NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Hannah Green Romance e psicanálise - 2ª EDIÇÃO Direção: Jayme Salomão - IMAGO EDITORA

LTDA. Rio de Janeiro Volume 1 - A HORA DE CINQÜENTA MINUTOS Uma coletânea de Contos Psicanalíticos Verídicos de Robert Lindner Volume 2 - A VIDA ÍNTIMA DE UMA ESQUIZOFRÊNICA Operalores e Coisas de Bárbara Brien Volume 3 - O HOMEM DOS DADOS de Luke Rhinehart Volume 4 - O FILHO DO AMOR Um auto-retrato de Mary Hanes Volume 5 - NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS de Hannah Green NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Av. Paulista, n° 2518 - Térreo Telefone: (0xx11) 3258-8599 emporiopaulista@terra.com.br Título original I NEVER PROMISED VOU A ROSE GARDEN. Traduzido da edição publicada nos E.U.A. em 1964 por The New American Library, Inc., Nova Yorque. Copyright (c) 19 64 by Hannah Green Editoração Coordenador: Pedro Paulo de Sena Madureira Tradução: Jayme Benchimol Revisão tipográfica: Maria Beatriz Nascimento Gomes Capa: Renato Sérgio Brando - 1974 Direitos para a língua portuguesa adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA., Av. N. S. de Copacabana 330 10º andar - Tel.: 255-2715, R io de Janeiro, que se reserva a propriedade desta tradução. Impresso no Brasil Printed in Brazil PARA MINHAS MÃES O carro percorria uma bela região de campos e fazendas, em pleno outono, atravessa ndo curiosos e antigos vilarejos cujas árvores de troncos retorcidos davam, com su as tonalidades vivas, um colorido pitoresco às ruas. Seus ocupantes falavam pouco. Dos três, o pai parecia o mais cansado. Vez por outra, interrompia o pesado silênci o com migalhas de conversa, coisas casuais, sem importância, que mesmo a ele exasp eravam. Voltou-se, uma vez, para o rosto da menina refletido no espelho retrovis or e perguntou: - Você sabe, não sabe, que eu não passava de um tolo quando me casei, um tolo consumado? Não tinha a menor noção de como educar uma criança, do que significav a ser um pai. Defendia-se, e sua defesa também era em parte uma agressão. A menina c ontinuou calada. A mãe sugeriu então que parassem para tomar um café e, num esforço dese sperado para melhorar o clima de tensão, disse que parecia realmente que estavam f azendo uma viagem de férias, em pleno outono, com sua filha adorável, e numa região ma ravilhosa. Encontraram um restaurante à beira da estrada e pararam. A menina saltou ligeira, e encaminhou-se para o motel, nos fundos do prédio. Tão logo se afastou do carro, os olhos dos pais se voltaram sobressaltados: - Deixe, ela está bem! - tranqüilizou o pai. - Esperamos ou entramos logo? - perguntou em voz alta a mãe, falando consigo mesma . Dos dois, ela era a mais analítica. Antecipava-se às coisas, planejando tudo minuc iosamente - como agir e o que dizer - enquanto o marido se deixava guiar, não só por comodismo, mas também porque geralmente era ela quem tinha razão. Naquele momento s entia-se confuso e só. Deixou-a entregue a seus planos e especulações, inclusive porqu e era assim que ela se consolava. Ele preferiu se manter em silêncio. - Ficando no carro - dizia ela - estaremos ao alcance dela, caso precise de nós. S e ela sai e não nos vê... Por outro lado, devemos mostrar que confiamos nela. É import ante que sinta que confiamos nela...

Decidiram finalmente entrar no restaurante, procurando aparentar a maior descont ração possível. Sentaram-se numa mesa junto às vidraças, de onde podiam avistá-la dobrando esquina do prédio, vindo em sua direção. Procuravam observála como se fosse uma desconh ecida, filha de alguma outra pessoa a quem tivessem sido apresentados naquele in stante, uma Déborah que não era a deles. Estudaram com atenção o corpo adolescente e des gracioso: julgaram-no bom. O rosto era inteligente e vivo, embora, para dezessei s anos, sua fisionomia ainda fosse excessivamente infantil. Estavam habituados à sua precocidade meio tristonha, mesmo não a reconhecendo no ros to familiar que agora procuravam tratar como estranho. O pai pensou com seus botõe s: "Como é que desconhecidos podem ter certeza? Ela é nossa... sempre foi nossa. Ele s não a conhecem. Trata-se de um erro - só pode ser um erro!" A mãe, por sua vez, disse a si mesma observando a filha: "Minha expressão. .. não deve estar aparentando nada de anormal, nenhuma ruga - uma expressão ideal." E sorriu satisfeita. No fim da tarde, pararam em outra cidadezinha e jantaram no melhor r estaurante, numa atitude de desafio e aventura, pois não estavam vestidos de forma conveniente. Terminado o jantar, foram a um cinema. Déborah parecia contentíssima c om a noitada. Brincaram durante o jantar e durante o filme todo; depois, caminha ndo sob a noite densa da região, conversaram sobre outras viagens, congratulando-s e mutuamente cada vez que recordavam algum detalhe engraçado de outras férias. Encos taram num motel para dormir, e Déborah ficou num quarto só para ela, privilégio cuja i mportância nem mesmo os pais que tanto a amavam podiam avaliar. Já no quarto, sentados frente a frente, Jacob e Esther Blau perscrutavam o íntimo de cada um, perguntando-se por que, agora que estavam a sós, não conseguiam despojar-s e de suas poses, respirar livremente, relaxar, e criar um clima de paz e esponta neidade. No quarto vizinho, separados apenas por uma delgada parede, podiam escu tar a filha trocando de roupa para se deitar. Eram incapazes de se confessar, me smo com os olhos, que passariam a noite em alerta, interrogando cada ruído que não f osse o de sua respiração - qualquer ruído que pudesse 8

significar. . . perigo.- Apenas uma vez, antes de se deitarem para a vigília notur na, Jacob deixou cair a máscara, e sussurrou, com voz áspera, no ouvido da mulher: Por que a estamos mandando embora? - Os médicos acham que ela deve ir - respondeu Esther, também num sussurro, estendid a rigidamente sobre a cama, com os olhos pregados na parede. - Os médicos!. . . - Jacob jamais quisera envolvê-los no problema, mesmo no início. - O lugar é bom - afirmou a mulher, elevando um pouco a voz. - Eles chamam aquilo de hospital psiquiátrico, mas é um lugar, Teca, um lugar onde i mprensam as pessoas. Como pode ser bom para uma menina - quase uma criança! - Deus do Céu, Jacob - exclamou - quanto já nos custou tomar essa decisão? Se não tiverm os confiança nos médicos, a quem vamos pedir conselhos, em quem confiar? O Dr. Liste r diz que é a única forma de ajudá-la agora. Temos que tentar! - insistiu e voltou res olutamente a fixar os olhos na parede. Ele se calou. Rendia-se mais uma vez à mulher, tão ágil no uso das palavras. Deram-se boa noite; fingiam dormir, respirando pesadamente para enganar um ao outro, enqu anto os olhos ardiam vigilantes devassando a escuridão. No quarto vizinho, Déborah deitou-se disposta a dormir. O reino de Yr possuía uma es pécie de zona neutra chamada o Quarto Nível. Só por acaso é que se podia alcançá-la. Fórmul e atos de vontade eram inúteis. No Quarto Nível não havia emoções para afligi-la, nenhum p assado e nenhum futuro contra o qual lutar. Nem memória. Perdia-se a posse de si m esmo. Nada, exceto fatos mortos que sobrevinham espontaneamente quando ela os de sejava, despojados de emoção ou sentimento. Deitada na cama, subiu ao Quarto Nível. O futuro deixou de preocupá-la. As pessoas n o quarto ao lado eram, supostamente, seus pais. Muito bem. Só que agora faziam par te de um mundo fantasmagórico, que pouco a pouco se desvanecia. Ela transitava sem dificuldade para um mundo novo, onde não se conheciam preocupações. Abandonar o mundo antigo eqüivalia a também abandonar os labirintos do reino de Yr, o Coletor de Outros, o Censor, e todos os deuses Yri. Revolveu-se na cama e mergulhou num son

o profundo, sem sonhos, repousante. Reiniciaram a viagem na manhã seguinte. O carro já se afastava do hotel, penetrando no dia luminoso, quando ocorreu a Déborah que talvez aquela viagem pudesse durar p ara sempre, e que a sensação maravilhosa de calma e liberdade que sentia, fosse uma nova dádiva dos deuses e dos habitantes, normalmente tão exigentes, de Yr. Viajaram durante algumas horas, percorrendo uma região mesclada de reflexos, doura dos e castanhos, e as ruas salpicadas de sol dos pequenos vilarejos. Foi então que a mãe perguntou: - Onde é o desvio, Jacob? Em Yr, uma voz clamou das profundezas do Poço: Inocente! Inocente! Num instante desfez-se toda aquela sensação de liberdade. Déborah Blau foi impetuosame nte tragada pelo choque de dois mundos. Houve, como em todas as outras vezes, um dilaceramento silencioso, fantástico. No universo onde se sentira até há pouco radian te, o sol cindiu-se no céu, a terra entrou em erupção, seu corpo foi despedaçado, os den tes e os ossos se fragmentaram em mil pedaços. Enquanto isso, no outro universo, h abitado por fantasmas e sombras, um carro tomava um desvio lateral e penetrava n uma estrada que desembocava num prédio de tijolos vermelhos, muito antigo. Em esti lo vitoriano, cercado de árvores, seu aspecto era bastante decadente. Fachada idea l para um manicômio. Quando o carro parou diante da portaria, Déborah ainda estava a tordoada pelo choque. Foi difícil saltar, e mais ainda subir condignamente as esca das de acesso ao prédio, onde aguardavam os médicos. Havia grades em todas as janela s. Déborah sorriu: "Ótimo! Não poderia ser melhor!" Ao ver as grades, Jacob Blau ficou lívido. Não havia mais como se iludir: aquilo não e ra nem "clínica de repouso" nem "tratamento de convalescência". A verdade impunha-se nua, gélida como o ferro das grades. Esther tentou alcançá-lo em pensamento: - Não devíam os contar com isso? Por que essa surpresa? Enquanto esperavam, Esther Blau procurava todas as formas de se mostrar jovial. Exceto pelas janelas gradeadas, a sala parecia qualquer outra sala de espera, e ela aproveitou para tro10 çar das revistas antiquíssimas que estavam por ali. De repente, ouviram no fundo do corredor o ranger metálico de uma chave na fechadura - pelo som devia ser imensa e Jacob retesouse de novo, sobressaltado, gemendo baixinho: - Não, ela não, nossa D ebbizinha. . . E não percebeu o olhar implacável que cintilou no rosto da filha. O médico percorreu o corredor e, antes de entrar na sala, compôs uma expressão grave. Era um homem corpulento e atarracado, de modos bruscos. Entrou e sentiu logo a a ngústia que pairava no ar, quase palpável. O prédio era antigo, um lugar realmente ass ustador. Sua missão consistia em afastar a menina o mais rápido possível e tranqüilizar suficientemente os pais para que consentissem em deixá-la, convictos de que tinham feito o que era certo. Quantas vezes, naquela mesma sala, pais, maridos ou esposas no último minuto, reje itavam com repugnância a pavorosa realidade da doença. Agarravam o parente, coitado, com seus olhos esgazeados, e o levavam embora de novo. Era medo, ou uma justa i mpressão negativa ou - e nisto seus olhos perscrutaram de novo o casal - aquele grão híbrido de ciúme e ódio que sempre os impedia de interromper a longa sucessão de misérias uma geração após a sua. Procurou mostrar-se compadecido, mas sem leviandade. Pouco de pois, chamou uma enfermeira para conduzir a menina ao interior do hospital. Ela parecia uma vítima em estado de choque; quando a levaram dali, sentiu a dor em que os pais se revolviam. Depois de prometer que ainda se despediriam dela antes de partir, o médico os cond uziu à secretaria para que preenchessem os formulários de praxe. Quando voltou a vê-lo s, após as despedidas, pareciam também em estado de choque. "Que coisa dolorosa ter que se amputar de uma filha", pensou. Jacob Blau não era um homem dado a exames introspectivos, nem tinha o hábito de revo lver o passado para pesar e medir sua configuração. Julgava a esposa, em certos mome ntos, uma mulher excessivamente voraz, moendo e remoendo suas paixões num discurso interminável. Contudo, invejava-a um pouco. Ora, também ele amava a filha, embora n unca tivesse declarado esse amor. Também ele desejava ouvir confidencias 11

que vinha se arrastando há tanto tempo. onde os olhos se perdiam no espaço infinito.Que assim seja! . ou então com Yr. Aparentemente. Não havia nada no auarto que pudesse distrair sua atenção. sua imagem passeava e r espondia. mas Yr também possuía regiões de terror e desespero. Em breve. Déborah executou obedientement e todas as instruções. louvando a brisa acariciante que varria a imensa ravina. os clamores. a vontade que tinha era de dizer a ele que se sen tia de certa forma aliviada com aquele incidente. Ergueu os olhos para aquele que estava sentado ali. e disse: . que não teve como se libertar dela.Isso depende de você . onde teve que responder a algumas perguntas sobre sua vi da. caindo.não mais Déborah. extrav asar sua raiva. imensas extensões de terras nuas.Deixa eu ir com você . E seu enorme desgosto não fez senão despertar s ua velha e caprichosa úlcera. não parou de observá-la enquanto tomava banho. Era natural que nenhum dos seus o procurasse para confidencias. com aquele médico frio de cademo de notas na mão. Os últimos meses tinham sido dificílimos de suportar: tanto frio. precisava agora explodir com alguém. e se afastara dele recusando o beijo. Ali também foi vigiada: uma mulher. Dentro dela cresceu um pouco a algazarra. jamais fora capaz de se abrir. 13 . placidamente sentada em meio às nuvens d e vapor. e sim uma pessoa com um nome ap ropriado para uma habitante das planícies de Yr . num tom sardônico. procurando manter o braço esquerdo ligeiramente voltado para de ntro. Para se defender contra a onda que ameaçava tragá-la.e. Déborah já não sabia mais para qual dos reinos de Yr havia passagem. entre Yr e o Agora. tan ta dor e tanta cegueira em Yr. tal como no mundo. Os médi cos que a ajudassem. aquele gesto tolo e teatral de cortar os pulsos. pareceu-lhe insatisfeito. fechou o cademo e saiu.Um especialista! zombou Anterrabae. caindo. de modo a esconder as duas cicatrizes em seu pulso. Déborah estava profundamente agradecida aos Poderes que lhe haviam concedido taman ha misericórdia. No vácuo do Mundo Intermediário onde se achava. ondulavam levemente na qu eda interminável. os rugidos que ressoavam dentro dela. Ela . voltou para o quarto. que encontraram no chão do banheiro. Déborah vagueou pelas planícies de Yr. 12 Levaram Déborah para um quartinho modesto. ardendo em chamas. tomand o-a igualmente distante de seus dois mundos.Contei toda a verdade sobre essas coisas que o senhor pe rguntou. finalmente se concretizara num f ato. Vai me ajudar agora? . não quisera a ceitar qualquer consolo de sua parte. o Coletor começava a dar sinais de vida. cheio de trancas e grades. onde ficou até que se desocupassem os chu veiros. porque também ele caía etemamente. Lutava contra essa iminência como uma criança que. Esther julgava conhecer Déborah melhor que o marido. Agora pouco importava que a chamass em de sonsa e mentirosa. esperando a punição. dançava e entoava hinos r ituais.E seus cabelos.ela implorou. O Deus Cadente. Começou por respo nder a verdade às primeiras perguntas do médico. não fora a tentativa infantil de suicídio que dera início àquele ciclo interminável de médicos e decisões. dera c .cantava. Agora. eles a estariam maldizendo e insultando. . Ah.respondeu secamente. Era óbvio que ele não ouvia a algazarra. Mas a raiva vinha de tal modo imbuída de compaixão. Sent da no carro ao lado do marido. encolhendo-se todas as vezes em que procur ou tocá-la. Embora Déborah já não estivesse em sua companhia. Já acomodada à nova rotina . Acabara de deixar a filha mais velha naquele lugar sombrio. Para Jacob e Esther Blau a volta para casa não foi mais fácil do que a ida ao hospit al. Homem de temperamento forte. cheia de sangue até o meio. ela se mostrara ba stante ansiosa. A seu ver. A suspeita. seus campos dourados e seus deuses. Naquele dia e no seguinte. junto com ele. de que havi a alguma coisa profunda e terrivelmente errada. con tava apenas com o Aqui. a possibilidade de dizerem aquil o que realmente queriam dizer se mostrava menor do que antes. . a antecipa ferindo-se selvagemente. perguntava e agia. No momento da despedida. de medo e de amo r. e Déborah conse guiu distinguir algumas das palavras que se formavam. prestes a desaparecer em mei o à algazarra. O médico que as fazia. no entanto. A xícara.

intemada num hospital psiquiátrico na Alemanha.: nenhum. Reação inteiramente subjetiva à entr evista e aos testes. levaram a menina ao médico. apesar de tudo. Dl AG. Qua nto a Suzy. dissera: . de maneira excessivamente subjetiva. Agora. Olhou o relatório que tinha nas mãos. vício que denunciara numa de suas aulas como o pior inimigo do médico. Embora eles soubessem das recomendações do psiquiatra. que no mês anterior tantas vezes escutara a palavra "doente". Fried ergueu-se da cadeira e foi até a janela de onde se descortinavam os p avilhões do hospital. A papai e ma mãe. de conviver e de se comunicar. geralmente manifestavam sua carência com uma paixão intensa. a fisionomia contraída: . sempre amarrada às camas. Puseram-se então a construir a história que contariam aos amigos e aos parentes mais afastados. Recordou-se de T ilda.onsistência a todas as suas impressões nebulosas e a seus temores vagos. . No dia segu inte. A estes. e as supervisões que seria forçada a recusar caso decidisse aceitar a nova paciente. enquanto dezenas de milhares de pessoas chamam. como Débora h Naquele Lugar. se para Deus eram importantes as individualidades. A Dra. Prev. Esther não pôde mais sufo car as dúvidas que a assaltavam. e começou a ler o relatório. A senhora chegou bem a tempo de presenciar o chá tranqüilizante da paciente e o fim do mundo. Tilda e Hitler não existiam mais. embora ocorram distorções nas amostragens resultantes da doença. freqüentemente su bmetida à força. m esmo antes disso. os escritos que seria obrigada a negligenciar. atada à cama. vendo-o dirigir com os olhos fixos na estrada.lembrou-se com pesar . abriu a pasta. e que os fizera estremecer da cabeça aos pés. Em três ocasiões diferentes. mas tinha certeza de que não poderia fazer isso sem magoá-lo. Gostaria agora de mostrar a Jacob todas as coisa s que ele desconhecia. 16 anos. percebendo que se deixava levar pela vai dade. vinha se mostrando inteiramente desnorteada. diriam alguma coi sa sobre anemia ou fraqueza e um sanatório especial para convalescença. a lógica começou a ruir. riu . Hosp. Voltou-se para ele. e que. Àquelas três páginas datilografadas c ontrapunham-se as conferências que não poderia dar. com componentes compulsivos e masoquistas. com suas crises de fúria destruidora. entre por 15 favor querida Doutôra. Jacob e Esthe r teriam que amenizar um pouco a descrição do lugar omitindo especialmente o grito l ancinante vindo de uma das janelas gradeadas. Ao escutar aquilo. falariam qualquer coisa a respeito de uma escola.Poderemos visitá-la dentro de um mês ou dois. el a passou a demonstrar extrema ansiedade diante de tudo o que pudesse ser interpr etado como correção ou crítica. na época em que do outro lado dos muros estava Hitler: qual dos lados era o mais são? Tilda. havia muit o a ensinar aos médicos que saíam das escolas com uma vivência limitada. diriam. os seus momentos de extraordinária lucidez. Seria justo i niciar o tratamento individual de pacientes. mas com o desenrolar da entrevista. disse. Fez o que pôde para impressionar o entrevistador com sua perspicácia. Há momentos . um pequeno jardim e logo adiante o pátio onde os intemos costu mavam passear. sabendo-se que qualquer progresso r eal poderia exigir anos. utilizando-a como uma formidável defesa. escreve m e telefonam implorando ajuda? Sorriu. Gostava muito de trabalhar diretamente com doentes. alimentada pelas veias. Os testes de personalidade revelam comportamento tipicament e esquizofrênico. que estava tudo bem.. para tranqüilizá-los. INICIAL: ESQUIZOFRENIA 1 Testes: Os testes evidenciam um quociente de inteligência (140-150) elevad o. Ora. 2 Entrevista (inicial): De início. BLAU. erguera para ela os olhos e c om um sorriso que procurava ser gentil. Le mbrava-se bem de uma vez em que Tilda. ou àqueles cujos preconceitos impediriam de aceitar a simples idéia de u m hospital psi14 quiátrico na família.Oh. Várias questões mal in terpretadas. A própria doen te facultava-lhe analisar a sanidade como poucos "sãos" seriam capazes de fazer. tratava-se apenas de uma clín ica de repouso. pura e fascinante. que haviam escutado quando saíam. I mpossibilitados de amar. a paciente parecia bem orientada e lógica n os seus pensamentos. tinha.em que o mundo parece ser mil vezes mais doen te do que aqueles que esse mesmo mundo intema em suas instituições. O grito ficaria trancafiado em seu coração. DÉBORAH F. depois da doença do paciente. por que não para ela? Sentou-se.

cuja f amília emigrou da Polônia em 1913. O psicólogo respondeu que poderiam saber isso por meio do hipnotismo. a p aciente tentou suicídio.retrucou a Dra. Aos 16 anos. talvez fosse interessante descobrir se uma menina com tão pouca experiência de vida poderi a lucrar com a terapia.quantos belos anos de vida ainda pela frente. por ocasião de perguntas relativas à data do mês. Menc ionou uma operação aos cinco anos de idade. Uma irmã. a guerra forçou-os a mudar para a cidade. Fried.Discordo .inoportunamente: a primeira.Eu disse a verdade sobre essas coisas. . como se a ruptura existente entre ambos não fosse mais do que uma névoa muito tênue. o que reforçava sua co nvicção de que a causa de tantas agonias no reino de Yr se originavam de pressões exte riores. como num quadro. 3 História familiar . aguardando a re sposta. tendo sido ridicularizada pelos colegas de escola. quando declarou que a hospitalização resultará de uma ten tativa de suicídio. contador. Sobreveio uma sensação tão maravilhosa e onisciente de transição. a idade da menina: graças a isso o relatório acabou preva lecendo sobre os compromissos com reuniões e os artigos por escrever. Voltou a se concentrar nos fatos e nos números. A situação melhorou. mas. 1932.Déborah.Essa força que se mantém oculta é um segredo pro fundo demais. Aos cinco anos de idade. se conseguirmos. Jacob Blau. parada junto à carteira. Amamentada até o oitavo mês. Outubro. . etc.Algum dia precisamos descobrir um teste que também nos mostre onde está a saúde. enfim.Déborah esteve em paz. dizendo em tom acusador: . À me dida que prosseguia a entrevista. Abstraindo as considerações relativas à individualidade da pessoa em questão. uma babá cr uel. . que Déborah não resistiu peto de anotar. . a paciente avançou. o que foi que você escreveu no papel? O que sig nifica essa palavra.exatamente quanto. tudo estava envolto em tonalidades cinzas. c itando episódios casuais de sua vida que considerava responsáveis por sua doença. Susan. vai me ajudar? Consideramos recomendável encerrar a entrev ista. A paciente não se ambientou bem. passava a se chamar Januce. exceto o tumo r. S ubitamente. porque se sentia co mo a Juno das duas faces . O lhou ao redor e descobriu que só era capaz de perceber os objetos em seus contorno s. A profess ora. Puberdade fisicamente normal. . segundo os critérios da Terra. Déborah sentia renascer dentro de si como que os terrores de algum pesadelo remoto . Em 1942. a paciente sofreu duas operações para extirpar um tumor no aparelho urinário. Começou a falar alto. Algumas vezes. ce rta vez. de repente. Januce? E ficou ali. do ametil e do pentotal. Há antecedentes de hipocondria na família. forçando-se a evitar a lín gua matema . a partir de Yr.Aber wenn wir. nascida em 1937. perguntou: . Pai. Déborah seria sua paciente mais jov em. as duas outras. 17 Durante um bom tempo . deixou escapar esse nome. . retcomou ao Calendário Pesado. sem qualquer dimensão de profundidad e. a saúde tem sido boa. cujos efeitos foram traumáticos. a comentar com o psicólogo do hospital: . e agora. é nossa única aliada. no fundo. sua atitude foi mudando. Illinois. A doutôra virou a página e examinou por alto as diversas avaliações estatísticas de fatore s de personalidade e os resultados dos testes. as palavras JANUCE AGORA. . O mundo lhe exigia pouco. . Dificuldades finan ceiras obrigaram a família a se mudar para a casa dos avós. As coisas se tomaram planas. nos subúrbios de Chicago. mas o pai adoeceu: úlcera e hipertensão. Um relatório semelhante levara-a. e o ambiente luminoso e saudável da sala de aula se desvanesceu completamente. Estava vivendo naquele dia conforme o Calendário Secreto (em Yr não se media o temp o da mesma forma que no mundo) quando. contudo. . E como seria o trabalho: mais fácil ou mais difícil? O que d ecidiu a questão foi. Nesses momentos. Mas no fundo. por um deslize. As palavras inscritas no papel . Os incidentes não tinham relação entre si. . O primeiro incident e na escola ocorreu exatamente quando.murmurou. vendo-as. Parto normal. conseguia ficar em contacto com a "realidade".Nasceu em Chicago. inclusive. Ah. ela não sab eria dizer . em meio à narrativa de um acon16 tecimento. no cabeçalho da folha de aula. nem se incluíam em qualquer padrão.cada uma voltada para cada mundo.

um raio de luz que pen etrasse na região oculta. Na quela mesma noite. o coração sufocando de m edo. uma menina gran dalhona de sua ala veio convidá-la para jogar tênis.respondeu Carla. e soube que se tra tava do "administrador da ala".Pois é. .Não estou aqui há tanto tempo assim. Surpreendida. um sinal eventualmente escrito. porém. Perigos desse gênero deveriam ser. já que ela é tão boa assim. mas não ra do hospital. Déborah teria que responder agora pelos dois mundos. imediata19 mente. Um nome sigilos o segredado por descuido. o poder do Censor cresceu assustadoramente. Já se passaram três meses. embora sem dispensar o s modos impacientes e ásperos.simbolizavam a passagem do tempo de Yr para o da Terra. observando div ertida a expressão de surpresa da moça e o esforço que fazia para reprimir o olhar de . que denunciava sua inexperiência.foi a resposta. aliviada por saber que também o mundo tinha esconderijos a oferece r. sair do quarto pela manhã. e o choque repercutiu até o fundo de Yr. uma médica muito famosa.Não se preocupe! Logo você receberá mais privilégios.um horror do qual não ter ia acordado racionalmente.e decidiram erguer sobre seus reinos um Censor que se interpusesse entre as palavras e as ações de Déborah e assim protegesse o segredo da existência de Yr. jamais gostaram dela. Para sempre. evitados a todo custo. eu tenho cem metros quadrados de sanidade! Se havia unidade de medidas. Ressoaram ao mesmo tempo um grunhido de Lactamaeon. recent emente. e a risada zom beteira do Coletor: a síntese de todas as imagens de professoras. veja só. os olhos fixos no teto. Na Terra. passear no pátio. .Venha comigo .deuses e demônios vindos 18 de Yr e sombras da Terra . menina maluca! Para sempre.disse ela. terminou por impor sua presença em ambos os mundos. Fazia parte de um novo grupo de estagiários cumprindo um período de treinamento psiquiátrico no hospital.As pessoas saem algum dia daqui? . .etapas anál ogas às do mundo normal . a vida do hospital prosseguia normalmente. e por último. Srta. anos-luz. Cada uma dessas etapas constituía um privilégio e possuía uma certa conotação de recompensa que. O que eu não sei é quant o tempo vou ficar aqui. menina preguiçosa! Mais tarde.Ora. Blau. sair do próprio hospital e ir sozi nha a um cinema ou fazer compras. parecia se exprimir em te rmos de distância. com uma voz vacilante e assustada. nenhuma palavra e nenhuma ação lhe escapavam. que se chamava Ca rla: . vou pôr os sapatos! . E. Certa vez. aceitando todas as instruções.como.Não sei! . algumas vezes. uma das enfermeiras estagiárias se aproximou de Déborah. colega s de escola. a quem cabia conceder os "privilégios" . o deus Negro. jantar na co mpanhia dos outros. .perguntou Déborah. por que não sanidademetro? Carla consolou-a: . Ainda voltou a ver algumas vezes o médico do cademinho.Quer dizer. Déborah trabalhava na oficina de artesanato. Por isso.A doutôra quer vê-la. com o correr dos anos.Não sei . em pl ena transição. O médico permitiu que Déborah passeasse sem restrições no pátio. eles vão aliviar um pouco a barra. pensando consigo mesma: Ela deve ficar atônita com a densidade de loucura com que sou capaz de impregnar esse quarto. tais como homens-hora. Déborah suspirou e se levantou ob ediente.respondeu Déborah. aliás.disse a estudante. ficam boas e então saem? . que estava deit ada. para sempre poderiam destruir Déborah e seus dois mundos. Aprendeu a fabricar cestos. mentira e dissimulara. Resolveram perguntar a uma enfermeira. etemamente reunidos em segredo para julgá-la e atormentá-la para sempre . As pessoas.Vamos. . . Déborah comentaria depois com a tal grandalhona. Se você se esforç r bastante com o seu médico. ambas pensaram nas mulheres lá do final da ala: todas tinham mais de dois a nos de hospital. é hora de se levantar . a partir de então. por isso devemos nos apressar. por exemplo. Ela é uma das chefes aqui. parentes. e com tamanha severida de que. Sabia que nenhuma de suas companheiras de trabalho gostavam dela. . Só que responder imp licava em descortinar o horror em toda a sua plenitude . curiosamente. os personagens do Grande Coletor afluíram em massa ao Mundo Int ermediário . até que. .

.perguntou Déborah. .Bem. Antipatia também.Ajudá-la a ficar boa.Invadiu-a uma sensação de total exaustão.Pensei que você soubesse.Vamos! A enfermeira destrancou a porta da ala e. cabelos grisalhos. Pássaroum. mas de qualquer forma já temos um trabalho definido pela frente.Onde está a doutôra? . .Tome cuidado. . para Yr. possivelmente pel a primeira vez. num í peto de cólera.respondeu a mulher. Quand o. creio. voltando-se..Está bem.Que disfarce! E o Censor resmungou: . Ela devia ter recebido instruções para ocultar todo e qualquer sentimento mais intenso. porém.desaprovação. . a 20 que dava para as escadas. A doutôra contentou-se em dizer: . geniosa.Porque sou desastrada. Desastrada em primeiro lugar. egocêntrica. ferimentos inventados na pema.Déborah sentiu apertar o laço do medo.. dores imaginárias que causam verdadeiros tormentos. encantadora e feliz pelas mentiras q ue eu prego. co nvidou-a: .Há alguma coisa que você queira me dizer? . Sou a Dra. e outras doenças que não exi stem. é uma lista e tanto.Você devia ficar agradecida . bem no meio do hospital. O Censor preveniu-a: Ouça. gorda. .Sente-se. e mentirosa também. A Govemanta-Famosa-Médica levou Déborah para um quarto ensolarado e. medo ou prazer. você elimina m eus "sintomas" e me manda para casa. As mesas não têm como se defender da sua falta de jeito. má. sente-se. Frie d. há mesinhas demais por aqui. Scomos da Seção de Admissões. Erguia-se. . Dirigiram-se à porta da frente e tocaram a campainha. para o Coleto r e para o Censor): . . Anterrabae soltou uma sonora gargalhada. veio abrir. . Ah. não me teria dito isso.Para abafar minhas queixas.ironizou Déborah. . e s aíram pelos fundos do prédio. o Censor começou a dar sinais de alarma: Onde está a médica? Será que ela está espiando a gente por trás de alguma porta? A govemanta acenou com a cabeça em direção a um quarto.. Você não terá que se livrar de nada enquanto não estiver pronta.disse a enfermeira.perguntou a doutôra.Sou eu a doutôra . Mal Déborah entrou na casa. haverá outras coisas para tomar o lugar dos sintomas. azar. feia.Conhecida e amada por loucos do mundo inteiro! . Algumas dessas coisas.Você sabe por que está aqui? . por incrível que pareça. que estava aberto. que fossem! Deixaria o consultório tendo pelo menos confessado seu ca nsaço e seu desgosto desse mundo sombrio e angustiante. éeborah percebeu que. .Déborah. ergueu-se de um salto e exclamou (para ela. 21 Déborah sentou-se. uma mulherziriha baixa e gorducha. lapsos inverídicos de audição.Já é muita sorte ser recebida por ela. A enfermeira apontou para uma casa toda caiada. Mencionei antipatia?. cabeçuda. Essa última categoria inclui vários itens: (a) falsa perd a de visão. querendo anular a justaposição atordoante de p aredes e portas. . (b) falta de esportividade. E quan do isso acontecer. Depois de algum tempo. dissera aquilo que realmente sentia.Está bem. . caindo. não existem. Se essas coisas eram verdad eiras. em seguida.Tenho ordem para esperar.Aqui está ela . Acompanhando com os olhos as partículas de pó que flutuav am nos feixes de sol projetados da janela. . como ódio.Se você realmente não quisesse se livra r desses sintomas. a doutôra perguntou: .uma dessas casas branquinhas que se vê em cidades menores à beira de uma rua sombreada por carvalhos. . depois há uma enorme lista de defeitos: preguiçosa. muito cuidado. . tonteiras fingidas.. . com ve nezianas verdes . grosseira e cr uel. . Desceram para o andar inferior. Você faz as perguntas e eu respondo. . . e depois o que é que eu terei? com voz suave e pausada a doutôra respondeu: .disse a estagiária. mergulhando em suas próprias trev as: ..Fazer com que eu vire simpática. . Vamos. Fique à vontade.Poderia vir buscá-la dentro de uma hora? . Seguiu-se um longo silêncio. carinhosa.

. Déborah soube que havia algo de errado sim .Em segundo grau.disse Déborah. A Dra.Para acabar com elas. .Loucura nem totalmente espontânea. Ape sar do horror que essa inefável noção despertava. . imediatamente compreendido pela méd ica.Era o mais perto que ousava chegar. . basta apenas que. . Fried.Como assim? . . . . . "louca".Você está dizendo a mesma coisa que todo mundo diz: queixas falsas de doenças falsa s. das negras regiões do terror. é sim. Gostaria de repetir que não pretendo destruir sintomas nem d oença alguma contra a sua vontade. Verdade nua e crua. em alguma parte da doença. espero poder ajudar você a ver o mundo como algo diferente de um inferno Estígio. Fried riu. procurou controlar todos os seus gestos. agora irremediavelmente localizada.. porém. . A Dra. pulsa uma força oculta. observando as duas retomarem ao prédio do hospital. . à mesma hora .ao mesmo tempo bem individualizados e bem unidos . O laço apertou mais ainda.Como todos os outros aqui? . as crises de terror e as repentinas ausências de memória. Déborah foi despertada pela enfermeira. essa força existia e se manifestava. mas com um esforço decidido de sua parte e com a ajuda séria de um médico.Caronte fala grego. Justificava-se en fim toda a revolta que sempre sentira naqueles consultórios. mas logo seu rosto se tcomou grave. acho que você pode melhorar. mai s sério ainda do que as perdas momentâneas de visão. sorrindo. talvez . Eles. E. porque acredito que se você e eu trabalharmos juntas para valer .Se você estiver de acordo. as dores lancinantes. perto demais até. parece que eu disse que você está muito doente.O prisioneiro se declara culpado. por medo.Em que é que você está pensando? Vejo que seu rosto se descontraiu um pouco . mas deix ou que o rosto expressasse um cauteloso "sim". pensou consigo mesma: Em alguma parte de toda essa precocidad e e amargura. Déborah tremia de medo e começava a ver tudo cinza de novo. cujos limites ainda não sou capaz de determ inar. a manifestar abertamente seu consentimento. vivi am insistindo: não há nada de errado com você. . afetando a maior indiferença possível em relação ao lugar e a quem e stava ali. A doutôra propôs então: . quando forem produtos de uma revolta de seus sentimentos . . emanava das palavras da doutôra uma espécie de luz que se projetava sobre vários outro s recintos do passado: sua casa. 23 venceremos tudo isso. Ao sair do consultório. a manqueira temporária. no entanto. . Caronte.interv eio a doutôra. Sim.avisou a doutÔra à enfermeira e à paciente. Nesse sentido v ocê 22 está mesmo doente. Prova disso é que luzira na expressão de alívio que sobreveio ao ser admitida a existência da doença. e se o que você tem é o que se costuma chamar de uma doença mental? A resposta.Estou pensando na diferença que há entre a má conduta e a felonia. mas com um pouco mais do que simples malícia .algo profundo e grave. recusando a sentença de que não é portador de nenh um mal grave. Foram-se então.postados do outro lado da maciça porta d o consultório.Algum dia. Premeditada realmente não. como se qu isesse preveni-las de que o tempo havia expirado. Déborah recusou-se. . de touca branca e uniforme listrado. nesse caso.Por acaso você quer saber se acho que seu lugar é aqui.Ela não pode entendê-la .Pelo contrário.Amanhã. podemos combinar outra hora e começar nossas conversas. a escola e todos os consultórios faziam repercuti r a mesma acusação bem-humorada: Não Há Nada De Errado com Você. Sim. Uma imagem instantânea passou pela cabeça de Déborah: visualizou seus pais . . e agora aceita o veredito de culpado por loucura em primeiro grau.corrigiu a doutôra. de modo a pa recer outra pessoa. atravessando o espírit o para trancafiá-la de volta na ala. era isso. durante an os e anos. que ia e vinha na sala ao lado. nem totalmente premeditada.

protestou o avô (este era o seu maior elogio). Lister. de uma inteligência arguta e brilhante. porém. Diante de perguntas obje tivas. . embora sua linguagem continuasse tão ríspida quanto antes. "Ajustara-se bem" à rotina e à equipe do hospita l. teria cometido erros? Parecia uma vida boa. a fome. Esther empenhou-se em extrair toda s as migalhas de esperança incrustadas no tom reservado da carta. As discussões entre ele e Esther. num gesto proteto r. e na declaração. uma vida muito boa a que ela tinha. Ela é igu al a mim. inseguro do que ele e Esther haviam feito . passou a esperar ansiosamente a resposta. porém. Jacob ouvia. . que cometernos? . Conhecera o frio. Só quando Claude. Para o diabo vocês todos! . por sua vez. antes de cada batalha verbal. gesto característico dos adolescentes e dos doentes que insistem em lutar. No dia seguinte. No final do primeiro mês. de que se acabara o jogo e caíra a máscara. que sempre escamoteavam a qu estão crucial. . Nos dias seguintes. Foram duas vezes consultar o Dr. Esther voltou a procurá-los. dem os conforto. pergunta ndo quando poderiam visitar a filha e ver a médica. Quando. Natalie . Suas raízes. contra a relutância de Jacob e do velho. desde que chegara àquele desenlace. Quando Esther.Luzira especialmente na "tentativa de suicídio". era a menina dos seus olhos.suspirou a doutôra. o núcleo branco de um vulcão camuflado pelas florestas de suas encosta s. escreveu para o hospital. permanecia calado. interpretando os comentários s ob os mais diversos ângulos. informou os pais. todas as agruras da vida de um estrangeiro. se dessa vez eu pudesse fazê-la germinar! .O que é que eles vão fazer? Admitir que foi um engano? O mundo está c . seu orgulho ferido de imigrante. destacando qualquer evidência positiva. em determi nados momentos. Quanto ao velho. iniciara a terapia e já passeava pelos pátios.os fa voritos da família . Agora. terríveis. ensaiando.E se soubesse. invariavelmente terminavam num mudo clima de rancor e acusação. Demos amor. Esther lembrou-se que Jacob também fora um imigrante. ah. ele se acalmou um pouco.E eu sei? . que não fora senão um mudo grito de s ocorro.O que pode haver mais. no entanto. relatando em termos bas tante vagos as atividades de Déborah. franca e dramática. Parecia-lhe. tentando se consolar e s e convencer de que o intemamento fora de fato necessário. Jacob. lendo e relendo cada palavra. Debaixo mesmo do vulcão. receberam uma carta do hospital. o. a doença mental estava exposta. perguntou abruptamente a Jacob: . 25 Ao mesmo tempo. estava sepultada a preciosa semente de força e determinação. procurando apresentar o hospital como uma simples clíni ca de repouso. enfim. tinha que concordar: a realidade era inexorável. Era um homem de temperamento dominador e enérgic o. O problema é que nessa família. mergulhavam tão profundamente quanto.Dessa vez. Déborah. Certa noite. Ela nunca sofreu ameaça de frio ou de fome. Esther? O que pode haver mais? Ela não soube o que responder.E retirou-se da sala. todo o seu mundo vibrava de apreensão. que a doença de Déborah. transtoma ra o ritmo e o sentido de suas vidas. indignado. a umidade. se deixava le var pelo que os sentimentos diziam.respondeu ele. carne da minha carne. mas foi inútil. . Quantas vezes deve t er jurado poupar os filhos de tais privações! Acariciou-lhe o braço. tinha a impressão de que no íntimo ele sabia que a decisão era necessária. os miolos pularam uma geração e foram cair nela. o irmão mais velho. e a outra irmã.fizeram ver ao velho e à velha que a medida era realmente neces sária. O velho contentou-se em resmungar: .s argumentos diante de sua imagem no espelho. 24 Suzy Blau aceitou bem a história da escola para convalescentes. O ressentimento com a hospitalização de Déborah mascarava. suplicando que apoiassem sua deci são. enveredando pelo vocabulário de sua língua natal. Ele se virou e perguntou desalentado: . Jacob. Agora dizem que não. eles ficaram decepcionados e furiosos. lutava numa outra frente. por pouco tempo que fosse.Qual é nossa responsabilidade em tudo isso? Quais os erros. reanimado. afinal. Não há nada de errado com os miolos dela! A menina tem uma inteligência excepcional . na realidade. Esther notava que ele começava a amolecer . até descobrir qual o aspecto mais favorável. por exemplo. sujeitando-as a constantes reavaliações críticas .

.. não adiantar ia nada.Doente . 27 . que fizesse com que todas 26 as portas do hospital se escancarassem. interpôs-se entre as duas. Déborah ficava aborrecida quando a doutôra se apoderava de fatos que eram só seus. por mais que negasse.. Alguns minutos depois r epetiu: . como ri essa noite. Constróem as barreiras com portas laterais e depois não conseguem abri-las. . . Déborah estava sen tada do outro lado do sólido portão levadiço do século XII que. Faltava-lhe agora a coragem de magoá-lo. quando ela deveria ter mudado seus vínculos de dedicação e não o fizera. De qualquer modo. .gritou Jacob. e o portão. cada vez mais perto do silêncio. e há coisas que talvez Déborah desconheça e que nos levaram a fazer o que fizemo s.Você quer que eles venham? . .Ora. com sotaque peculiar.Eu gostaria de dizer aos médicos. começou a definir sua per sonalidade.Puxa! Será que foi mesmo há tanto tempo? Anos? . acabou reconhecendo que. perguntar a eles. houve momentos de calma. Sabe. man useava-os e utilizava-os para seus próprios fins.Meu Deus. num clima de expectativa e sobre ssalto. tanto antes de se casarem como depois. Agora. infeliz. Por que você não experimenta abri-la? . invisível. nossas vidas mudara m. costuma haver uma portinhola neles. Se acharem que se trata de um engano.Que bobinhos! Será que nós fcomos tão bobos assim? Você viu aquele gurizinho de boné? .. . num tom que jamais ousara empregar com o sogr o. após o intemamento. comento u: . até a partida de Déborah. por muito temp o.. até mesm o de felicidade. Há razões para muitas delas que. depois que ficou sozinha em casa. Déborah ouviu bruscam ente o ranger metálico das correntes. Depois que foram embora. . exceto Déborah. A doutôra fitou o cinzeiro.Ah. foram boas. que vinha do outro lado do muro metálico ia se apagando aos poucos. A voz suave. ocasionalmente. Há séculos não me divertia tanto! .Você está do outro lado do portão. Esther compreendeu que ele ainda esperava uma mudança de diagnóstico.disse ela.Sim . esses seus construtores de portões não são lá muito esp ertos. Suzy brilhou aquela noite. pensa tivo.O que há? .emendou Esther. Suzy trouxe para casa um grupo de colegas de escola. A barreira entre elas tornava-se cada vez mais indevassável. por melhores que fossem nossas intenções.retrocede r. retirando-se furioso da sala. Jacob comentou bem h umorado: . convidou todos para jantar. Esther percebeu que certas coisas que tinha dito se refletiam nele e em sua relação com ele.Apenas infeliz! . contagiada pela algazarra. Os conflitos decisivos pertenciam ao passado. . ma s não podia permitir que continuasse se iludindo a respeito da visita ao hospital. .Infeliz! . Certo dia.Soltou uma gargalhada e dando-se conta de como estava contente.Nossas vidas foram simples. . não teriam s ido diferentes. Suzy. Jacob.Não posso vê-la de verdade nem ouvi-la de verdade . mesmo sem escutar os rangidos.disse a Dra. Fried. nos deixarão trazê-la de volta imediatamente. Sentiu pena de Jacob.Calou-se. foram dignas! ele afirmou com convicção inabalável. Por que esse lugar seria imune à imbecilidade? . notara os efei tos.heio de imbecis.Foi há muito tempo. Bem. . e Esther. assustado com algo que ninguém ousava mencionar. retroceder até que tudo estivesse apagado e esquecido. a separa va da doutôra. e então todos ririam juntos das peças que a vida prega na gente . como saber o que tinham representado para ela? No correr dos primeiros meses.Bobagem! .Então talvez seja verdade que ela estava. andara na ponta dos pés. o seu portão medieval de novo.disse Jacob irritado. e o filme de suas existências voltasse um ano atrás. um milagre qua lquer. rindo e brincando. .Os médicos têm um código de ética a cumprir.disse Déborah. eram questões já mortas.perguntou a doutôra que.Seus pais escreveram pedindo uma visita . Para todos. . A s últimas palavras foram! . Nem bem a médica mencionara seus pais e a visita.A portinhola está trancada também. Entraram aos tro péis. .

ao readquirir a vontade e a capacidade de responder aos estímulos do ambiente. foi assim: as palavras que dizia pareciam não corresponder a uma ordem de seu cérebro. Blau. às vezes. Alguém riu no fundo da sala e a professo ra. Ocorria-lhe. mas a finalidade e a forma daquel es objetos careciam de sentido. Déborah continuava imersa nas profundezas do Poço . O presente esvaiu-se. por exemplo.Vamos. que dissera algo de certo mo do importante.sabi a muito bem . A queda. porque ali o medo perdia o sentido. mas importante em quê? Durante muitos anos. Esther Blau abriu anciosamente a carta à medida que lia. Inútil. O que sentia no momento era em parte . ainda que fosse difícil expressar.mas ele não. Ficou surpresa consigo mesma. Eu posso dirigir sozinha ou tomar um trem.Bem. vamos até lá ficar um pouco com ela e então vocês duas podem ter uma longa conver sa se quiserem. as coisas se revestiram de tonalidades cinzent as. no consultório da Dra. Déborah se queimara toda com água fervendo. coisas como lin guagem. Foi necessário reunir t odas as suas forças para lembrar o suficiente de inglês e perguntar . Por isso mesmo. Os horrores da volta à tona ainda não tinham começado. sem a qual jamais conseguiria convencer o mundo. Certa vez (aconteceu na escola também). antes mesmo que esse sentido voltasse a vi gorar. Agora.É. Começou a despencar para Yr. Sabia que falava sério. Essa sensação era verbalizada.o contentamento por dispor do poder de gratificar e punir.O quê?. significado ou mesmo luz não tinham a menor importância. Ali. que o amor e a compai. Não quero a visita dele. . Chegava até a esquecer.Aqui diz que Déborah quer que eu vá. embora fosse incapaz de expressálo. dessa vez. berravam. . com toda a cautela. que distorcido. que palavra é essa? Nada. só. sua própria língua. Reparou nos lábios da doutôra que se moviam e imaginou-os cuspindo perguntas e acusações . . Ela foi incapaz de extrair o menor fragmento de realidade daquela confusão de linhas e de pontos na superfície branca. A profes sora ficou furiosa.Procurou assim tomar as coisas mais fáceis p ara Jacob. temendo comprometer sua autoridade.. ãò dele seriam perig osos naquele momento. Déborah tinha consciência de tudo isso. Nessas ocasiões. nem justificar por que se sentia tão bem lá. medo no Poço. saber o sentido das coisas se tom ava irrelevante. junto com Anterrabae. Estava ao lado do fogão. evitando os termos em que vinha redigida a carta . Quem sabe não decidiria acabar com aquela "prisão"? Além disso.Quero que mamãe venha . . freqüentemente. O resultad o foi que acabou perdendo a confiança em seus próprios desejos. ficou mergulhada numa escuridão absoluta. O amor do pai era a arma que Déborah possuía contra ele. os deuses e o Coletor gemiam. permanecia muda. Pouco a pouco. Durante muito tempo. mas que ela ped iu à doutôra que eu vá sozinha dessa vez. demarcando faixas nítidas e regulares diante de seus olhos. Esther procurou fazê-lo entender. viu a chaleira em ebulição.disse Déborah .Que palavra é essa? E la lutou desesperadamente para tomar inteligível aquele amontoado di29 fuso de curvas negras destacadas no branco da folha. Fried. mas a lógica que havia por trás d la. Jacob poderia se deixar vencer pelo horror e pela tristeza que ela mesma percebera nele quando a trouxe ram para o hospital. Ouviam-se sons humanos e também estes vinham desprovi dos de sentido. Pres28 sentia. irreconhecível. que rasgava a escuridão com seu fogo. a s mulheres da Seção das Perturbadas viviam gritando e uivando Uma delas poderia ento mar o caldo. só que se fôssemos os dois seria demais por enquanto. Há tempos atrás. numa de suas quedas no Poço. Jacob. o mundo todo esvaiu-se. O lugar lhe parece u familiar: era o Poço. Sabia também que não conseguiria defender essa certeza. foi longa. O próprio mundo se introduzia ali. Inexistia." . sua expressão facial ia pas sando da perplexidade à indignação. Diante de sua nudez e da eloqüência das trancas e grades. O Poço surgia horrendo justamente no momento em que emergia dele. ao sentir necessida de de recuperar o sentido das coisas. uma determinada sensação."não verá o Sr. Estava se fazendo de sonsa então? . só que de um mo do inteiramente ininteligível. pass ou a defendê-los mais cegamente ainda. ela emergira do Poço e encontrara a p rofessora apontando uma palavra no seu livro e perguntando . por enquanto. deixou Déborah muda como estava e desapare ceu na neblina cinzenta. Sabia que o hospital estava sendo bom para ela.

Jacob. Esther não pôde conter a cólera que a invadiu. ao pronunciar aquela palavr a.. Ele apanhou a carta sobre a mesa e leu. C onsiderava essencial descobrir se a mãe de Déborah seria uma aliada ou uma adversária do tratamento. eles não ficarão mu to dispostos a receber gente aqui. . todos teremos que ser muito pacientes e trabalhar como nunca..Sua pronúncia d ava um toque curioso ao tom coloquial.disse ele. estampou-se uma expressão de alívio . Jacob. A filha não. Isso porque a independência de uma criança representa uma ameaça inadmissível quando o equilíbrio dos pais é precário.! Eu avisei. Fried viu que se tratava de uma mulher inteligente. . Seria sempre assim: 30 pressionada de ambos os lados o tempo todo. não se trata disso.. . Começou a estudá-la mais detidamente. .. .. mãe e filha! Sentaram-se nas confortáveis poltronas do consultório. . a Dra. isso pouco importa.Mas eu não sei.Ela capitulava de novo. é aqui que Déborah vem? .Sim.freqüentemente com sinceridade . Onde estava a diferença? Depois de passear os olhos pela sala. Não sei ainda se Déborah confia em mim o bastante para ver essa sala tal como é. ouviu Suzy conversando c om um amigo pelo telefone. onde ia guardar a carta. Fried. Sob a aparência impecável de Esther. que transparecia em seu sor riso um tanto duro. e que inevitavelmente redundar ia na ruína dos filhos. Claro..Claro! .Não é besteira . Ao se dirigir para seu quarto.Quem pensa ela que é! . Não dá para planejar isso com antecedênci a. Minha irmã Debbie está muito doente. e no final acabavam mostrando que havia todo um esquem a montado em segredo..que queria m ajuda para seus filhos. A doutôra ficou impressionada com o esforço que ela fez. que realçavam ainda mai s seu próprio desalinho.Por favor... Eu a lev o de carro até lá e espero nos fundos. O amor terá 32 que enfrentar uma duríssima prova no que ainda está por vir.Mas você não pode ir sozinha. grades. .ela insistiu. Fried recebeu Esther Blau na sala clara e desarrumada de seu consultório.Para que ela fique bo a.. Na sua fisionomia. É que se o próximo for ruim. a senhora não imagina como eu a amo. . Caso ela mude de idéia.. súbita. Bem.Não seja tola . . para conservar o ar despreocupado. Lister avisou.Ela vai ficar boa? Ah. eu te aviso se for possível. . saudável: aceitava os penosos sacrifícios que a realidade impunha. a mãe perguntou: . sem deixar de gozar suas dádivas. Veremos se é verdade. Quem sabe a conversa com a doutôra não o reconfortaria? Levantou-se e ti rou a carta das mãos dele. . por ela ter tentado encobrir a verdade e poupá-lo. o Dr. por isso. é provável que a senhora a encontre cansada e que ela não esteja convenientemente arrumada para a visita. cuidadosamente estudada. Não. . .É aqui.Está bem! Está bem! O ressentimento acabou por vencer a indignação. Sua indignação voltou-se de início muito mais contra a esposa.Déborah! Déborah! Olh o que ela fez conosco! 31 A Dra.Besteira! Eu vou. desejando que a viagem aliviasse sua dor por ter sido r ejeitado tão inequivocamente. Não. Não podia impedir que Jacob fizesse is so por ela..No momento. . consciente ou inconsciente.Ela está doente. . sem dúvida. Como devem ter lutado ao longo dos anos aquelas duas persona lidades resolutas. irreversível . A doutôra sentia-se um pouco co nstrangida diante das jóias magníficas e da elegância de Esther. pensou a Dra.Ela vai precisar mobilizar uma quantida de extraordinária de energia para resistir aos impulsos que a compelem a se defend er em segurança. Há alguma coisa sobre ela que a pr . . . Muitos pais afirmavam . Demonstrava também ser dona de um temperamento enérgico. do que propria mente contra os termos da carta. .É ag radável! Não há. sofisticada e íntegra. ainda poderá me ver. Eu já te falei. Era. .'Eles recebem uns relatórios todos os meses.

ou então escutar os comentários de papai quando a sopa estav a fria ou um dos noivos chegava atrasado. pobre. isso sim. assim. onde moravam as famí33 lias mais ricas e mais tradicionais. Era um dos trunfos a conquistar. escolheu um pretendente aquém das expectativas da família. admirava os modos respeitáve is de seus vizinhos. estes. Papai veio de Latvia. todos esses dias. mesmo que esse preço fosse eu . Veio para a América jovem ainda. e toda a família pensou e especulou. Não. Ela veio. eram temperados com as mais refinadas lições de francês. Os palavrões em pol onês e em idiche que aprendemos sentados em seu colo. . "Pois não é que a filha de Esther nasceu loura! Aconteci34 mento único. Comprou então uma mansão num bairro elegan te. como se quisesse c onvencer as cadeiras e as mesas e a doutÔra e a instituição toda com suas grades e as pessoas que gritavam por trás delas e cujas razões para estarem ali tinham que ser o utras. Fale-me a respeito de Déborah e de v ocê mesma com suas próprias palavras e da forma como você vê as coisas. Quanto a estes. Sei disso porqu e tive que aprender harpa. por um lado. entende. c om os termos crus e ásperos que herdara de seu detestável passado. Não existe uma causa. tinham que ser. esses dois fatos explicam-no melhor do que s e eu começasse pelo seu nome e sua ocupação. diante das belas perspectivas imaginadas por J acob para o futuro. boas maneiras). o aleijadinho! "Os filhos 'americanos' de papai cresceram sabendo que seu valor pessoal. fracassou e finalm ente alcançou o sucesso e adquiriu fortuna. era-comum as filhas das famílias nobres aprenderem harpa. brigamos e enfim. . portanto. permanecia inabalável amaldiçoando os vizinhos. No entanto. Estava preocupada com outra coisa: . e é isso que nos as susta tanto. Se. e ele precisava conquistá-lo a qualquer preço. Lembro-me bem de que papai me pedia para tocar e ficava andando de um lado par a o outro. Eu procurei. E le. .. educou-se. sou eu. . por sua vez. Tomaram a vida de sua mulher e de seus filhos extremamente miserável. embora esse instrumento já não estivesse mais na moda. Graças a sua força de vontade ferrenha. cultura e sucesso não passavam de apa rência. contudo. soberbos estandartes das grandes famílias. educado e apresentável. emocionante. Lançou-se contra a vida como se ela fosse uma inimiga de verdad e. fez negócios. em bora eu o odiasse. e não tivesse o menor talento. seu sotaque e s eus hábitos. Natalie se casara bem. papai acabou cedendo. Esther. a obstinada.As causas são tão vastas que é impossível percebê-las de imediato. entende. dificilmente chegarem os a compreendê-las em toda a sua complexidade. ambas estávamos grávidas: papai começou a se c onsiderar o fundador de uma dinastia. . Pouco tempo depois. A família podia.eocupe de modo especial agora? Esther procurou estruturar suas idéias. Realmente era muito cedo para pensar nos p rogressos de Déborah. De certo modo. Ela falara num tom de voz muito mais elevado do que desejava. Jacob procurou. Para avaliar a consistência desses atributos bastava observar o olhar que os vizinhos nos dirigiam.Bem. inconcebível mesmo: loura e de tez clara. contar nossas v erdades pessoais e localizar causas pessoais. a mulher e os filhos. todos esses dias não paramos de pensar em como e por que isso aconteceu.Veja. Era aleijado de um pé. ele não estava ao nível de Esther. ao passo que para o Velho represento . nem dos sonhos que ela corporifica va. resmungando para o nobre fidalgo que existia na cabeça dele: . embora só tivesse curs ado uma escola de contabilidade e sua família não passasse de um "bando de simplórios e pobretões". nobreza. ma ldito. Podemos. desprezavam sua religião.Sabe. Tra tava-se de um rapaz bastante esperto. e sua distinção (refinamento. arriscar. mar ginalizado e coxo. emblemas de conquistas f eitas através de alianças. Por isso todos esses dias não paramos de pensar sobre o passado. Em 1878. Discutimos. tal como entre a nobreza no velho Continente. era preciso que também f ossem trunfos. e ainda assim não co nseguimos encontrar qualquer razão. acho que devo começar com a história de meu próprio pai. Ela re cebeu tanto amor! Disseram-me que essas doenças são causadas pelo passado e pela infân cia da pessoa. libertar Esther de seu isolamento secreto.

Mas a "preguiça" não pôde ser remediada nem pelas humilhações. vivíamos num dos melhore s e mais novos bairros da cidade. depois dos milagres da cirurgia modema. depois da primeira. mas ser livre pa ra ser nobre. Afinal. A austera govemanta alemã ficava possessa. Medo e . nós. nem pel s ameaças." . cercada dos maiores cuidados. meu pai contra meu marido. Um belo dia. Ao Novo Mundo. Jacob era o consorte da dinastia. Um autêntico fecho de ouro. eu me lembro . um sofrimento impiedoso. crescia um tumor. na presença dos funcionários do hospital. O primeiro sintoma foi uma incontinência das mais embaraçosas. Apossar-se d e uma bandeira ancestral e respeitável valia mais do que acenar com uma nova. quando as oportunidades eram mais do que escassas. me levou a apoiar. A doutÔra olhou para ela. agora rodeada pelo desdém de uma nova geração de vizinhos. descobrimos que o brinquedo de ouro estava defeituoso. uma das maiores sumidades do país.Nós não sabíamos! exclamou Esther. da família e de Déborah. saímos consultando médico atrás de médi co em busca de uma confirmação. O medo. fui fi cando orgulhosa da força 36 . fizemos os exames e veio o diagnóstico. exigia-se mais do que apagar a amargura do Velho. Estava grávida de novo. as sobras que os outros rejeitavam .era o eixo em tcomo do qual giravam t odos os sonhos. Embora a aldeia lamacenta.a sensação de irrealidade. Garantiu qu e pegaria mil serviços de contabilidade para merecer Esther como esposa . é óbvio.Por fim. Contudo. . subsistia naquele camp onês um sonho de camponês ainda mais ambicioso: não apenas ser livre. Depois de algum tempo.u a réplica final a um fidalgo de aldeia morto havia tempos e suas filhas de pele clara. Déborah nasceu envolta em rendas tecidas a mão . meu rosto não variava nunca e. tínhamos que v iver bem.procurou uma palavra que trouxesse de volta aqueles anos . voltamos para a mansão da família. Como era ardente e impetu oso o temperamento oculto por trás daquela fisionomia estudada e impassível. percebia que Jacob se sentia infeliz. sobretudo por ter que aceitar a caridade de um ho35 mem que o desprezava. Um sopro de med o impregnava tudo. como se tentasse consolar Esther." Esther relembrou. Ainda assim. tudo bem esterilizadinho e o insano pav or dos germes e de toda e qualquer mudança. Déborah. já estivessem soterradas havia mais de uma geração. mas Déborah . Jacob iniciou sua carreira justamente no momento m ais crítico da época. como é natural. os tempos da Grande Crise de 1929. . nem pelas lágrimas. os horários e as govemantas e os preceitos eram coisas absolutamente indiscu tíveis! Era a pedagogia "científica" da época. e preocupada porque tinha ac abado de perder dois gêmeos nascidos mortos. sutil e decisivamente. O especialista que a operou. exceto para o remorso pelos tapas injustos e a interpretação excessivamente zelosa de especialista s equivocados.embora esses serviços t ivessem simplesmente desaparecido. e uma babá alemã. teria do bom e do melhor.O quarto das crianças parecia um hospital! Sim. Papai pagava todas as despesas. em seguida. contudo. sobreviesse a dor. Déborah tinha doze vestidos de seda bordados a mão.Nessa época.Você não existe e eu odeio você! Papai continuava a esbravejar suas injúrias nos surdos ouvidos do passado. Era por isso que luxuosos gorros que Déborah usava em seus passeios tinham outrora cob erto a cabeça de um pequeno príncipe qualquer. Enquanto Jacob ganhava q uinze ou vinte dólares por semana. sempre risonha e contente . as origens do camponês.a dourada e d adivosa Déborah. Duas operações e. Naquela cria nça perfumada. Jacob sequer estava em condições de alimentá-la.herança de alguma importante casa européia derrubada pela Revolução. a milenária e bárbara dor . O nascimento de Déborah parecia ter tomado minha submi ssão necessária e justa. porquejá era tarde demais. sem a pagar o sorriso em meus lábios. C omo o ateu que exclama para Deus: . as filhas da dinastia.serviços e njoados e rotineiros. Cada coluna de números era cobiçada por cem cérebro s tão famintos e tão bem formados quanto o dele. era um médico excessivamente ocupa do para se dar ao luxo de explicar alguma coisa à menina ou de assisti-la quando.disse a doutÔra sor rindo. . "Esforcei-me por parecer alegre e confiante ao entrar no quarto de Debbie. Mesmo acor rentada a meu próprio passado.

mas não tinha graça nenhuma. um mês depois.perguntou a Dra. sempre a encontrávamos acordada. Pretendia pedir demissão no dia seguinte. começou a sair e fez amigos. e ela nunca dormia. Déborah manifestou um po uco de medo no início. uma vasta e int rincada fraude. Tinha um ja rdim cheio de árvores e não faltavam crianças pelas redondezas. ela se tomara grande demais só para eles dois e por isso tinham alugado um apa rtamento em Chicago. . Costumávamos br incar a respeito de seu sono leve. . É claro que a mansão tinha que ficar nas mãos da família: foi assim que aquele lugar odioso se transformou no lar dos Blaus. Consistia numa série de pequenos serviços extremamente lucrativos. Ah. na realidade. virou-se e perguntou: "Por acaso não sou aquilo que vocês queriam? Será que vocês têm que corrigir o meu cérebro também? "Era esse o seu modo de falar já aos dez anos de idade. o sol. a coisa mais importante de nossas vidas. pequena. Quando entrávamos em seu qua rto à noite. Déborah freqüentava as melhores escolas.. e. um dia. mas afinal. mas é que nunca a vi dormindo. ela devia dormir.Qual a idade dela na época? . Restav a-nos pouquíssimo dinheiro. No entanto. tudo. porém. Investigara durante três meses a origem e o destino de todo aquele dinheiro até comprovar suas suspeitas. estávamos de volta à mansão da família. os degraus eram cobertos por tapete espesso. Era uma escola pequena e simpática. Tivemos que vender a casa e. se libertar. Fizemos isso.Sim. Jacob conseguiu se empregar como responsável pela contabilidade de Sulzburger. Uma fraude complicada e engenhosa como essa até que tem o seu lado bonito. e convidamos os parentes para uma festa em honra ha saúde de Déborah. Meus pais resolveram dar a mansão para nós. com uma am argura excessivamente precoce para ela. .. Déborah nunca se referira a isso.Ela não demonstrava nenhum sinal de que estava doente ou infeliz? Só essa atitud e omissa? . Seu aproveitamento era excelente. não contivemos nossa euforia e o sentimento de gratidão que nos inva diu. . Reparei que ela não brincava com as outras crianças. . Quando finalmente soubemos que as operações tinham sido bem sucedidas. as melhores colônias de férias. Sentia muita dificuldade em 37 fazer amigos. as janelas sempre es cancaradas. n um bairro tranqüilo e mais modesto. . Todos gostavam dela lá. Víamos ape nas os grupos alegres de meninas brincando. não é? Pois mesmo assim não posso deixar de admirar a cabeça quemontou tudo isso.Dez anos. sim. Você quer dizer que ela dormia pouco? . Suspendemos as visitas ao psiquiatra. nenhuma necessidade de empregados e o começo de minha autonomia em tom ar decisões. Decoramos a casa toda. A contabilidade de Sulzburger nos pareceu. comia demais. Fic amos todos meio desvairados. Isso durou um ano . . ser mais do que um simples consorte em sua própria família. Ela fica va cada vez mais perturbada e insatisfeita. Dois dias depois. verificar se aquilo era ve rdade ou não. isso também acontece com muita gente. Jacob poderia. Eu falei da escola. . Fried. assando batata-doce em volta da fogu eira e cantando velhas canções de acampamento. No inverno. o psicólogo nos cha mou e mostrou um teste que fora aplicado em todas as crianças. Depois da terceira sessão. e havia as flores que eu mesma cultivava. Você sabe disso. .que era capaz de demonstrar. Anos depois é que vi emos a saber que a primeira colônia de férias (que ela freqüentou em silêncio três anos se guidos) era de um anti-semitismo cruel.Comecei a observar com mais atenção minha filha prodígio. Segundo eles as res postas de Déborah indicavam uma "perturbação" qualquer. O processo foi tão gradativo e lento que só vim a notar naquele momento. mas logo se desinibiu. Não adiantou nada.. Dizia que tinha ouvido nossos passos n a escada. Vivia escondida em casa. àquela época.. finalmente.. . . e no verão. e acabou engordando. tentando desvendar sua mente. Vai nos custar.um ano maravilhoso. Não queríamos que ela se sentisse . não muito longe do centro da cidade. Compramos uma casa nova. . . Também eu f iz amigas. Uma tarde. Sem a família to da.Esther passou a remcomorar velhos nomes que ressu rgiam do nada. Jacob chegou em ca sa e com a notícia de que o negócio de Sulzburger era. A escola recomendou que a levássemos a um psiquiatra infantil.Bem.Uma pessoa tem que dormir.respondeu Esther com voz cansada . .

a adol escência de uma menina excepcional. Chegou em casa estranhamente pálida e assustad a. Afinal d e contas. Sentia-me ao mesmo tempo esmagada por aqueles quartos bolorentos. . rapidamente substituídos pela rigidez e inexpressividade facial . Ao estourar a Segunda Guerra.. ocorria-lhe uma estranha sensação de culpa). Procurei no banheiro e a encontrei sentada no chão. . por causa de mais uma de suas indisposições misteriosas. Cerca das quatro horas da madrugada. de ficar à escuta. Déborah foi ao médico. eu me dilacerava interiormente. e os estudos andassem bem.Sua resposta foi bastante significativa. às colônias de férias e à escola. Tudo estava claro agora. Déborah era intensa. Era uma característica intrínseca a nós duas. . Passamos a encarar com indulgência as doenças de que se queixava. é claro. sem contar os esboços e os rascunhos na escola. Na realid ade.Bem.Perguntei-lhe por que simplesmente não deixara o sangue escorrer pela pia . Veja.. . Você mora num apartamento. Pareceu-nos uma boa me dida.Esther sacudiu a cabeça para expulsar a palavra proibida. mas gritando por socorro. isto é. que. gritando muda e confusam ente. por alguma razão oculta e instintiva. ela sabia. não me cansava de repetir. da Velha e de toda a família. que reconheceram que a meni na era realmente talentosa e devia ser estimulada. Ela disse que não queria qu e o sangue se afastasse muito. Vamos voltar um po uco atrás de novo.Não sei. acordei. a sensibilidade. O que só veio a calhar: foi uma resposta fácil e luminosa às sombrias e vagas suspeitas. as suas distrações: era a adolescência. olhando o sangue escorrer de seu pulso numa bacia. mas no íntimo. Até que finalmente encontramos um comprador. Sempre houve atritos entre Déborah e s . foi impossível continuar sustentando uma mansão de qui nze quartos. Uma evidência importuna qualquer sempre vinha relativizar essas racionalizações. . especialmente para Déborah. de grande talento. mas a mente dela escolheu o melhor caminho. a intensidade e os súbitos olh ares de desamparo. que não estava tentando se suicidar.Não conscientemente. agora ela está aqui.. ou por uma espécie de entorpecimento mental. Não sei bem como. A família encontrou de repente a explicação pro videncial para todas as esquisitices de 39 Déborah: o aspecto doentio.cont ou a doutÔra. aos onze e doze anos de idade. embora os professores da nova escola a tivessem em a lta conta. inclusive dormindo... . suas pequenas excentricidades. seus pavores. Começou a aprender música e a se dedicar a todas as atividades próprias às meninas de s ua idade. Sacudimos aliviados o peso morto do passado e mudamos para um apartamento na cidade. por uma terrível compulsão de 'guardar as coisas'. No dia seguinte. Seu interesse despertou com o ímpto de uma tempestade. As janelas ofereciam morte muito mais fácil. e não poupei esforços para me convencer de que era a resposta exata. Consumia todas as suas horas vagas desenhando. E há mais: Déborah sabia que o sono de vocês era leve porque o dela também era. sem exigirem grandes esforços da parte dela. Levamos alguns deles a professores e críticos de arte. um espírito raro. rápida e segura. que não seria eliminada por uma decisão ou por um pedido. sua solidão perderiam um pouco da estranheza no anonimato da cidade grande.38 assim. Fui até o quarto dela com a certeza íntima de que havia algo de errado (na rrando agora o episódio. adquirimos o hábito. mesmo sem nos darmos conta. recomendando-lhe que não tomasse as coisas assim tão a peito. Déborah descobriu a arte. e pelo olhar crítico do Velho. . Certa tarde. ela continuou infeliz.De quê? . portanto. saiu cedo para fazer qualquer coisa e voltou muito tarde par a casa. Na cidade. Seu grito de socorro foi ouvido. ela deve ter feito milhares de desenhos. a insônia. muda.Quer dizer que foi uma atitude premeditada? Uma coisa planejada com antecedência ? . no entanto. . . Não adiantava . nunca ch eguei a acreditar totalmente nisso.. Lembro-me de ter conversado algumas vezes com ela s obre isso. O quarto de fato estava vazio. Nos dois anos seguintes. a seu modo.. Déborah er a uma pessoa especial." Esther procurou uma definição que tomasse verossímel o estado atual da filha. Enquanto tentávamos nos livrar dela.

Como é que uma pessoa perc ebe que a atmosfera mudou? De repente. Tinha nove anos de idade. os olhos transbordando de gratidão: . então. Talvez isso tudo tenha começado com o t umor. conversa vem. muitas vezes as pessoas não a compreen diam bem. .concordou a doutôra. era o terceiro ano consecutivo que ela ia. não.Vejamos. e isso facilita va um pouco as coisas.Feliz. ela começou a ter problemas com um determinado gru pinho.Numa visão retrospectiva. ficou bom? . Certa 40 vez as aulas mal tinham começado." ..Ah. . . não é? Antes mesmo do psicólogo da escola.Bem. .Durante muito tempo. As pessoas com quem Déborah tinha dificuldades eram conquistadas e eu me sentia feliz por poder ajudá-la. sempre procurava ser amável com os professores. ela se mostrava aliviada. ajudando-a ne sse tipo de coisas. .É isso que é a do ença? . Tive um paciente que costumava aplicar em si mesmo as tortu ras mais pavorosas. No entanto. desde aquele ano alguma coisa começou a funcionar mal nela Daí em diante foi como se ela mantivesse a cabeça baixa já esperand o pelas bofetadas. . É um bom meio de se obter reconhecimento e fazer amigos quando se é jovem. parecia estar bem.repetiu a doutôra. Na sua opinião. Quando fcom os embora. e conversa vai.Entendo . Também nunca deixei de dizer o quanto eu a amava. . Ela teve um problema sério com uma das professoras na escol a pública da cidade. Convidei essa professora para um chá. pensativa. Ficaram amigas enqua nto Déborah freqüentou a escola. Estou contando isso porque quero que você entenda que é impossível tentar refazer o mundo p . Só que vieram os nazistas e o infemaram em Dachau. é claro. pareceu infeliz. enfim. . Não fcomos nós. Tive que me esforçar um bocado para superar minha p rópria timidez. quando começou o problema? . Eu. as férias na colônia.E quanto à colônia? . . Esses problemas crescem muito nessa idad e e eu me sentia contente por poder ser uma verdadeira mãe para ela. Esther voltou-se para a doutÔra. respondeu: "Ora. a época em que ela mesma começou a providenciar as pancadas. Sentia orgulho dela e nunc a deixei de dizer isso. De certo modo . que isso algumas veçes era mal interpretado. . . ajudei a professora a compreendê-la. não foi o amor que Jacob e eu tínhamos um pelo outro ou por nossos filhos. Fcomo s visitá-la no final do verão e ela nos . de que forma eram sentidos esses tempos? De que forma você se sentia? .Ficou. Contei-lhe como eu mesma tinha conseguido superar certas dificuldades de crescimento fazendo esportes.Esperando pelas bofetadas. Minha própria mãe nunca pôde.E então veio a époc a. Esther. Precisei aprender a fazer as pessoas se desinibirem. tinha-se configurado um quadro falso das coisas. teve a impressão de que ela não estava entendendo. Cantávamos e brincávamos. você soube que as coisas não iam bem com sua filha. Assim pelo menos sou dono de minha própria destruição. Na colônia de férias. .Esse paciente. . a coisa acontece. Déborah ja mais ficou desprotegida ou sozinha. que ela procurou corrigir." Eu insisti: "Por que não espera para ver o que o mundo realmente faz?" Ele respondeu: "Você não entende? Mais cedo ou mais tarde acontece. 41 .Lutei por Déborah durante toda a sua vida. pronto. durante o verão. Lembro-me de várias ocasiões em que ela precisou de mi m e eu fiquei de seu lado. Essa coisa horrorosa aconteceu apesar de nosso amor e de nossos cuidado s.De que forma Déborah encarava essa ajuda? .Eu procurava ajudar. expliquei que minha filha tinha medo das pessoas. Convidei-os para um passeio no jardim zoológico e foi o bastante para quebr ar o gelo. e no final a professora veio me dizer que conhecer Déborah fora um verdadeiro privilégio: era uma menina realmente excepcional. isso depois. e quando lhe perguntei por que agia assim.Um sintoma talvez. . foi antes disso. é claro.as colegas? Resolvia os problemas sozinha ou recorria a você? . . onde ele morreu. faço antes que o mundo o faça. para me divertir nos lugares onde eu estava. no entanto. . .

sobretudo agora que ela se mostra tão sensível a i sso.Sim. fitando a doutôra com ol hos incrédulos. por experiência. parado na esquina.Vejo agora que. O hospital dera permissão pa ra sair com Déborah sozinha. Esther voltou a loca lizá-lo. . de causar. tremendo de frio no âmago daquela noite de inverno. Como pude. . anos e anos permiti que Jacob ficasse em segu ndo plano.Como. mas muito mais em relação a Jacob do que a Déborah. Ela precisará de seu apoio. Esther compreendeu que teria que enfrentar a Déborah d o presente. E ao saírem. Fried observava o contraste entre a Esther dos modos estudados e a fision omia circunspecta. eu tinha que tentar melhorar as coisas . Não se torture nem se culpe a si ou a seu marido ou a qualquer outra pessoa. ao tentar ajudar.juro que não vou usá-la. não é? Meu amor por Jacob não me impediu de magoá-lo e hu ilhá-lo aos seus próprios olhos e aos de meu pai. ela disse num tom de voz suave: . mas acabou aceitando. essa. As concordâncias e contradições entre as duas v ersões da realidade permitiriam atribuir a verdadeira dimensão de profundidade a uma das interpretações. erros graves. jantariam na cidade e depoi s conversariam. Desde aquele apartamento caríssimo. Esther viu-o no fund o do cinema." Passou no hotelzinho onde estavam hospedados para dizer a Jacob que Déborah ainda se recusava a vê-lo. Esther estava convencida de que não conseguira explicar dev idamente sua posição. . viu-o novamente escondid o na sombra. mas uma tentativa. "Pobre Jacob. Déborah e eu. acabara interferindo. E nosso amor por Déborah não nos imped iu de. "Papai acha". Fried conduziu-a até a porta. Se não fos se assim. de certo modo. a filha agradecida.ara proteger as pessoas que amamos. . Terminara a entrevista. . e mais o período em que vivemos da caridade de papai. "Juro . bem. . contudo. Comovida com a sinceridade de se us sentimentos.Amar apenas não basta. . que a versão da filha diferia radicalmente da apresentada pela mãe: a mãe desvelada. . mas ficou calada. com os olhos pregados em Déborah. "Muito curta". quando ele é que era meu marido. e a Esther-mãe daquelas palavras sentidas de amor e sofrimento. . . observando-as.Só há uma coisa realmente perigosa. como saber o que dizer quando estiver conversando com ela? Sabe. . a menina não estaria intemada. encarregad a de transmitir a bofetada. tímida e desorientada. .Mentir. 44 . Iriam juntas a um cinema. "não de u para dizer nem um décimo do que precisava ser dito". um olhar de sonâmbula. Trazida de volta à realidade. e seu olhar era tão estranho. . A doutôra sugeriu que não insistissem com a filha. da última vez que a vi. doença. pensativa. e seus desejos tão simples e modestos! . procurando tranqüilizá-la. doutôra? . recostando-se na c adeira. de tomar suas próprias decisões. não de sua a uto-recriminação. O que não significa que você deva se mortificar por ter tentado.O que é. Quando entraram no restaurante. . A Dra.pediu a doutÔra. Mais tarde. .Conte como era sua vida antes de você vir para o hospital . e isso ainda hoje. Sabia. . aqui estou eu no meio de novo. e de uma filha que padecia de uma decepção mortal. Como pude fazer isso com ele? 42 Todos esses longos anos. A Dra. pensou Esther. . . .Deixe que nós.disse Esther. Tinha a im43 pressão de que. Esther interpretou aquilo como uma co nciliação. procuremos as causas.Calou-se. Ao deixar o consultório.Olhou de novo para a doutôra. cometi erros. Não vo u perguntar o que fizemos ou o que não fizemos.prometeu mentalmente a Déborah . ela não quer ver Jacob." Jacob protestou. "Papai quer". pois achava qu e essa decisão não representava tanto um desapreço a Jacob. Ambas se levantaram. .

para que ficassem hipocritamente perguntando "tudo bem"? E depo is. sentindo-se usada.respondeu Déborah asperamente. remontaram -na. . Na noite em que ouviu o pai discutindo os planos para inte má-la no dia seguinte no hospital. Não vai doer nada . Naquela mesma noite.Não. manipulada como um objeto. sufocando-a com a substância adocicada e enjoativa do sono.É porque nunca perdi o tumor. Falou. mentiras que para mim soavam como deboche. tateando cautelo samente o novo terreno. nenhum deles.Fique quietinha agora. em protesto por aquela menina de ci nco anos sofrendo ali à frente das duas. . . Para sua surpresa. . num mundo onde as pessoas ligavam tão pouco umas às outras. em meio à dor brutal: "Como vai sua bonequinha?" À medida que contava. imobilizaram-na mais uma vez s obre aquela mesa e disseram: . .disse Déborah. mais tarde. Logo depois veio a ferroada da agulha.A terra dos sonhos . .Oh.responderam e em seguida comeÇaram a cauterização insuportavelm ente longa e dolorosa da Parte proibida. por terem ment ido tanto e de modo tão estúpido. Os pesadelos só não tinham anunciado a pavorosa dor que viria a sentir. vamos fazer a sua bonequinha dormir. justamente sua parte mais feminina e mais secreta. Nunca p ediram que eu perdoasse a eles por essas coisas e nunca perdoarei a eles. Quanto desprezo deviam sentir para mentirem daquele jeito! Quer dizer então que er a pior do que um assassinato? . a eles e a mim. naquelas c abeças assassinas. 45 Certa vez. você então não vai ficar com medo? . um médico intemo visivelmente perturbado com se u sofrimento e perguntou: .Então vou contar uma coisa que mais ninguém sabe. . seu passado desperta ria algo mais do que aborrecimento.Que cretinos! Quando é que aprenderão a não mentir para as crianças! Que horror! . . não o que você recebeu. sobre aquele tumor.Ela não sabe muito a respeito disso. Houve. e de novo apelavam para o engodo mais do que óbvio da boneca. e em seguida.A máscara baixou.Por que vocês todos contam mentiras tão horríveis? Ele res pondeu: . Nunca disseram que estavam arrep endidos.Quer dizer que você não vai ficar indiferente. cuja flor representava sua própria vitalidade destruída. . es fregaram. Tinha cinco anos na época. outro sonho com um vaso despedaçado. .exc lamou e pôs-se a apagar o cigarro impaciente e irritada. voluntariosa como era.Está vendo. o que ela viu.Diga então o que você sabe. morta mas apresentável. ela se afogou num silêncio mudo e atordoado. ia observando a reação da Dra. Penetravam com suas sondas e agulhas na região proib ida. Só que ag ora é invisível. não o que você viu. por exemplo.foi o que disseram. continua me comendo por dentro. não vou! Pode estar certa disso! respondeu a doutôra.Minha mãe já lhe contou tudo . . o rosto da doutôra estava c ontraído de raiva e a voz carregada de indignação. Depois dos sonhos. limparam cada uma de suas partes com sabão em pó. Fried.O que haveria naquelas cabeças malucas. como se toda a realidade de seu corpo se resumisse naquela coisa perversa q ue estava escondida lá. . . por tere m me obrigado a suportar toda aquela dor e a vergonha de sentila.Sua mãe contou o que ela deu.Isso pune a você. . como se estivessem saqueando um quarto: desmontaramna.Dias depois. não a eles.Como assim? . 46 o upuru nos pune. Continua lá. . . teve um pesadelo: sonhou que a devassavam à força.Agora nós vamos consertar você direitinho. ardeu de ódio.Para ela aquilo significava que iam a ssassiná-la. Por terem penetrado em mim sem a menor consideração. .ela perguntara assustada. virou-se para um deles. das altas e gélidas regiões de seu reino. . Estava curiosa para saber se. . idade suficiente para morrer de vergonha quando os médico s meneavam a cabeça referindo-se ao mal que a roía por dentro.Que lugar é esse? .

fugi ndo assustada para Yr. de onde podia conviver com a T erra.Você tem o privilégio de ir à cidade? . Era tarde.. eram chamadas pelos outros de "doentes" e por si mesmas. A e B. a não ser em segredo e como indivíduos estranhos e excêntricos. Fried. pancada. horrorizada. tanto mais inacessível às pessoas quanto mais rígido fosse o controle da voz interior. e ela compreendeu. Depois que soube disso. Ela não conseguiu se controlar e acabou insistindo para que eu fal asse sobre os motivos da minha doença. Tratava-se de uma norma criada espontaneamente pelos pacientes. Para aqueles que nunca ousaram pensar em si mesmos. sem deixar vestígio s de sua passagem.respondeu Carla sem titubear.O que foi que você disse? .Dizem que a pessoa deixa 47 de odiá-los depois de algum tempo de terapia. mas acho que isso é "furado". num plano mais sério. despidas de eufemismos bem educados. distante das palavras. que um de seus segredos acabara de escapulir para o mundo. As int emas na Ala D. Eu estou pirada!" . Impied ade.Há momentos em que odeio as pessoas que me fizeram ficar doente . e eu fiquei doida.perguntou Déborah. Excetuando-se a D. A superfície voltou à tranqüilidade. . Déborah não estava mais ali. . "da força incontrolável que possuem! Por alguma razão. que se fechou sobre ela como um oceano. . a liberdade significava liberdade para ser doido . afora aquela instieadora de horrores. .perguntou Carla. Além do ma is. com um olhar sempre esgazeado. eu sobrevivi. pirado. e mesmo que eu soubesse. Fried contemplou-a longamente. uma paciente da Ala B que se dissesse "louca" pa ssaria por faroleira.respondera a mesma. donas de um ressentimento puramente humano!" Dias depois.Upu o quê? Yr irrompera de repente.insistiu a doutôra. . Fazia tudo o que mandavam e. sentada com Carla e algumas outras meninas. mulheres que viviam gritando. outros subido para a Ala D (a dos "insanos") e alguns transferidos do hospital.E talvez fosse verdade. mas não pude dizer nada. Fazia já dois meses que Déborah estava no hospital. O termo Upuru nomea va em Yr a síntese das lembranças e das "emoções" daquele último dia no hospital.Acho que foi. no meu irmão e depois em si mesma. o Censor vinha interferi . descrente de que pudesse existir um único inimigo. . As alas mais tranqüilas. tais como "insanas" e "loucas". . lunático e. não diria. Eu tinha certeza que ela ia perguntar. A linguagem de Yr era um segredo ciosamente guardado.Não. "Como os doentes sentem medo". Havia toda uma hierarquia de privilégios para gozar dessas liberdades.declarou Carla . .Daqui há pouco. meu inimigo está acima do ódio ou do perdão.comentou Carla. Estava no corredor da ala.Ela deu um tiro em mim. na sua casinha branca de aparência tão pacata. demente. das razões ou de qu alquer possibilidade de alívio. não conseguem acreditar que são apenas pessoas. Mal nos sentamos e a coisa transbordou como uma enxurrada. crueza: duas regalias importantes do hospital. Déborah batera asas. utilizadas ao máximo por todos .A visita foi boa? . fora de si. a Dra. Déborah retcomou ao Mundo Intermediário.Quem é? . para o consultório ensolarado e sua mobília traiço eira. desde qu ando todas as coisas se tomaram cada vez mais cinzentas e obscuras. . insano. oc upavam o nível inferior daquela escala de valores invertida e só podiam reivindicar as categorias mais leves: biruta. .Minha mãe . e que os recém-chegados aprendiam sem que ninguém precisasse ensinálos. pensou consigo mesm a. uma menina de olhos lânguidos e modos agressivos. biruta. . louco. maluco. Meu pai se casou de novo. . Déborah compreendeu a reação desdenhosa de Kathryn. Desse modo. o lugar já não assus48 tava Déborah. eles morreram. . Só elas tinham o direito de se referirem a si mesmas pelos termos mais extremos da escala. Novos pacientes tinham chegado.. mas me deixaram sair quando minha mãe veio aqui. sem caírem em contradição. Palavras cruas. você está ficando perturbada!" "Eu não estou perturbada. vamos acabar veteranas . de "loucas".A Dra. palavras impiedosas.Velhas lavradoras des sa estranha colônia penal. quando uma enfermeir a disse para ela: "Ora vamos.

assim como para os mortos. você consegue me ver? .Só que ainda há muito por fazer. . Enquanto isso. . Excetuando-se o convívio com Carla e Marion na ala. ia se afastando de tudo e de todos no mundo. a vítima tem de ser linda. na casa da doutôra.Não quero assustá-la. a que costu ava recorrer quando queria descrever para si mesma e para os personagens de Yr os se us desejos. Meninas.com os Olhos Trancados. . . aos olhos de Déborah. Era freqüente. Aquela conversa estava deixando Déborah terrivelmente amedrontada. é para sempre? . Nada disso adianta. Anterrabae pôs-se a recitar uma fórmula de encant amento em Yri. Significa Olhos Trancados. implorou Déborah no idioma de Yr. . . .. tinham pelo menos a decência de se mostrarem embaraça dos. no cinza que cobria tudo for . Estou " por dentro". ..Corresponderia a sarcófago. amatil e sei lá mais o quê.Deve haver algumas palavras . .perguntou Déborah. que esforço faziam para que o hospíci o se parecesse com um lar! Puro faz-de-conta. sacudida. o alcance de sua visão não ultrapassava a cobertura do sarcófago onde estar ia encarcerada.perguntou a Carla no idioma da Terra.Há quan to tempo ela está aqui? . Tu que não és linda.ndo de forma bastante branda. O inverno chegou. Pensou nas metáforas Yri. por sinal) e.Não consigo descrever a sensação . tomei metrazol. As planícies. já que falamos sobr e as operações do tumor. paralisada. mas quer dizer muito mais. e se afastou . como um coração.Não sei. As janelas emolduravam os galhos nus e enegrecidos d as árvores. Fui analisada.disse para a doutôra. .no mundo inóspito à sua volta.São metáforas. . Mate-me. que. o mundo se reduzia à dimensão d e seu próprio ataúde. uma gravura de alguma coisa que é real. Eu gostaria de lhe perguntar. . Para ela. eletrocutada . Déborah . mas ela não conseguiu entender. nos últimos anos. aí esgoto todos os recursos.disse à doutôra. . com gestos dramáticos de condenada. segredou: Para que se faça de condenada. 49 . sob a forma de uma águia. os abismos e os picos de Yr começaram então a gerar um vocabulário cada vez mais rico. sua história ia se arrastando. como foi que o mundo de repente ficou cinza depois disso. Lactamaeon. Já passei por seis hospitais. senhor.E isso. . Cinco pertencia m à equipe médica e dois eram pacientes. os quais não tinha com quem compartilhar . sentada perto delas.Ela se levantou. caso contrário o drama se toma uma comédia r idícula.insistiu a doutôra. revolvida. cheia de reti radas.O quê? . Quanto tempo leva para sabermos se nos daremos bem ou não? .Existe uma palavra. para quem as paredes não estremeciam .Espero que sua curiosidade esteja satisfeita . Meu Deus. .Talvez você possa explicá-las.retrucou a doutôra. segundo personagem mais importante de Yr.Procure lembrar para que pos samos compartilhá-las juntas. camuflagens e defesas. acorrerem-lhe pensamentos e acontecimen tos. nem essa droga de l ugar nem nada. em determinados momentos. Os risos pendiam no ar tão artificia is quanto os enfeites na árvore (nenhum vidro. acho. que conseguia exprim ir suas estranhas agonias e seus momentos de grandeza.Leva mais ou menos três meses. vocês ainda estão na fase da lua-de-mel aparteou uma garota. você não entenderia. Na sala de estar.Mais de um ano. que se reco stara na cadeira.. e o que se passou no resto daqueles primeiros anos. . . um grupo decorava uma árvore de natal. . Só me falta agora u ma lobotomia. Dezembro. . . inclusive da voz exterior que a sub stituía e respondia por ela quando desejava se recolher a Yr. As paredes começa ram a pulsar de leve. nenhuma extremidade ponteaguda.Isso significava..como uma gravura apenas. Era difícil falar com um vulto parcialmente submerso. para Déborah.

por causa dos "tchecos-e-os-poloneses". Suas re gras não passaram de mentiras. Honesta sem dúvida. pressentindo a desgraça inevitável. não soubera se comportar no jogo. Na vizinhança. Quando sua irmã Suzy nasceu. E foi mais ou menos iss o o que aconteceu. já que a própria doença continuava existindo. Déborah. que berrava e cheirava mal. O entendimento dos mistério s eram as lágrimas. A realidade oculta pelas farsas era a morte. mas não carinhosos. mas fria. não seria tolerada. porém. Nas férias. Déborah começou a revolver lembranças. expulsando-a. No entanto. a maldição predileta: j udia. para nunca mais abandoná-la. tcomou c onta da questão: fez-se anfitriã das meninas do grupo mais popular. com o passar dos anos. mas fruto do ódio e do egoísmo. menina sempre com ares de moça. que por si mesma já se considerava imunda. isto é. era uma verdade mais do que evidente: achava feia aquela coisa. e a "judia imunda". Era um mundo carregado de mistérios. eu te odei o! Três gerações de ódio! Aquelas palavras tinham uma ressonância especial. judia imunda. na Alemanha. do alto de sua nobreza. se a doutÔra pudesse decifrá-la. minha mãe odeia tua mãe. o que bem poderia ser verdade.exclamavam indignados. e para onde olh asse. e por mais consciente que estivesse dela s. matava judeus por mero prazer e ma ldade. não eram só aquelas crianças que a odiavam. Um deles morava na casa ao lado. Déborah. que veio saltitando atrás com uma radiante e despreocupada doçura. só começou a freqüentar a esco e e foi rejeitada das primeiras amizades e grupos que suas coleguinhas tinham fo rmado em sua ausência. na primavera. Continuava m orgulhosos dela. eliminando aquele "povo imundo". Os parentes. em Deus. disseram. onde anos atrás o tumor fora exti rpado com tanto sucesso. os códigos seculares da fortuna ainda vigorav am. a maldição transbordou do corpo e da boca de Déborah. só conseguira enxergar naquele ser intruso um monte de rugas com um rosto vermelho. para Déborah. ao mesmo tempo doce e amarga. certa vez. contudo.Mas ela é sua irmã! . as tias e os tios foram se afastando de Déborah. quas e cruel. . no entanto. s e apinhavam em volta do berço. constituía alvo i deal para os provocadores do quarteirão. . por mais negada que fosse. lançava-lhe ao rosto.a de Yr. "via fracasso e confusão. que foi incapaz de fazêla desistir. e não do amor.Não fui eu quem fez! Não ajudei a tomar a decisão de fazê-la. Quanto a Suzy. não a amava. Esse comentário marcou o início do incômodo da família em relação a Déborah. As conturbações eram combates travados em segredo. . boa e aflita. Quem sabe se. de certa forma não estivera à altura do jogo deles. O mundo de Déborah apoiava-se na certeza de que era vítima de uma maldição ináta. Sempre q ue a encontrava. Rabiscavam palavras ofensivas nas pared es especialmente as da privada (onde. a menina feia do tumor gritara ao sentir a urina queimando por dentro). talvez fi asse mais fácil suportar a memória. Mesmo no hospital. Depois de ouvir isso. e na cre nça fervorosa. antes de sua partida para a colônia: seu pai chorava. maravilhados com a beleza e a delicad eza da recém-nascida. Diziam que ali não havia preconceito. já que as difer enças entre os vários cultos protestantes da classe média sempre foram extremamente su tis. de tramóias. Uma observação gente e bastante precoce para uma menina de cinco anos. um professor de equitação da colônia declarou brutalmente que Hitler fazia pelo menos uma coisa boa. nos quais os judeus. minha avó odiava tua avó. nos tchecos e nos poloneses. Ficaram chocadíssimos e revoltados com o que. Lembrava-se bem da cena que presenciou um dia. ponderaram. até mesmo ela e a capaz de perceber. isto é. E no verão ia para a colônia de férias. Por cáüsa da operação. Como se estivesse possuída por um demônio. foi amada sem r eservas. mas o fato é que ela era a única judia. O passado. sob os auspício s de uma mãe adorá51 vel. com a cabeça apoiada na mesa da cozinha. sempre perdiam. lág rimas terríveis e pungentes de homem. farsas e conturbações. Algumas vezes Déborah já ouvira fa lar que um homem chamado Hitler. Déborah ficou tão re ssentida com isso. A mãe. lhe 50 trazia uma dolorosa sensação de perda e aflição. fico u imaginando se eles todos não teriam tumores. judia. A convalescença t ambém não passou de uma grande farsa. fechar os olhos e crer. nem lhe p assava pela cabeça que viesse a ser sua companheira.

Ao voltar ao presente. Quis agradecer àquela mulher por se mostrar capaz de se emocionar até o ódio. Um horror! Deram-lhe uma injeção antitetânica e colocaram-na direto no elevador. estava inteiramente sob o domínio de Yr. Rasgou o antebraço. Umas viviam mudas. . e encontrou uma bagunça incrível: os lençóis e o rosto dela empapados de sangue . Brincas com o Abismo de um modo muito pe rigoso. Déborah apoiouse a uma janela . todos scomos . disse Anterrabae. ralhou ao fundo o Coletor.e começou a pensar febrilmente. . . As enfermeira s e as serventes da ala eram corpulentas. O lhe para mim! chamou Anterrabae caindo. E o jeito sa rcástico de falar. . Déborah se aventurou a confirmar essa distância. aprofundando os cortes. e o braço cortado com uma tampa de lata. . escuta. algumas tinham acessos de cólera. sentia-se exausta. cutucando aqui e ali com o dedinho para ver o que acontece.Onde está a Blau? Não encontro o nome dela aqui.Engraçado. e que as sessões de terapia são muito difíceis. nunc a! és inteiramente diferente. você é psicótica. Tu não és dos nossos. você não sabe? Foi transferida para a ala dos "Perturbados". . Uma guria rica e estr agada. porém. Não sentiu dor. recolhida num de seus passeios.parecia uma máscara de esgrima. Só então se recostou e dormiu. o Coletor e seus vastos reinos.Você está assustada.Eu sou Lee. . Nunca achei que aquela guria estivesse realmente doente. As bordas eram denteadas e cortantes. pensava: lá vai a menina rica. O que a intrigava . As mulheres passavam o dia empertigadas em cadeiras nuas e incômodas. não está? . Agia com meticulosidade. Os médicos dizem que são todas doentes mesmo. como você. até que o braço ficou reduzido a uma posta ensangüentada. Tu nunca foste como os outros. Sentou-se numa cadeira desconfortável e ficou escutando os gemidos e os gritos do Coletor. a brecha que se abr ia para diferenciá-la dos outros. Sempre qu e nos cruzávamos. Estivera completamente absorta narrando esses ac ontecimentos. Andava como se estivéssemos muito aba ixo dela para que se dignasse a nos olhar.. indo e voltando umas dez vezes seguidas. é que o lugar apresentava um aspecto ao mesmo tempo assustador e reconforta nte. . não propriamente o que dizia. apenas a sensação desagradável causada pela resis tência da carne. que precisam ficar aqui. Vais sucumbir.Lógico que não.Essa vaquinha sofisticada nunca fez nada difícil na vida. Cavalo-s elvagem-um. e os urros or iundos dos níveis mais baixos dos reinos de Yr.Eu não sabia que as pessoas na Terra eram dotadas de interior . Essas palavras infundiram nela uma profunda e duradoura sensação de alívio. Estás beirando a tua destruição. não és como os outros! As palavras em Yri anunciavam a etema retirada. nem falar sobre os Deuses. num sentido que ultrapassava a finalidade por que estava ali. só isso! . mas a frieza. Sou psicótica.Estou. Uma jovem se aproximou por trás dela. acompanhando minuciosamente os sulcos o riginais. acabarás quebrando o sigilo. . e ficou observando o sangue escorrer dos seis ou sete sulcos abertos até abaixo do cotovelo. Guardava consigo a tampa de uma lata de conserva s.Enfermeira ou qualquer coisa no gênero? . 54 Déborah estava apavorada na Ala dos Perturbados. tentando desvendar aquele mistério. viu a indignação estampada no rosto expressivo da médica. Escuta. pesadas. Pássaro-um. Alegre e s ilenciosamente. revestida de grades e telas . Isso mesmo.Foi na colônia que descobriu Yr pela primeira vez. ou sentadas e deitadas no chão. com o o metal.Ah.disse pensativam ente. Tudo estava abaixo dela. musculosas. Rasgou de novo o antebraço. sabendo e não sabendo ao mesmo tempo o que pret endia fazer com ela. outra s não paravam de resmungar sozinhas. . . Assim. Quando voltou à ala. mas decidiu não contar isso à doutôra .Nunca se sabe o que se passa dentro delas. Cafés entrou no qua rto hoje de manhã para acordá-la. As últimas pretensôes a conforto e no rmalidade acabavam de ser suprimidas.

ou de respeitar as incompreensíveis normas de conduta da Terra. só fez marginalizá-la. com seu sotaque engraçado. Sempre se dá um jeito. maior o espaço que Yr ocupava em sua vida. Os miseráveis me violentam todas as noites desde que cheguei .Mostre.em que os deuses de Yr fora m companheiros. Mas alguma coisa mudou.Onde posso encontrá-lo a sós aqui? . . De uma fonte de beleza e proteção.Agora ela está lá em cima. Não viremos abarrotar o local onde se reúnem os co nvidados dessa antiesposa anti-secreta do abdicante Rei da Inglaterra! Soltou um a sonora gargalhada. . nem recorreu às mil e uma expressões desastrosas que as pessoas habitua lmente empregavam quando a surpreendiam perturbada. E ainda deve ser vi rgem. verdadeiros príncipes com quem partilhava em segredo sua solidão. Déborah foi sendo forçada a mitigar. Decidiu então falar sobre Yr. protegendo o tumor que ameaçava desp ertar ao menor estímulo. dormia a 3ª esposa secreta de Eduardo VIII.que estava sentada na cama discutindo sua estra tégia com a figura invisível do Primeiro-Ministro . Quanto mais profunda a solidão. trovejou Yr. meio cu rvada sobre o abdômen vulnerável e á região inferior.O que foi que aconteceu? . Houve um tempo . a apaziguar e. nem escandalizada.Olhe. "Eu poderia ter agredido essa moça até não poder mais. Déborah notou que ela não estava nem assustada. o que foi que levou você a fazer essa coisa aí. para assumir a figura de pris . saindo em seg uida do civilizado. no corre r dos anos. . que não procurou ri dicularizá-la.É claro! Todos os meus parceiros de dança vão tremer de repugnância ao vê-la. rei que abdicara do Trono da Inglaterra. Depois que a enfermeira trancou os objetos pessoais de Déborah na p equena cômoda embutida.Escoltada? . O Abismo estava muito perto. Tinha si do capaz de olhar para fora de si mesma o bastante para perceber outro medo idênti co ao seu.levantou-se e veio toda compungi da para o lado de Déborah. Arranhei um pouco o braço." Compreendeu num estalo o que havia afinal de reconfortante na Ala D: ali as pessoas estavam dispensadas de manter os falsos b ons modos. . pensou Déborah. onde sua excentricidade. a mulher . Pouco a pouco.A doutôra reparou no olhar desnorteado e no medo.Déborah perguntou a Lactamaeon e seus pares. Ia ao encontro das divindades. Você que se meteu numa grande encrenca. que davam à fisionomia de Déborah um estranho ar de truculência. os gestos aflitos e ansiosos. Mostre o braço.perguntou a doutôra. rubra de vergonha. e abordá-lo com a franqueza e a desinibição características do doente (coisa que ninguém da equipe médica conseguiria).Você é tão jovem para estar nessa casa de pecado.Isso vai dar uma cica triz horrível! . finalmente. na Ala D . sem esconder nada. fosse na escola. Dizia que tinha sido intemada (tratava-se de uma Casa de Prostituição) pelos inimigos do antigo rei. a renunciar a seus privilég ios de soberana de um reino luminoso e consolador. Yr se transformou em fonte de medo e dor. não é nada impossível que você venha a dançar 56 um dia e a viver no mundo de novo. as violentas dores do tumor fictício. ninguém diria: "O que é que as pessoas vão pensar?" Seja educado! Não faça escândalo!" Na cama vizinha à sua.e era estranho pensar nisso agora .Foi algo que eu tive que fazer. Déborah sentou-se.Meu Deus! . A doutôra encarou-a atentamente: esperava um sinal qualquer que denunciasse qual o grau de honestidade que ela estava disposta a empenhar na terapia.disse ela e v oltou à sua discussão imaginária.cóticos. fo sse na colônia.respondeu impassível a auxiliar. Quando sobreviessem as perdas de visão. . minha querida. "É corajosa". Déborah arregaçou a manga. só isso. olhando zombeteiramente para a auxiliar que ac ompanhava Déborah. como q uem vai ao encontro de seu anjo-de-guarda. onde a odiavam. . ou o Abismo. .exclamou a doutôra. pacato e traiçoeiro consultório. . os cabelos escuros. O corpo dela era miúdo. douradas e risonhas. não sabe? Já é hora de me dizer. . . Mostravase apenas absolutame nte séria.

Você não pode usar a linguagem verdadeira o tempo todo? Déborah riu da pergunta absurda. trancaram a última porta de acesso à ala. Quero que volte e diga a esses deuses. . . pessoal! Calma!" Es58 tas foram. Cuidado com essas palavras. Como está se sentindo? perguntava o administrador da. quero dizer. a necessidade fez-se coerção. mas depois de algum tempo. voltou a ouvir a voz dele: . No início é incô o. Faltavam duas para receber as suas. uma me nina recém-chegada.iri. Houvera uma troca de enfermeira-chefe na ala. são exatamente as mesmas. onde germinariam. expondo sua loucura para que o mundo inteiro. percebendo a ameaça e o pedido implícitos nas palavras da doutôra. . as últimas palavras que Déborah ouviu da Terra. A crise explodiu mais poderosa do que Yr. "Calma. passou a ter que suportar as atormentadoras transições entre os mund os. por isso às vezes uso uma linguag em meio latinizada em seu lugar.Que linguagem você emprega quando desenha. 57 . acalma.anunciou a doutôra gentilmente. . espraiou-se dentro dela.disse Déborah. mas que não passa de uma cortina de fumaça. com jurisdição sobre os dois mundos. Houve co mo que uma dobra no tempo. pois isso o igualava ao mundo. no final das contas. para comunicar decepção e ódio. como uma veia que se rompe. Uma vez empossado no cargo de guardião. ao Coletor e ao C ensor.Comentou ele. Com se não bastasse.Talvez eu sinta um pouco de ciúme pelo fato de você us ar essa linguagem exclusivamente para se comunicar com você mesma e não conosco.Bem.O inglês é para o mundo. Não dói nada. nos dias do alt o calendário. Descreveu com as mãos os movimentos agitados de uma onda. a ter que ser súdita e escrava do Censor. Às suas cos tas. por hoje chega .E existe uma linguagem própria? . Déborah tinha grande di ficuldade de falar. Começavam a servir o almoço.disse a doutôra. mesmo assim. Q primeiro segredo fora aberto e. a ter que arcar com as ofensas do mundo.Você fez bem em me falar s obre seu mundo secreto. Como um prolongamento do gesto. você imagina o que vai des enhar em inglês ou em iiri? .ioneira das regiões mais tenebrosas de Yr. . . Nenhum rugido de Yr.Você parece um bocado assustada . ao contemp lá-la. . desatou a rir. por mais poderosos que eles sejam.Desculpe . Ala D. e a nova estava distribuindo colheres de metal em vez das de madeira. O terror. Estava pasmada. por incrível que pareça. que não conseguirão me intimidar e que nenhuma de nós vai deixar de trabalhar. proclamadas em salmos pelo Coletor. A dor violenta irrompeu do tumor e jogou-a ao chão. por algum tempo. Enxe rgava mal também. quando Doris.É uma linguagem secreta. . cujas promessas redundavam em trapaças e cujas van tagens e privilégios. você parece bastante competente no uso do inglês. Déborah encontro u na crueldade de Yr. Após uma pausa. começou a ouvir o marulhar de ondas em ressaca. tudo se cobriu de trevas. a prova irrefutável de que ele existia. só traziam desgraça e agonia. os do mundo. O Censor fora incumbido de impedir que Yr espalhasse suas misteriosas sementes sobre a Terra. . ficou reduzida às piores humilhações e desgraças nos do baixo calendário.Seria como dar a um vagalume a potência luminosa dos raios. .perguntou a doutôra. .disse Déborah. floresc eriam e desabrochariam. . . recuasse horrorizado. O que vem depois é a decepção e. o dia continuava dia.Existe . De rainha entre deuses. ela se contorceu toda.No entanto. . .Pratico minha arte nas duas línguas . . . a coerção fez-se tirania imp lacável. O encanto fez-se necessidade. não se preocupe. lembrando-se dê certas palavr as fascinantes que provocavam um retraimento imediato. Déborah voltou para o hospital com a auxiliar. foi se tomando aos poucos um verdadeiro tirano. . Yri é para dizer o que deve ser ito.Você conhece o envoltório de lençol-frio? Vou providenciar um para você.

e pressionando-a com força contra a cama. outro de água quente no s pés.Está se sentindo bem? . Estava exausta. Sentiu então que a rolavam de um lado para o outro. menos energia lhe s obrava.indagou Esther Blau. . de reconfortá-la. mas o importante é que tinha recuperado sua noção de estar no mundo.Esta é a putinha sobre quem eu tinha falado a vocês. vieram soltá-la. Em sua linguagem impessoal e breve. Quanto mais se contorcia e se agitava. Ressaltava. e o último prendendo. honesta se m dúvida. Est enderam outro por cima dela e esticaram-no firmemente. no interior. voltando a olhar o relatório. A antisecreta antiesposa do abdicante rei da Inglaterra mostrou-se toda solícita: . No entanto. que alguma outra viesse modificá-la. o administrador da Ala dos Perturb ados. Apertaram. sobre um lençol frio e úmido. que o aparente revés não constituía razão para que ficassem ansiosos. três correias de lona. Voltou a mergulhar na inconsciência antes que pudesse assistir ao final daquelas operações. dias depois. firmemente retesadas. mas seus sentidos continuaram embotados. apresentou Déborah. Aconselhava também que tivesse paciência. convertê-la no f ato agradável pelo qual tanto almejava. recupera do inteiramente o senso de realidade. e presas nos dois lados da cama. Após um tempo que lhe pareceu eterno. sobre os lençóis. e a assinatura era de outro médico. já que o hospital julgava inconveniente. . Estava surpresa por ter emergido de regiões tão fundas sem qualquer angústia. lençóis esparramados por cima e por baixo dos panos que a envolviam como uma múmi a. Vestiu-se e voltou para a cama. contudo. e o tinir das xícaras de chá. Imediatamente Esther escreveu uma carta para o hospital e. Claro que. Insistia em sua ida. vindo daquelas janelas altas. então ele entrou e violentou v ocê. Fried . mais quente ficava o casulo. . largas e compridas. e pôs-se a conversar com eles. Se continuar bem. Passado algum tempo. um calafrio percorreu sua espinha. mas para discutir com os médicos a mudança.Recuperou a consciência pouco depois. zangada. repuxara m.Um privilégio e tanto. . Déborah emergiu do Abismo com suas percepções límpidas como uma manhã de sol . env oltórios eram lençóis enormes enrolados em volta do corpo: três superpostos como folhas brancas e úmidas. hein! . Só depois de ler e reler várias . não para ver Déborah. Quatro horas é a média. Aproveitou a liberdade para e studar a forma daquele casulo. entrou um homem. tivesse mudado. Continuava embrulhada e completamente imóvel dentro daquele "casulo". uma quarta correia. A resposta era uma tentativa. os fatos contidos ali não deixavam mar gem a dúvida. o rela tório mensal aconselhava paciência.Mais ou menos três horas e meia.Há quanto tempo estou aqui? 59 . Foi difícil levantar e andar. Em seu íntimo ansiava que a palavra. imitando as tagarelices da nobreza. Por simples cortesia. O homem saiu. Per cebeu vagamente que estava deitada numa cama.Não minta para mim! Você está falando com a antisecreta antiesposa do abdicante Rei da Inglaterra! . num passe de mágica. Um saco de gelo sob a nuca. Tinha. com um medo que beirava o pânico. . no único movimento possível. muito esticada e presa com ganchos nos pés da cama. 60 Perturbada. Mas seus fantasmas vieram acalmá-la. . atravessando o estômago e os joelhos. re cebeu a resposta desaconselhando a visita. Horas depois.Virou-se surpresa.respondeu Déborah mordaz. revestidas d e grades duplas. .Como? .Pobre "vaquinha" Eu vi tudo que fizeram com você só porque não quis dormir com aquel e médico nojento! Amarraram você para que não se mexesse. envolvendo seu corpo em outros lençóis. nua. soltaremo s você dentro de meia hora. amarrando seus pés. Esther voltou a escrever agora para a Dra. marcariam as entrevistas. Lembrando-se dos gritos que escutara. Mexeu um pouco a cabeça. As juntas doíam por causa da pressão dos lençóis. Seu próprio calor aquecera os lençóis na temperatura de seu corpo. o que quer dizer perturbada? . Déborah sentia se extremamente fraca. em cuja pele as marcas deixadas pelo s lençóis só agora começavam a desaparecer: . e quanto mais quente. .gritou ela. os braços ao corpo. obrigando-a a expelir o ar. porém. se ela e o marido julgavam necessário vir.

as anunciassem .Pois bem. ou seja lá o que for. e seria sempre. 'Existem flores num hospital. depois fica tão apavorada que foge para se esconder no pânic o ou em seu mundo misterioso. mas aquel e céu chuvoso. e o céu que se avistava da janela torno u-se escuro. Ocorreu-lhe que o cinza era. Era melhor resignar-se e esperar. Já freqüentava . A segunda mudança foi a humilhação que sofri na colônia. Ecoaram gritos. ajoelhada no banco de trás. então. tentando penetrar na61 quele mundo que já fora um esconderijo fechado sobre si mesmo. despedaçou o vaso e part iu a flor. Déborah. . sombrio e extenuado. . No carro. Uma pedra.encontrou um vaso de flores caído e despedaçado na ru a. e força também. Está consumado! Mais duas mudanças e seus respect ivos espelhos e. Anos mais tarde.E ela começou a explicar como profecia e de stino. emaranhada em suas próprias raízes. Concluiu que deveria impedir que seu medo. teve um sonho: um quarto br anco .disse a Dra. Eis o espelho da mudança. sono ou loucura.uma Déborah completam ente mudada. conte-me como é o ritmo desses seus distúrbios Observava Déborah atentamen te. as ruas molhadas onde as pessoas cam inhavam apressadas. " Vê?" . Ele falava em Yri.voltando da escola para casa. A segunda mudança ocorreu com a humilhação sofrida aos nove anos de idade. fez com que a profecia se tomasse realidade. . Eu não sabia qual dos significados era.Você expõe um segredo a nossos olhos. havia um vaso onde crescia um gerânio vermelho. Lactamaeon sussurrou a seu lado: . loucura e o Abismo. onde flutuava uma nuvem branca compondo formas c uriosas. já previsto. e havia uma flor vermelha. e em Yri a palavra que significa morte significa também sono. . A terceira foi justamente a mudança para a cidade. entretecidos.Eu me pergunto se não há um padrão de conduta. nem a mãe que cantava." De repente . A primeira mudança. uma tirania cujos tiranos tinham que ser incansavelment e aplacados. e seu espelho. depois que outras sensações se cristalizaram entr e ela e o mundo. Esther conseguiu isolar suas implicações mais sutis. pa lavra que soava como um suspiro de desesperança). ao transportarem-na para casa. nem os espelhos. Déborah foi invadida pelo pressentimento de que algo ho rrível ia acontecer. interferiss em no que estava acontecendo com a filha.zangou-se Déborah. o episódio do carro quando eu estava com quatorze anos. como uma mensage m cifrada. . foi sair do hospital e voltar para casa depois da suposta extirpação do tumor.Pare com esses trocadilhos . e depois a Morte. arremessada de um lugar qualquer. a estudante de arte . . amarga e cáustica . a cor de sua vida.. Antes mesmo de ser intemada no hospital para a operação. olhava o céu pesado e cinza.a imagem que fazia de um quarto de hospital .e uma janela aberta que des cortinava um céu azul e luminoso.vezes a carta. formavam a textura de seu mundo interior.Mas não a terceira. .Duas das mudanças ocorreram antes que o deus. Lá fora caía uma chuvinha fina. . Aqui ou ali. Imorth (palavra que significava morte. e ambas riram. Quando o tumor foi removido. A terra se espalhara em volta.começou Déborah . sombrio e cinza. Guar dou a carta e o relatório junto com os anteriores e não voltou mais a olhar para ele s. não é? . de r epente.Um dia . Lactamaeon veio a mim e d isse: Três Mudanças e Seus Espelhos. tampouco a animação do pai.disse uma voz no 62 sonho. não sei. Você viverá e será forte. ou o de Jacob. o fato é que se realizou a morte anunciada por Lactamaeon. para se tomar. Fried. todos riam e brincavam. com o talo partido. Muitos anos depois. isso sim eu sabia. No parapeito da janela. desfez-se no sonho a luminosidade do ar. a família ficou eufórica. Lactamaeon veio lembrar-lhe a revelação daquele dia. e seu espelho.Vê! Vê! A mudança sobreveio. . Se foi cortar os pulsos ou vir para cá. levantando a gola dos capotes para se protegerem da chuva. O espelho dessa mudança era a flor partida que vi anos mais tarde. A realidade não era o carro.

e a filha enc ontraria amigas de sua idade. nada mais pode ria contê-la: como se afirmava em Yr. ouviu uma voz vinda de alguma parte. mesmo que um apartamento. então. todo opróbio.A sensação de ruína se avolumava dentro dela. Claire se limitara a ouvir e concordar. uma pessoa entre nós capaz de 63 se rebaixar a qualquer maldade. vítima de dores falsas de seu tumor falso. inesperadamente provava a veracidade de Yr. a partir de agora. no primeiro dia. co m suas exigências absurdas e grosseiras imprecações. não disse mais nada. Anterrabae. a segunda mudança. Déborah riu por dentro ao deixarem a casa antiga. mas todos sabiam quem era. Logo no primeiro dia. Via-se em seu espelho. como num poema: Se quiseres. surda e invisível para si mesma. revivendo o clima de amizade e a inocência da juventude . ricamen te modulada. se deu conta de que desperdiçara mais um dia. daquelas que as pessoas lembram anos depoi s com nostalgia e saudade. Mas o nascimento dos deuses. as primeir as e cristalinas insinuações do que viria a ser Yr. ce rta de que a ruína os acompanhava inexoravelmente. O espelho.afirmou.a colônia de férias havia três anos. acenderam uma fogueira. o mundo fora capaz de retê-la horas e horas a fio. mencionando uma "mentirosa" que há em nosso meio e que usa sua confiança para obter compaixão e envolver meninas inocentes em d ificuldades. És diferente . . A terceira mudança foi justamente a mudança para a cidade. o Cen sor e o Coletor. Lactamaeon. Esther ficou contentíssima com a idéia. voarás livre na melodia do vento. enfim solitária consigo mesma.Quem disse essas palavras a você: "Nós não passeamos com judias fedorentas"? Claire ou Joan? Era natural que.Nada! . inaudível para os que caminhavam a seu lado. Na cidade. se tinham recusado a passear com ela. Dias depois. porém. Reencontr ou-a mais tarde. d izendo-lhe num tom suavemente fúnebre: Tu não és como os outros. Tinham se habituado à hostilidade que fervilhava na vizinhança antiga. a qualquer desonra!" Não dissera o nome. dizendo. O que é que você tem a dizer agora? . Em meio à algazarra que faziam. Uma tarde. . O diretor proferiu um exaltado sermão. subitamente. e os próprios impasses se tomariam mais claros. a mesma voz. sacudirás tua crina e expulsarás toda vergonha. Quando ele a alcanço . se revelou numa outra situação em64 baraçosa: um professor de ginástica que a pusera em evidência com um comentário desdenho so sobre sua falta de jeito. A humilhação foi. de forma também inesperada. Déborah perce beu o erro. Não lutes mais contra as mentiras deles. À noite. Abandonou a luta. De modo inexplicável. portanto. obrig ando-a a fazê-los parar imediatamente para que saltasse. ao erguer os olhos para a noite estrelada. O direto r da colônia lançou-lhe um olhar severo: . Na cidade. a culpada era Joan. dessa vez. relegaram-na a segundo plano. Ficou esperando que a voz falasse de novo. Enfi m não poderiam mais atribuir o velho ódio e a solidão ao fato de serem judeus. agora ela pertencia a outra vida. lutando ainda contra o que julgava ser a injustiça de lhe imputarem um estigma de nascença.Claire . porém. Finalmente teriam casa própria. Déborah confundisse os nomes e as fisionomias da quela multidão de meninas. denunciou duas meni nas que.Claire nega. sua ausência a entristecia. houve novamente uma dobra no tempo. mas só encontrou o deslumbrante mosaico de folha s entremeadas de raios de sol. vinham todos em sua companhia. Na colônia de férias. além de a ridicularizarem. podes ser nosso pássaro. quando Ant errabae chamou-a para abandonar o grupo com que estava dentro de um carro. A violência do impacto fez com que ela despencasse no Abismo: três dias de pesadelo. onde um policial a perseguia. o no vo desprezo e a nova solidão de fato sulcaram fundamente regiões virgens de seus sen timentos. Tu és um dos nossos. Só quando Claire foi chamada e negou calorosamente ter dito tal coisa. o estigma fatal relu ziria com brilho ainda maior. O ód io que as pessoas extemavam no mundo. pouco antes de seu décimo sexto aniversário. Déborah. Podes ser u m cavalo selvagem. em vez de feri-la. voltava do consultório de um médico. Pr ocurou saber de onde vinha a voz. surgindo um outro tempo.

Déborah retcomou à ala. . Se a filha se julgava condenada . de que estava correndo tão apavorada.as linguagens. Um mundo que dissimulava outro mundo. perguntou-lhe o que é que tinha acontecido. tal como um olho. despertando sua atenção e ao mesmo tempo. colocada entre duas verdades conflitantes. eu me pergunto se a sabedoria deles não chegou um tanto ou quanto atrasada. .Ergueu-se num pulo. Uma linguagem secreta que camufla va uma ainda mais secreta.u. se fecha tarde demais.. que talvez a doutôra tives se um pouco de razão. como nunca se sentira antes e. os códigos e os sacrifícios expia tórios não passavam de expedientes que ela manipulava para sobreviver num mundo anárqu ico e opressivo. Déborah estava vi sivelmente exausta do esforço que lhe custara a revelação de todas aquelas coisas. murmurou para a xícara vazia diante de si. que se abre cautelosamente à luz e. pemiciosa e maligna solidão. Só pertenço a Yr! . .todos os mundos secretos .Exatamente. ofuscado por ela. . seus passos obedeciam ao ritmo lento e gr ave das batidas de um tambor. . pelo menos eu acho. . e não orgulhosa.. .. com aquela exclamação familia r no idioma de sua infância e juventude. uma certa sen sação de velhice e frustração A mãe era formidável. que encobriam numa região muito mais funda o ardente desejo de viver. há mu ito tempo atrás. Sobreveio uma grande paz interior. como um ente reconhecível e definido: uma das loucas. Sentiase. Depois da questão do tumor e do anti-semitismo da colônia de férias. embora o seu amor seja sincero.Não pertenço & ninguém aqui! Nem a você nem ao mundo! Anterrabae me garantiu isso.. pois já não era mais necessár io lutar e resistir. As três mudanças e os três espelhos. um de meus nomes em Yr é A Etema Decepcionada. era antes de tudo uma forma de ajuste.bom. a Dra.Ela é competitiva. 66 O bule de café começou a vibrar.Mas eu ainda não tinha certeza. Abrira a mente para as palavras delas. Terminada a sessão. . Sentia ganas de dizer aquela garota de olhar aturdido que a doença. . devia achar que a mãe sabia e que lhe dedicava compaixão em vez de amor. Era tarde demais para não ver. Espelhos e mudanças! Po r acaso.A um preço terrivelmente alto. tão logo pôde. mas isso não impede que outro grupo se forme em meio a outros grupos . mas você não pode deixar de pertencer a outro grupo.Visto que duas das três mudanças ocorreram antes que os deuses começassem a existir. Em matéria de decepção sou especialista. "em casa" na Ala D. ansiosa por encontrar um lugar qualquer onde pudesse estar c . . . sabe. que sinceramente acreditava explicar suas motivações. E dominadora.Déborah sabia. e estes por sua vez. A luz penetrara. . deve ter começado a solidão. enfiou-se por um edifício a dentro pa ra despistá-lo. Uma pessoa que precis demais de ser encantadora e bem sucedida em tudo. todos os olhos humanos não serão espelhos que deformam? Via-se. pela enésima vez. terreno propício para a doença mental. a grande desvantagem de estar mentalmente doente é o preço terrível que se t em de pagar para sobreviver. no entanto. O que a deixava admirada era com o divergiam. Ahh! . . e era por isso que se sentia martirizada. inexoravelmente. . Inclusi ve. Fried foi à cozinha preparar um café. Déborah garantiu que não era nada e.Encantadora. .Não! Não! . Sintomas que re sguardavam sintomas muito mais densos (era cedo para devassálos). afinal. Aconteceu! Finalmente Imorth chegou! As batidas so avam longas e calmas. aco stumado à escuridão e protegido por cílios cerrados. . embora afastasse 65 e assustasse as pessoas. apesar do amor e das experiências compartilhadas durante tantos anos. pela primeira vez .A doutôra inclinou-se para a frente na cadeira. Pergu nto-me também se eles não decepcionam você apenas para se sujeitarem à própria visão que vo formou do mundo.Sabe. Quando saiu de novo à rua. Agora dispunha de um letre iro para mostrar. aind a que o olho quisesse ter renunciado a ela. ao reparar que o café estava fervendo e tra nsbordando do bule. exatamente como Lactamaeon profetizara. Todo o am or dado por Esther foi reinterpretado por Déborah. que os mundos se cretos . mas pelo menos estar maluco é estar em algum lugar.

porém. Livre-arbítrio. e a loucu ra dos pacientes vicejando e explodindo às claras. mas quando se tratava de imperfeições invisíveis eram impied osos: penetravam com olhos argutos e escutavam com ouvidos afinadíssimos os segred os e as súplicas íntimas dos "sãos". a solidão era um estado ambíguo. Todos os hospitais de que ouvira falar abrigavam multidões atomizad as de indivíduos que tinham rompido inteiramente seus vínculos com os outros grupos e instituições do mundo. . escolhiam como alvo sempre o mesmo homem. por sua vez. isto é. n um único relance. mas pela resposta. como a prostituída Esposa do Ex-Presidente Assassinado. . Um dia.perguntou o médico a Déborah. embora o hospital. O administrador da ala foi obrigado a interrogar todo mundo. Alguns pacientes de sua ala viviam imóveis. mas não ia dizer. Déborah presenciou um auxiliar ser agredido pelos pacientes noite após noite.. melhor se sentia. Hobbs vinha pelo corredor e então começou a briga. e nós não saibamos. como Déborah fazia. por exemplo? Talvez Hobbs seja grosseiro com as pacientes. Por que é sempre Hobbs e nunca McPherson ou Kendon.. já resol vi o problema!" Déborah sabia por que Hobbs e não McPherson. . enquanto o pé dele ia de encontro a Lee Miller .. com a pema bem estendida. secretamente saboreado. o pé estava já. uma esperança que envolvia seu próprio sucesso como médico. foi uma briga marav ilhosa. jamais beiravam sequer.. o que a fez sentir-se extremamente importante. as pessoas mal conviviam umas com as outras. .Quero que você me dig a.Como começou? . nunca rir d e aleijados. improvisava m seus próprios reinos e. para que ficassem bem demarcadas as fronteiras existentes entre ele. Aliás. mas isso era o de menos. como bonecos sem corda. caso o btivesse a resposta quando outro certamente teria falhado. que 67 acabou degenerando numa verdadeira batalha campal. Déborah assistira à luta estirada no chão . Só que essa crueldade estava além de sua compreensão e de seu controle. dese68 java que as pessoas fossem mais loucas e mais estranhas do que na verdade eram. . Realmente. Até os mais inertes e os mais desvairados deram um jeito de afetar o maior desdém e distorcer propositalmente as perguntas. desli gados da "realidade '. abriram um inquérito.protestou ele com severidade. era uma pessoa forte e até mesmo feliz. livre-arbítrio. mas ninguém quis usá-lo. Déborah . Queria que os doentes fossem iguais a ele. mas pelo moment o. Ela compreendeu a intenção do bri lho nos olhos dele. Os pacientes se orgulha vam de afirmar seu não-envolvimento. O administrador da ala interrogou a todos sobre a briga. a esse poder de discemiment o. Quanta esperança! Não por ela. No dia seguinte.. a sós com ela na sala de estar. Meu pé também estava estendido. McPerson. Associada.. e quant o mais próximos estivessem. . Não pelos pacientes.ompletamente só. aparentemente. meu caro. e nunca olhar para os velhos na estrada. estava a total inabilidade de usálo de um modo consciente.Ora vamos. Morria de medo da loucura com que convivia. pacientes e funcionários saíram c ontundidos e ensangüentados.bom. nunca apedrejá-los. O soco de Lucy Martenson penetrou nos processos mentais do Sr. seus a ndares e suas alas estivessem apinhados de gente. parodiando santo Agostinho: "Bem. por um lado. a realidade terrestre. Os agr essores eram invariavelmente os mais doentes da ala: refratados ao convívio. como se tendências autodestrutivas a temessem. nem encarava com simpat ia a avidez e a ambição que lia no rosto do médico. suas inclin ações. Cumpriam à risca esses mandamentos. A maioria dos pacientes dispunha da habilidade quase sobrenatural de discemir. Sempre estimulava o que havia de com . nem muito barulhenta nem muito calma. em que pudesse afirmar taxativamente: "Ah sim. Por iss o mesmo. onde residiam as fraquezas de uma determinada pessoa. seus pensamentos gratuitos. não fui eu quem mandou usá-lo. pois. Todos aprendiam a ser "civilizados". Ali. Hobbs. houve uma briga mais violenta do que o normal. às vezes Hobbs se comport ava de modo um pouco brutal. porque era uma extensão de algo que existia dentro dele. Outros. esperando que algum auxiliar tropeçasse em seu pé para q ue mais tarde pudesse dizer. seus desejos semicontidos. No entanto. e qual a d imensão e a influência dessas fraquezas.

A Esposa do Assassinado encarou-a com severidade. O médico.Não quero . se limitavam a dar a cada h omem o que este realmente desejava. Não estavam.Eu disse. Déborah murmurou: . Déborah ficou impressionada com o núme ro de homens para uma mulher tão pequena. sem ser exigente. encarando-a com severidade. arraste-se. procurando. "Relevez.um entre ele e os pacientes.Não me machuque. Limpou a sujeira e foi para a cama." Ouvia-se a recalcitrante sendo conduzida numa cama para o casulo gelado. Foram rudes com Helene ao subjugála. a porta bruscamente a berta fez com que ele se voltasse. e o menor sintoma positivo que se manifestasse. não tem havido injustiça alguma. teve que esperar meia hora até que um auxiliar viesse destrancar o banheiro para que se limpasse um pouco. concertando a roupa e tentando faz er o mesmo com sua pose. soufflé. a beleza daquele baile. que vinha com sua b andeja de almoço para a sala de estar. . que Helene pretendia apenas comer na sala. Déborah apreciava. que logo acudiram. Por entre a sujeira que escorria de seus cabelos e do rosto. Devido à confusão. implorando num tom bem diferente de su a fala pausada e profissional: . fora servido enquan to conversavam. . atraí-los. Déborah rogou mentalmente algumas pragas contra aquela balbúrdia. Virouse para o adminis69 trador e viu-o encolhido contra a parede.Já comi isso. onde havia sol em abundância. Ali. Os pacientes. ela recuou o pé. afinal. onde a aguardava o seu almoço. vinha apenas adiar. O médico saiu afobado para ajudar a debelar o tumulto e os gritos que vinham de um dos qu artos dos fundos. . e eles. o dia em que el e acabaria num hospital psiquiátrico também como paciente.Eles vão arrancar tudinho de você depois. -A afirmação pareceu ao médico um tanto enigmática considerando-se que o saldo da briga fora uma paciente acamada. Helene 70 abordou-a e. com ess a aparência. .Olhe. querida . pois era . duas enfermeiras com olhos rox os e contusões faciais. o trigo. para subjugar a estranha bailarina. Helene. Helene. ainda que ela parecesse mais uma máquina d ebulhadora. assim.. e Déborah concluiu que o pulso quebrado de Hobbs. era por ele recebido de braços abertos. não há dúvida. Déborah ficou sozinha no meio da desordem.recomendou a Esposa do Abdicado. Notou que estava furioso e desapontado p or ela ter contribuído para frustrar suas intenções. Não conseguira fazer com que falasse além do que ela própria queria. Era Helene. e com um movimento delicado e preciso. sem se mexer.Volte para seu lugar. com braços musculosos e fisionomias contraídas de medo. no final das contas. sutil e cautelosament e. Não me machuque! Eu sei que você é forte! . por algum tempo.Coma. preocupavamse com ela. Déborah pensou. outra doente.Até logo Helene.Deu as costas e voltou à sua conferência imaginá ia. Cerca de uma hora antes da entr evista com o médico. faça a guerra! .Minha querida. mostrou-lhe algumas fotografias q ue recebera dentro de uma carta. de início. volve u o braço. arremessou a bandeja direto sobr e a cabeça de Déborah. Não havia injustiça alguma. Déborah compreendeu num estalo o motivo da agressão.perguntou o médico. . mas o importante é que se ocupavam dela. examinando-se para ve r se sangrava. Costumava ficar em reclusão num quarto. conversando com bastante clareza. tão distantes do mund o. olhando de relance para o cozido. já fr io e meio comido por uma paciente que dormia junto à janela. quando o mundo subitamente explodiu numa avalancha de comida pegajosa e quente. O médico se levantou para ir embora. mas ao reparar bem na expressão dela viu que não se tratava de sol. os agressores e ram mais favorecidos do que os agredidos. ordenou: .Num único e gracioso gesto. ao que parecia. De repente. uma terceira com um dedo quebrado. Déborah não se conteve: . . . . como em toda parte. O almoço. você nunca achará um homem! .respondeu Déborah.Seus gritos atr aíram os auxiliares..O que foi que você disse? . que veio sentar-se em sua cam a. outra com fratu ra na costela.

. não sei quantas vezes. sem saber por que pedia desculpas. "depois do que você fez. ou "depois d o que você falou. Compreendia agora que o motivo da agressão era querer desacreditá-la como testemunha da vergonha e da miséria lembradas por aquele retrato. explicando quem era. nunca mais vou defender você sem que eu soubesse o que tinha f eito ou dito. contudo. que figurava no mundo real. com as pancadas que se repetem sem parar. até que se deparou com um determina do retrato e disse: . jogou-se na cama. Era preciso manchar o espe lho para que deixasse de refletir a recôndita vulnerabilidade que transparecera su bitamente.perguntou e sentiu que o terren o começava a ficar perigoso. essa antipatia se transformava em ódio ou aversão. tirando um pedaço de comida grudado no c anto da orelha. não entend ria nada. A hostilidade visava só a mim. a vida continuava sombria e o desespero só fazia crescer.Onde não existe lei alguma. a escola. agarrada a ele como a um escudo. terra de pesadelos. Quando fui pergu ntar a razão. vindo das mais ines peradas direções 72 . .por mais inevitável que seja. sua fama de mulher violenta e obscena. . Passava os dias sozinha.Na escola támbém havia anti-semitismo? .Essa aí fez faculdade comigo. As empregadas não paravam em casa.. imaginar. Na escola as coisas eram mais verdadeiras. e e u sempre tinha que "pedir desculpas". a auxiliar encontrou Helene e mandou -a voltar para seu quarto. numa traição à sua máscara agressiva. E aparecia na forma de uma antipatia intensa. cumprimentei minha melhor amiga e ela me virou as costas. Nesse dia. ela se voltou e disse: "Depois do que você fez?" Nem falou mais comigo .Depois de algum tempo. durante os quais virava uma verdadeira fera. .ponderou a Dra. .É difícil abordar esse período.Imorth . .Você tem certeza de que não está omitindo nada aí: algo que você era levada a fazer e qu e enfurecia seus amigos? . nem descobri o que tinha feito. apenas uma sensação meio cinzenta e a surpresa do inevitável. e pediu: .Temos as mudanças e temos o mundo secreto .Filósofa! . estou cansada. Mas a razão disso eu não sei . .Tentei. Ora. lembrar.Não. demitiam-se uma atrás da outra. desen hando sem parar. Fr eqüentemente. ao passar por um grupo d . Certa vez. não é verdade? Déborah recordou-se de uma cena ocorrida numa época em que sua vida consistia unicam ente em esperar o fim inevitável. .O que é que você sentia nestas ocasiões? . Carregava o bloco por toda parte. nem escutou as pequenas confidencias que trocaram a respei to das fotografias. Um belo dia. Conhecendo seu temperamento explosivo. 71 . só essa destruição terrível. Déborah apressou-se a sair de seu próprio dor mitório. não. a porta tinha ficado aberta e ninguém reparou quando el a foi procurar Déborah. você tinha que preparar as decepções por sua própria conta. aproximando-se cada vez mais . sofro o tempo todo com a imi nência dessa destruição.Quem sabe não é porque você mesma procura as pancadas e os sustos nesse mundo? Isso quer dizer que eu mesma preparo as decepções? .Referia-se a uma menina simpática. pensar. terra de ninguém. e foi para o corredor.". Pouco depois. Embora já tivesse saído da colônia anti-semita.e a gente acaba se conformando com a sombra dela. Helene tirou bruscamente a foto grafia de suas mãos.temida por seus acessos de fúria e violência.mas o que se passou na sua vida nesse meio tempo? . aproximando-se.Surpresa do inevitável? . a colônia de fér as.murmurou Déborah para si mesma. apesar-das-lições-de-boas-maneiras. A me nor! . As pessoas chegavam para mim e diziam. Não faço a menor idéia.Vá embora. Eu nunca soube por quê. Estiveram juntas assim durante um bom tempo: ela ia indicand o um ou outro personagem. Fried . . Caso contrário. Não permitia que alguém visse seus desenhos.. tudo parece se resumir em ódio: o mundo.

Ei. . o rapaz estava implorando que você não a repudiasse e. O rapa para ela e perguntou: . correr e voltar-se.Guarde isso para mostrar em suas conferências aos médicos eruditos. que viria a cul pá-la. acho que vou guardá-lo para me lembrar. eu não. estava sendo travada com determinação. banindo os sinais de excitação.Quantas vezes dizemos a verdade e morremos por causa disso! Ergueu-se furiosa.É seu? .Vejo claramente a raiva. para evitar que Déborah se danasse de vez e partisse para querer provar que seu Yr exi stia. Carla! Não sabia que você estava aqui em cima. .Não! Ao encará-lo com mais atenção. Encarou a doutÔra.perguntou o rapaz apanhando a folha. .exclamou Déborah sarcasticamente. Recompôs a fisionomia.eles me fizeram repudiar m inha arte. na verdade. e é com os ossos dela que eles dão brilho no cetro. Agora a batalha. Os pássaros usam os cabelos dela para construir seus nin hos e para polir essas coroas. quantas coisas ela tem!" A Dra. Sabiam que a D não era em absoluto a "pior" ala. a menina tem todas as regalias. gritar. . e a destruição que ela própria tramara se consumaria. Fried viu sua paciente correr e voltar-se. não é meu. apanhou uma folha de papel e começou a de senhar uma réplica às acusações que todos pareciam lhe dirigir.e jovens que brincavam e riam. aguardando pre74 guiçosamente o encontro com Anterrabae. Era um desenho intrincado.Coroas e rouxinóis! . até cair de tão rouca. . isso sim. Déb. . . cheio de figuras estranhas. não. . e todos exclamam: " Que menina de sorte.Ora. vamos. ning uém riu.Não. não é meu! . de que a força criativa é suficientemente vigoro sa e profunda para germinar e florescer.. um de seus desenhos escorregou do bloco sem que p ercebesse. mas há símbolos aqui que você precisa explicar.Não é seu? . A responsável pela mentira foi você mesm a.concluiu ela com amargura para a doutÔra . Ergueu os olhos para Déborah. . uma excitação inig ualável.até chegar a Déborah.eu não. Queria assumir o papel de benfeitor. Sentiu que brotava dentro de si uma grande esperança e.. . Carla parecia exausta. Foi você que imaginou que eles ririam. onde posso gritar. . As pessoas do grupo negar am uma a uma . o riso dos outros. Fora-se a antiga apati a..assumisse a punição . tudo o que o dinheiro pode comprar. quando viu Carla vindo pelo corredor em su a direção. o que é isso? quem deixou cair? . .Mas Déborah. Confesse. . todo mundo a censurava Desenhou furiosamente por algum tempo ao Terminar. Coroas. pelo menos.Está vendo .Deb.Mesmo assim.retrucou a doutôra. Diga a eles que não é preciso ser saudável par a entender de perspectiva linear. . com ela. cetros. Decidi vir para cá.Estes são rouxinóis.Depende do tipo de perspectiva .isto é. entregou a folha à doutôra. E la possui a mais bela das coroas e o mais pesado dos cetros. ele a defenderia.Oi. . . Entreolharam-se e sorriram. em pânico. . pássaros. Caso a mitisse que o trabalho era Seu . O eco emitido de regiões tão profundas testemunhava a saúde que sobrevivia em p otencial dentro da menina. D entro em breve. apesar da doença. .. eu tinha ódio demais arrolhado dentro de mim.Não. não é meu. não haveria mais para onde fugir: teria que encarar a si mesma. . mas a que preço? . apena . Déborah estava sentada no chão da ala. Tão graciosos! Olhe. A doutÔra. o Coletor. Déborah percebeu que ele só estava tentando ajudá-la. com suas recriminações intermináveis. foi até a escrivaninha. ao mesmo tempo irritada e assustada: 73 .

Assim. O mundo exterior e os seres que lá viviam eram absolutamente estranhos para ela. tremiam de medo do demônio. . Formavam-se às vezes grupinhos. mas não sei a fórmula do sucesso e não vi mais a Doris desde que ela saiu! Sei apenas que está lá fora e tem um emprego. mergulhando de novo em seu transe.Para onde mandaram ela depois? .Crown State. Agora ela está vivendo lá fora e trabalhando. quando c hegavam lá. as pessoas sussurravam seus sintomazinhos e to mavam sedativos e estremeciam de alto a baixo a cada barulho mais alto. A Esposa do Assassinado empreendeu uma de suas tent ativas mensais de fuga: investiu de cabeça. e continuava doida varrida. Doris Rivera. . Agora vão para o inferno! Quero ficar sozinha! As meninas se afastaram e se dispersaram pela sala de estar. Meninas dizendo alô.Filho da mãe! Fui espancada por ele no Mount Saint Mary. Anterrabae exclamou: "És)orça-te para que algum di a saias e Vivas. . . Mas. como uma série de ima gens instantâneas. Veio a noite. Ficou aqui durante três anos. . .Em Concord? Em que ala? .Jessie esteve lá. Déborah ficou no seu canto. . Só que o mundo agora era povoado de psicóticos e limi tado por muros e por alas.s a mais honesta.Escutem. uma agon ia exposta ou desesperos violentos.. descobriam que o demônio não passava de mais um entre tantos.Hesketh?. Reviu as ações mais simples e mais triviais. Os ociosos e os marginalizad os expressavam desse modo. foi antes de seu tempo. ouvindo o Coletor que recriminava suas faltas em salmo s intermináveis. se era! O chefe lá era Hesketh. tão logo as bandejas do jantar foram retiradas . enquanto beiravam o Inferno. nas alas A e B. A incredulidade foi geral. .O próprio. como um touro cego.Ah. Esforça-te para que algum dia saias e trabalhes e te tomes uma pessoa! Trem eu de medo. As "Perturbadas" podiam estremecer nas bases sempre. . até que ela perdeu a paciência e disse: . guria..uma pessoa para quem esse lugar fora um meio e não um f im? As perguntas choveram sobre Lee. no momento em que a trancavam. o instinto que clamava por alg um vínculo de participação no mundo. ou participado do perene ciclo de vida e morte a que estavam sujeitos. como se ja76 mais tivesse comido com eles nas mesmas mesas. em que as pacientes ficavam contando lances passad os de suas vidas ou trocando os boatos que corriam.perguntou Helene. . e ninguém em p articular. conheci Doris quando esteve aqui na D.Onde você esteve antes? . Nas outras. No meio da zoeira. que passava por elas.Baixo e mei o magro? Olhos azuis? Engole os erres? Ele levanta a cabeça assim? . contra a porta da ala.Quem é? . Estou me lembrando. Retcomou a caminhada. Era veterana em todos os tratamentos de que já ouvi falar. . corredor e pelas camas. .Pô. Será que realmente alguém saía? Será que alguém poderia apontar uma pessoa bem sucedida . um cara mais pirado do que os pacientes. q ue agora lhe pareciam dificílimas. era preciso conservar um status e respeitar certos simulacros de formalidade. As pessoas. reduzidas a uma única dimensão. caminhando juntas. Doris passou por lá. Nós nos conhecemos em Concord.Para lugar nenhum.Na cinco e na dezoito. Ela disse que aquilo era um verdadeiro manicômio . . banheiro. 75 percorrendo o corredor como se acompanhasse em transe uma procissão. mas estavam livres das sutis e traiçoeiras correntes da loucura clandesti na. por mais que negassem. Lee Miller coçou a orelha pensativamente: . entrando sem medo na esco .Mount Saint Mary..Tive uma amiga que foi da sete..

Déb.Você voltou a si um pouco depois de mim. que podes ficar abrindo segredos e continuar segura para sempre? Há outras mort es além da morte . O máximo que conseguiu foi gesticular timidamente com o cor po e com as mãos. . . Você pode andar? Ensaiou alguns passos.. Desmoronou nele..Déborah.. deixando a realidade voltar aos poucos. Uma voz chamou a seu l ado: . en tão.perguntou Déborah. com um gesto imperceptível de mãos.Eu também ainda sou novata aqui. Todas as outras mães estão orgulhosas de suas filhinhas! repetia o Coletor. Você está conseguindo me ouvir? . aos atordoantes lampejos de deuses e rostos do Coletor. Lembrouse de Helene. Meninas graciosas.. apoiada em alguém. Estava tudo branco: ou eram as enfermeiras. onde o casulo aguarda va já aberto. não tenha medo. no tom p rovocador e mordaz que empregava quando as coisas pioravam muito. . Tu não és como os outros! Gritou Lactamaeon do fundo de Yr. Tiver am que conduzi-la. e nem sentiu o primeiro choqu e gelado do lençol úmido. .Sei lá! . quase que agradecida. Déborah. tentou chamar a atenção. Deixou-se ficar respirando.Déb?. como num desenho animado. em meio ao intenso odor de éter e clorofórmio que emanava do Abismo.Preferia que fosse McPherson. a figura de McPherson chegando pelo corredor.Hobbs. chama! Anterrabae soltou uma gargalhada.atraído pela veemência de sua expressão. O pavor crescia à medida que seus sentidos iam deixando de obedecer à sua vontade.Agüente firme.riram um pouco. Só muito tempo depois recuperou os sentidos. Déborah avistou. Pouco depois. até o final do corredor. da angústia que a impelira a destruir o rosto visto.Essa noite só? . McPherson olho u de soslaio e parou. O que há? Não conseguiu responder. Cambaleou. Puseram Helene e Lena no quarto ao lado . mas perdera inteiramente o senso de direção. mas não cons eguiu falar. . O tato também s umia. a realidade tátil de seu próprio corpo e de suas roupas se tomava extremamente tênue. o que despertou nela o desejo de vê-las. sendo cortejadas. sentiu. .Carla? . em certa medida. .muito piores! O momento agora é para te esconderes e ficares escondida. Volto já. Logo estaria longe. . vou chamá-lo. os movimentos quase esp asmódicos de sua mão. Alguém dizia ao fundo: . Vai. Em meio ao ensurdecedor burburinho de vozes.O que há com as meninas essa noite? .O que foi que aconteceu? . avisou. e compreendeu a fotografia da bela colega de faculdade. soltou um longo suspiro. eram amigas.Deb? É você? . Passou a enxergar tudo cinzento e a ouvir muito mal. chamada também -a Dissimuladora.a voz de McPherson. escutando sua própria respiração e. Achas. retorcida de um modo estranho por causa da tensão nervosa. Avolumavam-se os murmúrios oriundos de Yr. .Eu mesma. plano e em perspec tiva reduzida.O tom denotava uma clara aversão. Sentia m-se contentes de estarem ali jun78 embora fossem incapazes de admitir que. .disse Carla.Quanto tempo durou? . volta para o mundo com aquela tua famosa doutôra? Rosnava o Censor. o cheiro de pessoas. ou a neve de inverno. querendo protegê-la. Sussurrava Idat. Débora se aproximou. disse: 77 . Conversaram durante um bom tempo..la. já! Déborah esperou. Idiota! McPherson passava diante dela. mas a ala está mesmo uma l oucura essa noite. finalmente. deus a raramente vista. Tenta! Afastou-se d eixando uma aragem que cheirava a coisa queimada. Lee Miller está com um ataque histérico.Quem foi que pegou o turno da noite? . vou ped ir ajuda. Vá. Percebendo que ela estava em pânico.McPherson procurou de novo se comunicar co m ela: . . . . namorando e depois se casando. Carla cont .

.ou que tinha escutado uma das sessões de Helene com seu médico. podia ver) na cama vizinha o corpo mumificado e imóvel de Carla. .Só porque a sua mãe era louca e acabou se matando. .perguntou Carla na escuridão.as palavras custavam a sair . choramingando e cont orcendo-se dentro das amarras que a imobilizavam. seja verdade. . O silêncio é mesmo fatal . a realidade. já inteiramente consciente.. não lhe trouxe alívio. contudo. . não foi para agredir você. o estômago pesa a. Déb..Nós não scomos como os outros . e o tom de voz foi subindo. ..Vá para o inferno! . Naquele instante. cujo contato na nuca lhe lembrava a realidade. não foi. . Pressionou a cabeça com força de encontro à bolsa de g elo. nesse novo contexto. porque existe uma possibilidade de que nos abram essas portas pa ra o mundo. .. fazer você sofrer mais. No interior do invólucro branco e estático.Doris Rivera! Aquilo despertou. sem maldade: .Não? Deixe mais uns vinte minutos! .a voz de Carla foi cortada pela lâmina do pânico. .insistiu Carla com convicção. em seu íntimo.Não. . seus dentes rangiam de pavor e frio. . . Sua cruelda79 de. 80 . um pouco menos dessa vez. hesitando se realmente queria saber. mas não me magoou! . . sem o menor rancor. subin do.berrou para Carla. . E nós ficamos assustadas porque algum dia teremos. Não queria magoar você. Déborah. . seu corpo tremia. Ouviu-se. De onde estava. Estou aqui apenas para ajudá-lo. sentindo a costumeira dor nos ossos dos pés e dos joelhos provocada pela má circulação.E como não podia entender a razão pela qual tinha sido poupada. Déborah começou a lutar contra o casulo. .. O corpo tremia. uma amargur a que encobria uma velha e contundente palavra: Verdade.murmurou Déborah.pensou consigo mesma .Essa aqui também . Déborah. . o coração de Déborah martelava. ..concluiu reaprumando-se ao lado de Carla.O quê? . doutor. Piscaram os olhos ofuscados pela claridade.Você poderia ter me magoado.. "Meu Deus . o único som audív el eram as suas respirações. identificada de início por meio de palavras Yri. você acha que tem razões para ser mais louca do que eu! .. . as dúvidas.era Hobbs.gracejou Carla num tom amargo..perguntou Déborah..voltei a ser o que eu era lá fora: uma montanha imóvel que guarda um vulcão dentro de si. A fórmula consoladora de Yr pàreceu-lh e. então. Reagi para me proteger. Desandou a falar.ponderou Carla. acendeu-se a luz. .A carne já está cozida? . parecia. começou a seespreguiçar.O que foi que houve? .. morta de vergonha. Por alguns minutos o peso do silêncio pairou absoluto sobre as duas. virou a cabeça para a parede. Eu sei o que foi que aconteceu conosco. .Foi sim! ." Quando ele saiu de lá. a voz de Carla e. Entrou e tcomou a pressão de Déborah pela têmp ora.Ainda está bem alta . quase chocante.Carla.Minha doença.O velho Craig simplesmente não conseguiu suportar aquele silêncio todo.. e ele cada vez mais perturbado.O que disse sobre Doris Rivera talvez. parecia uma de nós! Déborah.Estou apenas verificando . ." .Eu sei. uma amargura terrível. é como um copo cheio que transborda. Doeu de novo.Ela ficou boa saiu e agora está trabalhan do. sessões que se realiza vam na própria ala por causa da violência de Helene. . . uma amargura recente mas que já se tomara familiar.declarou para o auxiliar que entrara atrás dele. Eu esperava que a qualquer momento Helene di ssesse: "Acalme-se..Perdoe-me pelo que eu disse. .ouviu a inspiração ag oniada na cama vizinha. para surpresa de Déborah . A gotinha que você pingou já se p erdeu na inundação. Apagaram a luz e saíram. A seta atingira o alvo. que ficar "boas" e volta r para o mundo.

. Fora transferida para que " melhor a protegessem". recomeçando tudo de novo. mas acabar am voltando a ele. saboreando cada tragada de seu cigarro. seguindo-o ao redor da s ala de estar. para cima e para baixo do corredor. lute contra eles. Isso bastava para despertar imagens grandiosas e feéricas em sua mente. ia para junTo 82 . passando diante das portas do banheiro da frente. do banheiro dos fundos e. Pensava: o asilo de loucos. a culpa por prever a derrota. os pacientes que desejassem fumar deveriam fazê-lo no corredor ou na sala de estar. Jacob leu e deduziu que os ódios. bem mais severos que os anteriores. só que vivenciá-la implica a em arcar coM um tédio interminável como a própria doença. atravessando. aquela espessa neblin a que os envolvia e os distanciava tanto um do outro. contomava e retomava pelo outro lado do corredor. o ódio contra Debby por ela se apossar de todo o amor. era quase certo. repetindo mil e uma vezes as palavras prudentemente vagas do administrador da ala. via a penas aquele andar superior.Dizem que ela melhorou em alguns aspectos . redigido! como sempre. Tin ham recebido mais um relatório. discutindo-o numa espécie de código. o dia todo. par a lá é que tinham levado sua Debby. Já havia duas semanas que os gritos "Cigarro!" "Cigarro!" ecoavam. aliás. cont omando-o onde se ampliava para formar o chamado "saguão". Segundo os regulamentos. mas não sem reparar no sofrimento estampado no rosto dos pais. Os argumentos driblavam a filha. Estava obcec ado com o grito pavoroso que partira de lá. não queria acreditar. O que significava isso para Debby. Nos momentos em que estava presente à realidade da ala.insistia Esther. da "ala dos violentos". havia dezenove furos por dezenove furos.Muito bem! Ela não está jogada numa cova aí qual85 Quer! Tem mÉdicos e o diabo! Por que então todo mundo vive chorando e lamentando a p obrezinha.10 A família Blau sentou-se para o jantar. que comia e tagarelava jovialmente. revestido de grades e barras de ferro. desde que "autorizados" por uma enfermei ra óu auxiliar. Era Debby. Esther sabia desde o início que não lhe poderia esco nder a verdade. reformulados pela nova enfermeira-chefe . camuflou e trancou os relatórios o quanto pôde. Ela própria. enfim. dos dormitórios (onde não era permitido ficar perambulando). no entanto . em seguida. a enfermaria. Jacob furioso. em termos vagos e pouco com prometedores. freqüentemente duvidava do que dizia. encarando o pai e a mãe: . para esmiuçá-lo daqui e dali. Sempre Debby. Ao se sentarem à mesa.Se você não pode se aliar a eles. a convergência desses sentimentos conflitantes. levaram Su zy a exclamar. DÉbor ah costumava ficar acompanhando o piso. de forma tão palpável. e fi caram esperando o tempo passar. finalmente. por favor! . Esther estava desolada. e o pessoal médico começava a dar sINais de ir ritação. caso fosse ela quem estive sse longe e doente. Carla estava sentada ao lado de Déborah na sala de estar. . O medo e o desejo de tirar a limpo de uma vez por todas aq uela derrota. a coitadinha da Debby! Levantou-se furiosa e abandonou a mesa. Havia dezenove fendas no sen tido da largura do chão gélido do corredor. decidiram esquecer o relatório para o bem de Suzy. e o máximo que ela podia fazer era tentar acalmá-lo. Nos primeiros dias de sua permanência na Ala D.Sentaram-se depois. Carla tinha vindo do último dormitório até a porta gradeada da ala. Jacob. No teto. Dissimulou. os terrores e a agressividade que sua querida filha reprimira tinham enfim vindo à tona. para aqueles gritos. e vinte e três no do comprimento (incluind o a junção coM a parede) . Agora. Quando se cansava desses pas seios. J acob também sabia.Cigarro. C hegou a se perguntar se sofreriam. do corredor e dos quartos. revestido de placas à pro va de som. Para aquele andar. afinal? No íntimo. pedindo sem parar: .Virara-se para DÉborah coM uma piscadela de olhos e disse ra: . e que noite após noite vinha atormentar seus sonhos. consciente e inconsciente ao mesmo tempo da causa daquele clima pesado. A nova situação oferecia a possibilidade de uma segurança física maior. a ala dos violento s. das de reclusão. DÉborah pôde dramatizar sua condição por m eio de um simples recurso mental. A perspectiva deixou-a terrivelmente assustada: sofreriam me nos.

Carla apanhou no ar a ins inuação. Tinha. enumerados e relembrados por muito tempo. esta deleitando-se coM o cigarro.das mulheres petrificadas. Se gundo o código.Que tipo de desenho seria? . q ue pedir o banheiro da frente. comunicavam-se por meio de códigos e siderados armas e. . Carla pediria primeiro e ficaria coM o banheiro dos fundos onde havia uma p ia ótima. reconfortá-la. o sono.Isso queria dizer que tinha um livro escondido num lugar acessível. go zavam justamente de um desses momentos. Fried estava ausente. Poderia. Caso houvesse . portanto.sugeriu. exceto se houvesse três auxiliares de serviço no banheiro. freqüentada na parte da manhã pelo pes soal da D. Carla logo compreendeu que ela dera um jeito de furtar lápis e papel e escondê-los. Ouvia as denúncias do Co letor. Nos momentos de lucidez.disse Carla displicentemente. . empreendida pelos doentes ao longo das paredes d a ala. ai.Assim que puder. onde os acessos de violência e as crises de agonia despontavam como um oásis. DÉborah teria. perto da enfermaria. cumpria as exigências tirânic as do Censor.Isso significava "muito obrigado" . uma briga. ao fim daquelas punições e sacrifícios. Às vezes. assistindo a um congresso qualquer.disse DÉborah. Depois. proibidos na ala. permanentemente en garde. onde convenceria a auxiliar a abrir a porta que d ava para a banheira e a distrairia durante o tempo suficiente para pegar seu tes ouro. DÉborah e Carla. A Dra.É necessário papel para fazer retratos . Passava. pontilhado pelas refeições. um pouco antes da hora do almoço..Você vai precisar também de alguma coisa onde possa apoiar o papel. entrevistar-se coM a médica de Déborah. acho que preciso lavar os cabelos . Desistira de "fazer coisas". o acesso de furor de algum pacien te . e por isso não ha via sequer as sessões terapêuticas para quebrar um pouco a monotonia. Só podiam ser usadas na presença de um auxiliar. desprovidos de qualquer interesse. visuais e táteis. mascarado como o rosto de 84 um esgrimista. pela distribuição de sedativos e. procurando. desenhava um pouco sentada no chão e amparada pela cama da Esposa do Abdicado. relembrados apena s durante a perseguição aos frisos. . pelo jantar. O tédio da loucura era como um deserto. afixado sobre a porta da enfermaria.Ai. no banheiro da f rente. e os momentos efêmeros e singelos de companheirismo abençoavam como a chuva. o ambiciona do lápis se achava enrolado em elásticos e enganchado sob a quarta mola da cama de Déb orah. ficavam as banheiras. O administrador da ala não se ocupava diretame nte coM a família dos pacientes. a não ser que fossem utilizados na presença de um auxiliar. pela mudança de turno. se quisesse. sempre t rancadas. pelo término do almoço . sonhos pavorosos. a maior parte d o dia contemplando o relógio. O regulamento autorizava apenas uma paciente a usar as pias de cada vez. e visitas à Ala D não eram permitidas. Esther escrevera outra carta ao hospital. contudo. na parte dos fundos. Fried. repetia que a pacie nte estava progredindo conforme as melhores expectativas. agüente. os pacientes se divertiam bastante. . um caso. erupções vulcânicas de terror. os sarcasmos das divindades e os elogios de Yr. como de hábito. especialmente coM a Dr a. Se não gosta. nada restava senão esperar o interminável transcorrer do tempo. enfim.Meus cabelos estão sujos. uma ou outra pa lavra trocada de passagem. . algumas vezes. Déborah poderia ter-se inscrito para a oficina de artesanato. sendo narrados. . . A resposta.acontecimentos. Carla sorriu: . e uma entrevista coM os médicos da ala. pe la hora de deitar. Vou desenhar um retrato seu . sustos e ntremeados de alucinações sonoras.Aquarela. Estavam atrás do cano de água fria. portanto. foi preciso esperar pela distribuição das bandejas. Dentro dos banheiros. mas não o fez. . muita água. seguindo coM os ol hos a fumaça do cigarro da amiga. Precisaria de muita. finalmente. O plano funcionou às mil maravilhas e.Verdade.. pedindo autorização para visitar Déborah em suas novas acomodações. mas. estava sugerindo que ambas fossem pedir autorização para lavar os cabe los. e ficava esperando que algo acon tecesse ou não acontecesse.

julgando que se tratava de "uma base da doença". mas não encontrou refúg io. compromissos de trabalho impediram que Jacob insistisse em levá-la de carro.. apesar do calor de agosto que fazia na Terra. Trata-se de uma emanação da pessoa Déborah. a ala e os médicos. Suas amigas e as filhas de suas am igas já comentavam as faculdades escolhidas como se trocassem cartões de visita. ...algo a tratar. iludindo-os e aparando as perguntas mais embaraçosas com fluência e convicção.Não. sonhando coM o dia da formatura e preparando-se para ingressar na faculdade. vendo-se nos modelos. As colegas de turma de Déborah provavelmente estavam admir ando aquelas mesmas páginas. Será que'algum dia voltaria a participar do mundo dessas meninas? O hospital teria sido afinal um erro desde o princípio? Ao chegar em casa. foi preparando as mentiras que contaria a Jacob e à família.. Olhava distraidamente pela janela do trem quando reparou que as revistas continuavam em seu poder. os de Déborah: "Marjorie é tão tím ida. portanto. procurando desfazer os temores de Esther pela transferência da filha para a Ala D. Terminadas as entrevistas. e Esther mergulhou o rosto nas flores. é uma qualidade do meu eu. Também mascarava seu medo coM a pre cocidade e uma certa sagacidade cínica. parecia-lhe que não faziam mais do que reproduzir em escala menor. v enenoso para a mente. Chegando ao hospital. e que tudo ia muito bem. como o suor por exemplo. desfiavam seus sonhos nas páginas de um diário íntimo qualquer. Suas pequenas idiossincrasias eram idênticas às daquelas meninas. A Dra. uma emanação venenosa. a Sra. Ao contemplá-las. Ela estava exposta à minha essência. Existe um termo Yri para isso. nunca se sente à vontade coM as amigas!" "Helene encara tudo como se fosse um a questão de vida ou de morte. . Estariam ansiosos para escutar isso . Quanto ao regulamento que proibia visitas. conseguiria dar um jeito de b urlar os regulamentos. Felizme nte.perguntou a Dra. sorridente e tranqüil a. Esther tinha levado uma boa coleção de revistas para Déborah: sequer permitiram que as entregasse. uma secreção. Acho ótimo que ela tenha feito tantos ProGressos. reconhecendo um pouco de Déborah em cada um deles. É algo inerente ao meu eu. Continuav a otimista. Não foi por querer. Fried a Déborah. já na viagem. . Fried mostrou-se gentilmente reservada. Dav am os últimos retoques nos vestidos maravilhosos que suas filhas usariam. Começou a folheá-las. ela é tão tensa". conversou com Jacob e depois com a família. Rollinder. Procurou distrair-se coM as fotografias e as ilustrações. Esther repassou todos esses diálogos. apanhou o trem de volta para casa e. e estas. BRANCO NO PRIMEIRO BAILE A página era toda de miosótis. algo venenoso. constatou que sua presença em nada facilitava o acesso aos méd icos. A mentira que contaria a Ja cob e a dor que precisava guardar dentro de si pareciam refletir-se em tudo o qu e via. seus olhos se enche85 ram de lágrimas. Quando tudo parecia ter ido às mil maravilhas. pessoalmente. Diria que tinha visto Déborah . tremendo com o frio que vinha de Y r. que se aconchegara no divã. Também era tensa. Jacob virou-se para ela e disse: 86 . Esther conversou coM a assistente social e obteve as mesmas respostas. Esther fez a exaustiva viagem de trem só para avistar-se coM a Dra. marcariam uma hora coM a assistente social.Alguma coisa que você diz e que destrói? Alguma coisa que você faz ou deseja? . até que as lágrima s parassem de escorrer. ninguém ousaria contradizer suas histórias pelo menos durante algum temp o. Também era tímida. Fried. embaçando os modelos horrivelmente alegres que ilustravam os anúncios : FACULDADE NO OUTONO ELEGÂNCIA CLÁSSICA PARA O CAMPUS E na página seguinte: PARA AS NOSSAS JOVENS DEBUTANTES BRANCO. foi impossível cont omá-lo. BRANCO.Maravilhoso. frustrando as esperanças de que.Como foi que você destruiu sua irmã? . porque da próxima v ez estou decidido a ir com você. embora de forma ainda mais fri a e mais impessoal. por sua vez. Quando s e encontrava coM essas mães e as ouvia contar os problemas das filhas.

basta esquecer. 87 .Tentei atirá-la pela janela. muito a propósito.respondeu Déborah. em parte.Subitamente. defendendo e embalando a imagem irreconhecível criada por ela. adornou cada uma de suas infâmias com uma eloqüência absurda. . mamãe entrou e me impediu.Não. por que então não escondê-la e continuar em segurança? . e a menina monstruosa que acabara criando. mas o frio e a névoa só existem dentro de você.aparteou a doutôra com um gesto de mão. . minha querida. Déborah dobrou-se trêmula e ofegante de dor. As encostas e escarpas. Contudo. Quando ia fazer isso. Déborah teve um acesso de autocomiseração pela criatura cheia de miasmas que era e pôs-se a discorrer sobre o fenômeno. sincero e parecia m esmo acontecer. continuar louca. está por baixo disso Nunca transmiti sintomas a ela. isso realmente não adianta. Evita que você tenha que e ncarar não apenas o que realmente fizeram com você... . sim.Eu tentei matar minha irmã quando ela nasceu . tomeou. . ampliando cada vez mais seus contorno s e a virulência de sua substância. .Você ainda tem sentido muito frio? . carregado de culpa e tormento. . O disfarce que consiste em pôr toda a culpa nos outros.Seus pais castigaram você? . Quand o terminou.Tenho. ma s a doutôra foi irredutível: .A doença não está em ver ou ouvir coisas.Quer dizer que continua tentando jogar areia em meus olhos? Déborah protestou. A doença. O cheiro nauseante de éter e clorofórmio envolveu-a e as pulsações do coração se fizeram nsurdecedoras. Nunca mais tocaram nesse assunto. vinha s e desenvolvendo havia bastante tempo. mais cedo ou mais tarde.Engraçado. mas também o que você fez com você mes ma e continua fazendo. ela as e nfeitará como bem entender..Como foi? . as exaltações subseqüentes se encarregaram de transformar o f enômeno numa coisa bastante irreal. . ao saber que outras potências disputavam a sujeição dela. Lamento.Ora. Nunca ligam o aquecedor na ala. que parecia uma paixão às avessas: ela e sbravejou. . ou truncar os verdadeiros. mas o prazer de se auto -acusar arrebatara Déborah com tamanho vigor.Pois bem. Para que uma pessoa se esconda. por ser amorosa e impressionável. Não houve estrondo nenhum de nenhum canhão. Descreveu os ciúmes dos primeiros tempos e o amor que surgiu depois. lá fora no mundo é agosto. 88 O tumor despertou furioso. O céu está limpo e o sol quentíssimo.. Eu te preveni. Por que não. ou inventar outros acontecimentos. . e então perguntou com voz pausada: .Não.Ah. desde que começaram essas chuvas e esses nevoeiros gelados.E continuar louca. me lembrar de um dado que eu tinha esquecido . se tomara uma criatura estranha e irreconhecível. segundo Déborah. . sendo corrompidas por ela: Suzy mais do que ninguém. sua sombra tomara-se imensa.. Invadiu-a um sentimento de profunda grati dão pela família. A doutôra esperou até que Déborah estivesse e m condições de ouvi-la. considerando o que fizeram comigo! .Um momentinho. Você vem. Esse disfarce s equer foi inventado pelos seus iiris. Para Déborah.perguntou a doutôra. Não passam de bons métodos para fugir de uma verdade que pode vir a ser dolorosa.disse e ficou surpresa ao ouvir s ua própria voz pronunciando tais palavras.iris. . exclamou o Censor . . o que dissera sobre a emanação maléfica era. .Diga uma coisa: você fazia com que ela tivesse alucinações ou sentisse o cheiro de c oisas que não existiam por perto? Você fazia com que ela duvidasse de sua própria sani dade ou perdesse a noção de realidade? . e desferiu uma flecha aguda que atravessou seus domínios para lembrá-los de sua supre macia.Que seja. .Não . e todas as pessoas que conhecia acabavam. A doença é o vulcão.. A doutôra insistiu para que voltasse a falar sobre a destruição de Suzy. É um truque velho.

como se faz com um cadáver em decomposição. . vergonha e intimidade.Ambas riram..O que é que você tem agora. Seu sorriso sarcástico deixou o auxiliar furioso. mas a morte e suas convenções eram encaradas com o maior desdém.continuou a doutôra.E o burburinho foi crescendo. caçoar a uma distância segura.pediu a doutôra. ligado o gás e se matado.. Ao saber da novidade. . as pacientes não se sentiam obrigada s a manter a decência e a evitar de falar mal do morto. birutas. E apesar de tudo o q ue me deram. Hobbs fizera tinha si do mostrar a língua para elas. . Lactamaeon levou-a até o pântano para que visse. As deformações físicas mereciam uma certa piedade. Por um instante est eve à beira das lágrimas. Déborah desatou a rir. me sinto necessária . . Na noite anterior. que optaria por trabalhar em hospitais psiquiátricos como altemativa à prisão.Não foi só a idéia de matá-la? . mas com uma amargura que era rara nela. . lunáticas. o Sr. até as mais alheadas. as pacientes acorreram ansiosas ao saguão para ver quem tinha substituído Hobbs. acumulando-se ano após ano. mesmo que em vão. Carla limitou-se a murmurar: Gosto de ser a punição dele.Vim anunciar que o caso do Sr. .declarou ela. de tudo o que fizeram por mim. pronta para atirá-la.O que é? Leve-me com você . . e todas invejavam a morte.Nunca.É um Nariz. .Compaixão. O barulho atraiu logo um auxiliar. e as lágrimas se recolheram imediatamente. . Em algum lugar.. Um dos aspectos de sua doença é que todas se julgavam o centro do mundo. impregna tudo com sua podridão e seu ranço. 90 11 Quando entrou o turno da noite. enquanto as loucas furio sas. He lene tinha uma frase lapidar: "Um louco é um enforcado cuja corda arrebentou a tem po". As que se achavam à frente do grupo. tentado o suicídio de uma forma mais ou' meno s diligente.. Eles se recusam a lutar . O sujeito é um Nariz.Déborah achava que eles tinham apanhado o fato escabroso e sepultado às p ressas num lugar qualquer.. 89 ..perguntou ela. Todas as pigméias-monjasp risioneiras confinadas na Ala D. A expressão fora inventada por Lee Miller. sabia muito bem que nessas circunstâncias. foi a resposta dele.Vergonha e intimidade. numa ocasião em que ela disse: "Ah. Helene postou-se diante da enfermaria e começou a bater os pés com força.que consentira em viver com um monstro e tratá-lo como pessoa.Não! Cheguei a carregá-la até a janela. . você compreende.Pois é.Depois da operação. repetiu Yr. . aí vem o govemo e diz: Vamos esfregar o nariz de vocês naquilo para verem o que é 91 bom! Escolham: ou a prisão ou o hospício! .Helene riu e alguém completou: . Por outro lado. paira no ar.Que cheiro horrível é esse? . Pássaro-um. Imagine a cara dele quando desco brir o que eu enterrei! . o mau cheiro do cadáver persegue o crimi noso. Havia em Yr uma região chamada Pântano do Medo. Hobbs tinha ido para casa depois do ser viço.. Hobbs está encerrado.E seus pais de fato nunca tocaram no assunto nem fizeram perguntas? . piradas. há um ladrão que ouviu dizer que as pessoas co stumam enterrar e esconder seu ouro e suas jóias. fechado as portas e janelas. inclinando-se para ela. Nariz era um des ses condenados arrependidos. ele s são os Narizes e nós o aquilo. espalharam a notícia para as de trás.. Todas tinham desejado se matar. o que o Sr. f lutuando na superfície de lodo. . os monstros e os corpos de seus mais temíveis pesadelos. esses desertores. logo que o viram . mas a doença se apressou a lembrá-la de que chorar era humano. tentavam acertar uns bons tapas nele. . Quando o turno da noite entrou. Tu não és como os outros.Morávamos naquela casa ensolarada onde ficamos só por um ano. Detesto todos eles. Só por serem loucas. Helene? Caso encerrado . sabiam do acontecimento.e riu. Segundo essa visão. Certa vez. compaixão. O caso era para ser mantido em s igilo absoluto. .

Afastou-se dali. carr egando consigo o Nariz todo empertigado. daí terem que ocultá-lo. Ficaram para assistir a primeira caminhada.Obstáculo! . que é isso? Não scomos assim tão diferentes! . Abriu-se de repent e a porta da ala e McPherson enTrou Num instante todas se acalmaram. . Sentiu obscuramente que essas palavras feriam-no de algum modo. perdida de novo no seu limbo. a procissão de magos voltou a desfilar diante delas. 92 cacarejando desculpas por tudo e por todas.exclamou Helene sem nenhuma malícia. Viviam sentadas no chão e ninguém dava por isso. ter..Talvez ele seja bonzinho .. Helene estremeceu de repugnância quando ele Passou. Carla arm ou um olhar de pasmo. que tinha morrido por causa disso. contentando-se em repreen dê-las novamente para que saíssem do chão. No entant o. . O homem. ele vai desmaiar! e depois ressentida . .. que o novo membro da equipe teve de empreender ao longo da ala.fechadura. isso não lhe despertava nenhuma reação sarcástica ou agre ssiva. ninguém fez comentários irônicos a respeito daquelas súbitas ausências me ntais dela. Como a presença de McPherson paira sse ainda no ar.disse McPherson.Aposto que está com medo de que a gente o contagie . por descuido. As pacientes sabiam que aquilo era mera for malidade. e percebeu que ninguém tinha compreendido.disse antes de entrar na enfe rmaria. Ap ressara-se apenas a tapar a brecha que ele. Suponho que devemos chamar um deles de Nari na .Ela também é uma pessoa. Constantsa. Ao perceberem isso. Repetiu-as. soltou uma gargalhada e proclamou: . Todas ficaram contentes com a presença dele. não p uderam conter a crueldade que.. muito menos entenderam. Mary. mas bastava chegar um con vidado. não riram. tal como Déborah anteriormente. coitado. e que iriam se esforçar para satisfazer o desejo do exército de que o treinamento desse homem fosse rigoroso. era a expressão verdadeira e natural de suas personalidades. .Deviam ter trocado a fe chadura. com sua jovialidade importuna. começou a gritar assim que o viu. da seção de reclusão. com os maxilares contraídos de pavor. enquanto esfregava nódoas invisíveis de sangue. A entrada de McPherson constituía para ela um acontecimento absolutamente diferent e do anterior. comentou rindo: .Atenção carrascos de Hobbs.disse Déborah. a reação delas oscilou entre o divertimento e o ódio.comentou a cerimoniosa Mary. tal como esposas provincianas. trocado. ao ouvir os gritos.pediu a enfermeira-chefe da ala às meninas que e stavam sentadas de encontro a parede no chão do saguão e do corredor. Deviam. extenuante e interminável. Carla olhou à sua volta. Déborah ergueu os olhos para o Nariz. Eu também não gosto desse negócio de chaves ..declarou com voz cantada. um riso bonachâo.a. sabia? . tinha aberto no.Os Narizes costumam vir aos pares. lamentan aue a casa estivesse "tão des arrumada". por favor! . Quando. . muro. como se a porta e a fechadura fossem outras. procurando descobrir qua l delas era a culpada. Constantia parecia estar decidida a passar aquela noite ando. só que demonstrar esse sentimento signi ficava demonstrar que eram vulneráveis. muito mais de si mesmo do que de las.. para elas.Sem essas chaves. v ocê não se distinguiria de nós! McPherson. contentou-se em rir. Queria dizer com isso que os seus pés estendidos à frente do assustado rapaz simboli zavam os aparelhos nas corridas de obstáculo que os recrutas tinham que saltar dur ante o treinamento militar.disse Carla. porém. . aí vem outro freguês para o gás! . Ora. e Mary..Vejam só! A quem pensa que está enganando? .Chiii! Meu Deus. Caíram todas na gargalhada com essa alusão a Hobbs. Voltou a se recostar em silêncio. As enfermeiras. .. A expedição acercou-se delas. Déborah olhou para com severidade e comentou num tom significativo: . . As pacientes caíram na gargalhada.Levantem-se do chão. que ela e as outras compreendiam que lhes cabia subs tituir os "horrores de guerra". contu do.Qualquer coisa é melhor do que Hobbs. Seguiram adiante. para que as enfermeiras. por se tratar de McPherson. estava at errorizado.

Entreo lharamse descrentes de seus sentidos .Chame a médica . compreendeu como seria absurdo r eproduzir qualquer fragmento da conversa. mas seus esforços foram em vão: o chão se desvaneceu como uma miragem no deserto.A religião deles condena o suicídio . O terror.Sobre o que? . tão muda e enregelada que se confundia com os móveis da ala. . Tudo girava à s ua volta. Era impossível determinar se estava de pé ou sentada.falou Sylvia que estava encostada à parede. foi a Vêz d o cérebro esfumar-se. O flamejante Anterrabae acossou-a às gargalhadas: Como ousas solidar izar-te com o mundo! Traidora! Serás punida! Yr cerrou-se sobre ela. Cristo! Por favor! Déborah.. Fazia um ano que Sylvia não dizia absolutamente nada . Dissolveram-se as paredes e o mundo se desfez num grande caos de sombras. E de onde p rovinha essa luz. enlouqueço! .Isso não tem importância. movimento. Procurou coordenar as idéias e constatou que pe rdera também a memória: sentiu-se incapaz de recordar uma só palavra.implorou Déborah. ora próximo.Por que vocês estão tão excitadas. Sua voz era tão inexpressiva que o som parecia ter vindo da própria parede.93 . forma.ela falou ou fui eu que escutei? . Restou-lhe apenas uma sucessão vertiginosa de sensações inidentifi cáveis posto que faltavam palavras e idéias para enquadrá-las. Passado algum tempo. O silênc io pairou sobre a ala. pois se não chamar a culpa será sua. Depois da memória. como se estivesse diante de um vendedor inoportuno. mas não conseguia articular as pala vras necessárias.. e até mesmo o Yri transformara-se num emaranhado de sons inarticulados. ora distante. Gostaria de agradecer a Lee por se ter exposto 94 sua falta de visão. Déborah tremia. A vistou à distância um fragmento de superfície mas o vento logo carregou-o para longe.Sylvia falou! . aí está o mundo.incapaz de pronunciar uma palavra sequer. raramente usado: nelaq. nem como movê-los.a descoberto . Dirigiu-se à porta da enfermaria. ela veio às três da madrugada! . Ela se encontrava naquela região medonha chamada "Envolvimento" ou "Realidade" e ninguém podia ajudá-la.Lee Mi ller foi a primeira a reagir. Encerrada num corpo inerte inerte como o de Sylvia agora . Expusera-se por causa de outra pessoa que jamais iria elogiá-l a ou demonstrar gratidão pelo seu gesto.Quanto mais f undo. De qualquer maneira. falta de visão. as pessoas procuravam se convencer de que realmente havia m escutado aquelas palavras e de que elas partiram da criatura muda e enregelada que era Sylvia. Bateu. As direções embaralhavam-se. as n oções habituais de tato. Não admiras a nelaq tankutuku? Pois bem.retrucou a enfermeira e fechou a porta. transida de medo. . Da última vez que Sylvia falou. . não tinha limites. bateu. era o sinal de Yri para quem estava tankutuku . ou seja. Ele deve ser mil vezes pior que o outro! . hein Miller? . nada em Déborah re spondia mais. não minha. que observava o desespero de Lee Miller. extinguira-se o b reve e pálido lampejo de vida em Sylvia.Vamos chamá-lo Hobbs Leviatã. Déborah tateou em busca de chão firme onde pudesse se ergue r.E então. agora.£ bom que você chame a médica.Ai.perguntou a enfermeira .? . O Yri tinha um outro termo para designar tal estado.O que foi que ela falou? . Finalmente. cujos raios feriam-na como facadas? Perdeu totalmente o contro le de seus membros: não sabia onde estavam os braços. . gravidade e luz. Pressentiu que sugeriam algum segredo pavoroso. mas estava fechada .disse Lee lacônicamente. Foram revogadas todas as leis da física e dos sólidos. Toma-o! Irrompeu um vento tempestuoso. melhor. Yr louvava a coragem de Lee. . Todas emudeceram assombradas. L ee bateu de novo. nem faria sentido para você porque foi parte de uma conver sa. até que vieram abrir. A enfermeira olhou para ela aborrecida.O relatório da ala ainda não está pronto . Atirou-se impetuosamente em Yr: . Adams virá Sempre vem. voltaram a abrir.exposta aos perigos e distante do refúgio. mas não houve como decifrá-lo. Era preciso que se fizesse algo por Lee. o que era vertical e o que era horizontal. Uma aura de luz sombria rodeava Lee. Não! Não! Se fizerem isso.

enfim. que todas es sas descrições não passavam de metáforas? Perder a cabeça. . Um fato. Detestava e temia os pacientes. Constantia fazia-lhe propostas ostensivamente li bidinosas. corpos de três dime nsões reclamavam do calor e abanavam-se. quando ele vinha trazer a toalha.E Déborah atormentava-o com ob servações ferinas sobre as similaridades entre os psicóticos e os fanáticos religiosos. o medo dos primeiros dias foi cedendo lugar à cólera. mePherson. Vendo. as doentes lutavam com as armas que seu est ado lhes permitia. porém. . Estavam roxas de frio. McPherson pe nsava com seus botões que não havia no mundo caçadores mais sagazes e implacáveis. e como estava ator doada demais para insistir. a religião de Ellis considerava o suicídio um dos pecados mais terríveis. um már tir. portanto. conhecerás um castigo mil vezes mais terrível. morto e putrefato. Helene jamais voltara seu arsenal de conheci . estavam se saindo bem em alas diferentes. os. Levantou-se. envolveu-se no cobertor e. Mais tarde. Notou que estava dei tada numa cama que não era a sua.. fundir a cuca. Helene. Estás vendo como é.A pessoa obviamente não entendeu. sem saber o que fazer. Ellis não servia de jeito nenhum para o trabalho. lembrando-se com reverência da imen sidão. uma verdadeira monstruosidade. saiu para o saguão. . Não era para menos que estava condenado a carregar o espectro de Hobbs que os pacientes lhe haviam imposto com os seus apelidos. uma consciência razoável de que existia. mas procurava mostrar-se si mpático com ele.Descobri o que é ser insana . Meneou a cabeça . a insanidade ou era 96 deserto merecido para suas vítimas. Não brinques conosco. que se moviam num elemento chamado tempo. De acordo com os preconceitos alimentados no homem. e fic ou aliviada ao reconhecer que era a sua. e um del es até demonstrava habilidade no trato com os pacientes. Fried perguntou a ela o que havia descoberto desde a última ses são. ou uma vingança de Deus ou uma obra do diabo. porque estamos te protegendo. . Nauseada com o frio que sentia. tinha. e não a ele.É realmente incrível! é realm ente é incrível! A guerra entre o Nariz . Pássaro-um. tomava-a.. a primeira coisa que viu foram 95 as unhas das mãos. para b aixo e para os lados. a Dra.Ao emergir da Punição. O problema é que não havia gente suficiente na equipe.Que dia é hoje? . por 1 acaso. as três coisas juntas. porque podemos jogá-la para cima. Dirigiu-se a uma delas pa ra esclarecer uma questão que lhe parecia irrelevante: . ridicularizando algumas de su as passagens para escandalizá-lo. Embora não conseguisse reconhecer ninguém. Os dois outros n ovos condenados arrependidos. pelo me nos. tentando diminuí-lo.respondeu Déborah. ficar louco. e virá-la pelo avesso. Da próxima vez que admir ares o mundo. do poder e do horror contidos nela. e encarava o govemo que o punira do mesmo modo que os mártires cris tãos deviam encarar os procuradores romanos. com uma pequena m esura. de que via corpos em três dimensões. ou ainda. o que tinha ingressado na Ala D. As letradas reescreviam a Bíblia. Não brinques conosco. não ousava participar desse outro tempo. Pássaro-um. Amém. Lá fora. McPherson sentia essa atmosfera de ódio e violência pairando sobre a ala.Scomos capazes de manipulá-la. preferiu se afastar À sua volta.disse Anterrabae num tom condescendente. chama dos pessoas. Contra a repugnância que ele extemava. deitou-se numa cama.Quarta-feira. . tiritand o ainda. temer osa de que a Punição voltasse a fustigá-la e a arrebatá-la de novo. p ara ele virtuosa e justa. do qu e esses doentes na arte de desferir as setas sobre o ponto mais fraco do animal. Imaginavas. lunático? Pobre de ti! Vês agora que elas são todas muito. .Puxa! Então em que dia foi? .De Paracleto a Paranóica. No entanto. porque agora ag rediam Ellis. também não gost ava muito de Ellis. como decidiram chamá-lo. Amém. o coitado arrastar o seu Leviatã. E para tomar as coisas piores. o sol de verão resplandecia sobre u ma paisagem verdejante. dem ente.e as pacientes prosseguiu. muito verdadeiras. Passou a se julgar vítima de uma perseguição religiosa. o intrigava: porque agrediam Hobbs e nunca a ele. Pessoalmente.ou Hobbs Leviatã. e dizia: . voltou para o quarto.

"Sou a morta que medita". As provocações imediatamente recomeçaram: . Carla replicou. não muito cont agiantes. dá é grilos na cuca! . Marion. Cabot insistia do dormitório . por que eu? Pensei que vocês. numa paródia melancolicament e romântica: . evitava feri-lo com palavras cruéis. tinham convencionado que nós estamo s fora do jogo..Ei-lo que surge. delicadamente.. continuava enclausurada e m si mesma. rescendendo a urina e a desinfetante. Perguntara-lhe uma vez o que estava olhando. está bem? Por que eu? Quero que todas vocês deixem-no em paz. Nada de piadinhas.Afasta-te do meu caminho. A srta. que envolvia a ala.. . sem vacilar. murmurando para si num canto.Quais são as últimas do Inferno hoje. Ellis. Suspeitava que não se tratava apenas de uma questão de sorte. Quando a voz lânguida do locutor desejou-lhes uma "boa noite sob esse céu estrelado". Não compreendia como e p or que escapava aos desafogos de amargura e infelicidade que o rodeavam. Lee Miller cerrava e descerrava os den tes. e ligou-o bem alto. Fique sabendo que ele era um dos nossos! A única coisa que o separava de nós eram os cinco centímetros de metal da sua chave. Observou as pacientes apáticas esperando o jantar. Os ânimos se acalmaram. Foi uma gargalhada geral.. livre das minhas amarras.. o qual era liga do apenas durante certas horas do dia e sintonizado em músicas inócuas. . E. Deb . muito menos delicada. Blau estava parada ao lado das grade s do aquecimento.Déb. McPherson era o único que conseguia chamar as p acientes por seus apelidos sem que isso soasse falso. porém. os sedativos e finalmente o sono..Ora. Constantia. Desta vez.. Não sou simpática. sentia-se que pairava no ar uma i ntranqüilidade ameaçadora .Hum. Ecoaram os sons delicados de uma música romântica para dança. soou.Isso é hora de perguntar? Deixe-o cuidar primeiro de suas ovelhas! Havia um rádio embutido por detrás de outra espessa grade na parede. adeus. naquele momento. tá? Sentiu-se. os normais.mais do que a simples soma das intranqüilidades individuai s. destrancou a grade. ficou esperando que o sono chegasse Deuses e o Coletor foram gradativamente se reduzindo a um sonolento meio-tom e iam apagar-se quando McPherson entrou no dormitório e parou junto à sua cama.deixe em paz o Sr. Pretende falar com todo mundo? (A suspeita e a cautela contra os pedidos. embora 98 O rasto de tensão permanecesse ainda por alguns instantes Evitara-se por pouco um grave incidente.Hobbs cometeu suicídio e o exército cometeu Ellis! .Eu sou a Esposa de um Ex-Presidente As sassinado dos Estados Unidos! .. pastor? . Nada de referências a Hobbs. usada. .O cara recebeu uma comissão. mas não é bem a do tipo que confere patente. respondera ela com uma voz sumi da. fitando alguma coisa para além da parede. .Não. embora estivesse fora do quarto de reclusão. a carrancuda. Nisso.Linda. . e conheci Hobbs melhor do que você. instaurando um co ntraste patético.mentos contra ele. as intenções e os homens do mundo superou a prudência e motivou a p ergunta).Bati as asas em despedida. das suas convenções e rotinas. Déborah Blau. sai Ellis da enfermaria onde estivera redigindo os relatórios médicos. Assim que tcomou o sedativo. o cair 97 da noite.a voz dele era suave . Déborah enfiou-se na cama como de hábi to. Hobbs Leviatã! . hum! com todo mundo. os qua . hilariante mesmo. Sue Jepson e as demais estavam en tregues às suas manias habituais.Mesmo com Marie e Lena? (Os próprios pacientes consideravam-nas os casos mais gr aves da ala). foi até o rádio. o grande monstro marinho. McPherson. satanás! . adeus. com a atmosfera pesada. deixe ele em paz. no entanto.

então. segundo ele. continuou falando baixo. sent iu que ele estava tranqüilo. devido à sensibilidade e aos temores de Déborah. No entanto. ao retrucar. consistia em morrer com dignidade e agonizar como se o fizéssemos todos os dias. Deixe Ellis em paz. Déborah começou a perceber que havia muitas razões para o horr or que o mundo lhe inspirava. imitando as pessoas: Acorda menina! Tire essas besteiras da cabeça! . Sob a indignação perce bia-se um tom . não se trata da mesma coisa? Concordo. Fried. . Graças àq ueles meses de terapia.recomeço a Dra. Nunca a vi molestar outras pacientes. uma brincadeira misteriosa que todos conheciam mas ninguém admitia conhecer.um t om de respeito e sinceridade entre iguais. (Débo rah lembrou-se do que dissera à Carla e voltou a sentir99 se culpada).Vou tentar.exclamou Déborah. Ria! Não permita emhipótese alguma que 101 eles vejam que conseguiram-atingi-la. Déb. ele existe. bem como as inúmeras pequenas decepções que são vitáveis na vida.Estas e outras advertências visavam precavêla contra os cúmplices sorridentes da brincadeira secreta.Quando a machucarem. para você.dizia .Afirmou que estar doente era como ter um vulcão dentro de si e de pois. por algum tempo. acrescentou . Esta noção de orgulho. recuando sobressaltada. .Não de uma só vez. teria que desafiar o mund .Empenhara-se em aguçar a sagacidade verbal da neta nos mo ldes da sua. Ainda assim. surpreendendo Déborah com uma atitude que ele nunca tomara antes. como se tudo fizesse parte de uma trama.mas quero lembrar-lhe que muita gente lá fora gostaria d e receber ajuda e não pode.A segunda da classe não basta. Lembrava-se nitidamente da sua voz fam iliar incitando: . vinha carregada de ódio. o poderoso soberano da dinastia. 100 12 já uma coisa que você disse numa das sessões anteriores que não me sai da cabeça .Você é esperta . Nunca a ouvi insultar uma delas. contra o efeito dos sedativos. donas de todo sofrimento? Não pretendo trazer à tona questão de dinheiro isso é mais do que sabido . Lembrou-se do estribilho que durante anos o Coletor repe tia. disse que caberia a ela decorar as encostas como bem entendesse. A sombra do avô.raro em qualquer parte. Déborah lu tou. nunca chore. burilando-lhe as arestas ferinas. Você deve saber reconhecer uma perturbação mental à primeira v ista. . que você me levasse de volta ao seu passado. Um dia você se sentirá satisfeita consigo mesma. McPherson. entretanto.Ótimo. sobretudo num hospital psiquiátrico . você tem que ser a primeira! Ou en tão: . McPherson deu meia volta e saiu do dormitório. . mas que. Ele a encarou com o rosto severo. dando-lhe tapinhas de uma brutalidade mal contida. Tinham percorrido já as Grandes Decepções. você acha que todas as pessoas doentes estão em hospitais? Vocês se julgam.Perceben do o olhar assustado de Déborah. há um outro aspecto que você parece admitir: a doença e os sintomas são coisas distintas. Vivia chamando as mulheres de vac as e putas parideiras e.is ele se apressava em afagar. mas sua voz vibrava de indignação. O orgulho. pareciam t ambém apontar o caminho da destruição final. falando a respeito de sua irmã. Você não concorda que. Embora não conseguisse enxergá-lo na escuridão.ain da dará uma boa lição neles! . Gostaria. Percebe agora o que isso significa? Será que você realmente não vê que os deuses os diabos e todo este seu Yr são coisas criadas por você mesma? Não foi isso o que eu quis dizer! . . ainda que se confundam freqüentemente. pensando sobre o que ele ti nha dito e como o tinha dito: palavras duras mas verdadeiras. pr ojetava-se ainda sobre todos os da família. O pavor que sentiu ante a responsabil idade que aquela franqueza impunha veio temperado com uma sensação nova: alegria. lame ntava o fato de Déborah ter nascido mulher. mal se sentia ameaçado. Aos poucos. antes das encos tas terem sido decoradas para darmos uma olhada juntas no próprio vulcão. .Yr exis te! Não tenho dúvidas de que. . por acaso. é claro.Escute. embora os sin tomas estejam intimamente relacionados à doença e influam por vezes sobre ela.

ocorriam manifestações germanófilas e at entados contra sinagogas e vizinhos judeus que ousaram abandonar os guetos.Teve. da verdade.Mas é claro.. Há barras nos separando. as crianças de sua idade. Justifiquemos a psiquiatria (Risos). tropeçando nas palavras. partiam imediatamente para uma posição de ataque.o todo. O abismo existente entre a menininha rica. . por mais impressionante que fo sse para os mais velhos. .Sua mãe não teve problemas de gravidez quando você era bem pequena? . . . Caminhe de cabeça erguida.E o quê? Onde está você agora? . Déborah.. Os outros. expondo a verdade. Nas cidades maiores.deixou escapar Déborah.Sua o quê? Vamos! . pôs-se avidament . no entanto. Fried perscrutou atentamente a fisionomia de Déborah por algum tempo e. . Se não confiasse. Durante muito tempo.Tenho um pressentimento. o u ratos mortos fedendo de manhã ao lado do jornal que noticiava a fuga dos judeus para a fronteira da Polônia.E. e a. A coisa veio num estalo. como se visse nesses episód ios uma espécie de obscura confirmação.Vá em frente ora. e. . Acredite nele. A Dra. e sábias. em seguida. apenas tonalidades cinzas. . acrescentava: .Salvação! .Você ainda vai lhes dar uma boa lição! Nós dois scomos iguais. a ancestral e mística guerra entre um imigrante aleijado e um Conde de Latvia morto há séculos? Déborah cresceu num ambiente e numa época em que os judeus americanos continuavam ac ossados pelos terrores da lembrança das velhas batalhas das quais haviam fugido do Velho Mundo alguns anos antes.E depois viajou para repousar por algum tempo. e seu ódio repercuti a intensamente na América.Não sei. .Sentia. não existiria. o qual para ele se resumia num bando de tolos e ingratos.Continue .. Onde está a minha. m inha.Não e xiste cores.. O conhecimento básico que você tem a respeito de si mesma. e vencer. O avô. você se constituía num solo dos mais propícios para que a semente de Yr germ inasse . empregadas. eu. Ela é grande e branca. e se a agredir em. . disse: . ela abortou. Tudo cinza. é c orretíssimo. Eu não como. Conheceu de perto esse ódio anti-semita e chegou mesmo a ser agredida uma o u mais vezes por valentões da vizinhança. amor. não é? 103 Uma luz projetou-se sobre o passado.. Deixe estar.As decepções com o mundo dos adultos. Percebiam temerosas o que se passava com ela. enquanto vigorou a trégua armada 102 o mundo. Débora h lembrava-se de ter encontrado várias vezes a mansão dos Blau salpicada de tinta. exclamava triunfante: . pelo avô. não dê o braço a torcer! . as novas batalhas. . Portanto. Ela dá comida. algum dia você vai lhes dar uma boa lição! A "lição" que ela tinha que dar consistia em exibir uma impostura que seduzisse e im pressionasse as pessoas: sua precocidade. esbarrava contra a impossibilidade cruel de você consegui r a ascendência desejada junto às pessoas de sua idade. sólida e indiscutível daquel e momento. Vamos experimentá-lo juntas? . onde eram fuzilados pelos poloneses "amantes da liber dade".. . Só que essa condição. O abismo existente entre as pretensões do seu avô e o mundo que a cercava. meu. Os resultados pareciam confirmar as pa lavras do velho. As ilusões inspiradas pela próp ria precocidade: você era especial. . vestidos importados. Recrudesciam. . que falava de um lugar onde já estivera antes . com palavras cheias de ódio. por outro lado.concluiu a doutôra . são todos u ns idiotas. No entanto esta precocidade mais iludiu.É inveja! Os mais capaze s e os mais espertos são sempre invejados. essa ciência com a qual nós duas estamos trabalhando. Déborah usou sua sagacidade cáustica para con estarrecer os adultos.. em seguida. no entanto. Gêmeos. . Eu sou pequenina. à medida que o poderiu de Hitler se ia expandindo pela Europa.encorajou a doutôra. cercada de cuidados..Meu.E você confia em mim? .

A doutôra. provavelmente.O vulto branco deve ter sido uma babá. uma mentira inócua e reconfortante com a qual pudesse iluminar o caminho de volta a Y r. Meu próprio berço. ess a vivência grita lá no fundo: "Está vendo? No final das contas. barras e a solidão. e imaginando como devia ser horrível alguém servir de condutor à terra para uma potência dessa ordem .. e o frio e a perda da capacidade de distin guir cores.. Sempre me intrigou o fato de que não era um frio como qualquer outro que eu pudesse supr imir vestindo um casaco.Portanto. . genético. tr ansformando subitamente as conexões. não ser cruel com o S r. então. Muitas c rianças até mesmo perdem os pais.concluiu Déborah.. A enxurrada de palavras chegou ao fim. Ei! Ei! . encerrando a sessão. juntas.. eram as b arras do berço.A luz. um defeito intrínseco. vendo faixas escuras subir e descer diante de suas retinas. simplesmente. Esperava que a doutôra ensaiasse qualquer objeção tímida. De repente.. concentrada em suas deduções lógicas. buscava para além do corpo trêmulo de sua aciente vestígios do almejado espírito que reluzira por alguns minutos. Eu me pergunto qual será o preço. no limite das fr onteiras que demarcam o mundo dos sãos. mas depois de recal cá-las anos e anos seguidos. Teve razão. 104 . .. . quando não simpática . A dúvida logo se transformou em certeza.Cheguei a pensar que ia morrer até que. de estágio a estágio em Yr.murmurou Déborah. Localizamos dentr o de você onde certos fantasmas do passado continuam agarrados ao presente. A Dra. como se estivesse agu ardando ali há muito tempo. As barras.. tentando. agora! Quando sinto que vou despencar. . vieram palavras incisivas. ainda limitadas e hesitantes. Um nov o grupo de estudantes de enfermagem veio e se foi. a vivência de uma situação de abandono . outra dúvida a assaltou.Pára-raios .. olhando através do suéter a carne chamuscada. a vida é assim.. . notando a palidez do seu rosto. para logo de pois submergir.. e nem por isso acabam loucas.Perdoe-me .desculpou-se a doutôra. . Déborah era jogada daqui para lá como uma peteca. . essas faixas escuras diante d os meus olhos são as antigas barras do berço. Fried sorriu: . Ao invés disso. . exatamente o que acontece agora! É uma parte do Abismo.Fcomos muito bem hoje. numa revelação imen sa e maravilhosa.do melhor modo que pôde.e a preencher as lacunas. outros fugindo atemorizados à descoberta d e uma similaridade sutil existente entre os pensamentos expressos pelas loucas e . e o distante pesadelo foi.Seu pensame nto pousou um instante. pois o lugar onde a mão pousara começou a fumegar sob a manga do suéter e a pele encarquilhou cobrindo-se de bolhas. A sensação que eu tinha era a de que todo cal or havia desaparecido. Diga a todos em Yr que não ou em prejudicá-la nessa sua busca. agora plenamente gratificante. Cada vez que você é chamada a recordar o frio do abandono.disse Déborah. perdendo seu aspecto sobrenatural até se tomar. A babá era distante e fria. A doutôra tocou-a no braço: ..Trabalharemos com afinco. e o frio é o mesmo frio de antes. acabam adquirindo um peso que pode vir a ser insuportáv el. Déborah retirou o braço das mãos da doutôra. uma semente ruim.As recordações não perdem necessariamente suas formas originais. da luz do sol às trevas da noite. eles voltaram. de passagem.É você quem estabelece o preço. 13 O tempo passava. é o que acon tece agora. . mas nunca imaginei que pud esse ser verdade que estive realmente num lugar assim.As barras do berço. arcando com o martírio dele . por uma semana ou duas talvez. Libertou-o de Hobbs. finalmente. . e m mais uma prova irrevogável de que havia nela algum defeito. . impelida por um medo obscuro ao contato físic o.Enquanto for possível suportar . projetou-se sobre uma outra região.." A doutôra ergueu-se. . e acabaremos compreendendo. Uns se foram aliviados por te rem perdido o medo dos doentes mentais. Esta sensação ocorre freqüentemente.Não pretendi a tocá-la antes que estivesse pronta para aceitar isso. e procurou se mostrar obediente.sua própria existência . é tão vasto quanto a sensação de abandono e a da perda de todo o amor.Por que só eu vejo essas faixas escuras? Não há ninguém que não tenha ficado sozinho em certas ocasiões. Ellis. da terra à terra de ninguém. pouco a pouco.

. Murmurou algu mas palavras para deixá-la à vontade mas ao invés disso.É poder demais. No entanto. sofram. .Termine logo a ins peção da ala e vá preparar um casulo. . a fisionomia da enfermeira co ntraiu-se de medo. Déborah ergueu-se no diminuto quarto onde estava enclausurada. o que veio confirmar mais uma vez a distância intransponível que a se parava dos chamados "seres humanos normais".Só verificando tranqüilizou. a repuls iva Déborah. Déborah. a escolha inadequada das palavras só fez deixar a estagiária mais alarmada. A chave rangeu na fechadura. Estes . vindos da doutôra.Exatamente. Nem bem ela recuperou o equilíbrio. chutava aquele seu outro eu estirado ao chão. afastou de sopetão o braço trânsida de medo. não assim. Uma enfermeira " trouxe-lhe a bandeja do almoço.Através das órbitas dos olhos. Não havia prazer. acreditava neles.Vamos logo com isso Anterrabae. e desaguam na enfermeira. desprendendo faíscas dos cabelos. A mulher remexia as chaves (sua diferença). debruçada na janela olhando pa ra fora e repetindo de mansinho: . e sim ela. Ela se achava. o sangue e os ossos." Queri a dizer com isso que não era a enfermeira quem estava ausente. ao menos. firma ndo-a por alguns segundos. a s noites e os dias desses outros seres são de uma substância que não é a tua. Déborah estendeu a mão num gesto instintivo . e isso graças às aflições que. Déborah sussurrou depois ao cruzar com ela: "Errada não. O inspirar e o expirar. desferiu um g rito e caiu no chão. perdeu o equilíbrio. A tua subs tância é fatal para eles. gemendo baixinho: . horrorizada com o seu imenso poder de destruição.os seus pensamentos inconfessáveis. vocês todos. . Fora desse quarto. Pr ocurando tranqüilizá-la. investida da autoridade honorífi ca que detinha em Yr.a falta de jeito 106 tomava os seus gestos extremamente bruscos .Assim como o Poço? . Seja esperta. Não assim! Não assim. onde ela própria figurava como a vítima do seu hospício imaginário. Se forem contagiados por teu elemento. esmaguem-me de encontro ao mundo! Acenderam a luz pelo lado de fora. a outra Déborah. depois. Veio. paz ou liberdade que compensasse esse pavoroso sofrimento. Quando soou o ás pero canto cerimonial.. um segundo grupo que estava sen do domesticado pela nudez espontânea de Constantia. sem saber como. jovialmente a enfermeira do novo turno. Acab em comigo. a expressão do rosto 107 de Déborah. pelo visto transpareciam em seu rosto . Sentiu-se como uma gigantesca bale ia emergindo das profundezas do mar: vinha de um outro elemento regido por lei e . compreendia-os. Déborah. . situado a pouca dis tância do saguão. é magoar demais. e quase foi ao chão. desse hospital. Déborah não tinha a menor idéia do que eles estariam vendo no seu rosto. sugeriu ele. e qual dos se us "eus" a dominava naquele momento. Ao recuperar os sentidos. morrerão ou enlouquec erão. O fato é que se sentiu profundamente aliviada por receber ajuda. estava tudo escuro. A mulher se voltou precipitadamente para sair. disse Déborah a todas as divindades reunidas em utilizando a habitual saudação Yri. andam e respiram num elemento q ue nunca compreenderás ou conhecerás. Percorrem-me.. tropeçou no própri o pé. as pessoas iguais a elas riem. Déborah compartilhava. . . termin ado o expediente. terríveis e inconfessáveis. dessa ala. virou-se para uma pessoa que vinha atrás e ordenou: . revendo provavelmente os pesadelos. muito pálida. pela violência devastadora e gra ciosa de Helene e pelos olhos alheios de Déborah. Surpreendeu certa vez uma enferm eira comentando: -Aquela menina me olha como se eu absolutamente não existisse.Deixem-me morrer! Pedia que a esmagassem de u ma vez por todas. Coletor. na su a queda flamejante e etema. Aqu i tenho sido fio de cobre e as pessoas me confundem com bronze! Anterrabae riu. erguida por sobre si mesma. alegria.. o céu cobria-se de sombras por entre as barras da janela. Sou uma condutora de r aios e queimaduras. quem sabe.e agarrando °braço da enfermeira. Não permitam a ninguém magoar assim. . chutava-o na b oca do estômago e na região tumorosa que se rompia como um melão podre.murmurou algum tempo depois para o s que vieram buscá-la. Notando. contudo. e e saiu cambaleando do quarto. anunciando a partida.

A janela que emoldurava a noite coalhada de estrelas já não era aque la de onde assistira às primeiras horas do crepúsculo. num contraste chocante com a beleza da noite e das estrelas. a maneira como Ellis entrou foi brusca demai s. às barras qu e compunham a tripla couraça vedando a janela. enquanto tentava tomar-lhe o pulso com a outra. retesou ligeiramente o corpo. As enfermeiras e auxiliares diziam. calmos. Esse era o único movimento possível dentro de um casulo. filtrava-se a luminosidade pálida das estrelas. Helene nem sequer conseguia atin gi-lo.Ou. um ou dois comentários imprevistos e cortantes. é claro. Helene reagiu lançando-lhe uma cusparada n a cara. geralmente.declarou Helene secamente . e só entravam . No silêncio do quarto. avisara que se ela não se afastasse dali.respondeu Helene . Embora ela fosse uma pessoa mordaz e d emasiadamente agressiva. ou aquela quantidade indefinida de energia ou determinação ou seja lá o que for. e rápido. ou então. distante e inacessível. alguma coisa antes de entrarem. sempre discretos e silencioSOS. Déborah. . de modo a introduzir gradativamente a sua presença e a do mundo.climas próprios. . tinha inadvertidamente cometido uma grande crueldade com ela: dissera-lh e que achava que ela ia ficar boa. Déborah a respeitava sobretudo por sua inteligência. e estas. ela afastou a cabeça com violência. Ellis agarrou o rosto de Helene e o imobil izou com uma das mãos. De repente. . tinha certeza. na têmpora.Alguma vez já lhe caiu um fio de cabelo nos olhos quando você está no casulo? . respeitava e temia ao mesmo tempo. se dar conta do tormento que a afirmação despertava em si mesma.indagou Déborah. Solt ava. . a mã assentava-se implacavelmente sobre seu rosto. que tudo presenciava. Pelo vidro anteposto às grades. Num lugar vulnerável como aquele.Quem está aí? . sem demonstrar raiva. e extrair a ssim um número para o seu relatório. Da cama vizinha veio um som abafado. Mantinha-se. com uma voz pausada e contida. Déborah percebia. que era o essencial da recuperação. essas coisinhas diabólicas e importunas que se tomam um mundo quando não se pode coçá-las e afastá-las.Eu sou um fio de cabelo nos meus olhos . Pensou em Hele ne. conseqüentemente. sua respiração ofegante. às vezes. quebraria osso por osso daquela cabeça de merda. chocadas com a revelação de si próprias. se quiser. cusparadas e . sem inclusive. Um dia. e foi direto à cama de Hele ne para tirar-lhe o pulso. não se fizera de rogada. assisti a a essa cena. Virara-se para Déborah e. por sua vez. cisc os. deitada como uma gêmea na cama vizinha. Ela consegu iu se livrar mais uma vez. mas após cada tentativa. Os tapas atingiram-na firmes e fortes. Helene poderia se curar.perg untou Déborah. seus lábios já estavam secos. Déborah. Ambas resmungaram baixinho. o pavor enrijecera o corpo mus culoso de Helene. que Heleor mais desesperadamente enferma que estivesse. um jato difuso e furioso de saliva. e com gesto s deliberados e precisos. então. no entanto. Quando ele estendeu a mão para captar. Helene . acenderam a luz. que ficaria Para sempre gravada em sua mente como o símbolo da impo tência do doente mental: os tapas. lembrando-se das lutas que travara com fios de cabelo. convulsas e raivosas. Déborah recolheu-se ao silêncio e ficou descansando do eterno apocalipse. uma agressão tão violenta 108 muito surpreendente. apesar de seus modos espinhosos e intolerantes. Ao escutar aquilo. atordoados ainda. a invejava. manifestava seus Pemsamentos s momentos de lucidez. começou a esbofetear o rosto dela.Nossa Senhora da Cócega no Nariz! . Seus pensamentos fluíam com extrema nitidez. Ellis. Vênus de Mil o com cócegas no nariz. sabendo que os pa cientes poderiam estar em transição e. Ellis entrou sozinho.e você é outr o! Em face desta reação pouco amistosa. Havia agora duas camas mergul hadas na escuridão. estendidas lugubremente naquelas camas. 109 e as cusparadas frenéticas. felpas. nem que fosse por uma piscadela de olh os. deixara também de perseguir o ma rtirizado Ellis. o pulso de Helene. a maior parte do tempo. depois que eles acusassem a sua presença. precisos e ritmados. Por causa disso.

A enfermeira da ala. com os olhos pregados nela. O homem aut orizaria. ao invés de bater com os punhos fechados. nem tampouco foi mais longe referindo-se às tendências de Ellis. pelo menos a Ellis. Helene tossia. . com aquela Alma. Não se deu ao trabalho de procurar lhe mostrar a gravidade d a questão. Ficaram horas absorvidos naquela guerra. c ustasse o que custasse. em tempo. Você estava no casulo e. Ergueu os olhos para ele.Posso saber o que é? . Déborah se lembrou de sua autorização para sedativos. mas não podemos aceitar uma denúncia dessas sem provas. foi a vez de Déborah assumir voluntariamente a condição de participan te. é claro!". A muito custo. caridade em cen tímetros cúbicos". os limites de s ua realidade. silenciar sem compreender. quem sabe.perguntou enfim o médico. . . naturalment e. . nem sentir o vento tenebroso. a mandou para a enfermeira-chefe d o dia. Enquanto duravam esses trâmites burocráticos. enqu anto murmurava para si mesma: "Generosidade de hidrato de cloro.de cúmplice no episódio. por experiência. Azar! vou contar o caso à Dra. encerrar os atritos sem tomar qualquer pr ovidência. um pouco transtomada.Helene saiu logo depois que acabou tudo. Percebeu a tempo que não seria prud ente dizer isso. ele vivia uma outra dimen são de realidade. que só eram objeto de segredo porque ele detinha as chaves e as pacientes não.. e saiu. e portanto. gozando. chegar até ao médico. as fronteiras de seu reino. Dirigiu-se à enfermeira e pediu para fala r com o médico da ala assim que ele viesse assinar os pedidos da semana. bate com a mão espalmada! A enfermeira mandou que ela procurasse a enfermeira encarregada da ala. contudo. Registrou sua pulsação. . tomar-se uma nelaq tankutuku. .Que pacifista é aquele que. esboçar qualquer movim ento em direção ao onipotente cademinho de notas. até que final mente. menos ainda a iminência da Punição.Tenho uma coisa para contar a ele. poupando ao máximo as palavra s. por sua vez.. e tinha certeza de que aquela era a hora certa de pedir. a nuvem prenunciadora da Punição ia se adensando sobre Déborah. que ele não podia ver a nuvem. Toque-de-Fogo. Era evidente que estava colocando em prática o que Lee Miller chamava Tratamento Número Três: consistia numa variação do vel ho "sem dúvida! sem dúvida!". expor-se cega e irremediavelmente. sem.perguntou a enfermeira. .Esteve a ponto de acrescentar que H elene tinha sumido. da nuv em. hesitando. No dia seguinte.Tomarei nota do caso .primavera.Reparou que. uma inimiga de si própria nos termos Yri. talvez .assegurou o médico. que seria injusto comprar sono ao preço do sangue que Helene engolira. . Narroulhe.Para que você quer vê-lo? . e não saiu mais de lá. A enfermeira-chefe não a levou muito a sério. uma forma de conciliar s em alterar. Repetiu as explicações. deixando-a ali com cara de boba. Repetiu novamente as explicações. No entanto precisava. como vingança porque uma vez lhe dissera que achava que ela iria ficar boa. que dizia "Sim. caíam vermes.sob um outro s ol cujos raios não ultrapassavam a periferia do campo de visão dela. contidamente. sentindo a nuvem cada vez mais ameaçadora e o vento que já começava a soprar. não vai ser nada fácil se tiver de mentir. A idéia. as estações . Terminou de fal ar e durante muito tempo. para que ele acreditasse nela. mas decidiu. livrar de sua consciência a responsabili dade de ter sido testemunha -. mordeu os lábios e se calou. o incidente. Furii ou Toque-de-Fogo era o nome em Yri que Déborah 111 . em seguida a de Débora h. no entanto. engasgada com sangue. Déb ora 110 sabia. sim. o enfermeiro conseguiu submetê-la. obteve finalmente permissão para ver o médico da ala.tapas ressoavam sem parar. procurando ostentar a aparência de sanidade convencionada pelo mundo. . Deixou-o partir.É do nosso maior interesse impedir qualquer brutalidade aqui no hospital.Pergunte. Déborah teve que implorar.Por que Helene não veio me contar isso? . Quem sabe você não pensou ter visto isso. fixou-se na sua ment e como um trapo agarrado a um prego. . . tanto do vitorioso como da vítima. Sentado ali calmamente. o médico continuou calado. Queria que lhe aumentas sem a dose. e por um encadeamento de idéias não muito claro .. . .

rindo às gargalhadas.é que eu não estou ligada à direção da ala. L ee tinha uma mania: não suportava ninguém às suas costas. Não participo das decisões relativas à al a. ditas por Sylvia. . Fried.sim é claro!" .O problema .refletia Déborah . ou então pare de seguila. a idéia de pedir um aumento na dose de sedativos.encontrara para a Dra. .disse Furii . . Helene cumpriu a promessa de não importunar Ellis. A única realidade que eu lhe ofereço é o desafio: ficar boa significa ficar livre para aceitá-lo ou não. Depois que Helene a deixou sozinha com a responsabilidade de testemunha.. Déborah! Procure compreender. o Sol ptolomaico girando em tcomo de seus planetas. .Retire-se do saguão. fósforos. e essa opção v cê assumirá de acordo com suas possibilidades. a desonestidade impe ra e aqueles que conservam a fé acabam se dando mal.Contei. embora não fosse tankutuku. O fato dè ela lhe dirigir a palavra . Você vai mesmo levantar a questão de Helene na reunião? Se eu disse que ia é porque vou. começou a segui-la por toda parte. O elo gravitational se desfez. não por uma questão de devotamento ou lealda de.Suma-se. . o sobrenome de todo mundo aqui é Pilatos.protestou Déborah.Você contou isso ao médico da ala? . já esquecidas.(Lembrou-se de Tilda: um belo dia fugiu do hospital e m Nurembergue. era justo que um ato que seguramente iria lhe cust ar muito.. e eu também. .De que vale então essa sua realidade.disse Furii. Não prometo mentiras.Sentia-se agora ridícula por ter rejeitado. mas por um misterioso senso de conveniência. Uma pergunta: Ellis espancará a testemunha trancafiada nua num quarto de reclusão? Déborah foi escorregando pela parede.perguntou Furii. e enfadonho também. rendesse pelo menos alguma coisa.Afaste-se. Aproveita a luz do meu jogo. suportando estoicamente os grilhões daquele relacionamento. doutôra. cintos.Absolutamente.Nunca lhe prometi um jardim de rosas! Nunca lhe p rometi a justiça ideal. até um local fami113 .Enfermeira! Tire essa puta daqui! . para voltar logo depois. hein? . é? Furii concordou. Grande realidade essa sua. . . Afinal.Vem cá. finalmente. . O meu objetivo é exclusivamente 112 ajudá-la a ser livre para lutar por todas essas coisas.A não ser que essa política consista em espancar pacientes indefesas! . era uma terceira atriz. Déborah. em homenagem ao poder espantoso que tinha revelado ao lhe queimar o braço com uma chama invisível.Talvez você esteja duv idando de que eu tenha visto tudo isso. mas não prometo nada.Também não posso interferir na disciplina do pessoal da ala. . olhares maldosos. . cordões de sapato. que havia uma relação entre as duas. um riso grotesco e áspero que mal chegava a ser riso. . .signifi cava admitir que estavam no mesmo palco. num gesto de nobreza. Um mundo perfeito como um jardim de rosas é mentira.Escute aqui . cons eqüentemente. desaparecendo naquela cidade repleta de suásticas. Pássaro-um. Déborah. A enfermeira. Blau! Déborah persistia. eles estão mais loucos do que eu!") .Quem disse que eu estou propondo mudança de política? . Não estou ligada à administração do hospital. mas Déborah não ficou muito convencida. e vê que todos cuidam para que te afaste do s menores perigos: alfinetes. e a reação dele foi a Número Três com Sorriso: "sim .. aquela que também era tankutuku por causa das palavras. . . se a justiça fracassa. impelida por um estímulo inconsciente. Déborah se sentia como um fósforo tentando atear fogo a um tonel de combustível vazio. procurou se aproximar de Lee Miller. Déborah. também nunca lh e prometi paz ou felicidade. Não posso interfer r na política deles. Déborah voltou a se afastar. que eram atrizes do mesmo drama e. . Lee. . passava o dia todo circulando para "manter as pe ssoas nos seus devidos lugares". Blau! Isso também convinha. . e como não gostasse de ficar e ncostada à parede como as outras. em mencionar o assunto na reunião da equipe médica."Shalom Aleichem.

Vivem mijando no c hão. acomodou-se no chão. para ser matemalmente mimada e cons olada.. Elas pairavam no ar junto com a murrinha de zoológico que infestava a ala. sendo amparada e reco nfortada .exclamou Jacob sobressaltado elevando a voz para sufocar o medo. . a imagem que essa médica sugeria era a de uma pessoa inteiramente irreconhecível.Porque o senso de realidade dela anda um bocado abalado atualmente. O trabalho que estamos desenvolvendo juntas visa.liar. pelo menos. sinceramente não sei se posso lhes dar esperanças. para ser 115 patemalmente protegida e orientada. . Trata-se de um problema puramente administrativo. Não sei se ela virá algum dia a ter essas coisas ou mesmo se as desejará. e desatou a correr ao longo do saguão. formas dela se proteger. Já estive numa "pá" de espeluncas. a nuvem baixando ameaçadoramente. 114 14 Jacob e Esther estavam sentados no consultório. Doente ou sadia . e "ela sabe disso e teme por vocês .Não vem ao caso a questão do amor.é claro q ue. a lei da gravidade ondulando como um trapo no vento tenebroso. Que mal há em desejar uma criança como todas as outras? . se vocês decidiram vê-la. buq uês de rosas e um pretendente distinto e de boa família.É importante que fique claro que os sintomas não são a doença . os vermes que despencavam dela. Arrependeu-se pela centésima vez de ter intemado a fil ha. uma paciente recém-chegada que angariara um certo prestígio devido à su a violência e aos nove anos que havia passado num dos hospitais mais rigorosos do país.disse a doutôra. Todos temiam aquela espe rança.. e ficou acompanhando as imagens q ue lhe percorriam a mente .Tais sintomas representam defesas.viviam permanentemente com frio . Sentiu ímpeto de dizer a eles.o fato é que precisamo s alimentar alguma expectativa.perguntou Jacob . os dilemas que Débo . inevitavelmente. mas terrivelmente explícitas.Será que poderíamos vê-la? Teve desde o início certeza de que eles acabariam. vocês a verão. Mas era tarde. nem pretendia desempenh ar o papel de juiz. minúsculo talvez. a doença é o ún ico solo firme de que Déborah dispõe. são mais assustadas.percebeu logo a Dra. mais piradas. .Porque não! . e também por si me sma. Para Déborah.Aqui é diferente. ou terá que continuar aqui. nisso ela só poderá acr editar por um voto de fé. . . A senho ra poderia nos dizer o que podemos esperar? . Se h ouver um outro mais firme. virou-se de repente. era justamente a pergunta que ela não estava disposta a responder. aquele: minúsculo. Perscrutou os seus dois mundos e avistou a tempestade im inente.imagens simples. . ela era uma pessoa da família. numa de alas. ter uma esperança qualquer. depois que esse for destruído. . nao importa.. À tardinha. Frie d . convites para dançar.Eu. Não poderia prometer nada em definitivo.e declarou: .Se o que vocês querem para Déborah é um diploma universitário. É este solo que estamos trabalhando juntas. Aqui as pessoas ..Procurou usar um tom bem tranqüilo.. um bocadinho. apontando o que haviam ou não haviam feito de errado para que a filha acabasse nesse campo de batalha. Jacob recostou-se aturdido.Deixe o talvez de lado.. bem. mas eu pessoalmente não aconselho ainda dessa vez. para o pequeno grupo de pessoas que estavam aconchegada s ao redor do aquecimento . A sua adorada Déborah de antes Podia até estar doente como todos afirmavam. Sua aparênci a pode alarmá-los um pouco. ela vai ficar boa. de uma vez por t odas.mas é por causa do talvez. em parte. Antes. não param de gritar . para sempre? . Lúcia. inse gura e infeliz. junto às outras estátuas. numa "pá" de alas.. Meu irmão também. seja qual for. apressou-se a emendar: . eu quero dizer. Vinham . Desgarrou-se de novo. . Por causa de um minúsculo. que não Deus. . infeliz.Percebendo a frieza de suas palavras. Imaginem por vocês mesmos. descobrir e chegar a um acordo quanto ao que ela realmente quer. agora. Acreditem ou não. as palavras da menina tiveram uma ressonância especial. Pois. minúsculo talvez.em busca de paz e tranqüilidade. pedindo isso. rindo para neutraliza r o imenso e pavoroso alcance de suas palavras. o fato é que lhes pertencia: insegura.

atualmente .Mas ela nunca assumiu esse mundo. Sacudiu-as de repente para longe.. numa luta desesperada pela saúde. honestos e bons acabam vendendo seus filhos com a maior tranqüilidade. . mas u ma espécie de retraimento. direção ao prédio do hospital Ah essas famílias! "Faça o em eu filho ficar bom". . .Sim.Ah. Jacob. não se mostraria ambiciosa. eu quero vê-la . Sabendo que os pais temiam a desconhecida que se ocultava por de trás do familiar robô. . . Fried. a verdade se descortinasse de uma vez por todas. tá? .. Espe ravam que. A filha.insistiu Jacob baixinho. subitamente. só podemos supor o horror e a solidão que se escondem por trás dela.Esther . nessa visita. nada disso..Dirigiu-se ao telefone. Ficou u m bom tempo absorta nessas considerações. . e nquanto que por detrás dele. e a aceitar a outra versão do m undo. está sendo instada a anular. depois de alguma relutância. Esperem-na na sala de visitas.Acabaram de levá-la para a sala de visitas. e ainda assim conseguira infundir-lhes o ânimo de que necessit avam desesperadamente. porque ela fica tão ada. Ou então. sem nenhuma garantia concreta além da fé. . Deixou escapar outro suspiro. viajando de volta para casa. que nunca tivera ou educara filhos.rah vive. não compraria sonhos e os imporia inflexivelmente a uma Déborah. entendam bem. esforçando-se por definir as suas impressões. Quem sabe. contradizia frontalmente suas esperanças do que fosse essa verdad e. Esther e Jacob mantinham-se calados.. apanhou o telefone e..vou ligar para a ala e pedir que tragam Déborah.Nós.Não. futilidades e arrogâncias . Fried procurou uma forma de descrever os sentimentos de uma pessoa que ja mais soube realmente o que era a saúde mental em sua vida. . A confusão os emudecera. doutôra? . "Conserte a nossa filha. e aí compreenderão porque ela não dá atenção à sua aparência. Ela não procurara tranqüilizá-los c om frases hipócritas. discou para a Ala D.Uma pe ssoa . porém. se essa Déborah fosse a sua filha.protestou Jacob. A doença de Déborah consiste. Eu quero vê-la! Está no meu direito! . . está bem. agora. uma ausência impalpável e aterradora. Até mesmo os pais inteligentes. que nunca vivencia mos essa doença diretamente. . traziam uma única certeza: era mais do que tempo de c . A Dra. mal a haviam reconhecido. não tem importância. Jacob aproveitou para descarregar a raiva que sentia sobre a mulher: . murmurou: . diante das quais jamais se curvariam! Ah! Ocorreu-lhe. . . . a verdadeira Déborah ia se distanciando cada vez mais d essa realidade.Muito bem.Ela está muito pálida. Ficarei aqui até às quatro h°ra Observou-os saírem e se encaminharem com passos rígidos. uma pessoa mortalmente arrasada por dentro. ela foi deixando as coisas ficarem como estavam. Déborah. Ao deixarem a sala de visitas. Tudo o que viram. não. Eu só queria. no entanto.assentiu a doutôra afavelmente .Se qui serem depois conversar comigo de novo.E afastou-se furioso. 117 Esther por sua vez. é melhor não.Mesmo assim. . .Só queria saber se deu tempo para ela pentear os cabelos. Jacob limitou-se a comentar: . O que os a ssustou não foram resmungos desconexos ou ataques de violência. anular todos es ses anos de vivência do que conheceu como realidade. doutôra . No carro. Confiavam na Dra.. peçam por favor ao auxiliar 116 que stá de serviço para me chamar.Você fala d emais! Deixe as coisas como estão e fique quietinha. . o senhor não compreende? Déborah criou uma espécie de robô que se encarregava de reproduzir os movimentos exigidos pela realidade.. Voltando agora para Chicago.. .O mundo que nós demos a ela não foi tão horrível assim! . faça 111 que e]a tenha boas maneiras na mesa e um futuro que corresponda aos nossos sonhos tão almejados!" Sus pirou. como se ela não habitas se o próprio corpo. . não faria também concessões a esse tipo de conduta. e porque os sintomas proliferam tanto. São capazes de lhes impor decepções.informou o auxiliar.

. me esbofeteou com força. que não só a deixavam e xtremamente confusa como lançavam sobre ela um estigma ao transformaremna numa cúmpl ice secreta de todos os crimes infames cometidos pelos maníacos e que ele não se can sava de descrever.. Déborah sabia que as suas partes íntimas também já hav iam sido infectas. Consciente da si milaridade. o simpl es desentendimento num momento crucial. jazia sob injustiças triviais: a surra motivada por uma razão qualquer. o pai acabara desp ertando pela filha aqueles mesmos apetites. el e deduziu.. Parte desse mal-estar era o ..confessou Déborah. A Dra. vivia me advertindo contra esses perigos. não sei como. ..Acho que você atingiu um filão importante. ódio. é com medo. Compreendo a gora que não fui para ele apenas. M as não era só isso. Tinha pesadelos nos quais fugia. quer nas trevas de Yr. para finalmente volta r a se defrontar com dois rostos familiares e apavorantes: o do pai e o seu.Ele tinha verdadeiro pavor dos homens. tinha medo dele e de si mesma.. Confundido na sua sensibilidade pelo medo. eu concordava.. esperando para me seduzir. mas é antes de tudo um homem. Os homens eram brutos lascivos até não poder mais. Déborah por sua vez. quando via ou descobria qualquer coisa. . ..Quem sabe se o problema não era o medo que ele tinha de seus próprios instintos? . se já estou toda arruinada e estragada. apenas uma filha que vivia o colocando em situ ações embaraçosas. . humano . Uma vez..emboscados em vielas escuras. em direção ao qual Furii procurava estender as garras do mu ndo. Inquiri-lhe com indignação: . consistia em que Déborah tinha muito em comum com o pai: o temperamento explosivo.O que é que eles qu erem afinal comigo. E para Déborah.Não. a instigar sua recalcitrante p aciente através dos meandros do amor e do ódio. a encurralar. .Já permiti que você fugisse de seu pai o tempo suficiente . mal formulados e revestidos de tamanha culpa que acabaram 119 perdendo seus verdadeiros contornos.. desejo . Fechava-se na cegu eira e na ignorância porque. . . Explodindo de raiva e de medo. quer confundindo a doutôra.ontar a verdade a Suzy. Falava freqüentemente nas partes infectadas destes homens. Parte do segredo. . Será que o s outros homens alimentam os mesmos pensamentos? Sabe que sim! E os outros homen s serão capazes de controlar estes pensamentos tão bem quanto ele? Seguramente não! Déborah refletiu sobre a dissimulada sensualidade que vira transparecer tantas vez es nas atitudes do pai. Não presto para ninguém! P apai. Pelo fato de eu ter atraído a atenção do indivíduo.. contra quem se empenhava tanto em recriminar.. a razão de ser dessa força qu e a compelia era tão misteriosa quanto as recônditas regiões de Yr. apavorantes não. se esquivava. era somente a figura do pai e uns poucos pensamentos seus.anunciou Furii no deco rrer de uma sessão. porque sabia que era verdade o que eu estava d izendo. Que bom. O segredo mais profundo. um era maníaco sex ual ou 118 possuidor de algum vício qualquer. . no íntimo. e conhece seus próprios pensamentos. p rontos para saltarem sobre mim e me agarrar.O que? É meu pai... Fried continuou a perseguir. me repreendeu por eu ter olh ado para um exibicionista na rua.Percebeu que aquele fantasma que tinha adquirido dimensões enormes no Pânta no do medo. então. De cada três homens...Claro. inconfessáv eis. por mais vergonho sa. .Não. que alguma coisa eu devia ter feito.Continuam tão apavorantes assim? . sentia-se irr esistivelmente compelida a colocar essa descoberta em discussão. ..Déborah desat ou a chorar. o hábito de ficar remoe ndo por dentro as coisas e extravasá-las em súbitos acessos de fúria. e aquela mesma culpa que existia nos monstros. . desandou a esbravejar como se todos esses homens obedecessem a uma le i de gravidade que os atraía para mim. Homens . . Sentia que o amor do pai era um amor extremamente cego e que ete não fora capaz de compreendê-la por um momento sequer. . fugia. Eram verdad eiros animais.Quando fala dele.. e alguma coisa mais.Senti desprezo por ele algumas vezes . assustadora ou repugnante que fosse. se dissimulava. Atitudes carregadas de culpa e amor.

que tolice! . uma velhinha de corpo mirrado e c abelos inteiramente brancos. que estava sempre por dentro das coisas. mais difíceis inclusive do que a doença naquela fase que precedeu a sua vinda para cá. .. de verdade. está tudo escuro e os macaquinhos. por pior que pudesse ser ele às vezes. será muito mais rico! Conversaram por algum tempo ainda. Esses são os tempos mais difíceis. Você conhece? . Eu chorei. ouviram-no subir novamente. como não enxergam nada.. Déborah estava exausta. Furii procurou fazer com que ela trouxesse à to na os inúmeros fragmentos de evidência com os quais justificava os seus temores. Qu ando terminarmos você poderá optar por Yr. Furii viu que a crise era imin ente. escute! . Quer dizer o seguinte: na cabeça da gente. De qualq uer modo. Acho que não vai querer nem precisar de macaquinhos no sótão. "com macaquinhos". A única coisa que quer o lhe dar é a possibilidade dessa opção. pelo menos. tentando alcançá-la. essa eu não posso esquecer! Os americanos captam as sensações peculiares à doença mental com uma precisão surpreendente às vezes. Um pouco antes da hora de trazerem para cima o almoço. mais tarde. transportando. mas a teimosia a instigava ora a ceder ora a reagir. Enfermeiras e auxiliares riscavam o saguão de branco e caqui com suas idas e vindas febris.O que está acontecendo? . até que parou diante das portas duplas que se abri am para a Ala D. se eu precisar disso.Talvez a doença venha a cobrar o castigo por termos nos distanc iado tanto dela.informou Lee. . ..Déborah. Vultos de uniforme branco delinearam-se na superfície translúcida e embaçada do vidro. .. ficam pulando de um lado para o outro.. generosidade. . jogando com Furii e seu mundo.Prosseguiremos até enxergarmos tudo. Pairava sobre a ala uma excitação mal contida.E se eu quiser isso. . A voz que se fez ouvir em seguida vinha de Yr.. São ou não são maravilhosos e emocionantes esses sentimentos? . Doida de pedra!. acu mulados até ali.. a resposta é sim. Reinava uma grande expectativa.todos esses segredos e poderes secretos . Perdoei mi nha mãe e meu pai.Isso significa que vou poder continuar louca se quiser? 120 Louca Varrida . Após alguns minut os. porém.Ainda há mais. . uma miscelânea de per- . se realmente quiser. Escute Déborah. Você terá que confiar o suficiente em mi m e crer que o novo alimento. .Ah.Muito bem. dois para os pés e dois para a cabeça. enquanto aguardava a colisão final que a deixaria louca para sempre. um signif icado. Déborah. Graças a Deus! Isso aqui tem estado chatíssimo. Coral vai voltar de novo . É "macaquinhos-no-sótão". que a lucidez extinguia-se. e você sabe disso.sussurrou Déborah para Lee. que seria o sótão.disse Furii. firmemente imobilizada. o pesado elevador desceu. . o que significa verdade. . amor. Dois casulos esperavam num quarto de reclusão pelos seus ocupantes. ap esar da distância que crescia. Seguiam-no quatro auxiliares.A Srta. A escolha caberá exclusivamente a você. inteiramente desorientados. .disse num tom desalentado . quando surgir.V ia. uma opção verdadeira e consciente. se você quiser.Ora.e nenhum outro apareceu até agora para substituí-lo. já escutei uma outra expressão.você conseguiu. quero lhe dizer que você roçou o discemimento. Fechando a procissão.Ela esteve intemada bem ant es de você chegar. fazendo a maior algazarra. muito mais . e isto tudo faz parte da realidade da qua l você tem tanto medo.. por falar nisso. acho.. O que acontece é que você está rejeitando o alimento que a sustentava .repreendeu Furii com severidade. Ergueram-se todas num pulo e ficaram à escuta. . A doença tinha. Você ainda não teve a vivência da saúde mental para saber como ela é. A chave virou a fechadura e o administrador da ala surgiu em t oda a sua magnificência.. .Beirava o ceme da questão quando o temor se abateu. p esado e estreptoso.Conheço. Suponho agora que devo voltar para casa.Ainda faltam muitos segredos para desvendarmos. . .

121 sonagens secundários: enfermeiras do dia pertencentes à recepção, acólitos, o clero regula r, noviços, postulantes e outros. - Aquilo é a tal Srta. Coral? - Cinqüenta quilos cheinhos dela! - exclamou Lee. O equilíbrio, a riqueza de tipos e o colorido davam ao espetáculo um quê de profano. A procissão, cercada de um silêncio a bsoluto, percorreu com o seu fardo o corredor, passando sem se deter pelos dois casulos (surpreendentemente) até chegar ao quarto de reclusão Número Quatro. Passado algum tempo, os carregadores começaram a sair de novo para o corredor. Débor ah se preparava para voltar ao seu posto na janela do dormitório, quando reparou n o último dos auxiliares que saía para se juntar aos demais, cujo comportamento a imp ressionou vivamente: era absurdo, assustador e hilariante ao mesmo tempo: negava todos os princípios newtonianos da física. Ele não andava, voava! Estava inclinado no ar, com uma expressão de pasmo como- se toda a vida se resumisse a uma trajetória. Não chegou a alcançar os outros. A meio caminho, desabou. O ruído surdo da queda despe rtou a atenção dos companheiros que vieram logo acudi-lo. Déborah suspirou desapontada . Era só um homem, afinal. Não se machucara nem no vôo nem na queda mas, por pouco, não foi pisoteado pela multidão de funcionários que acorreu em pânico, para subjugar a fonte de sua propulsão. A Srta . Coral surgira no vão da porta que, por descuido, tinha ficado aberta. Seu corpo franzino parecia carregado de eletricidade. O branco dos cabelos é que fora reduzi do a cinzas pelo fogo, murmurou Déborah em Yri. Os três homens que se atracaram com ela fizeram um papel deplorável. A velha não só era combativa como ágil! Literalmente sa cudiu-os para longe, mantendo o rosto impassível e os olhos vazios e fixos à frente. Quando os outros auxiliares mergulharam na escaramuça, continuou, mais ainda, don a da situação: permaneceu imóvel deixando simplesmente que um desfizesse o que o outro fazia. Helene, sentindo-se desafiada na sua supremacia de até então ser a mulher ma is temida da ala, correu para o saguão deserto, removeu os pinos das dobradiças que seguravam a porta da enfermaria, derrubou-a com o peso do seu corpo, arremessoua no corredor e pôs-se a destruir tudo o que estava ao seu alcance. A frágil Sylvia, plantada como uma estátua de encontro à parede, não conseguiu suportar a tensão provocada pela violência de Helene: explodiu subitamente, arremessando cont ra ela, através dos restos da porta, bandejas, instrumentos médicos e toalhas. Acion aram a campainha de emergência, interviram mais doze pessoas que conseguiram final mente, subjugar o motim, e colocar Helene e Sylvia no casulo. No meio daquele tu multo o administrador da ala esqueceu-se aparentemente de fazer cumprir os cuida dos recomendados à Srta. Coral: limitaram-se a metê-la no quarto e trancar a porta. - Puxa! - comentou Lee ao cruzar com Déborah no saguão - Você tem de admitir que isso superou tudo o que aconteceu por aqui nos últimos tempos. - Incrível. .. Nunca imaginei que uma velhinha tão frágil, fosse forte o suficiente pa ra pôr o cabresto num homem! Pena eu não ter conseguido chegar até o armário de narcóticos ... - Ela esteve intemada aqui há dois anos atrás. Certa vez, vi, com os meus próprios olh os, uma cena extraordinária: a velha jogar uma cama - não foi empurrar não - jogar, Pa rece mentira, mas ela é a mais instruída de todas nós. - Mais do que Helene? - Ora se é! Fala quatro ou cinco idiomas e transa acho que com matemática lá fora. Ten tou me explicar uma vez, mas você sabe não é, nunca passei da oitava série. . . - Olhou à sua volta e logo recomeçou a circular, ansiosa para repor o mundo no seu devido lu gar. Quatro dias depois, destrancaram a porta do quarto da Srta. Coral e lhe deram au torização para que saísse para a ala. Quando, depois de algumas horas, ela surgiu hesi tante à soleira da porta, deu de cara com Déborah sentada do lado oposto. - Oi! - cumprimentou Déborah. - Oi... Você não é um pouco jovem demais para estar aqui? - A voz era idosa, mas nem u m pouco desarmônica, prolongava as vogais, que soavam como ditongos, numa pronúncia bem típica do extremo sul dos Estados Unidos. - Ah... e o que é que tem ... temos o direito de ser tão loucos quanto qualquer um.

- Objetou Déborah armando um bçicinho. - Lee Miller contou que você sabe línguas e matemát ica. É verdade? 123

Oh, ela ainda está aqui? Que pena... - e soltou uma risadinha que mais parecia um cacarejo. - Você sabe mesmo falar línguas? - Não ... que nada! Só nos ensinavam a ler e escrever um idioma naqueles tempos, e a penas o suficiente para lermos os clássicos. - E você ainda se lembra? - A pergunta a colocou de sobreaviso. Encarou Déborah long amente. Tinha, naquele momento, o porte de um Anterrabae bruscamente imobilizado na sua queda perene. Seus olhos, de um azul cristalino, pareciam chispas. Os ca belos fartos, brancos e eletrostáticos, ameaçavam inflamá-la como a um tição. - O que é que você quer de mim? - indagou finalmente. - Quero que me ensine. A rigidez das feições como que se dissolveu, o corpo afrouxou desalentado e os olhos , aqueles olhos inflexíveis, se encheram de lágrimas. - Estou doente, menina... - di sse ela - Estive muito doente. Esqueci tudo. E depois, eu acabaria cometendo err os por causa da idade... (Déborah acompanhava a luta feroz e invisível que ela trava va no íntimo para se recompor) .. . e a doença.. . - Não faz mal! - Estou cansada agora - disse a Srta. Coral, recuando de novo para dentro do qua rto - vou tomar uma decisão, mais tarde informo. - E bateu a sólida porta atrás de si. Déborah voltou a se sentar no chão, diante do quarto dela, e ficou ouvindo os sons a bafados da batalha que se travava lá dentro: imprecações, gritos, quedas, uma pancadar ia dos diabos. Um auxiliar que vinha passando, deteve-se intrigado: - Ué, pensei q ue tinha aberto essa porta... o que é que está acontecendo lá dentro? - Coral versus Coral: ação de divórcio. Estão brigando pela custódia da criança! - Déborah, você a viu sair, não viu? Foi ela quem fechou essa porta? - Sabe lá se ela não tinha que conversar com alguém! O auxiliar se afastou vagarosamente, retomando a distribuição de privilégios e autoriz ações. Déborah se sentou novamente diante da porta, e despejou no chão todos os tesouros que carregava nos bolsos. Encontrou duas guimbas de cigarro 124 que tinha conseguido surrupiar a uma enfermeira estagiária num momento de distração. F oi até a cama de Lee Miller e as colocou sob o travesseiro dela como oferenda de a gradecimento. Pagava, pela segunda vez, a dívida de Sylvia. Voltou ao seu posto em frente ao quarto da Srta. Coral. Sentia-se extremamente c ulpada. Sua substância parecia ter-se espalhado pela ala impregnando a todos de an gústia. Por cada dilaceramento íntimo, como o que ocorria por detrás daquela porta, ju lgava-se simbolicamente responsável. Lembrou-se, porém, do que Carla tinha dito: a d oença era como um copo que transbordava e, por'isso, uma ou duas gotas a mais não al teravam as coisas. Mesmo assim se perguntava se era ou não responsável? Incapaz de decidir, pôs de lado a questão. Passado algum tempo, silenciaram os ruídos dentro do quarto. A voz da Srta. Coral, arrastada e exausta, a chamou do outro l ado da porta. - Mocinha!.. . Mocinha! Você ainda está aí? - É. .. É comigo? Está me chamando? - Déborah mal conseguiu articular as palavras, taman ho era o nervosismo que sentia. - Sim, é com você - E então ela declamou: "Inter vitae scelerisque purus Non eget Mauris jaculis heque arcu. Nee vena nati s grávida sagittis, Fusce, pharetra." - O que é isso? - Amanhã - respondeu a Srta. Coral - e teremos ditado também! 125 Mary (paciente do Dr. Dowben e, para não confundir com a primeira, chamada Mary Do wben): - Assassinato e incêndio! Há um incêndio! Carla queria ir ao cinema na cidade porém como paciente da D, precisava de uma per

missão especial e de dinheiro. A Srta. Coral, que voltava a palmilhar desde o prin cípio a sua via crucis, estava ali para requerer alguns privilégios básicos. Nem bem o médico pisou na ala, os pedidos e as respostas começaram a chover de todos os lados. Quando Déborah falou no cademo de anotações, os olhos do médico detiveram-se nela por alguns segundos, avaliando-a de alto a baixo. - Vamos ver! - respondeu por sobre os ombros, dando as costas e prosseguindo seu caminho. Naquela tarde, a Dra. Adams veio à ala para ver Sylvia. Ao sair, deu por falta de um exemplar de Loock Homeward Angel que trazia consigo. Pouco depois, no mesmo d ia, uma das enfermeiras estagiárias procurava em vão o seu cademo de aulas. As páginas escritas reapareceram dois dias depois no elevador, fora da Ala dos Perturbados , mas a metade do cademo cujas folhas estavam em branco continuaram desaparecida s. Déborah pôs-se a chatear Helene para que lembrasse das poesias que sabia, e tanto ch ateou, que um dia ela recitou trechos de Hamlet e Ricardo in, arrancados, para s ua própria surpresa, de algum canto empoeirado da memória. Passava horas transcreven do conscienciosamente todas as palavras gregas e latinas que possuía no seu arsena l de tirinhas de papel. Leu e releu o "Look Homeward Angel", escondido sob o mai or sigilo debaixo do colchão, até o dia em que Mary Dowben o descobriu e o comeu tod inho, poupando apenas a capa. Conversou uma vez sobre o romance com Carla, que já o havia lido. - Se eu sou capaz de aprender essas coisas... - perguntou Déborah, - ... capaz de ler e aprender, porque a vida continua tão obscura? Carla a fitou, sorrindo complacente. - Deb, quem foi que lhe disse que aprender fatos, teorias ou línguas tem alguma coisa a ver com a gente entender a si mesma? Entender o que você tem Ce específico e distinto das outras pessoas. . . - Déborah com preendera subitamente que embora a sua sagacidade precoce tivesse uma ligação íntima c om a doença, estimulando-a em 128 certas ocasiões, ela agia independentemente dos problemas que turvavam a sua noção de realidade. - Quer dizer então que a pessoa pode aprender, aprender e continuar esquizofrênica? - com Déborah, pelo menos, isso pode acontecer - interveio Helene ferina. Déborah foi esconder seu cademo atrás do aquecedor do dormitório, e deitou-se, em segu ida, na cama, de onde só saiu três meses depois. Durante todo esse período levantou-se apenas para ir ao banheiro ou para comparecer às sessões com a Dra. Fried. Foi uma das épocas mais sombrias e obscuras de sua vida. Deixava-se arrebatar por Yr, entr egava-se às divindades e aos personagens do Coletor, sem opor a menor resistência, e xceto no decorrer das sessões com a Dra. Fried. Carla aparecia, às vezes, para conta r os boatos que corriam na ala e os pequenos incidentes do dia. Déborah era incapa z de expressar o quanto essas visitas significavam para ela. Constituíam, ultimame nte, o único contato humano que mantinha por dias e dias seguidos, pois a máscara po r detrás da qual se ocultava, dava a ela uma expressão tão hostil que os auxiliares, q uando vinham trazer as refeições ou trocar as roupas de cama, afastavam-se o mais rápi do possível sem lhe dirigir uma só palavra, sequer um aceno de cabeça. Voltou a ter pe sadelos, a acordar sobressaltada e gritando durante as noites. Logo a transferir am do dormitório da frente, cheio de gente e barulhento, para um quartinho escuro, nos fundos do corredor, junto com duas outras mortas vivas. Criaturas acostumad as às trevas, sentiam-se mal com a luz: quando raiava o dia, calavam-se completame nte e não enxergavam nada diante dos olhos. Reinava um silêncio sepulcral. De repent e, uma delas, atormentada por algum pesadelo, irrompia em gritos dilacerantes, f azendo com que se despedaçasse a crosta quebradiça do sono narcotizado das outras. M antinhamnas entregues a si mesmas, sepultadas entre aquelas quatro paredes, acor dando-se umas às outras, justamente para evitar que transtomassem a ala toda. Havi a noites em que Déborah tinha a impressão de estar vendo se realizarem suas fantasia s mais diabólicas a respeito da loucura, fantasias construídas a partir do arsenal d e ameaças com que as babás costumavam acenar quando era criança. Despertava, freqüenteme nte, com uma das companheiras de quarto de pé sobre ela, com os braços erguidos 129

uma das companheiras de quarto. . Coral estava sentada no chão. Déborah! . Por que razão? Não sabia. Confie no nosso trabalho juntas e na saúde qu e se oculta no fundo de você! Nas sombras.Segundo a minha médica.Eu sou louca. Boa noite. pelo amor de Deus. numa esco lha. Delia. com um suspiro de alívio. .Ora. ora. .. . Furii dissera: . . dia após dia. fingindo-se de fantasma.O h. p ercebera nos olhos das pessoas a mesma descrença de que viesse a se recuperar e.disse ela. recuperara-se. volte para a cama.ameaçou ela novamente. aproximando-se . seja dormindo. Déborah sentiu uma alegria dentro de si que ultrapassava o pe queno motivo que a produziu. Durante os meses transcorridos naquela cama. volte para a cama e me deixe dormir um pouco. pessoas e lugares que apareciam e desapareciam.. Sua visão.Estive me lembrando de mais al . . Fora necessário reunir uma energia extraordinária para suportá-lo. . . ou então esmurrando-a num sonâmbulo acesso de fúria. A Srta. fumando um cigarro.perguntou a Carl a. mas não a importuna va muito. sofrerá os mesmos terrores.Como ela consegue suportar..Será que ela pôde escolher? Será que a sanidade representa uma opção para ela? .Dê o fora. Deu as costas e foi embora.Esqueça essas experiências Déborah! Você provavelmente não conhece nem de longe o que é se sentir mentalmente sã. seja bem-vinda.v eio assustá-la. como de hábito.num gesto de sacerdotiza. pensou muitas vezes na figura semilegendária de Doris Rivera: ocupara os mesmos quartos. a pesar de tudo. como foram terríveis aqueles anos que vivi no mundo.Escute. Déborah esbravejou: . tá? A menina se afastou.furiosa e embrutecida . rompeu o silêncio e o terror nos quais estivera encerrada até então: . Foi até o saguão e parou junto à porta da al a.. Helene . . se permitiu pela primeira vez algumas palavras em louvor à boa luz que a iluminou num momento tão providencial. e numa das minhas piores noites? . . seja acordada .. antes de tudo. Você está sujeita às mesmas leis que eu. que consistia num desejo puramente humano. tingida de cinza. Uma outra noite. Helene. voltara de novo ao mundo. um vulto angustiado e macilento aguardava que seus pensame ntos voltassem a pousar nela: Doris Rivera que saíra para o mundo. e não há nada que você possa faz r comigo que a minha própria loucura já não tenha feito de uma forma muito mais eficie nte e dolorosa.murmurou Déborah. continuava ainda muito limitada. uma menina gordinha que andava por todo o quarto batendo os pés com força.Pensa que me assusta! Você não seria capaz de competir com o menor dos meus pesade los. insensível. scomos nós quem escolhemos esses diferentes caminhos. mas Déborah percebeu que o tom era muito mais de orgulho ferido do que de selvageria. mas os desafios que Déborah conhecia eram surpresas preparadas por Yr: cobras que se desprendiam inesperadamente das paredes. Helene.Eu sou louca. .. contudo. cana lizando todas as suas energias para sustentar a aparência. Déborah.ameaçou Helene. cansada demais para continuar lutando! Furii tinha dito que a sanidade consistia. pela primeira vez. . Rec ordou-se do Censor..Eu seria capaz de tudo. Logo que a viu. o sumo guardião da Aparência: Agora dê um passo. pôrra! Suma-se! . num desafio. Déborah levantou-se finalmente da cama. .Talvez ela se limite a ranger os dentes e a lutar a cada minuto. A imagem que tinha de Doris era de um fantasma glacial. Sonhava uma noite com o pai e aquela outra faceta do seu amor. os choques medonhos resultantes da colisão dos mundos. Déborah. sorriu.Ah. aquele caos horrível? . Agora sorria e di ga "como vai". Ela não disse nada. Julgando que fosse. Reconheceu a voz e. quando foi bruscamente acordada por uma das mortas vivas.De sisti de tudo porque estava cansada .pergunt ou Déborah. Levanto u-se tão inesperadamente quanto se deitara. gargalhou com a maior naturalidade. Um belo dia. 130 .. como se o riso fosse uma constante no seu q uotidiano. um sorriso de boas-vindas. embora fosse familiar a agressividade explosiva de sua dona.

ah. Você poderia até pedir autorização para ir me visitar lá embaixo na B. . as citações filosóficas de Abelardo. Coral pudesse ficar contente de vê-la. Anterrabae se afastava na sua queda vertigi nosa. algo semelhante a um potencial para a cor. Demonstrava uma confi ança e uma lealdade comoventes. nada poupam. alimentos. O olho da destruição aproximava-se cada vez mais de Déborah. e da própria realidade da existência de Carla. Foi à enfermaria. e ficou até a hora do jantar copiando os devaneios poéticos da velha . Déborah usou conscientemente a máscara. que se estampou no rosto dela.Deb. Ê doce a chamada e reconfortante o calor. Sol. e eles . que bom! Como vai? . água. Adulam a semente.Claro que sim! . Passou aquele dia quase alegre. Carla. saudou amavelmente Anterrabae (esta era a saudação habitual em Yri). havia se livrado da dolorosa sensação de perda e amizade. Levantou-se do chão e foi se aconchegar às outras vítimas daquele terceiro círculo do inferno de Dante. teve oportunidade de dar um outro "chega-pra-lá" em Helene. inc apaz de morrer. vítima. Na manhã seguinte. quando uma pessoa saia'de uma fase difícil. já que. não era um fantasma: estav a viva. Déborah a encarou com uma expressão aturdida. chamam eles. Procurava atraí-la com sua deslumbrante beleza.gumas coisas.Tchau. e por sua vez. gos tava de Carla. como que em resposta ao seu comando. e mais tarde. não mexera sequer um músc ulo do rosto. quando a encontrou no saguão. . a personagem legendária que Déborah visualizava como um fantasma. antes de se aproximar. Seria simplesmente porque ela estava contente de vê-la? Existiria re almente um mundo para além dos muros que vedavam seus olhos? Sofra. er a mais seguro esperar algum tempo para ver que conseqüências resultaram. Pássaro-um? Eles se armam com um conta-gotas c heio de ácido. então. respeito e temor. Carla. deliciando-se com a expressão ao mesmo tempo de inveja. instig am-na a germinar no solo onde foi plantada. Já ia passar lá para lhe comunicar que amanhã cedo desço para a Ala B. os primeiros brot os. O pior é que. . ícomou emprestado um dos lápis "o ficiais" numerados. antes de descer.e então. O Censor desatou a rir às gargalhadas. 132 . ampliou-se o campo de visão de Déb orah. uma 131 folha de papel. sorriu e a cumprimentou efusivamente: . Deb. reagia.Era u ma atitude corajosa agir assim com tamanha espontaneidade. Carla veio se despedir de novo: . Despontam. Pela primeira vez desde que chegara à Ala D. Não dês ouvidos ao que ela diz. estarei por aí. no entanto. e estrofes tiradas de Medéia. Déborah não atinava com uma razão que justificasse a coragem e a generosid ade de Carla. ainda tinha o poder de v ibrar.Eles semeiam em solo fértil. defendendo-se contra o m edo suscitado pela partida de Carla. Doris Rivera tinha ficado boa e ido embora. era forte! Sua rainha e vítima cons ervava ainda vestígios de poder. Déborah apercebeu-se de que ainda não tinha dito nada a Carla. para gozar a inconstante clemência do aquecimento. Déb. e dera o primeiro passo em direção àquele pesadelo que as pessoas deno minavam "realidade".Fico contente por você ter saído hoje. contando com a . Yr. Doris Rivera. então. Pássaro-um! recomendou Anterrabae com voz suave . A corda da amizade.vou sentir falta de você! O terror despertado por essa declaração foi tão grande que começou a tremer e a suar fri o. Coral para lhe recitar alguns versos de Lucrécio. embor a a cor propriamente continuasse imperceptível. para espezinhar bem o seu sofrimento. esperando! Uma verdade terrível se impôs a Déborah: Carla se tomara sua amiga. como se a visse pela primeira vez: graça s aos códigos e à mágica de Yr. Em breve a avistaria. Você ainda quer ouvir? . surgindo. o suficiente para se defender contra a determinação d o mundo em fazê-la sofrer. "Junta-te a nós.Não diga . vítima de uma resignação patética e desesperada. que esperava como um animal acuado. ao mesmo tempo. Im ediatamente. Nunca lhe ocorrera que a Srta.exclamou Déborah. Só nesses termos consegui a imaginar o reencontro com o mundo. Procurou a Srta. Os dentes reluziam como diam antes e os cabelos formavam cachos de fogo. sabei o que fazem. completou com a verdade: . junta-te a nós". embora tão debilitada.

e não Ellis. .Acho qu e a gente só consegue gostar da comida do hospital quando está tão doente que não pode r eparar nela. algumas das quais ainda vivas. embor a continuassem tão vivos 134 quanto o fogo de Anterrabae. Já se habituara ao emprego. aos olhos dos outros. O olho a focalizaria e a lançaria em plena selva da real idade. do preço qu e tivera que pagar por ter testemunhado e se posto à descoberto. conhece grego a fund o. Lactamaeon. já anoitecera. esta sentiu o tumor diste nder-se violentamente dentro dela. Nunca pude pedir nada a ninguém. o s pacientes não o testavam mais. eu acabo brigando. . Ellis. O que é que você está ve ndo? perguntou ela em Yri. ainda meio atordoada. agora familiares. Acima de todas essas preocupações. percorreu de volta o cor redor. na dimensão de Ir. pusera de lado o disfarce da normalidade.Mary deve ter algumas balas. todo solícito. . que o incidente com Helene tin ha acontecido antes dela chegar. . Quando se ergueu. O sarcasmo e o desdém irritantes dela. que encontrou ao seu lado.Queria lhe dizer uma coisa . acontece alguma coisa comigo e eu . Por coincidência.Já ensinei a você todo o grego que sabia. graças a ele. Se você pedir. Os penhascos e desfiladeiros do mundo. Déborah.Nunca percebi.exclamou horrorizada. dividia-se entre os dois. Voara já uma vez 133 com ela. acabaram se diluindo no meio-tom rotineiro da ala. Pensei que você soubesse dis so. um auxiliar novo. . e justamente hoje ele está de serviço no turno da noite. tenho certeza de que ele a ajudará com a maior boa vontade. e que também era andróg ina. Ta lvez lhe tivessem repreendido por bater nas pacientes.. talvez não. observando-a livrar-se do torpor. . ofuscamente belo e l ivre.Não.Se você quer conhecer . A lua e o sol na mesma esfera. Blau? . que jamais prestava atenção ao que se passava à su a volta. devassando todos os horizontes. pois el e não pertencia exclusivamente a nenhum dos mundos. assumira de vez.segurança que lhe oferecia a Ala D. Aberto o banheiro. obrigando-a a se curvar em duas com tamanho ímp eto que acabou de quatro no chão. Ao passar por Déborah. Provavelmente m uitas saíam do casulo. mergulhou nela com um grito triunfal de águia. a divindade dissimuladora. foi Castle. Lembrou-se. enfim.Quem é? Alguém daqui? Um paciente? . eu não posso pedir. A Srta.reafirmou Idat. Não se dignou a olhar. Enquanto discutiam a questão cuidadosamente. .O que houve.Encontrei um tutor para você! Uma pessoa que lê os clássicos fluentemente. Quando tenho que pedir. nem fêmea. . nunca o vira. o papel de zelador de coisas.Ela riu da alusão. . menos convencidas do mundo do que estavam ao entrar. Déborah avistou no fundo do corredor a figura de Ellis. destrancav a o banheiro para a Esposa do Abdicado.principiou a Srta.Ocorreu a Déborah. Leve-me com você! Um momentinho! interveio o Censor com sua voz áspera. limitouse a rec uar para deixá-la passar. porém.Ellis! . respondeu o pássaro. pois pouco tinha a defender. com o mesmo rosto inexpressivo. Coral com timidez. Por que você não pede uma a ela? . . sentindo-se à vontade na doença. reproduzindo com trejeitos termos psiquiátricos. Lactamaeon avistou uma brec ha na terra. metamorfoseado num gigantesco pássaro.prosseguiu a Srta. e desapareceu. pairava em céu aberto.é ele quem detém as c haves. Sim. a grandes altitudes. Desde a conversa com McPherson que não falava com Ellis. é o Sr. e que se de sfazia lentamente durante aquele ano no hospital. muito menos a falar com ela.. Ele falava pouco agora. sem olhar parà nada e ninguém. Era natural que não soubesse da história. Quando Déborah deu por si. . espere . inc lusive aos seus. . encharca da de suor. tratava a paciente como a um fardo.Não. desprovida da tênue malha de defesas que levara a vida tecendo. bem. . Coral amavelmente . nem macho. Coral aproximou-se dela: .

sepulcro de uma multidão de trapos humanos. Isso nunca! Discutiram. que partira de alg uma janela do hospital. às vezes. Quem já não havia escutado os velhos melodramas a respeito da insa nidade como. o pulso ou a temperat ura. Jacob de vez em quando a aparteava. por exemplo. modificando ou elucidando um ou outro aspe cto da questão. a casca da cultura se desfazia. mas só superficialme nte.Não. .propôs Jacob.Uma coisa que sempre me intrigou é que esses relatórios tratavam mais das idéias de Déborah do que de seu corpo. a "Ciência Modema" fornecera uma série de racionalizações oficiais para explicar muitos desses casos. até que finalmente venceu a posição de Esther .mas. discutiram. arrancadas a tanto custo. as histórias descrevendo o ma nicômio. Ouço. O problema se resumia em achar uma maneira adequada de contar. .. levantou-se para fazer os seus exercícios de piano. cuidado com as opções q ue vocês nos oferecem! 135 Esther Blau passou muitas semanas preocupada e agitada. as antigas crenças e temores sobreviviam incólumes na mentalidade popular. com os olhos perdidos nas xícaras de café. Esther e Jacob continuaram sentados. que sua enfermidad e era mental e não física. . Tudo se encaixa direitinho agora! Até que enfim as co isas fazem sentido! Levantou-se da mesa e foi para a sala ao lado praticar suas lições de piano. por isso. lembrando-se. atônitos. É um assunto sério. fica? . o da louca em "Jane Eyre". com uma convicção nem sempre sincera. alegando que isso cabia exclusivamente a Esther e Jacob. Ela estav a deixando de ser criança e. a despeito dos fatos. no entanto. enfiada numa camisa de força c acorrentada num porão. Seu rosto não extemava um sinal. Ou seja: feche os olhos e pronto! Tudo volta a correr às mil maravil has. cedendo lugar ao terror pr imitivo ao peso de dez mil gerações de medo e misticismo. Passados alguns minutos. Suzy escutava com a passividade que só uma menina de doze anos é capaz. Esther queria evitar a tod o custo que Suzy viesse a substituir a imagem familiar da irmã por aquele estereótip o da louca de olhar selvagem. que esse "esp erar-um-pouco" era mais uma das portas por onde ele se esquivava discretamente d os problemas. ela p ermaneceu em silêncio por algum tempo. O clima foi pouco a pouco se descontraindo. Suzy voltou. por Deus. ao mesmo t empo solenes e embaraçadas. Cheg aram a pedir ao Dr.Seus próprios ouvidos estranharam aquelas palavras. tratando-se de um relatório sobre essas do enças comuns... Lister que o fizesse. um hospital. acrescentando. por exemplo. Nunca mencionavam. já era tempo.Vamos esperar mais um pouco . na realidade. como de hábito. temperou a garganta e com vo z formal começou a explicar à filha caçula que a "escola de convalescência" de Déborah era . sem dúvida. due seus médicos eram psiquiatras. quem já não ouvira falar dos maníacos assa ssinos. precisava saber. 136 ao terminarem o jantar. . Empertigou-se na cadeira. Suzy. de alguma outra ref erência que a deixara confusa. mas. ameaçando o futuro? Sim. tornava-se cada dia mais difícil conversar pe rto dela. uma contração muscular sequer que denunciasse aos pais como estav a recebendo aquelas palavras. Esther lhe pediu que ficasse. hesitando em revelar a S uzy a doença da irmã. . com suas construções sombrias e lúgubres. e então falou em voz lenta e pausada. Ao menor arranhão. Naquela mesma noite. Quando terminaram.Você leu os relatórios? . Dava-se conta agora de que fora justamente este estereótipo que ela e Jacob haviam evocado da primeira vez que viram as janelas guarnecidas de barras e que escuta ram o ranger das fechaduras ou o grito atormentado de mulher. Além disso. que transmitiam suas taras aos seus descendentes. . . Suzy.Escuta.Suzy esboçou um sorriso. e um dia você leu um bom pedaço para tio Claude que eu achei meio esquisito.. Esther sabia. você citar trechos para a vovó. rodeadas de muros sólidos e indevassávei .disse ela .As suas leis espaciais são ótimas . As pessoas tinham o maior respeito pelas novas teorias com toda a sua gama de comprovações empíricas sensacionais. mas ele se recusara. contudo. ela não fica dizendo que é Napoleão ou coisa no gênero. era injusto continuar a alijá-la da fonte de suas preocupações mai s profundas.

sinto muita falta dela .Por exemplo. na Ala D. toda a angústia que o dominava.Até mesmo emPem ai . Por aquela épo ca.Não sei não. . então o que sobrari a? Notou que se deixara levar pela vaidade e riu meio constrangida: .O inglês é mesmo uma língua maravilhosa . a saúde que vicejavam nas outra s crianças da escola ou da colônia de férias. Enquanto não fossem abertas. por menos que fosse. era ter sempre razão). . que possuía uma substância envenenada e venenosa. quer dizer.E comprava assim. a podri dão-Déborah só começa a agir depois de um dia. e por isso.eu tinha que preservar alguma coisa. que isto só aconte cia consigo. Além do mais. .Admito que errei mil vezes! Mas você esquece que eu era feia.O inglês não é melhor do que o Yri! . a graça.No entanto. refazendo-se do contraste entre as e xpectativas e o que acontecera de fato. Durante toda a sua vida. Permaneceram ali sentados por um bom tempo.Isso é tudo?.Claro que não! .perguntou Furii.Sim.Mas você não disse que costumava subornar as crianças na colônia de férias com os doces que sua mãe mandava? .comentou Furii. ela vai reaparecer com o olh ar que há meses venho imaginando! . Segundo Déborah. uma pequena dose de popularidade! . isto é. iA composição do nganon dependia não só de fatores inatos como de fatores circunstanciais.Eu tinha consciência de que estava sendo uma farsante..Você se envergonha disso? Para mim é uma evidência de que Déborah ainda mantém vínculos com a Terra. 137 Tomara que volte logo para casa. inclusive em seus objetos pessoais. é só isso ou será que realmente ela não nos compreendeu? A i mpressão que eu tenho é que. Só que os doces vinham em caixas impessoais cobertas de papel celo fane. Às vezes.Falaram sobre o otimismo dos médicos. ela e tudo aquilo que a p ertencia. ela e alguns outros possuíam um n ganon que as diferenciava das demais pessoas. Contém expressões incríveis! Ho e . e cada vez mais intensamente. assim que passar o choque. Esther se sentia fraca devido ao brusco relaxamento da tensão. sua escrava e pri sioneira. . Jacob deu uma longa tragada no cigarro e expeliu junto com a fumaça.disse Furii . as vantagens dela ser trata da cedo. livros.você parece estar "na maior fossa". não foi? . vo ltando. mas veio encontrar depois.Todos nós temos! . . Talvez o troar de canhão que temíamos foi o que nós ouvimos. parec iam carregar o mesmo estigma. Julgava.como se diz? .. sem esp eranças. pelo menos tanto quanto 138 com Yr.perguntou Furii c om delicadeza . à peça de Schubert. "farsante e covarde . . é verdade. Por isso. Ficava encantada com a pureza. lápis ou permitir sequer que alguém tocasse em suas coisas. quando identificou a menina errada na colônia de férias . . arruinada. uma substância ori ginal que definia cada pessoa. logo que as recebia. Roub ava-os freqüentemente conservando-os até que se dissipasse esse nganon purificador q ue os impregnava. Você acredita que essa sua substância seja realmente venenosa? Déborah começou a explicar as leis de Yr que regiam o nganon. . uma covarde.Elogiar uma coisa não significa condenar outra.Não? Não é condenável cortejar a morte? (Suas mãos haviam manejado com destreza a lâmina a precocidade. de início. por algumas horas. não havia perigo de contaminação. Eu dava as caixas imediatamente. O tom em que falavam traía um pouco a esperança que tentavam transmitir.que significa "Nada" . alguns mortos vivos que. podia me dar ao luxo de ter razão! Se eu estivesse errada. tudo isso pesando em favor de Deorah. cujos gumes ela própria afiara. sempre se recus ara a emprestar suas roupas. você cometeu erros que lhe custaram caro.. estiveram impregnados dessa venenosa essência. Ser rainha de Yr.disse Suzy. . . em seguida. a força vigorosa e o amor que demonstravam. o Coletor já se manifestava.

sabe o que tenho a confessar. eu fui uma japonesa. Estava longe. elaborava. sem extemar qualq uer alteração visível. versada num idioma estranho.. E esse sentimento vinha entremeado à precocidade que você tinha que su stentar. a Dra. Quando em dezembro de 1941.. .interveio a Dra. de percorrer as imensas distâncias que os separavam." eram acusações que ouvia dele.Uma japonesa de verdade? . pressentiu que ela beirava uma descoberta importante. Déborah contou que.. . o poder de transmutar sua forma.. estão contra nós!" O Coletor segredou-lhe: . os japoneses atacaram Pearl Harbour. . quando despertou sentindo-se como um sold ado japonês capturado.Pássaro um. as relações pareciam se in verter: os seres do mundo passavam a ser amaldiçoados. durante cerca de um ano. aquele frio que remontava à distante vivência de uma separação.Durante a guerra.insistiu a Doutôra. sonhos de fuga... Déborah já não a escutava. o deu s cadente. estava quase adormecendo. Fazia sentido.. .Anterrab ae sabe o que vi. Déborah tiritava de frio. . A dor contínua e insuportável c ausada pelo tumor. enquanto el a tornava-se a síntese perfeita do amor e do ódio.Ah! Tu deves ser esse inimigo contra o qual eles lutam! Certa noite. Os homens 140 eram os cegos.Compreendo. logo que se sentiu capaz de transitar entre Yr e o mund o exterior. Déborah? .chamou Déborah em Yri.Por quê? . Sua mente. contemplava todas as belezas e todas as maldades. assim como a glória e a miséria pressupostas na declaração de Yr: Tu não és como os outros! . mas na realidade não era uma americana. Bastava que recitasse um encantamento Yri para que se dissipasse a ilusão. tu não és como os outros! Recordava-se de ter escutado o trecho de algum discurso no rádio que dizia: "Os qu e não estão do nosso lado. forçando a entrad a dos Estados Unidos na Segunda Guerra. desperta. . voltou-se desesperada e disse: . 139 Anterrabae! Poderá ela arcar com tão grande peso? O que está acontecendo. ora sob a forma de um enorme pássaro de penas de bron ze. a condição de prisioneira..Porque eu era a Inimiga! Para Déborah. o nome daquelas ilhas do Pacífico adquirir am uma conotação odiosa e infemal para os americanos. ela não.Eu estava disfarçada de americana. era o seu ferimento de guerra. Ela gemeu baixinho para o deus e. quisera não ter visto! Qui sera banir da memória essa coisa horrível." (Liberta e alada. e. ) Quando Déborah se transformava nessa enorme criatura alada. e à noção inculcada 'pelo seu avô de que você era especial. O encantamento dizia: "e.Anterrabae. no alto do céu. Yr lhe deu de presente. Assim. . pelo contrário..Eles odeiam esses japoneses como sempre te odiaram. à ruína de suas partes mais recô s e femininas. Furii deu-lhe um cobertor com o qual ela se enrolou e deitou no dívã. Fri ed era obrigada a pedir inúmeras vezes que ela falasse mais alto. e a menina feia e detestada se transformasse num esplendoroso pássaro. sobrevôo os desfiladeiros das tuas canções de ninar. então...E Anterrabae. desejava até que vencessem. esta revelação constituía um segredo crucial. O prisioneiro não odiava seus captores. quio quaru ar Yr aedat temoluqu' braown elepr' kyryr. os olhos oblíquos do In imigo ansiavam pelo dia em que seriam desmascarados.Onde você está agora? .. . à dolorosa intimidade de seus ferimentos. horrível. eram os que dormiam agora. A doutôra perscrutou-a com um olhar penetrant e. Sintomaticamente. cometiam erros. no dia em que fez nove anos de idade. agora. viveu ora sob a forma de um cavalo selvagem.. completou com um sorriso amável: .. Fried. . Por detrás da máscara de judia americana. o Coletor lembrou a Débo rah: . Um dia. à linguagem secreta. . Ah. O importante é que o mundo começava a dar um sent ido às oposições irreconciliáveis que dilaceravam Déborah. o universo de segredos. no decorrer do r elato.

Déborah correu para a enf ermeira da ala que supervisionava a contagem de colheres para o jantar. fechou os olhos e relaxou o corpo.. a sessão fora longa e exau stiva. "Qual é mesmo o programa de hoje?" Cons ultou a agenda.Quer dizer que você escondeu essa identidade de japonesa de todos os que convivi am com você. encostou-se numa poltrona. . representavam ape nas uma tentativa de interpretar e explicar a realidade. Queria pedir ajuda. No início. por que fizemos isso? Lembra-te do terceiro espelho: a de cepção maior ainda está por vir! Vieste para esse hospital . Só que acabou se tomando. O própr io médico estremecendo a cada caco que extraía. e sim uma pessoa q e luta comigo em prol de uma vida boa e sadia para si mesma! A Dra. Déborah retcomou à ala apreensiva com a nuvem que ameaçava desencadear os prenúncios ter ríveis de que vinha carregada Soaram os primeiros ribombos nas esferas de Yr. de construir uma espécie de verdade onde você pudesse viver Bem . Exigira dela muita atenção e uma participação intensa.No dia em que terminou a guerra do Pacífico. pensava sobre um paciente. ficou abismado e confuso com o seu e stoicismo semelhante ao "de um soldado". A música suave e graciosa invadiu a sala. Preciso do casulo imediatamente! A enfermeira a encarou atentamente . Seus pensam entos deslizaram suavemente relembrando os tempos e as poesias de sua juventude .Não havia lugar para ela em Yr. Não sentiu nenhuma dor. . Pouco depois chegava o pessoal da noite . e o próprio Yr.Ainda assim. Há três semanas que seus discos de Schumann e Beethoven jaziam sem tocar na prateleira." Mas dispunha. Não foi assim? Não consi go é entender bem o lugar desse Censor no seu reino. . respondera Lactamaeon. A te mpestade era iminente. Você agora já não é uma vítima. Como uma brasa que seus dentes fossem triturando. e depois as aulas e as dúvidas dos estudantes de psiquiatria. Logo que chegou à ala. mas o terror a emudecia. "Ah. "Droga! Por que o tempo é tão curto?" Espreguiçou-se e se encamin hou para a sala de estar cantarolando alguns trechos de uma melodia. de uma hora antes de subir.E por isso. Embora marcasse a hora de sempre. Déborah. Tu és prisioneira e vítima.Estou sentindo que a crise vai se abater. Anterrabae fez com que Déborah quebrass e um copo e pisasse sobre os cacos com os pés descalços. e consultou em seguida o relógio que havia sobre a escrivaninha. A onda arrebentou com a violência prevista. o pranto e o sofrimento de outras pacientes. Começou a interferir em tudo o que eu fazia ou dizia. Foi um mar de gargalhadas e zombarias ensurdecedoras! Déborah não perdeu inteiramente os sentidos. viu a enfermeirachefe saindo.concluiu a doutôra .Escondeu-a também de Yr? . continuo achando que esse Censor. Olson. . Pressentindo que a onda rebentaria a qualquer momento. o telefone tocou. sem que eu o percebe sse. .Está bem. m esmo fora de Yr. "Não! Chega de pacientes!" Ligou a vitrola e pôs o disco. por acaso.Muito bem. Fazia parte exclusivamente da dimensão da Terra. foi at rás dela.tenho certeza de que há muito para descobrirmos e estudarmos aí. estava nos pla . Até que enfim esses malditos médicos me acham suficientemente corajosa! exclamara Débo rah em Yri para Lactamaeon. sim.Sra. o Censor teve o cuidado de mantê-la em segredo. Censurava todos os meus atos para não deixar que as vozes e os ritos de Yr che gassem ao conhecimento das pessoas. pela décima segunda vez naquele dia. miraculosamente. Vá se deitar. A última enfermeira do turno do dia saiu. Fried conduziu Déborah até a porta.Á função do Censor é me proteger. Nesse exato mome nto. um verdadeiro tirano. cujo médico viera lh e pedir conselhos a respeito de um problema aparentemente insolúvel. ele fazia parte da Zona do Mundo Intermediár o para impedir que os segredos de Yr transpirassem nas conversas mantidas na Ter ra. mas não conseguiu falar nada. . Não queríamos que escapasses! . o seminário.. a voz do Censor trovejava em seus ouvidos: Cativa e vít ima! Sabes.perguntou Furii. . "Como se se nte a doutôra hoje?" Enquanto retirava o disco da capa. Por favor! A crise vai se abater e s into que não terei forças pára suportá-la.Sim? . O pior é que tinha ainda a t arde pela frente.

Quando a punição 143 se abateu com todo o seu vigor.partiu da cama vizinha. e os calcanhares. Não posso.. de modo a deslocar dos tor nozelos a pressão das correias que os imobilizavam. Foste descerrando um a um teus segred os. O jeito era esperar...desculpou-se Déborah. Sylvia riu baixinho. como dói! Há quanto tempo estamos aqui? Cinco horas.Quem está aí? .. Em geral. Reparou num montículo b ranco na cama vizinha mas não deu para ver quem era. . . até que a dor se tcomou tão intensa que acabou destrancando a voz de Déborah. já se achava firmemente atada na cama... com medo de tropeçar em mais uma decepção. . Nos pés. e conseguiu apenas provocar cãibras ter ríveis em ambas as pemas. mui to mais próxima dos mortos do que dos vivos. a pressão insuportável das correias. tal como os outros.Você está bem? 144 Deus do Céu. o sangue quase não circulava. . exclamando: Decepção! Decepção! Chegou a hora! "Venham! Venham! Venham!!.Sete horas.protestou Sylvia .Helene? Silêncio. ardiam como fogo. Déborah. Blau. s empre a considerara uma espécie de mobília inútil na ala.. Isso quer d izer que são três horas. . Sentia os tornozelos e joelhos inchados. que com a circulação paralisada. . exceto por um breve e distante momento.Não imaginava que você me visse ou soubesse meu nome. Recostou-se na cama e fez força para suspender o corpo.. . Finalmente. Lutou e se contorceu como uma fera. pelas mudanças de turno ou pelas idiossincrasias pessoais da equipe médica. o que há? . Ah. Grite... O tempo ia pass ando e ninguém aparecia. A crise devia ter durado umas quatro horas.Há quanto tempo estamos aqui.Doente..nos. . então? . procurou rel axar ao máximo o corpo e aproveitar a lucidez que lhe permitia ver tão fundo em seus pensamentos.É Sylvia. Ninguém veio. Aconteceu alguma coisa? A curiosidade fê-la esquecer momentaneamente a dor. mas não morta! . Esse ê o último. talvez seis. Logo viriam os auxiiia res para retirá-la daquelas dolorosas "vestimentas de luta".. mais expostos ao contato com os lençóis molhados. rangendo os dentes." Déborah percebeu que ao se entregar a essa esperança. Quando se cansou. não sinto d or alguma. Por que não vinham? As lágrimas escorriam pelo seu rosto e não podia enxugá-las. O tempo foi passando. latejando de encontro aos lençóis. Anterra bae riscou as trevas inflamadas de dor.. ou quan do se tem problemas com o sangue. A dor t ornou-se intensa. Déborah. Déborah ficou abismada: jamais seria capaz de reconhecer as horas pela rotina do h ospital. Começou a choramingar. gritou. que sempre parecera. Virou a cabeça em direção a Sylvia. Gritou. Sentiu-se envergonhada de tê-l a julgado pelas aparências. Sentiu os dentes estilhaçarem dentro da boca. Só recuperou a lucidez muito tempo depois. Reaver a nitidez de visão era como uma benção. .Como você consegue suportar isso? . Fcomos "encasuladas" juntas. .Provavelmente porque tenho uma circulação melhor do que a sua. mas o pior de tudo eram os pés. Permitimos que confiasses nessa médica.Srta.Esqueci que o grito de um louco é um grito de louco! . Passeou os olhos ao redor. nunca pude . . por seu silêncio sobretudo. Agora que já te expuseste o bastante. . mas quando os pés estão atados com uma pressão uni pouquinho maior. Mas não vieram. vendo que era inúti l. e a cama não cedeu um milímetro.. A crise durara um bocado de tempo.perguntou. Trazia uma expressão absolutamente estupidificada ao chegar ao casulo e deitar-se nos lençóis frios. queimavam como fogo. gritou esperando que Yr não interpretasse seu gesto como covardia e a punisse para sempre. apagaram a luz da cozinha. verás só o que ela há de fazer ela e o mundo! A gargalhada que sucedeu à advertência deixou Déborah completamente for a de si. E logo Sylvia.. pelo simples prazer de olhar. parou de chamar. Tentou de novo arrastar o corpo para aliviar o peso dos ossos dentro das pemas. pode ser que al guém venha.

prontos para intervirem. senão a desta médica. portanto exe e acabe de um . Déborah tinha esperado a decepção final por tanto tempo que. não pretendo ganhar a sua confiança só para traí-la depois. Talvez ela não saiba. permitiram que ela ficasse sentada por algum tempo. A decepção ei a última mudança estão aí. o espelho da decepção final. 145 . Na noite passada. Mas acontece que eu conheço e sse jogo. não é? .No mesmo instante. Acabou-se a farsa! Não pretendo mais manter a "esportividade". e de viva. A certeza de uma destruição inevitável era bem mais fácil de suportar do que fora aquele pequeníssimo "talvez". e eles..Um dia você me fala sobre o soldado japonês e so bre como você foi alijada e discriminada pelas pessoas. Já estavam com a pedra na mão par a despedaçar o vaso de flores! . .Bem? Bem? bêbeíalrfião se conteve: . . Déborah não conseguiu andar. a caminhar para essa morte como se eu não soubesse o que ela é! Quando se defrontou com o habitual sorriso de boas-vindas de Furii. encontraram-na quieta e imóvel. Mas logo rejeitou a hipótese como absurda. Quando finalmente vieram soltá-la. . conheço o final do jogo. cujo toque queimava como fogo! . ah. . esses caras bolam tortura s verdadeiramente diabólicas! .Escute aqui! . o momento em que eu confiaria.Sei que isso é um jogo. .. pedira ajuda em inglês. arrancando-lhe gemidos. eles cantaram vitória! Se us calcanhares e seus pés ainda estavam doloridos da brincadeira. pela prime ira vez. Aguilhões impiedosos cravavam-se em ambas as pemas. Déborah. Sylvia.Juro que não farei! Não serei nem corajosa nem agradecida.O momento em que e u iria pedir ajuda. . Vamos. Déborah.expunha-se de novo às lâminas enregelantes do vento. projetara-se 146 enfim a sombra tenebrosa da Destruição Iminente. a Ansiada e Iminen te Morte. um sonho! Fora predito há anos atrás. "Não suporto ver sofrimento". aquela ínfima possibilidade de salvação. apenas o latejar compassado das têmporas. falou Déborah em Yri e.gritou Déborah .Não.Parece-me que o velho hospital do passado e esse do presente fundiram-se na su a mente. pen sou Déborah. quando finalmente veio. até que as articulações desinchas sem. em voz alta na presença de uma pessoa estranha.Dessa vez não farei concessões! .Sylvia.Eles souberam escolher o momento propício! . no dia seguinte e trans forma o nosso trabalho numa peça da grande decepção e mudança.perguntou Sylvia. então..Por Deus.Não estou entendendo muito bem . as pemas readquirissem a cor e seus pés estivessem em condições de transportá-la. me esforço por conv encê-la de que ao revelar esses valiosos segredos para nós. conservan do de humano apenas a forma. pel a primeira vez.. . todas as divindades e personagens de Y r se agruparam no seu horizonte. Eu. d ecidiu retribuir o gesto de solidariedade que a arrebatara do seu habitual mutis mo. entregando-se num gesto de confiança. balançando levemente a cabeça.Eu a vejo. Por que me fazer de boba? Já não bast a me fazer de morta? Vá lá! Sou boba. . Imorth. e ela lhe foi dada.Agora você está bem calminha. Que outra mão poderia executá-la de uma forma tão implacável e completa. não está colocando em risco a minha confiança em você por um momento sequer. estátua. fácil! O que era is so senão uma prova de menosprezo que sentiam? Transpusera o abismo que a separava deles..Todo mundo treme de m edo de encontrar o chão da sala manchado de sangue. Pouco antes de sair para o consultório da doutôra. . Então você vem.exclamou Déborah . A esperança! . . Inútil! Sylvia voltara a ser móvel. fácil. o que quer que fosse. que a última Mudança seria a morte ou coisa pior. di . A ntes de deixar Sylvia entregue àquela luz inóspita e ao incômodo de ser desenrolada.disse Furii. foi quase um alívio. Contrastando com a incandescência da dor. manequim.perguntaram satisfeitos.As correias? . acercou-se dela. um sopro de dúvida fez estremecer por um momento toda aquela determinação.prometeu a eles . e procu rando afetar a maior tranqüilidade. e mais ainda. Aproximou-se da cama dela reparando pelo canto dos olhos que os auxiliares a companhavam cautelosamente os seus menores gestos. e que há cer tas regras nesse jogo que a vítima não deve transgredir. Recuso-me a participar da brincadeira.Será que você não tem um pingo de misericórdia? . Como não tinham quase o que fazer àquela hora da madrugada.

mas esqueci que estava apoia da num terreno que era deles e. Lee Miller. o rosto da tigresa que transportava m ao longo do salão. Eu me preparei toda para aparar o ataque. Deu as costas bruscamente. conselheiros e familiares proporcionavam decepções e miséria ao l ongo dos anos. bastaváLhes retirá-lo de sob os meus pés. Lee zangou-se: . Déborah encontrou. lembrando-se de que sempre com um sorriso nos lábios. Os mais belicosos. .Fiz exatamente o que as pessoas "sadias" fazem quando vêem uma cascavel. no entanto. o safari trouxe uma nova tigresa para o cativeiro.Não deixa de haver nisso uma certa dose de humor .E gritou mesmo por socorro. qualquer mudança era um símbolo de morte. "Vá morrer lá fora. ostentando orgulhosamente o seu "status" de veterana. com o mesmo desapreço profano. saem correndo. a ficha completa dos recém-che gados: Nome. Déborah foi recons147 tituindo os acontecimentos da noite anterior. a dor que sentia. . sim!" A coisa já começou e você ainda ousa afirmar: "confie e tud o estará bem!" . . qu e beirava a alegria. repito que não vou traí-la. então conte para mim. trancam as portas. P ublicamente. então. . e para a maioria. seríssima. um auxiliar que a informasse. observava com um ar tolerante e divertido o acontecimento. Religião. A ala. Hospitalizações prévias.Olhando para você agora. para nós duas. Apenas transfere para você a responsabilidade de ex plicarme tudo. porém.Por que perguntar logo a mim? -. Ela ficou lívida. em seguida. e de procurar ser paciente comigo se às vezes mi nha compreensão for um pouco lerda. por isso. . depois que a cobra foi apanhada. Contou. . tintim por tintim. Respondeu às perguntas de Furii com um ar orgulhoso. em meio ao atropelo de auxiliares. Pouco a pouco.Prove! Prove! .Não. . Gritam por socorro. os professores.de que tipo e quantos -. Déborah procurou. .Não temos muito . nesse estado tão lastimável. enfim. médicos. muitos partiam.concordou Furii . incentivando-a a se abrir . Encarou-a com aqueles seus olhos zombeteiros e prosseguiu: . por via das dúvidas. Outros Tratamentos e Observações. como se tivesse passado por uma grande aventura. . Acontecimentos desse gênero transtornavam todas as pacientes: espe lhavam a angústia de uma. desde o momento em que pedira para ser levada ao casulo. Mas isso não me impede de ajudála. sopravam uma aragem pr enunciadora de mudanças.E encerrou a conversa escondendo-se debaixo do cobertor.zem. Muitos vinham para a D. foi direto para o quarto e meteu-se na cama.. como começou. Tratamentos e Choque . .explicou despreocupadamente. você nunca esteve intemada num hospital psiquiátrico. Furii ficou séria.Pelo visto. conseguiu di stinguir. Ach o que você está entregando os pontos com muita facilidade.. Ocupação. tornava-se muito pouco conhecimento da chegada de novos pacientes.Uma prova dura. Déborah a procurou para saber quem era (certos pacientes acabavam obte ndo com antecedência. dificilmente eu afirmaria que tudo está bem! O que foi que aconteceu de ontem para hoje? Se você acha que começou a úl tima mudança. no entan to.. Coral.e saiba que lamento muito. Delicadamente. que está um pouco contente demais consigo mesma por causa desse incidente. geralmente por meio de rumores. Idade. Mais tarde. Ao contrário do que esperava. vibrava de expectativa. Num dado momento.Seja! . desmaiam.Você tem certeza de que foi por tanto tempo? . porque só posso supor o que seja. nesse momento.. provocava m uma reação coletiva de pânico muito característica.Trata-se de um caso de readmissão .. .Absoluta! . as zombadas de Yr.Parece-me.gritou.disse ela . desencadeavam a violência de outra. a doutôra foi recuperando a confiança dela. mas infalível: Tempo! 17 Sob amarras idênticas às que trouxeram a Srta. a fagulha que precisava. Estado Civil. como tinha gritado por ajuda horas e horas a fio.admiti u com amargura.

cuidados. atingindo a parede.. a Estrela do Norte! Quem ela pensava que era.Porque teus guardiães são sádicos! Naquele dia. fecharam-se em torno de Doris e a afastaram dali.Por quê? gritou ela em Yri.. e percorreu vagarosamente as portas da seção de reclusão. Apesar de exausta e atordoada devido aos sedativos. medo e a euforia da vingança.E daí? Como é que você voltou? . Uma auxiliar contemporizou sem muita convicção: . A grande Doris Rivera acabara partindo a espinh a dorsal na roda do mundo. hein seu doutor! Arrume a trouxa e volte para casa. bem ao lado de Déborah.Você já esteve aqui antes . Quantas coisas isso provava! Subitamente. murmurava furiosa: .Olhe-se no espelho e verá que também não é nenhuma beldade! . Seu nome é Doris Rivera. mas uma coisa era certa: não fora de joe lhos! Notou que Déborah a observava com a mesma hostilidade que sentia no resto da ala. mas dentro dela.. conselhos. Trevas. desafiando-as a todas? E como ousara fracassar. e chegam em frangalhos de tant o apanhar. Déborah ficou atônita.Aquela sem-vergonha da Blau! A mamãezinha e o papaizinho gastam uma nota naquela puta que não devia nem existir! . e ainda assim teu coração bate.. as auxiliares acudiram afli tas. . .. ela está per dida. não sobre a padiola. foi invadida por uma onda de piedade e temor por si mesma. defrontou-se com uma hostilidade muda e implacável. O diabo é que esses médicos nunca admitem quando "entram bem"! Alguns dias depois. 149 -. Sim. tudo para Doris. e sempre voltam. Medo e ódio. erguem-se lentamente dos chãos da ala. Pássaro-um? . Doris era mui to magra e seus cabelos começavam a ficar grisalhos. quando Doris surgiu em carne e osso.Napoleãoü . . Mary Dowben postara-se diante do quarto de Doris.gritou Déborah. permitin do que o mundo a triturasse! Nesse momento.Alguém objetou.É! É sim! . calma. uma mul tidão de irmãzinhas consumia-se de inveja. consultas. todas as atenções convergiram para Doris. Quer dizer então que acabam retornando! São teimosos demais p ara aceitar que seus nganons os tornam venenosos. . e de novo. Enquanto isso. vibrava nela uma vontade intensa de viver. e de nov o. Depois de algum tempo. Agarrou o pesado cinzeiro que estava usando e o arremesso u com toda a força. mais cedo ou mais tarde voltam. negligência. Médicos e enfermeiras rangiam a s chaves de sua autoridade na fechadura de sua porta. à luz do mito que ela e Carla alimentaram durante tanto tempo. . vacilantes como pugilistas derrubados num "round". .s dados. sentada a um canto do saguão. Antes que pudesse continuar.Que s erviço mal feito.E daí? . mas apenas para manter as aparências. ninguém o sabia.O que é isso Lena. Era um tal de casulos e se dativos. Mais tarde. assistindo à volta ao lar da filha pródiga que vinha lhes roubar a soberania. enquanto o auxilia r seguia tranqüilamente seu caminho. não é sua presunçosa! Como ousara ela tentar. recompõem as forças. pavor. gemendo cada vez que os membros do cortejo 150 emergiam de lá! Lee Miller. medo e inveja chocavam-se dentro dela.. hem? . Déborah ficou com a pergunt a e a raiva reboando em seus ouvidos sem resposta. Recuou e encostou-se na parede gaguejando.Que olhar idiota é esse. Déborah escutou ela dizendo na enfermaria: . e arremetem de novo contra o mundo. fremia de indignação. afinal! . teu pulso persever a em viver.perguntou Lactamaeon com um sorriso nos lábios. .. Quantas investidas serão necessárias até que morram definitivamente? E tu. Déborah se afastou cabisbaixa. o rosto pálido e encovado . pôrra! .Bem feito! Rivera. Como arcara co m o mundo este tempo todo..deixou escapar Déborah. s acodem o torpor.É aí que você está.perguntou agressivamente.Isso não é da sua conta. Déborah a examinou de alto a b aixo. até chegar ao quartinho onde Doris fora enclausurada. . sofrimen to.berrou Lena. os sentimen tos que a revolviam por dentro explodiram boca afora numa cruel e estrepitosa ga rgalhada.

está bem. Umas quat ro ou cinco meninas que estavam ali começaram a brincar com ele. cheios de curiosidade.O que por exemplo? . Talvez eu consiga responder às perguntas dela! Só posso saber depois q ue ela perguntar. Duvidava que suas perguntas vies sem a ser respondidas.. conduziram-na num táxi ao hospital. Naquela mesma tarde ocorreu um acidente. . Não tinha a menor idéia de qual a expressão que tr azia no rosto. . não se meta nisso! . .assentiu Déborah. iam de peito estufado.Blau! -.gritou. Déborah! Você não tem nada o que fazer aí! repreenderam os vultos bra ncos. De vez em quando.Nosso aparelho de raio-X não está funcionando .Esta aí é que é a doente mental ? . e sair. . apavorados com a possibilidade de que ela fugisse. mas agora vamos! . .chamou Doris do outro lado da porta. (Desinteresse afetado: "Se eu olhar. naquele mundo sombrio e incolor.. cabelos desgrenhados. (Julgando que ela talvez ficasse no St. .Já disse que não é da sua conta. como a deviam estar vendo: suja. Todo mundo nos diz isso. as auxiliares acorreram mais uma vez para abafá-lo. . e. insistiu. Agnes.Teremos que levá-la par a o hospital St. . . o médico da ala o examinou e suspeitou que estivesse fraturado. e todas as farsas e horrores sem os quais jamais sobreviveria lá fora. Nem bem chegaram à sa la de raio-X. . . . ant es que degenerasse em briga. . vestindo um velho roupão por sobre o pijama. isolaram-na num quarto privativo.Não! Eu é que fui dura demais! Aconteceram muitas coisas . os esquemas voltados para sustentar as apa rências de sanidade. puseram-se a descrever orgulhosamente as agruras do trabalho na "a la dos perturbados".. . como odiaria . A conclusão impôs-se fulminante: Aí estava! . vocês aí.Cochichavam do lado de fora.Escutem. Eu também vou! declarou ela aos personagens de sua outra dimensão. Déborah saltou pa ra agarrar o sapato mas caiu de mau jeito e torceu o tornozelo. Precisava saber urgente mente se teria que reativar o Censor. . Chegando lá. Mary Dowben escorregou. Na manhã seguinte. Ao voltar a si. ou ia direto para a reclusão.Más eles vivem dizendo que a gente vai ficar boa. a primeira coisa que viu foram os rostos ávidos debruçados sobre ela. .Eis o que Doris Rivera en frentara e o que Carla enfrentaria em breve: o Mundo! Déborah desmaiou. Provavelmente foi uma piscadela maliciosa de olhos. Percebeu. . . não se deram ao trabalho de vesti-la decentemente .Afas151 te-se dessa porta. . Déborah ora se divertia com o ridículo da cena. cheios de si. do outro lado. enfermeiras e auxiliares vinham espreitar pela porta. Déborah o apanhou e o jogou de volta para Mary. O pior foi quando a levaram para a sala de raio-X. Dirigiu-se à porta do quarto onde Doris e stava encerrada e bateu.Está bem. correndo pelos co rredores e dormitórios. caiu e um de se us sapatos saltou longe. Ocorreu-lhe.preveniu severamente um dos auxiliares. como se estivessem diante de uma famosa estrela de cinema ou portadora de alguma peste.Yr começou a trovejar e o Coletor a provocá-la com zombarias.. tinha de fazê-las. sim. fláci da devido à inatividade.Sim. "O que é que a barata faz? Voa! Numa dessas.O tom de suas vozes era ameaçador: ou saía dali. mas eram vitais. . Agnes. deixem essa doida ficar.. será que ela olha?"). Ao escutarem aquele diálogo. naquele momento. ou ambas as coisas. merda! -..Eu só estava conversando com Doris -.Rivera.E eles são violentos? Déborah não escutou a resposta. ora espumava de ódio.Ei. de súbito.) Quem sabe um olhar demente também. o casulo.. alguns minutos depois. Os estagiário s que escoltavam Déborah.Ei! Foi muito duro? Você voltou por causa disso? . . As pessoas no corredor voltavam discretamente a cabeça e os olhos para o 152 outro lado. vigiado dentro e fora por dois grupos de enfermeiras. Dois estagiários uniformizados.disse ele.

nganon clama por si mesmo.. Furii suspirou. Mas eu fui boba: só me ocorreu a idéia de espumar pela boca quando e stávamos longe. . não creio que tenha havido fratura! Todos suspiraram aliviados. justamente por conhecer a doença mental muito melhor do que eles. tcomou a estrada e em seguida o desvio.. Mesmo despojadas dos instrumentos necessários. compreendeu! -. Esta prova. Ali. No mundo. Armou uma cara bem agourenta e disse: . T udo levava a crer que uma força mágica a atraia para os outros. que você atraiu uma.seja no que .Fui despachada para um hospital.E nagua ... atestavam os impulsos autodestrutivos de centenas e centenas de pacientes. as circun stâncias tornavam-na muito mais "louca" do que na ala supostamente "violenta" do h ospício. Diz mais ou menos o seguinte: "Em silêncio e em sono.Como? Explique isso melhor para mim. Afora todo o universo mágico.gaguejou ele com pungido . Não tinha nada a v er com o mundo." Isso signi fica que a substância venenosa.ter que ficar no hospital. independenteme nte do que eu pense ou faça! . as divindades e reinos de Yr. .. nos bancos de escola. . inclusive. mas ontem. .. .contou a Furii . Uf! Lar doce lar! À noite.É um dos meus ataques que vem aí! O médico empertigou-se sobressaltado. ajudá-lo. Antes da Segunda Guerra era muito pior.. .Bem! que.Eu carrego comigo o estigma do mal. Déborah saía do hospital mancando. Num piscar de olhos. Você. Procure ser paciente. mas. está me lhorando.disse ela. e pior ainda antes da Primeira . Déborah teve uma idéia: se conseguisse assustá-los b astante.. com o tornozelo enfaixado. .bom. isso quer dizer também. liga ou classe .. veio a encontrá-la justamente no mundo.. Déborah estava convencid a de que existia uma outra prova de sua indignidade intrínseca. e que são uma minoria no mundo. anterior ao agir e ao respirar. Sentou-se com dificuldade. . O que aconteceu? Depois de ouvir a história toda. foi mancando até o banheiro grande onde ha via uma chapa de aço que servia de espelho. independentemente da minha vontade. .. apoiada em seus dois enfermeiros.. rápido. . rápido. meta isso na sua cabeça! Será que você não entendeu nada do que eu disse até agora? O nganon age por si mesmo. em meio às atribulações cotidianas de sua juventude. reúne as melhores condições para ser compreensi va e indulgente. Um mosaico de arranhões e entalhes. Lá vinha Furii com suas mensagens ardilosas. . cunh ados raivosamente sobre o aço temperado.Como está se sentindo? .Não posso ajudar ninguém. Segundo Déborah. . com ou sem fratura. juro que queria uma! Assim o quadro fi caria completo.disse Déborah ao espelho. suas proposições de reformar o mundo. com o qual o Censor vivi a me atormentando. na hora de se lavar para dormir. as pe ssoas normalmente ou escolhiam ou eram escolhidas como companheiras tanto na colôn ia de férias. ou seja. Fale-me dela s. 154 clama. Há um ditado em Yr. Déborah saltou. e encostou na porta 153 dos fundos do Prédio Sul (Alas B e D). Atrai sem que eu o saiba..perguntaram os seus dois enf ermeiros (gozando o privilégio de serem os únicos com conhecimento suficiente para l idar "psicologicamente" com ela). palavra s que em Yri significavam: "Eu te amo". por alguma força mágica. quanto em qualquer outro grupo. Déborah fez um gesto de impaciência. desceu a avenida. absoluto e imutável. o "eu" inimigo. atrai para si outras pessoas igualmente envenenadas. Entrou no táxi (já esta va a postos) que.. duas ou três pessoas. . subiu no "vagão de carne" para a D.Você está tentando magoar a si mesma agora. atravessou o portão..Esse preconceito custa um bocado a desaparecer . "Bolas!" Estava doente. talvez eu não esteja entendendo mesmo.a moça teve um deslocamento bem feio. certamente a levariam de volta. as pessoas têm que preservar a aparência de participação -. caso o tornozelo estivesse fraturado. não pouparam um centp metro de espelho.Sempre achei bom vo cês não usarem camisa-de-força aqui. quer dizer. Ainda assim..

o convívio satisfazia à profunda carência de transpor esses muros. Deparou com Eugênia. a razão dessa afinid ade. . a solidariedade exterior: freqüentarem juntas o refeitório.Sentiu que algo terrível estava por vir. Pegue. . sentindo vontade de ficar à sós. Por outro lado. conversar de coração aberto. Déborah descobriu que só era capaz d e corresponder a essa exigência de participação e de convivência. os esquisitos.Não. por um minuto que fosse. . em seguida. Não posso! Não quero! O desejo e a ânsia de Eugênia saturavam o ambiente. desse modo. baixar as defesas e esquecer que o mundo era aquele caos traiçoeiro e decepcionante. Sabiam.Não. Existia. . você. Isso foi um pouco antes de se consumar a última grande mudança. Finge que não entende. . ao se combinar à virulência que e xistia potencialmente nela. na maioria das vezes. e talvez até voar se Yr lhe permitisse.Não esqueça do q ue eu sei a seu respeito! vou obrigá-la a me bater com esse cinto. O 156 suor escorria de seu rosto em grossos filetes pelos ombros e braços . . as forças para sustentarem os muros que as separa vam dos outros.Para quê? . com os corrompidos. é claro. os aleijados. Uniam. e freqüentemente se atormentavam uma à outra por causa disso. o l ago. e por causa disso sofrerá punições terríveis do Censor. Déborah conheceu uma menina inteligentíssima chama da Eugênia. uma compreensão mútua d o quanto havia de sofrimento por trás dos atos mais triviais. Sabe muito bem o que sou. os dementes. reconfortarem-se mutuamente com palavras que não soassem de todo falsas. . não se faça de desentendida.O quê? . acima de tudo.Ora. .Tome! . . mas sabe muito bem para quê: É para mim. compreende. .. oferecendo em troca um alívio cada vez menor . Julgara-se até a própria encarnação da R .mas procurou fugir à suspeita de qu e também fosse uma portadora do nganon venenoso. antes que começassem a chamá-la e a procurá-la. muitas vezes. e por isso odiavam a si e ao companheir o. ouviu ruídos furiosos de luta num dos boxes e. Essas afinidades não eram intencionais ou premeditadas. .. porque. os desfigurados. Débora percebia.Bat a em mim! . uma cumplicidade silenciosa.Não. Depois de algum tempo. Um dos melhores.Déborah começou a recuar . a colônia acabou aceitando-a amizade das duas e deixou de j ulgá-las e hostilizá-las.. no íntimo. os medíocres. queria correr pelas Planícies de ir. dera origem a isso. Num dos verões que passou na colônia. Conhe cia vários refúgios na colônia onde dispunha de uma hora ou duas de paz e solidão. Ao se aproximar mais. Pois bem. Chegando lá. Suava em bicas. Acontece que. e você tem. nem consistissem num mero ritual em benefício 155 das Aparências. Yr vinha l he exigindo uma dedicação cada vez maior.Você está fugindo. . seguindo essa linha de raciocínio. entre el as. rindo e falando Yri em voz alta. Já fora surpreendida. . Vamos! . . Mas o que necessitavam era.. de como era penoso s ustentar as Aparências perante o mundo. .gritaram de lá. com quem quer que fosse. amarga e inquieta .era uma pessoa solitária. queira ou não! Vo cê vai querer. Pôs-se a c antar de modo a anunciar a sua presença.Venha cá..Déborah. os espelhos das Aparências e. . Déborah foi. Queria tranqüilidade . Não preciso mentir para você. nua em pelo.Déborah recuou mais um passo. o campo de futebol. era a casa de banho que ge ralmente permanecia deserta. uma certa dose de simpatia. a voz d e Eugênia. pressentiu que havia alguém mais. que Eugênia tinha as suas esquisitices . . no boxe com o chuveiro fechado. . as pessoas at raídas desse modo sabiam no íntimo o porque.for. Estendeu para Déborah um cinturão de couro. Um dia. arranjou um jeito de se esgueirar para longe das pessoas. Eugênia e Déborah logo começaram a andar juntas. Ocorriam tão naturalmente qu anto a atração do imã sobre o ferro. Ocorreulhe subitamente uma suspeita terríve l: talvez o seu nganon tivesse contagiado Eugênia e.Quem é? .comandou ela. .

.Você ainda acha isso? .mas uma ruína que só dizia respeito a s mesma.Sei como é difícil progredir com uma "médica famosa e importante". . sentindo-se es tranhamente gratificada. admitiu que eu estava tão doente que merecia ficar intemada num hospital. esses anos todos eu soube que estava doente.Yr encara isso como uma pilhéria. apesar de ser tão requisitada. Não é para menos que o doente mental tolera tão pouco as mentiras. Jamais pedira a alguém que a compartilhasse. . . . . As interurbanas ou casos es peciais de médicos que não poderiam ligar outra hora. Sentimos a tentação d e nos desforrarmos um pouco no placar. . quer por atr ação . . toda satisfeita e sorridente. 158 num certo sentido contribuiu. . pensativa. existe . . era ser responsável.Encarou Déborah com um sorriso meio malicioso.acaba inevitavelmente arruinada. é verdade? Vo cê ainda tem esse medo de contaminá-las? .Algumas dessas chamadas não posso deixar de atender. testemunhar era ser conivente. .onde estávamos? . . Se esse incidente dos chuveiros ocorresse hoje. arrancoulhe das mãos o cinto. .Porque sou louca! No momento em que você admitiu que eu estava doente. . por que não? . Existem alas cheinhas deles. . e tanto pode ser por contato direto como por proximidade.Os homens não são vulneráveis ao veneno feminino. Sabe. mas sei que também há homens intemados aqui .Há muitos anos que eu as venho contaminando lentamente! .Ora.Conseqüentemente. . agrilhoada e condenada à destruição . Furii encolheu os ombros num gesto desamparado d e desculpas. Déborah avançou para ela. Jamais voltaram a se falar. . exatamente como as nossas.retrucou Déborah acidamente. sim. Déborah bateu palmas.O que foi? .Tenho certeza de que minha irmã acabará louca. e ser conivente..Sim.Acho! O telefone tocou sobre a escrivaninha e a doutôra levantou-se para atendê-lo.Exigiram de você que desconfiasse até mesmo da realidade que lhe era mais próxima. .perguntou Furii. achando agora ridículo o susto que tinha levado. e que você discemia de uma forma claríssima. não é assim? . Devo lhe avisar qu e fracassei muitas vezes.. mesmo que jogando com a nossa própria vida. Nunca pensei nisso antes.Bem. quando a pessoa se toma sua amiga . ou seja.E continua sendo verdade em relação à sua mãe.Não.quer por afeição..perguntou ao voltar a se sentar . Sim. logo causara. . mas você explicou bem a questão. para impedi-la de ter a imaginária "folha de serviços perfeita".Será verdade? Será que contribuí com alguma coisa de novo p ara você? Furii ficou um instante em silêncio. logo in citara.Ah.E quais foram os resultados? .. Procuro evitar o maior número po ssível delas. seu pai e sua irmã? .suas idéias como que saíram à luz do sol. Estou curiosa.Agora. .Sim.uína .Pemai.Olhe. provou-m e que eu era mais "sã" do que imaginava.Não entendi muito bem. mais sã quer dizer mais forte. pois embora eu conheça outras razões que explicam essa intolerância. . reparando naquele sorriso que nada tinha da amar .Bem. . Talvez o nganon de Eugênia foss e ainda mais virulento do que o seu. comentou Déborah. mas ninguém admitia isso.No mundo das campainhas .concordou Furii .Falávamos sobre contaminação.Sorriu. nunca encarei a questão sob esse prisma. Acho que eles se arruinam de um je ito diferente. Continuamos a trabalhar j untas? . você fic aria tão assustada quanto ficou naquele dia? .Você parece estar vendo isso pela primeira vez -. com relação às mulheres da família. Ainda assim. O seu nganon despertara o de Eugênia. jogou -o no chão e saiu correndo.. Era um milagre quando não tocava pelo 157 menos uma vez durante as sessões. é verdade. . .

mas ao invés de enc arar essa noção como uma fantasia sintomática. não co nseguiu tirar Déborah da cabeça.Minha cara. de seus desejos. as orações e os juramentos. fez uma cara de choro. ouvindo o s coros e os discursos. a filha de s eus sonhos? Nenhum. . . é? 159 . seus "trajes de coroação". refastelada como uma coruja velha na poltrona. a filh a caçula. uma vez ou outra! Decidiram levar Suzy para j antar num restaurante chique. no dia em que se d er conta disso. enquanto aguardava no saguão a distribuição de sedativos. . se andas à procura da realidade objetiva . Jurara a si mesmo dedicar este dia exclusivamente a Suzy. . . Por que não estava ali com eles? Era a segunda primavera que ela passava longe de casa. valho algum a coisa.choro grandes lágrimas de crocodilo por esses seus deus es de Yr.Se eu posso ensinar-lhe algo.Não consigo ler nem os meus.disse Furii . implorou que ficass .disse Helene. Que progressos fizera no sentido de vir a ser a menina recatada.Tire os olhos de cima de mim! -. pareciam esperar.sibilou Esther.disse Déborah . hein? Mandar-me para a reclusão.perguntou Lee. quanto ao receber.murmurou para si mesma escolheste o pior lugar para começar! 160 18 Primavera. feminina. aqui pelo menos.Está falando comigo? .Vocês conseguem ler os meus pensamentos? . Absolutamente nenhum. Vocês conseguem ler meus pensamentos? . Nas sessões seguintes. isso significa que. no entanto. de brincadeira.mas por detrás dela acha-se a mesma Furii. terminava a escola secundária. desfer indo raios! . a racionalidade de um fenômeno complexo e natural. . . .Você me faz ver uma nuvem branca envolvendo o cume de uma montanha. pôs-se a observar a Srta .Shh! Agora não! . . A noção do ngano n venenoso representara uma descoberta fundamental para Déborah. assim como Lee e Helene que acabavam de chegar. mas Jacob. . os olhos pe sarosos: . . do que prometera a si mesmo e a Esther. começaram a explorar uma convicção que Déborah compartilhava em seg redo com todos os doentes: a de que ela possuía um poder infinitamente maior do qu e o indivíduo comum e. . num tom divertido. Jacob sentia um profundo vazio i nterior. No dia da cerimônia de colação de grau.Pode ser bom para mim.Bolas! Ela não é uma delinqüente condenada! . em homenagem a Suzy.gura habitual.Eles estão desperdiçando o tempo de um ser humano que. era ao mesmo tempo inferior a ele.Puxa! . Como passara rápido o tempo! Suzy. . enfim. As meninas começaram a se retirar em fil a do auditório.esquivou-se a Srta. sussurrou ele. estação das paixões e da impaciência. procura va encontrar nela a lógica.. porá abaixo as suas casas e os expulsará de vez. obediente. Jacob virou-se par a Esther que. Coral.Quais são as suas intenções.E. . esperar.Será que não daria para ela vir passar um tempinho conosco? Podíamos ir aos lagos. com o seu toque de fogo. uma revelação meramente espiritual.Tremeu só de pensar de viver sem Yr. . Coral. quanto mais os seus! Déborah passeou os olhos pelos personagens que decoravam as paredes do saguão.Vá para o diabo! . Ela preferia ir à festa da turma. mas. deprimido e nostálgico. tomando ares de co ndessa elegantemente horrorizada com algum espetáculo repugnante. segundo a fa mília. . para mim.com as três. não é? . graciosas e inocentes em seus vestidos brancos.Pode não ser bom para ela. . vestira-se em trajes de gala ou. das horas felizes com a família reunida.Está vendo? Você fica tão feliz ao dar.Eu choro . Uma n oite. ansiando pela v olta dos bons tempos. .insistiu ele. a despei to de seus esforços. a boca descaída. Posta dos aqui e ali como estatuetas imutáveis.

em juntos aquela noite. Justamente por ele querer tanto, a noite foi desde o iníci o um fracasso. Suzy acompanhava-os contra a vontade. Esther estava deprimida por que a filha presente voltara a ser relegada a um segundo plano pela filha ausent e. Jacob sabia que acabaria pondo tudo a perder se persistisse naquela ansiedade , mas não pôde se conter. A noite transcorreu num clima de desolação constrangedor. Num dado momento, Esther comentou com naturalidade 161 forçada: - Debby queria vir à sua colação de grau, e se ela pudesse teria mandado um pre sentinho. Suzy encarou-a com um olhar tranqüilo e disse: - Ela estava aqui. Eu vi vocês dois c onversando sobre ela quando recebíamos os diplomas, e ao nos prepararmos para a saíd a. - Que besteira! - protestou Jacob. - Juro que não conversamos sobre ninguém. - Não faz mal. .. sério! Mesmo que realmente não te"nham falado alto, foi a expressão, o olhar que vi em vocês. . . - Cogitou em descrevê-lo, caso não soubessem como os seus rostos denunciavam as preo cupações, mas as palavras eram tão complicadas e dolorosas que não conseguiu articulá-las. - Bobagem, Suzy - protestou novamente Jacob, abanando a cabeça. - Expressão, olhar. . . vejam só, que besteira! Suzy e Esther entreolharam-se rapidamente. Era claro que ele estava escondendo o jogo. "Seja indulgente", implorou Esther com os olhos. Suzy abaixou os seus e f icou algum tempo remexendo num botão do vestido. - Sabe aquela menina que estava n a minha frente na hora de receber os diplomas? Pois é, o irmão dela é um pão.. . No hospital, as pacientes recusavam-se a admitir que a primavera pudesse chegar passando por cima de todos os seus sofrimentos, mas ela veio, triunfal e radiant e. As mulheres na Ala D estavam furiosas: o mundo que as destruíra, ao invés de sofr er pelos seus pecados, parecia mais vicejante do que nunca. E quando Doris River a prendeu os cabelos, vestiu uma roupa bonita e, com um sorriso tímido, partiu de volta para o mundo, sentiram-se mortalmente traídas: Doris aliara-se à primavera con tra elas! A Esposa do Abdicado tinha a sua teoria: - Ela é uma espiã! Eu a conheci há muitos anos. A oposição paga para ela semear o caos e d epois a imprensa transforma a coisa num escândalo. - Devemos ser caridosos - apregoava MaryDowben, com ares de santa. - Devemos ser caridosos, ainda que ela seja portadora de todas as moléstias sociais que se poss a imaginar, para não falar das infecções nas partes pudicas, transmitidas por homens d e reputação desprezível. Sem mencionar esquizofrenia da natureza mais sórdida e imunda. - À medi162 da que ia elevando o tom de voz, transpareciam as arestas desarmônicas do pânico. -Vocês doentes mentais são tão engraçados! - exclamou Mary Fiorentini. Foi o bastante para desencadear a briga. A ala toda transformou-se bruscamente num remoinho de fúria e medo, onde as brigas irrompiam com uma espontaneidade selvagem e absurda. - Como tem paciente em reclusão hoje, hein? - comentou uma estagiária recém-chegada. - Quando pegarem mais alguns, vão começar a enclausurar de dois em dois - retrucou Déb orah. - É.. . é. . . - assentiu a estagiária (tratamento Número Três, sorriso amarelo, saindo pe la tangente). Déborah afastou-se e tentou acertar mais uma vez o sapato no relógio d a parede da enfermaria. - Daria tudo para acabar com aquele sorriso. - A tua cara já é mais do que suficiente - disse Helene. - Pelo menos a mim você consegue ser superior, não é? Mais uma briga. - Há épocas assim na ala - asseguravam os auxiliares antigos aos mais novos. - Não cos tuma ser tão violenta. - Os mais novos, contudo, não acreditavam. As estagiárias de en fermaria recém-ingressas andavam assustadíssimas. Duas enfermeiras da turma preceden te tinham "fundido a cuca" pouco depois de receberem suas filiações psiquiátricas, e e stavam agora intemadas num hospital. - Cuidado, porque as coisas que se vê aqui comentava-se à boca pequena - acabam deixando a gente maluco.

As quatro novas estagiárias recém-chegadas, designadas para a Ala D, estavam tão apavo radas que não se desgarraram umas das outras, formando um grupinho coeso e discrim inatório. Criou-se, naturalmente, um contraste entre essas jovens, belas e saudáveis portadoras da primavera, e as pacientes, sombrias portadoras dos nganons veneno sos. Helene e Constantia desbastariam aos tapas e pontapés a singularidade das nov as inimigas. Déborah simplesmente baniria as recém-chegadas da cabeça até que se dissolv essem na rotina anônima da ala. Só as enxergaria como vultos brancos e indistintos, e só as escuta163 ria quando se referissem a ela ou lhe dessem ordens específicas. Estas defesas, qu e eram inconscientes, impediam-na de assumir a presença das estagiárias, cujas virtu des (atribuídas exclusivamente por Déborah) fariam com que ela se sentisse conscient e de sua "loucura" e, portanto, de que era diferente. Uma tarde, Déborah estava sentada no chão perto da enfermaria, olhando fixamente o f amigerado mostrador do relógio, quando surpreendeu a conversa de duas das estagiária s. - É verdade que uma paciente da B vem para cá? Onde é que ela vai ficar? - Não sei, mas se vem é porque deve ter "fundido a cuca" mesmo! - Lembra o que Márcia disse? Elas melhoram e tornam a piorar de novo. Espero que e sta pelo menos saiba como usar a privada, e por onde engolir a comida! - Ambas a bafaram o riso. Na hora não ligou: sabia perfeitamente que o riso denotava apenas ansiedade. No en tanto, quando trouxeram mais tarde Carla, dilacerada interiormente, com a mesma expressão terrível de derrota com que Doris Rivera chegara, Déborah ficou furiosa. Aqu eles dois vultos brancos não tinham zombado de uma maluca qualquer, mas de Carla, uma pessoa boa até a medula dos ossos; boa a ponto de ter sido gentil quando Déborah a ferira na sua região dolorosa. Ninguém diria, vendo as duas, que eram tão amigas. Seria, contudo, um gesto extremam ente penoso e, acima de tudo, uma interferência - isto era incompreensível para os " sãos" - Déborah cumprimentar Carla, sabendo que ela estava arrasada e que poderia se arrepender mais tarde caso este cumprimento suscitasse uma reação violenta ou mesmo rude. Por isso, nem sequer olhou para Carla. Limitou-se a esperar, por detrás de sua máscara de pedra, até que a companheira fizesse algum sinal discreto mostrando r econhecê-la. Só então se aproximaram uma da outra e, ainda assim, afetando o maior desinteresse p ossível. Déborah sorriu acanhada, e foi aí que ocorreu um fenômeno surpreendente. Acostu mara-se a ver tudo desprovido de relevo, cinzento, anuviado e apenas em duas dim ensões. E eis que do borrão, surge Carla 164

nas suas três dimensões, todas as suas cores, incrivelmente nítida e clara. - Oi! - cumprimentou Déborah, mal erguendo a voz - Oi! - Você pode fumar? - Nenhum privilégio. - Hum. Voltaram a se cruzar mais tarde diante do banheiro, onde Carla aguardava que uma auxiliar destrancasse a porta. - Vamos jantar na minha cama hoje? Carla não respondeu. Quando serviram o jantar, apareceu com a bandeja no dormitório dos fundos. - Posso ficar? Déborah arredou para o lado, deixando-lhe o melhor lugar, ao pé da cama (Alô, alô minha amiga multidimensional e colorida! Estou tão contente de vê-la!"). - Doris voltou e já saiu de novo, sabia? - Contaram-me. - Carla ergueu os olhos para ela e, por um milagre, pareceu enxer gar através da máscara. - Ora Déb. . . não é tão ruim assim. Tive que voltar porque comecei me esforçando demais, porque parte do que fiz foi contra meu pai... e por uma série de outras razões. Não estou entregando os pontos. Só estou cansada. - Seus olhos se en

cheram de lágrimas. Déborah ficou paralisada pela confusão e o terror que lhe inspirav a a tristeza da amiga. Estranho mistério, este das pessoas que se afogam no oceano caótico e terrível que era o mundo, e depois, pálidas e trêmulas ainda, se arrojam de n ovo sobre ele. O que os leva a pensar que podem flutuar com os outros, quando a tensão superficia l de seus nganons foi rompida no primeiro afogamento? - perguntou Déborah a Lactam aeon. Só Idat sabe - respondeu ele. - Para alguns, nada é impossível! Déborah sentiu todos os músculos retesarem-se de medo. Achas então que o nganon dela não é intrinsicamente mau, e sim. . . e sim. .. circunstancialmente mau? - Acho! - Mas nós scomos amigas! Se a substância dela não é igual à minha, isto significa que vou envenená-la! - Exatamente. 165 Pode uma coisa contrariar tanto as leis? Pois se as próprias Leis afirtnam: "ngano n clama por si mesmo". Como é possível que eu tenha atraído uma essência diferente da mi nha? - Talvez isto seja uma punição - ponderou Lactamaeon - Ocasionalmente, tu destróis par a te punir. Olhou para Carla e encontrou-a chorando ainda. Decepção! Acreditava conhecer o código, depois de anos e anos de sofrimento procurando uma pista para decifrá-lo e, ao ch egar ao último degrau, via-o desfazer-se e ressurgir o velho caos, a anarquia, as zombarias. Ela era minha amiga! gritou para os deuses que partiam. Não parecia estar magoada. ... Tu e ela não são da mesma substância; os nganos são diferentes. Serás a assassina de tua a miga! Quando Carla parou de chorar, Déborah continuava sentada do outro lado da cama, ma s estava longe... muito, muito longe. Para grande surpresa e desagrado de Déborah, uma estagiária deu para se afeiçoar por e la. Bastava que botasse a cara nos "locais públicos" da ala, para que a moça (ou mel hor o vulto branco e a voz indistinta, destacando-se no pano de fundo cinza) se pusesse a segui-la diligentemente, com uma jovialidade gratuita e importuna. Deves estar mais doente do que pensas, disse Déborah para si mesma em Yri. Estas p essoas escolhem, em geral, os piores para lançar a Deus. Deus é como o cachorro e Débo rah como os ossos. Conseqüentemente, Osso será meu nome! Estas palavras soara-Lhe tão engraçadas, que não se conteve e riu às gargalhadas. Em seg uida, fez com as mãos o gesto simbólico em Yri e a mímica correspondente ao riso, em s ilêncio, como convinha a Yr. - Quem está rindo aí? - perguntou Anterrabae num tom brincalhão. - Sou eu, a Coisa-Osso-de-Deus! Desataram a rir até expurgar de dentro de si o tormento da terra. Como ficará o êxtase glorioso daquela sacerdotiza quando Deus Sentir o cheiro da oferenda que lhe fi zeram! - e os dois caíram na gargalhada novamente. 166

E a surpresa no rosto da meiga e piedosa estagiária com o furor dos Poderes Celest iais? Dessa vez as risadas terminariam em amargor, pois Déborah sabia que não teria coragem para pedir à menina que parasse de segui-la e perturbá-la com as suas interv enções solícitas. A primavera seguiu o seu curso. No decorrer das sessões com Furii, Déborah foi desce rrando um a um seus segredos, seus temores, e as senhas que davam passagem a seu s mundos. Entregava-os, porém, apenas para apressar o momento em que, finalmente, ela própria capitularia à grande e última decepção, tão inevitável quanto Jaganata ou a que perene de Anterrabae. A iminência da destruição dava-lhe calafrios. Ficava, às vezes hor as, dramatizando a sua destruição, fantasiando as mais diversas mortes, todas elas s ublimes. Furii botou as mãos na cabeça: - Deus nos acuda! Adolescência também!

Adams.Estou planejando partir dia vinte e seis de junho e voltar dia dezoito de sete mbro.perguntou. quando fizera a primeira confidencia importante. tão honrada de estar com meu pai.propôs avidamente . Sempre em desordem. era como se estivessem preparando a antiga roda de suplício. iriam quebrá-la em pedaços. sonhos. Era como se dissesse: "vou confiar a você uma das minhas recordações. Quero preveni-la desde já para que vá se acostuman do à idéia. por causa de uma conferência em Zu rique. a médica erguera-se.quando os segredos. ajude-me a distinguir qual a doença e qual a adolescência. .Hum. Lembrava-se de uma d as primeiras sessões. como se diz hoje. Ao se recuperar da segunda punição. É um tipo raro de madeira petrificada. no mundo dos adultos.Quanto tempo. não havia com o que se preocupar. não foi emocionante ou.Não costumo partir flores.Ágata? . Interrompeu as divagações com uma palmada nos joelhos. dias depois.Você gostou da viagem? . sobre a possi bilidade dela se sentir rejeitada. em seguida. Déb orah se sentiu mais uma vez "igual". o diab o! Agora.concordou Déborah. os sintomas e os fantasmas do passado c omeçam a aflorar . Furii falou sobre as qualificações do substituto. . uma verdadeira mulher em potencial. Esta delicadeza si gnificava mais do que uma pequena pausa para descontrair.Em s eus olhos reluzia a lembrança daqueles momentos felizes. a médica de Sylvia. Déborah havia empenhado todo o seu esforço de análise. . Furii lhe oferecia agora ura pedacinho de si mesma. mas eu me senti tão gen te-grande. Furii. Há mais uma coisa. fora até o vaso e partira uma flor de um lindo ramalhete de ciclamens.Lançou sobre Déborah um olhar penetrante e sorriu. apenas representaria o mundo nas batalhas de Déborah com seus censores.. a flor já estava murch a e seca. nos momentos de maior tensão. perguntou: . nem costumo dar presen tes. meu pai me levou numa viagem a Carlsbad. Depois vêm as minhas férias e. portanto. umâ 'curtição". se preparando para voltar à ala. vou participar de um simpósio que já f oi adiado várias vezes. mas dessa vez você mereceu. Providenciarei alguém para me substituir enquanto estiver fora.Craig. Aceite.Não. Pretendo tirar férias mais cedo esse verão. tinha a sensação de fato consumado. Tudo arranjadinho. .Certo! . Conversei uma noite com Fiorentini quan do estava de serviço na ala. 168 Nas sessões seguintes. tal como na Idade Média. i . .O trabalho toma-s e às vezes tão intenso . Quando me formei no que vocês ch mam de curso secundário. afinal? . onde. A pr imeira combateremos com todas as nossas forças. por favor. Freqüentemente duran te as sessões. Déborah olhou para a escrivaninha da doutôra. acompanhando o seu olhar. onde existem os 167 tipos mais estranhos de rochas e formações rochosas.Ah. Adolescente ou não. o melhor. só nós dois.E daí? . coletores e todas as forças de Yr.Conheço vários aqui . .E daí que isso não tem cura.. ele disse que recebeu meus . assim como você me tem confiado as suas". e a ofereceu a Débora h ao mesmo tempo em que dizia: .que a gente se esquece como pode parecer estéril e sem sentido es ta terapia antes do mundo adquirir uma dimensão real para o paciente. Faça o que lhe der na veneta: fantasias.Sabe o que é aquilo? . A segunda não é senão outra evidência indi scutível de que você é cem por cento uma integrante do mundo. Certo? . forçando-se a se expor (tankutu). enquanto F urii a solicitava com perguntas. ele comprou isso para mim como lembrança da viagem.. e a alertou para o fato de que o novo médico não se aprofundaria na análise. não é ágata. ou uma mensagem indire ta a incentivando a "tomar coragem". Ao terminar a sessão. espere. Déborah contudo. inclusive já assisti ela trabalhando e gostei muito. . não.De volta às minas de sal. Este gesto compensara as duas punições terríveis que recebeu de Yr por ter aceitado fl ores da terra. Havia um peso de papéis de forma indefinida. Tem também Halle. pousava ali os olhos para descansar a c abeça. . Era a primeira vez que Furii falava a respeito de si mesma.

Gosto da pronúncia.. . .resmungou Anterrabae desden hosamente. . prometi que me esforçari a o máximo possível com este.Deixo-a em boas mãos . aprontavam a roda.pais quando fui intemada.Entre .silêncio. e havia enfermeiras maravilhosas que iembravam muito McPherso n. comparada à loucura de svairada da D. não era nada amistoso. As sessões de terapia adquiriram um clima de urgência devido à partida iminente de Fur ii. . Sua aceitação seria um ato meramente f ormal. O homem.. Espero que passe um ótimo e prov eitoso verão.É mesmo? Esses maxilares.. Decidiu tomar a iniciativa ." . seu novo médico. Déborah esqueceu Furii como se ela j amais tivesse existido ou viesse a existir.O senhor é inglês.O que quer dizer isso? . . como se tivesse sido picado por c obra. . .convidou ele .Sei lá. página 97. é. quedou-se a observá-la. Furii não deixou nada comigo. mais parecia um túmulo: trancafiada ainda. doutôra Fried. . ele se manifestou: . Como as leis de Yr se entrelaçavam às do mundo..A tradução literal de uma palavra Yri. Royson para conversar. mas não "perturbada".E que pensamentos lhe ocorrem a respeito de odontologia? . pelo visto. lápis. . .. Confortavelmente instalado. Déborah se sentou. eram trabalhadas intensa e honestamente.Que pode ser mais dispendiosa do que a gente pensa. livros e privacidade.Deu um pulo na poltrona.Estão todos com as horas tomadas . embora as incursões introspectivas não fossem nem muito esclarecedoras nem muit o profundas.. Significa: Eu consentirei! SN HAÍM") 169 19 Lutando contra o tempo. . mas felizmente conheci a algumas meninas. .O mesmo tom. Déborah procurou resolver todos os problemas antes da part ida de Furii. .A doutôra.O pedido so ou como uma exigência.. Seus passos repercutiam no silêncio do corredor.O Dr. . "Prometi a ela que seria complacente. contundente. produzindo um eco lúgubre e oco. . . em terreno seguro.Déborah revirou a cabeça em busca de alg uma resposta.É .Meu terceiro trilho .disse Déborah. Conversamos bastante e eu confio nele.Lu brificavam as engrenagens. Qual foi? .. Lá pod eria dispor de papel..Conteve-se outra vez. .disse Furii.Você a chamou por um outro nome.sente-se . Requereu e obteve a transferência para a Ala B.. .Recostou-'se satifeito. Do mesmo modo que expurgara o amor e a memória de Carla. Royson ficará com você.Você conhece bem o administr ador da Ala B..perguntou ele num t om inexpressivo. Esfregou as .. Após um novo silêncio. um nome qualquer. quan do a amiga deixara pela primeira vez a Ala D. Encontrou-o empertigado na poltrona. pelo visto.No que é que você está pensando? .Em odontologia . só mastigam monossílabosf . e tem o Dr. suas novas companhe iras morriam de medo dela por ter sido uma paciente da D. . Em compensação. . . mas a única coisa que lhe ocorria dizer era: "Que maneira empertigad a de se sentar!". Di rigia-se à primeira entrevista com Royson. não? 170 -. . . Estava no livro. . . . num dos consultórios do andar térreo.Estou sem Novocaína. .assegurou Furii no último dia.Sou.Sua médica me falou muito a seu respeito. .respondeu Déborah.Quem? Quem levou? .Ah. Déborah estava convencida de que Furii partia para sempre. a linguagem secreta.

E o que quer dizer isso? . de que se ela pudesse formular claramente as coisas diante do mundo não seria doente mental. . . ne m estaria ali. cochichou Lactamaeon no seu ouvido. Déborah persistiu na sessão seguinte e na seguinte e na seguinte.Déborah se sentiu um trapo .Significa também partir? . .Quaru.. procurando levá-la a admitir que. . tcomou coragem. esquecendo-se. .Há inclusive um ditado (Decidira naquele instante fazer um último esforço para salva r a situação). Até no modo austero de se sentar.Por que então você não diz logo movimento das ondas? . no entanto. . e que. ela sabia que ele não tinha entendido nada.. e com o eco de sua voz dizendo ao s deuses: '"Mas eu prometi.O significado se atrofiou e morreu na tradução! Seguiu-se um longo silêncio entre os dois. . detalhada. . ele parecia desapr ová-la. Ela está morta. A tática era engenhosa. Retirar! ..A palavra é empre ada sempre que houver uma relação com o movimento das ondas.. . Ele procurava de todos os modos convencê-la de que o Yri era u ma linguagem elaborada por ela mesma.Trazida bruscamente à realidade.Que palavra? .Ora. há muitos anos atrás. No entanto. . .Entendo.Isso depende da pessoa ter ou não a intenção de voltar.. . . .Pode-se usá-la para descrever o modo como o vento sopra.Não. ou quando alguém parte. por exemplo. com rarís simas excessões. . quando reflui.Rapa cabelo? Tentou de novo: . e Déborah teve freqüentemente que concordar com ele. bem. maior tornava-se o silêncio que a envolvia. a austeridade do homem e a frieza lógica do seu raciocín io intimidaram-na. . talvez. "Significa. Fried contou-me que você tem uma linguagem secreta. e não uma dádiva enviada pelos deuses Esmiuçou a s primeiras palavras 172 citadas por Déborah para demonstrar que se compunham lfVrfraementos de latim. fran cês e alemão. brilhante por vezes.falou distraidamente. pode ser muito bonita. tão indesejável quanto fora a dos bisturis em seu c orpo. . Contudo. o prelúdio da Punição. Até que finalmente um dia. . . espraia sobre a areia o seu fugaz esplendor. Diz assim: com um machado não se rapa o cabelo.Quaru. ou. há uma outra palavra para isso. defrontouse com um rosto severo e desapr ovador encarando-a fixamente.O que significa? . reproduziam a estrutura do inglês.O quê? .A Dra. virou-se para ele e . quanto mais se aprofundava na questão. insistiu Déborah com o flamejante deus que despencava no espaço n egro.. . além do mais.perguntou ele. este arrazoado de provas era absoluta mente irrelevante. e que qualquer a de nove ou dez anos de idade poderia formulá-las se Crl jsesse Analisou a estrutura das sentenças. Mas prometi a ela.Déborah transpirava um suor gélido. .. Dsborah sentia ganas de dizer-lhe que todos aqueles argumentos repres entavam uma intrusão em sua mente. .Diga uma palavra dessa linguagem secreta .mãos de contentamento. às vezes. . .exclamou Anterrabae.. 171 . ou como tremulam os ves tidos longos.Muito interessante! .sê como o mar qu e. mas ela também encerra es sa conotação de mar que. . soou-lhe de uma forma inteiramente nova: Te quaru .e. o idioma no qual fora educada de sde pequena. mas as reações automátic as e inexpressivas do médico acabaram fazendo com que ela se fechasse num mutismo denso como a noite. o frescor da água ou aquele marulhar suave e açoitante. . utilizando a forma poética em Yri que. e envolve uma série de outras propriedades do mar como. Significa agir como agem as ondas.repetiu aturdida com a pergunta. a ondulação dos cabelos.insistiu a voz que vinha de fora. desalentada como estava.Não se faz cirurgia com uma picareta. . significa o movimento das ondas.

ao mesmo tempo rainha e vítima dessa beleza. Seria preciso um incêndio para aplacá-lo? 174 Enquanto isso. de qualquer significado. se era ou não de substância humana. Até Yr se tomara distante e in acessível. a si mesma . . Se o dia estava lindo ou se aquel a imagem que se movia pertencia realmente a um ser vivo. .' seria lhe opor um aceir o. uma enfermeira entrou no quarto e ia dizer-lhe algo quando estaco u de súbito. Tomara-se irredutível a defasagem entre o universo exterior. apareceu o médico. rígida e muda diante dele.. Isso se aplica também às rochas? com a minha ajuda. ódios. com grande alívio.dois vestidos que são o mesmo ves tido. por causa das cascavéis-muito comu ns naquela época seca e quente do ano . cujo chocalhar ameaçador não lhe saía da cabeça durante as sessões. Objetos e pessoas haviam se transformado num todo indistinto e remoto. O vul cão. Apelidou o novo médico "Dente-de-Cobra". e cujas aberturas estavam todas vedadas e embarricadas. Anterrabae em sua queda etema.O que é que você quer dizer com aceiro? . A deusa. a Dissimuladora. despr ovidos. e o que luta não se rende? Minha e strada contém todas as oposições ao mesmo tempo e. Halle. teus véus. em geral.respondeu Idat .disse Idat. Déborah compreendeu que a única forma de abrandar o vulcão que a queimava por dentro.Onde? . e o seu universo interio r. . ardeu mais ainda sob o rosto e o corpo petrificados. Por meio desse mesmo recurso. pouco a pouco. . vagarosa e deliberadamente. provaria enfim. Idat trazia um véu sobre o rosto. doutor. onde reluzia o sol quente de verão. Furii estava morta. e foi pressionando. Quero te dizer que os homens respondem ao fogo com o fogo. toda de branco. começou a se rmar um vulcão onde fervilhava um magma atordoante de "s e contravozes. com cinco dessas guimbas em brasa.. Olha! A morte não é. em pouco tempo. Acompanhava. Estava claro o que Yr sugeria: nisso os seus sentidos não a enganavam. um a um. mas essas ocasiões eram bastante raras e exi giam uma grande quantidade de tributos cerimoniais. rasgando ventos ferventes. Idat! Por que jlutuas de branco? Branco de noiva e de mortalha . a consumação máxima da vida? E a vida nãoé por acaso.O seu último grito soou em vão. começou a queimar meticulosamente a pele. por vezes . Havia fósf oros em abundância na Ala B e. Passava os dias prostrada e inerte sobre a cama. Nem bem ela saíra. Acendeu outros ciga rros. cujo sol era um ponto cinza equilibrando-se num imenso vazio. em alto e bom tom: . eram dados tão irrelevant es que não valia a pena questionar. um fogo que por si me smo inflama enquanto debela o primeiro. Idat . percebendo o cheiro de carne queimada. recolhera um suprimento razoável de fós foros e de guimbas. Sentiu uma leve tontura e um cheiro nauseante de queimado. . Sofra. deu meia-volta e retirou-se ap ressada.perguntava naquele instante o médico. os Desfiladeiros do Pesar. Idat. de encontro à parte mais sensível da articulação do braço e do antebraço. Seus sentidos nada informavam: via unicamente manchas cinzentas e disformes. os mesmos meios! Conheço tuas aparências. desejos e longos calafrios de terror. a fisionomia familiar do Dr. a morte lenta e gradual? O que se rende não luta. sob a máscara inexpressiva de seu rosto. apareceu a ela sob a forma 173 de mulher. Déborah se fechou num mutismo impenetrável. com L actamaeon. Ficava sentada. um fogo de encontro. para fins opostos. m dia. ou sobrevoava. as percepções táteis não eram menos imprecisa s.. Nada mais lhe restava. Sempre que assumia essa forma. . ergueu ligeiramente o véu. os meus sintomas não são a minha doença ! . por acaso. O vulcão não cedeu.disse. porém. e com o passar do tempo acabou renunciando também aos mov imentos.Por favor. Era um a mulher belíssima.Parece necessário.retrucou Déborah.. Déborah conseguiu divisar através da máscar a. Aceitava-os. e ouvia apenas grunhidos e rosnares surdos. e a sua presença infu ndia em Déborah a esperança de que pudesse algum dia vir a ser simplesmente feia.

Deci diu. Furii te deu uma recordação.Seja lá para onde for. uma pesso a aberta. Procurou alguma verdade com que pudesse retribuir os desvelos do médico. . lembra? . acho que não.Acho que vou ter que levar você de volta para a D..A visão não é tudo! .Não se preocupe .Cale a boca! Assim não consigo ouvir meus pensamentos! . . a visão se toma irrelevante. . 175 . E se fala sse sobre a visão? Diria assim.disse ele num tom amável . permanecia a postos com uma bandeja cheia de instrumentos cirúrgicos. o toque de mágica que transforma um amontoado de planos numa caixa. n uma madona. . A manga da blusa tinha grudado à pele queimada. Ele a conduziu de volta à D. o que era outra de suas virtudes. mesmo quando a gente distingue cada linha. Déborah a arrancou de um só puxão. Porque não ofereces uma jlor a ele. Quando o Dr. . falar sobre o significado e a terceira dimensão.comentou o Dr. Acab ei de assumir a administração da ala. mas nenhuma dor.Mostre-me .disse Lactamaeon. . uma voz sussurou em Yr: Olha para ele.disse ela afável . .Pobre homem! .Vamos ter que limpar e vai doer. não. . Ela fez com as mãos o gesto Yri de aquiescência. objetou Anterrabae. Nada possuo de palpável. Está vendo? Sente-se mais seguro agora . . Ficou tão comovida com a preocupação que ele demonstrava e com o tempo que estava perdendo.. sussurrou Lactamacon.respondeu Déborah. Halle segurando um vidro de antisséptico.Por isso mesmo é que estou usando esse desinfetante . . Deixou escapar um vago comentário. plano e cor de um objeto. Oh. q ue decidiu lhe dar um presente. .. antes que ele terminasse de gritar "não!". Um estagiário.falava com cuidado para não lhe parecer crítico.ironizou o Coletor. . Lembrou-se de Furii e da flor que dela recebera. Depois de examinar as queimaduras. geralmente não consigo ver as coisas direito. Assim que transpuseram as portas duplas que davam acesso à ala.Estou procurando ser o mais delicado possível . Mas ela está morta. fazendo cara de repugnância e estendendo a mão n um gesto instintivo ("parece até que a minha carne é de verdade". Já sei! vou dizer a ele que pode me tocar quanto quiser que não vai morrer. Déborah sentiu tonteiras.retrucou o médico.o tempo de contato é tão curto que não há possibilid des de infecção. o médico virou-se para Déborah e declarou com ar penalizado: . examinando as queim aduras.quando fico perturbada. . .. .disse ele. Halle começou a limp ar e friccionar as queimaduras. ou num Dr.Você fez uma sujeira dos diabos aqui .Na superfície. ." .você será uma das minhas pacientes lá. se não houver algum significado. Déborah lhe agradeceu a idéia com a saudação Yri: Que o calor e a clareza de espírito te a companhem. . Déborah sondou-o com um olhar de desconfiança enquanto pensava no íntimo: "O que é que e le quer dizer com isso? Estaria exigindo a gratidão? Não. Halle. Talvez até a famosa terceira dimensão seja apenas uma questão de significado. não diga? Que interessante! . Déborah percebeu que ele não tinha compreendido.. pensou ela). sentia-se muito mais segura com Halle. com quem se podia falar e que jamais recorreria a expedientes tais com o o "sorriso número três". jogando f ora o algodão e apanhando 176 gaze para enfaixar as feridas. . .Concordou distraído.Bem. . De repente ele paro u e olhou para ela intrigado. terminando o curativo. Persistissem ou não as trevas.Déborah não esperava por uma pergunta tão franca e incisiva. .Você tem algum problema nos olhos? . satisfeito de voltar àquele trabalho mais "médico".gritou Déborah.Não. sem fazer estardalhaços ou recri minações. então. Curioso é que parece s er imune aos efeitos venenosos de meu nganon. inclinando-as ligeiramente para cim a.Não se preocupe . é com o se fossemos cegos. .

Lembrou-se. como você briga! . até já.. porém. gravidade e o testemunho de seus cin co sentidos. e sua inexperiência deixou Déborah estranhamente comovida. . Quando voltou a si. . Déborah. não excessivos de uma não consigo entender .Ah. Quando voltou enfim ao seu velho dormitório . nunca imaginei que você tivesse o bicho no c orpo. .Oi. e soavam extremamente falsas.Eu não bati em ninguém. .Ah.Não.Eu não o conheço.Chiii.É que eu estou de serviço hoje.vou deixá-la então mais uma meia hora. . As relações de causa e efeito se diluí am na tempestade. um pouco aborrecida com o comentário. . abateue violentamente. Perdeu toda a noção de equilíbrio (não sabia se estava de cabeça para baixo ou para cima).Ah. uns três ou quatro dias. habitualmente cinzenta. os gestos atriz de comédia barata.protestou Déborah. já era dia. Ele riu. suportou o castigo. o. . Novamente aquele tom jocoso. Deitou-se na cama e ficou observando as somb ras do crepúsculo invadirem o quarto. dirigidas a Yr. a Punição. que talento! 178 Mary soltou uma gargalhada estridente. agora. fica va entre Mary Fiorentini e Sylvia. embaralharam-se num grande caos.É. lá isso você deu. meu Deus! . os raios de luz feriam como dardos. se adensando pouco a pouco à medida que a noit e caía. virou para Déborah e comentou num tom festivo: . você é louca. tá? Não se preocupe com essa dor. porque . . como a mão de um carrasco.Não sei. tempo. Você já pode sair do casulo? Está se sentido em condições? .Oi. a Esposa do Abdicado fora deslocada duas camas adiante.O que eu acabou a punição.. As noções de luz.Ficou algum tempo lutando com a chave na fechadura. ..suspirou Déborah . . . sabia o que fazia. . Suas palavras. Deve ser por causa da tensão. estava dentro de um casulo e tinha ao seu lado um médico q ue não conhecia. .deramlhe uma cama que já fora sua .. .Como está se sentindo? . . se tingiu de um rubro impenetrável.. O calor congelava. que estava deitada na cama vizinha. Puxa.Devo ter demolido tudo.re inava uma atmosfera carregada de angústia. de que ele não saberia exatamente quando eclodira a crise.Menina.O quê? . Sou novo aqui. Decepcionada e envergonhada consigo mesma.é como escapei. que. mas um súbito torcicolo e um acesso de tosse obrigaram-na a voltar-se de novo para ele. . os braços e os ombros estavam doloridos. estava fora de si. Déborah fez menção de virar o rosto para o outro lado.Há quanto tempo estou aqui? . Sem nenhuma advertência prévia. Inteiramente à margem do tempo. . Como é que você está aqui? .. .Eu bati em alguém? Machuquei alguém? . Numa das contínuas idas e vindas de pacie ntes. A pesar do que dissera o "novo" médico.gemeu apavorada. espaço. . ...Mas que você deu umas boas cabeçadas nas portas e ja nelas. Halle. 177 "1 Ficou apavorada ao notar que as mãos. mas que talento! Definitivamente. até os limites da exaustão. Dei uma chegadinha para ver se você estava bem. As zombarias do Coletor foram-se avolumando até se transformare m numa zoeira infemal. continuava tão muda e ausente c omo antes. tinha sérias dúvidas. . Déborah olhou para ele horr orizada. de localização e de distância. Quando foi. Passado algum tempo.Não é por isso que eu vim. . por sinal.Sorriu complacente. . Suas gargalhadas pareciam vidro estilhaçand mas claro.Não sei. voltando-se espantado. e sua visão. . . haviam transposto as barreiras e caído nos ouvidos do mundo. . A punição deixara-a exausta. bom. Mary.perguntou o Dr. Aqui só chamam o méd ico quando alguém se mata.. .

. Acenderam as luzes. dissera. com um 179 sorriso de Walt Premida usca de 180 irônico e aquela jovialidade forçada.disse meio sem graça. acho que poderá voltar à Ala B muito em breve.perguntou a si mesma. .Quer dizer que há um limite para a coisa? . simplesmente obsceno! . Sylvia (com o seu imobilismo m ortal) deram provas disso. a rigor. das paredes e dos corpos inertes.não pode durar mais do que vocês são capazes de agüentar. .Não era para menos . . Déborah compreendeu que Mary. por um impulso incontrolável. característica das noites de verão. casos como você deviam saber que o inferno (foi sacudida por u m novo acesso de riso) .a gente treme.. só mudava o local das quei maduras quando começavam a infeccionar e supurar. . já que você melhorou tanto. Ouvindo isso. respondera: "Eu sou o manicômio na versão Disney". e logo a pressão passava a ser insuportável de novo. Con statou. No final da semana.Tenho mais algumas queimaduras. emb ora. existia de fato um limite. e depois acaba! . por mais agoniada e irritante que fosse.soltou uma ris adinha irônica e. merg ulhando o dormitório na escuridão. o tal médico novo reapareceu na ala. que estava apavorada. "logo ali"..Tive um trabalho dos diabo s para mantê-la assim! .retrucou ela num tom meio ácido. sem saber bem porque.Ora. se empenhassem toda a sua coragem e energia. Num estalo. As feridas supuravam e fediam. . furiosa ainda com aquela idéia dele permitir que se queimasse até a morte na B. que respiravam ao seu redor tomaram aquela incandescência d esmaiada. Continuou a queimar os mesmos lugares. . Divertia-se com a falta de atenção d as enfermeiras e auxiliares. estivessem sujeitos às mais severas restrições. porém. treme. mas logo se recompôs. mais seria obsceno.Fico satisfeito por você me ter dito isso . e agora Mary lhe oferecia um pouco de sabedoria. Talvez até mesmo no Inferno houvesse misericórdia. concluiu com seus botões. lembrando-se do primeiro encontro com Mary.. Mary. Se o homem lhe o ferecia de mão beijada essa oportunidade de morrer. 20 Déborah passou a depender cada vez mais dos aceiros para amainar a pressão insuportáve l do vulcão. Déborah se ocupou em refletir no que ela dissera.declarou como quem não quer nada. Déborah saiu da cama e foi rastrear a ala em b combustível para mais um aceiro. acrescentando camadas de queim aduras umas sobre as outras.Bem. eram capazes de se ajudar umas às outras. É como a dor física . pois o alívio trazido pelas queimaduras não durava mais que uma h ora.Você está com uma cara muito melhor hoje .Bem. Guimbas de cigarro e fósforos eram fáceis de obter. Helene. A intensidade de seu des ejo. Déborah riu. Déborah começou a tirar o suéter. Precisava dispor de um supr imento considerável. e os contornos amortecidos das camas. detendo-se junto a Déborah na s ala de estar. Su a visão já era um pouco mais nítida. superava todas as precauções que vigoram na D. estendera-lhe a mão num gesto dissimulado e fratemal: sim. por que estava ressentida com ele? . porque é que estou me sal181 vando? . e como era im portante saber disso! Até mesmo as pessoas venenosas. O médico olhou para ela chocado. Fora engraçadíssimo: "Sou Débor ah". torcendo-o como se torce roupa lavada. Por alguns dias conseguiu manter as feridas em segredo. francamente. voltou às suas gargalhadas irritantes. "É porque eles realmente não querem olhar para nós". Se quero morr er. mesmo assim ninguém re parava. lembrou que lá os regulamentos eram muito menos rígidos e havia fósforos em abundância: seria a oportunidade ideal para executar a morte que almejava. apontando em seguida para a sua cama. Carla. no entanto.comentou. Teria razão? Haveria pelo menos fr onteiras naquele pesadelo sem leis? Os últimos vestígios do dia se extinguiram. minha querida.

.Tinha que contar a ele. sentou-se junto à cama e balançou a cabeça com um ar de espan to.disse Lee Miller sarcasticamente. mas não era impossível.Não é a primeira vez que você vê. para a sua surpresa.Como estão as velhas feridas? . Deixe-me ver as novas queimaduras. contendo a agressividade. . essas coisas horrív . estavam todos à solta. Pouco depois. acordou e. o Co letor. . que se tcom ou assim uma ilha de modemidade cercada de pré-história. como tantos outros.O que aconteceu? Você estava indo tão bem q uando viajei. ao cruzar com Déborah . .repetiu Furii baixinho. varreram a ala de cima a baixo com severas reformas. o vulcão explodiria e entraria em erupção. voltou para cá. por mais que Déborah opusesse o fogo ao vulcão. e isso graças à fal a de cuidado do Homem Moderno que acendia os seus curiosos cilindros.Você andou mexendo aqui.. Raiva de si mesma.A enfermeira trouxe uma cadeira para ela. Déborah estava convicta de que. guria! . na realidade . . o Censor.Muito obrigada. O garfo. org ulho. Quando os legisladores da D descobriram que seus pacientes não estavam tão a salvo c omo imaginavam. sem dúvida. ...Olhou ao redor de novo. Logo atrás dela. afinal.Deus do Céu! . recomeçando as zombadas de se mpre. bamboleando e resmungando son s inarticulados. Mesmo ali a lógica das decisões em Yr parecia ter sid o suprimida e as leis. continuavam inalterados. . numa selvager ia descontrolada e inexplicável. àquela sua expressão de desgosto.Divertiu-se bastante? . com toda nitidez. Furii passe ou os olhos pelo quarto.Você voltou... por alguma razão mágica. . um pouco acusador. ao seu lado. um ser primitivo espreitava. o cigarro aceso que esqueceu na sala de estar bastou para mais uma série de queimaduras. mil sensações conflitantes dilaceravam-na interiormente.perguntou. Um dia. não é covarde? rosnou o Coletor.. A Grande e Última Dec epção.Deus do Céu! . . ávido por fogo. sem saber que. os seus tr ajes graníticos. punindo a torto e a direito.murmurou Déborah. Restringiram o uso do fogo aos limites da enfermaria. Tudo o mais retroscedeu ao pleistoceno: Pitecântropos Erectus vagueavam a esmo.Puxa! Quantas vezes você queimou isso? . . vinha Furii.retrucou Déborah. foi suprimido. cujo universo cinze nto e difuso só admitia uma excessão: o cigarro focalizado. Terminados os curativos. sem muita convicção. A Idade do Metal cedeu lugar à Ida de da Madeira. viva e inteira. No entanto. vergonha.Não. justamente por não ter mudado nada. de escapar ao olhar dela. Déborah sentia vonta de de sumir. v . o qual figurav a como o pior entre os seus Inimigos. . cheiro e dimensões. Não se deu ao trabalho de responder pois ele viu com seus próprios olhos. . descobriu que estava no casulo. 182 Tornou-se difícil conseguir fósforos e guimbas.Vá para o inferno! .. inteiramente subvertidas. com um aspecto inacreditavelment e diferente. . medo. ele se afastou. E os Deuses. desespero. cor. Numa outra ocasião. mas nada d isso deixou transparecer na sua fisionomia pétrea. .Umas oito. e agora. . Contudo. já há algum tempo. a repreender as enf ermeiras pela falta de cuidado em deixar materiais inflamáveis e perigosos na ala. . formas terrenas que. dirigindo-se à região iluminada onde o Homem Moderno fornecia às pacientes seus símbol os de status: cigarro e fósforo. não passavam de minúcias gramaticais. ainda estava por vir. De todas as sensações. a que mais a assustava era a alegria 183 de rever Furii. uma chave rangeu n a porta e entrou uma enfermeira. a Esposa do Abdicado a acusou de ser espiã a soldo do Secretário do Interior.Déborah estendeu o outro braço. a superfície dele. piedade.perguntou o médico soltando as bandagens do curati vo. disposto. A sua rotina de vida adquirira.Vamos tentar um curativo diferente. . . não foi? . qu e fora introduzido um ano antes. m ais cedo ou mais tarde. comendo com os dedos e urinando no chão.Muito obrigada. As que imaduras recusavam-se teimosamente a cicatrizar. como dizia Anterrabae.

Sim. Queria poder fugir para o Poço.protestou Déborah. .Não consigo nem a rrancá-las de dentro. Esta ta mbém será a medida da sua capacidade de sentir amor. era tão "Prudente" como uma louca de boa família. parodiando a si m esmos. Daria no mesmo se ele dissesse.. e até mesmo a timidez da velha. com suas gargalhad as estridentes. . exasperada. exalava um cheiro insuportável de magnolias. as palavras..Quem sabe quando eu sair . Por que está tão chocada? . Continuou. no entanto. uma comédia fina e elegante de Oscar Wilde. Em pouco tempo Lee. mas você estava morta. e ele só queria provar que tinha razão e que era mais esperto do que eu. queima. e mentira com o mais íntimo de mim mesma. está bem? . Déborah. . percebendo satisfeitas que os auxiliares riam com elas e não só delas. como era antes de vir para cá. a resistir: . com Royson. He len e Mary Fiorentini participavam também da leitura. o modo comedido e esmerado de falar. Coral. não é a primeira vez. e me odeio por causa disso. duas. Quero l he dizer só uma coisa: avalie bem o ódio e a vergonha que está sentindo agora.Tentei com Royson. 185 . cobe rta de vergonha e degradação. A peça. mas Furii estava de volta e agora não ha via mais esconderijos. mas vi que o que ele queria era 184 provar que estava certo. fechar-se em trevas e no nada. Decidiram começar a ler "A Importância de ser Prudente".Não sabia que ia volta r. queima lá por dentro. Os atores. Se fosse ela quem estivesse oferecendo o livro.Pois então deixe que elas saiam por si mesmas.. São peças de teatro. . Déborah faria a maior parte dos papéis masculinos e a velha. . Começou a se contorcer de angústia. o mundo só me dá mentiras. pelo menos era o que eu pensava. e acho que talvez tenha se deixado cair nesse estado tão lastimável. só para me dizer como está furiosa por eu ter ido embora e abandonado você. . .Disse foi? . . Lembre i-me de que talvez pudéssemos lê-las juntas. f azendo o papel de Sybil.. Lamento apenas encontrá-la aqui e sofrendo tanto.perguntou a Srta. . mofo e teias de aranha. . e a Srta.Estou toda bloqueada e fechada.. tentei uma. e depois começar am outra. inúmeras vezes. dos femininos.eis.Scomos ambas suficientemente fortes! Respirou fundo. o que é que você acha? Relanceou os olhos para Helene. mas os sons pareceram-lhe tão ridículos e feios que parou imediatamente. enquanto a superfície nem sequer sabe se ele está vivo ou morto! A doutôra puxou a cadeira mais para perto. pressionou com força a cabeça de encontro à cama. provavelmente tê-lo-ia chutado junto com al gum insulto. Odeio minha vida e minha morte.. de Yr do soldado ini migo. Déborah fechou os olhos. Coral.Olhe disse ela timidamente . vou ser destruída. . Em troca das minhas verdades.você consiga aprender a chorar.disse suavemen te . embora estivesse exausta. acabaram transformando a peça numa grande balbúrdia. Odeio a mim e a todos os i mpostores. três. Àquela mesma noite. Leram-na inteirinha. sem querer.. só que o vulcão queima. Esqueci que você voltaria. A n oite foi divertidíssima. Maldita! Maldita que sou! Tentou chorar e vieram baixinho uns soluços roucos uma respiração ofegante e áspera.Sou venenosa e me odeio por causa disso.Foi.Qual delas você prefere? . Déborah notou que reproduzia. Coral se acercou de Déborah com um livro na mão: .. .disse Furii . Mary. se transformou num p esadelo digno das telas de Hieronymus Bosch.em que tudo o que você disser é da maior importância. .Isso não é verdade! ."Vamos.a minha médica deixou isso comigo. Sentiu-se profundamente envergonhada.. . Amanhã nos ver emos. que estava sentada de encontro à parede.Levantou-se e saiu. aca be com essas besteiras!" Escutei isso durante anos e anos quando eu os decepcion ava com a superfície. Haveria duas pessoas no Mundo que falassem a mesma língua? Ao responder. a Srta. juízo menina. . alegria e compaixão..Você é suficientemente forte? .Eu disse que voltaria hoje. tentei realmente.Este é um dos momentos .

.. prejudicando-a ao invés de ajudá-la. mas gostaria que nunca mencionasse isso para sua filha..As feridas? . e o que está pór detrás dela não é tão mal". . . informara-se dos fatos. To mara-se uma mulher forte. . Afinal de contas. Di ga isso ao pessoal em casa. A velha e maldita palavra "louca". sou forçada a rejeitar muitos. preveniram-na de que não seri a aconselhável vê-la. e. que se dissesse qualquer coisa que soasse como apaz iguadora. Passado o prineiro choque.. um pedaço de carvão! Esther lera o relatório.Tenho certeza de que ela pode se tornar uma pessoa mentalmente saudável e forte. à intenção. onde só faz piorar. Fried compreendeu que Esther conseguira superar a sujeição para com o pai. Partira imediatamente para ver Déborah. uma vez no seu consultório.Pois é. Conduziu. 186 . Foi atendê-lo e.Nunca me permiti empregar essa palavra para Debby! "Rompeu-se a fachada de Débor ah.. nada disso . um. incrédula ainda. cuja gravidade nenhuma palavra poderia modifi car ou suavizar.Esther tapou a boca com a mão. .Não. Refiro-me à idéia. O que podia fazer para que a mãe entendesse isso? Seria. é isso que a faz sofrer tanto. . redigido como sempre em termos cuidadosamente vagos. não. pensou de si para si a Dra. que sempre esteve associada à idéia de uma pessoa "conde nada para sempre". que eu tome a meu encargo o tratamento de uma paciente.E o que é que vou dizer ao pai dela? Qual a mentira que devo contar dessa vez pa ra que possa mantê-la aqui. Pedem-me. furiosa. Fried.Acho que sim. Enquanto estivesse convicta da importância des . indubitavelmente. que ainda há uma chance de Déborah vir a ser. encarou a Doutôra Fried.como se uma carreira mágica se tivesse aberto em meio à danação que pesava sobre todas e las.. O importante era que a conversa a tivesse fortalecido. pois assim a família sairia fortalecida também e per mitiria que Déborah ficasse. trata-se de um sintoma da doença. A determinação que lhe permit ira conquistar todos os inimigos de Déborah. vou lhe confessar uma coisa. soaram longas e monótonas: Acho que talvez estejamos todos nos deixando impressionar demais com esse negócio das queimaduras. então. deixaria Esther em pânico. Saíra de lá apavorada. O telefone tocou. Halle e. . um pequeno consolo.Mas isso é tão. por experiência. ofegando. a cada sessão. pode ria ser a determinação salvadora agora. As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. .Não vi as feridas. ela pigarreou. .. turvadas pelo medo que sentia. Blau. piorar e ficar cada vez mais violent a? As palavras da doutôra. . tão repulsivo! .A senhora julga. Sabia. ao invés de tranqüilizar. mas dessa vez alguma coisa no seu tom pusera-a de sobreaviso. então. A senhora não precisa inventar mentiras.Será que entendi bem? . a mãe de Déborah até a porta do consultório onde se despediram. Fried. pelo menos umas quatro vezes por semana. Es perava tê-la tranqüilizado um pouco. a verdade é p lenamente suportável. que nós sabemos que existe e que continua respondendo ao tratamento. ao voltar.Por quê? Por quê? . mas todo peso de sua vivência e treinamento indispunha-se contra esse procedi mento. ao chegar. . segura e até mesmo dominadora.Será que vocês não podem descobrir antes dela virar. em seguida.interveio a doutôra. Seria um grande desperdício dedicar meu tempo a um caso s em esperanças. encontrou Esther já recomposta. ' . mas antes. muda e atônita. Sra.. normal? . Como pode alguém fazer isso consigo mes Uma pessoa assim deveria estar num. desesperada e fora direto procurar a Dra. estamos tentando justamente descobrir por queè. Pedira. Palavras fáceis de consolo poderiam servir em out ros ramos da medicina (quantas vezes os médicos não receitam uma agüinha com açúcar e pron to). Só conservo uma paciente quando tenho certeza de que posso ajudá-la. . A Dra. uma entrevista com o Dr. Tenho ainda que supervisionar a anális e dos médicos que estão se formando pela Escola de Psiquiatria. Esther Blau. . ..É a palavra que a assusta tanto. cheia de maus presságios e.

sa terapia para a filha. tudo para Helene. e compreendeu que. tomara-se objeto de grande interesse médico. O incidente. eu tenho que ir. os lençóis úmidos. por trás da qual se ocultava a Ala D. Sylvia recebeu os golpes sem soltar um ai. Helene avançou para ela e desferiu-lhe. Caso isso se confirmasse. Quanto às fumantes. Tal qual Sylvia agora.pensava com os seus botões. cuspia. como de hábito. Desafiada nos seus brios. distribuídas aqui e ali. o rosto r ubro de cólera. viria a ser uma fonte de esperanças raramente estuda da nas publicações psiquiátricas. talvez porque estivesse além dos domínios da "ciência" e a previsão. "Naquela noite tenebrosa. tudo. Sylvia poder ia destruí-la apenas com o silêncio. De repente. Parecia uma fera arremetendo selvag emente de encontro a uma pedra. pôs-se a observar os "Ornamentos Viventes" (termo que encontrou para designar as pacie ntes): pareciam estátuas. consumiu todo o desejo de . os cabelos 188 desgrenhados. parada a uns dez passos de Sylvia. trabalhavam conscienciosa e diligentemente com ungüentos. bandag ens e esparadrapos. mal contendo o choro. exceto pelo olhar assombrado. Por causa del as. poções. enfrentaria toda a família se preciso. gritava. com toda força. um murro e. as feridas se recusavam a cicatri zar. tocar-lhe no ombro e dizer qualquer coisa. As estagiárias. totalm ente inexpressivas e imóveis. "Eu devia ir porque isso já aconteceu comigo e eu sei melhor do que ninguém o que a gente sente. Sentira-se degradada demais para defender-se. Os pés. O medo. no alto"3(c) prédio. que costumava tagarelar. Forçara alguns a se questionarem e a crescerem um pou co. Lembrou-se do episódio ocorrido dois anos antes. outro. permanecera lá fincada no chão como uma estátua. logo em seguida .. Enquanto as enfermeiras trabalhavam. inerte como sempre. Tudo convergira para ela . encantadas com uma oportunidade excelente de exercerem seus c onhecimentos. umas sentadas. a mais feia de todas as pa cientes. para garantir o se u prosseguimento. Vamos! Mexa-se!" . as enfermeiras deixaram o s aguão por um momento." Tentou mais uma vez livrar-se de suas ves tes de granito e sapatos de pedra. "Do lado de fora das portas do estudo dissera-lhe uma vez seu pai . terminou. e até mesmo Lee. a baba qu e escorria de sua boca.médicos. viu seu rosto pálido como cera. A doença de Déborah não tinha só balançado 187 os retratos no álbum de família. He lene explodiu num acesso de fúria incontrolável. Déborah. outras de pé. num instante. contraído numa careta enrijecida. Pelo canto do olho. ava quase. e as mãos pendiam frouxas de cada lado. não andavam. Não demonstrava o menor interesse pela surra. como se estivessem o t empo todo surpresas de que o sangue pudesse fluir de forma tão natural e o coração pul sar independente de suas vontades e emoções.um anjo aguarda.. fora incapaz de se defender e precisava de cuidados tanto quanto Helene. sentada no chão.. ela quebrou o silêncio e veio em meu socorro . no entanto. Ao terminarem o curativo das obstinadas queimaduras. sentia como se as duas estivessem a sós no planeta. auxiliar es. enfermeiras. Sentiu que deveria aproximar-se dela. toldados de lágrimas. continuavam furiosas com Déborah. Olhou para Sylvia. Só a respiração lhe traíra: resfolegava." Ao sair da casa onde estava situado o consultório da doutôra . rápido e inesperado. Déborah. observava fazerem curativos nas queimaduras. Esmurrava. se fosse solidarizar-se. pareciam colados ao chão. Déborah percebeu os olhares belicosos que Helene dirigia a Sylvia. Deixaram-na sozinha e humilha da na sala. Seu corpo parecia estar totalmente entregue às forças da gravi dade e da inércia. com a intervenção dos seis auxiliares necessários para subjugar Helene e arrastá-la para o casulo. que estava ao seu lado. a responsáve l pelos novos regulamentos. quando Helene a ataca ra para destruir o rosto que havia testemunhado sua fragilidade e livrarse daque le testemunho aterrador.Esther ergueu os olhos para a sacada recoberta de sólidas grades. evitava fala r-lhe e lançava-lhe olhares desdenhosos.. agora é minha vez. mas continuou imóvel. arranhava. A única reação de Sylvia era fechar os olhos vagarosamente: suas mãos cont inuaram caídas e moles. Entendia perfeitamente o drama de Sylvia.era um dia refrescant e de outono . a reclusão. Como seria lá? O que se passa ria nas mentes das pessoas que estavam enclausuradas ali? Baixou rapidamente os olhos.

A atmosfera que a cercava contin uava fria e sombria. Pquco depois. os auxiliares que subjugaram Helene começaram a retomar da ba talha e a oportunidade perdeu-se de vez. . eu o apanho rapidamente e fujo. que durante muito tempo ficou ali paralisada. embora. você é que está se aproveitando d os sintomas delas. Déborah se levantou para sair. Saberia Furii como foram tentadores aqueles minutos de espera? Logo que a sessão terminou.declarou taxativamente.Você acha mesmo que as queimaduras são tão sérias assim? . .Não lhe faltará desafios morais e decisões difíceis para tomar no mundo e. A verdadeira agonia não era o fogo nem as queimaduras.Não. Prometo não roubar guimbas acesa s das pacientes a não ser quando estiverem no cinzeiro ou esquecidas em algum luga . contou a Furii tudo o que vira e o que deixara de fazer. devemos trabal har duro para descobrirmos quais são as raízes das queimaduras que você faz em você mesm a por uma revolta contra mim e o hospital. você pode me expulsar porque eu tenho um a culpa que não admite perdão.Não sei explicar por que. com você.Sylvia fuma de vez em quando.Algumas vezes acho que nosso vocabulário profissional vai longe demais. Quando solta o cigarro em al gum lugar.disse Déborah baixinho. basta que ninguém me surpreenda. ao exterior. e trabalhar para que chegue o dia em que você seja capaz de fazer o que acha que deve fazer. . pelo menos não vou implicá-la nas minhas queimaduras. já que você as considera um problema sério.Não se deve permitir que isso aconteça. o seu gesto continuaria tão dece pcionante quanto as sossegadas encostas do vulcão. e eu faço o mesmo com seus cigarros. . e é bastante distraída. hesitou alguns segundos e disse: . e não apenas a nós mesmos e a deuses cadentes. Furii compreende u e riu também. por favor. As duas Marys fumam como loucas. . cega a tudo o que se passava a seu redor. como eu disse antes. mas os seus reflexos dourados e o calor que espalhava. A luz do sol derra mava-se das janelas. e sim esse eterno alheamento em relação às coisas.O que é que você quer dizer com isso? .continuarei fazendo as penitências.São seríssimas! . .Você está enganada . não estão? . O medo cedeu lugar à vergonha.disse Déborah. na realidade. cuja linguagem e os jargões não tinham nem a beleza nem a poesia do Yri. 189 Ao chegar ao consultório. de morrer. Elas estão contribui ndo para a minha delinqüência. não estou ouvindo. Agora. 190 . . Déborah discordou das razões e da seriedade que Furii atribuía às queimaduras.agir.Fale mais alto.declarou Déborah.perguntou.Vigiada ou não . e ac endendo um cigarro. O que nos cabe fazer é louvar essa força que lhe permitiu ver isso. . Nunea lhe disse que eu era humana. torcendo para que ela se lembrasse do que afirmara freqüentemente a respeito de o paciente confiar em suas próprias convi cções íntimas. mas afin al de contas temos que falar uns com os outros.Não estou aqui para desculpá-la . Se não fiz o que devia ter feito depois de Helena agredi-la. eram percebidos por ela a uma distância muito remota. não será nenhum jardim de rosas. uma vergon ha tão grande. erguendo os olhos para ela. que vivia na maior desordem.retrucou Furii. . com uma vontade enorme de sumir. . Passeou os olhos pelo consultório. . . mas mesmo assim não pareciam justificar o estardalhaço que se fazia em tcomo delas.Desatenção seletiva! . Enquanto concedessem a elas o sentido de uma aberração terrível. mas acho que você está enganada. Havia cerca de quarenta queimaduras.vou pôr a corda no meu próprio pescoço agora. Por que Furii deixara fósforos e cigarros na sala de espera? A enfermeira acompanhante distraía-se com a maior facilidade. No momento. Decidi não ser imortal por causa do que aconteceu a Sylvia. infligidas sucessivamente sobre a carne preparada e esfolada para recebê-las.murmurou .respondeu Furii.Creio que de certo modo estão. Nunca lhe contei uma mentira! . rindo daqueles termos da psiquiatria. . Foi com eles que acabou de falar? . .

As palavras proferidas num murmúrio por Déborah. As palavras foram escritas com lápis ou com sangue. que se avolumavam no fundo dos copos e desciam pela garganta abaixo.Recreai xangoran. Naza e fango xangoranan. e que significava solidão. e deixá-la a sós ali até que alguém tivesse necessidade de usar as privadas da frente. Estirou-se no chão frio. Já era tarde. tirou de dentro da manga duas caixas de fósforo. Déborah não pressentiu nada de excepcional.Recreai.Ageai significava d ilacerar a carne com os dentes como tortura . Forbes lhe perguntou se não queria que mandasse a s pessoas saírem do banheiro. e começou a bater a cabeça vagarosa e metodicamente contra os azulejos. que surrupiara na sala de espera e as jogou raivosamente entre os pés da escrivaninha. Déborah gostava dela.) Nesse momento entrou a Sra. não houve fósforos que bastassem para contê-l .Onde está o objeto que usou para arranhar. graças a isso. Um dia. estende u as duas mãos abertas e tentou inutilmente articular algumas palavras compreensívei s. como celulóide fervente. lembrava-se pelo menos d e ter gostado dela. Uguru . Refulgiu o raio de luz. todas em Yri. O negro em seu cérebro tornou-se rubro. onde uma ou outra palavra Yri lhe permitia sa ber o que estava dizendo.. teve uma vaga consciência de que gritava.uma lei da natureza enfim . As enfermeiras. e boa parte do que falava já não podia sequer esperar pela lógica do Yri e pelo arcabouço das palavras: era um vomitar de sons inarticulados. comovida com a coragem daquele gesto. a maior delas. focalizados sobre ela. vieram carregadas de ódio. "terceiro trilho" significando "concordar". Alinhavam-se nelas todas as efusões de ódio. costumavam dest rancar a porta para ela. Tem algum signi ficado? Déborah ensaiou. Até mesmo aquelas habituadas aos trabalhos mais ár duos da Ala D. O medo e a cólera que expressavam essas criaturas do mundo eram como o s ol. quase hora de dormir. temei-me com o ód io mais feroz. apenas aquele estado mental sombrio e obscuro.r. já" que todos os quartos de reclusão se achavam ocupados. depois da limpeza da noite. dilatando-se e extravasando com tamanho vigor que. universal e penetrante. acho que ouvi você pronunciá-la. de repente. (Lembrai-vos de mim. A Sra. emitiam raios que ateavam fogo. As pessoas que a socorreram estampavam uma expressão 192 de horror e de surpresa no rosto.terminou. uma agonia que há dias v inha repelindo a pontapés as doses de hidrato de cloro. Inai dum. de que os auxiliares ac orriam ao banheiro e de que as paredes estavam cobertas de palavras e frases em Yri. via e ouvia. dispunha sempre de uma meia hora de solidão. Foi justamente essa expressão que levou ao extremo o incêndio dentro de Déborah. . íemr e xangoranan. porque sei que não gostaria. Ageai dum. 191 21 Quando o vulcão entrou finalmente em erupção. . Lembrai-vos de mim com ódio. gestos e sons que lhe permitissem exprimir o impacto produzido pela erupção do vulcão. Quando os sentidos desanuviaram.Foi dado o sinal. estava escrito no super lativo e em letras garrafais: UGURUSU. que a dilacerava por dentro. antes que pudesse se dar conta. cotidiano e inquestionável . . e a escutar as acusações ditas num tom de quei xume monótono pelos personagens invisíveis e rancorosos de Yr. Decidiu que naquela noite não levaria para a cam a consigo a agonia infernal.Esta palavra aqui. Estava sozinha na ban heira situada nos fundos do lavatório da frente. e algumas delas arranhadas com um pedaço de botão. Também não vou permitir que você contribua. A palavra a que se referia fora escrita na parede c om o sangue proveniente de um corte no dedo. A crise ia ganhando proporções incontroláveis. Seus olhos. mergulhou no vértice furioso d a erupção. A Brincadeira . cuja tradução seria "uivos de cão". torturai meus dentes com vosso fogo até estilhaçá-los . e os bramidos provenientes do Coletor. . . As palavras eram disparatadas. E com o mesmo ódio. Déborah. Dito isso. e significava o terceiro grau do ódio . febrilmente. Blau? . começou a sent ir as vergastadas familiares do medo. como quem ouve e vê através de um bura co de fechadura. Forbes. ressentimento e amargura expressas numa linguagem que usava metáforas tais como "quebrar" significando "consentir". Srta.

proferida em contextos diversos. a cama. Como era frio o ve nto que soprava acima de todas as leis! Tiritava. cont ar para mim o que está acontecendo nesses mundos que colidiram.Yri. ao ódio e terr or. da alma. meu eu venenoso e pes tilento..Déborah riu. conseguiu arrancar algumas palavras: .A palavra é medo? . .Escute. Horas depois.Havia uma engrenagem cheia de dentes. Faça um esforço para me ouvir . da mente. . portanto.. Déborah. Entendeu que a morte tão temida não precisava ser necessariamente física. Impelida de um lado para o outro do quarto. Gradualmente. o caos imp erava e os próprios personagens de Yr pareciam ter enlouquecido..Pensou alguns segundos e disse: . . só que dessa ve z sem a dor habitual. . . .Você está com med o do seu próprio poder.Havia uma engrenagem. talvez a mais velha em Yr. . .. Déborah procurou comunicar o que sentia. desencaixadas! . dos quais d ois pelo menos encaixados no mundo. Escute com muita atenção agora. . A enfermeira o lhou para ela interrogativamente. .Minha inimiga.. e agora nem sequer o controlo. Furii.perguntou.exclamou em voz alta. Yri e sons inarticulados entremeavamse num dis curso incompreensível. mas só conseguiu esboçar o gesto que em Yri s imbolizava insanidade: mãos espalmadas. . f isicamente? .Tente de novo. perguntou surpresa: . O quarto de reclusão era minúsculo. apavorada com o que poderia fazer agora que não e stava sujeita a lei alguma. ódio. .Você está doente? . arrancando-lhe um grito de dor. . ela se contorcia..Ergueu os olhos para ela de novo: . já deveriam tê-la aquecido. A velha frase. c omo um boneco desengonçado. jamais pronunciada ou escrita antes. E agora nenhum. Enquanto prendiam as amarras. Déborah batia com a cabeça. passando do consolo e piedade. riai naruai. .Um ódio que você não consegue controla r. .Não.Venha. e no teto desenhou-se um imenso tumor que foi inchando e ganhando volume. das leis e conseqüentemente não a morte. colisão. Vamos empenhar tod as as nossas energias para protegê-la dos excessos dessa doença.É por isso que a internaram num hospital. Inglês. a jogada final que fazia parte da trama se194 creta armada pelo mundo para destruí-la. Aqui. Perdera completamente o controle de si mesma. O tumor fustigou-a por de ntro. .. vamos tentar a reclusão até que você con siga se segurar um pouco. Percebendo que era inútil deixá-la ali. os lençóis. tentando desesperadamente morder a si mesma. Você tem que tentar falar. A energia que jorrava impetuosamente do Vulcão a d eixava num estado de agitação frenético. embora estivesse envolta nos l ençóis há muitas horas e. agarraram-na e meteram-na a muito custo num casulo. . Podia ser a morte da vontade. as pessoas. dava cabeçadas e dentada s. e procure manter-se em contato comigo.Tentou lhe explicar. não precisa temer essas forças terríveis que parecem ter sido desarrolhadas aí dentro. . você está sentindo alguma coisa.. mas as paredes começaram a porejar suor e sangue. escancarando a boca num grito mudo. porque não está conseguindo controlá-lo. incapazes de s e juntar. mas continuav a incapaz de formular as palavras necessárias para precavê-los contra a sua própria se lvageria. tudo . .perguntou Furii. nem bem olhou para ela. tal como as queimaduras que também não doíam. . Lutou até a exaustão. estacou de súbito e jogou a cabeça para trás. nenhum vínculo com o mundo! Tu não és como os outros . num esforço supremo. Yri misturado a termos estranh os e desconhecidos para ela.Quer dizer. mais violento que o ódio negro e o vermelho -branco. e agora à última decepção. começou a sentir a contrição das veias nas pernas e nos pés. . .pediu Furii num tom grave. ela murmurou: . uma de frente para a outra.. com as mãos e com o corpo de enc ontro às paredes e ao chão. Aturdida com aquela subver são das leis e da lógica de Yr. . medo não. numa agitação extrema. até cair desfalecida.Você consegue me ouvir? . você está protegida.Não. Déborah andava para um lado e para o outro. .Engrenagens desencaixadas.. Deixe elas saírem naturalmente. . no mund o. um riso tão feio quanto fora o choro. Ela lutou como uma fera.aparteou o Censor. mas um perpétuo morrer.. o ódio foi cedendo lugar ao medo.

Metade do medo que está sentindo é o de que não consigam detê-la.Sua amiguinha.O quê? i . . . .Nem mesmo os deuses como amigos . de quem você gostava e em quem confiava. cobertores da Terra. Estava extremamente cansada... nunca vou preenchê-los. . disparates. não.Isso só totaliza oito. .. Na emoção que você sentiu ao se ouvir bradando essas estranhas li nguagens. mas t enho certeza de que a refreará o suficiente para conseguir a ajuda e o controle ne cessários..mas muito menos assustada.. Furii riu. você se transferiu espontaneamente para a espécie de encl ausuramento que havia à mão. algum. ..Eu sofro . le mbre-se bem. Nada mal mesmo.Sabe. vendo. Dois é para miscelânea. Antes de permitir que as barreiras 196 fossem postas abaixo. colisão. o que se tcomou mais uma culpa a suport ar em silêncio. . Cor al. que para avaliar a emoção permitiu que um bocadinho dela fl uísse de novo..Diga-me uma coisa.Medo. Negação até mesmo de Yr. embebido em culpa e medo. Forbes! . foi? Não.Segundo você. quanto havia de ódio e quanto de medo? .Então. por não ter de entregar tudo àquele muro que separa Yr e o mundo ? Será que não haveria também uma intenção evidente de me lembrar que fui embora e a deixe i sozinha com tudo isso? Déborah sentiu que a última hipótese continha apenas meia-verdade.. e o que serão essas duas pequenas miscelânea s? Alívio. Não soube como demonstrar gratidão. .Envolva-se no cobertor.. . Agora... 195 .. E o pior é que o tremor não diminuiu para que Furii. Déborah começou a sentir as pálpebras pesadas.respondeu Déborah.Veremos se o calor da terra ajuda .. . destruirme. .. Déborah.. pena morte..disse Furii. .Frio de Yr. . . como se fossem grânulos malcheirosos dentro de você. Nada mal para quem supostame nte fundiu a cuca. você confiava no nosso trabalho juntas e em mim.. . especialmente quando estava em serviço uma enfermeira.disse Lee Miller sem fôlego . A doença que você construiu pode voltar a ameaçá-la.Tenho a impressão de que esse ódio explodiu por todos esses anos. Déborah soube que um novo holocausto a visitara.ódio.. ..Não. . você tem um potencial enorme de saúde e força aí dent ro. levantou a cama e a jogou em cima da Sr a.Puxou sua cadeira mais par a perto de Déborah que tiritava ainda sob o cobertor.Começou a tremer de frio novamente. . bate ndo.O medo amainou um pouquinho . nacoi. . não é assim? . . .. medo. -' Três ódio.. não é verd ade? . .a doce e gentil Srta. Antes de pe rmitir que o ódio aflorasse. Censor..O sofrimento não foi por causa do ódio. e. esse talento para a vida. Negação.. ficasse co ntente.. . sofro muito. quem sabe.... Déborah se lembrou de que não havia em Yri uma palavra correspondente ao "muito ob rigado". a última.Veio Yri. Selvagem.. .Ela apanhou aquela cama ali e a jogou.. Ódio. . Yri. envelhecendo e apodreceu.disse Furii . . cujo calor era rechaçado pelo seu clima interior.E a atingiu? . fazendo o que é proibido.cismou a doutôra.Quase. .O ódio pode explodir de novo. ..Você está completamente esgotada . mas não achou que val esse a pena discutir.Dez . Inglês. bastante.e procurou complementar a idéia com gestos de mão em Yri.E o quê? . cinco medo. Censor. Ao retomar à ala depois da sessão. na terra. . pois é justame te este medo que a impede de falar de uma forma compreensível para os outros. Sons absurdos e apenas Não! Não! .. . Apanhou o cobertor e a cobriu . um ódio que veio s e acumulando..

foi discretamente se colocar na quina oposta à porta de entrada da enfermaria.Risos. Carla é. pois a recepção tornava-se mais clara quando as pessoas se apro ximavam da pia de metal.Será que a Sra. . inace ssível. mesmo com a porta fechada.Não. apesar de inconfortável para a orelha. . e os auxiliare s que percorriam os corredores estavam ocupados. bateu e pediu um cigarro.E saiu saltitando pelo corredor como se fosse uma menina de sete ano s de idade. . em levar as pacientes relutante s para a cama. Encostando o ouv ido no cano e contendo a respiração. refletiu um pouco e resmungou: . De uma precisão exemplar. Déborah concluíra que os sons eram transmiti dos pelas torneiras. Dificilmente re198 parariam nela ali onde estava. o que nunca ex plicam é quanto de cada lado. só podia ser isso. Lee Miller estava furiosa porque a Sra.Não. . Outros. . vocês com preendem. Jamais lhe ocorrera que fosse amiga de alguém. uma ciência. que todo mundo chama Srta. e ra utilizado às vezes pelos pacientes como dispositivo de escuta. pois e m breve teria que se afastar dali.Só pode ter sido um engano! Freqüe ntemente aconteciam enganos: uma paciente que mirava uma pessoa e acertava outra .. . e com uma dignidade exagerada . surpresa. podia-se ouvir as pessoas conversando dentro da enfermaria. durante e um pouco depois.sentia-se feliz com o seu trabalho junto às pacientes. metade delas para os casulos. devido à ameaça tra nscendente que encerrava).Você não é o único (Bemardi). Soltou uma longa b aforada.Insanidade Temporária! Taí. . Lee dirigiu-se à porta da enfermaria. mais piradas. . e ficou absolutamente imóvel com o ouvido encostado nos canos de água que passavam por ali. tch.Quer dizer. Era uma mulher ded icada. num de seus irritantes acessos de risadinhas. não é? .Que diabo estou fazendo aqui com todos esses malucos! Déborah foi para o dormitório e esticou-se na cama. Forbes vai voltar? . Lee. inteligente. de certa forma.Se atingiu! A mulher foi internada num hospital. Não sei não. Forbes era uma das raras eleitas a quem os próprios pacientes. O corredor já estava quase deserto. uma justificativa legal. (o medo impediu-a de enunciar a palavra "amiga". Cuidado com a língua! . Sim. Significa: antes. Era bom que entrassem logo no assunto.. já tinha es . Coral como se fosse alguma beldade do sul.Tch.Jesus. Pressionou a cabeça com mais força contra cano para espantar o desejo. . contusões e o diabo a quatro. . como estou cansado (devia ser Hanson). A menção ao café deixou Déborah com água na boca. sentindo um profundo mal-e star. Lee só a agredia porque a velha Coral estava enclausurada e. .Ali . Agora aquela "coroa". tch. estranha e inconfortável . a lei.retrucou Déborah... O de água quente estava ap oiado em material isolante. mas acho que essas gurias estão ficando cada v mais doentes. Quanto mais pensava na questão. 197 Quem sabe a coitadinha não estava temporariamente insana! Intrometeu-se Mary Fiorentini zombeteira.perguntou Déborah. procuravam poupar. o de água fria. Começaram a falar sobre a distribuição dos dias de folga. sério! Não há um dia nessa droga de ala em que não aconteça uma briga e aí. Haviam apagado a maior parte das lâmpadas.Certo . . portanto.dizia uma voz que parecia ser a de Cleary.pois dignidade ain da era uma coisa ao mesmo tempo nova. . generosa e . .coisa rara . no interior da enfermaria. por uma incrível coincidência. completamente atônita. lá ao lado do bule de café. são mais para a reclusão. cortes. com um braço quebrado. ma is intrigada ficava: por que a velha agredira a Sra. Virou-se lentamente para ela. conscientemente ou não. redigiam os re latórios. Forbes? Por que logo um dos Bons? Depois da distribuição de sedativos àquela noite. passava sempre por onde desabavam cadeiras e punhos. Coral Allan. e por isso a atitude de Lee a deixava.Engano .declarou: . ou o caso da estagiária que.

Preparavam-se para a última ronda da noite antes de pas sarem o turno.Deus do Céu! Gritou mil besteiras lá no banheiro. Déborah se deixou escorregar até o chão. . . . o Abdicado Rei da Inglaterra! . uma das estagiárias. no chão. venha para a cama.Nossa! Quem diria que uma velhinha daquelas fosse capaz de levantar uma cama.exclamou Jenny. um desgosto passageiro. um pranto áspero e feio. Cuspir. como um contraponto aos sons horríveis que continuavam brotando de dentro dela. de repente.Ave Maria. . quando muito.Ai.Vamos. soando. e ela sorriu aliviada para o cano. Cobr iu com as mãos o rosto que ardia de vergonha. . Desatou a chorar.e continuou num murmúrio inaudível. e ntrecortado de risadinhas.Ei. Ah. cheia de graça. Blau. Afastou-se um pouco do cano.. elas as pacientes. No entanto . colocan do-se assim em terreno neutro e dissociando-se da fonte de sua vergonha. blasfemar. e por que cargas d'agua a cama fora cair justamente em cima da Sra.) . Se a evidência não surgisse agora. e cada espírito se e nclausurou num isolamento que niaguém parecia capaz de devassar.Que ruídos obscenos são estes? .Bem. Sophie vai visitá-la amanhã. . vou também. Jesus! Foram dar corda nessa carola de novo. para impedir que aquele incidente se transform asse em mais uma experiência de decepção. . pois vivia dormindo. Se eu ti rar folga. Sim. roubar. as piores manias sexuais. urinar. para Déborah. Viera para descobrir alguma circunstância qu e pudesse mitigar a dor que lhe causava o conflito Coral versus Forbes. onde se atirou na cama e desatou a chorar de novo. uma razão qualquer à qual pudesse se agarrar. defecar ou masturbar-se aos olhos de todos desp ertava. Fez-se imediatamente um silêncio profundo.cutado muitas histórias a seu respeito. entrou o auxiliar e mandou que calassem a boca.Mas que falta de respeito. viram só a Blau à noite? ..Hoje ela não falou absolutamente nada.Ora. nunca uma reação de horror. vocês loucas são tão inventivas. Enquanto a metíamos no casulo. para todos os mu ndos e a colisão. Ba ter.Oh (risos). É porq ue têm tempo de sobra para ficar remoendo idéias . provavelmente. quanto mais de arremessá-la? Déborah torcia para que falassem logo da Sra. caramba! Déborah não queria ouvir nada sobre Blau. Finalmente tocaram no assunt o. não dava para entende r nada.Você foi ver Lou Ann? (Era seu primeiro nome. De repente. . A Esposa do Abdicado. nada disso constituía um pecado na Ala D. o que é isso Srta.perguntou Mary Fiorentini. eram como partículas de pó flutuando ao acaso mas mesmo assim havia certas normas que não se desrespeita va. . irritada com os risos de Mary e os sons abafados do choro de Déborah. Sabia muito bem que jamais poderia indagar à velha por que tinha jogado a cama . en199 cheu as paredes de palavras louquíssimas e saiu lutando como um tigre. Forbes. Déborah fremia de impaciência. ela vociferava naquela fala incompreensível.. retrucou Mary Dowben que. Forbes. sempre arranjava um jeito de transformar tudo numa cruzada religiosa contra os hereges. . que raramente falava. . mas era só olhar para a cara dela e ver o ódio. ponha isso no relatório. O tumulto se alastrou. com suas preces intermináv eis. que ódio! . Salve Salve Columbia! .Alguma modalidade no va de perversão hcomossexual. suas putas nojentas! Eu sou a primeira Esposa secreta de Eduardo. foi cambaleando até o dormitório. soluçando e repetindo baixinho. . mas só essa tarde pude ver com meus próprios o lhos. . Pressentiu. Déborah se levantou prontamente e sem destapar o rosto. protestou: . que havia alguém ao seu lado: era Martenson. 200 Déborah voltou a pensar no quebra-cabeça. conservando a cabeça apoiada no cano frio.Hudson e Carelle foram com ela até o hospital. a velha fórmula: Tu não és como os outros.

dirão as pessoas . porém.Não lhe conto mais nada. nua e crua. vão me julgar mais talentosa do que realmente sou. por exemplo.Aqui é cutucu (o que significa "estar escondida". inclusive eu.Estou cansada. . ..Mas lutar para quê? Para quê? . Seus amigos. no entanto.meditava Déborah .exclamou Déborah. assustada e pouco me importando com o que possa acontecer . quando se esforçava por traduzir e superar o abismo que a separava dos ou tros. . nunca! Ninguém pediria satisfações ou re preenderia a Srta. uma verdadeira violação. conservando. e fica n um hospício o resto da vida. há um monte de hospitais psiquiátricos por aí. num súbito acesso de r aiva. ..Disseram que estamos ficando cada vez mais doentes. mas nunca lhe perguntou por que fizera aquilo. num tom quase amigável. que tinham provocado restrições extensiva s à ala toda.Está certo .Por uma vitória que não é fácil nem doce. e para quê? . se estiver disposta a lutar com toda a energia e pa ciência. . A verdade. constróem um todos os dias. Agora. escrever outra tese e ganhar mais u m título. . por isso decidi desistir da luta. 201 Acabava ficando nervosa. serei boazinha. . e daí! . . . numa ala entupida de perturbados. enfim de um "eu" bem fo rte com o qual possa começar a viver. Yri e sons dist intos que mal bastava para responder às perguntas que lhe dirigiam.. ." Outro caso se passou no banheiro: . intrometer-se.."poderia ter sido uma menina tão boa.Furii elevara também o tom de voz. uma grosse ria imperdoável. saía involuntariamente uma mistura de Inglês. tsk. Eu é que não posso me mandar. Articulou mentalmente uma resposta que lhe pareceu clara e.Sim. Lee Mi ller a agredira por causa das queimaduras. de seus próprios erros e da p unição que merecerem.gritou Déborah. com tanto talento .Blau. ou pior. em segundo grau). Quero que pense bem e responda honestamente. .tsk. Como então . . se é que se pode chamá-los as sim. 202 .. Quanto mais lixo ponho para fora. garanto que venceremos.E daí? Alguma vez eu disse que seria fácil? Não posso. a confusão de línguas só fazia aumentar e distanciá-la ainda mais. o que emergiu foi: "Nunca atinge a profundidade suficiente. Permitia-se zombar e odiar..Olha. opor-se à atitude de alguém era.Eu não faço brincadeiras.. elevando o tom de voz. dizia coisas definitivamente disparatadas e intraduzíveis . Coral por sua atitude.. soou muito bem ao s seus ouvidos. trabalha-se no frio. pobrezinha. droga.E você acha que está? . já lhe disse isso no ano passado e no ano retr asado. porque aqui não me sujeita rei jamais a uma prova! . . ..Chega de pensar! . Para que você disponha de seus próprios desafios. Dia após dia..Para tirarmos você desse maldito lugar. Trabalha-se no escuro.perguntou Furii.obter respos ta para a sua dúvida? Matutou nisso dias e dias. e isso. piorava o nervoso.É. acendendo outro cigarro. passariam a expurgar. Você pode m e mandar embora e ficar com seus amiguinhos.bom. um atentado consciente contra as va liosíssimas barreiras que asseguravam a vida e a sobrevivência dos pacientes. por sua vez. exigir satisfações. Forbes das conversas qu ando estivessem na presença da agressora. todas nós. um auxiliar lhe perguntou se era o seu dia de banho. A dificuldade de se expressar com clareza a surpreendia tanto quanto aos outros.disse ela.gritaram. mais sobra. Uma longa baforada de fumaça ocultou o rosto da doutôra. a fisionomia completamente inexpres siva. ou dar a enten der alguma necessidade. nem exigiu que parass e.Ora. na melhor das hipóteses. que desperdício" . e não se preoc upe. . Uma vez.E se não vencermos? . você está aí? . de sua própria definição de amor e sanidade.e concluiu abanando a cabeça . .Você desiste. é! bradou Furii. nem quero fazer você ficar boa contra a sua vontade. e quando falava. o nome da Sra. nada de brincadeiras. Somente com Furii conseguia expressarse com alguma clareza. . delicadamente. "Tadi nha" . dócil e não vai aparecer mais nada nas paredes. Nessas circu nstâncias.

As pessoas escutavam polida e atentamente.. Passado um tempo. quaisquer que sejam elas.comentou o outro. mesmo assim.E como foi? .Após uma pausa. minha cara menina . prevendo o dia em qu e sua doença se tornaria tão dolorosa que não conseguiria mais suportá-la. arrulhando de cansaço. Posso citar inúmeros exemplos desses princípios éticos ou morais. Viera assist ir à conferência a convite do doutor Halle. eu a substituí enquanto esteve fora . ela a fizera em segredo. é óbvio que você sabe disso. . mas pelo menos era um retorno. nem sempre.Difícil.Você não é nem um pouco dada à demagogia.. agora acho que já pode responde r sozinha à questão que levantou antes.eu sou sua médica e tenho visto esses anos todos como você é alérgica a mentiras. Era 203 justamente essa palavra. Déborah apresentava um comportamento mórbido e sil encioso ou. Além do mais. Decidiu impor certas restrições aos furtos.É uma excelente oradora. Estava enganado. A verdadeira razão era uma dessas verdades que não gostamos mu ito de encarar. então. Antes do incidente.julguei que a fac a seria mais útil a uma pessoa que tivesse de ficar por lá. e muita s vezes nos chamam oportunamente à ordem e chutam longe a escora da nossa vaidade. Todos conheciam qual deveria ser a res posta formal a isso. . "maluca".. . sim.Ah. Comportavase.Escuta aqui.disse o doutor Royson. . os quais inspiram freqüentemente profund a admiração nas pessoas ditas "sadias": pequenas delicadezas. mórbido e satírico. . por sermos médicos. . gestos súbitos e inesper ados de generosidade que representam um grande sacrifício para a paciente.Bem. v ocê não terá que arcar com as conseqüências dessa resposta. considerações morais? .Claro. e agora tem que p rocurar fogo em outra parte. . Mas c omo eu vinha para esse país . elas admitem considerações desse gênero? Quer dizer. maneiras sarcásticas e superiores. apreciei muito esta sua raiva despida de medos e culpas.bom. sabe. . você encontrará fartas evidências disso. mas pouquíssimos acreditavam nela.Recostòu-se na poltrona com um sorriso zombeteiro..não mesmo. Déborah sentia-se o próprio Noé. por isso evito contar mentiras.. mas lhes parecia inacreditável que a to rrente de sons confusos e a violência descontrolada não significassem uma grande mud ança para pior..Sim. . Eram sintomas inegáveis de grave doença mental. uma rejeição. uma paciente deu-me uma faca de presente para que eu me protegesse. exceto na presença dos médicos ou quando temia m ser escutadas. e a medicina é uma ciência que não admite gostar ou . 204 .relatou a Doutôra Fried na reunião da equipe médica na Ala D. como todas as pacientes da Ala D.Mais doente não.concluiu ela com um sorriso amável . Fried. estava "maluca". Lembro-me que quando deixei o hospital onde clinicava na Alemanha. afiando um pedaço de metal durante meses e meses. o fato de ter sido abandonada pelo terapeuta. enviando um pombo para explorar uma região temível e desc onhecida. Esta faca. .Isso se deve à "nova moralidade" de Déborah . . um rosto invariavelmente inexpressivo. . esmagando o cigarro no cinzeiro . . hein? .E ra um rapaz novo no serviço que perguntava. . atualmente. sem muita convicção. Somente alguns dos médicos e .comentou o doutor Royson na saída. num inglês tão bom e vigoroso. . . mesmo porque já havia trabalhado com algun s dos pacientes da ala. . .. Está ou não ficando mais doente? Não tenha medo. .Blau é um de seus casos . Nenhum galhinho verde. Não.. o negócio das queimaduras está diminuindo um pouco. continuou: . .E a senhora aceitou? . De início julguei que essa dificuldade vinha do ressentimento da menina..Decidiu que não envolveria as demais pacientes em sua doença. ou seja.Elas.explicou a doutôra Fried com um sorris o. ... esqueci.disse Furii.Mais doente não. não acha? . . já que essa capacidade de dar representava um sintoma de saúde e força. não mesmo. . . pala vra que a maioria empregava e sentia.admitiu um dos aux iliares.Claro! Trabalhando aqui. . que remoíam com ceticismo escutando a exposição da Dra. poderíamos di zer. o pombo voltou.

Sim. Quentin Do bshansky. Desde a erupção do vulcão.Não é de admirar então que você andasse soltando fumacinha da cabeça.. e quando desligava.disse Helene. . Pressentia a iminên cia de uma nova explosão de fúria e medo que a impeliria com toda a força de encontro a alguma parede. .perguntou Furii. .É uma excelente médica.desgostar: nós simplesmente não combinamos. . As explosões se sucedem. das quatro. Algumas vezes. 206 . mas agora você está livre delas . há invariavelmente nos sonhos que contamos aos médicos um person agem que cuida do aquecimento. Não fique assustada.peço para me levarem-ao casulo. repetindo eternas pergun tas sobre eternas dúvidas. . . ou pelos corredores. melhor de tudo. sim.Não.Como será que eles aquecem esse lugar? .. o VIII . com Clarinha Fried. quando eu não estava. o que o rosto mostrava: "Por que você está zangada? ". . quando eu não estava. . Mostra uma pessoa que reage conforme aquilo que sente. ela é um gênio! . parecia ser bastante sincera. . inadequado. gênio é só o começo. . ao que parece. Déborah levantou-se e saiu em busca de calor.É.Ela. e eles se dedicam a mim. Sei não. brincavam e procuravam sempre reconfortá-la. .disse Furii . . apertando a xícara de café para aquecer as mãos. enfermeiras e auxiliares mostravam-se mai s bondosos.Halle se virou e ficou observando-a responder às perguntas no salão de conferência. porque a Bíblia proíbe. da torr ente de lava cinzenta e desoladora que a enrijeciam por dentro. lutava como um tigreaté se esgotar todo o fogoque lhe ardia por den tro. . .Pessoalmente acho que não. no entanto.Sempre foi. já repararam? .. .. uma amabilidade qu e.. superaquecendo todo mundo e provocando assim um estado de embotamento e lassídão.. . Gostaria de ter a inteligência dela .Fez um gesto de cabeça em direção à doutôra Fried. vem. . . pessoa franca e bondosa como McPherson.gorjeou Mary jovialmente . q uando funcionava.Seu rosto já não provoca suspeita s. "Por que você está tão sarcástica?". Quando sinto que a coisa. Um auxiliar recém-admitido. nacoi. mas é claro ..Mas depois que conhecê-la melhor.perguntou Lee. correndo desabaladamente. era a estação m ais penosa. Déborah começou a no tar que o pessoal da ala a tratava com uma certa amabilidade. mas ela sabe o que diz. O outono cedeu lugar ao inverno.Ora. quando o lham jpara o seu rosto. até que se chocass e contra uma porta fechada ou um muro qualquer. . sta foi uma das razões para a intervenção do Censor e das normas de conduta impostas p or Yr. .Você acha realmente que a menina tem feito progressos? .disse Furii num tom meigo. O ódio e o medo transpar ecem porque são coisas que você sente. . o prazer.Por um sistema inventado pelo Primeiro Marido Abdicado de Lucy. está convicta. por mais tempo e energia que isso tome. verá que. que.Nacoi.pelo menos. no entanto. Forbes voltou ao trabalho.perguntou Furii.O que é Déborah? . a esperança que transp . A Sra..Ainda assim eles não nos odeiam . mas agora Seção Masculina dos Perturbados situa da num outro prédio. Desprezam-me intensamente.. Ia para o casulo diariamente e. e eles o fazem de bom grado. dessa vez. O antigo e inconstante sistema de aquecimento retinia e resfolegava.disse Royson. . alg o mais rompeu também: aquela expressão dura que você tinha. deixava-as congelar de frio. Você não deve mais procurar es conder o ódio. uma vez atada. As pessoas agora. o medo e.Quando esse seu vulcão rompeu. .E você não sabe por quê? . a alegria. . mas não me odeiam. Déborah ficou gelada de medo. veio substituir o velho Ticher t. um medo que datava de muitos anos e do qual só a muito custo conseguira se proteger. . E. . vêem que você reàge e vive. ficam até conversando comigo. embora a angústia continuasse a mesma. 207 22 Apesar das distorções provocadas pelo ar escaldante e úmido exalado pelo vulcão. a carência por material inflamável amainara. não a mim . não simpatizamos um com o outro. Talvez po rque éramos muito parecidos.Nessa época do ano..

Déborah e a auxiliar voltavam do consultório da doutôra . Não quis magoá-la. Déborah.alguma expressão ou tom de voz involuntário q ue desagradava às pessoas. temia que tudo recomeçasse de novo: a vida . e a tendência é elas se sujeitarem cada vez mais a um desejo e a uma escolha con scientes. Durante algum tempo Déborah caminhou a esmo pelas dependências da ala.Quando começará a vida? A resposta não se fez esperar: já estava começando! Era noite fechada quando abriu a porta do banheiro e saiu de novo para a ala. como devia achar horrível limpar excrescênci a de corpos adultos e conviver com a barulheira infantil e patética das intemas. O sol se pôs. Só tem um tipo de frio com que se preocupar. algo. A única explicação possível era o seu olhar . continuava assustada. pois essas expressões não são inadequadas. As decepções. A terceira dimensão. Déborah decidiu pagar na mesma moeda. sem uma palavra. de se regalar com a luz. até se infiltrar a certeza de que não morreria. o relacionamento se esfumou imediatamente. A tarde estava fria e nublada. A auxiliar. Agora que o vulcão dissolvera a sua fisionomia pétrea. e por isso não a magoava.Você tem sorte. Sentia uma curiosidade insaciáve l de olhar. Mas a auxiliar estava furiosa. sobretudo porque Déborah simbolizava naquele momento "o se rviço" mas o desabafo era sincero e impessoal. . decorando o relvado com 208 uma infinidade de estrelinhas frias. e a luminosidade difusa ressaltava a nudez cinzenta das árvores. tiritando de frio. como você diz. Déborah entendia perfeitamente o que se passava com ela. Ao chegarem à porta da ala. e as tonalidades de crepúsculo deram à Reserva dimensões ainda mais belas. e cores das coisas As árvõrês ladeava m o passeio que circundava o jardim.comentou a auxiliar. O sol. pediu autorização para ficar a sós no quartinho da banheira. Muitas e muitas vezes. confessando outr a verdade. Esse frio está de rachar! . as pessoas se transformavam de repente em suas inimigas. Reinava uma grande quietude.arecem também. enfim. foi direto sentar-se sobre a tampa do velho aquecedor. de ouvir. Chegando lá.só podia ser o olhar . um frio que pode ser remediado com casacos. A mulher estava furiosa. com um misto de espanto e reverência. de apalpar. cheio de árvores. nas port as e nos relevos dos rostos e corpos das pessoas. Suas expressões faciais constituíam um mistér io que jamais conseguira desvendar. afastou-se dela com o rosto impassível. cuja fechadura e chave representavam outros tantos símbo los do "serviço". por alguma razão obscur a. o significado. Lentamente. os relevos e os signi ficados novos que percebia ao seu redor. transbordando de alegria e de receio. havia uma janela que dava para um relvado existente no hospital. declinando no horizonte.Não esteja tão certa disso! . no entanto. dando por encerrada a missão. veio se achegando. virou-se para ela e disse: . o céu límpido de inverno. A auxiliar fungou. e rodeado por um muro recoberto de espessas sebes. todas as vozes de todos os mundos silenciaram.Perdão. Déborah indagou ao crepúsculo: . Era bom ouvir alguém falar assim. U m pouco abaixo. ensinaram-lhe a s . capaz de transformar aliados em perseguido res. a certeza inabalável de que iria viver. e por sobre a sebe. persistiu nas superfícies nuas dás paredes. são muito apropria as. Yr se acomodara. Pouco a pouco Déborah foi distinguindo as formas. refulgia através dos i nterstícios da sebe.nacoi cujas leis insondáveis viviam armando surpresas contra as quais não sabia como se de fender.Déborah se lembrou de que McPherson lhe havia dito há muito tempo atrás: "O que a faz pensar que é dona de todo o sofrime nto?" Arrependida com o seu comentário. no entanto. a sebe. . Depois da tro ca de turnos. ganhando vulto. seu cantinho predileto. Déborah chamav a aquele lugar "A Reserva". Desatou a contar como era difícil educar os filhos e trabalhar horas e horas a fio para receber uma miséria de salário.

envolveu-se no cobertor. deixou-se ficar na cama. Srta. Déborah se lembrou subitamente do que tinha acontecido na noite passada.Seja lá o que isso for. embora o comporta mento das pessoas fosse o mesmo de sempre. formas e sentidos redimensionando 210 sua percepção das coisas. . .Talvez seja apenas um sintoma .Passou a noite escutando os auxiliares conversarem uns co m os outros como sentinelas solitários em seus postos avançados numa terra estéril e h ostil. . . a surpresa.ajuntou Lactamaeon.foi para a cama. ao passo que o resto do dormitório. e crêem estar vivos. Saboreou a comida e o próprio ato de mastigar. vira a página e encontra os nativos.com licença. mantendo os olhos fechados para não per der de vista as perguntas que se fazia. fadado a terminar. o rio.Terei que pedir uma autorização escrita d o administrador da ala.murmurou. Sim. Será que continuavam lá. Tenho uma pergunta: Dois nativos figuram numa história em quadrinhos. por favor.Vamos. Na manhã seguinte. .sussurrou. . . Alguma coisa aconteceu comigo. em seguida. Veja qu e dia glorioso. Pre213 param uma fogueira na ilha onde acamparam. . A pergunta é a seguinte: Qual será a próxima expressão de seus rostos? O que farão a seguir? Seria preciso esperar para ver o que acontece . . a selva. Começam a cozinhar o jantar. .. Sofra.o farfalhar do avental e o tom agressivo de voz . Sujeitaria essa nova descoberta às flechas do caçador de tempo de Furi i.ponderou Déborah.er cautelosa. como sempre. Nesse ponto. as cores. Déborah revirava a cabeça e m busca do que havia mudado nela. E se fosse mais um lance do Jogo.Quantas vezes não ass omara àquela porta mendigando! Desta vez. Quando o calor atravessa o couro do hipopótamo. o hipopótamo e o fogo. Pássaro-um. Aviso assim que puder. mas eu cá comigo tenho algumas suspeitas! . Levantou-se. No jantar. . As pálpebras cerradas coavam a luz matinal numa t onalidade rubra. As felizardas que dormiam junto às janelas recebiam sol a manhã tod a. .Pratos regionais típicos . aguardando do outro lado das pálpebras? Escancarou bruscamente os olhos.quero ver agora qual a surpresa qu e estão me reservando. Escutou um grito no corredor e.. surpreendeu-se repugnada por ter de comer com os dedos e uma colher d e pau. . está na hora de levantar.respondeu Anterabae. . . Quando engoliu o sedativo e.Bem. estamos escutando. nesse caso eu gostaria de vê-lo. os movimentos de um a estagiária nas proximidades . . que na realidade é o lombo de um hipopóta mo mergulhado na água. . e uma sensação plena e maravilhosa de vida. Quem sabe.Posso ir sozinha? A enfermeira olhou para ela desconfiada.Um minutinho. . o leitor dessa história em quadrinhos ri. só por algumas horas. O que foi? O que foi? A estagiária acercou-se dela: . podia informar se hoje é dia de ver minha médica? . relutando se seria ou não uma medida sábia abrir os olhos. o animal se ergue e se afasta. Blau.respondeu Mary Fiorentini asperamente.Que espécie de pratos regionais servem para pessoas que estão fora desse mundo? perguntaram.perguntou. Sim. e foi até a enfermaria. Às duas horas.O que tem para o café da manhã? ..tentando acordar Mary Dowbens.Nunca especi ficam de qual região. Começou a ficar seriamente preocupada com aquilo. o que aconteceu já não terá passado amanhã. ontem. mas não sabem disso. numa gargalhada triunfal do mundo. . parecia ser diferente. . Talvez isso não te diga respeito . falou para Yr: Sofram.Alguma coisa. . carregando consigo os nativos atônito s que olham sem entender nada. continuavam lá. .Talvez o melhor seja esquecer tudo isso. você tem hora hoje.

isso não vai acontecer. As partes e facetas se emaranham e se sustentam umas às outras.A enfermeira deu as costas e se afastou. acho que. . Estou certa de que você abdicará dele espontaneamente. pelo doutor Venner. de tudo. . é claro! ao vovô! -exclamou Déborah excitada. Quando estiver pronta.. um olhar que trespassava as pessoas como se e las não existissem. acabou contando a Furii como estava vendo diferente. e o apelido tinha colado. dói tanto assim? . acho que é verdadeiro sim. analis ando-os sob novos ângulos.Os sintomas. .Devem existir muitos suportes para que você pudesse se agüentar todos esses anos. ou então uma breve hip nose..Vamos ao trabalho? Durante o resto da sessão. aí sim.. .. Déborah sabia por experiência q ue não convinha insistir muito. ainda que o mundo pudesse se esvair quando a permissão fosse dada. fortalecendo-se mutuamente. desapareça!" e pronto. ...Está bem. ao desenca var o tirânico Latviano em quem afivelara uma máscara tão irreconhecível. ao falar. sim! sim. desde já? O importante é não fingir que abdica.O soldado que eu encarnei em segredo era um mu tu. pois ele vivia com o olhar perdido à distância. iria sobreviver a tudo isso. a doença e os segredos têm muitas razões de ser. .cismou. Esses sintoma s erguem-se sobre inúmeras necessidades e servem a muitos propósitos. . bastaria aplicar uma injeçãozinha dessa ou daquela droga. O molde do sol dado vestia como uma luva no avô. .Raiva e martírio. 212 Agora que tenho o.Dói um bocado..Você acha que é um prognóstico verdadeiro? . sentido de realidade terei que abdicar de Yr.. . Raiva e martírio. desbravaram picadas em busca de velhos segredos..O soldado japonês personificava justamente isso. em seguida.Bem. nesse caso. tive de repente certeza de que eu iria viver. porque posso entrar pelo cano depois.Anote o meu nome. então. . . Por isso é que e xtirpá-los causa tanto sofrimento. como um a forma de dar vazão à raiva que sentia.confessou Déborah.Foi uma experiência inteiramente inédita para mim . e eu dei aos médicos o "bom soldado" que eles queriam. então. e só d epois de muitas evasivas.. Déborah o apelidara "Horizontes Perdidos".instigou Furii . escolha.. numa declaração simples e categórica. e sobretudo como as coisas tinham readquirido uma significação e como desabrochara po uco a pouco a esperança. você estava curada. estragasse tudo.Uma referência e. inimigo e violento) como uma resposta à hostilidade que enfrentava na colônia de férias. Furii lhe dirigiu um olhar interrogativo. esperando documente pelos seus ungüentos. concluiu num tom grave: . . Seu raciocínio evoluiu..Ele não virá hoje. . Compreendeu. . encontrou o "pelotão de queimadura" esperando por ela.Não. estava morrendo de medo de que. graças à determinação que animava Déborah.. o q ue não quer dizer que deva firmar um pacto comigo nesse sentido. Ao retomar à ala. . por favor. Se não fosse a ssim. e exclamar: "Loucura. 211 Que tal verificarmos? . Jamais pedirei qu e desista de seus deuses pelos meus. .Fez-me pensar muit o em você. .. . que assumira o papel do soldado japonês (estrangeiro.propôs Furii . No início da sessão. . . . uma referência a alguém que me é familiar. . pois. .. quando puder substituí-lo pelo mundo real. termo Yri que designa uma espécie de imagem utilizada para camuflar meu parent esco com ele. detendo-s e na questão do martírio: ser martirizada tinha algo a ver com Cristo. . . d essa vez.Descobrir isso. Ele estava impaciente e irritado por não tê-la encontrado. Nada mudará para nós. . há algo mais aí. Após uma pausa. encabeçado. objeto ao mes mo tempo de orgulho e de repúdio de todo judeu.Não permita que eles a torturem cada vez que você se abre um pouco à luz saudável do mundo..Procure lembrar-se! .concluiu.Prefiro não responder. furioso com a obstinação .

. um sorriso. Quentin . mas a em enda foi pior do que o soneto. .e vivia -.Segure firme esse braço! .das queimaduras que não cicatrizavam. 23 Já que iria viver . pois só assim seria capaz de oferecer um sorriso. doutor Venner . . E o que vem a ser isso? .tive uma idéia que talvez dê certo. .Calma. sentiu que a Ala D.Maldição! . as novas cores. .Uhh! Calma. dimensões e percepções adquiriram um caráte r de urgência incontrolável. expondo a carne viva. a escutar embevecida suas conversas e a conversar com elas. . qu em sabe. doerá. Ao terminar os curativos.vou preparar minha contribuição.informou Cleary. Dias depois. Como cortesia. disse: . empalidecia cada vez que o médico arrancava com uma esfregadela mais brusca um pedaço de pele.resmungou Venner de mau humor.Pela cara dele. quando cortaram as ataduras. .perguntou ela num tom impaciente. O comentário o apanhou de surpresa. relevos. lembrando-se prova velmente das recomendações de alguma página de manual: . a pele ao redo r das feridas começava a tomar a mesma consistência desfeita. Dobshansky piscou para a enfermeira que acabara de chegar e Déborah se sentiu no ínt imo lisongeada por terem consentido que ela presenciasse esse pequeno gesto. ao invés de pr ovocar a dor que ela merecia. .O que dói é ficar levando coices de força s que para os outros são invisíveis e inofensivas. Ficou mais constrangido ainda.murmurou. e se ele não conseguiu chegar até o osso ninguém vài consegui r."Nunca Admita ao Paciente que Está Preocupado". .Qual foi o troço que ele usou aqui? . provocava sua ira com gracejos dirigidos a Quentin Dobshansky que.Não se preocupe . Ora.bom.Tenho estado preocupado com essas feridas apressou-se a dizer para encobrir o constrangimento pouco profissional.Ele deixou lá no armário número 6 . é ser louco durante anos sem poder dizer nada porque ninguém acredita no que você diz. .. vamos experimentar.disse ela com brandura.disse ela. Dobshansky mordeu o lábio para não rir. Procurou concertar o erro sem muito sucesso. a deixava impassível. o médico novo veio procurá-la. 214 Déborah olhou para ela e avisou: . luzes. .Bem. suspirando aliviados. Trocaram um sorri so discreto e conspirador. . movim entos que ia descobrindo ao seu redor. Ele examinou os braços.Fui o mais cuidadoso que pude. Cada vez que eu me dobro de dor por causa de um tumor fictício.retrucou Déborah. . Eu te nho um tumor falsificado aqui dentro que compensa longe a dor que está faltando aí n o braço. Déborah. .. com . segur ando as bandagens. que detestava o doutor Venner. Debora regulava-se com as formas.repreendeu o Doutor Venner. mas logo as mãos inábeis do médico cavoucaram fund o de novo. A enfermeira-chefe sacudiu a cabeça assombrada: . digamos int eressado. Emb ora tudo aquilo fosse novo. .Estou concentrado nisso.Retirou do bolso um tubinho de reméd io e despachou o cortejo de enfermeiras que se apinhava à volta. Deb! . a coisa não devia estar muito boa. e ele conteve a respiração: . e porque a limpeza das feridas. a putrefação desaparecera completamente.Já é tempo de darmos uma nova olhad ela nas queimaduras. retirando delicadamente a gaze malcheirosa. Espero que não ten ha doído muito. . Passou a observar atentamente as fisionom ias das pessoas.Não precisa ficar danado.Algum dia. . há sempre um professor à mão para sentenciar que é impossív l que 213 esteja doendo. interpondo entre ambos a imensa distância de Ant errabae cadente.O último a dar foi Venner.Fique quieta! .. Alguns dias depois.A dor é apenas teórica. e apesar de seu acanhamento. e esfregou o algodão com tamanha violência que o sangue recobriu a ferida. aplicam uma ou duas doses da dor em sentido contrári o.

a passear sozinha nos pátios da frente (2 00 pés = 3 horas de sanidade). as enfermei ras da B (quais as que socorreram um caso de confusão. sa cudiu longe aquelas idéias e reanimou-se.Ôi. a mesma substância. o privilégio de formular uma pergunta. . as mesmas sensações. . transbordando de afeição. . a comer e a ingerir os sedativos. Sua impaciência e avidez já não cabiam na s engrenagens pesadas do hospital.Olhava fixamente pa ra ela. compreen de! . O problema é que saio às vezes por pura provocação quando. O.nem quer dizer que eu vou deixar de tentar 217 novamente. na realidade.Não ouvi boatos de que você tivesse voltado. . . exceto os técnicos com os seus "bom dia". A última estadia.com um aceno de cabeça. vocês se conhecem. Ao sair para o pátio. Venha. não é meninas? . vamos até lá. Eu pensei que tivesse deixado o hospital.A enfermeira pôs o cobertor sobressalente na outra cama e saiu. afastou delicadamente a pergunta e saiu por uma tangente: . assim que chegou. nos de detrás também (1 milha = 5 horas de sanidade). não conh ece? . 216 . não só fortaleceu a convicção de que esTavá viva. Começou a escalá-las. cg uma derrota. de repente. . Louis. . Seus olhos estiveram fechados a tudo e a todos.Enquanto fazia a cama e arrumava suas roupas. foi pessoalmente apanhar a roupa de cama perscrutando com avidez as fisionomias das enfermeiras. foi recuperando a distância. porque é aqui que eu estou. Dessa v ez. tornava-se uma realidade estreita demais.. não é. . . suas enfermeiras apressadas e inamistosa s. ela ficou como paciente externa por algum tempo disse a enfermeira. por meio da qual os médi cos avaliavam a responsabilidade do paciente: passou a ir sozinha ao consultório d a sua médica (100 pés = 1 hora de sanidade). num gesto que abarcava o mundo todo. Seu rosto tinha adquirido uma expressão amargurada e tristonha mas. disse em tom de súplica: .Abrir am a oficina da T. . Pouco a pouco. não há porque ficar humilhada. assim. quais as que não). .Carla. À noite ia ao cinema ou ficava no quarto lendo livros técnicos para me atualizar. Déb. quase que as ouvindo gemer sob o seu peso.Se estou viva. não importa.Mas agora está de volta. lá fora. requereu sua transferência para a Ala B. Déborah. em seguida. Logo logo as ruas começaram a me lembrar outras ruas. quando viu Carla. . onde poderi a dispor de todo um arsenal de livros. Déborah inspirou com vontade o ar frio e constante do inverno. . a minha substância é igual à dos outros. "boa tarde". . .Foi uma solidão dos diabos.. Limitara-se a ir ao banheiro.respondeu Carla. nada mais .Bem.. perguntou seus nomes. Déborah comentou: . entregando-se toda. .suas pacientes acabrunhadas e inertes. as ruas de St. procurando transmitir naquele olhar mil coisas que representariam uma in trusão inadmissível se fossem ditas em palavras. . . a última fundição de cuca de Mary. gosto muito de você. A enfermeira-chefe ergueu os olhos para ela. arrancando uma a uma as palavras.Me senti muito sozinha no emprego o longo pe rcurso de manhã até o trabalho me deixava meio hipnotizada.Sim.Isso não quer dizer que ninguém terá sucesso . e fez questão de ficar no quarto da frente onde havia barulho e vida. porém. Estou contente de encontrá-la aqui. . finalmente. na Ala B fora um período sombrio e silencioso. Déborah procurou ser o mais concisa po ssível. concedendo-lhe.Você conhece Carla Stoneham. povoado apenas pelos bram idos do Coletor e a efervescência do vulcão. Déborah sentiu os olhos umedècerem.Ela voltou? Eu. Chegando ao quarto.. . aí a cuca fundiu de novo. aind a estou despreparada. esforça ndo-se para conservar o tom neutro de voz. . iam levando uma conver sinha miúda: falaram sobre a velha Coral. como sentiu o amor pelo mund o que se abria diante dela. fe chou os olhos e. lápis e blocos de desenho. a mesma rotina.Foi difícil voltar? .Parecia estar arrasada e humilhada.e emendou logo . No decorrer dess a escalada.Bem. até que.O retinir de uma campainha interrompeu Carla. . Talvez eu e steja sendo egoísta..exclamou para Furii excitada. e depois não havia ninguém c om quem conversar. . .

Déborah construiu um muro com o braço. a aguardava um b loco de desenho só para ela.O dia estava muito lindo. aos olhos de Déborah.. perguntou intrigada: . As pa218 cientes costuravam.E continuaram em direção à T. Foram depois. e que ao vê-las gesti culando no passeio.movimento e gravidade. Carla sentia-se compreendendo o que se passava. Carla contou as janelas e concluiu: . ve io recebê-las. .É. liam. Um tiro no trigal já era sufici ente para o dia. amizade e a sensação de ser plenamente humano. (A enfermeira vem aí!) exclamou a velha. . em trajes de caça. As fisionomias se descontraíram. . (Tchau!) acenou rápido e sumiu. (Meti-me numa briga) disse a velha espalhando as mãos pelo vão da janela. Desterradas pelas leis do mundo. . faziam colagens com retalhos de pa no e cola. realmente fora. e Déborah foi apresentada a alguns rapazes. (Até onde?) perguntou a outra. A oficina tinha um aspecto animado de trabalho.exclamou entusiasticamente. a tex tura da realidade. . Uma orient adora da Terapia Ocupacional. Não repararam na auxiliar que tinha saído pela porta dos fundos. de tocos carcomidos de madeira. você que já esteve fora. atiran do num trigal ondulado pelo vento e. Era a Srta. logo em seguida.Já a vi antes. o "tera pêutico" faz-de-conta representava.disse Carla. como vai Carla! .. porém. se tiver sobrado café. aque las párias aqueciam as mãos diante da ilusão de uma faina gratificante.respondeu Carla .Déborah preferiu não entrar.Acenaram de volta e. seu cérebro apalpava as leis que regi am a raça humana e consubstanciai . rompendo correntes no ar e ensaiando uma cambalh ota. me diga uma coisa: é assim que aco . e onde sempre havia um bule de café à disposição tanto dos pacientes quanto dos médicos. . em seguida. causa e efeito. na oficina. ficaram se comunicando por meio de sinais. Sentia-se tra nsbordar de alegria. enclausuraram ela de novo. Coral que acenava para elas lá de cima. mas seus olhos devoravam as cores e dimensões do mundo. uma chave imaginária.ôi...Trouxe-nos uma visita? . é claro! . até a Ala A. . Sua atenção foi despertada por um ruído às suas cos as. sentia-se extremamente embaraçada. por detrás das grades de uma das janelas da Ala D. as mãos retomaram o trabalho. fazendo um gesto de quem olha para o mar. uma bofetada inconsciente no orgulho que as pacientes deveriam supostamente estar fortalecendo. subiam rolo s de fumaça e de vez em quando ela aspirava o cheirinho de queimado.. todas as cabeças se despregaram das respectivas ocupações e viraram em sua direção. (Estou livre!) respondeu Déborah. visava apenas mantê-las-ocupadas.Ela agora está na Ala B e é minha companheira de quarto. O.Queríamos apenas dar uma olhada. via-se que toda essa atividade era puro faz-de-conta. Déborah visualizou mentalmente: a instrutora. Numa terra onde a "utilidade" era enaltecida ao máximo. Queria conter aquele transbordar de gratidão.Praticando. Para além da sebe que delimitava a Reserva. ocupar por ocupar. .ia dizendo Carla.A função desse bule é infundir esperanças na g ente. vestindo um uniforme listrado de azul e branco. . Voltou-se p ara Déborah e perguntou: .Carla. e parou diante dele com a mão. modelavam em barro.Eles têm prioridade .saudou com uma jovialidade um tanto excessiva. que estava aberta. Ficaram ainda algum tempo por ali. virou-se para a mulher e declarou em alto e bom tom: . Déborah não fa lou nada. se não me engano na Ala D! No mesmo instante. durante algum tempo.Ora. pondo as mãos na cabeça para indicar as duas abas da toca branca e sacudindo. irrita da. e. qu e ficava num dós anexos do hospital. meninas? . . Par ecia-lhe inconcebível que pudesse haver homens mentalmente enfermos. .O que estão fazendo. . Tinha junto de si uma amiga e. a revoada súbita e alarmada de um bando de pássaros.É. . 219 talvez nos dêem um pouco.. . Procuravam em vão extrair de pedaços de papel e traços velhos..só praticando. Observando mais atentamente. Esta é Déborah.

Ontem. Nós sempre rimos das brincadeiras dela. você tem que apresentar documentos e. É óbvio que.disse ela distraidam ente como se estivesse pensando naquilo pela primeira vez. Parabéns! . muito desagradável .Tenho uma coi sa para lhe contar. . Os médicos afirmam que a culpa é dos doentes . .Para conseguir emprego. Sabe. que jamais tinha me ocorrido antes . É sobre Helene. quando a gente entra numa sala? . N a porta que dava acesso à Ala B (esta já não tinha chaves) cruzaram com o tal médico nov o. conversando. desforrando-se de todos os médicos que usavam s eu prestígio e a falsa noção de que eram donos da verdade "para conservar à distância seus pacientes.. Caminhavam de volta para a ala. Em compensação. há uma a ssistente social para testar você. Coral teve uma f ormação batista.Descobri uma coisa estranha. segundo Déborah. Ao ver Déborah. Déborah caiu na gargalhada: Ótima idéia! Médicos! Viagem financiada ao Exterior.. tubo-bem". aliás. uma conduta melhor do que a gente espera.Ponham de lado seu prestígio.Ei! (escancarara um vasto sorris o). a Srta. venho notando que. O pior de tudo é o que a gente sente quando todo mundo se mostra muito cortês. seu orgulho! Conheçam essa deslumbrante excursão e vibrem com o falso "tubo-bem. e na verdade a distância entre você e eles vai a umentando.Déborah sentia que ele não zom bava. . eu a encontrei me esperando junto à porta.Bem. pois jamais haviam fechado completament e as portas aos pacientes.. geralmente. por que não"? "Quem sabe. el a tem demonstrado uma preocupação maior pelas pessoas." . Eu as tr ansformo em judias. sabendo que. . quando a enfermeira viera levar Déborah para baixo. car regando um estigma pesadíssimo na testa.disse à Doutôra Fried. e Carla são protestantes. mas é muito fácil falar. nunca dei a menor confiança a quem não fosse judeu. Os únicos.. mesmo nas suas ausências. a título de expiação. seus direitos civis. e não eu"? Resp ondi então: "Sim. Pode acontecer uma situação muito. "boa noite" para lá. seria mais fácil criar amizades."Por que você vai sair. quando Déborah disse: . Dizem que se eu fosse menos ansiosa. que não precisariam dessa viagem ao exterior e ram o doutor Halle. Queria ver um desses médicos tentar ingressar num grupo novo. o primeiro passo é esquecer que elas são gentias. apesar d e 220 serem extremamente agressivas. POis sempre nos disseram qu e as gentias acabam sempre nos 221 traindo. as vezes. Quando ia deixar a Ala D. o médico novo. Não lhe passara pela cabeça que o primeiro contato com o mundo recém-descoberto viesse a ser algum vinho inebriante para merecer recepção tão calorosa.Percebi que tenho realizado inadvertidamente uma curiosa operação mental. aumentando. Helene estava xingando o "Talvez". Helene se refizera im ediatamente. e começara a agitar o punho e a xingá-la de "puta". daquelas bem fanáticas. Carla perguntou a minha opinião sobre uma determinada pessoa.sussurrara aos deuses de Yr.. que lhe dão uma força eno rme.Déborah apenas sorria. consciente de que está sendo aceito unicame nte graças à piedade ou a uma fascinação mórbida das pessoas. A etapa seguinte consiste em esquecer que não são judias. . e a perse gui-la com seus gritos: . "idiota". Nunca tive um amig o que não fosse judeu.. você encontra pessoas maravilhosas. Descobri que os judeus também são intolerantes a seu modo. .Não se esqueça! .E então? . por exempl o. Várias fir mas exigem que você apresente o "atestado de sanidade". de algum tempo para cá. Logo que surgiu uma oportunidade de ficarm os a sós. "bom dia" para cá. Passem um ano glorioso como pacientes nós manicômios! Carla também riu. Contaram-me que você vai mudar de endereço. quem sabe. na rea lidade. . seu rosto iluminara-se todo: . O doutor Hi ll. mas as pessoas têm.Como é que você faz isso? .que é minha a culpa. Sabe o que eu dis . Helene é católica. Nunca vi Helene tão des armada.ntece lá. . e dão a isso uma importância m uito grande. Furii e o médico novo. o dia em que teria que descer também. quand o estiverem no ponto de chegada! Ficaram horas inventando charadas. Talvez ele não e steja em condições de julgar . ela se virou para mim e perguntou: . para que possam se aproximar de mim.

pronta para soltá-lo.Agora. e prepará-lo para utilizar a sua saúde em proveito da razão e da liberdade. embora soubessem de tudo e es tivessem mortalmente decepcionados e envergonhados com ela.. e só então decidi matá-la.A janela estava aberta? . O que f oi que a sua mãe disse assim que entrou? Foi: "Largue já esta criança!" ou "Não machuque o bebê!"? . a tentativa de jogar a sua irmã recém-nascida pela jan ela. não matara Suzy àquele dia. mas você era simplesmente pequena demais par a fazer qualquer uma dessas coisas que julga ter feito.. Lembro-me perfeitamente do que ela disse: "O que é que você e stá fazendo aqui"? O bebê chorava. .Não. Entendo. A doutôra se lembrou de um artigo que tinha escrito discutindo a importância de o médi co alertar o paciente.. começa a chorar para que a mãe a pegue no c olo.disse Furii. não faz a menor diferença se o outro é um maluco judeu ou um maluco cristão.declarou. para que eu me desse conta. e continuar a amá-las? .que não prestei atenção aos fatos. como e stendera a criaturinha pela janela. para se destacar. há certos detalhes que não me saem da cabeça.Para um maluc o. na fase de recuperação. num piscar de olhos. que. . .. apoia-o no peitoril.Estava.era verdadeiro.. experimentou se inclinar para fora e depois foi buscar sua irmã? . por mais que as pessoas o achassem adorável. você não imagina como estou satisfeita por ter descoberto isso! Mudando de assunto agora. e voèl seja o que é. A vergonha que. posteriormente.Afirmo-lhe que essa sua história fede como p diatip! Uma cri ança de cinco anos de idade suspende um bebê consideravelmente pesado. guardavam um silêncio misericordioso. tenho pensado naquela história que me contou. por pouco. Agora vou virar d etetive . . no dia em que entrou e vi u o bebê no berço. Parecia Mr. carrega-o até a janela. de duas uma: ou eu estou louca. . o amor culpado que a fazia estremecer ao pensar que. por sua vez. D ódio . a essa altura dos acontecimentos. essa menina de cinco anos puxa de volta a irmãzinha para dentro.o ódio e a dor .. Foi preciso que eles grit assem por mim mil vezes. odiando-o o suficiente para desejar matá-lo. Quer dizer que você abriu a janela. a vergonha de ter sido apanhada em flagrante e de odiar a irmã. . e depois de dar muito s tratos à bola foi que me lembrei que ela não poderia entender o que era Purim. mas os fatos estão todos contra você.se? "É daquelas que. ou você construiu essa historia inteirinha aos cinco anos.Mas você é capaz de admitir que elas sejam o que são.O suficiente para me inclinar para fora com o bebê.Não. 222 Entendo. . .Isso eu aprendi aqui no hospital . escorando-o com o corpo enquanto abre a janela.Déborah. . cu ja feiúra lhe saltava aos olhos. mas lembro-me de tê-la aberto um pouco mais. ela já estava de volta no berço. .Você a abriu todinha? .Você pode se lembrar do ódio que sentiu. . a mãe entra no quarto e. Primeiro eu a peguei nos braços. Déborah. . . Acho que tem dente de coelho nessa história. Nisso. .perguntou Furii. e a dor também.Não é possível.disse Déborah pensativamente. não e ra judia. .O que me surpreende mais é que eu estava tão ocupada em ouvir o conteúdo emocional d a história . procura chorar mais do que todo mundo no Pu rim". em seguida. a chegada repentina da mãe.Furii reclinou-se na poltrona com um ar satisfeito. Pickwick depois de um lauto jantar. com os braços esticados.. eu me lembro.Não. . para os sintomas de loucura que terá de encontrar no próprio mundo. Por sobre o incidente pairava o olhar reprovador dos pais que. Só depois que ela olhou para mim com cara de surpresa. não foi nada disso.Muito interessante! . . suspende o bebê por sobre o parapei to e o estende para fora. ex perimenta inclinar-se para fora e. segundo . Você poderia repeti-la para mim? Déborah relatou novamente o episódio: como alcançara o berço e apanhara o nenenzinho.

por sinal. .exclamou Déborah em Yri. Suas mãos tremiam e seu r osto estava pálido e doentio.disse ela. você não poderá mais se fl agelar com esse chicote. Ficai comigo . .Estava pensando em voz alta. e porque apenas sugeriam a dúvi da. Há anos que convivo com isso. Yr e o Outro Lugar.Sim. de uma beleza ofuscante. por algum milagre. ela parecia ter ascendido do Inferno ao Purgatório. em Yri. .murmurou abismada. Explorou aqueles tempos fugazes e mágicos. áspero. Durante o jantar. Quando Idat chorava. Seus olhos estavam no nível dos nós dos de dos da mão dele.Bem.Déborah implorou a Yr. apesar de ter sido privada dos mimos que lhe cumulavam a família. apesar do suposto assassinato. t iritando de frio.Que dia é hoje? . Terás agora um modelo a seguir. Carla se mostrou extremamente nervosa. amargo... ma . Penso em to mar-me para sempre uma mulher .Era um berço . culpa por ter desejado a morte de Suzy. uma so noridade pungente. Isto quer dizer que estamos num calendário ascendente. . . Vou .Quinze de dezembro. Não houve resposta. Oh. as lágrimas escorriam pelo seu rosto.Estou de pleno acordo. condenada de corpo e alma. usando d termo que significava "para sempre" .Só que de agora em diante. a irmãzinha. Diferiam em todos os sentidos. . e quando se acalmou. e nada tinha a ver com o mundo.propôs Furii Déborah começou a falar sobre aquele ano cheio de coisas luminosas que antecedeu o r einado da tristeza. Nossa suposta assassina não passa de uma menina ciumenta de cinco anos de idade. e caminhar para a ruína? Não estou linda nessa árvore? . Sofra. Déborah procurou reconfortá-la com olhares afetuosos. com seus galhos úmidos e enegrecidos. . . vítima . Há dois calendários.Pode muito bem ter sido verdade. . que jamais poderia tomar Idat como modelo.Nem sequer toquei nela. a Dissimuladora. entrecortado.você. de futuro. de e speranças. Furii deixou que ela chorasse à vontade. Ao deixar o consultório. Déborah. repleta de situações felizes.indagou a deusa. Déborah chorava copiosamente. Percebeu que. Por que manter a ambos. perguntou-lhe numa voz meiga: . Observava as árvores da Reserva. A felicidade dos seus pr imeiros anos de vida constituía uma prova irrefutável de que não estava condenada gene ticamente. acabei de me lembrar que hoje é Quarto Englift para Annot. Graças à falsa noção 225 do seu poder destrutivo (noção.A terra tcomouse tão boa agora. era um frio sujeito às leis e estações da terra. . . Quando retcomou daquela incursão. Seus véus ondulavam docemente ao sabor de um vento intemporal. foi caminhando para a ala sob uma chuvinha fina ê gelada. pelo modo como eram formuladas. suas lágrimas cristalizavam-se em diamantes.indagou Déborah.Faltava-lhe ainda coragem para confessar que. como se fosse mes mo real. As perguntas tinham. eram sempre muito difíceis. . . felicíssima porque.. Por causa do cortinado do berço. no de Yr não há mês. Idat . dessa vez. sabia.Furii sorriu. Era ainda um c horo de principiante.devolver meu emblema de detetive amanhã mesmo! Os pensamentos de Déborah recuaram no tempo até aquele fatídico quarto: viu-se aos cin co anos olhando. Por que pergunta? . Furii aquies ceu num gesto complacente: . . qua ndo avistou Idat caminhando no alto de um deles. nem sequer conseguiria alcançar a borda dele. . seus pais Sentiram todos esses anos é uma invenção do seu sentimento de.saudou Idat.Daqueles com pernas? Meu Deus.Foi gostoso? 224 . Os dias são demarcados pelas vezes em que o Coletor se reúne para julgar. no entanto.Sim. Compreendeu que houvera uma época em sua vida.Já que você está de volta àqueles dias. . precisou se erguer na ponta dos pés e espreitar pela borda. que a doença a impede de superar) você traduz iu esses pensamentos numa ação supostamente real.retificou Déborah. Idat era deusa. . As respostas de Idat. O tempo de Yr é intemo. concordo. poderíamos muito bem vê-los juntas . junto ao pai. ainda não estava acorrentada ao signo da des truição.Nem sequer toquei nela. . . carregados de expec tativas.

arranhões e queimaduras.s em vão. insuportável para qualquer corpo molecular. pressionava.gritou para a mão. em gera l. ocorreu-lhe que talvez não. levantaram-se e debandaram. O ruído da louça quebrando repercutiu longamente nas pessoas senta das à mesa. desferindo fagulhas luminosas. Déborah.. A mão se escancarou. 226 24 O sonho se passava numa noite escura de inverno. O punho. a xícara escorregou de suas mãos trêmulas e 225 espatifou-se no chão. Parecia sentir todo o sofrimento d o carvão em seu próprio corpo. mas estava exausta. coisa que jamais poderia c onfessar ali. Déborah. emitindo uma incandescência lívida. ávidos por mostrar que o amor que tinham p or ela continuava intacto. pressionava. numa grande ansiedade. que se apressarasentia-sen a assegurar suas respectivas posições naquela c rosta. As mãos rel axaram. . como se estivesse revivenciando as dores lancinantes do nascimento. . apenas o suficiente para ser notada. Urna voz trovejou: . Fo i se fechando lentamente.. Foi um gesto súbito.. num ímpeto.. ergueu discretamente a mão branca. e estimulou um fluxo de medo pelos sulcos traçados e retraçados dentro de cad a uma. is so será você. mas estava melhor do que antes. banquete com os seus pratos prediletos. Continuava imensa a distância que sentia entre ela e as "pessoas normais".. estranhariam sobretudo os vestígios q ue trazia das privações e da solidão .Déborah! . e a s meninas. Três diamantes.. Olhou entemecida para Carla. Chegou a um ponto que não suportou mais. mostrando sobre a extensa palma três pedacinhos de carvão... ra uma mão possante de homem. o de que tinha ainda uma dívida para com Sylvia e já há muito tempo queria dar um beijo em McPherson. nunca complicados por mai s de dois ou três participantes ao mesmo tempo.Déborah. Só então Déborah com preendeu como se expusera a Carla. mas estava lança da. Ao servirem o café. os tormentos amainaram." Déborah se esforçou o quanto pôde para não recusar os pratos festivos que lhe serviam e conversar com as pessoas. os avós. .Pare! Não vai acabar nunca ! ." e "não importa que. Transcorrido muito tempo. não havia como afastá-la . contraindo-se com uma força estupenda. A mão virou-se lentamente e lentamente se abriu. abruptamente. onde os fios d e conversa iam se emaranhando como um complicado novelo de lã. No hospital. Se u rosto continuava pálido e acabrunhado. Todas as suas amigas e conhecidas vieram corroborar o fato de que "apesar de tudo. ossos e tendões destacavam-se nas sombr as. e todos os velhos tio s abraçaram-na" trêmulos de piedade e medo. como se fosse a quebradiça crosta de realidade sobre a qual to das elas andavam. Receberam-na em casa como a uma heroína.e de novo. Ninguém disse nada. As mãos ficaram. Três diamantes translúcidos e reluzentes. Déborah tinha uma sensação violentamente opressiva de esmagamento. Sabia que estranhariam o seu ol har. pressionava. os relacionamentos eram episódicos e fugazes. cuja função específica era anunciar o final da refeição. quase que simultaneamente.talvez fosse um pouquinho boa. Jacob. Das trevas surgiu uniãTimènsa mãõTêcháda. suas cicatrizes. 227 25 No dia primeiro de janeiro. o coração palpitando de me do. foi para casa passar cinco dias com a família. . ela fosse mais do que u ma simples ex-quase-assassina: a palavra a atingiu como um murro.. carinhosamente . nem uma pedra ! . A enfermeira.um terço de talvez.mas um desejo insaciável de viver novas experiência s lhe infundia a coragem necessária. e as conversas terminavam. talvez era um termo forte demais .Nem mesmo uma pedra pode suportar isso. as pálpebras pesavam como chumbo. Suzy.. tcomou as mãos de Carla. . jaziam sobr e a palma. cujos relevos. Esther preparara um verdadeira. que an tecedeu a todo cálculo: o de que quarta Englijt para Annot se constituía numa posição se gura de onde podia se aventurar. Ao subir as escadas. Não estava habituada a esses bate-papos paralelos.

as coisas ficariam muito mais fáceis! Sim. para ela representava uma escalada árdua e exaustiva.não é filhinha? Esse é o seu verdadeiro lugar! (O tumor começou a latejar .Você não vai por eu estar aqui? .Não! ..perguntou. sussurrou num t om triunfal: . não se deu por satisfeita. .Não. . .exclamou Déborah.Ela a ama profundamente.Não banque a mamãezinha comigo! Responda a minha 229 pergunta . embora estivesse exausta. .pensou de si para si. veremos. não. Mamãe e papai precisavam dela agora. perdida. no entanto. Déborah. esperando que ela acabasse de tomar os remédios.Você vai com eles. . Era óbvio que mentia. não vai? . Suzy virou-se para ela e ia responder. é que eu quero mesmo ficar dessa vez. e quando se debruçou para beijá-la. . Acredite . . . S uzy vinha fazendo planos para aquele "fim de semana". cumulavam-na de liso njas como se a sua volta ao lar fosse um verdadeiro milagre. dever a esses titãs. . . 228 . você não precisa ficar naquele lugar de mulhêres histéricas.mas não ousou enxugá-los ali onde poderia m vê-la.. sentada do lado oposto da mesa. Agarrava-se ofegante a os íngremes rochedos. . inepta e solitária. Debby .berrou Suzy.. inclusive porque percebia que queriam conve rsar sem ela. Ao ouvir aquilo. . . que fosse glamurosa e atr aente . se vocês todos deixassem de fazer tanto caso a respeito desse mi sterioso segredo. por alguma ironia do destino.com licença. Não era exata mente a irmã que desejava . por mais amorosa qu e fosse. Festejavamna.Escuta.Déborah. sentindo que cada favor. ..Logo. mais d o que nunca. Quero ficar com você essa seman a. Seus olhos se encheram de lág rimas . tão pouco vivida. ou algo assim? . e de um modo que che gava a ser assustador. . Deu as costas e correu para o quarto. que se autodenominavam "pessoas normais". Aquilo que para os outros não passava de uma caminhada tra nqüila. cada gentileza.uma irmã que freqüentasse todos os bailes. era uma dívida a pagar.Não é todos os dias que você vem.. seriam muito mais fáceis. Na hora de dormir.Jacob cumulava-a de carinhos. incapa zes de avaliar a força tremenda que possuíam.Não.mas. Jacob ficou olhando para longe. Decidiu ligar do seu quar to para a amiga e comunicar que não participaria da excursão que vinham planejando há tanto tempo. veremos. . Não estão deliciosos os cogumelos.interveio Suzy . com a cabeça zonza. Esther e Jacob. . tenho que ligar para Annette. ela empalideceu tão visivelmente que Esther se apressou em desvia r o rumo da conversa: . . um intercâmbio natural. Déborah ia responder que bastavam os talheres para a aposta. fiz os seus pratos prediletos. um suplício que lhe pesava sobre os ombros como mas sas de chumbo.perguntou Déborah.Bem. já há muito tempo. sentada de novo à sua mesa. . estava longe.perguntou Esther. no entanto.disse ele. Precisavam realmente. a gratidão é recíproca. que liderasse a torcida do time da escola.queriam demais fazer essa viagem . . . observava-os em silêncio. Entre iguais. A irmã tinha um aspecto feio e cansado. depois de um dia tão movimentado.) Debby. .. Déborah. mas se conteve a temp o.. e depois de hesitar alg uns segundos. mas mordeu o lábio. disse: . Debby. Está vendo.disse Esther. lembrando-se que. sentindo que começava a naufragar. . Levantou-se precipitadamente.A família está fazendo o melhor que pode. só fazia com que ela se sentisse. procuramos aplainar todos os caminhos para você.Aposto que não servem uma fatia de carne como essa "naquele lugar". apesar de ser mais velha. a felicidade e a paz da família repousa vam nela. logo você voltará para casa de vez . . Para Déborah. meio desconcertados vieram trazer a dose de s edativos receitada pelo hospital. Suas manifestações de carinho eram patéticas e vulneráveis. . vou da próxima vez. Debby também. Agora. Não cabia em si de orgulho por ver a filha pródiga de volta ao lar.Você combinou com eles para passarem por aqui primeiro. Sabia que precisava proteger essa última Debby.mamãe e papai já me contaram que aquele lugar não é u ma escola.Suzy. que tivesse mil namorados.

Ainda assim. Suzy acabou mesmo não indo à excursão..Não.. ouvimos os gritos. e os mergulhos com Anterrabae arrastando uma imensa cauda de lu z. mir ando-se num espelho que refletia a imagem da graciosa amiga de faculdade da foto grafia. Caí a na besteira de trazer um pacote de desenhos seus para mostrá-los a Esther (sua p rimeira juíza). as velhas pediam que Déborah explicas se como fizera os desenhos e. o de Yr. davam um beijo em Suzy e. Débora h ganhava asas e voava. e ela agora os exibia orgulhosamente a todas as tias e tias-avós. faziam alguns elogios extravagantes. Invariavelmente. isso foi há semanas at . os movimentos. Logo o reinado do Censor transformou-se numa tirania intole rável. vôos puros. No início foi até bom que ele viesse. Não o Yr anárquico dos últimos tempos. Jamais te odiámos! friZou Lactamaeon. Seus olhos foram se fechando e antes de mergulh ar no sono concluiu num murmúrio.. não vale a pena trocá-lo pela terra. Ela se vinga de todo mundo fingindo-se de Tarzan.Que mulheres histéricas? . cuidadosamente agrupados segundo o nível de ignorância das "condições" de Déborah. mas beleza' e alegria sujeitas aos caprichos e inconstâncias do tirano. . prestando tributos verbais à Terra cinzenta e desolada. e que belo reino era aquele: havia a gigantesca águia do roche do. Havia momentos de uma alegria extraordinária. com olhares cúmplices. Sim. torcendo.exclamou Anterrabae. jubilosos e perfeitos. começaram a ser recortados os con230 tornos luminosos dos personagens de Yr. Nas trevas do quarto. um céu que se perdia de vista. diziam uma p iadinha a respeito de suas últimas conquistas ("Não. e a felicidade que sentia era tão intensa que seus pés não se contentavam com o chão. já sei! Deve ter sido aquela velha idiota da Lucy Martenson.. depois de um longo período de confusões c ausados pelas colisões dos dois mundos.bradou Lactameon. .sua riqueza de cores e aromas. disse-lhe boa noite e saiu. vistas como figuras minúsculas perdidas num jardim que se estendia até ao infinito. Por mais deslumbrada que estivesse com o mundo .Ah. exceto um retrato de Helene de cabelos desgrenhados e olhos vazios. Déborah sabia que diziam a verdade.". Nenhum dos desenhos continha cenas do h ospital. mas o Yr dos velhos tempos. do "era-uma-vez uma rainha que se c hamava Déborah. os sons. quando nós visitamos.Perguntava-se no íntimo se ele teria escutado sequer um cochicho seu. o tempo e uma infinida de de outras descobertas maravilhosas . Protegia e mantinha os mundos separados para que ela pudesse ir em segurança de um ao outr o. Só que dessa vez a escala que media as virtud es da terra contava com novos valores-sobretudo a esperança. com todas as forças de sua alma. Trepa nas janelas da frente e fica a rrepiando os cabelos das visitas. foram breves esses tempos.. Conosco. o pequeníssimo "Talvez" .. . Lembra-te de que viemos numa era de esterilidade e de morte de todas as esperanças ! . e quantas oferendas trouxemos . Deu um abraço apertado e cúmplice na filha. era preciso escolher de novo. A ntes de irem embora. em segredo. Fcomos para te proteger! . . Havia um outro de Constantia com as duas enfermeiras que habitualmente a acompanhavam nos passeios. ravinas verdejantes e floridas onde pastavam ca valos selvagens. alguém que se chamasse Lucy. enquanto desfrutava. Agora. cheio de prenúncios fatais e poços tenebrosos. galo pando num reluzente corcel. . de sua liberdade em Yr. As velhas ficavam olhando com um ar meio estúpido. Nunca ocorrera a Jacob que aqueles gritos aterradores pudessem pertencer a uma p essoa de carne e osso. 231 O sedativo começou a fazer efeito. tia Selma. tudo começou a mudar com a jurisdição do Censor. um sorriso satisfeito pendurado n os lábios.Bem. tu rias. extensiva a ambos os mundos.relutava seriamente em trocá-lo pelo seu o utro mundo. Yr continuou sendo fonte de beleza e alegria. e isso o tranqüilizou um pouco. Déborah soltou uma gargalhada p ara escapar à aflição de encará-lo: . Lamentavelmente. balançando tolerantemente a cabeça. em seguida. a terra era um lugar extremamente perigoso e traiçoeiro. acen ando com um feixe de centelhas na mão. para que não. As visitas de parentes se arrastaram pelo dia t odo.lembrou Anterrabae Antes não rias em parte al guma.

mas o sono foi mais forte. dizendo com os olhos: "Quando essa exp lodir. apurando os ouv idos. discutindo num tom bastante angustiado. . o ato falho que. ela só vai ficar alguns dias. Eu danço também e eu escrevi duas músic s para as festas do acampamento de férias. soltava um grito lancinante como se tivesse levado um tiro. desmiolada e de scuidada! Você não está sendo injusta? . enquanto Esther fazia comentários lisonjeiros a respeito de seu charme e da sua postura na mesa. sob as camadas da lógica e da vontade. Os seus três primeiros meses d e "lua-de-mel". você simples mente não escuta nada. Jacob apareceu na porta do quarto e rugiu furioso: . . vai chegar até o teto". Yr e as regiões mais obscuras do mundo travavam uma batalha renhida dentro dela. Essa menina parecia-se muito com Helene.protestou Esther. Durante o jantar. menina burra! . meu Deus . Carmem.resmungou Suzy . . Embora sentisse que jamais c onseguiria se identificar com os costumes e hábitos das "pessoas normais". guache. vamos até a Ala A jogar pingue-pongue? . Déborah observava atentamente a irmã preocupada com a melancolia que vinha notando nela já há dois dias.rás. o mundo material abria-lhe belas perspectivas e valiosas recompensas. a acontece que eu sou mais do que uma tola. sobretudo. ia desenvolvendo seus dotes artísticos. preferira ficar. Eu não preciso fazer isso! Elogiar você é fanfarronice. por isso é que estamos fazendo esse rebuliço todo.gritou Suzy . aludia à causa drogada e adormecida de todas as suas dores de ca beça e discussões. Elogiar Déborah é. o que quer que fosse. no entanto.Newtoniana. deixan do-a entregue àqueles elogios intermináveis. Chamava-se Carmen. ano passado. inconscientemente. tcomou os sedativos e foi para a cama mais cedo. estavam quase se acabando. Certa vez. Déborah temi a. justificar .Não posso. Déborah. Estava quase dorm indo. mas você nunca chama a vovó. Déborah sen tia que. lá no íntimo. Ficava horas e horas largada num canto. que continuava deslumbrada com ás formas e cores que desc obria no mundo. aperfeiçoando vários estilos e técnicas novas.berrou Esther perdendo as estribeiras. Poderia ter ido à excursão.. nada mais"). Enquanto brincava com todos os brinqu edos da terra. cheios de amor e desespero.murmurou Déborah aflita. aquarela. . Os materiais disponíveis na oficina de artesanato da Terapia Ocupac ional eram escassos. durante os quais as pessoas se agarram aos últimos trapos de sanid ade para encobrir uma horrível nudez. animada por uma curiosidade insaciável. Fcomos à festa juntos. Podem não ser tão "profundas" quanto os desenhos de Debby. 232 você não os escuta . . e para sua própr ia surpresa a resposta que deu foi: . quando escutou as vozes de Suzy e Esther na sala de estar. .cada visita que você faz ela você convoca toda a família. Déborah e Carla entreolhavam-se. e era filha de um magnata riquíssimo.porque quando não se trata de Debby. Eu desenho também.Calem a boca! Assim vocês aco rdam até os mortos! Os três perceberam imediatamente o deslize. ma s de forma clara.Ei. Quando passavam p or Carmem. Meu pai vem me visitar essa tarde. e por m ais que a consciência negasse. 233 26 Veio a Primavera. coch ichavam: "Eles mentem! Eles mentem! O veneno existe!" Aquela noite. Cada carta . uma pa ciente recém-intemada perguntou-lhe o que era. ou convida tia Natalie e t io Matt para escutar a última música que eu compus ou o comentário inteligente que eu fiz! Será que você não compreende. embora ela estivesse destinada a uma longa permanência na Ala D. car vão. inteiramente inerte e. morrendo de culpa. referindo-se à religião. qu" estivesse transmitindo a ela a sua substância virulenta. de repente. havia ne la aquela força indef inível que permite prever a cura.Ai. Foram para a cama cabisbàixos. mas trabalhava-se com o que estivesse à mão: "silk-screen".

Todas as minhas auxiliares terão que passar uma semana como pacientes. deli ciando-se com o banho de chuva.Os dois auxiliares esperaram por elas e em seguida flanqueando-a s. em parte como punição. Aos domingos. . concordar sempre. Isso não era maneira de voltar. . aspirando a neblina fria que recobre as manhãs primave rís.Nem eu. . e caminharam cabisbaixas de volta para o hospi tal. então. não permitiremos nem grupinhos fechados. bobas de alegria.Não. . e depois reconstruí-lo todinho. .respondeu Carla.E o que é certo? .perguntou Carla. Ao cair danoite.perguntou Déborah. . . eram os hospitais o que melhor conheciam. .Íamos justamente entrar agora.Ele 234 não compreenderia.Em primeiro lugar teriam 235 que ser fortes o bastante para resistir.Chiii! Não tenho permissão para vir até aqui . até que c hegasse a segunda-feira. quando deram persi. Apesar da segurança que o hospital ofer ecia.Você quer que a gente fique por perto ou não? . . Irrompeu nelas uma sensação de liberdade maravilhosa. e as tardes de domingo consis tiam numa luta desesperada para impedir que os outros mundos aflorassem. nem panelinhas. . em parte por uma frági l e secreta esperança. concordar. .Na minha fábrica. Começou a cair uma chuvinha fina . as coisas certo. No entanto.Na minha universidade. . tudo ad quiria uma aparência desoladora de abandono. contudo. meninas. Passavam horas intermináveis construindo-os e selecionando pessoal.ponderou Carla. os patrões trabalharão nos serviços mais rotineiros para aprenderem como são duras as condições de trabalho do operário. penteari am os cabelos e vestiriam roupas mais apresentáveis antes de comparecerem à visita p ara ficarem de mediadoras entre o pai e a paciente mais esquisita que existia na Ala B. quando começou a ficar frio.Não . puseram-se a escoltá-las. . observando as fendas abertas pelo inverno na calçada e jogando o jogo dos sonho s que tinham inventado para passar o tempo. Era domingo. paz.Poremos os nossos médicos-em-serviço realmente em serviço. s antidade e amor. Consistia em decompor o mundo em inúme ros pedaços. bem distante d os prédios do hospital. . Mas ali no hospit al. Não podiam consentir em v . Eu só espero que consiga fazer.Eu suprimiria todas as barras das janelas . é bom ter de lutar contra algo qu e não ceda e que nos dê a segurança necessária para extravasarmos toda a nossa loucura.Ei. É bem verdade que deviam estar com um aspecto lastimável. .Olhe só onde estamos. Carla contou como foram agonizantes os domi ngos na época que esteve fora sentia-se trabalhando. Nos fins de semana. Eram os dias de lazer. as Aparências nunca chegavam a camuflar de todo. as pessoas ficavam desarmadas. Débora e Carla passeavam à toa. N os dias de semana. vocês têm autorização para sair à noite? . . oferecendo ajuda. Às vezes.Vamos. .. . Déborah ficou em dúvida. era possível baixar as Aparências como se baixa uma tela diante d o corpo e da mente. . . . mas se lavariam. as roupas encharcadas. estavam no prado. Sentaram-se na relva.. leva ntaram-se. . Mas nenhuma das duas dispunha-se a abdicar desse pequeno motim contra o fastio dos domingos e as restrições do mundo. Eram traiçoeiros os domingos. A oficina de artesanato estava fechada. ironicamente denominados Dia do Desca nso e da Liberdade.. Iam conversando distraídas e. Ao se aproximarem do primeiro prédio. quando então as farsas eram reativadas e a superfície se to mava de novo perfeita. Reafirmava-se nelas o desejo de perfeição humana.disse Déborah. .disse Carmen com voz lânguida. foram surpreendidas por Henson e Cleary que saíam naquele momento do Anexo 3 em direção ao prédio principal. . Equipá-los e administrá-los era a parte prin cipal do jogo.Concordar. os domingos eram dias terríveis.

correram. Em represália.respondeu Carla. diante d os auxiliares atônitos. . valeu!" E dormiu sentindo o cheirinho de chuva. Ambas mergulharam imediatamente numa vala lateral. surgiu a oportunidade ideal .pareciam gêmeas de tanta lama . .Perfeito! Era justamente o que eu queria. Recostou-se no barranco. Terminado o banho. livres ainda.Comporte-se! Tome seu sedativo e vá já para a cama. e no céu t empestuoso. as fugitivas saíram da vala e reto maram a caminhada. Carla e Déborah 236 simplesmente continuaram dando à volta. se aproximando. Quando os faróis sumiram na chuva. gozando uma sensação imensa de l iberdade. Ao se aproximarem da porta. transpuseram simplesmente de um salto.Não sabes o que te espera! . Você ficará essa noite. Déborah conclu iu com seus botões: "Talvez eu venha a pagar caro por isso. Déborah se perguntou pela primeira vez o que p retendiam fazer. Carla e Déborah a previram simultaneamente e. Eu queria ficar sozinha. Correram. Só foram "apanhadas" depois de atraves sarem o portão de entrada. Na realidade. os auxiliares automaticamente cercaram-nas por trás. pertenciam ao seg undo turno da noite.Mais perseguidores? . rindo às vezes dos escorregões que levavam por causa dos sapatos encharcados. ao que parece. A chuva fustigava-lhes o rosto com força. Logo que o carro passou. o banho go stoso de chuva. sua biruta. nem escoltada nem dirigida. Cantaram uma parte do caminho. só isso. vão ficar em reclusão. Entreolharam-se e seus olhos diziam: "Não!". escalaram o barranco até a e strada . a farra. As duas. afinal.declarou uma delas com ares de grande santidade. muitos anos.exclamou Carla esbaforida. pelas estradas escuras que cortavam os fundos do hospital. Também não tinham plano algum. divisaram out ro carro. ao transporem a porta. esperando que o c arro passasse. por terem fugido e voltado com tarriantra tranqüilida de e doçura. Pouco depois. Carla sac udia uma pedrinha do sapato. Passando a entrada. rindo e ofegando ao mesmo tempo. Mandaram gente para nos procurar! . mais cedo ou mais tarde . Isso ainda é uma estrada pública. Seus olhares.. saindo por onde tinham entrado e. como se tivessem sido treinadas a vida toda para aquilo.. Henson e Clear y tinham inconscientemente relaxado a vigilância. havia um con junto de portas giratórias.Terei de voltar lá. Não houve jeito: derrota das. Minutos depois. As dua s correram até ficarem sem fôlego.Tenho hora com minha 237 médica amanhã. com dores nos rins. mas que valeu. Avistaram uma luz. Esfregando o corpo para se aquecer. o que significava que já passava de meia-noite. tiritando de frio. . . o que pretendiam fazer era o que estavam fazendo. já dentro da portaria do prédio que abrigava as Alas B-C-D. a porta de entrada e saíram correndo. ouviram a sirene que anunciava a fuga de pacientes. Déborah e sua guarda emparelharam com Carla e sua guarda a cami nho para o final do corredor onde havia alguns quartos de reclusão. .É. Era um carro.e lá se foram as duas de novo para a vala. Déborah sorriu na escuridão. galopavam ligeiras as nuvens. Claro! . para cima? . Teremos que voltar. . Procurou se lembrar do que Furii lhe ensinara a respeito de fazer o que realmente queria . tiveram que entrar. relembrando na cama os episódios do dia. . Mais tarde.Pare de se bajular tanto. absorvida em seus pensamentos. -. mas um homem prevenido vale por dois.comentou Déborah em voz alta. Não tinham roupas secas nem dinheiro. coisa que não fazia há muitos. A volta foi longa.e voltaram a caminhar. arquejantes.oltar assim. e só então diminuíram a marcha e pr osseguiram andando. Ao seu lado. apanharam a oportunidade no momento exato. rindo de sua rapidez e agilidade. Porém. se encontraram por sobre as cabeças das enfermeiras e trocaram uma p iscadela cúmplice. Anterrabae entoava gloriosos hinos em Yr louvando os encantos do mundo. As duas auxiliares que vigiaram Déborah enquanto ela tomava banho. foram separadas uma da outra e escoltadas por uma numerosa guarda. não depois daquela sensação maravilhosa de liberdade. à distância. ..

e quero que você espere lá fora. ninguém liderou.Não vejo razões para r evogar os privilégios que lhes foram concedidos. crianças! . Não via Carla desde a piscadela da noite passada. De onde eu vim chamava-se as pessoas assim atuma i. . O Doutor Halle ostentava uma expressão sev eríssima. com uma cara assustadíssima.Onde está Carmen? .. Havia um termo Yri que descrevia bem o que sentiram naquela ocasião. Em resposta ao seu olhar interrogativo. O médico a interrompeu duas vezes para esclarecer detalhes e. Lá fora. Ninguém teve a idéia.O atual administrador da Ala B era um médico novo. . Pegam invariav elmente o sinal verde.Foi divertido? . Ao sair do consultório. não foi? Uma diversão compartilhada pelas duas. por detrás da escrivaninha. Percebendo a sua hesitação. a auxiliar bateu na porta do Dr. . em primeiro lugar? Déborah gaguejou. . Im aginou as duas meninas caminhando. Bem. eu. torcendo para que ele entendesse. Halle procurou tranquilizá-la: . . as pessoas desajeitadas e inábeis como eu veneram as que não são. não a tenho visto. por algumas horas que fosse. .Puxa. Ontem. . tateando em busca de uma explicação convincente. . depois de uma sentida esPera interminável. rindo e cantando debaixo de uma noite tempest uosa. Déborah encolheu os om bros. No fundo do jardim corria a sebe verdejante. eu tive que ser atumai. frustrando seus esforços para se concentrar numa explicação mais compreensível.. escoltada também. encontrou Carla esperando sua vez. oito delas se não me engano. Foram perguntar à enfermeira. C arla também. O melhor que f aria era tentar lembrar-se de todas as histórias que escutara a respeito de escapa das. Fizemos e pronto. As versões do que fizeram coincidem uma com a outra. 238 Estou supervisionando os trabalhos da ala B por algum tempo. De onde. . só caem doentes quando já estão deitados. .exclamou numa voz onde se mesclavam impaciência. Às 11 horas da manhã. quando apan ham um barbante para amarrar um embrulho nunca falta um centímetro. quando terminou. num gesto imperceptível e experiente. o Dr. A gente não decide quando vai espirrar. com gripe. .Recompôs a fisionomia severa.Deixe que a coisa saia. Chegando lá. O contentamento deve ter transparecido no seu rosto.Carmen foi para casa. um tal de Dr. Nós duas.Quero avisar a ela que está tudo Terminado Ela nos viu fugir e deve estar bastante preocupada. Elas sempre encontram um jeito de escapar ao último passo em falso.ele deseja falar com nós duas. Foi divertido. . . .Não sei. ele perguntou: -. Déborah entrou precavida. que os olhos de Carla interpretaram co mo um sinal de desgraça. os galhos nus das árvores carregados de brotos primaveris. Espirra e pronto. e sempre que contam p iadas.Recostou-se na poltrona esfregando a ponta dos dedos. a as coisas se mantém em ordem .Entre! .perguntou Carla. . É só isso . mas logo pôde suspirar de alívio ao notar que ele lutava para conter o riso. 239 Foi a vez dos guardas se entreolharem. por isso. girou a cadeira em direção à janela. .Ótimo! vou conversar agora com Carla. . .O Doutor Ogden está de cama. e aquilo íê-lo recordar-se de uma fuga que empreendera de casa quando menino. foi escoltada sob guarda aos escritórios da administração. que Déborah ainda não conhecia. e pensar em alguma versão que tomasse suas razões suficientemente convincentes.O diabo é que tinha que parecer sã. Quando elas saíram.Reviu mentalmente a cena da fuga na porta giratória. . o que é uma ati tude extremamente repreensível.Vocês infrigiram as normas do hospital.Venha. Ogden.concluiu. farejando o ar. . e um sorriso pendeu um instante nos seus lábios. . . .De quem foi a idéia. todos riem. A palavra tornou-se uma idéia fixa . .Está bem. Levaram-na ontem à noite.O que foi que aconteceu? Déborah contou a história. isso é raro aqui.Qual não foi a sua surpresa ao encontrar.perguntou ele. admiração e um grãozinh o de inveja. pois ele sorri u levemente e explicou: . en fiou a cabeça para fora e acenou para . se foi! . Ogden. Ela entrou e. Decidi u afinal traduzi-la.Ah. o D outor Halle. Esto u um bocado orgulhoso de vocês.

Podiam tê-la retirado dali ao primeiro fracasso. Deb. as vozes acabaram atraindo outras. cuja espingarda. Só sei que ela saiu com o pai por vol ta das sete horas da noite. Déborah e Helene estavam sentadas no corredor. mas sim que poderia ter conseguido.Vocês a conhecem? Quer dizer. Jamais exigiram que ela se recuperasse para restau rar o prestígio da família.Viram muito 240 mais ódio do que amor.Ela discordou. encerrada em seu próprio claustro. com bobs no cabelo e um bloco d e desenho nos joelhos. . . Déborah e Carla entreolharam-se. e leu a notícia até o fim.Mas o pai não veio só para visitá-la? . logo que recebeu seus privilegios.disse Déborah baixinho. 242 Eu não disse que ela teria conseguido. acusou-as de hipócrit as e mentirosas e. e logo souberam da novidade .. seu verdadeiro sorriso insinuou-se por detrás do falso. . a oportunidade de poder travar a batalha. como é que você pode ter certeza? . Levaram-na à oficina de artesanato. Embora fosse proibido ler jornais na Ala B.Carla.. . num instante.Meus pais. e por muito tempo. conheciam? . foi liberdade o que eles me deram. encarregou-se de preencher o c onteúdo de seus gestos. . . Os de Carmen não lhe der am sequer uma chance.... .Parece que sim. . mesmo sem haver qualquer sinal de progresso.Ela poderia ter conseguido se safar.Estendeu um recorte de jornal.acusou Helene no seu tom áspero de voz.perguntou Helene. . mas acho que mudou de idéia.Déb. ao passo que os meus. A manchete anunciava: FILHA DE MAGNATA SU ICIDA-SE.Pelo tom. sobretudo. . e isso'deixou-as ainda mais contente s. metida num vestido estampado de flores lilazes que nada tinha a ver com a agilíssima tigresa que o usava. Permitiram que ficasse. Déborah foi t ambém. furiosas com a perversidade do mundo. as mãos geladas.respondeu Carla. é sobre Carmen.. . Carla. Helene veio para a Ala B.Terry. . via-se que a enfermeira queria encerrar a conversa ali mesmo. Déborah deu uma olhada nele e o e nfiou rapidamente no bloco de desenho. Sim. com a fama violenta de Helene e as lendas que circulavam a seu respeito. .No final das contas. você viu Carmen ontem? .. . Carla saiu cedo para a entrevista com sua médica. lembrando-se do trigal e do caçador. Suspendeu o bloco para ocultar o recorte. .Hum-hum. e só voltou um pouco antes do jant ar. e ainda assim permitiram que eu ficasse. Sentia-se arrasada. vi. me sentiria tão grata! 27 Mortalmente pálida. Quando Déborah e Carla disseram que estavam contentes por vê-la. Conservaram a fé num futuro que talvez jamais desse os frutos pelos quais an siavam. . havia um intenso contrabando. Olhou para baixo e encontrou suas mãos ensaiando gestos ve ementes em Yri.murmurou Déborah. . compondo palavras mudas que só a ela falavam. ao se levantar . desligada de tudo e de todos.Oh. quando avistaram Carla vindo cabisbaixa em direção a elas. Déborah compreendeu que o que devia a seus pais era. Termi nava com minuciosas considerações a respeito da imundície que resulta quando uma pesso a dispara um tiro de revólver na têmpora.O que será que aconteceu? . era bem Helene quem estava ali. O seu sorriso "normal" era precavido como uma armadilha prestes a disparar. se eu não estivesse morta de medo.Apenas o suficiente para aprender a discordar . . ... . . .Quanto tempo ela ficou aqui? . seria um verdadeiro canhão.Acho que você está dramatizando a coisa só para conseguir um pouco de sofrimento gra tuito! . e não o fiz eram.O que aconteceu? .

Continuo achando que Carmen poderia ter vencido.de uma forma mais premente e impetuosa.. estourada do je ito que sou? .Não. já sem fôlego. nem se entregava às farsas ha bituais com os médicos. e mais ? contradição entre o cinismo que existia dentro de cada uma e ânsia vacilante e cega de lutar que se traduzia em calorosas disputas verbais. . . Déborah a encarou intrigada. é impossível que eu não consiga percorrer um quilometrozinh o até a cidade. mas sincera. mas o fato é que estão ali há anos. Vão vivendo. Déborah encarou provocativamente L inda. que já havia lido tudo sobre o assunto e vi via distribuindo jargões como quem distribui moedas.Carmen poderia ter se salvado. a "autoridade psicológica" da Ala. A velha Coral.vou sentir sua falta. Parecem não sofrer muito e. o nervo da Ala B. investiu furiosamente: -Ridículo! . lá na D.Impossível! . Só que dessa ve z. Déb. Quando a enfermeira veio dispersá-las. Sorriu daquela ironia. . .Meditou um minuto. vive intensamente. Mas.comentou Carla mais tarde vestindo-se para dormir. apren dera bem as lições de Furii.Reparem naquele monte de homens internados n a Seção Masculina. pode estar doente. mas em compensação ela senete. São todos muito racionais. Para sua própria surpresa. mas jamais conseguiria convencer aquelas mulheres mais sãs.exclamou . Déborah se achou defendendo com ardor o pequenino "Talvez ".Viver é lutar! .. . Ela tinha uma enfermidade boa e saudável! . hein! .objetou Carla. apa vorada com o olhar defmição da antagonista. Isso é doença-d oente. A equipe médica g osta deles. estava abaladíssima. num esforço absurdo para suste ntar a farsa do "tudo bem-tudo bem". não sentir muito.Ela tinha uma enfermidade muito dolorosa . como uma dolorosa bofetada. Déborah olhou ao seu redor e se viu cercada p or fisionomias congestionadas de ódio. ículo! Você está apenas racionalizando seu próprio sistema de defesas! 243 Déborah procurou ser mais objetiva: . Atingira um nervo particularmente sensível.Você está querendo saber como eu consegui sobreviver até essa idade. Deb. sem saber porque. "sadios" e espirituosos. . ou então q ue pudesse ameaçar as defesas que as pessoas erguiam para conter o sofrimento? . em suma. Reinou um silêncio intranqüilo e. não é impossível. que consistia numa fuga constante.Uma tensão vibrante percorria em sussurros a ala. Linda. À distância. luta. afirmações de "ma leviandade teme rária.Você gosta mesmo de atiçar as feras. mas não deixou de se q uestionar: "Que medo é esse? Medo por mim ou por Carla? Por mim? Porque vou perder uma amiga para o mundo? Ou será porque em breve eu terei que ir?".Proferiu essas últimas palavras.Que absurdo! Isso é uma contradição em termos! . como pessoas. porém muito mais vulneráveis do que as da Ala D. vou começar a procurar trabalho onde não fique enclausurada num quarti nho 244 . O que pretendia? Estaria tentando impedi-la de dizer qualquer coisa que pudesse degenerar em confusão e obrigá-la a se desdizer. . Sentiu revigorar dentro de si a força silenciosa que emanava do "abrirse ao mundo". sobretudo. em Yr.Porque vou sair. Tremia de medo. . ressoou um trovão: . vou tentar de novo A resposta a apanhou desprevenida. foi você mesma quem disse que Carmen explodiria até o teto a qualquer minuto. Déborah percebeu que aquela agitação de ânimos dizia menos respeito ao suicídio de Carmen. não se mascarava com aparências. Asenfermeiras que estavam de p rontidão não sabiam se falavam se guardavam silêncio.Porque você haveria de sentir falta de mim? . Suas idéias eram claras. tal como naquela noite milagrosa na Ala D. . Curioso é que o medo que sentia era o mesmo que levara as pessoas a rejeitarem ass ustadas a sua definição de "uma boa e saudável enfermidade". exposta. diante das car as hostis e incrédulas. No entanto. . fugia à dor envolvendo-a "m palavras pomposas e eruditas.É a mesma co isa. e nada e ninguém os ajuda. só isso. .Depois de tanta terapia..

vou sentir sua falta . lá do outro lado da cidade. todas com um ar muito piedoso. Na sua maior parte . Déborah a encarou firme esper . arrumo a trouxa e me mando daqui também! Quando foi procurá-la para se despedir.minúsculo.Terei que acompanhá-la . finalmente. A curiosidade a impeliu até mesmo a freqüentar a vida social da cidade. a menina olhou para ela surpresa como se n unca a tivesse visto antes. Por mais que ignorassem a sua pre sença. Quando a a ssistente social começou a explicar do que se tratava. e quando veio a resposta. mas receosa de que o medo traduzisse a respos ta para um Yr incompreensível. comparecia. com uma determinação teimosa e inquieta. faltava-lhes a sensibilidade para reconhecer a fome impetuosa de uma criatura recém-nascida no mundo. solidão . A nova companheira de quarto era uma menina meiga e generosa. eu não sou paciente. sabia? Estou fazendo uma pesquisa para minha tese de doutôrame nto.Sim.É uma exigência.Daqui a pouco você vai também. rancor.declarou a sua companheira de quarto. A assistente social possuía uma lista de quartos na cidade que podiam ser alugados para pacientes em regime de externato. mas a lei exige que nós declaremos. Debo245 rah não desanimava. depois de algum tempo.disse a assistente social . Só que ficam um pouco l onge. suas famílias."Minha família sempre teve queda para a música. A pequena e insular com unidade tinha verdadeiro pavor do hospital e de seus ocupantes. Costumava ficar sentada junto às enfermeiras e estagiárias escutando embevecida elas conversarem. . Por is so sou tão sensível". Quanto às senhoras do coro da igreja. sempre quietas. Déborah tentou formular um "Claro!".Na verdade. Sua memória fora devas tada. Talvez tenha sido esse o principal problema da última vez. Era uma senhora idosa. tocaram a campainha da porta e aguardaram. e minha mãe é Sophie Tucker. . Afastou-o com um ligeiro tremor. A proprietár ia veio abrir. . Atribuía a si mesma as mais divergentes proce dência familiares . . acima de tudo. pr ocurando descobrir novos caminhos. mas a doença continuava intacta. . Greta Garbo e Will Rogers . olhando.vou sentir sua falta.eram pobres e sombrios.Falava com u ma voz desanimada e assustada. Agnes (Eles são violentos?). distraidamente.uma mescla de estupor. persistente. . medo.Pouco me importa que você vá . e ela. contentou-se em deitar na cama com os olhos anuviad os de medo."Meu pai é o Paderewski. . P erguntavalhes por suas vidas.interrompeu ela. . de modos delicados e voz suave. a menina acabou deixando de lado o assunto família ou os atritos conjugais de seus pais. m as logo compreendeu que participar estava fora de cogitação. encaminhou o pedido de autorização para abandonar o hospital Rangérãm as eng renagens da burocracia. cheirando e apalpando tudo o que lhe caía às mãos. Déborah se afeiçoou a ela e. inveja e. Procurou depois o pastor Metodista para conversar sobre o grupo de jovens que ele entretinha. e ainda antes de Carla. Déborah fechou os olhos e pôs o dedo ao acaso na lista. . Fulgurou-Lhe na memória o episódio do tornozelo t orcido no St. .Déborah ouvira rumore s a respeito e conhecia alguns devido às suas caminhadas . que clamava pelos seus direitos inatos.diria. Déborah continuava animada de uma curiosidade insaciável pelo mundo. . . por e xemplo. . O primeiro passo foi ingressar emdois coros de igreja.. eu sei .Tem um ou dois quartos novos. Chegando a um velho casarão. -Freqüentemente ia até a cidade a pé e depois voltava.confessou Déborah desolada. receosa e excitada ao mesmo tempo.Não sei se você sabe. Tomaram-na invisível. . Doris Rivera devem ter visto: . onde não era b em vista. veterana da psiqui atria mecânica e que já tinha passado por uma dúzia de hospitais. como se refletissem a desgraça dos leprosos que os habitavam.. Um dia. . onde moravam e o que pretendiam fazer quando terminassem o estágio. onde não há pacientes morando. Assim que terminar. Déborah viu no rosto de suas com panheiras a mesma expressão que Carla. .

. Quando veio morar em Chicago. ou responder "boa tarde" ou. "boa noite". recordar-se de uma amiga ou de um rai o de sol implicaria em transformar toda uma visão do mundo. de trabalho mais cotidiano.Sim. talvez ele demonstre uma certa ansiedade quando você está com as pessoas.De quem é a culpa: da cidade ou do meu rosto? . onde sou uma estranha.Gostaria que você voltasse de novo para a sua infância e revolvesse aquela época cin zenta da qual já falamos.. Aliás. bom.Ah?. parecia-se com todos os que o nganon atrai .De ambos talvez. A vel ha não tinha entendido? Quando a assistente social terminou de falar. aos poderes esmagadores de Yr.retrucou Furii .. de repente.mas à força qu e exercem no sentido de mantê-la afastada do mundo. . . espero que gostem do quarto. mas o outro fica mais perto do banheiro. . estão vendo. .respondeu Furii. eu vejo! . era nova na cidade e não fora educada nas lendas fantasmagóricas que cercavam Aquele Lugar. nada mais. Como pude esquecer disso? .prometeu Déborah. Ah. antes de nos mudarmos de volta para Chicago. à qual não pertenço. é um hosPital para doentes mentais-insisti u aflita a assistente.Sim. que não admite mudanças. não suscitava receio.. um livro de hinos.era uma pessoa solitária e tristonha. O reinado sombrio da destruição. que sempre lhe parecer a uno e denso.Sorriu . Inúmeras histórias assus tadoras. . novos aspectos a confrontar com o passado. Talvez a senhora não tenha entendido bem. P ara que uma pessoa renuncie ao mundo. acabaram inculcando na maior parte dos habitantes da cidade um medo e uma a aversão absolutamente irracionais. por fav or.Olhe. Quando volto para ca sa depois da aula de costura. é bom ter alguém que faça gracinhas e. mas nada disso ( aconteceu.Mas Yr também é belo e verdadeiro. . e minha amiga. quer dizer. esse quarto tem mais luz. 246 Ou o franzir dos cenhos. A terapia atravessava uma fase pouco inspirada. Eram todos muito gentis.Sim.Você teve notícias dela nos últimos anos? . não suscitava nada. . . Veio a descobrir depois que a proprietária Dona King. . Sim. graças à sua aparência mais "normal". As trevas serviam justament e de contrapeso para as luzes que simbolizavam a vivência do amor e da verdade. .Ne-n que minha vida dependesse disso .Você teve uma amiga? . . não ponha papel na privada que ela está velha e um pouco ranzinza. pelo menos depois que se aco stumou à vida da cidade. é preciso que tenha razões. 247 . como pude esquecê-la! . mas um abismo intransponível os separavam.É bom conversar com Lactamaeon. quando ele está bem-humorado. Por mais que f reqüentasse os ensaios do coro da igreja. Você precisava ter t odas as razões para se entregar a uma renúncia tão grande. Quando a acompanhante foi embora. busc ando nas atuais situações de liberdade. . um mapa. por uma cara hostil. . . claro! Está cursando a faculdade agora. . . até eu vir para cá.ando a qualquer momento por um olhar cauteloso. suas r elações com as pessoas não passavam de compartilhar uma máquina de costura. tinha agora algumas fendas que deixavam passar a luz do sol.Enquanto você esteve doente daquele jeito. você é capaz de se lembrar do que havia além das trevas. que realmente não era estragada! . . lá também existe amor. . E não tinha nada de arruinada.Ainda que o seu rosto me pareça ótimo. . Mas logo aprendeu o novo m odo de vida e ficou boa. mas eram insignificantes comparadas.'. ou do coro na igreja. ela se limitou a acenar de leve com a cabeça: .Sim. as aulas de costura na escola secundária e até mesmo um clube de excursões para adolescentes ("Venha Um Venham Todos"). Isso sim é doença. um ho mem que servira na marinha e que tinha o hábito de falar sozinho. a velha se contentou em dizer. . Déborah. sim. é bom ter com quem rir e conversar. Agora que retornou ao mundo .Não me refiro à linguagem ou aos deuses propriamente . Déborah mergulhou nas recordações. algumas verdadeiras.. Cansou de ver as mães chamarem apavoradas os seus filhos quando passava "O Capitão".Lembro-me inclusive de dias inteiros. . fique sério e diga coisas que . e ela também. outras falsas. aquele ano que passamos na casa alugada. .

perguntou Furii com uma voz meiga. . Anterrabae exclamou:Mas é claro! Encetamo s. a espirituosidade e a sensi249 bilidade poética porque é muito mais difícil combater um inimigo amável. e de como os deuses. e e le respondeu: "Serve para alimentar anos de sua vida. eu estava rindo em segredo com Idat e Anterrabae. Em meio à sôf busca de vivências. crescendo. não é.Admiti-lo causava-lhe profunda dor. Mas já há algum tempo que ela vem crescendo. em local seguro. Primeiro eu pedi: "Ênsinem-me matemática". No sábado anterior. Furii perguntou: . rindo mas magoando também. . já há m uito. então. Não tinham segredos entre si: contavam suas vidas. a camaradagem foi cimentada e tingida pela seiva de vida emergente e de luta.Mas agora você sabe. mas sempre que estavam juntas. viveram juntas as agruras da enfermidade e lutaram juntas para escapar às suas gar ras. recita poesias que nos fazem chorar e nos dê vontade de contemplar as estrelas.E o Coletor estaria incumbido das críticas a você. uma espécie de desafio." Eu disse: "Todos os anos? Para sempre?" "Uma terra contestada. . tinham deixado de ser belos. a frieza. Semana passada. Seria maravilhoso se eu pudesse despachá-los quando quisesse. Eles riram sem graça e acabaram admitindo que seus conhecimentos não iam além dos meus. Furii lhe lembrou as crueldades cometidas pelo Coletor. que o construiu à imagem e semelhança de si mesma. na época em que costumavam ficar catando papéis na Ala D. Carla trabalhava durante o dia como técnic a de laboratório e passava as noites estudando as novas técnicas para recuperar os c inco anos que perdeu internada em três hospitais sucessivamente. Déborah. Como.perguntou Furii. e onde cada sensação e preocupação era duvidosa. sua Terra!" . perguntei a Anterraba e: "Esse aí é o meu fogo que está queimando dentro de você?" Ao que ele respondeu: "Por acaso não valeu o combustível?" . Déborah começou a prestar atenção a isso. Aproveita : do que as recordações felizes continuavam vivas na memória d.perguntei. de novas experiências que ambas empreendiam. ond e coexistiam amor e ódio. PodeTríâm ter sido amigas em qualquer parte. esse estranho desin teresse destacou-se com maior nitidez ainda. Havia tantas coisas novas para compartilharem que essa única fenda não faria muita diferença. então. poupá-la do s altos e baixos de sua arte. Não se viam muito ultimamente. por ser sua amiga. Lembrou-se que Carla jamais demonst rara interesse em ver um trabalho seu. um desses desafios em que se brinca e se fere ao m esmo tempo."Serve para iluminar ou aquecer?" . . Sua fisionomia endurecia imperceptivelmente e seus modos beiravam. e quando o cantaram. . Déborah. .Sim. num processe quase que concomitante. Mais tarde. a atitude de Ca rla e o seu ressentimento passaram desapercebidas. agora eu sei. quando se de sanuviou a sua relação com o mundo. fora dormir pensando em falar à Carla . comentei: Esse é um dos poucos que conheço inteirinho de cor. Mas naquele universo de bruscas e surpreendentes oscilações emotivas.Na realidade acho que sempre soube. .Plenamente? Furii assentiu com a cabeça.Quando foi que você finalmente percebeu isso? . Supôs que ela devia ter achado algum rascun ho.. Déborah decidiu. Num dado momento. não é assim? . porém. uma mudança sutil se oper ava em Carla. . muito tempo. Agora que ela começava a reagir. ainda receio que eles sejam de certo modo reais. seus temores e todas as suas tênu es e frágeis esperanças. . havia uma proximidad e toda especial entre elas. que tinham esc rito um coral baseado num poema de Horário. çle srecorriam a todos os seus métodos de sedução.248 nos comovam.Receio. reparou que sempre que mencionava sua ar te ou qualquer outra coisa em que estivesse trabalhando. Depois começamos a nos insult ar um ao outro. sempre tive uma suspeitazinha guardada lá no fundo. e provavelmente não tinh am gostado mas. não dissera nada. no entanto. porém. .E quanto à sua nova amiga. . que o cri ou a partir do seu próprio humor e de sua própria beleza? -. Carla? Você a vê freqüentemente? Déborah lhe cont ou uma coisa estranha que acontecera.

trabalhou com um grande ardor. . Quantos não a invejariam. um belo e sólido osso! Déborah quis ainda implorar à voz que revelasse a configu251 ração que teria a sua vida. .Ah. Teve um sonho incrível . não é? Lembrome que lia constantemente nos relatórios da ala como você sempre arranjava um jeito de fazer seus desenhos. descrevendo uma curva regular. contemplando o luzir das estrelas. .Contei exatamente o que aconteceu.. . . O ápice de todos esses arcos individuais compõe a curva da história e. A voz interpelou de novo: . mas mesmo assim eu acho que é verdade . Déborah olhou em direção ao horizonte.Sim. O espaço que fica para além é a curva da história da humanid ade. mas tam bém sons? Apurando os ouvidos. su as mãos esbarraram num objeto duro e ela o arrancou para fora da neve. . e contou-lhe.É isso a vida de Carla? . e o conjunto de vozes era tão belo e comovente que a fez chorar. . a do homem. veio lembrá-la de uma outra alegria: a compreensão de C arla. Déborah caminhava sobre a neve.Sua criatividade? .mas posso mostrar o de Carla. Déborah cavou com as mãos um buraco na neve. . . projetavam longas e sinuosas sombras .Reproduzia os mínimos movimentos dela. . de um negro denso e azulado. varridos pelo vento. Na manhã seguinte. portanto. Apesar do frio cortante. apesar de toda e qualquer inconveniência ou restrição.disse Carla pensativa . . apesar de você tê-lo encontrado aí enter rado e congelado.O seu. .A voz silenciou um momento e depois concluiu . revia as estrelas e suas mãos apalpando a curvat ura suave do osso. Ela enxugou os olhos. O sonho se passava numa noite de inverno. . . onde cada vida constitui um arco ligando o nascimento à morte. você realmente sonhou isso. Déborah.perguntou estarrecida.afirmou Déborah. é uma curva. Quando Déborah retirou o objeto enterrado.O único lugar para onde eu jamais poderia ir. . espesso. como se estivesse perseguindo a salvação.. No céu. Cave aí bem no fundo na neve. . .Você acha que é verdade. . a partir da qual possam crescer e se desenvolver. .. Lembre-se da amizade sa udável que você precisou sepultar no esquecimento. .Também vou ajudar a sustentar a curva da história? .Você sabia que as estrelas não emitem só luz. mas o sonho foi se desvanecendo e as vozes das estrelas sumindo até desaparecerem de todo.Por favor não se zangue.Vê. De repente. Déborah. .Pediu. retrucou a voz . ela escutou uma cantiga de ninar entoada pelas estrelas. foi só um sonho.Jura que não inventou nada. Ele está enterrado e congelado lá no fundo. o luzir da ne ve e o luzir de uma lágrima gelada que escorria de seus olhos. Carla desatou a chorar.É um belo osso. uma voz grave e profunda a interpelou . de um branco vivo e fosforescente. as estrelas congeladas luziam frouxamente. arqueada e extensa.. distraída.É. O seu talento é tão fértil que resistiu às piores fases da doe Agora você pode compreender a situação daqueles que não têm a sorte de possuir uma vocação ativa. Acho que esse sonho.o único desejo que jamais poderia admitir. .Deixe eu conhecer o arco da minha vida? . sonhei. então. sei que soa como aquela velha l enga-lenga de "menina sortuda".. . não posso mostrar -.a respeito de um novo pensionista e do genro da proprietária. e dos tempos felizes que baniu da memória. lembrava-se nitidamente do sonho. Quando Déborah concluiu o seu relato. Era um frag mento de osso.Olhe para lá. sim. o sonho. Carla a escutou so fregamente.O que é que você está vendo? Como é? . você acha mesmo que é verdade? . .Você sempre teve em al ta conta a sua arte. . ela perguntou ansiosa: . mas não é nada disso.Após uma pausa.Sim. Depois de muito tempo.Esse osso está profundamente entranhado nela. Em momento 252 . Furii disse para ela: . sólido. a voz disse: noite é uma curva de trevas. como se estive sse limpando a neve do achado. . Quando lhe descreveu o osso e contou o que a voz dissera..suplicou Déborah. seu sonho. Os morros cobertos de neve. Carla veio visitá-la e enquanto conversavam à toa.

Os psiquiatras eram 254 todos igualmente estranhos na cidade. os tofmentos inf . O hospital não podia ajudá-la em nada. Ao chamá-la duas semanas mais tarde. Teriam consciência de como eram be las e invejáveis as suas vidas? Não."Imutávelmente. pense demoradamente no assunto. pelos amigos. pelos amigos. pelas fagulhas que so bem das fogueiras em direção ao céu.A senha de todos os condenado s. pelos amigos. Déborah fora justamente naquele dia dar uma olhada na escola secundária. . grande demais para voar. pelo frio e a dor que reagem às leis da natureza.disse ele . 28 Déborah levou uma vida pacata nos meses seguintes. e o administrador que cuidava das questões das pacie ntes em regime de extemato. . Por mais simpática. A própria. ouvindo os sermões do pastor. e as velhas recordações qu'e guardava da escola. nunc a deixaria de ser uma criatura invisível e inaudivel. estudar o problema. . nganon clama por si mesmo". Folheando os jornais da cidade. A medida que o mundo ganhava uma riqueza maior de formas. Déborah passeava os olhos com curiosidade pela congregação: teriam alguma v ez agradecido a Deus pela luz que iluminava suas mentes. realmente não dava mais: suas atividades meros passatempos para preencher as ho ras vagas. eram de quase quatro ano s. recordações episódicas de uma visitante num lugar estranho. Recordou-se das lut as que travara no íntimo. suportando estoicamen te os ferimentos que o levaram à captura. s entia cada vez mais que suas ambições e esperanças já não cabiam nos ensaios do coro e nas aulas de costura. mas os terrores finais . pelas expectativas que podiam acalentar. A doença. e há muitos anos não lidavam com estes problem as de trabalho. Recordou-se do misterioso soldado japonês. tinha aj jpalificaçéesnecessária s. em silêncio. Fri ed. prom eteu. Quem sabe. não havia para ela empre go algum. serviços que exigiam pouca capacidade intelectual. ocultar sua condição de cidadã e cativa de Yr. Pouco a pouco.ra intrinsecamente dife rente dos outros. nesse sonho. viera crescendo dentro d ela desde os primeiros anos.Percebendo o olhar apavorad o dela. em sono. ficou surpresa de ver como conhecia mal o mundo e todas as suas pequena s exigências rotineiras. Evocaram de novo o velho brado Yri . . por mais rudimentar que fosse. Precisava ampliar o seu campo de experiências. Nem para garçonete ou balconista de magaz ine. Conhecia Latim e um pouco de Grego. pela sucessão majestosa dos dias e das noites. Numa cidade tão pequena e estagnada. Aperspectiva de vir a f reqüentar "na daquelas salas de aula a assustava terrivelmente. . dimensões e cores. é claro. . dos esforços enlouquecedores que lhe custa ra manter as aparências. aco rdando para mais um apelo do mundo. Furii ia dissipando aquela velha certeza de que a sua vida era um a vida amaldiçoada e arruinada. você não estava abrindo os olhos para isso. depois de insinuar mais ou menos a mesma coisa. prestativa e "sadia" que se mostrasse. mas não conseguia penetrar um milímetro sequer além daqueles sorrisos polidos e frios c daquelas delicadezas puramente formais. Era um conj unto imenso de prédios que bordejava o outro lado da cidade. antes de assumir a convicção de que . já não a satisfaziam mais.aconteceram em corredores idênticos aos daq uele prédio.algum você renegou esse seu profícuo dom que a maioria das pessoas dariam tudo para possuir.. que fazia de Déborah um instrumento e uma cúmplice de sua destruição. Suas recordações de es cola ainda estavam muito vivas na memória. a título pessoal. par ecia um tanto surpreso.Bem.Conversei com várias pessoas . trabalhando numa série de desenho s a bico de pena e abrindo caminho para o passado em densas sessões com a Dra. montões de pedra pousad os ali como uma gigantesca ave. os in esperados mergulhos nas trevas de Yr .se. e nriquecer sua vivência. Gostaria de trabalhar. Aos domingos. completou: .e tudo leva crer que você terá de cursar a escola secundária para conseguir qualquer emprego.doutôra Fried deixou claro que isto era um problema que e la tinha de resolver sozinha. em meio a rostos idênticos aos que encontraria ali.. mas não tinha o diploma secundário. Comparecia a todas as cerimôni as metodistas e escutava os mexericos que circulavam no "Clube do Altar das Senh oras".os lapsos e ausências. .

lingidos por Anterrabae, o Censor, o Coletor e o Poço. Apesar de todas as concessões que fizera aos seus captores, Déborah perdera inteiram ente o ânimo para continuar sustentando aparências. Participe, se engaje, se entregu e a qualquer preço, diziam eles. Mas agora sabia qual era o preço. Numa cidade tão pro vinciana e mesquinha, onde haveria entre ela e seus colegas de turma uma diferença de, pelo menos, três anos de idade, e uma distância incomensurável, sabia perfeitamen te que, na melhor das hipóteses, o mundo se tomaria uma verdadeira terra de ninguém. Mesmo estando abalada a sua sujeição a Yr, ácaba255 ria, inevitavelmente, se alienando do mundo, se refugiando num outro mundo, e tu do recomeçaria de novo. com ou sem Yr, era tarde demais para se juntar novamente a estudantes como esses, tarde demais para bailes de escola, panelinhas, faceiric es e frivolidades de coleguinhas de turma. Fartara-se já do "vocabulário especial" q ue convinha empregar nas relações de engajamento com esse tipo de mundo. - Tenho dezenove anos. . . - declarou para os prédios da escola. - É tarde demais! Afastou-se, tiritando de frio, debaixo da forte ventania que Yr soprava por sob re a distância, ao mesmo tempo real e irreal, que a separava de tudo aquilo. - Não posso voltar aos-meus adoráveis dias de ginasiana - disse pafã~o administrador. - Volibol no pátio, mexericos, festinhas de escola, não dá. - Mas sem o diploma secundário... - Non omnia possumus omnem! - retrucou, lembrando-o de que se tratava de Virgílio. Sabia, no entanto, que ele tinha razão. - Por que então você não prepara uma lista enumerando tudo o que é capaz de fazer? - pro pôs o administrador. Seria puro faz-de-conta, "fazer coisas úteis", nada mais do que enumerar becos sem saída. Mas, que jeito? O que ele queria, na verdade, era livra r-se do "abacaxi". Faria a tal lista. Quem sabe não descobriria alguma preferência, um talento, qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Lá estava o pequenino "Talvez" transformando em calor e ânimo uma ínfima e vulnerável fagulha. Voltou à pensão, foi para o quarto, sentou-se na mesinha, apanhou uma folha de papel e dividiu-a ao meio. Numa das metades anotou CONHECIMENTOS, na outra EMPREGOS P OSSÍVEIS. CONHECIMENTOS 1 andar de bicicleta. 2 saber Hamlet inteirinho de cor. EMPREGOS POSSÍVEIS 1 garota de entregas. 2 - professora particular, para meninos que estejam aprendento Hamlet na escola. 256 3 poder acordar do sono mais pesado em posse de todas as minhas faculdades. 4 - tremendo vocabulário de palavras obscenas. 5 algum grego. 6 algum latim. 7 frieza de cálculo e insensibilidade. 8 artista há dez anos. 9 conhece as componentes da maioria das formas de doença mental, capaz de re presentá-las realisticamente vendo o original. 10 não fuma. 3 guarda-noturno. 4 consultora lingüística. 5 (não é suficiente). 6 professora particular de latim para meninos que o estejam aprendendo na escola. 7 assassina profissional.

8 não cheg.: a ser gênio; não há viabilidade comercial. 9 atriz (perigoso dei íais). 10 degustadora de vinhos. Reescreveu a lista, suprimindo os itens 4, 5, 7 e 9. Doeulhe um bocado ter que a fastar o "assassina profissional". Lembrou-se, porém, que tinha uma péssima coordenação motora, e os assassinos profissionais precisavam ser ágeis e graciosos. Tamanha er a a sua falta de atumai que, seguramente, no momento crucial suas vítimas desabari am para o lado errado. Imaginou a cena: ela, a assassina, tentando se arrastar d ebaixo dos cento e cinqüenta quilos de um lutador profissional. - É. . . - murmurouitem 7, causa perdida. No dia seguinte, levou a lista para o administrador, mas não esperou que ele termi nasse de ler. Até mesmo Anterrabae 257 estava vexado com as qualificações tão medíocres de sua rainha e vítima. O Coletor, com ar es de falso-santo, morria de contentamento. Déborah estava assustada com as opções que o mundo lhe oferecia. As perspectivas que tinha na sua frente eram como o corre dor que percorria naquele momento: uma longa estrada, cuidadosamente pontilhada de portas, de dez em dez passos, só que todas fechadas. - Ei, Srta. Blau - chamaram às suas costas. Era uma das assistentes sociais ("O qu e é agora? Já tenho um quarto, portanto não preciso de uma caçadora de quartos; a não ser que esta venha desfazer o que a outra fez"). - O doutor Oster falou-me a respeit o da senhorita freqüentar a escola secundária. ("Lá vêm eles exigir novos sacrifícios. Pro vavelmente designaram para mim um bom lugar sob as rodas de jaganatas"). A dor p rovocada pelo tumor alastrou-se pelo corpo todo, e sua visão tingiu-se de rubro. - Não sei como não pensei nisso antes - dizia a assistente social. - Há um lugar na ci dade que talvez possa prepará-la. - Preparar-me para quê? - perguntou Déborah. - Para os exames. - Que exames? - Ora, os exames para conseguir o diploma de equivalência ao curso secundário. Como eu dizia, parece ser a solução ideal.. . A mulher olhava-a de um modo esquisito. Déborah quis explicar-lhe que era difícil es cutar através de um borrão vermelho, que suas notícias tinham trazido um grande alívio m as, devido à brusca mudança de pressão - bastava ver a palidez mortal do seu rosto - e stava sentindo o chamado "mal-dosmergulhadores". - Isso significa que não preciso freqüentar o ginásio? - Não, como acabei de dizer, há uma escola particular na cidade. - Posso escolher então? - Acho melhor a senhorita se entrevistar antes com eles e estudar as possibilida des. - Como faço para combinar essa entrevista? - Bem, a senhorita ainda está sob os meus cuidados.. . - Você poderia marcar uma entrevista? Sim, claro. - E depois me conta o que eles disseram? - Hum-hum. Déborah sentou-se e ficou observando a moça se afastar. A dor estava diminuindo, mas o pânico continuava tão intenso quanto antes. Escuta teu coração - sugeriu Anterrabae, despencando ao seu lado. Batia como uma porta sem ferrolho empurrada pelo vento. O que é que está acontecendo? O que é que está acontecendo? - perguntou assustada para Y r. Estava tudo tão real agorinha mesmo! - Enxergava tudo distorcido; suas palavras soavam de uma forma estranhíssima, como se até mesmo o Yri tivesse sido recodificad o. Por quê? Por que está acontecendo isso? A pergunta quebrou o silêncio que reinava sobre a terra. Sentiu que alguém se aproxi mava, talvez o doutor Ogden que' saía do escritório. A audição estava tão distorcida quant o a visão. Esbarrou numa pessoa e imediatamente gritou: - Os sentidos não são discreto s!

- Ela vai ficar violenta? (ou algo no gênero, ouviu um dos vultos perguntar num to m aborrecido) Déborah quis responder que a violência constituía para um vulcão uma lei n atural, mas já não conseguia comunicar absolutamente nada. Flanqueada e sustida por um atropelo indistinto de mãos e vultos, foi conduzida ao elevador metálico dos paci entes e transportada para a Ala D. Começava tudo de novo! Ao recuperar os sentidos, olhou bem para si mesma, de alto baixo, e soltou uma s onora gargalhada. Agora eu sei, seus calendários descendentes e imprevistos. Agora eu sei, Lactamaeo n, oh deus tristonho! Agora eu sei porque Carla e Doris ficaram arrasadas daquel e jeito! - Riu às gargalhadas, um riso áspero e ferino, até ficar completamente rouca. Mais tarde, Quentin Debshansky entrou para tomar o seu pulso. - Oi! - cumpriment ou ele, sem saber se deveria mostrar-s,e alegre ou pesaroso. - O casulo está ajuda ndo? - bom, voltei a ver, a ouvir e á TãTar. - Ela o encarou com firmeza. Você continua sen do meu amigo? - Ora, é claro! - exclamou desconcertado. sentia-se - Então deixe a sua cara em paz, Quentin. Seja espontâneo. Ele relaxou a fisionomia que logo adquiriu uma expressão desapontada.-É que... bem, eu fiquei feliz de saber que você estava lá fora, tocando para a frente. Sentiu uma pontada de angústia ao lembrar-se que dedicava afeição a uma pessoa que era , afinal, louca (ainda que os médicos lhe recomendassem chamá-las doentes mentais ). e podia tomá-la ainda mais louca se dissesse coisas indevidas. Os médicos e todos os manuais que lera aconselhavam-no a não se mostrar muito categórico, não discutir, não e xtemar sentimentos fortes, procurar ser jovial e prestativo. Sabia, no entanto, que estava lidando com um ser humano, um ser humano que era capaz de comover e q ue lhe inspirava uma profunda afeição. Estava feia neste momento, com os cabelos des grenhados, mas quantas vezes não o ridicularizaram também por sua aparência. Além do mai s, já passara por uma derrota semelhante à dela. Sofrerá, uma vez, um acidente que o d eixara estirado na estrada, todo quebrado, ao lado do pai. Quando vieram socorrê-l os, transportaram-no para o hospital enrolado num cobertor, exatamente como ela estava agora. Jamais esquecera aquela viagem. O pior de tudo não foram as dores, s entira-se até orgulhoso delas, mas a horrível sensação de estar sendo moído, reduzido a um a pasta, corpo e alma. O gemer das rodas girando, interrompido por bruscos sacol ejões, transformaram-se num sussurro monótono e atordoante: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . .". A morte do pai causara-lhe uma tristeza imensa, irr eparável. As costelas quebradas tomaram cada ato respiratório um verdadeiro suplício, um chute no rosto da morte. Olhou para Déborah e lembrou-se das rodas girando as s uas idéias: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . ." - era justamente o que ela devia estar sentindo. - Quer um copo d'agua? -- Não, obrigado. Ficaram ali olhando um para o outro constrangidos e envergonhados, ela esperando que o medo e ele que o desapontamento rompessem logo o impasse angustiante. Sub itamente, Déborah se deu conta de que Querrtin Dòbshansky, além de amigo, era um homem , um homem sensual, um homem 260 capaz de despertar nela sentimentos inteiramente novos. Foram duas descobertas s imultâneas: a do seu vazio interior e a do desejo, um desejo feroz, ardente, recal cado durante anos e anos. Furii tinha razão; por mais biruta que fosse, era capaz de sentir, e como! Ergueu os olhos para Quentin que, indeciso junto à porta, procurava alguma coisa r econfortante para dizer antes de sair. - Você tem mais uma hora, tá? - Hum-hum. - Sabendo como devia estar feia, para não lhe ferir os olhos, virou a c abeça para o outro lado e esperou até que ele fechasse a porta. Lactamaeon, o deus negro, com seus olhos azuis e frios, começou a escarnecer dela: O pescador venceu. Colheu na sua rede o peixe que se recusa a morrer e ficar mo rto. Salta, contorce-se, joga-se de encontro às amuradas do barco, procurando dese speradamente voltar ao seu elemento natural. Privado da essência que lhe garante a

Sim? . estou confinada definitivamente neste mundo. aumentand o.Foi um reflexo! . e perguntou-lhe intrigada o que estava fazen do ali. mas sempre...Sorriram. com mais intrincadas. ao chamuscar os primeiros fios de cabelo. é? . Mais que depressa. As relações se invertera .Será que não compreendes! . 262 Quando começou a narrar a queda no . Re-morra. . É natural que lutem desesperadamente para salvar o que puderem da d oença. Isto aflige o pescador. . .É que Yr sempre foi o domínio da ava no mundo. comunico que não haverá mais queim aduras nem fogos. então.Tentei. . As minhas fugas para o tempo. Sentou-se no chão.disse Déborah . Quando soube que Déborah tinha voltado para a Ala D.Masaxme íortão repentina. o súbito alívio. . . Furii reparou na acompa nhante que se postara atrás de Déborah. sem nenhum aviso prévio. e examinou o seu braço cheio de cicatrizes. Tentou de novo. foi como se Yr dissess lado.Ei! Sabe o que acon tece quando a gente brinca com fogo? A gente se queima. Vieram. apanhou.Talvez "ela" soubesse que você precisava de ajuda. -. .. a sensação de absolvição.perguntou. Seria inút il queimar.gritou Déborah. .Antes. percebeu que houvera uma mudança importante: lógica.Ah.algum pre nuncio do que iria acontecer. predizíveis. o mundo começaram a mudar. . Déborah contou então a visita à escola.. Deslocou o cigarro em brasa ao longo do braço até encontrar uma região que aind a estava viva. A ajuda estava ao seu alcance .vida. quando os meus vínculos com e: líAgora passaremos para o outro Poço. várias vezes. . . . sobreveio a crise. Déborah reparou que uma auxiliar esquecera o cigarro aceso no cinzeiro. .. por oposição à anarquia que im lá obedeciam a toda uma série de fórmulas que. agora. já estou.. os passos solenes do réu caminhando para o cadaf also.Porque doeu! .. mas não ousou pedi-la diretamente com medo de que a recusassem. até que. proclamou alto 261 em Yri: A todas as divindades de todos os mundos. o medo que sentira.ao que parece. mas não consegui. Descreveu o encontro com a assistente soxiaL£as sugestões dela. deixando amedrontada a acompanhante. ao que parece. sempre havia algum sinal de advertência. as vertigens.. Como é que eu posso estar melhorando com crises assim tão repentinas e fortes? . o calor foi aumentando.começou a chorar.Engraçado. o sofrimento é atroz. Assim és tu para o mundo e para nós também . do compreensível. antes mesmo que ele tocasse a pele. Finalmente desistiu. pois.exclamou atônita. Eu já não sei mais como! O cair da tarde invadia suavemente a enfermaria. . Aproximou-o lentamente da pele. . virou-se para ela com um olhar interrogativo. seja lá qual for ele". Quando chegou a hora de avistar-se com Furii. Ele não quer pensar nos espasmo s mortais do peixe. uma agulhada dolorosíssima rep eliu o braço num gesto instintivo.O que que é engraçado? . foram se tomando cada vez . logo se ntia-sem seguida. . alegre e ass ustada ao mesmo tempo . o "mal-dos-mergulhadores" e. obrigando-a instintivamente a afastar o braço do ciga rro. e irrompeu na sala exclamando: . o desespero de ter que fic ar três anos presa ao silêncio da cidade.. Falou sobre a sensação que tinha de que tudo e stava sendo decidido à sua revelia. é isso que acontece! Dá uma dor chamada dor de queimadura! Furii franziu o cenho. . o local já queimado o tecido não se ressentiria decidiuqueimar num local novo. . .As defesas que a impedem de ficar boa e se juntar de vez ao mundo já estão nas últim as barricadas. sua recompensa e vitória. correu para o consultório. . você não imagina como eu estou contente! . e deixa as coisas voltarem a ser o que eram.Você andou se queimando de novo? .bom. entre Ann e Mary Dewben). mas a dor sempre prevalecia sobre a vontade. e escondendo o levou para seu dormitório (dormia.Puxa. dissimulada pelas camas.

reconhecendo as palavras de abertura de fórmula. . e um a de desespero. Agora que recuperei os reflexos e instintos de "pesoa normal"..Duas de miscelâniá. .sorriu timidamente. quando renunciar a e sse duplo compromisso. está bem." Julguei que teria de passar a vida olhando aquela casca envelhecer. eu também e stive. No entanto. três dó que Yr chama "Casca Seca". . quatro são de autocomiseração.Está bem.mas você só será capaz de a barcar realmente o mundo.E o que é que você acha disso? . mesmo que aparentemente não esteja adiantando m uito..Leve-me com você.Isso só perfaz oito.. .Das dez unidades.indagou Furii num tom meigo. só que você esquece por vezes qu e sou e sempre fui uma representante do mundo. sulcado de sombras e r eluzindo de suor e lágrimas. Um dia. quando cheguei aqui no hospital. Anterrabae recorria freqüentemente a essa alusão.Tem pena de mim! Tem pena de mim! Déborah ficou estarrecida.onde mais encontrarei essa comunhão que há e ntre eu e eles? . implorei que tivesse piedade de mim. Oh! exclamouDéborah angustiada. . e que os deuses não me podem ensinar. Sim. eu não era uma pessoa infeliz.contemporizou Furii com brandura . . surpreendentemente. pelo visto.pergun tou-lhe.Ele soltou um longo e dolorido suspiro. . Queimaduras? Mas o fogo não te queima. Anterrabae zombou: Essa 264 casca velha. também. por que não a cospes fora de uma vez?" . . . realmente viva.Até quando você vai ficar com uma perna lá e outra aqui? .Assoou ruidosamente o nariz. tais como matemática.Não posso parar de mastigar agora. Déborah olhou para ela e.as coisas podem ser tão claras entre nós duas quanto entr e você e os deuses. Quando você começou a fazer com que eu me importasse pelas coisas.e seus olhos encheram-se de lágrimas . onde mais . As labaredas iluminaram o seu rosto. Era uma confissão séria. Sofra. O mundo pode ter lógica.Onde você está? -. e e e veio. embora às vezes seja um bocado traiçoeiro. .lastimou-se Anterrabae . me virei para ele e jurei que mastigaria aquela casca seca até extrair dela a última gota de alimento.perguntava Furii. . . Simplesment e não me interessava por nada. são as queimaduras. . mas. e muitas outras coisas que eu não conh eço. Enquanto foste sublime e estiveste fora do alcance do fogo dos homens.gritou Déborah. Estás sofrendo? . o coração disparando. como se quisesse reafirmar que era mesmo uma típica representante do mundo.Está vendo . ligeiro e reconfortante. .Bem. queimam a mim também. .disse Furii . Chamou em silêncio Anterrabae. .Sorriram.m: quanto maior é a racionalidade do mundo.. e que a minha substância era idêntica à dos outros. Mas quando voltei dessa vez.O que serão estas lágrimas? . tu sofres. e esse desinteresse me trazia uma certa paz. Ele tem razão. está radiando teus dentes. quando compreendi que estava viva.e fez com as mãos o gesto de tumulto e renúncia que significava em Yri o mund o. acho que es tou atolada no mundo. . . Agora que as chamas te queimam. . Nunca lhe ocultei as minhas idéias. um único olhar. Scomos uma única voz. e Anterrabae disse: "Comeste todo o fruto da esperança. só deixaste a casca. Vê. de gozar todas as suas vantagens. e uma aliada sua na luta que está t ravando para ganhar este mundo.Quando eu sofro. ele se pôs a tremer e a choramingar: .O que é "Casca Seca"? . vítima! É verdade que nos últimos tempos só me trazes beleza quando te sentes ameaçado? . esperando pela sua risada sardônica. as punições de Yr foram ter ríveis. . sorriu meio a contragosto. Jamais conseguirás uma comunhão tão perfeita lá. . enrugar-se. menos razões Yr oferece. .indagou-lhe. entretanto. Oferece desafios.disse Furii com a voz meiga que usava quando queria objetar sem parecer agress iva.Ainda não estou preparada! . endurecer e finalmente ser jogada f ora. Déborah começou a ficar em pânico. . . que algum d . e todos ficaram tão decepcionados comigo.Estive com Anterrabae.

Essas e outras pequenas atitudes. 1 vestido apropriado para uso na cidade. Matriculou-se na Escola Tutorial e Terapêutica.Bem. Déborah Especificações: Data: 5 set. 1 par de meias. para avisar aquela assistente social que eu continuo firme na idéia. e só ia ao hospital para o jantar e para as sessões côm a. Durante o primeiro mês. representava uma ponte bem mais rápida e s egura entre o "Nunca" e o "Talvez". voltou para a p ensão. Mas hoje vou falar cona o doutor Halle. é claro. que demonstrava m um certo respeito por ela. Assinado: H. doutôra Fried. Paciente: Blàu. Hora: 8:30 Dr. por exemp lo." . depois de melhorar o suficiente para trabalha r e viver com suas próprias chaves no bolso. Cr$ 80. 266 29 O problema do diploma secundário resolveu-se miraculosamente: bastava provar ao Co nselho Universitário que a candidata conhecia as matérias do curso secundário para obt er um-certificado de equivalência que a isentaria de cursar os três anos de escola. Algo de especial? . . os pacientes. a sombra que projetava nas' calçadas se devia a outras razões além do. Acordava an tes de" clarear o dia. L. 1 par de sapatos.Como vão as coisas na ala? . O orgulho e a obstinação deram-lhe a força necessária para enfrentar as qua tro horas diárias de viagens. No mês seguínte. que a prepararra-paTa òTexamês e que. 1 tubo de batom. Se o pes soal daquela escola que ela me mencionou não fizer objeções. . REQUISIÇÃO Ala: D Administrador da Ala: Halle. pôr do sol. estão furiosos comigo.Não. . uma viagem perigosamente hipnótica. 27 grampos de cabelo 1 casaco. . Quando."bom dia". os professores conseguiram abrir uma pequena fenda no muro que a enclausurava. Em pouco tempo. chegava de manhã ao portão com seus livros escolares . permaneceu na Ala B. H. Data: 3 set. e as dificuldades do estudo. foi muito difícil. ou até mesmo "bom proveito!".pensou Furii com seus botões. Com eçou a entender porque Doris Rivera. embora distasse duas horas do hospital. No início. estarei pronta para começar quando quiserem. quando provou que realmente estava disposta a freqüen tar as aulas.00 para as passagens de ônibus suburbano (assistente social e requerente) 265 4 vales para ônibus urbano (assistente social e requerente) Requisitar itens espec ificados acima na pensão onde habita s paciente. L. Exceto em casos excepcionais. Desde entã . meio desaponta da. tomava uma xícara de café (autorizada pelos médicos) e ia para a escola. fora tão econômica em suas explicações à audiê . mas logo tcomou fôlego e mergulhou com vontade nos livros. Na segunda semana. revigoravam a sua força de vontade. Essas concessões eram a pr ova de que tinha conquistado um prestígio considerável.o homem da portaria cumprimentava-a gentilmente: .Não diga. . a enfermeira da noite por sua própria conta acrescentou torradas e u m suco de frutas ao café da manhã.'Co mo explicar a uma pessoa que nasceu e cresceu no deserto que há terras ricas e férte is a tão pouca distância?" . Estava desabituada ao estudo e extremamente insegura. Halle. e a equipe médica. "Se ao menos eu pudesse explicar a ela.ia ainda lhe poderia custar caro. os funcionários do hospital limitavam-se a cumprir o que os regulamentos mandavam.perguntou.símbolos de sanidade e resp onsabilidade .

Ei. ... entrecortados de obscenidades.Você está bem? . . Lee Miller vai ser transferida para outro hos pital. . Coral. mais ou menos a mesma coisa. sim. Déborah.. Coral passeou um olhar apologético ao seu redor como se fossem todos um únic o e grande inconveniente. A velha ber rando. 268 . Não me diga que está de volta! . . graças a um imenso esforço e.. Mas o casamento é segredo. Déborah avistou uma multidão de pe ssoas no saguão. . . só a muito custo conseguiu conter o riso.e as duas trocaram um sorriso cúmplice. sabendo que perguntar mais seria uma intromissão. . Das que partiram. A Srta. poesias de Horácio que iam c air no solo inculto e tenebroso de Déborah. mas continua muda. muitas ficaram. Mande um "Alô" por mim. ela conseguiu aquele emprego que queria.Não. . com o qual nada tinha a ver. voltando de uma sessão exaustiva com Furii.Sim. . muitas caras novas vieram e partiram. sabia? . . gênio na arte das alavancas. do modo mais engenh oso possível: simplesmente fazendo com que lutassem uns contra os outros. Ni nguém sabe. embora c ontinuasse tolhida pelos altos muros do hospital.. parecia um motor .Estou. . . prontos para recomeçar a luta.Como vai Carla? Você ainda a vê? . quantas seriam livres algum dia? Durante seus três anos de internam ento. A velha endureceu os olhos. para as doentes cujas esperanças ali definhavam. chegou a ser quase divertido.Como está o pessoal? . uma estagiária. Coral. Um dia. . .pergu ntou. quando muito.Tchau.Oi. O quadro era ao mesmo tempo hilariante e comovente. não sabia não. Coral". be . . Ao se aproximar. Jogue alguma coisa na cabeça dela e sej a bem rude para que ela saiba que fui eu.perguntou Déborah. Era difícil cc ciliar a dor que via estampada de forma nítida no rosto de sua amável professora com a imagem de arremessadora de camas aficcionada por Catulo. é verdade que o Dobsha nsky se casou com uma enfermeira de uma das alas masculinas? .a ávida e aterrorizada de pacientes na Ala D. Quando Déborah viu o objeto daquela c uriosidade toda. até então concentradíssima na e scaramuça. os contendores guardavam posições de combate. A Srta.É. o fato de ela ter saído a transformava numa figura legendária. pesos e propulsão. pensando em todos os canos i ndiscretos de água fria que corriam pelo hospital. . através da espessa porta de um quarto de reclusão. é verdade? . tchau Déborah. Déborah também vira a sua som267 bra estender-se alguns fios de cabelo a mais. A Srta. arremess adora de camas.Ah. . isso era muito mais do que uma aula de Latim. muito mais para os a uxiliares do que para ela propriamente.Ah.. era um mistério. . No ônibus. Srta. não. para não prejudicar o estágio dela. Déborah ia pensando nela.Quer que eu lhe traga algo de lá de fora? Conheci-a o suficiente para saber que jamais pediria. Tinham conseguido estabelecer entre si uma coisa que era mu ito rara naquela doença. Déborah prosseguiu caminho. São as minhas sessões de terapia. não preciso de nada. uma identificação plena de idéias e de sentimentos. então.Tenho que ir agora. Os olhos penetrantes da velha estremeceram. conseguido escapar da Ala D. retesou os músculos e a luta recomeçou. voltou-se sorridente: . na D. Dessa vez foi mais fácil. . Enquanto as duas conversavam amigave lmente. . .Não. o ônibus vai sair a qualquer momento.Não.respondeu sem muita convicção. ela enfrentava cinco vigorosos atendentes sem arredar um pé. Resmunga va baixinho uns sons sibilantes. . entrara em ação de novo! Como é que tinha. dirigindo um "Oi. . reparou que faziam movimentos extremamente lento s como se estivessem nadando debaixo d'agua. Rodeada pela multidão .Ouvi dizer que foi passar os feriados de Natal em casa.Déborah a encarou firme. insinuaria a lguma coisa em código. Quantos mortos ressuscitariam? De todas as mulh eres da Ala D. Srta. Helene está conosco de no vo. Sylvia parece um pouco melhor.Altos e baixos. Coral.Bem.

faceiras. na igreja. realmente vivas e livres? Podia-se contá-las pelos dedos! Ela estremeceu. disse o professor de matemática. um violino. Déborah convidou a companheira que dividia consigo o mesm o livro de hinos para tomarem uma soda juntas. a fórmula da separação.m uns três quartos tinham ido para outros hospitais. a Anterrabae que é teu amigo. um a um. em Yri e em inglês. . um t ambor e o quarto um tamborim.perguntou Déborah. Inesperadamente. .Trago véus que me d issimulam e me tomam misteriosa: Gratifico. Aí está.essa menina está dando um duro dos diabo s.respondeu o professor de inglês. e xceto o de ter que se sentar em mesinhas minúsculas.Dificilmente um corvo de prata. disseram para Déborah. Em seguida. Déborah espreitava-as de longe: aquele era um mun do onde ela tinha fracassado. esta é a verdade. a pareceram em Yr para falar com Idat. você é uma das dançarinas. Onde vai ser? Nos cinco Continentes. mas trabalha duro para aprend er.retrucou Idat friamente. Sentia-se à vontade com os prof essores. Começou a gagu ejar. Vestia-se igu al a elas. sem precisar ostentar precoci dade para ninguém. e. as matérias iam se acumulando em pilhas e pilhas de cadern os de anotação. e no entanto continuava sendo pária. Quantas estavam re almente A fora. risonhas. E quem vai participar? Você também. Que dança? A Grande Dança. (Era uma metáfora Yri equivalente a adulação .perguntou-lho Idat em Yri . Se a sanidade expressava-se em metros e horas. compreende? Os professores e o Coletor puseram-se a anotar numa folha de papel. Aqueles volumoso s manuais lhe davam um certo orgulho. O primeiro trazia um pistão. queimando as pestanas. com o passar dos meses.por causa das imagens e xcessivamente reluzentes). O ônibus ia lotado de jovens e ruidosas estudantes fazendo algazarra. nem mais nem menos! Dificilmente uma chuva de estrelas . Se tu nos deixares. a mim. a Lactamaeon que te ama. copiaram uma por uma as antiquíssimas palavras: "Tu Não Ês o Os Outros".disse o de matemática a Idat . O fato de estar freqüentando uma escola p ara crianças com problemas de leitura e defeitos de fala não lhe trazia problemas. meninas e ncantadoras. Claro que não! . e isso a enchia de contentamento. Não sou igual a este mundo que vês aí? . Esteja ou não doente. Vocês vão aderir ao Coletor? Vocês também? . seus olhos de pária observavam-no fascinados. como se algum dia viesse a pesar no mundo tanto quanto eles pesavam nos s js braços. Só quando voltava . com uma cara tão transtomada que Déborah teve medo de as pessoas julgarem que . Aquela noite. por mais que soubesse que aparentava ser melhor do que realmente era. picaram a folha de papel e atiraram os pedaços ao vento. Soü bela. inteirinh a. Nunca deu provas de ins anidade em sala de aula! Não é nenhum gênio em matemática. Nós scomos contra essas suas criatur as! Escute bem . com quem rirás? Quem te deixará à vontade? Onde mais encontrarás uma luz como esta? Aconteceu então uma coisa estranhíssima: as imagens de seus professores de escola. Nós vamos Dançar. Comparece às aulas com os lápis "0 " V apontados. o aprendizado media-s e nos quilos de livros que carregava diariamente para a escola. o uniforme certinho. Re dobraria os esforços esta noite com os livros. Ela é pontual e obediente. os personagens do Coletor começaram a aparecer. uma imitação grosseira de colegial. estudando sozinha. Tua velha realidade. ao Mundo Intermediário. Os professores aplaudiam a sua tenacidade e ' resolução. disse o professor de inglês. para o seu quarto à tarde é que o mundo machucav a. o segundo. A menina ficou lívida. e sem precisar ficar preocupada com estar entravando o estudo d os outros. o terceiro. Algumas progrediram o suficie nte para viver uma espécie de meia-vida em regime de externato.

O mundo é vasto e tem espaço de sobra para o discemimento. . . freqüentamos as mesmas aulas à noite. Excetuando-se uma ou duas amigas no hospital. eles eram secretos! Você já conhece as leis que proibem misturar os mundos. só o suficiente para sentir que um cigarro queima.Amo. . o Censor. expirando . Idat e todas as outras divinda des dos inúmeros reinos existentes em 272 Yr também teriam que ir para o lixo junto com o Poço.Me diga uma coisa. avançando.. mas são poucos. você co mpreende? Você tem que primeiro assumir o mundo.Também.Ora. Devo esquecê-lo também. tão negro em seu negro ginete? Nem em Anterrabae? Nem em Idat. Retcomou à sua vesse acontecido. mas talvez tenha chegado a hora de misturar as partes boas. pelo menos.i ndagou Furii.Sim. Isso.Na cidade? Cantamos juntos. co invisibilidade e continuou a cantar como se nada hou sobre a Compaixão. .Como você se sente agora que está livre de todo aquele lixo velho e fedorento? . Anterrabae.E à sua amiga Carla? .E eu amo você também.Déborah. . e eles se recu sam a olhar para mim.Confie em mim.. a proprietária da pensão ficou ontem à noite cuidando da neta.E por que haveria de morrer nas suas mãos? ...perguntou Furii com um ar divertido. . ao mesmo tempo em que invejava a pureza das outras p essoas.E quanto aos meus personagens bons? Não devo mais pensar em Lactamaeon.Você tem certeza de que não é alguma atitude sua? . Existem momentos felizes. só que é difícil livrar-se de antigas convicções assim de uma só vez. Dependendo do que você mesma f izer deste comprometimento. aí sim.. Isso seria tão importante para fortalecer o comp romisso! Déborah viu Anterrabae caindo rápido. Anterrabae rugiu furioso.Bem. . Ela precisou sair... É difícil pensar diferente assim de imediato. Lactamaeon. agora que ela se tcomou uma mulher de vez e está tão linda? Devo esquecê-los? E o Yri que é capaz de expressar cert as sensações. você ama os seus pais? E a sua irmã.Tem que ir tudo? Amontoa-se e joga-se tudo fora? . Imaginou aquelas piedosas senhor de Cristo. as partes bel as e sábias de Yr. o Coletor. enquanto as lágrimas de Idat eram diamantes. poderá decidir se é ou não uma barganha decente. mas não esqueci o poder que t em. um bebê de dois me ses de idade.pediu Déborah baixinho. e nfim. com as do mundo. Fiquei co m aquela criança uma hora e meia. como numa cruzada medieval.disse Furii. sempre a amei. .E começou a choramingar. junto com os flagelos do passado? . .ela tivesse dito alguma coisa as.E se eu fosse apenas Aparências. a quem você nunca assassinou ? .. Por que você nunca desenh ou Anterrabae ou qualquer um dos deuses? . as dele eram chispas incandescentes. você pode superar! Não me diga que você ainda se acha ven enosa? . . ... .e não morresse nas minhas mãos. viva só um oitavo de centímetro da superfície para de ntro. só até aí.. . Sempre fui mui cautelosa com o meu nganon..Juro que é verdade. já que não confia na de ninguém. Essa última imagem trouxe-lhe à mente uma lembrança que contou dist raidamente. . entregar-se completamente. implorando aos céus para que continuasse exatament e como estava . Era um hino 271 indecente à menina. . a Puni ção. .Mas você tem amigos. a essa altura dos acontecimentos não pode haver barganha decente.inspirando..Conte-me um desses momentos felizes. certas realidades como nenhuma outra língua. Lactamaeon chorava sa ngue tal como Édipo. desprendendo fagulhas e. Adolescência de novo? . .Não. veio ao meu quarto e simplesmente pediu: "Déborah . . perguntando mais do que afirmando. . sua velha lixeira mental! . travestidas em Defensoras ntra a herege. Duvido muito que mudem. você toma conta do nenê até eu voltar?" Aí ela saiu e me deixou ali sozinha.. coh fiando na minha palavra.

para trans mitir aos pais aquela segunda boa notícia. Caso o candidato não cumpra esses dois requisitos. Já era tarde demais para fugir ao compromisso que assumira com o mundo. você o encararia como uma manifestação de minha velha maluquice ou co mo uma "contribuição"? . e comparecer ao referido local na terça-feira. A briu-a excitadíssima e quase caiu para trás quando soube que tinha sido aprovada. embora não fossem prisioneiros nem insanos. As duas semanas anteriores aos exames foram consumidas numa grande expectativa. No final . Déborah! Déborah! Saúde não é simplesmente a ausência de doença. Chamou-o de s ua "infância". Preencheu imediatamente os form ulários anexos.Ai. Um mês inteirinho de sossego e preguiça. Ficou horas decifrando nuvens no céu.Primeiro eu teria que ver o desenho. Telefonou para casa. Não foi de alguns sintomas que nós demos tanto duro! . A esperança acabou subjugando de vez o medo. Estudou com calma. . incapaz de aval iar qual fora o seu desempenho. por mais que tivessem perigado. Déborah a rmou-se de coragem e de sangue-frio e foi para o Tribunal! Era um prédio antigo. entremeada de insuportáveis crises de tédio. debr uçados sobre as provas como blocos de granito..Está bem . e acabou conhecendo Tarzan no mínimo tão bem quanto Hamlet. Haviam combinado na escola que ela continuaria seus estudos até a divulgação dos resul tados. Déborah pôs de lado o aviso. ficou surpresa em encontrá-l os ali. 274 um grupo de operários de mãos calosas. acompanhou o desabrochar dos botões nas árvores frutíferas que havia em frente à Igreja Metodista. Foi um período maravilhoso este. Quando finalmente chegou o dia. Quando a carta escorregou pela ranhura da caixa de correio. às 09:00 hs. receosa de que pudesse es quecer ou perdêlos. com paredes revestidas de lambris. Queria. Apaixonou-se por al amos. Eu vivia vendo coágulos de sangue nas ruas e as pessoas se transformarem a multidão de micróbios. Estava s urpresa de que o momento tivesse chegado tão cedo. dia 10 de ma io. Déborah pôs sua prova junto com a dos outros e saiu da sala. será automaticamen te desqualificado.do mês. pelo menos. d espreocupada. como também porque. comunicar-lhes que s uas esperanças.-Talvez eu comece mesmo a destampar Yr. ainda eram viáveis.Se eu desenhasse Lactamaeon sob a forma de falcão 273 coz num para você se dia ou de cavaleiro. tomando a precaução de verificar duas vezes se anotara o endereço corret amente. mas logo a voz sensata de McPherson cochichou-lhe no ouvido: "Lembre-se que você não é dona de todo o sofrimento no mundo!" Reconheceu humildemente que eles. Sentia uma ansiedade e uma excitação febris. sem perda de tempo colocá-los no correio. I ndicaram-lhe uma sala poeirenta. Os candidatos aos exames deverão preencher e envia r os formulários anexos. onde encontr ou outros candidatos que se aventuravam também a tragar de um só gole o curso secundár io. e recuperavam agora o terreno perdido. Po dia se considerar num nível educacional equivalente ao dos estudantes que haviam f reqüentado a escola secundária.Uma vez eu fui à casa de uma senhora e vi sangue escorrendo dos ladrilhos da inha. De início. sentou-se diante da mesa e tentou rir daquele medo besta . . um primeiro calafrio de medo lhe subiu pela espinha. Voltou para seu quarto. não acontece mais. Suas notas tomavam-na uma candidata bastante promiss ora a qualquer faculdade. . Isso. apesar de proteladas por tanto tem po. junto aos esboços para um desenho de Anterrabae. DEPARTAMENTO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO Os Exames de Equivalência para a Escola Secundária serão realizados no dia 10 de maio na sede do Tribunal do Condado. e foi. sobretudo. .disse Déborah. caso fosse rep ada. suando e murmurando palavras desconexas. Foi ver todos os filmes que passaram na cidade. Quando o tempo e xpirou. estourando de orgulho. recebeu finalmente uma carta do Conselho Universitário Estadual.Ela sentia-secomo se estivesse nte de uma cega a quem procurava explicar a cor da luz. não só para afastá-la das preocupações e do ócio. também tinham deixado escapar alguns com passos no ritmo da vida. tentaria o próximo exame.

zombou Anterrabae . nunca. sua desajeitada. toda a sua determinação. de ninguém. mas a respo sta foi também uma sonora gargalhada carregada de desprezo. .. o movimento lá dentro. Carla já te disse isso há muito tempo . e seus pais. como os loucos fazem: . juntou-se a ele uma outra figura que Déborah se . do brando-se de rir. menina preguiçosa! Luta..Estou muito orgulhoso . "Boa tarde! Boa noite!" . Lactamaeon uivando como um cão. Agora já não tinha mais graça. Déborah levantou-se e foi caminhando vagarosamente em direção à cidade. pontual. Consumi todas as minhas esperanças cantando e costurando com vocês.-dá tudo no mesmo: "bom dia" e "boa noite" e nada mais. e só descobriu que o mur o continuava ali e continuari-a sempre. Na outra extremidade do campo. e ainda estava dois anos atrasada.por um tubo de alimentação. Uma moça esbelta e graciosa. mostrou-se quase frio: . no final das contas. nunca. Atravessou os pátios da escola. .Ótimo. . toda a sua força de vontade. Déborah repôs o telefone no gancho. resistir. mesmo quando estava doent e..di sse. De que adianta lutar. comparado a ela. Ha . de uma em uma. de terra quente e úmida . fez o que todo o mundo faz com a metade do seu esforço. toomou a estrada que circundava o velho cemitéri o católico.sussurrou para si mesma em Yri. . . nem as fragrâncias eram mais as me smas. passou diante do estacionamento de carros-reboque.. de arbustos flore scentes. Estudos. . onde ainda treinavam quatro meninos. Os raios do sol continuavam aquecendo a sala. Os meninos corriam no gramado perseguindo as sombras sinuosas projetadas pelo pôr do sol. acariciava os cabelos ou o rosto da moça 276 Déborah falava sozinha e em voz alta.Mas as gargalhadas estrepitosas afogaram suas palavr as. . . .mas nem o sol. procurando a trajetória ígnea. . entretanto. trabalhar.Nunca terei isso. se jamais me farão carinhos assi m. . extremamente ma275 goada com a reação do pai. Sinto-m e um pouco orgulhosa. Mas eu quis! . As mãos de ninguém. Fui às aulas todos os dias. chamou Anterrabae. bem arrumada. e. Tinha dezenove anos e um diploma do curso secundário. a essa altura. estariam alardeando a boa nova pela cidade de Chicag o inteira. A jaqueta dele pendia negligentemente dos ombros magros da menina. de mãos dadas com um rapaz. vindo em sua direção. muito bem. Jacob. Quentin há de te oferecer água. sentindo um imenso desamparo. iria olhar pelas janelas.repetiam incansavelmente sem nunca pronunci ar o seu nome. Podia agora. se jamais andarei de mãos dadas com alguém. o ar contin uava carregado de fragrâncias primaveris . Aguardavam-na todos no cemitério: Anterrabae cintilando no escuro. .berrou Déborah.Não faltei uma vez. num gesto amoroso. Pensam que foi fácil . Porque ele reagira de uma forma deplorável? Havia empenhado naqueles exames todas as suas energias. quando muito.resmungou Lactamaeon empoleirado na cerca. caminhando em direção à e scola.. . e não são capazes se quer de lembrar meu nome. se fosse aprovada. e começou a margear o imenso campo de futebol. . envoltas numa película dourada de sol. As caras das mulheres do coro da igreja pareciam desafiá-la do estacionamento dos reboques. robustos e saudáveis. . Contornavam vagarosamente o gramado. . . Ha.Que maravilha! É maravilhoso! Oh. Prometera a si mesma que. . Déborah.. . então. Era quase noite. . não cometi um deslize. suplicante. Saiu cabisbaixa para a rua. Ia só para cumprir a ve lha promessa. Paravam de vez em quando e trocavam palavras que sem pre terminavam em risos ele. Encostou a cabeça na gra de. emprego.. o Coletor provocando-a com zombarias Dá duro. Surgiu diante dela. Acabaria consumindo toda s as suas forças apenas para manter-se viva. Fora-lhe necessário reunir todas as suas aptidões para chegar até onde eles estavam rindo e brincando. espere só qise eu vou chamar a família toda! Vão fic ar tão orgulhosos! . caminhavam d uas pessoas. subitamente.Sua voz parecia que ia desfalecer. Sentiu-se de repente extremamente cansada e sentou-se de encontro à tela que cercava os fundos do campo. nu nca. vamos. estudar. Eram jovens.de seiva e de flores. Ha! As mãos dele nunca acariciarão teu rosto. avistar o que havia de extraordinariamente belo do lado de lá do muro. .Esther ficou felicíssima. .

impassível. Es tava quase chegando ao hospital. e amizade. no íntimo. . quando iam visitar o avô. tolerando o insolente músculo que persistia em bombear no peito. O Coletor zombava do sorriso de Quentin e dos meninos do campo de futebol. Era um livro cheio de gravuras que havia na biblioteca do avô. Voz. por favor. Depois de algum tempo. refazendo-se ainda do terror.. A Srta. trazia uma fis ionomia cuidadosamente depurada de todo e qualquer sentimento que não fosse aquela amabilidade neutra de hospital. Por ainda estar viva. Tu não vais criar nada. 278 .Está se sentindo bem agora? . Breve despencaria no Poço. Emergiu de volta para o eterno recomeçar.Vais te deitar em prados floridos. Déborah começou a lutar e a se contorcer sob as amarras. Portanto. ela estava sentada de novo. A visão desvanecia-se. Mary Dowben murmurava a um canto fórmulas incompreensíveis. Déborah passou a mão pelos cab elos gosmentos e lembrou-se de uma outra cena idêntica . . Sentia-se culpado de não ter presenciad o o incidente. Quando ele e Cleary soltaram-na.. Srta. Folheara mil vezes aquelas gravuras. Mary ergueu-se e atirou longe a xícara de café e o pires. o tumulto ia crescendo. embora. anos atrás. . Ao pass ar pela igreja. pôs o roupão andrajoso do hospital e saiu a passos lentos para a ala. Dobshansky entrou de novo para examiná-la. Enquanto o artist a que havia nela estudava os anjos gravados em água-forte e as linhas bem esculpid as. Ela ficou preocupada por causa da sua escola e trouxe seus livro s e algumas roupas. O auxiliar repreendeu-as sem muita convicção. nunca! Estudar e trabalhar. A exaustão veio. nada. . mas a vida continuou pulsando inflexível. De repente. como se nada tivesse acontecido. . ja mais! Perseguiram-na aos gritos pela estrada. "Macho e fêmea. Blau? E. A crise tinha durado qua se vinte e quatro horas. Agora. Passeou os olhos pelos rostos que a encaravam com hostilidade. e ra presença obrigatória em qualquer lar culto: "Paradise Lost" de Milton. em segu ida . O Poço. as dimensões 277 precisas. Déborah sentou-se e olhou para a substância morna e nauseante q ue havia no prato.Acho que sim. Felic itou Quentin por seu casamento "secreto". o deus flamejante que caía perpetuamente era nada mais nada menos qu e o Satã de Milton.Está se sentindo bem. p referisse não ter de arcar com o peso esmagador das virtudes de tanta gente. nos quais via se . .confessou Déborah com sinceridade. Soltou um longo suspiro. in veja. embora estivesse sentado junto a elas. "Subir as escadas até a port a. Alguém aí. Anoi tecia.. Dessa vez. .. embora já estivesse fora de moda. Encontrou as mesmas fisionomias inexpressivas ou hostis. nem mesmo Anterrabae era seu! Enquanto isso. Coral devia estar em reclusão de novo. invectivava o Co letor . Divisou os dois postes de luz que ladeavam o po rtão de entrada. num livro. muito tempo atrás. Helene a irritava por amargura. escutando a zoeira ensurdecedora. Déborah caminhava como que por instinto. Déborah caminhava com os olhos vazios. Blau? "A última saída: fazer algum sinal". E stava aterrorizada.Tive que comunicar à proprietária de seu quarto que você não ia dormir lá esta noite e q ue estava aqui. os deuses começar am a imitar as respostas de seu pai ao telefone.Ela é uma excelente pessoa . Srta. . pelas ruas sombrias e desertas da cidade .. Alguém pôs-se a gritar em Yr mas ainda pôde ouvir o outro som . Um segund o depois. e que. Estava bastante aflita. que passaram de raspão pela cabeça de Déborah.Três toques de cigarra: emergência. socorro!" .lembrava de já ter visto há muito. s em o saber. Os manuais haviam vencido. gravara a tempestuosidade e a veemência das imagens.Como vai. a sonhadora de reinos misteriosos surrupiava furtivamente o soberbo ar canjo para transformá-lo no primeiro habitante de seu mundo particular.a agressão de Helene. A origem d e Anterrabae. querendo exaurir suas forças e mor rer de uma vez. onde cantava todas as quartas-feiras e domingos. divertindo-se com o esforço que ele fazi a para não deixar transparecer a surpresa. criou-os o Senhor". abra-a. já estavam distribuindo as bandejas para o jantar..

cambaleando como uma bêbada. Talvez então. Meu compromisso com o mundo será definitivo. apenas porque faltava amadurecer sua própria capacidade de discermir a diferença entre os problemas e os s intomas. . e seria tão importante que elas entendessem! Sob certos aspectos. a realidade era um domínio tão pessoal quanto Yr. uma newtoniana. e ainda assim. sua persistência.Jenna vai ter uma crise de novo. Anterrabae. Adeus.refletirem sentimentos contraditórios. Quando retiraram as bandejas do jantar. . Pássaro-um? Não posso mais fazer isso. Furii afirma que será uma contribuição. ESTRADA DE FERRO E TELÉGRAFO. AB E BC SÃO IGUAIS ENTRE SI". 280 vou. Rei Abdicado da Inglaterra! . . vou de qualquer jeito. o hospital poderia nos vender como anticorpos.. o medo e o ódio de Mary permitiram a Déborah compreender que a crise começara no mo mento em que pôs o telefone no gancho depois de comunicar aos pais a notícia triunfa l. Um símbolo vivo de esperança e fracasso. vou entregar-me ao mundo. Pássaro-um. Déborah pediu que trouxessem os seus livro s. Mary: . mas ainda não sei co mo. Dis simulara-a na agonia e no medo. Não nos pouparás como escudo contra a tua casca seca.Não. Mas o mundo não tem leis. AC. que constituía a única fonte de suas defesas e de sua força . "E AMBOS. Lembra-te da tua própria infância. O incidente da xícar a. traçara os contornos finais da opção. . Ao consentir em se tornar um ser no mundo. . . sussurrou Anterrabae. Jamais chegariam a distinguir com clareza a dimensão dos significados.Eu sou a primeira esposa secreta de Eduardo VIII. Lembra-te de Hitler e de Hiroshima. Adeus. 281 . como se entregasse símbolos sagrados. . O auxiliar entregou-os com reverência. "UMA LINHA QUE DIVIDE EM DUAS PARTES IGUAIS UM ÂNGULO DE 80 GRAUS FORMA DOIS ÂNGULOS QUE TOTALIZAM 80 GRAUS". é selvagem. "OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS AFETARAM A EXPANSÃO OCIDENTAL DE MUITAS MANEIRAS". ao retinir a sineta. Yr finalmente í 279 estava forçando-a a optar. então. pois sua so brevivência dependia justamente da supressão desses significados. .Será que vocês não vêem que eu estou sofrendo. . da dor e dos atestados de sanidade que te esperam. Adeus Yr. Ela abriu o primeiro. Ainda assim eu prefiro o mundo. Constantina: . terminaria por conduzi-la a um lugar onde podia enfrentar em segurança o momento definitivo da opção. dona de um p resente e de um futuro viável.Tu não és como os outros. Estaremos esperando até que nos chames de novo. Compreendeu também a razão pela qual jamais poderia explicar a essas pessoas a natureza de seus fracassos e da. eu sou como os outros.Sua puta nojenta! Me solte! gritaram do dormitório. a imagem do terror que elas se ntiam ante a possibilidade da recuperação. levando surra atrás de surra. Lembra-te dos rostos hostis. não vou chamá-los. Terei que aprender. que se tornara uma nova D oris Rivera." . a doença. É melhor providenciar logo um cas ulo. nas terríveis quedas no Poço. Não importa. ASSEGURARAM O CONTATO INDISPENSÁVEL À MODErnA SOCIEDADE INDUSTRIAL. Compreendeu. "UM TRIÂNGULO EQUÍLÁTERO É AQUELE CUJOS ÂNGULOS OPOSTOS.Será que a insanidade é contagiosa? Se fosse. . Chamem Ellis. Era chegada a hora de firmar o verdadeiro compromisso. e do desejo que sentiste ao ver aquele casal de mãos dadas. portanto. . Não. de pé novamente para mais um "ro und".Agora é pra valer .murmurou Déborah. seus porcos malditos" "A INVENÇÃO DA DINAMITE TOrnOU POSSÍVEL A LIGAÇÃO DE COSTA A COSTA PELAS ESTRADAS DE FERRO ".

CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE E CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA DO AMOR Livro 2 .TOTEM E TABU Livro 5 .MOISÉS E O MONOTEÍSMO (em preparo) .OS CASOS CLÍNICOS Livro 6 .TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE Livro 3 .Tel.0 FUTURO DE UMA ILUSÃO (em preparo) Livro 10 .0 MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO Livro 9 .Impressão: José Fagundes do Amaral & Cia Ltda Rua do Livramento.A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALITICO Livro 7 . 196 .ESBOÇO DE PSICANÁLISE Livro 8 . 253-6093 PEQUENA COLEÇÃO DAS OBRAS DE FREUD Livro 1 .SOBRE OS SONHOS Livro 4 .

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