioritariamente) e duravam. assessores. Esta situação manteve-se inalterada até meados de agosto de 2004 e mesmo a presença de Benedita da Silva. em média. ainda na parte da manhã.caminhadas pelo calçadão davam-se. 235 . Assim. Em algumas localidades havia uma melhor aceitação —no centro comercial e em bairros da periferia. os moradores. Percebi tal situação em diversas conversas com membros do diretório local do PT. de modo geral. ou depois das 14 horas. cerca de três a quatro horas. Nas demais localidades visitadas. em caminhadas por bairros da cidade. Na primeira fase da campanha. em horários de pico (perto do horário do almoço. Nessas caminhadas. a bandinha de música enfrentou problemas técnicos e. a presença de Benedita da Silva já demonstrava o papel da relação entre política e religião em Nova Iguaçu e na Baixada de modo geral. dissimuladas em tom de brincadeira e de deboche. Vila de Cava. Palhada. a maior parte dos carros que acompanhava a comitiva pertencia a candidatos e pessoas a eles ligadas. geralmente. Geralmente. como Posse. 232 A escassez de recursos durante o que convencionei chamar “primeira fase da campanha” era expressa na forma de uma joke relationship. entre outros. ficava difícil aproximar-me do candidato. a população ainda estava “estudando” o candidato. candidatos à Câmara Municipal e eleitores. assunto que será abordado mais adiante.

Depois de sermos brevemente recebidos pela pessoa responsável no Tribunal de Contas. ao contrário da esposa. mas que contaria com a presença de “pessoas envolvidas com a política”. A preocupação com a decoração. não seria “político”. a princípio. Depois de passar toda a manhã observando os despachos em seu gabinete. em seguida. pois uma de suas atividades consistia em entregar relatórios no Tribunal de Contas — no referido município — cujo prazo já se havia esgotado. veio até a mesa em que eu estava (a uma distância de mais ou menos dois metros). ao lado da Assembléia. O marido. e atenuado no do marido — que 236 . segundo a esposa. Saímos de Paracambi por volta das 16 horas e fomos direto para o centro da cidade (Rio de Janeiro). Além disso. tinham um filho de pouco mais de um ano de idade e estavam de mudança para outro apartamento — no mesmo bairro. preferiu fazer a entrega pessoalmente. fomos à ALERJ para que o prefeito se encontrasse com assessores de políticos aliados. seguimos para o Rio de Janeiro. residiam na Barra da Tijuca já há algum tempo. A conversa levou cerca de uma hora. Na ocasião. nos dirigimos à Barra da Tijuca. nos dirigimos ao Café do Paço. Ele pediu que eu ficasse em uma mesa separada. André Ceciliano (PT). acompanhei suas atividades durante um dia inteiro de trabalho. onde o prefeito conversou com dois assessores de deputados. não falava sobre seus bens. pois precisaria tratar de assuntos confidenciais. porém maior (um duplex). Como ele dispunha de acessos em tal órgão público. mencionando o novo apartamento apenas quando indagado por um dos convidados a respeito da mudança. Fomos os 233 Conforme apresentado na parte introdutória desta tese. Em seguida. quando possível. situação que denominei de “dia do prefeito”. Os dois têm “origem modesta”. o vestuário e as jóias era visível no estilo de vida da mulher. as conversas com candidatos à Câmara Municipal e algumas negociações sobre o nome que comporia a chapa como vice.dia 30 de junho. Ele é antigo morador de São João de Meriti — cujos familiares ainda residem no município — divorciado e pai de um adolescente. oriunda da Zona Oeste do Rio de Janeiro e dona de um salão de beleza em seu atual bairro. na cobertura do empresário/ anfitrião234. Eram mais ou menos 21 horas quando chegamos à Avenida Lúcio Costa. havia o compromisso de comparecer a um jantar que. Após alguns telefonemas. 234 O casal pode ser classificado como novo rico ou emergente. eu estava acompanhando o “dia do prefeito” 233 e candidato à reeleição em Paracambi. pediu um café e. nessa fase da pesquisa eu entrevistei alguns prefeitos da Baixada e. Ela.

o responsável pela bebida. mas que era provavelmente de ouro. e Rogério Lisboa corroboravam seu estilo. eu trajava. uísque e água mineral francesa. Lindberg Farias estava de calça jeans e uma camisa de mangas longas. optei por criar um padrão. Sendo assim. Rogério Lisboa235. Havia apenas uma empregada que se ocupava da comida. com exceção da dona da casa237. era sempre longa. ainda neste capítulo. camisa de mangas curtas pois o calor era extremo e as caminhadas com os candidatos e/ou suas equipes poderiam prolongar-se por horas a fio. sem decotes e de cores discretas. que poderia ser de algodão ou linha. pelo PFL. apresentado como seu coordenador de campanha e pelo candidato a vereador. Somente seu conselheiro-coordenador de campanha trajava um terno de cor clara (bege).primeiros a chegar e logo fui apresentada aos donos da casa como “pesquisadora da Baixada”. às vezes numa mesma jornada — constituía uma de minhas preocupações freqüentes. Mesmo tendo sido apresentada como “uma pesquisadora que estava escrevendo uma tese sobre a política na Baixada”. No jantar em questão. Seu tesoureiro. 237 Abordarei tal especificidade em um segundo momento. 237 . O candidato à prefeitura de Nova Iguaçu. Outra questão que me chamou a atenção foi o fato de que eu era a única mulher presente nesse jantar. Serviram prosseco. Todos os convidados falavam abertamente sobre qualquer assunto apesar de minha presença. não pareciam preocupados com o conteúdo de suas falas. Sempre usava calça jeans escura e blusa de mangas compridas. 235 A roupa adequada para enfrentar situações diversas — e. bermuda. 236 As conversas eram travadas entre um empresário do setor farmacêutico e o prefeito de Paracambi e entre este mesmo empresário e Lindberg — neste caso. Lindberg Farias. Quando vestia saia. uma vez que presenciei — ou mesmo participei de — conversas que giravam em torno das ações de políticos locais tradicionais. Tive então a oportunidade de conversar não apenas com Lindberg. versando sobre uma possível “ajuda” para a campanha em Nova Iguaçu. Nas campanhas de rua. como também com seu “coordenador de campanha”. Francisco Sousa (o Chico). às vezes. Os convidados ficaram a trajava uma camisa pólo (Ralph Loren). Eu vestia uma blusa de linha preta com uma gola branca que caía sobre os ombros e calça jeans. o prefeito de Paracambi estava com um terno escuro e discreto. sandálias e usava um relógio discreto. da questão da violência política em Nova Iguaçu e de seus “possíveis” mandantes ou ainda de aspectos relacionados aos financiamentos das campanhas236. Chico. sendo o anfitrião. só chegou por volta das 23 horas. acompanhado por um assessor. por Rui Aguiar.

Refiro-me especificamente à dimensão da relação entre ascensão social e mobilidade espacial e a seus desdobramentos para pensarmos estilos de vida e visões de mundo. 1977) — a problemática da visão de mundo e do estilo de vida é retomada. em uma ampla sala de jantar.maior parte do tempo na espaçosa varanda (que contava com uma banheira de hidromassagem em seu canto esquerdo. próxima a algumas plantas). os convidados sentaram-se no living e os homens fumaram charutos. organizado por J. quem lhe havia “recomendado” etc238. de certa forma. Ficaram conversando sobre a condução mais adequada para a campanha de Lindberg e sobre as ameaças por ele sofridas — abordando também suas desconfianças com relação aos supostos mandantes do “atentado”. em algum nível. As conversas versaram ainda sobre a “correria” da campanha. 239 A violência da campanha de Lindberg será abordada no próximo capítulo. mas sabia que a política na Baixada “não é mole” e que a violência é um dos recursos utilizados pelos “locais”. Depois do jantar. O bairro carioca representa para esse grupo (emergentes/ novos ricos) o que. Esclareço apenas que este episódio refere-se à abordagem ameaçadora sofrida por um de seus coordenadores políticos em Nova Iguaçu. 238 . Até o jantar ser servido na parte interna do apartamento. agora sob o prisma da percepção deste grupo a respeito da política e de como esta manifestava-se. Lindberg afirmou que de nada adiantariam as ameaças e que sabia exatamente de onde procediam — porque desde a época em que atuava na Câmara era um único deputado que costumava chamá-lo de “aquele paraíba”. A. tamanho “entra e sai”. Cotidiano e Política num prédio de conjugados (1981) (publicado anteriormente em Classes médias e política no Brasil. publicada no livro A Utopia Urbana (1973). em todos os aspectos da vida das pessoas entrevistadas. Guilhon de Albuquerque. A tese de doutoramento de Diana Lima (2005) também aborda a temática dos emergentes/ novos ricos a partir da análise do padrão de consumo e de sua relação na constituição dos sujeitos. “Não tinha medo”. Em outro trabalho do autor — dando continuidade à pesquisa em questão. Os anfitriões optaram por um cardápio japonês. fato este que mereceu grande destaque por parte da dona da casa que chegou inclusive a comentar com Lindberg onde os havia comprado. o cansaço —às vezes não dando tempo sequer de tomar um banho. Os talheres japoneses eram de prata. citando o nome de um tradicional político de Nova Iguaçu e a ele atribuindo sua autoria 239. tendo sempre uma camisa reserva no carro — e sobre a 238 Faz-se necessário ressaltar que a Barra da Tijuca é o destino da maioria dos políticos e empresários da Baixada Fluminense após sua ascensão social. Copacabana representava para os grupos white collar pesquisados por Gilberto Velho em sua dissertação de mestrado. todos conversavam e bebiam despreocupadamente.

240 A pesquisa em Nova Iguaçu teve início com o acompanhamento da campanha de Mário Marques para a reeleição. a convenção foi encerrada sem decisão alguma sobre o vice. Falou sobre o enorme acolhimento das pessoas de lá e de como a cidade era diferente do que a mídia apresentava. A mediação do primeiro foi fundamental para meu contato e posterior inserção na campanha do PT — até então não conseguida por meios próprios240. no qual lhe contavam o que estava se passando na convenção do PT de Paracambi para a escolha do candidato a vice em sua chapa. ocorrido por conta de um telefonema recebido por André Ceciliano. André dizia-se traído por seu secretário de governo — e presidente local do partido — que desejava que seu próprio nome fosse indicado. “não é o lugar que a gente vê nos jornais”.sensação de que sairiam vitoriosos. Muito nervoso. Nossa conversa foi interrompida por um momento de grande tensão. desistir da reeleição —o que seria péssimo para o partido. Pouco depois do episódio. por fim. reconhecendo a existência de muita pobreza na região. o que ele estava achando de fazer política ali e Lindberg me respondeu que “se sentia em casa”. dizendo que precisava controlar-se para reverter a situação e que não podia. A relação entre André Ceciliano e Lindberg Farias era de proximidade e de apoio mútuo. Uma outra seria convocada para que a escolha fosse feita. uma vez que minha inserção no campo havia se dado por intermédio das entrevistas realizadas com 239 . Lindberg tentou acalmá-lo. disse que estava desistindo da candidatura caso o nome que havia sugerido não fosse o escolhido. Em seguida. resolveu dar alguns telefonemas e. de forma alguma. Todos tentavam demovê-lo da idéia. Continuou dizendo que iria “mudar aquilo lá”. praticamente descontrolado e aos gritos. Esta notícia acalmou André. todos decidiram ir embora ao mesmo tempo. O nome por ele sugerido provavelmente não seria escolhido. mas André parecia irredutível. que foi aconselhado a negociar com os “interessados”. Perguntei sobre a cidade (Nova Iguaçu). No jantar acima relatado.

ou de sugestões como. de Rui Aguiar. à frente da Associação de prefeitos da Baixada — lhe rendia um knowhow e um trânsito que Lindberg não possuía. A experiência de André à frente da prefeitura era um capital que o candidato do PT não possuía — não tendo qualquer experiência no executivo — mas que podia lhe ser transmitido por meio de contatos. A coordenação “de fato” ficava a cargo. propriamente dita. a movimentação da campanha de Lindberg não havia impressionado a população local nem tampouco a imprensa. no entanto. integrante do partido do candidato. Tal relação me chamou a atenção porque existia um diferencial de poder entre André e Lindberg que. o sucesso de Lindberg significaria apoio político na região — assim como de nomes do PT com ampla visibilidade nacional — e dividendos visto que. 240 . no entanto. de forma geral. por sua vez. a experiência de André — fundamentalmente. visto de fora. que crescia nas pesquisas de intenção de votos.Lindberg conversava com o prefeito de Paracambi como se fora seu pupilo (mas sem a reverência típica desse tipo de relação). ele seria seu “garoto-propaganda” na região e no estado. Os contatos e acessos de André. de fato. tendia para o último. principalmente porque foi utilizado pela equipe de marketing do referido candidato através da divulgação de notas em jornais. provocou uma espécie de mácula em minha identificação local. nesse primeiro momento. 241 Utilizo o termo conselheiro-coordenador porque Rui Aguiar não era o coordenador “de direito” da campanha e não tinha ligações formais com o PT. como a publicada na coluna Extra Extra. No jogo político local. pedindo conselhos e o colocando a par de questões da campanha. no jornal Extra de 06/08/2004. Lindberg prefeitos da Baixada. Tal contato. de Berenice Seara. Havia um coordenador oficial. Para André. parecem ter sido bem aproveitados pelo candidato recémchegado. a do nome de Rui para “conselheiro-coordenador” da campanha241. Os números indicavam que a disputa giraria em torno de Fernando Gonçalves (28%) e de Mário Marques (26%). Até meados de agosto de 2004. de acordo com o projeto coletivo do partido. em relação ao primeiro colocado. caso deste jantar. cuja atuação corresponderia muito mais ao imperativo da conciliação política local do que à coordenação da campanha. por exemplo.

ou seja. Sendo assim. laços e interações sociais com os grupos locais. a socialização no mundo da política requer do principiante a obtenção de contatos e acessos que possibilitem a aquisição de capital político. ficando explícitas as diversas formas de ataque utilizadas pelas facções políticas envolvidas no imbroglio. geradora de uma série de ataques e contra-ataques. direcionadas individualmente ou disseminadas sob formulações genéricas. 1912) definia sua condição. a partir das performances não apenas dos candidatos. 242 241 . Lindberg tentava constituir uma vizinhança. 2000) e que fracassou – tampouco conseguiu cristalizar um vínculo de pertencimento de Lindberg com a cidade e seus moradores. A busca pela vizinhança (Park.aparecia em terceiro lugar (com aproximadamente 12%) e sua campanha de rua ainda não havia alcançado o ritmo desejado pelos organizadores. a cadeia que se forma a partir da primeira acusação. ao mesmo tempo em que buscava inserções no campo político. mas é no comício / showmício que tal prática ganha corpo. na Baixada.). dependente igualmente de uma decisão (positiva) da Justiça Eleitoral — cujos pareceres. réplicas e tréplicas que podem ser apresentadas publicamente. As propagandas eleitorais gratuitas são exemplares nesse sentido. lhe haviam sido desfavoráveis. op. em discursos televisionados e nos palanques. até então. além do financiamento de campanhas Há uma espécie de fórmula seqüencial. mas de todos os que formam o palanque (Palmeira e Heredia. aludindo a uma identidade outsider (Elias. o que passava inevitavelmente pelas articulações com políticos e empresários locais. é particularmente marcado pelo número de empresários diretamente envolvidos em cargos comissionados ou com mandatos eletivos na vida política. no material de campanha e nos discursos do candidato — sob a alegação de que Lindberg seria “nordestino como a grande maioria dos moradores da Baixada”242. possibilitou tão somente um contra-ataque sem maiores desdobramentos — veiculado pela imprensa. O apelo à identidade nordestina – inicialmente usado como acusação pelos adversários. Além da vinculação ao eleitorado. viabilizando o trânsito nessa arena. A construção de um elo local na condição de morador poderia significar maior “gás” em sua campanha. cit. Este campo.

de botequins. elegeu-se deputado estadual pelo PT. ainda que temporário. entre outros. Iniciou o curso de Direito algumas vezes. Este último teria exigido a não 243 Para ilustrar tal colocação. Seu afastamento. novamente. possibilitando. André iniciou sua vida pública em 1995 ao filiar-se ao PT. Délio César Leal. donos de padarias. André Ceciliano foi. houve uma grande disputa jurídica a partir da denúncia de compra de votos por parte do candidato do PL. mesmo partido do ex-prefeito da cidade e. atores políticos por excelência 243. Mudou-se para o Rio de Janeiro. As desavenças entre ele e o coordenador da campanha. Segundo ele conta. sendo o candidato mais votado em Paracambi (obteve 58% dos votos válidos). oriunda de uma família de portugueses e índios — foram buscar trabalho na empresa Nicola Salzano. levando boa parte da equipe que com ele trabalhava em Paracambi — e que. um importante mediador entre Lindberg e o mundo político da Baixada Fluminense244. São pequenos comerciantes. comerciante de origem italiana e ela. na época. Tuninho da Padaria. Sua relação com a cidade mantinha-se por intermédio das visitas aos familiares e amigos e do empreendimento que lá realizou. mas ao potencial de influência desses indivíduos na vida pública. candidatou-se à prefeitura de Paracambi. Nesse sentido. Em 2000. filho de um empresário local do ramo da construção civil e membro do PMDB. montando uma factoring na qual empregou vários moradores e amigos de Paracambi. saiu a decisão final do Supremo Tribunal.e demais “auxílios” em termos de prestígio e acessos. Itamar Serpa. No período em que esteve afastado da prefeitura. cuja vitória foi garantida por uma pequena margem (300 votos) de seu adversário. 244 André Ceciliano nasceu em Nilópolis e mudou-se. Em 1996. Volto a frisar: não me refiro apenas ao expressivo número de políticos-empresários da região. Somente no segundo semestre de 2005. eles configuram. a reabertura da única sala de cinema da cidade. Xandrinho. depois de sua vitória jurídica. de salões de beleza ou industriais ligados às áreas farmacêutica e de beleza. disputou a reeleição. Ainda no mês de agosto. 242 . André estudou na cidade e trabalhou na loja que pertencia a seu pai. em 1996. sempre acompanhando de perto as campanhas e seus candidatos — pois “tinha alguma militância no partido” — mas sendo empresário do mercado financeiro. fechada por mais de 10 anos. garantindo a posse de André Ceciliano como prefeito. Segundo Adeilson. André foi secretário de governo de Lindberg. Dr. sendo derrotado por Rogério Ferreira — médico cardiologista. cito apenas alguns nomes de empresários (de pequeno e médio porte) de Nova Iguaçu que têm ou tiveram mandato eletivo nos últimos anos: Fábio Raunheitti e seu filho. na região. em Nova Iguaçu. mas não o concluiu. antigos problemas voltaram à cena. “a personalidade de Lindberg é um problema”. foi eleito prefeito e em 2004. Nelson Bornier. deputado estadual . Adeilson Telles eram constantes. Dois anos depois. Neste pleito. na corrida de Lindberg à prefeitura de Nova Iguaçu. ao setor imobiliário ou à educação privada. resolvendo dedicar-se apenas ao trabalho. Fabinho (como é conhecido). acreditava “não ter o perfil do PT”. foi inevitável. na década de 1960 (com dois anos de idade) para Paracambi onde seus pais — ele. já tinha contatos com integrantes do partido. para lá retornou quase integralmente. Flávio (PL).

Primeiro porque seria o candidato natural do PT para as eleições. Somou-se. econômica e. à debilidade da posição de Adeilson naquele contexto. desde o início. Para além do fato de que os índices levantados poderiam causar um impacto interno no campo dos próprios aliados e da “justificativa ética” dada por Adeilson. sobretudo. permanecendo afastado das decisões e atuando muito mais como um “conselheiro”. esta não era de fato levada a cabo por ele — que acabava tratando de assuntos mais pontuais. 243 . conforme enfatizado nos trabalhos de Bourdieu ( 1976. culturalmente. em uma posição extremamente delicada. p. o episódio da sondagem não divulgada por determinação do candidato. idem. o articulador por detrás do coordenador. o que agravara ainda mais as discordâncias entre os dois. Em seguida. Uma nova crise era deflagrada. Rui Aguiar. desde o início da corrida eleitoral. desfavorecidos” (Champagne. portanto. no pólo oposto ao de Lindberg. num primeiro momento. a veiculação dessas pesquisas produziria um efeito de “construção de opinião”.divulgação de uma pesquisa de sondagem com indicadores negativos sobre sua popularidade. apesar das alianças internas ao partido visando um reajuste de forças e a indicação de seu nome para a coordenação da campanha. 1977 e 1980 [1973]) e de Champagne (1996 [1990]). por exemplo) foi. pelo menos. uma luta simbólica na qual cada ator político procura monopolizar a palavra pública ou. “[…] a política é. “homem dos bastidores” da política local. antes de tudo. Adeilson já estava. fazer triunfar sua visão de mundo e impô-la como visão correta ou verdadeira ao maior número possível daqueles que são. vinculado a políticos de Mesquita (à família Paixão.24). o que o colocou.

bem como a de algumas de suas personalidades. essencialmente devido à “guerra” travada entre o governo federal e o então Secretário de Segurança e ex-governador do estado do Rio de Janeiro.Desse modo. 244 . de Lindberg. como o candidato Lindberg Farias — e. que transformaram o candidato petista em um “fenômeno de popularidade”. de outro. entrava em cena em sua campanha a empresa de publicidade Super Nova que 245 Trabalho com a idéia de Champagne (1996). Um grande investimento (político e econômico) dos governos federal. resultou não apenas na atenção da mídia. mas hiper-dimensionou a publicidade local. disponibilizar os dados em questão. também o candidato Mário Marques. aplicação e divulgação das sondagens pode refletir-se na constituição da “opinião pública”. Nova Iguaçu tornara-se um dos principais cenários das eleições municipais de 2004. marcada pela entrada em cena de outros personagens — para a coordenação e realização da campanha — e pela veiculação do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE) e realização dos showmícios. e estadual. mais tarde. os índices de intenção de votos começaram a mudar. e não apenas no estado do Rio de Janeiro. primeiro em favor de Mário Marques e. da opinião pública como artefato. A partir deste momento. para Lindberg. mal podendo sair às ruas e caminhar sozinho. A segunda fase da corrida eleitoral teve início justamente a partir deste episódio. Anthony Garotinho. Sendo assim. significaria explicitar a debilidade da campanha posta em prática até então. Somente em meados de agosto de 2004. de um lado. no pólo oposto. O preço a pagar poderia ser alto e inviabilizar a estratégia pensada para reorganizar o campo de forças na arena política iguaçuana — via publicização de sua persona política e de seus programas eleitorais televisionados245. o jogo de poder imbricado na construção.

Foi a partir de setembro daquele ano. o TRE inovou ao distribuir a transmissão das propagandas eleitorais entre as principais cidades e canais de televisão. no discurso do candidato petista. segundo Daniela. um outro olhar sobre Nova Iguaçu e a Baixada Fluminense. entre outros. foi comprovado por meio de pesquisas e de enquetes.atuaria na fase decisiva da preparação da propaganda eleitoral para as mídias eletrônicas. O fato é que as transmissões em questão possibilitaram que um maior número de moradores conhecesse Lindberg. tornando possível a reestruturação da propaganda televisiva e o melhor aproveitamento das inserções diárias. sócios da agência de publicidade Super Nova. atingindo uma audiência muito superior a que tem habitualmente. assessora de imprensa de Lindberg durante a campanha e a ele ligada profissionalmente ainda hoje ). Refere-se. potencializando o poder de alcance e de influência de seu marketing político246. A emissora Rede Bandeirantes foi o canal sorteado para a propaganda eleitoral gratuita dos candidatos ao pleito de Nova Iguaçu e um imponderável acabou auxiliando os coordenadores da campanha do PT nesse período: as olimpíadas. Vozes e Cenários No ano de 2004. 245 . o que favoreceu a veiculação dos programas políticos dos candidatos do município. O papel desempenhado por Débora Souto. bem como aquele exercido por Pedro Cezar (responsável pela campanha de Mário Marques). ainda será abordado neste tese. Miranda e Cacá (os dois últimos. A Bandeirantes transmitiu com exclusividade tais jogos. de forma mais ampla. Não tratarei aqui da viabilidade (ou não) da mensuração das conseqüências deste acaso. à problemática do marketing e do peso de seus agentes (os assessores políticos) na arena eleitoral e seus desdobramentos para a democracia — tratados em trabalhos como os de Scotto (2004) e Castilho (2002). limitando-me a apresentar o real crescimento das intenções de voto e a chegada do candidato do PT ao primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto divulgadas ainda em setembro. responsável pela campanha de Lindberg Farias). com a propaganda eleitoral gratuita veiculada pelo rádio e pela televisão e com os inúmeros showmícios realizados. Instaurava-se assim. no entanto. percebi o destaque conferido por ela e por sua equipe à conexão olimpíadas-audiência para o reconhecimento do candidato do PT pela população local. que o candidato do PT 246 Em entrevista realizada com Débora Souto (uma das sócias da empresa de marketing e consultoria política Monte Castelo. o que.

Em 1934. com a lei no. constituindo igualmente o elemento central dos discursos dos candidatos (Palmeira. no governo do general Ernesto Geisel. 4. progressivamente restringido devido ao endurecimento do regime. Neste ano. a exibir apenas a foto e o currículo do candidato. idem). Cecília Meireles. revistas. foi aprovada em 25 de julho de 1976. em diversos trabalhos sobre trajetórias políticas e sobre eleições. Foi somente a partir da Constituição de 1988 que os todos os partidos políticos tiveram garantido o acesso ao tempo de propaganda eleitoral gratuita sem que. normatizando e fiscalizando os processos eleitorais. Caixa Econômica etc. no entanto. A criação. as forças de oposição ainda têm algum espaço na mídia. o DOP transformou-se em Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC) também ligado ao Ministério da Justiça. suprindo um espaço de informação e comunicação com a população. Sua propaganda política centrava-se na idéia de mudança. 1994. conhecida como Etelvino Lins. 246 . 2000). Concorrendo para a constituição de identidades. conhecida como lei Falcão. que relata os acontecimentos nacionais.115. Até 1968. então. A partir de 1964. pra ser feliz” foi o slogam da campanha e mudança foi a palavra-chave empregada para sensibilizar o público iguaçuano. E em 1937. 1998). mas a cada eleição a regulamentação se dá por intermédio de leis específicas a cada pleito. 1996. entre outros). Soares. passou a atuar na área de “educação nacional” já sob a rubrica de Departamento Nacional de Propaganda (DNP). O Código eleitoral será o responsável por restringir este uso. a partir da década de 1980 — a política passa a ser representada como um mercado no qual os candidatos podem ter suas “imagens vendidas”. grande ênfase é dada durante o regime militar à atividade governamental de relações públicas. em 1931. Manuel Bandeira. A propaganda eleitoral gratuita passaria. Desde a década de 1970 — mas. O Código eleitoral foi criado na década de 1950. além de anunciar horários de comícios (ver Castilho. até 1974 coexistindo com a propaganda paga .601. posteriormente suprimido pela censura — especialmente entre 1970 e 1974. do Departamento Oficial de Publicidade (DOP) representou a primeira vinculação entre propaganda e Estado. (Scotto. Barreira. criou-se o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). norteador da propaganda eleitoral de Lindberg. com a criação do Conselho Nacional de Propaganda (CNP). fossem proibidas as propagandas pagas em rádios. 2004). Lemenhe. 1995 e 1998. pode ser encontrado. Em 1939. subordinado à presidência da República e relacionado a nomes da intelectualidade brasileira e do movimento da semana de 22 (Cassiano Ricardo. a 247 Getúlio Vargas deu início à organização da propaganda política no Brasil. Foi durante o seu governo. jornais e canais de televisão. Este modelo da “comunicação governamental” caracteriza-se inicialmente pelo elevado número de anunciantes com ligações com o aparato do Estado: Banespa. em graus variados.passou a ter um crescimento extraordinário nas pesquisas de opinião247. responsável pela criação de “A Hora do Brasil”. A lei 6. fundamentalmente. programa transmitido diariamente pelas estações de rádio. durante o governo do general Médici.339. a modalidade gratuita foi extinta pela lei 9. principalmente. pretendendo-se um veículo fidedigno de informação aos eleitores (ver Scotto. com o intuito de conter os avanços da oposição (MDB) que aumentava o número de cadeiras na Câmara e nas Assembléias desde as eleições de 1974. “É hora de mudar. Carlos Drummond de Andrade. O tema em questão. Os partidos políticos só vieram a ter direito à propaganda eleitoral gratuita em 22 de agosto de 1962. com a instauração dos atos institucionais — fundamentalmente o AI5 (1968) — que caracterizou um período de controle e “fechamento” dos meios de comunicação de massa. que a propaganda — até então vinculada a produtos e marcas e dirigida ao mercado consumidor — centrou-se nas questões políticas.

Lindberg assumia..mudança aparece como categoria relacional na medida em que se constrói no discurso de diferenciação do Outro — neste caso. muito mais que um candidato ao governo de um 248 Segall (1979).. de classe social (movimentos sociais). A mudança pode ter uma conotação de gênero (candidatas mulheres em oposição a candidatos homens). imprimindo ao anti-coronelismo o tom de exortação moral [. Apesar das alianças com o PSDB e com o PFL. De modo semelhante a Lindberg. alcançar a parcela da população insatisfeita com o governo de Mário Marques e. Atacando o coronelismo. o discurso político de Tasso Jereissati opera igualmente com a “dimensão simbólica” do coronelismo no imaginário coletivo nordestino248.] Tasso é. mas a própria alma do povo. por um lado. “Insidioso mal. de perfil ocupacional (empresários) ou relacionada a uma estrutura de dominação política (remanejamento de poder com discurso de contestação/ crítica de elites locais). 1987) que viria resgatar Nova Iguaçu — e a Baixada. A propaganda de Lindberg referia-se especificamente a esta última. dar um basta à alternância das elites locais — representadas mais recentemente por Bornier e pela família Raunheitti — no poder. o coronelismo afeta não apenas o corpo desnutrido. portanto. em sentido mais amplo — da condição estigmatizante a que há anos se via relegada e reverter sua alcunha de “curral eleitoral”. o candidato do PT colocar-se-ia contra o complô permanente a que seus moradores estiveram submetidos. portanto. o clientelismo e o assistencialismo como práticas políticas “típicas” da elite local. 247 . por outro. o(s) adversário(s) político(s) — e vai se adequando aos contextos aos quais é inserida. instaurando um novo tempo para a política. o discurso do herói/ salvador (Girardet. pretendia-se. como nos mostra Carvalho (1995).

se nas propagandas gravadas. o candidato não costumava utilizar-se do expediente de atacar os adversários.) não tô (estou) de brincadeira. vale tudo!” (candidato à Câmara Municipal pelo PDT)..) eu vou entrar ali. no entanto. O projeto de uma nova Baixada. apresentavam-se sob forma “genérica” e não individualizada (omitindo nomes). na figura de um jovem e promissor político. fundamentalmente o MAB. ele é a materialização da imagem mítica da ruptura com os grilhões do passado.. de tudo” (palavras de Lindberg Farias).estado do Nordeste. o mesmo não se dava nos palanques. em 16 de setembro de 2004 — evidencia a ênfase em um discurso de diferenciação em relação aos demais candidatos e de transformação: “(.. prática esta que os demais candidatos entrevistados assumiram como rotineira durante o período de eleições: “é assim mesmo. O discurso do partido apresentava.. anúncio de um novo tempo na política” (pp.132-133). Tais ataques. A trajetória do candidato fundia-se então a um conjunto ampliado de imagens e projetos relativos à própria cidade. a partir de uma nova Iguaçu.) eu tô (estou) mandando um recado para aquela turma que tá (está) ali (. Devo ressaltar que. a Diocese de Nova Iguaçu e a Escola de Governo da Baixada. O jingle de Lindberg é exemplar para pensarmos a construção do discurso que moldou toda a sua campanha e que procurou forjar sua identidade política. Vamos entrar rasgando aquela máfia lá.. eu vou pôr ordem (. a possibilidade de experimentação de uma nova etapa na vida da cidade. 01 Ele foi cara pintada 248 . A fala de Lindberg — durante debate realizado no SESC de Nova Iguaçu pelos movimentos sociais locais. de compra de medicamentos. na hora da eleição.. era então veiculado nas propagandas televisionadas do candidato petista.

é hora de mudar. Estes pares de opostos 249 . em um dos pólos.. o tradicional e o moderno confrontavam-se por detrás dos nomes de Lindberg. 22 Lindberg prefeito. e de Marques/ Gonçalves. nova direção 10 Um novo caminho 11 Uma nova visão 12 Lindberg é o futuro 13 Com coragem e pé no chão 14 Pra cuidar de todo mundo 15 Coração e peito aberto 16 Pra mudar o que tá ruim 17 E pra fazer do jeito certo. 18 É hora de mudar 19 Pra ser feliz 20 Lindberg prefeito 21 É assim que se diz. no outro. (grifos meus) O velho e o novo..02 Líder de uma geração 03 E manteve o passo certo 04 Cresceu junto com a Nação 05 Hoje é homem de idéias 06 Que traz a solução 07 Sempre com a verdade 08 Sempre com a sinceridade 09 Nova Iguaçu.

a partir deste momento. no período pré-candidatura). o candidato do PT. A identificação da população jovem do município com o candidato do PT e sua atuação no movimento estudantil e no impeachment de Collor mostrou-se um dos pilares de sustentação da campanha (linhas 1 e 2 do jingle). seguido de Mário Marques (27%) e Fernando Gonçalves (16%). com 30% das intenções de voto. ao mesmo tempo em que costurava arranjos com políticos tradicionais sem que tivesse afetados seu foco ou prestígio. Se até o mês anterior. Não se operava mais uma disputa entre duas elites locais.aplicavam-se não somente aos programas políticos e slogans. sendo a trajetória como deputado (por dois mandatos) enfatizada como o traço que o distinguiria do “estudante”. resultando em um amálgama que permitia a Lindberg utilizar-se do discurso da mudança. redefiniu a luta política em termos de facções. o “poder de fogo” voltou-se inteiramente para o primeiro colocado. Acenava-se. a composição de forças era diferenciada. no entanto. portanto. as pesquisas de opinião já se haviam alterado. A esta altura da campanha (3 de setembro de 2004). Lindberg deixara para trás os 12% que registrava em 10 de agosto e já estava em primeiro lugar. 15 e 19). em “homem”(linhas 4 e 5). A temática da mudança sempre esteve relacionada à sua figura política e remetida à construção de uma trajetória ligada aos sentimentos e às emoções (linhas 14. como também às trajetórias e faixas etárias dos candidatos. A nova conjunção de forças em Nova Iguaçu. Sendo assim. ao mesmo tempo em que o transformara. ou entre uma elite local e um forasteiro (como tentaram qualificá-lo com a utilização da categoria “nordestino”. de fato. para uma nova polarização. A partir de agora. o grande rival de Mário Marques era Fernando Gonçalves e a disputa girava em torno das elites iguaçuanas — que tentaram atingir Lindberg por intermédio de um discurso apoiado na identidade local — os 250 .

Aqui. Aqui. para o “bem do povo”. foi aos poucos sucumbindo ao poder da máquina representada por Mário e pelo PMDB. e que seriam desmentidas pelo adversário para o conhecimento da população. idem) remete. e levando em conta que “o uso comum nos inclina a tomar por fofocas. admitindo-se assim um caráter de artificialidade e de construção de características apresentadas como verdadeiras por determinado candidato. haviam mudado de posição. a gente faz política com fofoca” (palavras de um assessor político de um dos candidatos à Prefeitura). A equipe de Marques iniciou um feroz ataque ao deputado federal do PTB que. A expressão acusatória dos sentimentos (Barreira. As mesmas iniciativas foram tomadas em relação a Lindberg.00. Todos com o mesmo conteúdo: acusações dirigidas ao candidato da coligação Hora da Mudança. outdoors denunciando seu voto a favor do salário mínimo de R$ 260. agora. a fatos contados como revelações. arruaceiro. na Baixada. Cartazes apócrifos foram espalhados pela cidade. A exibição de fotos de Lindberg bebendo uísque. novamente. as informações mais ou menos depreciativas sobre terceiros. cartazes revelando sua suposta concordância com a liberalização da maconha. mas. Grosso modo. em geral. Outdoors colocados em pontos estratégicos. violento. “Você tem que saber uma coisa. somando-se a falta de apoio e de dinheiro. foram expedientes utilizados pelos adversários para desconstruir a imagem de “homem de bem” e deslegitimar o discurso da mudança através da retórica do medo e da divulgação de antigas imagens a ele associadas: a de bêbado.jogadores. os sentimentos e os “atributos psicológicos” voltaram à tona nos ataques ao candidato do PT e na resposta de sua equipe. em especial. as regras do jogo devendo ser necessariamente reformuladas. neste caso. os resultados foram outros. transmitidas por duas ou mais 251 . drogado.

121). no entanto. Sua resposta às acusações também foi equivalente àquela adotada em 2002: no estilo “lulinha paz e amor”. vou criar meus netos na lama”. Se os ataques a Lindberg apresentavam-se de forma violenta e incessante. no qual os personagens surgiam e desapareciam conforme os “gostos” dos eleitores. naquelas eleições em particular.pessoas umas às outras” (Elias. op. Os temas das maledicências eram “testados” a partir dos sentimentos e reações manifestados pelos demais atores em jogo (os adversários. os eleitores). Lindberg incitava a população a optar por uma nova fase em suas vidas: “é hora de mudar pra ser feliz” (linhas 18 e 19 do jingle)249. a arena política num folhetim. verificamos que a fofoca — preferencialmente a blame gossip. mas não exclusivamente — transformou. A equipe de marketing responsável pela campanha do PT em Nova Iguaçu não atacou o candidato à reeleição em termos pessoais. “Isso aqui é uma vergonha. prometendo “cuidar de todo mundo” (linha 14). mostrando o 249 A menção ao “estilo lulinha paz e amor” foi recorrentemente utilizada por assessores e demais pessoas próximas a Lindberg Farias. cit. preferindo explorar sua atuação administrativa à frente da prefeitura por quase dois anos e os graves problemas de infra-estrutura que a cidade ainda enfrentava. provocar sua rejeição por parte da população local — fato muito bem explorado pela equipe de marketing do PT e capitalizado em termos de solidariedade e demonstrações de apoio ao candidato. os aliados. não conseguiram. p. Eu nasci na lama. o discurso do candidato do PT voltou-se para a revitalização dos bairros — percebidos como o locus da sociabilidade nativa por excelência —as peças publicitárias passando a enfatizar um conhecimento sobre a cidade e seus problemas. Por intermédio do depoimento de uma (suposta) moradora da periferia da cidade exibido em um dos programas eleitorais de televisão. 252 . tô criando meus filhos na lama.

de uma nova cidade. Neste sentido. A valorização da cultura local. alçar o iguaçuano à condição de legítimo representante da região. Além da temática da mudança e de suas implicações. a equipe de Lindberg e o candidato optaram por redefinir a Baixada a partir da condição iguaçuana. não apenas um projeto urbanístico como o das administrações anteriores de Bornier. operava-se com a idéia de que já haveria capacidades inerentes à cidade e a seus moradores. Conferindo o título de “capital da Baixada” à Nova Iguaçu. Nova Iguaçu deveria ser restituída a seu posto.candidato nas ruas com “sua gente”. uma nova Iguaçu. a par das dificuldades cotidianas do morador iguaçuano. inexploradas pelos antecessores políticos. O direcionamento de sua propaganda voltou-se. A potencialidade do crescimento e da grandeza era agora enfatizada a partir da natureza e da cultura próprias à localidade. então. o apelo “ao que Nova Iguaçu tem de bom” ditou o ritmo das propagandas e das falas políticas. a “terra” e as “belezas iguaçuanas”. Essa nova Iguaçu aparecia como projeto político. ou seja. a “comunidade da Baixada” ao invés de referir-se exclusivamente à Nova Iguaçu. bem como das propagandas televisionadas. 253 . mas um projeto novo. em muitas situações. do “tempo dos laranjais” (Souza. a campanha do PT propunha uma retomada do antigo prestígio e poder da cidade. mas também como vocação da cidade. quando ainda não havia sido desmembrada com as emancipações que se seguiram. da ecologia e do trabalho foram os pilares de sustentação de seu programa de governo. Sendo assim. 1992). para um projeto de reconstrução da cidade. de o “lugar” da Baixada. As tomadas externas da campanha publicitária priorizaram a “gente de Nova Iguaçu”. Evocando.

“pop star”. “o modelo da relação é basicamente centrípeto: um indivíduo centraliza as atenções de muitos. mas à fama alcançada pelo candidato do PT.135). especificamente. a fama — por vezes tomada como sinônimo de carisma — diferentemente da honra estaria ligada ao advento da comunicação de massa e à particularização do indivíduo que. pela conquista do eleitorado feminino. que o apelidaram de Lindoberg ou Lindinho. entre outras coisas. o fã (neste caso. seu “efeito” sobre as mulheres sendo sempre ressaltado em matérias jornalísticas. Lindberg já gozava da fama de “bonitão”. o que pode manifestar-se na idealização de uma relação amorosa com o indivíduo singularizado por seu carisma (que no caso desta tese foi ressaltado na relação de eleitoras com Lindberg) ou ainda. Assim como exposto no trabalho de Coelho (1999). A eleição iguaçuana de 2004. sendo da natureza mesma dessa relação a impossibilidade de o indivíduo famoso corresponder às expectativas que tantos alimentam a seu respeito” (p. a fama pode ser pensada em termos de uma relação assimétrica entre ídolo-fã — neste caso. Aqui. operou sua transformação de “muso” em ídolo. de “lindo”. Não refiro-me apenas a seu prestígio político. Segundo a autora. a partir de uma concepção específica de modernidade 254 . combinada com a impossibilidade de identificação plena. A apatia dos primeiros dias de campanha havia ficado para trás e Lindberg passava a ser festejado por segmentos diversos nas ruas e aclamado pelas mulheres. entretanto. A segunda fase da campanha foi marcada. na transformação do candidato em “produto massificado”. 24/10/2004). fã-eleitor).O Cortejo e a Vitória “Não sou só um rostinho bonito” (Lindberg Farias. O Dia. a condição de ídolo do candidato do PT e seu pólo oposto e complementar. Desde os “tempos” da UNE.

85m e 86 quilos.) conduzida pelos showmícios. Algumas mais assanhadas. Lindberg Farias sofreu com o assédio feminino” e “Petista joga para torcida: mulheres lotam campo para assistir à pelada do prefeitável de Nova Iguaçu com astros do futebol” percebemos a dimensão de sua aceitação por uma parcela específica do eleitorado iguaçuano.cit. as eleitoras mais jovens usavam adereços como bandanas. op. não se continham. e passa à frente nas pesquisas para prefeito” ou as que figuraram no jornal O Dia (de 4 e 29 de outubro do mesmo ano. bem como o carisma pessoal e a beleza. A doméstica desempregada. os programas eleitorais televisionados e a ênfase no corpo a corpo auxiliaram na transformação do candidato em ídolo. 1.(Simmel. antes de romper a barreira de 255 . Esta definição expõe o caráter dinâmico do conceito. de 40 anos. Além de camisas com o nome do candidato. A política da festa (Chaves. Moreno. Explorando a imagem de ex-líder estudantil para assegurar sua proximidade dos jovens de Nova Iguaçu. chamando o candidato de gostoso (O Dia. 1967). remeteria à exaltação da singularidade do ídolo por oposição ao anonimato (ainda que relativo) do eleitor. 04/10/2004). dizia ela. Claudete Santos Lima. “A Baixada se rende ao forasteiro: deputado do PT vira ídolo de crianças. respectivamente): “O ídolo pop da Baixada: candidato petista à prefeitura de Nova Iguaçu. visto que é construído na relação entre os discursos sobre si e sobre o outro em um jogo que nos permite perceber a fabricação de personagens públicos visando reconhecimento. Lindberg obteve uma combinação de fatores que lhe rendeu amplo acesso ao eleitorado feminino (de diversas idades). cai no choro depois de beijar o ídolo. Com manchetes como a publicada no Jornal do Brasil. o paraibano arrancou suspiros das mulheres – muitas delas o tratavam como “Lindinho”. adolescentes e mulheres de Nova Iguaçu. de 19 de setembro de 2004. renome. “Vejo todos os programas”. faixas de cabelo e pinturas feitas nos rostos — geralmente a estrela do PT.

Num certo dia. “Prometeu dar um jeito na saúde”. e apesar das inúmeras manifestações que pude presenciar durante a campanha — e mesmo depois dela — não consegui confirmar a existência de um único fã-clube do candidato. 18 anos e Tatiane Alves. 18. conversando com uma pessoa que trabalhava na campanha. de short. lembra uma. São cinco e meia da tarde de terça-feira e Lindberg. Representantes de fã-clube e moradores disputaram o alambrado em volta do campo. mas sem competência não dá”. “Aaaaiiii! Lá vem ele!”. estudante de enfermagem. Quando indagado sobre como localizar uma das fãs. de 34 anos. 29/10/2004). E lá se vai a consciência política (idem).seguranças.. no entanto que. Lindberg Farias. Na Internet encontrei um site. 17 anos. Telefonei para ele perguntando como poderia entrar em contato com as duas meninas do fã-clube. Ressalto. Não posso confirmar ou negar tal fato. vestidas com saia de pregas. o que quer que seja. Durante o mês de setembro de 2004. não conseguindo falar com nenhuma das jovens cujos emails constavam do site. 20. 250 256 . disseram que não importavam a mínima para a partida. gritam elas ao avistar o candidato. Diante disso. comemora eufórica: “Ele bebeu água mineral da minha garrafa!” Ele quem? Reinaldo Giannechini? Não. Ele está com esse bermudão. “Ele luta pela universidade pública”. 20 anos. Mandei vários e-mails para as responsáveis pelo fã-clube. avisa a terceira. espero que ele bote um shortinho mais curto”. e Talita Carriello.] Antes da chegada do candidato. para “criar notícia”. “Vim aqui pra ver o Lindberg de terno. “Ele até pode ser lindinho. Vanessa Peixoto. camisa branca e gravatinha azul do curso normal superior do Instituto de Educação Rangel Pestana. afirmou não ter qualquer contato com elas. fiz algumas pesquisas sobre os fã-clubes do candidato petista. Ele me respondeu que teria sido contratado por uma pessoa da assessoria de comunicação de Lindberg e que não teria tido contato algum com nenhuma das fãs-eleitoras. As estudantes Samantha Navarro.. Leide Melo. Conversei com um dos principais assessores de Lindberg que confirmou a existência do fãclube. Tatiana de Souza. paraibano que ficou famoso ao liderar o movimento dos estudantes cara-pintadas pelo impeachment de Collor em 1992. 16. mal consegue andar pelo calçadão comercial do centro [de nova Iguaçu] [. davam explicações políticas para a preferência pelo petista. mas nunca obtive resposta. 24/10/2004). deputado federal e candidato à prefeitura de Nova Iguaçu (Extra. procurei o responsável pela página (o webdesigner). cita outra. ela deixou “escapar” que o fã-clube teria sido uma invenção de marketing. no qual havia depoimentos de algumas mulheres — todas jovens entre 15 e 24 anos — além de uma pequena biografia de Lindberg. dizia Tatiane250 (O Dia.

Lindberg tentou desvincular-se de uma associação direta com o “voto feminino”. ainda segunda Daniella. 28/11/2004).. “Era uma loucura. assalto ou atentado político). Daniella Sholl. Urnas eletrônicas tiveram que ser substituídas. Ele ficava esgotado no final. é mole? [risos] Era um tal de pegar. troca de socos entre cabos eleitorais. a partir do final de agosto. em entrevista realizada em julho de 2005. contou-me que a idéia do apelido “Lindoberg” foi sua. Segunda ela. sem saber o que fazer. a cidade estava tomada por grande agitação. pro KLB. afirmando ter “mais votos entre os homens”251. até. em uma conversa com uma amiga — jornalistade O Globo — comentou sobre a popularidade de Lindberg junto ao eleitorado feminino da cidade e que as mulheres gritavam seu nome quando ele passava ou chamavam-no de lindinho. eles estariam encarregados de manter sob controle as fãs-eleitoras. porque é uma loucura. tenso. de 24/10/2004. Amanheceu um dia chuvoso. Se anteriormente. A proporção tomada por sua transformação em ídolo não era esperada nem mesmo por membros de sua equipe. Diante disso. confirmando o assédio ao candidato e corroborando o apelido “Lindoberg”. Mas ele tem um pique! Parece que nem dorme. 257 . às vezes. O dia 3 de outubro de 2004 parecia anunciar a vitória. Cabos eleitorais por todos os lados tentavam buscar nos indecisos a chance da virada. A gente nem podia sair na rua com ele. gente te puxando de todos os lados. Não era mais possível sair às ruas sem seguranças.. O quê que eu podia fazer? Não dá pra empurrar. A fiscalização estava atuante: materiais considerados ilegais foram apreendidos e acabaram presos cabos eleitorais que estavam além dos limites previstos por 251 252 Fala extraída do Jornal do Brasil. Alguns confrontos entre adversários acabaram em ataques físicos. abraçar e beijar que só ele pra ter tanta paciência mesmo. É verdade. e dela tirando o máximo proveito possível252. um ou dois bastavam para protegê-lo de qualquer eventualidade (leia-se.A fama mudou o dia a dia do político. são eleitoras né?! Tem que deixar. Você viu. não viu? A mulherada gritava mais pra ele do que pro Zezé di Carmago. tal jornalista resolveu ir à Nova Iguaçu. pô. Eu nunca vi coisa igual” (um assessor de Lindberg durante a campanha eleitoral. A gente ficava perdido. surpreendidos durante o processo eleitoral.

com 44.lei para a “boca de urna”. mas acho que. com 2. Logo em seguida ao resultado da apuração. Lindberg Farias. 258 .800. A solicitação para que a polícia federal garantisse a idoneidade das eleições não foi atendida e mais choques e ameaças davam demonstrações do que ocorreria até o fim do dia253. enquanto Mário Marques. seguido de Mário Marques. teve um encontro hoje com o presidente Luiz 253 Lindberg Farias pediu às autoridades competentes o envio da policia federal para Nova Iguaçu no dia da eleição. com 181. para quem pelo menos não houve manipulação das urnas (Jornal do Brasil. Fernando Gonçalves. – Faltou ética para meus adversários. Lindberg não deixou escapar a oportunidade e. o segundo colocado deu início a novas articulações para tentar angariar o apoio dos candidatos vencidos. com 147. Cheguei a ficar apavorado.19% dos votos válidos). na Igreja de São Jorge. no entanto. o pedido foi recusado por ter sido considerado desnecessário pelo presidente do TRE-RJ juiz Marcus Faver. não contra o meu oponente.353 e Zé Renato. quando as pessoas descobriram que era uma armação.137. com 947. Carlão. Lindberg e sua esposa votaram pela manhã. se voltaram contra o meu adversário. Estou lutando. 04/10/2004). votou no Instituto de Educação Rangel Pestana. Espero que isso não influencie o resultado da eleição – afirmou o exdeputado. transformando-o em “garoto-propaganda” de sua candidatura no segundo turno.185 votos (48. O candidato do PT à Prefeitura de Nova Iguaçu. mas contra o boato de que não sou mais candidato. O Mário Marques teve 15 dias de campanha suja. também acompanhado pela esposa. tirou o máximo proveito de ter o Presidente da República como aliado declarado. conforme anunciado na reportagem da Folha de São Paulo de 06/10/2004. O primeiro turno terminou com Lindberg em primeiro lugar.

das chances remotas de seu sobrinho. O tema da conversa foi a possível criação de parcerias entre a prefeitura de Nova Iguaçu com o governo federal e organizações internacionais como o Banco Mundial. o presidente afirmou em sua última visita ao Rio que o governo federal ajudaria as prefeituras que sofressem discriminação dos governos estaduais. Se algum filho meu quiser se candidatar. O patriarca da família Raunheitti também foi procurado. Fernando Gonçalves já era sondado por ambos os lados. Já gastei muito com eleição. Mesmo antes do resultado final de 3 de outubro. Eu sempre soube que era o mais sujo de todos. Fiquei desgostoso depois do que aconteceu comigo [referindo-se ao caso dos Anões do Orçamento]. E eu quero ver como esse menino vai ficar agora. Lula prometeu dar “um banho de saneamento e asfalto” no município e disse também que espera que “a administração em Nova Iguaçu seja um cartão postal do PT na Baixada Fluminense”. em particular na área de saneamento. Agora a máscara caiu. apoiando-se sobre o “episódio do mensalão”. preferindo ficar “de fora dessa disputa”. Sendo assim. Eu não ia desembolsar nada. Segundo ele próprio me informou — em entrevista realizada em agosto de 2005. Segundo Lindberg. Antes do encontro em separado com o presidente. tudo bem. desde o início. “Esse rapaz veio pra cá com uma carinha bonita. no entanto. eu deixei a política pra lá. A prefeitura está parada. Mas o PT nunca me enganou. poucos meses antes de seu falecimento — estava ciente. deixou claras suas críticas a Lindberg e ao PT. senão. A administração dele não anda. não apoiou lado algum. Após ser informado que o ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) havia feito ameaças de corte nos convênios entre o Estado do Rio e Nova Iguaçu caso Lindberg vencesse. Nessa mesma entrevista. boa pinta e deixou o Mário no chinelo. O Fernando fez o que 259 . A conversa com o Presidente será usada na campanha para o segundo turno. Lindberg participou de um café da manhã com José Dirceu (Casa Civil) e Lula.Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto.

Lindberg negou a afirmação. Ele não tinha pique pra agüentar o ritmo daquele menino. 14/08/2005). sendo alvo de ataques do candidato adversário. além do apoio de um “nativo” com significativa expressão política (e eleitoral). A relação de “fã” foi alvejada pelo adversário. Durante a campanha para o segundo turno das eleições. de 35 anos. O Mário já não tinha mais chance. Outdoors do primeiro turno estampados com sua foto foram pichados com a palavra traidor.tinha que fazer. 21/10/2004. e eu acho que. O Globo. Eu já estou velho e doente pra essas coisas” (Fábio Raunheitti. alegando que as eleitoras estariam cometendo um erro por votarem nele devido somente à sua beleza. Mas já que a juventude e a beleza pareciam contar a favor de Lindberg. Fernando Gonçalves acabou apoiando Lindberg. 254 260 . afirmava ter conhecido o candidato em 1996 e que ele seria o pai biológico de sua filha de 7 anos254. espalharam a notícia de que o candidato do PT teria uma “filha bastarda”. O Dia. Se juntou ao mais forte. Para Lindberg. Aproveitando-se da antiga fama de “mulherengo”. declarando não conhecer a garçonete e contestando Na ocasião. É muita diferença. seus adversários resolveram mudar de estratégia. os ataques não foram diferentes. a garçonete Márcia Cristina Lima. por ele. o Mário nem seria o escolhido. Campanha é uma dureza. 22/10/ 2004. o boato em questão foi noticiado em diversos jornais: Estado de São Paulo. O Bornier não ia soltar mais dinheiro. por “ficar fazendo papel de bom moço” — comentário de Mário Marques a um jornalista do Jornal do Brasil (idem). a ligação com Fernando Gonçalves implicava também a aproximação de uma importante parcela do eleitorado: a evangélica — religião do candidato do PTB derrotado nas urnas no primeiro turno. 21/10/2004. partindo agora para um ataques morais. Jornal do Brasil. em mais um surto de agressões e acusações mútuas. Segundo os jornais. 21/10/2004.

disse (Folha de São Paulo. 22/10/2004). O candidato do PT em Nova Iguaçu creditou o pedido de paternidade da garçonete Márcia Cristina Leonardo Lima a uma estratégia do ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) para prejudicá-lo. No dia 31 de outubro. apesar do desgaste da acusação de ser pai de uma filha bastarda. de sua esposa. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros colegas do PT vieram em seu auxílio. manifestando repúdio às acusações. uma vez que sua equipe de comunicação revertera imediatamente a situação. votou às 10 horas da 261 . que até então residia com a avó materna. Nesse mesmo período. divulgando declarações do candidato e. o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a acusação de que Lindberg Farias poderia ser pai de uma garota de sete anos. segundo me informou uma pessoa próxima a Lindberg. Lula afirmou que a acusação não deverá prejudicar o candidato. “Não se preocupe porque esse tipo de coisa só tira voto do adversário”.informações por ela fornecidas aos jornalistas: “com todo respeito a Coelho da Rocha. mais tenso ficava o clima político na cidade. Entretanto. data marcada para o segundo turno das eleições. Imagens feitas em seu apartamento. principalmente. mostrando-o em família (com a esposa e o filho. Em encontro fechado com os candidatos do PT às Prefeituras de Nova Iguaçu (Lindberg Farias) e de Niterói (Godofredo Pinto). Ainda segundo esta mesma pessoa. Segundo a assessoria de Lindberg. em Belo Horizonte) foram divulgadas pela mídia. o impacto teria sido mais pessoal e menos político. Quanto mais próximo do dia da votação. a movimentação não foi diferente. vestido com uma camisa de cor laranja. o IBOPE apontava para um empate técnico entre os dois candidatos ao segundo turno. na minha vida”. Lindberg. nunca estive lá. o corpo a corpo e os showmícios continuaram ditando o ritmo da campanha. A suposta paternidade foi um duro golpe.

manhã. após a apuração do resultado de algumas sessões eleitorais. Zona Eleitoral devido aos militantes que o acompanhavam. A comemoração da vitória começou já no início da noite. visitando bairros. Mário Marques. advertido pela juíza da 158ª. O adversário. Lindberg foi carregado nos ombros por militantes e ovacionado pela 262 . justificando a cor da camisa que marcou os últimos dias de sua campanha. Lindberg Farias (PT) resolveu madrugar ontem. Ele saiu do prédio onde mora. em companhia da família. 01/11/2004). por duas vezes” por promover uma pequena carreata (idem) e o segundo. A despeito dos boatos de que a candidatura do petista havia sido impugnada. que ficaram surpresos com a disposição de Lindberg. votou como no primeiro turno. Tanto Lindberg quanto Mário optaram por acompanhar de perto as eleições. Mário Marques. é ele”. “É a cor dos laranjais de Nova Iguaçu”. os candidatos percorreram as ruas atrás dos indecisos. principalmente. acompanhado de Benedita da Silva e de Rodrigo Maia (PFL). na rua Humberto Gentil Barone. fazendo referência ao símbolo do Partido dos Trabalhadores — carros de som tocavam funk. A campanha ainda não havia terminado e. e passou por seguranças e cabos eleitorais do adversário. falando com militantes e ambos foram repreendidos pelas autoridades. diziam (O Dia. a votação durante o segundo turno transcorreu sem maiores problemas. Às 6h30. “Olha lá. Nas ruas cheias. durante todo o dia. disse. além do jingle da campanha. gritando o seu nome (idibem). O primeiro teria sido “quase detido. praticamente tomadas — em sua maioria por jovens com rostos pintados com a estrela vermelha. o candidato já estava dentro do seu jipe para buscar os votos dos indecisos.

Lindberg foi empossado assim como seu vice. o prefeito empolgou o público ao lembrar Che Guevara e prometeu governar para o povo” (O Dia. Para ninguém repetir cor”. “Emocionado. na casa de shows Rio-Sampa. caprichou. com seu apoio. As comemorações invadiram a noite e. como verdadeiros foliões. A expectativa dos iguaçuanos era tão grande que meninas preferiram usar a roupa de réveillon na tarde de ontem. A reclamação foi a falta de bufê. brilhando em strass. Só tinha refrigerante.população. 02/01/2005). fotos com o prefeito e a primeira-dama. o deputado federal Itamar Serpa. localizada na Rodovia Presidente Dutra. Nomes importantes do PT que participaram da campanha não estiveram presentes na cerimônia de posse. A dona de casa Marise Gamelheira de Souza. 02/01/2005). Os conflitos não cessaram com a vitória. alegando ter aberto mão de uma candidatura própria e. Gritos. A tietagem persistiu até mesmo durante a cerimônia de posse. a vez das negociações. os iguaçuanos fizeram um carnaval fora de época. com exceção de Marcelo Sereno (Secretário Nacional de Comunicação do PT) e Vicente Trevas (Subchefe da Casa Civil para Assuntos Federativos). contou. foi desencadeada a partir da escolha dos nomes que comporiam o governo. Itamar acusou Lindberg de querê-lo somente como “figura decorativa”. apesar da dúvida ter persistido até o último momento. Vendido a R$ 2. “Fui comprar roupa com as mulheres da família juntas. 263 . Depois das comemorações. (O Dia. choros e vaias a Fábio Raunheitti foram alguns dos ingredientes da festa. 51 anos. No dia 1o de janeiro de 2006. Uma crise com o vice-prefeito. beneficiado o PT com seis minutos diários no horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE). As queixas não paravam por aí. O vice também reclamou da “importação” de pessoal do PT de São Paulo — como secretários e assessores — ameaçando não tomar posse.

o prefeito de Nova Iguaçu também teve que lidar com a disputa de poder entre a Associação por ele presidida. de outro. Vicente Guedes (PSC). pela bateria da Escola de Samba Leões de Nova Iguaçu. a Associação de Prefeitos do estado do Rio de Janeiro (Apremerj). em 2006. que Lula receberia os prefeitos eleitos da Baixada. aliado de Garotinho e do PMDB. como um porta-voz legítimo de sua região. posso virar uma referência no estado do Rio. onde havia um grande número de pessoas o aguardando para que Mário Marques lhe passasse o cargo. agora. Outra festa começou. assim. Se alguém fizer bandalha. Com relação ao futuro político. Ainda em dezembro de 2005. para 2010. Suas primeiras tentativas entanto. Constituía-se. Nem o “apagão” ocorrido aquela noite foi capaz de desanimar os presentes. a médio prazo. Tentava. não quero me envolver com corrupção. Na ocasião. Lindberg costuma dar respostas vagas. tenho que apresentar resultados.Depois da cerimônia Lindberg dirigiu-se — juntamente com a esposa. não foram. assim. Sobre o futuro. entretanto. de um lado e. Se. Essa fase de lua-de-mel passa daqui a pouco. boto a polícia em cima. demonstrar a seus pares dispor de acessos privilegiados. Sei que meu futuro vai depender muito dessa prefeitura. no entanto. A Secretaria de Imprensa do Palácio garantiu. eu fizer uma boa administração. Lindberg afirmou não estar entre seus projetos. o governo do estado do Rio de Janeiro. Juro que não penso em ser Presidente da República. uma opção possível. animada. Maria Antônia — à prefeitura. “Não existe uma meta. no bem sucedidas — devido “à falta de espaço na agenda” do Presidente. Tenho um filho de nove anos. presidida pelo prefeito de Rio das Flores. Se eu arrebentar 264 . foi escolhido presidente da Associação de Prefeitos da Baixada e já articulava reuniões e encontros dos políticos locais com o Presidente Lula e sua equipe.

9 milhões de eleitores (38% do eleitorado nestas cidades). Nas 62 cidades maiores. segundo David Fleischer “Em 2000. ao mesmo tempo. transformando-se no que Friedrich (1968) denominou political middleman. André Ceciliano havia sido eleito o único prefeito do partido em toda a Baixada Fluminense e um dos dois eleitos no estado do Rio de Janeiro. ora investido. Sua capacidade de atuar nos mais variados contextos e falar a “língua” de seus interlocutores — fossem eles jovens estudantes. membros de camadas médias ou classes populares — lhe garantiu um lugar privilegiado na dinâmica política local. libertando Nova Iguaçu e a Baixada por intermédio do discurso do ator político sobre a cidade e a região. o PT 265 . A atuação de Lindberg durante a eleição de Nova Iguaçu demonstrou seu sucesso em traduzir códigos culturais e. particularmente. o slogam da mudança apresentaram-se como uma exortação. homens. op. o PT elegeu 187 prefeitos.). Os atributos acionados durante toda a campanha e. posso um dia ser governador” (14/11/2004). Na eleição de 2000. costurar alianças políticas decisivas para a conquista do executivo municipal iguaçuano. cit. como se Lindberg fosse “o herói do progresso marchando contra a força do atraso” (Carvalho. A multiplicidade acionada por sua persona tornava possível a associação entre elementos por vezes contraditórios. 1993 e 2000) implica pensarmos a sua vitória como um acontecimento ainda mais improvável no contexto da política praticada localmente.no meu governo. mas no ‘Brasil urbano’ (100 cidades maiores) elegeu 27 prefeitos em cidades que somaram 12. A eficácia de uma construção simbólica apoiada na veiculação de uma identidade política ideológica em oposição a uma postura assistencialista (Kuschnir. Pela primeira vez na história política de Nova Iguaçu era eleito um candidato do PT. Em nível nacional. mulheres.

as vitórias angariadas pelo partido tiveram um sabor especial frente à disputa de poder com a rede política do adversário. Niterói (Godofredo Pinto). 31 cidades realizaram eleições em segundo turno. aquém da média nacional de 37.000 (11.6%) eram mulheres.br/html/materia/materia_edfi. o PT obteve 7.universia.9 milhões de votos em 1996 e 11. Ver tabela 5 do anexo. por Lindberg Farias. Dos 60. O PT disputou 16 destas eleições (mais da metade) e elegeu 13 prefeitos” (publicado no portal Universia Brasil. Série Estudos Especiais no.485 (14. foram 412 prefeituras conquistadas pelo PT em todo o território nacional. a maior porcentagem de todos os partidos. um aumento de cerca de 120% em relação à ultima eleição.html consultado em 16/07/2004). dos 187 prefeitos eleitos pelo PT.2%.3%. no restante do estado. 85. Anthony Garotinho — especialmente a conquista da prefeitura de Nova Iguaçu. Bom Jesus de Itabapoana (Carlos Garcia). 255 266 . Em 2000. Iguaba Grande (Hugo Canellas) e Quatis (Aldredo) (TRE). IBAM. Cantagalo (Guga de Paula).9 milhões em 2000 — um aumento de 51. 51 (27. www. bem acima do crescimento do eleitorado nacional (14. apesar de numericamente pouco expressivas (8. Franqueava-se ali uma das principais portas de entrada para o partido e para seus projetos políticos relativos a 2006.elegeu 17 prefeitos.387 vereadores eleitos em 2000.1%). 7. Já em 2004. No estado do Rio de Janeiro. Em nível nacional.3%) foram reeleitos. Itaboraí (Cosme Salles). As prefeituras conseguidas pelo PT foram: na Baixada .7% dos prefeitos eleitos no estado255).Nova Iguaçu e Mesquita (Arthur Messias). Em 2000. janeiro de 2005.2%). O PT elegeu 350 vereadoras entre 2.com.

é o lugar por excelência deste “teste” e o comício. por sua vez. ao privilegiar a realização de showmícios. 1975a). Scotto. os trabalhos de Palmeira (1996). de formas de sociabilidade política. Nesse sentido. os motores e os relógios (marcadores de tempo) desse tempo da política” (Palmeira e Heredia. outro momento de destaque na segunda fase das campanhas na Baixada. evidenciou algo mais: o direcionamento do conjunto de suas ações para a festa política (Barreto. especialmente aquela do PT em Nova Iguaçu. A rua. diz respeito à relação eleitorpolítico a partir dos eventos centralizados nos palanques. Kuschnir (2000). entre outros. mas também por configurarem “ao mesmo tempo. Naquele pleito de 2004. Borges (2003) e Chaves (1996). revelando-se eventos capitais não somente para a apreensão da relação político/ eleitor. 256 Consultar. 1992 e Chaves. 267 . Os comícios são objeto de diversos trabalhos acadêmicos. o evento ideal para sua verificação. Constituem espetáculos à parte. todas as campanhas utilizaram-se dos comícios como estratégia de marketing. 1995)256. (1996). 1996).CAPÍTULO 5: SOBRE O TEMPO DA POLÍTICA NA BAIXADA: ENTRE FESTAS E GUERRAS A Festa Além das propagandas e peças publicitárias. compondo uma espécie de aura — juntamente com os artistas e convidados ilustres — para a atuação e apresentação do candidato (Goffman. A de Lindberg Farias. em suas múltiplas possibilidades. as campanhas contaram com inúmeras outras situações nas quais a relação entre candidato e eleitor foi testada.

com que freqüência. 268 . refiro-me às ações e meios disponíveis para “recortar” as cidades a partir dos pontos/ lugares considerados ideais para a festa política.Na primeira fase da corrida eleitoral. a possibilidade de concentrar com maior facilidade os eleitores. Na segunda fase. a região central de Nova Iguaçu era geralmente escolhida por disponibilizar todos esses recursos — além de simbolizar a própria “vida da cidade” — sendo. de fato. a que bairros dirigir-se. Assim sendo. construção de campanhas televisionadas e de rua ver. 258 Para uma problematização das definições geográficas oficiais como uma dimensão estática e delimitadora dos espaços — como os bairros — ver. ou seja. A confecção de um mapa das cidades258 — orientando. por exemplo. o alvo principal das disputas e canalizando também os conflitos e as trocas de acusações durante o tempo das festas. mas também a sua centralidade e poder de atração. as atenções dirigiram-se para o conhecimento das demandas locais e a construção do discurso midiático. foi alterada a dinâmica interna de cada campanha e redefinido o campo político a partir da interferência da mídia eletrônica. camarins e para as filmagens de cenas que pudessem ser utilizadas nos programas televisionados. além de infra-estrutura para a montagem de palcos. por exemplo. após a introdução do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE). portanto. Com esta expressão. propagado por intermédio do horário eleitoral. Não somente a extensão da área estava em questão. os trabalhos de Castilho (1994) e Scotto (1996). além do mapeamento da cidade visando definir em que lugares seria mais importante atuar e de que forma257. agora sob o ângulo da “preparação da festa”. Showmício. parece ser um 257 Sobre formas de apresentação das candidaturas. No contexto específico dessas eleições municipais. com transporte acessível para se chegar e sair do local. o artigo de Graça Índias Cordeiro e António Firmino da Costa (1999). de que forma e com quem — foi alterada. em um primeiro momento. seria até mesmo inadequado utilizarmos a expressão comícios para definir os eventos realizados.

ou seja.. Geralmente. A classificação nativa já opera com esta nova referência. A escolha das cidades a serem beneficiadas com essas mega-produções era feita a partir do estabelecimento de prioridades. Há os de tipo gospel. os católicos. já há uma 269 . esta é reservada ao momento posterior ao discurso dos candidatos (a prefeito e a vereador) e das personalidades políticas convidadas. os sertanejos e os que congregam tipos variados de música. privilegiavamse localidades com potencial de desenvolvimento e campanhas em fase de consolidação. O showmício tornou-se um lugarcomum no vocabulário político. a campanha de Lindberg contou com um verdadeiro arsenal de shows. sendo disputados pelos candidatos e partidos e reinventando a lógica da organização das festas políticas. o showmício tem início com uma atração musical. financiado pelo PT nacional e compartilhado pelos demais candidatos do partido às principais prefeituras de todo o país. preparada em cada mínimo detalhe: desde a seleção dos cantores até as exigências do tipo de público. garantindo assim que o público permaneça no local até o final da festa.) desde o momento em que definimos para onde determinado showmício vai. Sua divulgação é feita com muitos dias de antecedência e costumam contar com a presença de “estrelas” do mundo da política.. os políticos e eleitores praticamente já não usam o termo comício. mas não a banda ou grupo considerado “atração principal”. os de pagode. no momento atual os grandes shows tornaram-se critério de distinção e prestígio. anteriormente. fundamentalmente no tempo da política. as grandes produções destinavam-se quase que exclusivamente às eleições majoritárias estaduais e nacionais. Se. os evangélicos. Na Baixada. o grupo de trabalho eleitoral (GTE) “se articula com os dirigentes nos Estados e (. Sua organização poderia ser descrita como a de uma festa política. No universo estudado.termo mais adequado. Dessa forma.

Idem. www. A idéia central é fazer com que esses shows mobilizem camadas do eleitorado que nós não conseguimos mobilizar apenas com o comício político: as camadas populares que têm uma identificação com o PT[…] Um ato do PT que consegue mobilizar 70 mil pessoas numa cidade deixa os adversários sem dormir”260. secretário de mobilização nacional do Partido dos Trabalhadores)259. nas campanhas. temos de ser criativos.br .pt. em sua análise sobre o “fazer política” e sua relação com a condução das campanhas: “Hoje.org. pela primeira vez) se apresentando a céu aberto. Rio Negro e Solimões. Os 80 showmícios que foram realizados desde o dia 22 de agosto trouxeram o elemento político em combinação com o cultural […] O objetivo {…] é alcançar os eleitores no sentido de massificar as campanhas petistas e dos aliados. Leonardo. 15/09/2004 270 . não podemos reduzir o comício apenas às propostas petistas. Temos de levar a proposta do partido para as grandes massas.decisão política” (Francisco Campos. No caso específico do PT. Não basta o PT fazer uma campanha só ideológica. na cidade de Nova Iguaçu. na página oficial do Partido dos Trabalhadores. O povo precisa participar das campanhas e não é atraído somente pelo conteúdo ideológico. KLB além de bandas de forró e cantores evangélicos estiveram (alguns. 259 260 Depoimento colhido em 10/09/2004. artistas como de Zezé di Camargo e Luciano (que chegaram a cobrar até 100 mil reais por show). Portanto. para um público que chegou a mais de 100 mil espectadores. De acordo com Francisco Campos.

podemos afirmar que têm ajudado muito o partido a levantar as campanhas do PT em locais em que estávamos fragilizados.8 milhão de pessoas em todo o país desde o início dos eventos. Esse showmício já deu o tom de como seria a participação do eleitorado da faixa mais popular nesses grandes eventos[…] Esses eventos. Carros de som anunciando 261 262 Ibidem. assim como o fundo negro do cenário conformaram o ambiente do grande espetáculo que seria realizado àquela noite. O conjunto e a disposição das luzes. no ambiente “familiar” da festa. sem medo de errar. de maior visibilidade e melhor acesso — além de facilitar a realização das produções maiores.Ainda segundo este mesmo secretário. como os principais showmícios das campanhas devido a suas amplas proporções. holofotes e caixas de som. A Via Light é uma via expressa — construída durante o governo do então prefeito Nelson Borneir (na época. descaracterizados de seu aspecto e discurso ideológicos o candidato e sua equipe pudessem criar outras vinculações. PSDB). mas também com a Zona Norte e o Centro do Rio de Janeiro. Em Nova Iguaçu. “Não há um cálculo preciso. a festa política teve início com a montagem de um enorme palco com estrutura de ferro no final do canteiro central da Via Light262. pertencimentos e/ ou formas de aproximação com a população (heterogênea) presente. o showmício ajudou. O show foi com a dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. 271 . também. a consolidar uma liderança em Araçatuba (cuja candidatura petista é de Edna Flor)”261. candidato petista a prefeito da cidade) subiu nas pesquisas. desejava-se arregimentar um número cada vez maior de pessoas para estes eventos com o intuito de que. Esta via foi motivo de conflitos entre os candidatos do PT e do PMDB. Depois da passagem de Zezé di Camargo e Luciano em Nova Iguaçu (RJ). […] mas um número aproximado aponta que o partido conseguiu mobilizar aproximadamente 1. com o apoio do governador Marcello Alencar — que faz a ligação entre a cidade e outras áreas da Baixada Fluminense. por situar-se na área central. A primeira apresentação ocorreu em Maceió para a coligação do PT com o PSB. além de outros bairros do subúrbio carioca. o Lindberg (Farias.

divulgando o evento com bastante antecedência e. não apenas shows que figuram num ato político. uma vez que uma cobertura favorável poderia garantir ao candidato a visibilidade (mais do que) necessária em época de campanha política. Esses eventos eram geralmente gravados para serem posteriormente utilizados como material para a propaganda televisionada. em certa medida. o secretário enfatizou a laboriosa preparação dos eventos. É a cultura junto com a política para ajudar a mobilizar as campanhas petistas”. o PT demonstrou uma preocupação especial com os showmícios. muitas vezes. por meio 272 . A presença da imprensa era outro fator que gerava grande expectativa. Na periferia. atos políticos animados por shows. Nesse sentido. responsáveis também pela coordenação da distribuição de bandeiras. camisas e faixas. incluindo atrações locais ou bandas de menor sucesso como.o showmício percorreram a cidade. por exemplo. com o envolvimento dos comitês e da militância. “diferente em relação a partidos tradicionais”. por conceber o espetáculo “como fator de mobilização das campanhas”. alguns conjuntos de pagode já relativamente no ostracismo. no dia da festa. nenhum deles tinha a magnitude deste último. não paravam de circular. portanto. o estilo da apresentação seguia uma lógica mais “tradicional” da política e dos comícios. Tal afirmação presente no discurso oficial do partido (disponível e tornada pública em seu sítio eletrônico) reflete a percepção de que a festa viria a reboque da política — e que estaria demonstrada. coordenados e definidos em conjunto pelo Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE). antecedendo a sua mobilização pública. Os grandes shows eram antecedidos por um trabalho exaustivo de organização nos comitês. Apesar da realização de outros shows em bairros mais afastados do centro. “São. feita pelos cabos eleitorais. Ainda segundo Francisco Campos.

principal via de circulação da cidade. Nesse sentido. Com os showmícios. dali por diante. maior ênfase será dada à campanha em Nova Iguaçu. Pretendo mostrar adiante que o showmício irá reinventar a apresentação política no ritual da festa e na transfiguração do político em “estrela”. participei de alguns eventos. 273 . O local escolhido pela equipe do candidato foi a Via Light. já que seguem o padrão mais tradicional da política (Palmeira e Heredia. Da mesma forma. mas uma relação de composição e simbiose.do próprio engajamento dos atores/ cantores nos eventos263. estamos retomando uma cultura que a esquerda tem no Brasil e que o PT já tinha antes: combinar a cultura em diálogo com a política para mobilizar corações e mentes com os candidatos de esquerda e centro-esquerda. o que não pressupõe necessariamente a hierarquização entre as esferas (no caso política e artística. O showmício que irei descrever – com a presença da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano – ocorreu numa segunda-feira. Magé e outras cidades da Baixada. Para a realização de um evento desta magnitude. Em Duque de Caxias. as principais ruas em torno da pista central deveriam. Portanto. sendo considerado uma das pedras de toque na transformação da campanha de Lindberg e do novo rumo que ela tomaria. 30 de agosto. O que se 263 A declaração de Francisco Campos no site oficial do partido ilustra exemplarmente esta questão: “o artista também participa politicamente. que é o nosso projeto nacional. Os artistas têm elogiado o governo Lula e pedem voto para o candidato da cidade.). por intermédio dos meios de comunicação. mas a observação deu-se fundamentalmente à distância. onde pude acompanhar mais de perto o desenrolar da movimentação eleitoral. op. não operando a transformação obtida pelo primeiro. cit. optei por fazer uma pequena etnografia de um showmício em particular: aquele considerado fundamental para a reviravolta do candidato petista nas pesquisas de intenção de voto. é um show politizado”. política e emotiva). Sendo assim. os eventos realizados pelos demais candidatos serão mencionados apenas en passant. por lei. estar fechadas a partir das 17 horas.

pipoca etc). ocorrida somente após as 20 horas – e fundamentalmente porque as pessoas já haviam tomado as ruas – já era possível vislumbrar a dimensão que aquele evento assumiria. Alguns candidatos à Câmara Municipal chegaram a providenciar transporte gratuito para moradores de suas “áreas de influência”. Em torno dos vendedores formavam-se verdadeiros nichos de interação. Apesar de perceber uma maior presença feminina na região mais próxima ao palanque. Para chegar até lá. muitas pessoas vestidas com camisas da campanha. de forma geral. com a bebida e com as conversas que antecediam o show. mas as munidas de faixas e bandeiras pareciam-me 274 . imaginando que seria inviável tentar estacionar – além do risco de sofrer um assalto. tanto crianças. A dimensão da sociabilidade. cachorro-quente. quanto homens e senhoras eram vistos por todos os lados. As pessoas não paravam de chegar. congregando pessoas que já relacionavam-se anteriormente ao evento. optei pela estratégia adotada também pela maioria dos ali presentes: resolvi locomover-me de ônibus ou de van. Os ambulantes estavam por todas as partes. É importante destacar que o “público” ali presente era composto por faixas etárias. se fazia notar na relação necessária com a comida.. Com a reorganização do tráfego. Havia. no entanto. gêneros e classes sociais diversificados. sendo necessário atravessá-la para se chegar aos bairros localizados do outro lado da linha férrea. foi a permanência da circulação de veículos até muito depois desta hora. tornando o trânsito na região extremamente complicado – situação agravada pelo fato desta via expressa dividir a cidade ao meio.verificou. mas também aquelas que acabavam de se conhecer. vendendo bebidas e comidas diversas (churrasquinho. de suas bases eleitorais – essencialmente para os residentes em bairros mais periféricos. presente mais explicitamente na comensalidade. portando fitas de cabelo com o nome de Lindberg etc.

não mais aquele palco cuja estrutura quadrangular remete ao velho estilo dos comícios locais: ele havia sido montado como o dos grandes shows em capitais e metrópoles. mas também porque há freqüentemente uma barreira física (e humana. O palanque é o local por excelência deste “englobamento” candidato / eleitor. a hierarquia pode ser percebida pela distância (real e simbólica) que separa o candidato. o lugar ocupado por cada grupo – quando assim constituído – no interior de um sistema de 275 . denotando uma combinação previamente estabelecida. delimitando o lugar de cada um. a dimensão hierárquica – dissimulada nas outras formas de interação características das campanhas (caminhadas. Nesta situação em particular. o palanque demarca as possibilidades para a condução da interação com o público-eleitor. não somente devido à grande altura dos “palcos”. remetendo-nos ao desenho mais livre e ao mesmo tempo envolvente da concha acústica. mas um conjunto de referenciais simbólicos que designava os “pontos”. com o formato de uma abóboda. seus convidados e os artistas que se apresentam do público. Nesta situação. passeatas e carreatas) – é muito bem marcada e reflete-se em um mapa social que engloba o palco e a área destinada ao público/ eleitor. ou seja. Planejado especificamente para atender às demandas do candidato.militantes e/ ou cabo eleitorais – sobretudo por situarem-se bem próximas ao palanque – constituído por um grande palco no qual as “personalidades” da noite podiam ser vistas mesmo à longa distância – chamando as outras para ali juntarem-se. Aqui. Ao espaço destinado ao público (eleitores) não correspondia uma marcação física fortuita. formada por seguranças) a demarcar fronteiras no interior dos showmícios.

cit. indo “apenas pra ver o show”. Palmeira e Heredia. op. teria sua proximidade traduzida em termos de adesão – no caso. como os realizados em Nova Iguaçu – mas a partir da possibilidade de remeter-lhes às escolhas por shows específicos. eleitores em potencial. sendo positivo. A composição dos showmícios remete-nos a um conjunto heterogêneo de pessoas mobilizadas à participação. Todo o trabalho dos cabos eleitorais e militantes durante a campanha somava esforços em direção ao clímax representado pelo comício/ showmício que. ou cantando o jingle da 276 . um tabuleiro no qual quem estivesse mais próximo ao palanque. para “conferir” o seu sucesso ou fracasso. mas com variados graus de envolvimento.posições relacionais. poderia estar assinalando sua separação ou desvinculação política do candidato em questão. a partir de então. alcançaria a meta de mobilizar o maior número possível de pessoas que constituiriam. De onde estava. por exemplo. ou ainda para passar informações à facção oposta. participando ativamente do evento por meio de gritos. Quem se colocava bem ao fundo. por sua vez. o público presente de forma alguma limitava-se a observar os fatos. aplausos. feitas por cada tipo de “público”. a uma facção específica. Sendo assim. percebidos não do ponto de vista das motivações individuais – o que seria inviável dado o número expressivo de pessoas presentes nos eventos. o público presente a estes eventos deve ser enquadrado no processo mais amplo da campanha – e concebido como tão “formado” quanto o das carreatas e passeatas empreendidas (cf.).

O evento narrado acima possibilitou-me a observação de um marco temporal diferenciado – um momento – dentro do horizonte mais amplo do tempo da política (Palmeira e Heredia. beijando. foi ressaltada a dimensão que a campanha tomara e o assédio das eleitoras / fãs a Lindberg: “Os seguranças que acompanham o candidato do PT a prefeito em Nova Iguaçu. assim como na expressão de emoções. além de nomes da política local integrantes de partidos aliados.. técnicos.. músicos. que não está presente em todo o processo eleitoral e pode ser caracterizado pela efervescência (como na experiência Em matéria veiculada no Primeiro Caderno de O Globo. imediatamente vivido e compartilhado265. O showmício pode ser pensado como uma das circunstâncias de maior visibilidade da relação entre político/ eleitor. na campanha. É o tempo da emoção. atualizada em gestos. Nos últimos dias.campanha – além das corriqueiras declarações apaixonadas das eleitoras-fãs de Lindberg264.)”. e da festa propriamente dita. Lindberg Farias. experimentado e efêmero. PSB e PC do B). dando a mão a várias pessoas. mas também acenando e fazendo sinais de carinho (mão no peito. percebia-se a contínua concentração e dispersão dos mais diversos grupos ou “alas” de políticos. Lindberg Farias desceu do palanque para cumprimentar o(s) público /eleitor(es). implicando uma experiência de aproximação e/ ou contato e — diferentemente da apresentação de si nos programas gravados para a televisão ou mesmo nas caminhadas (nos quais a relação mantém algum distanciamento devido à própria organização desses eventos) — remetendo a um tempo sincrônico. assessores. PSDB. de 25/10/2004 . Eles têm orientação do próprio Lindberg para proteger o seu ombro do assédio entusiasmado dos eleitores. Em cima do palanque. Havia um grande número de pessoas no palco: o candidato à prefeitura e seu vice Itamar Serpa (PSDB). tocando. do êxtase/ arrebatamento/ encanto. depois beijando a mão e fazendo um movimento como se lançasse algo de si ao público) denotando uma partilha de si. candidatos a vereador e demais políticos que compunham a aliança representada pela coligação Hora da Mudança (PT. O acontecimento partilhado refere-se ao tempo estritamente vivenciado. tocando o coração. op. 265 Durante o showmício em questão. ali se instalou um abscesso (. cit. 264 277 . mais especificamente.). ganharam uma nova preocupação nesse fim de semana: o ombro direito do candidato. PFL.

expõe como as reações “emocionais” acabaram por integrar-se à retórica das campanhas a partir de tal pleito. o carisma pessoal de Lindberg Farias). 2001 [1921]. Parece-me que esse estado algo alterado que se observa em alguns showmícios guarda semelhanças com outros episódios da política nacional. às condições ali reunidas que. à influência exercida pela campanha presidencial de Lula266. ansiedade e euforia que chamou minha atenção. a movimentação popular pelo impeachment do Presidente Fernando Collor. tornam possível a exacerbação da emoção. a emoção desencadeada pela eleição de Lula. propriedades específicas geradoras dessa aura mágica. em si. Refiro-me. em 1984. no artigo em questão. 266 A referência principal da autora. 278 . antes. as passeatas pela Diretas Já. “A expressão obrigatória dos sentimentos”. em Durkheim) que realça a realidade por meio das sensações experimentadas via a associação dos discursos à música. Barreira (2004). revogando do eleitor / ouvinte sua condição de mero espectador e transformando-o em parte constitutiva (e ativa) da performance ali executada. sobretudo. ao aplauso etc. somadas a outras concernentes aos próprios indivíduos (nesse caso. É o momento quase mágico (o partilhado) em que o candidato transfigura-se em ídolo. Nem todo showmício marca um acontecimento partilhado. Foi justamente esse estado de inquietação. durante o processo eleitoral de 2002. devendo-se. Tais experiências transformam a cena política em um episódio mais do que teatral.religiosa. mais recentemente. levando-me a considerar cuidadosamente tal nível de interação. é o trabalho de Marcel Mauss. Não digo com isso que o showmício tenha. como as manifestações de comoção pelo suicídio de Getúlio Vargas em 1954. em artigo em que analisa a expressão de sentimentos na esfera política associada à imagem de candidatos à Presidência da República em 2002. em 1992 ou.

idem). que na eleição municipal aqui analisada. comparada e até mesmo cobrada por significativa parcela da população local267. em um primeiro momento. o modelo das “alusões emotivas” e da apresentação biográfica (Bourdieu. constitui o tempo da dramatização das relações sociais por meio da exploração das imagens e valores pertinentes a uma determinada concepção de mundo e de política — sendo. 279 . porquanto este último acaba por subverter a ordem de precedências.Se a política é normalmente tomada como o lugar da racionalidade. estender-se para além de seu contexto etnográfico de origem — Buritis (MG) — e ser utilizada para compreendermos as configurações que a política assume sob o clima de campanha (Barreira. sem dúvida. para os autores em questão. Sendo assim. no caso específico de Nova Iguaçu. Este último. construídos e /ou incorporados à disputa eleitoral” (Barreira. também remete a um intrincado de formas simbólicas que praticamente impossibilita a distinção entre os planos simbólico e real. integrando-se à própria composição do personagem político. a “percepção das emoções e sentimentos como parte das regras sociais e jogos políticos evita pensá-los como matérias substantivas da natureza humana. A expressão “política se faz com festa” (Chaves. o comício sobre o qual nos falam Palmeira e Heredia (1995) não seria idêntico ao ritual que ora denominamos showmício. a incorporação da expressão das emoções e de sentimentos parece. neste caso. 1996) poderia.. algo fora de ordem. a festa é pensada como 267 Cabe. assim como o objeto desta tese. esperada. 68). Observa-se. op. no entanto. Nessa perspectiva. atentando para os seus significados e formas de expressão. da estratégia e da objetividade. uma referência ao entendimento da política como ação simbólica e à importância da teatralização para a compreensão da instituição estudada por Geertz (1991): o Negara. p. 1997) ganhou a cena. o showmício. aqui. A festa política. cit. Se.

não descarto que alguns possam conservar o seu caráter faccional e. ou para sermos mais precisos. ressaltando o seu caráter extraordinário e extracotidiano. principalmente no tocante à relação palanque/ candidato/ público e ao lugar por este ocupado nas campanhas eleitorais. Destaco ainda que a estrutura geral do evento também é preservada. malandros e heróis (1979). a população distingue cuidadosamente o comício da reunião. nos moldes presenciados nos palanques do PT. o comício. utiliza-se preponderantemente de um dos 268 Corroborando a análise de Palmeira e Heredia (idem). A reunião é dialogada. em Nova Iguaçu. a expectativa é inversa. fazendo a festa mais bonita e mais bem organizada. O caráter solene do comício é essencial” (Palmeira e Heredia. Tomando os showmícios como um novo modelo de ritual político e de comunicação. Os de fora do palanque devem limitar-se a ouvir.77) —. de forma mais ampla. “O comício não se confunde com um ajuntamento qualquer de pessoas em torno de um candidato. É o candidato quem ouve e. são complicadas e podem comprometer o próprio comício... da festa que existe dentro de todo comício (.)” (p. As tentativas de tornar o comício dialogado. Na reunião. a não ser em circunstâncias muito especiais ou no caso de candidatos com muito carisma. em grande parte. durante as eleições de 2004. quanto no Rio Grande do Sul. o que designei por showmício. Tanto em Pernambuco. só fala quem está no palanque. responde. No comício. adoto o conceito de ritual tal como proposto por Roberto DaMatta em Carnavais. a forma típica de organização desses eventos que. ibidem: p. no caso por mim analisado esta relação parece inverter-se268. naturalmente.36). Entretanto. por antecipação. Não há lugar para consulta. sua capacidade para realizar uma administração futura. demonstrarem. não. “propiciam a oportunidade de. ainda segundo os mesmos autores.” (idem). 280 .parte constitutiva do comício — é o que denota a frase: o “lado festivo do comício.

cantor sertanejo. nos dias de hoje271.modelos abordados por Palmeira e Heredia (idem): o que “prioriza o início do comício” (p. Nos shows de duplas sertanejas por conta da campanha. pela secularização. beleza e carisma do candidato. enfatizando seu carisma pessoal e sua capacidade de interação com o público. surge com Lindberg uma nova figura política. 270 O novo aqui está remetido a um projeto político e a uma outra imagem de Baixada e de Nova Iguaçu. quem agora dá autógrafos é ele. Ele vive dias de celebridade no maior município da Baixada Fluminense. 281 . além da seleção de textos editados por Eisenstadt (1968) e do livro de Lindholm. Coisas de Nizan Guanaes” (grifos meus) (Revista Época. colocando o candidato como a “estrela entre as estrelas”.57). inteiramente dedicado ao fenômeno (1993). Atualizando a ação política pautada. durante o evento mencionado anteriormente)269. A combinação de juventude. diferenciando-se do todo (e. Como podemos exemplificar a partir da nota da colunista Joyce Pascowitch. fez de Lindberg a maior estrela (em dupla acepção: símbolo do partido e ídolo) do PT na Baixada. “Lindberg Farias. apesar de haver uma alternância entre os modelos que privilegiam o início ou o fim dos comícios como momentos clímax. Lindberg demonstrava capacidade de atração (garantindo sua visibilidade) e de condução das massas (no sentido abordado por Weber). 271 Com relação ao carisma. expressando sua singularidade ou mesmo o caráter “divino” do líder — que 269 Ainda sobre a organização das “apresentações”. conferir o trabalho sobre tipos de dominação — especificamente a carismática — em Weber (1984). a do candidato-ídolo. os autores chamam a atenção para o fato de que se podem tratar de “variações de um mesmo modelo”. setembro de 2004). o candidato do PT à prefeitura de Nova Iguaçu. nunca se sentiu tão em alta — e não apenas nas pesquisas de opinião. que não decolava. em regra. “a maior estrela” (frases proferidas por Zezé di Carmargo. assim. além de sua associação com o novo270.

projetos e valores compartilhados272. 282 . por exemplo. Diferentemente dos universos estudados por autores como Palmeira e Heredia (1995) ou Chaves (1996). Corroborando tal construção simbólica.: p. ao mesmo tempo que indica a possibilidade efetiva de continuar exercendo essa generosidade numa escala ampliada. digamos assim. no qual aborda algumas das questões implicadas na vitória desse candidato à Presidência da República. não é possível conhecer todo 272 Ver o artigo de Velho (1994) sobre a vitória de Collor. mas não apenas a eles. cit.remeteria ao tipo ideal originado da autoridade religiosa) e ligando-se ao eleitorado por intermédio de imagens. em 1989. que poderia traduzir-se sob a ótica da doação. ainda é possível preservar relativo o anonimato. Esta obrigatoriedade de colocar-se à disposição “do povo” através da doação constitui um tipo específico de troca — já que não previamente acordado e não exigindo retribuição — trazendo à tona que: “está em jogo uma concepção de poder onde aquele que gasta mais dando aos outros – aos eleitores. a estrutura dessa nova modalidade de comício — o showmício — é inteiramente distinta daquela pensada para uma localidade com primazia de relações face a face (contextos de cidades pequenas e /ou de interior). Sendo assim. uma vez no governo” (Palmeira e Heredia . os artistas conferem especial conotação à festa política porque além de configurarem seus personagens mais legítimos. 78). operam uma demonstração de força e prestígio do candidato — como já abordado anteriormente. op. de certa forma. o que é indicativo de seu desinteresse – mostra-se portador da generosidade necessária ao exercício do poder. e o conjunto de valores e atitudes a ela associados. mas na qual. Isto é. apesar da cidade poder ser caracterizada pelos próprios moradores como “pequena” ou “de interior”. Nova Iguaçu é uma cidade de quase um milhão de habitantes.

ainda assim. pelo menos um deles. ao mesmo tempo em que promove a convivência e o encontro do diferente. os showmícios também tiveram relativa importância. do novo e do desconhecido. Lindberg enfrentou uma verdadeira maratona. foram alguns dos que passaram pelos palanques de Mário Marques. neste contexto. O showmício de 30 de agosto foi apenas o primeiro de muitos que se seguiram. apesar das diferenças de escala. o showmício também configura um lugar de encontro. chamar todos pelos nomes. ou mesmo “concorreu” com os artistas. em busca do voto dos indecisos ou da “conversão” dos eleitores de Mario Marques. geralmente marcados todos para às 20 horas — e sendo. alguns grupos de pagode e bandas de forró. É um evento de congraçamento. De modo distinto ao que ocorria na campanha do PT. de forma alguma tornou-se um ídolo. A campanha do PMDB em Nova Iguaçu pautou-se. Anthony Garotinho — que.mundo. Do lado adversário. a banda LS Jack (pop rock). de forma mais evidente. na temática da continuidade. O cantor Daniel (sertanejo). o candidato petista costumava percorrer as ruas em caminhadas ou carreatas. um mapa de relações mais circunscritas aos grupos específicos. No entanto. Estaria em jogo. Já durante o dia. principalmente o grupo Celebrai. O nome de Nelson Bornier constituía o cartão de visita de Mario Marques 283 . a grande “estrela” de tais eventos não era o candidato peemedebista à prefeitura. de relações pessoais. e sim o então Secretário de Segurança do estado. em um único dia era capaz de comparecer a quatro showmícios. destinado ao público evangélico. onde aí sim prevalecem as interações típicas de pequenos aglomerados humanos. além de inúmeros cantores evangélicos. De setembro em diante. mas também de conflitos em potencial. A partir de outubro.

que. “Os políticos abandonam a população”. Mario detinha o poder da máquina governamental em suas mãos já que não se desvinculou do cargo de prefeito para disputar as eleições. Havia um número reduzido de propaganda na qual constasse apenas sua foto ou nome. à elite a qual pertencia. Sendo assim. o que demonstrava a necessidade de vinculá-lo a personalidades políticas de maior influência e prestígio local. 284 . principalmente. essencialmente. no entanto. só lembram da gente na eleição” e assim por diante. a de que: “os bairros pobres são sempre esquecidos pelos políticos. A estratégia de sua equipe de marketing centrava-se em progressivamente diminuir o destaque conferido ao deputado e. ainda não conseguira forjar uma identidade política própria mesmo após tantos anos de vida pública local. Um número considerável de outdoors apresentava Mario Marques acompanhado de Bornier e do casal Anthony Garotinho e Rosinha. enaltecer os feitos do prefeito/ candidato. Presença constante nos discursos dos moradores quando se referiam ao prefeito — o adjetivo abandonados sendo inúmeras vezes utilizado — a sensação de abandono seria marca da conexão necessária entre política e promessa. paralelamente. não dispondo. durante os primeiros meses de campanha. Seu prestígio limitava-se às camadas médias de Nova Iguaçu e. Para além dessas críticas. ou ainda. a essa altura. o nome de Bornier chegava até mesmo a figurar antes do dele nas propagandas políticas. Mario ainda tinha de enfrentar o relativo desconhecimento de seu nome e de sua trajetória pública por parte da população. Em conversas com moradores de bairros periféricos pude perceber um grande índice de rejeição ao candidato ligando-se. “a população da periferia é abandonada” são algumas das afirmações que ouvi. de prestígio e carisma políticos. a acusações de abandono.

A situação dessas pessoas é frágil e seu engajamento nas campanhas é quase compulsório.As festas organizadas pelo PMDB contaram. significa permanecer no “serviço” ou ser mandado embora. Assim que Mario chegava. vinha o candidato. em uma rotina extenuante. Eu mesma utilizei. demonstrou o tipo de organização do evento político utilizado pelo grupo em questão. Uma das caminhadas de que participei no bairro da Posse. um grande número de pessoas trabalhando na distribuição de material impresso. de acordo com os depoimentos coletados. aguardando a ordens para levar ou buscar alguém. Empenhava-se ali em “vestir a camisa”. O carro de som — daqueles que têm um pequeno palco em cima — tocava o jingle da campanha. Havia vários carros de som à disposição da campanha. ou seja. O carro de som principal seguia na frente do cortejo e. carros da Prefeitura para ir a comícios e caminhadas do candidato da coligação “Crescer sempre com Deus e o povo”. não se dava exclusivamente entre eleitores distantes (refiro-me àquele indivíduo que não mantinha qualquer relação com o candidato até o momento da eleição). Em um primeiro momento. chamando-as de porta em porta. pegar e distribuir material etc. Havia outros carros de som distribuídos 273 Pude perceber que muitos dos funcionários da Prefeitura também trabalhavam na campanha durante o expediente e que carros oficiais eram invariavelmente estacionados no pátio interno do prédio onde funcionava o comitê. no início. expor-se e automaticamente escolher um dos lados — o que para quem trabalha no serviço público municipal sem ser concursado. com mais recursos materiais e humanos. 285 . O uso da máquina e dos recursos da administração municipal era flagrante e. logo atrás. O candidato costumava visitar vários bairros por dia. os fogos de artifício espocavam no ar como uma forma de marcar o início da festa política. portanto. A “troca”. dependendo da vitória ou fracasso do candidato apoiado. a troca do horário de expediente na Prefeitura pelo trabalho de divulgação da campanha. enquanto um “puxador” (como os de escolas de samba) convidava a população a acompanhar o candidato. os assessores reuniam-se no comitê para instruírem os cabos eleitorais – muitos eram funcionários da prefeitura273 — responsáveis por aglutinar as pessoas nos bairros e despertar sua atenção. em algumas ocasiões. muitos outdoors espalhados pela cidade. em agosto de 2004. acompanhado por seus colaboradores — que arregimentavam os moradores e os colocavam em posição para dialogar com o candidato — enquanto o operador de câmera filmava toda a movimentação. aparentemente. A “ajuda” de funcionários durante a campanha não era por eles encarada (ao menos com os que tive a oportunidade de conversar) como “troca de turno”. sem muita preocupação com os usos políticos que seus adversários poderiam fazer de tal fato.

alguém ali já havia estado. pude presenciar uma cena na qual o candidato em questão pedia voto a uma moradora que vestia a camisa do PT. enquanto os outros faziam o percurso pelas ruas perpendiculares. a sua frente. A moradora foi incisiva ao declarar que não mudaria seu voto mesmo tendo o candidato ali. Era uma maneira de “preparar o terreno” (nos termos de Pedro César e de outros assessores) para que Mario não fosse exposto a situações desagradáveis. Durante o trajeto da caminhada. principalmente de candidatos a vereador. então. por exemplo. Era uma enorme confusão de sons. desistir e. sem que necessariamente houvesse prévia permissão do(a) morador(a). com um sorriso nos lábios.pelo percurso do evento. A competição entre esses últimos era bastante acirrada. Apesar desta preocupação. várias placas como àquela (de outros candidatos) que estavam nos muros. se no bairro não dispusesse de praças. distribuído material de campanha e falado sobre os “feitos” da administração vigente. mas a posição da moradora permanecia inalterada. Mario resolveu. eram reproduzidas também as músicas dos candidatos à Câmara Municipal. pedindo a ela que retirasse a placa de Lindberg de sua casa. quando o prefeito chegava em determinado ponto do trajeto. O argumento do prefeito girava em torno do conhecimento sobre a cidade e seus problemas. pois além dos jingles de campanha. em um lugar central e 286 . disse que esperava que ela mudasse de idéia até a data da eleição. Sendo assim. O evento culminava na reunião dos candidatos e dos moradores que tinham acompanhado a caminhada em uma praça ou. uma vez que todos colocavam junto a seus nomes. um grande número de santinhos distribuídos. tentando demovê-la da resolução. O carro de som de maior porte percorria a rua principal do bairro. o do prefeito — o que significava. postes e até em alguns quintais foram arrancadas e trocadas pelas de Mario Marques. o que revertia a favor de Mario.

a partir de setembro. Se na primeira fase da campanha. mesmo o jingle principal sendo um samba. o PMDB não sofria do mesmo mal. Nos dois meses iniciais. mas percebi a preponderância deste ritmo musical não apenas nos municípios da Baixada. como no caso desta coligação. Uma característica nada irrelevante diz respeito à música escolhida. 275 Consultar o capítulo 4 desta tese. Quanto mais próximo do dia 3 de outubro. uma versão gospel. Não cataloguei os jingles de todas as campanhas. Em um segundo momento. a falta de recursos impedia o uso de “atrações” nos eventos do PT275. As produções maiores aconteceram a partir do fim de agosto e. O imperativo de remeter à felicidade e à alegria reflete-se na escolha do samba como portavoz da emoção que se pretende passar ao eleitor. as candidaturas parecem dar preferência ao uso de sambas em seus jingles. avisando quando estaria de volta e o local escolhido para a próxima caminhada ou comício /showmício 274. 287 . no qual Mario fazia seu discurso e despedia-se. maior o número de showmícios realizados e 274 Como abordado anteriormente no capítulo 2. teve atuação destacada. por exemplo. Jorge Gama teve um papel limitado na campanha de Mário Marques. De forma geral. maior destaque sendo conferido ao candidato à prefeitura e a políticos com bases eleitorais em bairros ou áreas específicas da cidade. O jingle de Lindberg teve. a escolha do estilo musical acaba corroborando um ideário mais geral sobre identidade/ brasilidade.de maior visibilidade. durante a “guerra política” deflagrada. o formato dos comícios era menor. havia ainda outras músicas criadas para públicos específicos. ao jingle de campanha de Mario Marques. No entanto. no entanto. essencialmente. como também em outras regiões do estado. É interessante perceber que mesmo naquelas em que há algum apelo às religiões protestantes. festa/ samba.

o Fernando é quem vai cantar. os recursos financeiros tampouco chegaram à cidade. Seus eventos não tinham “atrações”. A campanha foi levada a cabo com pouco dinheiro e apoio político. que se manteve oficialmente afastada da candidatura — e. dedicando-se às campanhas na Baixada enquanto seu marido concentrou seu apoio aos candidatos de Campos. por diversas ocasiões escutei comentários do tipo: “Hoje. que se manteve afastado de sua campanha277. sendo o tom do discurso da governadora essencialmente religioso — além das ameaças dirigidas aos adversários desde o início do período eleitoral. os recursos disponibilizados para as atividades eleitorais também foram escassos. Os showmícios não foram realizados em Magé. conseguiu manter-se na liderança por quase dois meses após o início oficial da corrida eleitoral. como exposto nas críticas de Zito. ao que parece. nesse período. Narriman não teve acesso à organização e à estrutura dos megashows. recorrendo fundamentalmente ao corpo a corpo. Por conta disto. mas podem montar uma banda (risos)”. as principais lideranças nacionais do partido lá não estiveram e. Francisco Bezerra e Ozil 276 Na corrida para a prefeitura de Nova Iguaçu em 2004. Eles vão perder a eleição. também financeiramente. a campanha da mais nova (e polêmica) petista não seguiu o mesmo caminho trilhado por Lindberg.Nos bastidores das campanhas de seus adversários. Fernando Gonçalves. cantores como Waguinho (cantor de pagode) ou a Banda Mel (axé music) — que não estão “na crista da onda” já há algum tempo — além de vários artistas gospel: Marquinhos Menezes. as músicas religiosas e a presença de pastores assinalavam uma diferença em relação às demais campanhas. 288 . Fernando dispunha de carros de som precários e palanques pequenos. Nestes eventos. além de não ter contado com a participação de nomes conhecidos em seus comícios — preferencialmente voltados para a comunidade evangélica. Bandas de pagode (grupo Ki-Prazer). Além de não contar com o apoio de Zito. O acirramento da disputa no segundo turno das eleições fez com que a governadora Rosinha Matheus e Anthony Garotinho se fizessem mais presentes — fundamentalmente a primeira. Melissa. Em sua campanha não foram realizados comícios. o candidato foi alvo de inúmeras piadas. Em Magé. Os showmícios evangélicos se multiplicaram. banda Tempo. Jossana Glessa. tampouco obteve o suporte de seu partido. a mulher dele. grupo Ella. 277 Ver capítulo 3 desta tese. no máximo. Mesmo assim. . que produziam comícios específicos para cada “público”. No caso do candidato do PTB.mais “atrações” oferecidas276. o sobrinho de Fábio Raunheitti não teve o apoio da família. Claudino Maciel. Narriman contou apenas com shows de menor porte realizados com assiduidade a partir de setembro (dos dias 16 a 30) daquele ano.

foram privilegiados os pequenos eventos nos bairros e nas “comunidades”. Nesta reunião. Narriman. a situação não foi muito diferente. Zito não apareceu e Isabel foi incumbida de avisar aos presentes. realizados desde o momento da escolha do candidato do PDT à sucessão de Zito. A primeira fase da campanha parece ter se apoiado essencialmente no carisma de Zito e na possibilidade de associar suas características às do candidato por ele apoiado. justificando a ausência do prefeito com o argumento de que este teria outros 278 Isabel Costa foi apresentada a Zito por Roberta Siqueira que já trabalhara em sua equipe e que. no entanto. não resistiu à estrutura da família Cozzolino que. 289 . foi trabalhar na Prefeitura juntamente com Roberta. Alguns secretários de governo de Zito também tomaram parte na organização de alguns desses eventos. mais tarde.Silva e ainda a comunidade evangélica de Nilópolis e a da Igreja Batista Nova Jerusalém foram alguns dos grupos que se apresentaram nos eventos da candidata do PT.em escolas. Laury Villar. os moradores de um condomínio de classe média da cidade foram apresentados ao candidato e com ele conversaram sobre o bairro. Tive a oportunidade de participar de deles. Reuniões com grupos de moradores — nas quais eram apresentadas propostas e se ouviam as queixas da população — eram organizadas por lideranças comunitárias e vereadores que tentavam a reeleição. quadras de esportes etc. ditou um outro ritmo à campanha. questões de segurança e urbanização. associada a de Nelson do Posto. Isabel acabou participando da campanha de 1996. centros comunitários. onde atuou como coordenadora e posteriormente como subsecretária de educação — por dois anos. ou por aqueles que concorriam pela primeira vez à Câmara Municipal. Com a vitória de Zito. ajudando na elaboração do plano de governo — fundamentalmente na área da educação. momento nos quais o antigo prefeito demonstrava sua habilidade em lidar com “seu povo”. organizado pela sub-secretária de educação do município 278. se tornaria sua secretária de educação. Em Duque de Caxias. Grosso modo. As caminhadas tiveram lugar de destaque.

a ênfase recaia sobre os políticos mais importantes que apoiavam os candidatos e. ressaltando sempre que a eleição deste último significaria a continuidade de seu trabalho e dos projetos até então implementados na cidade. Anthony Garotinho era sempre a grande atração. juntamente com a governadora Rosinha — o repertório de shows tendo seguido o padrão adotado pelo candidato peemedebista de Nova Iguaçu. 290 . contando com alguns grandes shows. portanto. Esse foi o modus operandi da campanha do PDT em um primeiro momento: supervalorização da imagem de Zito. em alguns casos mais do que em outros. as campanhas utilizaram-se da estrutura já conhecida dos comícios. mas nem sempre a sua presença. As críticas ao adversário Washington Reis eram mais contidas do que aquelas dirigidas ao exgovernador e à governadora do Rio.compromissos na Prefeitura e que. seguia um padrão mais convencional. sobre os próprios candidatos. mas direcionando o foco sobre as “estrelas” políticas. Neste caso em particular. ficara muito tarde para que pudesse ali chegar. ele dizia algumas palavras sobre os candidatos a vereador e prefeito. Queixava-se sobretudo da falta de parceria e da dificuldade de repasse de verbas do estado ao município. nos eventos realizados por Washington Reis. Desse modo. afirmando que este havia sido “abandonado por Rosinha”. embora não costumasse faltar às reuniões organizadas pelos principais candidatos à Câmara Municipal. no entanto. Isabel completou a justificativa ressaltando que Zito estava muito assoberbado com o trabalho de administrar o município de Caxias. capaz de aproximar o candidato dos eleitores. Sua produção. A festa ainda era o recurso catalisador da multidão. Ainda que permanecesse por apenas alguns minutos. Em Duque de Caxias.

da mesma 291 . como por exemplo. referindo-se ao político como ator social legítimo e a práticas coletivas ligadas a tal mundo.) é freqüentemente tomado pelos moradores como canal legítimo de mediação. as já mencionadas redes de resolução de problemas práticos (Linderval. 1993 e 2000). a percepção dos moradores daquela região sobre o que seria o fazer político – também remeteria. operador de uma transformação dos espaços — transformação simbólica e efêmera relativa a modalidades de interação entre os atores sociais e áreas da cidade criadas especificamente para fins eleitorais ou reconfiguradas pela própria disputa. em relação a Lindberg Farias. do “fazer político” (Kuschnir. contava com o forte apoio de Zito e. alternando-se entre ora privilegiar os “convidados”. que é aquele das campanhas.). secretários de governo etc. A lógica do palanque e da disposição do público-eleitor seguiu a supracitada. tal como relatado por Palmeira e Heredia (idem). Os comícios são marcadores deste tempo singular. O espaço simbolizado pelo palanque só é possível circunscrito a um tempo da política. bem como na gravação de programas eleitorais. seu staff (assessores. assim como alguns ministros petistas que gravaram participações para exibição durante o horário de propaganda eleitoral gratuito (HGPE). op. Não se viu em Duque de Caxias ou em Magé a exaltação e as demonstrações de carinho/ afeto/ deslumbramento que pude perceber em Nova Iguaçu. durante o segundo turno. Benedita da Silva (PT) também esteve na cidade. também com o de César Maia e do PT — ainda que não tão ostensivo quanto se esperava. a relações não-exclusivas às campanhas e momentos de eleição. Tal apoio foi expresso nas visitas que César empreendeu a Duque de Caxias. A política – entendida aqui como categoria nativa. ora os músicos. cit. na Baixada. ou seja. Frente à sazonalidade da presença do político. ora o candidato.Laury Villar. por sua vez.

o caso de Lindberg foi exemplar. um “percurso sinuoso” (op. Lazer etc. um dos sinais distintivos entre comício e showmício: a operação de uma mudança de status do político. Evidentemente. 68) no qual o que importaria destacar seria a dimensão reveladora das emoções como formas de entendimento do real. 279 Já nos referimos. por exemplo. as articulações em momento de campanha – que para os políticos profissionais não corresponde somente ao período eleitoral – transformam as relações cotidianas e podem unir sujeitos sociais (individuais ou coletivos) antes tidos como integrantes de campos opostos ou mesmo apolíticos (Igreja e Estado. quando muito. Wefford (1968). que vira um astro. sem desconsiderar o carisma pessoal de Lindberg Farias. Educação. Associações de moradores e Prefeitura. A comoção não era a expressão individualizada. apesar da classificação nativa na Baixada parecer não se restringir às eleições ou a seus personagens oficiais. 292 . como ressaltou Barreira.. p. no sentido de ter evidenciado as etapas de sua transformação de candidato em candidato-ídolo. morador e Secretaria — de Saúde. cit. qualificado por rótulos populistas280. Assim. em toda sua amplitude. mas a manifestação coletiva dos sentimentos em um espaço “da política” tradicionalmente pensado como apartado das interações “emocionais” ou. no capítulo sobre a(s) Baixada(s).)279. A problemática dos sentimentos relacionada ao estudo da política e das eleições configura. ao papel dos movimentos sociais como atores políticos legítimos na história política da região. a meu ver. Obras. não podemos relegar a um plano secundário a construção de um aparato específico que garantiu a exploração.forma como acaba ocorrendo com relação às entidades civis (majoritariamente associações de moradores/ escolas/ grupos culturais e ONG’s). 280 Sobre populismo ver. Este seria. No interior deste tempo da política e a partir da lente do palanque. das emoções suscitadas pelo candidato num misto de espetáculo e regozijo.

pela análise abordada quanto à construção do marketing como um campo profissional em busca de legitimidade. revelaria uma dimensão mais harmoniosa ou alegre das campanhas eleitorais. O universo político 281 Apesar de o autor utilizar a analogia entre marketing e magia em sua tese de doutoramento. por exemplo. sendo antes uma construção a partir do termo final.das relações humanas. Ameaças e Orações Se a festa. de produção técnica e bibliográfica e do engajamento dos atores sociais em questão (Castilho. fantásticos. Notícias De Uma Guerra: Estratégias. extraordinários. ou seja. 293 . a princípio. entre os grupos adversários pela promoção da melhor festa. só se sabe do sucesso após a sua proclamação. A concepção da guerra e de uma gramática e estética próprias a ela. Sendo assim. A “fórmula mágica” dos marqueteiros não constitui um dado anterior. de profissionais específicos. na guerra de todos contra todos. a fórmula de modo algum é mágica. pré-configurado. nos termos daquela estudada por Mauss (1974). Não se trata de desconsiderar seu apelo e suas força e eficácia simbólicas. pelos motivos acima expostos. ela também abarca uma dimensão de conflito — nesse caso. prefiro optar. A idéia da universalidade da guerra figura entre nossas mais antigas teses sobre a natureza humana como. que qualifica o estado de natureza em Hobbes. 2000)281. muito pelo contrário. mas de compreender o que traz consigo. não está apartada do mundo da política. cuja crença em sua eficácia é sempre dada a priori. Tal percepção relativa às estratégias de marketing é fruto de um longo trabalho de criação de um campo. engendrando outras maneiras de olhar nossos objetos para além da mecânica da “produção marqueteira” e do discurso do político-produto alimentado pela comunicação de massa. de “intelectuais próprios”. É só nesse momento que o discurso sobre si passa a incorporar novos tons.

o mágico e o político têm em comum a palavra como força-motriz de uma ação à distância282. Estar apartado desse mundo. A publicidade (aqui entendida como englobando o marketing político) torna-se assim o instrumento por excelência desta guerra. pensadas como arenas. 1998). Mauss (2003 [1904]). cit. em alguns momentos. a “morte” política. Assim. perto das vias de fato. Evans-Pritchard (2005 [1976]). os candidatos estão na base do “matar ou morrer”. as eleições no estado do Rio de Janeiro e. Militantes dos candidatos a prefeito da segunda maior cidade da Baixada Fluminense — Lindberg Farias (PT) e Mario Marques (PMDB) — só não trocaram socos e pontapés ontem porque foram impedidos por fiscais do TRE e policiais militares”. na guerra da política a palavra é sua ferramenta por excelência. Em período de campanha. o coordenador político da candidatura. c’est lê verbe” (Favret-Saada. cit. Acreditei. Em junho. a ela soma-se o gesto. O bruxo. com sua força simbólica. de fato. transformaram-se em uma das principais arenas (senão a principal) nas quais Consultar. ‘Mandaram um recado para o Lindberg. pode ser o prenúncio do fim e. Outro fato que mereceu destaque na imprensa foi a intimidação sofrida pelo coordenador político da campanha. Foram roubados documentos e computadores. mas também como espetáculos. nos remetem diretamente à esta questão. o rosto dele”. As eleições. na Baixada Fluminense. Antônio Neiva. por exemplo. A palavra engendra uma rede de ações.). sobretudo. op. Conforme noticiado pelo jornal O Globo de 01/11/2004: “O acirramento da campanha no segundo turno em Nova Iguaçu se refletiu ontem nas ruas. a quem se referiram como ‘o paraíba’ [o deputado é paraibano]. 283 282 294 .. pois disseram coisas que fiz no período’. Neiva contou que dois homens saltaram de um carro e o imprensaram contra um muro. a imagem. conforme relatado pela Folha de São Paulo de 12/09/2004: “O primeiro alerta de que a campanha poderia ser perigosa veio no início da disputa. Antônio Neiva. sem a garantia dos acessos que ele possibilita (Kuschnir. op. na política não seria diferente. foi cercado ao descer do ônibus que o trouxe do Rio. As pichações visaram. já que perder uma eleição pode significar. disse Neiva. foram pichados os 70 outdoors de Lindberg na cidade.institucionalizado por partidos e homens públicos demonstra as formas variadas em que esse “estado” ali se instaura legitimamente. Na semana passada. torná-lo real283. Mas não somente a palavra. Favret-Saada (1998). O “clima de guerra” que reinou durante o período eleitoral em Nova Iguaçu chegou. Desse modo. Deixaram claro que ele corria riscos caso insistisse na candidatura. O escritório em Nova Iguaçu já foi invadido duas vezes. reações e relações. Falaram que eu estava sendo seguido havia 36 horas. mais especificamente. Se na bruxaria “l’acte. Bezerra.

A partir deste momento. Havia também o projeto político de Garotinho e de sua rede política para o Rio de Janeiro e para uma possível candidatura à Presidência da República. outdoors e adesivos com mensagens como “Trate bem o turista. 295 . de outro. De um lado. Os comícios e showmícios marcaram o ritmo das campanhas a partir do fim de agosto e os embates entre os principais candidatos foram tornando-se cada vez mais acirrados. o governo estadual — por intermédio do casal Garotinho (Anthony e Rosinha Matheus) — encetaram conflitos que se tornariam os objetos preferenciais das mídias escrita e televisionada. o PT nacional e o governo federal — através do presidente Lula e de seu staff —e. em alguma medida. O arsenal deste último grupo já estava preparado: além de acusações do uso da máquina administrativa com fins eleitorais que pairavam sobre a candidatura petista de Lindberg Farias — mesmo antes da eleição — outros ataques vieram também na forma de cartazes distribuídos pela cidade. não se tratava apenas do projeto coletivo do PT que abarcou projetos individuais como o de Lindberg ou mesmo o de Zito. mas não vote nele”.tais confrontos se desenrolaram.

sua criatividade teria sido colocada à disposição do candidato peemedebista. aparentemente apartado da campanha. 296 . segundo uma pessoa próxima — ligada ao comitê eleitoral de Marques — um dos principais articuladores destas investidas.Jorge Gama. Apesar de seus desentendimentos com Bornier. mas de fato o tom crítico e o humor ácido dos panfletos lembram. Não há como confirmar ou negar tal afirmação. desde suas trocas de partido. e de ter se mantido afastado do dia a dia da campanha. quanto sua atuação como relator no caso da demarcação de terras da reserva indígena Raposa Serra do Sol. que dela se utilizou em diversas ocasiões. até a posição por ele tomada na votação do salário mínimo (entre outras). seria. por exemplo. Foram objeto da campanha difamatória adotada contra Lindberg. o tom debochado e desafiador do Geraldinho Boca de Trombone. em alguma medida.

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direcionando todas as armas disponíveis contra os candidatos petista e pedetista. por ambos os lados (no caso de Nova Iguaçu. Humberto Costa (da Saúde). nos xingar e isso não é bom porque nós queremos continuar amando Nova Iguaçu. as ameaças da governadora do estado. em Duque de Caxias. logo ganhou o espaço dos programas televisionados. A atuação (mais ou menos) discreta durante o primeiro momento da campanha não impediu que o prefeito do Rio de Janeiro declarasse seu apoio a Lindberg e que participasse ativamente do segundo turno — subindo nos palanques. PT e PMDB). Rosinha Matheus. respectivamente. Para o mapa político da Baixada. Àquela altura — meados de setembro — o empate técnico entre Lindberg e Mário Marques em Nova Iguaçu. delineando um poderoso triângulo entre PT. ficou logo evidente e a resposta foi imediata284. Rodrigo Maia. Como é que nós vamos fazer isso caso esse candidato que nos ofende seja prefeito da cidade? A escolha é sua” (discurso de Garotinho. Diante disso. eram preocupantes. A pluralidade de partidos 284 É importante destacar que um terceiro termo esteve implicado na equação política em Nova Iguaçu e na Baixada Fluminense como um todo: César Maia e o PFL. diante de seu contato bastante próximo com o filho do prefeito e deputado federal. ainda. Os interesses de reprodução/ ampliação das redes políticas e de influência na região. transmitido durante horário de propaganda eleitoral gratuita da coligação Crescer sempre com Deus e o povo). “Tem um candidato que sobe nos palanques para nos ofender.A tais ataques somaram-se. assim como os índices de Laury Villar. O que de início começou com ofensivas nos palanques. PMDB e PFL. e com o vereador Rogério Lisboa. Alguns ministros foram convocados a entrar na briga e a imprensa tornou-se o palco de embates veementes e indignados entre os dois pólos285. José Dirceu (da Casa Civil) e Tarso 300 . diversos Ministros de Estado estiveram em Nova Iguaçu: Gilberto Gil (da Cultura). o casal Garotinho entrou com toda a força na campanha do PMDB. e de seu marido aos eleitores que votassem em candidatos adversários. Aldo Rebelo (da Coordenação Política). visitando essa cidade. inclusive. A aproximação entre César Maia e Lindberg não era tão impensável quanto poderia parecer à primeira vista. a rede encabeçada por César Maia significava uma rearranjo das forças locais e regionais. 285 Em menos de um ano.

contando com a presença de diversos políticos e parlamentares de partidos aliados — naquele momento — a Lindberg. sem boicotes. César Maia. deu a seguinte declaração à imprensa (escrita286 e televisionada): “O Presidente da República me autorizou a dizer que nós vamos não só estabelecer uma relação de qualificação e de igualdades com os prefeitos. Segundo o jornal O Globo (13/09/2004. Chico Alencar. Luis Paulo Corrêa da Rocha. simbolizados pela oposição entre as personas: Lula/ Lindberg X Garotinho/ Marques. disse que a governadora Rosinha Matheus não repassaria recursos estaduais para a prefeitura se o petista fosse eleito”. Anthony Garotinho.na disputa foi canalizada em dois discursos ao mesmo tempo inclusivos e excludentes. de 15 e 16/10/2004. A declaração de Garotinho desencadeou ainda uma manifestação pública de repúdio. Rogério Lisboa. de 04/10/2004 e em O Globo. 286 Folha de São Paulo.11) “em reação ao crescimento de Lindberg. além de membros do PT de Nova Iguaçu e do seu diretório estadual. Batizado de “Movimento por eleições limpas e éticas na política do Rio”. Andréia Zito. Representantes do governo federal responderam às ameaças de cortes em projetos sociais de Nova Iguaçu com a promessa de cobrir qualquer ônus eventual aos moradores (e eleitores) da cidade. 25/09/2004). o então Ministro da Educação. presidente regional do PMDB. tais como: Marcelo Allencar. nas escadarias da ALERJ. p. Tal iniciativa Genro (da Educação). como também o governo federal vai cobrir qualquer ausência de convênio que eventuais governos de estado se neguem a fazer por discriminação política” (Jornal Nacional. Jornal do Brasil e O Globo de 25/09/2004. Na ocasião. Carlos Minc. no dia 27 de setembro. Rodrigo Maia. Tarso Genro. 301 . o evento clamava por eleições transparentes. Tal fato mereceu destaque no Jornal do Brasil. além de João Paulo Cunha (líder do governo na Câmara).

em matéria intitulada Panfletos acusam Lindberg de impedir distribuição de cesta básica. exacerbada. dizendo que aquele não era seu “estilo”: “Eu sempre fui contrário a tudo isso aí. era preciso culpabilizar os agentes do mal. marcou presença fazendo coro com o grupo liderado por Marcello Alencar. O que se tenta fazer é espalhar a política do medo. — nesse caso. no caso da distribuição de cestas básicas pela Fundação Leão XIII. teria partido dela) constituiu o acontecimento propício para angariar mais visibilidade à candidatura petista e buscar maior apoio popular. O panfleto que reproduzo abaixo. a deputada estadual Andréia Zito. os “assistencialistas”. a denúncia de Lindberg quanto ao assistencialismo do governo estadual em troca de votos. a organização da mobilização anteriormente mencionada — que tinha como bandeira eleições limpas e A Folha de São Paulo do dia 29/10/2004. Em seguida. os “corruptos”. Vários candidatos têm sofrido também com a distribuição de panfletos anônimos. fora desta vez assinado pela coligação Crescer sempre com Deus e o povo. em Caxias. por intermédio de diversos panfletos distribuídos pela cidade. ordenada pela Justiça Eleitoral de Nova Iguaçu. Eu sofri com isso aqui. no entanto. O Secretário de Segurança é um elemento desestabilizador na eleição.(que segundo a coordenadora da assessoria de comunicação política de Lindberg. Precisava-se. na entrevista que me concedeu. Mas nunca fui um político de ir pra rua e mostrar uma indignação exagerada. né?” Sua filha. Nesse sentido. Sempre fui contra essa política do Garotinho para o estado do Rio de Janeiro. Zito não participou do ato público e justificou-se. 28/09/2004). É a ante-sala do terrorismo. Débora Souto. Esta política é hitlerista – afirmou Lindberg (O Globo. No jogo das visibilidades. acabou ocasionando sua suspensão e a revolta da população local287. relata a responsabilidade atribuída a Lindberg Farias pela suspensão da distribuição das cestas básicas. portanto. 287 302 . de um “bode expiatório”.

de tíquetes que podem ser trocados por latas de leite em pó. O candidato do PT reagiu à distribuição de alimentos pelo governo estadual. até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gravou mensagens para a propaganda eleitoral na televisão dizendo para o povo “votar em Lindberg sem medo” porque “vai compensar Nova Iguaçu de outras formas” se a cidade for abandonada pelo governo estadual” (grifos meus). Para as ameaças da governadora. a menção à assistência não foi de todo descartada no discurso político de Lindberg. mas apenas atenuada . que afirma que “será obrigada a abandonar Nova Iguaçu se Lindberg for eleito”.éticas — colocava o adversário no pólo oposto. Anunciada com antecedência pelo prefeito. segundo apurado por fiscais da Justiça Eleitoral. Rosinha acatou a decisão da Justiça. de 31/10/2004. conforme percebemos em reportagem da Agência Carta Maior. . apesar de tudo isto.. duas das áreas mais carentes da cidade. o juiz José Lessa Giordani determinou a suspensão da distribuição. mas no mesmo dia ordenou o início da distribuição entre os iguaçuenses. do governo federal. iniciasse em Nova Iguaçu a distribuição de cestas básicas para moradores dos bairros Aymoré e Campo Belo. Nesse contexto. 303 . sobre o caso da distribuição de cestas básicas: “A governadora Rosinha Matheus determinou. no dia 26 de outubro. prometendo aos eleitores de Nova Iguaçu que vai ampliar na cidade o Programa Bolsa Família. o petista ressalta a todo momento sua ligação com o governo federal. mediante a apresentação pelos beneficiados da carteira de identidade e do título de eleitor. em 19 de outubro. que a Fundação Leão XIII. Os fiscais presenciaram a entrega de 780 cestas e. do mal. a distribuição das cestas era feita. É interessante perceber que. ligada ao governo estadual.

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como mais um segmento eleitoral. as ruas de Caxias estão forradas de cartazes de propaganda do estado. em São João de Meriti. em um primeiro momento. contando com shows específicos. Diante deste cenário.1 milhões. se eleito. a briga pelo “voto evangélico” atingindo seu ápice durante o segundo turno das eleições288. 09/10/2004). Garotinho e a governadora Rosinha utilizavam-se de estratégia semelhante. visitas às igrejas. não se havia apelado ao discurso religioso como arma políticoeleitoral.3 milhões entre 1999 e 2000 para 26. Sandro Mattos reclamou que em Meriti os políticos ligados ao governo estadual fazem circular boatos de que. a população evangélica brasileira passou de 13. Os candidatos [Sandro Matos (PTB). em 2002. Manoel Ferreira. o casal não poupava ninguém. Isto significa um crescimento percentual de quase 100%. A temática religiosa que.Em Caxias. 288 Conforme anteriormente mencionado. ele acabaria com o cheque-cidadão (Jornal do Brasil. cada candidato procurou costurar suas alianças com nomes importantes no meio evangélico da Baixada e do estado. senador pelo PL e segundo lugar no pleito carioca. conversas com pastores e fiéis etc. o bispo da Universal. Dentre eles. Marcelo Crivella. As visitas às igrejas repetiam-se com freqüência. Presença constante nos palanques do município. Naquele momento. 289 De acordo com os dados do Censo do IGBE. não havia tido grande destaque. muito superior a qualquer outra denominação religiosa. manifestou seu apoio a Lindberg — graças à adesão de Fernando Gonçalves à campanha petista — acompanhando-o em caminhadas e também nos palanques. Segundo Zito. Já do outro lado. e Laury Villar (PDT). até então. 306 . tomou vulto. o campo religioso local sendo polarizado por pastores de distintas vertentes. proferindo ameaças e acusações aos adversários locais durante os comícios realizados na localidade. com promessas de realizações e obras. de forma mais ampla289. principal líder da Assembléia de Deus. em Caxias] também reclamaram do uso da máquina do governo estadual na eleição. no entanto. vinculando a opção religiosa (e sua prática) ao voto em um candidato em particular. as religiões protestantes foram tratadas.

ao que parece. 2002. Garotinho. 2003). 09/10/2004). por sua vez. Garotinho declarou seu apoio a Lula e teria atuado como mediador junto a outras igrejas para conseguir congregá-las ao candidato petista. colocandose.. Graças a ele. o vínculo evangélico. privilegiando seus interesses particulares e o vínculo partidário em detrimento do pertencimento religioso. Apesar do PL ter tido um senador na chapa de Lula naquelas eleições para a Presidência da República. e do primeiro ter manifesto publicamente sua adesão à campanha de Laury. O primeiro foi o terceiro colocado para a vaga do Senado Federal. saí com espírito renovado. Vale a pena lembrar que José Serra (PSDB). A entrada dos evangélicos na campanha de Lindberg foi acertada. como também seus fiéis a votarem nele290. a Assembléia de Deus. Tenho certeza de que foi a vontade de Deus. predominou. 307 . que foi candidato a vice na chapa de Luiz Paulo Conde e. “Zito ajudou na minha candidatura ao Senado. “Candidato pelo PT à prefeitura de Nova Iguaçu.Não cheguei até aqui por acaso. em arenas políticas opostas. No segundo turno. segundo o candidato. em 2002. pôde apoiar publicamente o candidato do PT. A estratégia visa a ‘arrebanhar’ parte dos fiéis que estão hoje sob a influência do exgovernador Anthony Garotinho (PMDB). com o pastor Manoel Ferreira (PL). Em Duque de Caxias. Após conversar com o pastor. no entanto. já tinha costurado anteriormente uma aliança com a IURD — em 2002. O peemedebista apóia a campanha do prefeito Mario Marques (PDT). Oro. adversário de Lula. na época filiado ao PSB. nessa eleição. conclamando os pastores da IURD. 11/10/2004). Lindberg Farias prometeu reunir pelo menos 300 pastores evangélicos na igreja da Assembléia de Deus. da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil e também da Igreja Quadrangular (Machado. nas eleições municipais de 2004. na cidade. Com a aliança com o PTB em Nova Iguaçu. no município do Rio de Janeiro. era aliado de Garotinho” (Jornal do Brasil.deu seu apoio a Mário Marques. até então. que busca a reeleição. apesar dos conflitos entre o pastor Manoel Ferreira e seu “padrinho”. o candidato do PMDB contou com o apoio de alguns pastores de sua denominação religiosa. Garotinho (). . recebeu o apoio da Convenção Nacional das Assembléias de Deus. tendo sido também candidato a vice-prefeito na chapa de Luiz Paulo Conde. amanhã. pronto para a maratona do segundo turno — afirmou (Jornal do Brasil. tive 290 Destaco que o pastor Manoel Ferreira e Garotinho pertencem à mesma denominação religiosa. .

a religião e a política entre trabalhadores rurais” (Novaes). a personalização do contato. 29/10/2004). Algumas matérias de jornais expuseram tal questão. 292 Entre as estratégias políticas de vinculação de um determinado candidato a um nome político considerado “forte”. destaca-se uma tática bastante “tradicional” na política: a distribuição de cartas. Criminalizados por ali residirem. É o que se evidencia também no trabalho de Leite. Dentre elas. ver a coletânea de artigos organizada por Patrícia Birman. na última década. a um adensamento dos estigmas sobre os moradores das favelas. pode ser pensada como uma forma de criar laços e promover uma “sensação de proximidade” no eleitor. Entre as armas utilizadas pela rede de Garotinho em Nova Iguaçu. a ética. Nas cartas e telefonemas. nas quais Garotinho pedia votos para o candidato do PMDB292. ele fala com a pessoa.mais de 15 mil votos. “Política Ambígua” (Palmeira) e “O mal à brasileira: Um pósfacio. é retomada com toda força. Estou firme nesta campanha para ajudar a eleger Laury — explicou o pastor evangélico”. grava uma mensagem telefônica — mencionando o nome do proprietário da linha e do morador — pedindo voto para o “seu candidato”. com viés religioso293. de prestígio. vinculada acima à anti-ética. e que apóia a candidatura em questão. Nas duas estratégias. só que desta feita. de cunho religioso — postadas pela Delta Construções291 (empresa ligada a Nelson Bornier). na disputa com Lindberg Farias. a de Daniela Name. o candidato fala “para todos”. É assim que o deputado federal Nelson Bornier (PMDB) define a colaboração da empreiteira Delta Construções S. de O Globo de 23/10/2004. são 291 "Uma coisa de amizade" (O Globo. interessaram-me particularmente os artigos: “Males e malefícios no discurso pentecostal” (Birman). Regina Novaes e Samira Crespo (1997). candidato à reeleição em Nova Iguaçu. No HPEG.A. nos quais o político mais conhecido. destaca-se a distribuição de cartas cujo teor pode variar de um simples pedido de voto a acusações explícitas ao adversário. à campanha do prefeito peemedebista Mario Marques. Há também telefonemas. Eis algumas de suas conclusões (2002:71): “[…] o acirramento da violência na cidade [do Rio de Janeiro] correspondeu. A temática do mal. agora. Para este trabalho. 308 . por meio do emprego do nome próprio do eleitor. principalmente no que tange à relação entre tal estigma e a conotação que o vínculo religioso adquire nestes segmentos. em entrevista ao Jornal do Brasil de 18 de outubro de 2004. 293 Para a problemática da constituição do mal na cultura brasileira. singularizada na utilização de seu nome próprio. “As metamorfoses da Besta Fera: o mal. O mal. segundo o qual algumas aproximações podem ser traçadas entre a condição estigmatizante dos moradores da Baixada e aquela dos moradores das favelas cariocas. a política e o Brasil” (Sanchis).

uma nova interpretação para a guerra política sendo então apresentada. 27/09/2004). “Diante de milhares de pessoas. o ex-governador alegou que o petista ‘ofendia a fé cristã da cidade’. cresce a importância da adesão religiosa como meio de afastar-se do campo conflagrado da violência social. A eleição deste moço é muito ruim para Nova Iguaçu’. 309 . O candidato do partido. o PT buscou apoio no PTB. entrou em cena a poderosa “máquina” das igrejas envolvidas nas campanhas (segunda citação. a maioria composta por jovens evangélicos reunidos para o show Celebrai. e em decorrência. ao assumir determinadas posições políticas: ‘Este rapaz defende a legalização da maconha e o casamento de pessoas do mesmo sexo. abaixo). no Rio de Janeiro. que chegou em terceiro lugar com 12% dos votos. contem para papai e mamãe. Como justificativa. disse” (Agência Carta Maior. As investidas de Garotinho e de seus aliados já associavam a candidatura petista à encarnação do mal (primeira citação. quanto. Garotinho juntou no palco cantores conhecidos de música gospel e pediu que todos orassem ‘para pedir a Deus que impeça a eleição de Lindberg’. e isso não é coisa que um verdadeiro cristão apóie.aproximados de bandidos e marginais em uma lógica que considera a convivência forçada um sintoma de conivência. no entanto. tanto pela crença no efeito transformador da palavra religiosa. No segundo turno. abaixo) mesmo antes da declaração de apoio de Fernando Gonçalves a Lindberg — e deste último ter adquirido o status de “convidadobem-vindo” no campo evangélico iguaçuano. Falem isso na igreja. pelo efeito social positivo de discriminação dos adeptos das religiões evangélicas da marginalidade e do crime” (grifos meus). aproximados do campo do “Mal” – associado à violência e ao terror das quadrilhas de narcotraficantes. Fernando Gonçalves. As favelas e seus moradores são. capaz de converter o mais renitente dos pecadores que assim iniciaria uma nova vida distante dos “erros do passado”. Neste contexto. “Para se defender.

O candidato petista – que já leu as cartilhas de Stalin no PC do B e depois as do seu inimigo. A política que quer ser levada a sério […] porque. o pastor. Com relação a Duque de Caxias. com 11. Gonçalves ainda por cima também é evangélico. o discurso de Zito tentou passar ao largo da questão. enquanto a Igreja Universal é seguida por 3. que é o nosso voto. A Assembléia de Deus é a maior seita. militantes de outras seitas distribuíam o jornal Folha Cristã. Iguaçuano e deputado federal mais votado na cidade. Mesmo tendo esposa e filha evangélicas. reportagem de Maurício Thuswohl.5% da população” (Agência Carta Maior. mas não esconde mais sua simpatia pelos evangélicos pentecostais. presente a um templo da Assembléia de Deus lotado.declarou apoio a Lindberg. Lindberg foi alvo das benções e orações de lideranças políticas e/ou religiosas como o próprio Ferreira e a ex-governadora Benedita da Silva. 13/10/2004) (grifos meus).5% dos iguaçuanos. que já foi radical e agora é moderado do PT – é católico. explorado pelos adversários. 29% dos habitantes da cidade são evangélicos. Do lado de fora do templo. contra nós. com acusações a Lindberg e uma matéria dizendo que a prefeitura petista de Belo Horizonte mandou construir ‘um templo para Satanás’. desvinculando a opção religiosa da prática e escolha políticas. eu vejo que a predominância de algumas entidades — ou mesmo religião — é um 310 . Assim. e costuma enfatizar a necessidade de autonomia dos fiéis no momento da eleição: “O líder comunitário. nós estamos usando uma arma. Trotsky. ele não declara pertencimento a qualquer denominação religiosa. o que ajudou muito Lindberg a jogar para o alto a pecha de ‘filho do demo’ que quer lhe colar Garotinho[…] No dia 10 de outubro. no PSTU. o padre pode ser alguém que o induziu [o eleitor] ao erro. Essa guerra santa se explica pelo incrível contingente de eleitores evangélicos de Nova Iguaçu: segundo um levantamento feito pela PUC-RJ. tirando da campanha petista o estigma de ´ser de fora de Nova Iguaçu’. senão. apontado para nós mesmos.

a onda de boatos tampouco. 295 Tal acusação foi notícia em jornais como O Globo e a Folha de São Paulo. Ao conclamar seus correligionários a ‘não caírem em provocação’. Arthur Dapieve ressaltou os “argumentos pretensamente religiosos” do casal Garotinho e. a divulgação de sua autoria marcava uma inflexão na estratégia. de 21/10/2004. “esse tal de Lindberg”. inclusive a de paternidade. diversos panfletos apócrifos já haviam sido espalhados pela cidade com acusações de diversos tipos. Segundo o candidato do PMDB. Tal boato teria sido espalhado (e fabricado) pela rede política de Mário Marques e Lindberg acabou acusando o ex-governador de ser o responsável pelo fato295. enviando nota aos jornais em repúdio aos ataques efetuados a seu candidato no segundo turno296. configura um dos exemplos: “O presidente nacional do PT. até mesmo a religião”. E eu espero que cada cidadão saiba separar uma coisa da outra e comece a entender da sua responsabilidade com o seu voto” (Zito. José Genoino. O PT nacional também marcou posição. Por exemplo: O Globo. feitas porGarotinho. Ao blame gossip juntaram-se as acusações de cunho religioso e a novidade dos panfletos assinados. 296 A matéria divulgada na Folha de São Paulo. As acusações não pararam por aí. que não condiz com um país democrático e civilizado’. o que sua coligação fazia era esclarecer o eleitor a respeito de “quem era esse candidato”. de 23.momento. e O Globo. de 21/10/2004. 29 e 30/10/2004. isso é passageiro. divulgou nesta sexta-feira nota oficial reclamando de ataques sofridos pelos candidatos petistas no segundo turno das eleições. no segundo turno. Genoino afirma esperar que os ‘nossos adversários não se utilizem desse clima de sectarismo e violência. Em uma delas. A notícia de que teria uma filha — até então ignorada — com uma garçonete agitou o clima político local e provocou uma avalanche de matérias na imprensa294. Lindberg foi novamente atacado. referindo-se às diversas acusações ao candidato petista. Outras matérias foram veiculadas pelo jornal O Globo dos dias 26. Merval Pereira referiu-se aos ataques como “os mais baixos recursos. Teresa Cruvinel remetia ao “tom religioso”. Segundo a nota. o PT é vítima de ‘armações e violências’ por parte de seus adversários. por último. de 22/10/2004. mas também às ameaças de corte de verbas e projetos sociais do governo do Estado. Como mencionado no capítulo anterior. 24 e 31/10/2004. algumas matérias deram destaque aos boatos que o candidato do PT enfrentou durante toda a campanha. Durante o primeiro turno. 294 311 . 26/04/2006).

eleitas para mandato parlamentar no Rio de Janeiro. sua inserção foi aumentando significativamente ao longo do tempo (1990: três deputados federais e seis estaduais. Apesar da “onda Lula” — que repercutiu em todo o Brasil nas eleições proporcionais.A relação entre os campos político e religioso no Brasil não constitui propriamente uma novidade. Eduardo Cunha. Arolde de Oliveira. pastor Almir. pastora Edna. também evangélica — em 1998. elegendo um deputado federal (p. bispo Léo Vivas. bispo Jodenir.2 milhões de votos. dezesseis deputados federais e dezenove estaduais [idem]). o bispo Marcelo Crivella (PL). um dos líderes da Igreja Universal. Bispo Rodrigues. 312 . em 6 de outubro de 2002. são alguns nomes de lideranças evangélicas locais. entre outros. sua atuação neste universo teve início nas eleições de 1986 para a Assembléia Nacional Constituinte.7 milhão. 2002. pastor Ely Patrício. principalmente do 297 Nas eleições de 2002. desde a eleição de Anthony Garotinho (PDT) para o governo do estado — tendo como vice.53). bispo Vieira Reis. No Rio de Janeiro. da Assembléia de Deus. Manoel Ferreira (PTB). foi o 3º colocado. foi eleito para o Senado com 3. com 1. possibilitando um crescimento considerável do número de parlamentares de esquerda. De acordo com Oro (2003). bispo João de Jesus. a Secretaria do Trabalho e Ação Social e 500 mil votos para o seu candidato ao Senado. Benedita da Silva (PT). assim como a ampliação das vagas ocupadas por políticos evangélicos na ALERJ297. 1994: seis deputados federais e oito estaduais. a participação dos evangélicos e a associação entre o campo religioso e o capital político dessa coligação possibilitaram a supremacia política do casal Garotinho na eleição seguinte. apesar de recente. A partir daí. 1998: dezessete deputados federais e vinte e seis estaduais. A IURD talvez figure como a principal iniciativa dos evangélicos no campo político. bispo Caetano. pastor Divino.

313 . O tom das disputas e a condução da guerra política (apelidada por alguns de “guerra santa”) no estado do Rio de Janeiro foram criticados por membros do próprio partido de Garotinho. no entanto. a Assembléia de Deus teve 24 candidatos concorrendo para a ALERJ (tendo eleito 5 deputados). pensado como “corporativismo de viés religioso”. Diversos autores ressaltam o papel da assistência e do trabalho social nas experiências de aproximação entre política e religião implementadas em diversos estados brasileiros (Peirucci.87%) na disputa para a Presidência da República. 2001. 2001). De acordo com Novaes (2002).30%)298.101. Jorge Gama.PT — as comunidades evangélicas e outros grupos sociais tradicionalmente representados (desde militares e policiais. Tal iniciativa. Líderes de expressão nacional do PMDB colocaram-se contrários à ofensiva e ao uso do discurso religioso. logo foi seguida por inúmeras outras. Garotinho recebeu 15. em todo o estado. 1989. Conrado. enquanto sua esposa. O projeto político do casal Garotinho foi inteiramente embasado na linguagem religiosa que conferiu intensidade dramática à operacionalização efetuada entre liderança espiritual e assistencialismo social. Oro. com 4. Coradini. esteve envolvida em projetos como o do cheque-cidadão. como já mencionado. ainda no primeiro turno. Machado.423 votos (51. Nessa eleição. encontramos. apesar de tentar atenuar algumas posições do ex-governador. a rede assistencialista vinculada à Fundação Leão XIII e seu uso com fins eleitorais.729 votos (17. A Assembléia de Deus. até funkeiros e esportistas) tentaram garantir seus espaços nas urnas. a Igreja Universal teria inaugurado o estilo. 2001. implementado no governo de Garotinho no Rio de Janeiro (Machado. 298 Segundo Machado (2002). 2000. também fez críticas ao “estilo Garotinho” e à própria mudança que uma figura política como a dele implicaria ao PMDB. Mais recentemente. op.).175. nem sempre obtendo o resultado esperado. seguidos de 18 da Igreja Batista e 17 da IURD. cit. Rosinha Matheus foi eleita governadora do estado do Rio de Janeiro. por exemplo.

em seu trabalho sobre políticos evangélicos na Câmara Municipal e na ALERJ — a filantropia e o engajamento em ações sociais não se restringiria à ética religiosa. Se para alguns autores — como nos aponta Coradini (op. ela considera a existência de “[…] um círculo vicioso em que o ator religioso utiliza o engajamento em atividades sociais da Igreja como atributo político para conseguir votos e mais uma vez eleito privilegia as questões religiosas e assistenciais”.). Assim. 1975. a partir de um depoimento que lhe foi dado (p. cit.) — as preocupações dos políticos evangélicos estariam preferencialmente a “serviço da religião” e menos voltadas para politizar as questões religiosas e/ou mundanas. cit. para outros — como demonstrou Machado (2002). mais particularmente.291). remetendo igualmente às ocupações profissionais e à tentativa de angariar mais poder no espaço público. Nessa guerra particular. 1995. Lanna. Entretanto. em Nova Iguaçu. Kuschnir. o campo religioso na Baixada e. op. Aglutinando e combinando pertencimentos e interesses os mais diversos. fragmentou-se diante dos diversos interesses em jogo — os atores sociais evidenciados nesse processo disputando não somente prestígio político. impôs sua vitória na quase totalidade das 314 .Pautar a política na assistência e prestação de favores — podendo implicar em laços de gratidão e dívida moral — não é exclusividade das lideranças religiosas e evangélicas. Venceu Lindberg e o projeto coletivo do PT (ao menos o do Campo Majoritário). mas também o poder sobre a fé. a mediação política apresentou-se sob novos aspectos e o clientelismo — tradicionalmente utilizado para pensar as relações políticas e as instituições no Brasil — não pôde ser acionado como critério explicativo exclusivo. Na política brasileira encontram-se vários exemplos desta prática (Leal.

diante do processo histórico de democratização brasileira que. com atuações variadas300. na Baixada Fluminense — e. redefiniram as práticas e valores internos a essa instituição. talvez. com pesos distintos. enquanto os católicos tiveram um decréscimo de 67. A própria crise do paradigma marxista como elemento estruturante e a nova postura da Igreja Católica — sob o comando de João Paulo II e seu conservadorismo — além da expansão do movimento dos carismáticos.zonas eleitorais de Nova Iguaçu — imprimindo efeitos também sobre outros municípios da Baixada através de sua atuação como “porta-voz do PT” na região299. Sua atuação junto aos movimentos sociais que lutavam pela casa própria em Nova Iguaçu foi decisiva para a constituição de sua persona pública.65% para 57. ampliou a possibilidade da participação das associações de moradores. Outro elemento a se considerar é o surgimento do que Leite (idem) denominou 299 As zonas eleitorais em que obteve maior votação foram.62% (13. Para os detalhes sobre os números em cada zona eleitoral. de 12. focalizamos não apenas a sua dimensão representativa e. ficando com 48. A Teologia da Libertação e as CEB’s reduziram sua intervenção no cenário político nacional.86% para 21. têm se feito presentes. ver Anexo. Vila de Cava e Centro. Levando-se em conta que. Cabuçu. A trajetória de Jorge Gama é ilustrativa desta situação. quantificada.16%. 300 De acordo com Leite (2002:69-70). Os católicos. nos últimos dez anos. sindicatos e partidos políticos. A única localidade na qual Lindberg não atingiu mais do que 50% dos votos foi Austin. Outros discursos religiosos também estão em cena.831 votos) do total da votação. mas a entrada em cena de novos partidos e novos discursos acabou implicando numa ruptura com esta forma mais tradicional do fazer político. apesar da redução no número de fiéis. a partir de meados da década de 1980. nos dias de hoje — o voto evangélico pode ser decisivo.13%. alterando sua configuração e a própria extensão de sua autoridade. no Brasil como um todo. 315 . mas a necessidade de adequação a um discurso e a uma prática não mais exclusiva ou predominante do campo político. o número de evangélicos no estado do Rio de Janeiro passou. portanto. respectivamente.

insígnias. 1996:51-52 apud Leite. Nesse sentido. cerimônias. formalidades e pertences que herdam. que seja defensivo ou destrutivo – com as ficções mais importantes que tornam possível a sobrevivência desta ordem”. elas justificam a sua existência e administram as suas ações em termos de um conjunto de estórias. e sim um envolvimento íntimo e profundo – que confirme ou deteste. as figuras dominantes e o carisma — e não exclusivamente sob formas “extravagantes” ou efêmeras — o autor ressalta um conjunto de formas simbólicas expressas pelo poder e por suas dimensões ao mesmo tempo morais e estéticas: “[…] Não importa o grau de democracia com que essas elites foram escolhidas (normalmente não muito alto) nem a extensão do conflito que existe entre seus membros (normalmente bem mais profundo do que imaginam aqueles que não são parte da elite). p. emerge o que a autora — citando Bellah — chamou de “dimensão religiosa pública”. sobre seus centros. afinal. de certa forma. em situações mais revolucionárias. delineando uma espécie de “religião civil” que. com o espaço comum e. segundo a qual “não se constrói um Estado democrático sem uma religião civil capaz de valorizar as virtudes cívicas ou o comprometimento do cidadão com a coisa pública. Se nos trabalhos de Weber (1999 e 2004) encontramos a preocupação central com o processo de racionalização e de desencantamento do mundo. Leite refere-se à atuação do projeto Viva Rio frente à problemática da violência e sua relação com uma concepção de “religião civil”. Geertz (idem. 2002:67) 302 A este respeito. inventam. com os destinos das instituições políticas” (Soares et al. ou. baseada na relação entre compromisso e cidadania.219) ressalta que “o que faz um líder político espiritual não é. Desse modo.“redes de solidariedade e filantropia”. em algum transe de auto-admiração. 316 . sua posição fora da ordem social. São esses símbolos – coroas e coroações. fundadas na ação cívica e no sentimento religioso. 2002)301. limusines e conferências – que dão ao centro a marca de centro e ao que nele 301 Em nota de rodapé.. operaria uma alteração nas fronteiras entre religião e política (Leite. Geertz (1997:214) nos chama a atenção para o que isto significaria: “um mundo totalmente desmistificado é um mundo totalmente despolitizado”. por conseqüência. refletindo sobre o conteúdo sagrado do poder302.

O autor utiliza-se do “número três” (p. como as aqui apresentadas. o que vem alterando a própria dinâmica do mundo da política. Desse modo. o da política. mas. especificamente. das variáveis numéricas. ora por meio dos arranjos representativos. re-significando discursos e originando uma nova gramaticalidade na qual o bem e o mal. – e a teia de significados da qual faz parte como produto e produtora. 303 Pierre Sanchis (1997) pensa a ambigüidade e ambivalência. Sendo assim. de alguma estranha maneira. As múltiplas possibilidades em jogo foram evidenciadas.acontece uma aura não só de importância. de fato. referindo-se à ambigüidade brasileira: “uma ambigüidade que não deixa o mundo ser de modo maniqueísta dividido em 317 . o da religião. fazendo uma análise da cultura brasileira a partir da polaridade entre a cordialidade e o conflito. p. A eficácia de elementos simbólicos do campo religioso repercute cada vez mais no fazer político por meio de alianças. podem ser pensados na cultura (e por que não.219). para além de uma dicotomia restritiva. na política) brasileira303. ora revelando-se na potencialidade aglutinadora do carisma de algumas personas políticas. ele estivesse relacionado com a própria forma em que o mundo foi construído” (idem. 1991[1980]) significa apreender os diversos discursos em ação – o do marketing. o do espetáculo. mas evidencia — a partir de um olhar atento e minucioso — a inserção de novos atores (oriundos do campo religioso). o do capital etc. suprimir a dimensão dos interesses pessoais e dos grupos. o da festa.225). pensar a política na Baixada como ação simbólica (Geertz. os projetos políticos aqui analisados revelaram os valores e símbolos implicados numa determinada maneira de conceber o mundo e a política. da própria representação partidária e de uma linguagem que privilegia uma religiosidade difusa. algo assim como se. Não que isto possa ou vá.

”. dos comportamentos. ao mesmo tempo. Aproximam-se. Pode ser usada num contexto acusatório. as mudanças dos discursos. O mal foi aqui trazido enquanto experiência cotidiana e não exclusivamente pensado dentro do mundo religioso. Assinalei que a construção acerca do que seria o fazer político desses atores era dinâmica. paixões. O político benfeitor-violento é um outro exemplo. ‘bons’ e ‘maus’. afinidades pessoais. a mudança pode nos indicar por que caminhos seguir. A oscilação entre o sofrimento. Assim como para Novaes (1997:102) “as pessoas não se aproximam do cenário político abstratamente ou operando apenas com a razão e com a idéia do ‘público’. e que também significa ambivalência dos seres. incorpora-os304. crenças religiosas. a violência. Ambigüidade potencial e funcional que responde à sua ambigüidade estrutural”. Expus nos capítulos anteriores. levando consigo a sua vida privada. a novidade. mas pode igualmente demarcar uma relação de dádiva com o morador-eleitor. Outros artigos que trabalham essa ambigüidade em diferentes contextos podem são encontrados no mesmo livro. na outra face (pois constitutiva do mesmo!) a pertença. Pois a própria ambigüidade é ambígua. pode ter também o seu sentido negativo. do bem e do mal). entre o mal e o bem. 318 . da apresentação de si e dos projetos. sim. A própria assistência (o trabalho social) é ambígua. dos valores[…] Mas a mistura entre homem e natureza. como já abordado no capítulo 1. os meus “nativos” referem-se à Baixada sempre no singular. perigo e fascínio. Ao mesmo tempo em que transita entre os pólos do bom e mau (e em muitos casos. A remissão ao conjunto de símbolos que suscita ultrapassa delimitações de campos específicos a partir das experiências e dos processos de resignificação do mundo social.A triangulação Jorge Gama – Zito – Lindberg seria então uma forma de entender a ambigüidade constitutiva da política local. das bandeiras políticas. 304 Por exemplo. tentei demonstrar também como esta interpenetração pode ser “provocada”. sentimentos. concepções sobre o Bem e o Mal. virtualmente ambivalente[…] É então que esta junção (mistura) ambivalente produz. a partir das trajetórias dos três políticos. os estigmas e.

como a política traz consigo a ambigüidade e a incerteza. Vimos. o mesmo discurso perdeu. no jogo político. Resta-nos agora tecer algumas considerações a respeito da construção. Em Duque de Caxias venceu o discurso que conciliou religião. a “guerra santa” empreendida na Baixada e no estado do Rio de Janeiro durante as eleições de 2004 explicitaram os usos dessas concepções (Bem e Mal). política e trabalho social. a partir da própria avaliação acerca dos projetos políticos bem-sucedidos e fracassados dos atores em questão. em Nova Iguaçu. mas também evidenciaram que. des-construção e re-construção desses projetos assim como das próprias imagens (e configurações) de Baixada. No entanto. os pertencimentos e filiações estão sempre em movimentos.Desse modo. nos capítulos anteriores. a explicação não é tão simples. desmanchando-se e recompondo-se. 319 .

a autora insere a discussão sobre a problematização pública do que seria a Baixada. e que possibilita precisamente um movimento de um [eu] para um [nós]. Em outra passagem do texto (p. justificando o uso das aspas como remissão às falas nativas. É neste ponto que a definição da autora caminhará na direção que esta tese pretende seguir.. Inseridos neste debate e com a preocupação de não forjar uma ordem (no sentido de ordenação criada pelo pesquisador) ao escolher um recorte frente à sua multiplicidade e não 305 Na página 96. de uma ascensão de problemas singulares para problemas gerais e públicos. É uma ilusão” (Freire. Utilizar-se do plural — marcando sua heterogeneidade — seria a melhor solução? Mas por que. ressaltando a construção de um “nós”. op. dialogando com trabalhos mais recentes que enfocavam o “lugar” de maneira mais o menos sistemática para mapear algumas práticas e discursos sobre a política a partir da análise das trajetórias de três políticos profissionais. p.95).106). a Baixada “é uma região. transcrição de palavras alheias. Sendo assim. ela é também um recorte mental. A afirmação que foi feita pela bibliotecária da Fundação CIDE à Freire (idem)305 — motivada pela escassez de dados oficiais sobre a região — me fez pensar como algo poderia não ter “existência” e mesmo assim marcar tantas experiências.. Retomarei agora algumas questões tratadas ao longo desta tese. 320 .. Freire declara não ter dúvidas quanto à existência da Baixada. no singular? Por que ainda faz sentido enunciar sua suposta condição (ou possibilidade) de unidade? “A Baixada não existe. em determinadas situações”. então. as pessoas/ moradores permanecem referindose à Baixada. um coletivo referenciado ao lugar. ÍDOLOS E BACHARÉIS Nos capítulos precedentes tentei apresentar algumas visões acerca da Baixada Fluminense. Para a autora.cit. um quadro cognitivo que se elabora através de um trabalho intenso de significação problemática.CONSIDERAÇÕES FINAIS: CONSTRUINDO (E DES/ RE-CONTRUINDO) REIS. a primeira questão em que esta tese se debruçou foi como pensar a Baixada Fluminense frente às múltiplas possibilidades que comporta e aos distintos processos de identificação a ela vinculados.

o não-movimento. a ligação e a ruptura. de forma mais ampla307. o desdobramento dessas primeiras indagações fez-nos questionar sobre o que teria mais rendimento para o trabalho: a categoria que se relaciona com o estigma? As imagens positivas? Os discursos dos moradores? Os discursos sobre os moradores? A “fala” institucional (do estado. negando a fluência como constitutiva dos processos de identificação locais. e sim em processos de identificação que remeterão à criação — assim como à dissolução e recriação — de espaços de significação. apontamos para a ambivalência dos sentimentos de pertença e de imputação de um pertencimento (da identidade de “morador da Baixada” dita pelos “de fora”. 321 . por exemplo) que simultaneamente funde e rejeita. que estabelece um delicado equilíbrio entre os fluxos: o movimento e a (des/ re)territorialização do (seu) mundo306. Esse aspecto duplo (e ambivalente) evidencia-se igualmente nas metáforas da ponte e da porta utilizadas por Simmel para falar da cidade e do urbano. Não me parece factível falarmos numa “identidade baixadense” stricto sensu. Simmel (1983). das secretarias)? O que nos dizem os movimentos sociais? Nosso esforço deu-se no sentido de pensar a Baixada Fluminense a partir da “significação afetiva” presente nos discursos diversos de seus atores sociais sobre o “lugar” e seus moradores. retomando a própria dimensão de comunicação e de intersubjetividade do espaço. da prefeitura. Pensar apenas nos limites territoriais dos municípios ou na configuração das próprias fronteiras da Baixada significaria reificar algo estático. de formas variadas. a abertura e o fechamento. A “frouxidão” desses limites. Grosso modo. Uma ordem simbólica que expressa. do trânsito constante desses moradores 306 307 Deleuze (1992).apenas ao que tem de comum.

sensible’. quais seriam suas características etc309. 308 “I regard places. compartilhada assim como suas ambigüidades e ambivalências.) — a Baixada constituiria um lugar na medida em que permitiria uma vivência comum. indeed. desse modo. pp.] The sense of place. one Rome. one London – t go back to the great quartet identified by Pritchett – each of these cities in itself has been a collection of distinct places. 309 Utilizo ethos no sentido empregado por Geertz (1989). 1985:90). Detendo-me mais especificamente na definição de Asa Briggs (1985) — e. “Verbal as well as visual accounts are usually far more relevant than architect’s photographs or planners’ models. conforme nos sugeriu Enne (op.cit. Given this approach. although geographically it may be where Indian camp used to be.. sometimes with its own sub-culture. [. constantly changing its locations. corroborando grande parte das conclusões de Enne (op. Sendo assim. se o “morador” é uma auto-denominação. hateful as well as lovable. and a gipsy camp is far different from an Indian camp. a ship. uma experiência comum que em maior ou menor escala marcou a ocupação. ‘ethnic domains made visible. o trânsito é apreendido como uma constante nas vidas dessas pessoas. Reforçando tal vivência com imenso potencial transformador — e não restrito aos moradores da Baixada — enquanto uma experiência sobre o espaço e a partir deste. each with its own ecology and history. one New York. 322 . corroborando por fim um ethos local. cit.. também é uma classificação externa a partir de referenciais outras que não exclusivamente as tomadas por quem é “de dentro”. tangible. While there has been only one Paris. assim como marca relações e representações nos contatos mistos sobre quem são esses moradores. it is essential to reiterate that cities are collections of place as well as places in themselves. o crescimento e as imagens da região (para dentro e para fora).37). wich not only leave out but often misrepresent. p.. a Baixada apresenta-se como coleção de lugares308.” (idem.” (Briggs. In this connection.reinventa este “espaço”. as ‘creative things’. as Susanne Langer does in her Feeling and form. is nonetheless a self-contained place. o que implica um sensível partilhado. 95). as expressed in words and pictures encompasses feelings that particular places are nasty as well as beautiful. Por outro lado.

músicos. a despeito de peculiaridades no processo de ocupação local. de alguma maneira. meios de comunicação. cit. Numa delimitação mais ampla da Baixada (essencialmente ligada a discursos e projetos políticos) a cidade é incluída. cit. 310 Um dos lugares de memória da cidade é. Sobre a história da indústria têxtil em Paracambi ver Keller (1997).) e de Enne (op. historiadores locais.PT). por exemplo.). foi transformado em universidade (durante o primeiro mandato do prefeito André Ceciliano . lideranças de movimentos sociais. jovens ligados ao hip hop. projetos urbanísticos.A idéia de trabalhar com as diversas imagens sobre Baixada não delimita uma dicotomina fixa entre os “de dentro” e os “de fora” mas. O caso de Paracambi seria paradigmático no que diz respeito à demarcação de suas (possíveis) fronteiras. o processo de urbanização da cidade esteve vinculado à atividade industrial — fundamentalmente de duas indústrias: uma têxtil e a outra siderúrgica — conformando. contornos de uma cidade operária que ainda hoje guarda em sua memória marcas desse passado310. técnicos. ao colocá-los em cena. evangélicos. traz à tona como essas relações se constituem e compõem as próprias representações sobre o “lugar” em um fluxo de imagens e discursos que tem como enunciadores os mais diferentes atores sociais: moradores da Baixada. ausente de um número significativo de referências sobre a região. anos após seu fechamento. 323 . estando. moradores do Rio de Janeiro. Essa lista poderia se alongar indefinidamente. Costuma-se afirmar — como nos trabalhos de Monteiro (op. No entanto. políticos. no entanto. por exemplo — que as características de Paracambi (assim como Magé e Guapimirim) estariam mais próximas daquelas verificadas em cidades da zona rural ou do interior do estado do Rio de Janeiro. o prédio no qual funcionava a indústria têxtil Brasil Industrial — que. católicos. umbandistas.

a gente dorme de porta aberta”. Estácio de Sá (Nova Iguaçu e Queimados).131) monta sua própria tabela na qual também evidencia o intenso fluxo de pessoas. implicada no trânsito constante de seus moradores para trabalhar. em parte. anteriormente mencionada. por exemplo. no mesmo trabalho. Acho que isso inclusive é o que dificulta a percepção mais consciente da identidade da Baixada Fluminense. “aqui. para a falta de conscientização política (de atuação política e de projeto compartilhado) e da cautela em se falar numa “identidade de Baixada”. como categoria acusatória. p.” (idem. agora suavizado pelo incremento no funcionalismo público da região. no tocante aos de processos de identificação. Apesar da pertinência de tais afirmações. ainda. a partir de um certo momento. O termo “cidadedormitório” passaria então a ser utilizado. também é uma característica comum a outros municípios da região. ou ainda que os filhos das camadas médias locais estudam em Nova Iguaçu. Sendo assim. em desvincular-se da pecha de “ser da Baixada” — identidade não substituída necessariamente por outra local. UniGranrio e FEUDUC (Duque de Caxias). devido às emancipações levadas a cabo a partir da década de 1990.. por exemplo. os trens que buscam meninos e meninas para levá-los aos bailes funk ou aos cinemas em outras cidades da Baixada ou no Rio de Janeiro. aos seguintes aspectos: “aqui..”. para alguns e o Fátima. são os hospitais geralmente 311 Tal característica (ser um “lugar” formado por cidades-dormitórios) foi apontada por alguns dos interlocutores de Freire (2005) como uma das causas. senão a principal. No entanto. para outros. Diante desse fato. nas universidades particulares espalhadas pela região312 e.A condição de cidade-dormitório311. temos: UNIG (Nova Iguaçu e São João de Meriti). “aqui. ou ainda divertir-se. os moradores de Paracambi preocupam-se. 312 Dentre as principais universidades presentes na Baixada Fluminense. por intermédio de dados do Instituto Pereira Passos e do IBGE. 112). não tem violência. como a de paracambiense. já que na própria gramática política dos interlocutores da autora — e também dos meus — ele já estaria em desuso. não podemos desprezar a presença de policiais-matadores na localidade. diferente de. na tentativa (ainda que suavizada nos discursos atuais) de negar uma provável relação ou aproximação com a Baixada. estudar. todo mundo se conhece”. Mais à frente. ou na capital carioca ou. que a Posse. UniAbeu (Belford Roxo). que os dados sobre as razões dos moradores da Baixada para seus deslocamentos não seriam precisos para tal análise visto que analisam a proporção de pessoas que estudam ou trabalham nos municípios em relação as que estudam ou trabalham no estado do Rio de Janeiro. 324 . por último. a autora retoma a questão e demonstra. “Aqui é por excelência um local dormitório. em geral. Freire (p. as falas nativas remetem.

op. a tônica de alguns discursos.] Volto só mais de noitinha porque tenho que pegar o trem das seis [da noite]” (M. estaríamos subestimando o sentido do trânsito na vida dessas pessoas. E ele está presente em suas próprias narrativas — como lamúria e / ou como projeto (no primeiro caso. Pego o Normandy [nome da empresa de ônibus que opera a linha Vassouras-Rio] às 6 horas e só chego aqui lá pelas 9. as pessoas são mais próximas. no segundo. de “descer”314)315. Notícias ou boatos sobre mortes violentas (assassinatos. cit. Recorrentes são também essas imagens de “cidade de interior” ou do “lado bom” dispersas por outras tantas falas de moradores de diferentes cidades da Baixada. 313 É importante destacar que. apesar de não dispor aqui de dados sobre violência na cidade. p. O que pretendo ressaltar é que mesmo sendo a negação. de “mudar”. Mais carinhosas’.freqüentados pelos paracambienses etc313. ao que se chama Paracambi (bairros centrais) e.46). 39.. nos últimos anos — talvez até mesmo por conta da mudança do estatuto do lugar nas mídias (impressa e televisiva) — vêm alterando e reinventando seus processos de identificação com relação à Baixada. estupros etc. às vezes. que durante as eleições de 2004 protagonizaram a exacerbação de antagonismos e preconceitos locais na polarização de candidatos ligados. são frases que podem ser ouvidas com freqüência” (Costa. de um lado. 10 da noite” (Relato de um morador da cidade que trabalha em um grande banco privado no Centro do Rio de Janeiro). como ilustram alguns de meus interlocutores e demais moradores entrevistados : “‘Aqui. a sensação de insegurança tem sido uma constante nos discursos dos moradores que costumam alegar que “a cidade mudou”.. 315 Para pensar a importância do conceito de projeto. Caso contrário. 325 . “Eu desço todo dia pra cidade. “Eu saio pra trabalhar em paz porque eu deixo as crianças com minha [filha] mais velha [13 anos] e sei que Dona Minda [a vizinha] sempre dá uma olhada pra ver se tá tudo bem com os menino[s][.. na “vontade de sair”. a Lajes). a sensação de pertencimento ao lugar é parte constitutiva da auto-imagem desses moradores que. moradora de Austin). empregada doméstica. por exemplo. do trabalhador que lamenta a rotina diária da “viagem” e do cansaço.) e sobre tráfico de drogas têm preocupado os moradores e demarcado de forma mais explícita segregações socioespaciais antes mais ou menos matizadas nas falas locais (com relação aos bairros de Lajes e do Guarajuba. de outro.. 314 Os moradores de Paracambi costumam referir-se às idas ao Rio de Janeiro como “descer”. consultar Velho (1994).

vai ter colégio técnico. As categorias contraditórias utilizadas nos processos de identificação na Baixada não são exclusividade dos municípios de Paracambi. Aqui não tem a violência da Baixada. moradora do bairro Cascata). a Baixada é um lugar melhor. à violência. p.. né? Mas eu prefiro o trem. 326 . Essas coisas. é o fim da linha do trem. mesmo” (C. mesmo. Domingo era calmo. alguns preferiram adquirir TVs por assinatura para assistirem a programação da Globo para o Rio de Janeiro. Ficou pior porque a gente tem que esperar o trem pra cá e demora. técnica em enfermagem. A oscilação 316 Um exemplo bastante ilustrativo dessa ambigüidade refere-se ao fato de que os moradores de Paracambi sentiram-se lesados quando a emissão do canal da Rede Globo de Televisão foi alterado. ao abandono e. mas dá calma porque a gente sabe em quem pode confiar. separada. Mas também. op. fica um tempão esperando o outro. à pobreza. agora tem faculdade. as notícias não abordavam “a realidade da gente”. funcionário aposentado da Brasil Industrial). “celeiro cultural” (Costa. Eu levava os filho[s] de trem pra Nova Iguaçu pra ir no cinema. Nessa época. Seropédica..42). 61 anos. agora acabou de novo” (P. as relcamações eram constantes e. “aqui as pessoas são mais solidárias”. à criminalidade. cit. Se você perde. ninguém tem dinheiro. Niterói. tem escola de música pros meninos. Aqui. São Gonçalo e Baixada Fluminense.“Paracambi [es]tá na Baixada. alterando a programação de telejornais. Magé e Guapimirim316. Aqui não tinha [cinema]. O trem é bom.. faliu. tem ônibus da Normandy. Itaguaí. né? Mas a cidade tá falida desde que a fábrica fechou. Você não vê essa vergonha de férias coletivas e reduzir salário do pessoal da Maria Cândida [outra empresa local]” (J. há cerca de quatro anos atrás. durou só pra mostrar e ganhar votos [referindo-se ao deputado estadual Délio Leal] e depois parou. agora. tinha direto pro Rio. 34 anos. mas aqui é bem diferente. mas foi coisa da política. né? Sabe que [es]tá todo mundo de olho. isso às vezes até irrita a gente. Paracambi. depois voltou. A gente sabe o que acontece com todo mundo. “Eu gosto muito daqui. por outro lado. é fácil pra chegar. Segundo laguns moradores. Agora tem que parar em Japeri. Antes. teve um tempo. mas às vezes é ruim porque qualquer um pode parar aqui. por um lado. pois a recepção passou a ser realizada pela região Sul Fluminense. As imagens sobre o “lugar” nos remetem. ao “todo mundo se conhece”. ou ainda. moradora do bairro Fábrica. professora primária aposentada. em Paracambi). “Hoje em dia.

a categoria Baixada Fluminense foi tomada para compreender em que medida os discursos e práticas que a informam e formam estão invariavelmente ligados à política. nesse sentido. escorregadia.”. a noção de dominação está implicada na definição de poder já que aquela é uma modalidade desta. assim como as referências simbólicas das formas de agir. mais ou menos fluida. individuais e coletivos. 327 . Na tentativa de descrever as formas de dominação e do exercício do poder no lugar Baixada. O poder pode ser entendido. numa ação social. nas falas de moradores de outras regiões — os cariocas. [como] a probabilidade de uma pessoa ou várias impor. ou seja. recaímos na dimensão de poder imbricada nessas relações. A característica. a territorialização operada no momento da enunciação do vínculo de pertencimento. mas que podem coexistir) para essas práticas. Desse modo. recorremos aos projetos. Ao pensarmos a Baixada a partir da idéia do trânsito e da fluidez de classificações. Ou seja. 1994). por exemplo — entre outros. segundo Weber (1999:175). justificando em parte a escolha por trajetórias que demarcam “tempos” (que não são estanques. procurando apreender os sentidos das práticas políticas ao longo dos anos. marca do próprio trânsito dos indivíduos pelos diferentes grupos sociais e “mundos” aos quais pertencem. “genericamente. a vontade própria.entre um pólo e outro expressa o lugar de onde se fala. Nesta tese especificamente. lhe conferimos um morar no sentido e explicitamos o repertório cultural e o campo de possibilidades de que dispõem os atores sociais para nomeá-la como melhor lhes aprouver (Velho. da assunção deste vínculo é. Enfatizando o aspecto profissional da política a partir de atores eleitos por sufrágio universal. ao mesmo tempo em que se procura desvincular de associações recorrentes na imprensa. mesmo contra a oposição de outros participantes desta. a inserção no lugar é assumida.

em outros. Os políticos. 1984) e a possibilidade de reconhecer-se enquanto ser político. também estão em trânsito. As alternativas criadas por eles manifestaram uma leitura a partir da “política dos outros” (Caldeira. um valor (“ele veio de fora. em outros. mas sabe do que a gente precisa. Talvez sua própria condição resulte numa maior visibilidade deste deslocamento que. por exemplo). ao demandarem uma busca constante por aliados e eleitores — e apesar de tradicionalmente procurarem montar “bases eleitorais” com dimensões territoriais mais definidas — são imprescindíveis para compreendermos o fluxo contínuo a 317 Acusação corriqueira de alguns moradores da Baixada a políticos locais. também fosse ampliada para além das fronteiras da política institucional e compreendida na medida em que dá sentido à ação social dos moradores (via rede de resolução de problemas práticos.Os projetos políticos apresentados demonstraram a tentativa de que a Baixada. como os moradores da Baixada de forma geral. nas eleições municipais de 2004. justificando seu apoio ao candidato do PT. se interpenetram. acaba por configurar uma acusação (“ele nem mora aqui. na Baixada”317) e. como a imposição de projetos de redes políticas que subordinam os interesses locais a interesses de grupos específicos ou mesmo individuais. de conhecimento”318). em alguns casos. experimentado. É um rapaz viajado. os mundos se encontram e. o mundo da política que em muitos momentos é visto como parte constitutiva de “ser da Baixada” (novamente a rede de resolução de problemas práticos assim como as arenas públicas construídas pelos movimentos sociais) e. Lindberg Farias. Tais acusações são corroboradas pelos adversários e por jornais que noticiam o fato de alguns candidatos terem casas /apartamentos fora da região. enquanto um “lugar de política”. Mas na busca pela reinvenção de uma cidadania. 328 . 318 Relato de um morador de Nova Iguaçu. de outro. Os projetos políticos individuais (que em alguns momentos aglutinam interesses e constituem projetos coletivos). De um lado o mundo do morador da Baixada e. inevitavelmente.

tendo 319 É interessante perceber que. ultrapassando os limites locais. p. regiões mais amplas como Zona Sul.que estão submetidos. Com este propósito. de Fábio Raunheitti e. os três porta-vozes autorizados e investidos foram escolhidos para que pudéssemos refletir sobre as possibilidades da adesão (a) ou imposição de projetos específicos. de Bornier — além de ser o projeto diversas vezes anunciado de Zito. Interessa-nos agora voltar à constituição da “autoridade” desse atores. para compreender os usos e sentidos das imagens empregadas sobre e pelos políticos durante suas trajetórias enquanto parte constitutiva de si. aos vínculos de reciprocidade. o mesmo pode ser dito com relação aos bens simbólicos. ao trânsito institucional. voltando o olhar para a idéia da conversão (no sentido cristão). a ausência reiterada do Estado e a transferência/ delegação de algumas de suas funções a indivíduos e grupos possibilitaram que a personalização fosse a tônica da política na Baixada. por exemplo). Foi este o caso de Tenório Cavalcanti. 329 . se tal fluxo remete a espaços (bairros. Neste caso em particular. Desse modo. seu olhar é diferente do dos autores que buscam explicar o marketing político essencialmente por essa possibilidade e pela manipulação. mais recentemente. à mediação política e cultural que alguns atores desempenham ao longo desse processo (Kuschnir. Nesta tese.16) apreender a propaganda moderna também como produto das técnicas de persuasão que remontam ao século XVIII. No entanto. não se pretendeu em momento algum fazer uma análise da propaganda stricto sensu. Desse modo. através do momento da eleição de 2004. Tentamos minimizar a idéia da dominação pela persuasão e manipulação. mais ou menos duradouras. para além dos partidos e siglas o que parece predominar no “fazer político” da região são as alianças. entre interesses individuais e de grupos que culminam na formação de redes políticas. Sendo assim. lidamos a todo tempo com as imagens. 1993 e 2000). apesar de Burke (1994. a publicidade e a opinião pública acerca dos atores políticos tratados. Cada qual em um momento singular na sua carreira política. a propaganda política319 pôde ser abordada.

bife e salada321. 330 . retomaremos alguns episódios e as idéias de cena e palco políticos. ou melhor. Burke. Um jovem. por que meios e com que intenções (cf. 10/10/2004. ao cabo-eleitoral do PT na Baixada. Do estudante cara-pintada que tinha a caldeirada de frutos do mar como o seu prato favorito e nenhuma intenção de entrar na política em 1992320. ao refletir sobre as imagens (individuais e públicas) desses atores podemos decifrar em que medida é possível “a fabricação de um grande homem” descobrindo o que as imagens dizem. quer pela influência de seu pai. feijão. em escala diferente. quer pela sua inserção no movimento estudantil. Portanto. como o herói que resgataria Nova Iguaçu das garras de uma elite política descompromissada com “o povo”? Como já foi demonstrado. pai de família que agora prefere arroz. para quem. mas também vinculada ao caráter de reinvenção constante do político.em vista sua dimensão de “venda da imagem”. O Dia. Seu carisma pessoal foi colocado à prova desde suas primeiras iniciativas políticas e demonstrado com distinção durante a eleição municipal em Nova Iguaçu. 13/09/1992. A construção das personas de Jorge Gama. “homens excepcionais”. 320 321 Jornal do Brasil. Lindberg esteve próximo do mundo da política desde muito jovem. No processo de fabricação de suas imagens. visaram os projetos para se tornarem “grandes homens”. O político é um ser público por excelência. da construção de personas públicas. A idéia da dramaticidade e teatralidade das relações sociais pode ser bastante útil para uma análise sobre o mundo das práticas políticas e. Quem é esse Lindberg que se apresentou como a nova opção. Zito e Lindberg Farias buscou torná-los. como o seu “modo de ser político”. fundamentalmente. 1994).

Seria aquele que transformaria a Baixada no cenário possível da saga de um herói que não precisa mais de uma identidade una. mas nunca se desligou de uma postura “de esquerda” (por mais que em alguns momentos tal postura fosse questionada. Lindberg Farias garantia a legitimidade. Explorou o apoio recebido da 322 Jornal do Brasil. PSTU. da qualidade de vida. assim como falava de uma “outra” Baixada. transformar a cidade. mas que opera com a multiplicidade dos processos de identificação. Criticou duramente a “oligarquia local” e a “política dos coronéis” procurando mesclar a associação de seu nome a projetos “novos” como o tema da ecologia. com a fragmentação e complexidade de um mundo cujas fronteiras estão em expansão. lhe é próprio ao mesmo tempo em que é atribuído e reconhecido) a explicitação de uma ideologia político-partidária que. aos problemas tocados comumente sobre educação. já que reconhecia os “problemas reais” enfrentados pelos moradores da cidade. ligada à cultura. foi se alterando (PCdoB. Lindberg aproveitou todas as oportunidades e promoveu algumas. Criando um sistema de visibilidade através de atos constantemente noticiados pela imprensa e de um investimento maciço em sua assessoria de comunicação. agregou às suas características (já que o carisma é pessoal. 51% do município é um valão a céu aberto. Com afirmações como: “Temos um patrimônio histórico tremendo. à história. como demonstrado no capítulo 4). saúde etc.bonito e eloqüente que prometia trazer o novo. Mas o maior problema em Nova Iguaçu é o saneamento. à música. Apoiado em um “discurso de esquerda” durante toda a sua trajetória. no entanto. 15/05/2005. Lindberg era o outsider que traz um pouco do mundo e que ao mesmo tempo seria capaz de colocar a Baixada no mapa político nacional. 331 . Não existe nenhuma estação de tratamento”322. PT).

Ziraldo. Acusações recíprocas e sindicâncias. pp. já garantiam um estatuto diferenciado à Baixada e ao prefeito de Nova Iguaçu. eu com 34 anos. Os enterros seriam assim momentos importantes de demonstração de generosidade durante o período eleitoral. 15/05/2005. por exemplo. E se multiplicaram durante todo o período eleitoral e mesmo no início de seu governo. pois não havia sido entrevistado ainda e solicitou a esta pessoa que tentasse “conseguir” uma matéria. políticos de destaque e artistas323. 323 332 . mas ao apoio em alguns casos mais em outros menos explícitos e declarados.executiva nacional do PT e as visitas de ministros. a participação de Ziraldo. A transição do governo Mario Marques para a administração petista deu o que falar. A cidade e Lindberg figuravam freqüentemente em matérias de jornais durante o primeiro mês de 2005. Ziraldo diz: “Que vai virar agora um centro cultural. É interessante ressaltar que eu estava em Nova Iguaçu no dia desse enterro e conversava com uma pessoa próxima a Lindberg quando este telefonou indignado. O assassinato de um ambientalista novamente colocava a cidade e o prefeito sob os holofotes. como os limites do tempo da política são difíceis de determinar. foi um dos “entrevistadores-comentadores” de uma entrevista do JB com Lindberg intitulada Levantando a auto-estima da Baixada. Extra e O Dia. Lindberg acompanhou o enterro em um bairro do subúrbio carioca e prometeu esclarecer o crime324. tal período já havia passado. não menciono apenas os cantores que estiveram nos showmícios. aproveitou tal situação para estreitar laços. no centro da cidade. escritor e cartunista. A ecologia. JB. ganhava força com o parque do Tinguá. No caso de Lindberg. assim como os seus comentários. houve uma diminuição do número de Quando me refiro aos artistas. Em uma de suas intervenções. A “importação” de pessoal técnico da equipe da ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy só fez aumentar as rivalidades. após uma fala do prefeito petista sobre a pedreira. Durante os primeiros meses de seu mandato o fechamento da pedreira em Nova Iguaçu foi acompanhado pela imprensa local e pelos jornais cariocas O Globo. o prefeito petista. assim como criar novos que pudessem ser traduzidos em apoio e visibilidade políticos. sendo um outsider. com ênfase para Nova Iguaçu e Duque de Caxias. uma cidade pra eu governar? Eu ia enlouquecer!” (JB. Passada essa etapa. com orquestra sinfônica tocando. que já havia sido um dos motes da campanha. As polêmicas foram outra fonte de visibilidade. no entanto. Nesse período as notícias tratavam da transição política e dos problemas enfrentados pelos novos administradores dos municípios da Baixada. B6) 324 Palmeira e Heredia (1997) já chamavam a atenção aos lugares públicos privados. que nem Jaime Lerner fez em Curitiba! Vai ser o mais belo anfiteatro do mundo! Tem uma reverberação fantástica! (percebe seu excesso de elogios e pergunta) Você não quer me contratar como assessor de imprensa? (risos) É que eu me entusiasmos com essas coisas! Imagina se alguém me desse. Nessa entrevista (com tom de bate-papo).

No início da noite daquela quinta-feira. segundo as autoras. que exigiu dos governos estadual e municipal providências sobre a chacina. Apartada da imprensa como matéria principal desde fins dos anos de 1990. Folha de São Paulo.514 matérias analisadas nos jornais O Dia. essas pessoas foram assassinadas em frente às suas casas. a associação entre Baixada e violência era então retomada a partir desse drama. também havia crianças325. agora fora do ritmo cotidiano. Ainda naquele primeiro semestre.7%) e Jornal do Brasil (com duas matérias). a política local e os comerciantes.Diário da Tarde e Hoje em Dia. O Estado de São Paulo e Agora São Paulo. o Reage Baixada. Quanto aos temas. permeando também o aparelho judiciário. seguido de O Globo (22.6%) referem-se a Baixada. algumas em bares e outras voltando do trabalho. em 31 de março. 326 De acordo com os dados da pesquisa coordenada por Silvia Ramos e Anabela Paiva pelo CESeC sobre violência e segurança pública constantes no relatório Impunidade na Baixada Fluminense (2005). em um intervalo de duas horas.2% das notícias. onde 30. somada à atuação de policiais-matadores326. Conforme já demonstrado.5% referem-se a crimes cometidos pelos policiais. por outro lado. Essa tragédia. O Globo e Jornal do Brasil. os grupos de extermínio parecem ter uma relação bastante estreita com o poder público. no período de maio a setembro de 2004. Entre elas. 325 333 . no entanto. O Dia é o que confere maior destaque à Baixada (60%). enquanto o . 65. mas. 48. Sua participação junto às organizações civis. as ações policiais representam. O Estado de Minas. A temática dos extermínios voltava à cena. das 2.) sobre o decréscimo no número de matérias sobre violência na Baixada em relação ao Rio de Janeiro. Os dados dessa pesquisa ilustram as afirmações de Enne (op. chamam a atenção para o fato de que tais problemas apesar de terem saído da mídia não deixaram de fazer parte do cotidiano dos moradores da Baixada. foi ressignificada e a imagem do prefeito e de sua atuação nesse “caso” foram exaltadas. alardeando a situação de insegurança vivida pela população local e a indiferença às suas vítimas. cit. seu diálogo com o Parentes das vítimas e organizações civis mobilizaram-se e fundaram um fórum de discussões. Dos jornais pesquisados.2% referem-se ao estado do Rio de Janeiro e apenas 66 (5. mas o prefeito petista jamais saiu de cena. refletindo por muitos anos na estrutura de poder dos municípios da Baixada Fluminense e não somente de Belford Roxo e Duque de Caxias como privilegiamos em capítulos anteriores.matérias. fundamentalmente relacionando-se a atos violentos e a sua repercussão. outro episódio levaria Nova Iguaçu e a Baixada para a mídia nacional: a chacina de 29 pessoas em um só dia nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados. conforme pudemos notar com a tragédia dessa chacina assim como afirma Alves (2003 e 2005).

Grosso modo. ressaltando qualidades pessoais (disposição. 15/05/2005. frente à competitividade entre jornalistas e os vários tipos de mídia – Lindberg conseguiu notável visibilidade durante 2004.cit. corroborando a afirmação da autora de que “o resultado é que a informação quotidiana divulgada pelos diferentes órgãos de imprensa está se tornando cada vez mais igual.cujas críticas Abreu (2002) levantou justamente sobre o caráter de bem simbólico assim como econômico. sua proximidade com o governo Lula e com o Ministro da Justiça Márcio Thomás Bastos garantiram a Lindberg operar uma conversão entre a “matança” e a “mudança”: “Há uma rejeição aos negócios de gangsterismo ligados à política e à polícia. a outra explicação baseia-se no fato de que. analisando as trajetórias de profissionais de imprensa. como Lindberg Farias era apresentado aos leitores desses jornais.). Analisando as matérias utilizadas nesta tese. os jornais diferiram pouco em relação ao posicionamento sobre a candidatura petista. É um momento de transição” (JB. B6). a despeito da pseudo imparcialidade da notícia . 36)327. fundamentalmente a partir da imprensa escrita e da on line.fórum Reage Baixada. a votação do salário mínimo ou a reforma da Previdência. “uma opção”. não nos preocupamos em definir de que lado a imprensa (se é que podemos tratá-la no singular!) se colocou. beleza. essencialmente relacionadas a fatos de repercussão nacional como a demarcação das terras indígenas. 327 Segundo a autora (idem). em matérias que o colocaram como “o novo”. carisma. Mas também recebeu algumas críticas. A Baixada inteira gritou: ‘Nós estamos aqui presentes’.” (p. Tentamos ponderar. variando de uma apresentação do forasteiro à saudação do novo e consagração do “ídolo”. percebeu-se a formação de uma “cultura jornalística compartilhada”. Ainda na mesma linha de Abreu (op. determinação). onde os profissionais em cargos mais altos na hierarquia de jornais apresentam uma formação comum e são eles que 334 . A chacina em Nova Iguaçu vai resultar numa série de mudanças.

e diante das críticas de alguns de seus pares. garantindo novamente mais visibilidade nacional para si e para a Baixada e que lhe rendeu. Logo após a sua eleição e a escolha de seu nome como Presidente da Associação. Há ainda a questão da concorrência e da influência do marketing na formação da opinião pública. as denúncias de irregularidades deferidas ao antecessor. Perdeu o projeto de políticos da Baixada assim como o dos políticos ligados a Garotinho que defendiam sua instalação em Campos. foi a escolhida. Já em 2006. As alianças que construiu para a viabilidade de sua candidatura levantam dúvidas. a cidade de Itaboraí. Niterói e à cidade do Rio de Janeiro. os prefeitos foram recebidos em Brasília e expuseram os problemas que enfrentavam à frente de seus executivos municipais. Até que ponto a sua eleição vai significar uma mudança na condução da política na região ou mesmo imprimir um novo estilo de fazer política. como já mencionado. na rede Globo News. o que significaria maior crescimento para a região e mais empregos. Lindberg trabalhou pela instalação do pólo petroquímico em Itaguaí. sem sucesso. No entanto. tentou. aparentemente sempre aberto com o governo federal. matérias jornalísticas e um programa no Almanaque. Quanto à promessa de “mudança” que permeou toda a sua campanha. definem o que deve ou não ser noticiado. e que tem um prefeito do PT. próxima à São Gonçalo. Lindberg promoveu também o Fórum Mundial de Educação em Nova Iguaçu. marcar duas reuniões entre os prefeitos eleitos da Baixada e o Presidente Lula. Após as duas tentativas frustradas. 335 . não há como apresentar conclusões acerca das possibilidades representadas pela escolha de seu nome nas urnas em 2004. Entre suas iniciativas. além de tornar-se o portavoz dos prefeitos devido ao canal.Entre as brigas internas. Lindberg também teve papel de destaque como Presidente da Associação de Prefeitos da Baixada Fluminense. é uma questão ainda sem resposta. a partir do discurso “de esquerda”.

já que em Duque de Caxias Zito gozava de grande prestígio e tinha um estilo que poderia lhe render frutos políticos. Entretanto. A entrada no mundo da política e os “encontros” propiciados por sua inserção como vereador nesse mundo lhe renderam um controle (gradativamente conseguido) sobre sua apresentação e o cuidado com sua imagem. No dia a dia. O vestuário também se adequou. Zito emagreceu. aos acessos. na fabricação de sua imagem a preocupação com a manutenção do vínculo de pertencimento com os moradores de Caxias ficava explicitada na opção por um estilo. a camisa de malha (que agora era “de marca”) e o tênis tornaram-se o uniforme do prefeito Zito. político experiente e muito bem articulado. O tipo físico auxiliava na construção dessas imagens. tirou o bigode e a barba estava sempre feita. afinal de contas seu ingresso na política foi justamente sob a construção muito próxima do líder marginal.Quanto a Zito. talvez a sua “transformação” seja ainda mais surpreendente. Alto. casual. Para algumas pessoas. a calça jeans. viu em Zito um poderoso aliado na Baixada. à intimidação (de fato 336 . mas desmentido por sua filha a deputada Andréia Zito). No início da vida pública. com os cabelos sem corte e bigode. que até então não parecia figurar entre suas preocupações. senão mais simplório. um homem “que dava medo!”. Unindo o atendimento (exercido segundo Zito apenas durante o primeiro mandato como vereador. conseguiu aproximar-se de Marcello Alencar a partir do mandato de deputado estadual (apesar de ter sido apresentado a este quando ainda era vereador). Os ternos e as camisas sociais substituíram as de malha. forte. Este. cortou o cabelo. Considerado um “Zé ninguém” no início de sua carreira política. que não sabia se expressar adequadamente em público (avesso à oratória política). intimidador. era um homem considerado rude.

seu adversário na eleição de 2004. O troca-troca de siglas partidárias realizado por Zito também foi sua marca. tornando 328 Por exemplo. [. Kennedy. Carlos Lacerda. Segundo Kinzo (2005). [. Dalton. a pertinência de se atentar para a problemática dos partidos políticos no Brasil. Ameaça por total conhecimento que. Só no século XX temos: Getúlio Vargas.. Braga. 1998 e 2000. O trabalho já citado nesta tese de Burke (op. Tiro de verdade: de metralhadora. ou ainda. 2000). sendo um indicativo do que alguns autores consideram como instabilidade de nosso sistema partidário. 329 Os exemplos sobre a “personalização da política” são inúmeros tanto no caso brasileiro. Não há dúvida de que uma das causas tem a ver com as transformações no ambiente eleitoral. mas que figura entre as imagens difundidas sobre sua persona328) e a sua atuação como administrador.) traz como exemplo máximo o Rei de França. o adversário é mal e joga muito sujo.] Graças a Deus não houve nenhuma vítima [durante a campanha]”. Referimo-nos ao impacto da era televisiva sobre a campanha eleitoral. não foi suprimida ou relevada à segunda ordem em relação aos partidos políticos. entre outros). 1998. do lado de lá.. Luis XIV.ou imputada..] Agora começa a pior missão: mexer na casa de marimbondos. o que resultou numa competição centrada muito mais em personalidades do que em partidos (Wattemberg.. 337 . A força da “personalização"329 na política pode ser analisada a partir desta trajetória e reflete. quanto em relação à política mundial. Washington Reis (PMDB) declarou ao jornal O Dia de 01/11/2004 que temia pela violência durante a campanha e também após: “Tomar muito tiro.cit. No caso brasileiro. a estrutura de incentivos sob as quais os atores políticos competem por votos contribui. A volatilidade eleitoral no Brasil é elevada (Nicolau. além do fato de o jogo partidário e a própria democracia serem instituições jovens. 2003). de alguma maneira. De Gaulle. a nosso ver. João Goulart. diferentemente do que alguns autores chegaram a pensar. A personalização da política. Zito conseguiu ampliar seu poder e prestígio políticos e ser intitulado o “rei da Baixada”. Nunca na vida pensei que um dia fosse preciso dormir de olhos abertos. J. Sua “fabricação” não se apoiou em qualquer filiação e seu discurso político não estava impregnado do discurso ideológico associado a partidos. para dissipar as distinções entre os partidos. nove milímetros. as quais ocorreram em todas as partes do mundo.

essa prática é concebida como uma relação entre indivíduos ou grupos a 338 . o que torna improvável o desenvolvimento de laços fortes entre partidos e eleitores. Mais especificamente. os eleitores estão expostos a uma disputa muito mais entre candidaturas individuais (quando não entre as alianças partidárias). a situação de trabalho e a própria complexidade de nosso sistema partidário que disponibiliza poucas informações (ou não prioriza sua circulação) sobre os partidos. em alguns contextos. as estratégias utilizadas por candidatos e partidos para maximizar seus ganhos – em eleições para cargos executivos e legislativos. 1998 e 2002 –. não conseguem fixar suas imagens junto ao eleitorado. como para os legislativos – não se centram nos partidos como atores distintos. a prática política só é um valor destituída (mesmo que relativamente e não de forma absoluta) de sua ideologia partidária. sob os sistemas majoritário e proporcional – criam uma situação que não apenas estimula a personalização da competição. o que dificulta a criação de identidades e conexões com os eleitores. as taxas de preferência decresceram ao invés de aumentar. Vale lembrar que nos anos em que ocorreram eleições nacionais – 1994. Como os partidos têm menos visibilidade do que os candidatos. quando se supõe que os partidos sejam referências importantes para o eleitor. Ou seja. mas também torna nebulosa a disputa propriamente partidária. Durante a campanha.difícil a lealdade partidária. Se as escolhas dos eleitores são marcadas pela opção individualizante do candidato X ou Y e pouca referência se faz aos seus partidos. as propagandas eleitorais são conduzidas na afirmação e reificação desse tipo de referência. não podemos descartar que além de questões estruturais como o baixo nível educacional da sociedade brasileira. Isto é uma clara indicação de que as campanhas eleitorais – tanto para os cargos executivos. A despeito das valiosas observações de Kinzo sobre o sistema partidário brasileiro e da relação de identificação com o eleitorado.

partir de problemas-resoluções, não implicando necessariamente na constituição de um “pensar” democrático stricto sensu onde, nos termos da autora, “eleitores com um grau maior de comprometimento com valores democráticos são mais predispostos a ter um vínculo partidário”. Se na correlação traçada pela autora algumas hipóteses,

preferencialmente sobre o PT, são mais facilmente explicadas, não se tem a mesma situação em relação ao PMDB ou ao PSDB, por exemplo, principalmente no tocante à variável índice pró-democracia. Uma análise pautada exclusivamente sob a perspectiva partidária não poderia dar conta dos casos apresentados nesta tese. Em relação aos meios de comunicação, Zito passou de vereador com fama de matador e estilo “trator” a Rei da Baixada e foi, depois das derrotas em 2004, destronado. Sua imagem foi constantemente associada à violência, à corrupção e a desmandos políticos, exceção feita às matérias coletadas no período de 1999 e 2000 que enfatizavam sua administração à frente da prefeitura de Duque de Caxias e o prestígio e aprovação junto à população caxiense. Sua vida pessoal também foi levada à cena, mesmo porque Zito chefiava um dos principais clãs políticos da Baixada, colocando seus familiares em cargos importantes e conseguindo assim capital político para negociar em qualquer matéria política. Os conflitos familiares transformaram-se em desgaste político e o casal político mais famoso da Baixada enfrentou um período delicado em 2002. Apesar da reconciliação, Zito e Narriman não comungam mais dos mesmos ideais e cada um agora parece percorrer o seu próprio caminho, ao menos no mundo da política. Diferentemente, Andréia está com sua vida pública vinculada a de seu pai e passará nas eleições de 2006 pela prova de fogo assim como Zito. A desconstrução do Rei (da Baixada) abriu espaço para enfocar outras características de Zito. O seu “lado frágil”, do homem que, “igual a qualquer pessoa. Às vezes, [teve] tive 339

vontade de chorar e de ficar calado”, foi explorado por jornais como O Dia, por exemplo. A tentativa de apontar tais aspectos desembocaria na decretação do declínio político do ex-Rei e na situação de atual fragilidade política, apontada como conseqüência de um projeto político auto-centrado que preteriu alianças e acordos. O deputado Alexandre Cardoso, com uma relação antiga (de amor e ódio) com Zito, declarou ao jornal O Dia330 que “ele [Zito] mostrou fôlego ao dar 200 mil votos a seu candidato, mas tem pouca articulação política” e, complementando a reportagem, o deputado estadual Geraldo Moreira (PSB) afirmou que “não dá para sobreviver tentando ser hegemônico sem proposta ideológica”. Diante da derrota, aliados de Zito já anunciavam a possibilidade de debandar para o lado do prefeito eleito, já que para o funcionamento da política de vereadores as alianças com o executivo para a obtenção dos recursos e a manutenção dos cargos e acessos são decisivas. Com declarações como as que se seguem, vemos descortinar diante de nós a transitoriedade dos laços e acordos políticos. “Não tive a oportunidade de conversar com Zito. Mas votar pelos lindos olhos do prefeito eleito, não vou. Tenho interesses na minha região”, afirmou o pedetista, terceiro colocado em votos para a Câmara Municipal de Duque Caxias (com 7.511 votos), Chiquinho Grandão. Ou ainda Quinzé 100% Zito que, apesar da viculação explicitada no próprio nome, disse não esperar a derrota de Zito e estar “tonto ainda com a campanha, mas vou sentar com Zito para conversar”. Um dos aliados mais antigos também voltou-se para a rede do novo prefeito. Dr Heleno, assim como Zito (conforme demonstrado no capítulo 3), tenta suavizar a ruptura política com o ex-aliado e amigo dizendo que: “Moro em Caxias há 57 anos e estou em meu segundo mandato graças a Zito. Os anos de fidelidade foram
O Dia de 07/11/2004, matéria intitulada Rei em decadência. Eleição faz Zito perder domínio político da Baixada.
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maravilhosos e meu propósito era ajudá-lo a ser governador. Eu não queria ser candidato a prefeito na última eleição, mas muita gente me disse que, se eu tivesse na disputa, as coisas seriam mais difíceis para o Washington. Agora, seguindo um conselho do próprio Zito, resolvi andar com as minhas pernas.” (Jornal Extra, 27/01/2005) Zito, no entanto, demonstrou não estar morto politicamente. O convite de César Maia para integrar a sua equipe foi um indicativo de sua importância mesmo diante das derrotas sofridas. No entanto, a possibilidade de entrar no PFL foi desmentida com o retorno ao PSDB e ao ninho de seu principal aliado, Marcello Alencar. A mídia não o esqueceu e seu nome esteve estampado nos jornais mesmo após a sua saída da prefeitura de Caxias. As acusações de Washington Reis em relação a obras superfaturadas, aos acordos políticos ilegais ou à polêmica em torno do valor da aposentadoria de Zito garantiram espaço na imprensa. Como também o conseguiu em termos de exposição de seus novos projetos políticos. A afirmação, logo após a eleição de seu adversário, de que deixaria a política por algum tempo, não durou sequer um mês. 2005 foi o ano de re-construção e de busca por seu espaço. Na disputa, venceu o PSDB, partido onde protagonizou episódios de amor e ódio, ameaças de chantagens etc. O rei pode ter sido destronado, mas, ao que tudo indica, não foi morto. Jorge Gama aparece como contraponto. Advogado, preocupado com suas roupas, palavras e gestos, foi “treinado” por seu papel profissional ao condicionamento do corpo e a uma apresentação se não compatível ao menos socialmente esperada a quem pleiteia um cargo político. Segundo o próprio Weber (1971), discorrendo sobre as duas formas de exercer a política (viver “para a política” e “da política”), o advogado aparece como o “tipo” mais próximo do político, graças às suas “qualificações”, enquanto o capitalista seria o “mais

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disponível” e o homem de negócios assim como o médico e o operário estariam imersos em suas atividades. “Já motivados por pura técnica profissional, as dificuldades mostram-se menores no caso do advogado, o que explicita a circunstância de ele ter desempenhado, como homem político profissional, papel incomparavelmente maior e, freqüentemente, de realce.” (idem, p. 69, tradução livre) Jorge Gama teve desde o início de sua trajetória a marca do “bacharel”. Nos trabalhos de Gilberto Freire, principalmente sobre as transformações do patriarcado rural no Brasil do século XVIII até meados do século XIX, o papel dos bacharéis ganhou grande destaque. “A ascensão dos bacharéis brancos se fez rapidamente no meio político, em particular, como no social, em geral.” (Freire, [1936] 2002, p.602). Os bacharéis representavam ai a decadência do patriarcado rural e a ascensão de uma “aristocracia do sobrado”, do homem formado para a vida política. O prestígio do bacharel marcava então o triunfo de um outro tipo político: o homem da cidade331. Além do desencanto dos bacharéis formados em Europa de volta à casa também houve espaço para outros bacharéis, os mulatos e “morenos”. A despeito das idéias de “ajustamento social” de Freire (idem), a descrição do surgimento de um tipo político específico é interessante para pensarmos o papel e o prestígio dos “doutores” no imaginário social da política brasileira. Assim, a ascensão social de Jorge Gama e a constituição de sua persona se deu primeiramente pelo Direito, como “doutor” e, depois, pela política. Apesar de ter estudado em bons colégios (tanto públicos quanto particulares) e de seu pai ter sido um pequeno comerciante, Jorge nunca foi rico e durante as entrevistas só se auto-classificou em termos de classe social (“classe média”) após a concretização de seu vínculo profissional. Ser
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Para uma análise mais completa e detalhada sobre as questões acima levantadas, ver Parte 2, capítulo XI: Ascensão do Bacharel e do Mulato, do livro Sobrados e Mucambos.

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advogado marcou a sua vida e, talvez, tenha sido um dos fatores decisivos para a sua entrada no mundo da política. A construção de sua imagem pública sempre esteve permeada por esse vínculo. Desde sua atuação no início da carreira política junto aos movimentos sociais que lutavam pela moradia em Nova Iguaçu até os debates sobre o cerceamento de direitos durante a ditadura militar, não apenas era identificado como sua apresentação enfatizava tais características. Talvez por este motivo a mácula da acusação de “burlar a lei” através do envolvimento com compra de votos e da ligação com o jogo do bicho não pôde ser convertida. Se no concernente à imagem pública de Zito não havia uma incompatibilidade entre as acusações de ligações com o “mundo do crime” e a sua atuação como ator político legítimo, no caso de Jorge Gama, cuja imagem foi desde o início “fabricada” a partir da referência a outro repertório sociocultural, tal disjunção era necessária. Somado a tais fatores, Jorge Gama não dispõe hoje de um sistema de visibilidade apesar de escrever regularmente no Correio da Lavoura, que no entanto é um jornal de expressão apenas local. As novas configurações da política parecem apontar para a necessidade de um sistema de visibilidade mais amplo e mais flexível, que permita ao político acompanhar as nuances dos repertórios acionados por cada público, agora mais heterogêneo. Conforme gosta de se auto-denominar, a Jorge Gama sempre coube mais o papel de “articulador”. Como articulador entenda-se o “profissional”. Jorge não tentou qualquer mandato executivo, sua prerrogativa sempre foi o legislativo. Homem de partido, e de um só partido. Podemos dizer que, independentemente dos sucessos e fracassos eleitorais, manteve-se no mundo da política como ator legítimo durante todos esses anos. Em alguns momentos mais no ostracismo, e em outros impondo a sua presença. Porém, o mais importante, sua trajetória descreve a possibilidade de coexistência de um outro tipo de 343

político juntamente com o personalista, o político de bastidores, ou seja, aquele que inserido no campo político conhece suas regras e saberes específicos, domina uma certa linguagem, a sua burocracia, as “regras do jogo” (cf. Bourdieu, 1989). O período áureo de Jorge Gama foi da segunda metade da década de 1970 (primeiro mandato como deputado federal) até meados da de 1980 (à frente do PMDB durante o Movimento Diretas Já), no entanto, parece não ter sido possível a formação de um sistema de visibilidade próprio para um ator político da Baixada apartado das idéias dominantes que associavam a Baixada Fluminense à violência/ criminalidade. Se no caso de Tenório Cavalcanti, por exemplo, tal configuração foi possível, não se deve apenas ao fato de que possuía um jornal de grande circulação local (Luta Democrática) – sem tirar-lhe o crédito – ou às “benfeitorias”, mas também porque o repertório acionado por ele corroborava as imagens veiculadas sobre a Baixada e “seu povo”, exibindo para além das fronteiras locais um político exótico aos olhos da capital. Assim, a marginalidade da Baixada era reafirmada através da trajetória do Homem da Capa Preta, ao contrário da Baixada que Jorge Gama apresentava. Não desconsidero as ligações de Jorge Gama com políticos que se aproximam dessas práticas, mas ressalto que sua imagem estaria remetida a uma Baixada “classe média”, letrada, diferente da propagada pelos jornais através dos assassinatos, estupros e linchamentos. Jorge enunciava uma Baixada “fora de seu tempo”, só “descoberta” (pelos discursos autorizados) em meados da década de 1990. As três trajetórias escolhidas permitiram-me descrever acontecimentos políticos, o dia a dia de campanhas, e compartilhar os juízos de valor acionados sobre a política, a Baixada e seus atores. Também nos deparamos com as “fabricações” e “desconstruções” operadas pelos interlocutores desta pesquisa. Ponderamos sobre tais construções e percebemos que, mesmo durante jantares descontraídos e em conversas informais onde algo poderia ser 344

“revelado” a qualquer momento, ou nos momentos aparentemente mais espontâneos das entrevistas, a apresentação de si (do “eu” para Goffman) marcava uma “fachada”332. Não no sentido de uma “representação falsa”, mas como encenação legítima, mais ou menos planejada. Essa teatralidade é comum às interações sociais de outra ordem que não apenas a política. No entanto, o mundo da política traz a formulação da encenação enquanto técnica e seus atores são, em muitos casos, classificados de “falsos”. Em relação à composição das fachadas, a “falsidade” do político remete-nos à denúncia de sua “representação” enquanto enunciação de uma performance não autorizada. Assim, em Plenário, falar alto, gesticular; ou durante o tempo da política, responder vigorosamente a uma crítica ou “entrar numa briga” (a partir de um combate físico ou moral) são atuações possíveis nesses cenários. Os conflitos explícitos e que chegam as “vias de fato” fora do tempo da política, por exemplo, seriam impensáveis ou, quando acontecem, censurados e desautorizados (Palmeira e Heredia, 1997). Também encontramos alegações como “mentiroso”, que são comumente utilizadas frente à desconfiança que o mundo da política suscita. Refere-se, na maioria das vezes, à idéia difundida no senso comum, que constitui uma espécie de imaginário social sobre o político profissional, de que “promessa de político não vale nada”, ou de que “político é tudo interesseiro” etc. De acordo com Palmeira e Heredia (1997), a política opera uma linguagem de divisão, suspendendo o cotidiano e instaurado um outro tempo cujos limites são redefinidos e os conflitos colocados em cena.

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Goffman (1975) faz a distinção entre aparência e maneira para tratar da fachada pessoal. Aparência diria respeito “aqueles estímulos que funcionam no momento para nos revelar o status social do ator” e a maneira os que “funcionam no momento para nos informar sobre o papel de interação que o ator espera desempenhar na situação que se aproxima” (p.31). Aqui, no entanto, trabalharemos com a idéia mais geral, enquanto um “equipamento expressivo”, congregando as duas formas.

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é. consultar Aldé (op. assim como pelo senso comum) ora como parte de um repertório de acusações ao adversário político. por assim dizer. segundo Aldé (op. concentrada num determinado período de tempo. consultar. cit. valores e explicações para o “mundo ser como é”335. 1974) constituem a dimensão do enquadramento dos repertórios utilizados pelos atores sociais em sua leitura do mundo333. o clientelismo e coronelismo foram diversas vezes utilizados. potencializada.. 161) As “chaves de leitura” (Goffman.) e as explicações sobre a política e os políticos podem ser enquadradas a partir da construção de crenças. pp. pelo fato mesmo de representar uma ruptura do cotidiano. No cotidiano da política. Nesse sentido..) e Lattman-Weltman (2003). p. as mídias fornecem elementos para a “formar da opinião” (Champagne. onde opinião pública .. A possibilidade de divisão. 346 . Se como categoria analítica seu uso foi aqui limitado frente à capacidade de aglutinar juízos de valor fora de 333 Para Goffman (op.). cit. em primeiro lugar. Figueiredo (2000). op.10) seriam “definições da situação construídas de acordo com princípios de organização que governam os eventos – ao menos os eventos sociais – e nosso envolvimento subjetivo com eles”. 334 Sobre enquadramentos que predominam na grande imprensa. a compreensão do mundo é dada pelas interpretações que as pessoas fazem desse mundo. as idéias e julgamentos que formam. 335 Sobre as especificidades de cada meio de comunicação e a relação com sua “credibilidade” e legitimidade. Por outro lado.cit. e aí os meios de comunicação têm papel de destaque. A política ameaça.” (idem.“O medo da política e a rejeição dos políticos por parte dos excluídos ou daqueles nela inseridos segundo eixos outros que não o das disputas programáticas é patente. cit.] Essa funcionalidade da política não elimina o seu lado ameaçador. [. mas não exclusivo. ora como fatores explicativos (no discurso acadêmico. como construída discursivamente na expressão.pensada. argumentação e defesa – seria mais um dos quadros de referência para que os atores sociais construam suas explicações sobre seu mundo334.

em parte. tiveram grande espaço como uma fonte de informação assim como quadro de referência privilegiado e como um dos “fabricantes” das imagens aqui trabalhadas: da(s) Baixada(s). em despertar a atenção do público em um desencadear de acontecimentos (Courtine. música. apoiada na tecnologia e nas novas mídias. A transformação que as mídias operam na política é marcada pela sua “espetacularização”. O político moderno é um ator social televisivo. pela proliferação de imagens que compunham uma narrativa. A sensação de intimidade. adaptando sua 336 Assim como o que Burke (op.). Das três trajetórias analisadas. A valorização do Executivo em detrimento do Legislativo no Brasil deve-se. dos atores políticos. à inovação trazida pelos direitos sociais implantados durante os períodos de ditaduras no país que acabou por gerar o que Carvalho (2001) chamou de “fascinação” pelo Executivo e que teria origens mais longínquas na tradição ibérica. Piovezani Filho. op. ou seja.cit. de proximidade forjada por essa nova forma de retórica. a mídia de massa ganha espaço central. música ou eventos multimídias.seu contexto original. cit. enquanto classificação e vocábulo da gramática política local não pode ser preterido. p. 347 . Na equação política contemporânea. da política em geral etc. privilegia as conversas em detrimento do orador de tribuna (Abreu. Se a centralidade desse poder foi buscada historicamente pelo autor. no entanto. o todo formado a partir de imagens. 2003. palavras.29) chamou de imagem viva. multimídia. a partir do incremento técnico dos meios de comunicação de massa a favor das campanhas eleitorais. coreografias. ações. principalmente. instaurando-se um outro estilo de retórica336. Os meios de comunicação não foram objeto desta tese. um comunicador. ou seja. Lindberg é o que mais próximo está desse novo tipo. Os monólogos longos foram aos poucos substituídos pelas falas curtas. podemos pensar em seus desdobramentos para a “personalização” da política.. 2003).

No entanto. desde estudos de recepção e audiência (Eco. no Rio de Janeiro.imagem aos contextos e repertórios culturais. 348 .) aos estudos que encaram os meios de comunicação de massa enquanto atores políticos (Bourdieu. 337 Na democracia de público. talvez. dispensando a mediação de uma rede de relações partidárias” (Manin. 26). Zito ainda utiliza bastante a “política de bairro”. p. 2001). de fato. deixando os demais como coadjuvantes. que teve no jornal Correio da Lavoura um espaço privilegiado para lançar suas idéias e críticas como também se fazer presente. Assim como Jorge Gama. as reuniões nas “comunidades” além de pautar suas campanhas em sua atuação na administração municipal. Diversos autores trabalham o papel dos meios de comunicação e suas conseqüências políticas nas ciências sociais em geral. Lindberg foi quem protagonizou as principais cenas nos embates políticos durante 2004 na Baixada e. 1997) até os que redimensionam a democracia a partir da comunicação de massa através do tipo ideal da democracia de público337 (Manin. mas utilizou a Revista Magazine como propagadora de seus projetos. Mesmo os outros dois não se apartaram de tais transformações. 1995) cuja relação entre política e comunicação é re-considerada e o status do político vem se alterando. 1995. Apesar de uma visão um tanto esquemática.cit. “os candidatos se comunicam diretamente com seus eleitores através do rádio e da televisão. op. aproximando-se cada vez mais da figura do comunicador onde o político passa a ter uma relação diferente com o eleitor e seu voto já que a política passaria da esfera da verificação para a da credibilidade (Aldé. o autor lança um modelo (tipo ideal) interessante para pensarmos a prática política.

ele próprio cada vez mais dominado pela lógica comercial.cit. opera na política uma virada na ordem dos problemas. enquanto campo. alianças.. que pouco a pouco deixam que problemas de televisão se imponham a eles. a televisão surge como um dos principais formadores da opinião pública e da homogeneização da informação (Bourdieu. sobre os outros campos. 349 . impõe cada vez mais suas limitações aos outros universos. da esfera pública para o terreno do público-privado. mesmo sobre os mais ‘puros’. levantam outras questões que serão 338 Sobre a relação entre política e televisão e sobre concessões a emissoras de rádio e TV depois de 1988. 81) O enfrentamento entre pessoas (idem) privilegiado pelos meios de comunicação. Entretanto. através do peso da televisão sobre o jornalismo. coligações etc. consultar Aldé (2000) e Godoi (2001). 1989). “O campo jornalístico age. da irracionalidade do voto ou ainda da mídia como. Abreu.Nesse contexto. 1995) ou de uma nova esfera de poder – a vídeo-política (Satori. mexericos e transformando-o em um entertainer. essencialmente a televisão. A despeito de visões como a da esterilização do debate político (Sennet. op. Em outras palavras.” (Bourdieu.. um algoz do pensamento político (Novaro. o peso da economia se exerce sobre a televisão. cit. os meios de comunicação (incluindo também o marketing político) e seus atores não podem ser desconsiderados frente às novas modalidades da apresentação política. Através da pressão do índice de audiência. op. através do peso do conjunto do campo jornalístico. ele se exerce sobre os outros jornais. Aldé. op. reforço seu papel quanto à apresentação e não estritamente à prática política.. enfatizando a vida pessoal do político. de alguma forma. e sobre os jornalistas.. e. da mesma maneira.cit. visto que os arranjos. op. p. cit. ele pesa sobre todos os campos da produção cultural. E. 1988). Sargentini. 2003)338.

A possibilidade de manipulação das imagens e falas acabou reduzida a uma série de regras que supostamente acabariam com a corrupção. classe 12ª. As concepções que a definem como propriedade perdem-na como paisagem e processo. O papel dos políticos e da mídia. As doações terão que ser efetuadas em cheque cruzado e nominal ou transfência eletrônica. assim como os gastos terão que ficar disponíveis na Internet. A transversalidade da Baixada nos colocou diante de três trajetórias que problematizam os questionamentos tradicionais sobre a política. os projetos políticos individuais e coletivos foram alguns dos aspectos abordados nesta tese. A influência da mídia é inegável. com a proibição dos showmícios e limitações à gravação de programas eleitorais nos dão uma amostra do quão refém das mídias (da vídeo-política. 339 A Mini-reforma Eleitoral com validade para 2006 proibiu a distribuição de brindes. a fabricação de imagens. instrução no..tão ou mais decisivas para o mundo da política e para pensarmos as relações de poder dependendo de contextos específicos e configurações de força. com o caixa dois ou ainda com os benefícios aos partidos e atores políticos melhor capitalizados (quer com dinheiro próprio. 350 . Consultar Resolução 22. A multiplicidade de focos e engrenagens leva-nos a pensar nas relações. A tentativa de localizar seu poder tornalhe fugaz. os acessos. a lógica do atendimento. mas ela não se dá apenas na vídeo-política stricto sensu. a mudança da legislação eleitoral para 2006. por exemplo) uma parcela considerável acredita que estejamos339. como bonés. Assim. E os debates sobre cidadania restringem-se então a procedimentos e dispositivos. A pressuposição de que o controle sobre o aparato tecnológico voltado para as propagandas eleitorais e para os showmícios nos colocará no caminho reto da democracia pode nos conduzir a conclusões precipitadas assim como a idéia que a gerou. ficando proibida doação em dinheiro. a formação da opinião pública. 107.158. chaveiros assim como a realização de showmícios. camisetas. TSE. quer com dinheiro de aliados) e com mais acessos.

é operacionalizado na política (entre outros) e só nos afeta enquanto relação. amigos. mas que diante de suas singularidades eram sempre pensados em relação. Estudar as práticas e as trajetórias políticas coloca o pesquisador em uma delicada situação.cotidianas e nas percepções e produções e não em uma (suposta) essência ou atributo. Assim. mas podem apontar algumas alternativas para comparação. esta tese se encerra como mais um olhar para as relações políticas na Baixada Fluminense. incitando novos olhares e perspectivas. os políticos aqui apresentados eram vizinhos. interesseiros. Na tentativa de entender a dinâmicas das relações e práticas políticas locais. O poder não tem essência. forasteiros. oportunistas. Assim. mas acabamos por nos colocar frente a arranjos dinâmicos de forças e posições e. Não nos predispomos a fazer previsões. o que apontamos agora pode ser alterado no espaço efêmero do findar da frase. reis. ídolos. As questões levantadas referiram-se aos universos estudados. Colocar o ponto final parece então impossível. A apreensão dos repertórios acionados e a busca por dar conta da heterogeneidade e complexidade de mundos que se interpenetram não é exclusividade do mundo político da Baixada e esses atores também não estão circunscritos apenas a tal mundo. bacharéis. matadores. também nos deparamos com questões mais gerais como os sentidos da cidadania e da democracia. engajados. 351 .

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ANEXOS 375 .

TABELA 1 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM. 376 .143 1. Banco de Dados Municipais (IBAMCO). SEGUNDO O SEXO.562 1.577 FEMININO 418 90 SEM 1 1 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO SEXO BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 86 6 - TOTAL 5.668 MASCULINO 5. PARA O BRASIL.

TABELA 2 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO IDADE BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 8 36 37 11 - TOTAL 5.549 536 60 anos ou mais 622 233 SEM 39 15 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.668 Até 29 anos 123 17 De 30 a 39 anos 1. Banco de Dados Municipais (IBAMCO). TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.562 1. SEGUNDO A IDADE.040 260 De 40 a 49 anos 2. 377 . PARA O BRASIL.189 607 De 50 a 59 anos 1.

562 1. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).063 328 9 LÊ E ESCREVE 93 30 157 SEM 57 22 INFORMAÇÃO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.TABELA 3 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO GRAU DE BRASIL REGIÃO ESTADO DO INSTRUÇÃO SUDESTE RIO DE JANEIRO TOTAL 5.687 446 30 FUNDAMENTAL 1.668 92 SUPERIOR 2.662 842 52 MÉDIO 1. SEGUNDO O GRAU DE INSTRUÇÃO. 378 . PARA O BRASIL.

379 .96 8.09 APOSENTADO 2.44 7.43 15.70 7.46 PROFESSOR 1º.02 69.72 3.26 7.82 GRAUS SERVIDOR PUB 3.13 EMPRESÁRIO 6.39 3.69 AGRICULTOR 9.33 3.96 2.80 9.61 7.94 4.61 3.70 ADVOGADO 4.04 SENADOR/DEP/VEREADOR FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.TABELA 4 DISTRIBUIÇÃO RELATIVA DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004.12 AGROPECUÁRIO ADMINISTRADOR 2.17 2.61 3.15 2. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.61 PREFEITO 5. E 2º.47 MÉDICO 7. PARA O BRASIL.22 11. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO OCUPAÇÃO (%) BRASIL (%) REGIÃO SUDESTE (%) ESTADO DO RIO DE JANEIRO (%) 80.85 7.30 ENFGENHEIRO 3.22 ESTADUAL PRODUTOR 2.51 5. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).26 2.84 SERVIDOR PUB 3.57 5.27 11.92 MUNICIPAL PECUARISTA 3.17 2.52 TOTAL 68.17 6.32 COMERCIANTE 11. 3. SEGUNDO AS PRINCIPAIS OCUPAÇÕES.

27 45.65 PSDB 15.50 4. Banco de Dados Municipais (IBAMCO).35 8.59 7.66 21.34 PSC 5.92 95.45 4. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.82 3.78 PTB 7.17 2.65 PMDB 19.06 17. SEGUNDO OS PRINCIPAIS PARTIDOS POLÍTICOS.14 4.17 PT 7.39 9.91 6. PARTIDO POLÍTICO BRASIL (%) 380 .35 PPS 5.59 9.98 PDT 5. PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO REGIÃO ESTADO DO SUDESTE RIO DE (%) JANEIRO (%) TOTAL 94.29 12.70 PL 6.15 2. PARA O BRASIL.43 PV 4.98 95.35 FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004.73 4.62 9.35 PSB 3.TABELA 5 DISTRIBUIÇÃO RELATIVA DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004.61 PP 9.89 7.26 PFL 14.

PARA A REGIÃO SUDESTE E PARA O ESTADO DO RIO DE JANEIRO ESTADO DE NACIMENTO BRASIL REGIÃO SUDESTE ESTADO DO RIO DE JANEIRO 92 81 TOTAL 5. PARA O BRASIL.562 1. 381 . Banco de Dados Municipais (IBAMCO).668 MESMO 4. SEGUNDO O ESTADO DE NASCIMENTO.662 1.TABELA 6 DISTRIBUIÇÃO DOS PREFEITOS ELEITOS EM 2004.531 ESTADO OUTRO 8874 125 11 ESTADO SEM 26 12 INFORMAÇÀO FONTES: Tribunal Superior Eleitoral – 2004. TABULAÇÕES ESPECIAIS: IBAM.

462 13.881 38.489 59.64 Situação: 2º turno 382 .489 59.625 32.VOTAÇÃO POR ZONA ELEITORAL 1º.704 45.776 42.366 10.Última atualização em: 07/03/2006 .733 40.096 MÁRIO MARQUES Votação por Zona Eleitoral .006 33. TURNO LINDBERG Votação por Zona Eleitoral .673 63.894 30.144 35.875 35.673 50.894 63.415 43.Município (NOVA IGUACU) .700 14.902 15.Candidato (LUIZ LINDBERGH FARIAS FILHO) 1~9 de 9 .640 34.388 27.583 74.940 46.583 74.201 14.733 45.034 42.651 40.949 22.919 52.805 52.415 43.006 33.Dados sujeitos a alteração Partido: PT Situação: 2º turno (VV) (V)Votos % Zona Eleitorado Votos Nominais (V/VV) Válidos 84 157 159 156 67 82 27 158 250 82.510 41.640 82.704 36.278 48.079 48.640 38.Dados sujeitos a alteração Partido: PMDB (VV) (V)Votos % Zona Eleitorado Votos Nominais (V/VV) Válidos 82 158 27 250 156 67 84 157 159 38.380 44.860 43.235 30.295 29.1° turno UF (RIO DE JANEIRO) .654 20.1° turno UF (RIO DE JANEIRO) .651 36.Última atualização em: 07/03/2006 .760 67.Candidato (MARIO PEREIRA MARQUES FILHO) 1~9 de 9 .713 13.554 42.940 20.839 15.625 27.388 35.964 13.741 56.903 49.760 67.974 35.355 14.284 31.875 32.290 15.128 11.366 40.841 38.192 23.956 22.Município (NOVA IGUACU) .235 50.805 52.558 45.974 40.Cargo (PREFEITO) .Cargo (PREFEITO) .

897 Situação: Não eleito LINDBERG FARIAS Votação por Zona Eleitoral .660 16.537 56.254 22.622 17.655 51.632 40.2° turno UF (RIO DE JANEIRO) .103 19.633 59.Última atualização em: 07/03/2006 .095 43.654 25.651 50.378 14.581 27.Última atualização em: 07/03/2006 .134 13.740 59.673 43.340 383 .Dados sujeitos a alteração Partido: PMDB Zona Eleitorado 159 157 84 67 27 156 250 158 82 67.Candidato (LUIZ LINDBERGH FARIAS FILHO) 1~9 de 9 .134 33.704 38. TURNO MARIO MARQUES Votação por Zona Eleitoral .046 15.600 19.673 40.Município (NOVA IGUACU) .733 (VV) (V)Votos % Votos Nominais (V/VV) Válidos 52.982 34.235 74.475 30.453 52.640 45.264 64.617 37.982 32.Cargo (PREFEITO) .037 62.641 64.Candidato (MARIO PEREIRA MARQUES FILHO) 1~9 de 9 .587 14.870 35.640 40.981 37.Dados sujeitos a alteração Partido: PT Situação: Eleito Zona Eleitorado 250 67 158 82 27 156 159 157 84 36.287 47.036 52.Cargo (PREFEITO) .704 38.415 36.446 33.Município (NOVA IGUACU) .654 34.746 41.008 40.036 28.VOTAÇÃO POR ZONA ELEITORAL 2º.415 67.419 14.740 59.053 35.2° turno UF (RIO DE JANEIRO) .831 48.641 64.419 44.400 11.954 18.475 30.055 62.583 (VV) (V)Votos % Votos Nominais (V/VV) Válidos 28.733 45.651 50.446 32.615 51.235 74.327 48.760 82.583 43.056 55.632 40.413 25.760 82.947 24.

FONTE Tribunal Superior Eleitoral 2004 Consultado no site: www.tse.gov.br 384 .

mas o Artigo 34 do Regimento Interno determina o seguinte: “Fica impedido da participação como membro da Comissão Parlamentar de Inquérito o deputado que tenha envolvimento com o fato determinado a ser apurado”. que cria Comissão Especial para acompanhar as investigações sobre o assassinato do jornalista Mário de Almeida Coelho Filho. SIVUCA – Peço a palavra pela ordem. como todos os Deputados já devem ter observado. quero dizer que tenho um documento em mãos. PRESIDENTE (José Cláudio) . tem a palavra a Sra. sobrinho do ex-prefeito de Magé.Anuncia-se a discussão única do REQUERIMENTO 490/2001. ANDRÉIA ZITO – Peço a palavra pela ordem. nem a Deputada Núbia Cozzolino fizéssemos parte dessa Comissão.. nem o Deputado Júnior do Posto. por analogia. PRESIDENTE (José Cláudio) . Deputada Andréia Zito. 385 . Não havendo quem queira discutir. sempre voto favoravelmente às CPIs. Presidente. A SRA. Neste caso. Gostaria de solicitar que nem eu. sou favorável à CPI.ORDEM DO DIA Requerimento 490/2001 Informações Básicas Sessão: Ordinária Autor do Documento: Maria Lameira/ALERJ Data da Criação: 03/10/2001 __________________________________________________________________ 11:27 Data da Sessão: 03/10/2001 Hora: __________________________________________________________________ Texto da Ordem do Dia O SR. da 65ª DP. Sr. O SR. acho que é uma questão razoável de averiguarmos. Sr.. O SR. A SRA. ANDRÉIA ZITO (Pela ordem) – Sr.Pela ordem.Em discussão a matéria. O SR. Deputada Andréa Zito. ou pelo menos na maioria das vezes. PRESIDENTE (José Cláudio) . Presidente. mas acho que a Mesa deve avaliar essa questão. Sei que a questão é a CPI. Sou totalmente favorável à CPI. porém. onde a pessoa assassinada havia feito uma queixa-crime com relação à Deputada Núbia Cozzolino. Pela lógica. Presidente. de autoria da Deputada Núbia Cozzolino.

observei a ponderação da Deputada Andréia Zito. PRESIDENTE (José Cláudio) . eu fui acusada aqui! O SR.Eu pediria que cortasse a palavra da Deputada Núbia Cozzolino. A SRA. V. A SRA. Depois V. quando um membro do Judiciário está envolvido em determinado problema. em hipótese alguma. SIVUCA (Pela ordem) – Sr.Em votação o pedido de suspensão por duas Sessões.Exa. para que possamos esclarecer em tempo hábil essa situação. a pedido. NÚBIA COZZOLINO – Sr. Sr. e a exemplo do pedido do Deputado José Távora.. NÚBIA COZZOLINO – Não senhor! Eu fui acusada e quero o direito de resposta! O SR. Deputado Sivuca. A Presidência não vai dialogar com V. pela ordem. Não podemos permitir que pessoas envolvidas num problema participem de determinada Comissão. que a matéria seja suspensa por duas Sessões. para futuros esclarecimentos. PRESIDENTE (José Cláudio) . NÚBIA COZZOLINO – Fui acusada de que o jornalista fez uma denúncia de ameaça de morte! Todo mundo aqui ouviu! E ela está faltando com a verdade! Eu não tenho interesse no processo .O SR.Exa. A SRA. PRESIDENTE (José Cláudio) . NÚBIA COZZOLINO – Não tem eu cortar a palavra! Por que não vou falar?! O SR. peço a V. tem o dever legal de argüir a própria suspeição e não presidir. Exa. Presidente. PRESIDENTE (José Cláudio) .) Aprovado. A SRA. Presidente. solicito também o adiamento por duas Sessões para que possamos discutir com mais tranqüilidade.Pela ordem. PRESIDENTE (José Cláudio) . Esse assunto já foi adiado por duas Sessões.Vai cortar a palavra porque V. A SRA. O SR. O SR.Exa. A SRA. tem a palavra o Sr.Exa. Foi colocado em votação. terá o direito de falar pela ordem. Deputada Núbia Cozzolino. Exa. (Pausa. Por analogia.Já foi suspensa.. NÚBIA COZZOLINO – Peço a palavra para discutir. O argumento lançado pela Deputada Andréia Zito é válido. Sendo assim. para discutir! Eu fui citada. não me deixou falar! 386 . NÚBIA COZZOLINO – V.Exa. PRESIDENTE (José Cláudio) . Os Senhores Deputados que aprovam a matéria permaneçam como estão. não foi acusada. nesses termos. e aprovado pelo Plenário.V. falará depois. está se excedendo. O SR. Presidente.

Ela tem interesse. vereador não foi assassinado. os três minutos a que tenho direito.Exa. matou uma pessoa no Rei do Bacalhau. Agora. ele estava lá com certeza. que não tem nenhum interesse. quem tem interesse é ela. Então. O Zito tem uma condenação e 28 processos.Está garantida. e a pessoa que está presa foi a mesma pessoa que foi na Casa do meu funcionário. Isso é uma posição do Deputado Sivuca. a Deputada Cidinha Campos e outros Deputados que são isentos. Citou meu nome porque tinha rivalidade política. Todo mundo sabe que hoje ele está aliado com o Prefeito Zito. eu tinha dito 23 mas. dizer que eu tenho interesse! Sr. lá tem um vereador que o aprova e ele tem interesse em entrar em Suruí. quinta-feira passada. nunca foi condenada. quando esteve na Secretaria de Segurança. Isso por quê? Porque eu levava o funcionário todos os dias em casa. dizer que um jornalista nunca me acusou de ameaça de morte. garantisse a minha palavra. PRESIDENTE (José Cláudio) . Todo mundo no Rio de Janeiro sabe que o Zito mata. Todo mundo sabe que ele acompanhou o Prefeito Zito. Em momento algum fui acusada. NÚBIA COZZOLINO . JOSÉ TÁVORA – Peço a palavra pela ordem. Presidente.O SR.A Família Cozzolino governou Magé por vários anos. Quem tem interesse são eles. Presidente. à Deputada Núbia Cozzolino. Agora. eu não tenho um inquérito e ele tem 28 e todos com relação a homicídio. solicitei Comissão Especial. Agora. Eu respeito isso. jornalista não foi assassinado. aqui tem Deputados que são isentos como o Deputado Chico Alencar. Nunca fui acusada de nada. e nunca foi acusada. A SRA. vi que são 28 processos e eu não tenho nenhum processo de homicídio. não sou eu quem tem interesse. gostaria que V. Presidente. até porque a família Cozzolino nunca teve nenhum envolvimento em homicídio. PRESIDENTE (José Cláudio) . Sr. tem o direito de falar pela ordem . NÚBIA COZZOLINO – Sr. Enquanto a Família Cozzolino governou Magé. Todo mundo sabe que ele está aliado com ele. A SRA. evidentemente. 387 . O jornalista falou isso há dois anos mas não disse que eu tinha acusado. Eles faltam mais uma vez com a verdade. um outro segurança. inclusive. O SR. em primeiro lugar quero dizer à Deputada Andréia Zito que não solicitei CPI. Ozan. pela ordem. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Sr.V. tocaiando vendo a hora que eu chegava para fazer uma covardia comigo. nunca teve um inquérito de homicídio. É mentira. me esperou o dia inteiro e eu tenho testemunha que é o Sargento Gilmar esperando o dia inteiro. tudo bem. O Deputado Sivuca tem interesse porque. A SRA.Exa. Em segundo lugar. eu nunca fui acusada de homicídio. portanto. Em terceiro lugar: não sou a pessoa interessada porque o acusado foi o segurança dela. Presidente. e ela faltou com a verdade aqui quando disse que o jornalista disse que eu tinha ameaçado ele de morte. quero lembrar ao Plenário desta Casa que o segurança do tio dela. A Presidência concede a palavra. revendo. se o problema para aprovar a Comissão é eu estar na frente. se não me engano. O SR.

em absoluto. Sr. deu seu depoimento e depois teve que fugir do País e todo mundo sabe disso. Eu estou indignada com o Ministério Público que depois daquele depoimento nada fez contra o Prefeito de Caxias que sempre sai imune e quem foge são as vítimas como fugiu a mulher do Carlão que veio a essa Casa. ele continua no mesmo lugar. Deputado Sivuca. O SR. PRESIDENTE ( José Cláudio) – A Presidência informa a V. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Os bandidos do morro estão expostos à polícia. A SRA. 388 . quem foge são as vítimas. Ela não alcançou o que eu pretendia dizer. PRESIDENTE (José Cláudio) – Pela ordem. Sr. outro esquartejado. e esta é uma delas. seu tempo está esgotado. Prossiga. respeite o orador. Presidente. O SR.Exa. A senhora está exaltada. PRESIDENTE (José Cláudio) — Deputada Núbia. SIVUCA – Peço a palavra pela ordem. O SR. são supérfluas. onde a Deputada Núbia Cozzolino poderia estar presente até para relatar o que vem ocorrendo. Deputada. no caso do Zito é diferente. O SR.O SR. SIVUCA (Pela ordem) — Sr. Ela não sabe que a chefe do meu gabinete sofreu um atentado antes de ontem. assim como está envolvida a Deputada Andréa Zito. Presidente. Presidente. Quero tranqüiliza-la. porque já existem as Comissões Permanentes exatamente para tratar de matérias pertinentes. e isso quem fala é um Promotora Pública. Eu trouxe a essa Casa o depoimento da Dra. A verdade é a seguinte: essas Comissões Especiais e as Comissões Parlamentares de Inquérito. A razão que eu pedi o adiamento não foi com a finalidade de prejudica-la. A SRA. lembro que sou o Presidente da Comissão de Segurança Pública e Assuntos de Polícia. Ela não sabia disso. Tânia e muito mais preocupada eu fiquei depois que li todos aqueles crimes dos quais a Dra. O SR. conclua. que seu tempo está esgotado. Deputado Sivuca. que foi citado. em determinados casos. SIVUCA (Pela Ordem) – Sr. por estar envolvida com o problema. Deputada Núbia Cozzolino. tem a palavra o Sr. Presidente. Deputada. com o objetivo de por fim a essa discussão. A senhora está extrapolando. PRESIDENTE (José Távora) – Sra. como todos respeitaram V. O SR. procure o Departamento Médico. mas para esclarecer a Sra. Exa. um por cabeçada. por favor. Tânia acusa o Prefeito Zito. Eu apenas entendo que a Sra. Deputada Núbia Cozzolino. que não leva a lugar algum. A SRA. não apenas pela citação. NÚBIA COZZOLINO — (FALA FORA DO MICROFONE). conclua. NÚBIA COZZOLINO (Pela ordem) – Só para terminar.

tem a palavra o Sr. o Prefeito Zito e a politicagem da Baixada Fluminense. Sempre admirei o trabalho da Deputada na área social. discutir este projeto. trabalhadora. como membro da Comissão. O Deputado Sivuca colocou bem que a Deputada Núbia Cozzolino não tem condição de participar por vários aspectos que não-somente por estar envolvida. de Duque de Caxias. O SR. Ela está colocando a culpa no Prefeito Zito por tudo o que está acontecendo. de forma alguma. WASHINGTON REIS (Pela ordem) — Ela é mal-educada. O SR. já foi adiada. Ela perdeu porque quis. mas entendo que a Deputada Andréa Zito não pode participar dessa Comissão e vou além. para que possamos. a Assembléia Legislativa está navegando e daqui a pouco irá desembocar num mar de lamas. Deputado Washington Reis. mas. gritando. eu também abro mão — porque a minha chefe de gabinete foi vítima de uma atentado —. Por essa razão. porque quer fazer política dessa forma. Presidente. que ela sabe que o são. Presidente. num clima mais calmo. Conheço. o Deputado Júnior não pode participar dessa discussão. Estamos tratando de um assunto que conheço — sou da Baixada Fluminense. Presidente? Porque a Deputada está com ódio no seu coração por ter perdido a eleição em Magé. ficar aqui calado vendo a Deputada falar inúmeras mentiras. porque esta Casa não é dela. que eu quero dizer. O SR. por duas sessões. infelizmente. NÚBIA COZZOLINO — (FALA FORA DO MICROFONE) O SR. só não quero é ser mal interpretado. Sr. adie. A SRA. 389 . WASHINGTON REIS (Pela ordem) — Sr. que tem condição de fazer política com a força do trabalho e que é de uma família com tradição na política de Magé. pelo que estou vendo. O SR. WASHINGTON REIS — Peço a palavra pela ordem. Presidente. Ela que é competente. Infelizmente. mesmo porque ela é do meu partido. PRESIDENTE (José Cláudio) — Pela ordem. está despreparada para exercer a função de Deputada. também entendo e cedo o espaço. pois sou uma pessoa acessível. mas do povo. A Deputada tem tido um comportamento horroroso aqui. Sabe por que isso.Não quis. PRESIDENTE (José Cláudio) — A matéria é vencida. também. alijar a Deputada Núbia Cozzolino. do palco das discussões — consideraria uma traição —. insisto. e porque não podemos deixar que a individualidade venha usar o plenário desta Casa para se autopromover. e está falando de forma injusta. Sr. Está na hora da senhora manter o equilíbrio. a Deputada está usando isto para fazer politicagem. fazendo escândalo. Ela precisa se comportar direito. Se não me quiserem aceitar. Daqui a pouco ela vai falar que aquele avião que derrubou as torres gêmeas nos Estados Unidos foi enviado pelo Zito. agora. Sr. mas até por não ter equilíbrio. porque o que estamos ouvindo aqui são coisas seriíssimas. não posso compartilhar.

PRESIDENTE (José Cláudio) . porque a senhora trabalha. Deputada Núbia Cozzolino. rasguei muitas vezes. peço que V. A Deputada tem um passado triste. Exa. se V. NÚBIA COZZOLINO – Prova! Prova! O SR. O SR.. PRESIDENTE (José Cláudio) – Só falta pedir para a Sra. está fazendo. A SRA. foi aprovado na Mesa Diretora a nova Comissão de Ética. que inclua o meu nome nessa Comissão.. se Deus quiser. O SR. peço ao Sr.. Respeite o Deputado que está ao microfone. WASHINGTON REIS – A Sra. Exa. Exa conclua. se retirar. WASHINGTON REIS – Ela não tem credibilidade alguma.. Peço a V. O SR. É mal-educada. Deputados. Exa. O SR. aqui. essa Deputada terá que respeitar o Parlamento e os Deputados.. O SR. falou 390 . PRESIDENTE (José Cláudio) .Sra.. Sr. O SR. Por que não usa esta Casa onde temos que trabalhar. para melhorar. para que. O SR... A SRA.respeite o orador Sra. no Plenário. a Sra. por favor.Sra. Deputada.. Deputado Washington Reis.. Por isso....Sr. porque ela não está no terreiro da casa dela.Deputada não tem sabe se comportar. Deputada nas CPI’s. WASHINGTON REIS – Sr.. NÚBIA COZZOLINO – Nacional. A Presidência não vai aceitar mais o que a Sra.. Fez uma CPI para apurar. O SR.. da mesma forma como V.Sra... WASHINGTON REIS . Deputada não tem equilíbrio.. PRESIDENTE (José Cláudio) . porque vou pedir para ampliá-la e investigar o comportamento da Sra.para falar na tribuna. que irá apurar a ética dos Srs. Ontem. um neurologista. O SR.. A SRA. O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) ...evasões fiscais e saiu extorquindo empresários. Deputada Núbia Cozzolino respeite. Deputada. WASHINGTON REIS .. Eu mesmo. Presidente. Presidente... PRESIDENTE (José Cláudio) . Tem que procurar um neurologista. enquanto eu estiver nesta Casa. NÚBIA COZZOLINO – Ele tem que defender mesmo! Por causa da nacional. nesta Casa.O Deputado André Luiz e o Presidente foram muito felizes quando sugeriram que a senhora procurasse um médico. continuar com esse comportamento vou ter que pedir para que se retire do Plenário. em abrir CPI de.

ALICE TAMBORINDEGUY – Vou lê-lo nesse momento. Sr. Presidente. (A Deputada faz uma leitura) Está aqui. A SRA.e foi respeitada. rapidamente. Sra. acho de bom tom nenhuma das pessoas envolvidas participarem da Comissão. peço que o publique no Diário Oficial. Sr. O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) . concedido. O SR. Isso não é bom para a Assembléia e nem para que se apure o caso. Gostaria de ler aqui o depoimento que esse cidadão fez antes de morrer. ALICE TAMBORINDEGUY – Obrigada. quase cinco minutos. tem a palavra a Sra. Esse depoimento. quando propõe que as pessoas envolvidas no caso não sejam membros dessa Comissão Especial. Muito obrigada.A Presidência já deferiu o pedido de V. estou percebendo que isso está virando uma guerra política. mas também com todos os meus colegas desta Casa. no Plenário desta Casa. Porte-se como Deputada. Não vou aceitar mais isso. 391 . Deputada Núbia Cozzolino está se excedendo e se emociona profundamente quando fala no assunto. Deputada Núbia Cozzolino. Temos que apurar a morte desse cidadão. Sempre relacionei-me muito bem com a Sra. Acho uma sugestão ponderada a do Sr. A SRA. Sempre procurei ter uma política de boa vizinhança com ela. Deputado Sivuca. Então. Mas temos que fazer isso de uma forma isenta. Porém. diante dos fatos expostos neste Plenário. Presidente. O SR. realmente. foi.Pela ordem. estou muito chateada e lamento profundamente o que está acontecendo. Exa. Exa. A SRA. Deputada Alice Tamborindeguy. A guerra política está tomando conta do cenário. A SRA. Exa. Presidente. Devemos apurar. e gostaria que V. ALICE TAMBORINDEGUY – Peço a palavra pela ordem. Porém vejo que a Sra.Está deferido o pedido de V. assim como a de qualquer pessoa que morre da mesma maneira. Deputada Núbia Cozzolino. A Presidência lhe concedeu três. PRESIDENTE (José Cláudio) . autorizasse a publicação. ALICE TAMBORINDEGUY (Pela ordem) – Sr. hoje. PRESIDENTE (José Cláudio) .

O SR. DOMINGOS BRAZÃO – Peço a palavra pela ordem. O SR. Logo após. inclusive. interessa aos estudantes que estão hoje ocupando a galeria desta Casa. Sr.O SR. Esse assunto já foi por várias vezes motivo de intervenção de pauta nesta Casa. 392 . o qual.Sr. e vai prosseguir na pauta. Gostaria que a Presidência não mais permitisse que tal fato ocorresse e se ativesse à pauta. darei pela ordem a qualquer Sr. Presidente. PRESIDENTE (José Cláudio) .) O SR. PRESIDENTE (José Cláudio) . tem a palavra o Sr. O SR. Temos ainda um Projeto na Ordem do Dia. DOMINGOS BRAZÃO – A autoridade competente deve ter tranqüilidade para apurar os fatos com transparência. Presidente.Pela ordem. mas sem pressão de nenhum dos lados. DOMINGOS BRAZÃO (Pela ordem) .A Presidência acata o pedido de V. (Palmas nas galerias. Deputado Domingos Brazão. Exa. gostaria de fazer um apelo à Presidência: que volte à pauta. Deputado.

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