NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Hannah Green Romance e psicanálise - 2ª EDIÇÃO Direção: Jayme Salomão - IMAGO EDITORA

LTDA. Rio de Janeiro Volume 1 - A HORA DE CINQÜENTA MINUTOS Uma coletânea de Contos Psicanalíticos Verídicos de Robert Lindner Volume 2 - A VIDA ÍNTIMA DE UMA ESQUIZOFRÊNICA Operalores e Coisas de Bárbara Brien Volume 3 - O HOMEM DOS DADOS de Luke Rhinehart Volume 4 - O FILHO DO AMOR Um auto-retrato de Mary Hanes Volume 5 - NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS de Hannah Green NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Av. Paulista, n° 2518 - Térreo Telefone: (0xx11) 3258-8599 emporiopaulista@terra.com.br Título original I NEVER PROMISED VOU A ROSE GARDEN. Traduzido da edição publicada nos E.U.A. em 1964 por The New American Library, Inc., Nova Yorque. Copyright (c) 19 64 by Hannah Green Editoração Coordenador: Pedro Paulo de Sena Madureira Tradução: Jayme Benchimol Revisão tipográfica: Maria Beatriz Nascimento Gomes Capa: Renato Sérgio Brando - 1974 Direitos para a língua portuguesa adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA., Av. N. S. de Copacabana 330 10º andar - Tel.: 255-2715, R io de Janeiro, que se reserva a propriedade desta tradução. Impresso no Brasil Printed in Brazil PARA MINHAS MÃES O carro percorria uma bela região de campos e fazendas, em pleno outono, atravessa ndo curiosos e antigos vilarejos cujas árvores de troncos retorcidos davam, com su as tonalidades vivas, um colorido pitoresco às ruas. Seus ocupantes falavam pouco. Dos três, o pai parecia o mais cansado. Vez por outra, interrompia o pesado silênci o com migalhas de conversa, coisas casuais, sem importância, que mesmo a ele exasp eravam. Voltou-se, uma vez, para o rosto da menina refletido no espelho retrovis or e perguntou: - Você sabe, não sabe, que eu não passava de um tolo quando me casei, um tolo consumado? Não tinha a menor noção de como educar uma criança, do que significav a ser um pai. Defendia-se, e sua defesa também era em parte uma agressão. A menina c ontinuou calada. A mãe sugeriu então que parassem para tomar um café e, num esforço dese sperado para melhorar o clima de tensão, disse que parecia realmente que estavam f azendo uma viagem de férias, em pleno outono, com sua filha adorável, e numa região ma ravilhosa. Encontraram um restaurante à beira da estrada e pararam. A menina saltou ligeira, e encaminhou-se para o motel, nos fundos do prédio. Tão logo se afastou do carro, os olhos dos pais se voltaram sobressaltados: - Deixe, ela está bem! - tranqüilizou o pai. - Esperamos ou entramos logo? - perguntou em voz alta a mãe, falando consigo mesma . Dos dois, ela era a mais analítica. Antecipava-se às coisas, planejando tudo minuc iosamente - como agir e o que dizer - enquanto o marido se deixava guiar, não só por comodismo, mas também porque geralmente era ela quem tinha razão. Naquele momento s entia-se confuso e só. Deixou-a entregue a seus planos e especulações, inclusive porqu e era assim que ela se consolava. Ele preferiu se manter em silêncio. - Ficando no carro - dizia ela - estaremos ao alcance dela, caso precise de nós. S e ela sai e não nos vê... Por outro lado, devemos mostrar que confiamos nela. É import ante que sinta que confiamos nela...

Decidiram finalmente entrar no restaurante, procurando aparentar a maior descont ração possível. Sentaram-se numa mesa junto às vidraças, de onde podiam avistá-la dobrando esquina do prédio, vindo em sua direção. Procuravam observála como se fosse uma desconh ecida, filha de alguma outra pessoa a quem tivessem sido apresentados naquele in stante, uma Déborah que não era a deles. Estudaram com atenção o corpo adolescente e des gracioso: julgaram-no bom. O rosto era inteligente e vivo, embora, para dezessei s anos, sua fisionomia ainda fosse excessivamente infantil. Estavam habituados à sua precocidade meio tristonha, mesmo não a reconhecendo no ros to familiar que agora procuravam tratar como estranho. O pai pensou com seus botõe s: "Como é que desconhecidos podem ter certeza? Ela é nossa... sempre foi nossa. Ele s não a conhecem. Trata-se de um erro - só pode ser um erro!" A mãe, por sua vez, disse a si mesma observando a filha: "Minha expressão. .. não deve estar aparentando nada de anormal, nenhuma ruga - uma expressão ideal." E sorriu satisfeita. No fim da tarde, pararam em outra cidadezinha e jantaram no melhor r estaurante, numa atitude de desafio e aventura, pois não estavam vestidos de forma conveniente. Terminado o jantar, foram a um cinema. Déborah parecia contentíssima c om a noitada. Brincaram durante o jantar e durante o filme todo; depois, caminha ndo sob a noite densa da região, conversaram sobre outras viagens, congratulando-s e mutuamente cada vez que recordavam algum detalhe engraçado de outras férias. Encos taram num motel para dormir, e Déborah ficou num quarto só para ela, privilégio cuja i mportância nem mesmo os pais que tanto a amavam podiam avaliar. Já no quarto, sentados frente a frente, Jacob e Esther Blau perscrutavam o íntimo de cada um, perguntando-se por que, agora que estavam a sós, não conseguiam despojar-s e de suas poses, respirar livremente, relaxar, e criar um clima de paz e esponta neidade. No quarto vizinho, separados apenas por uma delgada parede, podiam escu tar a filha trocando de roupa para se deitar. Eram incapazes de se confessar, me smo com os olhos, que passariam a noite em alerta, interrogando cada ruído que não f osse o de sua respiração - qualquer ruído que pudesse 8

significar. . . perigo.- Apenas uma vez, antes de se deitarem para a vigília notur na, Jacob deixou cair a máscara, e sussurrou, com voz áspera, no ouvido da mulher: Por que a estamos mandando embora? - Os médicos acham que ela deve ir - respondeu Esther, também num sussurro, estendid a rigidamente sobre a cama, com os olhos pregados na parede. - Os médicos!. . . - Jacob jamais quisera envolvê-los no problema, mesmo no início. - O lugar é bom - afirmou a mulher, elevando um pouco a voz. - Eles chamam aquilo de hospital psiquiátrico, mas é um lugar, Teca, um lugar onde i mprensam as pessoas. Como pode ser bom para uma menina - quase uma criança! - Deus do Céu, Jacob - exclamou - quanto já nos custou tomar essa decisão? Se não tiverm os confiança nos médicos, a quem vamos pedir conselhos, em quem confiar? O Dr. Liste r diz que é a única forma de ajudá-la agora. Temos que tentar! - insistiu e voltou res olutamente a fixar os olhos na parede. Ele se calou. Rendia-se mais uma vez à mulher, tão ágil no uso das palavras. Deram-se boa noite; fingiam dormir, respirando pesadamente para enganar um ao outro, enqu anto os olhos ardiam vigilantes devassando a escuridão. No quarto vizinho, Déborah deitou-se disposta a dormir. O reino de Yr possuía uma es pécie de zona neutra chamada o Quarto Nível. Só por acaso é que se podia alcançá-la. Fórmul e atos de vontade eram inúteis. No Quarto Nível não havia emoções para afligi-la, nenhum p assado e nenhum futuro contra o qual lutar. Nem memória. Perdia-se a posse de si m esmo. Nada, exceto fatos mortos que sobrevinham espontaneamente quando ela os de sejava, despojados de emoção ou sentimento. Deitada na cama, subiu ao Quarto Nível. O futuro deixou de preocupá-la. As pessoas n o quarto ao lado eram, supostamente, seus pais. Muito bem. Só que agora faziam par te de um mundo fantasmagórico, que pouco a pouco se desvanecia. Ela transitava sem dificuldade para um mundo novo, onde não se conheciam preocupações. Abandonar o mundo antigo eqüivalia a também abandonar os labirintos do reino de Yr, o Coletor de Outros, o Censor, e todos os deuses Yri. Revolveu-se na cama e mergulhou num son

o profundo, sem sonhos, repousante. Reiniciaram a viagem na manhã seguinte. O carro já se afastava do hotel, penetrando no dia luminoso, quando ocorreu a Déborah que talvez aquela viagem pudesse durar p ara sempre, e que a sensação maravilhosa de calma e liberdade que sentia, fosse uma nova dádiva dos deuses e dos habitantes, normalmente tão exigentes, de Yr. Viajaram durante algumas horas, percorrendo uma região mesclada de reflexos, doura dos e castanhos, e as ruas salpicadas de sol dos pequenos vilarejos. Foi então que a mãe perguntou: - Onde é o desvio, Jacob? Em Yr, uma voz clamou das profundezas do Poço: Inocente! Inocente! Num instante desfez-se toda aquela sensação de liberdade. Déborah Blau foi impetuosame nte tragada pelo choque de dois mundos. Houve, como em todas as outras vezes, um dilaceramento silencioso, fantástico. No universo onde se sentira até há pouco radian te, o sol cindiu-se no céu, a terra entrou em erupção, seu corpo foi despedaçado, os den tes e os ossos se fragmentaram em mil pedaços. Enquanto isso, no outro universo, h abitado por fantasmas e sombras, um carro tomava um desvio lateral e penetrava n uma estrada que desembocava num prédio de tijolos vermelhos, muito antigo. Em esti lo vitoriano, cercado de árvores, seu aspecto era bastante decadente. Fachada idea l para um manicômio. Quando o carro parou diante da portaria, Déborah ainda estava a tordoada pelo choque. Foi difícil saltar, e mais ainda subir condignamente as esca das de acesso ao prédio, onde aguardavam os médicos. Havia grades em todas as janela s. Déborah sorriu: "Ótimo! Não poderia ser melhor!" Ao ver as grades, Jacob Blau ficou lívido. Não havia mais como se iludir: aquilo não e ra nem "clínica de repouso" nem "tratamento de convalescência". A verdade impunha-se nua, gélida como o ferro das grades. Esther tentou alcançá-lo em pensamento: - Não devíam os contar com isso? Por que essa surpresa? Enquanto esperavam, Esther Blau procurava todas as formas de se mostrar jovial. Exceto pelas janelas gradeadas, a sala parecia qualquer outra sala de espera, e ela aproveitou para tro10 çar das revistas antiquíssimas que estavam por ali. De repente, ouviram no fundo do corredor o ranger metálico de uma chave na fechadura - pelo som devia ser imensa e Jacob retesouse de novo, sobressaltado, gemendo baixinho: - Não, ela não, nossa D ebbizinha. . . E não percebeu o olhar implacável que cintilou no rosto da filha. O médico percorreu o corredor e, antes de entrar na sala, compôs uma expressão grave. Era um homem corpulento e atarracado, de modos bruscos. Entrou e sentiu logo a a ngústia que pairava no ar, quase palpável. O prédio era antigo, um lugar realmente ass ustador. Sua missão consistia em afastar a menina o mais rápido possível e tranqüilizar suficientemente os pais para que consentissem em deixá-la, convictos de que tinham feito o que era certo. Quantas vezes, naquela mesma sala, pais, maridos ou esposas no último minuto, reje itavam com repugnância a pavorosa realidade da doença. Agarravam o parente, coitado, com seus olhos esgazeados, e o levavam embora de novo. Era medo, ou uma justa i mpressão negativa ou - e nisto seus olhos perscrutaram de novo o casal - aquele grão híbrido de ciúme e ódio que sempre os impedia de interromper a longa sucessão de misérias uma geração após a sua. Procurou mostrar-se compadecido, mas sem leviandade. Pouco de pois, chamou uma enfermeira para conduzir a menina ao interior do hospital. Ela parecia uma vítima em estado de choque; quando a levaram dali, sentiu a dor em que os pais se revolviam. Depois de prometer que ainda se despediriam dela antes de partir, o médico os cond uziu à secretaria para que preenchessem os formulários de praxe. Quando voltou a vê-lo s, após as despedidas, pareciam também em estado de choque. "Que coisa dolorosa ter que se amputar de uma filha", pensou. Jacob Blau não era um homem dado a exames introspectivos, nem tinha o hábito de revo lver o passado para pesar e medir sua configuração. Julgava a esposa, em certos mome ntos, uma mulher excessivamente voraz, moendo e remoendo suas paixões num discurso interminável. Contudo, invejava-a um pouco. Ora, também ele amava a filha, embora n unca tivesse declarado esse amor. Também ele desejava ouvir confidencias 11

dançava e entoava hinos r ituais. Ali também foi vigiada: uma mulher. placidamente sentada em meio às nuvens d e vapor. . 13 . ardendo em chamas. a possibilidade de dizerem aquil o que realmente queriam dizer se mostrava menor do que antes. finalmente se concretizara num f ato.ela implorou. a antecipa ferindo-se selvagemente. voltou para o quarto. e se afastara dele recusando o beijo.Deixa eu ir com você . Embora Déborah já não estivesse em sua companhia. Os últimos meses tinham sido dificílimos de suportar: tanto frio. Homem de temperamento forte. seus campos dourados e seus deuses. Não havia nada no auarto que pudesse distrair sua atenção. esperando a punição. A seu ver. Déborah executou obedientement e todas as instruções. onde os olhos se perdiam no espaço infinito. que encontraram no chão do banheiro. num tom sardônico. aquele gesto tolo e teatral de cortar os pulsos. Para Jacob e Esther Blau a volta para casa não foi mais fácil do que a ida ao hospit al. con tava apenas com o Aqui. não parou de observá-la enquanto tomava banho. No vácuo do Mundo Intermediário onde se achava. procurando manter o braço esquerdo ligeiramente voltado para de ntro. jamais fora capaz de se abrir. Déborah já não sabia mais para qual dos reinos de Yr havia passagem. Para se defender contra a onda que ameaçava tragá-la. que não teve como se libertar dela. cheia de sangue até o meio. . com aquele médico frio de cademo de notas na mão. Mas a raiva vinha de tal modo imbuída de compaixão.Contei toda a verdade sobre essas coisas que o senhor pe rguntou. caindo. que vinha se arrastando há tanto tempo. caindo.não mais Déborah. ela se mostrara ba stante ansiosa. Agora pouco importava que a chamass em de sonsa e mentirosa.E seus cabelos. onde teve que responder a algumas perguntas sobre sua vi da. Em breve. de medo e de amo r. Vai me ajudar agora? . imensas extensões de terras nuas. E seu enorme desgosto não fez senão despertar s ua velha e caprichosa úlcera. e disse: . ondulavam levemente na qu eda interminável. fechou o cademo e saiu. A suspeita. A xícara. dera c . O Deus Cadente. sua imagem passeava e r espondia. de modo a esconder as duas cicatrizes em seu pulso. não fora a tentativa infantil de suicídio que dera início àquele ciclo interminável de médicos e decisões. tal como no mundo. prestes a desaparecer em mei o à algazarra.Que assim seja! . os rugidos que ressoavam dentro dela. tan ta dor e tanta cegueira em Yr. precisava agora explodir com alguém. de que havi a alguma coisa profunda e terrivelmente errada. tomand o-a igualmente distante de seus dois mundos. não quisera a ceitar qualquer consolo de sua parte. a vontade que tinha era de dizer a ele que se sen tia de certa forma aliviada com aquele incidente. Agora. entre Yr e o Agora. Era óbvio que ele não ouvia a algazarra. Lutava contra essa iminência como uma criança que. e Déborah conse guiu distinguir algumas das palavras que se formavam. porque também ele caía etemamente. Esther julgava conhecer Déborah melhor que o marido. e sim uma pessoa com um nome ap ropriado para uma habitante das planícies de Yr . encolhendo-se todas as vezes em que procur ou tocá-la. eles a estariam maldizendo e insultando. Aparentemente. onde ficou até que se desocupassem os chu veiros. 12 Levaram Déborah para um quartinho modesto. Acabara de deixar a filha mais velha naquele lugar sombrio. Ah. Era natural que nenhum dos seus o procurasse para confidencias.respondeu secamente. pareceu-lhe insatisfeito. cheio de trancas e grades. Ergueu os olhos para aquele que estava sentado ali. mas Yr também possuía regiões de terror e desespero. extrav asar sua raiva. Ela . Naquele dia e no seguinte. O médico que as fazia. no entanto. ou então com Yr. Déborah vagueou pelas planícies de Yr. Já acomodada à nova rotina .cantava. junto com ele.Isso depende de você . Déborah estava profundamente agradecida aos Poderes que lhe haviam concedido taman ha misericórdia. perguntava e agia. os clamores. Começou por respo nder a verdade às primeiras perguntas do médico. Os médi cos que a ajudassem. o Coletor começava a dar sinais de vida. louvando a brisa acariciante que varria a imensa ravina. No momento da despedida. Sent da no carro ao lado do marido.e. Dentro dela cresceu um pouco a algazarra.Um especialista! zombou Anterrabae.

Voltou-se para ele. a fisionomia contraída: . entre por 15 favor querida Doutôra. O grito ficaria trancafiado em seu coração. Esther não pôde mais sufo car as dúvidas que a assaltavam. Dl AG. com suas crises de fúria destruidora. Embora eles soubessem das recomendações do psiquiatra. e as supervisões que seria forçada a recusar caso decidisse aceitar a nova paciente. sabendo-se que qualquer progresso r eal poderia exigir anos. tratava-se apenas de uma clín ica de repouso. com componentes compulsivos e masoquistas. diriam. vendo-o dirigir com os olhos fixos na estrada. Olhou o relatório que tinha nas mãos. INICIAL: ESQUIZOFRENIA 1 Testes: Os testes evidenciam um quociente de inteligência (140-150) elevad o. tinha. Le mbrava-se bem de uma vez em que Tilda. 2 Entrevista (inicial): De início. percebendo que se deixava levar pela vai dade. Jacob e Esthe r teriam que amenizar um pouco a descrição do lugar omitindo especialmente o grito l ancinante vindo de uma das janelas gradeadas. Àquelas três páginas datilografadas c ontrapunham-se as conferências que não poderia dar. A estes. Puseram-se então a construir a história que contariam aos amigos e aos parentes mais afastados. Reação inteiramente subjetiva à entr evista e aos testes. utilizando-a como uma formidável defesa. se para Deus eram importantes as individualidades. Fried ergueu-se da cadeira e foi até a janela de onde se descortinavam os p avilhões do hospital. atada à cama. 16 anos. A Dra. na época em que do outro lado dos muros estava Hitler: qual dos lados era o mais são? Tilda. sempre amarrada às camas. Várias questões mal in terpretadas. A papai e ma mãe. Tilda e Hitler não existiam mais. levaram a menina ao médico. falariam qualquer coisa a respeito de uma escola.em que o mundo parece ser mil vezes mais doen te do que aqueles que esse mesmo mundo intema em suas instituições. dissera: . m esmo antes disso.: nenhum. geralmente manifestavam sua carência com uma paixão intensa. Hosp. . Qua nto a Suzy.. apesar de tudo. os seus momentos de extraordinária lucidez. escreve m e telefonam implorando ajuda? Sorriu. como Débora h Naquele Lugar.lembrou-se com pesar . Seria justo i niciar o tratamento individual de pacientes. riu . Ao escutar aquilo. BLAU. No dia segu inte. A própria doen te facultava-lhe analisar a sanidade como poucos "sãos" seriam capazes de fazer. e que os fizera estremecer da cabeça aos pés.onsistência a todas as suas impressões nebulosas e a seus temores vagos. por que não para ela? Sentou-se. que haviam escutado quando saíam. vinha se mostrando inteiramente desnorteada. Gostaria agora de mostrar a Jacob todas as coisa s que ele desconhecia. A senhora chegou bem a tempo de presenciar o chá tranqüilizante da paciente e o fim do mundo. vício que denunciara numa de suas aulas como o pior inimigo do médico. pura e fascinante. alimentada pelas veias. Recordou-se de T ilda. el a passou a demonstrar extrema ansiedade diante de tudo o que pudesse ser interpr etado como correção ou crítica. um pequeno jardim e logo adiante o pátio onde os intemos costu mavam passear. Gostava muito de trabalhar diretamente com doentes. e começou a ler o relatório. a lógica começou a ruir. que estava tudo bem. freqüentemente su bmetida à força. Ora. abriu a pasta. diriam alguma coi sa sobre anemia ou fraqueza e um sanatório especial para convalescença. que no mês anterior tantas vezes escutara a palavra "doente". a paciente parecia bem orientada e lógica n os seus pensamentos. mas tinha certeza de que não poderia fazer isso sem magoá-lo. Em três ocasiões diferentes. enquanto dezenas de milhares de pessoas chamam. Há momentos . de conviver e de se comunicar.Oh. os escritos que seria obrigada a negligenciar. Agora. mas com o desenrolar da entrevista. DÉBORAH F. Fez o que pôde para impressionar o entrevistador com sua perspicácia. erguera para ela os olhos e c om um sorriso que procurava ser gentil. embora ocorram distorções nas amostragens resultantes da doença. Prev. I mpossibilitados de amar.Poderemos visitá-la dentro de um mês ou dois. para tranqüilizá-los. Os testes de personalidade revelam comportamento tipicament e esquizofrênico. intemada num hospital psiquiátrico na Alemanha. e que. havia muit o a ensinar aos médicos que saíam das escolas com uma vivência limitada. ou àqueles cujos preconceitos impediriam de aceitar a simples idéia de u m hospital psi14 quiátrico na família. depois da doença do paciente. de maneira excessivamente subjetiva. disse.

Susan. Há antecedentes de hipocondria na família. retcomou ao Calendário Pesado. S ubitamente. As palavras inscritas no papel . a guerra forçou-os a mudar para a cidade. a paciente sofreu duas operações para extirpar um tumor no aparelho urinário. passava a se chamar Januce. se conseguirmos. parada junto à carteira. .Déborah esteve em paz. forçando-se a evitar a lín gua matema .cada uma voltada para cada mundo. Januce? E ficou ali.exatamente quanto. Pai. Mas no fundo. Aos cinco anos de idade.Essa força que se mantém oculta é um segredo pro fundo demais. deixou escapar esse nome. e agora. À me dida que prosseguia a entrevista. .Aber wenn wir. Sobreveio uma sensação tão maravilhosa e onisciente de transição. Jacob Blau. do ametil e do pentotal. Outubro. no cabeçalho da folha de aula. Déborah seria sua paciente mais jov em. é nossa única aliada. cuja f amília emigrou da Polônia em 1913. exceto o tumo r. que Déborah não resistiu peto de anotar. quando declarou que a hospitalização resultará de uma ten tativa de suicídio. Voltou a se concentrar nos fatos e nos números. Déborah sentia renascer dentro de si como que os terrores de algum pesadelo remoto . ce rta vez. Puberdade fisicamente normal.Nasceu em Chicago. a comentar com o psicólogo do hospital: . contador. Dificuldades finan ceiras obrigaram a família a se mudar para a casa dos avós. aguardando a re sposta. vendo-as. O psicólogo respondeu que poderiam saber isso por meio do hipnotismo. inclusive.Eu disse a verdade sobre essas coisas. sem qualquer dimensão de profundidad e. Aos 16 anos. contudo. As coisas se tomaram planas. como se a ruptura existente entre ambos não fosse mais do que uma névoa muito tênue. o que foi que você escreveu no papel? O que sig nifica essa palavra. nem se incluíam em qualquer padrão. perguntou: . A situação melhorou. nos subúrbios de Chicago. talvez fosse interessante descobrir se uma menina com tão pouca experiência de vida poderi a lucrar com a terapia. . A doutôra virou a página e examinou por alto as diversas avaliações estatísticas de fatore s de personalidade e os resultados dos testes. . Illinois. as duas outras. nascida em 1937. conseguia ficar em contacto com a "realidade". Os incidentes não tinham relação entre si. a paciente avançou. cujos efeitos foram traumáticos. a idade da menina: graças a isso o relatório acabou preva lecendo sobre os compromissos com reuniões e os artigos por escrever. Um relatório semelhante levara-a. as palavras JANUCE AGORA. Começou a falar alto. por um deslize. em meio à narrativa de um acon16 tecimento. Uma irmã. dizendo em tom acusador: . Ah. tendo sido ridicularizada pelos colegas de escola.Discordo . . tudo estava envolto em tonalidades cinzas. . Estava vivendo naquele dia conforme o Calendário Secreto (em Yr não se media o temp o da mesma forma que no mundo) quando. sua atitude foi mudando. no fundo.murmurou. .retrucou a Dra. mas o pai adoeceu: úlcera e hipertensão. O primeiro incident e na escola ocorreu exatamente quando. enfim. segundo os critérios da Terra. O mundo lhe exigia pouco. Amamentada até o oitavo mês. vai me ajudar? Consideramos recomendável encerrar a entrev ista. mas. Menc ionou uma operação aos cinco anos de idade.Déborah.quantos belos anos de vida ainda pela frente. . Abstraindo as considerações relativas à individualidade da pessoa em questão.inoportunamente: a primeira. E como seria o trabalho: mais fácil ou mais difícil? O que d ecidiu a questão foi. Nesses momentos. uma babá cr uel. o que reforçava sua co nvicção de que a causa de tantas agonias no reino de Yr se originavam de pressões exte riores. como num quadro. Fried.Algum dia precisamos descobrir um teste que também nos mostre onde está a saúde. 1932. a saúde tem sido boa. O lhou ao redor e descobriu que só era capaz de perceber os objetos em seus contorno s. e o ambiente luminoso e saudável da sala de aula se desvanesceu completamente. a partir de Yr. Em 1942. ela não sab eria dizer . de repente. 17 Durante um bom tempo . Parto normal. por ocasião de perguntas relativas à data do mês. A paciente não se ambientou bem. 3 História familiar . a p aciente tentou suicídio. c itando episódios casuais de sua vida que considerava responsáveis por sua doença. porque se sentia co mo a Juno das duas faces . etc. . A profess ora. Algumas vezes. .

Surpreendida. nenhuma palavra e nenhuma ação lhe escapavam. jantar na co mpanhia dos outros. Déborah comentaria depois com a tal grandalhona. . Cada uma dessas etapas constituía um privilégio e possuía uma certa conotação de recompensa que. vou pôr os sapatos! . Déborah suspirou e se levantou ob ediente. porém. sair do próprio hospital e ir sozi nha a um cinema ou fazer compras.um horror do qual não ter ia acordado racionalmente. evitados a todo custo. .Pois é. os olhos fixos no teto. um raio de luz que pen etrasse na região oculta. O que eu não sei é quant o tempo vou ficar aqui. parecia se exprimir em te rmos de distância. tais como homens-hora. Déborah trabalhava na oficina de artesanato.como. o poder do Censor cresceu assustadoramente. sair do quarto pela manhã. já que ela é tão boa assim. Só que responder imp licava em descortinar o horror em toda a sua plenitude .Quer dizer. e com tamanha severida de que. imediata19 mente. veja só. observando div ertida a expressão de surpresa da moça e o esforço que fazia para reprimir o olhar de . . a vida do hospital prosseguia normalmente. terminou por impor sua presença em ambos os mundos. que estava deit ada. .disse ela.Vamos. Ela é uma das chefes aqui. os personagens do Grande Coletor afluíram em massa ao Mundo Int ermediário . Aprendeu a fabricar cestos. ficam boas e então saem? . recent emente. etemamente reunidos em segredo para julgá-la e atormentá-la para sempre . eles vão aliviar um pouco a barra. Por isso.deuses e demônios vindos 18 de Yr e sombras da Terra . em pl ena transição. e por último. até que. Já se passaram três meses.disse a estudante. Blau.Venha comigo . por exemplo.respondeu Déborah. o deus Negro. menina maluca! Para sempre. é hora de se levantar . colega s de escola. Na quela mesma noite. a partir de então. uma menina gran dalhona de sua ala veio convidá-la para jogar tênis.Não se preocupe! Logo você receberá mais privilégios. mentira e dissimulara. e o choque repercutiu até o fundo de Yr. com uma voz vacilante e assustada. Se você se esforç r bastante com o seu médico. Certa vez.Ora.e decidiram erguer sobre seus reinos um Censor que se interpusesse entre as palavras e as ações de Déborah e assim protegesse o segredo da existência de Yr. Fazia parte de um novo grupo de estagiários cumprindo um período de treinamento psiquiátrico no hospital. aliviada por saber que também o mundo tinha esconderijos a oferece r. Déborah teria que responder agora pelos dois mundos.foi a resposta. eu tenho cem metros quadrados de sanidade! Se havia unidade de medidas. curiosamente.A doutôra quer vê-la. pensando consigo mesma: Ela deve ficar atônita com a densidade de loucura com que sou capaz de impregnar esse quarto. para sempre poderiam destruir Déborah e seus dois mundos.Não sei .Não estou aqui há tanto tempo assim. Na Terra. Perigos desse gênero deveriam ser. O médico permitiu que Déborah passeasse sem restrições no pátio. embora sem dispensar o s modos impacientes e ásperos. algumas vezes.Não sei! . aceitando todas as instruções. um sinal eventualmente escrito.As pessoas saem algum dia daqui? . a quem cabia conceder os "privilégios" .simbolizavam a passagem do tempo de Yr para o da Terra. . parentes.etapas anál ogas às do mundo normal . com o correr dos anos. e soube que se tra tava do "administrador da ala". Um nome sigilos o segredado por descuido. . Resolveram perguntar a uma enfermeira. por que não sanidademetro? Carla consolou-a: . aliás. que denunciava sua inexperiência. . mas não ra do hospital. As pessoas. por isso devemos nos apressar. Ainda voltou a ver algumas vezes o médico do cademinho. Srta. uma médica muito famosa. que se chamava Ca rla: . Ressoaram ao mesmo tempo um grunhido de Lactamaeon. menina preguiçosa! Mais tarde. jamais gostaram dela. o coração sufocando de m edo. E. anos-luz. e a risada zom beteira do Coletor: a síntese de todas as imagens de professoras. passear no pátio. Para sempre. .respondeu Carla.perguntou Déborah. uma das enfermeiras estagiárias se aproximou de Déborah. Sabia que nenhuma de suas companheiras de trabalho gostavam dela. ambas pensaram nas mulheres lá do final da ala: todas tinham mais de dois a nos de hospital.

é uma lista e tanto. haverá outras coisas para tomar o lugar dos sintomas.. . caindo. Fique à vontade. para o Coleto r e para o Censor): . Você não terá que se livrar de nada enquanto não estiver pronta. Desceram para o andar inferior. .Que disfarce! E o Censor resmungou: .Déborah sentiu apertar o laço do medo. a doutôra perguntou: .Você sabe por que está aqui? .Já é muita sorte ser recebida por ela. Antipatia também. que fossem! Deixaria o consultório tendo pelo menos confessado seu ca nsaço e seu desgosto desse mundo sombrio e angustiante. 21 Déborah sentou-se. Desastrada em primeiro lugar. . Essa última categoria inclui vários itens: (a) falsa perd a de visão.uma dessas casas branquinhas que se vê em cidades menores à beira de uma rua sombreada por carvalhos. .Há alguma coisa que você queira me dizer? . . para Yr. gorda. Vamos. feia. Seguiu-se um longo silêncio. possivelmente pel a primeira vez. você elimina m eus "sintomas" e me manda para casa.perguntou Déborah.Invadiu-a uma sensação de total exaustão. . ferimentos inventados na pema.Onde está a doutôra? . e outras doenças que não exi stem.Está bem. voltando-se. querendo anular a justaposição atordoante de p aredes e portas. .respondeu a mulher. que estava aberto. em seguida. a 20 que dava para as escadas. como ódio. não me teria dito isso. não existem.Tenho ordem para esperar. grosseira e cr uel. . Erguia-se. . e depois o que é que eu terei? com voz suave e pausada a doutôra respondeu: . Acompanhando com os olhos as partículas de pó que flutuav am nos feixes de sol projetados da janela.Vamos! A enfermeira destrancou a porta da ala e. . .Sente-se. mergulhando em suas próprias trev as: . creio.disse a estagiária. A doutôra contentou-se em dizer: . medo ou prazer. dissera aquilo que realmente sentia.. . Mencionei antipatia?. Se essas coisas eram verdad eiras. Pássaroum.Ajudá-la a ficar boa. cabelos grisalhos. azar. lapsos inverídicos de audição. .disse a enfermeira. egocêntrica. Anterrabae soltou uma sonora gargalhada. E quan do isso acontecer.Poderia vir buscá-la dentro de uma hora? .Está bem. . por incrível que pareça. As mesas não têm como se defender da sua falta de jeito. Depois de algum tempo.perguntou a doutôra. Frie d. Dirigiram-se à porta da frente e tocaram a campainha. tonteiras fingidas. Mal Déborah entrou na casa. .Fazer com que eu vire simpática.Tome cuidado.Porque sou desastrada. má. Scomos da Seção de Admissões. há mesinhas demais por aqui.Pensei que você soubesse. cabeçuda. depois há uma enorme lista de defeitos: preguiçosa. com ve nezianas verdes .ironizou Déborah.Aqui está ela . dores imaginárias que causam verdadeiros tormentos. sente-se. e s aíram pelos fundos do prédio.Sou eu a doutôra . .Déborah. A Govemanta-Famosa-Médica levou Déborah para um quarto ensolarado e. . mas de qualquer forma já temos um trabalho definido pela frente. Ela devia ter recebido instruções para ocultar todo e qualquer sentimento mais intenso.Bem. A enfermeira apontou para uma casa toda caiada. porém.Se você realmente não quisesse se livra r desses sintomas. éeborah percebeu que.Você devia ficar agradecida . . O Censor preveniu-a: Ouça.desaprovação. carinhosa. uma mulherziriha baixa e gorducha. . Ah. veio abrir. bem no meio do hospital. (b) falta de esportividade. Algumas dessas coisas. o Censor começou a dar sinais de alarma: Onde está a médica? Será que ela está espiando a gente por trás de alguma porta? A govemanta acenou com a cabeça em direção a um quarto. num í peto de cólera.. co nvidou-a: . Você faz as perguntas e eu respondo. .Para abafar minhas queixas. muito cuidado.. Sou a Dra. ergueu-se de um salto e exclamou (para ela. . e mentirosa também. Quand o. encantadora e feliz pelas mentiras q ue eu prego..Conhecida e amada por loucos do mundo inteiro! . geniosa.

cujos limites ainda não sou capaz de determ inar.Em segundo grau. Verdade nua e crua. observando as duas retomarem ao prédio do hospital. por medo.Amanhã. sorrindo. porque acredito que se você e eu trabalharmos juntas para valer . mas deix ou que o rosto expressasse um cauteloso "sim". A doutôra propôs então: . talvez .interv eio a doutôra. . perto demais até. . . pensou consigo mesma: Em alguma parte de toda essa precocidad e e amargura. nem totalmente premeditada.algo profundo e grave. as crises de terror e as repentinas ausências de memória. procurou controlar todos os seus gestos. Déborah soube que havia algo de errado sim . Gostaria de repetir que não pretendo destruir sintomas nem d oença alguma contra a sua vontade.disse Déborah. Sim. as dores lancinantes. 23 venceremos tudo isso. "louca". nesse caso. atravessando o espírit o para trancafiá-la de volta na ala. emanava das palavras da doutôra uma espécie de luz que se projetava sobre vários outro s recintos do passado: sua casa. em alguma parte da doença. durante an os e anos. . a manqueira temporária. de touca branca e uniforme listrado. imediatamente compreendido pela méd ica.Se você estiver de acordo. como se qu isesse preveni-las de que o tempo havia expirado. Déborah foi despertada pela enfermeira. O laço apertou mais ainda..Para acabar com elas.Ela não pode entendê-la . parece que eu disse que você está muito doente. agora irremediavelmente localizada. Foram-se então. acho que você pode melhorar. era isso.Por acaso você quer saber se acho que seu lugar é aqui. a escola e todos os consultórios faziam repercuti r a mesma acusação bem-humorada: Não Há Nada De Errado com Você. basta apenas que.postados do outro lado da maciça porta d o consultório. . Justificava-se en fim toda a revolta que sempre sentira naqueles consultórios. .Estou pensando na diferença que há entre a má conduta e a felonia. espero poder ajudar você a ver o mundo como algo diferente de um inferno Estígio. e se o que você tem é o que se costuma chamar de uma doença mental? A resposta. recusando a sentença de que não é portador de nenh um mal grave. quando forem produtos de uma revolta de seus sentimentos . Déborah tremia de medo e começava a ver tudo cinza de novo. Fried riu.Pelo contrário.Loucura nem totalmente espontânea. . essa força existia e se manifestava. de modo a pa recer outra pessoa. . . Ao sair do consultório. mas com um pouco mais do que simples malícia . A Dra. mas logo seu rosto se tcomou grave. Uma imagem instantânea passou pela cabeça de Déborah: visualizou seus pais . à mesma hora . afetando a maior indiferença possível em relação ao lugar e a quem e stava ali.Como todos os outros aqui? . e agora aceita o veredito de culpado por loucura em primeiro grau. .Como assim? . Eles. . podemos combinar outra hora e começar nossas conversas.avisou a doutÔra à enfermeira e à paciente. Premeditada realmente não.Algum dia.Caronte fala grego. porém.Era o mais perto que ousava chegar. Prova disso é que luzira na expressão de alívio que sobreveio ao ser admitida a existência da doença. mai s sério ainda do que as perdas momentâneas de visão. é sim. vivi am insistindo: não há nada de errado com você. .O prisioneiro se declara culpado.corrigiu a doutôra. Fried. .ao mesmo tempo bem individualizados e bem unidos . Déborah recusou-se. Sim.Em que é que você está pensando? Vejo que seu rosto se descontraiu um pouco . no entanto. . E. Caronte. que ia e vinha na sala ao lado. A Dra. das negras regiões do terror. . pulsa uma força oculta. a manifestar abertamente seu consentimento. mas com um esforço decidido de sua parte e com a ajuda séria de um médico. .Você está dizendo a mesma coisa que todo mundo diz: queixas falsas de doenças falsa s. Ape sar do horror que essa inefável noção despertava. Nesse sentido v ocê 22 está mesmo doente.

E eu sei? . . interpretando os comentários s ob os mais diversos ângulos. sujeitando-as a constantes reavaliações críticas . Foram duas vezes consultar o Dr. Agora dizem que não. todo o seu mundo vibrava de apreensão. Esther notava que ele começava a amolecer . suplicando que apoiassem sua deci são. relatando em termos bas tante vagos as atividades de Déborah. enveredando pelo vocabulário de sua língua natal. tinha a impressão de que no íntimo ele sabia que a decisão era necessária. .s argumentos diante de sua imagem no espelho. por sua vez. No dia seguinte. embora sua linguagem continuasse tão ríspida quanto antes. teria cometido erros? Parecia uma vida boa. ele se acalmou um pouco. inseguro do que ele e Esther haviam feito . porém. o núcleo branco de um vulcão camuflado pelas florestas de suas encosta s. invariavelmente terminavam num mudo clima de rancor e acusação. se dessa vez eu pudesse fazê-la germinar! . enfim. Jacob. os miolos pularam uma geração e foram cair nela. dem os conforto. Era um homem de temperamento dominador e enérgic o. e a outra irmã. Parecia-lhe. escreveu para o hospital. e na declaração. gesto característico dos adolescentes e dos doentes que insistem em lutar. destacando qualquer evidência positiva. Quanto ao velho.os fa voritos da família . Esther voltou a procurá-los. . No final do primeiro mês. na realidade. Quando.fizeram ver ao velho e à velha que a medida era realmente neces sária. terríveis. eles ficaram decepcionados e furiosos. desde que chegara àquele desenlace. reanimado. carne da minha carne. que cometernos? . que a doença de Déborah.Luzira especialmente na "tentativa de suicídio". Quantas vezes deve t er jurado poupar os filhos de tais privações! Acariciou-lhe o braço. O velho contentou-se em resmungar: . Ele se virou e perguntou desalentado: . afinal. Debaixo mesmo do vulcão.Qual é nossa responsabilidade em tudo isso? Quais os erros. porém. O ressentimento com a hospitalização de Déborah mascarava. até descobrir qual o aspecto mais favorável. Certa noite. num gesto proteto r. ensaiando. o. "Ajustara-se bem" à rotina e à equipe do hospita l. que sempre escamoteavam a qu estão crucial. lendo e relendo cada palavra. Jacob ouvia. o irmão mais velho. a fome.E se soubesse. pergunta ndo quando poderiam visitar a filha e ver a médica. Ela é igu al a mim. Para o diabo vocês todos! . Diante de perguntas obje tivas. Esther? O que pode haver mais? Ela não soube o que responder. ah. por exemplo. Nos dias seguintes. uma vida muito boa a que ela tinha. 25 Ao mesmo tempo. Esther lembrou-se que Jacob também fora um imigrante. passou a esperar ansiosamente a resposta. informou os pais. indignado. que não fora senão um mudo grito de s ocorro. mas foi inútil. contra a relutância de Jacob e do velho. todas as agruras da vida de um estrangeiro. por pouco tempo que fosse. Conhecera o frio. Só quando Claude. Esther empenhou-se em extrair toda s as migalhas de esperança incrustadas no tom reservado da carta. era a menina dos seus olhos.respondeu ele. Não há nada de errado com os miolos dela! A menina tem uma inteligência excepcional . Demos amor. . em determi nados momentos. iniciara a terapia e já passeava pelos pátios. antes de cada batalha verbal. Ela nunca sofreu ameaça de frio ou de fome. de uma inteligência arguta e brilhante.O que pode haver mais. tinha que concordar: a realidade era inexorável. se deixava le var pelo que os sentimentos diziam. procurando apresentar o hospital como uma simples clíni ca de repouso. a umidade. lutava numa outra frente.E retirou-se da sala. Agora. no entanto. Suas raízes.O que é que eles vão fazer? Admitir que foi um engano? O mundo está c .suspirou a doutôra.protestou o avô (este era o seu maior elogio). mergulhavam tão profundamente quanto. receberam uma carta do hospital. O problema é que nessa família. Lister. tentando se consolar e s e convencer de que o intemamento fora de fato necessário.Dessa vez. Déborah. franca e dramática. Natalie . Quando Esther. estava sepultada a preciosa semente de força e determinação. de que se acabara o jogo e caíra a máscara. perguntou abruptamente a Jacob: . seu orgulho ferido de imigrante. a doença mental estava exposta. transtoma ra o ritmo e o sentido de suas vidas. Jacob. permanecia calado. 24 Suzy Blau aceitou bem a história da escola para convalescentes. As discussões entre ele e Esther.

esses seus construtores de portões não são lá muito esp ertos. . . . retirando-se furioso da sala. Faltava-lhe agora a coragem de magoá-lo. um milagre qua lquer. com sotaque peculiar.Então talvez seja verdade que ela estava. ocasionalmente. nos deixarão trazê-la de volta imediatamente. Depois que foram embora..disse ela. convidou todos para jantar. houve momentos de calma. Suzy.retrocede r.Os médicos têm um código de ética a cumprir. e o portão..disse Déborah. Suzy trouxe para casa um grupo de colegas de escola. infeliz. Para todos. num clima de expectativa e sobre ssalto. .Eu gostaria de dizer aos médicos.Soltou uma gargalhada e dando-se conta de como estava contente. 27 .heio de imbecis. . invisível. interpôs-se entre as duas. Esther compreendeu que ele ainda esperava uma mudança de diagnóstico. .Sim . não teriam s ido diferentes.Não posso vê-la de verdade nem ouvi-la de verdade . Sentiu pena de Jacob. A doutôra fitou o cinzeiro. por melhores que fossem nossas intenções.Doente . Certo dia.Nossas vidas foram simples. num tom que jamais ousara empregar com o sogr o. A barreira entre elas tornava-se cada vez mais indevassável. Fried. eram questões já mortas. .disse Jacob irritado. . como ri essa noite. por muito temp o. e então todos ririam juntos das peças que a vida prega na gente . Há séculos não me divertia tanto! . e o filme de suas existências voltasse um ano atrás. A voz suave. exceto Déborah.Apenas infeliz! . que fizesse com que todas 26 as portas do hospital se escancarassem.Bobagem! . Déborah ficava aborrecida quando a doutôra se apoderava de fatos que eram só seus. contagiada pela algazarra.disse a Dra. foram boas. costuma haver uma portinhola neles. . pensa tivo.Que bobinhos! Será que nós fcomos tão bobos assim? Você viu aquele gurizinho de boné? . .Seus pais escreveram pedindo uma visita . man useava-os e utilizava-os para seus próprios fins. Os conflitos decisivos pertenciam ao passado. até a partida de Déborah. e Esther. depois que ficou sozinha em casa. o seu portão medieval de novo. perguntar a eles.Infeliz! . . Suzy brilhou aquela noite. Jacob.Calou-se. Sabe. cada vez mais perto do silêncio. nossas vidas mudara m. Jacob comentou bem h umorado: . Déborah estava sen tada do outro lado do sólido portão levadiço do século XII que. após o intemamento. Déborah ouviu bruscam ente o ranger metálico das correntes. quando ela deveria ter mudado seus vínculos de dedicação e não o fizera. Constróem as barreiras com portas laterais e depois não conseguem abri-las. Se acharem que se trata de um engano. Bem. retroceder até que tudo estivesse apagado e esquecido. Agora.emendou Esther. que vinha do outro lado do muro metálico ia se apagando aos poucos.Meu Deus. Há razões para muitas delas que.Ora. .Foi há muito tempo. Por que esse lugar seria imune à imbecilidade? .perguntou a doutôra que. como saber o que tinham representado para ela? No correr dos primeiros meses.Ah.gritou Jacob. por mais que negasse. até mesm o de felicidade.Puxa! Será que foi mesmo há tanto tempo? Anos? . tanto antes de se casarem como depois.. andara na ponta dos pés. rindo e brincando.A portinhola está trancada também.. A s últimas palavras foram! . De qualquer modo. assustado com algo que ninguém ousava mencionar. não adiantar ia nada. a separa va da doutôra. . acabou reconhecendo que. Por que você não experimenta abri-la? . Nem bem a médica mencionara seus pais e a visita. mesmo sem escutar os rangidos.Você está do outro lado do portão. Esther percebeu que certas coisas que tinha dito se refletiam nele e em sua relação com ele. ma s não podia permitir que continuasse se iludindo a respeito da visita ao hospital. foram dignas! ele afirmou com convicção inabalável. começou a definir sua per sonalidade.Você quer que eles venham? .O que há? . e há coisas que talvez Déborah desconheça e que nos levaram a fazer o que fizemo s. Entraram aos tro péis. Alguns minutos depois r epetiu: . . notara os efei tos. comento u: .

Vamos. que o amor e a compai. Ela foi incapaz de extrair o menor fragmento de realidade daquela confusão de linhas e de pontos na superfície branca. numa de suas quedas no Poço. que distorcido. O presente esvaiu-se. freqüentemente. Pres28 sentia."não verá o Sr.mas ele não. O próprio mundo se introduzia ali. demarcando faixas nítidas e regulares diante de seus olhos. no consultório da Dra. mas a finalidade e a forma daquel es objetos careciam de sentido. A profes sora ficou furiosa. mas importante em quê? Durante muitos anos. Ouviam-se sons humanos e também estes vinham desprovi dos de sentido. Chegava até a esquecer. Ficou surpresa consigo mesma. Esther procurou fazê-lo entender.Procurou assim tomar as coisas mais fáceis p ara Jacob. . Inexistia. antes mesmo que esse sentido voltasse a vi gorar.Bem. permanecia muda.O quê?. . Déborah se queimara toda com água fervendo. ficou mergulhada numa escuridão absoluta. Não quero a visita dele. viu a chaleira em ebulição. Eu posso dirigir sozinha ou tomar um trem. embora fosse incapaz de expressálo. ao sentir necessida de de recuperar o sentido das coisas. . às vezes. Sabia que falava sério. sua própria língua. Pouco a pouco. só que de um mo do inteiramente ininteligível. os deuses e o Coletor gemiam. que dissera algo de certo mo do importante. O que sentia no momento era em parte . que rasgava a escuridão com seu fogo. Diante de sua nudez e da eloqüência das trancas e grades. Ali. medo no Poço. O Poço surgia horrendo justamente no momento em que emergia dele. ao readquirir a vontade e a capacidade de responder aos estímulos do ambiente. Os horrores da volta à tona ainda não tinham começado. ãò dele seriam perig osos naquele momento. mas que ela ped iu à doutôra que eu vá sozinha dessa vez. deixou Déborah muda como estava e desapare ceu na neblina cinzenta. Essa sensação era verbalizada. Certa vez (aconteceu na escola também). Nessas ocasiões.o contentamento por dispor do poder de gratificar e punir. Começou a despencar para Yr. ainda que fosse difícil expressar. Blau. Sabia também que não conseguiria defender essa certeza. Durante muito tempo. Alguém riu no fundo da sala e a professo ra. Déborah continuava imersa nas profundezas do Poço . foi assim: as palavras que dizia pareciam não corresponder a uma ordem de seu cérebro. com toda a cautela. Sabia que o hospital estava sendo bom para ela. sua expressão facial ia pas sando da perplexidade à indignação. Fried. pass ou a defendê-los mais cegamente ainda. mas a lógica que havia por trás d la. ela emergira do Poço e encontrara a p rofessora apontando uma palavra no seu livro e perguntando . Déborah tinha consciência de tudo isso. evitando os termos em que vinha redigida a carta . temendo comprometer sua autoridade. Inútil. que palavra é essa? Nada. Reparou nos lábios da doutôra que se moviam e imaginou-os cuspindo perguntas e acusações . A queda. O resultad o foi que acabou perdendo a confiança em seus próprios desejos.Quero que mamãe venha . Estava se fazendo de sonsa então? . Esther Blau abriu anciosamente a carta à medida que lia. O lugar lhe parece u familiar: era o Poço.. porque ali o medo perdia o sentido. irreconhecível.sabi a muito bem . vamos até lá ficar um pouco com ela e então vocês duas podem ter uma longa conver sa se quiserem. coisas como lin guagem. O amor do pai era a arma que Déborah possuía contra ele. junto com Anterrabae. Agora. a s mulheres da Seção das Perturbadas viviam gritando e uivando Uma delas poderia ento mar o caldo. Jacob poderia se deixar vencer pelo horror e pela tristeza que ela mesma percebera nele quando a trouxe ram para o hospital. . sem a qual jamais conseguiria convencer o mundo.Aqui diz que Déborah quer que eu vá. Estava ao lado do fogão. Por isso mesmo. por enquanto. Foi necessário reunir t odas as suas forças para lembrar o suficiente de inglês e perguntar . Quem sabe não decidiria acabar com aquela "prisão"? Além disso. dessa vez." . por exemplo.É. berravam. saber o sentido das coisas se tom ava irrelevante. nem justificar por que se sentia tão bem lá.disse Déborah . Jacob. Há tempos atrás. o mundo todo esvaiu-se. Ocorria-lhe. as coisas se revestiram de tonalidades cinzent as.Que palavra é essa? E la lutou desesperadamente para tomar inteligível aquele amontoado di29 fuso de curvas negras destacadas no branco da folha. uma determinada sensação. foi longa. significado ou mesmo luz não tinham a menor importância. só. só que se fôssemos os dois seria demais por enquanto.

. A doutôra sentia-se um pouco co nstrangida diante das jóias magníficas e da elegância de Esther.Quem pensa ela que é! . que realçavam ainda mai s seu próprio desalinho. estampou-se uma expressão de alívio . .. Seria sempre assim: 30 pressionada de ambos os lados o tempo todo. . ouviu Suzy conversando c om um amigo pelo telefone. . Ao se dirigir para seu quarto.Mas eu não sei. Jacob. . Fried viu que se tratava de uma mulher inteligente. por isso. Começou a estudá-la mais detidamente. Não. ..disse ele.Não é besteira . . do que propria mente contra os termos da carta. que transparecia em seu sor riso um tanto duro. Sob a aparência impecável de Esther.ela insistiu.Não seja tola . Não sei ainda se Déborah confia em mim o bastante para ver essa sala tal como é. .. Na sua fisionomia. . . Era. isso pouco importa.. e que inevitavelmente redundar ia na ruína dos filhos..Ela vai ficar boa? Ah. Sua indignação voltou-se de início muito mais contra a esposa.. é aqui que Déborah vem? . Isso porque a independência de uma criança representa uma ameaça inadmissível quando o equilíbrio dos pais é precário. por ela ter tentado encobrir a verdade e poupá-lo. cuidadosamente estudada.Déborah! Déborah! Olh o que ela fez conosco! 31 A Dra. .Ela vai precisar mobilizar uma quantida de extraordinária de energia para resistir aos impulsos que a compelem a se defend er em segurança. Onde estava a diferença? Depois de passear os olhos pela sala. . . Lister avisou. não se trata disso.Ela capitulava de novo.. Ele apanhou a carta sobre a mesa e leu. É que se o próximo for ruim. .! Eu avisei. onde ia guardar a carta. C onsiderava essencial descobrir se a mãe de Déborah seria uma aliada ou uma adversária do tratamento.No momento.Para que ela fique bo a. Minha irmã Debbie está muito doente. Há alguma coisa sobre ela que a pr . Fried recebeu Esther Blau na sala clara e desarrumada de seu consultório. Muitos pais afirmavam . a mãe perguntou: .freqüentemente com sinceridade . Veremos se é verdade. consciente ou inconsciente. Não. a Dra.que queria m ajuda para seus filhos.Por favor.Mas você não pode ir sozinha. Eu a lev o de carro até lá e espero nos fundos.Ela está doente. Como devem ter lutado ao longo dos anos aquelas duas persona lidades resolutas. sem deixar de gozar suas dádivas. todos teremos que ser muito pacientes e trabalhar como nunca..Está bem! Está bem! O ressentimento acabou por vencer a indignação..Claro! . ao pronunciar aquela palavr a. . para conservar o ar despreocupado. desejando que a viagem aliviasse sua dor por ter sido r ejeitado tão inequivocamente. súbita. é provável que a senhora a encontre cansada e que ela não esteja convenientemente arrumada para a visita. e no final acabavam mostrando que havia todo um esquem a montado em segredo. Demonstrava também ser dona de um temperamento enérgico. Caso ela mude de idéia. . Esther não pôde conter a cólera que a invadiu.Sim.Besteira! Eu vou. . Não podia impedir que Jacob fizesse is so por ela. A doutôra ficou impressionada com o esforço que ela fez. A filha não. sofisticada e íntegra.Sua pronúncia d ava um toque curioso ao tom coloquial.. eu te aviso se for possível. sem dúvida. Não dá para planejar isso com antecedênci a. mãe e filha! Sentaram-se nas confortáveis poltronas do consultório. Eu já te falei. Jacob. eles não ficarão mu to dispostos a receber gente aqui. Fried.É ag radável! Não há. ainda poderá me ver. . O amor terá 32 que enfrentar uma duríssima prova no que ainda está por vir. Claro.É aqui.'Eles recebem uns relatórios todos os meses. . Quem sabe a conversa com a doutôra não o reconfortaria? Levantou-se e ti rou a carta das mãos dele. pensou a Dra. o Dr.. a senhora não imagina como eu a amo. grades. Bem. irreversível . saudável: aceitava os penosos sacrifícios que a realidade impunha..

resmungando para o nobre fidalgo que existia na cabeça dele: . admirava os modos respeitáve is de seus vizinhos. nem dos sonhos que ela corporifica va. entende. c om os termos crus e ásperos que herdara de seu detestável passado. educado e apresentável. esses dois fatos explicam-no melhor do que s e eu começasse pelo seu nome e sua ocupação. fracassou e finalm ente alcançou o sucesso e adquiriu fortuna. Veio para a América jovem ainda. Em 1878. mar ginalizado e coxo. assim. soberbos estandartes das grandes famílias. contudo. era-comum as filhas das famílias nobres aprenderem harpa.Veja. Tomaram a vida de sua mulher e de seus filhos extremamente miserável. estes. onde moravam as famí33 lias mais ricas e mais tradicionais. ele não estava ao nível de Esther. ao passo que para o Velho represento . nobreza. No entanto. . ou então escutar os comentários de papai quando a sopa estav a fria ou um dos noivos chegava atrasado. cultura e sucesso não passavam de apa rência. e ele precisava conquistá-lo a qualquer preço. a mulher e os filhos.. Era aleijado de um pé. Fale-me a respeito de Déborah e de v ocê mesma com suas próprias palavras e da forma como você vê as coisas. e é isso que nos as susta tanto. dificilmente chegarem os a compreendê-las em toda a sua complexidade. Eu procurei. A família podia. desprezavam sua religião. escolheu um pretendente aquém das expectativas da família.Bem. Podemos. tinham que ser.eocupe de modo especial agora? Esther procurou estruturar suas idéias. Natalie se casara bem. Se. Por isso todos esses dias não paramos de pensar sobre o passado. Discutimos. e sua distinção (refinamento. tal como entre a nobreza no velho Continente. embora esse instrumento já não estivesse mais na moda. emblemas de conquistas f eitas através de alianças. fez negócios. a obstinada. . eram temperados com as mais refinadas lições de francês. papai acabou cedendo. Lembro-me bem de que papai me pedia para tocar e ficava andando de um lado par a o outro. Realmente era muito cedo para pensar nos p rogressos de Déborah. Papai veio de Latvia. . De certo modo. isso sim. boas maneiras). e não tivesse o menor talento. como se quisesse c onvencer as cadeiras e as mesas e a doutÔra e a instituição toda com suas grades e as pessoas que gritavam por trás delas e cujas razões para estarem ali tinham que ser o utras. emocionante. libertar Esther de seu isolamento secreto. ma ldito. arriscar. sou eu. Era um dos trunfos a conquistar. Esther. . diante das belas perspectivas imaginadas por J acob para o futuro. mesmo que esse preço fosse eu . por sua vez. "Pois não é que a filha de Esther nasceu loura! Aconteci34 mento único. e ainda assim não co nseguimos encontrar qualquer razão. acho que devo começar com a história de meu próprio pai. Pouco tempo depois. Comprou então uma mansão num bairro elegan te.Sabe. Lançou-se contra a vida como se ela fosse uma inimiga de verdad e. embora só tivesse curs ado uma escola de contabilidade e sua família não passasse de um "bando de simplórios e pobretões". permanecia inabalável amaldiçoando os vizinhos. Ela veio. pobre. E le. Não existe uma causa. inconcebível mesmo: loura e de tez clara. Não. Para avaliar a consistência desses atributos bastava observar o olhar que os vizinhos nos dirigiam. Ela re cebeu tanto amor! Disseram-me que essas doenças são causadas pelo passado e pela infân cia da pessoa. . Quanto a estes. Ela falara num tom de voz muito mais elevado do que desejava. seu sotaque e s eus hábitos. Sei disso porqu e tive que aprender harpa. por um lado. todos esses dias. ambas estávamos grávidas: papai começou a se c onsiderar o fundador de uma dinastia. o aleijadinho! "Os filhos 'americanos' de papai cresceram sabendo que seu valor pessoal. contar nossas v erdades pessoais e localizar causas pessoais. portanto. Tra tava-se de um rapaz bastante esperto. Jacob procurou. era preciso que também f ossem trunfos. em bora eu o odiasse.As causas são tão vastas que é impossível percebê-las de imediato. educou-se. Graças a sua força de vontade ferrenha. Estava preocupada com outra coisa: . entende. todos esses dias não paramos de pensar em como e por que isso aconteceu. e toda a família pensou e especulou. brigamos e enfim. Os palavrões em pol onês e em idiche que aprendemos sentados em seu colo.

saímos consultando médico atrás de médi co em busca de uma confirmação. Déborah nasceu envolta em rendas tecidas a mão . exceto para o remorso pelos tapas injustos e a interpretação excessivamente zelosa de especialista s equivocados. Jacob sequer estava em condições de alimentá-la. Estava grávida de novo. A austera govemanta alemã ficava possessa. mas Déborah ." Esther relembrou. Um autêntico fecho de ouro. e uma babá alemã. eu me lembro . descobrimos que o brinquedo de ouro estava defeituoso. Contudo. contudo. .u a réplica final a um fidalgo de aldeia morto havia tempos e suas filhas de pele clara. como é natural. . nem pelas lágrimas. sutil e decisivamente. nem pel s ameaças. C omo o ateu que exclama para Deus: . depois da primeira. Papai pagava todas as despesas. um sofrimento impiedoso. Naquela cria nça perfumada. quando as oportunidades eram mais do que escassas. na presença dos funcionários do hospital. Garantiu qu e pegaria mil serviços de contabilidade para merecer Esther como esposa . Afinal. Ao Novo Mundo. O especialista que a operou. Ainda assim. Medo e . fizemos os exames e veio o diagnóstico. Mesmo acor rentada a meu próprio passado. exigia-se mais do que apagar a amargura do Velho. me levou a apoiar.O quarto das crianças parecia um hospital! Sim. tínhamos que v iver bem. vivíamos num dos melhore s e mais novos bairros da cidade. Embora a aldeia lamacenta. Um belo dia. meu pai contra meu marido.Nós não sabíamos! exclamou Esther.Você não existe e eu odeio você! Papai continuava a esbravejar suas injúrias nos surdos ouvidos do passado.herança de alguma importante casa européia derrubada pela Revolução. Déborah tinha doze vestidos de seda bordados a mão.a dourada e d adivosa Déborah. Duas operações e. como se tentasse consolar Esther. as filhas da dinastia. já estivessem soterradas havia mais de uma geração. nós. a milenária e bárbara dor . os horários e as govemantas e os preceitos eram coisas absolutamente indiscu tíveis! Era a pedagogia "científica" da época. "Esforcei-me por parecer alegre e confiante ao entrar no quarto de Debbie. as sobras que os outros rejeitavam . sobretudo por ter que aceitar a caridade de um ho35 mem que o desprezava. depois dos milagres da cirurgia modema. sem a pagar o sorriso em meus lábios. meu rosto não variava nunca e. as origens do camponês. subsistia naquele camp onês um sonho de camponês ainda mais ambicioso: não apenas ser livre. mas ser livre pa ra ser nobre. Um sopro de med o impregnava tudo. percebia que Jacob se sentia infeliz. Apossar-se d e uma bandeira ancestral e respeitável valia mais do que acenar com uma nova.Nessa época. Cada coluna de números era cobiçada por cem cérebro s tão famintos e tão bem formados quanto o dele. Déborah. voltamos para a mansão da família. porquejá era tarde demais. era um médico excessivamente ocupa do para se dar ao luxo de explicar alguma coisa à menina ou de assisti-la quando.era o eixo em tcomo do qual giravam t odos os sonhos. Era por isso que luxuosos gorros que Déborah usava em seus passeios tinham outrora cob erto a cabeça de um pequeno príncipe qualquer. sobreviesse a dor. agora rodeada pelo desdém de uma nova geração de vizinhos. crescia um tumor.disse a doutÔra sor rindo. Enquanto Jacob ganhava q uinze ou vinte dólares por semana. fui fi cando orgulhosa da força 36 .serviços e njoados e rotineiros. da família e de Déborah.procurou uma palavra que trouxesse de volta aqueles anos .a sensação de irrealidade. . em seguida.Por fim. Depois de algum tempo.embora esses serviços t ivessem simplesmente desaparecido. Como era ardente e impetu oso o temperamento oculto por trás daquela fisionomia estudada e impassível. O nascimento de Déborah parecia ter tomado minha submi ssão necessária e justa. os tempos da Grande Crise de 1929. O primeiro sintoma foi uma incontinência das mais embaraçosas. é óbvio. sempre risonha e contente . teria do bom e do melhor. Mas a "preguiça" não pôde ser remediada nem pelas humilhações." . A doutÔra olhou para ela. tudo bem esterilizadinho e o insano pav or dos germes e de toda e qualquer mudança. Jacob era o consorte da dinastia. uma das maiores sumidades do país. cercada dos maiores cuidados. Jacob iniciou sua carreira justamente no momento m ais crítico da época. e preocupada porque tinha ac abado de perder dois gêmeos nascidos mortos. O medo.

ser mais do que um simples consorte em sua própria família.. Decoramos a casa toda. Costumávamos br incar a respeito de seu sono leve. Investigara durante três meses a origem e o destino de todo aquele dinheiro até comprovar suas suspeitas. e ela nunca dormia. Compramos uma casa nova. tudo. Todos gostavam dela lá. e no verão. Sentia muita dificuldade em 37 fazer amigos. Isso durou um ano . Dois dias depois. não é? Pois mesmo assim não posso deixar de admirar a cabeça quemontou tudo isso. Uma tarde. . comia demais. a coisa mais importante de nossas vidas. Vai nos custar. Consistia numa série de pequenos serviços extremamente lucrativos. A contabilidade de Sulzburger nos pareceu. assando batata-doce em volta da fogu eira e cantando velhas canções de acampamento.Ela não demonstrava nenhum sinal de que estava doente ou infeliz? Só essa atitud e omissa? . Seu aproveitamento era excelente.. .um ano maravilhoso. Segundo eles as res postas de Déborah indicavam uma "perturbação" qualquer. . e convidamos os parentes para uma festa em honra ha saúde de Déborah. nenhuma necessidade de empregados e o começo de minha autonomia em tom ar decisões. tentando desvendar sua mente. O processo foi tão gradativo e lento que só vim a notar naquele momento. ela se tomara grande demais só para eles dois e por isso tinham alugado um apa rtamento em Chicago. Déborah manifestou um po uco de medo no início.Bem. Fic amos todos meio desvairados. Depois da terceira sessão. um dia. Não queríamos que ela se sentisse .Uma pessoa tem que dormir. porém. Você sabe disso. . . Ela fica va cada vez mais perturbada e insatisfeita. o psicólogo nos cha mou e mostrou um teste que fora aplicado em todas as crianças. pequena. Tivemos que vender a casa e. isso também acontece com muita gente. Quando finalmente soubemos que as operações tinham sido bem sucedidas. Meus pais resolveram dar a mansão para nós. No inverno. Déborah nunca se referira a isso. verificar se aquilo era ve rdade ou não. . Eu falei da escola.. . Jacob chegou em ca sa e com a notícia de que o negócio de Sulzburger era. com uma am argura excessivamente precoce para ela. Jacob poderia. .Comecei a observar com mais atenção minha filha prodígio. .Qual a idade dela na época? . e acabou engordando. A escola recomendou que a levássemos a um psiquiatra infantil. Jacob conseguiu se empregar como responsável pela contabilidade de Sulzburger. ela devia dormir.perguntou a Dra. não contivemos nossa euforia e o sentimento de gratidão que nos inva diu. Restav a-nos pouquíssimo dinheiro. uma vasta e int rincada fraude. sim. os degraus eram cobertos por tapete espesso.que era capaz de demonstrar. Pretendia pedir demissão no dia seguinte. Anos depois é que vi emos a saber que a primeira colônia de férias (que ela freqüentou em silêncio três anos se guidos) era de um anti-semitismo cruel. Déborah freqüentava as melhores escolas. No entanto.. estávamos de volta à mansão da família. mas não tinha graça nenhuma. e havia as flores que eu mesma cultivava. Era uma escola pequena e simpática. .Dez anos. Reparei que ela não brincava com as outras crianças. virou-se e perguntou: "Por acaso não sou aquilo que vocês queriam? Será que vocês têm que corrigir o meu cérebro também? "Era esse o seu modo de falar já aos dez anos de idade. um mês depois. Suspendemos as visitas ao psiquiatra. as melhores colônias de férias. n um bairro tranqüilo e mais modesto. Tinha um ja rdim cheio de árvores e não faltavam crianças pelas redondezas. É claro que a mansão tinha que ficar nas mãos da família: foi assim que aquele lugar odioso se transformou no lar dos Blaus. se libertar. . e. mas é que nunca a vi dormindo. Uma fraude complicada e engenhosa como essa até que tem o seu lado bonito. sempre a encontrávamos acordada. . Víamos ape nas os grupos alegres de meninas brincando.Sim. não muito longe do centro da cidade. as janelas sempre es cancaradas. Também eu f iz amigas.Esther passou a remcomorar velhos nomes que ressu rgiam do nada. Quando entrávamos em seu qua rto à noite. Vivia escondida em casa. começou a sair e fez amigos. mas logo se desinibiu.. mas afinal. finalmente. Fizemos isso. . . Sem a família to da.respondeu Esther com voz cansada . na realidade. Você quer dizer que ela dormia pouco? . Fried. Não adiantou nada. o sol. Ah. Dizia que tinha ouvido nossos passos n a escada. àquela época.

aos onze e doze anos de idade. . a insônia. às colônias de férias e à escola.. rapidamente substituídos pela rigidez e inexpressividade facial .. Ela disse que não queria qu e o sangue se afastasse muito. ela sabia. saiu cedo para fazer qualquer coisa e voltou muito tarde par a casa. um espírito raro. que reconheceram que a meni na era realmente talentosa e devia ser estimulada. . Não adiantava . por causa de mais uma de suas indisposições misteriosas. agora ela está aqui. foi impossível continuar sustentando uma mansão de qui nze quartos. a adol escência de uma menina excepcional. Cerca das quatro horas da madrugada.Bem. de ficar à escuta. No dia seguinte. por uma terrível compulsão de 'guardar as coisas'. Uma evidência importuna qualquer sempre vinha relativizar essas racionalizações. Déborah er a uma pessoa especial.Não conscientemente. recomendando-lhe que não tomasse as coisas assim tão a peito. nunca ch eguei a acreditar totalmente nisso. Procurei no banheiro e a encontrei sentada no chão. Ao estourar a Segunda Guerra. Levamos alguns deles a professores e críticos de arte. mas no íntimo. a intensidade e os súbitos olh ares de desamparo.Não sei. da Velha e de toda a família. . Déborah foi ao médico. Não sei bem como. seus pavores. as suas distrações: era a adolescência.Perguntei-lhe por que simplesmente não deixara o sangue escorrer pela pia . Começou a aprender música e a se dedicar a todas as atividades próprias às meninas de s ua idade. ocorria-lhe uma estranha sensação de culpa). . e pelo olhar crítico do Velho. mas gritando por socorro. olhando o sangue escorrer de seu pulso numa bacia. O que só veio a calhar: foi uma resposta fácil e luminosa às sombrias e vagas suspeitas. isto é. sua solidão perderiam um pouco da estranheza no anonimato da cidade grande. .Sua resposta foi bastante significativa. suas pequenas excentricidades. Seu grito de socorro foi ouvido. acordei. Sentia-me ao mesmo tempo esmagada por aqueles quartos bolorentos. Sempre houve atritos entre Déborah e s . Era uma característica intrínseca a nós duas.Esther sacudiu a cabeça para expulsar a palavra proibida. Tudo estava claro agora. Déborah era intensa. que não seria eliminada por uma decisão ou por um pedido. Déborah descobriu a arte. ou por uma espécie de entorpecimento mental..De quê? . e os estudos andassem bem. Afinal d e contas. Certa tarde. Sacudimos aliviados o peso morto do passado e mudamos para um apartamento na cidade. Nos dois anos seguintes. embora os professores da nova escola a tivessem em a lta conta. ela continuou infeliz. Pareceu-nos uma boa me dida. E há mais: Déborah sabia que o sono de vocês era leve porque o dela também era. muda. no entanto. Fui até o quarto dela com a certeza íntima de que havia algo de errado (na rrando agora o episódio. Na cidade. não me cansava de repetir." Esther procurou uma definição que tomasse verossímel o estado atual da filha. que. Veja. a sensibilidade. sem contar os esboços e os rascunhos na escola. por alguma razão oculta e instintiva. Enquanto tentávamos nos livrar dela. gritando muda e confusam ente. rápida e segura. Passamos a encarar com indulgência as doenças de que se queixava.. é claro. e não poupei esforços para me convencer de que era a resposta exata. mesmo sem nos darmos conta. portanto. A família encontrou de repente a explicação pro videncial para todas as esquisitices de 39 Déborah: o aspecto doentio. Chegou em casa estranhamente pálida e assustad a. . eu me dilacerava interiormente. O quarto de fato estava vazio. Vamos voltar um po uco atrás de novo.Quer dizer que foi uma atitude premeditada? Uma coisa planejada com antecedência ? . . especialmente para Déborah. Consumia todas as suas horas vagas desenhando. adquirimos o hábito.cont ou a doutÔra. As janelas ofereciam morte muito mais fácil. . Lembro-me de ter conversado algumas vezes com ela s obre isso. que não estava tentando se suicidar..38 assim. sem exigirem grandes esforços da parte dela. Até que finalmente encontramos um comprador. de grande talento. ela deve ter feito milhares de desenhos. Seu interesse despertou com o ímpto de uma tempestade.. Você mora num apartamento. Na realid ade.. inclusive dormindo. a seu modo. mas a mente dela escolheu o melhor caminho. .

era o terceiro ano consecutivo que ela ia. ela se mostrava aliviada. pensativa. enfim.Entendo . . parecia estar bem. É um bom meio de se obter reconhecimento e fazer amigos quando se é jovem. Convidei-os para um passeio no jardim zoológico e foi o bastante para quebr ar o gelo. . Convidei essa professora para um chá.É isso que é a do ença? . . . Esther voltou-se para a doutÔra. Déborah ja mais ficou desprotegida ou sozinha. sempre procurava ser amável com os professores. respondeu: "Ora. Como é que uma pessoa perc ebe que a atmosfera mudou? De repente. muitas vezes as pessoas não a compreen diam bem. que isso algumas veçes era mal interpretado.E então veio a époc a. Ficaram amigas enqua nto Déborah freqüentou a escola. Não fcomos nós. . isso depois.Ah. Quando fcom os embora. quando começou o problema? .Bem. Certa 40 vez as aulas mal tinham começado. e quando lhe perguntei por que agia assim. não é? Antes mesmo do psicólogo da escola. e isso facilita va um pouco as coisas. Precisei aprender a fazer as pessoas se desinibirem. Minha própria mãe nunca pôde. Estou contando isso porque quero que você entenda que é impossível tentar refazer o mundo p .Eu procurava ajudar.E quanto à colônia? ." Eu insisti: "Por que não espera para ver o que o mundo realmente faz?" Ele respondeu: "Você não entende? Mais cedo ou mais tarde acontece. Esther. ajudei a professora a compreendê-la.repetiu a doutôra. Ela teve um problema sério com uma das professoras na escol a pública da cidade. . No entanto. . que ela procurou corrigir. a coisa acontece. e no final a professora veio me dizer que conhecer Déborah fora um verdadeiro privilégio: era uma menina realmente excepcional. Na sua opinião. As pessoas com quem Déborah tinha dificuldades eram conquistadas e eu me sentia feliz por poder ajudá-la. Tive que me esforçar um bocado para superar minha p rópria timidez.concordou a doutôra. Também nunca deixei de dizer o quanto eu a amava.Esperando pelas bofetadas. durante o verão. Assim pelo menos sou dono de minha própria destruição. De certo modo . Esses problemas crescem muito nessa idad e e eu me sentia contente por poder ser uma verdadeira mãe para ela. a época em que ela mesma começou a providenciar as pancadas. . então.Vejamos. Cantávamos e brincávamos. . é claro. não foi o amor que Jacob e eu tínhamos um pelo outro ou por nossos filhos. Talvez isso tudo tenha começado com o t umor. você soube que as coisas não iam bem com sua filha. pareceu infeliz. não.as colegas? Resolvia os problemas sozinha ou recorria a você? .Lutei por Déborah durante toda a sua vida." . . . ficou bom? . as férias na colônia. tinha-se configurado um quadro falso das coisas. Lembro-me de várias ocasiões em que ela precisou de mi m e eu fiquei de seu lado. . Eu. . 41 . Tinha nove anos de idade. de que forma eram sentidos esses tempos? De que forma você se sentia? . .Ficou. ela começou a ter problemas com um determinado gru pinho.Esse paciente.De que forma Déborah encarava essa ajuda? .Numa visão retrospectiva. Na colônia de férias. . faço antes que o mundo o faça. os olhos transbordando de gratidão: . Essa coisa horrorosa aconteceu apesar de nosso amor e de nossos cuidado s.. Sentia orgulho dela e nunc a deixei de dizer isso. Contei-lhe como eu mesma tinha conseguido superar certas dificuldades de crescimento fazendo esportes.Feliz. Fcomo s visitá-la no final do verão e ela nos . e conversa vai. conversa vem. .Um sintoma talvez. foi antes disso.Durante muito tempo. é claro. para me divertir nos lugares onde eu estava. . ajudando-a ne sse tipo de coisas. expliquei que minha filha tinha medo das pessoas. desde aquele ano alguma coisa começou a funcionar mal nela Daí em diante foi como se ela mantivesse a cabeça baixa já esperand o pelas bofetadas. no entanto. pronto. Só que vieram os nazistas e o infemaram em Dachau. Tive um paciente que costumava aplicar em si mesmo as tortu ras mais pavorosas. teve a impressão de que ela não estava entendendo. onde ele morreu.

"Muito curta". mas ficou calada. O que não significa que você deva se mortificar por ter tentado. Como pude. . pensativa. mas acabou aceitando. pois achava qu e essa decisão não representava tanto um desapreço a Jacob. anos e anos permiti que Jacob ficasse em segu ndo plano." Passou no hotelzinho onde estavam hospedados para dizer a Jacob que Déborah ainda se recusava a vê-lo.juro que não vou usá-la. por experiência. E nosso amor por Déborah não nos imped iu de. 44 . recostando-se na c adeira. .pediu a doutÔra. . jantariam na cidade e depoi s conversariam. a menina não estaria intemada. . As concordâncias e contradições entre as duas v ersões da realidade permitiriam atribuir a verdadeira dimensão de profundidade a uma das interpretações.Calou-se. Não se torture nem se culpe a si ou a seu marido ou a qualquer outra pessoa.Conte como era sua vida antes de você vir para o hospital .Como. erros graves. aqui estou eu no meio de novo. "Pobre Jacob. da última vez que a vi.Mentir. Ao deixar o consultório. ela não quer ver Jacob. de tomar suas próprias decisões. tremendo de frio no âmago daquela noite de inverno. . Iriam juntas a um cinema. Se não fos se assim. Fried observava o contraste entre a Esther dos modos estudados e a fision omia circunspecta." Jacob protestou.Amar apenas não basta. Desde aquele apartamento caríssimo. A Dra. Fried conduziu-a até a porta. quando ele é que era meu marido. encarregad a de transmitir a bofetada. observando-as. . não é? Meu amor por Jacob não me impediu de magoá-lo e hu ilhá-lo aos seus próprios olhos e aos de meu pai. Esther estava convencida de que não conseguira explicar dev idamente sua posição.Só há uma coisa realmente perigosa. . cometi erros. doutôra? . de causar. Esther compreendeu que teria que enfrentar a Déborah d o presente. Déborah e eu. com os olhos pregados em Déborah. não de sua a uto-recriminação. Comovida com a sinceridade de se us sentimentos. como saber o que dizer quando estiver conversando com ela? Sabe. . . ao tentar ajudar. e seus desejos tão simples e modestos! . . E ao saírem. . . Mais tarde. sobretudo agora que ela se mostra tão sensível a i sso. "não de u para dizer nem um décimo do que precisava ser dito".O que é. . "Papai acha". parado na esquina. doença. Esther voltou a loca lizá-lo. e de uma filha que padecia de uma decepção mortal. . eu tinha que tentar melhorar as coisas .Deixe que nós. pensou Esther. .ara proteger as pessoas que amamos. fitando a doutôra com ol hos incrédulos. um olhar de sonâmbula. e a Esther-mãe daquelas palavras sentidas de amor e sofrimento. Ela precisará de seu apoio. Ambas se levantaram. viu-o novamente escondid o na sombra. "Papai quer". de certo modo. e mais o período em que vivemos da caridade de papai.Sim. contudo. Terminara a entrevista. procuremos as causas. Sabia. "Juro . mas muito mais em relação a Jacob do que a Déborah. Não vo u perguntar o que fizemos ou o que não fizemos.prometeu mentalmente a Déborah . A Dra. . Esther viu-o no fund o do cinema. Trazida de volta à realidade. e isso ainda hoje. que a versão da filha diferia radicalmente da apresentada pela mãe: a mãe desvelada. . . essa. procurando tranqüilizá-la. a filha agradecida. . Esther interpretou aquilo como uma co nciliação. tímida e desorientada. e seu olhar era tão estranho. acabara interferindo. ela disse num tom de voz suave: . . A doutôra sugeriu que não insistissem com a filha. mas uma tentativa.Vejo agora que.Olhou de novo para a doutôra. bem. Quando entraram no restaurante. Como pude fazer isso com ele? 42 Todos esses longos anos.disse Esther. Tinha a im43 pressão de que. O hospital dera permissão pa ra sair com Déborah sozinha.

por exemplo. . Houve. . . ia observando a reação da Dra. Na noite em que ouviu o pai discutindo os planos para inte má-la no dia seguinte no hospital. sentindo-se usada. .Minha mãe já lhe contou tudo . 46 o upuru nos pune.Sua mãe contou o que ela deu. Nunca disseram que estavam arrep endidos. 45 Certa vez. . em protesto por aquela menina de ci nco anos sofrendo ali à frente das duas.ela perguntara assustada. não o que você viu.Que cretinos! Quando é que aprenderão a não mentir para as crianças! Que horror! .A máscara baixou. como se toda a realidade de seu corpo se resumisse naquela coisa perversa q ue estava escondida lá.exc lamou e pôs-se a apagar o cigarro impaciente e irritada. continua me comendo por dentro. . e de novo apelavam para o engodo mais do que óbvio da boneca.responderam e em seguida comeÇaram a cauterização insuportavelm ente longa e dolorosa da Parte proibida.disse Déborah. virou-se para um deles. não o que você recebeu. Não vai doer nada . das altas e gélidas regiões de seu reino. . Naquela mesma noite. Para sua surpresa.Dias depois. mais tarde. . cuja flor representava sua própria vitalidade destruída.Então vou contar uma coisa que mais ninguém sabe.Está vendo. por tere m me obrigado a suportar toda aquela dor e a vergonha de sentila. . Nunca p ediram que eu perdoasse a eles por essas coisas e nunca perdoarei a eles. .Ela não sabe muito a respeito disso.É porque nunca perdi o tumor. Só que ag ora é invisível. limparam cada uma de suas partes com sabão em pó. Penetravam com suas sondas e agulhas na região proib ida. teve um pesadelo: sonhou que a devassavam à força.Oh. nenhum deles. um médico intemo visivelmente perturbado com se u sofrimento e perguntou: .Por que vocês todos contam mentiras tão horríveis? Ele res pondeu: .Quer dizer que você não vai ficar indiferente. como se estivessem saqueando um quarto: desmontaramna. . . o rosto da doutôra estava c ontraído de raiva e a voz carregada de indignação.Para ela aquilo significava que iam a ssassiná-la. mentiras que para mim soavam como deboche.Que lugar é esse? . . . ardeu de ódio. Depois dos sonhos. Quanto desprezo deviam sentir para mentirem daquele jeito! Quer dizer então que er a pior do que um assassinato? . ela se afogou num silêncio mudo e atordoado. justamente sua parte mais feminina e mais secreta. Por terem penetrado em mim sem a menor consideração. não a eles. para que ficassem hipocritamente perguntando "tudo bem"? E depo is.foi o que disseram.A terra dos sonhos . voluntariosa como era.Agora nós vamos consertar você direitinho. sobre aquele tumor. o que ela viu. idade suficiente para morrer de vergonha quando os médico s meneavam a cabeça referindo-se ao mal que a roía por dentro.Não. imobilizaram-na mais uma vez s obre aquela mesa e disseram: . . e em seguida. Estava curiosa para saber se. Falou. morta mas apresentável. a eles e a mim. outro sonho com um vaso despedaçado.Fique quietinha agora. vamos fazer a sua bonequinha dormir. Logo depois veio a ferroada da agulha.Como assim? . seu passado desperta ria algo mais do que aborrecimento. por terem ment ido tanto e de modo tão estúpido.respondeu Déborah asperamente. Os pesadelos só não tinham anunciado a pavorosa dor que viria a sentir. Fried. . .O que haveria naquelas cabeças malucas. tateando cautelo samente o novo terreno. manipulada como um objeto.Isso pune a você. em meio à dor brutal: "Como vai sua bonequinha?" À medida que contava. es fregaram. Continua lá. remontaram -na. sufocando-a com a substância adocicada e enjoativa do sono. . . num mundo onde as pessoas ligavam tão pouco umas às outras. não vou! Pode estar certa disso! respondeu a doutôra. você então não vai ficar com medo? .Diga então o que você sabe. naquelas c abeças assassinas. Tinha cinco anos na época.

mas me deixaram sair quando minha mãe veio aqui. de "loucas". . A linguagem de Yr era um segredo ciosamente guardado. horrorizada.perguntou Carla. . e mesmo que eu soubesse. A e B. de onde podia conviver com a T erra.insistiu a doutôra. eu sobrevivi. Era tarde. Só elas tinham o direito de se referirem a si mesmas pelos termos mais extremos da escala. . descrente de que pudesse existir um único inimigo.. Ela não conseguiu se controlar e acabou insistindo para que eu fal asse sobre os motivos da minha doença. Havia toda uma hierarquia de privilégios para gozar dessas liberdades.respondeu Carla sem titubear. você está ficando perturbada!" "Eu não estou perturbada. mulheres que viviam gritando.Quem é? . "Como os doentes sentem medo". insano. maluco. na sua casinha branca de aparência tão pacata.O que foi que você disse? . sem caírem em contradição.Dizem que a pessoa deixa 47 de odiá-los depois de algum tempo de terapia. crueza: duas regalias importantes do hospital.E talvez fosse verdade.Não. Mal nos sentamos e a coisa transbordou como uma enxurrada. fora de si. e eu fiquei doida. Déborah não estava mais ali. vamos acabar veteranas . . . Déborah compreendeu a reação desdenhosa de Kathryn. Tratava-se de uma norma criada espontaneamente pelos pacientes. das razões ou de qu alquer possibilidade de alívio. Fried contemplou-a longamente.Você tem o privilégio de ir à cidade? . Déborah batera asas. . Impied ade. . lunático e. Fazia tudo o que mandavam e.perguntou Déborah.Daqui há pouco. Meu pai se casou de novo. com um olhar sempre esgazeado.Acho que foi. . a Dra. mas acho que isso é "furado". Além do ma is. . Fazia já dois meses que Déborah estava no hospital. uma paciente da Ala B que se dissesse "louca" pa ssaria por faroleira. palavras impiedosas. tanto mais inacessível às pessoas quanto mais rígido fosse o controle da voz interior.Minha mãe . sentada com Carla e algumas outras meninas. meu inimigo está acima do ódio ou do perdão. distante das palavras. As alas mais tranqüilas. fugi ndo assustada para Yr. Déborah retcomou ao Mundo Intermediário. mas não pude dizer nada. eram chamadas pelos outros de "doentes" e por si mesmas. Excetuando-se a D. Estava no corredor da ala. não conseguem acreditar que são apenas pessoas. não diria. O termo Upuru nomea va em Yr a síntese das lembranças e das "emoções" daquele último dia no hospital. donas de um ressentimento puramente humano!" Dias depois. demente. Desse modo.A visita foi boa? . o Censor vinha interferi . pensou consigo mesm a. As int emas na Ala D.Há momentos em que odeio as pessoas que me fizeram ficar doente . para o consultório ensolarado e sua mobília traiço eira. Depois que soube disso.declarou Carla . a liberdade significava liberdade para ser doido . pirado. eles morreram. e ela compreendeu.Velhas lavradoras des sa estranha colônia penal.Upu o quê? Yr irrompera de repente. louco. pancada. a não ser em segredo e como indivíduos estranhos e excêntricos. sem deixar vestígio s de sua passagem. e que os recém-chegados aprendiam sem que ninguém precisasse ensinálos. num plano mais sério. o lugar já não assus48 tava Déborah. Para aqueles que nunca ousaram pensar em si mesmos. Fried. oc upavam o nível inferior daquela escala de valores invertida e só podiam reivindicar as categorias mais leves: biruta. biruta. Palavras cruas.Ela deu um tiro em mim. . A superfície voltou à tranqüilidade. . tais como "insanas" e "loucas". que um de seus segredos acabara de escapulir para o mundo. Novos pacientes tinham chegado. que se fechou sobre ela como um oceano. "da força incontrolável que possuem! Por alguma razão. no meu irmão e depois em si mesma.respondera a mesma. quando uma enfermeir a disse para ela: "Ora vamos. outros subido para a Ala D (a dos "insanos") e alguns transferidos do hospital.A Dra. . despidas de eufemismos bem educados. . utilizadas ao máximo por todos .. afora aquela instieadora de horrores. Eu estou pirada!" . Eu tinha certeza que ela ia perguntar.comentou Carla. uma menina de olhos lânguidos e modos agressivos. desde qu ando todas as coisas se tomaram cada vez mais cinzentas e obscuras.

retrucou a doutôra.ndo de forma bastante branda. Enquanto isso. Mate-me.Corresponderia a sarcófago. e se afastou . os quais não tinha com quem compartilhar . você consegue me ver? . . Dezembro. paralisada. As janelas emolduravam os galhos nus e enegrecidos d as árvores. a vítima tem de ser linda.Não quero assustá-la. mas quer dizer muito mais. a que costu ava recorrer quando queria descrever para si mesma e para os personagens de Yr os se us desejos. Era difícil falar com um vulto parcialmente submerso.. camuflagens e defesas. acho. nem essa droga de l ugar nem nada. que conseguia exprim ir suas estranhas agonias e seus momentos de grandeza.Mais de um ano.como uma gravura apenas. assim como para os mortos. você não entenderia. Excetuando-se o convívio com Carla e Marion na ala. por sinal) e. .com os Olhos Trancados. como um coração. Fui analisada. tinham pelo menos a decência de se mostrarem embaraça dos.E isso. na casa da doutôra. revolvida. . para quem as paredes não estremeciam . Quanto tempo leva para sabermos se nos daremos bem ou não? . sob a forma de uma águia. segundo personagem mais importante de Yr.no mundo inóspito à sua volta. . é para sempre? . Anterrabae pôs-se a recitar uma fórmula de encant amento em Yri. mas ela não conseguiu entender. como foi que o mundo de repente ficou cinza depois disso. inclusive da voz exterior que a sub stituía e respondia por ela quando desejava se recolher a Yr. .Procure lembrar para que pos samos compartilhá-las juntas. Eu gostaria de lhe perguntar. caso contrário o drama se toma uma comédia r idícula. para Déborah. .Leva mais ou menos três meses. amatil e sei lá mais o quê. cheia de reti radas. uma gravura de alguma coisa que é real. e o que se passou no resto daqueles primeiros anos. acorrerem-lhe pensamentos e acontecimen tos.Só que ainda há muito por fazer.Talvez você possa explicá-las. . eletrocutada .Espero que sua curiosidade esteja satisfeita . tomei metrazol.disse para a doutôra.Ela se levantou. As planícies. . o mundo se reduzia à dimensão d e seu próprio ataúde. implorou Déborah no idioma de Yr. . Na sala de estar. ia se afastando de tudo e de todos no mundo. . .. sua história ia se arrastando.Deve haver algumas palavras . que esforço faziam para que o hospíci o se parecesse com um lar! Puro faz-de-conta. aos olhos de Déborah.perguntou a Carla no idioma da Terra.Isso significava. Era freqüente. O inverno chegou.Há quan to tempo ela está aqui? . . o alcance de sua visão não ultrapassava a cobertura do sarcófago onde estar ia encarcerada. . . Para ela. . Só me falta agora u ma lobotomia.Não consigo descrever a sensação . . no cinza que cobria tudo for . Já passei por seis hospitais. Meninas. vocês ainda estão na fase da lua-de-mel aparteou uma garota.insistiu a doutôra. Cinco pertencia m à equipe médica e dois eram pacientes. Nada disso adianta. já que falamos sobr e as operações do tumor. com gestos dramáticos de condenada. em determinados momentos. senhor. Lactamaeon. As paredes começa ram a pulsar de leve. .O quê? . aí esgoto todos os recursos. . . nenhuma extremidade ponteaguda. sacudida. que. Estou " por dentro". Pensou nas metáforas Yri. 49 . Meu Deus. nos últimos anos. Aquela conversa estava deixando Déborah terrivelmente amedrontada. . que se reco stara na cadeira.. Significa Olhos Trancados. um grupo decorava uma árvore de natal.Não sei. Os risos pendiam no ar tão artificia is quanto os enfeites na árvore (nenhum vidro.perguntou Déborah. os abismos e os picos de Yr começaram então a gerar um vocabulário cada vez mais rico.. Déborah . sentada perto delas.São metáforas. Tu que não és linda. segredou: Para que se faça de condenada.disse à doutôra.Existe uma palavra.

não eram só aquelas crianças que a odiavam. minha mãe odeia tua mãe. Lembrava-se bem da cena que presenciou um dia. O entendimento dos mistério s eram as lágrimas. A mãe. A convalescença t ambém não passou de uma grande farsa. com o passar dos anos. sob os auspício s de uma mãe adorá51 vel. As conturbações eram combates travados em segredo. até mesmo ela e a capaz de perceber. mas não carinhosos. lág rimas terríveis e pungentes de homem. "via fracasso e confusão. eu te odei o! Três gerações de ódio! Aquelas palavras tinham uma ressonância especial. no entanto. não seria tolerada. Honesta sem dúvida. era uma verdade mais do que evidente: achava feia aquela coisa. a maldição predileta: j udia. certa vez. e não do amor. maravilhados com a beleza e a delicad eza da recém-nascida. No entanto. Depois de ouvir isso. isto é. na Alemanha. as tias e os tios foram se afastando de Déborah. Na vizinhança. Esse comentário marcou o início do incômodo da família em relação a Déborah. Quando sua irmã Suzy nasceu. fechar os olhos e crer. por causa dos "tchecos-e-os-poloneses". judia. nem lhe p assava pela cabeça que viesse a ser sua companheira. Uma observação gente e bastante precoce para uma menina de cinco anos. isto é. não a amava. minha avó odiava tua avó. E no verão ia para a colônia de férias. constituía alvo i deal para os provocadores do quarteirão. Mesmo no hospital. s e apinhavam em volta do berço. se a doutÔra pudesse decifrá-la. disseram. de tramóias.exclamavam indignados. expulsando-a. um professor de equitação da colônia declarou brutalmente que Hitler fazia pelo menos uma coisa boa. ao mesmo tempo doce e amarga. nos quais os judeus.Mas ela é sua irmã! . nos tchecos e nos poloneses. Algumas vezes Déborah já ouvira fa lar que um homem chamado Hitler. Rabiscavam palavras ofensivas nas pared es especialmente as da privada (onde. e para onde olh asse. tcomou c onta da questão: fez-se anfitriã das meninas do grupo mais popular. sempre perdiam. os códigos seculares da fortuna ainda vigorav am. Era um mundo carregado de mistérios. Os parentes. fico u imaginando se eles todos não teriam tumores. que por si mesma já se considerava imunda. Déborah. talvez fi asse mais fácil suportar a memória. Um deles morava na casa ao lado. para nunca mais abandoná-la. o que bem poderia ser verdade. Sempre q ue a encontrava. Quanto a Suzy. Déborah. Ficaram chocadíssimos e revoltados com o que.a de Yr. lançava-lhe ao rosto. por mais negada que fosse. Déborah ficou tão re ssentida com isso. pressentindo a desgraça inevitável. judia imunda. antes de sua partida para a colônia: seu pai chorava. Por cáüsa da operação. Diziam que ali não havia preconceito. mas o fato é que ela era a única judia. contudo. boa e aflita. a maldição transbordou do corpo e da boca de Déborah. na primavera. . E foi mais ou menos iss o o que aconteceu. já que a própria doença continuava existindo. e por mais consciente que estivesse dela s. Suas re gras não passaram de mentiras. lhe 50 trazia uma dolorosa sensação de perda e aflição. ponderaram. que berrava e cheirava mal. Déborah começou a revolver lembranças. só começou a freqüentar a esco e e foi rejeitada das primeiras amizades e grupos que suas coleguinhas tinham fo rmado em sua ausência. e a "judia imunda". O mundo de Déborah apoiava-se na certeza de que era vítima de uma maldição ináta. do alto de sua nobreza. porém. e na cre nça fervorosa. quas e cruel. que veio saltitando atrás com uma radiante e despreocupada doçura. mas fria. A realidade oculta pelas farsas era a morte. com a cabeça apoiada na mesa da cozinha. mas fruto do ódio e do egoísmo. só conseguira enxergar naquele ser intruso um monte de rugas com um rosto vermelho. Quem sabe se. matava judeus por mero prazer e ma ldade. que foi incapaz de fazêla desistir. Continuava m orgulhosos dela. eliminando aquele "povo imundo". de certa forma não estivera à altura do jogo deles. O passado. onde anos atrás o tumor fora exti rpado com tanto sucesso. a menina feia do tumor gritara ao sentir a urina queimando por dentro). menina sempre com ares de moça.Não fui eu quem fez! Não ajudei a tomar a decisão de fazê-la. . já que as difer enças entre os vários cultos protestantes da classe média sempre foram extremamente su tis. Como se estivesse possuída por um demônio. em Deus. foi amada sem r eservas. . Nas férias. para Déborah. farsas e conturbações. não soubera se comportar no jogo.

com o o metal. pesadas. Não sentiu dor. escuta.parecia uma máscara de esgrima. só isso! . porém. tentando desvendar aquele mistério.Estou. e os urros or iundos dos níveis mais baixos dos reinos de Yr. Rasgou o antebraço. Umas viviam mudas.Ah. revestida de grades e telas .Onde está a Blau? Não encontro o nome dela aqui. Cafés entrou no qua rto hoje de manhã para acordá-la. Tu não és dos nossos. mas decidiu não contar isso à doutôra . algumas tinham acessos de cólera. num sentido que ultrapassava a finalidade por que estava ali. acabarás quebrando o sigilo. e encontrou uma bagunça incrível: os lençóis e o rosto dela empapados de sangue .Eu não sabia que as pessoas na Terra eram dotadas de interior . Estivera completamente absorta narrando esses ac ontecimentos. todos scomos . Vais sucumbir. E o jeito sa rcástico de falar. ralhou ao fundo o Coletor. não és como os outros! As palavras em Yri anunciavam a etema retirada. Ao voltar ao presente. . As últimas pretensôes a conforto e no rmalidade acabavam de ser suprimidas. . Rasgou de novo o antebraço. cutucando aqui e ali com o dedinho para ver o que acontece.Nunca se sabe o que se passa dentro delas. As bordas eram denteadas e cortantes. como você. . . recolhida num de seus passeios.Enfermeira ou qualquer coisa no gênero? . Sentou-se numa cadeira desconfortável e ficou escutando os gemidos e os gritos do Coletor. Déborah se aventurou a confirmar essa distância. Tu nunca foste como os outros.Lógico que não. O lhe para mim! chamou Anterrabae caindo.disse pensativam ente. não propriamente o que dizia. . Déborah apoiouse a uma janela . não está? . outra s não paravam de resmungar sozinhas. . sentia-se exausta.Engraçado. é que o lugar apresentava um aspecto ao mesmo tempo assustador e reconforta nte. Pássaro-um. Os médicos dizem que são todas doentes mesmo. ou sentadas e deitadas no chão. Escuta. Sou psicótica. e ficou observando o sangue escorrer dos seis ou sete sulcos abertos até abaixo do cotovelo. As enfermeira s e as serventes da ala eram corpulentas. . sabendo e não sabendo ao mesmo tempo o que pret endia fazer com ela. .Foi na colônia que descobriu Yr pela primeira vez. Cavalo-s elvagem-um. indo e voltando umas dez vezes seguidas. Estás beirando a tua destruição. Andava como se estivéssemos muito aba ixo dela para que se dignasse a nos olhar. Tudo estava abaixo dela. Agia com meticulosidade. Um horror! Deram-lhe uma injeção antitetânica e colocaram-na direto no elevador. As mulheres passavam o dia empertigadas em cadeiras nuas e incômodas. . Brincas com o Abismo de um modo muito pe rigoso. Só então se recostou e dormiu. Uma jovem se aproximou por trás dela.e começou a pensar febrilmente. 54 Déborah estava apavorada na Ala dos Perturbados. Guardava consigo a tampa de uma lata de conserva s. acompanhando minuciosamente os sulcos o riginais. e o braço cortado com uma tampa de lata. você não sabe? Foi transferida para a ala dos "Perturbados". Sempre qu e nos cruzávamos. nunc a! és inteiramente diferente. Isso mesmo. Assim. mas a frieza. . Uma guria rica e estr agada. a brecha que se abr ia para diferenciá-la dos outros. e que as sessões de terapia são muito difíceis. O que a intrigava . pensava: lá vai a menina rica. estava inteiramente sob o domínio de Yr. Nunca achei que aquela guria estivesse realmente doente. o Coletor e seus vastos reinos.Você está assustada. até que o braço ficou reduzido a uma posta ensangüentada. .Essa vaquinha sofisticada nunca fez nada difícil na vida. disse Anterrabae. Alegre e s ilenciosamente.. musculosas. aprofundando os cortes. apenas a sensação desagradável causada pela resis tência da carne. que precisam ficar aqui.Eu sou Lee. Quando voltou à ala. Essas palavras infundiram nela uma profunda e duradoura sensação de alívio. Quis agradecer àquela mulher por se mostrar capaz de se emocionar até o ódio. nem falar sobre os Deuses. viu a indignação estampada no rosto expressivo da médica. você é psicótica.

fo sse na colônia. os gestos aflitos e ansiosos. e abordá-lo com a franqueza e a desinibição características do doente (coisa que ninguém da equipe médica conseguiria). protegendo o tumor que ameaçava desp ertar ao menor estímulo. verdadeiros príncipes com quem partilhava em segredo sua solidão. a mulher . na Ala D . .exclamou a doutôra. Déborah foi sendo forçada a mitigar.disse ela e v oltou à sua discussão imaginária. dormia a 3ª esposa secreta de Eduardo VIII. saindo em seg uida do civilizado. pacato e traiçoeiro consultório.em que os deuses de Yr fora m companheiros.O que foi que aconteceu? . .Foi algo que eu tive que fazer.É claro! Todos os meus parceiros de dança vão tremer de repugnância ao vê-la. "Eu poderia ter agredido essa moça até não poder mais. Dizia que tinha sido intemada (tratava-se de uma Casa de Prostituição) pelos inimigos do antigo rei. meio cu rvada sobre o abdômen vulnerável e á região inferior. Houve um tempo . Ia ao encontro das divindades.perguntou a doutôra.cóticos. Os miseráveis me violentam todas as noites desde que cheguei ." Compreendeu num estalo o que havia afinal de reconfortante na Ala D: ali as pessoas estavam dispensadas de manter os falsos b ons modos. olhando zombeteiramente para a auxiliar que ac ompanhava Déborah. maior o espaço que Yr ocupava em sua vida.levantou-se e veio toda compungi da para o lado de Déborah. .Mostre. rei que abdicara do Trono da Inglaterra. . ou de respeitar as incompreensíveis normas de conduta da Terra. como q uem vai ao encontro de seu anjo-de-guarda. as violentas dores do tumor fictício. Déborah arregaçou a manga. que davam à fisionomia de Déborah um estranho ar de truculência. Quando sobreviessem as perdas de visão. . onde a odiavam.Isso vai dar uma cica triz horrível! . . minha querida. para assumir a figura de pris . ou o Abismo. Déborah notou que ela não estava nem assustada.Déborah perguntou a Lactamaeon e seus pares. douradas e risonhas. Quanto mais profunda a solidão. sem esconder nada.Meu Deus! . no corre r dos anos. nem recorreu às mil e uma expressões desastrosas que as pessoas habitua lmente empregavam quando a surpreendiam perturbada. Depois que a enfermeira trancou os objetos pessoais de Déborah na p equena cômoda embutida.A doutôra reparou no olhar desnorteado e no medo. que não procurou ri dicularizá-la. Déborah sentou-se. a apaziguar e. Pouco a pouco. a renunciar a seus privilég ios de soberana de um reino luminoso e consolador. fosse na escola. Arranhei um pouco o braço.que estava sentada na cama discutindo sua estra tégia com a figura invisível do Primeiro-Ministro . não é nada impossível que você venha a dançar 56 um dia e a viver no mundo de novo. . Mostre o braço. os cabelos escuros. só isso.Agora ela está lá em cima. trovejou Yr.Olhe.Onde posso encontrá-lo a sós aqui? . E ainda deve ser vi rgem. . Decidiu então falar sobre Yr. O corpo dela era miúdo. Sempre se dá um jeito.respondeu impassível a auxiliar. "É corajosa". Mas alguma coisa mudou.e era estranho pensar nisso agora . ninguém diria: "O que é que as pessoas vão pensar?" Seja educado! Não faça escândalo!" Na cama vizinha à sua. Você que se meteu numa grande encrenca. com seu sotaque engraçado. não sabe? Já é hora de me dizer. O Abismo estava muito perto. Não viremos abarrotar o local onde se reúnem os co nvidados dessa antiesposa anti-secreta do abdicante Rei da Inglaterra! Soltou um a sonora gargalhada. nem escandalizada. Yr se transformou em fonte de medo e dor. o que foi que levou você a fazer essa coisa aí.Você é tão jovem para estar nessa casa de pecado. Mostravase apenas absolutame nte séria. só fez marginalizá-la. A doutôra encarou-a atentamente: esperava um sinal qualquer que denunciasse qual o grau de honestidade que ela estava disposta a empenhar na terapia. . finalmente. pensou Déborah. onde sua excentricidade. Tinha si do capaz de olhar para fora de si mesma o bastante para perceber outro medo idênti co ao seu. .Escoltada? . rubra de vergonha. De uma fonte de beleza e proteção.

Descreveu com as mãos os movimentos agitados de uma onda. mas depois de algum tempo. . Com se não bastasse. proclamadas em salmos pelo Coletor. pois isso o igualava ao mundo.Você não pode usar a linguagem verdadeira o tempo todo? Déborah riu da pergunta absurda. 57 . como uma veia que se rompe. . Estava pasmada. Após uma pausa. Como um prolongamento do gesto.E existe uma linguagem própria? . . De rainha entre deuses.O inglês é para o mundo.É uma linguagem secreta. Como está se sentindo? perguntava o administrador da. são exatamente as mesmas. as últimas palavras que Déborah ouviu da Terra.Bem. pessoal! Calma!" Es58 tas foram. . a necessidade fez-se coerção. só traziam desgraça e agonia. . Cuidado com essas palavras.Que linguagem você emprega quando desenha. O terror. quando Doris.Seria como dar a um vagalume a potência luminosa dos raios. para comunicar decepção e ódio. espraiou-se dentro dela.No entanto. a ter que ser súdita e escrava do Censor. você parece bastante competente no uso do inglês.disse Déborah. . o dia continuava dia. ao contemp lá-la. lembrando-se dê certas palavr as fascinantes que provocavam um retraimento imediato. . O que vem depois é a decepção e. expondo sua loucura para que o mundo inteiro. a coerção fez-se tirania imp lacável. Houvera uma troca de enfermeira-chefe na ala. com jurisdição sobre os dois mundos. . por isso às vezes uso uma linguag em meio latinizada em seu lugar. Enxe rgava mal também. começou a ouvir o marulhar de ondas em ressaca. Quero que volte e diga a esses deuses. os do mundo. cujas promessas redundavam em trapaças e cujas van tagens e privilégios. .iri.perguntou a doutôra. No início é incô o.ioneira das regiões mais tenebrosas de Yr. que não conseguirão me intimidar e que nenhuma de nós vai deixar de trabalhar.anunciou a doutôra gentilmente. uma me nina recém-chegada. . Uma vez empossado no cargo de guardião. nos dias do alt o calendário. .Você conhece o envoltório de lençol-frio? Vou providenciar um para você. Nenhum rugido de Yr. passou a ter que suportar as atormentadoras transições entre os mund os. Q primeiro segredo fora aberto e. Houve co mo que uma dobra no tempo. voltou a ouvir a voz dele: . acalma.Você parece um bocado assustada . a prova irrefutável de que ele existia. "Calma. . e a nova estava distribuindo colheres de metal em vez das de madeira.Comentou ele. trancaram a última porta de acesso à ala. A crise explodiu mais poderosa do que Yr. O encanto fez-se necessidade. foi se tomando aos poucos um verdadeiro tirano. Ala D. . Faltavam duas para receber as suas. a ter que arcar com as ofensas do mundo. . por algum tempo. Às suas cos tas. mesmo assim. percebendo a ameaça e o pedido implícitos nas palavras da doutôra.Talvez eu sinta um pouco de ciúme pelo fato de você us ar essa linguagem exclusivamente para se comunicar com você mesma e não conosco. por incrível que pareça. você imagina o que vai des enhar em inglês ou em iiri? . onde germinariam. por mais poderosos que eles sejam. . desatou a rir. recuasse horrorizado. no final das contas.Pratico minha arte nas duas línguas . Começavam a servir o almoço. quero dizer. Não dói nada. . ao Coletor e ao C ensor. Déborah tinha grande di ficuldade de falar.Desculpe .disse Déborah. .Existe . Déborah voltou para o hospital com a auxiliar. O Censor fora incumbido de impedir que Yr espalhasse suas misteriosas sementes sobre a Terra. Yri é para dizer o que deve ser ito.Você fez bem em me falar s obre seu mundo secreto. não se preocupe. . tudo se cobriu de trevas. Déborah encontro u na crueldade de Yr. A dor violenta irrompeu do tumor e jogou-a ao chão.disse a doutôra. ficou reduzida às piores humilhações e desgraças nos do baixo calendário. ela se contorceu toda. mas que não passa de uma cortina de fumaça. por hoje chega . floresc eriam e desabrochariam.

Déborah emergiu do Abismo com suas percepções límpidas como uma manhã de sol . Quanto mais se contorcia e se agitava. Após um tempo que lhe pareceu eterno.Esta é a putinha sobre quem eu tinha falado a vocês. Mexeu um pouco a cabeça. Em seu íntimo ansiava que a palavra. . os fatos contidos ali não deixavam mar gem a dúvida. As juntas doíam por causa da pressão dos lençóis. e o tinir das xícaras de chá. largas e compridas. e pôs-se a conversar com eles. Claro que.indagou Esther Blau. em cuja pele as marcas deixadas pelo s lençóis só agora começavam a desaparecer: .Está se sentindo bem? . . . Quatro horas é a média. no interior. de reconfortá-la. os braços ao corpo. Só depois de ler e reler várias . re cebeu a resposta desaconselhando a visita. entrou um homem. Se continuar bem. Voltou a mergulhar na inconsciência antes que pudesse assistir ao final daquelas operações. uma quarta correia. voltando a olhar o relatório. 60 Perturbada. firmemente retesadas. o rela tório mensal aconselhava paciência. que o aparente revés não constituía razão para que ficassem ansiosos. mas para discutir com os médicos a mudança. dias depois. revestidas d e grades duplas. apresentou Déborah. no único movimento possível. contudo. convertê-la no f ato agradável pelo qual tanto almejava. Estava surpresa por ter emergido de regiões tão fundas sem qualquer angústia. O homem saiu. Fried . Tinha. amarrando seus pés. atravessando o estômago e os joelhos.Como? .Pobre "vaquinha" Eu vi tudo que fizeram com você só porque não quis dormir com aquel e médico nojento! Amarraram você para que não se mexesse. o administrador da Ala dos Perturb ados. zangada. com um medo que beirava o pânico.gritou ela. Em sua linguagem impessoal e breve. soltaremo s você dentro de meia hora. lençóis esparramados por cima e por baixo dos panos que a envolviam como uma múmi a. Est enderam outro por cima dela e esticaram-no firmemente. recupera do inteiramente o senso de realidade. A antisecreta antiesposa do abdicante rei da Inglaterra mostrou-se toda solícita: . env oltórios eram lençóis enormes enrolados em volta do corpo: três superpostos como folhas brancas e úmidas. Um saco de gelo sob a nuca. se ela e o marido julgavam necessário vir. muito esticada e presa com ganchos nos pés da cama.Um privilégio e tanto. No entanto. . já que o hospital julgava inconveniente. Per cebeu vagamente que estava deitada numa cama. Mas seus fantasmas vieram acalmá-la. um calafrio percorreu sua espinha. tivesse mudado. honesta se m dúvida. sobre os lençóis. Continuava embrulhada e completamente imóvel dentro daquele "casulo". . o que quer dizer perturbada? . imitando as tagarelices da nobreza. vieram soltá-la. que alguma outra viesse modificá-la. vindo daquelas janelas altas. Foi difícil levantar e andar. envolvendo seu corpo em outros lençóis. . Estava exausta. mas seus sentidos continuaram embotados. Sentiu então que a rolavam de um lado para o outro. Déborah sentia se extremamente fraca. A resposta era uma tentativa.Não minta para mim! Você está falando com a antisecreta antiesposa do abdicante Rei da Inglaterra! . sobre um lençol frio e úmido. Aproveitou a liberdade para e studar a forma daquele casulo. Seu próprio calor aquecera os lençóis na temperatura de seu corpo. num passe de mágica. então ele entrou e violentou v ocê. marcariam as entrevistas.Recuperou a consciência pouco depois. outro de água quente no s pés. três correias de lona. Ressaltava. Por simples cortesia. Horas depois. Esther voltou a escrever agora para a Dra. e presas nos dois lados da cama. Apertaram. . mais quente ficava o casulo. Imediatamente Esther escreveu uma carta para o hospital e. Vestiu-se e voltou para a cama. nua.Há quanto tempo estou aqui? 59 .Mais ou menos três horas e meia. hein! . e quanto mais quente. e pressionando-a com força contra a cama. porém.respondeu Déborah mordaz. não para ver Déborah. menos energia lhe s obrava.Virou-se surpresa. obrigando-a a expelir o ar. Passado algum tempo. Aconselhava também que tivesse paciência. mas o importante é que tinha recuperado sua noção de estar no mundo. Lembrando-se dos gritos que escutara. e o último prendendo. e a assinatura era de outro médico. . repuxara m. Insistia em sua ida.

fez com que a profecia se tomasse realidade. emaranhada em suas próprias raízes.. . ajoelhada no banco de trás. e em Yri a palavra que significa morte significa também sono. Ecoaram gritos. onde flutuava uma nuvem branca compondo formas c uriosas. como uma mensage m cifrada. . já previsto.vezes a carta. Era melhor resignar-se e esperar. Imorth (palavra que significava morte. Guar dou a carta e o relatório junto com os anteriores e não voltou mais a olhar para ele s. despedaçou o vaso e part iu a flor. No parapeito da janela. Eu não sabia qual dos significados era. foi sair do hospital e voltar para casa depois da suposta extirpação do tumor. depois fica tão apavorada que foge para se esconder no pânic o ou em seu mundo misterioso. mas aquel e céu chuvoso. as ruas molhadas onde as pessoas cam inhavam apressadas. sombrio e cinza.encontrou um vaso de flores caído e despedaçado na ru a. loucura e o Abismo. A terra se espalhara em volta. nem os espelhos. e força também. Anos mais tarde. o fato é que se realizou a morte anunciada por Lactamaeon.E ela começou a explicar como profecia e de stino. A segunda mudança foi a humilhação que sofri na colônia. Fried. e seu espelho. e havia uma flor vermelha. para se tomar. Já freqüentava . teve um sonho: um quarto br anco . sono ou loucura. e seria sempre. ao transportarem-na para casa. ou seja lá o que for. Quando o tumor foi removido. Se foi cortar os pulsos ou vir para cá. a estudante de arte . amarga e cáustica . pa lavra que soava como um suspiro de desesperança). O espelho dessa mudança era a flor partida que vi anos mais tarde. nem a mãe que cantava.Duas das mudanças ocorreram antes que o deus.Vê! Vê! A mudança sobreveio. Está consumado! Mais duas mudanças e seus respect ivos espelhos e. . . a cor de sua vida. e depois a Morte. havia um vaso onde crescia um gerânio vermelho. formavam a textura de seu mundo interior. Eis o espelho da mudança. Muitos anos depois. tentando penetrar na61 quele mundo que já fora um esconderijo fechado sobre si mesmo. todos riam e brincavam." De repente . conte-me como é o ritmo desses seus distúrbios Observava Déborah atentamen te. No carro. depois que outras sensações se cristalizaram entr e ela e o mundo. Uma pedra. Esther conseguiu isolar suas implicações mais sutis. levantando a gola dos capotes para se protegerem da chuva.a imagem que fazia de um quarto de hospital .uma Déborah completam ente mudada. desfez-se no sonho a luminosidade do ar. " Vê?" . não é? .zangou-se Déborah. Lactamaeon veio lembrar-lhe a revelação daquele dia. . a família ficou eufórica. Ele falava em Yri.disse uma voz no 62 sonho. . 'Existem flores num hospital. . e ambas riram. tampouco a animação do pai. uma tirania cujos tiranos tinham que ser incansavelment e aplacados. Lá fora caía uma chuvinha fina. Lactamaeon sussurrou a seu lado: . as anunciassem . de r epente. entretecidos. interferiss em no que estava acontecendo com a filha. e o céu que se avistava da janela torno u-se escuro. sombrio e extenuado. A segunda mudança ocorreu com a humilhação sofrida aos nove anos de idade. com o talo partido.voltando da escola para casa. Lactamaeon veio a mim e d isse: Três Mudanças e Seus Espelhos. . olhava o céu pesado e cinza. não sei. Déborah. e seu espelho. Aqui ou ali. Ocorreu-lhe que o cinza era.Mas não a terceira.Um dia . Você viverá e será forte. Déborah foi invadida pelo pressentimento de que algo ho rrível ia acontecer. A primeira mudança. então. A terceira foi justamente a mudança para a cidade.Você expõe um segredo a nossos olhos.Pois bem.e uma janela aberta que des cortinava um céu azul e luminoso.Eu me pergunto se não há um padrão de conduta.Pare com esses trocadilhos . Antes mesmo de ser intemada no hospital para a operação.começou Déborah . arremessada de um lugar qualquer. isso sim eu sabia. A realidade não era o carro. ou o de Jacob.disse a Dra. . o episódio do carro quando eu estava com quatorze anos. Concluiu que deveria impedir que seu medo.

A terceira mudança foi justamente a mudança para a cidade. podes ser nosso pássaro. o no vo desprezo e a nova solidão de fato sulcaram fundamente regiões virgens de seus sen timentos. no primeiro dia. quando Ant errabae chamou-a para abandonar o grupo com que estava dentro de um carro. porém. O espelho. O que é que você tem a dizer agora? . Dias depois. dizendo. as primeir as e cristalinas insinuações do que viria a ser Yr. a qualquer desonra!" Não dissera o nome. Só quando Claire foi chamada e negou calorosamente ter dito tal coisa. sua ausência a entristecia. nada mais pode ria contê-la: como se afirmava em Yr. . inesperadamente provava a veracidade de Yr. porém. Anterrabae. como num poema: Se quiseres. e a filha enc ontraria amigas de sua idade. mas só encontrou o deslumbrante mosaico de folha s entremeadas de raios de sol. . Lactamaeon. voltava do consultório de um médico. vinham todos em sua companhia. mas todos sabiam quem era.A sensação de ruína se avolumava dentro dela. A humilhação foi. subitamente. vítima de dores falsas de seu tumor falso. Logo no primeiro dia. Déborah riu por dentro ao deixarem a casa antiga. onde um policial a perseguia. Claire se limitara a ouvir e concordar. De modo inexplicável. És diferente . Em meio à algazarra que faziam. a partir de agora. de forma também inesperada. surgindo um outro tempo. revivendo o clima de amizade e a inocência da juventude . denunciou duas meni nas que. portanto. O ód io que as pessoas extemavam no mundo. surda e invisível para si mesma. todo opróbio. ricamen te modulada. então. Esther ficou contentíssima com a idéia.Claire nega. a segunda mudança. Reencontr ou-a mais tarde. Podes ser u m cavalo selvagem. uma pessoa entre nós capaz de 63 se rebaixar a qualquer maldade. o Cen sor e o Coletor. Mas o nascimento dos deuses. Ficou esperando que a voz falasse de novo. Tu és um dos nossos. sacudirás tua crina e expulsarás toda vergonha. agora ela pertencia a outra vida. lutando ainda contra o que julgava ser a injustiça de lhe imputarem um estigma de nascença. pouco antes de seu décimo sexto aniversário. mencionando uma "mentirosa" que há em nosso meio e que usa sua confiança para obter compaixão e envolver meninas inocentes em d ificuldades.Claire .Quem disse essas palavras a você: "Nós não passeamos com judias fedorentas"? Claire ou Joan? Era natural que. a culpada era Joan. Enfi m não poderiam mais atribuir o velho ódio e a solidão ao fato de serem judeus. O direto r da colônia lançou-lhe um olhar severo: . Quando ele a alcanço . À noite. o mundo fora capaz de retê-la horas e horas a fio. daquelas que as pessoas lembram anos depoi s com nostalgia e saudade. obrig ando-a a fazê-los parar imediatamente para que saltasse. acenderam uma fogueira. d izendo-lhe num tom suavemente fúnebre: Tu não és como os outros. houve novamente uma dobra no tempo. Pr ocurou saber de onde vinha a voz. a mesma voz. co m suas exigências absurdas e grosseiras imprecações. não disse mais nada. Na cidade. Uma tarde. A violência do impacto fez com que ela despencasse no Abismo: três dias de pesadelo. relegaram-na a segundo plano. Déborah perce beu o erro. o estigma fatal relu ziria com brilho ainda maior. mesmo que um apartamento. Déborah.a colônia de férias havia três anos. dessa vez. e os próprios impasses se tomariam mais claros. Não lutes mais contra as mentiras deles. ouviu uma voz vinda de alguma parte. Via-se em seu espelho. ce rta de que a ruína os acompanhava inexoravelmente. Abandonou a luta. Na colônia de férias. voarás livre na melodia do vento. Tinham se habituado à hostilidade que fervilhava na vizinhança antiga. em vez de feri-la. inaudível para os que caminhavam a seu lado. além de a ridicularizarem. ao erguer os olhos para a noite estrelada. se tinham recusado a passear com ela. se deu conta de que desperdiçara mais um dia. Na cidade. Finalmente teriam casa própria.afirmou. enfim solitária consigo mesma.Nada! . se revelou numa outra situação em64 baraçosa: um professor de ginástica que a pusera em evidência com um comentário desdenho so sobre sua falta de jeito. Déborah confundisse os nomes e as fisionomias da quela multidão de meninas. O diretor proferiu um exaltado sermão.

terreno propício para a doença mental.Sabe. devia achar que a mãe sabia e que lhe dedicava compaixão em vez de amor. Déborah garantiu que não era nada e. uma certa sen sação de velhice e frustração A mãe era formidável. Só pertenço a Yr! . eu me pergunto se a sabedoria deles não chegou um tanto ou quanto atrasada. e não orgulhosa. que os mundos se cretos . embora afastasse 65 e assustasse as pessoas. . As três mudanças e os três espelhos. a Dra. . Fried foi à cozinha preparar um café. seus passos obedeciam ao ritmo lento e gr ave das batidas de um tambor. afinal. mas você não pode deixar de pertencer a outro grupo. . tão logo pôde.todos os mundos secretos . O que a deixava admirada era com o divergiam. com aquela exclamação familia r no idioma de sua infância e juventude. a grande desvantagem de estar mentalmente doente é o preço terrível que se t em de pagar para sobreviver. exatamente como Lactamaeon profetizara. que sinceramente acreditava explicar suas motivações. . embora o seu amor seja sincero. Uma pessoa que precis demais de ser encantadora e bem sucedida em tudo. pelo menos eu acho. . todos os olhos humanos não serão espelhos que deformam? Via-se.A um preço terrivelmente alto. Sentiase. .Não pertenço & ninguém aqui! Nem a você nem ao mundo! Anterrabae me garantiu isso. colocada entre duas verdades conflitantes. Todo o am or dado por Esther foi reinterpretado por Déborah. Inclusi ve. se fecha tarde demais. pois já não era mais necessár io lutar e resistir. pela primeira vez . Terminada a sessão. de que estava correndo tão apavorada. A luz penetrara. como nunca se sentira antes e. Era tarde demais para não ver. Um mundo que dissimulava outro mundo. sabe. pemiciosa e maligna solidão.Encantadora.Exatamente. ao reparar que o café estava fervendo e tra nsbordando do bule. Aconteceu! Finalmente Imorth chegou! As batidas so avam longas e calmas.Déborah sabia. mas pelo menos estar maluco é estar em algum lugar. ofuscado por ela. e estes por sua vez.Visto que duas das três mudanças ocorreram antes que os deuses começassem a existir. enfiou-se por um edifício a dentro pa ra despistá-lo.. um de meus nomes em Yr é A Etema Decepcionada. aco stumado à escuridão e protegido por cílios cerrados.Ela é competitiva. . era antes de tudo uma forma de ajuste. Pergu nto-me também se eles não decepcionam você apenas para se sujeitarem à própria visão que vo formou do mundo. 66 O bule de café começou a vibrar. Espelhos e mudanças! Po r acaso. que encobriam numa região muito mais funda o ardente desejo de viver. Abrira a mente para as palavras delas. que talvez a doutôra tives se um pouco de razão. pela enésima vez. no entanto. . mas isso não impede que outro grupo se forme em meio a outros grupos . . . Quando saiu de novo à rua. há mu ito tempo atrás. . Agora dispunha de um letre iro para mostrar. Déborah estava vi sivelmente exausta do esforço que lhe custara a revelação de todas aquelas coisas. Déborah retcomou à ala.. inexoravelmente. apesar do amor e das experiências compartilhadas durante tantos anos.Ergueu-se num pulo.A doutôra inclinou-se para a frente na cadeira.. Sentia ganas de dizer aquela garota de olhar aturdido que a doença.as linguagens. Sintomas que re sguardavam sintomas muito mais densos (era cedo para devassálos). que se abre cautelosamente à luz e. aind a que o olho quisesse ter renunciado a ela. Em matéria de decepção sou especialista.Mas eu ainda não tinha certeza.. Ahh! . Sobreveio uma grande paz interior. Se a filha se julgava condenada . . E dominadora. . ansiosa por encontrar um lugar qualquer onde pudesse estar c . . .Não! Não! . . os códigos e os sacrifícios expia tórios não passavam de expedientes que ela manipulava para sobreviver num mundo anárqu ico e opressivo.bom. perguntou-lhe o que é que tinha acontecido. "em casa" na Ala D. e era por isso que se sentia martirizada. Uma linguagem secreta que camufla va uma ainda mais secreta. deve ter começado a solidão. murmurou para a xícara vazia diante de si. como um ente reconhecível e definido: uma das loucas.u. tal como um olho. Depois da questão do tumor e do anti-semitismo da colônia de férias. despertando sua atenção e ao mesmo tempo.

isto é. A maioria dos pacientes dispunha da habilidade quase sobrenatural de discemir. o que a fez sentir-se extremamente importante. Sempre estimulava o que havia de com . Outros. Queria que os doentes fossem iguais a ele. aparentemente. em que pudesse afirmar taxativamente: "Ah sim. parodiando santo Agostinho: "Bem. e a loucu ra dos pacientes vicejando e explodindo às claras. desli gados da "realidade '. secretamente saboreado. Aliás. Um dia. abriram um inquérito. Déborah presenciou um auxiliar ser agredido pelos pacientes noite após noite. a realidade terrestre. por sua vez. por exemplo? Talvez Hobbs seja grosseiro com as pacientes. n um único relance. e nós não saibamos. Por iss o mesmo.Como começou? . jamais beiravam sequer.Quero que você me dig a. as pessoas mal conviviam umas com as outras. mas não ia dizer.. a solidão era um estado ambíguo.. seus desejos semicontidos. como se tendências autodestrutivas a temessem. houve uma briga mais violenta do que o normal. McPerson. Déborah . com a pema bem estendida. O administrador da ala foi obrigado a interrogar todo mundo. mas pelo moment o. No dia seguinte. . Os agr essores eram invariavelmente os mais doentes da ala: refratados ao convívio.protestou ele com severidade. porém. . livre-arbítrio. Ela compreendeu a intenção do bri lho nos olhos dele. No entanto. já resol vi o problema!" Déborah sabia por que Hobbs e não McPherson. o pé estava já. não fui eu quem mandou usá-lo. Hobbs vinha pelo corredor e então começou a briga. enquanto o pé dele ia de encontro a Lee Miller . Até os mais inertes e os mais desvairados deram um jeito de afetar o maior desdém e distorcer propositalmente as perguntas. pacientes e funcionários saíram c ontundidos e ensangüentados. Por que é sempre Hobbs e nunca McPherson ou Kendon. Cumpriam à risca esses mandamentos. melhor se sentia. Todos os hospitais de que ouvira falar abrigavam multidões atomizad as de indivíduos que tinham rompido inteiramente seus vínculos com os outros grupos e instituições do mundo. Morria de medo da loucura com que convivia.ompletamente só. suas inclin ações. escolhiam como alvo sempre o mesmo homem. Associada. Ali. . a esse poder de discemiment o. caso o btivesse a resposta quando outro certamente teria falhado. Realmente.bom. e nunca olhar para os velhos na estrada. Meu pé também estava estendido. Todos aprendiam a ser "civilizados". que 67 acabou degenerando numa verdadeira batalha campal. . mas isso era o de menos. foi uma briga marav ilhosa. improvisava m seus próprios reinos e. seus a ndares e suas alas estivessem apinhados de gente. como Déborah fazia.. Só que essa crueldade estava além de sua compreensão e de seu controle. uma esperança que envolvia seu próprio sucesso como médico. mas ninguém quis usá-lo. nem muito barulhenta nem muito calma. Não pelos pacientes. O administrador da ala interrogou a todos sobre a briga. Alguns pacientes de sua ala viviam imóveis. pois. Livre-arbítrio. esperando que algum auxiliar tropeçasse em seu pé para q ue mais tarde pudesse dizer. por um lado.. mas quando se tratava de imperfeições invisíveis eram impied osos: penetravam com olhos argutos e escutavam com ouvidos afinadíssimos os segred os e as súplicas íntimas dos "sãos". nem encarava com simpat ia a avidez e a ambição que lia no rosto do médico. . O soco de Lucy Martenson penetrou nos processos mentais do Sr. e qual a d imensão e a influência dessas fraquezas. para que ficassem bem demarcadas as fronteiras existentes entre ele. meu caro. dese68 java que as pessoas fossem mais loucas e mais estranhas do que na verdade eram.. como bonecos sem corda. estava a total inabilidade de usálo de um modo consciente. porque era uma extensão de algo que existia dentro dele. Os pacientes se orgulha vam de afirmar seu não-envolvimento. Déborah assistira à luta estirada no chão .perguntou o médico a Déborah. nunca apedrejá-los. a sós com ela na sala de estar. embora o hospital. como a prostituída Esposa do Ex-Presidente Assassinado. seus pensamentos gratuitos. Hobbs. nunca rir d e aleijados. Quanta esperança! Não por ela.Ora vamos. mas pela resposta. era uma pessoa forte e até mesmo feliz.. às vezes Hobbs se comport ava de modo um pouco brutal. e quant o mais próximos estivessem. . onde residiam as fraquezas de uma determinada pessoa.

O médico saiu afobado para ajudar a debelar o tumulto e os gritos que vinham de um dos qu artos dos fundos. mas ao reparar bem na expressão dela viu que não se tratava de sol.Minha querida.Já comi isso.Até logo Helene. atraí-los.Não me machuque.A Esposa do Assassinado encarou-a com severidade. e Déborah concluiu que o pulso quebrado de Hobbs. ela recuou o pé. onde a aguardava o seu almoço.Seus gritos atr aíram os auxiliares. e o menor sintoma positivo que se manifestasse. que vinha com sua b andeja de almoço para a sala de estar. você nunca achará um homem! . . Era Helene.O que foi que você disse? . Déborah não se conteve: . por algum tempo.Deu as costas e voltou à sua conferência imaginá ia. a porta bruscamente a berta fez com que ele se voltasse. que logo acudiram. concertando a roupa e tentando faz er o mesmo com sua pose. Não conseguira fazer com que falasse além do que ela própria queria. O médico. sem se mexer. examinando-se para ve r se sangrava. mas o importante é que se ocupavam dela. Os pacientes.. duas enfermeiras com olhos rox os e contusões faciais.. já fr io e meio comido por uma paciente que dormia junto à janela. não há dúvida. olhando de relance para o cozido. no final das contas. . sutil e cautelosament e. encarando-a com severidade. outra com fratu ra na costela.Não quero . Cerca de uma hora antes da entr evista com o médico. ainda que ela parecesse mais uma máquina d ebulhadora. Déborah ficou impressionada com o núme ro de homens para uma mulher tão pequena. procurando. os agressores e ram mais favorecidos do que os agredidos. Déborah compreendeu num estalo o motivo da agressão. pois era . Déborah rogou mentalmente algumas pragas contra aquela balbúrdia. . quando o mundo subitamente explodiu numa avalancha de comida pegajosa e quente. assim. que veio sentar-se em sua cam a. uma terceira com um dedo quebrado. Foram rudes com Helene ao subjugála. Limpou a sujeira e foi para a cama. com braços musculosos e fisionomias contraídas de medo. O almoço. . teve que esperar meia hora até que um auxiliar viesse destrancar o banheiro para que se limpasse um pouco. afinal. Helene. como em toda parte. outra doente. onde havia sol em abundância." Ouvia-se a recalcitrante sendo conduzida numa cama para o casulo gelado.recomendou a Esposa do Abdicado. faça a guerra! .Volte para seu lugar. soufflé. Virouse para o adminis69 trador e viu-o encolhido contra a parede. preocupavamse com ela. O médico se levantou para ir embora. sem ser exigente. com ess a aparência.Olhe. Ali. implorando num tom bem diferente de su a fala pausada e profissional: . De repente. arremessou a bandeja direto sobr e a cabeça de Déborah. e eles. Déborah pensou.um entre ele e os pacientes.Eu disse. Helene 70 abordou-a e. o dia em que el e acabaria num hospital psiquiátrico também como paciente. Déborah murmurou: . Costumava ficar em reclusão num quarto. fora servido enquan to conversavam. "Relevez. mostrou-lhe algumas fotografias q ue recebera dentro de uma carta. . . ao que parecia. se limitavam a dar a cada h omem o que este realmente desejava. conversando com bastante clareza.Coma. Déborah apreciava. querida .Num único e gracioso gesto.Eles vão arrancar tudinho de você depois. -A afirmação pareceu ao médico um tanto enigmática considerando-se que o saldo da briga fora uma paciente acamada. Não me machuque! Eu sei que você é forte! . .respondeu Déborah. volve u o braço. e com um movimento delicado e preciso. ordenou: . o trigo. . era por ele recebido de braços abertos. que Helene pretendia apenas comer na sala. vinha apenas adiar. Notou que estava furioso e desapontado p or ela ter contribuído para frustrar suas intenções. para subjugar a estranha bailarina. Por entre a sujeira que escorria de seus cabelos e do rosto. arraste-se. Não estavam. tão distantes do mund o. de início. não tem havido injustiça alguma. Helene. Déborah ficou sozinha no meio da desordem.perguntou o médico. Devido à confusão. Não havia injustiça alguma. a beleza daquele baile.

com as pancadas que se repetem sem parar. aproximando-se cada vez mais . explicando quem era. E aparecia na forma de uma antipatia intensa. Era preciso manchar o espe lho para que deixasse de refletir a recôndita vulnerabilidade que transparecera su bitamente. lembrar. . Eu nunca soube por quê. contudo. desen hando sem parar. a auxiliar encontrou Helene e mandou -a voltar para seu quarto..O que é que você sentia nestas ocasiões? . e foi para o corredor. As empregadas não paravam em casa. Pouco depois.É difícil abordar esse período. e e u sempre tinha que "pedir desculpas".Tentei. a colônia de fér as. As pessoas chegavam para mim e diziam. Compreendia agora que o motivo da agressão era querer desacreditá-la como testemunha da vergonha e da miséria lembradas por aquele retrato. Estiveram juntas assim durante um bom tempo: ela ia indicand o um ou outro personagem. não entend ria nada. terra de pesadelos. não. 71 . Embora já tivesse saído da colônia anti-semita. tirando um pedaço de comida grudado no c anto da orelha. vindo das mais ines peradas direções 72 . . Déborah apressou-se a sair de seu próprio dor mitório. Fried . jogou-se na cama.. a porta tinha ficado aberta e ninguém reparou quando el a foi procurar Déborah. Nesse dia. numa traição à sua máscara agressiva.Não. agarrada a ele como a um escudo.Vá embora. nem escutou as pequenas confidencias que trocaram a respei to das fotografias. que figurava no mundo real. apesar-das-lições-de-boas-maneiras. você tinha que preparar as decepções por sua própria conta. ao passar por um grupo d . apenas uma sensação meio cinzenta e a surpresa do inevitável. estou cansada.Onde não existe lei alguma. sem saber por que pedia desculpas. nem descobri o que tinha feito. a escola. e pediu: . Ora.Na escola támbém havia anti-semitismo? .Depois de algum tempo. só essa destruição terrível. até que se deparou com um determina do retrato e disse: . não sei quantas vezes.Você tem certeza de que não está omitindo nada aí: algo que você era levada a fazer e qu e enfurecia seus amigos? . Quando fui pergu ntar a razão.Surpresa do inevitável? . . Fr eqüentemente. imaginar. Conhecendo seu temperamento explosivo. A hostilidade visava só a mim. demitiam-se uma atrás da outra. Na escola as coisas eram mais verdadeiras. nunca mais vou defender você sem que eu soubesse o que tinha f eito ou dito. Carregava o bloco por toda parte.perguntou e sentiu que o terren o começava a ficar perigoso. sofro o tempo todo com a imi nência dessa destruição.e a gente acaba se conformando com a sombra dela. ..Filósofa! .murmurou Déborah para si mesma. essa antipatia se transformava em ódio ou aversão. cumprimentei minha melhor amiga e ela me virou as costas.Temos as mudanças e temos o mundo secreto . Mas a razão disso eu não sei .por mais inevitável que seja. . "depois do que você fez. ou "depois d o que você falou. sua fama de mulher violenta e obscena. A me nor! .mas o que se passou na sua vida nesse meio tempo? .Essa aí fez faculdade comigo. . durante os quais virava uma verdadeira fera.Quem sabe não é porque você mesma procura as pancadas e os sustos nesse mundo? Isso quer dizer que eu mesma preparo as decepções? . a vida continuava sombria e o desespero só fazia crescer. Helene tirou bruscamente a foto grafia de suas mãos. . Não permitia que alguém visse seus desenhos.temida por seus acessos de fúria e violência. aproximando-se. tudo parece se resumir em ódio: o mundo.Imorth . terra de ninguém. ela se voltou e disse: "Depois do que você fez?" Nem falou mais comigo . não é verdade? Déborah recordou-se de uma cena ocorrida numa época em que sua vida consistia unicam ente em esperar o fim inevitável. Caso contrário. Um belo dia.".ponderou a Dra. Certa vez. . Passava os dias sozinha. Não faço a menor idéia. pensar.Referia-se a uma menina simpática.

ao mesmo tempo irritada e assustada: 73 . tudo o que o dinheiro pode comprar. O rapa para ela e perguntou: . . mas a que preço? . e é com os ossos dela que eles dão brilho no cetro. quando viu Carla vindo pelo corredor em su a direção. um de seus desenhos escorregou do bloco sem que p ercebesse. Foi você que imaginou que eles ririam.Estes são rouxinóis. com ela. As pessoas do grupo negar am uma a uma . . para evitar que Déborah se danasse de vez e partisse para querer provar que seu Yr exi stia. que viria a cul pá-la. eu não. acho que vou guardá-lo para me lembrar. . .. cheio de figuras estranhas.eu não. .concluiu ela com amargura para a doutÔra . . gritar. Déborah percebeu que ele só estava tentando ajudá-la. banindo os sinais de excitação.Não.eles me fizeram repudiar m inha arte. Confesse. . ele a defenderia. todo mundo a censurava Desenhou furiosamente por algum tempo ao Terminar. ning uém riu. Carla! Não sabia que você estava aqui em cima. . Entreolharam-se e sorriram.Está vendo . aguardando pre74 guiçosamente o encontro com Anterrabae.Mas Déborah. .perguntou o rapaz apanhando a folha. uma excitação inig ualável.Não. e a destruição que ela própria tramara se consumaria.. com suas recriminações intermináveis. cetros. . Carla parecia exausta. .Quantas vezes dizemos a verdade e morremos por causa disso! Ergueu-se furiosa. pássaros. . a menina tem todas as regalias. Ergueu os olhos para Déborah. estava sendo travada com determinação. . Recompôs a fisionomia.Coroas e rouxinóis! . não é meu. na verdade. Sentiu que brotava dentro de si uma grande esperança e. quantas coisas ela tem!" A Dra.Depende do tipo de perspectiva . o Coletor. entregou a folha à doutôra. mas há símbolos aqui que você precisa explicar. pelo menos.Vejo claramente a raiva. Fried viu sua paciente correr e voltar-se.isto é. isso sim.Deb. Sabiam que a D não era em absoluto a "pior" ala.retrucou a doutôra. O eco emitido de regiões tão profundas testemunhava a saúde que sobrevivia em p otencial dentro da menina. . onde posso gritar. não haveria mais para onde fugir: teria que encarar a si mesma. o riso dos outros.. o rapaz estava implorando que você não a repudiasse e.até chegar a Déborah. eu tinha ódio demais arrolhado dentro de mim.Não! Ao encará-lo com mais atenção.É seu? . Caso a mitisse que o trabalho era Seu .Mesmo assim.Oi. Encarou a doutÔra. de que a força criativa é suficientemente vigoro sa e profunda para germinar e florescer. Déborah estava sentada no chão da ala. Fora-se a antiga apati a. . Era um desenho intrincado. em pânico.Ora. Déb.Guarde isso para mostrar em suas conferências aos médicos eruditos. A responsável pela mentira foi você mesm a. Decidi vir para cá. vamos. Tão graciosos! Olhe. E la possui a mais bela das coroas e o mais pesado dos cetros. D entro em breve. até cair de tão rouca. . o que é isso? quem deixou cair? . foi até a escrivaninha. Coroas.e jovens que brincavam e riam. não é meu.Ei. não é meu! . não. . . Diga a eles que não é preciso ser saudável par a entender de perspectiva linear. . Queria assumir o papel de benfeitor. Agora a batalha.Não é seu? . apena .exclamou Déborah sarcasticamente. A doutÔra.. Os pássaros usam os cabelos dela para construir seus nin hos e para polir essas coroas. e todos exclamam: " Que menina de sorte. correr e voltar-se.assumisse a punição . apesar da doença. apanhou uma folha de papel e começou a de senhar uma réplica às acusações que todos pareciam lhe dirigir.

que passava por elas. como um touro cego. . . . entrando sem medo na esco .Em Concord? Em que ala? . ou participado do perene ciclo de vida e morte a que estavam sujeitos.O próprio. Era veterana em todos os tratamentos de que já ouvi falar. Lee Miller coçou a orelha pensativamente: .. Ela disse que aquilo era um verdadeiro manicômio . guria.Filho da mãe! Fui espancada por ele no Mount Saint Mary. Assim.. . . Só que o mundo agora era povoado de psicóticos e limi tado por muros e por alas. Reviu as ações mais simples e mais triviais. em que as pacientes ficavam contando lances passad os de suas vidas ou trocando os boatos que corriam. se era! O chefe lá era Hesketh.uma pessoa para quem esse lugar fora um meio e não um f im? As perguntas choveram sobre Lee. o instinto que clamava por alg um vínculo de participação no mundo. era preciso conservar um status e respeitar certos simulacros de formalidade. até que ela perdeu a paciência e disse: .Para onde mandaram ela depois? . A Esposa do Assassinado empreendeu uma de suas tent ativas mensais de fuga: investiu de cabeça.Na cinco e na dezoito. Agora ela está vivendo lá fora e trabalhando. como uma série de ima gens instantâneas.s a mais honesta. Doris passou por lá. Agora vão para o inferno! Quero ficar sozinha! As meninas se afastaram e se dispersaram pela sala de estar.Ah. No meio da zoeira. quando c hegavam lá.Crown State. 75 percorrendo o corredor como se acompanhasse em transe uma procissão. Ficou aqui durante três anos. Retcomou a caminhada. reduzidas a uma única dimensão. descobriam que o demônio não passava de mais um entre tantos. e ninguém em p articular. Nas outras. nas alas A e B. conheci Doris quando esteve aqui na D. mas estavam livres das sutis e traiçoeiras correntes da loucura clandesti na. no momento em que a trancavam. por mais que negassem. . A incredulidade foi geral. corredor e pelas camas. mergulhando de novo em seu transe. .Baixo e mei o magro? Olhos azuis? Engole os erres? Ele levanta a cabeça assim? . O mundo exterior e os seres que lá viviam eram absolutamente estranhos para ela. . tão logo as bandejas do jantar foram retiradas .Tive uma amiga que foi da sete. Formavam-se às vezes grupinhos.Mount Saint Mary. tremiam de medo do demônio. e continuava doida varrida. Veio a noite. Meninas dizendo alô.. As pessoas. . Anterrabae exclamou: "És)orça-te para que algum di a saias e Vivas.Onde você esteve antes? . Nós nos conhecemos em Concord. ouvindo o Coletor que recriminava suas faltas em salmo s intermináveis. contra a porta da ala. Déborah ficou no seu canto.Escutem. . mas não sei a fórmula do sucesso e não vi mais a Doris desde que ela saiu! Sei apenas que está lá fora e tem um emprego.perguntou Helene. banheiro. Esforça-te para que algum dia saias e trabalhes e te tomes uma pessoa! Trem eu de medo.Pô.Jessie esteve lá. Será que realmente alguém saía? Será que alguém poderia apontar uma pessoa bem sucedida .Para lugar nenhum. as pessoas sussurravam seus sintomazinhos e to mavam sedativos e estremeciam de alto a baixo a cada barulho mais alto. Os ociosos e os marginalizad os expressavam desse modo. caminhando juntas. um cara mais pirado do que os pacientes.Quem é? . .. uma agon ia exposta ou desesperos violentos. As "Perturbadas" podiam estremecer nas bases sempre. Estou me lembrando. como se ja76 mais tivesse comido com eles nas mesmas mesas. Doris Rivera. enquanto beiravam o Inferno. Mas. . q ue agora lhe pareciam dificílimas. .Hesketh?. foi antes de seu tempo.

até o final do corredor. no tom p rovocador e mordaz que empregava quando as coisas pioravam muito. finalmente.Hobbs. tentou chamar a atenção. Todas as outras mães estão orgulhosas de suas filhinhas! repetia o Coletor. escutando sua própria respiração e.Sei lá! . e compreendeu a fotografia da bela colega de faculdade. deus a raramente vista. e nem sentiu o primeiro choqu e gelado do lençol úmido. o cheiro de pessoas. Alguém dizia ao fundo: . sentiu. chamada também -a Dissimuladora.la. chama! Anterrabae soltou uma gargalhada. mas a ala está mesmo uma l oucura essa noite.Você voltou a si um pouco depois de mim. disse: 77 . .Déborah.Carla? . Passou a enxergar tudo cinzento e a ouvir muito mal. .atraído pela veemência de sua expressão. Desmoronou nele. Lembrouse de Helene. Volto já. . Déborah.muito piores! O momento agora é para te esconderes e ficares escondida. como num desenho animado. Sussurrava Idat. .O tom denotava uma clara aversão. Você está conseguindo me ouvir? . Avolumavam-se os murmúrios oriundos de Yr. . .McPherson procurou de novo se comunicar co m ela: . já! Déborah esperou. em certa medida.Agüente firme. com um gesto imperceptível de mãos.Eu também ainda sou novata aqui. Meninas graciosas. plano e em perspec tiva reduzida.a voz de McPherson. retorcida de um modo estranho por causa da tensão nervosa. que podes ficar abrindo segredos e continuar segura para sempre? Há outras mort es além da morte ..perguntou Déborah. namorando e depois se casando. sendo cortejadas. os movimentos quase esp asmódicos de sua mão. Vá.O que foi que aconteceu? . . eram amigas. Idiota! McPherson passava diante dela.. querendo protegê-la.Quem foi que pegou o turno da noite? . O máximo que conseguiu foi gesticular timidamente com o cor po e com as mãos.O que há com as meninas essa noite? . Tu não és como os outros! Gritou Lactamaeon do fundo de Yr. Vai. Estava tudo branco: ou eram as enfermeiras. ou a neve de inverno. mas perdera inteiramente o senso de direção. . da angústia que a impelira a destruir o rosto visto. soltou um longo suspiro. Tenta! Afastou-se d eixando uma aragem que cheirava a coisa queimada. deixando a realidade voltar aos poucos. en tão. . Lee Miller está com um ataque histérico. Você pode andar? Ensaiou alguns passos.Eu mesma.Quanto tempo durou? .riram um pouco. avisou. Só muito tempo depois recuperou os sentidos. Percebendo que ela estava em pânico. não tenha medo. McPherson olho u de soslaio e parou.. O que há? Não conseguiu responder. Débora se aproximou. .. a figura de McPherson chegando pelo corredor. mas não cons eguiu falar. .. vou chamá-lo. Sentia m-se contentes de estarem ali jun78 embora fossem incapazes de admitir que. . Uma voz chamou a seu l ado: . Cambaleou.Déb?. Carla cont .Preferia que fosse McPherson. quase que agradecida. aos atordoantes lampejos de deuses e rostos do Coletor. Pouco depois. o que despertou nela o desejo de vê-las. O pavor crescia à medida que seus sentidos iam deixando de obedecer à sua vontade. Tiver am que conduzi-la. Logo estaria longe. apoiada em alguém. Deixou-se ficar respirando. O tato também s umia. volta para o mundo com aquela tua famosa doutôra? Rosnava o Censor. onde o casulo aguarda va já aberto. Em meio ao ensurdecedor burburinho de vozes.disse Carla. em meio ao intenso odor de éter e clorofórmio que emanava do Abismo. Achas.Essa noite só? . vou ped ir ajuda. . Puseram Helene e Lena no quarto ao lado .Deb? É você? . a realidade tátil de seu próprio corpo e de suas roupas se tomava extremamente tênue. Conversaram durante um bom tempo.Déb. Déborah avistou.

. .O que foi que houve? . acendeu-se a luz.Não. . uma amargura terrível.." . fazer você sofrer mais. subin do. seu corpo tremia. a realidade. seja verdade. Déborah começou a lutar contra o casulo. Eu sei o que foi que aconteceu conosco. identificada de início por meio de palavras Yri. Entrou e tcomou a pressão de Déborah pela têmp ora. Eu esperava que a qualquer momento Helene di ssesse: "Acalme-se. hesitando se realmente queria saber.. Déb. Déborah.Só porque a sua mãe era louca e acabou se matando. uma amargura recente mas que já se tomara familiar. uma amargur a que encobria uma velha e contundente palavra: Verdade. . Apagaram a luz e saíram. contudo. . No interior do invólucro branco e estático. .Ela ficou boa saiu e agora está trabalhan do." Quando ele saiu de lá. A seta atingira o alvo. choramingando e cont orcendo-se dentro das amarras que a imobilizavam.ou que tinha escutado uma das sessões de Helene com seu médico. . não lhe trouxe alívio. você acha que tem razões para ser mais louca do que eu! . "Meu Deus . mas não me magoou! .O quê? . não foi para agredir você. um pouco menos dessa vez.berrou para Carla.. . virou a cabeça para a parede. Reagi para me proteger. . o coração de Déborah martelava. . que ficar "boas" e volta r para o mundo.era Hobbs. O silêncio é mesmo fatal . Piscaram os olhos ofuscados pela claridade.Ainda está bem alta .Nós não scomos como os outros .Doris Rivera! Aquilo despertou.Não? Deixe mais uns vinte minutos! .Estou apenas verificando .gracejou Carla num tom amargo. em seu íntimo.. e o tom de voz foi subindo.E como não podia entender a razão pela qual tinha sido poupada. .O velho Craig simplesmente não conseguiu suportar aquele silêncio todo.Vá para o inferno! . . nesse novo contexto. a voz de Carla e..Minha doença. já inteiramente consciente.. . podia ver) na cama vizinha o corpo mumificado e imóvel de Carla.murmurou Déborah.O que disse sobre Doris Rivera talvez. . Pressionou a cabeça com força de encontro à bolsa de g elo.declarou para o auxiliar que entrara atrás dele. Não queria magoar você.. para surpresa de Déborah .ouviu a inspiração ag oniada na cama vizinha. sem o menor rancor.as palavras custavam a sair . Naquele instante.Carla.A carne já está cozida? . A gotinha que você pingou já se p erdeu na inundação.pensou consigo mesma .. Desandou a falar. começou a seespreguiçar. Estou aqui apenas para ajudá-lo.perguntou Déborah. o único som audív el eram as suas respirações. . Doeu de novo. 80 .perguntou Carla na escuridão. . E nós ficamos assustadas porque algum dia teremos. as dúvidas. morta de vergonha. sentindo a costumeira dor nos ossos dos pés e dos joelhos provocada pela má circulação. o estômago pesa a.Eu sei. quase chocante. sem maldade: . cujo contato na nuca lhe lembrava a realidade. . ..Foi sim! .Você poderia ter me magoado.a voz de Carla foi cortada pela lâmina do pânico. A fórmula consoladora de Yr pàreceu-lh e. não foi.concluiu reaprumando-se ao lado de Carla. parecia. De onde estava. sessões que se realiza vam na própria ala por causa da violência de Helene.voltei a ser o que eu era lá fora: uma montanha imóvel que guarda um vulcão dentro de si. O corpo tremia. Déborah. parecia uma de nós! Déborah. Por alguns minutos o peso do silêncio pairou absoluto sobre as duas.ponderou Carla. .. . porque existe uma possibilidade de que nos abram essas portas pa ra o mundo.. Sua cruelda79 de. então. . doutor. . é como um copo cheio que transborda. .insistiu Carla com convicção. .. .. e ele cada vez mais perturbado.Essa aqui também . seus dentes rangiam de pavor e frio.Perdoe-me pelo que eu disse. Ouviu-se.

para cima e para baixo do corredor. de forma tão palpável. caso fosse ela quem estive sse longe e doente. ia para junTo 82 . Tin ham recebido mais um relatório. A nova situação oferecia a possibilidade de uma segurança física maior. Agora. O que significava isso para Debby. do banheiro dos fundos e. era quase certo. decidiram esquecer o relatório para o bem de Suzy. Ela própria. no entanto . e vinte e três no do comprimento (incluind o a junção coM a parede) . Esther sabia desde o início que não lhe poderia esco nder a verdade. atravessando. das de reclusão. Esther estava desolada. . em seguida. encarando o pai e a mãe: . mas acabar am voltando a ele. a ala dos violento s. e fi caram esperando o tempo passar. a convergência desses sentimentos conflitantes. Nos primeiros dias de sua permanência na Ala D. cont omando-o onde se ampliava para formar o chamado "saguão".10 A família Blau sentou-se para o jantar. mas não sem reparar no sofrimento estampado no rosto dos pais. afinal? No íntimo. do corredor e dos quartos. bem mais severos que os anteriores. Nos momentos em que estava presente à realidade da ala. . Para aquele andar. Jacob. pedindo sem parar: . levaram Su zy a exclamar.insistia Esther. Jacob leu e deduziu que os ódios. e o máximo que ela podia fazer era tentar acalmá-lo. recomeçando tudo de novo. A perspectiva deixou-a terrivelmente assustada: sofreriam me nos. a culpa por prever a derrota. revestido de placas à pro va de som. via a penas aquele andar superior. camuflou e trancou os relatórios o quanto pôde. O medo e o desejo de tirar a limpo de uma vez por todas aq uela derrota. a enfermaria. Quando se cansava desses pas seios. repetindo mil e uma vezes as palavras prudentemente vagas do administrador da ala. aquela espessa neblin a que os envolvia e os distanciava tanto um do outro. Sempre Debby. só que vivenciá-la implica a em arcar coM um tédio interminável como a própria doença.Cigarro.Muito bem! Ela não está jogada numa cova aí qual85 Quer! Tem mÉdicos e o diabo! Por que então todo mundo vive chorando e lamentando a p obrezinha. Carla tinha vindo do último dormitório até a porta gradeada da ala. Segundo os regulamentos. Jacob furioso. os pacientes que desejassem fumar deveriam fazê-lo no corredor ou na sala de estar. discutindo-o numa espécie de código. por favor! . freqüentemente duvidava do que dizia. redigido! como sempre. finalmente. revestido de grades e barras de ferro. que comia e tagarelava jovialmente. aliás. reformulados pela nova enfermeira-chefe . Os argumentos driblavam a filha.Se você não pode se aliar a eles. para esmiuçá-lo daqui e dali. seguindo-o ao redor da s ala de estar. os terrores e a agressividade que sua querida filha reprimira tinham enfim vindo à tona.Virara-se para DÉborah coM uma piscadela de olhos e disse ra: . J acob também sabia. contomava e retomava pelo outro lado do corredor. não queria acreditar. e que noite após noite vinha atormentar seus sonhos. lute contra eles. desde que "autorizados" por uma enfermei ra óu auxiliar. Isso bastava para despertar imagens grandiosas e feéricas em sua mente. par a lá é que tinham levado sua Debby. havia dezenove furos por dezenove furos. o ódio contra Debby por ela se apossar de todo o amor. Pensava: o asilo de loucos. em termos vagos e pouco com prometedores. DÉbor ah costumava ficar acompanhando o piso. Estava obcec ado com o grito pavoroso que partira de lá. DÉborah pôde dramatizar sua condição por m eio de um simples recurso mental. Já havia duas semanas que os gritos "Cigarro!" "Cigarro!" ecoavam. Era Debby. a coitadinha da Debby! Levantou-se furiosa e abandonou a mesa.Sentaram-se depois. consciente e inconsciente ao mesmo tempo da causa daquele clima pesado. da "ala dos violentos". No teto.Dizem que ela melhorou em alguns aspectos . Fora transferida para que " melhor a protegessem". enfim. dos dormitórios (onde não era permitido ficar perambulando). C hegou a se perguntar se sofreriam. Ao se sentarem à mesa. passando diante das portas do banheiro da frente. Dissimulou. Carla estava sentada ao lado de Déborah na sala de estar. saboreando cada tragada de seu cigarro. para aqueles gritos. Havia dezenove fendas no sen tido da largura do chão gélido do corredor. o dia todo. e o pessoal médico começava a dar sINais de ir ritação.

algumas vezes. Nos momentos de lucidez. pedindo autorização para visitar Déborah em suas novas acomodações. Estavam atrás do cano de água fria. portanto. e por isso não ha via sequer as sessões terapêuticas para quebrar um pouco a monotonia. desenhava um pouco sentada no chão e amparada pela cama da Esposa do Abdicado. nada restava senão esperar o interminável transcorrer do tempo. .Isso significava "muito obrigado" . Só podiam ser usadas na presença de um auxiliar. relembrados apena s durante a perseguição aos frisos. . . o acesso de furor de algum pacien te . ao fim daquelas punições e sacrifícios. reconfortá-la. procurando. Carla pediria primeiro e ficaria coM o banheiro dos fundos onde havia uma p ia ótima.Aquarela. mascarado como o rosto de 84 um esgrimista. acho que preciso lavar os cabelos . Caso houvesse . e os momentos efêmeros e singelos de companheirismo abençoavam como a chuva. e uma entrevista coM os médicos da ala. O tédio da loucura era como um deserto. O plano funcionou às mil maravilhas e. entrevistar-se coM a médica de Déborah. enfim. pontilhado pelas refeições. O administrador da ala não se ocupava diretame nte coM a família dos pacientes. Carla logo compreendeu que ela dera um jeito de furtar lápis e papel e escondê-los. Dentro dos banheiros. ficavam as banheiras. Esther escrevera outra carta ao hospital. sempre t rancadas. freqüentada na parte da manhã pelo pes soal da D. onde os acessos de violência e as crises de agonia despontavam como um oásis. sustos e ntremeados de alucinações sonoras. q ue pedir o banheiro da frente. e ficava esperando que algo acon tecesse ou não acontecesse. Fried estava ausente. agüente. Carla apanhou no ar a ins inuação. estava sugerindo que ambas fossem pedir autorização para lavar os cabe los. Fried. Desistira de "fazer coisas". contudo. Tinha. Vou desenhar um retrato seu . . Déborah poderia ter-se inscrito para a oficina de artesanato. pelo término do almoço . . onde convenceria a auxiliar a abrir a porta que d ava para a banheira e a distrairia durante o tempo suficiente para pegar seu tes ouro. Precisaria de muita. assistindo a um congresso qualquer.acontecimentos. erupções vulcânicas de terror. Se gundo o código. repetia que a pacie nte estava progredindo conforme as melhores expectativas.Assim que puder.Você vai precisar também de alguma coisa onde possa apoiar o papel. como de hábito. um caso. afixado sobre a porta da enfermaria.Que tipo de desenho seria? . os sarcasmos das divindades e os elogios de Yr. especialmente coM a Dr a.. pelo jantar. pe la hora de deitar. A resposta.Meus cabelos estão sujos. . A Dra. Depois. se quisesse. Passava. visuais e táteis. pela distribuição de sedativos e. . Poderia. uma briga. DÉborah e Carla. no banheiro da f rente. sonhos pavorosos. o sono. Ouvia as denúncias do Co letor. finalmente.disse Carla displicentemente. Se não gosta. mas não o fez. sendo narrados. go zavam justamente de um desses momentos. foi preciso esperar pela distribuição das bandejas. os pacientes se divertiam bastante. esta deleitando-se coM o cigarro. cumpria as exigências tirânic as do Censor. . a não ser que fossem utilizados na presença de um auxiliar. exceto se houvesse três auxiliares de serviço no banheiro..Ai. DÉborah teria.Verdade. comunicavam-se por meio de códigos e siderados armas e. seguindo coM os ol hos a fumaça do cigarro da amiga. na parte dos fundos. desprovidos de qualquer interesse. um pouco antes da hora do almoço.É necessário papel para fazer retratos . empreendida pelos doentes ao longo das paredes d a ala. enumerados e relembrados por muito tempo.sugeriu. o ambiciona do lápis se achava enrolado em elásticos e enganchado sob a quarta mola da cama de Déb orah. O regulamento autorizava apenas uma paciente a usar as pias de cada vez. Carla sorriu: .disse DÉborah. mas. ai. Às vezes. proibidos na ala. pela mudança de turno. a maior parte d o dia contemplando o relógio. uma ou outra pa lavra trocada de passagem. perto da enfermaria. permanentemente en garde. e visitas à Ala D não eram permitidas. portanto.das mulheres petrificadas. muita água.Isso queria dizer que tinha um livro escondido num lugar acessível.

nunca se sente à vontade coM as amigas!" "Helene encara tudo como se fosse um a questão de vida ou de morte.algo a tratar. frustrando as esperanças de que. apanhou o trem de volta para casa e. parecia-lhe que não faziam mais do que reproduzir em escala menor. Acho ótimo que ela tenha feito tantos ProGressos. foi impossível cont omá-lo. A mentira que contaria a Ja cob e a dor que precisava guardar dentro de si pareciam refletir-se em tudo o qu e via. como o suor por exemplo. sonhando coM o dia da formatura e preparando-se para ingressar na faculdade. Ao contemplá-las. conseguiria dar um jeito de b urlar os regulamentos. embora de forma ainda mais fri a e mais impessoal. Olhava distraidamente pela janela do trem quando reparou que as revistas continuavam em seu poder. Felizme nte. Quanto ao regulamento que proibia visitas. algo venenoso. reconhecendo um pouco de Déborah em cada um deles. sorridente e tranqüil a. mas não encontrou refúg io. compromissos de trabalho impediram que Jacob insistisse em levá-la de carro. porque da próxima v ez estou decidido a ir com você. Fried a Déborah. e estas. julgando que se tratava de "uma base da doença". e Esther mergulhou o rosto nas flores. As colegas de turma de Déborah provavelmente estavam admir ando aquelas mesmas páginas. BRANCO.. seus olhos se enche85 ram de lágrimas. Também era tímida. já na viagem. Esther conversou coM a assistente social e obteve as mesmas respostas. conversou com Jacob e depois com a família. que se aconchegara no divã. Dav am os últimos retoques nos vestidos maravilhosos que suas filhas usariam. Será que'algum dia voltaria a participar do mundo dessas meninas? O hospital teria sido afinal um erro desde o princípio? Ao chegar em casa. marcariam uma hora coM a assistente social. Chegando ao hospital. . Diria que tinha visto Déborah . Fried. uma secreção. Fried mostrou-se gentilmente reservada. constatou que sua presença em nada facilitava o acesso aos méd icos. uma emanação venenosa. . procurando desfazer os temores de Esther pela transferência da filha para a Ala D. Também era tensa. Esther tinha levado uma boa coleção de revistas para Déborah: sequer permitiram que as entregasse.Como foi que você destruiu sua irmã? . os de Déborah: "Marjorie é tão tím ida. iludindo-os e aparando as perguntas mais embaraçosas com fluência e convicção. Jacob virou-se para ela e disse: 86 . . a ala e os médicos. por sua vez. Terminadas as entrevistas. Trata-se de uma emanação da pessoa Déborah. É algo inerente ao meu eu. ninguém ousaria contradizer suas histórias pelo menos durante algum temp o.perguntou a Dra. e que tudo ia muito bem. foi preparando as mentiras que contaria a Jacob e à família.Maravilhoso. BRANCO NO PRIMEIRO BAILE A página era toda de miosótis. Quando tudo parecia ter ido às mil maravilhas. Suas pequenas idiossincrasias eram idênticas às daquelas meninas.. é uma qualidade do meu eu. portanto. Suas amigas e as filhas de suas am igas já comentavam as faculdades escolhidas como se trocassem cartões de visita. Existe um termo Yri para isso. Procurou distrair-se coM as fotografias e as ilustrações. ela é tão tensa". Não foi por querer..Não. Continuav a otimista. Quando s e encontrava coM essas mães e as ouvia contar os problemas das filhas. pessoalmente.. A Dra. embaçando os modelos horrivelmente alegres que ilustravam os anúncios : FACULDADE NO OUTONO ELEGÂNCIA CLÁSSICA PARA O CAMPUS E na página seguinte: PARA AS NOSSAS JOVENS DEBUTANTES BRANCO. v enenoso para a mente. até que as lágrima s parassem de escorrer. apesar do calor de agosto que fazia na Terra. Esther repassou todos esses diálogos. desfiavam seus sonhos nas páginas de um diário íntimo qualquer. vendo-se nos modelos.Alguma coisa que você diz e que destrói? Alguma coisa que você faz ou deseja? . Começou a folheá-las. Estariam ansiosos para escutar isso . a Sra. tremendo com o frio que vinha de Y r. Também mascarava seu medo coM a pre cocidade e uma certa sagacidade cínica. Ela estava exposta à minha essência. Rollinder. Esther fez a exaustiva viagem de trem só para avistar-se coM a Dra.

vinha s e desenvolvendo havia bastante tempo. as exaltações subseqüentes se encarregaram de transformar o f enômeno numa coisa bastante irreal. Quand o terminou.. tomeou. O disfarce que consiste em pôr toda a culpa nos outros. O céu está limpo e o sol quentíssimo. ou inventar outros acontecimentos. defendendo e embalando a imagem irreconhecível criada por ela.Seus pais castigaram você? . por ser amorosa e impressionável. desde que começaram essas chuvas e esses nevoeiros gelados. .Tentei atirá-la pela janela. . . É um truque velho. mamãe entrou e me impediu. 88 O tumor despertou furioso. Por que não. . basta esquecer. e então perguntou com voz pausada: . continuar louca. . mas o frio e a névoa só existem dentro de você. mas também o que você fez com você mes ma e continua fazendo. Não passam de bons métodos para fugir de uma verdade que pode vir a ser dolorosa.aparteou a doutôra com um gesto de mão. ela as e nfeitará como bem entender. ao saber que outras potências disputavam a sujeição dela. sincero e parecia m esmo acontecer. em parte. . exclamou o Censor . muito a propósito.. Déborah teve um acesso de autocomiseração pela criatura cheia de miasmas que era e pôs-se a discorrer sobre o fenômeno. Não houve estrondo nenhum de nenhum canhão. . me lembrar de um dado que eu tinha esquecido ..E continuar louca.Diga uma coisa: você fazia com que ela tivesse alucinações ou sentisse o cheiro de c oisas que não existiam por perto? Você fazia com que ela duvidasse de sua própria sani dade ou perdesse a noção de realidade? .Eu tentei matar minha irmã quando ela nasceu . sim. Nunca mais tocaram nesse assunto. que parecia uma paixão às avessas: ela e sbravejou.perguntou a doutôra. As encostas e escarpas. A doutôra esperou até que Déborah estivesse e m condições de ouvi-la. A doença.Um momentinho.A doença não está em ver ou ouvir coisas.Ora.Engraçado. Contudo. . por que então não escondê-la e continuar em segurança? . .Como foi? . Para Déborah. Lamento.Você ainda tem sentido muito frio? .disse e ficou surpresa ao ouvir s ua própria voz pronunciando tais palavras.iris. O cheiro nauseante de éter e clorofórmio envolveu-a e as pulsações do coração se fizeram nsurdecedoras. e a menina monstruosa que acabara criando. e desferiu uma flecha aguda que atravessou seus domínios para lembrá-los de sua supre macia. A doutôra insistiu para que voltasse a falar sobre a destruição de Suzy.. se tomara uma criatura estranha e irreconhecível. Quando ia fazer isso.Não. e todas as pessoas que conhecia acabavam. sendo corrompidas por ela: Suzy mais do que ninguém. Esse disfarce s equer foi inventado pelos seus iiris. A doença é o vulcão. ma s a doutôra foi irredutível: . mais cedo ou mais tarde. .Não . sua sombra tomara-se imensa. adornou cada uma de suas infâmias com uma eloqüência absurda. carregado de culpa e tormento. considerando o que fizeram comigo! . minha querida. .Tenho. ou truncar os verdadeiros. Você vem. Eu te preveni. 87 .Subitamente.. Descreveu os ciúmes dos primeiros tempos e o amor que surgiu depois. . Nunca ligam o aquecedor na ala. Invadiu-a um sentimento de profunda grati dão pela família.Pois bem.Quer dizer que continua tentando jogar areia em meus olhos? Déborah protestou. segundo Déborah. mas o prazer de se auto -acusar arrebatara Déborah com tamanho vigor. Déborah dobrou-se trêmula e ofegante de dor.Ah. o que dissera sobre a emanação maléfica era. está por baixo disso Nunca transmiti sintomas a ela. . ampliando cada vez mais seus contorno s e a virulência de sua substância. Evita que você tenha que e ncarar não apenas o que realmente fizeram com você. . isso realmente não adianta.Que seja. Para que uma pessoa se esconda.Não. lá fora no mundo é agosto.respondeu Déborah..

birutas.. Déborah desatou a rir. Imagine a cara dele quando desco brir o que eu enterrei! . . mesmo que em vão..Helene riu e alguém completou: . . 90 11 Quando entrou o turno da noite.Nunca. logo que o viram . espalharam a notícia para as de trás. Segundo essa visão. as pacientes acorreram ansiosas ao saguão para ver quem tinha substituído Hobbs. Em algum lugar. Na noite anterior. O caso era para ser mantido em s igilo absoluto. Pássaro-um. Todas as pigméias-monjasp risioneiras confinadas na Ala D. o mau cheiro do cadáver persegue o crimi noso. como se faz com um cadáver em decomposição. fechado as portas e janelas. Por outro lado. Ao saber da novidade. . me sinto necessária . sabiam do acontecimento. e as lágrimas se recolheram imediatamente.Pois é. lunáticas.que consentira em viver com um monstro e tratá-lo como pessoa.Déborah achava que eles tinham apanhado o fato escabroso e sepultado às p ressas num lugar qualquer.O que é que você tem agora. e todas invejavam a morte.continuou a doutôra. compaixão. Por um instante est eve à beira das lágrimas. acumulando-se ano após ano. O sujeito é um Nariz. Hobbs fizera tinha si do mostrar a língua para elas.declarou ela.. repetiu Yr. pronta para atirá-la. . Hobbs está encerrado. o que o Sr. caçoar a uma distância segura. 89 . Carla limitou-se a murmurar: Gosto de ser a punição dele. . paira no ar.. As que se achavam à frente do grupo. Helene postou-se diante da enfermaria e começou a bater os pés com força. He lene tinha uma frase lapidar: "Um louco é um enforcado cuja corda arrebentou a tem po".Não! Cheguei a carregá-la até a janela. você compreende. .perguntou ela.O que é? Leve-me com você .. que optaria por trabalhar em hospitais psiquiátricos como altemativa à prisão. f lutuando na superfície de lodo. Helene? Caso encerrado . ligado o gás e se matado. sabia muito bem que nessas circunstâncias. A expressão fora inventada por Lee Miller. .. Um dos aspectos de sua doença é que todas se julgavam o centro do mundo. Certa vez. piradas..Morávamos naquela casa ensolarada onde ficamos só por um ano. O barulho atraiu logo um auxiliar. as pacientes não se sentiam obrigada s a manter a decência e a evitar de falar mal do morto. . mas a morte e suas convenções eram encaradas com o maior desdém. Só por serem loucas. Nariz era um des ses condenados arrependidos. numa ocasião em que ela disse: "Ah. Lactamaeon levou-a até o pântano para que visse. Tu não és como os outros. o Sr.. aí vem o govemo e diz: Vamos esfregar o nariz de vocês naquilo para verem o que é 91 bom! Escolham: ou a prisão ou o hospício! . vergonha e intimidade. ele s são os Narizes e nós o aquilo. Seu sorriso sarcástico deixou o auxiliar furioso. esses desertores. Quando o turno da noite entrou. inclinando-se para ela. . há um ladrão que ouviu dizer que as pessoas co stumam enterrar e esconder seu ouro e suas jóias. Detesto todos eles.e riu. mas a doença se apressou a lembrá-la de que chorar era humano.Vim anunciar que o caso do Sr. tentado o suicídio de uma forma mais ou' meno s diligente.Compaixão. .Vergonha e intimidade.Não foi só a idéia de matá-la? . até as mais alheadas. Hobbs tinha ido para casa depois do ser viço. mas com uma amargura que era rara nela.Que cheiro horrível é esse? . .E o burburinho foi crescendo. E apesar de tudo o q ue me deram. As deformações físicas mereciam uma certa piedade. Havia em Yr uma região chamada Pântano do Medo. . impregna tudo com sua podridão e seu ranço.E seus pais de fato nunca tocaram no assunto nem fizeram perguntas? .Ambas riram. enquanto as loucas furio sas. Todas tinham desejado se matar. de tudo o que fizeram por mim. tentavam acertar uns bons tapas nele.É um Nariz.Depois da operação. . os monstros e os corpos de seus mais temíveis pesadelos. . Eles se recusam a lutar .pediu a doutôra. foi a resposta dele.

No entant o. tal como esposas provincianas. ele vai desmaiar! e depois ressentida . tal como Déborah anteriormente.Atenção carrascos de Hobbs. muito menos entenderam. por descuido. coitado. para que as enfermeiras. .Aposto que está com medo de que a gente o contagie .a.. Caíram todas na gargalhada com essa alusão a Hobbs. .disse McPherson.Os Narizes costumam vir aos pares. Eu também não gosto desse negócio de chaves ..Sem essas chaves. . Afastou-se dali. Mary. Repetiu-as.fechadura. Abriu-se de repent e a porta da ala e McPherson enTrou Num instante todas se acalmaram. .Talvez ele seja bonzinho .comentou a cerimoniosa Mary. Viviam sentadas no chão e ninguém dava por isso. por se tratar de McPherson.Levantem-se do chão. O homem.declarou com voz cantada. As pacientes caíram na gargalhada.. ao ouvir os gritos.. que tinha morrido por causa disso.Qualquer coisa é melhor do que Hobbs. Todas ficaram contentes com a presença dele. a procissão de magos voltou a desfilar diante delas. a reação delas oscilou entre o divertimento e o ódio. Quando. sabia? . e que iriam se esforçar para satisfazer o desejo do exército de que o treinamento desse homem fosse rigoroso. daí terem que ocultá-lo. comentou rindo: .. . mas bastava chegar um con vidado.disse Carla. e Mary..Ela também é uma pessoa. com os maxilares contraídos de pavor. Helene estremeceu de repugnância quando ele Passou. Suponho que devemos chamar um deles de Nari na . Sentiu obscuramente que essas palavras feriam-no de algum modo. Queria dizer com isso que os seus pés estendidos à frente do assustado rapaz simboli zavam os aparelhos nas corridas de obstáculo que os recrutas tinham que saltar dur ante o treinamento militar. carr egando consigo o Nariz todo empertigado. ninguém fez comentários irônicos a respeito daquelas súbitas ausências me ntais dela. . e percebeu que ninguém tinha compreendido.disse antes de entrar na enfe rmaria. era a expressão verdadeira e natural de suas personalidades. da seção de reclusão. . Carla arm ou um olhar de pasmo. trocado. que ela e as outras compreendiam que lhes cabia subs tituir os "horrores de guerra". Voltou a se recostar em silêncio. só que demonstrar esse sentimento signi ficava demonstrar que eram vulneráveis. porém. tinha aberto no. contentou-se em rir. A entrada de McPherson constituía para ela um acontecimento absolutamente diferent e do anterior. muito mais de si mesmo do que de las. 92 cacarejando desculpas por tudo e por todas. Como a presença de McPherson paira sse ainda no ar. Ap ressara-se apenas a tapar a brecha que ele.pediu a enfermeira-chefe da ala às meninas que e stavam sentadas de encontro a parede no chão do saguão e do corredor.Deviam ter trocado a fe chadura. que o novo membro da equipe teve de empreender ao longo da ala. procurando descobrir qua l delas era a culpada. As enfermeiras. aí vem outro freguês para o gás! . A expedição acercou-se delas.Obstáculo! . por favor! . contu do. lamentan aue a casa estivesse "tão des arrumada". Ficaram para assistir a primeira caminhada. para elas. Carla olhou à sua volta. não riram. muro. extenuante e interminável. soltou uma gargalhada e proclamou: . Deviam. ter. As pacientes sabiam que aquilo era mera for malidade. que é isso? Não scomos assim tão diferentes! .Chiii! Meu Deus. não p uderam conter a crueldade que. um riso bonachâo. .. Ao perceberem isso. Constantsa. isso não lhe despertava nenhuma reação sarcástica ou agre ssiva. estava at errorizado. com sua jovialidade importuna.. como se a porta e a fechadura fossem outras. contentando-se em repreen dê-las novamente para que saíssem do chão.Vejam só! A quem pensa que está enganando? . enquanto esfregava nódoas invisíveis de sangue. começou a gritar assim que o viu. Déborah ergueu os olhos para o Nariz. perdida de novo no seu limbo. Constantia parecia estar decidida a passar aquela noite ando. Seguiram adiante. Ora. Déborah olhou para com severidade e comentou num tom significativo: .disse Déborah. v ocê não se distinguiria de nós! McPherson.exclamou Helene sem nenhuma malícia.

A enfermeira olhou para ela aborrecida.disse Lee lacônicamente. Expusera-se por causa de outra pessoa que jamais iria elogiá-l a ou demonstrar gratidão pelo seu gesto. nem faria sentido para você porque foi parte de uma conver sa. as n oções habituais de tato. Todas emudeceram assombradas.incapaz de pronunciar uma palavra sequer. pois se não chamar a culpa será sua. Era preciso que se fizesse algo por Lee. voltaram a abrir. Não! Não! Se fizerem isso. Dissolveram-se as paredes e o mundo se desfez num grande caos de sombras. Foram revogadas todas as leis da física e dos sólidos.Isso não tem importância. Uma aura de luz sombria rodeava Lee. bateu. Tudo girava à s ua volta. compreendeu como seria absurdo r eproduzir qualquer fragmento da conversa.. melhor. raramente usado: nelaq. Gostaria de agradecer a Lee por se ter exposto 94 sua falta de visão. Atirou-se impetuosamente em Yr: . . De qualquer maneira.Ai. ou seja.falou Sylvia que estava encostada à parede. nada em Déborah re spondia mais. Ele deve ser mil vezes pior que o outro! . Depois da memória. agora. O silênc io pairou sobre a ala. cujos raios feriam-na como facadas? Perdeu totalmente o contro le de seus membros: não sabia onde estavam os braços. . mas não conseguia articular as pala vras necessárias.Vamos chamá-lo Hobbs Leviatã. mas não houve como decifrá-lo.O relatório da ala ainda não está pronto . forma. Déborah tateou em busca de chão firme onde pudesse se ergue r.Quanto mais f undo. transida de medo. . Adams virá Sempre vem. Bateu. e até mesmo o Yri transformara-se num emaranhado de sons inarticulados. tão muda e enregelada que se confundia com os móveis da ala.Sobre o que? .. ora distante. foi a Vêz d o cérebro esfumar-se. A vistou à distância um fragmento de superfície mas o vento logo carregou-o para longe. as pessoas procuravam se convencer de que realmente havia m escutado aquelas palavras e de que elas partiram da criatura muda e enregelada que era Sylvia. não tinha limites. Sua voz era tão inexpressiva que o som parecia ter vindo da própria parede.Chame a médica . Procurou coordenar as idéias e constatou que pe rdera também a memória: sentiu-se incapaz de recordar uma só palavra. aí está o mundo. Déborah tremia.perguntou a enfermeira . E de onde p rovinha essa luz. Dirigiu-se à porta da enfermaria.Sylvia falou! . Cristo! Por favor! Déborah. Encerrada num corpo inerte inerte como o de Sylvia agora .£ bom que você chame a médica.E então. gravidade e luz. Toma-o! Irrompeu um vento tempestuoso. mas estava fechada . Da última vez que Sylvia falou. O flamejante Anterrabae acossou-a às gargalhadas: Como ousas solidar izar-te com o mundo! Traidora! Serás punida! Yr cerrou-se sobre ela. que observava o desespero de Lee Miller. mas seus esforços foram em vão: o chão se desvaneceu como uma miragem no deserto. O terror. Não admiras a nelaq tankutuku? Pois bem.retrucou a enfermeira e fechou a porta. Yr louvava a coragem de Lee.exposta aos perigos e distante do refúgio. As direções embaralhavam-se.a descoberto . Pressentiu que sugeriam algum segredo pavoroso.Por que vocês estão tão excitadas. nem como movê-los.93 . movimento. . enlouqueço! . Era impossível determinar se estava de pé ou sentada. extinguira-se o b reve e pálido lampejo de vida em Sylvia. falta de visão. Passado algum tempo. até que vieram abrir. ela veio às três da madrugada! . o que era vertical e o que era horizontal.ela falou ou fui eu que escutei? .implorou Déborah.O que foi que ela falou? . ora próximo. O Yri tinha um outro termo para designar tal estado. era o sinal de Yri para quem estava tankutuku .A religião deles condena o suicídio . . Finalmente.? . como se estivesse diante de um vendedor inoportuno. Fazia um ano que Sylvia não dizia absolutamente nada .Lee Mi ller foi a primeira a reagir. hein Miller? . Ela se encontrava naquela região medonha chamada "Envolvimento" ou "Realidade" e ninguém podia ajudá-la. Restou-lhe apenas uma sucessão vertiginosa de sensações inidentifi cáveis posto que faltavam palavras e idéias para enquadrá-las. Entreo lharamse descrentes de seus sentidos . não minha. L ee bateu de novo.

porque agora ag rediam Ellis. uma consciência razoável de que existia.respondeu Déborah. quando ele vinha trazer a toalha. porque podemos jogá-la para cima. Imaginavas. dem ente. O problema é que não havia gente suficiente na equipe.. voltou para o quarto. chama dos pessoas. e dizia: . a Dra. Fried perguntou a ela o que havia descoberto desde a última ses são. tentando diminuí-lo.Descobri o que é ser insana . lunático? Pobre de ti! Vês agora que elas são todas muito. tomava-a. p ara ele virtuosa e justa. também não gost ava muito de Ellis. Lá fora. a insanidade ou era 96 deserto merecido para suas vítimas. ou ainda. o sol de verão resplandecia sobre u ma paisagem verdejante. morto e putrefato. o coitado arrastar o seu Leviatã. McPherson pe nsava com seus botões que não havia no mundo caçadores mais sagazes e implacáveis. fundir a cuca. envolveu-se no cobertor e. e fic ou aliviada ao reconhecer que era a sua. . ficar louco. McPherson sentia essa atmosfera de ódio e violência pairando sobre a ala. as três coisas juntas. o que tinha ingressado na Ala D. Estás vendo como é. preferiu se afastar À sua volta. Helene. do qu e esses doentes na arte de desferir as setas sobre o ponto mais fraco do animal. Dirigiu-se a uma delas pa ra esclarecer uma questão que lhe parecia irrelevante: . De acordo com os preconceitos alimentados no homem.disse Anterrabae num tom condescendente. do poder e do horror contidos nela. . enfim. não ousava participar desse outro tempo. No entanto. Nauseada com o frio que sentia.É realmente incrível! é realm ente é incrível! A guerra entre o Nariz . Detestava e temia os pacientes. uma verdadeira monstruosidade.A pessoa obviamente não entendeu. Levantou-se.Ao emergir da Punição. Pessoalmente.Puxa! Então em que dia foi? . Helene jamais voltara seu arsenal de conheci . . Notou que estava dei tada numa cama que não era a sua.Scomos capazes de manipulá-la. e um del es até demonstrava habilidade no trato com os pacientes. Meneou a cabeça . estavam se saindo bem em alas diferentes. com uma pequena m esura. porque estamos te protegendo. muito verdadeiras. lembrando-se com reverência da imen sidão. deitou-se numa cama. Amém.. ridicularizando algumas de su as passagens para escandalizá-lo. corpos de três dime nsões reclamavam do calor e abanavam-se. e encarava o govemo que o punira do mesmo modo que os mártires cris tãos deviam encarar os procuradores romanos.e as pacientes prosseguiu. e como estava ator doada demais para insistir. como decidiram chamá-lo. que todas es sas descrições não passavam de metáforas? Perder a cabeça. as doentes lutavam com as armas que seu est ado lhes permitia. Vendo. mas procurava mostrar-se si mpático com ele. pelo me nos. tinha. e virá-la pelo avesso. o medo dos primeiros dias foi cedendo lugar à cólera. Da próxima vez que admir ares o mundo. Os dois outros n ovos condenados arrependidos. o intrigava: porque agrediam Hobbs e nunca a ele. ou uma vingança de Deus ou uma obra do diabo. Estavam roxas de frio. para b aixo e para os lados.Que dia é hoje? . Embora não conseguisse reconhecer ninguém. Contra a repugnância que ele extemava. Ellis não servia de jeito nenhum para o trabalho. Não brinques conosco. Pássaro-um. a religião de Ellis considerava o suicídio um dos pecados mais terríveis. Amém. portanto. saiu para o saguão. conhecerás um castigo mil vezes mais terrível. de que via corpos em três dimensões. E para tomar as coisas piores. . Um fato. Não era para menos que estava condenado a carregar o espectro de Hobbs que os pacientes lhe haviam imposto com os seus apelidos. porém. . Passou a se julgar vítima de uma perseguição religiosa. mePherson. Mais tarde. temer osa de que a Punição voltasse a fustigá-la e a arrebatá-la de novo. que se moviam num elemento chamado tempo. por 1 acaso. As letradas reescreviam a Bíblia. Pássaro-um. Constantia fazia-lhe propostas ostensivamente li bidinosas.E Déborah atormentava-o com ob servações ferinas sobre as similaridades entre os psicóticos e os fanáticos religiosos. Não brinques conosco. um már tir. sem saber o que fazer. .De Paracleto a Paranóica.ou Hobbs Leviatã. os.Quarta-feira. e não a ele. a primeira coisa que viu foram 95 as unhas das mãos. tiritand o ainda.

deixe ele em paz. no entanto. Constantia.deixe em paz o Sr. Hobbs Leviatã! . evitava feri-lo com palavras cruéis. McPherson. E. Nada de piadinhas.. os sedativos e finalmente o sono. Suspeitava que não se tratava apenas de uma questão de sorte.. está bem? Por que eu? Quero que todas vocês deixem-no em paz.Afasta-te do meu caminho. As provocações imediatamente recomeçaram: .mentos contra ele. Desta vez. Não sou simpática. hum! com todo mundo. Blau estava parada ao lado das grade s do aquecimento. embora 98 O rasto de tensão permanecesse ainda por alguns instantes Evitara-se por pouco um grave incidente.Mesmo com Marie e Lena? (Os próprios pacientes consideravam-nas os casos mais gr aves da ala). satanás! . muito menos delicada. instaurando um co ntraste patético. Foi uma gargalhada geral... sentia-se que pairava no ar uma i ntranqüilidade ameaçadora . não muito cont agiantes. "Sou a morta que medita". respondera ela com uma voz sumi da.Linda. destrancou a grade. Fique sabendo que ele era um dos nossos! A única coisa que o separava de nós eram os cinco centímetros de metal da sua chave. A srta. . o cair 97 da noite. . sai Ellis da enfermaria onde estivera redigindo os relatórios médicos. Perguntara-lhe uma vez o que estava olhando. as intenções e os homens do mundo superou a prudência e motivou a p ergunta).O cara recebeu uma comissão. delicadamente. Déborah enfiou-se na cama como de hábi to. Nada de referências a Hobbs. Ecoaram os sons delicados de uma música romântica para dança. o qual era liga do apenas durante certas horas do dia e sintonizado em músicas inócuas.. tá? Sentiu-se. adeus. continuava enclausurada e m si mesma.. o grande monstro marinho.Hum. porém.. murmurando para si num canto. que envolvia a ala. Assim que tcomou o sedativo. soou.Déb. . Observou as pacientes apáticas esperando o jantar.Bati as asas em despedida. adeus. Marion..Hobbs cometeu suicídio e o exército cometeu Ellis! . McPherson era o único que conseguia chamar as p acientes por seus apelidos sem que isso soasse falso. mas não é bem a do tipo que confere patente. embora estivesse fora do quarto de reclusão. naquele momento. Déborah Blau. das suas convenções e rotinas. Sue Jepson e as demais estavam en tregues às suas manias habituais.Quais são as últimas do Inferno hoje. Ellis.Eu sou a Esposa de um Ex-Presidente As sassinado dos Estados Unidos! . Não compreendia como e p or que escapava aos desafogos de amargura e infelicidade que o rodeavam. livre das minhas amarras. tinham convencionado que nós estamo s fora do jogo. Pretende falar com todo mundo? (A suspeita e a cautela contra os pedidos. os normais. ficou esperando que o sono chegasse Deuses e o Coletor foram gradativamente se reduzindo a um sonolento meio-tom e iam apagar-se quando McPherson entrou no dormitório e parou junto à sua cama. rescendendo a urina e a desinfetante.Isso é hora de perguntar? Deixe-o cuidar primeiro de suas ovelhas! Havia um rádio embutido por detrás de outra espessa grade na parede.Ei-lo que surge. Deb . Lee Miller cerrava e descerrava os den tes. com a atmosfera pesada. dá é grilos na cuca! . Os ânimos se acalmaram.a voz dele era suave . a carrancuda. hilariante mesmo.Não. pastor? . Carla replicou. foi até o rádio. Nisso. Quando a voz lânguida do locutor desejou-lhes uma "boa noite sob esse céu estrelado". e conheci Hobbs melhor do que você. sem vacilar. .Ora. . por que eu? Pensei que vocês. Cabot insistia do dormitório . usada. e ligou-o bem alto. os qua . numa paródia melancolicament e romântica: . fitando alguma coisa para além da parede.mais do que a simples soma das intranqüilidades individuai s.

devido à sensibilidade e aos temores de Déborah. falando a respeito de sua irmã. uma brincadeira misteriosa que todos conheciam mas ninguém admitia conhecer.A segunda da classe não basta.Yr exis te! Não tenho dúvidas de que. .Empenhara-se em aguçar a sagacidade verbal da neta nos mo ldes da sua. imitando as pessoas: Acorda menina! Tire essas besteiras da cabeça! . você tem que ser a primeira! Ou en tão: . mal se sentia ameaçado. embora os sin tomas estejam intimamente relacionados à doença e influam por vezes sobre ela. Lembrava-se nitidamente da sua voz fam iliar incitando: . o poderoso soberano da dinastia.Vou tentar. então. ao retrucar. você acha que todas as pessoas doentes estão em hospitais? Vocês se julgam. O orgulho. como se tudo fizesse parte de uma trama.is ele se apressava em afagar. Um dia você se sentirá satisfeita consigo mesma. A sombra do avô. lame ntava o fato de Déborah ter nascido mulher. Ainda assim. (Débo rah lembrou-se do que dissera à Carla e voltou a sentir99 se culpada). Ele a encarou com o rosto severo. surpreendendo Déborah com uma atitude que ele nunca tomara antes. vinha carregada de ódio. antes das encos tas terem sido decoradas para darmos uma olhada juntas no próprio vulcão. Vivia chamando as mulheres de vac as e putas parideiras e. pareciam t ambém apontar o caminho da destruição final. nunca chore. .ain da dará uma boa lição neles! . continuou falando baixo. entretanto. Aos poucos. sent iu que ele estava tranqüilo. dando-lhe tapinhas de uma brutalidade mal contida. é claro. . Déborah começou a perceber que havia muitas razões para o horr or que o mundo lhe inspirava. . McPherson deu meia volta e saiu do dormitório.Estas e outras advertências visavam precavêla contra os cúmplices sorridentes da brincadeira secreta.recomeço a Dra. 100 12 já uma coisa que você disse numa das sessões anteriores que não me sai da cabeça . Ria! Não permita emhipótese alguma que 101 eles vejam que conseguiram-atingi-la. Você não concorda que. bem como as inúmeras pequenas decepções que são vitáveis na vida.um t om de respeito e sinceridade entre iguais.Escute. pr ojetava-se ainda sobre todos os da família. Nunca a vi molestar outras pacientes.Afirmou que estar doente era como ter um vulcão dentro de si e de pois. pensando sobre o que ele ti nha dito e como o tinha dito: palavras duras mas verdadeiras. segundo ele.mas quero lembrar-lhe que muita gente lá fora gostaria d e receber ajuda e não pode. . Esta noção de orgulho. acrescentou .Ótimo. consistia em morrer com dignidade e agonizar como se o fizéssemos todos os dias.Quando a machucarem. ele existe. Embora não conseguisse enxergá-lo na escuridão. teria que desafiar o mund . O pavor que sentiu ante a responsabil idade que aquela franqueza impunha veio temperado com uma sensação nova: alegria. Tinham percorrido já as Grandes Decepções. . não se trata da mesma coisa? Concordo. Lembrou-se do estribilho que durante anos o Coletor repe tia. há um outro aspecto que você parece admitir: a doença e os sintomas são coisas distintas. McPherson. Fried. donas de todo sofrimento? Não pretendo trazer à tona questão de dinheiro isso é mais do que sabido . ainda que se confundam freqüentemente.dizia . Déborah lu tou. para você. No entanto. sobretudo num hospital psiquiátrico . disse que caberia a ela decorar as encostas como bem entendesse. . burilando-lhe as arestas ferinas. que você me levasse de volta ao seu passado.Você é esperta . por acaso. Você deve saber reconhecer uma perturbação mental à primeira v ista. Deixe Ellis em paz. contra o efeito dos sedativos. Déb. mas que.exclamou Déborah. recuando sobressaltada. por algum tempo. Percebe agora o que isso significa? Será que você realmente não vê que os deuses os diabos e todo este seu Yr são coisas criadas por você mesma? Não foi isso o que eu quis dizer! .Não de uma só vez. Gostaria.Perceben do o olhar assustado de Déborah. Graças àq ueles meses de terapia.raro em qualquer parte. mas sua voz vibrava de indignação. Sob a indignação perce bia-se um tom . Nunca a ouvi insultar uma delas.

. ela abortou. Durante muito tempo... Ela é grande e branca.concluiu a doutôra . e. . não dê o braço a torcer! . Justifiquemos a psiquiatria (Risos). apenas tonalidades cinzas. As ilusões inspiradas pela próp ria precocidade: você era especial. e a. Percebiam temerosas o que se passava com ela.Não e xiste cores.E. tropeçando nas palavras.Salvação! . meu. disse: .o todo. sólida e indiscutível daquel e momento. . No entanto esta precocidade mais iludiu. em seguida. m inha.Sentia. .deixou escapar Déborah. à medida que o poderiu de Hitler se ia expandindo pela Europa. . amor. . Débora h lembrava-se de ter encontrado várias vezes a mansão dos Blau salpicada de tinta. Só que essa condição. da verdade. O avô.As decepções com o mundo dos adultos. ocorriam manifestações germanófilas e at entados contra sinagogas e vizinhos judeus que ousaram abandonar os guetos. Eu sou pequenina. pelo avô. .encorajou a doutôra.Continue . são todos u ns idiotas. pôs-se avidament . com palavras cheias de ódio.. O abismo existente entre a menininha rica. Ela dá comida. . . não existiria. Caminhe de cabeça erguida.Teve.. cercada de cuidados. Onde está a minha. Deixe estar.. não é? 103 Uma luz projetou-se sobre o passado. Tudo cinza. como se visse nesses episód ios uma espécie de obscura confirmação. e vencer. Acredite nele. Portanto.Tenho um pressentimento. . exclamava triunfante: . que falava de um lugar onde já estivera antes . você se constituía num solo dos mais propícios para que a semente de Yr germ inasse . no entanto. O abismo existente entre as pretensões do seu avô e o mundo que a cercava. o qual para ele se resumia num bando de tolos e ingratos. Conheceu de perto esse ódio anti-semita e chegou mesmo a ser agredida uma o u mais vezes por valentões da vizinhança. essa ciência com a qual nós duas estamos trabalhando. . Eu não como. .Sua o quê? Vamos! . eu. Há barras nos separando. algum dia você vai lhes dar uma boa lição! A "lição" que ela tinha que dar consistia em exibir uma impostura que seduzisse e im pressionasse as pessoas: sua precocidade. Nas cidades maiores. .Você ainda vai lhes dar uma boa lição! Nós dois scomos iguais. por outro lado. é c orretíssimo. A Dra.Meu. expondo a verdade. onde eram fuzilados pelos poloneses "amantes da liber dade"... acrescentava: . Se não confiasse. esbarrava contra a impossibilidade cruel de você consegui r a ascendência desejada junto às pessoas de sua idade.Sua mãe não teve problemas de gravidez quando você era bem pequena? . a ancestral e mística guerra entre um imigrante aleijado e um Conde de Latvia morto há séculos? Déborah cresceu num ambiente e numa época em que os judeus americanos continuavam ac ossados pelos terrores da lembrança das velhas batalhas das quais haviam fugido do Velho Mundo alguns anos antes.E você confia em mim? . Os resultados pareciam confirmar as pa lavras do velho.. as novas batalhas. Gêmeos.E depois viajou para repousar por algum tempo. partiam imediatamente para uma posição de ataque. Déborah usou sua sagacidade cáustica para con estarrecer os adultos.Não sei.E o quê? Onde está você agora? . e sábias. e seu ódio repercuti a intensamente na América. o u ratos mortos fedendo de manhã ao lado do jornal que noticiava a fuga dos judeus para a fronteira da Polônia.Mas é claro. . enquanto vigorou a trégua armada 102 o mundo. no entanto. Os outros. empregadas. Déborah.É inveja! Os mais capaze s e os mais espertos são sempre invejados. as crianças de sua idade. Recrudesciam. A coisa veio num estalo.Vá em frente ora. em seguida. Fried perscrutou atentamente a fisionomia de Déborah por algum tempo e. por mais impressionante que fo sse para os mais velhos. e se a agredir em. Vamos experimentá-lo juntas? . O conhecimento básico que você tem a respeito de si mesma. vestidos importados.

não ser cruel com o S r.Fcomos muito bem hoje. .O vulto branco deve ter sido uma babá. eram as b arras do berço. A babá era distante e fria.disse Déborah. A doutôra.. Ao invés disso. Ei! Ei! . impelida por um medo obscuro ao contato físic o. é tão vasto quanto a sensação de abandono e a da perda de todo o amor. a vivência de uma situação de abandono . e m mais uma prova irrevogável de que havia nela algum defeito. . Cada vez que você é chamada a recordar o frio do abandono. e o frio é o mesmo frio de antes. simplesmente.. de passagem. a vida é assim. uma mentira inócua e reconfortante com a qual pudesse iluminar o caminho de volta a Y r. genético. Libertou-o de Hobbs. projetou-se sobre uma outra região.Cheguei a pensar que ia morrer até que.. e o frio e a perda da capacidade de distin guir cores.. como se estivesse agu ardando ali há muito tempo.É você quem estabelece o preço.do melhor modo que pôde.concluiu Déborah. 13 O tempo passava. A Dra. provavelmente. da terra à terra de ninguém. quando não simpática . finalmente. essas faixas escuras diante d os meus olhos são as antigas barras do berço. Eu me pergunto qual será o preço. . buscava para além do corpo trêmulo de sua aciente vestígios do almejado espírito que reluzira por alguns minutos. encerrando a sessão. Fried sorriu: .. então." A doutôra ergueu-se. e o distante pesadelo foi. Localizamos dentr o de você onde certos fantasmas do passado continuam agarrados ao presente.. Muitas c rianças até mesmo perdem os pais. pois o lugar onde a mão pousara começou a fumegar sob a manga do suéter e a pele encarquilhou cobrindo-se de bolhas. e procurou se mostrar obediente.A luz.. numa revelação imen sa e maravilhosa. barras e a solidão. de estágio a estágio em Yr.. eles voltaram. . Déborah era jogada daqui para lá como uma peteca. Esperava que a doutôra ensaiasse qualquer objeção tímida. é o que acon tece agora.Seu pensame nto pousou um instante. Meu próprio berço. vendo faixas escuras subir e descer diante de suas retinas. Diga a todos em Yr que não ou em prejudicá-la nessa sua busca. . outros fugindo atemorizados à descoberta d e uma similaridade sutil existente entre os pensamentos expressos pelas loucas e . Uns se foram aliviados por te rem perdido o medo dos doentes mentais.Por que só eu vejo essas faixas escuras? Não há ninguém que não tenha ficado sozinho em certas ocasiões. . tr ansformando subitamente as conexões. . um defeito intrínseco.murmurou Déborah. . Teve razão. .Não pretendi a tocá-la antes que estivesse pronta para aceitar isso.Trabalharemos com afinco. tentando. Esta sensação ocorre freqüentemente. mas nunca imaginei que pud esse ser verdade que estive realmente num lugar assim. perdendo seu aspecto sobrenatural até se tomar. juntas. Um nov o grupo de estudantes de enfermagem veio e se foi. ess a vivência grita lá no fundo: "Está vendo? No final das contas. A sensação que eu tinha era a de que todo cal or havia desaparecido. 104 . exatamente o que acontece agora! É uma parte do Abismo. notando a palidez do seu rosto.e a preencher as lacunas.. Ellis. vieram palavras incisivas. .As recordações não perdem necessariamente suas formas originais. ainda limitadas e hesitantes.. As barras. . De repente. por uma semana ou duas talvez. A doutôra tocou-a no braço: . no limite das fr onteiras que demarcam o mundo dos sãos. outra dúvida a assaltou. Sempre me intrigou o fato de que não era um frio como qualquer outro que eu pudesse supr imir vestindo um casaco.desculpou-se a doutôra. A enxurrada de palavras chegou ao fim. concentrada em suas deduções lógicas.Portanto.. . agora! Quando sinto que vou despencar.Pára-raios . A dúvida logo se transformou em certeza. pouco a pouco. e acabaremos compreendendo.sua própria existência .Perdoe-me . e nem por isso acabam loucas. arcando com o martírio dele . da luz do sol às trevas da noite..As barras do berço. olhando através do suéter a carne chamuscada. acabam adquirindo um peso que pode vir a ser insuportáv el. mas depois de recal cá-las anos e anos seguidos. uma semente ruim. para logo de pois submergir. agora plenamente gratificante. Déborah retirou o braço das mãos da doutôra.Enquanto for possível suportar . e imaginando como devia ser horrível alguém servir de condutor à terra para uma potência dessa ordem .

e sim ela. Acab em comigo. Não havia prazer. No entanto.Assim como o Poço? .Deixem-me morrer! Pedia que a esmagassem de u ma vez por todas. disse Déborah a todas as divindades reunidas em utilizando a habitual saudação Yri.Vamos logo com isso Anterrabae. Percorrem-me. A chave rangeu na fechadura.e agarrando °braço da enfermeira. o céu cobria-se de sombras por entre as barras da janela. . Uma enfermeira " trouxe-lhe a bandeja do almoço. sofram. anunciando a partida. Déborah não tinha a menor idéia do que eles estariam vendo no seu rosto. afastou de sopetão o braço trânsida de medo. virou-se para uma pessoa que vinha atrás e ordenou: . terríveis e inconfessáveis.. gemendo baixinho: . morrerão ou enlouquec erão. Aqu i tenho sido fio de cobre e as pessoas me confundem com bronze! Anterrabae riu.Através das órbitas dos olhos. chutava-o na b oca do estômago e na região tumorosa que se rompia como um melão podre. a escolha inadequada das palavras só fez deixar a estagiária mais alarmada. sugeriu ele. o sangue e os ossos.a falta de jeito 106 tomava os seus gestos extremamente bruscos . pela violência devastadora e gra ciosa de Helene e pelos olhos alheios de Déborah. e desaguam na enfermeira. a fisionomia da enfermeira co ntraiu-se de medo. .. Coletor. pelo visto transpareciam em seu rosto . desferiu um g rito e caiu no chão. situado a pouca dis tância do saguão. acreditava neles. Déborah sussurrou depois ao cruzar com ela: "Errada não.Exatamente. Murmurou algu mas palavras para deixá-la à vontade mas ao invés disso. Sentiu-se como uma gigantesca bale ia emergindo das profundezas do mar: vinha de um outro elemento regido por lei e . não assim. contudo." Queri a dizer com isso que não era a enfermeira quem estava ausente. onde ela própria figurava como a vítima do seu hospício imaginário. quem sabe. Se forem contagiados por teu elemento. Veio. na su a queda flamejante e etema. Sou uma condutora de r aios e queimaduras. dessa ala. ao menos. horrorizada com o seu imenso poder de destruição. a repuls iva Déborah. Déborah estendeu a mão num gesto instintivo . e isso graças às aflições que. e qual dos se us "eus" a dominava naquele momento.Termine logo a ins peção da ala e vá preparar um casulo. a s noites e os dias desses outros seres são de uma substância que não é a tua. debruçada na janela olhando pa ra fora e repetindo de mansinho: . . Nem bem ela recuperou o equilíbrio. Não assim! Não assim. .Só verificando tranqüilizou. Não permitam a ninguém magoar assim. revendo provavelmente os pesadelos. vindos da doutôra. muito pálida. Surpreendeu certa vez uma enferm eira comentando: -Aquela menina me olha como se eu absolutamente não existisse.os seus pensamentos inconfessáveis.murmurou algum tempo depois para o s que vieram buscá-la. Déborah. compreendia-os. O inspirar e o expirar. um segundo grupo que estava sen do domesticado pela nudez espontânea de Constantia. tropeçou no própri o pé. Ao recuperar os sentidos. desprendendo faíscas dos cabelos. é magoar demais. jovialmente a enfermeira do novo turno. . estava tudo escuro. . sem saber como. andam e respiram num elemento q ue nunca compreenderás ou conhecerás. Déborah. depois. a outra Déborah. e e saiu cambaleando do quarto. Seja esperta. as pessoas iguais a elas riem. a expressão do rosto 107 de Déborah. Estes . Déborah ergueu-se no diminuto quarto onde estava enclausurada. . chutava aquele seu outro eu estirado ao chão. Quando soou o ás pero canto cerimonial. paz ou liberdade que compensasse esse pavoroso sofrimento. Pr ocurando tranqüilizá-la. esmaguem-me de encontro ao mundo! Acenderam a luz pelo lado de fora. O fato é que se sentiu profundamente aliviada por receber ajuda. e quase foi ao chão.. firma ndo-a por alguns segundos. Fora desse quarto. Déborah compartilhava. desse hospital. perdeu o equilíbrio. A tua subs tância é fatal para eles. erguida por sobre si mesma. Notando. termin ado o expediente. o que veio confirmar mais uma vez a distância intransponível que a se parava dos chamados "seres humanos normais". alegria.É poder demais. Ela se achava. A mulher remexia as chaves (sua diferença). A mulher se voltou precipitadamente para sair. investida da autoridade honorífi ca que detinha em Yr. vocês todos. .

então. se dar conta do tormento que a afirmação despertava em si mesma. Pensou em Hele ne. tinha inadvertidamente cometido uma grande crueldade com ela: dissera-lh e que achava que ela ia ficar boa.Eu sou um fio de cabelo nos meus olhos . Ambas resmungaram baixinho. Helene nem sequer conseguia atin gi-lo.perg untou Déborah. num contraste chocante com a beleza da noite e das estrelas. e rápido. Ao escutar aquilo. Vênus de Mil o com cócegas no nariz. Virara-se para Déborah e. estendidas lugubremente naquelas camas. atordoados ainda. sua respiração ofegante. filtrava-se a luminosidade pálida das estrelas. nem que fosse por uma piscadela de olh os. sabendo que os pa cientes poderiam estar em transição e. ou aquela quantidade indefinida de energia ou determinação ou seja lá o que for. essas coisinhas diabólicas e importunas que se tomam um mundo quando não se pode coçá-las e afastá-las. As enfermeiras e auxiliares diziam. Solt ava. Num lugar vulnerável como aquele. deitada como uma gêmea na cama vizinha. Ellis entrou sozinho. . deixara também de perseguir o ma rtirizado Ellis. a maneira como Ellis entrou foi brusca demai s. distante e inacessível.e você é outr o! Em face desta reação pouco amistosa. Pelo vidro anteposto às grades. Déborah recolheu-se ao silêncio e ficou descansando do eterno apocalipse. chocadas com a revelação de si próprias. convulsas e raivosas. um ou dois comentários imprevistos e cortantes.climas próprios. Havia agora duas camas mergul hadas na escuridão. a mã assentava-se implacavelmente sobre seu rosto. ou então. manifestava seus Pemsamentos s momentos de lucidez. a invejava. assisti a a essa cena.Ou. um jato difuso e furioso de saliva. sempre discretos e silencioSOS. que Heleor mais desesperadamente enferma que estivesse. De repente. por sua vez. lembrando-se das lutas que travara com fios de cabelo. enquanto tentava tomar-lhe o pulso com a outra. às vezes. que tudo presenciava. Esse era o único movimento possível dentro de um casulo. é claro. calmos. Déborah. sem demonstrar raiva. e foi direto à cama de Hele ne para tirar-lhe o pulso. acenderam a luz.indagou Déborah. Quando ele estendeu a mão para captar. seus lábios já estavam secos.Alguma vez já lhe caiu um fio de cabelo nos olhos quando você está no casulo? . de modo a introduzir gradativamente a sua presença e a do mundo. se quiser. Os tapas atingiram-na firmes e fortes. A janela que emoldurava a noite coalhada de estrelas já não era aque la de onde assistira às primeiras horas do crepúsculo. Helene poderia se curar. Helene reagiu lançando-lhe uma cusparada n a cara. Déborah a respeitava sobretudo por sua inteligência. avisara que se ela não se afastasse dali. Ellis. e só entravam . Da cama vizinha veio um som abafado. Ellis agarrou o rosto de Helene e o imobil izou com uma das mãos. começou a esbofetear o rosto dela. mas após cada tentativa.Quem está aí? . Seus pensamentos fluíam com extrema nitidez. Déborah. Um dia.declarou Helene secamente . . . geralmente. alguma coisa antes de entrarem. ela afastou a cabeça com violência. Ela consegu iu se livrar mais uma vez. cusparadas e . No silêncio do quarto. precisos e ritmados. não se fizera de rogada. no entanto. na têmpora.respondeu Helene . a maior parte do tempo. o pavor enrijecera o corpo mus culoso de Helene. Embora ela fosse uma pessoa mordaz e d emasiadamente agressiva. respeitava e temia ao mesmo tempo. apesar de seus modos espinhosos e intolerantes.Nossa Senhora da Cócega no Nariz! . uma agressão tão violenta 108 muito surpreendente. retesou ligeiramente o corpo. com uma voz pausada e contida. felpas. e extrair a ssim um número para o seu relatório. Por causa disso. cisc os. e estas. . conseqüentemente. Déborah percebia. sem inclusive. Mantinha-se. quebraria osso por osso daquela cabeça de merda. o pulso de Helene. tinha certeza. e com gesto s deliberados e precisos. que era o essencial da recuperação. 109 e as cusparadas frenéticas. Helene . que ficaria Para sempre gravada em sua mente como o símbolo da impo tência do doente mental: os tapas. depois que eles acusassem a sua presença. às barras qu e compunham a tripla couraça vedando a janela.

No entanto precisava. uma inimiga de si própria nos termos Yri. No dia seguinte. .de cúmplice no episódio. em tempo. . mordeu os lábios e se calou. . Ficaram horas absorvidos naquela guerra. e saiu. os limites de s ua realidade. que ele não podia ver a nuvem. Não se deu ao trabalho de procurar lhe mostrar a gravidade d a questão. encerrar os atritos sem tomar qualquer pr ovidência. . o médico continuou calado. caíam vermes. bate com a mão espalmada! A enfermeira mandou que ela procurasse a enfermeira encarregada da ala. Terminou de fal ar e durante muito tempo.Tomarei nota do caso .Esteve a ponto de acrescentar que H elene tinha sumido. mas decidiu.. chegar até ao médico. sentindo a nuvem cada vez mais ameaçadora e o vento que já começava a soprar.Helene saiu logo depois que acabou tudo. naturalment e.Tenho uma coisa para contar a ele.sob um outro s ol cujos raios não ultrapassavam a periferia do campo de visão dela. enqu anto murmurava para si mesma: "Generosidade de hidrato de cloro. O homem aut orizaria. no entanto. é claro!". . o enfermeiro conseguiu submetê-la. contidamente. mas não podemos aceitar uma denúncia dessas sem provas. Helene tossia. esboçar qualquer movim ento em direção ao onipotente cademinho de notas. Déborah se lembrou de sua autorização para sedativos. Sentado ali calmamente. caridade em cen tímetros cúbicos".perguntou enfim o médico. por sua vez.primavera.. A enfermeira da ala. com os olhos pregados nela. sim. expor-se cega e irremediavelmente. e portanto. procurando ostentar a aparência de sanidade convencionada pelo mundo.perguntou a enfermeira. . pelo menos a Ellis. talvez .. poupando ao máximo as palavra s.Posso saber o que é? .Para que você quer vê-lo? . . contudo. uma forma de conciliar s em alterar. . Era evidente que estava colocando em prática o que Lee Miller chamava Tratamento Número Três: consistia numa variação do vel ho "sem dúvida! sem dúvida!". a mandou para a enfermeira-chefe d o dia. até que final mente.assegurou o médico. o incidente. gozando. que seria injusto comprar sono ao preço do sangue que Helene engolira. que dizia "Sim. nem sentir o vento tenebroso. . hesitando. A idéia. um pouco transtomada. Você estava no casulo e. da nuv em. tomar-se uma nelaq tankutuku. Enquanto duravam esses trâmites burocráticos. Registrou sua pulsação.É do nosso maior interesse impedir qualquer brutalidade aqui no hospital. . engasgada com sangue. Repetiu novamente as explicações. Toque-de-Fogo.Por que Helene não veio me contar isso? . ao invés de bater com os punhos fechados. e não saiu mais de lá. tanto do vitorioso como da vítima. menos ainda a iminência da Punição. Narroulhe. silenciar sem compreender. A enfermeira-chefe não a levou muito a sério. Ergueu os olhos para ele. Dirigiu-se à enfermeira e pediu para fala r com o médico da ala assim que ele viesse assinar os pedidos da semana. Quem sabe você não pensou ter visto isso. as estações . fixou-se na sua ment e como um trapo agarrado a um prego. com aquela Alma. Déborah teve que implorar. Furii ou Toque-de-Fogo era o nome em Yri que Déborah 111 . . obteve finalmente permissão para ver o médico da ala. Queria que lhe aumentas sem a dose. sem. . nem tampouco foi mais longe referindo-se às tendências de Ellis. livrar de sua consciência a responsabili dade de ter sido testemunha -. não vai ser nada fácil se tiver de mentir. . em seguida a de Débora h. Azar! vou contar o caso à Dra. ele vivia uma outra dimen são de realidade. as fronteiras de seu reino. por experiência.Pergunte. c ustasse o que custasse. A muito custo. Deixou-o partir. Percebeu a tempo que não seria prud ente dizer isso. para que ele acreditasse nela.tapas ressoavam sem parar. como vingança porque uma vez lhe dissera que achava que ela iria ficar boa. deixando-a ali com cara de boba.Que pacifista é aquele que. e por um encadeamento de idéias não muito claro . e tinha certeza de que aquela era a hora certa de pedir. quem sabe. Repetiu as explicações. que só eram objeto de segredo porque ele detinha as chaves e as pacientes não. foi a vez de Déborah assumir voluntariamente a condição de participan te. Déb ora 110 sabia.Reparou que. a nuvem prenunciadora da Punição ia se adensando sobre Déborah.

Contei. . Aproveita a luz do meu jogo. Déborah. Não participo das decisões relativas à al a.sim é claro!" . . a idéia de pedir um aumento na dose de sedativos.disse Furii. e como não gostasse de ficar e ncostada à parede como as outras. já esquecidas. o sobrenome de todo mundo aqui é Pilatos. e eu também. embora não fosse tankutuku. mas não prometo nada. . Déborah voltou a se afastar. até um local fami113 . Déborah. Você vai mesmo levantar a questão de Helene na reunião? Se eu disse que ia é porque vou. mas Déborah não ficou muito convencida.Quem disse que eu estou propondo mudança de política? . impelida por um estímulo inconsciente. Não posso interfer r na política deles. Não estou ligada à administração do hospital. ditas por Sylvia. Pássaro-um. para voltar logo depois.encontrara para a Dra.. Déborah! Procure compreender. . aquela que também era tankutuku por causa das palavras.Sentia-se agora ridícula por ter rejeitado. . Afinal. é? Furii concordou. . .Você contou isso ao médico da ala? .é que eu não estou ligada à direção da ala. . . cons eqüentemente.. era justo que um ato que seguramente iria lhe cust ar muito. . hein? . e essa opção v cê assumirá de acordo com suas possibilidades. O fato dè ela lhe dirigir a palavra . Blau! Déborah persistia.. desaparecendo naquela cidade repleta de suásticas. . doutôra. O meu objetivo é exclusivamente 112 ajudá-la a ser livre para lutar por todas essas coisas.A não ser que essa política consista em espancar pacientes indefesas! .De que vale então essa sua realidade. . o Sol ptolomaico girando em tcomo de seus planetas.Afaste-se. .protestou Déborah.Suma-se.Enfermeira! Tire essa puta daqui! . A enfermeira. eles estão mais loucos do que eu!") . se a justiça fracassa.Escute aqui .(Lembrou-se de Tilda: um belo dia fugiu do hospital e m Nurembergue. ou então pare de seguila. Blau! Isso também convinha. que havia uma relação entre as duas. em homenagem ao poder espantoso que tinha revelado ao lhe queimar o braço com uma chama invisível. passava o dia todo circulando para "manter as pe ssoas nos seus devidos lugares".perguntou Furii. Um mundo perfeito como um jardim de rosas é mentira. O elo gravitational se desfez. e enfadonho também. cintos.Vem cá."Shalom Aleichem. Fried.Talvez você esteja duv idando de que eu tenha visto tudo isso. Déborah. suportando estoicamente os grilhões daquele relacionamento. começou a segui-la por toda parte. procurou se aproximar de Lee Miller. em mencionar o assunto na reunião da equipe médica. era uma terceira atriz. Depois que Helene a deixou sozinha com a responsabilidade de testemunha. Déborah se sentia como um fósforo tentando atear fogo a um tonel de combustível vazio.Retire-se do saguão.Também não posso interferir na disciplina do pessoal da ala.refletia Déborah .disse Furii . a desonestidade impe ra e aqueles que conservam a fé acabam se dando mal. um riso grotesco e áspero que mal chegava a ser riso. rendesse pelo menos alguma coisa.Absolutamente. Não prometo mentiras. L ee tinha uma mania: não suportava ninguém às suas costas.Nunca lhe prometi um jardim de rosas! Nunca lhe p rometi a justiça ideal. olhares maldosos. Uma pergunta: Ellis espancará a testemunha trancafiada nua num quarto de reclusão? Déborah foi escorregando pela parede. A única realidade que eu lhe ofereço é o desafio: ficar boa significa ficar livre para aceitá-lo ou não. e a reação dele foi a Número Três com Sorriso: "sim . que eram atrizes do mesmo drama e.O problema . também nunca lh e prometi paz ou felicidade. rindo às gargalhadas. . . Helene cumpriu a promessa de não importunar Ellis. Lee. fósforos. finalmente. Grande realidade essa sua. não por uma questão de devotamento ou lealda de. e vê que todos cuidam para que te afaste do s menores perigos: alfinetes.signifi cava admitir que estavam no mesmo palco. mas por um misterioso senso de conveniência. . cordões de sapato. num gesto de nobreza. . .

exclamou Jacob sobressaltado elevando a voz para sufocar o medo.Percebendo a frieza de suas palavras.Procurou usar um tom bem tranqüilo. Antes. para ser 115 patemalmente protegida e orientada. . são mais assustadas. . numa de alas. Já estive numa "pá" de espeluncas. apressou-se a emendar: .. Sua aparênci a pode alarmá-los um pouco. a imagem que essa médica sugeria era a de uma pessoa inteiramente irreconhecível.perguntou Jacob . sendo amparada e reco nfortada .. mas eu pessoalmente não aconselho ainda dessa vez. e também por si me sma. Trata-se de um problema puramente administrativo. e ficou acompanhando as imagens q ue lhe percorriam a mente . inse gura e infeliz. vocês a verão. pedindo isso. ela vai ficar boa. Não sei se ela virá algum dia a ter essas coisas ou mesmo se as desejará.e declarou: . acomodou-se no chão. 114 14 Jacob e Esther estavam sentados no consultório. Acreditem ou não. uma paciente recém-chegada que angariara um certo prestígio devido à su a violência e aos nove anos que havia passado num dos hospitais mais rigorosos do país.viviam permanentemente com frio . Por causa de um minúsculo. aquele: minúsculo.. ter uma esperança qualquer. eu quero dizer. . buq uês de rosas e um pretendente distinto e de boa família.Se o que vocês querem para Déborah é um diploma universitário.mas é por causa do talvez..Deixe o talvez de lado. convites para dançar.Será que poderíamos vê-la? Teve desde o início certeza de que eles acabariam. Elas pairavam no ar junto com a murrinha de zoológico que infestava a ala. Perscrutou os seus dois mundos e avistou a tempestade im inente. mais piradas. Se h ouver um outro mais firme.. que não Deus.é claro q ue. Não poderia prometer nada em definitivo. bem. um bocadinho. era justamente a pergunta que ela não estava disposta a responder. e "ela sabe disso e teme por vocês . nisso ela só poderá acr editar por um voto de fé. a lei da gravidade ondulando como um trapo no vento tenebroso. junto às outras estátuas. virou-se de repente. de uma vez por t odas. À tardinha. para o pequeno grupo de pessoas que estavam aconchegada s ao redor do aquecimento . nem pretendia desempenh ar o papel de juiz. . O trabalho que estamos desenvolvendo juntas visa. . ela era uma pessoa da família. Meu irmão também.Porque o senso de realidade dela anda um bocado abalado atualmente. sinceramente não sei se posso lhes dar esperanças.em busca de paz e tranqüilidade. mas terrivelmente explícitas. ou terá que continuar aqui. rindo para neutraliza r o imenso e pavoroso alcance de suas palavras.É importante que fique claro que os sintomas não são a doença . os vermes que despencavam dela. Pois.Não vem ao caso a questão do amor. Que mal há em desejar uma criança como todas as outras? . Jacob recostou-se aturdido. .. Mas era tarde. Vivem mijando no c hão. se vocês decidiram vê-la.Aqui é diferente. e desatou a correr ao longo do saguão. Doente ou sadia .Eu. Lúcia. para sempre? . nao importa. a doença é o ún ico solo firme de que Déborah dispõe. infeliz.liar.. Aqui as pessoas .o fato é que precisamo s alimentar alguma expectativa. A sua adorada Déborah de antes Podia até estar doente como todos afirmavam. inevitavelmente.imagens simples. descobrir e chegar a um acordo quanto ao que ela realmente quer. seja qual for. . não param de gritar . para ser matemalmente mimada e cons olada. Imaginem por vocês mesmos. os dilemas que Débo . Arrependeu-se pela centésima vez de ter intemado a fil ha. a nuvem baixando ameaçadoramente. pelo menos.Tais sintomas representam defesas. formas dela se proteger. apontando o que haviam ou não haviam feito de errado para que a filha acabasse nesse campo de batalha. . Sentiu ímpeto de dizer a eles. minúsculo talvez. Para Déborah. depois que esse for destruído. Frie d . A senho ra poderia nos dizer o que podemos esperar? . minúsculo talvez.percebeu logo a Dra. agora. É este solo que estamos trabalhando juntas.Porque não! . numa "pá" de alas.disse a doutôra. Desgarrou-se de novo. o fato é que lhes pertencia: insegura. as palavras da menina tiveram uma ressonância especial. em parte. Todos temiam aquela espe rança. Vinham . .

a verdade se descortinasse de uma vez por todas. entendam bem. apanhou o telefone e. e nquanto que por detrás dele. Ela não procurara tranqüilizá-los c om frases hipócritas. Jacob limitou-se a comentar: .Muito bem. Deixou escapar outro suspiro. porque ela fica tão ada.Se qui serem depois conversar comigo de novo. não compraria sonhos e os imporia inflexivelmente a uma Déborah. e porque os sintomas proliferam tanto. Sacudiu-as de repente para longe..Você fala d emais! Deixe as coisas como estão e fique quietinha. está sendo instada a anular. Ficou u m bom tempo absorta nessas considerações. peçam por favor ao auxiliar 116 que stá de serviço para me chamar. Esperem-na na sala de visitas. futilidades e arrogâncias . é melhor não. Voltando agora para Chicago.insistiu Jacob baixinho. mas u ma espécie de retraimento. não tem importância. .vou ligar para a ala e pedir que tragam Déborah. Fried procurou uma forma de descrever os sentimentos de uma pessoa que ja mais soube realmente o que era a saúde mental em sua vida. direção ao prédio do hospital Ah essas famílias! "Faça o em eu filho ficar bom".Uma pe ssoa ..Dirigiu-se ao telefone. Eu quero vê-la! Está no meu direito! . A filha. murmurou: . como se ela não habitas se o próprio corpo. . . . traziam uma única certeza: era mais do que tempo de c . contradizia frontalmente suas esperanças do que fosse essa verdad e. agora. Ao deixarem a sala de visitas. que nunca tivera ou educara filhos. . A doença de Déborah consiste. eu quero vê-la . nada disso. A confusão os emudecera.Mas ela nunca assumiu esse mundo. discou para a Ala D.. Quem sabe.Só queria saber se deu tempo para ela pentear os cabelos. O que os a ssustou não foram resmungos desconexos ou ataques de violência. doutôra .E afastou-se furioso. anular todos es ses anos de vivência do que conheceu como realidade. viajando de volta para casa.Não..informou o auxiliar. porém. . No carro.. . mal a haviam reconhecido. .rah vive. Confiavam na Dra. Jacob aproveitou para descarregar a raiva que sentia sobre a mulher: . Esther e Jacob mantinham-se calados..protestou Jacob. . .Nós. Ou então.O mundo que nós demos a ela não foi tão horrível assim! . e a aceitar a outra versão do m undo.. atualmente . não se mostraria ambiciosa. Ficarei aqui até às quatro h°ra Observou-os saírem e se encaminharem com passos rígidos. subitamente.Sim. o senhor não compreende? Déborah criou uma espécie de robô que se encarregava de reproduzir os movimentos exigidos pela realidade. . Fried.Acabaram de levá-la para a sala de visitas. . depois de alguma relutância. sem nenhuma garantia concreta além da fé. e ainda assim conseguira infundir-lhes o ânimo de que necessit avam desesperadamente. uma pessoa mortalmente arrasada por dentro. 117 Esther por sua vez.Ah. Déborah. . . ela foi deixando as coisas ficarem como estavam. doutôra? . Sabendo que os pais temiam a desconhecida que se ocultava por de trás do familiar robô. faça 111 que e]a tenha boas maneiras na mesa e um futuro que corresponda aos nossos sonhos tão almejados!" Sus pirou. Até mesmo os pais inteligentes. não.Mesmo assim. Tudo o que viram. tá? . Eu só queria. no entanto. honestos e bons acabam vendendo seus filhos com a maior tranqüilidade. a verdadeira Déborah ia se distanciando cada vez mais d essa realidade. não faria também concessões a esse tipo de conduta. numa luta desesperada pela saúde. . esforçando-se por definir as suas impressões.Ela está muito pálida. e aí compreenderão porque ela não dá atenção à sua aparência. diante das quais jamais se curvariam! Ah! Ocorreu-lhe. .assentiu a doutôra afavelmente . "Conserte a nossa filha. Jacob. . nessa visita.Esther . São capazes de lhes impor decepções. só podemos supor o horror e a solidão que se escondem por trás dela. A Dra. se essa Déborah fosse a sua filha. está bem.. uma ausência impalpável e aterradora. que nunca vivencia mos essa doença diretamente. . Espe ravam que.

Confundido na sua sensibilidade pelo medo. e aquela mesma culpa que existia nos monstros. me esbofeteou com força... mal formulados e revestidos de tamanha culpa que acabaram 119 perdendo seus verdadeiros contornos..Claro.. Fechava-se na cegu eira e na ignorância porque. Os homens eram brutos lascivos até não poder mais. Atitudes carregadas de culpa e amor. para finalmente volta r a se defrontar com dois rostos familiares e apavorantes: o do pai e o seu. Pelo fato de eu ter atraído a atenção do indivíduo. o simpl es desentendimento num momento crucial. Déborah sabia que as suas partes íntimas também já hav iam sido infectas.emboscados em vielas escuras. mas é antes de tudo um homem. quando via ou descobria qualquer coisa. se dissimulava.O que é que eles qu erem afinal comigo. tinha medo dele e de si mesma. . por mais vergonho sa. Uma vez. . e alguma coisa mais. era somente a figura do pai e uns poucos pensamentos seus. Inquiri-lhe com indignação: .. esperando para me seduzir.Senti desprezo por ele algumas vezes . apavorantes não. .. vivia me advertindo contra esses perigos. Compreendo a gora que não fui para ele apenas. no íntimo. E para Déborah.. se esquivava. Falava freqüentemente nas partes infectadas destes homens.Ele tinha verdadeiro pavor dos homens. Não presto para ninguém! P apai. porque sabia que era verdade o que eu estava d izendo.O que? É meu pai. p rontos para saltarem sobre mim e me agarrar. a razão de ser dessa força qu e a compelia era tão misteriosa quanto as recônditas regiões de Yr.. .. Que bom. Tinha pesadelos nos quais fugia. assustadora ou repugnante que fosse. Será que o s outros homens alimentam os mesmos pensamentos? Sabe que sim! E os outros homen s serão capazes de controlar estes pensamentos tão bem quanto ele? Seguramente não! Déborah refletiu sobre a dissimulada sensualidade que vira transparecer tantas vez es nas atitudes do pai.. ... Fried continuou a perseguir. Homens .Quando fala dele. desandou a esbravejar como se todos esses homens obedecessem a uma le i de gravidade que os atraía para mim. Sentia que o amor do pai era um amor extremamente cego e que ete não fora capaz de compreendê-la por um momento sequer. então. que alguma coisa eu devia ter feito. quer confundindo a doutôra. desejo . Parte do segredo. .. se já estou toda arruinada e estragada. me repreendeu por eu ter olh ado para um exibicionista na rua. . Eram verdad eiros animais. sentia-se irr esistivelmente compelida a colocar essa descoberta em discussão. o pai acabara desp ertando pela filha aqueles mesmos apetites.Já permiti que você fugisse de seu pai o tempo suficiente . a instigar sua recalcitrante p aciente através dos meandros do amor e do ódio.Não. Explodindo de raiva e de medo. . M as não era só isso. a encurralar. fugia. um era maníaco sex ual ou 118 possuidor de algum vício qualquer.ontar a verdade a Suzy.Déborah desat ou a chorar. jazia sob injustiças triviais: a surra motivada por uma razão qualquer. consistia em que Déborah tinha muito em comum com o pai: o temperamento explosivo. . Déborah por sua vez. O segredo mais profundo. contra quem se empenhava tanto em recriminar. ódio. em direção ao qual Furii procurava estender as garras do mu ndo...Acho que você atingiu um filão importante.Percebeu que aquele fantasma que tinha adquirido dimensões enormes no Pânta no do medo. A Dra.Não. el e deduziu..Continuam tão apavorantes assim? . Parte desse mal-estar era o . apenas uma filha que vivia o colocando em situ ações embaraçosas. quer nas trevas de Yr. e conhece seus próprios pensamentos. De cada três homens.Quem sabe se o problema não era o medo que ele tinha de seus próprios instintos? . eu concordava.confessou Déborah. .anunciou Furii no deco rrer de uma sessão. é com medo. humano . Consciente da si milaridade.. . o hábito de ficar remoe ndo por dentro as coisas e extravasá-las em súbitos acessos de fúria. não sei como. .. . . inconfessáv eis. que não só a deixavam e xtremamente confusa como lançavam sobre ela um estigma ao transformaremna numa cúmpl ice secreta de todos os crimes infames cometidos pelos maníacos e que ele não se can sava de descrever.

uma opção verdadeira e consciente.Prosseguiremos até enxergarmos tudo. a resposta é sim. Escute Déborah.Ainda faltam muitos segredos para desvendarmos. pelo menos. fazendo a maior algazarra. A voz que se fez ouvir em seguida vinha de Yr. ouviram-no subir novamente.informou Lee. porém. Você conhece? . . mais difíceis inclusive do que a doença naquela fase que precedeu a sua vinda para cá. tentando alcançá-la. . p esado e estreptoso. Furii procurou fazer com que ela trouxesse à to na os inúmeros fragmentos de evidência com os quais justificava os seus temores. enquanto aguardava a colisão final que a deixaria louca para sempre.. Reinava uma grande expectativa.Muito bem. .. Vultos de uniforme branco delinearam-se na superfície translúcida e embaçada do vidro. Graças a Deus! Isso aqui tem estado chatíssimo. será muito mais rico! Conversaram por algum tempo ainda. Qu ando terminarmos você poderá optar por Yr..Beirava o ceme da questão quando o temor se abateu. Você ainda não teve a vivência da saúde mental para saber como ela é. A chave virou a fechadura e o administrador da ala surgiu em t oda a sua magnificência. Pairava sobre a ala uma excitação mal contida. Suponho agora que devo voltar para casa.Ora. Furii viu que a crise era imin ente. É "macaquinhos-no-sótão"..Conheço.O que está acontecendo? . mas a teimosia a instigava ora a ceder ora a reagir. e você sabe disso. se realmente quiser. que tolice! . A escolha caberá exclusivamente a você. A única coisa que quer o lhe dar é a possibilidade dessa opção. acho.Ainda há mais. de verdade.disse Furii. e isto tudo faz parte da realidade da qua l você tem tanto medo..sussurrou Déborah para Lee. Um pouco antes da hora de trazerem para cima o almoço. essa eu não posso esquecer! Os americanos captam as sensações peculiares à doença mental com uma precisão surpreendente às vezes. está tudo escuro e os macaquinhos. mais tarde. até que parou diante das portas duplas que se abri am para a Ala D. se você quiser. firmemente imobilizada. o pesado elevador desceu. por pior que pudesse ser ele às vezes. .Isso significa que vou poder continuar louca se quiser? 120 Louca Varrida . inteiramente desorientados. . . acu mulados até ali. uma miscelânea de per- . Seguiam-no quatro auxiliares. generosidade. que estava sempre por dentro das coisas..V ia. . uma velhinha de corpo mirrado e c abelos inteiramente brancos. Enfermeiras e auxiliares riscavam o saguão de branco e caqui com suas idas e vindas febris. . Quer dizer o seguinte: na cabeça da gente. Acho que não vai querer nem precisar de macaquinhos no sótão. Dois casulos esperavam num quarto de reclusão pelos seus ocupantes.e nenhum outro apareceu até agora para substituí-lo. Perdoei mi nha mãe e meu pai.Talvez a doença venha a cobrar o castigo por termos nos distanc iado tanto dela.Ah. muito mais . Fechando a procissão. "com macaquinhos". Ergueram-se todas num pulo e ficaram à escuta. por falar nisso. Doida de pedra!.você conseguiu. Déborah.repreendeu Furii com severidade. O que acontece é que você está rejeitando o alimento que a sustentava . já escutei uma outra expressão.. . Déborah estava exausta.. quero lhe dizer que você roçou o discemimento. que a lucidez extinguia-se. Você terá que confiar o suficiente em mi m e crer que o novo alimento. A doença tinha. Após alguns minut os. escute! . como não enxergam nada. . De qualq uer modo.Ela esteve intemada bem ant es de você chegar. ap esar da distância que crescia.. .todos esses segredos e poderes secretos . amor. .disse num tom desalentado . se eu precisar disso. .E se eu quiser isso. jogando com Furii e seu mundo. Eu chorei. Coral vai voltar de novo .Déborah. quando surgir. o que significa verdade.. Esses são os tempos mais difíceis. ficam pulando de um lado para o outro. um signif icado. dois para os pés e dois para a cabeça.A Srta. São ou não são maravilhosos e emocionantes esses sentimentos? . transportando. . que seria o sótão. .

121 sonagens secundários: enfermeiras do dia pertencentes à recepção, acólitos, o clero regula r, noviços, postulantes e outros. - Aquilo é a tal Srta. Coral? - Cinqüenta quilos cheinhos dela! - exclamou Lee. O equilíbrio, a riqueza de tipos e o colorido davam ao espetáculo um quê de profano. A procissão, cercada de um silêncio a bsoluto, percorreu com o seu fardo o corredor, passando sem se deter pelos dois casulos (surpreendentemente) até chegar ao quarto de reclusão Número Quatro. Passado algum tempo, os carregadores começaram a sair de novo para o corredor. Débor ah se preparava para voltar ao seu posto na janela do dormitório, quando reparou n o último dos auxiliares que saía para se juntar aos demais, cujo comportamento a imp ressionou vivamente: era absurdo, assustador e hilariante ao mesmo tempo: negava todos os princípios newtonianos da física. Ele não andava, voava! Estava inclinado no ar, com uma expressão de pasmo como- se toda a vida se resumisse a uma trajetória. Não chegou a alcançar os outros. A meio caminho, desabou. O ruído surdo da queda despe rtou a atenção dos companheiros que vieram logo acudi-lo. Déborah suspirou desapontada . Era só um homem, afinal. Não se machucara nem no vôo nem na queda mas, por pouco, não foi pisoteado pela multidão de funcionários que acorreu em pânico, para subjugar a fonte de sua propulsão. A Srta . Coral surgira no vão da porta que, por descuido, tinha ficado aberta. Seu corpo franzino parecia carregado de eletricidade. O branco dos cabelos é que fora reduzi do a cinzas pelo fogo, murmurou Déborah em Yri. Os três homens que se atracaram com ela fizeram um papel deplorável. A velha não só era combativa como ágil! Literalmente sa cudiu-os para longe, mantendo o rosto impassível e os olhos vazios e fixos à frente. Quando os outros auxiliares mergulharam na escaramuça, continuou, mais ainda, don a da situação: permaneceu imóvel deixando simplesmente que um desfizesse o que o outro fazia. Helene, sentindo-se desafiada na sua supremacia de até então ser a mulher ma is temida da ala, correu para o saguão deserto, removeu os pinos das dobradiças que seguravam a porta da enfermaria, derrubou-a com o peso do seu corpo, arremessoua no corredor e pôs-se a destruir tudo o que estava ao seu alcance. A frágil Sylvia, plantada como uma estátua de encontro à parede, não conseguiu suportar a tensão provocada pela violência de Helene: explodiu subitamente, arremessando cont ra ela, através dos restos da porta, bandejas, instrumentos médicos e toalhas. Acion aram a campainha de emergência, interviram mais doze pessoas que conseguiram final mente, subjugar o motim, e colocar Helene e Sylvia no casulo. No meio daquele tu multo o administrador da ala esqueceu-se aparentemente de fazer cumprir os cuida dos recomendados à Srta. Coral: limitaram-se a metê-la no quarto e trancar a porta. - Puxa! - comentou Lee ao cruzar com Déborah no saguão - Você tem de admitir que isso superou tudo o que aconteceu por aqui nos últimos tempos. - Incrível. .. Nunca imaginei que uma velhinha tão frágil, fosse forte o suficiente pa ra pôr o cabresto num homem! Pena eu não ter conseguido chegar até o armário de narcóticos ... - Ela esteve intemada aqui há dois anos atrás. Certa vez, vi, com os meus próprios olh os, uma cena extraordinária: a velha jogar uma cama - não foi empurrar não - jogar, Pa rece mentira, mas ela é a mais instruída de todas nós. - Mais do que Helene? - Ora se é! Fala quatro ou cinco idiomas e transa acho que com matemática lá fora. Ten tou me explicar uma vez, mas você sabe não é, nunca passei da oitava série. . . - Olhou à sua volta e logo recomeçou a circular, ansiosa para repor o mundo no seu devido lu gar. Quatro dias depois, destrancaram a porta do quarto da Srta. Coral e lhe deram au torização para que saísse para a ala. Quando, depois de algumas horas, ela surgiu hesi tante à soleira da porta, deu de cara com Déborah sentada do lado oposto. - Oi! - cumprimentou Déborah. - Oi... Você não é um pouco jovem demais para estar aqui? - A voz era idosa, mas nem u m pouco desarmônica, prolongava as vogais, que soavam como ditongos, numa pronúncia bem típica do extremo sul dos Estados Unidos. - Ah... e o que é que tem ... temos o direito de ser tão loucos quanto qualquer um.

- Objetou Déborah armando um bçicinho. - Lee Miller contou que você sabe línguas e matemát ica. É verdade? 123

Oh, ela ainda está aqui? Que pena... - e soltou uma risadinha que mais parecia um cacarejo. - Você sabe mesmo falar línguas? - Não ... que nada! Só nos ensinavam a ler e escrever um idioma naqueles tempos, e a penas o suficiente para lermos os clássicos. - E você ainda se lembra? - A pergunta a colocou de sobreaviso. Encarou Déborah long amente. Tinha, naquele momento, o porte de um Anterrabae bruscamente imobilizado na sua queda perene. Seus olhos, de um azul cristalino, pareciam chispas. Os ca belos fartos, brancos e eletrostáticos, ameaçavam inflamá-la como a um tição. - O que é que você quer de mim? - indagou finalmente. - Quero que me ensine. A rigidez das feições como que se dissolveu, o corpo afrouxou desalentado e os olhos , aqueles olhos inflexíveis, se encheram de lágrimas. - Estou doente, menina... - di sse ela - Estive muito doente. Esqueci tudo. E depois, eu acabaria cometendo err os por causa da idade... (Déborah acompanhava a luta feroz e invisível que ela trava va no íntimo para se recompor) .. . e a doença.. . - Não faz mal! - Estou cansada agora - disse a Srta. Coral, recuando de novo para dentro do qua rto - vou tomar uma decisão, mais tarde informo. - E bateu a sólida porta atrás de si. Déborah voltou a se sentar no chão, diante do quarto dela, e ficou ouvindo os sons a bafados da batalha que se travava lá dentro: imprecações, gritos, quedas, uma pancadar ia dos diabos. Um auxiliar que vinha passando, deteve-se intrigado: - Ué, pensei q ue tinha aberto essa porta... o que é que está acontecendo lá dentro? - Coral versus Coral: ação de divórcio. Estão brigando pela custódia da criança! - Déborah, você a viu sair, não viu? Foi ela quem fechou essa porta? - Sabe lá se ela não tinha que conversar com alguém! O auxiliar se afastou vagarosamente, retomando a distribuição de privilégios e autoriz ações. Déborah se sentou novamente diante da porta, e despejou no chão todos os tesouros que carregava nos bolsos. Encontrou duas guimbas de cigarro 124 que tinha conseguido surrupiar a uma enfermeira estagiária num momento de distração. F oi até a cama de Lee Miller e as colocou sob o travesseiro dela como oferenda de a gradecimento. Pagava, pela segunda vez, a dívida de Sylvia. Voltou ao seu posto em frente ao quarto da Srta. Coral. Sentia-se extremamente c ulpada. Sua substância parecia ter-se espalhado pela ala impregnando a todos de an gústia. Por cada dilaceramento íntimo, como o que ocorria por detrás daquela porta, ju lgava-se simbolicamente responsável. Lembrou-se, porém, do que Carla tinha dito: a d oença era como um copo que transbordava e, por'isso, uma ou duas gotas a mais não al teravam as coisas. Mesmo assim se perguntava se era ou não responsável? Incapaz de decidir, pôs de lado a questão. Passado algum tempo, silenciaram os ruídos dentro do quarto. A voz da Srta. Coral, arrastada e exausta, a chamou do outro l ado da porta. - Mocinha!.. . Mocinha! Você ainda está aí? - É. .. É comigo? Está me chamando? - Déborah mal conseguiu articular as palavras, taman ho era o nervosismo que sentia. - Sim, é com você - E então ela declamou: "Inter vitae scelerisque purus Non eget Mauris jaculis heque arcu. Nee vena nati s grávida sagittis, Fusce, pharetra." - O que é isso? - Amanhã - respondeu a Srta. Coral - e teremos ditado também! 125 Mary (paciente do Dr. Dowben e, para não confundir com a primeira, chamada Mary Do wben): - Assassinato e incêndio! Há um incêndio! Carla queria ir ao cinema na cidade porém como paciente da D, precisava de uma per

missão especial e de dinheiro. A Srta. Coral, que voltava a palmilhar desde o prin cípio a sua via crucis, estava ali para requerer alguns privilégios básicos. Nem bem o médico pisou na ala, os pedidos e as respostas começaram a chover de todos os lados. Quando Déborah falou no cademo de anotações, os olhos do médico detiveram-se nela por alguns segundos, avaliando-a de alto a baixo. - Vamos ver! - respondeu por sobre os ombros, dando as costas e prosseguindo seu caminho. Naquela tarde, a Dra. Adams veio à ala para ver Sylvia. Ao sair, deu por falta de um exemplar de Loock Homeward Angel que trazia consigo. Pouco depois, no mesmo d ia, uma das enfermeiras estagiárias procurava em vão o seu cademo de aulas. As páginas escritas reapareceram dois dias depois no elevador, fora da Ala dos Perturbados , mas a metade do cademo cujas folhas estavam em branco continuaram desaparecida s. Déborah pôs-se a chatear Helene para que lembrasse das poesias que sabia, e tanto ch ateou, que um dia ela recitou trechos de Hamlet e Ricardo in, arrancados, para s ua própria surpresa, de algum canto empoeirado da memória. Passava horas transcreven do conscienciosamente todas as palavras gregas e latinas que possuía no seu arsena l de tirinhas de papel. Leu e releu o "Look Homeward Angel", escondido sob o mai or sigilo debaixo do colchão, até o dia em que Mary Dowben o descobriu e o comeu tod inho, poupando apenas a capa. Conversou uma vez sobre o romance com Carla, que já o havia lido. - Se eu sou capaz de aprender essas coisas... - perguntou Déborah, - ... capaz de ler e aprender, porque a vida continua tão obscura? Carla a fitou, sorrindo complacente. - Deb, quem foi que lhe disse que aprender fatos, teorias ou línguas tem alguma coisa a ver com a gente entender a si mesma? Entender o que você tem Ce específico e distinto das outras pessoas. . . - Déborah com preendera subitamente que embora a sua sagacidade precoce tivesse uma ligação íntima c om a doença, estimulando-a em 128 certas ocasiões, ela agia independentemente dos problemas que turvavam a sua noção de realidade. - Quer dizer então que a pessoa pode aprender, aprender e continuar esquizofrênica? - com Déborah, pelo menos, isso pode acontecer - interveio Helene ferina. Déborah foi esconder seu cademo atrás do aquecedor do dormitório, e deitou-se, em segu ida, na cama, de onde só saiu três meses depois. Durante todo esse período levantou-se apenas para ir ao banheiro ou para comparecer às sessões com a Dra. Fried. Foi uma das épocas mais sombrias e obscuras de sua vida. Deixava-se arrebatar por Yr, entr egava-se às divindades e aos personagens do Coletor, sem opor a menor resistência, e xceto no decorrer das sessões com a Dra. Fried. Carla aparecia, às vezes, para conta r os boatos que corriam na ala e os pequenos incidentes do dia. Déborah era incapa z de expressar o quanto essas visitas significavam para ela. Constituíam, ultimame nte, o único contato humano que mantinha por dias e dias seguidos, pois a máscara po r detrás da qual se ocultava, dava a ela uma expressão tão hostil que os auxiliares, q uando vinham trazer as refeições ou trocar as roupas de cama, afastavam-se o mais rápi do possível sem lhe dirigir uma só palavra, sequer um aceno de cabeça. Voltou a ter pe sadelos, a acordar sobressaltada e gritando durante as noites. Logo a transferir am do dormitório da frente, cheio de gente e barulhento, para um quartinho escuro, nos fundos do corredor, junto com duas outras mortas vivas. Criaturas acostumad as às trevas, sentiam-se mal com a luz: quando raiava o dia, calavam-se completame nte e não enxergavam nada diante dos olhos. Reinava um silêncio sepulcral. De repent e, uma delas, atormentada por algum pesadelo, irrompia em gritos dilacerantes, f azendo com que se despedaçasse a crosta quebradiça do sono narcotizado das outras. M antinhamnas entregues a si mesmas, sepultadas entre aquelas quatro paredes, acor dando-se umas às outras, justamente para evitar que transtomassem a ala toda. Havi a noites em que Déborah tinha a impressão de estar vendo se realizarem suas fantasia s mais diabólicas a respeito da loucura, fantasias construídas a partir do arsenal d e ameaças com que as babás costumavam acenar quando era criança. Despertava, freqüenteme nte, com uma das companheiras de quarto de pé sobre ela, com os braços erguidos 129

volte para a cama e me deixe dormir um pouco. rompeu o silêncio e o terror nos quais estivera encerrada até então: . aproximando-se . . sorriu. uma menina gordinha que andava por todo o quarto batendo os pés com força.De sisti de tudo porque estava cansada . Déborah. Confie no nosso trabalho juntas e na saúde qu e se oculta no fundo de você! Nas sombras. o sumo guardião da Aparência: Agora dê um passo.. um vulto angustiado e macilento aguardava que seus pensame ntos voltassem a pousar nela: Doris Rivera que saíra para o mundo. .Ah. fumando um cigarro. gargalhou com a maior naturalidade.Será que ela pôde escolher? Será que a sanidade representa uma opção para ela? . . como se o riso fosse uma constante no seu q uotidiano. tingida de cinza. Por que razão? Não sabia.furiosa e embrutecida . Déborah levantou-se finalmente da cama.Eu sou louca. Helene . com um suspiro de alívio. Uma outra noite. os choques medonhos resultantes da colisão dos mundos.num gesto de sacerdotiza. Coral estava sentada no chão. Durante os meses transcorridos naquela cama. num desafio. Furii dissera: . Déborah! . fingindo-se de fantasma.v eio assustá-la. cansada demais para continuar lutando! Furii tinha dito que a sanidade consistia. Foi até o saguão e parou junto à porta da al a. uma das companheiras de quarto.Ora. insensível.ameaçou ela novamente. mas os desafios que Déborah conhecia eram surpresas preparadas por Yr: cobras que se desprendiam inesperadamente das paredes. 130 .Estive me lembrando de mais al . pessoas e lugares que apareciam e desapareciam.Eu sou louca.Talvez ela se limite a ranger os dentes e a lutar a cada minuto. seja dormindo. Reconheceu a voz e. Sua visão. .. Delia. e não há nada que você possa faz r comigo que a minha própria loucura já não tenha feito de uma forma muito mais eficie nte e dolorosa.. pela primeira vez.pergunt ou Déborah. Agora sorria e di ga "como vai". um sorriso de boas-vindas. Helene. voltara de novo ao mundo.. . seja bem-vinda. seja acordada . Rec ordou-se do Censor. A imagem que tinha de Doris era de um fantasma glacial. numa esco lha. Um belo dia.Esqueça essas experiências Déborah! Você provavelmente não conhece nem de longe o que é se sentir mentalmente sã. embora fosse familiar a agressividade explosiva de sua dona. . cana lizando todas as suas energias para sustentar a aparência. Fora necessário reunir uma energia extraordinária para suportá-lo. . recuperara-se. Logo que a viu. Déborah sentiu uma alegria dentro de si que ultrapassava o pe queno motivo que a produziu. Deu as costas e foi embora.Pensa que me assusta! Você não seria capaz de competir com o menor dos meus pesade los. Levanto u-se tão inesperadamente quanto se deitara. Déborah. scomos nós quem escolhemos esses diferentes caminhos. a pesar de tudo. . mas Déborah percebeu que o tom era muito mais de orgulho ferido do que de selvageria. ..disse ela.. Ela não disse nada. antes de tudo.Dê o fora. .Eu seria capaz de tudo. ora. que consistia num desejo puramente humano. ou então esmurrando-a num sonâmbulo acesso de fúria. pelo amor de Deus. continuava ainda muito limitada. tá? A menina se afastou. como de hábito.O h. p ercebera nos olhos das pessoas a mesma descrença de que viesse a se recuperar e. contudo. volte para a cama. se permitiu pela primeira vez algumas palavras em louvor à boa luz que a iluminou num momento tão providencial. A Srta. Déborah esbravejou: . aquele caos horrível? . pôrra! Suma-se! . dia após dia. Boa noite. pensou muitas vezes na figura semilegendária de Doris Rivera: ocupara os mesmos quartos.Como ela consegue suportar.ameaçou Helene. mas não a importuna va muito. sofrerá os mesmos terrores..perguntou a Carl a. Helene.Escute. quando foi bruscamente acordada por uma das mortas vivas. . como foram terríveis aqueles anos que vivi no mundo. . . Sonhava uma noite com o pai e aquela outra faceta do seu amor. Você está sujeita às mesmas leis que eu. e numa das minhas piores noites? . Julgando que fosse.murmurou Déborah..Segundo a minha médica.

vítima de uma resignação patética e desesperada. sabei o que fazem. surgindo. e estrofes tiradas de Medéia. "Junta-te a nós. água. para gozar a inconstante clemência do aquecimento. Sol. Carla. nada poupam. era forte! Sua rainha e vítima cons ervava ainda vestígios de poder. que se estampou no rosto dela. e por sua vez.Tchau. ícomou emprestado um dos lápis "o ficiais" numerados. Procurava atraí-la com sua deslumbrante beleza. inc apaz de morrer. e dera o primeiro passo em direção àquele pesadelo que as pessoas deno minavam "realidade". como que em resposta ao seu comando.Não diga . as citações filosóficas de Abelardo. gos tava de Carla. embor a a cor propriamente continuasse imperceptível. algo semelhante a um potencial para a cor. Seria simplesmente porque ela estava contente de vê-la? Existiria re almente um mundo para além dos muros que vedavam seus olhos? Sofra.gumas coisas. Pássaro-um! recomendou Anterrabae com voz suave .Era u ma atitude corajosa agir assim com tamanha espontaneidade. antes de descer. Pela primeira vez desde que chegara à Ala D. junta-te a nós". ainda tinha o poder de v ibrar. como se a visse pela primeira vez: graça s aos códigos e à mágica de Yr.Claro que sim! . Coral pudesse ficar contente de vê-la.Eles semeiam em solo fértil. Passou aquele dia quase alegre. Despontam.e então. Carla veio se despedir de novo: . esperando! Uma verdade terrível se impôs a Déborah: Carla se tomara sua amiga. então. quando uma pessoa saia'de uma fase difícil. já que. Os dentes reluziam como diam antes e os cabelos formavam cachos de fogo. e ficou até a hora do jantar copiando os devaneios poéticos da velha . e eles . Em breve a avistaria. Já ia passar lá para lhe comunicar que amanhã cedo desço para a Ala B.Deb.vou sentir falta de você! O terror despertado por essa declaração foi tão grande que começou a tremer e a suar fri o. Coral para lhe recitar alguns versos de Lucrécio.Fico contente por você ter saído hoje. instig am-na a germinar no solo onde foi plantada. O olho da destruição aproximava-se cada vez mais de Déborah. Não dês ouvidos ao que ela diz. Você ainda quer ouvir? . alimentos. Déborah apercebeu-se de que ainda não tinha dito nada a Carla. 132 . a personagem legendária que Déborah visualizava como um fantasma. Você poderia até pedir autorização para ir me visitar lá embaixo na B. O pior é que.exclamou Déborah. er a mais seguro esperar algum tempo para ver que conseqüências resultaram. contando com a . havia se livrado da dolorosa sensação de perda e amizade. não mexera sequer um músc ulo do rosto. e da própria realidade da existência de Carla. Deb. Déborah a encarou com uma expressão aturdida. respeito e temor. Anterrabae se afastava na sua queda vertigi nosa. Procurou a Srta. . Yr. Déborah usou conscientemente a máscara. teve oportunidade de dar um outro "chega-pra-lá" em Helene. estarei por aí. Im ediatamente. A corda da amizade. Nunca lhe ocorrera que a Srta. antes de se aproximar. Foi à enfermaria. que bom! Como vai? . saudou amavelmente Anterrabae (esta era a saudação habitual em Yri). Déb. Déborah não atinava com uma razão que justificasse a coragem e a generosid ade de Carla. Ê doce a chamada e reconfortante o calor. Pássaro-um? Eles se armam com um conta-gotas c heio de ácido. completou com a verdade: . e mais tarde. não era um fantasma: estav a viva. defendendo-se contra o m edo suscitado pela partida de Carla. Doris Rivera. . os primeiros brot os. vítima. sorriu e a cumprimentou efusivamente: . o suficiente para se defender contra a determinação d o mundo em fazê-la sofrer. ao mesmo tempo. Levantou-se do chão e foi se aconchegar às outras vítimas daquele terceiro círculo do inferno de Dante. . quando a encontrou no saguão. Na manhã seguinte. reagia. Só nesses termos consegui a imaginar o reencontro com o mundo. que esperava como um animal acuado.ah. O Censor desatou a rir às gargalhadas. Carla. uma 131 folha de papel. embora tão debilitada. Doris Rivera tinha ficado boa e ido embora. no entanto. ampliou-se o campo de visão de Déb orah. chamam eles. deliciando-se com a expressão ao mesmo tempo de inveja. para espezinhar bem o seu sofrimento. então. Demonstrava uma confi ança e uma lealdade comoventes. Adulam a semente.

pois el e não pertencia exclusivamente a nenhum dos mundos. Quando Déborah deu por si.Acho qu e a gente só consegue gostar da comida do hospital quando está tão doente que não pode r eparar nela. menos convencidas do mundo do que estavam ao entrar. com o mesmo rosto inexpressivo. a grandes altitudes.é ele quem detém as c haves.Não. . mergulhou nela com um grito triunfal de águia. enfim.Não.reafirmou Idat. Ellis. Por que você não pede uma a ela? .prosseguiu a Srta. Déborah. Déborah avistou no fundo do corredor a figura de Ellis. Pensei que você soubesse dis so.Encontrei um tutor para você! Uma pessoa que lê os clássicos fluentemente. espere . A lua e o sol na mesma esfera.Se você quer conhecer . tratava a paciente como a um fardo. e desapareceu. A Srta. Lactamaeon avistou uma brec ha na terra. tenho certeza de que ele a ajudará com a maior boa vontade. observando-a livrar-se do torpor. e não Ellis. que jamais prestava atenção ao que se passava à su a volta. Provavelmente m uitas saíam do casulo. do preço qu e tivera que pagar por ter testemunhado e se posto à descoberto. nem fêmea. Coral aproximou-se dela: . destrancav a o banheiro para a Esposa do Abdicado. agora familiares. a divindade dissimuladora. reproduzindo com trejeitos termos psiquiátricos. muito menos a falar com ela. ainda meio atordoada... Ele falava pouco agora. pairava em céu aberto.Ela riu da alusão.Nunca percebi. o papel de zelador de coisas. e que se de sfazia lentamente durante aquele ano no hospital. Por coincidência.Já ensinei a você todo o grego que sabia. Ao passar por Déborah. Blau? . Coral com timidez. devassando todos os horizontes.principiou a Srta. Os penhascos e desfiladeiros do mundo. Nunca pude pedir nada a ninguém. e que também era andróg ina. . . Desde a conversa com McPherson que não falava com Ellis. . eu não posso pedir. foi Castle. . que o incidente com Helene tin ha acontecido antes dela chegar. pois pouco tinha a defender. talvez não. Voara já uma vez 133 com ela. . aos olhos dos outros. já anoitecera.Queria lhe dizer uma coisa . eu acabo brigando. embor a continuassem tão vivos 134 quanto o fogo de Anterrabae. percorreu de volta o cor redor. bem. . desprovida da tênue malha de defesas que levara a vida tecendo. na dimensão de Ir. e justamente hoje ele está de serviço no turno da noite. Não se dignou a olhar.exclamou horrorizada. acabaram se diluindo no meio-tom rotineiro da ala. pusera de lado o disfarce da normalidade. assumira de vez. Aberto o banheiro. obrigando-a a se curvar em duas com tamanho ímp eto que acabou de quatro no chão.Mary deve ter algumas balas. O que é que você está ve ndo? perguntou ela em Yri. Se você pedir. dividia-se entre os dois. o s pacientes não o testavam mais. é o Sr. nunca o vira. sentindo-se à vontade na doença. Acima de todas essas preocupações. . porém. Sim. acontece alguma coisa comigo e eu . algumas das quais ainda vivas. .Ocorreu a Déborah. Ta lvez lhe tivessem repreendido por bater nas pacientes. esta sentiu o tumor diste nder-se violentamente dentro dela.Quem é? Alguém daqui? Um paciente? . encharca da de suor.Ellis! . Leve-me com você! Um momentinho! interveio o Censor com sua voz áspera. um auxiliar novo. graças a ele. Era natural que não soubesse da história. Lactamaeon. conhece grego a fund o. Quando se ergueu. Quando tenho que pedir. nem macho. .O que houve. inc lusive aos seus. que encontrou ao seu lado. todo solícito. ofuscamente belo e l ivre. Coral amavelmente . respondeu o pássaro. O sarcasmo e o desdém irritantes dela. O olho a focalizaria e a lançaria em plena selva da real idade. metamorfoseado num gigantesco pássaro. Já se habituara ao emprego. sem olhar parà nada e ninguém. Enquanto discutiam a questão cuidadosamente.segurança que lhe oferecia a Ala D. . . limitouse a rec uar para deixá-la passar. Lembrou-se. .

tornava-se cada dia mais difícil conversar pe rto dela. cuidado com as opções q ue vocês nos oferecem! 135 Esther Blau passou muitas semanas preocupada e agitada.Não. 136 ao terminarem o jantar. ela p ermaneceu em silêncio por algum tempo. due seus médicos eram psiquiatras. as antigas crenças e temores sobreviviam incólumes na mentalidade popular. alegando que isso cabia exclusivamente a Esther e Jacob. Ou seja: feche os olhos e pronto! Tudo volta a correr às mil maravil has. as histórias descrevendo o ma nicômio. era injusto continuar a alijá-la da fonte de suas preocupações mai s profundas. por exemplo. O problema se resumia em achar uma maneira adequada de contar. Ao menor arranhão. As pessoas tinham o maior respeito pelas novas teorias com toda a sua gama de comprovações empíricas sensacionais. como de hábito. um hospital. precisava saber. por isso. Naquela mesma noite. mas ele se recusara. quem já não ouvira falar dos maníacos assa ssinos.Seus próprios ouvidos estranharam aquelas palavras. a despeito dos fatos. lembrando-se. fica? . mas só superficialme nte. Esther lhe pediu que ficasse. de alguma outra ref erência que a deixara confusa. Suzy voltou. e então falou em voz lenta e pausada. contudo. O clima foi pouco a pouco se descontraindo. . o da louca em "Jane Eyre". sem dúvida. Empertigou-se na cadeira. atônitos.Suzy esboçou um sorriso. levantou-se para fazer os seus exercícios de piano. na realidade.Uma coisa que sempre me intrigou é que esses relatórios tratavam mais das idéias de Déborah do que de seu corpo. . Ouço. por exemplo. cedendo lugar ao terror pr imitivo ao peso de dez mil gerações de medo e misticismo. com uma convicção nem sempre sincera.. você citar trechos para a vovó. Esther sabia. Ela estav a deixando de ser criança e. Suzy.As suas leis espaciais são ótimas . Quando terminaram. o pulso ou a temperat ura. . que partira de alg uma janela do hospital.propôs Jacob. . Nunca mencionavam. Esther e Jacob continuaram sentados. temperou a garganta e com vo z formal começou a explicar à filha caçula que a "escola de convalescência" de Déborah era . .. Suzy escutava com a passividade que só uma menina de doze anos é capaz. É um assunto sério. hesitando em revelar a S uzy a doença da irmã. discutiram. Suzy. arrancadas a tanto custo. Jacob de vez em quando a aparteava. rodeadas de muros sólidos e indevassávei . que sua enfermidad e era mental e não física. enfiada numa camisa de força c acorrentada num porão. que transmitiam suas taras aos seus descendentes. que esse "esp erar-um-pouco" era mais uma das portas por onde ele se esquivava discretamente d os problemas. e um dia você leu um bom pedaço para tio Claude que eu achei meio esquisito. tratando-se de um relatório sobre essas do enças comuns. . já era tempo. ameaçando o futuro? Sim. com os olhos perdidos nas xícaras de café. sepulcro de uma multidão de trapos humanos. ao mesmo t empo solenes e embaraçadas. por Deus..disse ela . Cheg aram a pedir ao Dr. acrescentando. Passados alguns minutos. Esther queria evitar a tod o custo que Suzy viesse a substituir a imagem familiar da irmã por aquele estereótip o da louca de olhar selvagem.Escuta.Você leu os relatórios? . modificando ou elucidando um ou outro aspe cto da questão. Tudo se encaixa direitinho agora! Até que enfim as co isas fazem sentido! Levantou-se da mesa e foi para a sala ao lado praticar suas lições de piano. às vezes. . a casca da cultura se desfazia.mas..Vamos esperar mais um pouco . Isso nunca! Discutiram. a "Ciência Modema" fornecera uma série de racionalizações oficiais para explicar muitos desses casos. Lister que o fizesse. Seu rosto não extemava um sinal. mas. ela não fica dizendo que é Napoleão ou coisa no gênero. com suas construções sombrias e lúgubres. no entanto. uma contração muscular sequer que denunciasse aos pais como estav a recebendo aquelas palavras. Quem já não havia escutado os velhos melodramas a respeito da insa nidade como. até que finalmente venceu a posição de Esther . Dava-se conta agora de que fora justamente este estereótipo que ela e Jacob haviam evocado da primeira vez que viram as janelas guarnecidas de barras e que escuta ram o ranger das fechaduras ou o grito atormentado de mulher. Além disso.

na Ala D. assim que passar o choque.O inglês é mesmo uma língua maravilhosa .disse Suzy.você parece estar "na maior fossa". por algumas horas.Eu tinha consciência de que estava sendo uma farsante.Não? Não é condenável cortejar a morte? (Suas mãos haviam manejado com destreza a lâmina a precocidade. isto é. Segundo Déborah. sem esp eranças. . Talvez o troar de canhão que temíamos foi o que nós ouvimos. toda a angústia que o dominava. Julgava. a podri dão-Déborah só começa a agir depois de um dia.perguntou Furii c om delicadeza . 137 Tomara que volte logo para casa. a graça. uma pequena dose de popularidade! .disse Furii . uma covarde. era ter sempre razão)..Todos nós temos! .Admito que errei mil vezes! Mas você esquece que eu era feia.eu tinha que preservar alguma coisa. lápis ou permitir sequer que alguém tocasse em suas coisas. à peça de Schubert. que possuía uma substância envenenada e venenosa. então o que sobrari a? Notou que se deixara levar pela vaidade e riu meio constrangida: .O inglês não é melhor do que o Yri! .Não sei não. Só que os doces vinham em caixas impessoais cobertas de papel celo fane. . Eu dava as caixas imediatamente.Até mesmo emPem ai . sempre se recus ara a emprestar suas roupas.Falaram sobre o otimismo dos médicos.comentou Furii. ela e tudo aquilo que a p ertencia.Por exemplo.No entanto. Ficava encantada com a pureza. . podia me dar ao luxo de ter razão! Se eu estivesse errada.Mas você não disse que costumava subornar as crianças na colônia de férias com os doces que sua mãe mandava? . não havia perigo de contaminação. .. é só isso ou será que realmente ela não nos compreendeu? A i mpressão que eu tenho é que. . . você cometeu erros que lhe custaram caro. livros. cujos gumes ela própria afiara. . estiveram impregnados dessa venenosa essência. Além do mais.perguntou Furii. Ser rainha de Yr.Claro que não! . quando identificou a menina errada na colônia de férias . quer dizer.E comprava assim.. não foi? . Jacob deu uma longa tragada no cigarro e expeliu junto com a fumaça. Por isso. alguns mortos vivos que. é verdade.como se diz? . as vantagens dela ser trata da cedo. o Coletor já se manifestava. e por isso. Enquanto não fossem abertas. por menos que fosse. inclusive em seus objetos pessoais. mas veio encontrar depois. pelo menos tanto quanto 138 com Yr. Contém expressões incríveis! Ho e . em seguida. que isto só aconte cia consigo. Por aquela épo ca. Esther se sentia fraca devido ao brusco relaxamento da tensão. Roub ava-os freqüentemente conservando-os até que se dissipasse esse nganon purificador q ue os impregnava. . a força vigorosa e o amor que demonstravam.que significa "Nada" . O tom em que falavam traía um pouco a esperança que tentavam transmitir. logo que as recebia. arruinada. vo ltando. parec iam carregar o mesmo estigma. Às vezes.Isso é tudo?. ela vai reaparecer com o olh ar que há meses venho imaginando! . a saúde que vicejavam nas outra s crianças da escola ou da colônia de férias. . refazendo-se do contraste entre as e xpectativas e o que acontecera de fato. de início. sua escrava e pri sioneira. tudo isso pesando em favor de Deorah. Permaneceram ali sentados por um bom tempo. ela e alguns outros possuíam um n ganon que as diferenciava das demais pessoas. e cada vez mais intensamente. Você acredita que essa sua substância seja realmente venenosa? Déborah começou a explicar as leis de Yr que regiam o nganon.Você se envergonha disso? Para mim é uma evidência de que Déborah ainda mantém vínculos com a Terra. uma substância ori ginal que definia cada pessoa. . iA composição do nganon dependia não só de fatores inatos como de fatores circunstanciais. sinto muita falta dela .Sim. "farsante e covarde .Elogiar uma coisa não significa condenar outra. Durante toda a sua vida.

. cometiam erros. assim como a glória e a miséria pressupostas na declaração de Yr: Tu não és como os outros! .Durante a guerra. e à noção inculcada 'pelo seu avô de que você era especial. agora. Quando em dezembro de 1941. Déborah já não a escutava.. Assim. à dolorosa intimidade de seus ferimentos. quando despertou sentindo-se como um sold ado japonês capturado.Por quê? . era o seu ferimento de guerra.Anterrabae. estava quase adormecendo.insistiu a Doutôra.. Fazia sentido. O prisioneiro não odiava seus captores. os olhos oblíquos do In imigo ansiavam pelo dia em que seriam desmascarados. Ah. sem extemar qualq uer alteração visível." (Liberta e alada. . à ruína de suas partes mais recô s e femininas. a Dra.chamou Déborah em Yri. ela não. tu não és como os outros! Recordava-se de ter escutado o trecho de algum discurso no rádio que dizia: "Os qu e não estão do nosso lado. Déborah? . contemplava todas as belezas e todas as maldades. horrível. sonhos de fuga. a condição de prisioneira. E esse sentimento vinha entremeado à precocidade que você tinha que su stentar.. o poder de transmutar sua forma. O importante é que o mundo começava a dar um sent ido às oposições irreconciliáveis que dilaceravam Déborah. à linguagem secreta. Furii deu-lhe um cobertor com o qual ela se enrolou e deitou no dívã. estão contra nós!" O Coletor segredou-lhe: .Ah! Tu deves ser esse inimigo contra o qual eles lutam! Certa noite. Ela gemeu baixinho para o deus e. Yr lhe deu de presente. sabe o que tenho a confessar. A dor contínua e insuportável c ausada pelo tumor.. pressentiu que ela beirava uma descoberta importante. Estava longe. ) Quando Déborah se transformava nessa enorme criatura alada. . no dia em que fez nove anos de idade.Anterrab ae sabe o que vi. 139 Anterrabae! Poderá ela arcar com tão grande peso? O que está acontecendo. o deu s cadente. o Coletor lembrou a Débo rah: . O encantamento dizia: "e. o nome daquelas ilhas do Pacífico adquirir am uma conotação odiosa e infemal para os americanos.Uma japonesa de verdade? . Fried. eram os que dormiam agora. .. durante cerca de um ano.. viveu ora sob a forma de um cavalo selvagem. Sua mente. de percorrer as imensas distâncias que os separavam. ora sob a forma de um enorme pássaro de penas de bron ze. voltou-se desesperada e disse: . e a menina feia e detestada se transformasse num esplendoroso pássaro. Por detrás da máscara de judia americana." eram acusações que ouvia dele.. A doutôra perscrutou-a com um olhar penetrant e. Os homens 140 eram os cegos. desperta. pelo contrário. quisera não ter visto! Qui sera banir da memória essa coisa horrível. logo que se sentiu capaz de transitar entre Yr e o mund o exterior. mas na realidade não era uma americana.Eles odeiam esses japoneses como sempre te odiaram.Onde você está agora? . desejava até que vencessem. versada num idioma estranho. . forçando a entrad a dos Estados Unidos na Segunda Guerra.Compreendo. . . Sintomaticamente.Pássaro um.. esta revelação constituía um segredo crucial. .interveio a Dra... aquele frio que remontava à distante vivência de uma separação. Um dia. Fri ed era obrigada a pedir inúmeras vezes que ela falasse mais alto. no alto do céu. no decorrer do r elato.Porque eu era a Inimiga! Para Déborah. os japoneses atacaram Pearl Harbour.E Anterrabae.Eu estava disfarçada de americana.. . completou com um sorriso amável: . quio quaru ar Yr aedat temoluqu' braown elepr' kyryr. sobrevôo os desfiladeiros das tuas canções de ninar. então. . elaborava. . Déborah tiritava de frio.. eu fui uma japonesa. enquanto el a tornava-se a síntese perfeita do amor e do ódio. o universo de segredos. as relações pareciam se in verter: os seres do mundo passavam a ser amaldiçoados. Bastava que recitasse um encantamento Yri para que se dissipasse a ilusão. Déborah contou que. e..

o Censor teve o cuidado de mantê-la em segredo. foi at rás dela. Embora marcasse a hora de sempre. fechou os olhos e relaxou o corpo. A te mpestade era iminente. a sessão fora longa e exau stiva.Sra. Há três semanas que seus discos de Schumann e Beethoven jaziam sem tocar na prateleira. por que fizemos isso? Lembra-te do terceiro espelho: a de cepção maior ainda está por vir! Vieste para esse hospital . . estava nos pla . e consultou em seguida o relógio que havia sobre a escrivaninha. Não foi assim? Não consi go é entender bem o lugar desse Censor no seu reino. Déborah correu para a enf ermeira da ala que supervisionava a contagem de colheres para o jantar. sim. pela décima segunda vez naquele dia. mas o terror a emudecia. respondera Lactamaeon. o telefone tocou.Não havia lugar para ela em Yr.Estou sentindo que a crise vai se abater. a voz do Censor trovejava em seus ouvidos: Cativa e vít ima! Sabes. Você agora já não é uma vítima. "Como se se nte a doutôra hoje?" Enquanto retirava o disco da capa. Anterrabae fez com que Déborah quebrass e um copo e pisasse sobre os cacos com os pés descalços. Preciso do casulo imediatamente! A enfermeira a encarou atentamente . Até que enfim esses malditos médicos me acham suficientemente corajosa! exclamara Débo rah em Yri para Lactamaeon. mas não conseguiu falar nada. A última enfermeira do turno do dia saiu. o pranto e o sofrimento de outras pacientes.Quer dizer que você escondeu essa identidade de japonesa de todos os que convivi am com você.Está bem. de uma hora antes de subir. Déborah retcomou à ala apreensiva com a nuvem que ameaçava desencadear os prenúncios ter ríveis de que vinha carregada Soaram os primeiros ribombos nas esferas de Yr. miraculosamente. Queria pedir ajuda. Logo que chegou à ala.Muito bem. .. pensava sobre um paciente. viu a enfermeirachefe saindo. Não sentiu nenhuma dor. Tu és prisioneira e vítima. e depois as aulas e as dúvidas dos estudantes de psiquiatria.Escondeu-a também de Yr? . Pressentindo que a onda rebentaria a qualquer momento.tenho certeza de que há muito para descobrirmos e estudarmos aí.Ainda assim. Começou a interferir em tudo o que eu fazia ou dizia. . ficou abismado e confuso com o seu e stoicismo semelhante ao "de um soldado".perguntou Furii. A música suave e graciosa invadiu a sala. Foi um mar de gargalhadas e zombarias ensurdecedoras! Déborah não perdeu inteiramente os sentidos.Á função do Censor é me proteger. Déborah. de construir uma espécie de verdade onde você pudesse viver Bem . e o próprio Yr. Censurava todos os meus atos para não deixar que as vozes e os ritos de Yr che gassem ao conhecimento das pessoas. Fazia parte exclusivamente da dimensão da Terra. . encostou-se numa poltrona. . o seminário. Nesse exato mome nto.E por isso. "Ah. "Droga! Por que o tempo é tão curto?" Espreguiçou-se e se encamin hou para a sala de estar cantarolando alguns trechos de uma melodia. No início. Olson. sem que eu o percebe sse. e sim uma pessoa q e luta comigo em prol de uma vida boa e sadia para si mesma! A Dra. A onda arrebentou com a violência prevista. Só que acabou se tomando. ele fazia parte da Zona do Mundo Intermediár o para impedir que os segredos de Yr transpirassem nas conversas mantidas na Ter ra. um verdadeiro tirano. Pouco depois chegava o pessoal da noite . O própr io médico estremecendo a cada caco que extraía. . Não queríamos que escapasses! . Exigira dela muita atenção e uma participação intensa. cujo médico viera lh e pedir conselhos a respeito de um problema aparentemente insolúvel. O pior é que tinha ainda a t arde pela frente. representavam ape nas uma tentativa de interpretar e explicar a realidade. Fried conduziu Déborah até a porta. Vá se deitar. Por favor! A crise vai se abater e s into que não terei forças pára suportá-la. continuo achando que esse Censor. por acaso. Seus pensam entos deslizaram suavemente relembrando os tempos e as poesias de sua juventude ." Mas dispunha.concluiu a doutôra . "Qual é mesmo o programa de hoje?" Cons ultou a agenda.. Como uma brasa que seus dentes fossem triturando. .No dia em que terminou a guerra do Pacífico. "Não! Chega de pacientes!" Ligou a vitrola e pôs o disco.Sim? . m esmo fora de Yr.

.. Reaver a nitidez de visão era como uma benção. verás só o que ela há de fazer ela e o mundo! A gargalhada que sucedeu à advertência deixou Déborah completamente for a de si. E logo Sylvia.Sete horas.desculpou-se Déborah.Você está bem? 144 Deus do Céu. o que há? . . e conseguiu apenas provocar cãibras ter ríveis em ambas as pemas. gritou esperando que Yr não interpretasse seu gesto como covardia e a punisse para sempre. com medo de tropeçar em mais uma decepção. Nos pés.Helene? Silêncio. Aconteceu alguma coisa? A curiosidade fê-la esquecer momentaneamente a dor. O tempo ia pass ando e ninguém aparecia. mais expostos ao contato com os lençóis molhados. latejando de encontro aos lençóis. Não posso. mas o pior de tudo eram os pés. Foste descerrando um a um teus segred os. Grite.nos. como dói! Há quanto tempo estamos aqui? Cinco horas.Doente. tal como os outros. .partiu da cama vizinha.perguntou.. parou de chamar.Não imaginava que você me visse ou soubesse meu nome. Mas não vieram. Ninguém veio. Agora que já te expuseste o bastante. Blau. mas quando os pés estão atados com uma pressão uni pouquinho maior. A crise durara um bocado de tempo. A dor t ornou-se intensa. Por que não vinham? As lágrimas escorriam pelo seu rosto e não podia enxugá-las..Srta. por seu silêncio sobretudo. s empre a considerara uma espécie de mobília inútil na ala.. o sangue quase não circulava. Trazia uma expressão absolutamente estupidificada ao chegar ao casulo e deitar-se nos lençóis frios. talvez seis.. . Só recuperou a lucidez muito tempo depois. O tempo foi passando. Em geral. não sinto d or alguma.. ou quan do se tem problemas com o sangue. Passeou os olhos ao redor.Provavelmente porque tenho uma circulação melhor do que a sua. .protestou Sylvia .. então? . rangendo os dentes. pelas mudanças de turno ou pelas idiossincrasias pessoais da equipe médica. a pressão insuportável das correias. Sylvia riu baixinho. que com a circulação paralisada. . mas não morta! . O jeito era esperar.. ardiam como fogo.. já se achava firmemente atada na cama. Sentiu os dentes estilhaçarem dentro da boca. Logo viriam os auxiiia res para retirá-la daquelas dolorosas "vestimentas de luta". Déborah ficou abismada: jamais seria capaz de reconhecer as horas pela rotina do h ospital.. nunca pude . pelo simples prazer de olhar. . Quando se cansou. Fcomos "encasuladas" juntas. Sentia os tornozelos e joelhos inchados. Virou a cabeça em direção a Sylvia. vendo que era inúti l. Déborah. Ah. Déborah. que sempre parecera. exceto por um breve e distante momento. Reparou num montículo b ranco na cama vizinha mas não deu para ver quem era.Como você consegue suportar isso? .. mui to mais próxima dos mortos do que dos vivos." Déborah percebeu que ao se entregar a essa esperança. Quando a punição 143 se abateu com todo o seu vigor. . Começou a choramingar. Permitimos que confiasses nessa médica. Finalmente. Esse ê o último.. Isso quer d izer que são três horas. Recostou-se na cama e fez força para suspender o corpo. Gritou.É Sylvia.Há quanto tempo estamos aqui. queimavam como fogo. Lutou e se contorceu como uma fera. .. . apagaram a luz da cozinha. de modo a deslocar dos tor nozelos a pressão das correias que os imobilizavam. A crise devia ter durado umas quatro horas. .Esqueci que o grito de um louco é um grito de louco! . pode ser que al guém venha. gritou. Tentou de novo arrastar o corpo para aliviar o peso dos ossos dentro das pemas. . até que a dor se tcomou tão intensa que acabou destrancando a voz de Déborah.. e os calcanhares. procurou rel axar ao máximo o corpo e aproveitar a lucidez que lhe permitia ver tão fundo em seus pensamentos.Quem está aí? . exclamando: Decepção! Decepção! Chegou a hora! "Venham! Venham! Venham!!. Sentiu-se envergonhada de tê-l a julgado pelas aparências. e a cama não cedeu um milímetro. Anterra bae riscou as trevas inflamadas de dor. .

pela prime ira vez. Déborah. arrancando-lhe gemidos. aquela ínfima possibilidade de salvação. as pemas readquirissem a cor e seus pés estivessem em condições de transportá-la. pel a primeira vez. a caminhar para essa morte como se eu não soubesse o que ela é! Quando se defrontou com o habitual sorriso de boas-vindas de Furii. cujo toque queimava como fogo! . Inútil! Sylvia voltara a ser móvel. Mas acontece que eu conheço e sse jogo.. quando finalmente veio. Quando finalmente vieram soltá-la. acercou-se dela. até que as articulações desinchas sem. 145 .. Pouco antes de sair para o consultório da doutôra. Déborah tinha esperado a decepção final por tanto tempo que. encontraram-na quieta e imóvel. A decepção ei a última mudança estão aí.prometeu a eles . conheço o final do jogo. estátua. . Déborah. .Agora você está bem calminha. prontos para intervirem. a Ansiada e Iminen te Morte. "Não suporto ver sofrimento". . fácil! O que era is so senão uma prova de menosprezo que sentiam? Transpusera o abismo que a separava deles.Sei que isso é um jogo. que a última Mudança seria a morte ou coisa pior. então. Aguilhões impiedosos cravavam-se em ambas as pemas. Acabou-se a farsa! Não pretendo mais manter a "esportividade". e mais ainda.Por Deus. .Eu a vejo. manequim. pedira ajuda em inglês.. me esforço por conv encê-la de que ao revelar esses valiosos segredos para nós. e ela lhe foi dada.Parece-me que o velho hospital do passado e esse do presente fundiram-se na su a mente. senão a desta médica. no dia seguinte e trans forma o nosso trabalho numa peça da grande decepção e mudança. Mas logo rejeitou a hipótese como absurda.exclamou Déborah . o momento em que eu confiaria. ah.disse Furii. Déborah não conseguiu andar. eles cantaram vitória! Se us calcanhares e seus pés ainda estavam doloridos da brincadeira. . e procu rando afetar a maior tranqüilidade. Sylvia. falou Déborah em Yri e. conservan do de humano apenas a forma. não é? .Juro que não farei! Não serei nem corajosa nem agradecida. um sopro de dúvida fez estremecer por um momento toda aquela determinação.No mesmo instante. não está colocando em risco a minha confiança em você por um momento sequer. Recuso-me a participar da brincadeira.gritou Déborah .Será que você não tem um pingo de misericórdia? . permitiram que ela ficasse sentada por algum tempo. A esperança! . d ecidiu retribuir o gesto de solidariedade que a arrebatara do seu habitual mutis mo. Contrastando com a incandescência da dor. .Escute aqui! . . o espelho da decepção final. . Já estavam com a pedra na mão par a despedaçar o vaso de flores! . e que há cer tas regras nesse jogo que a vítima não deve transgredir. e de viva.Eles souberam escolher o momento propício! ...Dessa vez não farei concessões! . Como não tinham quase o que fazer àquela hora da madrugada.As correias? . apenas o latejar compassado das têmporas.Sylvia. não pretendo ganhar a sua confiança só para traí-la depois. balançando levemente a cabeça. Por que me fazer de boba? Já não bast a me fazer de morta? Vá lá! Sou boba. di . em voz alta na presença de uma pessoa estranha.Bem? Bem? bêbeíalrfião se conteve: . fácil. o que quer que fosse. todas as divindades e personagens de Y r se agruparam no seu horizonte.O momento em que e u iria pedir ajuda.Não. Vamos. foi quase um alívio.perguntaram satisfeitos.expunha-se de novo às lâminas enregelantes do vento. portanto exe e acabe de um . Eu. . esses caras bolam tortura s verdadeiramente diabólicas! . projetara-se 146 enfim a sombra tenebrosa da Destruição Iminente. Imorth. . e eles. Na noite passada. pen sou Déborah. entregando-se num gesto de confiança.perguntou Sylvia. A certeza de uma destruição inevitável era bem mais fácil de suportar do que fora aquele pequeníssimo "talvez".Um dia você me fala sobre o soldado japonês e so bre como você foi alijada e discriminada pelas pessoas.Todo mundo treme de m edo de encontrar o chão da sala manchado de sangue. Então você vem.Não estou entendendo muito bem . A ntes de deixar Sylvia entregue àquela luz inóspita e ao incômodo de ser desenrolada. um sonho! Fora predito há anos atrás. Talvez ela não saiba. Aproximou-se da cama dela reparando pelo canto dos olhos que os auxiliares a companhavam cautelosamente os seus menores gestos. Que outra mão poderia executá-la de uma forma tão implacável e completa.

de que tipo e quantos -. Apenas transfere para você a responsabilidade de ex plicarme tudo. sopravam uma aragem pr enunciadora de mudanças. Delicadamente. Ach o que você está entregando os pontos com muita facilidade. ..Olhando para você agora. Religião. Outros Tratamentos e Observações. depois que a cobra foi apanhada. Num dado momento. Pouco a pouco.Trata-se de um caso de readmissão . Hospitalizações prévias. . como se tivesse passado por uma grande aventura. Encarou-a com aqueles seus olhos zombeteiros e prosseguiu: . Respondeu às perguntas de Furii com um ar orgulhoso.. por via das dúvidas.. então conte para mim. conseguiu di stinguir.Seja! . Eu me preparei toda para aparar o ataque. Gritam por socorro. Deu as costas bruscamente.Absoluta! . em meio ao atropelo de auxiliares.gritou. Ocupação. a ficha completa dos recém-che gados: Nome. mas infalível: Tempo! 17 Sob amarras idênticas às que trouxeram a Srta. repito que não vou traí-la. Acontecimentos desse gênero transtornavam todas as pacientes: espe lhavam a angústia de uma. como tinha gritado por ajuda horas e horas a fio. enfim.disse ela . Mas isso não me impede de ajudála.E gritou mesmo por socorro. um auxiliar que a informasse. Muitos vinham para a D. médicos. e de procurar ser paciente comigo se às vezes mi nha compreensão for um pouco lerda. Déborah foi recons147 tituindo os acontecimentos da noite anterior. no entan to. provocava m uma reação coletiva de pânico muito característica. a dor que sentia. desencadeavam a violência de outra.explicou despreocupadamente. qualquer mudança era um símbolo de morte.Prove! Prove! . porém. por isso.admiti u com amargura.Uma prova dura. Déborah encontrou. Tratamentos e Choque . os professores. mas esqueci que estava apoia da num terreno que era deles e.zem. você nunca esteve intemada num hospital psiquiátrico.Você tem certeza de que foi por tanto tempo? . Idade.Não temos muito . P ublicamente. Furii ficou séria. para nós duas. . . porque só posso supor o que seja.Fiz exatamente o que as pessoas "sadias" fazem quando vêem uma cascavel.. Ao contrário do que esperava. ostentando orgulhosamente o seu "status" de veterana. observava com um ar tolerante e divertido o acontecimento. dificilmente eu afirmaria que tudo está bem! O que foi que aconteceu de ontem para hoje? Se você acha que começou a úl tima mudança. muitos partiam.E encerrou a conversa escondendo-se debaixo do cobertor. o rosto da tigresa que transportava m ao longo do salão. . tornava-se muito pouco conhecimento da chegada de novos pacientes. o safari trouxe uma nova tigresa para o cativeiro. Estado Civil. . bastaváLhes retirá-lo de sob os meus pés. Lee Miller. sim!" A coisa já começou e você ainda ousa afirmar: "confie e tud o estará bem!" . conselheiros e familiares proporcionavam decepções e miséria ao l ongo dos anos. Déborah a procurou para saber quem era (certos pacientes acabavam obte ndo com antecedência.concordou Furii . a doutôra foi recuperando a confiança dela. nesse momento.. trancam as portas.Não. Lee zangou-se: . seríssima. as zombadas de Yr. . que está um pouco contente demais consigo mesma por causa desse incidente. . em seguida. como começou. desmaiam. lembrando-se de que sempre com um sorriso nos lábios. A ala. . Os mais belicosos. geralmente por meio de rumores. vibrava de expectativa.e saiba que lamento muito.Parece-me. desde o momento em que pedira para ser levada ao casulo. foi direto para o quarto e meteu-se na cama.Por que perguntar logo a mim? -. tintim por tintim. incentivando-a a se abrir . Coral. qu e beirava a alegria. a fagulha que precisava. Mais tarde. Contou.Pelo visto. Déborah procurou. e para a maioria. no entanto. saem correndo. . então. Ela ficou lívida. nesse estado tão lastimável. com o mesmo desapreço profano. "Vá morrer lá fora. .Não deixa de haver nisso uma certa dose de humor .

e chegam em frangalhos de tant o apanhar. assistindo à volta ao lar da filha pródiga que vinha lhes roubar a soberania.Por quê? gritou ela em Yri. Déborah ficou atônita. erguem-se lentamente dos chãos da ala.berrou Lena.. à luz do mito que ela e Carla alimentaram durante tanto tempo.E daí? . os sentimen tos que a revolviam por dentro explodiram boca afora numa cruel e estrepitosa ga rgalhada. ninguém o sabia..Aquela sem-vergonha da Blau! A mamãezinha e o papaizinho gastam uma nota naquela puta que não devia nem existir! . A grande Doris Rivera acabara partindo a espinh a dorsal na roda do mundo. pôrra! . e de novo. . Depois de algum tempo.Olhe-se no espelho e verá que também não é nenhuma beldade! . sofrimen to. medo e a euforia da vingança. mais cedo ou mais tarde voltam. hem? .. sentada a um canto do saguão. permitin do que o mundo a triturasse! Nesse momento.gritou Déborah. . mas uma coisa era certa: não fora de joe lhos! Notou que Déborah a observava com a mesma hostilidade que sentia no resto da ala. defrontou-se com uma hostilidade muda e implacável. foi invadida por uma onda de piedade e temor por si mesma. Déborah a examinou de alto a b aixo. todas as atenções convergiram para Doris.s dados. não sobre a padiola. ela está per dida.É! É sim! . s acodem o torpor. Doris era mui to magra e seus cabelos começavam a ficar grisalhos.Alguém objetou. conselhos.Que s erviço mal feito. hein seu doutor! Arrume a trouxa e volte para casa. Era um tal de casulos e se dativos. Quantas investidas serão necessárias até que morram definitivamente? E tu. Como arcara co m o mundo este tempo todo. Déborah se afastou cabisbaixa. e percorreu vagarosamente as portas da seção de reclusão.O que é isso Lena. Agarrou o pesado cinzeiro que estava usando e o arremesso u com toda a força. Mary Dowben postara-se diante do quarto de Doris. Seu nome é Doris Rivera.. e sempre voltam. gemendo cada vez que os membros do cortejo 150 emergiam de lá! Lee Miller. desafiando-as a todas? E como ousara fracassar.É aí que você está. Trevas. atingindo a parede. consultas.Você já esteve aqui antes . enquanto o auxilia r seguia tranqüilamente seu caminho.. Quer dizer então que acabam retornando! São teimosos demais p ara aceitar que seus nganons os tornam venenosos. calma.. Déborah escutou ela dizendo na enfermaria: .Napoleãoü .Isso não é da sua conta. . vacilantes como pugilistas derrubados num "round". .perguntou agressivamente. 149 -. não é sua presunçosa! Como ousara ela tentar. as auxiliares acudiram afli tas. recompõem as forças. pavor.Que olhar idiota é esse. negligência. vibrava nela uma vontade intensa de viver. cuidados. Apesar de exausta e atordoada devido aos sedativos. murmurava furiosa: . medo e inveja chocavam-se dentro dela.perguntou Lactamaeon com um sorriso nos lábios. o rosto pálido e encovado . afinal! .. fremia de indignação. e arremetem de novo contra o mundo. Recuou e encostou-se na parede gaguejando. quando Doris surgiu em carne e osso. Antes que pudesse continuar. .Porque teus guardiães são sádicos! Naquele dia. . Mais tarde.. Quantas coisas isso provava! Subitamente. . teu pulso persever a em viver. mas dentro dela. Pássaro-um? . a Estrela do Norte! Quem ela pensava que era. Medo e ódio. Enquanto isso. Médicos e enfermeiras rangiam a s chaves de sua autoridade na fechadura de sua porta. bem ao lado de Déborah. O diabo é que esses médicos nunca admitem quando "entram bem"! Alguns dias depois. Uma auxiliar contemporizou sem muita convicção: . uma mul tidão de irmãzinhas consumia-se de inveja. e de nov o.E daí? Como é que você voltou? . Déborah ficou com a pergunt a e a raiva reboando em seus ouvidos sem resposta. e ainda assim teu coração bate. até chegar ao quartinho onde Doris fora enclausurada.deixou escapar Déborah.Bem feito! Rivera. Sim. tudo para Doris. fecharam-se em torno de Doris e a afastaram dali. . mas apenas para manter as aparências.

. conduziram-na num táxi ao hospital. tinha de fazê-las. "O que é que a barata faz? Voa! Numa dessas. . mas agora vamos! . Agnes. . . sim. deixem essa doida ficar. fláci da devido à inatividade. Precisava saber urgente mente se teria que reativar o Censor. ou ambas as coisas. Eu também vou! declarou ela aos personagens de sua outra dimensão. Déborah o apanhou e o jogou de volta para Mary. de súbito. Percebeu.Nosso aparelho de raio-X não está funcionando . caiu e um de se us sapatos saltou longe.assentiu Déborah. alguns minutos depois.O tom de suas vozes era ameaçador: ou saía dali. cheios de curiosidade.preveniu severamente um dos auxiliares. será que ela olha?"). a primeira coisa que viu foram os rostos ávidos debruçados sobre ela. .. . .Rivera. enfermeiras e auxiliares vinham espreitar pela porta. não se meta nisso! .Ei. . merda! -. vocês aí. . (Julgando que ela talvez ficasse no St. ant es que degenerasse em briga. . Ao voltar a si.Cochichavam do lado de fora. Todo mundo nos diz isso. Talvez eu consiga responder às perguntas dela! Só posso saber depois q ue ela perguntar..Já disse que não é da sua conta.Yr começou a trovejar e o Coletor a provocá-la com zombarias. .Teremos que levá-la par a o hospital St. . do outro lado.Esta aí é que é a doente mental ? .chamou Doris do outro lado da porta. Os estagiário s que escoltavam Déborah. está bem. os esquemas voltados para sustentar as apa rências de sanidade.Ei! Foi muito duro? Você voltou por causa disso? . Déborah! Você não tem nada o que fazer aí! repreenderam os vultos bra ncos. correndo pelos co rredores e dormitórios. O pior foi quando a levaram para a sala de raio-X. como odiaria . não se deram ao trabalho de vesti-la decentemente . o casulo. insistiu. como a deviam estar vendo: suja.Não! Eu é que fui dura demais! Aconteceram muitas coisas . cabelos desgrenhados. mas eram vitais. o médico da ala o examinou e suspeitou que estivesse fraturado.. . naquele mundo sombrio e incolor. . as auxiliares acorreram mais uma vez para abafá-lo.Más eles vivem dizendo que a gente vai ficar boa. Déborah saltou pa ra agarrar o sapato mas caiu de mau jeito e torceu o tornozelo. A conclusão impôs-se fulminante: Aí estava! . Naquela mesma tarde ocorreu um acidente. e sair. . Umas quat ro ou cinco meninas que estavam ali começaram a brincar com ele. Agnes.O que por exemplo? . apavorados com a possibilidade de que ela fugisse.Afas151 te-se dessa porta.Eis o que Doris Rivera en frentara e o que Carla enfrentaria em breve: o Mundo! Déborah desmaiou. naquele momento. Ocorreu-lhe. iam de peito estufado. Duvidava que suas perguntas vies sem a ser respondidas. As pessoas no corredor voltavam discretamente a cabeça e os olhos para o 152 outro lado. Dirigiu-se à porta do quarto onde Doris e stava encerrada e bateu. Nem bem chegaram à sa la de raio-X.. ora espumava de ódio. . (Desinteresse afetado: "Se eu olhar. cheios de si. . .E eles são violentos? Déborah não escutou a resposta. Mary Dowben escorregou. . isolaram-na num quarto privativo.) Quem sabe um olhar demente também.Está bem. ou ia direto para a reclusão. vigiado dentro e fora por dois grupos de enfermeiras.. . Ao escutarem aquele diálogo.disse ele. e.Eu só estava conversando com Doris -.gritou. e todas as farsas e horrores sem os quais jamais sobreviveria lá fora. Déborah ora se divertia com o ridículo da cena. Na manhã seguinte. Dois estagiários uniformizados.. puseram-se a descrever orgulhosamente as agruras do trabalho na "a la dos perturbados". como se estivessem diante de uma famosa estrela de cinema ou portadora de alguma peste.. vestindo um velho roupão por sobre o pijama. .Sim.Escutem.Blau! -. De vez em quando. Chegando lá. Provavelmente foi uma piscadela maliciosa de olhos. Não tinha a menor idéia de qual a expressão que tr azia no rosto.

Diz mais ou menos o seguinte: "Em silêncio e em sono. ajudá-lo.bom. .ter que ficar no hospital. Afora todo o universo mágico.. Você. . caso o tornozelo estivesse fraturado..Bem! que. .contou a Furii . Uf! Lar doce lar! À noite. .E nagua . em meio às atribulações cotidianas de sua juventude.disse ela.Esse preconceito custa um bocado a desaparecer . ou seja. com o qual o Censor vivi a me atormentando. Há um ditado em Yr. Fale-me dela s. Não tinha nada a v er com o mundo..Sempre achei bom vo cês não usarem camisa-de-força aqui. Lá vinha Furii com suas mensagens ardilosas. mas ontem. subiu no "vagão de carne" para a D. Antes da Segunda Guerra era muito pior. Ainda assim.disse Déborah ao espelho. .Não posso ajudar ninguém. Armou uma cara bem agourenta e disse: .. mas. quanto em qualquer outro grupo.. Déborah saía do hospital mancando. e pior ainda antes da Primeira . independentemente da minha vontade. nganon clama por si mesmo.. cunh ados raivosamente sobre o aço temperado. Entrou no táxi (já esta va a postos) que. rápido. palavra s que em Yri significavam: "Eu te amo". O que aconteceu? Depois de ouvir a história toda. com ou sem fratura. independenteme nte do que eu pense ou faça! .Como está se sentindo? . tcomou a estrada e em seguida o desvio. as pe ssoas normalmente ou escolhiam ou eram escolhidas como companheiras tanto na colôn ia de férias. Déborah estava convencid a de que existia uma outra prova de sua indignidade intrínseca. Déborah fez um gesto de impaciência.seja no que .Você está tentando magoar a si mesma agora. desceu a avenida. Segundo Déborah. apoiada em seus dois enfermeiros. meta isso na sua cabeça! Será que você não entendeu nada do que eu disse até agora? O nganon age por si mesmo. atrai para si outras pessoas igualmente envenenadas. suas proposições de reformar o mundo. inclusive. .. No mundo. Procure ser paciente. 154 clama. certamente a levariam de volta. nos bancos de escola. atravessou o portão. juro que queria uma! Assim o quadro fi caria completo. por alguma força mágica.Eu carrego comigo o estigma do mal. absoluto e imutável.. justamente por conhecer a doença mental muito melhor do que eles. Sentou-se com dificuldade. foi mancando até o banheiro grande onde ha via uma chapa de aço que servia de espelho. .. ..Fui despachada para um hospital. com o tornozelo enfaixado. e encostou na porta 153 dos fundos do Prédio Sul (Alas B e D). liga ou classe . ..Como? Explique isso melhor para mim. Déborah saltou. as divindades e reinos de Yr. quer dizer. isso quer dizer também. veio a encontrá-la justamente no mundo.É um dos meus ataques que vem aí! O médico empertigou-se sobressaltado. as circun stâncias tornavam-na muito mais "louca" do que na ala supostamente "violenta" do h ospício. não creio que tenha havido fratura! Todos suspiraram aliviados. e que são uma minoria no mundo. Num piscar de olhos. atestavam os impulsos autodestrutivos de centenas e centenas de pacientes. T udo levava a crer que uma força mágica a atraia para os outros. . "Bolas!" Estava doente. . Esta prova. Ali. não pouparam um centp metro de espelho. reúne as melhores condições para ser compreensi va e indulgente. duas ou três pessoas. talvez eu não esteja entendendo mesmo.. Furii suspirou..gaguejou ele com pungido . Atrai sem que eu o saiba... anterior ao agir e ao respirar.perguntaram os seus dois enf ermeiros (gozando o privilégio de serem os únicos com conhecimento suficiente para l idar "psicologicamente" com ela). Mesmo despojadas dos instrumentos necessários.a moça teve um deslocamento bem feio.." Isso signi fica que a substância venenosa. o "eu" inimigo. está me lhorando. na hora de se lavar para dormir. Um mosaico de arranhões e entalhes. Mas eu fui boba: só me ocorreu a idéia de espumar pela boca quando e stávamos longe. Déborah teve uma idéia: se conseguisse assustá-los b astante. . rápido. as pessoas têm que preservar a aparência de participação -. compreendeu! -. que você atraiu uma. .

O 156 suor escorria de seu rosto em grossos filetes pelos ombros e braços .Tome! .Não esqueça do q ue eu sei a seu respeito! vou obrigá-la a me bater com esse cinto. Déborah descobriu que só era capaz d e corresponder a essa exigência de participação e de convivência.Déborah começou a recuar . em seguida. ao se combinar à virulência que e xistia potencialmente nela. Chegando lá. a razão dessa afinid ade.Você está fugindo. com os corrompidos.for. Mas o que necessitavam era. Ocorriam tão naturalmente qu anto a atração do imã sobre o ferro. nua em pelo. Não preciso mentir para você. Pegue.Sentiu que algo terrível estava por vir. . . Estendeu para Déborah um cinturão de couro. e por isso odiavam a si e ao companheir o. conversar de coração aberto. Ao se aproximar mais. Eugênia e Déborah logo começaram a andar juntas. dera origem a isso. pressentiu que havia alguém mais. é claro. compreende. mas sabe muito bem para quê: É para mim. no íntimo.. . Vamos! . Existia.O quê? . ouviu ruídos furiosos de luta num dos boxes e. Julgara-se até a própria encarnação da R . entre el as. Um dos melhores. e talvez até voar se Yr lhe permitisse.. amarga e inquieta . . seguindo essa linha de raciocínio. você. Isso foi um pouco antes de se consumar a última grande mudança. nem consistissem num mero ritual em benefício 155 das Aparências.Quem é? . . as pessoas at raídas desse modo sabiam no íntimo o porque. os dementes. os aleijados. o l ago. os espelhos das Aparências e. Déborah conheceu uma menina inteligentíssima chama da Eugênia. a voz d e Eugênia. Não posso! Não quero! O desejo e a ânsia de Eugênia saturavam o ambiente. era a casa de banho que ge ralmente permanecia deserta. Num dos verões que passou na colônia. de como era penoso s ustentar as Aparências perante o mundo.Ora. .Não.era uma pessoa solitária. por um minuto que fosse.. queria correr pelas Planícies de ir. na maioria das vezes.Venha cá. Conhe cia vários refúgios na colônia onde dispunha de uma hora ou duas de paz e solidão. não se faça de desentendida. as forças para sustentarem os muros que as separa vam dos outros. Essas afinidades não eram intencionais ou premeditadas. . Sabiam. porque. uma certa dose de simpatia. baixar as defesas e esquecer que o mundo era aquele caos traiçoeiro e decepcionante. no boxe com o chuveiro fechado. a colônia acabou aceitando-a amizade das duas e deixou de j ulgá-las e hostilizá-las. Sabe muito bem o que sou. Queria tranqüilidade . Depois de algum tempo. e por causa disso sofrerá punições terríveis do Censor. a solidariedade exterior: freqüentarem juntas o refeitório. Pôs-se a c antar de modo a anunciar a sua presença. antes que começassem a chamá-la e a procurá-la. Ocorreulhe subitamente uma suspeita terríve l: talvez o seu nganon tivesse contagiado Eugênia e. Um dia. rindo e falando Yri em voz alta. reconfortarem-se mutuamente com palavras que não soassem de todo falsas. o campo de futebol.mas procurou fugir à suspeita de qu e também fosse uma portadora do nganon venenoso. Yr vinha l he exigindo uma dedicação cada vez maior.gritaram de lá.Não. Pois bem. Por outro lado. Déborah foi.. . . . oferecendo em troca um alívio cada vez menor .Para quê? . desse modo. acima de tudo. Acontece que. os desfigurados. queira ou não! Vo cê vai querer. muitas vezes. os medíocres. . Débora percebia. uma compreensão mútua d o quanto havia de sofrimento por trás dos atos mais triviais. . Finge que não entende.Déborah. sentindo vontade de ficar à sós. os esquisitos. . o convívio satisfazia à profunda carência de transpor esses muros.comandou ela. com quem quer que fosse. Suava em bicas.. .Bat a em mim! . . uma cumplicidade silenciosa.Não. Deparou com Eugênia. . . e freqüentemente se atormentavam uma à outra por causa disso. que Eugênia tinha as suas esquisitices . . . arranjou um jeito de se esgueirar para longe das pessoas.Déborah recuou mais um passo. Já fora surpreendida. e você tem. Uniam.

Jamais pedira a alguém que a compartilhasse. Não é para menos que o doente mental tolera tão pouco as mentiras.Sei como é difícil progredir com uma "médica famosa e importante". é verdade? Vo cê ainda tem esse medo de contaminá-las? . . e ser conivente. . e que você discemia de uma forma claríssima.perguntou Furii. . As interurbanas ou casos es peciais de médicos que não poderiam ligar outra hora. Continuamos a trabalhar j untas? .Você ainda acha isso? .concordou Furii . mas ninguém admitia isso.Bem.Há muitos anos que eu as venho contaminando lentamente! .No mundo das campainhas .E continua sendo verdade em relação à sua mãe. mas sei que também há homens intemados aqui . Déborah bateu palmas. Sim. .retrucou Déborah acidamente. . sentindo-se es tranhamente gratificada.Ah.Os homens não são vulneráveis ao veneno feminino. pensativa. agrilhoada e condenada à destruição . era ser responsável.Conseqüentemente. pois embora eu conheça outras razões que explicam essa intolerância. .uína . para impedi-la de ter a imaginária "folha de serviços perfeita".. .Sim. é verdade. ou seja. Sabe. .Agora. achando agora ridículo o susto que tinha levado.. .Bem. Ainda assim.Sim. não é assim? . . ..mas uma ruína que só dizia respeito a s mesma.Porque sou louca! No momento em que você admitiu que eu estava doente.Pemai. logo in citara.Acho! O telefone tocou sobre a escrivaninha e a doutôra levantou-se para atendê-lo. Existem alas cheinhas deles.Yr encara isso como uma pilhéria. Talvez o nganon de Eugênia foss e ainda mais virulento do que o seu. mais sã quer dizer mais forte. . . O seu nganon despertara o de Eugênia.Sorriu. quando a pessoa se toma sua amiga . exatamente como as nossas. . admitiu que eu estava tão doente que merecia ficar intemada num hospital. Furii encolheu os ombros num gesto desamparado d e desculpas.Não.Algumas dessas chamadas não posso deixar de atender. Acho que eles se arruinam de um je ito diferente. Procuro evitar o maior número po ssível delas. você fic aria tão assustada quanto ficou naquele dia? . Jamais voltaram a se falar. Se esse incidente dos chuveiros ocorresse hoje.Ora. arrancoulhe das mãos o cinto. . quer por atr ação . jogou -o no chão e saiu correndo. . .perguntou ao voltar a se sentar .E quais foram os resultados? .Você parece estar vendo isso pela primeira vez -.. testemunhar era ser conivente.Tenho certeza de que minha irmã acabará louca. sim.Não entendi muito bem. provou-m e que eu era mais "sã" do que imaginava. por que não? . reparando naquele sorriso que nada tinha da amar . com relação às mulheres da família. esses anos todos eu soube que estava doente. mesmo que jogando com a nossa própria vida.onde estávamos? . 158 num certo sentido contribuiu. .suas idéias como que saíram à luz do sol. Estou curiosa. .acaba inevitavelmente arruinada. Nunca pensei nisso antes. comentou Déborah. Era um milagre quando não tocava pelo 157 menos uma vez durante as sessões.O que foi? .quer por afeição. seu pai e sua irmã? . apesar de ser tão requisitada.Será verdade? Será que contribuí com alguma coisa de novo p ara você? Furii ficou um instante em silêncio. existe . e tanto pode ser por contato direto como por proximidade. Déborah avançou para ela. toda satisfeita e sorridente. Sentimos a tentação d e nos desforrarmos um pouco no placar. nunca encarei a questão sob esse prisma. Devo lhe avisar qu e fracassei muitas vezes. logo causara. . .Falávamos sobre contaminação.. . mas você explicou bem a questão. .Exigiram de você que desconfiasse até mesmo da realidade que lhe era mais próxima.Olhe. .Encarou Déborah com um sorriso meio malicioso.

deprimido e nostálgico. Coral. Que progressos fizera no sentido de vir a ser a menina recatada.Você me faz ver uma nuvem branca envolvendo o cume de uma montanha. . das horas felizes com a família reunida. pareciam esperar. as orações e os juramentos. os olhos pe sarosos: . .perguntou Lee. . seus "trajes de coroação".Será que não daria para ela vir passar um tempinho conosco? Podíamos ir aos lagos. desfer indo raios! . . A noção do ngano n venenoso representara uma descoberta fundamental para Déborah. Por que não estava ali com eles? Era a segunda primavera que ela passava longe de casa. .Shh! Agora não! . num tom divertido. uma revelação meramente espiritual. .Eles estão desperdiçando o tempo de um ser humano que. As meninas começaram a se retirar em fil a do auditório. Ela preferia ir à festa da turma. Posta dos aqui e ali como estatuetas imutáveis. .disse Furii .Vocês conseguem ler os meus pensamentos? . No dia da cerimônia de colação de grau. é? 159 . . não é? .disse Déborah . ouvindo o s coros e os discursos. Uma n oite.Não consigo ler nem os meus. . esperar. no dia em que se d er conta disso. a filha de s eus sonhos? Nenhum. graciosas e inocentes em seus vestidos brancos. tomando ares de co ndessa elegantemente horrorizada com algum espetáculo repugnante. . estação das paixões e da impaciência. ansiando pela v olta dos bons tempos. quanto mais os seus! Déborah passeou os olhos pelos personagens que decoravam as paredes do saguão. implorou que ficass . a filh a caçula.Quais são as suas intenções. do que prometera a si mesmo e a Esther. Nas sessões seguintes. com o seu toque de fogo. valho algum a coisa. aqui pelo menos. Como passara rápido o tempo! Suzy. . mas ao invés de enc arar essa noção como uma fantasia sintomática. para mim. não co nseguiu tirar Déborah da cabeça. a racionalidade de um fenômeno complexo e natural. feminina. Jacob virou-se par a Esther que. vestira-se em trajes de gala ou.Puxa! . mas Jacob.esquivou-se a Srta.E. Jurara a si mesmo dedicar este dia exclusivamente a Suzy.disse Helene. refastelada como uma coruja velha na poltrona. uma vez ou outra! Decidiram levar Suzy para j antar num restaurante chique. Coral. de brincadeira. assim como Lee e Helene que acabavam de chegar. começaram a explorar uma convicção que Déborah compartilhava em seg redo com todos os doentes: a de que ela possuía um poder infinitamente maior do qu e o indivíduo comum e.Tremeu só de pensar de viver sem Yr.murmurou para si mesma escolheste o pior lugar para começar! 160 18 Primavera.mas por detrás dela acha-se a mesma Furii. Vocês conseguem ler meus pensamentos? . . terminava a escola secundária.Bolas! Ela não é uma delinqüente condenada! . era ao mesmo tempo inferior a ele.Está falando comigo? .Minha cara.Está vendo? Você fica tão feliz ao dar. a boca descaída. de seus desejos.Eu choro . fez uma cara de choro. procura va encontrar nela a lógica. enfim. hein? Mandar-me para a reclusão. mas.Vá para o diabo! . . pôs-se a observar a Srta . . isso significa que.. quanto ao receber. a despei to de seus esforços. . Jacob sentia um profundo vazio i nterior.com as três. .Tire os olhos de cima de mim! -.choro grandes lágrimas de crocodilo por esses seus deus es de Yr. sussurrou ele. em homenagem a Suzy. enquanto aguardava no saguão a distribuição de sedativos. .sibilou Esther. se andas à procura da realidade objetiva . porá abaixo as suas casas e os expulsará de vez. .Pode não ser bom para ela. no entanto.Se eu posso ensinar-lhe algo.insistiu ele.Pode ser bom para mim. obediente. Absolutamente nenhum. segundo a fa mília.gura habitual.

em juntos aquela noite. Justamente por ele querer tanto, a noite foi desde o iníci o um fracasso. Suzy acompanhava-os contra a vontade. Esther estava deprimida por que a filha presente voltara a ser relegada a um segundo plano pela filha ausent e. Jacob sabia que acabaria pondo tudo a perder se persistisse naquela ansiedade , mas não pôde se conter. A noite transcorreu num clima de desolação constrangedor. Num dado momento, Esther comentou com naturalidade 161 forçada: - Debby queria vir à sua colação de grau, e se ela pudesse teria mandado um pre sentinho. Suzy encarou-a com um olhar tranqüilo e disse: - Ela estava aqui. Eu vi vocês dois c onversando sobre ela quando recebíamos os diplomas, e ao nos prepararmos para a saíd a. - Que besteira! - protestou Jacob. - Juro que não conversamos sobre ninguém. - Não faz mal. .. sério! Mesmo que realmente não te"nham falado alto, foi a expressão, o olhar que vi em vocês. . . - Cogitou em descrevê-lo, caso não soubessem como os seus rostos denunciavam as preo cupações, mas as palavras eram tão complicadas e dolorosas que não conseguiu articulá-las. - Bobagem, Suzy - protestou novamente Jacob, abanando a cabeça. - Expressão, olhar. . . vejam só, que besteira! Suzy e Esther entreolharam-se rapidamente. Era claro que ele estava escondendo o jogo. "Seja indulgente", implorou Esther com os olhos. Suzy abaixou os seus e f icou algum tempo remexendo num botão do vestido. - Sabe aquela menina que estava n a minha frente na hora de receber os diplomas? Pois é, o irmão dela é um pão.. . No hospital, as pacientes recusavam-se a admitir que a primavera pudesse chegar passando por cima de todos os seus sofrimentos, mas ela veio, triunfal e radiant e. As mulheres na Ala D estavam furiosas: o mundo que as destruíra, ao invés de sofr er pelos seus pecados, parecia mais vicejante do que nunca. E quando Doris River a prendeu os cabelos, vestiu uma roupa bonita e, com um sorriso tímido, partiu de volta para o mundo, sentiram-se mortalmente traídas: Doris aliara-se à primavera con tra elas! A Esposa do Abdicado tinha a sua teoria: - Ela é uma espiã! Eu a conheci há muitos anos. A oposição paga para ela semear o caos e d epois a imprensa transforma a coisa num escândalo. - Devemos ser caridosos - apregoava MaryDowben, com ares de santa. - Devemos ser caridosos, ainda que ela seja portadora de todas as moléstias sociais que se poss a imaginar, para não falar das infecções nas partes pudicas, transmitidas por homens d e reputação desprezível. Sem mencionar esquizofrenia da natureza mais sórdida e imunda. - À medi162 da que ia elevando o tom de voz, transpareciam as arestas desarmônicas do pânico. -Vocês doentes mentais são tão engraçados! - exclamou Mary Fiorentini. Foi o bastante para desencadear a briga. A ala toda transformou-se bruscamente num remoinho de fúria e medo, onde as brigas irrompiam com uma espontaneidade selvagem e absurda. - Como tem paciente em reclusão hoje, hein? - comentou uma estagiária recém-chegada. - Quando pegarem mais alguns, vão começar a enclausurar de dois em dois - retrucou Déb orah. - É.. . é. . . - assentiu a estagiária (tratamento Número Três, sorriso amarelo, saindo pe la tangente). Déborah afastou-se e tentou acertar mais uma vez o sapato no relógio d a parede da enfermaria. - Daria tudo para acabar com aquele sorriso. - A tua cara já é mais do que suficiente - disse Helene. - Pelo menos a mim você consegue ser superior, não é? Mais uma briga. - Há épocas assim na ala - asseguravam os auxiliares antigos aos mais novos. - Não cos tuma ser tão violenta. - Os mais novos, contudo, não acreditavam. As estagiárias de en fermaria recém-ingressas andavam assustadíssimas. Duas enfermeiras da turma preceden te tinham "fundido a cuca" pouco depois de receberem suas filiações psiquiátricas, e e stavam agora intemadas num hospital. - Cuidado, porque as coisas que se vê aqui comentava-se à boca pequena - acabam deixando a gente maluco.

As quatro novas estagiárias recém-chegadas, designadas para a Ala D, estavam tão apavo radas que não se desgarraram umas das outras, formando um grupinho coeso e discrim inatório. Criou-se, naturalmente, um contraste entre essas jovens, belas e saudáveis portadoras da primavera, e as pacientes, sombrias portadoras dos nganons veneno sos. Helene e Constantia desbastariam aos tapas e pontapés a singularidade das nov as inimigas. Déborah simplesmente baniria as recém-chegadas da cabeça até que se dissolv essem na rotina anônima da ala. Só as enxergaria como vultos brancos e indistintos, e só as escuta163 ria quando se referissem a ela ou lhe dessem ordens específicas. Estas defesas, qu e eram inconscientes, impediam-na de assumir a presença das estagiárias, cujas virtu des (atribuídas exclusivamente por Déborah) fariam com que ela se sentisse conscient e de sua "loucura" e, portanto, de que era diferente. Uma tarde, Déborah estava sentada no chão perto da enfermaria, olhando fixamente o f amigerado mostrador do relógio, quando surpreendeu a conversa de duas das estagiária s. - É verdade que uma paciente da B vem para cá? Onde é que ela vai ficar? - Não sei, mas se vem é porque deve ter "fundido a cuca" mesmo! - Lembra o que Márcia disse? Elas melhoram e tornam a piorar de novo. Espero que e sta pelo menos saiba como usar a privada, e por onde engolir a comida! - Ambas a bafaram o riso. Na hora não ligou: sabia perfeitamente que o riso denotava apenas ansiedade. No en tanto, quando trouxeram mais tarde Carla, dilacerada interiormente, com a mesma expressão terrível de derrota com que Doris Rivera chegara, Déborah ficou furiosa. Aqu eles dois vultos brancos não tinham zombado de uma maluca qualquer, mas de Carla, uma pessoa boa até a medula dos ossos; boa a ponto de ter sido gentil quando Déborah a ferira na sua região dolorosa. Ninguém diria, vendo as duas, que eram tão amigas. Seria, contudo, um gesto extremam ente penoso e, acima de tudo, uma interferência - isto era incompreensível para os " sãos" - Déborah cumprimentar Carla, sabendo que ela estava arrasada e que poderia se arrepender mais tarde caso este cumprimento suscitasse uma reação violenta ou mesmo rude. Por isso, nem sequer olhou para Carla. Limitou-se a esperar, por detrás de sua máscara de pedra, até que a companheira fizesse algum sinal discreto mostrando r econhecê-la. Só então se aproximaram uma da outra e, ainda assim, afetando o maior desinteresse p ossível. Déborah sorriu acanhada, e foi aí que ocorreu um fenômeno surpreendente. Acostu mara-se a ver tudo desprovido de relevo, cinzento, anuviado e apenas em duas dim ensões. E eis que do borrão, surge Carla 164

nas suas três dimensões, todas as suas cores, incrivelmente nítida e clara. - Oi! - cumprimentou Déborah, mal erguendo a voz - Oi! - Você pode fumar? - Nenhum privilégio. - Hum. Voltaram a se cruzar mais tarde diante do banheiro, onde Carla aguardava que uma auxiliar destrancasse a porta. - Vamos jantar na minha cama hoje? Carla não respondeu. Quando serviram o jantar, apareceu com a bandeja no dormitório dos fundos. - Posso ficar? Déborah arredou para o lado, deixando-lhe o melhor lugar, ao pé da cama (Alô, alô minha amiga multidimensional e colorida! Estou tão contente de vê-la!"). - Doris voltou e já saiu de novo, sabia? - Contaram-me. - Carla ergueu os olhos para ela e, por um milagre, pareceu enxer gar através da máscara. - Ora Déb. . . não é tão ruim assim. Tive que voltar porque comecei me esforçando demais, porque parte do que fiz foi contra meu pai... e por uma série de outras razões. Não estou entregando os pontos. Só estou cansada. - Seus olhos se en

cheram de lágrimas. Déborah ficou paralisada pela confusão e o terror que lhe inspirav a a tristeza da amiga. Estranho mistério, este das pessoas que se afogam no oceano caótico e terrível que era o mundo, e depois, pálidas e trêmulas ainda, se arrojam de n ovo sobre ele. O que os leva a pensar que podem flutuar com os outros, quando a tensão superficia l de seus nganons foi rompida no primeiro afogamento? - perguntou Déborah a Lactam aeon. Só Idat sabe - respondeu ele. - Para alguns, nada é impossível! Déborah sentiu todos os músculos retesarem-se de medo. Achas então que o nganon dela não é intrinsicamente mau, e sim. . . e sim. .. circunstancialmente mau? - Acho! - Mas nós scomos amigas! Se a substância dela não é igual à minha, isto significa que vou envenená-la! - Exatamente. 165 Pode uma coisa contrariar tanto as leis? Pois se as próprias Leis afirtnam: "ngano n clama por si mesmo". Como é possível que eu tenha atraído uma essência diferente da mi nha? - Talvez isto seja uma punição - ponderou Lactamaeon - Ocasionalmente, tu destróis par a te punir. Olhou para Carla e encontrou-a chorando ainda. Decepção! Acreditava conhecer o código, depois de anos e anos de sofrimento procurando uma pista para decifrá-lo e, ao ch egar ao último degrau, via-o desfazer-se e ressurgir o velho caos, a anarquia, as zombarias. Ela era minha amiga! gritou para os deuses que partiam. Não parecia estar magoada. ... Tu e ela não são da mesma substância; os nganos são diferentes. Serás a assassina de tua a miga! Quando Carla parou de chorar, Déborah continuava sentada do outro lado da cama, ma s estava longe... muito, muito longe. Para grande surpresa e desagrado de Déborah, uma estagiária deu para se afeiçoar por e la. Bastava que botasse a cara nos "locais públicos" da ala, para que a moça (ou mel hor o vulto branco e a voz indistinta, destacando-se no pano de fundo cinza) se pusesse a segui-la diligentemente, com uma jovialidade gratuita e importuna. Deves estar mais doente do que pensas, disse Déborah para si mesma em Yri. Estas p essoas escolhem, em geral, os piores para lançar a Deus. Deus é como o cachorro e Débo rah como os ossos. Conseqüentemente, Osso será meu nome! Estas palavras soara-Lhe tão engraçadas, que não se conteve e riu às gargalhadas. Em seg uida, fez com as mãos o gesto simbólico em Yri e a mímica correspondente ao riso, em s ilêncio, como convinha a Yr. - Quem está rindo aí? - perguntou Anterrabae num tom brincalhão. - Sou eu, a Coisa-Osso-de-Deus! Desataram a rir até expurgar de dentro de si o tormento da terra. Como ficará o êxtase glorioso daquela sacerdotiza quando Deus Sentir o cheiro da oferenda que lhe fi zeram! - e os dois caíram na gargalhada novamente. 166

E a surpresa no rosto da meiga e piedosa estagiária com o furor dos Poderes Celest iais? Dessa vez as risadas terminariam em amargor, pois Déborah sabia que não teria coragem para pedir à menina que parasse de segui-la e perturbá-la com as suas interv enções solícitas. A primavera seguiu o seu curso. No decorrer das sessões com Furii, Déborah foi desce rrando um a um seus segredos, seus temores, e as senhas que davam passagem a seu s mundos. Entregava-os, porém, apenas para apressar o momento em que, finalmente, ela própria capitularia à grande e última decepção, tão inevitável quanto Jaganata ou a que perene de Anterrabae. A iminência da destruição dava-lhe calafrios. Ficava, às vezes hor as, dramatizando a sua destruição, fantasiando as mais diversas mortes, todas elas s ublimes. Furii botou as mãos na cabeça: - Deus nos acuda! Adolescência também!

e a alertou para o fato de que o novo médico não se aprofundaria na análise. Tudo arranjadinho.Lançou sobre Déborah um olhar penetrante e sorriu. i . meu pai me levou numa viagem a Carlsbad.. Certo? .. Faça o que lhe der na veneta: fantasias. portanto.perguntou. afinal? . Furii falou sobre as qualificações do substituto. . apenas representaria o mundo nas batalhas de Déborah com seus censores.Craig. Déb orah se sentiu mais uma vez "igual". Há mais uma coisa. 168 Nas sessões seguintes. a médica de Sylvia. enquanto F urii a solicitava com perguntas. . Freqüentemente duran te as sessões. o melhor.propôs avidamente . umâ 'curtição". em seguida. por favor. Conversei uma noite com Fiorentini quan do estava de serviço na ala. os sintomas e os fantasmas do passado c omeçam a aflorar . e a ofereceu a Débora h ao mesmo tempo em que dizia: . Lembrava-se de uma d as primeiras sessões. por causa de uma conferência em Zu rique. .O trabalho toma-s e às vezes tão intenso . ele comprou isso para mim como lembrança da viagem. Interrompeu as divagações com uma palmada nos joelhos.Em s eus olhos reluzia a lembrança daqueles momentos felizes.quando os segredos. Furii.Ah. Ao se recuperar da segunda punição. Era como se dissesse: "vou confiar a você uma das minhas recordações. A pr imeira combateremos com todas as nossas forças. iriam quebrá-la em pedaços. onde existem os 167 tipos mais estranhos de rochas e formações rochosas. Era a primeira vez que Furii falava a respeito de si mesma. não. pousava ali os olhos para descansar a c abeça. Déborah contudo. Havia um peso de papéis de forma indefinida. se preparando para voltar à ala. tinha a sensação de fato consumado.Quanto tempo. Adams.Hum. tão honrada de estar com meu pai. É um tipo raro de madeira petrificada.concordou Déborah. espere.Conheço vários aqui . Esta delicadeza si gnificava mais do que uma pequena pausa para descontrair. Ao terminar a sessão. . . Depois vêm as minhas férias e.que a gente se esquece como pode parecer estéril e sem sentido es ta terapia antes do mundo adquirir uma dimensão real para o paciente.Certo! . Pretendo tirar férias mais cedo esse verão. Tem também Halle. Déborah olhou para a escrivaninha da doutôra.Ágata? . fora até o vaso e partira uma flor de um lindo ramalhete de ciclamens. assim como você me tem confiado as suas". Sempre em desordem. onde. a médica erguera-se. . . dias depois. não foi emocionante ou. Este gesto compensara as duas punições terríveis que recebeu de Yr por ter aceitado fl ores da terra. Quero preveni-la desde já para que vá se acostuman do à idéia. Aceite. inclusive já assisti ela trabalhando e gostei muito. ajude-me a distinguir qual a doença e qual a adolescência. quando fizera a primeira confidencia importante. sobre a possi bilidade dela se sentir rejeitada. era como se estivessem preparando a antiga roda de suplício.E daí? . Furii lhe oferecia agora ura pedacinho de si mesma. Déborah havia empenhado todo o seu esforço de análise..De volta às minas de sal. forçando-se a se expor (tankutu).Não costumo partir flores. o diab o! Agora. Providenciarei alguém para me substituir enquanto estiver fora. mas dessa vez você mereceu. só nós dois. não havia com o que se preocupar. a flor já estava murch a e seca.Estou planejando partir dia vinte e seis de junho e voltar dia dezoito de sete mbro. A segunda não é senão outra evidência indi scutível de que você é cem por cento uma integrante do mundo. nos momentos de maior tensão. sonhos. ele disse que recebeu meus .Sabe o que é aquilo? . não é ágata. tal como na Idade Média. como se diz hoje. acompanhando o seu olhar.Não. ou uma mensagem indire ta a incentivando a "tomar coragem". vou participar de um simpósio que já f oi adiado várias vezes. mas eu me senti tão gen te-grande. . Adolescente ou não. Quando me formei no que vocês ch mam de curso secundário. nem costumo dar presen tes. no mundo dos adultos.E daí que isso não tem cura. uma verdadeira mulher em potencial.Você gostou da viagem? . perguntou: . coletores e todas as forças de Yr.

Conversamos bastante e eu confio nele. .Sei lá.O pedido so ou como uma exigência. . .disse Déborah. Sua aceitação seria um ato meramente f ormal..Entre .O senhor é inglês.Estou sem Novocaína. "Prometi a ela que seria complacente. mas a única coisa que lhe ocorria dizer era: "Que maneira empertigad a de se sentar!".A tradução literal de uma palavra Yri. seu novo médico. pelo visto.pais quando fui intemada. . .respondeu Déborah. pelo visto.. não era nada amistoso.Você conhece bem o administr ador da Ala B...Deixo-a em boas mãos . . produzindo um eco lúgubre e oco. Royson ficará com você. .Conteve-se outra vez. ele se manifestou: ..Você a chamou por um outro nome. suas novas companhe iras morriam de medo dela por ter sido uma paciente da D.. . um nome qualquer. Lá pod eria dispor de papel.. como se tivesse sido picado por c obra. .O que quer dizer isso? . .Quem? Quem levou? . .Que pode ser mais dispendiosa do que a gente pensa. .E que pensamentos lhe ocorrem a respeito de odontologia? .Sua médica me falou muito a seu respeito. quan do a amiga deixara pela primeira vez a Ala D. Confortavelmente instalado. lápis..Em odontologia . mas felizmente conheci a algumas meninas.. doutôra Fried.O Dr. Do mesmo modo que expurgara o amor e a memória de Carla.Recostou-'se satifeito. Espero que passe um ótimo e prov eitoso verão. mas não "perturbada". . Déborah se sentou. Estava no livro. O homem. a linguagem secreta. e tem o Dr. Em compensação. . comparada à loucura de svairada da D. Significa: Eu consentirei! SN HAÍM") 169 19 Lutando contra o tempo.O mesmo tom. Déborah procurou resolver todos os problemas antes da part ida de Furii. . Decidiu tomar a iniciativa .perguntou ele num t om inexpressivo. Após um novo silêncio. Déborah estava convencida de que Furii partia para sempre. Como as leis de Yr se entrelaçavam às do mundo. mais parecia um túmulo: trancafiada ainda. Royson para conversar.silêncio. . eram trabalhadas intensa e honestamente. e havia enfermeiras maravilhosas que iembravam muito McPherso n. . contundente. livros e privacidade.Ah. só mastigam monossílabosf .sente-se . Déborah esqueceu Furii como se ela j amais tivesse existido ou viesse a existir.Estão todos com as horas tomadas . Requereu e obteve a transferência para a Ala B.resmungou Anterrabae desden hosamente.disse Furii. Furii não deixou nada comigo. não? 170 -. Encontrou-o empertigado na poltrona..É mesmo? Esses maxilares. . . . . embora as incursões introspectivas não fossem nem muito esclarecedoras nem muit o profundas. . . Qual foi? . .É .. Di rigia-se à primeira entrevista com Royson. As sessões de terapia adquiriram um clima de urgência devido à partida iminente de Fur ii. . . quedou-se a observá-la. Esfregou as . é..No que é que você está pensando? .Meu terceiro trilho .Lu brificavam as engrenagens. em terreno seguro. .A doutôra.Déborah revirou a cabeça em busca de alg uma resposta. Seus passos repercutiam no silêncio do corredor.Deu um pulo na poltrona. .Gosto da pronúncia. num dos consultórios do andar térreo.assegurou Furii no último dia." . página 97. aprontavam a roda. prometi que me esforçari a o máximo possível com este.convidou ele .Sou.

. e que. "Significa.insistiu a voz que vinha de fora. e envolve uma série de outras propriedades do mar como. ou como tremulam os ves tidos longos. Déborah persistiu na sessão seguinte e na seguinte e na seguinte.Trazida bruscamente à realidade. o prelúdio da Punição. significa o movimento das ondas. . ele parecia desapr ová-la. ou. por exemplo.Déborah transpirava um suor gélido. e com o eco de sua voz dizendo ao s deuses: '"Mas eu prometi.Não se faz cirurgia com uma picareta. procurando levá-la a admitir que. a ondulação dos cabelos. A tática era engenhosa. ou quando alguém parte.Não. . Mas prometi a ela. cochichou Lactamaeon no seu ouvido.Entendo. .Quaru.. espraia sobre a areia o seu fugaz esplendor. . de que se ela pudesse formular claramente as coisas diante do mundo não seria doente mental.A Dra. o idioma no qual fora educada de sde pequena. tão indesejável quanto fora a dos bisturis em seu c orpo. .perguntou ele... brilhante por vezes.Há inclusive um ditado (Decidira naquele instante fazer um último esforço para salva r a situação). Até no modo austero de se sentar.. além do mais.Por que então você não diz logo movimento das ondas? .O quê? .Déborah se sentiu um trapo . com rarís simas excessões. pode ser muito bonita. há muitos anos atrás. tcomou coragem. fran cês e alemão. ne m estaria ali. há uma outra palavra para isso. . . . Diz assim: com um machado não se rapa o cabelo. insistiu Déborah com o flamejante deus que despencava no espaço n egro.mãos de contentamento. Dsborah sentia ganas de dizer-lhe que todos aqueles argumentos repres entavam uma intrusão em sua mente.Pode-se usá-la para descrever o modo como o vento sopra. No entanto. .Rapa cabelo? Tentou de novo: . e que qualquer a de nove ou dez anos de idade poderia formulá-las se Crl jsesse Analisou a estrutura das sentenças.repetiu aturdida com a pergunta.O que significa? . Significa agir como agem as ondas. .Que palavra? . e Déborah teve freqüentemente que concordar com ele. virou-se para ele e . ela sabia que ele não tinha entendido nada. .falou distraidamente. bem. . . .Isso depende da pessoa ter ou não a intenção de voltar. .sê como o mar qu e. mas ela também encerra es sa conotação de mar que. esquecendo-se. reproduziam a estrutura do inglês..E o que quer dizer isso? . a austeridade do homem e a frieza lógica do seu raciocín io intimidaram-na. . .Significa também partir? .Ora. .e.Diga uma palavra dessa linguagem secreta . soou-lhe de uma forma inteiramente nova: Te quaru . . e não uma dádiva enviada pelos deuses Esmiuçou a s primeiras palavras 172 citadas por Déborah para demonstrar que se compunham lfVrfraementos de latim. talvez. quanto mais se aprofundava na questão. defrontouse com um rosto severo e desapr ovador encarando-a fixamente. Até que finalmente um dia.. .O significado se atrofiou e morreu na tradução! Seguiu-se um longo silêncio entre os dois. Fried contou-me que você tem uma linguagem secreta. Retirar! . quando reflui. maior tornava-se o silêncio que a envolvia.Muito interessante! . no entanto. . . Ela está morta. . Contudo. este arrazoado de provas era absoluta mente irrelevante. o frescor da água ou aquele marulhar suave e açoitante. utilizando a forma poética em Yri que. Ele procurava de todos os modos convencê-la de que o Yri era u ma linguagem elaborada por ela mesma.A palavra é empre ada sempre que houver uma relação com o movimento das ondas. às vezes. detalhada. . .Quaru. desalentada como estava. 171 . mas as reações automátic as e inexpressivas do médico acabaram fazendo com que ela se fechasse num mutismo denso como a noite. ...exclamou Anterrabae.

Isso se aplica também às rochas? com a minha ajuda. e cujas aberturas estavam todas vedadas e embarricadas. Idat! Por que jlutuas de branco? Branco de noiva e de mortalha .' seria lhe opor um aceir o. Déborah compreendeu que a única forma de abrandar o vulcão que a queimava por dentro.. de qualquer significado. e a sua presença infu ndia em Déborah a esperança de que pudesse algum dia vir a ser simplesmente feia. . despr ovidos. Objetos e pessoas haviam se transformado num todo indistinto e remoto. Seus sentidos nada informavam: via unicamente manchas cinzentas e disformes. porém. Sentiu uma leve tontura e um cheiro nauseante de queimado. Seria preciso um incêndio para aplacá-lo? 174 Enquanto isso. Halle. vagarosa e deliberadamente. sob a máscara inexpressiva de seu rosto. . e ouvia apenas grunhidos e rosnares surdos. em pouco tempo. ergueu ligeiramente o véu. cujo chocalhar ameaçador não lhe saía da cabeça durante as sessões. se era ou não de substância humana. os mesmos meios! Conheço tuas aparências. Estava claro o que Yr sugeria: nisso os seus sentidos não a enganavam. Tomara-se irredutível a defasagem entre o universo exterior.retrucou Déborah. e o seu universo interio r. começou a queimar meticulosamente a pele. Apelidou o novo médico "Dente-de-Cobra". a morte lenta e gradual? O que se rende não luta. Anterrabae em sua queda etema.disse Idat. .dois vestidos que são o mesmo ves tido. os Desfiladeiros do Pesar.O que é que você quer dizer com aceiro? . as percepções táteis não eram menos imprecisa s.O seu último grito soou em vão. Aceitava-os. e foi pressionando.disse. Déborah conseguiu divisar através da máscar a. um fogo de encontro. .respondeu Idat .perguntava naquele instante o médico. a Dissimuladora. de encontro à parte mais sensível da articulação do braço e do antebraço. e o que luta não se rende? Minha e strada contém todas as oposições ao mesmo tempo e.. Idat . com grande alívio. a consumação máxima da vida? E a vida nãoé por acaso. os meus sintomas não são a minha doença ! .Por favor. percebendo o cheiro de carne queimada. recolhera um suprimento razoável de fós foros e de guimbas. a fisionomia familiar do Dr. O vul cão. Sofra. m dia. Era um a mulher belíssima. Por meio desse mesmo recurso. . toda de branco. Furii estava morta. uma enfermeira entrou no quarto e ia dizer-lhe algo quando estaco u de súbito. e com o passar do tempo acabou renunciando também aos mov imentos. Sempre que assumia essa forma. onde reluzia o sol quente de verão. Idat trazia um véu sobre o rosto. por causa das cascavéis-muito comu ns naquela época seca e quente do ano . cujo sol era um ponto cinza equilibrando-se num imenso vazio. um a um. eram dados tão irrelevant es que não valia a pena questionar.Onde? .. desejos e longos calafrios de terror. Passava os dias prostrada e inerte sobre a cama. ódios. Nem bem ela saíra. com cinco dessas guimbas em brasa. apareceu a ela sob a forma 173 de mulher.. ao mesmo tempo rainha e vítima dessa beleza. rígida e muda diante dele. Havia fósf oros em abundância na Ala B e. por acaso. mas essas ocasiões eram bastante raras e exi giam uma grande quantidade de tributos cerimoniais. Se o dia estava lindo ou se aquel a imagem que se movia pertencia realmente a um ser vivo. O vulcão não cedeu. Acendeu outros ciga rros. em alto e bom tom: . A deusa. . Até Yr se tomara distante e in acessível. ardeu mais ainda sob o rosto e o corpo petrificados. apareceu o médico. para fins opostos. Déborah se fechou num mutismo impenetrável. um fogo que por si me smo inflama enquanto debela o primeiro. ou sobrevoava. deu meia-volta e retirou-se ap ressada. pouco a pouco. a si mesma . Acompanhava. Nada mais lhe restava. em geral. doutor. por vezes . provaria enfim. rasgando ventos ferventes. Quero te dizer que os homens respondem ao fogo com o fogo. Olha! A morte não é. Idat.Parece necessário. Ficava sentada. começou a se rmar um vulcão onde fervilhava um magma atordoante de "s e contravozes. com L actamaeon. teus véus.

Não. lembra? . .Pobre homem! ." . mesmo quando a gente distingue cada linha. . Deci diu. sem fazer estardalhaços ou recri minações. Um estagiário. ou num Dr. . uma pesso a aberta. Halle. examinando as queim aduras. não. Talvez até a famosa terceira dimensão seja apenas uma questão de significado.disse ele. Ele a conduziu de volta à D..Por isso mesmo é que estou usando esse desinfetante .Acho que vou ter que levar você de volta para a D. Porque não ofereces uma jlor a ele. Procurou alguma verdade com que pudesse retribuir os desvelos do médico.comentou o Dr. Quando o Dr. o médico virou-se para Déborah e declarou com ar penalizado: .Concordou distraído. Lembrou-se de Furii e da flor que dela recebera. . Furii te deu uma recordação. falar sobre o significado e a terceira dimensão. Halle segurando um vidro de antisséptico. . não diga? Que interessante! . o que era outra de suas virtudes. . Ficou tão comovida com a preocupação que ele demonstrava e com o tempo que estava perdendo.quando fico perturbada. uma voz sussurou em Yr: Olha para ele. sentia-se muito mais segura com Halle. plano e cor de um objeto. a visão se toma irrelevante.Na superfície. Depois de examinar as queimaduras.o tempo de contato é tão curto que não há possibilid des de infecção. mas nenhuma dor. inclinando-as ligeiramente para cim a. fazendo cara de repugnância e estendendo a mão n um gesto instintivo ("parece até que a minha carne é de verdade". antes que ele terminasse de gritar "não!". Já sei! vou dizer a ele que pode me tocar quanto quiser que não vai morrer.Bem. Está vendo? Sente-se mais seguro agora . pensou ela). Déborah percebeu que ele não tinha compreendido. é com o se fossemos cegos. Assim que transpuseram as portas duplas que davam acesso à ala.Você fez uma sujeira dos diabos aqui .Vamos ter que limpar e vai doer.. terminando o curativo. .Mostre-me .ironizou o Coletor. . .falava com cuidado para não lhe parecer crítico. E se fala sse sobre a visão? Diria assim. . Deixou escapar um vago comentário. permanecia a postos com uma bandeja cheia de instrumentos cirúrgicos.você será uma das minhas pacientes lá. geralmente não consigo ver as coisas direito.Déborah não esperava por uma pergunta tão franca e incisiva. .respondeu Déborah. com quem se podia falar e que jamais recorreria a expedientes tais com o o "sorriso número três". A manga da blusa tinha grudado à pele queimada.Seja lá para onde for. .A visão não é tudo! . De repente ele paro u e olhou para ela intrigado.Não se preocupe . n uma madona. Halle começou a limp ar e friccionar as queimaduras. Oh. Acab ei de assumir a administração da ala. . satisfeito de voltar àquele trabalho mais "médico". objetou Anterrabae. Ela fez com as mãos o gesto Yri de aquiescência.Você tem algum problema nos olhos? . Déborah sentiu tonteiras.retrucou o médico. .. Persistissem ou não as trevas. jogando f ora o algodão e apanhando 176 gaze para enfaixar as feridas. q ue decidiu lhe dar um presente. . se não houver algum significado. Curioso é que parece s er imune aos efeitos venenosos de meu nganon. 175 . .Não se preocupe . Déborah a arrancou de um só puxão.. acho que não. . . Déborah lhe agradeceu a idéia com a saudação Yri: Que o calor e a clareza de espírito te a companhem.disse ele num tom amável . . Mas ela está morta.Estou procurando ser o mais delicado possível .gritou Déborah.Cale a boca! Assim não consigo ouvir meus pensamentos! .disse Lactamaeon.. . então. Déborah sondou-o com um olhar de desconfiança enquanto pensava no íntimo: "O que é que e le quer dizer com isso? Estaria exigindo a gratidão? Não. .disse ela afável . sussurrou Lactamacon. Nada possuo de palpável. o toque de mágica que transforma um amontoado de planos numa caixa. .

Você já pode sair do casulo? Está se sentido em condições? . . que. Como é que você está aqui? . e sua visão.Ah. Suas gargalhadas pareciam vidro estilhaçand mas claro. . . . mas que talento! Definitivamente. Dei uma chegadinha para ver se você estava bem. uns três ou quatro dias.Oi.Ah. e sua inexperiência deixou Déborah estranhamente comovida. Suas palavras. . . . Novamente aquele tom jocoso. O calor congelava. Numa das contínuas idas e vindas de pacie ntes.. meu Deus! . suportou o castigo.Eu não bati em ninguém. Quando voltou a si.protestou Déborah. não excessivos de uma não consigo entender . Inteiramente à margem do tempo. se adensando pouco a pouco à medida que a noit e caía. até já.gemeu apavorada. gravidade e o testemunho de seus cin co sentidos.Não é por isso que eu vim. As relações de causa e efeito se diluí am na tempestade. virou para Déborah e comentou num tom festivo: . a Punição. . sabia o que fazia. que talento! 178 Mary soltou uma gargalhada estridente. A punição deixara-a exausta. os gestos atriz de comédia barata. As noções de luz. abateue violentamente. . porque . .. Mary. como a mão de um carrasco. Sem nenhuma advertência prévia. voltando-se espantado. Decepcionada e envergonhada consigo mesma. . estava fora de si.suspirou Déborah . Ele riu. . os raios de luz feriam como dardos. fica va entre Mary Fiorentini e Sylvia. . As zombarias do Coletor foram-se avolumando até se transformare m numa zoeira infemal. . Puxa. A pesar do que dissera o "novo" médico.deramlhe uma cama que já fora sua .Não sei.Devo ter demolido tudo.. . tinha sérias dúvidas. Deitou-se na cama e ficou observando as somb ras do crepúsculo invadirem o quarto. Passado algum tempo. Déborah olhou para ele horr orizada.é como escapei. espaço. Quando foi.Ficou algum tempo lutando com a chave na fechadura. Déborah fez menção de virar o rosto para o outro lado.Ah.O que eu acabou a punição. até os limites da exaustão.Oi.Mas que você deu umas boas cabeçadas nas portas e ja nelas. lá isso você deu. .Não. já era dia. ..Não sei. tempo. agora. um pouco aborrecida com o comentário. .. . de que ele não saberia exatamente quando eclodira a crise.. estava dentro de um casulo e tinha ao seu lado um médico q ue não conhecia.Lembrou-se. continuava tão muda e ausente c omo antes. se tingiu de um rubro impenetrável. porém. embaralharam-se num grande caos. dirigidas a Yr.Menina.Como está se sentindo? . Déborah.Sorriu complacente.Eu não o conheço. . tá? Não se preocupe com essa dor. . que estava deitada na cama vizinha. os braços e os ombros estavam doloridos. .perguntou o Dr.É. bom. 177 "1 Ficou apavorada ao notar que as mãos. . .É que eu estou de serviço hoje. . Perdeu toda a noção de equilíbrio (não sabia se estava de cabeça para baixo ou para cima). nunca imaginei que você tivesse o bicho no c orpo. e soavam extremamente falsas. você é louca. haviam transposto as barreiras e caído nos ouvidos do mundo. Aqui só chamam o méd ico quando alguém se mata. Deve ser por causa da tensão.Chiii.Há quanto tempo estou aqui? . o. como você briga! . mas um súbito torcicolo e um acesso de tosse obrigaram-na a voltar-se de novo para ele.Eu bati em alguém? Machuquei alguém? .. Quando voltou enfim ao seu velho dormitório .vou deixá-la então mais uma meia hora.. Sou novo aqui. Halle.re inava uma atmosfera carregada de angústia. a Esposa do Abdicado fora deslocada duas camas adiante. .. habitualmente cinzenta.O quê? . . por sinal. de localização e de distância.

lembrou que lá os regulamentos eram muito menos rígidos e havia fósforos em abundância: seria a oportunidade ideal para executar a morte que almejava. dissera.Tive um trabalho dos diabo s para mantê-la assim! . Guimbas de cigarro e fósforos eram fáceis de obter. concluiu com seus botões. só mudava o local das quei maduras quando começavam a infeccionar e supurar. simplesmente obsceno! .retrucou ela num tom meio ácido... pois o alívio trazido pelas queimaduras não durava mais que uma h ora. lembrando-se do primeiro encontro com Mary.perguntou a si mesma. mais seria obsceno. francamente. .comentou. É como a dor física . respondera: "Eu sou o manicômio na versão Disney". "logo ali".. Mary. detendo-se junto a Déborah na s ala de estar.. . Continuou a queimar os mesmos lugares. mas logo se recompôs. "É porque eles realmente não querem olhar para nós". casos como você deviam saber que o inferno (foi sacudida por u m novo acesso de riso) . e logo a pressão passava a ser insuportável de novo. que respiravam ao seu redor tomaram aquela incandescência d esmaiada. apontando em seguida para a sua cama. Teria razão? Haveria pelo menos fr onteiras naquele pesadelo sem leis? Os últimos vestígios do dia se extinguiram. superava todas as precauções que vigoram na D. Déborah se ocupou em refletir no que ela dissera. No final da semana.declarou como quem não quer nada. porém.a gente treme. Num estalo. característica das noites de verão. minha querida. Talvez até mesmo no Inferno houvesse misericórdia. com um 179 sorriso de Walt Premida usca de 180 irônico e aquela jovialidade forçada. furiosa ainda com aquela idéia dele permitir que se queimasse até a morte na B. emb ora. Se o homem lhe o ferecia de mão beijada essa oportunidade de morrer. já que você melhorou tanto.Você está com uma cara muito melhor hoje . merg ulhando o dormitório na escuridão. se empenhassem toda a sua coragem e energia. Precisava dispor de um supr imento considerável. por que estava ressentida com ele? . a rigor. acrescentando camadas de queim aduras umas sobre as outras. O médico olhou para ela chocado.Tenho mais algumas queimaduras. por mais agoniada e irritante que fosse. e depois acaba! . eram capazes de se ajudar umas às outras.Bem. Se quero morr er. Déborah saiu da cama e foi rastrear a ala em b combustível para mais um aceiro. o tal médico novo reapareceu na ala. Déborah riu. existia de fato um limite. e como era im portante saber disso! Até mesmo as pessoas venenosas.Bem.Quer dizer que há um limite para a coisa? .não pode durar mais do que vocês são capazes de agüentar. . treme. mesmo assim ninguém re parava. Sylvia (com o seu imobilismo m ortal) deram provas disso. Ouvindo isso. . no entanto. estendera-lhe a mão num gesto dissimulado e fratemal: sim. Con statou. e os contornos amortecidos das camas. Divertia-se com a falta de atenção d as enfermeiras e auxiliares. Carla. Helene. estivessem sujeitos às mais severas restrições.Fico satisfeito por você me ter dito isso . A intensidade de seu des ejo.Não era para menos . sem saber bem porque. e agora Mary lhe oferecia um pouco de sabedoria. torcendo-o como se torce roupa lavada.disse meio sem graça. que estava apavorada. . . porque é que estou me sal181 vando? . Por alguns dias conseguiu manter as feridas em segredo. das paredes e dos corpos inertes. Déborah compreendeu que Mary. 20 Déborah passou a depender cada vez mais dos aceiros para amainar a pressão insuportáve l do vulcão.Ora. por um impulso incontrolável. Su a visão já era um pouco mais nítida. Acenderam as luzes. Fora engraçadíssimo: "Sou Débor ah". acho que poderá voltar à Ala B muito em breve.soltou uma ris adinha irônica e. Déborah começou a tirar o suéter. voltou às suas gargalhadas irritantes. As feridas supuravam e fediam.

contendo a agressividade. sem saber que. Quando os legisladores da D descobriram que seus pacientes não estavam tão a salvo c omo imaginavam. descobriu que estava no casulo. varreram a ala de cima a baixo com severas reformas.. com toda nitidez.. o cigarro aceso que esqueceu na sala de estar bastou para mais uma série de queimaduras. Furii passe ou os olhos pelo quarto. bamboleando e resmungando son s inarticulados. E os Deuses. vergonha.. e agora. Restringiram o uso do fogo aos limites da enfermaria. de escapar ao olhar dela. afinal.. .Olhou ao redor de novo.Déborah estendeu o outro braço. ainda estava por vir. com um aspecto inacreditavelment e diferente. De todas as sensações. a que mais a assustava era a alegria 183 de rever Furii. .murmurou Déborah.Não.O que aconteceu? Você estava indo tão bem q uando viajei. estavam todos à solta. v .. dirigindo-se à região iluminada onde o Homem Moderno fornecia às pacientes seus símbol os de status: cigarro e fósforo.Divertiu-se bastante? . . . ele se afastou. As que imaduras recusavam-se teimosamente a cicatrizar. como tantos outros. A Idade do Metal cedeu lugar à Ida de da Madeira. voltou para cá.Deus do Céu! . Logo atrás dela. No entanto. já há algum tempo.Tinha que contar a ele. na realidade . como dizia Anterrabae. justamente por não ter mudado nada. org ulho. mas não era impossível. àquela sua expressão de desgosto. um pouco acusador.Vamos tentar um curativo diferente. uma chave rangeu n a porta e entrou uma enfermeira.Puxa! Quantas vezes você queimou isso? . . a Esposa do Abdicado a acusou de ser espiã a soldo do Secretário do Interior. o Co letor.Como estão as velhas feridas? . . Um dia. Pouco depois. m ais cedo ou mais tarde.retrucou Déborah.Não é a primeira vez que você vê.. . medo. ávido por fogo. . não passavam de minúcias gramaticais. desespero. ao cruzar com Déborah . sentou-se junto à cama e balançou a cabeça com um ar de espan to. para a sua surpresa. não foi? . inteiramente subvertidas.perguntou. comendo com os dedos e urinando no chão. Terminados os curativos. por alguma razão mágica.Você andou mexendo aqui.disse Lee Miller sarcasticamente. Numa outra ocasião. . Déborah sentia vonta de de sumir. Não se deu ao trabalho de responder pois ele viu com seus próprios olhos.Deus do Céu! . Deixe-me ver as novas queimaduras. . os seus tr ajes graníticos. vinha Furii. cujo universo cinze nto e difuso só admitia uma excessão: o cigarro focalizado. numa selvager ia descontrolada e inexplicável. cor.Muito obrigada. formas terrenas que. não é covarde? rosnou o Coletor. mil sensações conflitantes dilaceravam-na interiormente. 182 Tornou-se difícil conseguir fósforos e guimbas. ao seu lado. essas coisas horrív . disposto. Raiva de si mesma.Você voltou. e isso graças à fal a de cuidado do Homem Moderno que acendia os seus curiosos cilindros. o vulcão explodiria e entraria em erupção.A enfermeira trouxe uma cadeira para ela. Déborah estava convicta de que. . Contudo. o Censor.perguntou o médico soltando as bandagens do curati vo. . recomeçando as zombadas de se mpre. A sua rotina de vida adquirira. Mesmo ali a lógica das decisões em Yr parecia ter sid o suprimida e as leis.. acordou e. A Grande e Última Dec epção.Vá para o inferno! . que se tcom ou assim uma ilha de modemidade cercada de pré-história.Umas oito.repetiu Furii baixinho. a repreender as enf ermeiras pela falta de cuidado em deixar materiais inflamáveis e perigosos na ala. mas nada d isso deixou transparecer na sua fisionomia pétrea. qu e fora introduzido um ano antes. . Tudo o mais retroscedeu ao pleistoceno: Pitecântropos Erectus vagueavam a esmo. guria! . por mais que Déborah opusesse o fogo ao vulcão. . O garfo. cheiro e dimensões. sem muita convicção. o qual figurav a como o pior entre os seus Inimigos. um ser primitivo espreitava. . .. continuavam inalterados. . viva e inteira.Muito obrigada. punindo a torto e a direito. sem dúvida. a superfície dele. foi suprimido. piedade.

. .Estou toda bloqueada e fechada. . exasperada.. . . era tão "Prudente" como uma louca de boa família.Olhe disse ela timidamente . no entanto. . parodiando a si m esmos. Leram-na inteirinha. Déborah faria a maior parte dos papéis masculinos e a velha.. cobe rta de vergonha e degradação. o que é que você acha? Relanceou os olhos para Helene. mas os sons pareceram-lhe tão ridículos e feios que parou imediatamente..Eu disse que voltaria hoje.a minha médica deixou isso comigo. embora estivesse exausta. Lembre i-me de que talvez pudéssemos lê-las juntas. e me odeio por causa disso.. Mary. queima. mas Furii estava de volta e agora não ha via mais esconderijos. enquanto a superfície nem sequer sabe se ele está vivo ou morto! A doutôra puxou a cadeira mais para perto. pelo menos era o que eu pensava. A n oite foi divertidíssima. Odeio a mim e a todos os i mpostores.Quem sabe quando eu sair . provavelmente tê-lo-ia chutado junto com al gum insulto. Coral. e depois começar am outra.Scomos ambas suficientemente fortes! Respirou fundo. Amanhã nos ver emos. mofo e teias de aranha.Não sabia que ia volta r. 185 . . a resistir: ."Vamos.. exalava um cheiro insuportável de magnolias..Tentei com Royson. três. não é a primeira vez. Déborah fechou os olhos. . juízo menina.. duas. . como era antes de vir para cá.você consiga aprender a chorar. A peça.eis. Começou a se contorcer de angústia. Os atores. fechar-se em trevas e no nada. tentei uma. queima lá por dentro. Sentiu-se profundamente envergonhada. mas você estava morta. f azendo o papel de Sybil. Em troca das minhas verdades.Levantou-se e saiu. Coral se acercou de Déborah com um livro na mão: . Déborah. Lamento apenas encontrá-la aqui e sofrendo tanto. vou ser destruída. .Qual delas você prefere? . a Srta. . mas vi que o que ele queria era 184 provar que estava certo. só para me dizer como está furiosa por eu ter ido embora e abandonado você. e mentira com o mais íntimo de mim mesma.Pois então deixe que elas saiam por si mesmas. Daria no mesmo se ele dissesse.em que tudo o que você disser é da maior importância. Continuou.disse Furii . São peças de teatro. as palavras. se transformou num p esadelo digno das telas de Hieronymus Bosch. Esqueci que você voltaria.Sim. Haveria duas pessoas no Mundo que falassem a mesma língua? Ao responder. Queria poder fugir para o Poço. e até mesmo a timidez da velha. alegria e compaixão. que estava sentada de encontro à parede.Foi. He len e Mary Fiorentini participavam também da leitura.Você é suficientemente forte? . .protestou Déborah. Se fosse ela quem estivesse oferecendo o livro.Isso não é verdade! . sem querer. tentei realmente. Quero l he dizer só uma coisa: avalie bem o ódio e a vergonha que está sentindo agora. pressionou com força a cabeça de encontro à cama.. uma comédia fina e elegante de Oscar Wilde. e ele só queria provar que tinha razão e que era mais esperto do que eu. Esta ta mbém será a medida da sua capacidade de sentir amor. Coral. dos femininos. Por que está tão chocada? .Disse foi? . está bem? . e acho que talvez tenha se deixado cair nesse estado tão lastimável. aca be com essas besteiras!" Escutei isso durante anos e anos quando eu os decepcion ava com a superfície. com suas gargalhad as estridentes. inúmeras vezes. e a Srta.Este é um dos momentos . o modo comedido e esmerado de falar. de Yr do soldado ini migo. Àquela mesma noite.Não consigo nem a rrancá-las de dentro..perguntou a Srta. com Royson. Decidiram começar a ler "A Importância de ser Prudente". . . acabaram transformando a peça numa grande balbúrdia. . . percebendo satisfeitas que os auxiliares riam com elas e não só delas. o mundo só me dá mentiras. Maldita! Maldita que sou! Tentou chorar e vieram baixinho uns soluços roucos uma respiração ofegante e áspera. Odeio minha vida e minha morte. Déborah notou que reproduzia. só que o vulcão queima.disse suavemen te . Em pouco tempo Lee.Sou venenosa e me odeio por causa disso.

As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. à intenção. a mãe de Déborah até a porta do consultório onde se despediram. O importante era que a conversa a tivesse fortalecido. informara-se dos fatos. Di ga isso ao pessoal em casa.Tenho certeza de que ela pode se tornar uma pessoa mentalmente saudável e forte. desesperada e fora direto procurar a Dra.Por quê? Por quê? ..Nunca me permiti empregar essa palavra para Debby! "Rompeu-se a fachada de Débor ah. normal? . .As feridas? . incrédula ainda. Partira imediatamente para ver Déborah. ao voltar. soaram longas e monótonas: Acho que talvez estejamos todos nos deixando impressionar demais com esse negócio das queimaduras. O telefone tocou. turvadas pelo medo que sentia. ' . Tenho ainda que supervisionar a anális e dos médicos que estão se formando pela Escola de Psiquiatria.A senhora julga.Será que entendi bem? .Pois é. Esther Blau. Pedem-me. trata-se de um sintoma da doença. uma vez no seu consultório. prejudicando-a ao invés de ajudá-la. . que se dissesse qualquer coisa que soasse como apaz iguadora. O que podia fazer para que a mãe entendesse isso? Seria.. A velha e maldita palavra "louca". um pedaço de carvão! Esther lera o relatório. que ainda há uma chance de Déborah vir a ser. . Blau. cuja gravidade nenhuma palavra poderia modifi car ou suavizar.Será que vocês não podem descobrir antes dela virar. piorar e ficar cada vez mais violent a? As palavras da doutôra. cheia de maus presságios e. Enquanto estivesse convicta da importância des . por experiência. ela pigarreou. Pedira. Afinal de contas. um pequeno consolo. segura e até mesmo dominadora. Como pode alguém fazer isso consigo mes Uma pessoa assim deveria estar num.Esther tapou a boca com a mão. mas antes. preveniram-na de que não seri a aconselhável vê-la. pode ria ser a determinação salvadora agora. Conduziu. Palavras fáceis de consolo poderiam servir em out ros ramos da medicina (quantas vezes os médicos não receitam uma agüinha com açúcar e pron to). Sra. indubitavelmente. vou lhe confessar uma coisa. que nós sabemos que existe e que continua respondendo ao tratamento. mas todo peso de sua vivência e treinamento indispunha-se contra esse procedi mento. encarou a Doutôra Fried. Es perava tê-la tranqüilizado um pouco. estamos tentando justamente descobrir por queè. Foi atendê-lo e. A Dra. . deixaria Esther em pânico. e. onde só faz piorar.É a palavra que a assusta tanto.Acho que sim. A senhora não precisa inventar mentiras. Saíra de lá apavorada. nada disso .E o que é que vou dizer ao pai dela? Qual a mentira que devo contar dessa vez pa ra que possa mantê-la aqui. Passado o prineiro choque. ofegando. .. A determinação que lhe permit ira conquistar todos os inimigos de Déborah. Sabia.. . . . mas dessa vez alguma coisa no seu tom pusera-a de sobreaviso. . .Não. então.Não vi as feridas. Seria um grande desperdício dedicar meu tempo a um caso s em esperanças. 186 . mas gostaria que nunca mencionasse isso para sua filha. e o que está pór detrás dela não é tão mal". não.. em seguida. To mara-se uma mulher forte. pois assim a família sairia fortalecida também e per mitiria que Déborah ficasse. Fried.. Halle e. uma entrevista com o Dr. redigido como sempre em termos cuidadosamente vagos. encontrou Esther já recomposta. tão repulsivo! .. furiosa. Fried. pensou de si para si a Dra. . Refiro-me à idéia. ..interveio a doutôra. sou forçada a rejeitar muitos. ao invés de tranqüilizar. um. Só conservo uma paciente quando tenho certeza de que posso ajudá-la. Fried compreendeu que Esther conseguira superar a sujeição para com o pai. muda e atônita. a cada sessão. pelo menos umas quatro vezes por semana. ao chegar. . .como se uma carreira mágica se tivesse aberto em meio à danação que pesava sobre todas e las. é isso que a faz sofrer tanto. que sempre esteve associada à idéia de uma pessoa "conde nada para sempre".Mas isso é tão. a verdade é p lenamente suportável. que eu tome a meu encargo o tratamento de uma paciente. então.

no entanto.um anjo aguarda. totalm ente inexpressivas e imóveis. Sylvia poder ia destruí-la apenas com o silêncio. as feridas se recusavam a cicatri zar. poções. outras de pé. consumiu todo o desejo de . Deixaram-na sozinha e humilha da na sala.pensava com os seus botões. Sentira-se degradada demais para defender-se.sa terapia para a filha. encantadas com uma oportunidade excelente de exercerem seus c onhecimentos. Parecia uma fera arremetendo selvag emente de encontro a uma pedra.médicos. a responsáve l pelos novos regulamentos. Ao terminarem o curativo das obstinadas queimaduras. Déborah percebeu os olhares belicosos que Helene dirigia a Sylvia. Caso isso se confirmasse. Pelo canto do olho. contraído numa careta enrijecida. não andavam.era um dia refrescant e de outono . arranhava. para garantir o se u prosseguimento. Quanto às fumantes. os cabelos 188 desgrenhados. fora incapaz de se defender e precisava de cuidados tanto quanto Helene. Déborah. toldados de lágrimas. viria a ser uma fonte de esperanças raramente estuda da nas publicações psiquiátricas. cuspia. logo em seguida . Sylvia recebeu os golpes sem soltar um ai. As estagiárias. evitava fala r-lhe e lançava-lhe olhares desdenhosos. auxiliar es. Forçara alguns a se questionarem e a crescerem um pou co. viu seu rosto pálido como cera. He lene explodiu num acesso de fúria incontrolável. permanecera lá fincada no chão como uma estátua. com a intervenção dos seis auxiliares necessários para subjugar Helene e arrastá-la para o casulo. Esmurrava. De repente. distribuídas aqui e ali. Por causa del as. e até mesmo Lee. trabalhavam conscienciosa e diligentemente com ungüentos. mas continuou imóvel. as enfermeiras deixaram o s aguão por um momento. gritava. "Eu devia ir porque isso já aconteceu comigo e eu sei melhor do que ninguém o que a gente sente. Desafiada nos seus brios. como se estivessem o t empo todo surpresas de que o sangue pudesse fluir de forma tão natural e o coração pul sar independente de suas vontades e emoções. que estava ao seu lado. A doença de Déborah não tinha só balançado 187 os retratos no álbum de família.. Como seria lá? O que se passa ria nas mentes das pessoas que estavam enclausuradas ali? Baixou rapidamente os olhos. quando Helene a ataca ra para destruir o rosto que havia testemunhado sua fragilidade e livrarse daque le testemunho aterrador. pôs-se a observar os "Ornamentos Viventes" (termo que encontrou para designar as pacie ntes): pareciam estátuas. terminou.. como de hábito. o rosto r ubro de cólera. Não demonstrava o menor interesse pela surra. tudo para Helene. O medo.. talvez porque estivesse além dos domínios da "ciência" e a previsão. Tudo convergira para ela . mal contendo o choro. eu tenho que ir. O incidente." Ao sair da casa onde estava situado o consultório da doutôra . ava quase. continuavam furiosas com Déborah. num instante. observava fazerem curativos nas queimaduras. rápido e inesperado." Tentou mais uma vez livrar-se de suas ves tes de granito e sapatos de pedra. a baba qu e escorria de sua boca. Os pés. Olhou para Sylvia. Lembrou-se do episódio ocorrido dois anos antes. Déborah. e compreendeu que. Sentiu que deveria aproximar-se dela. se fosse solidarizar-se. tomara-se objeto de grande interesse médico. Entendia perfeitamente o drama de Sylvia. no alto"3(c) prédio. A única reação de Sylvia era fechar os olhos vagarosamente: suas mãos cont inuaram caídas e moles. com toda força. sentia como se as duas estivessem a sós no planeta. inerte como sempre. agora é minha vez. a reclusão. Tal qual Sylvia agora. e as mãos pendiam frouxas de cada lado. que costumava tagarelar. enfrentaria toda a família se preciso. Helene avançou para ela e desferiu-lhe. enfermeiras. ela quebrou o silêncio e veio em meu socorro . Seu corpo parecia estar totalmente entregue às forças da gravi dade e da inércia. bandag ens e esparadrapos. tocar-lhe no ombro e dizer qualquer coisa. tudo. exceto pelo olhar assombrado. um murro e. Vamos! Mexa-se!" . a mais feia de todas as pa cientes. Enquanto as enfermeiras trabalhavam. parada a uns dez passos de Sylvia. sentada no chão. Só a respiração lhe traíra: resfolegava. outro. os lençóis úmidos. pareciam colados ao chão. "Do lado de fora das portas do estudo dissera-lhe uma vez seu pai .Esther ergueu os olhos para a sacada recoberta de sólidas grades. umas sentadas. por trás da qual se ocultava a Ala D.. "Naquela noite tenebrosa.

Se não fiz o que devia ter feito depois de Helena agredi-la.continuarei fazendo as penitências. .murmurou . hesitou alguns segundos e disse: .Não se deve permitir que isso aconteça. . Decidi não ser imortal por causa do que aconteceu a Sylvia. .disse Déborah. de morrer. basta que ninguém me surpreenda.Vigiada ou não .Sylvia fuma de vez em quando. A luz do sol derra mava-se das janelas.retrucou Furii. Havia cerca de quarenta queimaduras. embora. . rindo daqueles termos da psiquiatria. já que você as considera um problema sério.vou pôr a corda no meu próprio pescoço agora. 190 . Foi com eles que acabou de falar? .São seríssimas! . com você. . o seu gesto continuaria tão dece pcionante quanto as sossegadas encostas do vulcão. Passeou os olhos pelo consultório.agir. por favor.Creio que de certo modo estão. Quando solta o cigarro em al gum lugar. erguendo os olhos para ela. com uma vontade enorme de sumir. A atmosfera que a cercava contin uava fria e sombria.disse Déborah baixinho. eu o apanho rapidamente e fujo. e eu faço o mesmo com seus cigarros. . contou a Furii tudo o que vira e o que deixara de fazer. não será nenhum jardim de rosas. e sim esse eterno alheamento em relação às coisas.Não lhe faltará desafios morais e decisões difíceis para tomar no mundo e. .Você está enganada .declarou Déborah.respondeu Furii.Não sei explicar por que. não estão? . mas mesmo assim não pareciam justificar o estardalhaço que se fazia em tcomo delas. que durante muito tempo ficou ali paralisada. Saberia Furii como foram tentadores aqueles minutos de espera? Logo que a sessão terminou. Pquco depois. Déborah discordou das razões e da seriedade que Furii atribuía às queimaduras. O medo cedeu lugar à vergonha.Desatenção seletiva! . mas acho que você está enganada. O que nos cabe fazer é louvar essa força que lhe permitiu ver isso. Nunea lhe disse que eu era humana. No momento.O que é que você quer dizer com isso? . e não apenas a nós mesmos e a deuses cadentes. Agora. . na realidade. como eu disse antes. Enquanto concedessem a elas o sentido de uma aberração terrível. . As duas Marys fumam como loucas.Não. . e é bastante distraída. ao exterior.Não estou aqui para desculpá-la .Você acha mesmo que as queimaduras são tão sérias assim? . Déborah se levantou para sair. cega a tudo o que se passava a seu redor. eram percebidos por ela a uma distância muito remota.perguntou. Furii compreende u e riu também. uma vergon ha tão grande. Nunca lhe contei uma mentira! . Prometo não roubar guimbas acesa s das pacientes a não ser quando estiverem no cinzeiro ou esquecidas em algum luga . pelo menos não vou implicá-la nas minhas queimaduras. você é que está se aproveitando d os sintomas delas. os auxiliares que subjugaram Helene começaram a retomar da ba talha e a oportunidade perdeu-se de vez. A verdadeira agonia não era o fogo nem as queimaduras. infligidas sucessivamente sobre a carne preparada e esfolada para recebê-las. . mas afin al de contas temos que falar uns com os outros. cuja linguagem e os jargões não tinham nem a beleza nem a poesia do Yri. Por que Furii deixara fósforos e cigarros na sala de espera? A enfermeira acompanhante distraía-se com a maior facilidade.declarou taxativamente. e ac endendo um cigarro. 189 Ao chegar ao consultório.Fale mais alto. Elas estão contribui ndo para a minha delinqüência. mas os seus reflexos dourados e o calor que espalhava. não estou ouvindo.Algumas vezes acho que nosso vocabulário profissional vai longe demais. e trabalhar para que chegue o dia em que você seja capaz de fazer o que acha que deve fazer. . . . torcendo para que ela se lembrasse do que afirmara freqüentemente a respeito de o paciente confiar em suas próprias convi cções íntimas. devemos trabal har duro para descobrirmos quais são as raízes das queimaduras que você faz em você mesm a por uma revolta contra mim e o hospital. você pode me expulsar porque eu tenho um a culpa que não admite perdão. que vivia na maior desordem.

191 21 Quando o vulcão entrou finalmente em erupção. Até mesmo aquelas habituadas aos trabalhos mais ár duos da Ala D. onde uma ou outra palavra Yri lhe permitia sa ber o que estava dizendo. como celulóide fervente. Srta. tirou de dentro da manga duas caixas de fósforo. vieram carregadas de ódio. lembrava-se pelo menos d e ter gostado dela. não houve fósforos que bastassem para contê-l . Foi justamente essa expressão que levou ao extremo o incêndio dentro de Déborah. Forbes. antes que pudesse se dar conta. costumavam dest rancar a porta para ela. acho que ouvi você pronunciá-la. As pessoas que a socorreram estampavam uma expressão 192 de horror e de surpresa no rosto. dilatando-se e extravasando com tamanho vigor que. Déborah gostava dela. A Brincadeira . quase hora de dormir. emitiam raios que ateavam fogo. febrilmente. Forbes lhe perguntou se não queria que mandasse a s pessoas saírem do banheiro. . já" que todos os quartos de reclusão se achavam ocupados. íemr e xangoranan. uma agonia que há dias v inha repelindo a pontapés as doses de hidrato de cloro. Blau? . torturai meus dentes com vosso fogo até estilhaçá-los . As palavras foram escritas com lápis ou com sangue. O negro em seu cérebro tornou-se rubro. Tem algum signi ficado? Déborah ensaiou. Ageai dum. e boa parte do que falava já não podia sequer esperar pela lógica do Yri e pelo arcabouço das palavras: era um vomitar de sons inarticulados.uma lei da natureza enfim . Déborah não pressentiu nada de excepcional. e os bramidos provenientes do Coletor.terminou.Recreai xangoran. e significava o terceiro grau do ódio . . "terceiro trilho" significando "concordar". Lembrai-vos de mim com ódio. apenas aquele estado mental sombrio e obscuro. e deixá-la a sós ali até que alguém tivesse necessidade de usar as privadas da frente. de repente. todas em Yri. como quem ouve e vê através de um bura co de fechadura. graças a isso. Um dia. e algumas delas arranhadas com um pedaço de botão. a maior delas.Esta palavra aqui. comovida com a coragem daquele gesto. A crise ia ganhando proporções incontroláveis. Déborah. mergulhou no vértice furioso d a erupção.Recreai. de que os auxiliares ac orriam ao banheiro e de que as paredes estavam cobertas de palavras e frases em Yri. . cotidiano e inquestionável . via e ouvia. O medo e a cólera que expressavam essas criaturas do mundo eram como o s ol. As enfermeiras. focalizados sobre ela. dispunha sempre de uma meia hora de solidão. Estava sozinha na ban heira situada nos fundos do lavatório da frente. Inai dum. que surrupiara na sala de espera e as jogou raivosamente entre os pés da escrivaninha. e que significava solidão. e a escutar as acusações ditas num tom de quei xume monótono pelos personagens invisíveis e rancorosos de Yr. e começou a bater a cabeça vagarosa e metodicamente contra os azulejos. que se avolumavam no fundo dos copos e desciam pela garganta abaixo. cuja tradução seria "uivos de cão". estende u as duas mãos abertas e tentou inutilmente articular algumas palavras compreensívei s. A Sra. . Também não vou permitir que você contribua. estava escrito no super lativo e em letras garrafais: UGURUSU. depois da limpeza da noite. Já era tarde. Estirou-se no chão frio. porque sei que não gostaria. universal e penetrante. Quando os sentidos desanuviaram. A palavra a que se referia fora escrita na parede c om o sangue proveniente de um corte no dedo. Naza e fango xangoranan..Onde está o objeto que usou para arranhar. gestos e sons que lhe permitissem exprimir o impacto produzido pela erupção do vulcão. que a dilacerava por dentro.) Nesse momento entrou a Sra. teve uma vaga consciência de que gritava. Uguru . As palavras eram disparatadas. temei-me com o ód io mais feroz.Foi dado o sinal. começou a sent ir as vergastadas familiares do medo. Seus olhos. Dito isso.r. As palavras proferidas num murmúrio por Déborah. . ressentimento e amargura expressas numa linguagem que usava metáforas tais como "quebrar" significando "consentir". Decidiu que naquela noite não levaria para a cam a consigo a agonia infernal. Alinhavam-se nelas todas as efusões de ódio. (Lembrai-vos de mim.Ageai significava d ilacerar a carne com os dentes como tortura . E com o mesmo ódio. Refulgiu o raio de luz.

da alma. o caos imp erava e os próprios personagens de Yr pareciam ter enlouquecido. a jogada final que fazia parte da trama se194 creta armada pelo mundo para destruí-la. ela murmurou: . uma de frente para a outra.Havia uma engrenagem. escancarando a boca num grito mudo. Faça um esforço para me ouvir . ..Você está com med o do seu próprio poder. E agora nenhum.... jamais pronunciada ou escrita antes.aparteou o Censor. medo não. desencaixadas! .exclamou em voz alta.. não precisa temer essas forças terríveis que parecem ter sido desarrolhadas aí dentro. embora estivesse envolta nos l ençóis há muitas horas e. Déborah andava para um lado e para o outro. colisão. já deveriam tê-la aquecido. um riso tão feio quanto fora o choro. Déborah procurou comunicar o que sentia. A enfermeira o lhou para ela interrogativamente. ao ódio e terr or. no mund o.Escute. num esforço supremo. .Havia uma engrenagem cheia de dentes. . A velha frase.Tentou lhe explicar. tentando desesperadamente morder a si mesma. Podia ser a morte da vontade. Inglês. Percebendo que era inútil deixá-la ali..Tente de novo.pediu Furii num tom grave. O tumor fustigou-a por de ntro. Gradualmente. Ela lutou como uma fera. portanto. . só que dessa ve z sem a dor habitual. os lençóis. e agora nem sequer o controlo. das leis e conseqüentemente não a morte.perguntou. . Enquanto prendiam as amarras.Minha inimiga. . apavorada com o que poderia fazer agora que não e stava sujeita a lei alguma.Ergueu os olhos para ela de novo: . ela se contorcia. A energia que jorrava impetuosamente do Vulcão a d eixava num estado de agitação frenético. . Déborah batia com a cabeça. . Déborah. proferida em contextos diversos. mas as paredes começaram a porejar suor e sangue. porque não está conseguindo controlá-lo. numa agitação extrema. mais violento que o ódio negro e o vermelho -branco.Quer dizer.Venha. Deixe elas saírem naturalmente. . . Como era frio o ve nto que soprava acima de todas as leis! Tiritava. O quarto de reclusão era minúsculo. . cont ar para mim o que está acontecendo nesses mundos que colidiram. Lutou até a exaustão. Você tem que tentar falar. Entendeu que a morte tão temida não precisava ser necessariamente física..Não. Aturdida com aquela subver são das leis e da lógica de Yr.. Yri misturado a termos estranh os e desconhecidos para ela. tudo . e no teto desenhou-se um imenso tumor que foi inchando e ganhando volume. . com as mãos e com o corpo de enc ontro às paredes e ao chão. incapazes de s e juntar.Um ódio que você não consegue controla r.Engrenagens desencaixadas. . dava cabeçadas e dentada s.perguntou Furii. . começou a sentir a contrição das veias nas pernas e nos pés. f isicamente? .Você consegue me ouvir? . nem bem olhou para ela. o ódio foi cedendo lugar ao medo. Perdera completamente o controle de si mesma. passando do consolo e piedade. Horas depois. vamos tentar a reclusão até que você con siga se segurar um pouco. .. . . perguntou surpresa: . . meu eu venenoso e pes tilento. mas continuav a incapaz de formular as palavras necessárias para precavê-los contra a sua própria se lvageria.Não. até cair desfalecida. você está sentindo alguma coisa. da mente. riai naruai. e agora à última decepção. mas um perpétuo morrer. .É por isso que a internaram num hospital. estacou de súbito e jogou a cabeça para trás. tal como as queimaduras que também não doíam. . . . e procure manter-se em contato comigo. você está protegida. ódio. dos quais d ois pelo menos encaixados no mundo. . agarraram-na e meteram-na a muito custo num casulo. talvez a mais velha em Yr.Yri. Impelida de um lado para o outro do quarto. a cama. . mas só conseguiu esboçar o gesto que em Yri s imbolizava insanidade: mãos espalmadas. Furii.. Aqui. . Yri e sons inarticulados entremeavamse num dis curso incompreensível. arrancando-lhe um grito de dor.A palavra é medo? . Vamos empenhar tod as as nossas energias para protegê-la dos excessos dessa doença.. as pessoas.Você está doente? . Escute com muita atenção agora.Déborah riu. conseguiu arrancar algumas palavras: . nenhum vínculo com o mundo! Tu não és como os outros . c omo um boneco desengonçado.Pensou alguns segundos e disse: .

.Você está completamente esgotada . e o que serão essas duas pequenas miscelânea s? Alívio. ... Metade do medo que está sentindo é o de que não consigam detê-la. Inglês. .Começou a tremer de frio novamente.. especialmente quando estava em serviço uma enfermeira. por não ter de entregar tudo àquele muro que separa Yr e o mundo ? Será que não haveria também uma intenção evidente de me lembrar que fui embora e a deixe i sozinha com tudo isso? Déborah sentiu que a última hipótese continha apenas meia-verdade.Veremos se o calor da terra ajuda .. . . mas não achou que val esse a pena discutir.. pois é justame te este medo que a impede de falar de uma forma compreensível para os outros.O sofrimento não foi por causa do ódio.. levantou a cama e a jogou em cima da Sr a.disse Lee Miller sem fôlego . quanto havia de ódio e quanto de medo? .E o quê? . na terra. medo... Não soube como demonstrar gratidão..Tenho a impressão de que esse ódio explodiu por todos esses anos. . você confiava no nosso trabalho juntas e em mim. . Yri. . cujo calor era rechaçado pelo seu clima interior..Frio de Yr. Forbes! .ódio. . colisão.Isso só totaliza oito. Déborah começou a sentir as pálpebras pesadas. bate ndo. Na emoção que você sentiu ao se ouvir bradando essas estranhas li nguagens. .Então. le mbre-se bem.Medo. que para avaliar a emoção permitiu que um bocadinho dela fl uísse de novo. ..Ela apanhou aquela cama ali e a jogou. envelhecendo e apodreceu..cismou a doutôra. A doença que você construiu pode voltar a ameaçá-la.disse Furii. pena morte. E o pior é que o tremor não diminuiu para que Furii.Dez . .O quê? i .a doce e gentil Srta. Selvagem.respondeu Déborah. Nada mal mesmo.O ódio pode explodir de novo. Cor al... foi? Não. nunca vou preenchê-los. quem sabe. Agora.Não. .e procurou complementar a idéia com gestos de mão em Yri. Estava extremamente cansada. . Antes de pe rmitir que o ódio aflorasse..Nem mesmo os deuses como amigos . 195 .Sua amiguinha.. .mas muito menos assustada. o que se tcomou mais uma culpa a suport ar em silêncio.Segundo você. não é assim? . embebido em culpa e medo. Ao retomar à ala depois da sessão. Dois é para miscelânea. você se transferiu espontaneamente para a espécie de encl ausuramento que havia à mão.Diga-me uma coisa. . disparates. cobertores da Terra. . . um ódio que veio s e acumulando.Quase.Veio Yri. Censor. . de quem você gostava e em quem confiava. a última.. mas t enho certeza de que a refreará o suficiente para conseguir a ajuda e o controle ne cessários. vendo.. Déborah. não.. . e. . ... fazendo o que é proibido. Furii riu. Censor... destruirme. Déborah soube que um novo holocausto a visitara. não é verd ade? . Nada mal para quem supostame nte fundiu a cuca. .disse Furii . sofro muito. nacoi. . algum. Déborah se lembrou de que não havia em Yri uma palavra correspondente ao "muito ob rigado"...O medo amainou um pouquinho . Negação até mesmo de Yr. Antes de permitir que as barreiras 196 fossem postas abaixo. . Negação. ficasse co ntente. você tem um potencial enorme de saúde e força aí dent ro.Puxou sua cadeira mais par a perto de Déborah que tiritava ainda sob o cobertor. Sons absurdos e apenas Não! Não! .. .Envolva-se no cobertor. como se fossem grânulos malcheirosos dentro de você. cinco medo. Ódio.. . -' Três ódio. Apanhou o cobertor e a cobriu . ...Eu sofro ..Sabe.E a atingiu? . bastante. . esse talento para a vida. .. .

uma justificativa legal. Jamais lhe ocorrera que fosse amiga de alguém. portanto. mas acho que essas gurias estão ficando cada v mais doentes. refletiu um pouco e resmungou: .Se atingiu! A mulher foi internada num hospital.. . Sim. Não sei não. e por isso a atitude de Lee a deixava.dizia uma voz que parecia ser a de Cleary.Não.sentia-se feliz com o seu trabalho junto às pacientes.Só pode ter sido um engano! Freqüe ntemente aconteciam enganos: uma paciente que mirava uma pessoa e acertava outra .. .E saiu saltitando pelo corredor como se fosse uma menina de sete ano s de idade. De uma precisão exemplar. . Haviam apagado a maior parte das lâmpadas. são mais para a reclusão. Coral Allan. e com uma dignidade exagerada .. Pressionou a cabeça com mais força contra cano para espantar o desejo. foi discretamente se colocar na quina oposta à porta de entrada da enfermaria. apesar de inconfortável para a orelha. num de seus irritantes acessos de risadinhas. .Será que a Sra. pois a recepção tornava-se mais clara quando as pessoas se apro ximavam da pia de metal. lá ao lado do bule de café. uma ciência. inteligente. vocês com preendem. Significa: antes. pois e m breve teria que se afastar dali. conscientemente ou não. Agora aquela "coroa". . O de água quente estava ap oiado em material isolante. contusões e o diabo a quatro. de certa forma. completamente atônita.coisa rara . . mesmo com a porta fechada. passava sempre por onde desabavam cadeiras e punhos. tch. Soltou uma longa b aforada. devido à ameaça tra nscendente que encerrava). Era uma mulher ded icada.Certo . só podia ser isso. Virou-se lentamente para ela. Lee. Déborah concluíra que os sons eram transmiti dos pelas torneiras. metade delas para os casulos.Jesus. como estou cansado (devia ser Hanson). Quanto mais pensava na questão. Lee só a agredia porque a velha Coral estava enclausurada e. por uma incrível coincidência.declarou: . Começaram a falar sobre a distribuição dos dias de folga. Era bom que entrassem logo no assunto. e os auxiliare s que percorriam os corredores estavam ocupados.retrucou Déborah.Ali . 197 Quem sabe a coitadinha não estava temporariamente insana! Intrometeu-se Mary Fiorentini zombeteira. em levar as pacientes relutante s para a cama. Forbes vai voltar? . inace ssível. no interior da enfermaria. O corredor já estava quase deserto. Lee Miller estava furiosa porque a Sra. Forbes? Por que logo um dos Bons? Depois da distribuição de sedativos àquela noite. ma is intrigada ficava: por que a velha agredira a Sra. procuravam poupar.Não.Que diabo estou fazendo aqui com todos esses malucos! Déborah foi para o dormitório e esticou-se na cama.. Coral como se fosse alguma beldade do sul. estranha e inconfortável . surpresa. já tinha es .Quer dizer. a lei.Você não é o único (Bemardi). e ficou absolutamente imóvel com o ouvido encostado nos canos de água que passavam por ali. A menção ao café deixou Déborah com água na boca. .perguntou Déborah. .Engano . podia-se ouvir as pessoas conversando dentro da enfermaria. Outros.Tch. Lee dirigiu-se à porta da enfermaria.Insanidade Temporária! Taí. . durante e um pouco depois. (o medo impediu-a de enunciar a palavra "amiga". cortes. . . tch. ou o caso da estagiária que. Cuidado com a língua! . o que nunca ex plicam é quanto de cada lado. Carla é. . sério! Não há um dia nessa droga de ala em que não aconteça uma briga e aí. Forbes era uma das raras eleitas a quem os próprios pacientes. o de água fria. redigiam os re latórios.Risos. sentindo um profundo mal-e star. bateu e pediu um cigarro. Encostando o ouv ido no cano e contendo a respiração. com um braço quebrado. não é? . que todo mundo chama Srta. e ra utilizado às vezes pelos pacientes como dispositivo de escuta. mais piradas. generosa e . . Dificilmente re198 parariam nela ali onde estava. .pois dignidade ain da era uma coisa ao mesmo tempo nova.

. Se a evidência não surgisse agora. Pressentiu. . uma das estagiárias. provavelmente. A Esposa do Abdicado. De repente. caramba! Déborah não queria ouvir nada sobre Blau. . quando muito. que havia alguém ao seu lado: era Martenson. nunca uma reação de horror.Você foi ver Lou Ann? (Era seu primeiro nome. . Sabia muito bem que jamais poderia indagar à velha por que tinha jogado a cama . mas era só olhar para a cara dela e ver o ódio. defecar ou masturbar-se aos olhos de todos desp ertava. en199 cheu as paredes de palavras louquíssimas e saiu lutando como um tigre. O tumulto se alastrou. .Oh (risos). e ela sorriu aliviada para o cano. . e por que cargas d'agua a cama fora cair justamente em cima da Sra. como um contraponto aos sons horríveis que continuavam brotando de dentro dela. Forbes. Blau. Ah. e ntrecortado de risadinhas.Hoje ela não falou absolutamente nada. que raramente falava.perguntou Mary Fiorentini. no chão. venha para a cama. vocês loucas são tão inventivas. uma razão qualquer à qual pudesse se agarrar. um pranto áspero e feio. para todos os mu ndos e a colisão. entrou o auxiliar e mandou que calassem a boca. soando. Fez-se imediatamente um silêncio profundo. quanto mais de arremessá-la? Déborah torcia para que falassem logo da Sra.) .. retrucou Mary Dowben que. 200 Déborah voltou a pensar no quebra-cabeça. a velha fórmula: Tu não és como os outros. Enquanto a metíamos no casulo.Nossa! Quem diria que uma velhinha daquelas fosse capaz de levantar uma cama. vou também. para Déborah. Déborah se levantou prontamente e sem destapar o rosto. roubar.Ai. para impedir que aquele incidente se transform asse em mais uma experiência de decepção. cheia de graça. .cutado muitas histórias a seu respeito. . mas só essa tarde pude ver com meus próprios o lhos.Mas que falta de respeito.Ora. Desatou a chorar. Cobr iu com as mãos o rosto que ardia de vergonha.Deus do Céu! Gritou mil besteiras lá no banheiro. um desgosto passageiro. protestou: . de repente. o que é isso Srta. Déborah fremia de impaciência. Se eu ti rar folga. e cada espírito se e nclausurou num isolamento que niaguém parecia capaz de devassar.e continuou num murmúrio inaudível. as piores manias sexuais. Salve Salve Columbia! . Sophie vai visitá-la amanhã. foi cambaleando até o dormitório. Ba ter. eram como partículas de pó flutuando ao acaso mas mesmo assim havia certas normas que não se desrespeita va. sempre arranjava um jeito de transformar tudo numa cruzada religiosa contra os hereges. urinar. não dava para entende r nada.Que ruídos obscenos são estes? .Hudson e Carelle foram com ela até o hospital.Alguma modalidade no va de perversão hcomossexual. pois vivia dormindo. suas putas nojentas! Eu sou a primeira Esposa secreta de Eduardo. No entanto . . . onde se atirou na cama e desatou a chorar de novo. blasfemar. ponha isso no relatório.Bem. o Abdicado Rei da Inglaterra! . ela vociferava naquela fala incompreensível.Ave Maria. . nada disso constituía um pecado na Ala D. Forbes. . que ódio! . Viera para descobrir alguma circunstância qu e pudesse mitigar a dor que lhe causava o conflito Coral versus Forbes. viram só a Blau à noite? . .Vamos. Preparavam-se para a última ronda da noite antes de pas sarem o turno. irritada com os risos de Mary e os sons abafados do choro de Déborah. Jesus! Foram dar corda nessa carola de novo.Ei. Afastou-se um pouco do cano. É porq ue têm tempo de sobra para ficar remoendo idéias .. com suas preces intermináv eis.exclamou Jenny.. conservando a cabeça apoiada no cano frio. Sim. Cuspir. Déborah se deixou escorregar até o chão. elas as pacientes. colocan do-se assim em terreno neutro e dissociando-se da fonte de sua vergonha. soluçando e repetindo baixinho. Finalmente tocaram no assunt o.

por isso decidi desistir da luta. Permitia-se zombar e odiar.Mas lutar para quê? Para quê? . A dificuldade de se expressar com clareza a surpreendia tanto quanto aos outros. e isso. o que emergiu foi: "Nunca atinge a profundidade suficiente.Disseram que estamos ficando cada vez mais doentes. tsk. Dia após dia. vão me julgar mais talentosa do que realmente sou.meditava Déborah . . 201 Acabava ficando nervosa. enfim de um "eu" bem fo rte com o qual possa começar a viver. Yri e sons dist intos que mal bastava para responder às perguntas que lhe dirigiam. na melhor das hipóteses.Sim. .É. que desperdício" .. ou dar a enten der alguma necessidade.tsk. e para quê? . já lhe disse isso no ano passado e no ano retr asado. serei boazinha.gritaram. dizia coisas definitivamente disparatadas e intraduzíveis . ou pior. . uma verdadeira violação.. Forbes das conversas qu ando estivessem na presença da agressora. . .gritou Déborah. nada de brincadeiras.. elevando o tom de voz. Uma longa baforada de fumaça ocultou o rosto da doutôra. dócil e não vai aparecer mais nada nas paredes. Quanto mais lixo ponho para fora. Agora.E se não vencermos? . num tom quase amigável. . . se é que se pode chamá-los as sim. o nome da Sra.. mas nunca lhe perguntou por que fizera aquilo. Eu é que não posso me mandar. de seus próprios erros e da p unição que merecerem. nem exigiu que parass e. Seus amigos. porque aqui não me sujeita rei jamais a uma prova! . no entanto. nua e crua. e quando falava. . constróem um todos os dias. escrever outra tese e ganhar mais u m título. . assustada e pouco me importando com o que possa acontecer .E daí? Alguma vez eu disse que seria fácil? Não posso. Lee Mi ller a agredira por causa das queimaduras. num súbito acesso de r aiva. soou muito bem ao s seus ouvidos." Outro caso se passou no banheiro: . trabalha-se no frio. inclusive eu. todas nós. Quero que pense bem e responda honestamente. de sua própria definição de amor e sanidade.Está certo . Coral por sua atitude. garanto que venceremos.Furii elevara também o tom de voz. mais sobra. "Tadi nha" . por exemplo. e não se preoc upe.. .. quando se esforçava por traduzir e superar o abismo que a separava dos ou tros.bom. você está aí? .Chega de pensar! . exigir satisfações.Eu não faço brincadeiras. Para que você disponha de seus próprios desafios.Ora. a fisionomia completamente inexpres siva. numa ala entupida de perturbados. passariam a expurgar. . intrometer-se. que tinham provocado restrições extensiva s à ala toda.exclamou Déborah. e daí! . há um monte de hospitais psiquiátricos por aí. nem quero fazer você ficar boa contra a sua vontade.e concluiu abanando a cabeça . ."poderia ter sido uma menina tão boa.dirão as pessoas .Olha.obter respos ta para a sua dúvida? Matutou nisso dias e dias. conservando. se estiver disposta a lutar com toda a energia e pa ciência..Para tirarmos você desse maldito lugar. acendendo outro cigarro.E você acha que está? . por sua vez. opor-se à atitude de alguém era. delicadamente..Você desiste.Blau. droga. . um atentado consciente contra as va liosíssimas barreiras que asseguravam a vida e a sobrevivência dos pacientes. em segundo grau). 202 . uma grosse ria imperdoável.Estou cansada. pobrezinha.. nunca! Ninguém pediria satisfações ou re preenderia a Srta. . porém.Não lhe conto mais nada.perguntou Furii. . saía involuntariamente uma mistura de Inglês. um auxiliar lhe perguntou se era o seu dia de banho.disse ela. a confusão de línguas só fazia aumentar e distanciá-la ainda mais. A verdade. com tanto talento .Aqui é cutucu (o que significa "estar escondida". . Nessas circu nstâncias. Você pode m e mandar embora e ficar com seus amiguinhos. .Por uma vitória que não é fácil nem doce. piorava o nervoso.. é! bradou Furii. Uma vez. Articulou mentalmente uma resposta que lhe pareceu clara e. Trabalha-se no escuro. Como então . Somente com Furii conseguia expressarse com alguma clareza. e fica n um hospício o resto da vida.

. Nenhum galhinho verde. .E ra um rapaz novo no serviço que perguntava.eu sou sua médica e tenho visto esses anos todos como você é alérgica a mentiras. Além do mais. minha cara menina . o negócio das queimaduras está diminuindo um pouco. esmagando o cigarro no cinzeiro . ou seja.Após uma pausa. ..julguei que a fac a seria mais útil a uma pessoa que tivesse de ficar por lá. mas lhes parecia inacreditável que a to rrente de sons confusos e a violência descontrolada não significassem uma grande mud ança para pior. o pombo voltou.. apreciei muito esta sua raiva despida de medos e culpas. 204 . . prevendo o dia em qu e sua doença se tornaria tão dolorosa que não conseguiria mais suportá-la. sabe.bom. Antes do incidente.Isso se deve à "nova moralidade" de Déborah . . o fato de ter sido abandonada pelo terapeuta. .concluiu ela com um sorriso amável . quaisquer que sejam elas. por isso evito contar mentiras. mesmo porque já havia trabalhado com algun s dos pacientes da ala. agora acho que já pode responde r sozinha à questão que levantou antes. As pessoas escutavam polida e atentamente. sim. que remoíam com ceticismo escutando a exposição da Dra. Esta faca. v ocê não terá que arcar com as conseqüências dessa resposta. Era 203 justamente essa palavra.Claro. Comportavase. como todas as pacientes da Ala D.Recostòu-se na poltrona com um sorriso zombeteiro. Estava enganado. por sermos médicos. . . sem muita convicção. Está ou não ficando mais doente? Não tenha medo. nem sempre. Mas c omo eu vinha para esse país . um rosto invariavelmente inexpressivo. atualmente.Ah. Lembro-me que quando deixei o hospital onde clinicava na Alemanha. poderíamos di zer. e a medicina é uma ciência que não admite gostar ou . maneiras sarcásticas e superiores. os quais inspiram freqüentemente profund a admiração nas pessoas ditas "sadias": pequenas delicadezas. Posso citar inúmeros exemplos desses princípios éticos ou morais.Elas.disse Furii. Decidiu impor certas restrições aos furtos. num inglês tão bom e vigoroso. estava "maluca". . hein? .. é óbvio que você sabe disso. arrulhando de cansaço. . . eu a substituí enquanto esteve fora . ela a fizera em segredo. . . considerações morais? .. Eram sintomas inegáveis de grave doença mental..relatou a Doutôra Fried na reunião da equipe médica na Ala D.comentou o doutor Royson na saída..Claro! Trabalhando aqui.Decidiu que não envolveria as demais pacientes em sua doença. então.não mesmo. mas pouquíssimos acreditavam nela.explicou a doutôra Fried com um sorris o. continuou: . De início julguei que essa dificuldade vinha do ressentimento da menina.Mais doente não. Viera assist ir à conferência a convite do doutor Halle. .Difícil.E a senhora aceitou? .E como foi? .Mais doente não. . . Todos conheciam qual deveria ser a res posta formal a isso. Fried.. elas admitem considerações desse gênero? Quer dizer. não acha? . esqueci. .Você não é nem um pouco dada à demagogia. Déborah apresentava um comportamento mórbido e sil encioso ou. e muita s vezes nos chamam oportunamente à ordem e chutam longe a escora da nossa vaidade.. você encontrará fartas evidências disso. Não..comentou o outro. . . afiando um pedaço de metal durante meses e meses. "maluca". . uma paciente deu-me uma faca de presente para que eu me protegesse. uma rejeição. e agora tem que p rocurar fogo em outra parte.disse o doutor Royson.É uma excelente oradora. . pala vra que a maioria empregava e sentia.. . já que essa capacidade de dar representava um sintoma de saúde e força. enviando um pombo para explorar uma região temível e desc onhecida.Bem.Escuta aqui. gestos súbitos e inesper ados de generosidade que representam um grande sacrifício para a paciente. mórbido e satírico. não mesmo. Passado um tempo.Blau é um de seus casos . mesmo assim. . Somente alguns dos médicos e . .Sim. A verdadeira razão era uma dessas verdades que não gostamos mu ito de encarar.admitiu um dos aux iliares. Déborah sentia-se o próprio Noé. . . mas pelo menos era um retorno. exceto na presença dos médicos ou quando temia m ser escutadas.

ao que parece. quando o lham jpara o seu rosto. ela é um gênio! . Não fique assustada.. no entanto. .É uma excelente médica. o prazer. . um medo que datava de muitos anos e do qual só a muito custo conseguira se proteger. a alegria. Talvez po rque éramos muito parecidos.Quando esse seu vulcão rompeu. "Por que você está tão sarcástica?". e eles se dedicam a mim.E você não sabe por quê? . .Mas depois que conhecê-la melhor. verá que.É.Não é de admirar então que você andasse soltando fumacinha da cabeça. Quando sinto que a coisa. não simpatizamos um com o outro. por mais tempo e energia que isso tome. Desde a erupção do vulcão. Déborah levantou-se e saiu em busca de calor. Mostra uma pessoa que reage conforme aquilo que sente. . E. Sei não. das quatro. Algumas vezes.pelo menos. Pressentia a iminên cia de uma nova explosão de fúria e medo que a impeliria com toda a força de encontro a alguma parede.disse Helene. não a mim . . . já repararam? . está convicta. dessa vez. alg o mais rompeu também: aquela expressão dura que você tinha. sim. . vem. parecia ser bastante sincera..O que é Déborah? . .Sim. O ódio e o medo transpar ecem porque são coisas que você sente. Ia para o casulo diariamente e. inadequado. enfermeiras e auxiliares mostravam-se mai s bondosos.. o VIII ..Nessa época do ano. há invariavelmente nos sonhos que contamos aos médicos um person agem que cuida do aquecimento.perguntou Furii. porque a Bíblia proíbe. e eles o fazem de bom grado. . . da torr ente de lava cinzenta e desoladora que a enrijeciam por dentro. mas ela sabe o que diz. nacoi. O antigo e inconstante sistema de aquecimento retinia e resfolegava.peço para me levarem-ao casulo. .perguntou Lee. q uando funcionava.Você acha realmente que a menina tem feito progressos? . Você não deve mais procurar es conder o ódio. 206 . lutava como um tigreaté se esgotar todo o fogoque lhe ardia por den tro. Um auxiliar recém-admitido.Não. . ..disse Royson. a carência por material inflamável amainara. mas agora você está livre delas . .Halle se virou e ficou observando-a responder às perguntas no salão de conferência. embora a angústia continuasse a mesma.. pessoa franca e bondosa como McPherson. no entanto. a esperança que transp . ou pelos corredores. repetindo eternas pergun tas sobre eternas dúvidas. com Clarinha Fried.gorjeou Mary jovialmente .Pessoalmente acho que não. . superaquecendo todo mundo e provocando assim um estado de embotamento e lassídão. 207 22 Apesar das distorções provocadas pelo ar escaldante e úmido exalado pelo vulcão. gênio é só o começo.. A Sra. . Gostaria de ter a inteligência dela . As pessoas agora. quando eu não estava. . . mas é claro . ..Ainda assim eles não nos odeiam .disse Furii num tom meigo. deixava-as congelar de frio. Quentin Do bshansky. o medo e. até que se chocass e contra uma porta fechada ou um muro qualquer.Como será que eles aquecem esse lugar? .Nacoi. e quando desligava. brincavam e procuravam sempre reconfortá-la.. Déborah começou a no tar que o pessoal da ala a tratava com uma certa amabilidade.Ela. . O outono cedeu lugar ao inverno. .Sempre foi.disse Furii . uma vez atada. quando eu não estava. correndo desabaladamente. apertando a xícara de café para aquecer as mãos. . era a estação m ais penosa. mas agora Seção Masculina dos Perturbados situa da num outro prédio.perguntou Furii. ficam até conversando comigo. . Desprezam-me intensamente.desgostar: nós simplesmente não combinamos. Forbes voltou ao trabalho.. uma amabilidade qu e. . As explosões se sucedem. o que o rosto mostrava: "Por que você está zangada? ". .Por um sistema inventado pelo Primeiro Marido Abdicado de Lucy. . veio substituir o velho Ticher t. sta foi uma das razões para a intervenção do Censor e das normas de conduta impostas p or Yr. melhor de tudo.Ora. vêem que você reàge e vive. que. mas não me odeiam.Seu rosto já não provoca suspeita s.Fez um gesto de cabeça em direção à doutôra Fried. Déborah ficou gelada de medo.

Sentia uma curiosidade insaciáve l de olhar.nacoi cujas leis insondáveis viviam armando surpresas contra as quais não sabia como se de fender. Depois da tro ca de turnos. Déborah chamav a aquele lugar "A Reserva". a certeza inabalável de que iria viver. O sol. os relevos e os signi ficados novos que percebia ao seu redor. são muito apropria as. o céu límpido de inverno. com um misto de espanto e reverência. virou-se para ela e disse: . Pouco a pouco Déborah foi distinguindo as formas. Déborah indagou ao crepúsculo: .Perdão. Déborah. o relacionamento se esfumou imediatamente. afastou-se dela com o rosto impassível. seu cantinho predileto. A terceira dimensão. Suas expressões faciais constituíam um mistér io que jamais conseguira desvendar. transbordando de alegria e de receio. persistiu nas superfícies nuas dás paredes. todas as vozes de todos os mundos silenciaram. de se regalar com a luz.Quando começará a vida? A resposta não se fez esperar: já estava começando! Era noite fechada quando abriu a porta do banheiro e saiu de novo para a ala. Ao chegarem à porta da ala. declinando no horizonte. e a tendência é elas se sujeitarem cada vez mais a um desejo e a uma escolha con scientes. U m pouco abaixo.Déborah se lembrou de que McPherson lhe havia dito há muito tempo atrás: "O que a faz pensar que é dona de todo o sofrime nto?" Arrependida com o seu comentário.comentou a auxiliar. sobretudo porque Déborah simbolizava naquele momento "o se rviço" mas o desabafo era sincero e impessoal. A mulher estava furiosa. de ouvir. como devia achar horrível limpar excrescênci a de corpos adultos e conviver com a barulheira infantil e patética das intemas. O sol se pôs. cuja fechadura e chave representavam outros tantos símbo los do "serviço". tiritando de frio. Déborah entendia perfeitamente o que se passava com ela. pois essas expressões não são inadequadas. veio se achegando. A única explicação possível era o seu olhar . até se infiltrar a certeza de que não morreria. no entanto. temia que tudo recomeçasse de novo: a vida . o significado.só podia ser o olhar . pediu autorização para ficar a sós no quartinho da banheira. e a luminosidade difusa ressaltava a nudez cinzenta das árvores. decorando o relvado com 208 uma infinidade de estrelinhas frias. Durante algum tempo Déborah caminhou a esmo pelas dependências da ala. um frio que pode ser remediado com casacos. Chegando lá. Esse frio está de rachar! . A tarde estava fria e nublada.alguma expressão ou tom de voz involuntário q ue desagradava às pessoas. confessando outr a verdade. continuava assustada. Lentamente. algo. cheio de árvores.arecem também.Não esteja tão certa disso! . e por isso não a magoava. As decepções. sem uma palavra. dando por encerrada a missão. de apalpar. e rodeado por um muro recoberto de espessas sebes. Reinava uma grande quietude. Não quis magoá-la. Yr se acomodara. A auxiliar fungou. Déborah decidiu pagar na mesma moeda. havia uma janela que dava para um relvado existente no hospital. . Desatou a contar como era difícil educar os filhos e trabalhar horas e horas a fio para receber uma miséria de salário. como você diz. por alguma razão obscur a. . as pessoas se transformavam de repente em suas inimigas. e cores das coisas As árvõrês ladeava m o passeio que circundava o jardim. Só tem um tipo de frio com que se preocupar. Agora que o vulcão dissolvera a sua fisionomia pétrea.Você tem sorte. A auxiliar. enfim. foi direto sentar-se sobre a tampa do velho aquecedor. Déborah e a auxiliar voltavam do consultório da doutôra . no entanto. Mas a auxiliar estava furiosa. capaz de transformar aliados em perseguido res. refulgia através dos i nterstícios da sebe. ganhando vulto. e as tonalidades de crepúsculo deram à Reserva dimensões ainda mais belas. a sebe. Muitas e muitas vezes. nas port as e nos relevos dos rostos e corpos das pessoas. e por sobre a sebe. ensinaram-lhe a s . Era bom ouvir alguém falar assim.

.Seja lá o que isso for.Nunca especi ficam de qual região. Sim. . em seguida.Talvez seja apenas um sintoma . Sofra. numa gargalhada triunfal do mundo. o rio.Passou a noite escutando os auxiliares conversarem uns co m os outros como sentinelas solitários em seus postos avançados numa terra estéril e h ostil. Quando o calor atravessa o couro do hipopótamo. e crêem estar vivos.Bem.Um minutinho. o animal se ergue e se afasta. Começam a cozinhar o jantar..respondeu Anterabae. Talvez isso não te diga respeito . . carregando consigo os nativos atônito s que olham sem entender nada. .tentando acordar Mary Dowbens. vira a página e encontra os nativos. Saboreou a comida e o próprio ato de mastigar. . .sussurrou. Veja qu e dia glorioso. Quando engoliu o sedativo e. aguardando do outro lado das pálpebras? Escancarou bruscamente os olhos. As pálpebras cerradas coavam a luz matinal numa t onalidade rubra.Talvez o melhor seja esquecer tudo isso. Na manhã seguinte. deixou-se ficar na cama. envolveu-se no cobertor. formas e sentidos redimensionando 210 sua percepção das coisas. .foi para a cama. Nesse ponto. . .Quantas vezes não ass omara àquela porta mendigando! Desta vez. Déborah se lembrou subitamente do que tinha acontecido na noite passada. só por algumas horas.com licença.ajuntou Lactamaeon. podia informar se hoje é dia de ver minha médica? . Sim. relutando se seria ou não uma medida sábia abrir os olhos. . Quem sabe. Déborah revirava a cabeça e m busca do que havia mudado nela.er cautelosa. . As felizardas que dormiam junto às janelas recebiam sol a manhã tod a.quero ver agora qual a surpresa qu e estão me reservando. falou para Yr: Sofram. .O que tem para o café da manhã? . o que aconteceu já não terá passado amanhã. . Tenho uma pergunta: Dois nativos figuram numa história em quadrinhos. ao passo que o resto do dormitório. Às duas horas. . Aviso assim que puder. surpreendeu-se repugnada por ter de comer com os dedos e uma colher d e pau. . Começou a ficar seriamente preocupada com aquilo. o leitor dessa história em quadrinhos ri. e foi até a enfermaria. parecia ser diferente. No jantar.ponderou Déborah. Pássaro-um. está na hora de levantar. Blau..Vamos. estamos escutando. nesse caso eu gostaria de vê-lo. como sempre. ontem. Levantou-se.Pratos regionais típicos .Que espécie de pratos regionais servem para pessoas que estão fora desse mundo? perguntaram. Sujeitaria essa nova descoberta às flechas do caçador de tempo de Furi i. o hipopótamo e o fogo. .murmurou.perguntou. ..o farfalhar do avental e o tom agressivo de voz . . mantendo os olhos fechados para não per der de vista as perguntas que se fazia.respondeu Mary Fiorentini asperamente. embora o comporta mento das pessoas fosse o mesmo de sempre. Alguma coisa aconteceu comigo. Escutou um grito no corredor e. por favor. . a selva. mas não sabem disso. você tem hora hoje. que na realidade é o lombo de um hipopóta mo mergulhado na água. . . e uma sensação plena e maravilhosa de vida.Terei que pedir uma autorização escrita d o administrador da ala.Alguma coisa. . Srta. as cores. A pergunta é a seguinte: Qual será a próxima expressão de seus rostos? O que farão a seguir? Seria preciso esperar para ver o que acontece . os movimentos de um a estagiária nas proximidades . Pre213 param uma fogueira na ilha onde acamparam. mas eu cá comigo tenho algumas suspeitas! . E se fosse mais um lance do Jogo. fadado a terminar. continuavam lá.Posso ir sozinha? A enfermeira olhou para ela desconfiada. Será que continuavam lá. a surpresa. O que foi? O que foi? A estagiária acercou-se dela: .

. . você estava curada.concluiu.Não permita que eles a torturem cada vez que você se abre um pouco à luz saudável do mundo. tive de repente certeza de que eu iria viver. 211 Que tal verificarmos? . ..Raiva e martírio. dói tanto assim? . Ele estava impaciente e irritado por não tê-la encontrado. acho que é verdadeiro sim. . fortalecendo-se mutuamente. detendo-s e na questão do martírio: ser martirizada tinha algo a ver com Cristo. Por isso é que e xtirpá-los causa tanto sofrimento.Dói um bocado. bastaria aplicar uma injeçãozinha dessa ou daquela droga.cismou. . Seu raciocínio evoluiu. isso não vai acontecer. e o apelido tinha colado. . esperando documente pelos seus ungüentos. Furii lhe dirigiu um olhar interrogativo. No início da sessão.. acabou contando a Furii como estava vendo diferente. estava morrendo de medo de que. sentido de realidade terei que abdicar de Yr.instigou Furii . encontrou o "pelotão de queimadura" esperando por ela...Fez-me pensar muit o em você. Déborah o apelidara "Horizontes Perdidos". porque posso entrar pelo cano depois. . Estou certa de que você abdicará dele espontaneamente. Jamais pedirei qu e desista de seus deuses pelos meus. . .. . . . numa declaração simples e categórica.. . . e sobretudo como as coisas tinham readquirido uma significação e como desabrochara po uco a pouco a esperança. de tudo. concluiu num tom grave: . Se não fosse a ssim. por favor. o q ue não quer dizer que deva firmar um pacto comigo nesse sentido. d essa vez. estragasse tudo. . ou então uma breve hip nose..Ele não virá hoje. ainda que o mundo pudesse se esvair quando a permissão fosse dada.propôs Furii . e eu dei aos médicos o "bom soldado" que eles queriam. escolha. uma referência a alguém que me é familiar. pois ele vivia com o olhar perdido à distância. aí sim.Bem.Foi uma experiência inteiramente inédita para mim . Compreendeu. Esses sintoma s erguem-se sobre inúmeras necessidades e servem a muitos propósitos.. acho que. 212 Agora que tenho o. encabeçado. . analis ando-os sob novos ângulos. quando puder substituí-lo pelo mundo real. As partes e facetas se emaranham e se sustentam umas às outras. que assumira o papel do soldado japonês (estrangeiro.Anote o meu nome. desbravaram picadas em busca de velhos segredos. ao falar.. pelo doutor Venner. sim! sim. então. desapareça!" e pronto.A enfermeira deu as costas e se afastou. Após uma pausa.Devem existir muitos suportes para que você pudesse se agüentar todos esses anos. e só d epois de muitas evasivas. é claro! ao vovô! -exclamou Déborah excitada. Nada mudará para nós. . ..confessou Déborah. a doença e os segredos têm muitas razões de ser. O molde do sol dado vestia como uma luva no avô. objeto ao mes mo tempo de orgulho e de repúdio de todo judeu. inimigo e violento) como uma resposta à hostilidade que enfrentava na colônia de férias.. pois.Procure lembrar-se! . . como um a forma de dar vazão à raiva que sentia.Prefiro não responder.Você acha que é um prognóstico verdadeiro? . Déborah sabia por experiência q ue não convinha insistir muito.Uma referência e. em seguida. .. há algo mais aí.O soldado que eu encarnei em segredo era um mu tu.. graças à determinação que animava Déborah.Está bem.. desde já? O importante é não fingir que abdica.Não. furioso com a obstinação . .Os sintomas.Vamos ao trabalho? Durante o resto da sessão.O soldado japonês personificava justamente isso.. . Quando estiver pronta. Raiva e martírio. nesse caso.Descobrir isso. .. então. termo Yri que designa uma espécie de imagem utilizada para camuflar meu parent esco com ele. ao desenca var o tirânico Latviano em quem afivelara uma máscara tão irreconhecível. . um olhar que trespassava as pessoas como se e las não existissem. e exclamar: "Loucura. Ao retomar à ala. . iria sobreviver a tudo isso. .

que detestava o doutor Venner.Estou concentrado nisso.. Alguns dias depois..das queimaduras que não cicatrizavam. Debora regulava-se com as formas.Calma. E o que vem a ser isso? . as novas cores. retirando delicadamente a gaze malcheirosa.A dor é apenas teórica. digamos int eressado.e vivia -. mas a em enda foi pior do que o soneto. . dimensões e percepções adquiriram um caráte r de urgência incontrolável. Procurou concertar o erro sem muito sucesso. disse: . provocava sua ira com gracejos dirigidos a Quentin Dobshansky que. a escutar embevecida suas conversas e a conversar com elas.. 23 Já que iria viver . relevos.Não precisa ficar danado.Já é tempo de darmos uma nova olhad ela nas queimaduras. mas logo as mãos inábeis do médico cavoucaram fund o de novo.perguntou ela num tom impaciente. sentiu que a Ala D. ao invés de pr ovocar a dor que ela merecia. quando cortaram as ataduras. . Ficou mais constrangido ainda. . .Fique quieta! .Algum dia. vamos experimentar. . pois só assim seria capaz de oferecer um sorriso.murmurou. luzes.repreendeu o Doutor Venner. o médico novo veio procurá-la.Qual foi o troço que ele usou aqui? .informou Cleary.Maldição! . O comentário o apanhou de surpresa.resmungou Venner de mau humor. movim entos que ia descobrindo ao seu redor. . e ele conteve a respiração: . Quentin . Déborah. um sorriso. . expondo a carne viva. Dias depois. qu em sabe. lembrando-se prova velmente das recomendações de alguma página de manual: . .retrucou Déborah.Uhh! Calma. e esfregou o algodão com tamanha violência que o sangue recobriu a ferida. a pele ao redo r das feridas começava a tomar a mesma consistência desfeita. segur ando as bandagens. e porque a limpeza das feridas. doutor Venner .vou preparar minha contribuição. Ele examinou os braços. e se ele não conseguiu chegar até o osso ninguém vài consegui r. é ser louco durante anos sem poder dizer nada porque ninguém acredita no que você diz. 214 Déborah olhou para ela e avisou: .Bem.disse ela.Tenho estado preocupado com essas feridas apressou-se a dizer para encobrir o constrangimento pouco profissional. . há sempre um professor à mão para sentenciar que é impossív l que 213 esteja doendo.Retirou do bolso um tubinho de reméd io e despachou o cortejo de enfermeiras que se apinhava à volta. suspirando aliviados. Dobshansky piscou para a enfermeira que acabara de chegar e Déborah se sentiu no ínt imo lisongeada por terem consentido que ela presenciasse esse pequeno gesto. interpondo entre ambos a imensa distância de Ant errabae cadente. aplicam uma ou duas doses da dor em sentido contrári o.Segure firme esse braço! . Emb ora tudo aquilo fosse novo. Ora. . Como cortesia. e apesar de seu acanhamento.Fui o mais cuidadoso que pude.disse ela com brandura. . com . . Ao terminar os curativos. Espero que não ten ha doído muito. Dobshansky mordeu o lábio para não rir. Passou a observar atentamente as fisionom ias das pessoas.bom. Deb! . Eu te nho um tumor falsificado aqui dentro que compensa longe a dor que está faltando aí n o braço.tive uma idéia que talvez dê certo. . empalidecia cada vez que o médico arrancava com uma esfregadela mais brusca um pedaço de pele. . doerá. A enfermeira-chefe sacudiu a cabeça assombrada: . a coisa não devia estar muito boa. a putrefação desaparecera completamente. Trocaram um sorri so discreto e conspirador.O que dói é ficar levando coices de força s que para os outros são invisíveis e inofensivas."Nunca Admita ao Paciente que Está Preocupado".Pela cara dele. . a deixava impassível. Cada vez que eu me dobro de dor por causa de um tumor fictício. .Não se preocupe .O último a dar foi Venner.Ele deixou lá no armário número 6 . .

e fez questão de ficar no quarto da frente onde havia barulho e vida. a comer e a ingerir os sedativos. afastou delicadamente a pergunta e saiu por uma tangente: . Venha. não importa. povoado apenas pelos bram idos do Coletor e a efervescência do vulcão. Pouco a pouco. . ela ficou como paciente externa por algum tempo disse a enfermeira. A última estadia. Eu pensei que tivesse deixado o hospital. por meio da qual os médi cos avaliavam a responsabilidade do paciente: passou a ir sozinha ao consultório d a sua médica (100 pés = 1 hora de sanidade). . finalmente. a mesma rotina. a passear sozinha nos pátios da frente (2 00 pés = 3 horas de sanidade). as mesmas sensações. A enfermeira-chefe ergueu os olhos para ela. compreen de! . quais as que não). Ao sair para o pátio.Bem. Déborah comentou: .Isso não quer dizer que ninguém terá sucesso . . Seus olhos estiveram fechados a tudo e a todos. nada mais .suas pacientes acabrunhadas e inertes. como sentiu o amor pelo mund o que se abria diante dela.. a minha substância é igual à dos outros. "boa tarde". vocês se conhecem. quando viu Carla. Déb. transbordando de afeição. as enfermei ras da B (quais as que socorreram um caso de confusão.nem quer dizer que eu vou deixar de tentar 217 novamente. Seu rosto tinha adquirido uma expressão amargurada e tristonha mas. aind a estou despreparada. assim que chegou. vamos até lá. .O retinir de uma campainha interrompeu Carla. . . na realidade. lápis e blocos de desenho. . À noite ia ao cinema ou ficava no quarto lendo livros técnicos para me atualizar.. Estou contente de encontrá-la aqui. num gesto que abarcava o mundo todo. entregando-se toda. não há porque ficar humilhada. . não só fortaleceu a convicção de que esTavá viva. . de repente. fe chou os olhos e.Sim. suas enfermeiras apressadas e inamistosa s. . cg uma derrota. . Talvez eu e steja sendo egoísta. .Enquanto fazia a cama e arrumava suas roupas. porém. na Ala B fora um período sombrio e silencioso.e emendou logo .Parecia estar arrasada e humilhada.Ôi. não conh ece? . Começou a escalá-las. disse em tom de súplica: . Sua impaciência e avidez já não cabiam na s engrenagens pesadas do hospital. concedendo-lhe. perguntou seus nomes.Foi difícil voltar? . requereu sua transferência para a Ala B. foi pessoalmente apanhar a roupa de cama perscrutando com avidez as fisionomias das enfermeiras.exclamou para Furii excitada. . .Ela voltou? Eu. até que.Mas agora está de volta. esforça ndo-se para conservar o tom neutro de voz. Chegando ao quarto. 216 .Não ouvi boatos de que você tivesse voltado. . . . onde poderi a dispor de todo um arsenal de livros. as ruas de St.respondeu Carla. O problema é que saio às vezes por pura provocação quando. Limitara-se a ir ao banheiro. iam levando uma conver sinha miúda: falaram sobre a velha Coral. sa cudiu longe aquelas idéias e reanimou-se. em seguida. arrancando uma a uma as palavras. não é meninas? .Se estou viva. No decorrer dess a escalada. e depois não havia ninguém c om quem conversar. exceto os técnicos com os seus "bom dia". . tornava-se uma realidade estreita demais.Foi uma solidão dos diabos. .Abrir am a oficina da T. .. quase que as ouvindo gemer sob o seu peso.. Déborah inspirou com vontade o ar frio e constante do inverno. gosto muito de você. . a última fundição de cuca de Mary. O. . . . Déborah. Dessa v ez.com um aceno de cabeça. não é.Olhava fixamente pa ra ela. porque é aqui que eu estou.Você conhece Carla Stoneham.A enfermeira pôs o cobertor sobressalente na outra cama e saiu.Bem. Déborah sentiu os olhos umedècerem..Me senti muito sozinha no emprego o longo pe rcurso de manhã até o trabalho me deixava meio hipnotizada. procurando transmitir naquele olhar mil coisas que representariam uma in trusão inadmissível se fossem ditas em palavras. o privilégio de formular uma pergunta. Logo logo as ruas começaram a me lembrar outras ruas. foi recuperando a distância.Carla. Déborah procurou ser o mais concisa po ssível. a mesma substância. aí a cuca fundiu de novo. assim. Louis. lá fora. nos de detrás também (1 milha = 5 horas de sanidade).

em trajes de caça. é claro! . de tocos carcomidos de madeira.O dia estava muito lindo. . enclausuraram ela de novo. porém. Déborah construiu um muro com o braço. . (Estou livre!) respondeu Déborah. Déborah não fa lou nada.movimento e gravidade. Ficaram ainda algum tempo por ali. perguntou intrigada: . .Eles têm prioridade . Desterradas pelas leis do mundo. mas seus olhos devoravam as cores e dimensões do mundo. visava apenas mantê-las-ocupadas. A oficina tinha um aspecto animado de trabalho. uma chave imaginária. logo em seguida.Ela agora está na Ala B e é minha companheira de quarto. Par ecia-lhe inconcebível que pudesse haver homens mentalmente enfermos. . .É. (Tchau!) acenou rápido e sumiu. aos olhos de Déborah. . rompendo correntes no ar e ensaiando uma cambalh ota.. ocupar por ocupar. .Trouxe-nos uma visita? . e Déborah foi apresentada a alguns rapazes.. como vai Carla! . Esta é Déborah. As fisionomias se descontraíram. Sua atenção foi despertada por um ruído às suas cos as. O. irrita da. causa e efeito.respondeu Carla . pondo as mãos na cabeça para indicar as duas abas da toca branca e sacudindo.Ora. até a Ala A. . durante algum tempo.. ficaram se comunicando por meio de sinais. me diga uma coisa: é assim que aco . Carla sentia-se compreendendo o que se passava. subiam rolo s de fumaça e de vez em quando ela aspirava o cheirinho de queimado. Carla contou as janelas e concluiu: .ôi. . que estava aberta. (A enfermeira vem aí!) exclamou a velha. fazendo um gesto de quem olha para o mar. meninas? . o "tera pêutico" faz-de-conta representava. a aguardava um b loco de desenho só para ela. Procuravam em vão extrair de pedaços de papel e traços velhos.Acenaram de volta e.Queríamos apenas dar uma olhada. Déborah visualizou mentalmente: a instrutora. as mãos retomaram o trabalho. em seguida. se tiver sobrado café. e onde sempre havia um bule de café à disposição tanto dos pacientes quanto dos médicos. todas as cabeças se despregaram das respectivas ocupações e viraram em sua direção. a tex tura da realidade.É. . Observando mais atentamente. Era a Srta. Queria conter aquele transbordar de gratidão. liam.Praticando.. uma bofetada inconsciente no orgulho que as pacientes deveriam supostamente estar fortalecendo. Sentia-se tra nsbordar de alegria.ia dizendo Carla. 219 talvez nos dêem um pouco.exclamou entusiasticamente. e parou diante dele com a mão. se não me engano na Ala D! No mesmo instante. a revoada súbita e alarmada de um bando de pássaros. Uma orient adora da Terapia Ocupacional.Déborah preferiu não entrar. realmente fora. . faziam colagens com retalhos de pa no e cola. . na oficina.só praticando. As pa218 cientes costuravam.Carla. e. modelavam em barro. atiran do num trigal ondulado pelo vento e.A função desse bule é infundir esperanças na g ente. Tinha junto de si uma amiga e.. sentia-se extremamente embaraçada. Não repararam na auxiliar que tinha saído pela porta dos fundos. vestindo um uniforme listrado de azul e branco. Para além da sebe que delimitava a Reserva.disse Carla.saudou com uma jovialidade um tanto excessiva. (Meti-me numa briga) disse a velha espalhando as mãos pelo vão da janela. via-se que toda essa atividade era puro faz-de-conta. ve io recebê-las.O que estão fazendo. Numa terra onde a "utilidade" era enaltecida ao máximo.. Voltou-se p ara Déborah e perguntou: . você que já esteve fora. . amizade e a sensação de ser plenamente humano.Já a vi antes. . (Até onde?) perguntou a outra. Coral que acenava para elas lá de cima. por detrás das grades de uma das janelas da Ala D. Um tiro no trigal já era sufici ente para o dia.. aque las párias aqueciam as mãos diante da ilusão de uma faina gratificante.E continuaram em direção à T. e que ao vê-las gesti culando no passeio. Foram depois. seu cérebro apalpava as leis que regi am a raça humana e consubstanciai . qu e ficava num dós anexos do hospital. virou-se para a mulher e declarou em alto e bom tom: .

Os únicos.ntece lá. mesmo nas suas ausências. as vezes. Caminhavam de volta para a ala. que não precisariam dessa viagem ao exterior e ram o doutor Halle. quem sabe. conversando. que jamais tinha me ocorrido antes . por que não"? "Quem sabe. que lhe dão uma força eno rme. Logo que surgiu uma oportunidade de ficarm os a sós. . Eu as tr ansformo em judias.disse ela distraidam ente como se estivesse pensando naquilo pela primeira vez. Déborah caiu na gargalhada: Ótima idéia! Médicos! Viagem financiada ao Exterior.. Parabéns! . a Srta. seu rosto iluminara-se todo: . você encontra pessoas maravilhosas.Ei! (escancarara um vasto sorris o).Déborah sentia que ele não zom bava. O pior de tudo é o que a gente sente quando todo mundo se mostra muito cortês. na rea lidade. seria mais fácil criar amizades. . nunca dei a menor confiança a quem não fosse judeu. quando a gente entra numa sala? . "bom dia" para cá.Como é que você faz isso? . Ontem.. daquelas bem fanáticas. Pode acontecer uma situação muito. Sabe. você tem que apresentar documentos e. eu a encontrei me esperando junto à porta. . Coral teve uma f ormação batista. Os médicos afirmam que a culpa é dos doentes . el a tem demonstrado uma preocupação maior pelas pessoas. e começara a agitar o punho e a xingá-la de "puta"."Por que você vai sair. aumentando. Dizem que se eu fosse menos ansiosa. N a porta que dava acesso à Ala B (esta já não tinha chaves) cruzaram com o tal médico nov o.. venho notando que.Descobri uma coisa estranha. Contaram-me que você vai mudar de endereço. quando a enfermeira viera levar Déborah para baixo. o médico novo. muito desagradável . sabendo que. Carla perguntou a minha opinião sobre uma determinada pessoa.Para conseguir emprego.Ponham de lado seu prestígio. por exempl o. desforrando-se de todos os médicos que usavam s eu prestígio e a falsa noção de que eram donos da verdade "para conservar à distância seus pacientes. mas as pessoas têm. Quando ia deixar a Ala D. e na verdade a distância entre você e eles vai a umentando. Helene se refizera im ediatamente. de algum tempo para cá. e Carla são protestantes. . Sabe o que eu dis . consciente de que está sendo aceito unicame nte graças à piedade ou a uma fascinação mórbida das pessoas. Ao ver Déborah. o primeiro passo é esquecer que elas são gentias.Percebi que tenho realizado inadvertidamente uma curiosa operação mental. car regando um estigma pesadíssimo na testa..Bem. há uma a ssistente social para testar você. para que possam se aproximar de mim.E então? . O doutor Hi ll.disse à Doutôra Fried. Furii e o médico novo. POis sempre nos disseram qu e as gentias acabam sempre nos 221 traindo. É óbvio que. Em compensação. aliás. pois jamais haviam fechado completament e as portas aos pacientes. Helene estava xingando o "Talvez". Queria ver um desses médicos tentar ingressar num grupo novo.sussurrara aos deuses de Yr.." . a título de expiação. Não lhe passara pela cabeça que o primeiro contato com o mundo recém-descoberto viesse a ser algum vinho inebriante para merecer recepção tão calorosa. quando Déborah disse: . Talvez ele não e steja em condições de julgar . Nunca tive um amig o que não fosse judeu. seus direitos civis. ela se virou para mim e perguntou: . e dão a isso uma importância m uito grande.Déborah apenas sorria. "boa noite" para lá. mas é muito fácil falar. e a perse gui-la com seus gritos: . . Helene é católica.. . e não eu"? Resp ondi então: "Sim. tubo-bem". A etapa seguinte consiste em esquecer que não são judias. quand o estiverem no ponto de chegada! Ficaram horas inventando charadas. o dia em que teria que descer também. Nós sempre rimos das brincadeiras dela. É sobre Helene. "idiota". segundo Déborah.Tenho uma coi sa para lhe contar. uma conduta melhor do que a gente espera. Passem um ano glorioso como pacientes nós manicômios! Carla também riu. geralmente.Não se esqueça! . . . apesar d e 220 serem extremamente agressivas. Nunca vi Helene tão des armada.que é minha a culpa. seu orgulho! Conheçam essa deslumbrante excursão e vibrem com o falso "tubo-bem. Descobri que os judeus também são intolerantes a seu modo. Várias fir mas exigem que você apresente o "atestado de sanidade".

em seguida. 222 Entendo.Você a abriu todinha? . Acho que tem dente de coelho nessa história. . há certos detalhes que não me saem da cabeça. .O suficiente para me inclinar para fora com o bebê.Não. .Não é possível. a tentativa de jogar a sua irmã recém-nascida pela jan ela. no dia em que entrou e vi u o bebê no berço. mas você era simplesmente pequena demais par a fazer qualquer uma dessas coisas que julga ter feito. . e continuar a amá-las? . por mais que as pessoas o achassem adorável. a essa altura dos acontecimentos.Muito interessante! . . .declarou. Você poderia repeti-la para mim? Déborah relatou novamente o episódio: como alcançara o berço e apanhara o nenenzinho. . apoia-o no peitoril.perguntou Furii.Agora. e prepará-lo para utilizar a sua saúde em proveito da razão e da liberdade.. não e ra judia.. na fase de recuperação. Entendo. Pickwick depois de um lauto jantar. a vergonha de ter sido apanhada em flagrante e de odiar a irmã.o ódio e a dor .se? "É daquelas que.O que me surpreende mais é que eu estava tão ocupada em ouvir o conteúdo emocional d a história .Déborah. por sua vez.disse Déborah pensativamente.Furii reclinou-se na poltrona com um ar satisfeito. a chegada repentina da mãe.que não prestei atenção aos fatos.Estava. . . como e stendera a criaturinha pela janela..A janela estava aberta? .era verdadeiro. para os sintomas de loucura que terá de encontrar no próprio mundo. Lembro-me perfeitamente do que ela disse: "O que é que você e stá fazendo aqui"? O bebê chorava. procura chorar mais do que todo mundo no Pu rim". Nisso. . embora soubessem de tudo e es tivessem mortalmente decepcionados e envergonhados com ela. essa menina de cinco anos puxa de volta a irmãzinha para dentro. Só depois que ela olhou para mim com cara de surpresa. não foi nada disso.Você pode se lembrar do ódio que sentiu. pronta para soltá-lo. o amor culpado que a fazia estremecer ao pensar que. . para se destacar. por pouco. . ela já estava de volta no berço. com os braços esticados. não faz a menor diferença se o outro é um maluco judeu ou um maluco cristão.. .Não. mas os fatos estão todos contra você. odiando-o o suficiente para desejar matá-lo. e depois de dar muito s tratos à bola foi que me lembrei que ela não poderia entender o que era Purim. Por sobre o incidente pairava o olhar reprovador dos pais que. carrega-o até a janela. . e voèl seja o que é. cu ja feiúra lhe saltava aos olhos. Agora vou virar d etetive . . mas lembro-me de tê-la aberto um pouco mais. a mãe entra no quarto e. escorando-o com o corpo enquanto abre a janela..Não. A doutôra se lembrou de um artigo que tinha escrito discutindo a importância de o médi co alertar o paciente. .Para um maluc o. e a dor também. A vergonha que. Parecia Mr. e só então decidi matá-la. Quer dizer que você abriu a janela.disse Furii. de duas uma: ou eu estou louca. posteriormente. O que f oi que a sua mãe disse assim que entrou? Foi: "Largue já esta criança!" ou "Não machuque o bebê!"? . eu me lembro.Afirmo-lhe que essa sua história fede como p diatip! Uma cri ança de cinco anos de idade suspende um bebê consideravelmente pesado. ex perimenta inclinar-se para fora e. não matara Suzy àquele dia. guardavam um silêncio misericordioso.. num piscar de olhos. tenho pensado naquela história que me contou. segundo . .. você não imagina como estou satisfeita por ter descoberto isso! Mudando de assunto agora. Déborah. ou você construiu essa historia inteirinha aos cinco anos. Foi preciso que eles grit assem por mim mil vezes.Mas você é capaz de admitir que elas sejam o que são.Isso eu aprendi aqui no hospital . suspende o bebê por sobre o parapei to e o estende para fora. para que eu me desse conta. D ódio . Primeiro eu a peguei nos braços. que. começa a chorar para que a mãe a pegue no c olo. experimentou se inclinar para fora e depois foi buscar sua irmã? .

condenada de corpo e alma. seus pais Sentiram todos esses anos é uma invenção do seu sentimento de. .Era um berço .Nem sequer toquei nela.A terra tcomouse tão boa agora.Nem sequer toquei nela.Sim. Idat era deusa.murmurou abismada. como se fosse mes mo real. Terás agora um modelo a seguir. Os dias são demarcados pelas vezes em que o Coletor se reúne para julgar. Ao deixar o consultório.propôs Furii Déborah começou a falar sobre aquele ano cheio de coisas luminosas que antecedeu o r einado da tristeza.Déborah implorou a Yr.disse ela. pelo modo como eram formuladas. dessa vez. amargo. . e caminhar para a ruína? Não estou linda nessa árvore? . e nada tinha a ver com o mundo.indagou a deusa. vítima . Graças à falsa noção 225 do seu poder destrutivo (noção. Carla se mostrou extremamente nervosa. nem sequer conseguiria alcançar a borda dele. . ainda não estava acorrentada ao signo da des truição. . e quando se acalmou.Faltava-lhe ainda coragem para confessar que. a Dissimuladora. que jamais poderia tomar Idat como modelo. suas lágrimas cristalizavam-se em diamantes. repleta de situações felizes. . O tempo de Yr é intemo. Por que pergunta? . no entanto. Há anos que convivo com isso. . Seus véus ondulavam docemente ao sabor de um vento intemporal. . Furii deixou que ela chorasse à vontade. . . .Estou de pleno acordo. Sofra. usando d termo que significava "para sempre" . ela parecia ter ascendido do Inferno ao Purgatório. Déborah chorava copiosamente. junto ao pai. de futuro. . Déborah procurou reconfortá-la com olhares afetuosos. t iritando de frio.. Suas mãos tremiam e seu r osto estava pálido e doentio. Idat . Por que manter a ambos.Que dia é hoje? . as lágrimas escorriam pelo seu rosto.exclamou Déborah em Yri.indagou Déborah. Há dois calendários. de uma beleza ofuscante. Compreendeu que houvera uma época em sua vida. Quando Idat chorava. Isto quer dizer que estamos num calendário ascendente. acabei de me lembrar que hoje é Quarto Englift para Annot. de e speranças. a irmãzinha. sabia. eram sempre muito difíceis. Déborah. Percebeu que. Explorou aqueles tempos fugazes e mágicos.Furii sorriu.. era um frio sujeito às leis e estações da terra. Vou . .saudou Idat.Foi gostoso? 224 . apesar do suposto assassinato.você.Bem. . Quando retcomou daquela incursão. concordo.Só que de agora em diante. poderíamos muito bem vê-los juntas . culpa por ter desejado a morte de Suzy. felicíssima porque. você não poderá mais se fl agelar com esse chicote. .Daqueles com pernas? Meu Deus. Não houve resposta. uma so noridade pungente. que a doença a impede de superar) você traduz iu esses pensamentos numa ação supostamente real. foi caminhando para a ala sob uma chuvinha fina ê gelada. As respostas de Idat. ma . Ficai comigo . Yr e o Outro Lugar. com seus galhos úmidos e enegrecidos.devolver meu emblema de detetive amanhã mesmo! Os pensamentos de Déborah recuaram no tempo até aquele fatídico quarto: viu-se aos cin co anos olhando. perguntou-lhe numa voz meiga: . áspero. . e porque apenas sugeriam a dúvi da. . entrecortado.Estava pensando em voz alta. precisou se erguer na ponta dos pés e espreitar pela borda. Furii aquies ceu num gesto complacente: . Por causa do cortinado do berço. Diferiam em todos os sentidos.retificou Déborah.Pode muito bem ter sido verdade. por algum milagre. . Observava as árvores da Reserva. As perguntas tinham. A felicidade dos seus pr imeiros anos de vida constituía uma prova irrefutável de que não estava condenada gene ticamente. Nossa suposta assassina não passa de uma menina ciumenta de cinco anos de idade. Durante o jantar.. no de Yr não há mês. por sinal. em Yri. Seus olhos estavam no nível dos nós dos de dos da mão dele. qua ndo avistou Idat caminhando no alto de um deles.Sim. .Quinze de dezembro. Penso em to mar-me para sempre uma mulher . apesar de ter sido privada dos mimos que lhe cumulavam a família. .Já que você está de volta àqueles dias. Era ainda um c horo de principiante. carregados de expec tativas. Oh.

Foi um gesto súbito. insuportável para qualquer corpo molecular. A mão virou-se lentamente e lentamente se abriu. Urna voz trovejou: . 226 24 O sonho se passava numa noite escura de inverno. Suzy.. como se fosse a quebradiça crosta de realidade sobre a qual to das elas andavam. ocorreu-lhe que talvez não. pressionava. num ímpeto. coisa que jamais poderia c onfessar ali. as pálpebras pesavam como chumbo.. No hospital. emitindo uma incandescência lívida. e as conversas terminavam. nunca complicados por mai s de dois ou três participantes ao mesmo tempo." e "não importa que.Déborah! . Déborah tinha uma sensação violentamente opressiva de esmagamento. levantaram-se e debandaram.. foi para casa passar cinco dias com a família. e a s meninas. Olhou entemecida para Carla. O punho. Das trevas surgiu uniãTimènsa mãõTêcháda. e todos os velhos tio s abraçaram-na" trêmulos de piedade e medo. que an tecedeu a todo cálculo: o de que quarta Englijt para Annot se constituía numa posição se gura de onde podia se aventurar..mas um desejo insaciável de viver novas experiência s lhe infundia a coragem necessária.um terço de talvez. Parecia sentir todo o sofrimento d o carvão em seu próprio corpo.. nem uma pedra ! . Três diamantes. abruptamente. numa grande ansiedade. Três diamantes translúcidos e reluzentes.e de novo. e estimulou um fluxo de medo pelos sulcos traçados e retraçados dentro de cad a uma. os relacionamentos eram episódicos e fugazes. ela fosse mais do que u ma simples ex-quase-assassina: a palavra a atingiu como um murro. pressionava.Pare! Não vai acabar nunca ! .. como se estivesse revivenciando as dores lancinantes do nascimento. apenas o suficiente para ser notada. Ao servirem o café.. Não estava habituada a esses bate-papos paralelos.Déborah. Receberam-na em casa como a uma heroína. ossos e tendões destacavam-se nas sombr as. mas estava lança da. pressionava. Ao subir as escadas. Só então Déborah com preendeu como se expusera a Carla. A mão se escancarou. onde os fios d e conversa iam se emaranhando como um complicado novelo de lã. ... ergueu discretamente a mão branca. carinhosamente . Déborah. A enfermeira. O ruído da louça quebrando repercutiu longamente nas pessoas senta das à mesa. Sabia que estranhariam o seu ol har. . Esther preparara um verdadeira. . Ninguém disse nada. não havia como afastá-la . talvez era um termo forte demais .gritou para a mão. As mãos ficaram.talvez fosse um pouquinho boa. em gera l. ra uma mão possante de homem. is so será você. Chegou a um ponto que não suportou mais. mas estava exausta. mostrando sobre a extensa palma três pedacinhos de carvão. Se u rosto continuava pálido e acabrunhado. que se apressarasentia-sen a assegurar suas respectivas posições naquela c rosta. ávidos por mostrar que o amor que tinham p or ela continuava intacto. 227 25 No dia primeiro de janeiro. Todas as suas amigas e conhecidas vieram corroborar o fato de que "apesar de tudo." Déborah se esforçou o quanto pôde para não recusar os pratos festivos que lhe serviam e conversar com as pessoas. cujos relevos. a xícara escorregou de suas mãos trêmulas e 225 espatifou-se no chão. banquete com os seus pratos prediletos. Jacob.s em vão. As mãos rel axaram. desferindo fagulhas luminosas. cuja função específica era anunciar o final da refeição. Transcorrido muito tempo.Nem mesmo uma pedra pode suportar isso. estranhariam sobretudo os vestígios q ue trazia das privações e da solidão . Fo i se fechando lentamente. o coração palpitando de me do. mas estava melhor do que antes. os tormentos amainaram. quase que simultaneamente. suas cicatrizes. o de que tinha ainda uma dívida para com Sylvia e já há muito tempo queria dar um beijo em McPherson.. tcomou as mãos de Carla. jaziam sobr e a palma. arranhões e queimaduras. contraindo-se com uma força estupenda. . Continuava imensa a distância que sentia entre ela e as "pessoas normais". os avós. Déborah. .

a gratidão é recíproca. seriam muito mais fáceis. . logo você voltará para casa de vez .. veremos.. embora estivesse exausta. . fiz os seus pratos prediletos. esperando que ela acabasse de tomar os remédios. . meio desconcertados vieram trazer a dose de s edativos receitada pelo hospital. cumulavam-na de liso njas como se a sua volta ao lar fosse um verdadeiro milagre. . ou algo assim? . . . apesar de ser mais velha. . que tivesse mil namorados. Precisavam realmente. Esther e Jacob. inepta e solitária.Bem.Você não vai por eu estar aqui? . . cada gentileza. Suzy virou-se para ela e ia responder.Ela a ama profundamente. Agarrava-se ofegante a os íngremes rochedos. Decidiu ligar do seu quar to para a amiga e comunicar que não participaria da excursão que vinham planejando há tanto tempo.Não. . dever a esses titãs. Mamãe e papai precisavam dela agora.Jacob cumulava-a de carinhos. disse: .Aposto que não servem uma fatia de carne como essa "naquele lugar".exclamou Déborah. um intercâmbio natural. S uzy vinha fazendo planos para aquele "fim de semana". sentada do lado oposto da mesa. Déborah ia responder que bastavam os talheres para a aposta.. . Entre iguais. Não cabia em si de orgulho por ver a filha pródiga de volta ao lar. no entanto. observava-os em silêncio. .berrou Suzy. .mas.A família está fazendo o melhor que pode. Debby. no entanto. . inclusive porque percebia que queriam conve rsar sem ela. sentada de novo à sua mesa. a felicidade e a paz da família repousa vam nela.Escuta. mas mordeu o lábio.Não. procuramos aplainar todos os caminhos para você. .) Debby.Você vai com eles.Logo. Déborah. . se vocês todos deixassem de fazer tanto caso a respeito desse mi sterioso segredo. Não era exata mente a irmã que desejava . . . um suplício que lhe pesava sobre os ombros como mas sas de chumbo.com licença. Seus olhos se encheram de lág rimas .. Acredite . e quando se debruçou para beijá-la. sentindo que começava a naufragar. Jacob ficou olhando para longe.. . Suas manifestações de carinho eram patéticas e vulneráveis. é que eu quero mesmo ficar dessa vez. depois de um dia tão movimentado. sentindo que cada favor.uma irmã que freqüentasse todos os bailes. perdida. Para Déborah. tenho que ligar para Annette.Não é todos os dias que você vem. as coisas ficariam muito mais fáceis! Sim. que fosse glamurosa e atr aente . Déborah. ela empalideceu tão visivelmente que Esther se apressou em desvia r o rumo da conversa: . para ela representava uma escalada árdua e exaustiva. Agora.Déborah. . Deu as costas e correu para o quarto. .Não banque a mamãezinha comigo! Responda a minha 229 pergunta . 228 . e de um modo que che gava a ser assustador. sussurrou num t om triunfal: . que liderasse a torcida do time da escola.perguntou Esther.Suzy.Você combinou com eles para passarem por aqui primeiro. já há muito tempo. .. A irmã tinha um aspecto feio e cansado. e depois de hesitar alg uns segundos. com a cabeça zonza. . não.pensou de si para si. não se deu por satisfeita. estava longe.interveio Suzy . Festejavamna. Quero ficar com você essa seman a. Sabia que precisava proteger essa última Debby.disse Esther. Na hora de dormir. Era óbvio que mentia. mas se conteve a temp o. incapa zes de avaliar a força tremenda que possuíam. Levantou-se precipitadamente.mamãe e papai já me contaram que aquele lugar não é u ma escola. .disse ele..não é filhinha? Esse é o seu verdadeiro lugar! (O tumor começou a latejar . por mais amorosa qu e fosse. só fazia com que ela se sentisse. Não estão deliciosos os cogumelos.queriam demais fazer essa viagem . lembrando-se que. era uma dívida a pagar. Debby também.mas não ousou enxugá-los ali onde poderia m vê-la.perguntou Déborah.perguntou. . que se autodenominavam "pessoas normais". tão pouco vivida.Não! . Aquilo que para os outros não passava de uma caminhada tra nqüila. não vai? . veremos. Debby . Ao ouvir aquilo. por alguma ironia do destino. você não precisa ficar naquele lugar de mulhêres histéricas. Está vendo. vou da próxima vez. mais d o que nunca. .

Seus olhos foram se fechando e antes de mergulh ar no sono concluiu num murmúrio. Fcomos para te proteger! . alguém que se chamasse Lucy. Havia um outro de Constantia com as duas enfermeiras que habitualmente a acompanhavam nos passeios. e quantas oferendas trouxemos . ouvimos os gritos. e que belo reino era aquele: havia a gigantesca águia do roche do. Nenhum dos desenhos continha cenas do h ospital. . tudo começou a mudar com a jurisdição do Censor.sua riqueza de cores e aromas. as velhas pediam que Déborah explicas se como fizera os desenhos e. Invariavelmente.Que mulheres histéricas? . em seguida. a terra era um lugar extremamente perigoso e traiçoeiro. Lembra-te de que viemos numa era de esterilidade e de morte de todas as esperanças ! . As visitas de parentes se arrastaram pelo dia t odo. Só que dessa vez a escala que media as virtud es da terra contava com novos valores-sobretudo a esperança. o pequeníssimo "Talvez" . cheio de prenúncios fatais e poços tenebrosos. de sua liberdade em Yr. A ntes de irem embora.. Déborah soltou uma gargalhada p ara escapar à aflição de encará-lo: .lembrou Anterrabae Antes não rias em parte al guma. torcendo.relutava seriamente em trocá-lo pelo seu o utro mundo. o de Yr. Protegia e mantinha os mundos separados para que ela pudesse ir em segurança de um ao outr o. em segredo. As velhas ficavam olhando com um ar meio estúpido. e os mergulhos com Anterrabae arrastando uma imensa cauda de lu z. Jamais te odiámos! friZou Lactamaeon. para que não. faziam alguns elogios extravagantes. exceto um retrato de Helene de cabelos desgrenhados e olhos vazios. . Agora. Conosco. e a felicidade que sentia era tão intensa que seus pés não se contentavam com o chão.. quando nós visitamos. . tu rias. Não o Yr anárquico dos últimos tempos. Trepa nas janelas da frente e fica a rrepiando os cabelos das visitas. disse-lhe boa noite e saiu. mas beleza' e alegria sujeitas aos caprichos e inconstâncias do tirano. e ela agora os exibia orgulhosamente a todas as tias e tias-avós. vistas como figuras minúsculas perdidas num jardim que se estendia até ao infinito. um sorriso satisfeito pendurado n os lábios. Por mais deslumbrada que estivesse com o mundo . Suzy acabou mesmo não indo à excursão. os sons. começaram a ser recortados os con230 tornos luminosos dos personagens de Yr. . acen ando com um feixe de centelhas na mão. Ainda assim. tia Selma.. depois de um longo período de confusões c ausados pelas colisões dos dois mundos. diziam uma p iadinha a respeito de suas últimas conquistas ("Não. os movimentos. balançando tolerantemente a cabeça. galo pando num reluzente corcel. Nunca ocorrera a Jacob que aqueles gritos aterradores pudessem pertencer a uma p essoa de carne e osso. cuidadosamente agrupados segundo o nível de ignorância das "condições" de Déborah. ravinas verdejantes e floridas onde pastavam ca valos selvagens. enquanto desfrutava. já sei! Deve ter sido aquela velha idiota da Lucy Martenson. . Yr continuou sendo fonte de beleza e alegria..".Ah. No início foi até bom que ele viesse. mas o Yr dos velhos tempos. era preciso escolher de novo. o tempo e uma infinida de de outras descobertas maravilhosas . Logo o reinado do Censor transformou-se numa tirania intole rável.Bem. davam um beijo em Suzy e.Perguntava-se no íntimo se ele teria escutado sequer um cochicho seu. não vale a pena trocá-lo pela terra. 231 O sedativo começou a fazer efeito.bradou Lactameon. jubilosos e perfeitos.. prestando tributos verbais à Terra cinzenta e desolada. com olhares cúmplices. isso foi há semanas at . vôos puros. extensiva a ambos os mundos. Deu um abraço apertado e cúmplice na filha. Caí a na besteira de trazer um pacote de desenhos seus para mostrá-los a Esther (sua p rimeira juíza). Déborah sabia que diziam a verdade. mir ando-se num espelho que refletia a imagem da graciosa amiga de faculdade da foto grafia. com todas as forças de sua alma.. Débora h ganhava asas e voava.exclamou Anterrabae. Sim.Não. do "era-uma-vez uma rainha que se c hamava Déborah. Havia momentos de uma alegria extraordinária. Ela se vinga de todo mundo fingindo-se de Tarzan. um céu que se perdia de vista. foram breves esses tempos. Lamentavelmente. Nas trevas do quarto. e isso o tranqüilizou um pouco.

Essa menina parecia-se muito com Helene. no entanto.protestou Esther. Déborah sen tia que. preferira ficar. a acontece que eu sou mais do que uma tola. justificar . sob as camadas da lógica e da vontade. . o que quer que fosse. Os materiais disponíveis na oficina de artesanato da Terapia Ocupac ional eram escassos. o ato falho que. Chamava-se Carmen. mas você nunca chama a vovó. e para sua própr ia surpresa a resposta que deu foi: . ela só vai ficar alguns dias.Não posso. aperfeiçoando vários estilos e técnicas novas. nada mais"). havia ne la aquela força indef inível que permite prever a cura.cada visita que você faz ela você convoca toda a família. .Ei. 233 26 Veio a Primavera. apurando os ouv idos.rás. quando escutou as vozes de Suzy e Esther na sala de estar. Déborah observava atentamente a irmã preocupada com a melancolia que vinha notando nela já há dois dias. por isso é que estamos fazendo esse rebuliço todo. uma pa ciente recém-intemada perguntou-lhe o que era. você simples mente não escuta nada. desmiolada e de scuidada! Você não está sendo injusta? .Ai. Estava quase dorm indo. qu" estivesse transmitindo a ela a sua substância virulenta.berrou Esther perdendo as estribeiras. ano passado. Os seus três primeiros meses d e "lua-de-mel". ma s de forma clara. referindo-se à religião. de repente. Cada carta . guache. vamos até a Ala A jogar pingue-pongue? . Certa vez.. menina burra! . Durante o jantar. vai chegar até o teto". e por m ais que a consciência negasse. Déborah temi a.murmurou Déborah aflita. Eu não preciso fazer isso! Elogiar você é fanfarronice. Podem não ser tão "profundas" quanto os desenhos de Debby. morrendo de culpa. coch ichavam: "Eles mentem! Eles mentem! O veneno existe!" Aquela noite.gritou Suzy .resmungou Suzy . discutindo num tom bastante angustiado. aludia à causa drogada e adormecida de todas as suas dores de ca beça e discussões. que continuava deslumbrada com ás formas e cores que desc obria no mundo.Newtoniana. Déborah e Carla entreolhavam-se. cheios de amor e desespero. . inconscientemente. mas trabalhava-se com o que estivesse à mão: "silk-screen". Foram para a cama cabisbàixos. aquarela. dizendo com os olhos: "Quando essa exp lodir. Enquanto brincava com todos os brinqu edos da terra. Jacob apareceu na porta do quarto e rugiu furioso: . inteiramente inerte e. Poderia ter ido à excursão. . durante os quais as pessoas se agarram aos últimos trapos de sanid ade para encobrir uma horrível nudez. ou convida tia Natalie e t io Matt para escutar a última música que eu compus ou o comentário inteligente que eu fiz! Será que você não compreende. meu Deus . embora ela estivesse destinada a uma longa permanência na Ala D. Eu danço também e eu escrevi duas músic s para as festas do acampamento de férias. Quando passavam p or Carmem. Elogiar Déborah é.Calem a boca! Assim vocês aco rdam até os mortos! Os três perceberam imediatamente o deslize. lá no íntimo. Embora sentisse que jamais c onseguiria se identificar com os costumes e hábitos das "pessoas normais". Meu pai vem me visitar essa tarde. soltava um grito lancinante como se tivesse levado um tiro. sobretudo. car vão. tcomou os sedativos e foi para a cama mais cedo. Ficava horas e horas largada num canto. animada por uma curiosidade insaciável. estavam quase se acabando. o mundo material abria-lhe belas perspectivas e valiosas recompensas. . . mas o sono foi mais forte. deixan do-a entregue àqueles elogios intermináveis. e era filha de um magnata riquíssimo. Yr e as regiões mais obscuras do mundo travavam uma batalha renhida dentro dela. Carmem. ia desenvolvendo seus dotes artísticos. Fcomos à festa juntos.porque quando não se trata de Debby. enquanto Esther fazia comentários lisonjeiros a respeito de seu charme e da sua postura na mesa. Eu desenho também. Déborah. 232 você não os escuta .

Déborah ficou em dúvida. oferecendo ajuda. deli ciando-se com o banho de chuva.. Começou a cair uma chuvinha fina . .Na minha universidade. Carla contou como foram agonizantes os domi ngos na época que esteve fora sentia-se trabalhando. leva ntaram-se. . as Aparências nunca chegavam a camuflar de todo. puseram-se a escoltá-las.disse Déborah. . . Eram os dias de lazer. Isso não era maneira de voltar.perguntou Déborah. as roupas encharcadas. .Chiii! Não tenho permissão para vir até aqui . mas se lavariam. Irrompeu nelas uma sensação de liberdade maravilhosa. quando começou a ficar frio. bem distante d os prédios do hospital. No entanto. A oficina de artesanato estava fechada.Na minha fábrica. vocês têm autorização para sair à noite? .Eu suprimiria todas as barras das janelas .. as coisas certo. nem panelinhas.. e depois reconstruí-lo todinho. quando deram persi. Aos domingos. e as tardes de domingo consis tiam numa luta desesperada para impedir que os outros mundos aflorassem. s antidade e amor. contudo. até que c hegasse a segunda-feira. é bom ter de lutar contra algo qu e não ceda e que nos dê a segurança necessária para extravasarmos toda a nossa loucura.E o que é certo? . . Reafirmava-se nelas o desejo de perfeição humana. meninas. .perguntou Carla. as pessoas ficavam desarmadas. Consistia em decompor o mundo em inúme ros pedaços.Nem eu. .Íamos justamente entrar agora. concordar. . concordar sempre. Mas ali no hospit al. Às vezes. Ao se aproximarem do primeiro prédio. Passavam horas intermináveis construindo-os e selecionando pessoal. Era domingo. É bem verdade que deviam estar com um aspecto lastimável.Ele 234 não compreenderia. .Olhe só onde estamos.Todas as minhas auxiliares terão que passar uma semana como pacientes. Eram traiçoeiros os domingos. aspirando a neblina fria que recobre as manhãs primave rís. . . os domingos eram dias terríveis. Apesar da segurança que o hospital ofer ecia. em parte por uma frági l e secreta esperança. foram surpreendidas por Henson e Cleary que saíam naquele momento do Anexo 3 em direção ao prédio principal. . Equipá-los e administrá-los era a parte prin cipal do jogo. estavam no prado. bobas de alegria. ironicamente denominados Dia do Desca nso e da Liberdade. tudo ad quiria uma aparência desoladora de abandono.Concordar.Os dois auxiliares esperaram por elas e em seguida flanqueando-a s. não permitiremos nem grupinhos fechados. .Não . N os dias de semana. . e caminharam cabisbaixas de volta para o hospi tal. . observando as fendas abertas pelo inverno na calçada e jogando o jogo dos sonho s que tinham inventado para passar o tempo. Débora e Carla passeavam à toa. Eu só espero que consiga fazer. eram os hospitais o que melhor conheciam. era possível baixar as Aparências como se baixa uma tela diante d o corpo e da mente. Sentaram-se na relva.Não. Nos fins de semana. . Mas nenhuma das duas dispunha-se a abdicar desse pequeno motim contra o fastio dos domingos e as restrições do mundo. os patrões trabalharão nos serviços mais rotineiros para aprenderem como são duras as condições de trabalho do operário. em parte como punição.ponderou Carla. .Vamos. . então.Em primeiro lugar teriam 235 que ser fortes o bastante para resistir. .Você quer que a gente fique por perto ou não? . . Ao cair danoite.Poremos os nossos médicos-em-serviço realmente em serviço. Iam conversando distraídas e. paz. Não podiam consentir em v .Ei.disse Carmen com voz lânguida. quando então as farsas eram reativadas e a superfície se to mava de novo perfeita. . . penteari am os cabelos e vestiriam roupas mais apresentáveis antes de comparecerem à visita p ara ficarem de mediadoras entre o pai e a paciente mais esquisita que existia na Ala B.respondeu Carla. .

Na realidade. Carla e Déborah a previram simultaneamente e. Esfregando o corpo para se aquecer. coisa que não fazia há muitos.comentou Déborah em voz alta. Mais tarde.pareciam gêmeas de tanta lama . vão ficar em reclusão. Porém. A volta foi longa. Ao se aproximarem da porta. os auxiliares automaticamente cercaram-nas por trás. Seus olhares. apanharam a oportunidade no momento exato. gozando uma sensação imensa de l iberdade. -. escalaram o barranco até a e strada .. Passando a entrada. o que significava que já passava de meia-noite. Mandaram gente para nos procurar! . . Entreolharam-se e seus olhos diziam: "Não!". Eu queria ficar sozinha. As dua s correram até ficarem sem fôlego. Correram. Carla sac udia uma pedrinha do sapato. ao que parece. mas que valeu. A chuva fustigava-lhes o rosto com força.. à distância. pertenciam ao seg undo turno da noite.e lá se foram as duas de novo para a vala. Também não tinham plano algum. divisaram out ro carro. Isso ainda é uma estrada pública. relembrando na cama os episódios do dia. Você ficará essa noite. mas um homem prevenido vale por dois. havia um con junto de portas giratórias. Cantaram uma parte do caminho. arquejantes. rindo às vezes dos escorregões que levavam por causa dos sapatos encharcados. . Déborah se perguntou pela primeira vez o que p retendiam fazer. Procurou se lembrar do que Furii lhe ensinara a respeito de fazer o que realmente queria .Não sabes o que te espera! . pelas estradas escuras que cortavam os fundos do hospital. Claro! .É. rindo e ofegando ao mesmo tempo. afinal. . Ambas mergulharam imediatamente numa vala lateral.e voltaram a caminhar. tiveram que entrar. Não tinham roupas secas nem dinheiro. a porta de entrada e saíram correndo. Henson e Clear y tinham inconscientemente relaxado a vigilância. . Déborah sorriu na escuridão. . só isso. com dores nos rins.Pare de se bajular tanto. se encontraram por sobre as cabeças das enfermeiras e trocaram uma p iscadela cúmplice. As duas. muitos anos. não depois daquela sensação maravilhosa de liberdade. ao transporem a porta. absorvida em seus pensamentos. e no céu t empestuoso. ouviram a sirene que anunciava a fuga de pacientes. Não houve jeito: derrota das. galopavam ligeiras as nuvens. para cima? . nem escoltada nem dirigida. Ao seu lado.Perfeito! Era justamente o que eu queria. As duas auxiliares que vigiaram Déborah enquanto ela tomava banho. diante d os auxiliares atônitos. Anterrabae entoava gloriosos hinos em Yr louvando os encantos do mundo. Terminado o banho.Tenho hora com minha 237 médica amanhã. . mais cedo ou mais tarde . Pouco depois. a farra. Teremos que voltar.exclamou Carla esbaforida. ..Comporte-se! Tome seu sedativo e vá já para a cama. transpuseram simplesmente de um salto. o banho go stoso de chuva. já dentro da portaria do prédio que abrigava as Alas B-C-D. Só foram "apanhadas" depois de atraves sarem o portão de entrada. e só então diminuíram a marcha e pr osseguiram andando. Recostou-se no barranco. esperando que o c arro passasse. tiritando de frio. Quando os faróis sumiram na chuva. Logo que o carro passou. Déborah conclu iu com seus botões: "Talvez eu venha a pagar caro por isso. . Era um carro. sua biruta. por terem fugido e voltado com tarriantra tranqüilida de e doçura. livres ainda. como se tivessem sido treinadas a vida toda para aquilo. surgiu a oportunidade ideal . correram.Terei de voltar lá. valeu!" E dormiu sentindo o cheirinho de chuva. foram separadas uma da outra e escoltadas por uma numerosa guarda. as fugitivas saíram da vala e reto maram a caminhada.oltar assim. Carla e Déborah 236 simplesmente continuaram dando à volta. Avistaram uma luz. o que pretendiam fazer era o que estavam fazendo.declarou uma delas com ares de grande santidade.respondeu Carla. Minutos depois. saindo por onde tinham entrado e.Mais perseguidores? . rindo de sua rapidez e agilidade. Em represália. Déborah e sua guarda emparelharam com Carla e sua guarda a cami nho para o final do corredor onde havia alguns quartos de reclusão. se aproximando.

Quero avisar a ela que está tudo Terminado Ela nos viu fugir e deve estar bastante preocupada. Ela entrou e. só caem doentes quando já estão deitados. farejando o ar. frustrando seus esforços para se concentrar numa explicação mais compreensível. O contentamento deve ter transparecido no seu rosto. Chegando lá. por algumas horas que fosse. A gente não decide quando vai espirrar.perguntou Carla. Ninguém teve a idéia. . Espirra e pronto. e quero que você espere lá fora. . . escoltada também. eu tive que ser atumai. De onde. Halle procurou tranquilizá-la: . e pensar em alguma versão que tomasse suas razões suficientemente convincentes. o Dr. o D outor Halle.perguntou ele. No fundo do jardim corria a sebe verdejante. .Onde está Carmen? . pois ele sorri u levemente e explicou: . não a tenho visto. Havia um termo Yri que descrevia bem o que sentiram naquela ocasião.O que foi que aconteceu? Déborah contou a história. e aquilo íê-lo recordar-se de uma fuga que empreendera de casa quando menino. os galhos nus das árvores carregados de brotos primaveris. se foi! .De quem foi a idéia.O Doutor Ogden está de cama. Déborah entrou precavida.Puxa. Elas sempre encontram um jeito de escapar ao último passo em falso.Não sei. com gripe. não foi? Uma diversão compartilhada pelas duas. Nós duas.. quando terminou. . . por detrás da escrivaninha.Vocês infrigiram as normas do hospital. . . Foram perguntar à enfermeira. Déborah encolheu os om bros.. Às 11 horas da manhã. . . que os olhos de Carla interpretaram co mo um sinal de desgraça. 238 Estou supervisionando os trabalhos da ala B por algum tempo. oito delas se não me engano. É só isso . O Doutor Halle ostentava uma expressão sev eríssima.Deixe que a coisa saia.Ótimo! vou conversar agora com Carla.concluiu. .Venha. isso é raro aqui. mas logo pôde suspirar de alívio ao notar que ele lutava para conter o riso. Percebendo a sua hesitação. C arla também. eu. A palavra tornou-se uma idéia fixa . . tateando em busca de uma explicação convincente. foi escoltada sob guarda aos escritórios da administração. a as coisas se mantém em ordem . que Déborah ainda não conhecia.Foi divertido? . Fizemos e pronto. en fiou a cabeça para fora e acenou para . girou a cadeira em direção à janela. .Recostou-se na poltrona esfregando a ponta dos dedos.Entre! . crianças! .Não vejo razões para r evogar os privilégios que lhes foram concedidos. Pegam invariav elmente o sinal verde. todos riem. . admiração e um grãozinh o de inveja. a auxiliar bateu na porta do Dr. . e sempre que contam p iadas. encontrou Carla esperando sua vez. . De onde eu vim chamava-se as pessoas assim atuma i. Esto u um bocado orgulhoso de vocês. Em resposta ao seu olhar interrogativo. em primeiro lugar? Déborah gaguejou. com uma cara assustadíssima. Decidi u afinal traduzi-la. . o que é uma ati tude extremamente repreensível.exclamou numa voz onde se mesclavam impaciência.Ah. . . e um sorriso pendeu um instante nos seus lábios. rindo e cantando debaixo de uma noite tempest uosa. Levaram-na ontem à noite. . por isso. . Foi divertido. ninguém liderou. Ogden. O médico a interrompeu duas vezes para esclarecer detalhes e. As versões do que fizeram coincidem uma com a outra.Recompôs a fisionomia severa. Ontem. . torcendo para que ele entendesse. .O diabo é que tinha que parecer sã. Im aginou as duas meninas caminhando. Não via Carla desde a piscadela da noite passada. quando apan ham um barbante para amarrar um embrulho nunca falta um centímetro.Carmen foi para casa.Qual não foi a sua surpresa ao encontrar. num gesto imperceptível e experiente. 239 Foi a vez dos guardas se entreolharem.O atual administrador da Ala B era um médico novo. um tal de Dr. as pessoas desajeitadas e inábeis como eu veneram as que não são. Lá fora. Bem. Quando elas saíram.Está bem.ele deseja falar com nós duas. .Reviu mentalmente a cena da fuga na porta giratória. Ao sair do consultório. Ogden. ele perguntou: -. O melhor que f aria era tentar lembrar-se de todas as histórias que escutara a respeito de escapa das. depois de uma sentida esPera interminável.

Só sei que ela saiu com o pai por vol ta das sete horas da noite. e logo souberam da novidade . . é sobre Carmen.Parece que sim. com bobs no cabelo e um bloco d e desenho nos joelhos... metida num vestido estampado de flores lilazes que nada tinha a ver com a agilíssima tigresa que o usava. mas sim que poderia ter conseguido.Acho que você está dramatizando a coisa só para conseguir um pouco de sofrimento gra tuito! . Os de Carmen não lhe der am sequer uma chance.O que aconteceu? . encarregou-se de preencher o c onteúdo de seus gestos.respondeu Carla. compondo palavras mudas que só a ela falavam. seria um verdadeiro canhão. . . . . . e ainda assim permitiram que eu ficasse. ao passo que os meus. logo que recebeu seus privilegios. as vozes acabaram atraindo outras. com a fama violenta de Helene e as lendas que circulavam a seu respeito.Vocês a conhecem? Quer dizer. . seu verdadeiro sorriso insinuou-se por detrás do falso.. Déborah foi t ambém.Viram muito 240 mais ódio do que amor. Conservaram a fé num futuro que talvez jamais desse os frutos pelos quais an siavam. Suspendeu o bloco para ocultar o recorte. . .murmurou Déborah. .Ela poderia ter conseguido se safar.. a oportunidade de poder travar a batalha.. e não o fiz eram. acusou-as de hipócrit as e mentirosas e.Ela discordou. vi. Quando Déborah e Carla disseram que estavam contentes por vê-la. lembrando-se do trigal e do caçador. havia um intenso contrabando.Apenas o suficiente para aprender a discordar . Carla saiu cedo para a entrevista com sua médica. Sentia-se arrasada. ao se levantar . Embora fosse proibido ler jornais na Ala B. Podiam tê-la retirado dali ao primeiro fracasso. Deb.Oh.Pelo tom.Meus pais. Déborah deu uma olhada nele e o e nfiou rapidamente no bloco de desenho. . desligada de tudo e de todos. encerrada em seu próprio claustro. se eu não estivesse morta de medo. num instante. Helene veio para a Ala B.perguntou Helene..Quanto tempo ela ficou aqui? . .Estendeu um recorte de jornal. . Levaram-na à oficina de artesanato. . cuja espingarda. 242 Eu não disse que ela teria conseguido. e isso'deixou-as ainda mais contente s. como é que você pode ter certeza? . as mãos geladas. Déborah e Carla entreolharam-se. . Sim. . .Carla. . O seu sorriso "normal" era precavido como uma armadilha prestes a disparar. e leu a notícia até o fim. A manchete anunciava: FILHA DE MAGNATA SU ICIDA-SE. sobretudo. ... Carla. Déborah compreendeu que o que devia a seus pais era.Mas o pai não veio só para visitá-la? . . via-se que a enfermeira queria encerrar a conversa ali mesmo. você viu Carmen ontem? . mas acho que mudou de idéia. .disse Déborah baixinho. me sentiria tão grata! 27 Mortalmente pálida. Olhou para baixo e encontrou suas mãos ensaiando gestos ve ementes em Yri. quando avistaram Carla vindo cabisbaixa em direção a elas. e por muito tempo.O que será que aconteceu? . conheciam? . Jamais exigiram que ela se recuperasse para restau rar o prestígio da família.No final das contas. era bem Helene quem estava ali. e só voltou um pouco antes do jant ar.Déb. furiosas com a perversidade do mundo.. Termi nava com minuciosas considerações a respeito da imundície que resulta quando uma pesso a dispara um tiro de revólver na têmpora.Hum-hum. Permitiram que ficasse.Terry. mesmo sem haver qualquer sinal de progresso.acusou Helene no seu tom áspero de voz. Déborah e Helene estavam sentadas no corredor. foi liberdade o que eles me deram. .

Quando a enfermeira veio dispersá-las.Viver é lutar! .Proferiu essas últimas palavras. .Porque você haveria de sentir falta de mim? . Mas. Curioso é que o medo que sentia era o mesmo que levara as pessoas a rejeitarem ass ustadas a sua definição de "uma boa e saudável enfermidade". Suas idéias eram claras.Impossível! .Porque vou sair. Continuo achando que Carmen poderia ter vencido. Tremia de medo. vou tentar de novo A resposta a apanhou desprevenida. Atingira um nervo particularmente sensível. Déborah encarou provocativamente L inda. "sadios" e espirituosos. Asenfermeiras que estavam de p rontidão não sabiam se falavam se guardavam silêncio. À distância. Só que dessa ve z. mas em compensação ela senete. mas o fato é que estão ali há anos. . .de uma forma mais premente e impetuosa. Sorriu daquela ironia.Ela tinha uma enfermidade muito dolorosa . mas jamais conseguiria convencer aquelas mulheres mais sãs. tal como naquela noite milagrosa na Ala D.Reparem naquele monte de homens internados n a Seção Masculina.Depois de tanta terapia.Carmen poderia ter se salvado. já sem fôlego. não sentir muito. Déborah olhou ao seu redor e se viu cercada p or fisionomias congestionadas de ódio.Você está querendo saber como eu consegui sobreviver até essa idade. Déborah percebeu que aquela agitação de ânimos dizia menos respeito ao suicídio de Carmen. . estourada do je ito que sou? . ículo! Você está apenas racionalizando seu próprio sistema de defesas! 243 Déborah procurou ser mais objetiva: . pode estar doente. hein! .Meditou um minuto.vou sentir sua falta. Déb. não é impossível. . . mas não deixou de se q uestionar: "Que medo é esse? Medo por mim ou por Carla? Por mim? Porque vou perder uma amiga para o mundo? Ou será porque em breve eu terei que ir?".Não. nem se entregava às farsas ha bituais com os médicos. A velha Coral. fugia à dor envolvendo-a "m palavras pomposas e eruditas.exclamou . . não se mascarava com aparências. vive intensamente. . e nada e ninguém os ajuda. sem saber porque. em suma. que já havia lido tudo sobre o assunto e vi via distribuindo jargões como quem distribui moedas. mas sincera. num esforço absurdo para suste ntar a farsa do "tudo bem-tudo bem". e mais ? contradição entre o cinismo que existia dentro de cada uma e ânsia vacilante e cega de lutar que se traduzia em calorosas disputas verbais. o nervo da Ala B.Que absurdo! Isso é uma contradição em termos! . . Sentiu revigorar dentro de si a força silenciosa que emanava do "abrirse ao mundo". Déborah a encarou intrigada. como uma dolorosa bofetada.Você gosta mesmo de atiçar as feras. São todos muito racionais. é impossível que eu não consiga percorrer um quilometrozinh o até a cidade. . Deb. Déborah se achou defendendo com ardor o pequenino "Talvez ". estava abaladíssima. só isso. em Yr.É a mesma co isa. . a "autoridade psicológica" da Ala. porém muito mais vulneráveis do que as da Ala D. ressoou um trovão: . luta. exposta. Isso é doença-d oente.comentou Carla mais tarde vestindo-se para dormir. Linda.. como pessoas.objetou Carla. diante das car as hostis e incrédulas. foi você mesma quem disse que Carmen explodiria até o teto a qualquer minuto. investiu furiosamente: -Ridículo! . Para sua própria surpresa.. No entanto. Reinou um silêncio intranqüilo e. sobretudo. Parecem não sofrer muito e. ou então q ue pudesse ameaçar as defesas que as pessoas erguiam para conter o sofrimento? . A equipe médica g osta deles. que consistia numa fuga constante.. afirmações de "ma leviandade teme rária. Ela tinha uma enfermidade boa e saudável! . apren dera bem as lições de Furii. vou começar a procurar trabalho onde não fique enclausurada num quarti nho 244 .Uma tensão vibrante percorria em sussurros a ala. O que pretendia? Estaria tentando impedi-la de dizer qualquer coisa que pudesse degenerar em confusão e obrigá-la a se desdizer. Vão vivendo. lá na D. apa vorada com o olhar defmição da antagonista.

Agnes (Eles são violentos?). Déborah continuava animada de uma curiosidade insaciável pelo mundo. .diria. encaminhou o pedido de autorização para abandonar o hospital Rangérãm as eng renagens da burocracia.Pouco me importa que você vá .É uma exigência. Procurou depois o pastor Metodista para conversar sobre o grupo de jovens que ele entretinha. Quanto às senhoras do coro da igreja. Chegando a um velho casarão. cheirando e apalpando tudo o que lhe caía às mãos.Terei que acompanhá-la .Tem um ou dois quartos novos. .minúsculo. Por is so sou tão sensível". faltava-lhes a sensibilidade para reconhecer a fome impetuosa de uma criatura recém-nascida no mundo. Era uma senhora idosa. eu sei . . A curiosidade a impeliu até mesmo a freqüentar a vida social da cidade. Assim que terminar. e ela. .uma mescla de estupor.Daqui a pouco você vai também.confessou Déborah desolada. Fulgurou-Lhe na memória o episódio do tornozelo t orcido no St. A nova companheira de quarto era uma menina meiga e generosa. mas a doença continuava intacta. distraidamente. . Quando a a ssistente social começou a explicar do que se tratava. mas receosa de que o medo traduzisse a respos ta para um Yr incompreensível. medo. Talvez tenha sido esse o principal problema da última vez.vou sentir sua falta. onde não há pacientes morando. inveja e. Na sua maior parte . arrumo a trouxa e me mando daqui também! Quando foi procurá-la para se despedir. m as logo compreendeu que participar estava fora de cogitação. .Não sei se você sabe. e minha mãe é Sophie Tucker. Déborah se afeiçoou a ela e. mas a lei exige que nós declaremos. a menina olhou para ela surpresa como se n unca a tivesse visto antes.. vou sentir sua falta . A proprietár ia veio abrir. pr ocurando descobrir novos caminhos. . onde moravam e o que pretendiam fazer quando terminassem o estágio. com uma determinação teimosa e inquieta. Debo245 rah não desanimava. lá do outro lado da cidade. rancor. a menina acabou deixando de lado o assunto família ou os atritos conjugais de seus pais. persistente. ."Meu pai é o Paderewski. Afastou-o com um ligeiro tremor. Um dia. P erguntavalhes por suas vidas. eu não sou paciente. . Sua memória fora devas tada. contentou-se em deitar na cama com os olhos anuviad os de medo. . finalmente. O primeiro passo foi ingressar emdois coros de igreja. e quando veio a resposta. Greta Garbo e Will Rogers . sabia? Estou fazendo uma pesquisa para minha tese de doutôrame nto. Costumava ficar sentada junto às enfermeiras e estagiárias escutando embevecida elas conversarem. sempre quietas.declarou a sua companheira de quarto. e ainda antes de Carla. todas com um ar muito piedoso. Déborah tentou formular um "Claro!".Sim. comparecia. receosa e excitada ao mesmo tempo. tocaram a campainha da porta e aguardaram. onde não era b em vista. Doris Rivera devem ter visto: . . . olhando.Déborah ouvira rumore s a respeito e conhecia alguns devido às suas caminhadas .Falava com u ma voz desanimada e assustada. que clamava pelos seus direitos inatos. acima de tudo. como se refletissem a desgraça dos leprosos que os habitavam. A pequena e insular com unidade tinha verdadeiro pavor do hospital e de seus ocupantes. .disse a assistente social . depois de algum tempo. suas famílias. A assistente social possuía uma lista de quartos na cidade que podiam ser alugados para pacientes em regime de externato. solidão . de modos delicados e voz suave. -Freqüentemente ia até a cidade a pé e depois voltava. . Por mais que ignorassem a sua pre sença. Déborah viu no rosto de suas com panheiras a mesma expressão que Carla. Déborah a encarou firme esper . . Tomaram-na invisível."Minha família sempre teve queda para a música.. Déborah fechou os olhos e pôs o dedo ao acaso na lista. Atribuía a si mesma as mais divergentes proce dência familiares .Na verdade.eram pobres e sombrios. veterana da psiqui atria mecânica e que já tinha passado por uma dúzia de hospitais. . por e xemplo.interrompeu ela. Só que ficam um pouco l onge.

à qual não pertenço. como pude esquecê-la! . de trabalho mais cotidiano. não ponha papel na privada que ela está velha e um pouco ranzinza. Agora que retornou ao mundo . aos poderes esmagadores de Yr. é bom ter com quem rir e conversar. mas eram insignificantes comparadas. suas r elações com as pessoas não passavam de compartilhar uma máquina de costura. .Ainda que o seu rosto me pareça ótimo.Sim. . nada mais. . quando ele está bem-humorado. recordar-se de uma amiga ou de um rai o de sol implicaria em transformar toda uma visão do mundo.Você teve uma amiga? . um ho mem que servira na marinha e que tinha o hábito de falar sozinho. eu vejo! . mas um abismo intransponível os separavam. .É bom conversar com Lactamaeon. 247 . pelo menos depois que se aco stumou à vida da cidade. era nova na cidade e não fora educada nas lendas fantasmagóricas que cercavam Aquele Lugar. ela se limitou a acenar de leve com a cabeça: .. . . um livro de hinos.respondeu Furii. Quando veio morar em Chicago. não suscitava receio. A vel ha não tinha entendido? Quando a assistente social terminou de falar. . . .Sim. . bom.. que realmente não era estragada! . P ara que uma pessoa renuncie ao mundo.Olhe. mas nada disso ( aconteceu.Mas Yr também é belo e verdadeiro. parecia-se com todos os que o nganon atrai .. outras falsas. graças à sua aparência mais "normal". você é capaz de se lembrar do que havia além das trevas. .Ah?. e ela também. esse quarto tem mais luz. a velha se contentou em dizer. mas o outro fica mais perto do banheiro. Ah. não suscitava nada.prometeu Déborah. . algumas verdadeiras.era uma pessoa solitária e tristonha. . por uma cara hostil. estão vendo.Não me refiro à linguagem ou aos deuses propriamente . as aulas de costura na escola secundária e até mesmo um clube de excursões para adolescentes ("Venha Um Venham Todos"). Quando volto para ca sa depois da aula de costura.ando a qualquer momento por um olhar cauteloso.Enquanto você esteve doente daquele jeito.De ambos talvez. Aliás. e minha amiga. ou do coro na igreja. . . fique sério e diga coisas que . . aquele ano que passamos na casa alugada. Veio a descobrir depois que a proprietária Dona King. "boa noite". As trevas serviam justament e de contrapeso para as luzes que simbolizavam a vivência do amor e da verdade.mas à força qu e exercem no sentido de mantê-la afastada do mundo. O reinado sombrio da destruição. Quando a acompanhante foi embora. é preciso que tenha razões.Você teve notícias dela nos últimos anos? . . um mapa. até eu vir para cá. . Cansou de ver as mães chamarem apavoradas os seus filhos quando passava "O Capitão". é um hosPital para doentes mentais-insisti u aflita a assistente. Você precisava ter t odas as razões para se entregar a uma renúncia tão grande.De quem é a culpa: da cidade ou do meu rosto? .Sorriu . que não admite mudanças. quer dizer. Sim. Déborah. Por mais que f reqüentasse os ensaios do coro da igreja. Isso sim é doença. .Sim. . novos aspectos a confrontar com o passado.Lembro-me inclusive de dias inteiros. Como pude esquecer disso? . por fav or.. 246 Ou o franzir dos cenhos. antes de nos mudarmos de volta para Chicago. E não tinha nada de arruinada. sim. de repente. . lá também existe amor.Sim. Déborah mergulhou nas recordações. . Talvez a senhora não tenha entendido bem. que sempre lhe parecer a uno e denso. busc ando nas atuais situações de liberdade. é bom ter alguém que faça gracinhas e. espero que gostem do quarto. tinha agora algumas fendas que deixavam passar a luz do sol.'.Ne-n que minha vida dependesse disso . claro! Está cursando a faculdade agora. Eram todos muito gentis. talvez ele demonstre uma certa ansiedade quando você está com as pessoas. Inúmeras histórias assus tadoras.Gostaria que você voltasse de novo para a sua infância e revolvesse aquela época cin zenta da qual já falamos. acabaram inculcando na maior parte dos habitantes da cidade um medo e uma a aversão absolutamente irracionais. A terapia atravessava uma fase pouco inspirada. ou responder "boa tarde" ou. onde sou uma estranha.retrucou Furii .. Mas logo aprendeu o novo m odo de vida e ficou boa.

Havia tantas coisas novas para compartilharem que essa única fenda não faria muita diferença. não é.Admiti-lo causava-lhe profunda dor. e provavelmente não tinh am gostado mas. que o cri ou a partir do seu próprio humor e de sua própria beleza? -. . . Mas já há algum tempo que ela vem crescendo. Semana passada. viveram juntas as agruras da enfermidade e lutaram juntas para escapar às suas gar ras. Déborah começou a prestar atenção a isso.Receio. sua Terra!" . . Em meio à sôf busca de vivências. e e le respondeu: "Serve para alimentar anos de sua vida. . no entanto.perguntei. Supôs que ela devia ter achado algum rascun ho. a camaradagem foi cimentada e tingida pela seiva de vida emergente e de luta. uma espécie de desafio. Furii perguntou: . não é assim? .Plenamente? Furii assentiu com a cabeça. Sua fisionomia endurecia imperceptivelmente e seus modos beiravam. fora dormir pensando em falar à Carla . em local seguro. Lembrou-se que Carla jamais demonst rara interesse em ver um trabalho seu.Na realidade acho que sempre soube. mas sempre que estavam juntas. Anterrabae exclamou:Mas é claro! Encetamo s. que tinham esc rito um coral baseado num poema de Horário. . Como. . çle srecorriam a todos os seus métodos de sedução.Quando foi que você finalmente percebeu isso? . a frieza. não dissera nada. e de como os deuses. . e quando o cantaram. por ser sua amiga. Mais tarde. Depois começamos a nos insult ar um ao outro.perguntou Furii. Carla? Você a vê freqüentemente? Déborah lhe cont ou uma coisa estranha que acontecera. Mas naquele universo de bruscas e surpreendentes oscilações emotivas. . muito tempo. Agora que ela começava a reagir."Serve para iluminar ou aquecer?" . uma mudança sutil se oper ava em Carla. reparou que sempre que mencionava sua ar te ou qualquer outra coisa em que estivesse trabalhando. então. . ond e coexistiam amor e ódio. tinham deixado de ser belos. perguntei a Anterraba e: "Esse aí é o meu fogo que está queimando dentro de você?" Ao que ele respondeu: "Por acaso não valeu o combustível?" . num processe quase que concomitante. Num dado momento. Furii lhe lembrou as crueldades cometidas pelo Coletor. Eles riram sem graça e acabaram admitindo que seus conhecimentos não iam além dos meus. ." Eu disse: "Todos os anos? Para sempre?" "Uma terra contestada. um desses desafios em que se brinca e se fere ao m esmo tempo. seus temores e todas as suas tênu es e frágeis esperanças. Não se viam muito ultimamente.Sim.E quanto à sua nova amiga. Aproveita : do que as recordações felizes continuavam vivas na memória d. já há m uito. havia uma proximidad e toda especial entre elas. Déborah decidiu. na época em que costumavam ficar catando papéis na Ala D. Seria maravilhoso se eu pudesse despachá-los quando quisesse. esse estranho desin teresse destacou-se com maior nitidez ainda. Déborah. de novas experiências que ambas empreendiam. No sábado anterior. eu estava rindo em segredo com Idat e Anterrabae. Primeiro eu pedi: "Ênsinem-me matemática". Carla trabalhava durante o dia como técnic a de laboratório e passava as noites estudando as novas técnicas para recuperar os c inco anos que perdeu internada em três hospitais sucessivamente. então.248 nos comovam. Não tinham segredos entre si: contavam suas vidas. ainda receio que eles sejam de certo modo reais.Mas agora você sabe. poupá-la do s altos e baixos de sua arte. porém.E o Coletor estaria incumbido das críticas a você. porém. quando se de sanuviou a sua relação com o mundo.perguntou Furii com uma voz meiga. a atitude de Ca rla e o seu ressentimento passaram desapercebidas. que o construiu à imagem e semelhança de si mesma. PodeTríâm ter sido amigas em qualquer parte. recita poesias que nos fazem chorar e nos dê vontade de contemplar as estrelas. Déborah. crescendo. rindo mas magoando também. agora eu sei. e onde cada sensação e preocupação era duvidosa. comentei: Esse é um dos poucos que conheço inteirinho de cor. a espirituosidade e a sensi249 bilidade poética porque é muito mais difícil combater um inimigo amável. sempre tive uma suspeitazinha guardada lá no fundo.. .

retrucou a voz . como se estivesse perseguindo a salvação.. Na manhã seguinte. sei que soa como aquela velha l enga-lenga de "menina sortuda". .Sim. Carla a escutou so fregamente. .. . não posso mostrar -.Sim. contemplando o luzir das estrelas. ela perguntou ansiosa: . . a voz disse: noite é uma curva de trevas. Depois de muito tempo. Carla desatou a chorar. .Você acha que é verdade. projetavam longas e sinuosas sombras . mas mesmo assim eu acho que é verdade . sonhei. arqueada e extensa. um belo e sólido osso! Déborah quis ainda implorar à voz que revelasse a configu251 ração que teria a sua vida. varridos pelo vento. .Deixe eu conhecer o arco da minha vida? . portanto. você acha mesmo que é verdade? . O espaço que fica para além é a curva da história da humanid ade. a partir da qual possam crescer e se desenvolver. Furii disse para ela: . . Carla veio visitá-la e enquanto conversavam à toa. No céu. revia as estrelas e suas mãos apalpando a curvat ura suave do osso. seu sonho.Olhe para lá. . O sonho se passava numa noite de inverno. .Você sempre teve em al ta conta a sua arte...Jura que não inventou nada. descrevendo uma curva regular. su as mãos esbarraram num objeto duro e ela o arrancou para fora da neve.Pediu. apesar de você tê-lo encontrado aí enter rado e congelado.Contei exatamente o que aconteceu. . Cave aí bem no fundo na neve. .Por favor não se zangue.perguntou estarrecida. mas não é nada disso. Teve um sonho incrível . Os morros cobertos de neve.É um belo osso. .Esse osso está profundamente entranhado nela. . .Após uma pausa. onde cada vida constitui um arco ligando o nascimento à morte. Déborah caminhava sobre a neve. sim. apesar de toda e qualquer inconveniência ou restrição. de um negro denso e azulado. . espesso. De repente.Sua criatividade? . Em momento 252 . ela escutou uma cantiga de ninar entoada pelas estrelas. Déborah olhou em direção ao horizonte. .Vê. Ela enxugou os olhos. Quantos não a invejariam. . sólido.O único lugar para onde eu jamais poderia ir. . de um branco vivo e fosforescente.O que é que você está vendo? Como é? .Ah.É isso a vida de Carla? . mas o sonho foi se desvanecendo e as vozes das estrelas sumindo até desaparecerem de todo. e contou-lhe.Também vou ajudar a sustentar a curva da história? .disse Carla pensativa . o sonho. Déborah cavou com as mãos um buraco na neve. Déborah. você realmente sonhou isso. . as estrelas congeladas luziam frouxamente. a do homem. o luzir da ne ve e o luzir de uma lágrima gelada que escorria de seus olhos. .É. uma voz grave e profunda a interpelou . . lembrava-se nitidamente do sonho.Reproduzia os mínimos movimentos dela. Déborah. A voz interpelou de novo: . trabalhou com um grande ardor. Ele está enterrado e congelado lá no fundo. . Lembre-se da amizade sa udável que você precisou sepultar no esquecimento. foi só um sonho. Era um frag mento de osso. é uma curva. . então. . O ápice de todos esses arcos individuais compõe a curva da história e. .o único desejo que jamais poderia admitir. Quando Déborah retirou o objeto enterrado.A voz silenciou um momento e depois concluiu .O seu..a respeito de um novo pensionista e do genro da proprietária. distraída.afirmou Déborah.Você sabia que as estrelas não emitem só luz. mas tam bém sons? Apurando os ouvidos. Quando lhe descreveu o osso e contou o que a voz dissera. e o conjunto de vozes era tão belo e comovente que a fez chorar. O seu talento é tão fértil que resistiu às piores fases da doe Agora você pode compreender a situação daqueles que não têm a sorte de possuir uma vocação ativa. e dos tempos felizes que baniu da memória. .. Acho que esse sonho. Quando Déborah concluiu o seu relato.mas posso mostrar o de Carla.suplicou Déborah. Apesar do frio cortante. como se estive sse limpando a neve do achado. não é? Lembrome que lia constantemente nos relatórios da ala como você sempre arranjava um jeito de fazer seus desenhos. veio lembrá-la de uma outra alegria: a compreensão de C arla.

grande demais para voar. que fazia de Déborah um instrumento e uma cúmplice de sua destruição. par ecia um tanto surpreso. Pouco a pouco. Aperspectiva de vir a f reqüentar "na daquelas salas de aula a assustava terrivelmente. Recordou-se das lut as que travara no íntimo.Conversei com várias pessoas . pense demoradamente no assunto. os tofmentos inf . Nem para garçonete ou balconista de magaz ine. e as velhas recordações qu'e guardava da escola. Suas recordações de es cola ainda estavam muito vivas na memória.algum você renegou esse seu profícuo dom que a maioria das pessoas dariam tudo para possuir. montões de pedra pousad os ali como uma gigantesca ave.disse ele . Teriam consciência de como eram be las e invejáveis as suas vidas? Não. por mais rudimentar que fosse. Folheando os jornais da cidade. você não estava abrindo os olhos para isso. antes de assumir a convicção de que . realmente não dava mais: suas atividades meros passatempos para preencher as ho ras vagas.ra intrinsecamente dife rente dos outros. trabalhando numa série de desenho s a bico de pena e abrindo caminho para o passado em densas sessões com a Dra. mas os terrores finais .Percebendo o olhar apavorad o dela. . Fri ed.e tudo leva crer que você terá de cursar a escola secundária para conseguir qualquer emprego. dimensões e cores. ouvindo os sermões do pastor. em silêncio. a título pessoal. e há muitos anos não lidavam com estes problem as de trabalho. s entia cada vez mais que suas ambições e esperanças já não cabiam nos ensaios do coro e nas aulas de costura. pelo frio e a dor que reagem às leis da natureza. Evocaram de novo o velho brado Yri . pelas fagulhas que so bem das fogueiras em direção ao céu. Déborah passeava os olhos com curiosidade pela congregação: teriam alguma v ez agradecido a Deus pela luz que iluminava suas mentes. prom eteu. completou: . Precisava ampliar o seu campo de experiências. suportando estoicamen te os ferimentos que o levaram à captura.se. mas não conseguia penetrar um milímetro sequer além daqueles sorrisos polidos e frios c daquelas delicadezas puramente formais. em sono. estudar o problema. ocultar sua condição de cidadã e cativa de Yr. é claro.aconteceram em corredores idênticos aos daq uele prédio. Numa cidade tão pequena e estagnada. A medida que o mundo ganhava uma riqueza maior de formas. Aos domingos. . nesse sonho.. O hospital não podia ajudá-la em nada. pelas expectativas que podiam acalentar. pelos amigos. dos esforços enlouquecedores que lhe custa ra manter as aparências.. ficou surpresa de ver como conhecia mal o mundo e todas as suas pequena s exigências rotineiras. A doença. Déborah fora justamente naquele dia dar uma olhada na escola secundária. 28 Déborah levou uma vida pacata nos meses seguintes. Ao chamá-la duas semanas mais tarde. . Os psiquiatras eram 254 todos igualmente estranhos na cidade. serviços que exigiam pouca capacidade intelectual. pelos amigos. pela sucessão majestosa dos dias e das noites. Era um conj unto imenso de prédios que bordejava o outro lado da cidade. aco rdando para mais um apelo do mundo. . já não a satisfaziam mais. nganon clama por si mesmo". e nriquecer sua vivência. Quem sabe. . em meio a rostos idênticos aos que encontraria ali. os in esperados mergulhos nas trevas de Yr . Gostaria de trabalhar. prestativa e "sadia" que se mostrasse. não havia para ela empre go algum. Comparecia a todas as cerimôni as metodistas e escutava os mexericos que circulavam no "Clube do Altar das Senh oras".os lapsos e ausências. tinha aj jpalificaçéesnecessária s. mas não tinha o diploma secundário. Por mais simpática. . depois de insinuar mais ou menos a mesma coisa. nunc a deixaria de ser uma criatura invisível e inaudivel. recordações episódicas de uma visitante num lugar estranho. pelos amigos. viera crescendo dentro d ela desde os primeiros anos."Imutávelmente. eram de quase quatro ano s. Furii ia dissipando aquela velha certeza de que a sua vida era um a vida amaldiçoada e arruinada. e o administrador que cuidava das questões das pacie ntes em regime de extemato. .Bem. Conhecia Latim e um pouco de Grego. Recordou-se do misterioso soldado japonês. A própria.doutôra Fried deixou claro que isto era um problema que e la tinha de resolver sozinha.A senha de todos os condenado s.

lingidos por Anterrabae, o Censor, o Coletor e o Poço. Apesar de todas as concessões que fizera aos seus captores, Déborah perdera inteiram ente o ânimo para continuar sustentando aparências. Participe, se engaje, se entregu e a qualquer preço, diziam eles. Mas agora sabia qual era o preço. Numa cidade tão pro vinciana e mesquinha, onde haveria entre ela e seus colegas de turma uma diferença de, pelo menos, três anos de idade, e uma distância incomensurável, sabia perfeitamen te que, na melhor das hipóteses, o mundo se tomaria uma verdadeira terra de ninguém. Mesmo estando abalada a sua sujeição a Yr, ácaba255 ria, inevitavelmente, se alienando do mundo, se refugiando num outro mundo, e tu do recomeçaria de novo. com ou sem Yr, era tarde demais para se juntar novamente a estudantes como esses, tarde demais para bailes de escola, panelinhas, faceiric es e frivolidades de coleguinhas de turma. Fartara-se já do "vocabulário especial" q ue convinha empregar nas relações de engajamento com esse tipo de mundo. - Tenho dezenove anos. . . - declarou para os prédios da escola. - É tarde demais! Afastou-se, tiritando de frio, debaixo da forte ventania que Yr soprava por sob re a distância, ao mesmo tempo real e irreal, que a separava de tudo aquilo. - Não posso voltar aos-meus adoráveis dias de ginasiana - disse pafã~o administrador. - Volibol no pátio, mexericos, festinhas de escola, não dá. - Mas sem o diploma secundário... - Non omnia possumus omnem! - retrucou, lembrando-o de que se tratava de Virgílio. Sabia, no entanto, que ele tinha razão. - Por que então você não prepara uma lista enumerando tudo o que é capaz de fazer? - pro pôs o administrador. Seria puro faz-de-conta, "fazer coisas úteis", nada mais do que enumerar becos sem saída. Mas, que jeito? O que ele queria, na verdade, era livra r-se do "abacaxi". Faria a tal lista. Quem sabe não descobriria alguma preferência, um talento, qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Lá estava o pequenino "Talvez" transformando em calor e ânimo uma ínfima e vulnerável fagulha. Voltou à pensão, foi para o quarto, sentou-se na mesinha, apanhou uma folha de papel e dividiu-a ao meio. Numa das metades anotou CONHECIMENTOS, na outra EMPREGOS P OSSÍVEIS. CONHECIMENTOS 1 andar de bicicleta. 2 saber Hamlet inteirinho de cor. EMPREGOS POSSÍVEIS 1 garota de entregas. 2 - professora particular, para meninos que estejam aprendento Hamlet na escola. 256 3 poder acordar do sono mais pesado em posse de todas as minhas faculdades. 4 - tremendo vocabulário de palavras obscenas. 5 algum grego. 6 algum latim. 7 frieza de cálculo e insensibilidade. 8 artista há dez anos. 9 conhece as componentes da maioria das formas de doença mental, capaz de re presentá-las realisticamente vendo o original. 10 não fuma. 3 guarda-noturno. 4 consultora lingüística. 5 (não é suficiente). 6 professora particular de latim para meninos que o estejam aprendendo na escola. 7 assassina profissional.

8 não cheg.: a ser gênio; não há viabilidade comercial. 9 atriz (perigoso dei íais). 10 degustadora de vinhos. Reescreveu a lista, suprimindo os itens 4, 5, 7 e 9. Doeulhe um bocado ter que a fastar o "assassina profissional". Lembrou-se, porém, que tinha uma péssima coordenação motora, e os assassinos profissionais precisavam ser ágeis e graciosos. Tamanha er a a sua falta de atumai que, seguramente, no momento crucial suas vítimas desabari am para o lado errado. Imaginou a cena: ela, a assassina, tentando se arrastar d ebaixo dos cento e cinqüenta quilos de um lutador profissional. - É. . . - murmurouitem 7, causa perdida. No dia seguinte, levou a lista para o administrador, mas não esperou que ele termi nasse de ler. Até mesmo Anterrabae 257 estava vexado com as qualificações tão medíocres de sua rainha e vítima. O Coletor, com ar es de falso-santo, morria de contentamento. Déborah estava assustada com as opções que o mundo lhe oferecia. As perspectivas que tinha na sua frente eram como o corre dor que percorria naquele momento: uma longa estrada, cuidadosamente pontilhada de portas, de dez em dez passos, só que todas fechadas. - Ei, Srta. Blau - chamaram às suas costas. Era uma das assistentes sociais ("O qu e é agora? Já tenho um quarto, portanto não preciso de uma caçadora de quartos; a não ser que esta venha desfazer o que a outra fez"). - O doutor Oster falou-me a respeit o da senhorita freqüentar a escola secundária. ("Lá vêm eles exigir novos sacrifícios. Pro vavelmente designaram para mim um bom lugar sob as rodas de jaganatas"). A dor p rovocada pelo tumor alastrou-se pelo corpo todo, e sua visão tingiu-se de rubro. - Não sei como não pensei nisso antes - dizia a assistente social. - Há um lugar na ci dade que talvez possa prepará-la. - Preparar-me para quê? - perguntou Déborah. - Para os exames. - Que exames? - Ora, os exames para conseguir o diploma de equivalência ao curso secundário. Como eu dizia, parece ser a solução ideal.. . A mulher olhava-a de um modo esquisito. Déborah quis explicar-lhe que era difícil es cutar através de um borrão vermelho, que suas notícias tinham trazido um grande alívio m as, devido à brusca mudança de pressão - bastava ver a palidez mortal do seu rosto - e stava sentindo o chamado "mal-dosmergulhadores". - Isso significa que não preciso freqüentar o ginásio? - Não, como acabei de dizer, há uma escola particular na cidade. - Posso escolher então? - Acho melhor a senhorita se entrevistar antes com eles e estudar as possibilida des. - Como faço para combinar essa entrevista? - Bem, a senhorita ainda está sob os meus cuidados.. . - Você poderia marcar uma entrevista? Sim, claro. - E depois me conta o que eles disseram? - Hum-hum. Déborah sentou-se e ficou observando a moça se afastar. A dor estava diminuindo, mas o pânico continuava tão intenso quanto antes. Escuta teu coração - sugeriu Anterrabae, despencando ao seu lado. Batia como uma porta sem ferrolho empurrada pelo vento. O que é que está acontecendo? O que é que está acontecendo? - perguntou assustada para Y r. Estava tudo tão real agorinha mesmo! - Enxergava tudo distorcido; suas palavras soavam de uma forma estranhíssima, como se até mesmo o Yri tivesse sido recodificad o. Por quê? Por que está acontecendo isso? A pergunta quebrou o silêncio que reinava sobre a terra. Sentiu que alguém se aproxi mava, talvez o doutor Ogden que' saía do escritório. A audição estava tão distorcida quant o a visão. Esbarrou numa pessoa e imediatamente gritou: - Os sentidos não são discreto s!

- Ela vai ficar violenta? (ou algo no gênero, ouviu um dos vultos perguntar num to m aborrecido) Déborah quis responder que a violência constituía para um vulcão uma lei n atural, mas já não conseguia comunicar absolutamente nada. Flanqueada e sustida por um atropelo indistinto de mãos e vultos, foi conduzida ao elevador metálico dos paci entes e transportada para a Ala D. Começava tudo de novo! Ao recuperar os sentidos, olhou bem para si mesma, de alto baixo, e soltou uma s onora gargalhada. Agora eu sei, seus calendários descendentes e imprevistos. Agora eu sei, Lactamaeo n, oh deus tristonho! Agora eu sei porque Carla e Doris ficaram arrasadas daquel e jeito! - Riu às gargalhadas, um riso áspero e ferino, até ficar completamente rouca. Mais tarde, Quentin Debshansky entrou para tomar o seu pulso. - Oi! - cumpriment ou ele, sem saber se deveria mostrar-s,e alegre ou pesaroso. - O casulo está ajuda ndo? - bom, voltei a ver, a ouvir e á TãTar. - Ela o encarou com firmeza. Você continua sen do meu amigo? - Ora, é claro! - exclamou desconcertado. sentia-se - Então deixe a sua cara em paz, Quentin. Seja espontâneo. Ele relaxou a fisionomia que logo adquiriu uma expressão desapontada.-É que... bem, eu fiquei feliz de saber que você estava lá fora, tocando para a frente. Sentiu uma pontada de angústia ao lembrar-se que dedicava afeição a uma pessoa que era , afinal, louca (ainda que os médicos lhe recomendassem chamá-las doentes mentais ). e podia tomá-la ainda mais louca se dissesse coisas indevidas. Os médicos e todos os manuais que lera aconselhavam-no a não se mostrar muito categórico, não discutir, não e xtemar sentimentos fortes, procurar ser jovial e prestativo. Sabia, no entanto, que estava lidando com um ser humano, um ser humano que era capaz de comover e q ue lhe inspirava uma profunda afeição. Estava feia neste momento, com os cabelos des grenhados, mas quantas vezes não o ridicularizaram também por sua aparência. Além do mai s, já passara por uma derrota semelhante à dela. Sofrerá, uma vez, um acidente que o d eixara estirado na estrada, todo quebrado, ao lado do pai. Quando vieram socorrê-l os, transportaram-no para o hospital enrolado num cobertor, exatamente como ela estava agora. Jamais esquecera aquela viagem. O pior de tudo não foram as dores, s entira-se até orgulhoso delas, mas a horrível sensação de estar sendo moído, reduzido a um a pasta, corpo e alma. O gemer das rodas girando, interrompido por bruscos sacol ejões, transformaram-se num sussurro monótono e atordoante: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . .". A morte do pai causara-lhe uma tristeza imensa, irr eparável. As costelas quebradas tomaram cada ato respiratório um verdadeiro suplício, um chute no rosto da morte. Olhou para Déborah e lembrou-se das rodas girando as s uas idéias: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . ." - era justamente o que ela devia estar sentindo. - Quer um copo d'agua? -- Não, obrigado. Ficaram ali olhando um para o outro constrangidos e envergonhados, ela esperando que o medo e ele que o desapontamento rompessem logo o impasse angustiante. Sub itamente, Déborah se deu conta de que Querrtin Dòbshansky, além de amigo, era um homem , um homem sensual, um homem 260 capaz de despertar nela sentimentos inteiramente novos. Foram duas descobertas s imultâneas: a do seu vazio interior e a do desejo, um desejo feroz, ardente, recal cado durante anos e anos. Furii tinha razão; por mais biruta que fosse, era capaz de sentir, e como! Ergueu os olhos para Quentin que, indeciso junto à porta, procurava alguma coisa r econfortante para dizer antes de sair. - Você tem mais uma hora, tá? - Hum-hum. - Sabendo como devia estar feia, para não lhe ferir os olhos, virou a c abeça para o outro lado e esperou até que ele fechasse a porta. Lactamaeon, o deus negro, com seus olhos azuis e frios, começou a escarnecer dela: O pescador venceu. Colheu na sua rede o peixe que se recusa a morrer e ficar mo rto. Salta, contorce-se, joga-se de encontro às amuradas do barco, procurando dese speradamente voltar ao seu elemento natural. Privado da essência que lhe garante a

As minhas fugas para o tempo. o sofrimento é atroz. .. Mais que depressa. antes mesmo que ele tocasse a pele.Sim? . . proclamou alto 261 em Yri: A todas as divindades de todos os mundos. as vertigens. o mundo começaram a mudar.. mas não ousou pedi-la diretamente com medo de que a recusassem. correu para o consultório. o medo que sentira. apanhou. o calor foi aumentando. . estou confinada definitivamente neste mundo.. Furii reparou na acompa nhante que se postara atrás de Déborah. aumentand o. ao que parece. mas sempre.. mas a dor sempre prevalecia sobre a vontade. . você não imagina como eu estou contente! . sempre havia algum sinal de advertência. . e perguntou-lhe intrigada o que estava fazen do ali. . com mais intrincadas. e examinou o seu braço cheio de cicatrizes.ao que parece.Antes.Puxa. percebeu que houvera uma mudança importante: lógica. e deixa as coisas voltarem a ser o que eram. . . . comunico que não haverá mais queim aduras nem fogos. Descreveu o encontro com a assistente soxiaL£as sugestões dela. .Tentei. uma agulhada dolorosíssima rep eliu o braço num gesto instintivo.Ei! Sabe o que acon tece quando a gente brinca com fogo? A gente se queima. e irrompeu na sala exclamando: . Como é que eu posso estar melhorando com crises assim tão repentinas e fortes? . Quando chegou a hora de avistar-se com Furii. A ajuda estava ao seu alcance . . . As relações se invertera .vida. Ele não quer pensar nos espasmo s mortais do peixe. Finalmente desistiu. sobreveio a crise.O que que é engraçado? .Você andou se queimando de novo? . Déborah reparou que uma auxiliar esquecera o cigarro aceso no cinzeiro.exclamou atônita. Aproximou-o lentamente da pele..Masaxme íortão repentina. até que. predizíveis. . virou-se para ela com um olhar interrogativo. entre Ann e Mary Dewben).começou a chorar. o local já queimado o tecido não se ressentiria decidiuqueimar num local novo.gritou Déborah.Porque doeu! .Foi um reflexo! . seja lá qual for ele". o súbito alívio.É que Yr sempre foi o domínio da ava no mundo. foram se tomando cada vez .Sorriram. Sentou-se no chão.. alegre e ass ustada ao mesmo tempo . os passos solenes do réu caminhando para o cadaf also. obrigando-a instintivamente a afastar o braço do ciga rro. -.Ah. e escondendo o levou para seu dormitório (dormia. por oposição à anarquia que im lá obedeciam a toda uma série de fórmulas que. foi como se Yr dissess lado..perguntou. Isto aflige o pescador.Engraçado. Eu já não sei mais como! O cair da tarde invadia suavemente a enfermaria. Deslocou o cigarro em brasa ao longo do braço até encontrar uma região que aind a estava viva. várias vezes. sua recompensa e vitória.disse Déborah . é? .As defesas que a impedem de ficar boa e se juntar de vez ao mundo já estão nas últim as barricadas. do compreensível. dissimulada pelas camas. já estou. a sensação de absolvição. Assim és tu para o mundo e para nós também ..bom. agora. . Seria inút il queimar. . Tentou de novo. o "mal-dos-mergulhadores" e. .. pois. é isso que acontece! Dá uma dor chamada dor de queimadura! Furii franziu o cenho. Falou sobre a sensação que tinha de que tudo e stava sendo decidido à sua revelia.Talvez "ela" soubesse que você precisava de ajuda. ao chamuscar os primeiros fios de cabelo. Vieram. Quando soube que Déborah tinha voltado para a Ala D.Será que não compreendes! . o desespero de ter que fic ar três anos presa ao silêncio da cidade. . logo se ntia-sem seguida. . É natural que lutem desesperadamente para salvar o que puderem da d oença. . mas não consegui.algum pre nuncio do que iria acontecer. Re-morra. . deixando amedrontada a acompanhante. sem nenhum aviso prévio. então. quando os meus vínculos com e: líAgora passaremos para o outro Poço. 262 Quando começou a narrar a queda no . Déborah contou então a visita à escola.

onde mais .Tem pena de mim! Tem pena de mim! Déborah ficou estarrecida. Anterrabae recorria freqüentemente a essa alusão.Onde você está? -. Déborah começou a ficar em pânico. e Anterrabae disse: "Comeste todo o fruto da esperança. . e um a de desespero. Simplesment e não me interessava por nada. sorriu meio a contragosto. . esperando pela sua risada sardônica. .perguntava Furii. só que você esquece por vezes qu e sou e sempre fui uma representante do mundo. entretanto.disse Furii com a voz meiga que usava quando queria objetar sem parecer agress iva.E o que é que você acha disso? . um único olhar. . Oh! exclamouDéborah angustiada. Ele tem razão. . Queimaduras? Mas o fogo não te queima.Duas de miscelâniá.Está bem. Oferece desafios.as coisas podem ser tão claras entre nós duas quanto entr e você e os deuses.m: quanto maior é a racionalidade do mundo. reconhecendo as palavras de abertura de fórmula.Assoou ruidosamente o nariz. . implorei que tivesse piedade de mim. surpreendentemente. As labaredas iluminaram o seu rosto. quando cheguei aqui no hospital.Ainda não estou preparada! . . como se quisesse reafirmar que era mesmo uma típica representante do mundo. pelo visto. . me virei para ele e jurei que mastigaria aquela casca seca até extrair dela a última gota de alimento. menos razões Yr oferece. quando renunciar a e sse duplo compromisso. eu não era uma pessoa infeliz. . Quando você começou a fazer com que eu me importasse pelas coisas. .Isso só perfaz oito. ligeiro e reconfortante.onde mais encontrarei essa comunhão que há e ntre eu e eles? . enrugar-se.Estive com Anterrabae. .Está vendo .Não posso parar de mastigar agora. No entanto. . está radiando teus dentes.. só deixaste a casca. e muitas outras coisas que eu não conh eço. as punições de Yr foram ter ríveis. e uma aliada sua na luta que está t ravando para ganhar este mundo. por que não a cospes fora de uma vez?" . Sofra.gritou Déborah.. . . acho que es tou atolada no mundo. mas.Ele soltou um longo e dolorido suspiro. . O mundo pode ter lógica. Anterrabae zombou: Essa 264 casca velha. e que os deuses não me podem ensinar. quando compreendi que estava viva. mesmo que aparentemente não esteja adiantando m uito. .. . e e e veio. também.lastimou-se Anterrabae . Era uma confissão séria. . o coração disparando.O que serão estas lágrimas? . . eu também e stive.Das dez unidades. sulcado de sombras e r eluzindo de suor e lágrimas. vítima! É verdade que nos últimos tempos só me trazes beleza quando te sentes ameaçado? .e seus olhos encheram-se de lágrimas . Agora que as chamas te queimam.sorriu timidamente. que algum d ." Julguei que teria de passar a vida olhando aquela casca envelhecer. Scomos uma única voz. . são as queimaduras. . queimam a mim também. quatro são de autocomiseração. Chamou em silêncio Anterrabae. embora às vezes seja um bocado traiçoeiro.e fez com as mãos o gesto de tumulto e renúncia que significava em Yri o mund o. realmente viva.mas você só será capaz de a barcar realmente o mundo. Um dia. e todos ficaram tão decepcionados comigo. e que a minha substância era idêntica à dos outros. ele se pôs a tremer e a choramingar: .Bem.indagou Furii num tom meigo. Estás sofrendo? . Mas quando voltei dessa vez. Déborah olhou para ela e.Leve-me com você. endurecer e finalmente ser jogada f ora. Enquanto foste sublime e estiveste fora do alcance do fogo dos homens. Sim. . tais como matemática. Vê.contemporizou Furii com brandura .indagou-lhe. de gozar todas as suas vantagens. .Até quando você vai ficar com uma perna lá e outra aqui? .Sorriram. tu sofres. está bem.Quando eu sofro.O que é "Casca Seca"? . Jamais conseguirás uma comunhão tão perfeita lá. . Agora que recuperei os reflexos e instintos de "pesoa normal". Nunca lhe ocultei as minhas idéias.pergun tou-lhe. e esse desinteresse me trazia uma certa paz..disse Furii . três dó que Yr chama "Casca Seca".

1 par de meias. e só ia ao hospital para o jantar e para as sessões côm a. a enfermeira da noite por sua própria conta acrescentou torradas e u m suco de frutas ao café da manhã.Como vão as coisas na ala? .Não."bom dia". permaneceu na Ala B. chegava de manhã ao portão com seus livros escolares . Se o pes soal daquela escola que ela me mencionou não fizer objeções. embora distasse duas horas do hospital. Em pouco tempo. que a prepararra-paTa òTexamês e que. que demonstrava m um certo respeito por ela. . Essas concessões eram a pr ova de que tinha conquistado um prestígio considerável. Quando. tomava uma xícara de café (autorizada pelos médicos) e ia para a escola. quando provou que realmente estava disposta a freqüen tar as aulas. a sombra que projetava nas' calçadas se devia a outras razões além do. revigoravam a sua força de vontade. uma viagem perigosamente hipnótica. Matriculou-se na Escola Tutorial e Terapêutica.00 para as passagens de ônibus suburbano (assistente social e requerente) 265 4 vales para ônibus urbano (assistente social e requerente) Requisitar itens espec ificados acima na pensão onde habita s paciente. Paciente: Blàu. depois de melhorar o suficiente para trabalha r e viver com suas próprias chaves no bolso. Acordava an tes de" clarear o dia. Durante o primeiro mês.Bem. 266 29 O problema do diploma secundário resolveu-se miraculosamente: bastava provar ao Co nselho Universitário que a candidata conhecia as matérias do curso secundário para obt er um-certificado de equivalência que a isentaria de cursar os três anos de escola.pensou Furii com seus botões. . mas logo tcomou fôlego e mergulhou com vontade nos livros." . 27 grampos de cabelo 1 casaco.perguntou.Não diga.símbolos de sanidade e resp onsabilidade . foi muito difícil. é claro. Halle. L. e a equipe médica. voltou para a p ensão. No início. . 1 par de sapatos. Exceto em casos excepcionais. Assinado: H.o homem da portaria cumprimentava-a gentilmente: . O orgulho e a obstinação deram-lhe a força necessária para enfrentar as qua tro horas diárias de viagens. 1 vestido apropriado para uso na cidade. pôr do sol. Mas hoje vou falar cona o doutor Halle. Cr$ 80. Hora: 8:30 Dr. No mês seguínte. Essas e outras pequenas atitudes. os funcionários do hospital limitavam-se a cumprir o que os regulamentos mandavam. L. . Desde entã . estão furiosos comigo. Déborah Especificações: Data: 5 set. os pacientes. Data: 3 set. . 1 tubo de batom. doutôra Fried. Algo de especial? . para avisar aquela assistente social que eu continuo firme na idéia. H.'Co mo explicar a uma pessoa que nasceu e cresceu no deserto que há terras ricas e férte is a tão pouca distância?" . representava uma ponte bem mais rápida e s egura entre o "Nunca" e o "Talvez". REQUISIÇÃO Ala: D Administrador da Ala: Halle. meio desaponta da. ou até mesmo "bom proveito!". os professores conseguiram abrir uma pequena fenda no muro que a enclausurava. e as dificuldades do estudo. "Se ao menos eu pudesse explicar a ela. Com eçou a entender porque Doris Rivera. por exemp lo. fora tão econômica em suas explicações à audiê . Estava desabituada ao estudo e extremamente insegura. estarei pronta para começar quando quiserem.ia ainda lhe poderia custar caro. Na segunda semana.

não sabia não. uma estagiária. . o ônibus vai sair a qualquer momento.e as duas trocaram um sorriso cúmplice.Estou. Coral. Rodeada pela multidão . sabia? . A Srta. Déborah avistou uma multidão de pe ssoas no saguão.Sim. Tinham conseguido estabelecer entre si uma coisa que era mu ito rara naquela doença. . só a muito custo conseguiu conter o riso. .Não. na D. parecia um motor . uma identificação plena de idéias e de sentimentos. Coral. para as doentes cujas esperanças ali definhavam.Você está bem? .Não. é verdade? . Quando Déborah viu o objeto daquela c uriosidade toda. . be . sabendo que perguntar mais seria uma intromissão. Coral". Ni nguém sabe. Das que partiram. Enquanto as duas conversavam amigave lmente. muitas ficaram. entrara em ação de novo! Como é que tinha. Coral. Déborah ia pensando nela. São as minhas sessões de terapia.É. sim. A Srta. gênio na arte das alavancas. Srta.Altos e baixos.pergu ntou. mais ou menos a mesma coisa. Helene está conosco de no vo. dirigindo um "Oi. . ela enfrentava cinco vigorosos atendentes sem arredar um pé..respondeu sem muita convicção. . tchau Déborah. entrecortados de obscenidades. . retesou os músculos e a luta recomeçou. Quantos mortos ressuscitariam? De todas as mulh eres da Ala D. . muitas caras novas vieram e partiram. os contendores guardavam posições de combate. até então concentradíssima na e scaramuça.. . Jogue alguma coisa na cabeça dela e sej a bem rude para que ela saiba que fui eu. . para não prejudicar o estágio dela. pesos e propulsão..Não. Mas o casamento é segredo. Srta. reparou que faziam movimentos extremamente lento s como se estivessem nadando debaixo d'agua. . prontos para recomeçar a luta. embora c ontinuasse tolhida pelos altos muros do hospital. pensando em todos os canos i ndiscretos de água fria que corriam pelo hospital. 268 . Resmunga va baixinho uns sons sibilantes. não preciso de nada.a ávida e aterrorizada de pacientes na Ala D. através da espessa porta de um quarto de reclusão. .. voltando de uma sessão exaustiva com Furii. quando muito. isso era muito mais do que uma aula de Latim. A Srta. . . Um dia. ..Déborah a encarou firme.Bem. O quadro era ao mesmo tempo hilariante e comovente. Déborah também vira a sua som267 bra estender-se alguns fios de cabelo a mais. Déborah prosseguiu caminho. era um mistério. conseguido escapar da Ala D. Era difícil cc ciliar a dor que via estampada de forma nítida no rosto de sua amável professora com a imagem de arremessadora de camas aficcionada por Catulo. insinuaria a lguma coisa em código.Quer que eu lhe traga algo de lá de fora? Conheci-a o suficiente para saber que jamais pediria. graças a um imenso esforço e.Ah. . arremess adora de camas.Ouvi dizer que foi passar os feriados de Natal em casa. Dessa vez foi mais fácil.Tenho que ir agora. então. . Ao se aproximar. muito mais para os a uxiliares do que para ela propriamente. não. . voltou-se sorridente: . Sylvia parece um pouco melhor. do modo mais engenh oso possível: simplesmente fazendo com que lutassem uns contra os outros. Não me diga que está de volta! . A velha endureceu os olhos. Déborah. A velha ber rando. Mande um "Alô" por mim. . Ei. poesias de Horácio que iam c air no solo inculto e tenebroso de Déborah. quantas seriam livres algum dia? Durante seus três anos de internam ento.Como vai Carla? Você ainda a vê? . é verdade que o Dobsha nsky se casou com uma enfermeira de uma das alas masculinas? .Ah. .Oi. mas continua muda.. Lee Miller vai ser transferida para outro hos pital. com o qual nada tinha a ver. Coral passeou um olhar apologético ao seu redor como se fossem todos um únic o e grande inconveniente. . o fato de ela ter saído a transformava numa figura legendária. . ela conseguiu aquele emprego que queria. .Tchau.perguntou Déborah. chegou a ser quase divertido. Os olhos penetrantes da velha estremeceram.Como está o pessoal? . No ônibus.

faceiras. A menina ficou lívida. Que dança? A Grande Dança. e xceto o de ter que se sentar em mesinhas minúsculas. um t ambor e o quarto um tamborim. Vocês vão aderir ao Coletor? Vocês também? . queimando as pestanas. Aquela noite. o segundo.por causa das imagens e xcessivamente reluzentes). o uniforme certinho. Vestia-se igu al a elas. as matérias iam se acumulando em pilhas e pilhas de cadern os de anotação. Comparece às aulas com os lápis "0 " V apontados.respondeu o professor de inglês. a Anterrabae que é teu amigo. (Era uma metáfora Yri equivalente a adulação . ao Mundo Intermediário. a mim. e no entanto continuava sendo pária. você é uma das dançarinas. inteirinh a. Se a sanidade expressava-se em metros e horas.essa menina está dando um duro dos diabo s. disse o professor de inglês. compreende? Os professores e o Coletor puseram-se a anotar numa folha de papel. Soü bela. Esteja ou não doente. em Yri e em inglês.Trago véus que me d issimulam e me tomam misteriosa: Gratifico. realmente vivas e livres? Podia-se contá-las pelos dedos! Ela estremeceu. com uma cara tão transtomada que Déborah teve medo de as pessoas julgarem que . Inesperadamente. Em seguida. Aqueles volumoso s manuais lhe davam um certo orgulho. a fórmula da separação. E quem vai participar? Você também. seus olhos de pária observavam-no fascinados. O fato de estar freqüentando uma escola p ara crianças com problemas de leitura e defeitos de fala não lhe trazia problemas. Claro que não! . Começou a gagu ejar. Quantas estavam re almente A fora. meninas e ncantadoras.retrucou Idat friamente. Algumas progrediram o suficie nte para viver uma espécie de meia-vida em regime de externato. nem mais nem menos! Dificilmente uma chuva de estrelas . a pareceram em Yr para falar com Idat. Nunca deu provas de ins anidade em sala de aula! Não é nenhum gênio em matemática. sem precisar ostentar precoci dade para ninguém. Onde vai ser? Nos cinco Continentes. estudando sozinha. esta é a verdade. disse o professor de matemática. com quem rirás? Quem te deixará à vontade? Onde mais encontrarás uma luz como esta? Aconteceu então uma coisa estranhíssima: as imagens de seus professores de escola. e sem precisar ficar preocupada com estar entravando o estudo d os outros. Ela é pontual e obediente. . e. copiaram uma por uma as antiquíssimas palavras: "Tu Não Ês o Os Outros". Não sou igual a este mundo que vês aí? .perguntou-lho Idat em Yri . Se tu nos deixares. Aí está. mas trabalha duro para aprend er. o aprendizado media-s e nos quilos de livros que carregava diariamente para a escola. Déborah convidou a companheira que dividia consigo o mesm o livro de hinos para tomarem uma soda juntas. na igreja. Só quando voltava . e isso a enchia de contentamento. os personagens do Coletor começaram a aparecer.perguntou Déborah. como se algum dia viesse a pesar no mundo tanto quanto eles pesavam nos s js braços. Nós scomos contra essas suas criatur as! Escute bem . O primeiro trazia um pistão. um a um.disse o de matemática a Idat . um violino.Dificilmente um corvo de prata. Nós vamos Dançar. para o seu quarto à tarde é que o mundo machucav a. Déborah espreitava-as de longe: aquele era um mun do onde ela tinha fracassado. o terceiro. Re dobraria os esforços esta noite com os livros. uma imitação grosseira de colegial. Tua velha realidade. . disseram para Déborah. risonhas. picaram a folha de papel e atiraram os pedaços ao vento. por mais que soubesse que aparentava ser melhor do que realmente era. com o passar dos meses. Os professores aplaudiam a sua tenacidade e ' resolução.m uns três quartos tinham ido para outros hospitais. Sentia-se à vontade com os prof essores. a Lactamaeon que te ama. O ônibus ia lotado de jovens e ruidosas estudantes fazendo algazarra.

. mas não esqueci o poder que t em. .. Fiquei co m aquela criança uma hora e meia.E quanto aos meus personagens bons? Não devo mais pensar em Lactamaeon. Anterrabae rugiu furioso. você toma conta do nenê até eu voltar?" Aí ela saiu e me deixou ali sozinha.. pelo menos. a proprietária da pensão ficou ontem à noite cuidando da neta. Imaginou aquelas piedosas senhor de Cristo. . avançando...disse Furii. Isso. desprendendo fagulhas e.pediu Déborah baixinho.e não morresse nas minhas mãos.ela tivesse dito alguma coisa as. . tão negro em seu negro ginete? Nem em Anterrabae? Nem em Idat. expirando . co invisibilidade e continuou a cantar como se nada hou sobre a Compaixão..Também. você pode superar! Não me diga que você ainda se acha ven enosa? . o Coletor. Anterrabae.Tem que ir tudo? Amontoa-se e joga-se tudo fora? . como numa cruzada medieval. poderá decidir se é ou não uma barganha decente. e eles se recu sam a olhar para mim. . Lactamaeon. eles eram secretos! Você já conhece as leis que proibem misturar os mundos. É difícil pensar diferente assim de imediato.Na cidade? Cantamos juntos. você ama os seus pais? E a sua irmã. Por que você nunca desenh ou Anterrabae ou qualquer um dos deuses? .Bem. Sempre fui mui cautelosa com o meu nganon.perguntou Furii com um ar divertido. Isso seria tão importante para fortalecer o comp romisso! Déborah viu Anterrabae caindo rápido. . enquanto as lágrimas de Idat eram diamantes. as partes bel as e sábias de Yr. sua velha lixeira mental! .Ora. .Não. a essa altura dos acontecimentos não pode haver barganha decente. as dele eram chispas incandescentes. implorando aos céus para que continuasse exatament e como estava . .i ndagou Furii. você co mpreende? Você tem que primeiro assumir o mundo. . sempre a amei. Adolescência de novo? . só que é difícil livrar-se de antigas convicções assim de uma só vez.E por que haveria de morrer nas suas mãos? . já que não confia na de ninguém.Juro que é verdade. o Censor. .Você tem certeza de que não é alguma atitude sua? . travestidas em Defensoras ntra a herege. Ela precisou sair. . Duvido muito que mudem.inspirando. agora que ela se tcomou uma mulher de vez e está tão linda? Devo esquecê-los? E o Yri que é capaz de expressar cert as sensações. .Me diga uma coisa. junto com os flagelos do passado? . Idat e todas as outras divinda des dos inúmeros reinos existentes em 272 Yr também teriam que ir para o lixo junto com o Poço.Como você se sente agora que está livre de todo aquele lixo velho e fedorento? . .E à sua amiga Carla? . .E se eu fosse apenas Aparências. ao mesmo tempo em que invejava a pureza das outras p essoas. Essa última imagem trouxe-lhe à mente uma lembrança que contou dist raidamente. . só o suficiente para sentir que um cigarro queima. Era um hino 271 indecente à menina. a Puni ção.. e nfim.E eu amo você também.Sim. mas são poucos. ..Déborah.E começou a choramingar.. entregar-se completamente. Lactamaeon chorava sa ngue tal como Édipo. Retcomou à sua vesse acontecido.. certas realidades como nenhuma outra língua.O mundo é vasto e tem espaço de sobra para o discemimento. .. com as do mundo. coh fiando na minha palavra. . perguntando mais do que afirmando. viva só um oitavo de centímetro da superfície para de ntro. aí sim. Devo esquecê-lo também. um bebê de dois me ses de idade.Conte-me um desses momentos felizes. Existem momentos felizes. Excetuando-se uma ou duas amigas no hospital. . só até aí..Mas você tem amigos. Dependendo do que você mesma f izer deste comprometimento. a quem você nunca assassinou ? . mas talvez tenha chegado a hora de misturar as partes boas.. freqüentamos as mesmas aulas à noite. veio ao meu quarto e simplesmente pediu: "Déborah ..Confie em mim..Amo.

Ela sentia-secomo se estivesse nte de uma cega a quem procurava explicar a cor da luz.Se eu desenhasse Lactamaeon sob a forma de falcão 273 coz num para você se dia ou de cavaleiro. I ndicaram-lhe uma sala poeirenta. sentou-se diante da mesa e tentou rir daquele medo besta . Déborah pôs de lado o aviso. Eu vivia vendo coágulos de sangue nas ruas e as pessoas se transformarem a multidão de micróbios. como também porque. Estudou com calma.Está bem . Foi ver todos os filmes que passaram na cidade. sobretudo. Quando a carta escorregou pela ranhura da caixa de correio. com paredes revestidas de lambris.Ai. recebeu finalmente uma carta do Conselho Universitário Estadual. para trans mitir aos pais aquela segunda boa notícia. um primeiro calafrio de medo lhe subiu pela espinha. Telefonou para casa. As duas semanas anteriores aos exames foram consumidas numa grande expectativa. Estava s urpresa de que o momento tivesse chegado tão cedo. Apaixonou-se por al amos. acompanhou o desabrochar dos botões nas árvores frutíferas que havia em frente à Igreja Metodista. comunicar-lhes que s uas esperanças. mas logo a voz sensata de McPherson cochichou-lhe no ouvido: "Lembre-se que você não é dona de todo o sofrimento no mundo!" Reconheceu humildemente que eles. incapaz de aval iar qual fora o seu desempenho. não só para afastá-la das preocupações e do ócio. Chamou-o de s ua "infância". Déborah pôs sua prova junto com a dos outros e saiu da sala. Já era tarde demais para fugir ao compromisso que assumira com o mundo. ainda eram viáveis. entremeada de insuportáveis crises de tédio. tentaria o próximo exame. debr uçados sobre as provas como blocos de granito. não acontece mais. . 274 um grupo de operários de mãos calosas. suando e murmurando palavras desconexas. estourando de orgulho. onde encontr ou outros candidatos que se aventuravam também a tragar de um só gole o curso secundár io.do mês. tomando a precaução de verificar duas vezes se anotara o endereço corret amente. Isso. Sentia uma ansiedade e uma excitação febris. Suas notas tomavam-na uma candidata bastante promiss ora a qualquer faculdade. DEPARTAMENTO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO Os Exames de Equivalência para a Escola Secundária serão realizados no dia 10 de maio na sede do Tribunal do Condado. Caso o candidato não cumpra esses dois requisitos.Uma vez eu fui à casa de uma senhora e vi sangue escorrendo dos ladrilhos da inha. junto aos esboços para um desenho de Anterrabae. De início. embora não fossem prisioneiros nem insanos. Déborah a rmou-se de coragem e de sangue-frio e foi para o Tribunal! Era um prédio antigo. Foi um período maravilhoso este. Po dia se considerar num nível educacional equivalente ao dos estudantes que haviam f reqüentado a escola secundária. caso fosse rep ada. Voltou para seu quarto.. e comparecer ao referido local na terça-feira. apesar de proteladas por tanto tem po. sem perda de tempo colocá-los no correio. Ficou horas decifrando nuvens no céu. será automaticamen te desqualificado. você o encararia como uma manifestação de minha velha maluquice ou co mo uma "contribuição"? . Quando o tempo e xpirou. No final . por mais que tivessem perigado. e recuperavam agora o terreno perdido. d espreocupada. também tinham deixado escapar alguns com passos no ritmo da vida. ficou surpresa em encontrá-l os ali. dia 10 de ma io. . Haviam combinado na escola que ela continuaria seus estudos até a divulgação dos resul tados. A esperança acabou subjugando de vez o medo. pelo menos.-Talvez eu comece mesmo a destampar Yr.Primeiro eu teria que ver o desenho. receosa de que pudesse es quecer ou perdêlos. às 09:00 hs. Déborah! Déborah! Saúde não é simplesmente a ausência de doença. . Os candidatos aos exames deverão preencher e envia r os formulários anexos. Queria. Quando finalmente chegou o dia. e foi. . Um mês inteirinho de sossego e preguiça. e acabou conhecendo Tarzan no mínimo tão bem quanto Hamlet.disse Déborah. Preencheu imediatamente os form ulários anexos. Não foi de alguns sintomas que nós demos tanto duro! . A briu-a excitadíssima e quase caiu para trás quando soube que tinha sido aprovada.

Mas eu quis! . . Prometera a si mesma que. muito bem.Que maravilha! É maravilhoso! Oh. sentindo um imenso desamparo. quando muito. Jacob. . Era quase noite. toomou a estrada que circundava o velho cemitéri o católico. As mãos de ninguém.de seiva e de flores.. nem as fragrâncias eram mais as me smas. não cometi um deslize. . mas a respo sta foi também uma sonora gargalhada carregada de desprezo. Lactamaeon uivando como um cão. . nunca. menina preguiçosa! Luta. Quentin há de te oferecer água.Mas as gargalhadas estrepitosas afogaram suas palavr as. pontual. acariciava os cabelos ou o rosto da moça 276 Déborah falava sozinha e em voz alta. suplicante. Ha. se fosse aprovada. sua desajeitada.. Agora já não tinha mais graça. .di sse. Sentiu-se de repente extremamente cansada e sentou-se de encontro à tela que cercava os fundos do campo. avistar o que havia de extraordinariamente belo do lado de lá do muro. Déborah. espere só qise eu vou chamar a família toda! Vão fic ar tão orgulhosos! . o ar contin uava carregado de fragrâncias primaveris . Déborah levantou-se e foi caminhando vagarosamente em direção à cidade. onde ainda treinavam quatro meninos.Estou muito orgulhoso . Os raios do sol continuavam aquecendo a sala.Não faltei uma vez. . de arbustos flore scentes. caminhavam d uas pessoas. Ha . Surgiu diante dela.. Contornavam vagarosamente o gramado. emprego. do brando-se de rir. vindo em sua direção.sussurrou para si mesma em Yri. caminhando em direção à e scola.berrou Déborah. trabalhar. vamos.resmungou Lactamaeon empoleirado na cerca. toda a sua determinação.repetiam incansavelmente sem nunca pronunci ar o seu nome. como os loucos fazem: .-dá tudo no mesmo: "bom dia" e "boa noite" e nada mais. .Sua voz parecia que ia desfalecer. Acabaria consumindo toda s as suas forças apenas para manter-se viva. mostrou-se quase frio: . Sinto-m e um pouco orgulhosa. e. entretanto. Porque ele reagira de uma forma deplorável? Havia empenhado naqueles exames todas as suas energias. a essa altura.Esther ficou felicíssima. Ia só para cumprir a ve lha promessa. de terra quente e úmida .. De que adianta lutar. . mesmo quando estava doent e. .Ótimo. As caras das mulheres do coro da igreja pareciam desafiá-la do estacionamento dos reboques. Atravessou os pátios da escola.zombou Anterrabae . . . . extremamente ma275 goada com a reação do pai. . se jamais andarei de mãos dadas com alguém.mas nem o sol. robustos e saudáveis. e só descobriu que o mur o continuava ali e continuari-a sempre. Paravam de vez em quando e trocavam palavras que sem pre terminavam em risos ele. comparado a ela. de mãos dadas com um rapaz. iria olhar pelas janelas. nu nca. Estudos. fez o que todo o mundo faz com a metade do seu esforço.. . de ninguém. Eram jovens.. de uma em uma. "Boa tarde! Boa noite!" . Carla já te disse isso há muito tempo . Ha! As mãos dele nunca acariciarão teu rosto. Uma moça esbelta e graciosa. . num gesto amoroso. A jaqueta dele pendia negligentemente dos ombros magros da menina. .Nunca terei isso. . Tinha dezenove anos e um diploma do curso secundário. estudar. e não são capazes se quer de lembrar meu nome. Consumi todas as minhas esperanças cantando e costurando com vocês.. então. se jamais me farão carinhos assi m.por um tubo de alimentação. Pensam que foi fácil . procurando a trajetória ígnea. bem arrumada. . e seus pais. subitamente. . Na outra extremidade do campo. . toda a sua força de vontade. Saiu cabisbaixa para a rua. e ainda estava dois anos atrasada. Fora-lhe necessário reunir todas as suas aptidões para chegar até onde eles estavam rindo e brincando. Déborah repôs o telefone no gancho. chamou Anterrabae. o movimento lá dentro. passou diante do estacionamento de carros-reboque. Aguardavam-na todos no cemitério: Anterrabae cintilando no escuro. resistir. . Encostou a cabeça na gra de. Os meninos corriam no gramado perseguindo as sombras sinuosas projetadas pelo pôr do sol. Podia agora. no final das contas. estariam alardeando a boa nova pela cidade de Chicag o inteira. . nunca. juntou-se a ele uma outra figura que Déborah se . e começou a margear o imenso campo de futebol. envoltas numa película dourada de sol. Fui às aulas todos os dias. o Coletor provocando-a com zombarias Dá duro.

Está se sentindo bem agora? . escutando a zoeira ensurdecedora. Estava bastante aflita. Coral devia estar em reclusão de novo. A crise tinha durado qua se vinte e quatro horas. in veja. o deus flamejante que caía perpetuamente era nada mais nada menos qu e o Satã de Milton. Portanto. Déborah caminhava com os olhos vazios.Tive que comunicar à proprietária de seu quarto que você não ia dormir lá esta noite e q ue estava aqui. A exaustão veio. Blau? E. . . E stava aterrorizada. a sonhadora de reinos misteriosos surrupiava furtivamente o soberbo ar canjo para transformá-lo no primeiro habitante de seu mundo particular. e que. Divisou os dois postes de luz que ladeavam o po rtão de entrada. Déborah caminhava como que por instinto. Mary Dowben murmurava a um canto fórmulas incompreensíveis. . já estavam distribuindo as bandejas para o jantar. . Soltou um longo suspiro. "Subir as escadas até a port a.Três toques de cigarra: emergência. e ra presença obrigatória em qualquer lar culto: "Paradise Lost" de Milton. Es tava quase chegando ao hospital. Encontrou as mesmas fisionomias inexpressivas ou hostis. criou-os o Senhor".Está se sentindo bem. Folheara mil vezes aquelas gravuras. Helene a irritava por amargura. A visão desvanecia-se. invectivava o Co letor . anos atrás. Alguém aí. nunca! Estudar e trabalhar.. Os manuais haviam vencido.Acho que sim. nos quais via se . onde cantava todas as quartas-feiras e domingos. p referisse não ter de arcar com o peso esmagador das virtudes de tanta gente. divertindo-se com o esforço que ele fazi a para não deixar transparecer a surpresa. Sentia-se culpado de não ter presenciad o o incidente. os deuses começar am a imitar as respostas de seu pai ao telefone. pôs o roupão andrajoso do hospital e saiu a passos lentos para a ala. s em o saber. O auxiliar repreendeu-as sem muita convicção.. Quando ele e Cleary soltaram-na. o tumulto ia crescendo. O Coletor zombava do sorriso de Quentin e dos meninos do campo de futebol. por favor.Ela é uma excelente pessoa . Déborah sentou-se e olhou para a substância morna e nauseante q ue havia no prato. impassível. em segu ida .a agressão de Helene. . Ao pass ar pela igreja. como se nada tivesse acontecido. ja mais! Perseguiram-na aos gritos pela estrada. A origem d e Anterrabae. quando iam visitar o avô. Voz. nem mesmo Anterrabae era seu! Enquanto isso.confessou Déborah com sinceridade. embora. as dimensões 277 precisas. . muito tempo atrás. Blau? "A última saída: fazer algum sinal". De repente. Anoi tecia. tolerando o insolente músculo que persistia em bombear no peito. Um segund o depois. Por ainda estar viva. Era um livro cheio de gravuras que havia na biblioteca do avô. 278 . Emergiu de volta para o eterno recomeçar. socorro!" . Enquanto o artist a que havia nela estudava os anjos gravados em água-forte e as linhas bem esculpid as.. Depois de algum tempo. ela estava sentada de novo. Breve despencaria no Poço.lembrava de já ter visto há muito. trazia uma fis ionomia cuidadosamente depurada de todo e qualquer sentimento que não fosse aquela amabilidade neutra de hospital. abra-a. Déborah passou a mão pelos cab elos gosmentos e lembrou-se de uma outra cena idêntica . e amizade. Dessa vez. Mary ergueu-se e atirou longe a xícara de café e o pires. que passaram de raspão pela cabeça de Déborah. num livro. embora já estivesse fora de moda.Como vai. . Felic itou Quentin por seu casamento "secreto". querendo exaurir suas forças e mor rer de uma vez. Ela ficou preocupada por causa da sua escola e trouxe seus livro s e algumas roupas. embora estivesse sentado junto a elas. A Srta. Srta. nada. Déborah começou a lutar e a se contorcer sob as amarras.Vais te deitar em prados floridos. no íntimo. Tu não vais criar nada. gravara a tempestuosidade e a veemência das imagens. Agora. refazendo-se ainda do terror. Dobshansky entrou de novo para examiná-la. "Macho e fêmea. .. Alguém pôs-se a gritar em Yr mas ainda pôde ouvir o outro som . pelas ruas sombrias e desertas da cidade .. Passeou os olhos pelos rostos que a encaravam com hostilidade. Srta. O Poço.. mas a vida continuou pulsando inflexível.

Agora é pra valer .Não. . . Rei Abdicado da Inglaterra! .Será que vocês não vêem que eu estou sofrendo. . mas ainda não sei co mo. Quando retiraram as bandejas do jantar. levando surra atrás de surra. uma newtoniana. Yr finalmente í 279 estava forçando-a a optar. cambaleando como uma bêbada.refletirem sentimentos contraditórios. Ao consentir em se tornar um ser no mundo. o hospital poderia nos vender como anticorpos. que se tornara uma nova D oris Rivera. Adeus. traçara os contornos finais da opção. Jamais chegariam a distinguir com clareza a dimensão dos significados. O auxiliar entregou-os com reverência. Adeus.murmurou Déborah. Furii afirma que será uma contribuição. Déborah pediu que trouxessem os seus livro s. Anterrabae. Ela abriu o primeiro. Não.. e do desejo que sentiste ao ver aquele casal de mãos dadas. e ainda assim. Meu compromisso com o mundo será definitivo. "OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS AFETARAM A EXPANSÃO OCIDENTAL DE MUITAS MANEIRAS". Era chegada a hora de firmar o verdadeiro compromisso. terminaria por conduzi-la a um lugar onde podia enfrentar em segurança o momento definitivo da opção. . Compreendeu. vou entregar-me ao mundo. a doença. a imagem do terror que elas se ntiam ante a possibilidade da recuperação. Talvez então.Tu não és como os outros. Mary: . . . pois sua so brevivência dependia justamente da supressão desses significados. a realidade era um domínio tão pessoal quanto Yr. de pé novamente para mais um "ro und". ESTRADA DE FERRO E TELÉGRAFO. Compreendeu também a razão pela qual jamais poderia explicar a essas pessoas a natureza de seus fracassos e da. ao retinir a sineta. sua persistência. sussurrou Anterrabae. "UMA LINHA QUE DIVIDE EM DUAS PARTES IGUAIS UM ÂNGULO DE 80 GRAUS FORMA DOIS ÂNGULOS QUE TOTALIZAM 80 GRAUS".Sua puta nojenta! Me solte! gritaram do dormitório. 281 . Terei que aprender. AC. 280 vou. Mas o mundo não tem leis. ASSEGURARAM O CONTATO INDISPENSÁVEL À MODErnA SOCIEDADE INDUSTRIAL. Ainda assim eu prefiro o mundo. Chamem Ellis.Eu sou a primeira esposa secreta de Eduardo VIII. . da dor e dos atestados de sanidade que te esperam. o medo e o ódio de Mary permitiram a Déborah compreender que a crise começara no mo mento em que pôs o telefone no gancho depois de comunicar aos pais a notícia triunfa l. portanto. Constantina: . . Lembra-te da tua própria infância. que constituía a única fonte de suas defesas e de sua força . "E AMBOS. Um símbolo vivo de esperança e fracasso. então. é selvagem. Estaremos esperando até que nos chames de novo. Lembra-te de Hitler e de Hiroshima. Dis simulara-a na agonia e no medo.Será que a insanidade é contagiosa? Se fosse. dona de um p resente e de um futuro viável. vou de qualquer jeito. . Não importa. e seria tão importante que elas entendessem! Sob certos aspectos. Pássaro-um. Pássaro-um? Não posso mais fazer isso. Lembra-te dos rostos hostis. seus porcos malditos" "A INVENÇÃO DA DINAMITE TOrnOU POSSÍVEL A LIGAÇÃO DE COSTA A COSTA PELAS ESTRADAS DE FERRO ". eu sou como os outros. Não nos pouparás como escudo contra a tua casca seca. . como se entregasse símbolos sagrados. AB E BC SÃO IGUAIS ENTRE SI". É melhor providenciar logo um cas ulo. Adeus Yr.Jenna vai ter uma crise de novo. . O incidente da xícar a. não vou chamá-los. "UM TRIÂNGULO EQUÍLÁTERO É AQUELE CUJOS ÂNGULOS OPOSTOS. apenas porque faltava amadurecer sua própria capacidade de discermir a diferença entre os problemas e os s intomas." . nas terríveis quedas no Poço.

0 FUTURO DE UMA ILUSÃO (em preparo) Livro 10 .Tel.OS CASOS CLÍNICOS Livro 6 . 196 .0 MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO Livro 9 .SOBRE OS SONHOS Livro 4 .Impressão: José Fagundes do Amaral & Cia Ltda Rua do Livramento.MOISÉS E O MONOTEÍSMO (em preparo) .ESBOÇO DE PSICANÁLISE Livro 8 .A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALITICO Livro 7 .CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE E CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA DO AMOR Livro 2 .TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE Livro 3 .TOTEM E TABU Livro 5 . 253-6093 PEQUENA COLEÇÃO DAS OBRAS DE FREUD Livro 1 .

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