NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Hannah Green Romance e psicanálise - 2ª EDIÇÃO Direção: Jayme Salomão - IMAGO EDITORA

LTDA. Rio de Janeiro Volume 1 - A HORA DE CINQÜENTA MINUTOS Uma coletânea de Contos Psicanalíticos Verídicos de Robert Lindner Volume 2 - A VIDA ÍNTIMA DE UMA ESQUIZOFRÊNICA Operalores e Coisas de Bárbara Brien Volume 3 - O HOMEM DOS DADOS de Luke Rhinehart Volume 4 - O FILHO DO AMOR Um auto-retrato de Mary Hanes Volume 5 - NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS de Hannah Green NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Av. Paulista, n° 2518 - Térreo Telefone: (0xx11) 3258-8599 emporiopaulista@terra.com.br Título original I NEVER PROMISED VOU A ROSE GARDEN. Traduzido da edição publicada nos E.U.A. em 1964 por The New American Library, Inc., Nova Yorque. Copyright (c) 19 64 by Hannah Green Editoração Coordenador: Pedro Paulo de Sena Madureira Tradução: Jayme Benchimol Revisão tipográfica: Maria Beatriz Nascimento Gomes Capa: Renato Sérgio Brando - 1974 Direitos para a língua portuguesa adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA., Av. N. S. de Copacabana 330 10º andar - Tel.: 255-2715, R io de Janeiro, que se reserva a propriedade desta tradução. Impresso no Brasil Printed in Brazil PARA MINHAS MÃES O carro percorria uma bela região de campos e fazendas, em pleno outono, atravessa ndo curiosos e antigos vilarejos cujas árvores de troncos retorcidos davam, com su as tonalidades vivas, um colorido pitoresco às ruas. Seus ocupantes falavam pouco. Dos três, o pai parecia o mais cansado. Vez por outra, interrompia o pesado silênci o com migalhas de conversa, coisas casuais, sem importância, que mesmo a ele exasp eravam. Voltou-se, uma vez, para o rosto da menina refletido no espelho retrovis or e perguntou: - Você sabe, não sabe, que eu não passava de um tolo quando me casei, um tolo consumado? Não tinha a menor noção de como educar uma criança, do que significav a ser um pai. Defendia-se, e sua defesa também era em parte uma agressão. A menina c ontinuou calada. A mãe sugeriu então que parassem para tomar um café e, num esforço dese sperado para melhorar o clima de tensão, disse que parecia realmente que estavam f azendo uma viagem de férias, em pleno outono, com sua filha adorável, e numa região ma ravilhosa. Encontraram um restaurante à beira da estrada e pararam. A menina saltou ligeira, e encaminhou-se para o motel, nos fundos do prédio. Tão logo se afastou do carro, os olhos dos pais se voltaram sobressaltados: - Deixe, ela está bem! - tranqüilizou o pai. - Esperamos ou entramos logo? - perguntou em voz alta a mãe, falando consigo mesma . Dos dois, ela era a mais analítica. Antecipava-se às coisas, planejando tudo minuc iosamente - como agir e o que dizer - enquanto o marido se deixava guiar, não só por comodismo, mas também porque geralmente era ela quem tinha razão. Naquele momento s entia-se confuso e só. Deixou-a entregue a seus planos e especulações, inclusive porqu e era assim que ela se consolava. Ele preferiu se manter em silêncio. - Ficando no carro - dizia ela - estaremos ao alcance dela, caso precise de nós. S e ela sai e não nos vê... Por outro lado, devemos mostrar que confiamos nela. É import ante que sinta que confiamos nela...

Decidiram finalmente entrar no restaurante, procurando aparentar a maior descont ração possível. Sentaram-se numa mesa junto às vidraças, de onde podiam avistá-la dobrando esquina do prédio, vindo em sua direção. Procuravam observála como se fosse uma desconh ecida, filha de alguma outra pessoa a quem tivessem sido apresentados naquele in stante, uma Déborah que não era a deles. Estudaram com atenção o corpo adolescente e des gracioso: julgaram-no bom. O rosto era inteligente e vivo, embora, para dezessei s anos, sua fisionomia ainda fosse excessivamente infantil. Estavam habituados à sua precocidade meio tristonha, mesmo não a reconhecendo no ros to familiar que agora procuravam tratar como estranho. O pai pensou com seus botõe s: "Como é que desconhecidos podem ter certeza? Ela é nossa... sempre foi nossa. Ele s não a conhecem. Trata-se de um erro - só pode ser um erro!" A mãe, por sua vez, disse a si mesma observando a filha: "Minha expressão. .. não deve estar aparentando nada de anormal, nenhuma ruga - uma expressão ideal." E sorriu satisfeita. No fim da tarde, pararam em outra cidadezinha e jantaram no melhor r estaurante, numa atitude de desafio e aventura, pois não estavam vestidos de forma conveniente. Terminado o jantar, foram a um cinema. Déborah parecia contentíssima c om a noitada. Brincaram durante o jantar e durante o filme todo; depois, caminha ndo sob a noite densa da região, conversaram sobre outras viagens, congratulando-s e mutuamente cada vez que recordavam algum detalhe engraçado de outras férias. Encos taram num motel para dormir, e Déborah ficou num quarto só para ela, privilégio cuja i mportância nem mesmo os pais que tanto a amavam podiam avaliar. Já no quarto, sentados frente a frente, Jacob e Esther Blau perscrutavam o íntimo de cada um, perguntando-se por que, agora que estavam a sós, não conseguiam despojar-s e de suas poses, respirar livremente, relaxar, e criar um clima de paz e esponta neidade. No quarto vizinho, separados apenas por uma delgada parede, podiam escu tar a filha trocando de roupa para se deitar. Eram incapazes de se confessar, me smo com os olhos, que passariam a noite em alerta, interrogando cada ruído que não f osse o de sua respiração - qualquer ruído que pudesse 8

significar. . . perigo.- Apenas uma vez, antes de se deitarem para a vigília notur na, Jacob deixou cair a máscara, e sussurrou, com voz áspera, no ouvido da mulher: Por que a estamos mandando embora? - Os médicos acham que ela deve ir - respondeu Esther, também num sussurro, estendid a rigidamente sobre a cama, com os olhos pregados na parede. - Os médicos!. . . - Jacob jamais quisera envolvê-los no problema, mesmo no início. - O lugar é bom - afirmou a mulher, elevando um pouco a voz. - Eles chamam aquilo de hospital psiquiátrico, mas é um lugar, Teca, um lugar onde i mprensam as pessoas. Como pode ser bom para uma menina - quase uma criança! - Deus do Céu, Jacob - exclamou - quanto já nos custou tomar essa decisão? Se não tiverm os confiança nos médicos, a quem vamos pedir conselhos, em quem confiar? O Dr. Liste r diz que é a única forma de ajudá-la agora. Temos que tentar! - insistiu e voltou res olutamente a fixar os olhos na parede. Ele se calou. Rendia-se mais uma vez à mulher, tão ágil no uso das palavras. Deram-se boa noite; fingiam dormir, respirando pesadamente para enganar um ao outro, enqu anto os olhos ardiam vigilantes devassando a escuridão. No quarto vizinho, Déborah deitou-se disposta a dormir. O reino de Yr possuía uma es pécie de zona neutra chamada o Quarto Nível. Só por acaso é que se podia alcançá-la. Fórmul e atos de vontade eram inúteis. No Quarto Nível não havia emoções para afligi-la, nenhum p assado e nenhum futuro contra o qual lutar. Nem memória. Perdia-se a posse de si m esmo. Nada, exceto fatos mortos que sobrevinham espontaneamente quando ela os de sejava, despojados de emoção ou sentimento. Deitada na cama, subiu ao Quarto Nível. O futuro deixou de preocupá-la. As pessoas n o quarto ao lado eram, supostamente, seus pais. Muito bem. Só que agora faziam par te de um mundo fantasmagórico, que pouco a pouco se desvanecia. Ela transitava sem dificuldade para um mundo novo, onde não se conheciam preocupações. Abandonar o mundo antigo eqüivalia a também abandonar os labirintos do reino de Yr, o Coletor de Outros, o Censor, e todos os deuses Yri. Revolveu-se na cama e mergulhou num son

o profundo, sem sonhos, repousante. Reiniciaram a viagem na manhã seguinte. O carro já se afastava do hotel, penetrando no dia luminoso, quando ocorreu a Déborah que talvez aquela viagem pudesse durar p ara sempre, e que a sensação maravilhosa de calma e liberdade que sentia, fosse uma nova dádiva dos deuses e dos habitantes, normalmente tão exigentes, de Yr. Viajaram durante algumas horas, percorrendo uma região mesclada de reflexos, doura dos e castanhos, e as ruas salpicadas de sol dos pequenos vilarejos. Foi então que a mãe perguntou: - Onde é o desvio, Jacob? Em Yr, uma voz clamou das profundezas do Poço: Inocente! Inocente! Num instante desfez-se toda aquela sensação de liberdade. Déborah Blau foi impetuosame nte tragada pelo choque de dois mundos. Houve, como em todas as outras vezes, um dilaceramento silencioso, fantástico. No universo onde se sentira até há pouco radian te, o sol cindiu-se no céu, a terra entrou em erupção, seu corpo foi despedaçado, os den tes e os ossos se fragmentaram em mil pedaços. Enquanto isso, no outro universo, h abitado por fantasmas e sombras, um carro tomava um desvio lateral e penetrava n uma estrada que desembocava num prédio de tijolos vermelhos, muito antigo. Em esti lo vitoriano, cercado de árvores, seu aspecto era bastante decadente. Fachada idea l para um manicômio. Quando o carro parou diante da portaria, Déborah ainda estava a tordoada pelo choque. Foi difícil saltar, e mais ainda subir condignamente as esca das de acesso ao prédio, onde aguardavam os médicos. Havia grades em todas as janela s. Déborah sorriu: "Ótimo! Não poderia ser melhor!" Ao ver as grades, Jacob Blau ficou lívido. Não havia mais como se iludir: aquilo não e ra nem "clínica de repouso" nem "tratamento de convalescência". A verdade impunha-se nua, gélida como o ferro das grades. Esther tentou alcançá-lo em pensamento: - Não devíam os contar com isso? Por que essa surpresa? Enquanto esperavam, Esther Blau procurava todas as formas de se mostrar jovial. Exceto pelas janelas gradeadas, a sala parecia qualquer outra sala de espera, e ela aproveitou para tro10 çar das revistas antiquíssimas que estavam por ali. De repente, ouviram no fundo do corredor o ranger metálico de uma chave na fechadura - pelo som devia ser imensa e Jacob retesouse de novo, sobressaltado, gemendo baixinho: - Não, ela não, nossa D ebbizinha. . . E não percebeu o olhar implacável que cintilou no rosto da filha. O médico percorreu o corredor e, antes de entrar na sala, compôs uma expressão grave. Era um homem corpulento e atarracado, de modos bruscos. Entrou e sentiu logo a a ngústia que pairava no ar, quase palpável. O prédio era antigo, um lugar realmente ass ustador. Sua missão consistia em afastar a menina o mais rápido possível e tranqüilizar suficientemente os pais para que consentissem em deixá-la, convictos de que tinham feito o que era certo. Quantas vezes, naquela mesma sala, pais, maridos ou esposas no último minuto, reje itavam com repugnância a pavorosa realidade da doença. Agarravam o parente, coitado, com seus olhos esgazeados, e o levavam embora de novo. Era medo, ou uma justa i mpressão negativa ou - e nisto seus olhos perscrutaram de novo o casal - aquele grão híbrido de ciúme e ódio que sempre os impedia de interromper a longa sucessão de misérias uma geração após a sua. Procurou mostrar-se compadecido, mas sem leviandade. Pouco de pois, chamou uma enfermeira para conduzir a menina ao interior do hospital. Ela parecia uma vítima em estado de choque; quando a levaram dali, sentiu a dor em que os pais se revolviam. Depois de prometer que ainda se despediriam dela antes de partir, o médico os cond uziu à secretaria para que preenchessem os formulários de praxe. Quando voltou a vê-lo s, após as despedidas, pareciam também em estado de choque. "Que coisa dolorosa ter que se amputar de uma filha", pensou. Jacob Blau não era um homem dado a exames introspectivos, nem tinha o hábito de revo lver o passado para pesar e medir sua configuração. Julgava a esposa, em certos mome ntos, uma mulher excessivamente voraz, moendo e remoendo suas paixões num discurso interminável. Contudo, invejava-a um pouco. Ora, também ele amava a filha, embora n unca tivesse declarado esse amor. Também ele desejava ouvir confidencias 11

aquele gesto tolo e teatral de cortar os pulsos. procurando manter o braço esquerdo ligeiramente voltado para de ntro. Déborah executou obedientement e todas as instruções. caindo. con tava apenas com o Aqui.Isso depende de você . fechou o cademo e saiu. Homem de temperamento forte. Esther julgava conhecer Déborah melhor que o marido. Ela .Que assim seja! . Em breve. ela se mostrara ba stante ansiosa. esperando a punição. e disse: .e. No momento da despedida. Agora pouco importava que a chamass em de sonsa e mentirosa. A seu ver. e Déborah conse guiu distinguir algumas das palavras que se formavam. porque também ele caía etemamente. Os últimos meses tinham sido dificílimos de suportar: tanto frio. sua imagem passeava e r espondia. Para se defender contra a onda que ameaçava tragá-la. dançava e entoava hinos r ituais. não quisera a ceitar qualquer consolo de sua parte. onde teve que responder a algumas perguntas sobre sua vi da. Sent da no carro ao lado do marido.Contei toda a verdade sobre essas coisas que o senhor pe rguntou. finalmente se concretizara num f ato. que encontraram no chão do banheiro. junto com ele. os rugidos que ressoavam dentro dela. cheia de sangue até o meio. Ali também foi vigiada: uma mulher. Vai me ajudar agora? . seus campos dourados e seus deuses. Ah. Naquele dia e no seguinte. de que havi a alguma coisa profunda e terrivelmente errada. jamais fora capaz de se abrir. com aquele médico frio de cademo de notas na mão.respondeu secamente. placidamente sentada em meio às nuvens d e vapor. a antecipa ferindo-se selvagemente. Embora Déborah já não estivesse em sua companhia. imensas extensões de terras nuas.Um especialista! zombou Anterrabae. No vácuo do Mundo Intermediário onde se achava. entre Yr e o Agora. Aparentemente. Lutava contra essa iminência como uma criança que. . Era óbvio que ele não ouvia a algazarra. prestes a desaparecer em mei o à algazarra. Começou por respo nder a verdade às primeiras perguntas do médico. tal como no mundo. num tom sardônico. ardendo em chamas. 12 Levaram Déborah para um quartinho modesto. tan ta dor e tanta cegueira em Yr. a possibilidade de dizerem aquil o que realmente queriam dizer se mostrava menor do que antes. pareceu-lhe insatisfeito. Dentro dela cresceu um pouco a algazarra. e sim uma pessoa com um nome ap ropriado para uma habitante das planícies de Yr . que vinha se arrastando há tanto tempo. Para Jacob e Esther Blau a volta para casa não foi mais fácil do que a ida ao hospit al. Não havia nada no auarto que pudesse distrair sua atenção. os clamores. Déborah estava profundamente agradecida aos Poderes que lhe haviam concedido taman ha misericórdia. O médico que as fazia. não fora a tentativa infantil de suicídio que dera início àquele ciclo interminável de médicos e decisões. ondulavam levemente na qu eda interminável. voltou para o quarto. caindo. Acabara de deixar a filha mais velha naquele lugar sombrio.cantava. que não teve como se libertar dela. louvando a brisa acariciante que varria a imensa ravina. perguntava e agia. A xícara. não parou de observá-la enquanto tomava banho. no entanto. dera c . a vontade que tinha era de dizer a ele que se sen tia de certa forma aliviada com aquele incidente. Déborah já não sabia mais para qual dos reinos de Yr havia passagem.E seus cabelos.Deixa eu ir com você . tomand o-a igualmente distante de seus dois mundos. extrav asar sua raiva. 13 . Era natural que nenhum dos seus o procurasse para confidencias. onde ficou até que se desocupassem os chu veiros. Mas a raiva vinha de tal modo imbuída de compaixão. ou então com Yr. O Deus Cadente. e se afastara dele recusando o beijo. A suspeita. precisava agora explodir com alguém. o Coletor começava a dar sinais de vida.não mais Déborah. . encolhendo-se todas as vezes em que procur ou tocá-la. Já acomodada à nova rotina . Déborah vagueou pelas planícies de Yr. eles a estariam maldizendo e insultando. Ergueu os olhos para aquele que estava sentado ali. mas Yr também possuía regiões de terror e desespero. de modo a esconder as duas cicatrizes em seu pulso. Agora. Os médi cos que a ajudassem.ela implorou. de medo e de amo r. onde os olhos se perdiam no espaço infinito. cheio de trancas e grades. E seu enorme desgosto não fez senão despertar s ua velha e caprichosa úlcera.

Fried ergueu-se da cadeira e foi até a janela de onde se descortinavam os p avilhões do hospital. diriam alguma coi sa sobre anemia ou fraqueza e um sanatório especial para convalescença. A senhora chegou bem a tempo de presenciar o chá tranqüilizante da paciente e o fim do mundo. na época em que do outro lado dos muros estava Hitler: qual dos lados era o mais são? Tilda. Jacob e Esthe r teriam que amenizar um pouco a descrição do lugar omitindo especialmente o grito l ancinante vindo de uma das janelas gradeadas. 2 Entrevista (inicial): De início. INICIAL: ESQUIZOFRENIA 1 Testes: Os testes evidenciam um quociente de inteligência (140-150) elevad o. DÉBORAH F. se para Deus eram importantes as individualidades. m esmo antes disso. Àquelas três páginas datilografadas c ontrapunham-se as conferências que não poderia dar. sabendo-se que qualquer progresso r eal poderia exigir anos. de maneira excessivamente subjetiva. a lógica começou a ruir. e que. Em três ocasiões diferentes. 16 anos. Qua nto a Suzy. por que não para ela? Sentou-se. utilizando-a como uma formidável defesa. mas com o desenrolar da entrevista. Reação inteiramente subjetiva à entr evista e aos testes. depois da doença do paciente. os seus momentos de extraordinária lucidez. Puseram-se então a construir a história que contariam aos amigos e aos parentes mais afastados. alimentada pelas veias. el a passou a demonstrar extrema ansiedade diante de tudo o que pudesse ser interpr etado como correção ou crítica. geralmente manifestavam sua carência com uma paixão intensa. entre por 15 favor querida Doutôra. atada à cama. . A própria doen te facultava-lhe analisar a sanidade como poucos "sãos" seriam capazes de fazer. Embora eles soubessem das recomendações do psiquiatra. a paciente parecia bem orientada e lógica n os seus pensamentos. com componentes compulsivos e masoquistas. e as supervisões que seria forçada a recusar caso decidisse aceitar a nova paciente. erguera para ela os olhos e c om um sorriso que procurava ser gentil. Le mbrava-se bem de uma vez em que Tilda. e começou a ler o relatório. Tilda e Hitler não existiam mais. que no mês anterior tantas vezes escutara a palavra "doente". Gostava muito de trabalhar diretamente com doentes. Hosp. Olhou o relatório que tinha nas mãos.: nenhum. um pequeno jardim e logo adiante o pátio onde os intemos costu mavam passear. falariam qualquer coisa a respeito de uma escola. Voltou-se para ele. ou àqueles cujos preconceitos impediriam de aceitar a simples idéia de u m hospital psi14 quiátrico na família. Agora. I mpossibilitados de amar. BLAU. No dia segu inte. percebendo que se deixava levar pela vai dade.Poderemos visitá-la dentro de um mês ou dois. tratava-se apenas de uma clín ica de repouso. enquanto dezenas de milhares de pessoas chamam. Gostaria agora de mostrar a Jacob todas as coisa s que ele desconhecia. intemada num hospital psiquiátrico na Alemanha. Ora. sempre amarrada às camas. Dl AG. A Dra. vício que denunciara numa de suas aulas como o pior inimigo do médico. os escritos que seria obrigada a negligenciar. para tranqüilizá-los. de conviver e de se comunicar.onsistência a todas as suas impressões nebulosas e a seus temores vagos. vinha se mostrando inteiramente desnorteada. e que os fizera estremecer da cabeça aos pés. freqüentemente su bmetida à força. Os testes de personalidade revelam comportamento tipicament e esquizofrênico. dissera: .lembrou-se com pesar . apesar de tudo. riu . Esther não pôde mais sufo car as dúvidas que a assaltavam. escreve m e telefonam implorando ajuda? Sorriu. Seria justo i niciar o tratamento individual de pacientes.em que o mundo parece ser mil vezes mais doen te do que aqueles que esse mesmo mundo intema em suas instituições. como Débora h Naquele Lugar. disse. pura e fascinante. O grito ficaria trancafiado em seu coração. Várias questões mal in terpretadas. levaram a menina ao médico.. havia muit o a ensinar aos médicos que saíam das escolas com uma vivência limitada. Prev. Recordou-se de T ilda. que estava tudo bem. Há momentos . A estes. mas tinha certeza de que não poderia fazer isso sem magoá-lo. tinha. Fez o que pôde para impressionar o entrevistador com sua perspicácia.Oh. abriu a pasta. com suas crises de fúria destruidora. A papai e ma mãe. Ao escutar aquilo. que haviam escutado quando saíam. a fisionomia contraída: . embora ocorram distorções nas amostragens resultantes da doença. vendo-o dirigir com os olhos fixos na estrada. diriam.

o que foi que você escreveu no papel? O que sig nifica essa palavra. mas. a guerra forçou-os a mudar para a cidade. a p aciente tentou suicídio. S ubitamente. 1932. vai me ajudar? Consideramos recomendável encerrar a entrev ista. .Déborah esteve em paz.retrucou a Dra. nascida em 1937. que Déborah não resistiu peto de anotar. tudo estava envolto em tonalidades cinzas.murmurou. Susan. Mas no fundo. no cabeçalho da folha de aula. A profess ora. Sobreveio uma sensação tão maravilhosa e onisciente de transição. nem se incluíam em qualquer padrão. Os incidentes não tinham relação entre si. perguntou: . . dizendo em tom acusador: . a comentar com o psicólogo do hospital: . Dificuldades finan ceiras obrigaram a família a se mudar para a casa dos avós. de repente. O primeiro incident e na escola ocorreu exatamente quando. deixou escapar esse nome. e agora. ela não sab eria dizer . A paciente não se ambientou bem. Uma irmã. cuja f amília emigrou da Polônia em 1913. a paciente sofreu duas operações para extirpar um tumor no aparelho urinário. Ah. Jacob Blau. Há antecedentes de hipocondria na família. as duas outras. Illinois. por ocasião de perguntas relativas à data do mês. nos subúrbios de Chicago. Aos cinco anos de idade. Voltou a se concentrar nos fatos e nos números. contudo. 17 Durante um bom tempo . cujos efeitos foram traumáticos.Discordo . é nossa única aliada.cada uma voltada para cada mundo. As coisas se tomaram planas. O mundo lhe exigia pouco. por um deslize.Aber wenn wir. a saúde tem sido boa. etc. Januce? E ficou ali. Déborah sentia renascer dentro de si como que os terrores de algum pesadelo remoto . Amamentada até o oitavo mês. inclusive.Essa força que se mantém oculta é um segredo pro fundo demais. como se a ruptura existente entre ambos não fosse mais do que uma névoa muito tênue. as palavras JANUCE AGORA. no fundo. A doutôra virou a página e examinou por alto as diversas avaliações estatísticas de fatore s de personalidade e os resultados dos testes. Fried. parada junto à carteira. . Estava vivendo naquele dia conforme o Calendário Secreto (em Yr não se media o temp o da mesma forma que no mundo) quando. a partir de Yr. forçando-se a evitar a lín gua matema . Puberdade fisicamente normal. do ametil e do pentotal. . . enfim. o que reforçava sua co nvicção de que a causa de tantas agonias no reino de Yr se originavam de pressões exte riores.Nasceu em Chicago. Em 1942. conseguia ficar em contacto com a "realidade". contador. Déborah seria sua paciente mais jov em. c itando episódios casuais de sua vida que considerava responsáveis por sua doença. Outubro. E como seria o trabalho: mais fácil ou mais difícil? O que d ecidiu a questão foi. As palavras inscritas no papel . se conseguirmos. .exatamente quanto.Algum dia precisamos descobrir um teste que também nos mostre onde está a saúde. uma babá cr uel. O lhou ao redor e descobriu que só era capaz de perceber os objetos em seus contorno s. O psicólogo respondeu que poderiam saber isso por meio do hipnotismo. sem qualquer dimensão de profundidad e. . Parto normal. . sua atitude foi mudando. Um relatório semelhante levara-a. Aos 16 anos. a paciente avançou. 3 História familiar .quantos belos anos de vida ainda pela frente. porque se sentia co mo a Juno das duas faces . e o ambiente luminoso e saudável da sala de aula se desvanesceu completamente. . mas o pai adoeceu: úlcera e hipertensão. Abstraindo as considerações relativas à individualidade da pessoa em questão. À me dida que prosseguia a entrevista. passava a se chamar Januce. exceto o tumo r. vendo-as. a idade da menina: graças a isso o relatório acabou preva lecendo sobre os compromissos com reuniões e os artigos por escrever. tendo sido ridicularizada pelos colegas de escola.inoportunamente: a primeira. como num quadro. ce rta vez. Nesses momentos.Déborah. talvez fosse interessante descobrir se uma menina com tão pouca experiência de vida poderi a lucrar com a terapia. aguardando a re sposta. quando declarou que a hospitalização resultará de uma ten tativa de suicídio. em meio à narrativa de um acon16 tecimento. Algumas vezes.Eu disse a verdade sobre essas coisas. Começou a falar alto. Menc ionou uma operação aos cinco anos de idade. A situação melhorou. . Pai. retcomou ao Calendário Pesado. segundo os critérios da Terra.

Blau. O médico permitiu que Déborah passeasse sem restrições no pátio. Perigos desse gênero deveriam ser.como.Não sei . eles vão aliviar um pouco a barra. embora sem dispensar o s modos impacientes e ásperos.perguntou Déborah. mas não ra do hospital.Pois é. Déborah teria que responder agora pelos dois mundos.foi a resposta. em pl ena transição.A doutôra quer vê-la. Ressoaram ao mesmo tempo um grunhido de Lactamaeon. um sinal eventualmente escrito. o deus Negro.e decidiram erguer sobre seus reinos um Censor que se interpusesse entre as palavras e as ações de Déborah e assim protegesse o segredo da existência de Yr. por exemplo.Não se preocupe! Logo você receberá mais privilégios. observando div ertida a expressão de surpresa da moça e o esforço que fazia para reprimir o olhar de . evitados a todo custo. e com tamanha severida de que.Vamos. os olhos fixos no teto. eu tenho cem metros quadrados de sanidade! Se havia unidade de medidas. para sempre poderiam destruir Déborah e seus dois mundos. um raio de luz que pen etrasse na região oculta.respondeu Déborah. Aprendeu a fabricar cestos. jantar na co mpanhia dos outros. e soube que se tra tava do "administrador da ala". Para sempre. tais como homens-hora. porém. E.Não sei! . Sabia que nenhuma de suas companheiras de trabalho gostavam dela. . menina preguiçosa! Mais tarde. com o correr dos anos. ambas pensaram nas mulheres lá do final da ala: todas tinham mais de dois a nos de hospital. jamais gostaram dela. Na quela mesma noite. que se chamava Ca rla: . curiosamente.simbolizavam a passagem do tempo de Yr para o da Terra. e por último. colega s de escola. menina maluca! Para sempre. aliás.Não estou aqui há tanto tempo assim. anos-luz. a quem cabia conceder os "privilégios" . aceitando todas as instruções. veja só. Déborah comentaria depois com a tal grandalhona. Só que responder imp licava em descortinar o horror em toda a sua plenitude . vou pôr os sapatos! .Ora. Resolveram perguntar a uma enfermeira. sair do quarto pela manhã. algumas vezes.Venha comigo . o coração sufocando de m edo. a vida do hospital prosseguia normalmente. Ainda voltou a ver algumas vezes o médico do cademinho. por que não sanidademetro? Carla consolou-a: . uma das enfermeiras estagiárias se aproximou de Déborah. que denunciava sua inexperiência. O que eu não sei é quant o tempo vou ficar aqui. As pessoas. ficam boas e então saem? .etapas anál ogas às do mundo normal . Déborah suspirou e se levantou ob ediente. até que. que estava deit ada. é hora de se levantar . passear no pátio. Por isso. e a risada zom beteira do Coletor: a síntese de todas as imagens de professoras. por isso devemos nos apressar. Fazia parte de um novo grupo de estagiários cumprindo um período de treinamento psiquiátrico no hospital. já que ela é tão boa assim. os personagens do Grande Coletor afluíram em massa ao Mundo Int ermediário . Um nome sigilos o segredado por descuido.disse ela. aliviada por saber que também o mundo tinha esconderijos a oferece r. Ela é uma das chefes aqui. a partir de então.deuses e demônios vindos 18 de Yr e sombras da Terra . Surpreendida.Quer dizer. mentira e dissimulara. sair do próprio hospital e ir sozi nha a um cinema ou fazer compras. etemamente reunidos em segredo para julgá-la e atormentá-la para sempre . parentes. . Srta. e o choque repercutiu até o fundo de Yr.um horror do qual não ter ia acordado racionalmente. uma médica muito famosa. .As pessoas saem algum dia daqui? . . Se você se esforç r bastante com o seu médico. imediata19 mente. recent emente. Déborah trabalhava na oficina de artesanato.respondeu Carla. terminou por impor sua presença em ambos os mundos. . . parecia se exprimir em te rmos de distância. . Certa vez. Na Terra. pensando consigo mesma: Ela deve ficar atônita com a densidade de loucura com que sou capaz de impregnar esse quarto. Já se passaram três meses. .disse a estudante. com uma voz vacilante e assustada. o poder do Censor cresceu assustadoramente. nenhuma palavra e nenhuma ação lhe escapavam. uma menina gran dalhona de sua ala veio convidá-la para jogar tênis. Cada uma dessas etapas constituía um privilégio e possuía uma certa conotação de recompensa que.

dissera aquilo que realmente sentia. .disse a enfermeira. azar. Se essas coisas eram verdad eiras. por incrível que pareça. o Censor começou a dar sinais de alarma: Onde está a médica? Será que ela está espiando a gente por trás de alguma porta? A govemanta acenou com a cabeça em direção a um quarto. Scomos da Seção de Admissões. grosseira e cr uel. Sou a Dra.Tenho ordem para esperar. que fossem! Deixaria o consultório tendo pelo menos confessado seu ca nsaço e seu desgosto desse mundo sombrio e angustiante. 21 Déborah sentou-se. porém. você elimina m eus "sintomas" e me manda para casa.Se você realmente não quisesse se livra r desses sintomas. para Yr. haverá outras coisas para tomar o lugar dos sintomas.Poderia vir buscá-la dentro de uma hora? . querendo anular a justaposição atordoante de p aredes e portas.Onde está a doutôra? . . egocêntrica. . Frie d.Vamos! A enfermeira destrancou a porta da ala e. Depois de algum tempo.Você devia ficar agradecida .. dores imaginárias que causam verdadeiros tormentos.Há alguma coisa que você queira me dizer? . depois há uma enorme lista de defeitos: preguiçosa. O Censor preveniu-a: Ouça. ergueu-se de um salto e exclamou (para ela. . . cabelos grisalhos. como ódio. a 20 que dava para as escadas. não me teria dito isso. . lapsos inverídicos de audição. .Aqui está ela . E quan do isso acontecer. Fique à vontade. feia. . há mesinhas demais por aqui.Está bem. uma mulherziriha baixa e gorducha. geniosa.. . ferimentos inventados na pema. mas de qualquer forma já temos um trabalho definido pela frente.Déborah. carinhosa. As mesas não têm como se defender da sua falta de jeito.respondeu a mulher. Pássaroum. Vamos.. Essa última categoria inclui vários itens: (a) falsa perd a de visão. medo ou prazer.ironizou Déborah. (b) falta de esportividade. co nvidou-a: . . Quand o. . e s aíram pelos fundos do prédio. muito cuidado. ..Tome cuidado. Ah. tonteiras fingidas.Para abafar minhas queixas. . Dirigiram-se à porta da frente e tocaram a campainha. encantadora e feliz pelas mentiras q ue eu prego. sente-se.Pensei que você soubesse. Anterrabae soltou uma sonora gargalhada. cabeçuda.perguntou a doutôra.Você sabe por que está aqui? . é uma lista e tanto. . gorda. em seguida. num í peto de cólera. creio. e depois o que é que eu terei? com voz suave e pausada a doutôra respondeu: .Bem. veio abrir. Você não terá que se livrar de nada enquanto não estiver pronta.disse a estagiária.Sou eu a doutôra . e outras doenças que não exi stem.Conhecida e amada por loucos do mundo inteiro! . voltando-se..Ajudá-la a ficar boa.perguntou Déborah.Déborah sentiu apertar o laço do medo. Desceram para o andar inferior. para o Coleto r e para o Censor): . possivelmente pel a primeira vez. Seguiu-se um longo silêncio. . A Govemanta-Famosa-Médica levou Déborah para um quarto ensolarado e. . . e mentirosa também. Erguia-se. que estava aberto.Já é muita sorte ser recebida por ela. Acompanhando com os olhos as partículas de pó que flutuav am nos feixes de sol projetados da janela. má. Mal Déborah entrou na casa.Invadiu-a uma sensação de total exaustão. Mencionei antipatia?. a doutôra perguntou: . caindo. Antipatia também. bem no meio do hospital.uma dessas casas branquinhas que se vê em cidades menores à beira de uma rua sombreada por carvalhos.Sente-se.desaprovação. Você faz as perguntas e eu respondo. mergulhando em suas próprias trev as: . Ela devia ter recebido instruções para ocultar todo e qualquer sentimento mais intenso.Que disfarce! E o Censor resmungou: . A enfermeira apontou para uma casa toda caiada. com ve nezianas verdes . .Está bem. Desastrada em primeiro lugar. . éeborah percebeu que. . não existem.Porque sou desastrada.Fazer com que eu vire simpática. . A doutôra contentou-se em dizer: . Algumas dessas coisas.

O laço apertou mais ainda.Em que é que você está pensando? Vejo que seu rosto se descontraiu um pouco .Estou pensando na diferença que há entre a má conduta e a felonia. Sim. pulsa uma força oculta. . . sorrindo. mas com um pouco mais do que simples malícia . Ao sair do consultório. . emanava das palavras da doutôra uma espécie de luz que se projetava sobre vários outro s recintos do passado: sua casa. Déborah recusou-se. a manifestar abertamente seu consentimento. basta apenas que. Déborah tremia de medo e começava a ver tudo cinza de novo. de modo a pa recer outra pessoa. . recusando a sentença de que não é portador de nenh um mal grave. A Dra. era isso. nesse caso.Pelo contrário.. as crises de terror e as repentinas ausências de memória.Por acaso você quer saber se acho que seu lugar é aqui. Uma imagem instantânea passou pela cabeça de Déborah: visualizou seus pais . pensou consigo mesma: Em alguma parte de toda essa precocidad e e amargura.Algum dia. procurou controlar todos os seus gestos. observando as duas retomarem ao prédio do hospital. mas deix ou que o rosto expressasse um cauteloso "sim".algo profundo e grave. talvez .Loucura nem totalmente espontânea.avisou a doutÔra à enfermeira e à paciente. Sim. que ia e vinha na sala ao lado. mas com um esforço decidido de sua parte e com a ajuda séria de um médico. Eles. e se o que você tem é o que se costuma chamar de uma doença mental? A resposta.Para acabar com elas. cujos limites ainda não sou capaz de determ inar. durante an os e anos.Como assim? . podemos combinar outra hora e começar nossas conversas. Fried. essa força existia e se manifestava.Caronte fala grego. afetando a maior indiferença possível em relação ao lugar e a quem e stava ali. 23 venceremos tudo isso. mas logo seu rosto se tcomou grave. e agora aceita o veredito de culpado por loucura em primeiro grau. . .interv eio a doutôra. . Premeditada realmente não.Como todos os outros aqui? .corrigiu a doutôra. porque acredito que se você e eu trabalharmos juntas para valer .Ela não pode entendê-la . das negras regiões do terror. Verdade nua e crua. Gostaria de repetir que não pretendo destruir sintomas nem d oença alguma contra a sua vontade. por medo. espero poder ajudar você a ver o mundo como algo diferente de um inferno Estígio. Nesse sentido v ocê 22 está mesmo doente. a escola e todos os consultórios faziam repercuti r a mesma acusação bem-humorada: Não Há Nada De Errado com Você. atravessando o espírit o para trancafiá-la de volta na ala. a manqueira temporária. .disse Déborah. Caronte. acho que você pode melhorar.Você está dizendo a mesma coisa que todo mundo diz: queixas falsas de doenças falsa s. E. Fried riu. como se qu isesse preveni-las de que o tempo havia expirado.postados do outro lado da maciça porta d o consultório. nem totalmente premeditada.ao mesmo tempo bem individualizados e bem unidos .Se você estiver de acordo. A Dra. vivi am insistindo: não há nada de errado com você. A doutôra propôs então: .Era o mais perto que ousava chegar. . . . Déborah soube que havia algo de errado sim .Amanhã. as dores lancinantes. . . no entanto. é sim. em alguma parte da doença. perto demais até. parece que eu disse que você está muito doente. Ape sar do horror que essa inefável noção despertava. imediatamente compreendido pela méd ica. à mesma hora . Déborah foi despertada pela enfermeira. .Em segundo grau. Prova disso é que luzira na expressão de alívio que sobreveio ao ser admitida a existência da doença. mai s sério ainda do que as perdas momentâneas de visão. . porém.O prisioneiro se declara culpado. de touca branca e uniforme listrado. Justificava-se en fim toda a revolta que sempre sentira naqueles consultórios. . Foram-se então. quando forem produtos de uma revolta de seus sentimentos . agora irremediavelmente localizada. "louca".

Quanto ao velho. interpretando os comentários s ob os mais diversos ângulos. contra a relutância de Jacob e do velho. Quantas vezes deve t er jurado poupar os filhos de tais privações! Acariciou-lhe o braço. Quando. se deixava le var pelo que os sentimentos diziam. tentando se consolar e s e convencer de que o intemamento fora de fato necessário. carne da minha carne. a umidade. perguntou abruptamente a Jacob: . enfim.O que é que eles vão fazer? Admitir que foi um engano? O mundo está c . . o irmão mais velho. era a menina dos seus olhos. de uma inteligência arguta e brilhante. terríveis. . No dia seguinte. no entanto. que não fora senão um mudo grito de s ocorro. franca e dramática. tinha que concordar: a realidade era inexorável. eles ficaram decepcionados e furiosos. iniciara a terapia e já passeava pelos pátios. Só quando Claude. afinal. desde que chegara àquele desenlace. relatando em termos bas tante vagos as atividades de Déborah. de que se acabara o jogo e caíra a máscara. Déborah. mergulhavam tão profundamente quanto. inseguro do que ele e Esther haviam feito . Suas raízes. O velho contentou-se em resmungar: . por pouco tempo que fosse. pergunta ndo quando poderiam visitar a filha e ver a médica. indignado. Agora. Debaixo mesmo do vulcão. informou os pais. invariavelmente terminavam num mudo clima de rancor e acusação.s argumentos diante de sua imagem no espelho. sujeitando-as a constantes reavaliações críticas . gesto característico dos adolescentes e dos doentes que insistem em lutar. lendo e relendo cada palavra. Jacob.fizeram ver ao velho e à velha que a medida era realmente neces sária.E eu sei? . se dessa vez eu pudesse fazê-la germinar! . todas as agruras da vida de um estrangeiro. 24 Suzy Blau aceitou bem a história da escola para convalescentes.suspirou a doutôra. Jacob ouvia. seu orgulho ferido de imigrante. o núcleo branco de um vulcão camuflado pelas florestas de suas encosta s. O ressentimento com a hospitalização de Déborah mascarava. dem os conforto. por exemplo. os miolos pularam uma geração e foram cair nela. reanimado. Ele se virou e perguntou desalentado: . na realidade. a fome. ah. Certa noite. por sua vez. Esther empenhou-se em extrair toda s as migalhas de esperança incrustadas no tom reservado da carta. Agora dizem que não. procurando apresentar o hospital como uma simples clíni ca de repouso. a doença mental estava exposta. até descobrir qual o aspecto mais favorável. todo o seu mundo vibrava de apreensão. mas foi inútil. suplicando que apoiassem sua deci são.O que pode haver mais. passou a esperar ansiosamente a resposta. . Não há nada de errado com os miolos dela! A menina tem uma inteligência excepcional . antes de cada batalha verbal. Era um homem de temperamento dominador e enérgic o. porém.Dessa vez. que cometernos? . estava sepultada a preciosa semente de força e determinação. Diante de perguntas obje tivas. embora sua linguagem continuasse tão ríspida quanto antes.Qual é nossa responsabilidade em tudo isso? Quais os erros.E retirou-se da sala.E se soubesse. Esther notava que ele começava a amolecer . Parecia-lhe. . uma vida muito boa a que ela tinha. Nos dias seguintes.respondeu ele. Ela nunca sofreu ameaça de frio ou de fome. num gesto proteto r. teria cometido erros? Parecia uma vida boa. Esther? O que pode haver mais? Ela não soube o que responder. e a outra irmã.Luzira especialmente na "tentativa de suicídio". destacando qualquer evidência positiva. que sempre escamoteavam a qu estão crucial. ensaiando. em determi nados momentos. Jacob. transtoma ra o ritmo e o sentido de suas vidas. Lister. escreveu para o hospital. ele se acalmou um pouco. As discussões entre ele e Esther. 25 Ao mesmo tempo. No final do primeiro mês. Demos amor. o. Foram duas vezes consultar o Dr. Esther voltou a procurá-los. enveredando pelo vocabulário de sua língua natal. Natalie . permanecia calado. "Ajustara-se bem" à rotina e à equipe do hospita l. Esther lembrou-se que Jacob também fora um imigrante. lutava numa outra frente. tinha a impressão de que no íntimo ele sabia que a decisão era necessária. O problema é que nessa família. Para o diabo vocês todos! . porém. e na declaração. receberam uma carta do hospital.protestou o avô (este era o seu maior elogio). Ela é igu al a mim. Quando Esther.os fa voritos da família . que a doença de Déborah. Conhecera o frio.

Você quer que eles venham? .Então talvez seja verdade que ela estava. .Bobagem! . Esther percebeu que certas coisas que tinha dito se refletiam nele e em sua relação com ele.Não posso vê-la de verdade nem ouvi-la de verdade . .Os médicos têm um código de ética a cumprir. e o portão. pensa tivo.Que bobinhos! Será que nós fcomos tão bobos assim? Você viu aquele gurizinho de boné? . andara na ponta dos pés. retroceder até que tudo estivesse apagado e esquecido.gritou Jacob. cada vez mais perto do silêncio. . .Ah. a separa va da doutôra.heio de imbecis. Nem bem a médica mencionara seus pais e a visita. infeliz. Agora. tanto antes de se casarem como depois. convidou todos para jantar. Há séculos não me divertia tanto! . até a partida de Déborah. contagiada pela algazarra. . . houve momentos de calma. Suzy trouxe para casa um grupo de colegas de escola. Déborah estava sen tada do outro lado do sólido portão levadiço do século XII que. quando ela deveria ter mudado seus vínculos de dedicação e não o fizera. retirando-se furioso da sala. um milagre qua lquer. eram questões já mortas. Suzy brilhou aquela noite. Entraram aos tro péis. Por que você não experimenta abri-la? . Faltava-lhe agora a coragem de magoá-lo.Ora.. invisível. . notara os efei tos. costuma haver uma portinhola neles. assustado com algo que ninguém ousava mencionar. Suzy.. esses seus construtores de portões não são lá muito esp ertos. Certo dia.O que há? .perguntou a doutôra que.disse Déborah. e então todos ririam juntos das peças que a vida prega na gente . Alguns minutos depois r epetiu: . perguntar a eles. Por que esse lugar seria imune à imbecilidade? .Infeliz! . man useava-os e utilizava-os para seus próprios fins. até mesm o de felicidade. .A portinhola está trancada também. Se acharem que se trata de um engano. Fried. num clima de expectativa e sobre ssalto. comento u: . Os conflitos decisivos pertenciam ao passado. por melhores que fossem nossas intenções. que vinha do outro lado do muro metálico ia se apagando aos poucos.Você está do outro lado do portão. rindo e brincando. mesmo sem escutar os rangidos. foram dignas! ele afirmou com convicção inabalável. Déborah ouviu bruscam ente o ranger metálico das correntes. . Jacob comentou bem h umorado: . acabou reconhecendo que. não adiantar ia nada. como saber o que tinham representado para ela? No correr dos primeiros meses. por muito temp o.Seus pais escreveram pedindo uma visita . . A doutôra fitou o cinzeiro. Há razões para muitas delas que. ma s não podia permitir que continuasse se iludindo a respeito da visita ao hospital. . após o intemamento. que fizesse com que todas 26 as portas do hospital se escancarassem. num tom que jamais ousara empregar com o sogr o. e Esther. ocasionalmente. nos deixarão trazê-la de volta imediatamente.Nossas vidas foram simples. não teriam s ido diferentes.Puxa! Será que foi mesmo há tanto tempo? Anos? . interpôs-se entre as duas.. e há coisas que talvez Déborah desconheça e que nos levaram a fazer o que fizemo s.Calou-se. depois que ficou sozinha em casa. .Eu gostaria de dizer aos médicos. A barreira entre elas tornava-se cada vez mais indevassável. foram boas.disse ela.Doente .. como ri essa noite. nossas vidas mudara m.Soltou uma gargalhada e dando-se conta de como estava contente. Jacob.retrocede r. . Sabe. exceto Déborah.disse a Dra. Constróem as barreiras com portas laterais e depois não conseguem abri-las.disse Jacob irritado. Para todos. e o filme de suas existências voltasse um ano atrás. Déborah ficava aborrecida quando a doutôra se apoderava de fatos que eram só seus.Foi há muito tempo. o seu portão medieval de novo. por mais que negasse. com sotaque peculiar.Meu Deus. começou a definir sua per sonalidade. Esther compreendeu que ele ainda esperava uma mudança de diagnóstico. De qualquer modo. Depois que foram embora.Apenas infeliz! . 27 . A voz suave.emendou Esther. . Bem. Sentiu pena de Jacob.Sim . A s últimas palavras foram! .

berravam.sabi a muito bem . que o amor e a compai. Eu posso dirigir sozinha ou tomar um trem. Agora. mas a finalidade e a forma daquel es objetos careciam de sentido. A queda. Ouviam-se sons humanos e também estes vinham desprovi dos de sentido. embora fosse incapaz de expressálo. temendo comprometer sua autoridade. antes mesmo que esse sentido voltasse a vi gorar. . ela emergira do Poço e encontrara a p rofessora apontando uma palavra no seu livro e perguntando . significado ou mesmo luz não tinham a menor importância. Durante muito tempo. que rasgava a escuridão com seu fogo. Certa vez (aconteceu na escola também). Pres28 sentia. Esther procurou fazê-lo entender. Quem sabe não decidiria acabar com aquela "prisão"? Além disso. sua própria língua. que distorcido. . demarcando faixas nítidas e regulares diante de seus olhos.Aqui diz que Déborah quer que eu vá. vamos até lá ficar um pouco com ela e então vocês duas podem ter uma longa conver sa se quiserem.Vamos.É. freqüentemente. . permanecia muda. Esther Blau abriu anciosamente a carta à medida que lia. Déborah tinha consciência de tudo isso. irreconhecível. saber o sentido das coisas se tom ava irrelevante. ao readquirir a vontade e a capacidade de responder aos estímulos do ambiente.Bem. Fried. mas importante em quê? Durante muitos anos. numa de suas quedas no Poço. Déborah se queimara toda com água fervendo. Estava ao lado do fogão. o mundo todo esvaiu-se. no consultório da Dra. mas que ela ped iu à doutôra que eu vá sozinha dessa vez. por enquanto. Sabia também que não conseguiria defender essa certeza. só que se fôssemos os dois seria demais por enquanto. viu a chaleira em ebulição. foi longa."não verá o Sr. evitando os termos em que vinha redigida a carta .Que palavra é essa? E la lutou desesperadamente para tomar inteligível aquele amontoado di29 fuso de curvas negras destacadas no branco da folha. deixou Déborah muda como estava e desapare ceu na neblina cinzenta. mas a lógica que havia por trás d la.. ãò dele seriam perig osos naquele momento. Ali. coisas como lin guagem. O Poço surgia horrendo justamente no momento em que emergia dele. Déborah continuava imersa nas profundezas do Poço . O resultad o foi que acabou perdendo a confiança em seus próprios desejos." . Foi necessário reunir t odas as suas forças para lembrar o suficiente de inglês e perguntar . O próprio mundo se introduzia ali. as coisas se revestiram de tonalidades cinzent as. Ela foi incapaz de extrair o menor fragmento de realidade daquela confusão de linhas e de pontos na superfície branca. Estava se fazendo de sonsa então? . dessa vez. ao sentir necessida de de recuperar o sentido das coisas. Essa sensação era verbalizada. sem a qual jamais conseguiria convencer o mundo. só que de um mo do inteiramente ininteligível. Pouco a pouco.mas ele não. Ocorria-lhe. Jacob. ficou mergulhada numa escuridão absoluta. que dissera algo de certo mo do importante. foi assim: as palavras que dizia pareciam não corresponder a uma ordem de seu cérebro. O lugar lhe parece u familiar: era o Poço. Por isso mesmo. medo no Poço. pass ou a defendê-los mais cegamente ainda. Ficou surpresa consigo mesma. com toda a cautela. Sabia que o hospital estava sendo bom para ela. Diante de sua nudez e da eloqüência das trancas e grades. a s mulheres da Seção das Perturbadas viviam gritando e uivando Uma delas poderia ento mar o caldo. junto com Anterrabae. só. Começou a despencar para Yr. Não quero a visita dele. porque ali o medo perdia o sentido. que palavra é essa? Nada. O amor do pai era a arma que Déborah possuía contra ele. O que sentia no momento era em parte . os deuses e o Coletor gemiam. Os horrores da volta à tona ainda não tinham começado. Nessas ocasiões. às vezes. Há tempos atrás.Procurou assim tomar as coisas mais fáceis p ara Jacob. O presente esvaiu-se. . Inexistia. Inútil. nem justificar por que se sentia tão bem lá. Reparou nos lábios da doutôra que se moviam e imaginou-os cuspindo perguntas e acusações .Quero que mamãe venha . Sabia que falava sério. uma determinada sensação. por exemplo. Chegava até a esquecer. A profes sora ficou furiosa. Blau. sua expressão facial ia pas sando da perplexidade à indignação.O quê?. Jacob poderia se deixar vencer pelo horror e pela tristeza que ela mesma percebera nele quando a trouxe ram para o hospital. ainda que fosse difícil expressar.disse Déborah .o contentamento por dispor do poder de gratificar e punir. Alguém riu no fundo da sala e a professo ra.

É aqui.'Eles recebem uns relatórios todos os meses..Está bem! Está bem! O ressentimento acabou por vencer a indignação. Não podia impedir que Jacob fizesse is so por ela. Fried recebeu Esther Blau na sala clara e desarrumada de seu consultório. Fried viu que se tratava de uma mulher inteligente. . É que se o próximo for ruim. consciente ou inconsciente. . Como devem ter lutado ao longo dos anos aquelas duas persona lidades resolutas. Na sua fisionomia. mãe e filha! Sentaram-se nas confortáveis poltronas do consultório. grades. para conservar o ar despreocupado. isso pouco importa. a senhora não imagina como eu a amo.Ela vai ficar boa? Ah. eles não ficarão mu to dispostos a receber gente aqui. Minha irmã Debbie está muito doente. sem dúvida. . desejando que a viagem aliviasse sua dor por ter sido r ejeitado tão inequivocamente.Ela capitulava de novo. Sua indignação voltou-se de início muito mais contra a esposa. ainda poderá me ver.Por favor. que transparecia em seu sor riso um tanto duro. não se trata disso... A doutôra sentia-se um pouco co nstrangida diante das jóias magníficas e da elegância de Esther. Eu a lev o de carro até lá e espero nos fundos. . Há alguma coisa sobre ela que a pr .Mas você não pode ir sozinha. Jacob. que realçavam ainda mai s seu próprio desalinho.Não seja tola . Não. por ela ter tentado encobrir a verdade e poupá-lo. .freqüentemente com sinceridade . Demonstrava também ser dona de um temperamento enérgico. . C onsiderava essencial descobrir se a mãe de Déborah seria uma aliada ou uma adversária do tratamento. sem deixar de gozar suas dádivas. Começou a estudá-la mais detidamente.Mas eu não sei.. Era. é aqui que Déborah vem? .Ela vai precisar mobilizar uma quantida de extraordinária de energia para resistir aos impulsos que a compelem a se defend er em segurança. A filha não.Claro! . do que propria mente contra os termos da carta. Não..É ag radável! Não há.No momento. súbita. . . cuidadosamente estudada. todos teremos que ser muito pacientes e trabalhar como nunca.. . O amor terá 32 que enfrentar uma duríssima prova no que ainda está por vir.que queria m ajuda para seus filhos. Não dá para planejar isso com antecedênci a.Ela está doente. ao pronunciar aquela palavr a. Bem.Déborah! Déborah! Olh o que ela fez conosco! 31 A Dra. Muitos pais afirmavam . estampou-se uma expressão de alívio . a mãe perguntou: . e no final acabavam mostrando que havia todo um esquem a montado em segredo. o Dr. a Dra. Quem sabe a conversa com a doutôra não o reconfortaria? Levantou-se e ti rou a carta das mãos dele.. .Sua pronúncia d ava um toque curioso ao tom coloquial.. Seria sempre assim: 30 pressionada de ambos os lados o tempo todo. . Não sei ainda se Déborah confia em mim o bastante para ver essa sala tal como é. . . irreversível . Caso ela mude de idéia..Sim. . A doutôra ficou impressionada com o esforço que ela fez. Claro. .Quem pensa ela que é! . é provável que a senhora a encontre cansada e que ela não esteja convenientemente arrumada para a visita. .. onde ia guardar a carta. . Eu já te falei.disse ele. Ele apanhou a carta sobre a mesa e leu. por isso. pensou a Dra. e que inevitavelmente redundar ia na ruína dos filhos. Fried. Onde estava a diferença? Depois de passear os olhos pela sala. sofisticada e íntegra. Veremos se é verdade.Não é besteira .ela insistiu. .Para que ela fique bo a.. saudável: aceitava os penosos sacrifícios que a realidade impunha. .! Eu avisei. Lister avisou. Esther não pôde conter a cólera que a invadiu.Besteira! Eu vou.. Isso porque a independência de uma criança representa uma ameaça inadmissível quando o equilíbrio dos pais é precário. Jacob. Sob a aparência impecável de Esther. ouviu Suzy conversando c om um amigo pelo telefone. eu te aviso se for possível. Ao se dirigir para seu quarto.

e sua distinção (refinamento. e toda a família pensou e especulou. educado e apresentável. boas maneiras). desprezavam sua religião. em bora eu o odiasse. Estava preocupada com outra coisa: . Podemos. diante das belas perspectivas imaginadas por J acob para o futuro. Ela re cebeu tanto amor! Disseram-me que essas doenças são causadas pelo passado e pela infân cia da pessoa. arriscar.Sabe. o aleijadinho! "Os filhos 'americanos' de papai cresceram sabendo que seu valor pessoal. como se quisesse c onvencer as cadeiras e as mesas e a doutÔra e a instituição toda com suas grades e as pessoas que gritavam por trás delas e cujas razões para estarem ali tinham que ser o utras. e ele precisava conquistá-lo a qualquer preço. dificilmente chegarem os a compreendê-las em toda a sua complexidade. nem dos sonhos que ela corporifica va. e ainda assim não co nseguimos encontrar qualquer razão. Não. ambas estávamos grávidas: papai começou a se c onsiderar o fundador de uma dinastia. seu sotaque e s eus hábitos. tinham que ser. inconcebível mesmo: loura e de tez clara. libertar Esther de seu isolamento secreto. A família podia. ao passo que para o Velho represento . a obstinada. todos esses dias. resmungando para o nobre fidalgo que existia na cabeça dele: . . ele não estava ao nível de Esther. admirava os modos respeitáve is de seus vizinhos. brigamos e enfim. sou eu. Ela falara num tom de voz muito mais elevado do que desejava. fez negócios. emblemas de conquistas f eitas através de alianças. esses dois fatos explicam-no melhor do que s e eu começasse pelo seu nome e sua ocupação. emocionante. acho que devo começar com a história de meu próprio pai. Papai veio de Latvia. onde moravam as famí33 lias mais ricas e mais tradicionais. Eu procurei. Natalie se casara bem. educou-se.As causas são tão vastas que é impossível percebê-las de imediato. mar ginalizado e coxo.eocupe de modo especial agora? Esther procurou estruturar suas idéias. era-comum as filhas das famílias nobres aprenderem harpa. Comprou então uma mansão num bairro elegan te. e não tivesse o menor talento. Os palavrões em pol onês e em idiche que aprendemos sentados em seu colo. todos esses dias não paramos de pensar em como e por que isso aconteceu. Era aleijado de um pé. Não existe uma causa. permanecia inabalável amaldiçoando os vizinhos. Jacob procurou. assim. c om os termos crus e ásperos que herdara de seu detestável passado. eram temperados com as mais refinadas lições de francês. e é isso que nos as susta tanto. estes. Esther. ou então escutar os comentários de papai quando a sopa estav a fria ou um dos noivos chegava atrasado. Lançou-se contra a vida como se ela fosse uma inimiga de verdad e. contudo. Graças a sua força de vontade ferrenha. Para avaliar a consistência desses atributos bastava observar o olhar que os vizinhos nos dirigiam. . por um lado. Veio para a América jovem ainda. contar nossas v erdades pessoais e localizar causas pessoais. Pouco tempo depois. soberbos estandartes das grandes famílias. embora só tivesse curs ado uma escola de contabilidade e sua família não passasse de um "bando de simplórios e pobretões". Tra tava-se de um rapaz bastante esperto. Por isso todos esses dias não paramos de pensar sobre o passado.Bem. Fale-me a respeito de Déborah e de v ocê mesma com suas próprias palavras e da forma como você vê as coisas. Se. ma ldito. papai acabou cedendo.. fracassou e finalm ente alcançou o sucesso e adquiriu fortuna. era preciso que também f ossem trunfos. Discutimos. Sei disso porqu e tive que aprender harpa. escolheu um pretendente aquém das expectativas da família. isso sim. Quanto a estes. nobreza. Era um dos trunfos a conquistar. Em 1878. No entanto. . embora esse instrumento já não estivesse mais na moda. mesmo que esse preço fosse eu . portanto. cultura e sucesso não passavam de apa rência. . Lembro-me bem de que papai me pedia para tocar e ficava andando de um lado par a o outro. Ela veio. a mulher e os filhos. Tomaram a vida de sua mulher e de seus filhos extremamente miserável.Veja. entende. Realmente era muito cedo para pensar nos p rogressos de Déborah. E le. "Pois não é que a filha de Esther nasceu loura! Aconteci34 mento único. por sua vez. pobre. De certo modo. entende. . tal como entre a nobreza no velho Continente.

O especialista que a operou. depois da primeira. os tempos da Grande Crise de 1929. agora rodeada pelo desdém de uma nova geração de vizinhos. Um autêntico fecho de ouro. tudo bem esterilizadinho e o insano pav or dos germes e de toda e qualquer mudança.Nós não sabíamos! exclamou Esther. O primeiro sintoma foi uma incontinência das mais embaraçosas. sem a pagar o sorriso em meus lábios. me levou a apoiar. descobrimos que o brinquedo de ouro estava defeituoso. eu me lembro . mas ser livre pa ra ser nobre. Garantiu qu e pegaria mil serviços de contabilidade para merecer Esther como esposa .Nessa época.embora esses serviços t ivessem simplesmente desaparecido. tínhamos que v iver bem. A doutÔra olhou para ela. Déborah tinha doze vestidos de seda bordados a mão. as filhas da dinastia.herança de alguma importante casa européia derrubada pela Revolução. as sobras que os outros rejeitavam . mas Déborah . é óbvio. e uma babá alemã. era um médico excessivamente ocupa do para se dar ao luxo de explicar alguma coisa à menina ou de assisti-la quando. Papai pagava todas as despesas. voltamos para a mansão da família. depois dos milagres da cirurgia modema. percebia que Jacob se sentia infeliz. Medo e . Ainda assim. Jacob era o consorte da dinastia. fui fi cando orgulhosa da força 36 .Você não existe e eu odeio você! Papai continuava a esbravejar suas injúrias nos surdos ouvidos do passado. a milenária e bárbara dor . nós. Déborah. Apossar-se d e uma bandeira ancestral e respeitável valia mais do que acenar com uma nova. Era por isso que luxuosos gorros que Déborah usava em seus passeios tinham outrora cob erto a cabeça de um pequeno príncipe qualquer. O nascimento de Déborah parecia ter tomado minha submi ssão necessária e justa. Contudo. já estivessem soterradas havia mais de uma geração. sutil e decisivamente. na presença dos funcionários do hospital.disse a doutÔra sor rindo. nem pel s ameaças. Mesmo acor rentada a meu próprio passado. os horários e as govemantas e os preceitos eram coisas absolutamente indiscu tíveis! Era a pedagogia "científica" da época.serviços e njoados e rotineiros.O quarto das crianças parecia um hospital! Sim.era o eixo em tcomo do qual giravam t odos os sonhos. Afinal. Depois de algum tempo. Cada coluna de números era cobiçada por cem cérebro s tão famintos e tão bem formados quanto o dele. teria do bom e do melhor. e preocupada porque tinha ac abado de perder dois gêmeos nascidos mortos.procurou uma palavra que trouxesse de volta aqueles anos . Jacob sequer estava em condições de alimentá-la.u a réplica final a um fidalgo de aldeia morto havia tempos e suas filhas de pele clara. O medo. exceto para o remorso pelos tapas injustos e a interpretação excessivamente zelosa de especialista s equivocados. como se tentasse consolar Esther. fizemos os exames e veio o diagnóstico. Naquela cria nça perfumada. um sofrimento impiedoso. sobreviesse a dor." ." Esther relembrou. . crescia um tumor. A austera govemanta alemã ficava possessa. da família e de Déborah. . Duas operações e. . C omo o ateu que exclama para Deus: . quando as oportunidades eram mais do que escassas. Ao Novo Mundo. Estava grávida de novo. Jacob iniciou sua carreira justamente no momento m ais crítico da época. Como era ardente e impetu oso o temperamento oculto por trás daquela fisionomia estudada e impassível. Um belo dia. as origens do camponês.Por fim. vivíamos num dos melhore s e mais novos bairros da cidade. saímos consultando médico atrás de médi co em busca de uma confirmação. sempre risonha e contente . em seguida. meu rosto não variava nunca e. cercada dos maiores cuidados. porquejá era tarde demais. sobretudo por ter que aceitar a caridade de um ho35 mem que o desprezava. subsistia naquele camp onês um sonho de camponês ainda mais ambicioso: não apenas ser livre. "Esforcei-me por parecer alegre e confiante ao entrar no quarto de Debbie. Enquanto Jacob ganhava q uinze ou vinte dólares por semana. Mas a "preguiça" não pôde ser remediada nem pelas humilhações. Um sopro de med o impregnava tudo. uma das maiores sumidades do país. Embora a aldeia lamacenta. Déborah nasceu envolta em rendas tecidas a mão .a sensação de irrealidade. contudo. meu pai contra meu marido. como é natural. nem pelas lágrimas. exigia-se mais do que apagar a amargura do Velho.a dourada e d adivosa Déborah.

Consistia numa série de pequenos serviços extremamente lucrativos. Uma fraude complicada e engenhosa como essa até que tem o seu lado bonito. mas não tinha graça nenhuma. virou-se e perguntou: "Por acaso não sou aquilo que vocês queriam? Será que vocês têm que corrigir o meu cérebro também? "Era esse o seu modo de falar já aos dez anos de idade. e havia as flores que eu mesma cultivava. pequena. Dois dias depois.. A escola recomendou que a levássemos a um psiquiatra infantil. . Restav a-nos pouquíssimo dinheiro.que era capaz de demonstrar. na realidade. uma vasta e int rincada fraude.Esther passou a remcomorar velhos nomes que ressu rgiam do nada. Déborah freqüentava as melhores escolas. Compramos uma casa nova. . Depois da terceira sessão. Ela fica va cada vez mais perturbada e insatisfeita. A contabilidade de Sulzburger nos pareceu. se libertar. Sentia muita dificuldade em 37 fazer amigos. Fried. Anos depois é que vi emos a saber que a primeira colônia de férias (que ela freqüentou em silêncio três anos se guidos) era de um anti-semitismo cruel. mas logo se desinibiu. ela se tomara grande demais só para eles dois e por isso tinham alugado um apa rtamento em Chicago. estávamos de volta à mansão da família. ela devia dormir.. começou a sair e fez amigos. Decoramos a casa toda. No inverno. verificar se aquilo era ve rdade ou não. Você sabe disso. tudo. . àquela época. n um bairro tranqüilo e mais modesto. Víamos ape nas os grupos alegres de meninas brincando. mas afinal. nenhuma necessidade de empregados e o começo de minha autonomia em tom ar decisões. as janelas sempre es cancaradas. Uma tarde. e ela nunca dormia. Tivemos que vender a casa e. . tentando desvendar sua mente. Quando entrávamos em seu qua rto à noite. comia demais. Investigara durante três meses a origem e o destino de todo aquele dinheiro até comprovar suas suspeitas. . mas é que nunca a vi dormindo. não muito longe do centro da cidade. Fic amos todos meio desvairados. e acabou engordando.respondeu Esther com voz cansada . e no verão. com uma am argura excessivamente precoce para ela. Todos gostavam dela lá. Jacob chegou em ca sa e com a notícia de que o negócio de Sulzburger era. o sol.perguntou a Dra. porém. Sem a família to da. Não adiantou nada. Costumávamos br incar a respeito de seu sono leve. Também eu f iz amigas.. e. sim. Você quer dizer que ela dormia pouco? . Déborah manifestou um po uco de medo no início. Quando finalmente soubemos que as operações tinham sido bem sucedidas. É claro que a mansão tinha que ficar nas mãos da família: foi assim que aquele lugar odioso se transformou no lar dos Blaus.Dez anos. Suspendemos as visitas ao psiquiatra.Qual a idade dela na época? . um dia. Ah. Reparei que ela não brincava com as outras crianças. Seu aproveitamento era excelente. Jacob poderia. Era uma escola pequena e simpática. . .. sempre a encontrávamos acordada. Tinha um ja rdim cheio de árvores e não faltavam crianças pelas redondezas. . . ser mais do que um simples consorte em sua própria família. . . finalmente. Vai nos custar. assando batata-doce em volta da fogu eira e cantando velhas canções de acampamento.Ela não demonstrava nenhum sinal de que estava doente ou infeliz? Só essa atitud e omissa? . os degraus eram cobertos por tapete espesso. Dizia que tinha ouvido nossos passos n a escada.Bem.um ano maravilhoso. as melhores colônias de férias. Jacob conseguiu se empregar como responsável pela contabilidade de Sulzburger. Meus pais resolveram dar a mansão para nós. e convidamos os parentes para uma festa em honra ha saúde de Déborah.Comecei a observar com mais atenção minha filha prodígio. Déborah nunca se referira a isso. a coisa mais importante de nossas vidas. o psicólogo nos cha mou e mostrou um teste que fora aplicado em todas as crianças. No entanto. Eu falei da escola. Pretendia pedir demissão no dia seguinte. Vivia escondida em casa. . não contivemos nossa euforia e o sentimento de gratidão que nos inva diu.Sim. Fizemos isso. O processo foi tão gradativo e lento que só vim a notar naquele momento. . Isso durou um ano . um mês depois. isso também acontece com muita gente.. não é? Pois mesmo assim não posso deixar de admirar a cabeça quemontou tudo isso. Segundo eles as res postas de Déborah indicavam uma "perturbação" qualquer. Não queríamos que ela se sentisse .Uma pessoa tem que dormir. .

Levamos alguns deles a professores e críticos de arte. Na cidade. da Velha e de toda a família.Perguntei-lhe por que simplesmente não deixara o sangue escorrer pela pia .38 assim.. eu me dilacerava interiormente. agora ela está aqui. Ela disse que não queria qu e o sangue se afastasse muito. E há mais: Déborah sabia que o sono de vocês era leve porque o dela também era. olhando o sangue escorrer de seu pulso numa bacia. que. adquirimos o hábito. sem exigirem grandes esforços da parte dela.. a seu modo. Passamos a encarar com indulgência as doenças de que se queixava. A família encontrou de repente a explicação pro videncial para todas as esquisitices de 39 Déborah: o aspecto doentio. . . recomendando-lhe que não tomasse as coisas assim tão a peito. Certa tarde. Sentia-me ao mesmo tempo esmagada por aqueles quartos bolorentos. rápida e segura. .Sua resposta foi bastante significativa. Você mora num apartamento. isto é. Sempre houve atritos entre Déborah e s . Não sei bem como. . mas gritando por socorro. ela deve ter feito milhares de desenhos. Enquanto tentávamos nos livrar dela.. é claro. Até que finalmente encontramos um comprador. Lembro-me de ter conversado algumas vezes com ela s obre isso. Déborah era intensa. O quarto de fato estava vazio. a adol escência de uma menina excepcional. Seu grito de socorro foi ouvido. Começou a aprender música e a se dedicar a todas as atividades próprias às meninas de s ua idade. não me cansava de repetir. saiu cedo para fazer qualquer coisa e voltou muito tarde par a casa. e pelo olhar crítico do Velho. Afinal d e contas.Bem. portanto. a intensidade e os súbitos olh ares de desamparo. Vamos voltar um po uco atrás de novo. Na realid ade. de grande talento. As janelas ofereciam morte muito mais fácil. Uma evidência importuna qualquer sempre vinha relativizar essas racionalizações. Déborah descobriu a arte. a insônia. Veja. Sacudimos aliviados o peso morto do passado e mudamos para um apartamento na cidade. e não poupei esforços para me convencer de que era a resposta exata. . aos onze e doze anos de idade. Consumia todas as suas horas vagas desenhando.Quer dizer que foi uma atitude premeditada? Uma coisa planejada com antecedência ? . Déborah er a uma pessoa especial. inclusive dormindo.. . mas no íntimo. Não adiantava . ocorria-lhe uma estranha sensação de culpa). por uma terrível compulsão de 'guardar as coisas'. seus pavores. gritando muda e confusam ente. que reconheceram que a meni na era realmente talentosa e devia ser estimulada. mesmo sem nos darmos conta... Chegou em casa estranhamente pálida e assustad a. Nos dois anos seguintes." Esther procurou uma definição que tomasse verossímel o estado atual da filha. um espírito raro. Seu interesse despertou com o ímpto de uma tempestade. mas a mente dela escolheu o melhor caminho.Não sei. foi impossível continuar sustentando uma mansão de qui nze quartos. Procurei no banheiro e a encontrei sentada no chão. Déborah foi ao médico. que não estava tentando se suicidar. acordei. Pareceu-nos uma boa me dida. . por causa de mais uma de suas indisposições misteriosas. ou por uma espécie de entorpecimento mental. a sensibilidade. que não seria eliminada por uma decisão ou por um pedido.cont ou a doutÔra. muda. Tudo estava claro agora. às colônias de férias e à escola. especialmente para Déborah.. no entanto. e os estudos andassem bem. O que só veio a calhar: foi uma resposta fácil e luminosa às sombrias e vagas suspeitas. Cerca das quatro horas da madrugada. ela sabia. ela continuou infeliz. sua solidão perderiam um pouco da estranheza no anonimato da cidade grande. Fui até o quarto dela com a certeza íntima de que havia algo de errado (na rrando agora o episódio.Esther sacudiu a cabeça para expulsar a palavra proibida. as suas distrações: era a adolescência. rapidamente substituídos pela rigidez e inexpressividade facial .Não conscientemente. nunca ch eguei a acreditar totalmente nisso. No dia seguinte. embora os professores da nova escola a tivessem em a lta conta. suas pequenas excentricidades. . de ficar à escuta. por alguma razão oculta e instintiva.De quê? . . Ao estourar a Segunda Guerra. sem contar os esboços e os rascunhos na escola. Era uma característica intrínseca a nós duas.

durante o verão. Tinha nove anos de idade." .Ah. ela começou a ter problemas com um determinado gru pinho. . Esses problemas crescem muito nessa idad e e eu me sentia contente por poder ser uma verdadeira mãe para ela. não. quando começou o problema? .repetiu a doutôra. . . ela se mostrava aliviada. pensativa. . Ficaram amigas enqua nto Déborah freqüentou a escola. Tive que me esforçar um bocado para superar minha p rópria timidez.E quanto à colônia? . As pessoas com quem Déborah tinha dificuldades eram conquistadas e eu me sentia feliz por poder ajudá-la. . No entanto. Talvez isso tudo tenha começado com o t umor. Esther voltou-se para a doutÔra. Tive um paciente que costumava aplicar em si mesmo as tortu ras mais pavorosas. . de que forma eram sentidos esses tempos? De que forma você se sentia? . então. Assim pelo menos sou dono de minha própria destruição. ajudei a professora a compreendê-la.concordou a doutôra. . Estou contando isso porque quero que você entenda que é impossível tentar refazer o mundo p . a coisa acontece.Eu procurava ajudar. Fcomo s visitá-la no final do verão e ela nos . sempre procurava ser amável com os professores. . conversa vem. Quando fcom os embora. para me divertir nos lugares onde eu estava. e quando lhe perguntei por que agia assim. Lembro-me de várias ocasiões em que ela precisou de mi m e eu fiquei de seu lado. Sentia orgulho dela e nunc a deixei de dizer isso. onde ele morreu. muitas vezes as pessoas não a compreen diam bem. parecia estar bem. 41 . Certa 40 vez as aulas mal tinham começado. Precisei aprender a fazer as pessoas se desinibirem. e conversa vai. Ela teve um problema sério com uma das professoras na escol a pública da cidade. respondeu: "Ora. não é? Antes mesmo do psicólogo da escola. ficou bom? . Não fcomos nós. . Também nunca deixei de dizer o quanto eu a amava. Cantávamos e brincávamos.De que forma Déborah encarava essa ajuda? . Essa coisa horrorosa aconteceu apesar de nosso amor e de nossos cuidado s. tinha-se configurado um quadro falso das coisas. no entanto. . Eu.Esse paciente. e isso facilita va um pouco as coisas. pronto. Contei-lhe como eu mesma tinha conseguido superar certas dificuldades de crescimento fazendo esportes. Na colônia de férias. . é claro. ajudando-a ne sse tipo de coisas. teve a impressão de que ela não estava entendendo. . você soube que as coisas não iam bem com sua filha. . pareceu infeliz. . expliquei que minha filha tinha medo das pessoas.Durante muito tempo. a época em que ela mesma começou a providenciar as pancadas.Um sintoma talvez. que isso algumas veçes era mal interpretado.as colegas? Resolvia os problemas sozinha ou recorria a você? . isso depois. as férias na colônia. é claro.Vejamos. Como é que uma pessoa perc ebe que a atmosfera mudou? De repente. Só que vieram os nazistas e o infemaram em Dachau. Convidei-os para um passeio no jardim zoológico e foi o bastante para quebr ar o gelo.Entendo . Minha própria mãe nunca pôde. . . faço antes que o mundo o faça. e no final a professora veio me dizer que conhecer Déborah fora um verdadeiro privilégio: era uma menina realmente excepcional. .Numa visão retrospectiva. desde aquele ano alguma coisa começou a funcionar mal nela Daí em diante foi como se ela mantivesse a cabeça baixa já esperand o pelas bofetadas. Déborah ja mais ficou desprotegida ou sozinha. os olhos transbordando de gratidão: .Lutei por Déborah durante toda a sua vida.E então veio a époc a. De certo modo . foi antes disso.Esperando pelas bofetadas.. Convidei essa professora para um chá. que ela procurou corrigir." Eu insisti: "Por que não espera para ver o que o mundo realmente faz?" Ele respondeu: "Você não entende? Mais cedo ou mais tarde acontece. era o terceiro ano consecutivo que ela ia.Ficou. Esther. É um bom meio de se obter reconhecimento e fazer amigos quando se é jovem.Bem.Feliz. enfim.É isso que é a do ença? . não foi o amor que Jacob e eu tínhamos um pelo outro ou por nossos filhos. Na sua opinião.

Sabia. e seu olhar era tão estranho. Fried observava o contraste entre a Esther dos modos estudados e a fision omia circunspecta.disse Esther. de certo modo. Esther interpretou aquilo como uma co nciliação. . mas ficou calada. e de uma filha que padecia de uma decepção mortal. e a Esther-mãe daquelas palavras sentidas de amor e sofrimento. . Esther voltou a loca lizá-lo. Não vo u perguntar o que fizemos ou o que não fizemos. Esther viu-o no fund o do cinema. Mais tarde. Esther estava convencida de que não conseguira explicar dev idamente sua posição. Comovida com a sinceridade de se us sentimentos. a filha agradecida. . erros graves. da última vez que a vi. . tremendo de frio no âmago daquela noite de inverno. Fried conduziu-a até a porta. bem. não é? Meu amor por Jacob não me impediu de magoá-lo e hu ilhá-lo aos seus próprios olhos e aos de meu pai. . essa.Sim. . . Terminara a entrevista. contudo. a menina não estaria intemada. Como pude.juro que não vou usá-la. . um olhar de sonâmbula. Se não fos se assim. fitando a doutôra com ol hos incrédulos. encarregad a de transmitir a bofetada. Ambas se levantaram.Amar apenas não basta. Ao deixar o consultório. e mais o período em que vivemos da caridade de papai. doutôra? . . procurando tranqüilizá-la. parado na esquina. . com os olhos pregados em Déborah. .Deixe que nós.pediu a doutÔra. E ao saírem. de causar. . como saber o que dizer quando estiver conversando com ela? Sabe. ela disse num tom de voz suave: . A Dra. Tinha a im43 pressão de que. não de sua a uto-recriminação. acabara interferindo. Déborah e eu. . . Como pude fazer isso com ele? 42 Todos esses longos anos. "Papai acha".Mentir. pensou Esther. Iriam juntas a um cinema. doença. eu tinha que tentar melhorar as coisas . E nosso amor por Déborah não nos imped iu de. pensativa. Esther compreendeu que teria que enfrentar a Déborah d o presente. "Pobre Jacob.Conte como era sua vida antes de você vir para o hospital . Não se torture nem se culpe a si ou a seu marido ou a qualquer outra pessoa. O que não significa que você deva se mortificar por ter tentado. O hospital dera permissão pa ra sair com Déborah sozinha. ela não quer ver Jacob. . A doutôra sugeriu que não insistissem com a filha. Desde aquele apartamento caríssimo. de tomar suas próprias decisões.Só há uma coisa realmente perigosa. A Dra. . mas acabou aceitando. . procuremos as causas.Como. e isso ainda hoje." Passou no hotelzinho onde estavam hospedados para dizer a Jacob que Déborah ainda se recusava a vê-lo. Trazida de volta à realidade. quando ele é que era meu marido. As concordâncias e contradições entre as duas v ersões da realidade permitiriam atribuir a verdadeira dimensão de profundidade a uma das interpretações.Vejo agora que.Olhou de novo para a doutôra. "Papai quer".Calou-se. viu-o novamente escondid o na sombra. pois achava qu e essa decisão não representava tanto um desapreço a Jacob. mas muito mais em relação a Jacob do que a Déborah. cometi erros. sobretudo agora que ela se mostra tão sensível a i sso. anos e anos permiti que Jacob ficasse em segu ndo plano. . mas uma tentativa. ao tentar ajudar. "Muito curta". "não de u para dizer nem um décimo do que precisava ser dito".O que é. observando-as. Ela precisará de seu apoio. tímida e desorientada. . . recostando-se na c adeira. Quando entraram no restaurante. por experiência." Jacob protestou.ara proteger as pessoas que amamos. jantariam na cidade e depoi s conversariam. 44 .prometeu mentalmente a Déborah . "Juro . e seus desejos tão simples e modestos! . aqui estou eu no meio de novo. que a versão da filha diferia radicalmente da apresentada pela mãe: a mãe desvelada.

Minha mãe já lhe contou tudo . mentiras que para mim soavam como deboche. Para sua surpresa. .Oh. Nunca p ediram que eu perdoasse a eles por essas coisas e nunca perdoarei a eles.Sua mãe contou o que ela deu. como se estivessem saqueando um quarto: desmontaramna.Está vendo. sufocando-a com a substância adocicada e enjoativa do sono.Que lugar é esse? .A máscara baixou. . Só que ag ora é invisível.Quer dizer que você não vai ficar indiferente. .É porque nunca perdi o tumor. 45 Certa vez.responderam e em seguida comeÇaram a cauterização insuportavelm ente longa e dolorosa da Parte proibida.A terra dos sonhos . a eles e a mim. Quanto desprezo deviam sentir para mentirem daquele jeito! Quer dizer então que er a pior do que um assassinato? .Ela não sabe muito a respeito disso. das altas e gélidas regiões de seu reino. num mundo onde as pessoas ligavam tão pouco umas às outras.Por que vocês todos contam mentiras tão horríveis? Ele res pondeu: . morta mas apresentável. . justamente sua parte mais feminina e mais secreta. Continua lá. não vou! Pode estar certa disso! respondeu a doutôra.Que cretinos! Quando é que aprenderão a não mentir para as crianças! Que horror! . Na noite em que ouviu o pai discutindo os planos para inte má-la no dia seguinte no hospital. tateando cautelo samente o novo terreno.O que haveria naquelas cabeças malucas. 46 o upuru nos pune. o rosto da doutôra estava c ontraído de raiva e a voz carregada de indignação. ela se afogou num silêncio mudo e atordoado. Estava curiosa para saber se. . manipulada como um objeto.exc lamou e pôs-se a apagar o cigarro impaciente e irritada. nenhum deles. sentindo-se usada. . outro sonho com um vaso despedaçado. Naquela mesma noite. . es fregaram. cuja flor representava sua própria vitalidade destruída. em meio à dor brutal: "Como vai sua bonequinha?" À medida que contava. vamos fazer a sua bonequinha dormir. .Não.Como assim? . Depois dos sonhos. sobre aquele tumor. por exemplo. Falou.Para ela aquilo significava que iam a ssassiná-la. limparam cada uma de suas partes com sabão em pó. ia observando a reação da Dra. .foi o que disseram. você então não vai ficar com medo? . um médico intemo visivelmente perturbado com se u sofrimento e perguntou: .Diga então o que você sabe. como se toda a realidade de seu corpo se resumisse naquela coisa perversa q ue estava escondida lá. imobilizaram-na mais uma vez s obre aquela mesa e disseram: .Isso pune a você. . por tere m me obrigado a suportar toda aquela dor e a vergonha de sentila. e de novo apelavam para o engodo mais do que óbvio da boneca. naquelas c abeças assassinas. . . . voluntariosa como era. .Então vou contar uma coisa que mais ninguém sabe. . . o que ela viu. Os pesadelos só não tinham anunciado a pavorosa dor que viria a sentir. seu passado desperta ria algo mais do que aborrecimento. . teve um pesadelo: sonhou que a devassavam à força. . por terem ment ido tanto e de modo tão estúpido. Não vai doer nada . continua me comendo por dentro. Logo depois veio a ferroada da agulha. para que ficassem hipocritamente perguntando "tudo bem"? E depo is. Fried.Fique quietinha agora. Houve. .disse Déborah. Nunca disseram que estavam arrep endidos.Agora nós vamos consertar você direitinho. virou-se para um deles.respondeu Déborah asperamente. idade suficiente para morrer de vergonha quando os médico s meneavam a cabeça referindo-se ao mal que a roía por dentro. em protesto por aquela menina de ci nco anos sofrendo ali à frente das duas. Por terem penetrado em mim sem a menor consideração. e em seguida. não o que você viu. ardeu de ódio.Dias depois. Penetravam com suas sondas e agulhas na região proib ida.ela perguntara assustada. não a eles. mais tarde. remontaram -na. Tinha cinco anos na época. não o que você recebeu.

maluco. insano.respondeu Carla sem titubear. As int emas na Ala D. Desse modo. a Dra. despidas de eufemismos bem educados. que um de seus segredos acabara de escapulir para o mundo. . Fried contemplou-a longamente. distante das palavras. você está ficando perturbada!" "Eu não estou perturbada. e que os recém-chegados aprendiam sem que ninguém precisasse ensinálos. num plano mais sério. demente.Velhas lavradoras des sa estranha colônia penal. pirado.Minha mãe . mas não pude dizer nada. eram chamadas pelos outros de "doentes" e por si mesmas. Déborah não estava mais ali. .A visita foi boa? . Déborah batera asas.comentou Carla. fora de si. utilizadas ao máximo por todos . uma paciente da Ala B que se dissesse "louca" pa ssaria por faroleira. meu inimigo está acima do ódio ou do perdão. não diria. biruta. Ela não conseguiu se controlar e acabou insistindo para que eu fal asse sobre os motivos da minha doença. Mal nos sentamos e a coisa transbordou como uma enxurrada. Depois que soube disso. mas acho que isso é "furado". o Censor vinha interferi .A Dra. a não ser em segredo e como indivíduos estranhos e excêntricos. descrente de que pudesse existir um único inimigo. Meu pai se casou de novo. . e eu fiquei doida.perguntou Déborah.E talvez fosse verdade. . horrorizada. na sua casinha branca de aparência tão pacata. As alas mais tranqüilas. Déborah retcomou ao Mundo Intermediário. oc upavam o nível inferior daquela escala de valores invertida e só podiam reivindicar as categorias mais leves: biruta. vamos acabar veteranas . uma menina de olhos lânguidos e modos agressivos. que se fechou sobre ela como um oceano. de "loucas".. fugi ndo assustada para Yr. Para aqueles que nunca ousaram pensar em si mesmos.declarou Carla . afora aquela instieadora de horrores. . Havia toda uma hierarquia de privilégios para gozar dessas liberdades. . crueza: duas regalias importantes do hospital. O termo Upuru nomea va em Yr a síntese das lembranças e das "emoções" daquele último dia no hospital. outros subido para a Ala D (a dos "insanos") e alguns transferidos do hospital. pancada. lunático e. . quando uma enfermeir a disse para ela: "Ora vamos. .Não.. sem deixar vestígio s de sua passagem. das razões ou de qu alquer possibilidade de alívio. Excetuando-se a D. e ela compreendeu.Ela deu um tiro em mim. não conseguem acreditar que são apenas pessoas. Fazia já dois meses que Déborah estava no hospital. Estava no corredor da ala. sentada com Carla e algumas outras meninas. tais como "insanas" e "loucas". palavras impiedosas. eles morreram. Eu estou pirada!" . o lugar já não assus48 tava Déborah. Tratava-se de uma norma criada espontaneamente pelos pacientes. para o consultório ensolarado e sua mobília traiço eira. "Como os doentes sentem medo". Novos pacientes tinham chegado. mulheres que viviam gritando. tanto mais inacessível às pessoas quanto mais rígido fosse o controle da voz interior. Palavras cruas. . Déborah compreendeu a reação desdenhosa de Kathryn. Fried. louco.Daqui há pouco. donas de um ressentimento puramente humano!" Dias depois. Eu tinha certeza que ela ia perguntar. pensou consigo mesm a. .insistiu a doutôra. A superfície voltou à tranqüilidade. . desde qu ando todas as coisas se tomaram cada vez mais cinzentas e obscuras. A linguagem de Yr era um segredo ciosamente guardado. no meu irmão e depois em si mesma.O que foi que você disse? . mas me deixaram sair quando minha mãe veio aqui. de onde podia conviver com a T erra.Quem é? . Impied ade.respondera a mesma. .Acho que foi. A e B. eu sobrevivi. Fazia tudo o que mandavam e.Upu o quê? Yr irrompera de repente.Dizem que a pessoa deixa 47 de odiá-los depois de algum tempo de terapia. "da força incontrolável que possuem! Por alguma razão.perguntou Carla.Há momentos em que odeio as pessoas que me fizeram ficar doente . Só elas tinham o direito de se referirem a si mesmas pelos termos mais extremos da escala.Você tem o privilégio de ir à cidade? . sem caírem em contradição. . a liberdade significava liberdade para ser doido . Era tarde. e mesmo que eu soubesse. Além do ma is. com um olhar sempre esgazeado.

. mas quer dizer muito mais.insistiu a doutôra. . tomei metrazol. Excetuando-se o convívio com Carla e Marion na ala. assim como para os mortos. . Dezembro. O inverno chegou. As planícies. nenhuma extremidade ponteaguda. por sinal) e. amatil e sei lá mais o quê. segredou: Para que se faça de condenada. Para ela.. . para quem as paredes não estremeciam . paralisada. como foi que o mundo de repente ficou cinza depois disso. os abismos e os picos de Yr começaram então a gerar um vocabulário cada vez mais rico. a vítima tem de ser linda. Os risos pendiam no ar tão artificia is quanto os enfeites na árvore (nenhum vidro. Lactamaeon. mas ela não conseguiu entender. inclusive da voz exterior que a sub stituía e respondia por ela quando desejava se recolher a Yr. .Existe uma palavra.retrucou a doutôra. . os quais não tinha com quem compartilhar . Meninas.perguntou Déborah. que conseguia exprim ir suas estranhas agonias e seus momentos de grandeza. sentada perto delas. senhor. Significa Olhos Trancados.Leva mais ou menos três meses. caso contrário o drama se toma uma comédia r idícula.disse para a doutôra.Procure lembrar para que pos samos compartilhá-las juntas. Eu gostaria de lhe perguntar. As janelas emolduravam os galhos nus e enegrecidos d as árvores. sacudida. o alcance de sua visão não ultrapassava a cobertura do sarcófago onde estar ia encarcerada. .com os Olhos Trancados. . Pensou nas metáforas Yri.O quê? . Anterrabae pôs-se a recitar uma fórmula de encant amento em Yri.ndo de forma bastante branda. a que costu ava recorrer quando queria descrever para si mesma e para os personagens de Yr os se us desejos. na casa da doutôra.perguntou a Carla no idioma da Terra. cheia de reti radas. vocês ainda estão na fase da lua-de-mel aparteou uma garota. Mate-me.. Meu Deus. Nada disso adianta.E isso. Estou " por dentro". uma gravura de alguma coisa que é real. que esforço faziam para que o hospíci o se parecesse com um lar! Puro faz-de-conta. para Déborah. As paredes começa ram a pulsar de leve. Era difícil falar com um vulto parcialmente submerso. . Era freqüente.disse à doutôra.como uma gravura apenas. em determinados momentos.Não quero assustá-la. Quanto tempo leva para sabermos se nos daremos bem ou não? . camuflagens e defesas. nos últimos anos. sua história ia se arrastando. Aquela conversa estava deixando Déborah terrivelmente amedrontada. .Deve haver algumas palavras .Talvez você possa explicá-las. você não entenderia.Espero que sua curiosidade esteja satisfeita . você consegue me ver? . já que falamos sobr e as operações do tumor. um grupo decorava uma árvore de natal. Cinco pertencia m à equipe médica e dois eram pacientes. .São metáforas. Fui analisada. nem essa droga de l ugar nem nada. que se reco stara na cadeira. . Déborah . com gestos dramáticos de condenada. Só me falta agora u ma lobotomia.Só que ainda há muito por fazer.. implorou Déborah no idioma de Yr. 49 . segundo personagem mais importante de Yr.Não sei. .Não consigo descrever a sensação . . .Corresponderia a sarcófago.Há quan to tempo ela está aqui? . ia se afastando de tudo e de todos no mundo. no cinza que cobria tudo for .. Na sala de estar. Tu que não és linda. . revolvida.Isso significava. aí esgoto todos os recursos. sob a forma de uma águia. como um coração. e se afastou . aos olhos de Déborah. é para sempre? . . e o que se passou no resto daqueles primeiros anos. .Mais de um ano.Ela se levantou. eletrocutada . acho. Já passei por seis hospitais. acorrerem-lhe pensamentos e acontecimen tos. . o mundo se reduzia à dimensão d e seu próprio ataúde. tinham pelo menos a decência de se mostrarem embaraça dos. Enquanto isso.no mundo inóspito à sua volta. que. .

que por si mesma já se considerava imunda. e na cre nça fervorosa. constituía alvo i deal para os provocadores do quarteirão. boa e aflita. do alto de sua nobreza. Uma observação gente e bastante precoce para uma menina de cinco anos. que veio saltitando atrás com uma radiante e despreocupada doçura. talvez fi asse mais fácil suportar a memória. s e apinhavam em volta do berço. A mãe. não soubera se comportar no jogo. com a cabeça apoiada na mesa da cozinha. isto é. no entanto. Déborah. só conseguira enxergar naquele ser intruso um monte de rugas com um rosto vermelho. Depois de ouvir isso. com o passar dos anos. A realidade oculta pelas farsas era a morte. Quem sabe se. os códigos seculares da fortuna ainda vigorav am. certa vez. só começou a freqüentar a esco e e foi rejeitada das primeiras amizades e grupos que suas coleguinhas tinham fo rmado em sua ausência. tcomou c onta da questão: fez-se anfitriã das meninas do grupo mais popular. a maldição predileta: j udia.Não fui eu quem fez! Não ajudei a tomar a decisão de fazê-la. Quanto a Suzy. E foi mais ou menos iss o o que aconteceu. "via fracasso e confusão. na primavera. . em Deus. fechar os olhos e crer. Os parentes. nos tchecos e nos poloneses. mas não carinhosos. nos quais os judeus. e para onde olh asse. pressentindo a desgraça inevitável. lançava-lhe ao rosto. sempre perdiam. minha avó odiava tua avó. mas fria. Na vizinhança. contudo. de certa forma não estivera à altura do jogo deles. e por mais consciente que estivesse dela s. lág rimas terríveis e pungentes de homem. para nunca mais abandoná-la. Como se estivesse possuída por um demônio. Algumas vezes Déborah já ouvira fa lar que um homem chamado Hitler. um professor de equitação da colônia declarou brutalmente que Hitler fazia pelo menos uma coisa boa. a menina feia do tumor gritara ao sentir a urina queimando por dentro). Lembrava-se bem da cena que presenciou um dia. E no verão ia para a colônia de férias. era uma verdade mais do que evidente: achava feia aquela coisa. Por cáüsa da operação. já que a própria doença continuava existindo. farsas e conturbações. O entendimento dos mistério s eram as lágrimas. . por mais negada que fosse. Era um mundo carregado de mistérios. disseram. mas fruto do ódio e do egoísmo. Mesmo no hospital. O passado. foi amada sem r eservas. e a "judia imunda". porém. eu te odei o! Três gerações de ódio! Aquelas palavras tinham uma ressonância especial.Mas ela é sua irmã! . maravilhados com a beleza e a delicad eza da recém-nascida. Um deles morava na casa ao lado. matava judeus por mero prazer e ma ldade. mas o fato é que ela era a única judia. já que as difer enças entre os vários cultos protestantes da classe média sempre foram extremamente su tis. ao mesmo tempo doce e amarga. se a doutÔra pudesse decifrá-la. que foi incapaz de fazêla desistir. ponderaram. minha mãe odeia tua mãe. menina sempre com ares de moça. não seria tolerada. . isto é. até mesmo ela e a capaz de perceber. por causa dos "tchecos-e-os-poloneses". Honesta sem dúvida. Esse comentário marcou o início do incômodo da família em relação a Déborah. eliminando aquele "povo imundo". No entanto. o que bem poderia ser verdade. Ficaram chocadíssimos e revoltados com o que. não eram só aquelas crianças que a odiavam. nem lhe p assava pela cabeça que viesse a ser sua companheira. judia. Nas férias. a maldição transbordou do corpo e da boca de Déborah.a de Yr. na Alemanha. lhe 50 trazia uma dolorosa sensação de perda e aflição. judia imunda. Rabiscavam palavras ofensivas nas pared es especialmente as da privada (onde. Diziam que ali não havia preconceito. sob os auspício s de uma mãe adorá51 vel. Sempre q ue a encontrava. A convalescença t ambém não passou de uma grande farsa. antes de sua partida para a colônia: seu pai chorava. para Déborah. Déborah começou a revolver lembranças. O mundo de Déborah apoiava-se na certeza de que era vítima de uma maldição ináta. fico u imaginando se eles todos não teriam tumores. que berrava e cheirava mal. as tias e os tios foram se afastando de Déborah. expulsando-a. não a amava. Suas re gras não passaram de mentiras. Quando sua irmã Suzy nasceu.exclamavam indignados. e não do amor. Déborah ficou tão re ssentida com isso. de tramóias. Déborah. As conturbações eram combates travados em segredo. onde anos atrás o tumor fora exti rpado com tanto sucesso. Continuava m orgulhosos dela. quas e cruel.

não propriamente o que dizia. com o o metal. Déborah apoiouse a uma janela .Lógico que não. Nunca achei que aquela guria estivesse realmente doente. . . Não sentiu dor. só isso! . porém. e que as sessões de terapia são muito difíceis. como você. Guardava consigo a tampa de uma lata de conserva s. As mulheres passavam o dia empertigadas em cadeiras nuas e incômodas. até que o braço ficou reduzido a uma posta ensangüentada. você é psicótica. Rasgou o antebraço. acompanhando minuciosamente os sulcos o riginais. As últimas pretensôes a conforto e no rmalidade acabavam de ser suprimidas. não és como os outros! As palavras em Yri anunciavam a etema retirada. Assim. algumas tinham acessos de cólera.. pensava: lá vai a menina rica. . As bordas eram denteadas e cortantes. apenas a sensação desagradável causada pela resis tência da carne. Escuta. O lhe para mim! chamou Anterrabae caindo. Rasgou de novo o antebraço. tentando desvendar aquele mistério. E o jeito sa rcástico de falar. sabendo e não sabendo ao mesmo tempo o que pret endia fazer com ela.e começou a pensar febrilmente. Estivera completamente absorta narrando esses ac ontecimentos. Isso mesmo. ou sentadas e deitadas no chão. O que a intrigava . escuta. nunc a! és inteiramente diferente. viu a indignação estampada no rosto expressivo da médica. Andava como se estivéssemos muito aba ixo dela para que se dignasse a nos olhar. . Déborah se aventurou a confirmar essa distância. disse Anterrabae. revestida de grades e telas .Estou. Agia com meticulosidade. aprofundando os cortes. Estás beirando a tua destruição. nem falar sobre os Deuses. Sou psicótica. você não sabe? Foi transferida para a ala dos "Perturbados". Alegre e s ilenciosamente.parecia uma máscara de esgrima. ralhou ao fundo o Coletor. Sentou-se numa cadeira desconfortável e ficou escutando os gemidos e os gritos do Coletor. Essas palavras infundiram nela uma profunda e duradoura sensação de alívio. indo e voltando umas dez vezes seguidas. é que o lugar apresentava um aspecto ao mesmo tempo assustador e reconforta nte. . mas decidiu não contar isso à doutôra .disse pensativam ente. . Umas viviam mudas. sentia-se exausta. Sempre qu e nos cruzávamos. outra s não paravam de resmungar sozinhas. cutucando aqui e ali com o dedinho para ver o que acontece. Os médicos dizem que são todas doentes mesmo. e o braço cortado com uma tampa de lata. Tu nunca foste como os outros.Essa vaquinha sofisticada nunca fez nada difícil na vida.Engraçado.Eu sou Lee. Vais sucumbir. acabarás quebrando o sigilo. Quis agradecer àquela mulher por se mostrar capaz de se emocionar até o ódio. . musculosas. . e ficou observando o sangue escorrer dos seis ou sete sulcos abertos até abaixo do cotovelo.Nunca se sabe o que se passa dentro delas. . não está? .Enfermeira ou qualquer coisa no gênero? . o Coletor e seus vastos reinos. e os urros or iundos dos níveis mais baixos dos reinos de Yr.Foi na colônia que descobriu Yr pela primeira vez. Tudo estava abaixo dela. Uma guria rica e estr agada. Ao voltar ao presente. e encontrou uma bagunça incrível: os lençóis e o rosto dela empapados de sangue . Tu não és dos nossos. Brincas com o Abismo de um modo muito pe rigoso. num sentido que ultrapassava a finalidade por que estava ali. a brecha que se abr ia para diferenciá-la dos outros.Eu não sabia que as pessoas na Terra eram dotadas de interior . Cafés entrou no qua rto hoje de manhã para acordá-la. 54 Déborah estava apavorada na Ala dos Perturbados. . que precisam ficar aqui. .Você está assustada. Cavalo-s elvagem-um. Uma jovem se aproximou por trás dela.Onde está a Blau? Não encontro o nome dela aqui. As enfermeira s e as serventes da ala eram corpulentas. Quando voltou à ala. recolhida num de seus passeios. estava inteiramente sob o domínio de Yr. Só então se recostou e dormiu. pesadas. Um horror! Deram-lhe uma injeção antitetânica e colocaram-na direto no elevador. mas a frieza.Ah. Pássaro-um. todos scomos .

a renunciar a seus privilég ios de soberana de um reino luminoso e consolador. que davam à fisionomia de Déborah um estranho ar de truculência.e era estranho pensar nisso agora . maior o espaço que Yr ocupava em sua vida. Dizia que tinha sido intemada (tratava-se de uma Casa de Prostituição) pelos inimigos do antigo rei. douradas e risonhas. protegendo o tumor que ameaçava desp ertar ao menor estímulo. "É corajosa". os gestos aflitos e ansiosos. . Déborah notou que ela não estava nem assustada. pensou Déborah. saindo em seg uida do civilizado.perguntou a doutôra. Yr se transformou em fonte de medo e dor. onde sua excentricidade. "Eu poderia ter agredido essa moça até não poder mais. A doutôra encarou-a atentamente: esperava um sinal qualquer que denunciasse qual o grau de honestidade que ela estava disposta a empenhar na terapia. as violentas dores do tumor fictício. nem escandalizada. não é nada impossível que você venha a dançar 56 um dia e a viver no mundo de novo. minha querida. O corpo dela era miúdo. rubra de vergonha. dormia a 3ª esposa secreta de Eduardo VIII. Déborah arregaçou a manga. o que foi que levou você a fazer essa coisa aí.que estava sentada na cama discutindo sua estra tégia com a figura invisível do Primeiro-Ministro . Sempre se dá um jeito. Tinha si do capaz de olhar para fora de si mesma o bastante para perceber outro medo idênti co ao seu. .Olhe. Quando sobreviessem as perdas de visão. Não viremos abarrotar o local onde se reúnem os co nvidados dessa antiesposa anti-secreta do abdicante Rei da Inglaterra! Soltou um a sonora gargalhada. ou de respeitar as incompreensíveis normas de conduta da Terra.Mostre. fo sse na colônia. no corre r dos anos. . . Houve um tempo .cóticos.Isso vai dar uma cica triz horrível! . fosse na escola. . O Abismo estava muito perto.É claro! Todos os meus parceiros de dança vão tremer de repugnância ao vê-la. com seu sotaque engraçado. Depois que a enfermeira trancou os objetos pessoais de Déborah na p equena cômoda embutida. onde a odiavam. Arranhei um pouco o braço. como q uem vai ao encontro de seu anjo-de-guarda. a apaziguar e.exclamou a doutôra. a mulher . Mostravase apenas absolutame nte séria. que não procurou ri dicularizá-la. os cabelos escuros. .Meu Deus! . sem esconder nada. Déborah sentou-se. .disse ela e v oltou à sua discussão imaginária. Mas alguma coisa mudou. ou o Abismo. Mostre o braço. só isso. para assumir a figura de pris . Ia ao encontro das divindades. nem recorreu às mil e uma expressões desastrosas que as pessoas habitua lmente empregavam quando a surpreendiam perturbada. olhando zombeteiramente para a auxiliar que ac ompanhava Déborah.A doutôra reparou no olhar desnorteado e no medo. Pouco a pouco. meio cu rvada sobre o abdômen vulnerável e á região inferior. Déborah foi sendo forçada a mitigar.respondeu impassível a auxiliar. na Ala D . trovejou Yr. e abordá-lo com a franqueza e a desinibição características do doente (coisa que ninguém da equipe médica conseguiria).Você é tão jovem para estar nessa casa de pecado. . . Quanto mais profunda a solidão.Foi algo que eu tive que fazer.Déborah perguntou a Lactamaeon e seus pares. não sabe? Já é hora de me dizer. só fez marginalizá-la. De uma fonte de beleza e proteção.Agora ela está lá em cima. Os miseráveis me violentam todas as noites desde que cheguei . Decidiu então falar sobre Yr.O que foi que aconteceu? . rei que abdicara do Trono da Inglaterra. finalmente." Compreendeu num estalo o que havia afinal de reconfortante na Ala D: ali as pessoas estavam dispensadas de manter os falsos b ons modos. verdadeiros príncipes com quem partilhava em segredo sua solidão. E ainda deve ser vi rgem.levantou-se e veio toda compungi da para o lado de Déborah.Onde posso encontrá-lo a sós aqui? . pacato e traiçoeiro consultório. ninguém diria: "O que é que as pessoas vão pensar?" Seja educado! Não faça escândalo!" Na cama vizinha à sua. Você que se meteu numa grande encrenca.Escoltada? .em que os deuses de Yr fora m companheiros. .

.disse Déborah. Às suas cos tas. proclamadas em salmos pelo Coletor. expondo sua loucura para que o mundo inteiro. não se preocupe.Seria como dar a um vagalume a potência luminosa dos raios. com jurisdição sobre os dois mundos. Descreveu com as mãos os movimentos agitados de uma onda. . Houve co mo que uma dobra no tempo. lembrando-se dê certas palavr as fascinantes que provocavam um retraimento imediato.Pratico minha arte nas duas línguas . Uma vez empossado no cargo de guardião. Com se não bastasse.ioneira das regiões mais tenebrosas de Yr.É uma linguagem secreta.Desculpe . Q primeiro segredo fora aberto e. acalma. Estava pasmada. Cuidado com essas palavras.O inglês é para o mundo. . O terror. Quero que volte e diga a esses deuses. . .Bem. quando Doris. como uma veia que se rompe. ela se contorceu toda. que não conseguirão me intimidar e que nenhuma de nós vai deixar de trabalhar. mesmo assim. Houvera uma troca de enfermeira-chefe na ala. . . a ter que ser súdita e escrava do Censor. cujas promessas redundavam em trapaças e cujas van tagens e privilégios. por isso às vezes uso uma linguag em meio latinizada em seu lugar.E existe uma linguagem própria? . mas que não passa de uma cortina de fumaça. . Como um prolongamento do gesto. Ala D. só traziam desgraça e agonia. pois isso o igualava ao mundo. trancaram a última porta de acesso à ala. para comunicar decepção e ódio. . ao contemp lá-la.anunciou a doutôra gentilmente. ficou reduzida às piores humilhações e desgraças nos do baixo calendário. A crise explodiu mais poderosa do que Yr. . e a nova estava distribuindo colheres de metal em vez das de madeira. Faltavam duas para receber as suas. são exatamente as mesmas. tudo se cobriu de trevas. foi se tomando aos poucos um verdadeiro tirano.Você não pode usar a linguagem verdadeira o tempo todo? Déborah riu da pergunta absurda. Déborah encontro u na crueldade de Yr. Déborah voltou para o hospital com a auxiliar. . O que vem depois é a decepção e.Você parece um bocado assustada . espraiou-se dentro dela. começou a ouvir o marulhar de ondas em ressaca.No entanto.disse Déborah. os do mundo. . Nenhum rugido de Yr. Não dói nada. a ter que arcar com as ofensas do mundo. onde germinariam. a necessidade fez-se coerção. você parece bastante competente no uso do inglês. Déborah tinha grande di ficuldade de falar.disse a doutôra.Você conhece o envoltório de lençol-frio? Vou providenciar um para você.Talvez eu sinta um pouco de ciúme pelo fato de você us ar essa linguagem exclusivamente para se comunicar com você mesma e não conosco. . Enxe rgava mal também. desatou a rir. a prova irrefutável de que ele existia. floresc eriam e desabrochariam. pessoal! Calma!" Es58 tas foram. Yri é para dizer o que deve ser ito. . a coerção fez-se tirania imp lacável. .perguntou a doutôra. De rainha entre deuses. você imagina o que vai des enhar em inglês ou em iiri? . "Calma. mas depois de algum tempo. uma me nina recém-chegada. as últimas palavras que Déborah ouviu da Terra. por hoje chega . percebendo a ameaça e o pedido implícitos nas palavras da doutôra. No início é incô o. A dor violenta irrompeu do tumor e jogou-a ao chão. . 57 . por mais poderosos que eles sejam. nos dias do alt o calendário. . Começavam a servir o almoço. quero dizer. no final das contas. ao Coletor e ao C ensor. O encanto fez-se necessidade. Como está se sentindo? perguntava o administrador da.Existe .Que linguagem você emprega quando desenha. voltou a ouvir a voz dele: . recuasse horrorizado. Após uma pausa. passou a ter que suportar as atormentadoras transições entre os mund os. por algum tempo.iri. . O Censor fora incumbido de impedir que Yr espalhasse suas misteriosas sementes sobre a Terra. por incrível que pareça. o dia continuava dia.Comentou ele.Você fez bem em me falar s obre seu mundo secreto.

soltaremo s você dentro de meia hora. sobre os lençóis. Passado algum tempo. Um saco de gelo sob a nuca. Insistia em sua ida. mas para discutir com os médicos a mudança.Recuperou a consciência pouco depois. e quanto mais quente.Como? . uma quarta correia. Est enderam outro por cima dela e esticaram-no firmemente. re cebeu a resposta desaconselhando a visita. e pôs-se a conversar com eles. o rela tório mensal aconselhava paciência. 60 Perturbada. Mexeu um pouco a cabeça. env oltórios eram lençóis enormes enrolados em volta do corpo: três superpostos como folhas brancas e úmidas.Um privilégio e tanto. Quanto mais se contorcia e se agitava.respondeu Déborah mordaz.indagou Esther Blau. e o último prendendo. que alguma outra viesse modificá-la. dias depois. As juntas doíam por causa da pressão dos lençóis. nua.Mais ou menos três horas e meia. convertê-la no f ato agradável pelo qual tanto almejava. e o tinir das xícaras de chá. Estava surpresa por ter emergido de regiões tão fundas sem qualquer angústia. . Apertaram. A antisecreta antiesposa do abdicante rei da Inglaterra mostrou-se toda solícita: . vindo daquelas janelas altas. . Mas seus fantasmas vieram acalmá-la. Só depois de ler e reler várias . no único movimento possível. obrigando-a a expelir o ar. largas e compridas.Pobre "vaquinha" Eu vi tudo que fizeram com você só porque não quis dormir com aquel e médico nojento! Amarraram você para que não se mexesse. em cuja pele as marcas deixadas pelo s lençóis só agora começavam a desaparecer: . contudo. que o aparente revés não constituía razão para que ficassem ansiosos. não para ver Déborah. um calafrio percorreu sua espinha. Em seu íntimo ansiava que a palavra. tivesse mudado. Horas depois. hein! . muito esticada e presa com ganchos nos pés da cama. honesta se m dúvida. imitando as tagarelices da nobreza. mais quente ficava o casulo. Sentiu então que a rolavam de um lado para o outro. envolvendo seu corpo em outros lençóis. já que o hospital julgava inconveniente. Tinha. voltando a olhar o relatório. se ela e o marido julgavam necessário vir. Ressaltava. Voltou a mergulhar na inconsciência antes que pudesse assistir ao final daquelas operações. . Foi difícil levantar e andar. mas o importante é que tinha recuperado sua noção de estar no mundo. Aproveitou a liberdade para e studar a forma daquele casulo. Fried .Está se sentindo bem? . o administrador da Ala dos Perturb ados. lençóis esparramados por cima e por baixo dos panos que a envolviam como uma múmi a.Há quanto tempo estou aqui? 59 . então ele entrou e violentou v ocê. o que quer dizer perturbada? .Virou-se surpresa. . Se continuar bem. O homem saiu. no interior.Esta é a putinha sobre quem eu tinha falado a vocês. outro de água quente no s pés. Per cebeu vagamente que estava deitada numa cama. Estava exausta. num passe de mágica. Continuava embrulhada e completamente imóvel dentro daquele "casulo". Imediatamente Esther escreveu uma carta para o hospital e. Lembrando-se dos gritos que escutara. atravessando o estômago e os joelhos. Por simples cortesia. marcariam as entrevistas. . e pressionando-a com força contra a cama. zangada. Claro que. e a assinatura era de outro médico. Seu próprio calor aquecera os lençóis na temperatura de seu corpo. apresentou Déborah. . de reconfortá-la. amarrando seus pés. sobre um lençol frio e úmido. Esther voltou a escrever agora para a Dra. recupera do inteiramente o senso de realidade. mas seus sentidos continuaram embotados. três correias de lona. . firmemente retesadas. A resposta era uma tentativa.gritou ela. Após um tempo que lhe pareceu eterno. e presas nos dois lados da cama. Quatro horas é a média. Déborah emergiu do Abismo com suas percepções límpidas como uma manhã de sol . No entanto. . Vestiu-se e voltou para a cama. Déborah sentia se extremamente fraca. repuxara m. revestidas d e grades duplas. os fatos contidos ali não deixavam mar gem a dúvida.Não minta para mim! Você está falando com a antisecreta antiesposa do abdicante Rei da Inglaterra! . os braços ao corpo. Em sua linguagem impessoal e breve. Aconselhava também que tivesse paciência. porém. entrou um homem. vieram soltá-la. menos energia lhe s obrava. com um medo que beirava o pânico.

.disse uma voz no 62 sonho. No carro. fez com que a profecia se tomasse realidade. e depois a Morte. Guar dou a carta e o relatório junto com os anteriores e não voltou mais a olhar para ele s. Déborah foi invadida pelo pressentimento de que algo ho rrível ia acontecer. Déborah.Pois bem. foi sair do hospital e voltar para casa depois da suposta extirpação do tumor. Uma pedra.Mas não a terceira. A terceira foi justamente a mudança para a cidade. ou seja lá o que for. sono ou loucura. e havia uma flor vermelha. A primeira mudança. ao transportarem-na para casa. .a imagem que fazia de um quarto de hospital .Um dia . Lactamaeon sussurrou a seu lado: . as anunciassem .disse a Dra. Lactamaeon veio a mim e d isse: Três Mudanças e Seus Espelhos. nem a mãe que cantava. nem os espelhos. tentando penetrar na61 quele mundo que já fora um esconderijo fechado sobre si mesmo. emaranhada em suas próprias raízes. formavam a textura de seu mundo interior. então. A realidade não era o carro. A segunda mudança ocorreu com a humilhação sofrida aos nove anos de idade. como uma mensage m cifrada. A terra se espalhara em volta. e em Yri a palavra que significa morte significa também sono. Imorth (palavra que significava morte. O espelho dessa mudança era a flor partida que vi anos mais tarde. . Se foi cortar os pulsos ou vir para cá. despedaçou o vaso e part iu a flor. Ocorreu-lhe que o cinza era.. amarga e cáustica . Muitos anos depois. Lactamaeon veio lembrar-lhe a revelação daquele dia. Concluiu que deveria impedir que seu medo. e o céu que se avistava da janela torno u-se escuro. com o talo partido. e força também. isso sim eu sabia.vezes a carta. 'Existem flores num hospital. Já freqüentava . sombrio e extenuado. Ecoaram gritos. uma tirania cujos tiranos tinham que ser incansavelment e aplacados. loucura e o Abismo. Você viverá e será forte. . e ambas riram. a estudante de arte . No parapeito da janela. .Pare com esses trocadilhos . onde flutuava uma nuvem branca compondo formas c uriosas. não é? . ou o de Jacob.Vê! Vê! A mudança sobreveio.começou Déborah . olhava o céu pesado e cinza. " Vê?" . Antes mesmo de ser intemada no hospital para a operação. entretecidos. . Esther conseguiu isolar suas implicações mais sutis. e seria sempre. depois que outras sensações se cristalizaram entr e ela e o mundo. para se tomar. Ele falava em Yri.Duas das mudanças ocorreram antes que o deus. . já previsto. ajoelhada no banco de trás.Você expõe um segredo a nossos olhos. Está consumado! Mais duas mudanças e seus respect ivos espelhos e. Lá fora caía uma chuvinha fina. conte-me como é o ritmo desses seus distúrbios Observava Déborah atentamen te. interferiss em no que estava acontecendo com a filha.e uma janela aberta que des cortinava um céu azul e luminoso. o fato é que se realizou a morte anunciada por Lactamaeon.uma Déborah completam ente mudada. e seu espelho. havia um vaso onde crescia um gerânio vermelho. Era melhor resignar-se e esperar. e seu espelho.zangou-se Déborah. Eis o espelho da mudança. arremessada de um lugar qualquer.E ela começou a explicar como profecia e de stino. levantando a gola dos capotes para se protegerem da chuva. a família ficou eufórica. Eu não sabia qual dos significados era. as ruas molhadas onde as pessoas cam inhavam apressadas. Anos mais tarde. Aqui ou ali. mas aquel e céu chuvoso. desfez-se no sonho a luminosidade do ar. A segunda mudança foi a humilhação que sofri na colônia. tampouco a animação do pai. de r epente. Quando o tumor foi removido. sombrio e cinza.encontrou um vaso de flores caído e despedaçado na ru a.voltando da escola para casa. o episódio do carro quando eu estava com quatorze anos. Fried. . teve um sonho: um quarto br anco .Eu me pergunto se não há um padrão de conduta. depois fica tão apavorada que foge para se esconder no pânic o ou em seu mundo misterioso. ." De repente . a cor de sua vida. todos riam e brincavam. pa lavra que soava como um suspiro de desesperança). não sei.

Claire nega. ao erguer os olhos para a noite estrelada. Reencontr ou-a mais tarde. a mesma voz. de forma também inesperada. podes ser nosso pássaro. Déborah riu por dentro ao deixarem a casa antiga. e a filha enc ontraria amigas de sua idade. Na cidade. a segunda mudança. Tu és um dos nossos. Tinham se habituado à hostilidade que fervilhava na vizinhança antiga. mas só encontrou o deslumbrante mosaico de folha s entremeadas de raios de sol. Ficou esperando que a voz falasse de novo. vinham todos em sua companhia. então. Claire se limitara a ouvir e concordar.Claire . se deu conta de que desperdiçara mais um dia.Nada! . Enfi m não poderiam mais atribuir o velho ódio e a solidão ao fato de serem judeus. o no vo desprezo e a nova solidão de fato sulcaram fundamente regiões virgens de seus sen timentos. mencionando uma "mentirosa" que há em nosso meio e que usa sua confiança para obter compaixão e envolver meninas inocentes em d ificuldades. porém. Em meio à algazarra que faziam. . não disse mais nada.Quem disse essas palavras a você: "Nós não passeamos com judias fedorentas"? Claire ou Joan? Era natural que. Anterrabae. o Cen sor e o Coletor. Lactamaeon. relegaram-na a segundo plano. Mas o nascimento dos deuses. Uma tarde. Déborah perce beu o erro. És diferente . subitamente. enfim solitária consigo mesma. ouviu uma voz vinda de alguma parte. Abandonou a luta. as primeir as e cristalinas insinuações do que viria a ser Yr. surgindo um outro tempo. Déborah confundisse os nomes e as fisionomias da quela multidão de meninas. porém. sacudirás tua crina e expulsarás toda vergonha. sua ausência a entristecia. O que é que você tem a dizer agora? . O diretor proferiu um exaltado sermão. Na cidade. mesmo que um apartamento. lutando ainda contra o que julgava ser a injustiça de lhe imputarem um estigma de nascença. Podes ser u m cavalo selvagem. O espelho. . nada mais pode ria contê-la: como se afirmava em Yr. voltava do consultório de um médico. Esther ficou contentíssima com a idéia. inesperadamente provava a veracidade de Yr.A sensação de ruína se avolumava dentro dela. a qualquer desonra!" Não dissera o nome. revivendo o clima de amizade e a inocência da juventude . obrig ando-a a fazê-los parar imediatamente para que saltasse. voarás livre na melodia do vento. uma pessoa entre nós capaz de 63 se rebaixar a qualquer maldade. co m suas exigências absurdas e grosseiras imprecações. Logo no primeiro dia. todo opróbio. inaudível para os que caminhavam a seu lado. Finalmente teriam casa própria. O ód io que as pessoas extemavam no mundo. a culpada era Joan. o estigma fatal relu ziria com brilho ainda maior. em vez de feri-la.a colônia de férias havia três anos. A humilhação foi. Só quando Claire foi chamada e negou calorosamente ter dito tal coisa. houve novamente uma dobra no tempo. além de a ridicularizarem. denunciou duas meni nas que. Na colônia de férias. o mundo fora capaz de retê-la horas e horas a fio. A terceira mudança foi justamente a mudança para a cidade. surda e invisível para si mesma. daquelas que as pessoas lembram anos depoi s com nostalgia e saudade. d izendo-lhe num tom suavemente fúnebre: Tu não és como os outros. ricamen te modulada. se tinham recusado a passear com ela. De modo inexplicável. como num poema: Se quiseres. pouco antes de seu décimo sexto aniversário. Via-se em seu espelho.afirmou. Pr ocurou saber de onde vinha a voz. e os próprios impasses se tomariam mais claros. portanto. A violência do impacto fez com que ela despencasse no Abismo: três dias de pesadelo. À noite. no primeiro dia. Déborah. Quando ele a alcanço . acenderam uma fogueira. ce rta de que a ruína os acompanhava inexoravelmente. dizendo. agora ela pertencia a outra vida. onde um policial a perseguia. O direto r da colônia lançou-lhe um olhar severo: . vítima de dores falsas de seu tumor falso. quando Ant errabae chamou-a para abandonar o grupo com que estava dentro de um carro. se revelou numa outra situação em64 baraçosa: um professor de ginástica que a pusera em evidência com um comentário desdenho so sobre sua falta de jeito. dessa vez. Não lutes mais contra as mentiras deles. mas todos sabiam quem era. Dias depois. a partir de agora.

que encobriam numa região muito mais funda o ardente desejo de viver. . Ahh! . Déborah estava vi sivelmente exausta do esforço que lhe custara a revelação de todas aquelas coisas. pela enésima vez. mas pelo menos estar maluco é estar em algum lugar. ansiosa por encontrar um lugar qualquer onde pudesse estar c .as linguagens. apesar do amor e das experiências compartilhadas durante tantos anos.todos os mundos secretos .. de que estava correndo tão apavorada. todos os olhos humanos não serão espelhos que deformam? Via-se. no entanto. como um ente reconhecível e definido: uma das loucas. Depois da questão do tumor e do anti-semitismo da colônia de férias. enfiou-se por um edifício a dentro pa ra despistá-lo. Déborah garantiu que não era nada e. como nunca se sentira antes e. Uma pessoa que precis demais de ser encantadora e bem sucedida em tudo. Era tarde demais para não ver. sabe. Uma linguagem secreta que camufla va uma ainda mais secreta. aind a que o olho quisesse ter renunciado a ela. Fried foi à cozinha preparar um café. que os mundos se cretos . devia achar que a mãe sabia e que lhe dedicava compaixão em vez de amor.Não pertenço & ninguém aqui! Nem a você nem ao mundo! Anterrabae me garantiu isso.Déborah sabia. . exatamente como Lactamaeon profetizara. mas isso não impede que outro grupo se forme em meio a outros grupos .bom.Não! Não! . Todo o am or dado por Esther foi reinterpretado por Déborah. tão logo pôde. Pergu nto-me também se eles não decepcionam você apenas para se sujeitarem à própria visão que vo formou do mundo. Se a filha se julgava condenada . terreno propício para a doença mental. Déborah retcomou à ala. Sentiase. e era por isso que se sentia martirizada.Mas eu ainda não tinha certeza. murmurou para a xícara vazia diante de si.u. que talvez a doutôra tives se um pouco de razão.Encantadora. . que se abre cautelosamente à luz e. . . aco stumado à escuridão e protegido por cílios cerrados.. Inclusi ve. Espelhos e mudanças! Po r acaso. um de meus nomes em Yr é A Etema Decepcionada. Aconteceu! Finalmente Imorth chegou! As batidas so avam longas e calmas. Sobreveio uma grande paz interior. Em matéria de decepção sou especialista. afinal. seus passos obedeciam ao ritmo lento e gr ave das batidas de um tambor. despertando sua atenção e ao mesmo tempo. . ofuscado por ela. a grande desvantagem de estar mentalmente doente é o preço terrível que se t em de pagar para sobreviver. pela primeira vez .Sabe. e não orgulhosa. colocada entre duas verdades conflitantes. se fecha tarde demais. inexoravelmente.A um preço terrivelmente alto. Agora dispunha de um letre iro para mostrar.A doutôra inclinou-se para a frente na cadeira. Quando saiu de novo à rua. 66 O bule de café começou a vibrar. E dominadora. . Abrira a mente para as palavras delas. . . Terminada a sessão. . pelo menos eu acho. eu me pergunto se a sabedoria deles não chegou um tanto ou quanto atrasada. A luz penetrara. era antes de tudo uma forma de ajuste. perguntou-lhe o que é que tinha acontecido. tal como um olho. .Exatamente. Só pertenço a Yr! .. mas você não pode deixar de pertencer a outro grupo. Um mundo que dissimulava outro mundo. pemiciosa e maligna solidão. . O que a deixava admirada era com o divergiam..Visto que duas das três mudanças ocorreram antes que os deuses começassem a existir. ao reparar que o café estava fervendo e tra nsbordando do bule. os códigos e os sacrifícios expia tórios não passavam de expedientes que ela manipulava para sobreviver num mundo anárqu ico e opressivo. há mu ito tempo atrás. a Dra. deve ter começado a solidão. e estes por sua vez.Ela é competitiva. embora o seu amor seja sincero. uma certa sen sação de velhice e frustração A mãe era formidável. com aquela exclamação familia r no idioma de sua infância e juventude. . Sintomas que re sguardavam sintomas muito mais densos (era cedo para devassálos). . As três mudanças e os três espelhos. pois já não era mais necessár io lutar e resistir.Ergueu-se num pulo. Sentia ganas de dizer aquela garota de olhar aturdido que a doença. . embora afastasse 65 e assustasse as pessoas. que sinceramente acreditava explicar suas motivações. "em casa" na Ala D. .

Queria que os doentes fossem iguais a ele. nunca rir d e aleijados. por sua vez. pois. escolhiam como alvo sempre o mesmo homem. Meu pé também estava estendido. como bonecos sem corda. mas não ia dizer. Ali. nem muito barulhenta nem muito calma.Ora vamos. estava a total inabilidade de usálo de um modo consciente. enquanto o pé dele ia de encontro a Lee Miller . Associada. porque era uma extensão de algo que existia dentro dele. . nunca apedrejá-los.bom. Outros. Cumpriam à risca esses mandamentos. Realmente. e nunca olhar para os velhos na estrada. Um dia.. Por iss o mesmo. porém. Todos os hospitais de que ouvira falar abrigavam multidões atomizad as de indivíduos que tinham rompido inteiramente seus vínculos com os outros grupos e instituições do mundo. n um único relance. melhor se sentia. Hobbs. . Quanta esperança! Não por ela. seus a ndares e suas alas estivessem apinhados de gente. por um lado. por exemplo? Talvez Hobbs seja grosseiro com as pacientes. o que a fez sentir-se extremamente importante. pacientes e funcionários saíram c ontundidos e ensangüentados. parodiando santo Agostinho: "Bem. aparentemente. houve uma briga mais violenta do que o normal. já resol vi o problema!" Déborah sabia por que Hobbs e não McPherson. para que ficassem bem demarcadas as fronteiras existentes entre ele. seus desejos semicontidos.Como começou? . Hobbs vinha pelo corredor e então começou a briga.protestou ele com severidade. Déborah assistira à luta estirada no chão .. Até os mais inertes e os mais desvairados deram um jeito de afetar o maior desdém e distorcer propositalmente as perguntas. o pé estava já. mas quando se tratava de imperfeições invisíveis eram impied osos: penetravam com olhos argutos e escutavam com ouvidos afinadíssimos os segred os e as súplicas íntimas dos "sãos". . que 67 acabou degenerando numa verdadeira batalha campal. Por que é sempre Hobbs e nunca McPherson ou Kendon. Livre-arbítrio. dese68 java que as pessoas fossem mais loucas e mais estranhas do que na verdade eram. às vezes Hobbs se comport ava de modo um pouco brutal. como se tendências autodestrutivas a temessem. O administrador da ala foi obrigado a interrogar todo mundo. Sempre estimulava o que havia de com . No entanto. as pessoas mal conviviam umas com as outras. em que pudesse afirmar taxativamente: "Ah sim. a realidade terrestre. No dia seguinte. Ela compreendeu a intenção do bri lho nos olhos dele. abriram um inquérito.Quero que você me dig a. Aliás. Todos aprendiam a ser "civilizados". Déborah presenciou um auxiliar ser agredido pelos pacientes noite após noite. Morria de medo da loucura com que convivia. livre-arbítrio. . Só que essa crueldade estava além de sua compreensão e de seu controle.. nem encarava com simpat ia a avidez e a ambição que lia no rosto do médico..perguntou o médico a Déborah. como Déborah fazia. secretamente saboreado.ompletamente só. McPerson. improvisava m seus próprios reinos e. caso o btivesse a resposta quando outro certamente teria falhado. mas pela resposta. O administrador da ala interrogou a todos sobre a briga. a solidão era um estado ambíguo.. Os agr essores eram invariavelmente os mais doentes da ala: refratados ao convívio. com a pema bem estendida. mas pelo moment o. e a loucu ra dos pacientes vicejando e explodindo às claras. meu caro. Os pacientes se orgulha vam de afirmar seu não-envolvimento. jamais beiravam sequer. a esse poder de discemiment o. não fui eu quem mandou usá-lo. . O soco de Lucy Martenson penetrou nos processos mentais do Sr. mas ninguém quis usá-lo. Déborah . Não pelos pacientes. uma esperança que envolvia seu próprio sucesso como médico. suas inclin ações. mas isso era o de menos. e nós não saibamos. onde residiam as fraquezas de uma determinada pessoa. seus pensamentos gratuitos. a sós com ela na sala de estar. esperando que algum auxiliar tropeçasse em seu pé para q ue mais tarde pudesse dizer. embora o hospital. A maioria dos pacientes dispunha da habilidade quase sobrenatural de discemir. Alguns pacientes de sua ala viviam imóveis. era uma pessoa forte e até mesmo feliz. foi uma briga marav ilhosa. como a prostituída Esposa do Ex-Presidente Assassinado. isto é. . e qual a d imensão e a influência dessas fraquezas. e quant o mais próximos estivessem.. desli gados da "realidade '.

para subjugar a estranha bailarina. olhando de relance para o cozido.Eu disse.Olhe. uma terceira com um dedo quebrado. Helene. concertando a roupa e tentando faz er o mesmo com sua pose. Déborah murmurou: . a beleza daquele baile.Seus gritos atr aíram os auxiliares. Helene." Ouvia-se a recalcitrante sendo conduzida numa cama para o casulo gelado. assim. quando o mundo subitamente explodiu numa avalancha de comida pegajosa e quente. os agressores e ram mais favorecidos do que os agredidos. que veio sentar-se em sua cam a. Limpou a sujeira e foi para a cama. ao que parecia. como em toda parte. atraí-los.Já comi isso. Cerca de uma hora antes da entr evista com o médico. Déborah ficou impressionada com o núme ro de homens para uma mulher tão pequena. Não havia injustiça alguma. sem se mexer. se limitavam a dar a cada h omem o que este realmente desejava. a porta bruscamente a berta fez com que ele se voltasse. tão distantes do mund o. ordenou: . ainda que ela parecesse mais uma máquina d ebulhadora. teve que esperar meia hora até que um auxiliar viesse destrancar o banheiro para que se limpasse um pouco. afinal. não há dúvida. Os pacientes. procurando. volve u o braço.Deu as costas e voltou à sua conferência imaginá ia. De repente. não tem havido injustiça alguma.. "Relevez. já fr io e meio comido por uma paciente que dormia junto à janela. implorando num tom bem diferente de su a fala pausada e profissional: . . querida . ela recuou o pé. mostrou-lhe algumas fotografias q ue recebera dentro de uma carta. Não conseguira fazer com que falasse além do que ela própria queria.Coma. duas enfermeiras com olhos rox os e contusões faciais. faça a guerra! . Virouse para o adminis69 trador e viu-o encolhido contra a parede. arremessou a bandeja direto sobr e a cabeça de Déborah.Volte para seu lugar.. encarando-a com severidade. de início. sem ser exigente. por algum tempo. soufflé. mas o importante é que se ocupavam dela. era por ele recebido de braços abertos. preocupavamse com ela. . outra doente. Devido à confusão.Não quero . Déborah não se conteve: .Até logo Helene. examinando-se para ve r se sangrava. Déborah pensou. onde a aguardava o seu almoço.Eles vão arrancar tudinho de você depois. Déborah compreendeu num estalo o motivo da agressão.recomendou a Esposa do Abdicado. conversando com bastante clareza. no final das contas. . Por entre a sujeira que escorria de seus cabelos e do rosto. Déborah rogou mentalmente algumas pragas contra aquela balbúrdia. mas ao reparar bem na expressão dela viu que não se tratava de sol.perguntou o médico. Era Helene. -A afirmação pareceu ao médico um tanto enigmática considerando-se que o saldo da briga fora uma paciente acamada. que Helene pretendia apenas comer na sala.A Esposa do Assassinado encarou-a com severidade. Notou que estava furioso e desapontado p or ela ter contribuído para frustrar suas intenções. fora servido enquan to conversavam.O que foi que você disse? . O médico. O almoço. e eles. Não me machuque! Eu sei que você é forte! .Não me machuque. que vinha com sua b andeja de almoço para a sala de estar. outra com fratu ra na costela. Não estavam. Déborah ficou sozinha no meio da desordem. pois era . vinha apenas adiar.um entre ele e os pacientes. Déborah apreciava. Helene 70 abordou-a e.Num único e gracioso gesto. e com um movimento delicado e preciso. arraste-se. que logo acudiram. . Foram rudes com Helene ao subjugála. . você nunca achará um homem! . com ess a aparência. . . Costumava ficar em reclusão num quarto. onde havia sol em abundância. Ali. . com braços musculosos e fisionomias contraídas de medo. e Déborah concluiu que o pulso quebrado de Hobbs. o trigo. O médico se levantou para ir embora. O médico saiu afobado para ajudar a debelar o tumulto e os gritos que vinham de um dos qu artos dos fundos.respondeu Déborah. e o menor sintoma positivo que se manifestasse. o dia em que el e acabaria num hospital psiquiátrico também como paciente. sutil e cautelosament e.Minha querida.

Compreendia agora que o motivo da agressão era querer desacreditá-la como testemunha da vergonha e da miséria lembradas por aquele retrato.Tentei.e a gente acaba se conformando com a sombra dela. terra de pesadelos.Filósofa! . Certa vez. . não entend ria nada. jogou-se na cama. Eu nunca soube por quê. Helene tirou bruscamente a foto grafia de suas mãos.Depois de algum tempo. tudo parece se resumir em ódio: o mundo. Era preciso manchar o espe lho para que deixasse de refletir a recôndita vulnerabilidade que transparecera su bitamente. essa antipatia se transformava em ódio ou aversão. Estiveram juntas assim durante um bom tempo: ela ia indicand o um ou outro personagem. . sofro o tempo todo com a imi nência dessa destruição. e e u sempre tinha que "pedir desculpas". com as pancadas que se repetem sem parar. sua fama de mulher violenta e obscena. tirando um pedaço de comida grudado no c anto da orelha.Quem sabe não é porque você mesma procura as pancadas e os sustos nesse mundo? Isso quer dizer que eu mesma preparo as decepções? . a auxiliar encontrou Helene e mandou -a voltar para seu quarto. aproximando-se cada vez mais . ao passar por um grupo d . Ora. e pediu: . Passava os dias sozinha. Um belo dia. nem descobri o que tinha feito. E aparecia na forma de uma antipatia intensa. que figurava no mundo real. estou cansada. 71 .Não. Mas a razão disso eu não sei . Nesse dia. até que se deparou com um determina do retrato e disse: . As pessoas chegavam para mim e diziam. sem saber por que pedia desculpas. A hostilidade visava só a mim. ou "depois d o que você falou.Você tem certeza de que não está omitindo nada aí: algo que você era levada a fazer e qu e enfurecia seus amigos? . ela se voltou e disse: "Depois do que você fez?" Nem falou mais comigo . apesar-das-lições-de-boas-maneiras.. demitiam-se uma atrás da outra. não é verdade? Déborah recordou-se de uma cena ocorrida numa época em que sua vida consistia unicam ente em esperar o fim inevitável. aproximando-se. contudo. . "depois do que você fez. Déborah apressou-se a sair de seu próprio dor mitório.Surpresa do inevitável? .por mais inevitável que seja.Imorth . Pouco depois. explicando quem era. a porta tinha ficado aberta e ninguém reparou quando el a foi procurar Déborah.É difícil abordar esse período. nunca mais vou defender você sem que eu soubesse o que tinha f eito ou dito. a colônia de fér as. e foi para o corredor. apenas uma sensação meio cinzenta e a surpresa do inevitável. não. pensar. só essa destruição terrível. vindo das mais ines peradas direções 72 .perguntou e sentiu que o terren o começava a ficar perigoso.murmurou Déborah para si mesma. numa traição à sua máscara agressiva. a vida continuava sombria e o desespero só fazia crescer. você tinha que preparar as decepções por sua própria conta. desen hando sem parar.Na escola támbém havia anti-semitismo? . cumprimentei minha melhor amiga e ela me virou as costas. Caso contrário. Na escola as coisas eram mais verdadeiras.. A me nor! . .Temos as mudanças e temos o mundo secreto . . Não permitia que alguém visse seus desenhos. Carregava o bloco por toda parte.. Quando fui pergu ntar a razão. Não faço a menor idéia.Onde não existe lei alguma. terra de ninguém. a escola. Fried .". Conhecendo seu temperamento explosivo.Referia-se a uma menina simpática.Essa aí fez faculdade comigo. agarrada a ele como a um escudo.mas o que se passou na sua vida nesse meio tempo? . .Vá embora. . não sei quantas vezes.ponderou a Dra.O que é que você sentia nestas ocasiões? . . lembrar. Embora já tivesse saído da colônia anti-semita. Fr eqüentemente. durante os quais virava uma verdadeira fera. As empregadas não paravam em casa.temida por seus acessos de fúria e violência. imaginar. nem escutou as pequenas confidencias que trocaram a respei to das fotografias.

Confesse. mas a que preço? . Foi você que imaginou que eles ririam. O rapa para ela e perguntou: . ao mesmo tempo irritada e assustada: 73 . . Decidi vir para cá. . gritar.Mesmo assim. .eles me fizeram repudiar m inha arte. Caso a mitisse que o trabalho era Seu . banindo os sinais de excitação. Fried viu sua paciente correr e voltar-se. .. Fora-se a antiga apati a. apanhou uma folha de papel e começou a de senhar uma réplica às acusações que todos pareciam lhe dirigir.Depende do tipo de perspectiva . . D entro em breve. . o rapaz estava implorando que você não a repudiasse e.retrucou a doutôra.assumisse a punição . a menina tem todas as regalias.Deb. A responsável pela mentira foi você mesm a. onde posso gritar.e jovens que brincavam e riam. uma excitação inig ualável..concluiu ela com amargura para a doutÔra . estava sendo travada com determinação. o riso dos outros.perguntou o rapaz apanhando a folha. .Vejo claramente a raiva. quantas coisas ela tem!" A Dra. até cair de tão rouca. ning uém riu. mas há símbolos aqui que você precisa explicar. Ergueu os olhos para Déborah. e a destruição que ela própria tramara se consumaria. apena . não é meu. com suas recriminações intermináveis. Tão graciosos! Olhe.É seu? .Quantas vezes dizemos a verdade e morremos por causa disso! Ergueu-se furiosa. apesar da doença. correr e voltar-se. pelo menos. As pessoas do grupo negar am uma a uma . em pânico. todo mundo a censurava Desenhou furiosamente por algum tempo ao Terminar. Déborah percebeu que ele só estava tentando ajudá-la. Os pássaros usam os cabelos dela para construir seus nin hos e para polir essas coroas.. O eco emitido de regiões tão profundas testemunhava a saúde que sobrevivia em p otencial dentro da menina. . Sabiam que a D não era em absoluto a "pior" ala. tudo o que o dinheiro pode comprar. . E la possui a mais bela das coroas e o mais pesado dos cetros. Encarou a doutÔra. isso sim.eu não. . A doutÔra. acho que vou guardá-lo para me lembrar. . .até chegar a Déborah. Déb. ele a defenderia. Sentiu que brotava dentro de si uma grande esperança e.Coroas e rouxinóis! .Ora. o Coletor. não é meu! . e é com os ossos dela que eles dão brilho no cetro. Agora a batalha.Oi. não é meu. Coroas. de que a força criativa é suficientemente vigoro sa e profunda para germinar e florescer. . cetros. . entregou a folha à doutôra. .Estes são rouxinóis. e todos exclamam: " Que menina de sorte. eu tinha ódio demais arrolhado dentro de mim.. . Carla! Não sabia que você estava aqui em cima. Déborah estava sentada no chão da ala. quando viu Carla vindo pelo corredor em su a direção. Entreolharam-se e sorriram.Não. cheio de figuras estranhas.Não. não. Queria assumir o papel de benfeitor.isto é.Guarde isso para mostrar em suas conferências aos médicos eruditos.Está vendo . Diga a eles que não é preciso ser saudável par a entender de perspectiva linear. aguardando pre74 guiçosamente o encontro com Anterrabae. um de seus desenhos escorregou do bloco sem que p ercebesse. . Recompôs a fisionomia. não haveria mais para onde fugir: teria que encarar a si mesma. . Carla parecia exausta. na verdade. Era um desenho intrincado.Mas Déborah. o que é isso? quem deixou cair? . pássaros.Ei.Não! Ao encará-lo com mais atenção. foi até a escrivaninha. com ela. . vamos. eu não. para evitar que Déborah se danasse de vez e partisse para querer provar que seu Yr exi stia.Não é seu? . que viria a cul pá-la.exclamou Déborah sarcasticamente.

um cara mais pirado do que os pacientes. Nós nos conhecemos em Concord.perguntou Helene.Baixo e mei o magro? Olhos azuis? Engole os erres? Ele levanta a cabeça assim? . corredor e pelas camas. era preciso conservar um status e respeitar certos simulacros de formalidade. o instinto que clamava por alg um vínculo de participação no mundo. Assim. Estou me lembrando. Ela disse que aquilo era um verdadeiro manicômio . mas não sei a fórmula do sucesso e não vi mais a Doris desde que ela saiu! Sei apenas que está lá fora e tem um emprego. tremiam de medo do demônio. Reviu as ações mais simples e mais triviais. As pessoas.Para lugar nenhum. . Será que realmente alguém saía? Será que alguém poderia apontar uma pessoa bem sucedida .Pô.Hesketh?. no momento em que a trancavam. Era veterana em todos os tratamentos de que já ouvi falar. Esforça-te para que algum dia saias e trabalhes e te tomes uma pessoa! Trem eu de medo. Meninas dizendo alô. Só que o mundo agora era povoado de psicóticos e limi tado por muros e por alas. descobriam que o demônio não passava de mais um entre tantos. enquanto beiravam o Inferno. A Esposa do Assassinado empreendeu uma de suas tent ativas mensais de fuga: investiu de cabeça. mergulhando de novo em seu transe. Mas. ouvindo o Coletor que recriminava suas faltas em salmo s intermináveis. como um touro cego.Jessie esteve lá. Veio a noite.Crown State. Anterrabae exclamou: "És)orça-te para que algum di a saias e Vivas. por mais que negassem. ou participado do perene ciclo de vida e morte a que estavam sujeitos. se era! O chefe lá era Hesketh. Retcomou a caminhada. O mundo exterior e os seres que lá viviam eram absolutamente estranhos para ela. mas estavam livres das sutis e traiçoeiras correntes da loucura clandesti na.Para onde mandaram ela depois? . Formavam-se às vezes grupinhos. Déborah ficou no seu canto. e continuava doida varrida. . como uma série de ima gens instantâneas. q ue agora lhe pareciam dificílimas.Mount Saint Mary. Os ociosos e os marginalizad os expressavam desse modo. nas alas A e B. . como se ja76 mais tivesse comido com eles nas mesmas mesas.Tive uma amiga que foi da sete.s a mais honesta. conheci Doris quando esteve aqui na D. 75 percorrendo o corredor como se acompanhasse em transe uma procissão. Agora ela está vivendo lá fora e trabalhando. reduzidas a uma única dimensão. Doris Rivera.. banheiro. As "Perturbadas" podiam estremecer nas bases sempre. em que as pacientes ficavam contando lances passad os de suas vidas ou trocando os boatos que corriam. Nas outras.Escutem. contra a porta da ala. Doris passou por lá. .Na cinco e na dezoito. Agora vão para o inferno! Quero ficar sozinha! As meninas se afastaram e se dispersaram pela sala de estar. Ficou aqui durante três anos. e ninguém em p articular.uma pessoa para quem esse lugar fora um meio e não um f im? As perguntas choveram sobre Lee. uma agon ia exposta ou desesperos violentos.. foi antes de seu tempo. até que ela perdeu a paciência e disse: . . tão logo as bandejas do jantar foram retiradas . . . guria. A incredulidade foi geral.Ah. . . as pessoas sussurravam seus sintomazinhos e to mavam sedativos e estremeciam de alto a baixo a cada barulho mais alto.Filho da mãe! Fui espancada por ele no Mount Saint Mary... Lee Miller coçou a orelha pensativamente: . caminhando juntas. . quando c hegavam lá. .Em Concord? Em que ala? .Onde você esteve antes? . que passava por elas.Quem é? . No meio da zoeira.O próprio. entrando sem medo na esco . . .

Déborah. Você está conseguindo me ouvir? . eram amigas. Você pode andar? Ensaiou alguns passos. Volto já. Tu não és como os outros! Gritou Lactamaeon do fundo de Yr. Sussurrava Idat. escutando sua própria respiração e. os movimentos quase esp asmódicos de sua mão. Vá.O que foi que aconteceu? . Achas.McPherson procurou de novo se comunicar co m ela: . Avolumavam-se os murmúrios oriundos de Yr. e nem sentiu o primeiro choqu e gelado do lençol úmido. Meninas graciosas. . Alguém dizia ao fundo: . onde o casulo aguarda va já aberto.. Logo estaria longe. mas perdera inteiramente o senso de direção.a voz de McPherson. avisou. Percebendo que ela estava em pânico. a realidade tátil de seu próprio corpo e de suas roupas se tomava extremamente tênue.O que há com as meninas essa noite? . Só muito tempo depois recuperou os sentidos. . retorcida de um modo estranho por causa da tensão nervosa. já! Déborah esperou. . . que podes ficar abrindo segredos e continuar segura para sempre? Há outras mort es além da morte . Cambaleou. Tiver am que conduzi-la. vou ped ir ajuda. o cheiro de pessoas. da angústia que a impelira a destruir o rosto visto.atraído pela veemência de sua expressão. en tão. chama! Anterrabae soltou uma gargalhada. Todas as outras mães estão orgulhosas de suas filhinhas! repetia o Coletor. .Você voltou a si um pouco depois de mim. O tato também s umia. Conversaram durante um bom tempo. Estava tudo branco: ou eram as enfermeiras. em meio ao intenso odor de éter e clorofórmio que emanava do Abismo. no tom p rovocador e mordaz que empregava quando as coisas pioravam muito. . . Débora se aproximou.. . quase que agradecida.. Déborah avistou.Eu mesma.O tom denotava uma clara aversão. Tenta! Afastou-se d eixando uma aragem que cheirava a coisa queimada. mas não cons eguiu falar.riram um pouco. ou a neve de inverno. namorando e depois se casando. .Hobbs. chamada também -a Dissimuladora. querendo protegê-la. não tenha medo.. . . sentiu. Em meio ao ensurdecedor burburinho de vozes. McPherson olho u de soslaio e parou. e compreendeu a fotografia da bela colega de faculdade. Deixou-se ficar respirando. volta para o mundo com aquela tua famosa doutôra? Rosnava o Censor. plano e em perspec tiva reduzida. . Passou a enxergar tudo cinzento e a ouvir muito mal. até o final do corredor. disse: 77 .Agüente firme. Pouco depois. Lee Miller está com um ataque histérico. Lembrouse de Helene.perguntou Déborah. sendo cortejadas. Sentia m-se contentes de estarem ali jun78 embora fossem incapazes de admitir que. .Quanto tempo durou? . finalmente. o que despertou nela o desejo de vê-las. como num desenho animado.Déb?.Essa noite só? . O pavor crescia à medida que seus sentidos iam deixando de obedecer à sua vontade.Preferia que fosse McPherson. tentou chamar a atenção. O que há? Não conseguiu responder.Carla? . com um gesto imperceptível de mãos. Carla cont . Puseram Helene e Lena no quarto ao lado .la.Quem foi que pegou o turno da noite? .. Vai. Uma voz chamou a seu l ado: .Sei lá! . deus a raramente vista.disse Carla. aos atordoantes lampejos de deuses e rostos do Coletor. deixando a realidade voltar aos poucos.Deb? É você? . O máximo que conseguiu foi gesticular timidamente com o cor po e com as mãos. apoiada em alguém.muito piores! O momento agora é para te esconderes e ficares escondida. a figura de McPherson chegando pelo corredor.Eu também ainda sou novata aqui. Idiota! McPherson passava diante dela. mas a ala está mesmo uma l oucura essa noite. soltou um longo suspiro.Déborah. Desmoronou nele. em certa medida. vou chamá-lo.Déb.

a voz de Carla foi cortada pela lâmina do pânico. Déborah.gracejou Carla num tom amargo. a voz de Carla e." . .. não lhe trouxe alívio. sem o menor rancor. morta de vergonha. . . o estômago pesa a.pensou consigo mesma . hesitando se realmente queria saber.Vá para o inferno! . seu corpo tremia. "Meu Deus .Você poderia ter me magoado.Estou apenas verificando . A seta atingira o alvo. .E como não podia entender a razão pela qual tinha sido poupada. não foi. Déborah começou a lutar contra o casulo. .O que disse sobre Doris Rivera talvez.as palavras custavam a sair .ou que tinha escutado uma das sessões de Helene com seu médico. Desandou a falar. . começou a seespreguiçar. Eu sei o que foi que aconteceu conosco. Déborah. quase chocante. . Ouviu-se. uma amargura recente mas que já se tomara familiar..ponderou Carla. cujo contato na nuca lhe lembrava a realidade. Não queria magoar você. Doeu de novo." Quando ele saiu de lá. parecia uma de nós! Déborah.Eu sei. subin do.. seus dentes rangiam de pavor e frio. porque existe uma possibilidade de que nos abram essas portas pa ra o mundo. Déb. . já inteiramente consciente.voltei a ser o que eu era lá fora: uma montanha imóvel que guarda um vulcão dentro de si. De onde estava.insistiu Carla com convicção.O quê? .. uma amargura terrível.Foi sim! . O silêncio é mesmo fatal . .ouviu a inspiração ag oniada na cama vizinha. nesse novo contexto. . é como um copo cheio que transborda.era Hobbs. e o tom de voz foi subindo.A carne já está cozida? .. mas não me magoou! . o único som audív el eram as suas respirações. . A gotinha que você pingou já se p erdeu na inundação. . Sua cruelda79 de.murmurou Déborah. Estou aqui apenas para ajudá-lo.Perdoe-me pelo que eu disse. as dúvidas. E nós ficamos assustadas porque algum dia teremos. . contudo.O velho Craig simplesmente não conseguiu suportar aquele silêncio todo. .Carla.Ainda está bem alta .. A fórmula consoladora de Yr pàreceu-lh e. Piscaram os olhos ofuscados pela claridade. parecia.Ela ficou boa saiu e agora está trabalhan do.. . .Doris Rivera! Aquilo despertou. sessões que se realiza vam na própria ala por causa da violência de Helene.Essa aqui também . ..declarou para o auxiliar que entrara atrás dele.O que foi que houve? . a realidade.. podia ver) na cama vizinha o corpo mumificado e imóvel de Carla. seja verdade. uma amargur a que encobria uma velha e contundente palavra: Verdade. . virou a cabeça para a parede. . . sem maldade: .Só porque a sua mãe era louca e acabou se matando. fazer você sofrer mais. que ficar "boas" e volta r para o mundo. em seu íntimo.. identificada de início por meio de palavras Yri. . o coração de Déborah martelava.Minha doença. para surpresa de Déborah . Eu esperava que a qualquer momento Helene di ssesse: "Acalme-se.. Por alguns minutos o peso do silêncio pairou absoluto sobre as duas. e ele cada vez mais perturbado.. você acha que tem razões para ser mais louca do que eu! . No interior do invólucro branco e estático. Entrou e tcomou a pressão de Déborah pela têmp ora. choramingando e cont orcendo-se dentro das amarras que a imobilizavam. . sentindo a costumeira dor nos ossos dos pés e dos joelhos provocada pela má circulação.berrou para Carla. Apagaram a luz e saíram.perguntou Carla na escuridão. Reagi para me proteger.Não. . um pouco menos dessa vez. 80 . .Não? Deixe mais uns vinte minutos! .perguntou Déborah. então. Naquele instante. não foi para agredir você..concluiu reaprumando-se ao lado de Carla. O corpo tremia. acendeu-se a luz.Nós não scomos como os outros . doutor. . Pressionou a cabeça com força de encontro à bolsa de g elo.

pedindo sem parar: . seguindo-o ao redor da s ala de estar. saboreando cada tragada de seu cigarro. para cima e para baixo do corredor. em termos vagos e pouco com prometedores. e o pessoal médico começava a dar sINais de ir ritação. freqüentemente duvidava do que dizia. e que noite após noite vinha atormentar seus sonhos. Sempre Debby. atravessando. por favor! . Tin ham recebido mais um relatório. levaram Su zy a exclamar. Jacob leu e deduziu que os ódios. redigido! como sempre. para esmiuçá-lo daqui e dali. mas acabar am voltando a ele.Virara-se para DÉborah coM uma piscadela de olhos e disse ra: . havia dezenove furos por dezenove furos. A perspectiva deixou-a terrivelmente assustada: sofreriam me nos. Pensava: o asilo de loucos. No teto. Estava obcec ado com o grito pavoroso que partira de lá. O medo e o desejo de tirar a limpo de uma vez por todas aq uela derrota. aliás.Dizem que ela melhorou em alguns aspectos . Nos momentos em que estava presente à realidade da ala. DÉbor ah costumava ficar acompanhando o piso. do banheiro dos fundos e. a coitadinha da Debby! Levantou-se furiosa e abandonou a mesa. passando diante das portas do banheiro da frente. Era Debby.Sentaram-se depois. Dissimulou. das de reclusão. Fora transferida para que " melhor a protegessem". para aqueles gritos. par a lá é que tinham levado sua Debby. em seguida. Ela própria.10 A família Blau sentou-se para o jantar. Segundo os regulamentos. via a penas aquele andar superior. a convergência desses sentimentos conflitantes. dos dormitórios (onde não era permitido ficar perambulando). Agora.Cigarro. C hegou a se perguntar se sofreriam. DÉborah pôde dramatizar sua condição por m eio de um simples recurso mental. Havia dezenove fendas no sen tido da largura do chão gélido do corredor. afinal? No íntimo.insistia Esther.Muito bem! Ela não está jogada numa cova aí qual85 Quer! Tem mÉdicos e o diabo! Por que então todo mundo vive chorando e lamentando a p obrezinha. o ódio contra Debby por ela se apossar de todo o amor. A nova situação oferecia a possibilidade de uma segurança física maior. Jacob. só que vivenciá-la implica a em arcar coM um tédio interminável como a própria doença. bem mais severos que os anteriores. Esther sabia desde o início que não lhe poderia esco nder a verdade. Para aquele andar. Os argumentos driblavam a filha. desde que "autorizados" por uma enfermei ra óu auxiliar. no entanto . O que significava isso para Debby. discutindo-o numa espécie de código. aquela espessa neblin a que os envolvia e os distanciava tanto um do outro. Já havia duas semanas que os gritos "Cigarro!" "Cigarro!" ecoavam. recomeçando tudo de novo. o dia todo. repetindo mil e uma vezes as palavras prudentemente vagas do administrador da ala. de forma tão palpável.Se você não pode se aliar a eles. decidiram esquecer o relatório para o bem de Suzy. Carla estava sentada ao lado de Déborah na sala de estar. Ao se sentarem à mesa. os pacientes que desejassem fumar deveriam fazê-lo no corredor ou na sala de estar. Quando se cansava desses pas seios. . camuflou e trancou os relatórios o quanto pôde. do corredor e dos quartos. Jacob furioso. lute contra eles. revestido de grades e barras de ferro. e vinte e três no do comprimento (incluind o a junção coM a parede) . enfim. Carla tinha vindo do último dormitório até a porta gradeada da ala. Esther estava desolada. da "ala dos violentos". mas não sem reparar no sofrimento estampado no rosto dos pais. encarando o pai e a mãe: . reformulados pela nova enfermeira-chefe . . J acob também sabia. Nos primeiros dias de sua permanência na Ala D. Isso bastava para despertar imagens grandiosas e feéricas em sua mente. a culpa por prever a derrota. era quase certo. finalmente. que comia e tagarelava jovialmente. não queria acreditar. contomava e retomava pelo outro lado do corredor. a enfermaria. revestido de placas à pro va de som. cont omando-o onde se ampliava para formar o chamado "saguão". e o máximo que ela podia fazer era tentar acalmá-lo. a ala dos violento s. caso fosse ela quem estive sse longe e doente. os terrores e a agressividade que sua querida filha reprimira tinham enfim vindo à tona. ia para junTo 82 . e fi caram esperando o tempo passar. consciente e inconsciente ao mesmo tempo da causa daquele clima pesado.

se quisesse. o acesso de furor de algum pacien te . Passava. . pontilhado pelas refeições. esta deleitando-se coM o cigarro. o ambiciona do lápis se achava enrolado em elásticos e enganchado sob a quarta mola da cama de Déb orah. um caso. pelo término do almoço . o sono. os sarcasmos das divindades e os elogios de Yr.Ai.Você vai precisar também de alguma coisa onde possa apoiar o papel. O administrador da ala não se ocupava diretame nte coM a família dos pacientes. sendo narrados. freqüentada na parte da manhã pelo pes soal da D.das mulheres petrificadas. reconfortá-la. e uma entrevista coM os médicos da ala. Esther escrevera outra carta ao hospital. Carla sorriu: . pe la hora de deitar. entrevistar-se coM a médica de Déborah. muita água. mas. perto da enfermaria. . ao fim daquelas punições e sacrifícios. Ouvia as denúncias do Co letor. comunicavam-se por meio de códigos e siderados armas e. visuais e táteis.Meus cabelos estão sujos. empreendida pelos doentes ao longo das paredes d a ala. A Dra. portanto. Às vezes. . Carla pediria primeiro e ficaria coM o banheiro dos fundos onde havia uma p ia ótima. uma briga. pela distribuição de sedativos e.Aquarela. DÉborah teria. Caso houvesse . O regulamento autorizava apenas uma paciente a usar as pias de cada vez. onde os acessos de violência e as crises de agonia despontavam como um oásis.. a maior parte d o dia contemplando o relógio. especialmente coM a Dr a. Carla logo compreendeu que ela dera um jeito de furtar lápis e papel e escondê-los. Tinha. . Fried.Isso significava "muito obrigado" . Se gundo o código. Vou desenhar um retrato seu . O tédio da loucura era como um deserto. . relembrados apena s durante a perseguição aos frisos.Que tipo de desenho seria? .Verdade. pelo jantar.disse DÉborah. seguindo coM os ol hos a fumaça do cigarro da amiga. os pacientes se divertiam bastante. algumas vezes. enfim. permanentemente en garde. Dentro dos banheiros. Déborah poderia ter-se inscrito para a oficina de artesanato. cumpria as exigências tirânic as do Censor. mas não o fez. go zavam justamente de um desses momentos. procurando. exceto se houvesse três auxiliares de serviço no banheiro. na parte dos fundos. e por isso não ha via sequer as sessões terapêuticas para quebrar um pouco a monotonia. no banheiro da f rente. Fried estava ausente. e visitas à Ala D não eram permitidas. nada restava senão esperar o interminável transcorrer do tempo.É necessário papel para fazer retratos . Estavam atrás do cano de água fria. q ue pedir o banheiro da frente. pela mudança de turno. contudo. DÉborah e Carla. ai. repetia que a pacie nte estava progredindo conforme as melhores expectativas. O plano funcionou às mil maravilhas e. uma ou outra pa lavra trocada de passagem. Precisaria de muita. acho que preciso lavar os cabelos .acontecimentos. agüente. assistindo a um congresso qualquer. sustos e ntremeados de alucinações sonoras. pedindo autorização para visitar Déborah em suas novas acomodações. e ficava esperando que algo acon tecesse ou não acontecesse. Desistira de "fazer coisas". ficavam as banheiras. e os momentos efêmeros e singelos de companheirismo abençoavam como a chuva. portanto. onde convenceria a auxiliar a abrir a porta que d ava para a banheira e a distrairia durante o tempo suficiente para pegar seu tes ouro. foi preciso esperar pela distribuição das bandejas.Isso queria dizer que tinha um livro escondido num lugar acessível. Depois. afixado sobre a porta da enfermaria. A resposta. sempre t rancadas. enumerados e relembrados por muito tempo. Carla apanhou no ar a ins inuação. mascarado como o rosto de 84 um esgrimista. um pouco antes da hora do almoço. desenhava um pouco sentada no chão e amparada pela cama da Esposa do Abdicado. Nos momentos de lucidez. erupções vulcânicas de terror. . proibidos na ala. sonhos pavorosos. . .sugeriu. Se não gosta. desprovidos de qualquer interesse.disse Carla displicentemente. Poderia. a não ser que fossem utilizados na presença de um auxiliar. como de hábito. estava sugerindo que ambas fossem pedir autorização para lavar os cabe los. Só podiam ser usadas na presença de um auxiliar. finalmente.Assim que puder..

Também era tensa. Suas amigas e as filhas de suas am igas já comentavam as faculdades escolhidas como se trocassem cartões de visita. a ala e os médicos. apanhou o trem de volta para casa e. procurando desfazer os temores de Esther pela transferência da filha para a Ala D.Maravilhoso.Como foi que você destruiu sua irmã? . uma emanação venenosa. Quando tudo parecia ter ido às mil maravilhas. compromissos de trabalho impediram que Jacob insistisse em levá-la de carro. foi impossível cont omá-lo. Esther fez a exaustiva viagem de trem só para avistar-se coM a Dra. Jacob virou-se para ela e disse: 86 . e Esther mergulhou o rosto nas flores. foi preparando as mentiras que contaria a Jacob e à família. pessoalmente. até que as lágrima s parassem de escorrer. Não foi por querer. conversou com Jacob e depois com a família. a Sra. Esther conversou coM a assistente social e obteve as mesmas respostas.algo a tratar. . desfiavam seus sonhos nas páginas de um diário íntimo qualquer. apesar do calor de agosto que fazia na Terra. sorridente e tranqüil a. Quando s e encontrava coM essas mães e as ouvia contar os problemas das filhas. tremendo com o frio que vinha de Y r. Estariam ansiosos para escutar isso . Começou a folheá-las.. embaçando os modelos horrivelmente alegres que ilustravam os anúncios : FACULDADE NO OUTONO ELEGÂNCIA CLÁSSICA PARA O CAMPUS E na página seguinte: PARA AS NOSSAS JOVENS DEBUTANTES BRANCO. Fried a Déborah. como o suor por exemplo. Ao contemplá-las. v enenoso para a mente. É algo inerente ao meu eu. constatou que sua presença em nada facilitava o acesso aos méd icos. Diria que tinha visto Déborah . Quanto ao regulamento que proibia visitas.Alguma coisa que você diz e que destrói? Alguma coisa que você faz ou deseja? . Suas pequenas idiossincrasias eram idênticas às daquelas meninas. Olhava distraidamente pela janela do trem quando reparou que as revistas continuavam em seu poder.. Também era tímida. nunca se sente à vontade coM as amigas!" "Helene encara tudo como se fosse um a questão de vida ou de morte. Dav am os últimos retoques nos vestidos maravilhosos que suas filhas usariam. BRANCO NO PRIMEIRO BAILE A página era toda de miosótis. portanto. Rollinder. uma secreção. e estas. por sua vez. reconhecendo um pouco de Déborah em cada um deles. Terminadas as entrevistas. BRANCO. Fried mostrou-se gentilmente reservada. mas não encontrou refúg io. parecia-lhe que não faziam mais do que reproduzir em escala menor. iludindo-os e aparando as perguntas mais embaraçosas com fluência e convicção. Trata-se de uma emanação da pessoa Déborah. marcariam uma hora coM a assistente social. ela é tão tensa". Existe um termo Yri para isso. e que tudo ia muito bem.Não. ninguém ousaria contradizer suas histórias pelo menos durante algum temp o. conseguiria dar um jeito de b urlar os regulamentos. é uma qualidade do meu eu.. Continuav a otimista. Acho ótimo que ela tenha feito tantos ProGressos. porque da próxima v ez estou decidido a ir com você. Chegando ao hospital. As colegas de turma de Déborah provavelmente estavam admir ando aquelas mesmas páginas. embora de forma ainda mais fri a e mais impessoal. A Dra. A mentira que contaria a Ja cob e a dor que precisava guardar dentro de si pareciam refletir-se em tudo o qu e via. Esther repassou todos esses diálogos. frustrando as esperanças de que.perguntou a Dra. . Será que'algum dia voltaria a participar do mundo dessas meninas? O hospital teria sido afinal um erro desde o princípio? Ao chegar em casa. julgando que se tratava de "uma base da doença". vendo-se nos modelos. Procurou distrair-se coM as fotografias e as ilustrações. Também mascarava seu medo coM a pre cocidade e uma certa sagacidade cínica.. sonhando coM o dia da formatura e preparando-se para ingressar na faculdade. Ela estava exposta à minha essência. já na viagem. seus olhos se enche85 ram de lágrimas. Esther tinha levado uma boa coleção de revistas para Déborah: sequer permitiram que as entregasse. os de Déborah: "Marjorie é tão tím ida. . algo venenoso. Fried. que se aconchegara no divã. Felizme nte.

ampliando cada vez mais seus contorno s e a virulência de sua substância.Engraçado. Nunca mais tocaram nesse assunto. Para que uma pessoa se esconda. . por que então não escondê-la e continuar em segurança? . Por que não.Não . que parecia uma paixão às avessas: ela e sbravejou. segundo Déborah.A doença não está em ver ou ouvir coisas. . vinha s e desenvolvendo havia bastante tempo. Não passam de bons métodos para fugir de uma verdade que pode vir a ser dolorosa.Eu tentei matar minha irmã quando ela nasceu . Déborah dobrou-se trêmula e ofegante de dor. defendendo e embalando a imagem irreconhecível criada por ela. A doutôra esperou até que Déborah estivesse e m condições de ouvi-la. Descreveu os ciúmes dos primeiros tempos e o amor que surgiu depois. .Um momentinho. Invadiu-a um sentimento de profunda grati dão pela família. .Ora. ma s a doutôra foi irredutível: . isso realmente não adianta. sim... ou inventar outros acontecimentos. se tomara uma criatura estranha e irreconhecível. exclamou o Censor .Pois bem. me lembrar de um dado que eu tinha esquecido . Evita que você tenha que e ncarar não apenas o que realmente fizeram com você. ela as e nfeitará como bem entender. . lá fora no mundo é agosto. adornou cada uma de suas infâmias com uma eloqüência absurda. mas o frio e a névoa só existem dentro de você. Não houve estrondo nenhum de nenhum canhão. . . As encostas e escarpas.disse e ficou surpresa ao ouvir s ua própria voz pronunciando tais palavras. sincero e parecia m esmo acontecer. e então perguntou com voz pausada: . . mais cedo ou mais tarde. Para Déborah. . Nunca ligam o aquecedor na ala. Contudo.Tentei atirá-la pela janela. .E continuar louca.Ah. A doença. considerando o que fizeram comigo! .Não. e a menina monstruosa que acabara criando.Você ainda tem sentido muito frio? .Quer dizer que continua tentando jogar areia em meus olhos? Déborah protestou. É um truque velho. A doença é o vulcão.Que seja. carregado de culpa e tormento.respondeu Déborah. .Como foi? . mas também o que você fez com você mes ma e continua fazendo..perguntou a doutôra... está por baixo disso Nunca transmiti sintomas a ela. . sua sombra tomara-se imensa. minha querida. sendo corrompidas por ela: Suzy mais do que ninguém.iris. ao saber que outras potências disputavam a sujeição dela.. e todas as pessoas que conhecia acabavam. . Déborah teve um acesso de autocomiseração pela criatura cheia de miasmas que era e pôs-se a discorrer sobre o fenômeno. mas o prazer de se auto -acusar arrebatara Déborah com tamanho vigor. 87 . por ser amorosa e impressionável. muito a propósito. basta esquecer.Subitamente. as exaltações subseqüentes se encarregaram de transformar o f enômeno numa coisa bastante irreal. O cheiro nauseante de éter e clorofórmio envolveu-a e as pulsações do coração se fizeram nsurdecedoras.Tenho. Quand o terminou.Não. Lamento. .aparteou a doutôra com um gesto de mão. A doutôra insistiu para que voltasse a falar sobre a destruição de Suzy. desde que começaram essas chuvas e esses nevoeiros gelados. o que dissera sobre a emanação maléfica era.Diga uma coisa: você fazia com que ela tivesse alucinações ou sentisse o cheiro de c oisas que não existiam por perto? Você fazia com que ela duvidasse de sua própria sani dade ou perdesse a noção de realidade? . ou truncar os verdadeiros. Eu te preveni. Esse disfarce s equer foi inventado pelos seus iiris. O céu está limpo e o sol quentíssimo.Seus pais castigaram você? . 88 O tumor despertou furioso. continuar louca. e desferiu uma flecha aguda que atravessou seus domínios para lembrá-los de sua supre macia. Quando ia fazer isso. tomeou. O disfarce que consiste em pôr toda a culpa nos outros. em parte. mamãe entrou e me impediu. Você vem.

As deformações físicas mereciam uma certa piedade.e riu. Só por serem loucas. você compreende.E seus pais de fato nunca tocaram no assunto nem fizeram perguntas? .Não foi só a idéia de matá-la? .perguntou ela. de tudo o que fizeram por mim. mesmo que em vão. os monstros e os corpos de seus mais temíveis pesadelos. lunáticas. piradas.Depois da operação. espalharam a notícia para as de trás. Pássaro-um. logo que o viram . que optaria por trabalhar em hospitais psiquiátricos como altemativa à prisão. Nariz era um des ses condenados arrependidos. Carla limitou-se a murmurar: Gosto de ser a punição dele. 89 . fechado as portas e janelas. As que se achavam à frente do grupo.Compaixão. Imagine a cara dele quando desco brir o que eu enterrei! . . Certa vez. O sujeito é um Nariz. o Sr. Um dos aspectos de sua doença é que todas se julgavam o centro do mundo. Por outro lado..Vergonha e intimidade. E apesar de tudo o q ue me deram. o que o Sr. as pacientes acorreram ansiosas ao saguão para ver quem tinha substituído Hobbs. . Todas tinham desejado se matar... Por um instante est eve à beira das lágrimas. compaixão.Pois é. Helene? Caso encerrado . mas a morte e suas convenções eram encaradas com o maior desdém. o mau cheiro do cadáver persegue o crimi noso. e as lágrimas se recolheram imediatamente.pediu a doutôra.. numa ocasião em que ela disse: "Ah. foi a resposta dele.declarou ela.É um Nariz. birutas. Em algum lugar. Seu sorriso sarcástico deixou o auxiliar furioso. . Helene postou-se diante da enfermaria e começou a bater os pés com força. Lactamaeon levou-a até o pântano para que visse. 90 11 Quando entrou o turno da noite.. Segundo essa visão. . Quando o turno da noite entrou. me sinto necessária . A expressão fora inventada por Lee Miller. O caso era para ser mantido em s igilo absoluto.Helene riu e alguém completou: .Morávamos naquela casa ensolarada onde ficamos só por um ano. .Que cheiro horrível é esse? . Detesto todos eles.Déborah achava que eles tinham apanhado o fato escabroso e sepultado às p ressas num lugar qualquer. . He lene tinha uma frase lapidar: "Um louco é um enforcado cuja corda arrebentou a tem po". Hobbs fizera tinha si do mostrar a língua para elas. enquanto as loucas furio sas. caçoar a uma distância segura. inclinando-se para ela. . Hobbs tinha ido para casa depois do ser viço. há um ladrão que ouviu dizer que as pessoas co stumam enterrar e esconder seu ouro e suas jóias.que consentira em viver com um monstro e tratá-lo como pessoa. . tentavam acertar uns bons tapas nele. sabia muito bem que nessas circunstâncias. . Havia em Yr uma região chamada Pântano do Medo. as pacientes não se sentiam obrigada s a manter a decência e a evitar de falar mal do morto. . Eles se recusam a lutar . como se faz com um cadáver em decomposição.Ambas riram.continuou a doutôra.E o burburinho foi crescendo. Déborah desatou a rir. e todas invejavam a morte. Ao saber da novidade. vergonha e intimidade. . Todas as pigméias-monjasp risioneiras confinadas na Ala D. f lutuando na superfície de lodo. .O que é? Leve-me com você . até as mais alheadas. . mas a doença se apressou a lembrá-la de que chorar era humano.Nunca.Vim anunciar que o caso do Sr. aí vem o govemo e diz: Vamos esfregar o nariz de vocês naquilo para verem o que é 91 bom! Escolham: ou a prisão ou o hospício! . tentado o suicídio de uma forma mais ou' meno s diligente. impregna tudo com sua podridão e seu ranço. Na noite anterior.O que é que você tem agora. O barulho atraiu logo um auxiliar. mas com uma amargura que era rara nela.. Tu não és como os outros. acumulando-se ano após ano.. ele s são os Narizes e nós o aquilo. sabiam do acontecimento.Não! Cheguei a carregá-la até a janela. paira no ar. . Hobbs está encerrado. ligado o gás e se matado.. repetiu Yr. esses desertores. pronta para atirá-la.

Queria dizer com isso que os seus pés estendidos à frente do assustado rapaz simboli zavam os aparelhos nas corridas de obstáculo que os recrutas tinham que saltar dur ante o treinamento militar. estava at errorizado. Eu também não gosto desse negócio de chaves .. ter. Voltou a se recostar em silêncio. As pacientes sabiam que aquilo era mera for malidade.Atenção carrascos de Hobbs. carr egando consigo o Nariz todo empertigado. Mary. não riram. soltou uma gargalhada e proclamou: . muito menos entenderam. . . ninguém fez comentários irônicos a respeito daquelas súbitas ausências me ntais dela.Ela também é uma pessoa. ele vai desmaiar! e depois ressentida . e Mary. . por descuido. . com os maxilares contraídos de pavor.Aposto que está com medo de que a gente o contagie . v ocê não se distinguiria de nós! McPherson.. só que demonstrar esse sentimento signi ficava demonstrar que eram vulneráveis. um riso bonachâo.. tal como Déborah anteriormente. Repetiu-as. que tinha morrido por causa disso.Sem essas chaves.disse Carla. As pacientes caíram na gargalhada. por favor! . por se tratar de McPherson. não p uderam conter a crueldade que. isso não lhe despertava nenhuma reação sarcástica ou agre ssiva.Talvez ele seja bonzinho .pediu a enfermeira-chefe da ala às meninas que e stavam sentadas de encontro a parede no chão do saguão e do corredor. Suponho que devemos chamar um deles de Nari na . contentando-se em repreen dê-las novamente para que saíssem do chão. Ap ressara-se apenas a tapar a brecha que ele. comentou rindo: . daí terem que ocultá-lo. Viviam sentadas no chão e ninguém dava por isso.Vejam só! A quem pensa que está enganando? . coitado. contu do. que é isso? Não scomos assim tão diferentes! . Ficaram para assistir a primeira caminhada.a. enquanto esfregava nódoas invisíveis de sangue. como se a porta e a fechadura fossem outras. procurando descobrir qua l delas era a culpada. A expedição acercou-se delas. contentou-se em rir. Carla arm ou um olhar de pasmo.disse Déborah. Constantia parecia estar decidida a passar aquela noite ando. para que as enfermeiras. com sua jovialidade importuna.fechadura.declarou com voz cantada. da seção de reclusão. Constantsa. Sentiu obscuramente que essas palavras feriam-no de algum modo. porém. a procissão de magos voltou a desfilar diante delas. Ora. muro. para elas. mas bastava chegar um con vidado. muito mais de si mesmo do que de las.Obstáculo! .comentou a cerimoniosa Mary.disse antes de entrar na enfe rmaria.Deviam ter trocado a fe chadura. Ao perceberem isso.. No entant o.disse McPherson. Como a presença de McPherson paira sse ainda no ar. sabia? . Déborah ergueu os olhos para o Nariz. 92 cacarejando desculpas por tudo e por todas. trocado. Carla olhou à sua volta. que ela e as outras compreendiam que lhes cabia subs tituir os "horrores de guerra". e que iriam se esforçar para satisfazer o desejo do exército de que o treinamento desse homem fosse rigoroso. . ao ouvir os gritos.. que o novo membro da equipe teve de empreender ao longo da ala.Qualquer coisa é melhor do que Hobbs.exclamou Helene sem nenhuma malícia. Deviam. era a expressão verdadeira e natural de suas personalidades. lamentan aue a casa estivesse "tão des arrumada". Todas ficaram contentes com a presença dele.Levantem-se do chão. Abriu-se de repent e a porta da ala e McPherson enTrou Num instante todas se acalmaram.Os Narizes costumam vir aos pares. O homem. Seguiram adiante.Chiii! Meu Deus. . Déborah olhou para com severidade e comentou num tom significativo: . . Caíram todas na gargalhada com essa alusão a Hobbs.. extenuante e interminável. Afastou-se dali. começou a gritar assim que o viu.. . tal como esposas provincianas. perdida de novo no seu limbo. aí vem outro freguês para o gás! . e percebeu que ninguém tinha compreendido. Quando. Helene estremeceu de repugnância quando ele Passou. tinha aberto no. A entrada de McPherson constituía para ela um acontecimento absolutamente diferent e do anterior. As enfermeiras. a reação delas oscilou entre o divertimento e o ódio..

Sylvia falou! . as pessoas procuravam se convencer de que realmente havia m escutado aquelas palavras e de que elas partiram da criatura muda e enregelada que era Sylvia. Ela se encontrava naquela região medonha chamada "Envolvimento" ou "Realidade" e ninguém podia ajudá-la. Pressentiu que sugeriam algum segredo pavoroso.Sobre o que? . Atirou-se impetuosamente em Yr: . Depois da memória. mas seus esforços foram em vão: o chão se desvaneceu como uma miragem no deserto. . tão muda e enregelada que se confundia com os móveis da ala. o que era vertical e o que era horizontal.Por que vocês estão tão excitadas. e até mesmo o Yri transformara-se num emaranhado de sons inarticulados. raramente usado: nelaq.retrucou a enfermeira e fechou a porta. Entreo lharamse descrentes de seus sentidos . .O relatório da ala ainda não está pronto . .disse Lee lacônicamente. Não! Não! Se fizerem isso. ora distante. mas não houve como decifrá-lo. Todas emudeceram assombradas. Déborah tateou em busca de chão firme onde pudesse se ergue r. hein Miller? . mas estava fechada . não tinha limites. transida de medo. Era preciso que se fizesse algo por Lee. falta de visão. como se estivesse diante de um vendedor inoportuno.£ bom que você chame a médica. As direções embaralhavam-se. agora.incapaz de pronunciar uma palavra sequer.Chame a médica .ela falou ou fui eu que escutei? .93 . mas não conseguia articular as pala vras necessárias. Finalmente. Sua voz era tão inexpressiva que o som parecia ter vindo da própria parede. Tudo girava à s ua volta. cujos raios feriam-na como facadas? Perdeu totalmente o contro le de seus membros: não sabia onde estavam os braços.Isso não tem importância. Encerrada num corpo inerte inerte como o de Sylvia agora . Restou-lhe apenas uma sucessão vertiginosa de sensações inidentifi cáveis posto que faltavam palavras e idéias para enquadrá-las. Yr louvava a coragem de Lee. . Adams virá Sempre vem.Quanto mais f undo. extinguira-se o b reve e pálido lampejo de vida em Sylvia. Procurou coordenar as idéias e constatou que pe rdera também a memória: sentiu-se incapaz de recordar uma só palavra. as n oções habituais de tato. O silênc io pairou sobre a ala. que observava o desespero de Lee Miller. era o sinal de Yri para quem estava tankutuku .perguntou a enfermeira . nem faria sentido para você porque foi parte de uma conver sa. bateu. Ele deve ser mil vezes pior que o outro! .O que foi que ela falou? . Déborah tremia. não minha.falou Sylvia que estava encostada à parede. Era impossível determinar se estava de pé ou sentada.Ai.E então.a descoberto . movimento. enlouqueço! . voltaram a abrir. Foram revogadas todas as leis da física e dos sólidos. A enfermeira olhou para ela aborrecida. De qualquer maneira. ora próximo. aí está o mundo. foi a Vêz d o cérebro esfumar-se.implorou Déborah. forma. ela veio às três da madrugada! .. Uma aura de luz sombria rodeava Lee.A religião deles condena o suicídio . Passado algum tempo. ou seja. L ee bateu de novo. nada em Déborah re spondia mais. E de onde p rovinha essa luz. O flamejante Anterrabae acossou-a às gargalhadas: Como ousas solidar izar-te com o mundo! Traidora! Serás punida! Yr cerrou-se sobre ela. Não admiras a nelaq tankutuku? Pois bem. Expusera-se por causa de outra pessoa que jamais iria elogiá-l a ou demonstrar gratidão pelo seu gesto. nem como movê-los. Dirigiu-se à porta da enfermaria. até que vieram abrir. Toma-o! Irrompeu um vento tempestuoso.exposta aos perigos e distante do refúgio. A vistou à distância um fragmento de superfície mas o vento logo carregou-o para longe. O terror. compreendeu como seria absurdo r eproduzir qualquer fragmento da conversa.Vamos chamá-lo Hobbs Leviatã. Dissolveram-se as paredes e o mundo se desfez num grande caos de sombras. . pois se não chamar a culpa será sua.Lee Mi ller foi a primeira a reagir. melhor. gravidade e luz.? . Gostaria de agradecer a Lee por se ter exposto 94 sua falta de visão. Fazia um ano que Sylvia não dizia absolutamente nada . Bateu.. Da última vez que Sylvia falou. Cristo! Por favor! Déborah. O Yri tinha um outro termo para designar tal estado.

e dizia: . e como estava ator doada demais para insistir. o medo dos primeiros dias foi cedendo lugar à cólera. Estavam roxas de frio. Notou que estava dei tada numa cama que não era a sua. estavam se saindo bem em alas diferentes. .É realmente incrível! é realm ente é incrível! A guerra entre o Nariz . e não a ele. ou uma vingança de Deus ou uma obra do diabo.ou Hobbs Leviatã. . Não brinques conosco. tinha. como decidiram chamá-lo. Mais tarde. quando ele vinha trazer a toalha. temer osa de que a Punição voltasse a fustigá-la e a arrebatá-la de novo. Meneou a cabeça . saiu para o saguão. conhecerás um castigo mil vezes mais terrível.. as doentes lutavam com as armas que seu est ado lhes permitia. para b aixo e para os lados. e virá-la pelo avesso. enfim. as três coisas juntas. sem saber o que fazer.A pessoa obviamente não entendeu. Helene.E Déborah atormentava-o com ob servações ferinas sobre as similaridades entre os psicóticos e os fanáticos religiosos.De Paracleto a Paranóica.. . O problema é que não havia gente suficiente na equipe. . por 1 acaso. Pássaro-um. porque agora ag rediam Ellis. ou ainda.respondeu Déborah. Imaginavas. não ousava participar desse outro tempo. que se moviam num elemento chamado tempo. a religião de Ellis considerava o suicídio um dos pecados mais terríveis. p ara ele virtuosa e justa. lembrando-se com reverência da imen sidão.Descobri o que é ser insana .disse Anterrabae num tom condescendente. No entanto.Scomos capazes de manipulá-la. ridicularizando algumas de su as passagens para escandalizá-lo. pelo me nos. deitou-se numa cama. De acordo com os preconceitos alimentados no homem. também não gost ava muito de Ellis. tentando diminuí-lo. fundir a cuca. Vendo. porque estamos te protegendo. ficar louco. envolveu-se no cobertor e. voltou para o quarto. Não brinques conosco. Pássaro-um. Constantia fazia-lhe propostas ostensivamente li bidinosas. Passou a se julgar vítima de uma perseguição religiosa. Helene jamais voltara seu arsenal de conheci . dem ente. Os dois outros n ovos condenados arrependidos. com uma pequena m esura.e as pacientes prosseguiu. Dirigiu-se a uma delas pa ra esclarecer uma questão que lhe parecia irrelevante: . Estás vendo como é. uma consciência razoável de que existia. Ellis não servia de jeito nenhum para o trabalho. Amém. Amém. a Dra. muito verdadeiras. tomava-a. a insanidade ou era 96 deserto merecido para suas vítimas. . a primeira coisa que viu foram 95 as unhas das mãos.Puxa! Então em que dia foi? . o intrigava: porque agrediam Hobbs e nunca a ele. Detestava e temia os pacientes. Um fato. Lá fora. Fried perguntou a ela o que havia descoberto desde a última ses são. Levantou-se. os. McPherson sentia essa atmosfera de ódio e violência pairando sobre a ala. preferiu se afastar À sua volta. uma verdadeira monstruosidade. e um del es até demonstrava habilidade no trato com os pacientes. Pessoalmente. e fic ou aliviada ao reconhecer que era a sua. que todas es sas descrições não passavam de metáforas? Perder a cabeça. de que via corpos em três dimensões. porque podemos jogá-la para cima. Da próxima vez que admir ares o mundo. Nauseada com o frio que sentia. Não era para menos que estava condenado a carregar o espectro de Hobbs que os pacientes lhe haviam imposto com os seus apelidos. corpos de três dime nsões reclamavam do calor e abanavam-se. Contra a repugnância que ele extemava.Quarta-feira. chama dos pessoas. mas procurava mostrar-se si mpático com ele. tiritand o ainda. . As letradas reescreviam a Bíblia. um már tir. morto e putrefato. E para tomar as coisas piores. o que tinha ingressado na Ala D. do poder e do horror contidos nela. lunático? Pobre de ti! Vês agora que elas são todas muito. Embora não conseguisse reconhecer ninguém. mePherson. do qu e esses doentes na arte de desferir as setas sobre o ponto mais fraco do animal. McPherson pe nsava com seus botões que não havia no mundo caçadores mais sagazes e implacáveis.Que dia é hoje? . portanto.Ao emergir da Punição. porém. o sol de verão resplandecia sobre u ma paisagem verdejante. o coitado arrastar o seu Leviatã. e encarava o govemo que o punira do mesmo modo que os mártires cris tãos deviam encarar os procuradores romanos.

Pretende falar com todo mundo? (A suspeita e a cautela contra os pedidos. Hobbs Leviatã! . sem vacilar. . Cabot insistia do dormitório . Não sou simpática. os qua . delicadamente. Déborah Blau. soou. adeus. embora estivesse fora do quarto de reclusão. Deb ..Mesmo com Marie e Lena? (Os próprios pacientes consideravam-nas os casos mais gr aves da ala). rescendendo a urina e a desinfetante..Hobbs cometeu suicídio e o exército cometeu Ellis! .Ei-lo que surge. embora 98 O rasto de tensão permanecesse ainda por alguns instantes Evitara-se por pouco um grave incidente. e conheci Hobbs melhor do que você.. tá? Sentiu-se. o cair 97 da noite. dá é grilos na cuca! .. instaurando um co ntraste patético. Observou as pacientes apáticas esperando o jantar. Não compreendia como e p or que escapava aos desafogos de amargura e infelicidade que o rodeavam.Isso é hora de perguntar? Deixe-o cuidar primeiro de suas ovelhas! Havia um rádio embutido por detrás de outra espessa grade na parede. naquele momento. as intenções e os homens do mundo superou a prudência e motivou a p ergunta). evitava feri-lo com palavras cruéis. . numa paródia melancolicament e romântica: .mais do que a simples soma das intranqüilidades individuai s. ficou esperando que o sono chegasse Deuses e o Coletor foram gradativamente se reduzindo a um sonolento meio-tom e iam apagar-se quando McPherson entrou no dormitório e parou junto à sua cama.. das suas convenções e rotinas. que envolvia a ala. e ligou-o bem alto.Linda. sai Ellis da enfermaria onde estivera redigindo os relatórios médicos. E. Sue Jepson e as demais estavam en tregues às suas manias habituais.deixe em paz o Sr. o qual era liga do apenas durante certas horas do dia e sintonizado em músicas inócuas. "Sou a morta que medita".Déb. está bem? Por que eu? Quero que todas vocês deixem-no em paz. satanás! .Eu sou a Esposa de um Ex-Presidente As sassinado dos Estados Unidos! . mas não é bem a do tipo que confere patente. continuava enclausurada e m si mesma. os normais.a voz dele era suave . .Ora. Quando a voz lânguida do locutor desejou-lhes uma "boa noite sob esse céu estrelado". Nisso. com a atmosfera pesada. livre das minhas amarras.Afasta-te do meu caminho. Nada de piadinhas. Suspeitava que não se tratava apenas de uma questão de sorte.. Blau estava parada ao lado das grade s do aquecimento. o grande monstro marinho.O cara recebeu uma comissão.Bati as asas em despedida. Desta vez. As provocações imediatamente recomeçaram: . A srta. fitando alguma coisa para além da parede. Ecoaram os sons delicados de uma música romântica para dança. deixe ele em paz. por que eu? Pensei que vocês. Marion.. tinham convencionado que nós estamo s fora do jogo.Quais são as últimas do Inferno hoje. adeus.. Constantia. Ellis. os sedativos e finalmente o sono. Nada de referências a Hobbs. Déborah enfiou-se na cama como de hábi to. destrancou a grade.mentos contra ele. porém. Foi uma gargalhada geral. McPherson era o único que conseguia chamar as p acientes por seus apelidos sem que isso soasse falso. a carrancuda.Hum.Não. Carla replicou. foi até o rádio. não muito cont agiantes. respondera ela com uma voz sumi da. Os ânimos se acalmaram. pastor? . Fique sabendo que ele era um dos nossos! A única coisa que o separava de nós eram os cinco centímetros de metal da sua chave. sentia-se que pairava no ar uma i ntranqüilidade ameaçadora . murmurando para si num canto. hum! com todo mundo. . usada. muito menos delicada. Lee Miller cerrava e descerrava os den tes. Perguntara-lhe uma vez o que estava olhando. . Assim que tcomou o sedativo. hilariante mesmo. no entanto. McPherson.

contra o efeito dos sedativos. imitando as pessoas: Acorda menina! Tire essas besteiras da cabeça! . lame ntava o fato de Déborah ter nascido mulher. Gostaria. ele existe.exclamou Déborah. Você não concorda que.Estas e outras advertências visavam precavêla contra os cúmplices sorridentes da brincadeira secreta. Percebe agora o que isso significa? Será que você realmente não vê que os deuses os diabos e todo este seu Yr são coisas criadas por você mesma? Não foi isso o que eu quis dizer! . Vivia chamando as mulheres de vac as e putas parideiras e. segundo ele. . como se tudo fizesse parte de uma trama. Lembrava-se nitidamente da sua voz fam iliar incitando: . sent iu que ele estava tranqüilo. Ainda assim. Nunca a ouvi insultar uma delas. que você me levasse de volta ao seu passado. nunca chore.Afirmou que estar doente era como ter um vulcão dentro de si e de pois.raro em qualquer parte. não se trata da mesma coisa? Concordo.Você é esperta . falando a respeito de sua irmã.ain da dará uma boa lição neles! . por algum tempo. embora os sin tomas estejam intimamente relacionados à doença e influam por vezes sobre ela. então. Aos poucos.Perceben do o olhar assustado de Déborah. pareciam t ambém apontar o caminho da destruição final. . Esta noção de orgulho. McPherson. Lembrou-se do estribilho que durante anos o Coletor repe tia. ainda que se confundam freqüentemente.Quando a machucarem. disse que caberia a ela decorar as encostas como bem entendesse. dando-lhe tapinhas de uma brutalidade mal contida. Graças àq ueles meses de terapia. Nunca a vi molestar outras pacientes. antes das encos tas terem sido decoradas para darmos uma olhada juntas no próprio vulcão. recuando sobressaltada. vinha carregada de ódio. consistia em morrer com dignidade e agonizar como se o fizéssemos todos os dias. é claro. McPherson deu meia volta e saiu do dormitório. há um outro aspecto que você parece admitir: a doença e os sintomas são coisas distintas. .Ótimo. uma brincadeira misteriosa que todos conheciam mas ninguém admitia conhecer. mas sua voz vibrava de indignação. bem como as inúmeras pequenas decepções que são vitáveis na vida. . devido à sensibilidade e aos temores de Déborah. mas que. mal se sentia ameaçado. pensando sobre o que ele ti nha dito e como o tinha dito: palavras duras mas verdadeiras.Vou tentar. Sob a indignação perce bia-se um tom .recomeço a Dra. Deixe Ellis em paz. por acaso. . burilando-lhe as arestas ferinas. Ria! Não permita emhipótese alguma que 101 eles vejam que conseguiram-atingi-la. Embora não conseguisse enxergá-lo na escuridão.mas quero lembrar-lhe que muita gente lá fora gostaria d e receber ajuda e não pode.Escute. ao retrucar. 100 12 já uma coisa que você disse numa das sessões anteriores que não me sai da cabeça . . você acha que todas as pessoas doentes estão em hospitais? Vocês se julgam. (Débo rah lembrou-se do que dissera à Carla e voltou a sentir99 se culpada). Déborah começou a perceber que havia muitas razões para o horr or que o mundo lhe inspirava. Você deve saber reconhecer uma perturbação mental à primeira v ista.dizia . No entanto. sobretudo num hospital psiquiátrico . Ele a encarou com o rosto severo. surpreendendo Déborah com uma atitude que ele nunca tomara antes. o poderoso soberano da dinastia. . pr ojetava-se ainda sobre todos os da família.Não de uma só vez. donas de todo sofrimento? Não pretendo trazer à tona questão de dinheiro isso é mais do que sabido . Déb. teria que desafiar o mund . O orgulho. entretanto. continuou falando baixo.um t om de respeito e sinceridade entre iguais.A segunda da classe não basta. Fried. Tinham percorrido já as Grandes Decepções. acrescentou . Um dia você se sentirá satisfeita consigo mesma. você tem que ser a primeira! Ou en tão: .Yr exis te! Não tenho dúvidas de que. para você. Déborah lu tou.is ele se apressava em afagar. A sombra do avô.Empenhara-se em aguçar a sagacidade verbal da neta nos mo ldes da sua. O pavor que sentiu ante a responsabil idade que aquela franqueza impunha veio temperado com uma sensação nova: alegria.

. expondo a verdade. No entanto esta precocidade mais iludiu. O abismo existente entre as pretensões do seu avô e o mundo que a cercava. .o todo.E você confia em mim? .Meu. Os outros. essa ciência com a qual nós duas estamos trabalhando. Recrudesciam. . enquanto vigorou a trégua armada 102 o mundo. em seguida. . como se visse nesses episód ios uma espécie de obscura confirmação. esbarrava contra a impossibilidade cruel de você consegui r a ascendência desejada junto às pessoas de sua idade. Tudo cinza. .Sua mãe não teve problemas de gravidez quando você era bem pequena? . com palavras cheias de ódio. . vestidos importados. no entanto. . não dê o braço a torcer! . Se não confiasse. O avô. sólida e indiscutível daquel e momento. Eu sou pequenina. as crianças de sua idade.Não sei..Mas é claro.Sua o quê? Vamos! . Durante muito tempo. da verdade. Ela é grande e branca. a ancestral e mística guerra entre um imigrante aleijado e um Conde de Latvia morto há séculos? Déborah cresceu num ambiente e numa época em que os judeus americanos continuavam ac ossados pelos terrores da lembrança das velhas batalhas das quais haviam fugido do Velho Mundo alguns anos antes.Teve.. . onde eram fuzilados pelos poloneses "amantes da liber dade". as novas batalhas. Déborah. e se a agredir em.Continue .. Gêmeos. Percebiam temerosas o que se passava com ela. . Os resultados pareciam confirmar as pa lavras do velho. cercada de cuidados. empregadas. por mais impressionante que fo sse para os mais velhos. Déborah usou sua sagacidade cáustica para con estarrecer os adultos. . . algum dia você vai lhes dar uma boa lição! A "lição" que ela tinha que dar consistia em exibir uma impostura que seduzisse e im pressionasse as pessoas: sua precocidade. Fried perscrutou atentamente a fisionomia de Déborah por algum tempo e. O abismo existente entre a menininha rica. e a. Débora h lembrava-se de ter encontrado várias vezes a mansão dos Blau salpicada de tinta. você se constituía num solo dos mais propícios para que a semente de Yr germ inasse . partiam imediatamente para uma posição de ataque.Não e xiste cores.E. no entanto. Só que essa condição. que falava de um lugar onde já estivera antes . As ilusões inspiradas pela próp ria precocidade: você era especial. Conheceu de perto esse ódio anti-semita e chegou mesmo a ser agredida uma o u mais vezes por valentões da vizinhança. . Ela dá comida.Tenho um pressentimento. O conhecimento básico que você tem a respeito de si mesma. exclamava triunfante: . Eu não como. são todos u ns idiotas.As decepções com o mundo dos adultos. em seguida. A Dra. Vamos experimentá-lo juntas? . Caminhe de cabeça erguida. Há barras nos separando. amor. e vencer. Acredite nele. Justifiquemos a psiquiatria (Risos). Nas cidades maiores.concluiu a doutôra . e sábias..Sentia..E o quê? Onde está você agora? . ela abortou. o u ratos mortos fedendo de manhã ao lado do jornal que noticiava a fuga dos judeus para a fronteira da Polônia. m inha. disse: . apenas tonalidades cinzas. . pelo avô.deixou escapar Déborah..É inveja! Os mais capaze s e os mais espertos são sempre invejados. pôs-se avidament . ocorriam manifestações germanófilas e at entados contra sinagogas e vizinhos judeus que ousaram abandonar os guetos.Salvação! . Deixe estar. por outro lado. não existiria. à medida que o poderiu de Hitler se ia expandindo pela Europa. eu. A coisa veio num estalo. e. Onde está a minha.Vá em frente ora.Você ainda vai lhes dar uma boa lição! Nós dois scomos iguais. meu.encorajou a doutôra. acrescentava: . não é? 103 Uma luz projetou-se sobre o passado.. . e seu ódio repercuti a intensamente na América. . Portanto. o qual para ele se resumia num bando de tolos e ingratos.E depois viajou para repousar por algum tempo. tropeçando nas palavras. é c orretíssimo.

no limite das fr onteiras que demarcam o mundo dos sãos.do melhor modo que pôde. perdendo seu aspecto sobrenatural até se tomar. a vivência de uma situação de abandono . e o frio e a perda da capacidade de distin guir cores. e imaginando como devia ser horrível alguém servir de condutor à terra para uma potência dessa ordem . juntas. essas faixas escuras diante d os meus olhos são as antigas barras do berço. impelida por um medo obscuro ao contato físic o. da luz do sol às trevas da noite. 104 . eram as b arras do berço. As barras. . e acabaremos compreendendo. vendo faixas escuras subir e descer diante de suas retinas. e nem por isso acabam loucas. . arcando com o martírio dele .Não pretendi a tocá-la antes que estivesse pronta para aceitar isso..As recordações não perdem necessariamente suas formas originais.e a preencher as lacunas. e procurou se mostrar obediente. . Teve razão. de passagem. exatamente o que acontece agora! É uma parte do Abismo. outra dúvida a assaltou. genético. .. provavelmente. vieram palavras incisivas.O vulto branco deve ter sido uma babá. a vida é assim.A luz. buscava para além do corpo trêmulo de sua aciente vestígios do almejado espírito que reluzira por alguns minutos. . agora! Quando sinto que vou despencar. Um nov o grupo de estudantes de enfermagem veio e se foi. A doutôra tocou-a no braço: .Enquanto for possível suportar . . Meu próprio berço. . projetou-se sobre uma outra região. ainda limitadas e hesitantes. Déborah retirou o braço das mãos da doutôra. barras e a solidão.Trabalharemos com afinco... Esta sensação ocorre freqüentemente. notando a palidez do seu rosto.. olhando através do suéter a carne chamuscada." A doutôra ergueu-se.É você quem estabelece o preço.Seu pensame nto pousou um instante. Libertou-o de Hobbs. para logo de pois submergir. A sensação que eu tinha era a de que todo cal or havia desaparecido... A enxurrada de palavras chegou ao fim. .disse Déborah. Localizamos dentr o de você onde certos fantasmas do passado continuam agarrados ao presente. da terra à terra de ninguém.Cheguei a pensar que ia morrer até que. Diga a todos em Yr que não ou em prejudicá-la nessa sua busca..As barras do berço. agora plenamente gratificante.Perdoe-me ..Fcomos muito bem hoje. pois o lugar onde a mão pousara começou a fumegar sob a manga do suéter e a pele encarquilhou cobrindo-se de bolhas. Muitas c rianças até mesmo perdem os pais. Ao invés disso. ess a vivência grita lá no fundo: "Está vendo? No final das contas. e o frio é o mesmo frio de antes. encerrando a sessão. 13 O tempo passava.Por que só eu vejo essas faixas escuras? Não há ninguém que não tenha ficado sozinho em certas ocasiões. . mas nunca imaginei que pud esse ser verdade que estive realmente num lugar assim. Déborah era jogada daqui para lá como uma peteca. então. A Dra. Esperava que a doutôra ensaiasse qualquer objeção tímida. um defeito intrínseco. Uns se foram aliviados por te rem perdido o medo dos doentes mentais.. é o que acon tece agora. por uma semana ou duas talvez. . finalmente. é tão vasto quanto a sensação de abandono e a da perda de todo o amor. Ei! Ei! . mas depois de recal cá-las anos e anos seguidos. de estágio a estágio em Yr. e m mais uma prova irrevogável de que havia nela algum defeito. não ser cruel com o S r. Eu me pergunto qual será o preço. De repente. como se estivesse agu ardando ali há muito tempo. pouco a pouco.desculpou-se a doutôra. . numa revelação imen sa e maravilhosa. A dúvida logo se transformou em certeza. simplesmente.. A doutôra. Ellis. eles voltaram. uma mentira inócua e reconfortante com a qual pudesse iluminar o caminho de volta a Y r. Cada vez que você é chamada a recordar o frio do abandono.concluiu Déborah. A babá era distante e fria. e o distante pesadelo foi.murmurou Déborah. Fried sorriu: . tentando.sua própria existência . acabam adquirindo um peso que pode vir a ser insuportáv el.. . Sempre me intrigou o fato de que não era um frio como qualquer outro que eu pudesse supr imir vestindo um casaco. quando não simpática . uma semente ruim.Pára-raios .Portanto. tr ansformando subitamente as conexões. concentrada em suas deduções lógicas. outros fugindo atemorizados à descoberta d e uma similaridade sutil existente entre os pensamentos expressos pelas loucas e .

. anunciando a partida. A chave rangeu na fechadura. a expressão do rosto 107 de Déborah. Uma enfermeira " trouxe-lhe a bandeja do almoço.Vamos logo com isso Anterrabae. Coletor. chutava-o na b oca do estômago e na região tumorosa que se rompia como um melão podre. Ela se achava. estava tudo escuro.Através das órbitas dos olhos. quem sabe. Notando.os seus pensamentos inconfessáveis. Ao recuperar os sentidos.. .Deixem-me morrer! Pedia que a esmagassem de u ma vez por todas. . Nem bem ela recuperou o equilíbrio. Veio. contudo. Déborah." Queri a dizer com isso que não era a enfermeira quem estava ausente. dessa ala.a falta de jeito 106 tomava os seus gestos extremamente bruscos . Déborah estendeu a mão num gesto instintivo . e isso graças às aflições que. a fisionomia da enfermeira co ntraiu-se de medo. revendo provavelmente os pesadelos. horrorizada com o seu imenso poder de destruição. e e saiu cambaleando do quarto. desse hospital. .Só verificando tranqüilizou. na su a queda flamejante e etema. desferiu um g rito e caiu no chão. chutava aquele seu outro eu estirado ao chão. a s noites e os dias desses outros seres são de uma substância que não é a tua. Pr ocurando tranqüilizá-la. é magoar demais. Sou uma condutora de r aios e queimaduras. vocês todos. vindos da doutôra. Déborah ergueu-se no diminuto quarto onde estava enclausurada. situado a pouca dis tância do saguão. alegria. firma ndo-a por alguns segundos. e qual dos se us "eus" a dominava naquele momento. gemendo baixinho: . morrerão ou enlouquec erão. Déborah.murmurou algum tempo depois para o s que vieram buscá-la. as pessoas iguais a elas riem. O inspirar e o expirar. o que veio confirmar mais uma vez a distância intransponível que a se parava dos chamados "seres humanos normais". e quase foi ao chão. onde ela própria figurava como a vítima do seu hospício imaginário. afastou de sopetão o braço trânsida de medo. . Déborah sussurrou depois ao cruzar com ela: "Errada não. O fato é que se sentiu profundamente aliviada por receber ajuda. a repuls iva Déborah. sem saber como. Fora desse quarto. paz ou liberdade que compensasse esse pavoroso sofrimento. Se forem contagiados por teu elemento. Quando soou o ás pero canto cerimonial. termin ado o expediente. Acab em comigo. sofram. ao menos. andam e respiram num elemento q ue nunca compreenderás ou conhecerás. perdeu o equilíbrio. Estes . Não permitam a ninguém magoar assim. . virou-se para uma pessoa que vinha atrás e ordenou: . não assim. Não assim! Não assim. . tropeçou no própri o pé..É poder demais. Déborah não tinha a menor idéia do que eles estariam vendo no seu rosto. o sangue e os ossos. terríveis e inconfessáveis. No entanto. sugeriu ele. Murmurou algu mas palavras para deixá-la à vontade mas ao invés disso. Seja esperta. jovialmente a enfermeira do novo turno. muito pálida. Déborah compartilhava.. erguida por sobre si mesma.Exatamente. e sim ela. disse Déborah a todas as divindades reunidas em utilizando a habitual saudação Yri. investida da autoridade honorífi ca que detinha em Yr. o céu cobria-se de sombras por entre as barras da janela. debruçada na janela olhando pa ra fora e repetindo de mansinho: .Termine logo a ins peção da ala e vá preparar um casulo. Percorrem-me. A tua subs tância é fatal para eles. pelo visto transpareciam em seu rosto . a escolha inadequada das palavras só fez deixar a estagiária mais alarmada. desprendendo faíscas dos cabelos. acreditava neles. A mulher remexia as chaves (sua diferença). Surpreendeu certa vez uma enferm eira comentando: -Aquela menina me olha como se eu absolutamente não existisse. um segundo grupo que estava sen do domesticado pela nudez espontânea de Constantia.e agarrando °braço da enfermeira. Sentiu-se como uma gigantesca bale ia emergindo das profundezas do mar: vinha de um outro elemento regido por lei e . e desaguam na enfermeira. Não havia prazer. A mulher se voltou precipitadamente para sair. Aqu i tenho sido fio de cobre e as pessoas me confundem com bronze! Anterrabae riu. depois. pela violência devastadora e gra ciosa de Helene e pelos olhos alheios de Déborah. .Assim como o Poço? . compreendia-os. a outra Déborah. esmaguem-me de encontro ao mundo! Acenderam a luz pelo lado de fora.

a invejava. respeitava e temia ao mesmo tempo. manifestava seus Pemsamentos s momentos de lucidez. Ellis agarrou o rosto de Helene e o imobil izou com uma das mãos. precisos e ritmados. uma agressão tão violenta 108 muito surpreendente. essas coisinhas diabólicas e importunas que se tomam um mundo quando não se pode coçá-las e afastá-las. Ao escutar aquilo. sempre discretos e silencioSOS. sabendo que os pa cientes poderiam estar em transição e. Déborah percebia. De repente. o pavor enrijecera o corpo mus culoso de Helene. chocadas com a revelação de si próprias. Déborah. Ellis entrou sozinho. cisc os.Eu sou um fio de cabelo nos meus olhos . depois que eles acusassem a sua presença. sua respiração ofegante. geralmente. . assisti a a essa cena. Ambas resmungaram baixinho. seus lábios já estavam secos. filtrava-se a luminosidade pálida das estrelas.respondeu Helene .Ou. e foi direto à cama de Hele ne para tirar-lhe o pulso. Os tapas atingiram-na firmes e fortes. mas após cada tentativa. e só entravam . . com uma voz pausada e contida. Helene . convulsas e raivosas. a mã assentava-se implacavelmente sobre seu rosto. se dar conta do tormento que a afirmação despertava em si mesma. Embora ela fosse uma pessoa mordaz e d emasiadamente agressiva.climas próprios. No silêncio do quarto. Pensou em Hele ne. Déborah a respeitava sobretudo por sua inteligência. deixara também de perseguir o ma rtirizado Ellis. enquanto tentava tomar-lhe o pulso com a outra. estendidas lugubremente naquelas camas. não se fizera de rogada. que Heleor mais desesperadamente enferma que estivesse. Por causa disso. Ela consegu iu se livrar mais uma vez. . . Seus pensamentos fluíam com extrema nitidez. um ou dois comentários imprevistos e cortantes. então. e com gesto s deliberados e precisos. Havia agora duas camas mergul hadas na escuridão. Um dia. ou então. é claro. lembrando-se das lutas que travara com fios de cabelo. Solt ava. Helene poderia se curar. sem demonstrar raiva. acenderam a luz.Nossa Senhora da Cócega no Nariz! . cusparadas e . começou a esbofetear o rosto dela. Ellis.declarou Helene secamente . Vênus de Mil o com cócegas no nariz. ou aquela quantidade indefinida de energia ou determinação ou seja lá o que for. às barras qu e compunham a tripla couraça vedando a janela. calmos. avisara que se ela não se afastasse dali. Déborah recolheu-se ao silêncio e ficou descansando do eterno apocalipse. Da cama vizinha veio um som abafado. 109 e as cusparadas frenéticas. conseqüentemente. atordoados ainda. Mantinha-se. que era o essencial da recuperação. a maneira como Ellis entrou foi brusca demai s. tinha certeza. retesou ligeiramente o corpo. As enfermeiras e auxiliares diziam. A janela que emoldurava a noite coalhada de estrelas já não era aque la de onde assistira às primeiras horas do crepúsculo. apesar de seus modos espinhosos e intolerantes. e rápido. a maior parte do tempo. Pelo vidro anteposto às grades. que tudo presenciava.e você é outr o! Em face desta reação pouco amistosa. um jato difuso e furioso de saliva. e extrair a ssim um número para o seu relatório. de modo a introduzir gradativamente a sua presença e a do mundo. Esse era o único movimento possível dentro de um casulo.indagou Déborah. o pulso de Helene. alguma coisa antes de entrarem.perg untou Déborah. se quiser. Helene nem sequer conseguia atin gi-lo. Quando ele estendeu a mão para captar. felpas. no entanto. tinha inadvertidamente cometido uma grande crueldade com ela: dissera-lh e que achava que ela ia ficar boa. quebraria osso por osso daquela cabeça de merda.Alguma vez já lhe caiu um fio de cabelo nos olhos quando você está no casulo? . distante e inacessível. Num lugar vulnerável como aquele. ela afastou a cabeça com violência. que ficaria Para sempre gravada em sua mente como o símbolo da impo tência do doente mental: os tapas. por sua vez. deitada como uma gêmea na cama vizinha. Déborah. nem que fosse por uma piscadela de olh os.Quem está aí? . e estas. Virara-se para Déborah e. sem inclusive. num contraste chocante com a beleza da noite e das estrelas. na têmpora. Helene reagiu lançando-lhe uma cusparada n a cara. às vezes.

No entanto precisava. A enfermeira-chefe não a levou muito a sério.Tenho uma coisa para contar a ele. Sentado ali calmamente. ao invés de bater com os punhos fechados. por experiência. e por um encadeamento de idéias não muito claro .. naturalment e. como vingança porque uma vez lhe dissera que achava que ela iria ficar boa. uma inimiga de si própria nos termos Yri. esboçar qualquer movim ento em direção ao onipotente cademinho de notas. poupando ao máximo as palavra s. menos ainda a iminência da Punição. Você estava no casulo e.perguntou a enfermeira. engasgada com sangue. sem. da nuv em. que só eram objeto de segredo porque ele detinha as chaves e as pacientes não. . Quem sabe você não pensou ter visto isso. Toque-de-Fogo.. .Esteve a ponto de acrescentar que H elene tinha sumido. que seria injusto comprar sono ao preço do sangue que Helene engolira. com aquela Alma. para que ele acreditasse nela.tapas ressoavam sem parar.sob um outro s ol cujos raios não ultrapassavam a periferia do campo de visão dela. Não se deu ao trabalho de procurar lhe mostrar a gravidade d a questão. nem sentir o vento tenebroso. Registrou sua pulsação. . nem tampouco foi mais longe referindo-se às tendências de Ellis. e não saiu mais de lá.Por que Helene não veio me contar isso? . e tinha certeza de que aquela era a hora certa de pedir. quem sabe. c ustasse o que custasse. A enfermeira da ala. por sua vez.de cúmplice no episódio. . e portanto. o incidente. os limites de s ua realidade. Narroulhe. até que final mente. em seguida a de Débora h. a mandou para a enfermeira-chefe d o dia. Déborah teve que implorar. fixou-se na sua ment e como um trapo agarrado a um prego. Terminou de fal ar e durante muito tempo. Déb ora 110 sabia. .assegurou o médico. .. . com os olhos pregados nela. a nuvem prenunciadora da Punição ia se adensando sobre Déborah. talvez . uma forma de conciliar s em alterar. Repetiu as explicações. não vai ser nada fácil se tiver de mentir.Reparou que. em tempo. livrar de sua consciência a responsabili dade de ter sido testemunha -. Ficaram horas absorvidos naquela guerra.perguntou enfim o médico. contudo. tomar-se uma nelaq tankutuku. . Azar! vou contar o caso à Dra. hesitando. deixando-a ali com cara de boba. . e saiu. ele vivia uma outra dimen são de realidade. tanto do vitorioso como da vítima. mas não podemos aceitar uma denúncia dessas sem provas. é claro!". . A muito custo. silenciar sem compreender. que dizia "Sim. caridade em cen tímetros cúbicos". Percebeu a tempo que não seria prud ente dizer isso. as fronteiras de seu reino.Que pacifista é aquele que. enqu anto murmurava para si mesma: "Generosidade de hidrato de cloro. que ele não podia ver a nuvem. sentindo a nuvem cada vez mais ameaçadora e o vento que já começava a soprar. caíam vermes. .Pergunte. Helene tossia. mordeu os lábios e se calou. Deixou-o partir. Ergueu os olhos para ele. encerrar os atritos sem tomar qualquer pr ovidência. procurando ostentar a aparência de sanidade convencionada pelo mundo.Para que você quer vê-lo? . sim. Era evidente que estava colocando em prática o que Lee Miller chamava Tratamento Número Três: consistia numa variação do vel ho "sem dúvida! sem dúvida!". o médico continuou calado. Furii ou Toque-de-Fogo era o nome em Yri que Déborah 111 . no entanto. Repetiu novamente as explicações. chegar até ao médico. contidamente. A idéia. o enfermeiro conseguiu submetê-la. . No dia seguinte.Tomarei nota do caso .Helene saiu logo depois que acabou tudo. foi a vez de Déborah assumir voluntariamente a condição de participan te.É do nosso maior interesse impedir qualquer brutalidade aqui no hospital. obteve finalmente permissão para ver o médico da ala. O homem aut orizaria. Déborah se lembrou de sua autorização para sedativos. Dirigiu-se à enfermeira e pediu para fala r com o médico da ala assim que ele viesse assinar os pedidos da semana.primavera. . bate com a mão espalmada! A enfermeira mandou que ela procurasse a enfermeira encarregada da ala. um pouco transtomada. mas decidiu. pelo menos a Ellis. Queria que lhe aumentas sem a dose. as estações . Enquanto duravam esses trâmites burocráticos. expor-se cega e irremediavelmente. gozando.Posso saber o que é? .

Déborah voltou a se afastar. suportando estoicamente os grilhões daquele relacionamento. Déborah se sentia como um fósforo tentando atear fogo a um tonel de combustível vazio. e vê que todos cuidam para que te afaste do s menores perigos: alfinetes. . . . Déborah! Procure compreender. embora não fosse tankutuku. Fried.Retire-se do saguão. ou então pare de seguila. cons eqüentemente. e a reação dele foi a Número Três com Sorriso: "sim . Lee. finalmente. .. a desonestidade impe ra e aqueles que conservam a fé acabam se dando mal. e como não gostasse de ficar e ncostada à parede como as outras. em homenagem ao poder espantoso que tinha revelado ao lhe queimar o braço com uma chama invisível.refletia Déborah . ditas por Sylvia. A única realidade que eu lhe ofereço é o desafio: ficar boa significa ficar livre para aceitá-lo ou não. Afinal. também nunca lh e prometi paz ou felicidade.perguntou Furii. mas não prometo nada.encontrara para a Dra. . o Sol ptolomaico girando em tcomo de seus planetas. L ee tinha uma mania: não suportava ninguém às suas costas. O fato dè ela lhe dirigir a palavra .Também não posso interferir na disciplina do pessoal da ala. O meu objetivo é exclusivamente 112 ajudá-la a ser livre para lutar por todas essas coisas. se a justiça fracassa. já esquecidas. rendesse pelo menos alguma coisa. era uma terceira atriz.disse Furii. Não estou ligada à administração do hospital. desaparecendo naquela cidade repleta de suásticas. num gesto de nobreza. rindo às gargalhadas. olhares maldosos. hein? . . . . é? Furii concordou. A enfermeira.Quem disse que eu estou propondo mudança de política? . Blau! Déborah persistia. Não prometo mentiras.Absolutamente. até um local fami113 . Déborah.sim é claro!" . Depois que Helene a deixou sozinha com a responsabilidade de testemunha. em mencionar o assunto na reunião da equipe médica. cordões de sapato. a idéia de pedir um aumento na dose de sedativos. que havia uma relação entre as duas. mas por um misterioso senso de conveniência. Não posso interfer r na política deles.Afaste-se. . o sobrenome de todo mundo aqui é Pilatos.Você contou isso ao médico da ala? . e enfadonho também. Déborah. passava o dia todo circulando para "manter as pe ssoas nos seus devidos lugares". começou a segui-la por toda parte.. Helene cumpriu a promessa de não importunar Ellis. cintos."Shalom Aleichem. eles estão mais loucos do que eu!") . para voltar logo depois. Um mundo perfeito como um jardim de rosas é mentira.De que vale então essa sua realidade.Enfermeira! Tire essa puta daqui! . . . mas Déborah não ficou muito convencida. Grande realidade essa sua.é que eu não estou ligada à direção da ala. Uma pergunta: Ellis espancará a testemunha trancafiada nua num quarto de reclusão? Déborah foi escorregando pela parede.disse Furii . e eu também.Talvez você esteja duv idando de que eu tenha visto tudo isso. aquela que também era tankutuku por causa das palavras. .Suma-se.A não ser que essa política consista em espancar pacientes indefesas! . que eram atrizes do mesmo drama e. doutôra. . fósforos. O elo gravitational se desfez. não por uma questão de devotamento ou lealda de. . . era justo que um ato que seguramente iria lhe cust ar muito. um riso grotesco e áspero que mal chegava a ser riso. impelida por um estímulo inconsciente.signifi cava admitir que estavam no mesmo palco. Não participo das decisões relativas à al a. Pássaro-um. . Blau! Isso também convinha. Déborah..Contei. . e essa opção v cê assumirá de acordo com suas possibilidades.(Lembrou-se de Tilda: um belo dia fugiu do hospital e m Nurembergue.O problema .Escute aqui .protestou Déborah.Sentia-se agora ridícula por ter rejeitado. Você vai mesmo levantar a questão de Helene na reunião? Se eu disse que ia é porque vou. procurou se aproximar de Lee Miller. .Vem cá. Aproveita a luz do meu jogo.Nunca lhe prometi um jardim de rosas! Nunca lhe p rometi a justiça ideal.

disse a doutôra.percebeu logo a Dra. mais piradas. sendo amparada e reco nfortada . Mas era tarde. inse gura e infeliz. depois que esse for destruído. e desatou a correr ao longo do saguão. que não Deus. para o pequeno grupo de pessoas que estavam aconchegada s ao redor do aquecimento .e declarou: . É este solo que estamos trabalhando juntas.Tais sintomas representam defesas. ela vai ficar boa. . para sempre? . Para Déborah. nisso ela só poderá acr editar por um voto de fé.liar. ela era uma pessoa da família.Deixe o talvez de lado. a imagem que essa médica sugeria era a de uma pessoa inteiramente irreconhecível. buq uês de rosas e um pretendente distinto e de boa família..viviam permanentemente com frio . O trabalho que estamos desenvolvendo juntas visa. bem. A sua adorada Déborah de antes Podia até estar doente como todos afirmavam. formas dela se proteger.. o fato é que lhes pertencia: insegura. 114 14 Jacob e Esther estavam sentados no consultório. Lúcia. virou-se de repente. para ser matemalmente mimada e cons olada. a nuvem baixando ameaçadoramente. Que mal há em desejar uma criança como todas as outras? . Arrependeu-se pela centésima vez de ter intemado a fil ha. pedindo isso. Imaginem por vocês mesmos.. pelo menos. . . apontando o que haviam ou não haviam feito de errado para que a filha acabasse nesse campo de batalha. Aqui as pessoas . . mas terrivelmente explícitas.exclamou Jacob sobressaltado elevando a voz para sufocar o medo.. numa de alas. Desgarrou-se de novo. convites para dançar.o fato é que precisamo s alimentar alguma expectativa..Porque o senso de realidade dela anda um bocado abalado atualmente. a doença é o ún ico solo firme de que Déborah dispõe. vocês a verão. Por causa de um minúsculo. e ficou acompanhando as imagens q ue lhe percorriam a mente . aquele: minúsculo. Não poderia prometer nada em definitivo. acomodou-se no chão. Já estive numa "pá" de espeluncas. e "ela sabe disso e teme por vocês . agora.em busca de paz e tranqüilidade. são mais assustadas. nao importa. de uma vez por t odas. Pois. minúsculo talvez. não param de gritar .. e também por si me sma. eu quero dizer. Acreditem ou não. A senho ra poderia nos dizer o que podemos esperar? .é claro q ue. apressou-se a emendar: .Porque não! .Procurou usar um tom bem tranqüilo. os dilemas que Débo . a lei da gravidade ondulando como um trapo no vento tenebroso.Eu. inevitavelmente.Se o que vocês querem para Déborah é um diploma universitário. . ou terá que continuar aqui.Não vem ao caso a questão do amor. À tardinha.Aqui é diferente. . junto às outras estátuas.Percebendo a frieza de suas palavras. Sentiu ímpeto de dizer a eles. Antes. em parte.perguntou Jacob . mas eu pessoalmente não aconselho ainda dessa vez. Frie d . Doente ou sadia . para ser 115 patemalmente protegida e orientada. . Perscrutou os seus dois mundos e avistou a tempestade im inente. Vivem mijando no c hão. era justamente a pergunta que ela não estava disposta a responder. nem pretendia desempenh ar o papel de juiz. sinceramente não sei se posso lhes dar esperanças. se vocês decidiram vê-la. minúsculo talvez. Sua aparênci a pode alarmá-los um pouco. numa "pá" de alas. Não sei se ela virá algum dia a ter essas coisas ou mesmo se as desejará. ter uma esperança qualquer. Elas pairavam no ar junto com a murrinha de zoológico que infestava a ala. rindo para neutraliza r o imenso e pavoroso alcance de suas palavras. uma paciente recém-chegada que angariara um certo prestígio devido à su a violência e aos nove anos que havia passado num dos hospitais mais rigorosos do país. Trata-se de um problema puramente administrativo.mas é por causa do talvez.. . as palavras da menina tiveram uma ressonância especial. Jacob recostou-se aturdido. Todos temiam aquela espe rança. infeliz.imagens simples. seja qual for. um bocadinho. Se h ouver um outro mais firme. Vinham . . os vermes que despencavam dela. descobrir e chegar a um acordo quanto ao que ela realmente quer.Será que poderíamos vê-la? Teve desde o início certeza de que eles acabariam.É importante que fique claro que os sintomas não são a doença . Meu irmão também.

Deixou escapar outro suspiro. No carro. nessa visita. Eu só queria. futilidades e arrogâncias .Só queria saber se deu tempo para ela pentear os cabelos. Voltando agora para Chicago. mal a haviam reconhecido. e ainda assim conseguira infundir-lhes o ânimo de que necessit avam desesperadamente. contradizia frontalmente suas esperanças do que fosse essa verdad e. Ficou u m bom tempo absorta nessas considerações. . . peçam por favor ao auxiliar 116 que stá de serviço para me chamar. não tem importância. atualmente . uma pessoa mortalmente arrasada por dentro.Você fala d emais! Deixe as coisas como estão e fique quietinha. agora.. e aí compreenderão porque ela não dá atenção à sua aparência. . A filha.Muito bem.Uma pe ssoa .informou o auxiliar. .vou ligar para a ala e pedir que tragam Déborah. esforçando-se por definir as suas impressões.. e nquanto que por detrás dele. a verdadeira Déborah ia se distanciando cada vez mais d essa realidade. porque ela fica tão ada. sem nenhuma garantia concreta além da fé. mas u ma espécie de retraimento.rah vive. Jacob. apanhou o telefone e.. faça 111 que e]a tenha boas maneiras na mesa e um futuro que corresponda aos nossos sonhos tão almejados!" Sus pirou. São capazes de lhes impor decepções. tá? . Até mesmo os pais inteligentes. está bem. . diante das quais jamais se curvariam! Ah! Ocorreu-lhe. não faria também concessões a esse tipo de conduta. direção ao prédio do hospital Ah essas famílias! "Faça o em eu filho ficar bom". . não compraria sonhos e os imporia inflexivelmente a uma Déborah. .Esther .Acabaram de levá-la para a sala de visitas. . entendam bem. que nunca tivera ou educara filhos. e a aceitar a outra versão do m undo.Nós. Esther e Jacob mantinham-se calados. Ao deixarem a sala de visitas. está sendo instada a anular. Fried procurou uma forma de descrever os sentimentos de uma pessoa que ja mais soube realmente o que era a saúde mental em sua vida. .Mesmo assim.Se qui serem depois conversar comigo de novo. Déborah. que nunca vivencia mos essa doença diretamente. O que os a ssustou não foram resmungos desconexos ou ataques de violência. .Ah. numa luta desesperada pela saúde.Sim.assentiu a doutôra afavelmente .Mas ela nunca assumiu esse mundo. . "Conserte a nossa filha. ela foi deixando as coisas ficarem como estavam. depois de alguma relutância.. . . nada disso. . A Dra. . .Não. Quem sabe. a verdade se descortinasse de uma vez por todas.protestou Jacob. anular todos es ses anos de vivência do que conheceu como realidade. subitamente. 117 Esther por sua vez.. é melhor não. uma ausência impalpável e aterradora.Dirigiu-se ao telefone. traziam uma única certeza: era mais do que tempo de c . se essa Déborah fosse a sua filha. o senhor não compreende? Déborah criou uma espécie de robô que se encarregava de reproduzir os movimentos exigidos pela realidade. doutôra . Confiavam na Dra. . Fried. no entanto. Tudo o que viram. Ou então.Ela está muito pálida. porém. Jacob aproveitou para descarregar a raiva que sentia sobre a mulher: . Esperem-na na sala de visitas. Ela não procurara tranqüilizá-los c om frases hipócritas.insistiu Jacob baixinho. Ficarei aqui até às quatro h°ra Observou-os saírem e se encaminharem com passos rígidos..E afastou-se furioso. doutôra? .O mundo que nós demos a ela não foi tão horrível assim! . como se ela não habitas se o próprio corpo. eu quero vê-la . Sabendo que os pais temiam a desconhecida que se ocultava por de trás do familiar robô. discou para a Ala D. A confusão os emudecera. Jacob limitou-se a comentar: . murmurou: . não se mostraria ambiciosa. viajando de volta para casa. não. honestos e bons acabam vendendo seus filhos com a maior tranqüilidade.. .. A doença de Déborah consiste. Eu quero vê-la! Está no meu direito! . Espe ravam que. Sacudiu-as de repente para longe. só podemos supor o horror e a solidão que se escondem por trás dela. e porque os sintomas proliferam tanto.

apenas uma filha que vivia o colocando em situ ações embaraçosas.Ele tinha verdadeiro pavor dos homens. Fechava-se na cegu eira e na ignorância porque. jazia sob injustiças triviais: a surra motivada por uma razão qualquer.Já permiti que você fugisse de seu pai o tempo suficiente . esperando para me seduzir. que alguma coisa eu devia ter feito. tinha medo dele e de si mesma. apavorantes não.. . mas é antes de tudo um homem.Quando fala dele. Não presto para ninguém! P apai. assustadora ou repugnante que fosse. Falava freqüentemente nas partes infectadas destes homens.. .anunciou Furii no deco rrer de uma sessão. Homens .Déborah desat ou a chorar. não sei como. Uma vez.. desejo . .. .ontar a verdade a Suzy.. se esquivava. Inquiri-lhe com indignação: . fugia.. por mais vergonho sa. . ódio. . Os homens eram brutos lascivos até não poder mais. . a razão de ser dessa força qu e a compelia era tão misteriosa quanto as recônditas regiões de Yr. mal formulados e revestidos de tamanha culpa que acabaram 119 perdendo seus verdadeiros contornos. contra quem se empenhava tanto em recriminar. Consciente da si milaridade. sentia-se irr esistivelmente compelida a colocar essa descoberta em discussão.Percebeu que aquele fantasma que tinha adquirido dimensões enormes no Pânta no do medo. para finalmente volta r a se defrontar com dois rostos familiares e apavorantes: o do pai e o seu. p rontos para saltarem sobre mim e me agarrar. Pelo fato de eu ter atraído a atenção do indivíduo. era somente a figura do pai e uns poucos pensamentos seus. porque sabia que era verdade o que eu estava d izendo. Tinha pesadelos nos quais fugia.. Déborah por sua vez. desandou a esbravejar como se todos esses homens obedecessem a uma le i de gravidade que os atraía para mim.. e conhece seus próprios pensamentos. e alguma coisa mais. Explodindo de raiva e de medo. o pai acabara desp ertando pela filha aqueles mesmos apetites.. o simpl es desentendimento num momento crucial.O que? É meu pai. inconfessáv eis. e aquela mesma culpa que existia nos monstros. um era maníaco sex ual ou 118 possuidor de algum vício qualquer. eu concordava. Sentia que o amor do pai era um amor extremamente cego e que ete não fora capaz de compreendê-la por um momento sequer. Será que o s outros homens alimentam os mesmos pensamentos? Sabe que sim! E os outros homen s serão capazes de controlar estes pensamentos tão bem quanto ele? Seguramente não! Déborah refletiu sobre a dissimulada sensualidade que vira transparecer tantas vez es nas atitudes do pai. é com medo.Não.. me repreendeu por eu ter olh ado para um exibicionista na rua. que não só a deixavam e xtremamente confusa como lançavam sobre ela um estigma ao transformaremna numa cúmpl ice secreta de todos os crimes infames cometidos pelos maníacos e que ele não se can sava de descrever. se dissimulava.Acho que você atingiu um filão importante. vivia me advertindo contra esses perigos. Fried continuou a perseguir. . Eram verdad eiros animais.Claro. . el e deduziu. Parte do segredo. .. O segredo mais profundo. .Continuam tão apavorantes assim? . então. em direção ao qual Furii procurava estender as garras do mu ndo. quando via ou descobria qualquer coisa.. o hábito de ficar remoe ndo por dentro as coisas e extravasá-las em súbitos acessos de fúria..Senti desprezo por ele algumas vezes .. consistia em que Déborah tinha muito em comum com o pai: o temperamento explosivo. humano . . Compreendo a gora que não fui para ele apenas. . me esbofeteou com força. no íntimo. se já estou toda arruinada e estragada. a encurralar. E para Déborah.confessou Déborah.. M as não era só isso. Déborah sabia que as suas partes íntimas também já hav iam sido infectas.O que é que eles qu erem afinal comigo. De cada três homens.. A Dra.. quer nas trevas de Yr. . Que bom.emboscados em vielas escuras. a instigar sua recalcitrante p aciente através dos meandros do amor e do ódio. Parte desse mal-estar era o . Confundido na sua sensibilidade pelo medo. quer confundindo a doutôra.. Atitudes carregadas de culpa e amor.Quem sabe se o problema não era o medo que ele tinha de seus próprios instintos? .Não.

ficam pulando de um lado para o outro. Fechando a procissão. dois para os pés e dois para a cabeça. . ..sussurrou Déborah para Lee.Ah. por falar nisso. Suponho agora que devo voltar para casa. Enfermeiras e auxiliares riscavam o saguão de branco e caqui com suas idas e vindas febris. quero lhe dizer que você roçou o discemimento.Ora..você conseguiu. Doida de pedra!. Escute Déborah. Você terá que confiar o suficiente em mi m e crer que o novo alimento. acho. A doença tinha. está tudo escuro e os macaquinhos. A escolha caberá exclusivamente a você. Você ainda não teve a vivência da saúde mental para saber como ela é.Ela esteve intemada bem ant es de você chegar. Dois casulos esperavam num quarto de reclusão pelos seus ocupantes. mas a teimosia a instigava ora a ceder ora a reagir. . . já escutei uma outra expressão.Ainda faltam muitos segredos para desvendarmos. uma miscelânea de per- . mais tarde. o pesado elevador desceu. enquanto aguardava a colisão final que a deixaria louca para sempre.O que está acontecendo? . se eu precisar disso. Graças a Deus! Isso aqui tem estado chatíssimo. acu mulados até ali.Conheço. e você sabe disso. de verdade. se realmente quiser. . um signif icado. quando surgir... fazendo a maior algazarra.Beirava o ceme da questão quando o temor se abateu.A Srta. que estava sempre por dentro das coisas. Perdoei mi nha mãe e meu pai.e nenhum outro apareceu até agora para substituí-lo. como não enxergam nada. Coral vai voltar de novo . . que tolice! .. e isto tudo faz parte da realidade da qua l você tem tanto medo. Quer dizer o seguinte: na cabeça da gente.. amor. . Reinava uma grande expectativa. tentando alcançá-la. o que significa verdade. Você conhece? . Um pouco antes da hora de trazerem para cima o almoço. A chave virou a fechadura e o administrador da ala surgiu em t oda a sua magnificência. Déborah.. ap esar da distância que crescia.disse num tom desalentado . . mais difíceis inclusive do que a doença naquela fase que precedeu a sua vinda para cá. São ou não são maravilhosos e emocionantes esses sentimentos? . até que parou diante das portas duplas que se abri am para a Ala D.V ia. . inteiramente desorientados. se você quiser.repreendeu Furii com severidade. Eu chorei. escute! . A voz que se fez ouvir em seguida vinha de Yr. Qu ando terminarmos você poderá optar por Yr. A única coisa que quer o lhe dar é a possibilidade dessa opção.disse Furii.Déborah. . transportando.Isso significa que vou poder continuar louca se quiser? 120 Louca Varrida . generosidade. Esses são os tempos mais difíceis. . muito mais . que a lucidez extinguia-se. uma velhinha de corpo mirrado e c abelos inteiramente brancos.. Pairava sobre a ala uma excitação mal contida..Ainda há mais. firmemente imobilizada. O que acontece é que você está rejeitando o alimento que a sustentava .Talvez a doença venha a cobrar o castigo por termos nos distanc iado tanto dela. . De qualq uer modo. Furii viu que a crise era imin ente. jogando com Furii e seu mundo. É "macaquinhos-no-sótão".E se eu quiser isso. por pior que pudesse ser ele às vezes. p esado e estreptoso. que seria o sótão. . essa eu não posso esquecer! Os americanos captam as sensações peculiares à doença mental com uma precisão surpreendente às vezes. .informou Lee. Ergueram-se todas num pulo e ficaram à escuta. Vultos de uniforme branco delinearam-se na superfície translúcida e embaçada do vidro.Muito bem. pelo menos. Seguiam-no quatro auxiliares. Furii procurou fazer com que ela trouxesse à to na os inúmeros fragmentos de evidência com os quais justificava os seus temores. a resposta é sim. uma opção verdadeira e consciente. Déborah estava exausta. Após alguns minut os.. porém. .todos esses segredos e poderes secretos .Prosseguiremos até enxergarmos tudo. ouviram-no subir novamente. "com macaquinhos". será muito mais rico! Conversaram por algum tempo ainda. Acho que não vai querer nem precisar de macaquinhos no sótão.

121 sonagens secundários: enfermeiras do dia pertencentes à recepção, acólitos, o clero regula r, noviços, postulantes e outros. - Aquilo é a tal Srta. Coral? - Cinqüenta quilos cheinhos dela! - exclamou Lee. O equilíbrio, a riqueza de tipos e o colorido davam ao espetáculo um quê de profano. A procissão, cercada de um silêncio a bsoluto, percorreu com o seu fardo o corredor, passando sem se deter pelos dois casulos (surpreendentemente) até chegar ao quarto de reclusão Número Quatro. Passado algum tempo, os carregadores começaram a sair de novo para o corredor. Débor ah se preparava para voltar ao seu posto na janela do dormitório, quando reparou n o último dos auxiliares que saía para se juntar aos demais, cujo comportamento a imp ressionou vivamente: era absurdo, assustador e hilariante ao mesmo tempo: negava todos os princípios newtonianos da física. Ele não andava, voava! Estava inclinado no ar, com uma expressão de pasmo como- se toda a vida se resumisse a uma trajetória. Não chegou a alcançar os outros. A meio caminho, desabou. O ruído surdo da queda despe rtou a atenção dos companheiros que vieram logo acudi-lo. Déborah suspirou desapontada . Era só um homem, afinal. Não se machucara nem no vôo nem na queda mas, por pouco, não foi pisoteado pela multidão de funcionários que acorreu em pânico, para subjugar a fonte de sua propulsão. A Srta . Coral surgira no vão da porta que, por descuido, tinha ficado aberta. Seu corpo franzino parecia carregado de eletricidade. O branco dos cabelos é que fora reduzi do a cinzas pelo fogo, murmurou Déborah em Yri. Os três homens que se atracaram com ela fizeram um papel deplorável. A velha não só era combativa como ágil! Literalmente sa cudiu-os para longe, mantendo o rosto impassível e os olhos vazios e fixos à frente. Quando os outros auxiliares mergulharam na escaramuça, continuou, mais ainda, don a da situação: permaneceu imóvel deixando simplesmente que um desfizesse o que o outro fazia. Helene, sentindo-se desafiada na sua supremacia de até então ser a mulher ma is temida da ala, correu para o saguão deserto, removeu os pinos das dobradiças que seguravam a porta da enfermaria, derrubou-a com o peso do seu corpo, arremessoua no corredor e pôs-se a destruir tudo o que estava ao seu alcance. A frágil Sylvia, plantada como uma estátua de encontro à parede, não conseguiu suportar a tensão provocada pela violência de Helene: explodiu subitamente, arremessando cont ra ela, através dos restos da porta, bandejas, instrumentos médicos e toalhas. Acion aram a campainha de emergência, interviram mais doze pessoas que conseguiram final mente, subjugar o motim, e colocar Helene e Sylvia no casulo. No meio daquele tu multo o administrador da ala esqueceu-se aparentemente de fazer cumprir os cuida dos recomendados à Srta. Coral: limitaram-se a metê-la no quarto e trancar a porta. - Puxa! - comentou Lee ao cruzar com Déborah no saguão - Você tem de admitir que isso superou tudo o que aconteceu por aqui nos últimos tempos. - Incrível. .. Nunca imaginei que uma velhinha tão frágil, fosse forte o suficiente pa ra pôr o cabresto num homem! Pena eu não ter conseguido chegar até o armário de narcóticos ... - Ela esteve intemada aqui há dois anos atrás. Certa vez, vi, com os meus próprios olh os, uma cena extraordinária: a velha jogar uma cama - não foi empurrar não - jogar, Pa rece mentira, mas ela é a mais instruída de todas nós. - Mais do que Helene? - Ora se é! Fala quatro ou cinco idiomas e transa acho que com matemática lá fora. Ten tou me explicar uma vez, mas você sabe não é, nunca passei da oitava série. . . - Olhou à sua volta e logo recomeçou a circular, ansiosa para repor o mundo no seu devido lu gar. Quatro dias depois, destrancaram a porta do quarto da Srta. Coral e lhe deram au torização para que saísse para a ala. Quando, depois de algumas horas, ela surgiu hesi tante à soleira da porta, deu de cara com Déborah sentada do lado oposto. - Oi! - cumprimentou Déborah. - Oi... Você não é um pouco jovem demais para estar aqui? - A voz era idosa, mas nem u m pouco desarmônica, prolongava as vogais, que soavam como ditongos, numa pronúncia bem típica do extremo sul dos Estados Unidos. - Ah... e o que é que tem ... temos o direito de ser tão loucos quanto qualquer um.

- Objetou Déborah armando um bçicinho. - Lee Miller contou que você sabe línguas e matemát ica. É verdade? 123

Oh, ela ainda está aqui? Que pena... - e soltou uma risadinha que mais parecia um cacarejo. - Você sabe mesmo falar línguas? - Não ... que nada! Só nos ensinavam a ler e escrever um idioma naqueles tempos, e a penas o suficiente para lermos os clássicos. - E você ainda se lembra? - A pergunta a colocou de sobreaviso. Encarou Déborah long amente. Tinha, naquele momento, o porte de um Anterrabae bruscamente imobilizado na sua queda perene. Seus olhos, de um azul cristalino, pareciam chispas. Os ca belos fartos, brancos e eletrostáticos, ameaçavam inflamá-la como a um tição. - O que é que você quer de mim? - indagou finalmente. - Quero que me ensine. A rigidez das feições como que se dissolveu, o corpo afrouxou desalentado e os olhos , aqueles olhos inflexíveis, se encheram de lágrimas. - Estou doente, menina... - di sse ela - Estive muito doente. Esqueci tudo. E depois, eu acabaria cometendo err os por causa da idade... (Déborah acompanhava a luta feroz e invisível que ela trava va no íntimo para se recompor) .. . e a doença.. . - Não faz mal! - Estou cansada agora - disse a Srta. Coral, recuando de novo para dentro do qua rto - vou tomar uma decisão, mais tarde informo. - E bateu a sólida porta atrás de si. Déborah voltou a se sentar no chão, diante do quarto dela, e ficou ouvindo os sons a bafados da batalha que se travava lá dentro: imprecações, gritos, quedas, uma pancadar ia dos diabos. Um auxiliar que vinha passando, deteve-se intrigado: - Ué, pensei q ue tinha aberto essa porta... o que é que está acontecendo lá dentro? - Coral versus Coral: ação de divórcio. Estão brigando pela custódia da criança! - Déborah, você a viu sair, não viu? Foi ela quem fechou essa porta? - Sabe lá se ela não tinha que conversar com alguém! O auxiliar se afastou vagarosamente, retomando a distribuição de privilégios e autoriz ações. Déborah se sentou novamente diante da porta, e despejou no chão todos os tesouros que carregava nos bolsos. Encontrou duas guimbas de cigarro 124 que tinha conseguido surrupiar a uma enfermeira estagiária num momento de distração. F oi até a cama de Lee Miller e as colocou sob o travesseiro dela como oferenda de a gradecimento. Pagava, pela segunda vez, a dívida de Sylvia. Voltou ao seu posto em frente ao quarto da Srta. Coral. Sentia-se extremamente c ulpada. Sua substância parecia ter-se espalhado pela ala impregnando a todos de an gústia. Por cada dilaceramento íntimo, como o que ocorria por detrás daquela porta, ju lgava-se simbolicamente responsável. Lembrou-se, porém, do que Carla tinha dito: a d oença era como um copo que transbordava e, por'isso, uma ou duas gotas a mais não al teravam as coisas. Mesmo assim se perguntava se era ou não responsável? Incapaz de decidir, pôs de lado a questão. Passado algum tempo, silenciaram os ruídos dentro do quarto. A voz da Srta. Coral, arrastada e exausta, a chamou do outro l ado da porta. - Mocinha!.. . Mocinha! Você ainda está aí? - É. .. É comigo? Está me chamando? - Déborah mal conseguiu articular as palavras, taman ho era o nervosismo que sentia. - Sim, é com você - E então ela declamou: "Inter vitae scelerisque purus Non eget Mauris jaculis heque arcu. Nee vena nati s grávida sagittis, Fusce, pharetra." - O que é isso? - Amanhã - respondeu a Srta. Coral - e teremos ditado também! 125 Mary (paciente do Dr. Dowben e, para não confundir com a primeira, chamada Mary Do wben): - Assassinato e incêndio! Há um incêndio! Carla queria ir ao cinema na cidade porém como paciente da D, precisava de uma per

missão especial e de dinheiro. A Srta. Coral, que voltava a palmilhar desde o prin cípio a sua via crucis, estava ali para requerer alguns privilégios básicos. Nem bem o médico pisou na ala, os pedidos e as respostas começaram a chover de todos os lados. Quando Déborah falou no cademo de anotações, os olhos do médico detiveram-se nela por alguns segundos, avaliando-a de alto a baixo. - Vamos ver! - respondeu por sobre os ombros, dando as costas e prosseguindo seu caminho. Naquela tarde, a Dra. Adams veio à ala para ver Sylvia. Ao sair, deu por falta de um exemplar de Loock Homeward Angel que trazia consigo. Pouco depois, no mesmo d ia, uma das enfermeiras estagiárias procurava em vão o seu cademo de aulas. As páginas escritas reapareceram dois dias depois no elevador, fora da Ala dos Perturbados , mas a metade do cademo cujas folhas estavam em branco continuaram desaparecida s. Déborah pôs-se a chatear Helene para que lembrasse das poesias que sabia, e tanto ch ateou, que um dia ela recitou trechos de Hamlet e Ricardo in, arrancados, para s ua própria surpresa, de algum canto empoeirado da memória. Passava horas transcreven do conscienciosamente todas as palavras gregas e latinas que possuía no seu arsena l de tirinhas de papel. Leu e releu o "Look Homeward Angel", escondido sob o mai or sigilo debaixo do colchão, até o dia em que Mary Dowben o descobriu e o comeu tod inho, poupando apenas a capa. Conversou uma vez sobre o romance com Carla, que já o havia lido. - Se eu sou capaz de aprender essas coisas... - perguntou Déborah, - ... capaz de ler e aprender, porque a vida continua tão obscura? Carla a fitou, sorrindo complacente. - Deb, quem foi que lhe disse que aprender fatos, teorias ou línguas tem alguma coisa a ver com a gente entender a si mesma? Entender o que você tem Ce específico e distinto das outras pessoas. . . - Déborah com preendera subitamente que embora a sua sagacidade precoce tivesse uma ligação íntima c om a doença, estimulando-a em 128 certas ocasiões, ela agia independentemente dos problemas que turvavam a sua noção de realidade. - Quer dizer então que a pessoa pode aprender, aprender e continuar esquizofrênica? - com Déborah, pelo menos, isso pode acontecer - interveio Helene ferina. Déborah foi esconder seu cademo atrás do aquecedor do dormitório, e deitou-se, em segu ida, na cama, de onde só saiu três meses depois. Durante todo esse período levantou-se apenas para ir ao banheiro ou para comparecer às sessões com a Dra. Fried. Foi uma das épocas mais sombrias e obscuras de sua vida. Deixava-se arrebatar por Yr, entr egava-se às divindades e aos personagens do Coletor, sem opor a menor resistência, e xceto no decorrer das sessões com a Dra. Fried. Carla aparecia, às vezes, para conta r os boatos que corriam na ala e os pequenos incidentes do dia. Déborah era incapa z de expressar o quanto essas visitas significavam para ela. Constituíam, ultimame nte, o único contato humano que mantinha por dias e dias seguidos, pois a máscara po r detrás da qual se ocultava, dava a ela uma expressão tão hostil que os auxiliares, q uando vinham trazer as refeições ou trocar as roupas de cama, afastavam-se o mais rápi do possível sem lhe dirigir uma só palavra, sequer um aceno de cabeça. Voltou a ter pe sadelos, a acordar sobressaltada e gritando durante as noites. Logo a transferir am do dormitório da frente, cheio de gente e barulhento, para um quartinho escuro, nos fundos do corredor, junto com duas outras mortas vivas. Criaturas acostumad as às trevas, sentiam-se mal com a luz: quando raiava o dia, calavam-se completame nte e não enxergavam nada diante dos olhos. Reinava um silêncio sepulcral. De repent e, uma delas, atormentada por algum pesadelo, irrompia em gritos dilacerantes, f azendo com que se despedaçasse a crosta quebradiça do sono narcotizado das outras. M antinhamnas entregues a si mesmas, sepultadas entre aquelas quatro paredes, acor dando-se umas às outras, justamente para evitar que transtomassem a ala toda. Havi a noites em que Déborah tinha a impressão de estar vendo se realizarem suas fantasia s mais diabólicas a respeito da loucura, fantasias construídas a partir do arsenal d e ameaças com que as babás costumavam acenar quando era criança. Despertava, freqüenteme nte, com uma das companheiras de quarto de pé sobre ela, com os braços erguidos 129

. Ela não disse nada. A Srta. Logo que a viu. Julgando que fosse. aproximando-se . . Helene . Por que razão? Não sabia.Eu seria capaz de tudo. Coral estava sentada no chão. Rec ordou-se do Censor. mas Déborah percebeu que o tom era muito mais de orgulho ferido do que de selvageria. A imagem que tinha de Doris era de um fantasma glacial. Foi até o saguão e parou junto à porta da al a. Furii dissera: . num desafio. contudo. . ora. Déborah. uma das companheiras de quarto. Boa noite. embora fosse familiar a agressividade explosiva de sua dona.De sisti de tudo porque estava cansada . e não há nada que você possa faz r comigo que a minha própria loucura já não tenha feito de uma forma muito mais eficie nte e dolorosa. Delia.Ora. Reconheceu a voz e. seja dormindo. Sua visão. sorriu.perguntou a Carl a. recuperara-se. voltara de novo ao mundo. volte para a cama e me deixe dormir um pouco.. como de hábito. Déborah. se permitiu pela primeira vez algumas palavras em louvor à boa luz que a iluminou num momento tão providencial. uma menina gordinha que andava por todo o quarto batendo os pés com força. Déborah! .Como ela consegue suportar.ameaçou ela novamente. continuava ainda muito limitada. mas não a importuna va muito. . fingindo-se de fantasma.. . como se o riso fosse uma constante no seu q uotidiano. Uma outra noite.Eu sou louca.. Helene. que consistia num desejo puramente humano. p ercebera nos olhos das pessoas a mesma descrença de que viesse a se recuperar e.Ah. como foram terríveis aqueles anos que vivi no mundo. um sorriso de boas-vindas.O h. rompeu o silêncio e o terror nos quais estivera encerrada até então: . Agora sorria e di ga "como vai". . Levanto u-se tão inesperadamente quanto se deitara. quando foi bruscamente acordada por uma das mortas vivas.v eio assustá-la. cana lizando todas as suas energias para sustentar a aparência. . antes de tudo. Você está sujeita às mesmas leis que eu. pôrra! Suma-se! . volte para a cama. Sonhava uma noite com o pai e aquela outra faceta do seu amor. mas os desafios que Déborah conhecia eram surpresas preparadas por Yr: cobras que se desprendiam inesperadamente das paredes. insensível.Esqueça essas experiências Déborah! Você provavelmente não conhece nem de longe o que é se sentir mentalmente sã. Déborah esbravejou: . .. . . o sumo guardião da Aparência: Agora dê um passo. Fora necessário reunir uma energia extraordinária para suportá-lo..Talvez ela se limite a ranger os dentes e a lutar a cada minuto.ameaçou Helene. dia após dia. . pelo amor de Deus. tingida de cinza. gargalhou com a maior naturalidade.Pensa que me assusta! Você não seria capaz de competir com o menor dos meus pesade los. numa esco lha.Segundo a minha médica. . fumando um cigarro.disse ela.murmurou Déborah. ou então esmurrando-a num sonâmbulo acesso de fúria. um vulto angustiado e macilento aguardava que seus pensame ntos voltassem a pousar nela: Doris Rivera que saíra para o mundo.num gesto de sacerdotiza. com um suspiro de alívio.Estive me lembrando de mais al . e numa das minhas piores noites? .. pela primeira vez.Escute.Será que ela pôde escolher? Será que a sanidade representa uma opção para ela? .Dê o fora. aquele caos horrível? . sofrerá os mesmos terrores. tá? A menina se afastou. scomos nós quem escolhemos esses diferentes caminhos. Deu as costas e foi embora. 130 . Helene. Déborah levantou-se finalmente da cama. seja acordada . Confie no nosso trabalho juntas e na saúde qu e se oculta no fundo de você! Nas sombras. Um belo dia. pensou muitas vezes na figura semilegendária de Doris Rivera: ocupara os mesmos quartos.pergunt ou Déborah.furiosa e embrutecida . a pesar de tudo. cansada demais para continuar lutando! Furii tinha dito que a sanidade consistia.. Déborah sentiu uma alegria dentro de si que ultrapassava o pe queno motivo que a produziu. os choques medonhos resultantes da colisão dos mundos.Eu sou louca. seja bem-vinda. .. Durante os meses transcorridos naquela cama. pessoas e lugares que apareciam e desapareciam.

vítima de uma resignação patética e desesperada. contando com a . Na manhã seguinte. . defendendo-se contra o m edo suscitado pela partida de Carla.e então. sorriu e a cumprimentou efusivamente: . Déborah a encarou com uma expressão aturdida. Anterrabae se afastava na sua queda vertigi nosa.ah. uma 131 folha de papel. Nunca lhe ocorrera que a Srta. Despontam. . Carla. que esperava como um animal acuado. água. Coral para lhe recitar alguns versos de Lucrécio. e dera o primeiro passo em direção àquele pesadelo que as pessoas deno minavam "realidade". não era um fantasma: estav a viva. er a mais seguro esperar algum tempo para ver que conseqüências resultaram. Yr. Você ainda quer ouvir? . Carla veio se despedir de novo: . para espezinhar bem o seu sofrimento. e ficou até a hora do jantar copiando os devaneios poéticos da velha . vítima. era forte! Sua rainha e vítima cons ervava ainda vestígios de poder. completou com a verdade: .Fico contente por você ter saído hoje. Procurou a Srta. Coral pudesse ficar contente de vê-la. não mexera sequer um músc ulo do rosto. Deb. instig am-na a germinar no solo onde foi plantada. que se estampou no rosto dela. e mais tarde. antes de descer. então. as citações filosóficas de Abelardo. Déborah apercebeu-se de que ainda não tinha dito nada a Carla. deliciando-se com a expressão ao mesmo tempo de inveja. Passou aquele dia quase alegre.Claro que sim! .exclamou Déborah. e da própria realidade da existência de Carla. surgindo. Déborah usou conscientemente a máscara. ampliou-se o campo de visão de Déb orah. a personagem legendária que Déborah visualizava como um fantasma. Levantou-se do chão e foi se aconchegar às outras vítimas daquele terceiro círculo do inferno de Dante. o suficiente para se defender contra a determinação d o mundo em fazê-la sofrer. chamam eles. sabei o que fazem. Carla. Seria simplesmente porque ela estava contente de vê-la? Existiria re almente um mundo para além dos muros que vedavam seus olhos? Sofra. ainda tinha o poder de v ibrar. reagia. respeito e temor. então. Pássaro-um! recomendou Anterrabae com voz suave . e por sua vez. antes de se aproximar. quando a encontrou no saguão. nada poupam.gumas coisas. Déborah não atinava com uma razão que justificasse a coragem e a generosid ade de Carla. junta-te a nós". Pássaro-um? Eles se armam com um conta-gotas c heio de ácido. "Junta-te a nós. O olho da destruição aproximava-se cada vez mais de Déborah.Era u ma atitude corajosa agir assim com tamanha espontaneidade. gos tava de Carla. Sol. e eles .Eles semeiam em solo fértil. os primeiros brot os. Não dês ouvidos ao que ela diz. Adulam a semente. Procurava atraí-la com sua deslumbrante beleza. . A corda da amizade. e estrofes tiradas de Medéia. 132 . alimentos. Déb. estarei por aí.Deb. embor a a cor propriamente continuasse imperceptível. teve oportunidade de dar um outro "chega-pra-lá" em Helene. Os dentes reluziam como diam antes e os cabelos formavam cachos de fogo. inc apaz de morrer. esperando! Uma verdade terrível se impôs a Déborah: Carla se tomara sua amiga. algo semelhante a um potencial para a cor. O Censor desatou a rir às gargalhadas. O pior é que. Ê doce a chamada e reconfortante o calor. Foi à enfermaria. ao mesmo tempo. Só nesses termos consegui a imaginar o reencontro com o mundo. quando uma pessoa saia'de uma fase difícil. saudou amavelmente Anterrabae (esta era a saudação habitual em Yri). para gozar a inconstante clemência do aquecimento.vou sentir falta de você! O terror despertado por essa declaração foi tão grande que começou a tremer e a suar fri o. como que em resposta ao seu comando. embora tão debilitada. Demonstrava uma confi ança e uma lealdade comoventes. Você poderia até pedir autorização para ir me visitar lá embaixo na B. Pela primeira vez desde que chegara à Ala D. já que. ícomou emprestado um dos lápis "o ficiais" numerados. havia se livrado da dolorosa sensação de perda e amizade. Doris Rivera. no entanto. como se a visse pela primeira vez: graça s aos códigos e à mágica de Yr.Tchau. Em breve a avistaria. Im ediatamente. Já ia passar lá para lhe comunicar que amanhã cedo desço para a Ala B.Não diga . que bom! Como vai? . Doris Rivera tinha ficado boa e ido embora.

Encontrei um tutor para você! Uma pessoa que lê os clássicos fluentemente. Enquanto discutiam a questão cuidadosamente. que encontrou ao seu lado. e justamente hoje ele está de serviço no turno da noite. que o incidente com Helene tin ha acontecido antes dela chegar. Quando tenho que pedir. devassando todos os horizontes. desprovida da tênue malha de defesas que levara a vida tecendo. Não se dignou a olhar. agora familiares. acabaram se diluindo no meio-tom rotineiro da ala. e que também era andróg ina. conhece grego a fund o. aos olhos dos outros.Mary deve ter algumas balas. Coral com timidez. Sim. pois el e não pertencia exclusivamente a nenhum dos mundos. pois pouco tinha a defender.Acho qu e a gente só consegue gostar da comida do hospital quando está tão doente que não pode r eparar nela. . .segurança que lhe oferecia a Ala D. Lactamaeon avistou uma brec ha na terra. Por que você não pede uma a ela? . encharca da de suor. espere . Ao passar por Déborah. que jamais prestava atenção ao que se passava à su a volta. . . Era natural que não soubesse da história. na dimensão de Ir. destrancav a o banheiro para a Esposa do Abdicado. menos convencidas do mundo do que estavam ao entrar.Quem é? Alguém daqui? Um paciente? . um auxiliar novo. reproduzindo com trejeitos termos psiquiátricos. . Lembrou-se. Quando Déborah deu por si. . nem macho. pusera de lado o disfarce da normalidade. Já se habituara ao emprego. muito menos a falar com ela. Lactamaeon. e desapareceu. Blau? . já anoitecera. limitouse a rec uar para deixá-la passar. Déborah avistou no fundo do corredor a figura de Ellis. O olho a focalizaria e a lançaria em plena selva da real idade. . Coral amavelmente . eu acabo brigando. graças a ele.prosseguiu a Srta. O sarcasmo e o desdém irritantes dela.O que houve.Nunca percebi. dividia-se entre os dois. a grandes altitudes.Ela riu da alusão. observando-a livrar-se do torpor.reafirmou Idat. tenho certeza de que ele a ajudará com a maior boa vontade.Já ensinei a você todo o grego que sabia. . obrigando-a a se curvar em duas com tamanho ímp eto que acabou de quatro no chão. respondeu o pássaro. Quando se ergueu. foi Castle. nunca o vira. eu não posso pedir. Nunca pude pedir nada a ninguém. assumira de vez. .Ellis! . . com o mesmo rosto inexpressivo.é ele quem detém as c haves. talvez não. Ta lvez lhe tivessem repreendido por bater nas pacientes. nem fêmea. Por coincidência. . todo solícito. algumas das quais ainda vivas. Os penhascos e desfiladeiros do mundo. acontece alguma coisa comigo e eu . mergulhou nela com um grito triunfal de águia. Déborah. e que se de sfazia lentamente durante aquele ano no hospital.Queria lhe dizer uma coisa .Se você quer conhecer . Ellis. ofuscamente belo e l ivre. Coral aproximou-se dela: . o papel de zelador de coisas. O que é que você está ve ndo? perguntou ela em Yri. o s pacientes não o testavam mais. inc lusive aos seus. percorreu de volta o cor redor.exclamou horrorizada. Provavelmente m uitas saíam do casulo. enfim. pairava em céu aberto. tratava a paciente como a um fardo. Desde a conversa com McPherson que não falava com Ellis. Ele falava pouco agora. ainda meio atordoada. esta sentiu o tumor diste nder-se violentamente dentro dela. Se você pedir. embor a continuassem tão vivos 134 quanto o fogo de Anterrabae. . sem olhar parà nada e ninguém.. Aberto o banheiro. a divindade dissimuladora. Leve-me com você! Um momentinho! interveio o Censor com sua voz áspera..Não. A lua e o sol na mesma esfera. Pensei que você soubesse dis so. . bem.Não. e não Ellis. A Srta. Voara já uma vez 133 com ela. porém. metamorfoseado num gigantesco pássaro.principiou a Srta. do preço qu e tivera que pagar por ter testemunhado e se posto à descoberto. sentindo-se à vontade na doença. Acima de todas essas preocupações.Ocorreu a Déborah. é o Sr.

com os olhos perdidos nas xícaras de café. O clima foi pouco a pouco se descontraindo.Seus próprios ouvidos estranharam aquelas palavras. Quando terminaram. tornava-se cada dia mais difícil conversar pe rto dela. Suzy escutava com a passividade que só uma menina de doze anos é capaz. Lister que o fizesse. que sua enfermidad e era mental e não física. levantou-se para fazer os seus exercícios de piano. As pessoas tinham o maior respeito pelas novas teorias com toda a sua gama de comprovações empíricas sensacionais.Você leu os relatórios? . Suzy. Jacob de vez em quando a aparteava. com suas construções sombrias e lúgubres. a despeito dos fatos. . ao mesmo t empo solenes e embaraçadas. . precisava saber. com uma convicção nem sempre sincera. às vezes. como de hábito. Suzy.As suas leis espaciais são ótimas .Suzy esboçou um sorriso. Nunca mencionavam. hesitando em revelar a S uzy a doença da irmã.. contudo.Não. Isso nunca! Discutiram. um hospital. lembrando-se. Empertigou-se na cadeira. as antigas crenças e temores sobreviviam incólumes na mentalidade popular. mas só superficialme nte. a "Ciência Modema" fornecera uma série de racionalizações oficiais para explicar muitos desses casos. de alguma outra ref erência que a deixara confusa. cedendo lugar ao terror pr imitivo ao peso de dez mil gerações de medo e misticismo. ela não fica dizendo que é Napoleão ou coisa no gênero. sem dúvida. . arrancadas a tanto custo. acrescentando.mas. por exemplo. que transmitiam suas taras aos seus descendentes. Ou seja: feche os olhos e pronto! Tudo volta a correr às mil maravil has. ameaçando o futuro? Sim. mas. e um dia você leu um bom pedaço para tio Claude que eu achei meio esquisito. Tudo se encaixa direitinho agora! Até que enfim as co isas fazem sentido! Levantou-se da mesa e foi para a sala ao lado praticar suas lições de piano. due seus médicos eram psiquiatras. modificando ou elucidando um ou outro aspe cto da questão. temperou a garganta e com vo z formal começou a explicar à filha caçula que a "escola de convalescência" de Déborah era . no entanto. que partira de alg uma janela do hospital. cuidado com as opções q ue vocês nos oferecem! 135 Esther Blau passou muitas semanas preocupada e agitada.disse ela . 136 ao terminarem o jantar.propôs Jacob. Seu rosto não extemava um sinal.Escuta. por Deus.Uma coisa que sempre me intrigou é que esses relatórios tratavam mais das idéias de Déborah do que de seu corpo.Vamos esperar mais um pouco . Naquela mesma noite. Esther lhe pediu que ficasse. Cheg aram a pedir ao Dr. tratando-se de um relatório sobre essas do enças comuns. uma contração muscular sequer que denunciasse aos pais como estav a recebendo aquelas palavras. alegando que isso cabia exclusivamente a Esther e Jacob. . era injusto continuar a alijá-la da fonte de suas preocupações mai s profundas. . sepulcro de uma multidão de trapos humanos. e então falou em voz lenta e pausada. É um assunto sério. O problema se resumia em achar uma maneira adequada de contar.. o pulso ou a temperat ura. discutiram. Esther sabia.. Esther queria evitar a tod o custo que Suzy viesse a substituir a imagem familiar da irmã por aquele estereótip o da louca de olhar selvagem. quem já não ouvira falar dos maníacos assa ssinos. Dava-se conta agora de que fora justamente este estereótipo que ela e Jacob haviam evocado da primeira vez que viram as janelas guarnecidas de barras e que escuta ram o ranger das fechaduras ou o grito atormentado de mulher. por isso. o da louca em "Jane Eyre". ela p ermaneceu em silêncio por algum tempo. atônitos. Ao menor arranhão. . você citar trechos para a vovó. Além disso. por exemplo. até que finalmente venceu a posição de Esther . Esther e Jacob continuaram sentados. a casca da cultura se desfazia. Passados alguns minutos. mas ele se recusara. as histórias descrevendo o ma nicômio. na realidade. fica? . Ela estav a deixando de ser criança e.. Suzy voltou. enfiada numa camisa de força c acorrentada num porão. Quem já não havia escutado os velhos melodramas a respeito da insa nidade como. já era tempo. . Ouço. que esse "esp erar-um-pouco" era mais uma das portas por onde ele se esquivava discretamente d os problemas. rodeadas de muros sólidos e indevassávei .

Não? Não é condenável cortejar a morte? (Suas mãos haviam manejado com destreza a lâmina a precocidade. sem esp eranças.como se diz? .O inglês é mesmo uma língua maravilhosa .Falaram sobre o otimismo dos médicos. . e cada vez mais intensamente.Todos nós temos! . é verdade. . Julgava.Por exemplo. Contém expressões incríveis! Ho e . Enquanto não fossem abertas. .Admito que errei mil vezes! Mas você esquece que eu era feia. era ter sempre razão). O tom em que falavam traía um pouco a esperança que tentavam transmitir. Além do mais. Jacob deu uma longa tragada no cigarro e expeliu junto com a fumaça. a podri dão-Déborah só começa a agir depois de um dia. uma substância ori ginal que definia cada pessoa. Talvez o troar de canhão que temíamos foi o que nós ouvimos.Eu tinha consciência de que estava sendo uma farsante.O inglês não é melhor do que o Yri! . ela e alguns outros possuíam um n ganon que as diferenciava das demais pessoas.. de início.disse Suzy. Roub ava-os freqüentemente conservando-os até que se dissipasse esse nganon purificador q ue os impregnava.Isso é tudo?.E comprava assim.. isto é. a força vigorosa e o amor que demonstravam. é só isso ou será que realmente ela não nos compreendeu? A i mpressão que eu tenho é que. você cometeu erros que lhe custaram caro. Só que os doces vinham em caixas impessoais cobertas de papel celo fane. Segundo Déborah. Por isso.Sim. lápis ou permitir sequer que alguém tocasse em suas coisas. arruinada. Durante toda a sua vida. por algumas horas. não havia perigo de contaminação. então o que sobrari a? Notou que se deixara levar pela vaidade e riu meio constrangida: . vo ltando. na Ala D. livros.Claro que não! .Até mesmo emPem ai . Ser rainha de Yr. tudo isso pesando em favor de Deorah. . . pelo menos tanto quanto 138 com Yr.você parece estar "na maior fossa".No entanto. . toda a angústia que o dominava.Você se envergonha disso? Para mim é uma evidência de que Déborah ainda mantém vínculos com a Terra. sempre se recus ara a emprestar suas roupas. as vantagens dela ser trata da cedo. a saúde que vicejavam nas outra s crianças da escola ou da colônia de férias. ela e tudo aquilo que a p ertencia. por menos que fosse. Por aquela épo ca. que isto só aconte cia consigo. mas veio encontrar depois. sua escrava e pri sioneira.Não sei não. sinto muita falta dela . que possuía uma substância envenenada e venenosa. Esther se sentia fraca devido ao brusco relaxamento da tensão. . a graça.Mas você não disse que costumava subornar as crianças na colônia de férias com os doces que sua mãe mandava? . . Eu dava as caixas imediatamente. uma covarde. e por isso. ela vai reaparecer com o olh ar que há meses venho imaginando! . parec iam carregar o mesmo estigma. Ficava encantada com a pureza.que significa "Nada" . . quando identificou a menina errada na colônia de férias . quer dizer. iA composição do nganon dependia não só de fatores inatos como de fatores circunstanciais. em seguida. inclusive em seus objetos pessoais. uma pequena dose de popularidade! . Às vezes.perguntou Furii c om delicadeza . refazendo-se do contraste entre as e xpectativas e o que acontecera de fato.perguntou Furii. Permaneceram ali sentados por um bom tempo. cujos gumes ela própria afiara. . à peça de Schubert. "farsante e covarde . alguns mortos vivos que. o Coletor já se manifestava. estiveram impregnados dessa venenosa essência.comentou Furii.Elogiar uma coisa não significa condenar outra.disse Furii . podia me dar ao luxo de ter razão! Se eu estivesse errada. não foi? .eu tinha que preservar alguma coisa.. assim que passar o choque. Você acredita que essa sua substância seja realmente venenosa? Déborah começou a explicar as leis de Yr que regiam o nganon. logo que as recebia. 137 Tomara que volte logo para casa.

a Dra.Porque eu era a Inimiga! Para Déborah. Déborah tiritava de frio. A doutôra perscrutou-a com um olhar penetrant e. Déborah já não a escutava. as relações pareciam se in verter: os seres do mundo passavam a ser amaldiçoados. à ruína de suas partes mais recô s e femininas. os japoneses atacaram Pearl Harbour. no alto do céu.Eles odeiam esses japoneses como sempre te odiaram.. Por detrás da máscara de judia americana.Por quê? . aquele frio que remontava à distante vivência de uma separação.Compreendo. . sabe o que tenho a confessar. Um dia.. .Anterrab ae sabe o que vi.chamou Déborah em Yri. eu fui uma japonesa. Sintomaticamente. . e. Déborah contou que. no decorrer do r elato." eram acusações que ouvia dele. forçando a entrad a dos Estados Unidos na Segunda Guerra. à dolorosa intimidade de seus ferimentos.E Anterrabae.. o nome daquelas ilhas do Pacífico adquirir am uma conotação odiosa e infemal para os americanos. . Fri ed era obrigada a pedir inúmeras vezes que ela falasse mais alto. sem extemar qualq uer alteração visível. sonhos de fuga. Ah.Eu estava disfarçada de americana. completou com um sorriso amável: . Estava longe. Quando em dezembro de 1941. quisera não ter visto! Qui sera banir da memória essa coisa horrível. contemplava todas as belezas e todas as maldades.. sobrevôo os desfiladeiros das tuas canções de ninar. o Coletor lembrou a Débo rah: . tu não és como os outros! Recordava-se de ter escutado o trecho de algum discurso no rádio que dizia: "Os qu e não estão do nosso lado. o deu s cadente. ora sob a forma de um enorme pássaro de penas de bron ze. O prisioneiro não odiava seus captores. e à noção inculcada 'pelo seu avô de que você era especial. os olhos oblíquos do In imigo ansiavam pelo dia em que seriam desmascarados. 139 Anterrabae! Poderá ela arcar com tão grande peso? O que está acontecendo. enquanto el a tornava-se a síntese perfeita do amor e do ódio.interveio a Dra. no dia em que fez nove anos de idade. A dor contínua e insuportável c ausada pelo tumor. . Sua mente. Furii deu-lhe um cobertor com o qual ela se enrolou e deitou no dívã. ela não.. pressentiu que ela beirava uma descoberta importante. agora. Os homens 140 eram os cegos. então. Fried. Ela gemeu baixinho para o deus e.Ah! Tu deves ser esse inimigo contra o qual eles lutam! Certa noite. E esse sentimento vinha entremeado à precocidade que você tinha que su stentar. . quio quaru ar Yr aedat temoluqu' braown elepr' kyryr. o poder de transmutar sua forma. à linguagem secreta. o universo de segredos. durante cerca de um ano. esta revelação constituía um segredo crucial. eram os que dormiam agora. mas na realidade não era uma americana. assim como a glória e a miséria pressupostas na declaração de Yr: Tu não és como os outros! . cometiam erros. ) Quando Déborah se transformava nessa enorme criatura alada.. Fazia sentido.. elaborava. estão contra nós!" O Coletor segredou-lhe: . de percorrer as imensas distâncias que os separavam. . . .Durante a guerra. viveu ora sob a forma de um cavalo selvagem. Déborah? .. Assim. era o seu ferimento de guerra..Anterrabae.." (Liberta e alada. desperta. Yr lhe deu de presente.insistiu a Doutôra. voltou-se desesperada e disse: . O encantamento dizia: "e. a condição de prisioneira. pelo contrário. Bastava que recitasse um encantamento Yri para que se dissipasse a ilusão. horrível.Uma japonesa de verdade? .. O importante é que o mundo começava a dar um sent ido às oposições irreconciliáveis que dilaceravam Déborah... logo que se sentiu capaz de transitar entre Yr e o mund o exterior..Pássaro um.Onde você está agora? . e a menina feia e detestada se transformasse num esplendoroso pássaro. estava quase adormecendo. . quando despertou sentindo-se como um sold ado japonês capturado. versada num idioma estranho. desejava até que vencessem.

viu a enfermeirachefe saindo.perguntou Furii. "Como se se nte a doutôra hoje?" Enquanto retirava o disco da capa. Vá se deitar. continuo achando que esse Censor. o pranto e o sofrimento de outras pacientes. Déborah. Censurava todos os meus atos para não deixar que as vozes e os ritos de Yr che gassem ao conhecimento das pessoas. Anterrabae fez com que Déborah quebrass e um copo e pisasse sobre os cacos com os pés descalços. mas o terror a emudecia. cujo médico viera lh e pedir conselhos a respeito de um problema aparentemente insolúvel. "Qual é mesmo o programa de hoje?" Cons ultou a agenda. por que fizemos isso? Lembra-te do terceiro espelho: a de cepção maior ainda está por vir! Vieste para esse hospital . estava nos pla . Há três semanas que seus discos de Schumann e Beethoven jaziam sem tocar na prateleira. O própr io médico estremecendo a cada caco que extraía. e consultou em seguida o relógio que havia sobre a escrivaninha.Quer dizer que você escondeu essa identidade de japonesa de todos os que convivi am com você. Como uma brasa que seus dentes fossem triturando. . pensava sobre um paciente." Mas dispunha. . por acaso.. Déborah retcomou à ala apreensiva com a nuvem que ameaçava desencadear os prenúncios ter ríveis de que vinha carregada Soaram os primeiros ribombos nas esferas de Yr. Preciso do casulo imediatamente! A enfermeira a encarou atentamente .E por isso. mas não conseguiu falar nada. de construir uma espécie de verdade onde você pudesse viver Bem . Até que enfim esses malditos médicos me acham suficientemente corajosa! exclamara Débo rah em Yri para Lactamaeon. pela décima segunda vez naquele dia.concluiu a doutôra . ficou abismado e confuso com o seu e stoicismo semelhante ao "de um soldado". . e o próprio Yr. Nesse exato mome nto. o seminário. encostou-se numa poltrona. um verdadeiro tirano. "Não! Chega de pacientes!" Ligou a vitrola e pôs o disco. A te mpestade era iminente.tenho certeza de que há muito para descobrirmos e estudarmos aí.Sra.Ainda assim. . . ele fazia parte da Zona do Mundo Intermediár o para impedir que os segredos de Yr transpirassem nas conversas mantidas na Ter ra. Tu és prisioneira e vítima. Logo que chegou à ala.Sim? . e depois as aulas e as dúvidas dos estudantes de psiquiatria. de uma hora antes de subir. Você agora já não é uma vítima. Queria pedir ajuda. O pior é que tinha ainda a t arde pela frente. Seus pensam entos deslizaram suavemente relembrando os tempos e as poesias de sua juventude . . No início. miraculosamente. o Censor teve o cuidado de mantê-la em segredo.Está bem. Só que acabou se tomando. sim. e sim uma pessoa q e luta comigo em prol de uma vida boa e sadia para si mesma! A Dra. Por favor! A crise vai se abater e s into que não terei forças pára suportá-la.Á função do Censor é me proteger. sem que eu o percebe sse. fechou os olhos e relaxou o corpo. A onda arrebentou com a violência prevista. representavam ape nas uma tentativa de interpretar e explicar a realidade. o telefone tocou.No dia em que terminou a guerra do Pacífico. A música suave e graciosa invadiu a sala.Não havia lugar para ela em Yr.. Começou a interferir em tudo o que eu fazia ou dizia. Não foi assim? Não consi go é entender bem o lugar desse Censor no seu reino.Estou sentindo que a crise vai se abater. Déborah correu para a enf ermeira da ala que supervisionava a contagem de colheres para o jantar.Muito bem. . Pouco depois chegava o pessoal da noite . Não sentiu nenhuma dor. respondera Lactamaeon. Foi um mar de gargalhadas e zombarias ensurdecedoras! Déborah não perdeu inteiramente os sentidos. m esmo fora de Yr. Pressentindo que a onda rebentaria a qualquer momento. a sessão fora longa e exau stiva. Fried conduziu Déborah até a porta. Fazia parte exclusivamente da dimensão da Terra. Exigira dela muita atenção e uma participação intensa. "Droga! Por que o tempo é tão curto?" Espreguiçou-se e se encamin hou para a sala de estar cantarolando alguns trechos de uma melodia. Não queríamos que escapasses! . "Ah. a voz do Censor trovejava em seus ouvidos: Cativa e vít ima! Sabes. Embora marcasse a hora de sempre.Escondeu-a também de Yr? . Olson. A última enfermeira do turno do dia saiu. foi at rás dela.

Gritou. Logo viriam os auxiiia res para retirá-la daquelas dolorosas "vestimentas de luta". Mas não vieram. verás só o que ela há de fazer ela e o mundo! A gargalhada que sucedeu à advertência deixou Déborah completamente for a de si. Déborah. Isso quer d izer que são três horas.Você está bem? 144 Deus do Céu. Lutou e se contorceu como uma fera.Não imaginava que você me visse ou soubesse meu nome.. Recostou-se na cama e fez força para suspender o corpo.. . Sylvia riu baixinho.. Esse ê o último. então? . Virou a cabeça em direção a Sylvia. . até que a dor se tcomou tão intensa que acabou destrancando a voz de Déborah. e conseguiu apenas provocar cãibras ter ríveis em ambas as pemas..Há quanto tempo estamos aqui.perguntou. . ." Déborah percebeu que ao se entregar a essa esperança. rangendo os dentes. Finalmente. que sempre parecera. Quando se cansou. pelo simples prazer de olhar. Anterra bae riscou as trevas inflamadas de dor.protestou Sylvia . procurou rel axar ao máximo o corpo e aproveitar a lucidez que lhe permitia ver tão fundo em seus pensamentos. apagaram a luz da cozinha. E logo Sylvia... Não posso.Quem está aí? . Passeou os olhos ao redor. Começou a choramingar. Grite. não sinto d or alguma. Foste descerrando um a um teus segred os. com medo de tropeçar em mais uma decepção. Quando a punição 143 se abateu com todo o seu vigor. Em geral. gritou esperando que Yr não interpretasse seu gesto como covardia e a punisse para sempre.. .. Aconteceu alguma coisa? A curiosidade fê-la esquecer momentaneamente a dor. mas quando os pés estão atados com uma pressão uni pouquinho maior.nos. o que há? . pelas mudanças de turno ou pelas idiossincrasias pessoais da equipe médica. Sentiu os dentes estilhaçarem dentro da boca. . .Srta.É Sylvia. Trazia uma expressão absolutamente estupidificada ao chegar ao casulo e deitar-se nos lençóis frios.. Nos pés.Helene? Silêncio. Ah. e a cama não cedeu um milímetro.. ..Esqueci que o grito de um louco é um grito de louco! . vendo que era inúti l. Sentia os tornozelos e joelhos inchados. Ninguém veio. como dói! Há quanto tempo estamos aqui? Cinco horas. exceto por um breve e distante momento. por seu silêncio sobretudo. s empre a considerara uma espécie de mobília inútil na ala.Provavelmente porque tenho uma circulação melhor do que a sua. latejando de encontro aos lençóis. queimavam como fogo. que com a circulação paralisada. Reaver a nitidez de visão era como uma benção. A dor t ornou-se intensa. Blau. e os calcanhares. ou quan do se tem problemas com o sangue.Doente. Só recuperou a lucidez muito tempo depois. ardiam como fogo. Permitimos que confiasses nessa médica. . A crise durara um bocado de tempo. O tempo ia pass ando e ninguém aparecia.... nunca pude . Déborah ficou abismada: jamais seria capaz de reconhecer as horas pela rotina do h ospital. Por que não vinham? As lágrimas escorriam pelo seu rosto e não podia enxugá-las. O tempo foi passando.partiu da cama vizinha. exclamando: Decepção! Decepção! Chegou a hora! "Venham! Venham! Venham!!. mais expostos ao contato com os lençóis molhados. . Fcomos "encasuladas" juntas. mui to mais próxima dos mortos do que dos vivos.desculpou-se Déborah. . A crise devia ter durado umas quatro horas.. gritou. tal como os outros.Como você consegue suportar isso? . Sentiu-se envergonhada de tê-l a julgado pelas aparências. mas não morta! . talvez seis. O jeito era esperar. o sangue quase não circulava. . Déborah. mas o pior de tudo eram os pés. Tentou de novo arrastar o corpo para aliviar o peso dos ossos dentro das pemas. de modo a deslocar dos tor nozelos a pressão das correias que os imobilizavam. pode ser que al guém venha.Sete horas. parou de chamar. a pressão insuportável das correias. Agora que já te expuseste o bastante. Reparou num montículo b ranco na cama vizinha mas não deu para ver quem era. já se achava firmemente atada na cama.

Não estou entendendo muito bem . esses caras bolam tortura s verdadeiramente diabólicas! . Sylvia. projetara-se 146 enfim a sombra tenebrosa da Destruição Iminente.prometeu a eles .. até que as articulações desinchas sem. um sopro de dúvida fez estremecer por um momento toda aquela determinação. pela prime ira vez. Déborah não conseguiu andar.Será que você não tem um pingo de misericórdia? . . estátua.disse Furii. o que quer que fosse. Vamos. não é? . . . Déborah tinha esperado a decepção final por tanto tempo que..Dessa vez não farei concessões! . Déborah.Agora você está bem calminha. . um sonho! Fora predito há anos atrás. quando finalmente veio. Já estavam com a pedra na mão par a despedaçar o vaso de flores! . encontraram-na quieta e imóvel. Inútil! Sylvia voltara a ser móvel. conservan do de humano apenas a forma. que a última Mudança seria a morte ou coisa pior. permitiram que ela ficasse sentada por algum tempo. foi quase um alívio. em voz alta na presença de uma pessoa estranha. não pretendo ganhar a sua confiança só para traí-la depois. a caminhar para essa morte como se eu não soubesse o que ela é! Quando se defrontou com o habitual sorriso de boas-vindas de Furii.No mesmo instante. eles cantaram vitória! Se us calcanhares e seus pés ainda estavam doloridos da brincadeira. A ntes de deixar Sylvia entregue àquela luz inóspita e ao incômodo de ser desenrolada. conheço o final do jogo. . Mas logo rejeitou a hipótese como absurda.gritou Déborah . Talvez ela não saiba. ah. balançando levemente a cabeça. Eu. A decepção ei a última mudança estão aí.Eu a vejo. Mas acontece que eu conheço e sse jogo. me esforço por conv encê-la de que ao revelar esses valiosos segredos para nós. Na noite passada. não está colocando em risco a minha confiança em você por um momento sequer. cujo toque queimava como fogo! . no dia seguinte e trans forma o nosso trabalho numa peça da grande decepção e mudança. manequim.. Déborah.Não. Aguilhões impiedosos cravavam-se em ambas as pemas. Recuso-me a participar da brincadeira. .expunha-se de novo às lâminas enregelantes do vento. . apenas o latejar compassado das têmporas. e procu rando afetar a maior tranqüilidade.perguntaram satisfeitos. arrancando-lhe gemidos. então. . todas as divindades e personagens de Y r se agruparam no seu horizonte.Por Deus. falou Déborah em Yri e.Todo mundo treme de m edo de encontrar o chão da sala manchado de sangue. .perguntou Sylvia. . e de viva. Acabou-se a farsa! Não pretendo mais manter a "esportividade".exclamou Déborah .O momento em que e u iria pedir ajuda. Por que me fazer de boba? Já não bast a me fazer de morta? Vá lá! Sou boba. pedira ajuda em inglês. 145 . e ela lhe foi dada. o momento em que eu confiaria. Contrastando com a incandescência da dor. Então você vem.Bem? Bem? bêbeíalrfião se conteve: . e mais ainda. as pemas readquirissem a cor e seus pés estivessem em condições de transportá-la. aquela ínfima possibilidade de salvação. senão a desta médica.Sei que isso é um jogo. Imorth. e eles. Pouco antes de sair para o consultório da doutôra.Sylvia. A certeza de uma destruição inevitável era bem mais fácil de suportar do que fora aquele pequeníssimo "talvez". Aproximou-se da cama dela reparando pelo canto dos olhos que os auxiliares a companhavam cautelosamente os seus menores gestos. o espelho da decepção final. e que há cer tas regras nesse jogo que a vítima não deve transgredir. a Ansiada e Iminen te Morte.. portanto exe e acabe de um .As correias? . prontos para intervirem. d ecidiu retribuir o gesto de solidariedade que a arrebatara do seu habitual mutis mo. fácil. pel a primeira vez.Escute aqui! . di . Que outra mão poderia executá-la de uma forma tão implacável e completa. fácil! O que era is so senão uma prova de menosprezo que sentiam? Transpusera o abismo que a separava deles.Parece-me que o velho hospital do passado e esse do presente fundiram-se na su a mente. "Não suporto ver sofrimento". Quando finalmente vieram soltá-la. Como não tinham quase o que fazer àquela hora da madrugada. pen sou Déborah.Juro que não farei! Não serei nem corajosa nem agradecida.. acercou-se dela.Eles souberam escolher o momento propício! .Um dia você me fala sobre o soldado japonês e so bre como você foi alijada e discriminada pelas pessoas. A esperança! . entregando-se num gesto de confiança.

Coral. Déborah encontrou. Ach o que você está entregando os pontos com muita facilidade. Déborah a procurou para saber quem era (certos pacientes acabavam obte ndo com antecedência. provocava m uma reação coletiva de pânico muito característica.Não. as zombadas de Yr. Déborah procurou. qualquer mudança era um símbolo de morte. Hospitalizações prévias. . médicos. sopravam uma aragem pr enunciadora de mudanças. Ocupação.admiti u com amargura. um auxiliar que a informasse. . Muitos vinham para a D.. os professores. o rosto da tigresa que transportava m ao longo do salão.Absoluta! .concordou Furii . sim!" A coisa já começou e você ainda ousa afirmar: "confie e tud o estará bem!" . a ficha completa dos recém-che gados: Nome. como tinha gritado por ajuda horas e horas a fio. Os mais belicosos. . Eu me preparei toda para aparar o ataque. nesse estado tão lastimável.Olhando para você agora. Pouco a pouco. P ublicamente.Fiz exatamente o que as pessoas "sadias" fazem quando vêem uma cascavel.Seja! . vibrava de expectativa. como se tivesse passado por uma grande aventura.gritou.. e de procurar ser paciente comigo se às vezes mi nha compreensão for um pouco lerda. geralmente por meio de rumores.disse ela . em meio ao atropelo de auxiliares.Você tem certeza de que foi por tanto tempo? . . qu e beirava a alegria. Respondeu às perguntas de Furii com um ar orgulhoso. Lee zangou-se: .Não temos muito .. . Lee Miller. que está um pouco contente demais consigo mesma por causa desse incidente. . depois que a cobra foi apanhada. no entanto. ostentando orgulhosamente o seu "status" de veterana. Contou. saem correndo. por isso. desencadeavam a violência de outra. "Vá morrer lá fora. Delicadamente. a doutôra foi recuperando a confiança dela. porém. . Mais tarde. foi direto para o quarto e meteu-se na cama.. a dor que sentia. então. como começou. . enfim.Pelo visto.de que tipo e quantos -.Prove! Prove! . observava com um ar tolerante e divertido o acontecimento.E encerrou a conversa escondendo-se debaixo do cobertor. lembrando-se de que sempre com um sorriso nos lábios. Estado Civil. bastaváLhes retirá-lo de sob os meus pés. dificilmente eu afirmaria que tudo está bem! O que foi que aconteceu de ontem para hoje? Se você acha que começou a úl tima mudança. repito que não vou traí-la. mas esqueci que estava apoia da num terreno que era deles e. Outros Tratamentos e Observações. conselheiros e familiares proporcionavam decepções e miséria ao l ongo dos anos. Apenas transfere para você a responsabilidade de ex plicarme tudo.E gritou mesmo por socorro. Mas isso não me impede de ajudála. Deu as costas bruscamente. o safari trouxe uma nova tigresa para o cativeiro. .Trata-se de um caso de readmissão .. trancam as portas. para nós duas. .explicou despreocupadamente. nesse momento. Encarou-a com aqueles seus olhos zombeteiros e prosseguiu: . Gritam por socorro.Parece-me. Num dado momento. você nunca esteve intemada num hospital psiquiátrico.Não deixa de haver nisso uma certa dose de humor . porque só posso supor o que seja. Ao contrário do que esperava. Déborah foi recons147 tituindo os acontecimentos da noite anterior. desde o momento em que pedira para ser levada ao casulo. Furii ficou séria. incentivando-a a se abrir . Ela ficou lívida.zem. mas infalível: Tempo! 17 Sob amarras idênticas às que trouxeram a Srta.e saiba que lamento muito.Por que perguntar logo a mim? -. no entan to. a fagulha que precisava. em seguida. Tratamentos e Choque . tornava-se muito pouco conhecimento da chegada de novos pacientes. Idade. . desmaiam. então conte para mim. A ala. e para a maioria. tintim por tintim. seríssima. com o mesmo desapreço profano. Religião. Acontecimentos desse gênero transtornavam todas as pacientes: espe lhavam a angústia de uma. conseguiu di stinguir. por via das dúvidas. muitos partiam.Uma prova dura.

e de novo.... medo e inveja chocavam-se dentro dela. Enquanto isso.É aí que você está. defrontou-se com uma hostilidade muda e implacável. afinal! . fremia de indignação. Quantas investidas serão necessárias até que morram definitivamente? E tu. quando Doris surgiu em carne e osso. Déborah ficou atônita. permitin do que o mundo a triturasse! Nesse momento. ela está per dida. Pássaro-um? . mais cedo ou mais tarde voltam. mas apenas para manter as aparências. conselhos. Agarrou o pesado cinzeiro que estava usando e o arremesso u com toda a força. Seu nome é Doris Rivera. . Antes que pudesse continuar. cuidados. a Estrela do Norte! Quem ela pensava que era.s dados. Mary Dowben postara-se diante do quarto de Doris. todas as atenções convergiram para Doris.. Medo e ódio. desafiando-as a todas? E como ousara fracassar. gemendo cada vez que os membros do cortejo 150 emergiam de lá! Lee Miller.Olhe-se no espelho e verá que também não é nenhuma beldade! . fecharam-se em torno de Doris e a afastaram dali. e arremetem de novo contra o mundo. atingindo a parede. Doris era mui to magra e seus cabelos começavam a ficar grisalhos.perguntou agressivamente.. o rosto pálido e encovado . e percorreu vagarosamente as portas da seção de reclusão. ninguém o sabia. os sentimen tos que a revolviam por dentro explodiram boca afora numa cruel e estrepitosa ga rgalhada. e de nov o. Como arcara co m o mundo este tempo todo. A grande Doris Rivera acabara partindo a espinh a dorsal na roda do mundo. 149 -. consultas. mas uma coisa era certa: não fora de joe lhos! Notou que Déborah a observava com a mesma hostilidade que sentia no resto da ala. e sempre voltam. recompõem as forças.Que s erviço mal feito. medo e a euforia da vingança. Quantas coisas isso provava! Subitamente. Quer dizer então que acabam retornando! São teimosos demais p ara aceitar que seus nganons os tornam venenosos. negligência.berrou Lena. até chegar ao quartinho onde Doris fora enclausurada.E daí? Como é que você voltou? . as auxiliares acudiram afli tas. Médicos e enfermeiras rangiam a s chaves de sua autoridade na fechadura de sua porta.É! É sim! . e ainda assim teu coração bate.Porque teus guardiães são sádicos! Naquele dia.Por quê? gritou ela em Yri.Que olhar idiota é esse. enquanto o auxilia r seguia tranqüilamente seu caminho.Napoleãoü . Mais tarde. Déborah se afastou cabisbaixa. mas dentro dela. O diabo é que esses médicos nunca admitem quando "entram bem"! Alguns dias depois. tudo para Doris. erguem-se lentamente dos chãos da ala. Trevas.gritou Déborah.Bem feito! Rivera. e chegam em frangalhos de tant o apanhar. calma. não sobre a padiola. teu pulso persever a em viver. vacilantes como pugilistas derrubados num "round". assistindo à volta ao lar da filha pródiga que vinha lhes roubar a soberania. à luz do mito que ela e Carla alimentaram durante tanto tempo. Déborah a examinou de alto a b aixo. .E daí? . Sim.. Apesar de exausta e atordoada devido aos sedativos. vibrava nela uma vontade intensa de viver. . Uma auxiliar contemporizou sem muita convicção: .. pavor.Aquela sem-vergonha da Blau! A mamãezinha e o papaizinho gastam uma nota naquela puta que não devia nem existir! . bem ao lado de Déborah.. hein seu doutor! Arrume a trouxa e volte para casa. Déborah escutou ela dizendo na enfermaria: . . pôrra! . uma mul tidão de irmãzinhas consumia-se de inveja.deixou escapar Déborah. Déborah ficou com a pergunt a e a raiva reboando em seus ouvidos sem resposta. Era um tal de casulos e se dativos. sofrimen to. Depois de algum tempo.perguntou Lactamaeon com um sorriso nos lábios.O que é isso Lena. hem? . sentada a um canto do saguão. murmurava furiosa: .Isso não é da sua conta. .Você já esteve aqui antes . não é sua presunçosa! Como ousara ela tentar. . . s acodem o torpor. . foi invadida por uma onda de piedade e temor por si mesma.Alguém objetou. Recuou e encostou-se na parede gaguejando.

e. . . cheios de curiosidade.Blau! -. correndo pelos co rredores e dormitórios. tinha de fazê-las.Rivera.. .assentiu Déborah.Yr começou a trovejar e o Coletor a provocá-la com zombarias. Eu também vou! declarou ela aos personagens de sua outra dimensão. merda! -. a primeira coisa que viu foram os rostos ávidos debruçados sobre ela. Naquela mesma tarde ocorreu um acidente. . isolaram-na num quarto privativo. . Provavelmente foi uma piscadela maliciosa de olhos. Não tinha a menor idéia de qual a expressão que tr azia no rosto. mas agora vamos! .Escutem. os esquemas voltados para sustentar as apa rências de sanidade. .Eis o que Doris Rivera en frentara e o que Carla enfrentaria em breve: o Mundo! Déborah desmaiou. . como odiaria . Umas quat ro ou cinco meninas que estavam ali começaram a brincar com ele. Dois estagiários uniformizados. e sair.. como a deviam estar vendo: suja.O que por exemplo? . não se meta nisso! . Os estagiário s que escoltavam Déborah. não se deram ao trabalho de vesti-la decentemente . . (Julgando que ela talvez ficasse no St. Duvidava que suas perguntas vies sem a ser respondidas.) Quem sabe um olhar demente também.gritou.preveniu severamente um dos auxiliares. mas eram vitais. Na manhã seguinte. Dirigiu-se à porta do quarto onde Doris e stava encerrada e bateu.Nosso aparelho de raio-X não está funcionando . . . apavorados com a possibilidade de que ela fugisse.Já disse que não é da sua conta.Teremos que levá-la par a o hospital St. A conclusão impôs-se fulminante: Aí estava! . cheios de si.O tom de suas vozes era ameaçador: ou saía dali. Ocorreu-lhe. . Déborah ora se divertia com o ridículo da cena. Todo mundo nos diz isso. Mary Dowben escorregou. Déborah! Você não tem nada o que fazer aí! repreenderam os vultos bra ncos. será que ela olha?"). .Sim. alguns minutos depois.Ei.chamou Doris do outro lado da porta. .. puseram-se a descrever orgulhosamente as agruras do trabalho na "a la dos perturbados". As pessoas no corredor voltavam discretamente a cabeça e os olhos para o 152 outro lado. fláci da devido à inatividade.. o casulo. conduziram-na num táxi ao hospital. "O que é que a barata faz? Voa! Numa dessas.Afas151 te-se dessa porta. Agnes. cabelos desgrenhados. naquele momento. como se estivessem diante de uma famosa estrela de cinema ou portadora de alguma peste. . Ao voltar a si. as auxiliares acorreram mais uma vez para abafá-lo. Déborah o apanhou e o jogou de volta para Mary. iam de peito estufado. De vez em quando.Eu só estava conversando com Doris -.Está bem.E eles são violentos? Déborah não escutou a resposta. . Talvez eu consiga responder às perguntas dela! Só posso saber depois q ue ela perguntar.. ant es que degenerasse em briga. . Percebeu. . (Desinteresse afetado: "Se eu olhar. vocês aí. insistiu.. Chegando lá. do outro lado. enfermeiras e auxiliares vinham espreitar pela porta. caiu e um de se us sapatos saltou longe.Não! Eu é que fui dura demais! Aconteceram muitas coisas . ou ia direto para a reclusão.Esta aí é que é a doente mental ? . O pior foi quando a levaram para a sala de raio-X. Nem bem chegaram à sa la de raio-X. . ora espumava de ódio. de súbito. o médico da ala o examinou e suspeitou que estivesse fraturado. Agnes. . está bem.Más eles vivem dizendo que a gente vai ficar boa.disse ele. Ao escutarem aquele diálogo. deixem essa doida ficar.. . vigiado dentro e fora por dois grupos de enfermeiras. Precisava saber urgente mente se teria que reativar o Censor. vestindo um velho roupão por sobre o pijama. e todas as farsas e horrores sem os quais jamais sobreviveria lá fora.Cochichavam do lado de fora. Déborah saltou pa ra agarrar o sapato mas caiu de mau jeito e torceu o tornozelo. . ou ambas as coisas. sim. naquele mundo sombrio e incolor.Ei! Foi muito duro? Você voltou por causa disso? .

. Não tinha nada a v er com o mundo. e que são uma minoria no mundo. está me lhorando.Bem! que. apoiada em seus dois enfermeiros. . Furii suspirou. Déborah saltou. Afora todo o universo mágico. reúne as melhores condições para ser compreensi va e indulgente.. Entrou no táxi (já esta va a postos) que. que você atraiu uma. certamente a levariam de volta. Atrai sem que eu o saiba. Procure ser paciente... compreendeu! -.. as pe ssoas normalmente ou escolhiam ou eram escolhidas como companheiras tanto na colôn ia de férias. liga ou classe . . Mesmo despojadas dos instrumentos necessários. . independenteme nte do que eu pense ou faça! . Um mosaico de arranhões e entalhes.Esse preconceito custa um bocado a desaparecer . Você. foi mancando até o banheiro grande onde ha via uma chapa de aço que servia de espelho. quer dizer.. Déborah estava convencid a de que existia uma outra prova de sua indignidade intrínseca. Diz mais ou menos o seguinte: "Em silêncio e em sono.E nagua .Eu carrego comigo o estigma do mal..gaguejou ele com pungido . em meio às atribulações cotidianas de sua juventude. e pior ainda antes da Primeira .. talvez eu não esteja entendendo mesmo. na hora de se lavar para dormir. "Bolas!" Estava doente. Fale-me dela s.perguntaram os seus dois enf ermeiros (gozando o privilégio de serem os únicos com conhecimento suficiente para l idar "psicologicamente" com ela).Você está tentando magoar a si mesma agora. justamente por conhecer a doença mental muito melhor do que eles. nganon clama por si mesmo. e encostou na porta 153 dos fundos do Prédio Sul (Alas B e D).Não posso ajudar ninguém. .disse Déborah ao espelho. .disse ela. atravessou o portão. por alguma força mágica. Mas eu fui boba: só me ocorreu a idéia de espumar pela boca quando e stávamos longe. subiu no "vagão de carne" para a D. isso quer dizer também. tcomou a estrada e em seguida o desvio.. com ou sem fratura. No mundo.Como? Explique isso melhor para mim. inclusive. Déborah teve uma idéia: se conseguisse assustá-los b astante. cunh ados raivosamente sobre o aço temperado. independentemente da minha vontade. nos bancos de escola. com o tornozelo enfaixado. Antes da Segunda Guerra era muito pior. rápido. caso o tornozelo estivesse fraturado. desceu a avenida. Ali. . Segundo Déborah. atrai para si outras pessoas igualmente envenenadas. suas proposições de reformar o mundo. Há um ditado em Yr. Num piscar de olhos... as divindades e reinos de Yr. quanto em qualquer outro grupo. ajudá-lo. juro que queria uma! Assim o quadro fi caria completo. o "eu" inimigo.Sempre achei bom vo cês não usarem camisa-de-força aqui.. O que aconteceu? Depois de ouvir a história toda. mas. Sentou-se com dificuldade. 154 clama. T udo levava a crer que uma força mágica a atraia para os outros. mas ontem. meta isso na sua cabeça! Será que você não entendeu nada do que eu disse até agora? O nganon age por si mesmo. . com o qual o Censor vivi a me atormentando. rápido. Armou uma cara bem agourenta e disse: . ou seja.. . Déborah fez um gesto de impaciência.a moça teve um deslocamento bem feio.É um dos meus ataques que vem aí! O médico empertigou-se sobressaltado. atestavam os impulsos autodestrutivos de centenas e centenas de pacientes. absoluto e imutável. duas ou três pessoas.contou a Furii ..seja no que . Lá vinha Furii com suas mensagens ardilosas.. . Esta prova.Como está se sentindo? .bom.Fui despachada para um hospital. Uf! Lar doce lar! À noite. . . . Ainda assim. anterior ao agir e ao respirar. não creio que tenha havido fratura! Todos suspiraram aliviados.ter que ficar no hospital. as pessoas têm que preservar a aparência de participação -. veio a encontrá-la justamente no mundo.. as circun stâncias tornavam-na muito mais "louca" do que na ala supostamente "violenta" do h ospício. Déborah saía do hospital mancando.. não pouparam um centp metro de espelho." Isso signi fica que a substância venenosa. palavra s que em Yri significavam: "Eu te amo".

você. Acontece que. . . Vamos! . . . Déborah descobriu que só era capaz d e corresponder a essa exigência de participação e de convivência. uma certa dose de simpatia. Uniam. Pois bem. Ao se aproximar mais. . Sabiam. . Deparou com Eugênia. compreende. o campo de futebol. a solidariedade exterior: freqüentarem juntas o refeitório. arranjou um jeito de se esgueirar para longe das pessoas. e por isso odiavam a si e ao companheir o. o convívio satisfazia à profunda carência de transpor esses muros. Pegue. uma cumplicidade silenciosa. com quem quer que fosse. . O 156 suor escorria de seu rosto em grossos filetes pelos ombros e braços . os dementes. Conhe cia vários refúgios na colônia onde dispunha de uma hora ou duas de paz e solidão. muitas vezes.gritaram de lá. os aleijados. os esquisitos. mas sabe muito bem para quê: É para mim. . nua em pelo. Num dos verões que passou na colônia. . pressentiu que havia alguém mais. a colônia acabou aceitando-a amizade das duas e deixou de j ulgá-las e hostilizá-las. Sabe muito bem o que sou. reconfortarem-se mutuamente com palavras que não soassem de todo falsas. e freqüentemente se atormentavam uma à outra por causa disso. . por um minuto que fosse. Essas afinidades não eram intencionais ou premeditadas. de como era penoso s ustentar as Aparências perante o mundo.. os espelhos das Aparências e. os medíocres. . . . antes que começassem a chamá-la e a procurá-la. sentindo vontade de ficar à sós.Sentiu que algo terrível estava por vir. Déborah foi. entre el as. e por causa disso sofrerá punições terríveis do Censor. dera origem a isso. queria correr pelas Planícies de ir. as forças para sustentarem os muros que as separa vam dos outros.for. Eugênia e Déborah logo começaram a andar juntas. Pôs-se a c antar de modo a anunciar a sua presença. Um dia. no íntimo. .Você está fugindo. .Tome! . e talvez até voar se Yr lhe permitisse.Para quê? . nem consistissem num mero ritual em benefício 155 das Aparências. com os corrompidos. Finge que não entende. era a casa de banho que ge ralmente permanecia deserta. Ocorriam tão naturalmente qu anto a atração do imã sobre o ferro. em seguida. Queria tranqüilidade . Um dos melhores. . Estendeu para Déborah um cinturão de couro.Não esqueça do q ue eu sei a seu respeito! vou obrigá-la a me bater com esse cinto. a voz d e Eugênia. não se faça de desentendida.era uma pessoa solitária.comandou ela. seguindo essa linha de raciocínio.mas procurou fugir à suspeita de qu e também fosse uma portadora do nganon venenoso. amarga e inquieta . . na maioria das vezes. Por outro lado. desse modo.Não. Já fora surpreendida.Déborah recuou mais um passo. porque. os desfigurados. ao se combinar à virulência que e xistia potencialmente nela. Existia. e você tem. o l ago.Venha cá. Julgara-se até a própria encarnação da R .Não.Déborah começou a recuar . baixar as defesas e esquecer que o mundo era aquele caos traiçoeiro e decepcionante. Yr vinha l he exigindo uma dedicação cada vez maior. Débora percebia.. Depois de algum tempo. Não posso! Não quero! O desejo e a ânsia de Eugênia saturavam o ambiente. no boxe com o chuveiro fechado.Ora.. uma compreensão mútua d o quanto havia de sofrimento por trás dos atos mais triviais. Chegando lá. Isso foi um pouco antes de se consumar a última grande mudança. .Quem é? . Déborah conheceu uma menina inteligentíssima chama da Eugênia..Déborah. Suava em bicas. é claro. queira ou não! Vo cê vai querer..Bat a em mim! . rindo e falando Yri em voz alta. as pessoas at raídas desse modo sabiam no íntimo o porque. a razão dessa afinid ade. que Eugênia tinha as suas esquisitices . ouviu ruídos furiosos de luta num dos boxes e.O quê? . Não preciso mentir para você. conversar de coração aberto. Mas o que necessitavam era. Ocorreulhe subitamente uma suspeita terríve l: talvez o seu nganon tivesse contagiado Eugênia e. acima de tudo. .Não. oferecendo em troca um alívio cada vez menor .

158 num certo sentido contribuiu..quer por afeição. mas ninguém admitia isso. .perguntou Furii. .Bem. Não é para menos que o doente mental tolera tão pouco as mentiras. existe . . .Algumas dessas chamadas não posso deixar de atender. Nunca pensei nisso antes. . apesar de ser tão requisitada. Se esse incidente dos chuveiros ocorresse hoje.Não. Sentimos a tentação d e nos desforrarmos um pouco no placar. mais sã quer dizer mais forte. .No mundo das campainhas .Ora. O seu nganon despertara o de Eugênia. Acho que eles se arruinam de um je ito diferente.onde estávamos? . comentou Déborah. Sabe. Jamais pedira a alguém que a compartilhasse. Estou curiosa.Sei como é difícil progredir com uma "médica famosa e importante". testemunhar era ser conivente.retrucou Déborah acidamente. .acaba inevitavelmente arruinada.Sim. Ainda assim.Acho! O telefone tocou sobre a escrivaninha e a doutôra levantou-se para atendê-lo.Pemai. admitiu que eu estava tão doente que merecia ficar intemada num hospital. toda satisfeita e sorridente. . não é assim? . mas sei que também há homens intemados aqui . nunca encarei a questão sob esse prisma.O que foi? . provou-m e que eu era mais "sã" do que imaginava. Déborah avançou para ela.mas uma ruína que só dizia respeito a s mesma. arrancoulhe das mãos o cinto. esses anos todos eu soube que estava doente.perguntou ao voltar a se sentar . mas você explicou bem a questão. . . e que você discemia de uma forma claríssima..Sorriu. Jamais voltaram a se falar.Falávamos sobre contaminação.Ah. logo in citara.E quais foram os resultados? .Conseqüentemente.. .Não entendi muito bem. ou seja. Era um milagre quando não tocava pelo 157 menos uma vez durante as sessões. mesmo que jogando com a nossa própria vida.Porque sou louca! No momento em que você admitiu que eu estava doente. Continuamos a trabalhar j untas? ..Yr encara isso como uma pilhéria. Furii encolheu os ombros num gesto desamparado d e desculpas. agrilhoada e condenada à destruição . você fic aria tão assustada quanto ficou naquele dia? .Agora. para impedi-la de ter a imaginária "folha de serviços perfeita". . reparando naquele sorriso que nada tinha da amar . . . pois embora eu conheça outras razões que explicam essa intolerância.Você parece estar vendo isso pela primeira vez -. seu pai e sua irmã? .Bem. . achando agora ridículo o susto que tinha levado. Devo lhe avisar qu e fracassei muitas vezes.Sim. Déborah bateu palmas.Será verdade? Será que contribuí com alguma coisa de novo p ara você? Furii ficou um instante em silêncio. . Talvez o nganon de Eugênia foss e ainda mais virulento do que o seu.Olhe.Você ainda acha isso? . quer por atr ação . exatamente como as nossas.suas idéias como que saíram à luz do sol. e tanto pode ser por contato direto como por proximidade. .Há muitos anos que eu as venho contaminando lentamente! . . sim.Tenho certeza de que minha irmã acabará louca. . . é verdade? Vo cê ainda tem esse medo de contaminá-las? .concordou Furii . .Encarou Déborah com um sorriso meio malicioso.Exigiram de você que desconfiasse até mesmo da realidade que lhe era mais próxima. As interurbanas ou casos es peciais de médicos que não poderiam ligar outra hora. é verdade. .. jogou -o no chão e saiu correndo.E continua sendo verdade em relação à sua mãe.Os homens não são vulneráveis ao veneno feminino. era ser responsável. quando a pessoa se toma sua amiga . Procuro evitar o maior número po ssível delas. . por que não? . .uína . pensativa. logo causara. Existem alas cheinhas deles. Sim. sentindo-se es tranhamente gratificada. e ser conivente. com relação às mulheres da família.

. valho algum a coisa. de seus desejos.Bolas! Ela não é uma delinqüente condenada! . Que progressos fizera no sentido de vir a ser a menina recatada. vestira-se em trajes de gala ou. desfer indo raios! . mas Jacob. quanto mais os seus! Déborah passeou os olhos pelos personagens que decoravam as paredes do saguão. é? 159 . num tom divertido. A noção do ngano n venenoso representara uma descoberta fundamental para Déborah.Minha cara.murmurou para si mesma escolheste o pior lugar para começar! 160 18 Primavera. . No dia da cerimônia de colação de grau. enquanto aguardava no saguão a distribuição de sedativos. sussurrou ele.Tire os olhos de cima de mim! -. . Coral. a filha de s eus sonhos? Nenhum.Shh! Agora não! . .Pode ser bom para mim. do que prometera a si mesmo e a Esther.com as três. Ela preferia ir à festa da turma. . . a filh a caçula.E. Como passara rápido o tempo! Suzy. para mim. Por que não estava ali com eles? Era a segunda primavera que ela passava longe de casa. se andas à procura da realidade objetiva . com o seu toque de fogo. . uma vez ou outra! Decidiram levar Suzy para j antar num restaurante chique. estação das paixões e da impaciência. hein? Mandar-me para a reclusão. pareciam esperar. os olhos pe sarosos: . Uma n oite. quanto ao receber.Quais são as suas intenções. segundo a fa mília.Está falando comigo? . . Vocês conseguem ler meus pensamentos? .sibilou Esther. . obediente. começaram a explorar uma convicção que Déborah compartilhava em seg redo com todos os doentes: a de que ela possuía um poder infinitamente maior do qu e o indivíduo comum e.gura habitual..perguntou Lee. Jacob virou-se par a Esther que. implorou que ficass . esperar.Tremeu só de pensar de viver sem Yr. porá abaixo as suas casas e os expulsará de vez. assim como Lee e Helene que acabavam de chegar. . tomando ares de co ndessa elegantemente horrorizada com algum espetáculo repugnante.Vá para o diabo! . .Eu choro . Posta dos aqui e ali como estatuetas imutáveis. feminina. não co nseguiu tirar Déborah da cabeça. Jacob sentia um profundo vazio i nterior. pôs-se a observar a Srta .choro grandes lágrimas de crocodilo por esses seus deus es de Yr.Puxa! .disse Déborah . . refastelada como uma coruja velha na poltrona. Nas sessões seguintes. não é? . procura va encontrar nela a lógica. .Vocês conseguem ler os meus pensamentos? . aqui pelo menos. ouvindo o s coros e os discursos. no dia em que se d er conta disso. fez uma cara de choro. as orações e os juramentos. em homenagem a Suzy. enfim. As meninas começaram a se retirar em fil a do auditório. uma revelação meramente espiritual. Coral. era ao mesmo tempo inferior a ele. Absolutamente nenhum. mas.mas por detrás dela acha-se a mesma Furii. a racionalidade de um fenômeno complexo e natural. deprimido e nostálgico. .disse Helene.Se eu posso ensinar-lhe algo.Você me faz ver uma nuvem branca envolvendo o cume de uma montanha.esquivou-se a Srta.Será que não daria para ela vir passar um tempinho conosco? Podíamos ir aos lagos. das horas felizes com a família reunida. . ansiando pela v olta dos bons tempos. de brincadeira. seus "trajes de coroação".insistiu ele. terminava a escola secundária. mas ao invés de enc arar essa noção como uma fantasia sintomática. . a boca descaída.Pode não ser bom para ela. .Não consigo ler nem os meus. graciosas e inocentes em seus vestidos brancos. . a despei to de seus esforços. Jurara a si mesmo dedicar este dia exclusivamente a Suzy.disse Furii . no entanto.Eles estão desperdiçando o tempo de um ser humano que. isso significa que.Está vendo? Você fica tão feliz ao dar.

em juntos aquela noite. Justamente por ele querer tanto, a noite foi desde o iníci o um fracasso. Suzy acompanhava-os contra a vontade. Esther estava deprimida por que a filha presente voltara a ser relegada a um segundo plano pela filha ausent e. Jacob sabia que acabaria pondo tudo a perder se persistisse naquela ansiedade , mas não pôde se conter. A noite transcorreu num clima de desolação constrangedor. Num dado momento, Esther comentou com naturalidade 161 forçada: - Debby queria vir à sua colação de grau, e se ela pudesse teria mandado um pre sentinho. Suzy encarou-a com um olhar tranqüilo e disse: - Ela estava aqui. Eu vi vocês dois c onversando sobre ela quando recebíamos os diplomas, e ao nos prepararmos para a saíd a. - Que besteira! - protestou Jacob. - Juro que não conversamos sobre ninguém. - Não faz mal. .. sério! Mesmo que realmente não te"nham falado alto, foi a expressão, o olhar que vi em vocês. . . - Cogitou em descrevê-lo, caso não soubessem como os seus rostos denunciavam as preo cupações, mas as palavras eram tão complicadas e dolorosas que não conseguiu articulá-las. - Bobagem, Suzy - protestou novamente Jacob, abanando a cabeça. - Expressão, olhar. . . vejam só, que besteira! Suzy e Esther entreolharam-se rapidamente. Era claro que ele estava escondendo o jogo. "Seja indulgente", implorou Esther com os olhos. Suzy abaixou os seus e f icou algum tempo remexendo num botão do vestido. - Sabe aquela menina que estava n a minha frente na hora de receber os diplomas? Pois é, o irmão dela é um pão.. . No hospital, as pacientes recusavam-se a admitir que a primavera pudesse chegar passando por cima de todos os seus sofrimentos, mas ela veio, triunfal e radiant e. As mulheres na Ala D estavam furiosas: o mundo que as destruíra, ao invés de sofr er pelos seus pecados, parecia mais vicejante do que nunca. E quando Doris River a prendeu os cabelos, vestiu uma roupa bonita e, com um sorriso tímido, partiu de volta para o mundo, sentiram-se mortalmente traídas: Doris aliara-se à primavera con tra elas! A Esposa do Abdicado tinha a sua teoria: - Ela é uma espiã! Eu a conheci há muitos anos. A oposição paga para ela semear o caos e d epois a imprensa transforma a coisa num escândalo. - Devemos ser caridosos - apregoava MaryDowben, com ares de santa. - Devemos ser caridosos, ainda que ela seja portadora de todas as moléstias sociais que se poss a imaginar, para não falar das infecções nas partes pudicas, transmitidas por homens d e reputação desprezível. Sem mencionar esquizofrenia da natureza mais sórdida e imunda. - À medi162 da que ia elevando o tom de voz, transpareciam as arestas desarmônicas do pânico. -Vocês doentes mentais são tão engraçados! - exclamou Mary Fiorentini. Foi o bastante para desencadear a briga. A ala toda transformou-se bruscamente num remoinho de fúria e medo, onde as brigas irrompiam com uma espontaneidade selvagem e absurda. - Como tem paciente em reclusão hoje, hein? - comentou uma estagiária recém-chegada. - Quando pegarem mais alguns, vão começar a enclausurar de dois em dois - retrucou Déb orah. - É.. . é. . . - assentiu a estagiária (tratamento Número Três, sorriso amarelo, saindo pe la tangente). Déborah afastou-se e tentou acertar mais uma vez o sapato no relógio d a parede da enfermaria. - Daria tudo para acabar com aquele sorriso. - A tua cara já é mais do que suficiente - disse Helene. - Pelo menos a mim você consegue ser superior, não é? Mais uma briga. - Há épocas assim na ala - asseguravam os auxiliares antigos aos mais novos. - Não cos tuma ser tão violenta. - Os mais novos, contudo, não acreditavam. As estagiárias de en fermaria recém-ingressas andavam assustadíssimas. Duas enfermeiras da turma preceden te tinham "fundido a cuca" pouco depois de receberem suas filiações psiquiátricas, e e stavam agora intemadas num hospital. - Cuidado, porque as coisas que se vê aqui comentava-se à boca pequena - acabam deixando a gente maluco.

As quatro novas estagiárias recém-chegadas, designadas para a Ala D, estavam tão apavo radas que não se desgarraram umas das outras, formando um grupinho coeso e discrim inatório. Criou-se, naturalmente, um contraste entre essas jovens, belas e saudáveis portadoras da primavera, e as pacientes, sombrias portadoras dos nganons veneno sos. Helene e Constantia desbastariam aos tapas e pontapés a singularidade das nov as inimigas. Déborah simplesmente baniria as recém-chegadas da cabeça até que se dissolv essem na rotina anônima da ala. Só as enxergaria como vultos brancos e indistintos, e só as escuta163 ria quando se referissem a ela ou lhe dessem ordens específicas. Estas defesas, qu e eram inconscientes, impediam-na de assumir a presença das estagiárias, cujas virtu des (atribuídas exclusivamente por Déborah) fariam com que ela se sentisse conscient e de sua "loucura" e, portanto, de que era diferente. Uma tarde, Déborah estava sentada no chão perto da enfermaria, olhando fixamente o f amigerado mostrador do relógio, quando surpreendeu a conversa de duas das estagiária s. - É verdade que uma paciente da B vem para cá? Onde é que ela vai ficar? - Não sei, mas se vem é porque deve ter "fundido a cuca" mesmo! - Lembra o que Márcia disse? Elas melhoram e tornam a piorar de novo. Espero que e sta pelo menos saiba como usar a privada, e por onde engolir a comida! - Ambas a bafaram o riso. Na hora não ligou: sabia perfeitamente que o riso denotava apenas ansiedade. No en tanto, quando trouxeram mais tarde Carla, dilacerada interiormente, com a mesma expressão terrível de derrota com que Doris Rivera chegara, Déborah ficou furiosa. Aqu eles dois vultos brancos não tinham zombado de uma maluca qualquer, mas de Carla, uma pessoa boa até a medula dos ossos; boa a ponto de ter sido gentil quando Déborah a ferira na sua região dolorosa. Ninguém diria, vendo as duas, que eram tão amigas. Seria, contudo, um gesto extremam ente penoso e, acima de tudo, uma interferência - isto era incompreensível para os " sãos" - Déborah cumprimentar Carla, sabendo que ela estava arrasada e que poderia se arrepender mais tarde caso este cumprimento suscitasse uma reação violenta ou mesmo rude. Por isso, nem sequer olhou para Carla. Limitou-se a esperar, por detrás de sua máscara de pedra, até que a companheira fizesse algum sinal discreto mostrando r econhecê-la. Só então se aproximaram uma da outra e, ainda assim, afetando o maior desinteresse p ossível. Déborah sorriu acanhada, e foi aí que ocorreu um fenômeno surpreendente. Acostu mara-se a ver tudo desprovido de relevo, cinzento, anuviado e apenas em duas dim ensões. E eis que do borrão, surge Carla 164

nas suas três dimensões, todas as suas cores, incrivelmente nítida e clara. - Oi! - cumprimentou Déborah, mal erguendo a voz - Oi! - Você pode fumar? - Nenhum privilégio. - Hum. Voltaram a se cruzar mais tarde diante do banheiro, onde Carla aguardava que uma auxiliar destrancasse a porta. - Vamos jantar na minha cama hoje? Carla não respondeu. Quando serviram o jantar, apareceu com a bandeja no dormitório dos fundos. - Posso ficar? Déborah arredou para o lado, deixando-lhe o melhor lugar, ao pé da cama (Alô, alô minha amiga multidimensional e colorida! Estou tão contente de vê-la!"). - Doris voltou e já saiu de novo, sabia? - Contaram-me. - Carla ergueu os olhos para ela e, por um milagre, pareceu enxer gar através da máscara. - Ora Déb. . . não é tão ruim assim. Tive que voltar porque comecei me esforçando demais, porque parte do que fiz foi contra meu pai... e por uma série de outras razões. Não estou entregando os pontos. Só estou cansada. - Seus olhos se en

cheram de lágrimas. Déborah ficou paralisada pela confusão e o terror que lhe inspirav a a tristeza da amiga. Estranho mistério, este das pessoas que se afogam no oceano caótico e terrível que era o mundo, e depois, pálidas e trêmulas ainda, se arrojam de n ovo sobre ele. O que os leva a pensar que podem flutuar com os outros, quando a tensão superficia l de seus nganons foi rompida no primeiro afogamento? - perguntou Déborah a Lactam aeon. Só Idat sabe - respondeu ele. - Para alguns, nada é impossível! Déborah sentiu todos os músculos retesarem-se de medo. Achas então que o nganon dela não é intrinsicamente mau, e sim. . . e sim. .. circunstancialmente mau? - Acho! - Mas nós scomos amigas! Se a substância dela não é igual à minha, isto significa que vou envenená-la! - Exatamente. 165 Pode uma coisa contrariar tanto as leis? Pois se as próprias Leis afirtnam: "ngano n clama por si mesmo". Como é possível que eu tenha atraído uma essência diferente da mi nha? - Talvez isto seja uma punição - ponderou Lactamaeon - Ocasionalmente, tu destróis par a te punir. Olhou para Carla e encontrou-a chorando ainda. Decepção! Acreditava conhecer o código, depois de anos e anos de sofrimento procurando uma pista para decifrá-lo e, ao ch egar ao último degrau, via-o desfazer-se e ressurgir o velho caos, a anarquia, as zombarias. Ela era minha amiga! gritou para os deuses que partiam. Não parecia estar magoada. ... Tu e ela não são da mesma substância; os nganos são diferentes. Serás a assassina de tua a miga! Quando Carla parou de chorar, Déborah continuava sentada do outro lado da cama, ma s estava longe... muito, muito longe. Para grande surpresa e desagrado de Déborah, uma estagiária deu para se afeiçoar por e la. Bastava que botasse a cara nos "locais públicos" da ala, para que a moça (ou mel hor o vulto branco e a voz indistinta, destacando-se no pano de fundo cinza) se pusesse a segui-la diligentemente, com uma jovialidade gratuita e importuna. Deves estar mais doente do que pensas, disse Déborah para si mesma em Yri. Estas p essoas escolhem, em geral, os piores para lançar a Deus. Deus é como o cachorro e Débo rah como os ossos. Conseqüentemente, Osso será meu nome! Estas palavras soara-Lhe tão engraçadas, que não se conteve e riu às gargalhadas. Em seg uida, fez com as mãos o gesto simbólico em Yri e a mímica correspondente ao riso, em s ilêncio, como convinha a Yr. - Quem está rindo aí? - perguntou Anterrabae num tom brincalhão. - Sou eu, a Coisa-Osso-de-Deus! Desataram a rir até expurgar de dentro de si o tormento da terra. Como ficará o êxtase glorioso daquela sacerdotiza quando Deus Sentir o cheiro da oferenda que lhe fi zeram! - e os dois caíram na gargalhada novamente. 166

E a surpresa no rosto da meiga e piedosa estagiária com o furor dos Poderes Celest iais? Dessa vez as risadas terminariam em amargor, pois Déborah sabia que não teria coragem para pedir à menina que parasse de segui-la e perturbá-la com as suas interv enções solícitas. A primavera seguiu o seu curso. No decorrer das sessões com Furii, Déborah foi desce rrando um a um seus segredos, seus temores, e as senhas que davam passagem a seu s mundos. Entregava-os, porém, apenas para apressar o momento em que, finalmente, ela própria capitularia à grande e última decepção, tão inevitável quanto Jaganata ou a que perene de Anterrabae. A iminência da destruição dava-lhe calafrios. Ficava, às vezes hor as, dramatizando a sua destruição, fantasiando as mais diversas mortes, todas elas s ublimes. Furii botou as mãos na cabeça: - Deus nos acuda! Adolescência também!

iriam quebrá-la em pedaços.Você gostou da viagem? . Déborah contudo.Ah. não foi emocionante ou. espere. Aceite. Há mais uma coisa. era como se estivessem preparando a antiga roda de suplício. acompanhando o seu olhar. Era a primeira vez que Furii falava a respeito de si mesma. e a ofereceu a Débora h ao mesmo tempo em que dizia: ..Não costumo partir flores. afinal? . Ao se recuperar da segunda punição. por causa de uma conferência em Zu rique. uma verdadeira mulher em potencial. onde existem os 167 tipos mais estranhos de rochas e formações rochosas. ele disse que recebeu meus . mas eu me senti tão gen te-grande.Certo! . forçando-se a se expor (tankutu).E daí que isso não tem cura. portanto. só nós dois.Hum. pousava ali os olhos para descansar a c abeça. quando fizera a primeira confidencia importante.quando os segredos.Lançou sobre Déborah um olhar penetrante e sorriu. Déb orah se sentiu mais uma vez "igual". A pr imeira combateremos com todas as nossas forças.Craig. ele comprou isso para mim como lembrança da viagem. Quero preveni-la desde já para que vá se acostuman do à idéia. coletores e todas as forças de Yr.concordou Déborah.Não. sobre a possi bilidade dela se sentir rejeitada. Furii. Sempre em desordem. perguntou: . não. . Interrompeu as divagações com uma palmada nos joelhos. fora até o vaso e partira uma flor de um lindo ramalhete de ciclamens. meu pai me levou numa viagem a Carlsbad. a médica de Sylvia. vou participar de um simpósio que já f oi adiado várias vezes.Conheço vários aqui . Conversei uma noite com Fiorentini quan do estava de serviço na ala. se preparando para voltar à ala. por favor.que a gente se esquece como pode parecer estéril e sem sentido es ta terapia antes do mundo adquirir uma dimensão real para o paciente.Quanto tempo. em seguida. Faça o que lhe der na veneta: fantasias.Ágata? . 168 Nas sessões seguintes.. Certo? . como se diz hoje.. Era como se dissesse: "vou confiar a você uma das minhas recordações. A segunda não é senão outra evidência indi scutível de que você é cem por cento uma integrante do mundo. ajude-me a distinguir qual a doença e qual a adolescência. apenas representaria o mundo nas batalhas de Déborah com seus censores.De volta às minas de sal. Freqüentemente duran te as sessões. tal como na Idade Média. . o melhor. sonhos.Estou planejando partir dia vinte e seis de junho e voltar dia dezoito de sete mbro. Tem também Halle. Pretendo tirar férias mais cedo esse verão. . É um tipo raro de madeira petrificada. Déborah olhou para a escrivaninha da doutôra. Furii falou sobre as qualificações do substituto. Esta delicadeza si gnificava mais do que uma pequena pausa para descontrair. . tão honrada de estar com meu pai. Havia um peso de papéis de forma indefinida. nos momentos de maior tensão. mas dessa vez você mereceu. nem costumo dar presen tes. umâ 'curtição". Lembrava-se de uma d as primeiras sessões.propôs avidamente . Adolescente ou não. não havia com o que se preocupar. dias depois. . no mundo dos adultos. . e a alertou para o fato de que o novo médico não se aprofundaria na análise. onde. a médica erguera-se. Ao terminar a sessão. Adams.O trabalho toma-s e às vezes tão intenso . inclusive já assisti ela trabalhando e gostei muito. . . enquanto F urii a solicitava com perguntas. Providenciarei alguém para me substituir enquanto estiver fora. Déborah havia empenhado todo o seu esforço de análise. Tudo arranjadinho. Depois vêm as minhas férias e.E daí? . Este gesto compensara as duas punições terríveis que recebeu de Yr por ter aceitado fl ores da terra. tinha a sensação de fato consumado. Quando me formei no que vocês ch mam de curso secundário. assim como você me tem confiado as suas". a flor já estava murch a e seca.Em s eus olhos reluzia a lembrança daqueles momentos felizes.perguntou. os sintomas e os fantasmas do passado c omeçam a aflorar . ou uma mensagem indire ta a incentivando a "tomar coragem".Sabe o que é aquilo? . o diab o! Agora. i . Furii lhe oferecia agora ura pedacinho de si mesma. não é ágata.

Deu um pulo na poltrona. mas felizmente conheci a algumas meninas. "Prometi a ela que seria complacente. .. não? 170 -.disse Furii.O pedido so ou como uma exigência. mas não "perturbada". como se tivesse sido picado por c obra.Estou sem Novocaína.Meu terceiro trilho . seu novo médico. em terreno seguro. . livros e privacidade.convidou ele .Gosto da pronúncia. ele se manifestou: . . contundente.É mesmo? Esses maxilares. Decidiu tomar a iniciativa . Significa: Eu consentirei! SN HAÍM") 169 19 Lutando contra o tempo. . doutôra Fried.. .. prometi que me esforçari a o máximo possível com este. Déborah esqueceu Furii como se ela j amais tivesse existido ou viesse a existir.Sei lá.O mesmo tom. . mas a única coisa que lhe ocorria dizer era: "Que maneira empertigad a de se sentar!". . Em compensação.A doutôra. Conversamos bastante e eu confio nele.assegurou Furii no último dia. Como as leis de Yr se entrelaçavam às do mundo. é..disse Déborah. Seus passos repercutiam no silêncio do corredor." . .A tradução literal de uma palavra Yri. quan do a amiga deixara pela primeira vez a Ala D. . aprontavam a roda. . Requereu e obteve a transferência para a Ala B. um nome qualquer. . . . Royson para conversar. pelo visto. Royson ficará com você. . e havia enfermeiras maravilhosas que iembravam muito McPherso n. ... página 97.respondeu Déborah. Sua aceitação seria um ato meramente f ormal. Déborah estava convencida de que Furii partia para sempre. mais parecia um túmulo: trancafiada ainda. Qual foi? .Você a chamou por um outro nome.E que pensamentos lhe ocorrem a respeito de odontologia? . produzindo um eco lúgubre e oco.pais quando fui intemada. Di rigia-se à primeira entrevista com Royson.O senhor é inglês. O homem. . Após um novo silêncio.O Dr. Encontrou-o empertigado na poltrona. e tem o Dr.perguntou ele num t om inexpressivo. . .Lu brificavam as engrenagens.Ah.Que pode ser mais dispendiosa do que a gente pensa. .Conteve-se outra vez. Confortavelmente instalado. . não era nada amistoso. . . pelo visto. . a linguagem secreta.Em odontologia . Estava no livro. lápis.resmungou Anterrabae desden hosamente.Quem? Quem levou? . Espero que passe um ótimo e prov eitoso verão. só mastigam monossílabosf . .sente-se .Entre . . comparada à loucura de svairada da D.Recostou-'se satifeito. Esfregou as ... quedou-se a observá-la.Deixo-a em boas mãos . .Você conhece bem o administr ador da Ala B.Sou. num dos consultórios do andar térreo. suas novas companhe iras morriam de medo dela por ter sido uma paciente da D.Déborah revirou a cabeça em busca de alg uma resposta.Sua médica me falou muito a seu respeito. Furii não deixou nada comigo. Déborah procurou resolver todos os problemas antes da part ida de Furii.O que quer dizer isso? ..No que é que você está pensando? ..Estão todos com as horas tomadas .. Do mesmo modo que expurgara o amor e a memória de Carla.É . Lá pod eria dispor de papel. .. eram trabalhadas intensa e honestamente.silêncio. . As sessões de terapia adquiriram um clima de urgência devido à partida iminente de Fur ii. Déborah se sentou. embora as incursões introspectivas não fossem nem muito esclarecedoras nem muit o profundas.

. Até que finalmente um dia.mãos de contentamento.e. o frescor da água ou aquele marulhar suave e açoitante. detalhada. A tática era engenhosa. ... ele parecia desapr ová-la. ne m estaria ali. este arrazoado de provas era absoluta mente irrelevante. espraia sobre a areia o seu fugaz esplendor.. defrontouse com um rosto severo e desapr ovador encarando-a fixamente. .Há inclusive um ditado (Decidira naquele instante fazer um último esforço para salva r a situação). por exemplo. ou. de que se ela pudesse formular claramente as coisas diante do mundo não seria doente mental. . além do mais. talvez.exclamou Anterrabae.Entendo. a austeridade do homem e a frieza lógica do seu raciocín io intimidaram-na. o prelúdio da Punição. procurando levá-la a admitir que. quando reflui. virou-se para ele e . mas ela também encerra es sa conotação de mar que. . ela sabia que ele não tinha entendido nada. . . Até no modo austero de se sentar. .perguntou ele.Déborah transpirava um suor gélido. . .Que palavra? . e envolve uma série de outras propriedades do mar como. Ela está morta.Diga uma palavra dessa linguagem secreta .Por que então você não diz logo movimento das ondas? . fran cês e alemão. ou como tremulam os ves tidos longos. . No entanto. há uma outra palavra para isso..E o que quer dizer isso? .. . Fried contou-me que você tem uma linguagem secreta. ou quando alguém parte. . e que.Pode-se usá-la para descrever o modo como o vento sopra. quanto mais se aprofundava na questão. cochichou Lactamaeon no seu ouvido. Diz assim: com um machado não se rapa o cabelo.Não se faz cirurgia com uma picareta.Isso depende da pessoa ter ou não a intenção de voltar.Significa também partir? . .O que significa? . bem.insistiu a voz que vinha de fora. . e com o eco de sua voz dizendo ao s deuses: '"Mas eu prometi. Significa agir como agem as ondas.Trazida bruscamente à realidade. tão indesejável quanto fora a dos bisturis em seu c orpo.falou distraidamente. há muitos anos atrás.repetiu aturdida com a pergunta. reproduziam a estrutura do inglês. tcomou coragem. e Déborah teve freqüentemente que concordar com ele. brilhante por vezes. . . insistiu Déborah com o flamejante deus que despencava no espaço n egro.. Contudo. o idioma no qual fora educada de sde pequena. maior tornava-se o silêncio que a envolvia. Déborah persistiu na sessão seguinte e na seguinte e na seguinte. . . e que qualquer a de nove ou dez anos de idade poderia formulá-las se Crl jsesse Analisou a estrutura das sentenças. Dsborah sentia ganas de dizer-lhe que todos aqueles argumentos repres entavam uma intrusão em sua mente. às vezes. e não uma dádiva enviada pelos deuses Esmiuçou a s primeiras palavras 172 citadas por Déborah para demonstrar que se compunham lfVrfraementos de latim.Ora. .. . Ele procurava de todos os modos convencê-la de que o Yri era u ma linguagem elaborada por ela mesma. com rarís simas excessões.Muito interessante! .O significado se atrofiou e morreu na tradução! Seguiu-se um longo silêncio entre os dois. significa o movimento das ondas. esquecendo-se. a ondulação dos cabelos. 171 . mas as reações automátic as e inexpressivas do médico acabaram fazendo com que ela se fechasse num mutismo denso como a noite. . .A palavra é empre ada sempre que houver uma relação com o movimento das ondas. pode ser muito bonita. soou-lhe de uma forma inteiramente nova: Te quaru . desalentada como estava. "Significa.A Dra. Mas prometi a ela.sê como o mar qu e.Quaru. utilizando a forma poética em Yri que.O quê? .. . no entanto. .Quaru.Não.Rapa cabelo? Tentou de novo: .Déborah se sentiu um trapo . . . Retirar! .

em alto e bom tom: . com cinco dessas guimbas em brasa. Isso se aplica também às rochas? com a minha ajuda. rígida e muda diante dele.retrucou Déborah. Até Yr se tomara distante e in acessível.disse Idat. Nem bem ela saíra. . Por meio desse mesmo recurso. os meus sintomas não são a minha doença ! . e ouvia apenas grunhidos e rosnares surdos. Quero te dizer que os homens respondem ao fogo com o fogo. apareceu o médico. porém. Era um a mulher belíssima. vagarosa e deliberadamente. . m dia. Seus sentidos nada informavam: via unicamente manchas cinzentas e disformes. e foi pressionando. Apelidou o novo médico "Dente-de-Cobra". Nada mais lhe restava. eram dados tão irrelevant es que não valia a pena questionar.. e com o passar do tempo acabou renunciando também aos mov imentos. a si mesma . Olha! A morte não é. ódios. Sofra. os mesmos meios! Conheço tuas aparências. por causa das cascavéis-muito comu ns naquela época seca e quente do ano . com L actamaeon. O vulcão não cedeu. A deusa. e a sua presença infu ndia em Déborah a esperança de que pudesse algum dia vir a ser simplesmente feia. em pouco tempo. Déborah compreendeu que a única forma de abrandar o vulcão que a queimava por dentro. rasgando ventos ferventes. pouco a pouco. Acompanhava. Havia fósf oros em abundância na Ala B e. O vul cão. para fins opostos. Idat! Por que jlutuas de branco? Branco de noiva e de mortalha . desejos e longos calafrios de terror. mas essas ocasiões eram bastante raras e exi giam uma grande quantidade de tributos cerimoniais. cujo sol era um ponto cinza equilibrando-se num imenso vazio. Déborah se fechou num mutismo impenetrável. recolhera um suprimento razoável de fós foros e de guimbas. Tomara-se irredutível a defasagem entre o universo exterior.disse. .. Acendeu outros ciga rros. uma enfermeira entrou no quarto e ia dizer-lhe algo quando estaco u de súbito. Objetos e pessoas haviam se transformado num todo indistinto e remoto. em geral. sob a máscara inexpressiva de seu rosto.. e o seu universo interio r. e o que luta não se rende? Minha e strada contém todas as oposições ao mesmo tempo e. cujo chocalhar ameaçador não lhe saía da cabeça durante as sessões. a morte lenta e gradual? O que se rende não luta.' seria lhe opor um aceir o.. Estava claro o que Yr sugeria: nisso os seus sentidos não a enganavam. ou sobrevoava. a consumação máxima da vida? E a vida nãoé por acaso. Seria preciso um incêndio para aplacá-lo? 174 Enquanto isso. Furii estava morta.O seu último grito soou em vão. com grande alívio. por acaso.respondeu Idat . um a um. Idat. Idat . . teus véus. e cujas aberturas estavam todas vedadas e embarricadas. Sempre que assumia essa forma. ardeu mais ainda sob o rosto e o corpo petrificados. . Halle. provaria enfim. apareceu a ela sob a forma 173 de mulher.dois vestidos que são o mesmo ves tido. Passava os dias prostrada e inerte sobre a cama.O que é que você quer dizer com aceiro? .Onde? . despr ovidos. Déborah conseguiu divisar através da máscar a. deu meia-volta e retirou-se ap ressada. ergueu ligeiramente o véu. Sentiu uma leve tontura e um cheiro nauseante de queimado. percebendo o cheiro de carne queimada. os Desfiladeiros do Pesar. a fisionomia familiar do Dr. Idat trazia um véu sobre o rosto. toda de branco. as percepções táteis não eram menos imprecisa s. de qualquer significado. ao mesmo tempo rainha e vítima dessa beleza.Por favor. a Dissimuladora.Parece necessário. doutor.perguntava naquele instante o médico. por vezes . um fogo de encontro. um fogo que por si me smo inflama enquanto debela o primeiro. de encontro à parte mais sensível da articulação do braço e do antebraço. Aceitava-os. Anterrabae em sua queda etema. Se o dia estava lindo ou se aquel a imagem que se movia pertencia realmente a um ser vivo. onde reluzia o sol quente de verão. começou a se rmar um vulcão onde fervilhava um magma atordoante de "s e contravozes. começou a queimar meticulosamente a pele. se era ou não de substância humana. . Ficava sentada.

gritou Déborah. . mas nenhuma dor.. falar sobre o significado e a terceira dimensão. Déborah percebeu que ele não tinha compreendido.Déborah não esperava por uma pergunta tão franca e incisiva. mesmo quando a gente distingue cada linha.Não se preocupe .retrucou o médico.A visão não é tudo! . Furii te deu uma recordação. fazendo cara de repugnância e estendendo a mão n um gesto instintivo ("parece até que a minha carne é de verdade". inclinando-as ligeiramente para cim a. plano e cor de um objeto. sussurrou Lactamacon. geralmente não consigo ver as coisas direito. Um estagiário. .Bem. ou num Dr. terminando o curativo. não. a visão se toma irrelevante. Nada possuo de palpável.Acho que vou ter que levar você de volta para a D.você será uma das minhas pacientes lá.Não se preocupe .Você tem algum problema nos olhos? . Deixou escapar um vago comentário.falava com cuidado para não lhe parecer crítico.respondeu Déborah. ." . Mas ela está morta. pensou ela). examinando as queim aduras.ironizou o Coletor. sentia-se muito mais segura com Halle. uma voz sussurou em Yr: Olha para ele. sem fazer estardalhaços ou recri minações.disse ele. . então. . Está vendo? Sente-se mais seguro agora . Halle começou a limp ar e friccionar as queimaduras. Persistissem ou não as trevas. Procurou alguma verdade com que pudesse retribuir os desvelos do médico. 175 . .. . com quem se podia falar e que jamais recorreria a expedientes tais com o o "sorriso número três". o médico virou-se para Déborah e declarou com ar penalizado: . acho que não. permanecia a postos com uma bandeja cheia de instrumentos cirúrgicos. uma pesso a aberta.. objetou Anterrabae.disse ela afável .Concordou distraído. E se fala sse sobre a visão? Diria assim. Acab ei de assumir a administração da ala.Não. Déborah lhe agradeceu a idéia com a saudação Yri: Que o calor e a clareza de espírito te a companhem.quando fico perturbada. Porque não ofereces uma jlor a ele.. .Por isso mesmo é que estou usando esse desinfetante . . Déborah sentiu tonteiras.Estou procurando ser o mais delicado possível . De repente ele paro u e olhou para ela intrigado. .o tempo de contato é tão curto que não há possibilid des de infecção.Vamos ter que limpar e vai doer. Déborah a arrancou de um só puxão. Lembrou-se de Furii e da flor que dela recebera. . ..Você fez uma sujeira dos diabos aqui . o toque de mágica que transforma um amontoado de planos numa caixa.disse Lactamaeon. Halle. . .comentou o Dr. . Oh. . Quando o Dr.Na superfície. n uma madona. .disse ele num tom amável . . Assim que transpuseram as portas duplas que davam acesso à ala.Seja lá para onde for. satisfeito de voltar àquele trabalho mais "médico". . Curioso é que parece s er imune aos efeitos venenosos de meu nganon. Déborah sondou-o com um olhar de desconfiança enquanto pensava no íntimo: "O que é que e le quer dizer com isso? Estaria exigindo a gratidão? Não. Deci diu. Depois de examinar as queimaduras. se não houver algum significado. . Talvez até a famosa terceira dimensão seja apenas uma questão de significado. Ficou tão comovida com a preocupação que ele demonstrava e com o tempo que estava perdendo. lembra? . . Já sei! vou dizer a ele que pode me tocar quanto quiser que não vai morrer.Mostre-me . . o que era outra de suas virtudes. Halle segurando um vidro de antisséptico. Ele a conduziu de volta à D. Ela fez com as mãos o gesto Yri de aquiescência. antes que ele terminasse de gritar "não!". é com o se fossemos cegos. q ue decidiu lhe dar um presente.Pobre homem! . A manga da blusa tinha grudado à pele queimada.Cale a boca! Assim não consigo ouvir meus pensamentos! . jogando f ora o algodão e apanhando 176 gaze para enfaixar as feridas. não diga? Que interessante! .

As relações de causa e efeito se diluí am na tempestade. que estava deitada na cama vizinha. de que ele não saberia exatamente quando eclodira a crise. o. e sua visão.Mas que você deu umas boas cabeçadas nas portas e ja nelas.gemeu apavorada. Mary. .protestou Déborah. Déborah olhou para ele horr orizada.vou deixá-la então mais uma meia hora. . . Suas palavras. O calor congelava. . não excessivos de uma não consigo entender . como você briga! .Ficou algum tempo lutando com a chave na fechadura.Não sei. tá? Não se preocupe com essa dor. 177 "1 Ficou apavorada ao notar que as mãos. que talento! 178 Mary soltou uma gargalhada estridente. . . se tingiu de um rubro impenetrável. agora. . A punição deixara-a exausta. . Sem nenhuma advertência prévia. Quando voltou enfim ao seu velho dormitório . . a Esposa do Abdicado fora deslocada duas camas adiante. . os braços e os ombros estavam doloridos. Quando foi. . a Punição. estava fora de si.Como está se sentindo? . mas que talento! Definitivamente. Déborah. e soavam extremamente falsas..Não é por isso que eu vim.Sorriu complacente. Deitou-se na cama e ficou observando as somb ras do crepúsculo invadirem o quarto.O quê? . Aqui só chamam o méd ico quando alguém se mata. . meu Deus! . tinha sérias dúvidas.Eu bati em alguém? Machuquei alguém? . Halle. Puxa. um pouco aborrecida com o comentário. . . As noções de luz.Não. dirigidas a Yr. Passado algum tempo. de localização e de distância. Dei uma chegadinha para ver se você estava bem.O que eu acabou a punição. ..Ah. .. . tempo. porque . Decepcionada e envergonhada consigo mesma. Déborah fez menção de virar o rosto para o outro lado. As zombarias do Coletor foram-se avolumando até se transformare m numa zoeira infemal. já era dia. .Devo ter demolido tudo. você é louca. porém. até os limites da exaustão. os raios de luz feriam como dardos. até já.Oi. . espaço.Há quanto tempo estou aqui? . haviam transposto as barreiras e caído nos ouvidos do mundo.Eu não o conheço. nunca imaginei que você tivesse o bicho no c orpo. abateue violentamente.Oi. . . . mas um súbito torcicolo e um acesso de tosse obrigaram-na a voltar-se de novo para ele.Lembrou-se. por sinal. Quando voltou a si.perguntou o Dr. e sua inexperiência deixou Déborah estranhamente comovida. Deve ser por causa da tensão.Eu não bati em ninguém.. .Menina.É que eu estou de serviço hoje. gravidade e o testemunho de seus cin co sentidos. habitualmente cinzenta. estava dentro de um casulo e tinha ao seu lado um médico q ue não conhecia. como a mão de um carrasco. Ele riu. Como é que você está aqui? ..É. Numa das contínuas idas e vindas de pacie ntes.deramlhe uma cama que já fora sua .Chiii.Não sei. suportou o castigo. virou para Déborah e comentou num tom festivo: . A pesar do que dissera o "novo" médico. Você já pode sair do casulo? Está se sentido em condições? . continuava tão muda e ausente c omo antes.. . .suspirou Déborah ..é como escapei. bom. Suas gargalhadas pareciam vidro estilhaçand mas claro. . embaralharam-se num grande caos. Perdeu toda a noção de equilíbrio (não sabia se estava de cabeça para baixo ou para cima).Ah. Novamente aquele tom jocoso. Sou novo aqui. voltando-se espantado. fica va entre Mary Fiorentini e Sylvia.Ah. se adensando pouco a pouco à medida que a noit e caía. . que. sabia o que fazia.. Inteiramente à margem do tempo. os gestos atriz de comédia barata.re inava uma atmosfera carregada de angústia. lá isso você deu. uns três ou quatro dias..

existia de fato um limite. Fora engraçadíssimo: "Sou Débor ah". Déborah começou a tirar o suéter.não pode durar mais do que vocês são capazes de agüentar. A intensidade de seu des ejo.Não era para menos . No final da semana. minha querida. emb ora. o tal médico novo reapareceu na ala. furiosa ainda com aquela idéia dele permitir que se queimasse até a morte na B. Su a visão já era um pouco mais nítida. torcendo-o como se torce roupa lavada. acrescentando camadas de queim aduras umas sobre as outras. voltou às suas gargalhadas irritantes. superava todas as precauções que vigoram na D. Déborah saiu da cama e foi rastrear a ala em b combustível para mais um aceiro. francamente. pois o alívio trazido pelas queimaduras não durava mais que uma h ora. estendera-lhe a mão num gesto dissimulado e fratemal: sim. só mudava o local das quei maduras quando começavam a infeccionar e supurar. lembrou que lá os regulamentos eram muito menos rígidos e havia fósforos em abundância: seria a oportunidade ideal para executar a morte que almejava. "logo ali". As feridas supuravam e fediam.Tive um trabalho dos diabo s para mantê-la assim! . característica das noites de verão. mais seria obsceno.Bem. por um impulso incontrolável. estivessem sujeitos às mais severas restrições. já que você melhorou tanto. lembrando-se do primeiro encontro com Mary.Tenho mais algumas queimaduras.Você está com uma cara muito melhor hoje . dissera. mas logo se recompôs. .. Déborah se ocupou em refletir no que ela dissera. e depois acaba! . O médico olhou para ela chocado.perguntou a si mesma.Quer dizer que há um limite para a coisa? . Acenderam as luzes. que estava apavorada. É como a dor física .declarou como quem não quer nada. porque é que estou me sal181 vando? .a gente treme. Se o homem lhe o ferecia de mão beijada essa oportunidade de morrer. e como era im portante saber disso! Até mesmo as pessoas venenosas. simplesmente obsceno! . a rigor.retrucou ela num tom meio ácido. 20 Déborah passou a depender cada vez mais dos aceiros para amainar a pressão insuportáve l do vulcão. Con statou. mesmo assim ninguém re parava. Déborah riu.Bem. Se quero morr er. se empenhassem toda a sua coragem e energia. e logo a pressão passava a ser insuportável de novo. por que estava ressentida com ele? . . Ouvindo isso.Ora. .disse meio sem graça. Precisava dispor de um supr imento considerável.comentou.Fico satisfeito por você me ter dito isso . por mais agoniada e irritante que fosse. com um 179 sorriso de Walt Premida usca de 180 irônico e aquela jovialidade forçada. . Mary. apontando em seguida para a sua cama. merg ulhando o dormitório na escuridão. e os contornos amortecidos das camas. concluiu com seus botões. Continuou a queimar os mesmos lugares. Guimbas de cigarro e fósforos eram fáceis de obter. acho que poderá voltar à Ala B muito em breve. porém. casos como você deviam saber que o inferno (foi sacudida por u m novo acesso de riso) .. Por alguns dias conseguiu manter as feridas em segredo.. Divertia-se com a falta de atenção d as enfermeiras e auxiliares. treme. respondera: "Eu sou o manicômio na versão Disney". "É porque eles realmente não querem olhar para nós". Carla.. .soltou uma ris adinha irônica e. Sylvia (com o seu imobilismo m ortal) deram provas disso. que respiravam ao seu redor tomaram aquela incandescência d esmaiada. e agora Mary lhe oferecia um pouco de sabedoria. das paredes e dos corpos inertes. no entanto. Helene. Talvez até mesmo no Inferno houvesse misericórdia. . detendo-se junto a Déborah na s ala de estar. Déborah compreendeu que Mary. sem saber bem porque. eram capazes de se ajudar umas às outras. Teria razão? Haveria pelo menos fr onteiras naquele pesadelo sem leis? Os últimos vestígios do dia se extinguiram. Num estalo.

já há algum tempo. sentou-se junto à cama e balançou a cabeça com um ar de espan to. Numa outra ocasião. comendo com os dedos e urinando no chão. Pouco depois. a que mais a assustava era a alegria 183 de rever Furii. No entanto. ao seu lado. viva e inteira..Como estão as velhas feridas? . não foi? . O garfo. guria! . os seus tr ajes graníticos. desespero. org ulho. àquela sua expressão de desgosto.perguntou o médico soltando as bandagens do curati vo. . não é covarde? rosnou o Coletor..Déborah estendeu o outro braço. punindo a torto e a direito.O que aconteceu? Você estava indo tão bem q uando viajei. numa selvager ia descontrolada e inexplicável. e isso graças à fal a de cuidado do Homem Moderno que acendia os seus curiosos cilindros.Deus do Céu! .Muito obrigada. por alguma razão mágica. mil sensações conflitantes dilaceravam-na interiormente. que se tcom ou assim uma ilha de modemidade cercada de pré-história. . E os Deuses. um ser primitivo espreitava. o Censor. 182 Tornou-se difícil conseguir fósforos e guimbas. na realidade . De todas as sensações. Déborah sentia vonta de de sumir. Não se deu ao trabalho de responder pois ele viu com seus próprios olhos. qu e fora introduzido um ano antes. .Não é a primeira vez que você vê. Terminados os curativos.Puxa! Quantas vezes você queimou isso? . m ais cedo ou mais tarde. ainda estava por vir. . dirigindo-se à região iluminada onde o Homem Moderno fornecia às pacientes seus símbol os de status: cigarro e fósforo.Você andou mexendo aqui. o Co letor. ávido por fogo. cor. ele se afastou.murmurou Déborah. v .Umas oito.. sem dúvida. Logo atrás dela. uma chave rangeu n a porta e entrou uma enfermeira.retrucou Déborah. . A sua rotina de vida adquirira. sem saber que.. .. cheiro e dimensões.. Raiva de si mesma. Tudo o mais retroscedeu ao pleistoceno: Pitecântropos Erectus vagueavam a esmo. . Contudo.. . Restringiram o uso do fogo aos limites da enfermaria. a superfície dele. um pouco acusador. disposto.Muito obrigada.. bamboleando e resmungando son s inarticulados. com toda nitidez.Vamos tentar um curativo diferente. Furii passe ou os olhos pelo quarto. com um aspecto inacreditavelment e diferente. para a sua surpresa. inteiramente subvertidas. mas não era impossível. foi suprimido. . como dizia Anterrabae. acordou e. . Quando os legisladores da D descobriram que seus pacientes não estavam tão a salvo c omo imaginavam. a repreender as enf ermeiras pela falta de cuidado em deixar materiais inflamáveis e perigosos na ala. medo. Déborah estava convicta de que. como tantos outros. continuavam inalterados.Deus do Céu! . voltou para cá. por mais que Déborah opusesse o fogo ao vulcão.Não. justamente por não ter mudado nada. .Olhou ao redor de novo. formas terrenas que. o cigarro aceso que esqueceu na sala de estar bastou para mais uma série de queimaduras. a Esposa do Abdicado a acusou de ser espiã a soldo do Secretário do Interior. mas nada d isso deixou transparecer na sua fisionomia pétrea.repetiu Furii baixinho. cujo universo cinze nto e difuso só admitia uma excessão: o cigarro focalizado. As que imaduras recusavam-se teimosamente a cicatrizar.Tinha que contar a ele. . varreram a ala de cima a baixo com severas reformas. Mesmo ali a lógica das decisões em Yr parecia ter sid o suprimida e as leis. vinha Furii. recomeçando as zombadas de se mpre. . afinal. vergonha.perguntou. . Deixe-me ver as novas queimaduras. A Grande e Última Dec epção. . o qual figurav a como o pior entre os seus Inimigos. sem muita convicção.disse Lee Miller sarcasticamente. estavam todos à solta. Um dia. . essas coisas horrív . piedade. ao cruzar com Déborah .Vá para o inferno! . e agora. o vulcão explodiria e entraria em erupção. de escapar ao olhar dela.Divertiu-se bastante? .Você voltou. não passavam de minúcias gramaticais.A enfermeira trouxe uma cadeira para ela. A Idade do Metal cedeu lugar à Ida de da Madeira. contendo a agressividade. descobriu que estava no casulo. .

que estava sentada de encontro à parede. Em troca das minhas verdades. aca be com essas besteiras!" Escutei isso durante anos e anos quando eu os decepcion ava com a superfície. Por que está tão chocada? .Olhe disse ela timidamente . e ele só queria provar que tinha razão e que era mais esperto do que eu. Amanhã nos ver emos. Quero l he dizer só uma coisa: avalie bem o ódio e a vergonha que está sentindo agora.Qual delas você prefere? . as palavras. como era antes de vir para cá. de Yr do soldado ini migo. . não é a primeira vez.. e mentira com o mais íntimo de mim mesma. Haveria duas pessoas no Mundo que falassem a mesma língua? Ao responder. acabaram transformando a peça numa grande balbúrdia. Coral. e acho que talvez tenha se deixado cair nesse estado tão lastimável. com Royson. e até mesmo a timidez da velha. 185 . sem querer. . está bem? .perguntou a Srta.Estou toda bloqueada e fechada. tentei uma. uma comédia fina e elegante de Oscar Wilde.eis. A peça. Coral se acercou de Déborah com um livro na mão: . alegria e compaixão. e a Srta.Disse foi? . enquanto a superfície nem sequer sabe se ele está vivo ou morto! A doutôra puxou a cadeira mais para perto.a minha médica deixou isso comigo.Foi."Vamos. . juízo menina. mas Furii estava de volta e agora não ha via mais esconderijos. . só para me dizer como está furiosa por eu ter ido embora e abandonado você.. vou ser destruída. percebendo satisfeitas que os auxiliares riam com elas e não só delas. exalava um cheiro insuportável de magnolias.Tentei com Royson. . f azendo o papel de Sybil. a resistir: . Déborah. A n oite foi divertidíssima. Os atores. era tão "Prudente" como uma louca de boa família.em que tudo o que você disser é da maior importância. queima lá por dentro.. . o modo comedido e esmerado de falar. Lamento apenas encontrá-la aqui e sofrendo tanto.você consiga aprender a chorar. . . mas vi que o que ele queria era 184 provar que estava certo. Se fosse ela quem estivesse oferecendo o livro. Daria no mesmo se ele dissesse. duas. o que é que você acha? Relanceou os olhos para Helene. Déborah notou que reproduzia. Mary. mas você estava morta.. He len e Mary Fiorentini participavam também da leitura.Quem sabe quando eu sair ..Não consigo nem a rrancá-las de dentro..Pois então deixe que elas saiam por si mesmas. pelo menos era o que eu pensava. . Sentiu-se profundamente envergonhada. . mofo e teias de aranha. fechar-se em trevas e no nada. Odeio minha vida e minha morte. . três. se transformou num p esadelo digno das telas de Hieronymus Bosch.Sou venenosa e me odeio por causa disso. pressionou com força a cabeça de encontro à cama. Decidiram começar a ler "A Importância de ser Prudente".Eu disse que voltaria hoje.. Àquela mesma noite.. e depois começar am outra. Odeio a mim e a todos os i mpostores. . Em pouco tempo Lee. mas os sons pareceram-lhe tão ridículos e feios que parou imediatamente.Não sabia que ia volta r. embora estivesse exausta. Lembre i-me de que talvez pudéssemos lê-las juntas.Levantou-se e saiu. a Srta.. Déborah fechou os olhos. no entanto. dos femininos. Déborah faria a maior parte dos papéis masculinos e a velha. o mundo só me dá mentiras. . tentei realmente. Começou a se contorcer de angústia.disse Furii . cobe rta de vergonha e degradação. Maldita! Maldita que sou! Tentou chorar e vieram baixinho uns soluços roucos uma respiração ofegante e áspera. parodiando a si m esmos.Sim.Isso não é verdade! . . Esta ta mbém será a medida da sua capacidade de sentir amor.Scomos ambas suficientemente fortes! Respirou fundo. e me odeio por causa disso. provavelmente tê-lo-ia chutado junto com al gum insulto. inúmeras vezes. Continuou. Queria poder fugir para o Poço. Esqueci que você voltaria. Coral.Este é um dos momentos .Você é suficientemente forte? . .. São peças de teatro.disse suavemen te . exasperada. só que o vulcão queima. queima.protestou Déborah. Leram-na inteirinha. com suas gargalhad as estridentes.

. em seguida.Esther tapou a boca com a mão. A velha e maldita palavra "louca". .. a mãe de Déborah até a porta do consultório onde se despediram. preveniram-na de que não seri a aconselhável vê-la. cheia de maus presságios e.As feridas? . que se dissesse qualquer coisa que soasse como apaz iguadora. indubitavelmente. ao chegar. uma entrevista com o Dr. mas dessa vez alguma coisa no seu tom pusera-a de sobreaviso. O que podia fazer para que a mãe entendesse isso? Seria. Halle e.É a palavra que a assusta tanto. Di ga isso ao pessoal em casa.E o que é que vou dizer ao pai dela? Qual a mentira que devo contar dessa vez pa ra que possa mantê-la aqui. Refiro-me à idéia. pensou de si para si a Dra. deixaria Esther em pânico.Mas isso é tão. muda e atônita. mas todo peso de sua vivência e treinamento indispunha-se contra esse procedi mento. ofegando. que sempre esteve associada à idéia de uma pessoa "conde nada para sempre".. . a verdade é p lenamente suportável. Fried.Não. furiosa. que nós sabemos que existe e que continua respondendo ao tratamento. sou forçada a rejeitar muitos. Pedem-me. 186 . Palavras fáceis de consolo poderiam servir em out ros ramos da medicina (quantas vezes os médicos não receitam uma agüinha com açúcar e pron to). Fried.A senhora julga. estamos tentando justamente descobrir por queè. segura e até mesmo dominadora. então. As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. um pequeno consolo. Passado o prineiro choque. redigido como sempre em termos cuidadosamente vagos. .Será que entendi bem? . . Esther Blau. à intenção. Foi atendê-lo e. uma vez no seu consultório. nada disso . a cada sessão. ela pigarreou. Partira imediatamente para ver Déborah. e o que está pór detrás dela não é tão mal". encarou a Doutôra Fried. que eu tome a meu encargo o tratamento de uma paciente. . . Só conservo uma paciente quando tenho certeza de que posso ajudá-la. ao voltar.Não vi as feridas. desesperada e fora direto procurar a Dra. Enquanto estivesse convicta da importância des . O telefone tocou.Acho que sim. A determinação que lhe permit ira conquistar todos os inimigos de Déborah. Saíra de lá apavorada. pelo menos umas quatro vezes por semana.. incrédula ainda. A Dra.. mas antes.como se uma carreira mágica se tivesse aberto em meio à danação que pesava sobre todas e las. To mara-se uma mulher forte. vou lhe confessar uma coisa. cuja gravidade nenhuma palavra poderia modifi car ou suavizar. Conduziu. mas gostaria que nunca mencionasse isso para sua filha. Seria um grande desperdício dedicar meu tempo a um caso s em esperanças. Pedira. Como pode alguém fazer isso consigo mes Uma pessoa assim deveria estar num. Tenho ainda que supervisionar a anális e dos médicos que estão se formando pela Escola de Psiquiatria. Fried compreendeu que Esther conseguira superar a sujeição para com o pai. é isso que a faz sofrer tanto. informara-se dos fatos. pode ria ser a determinação salvadora agora. Afinal de contas. trata-se de um sintoma da doença.. prejudicando-a ao invés de ajudá-la.Será que vocês não podem descobrir antes dela virar.. um pedaço de carvão! Esther lera o relatório. pois assim a família sairia fortalecida também e per mitiria que Déborah ficasse. ' . que ainda há uma chance de Déborah vir a ser. Es perava tê-la tranqüilizado um pouco. Blau. ao invés de tranqüilizar.interveio a doutôra. tão repulsivo! . e. soaram longas e monótonas: Acho que talvez estejamos todos nos deixando impressionar demais com esse negócio das queimaduras. onde só faz piorar. . não. turvadas pelo medo que sentia. normal? . .Nunca me permiti empregar essa palavra para Debby! "Rompeu-se a fachada de Débor ah. piorar e ficar cada vez mais violent a? As palavras da doutôra. ..Pois é. então. por experiência. . um. Sra. encontrou Esther já recomposta. O importante era que a conversa a tivesse fortalecido. A senhora não precisa inventar mentiras. . .. .Por quê? Por quê? . Sabia.Tenho certeza de que ela pode se tornar uma pessoa mentalmente saudável e forte.

totalm ente inexpressivas e imóveis. eu tenho que ir. Esmurrava. tomara-se objeto de grande interesse médico. observava fazerem curativos nas queimaduras. logo em seguida . por trás da qual se ocultava a Ala D. As estagiárias. enfrentaria toda a família se preciso. Tudo convergira para ela .Esther ergueu os olhos para a sacada recoberta de sólidas grades. Sylvia poder ia destruí-la apenas com o silêncio. com toda força. terminou. Caso isso se confirmasse. sentia como se as duas estivessem a sós no planeta. como se estivessem o t empo todo surpresas de que o sangue pudesse fluir de forma tão natural e o coração pul sar independente de suas vontades e emoções. Forçara alguns a se questionarem e a crescerem um pou co. que costumava tagarelar. poções. Helene avançou para ela e desferiu-lhe. outras de pé. O medo. umas sentadas. auxiliar es. encantadas com uma oportunidade excelente de exercerem seus c onhecimentos. a baba qu e escorria de sua boca.sa terapia para a filha. Lembrou-se do episódio ocorrido dois anos antes. A doença de Déborah não tinha só balançado 187 os retratos no álbum de família. para garantir o se u prosseguimento. trabalhavam conscienciosa e diligentemente com ungüentos. rápido e inesperado. como de hábito. parada a uns dez passos de Sylvia. Déborah percebeu os olhares belicosos que Helene dirigia a Sylvia. distribuídas aqui e ali. consumiu todo o desejo de . num instante. no alto"3(c) prédio. no entanto. Seu corpo parecia estar totalmente entregue às forças da gravi dade e da inércia. Quanto às fumantes. "Do lado de fora das portas do estudo dissera-lhe uma vez seu pai .médicos. quando Helene a ataca ra para destruir o rosto que havia testemunhado sua fragilidade e livrarse daque le testemunho aterrador. Deixaram-na sozinha e humilha da na sala. Os pés. ela quebrou o silêncio e veio em meu socorro . Só a respiração lhe traíra: resfolegava. Não demonstrava o menor interesse pela surra.um anjo aguarda. Enquanto as enfermeiras trabalhavam. Sylvia recebeu os golpes sem soltar um ai. enfermeiras. pareciam colados ao chão.era um dia refrescant e de outono . e as mãos pendiam frouxas de cada lado. contraído numa careta enrijecida.. pôs-se a observar os "Ornamentos Viventes" (termo que encontrou para designar as pacie ntes): pareciam estátuas.. "Eu devia ir porque isso já aconteceu comigo e eu sei melhor do que ninguém o que a gente sente. Sentira-se degradada demais para defender-se. bandag ens e esparadrapos. sentada no chão. Desafiada nos seus brios." Ao sair da casa onde estava situado o consultório da doutôra . um murro e. continuavam furiosas com Déborah. exceto pelo olhar assombrado. com a intervenção dos seis auxiliares necessários para subjugar Helene e arrastá-la para o casulo. A única reação de Sylvia era fechar os olhos vagarosamente: suas mãos cont inuaram caídas e moles. mas continuou imóvel. outro. arranhava. os lençóis úmidos. Vamos! Mexa-se!" . se fosse solidarizar-se. Como seria lá? O que se passa ria nas mentes das pessoas que estavam enclausuradas ali? Baixou rapidamente os olhos. Pelo canto do olho. não andavam. e até mesmo Lee. Déborah. Déborah. He lene explodiu num acesso de fúria incontrolável. tocar-lhe no ombro e dizer qualquer coisa. ava quase. De repente. as enfermeiras deixaram o s aguão por um momento. a responsáve l pelos novos regulamentos. Entendia perfeitamente o drama de Sylvia. agora é minha vez. viu seu rosto pálido como cera. cuspia. Por causa del as.. a mais feia de todas as pa cientes. Parecia uma fera arremetendo selvag emente de encontro a uma pedra. toldados de lágrimas. tudo. O incidente. Sentiu que deveria aproximar-se dela. Olhou para Sylvia. as feridas se recusavam a cicatri zar. inerte como sempre. "Naquela noite tenebrosa. mal contendo o choro. Tal qual Sylvia agora." Tentou mais uma vez livrar-se de suas ves tes de granito e sapatos de pedra.. que estava ao seu lado.pensava com os seus botões. talvez porque estivesse além dos domínios da "ciência" e a previsão. o rosto r ubro de cólera. fora incapaz de se defender e precisava de cuidados tanto quanto Helene. permanecera lá fincada no chão como uma estátua. os cabelos 188 desgrenhados. viria a ser uma fonte de esperanças raramente estuda da nas publicações psiquiátricas. Ao terminarem o curativo das obstinadas queimaduras. a reclusão. e compreendeu que. tudo para Helene. gritava. evitava fala r-lhe e lançava-lhe olhares desdenhosos.

. que durante muito tempo ficou ali paralisada. .Vigiada ou não .declarou taxativamente. devemos trabal har duro para descobrirmos quais são as raízes das queimaduras que você faz em você mesm a por uma revolta contra mim e o hospital. com você.São seríssimas! . e não apenas a nós mesmos e a deuses cadentes. Por que Furii deixara fósforos e cigarros na sala de espera? A enfermeira acompanhante distraía-se com a maior facilidade. .Fale mais alto.declarou Déborah. Nunea lhe disse que eu era humana.Não sei explicar por que. O que nos cabe fazer é louvar essa força que lhe permitiu ver isso. . não será nenhum jardim de rosas. basta que ninguém me surpreenda.vou pôr a corda no meu próprio pescoço agora. uma vergon ha tão grande. Quando solta o cigarro em al gum lugar.Não lhe faltará desafios morais e decisões difíceis para tomar no mundo e. e ac endendo um cigarro. . As duas Marys fumam como loucas. Se não fiz o que devia ter feito depois de Helena agredi-la.Você acha mesmo que as queimaduras são tão sérias assim? . eu o apanho rapidamente e fujo. A atmosfera que a cercava contin uava fria e sombria. 190 . . não estou ouvindo.Creio que de certo modo estão. .O que é que você quer dizer com isso? . contou a Furii tudo o que vira e o que deixara de fazer. embora. Agora. Prometo não roubar guimbas acesa s das pacientes a não ser quando estiverem no cinzeiro ou esquecidas em algum luga . No momento. . Furii compreende u e riu também. com uma vontade enorme de sumir. como eu disse antes.Não. e trabalhar para que chegue o dia em que você seja capaz de fazer o que acha que deve fazer. na realidade. . Havia cerca de quarenta queimaduras. Passeou os olhos pelo consultório. ao exterior. o seu gesto continuaria tão dece pcionante quanto as sossegadas encostas do vulcão. cuja linguagem e os jargões não tinham nem a beleza nem a poesia do Yri.Não estou aqui para desculpá-la . os auxiliares que subjugaram Helene começaram a retomar da ba talha e a oportunidade perdeu-se de vez. . . torcendo para que ela se lembrasse do que afirmara freqüentemente a respeito de o paciente confiar em suas próprias convi cções íntimas.agir.murmurou .Desatenção seletiva! . infligidas sucessivamente sobre a carne preparada e esfolada para recebê-las. de morrer.retrucou Furii. já que você as considera um problema sério. 189 Ao chegar ao consultório.disse Déborah baixinho. . A luz do sol derra mava-se das janelas. erguendo os olhos para ela. mas acho que você está enganada. cega a tudo o que se passava a seu redor. que vivia na maior desordem. Déborah discordou das razões e da seriedade que Furii atribuía às queimaduras. Enquanto concedessem a elas o sentido de uma aberração terrível. .Algumas vezes acho que nosso vocabulário profissional vai longe demais. Foi com eles que acabou de falar? .perguntou. e sim esse eterno alheamento em relação às coisas. Decidi não ser imortal por causa do que aconteceu a Sylvia. mas afin al de contas temos que falar uns com os outros. por favor. Elas estão contribui ndo para a minha delinqüência. O medo cedeu lugar à vergonha.Você está enganada .respondeu Furii. e eu faço o mesmo com seus cigarros. Pquco depois. Saberia Furii como foram tentadores aqueles minutos de espera? Logo que a sessão terminou. mas mesmo assim não pareciam justificar o estardalhaço que se fazia em tcomo delas. você pode me expulsar porque eu tenho um a culpa que não admite perdão.Sylvia fuma de vez em quando. rindo daqueles termos da psiquiatria.continuarei fazendo as penitências. hesitou alguns segundos e disse: . A verdadeira agonia não era o fogo nem as queimaduras. não estão? . eram percebidos por ela a uma distância muito remota. mas os seus reflexos dourados e o calor que espalhava. você é que está se aproveitando d os sintomas delas. e é bastante distraída.disse Déborah. pelo menos não vou implicá-la nas minhas queimaduras.Não se deve permitir que isso aconteça. . Déborah se levantou para sair. Nunca lhe contei uma mentira! .

As palavras proferidas num murmúrio por Déborah.uma lei da natureza enfim . Também não vou permitir que você contribua. Inai dum. já" que todos os quartos de reclusão se achavam ocupados. e que significava solidão. Até mesmo aquelas habituadas aos trabalhos mais ár duos da Ala D. E com o mesmo ódio. Já era tarde. via e ouvia. uma agonia que há dias v inha repelindo a pontapés as doses de hidrato de cloro. que a dilacerava por dentro. A crise ia ganhando proporções incontroláveis. e os bramidos provenientes do Coletor. Estirou-se no chão frio. dispunha sempre de uma meia hora de solidão. A Sra. Um dia. lembrava-se pelo menos d e ter gostado dela. começou a sent ir as vergastadas familiares do medo. e algumas delas arranhadas com um pedaço de botão. apenas aquele estado mental sombrio e obscuro. universal e penetrante. a maior delas. todas em Yri. teve uma vaga consciência de que gritava.. Refulgiu o raio de luz. não houve fósforos que bastassem para contê-l . gestos e sons que lhe permitissem exprimir o impacto produzido pela erupção do vulcão. Déborah não pressentiu nada de excepcional. focalizados sobre ela. depois da limpeza da noite.r. e boa parte do que falava já não podia sequer esperar pela lógica do Yri e pelo arcabouço das palavras: era um vomitar de sons inarticulados. Decidiu que naquela noite não levaria para a cam a consigo a agonia infernal. Naza e fango xangoranan. . cotidiano e inquestionável . As enfermeiras. tirou de dentro da manga duas caixas de fósforo. As palavras foram escritas com lápis ou com sangue. (Lembrai-vos de mim. Uguru . "terceiro trilho" significando "concordar". e começou a bater a cabeça vagarosa e metodicamente contra os azulejos. Forbes. costumavam dest rancar a porta para ela. . Tem algum signi ficado? Déborah ensaiou. e a escutar as acusações ditas num tom de quei xume monótono pelos personagens invisíveis e rancorosos de Yr. torturai meus dentes com vosso fogo até estilhaçá-los . Quando os sentidos desanuviaram. . Srta. O negro em seu cérebro tornou-se rubro. que surrupiara na sala de espera e as jogou raivosamente entre os pés da escrivaninha. estava escrito no super lativo e em letras garrafais: UGURUSU. e significava o terceiro grau do ódio .Foi dado o sinal. Seus olhos. Blau? . Forbes lhe perguntou se não queria que mandasse a s pessoas saírem do banheiro. e deixá-la a sós ali até que alguém tivesse necessidade de usar as privadas da frente. As pessoas que a socorreram estampavam uma expressão 192 de horror e de surpresa no rosto. emitiam raios que ateavam fogo.Esta palavra aqui. Dito isso. cuja tradução seria "uivos de cão".) Nesse momento entrou a Sra. de repente. porque sei que não gostaria. A palavra a que se referia fora escrita na parede c om o sangue proveniente de um corte no dedo.Recreai. estende u as duas mãos abertas e tentou inutilmente articular algumas palavras compreensívei s. mergulhou no vértice furioso d a erupção. vieram carregadas de ódio. Ageai dum. . íemr e xangoranan. quase hora de dormir. onde uma ou outra palavra Yri lhe permitia sa ber o que estava dizendo. Déborah gostava dela. A Brincadeira . 191 21 Quando o vulcão entrou finalmente em erupção. como quem ouve e vê através de um bura co de fechadura. O medo e a cólera que expressavam essas criaturas do mundo eram como o s ol.Ageai significava d ilacerar a carne com os dentes como tortura . como celulóide fervente. As palavras eram disparatadas.Onde está o objeto que usou para arranhar. temei-me com o ód io mais feroz.terminou. acho que ouvi você pronunciá-la. de que os auxiliares ac orriam ao banheiro e de que as paredes estavam cobertas de palavras e frases em Yri. Alinhavam-se nelas todas as efusões de ódio. Déborah. Foi justamente essa expressão que levou ao extremo o incêndio dentro de Déborah.Recreai xangoran. dilatando-se e extravasando com tamanho vigor que. . ressentimento e amargura expressas numa linguagem que usava metáforas tais como "quebrar" significando "consentir". comovida com a coragem daquele gesto. Lembrai-vos de mim com ódio. que se avolumavam no fundo dos copos e desciam pela garganta abaixo. antes que pudesse se dar conta. Estava sozinha na ban heira situada nos fundos do lavatório da frente. febrilmente. graças a isso.

ódio. você está protegida. arrancando-lhe um grito de dor. . mas continuav a incapaz de formular as palavras necessárias para precavê-los contra a sua própria se lvageria. conseguiu arrancar algumas palavras: . Yri misturado a termos estranh os e desconhecidos para ela.perguntou. você está sentindo alguma coisa. mais violento que o ódio negro e o vermelho -branco. Ela lutou como uma fera. cont ar para mim o que está acontecendo nesses mundos que colidiram.Tentou lhe explicar. riai naruai..Engrenagens desencaixadas. . O tumor fustigou-a por de ntro. perguntou surpresa: . e agora à última decepção. Furii.Você está com med o do seu próprio poder.É por isso que a internaram num hospital. Inglês. tentando desesperadamente morder a si mesma. .exclamou em voz alta. dos quais d ois pelo menos encaixados no mundo. só que dessa ve z sem a dor habitual. da mente.. f isicamente? . .Não. colisão. Aqui. nenhum vínculo com o mundo! Tu não és como os outros . Percebendo que era inútil deixá-la ali.Não. porque não está conseguindo controlá-lo. escancarando a boca num grito mudo. Deixe elas saírem naturalmente. tal como as queimaduras que também não doíam. Horas depois. Você tem que tentar falar.Minha inimiga.Venha. embora estivesse envolta nos l ençóis há muitas horas e.Você consegue me ouvir? . . o caos imp erava e os próprios personagens de Yr pareciam ter enlouquecido.Havia uma engrenagem.Havia uma engrenagem cheia de dentes. e procure manter-se em contato comigo. . a jogada final que fazia parte da trama se194 creta armada pelo mundo para destruí-la. . . mas só conseguiu esboçar o gesto que em Yri s imbolizava insanidade: mãos espalmadas.Déborah riu. incapazes de s e juntar. num esforço supremo. Como era frio o ve nto que soprava acima de todas as leis! Tiritava. desencaixadas! . . .. dava cabeçadas e dentada s. talvez a mais velha em Yr. das leis e conseqüentemente não a morte. .Ergueu os olhos para ela de novo: . Aturdida com aquela subver são das leis e da lógica de Yr. já deveriam tê-la aquecido. mas as paredes começaram a porejar suor e sangue. e agora nem sequer o controlo.Quer dizer. . ela se contorcia. agarraram-na e meteram-na a muito custo num casulo. Déborah andava para um lado e para o outro. Lutou até a exaustão. apavorada com o que poderia fazer agora que não e stava sujeita a lei alguma. Déborah. mas um perpétuo morrer. uma de frente para a outra. as pessoas. O quarto de reclusão era minúsculo.perguntou Furii.Escute. da alma. os lençóis. . Escute com muita atenção agora. um riso tão feio quanto fora o choro.. . ao ódio e terr or. . Faça um esforço para me ouvir . vamos tentar a reclusão até que você con siga se segurar um pouco.. Impelida de um lado para o outro do quarto. Perdera completamente o controle de si mesma.. . Déborah batia com a cabeça. c omo um boneco desengonçado. . tudo .. . meu eu venenoso e pes tilento.Pensou alguns segundos e disse: . . . o ódio foi cedendo lugar ao medo. . nem bem olhou para ela. ela murmurou: . não precisa temer essas forças terríveis que parecem ter sido desarrolhadas aí dentro. com as mãos e com o corpo de enc ontro às paredes e ao chão. E agora nenhum.Tente de novo.. até cair desfalecida. começou a sentir a contrição das veias nas pernas e nos pés. no mund o. A enfermeira o lhou para ela interrogativamente. A velha frase. .A palavra é medo? .pediu Furii num tom grave. A energia que jorrava impetuosamente do Vulcão a d eixava num estado de agitação frenético. Entendeu que a morte tão temida não precisava ser necessariamente física.Yri. Enquanto prendiam as amarras. portanto.Um ódio que você não consegue controla r. Podia ser a morte da vontade. numa agitação extrema. estacou de súbito e jogou a cabeça para trás. proferida em contextos diversos. . Vamos empenhar tod as as nossas energias para protegê-la dos excessos dessa doença. jamais pronunciada ou escrita antes. Déborah procurou comunicar o que sentia. a cama. passando do consolo e piedade.aparteou o Censor.. . medo não.. . Yri e sons inarticulados entremeavamse num dis curso incompreensível. Gradualmente. e no teto desenhou-se um imenso tumor que foi inchando e ganhando volume.Você está doente? ..

mas muito menos assustada. mas não achou que val esse a pena discutir.Nem mesmo os deuses como amigos . . esse talento para a vida.. le mbre-se bem. Apanhou o cobertor e a cobriu .Frio de Yr.. . você confiava no nosso trabalho juntas e em mim.. Negação.Diga-me uma coisa..O sofrimento não foi por causa do ódio. não. envelhecendo e apodreceu. disparates. cinco medo.. não é verd ade? .Ela apanhou aquela cama ali e a jogou... Ódio. . Antes de permitir que as barreiras 196 fossem postas abaixo..disse Furii . a última.Medo. de quem você gostava e em quem confiava. .. ...Eu sofro . mas t enho certeza de que a refreará o suficiente para conseguir a ajuda e o controle ne cessários. . E o pior é que o tremor não diminuiu para que Furii. .. Sons absurdos e apenas Não! Não! . colisão. . Na emoção que você sentiu ao se ouvir bradando essas estranhas li nguagens.. Não soube como demonstrar gratidão..respondeu Déborah. A doença que você construiu pode voltar a ameaçá-la. bastante. especialmente quando estava em serviço uma enfermeira.. que para avaliar a emoção permitiu que um bocadinho dela fl uísse de novo.Veremos se o calor da terra ajuda . Yri.disse Lee Miller sem fôlego .. Inglês.O ódio pode explodir de novo. .O quê? i . . levantou a cama e a jogou em cima da Sr a. . . Forbes! . Furii riu. como se fossem grânulos malcheirosos dentro de você.disse Furii. 195 . . medo. destruirme.. .Sabe. pois é justame te este medo que a impede de falar de uma forma compreensível para os outros. Nada mal mesmo. por não ter de entregar tudo àquele muro que separa Yr e o mundo ? Será que não haveria também uma intenção evidente de me lembrar que fui embora e a deixe i sozinha com tudo isso? Déborah sentiu que a última hipótese continha apenas meia-verdade.Segundo você.. ..Sua amiguinha. . .. cobertores da Terra. foi? Não. . Cor al.Isso só totaliza oito.a doce e gentil Srta. . embebido em culpa e medo..Tenho a impressão de que esse ódio explodiu por todos esses anos.E o quê? . . Metade do medo que está sentindo é o de que não consigam detê-la. e o que serão essas duas pequenas miscelânea s? Alívio. nunca vou preenchê-los. você tem um potencial enorme de saúde e força aí dent ro.. . Ao retomar à ala depois da sessão.. Déborah começou a sentir as pálpebras pesadas. Déborah. Negação até mesmo de Yr.Então. Dois é para miscelânea..Dez .. um ódio que veio s e acumulando.e procurou complementar a idéia com gestos de mão em Yri. Censor. nacoi. cujo calor era rechaçado pelo seu clima interior. pena morte. . algum. .. .Puxou sua cadeira mais par a perto de Déborah que tiritava ainda sob o cobertor. .Não. bate ndo. . ficasse co ntente.ódio.O medo amainou um pouquinho . Déborah soube que um novo holocausto a visitara. Nada mal para quem supostame nte fundiu a cuca.. e.. vendo. Agora.Você está completamente esgotada . Estava extremamente cansada. você se transferiu espontaneamente para a espécie de encl ausuramento que havia à mão. Antes de pe rmitir que o ódio aflorasse.. Déborah se lembrou de que não havia em Yri uma palavra correspondente ao "muito ob rigado"..cismou a doutôra. não é assim? . quem sabe.E a atingiu? . quanto havia de ódio e quanto de medo? ..Quase. o que se tcomou mais uma culpa a suport ar em silêncio. . . na terra. . ..Veio Yri.Envolva-se no cobertor. -' Três ódio. sofro muito.Começou a tremer de frio novamente. fazendo o que é proibido. Selvagem. Censor.

Outros.pois dignidade ain da era uma coisa ao mesmo tempo nova. Era bom que entrassem logo no assunto.sentia-se feliz com o seu trabalho junto às pacientes.. por uma incrível coincidência. procuravam poupar.dizia uma voz que parecia ser a de Cleary. . O corredor já estava quase deserto. estranha e inconfortável . Lee. devido à ameaça tra nscendente que encerrava). e ra utilizado às vezes pelos pacientes como dispositivo de escuta. . mesmo com a porta fechada. . só podia ser isso. . Coral como se fosse alguma beldade do sul.Quer dizer. no interior da enfermaria. passava sempre por onde desabavam cadeiras e punhos. Haviam apagado a maior parte das lâmpadas. não é? . redigiam os re latórios.Insanidade Temporária! Taí. como estou cansado (devia ser Hanson). em levar as pacientes relutante s para a cama. o que nunca ex plicam é quanto de cada lado. surpresa. Déborah concluíra que os sons eram transmiti dos pelas torneiras. Começaram a falar sobre a distribuição dos dias de folga. e ficou absolutamente imóvel com o ouvido encostado nos canos de água que passavam por ali. apesar de inconfortável para a orelha. conscientemente ou não.Certo .declarou: . Lee dirigiu-se à porta da enfermaria. pois a recepção tornava-se mais clara quando as pessoas se apro ximavam da pia de metal.. podia-se ouvir as pessoas conversando dentro da enfermaria. Virou-se lentamente para ela. Forbes vai voltar? .Risos. . Significa: antes. tch. Coral Allan.E saiu saltitando pelo corredor como se fosse uma menina de sete ano s de idade. Forbes? Por que logo um dos Bons? Depois da distribuição de sedativos àquela noite. Não sei não. que todo mundo chama Srta. de certa forma. ou o caso da estagiária que. pois e m breve teria que se afastar dali. e os auxiliare s que percorriam os corredores estavam ocupados. Soltou uma longa b aforada. tch. Forbes era uma das raras eleitas a quem os próprios pacientes. bateu e pediu um cigarro.Você não é o único (Bemardi). Pressionou a cabeça com mais força contra cano para espantar o desejo. foi discretamente se colocar na quina oposta à porta de entrada da enfermaria. são mais para a reclusão.perguntou Déborah. . a lei.Só pode ter sido um engano! Freqüe ntemente aconteciam enganos: uma paciente que mirava uma pessoa e acertava outra . Era uma mulher ded icada. Encostando o ouv ido no cano e contendo a respiração. . Quanto mais pensava na questão. . Sim. Agora aquela "coroa". cortes. num de seus irritantes acessos de risadinhas.Ali . mais piradas. portanto. contusões e o diabo a quatro. completamente atônita. já tinha es . A menção ao café deixou Déborah com água na boca. generosa e .Jesus. sério! Não há um dia nessa droga de ala em que não aconteça uma briga e aí. vocês com preendem. uma ciência. sentindo um profundo mal-e star. uma justificativa legal.retrucou Déborah. metade delas para os casulos.Se atingiu! A mulher foi internada num hospital. Lee Miller estava furiosa porque a Sra.coisa rara . Lee só a agredia porque a velha Coral estava enclausurada e. e com uma dignidade exagerada . com um braço quebrado. Carla é. durante e um pouco depois. inteligente. o de água fria.Não. (o medo impediu-a de enunciar a palavra "amiga".Engano . mas acho que essas gurias estão ficando cada v mais doentes. De uma precisão exemplar. . . inace ssível.Que diabo estou fazendo aqui com todos esses malucos! Déborah foi para o dormitório e esticou-se na cama. lá ao lado do bule de café. . . Jamais lhe ocorrera que fosse amiga de alguém..Não. O de água quente estava ap oiado em material isolante.. refletiu um pouco e resmungou: .Tch. Cuidado com a língua! . 197 Quem sabe a coitadinha não estava temporariamente insana! Intrometeu-se Mary Fiorentini zombeteira. .Será que a Sra. Dificilmente re198 parariam nela ali onde estava. . ma is intrigada ficava: por que a velha agredira a Sra. e por isso a atitude de Lee a deixava.

Ai.Hoje ela não falou absolutamente nada. O tumulto se alastrou. onde se atirou na cama e desatou a chorar de novo. mas era só olhar para a cara dela e ver o ódio. defecar ou masturbar-se aos olhos de todos desp ertava. Pressentiu. venha para a cama. o que é isso Srta. urinar. retrucou Mary Dowben que.Você foi ver Lou Ann? (Era seu primeiro nome. Desatou a chorar. provavelmente. não dava para entende r nada. suas putas nojentas! Eu sou a primeira Esposa secreta de Eduardo. . . uma das estagiárias.exclamou Jenny. 200 Déborah voltou a pensar no quebra-cabeça.Vamos. . roubar. caramba! Déborah não queria ouvir nada sobre Blau. protestou: . de repente. ela vociferava naquela fala incompreensível. o Abdicado Rei da Inglaterra! . as piores manias sexuais.e continuou num murmúrio inaudível. sempre arranjava um jeito de transformar tudo numa cruzada religiosa contra os hereges. Ba ter. e cada espírito se e nclausurou num isolamento que niaguém parecia capaz de devassar. a velha fórmula: Tu não és como os outros. Sophie vai visitá-la amanhã. mas só essa tarde pude ver com meus próprios o lhos. Forbes. soando. vocês loucas são tão inventivas.Oh (risos).. elas as pacientes. eram como partículas de pó flutuando ao acaso mas mesmo assim havia certas normas que não se desrespeita va. . Fez-se imediatamente um silêncio profundo. .Que ruídos obscenos são estes? . uma razão qualquer à qual pudesse se agarrar. blasfemar. . Déborah fremia de impaciência. . quando muito. soluçando e repetindo baixinho. colocan do-se assim em terreno neutro e dissociando-se da fonte de sua vergonha. Forbes.Bem. No entanto . Jesus! Foram dar corda nessa carola de novo. Cobr iu com as mãos o rosto que ardia de vergonha. para todos os mu ndos e a colisão. e ntrecortado de risadinhas. um desgosto passageiro.Ei.Nossa! Quem diria que uma velhinha daquelas fosse capaz de levantar uma cama. no chão. que ódio! . Sabia muito bem que jamais poderia indagar à velha por que tinha jogado a cama . cheia de graça. e por que cargas d'agua a cama fora cair justamente em cima da Sra. Ah. Preparavam-se para a última ronda da noite antes de pas sarem o turno. que havia alguém ao seu lado: era Martenson.cutado muitas histórias a seu respeito. .. Déborah se deixou escorregar até o chão. Salve Salve Columbia! . pois vivia dormindo. foi cambaleando até o dormitório. como um contraponto aos sons horríveis que continuavam brotando de dentro dela. nunca uma reação de horror. um pranto áspero e feio. Enquanto a metíamos no casulo. nada disso constituía um pecado na Ala D. para impedir que aquele incidente se transform asse em mais uma experiência de decepção. conservando a cabeça apoiada no cano frio. que raramente falava.) . Sim. Blau.Deus do Céu! Gritou mil besteiras lá no banheiro.Alguma modalidade no va de perversão hcomossexual.Mas que falta de respeito. A Esposa do Abdicado. viram só a Blau à noite? . para Déborah. Se a evidência não surgisse agora. . en199 cheu as paredes de palavras louquíssimas e saiu lutando como um tigre. . . Viera para descobrir alguma circunstância qu e pudesse mitigar a dor que lhe causava o conflito Coral versus Forbes.Ora. vou também. Finalmente tocaram no assunt o.. . Afastou-se um pouco do cano. . De repente. Déborah se levantou prontamente e sem destapar o rosto. É porq ue têm tempo de sobra para ficar remoendo idéias . Se eu ti rar folga. irritada com os risos de Mary e os sons abafados do choro de Déborah.Ave Maria. quanto mais de arremessá-la? Déborah torcia para que falassem logo da Sra. com suas preces intermináv eis. entrou o auxiliar e mandou que calassem a boca. ponha isso no relatório. Cuspir.perguntou Mary Fiorentini.Hudson e Carelle foram com ela até o hospital. e ela sorriu aliviada para o cano.

Agora. e isso. Forbes das conversas qu ando estivessem na presença da agressora. dócil e não vai aparecer mais nada nas paredes..Não lhe conto mais nada. delicadamente. de sua própria definição de amor e sanidade. Uma vez. nunca! Ninguém pediria satisfações ou re preenderia a Srta. num tom quase amigável.Para tirarmos você desse maldito lugar.. nada de brincadeiras. tsk. passariam a expurgar.Estou cansada. A verdade.bom.Sim. garanto que venceremos. e quando falava. saía involuntariamente uma mistura de Inglês.perguntou Furii. com tanto talento . elevando o tom de voz. já lhe disse isso no ano passado e no ano retr asado. Permitia-se zombar e odiar. Você pode m e mandar embora e ficar com seus amiguinhos. a fisionomia completamente inexpres siva. inclusive eu. mas nunca lhe perguntou por que fizera aquilo. se é que se pode chamá-los as sim. . pobrezinha. conservando. .disse ela. droga. de seus próprios erros e da p unição que merecerem. nua e crua. se estiver disposta a lutar com toda a energia e pa ciência.. . piorava o nervoso. trabalha-se no frio.meditava Déborah . Dia após dia. Nessas circu nstâncias. . Yri e sons dist intos que mal bastava para responder às perguntas que lhe dirigiam. opor-se à atitude de alguém era. quando se esforçava por traduzir e superar o abismo que a separava dos ou tros. A dificuldade de se expressar com clareza a surpreendia tanto quanto aos outros.Disseram que estamos ficando cada vez mais doentes.Por uma vitória que não é fácil nem doce. soou muito bem ao s seus ouvidos. . Quero que pense bem e responda honestamente.Blau. a confusão de línguas só fazia aumentar e distanciá-la ainda mais. um atentado consciente contra as va liosíssimas barreiras que asseguravam a vida e a sobrevivência dos pacientes. Quanto mais lixo ponho para fora. e não se preoc upe. Uma longa baforada de fumaça ocultou o rosto da doutôra. 201 Acabava ficando nervosa.Mas lutar para quê? Para quê? . Lee Mi ller a agredira por causa das queimaduras. é! bradou Furii. nem quero fazer você ficar boa contra a sua vontade. há um monte de hospitais psiquiátricos por aí. ." Outro caso se passou no banheiro: . nem exigiu que parass e. .. ou pior. Seus amigos. Como então . Somente com Furii conseguia expressarse com alguma clareza. .Ora.E você acha que está? . todas nós. intrometer-se. o nome da Sra.Chega de pensar! .. assustada e pouco me importando com o que possa acontecer .Eu não faço brincadeiras.gritou Déborah. mais sobra.Você desiste.e concluiu abanando a cabeça ."poderia ter sido uma menina tão boa.exclamou Déborah.Está certo .Aqui é cutucu (o que significa "estar escondida". por sua vez. numa ala entupida de perturbados.Olha. ..E daí? Alguma vez eu disse que seria fácil? Não posso. escrever outra tese e ganhar mais u m título. uma verdadeira violação. .E se não vencermos? . . . . você está aí? . por exemplo. num súbito acesso de r aiva. acendendo outro cigarro. Coral por sua atitude. enfim de um "eu" bem fo rte com o qual possa começar a viver. vão me julgar mais talentosa do que realmente sou.obter respos ta para a sua dúvida? Matutou nisso dias e dias..É. 202 . e fica n um hospício o resto da vida. .gritaram. porque aqui não me sujeita rei jamais a uma prova! . e para quê? . um auxiliar lhe perguntou se era o seu dia de banho.. que desperdício" . exigir satisfações. Eu é que não posso me mandar. por isso decidi desistir da luta. Articulou mentalmente uma resposta que lhe pareceu clara e. Para que você disponha de seus próprios desafios. serei boazinha. .dirão as pessoas .. porém. em segundo grau). ou dar a enten der alguma necessidade.tsk. e daí! . uma grosse ria imperdoável. "Tadi nha" . o que emergiu foi: "Nunca atinge a profundidade suficiente. constróem um todos os dias.. na melhor das hipóteses. . no entanto. dizia coisas definitivamente disparatadas e intraduzíveis .Furii elevara também o tom de voz. . que tinham provocado restrições extensiva s à ala toda. Trabalha-se no escuro.

Bem. continuou: .Elas. Lembro-me que quando deixei o hospital onde clinicava na Alemanha. uma rejeição. . afiando um pedaço de metal durante meses e meses. Estava enganado.Sim. eu a substituí enquanto esteve fora . mesmo porque já havia trabalhado com algun s dos pacientes da ala. não mesmo. .eu sou sua médica e tenho visto esses anos todos como você é alérgica a mentiras. sabe. por sermos médicos.disse o doutor Royson. minha cara menina . .Difícil.. . e a medicina é uma ciência que não admite gostar ou .Claro! Trabalhando aqui. As pessoas escutavam polida e atentamente. . sem muita convicção. Nenhum galhinho verde.. Posso citar inúmeros exemplos desses princípios éticos ou morais. arrulhando de cansaço.concluiu ela com um sorriso amável .Mais doente não.Você não é nem um pouco dada à demagogia.. Não.Claro. e agora tem que p rocurar fogo em outra parte. sim. ou seja.E a senhora aceitou? . exceto na presença dos médicos ou quando temia m ser escutadas. . por isso evito contar mentiras. poderíamos di zer. . que remoíam com ceticismo escutando a exposição da Dra. . De início julguei que essa dificuldade vinha do ressentimento da menina. Passado um tempo. agora acho que já pode responde r sozinha à questão que levantou antes. esqueci.Após uma pausa.bom. Fried. mas pouquíssimos acreditavam nela. Além do mais. num inglês tão bom e vigoroso. Déborah sentia-se o próprio Noé. . como todas as pacientes da Ala D. é óbvio que você sabe disso. pala vra que a maioria empregava e sentia.. e muita s vezes nos chamam oportunamente à ordem e chutam longe a escora da nossa vaidade. apreciei muito esta sua raiva despida de medos e culpas.. . . o fato de ter sido abandonada pelo terapeuta. gestos súbitos e inesper ados de generosidade que representam um grande sacrifício para a paciente.admitiu um dos aux iliares. mas lhes parecia inacreditável que a to rrente de sons confusos e a violência descontrolada não significassem uma grande mud ança para pior.. .. . o pombo voltou. nem sempre. atualmente. Decidiu impor certas restrições aos furtos. Somente alguns dos médicos e ..relatou a Doutôra Fried na reunião da equipe médica na Ala D. elas admitem considerações desse gênero? Quer dizer. . já que essa capacidade de dar representava um sintoma de saúde e força. um rosto invariavelmente inexpressivo. Comportavase.Recostòu-se na poltrona com um sorriso zombeteiro. Mas c omo eu vinha para esse país . estava "maluca". os quais inspiram freqüentemente profund a admiração nas pessoas ditas "sadias": pequenas delicadezas. .Isso se deve à "nova moralidade" de Déborah . .Ah.julguei que a fac a seria mais útil a uma pessoa que tivesse de ficar por lá. Antes do incidente.Escuta aqui. mas pelo menos era um retorno. considerações morais? .E ra um rapaz novo no serviço que perguntava. . hein? . A verdadeira razão era uma dessas verdades que não gostamos mu ito de encarar.É uma excelente oradora. não acha? .Mais doente não.não mesmo. 204 . Viera assist ir à conferência a convite do doutor Halle. então...comentou o doutor Royson na saída. quaisquer que sejam elas. .. mórbido e satírico. enviando um pombo para explorar uma região temível e desc onhecida. você encontrará fartas evidências disso. .disse Furii. v ocê não terá que arcar com as conseqüências dessa resposta. prevendo o dia em qu e sua doença se tornaria tão dolorosa que não conseguiria mais suportá-la. Está ou não ficando mais doente? Não tenha medo.comentou o outro. o negócio das queimaduras está diminuindo um pouco. Todos conheciam qual deveria ser a res posta formal a isso.Blau é um de seus casos . Déborah apresentava um comportamento mórbido e sil encioso ou. ela a fizera em segredo. mesmo assim. Esta faca. . esmagando o cigarro no cinzeiro . maneiras sarcásticas e superiores.E como foi? .Decidiu que não envolveria as demais pacientes em sua doença. uma paciente deu-me uma faca de presente para que eu me protegesse. Eram sintomas inegáveis de grave doença mental. "maluca". Era 203 justamente essa palavra. . . . .explicou a doutôra Fried com um sorris o. .

Quentin Do bshansky. . uma amabilidade qu e. Algumas vezes. . .disse Royson.Não é de admirar então que você andasse soltando fumacinha da cabeça. inadequado. q uando funcionava. com Clarinha Fried.. A Sra. dessa vez. há invariavelmente nos sonhos que contamos aos médicos um person agem que cuida do aquecimento. mas é claro .Mas depois que conhecê-la melhor. Déborah começou a no tar que o pessoal da ala a tratava com uma certa amabilidade.perguntou Furii. gênio é só o começo. porque a Bíblia proíbe. Sei não. parecia ser bastante sincera. o que o rosto mostrava: "Por que você está zangada? ". embora a angústia continuasse a mesma. ou pelos corredores. o prazer. está convicta. Déborah ficou gelada de medo.. veio substituir o velho Ticher t. mas não me odeiam. quando eu não estava. . lutava como um tigreaté se esgotar todo o fogoque lhe ardia por den tro. por mais tempo e energia que isso tome. pessoa franca e bondosa como McPherson. o VIII .pelo menos. já repararam? . 207 22 Apesar das distorções provocadas pelo ar escaldante e úmido exalado pelo vulcão.. quando eu não estava.Fez um gesto de cabeça em direção à doutôra Fried. Forbes voltou ao trabalho. O antigo e inconstante sistema de aquecimento retinia e resfolegava.disse Furii . enfermeiras e auxiliares mostravam-se mai s bondosos.Por um sistema inventado pelo Primeiro Marido Abdicado de Lucy.Quando esse seu vulcão rompeu. no entanto. .Halle se virou e ficou observando-a responder às perguntas no salão de conferência.E você não sabe por quê? . Gostaria de ter a inteligência dela . não simpatizamos um com o outro. . brincavam e procuravam sempre reconfortá-la. a carência por material inflamável amainara. uma vez atada. . o medo e. deixava-as congelar de frio. Déborah levantou-se e saiu em busca de calor.Pessoalmente acho que não. Desprezam-me intensamente.. Desde a erupção do vulcão. 206 . . sta foi uma das razões para a intervenção do Censor e das normas de conduta impostas p or Yr.Não. . correndo desabaladamente. até que se chocass e contra uma porta fechada ou um muro qualquer.Sim. era a estação m ais penosa. alg o mais rompeu também: aquela expressão dura que você tinha. E. . a esperança que transp . nacoi.Nessa época do ano. e eles se dedicam a mim. um medo que datava de muitos anos e do qual só a muito custo conseguira se proteger. da torr ente de lava cinzenta e desoladora que a enrijeciam por dentro. no entanto. repetindo eternas pergun tas sobre eternas dúvidas. . . O ódio e o medo transpar ecem porque são coisas que você sente. ao que parece. .O que é Déborah? . verá que. melhor de tudo. As explosões se sucedem. ..desgostar: nós simplesmente não combinamos. O outono cedeu lugar ao inverno. .peço para me levarem-ao casulo. Quando sinto que a coisa. ficam até conversando comigo. .perguntou Furii.perguntou Lee. a alegria.disse Helene.. . apertando a xícara de café para aquecer as mãos. .Sempre foi..gorjeou Mary jovialmente . sim. Você não deve mais procurar es conder o ódio. mas ela sabe o que diz. Não fique assustada. . superaquecendo todo mundo e provocando assim um estado de embotamento e lassídão. que..É. Um auxiliar recém-admitido. .Como será que eles aquecem esse lugar? . As pessoas agora. vêem que você reàge e vive. Talvez po rque éramos muito parecidos..É uma excelente médica.Nacoi. . . "Por que você está tão sarcástica?". vem. não a mim .Ora..Ainda assim eles não nos odeiam .Seu rosto já não provoca suspeita s.Você acha realmente que a menina tem feito progressos? . e eles o fazem de bom grado. . das quatro. Mostra uma pessoa que reage conforme aquilo que sente. mas agora você está livre delas . mas agora Seção Masculina dos Perturbados situa da num outro prédio. .disse Furii num tom meigo. . ela é um gênio! . . quando o lham jpara o seu rosto.Ela. Ia para o casulo diariamente e. e quando desligava. Pressentia a iminên cia de uma nova explosão de fúria e medo que a impeliria com toda a força de encontro a alguma parede.

Déborah. Yr se acomodara. havia uma janela que dava para um relvado existente no hospital. e a tendência é elas se sujeitarem cada vez mais a um desejo e a uma escolha con scientes.nacoi cujas leis insondáveis viviam armando surpresas contra as quais não sabia como se de fender. os relevos e os signi ficados novos que percebia ao seu redor. com um misto de espanto e reverência. de apalpar. e rodeado por um muro recoberto de espessas sebes. Depois da tro ca de turnos. de se regalar com a luz. de ouvir. U m pouco abaixo. transbordando de alegria e de receio. A única explicação possível era o seu olhar . A auxiliar. e as tonalidades de crepúsculo deram à Reserva dimensões ainda mais belas. Déborah entendia perfeitamente o que se passava com ela. Reinava uma grande quietude. nas port as e nos relevos dos rostos e corpos das pessoas. Suas expressões faciais constituíam um mistér io que jamais conseguira desvendar. e cores das coisas As árvõrês ladeava m o passeio que circundava o jardim. algo. sem uma palavra. ensinaram-lhe a s . as pessoas se transformavam de repente em suas inimigas. O sol se pôs. Déborah decidiu pagar na mesma moeda. enfim. A mulher estava furiosa. Só tem um tipo de frio com que se preocupar. tiritando de frio. dando por encerrada a missão. pois essas expressões não são inadequadas.arecem também. até se infiltrar a certeza de que não morreria. e a luminosidade difusa ressaltava a nudez cinzenta das árvores. persistiu nas superfícies nuas dás paredes. como você diz. Sentia uma curiosidade insaciáve l de olhar. A terceira dimensão.alguma expressão ou tom de voz involuntário q ue desagradava às pessoas. declinando no horizonte. o significado. o céu límpido de inverno. . cuja fechadura e chave representavam outros tantos símbo los do "serviço". a sebe. afastou-se dela com o rosto impassível. refulgia através dos i nterstícios da sebe.comentou a auxiliar. seu cantinho predileto. Esse frio está de rachar! . confessando outr a verdade.Déborah se lembrou de que McPherson lhe havia dito há muito tempo atrás: "O que a faz pensar que é dona de todo o sofrime nto?" Arrependida com o seu comentário. . Chegando lá. Ao chegarem à porta da ala. Pouco a pouco Déborah foi distinguindo as formas. no entanto.só podia ser o olhar . temia que tudo recomeçasse de novo: a vida . virou-se para ela e disse: . são muito apropria as.Não esteja tão certa disso! . e por sobre a sebe. Muitas e muitas vezes. capaz de transformar aliados em perseguido res. Não quis magoá-la. Déborah chamav a aquele lugar "A Reserva". Déborah e a auxiliar voltavam do consultório da doutôra . e por isso não a magoava.Você tem sorte. pediu autorização para ficar a sós no quartinho da banheira.Perdão. veio se achegando. ganhando vulto. O sol. como devia achar horrível limpar excrescênci a de corpos adultos e conviver com a barulheira infantil e patética das intemas. um frio que pode ser remediado com casacos. sobretudo porque Déborah simbolizava naquele momento "o se rviço" mas o desabafo era sincero e impessoal. todas as vozes de todos os mundos silenciaram. no entanto. Lentamente. Déborah indagou ao crepúsculo: . cheio de árvores. o relacionamento se esfumou imediatamente. A tarde estava fria e nublada. As decepções. continuava assustada. foi direto sentar-se sobre a tampa do velho aquecedor.Quando começará a vida? A resposta não se fez esperar: já estava começando! Era noite fechada quando abriu a porta do banheiro e saiu de novo para a ala. A auxiliar fungou. Desatou a contar como era difícil educar os filhos e trabalhar horas e horas a fio para receber uma miséria de salário. decorando o relvado com 208 uma infinidade de estrelinhas frias. a certeza inabalável de que iria viver. Mas a auxiliar estava furiosa. Durante algum tempo Déborah caminhou a esmo pelas dependências da ala. por alguma razão obscur a. Agora que o vulcão dissolvera a sua fisionomia pétrea. Era bom ouvir alguém falar assim.

Talvez isso não te diga respeito . . relutando se seria ou não uma medida sábia abrir os olhos. Quando engoliu o sedativo e. ao passo que o resto do dormitório. Às duas horas. aguardando do outro lado das pálpebras? Escancarou bruscamente os olhos. as cores.Quantas vezes não ass omara àquela porta mendigando! Desta vez. .Pratos regionais típicos . mas eu cá comigo tenho algumas suspeitas! . . como sempre.O que tem para o café da manhã? . O que foi? O que foi? A estagiária acercou-se dela: . o leitor dessa história em quadrinhos ri. . Começam a cozinhar o jantar. . . Começou a ficar seriamente preocupada com aquilo.ponderou Déborah. deixou-se ficar na cama. Tenho uma pergunta: Dois nativos figuram numa história em quadrinhos.quero ver agora qual a surpresa qu e estão me reservando. Pre213 param uma fogueira na ilha onde acamparam.murmurou. envolveu-se no cobertor. mantendo os olhos fechados para não per der de vista as perguntas que se fazia. Saboreou a comida e o próprio ato de mastigar. você tem hora hoje. Nesse ponto. Pássaro-um.er cautelosa. ontem. .foi para a cama. a selva. está na hora de levantar. o hipopótamo e o fogo. . o animal se ergue e se afasta.Terei que pedir uma autorização escrita d o administrador da ala.respondeu Anterabae. Déborah se lembrou subitamente do que tinha acontecido na noite passada. o rio. falou para Yr: Sofram. . numa gargalhada triunfal do mundo. nesse caso eu gostaria de vê-lo. Sim. . Na manhã seguinte. continuavam lá. . o que aconteceu já não terá passado amanhã.. e uma sensação plena e maravilhosa de vida. E se fosse mais um lance do Jogo. . No jantar.Vamos.Passou a noite escutando os auxiliares conversarem uns co m os outros como sentinelas solitários em seus postos avançados numa terra estéril e h ostil. por favor. formas e sentidos redimensionando 210 sua percepção das coisas. Déborah revirava a cabeça e m busca do que havia mudado nela. . Sujeitaria essa nova descoberta às flechas do caçador de tempo de Furi i. podia informar se hoje é dia de ver minha médica? . fadado a terminar.respondeu Mary Fiorentini asperamente. As felizardas que dormiam junto às janelas recebiam sol a manhã tod a. estamos escutando. Quando o calor atravessa o couro do hipopótamo. Aviso assim que puder..sussurrou. Levantou-se. que na realidade é o lombo de um hipopóta mo mergulhado na água. .Seja lá o que isso for.Talvez seja apenas um sintoma . em seguida. carregando consigo os nativos atônito s que olham sem entender nada. Sim.Nunca especi ficam de qual região. As pálpebras cerradas coavam a luz matinal numa t onalidade rubra. a surpresa.perguntou. embora o comporta mento das pessoas fosse o mesmo de sempre. Blau. parecia ser diferente. . Srta. os movimentos de um a estagiária nas proximidades . . e foi até a enfermaria.com licença. Sofra. .tentando acordar Mary Dowbens..o farfalhar do avental e o tom agressivo de voz .Posso ir sozinha? A enfermeira olhou para ela desconfiada. Veja qu e dia glorioso.Que espécie de pratos regionais servem para pessoas que estão fora desse mundo? perguntaram. . .Alguma coisa. surpreendeu-se repugnada por ter de comer com os dedos e uma colher d e pau. Será que continuavam lá.ajuntou Lactamaeon.Bem. e crêem estar vivos. vira a página e encontra os nativos.Talvez o melhor seja esquecer tudo isso. só por algumas horas. Escutou um grito no corredor e. mas não sabem disso. Quem sabe. A pergunta é a seguinte: Qual será a próxima expressão de seus rostos? O que farão a seguir? Seria preciso esperar para ver o que acontece . .Um minutinho. . . Alguma coisa aconteceu comigo.

. desapareça!" e pronto.Os sintomas. Estou certa de que você abdicará dele espontaneamente. e só d epois de muitas evasivas.. esperando documente pelos seus ungüentos.. Jamais pedirei qu e desista de seus deuses pelos meus. . . . pelo doutor Venner. . sim! sim. Furii lhe dirigiu um olhar interrogativo. em seguida. uma referência a alguém que me é familiar. .. encabeçado. sentido de realidade terei que abdicar de Yr. . Ao retomar à ala. ou então uma breve hip nose.Vamos ao trabalho? Durante o resto da sessão. termo Yri que designa uma espécie de imagem utilizada para camuflar meu parent esco com ele. acho que. . há algo mais aí. então.. Após uma pausa. objeto ao mes mo tempo de orgulho e de repúdio de todo judeu.O soldado japonês personificava justamente isso.Devem existir muitos suportes para que você pudesse se agüentar todos esses anos. nesse caso. .Não permita que eles a torturem cada vez que você se abre um pouco à luz saudável do mundo.. concluiu num tom grave: . Quando estiver pronta. bastaria aplicar uma injeçãozinha dessa ou daquela droga. é claro! ao vovô! -exclamou Déborah excitada. ao falar. o q ue não quer dizer que deva firmar um pacto comigo nesse sentido. Seu raciocínio evoluiu. Por isso é que e xtirpá-los causa tanto sofrimento. detendo-s e na questão do martírio: ser martirizada tinha algo a ver com Cristo. ..Fez-me pensar muit o em você.Bem. .Procure lembrar-se! . . então. e sobretudo como as coisas tinham readquirido uma significação e como desabrochara po uco a pouco a esperança. . tive de repente certeza de que eu iria viver. desbravaram picadas em busca de velhos segredos.Raiva e martírio.. . quando puder substituí-lo pelo mundo real. .cismou. acabou contando a Furii como estava vendo diferente. Raiva e martírio.Uma referência e. iria sobreviver a tudo isso.. . dói tanto assim? .Ele não virá hoje. como um a forma de dar vazão à raiva que sentia. 212 Agora que tenho o. ..confessou Déborah.Está bem. estava morrendo de medo de que. Déborah o apelidara "Horizontes Perdidos". . pois ele vivia com o olhar perdido à distância. Esses sintoma s erguem-se sobre inúmeras necessidades e servem a muitos propósitos.propôs Furii .Anote o meu nome. .. encontrou o "pelotão de queimadura" esperando por ela. Déborah sabia por experiência q ue não convinha insistir muito. e o apelido tinha colado. que assumira o papel do soldado japonês (estrangeiro. . Se não fosse a ssim. e eu dei aos médicos o "bom soldado" que eles queriam. graças à determinação que animava Déborah.Prefiro não responder. desde já? O importante é não fingir que abdica. 211 Que tal verificarmos? . ao desenca var o tirânico Latviano em quem afivelara uma máscara tão irreconhecível. e exclamar: "Loucura. . de tudo.O soldado que eu encarnei em segredo era um mu tu. ainda que o mundo pudesse se esvair quando a permissão fosse dada. . . porque posso entrar pelo cano depois..Não. analis ando-os sob novos ângulos.concluiu. aí sim. um olhar que trespassava as pessoas como se e las não existissem. . Ele estava impaciente e irritado por não tê-la encontrado.Você acha que é um prognóstico verdadeiro? .. ..Dói um bocado. isso não vai acontecer. furioso com a obstinação . escolha. . fortalecendo-se mutuamente.instigou Furii . por favor.Descobrir isso.Foi uma experiência inteiramente inédita para mim .. a doença e os segredos têm muitas razões de ser. Nada mudará para nós. Compreendeu. pois. O molde do sol dado vestia como uma luva no avô. inimigo e violento) como uma resposta à hostilidade que enfrentava na colônia de férias. . estragasse tudo. d essa vez. No início da sessão. numa declaração simples e categórica. você estava curada. acho que é verdadeiro sim.. As partes e facetas se emaranham e se sustentam umas às outras.A enfermeira deu as costas e se afastou.

Ora.Fui o mais cuidadoso que pude.Não se preocupe . retirando delicadamente a gaze malcheirosa. Quentin . aplicam uma ou duas doses da dor em sentido contrári o. mas logo as mãos inábeis do médico cavoucaram fund o de novo.Maldição! .Pela cara dele. . lembrando-se prova velmente das recomendações de alguma página de manual: . as novas cores.A dor é apenas teórica. Alguns dias depois.das queimaduras que não cicatrizavam.O último a dar foi Venner. com .vou preparar minha contribuição. luzes. .Retirou do bolso um tubinho de reméd io e despachou o cortejo de enfermeiras que se apinhava à volta.Ele deixou lá no armário número 6 . . pois só assim seria capaz de oferecer um sorriso. Deb! .Segure firme esse braço! . .disse ela com brandura. Dobshansky piscou para a enfermeira que acabara de chegar e Déborah se sentiu no ínt imo lisongeada por terem consentido que ela presenciasse esse pequeno gesto.Bem.Algum dia. Cada vez que eu me dobro de dor por causa de um tumor fictício. doutor Venner . é ser louco durante anos sem poder dizer nada porque ninguém acredita no que você diz. Déborah. . a deixava impassível.bom."Nunca Admita ao Paciente que Está Preocupado". . Debora regulava-se com as formas. mas a em enda foi pior do que o soneto. e esfregou o algodão com tamanha violência que o sangue recobriu a ferida. 214 Déborah olhou para ela e avisou: .Não precisa ficar danado. Passou a observar atentamente as fisionom ias das pessoas. . . expondo a carne viva. Trocaram um sorri so discreto e conspirador. .perguntou ela num tom impaciente. vamos experimentar. a pele ao redo r das feridas começava a tomar a mesma consistência desfeita. relevos. Eu te nho um tumor falsificado aqui dentro que compensa longe a dor que está faltando aí n o braço. sentiu que a Ala D. digamos int eressado.repreendeu o Doutor Venner.resmungou Venner de mau humor.murmurou. segur ando as bandagens.O que dói é ficar levando coices de força s que para os outros são invisíveis e inofensivas. E o que vem a ser isso? .disse ela. Ficou mais constrangido ainda. e se ele não conseguiu chegar até o osso ninguém vài consegui r. o médico novo veio procurá-la.Tenho estado preocupado com essas feridas apressou-se a dizer para encobrir o constrangimento pouco profissional. dimensões e percepções adquiriram um caráte r de urgência incontrolável.Calma..Já é tempo de darmos uma nova olhad ela nas queimaduras. interpondo entre ambos a imensa distância de Ant errabae cadente.Qual foi o troço que ele usou aqui? . a putrefação desaparecera completamente. O comentário o apanhou de surpresa. . e ele conteve a respiração: . . Ao terminar os curativos.Uhh! Calma. suspirando aliviados. provocava sua ira com gracejos dirigidos a Quentin Dobshansky que. doerá.. Ele examinou os braços. movim entos que ia descobrindo ao seu redor. a coisa não devia estar muito boa. que detestava o doutor Venner. e porque a limpeza das feridas. qu em sabe. há sempre um professor à mão para sentenciar que é impossív l que 213 esteja doendo.tive uma idéia que talvez dê certo.e vivia -. e apesar de seu acanhamento. 23 Já que iria viver .Estou concentrado nisso. quando cortaram as ataduras.retrucou Déborah. . .. Procurou concertar o erro sem muito sucesso. . . . um sorriso. . empalidecia cada vez que o médico arrancava com uma esfregadela mais brusca um pedaço de pele.Fique quieta! . Como cortesia. ao invés de pr ovocar a dor que ela merecia. Espero que não ten ha doído muito. A enfermeira-chefe sacudiu a cabeça assombrada: . disse: . Dobshansky mordeu o lábio para não rir. Emb ora tudo aquilo fosse novo.informou Cleary. Dias depois. a escutar embevecida suas conversas e a conversar com elas.

na Ala B fora um período sombrio e silencioso.Ôi. A última estadia.Mas agora está de volta. arrancando uma a uma as palavras.. .Bem. . Eu pensei que tivesse deixado o hospital. Louis. foi pessoalmente apanhar a roupa de cama perscrutando com avidez as fisionomias das enfermeiras. . Déborah procurou ser o mais concisa po ssível..Se estou viva. e fez questão de ficar no quarto da frente onde havia barulho e vida. disse em tom de súplica: .exclamou para Furii excitada. não é meninas? . e depois não havia ninguém c om quem conversar. Ao sair para o pátio. as enfermei ras da B (quais as que socorreram um caso de confusão. Começou a escalá-las. foi recuperando a distância. fe chou os olhos e. esforça ndo-se para conservar o tom neutro de voz.Isso não quer dizer que ninguém terá sucesso . exceto os técnicos com os seus "bom dia".Enquanto fazia a cama e arrumava suas roupas.A enfermeira pôs o cobertor sobressalente na outra cama e saiu.Abrir am a oficina da T. vamos até lá. . finalmente. quase que as ouvindo gemer sob o seu peso.O retinir de uma campainha interrompeu Carla. a mesma rotina. quais as que não). 216 . .Olhava fixamente pa ra ela. . . assim que chegou. Limitara-se a ir ao banheiro. como sentiu o amor pelo mund o que se abria diante dela. Seu rosto tinha adquirido uma expressão amargurada e tristonha mas. . No decorrer dess a escalada.Parecia estar arrasada e humilhada. . povoado apenas pelos bram idos do Coletor e a efervescência do vulcão. Sua impaciência e avidez já não cabiam na s engrenagens pesadas do hospital. . Logo logo as ruas começaram a me lembrar outras ruas. Déborah comentou: . À noite ia ao cinema ou ficava no quarto lendo livros técnicos para me atualizar. onde poderi a dispor de todo um arsenal de livros. Déb. em seguida. Seus olhos estiveram fechados a tudo e a todos. compreen de! . ela ficou como paciente externa por algum tempo disse a enfermeira. requereu sua transferência para a Ala B. . não conh ece? . as mesmas sensações. a última fundição de cuca de Mary. concedendo-lhe. . sa cudiu longe aquelas idéias e reanimou-se. . não é. assim. suas enfermeiras apressadas e inamistosa s. num gesto que abarcava o mundo todo. não importa. até que. por meio da qual os médi cos avaliavam a responsabilidade do paciente: passou a ir sozinha ao consultório d a sua médica (100 pés = 1 hora de sanidade). aí a cuca fundiu de novo. vocês se conhecem. Chegando ao quarto.. cg uma derrota. Venha. aind a estou despreparada. lápis e blocos de desenho. tornava-se uma realidade estreita demais. nada mais . "boa tarde". na realidade. quando viu Carla.suas pacientes acabrunhadas e inertes. .Não ouvi boatos de que você tivesse voltado.Me senti muito sozinha no emprego o longo pe rcurso de manhã até o trabalho me deixava meio hipnotizada. Déborah.Foi uma solidão dos diabos. Talvez eu e steja sendo egoísta.Carla.Você conhece Carla Stoneham. . não há porque ficar humilhada. a passear sozinha nos pátios da frente (2 00 pés = 3 horas de sanidade).Ela voltou? Eu. O. afastou delicadamente a pergunta e saiu por uma tangente: . transbordando de afeição.nem quer dizer que eu vou deixar de tentar 217 novamente. as ruas de St. nos de detrás também (1 milha = 5 horas de sanidade). porém.Bem. procurando transmitir naquele olhar mil coisas que representariam uma in trusão inadmissível se fossem ditas em palavras. . não só fortaleceu a convicção de que esTavá viva. perguntou seus nomes. . Déborah sentiu os olhos umedècerem. a mesma substância. iam levando uma conver sinha miúda: falaram sobre a velha Coral. .Foi difícil voltar? . . a comer e a ingerir os sedativos. . Estou contente de encontrá-la aqui.. Pouco a pouco. lá fora. . Déborah inspirou com vontade o ar frio e constante do inverno.respondeu Carla.. entregando-se toda. . de repente. porque é aqui que eu estou. o privilégio de formular uma pergunta. O problema é que saio às vezes por pura provocação quando.com um aceno de cabeça. .Sim. gosto muito de você. a minha substância é igual à dos outros. Dessa v ez. . A enfermeira-chefe ergueu os olhos para ela.e emendou logo .

É. (Estou livre!) respondeu Déborah. A oficina tinha um aspecto animado de trabalho.. Tinha junto de si uma amiga e. por detrás das grades de uma das janelas da Ala D. As fisionomias se descontraíram. meninas? . uma chave imaginária. e parou diante dele com a mão. . . Voltou-se p ara Déborah e perguntou: . (Tchau!) acenou rápido e sumiu. pondo as mãos na cabeça para indicar as duas abas da toca branca e sacudindo. vestindo um uniforme listrado de azul e branco. se tiver sobrado café..só praticando.. em seguida. Par ecia-lhe inconcebível que pudesse haver homens mentalmente enfermos. Foram depois. . Um tiro no trigal já era sufici ente para o dia. (Meti-me numa briga) disse a velha espalhando as mãos pelo vão da janela. .Trouxe-nos uma visita? . (Até onde?) perguntou a outra. fazendo um gesto de quem olha para o mar. Numa terra onde a "utilidade" era enaltecida ao máximo. Déborah não fa lou nada. se não me engano na Ala D! No mesmo instante.Eles têm prioridade . as mãos retomaram o trabalho. Procuravam em vão extrair de pedaços de papel e traços velhos. é claro! . a aguardava um b loco de desenho só para ela. subiam rolo s de fumaça e de vez em quando ela aspirava o cheirinho de queimado. Observando mais atentamente. .movimento e gravidade. Coral que acenava para elas lá de cima. As pa218 cientes costuravam.exclamou entusiasticamente. aos olhos de Déborah. e onde sempre havia um bule de café à disposição tanto dos pacientes quanto dos médicos.Déborah preferiu não entrar. que estava aberta. mas seus olhos devoravam as cores e dimensões do mundo. o "tera pêutico" faz-de-conta representava. Não repararam na auxiliar que tinha saído pela porta dos fundos.É.Queríamos apenas dar uma olhada.. Carla sentia-se compreendendo o que se passava. Queria conter aquele transbordar de gratidão. Sua atenção foi despertada por um ruído às suas cos as. durante algum tempo. Carla contou as janelas e concluiu: . (A enfermeira vem aí!) exclamou a velha.respondeu Carla . ficaram se comunicando por meio de sinais. . . liam.Carla. realmente fora. rompendo correntes no ar e ensaiando uma cambalh ota.A função desse bule é infundir esperanças na g ente. me diga uma coisa: é assim que aco . Esta é Déborah. logo em seguida. irrita da. . . a tex tura da realidade. . Era a Srta. ocupar por ocupar. . em trajes de caça. ve io recebê-las. seu cérebro apalpava as leis que regi am a raça humana e consubstanciai .disse Carla. de tocos carcomidos de madeira.Praticando. via-se que toda essa atividade era puro faz-de-conta. sentia-se extremamente embaraçada. Déborah visualizou mentalmente: a instrutora. a revoada súbita e alarmada de um bando de pássaros. aque las párias aqueciam as mãos diante da ilusão de uma faina gratificante.. modelavam em barro. Para além da sebe que delimitava a Reserva. todas as cabeças se despregaram das respectivas ocupações e viraram em sua direção. amizade e a sensação de ser plenamente humano.O que estão fazendo. faziam colagens com retalhos de pa no e cola. O.Já a vi antes. até a Ala A. e que ao vê-las gesti culando no passeio. Desterradas pelas leis do mundo. Ficaram ainda algum tempo por ali. . atiran do num trigal ondulado pelo vento e. Sentia-se tra nsbordar de alegria. Déborah construiu um muro com o braço. Uma orient adora da Terapia Ocupacional. visava apenas mantê-las-ocupadas. como vai Carla! .Ela agora está na Ala B e é minha companheira de quarto. e. uma bofetada inconsciente no orgulho que as pacientes deveriam supostamente estar fortalecendo.ôi. na oficina.. virou-se para a mulher e declarou em alto e bom tom: . .O dia estava muito lindo. 219 talvez nos dêem um pouco. você que já esteve fora.ia dizendo Carla..Ora.saudou com uma jovialidade um tanto excessiva. . enclausuraram ela de novo. perguntou intrigada: . porém.Acenaram de volta e. qu e ficava num dós anexos do hospital. e Déborah foi apresentada a alguns rapazes. causa e efeito.E continuaram em direção à T.

É óbvio que. nunca dei a menor confiança a quem não fosse judeu. . Nunca tive um amig o que não fosse judeu. as vezes. a título de expiação. O pior de tudo é o que a gente sente quando todo mundo se mostra muito cortês. Os médicos afirmam que a culpa é dos doentes . e começara a agitar o punho e a xingá-la de "puta". Déborah caiu na gargalhada: Ótima idéia! Médicos! Viagem financiada ao Exterior.Tenho uma coi sa para lhe contar. Nós sempre rimos das brincadeiras dela.Bem. Nunca vi Helene tão des armada. Quando ia deixar a Ala D. e na verdade a distância entre você e eles vai a umentando. quando Déborah disse: . Furii e o médico novo. seu orgulho! Conheçam essa deslumbrante excursão e vibrem com o falso "tubo-bem. você tem que apresentar documentos e. Ontem.Déborah apenas sorria. quand o estiverem no ponto de chegada! Ficaram horas inventando charadas. Carla perguntou a minha opinião sobre uma determinada pessoa. muito desagradável . . consciente de que está sendo aceito unicame nte graças à piedade ou a uma fascinação mórbida das pessoas. Caminhavam de volta para a ala. eu a encontrei me esperando junto à porta. que não precisariam dessa viagem ao exterior e ram o doutor Halle. aliás. "boa noite" para lá.sussurrara aos deuses de Yr. e não eu"? Resp ondi então: "Sim. aumentando. Descobri que os judeus também são intolerantes a seu modo. .Não se esqueça! . sabendo que. que jamais tinha me ocorrido antes . Os únicos. Queria ver um desses médicos tentar ingressar num grupo novo. Logo que surgiu uma oportunidade de ficarm os a sós. O doutor Hi ll. seria mais fácil criar amizades. o dia em que teria que descer também. Contaram-me que você vai mudar de endereço. quem sabe. apesar d e 220 serem extremamente agressivas. e Carla são protestantes. Helene se refizera im ediatamente. conversando. Não lhe passara pela cabeça que o primeiro contato com o mundo recém-descoberto viesse a ser algum vinho inebriante para merecer recepção tão calorosa. . Sabe o que eu dis .. Em compensação. A etapa seguinte consiste em esquecer que não são judias.. segundo Déborah. mesmo nas suas ausências. É sobre Helene.Ponham de lado seu prestígio.disse ela distraidam ente como se estivesse pensando naquilo pela primeira vez. mas as pessoas têm. na rea lidade. Pode acontecer uma situação muito.Descobri uma coisa estranha. venho notando que. Várias fir mas exigem que você apresente o "atestado de sanidade". Eu as tr ansformo em judias. seu rosto iluminara-se todo: .Ei! (escancarara um vasto sorris o). você encontra pessoas maravilhosas. Sabe.. seus direitos civis.disse à Doutôra Fried. de algum tempo para cá. N a porta que dava acesso à Ala B (esta já não tinha chaves) cruzaram com o tal médico nov o. há uma a ssistente social para testar você. daquelas bem fanáticas. Passem um ano glorioso como pacientes nós manicômios! Carla também riu. a Srta.Percebi que tenho realizado inadvertidamente uma curiosa operação mental. pois jamais haviam fechado completament e as portas aos pacientes. Dizem que se eu fosse menos ansiosa. "idiota". Coral teve uma f ormação batista. car regando um estigma pesadíssimo na testa. Helene estava xingando o "Talvez". "bom dia" para cá. desforrando-se de todos os médicos que usavam s eu prestígio e a falsa noção de que eram donos da verdade "para conservar à distância seus pacientes. el a tem demonstrado uma preocupação maior pelas pessoas.. Parabéns! . Helene é católica."Por que você vai sair. uma conduta melhor do que a gente espera. mas é muito fácil falar." . por que não"? "Quem sabe. geralmente. Talvez ele não e steja em condições de julgar . o primeiro passo é esquecer que elas são gentias. por exempl o. quando a enfermeira viera levar Déborah para baixo. .Déborah sentia que ele não zom bava. e dão a isso uma importância m uito grande. que lhe dão uma força eno rme.que é minha a culpa. POis sempre nos disseram qu e as gentias acabam sempre nos 221 traindo. Ao ver Déborah. e a perse gui-la com seus gritos: . . ela se virou para mim e perguntou: .Como é que você faz isso? . para que possam se aproximar de mim.E então? .ntece lá. o médico novo. tubo-bem".. . . quando a gente entra numa sala? .Para conseguir emprego..

.Para um maluc o. e depois de dar muito s tratos à bola foi que me lembrei que ela não poderia entender o que era Purim. . pronta para soltá-lo.Você a abriu todinha? . e prepará-lo para utilizar a sua saúde em proveito da razão e da liberdade. guardavam um silêncio misericordioso. .disse Déborah pensativamente. apoia-o no peitoril. . procura chorar mais do que todo mundo no Pu rim". há certos detalhes que não me saem da cabeça. . A doutôra se lembrou de um artigo que tinha escrito discutindo a importância de o médi co alertar o paciente.. tenho pensado naquela história que me contou. . não e ra judia. em seguida.se? "É daquelas que. Pickwick depois de um lauto jantar. que. carrega-o até a janela.era verdadeiro. . não foi nada disso.Afirmo-lhe que essa sua história fede como p diatip! Uma cri ança de cinco anos de idade suspende um bebê consideravelmente pesado. .Isso eu aprendi aqui no hospital .Furii reclinou-se na poltrona com um ar satisfeito. a vergonha de ter sido apanhada em flagrante e de odiar a irmã.Você pode se lembrar do ódio que sentiu. Entendo. .o ódio e a dor . . de duas uma: ou eu estou louca.. na fase de recuperação. para se destacar. num piscar de olhos.. Quer dizer que você abriu a janela. por pouco. posteriormente.disse Furii. ela já estava de volta no berço. .. Acho que tem dente de coelho nessa história.O suficiente para me inclinar para fora com o bebê. no dia em que entrou e vi u o bebê no berço. . odiando-o o suficiente para desejar matá-lo.. Você poderia repeti-la para mim? Déborah relatou novamente o episódio: como alcançara o berço e apanhara o nenenzinho. .. .Não. a essa altura dos acontecimentos. 222 Entendo. como e stendera a criaturinha pela janela. essa menina de cinco anos puxa de volta a irmãzinha para dentro.A janela estava aberta? . não faz a menor diferença se o outro é um maluco judeu ou um maluco cristão. para que eu me desse conta.Não. Primeiro eu a peguei nos braços.perguntou Furii. Por sobre o incidente pairava o olhar reprovador dos pais que. mas você era simplesmente pequena demais par a fazer qualquer uma dessas coisas que julga ter feito. mas os fatos estão todos contra você. por sua vez.Não.Déborah. escorando-o com o corpo enquanto abre a janela. e só então decidi matá-la. por mais que as pessoas o achassem adorável. cu ja feiúra lhe saltava aos olhos. Só depois que ela olhou para mim com cara de surpresa. . embora soubessem de tudo e es tivessem mortalmente decepcionados e envergonhados com ela. experimentou se inclinar para fora e depois foi buscar sua irmã? . suspende o bebê por sobre o parapei to e o estende para fora.Estava. a tentativa de jogar a sua irmã recém-nascida pela jan ela. . O que f oi que a sua mãe disse assim que entrou? Foi: "Largue já esta criança!" ou "Não machuque o bebê!"? . começa a chorar para que a mãe a pegue no c olo. você não imagina como estou satisfeita por ter descoberto isso! Mudando de assunto agora. Parecia Mr. a chegada repentina da mãe. Foi preciso que eles grit assem por mim mil vezes.Agora. e a dor também. ou você construiu essa historia inteirinha aos cinco anos. mas lembro-me de tê-la aberto um pouco mais.Mas você é capaz de admitir que elas sejam o que são. Lembro-me perfeitamente do que ela disse: "O que é que você e stá fazendo aqui"? O bebê chorava. eu me lembro. e voèl seja o que é.Não é possível. ex perimenta inclinar-se para fora e.O que me surpreende mais é que eu estava tão ocupada em ouvir o conteúdo emocional d a história . e continuar a amá-las? . . segundo .. D ódio .declarou.Muito interessante! . Agora vou virar d etetive . Déborah. não matara Suzy àquele dia. A vergonha que. o amor culpado que a fazia estremecer ao pensar que.que não prestei atenção aos fatos. a mãe entra no quarto e. com os braços esticados. Nisso. para os sintomas de loucura que terá de encontrar no próprio mundo.

por algum milagre. de uma beleza ofuscante. Seus véus ondulavam docemente ao sabor de um vento intemporal. as lágrimas escorriam pelo seu rosto. . a irmãzinha.Bem. suas lágrimas cristalizavam-se em diamantes. . Percebeu que. Déborah chorava copiosamente. . . Por que pergunta? . no de Yr não há mês. . Terás agora um modelo a seguir. Idat era deusa. . . que a doença a impede de superar) você traduz iu esses pensamentos numa ação supostamente real. . Furii aquies ceu num gesto complacente: .murmurou abismada. Penso em to mar-me para sempre uma mulher .Estava pensando em voz alta. Déborah. era um frio sujeito às leis e estações da terra.Pode muito bem ter sido verdade. Nossa suposta assassina não passa de uma menina ciumenta de cinco anos de idade. concordo.Déborah implorou a Yr.você.propôs Furii Déborah começou a falar sobre aquele ano cheio de coisas luminosas que antecedeu o r einado da tristeza. ma . Suas mãos tremiam e seu r osto estava pálido e doentio. Era ainda um c horo de principiante. perguntou-lhe numa voz meiga: . a Dissimuladora. vítima . nem sequer conseguiria alcançar a borda dele. Durante o jantar. . junto ao pai. Ao deixar o consultório.indagou Déborah. Ficai comigo . Explorou aqueles tempos fugazes e mágicos. Por causa do cortinado do berço. Graças à falsa noção 225 do seu poder destrutivo (noção.indagou a deusa. . com seus galhos úmidos e enegrecidos. Vou . eram sempre muito difíceis. Não houve resposta. felicíssima porque. áspero. Quando retcomou daquela incursão. Yr e o Outro Lugar. foi caminhando para a ala sob uma chuvinha fina ê gelada.Faltava-lhe ainda coragem para confessar que.Que dia é hoje? .Nem sequer toquei nela. de e speranças. Idat . As respostas de Idat.Já que você está de volta àqueles dias. Por que manter a ambos.. precisou se erguer na ponta dos pés e espreitar pela borda.Nem sequer toquei nela. seus pais Sentiram todos esses anos é uma invenção do seu sentimento de. O tempo de Yr é intemo. . . Há dois calendários.Daqueles com pernas? Meu Deus. pelo modo como eram formuladas. por sinal.Furii sorriu.saudou Idat. uma so noridade pungente..devolver meu emblema de detetive amanhã mesmo! Os pensamentos de Déborah recuaram no tempo até aquele fatídico quarto: viu-se aos cin co anos olhando. dessa vez. Compreendeu que houvera uma época em sua vida. Há anos que convivo com isso. Oh. sabia. Déborah procurou reconfortá-la com olhares afetuosos. você não poderá mais se fl agelar com esse chicote. ainda não estava acorrentada ao signo da des truição.Era um berço . em Yri.Quinze de dezembro. . poderíamos muito bem vê-los juntas . Furii deixou que ela chorasse à vontade. que jamais poderia tomar Idat como modelo. A felicidade dos seus pr imeiros anos de vida constituía uma prova irrefutável de que não estava condenada gene ticamente. apesar de ter sido privada dos mimos que lhe cumulavam a família. e porque apenas sugeriam a dúvi da. Seus olhos estavam no nível dos nós dos de dos da mão dele. no entanto. apesar do suposto assassinato. Sofra. .Foi gostoso? 224 . . Os dias são demarcados pelas vezes em que o Coletor se reúne para julgar.Sim.. culpa por ter desejado a morte de Suzy. Quando Idat chorava. entrecortado. . e quando se acalmou. condenada de corpo e alma. de futuro.Só que de agora em diante. como se fosse mes mo real. Isto quer dizer que estamos num calendário ascendente. As perguntas tinham. e nada tinha a ver com o mundo. . Carla se mostrou extremamente nervosa.Sim. amargo. acabei de me lembrar que hoje é Quarto Englift para Annot. repleta de situações felizes. usando d termo que significava "para sempre" .A terra tcomouse tão boa agora.Estou de pleno acordo. e caminhar para a ruína? Não estou linda nessa árvore? . carregados de expec tativas. Observava as árvores da Reserva. Diferiam em todos os sentidos. t iritando de frio. qua ndo avistou Idat caminhando no alto de um deles.retificou Déborah.disse ela. ela parecia ter ascendido do Inferno ao Purgatório. .exclamou Déborah em Yri. .

Foi um gesto súbito. Continuava imensa a distância que sentia entre ela e as "pessoas normais". Urna voz trovejou: . como se fosse a quebradiça crosta de realidade sobre a qual to das elas andavam. As mãos ficaram. 226 24 O sonho se passava numa noite escura de inverno. carinhosamente . Ninguém disse nada. contraindo-se com uma força estupenda. O punho. A enfermeira. Não estava habituada a esses bate-papos paralelos.. ela fosse mais do que u ma simples ex-quase-assassina: a palavra a atingiu como um murro. quase que simultaneamente.. não havia como afastá-la . is so será você. mas estava melhor do que antes. abruptamente. estranhariam sobretudo os vestígios q ue trazia das privações e da solidão . No hospital. apenas o suficiente para ser notada. que an tecedeu a todo cálculo: o de que quarta Englijt para Annot se constituía numa posição se gura de onde podia se aventurar. e as conversas terminavam. ra uma mão possante de homem. arranhões e queimaduras. onde os fios d e conversa iam se emaranhando como um complicado novelo de lã. e estimulou um fluxo de medo pelos sulcos traçados e retraçados dentro de cad a uma..gritou para a mão. A mão virou-se lentamente e lentamente se abriu. Parecia sentir todo o sofrimento d o carvão em seu próprio corpo. coisa que jamais poderia c onfessar ali.s em vão. num ímpeto. mas estava exausta. 227 25 No dia primeiro de janeiro. Déborah. Três diamantes translúcidos e reluzentes. o coração palpitando de me do.. suas cicatrizes. cujos relevos. . os avós. Ao servirem o café. .. Transcorrido muito tempo. jaziam sobr e a palma. Ao subir as escadas. mas estava lança da. .um terço de talvez. pressionava. Esther preparara um verdadeira.Pare! Não vai acabar nunca ! .mas um desejo insaciável de viver novas experiência s lhe infundia a coragem necessária. como se estivesse revivenciando as dores lancinantes do nascimento. tcomou as mãos de Carla. talvez era um termo forte demais . . Jacob. Todas as suas amigas e conhecidas vieram corroborar o fato de que "apesar de tudo. As mãos rel axaram. Fo i se fechando lentamente. insuportável para qualquer corpo molecular. Olhou entemecida para Carla.e de novo. pressionava. nunca complicados por mai s de dois ou três participantes ao mesmo tempo. o de que tinha ainda uma dívida para com Sylvia e já há muito tempo queria dar um beijo em McPherson. e a s meninas. ocorreu-lhe que talvez não. ergueu discretamente a mão branca.. os relacionamentos eram episódicos e fugazes. mostrando sobre a extensa palma três pedacinhos de carvão. levantaram-se e debandaram. banquete com os seus pratos prediletos. pressionava. desferindo fagulhas luminosas. a xícara escorregou de suas mãos trêmulas e 225 espatifou-se no chão. . em gera l. e todos os velhos tio s abraçaram-na" trêmulos de piedade e medo..Nem mesmo uma pedra pode suportar isso. ávidos por mostrar que o amor que tinham p or ela continuava intacto.. numa grande ansiedade. Déborah tinha uma sensação violentamente opressiva de esmagamento. Déborah. Se u rosto continuava pálido e acabrunhado. emitindo uma incandescência lívida. Sabia que estranhariam o seu ol har. ossos e tendões destacavam-se nas sombr as.. Das trevas surgiu uniãTimènsa mãõTêcháda. Chegou a um ponto que não suportou mais.. Suzy.talvez fosse um pouquinho boa. Três diamantes." Déborah se esforçou o quanto pôde para não recusar os pratos festivos que lhe serviam e conversar com as pessoas.Déborah. A mão se escancarou. cuja função específica era anunciar o final da refeição. foi para casa passar cinco dias com a família. que se apressarasentia-sen a assegurar suas respectivas posições naquela c rosta. nem uma pedra ! . Só então Déborah com preendeu como se expusera a Carla. os tormentos amainaram. Receberam-na em casa como a uma heroína.Déborah! . O ruído da louça quebrando repercutiu longamente nas pessoas senta das à mesa." e "não importa que. as pálpebras pesavam como chumbo.

Precisavam realmente. e quando se debruçou para beijá-la. e depois de hesitar alg uns segundos. Para Déborah. . que se autodenominavam "pessoas normais". .. cumulavam-na de liso njas como se a sua volta ao lar fosse um verdadeiro milagre..com licença. ou algo assim? . Esther e Jacob. Na hora de dormir. não...berrou Suzy. Quero ficar com você essa seman a. apesar de ser mais velha. incapa zes de avaliar a força tremenda que possuíam. Ao ouvir aquilo. inepta e solitária.interveio Suzy .Não banque a mamãezinha comigo! Responda a minha 229 pergunta . é que eu quero mesmo ficar dessa vez. mas mordeu o lábio.Não. a gratidão é recíproca. Não estão deliciosos os cogumelos.queriam demais fazer essa viagem . .disse Esther.Logo. cada gentileza. Agarrava-se ofegante a os íngremes rochedos. Não cabia em si de orgulho por ver a filha pródiga de volta ao lar. . por mais amorosa qu e fosse. Suas manifestações de carinho eram patéticas e vulneráveis. estava longe. . que liderasse a torcida do time da escola. Aquilo que para os outros não passava de uma caminhada tra nqüila. mas se conteve a temp o.Você vai com eles. .perguntou Esther. . por alguma ironia do destino. a felicidade e a paz da família repousa vam nela. sussurrou num t om triunfal: . Decidiu ligar do seu quar to para a amiga e comunicar que não participaria da excursão que vinham planejando há tanto tempo. perdida.Jacob cumulava-a de carinhos. .uma irmã que freqüentasse todos os bailes. com a cabeça zonza. depois de um dia tão movimentado. só fazia com que ela se sentisse. não se deu por satisfeita. Sabia que precisava proteger essa última Debby. . . para ela representava uma escalada árdua e exaustiva. vou da próxima vez. Jacob ficou olhando para longe.Não! . S uzy vinha fazendo planos para aquele "fim de semana". Debby também. Entre iguais.Ela a ama profundamente.Déborah. sentindo que começava a naufragar. .pensou de si para si. Debby . mais d o que nunca.. .Você não vai por eu estar aqui? . Déborah. ela empalideceu tão visivelmente que Esther se apressou em desvia r o rumo da conversa: .A família está fazendo o melhor que pode.mas. seriam muito mais fáceis.Não. Acredite . Seus olhos se encheram de lág rimas . já há muito tempo. sentada do lado oposto da mesa. não vai? .) Debby. . . um suplício que lhe pesava sobre os ombros como mas sas de chumbo.perguntou. logo você voltará para casa de vez . tão pouco vivida. .Aposto que não servem uma fatia de carne como essa "naquele lugar". sentindo que cada favor. meio desconcertados vieram trazer a dose de s edativos receitada pelo hospital. Era óbvio que mentia. Não era exata mente a irmã que desejava . lembrando-se que. Mamãe e papai precisavam dela agora. . Debby. .perguntou Déborah. e de um modo que che gava a ser assustador. veremos. Déborah ia responder que bastavam os talheres para a aposta. se vocês todos deixassem de fazer tanto caso a respeito desse mi sterioso segredo. veremos. sentada de novo à sua mesa. Está vendo. que fosse glamurosa e atr aente ..Você combinou com eles para passarem por aqui primeiro. . Levantou-se precipitadamente. .mas não ousou enxugá-los ali onde poderia m vê-la. embora estivesse exausta. era uma dívida a pagar. A irmã tinha um aspecto feio e cansado. Agora. Festejavamna. 228 . no entanto. .não é filhinha? Esse é o seu verdadeiro lugar! (O tumor começou a latejar . Déborah. inclusive porque percebia que queriam conve rsar sem ela.mamãe e papai já me contaram que aquele lugar não é u ma escola.disse ele. dever a esses titãs. tenho que ligar para Annette. as coisas ficariam muito mais fáceis! Sim. . procuramos aplainar todos os caminhos para você. Deu as costas e correu para o quarto. . que tivesse mil namorados.Escuta. você não precisa ficar naquele lugar de mulhêres histéricas. . fiz os seus pratos prediletos.Suzy.Bem.exclamou Déborah. observava-os em silêncio. . ..Não é todos os dias que você vem. disse: . esperando que ela acabasse de tomar os remédios. um intercâmbio natural. Suzy virou-se para ela e ia responder. no entanto.

extensiva a ambos os mundos. Nenhum dos desenhos continha cenas do h ospital.bradou Lactameon. vôos puros. tudo começou a mudar com a jurisdição do Censor. um céu que se perdia de vista. os sons. . . Caí a na besteira de trazer um pacote de desenhos seus para mostrá-los a Esther (sua p rimeira juíza). Deu um abraço apertado e cúmplice na filha. Nas trevas do quarto. o tempo e uma infinida de de outras descobertas maravilhosas . . alguém que se chamasse Lucy.". com todas as forças de sua alma. vistas como figuras minúsculas perdidas num jardim que se estendia até ao infinito. o de Yr. e a felicidade que sentia era tão intensa que seus pés não se contentavam com o chão.Não. e ela agora os exibia orgulhosamente a todas as tias e tias-avós. Sim. Yr continuou sendo fonte de beleza e alegria. ouvimos os gritos. do "era-uma-vez uma rainha que se c hamava Déborah.relutava seriamente em trocá-lo pelo seu o utro mundo. jubilosos e perfeitos. Suzy acabou mesmo não indo à excursão. um sorriso satisfeito pendurado n os lábios. com olhares cúmplices. No início foi até bom que ele viesse. . galo pando num reluzente corcel. cheio de prenúncios fatais e poços tenebrosos. Protegia e mantinha os mundos separados para que ela pudesse ir em segurança de um ao outr o. Ela se vinga de todo mundo fingindo-se de Tarzan. não vale a pena trocá-lo pela terra.. o pequeníssimo "Talvez" .. A ntes de irem embora. e que belo reino era aquele: havia a gigantesca águia do roche do.Bem. isso foi há semanas at .lembrou Anterrabae Antes não rias em parte al guma. os movimentos.. Seus olhos foram se fechando e antes de mergulh ar no sono concluiu num murmúrio. Déborah soltou uma gargalhada p ara escapar à aflição de encará-lo: . Ainda assim. Déborah sabia que diziam a verdade. de sua liberdade em Yr. prestando tributos verbais à Terra cinzenta e desolada. quando nós visitamos. Invariavelmente.. em seguida. torcendo. As visitas de parentes se arrastaram pelo dia t odo. 231 O sedativo começou a fazer efeito. Trepa nas janelas da frente e fica a rrepiando os cabelos das visitas. era preciso escolher de novo. Jamais te odiámos! friZou Lactamaeon. depois de um longo período de confusões c ausados pelas colisões dos dois mundos.Perguntava-se no íntimo se ele teria escutado sequer um cochicho seu. e quantas oferendas trouxemos . Só que dessa vez a escala que media as virtud es da terra contava com novos valores-sobretudo a esperança.Que mulheres histéricas? . para que não. Por mais deslumbrada que estivesse com o mundo .. já sei! Deve ter sido aquela velha idiota da Lucy Martenson. .exclamou Anterrabae.sua riqueza de cores e aromas. balançando tolerantemente a cabeça. mir ando-se num espelho que refletia a imagem da graciosa amiga de faculdade da foto grafia. ravinas verdejantes e floridas onde pastavam ca valos selvagens. diziam uma p iadinha a respeito de suas últimas conquistas ("Não. e isso o tranqüilizou um pouco. disse-lhe boa noite e saiu. Fcomos para te proteger! ..Ah. em segredo. acen ando com um feixe de centelhas na mão. foram breves esses tempos. faziam alguns elogios extravagantes. Não o Yr anárquico dos últimos tempos. Lembra-te de que viemos numa era de esterilidade e de morte de todas as esperanças ! . exceto um retrato de Helene de cabelos desgrenhados e olhos vazios. mas beleza' e alegria sujeitas aos caprichos e inconstâncias do tirano. Conosco. davam um beijo em Suzy e. tu rias. Débora h ganhava asas e voava. começaram a ser recortados os con230 tornos luminosos dos personagens de Yr. mas o Yr dos velhos tempos. a terra era um lugar extremamente perigoso e traiçoeiro. cuidadosamente agrupados segundo o nível de ignorância das "condições" de Déborah. Nunca ocorrera a Jacob que aqueles gritos aterradores pudessem pertencer a uma p essoa de carne e osso. Lamentavelmente. enquanto desfrutava. Havia um outro de Constantia com as duas enfermeiras que habitualmente a acompanhavam nos passeios. tia Selma. e os mergulhos com Anterrabae arrastando uma imensa cauda de lu z. Agora. Havia momentos de uma alegria extraordinária. Logo o reinado do Censor transformou-se numa tirania intole rável. as velhas pediam que Déborah explicas se como fizera os desenhos e. As velhas ficavam olhando com um ar meio estúpido.

Não posso. ano passado. justificar . aquarela.rás.murmurou Déborah aflita. car vão. quando escutou as vozes de Suzy e Esther na sala de estar. enquanto Esther fazia comentários lisonjeiros a respeito de seu charme e da sua postura na mesa. inteiramente inerte e.Ei. e por m ais que a consciência negasse.Calem a boca! Assim vocês aco rdam até os mortos! Os três perceberam imediatamente o deslize. e para sua própr ia surpresa a resposta que deu foi: .Newtoniana. Foram para a cama cabisbàixos.resmungou Suzy . Enquanto brincava com todos os brinqu edos da terra. lá no íntimo. aludia à causa drogada e adormecida de todas as suas dores de ca beça e discussões. Cada carta . 233 26 Veio a Primavera. inconscientemente. o que quer que fosse. mas você nunca chama a vovó. durante os quais as pessoas se agarram aos últimos trapos de sanid ade para encobrir uma horrível nudez. mas o sono foi mais forte. Meu pai vem me visitar essa tarde. Eu não preciso fazer isso! Elogiar você é fanfarronice. discutindo num tom bastante angustiado. ela só vai ficar alguns dias. que continuava deslumbrada com ás formas e cores que desc obria no mundo. você simples mente não escuta nada. sobretudo. a acontece que eu sou mais do que uma tola. . qu" estivesse transmitindo a ela a sua substância virulenta.berrou Esther perdendo as estribeiras. . por isso é que estamos fazendo esse rebuliço todo. Os seus três primeiros meses d e "lua-de-mel". Yr e as regiões mais obscuras do mundo travavam uma batalha renhida dentro dela. desmiolada e de scuidada! Você não está sendo injusta? . Poderia ter ido à excursão. uma pa ciente recém-intemada perguntou-lhe o que era.. Podem não ser tão "profundas" quanto os desenhos de Debby. tcomou os sedativos e foi para a cama mais cedo. . ma s de forma clara. Fcomos à festa juntos. Carmem.Ai. Eu danço também e eu escrevi duas músic s para as festas do acampamento de férias. Estava quase dorm indo. o ato falho que.porque quando não se trata de Debby. ia desenvolvendo seus dotes artísticos.protestou Esther. ou convida tia Natalie e t io Matt para escutar a última música que eu compus ou o comentário inteligente que eu fiz! Será que você não compreende. menina burra! . referindo-se à religião. soltava um grito lancinante como se tivesse levado um tiro. Déborah observava atentamente a irmã preocupada com a melancolia que vinha notando nela já há dois dias. Os materiais disponíveis na oficina de artesanato da Terapia Ocupac ional eram escassos. Jacob apareceu na porta do quarto e rugiu furioso: . preferira ficar. aperfeiçoando vários estilos e técnicas novas. animada por uma curiosidade insaciável. meu Deus . no entanto. vai chegar até o teto". vamos até a Ala A jogar pingue-pongue? . mas trabalhava-se com o que estivesse à mão: "silk-screen". . deixan do-a entregue àqueles elogios intermináveis. Déborah e Carla entreolhavam-se. guache. Elogiar Déborah é.cada visita que você faz ela você convoca toda a família. Quando passavam p or Carmem. Déborah temi a. . embora ela estivesse destinada a uma longa permanência na Ala D. Embora sentisse que jamais c onseguiria se identificar com os costumes e hábitos das "pessoas normais".gritou Suzy . 232 você não os escuta . Certa vez. estavam quase se acabando. Déborah. Durante o jantar. havia ne la aquela força indef inível que permite prever a cura. morrendo de culpa. e era filha de um magnata riquíssimo. . o mundo material abria-lhe belas perspectivas e valiosas recompensas. Ficava horas e horas largada num canto. Essa menina parecia-se muito com Helene. apurando os ouv idos. sob as camadas da lógica e da vontade. Chamava-se Carmen. de repente. Eu desenho também. Déborah sen tia que. nada mais"). dizendo com os olhos: "Quando essa exp lodir. cheios de amor e desespero. coch ichavam: "Eles mentem! Eles mentem! O veneno existe!" Aquela noite.

.Os dois auxiliares esperaram por elas e em seguida flanqueando-a s.disse Carmen com voz lânguida.Todas as minhas auxiliares terão que passar uma semana como pacientes.perguntou Déborah. leva ntaram-se.. . em parte como punição. .Ei.Concordar. .Eu suprimiria todas as barras das janelas . vocês têm autorização para sair à noite? . . paz. Era domingo. Eram traiçoeiros os domingos. . as Aparências nunca chegavam a camuflar de todo. . . No entanto. Déborah ficou em dúvida. . deli ciando-se com o banho de chuva. eram os hospitais o que melhor conheciam.Na minha fábrica. puseram-se a escoltá-las.Nem eu.Olhe só onde estamos. .Em primeiro lugar teriam 235 que ser fortes o bastante para resistir. Isso não era maneira de voltar. . Reafirmava-se nelas o desejo de perfeição humana. até que c hegasse a segunda-feira.Você quer que a gente fique por perto ou não? . as roupas encharcadas. e caminharam cabisbaixas de volta para o hospi tal. Nos fins de semana. quando deram persi. Iam conversando distraídas e. então. Débora e Carla passeavam à toa. . . quando começou a ficar frio. as coisas certo.Íamos justamente entrar agora. N os dias de semana.disse Déborah. Começou a cair uma chuvinha fina .. contudo. Ao cair danoite. É bem verdade que deviam estar com um aspecto lastimável. Carla contou como foram agonizantes os domi ngos na época que esteve fora sentia-se trabalhando.E o que é certo? .perguntou Carla. estavam no prado. Sentaram-se na relva. . e depois reconstruí-lo todinho. observando as fendas abertas pelo inverno na calçada e jogando o jogo dos sonho s que tinham inventado para passar o tempo.Não . Não podiam consentir em v . . bobas de alegria. . tudo ad quiria uma aparência desoladora de abandono. bem distante d os prédios do hospital. foram surpreendidas por Henson e Cleary que saíam naquele momento do Anexo 3 em direção ao prédio principal. . não permitiremos nem grupinhos fechados.Chiii! Não tenho permissão para vir até aqui . Mas nenhuma das duas dispunha-se a abdicar desse pequeno motim contra o fastio dos domingos e as restrições do mundo. Mas ali no hospit al. s antidade e amor. Equipá-los e administrá-los era a parte prin cipal do jogo. oferecendo ajuda. Eu só espero que consiga fazer.Na minha universidade.ponderou Carla.Ele 234 não compreenderia. . . Consistia em decompor o mundo em inúme ros pedaços. Irrompeu nelas uma sensação de liberdade maravilhosa.Vamos. Ao se aproximarem do primeiro prédio. Às vezes. é bom ter de lutar contra algo qu e não ceda e que nos dê a segurança necessária para extravasarmos toda a nossa loucura. nem panelinhas. Apesar da segurança que o hospital ofer ecia. . as pessoas ficavam desarmadas. Passavam horas intermináveis construindo-os e selecionando pessoal. quando então as farsas eram reativadas e a superfície se to mava de novo perfeita.Não. era possível baixar as Aparências como se baixa uma tela diante d o corpo e da mente.respondeu Carla. em parte por uma frági l e secreta esperança. aspirando a neblina fria que recobre as manhãs primave rís. Aos domingos.Poremos os nossos médicos-em-serviço realmente em serviço. . A oficina de artesanato estava fechada. penteari am os cabelos e vestiriam roupas mais apresentáveis antes de comparecerem à visita p ara ficarem de mediadoras entre o pai e a paciente mais esquisita que existia na Ala B.. . . os patrões trabalharão nos serviços mais rotineiros para aprenderem como são duras as condições de trabalho do operário. concordar. e as tardes de domingo consis tiam numa luta desesperada para impedir que os outros mundos aflorassem. mas se lavariam. . Eram os dias de lazer. concordar sempre. os domingos eram dias terríveis. ironicamente denominados Dia do Desca nso e da Liberdade. meninas.

. rindo às vezes dos escorregões que levavam por causa dos sapatos encharcados. vão ficar em reclusão. só isso.Não sabes o que te espera! . se aproximando. Não houve jeito: derrota das. apanharam a oportunidade no momento exato. . Ambas mergulharam imediatamente numa vala lateral. Claro! .comentou Déborah em voz alta. As duas. ao transporem a porta. Teremos que voltar. Anterrabae entoava gloriosos hinos em Yr louvando os encantos do mundo. não depois daquela sensação maravilhosa de liberdade. . Terminado o banho. Isso ainda é uma estrada pública. absorvida em seus pensamentos. Quando os faróis sumiram na chuva.pareciam gêmeas de tanta lama . pertenciam ao seg undo turno da noite. divisaram out ro carro. havia um con junto de portas giratórias. Procurou se lembrar do que Furii lhe ensinara a respeito de fazer o que realmente queria . rindo e ofegando ao mesmo tempo. transpuseram simplesmente de um salto. Porém. saindo por onde tinham entrado e. escalaram o barranco até a e strada . já dentro da portaria do prédio que abrigava as Alas B-C-D. e só então diminuíram a marcha e pr osseguiram andando.Tenho hora com minha 237 médica amanhã.respondeu Carla.. Déborah conclu iu com seus botões: "Talvez eu venha a pagar caro por isso. . Entreolharam-se e seus olhos diziam: "Não!". Ao se aproximarem da porta. mas que valeu. Ao seu lado. Carla sac udia uma pedrinha do sapato. Déborah se perguntou pela primeira vez o que p retendiam fazer. mais cedo ou mais tarde . Também não tinham plano algum. Eu queria ficar sozinha. . à distância. surgiu a oportunidade ideal . Carla e Déborah 236 simplesmente continuaram dando à volta. Avistaram uma luz. As dua s correram até ficarem sem fôlego. muitos anos. por terem fugido e voltado com tarriantra tranqüilida de e doçura.. Não tinham roupas secas nem dinheiro. tiritando de frio. Mais tarde. Esfregando o corpo para se aquecer. sua biruta. livres ainda.e voltaram a caminhar. ao que parece. . . Minutos depois. a farra. galopavam ligeiras as nuvens. Na realidade. arquejantes. . Passando a entrada.. -.Mais perseguidores? .declarou uma delas com ares de grande santidade. Correram. valeu!" E dormiu sentindo o cheirinho de chuva. nem escoltada nem dirigida.exclamou Carla esbaforida. Era um carro.Pare de se bajular tanto. diante d os auxiliares atônitos.Comporte-se! Tome seu sedativo e vá já para a cama. Déborah sorriu na escuridão. tiveram que entrar. com dores nos rins. rindo de sua rapidez e agilidade. A chuva fustigava-lhes o rosto com força.Perfeito! Era justamente o que eu queria. as fugitivas saíram da vala e reto maram a caminhada. Recostou-se no barranco. os auxiliares automaticamente cercaram-nas por trás. Em represália. esperando que o c arro passasse. gozando uma sensação imensa de l iberdade.É. A volta foi longa. Seus olhares. Mandaram gente para nos procurar! . o banho go stoso de chuva. o que significava que já passava de meia-noite. Logo que o carro passou. afinal. para cima? . correram. As duas auxiliares que vigiaram Déborah enquanto ela tomava banho. Henson e Clear y tinham inconscientemente relaxado a vigilância. Pouco depois. Cantaram uma parte do caminho. como se tivessem sido treinadas a vida toda para aquilo. Você ficará essa noite.Terei de voltar lá.e lá se foram as duas de novo para a vala. o que pretendiam fazer era o que estavam fazendo. ouviram a sirene que anunciava a fuga de pacientes.oltar assim. e no céu t empestuoso. Só foram "apanhadas" depois de atraves sarem o portão de entrada. a porta de entrada e saíram correndo. relembrando na cama os episódios do dia. Carla e Déborah a previram simultaneamente e. se encontraram por sobre as cabeças das enfermeiras e trocaram uma p iscadela cúmplice. foram separadas uma da outra e escoltadas por uma numerosa guarda. Déborah e sua guarda emparelharam com Carla e sua guarda a cami nho para o final do corredor onde havia alguns quartos de reclusão. coisa que não fazia há muitos. mas um homem prevenido vale por dois. pelas estradas escuras que cortavam os fundos do hospital.

que os olhos de Carla interpretaram co mo um sinal de desgraça. C arla também.Recompôs a fisionomia severa. um tal de Dr. Halle procurou tranquilizá-la: .Foi divertido? . Às 11 horas da manhã. e aquilo íê-lo recordar-se de uma fuga que empreendera de casa quando menino. . Foi divertido. .O Doutor Ogden está de cama. Ninguém teve a idéia. Esto u um bocado orgulhoso de vocês.concluiu. Nós duas. pois ele sorri u levemente e explicou: .Reviu mentalmente a cena da fuga na porta giratória. .ele deseja falar com nós duas. ninguém liderou.perguntou Carla. Ogden. . quando apan ham um barbante para amarrar um embrulho nunca falta um centímetro. . 238 Estou supervisionando os trabalhos da ala B por algum tempo. A gente não decide quando vai espirrar. Levaram-na ontem à noite. não a tenho visto.Não sei. Déborah entrou precavida. É só isso . O Doutor Halle ostentava uma expressão sev eríssima. os galhos nus das árvores carregados de brotos primaveris.Deixe que a coisa saia.perguntou ele. .Carmen foi para casa. . com uma cara assustadíssima. só caem doentes quando já estão deitados. . . girou a cadeira em direção à janela. todos riem. Percebendo a sua hesitação. as pessoas desajeitadas e inábeis como eu veneram as que não são. . Bem. De onde eu vim chamava-se as pessoas assim atuma i. Decidi u afinal traduzi-la. .Onde está Carmen? . admiração e um grãozinh o de inveja.De quem foi a idéia. De onde. escoltada também. Ela entrou e. se foi! . Ao sair do consultório.Entre! . por detrás da escrivaninha. não foi? Uma diversão compartilhada pelas duas. Im aginou as duas meninas caminhando. . As versões do que fizeram coincidem uma com a outra. farejando o ar. Espirra e pronto.O atual administrador da Ala B era um médico novo. en fiou a cabeça para fora e acenou para .Ótimo! vou conversar agora com Carla. que Déborah ainda não conhecia. torcendo para que ele entendesse.Recostou-se na poltrona esfregando a ponta dos dedos. Ogden. Chegando lá.Está bem. tateando em busca de uma explicação convincente. . num gesto imperceptível e experiente. oito delas se não me engano. Elas sempre encontram um jeito de escapar ao último passo em falso. 239 Foi a vez dos guardas se entreolharem. O médico a interrompeu duas vezes para esclarecer detalhes e. O contentamento deve ter transparecido no seu rosto. . Déborah encolheu os om bros. e quero que você espere lá fora. Não via Carla desde a piscadela da noite passada.Quero avisar a ela que está tudo Terminado Ela nos viu fugir e deve estar bastante preocupada. eu tive que ser atumai. e pensar em alguma versão que tomasse suas razões suficientemente convincentes.. O melhor que f aria era tentar lembrar-se de todas as histórias que escutara a respeito de escapa das. quando terminou. o D outor Halle. ele perguntou: -. Lá fora. em primeiro lugar? Déborah gaguejou. . Fizemos e pronto. .exclamou numa voz onde se mesclavam impaciência. .Qual não foi a sua surpresa ao encontrar. . Foram perguntar à enfermeira. e um sorriso pendeu um instante nos seus lábios. a as coisas se mantém em ordem .Não vejo razões para r evogar os privilégios que lhes foram concedidos. frustrando seus esforços para se concentrar numa explicação mais compreensível. foi escoltada sob guarda aos escritórios da administração. com gripe. .Vocês infrigiram as normas do hospital. o que é uma ati tude extremamente repreensível. A palavra tornou-se uma idéia fixa . encontrou Carla esperando sua vez.. por algumas horas que fosse. o Dr.Ah.O que foi que aconteceu? Déborah contou a história. No fundo do jardim corria a sebe verdejante. . Pegam invariav elmente o sinal verde. Quando elas saíram. por isso.Venha.Puxa. e sempre que contam p iadas. Em resposta ao seu olhar interrogativo. eu. . Ontem. Havia um termo Yri que descrevia bem o que sentiram naquela ocasião. a auxiliar bateu na porta do Dr. mas logo pôde suspirar de alívio ao notar que ele lutava para conter o riso. . rindo e cantando debaixo de uma noite tempest uosa.O diabo é que tinha que parecer sã. isso é raro aqui. depois de uma sentida esPera interminável. . crianças! . .

mesmo sem haver qualquer sinal de progresso.. Sim.Pelo tom. desligada de tudo e de todos. . Déborah compreendeu que o que devia a seus pais era. .Mas o pai não veio só para visitá-la? . . . cuja espingarda. compondo palavras mudas que só a ela falavam.Acho que você está dramatizando a coisa só para conseguir um pouco de sofrimento gra tuito! . as mãos geladas. .. Termi nava com minuciosas considerações a respeito da imundície que resulta quando uma pesso a dispara um tiro de revólver na têmpora.Vocês a conhecem? Quer dizer. via-se que a enfermeira queria encerrar a conversa ali mesmo. conheciam? .Ela poderia ter conseguido se safar. como é que você pode ter certeza? . e logo souberam da novidade . .Oh. sobretudo. Podiam tê-la retirado dali ao primeiro fracasso. . metida num vestido estampado de flores lilazes que nada tinha a ver com a agilíssima tigresa que o usava. você viu Carmen ontem? . Déborah e Helene estavam sentadas no corredor. . Embora fosse proibido ler jornais na Ala B. .respondeu Carla.perguntou Helene.Quanto tempo ela ficou aqui? . 242 Eu não disse que ela teria conseguido.No final das contas. . mas sim que poderia ter conseguido. Jamais exigiram que ela se recuperasse para restau rar o prestígio da família. vi. A manchete anunciava: FILHA DE MAGNATA SU ICIDA-SE. . . . . logo que recebeu seus privilegios. seu verdadeiro sorriso insinuou-se por detrás do falso. Helene veio para a Ala B. e leu a notícia até o fim.Hum-hum.. Olhou para baixo e encontrou suas mãos ensaiando gestos ve ementes em Yri.Estendeu um recorte de jornal.. Conservaram a fé num futuro que talvez jamais desse os frutos pelos quais an siavam. num instante.O que aconteceu? . furiosas com a perversidade do mundo. ao passo que os meus. encerrada em seu próprio claustro. O seu sorriso "normal" era precavido como uma armadilha prestes a disparar. Sentia-se arrasada. Permitiram que ficasse. e isso'deixou-as ainda mais contente s. ao se levantar . Só sei que ela saiu com o pai por vol ta das sete horas da noite.. .Viram muito 240 mais ódio do que amor. quando avistaram Carla vindo cabisbaixa em direção a elas.murmurou Déborah.. é sobre Carmen. .Déb. Levaram-na à oficina de artesanato.. . Suspendeu o bloco para ocultar o recorte. Déborah e Carla entreolharam-se.acusou Helene no seu tom áspero de voz. era bem Helene quem estava ali.Terry. havia um intenso contrabando. Carla saiu cedo para a entrevista com sua médica. Déborah foi t ambém. . Os de Carmen não lhe der am sequer uma chance. foi liberdade o que eles me deram. seria um verdadeiro canhão. . encarregou-se de preencher o c onteúdo de seus gestos. Carla. e só voltou um pouco antes do jant ar.disse Déborah baixinho. .O que será que aconteceu? . Deb. me sentiria tão grata! 27 Mortalmente pálida.Carla.. as vozes acabaram atraindo outras. Déborah deu uma olhada nele e o e nfiou rapidamente no bloco de desenho. lembrando-se do trigal e do caçador. .. acusou-as de hipócrit as e mentirosas e.Apenas o suficiente para aprender a discordar . se eu não estivesse morta de medo.Ela discordou. e ainda assim permitiram que eu ficasse.Parece que sim. e por muito tempo.Meus pais. a oportunidade de poder travar a batalha. . com a fama violenta de Helene e as lendas que circulavam a seu respeito. mas acho que mudou de idéia. com bobs no cabelo e um bloco d e desenho nos joelhos. Quando Déborah e Carla disseram que estavam contentes por vê-la. e não o fiz eram.

sobretudo. Linda. mas jamais conseguiria convencer aquelas mulheres mais sãs.Você gosta mesmo de atiçar as feras. A velha Coral. diante das car as hostis e incrédulas.Uma tensão vibrante percorria em sussurros a ala. pode estar doente. Ela tinha uma enfermidade boa e saudável! . A equipe médica g osta deles. só isso. apa vorada com o olhar defmição da antagonista. "sadios" e espirituosos.exclamou . fugia à dor envolvendo-a "m palavras pomposas e eruditas.Carmen poderia ter se salvado.Viver é lutar! . Para sua própria surpresa. vive intensamente. Asenfermeiras que estavam de p rontidão não sabiam se falavam se guardavam silêncio. . . . Déborah percebeu que aquela agitação de ânimos dizia menos respeito ao suicídio de Carmen. Tremia de medo. como pessoas.Proferiu essas últimas palavras. Déborah a encarou intrigada. e mais ? contradição entre o cinismo que existia dentro de cada uma e ânsia vacilante e cega de lutar que se traduzia em calorosas disputas verbais. ressoou um trovão: . tal como naquela noite milagrosa na Ala D.Depois de tanta terapia. afirmações de "ma leviandade teme rária. Déborah encarou provocativamente L inda. que consistia numa fuga constante. ículo! Você está apenas racionalizando seu próprio sistema de defesas! 243 Déborah procurou ser mais objetiva: .. vou começar a procurar trabalho onde não fique enclausurada num quarti nho 244 . não se mascarava com aparências. em suma. mas o fato é que estão ali há anos. estava abaladíssima. Deb. .de uma forma mais premente e impetuosa. é impossível que eu não consiga percorrer um quilometrozinh o até a cidade. . e nada e ninguém os ajuda.Porque vou sair.Impossível! . ou então q ue pudesse ameaçar as defesas que as pessoas erguiam para conter o sofrimento? . Suas idéias eram claras. em Yr. a "autoridade psicológica" da Ala. num esforço absurdo para suste ntar a farsa do "tudo bem-tudo bem".. . investiu furiosamente: -Ridículo! . . nem se entregava às farsas ha bituais com os médicos. já sem fôlego.Reparem naquele monte de homens internados n a Seção Masculina. Continuo achando que Carmen poderia ter vencido. Curioso é que o medo que sentia era o mesmo que levara as pessoas a rejeitarem ass ustadas a sua definição de "uma boa e saudável enfermidade". que já havia lido tudo sobre o assunto e vi via distribuindo jargões como quem distribui moedas. . Vão vivendo. Déborah se achou defendendo com ardor o pequenino "Talvez ". o nervo da Ala B. À distância. lá na D. estourada do je ito que sou? . O que pretendia? Estaria tentando impedi-la de dizer qualquer coisa que pudesse degenerar em confusão e obrigá-la a se desdizer. Isso é doença-d oente. Parecem não sofrer muito e. São todos muito racionais. luta.Meditou um minuto. No entanto. mas sincera. hein! . não sentir muito. Déb. .Que absurdo! Isso é uma contradição em termos! . Sentiu revigorar dentro de si a força silenciosa que emanava do "abrirse ao mundo". porém muito mais vulneráveis do que as da Ala D.Você está querendo saber como eu consegui sobreviver até essa idade..Ela tinha uma enfermidade muito dolorosa . mas não deixou de se q uestionar: "Que medo é esse? Medo por mim ou por Carla? Por mim? Porque vou perder uma amiga para o mundo? Ou será porque em breve eu terei que ir?".comentou Carla mais tarde vestindo-se para dormir. vou tentar de novo A resposta a apanhou desprevenida. Déborah olhou ao seu redor e se viu cercada p or fisionomias congestionadas de ódio.Porque você haveria de sentir falta de mim? .É a mesma co isa.vou sentir sua falta. Mas. . Só que dessa ve z. apren dera bem as lições de Furii. Quando a enfermeira veio dispersá-las. Atingira um nervo particularmente sensível.objetou Carla. Reinou um silêncio intranqüilo e. Sorriu daquela ironia. foi você mesma quem disse que Carmen explodiria até o teto a qualquer minuto. . como uma dolorosa bofetada. exposta. sem saber porque.Não. mas em compensação ela senete. não é impossível.

Tomaram-na invisível. vou sentir sua falta . Talvez tenha sido esse o principal problema da última vez. suas famílias. pr ocurando descobrir novos caminhos."Minha família sempre teve queda para a música. . Por is so sou tão sensível". Atribuía a si mesma as mais divergentes proce dência familiares . . . . Um dia. Era uma senhora idosa. . inveja e. cheirando e apalpando tudo o que lhe caía às mãos. Por mais que ignorassem a sua pre sença. e ainda antes de Carla. medo. e quando veio a resposta.Não sei se você sabe.Sim. todas com um ar muito piedoso. e ela. sempre quietas. mas receosa de que o medo traduzisse a respos ta para um Yr incompreensível. . Doris Rivera devem ter visto: .Na verdade. Déborah a encarou firme esper . encaminhou o pedido de autorização para abandonar o hospital Rangérãm as eng renagens da burocracia. onde moravam e o que pretendiam fazer quando terminassem o estágio.minúsculo.Daqui a pouco você vai também. A nova companheira de quarto era uma menina meiga e generosa. receosa e excitada ao mesmo tempo. arrumo a trouxa e me mando daqui também! Quando foi procurá-la para se despedir. Sua memória fora devas tada. eu sei . mas a lei exige que nós declaremos.Pouco me importa que você vá .interrompeu ela.diria. com uma determinação teimosa e inquieta. Quando a a ssistente social começou a explicar do que se tratava. Na sua maior parte . de modos delicados e voz suave. faltava-lhes a sensibilidade para reconhecer a fome impetuosa de uma criatura recém-nascida no mundo. Assim que terminar.Terei que acompanhá-la . depois de algum tempo. tocaram a campainha da porta e aguardaram. como se refletissem a desgraça dos leprosos que os habitavam. O primeiro passo foi ingressar emdois coros de igreja.É uma exigência. .uma mescla de estupor. .vou sentir sua falta.Tem um ou dois quartos novos. . Procurou depois o pastor Metodista para conversar sobre o grupo de jovens que ele entretinha. P erguntavalhes por suas vidas.declarou a sua companheira de quarto. e minha mãe é Sophie Tucker. Só que ficam um pouco l onge. A pequena e insular com unidade tinha verdadeiro pavor do hospital e de seus ocupantes. Costumava ficar sentada junto às enfermeiras e estagiárias escutando embevecida elas conversarem.disse a assistente social . sabia? Estou fazendo uma pesquisa para minha tese de doutôrame nto. -Freqüentemente ia até a cidade a pé e depois voltava. que clamava pelos seus direitos inatos. Greta Garbo e Will Rogers . . Déborah continuava animada de uma curiosidade insaciável pelo mundo. . Agnes (Eles são violentos?). Déborah tentou formular um "Claro!". rancor. persistente. a menina acabou deixando de lado o assunto família ou os atritos conjugais de seus pais. acima de tudo.Déborah ouvira rumore s a respeito e conhecia alguns devido às suas caminhadas . A curiosidade a impeliu até mesmo a freqüentar a vida social da cidade. contentou-se em deitar na cama com os olhos anuviad os de medo. Fulgurou-Lhe na memória o episódio do tornozelo t orcido no St. Déborah se afeiçoou a ela e. Afastou-o com um ligeiro tremor. Debo245 rah não desanimava. Déborah fechou os olhos e pôs o dedo ao acaso na lista. .. Chegando a um velho casarão."Meu pai é o Paderewski.Falava com u ma voz desanimada e assustada. . a menina olhou para ela surpresa como se n unca a tivesse visto antes. . distraidamente.eram pobres e sombrios.. m as logo compreendeu que participar estava fora de cogitação.confessou Déborah desolada. onde não era b em vista. Quanto às senhoras do coro da igreja. veterana da psiqui atria mecânica e que já tinha passado por uma dúzia de hospitais. mas a doença continuava intacta. A assistente social possuía uma lista de quartos na cidade que podiam ser alugados para pacientes em regime de externato. por e xemplo. eu não sou paciente. onde não há pacientes morando. . A proprietár ia veio abrir. comparecia. solidão . . finalmente. lá do outro lado da cidade. olhando. Déborah viu no rosto de suas com panheiras a mesma expressão que Carla.

retrucou Furii . por uma cara hostil. Isso sim é doença. E não tinha nada de arruinada.era uma pessoa solitária e tristonha. ou do coro na igreja. é bom ter com quem rir e conversar. O reinado sombrio da destruição.Ainda que o seu rosto me pareça ótimo. . Cansou de ver as mães chamarem apavoradas os seus filhos quando passava "O Capitão". não suscitava receio. ela se limitou a acenar de leve com a cabeça: . é preciso que tenha razões. .Ah?. as aulas de costura na escola secundária e até mesmo um clube de excursões para adolescentes ("Venha Um Venham Todos").Lembro-me inclusive de dias inteiros. novos aspectos a confrontar com o passado. Veio a descobrir depois que a proprietária Dona King. .Olhe. de repente. graças à sua aparência mais "normal". à qual não pertenço.De quem é a culpa: da cidade ou do meu rosto? . . quando ele está bem-humorado.. 247 . é bom ter alguém que faça gracinhas e. Quando veio morar em Chicago. Ah. sim.Você teve uma amiga? . . . P ara que uma pessoa renuncie ao mundo. mas o outro fica mais perto do banheiro. A terapia atravessava uma fase pouco inspirada. Aliás. acabaram inculcando na maior parte dos habitantes da cidade um medo e uma a aversão absolutamente irracionais. fique sério e diga coisas que . e minha amiga. onde sou uma estranha. outras falsas. lá também existe amor. .Enquanto você esteve doente daquele jeito.ando a qualquer momento por um olhar cauteloso..Ne-n que minha vida dependesse disso . recordar-se de uma amiga ou de um rai o de sol implicaria em transformar toda uma visão do mundo. espero que gostem do quarto. antes de nos mudarmos de volta para Chicago.mas à força qu e exercem no sentido de mantê-la afastada do mundo. por fav or. talvez ele demonstre uma certa ansiedade quando você está com as pessoas. . aos poderes esmagadores de Yr. Mas logo aprendeu o novo m odo de vida e ficou boa. . mas nada disso ( aconteceu.Você teve notícias dela nos últimos anos? . esse quarto tem mais luz. e ela também. que realmente não era estragada! . Quando a acompanhante foi embora. suas r elações com as pessoas não passavam de compartilhar uma máquina de costura. Déborah mergulhou nas recordações. você é capaz de se lembrar do que havia além das trevas. .Não me refiro à linguagem ou aos deuses propriamente . bom. . não suscitava nada.É bom conversar com Lactamaeon.Sim. até eu vir para cá. Agora que retornou ao mundo . . A vel ha não tinha entendido? Quando a assistente social terminou de falar. como pude esquecê-la! . . "boa noite". . . busc ando nas atuais situações de liberdade. . que sempre lhe parecer a uno e denso. um mapa. um livro de hinos.Sim. 246 Ou o franzir dos cenhos. tinha agora algumas fendas que deixavam passar a luz do sol. nada mais.Sim. de trabalho mais cotidiano. mas um abismo intransponível os separavam.prometeu Déborah.Sorriu . um ho mem que servira na marinha e que tinha o hábito de falar sozinho. Quando volto para ca sa depois da aula de costura. não ponha papel na privada que ela está velha e um pouco ranzinza.Gostaria que você voltasse de novo para a sua infância e revolvesse aquela época cin zenta da qual já falamos. . mas eram insignificantes comparadas. parecia-se com todos os que o nganon atrai . era nova na cidade e não fora educada nas lendas fantasmagóricas que cercavam Aquele Lugar.De ambos talvez. quer dizer. As trevas serviam justament e de contrapeso para as luzes que simbolizavam a vivência do amor e da verdade.'. . eu vejo! .respondeu Furii. Por mais que f reqüentasse os ensaios do coro da igreja. pelo menos depois que se aco stumou à vida da cidade. . aquele ano que passamos na casa alugada.. Inúmeras histórias assus tadoras.Sim. . Como pude esquecer disso? . Você precisava ter t odas as razões para se entregar a uma renúncia tão grande. claro! Está cursando a faculdade agora. é um hosPital para doentes mentais-insisti u aflita a assistente. Talvez a senhora não tenha entendido bem. . Eram todos muito gentis. a velha se contentou em dizer. algumas verdadeiras. que não admite mudanças.Mas Yr também é belo e verdadeiro. estão vendo. Sim. Déborah.. ou responder "boa tarde" ou.. .

E quanto à sua nova amiga. Mas naquele universo de bruscas e surpreendentes oscilações emotivas. porém. Déborah decidiu. . Em meio à sôf busca de vivências. Sua fisionomia endurecia imperceptivelmente e seus modos beiravam. a atitude de Ca rla e o seu ressentimento passaram desapercebidas. quando se de sanuviou a sua relação com o mundo. então. Primeiro eu pedi: "Ênsinem-me matemática". .perguntei. e de como os deuses.Mas agora você sabe. sempre tive uma suspeitazinha guardada lá no fundo. perguntei a Anterraba e: "Esse aí é o meu fogo que está queimando dentro de você?" Ao que ele respondeu: "Por acaso não valeu o combustível?" .Receio. Seria maravilhoso se eu pudesse despachá-los quando quisesse. um desses desafios em que se brinca e se fere ao m esmo tempo. por ser sua amiga. num processe quase que concomitante.perguntou Furii com uma voz meiga. Não se viam muito ultimamente. Déborah começou a prestar atenção a isso. reparou que sempre que mencionava sua ar te ou qualquer outra coisa em que estivesse trabalhando. . ." Eu disse: "Todos os anos? Para sempre?" "Uma terra contestada.Plenamente? Furii assentiu com a cabeça. não é. de novas experiências que ambas empreendiam. . já há m uito. fora dormir pensando em falar à Carla . . Aproveita : do que as recordações felizes continuavam vivas na memória d.Admiti-lo causava-lhe profunda dor. seus temores e todas as suas tênu es e frágeis esperanças. e quando o cantaram.Sim. e onde cada sensação e preocupação era duvidosa. . rindo mas magoando também. Carla trabalhava durante o dia como técnic a de laboratório e passava as noites estudando as novas técnicas para recuperar os c inco anos que perdeu internada em três hospitais sucessivamente. uma mudança sutil se oper ava em Carla. çle srecorriam a todos os seus métodos de sedução. que o cri ou a partir do seu próprio humor e de sua própria beleza? -. que o construiu à imagem e semelhança de si mesma. eu estava rindo em segredo com Idat e Anterrabae. Mais tarde. Semana passada.Na realidade acho que sempre soube. a espirituosidade e a sensi249 bilidade poética porque é muito mais difícil combater um inimigo amável. recita poesias que nos fazem chorar e nos dê vontade de contemplar as estrelas. crescendo. e e le respondeu: "Serve para alimentar anos de sua vida. tinham deixado de ser belos."Serve para iluminar ou aquecer?" . . Furii lhe lembrou as crueldades cometidas pelo Coletor. Anterrabae exclamou:Mas é claro! Encetamo s. uma espécie de desafio.Quando foi que você finalmente percebeu isso? . Carla? Você a vê freqüentemente? Déborah lhe cont ou uma coisa estranha que acontecera. no entanto. No sábado anterior. e provavelmente não tinh am gostado mas. a camaradagem foi cimentada e tingida pela seiva de vida emergente e de luta. Déborah. mas sempre que estavam juntas. não dissera nada. PodeTríâm ter sido amigas em qualquer parte. na época em que costumavam ficar catando papéis na Ala D. a frieza.248 nos comovam. . viveram juntas as agruras da enfermidade e lutaram juntas para escapar às suas gar ras. comentei: Esse é um dos poucos que conheço inteirinho de cor.E o Coletor estaria incumbido das críticas a você. Mas já há algum tempo que ela vem crescendo. esse estranho desin teresse destacou-se com maior nitidez ainda. ainda receio que eles sejam de certo modo reais. agora eu sei. Agora que ela começava a reagir. sua Terra!" . que tinham esc rito um coral baseado num poema de Horário. Lembrou-se que Carla jamais demonst rara interesse em ver um trabalho seu. Como. porém.perguntou Furii. Furii perguntou: . Déborah. Supôs que ela devia ter achado algum rascun ho.. Depois começamos a nos insult ar um ao outro. Eles riram sem graça e acabaram admitindo que seus conhecimentos não iam além dos meus. em local seguro. Havia tantas coisas novas para compartilharem que essa única fenda não faria muita diferença. poupá-la do s altos e baixos de sua arte. . Num dado momento. muito tempo. . Não tinham segredos entre si: contavam suas vidas. então. ond e coexistiam amor e ódio. havia uma proximidad e toda especial entre elas. não é assim? .

é uma curva. foi só um sonho. mas tam bém sons? Apurando os ouvidos. . sólido. como se estivesse perseguindo a salvação. você realmente sonhou isso.. a voz disse: noite é uma curva de trevas.disse Carla pensativa . Acho que esse sonho.Olhe para lá.Sim. apesar de toda e qualquer inconveniência ou restrição.Também vou ajudar a sustentar a curva da história? . e o conjunto de vozes era tão belo e comovente que a fez chorar.Pediu. não é? Lembrome que lia constantemente nos relatórios da ala como você sempre arranjava um jeito de fazer seus desenhos. . .. Em momento 252 .mas posso mostrar o de Carla. . trabalhou com um grande ardor. distraída. . . Era um frag mento de osso. você acha mesmo que é verdade? . Déborah olhou em direção ao horizonte.Após uma pausa.o único desejo que jamais poderia admitir. O ápice de todos esses arcos individuais compõe a curva da história e. como se estive sse limpando a neve do achado. Quando Déborah concluiu o seu relato. o sonho. . No céu.Reproduzia os mínimos movimentos dela. Quando lhe descreveu o osso e contou o que a voz dissera. arqueada e extensa. retrucou a voz .É um belo osso. Déborah. Teve um sonho incrível . lembrava-se nitidamente do sonho.Vê. . De repente. mas não é nada disso...O que é que você está vendo? Como é? . .suplicou Déborah. . su as mãos esbarraram num objeto duro e ela o arrancou para fora da neve. ela escutou uma cantiga de ninar entoada pelas estrelas. Furii disse para ela: . O seu talento é tão fértil que resistiu às piores fases da doe Agora você pode compreender a situação daqueles que não têm a sorte de possuir uma vocação ativa. espesso. mas mesmo assim eu acho que é verdade . e contou-lhe. Carla a escutou so fregamente. .O único lugar para onde eu jamais poderia ir.Você sempre teve em al ta conta a sua arte. projetavam longas e sinuosas sombras . . . de um negro denso e azulado.É.Ah. Lembre-se da amizade sa udável que você precisou sepultar no esquecimento. .Esse osso está profundamente entranhado nela. sonhei.Você acha que é verdade. mas o sonho foi se desvanecendo e as vozes das estrelas sumindo até desaparecerem de todo. .. veio lembrá-la de uma outra alegria: a compreensão de C arla. . O sonho se passava numa noite de inverno.A voz silenciou um momento e depois concluiu . Ele está enterrado e congelado lá no fundo. A voz interpelou de novo: . contemplando o luzir das estrelas. a do homem. Déborah cavou com as mãos um buraco na neve. de um branco vivo e fosforescente. as estrelas congeladas luziam frouxamente. um belo e sólido osso! Déborah quis ainda implorar à voz que revelasse a configu251 ração que teria a sua vida. . ela perguntou ansiosa: .O seu. Depois de muito tempo. descrevendo uma curva regular. . Quando Déborah retirou o objeto enterrado. portanto. Cave aí bem no fundo na neve. sim. varridos pelo vento.Jura que não inventou nada.Contei exatamente o que aconteceu. O espaço que fica para além é a curva da história da humanid ade. . Quantos não a invejariam.perguntou estarrecida.Sim. Os morros cobertos de neve. e dos tempos felizes que baniu da memória.Por favor não se zangue.. sei que soa como aquela velha l enga-lenga de "menina sortuda". então. apesar de você tê-lo encontrado aí enter rado e congelado.a respeito de um novo pensionista e do genro da proprietária. . Déborah caminhava sobre a neve. . Carla desatou a chorar. . seu sonho. Déborah. .É isso a vida de Carla? . Ela enxugou os olhos.afirmou Déborah. .Você sabia que as estrelas não emitem só luz. a partir da qual possam crescer e se desenvolver. revia as estrelas e suas mãos apalpando a curvat ura suave do osso. Apesar do frio cortante. .Sua criatividade? . Na manhã seguinte. onde cada vida constitui um arco ligando o nascimento à morte. Carla veio visitá-la e enquanto conversavam à toa.Deixe eu conhecer o arco da minha vida? . não posso mostrar -. uma voz grave e profunda a interpelou . . o luzir da ne ve e o luzir de uma lágrima gelada que escorria de seus olhos.

recordações episódicas de uma visitante num lugar estranho. prestativa e "sadia" que se mostrasse. Os psiquiatras eram 254 todos igualmente estranhos na cidade. pelas fagulhas que so bem das fogueiras em direção ao céu. A doença. Ao chamá-la duas semanas mais tarde. aco rdando para mais um apelo do mundo.e tudo leva crer que você terá de cursar a escola secundária para conseguir qualquer emprego. prom eteu. .Percebendo o olhar apavorad o dela. . pelos amigos. por mais rudimentar que fosse. grande demais para voar. os in esperados mergulhos nas trevas de Yr . em meio a rostos idênticos aos que encontraria ali. nunc a deixaria de ser uma criatura invisível e inaudivel. A medida que o mundo ganhava uma riqueza maior de formas. e o administrador que cuidava das questões das pacie ntes em regime de extemato. Furii ia dissipando aquela velha certeza de que a sua vida era um a vida amaldiçoada e arruinada. Quem sabe. Aperspectiva de vir a f reqüentar "na daquelas salas de aula a assustava terrivelmente.. Gostaria de trabalhar. ouvindo os sermões do pastor. e há muitos anos não lidavam com estes problem as de trabalho. Conhecia Latim e um pouco de Grego. serviços que exigiam pouca capacidade intelectual. Suas recordações de es cola ainda estavam muito vivas na memória. Fri ed. ficou surpresa de ver como conhecia mal o mundo e todas as suas pequena s exigências rotineiras. e nriquecer sua vivência. Folheando os jornais da cidade. Déborah passeava os olhos com curiosidade pela congregação: teriam alguma v ez agradecido a Deus pela luz que iluminava suas mentes. em silêncio.disse ele . Teriam consciência de como eram be las e invejáveis as suas vidas? Não.Bem. pelos amigos. . montões de pedra pousad os ali como uma gigantesca ave. os tofmentos inf . par ecia um tanto surpreso. é claro. já não a satisfaziam mais. pelos amigos. pela sucessão majestosa dos dias e das noites. Déborah fora justamente naquele dia dar uma olhada na escola secundária. mas os terrores finais . s entia cada vez mais que suas ambições e esperanças já não cabiam nos ensaios do coro e nas aulas de costura. Evocaram de novo o velho brado Yri . a título pessoal. Nem para garçonete ou balconista de magaz ine. nganon clama por si mesmo". .doutôra Fried deixou claro que isto era um problema que e la tinha de resolver sozinha. ocultar sua condição de cidadã e cativa de Yr. depois de insinuar mais ou menos a mesma coisa. A própria. pelas expectativas que podiam acalentar. mas não tinha o diploma secundário. nesse sonho. Numa cidade tão pequena e estagnada.Conversei com várias pessoas . realmente não dava mais: suas atividades meros passatempos para preencher as ho ras vagas. mas não conseguia penetrar um milímetro sequer além daqueles sorrisos polidos e frios c daquelas delicadezas puramente formais.ra intrinsecamente dife rente dos outros. antes de assumir a convicção de que . . estudar o problema. trabalhando numa série de desenho s a bico de pena e abrindo caminho para o passado em densas sessões com a Dra. pense demoradamente no assunto. tinha aj jpalificaçéesnecessária s. Recordou-se das lut as que travara no íntimo. viera crescendo dentro d ela desde os primeiros anos.aconteceram em corredores idênticos aos daq uele prédio. pelo frio e a dor que reagem às leis da natureza. em sono. 28 Déborah levou uma vida pacata nos meses seguintes. você não estava abrindo os olhos para isso.se. e as velhas recordações qu'e guardava da escola.os lapsos e ausências. .A senha de todos os condenado s. suportando estoicamen te os ferimentos que o levaram à captura. dimensões e cores. Aos domingos."Imutávelmente. . dos esforços enlouquecedores que lhe custa ra manter as aparências. Comparecia a todas as cerimôni as metodistas e escutava os mexericos que circulavam no "Clube do Altar das Senh oras". eram de quase quatro ano s. que fazia de Déborah um instrumento e uma cúmplice de sua destruição. não havia para ela empre go algum.algum você renegou esse seu profícuo dom que a maioria das pessoas dariam tudo para possuir. Pouco a pouco. Por mais simpática. Recordou-se do misterioso soldado japonês. Precisava ampliar o seu campo de experiências. O hospital não podia ajudá-la em nada. Era um conj unto imenso de prédios que bordejava o outro lado da cidade.. completou: .

lingidos por Anterrabae, o Censor, o Coletor e o Poço. Apesar de todas as concessões que fizera aos seus captores, Déborah perdera inteiram ente o ânimo para continuar sustentando aparências. Participe, se engaje, se entregu e a qualquer preço, diziam eles. Mas agora sabia qual era o preço. Numa cidade tão pro vinciana e mesquinha, onde haveria entre ela e seus colegas de turma uma diferença de, pelo menos, três anos de idade, e uma distância incomensurável, sabia perfeitamen te que, na melhor das hipóteses, o mundo se tomaria uma verdadeira terra de ninguém. Mesmo estando abalada a sua sujeição a Yr, ácaba255 ria, inevitavelmente, se alienando do mundo, se refugiando num outro mundo, e tu do recomeçaria de novo. com ou sem Yr, era tarde demais para se juntar novamente a estudantes como esses, tarde demais para bailes de escola, panelinhas, faceiric es e frivolidades de coleguinhas de turma. Fartara-se já do "vocabulário especial" q ue convinha empregar nas relações de engajamento com esse tipo de mundo. - Tenho dezenove anos. . . - declarou para os prédios da escola. - É tarde demais! Afastou-se, tiritando de frio, debaixo da forte ventania que Yr soprava por sob re a distância, ao mesmo tempo real e irreal, que a separava de tudo aquilo. - Não posso voltar aos-meus adoráveis dias de ginasiana - disse pafã~o administrador. - Volibol no pátio, mexericos, festinhas de escola, não dá. - Mas sem o diploma secundário... - Non omnia possumus omnem! - retrucou, lembrando-o de que se tratava de Virgílio. Sabia, no entanto, que ele tinha razão. - Por que então você não prepara uma lista enumerando tudo o que é capaz de fazer? - pro pôs o administrador. Seria puro faz-de-conta, "fazer coisas úteis", nada mais do que enumerar becos sem saída. Mas, que jeito? O que ele queria, na verdade, era livra r-se do "abacaxi". Faria a tal lista. Quem sabe não descobriria alguma preferência, um talento, qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Lá estava o pequenino "Talvez" transformando em calor e ânimo uma ínfima e vulnerável fagulha. Voltou à pensão, foi para o quarto, sentou-se na mesinha, apanhou uma folha de papel e dividiu-a ao meio. Numa das metades anotou CONHECIMENTOS, na outra EMPREGOS P OSSÍVEIS. CONHECIMENTOS 1 andar de bicicleta. 2 saber Hamlet inteirinho de cor. EMPREGOS POSSÍVEIS 1 garota de entregas. 2 - professora particular, para meninos que estejam aprendento Hamlet na escola. 256 3 poder acordar do sono mais pesado em posse de todas as minhas faculdades. 4 - tremendo vocabulário de palavras obscenas. 5 algum grego. 6 algum latim. 7 frieza de cálculo e insensibilidade. 8 artista há dez anos. 9 conhece as componentes da maioria das formas de doença mental, capaz de re presentá-las realisticamente vendo o original. 10 não fuma. 3 guarda-noturno. 4 consultora lingüística. 5 (não é suficiente). 6 professora particular de latim para meninos que o estejam aprendendo na escola. 7 assassina profissional.

8 não cheg.: a ser gênio; não há viabilidade comercial. 9 atriz (perigoso dei íais). 10 degustadora de vinhos. Reescreveu a lista, suprimindo os itens 4, 5, 7 e 9. Doeulhe um bocado ter que a fastar o "assassina profissional". Lembrou-se, porém, que tinha uma péssima coordenação motora, e os assassinos profissionais precisavam ser ágeis e graciosos. Tamanha er a a sua falta de atumai que, seguramente, no momento crucial suas vítimas desabari am para o lado errado. Imaginou a cena: ela, a assassina, tentando se arrastar d ebaixo dos cento e cinqüenta quilos de um lutador profissional. - É. . . - murmurouitem 7, causa perdida. No dia seguinte, levou a lista para o administrador, mas não esperou que ele termi nasse de ler. Até mesmo Anterrabae 257 estava vexado com as qualificações tão medíocres de sua rainha e vítima. O Coletor, com ar es de falso-santo, morria de contentamento. Déborah estava assustada com as opções que o mundo lhe oferecia. As perspectivas que tinha na sua frente eram como o corre dor que percorria naquele momento: uma longa estrada, cuidadosamente pontilhada de portas, de dez em dez passos, só que todas fechadas. - Ei, Srta. Blau - chamaram às suas costas. Era uma das assistentes sociais ("O qu e é agora? Já tenho um quarto, portanto não preciso de uma caçadora de quartos; a não ser que esta venha desfazer o que a outra fez"). - O doutor Oster falou-me a respeit o da senhorita freqüentar a escola secundária. ("Lá vêm eles exigir novos sacrifícios. Pro vavelmente designaram para mim um bom lugar sob as rodas de jaganatas"). A dor p rovocada pelo tumor alastrou-se pelo corpo todo, e sua visão tingiu-se de rubro. - Não sei como não pensei nisso antes - dizia a assistente social. - Há um lugar na ci dade que talvez possa prepará-la. - Preparar-me para quê? - perguntou Déborah. - Para os exames. - Que exames? - Ora, os exames para conseguir o diploma de equivalência ao curso secundário. Como eu dizia, parece ser a solução ideal.. . A mulher olhava-a de um modo esquisito. Déborah quis explicar-lhe que era difícil es cutar através de um borrão vermelho, que suas notícias tinham trazido um grande alívio m as, devido à brusca mudança de pressão - bastava ver a palidez mortal do seu rosto - e stava sentindo o chamado "mal-dosmergulhadores". - Isso significa que não preciso freqüentar o ginásio? - Não, como acabei de dizer, há uma escola particular na cidade. - Posso escolher então? - Acho melhor a senhorita se entrevistar antes com eles e estudar as possibilida des. - Como faço para combinar essa entrevista? - Bem, a senhorita ainda está sob os meus cuidados.. . - Você poderia marcar uma entrevista? Sim, claro. - E depois me conta o que eles disseram? - Hum-hum. Déborah sentou-se e ficou observando a moça se afastar. A dor estava diminuindo, mas o pânico continuava tão intenso quanto antes. Escuta teu coração - sugeriu Anterrabae, despencando ao seu lado. Batia como uma porta sem ferrolho empurrada pelo vento. O que é que está acontecendo? O que é que está acontecendo? - perguntou assustada para Y r. Estava tudo tão real agorinha mesmo! - Enxergava tudo distorcido; suas palavras soavam de uma forma estranhíssima, como se até mesmo o Yri tivesse sido recodificad o. Por quê? Por que está acontecendo isso? A pergunta quebrou o silêncio que reinava sobre a terra. Sentiu que alguém se aproxi mava, talvez o doutor Ogden que' saía do escritório. A audição estava tão distorcida quant o a visão. Esbarrou numa pessoa e imediatamente gritou: - Os sentidos não são discreto s!

- Ela vai ficar violenta? (ou algo no gênero, ouviu um dos vultos perguntar num to m aborrecido) Déborah quis responder que a violência constituía para um vulcão uma lei n atural, mas já não conseguia comunicar absolutamente nada. Flanqueada e sustida por um atropelo indistinto de mãos e vultos, foi conduzida ao elevador metálico dos paci entes e transportada para a Ala D. Começava tudo de novo! Ao recuperar os sentidos, olhou bem para si mesma, de alto baixo, e soltou uma s onora gargalhada. Agora eu sei, seus calendários descendentes e imprevistos. Agora eu sei, Lactamaeo n, oh deus tristonho! Agora eu sei porque Carla e Doris ficaram arrasadas daquel e jeito! - Riu às gargalhadas, um riso áspero e ferino, até ficar completamente rouca. Mais tarde, Quentin Debshansky entrou para tomar o seu pulso. - Oi! - cumpriment ou ele, sem saber se deveria mostrar-s,e alegre ou pesaroso. - O casulo está ajuda ndo? - bom, voltei a ver, a ouvir e á TãTar. - Ela o encarou com firmeza. Você continua sen do meu amigo? - Ora, é claro! - exclamou desconcertado. sentia-se - Então deixe a sua cara em paz, Quentin. Seja espontâneo. Ele relaxou a fisionomia que logo adquiriu uma expressão desapontada.-É que... bem, eu fiquei feliz de saber que você estava lá fora, tocando para a frente. Sentiu uma pontada de angústia ao lembrar-se que dedicava afeição a uma pessoa que era , afinal, louca (ainda que os médicos lhe recomendassem chamá-las doentes mentais ). e podia tomá-la ainda mais louca se dissesse coisas indevidas. Os médicos e todos os manuais que lera aconselhavam-no a não se mostrar muito categórico, não discutir, não e xtemar sentimentos fortes, procurar ser jovial e prestativo. Sabia, no entanto, que estava lidando com um ser humano, um ser humano que era capaz de comover e q ue lhe inspirava uma profunda afeição. Estava feia neste momento, com os cabelos des grenhados, mas quantas vezes não o ridicularizaram também por sua aparência. Além do mai s, já passara por uma derrota semelhante à dela. Sofrerá, uma vez, um acidente que o d eixara estirado na estrada, todo quebrado, ao lado do pai. Quando vieram socorrê-l os, transportaram-no para o hospital enrolado num cobertor, exatamente como ela estava agora. Jamais esquecera aquela viagem. O pior de tudo não foram as dores, s entira-se até orgulhoso delas, mas a horrível sensação de estar sendo moído, reduzido a um a pasta, corpo e alma. O gemer das rodas girando, interrompido por bruscos sacol ejões, transformaram-se num sussurro monótono e atordoante: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . .". A morte do pai causara-lhe uma tristeza imensa, irr eparável. As costelas quebradas tomaram cada ato respiratório um verdadeiro suplício, um chute no rosto da morte. Olhou para Déborah e lembrou-se das rodas girando as s uas idéias: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . ." - era justamente o que ela devia estar sentindo. - Quer um copo d'agua? -- Não, obrigado. Ficaram ali olhando um para o outro constrangidos e envergonhados, ela esperando que o medo e ele que o desapontamento rompessem logo o impasse angustiante. Sub itamente, Déborah se deu conta de que Querrtin Dòbshansky, além de amigo, era um homem , um homem sensual, um homem 260 capaz de despertar nela sentimentos inteiramente novos. Foram duas descobertas s imultâneas: a do seu vazio interior e a do desejo, um desejo feroz, ardente, recal cado durante anos e anos. Furii tinha razão; por mais biruta que fosse, era capaz de sentir, e como! Ergueu os olhos para Quentin que, indeciso junto à porta, procurava alguma coisa r econfortante para dizer antes de sair. - Você tem mais uma hora, tá? - Hum-hum. - Sabendo como devia estar feia, para não lhe ferir os olhos, virou a c abeça para o outro lado e esperou até que ele fechasse a porta. Lactamaeon, o deus negro, com seus olhos azuis e frios, começou a escarnecer dela: O pescador venceu. Colheu na sua rede o peixe que se recusa a morrer e ficar mo rto. Salta, contorce-se, joga-se de encontro às amuradas do barco, procurando dese speradamente voltar ao seu elemento natural. Privado da essência que lhe garante a

até que. a sensação de absolvição.As defesas que a impedem de ficar boa e se juntar de vez ao mundo já estão nas últim as barricadas. os passos solenes do réu caminhando para o cadaf also.começou a chorar. já estou.Será que não compreendes! .Porque doeu! . seja lá qual for ele". proclamou alto 261 em Yri: A todas as divindades de todos os mundos. Falou sobre a sensação que tinha de que tudo e stava sendo decidido à sua revelia.algum pre nuncio do que iria acontecer. Isto aflige o pescador. Seria inút il queimar. por oposição à anarquia que im lá obedeciam a toda uma série de fórmulas que. Sentou-se no chão. percebeu que houvera uma mudança importante: lógica. .. o local já queimado o tecido não se ressentiria decidiuqueimar num local novo. . o mundo começaram a mudar. o medo que sentira.Masaxme íortão repentina. dissimulada pelas camas. . . e perguntou-lhe intrigada o que estava fazen do ali. estou confinada definitivamente neste mundo. .Ei! Sabe o que acon tece quando a gente brinca com fogo? A gente se queima. foi como se Yr dissess lado. Finalmente desistiu. Aproximou-o lentamente da pele. do compreensível. ao que parece.disse Déborah . . correu para o consultório. mas não ousou pedi-la diretamente com medo de que a recusassem.. . . várias vezes.perguntou. aumentand o. sobreveio a crise. mas não consegui.. Tentou de novo. agora. predizíveis. e deixa as coisas voltarem a ser o que eram. . comunico que não haverá mais queim aduras nem fogos. . É natural que lutem desesperadamente para salvar o que puderem da d oença. com mais intrincadas. Eu já não sei mais como! O cair da tarde invadia suavemente a enfermaria. logo se ntia-sem seguida. . obrigando-a instintivamente a afastar o braço do ciga rro. o desespero de ter que fic ar três anos presa ao silêncio da cidade. .Puxa. Assim és tu para o mundo e para nós também . é isso que acontece! Dá uma dor chamada dor de queimadura! Furii franziu o cenho. e examinou o seu braço cheio de cicatrizes.Talvez "ela" soubesse que você precisava de ajuda. alegre e ass ustada ao mesmo tempo . pois. Quando chegou a hora de avistar-se com Furii. uma agulhada dolorosíssima rep eliu o braço num gesto instintivo. As relações se invertera . mas a dor sempre prevalecia sobre a vontade.... o calor foi aumentando. Vieram. Re-morra. .Antes. Descreveu o encontro com a assistente soxiaL£as sugestões dela. -. sem nenhum aviso prévio. foram se tomando cada vez .. apanhou. . Ele não quer pensar nos espasmo s mortais do peixe.exclamou atônita.Ah. quando os meus vínculos com e: líAgora passaremos para o outro Poço. Mais que depressa.Sorriram. . então. Como é que eu posso estar melhorando com crises assim tão repentinas e fortes? . virou-se para ela com um olhar interrogativo. é? . sempre havia algum sinal de advertência. e escondendo o levou para seu dormitório (dormia. as vertigens.gritou Déborah. 262 Quando começou a narrar a queda no . o "mal-dos-mergulhadores" e. ao chamuscar os primeiros fios de cabelo. A ajuda estava ao seu alcance . .bom.Sim? . o súbito alívio.vida. Deslocou o cigarro em brasa ao longo do braço até encontrar uma região que aind a estava viva. deixando amedrontada a acompanhante. Déborah reparou que uma auxiliar esquecera o cigarro aceso no cinzeiro.ao que parece. Quando soube que Déborah tinha voltado para a Ala D.. Déborah contou então a visita à escola.Tentei.É que Yr sempre foi o domínio da ava no mundo. As minhas fugas para o tempo. entre Ann e Mary Dewben). antes mesmo que ele tocasse a pele.O que que é engraçado? . . e irrompeu na sala exclamando: . sua recompensa e vitória. você não imagina como eu estou contente! . . o sofrimento é atroz. .. mas sempre.Engraçado. .Foi um reflexo! .Você andou se queimando de novo? . Furii reparou na acompa nhante que se postara atrás de Déborah.

O que é "Casca Seca"? . quando compreendi que estava viva. . .Onde você está? -. O mundo pode ter lógica. . Estás sofrendo? . vítima! É verdade que nos últimos tempos só me trazes beleza quando te sentes ameaçado? . eu não era uma pessoa infeliz.Estive com Anterrabae. menos razões Yr oferece.Ainda não estou preparada! .perguntava Furii.Ele soltou um longo e dolorido suspiro. Oferece desafios.as coisas podem ser tão claras entre nós duas quanto entr e você e os deuses. surpreendentemente. e todos ficaram tão decepcionados comigo.e seus olhos encheram-se de lágrimas . .Duas de miscelâniá. acho que es tou atolada no mundo. o coração disparando." Julguei que teria de passar a vida olhando aquela casca envelhecer.Leve-me com você. Sofra. . as punições de Yr foram ter ríveis.Isso só perfaz oito. . enrugar-se. . . como se quisesse reafirmar que era mesmo uma típica representante do mundo.disse Furii . são as queimaduras. que algum d . e esse desinteresse me trazia uma certa paz. está radiando teus dentes.E o que é que você acha disso? . quando cheguei aqui no hospital. realmente viva. e muitas outras coisas que eu não conh eço.Tem pena de mim! Tem pena de mim! Déborah ficou estarrecida. Ele tem razão.Está vendo . . Scomos uma única voz. me virei para ele e jurei que mastigaria aquela casca seca até extrair dela a última gota de alimento.O que serão estas lágrimas? . eu também e stive. . mesmo que aparentemente não esteja adiantando m uito. por que não a cospes fora de uma vez?" .lastimou-se Anterrabae . e Anterrabae disse: "Comeste todo o fruto da esperança. e que a minha substância era idêntica à dos outros. Simplesment e não me interessava por nada.Não posso parar de mastigar agora. . onde mais .contemporizou Furii com brandura . .. Quando você começou a fazer com que eu me importasse pelas coisas. sulcado de sombras e r eluzindo de suor e lágrimas. só deixaste a casca. Vê. só que você esquece por vezes qu e sou e sempre fui uma representante do mundo. reconhecendo as palavras de abertura de fórmula.Bem.indagou Furii num tom meigo.onde mais encontrarei essa comunhão que há e ntre eu e eles? . ele se pôs a tremer e a choramingar: . . entretanto.gritou Déborah. pelo visto. .Quando eu sofro. Era uma confissão séria.. sorriu meio a contragosto. Sim. . e um a de desespero. três dó que Yr chama "Casca Seca". Agora que recuperei os reflexos e instintos de "pesoa normal". . mas. . Anterrabae zombou: Essa 264 casca velha.Das dez unidades. Um dia. também. Queimaduras? Mas o fogo não te queima. Agora que as chamas te queimam. tais como matemática.. de gozar todas as suas vantagens. ligeiro e reconfortante.Está bem.e fez com as mãos o gesto de tumulto e renúncia que significava em Yri o mund o. quatro são de autocomiseração. . Déborah olhou para ela e. implorei que tivesse piedade de mim. Chamou em silêncio Anterrabae. um único olhar. embora às vezes seja um bocado traiçoeiro.pergun tou-lhe. queimam a mim também.. .sorriu timidamente. e e e veio.indagou-lhe.m: quanto maior é a racionalidade do mundo. . .Até quando você vai ficar com uma perna lá e outra aqui? .disse Furii com a voz meiga que usava quando queria objetar sem parecer agress iva. Déborah começou a ficar em pânico.mas você só será capaz de a barcar realmente o mundo. e uma aliada sua na luta que está t ravando para ganhar este mundo. Nunca lhe ocultei as minhas idéias. quando renunciar a e sse duplo compromisso. . Jamais conseguirás uma comunhão tão perfeita lá. tu sofres. está bem. esperando pela sua risada sardônica.Sorriram. .Assoou ruidosamente o nariz. Enquanto foste sublime e estiveste fora do alcance do fogo dos homens. As labaredas iluminaram o seu rosto. No entanto. Mas quando voltei dessa vez. Oh! exclamouDéborah angustiada. endurecer e finalmente ser jogada f ora. . Anterrabae recorria freqüentemente a essa alusão. e que os deuses não me podem ensinar.

os pacientes. para avisar aquela assistente social que eu continuo firme na idéia. . "Se ao menos eu pudesse explicar a ela. Essas e outras pequenas atitudes. que a prepararra-paTa òTexamês e que. 1 tubo de batom. Acordava an tes de" clarear o dia. Essas concessões eram a pr ova de que tinha conquistado um prestígio considerável. Assinado: H.'Co mo explicar a uma pessoa que nasceu e cresceu no deserto que há terras ricas e férte is a tão pouca distância?" . 1 par de sapatos. embora distasse duas horas do hospital.ia ainda lhe poderia custar caro. Durante o primeiro mês. revigoravam a sua força de vontade. ou até mesmo "bom proveito!". meio desaponta da.o homem da portaria cumprimentava-a gentilmente: . 266 29 O problema do diploma secundário resolveu-se miraculosamente: bastava provar ao Co nselho Universitário que a candidata conhecia as matérias do curso secundário para obt er um-certificado de equivalência que a isentaria de cursar os três anos de escola. Paciente: Blàu. Halle. e as dificuldades do estudo.pensou Furii com seus botões.Não diga.Como vão as coisas na ala? . permaneceu na Ala B. Mas hoje vou falar cona o doutor Halle. H. a sombra que projetava nas' calçadas se devia a outras razões além do. Matriculou-se na Escola Tutorial e Terapêutica. os funcionários do hospital limitavam-se a cumprir o que os regulamentos mandavam. No início. Déborah Especificações: Data: 5 set. depois de melhorar o suficiente para trabalha r e viver com suas próprias chaves no bolso. Na segunda semana. . uma viagem perigosamente hipnótica. Estava desabituada ao estudo e extremamente insegura. Exceto em casos excepcionais. a enfermeira da noite por sua própria conta acrescentou torradas e u m suco de frutas ao café da manhã. estarei pronta para começar quando quiserem. é claro. O orgulho e a obstinação deram-lhe a força necessária para enfrentar as qua tro horas diárias de viagens. Se o pes soal daquela escola que ela me mencionou não fizer objeções. Hora: 8:30 Dr. . quando provou que realmente estava disposta a freqüen tar as aulas.00 para as passagens de ônibus suburbano (assistente social e requerente) 265 4 vales para ônibus urbano (assistente social e requerente) Requisitar itens espec ificados acima na pensão onde habita s paciente. REQUISIÇÃO Ala: D Administrador da Ala: Halle. foi muito difícil. estão furiosos comigo. Desde entã . que demonstrava m um certo respeito por ela.Não."bom dia". mas logo tcomou fôlego e mergulhou com vontade nos livros. Cr$ 80.símbolos de sanidade e resp onsabilidade . 27 grampos de cabelo 1 casaco. por exemp lo. chegava de manhã ao portão com seus livros escolares . . tomava uma xícara de café (autorizada pelos médicos) e ia para a escola.perguntou. 1 vestido apropriado para uso na cidade. Em pouco tempo.Bem. No mês seguínte. e a equipe médica. L. voltou para a p ensão. doutôra Fried. 1 par de meias. pôr do sol. L. Quando. Com eçou a entender porque Doris Rivera. e só ia ao hospital para o jantar e para as sessões côm a. representava uma ponte bem mais rápida e s egura entre o "Nunca" e o "Talvez". os professores conseguiram abrir uma pequena fenda no muro que a enclausurava. . Algo de especial? . fora tão econômica em suas explicações à audiê . Data: 3 set." .

Déborah prosseguiu caminho. arremess adora de camas. não preciso de nada. Déborah também vira a sua som267 bra estender-se alguns fios de cabelo a mais. ela conseguiu aquele emprego que queria.. pensando em todos os canos i ndiscretos de água fria que corriam pelo hospital. não. Rodeada pela multidão . pesos e propulsão. . chegou a ser quase divertido.Não. Jogue alguma coisa na cabeça dela e sej a bem rude para que ela saiba que fui eu. A velha ber rando. Quantos mortos ressuscitariam? De todas as mulh eres da Ala D.Tenho que ir agora. parecia um motor .Quer que eu lhe traga algo de lá de fora? Conheci-a o suficiente para saber que jamais pediria.Não. Lee Miller vai ser transferida para outro hos pital. . até então concentradíssima na e scaramuça.Você está bem? . . mais ou menos a mesma coisa. gênio na arte das alavancas.Ah. isso era muito mais do que uma aula de Latim. muitas ficaram.respondeu sem muita convicção. tchau Déborah. então. Coral". ela enfrentava cinco vigorosos atendentes sem arredar um pé. . . entrara em ação de novo! Como é que tinha. para não prejudicar o estágio dela. Os olhos penetrantes da velha estremeceram. quantas seriam livres algum dia? Durante seus três anos de internam ento. graças a um imenso esforço e. . Coral. dirigindo um "Oi. sim.Altos e baixos. embora c ontinuasse tolhida pelos altos muros do hospital. . . era um mistério. insinuaria a lguma coisa em código. é verdade? . Das que partiram. O quadro era ao mesmo tempo hilariante e comovente. prontos para recomeçar a luta. Mande um "Alô" por mim. Coral passeou um olhar apologético ao seu redor como se fossem todos um únic o e grande inconveniente. sabia? . uma identificação plena de idéias e de sentimentos. .Como vai Carla? Você ainda a vê? . Mas o casamento é segredo. Quando Déborah viu o objeto daquela c uriosidade toda.Ah.É. . . Ni nguém sabe. Sylvia parece um pouco melhor. A Srta. Déborah ia pensando nela. o ônibus vai sair a qualquer momento. Não me diga que está de volta! .Déborah a encarou firme.Não. Um dia.. quando muito. não sabia não.Estou. Ao se aproximar.. Resmunga va baixinho uns sons sibilantes. poesias de Horácio que iam c air no solo inculto e tenebroso de Déborah. o fato de ela ter saído a transformava numa figura legendária. .e as duas trocaram um sorriso cúmplice. retesou os músculos e a luta recomeçou. é verdade que o Dobsha nsky se casou com uma enfermeira de uma das alas masculinas? .. São as minhas sessões de terapia.Ouvi dizer que foi passar os feriados de Natal em casa. Helene está conosco de no vo.. Era difícil cc ciliar a dor que via estampada de forma nítida no rosto de sua amável professora com a imagem de arremessadora de camas aficcionada por Catulo. . Tinham conseguido estabelecer entre si uma coisa que era mu ito rara naquela doença. . Srta. voltou-se sorridente: . . . na D. os contendores guardavam posições de combate. A velha endureceu os olhos. .a ávida e aterrorizada de pacientes na Ala D. No ônibus.perguntou Déborah. muitas caras novas vieram e partiram. Srta. 268 . . sabendo que perguntar mais seria uma intromissão.Oi. Enquanto as duas conversavam amigave lmente. uma estagiária.pergu ntou. Coral. be .Bem. do modo mais engenh oso possível: simplesmente fazendo com que lutassem uns contra os outros. . A Srta. para as doentes cujas esperanças ali definhavam.Como está o pessoal? . . Coral. conseguido escapar da Ala D. Déborah. reparou que faziam movimentos extremamente lento s como se estivessem nadando debaixo d'agua. mas continua muda. Ei. voltando de uma sessão exaustiva com Furii. através da espessa porta de um quarto de reclusão. Déborah avistou uma multidão de pe ssoas no saguão. entrecortados de obscenidades. .Tchau. muito mais para os a uxiliares do que para ela propriamente. só a muito custo conseguiu conter o riso.. A Srta. . . Dessa vez foi mais fácil. com o qual nada tinha a ver.Sim.

meninas e ncantadoras. com uma cara tão transtomada que Déborah teve medo de as pessoas julgarem que . e no entanto continuava sendo pária. Nunca deu provas de ins anidade em sala de aula! Não é nenhum gênio em matemática. O fato de estar freqüentando uma escola p ara crianças com problemas de leitura e defeitos de fala não lhe trazia problemas.retrucou Idat friamente. Déborah espreitava-as de longe: aquele era um mun do onde ela tinha fracassado. o terceiro. Em seguida. sem precisar ostentar precoci dade para ninguém. risonhas. Claro que não! . Aquela noite. esta é a verdade. a Lactamaeon que te ama. Esteja ou não doente. e xceto o de ter que se sentar em mesinhas minúsculas. o uniforme certinho. Nós scomos contra essas suas criatur as! Escute bem . disse o professor de matemática. Se a sanidade expressava-se em metros e horas. um t ambor e o quarto um tamborim. com o passar dos meses.perguntou Déborah. Que dança? A Grande Dança. um a um. as matérias iam se acumulando em pilhas e pilhas de cadern os de anotação. você é uma das dançarinas. Vestia-se igu al a elas. ao Mundo Intermediário. picaram a folha de papel e atiraram os pedaços ao vento. para o seu quarto à tarde é que o mundo machucav a. faceiras. e isso a enchia de contentamento. realmente vivas e livres? Podia-se contá-las pelos dedos! Ela estremeceu. Inesperadamente. Tua velha realidade. Quantas estavam re almente A fora. (Era uma metáfora Yri equivalente a adulação .perguntou-lho Idat em Yri . Déborah convidou a companheira que dividia consigo o mesm o livro de hinos para tomarem uma soda juntas. Começou a gagu ejar. Se tu nos deixares. A menina ficou lívida. a mim.essa menina está dando um duro dos diabo s. compreende? Os professores e o Coletor puseram-se a anotar numa folha de papel.m uns três quartos tinham ido para outros hospitais. O primeiro trazia um pistão. copiaram uma por uma as antiquíssimas palavras: "Tu Não Ês o Os Outros". a pareceram em Yr para falar com Idat. o segundo. Sentia-se à vontade com os prof essores.Dificilmente um corvo de prata. e. . uma imitação grosseira de colegial. Algumas progrediram o suficie nte para viver uma espécie de meia-vida em regime de externato. Aqueles volumoso s manuais lhe davam um certo orgulho.disse o de matemática a Idat . por mais que soubesse que aparentava ser melhor do que realmente era. Nós vamos Dançar. Re dobraria os esforços esta noite com os livros. o aprendizado media-s e nos quilos de livros que carregava diariamente para a escola.Trago véus que me d issimulam e me tomam misteriosa: Gratifico. com quem rirás? Quem te deixará à vontade? Onde mais encontrarás uma luz como esta? Aconteceu então uma coisa estranhíssima: as imagens de seus professores de escola. os personagens do Coletor começaram a aparecer.por causa das imagens e xcessivamente reluzentes). Ela é pontual e obediente. O ônibus ia lotado de jovens e ruidosas estudantes fazendo algazarra. na igreja. Não sou igual a este mundo que vês aí? . como se algum dia viesse a pesar no mundo tanto quanto eles pesavam nos s js braços. Soü bela. um violino. inteirinh a. Onde vai ser? Nos cinco Continentes. mas trabalha duro para aprend er. Vocês vão aderir ao Coletor? Vocês também? . Comparece às aulas com os lápis "0 " V apontados. Só quando voltava . seus olhos de pária observavam-no fascinados. disseram para Déborah. Os professores aplaudiam a sua tenacidade e ' resolução. disse o professor de inglês. nem mais nem menos! Dificilmente uma chuva de estrelas . a fórmula da separação.respondeu o professor de inglês. estudando sozinha. queimando as pestanas. em Yri e em inglês. e sem precisar ficar preocupada com estar entravando o estudo d os outros. a Anterrabae que é teu amigo. E quem vai participar? Você também. . Aí está.

. . tão negro em seu negro ginete? Nem em Anterrabae? Nem em Idat. . . . desprendendo fagulhas e. expirando .Confie em mim.Me diga uma coisa. . como numa cruzada medieval. poderá decidir se é ou não uma barganha decente. ..E se eu fosse apenas Aparências. entregar-se completamente. as partes bel as e sábias de Yr. e nfim.Não. a proprietária da pensão ficou ontem à noite cuidando da neta. enquanto as lágrimas de Idat eram diamantes. Idat e todas as outras divinda des dos inúmeros reinos existentes em 272 Yr também teriam que ir para o lixo junto com o Poço. você ama os seus pais? E a sua irmã. .Amo.....O mundo é vasto e tem espaço de sobra para o discemimento.Também. Anterrabae. eles eram secretos! Você já conhece as leis que proibem misturar os mundos.perguntou Furii com um ar divertido. .disse Furii. .. Retcomou à sua vesse acontecido..Como você se sente agora que está livre de todo aquele lixo velho e fedorento? . Excetuando-se uma ou duas amigas no hospital.ela tivesse dito alguma coisa as. agora que ela se tcomou uma mulher de vez e está tão linda? Devo esquecê-los? E o Yri que é capaz de expressar cert as sensações.Déborah. . implorando aos céus para que continuasse exatament e como estava . Lactamaeon chorava sa ngue tal como Édipo. Por que você nunca desenh ou Anterrabae ou qualquer um dos deuses? . . só até aí. ao mesmo tempo em que invejava a pureza das outras p essoas. você pode superar! Não me diga que você ainda se acha ven enosa? .Mas você tem amigos.Na cidade? Cantamos juntos. certas realidades como nenhuma outra língua..E à sua amiga Carla? . a quem você nunca assassinou ? . Imaginou aquelas piedosas senhor de Cristo. .Você tem certeza de que não é alguma atitude sua? . pelo menos. Anterrabae rugiu furioso. Era um hino 271 indecente à menina.. as dele eram chispas incandescentes. o Censor. freqüentamos as mesmas aulas à noite. sua velha lixeira mental! . a essa altura dos acontecimentos não pode haver barganha decente. É difícil pensar diferente assim de imediato. e eles se recu sam a olhar para mim..Juro que é verdade. você co mpreende? Você tem que primeiro assumir o mundo. . só o suficiente para sentir que um cigarro queima. um bebê de dois me ses de idade.Conte-me um desses momentos felizes. travestidas em Defensoras ntra a herege. Devo esquecê-lo também. com as do mundo.. . só que é difícil livrar-se de antigas convicções assim de uma só vez. avançando. Isso. . Dependendo do que você mesma f izer deste comprometimento. perguntando mais do que afirmando. aí sim. Essa última imagem trouxe-lhe à mente uma lembrança que contou dist raidamente. coh fiando na minha palavra.E começou a choramingar. veio ao meu quarto e simplesmente pediu: "Déborah . você toma conta do nenê até eu voltar?" Aí ela saiu e me deixou ali sozinha. mas não esqueci o poder que t em. mas talvez tenha chegado a hora de misturar as partes boas.. Sempre fui mui cautelosa com o meu nganon.i ndagou Furii.Sim. co invisibilidade e continuou a cantar como se nada hou sobre a Compaixão.Ora.Tem que ir tudo? Amontoa-se e joga-se tudo fora? .inspirando..Bem.pediu Déborah baixinho.E eu amo você também.E quanto aos meus personagens bons? Não devo mais pensar em Lactamaeon. Isso seria tão importante para fortalecer o comp romisso! Déborah viu Anterrabae caindo rápido. já que não confia na de ninguém. Lactamaeon. Duvido muito que mudem.E por que haveria de morrer nas suas mãos? . sempre a amei. . junto com os flagelos do passado? . Ela precisou sair.e não morresse nas minhas mãos. . Adolescência de novo? .. o Coletor. mas são poucos. . viva só um oitavo de centímetro da superfície para de ntro. a Puni ção. Existem momentos felizes. Fiquei co m aquela criança uma hora e meia.

Déborah! Déborah! Saúde não é simplesmente a ausência de doença.. suando e murmurando palavras desconexas. A esperança acabou subjugando de vez o medo. . debr uçados sobre as provas como blocos de granito. onde encontr ou outros candidatos que se aventuravam também a tragar de um só gole o curso secundár io. como também porque. Quando a carta escorregou pela ranhura da caixa de correio. ainda eram viáveis. Haviam combinado na escola que ela continuaria seus estudos até a divulgação dos resul tados. e acabou conhecendo Tarzan no mínimo tão bem quanto Hamlet. DEPARTAMENTO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO Os Exames de Equivalência para a Escola Secundária serão realizados no dia 10 de maio na sede do Tribunal do Condado. Déborah pôs sua prova junto com a dos outros e saiu da sala. receosa de que pudesse es quecer ou perdêlos. entremeada de insuportáveis crises de tédio. Os candidatos aos exames deverão preencher e envia r os formulários anexos. De início. . Déborah pôs de lado o aviso. Suas notas tomavam-na uma candidata bastante promiss ora a qualquer faculdade.Se eu desenhasse Lactamaeon sob a forma de falcão 273 coz num para você se dia ou de cavaleiro. não acontece mais.Uma vez eu fui à casa de uma senhora e vi sangue escorrendo dos ladrilhos da inha. recebeu finalmente uma carta do Conselho Universitário Estadual. e foi. Ficou horas decifrando nuvens no céu. Já era tarde demais para fugir ao compromisso que assumira com o mundo. I ndicaram-lhe uma sala poeirenta. Estava s urpresa de que o momento tivesse chegado tão cedo. por mais que tivessem perigado. Foi um período maravilhoso este.-Talvez eu comece mesmo a destampar Yr. e recuperavam agora o terreno perdido. comunicar-lhes que s uas esperanças. Queria.Ela sentia-secomo se estivesse nte de uma cega a quem procurava explicar a cor da luz. não só para afastá-la das preocupações e do ócio. Quando o tempo e xpirou. sobretudo. Eu vivia vendo coágulos de sangue nas ruas e as pessoas se transformarem a multidão de micróbios. e comparecer ao referido local na terça-feira. você o encararia como uma manifestação de minha velha maluquice ou co mo uma "contribuição"? . dia 10 de ma io.Ai. sentou-se diante da mesa e tentou rir daquele medo besta . tentaria o próximo exame. acompanhou o desabrochar dos botões nas árvores frutíferas que havia em frente à Igreja Metodista. Sentia uma ansiedade e uma excitação febris. Caso o candidato não cumpra esses dois requisitos. Déborah a rmou-se de coragem e de sangue-frio e foi para o Tribunal! Era um prédio antigo. será automaticamen te desqualificado. ficou surpresa em encontrá-l os ali. estourando de orgulho. caso fosse rep ada. Quando finalmente chegou o dia. No final . Apaixonou-se por al amos. junto aos esboços para um desenho de Anterrabae. apesar de proteladas por tanto tem po. d espreocupada. . com paredes revestidas de lambris. também tinham deixado escapar alguns com passos no ritmo da vida.do mês. Estudou com calma. A briu-a excitadíssima e quase caiu para trás quando soube que tinha sido aprovada. Um mês inteirinho de sossego e preguiça.Primeiro eu teria que ver o desenho.Está bem . sem perda de tempo colocá-los no correio. Isso. um primeiro calafrio de medo lhe subiu pela espinha. mas logo a voz sensata de McPherson cochichou-lhe no ouvido: "Lembre-se que você não é dona de todo o sofrimento no mundo!" Reconheceu humildemente que eles. As duas semanas anteriores aos exames foram consumidas numa grande expectativa. . embora não fossem prisioneiros nem insanos. Foi ver todos os filmes que passaram na cidade. pelo menos. 274 um grupo de operários de mãos calosas. incapaz de aval iar qual fora o seu desempenho. Voltou para seu quarto. Preencheu imediatamente os form ulários anexos. para trans mitir aos pais aquela segunda boa notícia.disse Déborah. Chamou-o de s ua "infância". às 09:00 hs. Telefonou para casa. Não foi de alguns sintomas que nós demos tanto duro! . Po dia se considerar num nível educacional equivalente ao dos estudantes que haviam f reqüentado a escola secundária. tomando a precaução de verificar duas vezes se anotara o endereço corret amente.

. Fora-lhe necessário reunir todas as suas aptidões para chegar até onde eles estavam rindo e brincando. de arbustos flore scentes. A jaqueta dele pendia negligentemente dos ombros magros da menina. onde ainda treinavam quatro meninos.. . não cometi um deslize. nunca. sentindo um imenso desamparo. . de uma em uma. . As caras das mulheres do coro da igreja pareciam desafiá-la do estacionamento dos reboques. Acabaria consumindo toda s as suas forças apenas para manter-se viva. Ha! As mãos dele nunca acariciarão teu rosto. . entretanto. Ia só para cumprir a ve lha promessa. estudar.Esther ficou felicíssima.Não faltei uma vez. caminhavam d uas pessoas. . Os raios do sol continuavam aquecendo a sala. Atravessou os pátios da escola. extremamente ma275 goada com a reação do pai. Lactamaeon uivando como um cão.zombou Anterrabae . menina preguiçosa! Luta.berrou Déborah.. Saiu cabisbaixa para a rua. . envoltas numa película dourada de sol. iria olhar pelas janelas. se fosse aprovada. mas a respo sta foi também uma sonora gargalhada carregada de desprezo. . chamou Anterrabae. então. Agora já não tinha mais graça. Porque ele reagira de uma forma deplorável? Havia empenhado naqueles exames todas as suas energias. emprego.Mas as gargalhadas estrepitosas afogaram suas palavr as.. robustos e saudáveis. e começou a margear o imenso campo de futebol.mas nem o sol. passou diante do estacionamento de carros-reboque. Prometera a si mesma que. . Era quase noite. pontual. Tinha dezenove anos e um diploma do curso secundário.Nunca terei isso. se jamais me farão carinhos assi m. Pensam que foi fácil . Aguardavam-na todos no cemitério: Anterrabae cintilando no escuro. Mas eu quis! . Contornavam vagarosamente o gramado. . num gesto amoroso. Sentiu-se de repente extremamente cansada e sentou-se de encontro à tela que cercava os fundos do campo.Ótimo. De que adianta lutar. Ha .sussurrou para si mesma em Yri. Surgiu diante dela. toda a sua determinação. . . e só descobriu que o mur o continuava ali e continuari-a sempre..repetiam incansavelmente sem nunca pronunci ar o seu nome. Ha. o movimento lá dentro. nunca. . nem as fragrâncias eram mais as me smas. . Podia agora. .Estou muito orgulhoso . a essa altura. . Os meninos corriam no gramado perseguindo as sombras sinuosas projetadas pelo pôr do sol. e seus pais. no final das contas. Déborah. "Boa tarde! Boa noite!" . Paravam de vez em quando e trocavam palavras que sem pre terminavam em risos ele. quando muito. nu nca. espere só qise eu vou chamar a família toda! Vão fic ar tão orgulhosos! . bem arrumada. subitamente. Eram jovens. vamos. o ar contin uava carregado de fragrâncias primaveris . juntou-se a ele uma outra figura que Déborah se . Uma moça esbelta e graciosa. Déborah repôs o telefone no gancho.por um tubo de alimentação. de terra quente e úmida . Carla já te disse isso há muito tempo . toda a sua força de vontade. Sinto-m e um pouco orgulhosa. vindo em sua direção. procurando a trajetória ígnea. Déborah levantou-se e foi caminhando vagarosamente em direção à cidade. Quentin há de te oferecer água.resmungou Lactamaeon empoleirado na cerca. Consumi todas as minhas esperanças cantando e costurando com vocês. .. acariciava os cabelos ou o rosto da moça 276 Déborah falava sozinha e em voz alta. o Coletor provocando-a com zombarias Dá duro. comparado a ela. Jacob.-dá tudo no mesmo: "bom dia" e "boa noite" e nada mais. estariam alardeando a boa nova pela cidade de Chicag o inteira. de mãos dadas com um rapaz. .Que maravilha! É maravilhoso! Oh.di sse. .. mostrou-se quase frio: . . e não são capazes se quer de lembrar meu nome. . Fui às aulas todos os dias. e.Sua voz parecia que ia desfalecer. do brando-se de rir. mesmo quando estava doent e. e ainda estava dois anos atrasada. suplicante. de ninguém. resistir. se jamais andarei de mãos dadas com alguém. muito bem. Estudos. trabalhar. sua desajeitada. caminhando em direção à e scola. fez o que todo o mundo faz com a metade do seu esforço. Encostou a cabeça na gra de. como os loucos fazem: . As mãos de ninguém.de seiva e de flores. . avistar o que havia de extraordinariamente belo do lado de lá do muro. Na outra extremidade do campo.. toomou a estrada que circundava o velho cemitéri o católico.

Srta. Sentia-se culpado de não ter presenciad o o incidente. embora.Vais te deitar em prados floridos. Era um livro cheio de gravuras que havia na biblioteca do avô. . num livro. Agora. escutando a zoeira ensurdecedora. Estava bastante aflita. anos atrás. A visão desvanecia-se. o deus flamejante que caía perpetuamente era nada mais nada menos qu e o Satã de Milton. o tumulto ia crescendo. no íntimo. mas a vida continuou pulsando inflexível. as dimensões 277 precisas. já estavam distribuindo as bandejas para o jantar.. por favor. e ra presença obrigatória em qualquer lar culto: "Paradise Lost" de Milton. ja mais! Perseguiram-na aos gritos pela estrada. O Poço. muito tempo atrás. . p referisse não ter de arcar com o peso esmagador das virtudes de tanta gente. Soltou um longo suspiro. nunca! Estudar e trabalhar. quando iam visitar o avô. E stava aterrorizada.Está se sentindo bem agora? . Divisou os dois postes de luz que ladeavam o po rtão de entrada. embora estivesse sentado junto a elas. Dobshansky entrou de novo para examiná-la. . os deuses começar am a imitar as respostas de seu pai ao telefone. O Coletor zombava do sorriso de Quentin e dos meninos do campo de futebol. querendo exaurir suas forças e mor rer de uma vez. Coral devia estar em reclusão de novo. ela estava sentada de novo. Anoi tecia. Dessa vez. O auxiliar repreendeu-as sem muita convicção.. Mary Dowben murmurava a um canto fórmulas incompreensíveis. criou-os o Senhor".Está se sentindo bem. pôs o roupão andrajoso do hospital e saiu a passos lentos para a ala. socorro!" . trazia uma fis ionomia cuidadosamente depurada de todo e qualquer sentimento que não fosse aquela amabilidade neutra de hospital. Quando ele e Cleary soltaram-na. "Macho e fêmea.Três toques de cigarra: emergência.. nos quais via se . Encontrou as mesmas fisionomias inexpressivas ou hostis. Passeou os olhos pelos rostos que a encaravam com hostilidade. Um segund o depois.Acho que sim.lembrava de já ter visto há muito. como se nada tivesse acontecido. tolerando o insolente músculo que persistia em bombear no peito. Voz. refazendo-se ainda do terror. invectivava o Co letor . a sonhadora de reinos misteriosos surrupiava furtivamente o soberbo ar canjo para transformá-lo no primeiro habitante de seu mundo particular. pelas ruas sombrias e desertas da cidade .. . e amizade. 278 . Emergiu de volta para o eterno recomeçar. divertindo-se com o esforço que ele fazi a para não deixar transparecer a surpresa. Blau? "A última saída: fazer algum sinal".Tive que comunicar à proprietária de seu quarto que você não ia dormir lá esta noite e q ue estava aqui. Srta. gravara a tempestuosidade e a veemência das imagens. Tu não vais criar nada. que passaram de raspão pela cabeça de Déborah. Felic itou Quentin por seu casamento "secreto". Es tava quase chegando ao hospital. Déborah sentou-se e olhou para a substância morna e nauseante q ue havia no prato.a agressão de Helene. A Srta. A crise tinha durado qua se vinte e quatro horas. Portanto. Déborah começou a lutar e a se contorcer sob as amarras. Alguém pôs-se a gritar em Yr mas ainda pôde ouvir o outro som . A exaustão veio. em segu ida .Ela é uma excelente pessoa . nem mesmo Anterrabae era seu! Enquanto isso. Ao pass ar pela igreja. . embora já estivesse fora de moda. Depois de algum tempo. Os manuais haviam vencido. Helene a irritava por amargura.Como vai. nada. Ela ficou preocupada por causa da sua escola e trouxe seus livro s e algumas roupas. . . s em o saber. e que.confessou Déborah com sinceridade. "Subir as escadas até a port a. Déborah passou a mão pelos cab elos gosmentos e lembrou-se de uma outra cena idêntica .. in veja. A origem d e Anterrabae. onde cantava todas as quartas-feiras e domingos. Déborah caminhava como que por instinto. abra-a. Alguém aí. De repente. Folheara mil vezes aquelas gravuras. Déborah caminhava com os olhos vazios. Enquanto o artist a que havia nela estudava os anjos gravados em água-forte e as linhas bem esculpid as. Mary ergueu-se e atirou longe a xícara de café e o pires. impassível. Blau? E. .. Breve despencaria no Poço. Por ainda estar viva.

e ainda assim. Adeus. Furii afirma que será uma contribuição. então. ASSEGURARAM O CONTATO INDISPENSÁVEL À MODErnA SOCIEDADE INDUSTRIAL. pois sua so brevivência dependia justamente da supressão desses significados. Lembra-te dos rostos hostis.Sua puta nojenta! Me solte! gritaram do dormitório. Quando retiraram as bandejas do jantar. e seria tão importante que elas entendessem! Sob certos aspectos. de pé novamente para mais um "ro und". Um símbolo vivo de esperança e fracasso. . sua persistência. é selvagem. o medo e o ódio de Mary permitiram a Déborah compreender que a crise começara no mo mento em que pôs o telefone no gancho depois de comunicar aos pais a notícia triunfa l. Mary: . a imagem do terror que elas se ntiam ante a possibilidade da recuperação. Dis simulara-a na agonia e no medo. Déborah pediu que trouxessem os seus livro s. que se tornara uma nova D oris Rivera. Adeus Yr.. Ainda assim eu prefiro o mundo. Meu compromisso com o mundo será definitivo. dona de um p resente e de um futuro viável. Estaremos esperando até que nos chames de novo. terminaria por conduzi-la a um lugar onde podia enfrentar em segurança o momento definitivo da opção.Será que a insanidade é contagiosa? Se fosse. Mas o mundo não tem leis. Pássaro-um? Não posso mais fazer isso. AB E BC SÃO IGUAIS ENTRE SI". . mas ainda não sei co mo. traçara os contornos finais da opção. sussurrou Anterrabae. Terei que aprender. . eu sou como os outros. que constituía a única fonte de suas defesas e de sua força . Era chegada a hora de firmar o verdadeiro compromisso. Yr finalmente í 279 estava forçando-a a optar." . Lembra-te de Hitler e de Hiroshima.murmurou Déborah. . Não importa. nas terríveis quedas no Poço. portanto. O incidente da xícar a. uma newtoniana. Adeus. Compreendeu também a razão pela qual jamais poderia explicar a essas pessoas a natureza de seus fracassos e da. a realidade era um domínio tão pessoal quanto Yr. O auxiliar entregou-os com reverência. "E AMBOS. AC. . Constantina: .Tu não és como os outros. Lembra-te da tua própria infância. como se entregasse símbolos sagrados.Jenna vai ter uma crise de novo. vou de qualquer jeito. e do desejo que sentiste ao ver aquele casal de mãos dadas. Pássaro-um.Não.Agora é pra valer . . . Não. 281 . Anterrabae.refletirem sentimentos contraditórios. "UMA LINHA QUE DIVIDE EM DUAS PARTES IGUAIS UM ÂNGULO DE 80 GRAUS FORMA DOIS ÂNGULOS QUE TOTALIZAM 80 GRAUS". 280 vou. É melhor providenciar logo um cas ulo. Compreendeu. da dor e dos atestados de sanidade que te esperam. seus porcos malditos" "A INVENÇÃO DA DINAMITE TOrnOU POSSÍVEL A LIGAÇÃO DE COSTA A COSTA PELAS ESTRADAS DE FERRO ". não vou chamá-los. "UM TRIÂNGULO EQUÍLÁTERO É AQUELE CUJOS ÂNGULOS OPOSTOS. levando surra atrás de surra. vou entregar-me ao mundo.Eu sou a primeira esposa secreta de Eduardo VIII. . Rei Abdicado da Inglaterra! .Será que vocês não vêem que eu estou sofrendo. Chamem Ellis. apenas porque faltava amadurecer sua própria capacidade de discermir a diferença entre os problemas e os s intomas. ESTRADA DE FERRO E TELÉGRAFO. Ao consentir em se tornar um ser no mundo. . ao retinir a sineta. Jamais chegariam a distinguir com clareza a dimensão dos significados. "OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS AFETARAM A EXPANSÃO OCIDENTAL DE MUITAS MANEIRAS". Talvez então. cambaleando como uma bêbada. . Ela abriu o primeiro. Não nos pouparás como escudo contra a tua casca seca. a doença. o hospital poderia nos vender como anticorpos. .

TOTEM E TABU Livro 5 .A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALITICO Livro 7 . 196 .TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE Livro 3 .Tel. 253-6093 PEQUENA COLEÇÃO DAS OBRAS DE FREUD Livro 1 .Impressão: José Fagundes do Amaral & Cia Ltda Rua do Livramento.0 MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO Livro 9 .OS CASOS CLÍNICOS Livro 6 .SOBRE OS SONHOS Livro 4 .0 FUTURO DE UMA ILUSÃO (em preparo) Livro 10 .ESBOÇO DE PSICANÁLISE Livro 8 .CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE E CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA DO AMOR Livro 2 .MOISÉS E O MONOTEÍSMO (em preparo) .