NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Hannah Green Romance e psicanálise - 2ª EDIÇÃO Direção: Jayme Salomão - IMAGO EDITORA

LTDA. Rio de Janeiro Volume 1 - A HORA DE CINQÜENTA MINUTOS Uma coletânea de Contos Psicanalíticos Verídicos de Robert Lindner Volume 2 - A VIDA ÍNTIMA DE UMA ESQUIZOFRÊNICA Operalores e Coisas de Bárbara Brien Volume 3 - O HOMEM DOS DADOS de Luke Rhinehart Volume 4 - O FILHO DO AMOR Um auto-retrato de Mary Hanes Volume 5 - NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS de Hannah Green NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Av. Paulista, n° 2518 - Térreo Telefone: (0xx11) 3258-8599 emporiopaulista@terra.com.br Título original I NEVER PROMISED VOU A ROSE GARDEN. Traduzido da edição publicada nos E.U.A. em 1964 por The New American Library, Inc., Nova Yorque. Copyright (c) 19 64 by Hannah Green Editoração Coordenador: Pedro Paulo de Sena Madureira Tradução: Jayme Benchimol Revisão tipográfica: Maria Beatriz Nascimento Gomes Capa: Renato Sérgio Brando - 1974 Direitos para a língua portuguesa adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA., Av. N. S. de Copacabana 330 10º andar - Tel.: 255-2715, R io de Janeiro, que se reserva a propriedade desta tradução. Impresso no Brasil Printed in Brazil PARA MINHAS MÃES O carro percorria uma bela região de campos e fazendas, em pleno outono, atravessa ndo curiosos e antigos vilarejos cujas árvores de troncos retorcidos davam, com su as tonalidades vivas, um colorido pitoresco às ruas. Seus ocupantes falavam pouco. Dos três, o pai parecia o mais cansado. Vez por outra, interrompia o pesado silênci o com migalhas de conversa, coisas casuais, sem importância, que mesmo a ele exasp eravam. Voltou-se, uma vez, para o rosto da menina refletido no espelho retrovis or e perguntou: - Você sabe, não sabe, que eu não passava de um tolo quando me casei, um tolo consumado? Não tinha a menor noção de como educar uma criança, do que significav a ser um pai. Defendia-se, e sua defesa também era em parte uma agressão. A menina c ontinuou calada. A mãe sugeriu então que parassem para tomar um café e, num esforço dese sperado para melhorar o clima de tensão, disse que parecia realmente que estavam f azendo uma viagem de férias, em pleno outono, com sua filha adorável, e numa região ma ravilhosa. Encontraram um restaurante à beira da estrada e pararam. A menina saltou ligeira, e encaminhou-se para o motel, nos fundos do prédio. Tão logo se afastou do carro, os olhos dos pais se voltaram sobressaltados: - Deixe, ela está bem! - tranqüilizou o pai. - Esperamos ou entramos logo? - perguntou em voz alta a mãe, falando consigo mesma . Dos dois, ela era a mais analítica. Antecipava-se às coisas, planejando tudo minuc iosamente - como agir e o que dizer - enquanto o marido se deixava guiar, não só por comodismo, mas também porque geralmente era ela quem tinha razão. Naquele momento s entia-se confuso e só. Deixou-a entregue a seus planos e especulações, inclusive porqu e era assim que ela se consolava. Ele preferiu se manter em silêncio. - Ficando no carro - dizia ela - estaremos ao alcance dela, caso precise de nós. S e ela sai e não nos vê... Por outro lado, devemos mostrar que confiamos nela. É import ante que sinta que confiamos nela...

Decidiram finalmente entrar no restaurante, procurando aparentar a maior descont ração possível. Sentaram-se numa mesa junto às vidraças, de onde podiam avistá-la dobrando esquina do prédio, vindo em sua direção. Procuravam observála como se fosse uma desconh ecida, filha de alguma outra pessoa a quem tivessem sido apresentados naquele in stante, uma Déborah que não era a deles. Estudaram com atenção o corpo adolescente e des gracioso: julgaram-no bom. O rosto era inteligente e vivo, embora, para dezessei s anos, sua fisionomia ainda fosse excessivamente infantil. Estavam habituados à sua precocidade meio tristonha, mesmo não a reconhecendo no ros to familiar que agora procuravam tratar como estranho. O pai pensou com seus botõe s: "Como é que desconhecidos podem ter certeza? Ela é nossa... sempre foi nossa. Ele s não a conhecem. Trata-se de um erro - só pode ser um erro!" A mãe, por sua vez, disse a si mesma observando a filha: "Minha expressão. .. não deve estar aparentando nada de anormal, nenhuma ruga - uma expressão ideal." E sorriu satisfeita. No fim da tarde, pararam em outra cidadezinha e jantaram no melhor r estaurante, numa atitude de desafio e aventura, pois não estavam vestidos de forma conveniente. Terminado o jantar, foram a um cinema. Déborah parecia contentíssima c om a noitada. Brincaram durante o jantar e durante o filme todo; depois, caminha ndo sob a noite densa da região, conversaram sobre outras viagens, congratulando-s e mutuamente cada vez que recordavam algum detalhe engraçado de outras férias. Encos taram num motel para dormir, e Déborah ficou num quarto só para ela, privilégio cuja i mportância nem mesmo os pais que tanto a amavam podiam avaliar. Já no quarto, sentados frente a frente, Jacob e Esther Blau perscrutavam o íntimo de cada um, perguntando-se por que, agora que estavam a sós, não conseguiam despojar-s e de suas poses, respirar livremente, relaxar, e criar um clima de paz e esponta neidade. No quarto vizinho, separados apenas por uma delgada parede, podiam escu tar a filha trocando de roupa para se deitar. Eram incapazes de se confessar, me smo com os olhos, que passariam a noite em alerta, interrogando cada ruído que não f osse o de sua respiração - qualquer ruído que pudesse 8

significar. . . perigo.- Apenas uma vez, antes de se deitarem para a vigília notur na, Jacob deixou cair a máscara, e sussurrou, com voz áspera, no ouvido da mulher: Por que a estamos mandando embora? - Os médicos acham que ela deve ir - respondeu Esther, também num sussurro, estendid a rigidamente sobre a cama, com os olhos pregados na parede. - Os médicos!. . . - Jacob jamais quisera envolvê-los no problema, mesmo no início. - O lugar é bom - afirmou a mulher, elevando um pouco a voz. - Eles chamam aquilo de hospital psiquiátrico, mas é um lugar, Teca, um lugar onde i mprensam as pessoas. Como pode ser bom para uma menina - quase uma criança! - Deus do Céu, Jacob - exclamou - quanto já nos custou tomar essa decisão? Se não tiverm os confiança nos médicos, a quem vamos pedir conselhos, em quem confiar? O Dr. Liste r diz que é a única forma de ajudá-la agora. Temos que tentar! - insistiu e voltou res olutamente a fixar os olhos na parede. Ele se calou. Rendia-se mais uma vez à mulher, tão ágil no uso das palavras. Deram-se boa noite; fingiam dormir, respirando pesadamente para enganar um ao outro, enqu anto os olhos ardiam vigilantes devassando a escuridão. No quarto vizinho, Déborah deitou-se disposta a dormir. O reino de Yr possuía uma es pécie de zona neutra chamada o Quarto Nível. Só por acaso é que se podia alcançá-la. Fórmul e atos de vontade eram inúteis. No Quarto Nível não havia emoções para afligi-la, nenhum p assado e nenhum futuro contra o qual lutar. Nem memória. Perdia-se a posse de si m esmo. Nada, exceto fatos mortos que sobrevinham espontaneamente quando ela os de sejava, despojados de emoção ou sentimento. Deitada na cama, subiu ao Quarto Nível. O futuro deixou de preocupá-la. As pessoas n o quarto ao lado eram, supostamente, seus pais. Muito bem. Só que agora faziam par te de um mundo fantasmagórico, que pouco a pouco se desvanecia. Ela transitava sem dificuldade para um mundo novo, onde não se conheciam preocupações. Abandonar o mundo antigo eqüivalia a também abandonar os labirintos do reino de Yr, o Coletor de Outros, o Censor, e todos os deuses Yri. Revolveu-se na cama e mergulhou num son

o profundo, sem sonhos, repousante. Reiniciaram a viagem na manhã seguinte. O carro já se afastava do hotel, penetrando no dia luminoso, quando ocorreu a Déborah que talvez aquela viagem pudesse durar p ara sempre, e que a sensação maravilhosa de calma e liberdade que sentia, fosse uma nova dádiva dos deuses e dos habitantes, normalmente tão exigentes, de Yr. Viajaram durante algumas horas, percorrendo uma região mesclada de reflexos, doura dos e castanhos, e as ruas salpicadas de sol dos pequenos vilarejos. Foi então que a mãe perguntou: - Onde é o desvio, Jacob? Em Yr, uma voz clamou das profundezas do Poço: Inocente! Inocente! Num instante desfez-se toda aquela sensação de liberdade. Déborah Blau foi impetuosame nte tragada pelo choque de dois mundos. Houve, como em todas as outras vezes, um dilaceramento silencioso, fantástico. No universo onde se sentira até há pouco radian te, o sol cindiu-se no céu, a terra entrou em erupção, seu corpo foi despedaçado, os den tes e os ossos se fragmentaram em mil pedaços. Enquanto isso, no outro universo, h abitado por fantasmas e sombras, um carro tomava um desvio lateral e penetrava n uma estrada que desembocava num prédio de tijolos vermelhos, muito antigo. Em esti lo vitoriano, cercado de árvores, seu aspecto era bastante decadente. Fachada idea l para um manicômio. Quando o carro parou diante da portaria, Déborah ainda estava a tordoada pelo choque. Foi difícil saltar, e mais ainda subir condignamente as esca das de acesso ao prédio, onde aguardavam os médicos. Havia grades em todas as janela s. Déborah sorriu: "Ótimo! Não poderia ser melhor!" Ao ver as grades, Jacob Blau ficou lívido. Não havia mais como se iludir: aquilo não e ra nem "clínica de repouso" nem "tratamento de convalescência". A verdade impunha-se nua, gélida como o ferro das grades. Esther tentou alcançá-lo em pensamento: - Não devíam os contar com isso? Por que essa surpresa? Enquanto esperavam, Esther Blau procurava todas as formas de se mostrar jovial. Exceto pelas janelas gradeadas, a sala parecia qualquer outra sala de espera, e ela aproveitou para tro10 çar das revistas antiquíssimas que estavam por ali. De repente, ouviram no fundo do corredor o ranger metálico de uma chave na fechadura - pelo som devia ser imensa e Jacob retesouse de novo, sobressaltado, gemendo baixinho: - Não, ela não, nossa D ebbizinha. . . E não percebeu o olhar implacável que cintilou no rosto da filha. O médico percorreu o corredor e, antes de entrar na sala, compôs uma expressão grave. Era um homem corpulento e atarracado, de modos bruscos. Entrou e sentiu logo a a ngústia que pairava no ar, quase palpável. O prédio era antigo, um lugar realmente ass ustador. Sua missão consistia em afastar a menina o mais rápido possível e tranqüilizar suficientemente os pais para que consentissem em deixá-la, convictos de que tinham feito o que era certo. Quantas vezes, naquela mesma sala, pais, maridos ou esposas no último minuto, reje itavam com repugnância a pavorosa realidade da doença. Agarravam o parente, coitado, com seus olhos esgazeados, e o levavam embora de novo. Era medo, ou uma justa i mpressão negativa ou - e nisto seus olhos perscrutaram de novo o casal - aquele grão híbrido de ciúme e ódio que sempre os impedia de interromper a longa sucessão de misérias uma geração após a sua. Procurou mostrar-se compadecido, mas sem leviandade. Pouco de pois, chamou uma enfermeira para conduzir a menina ao interior do hospital. Ela parecia uma vítima em estado de choque; quando a levaram dali, sentiu a dor em que os pais se revolviam. Depois de prometer que ainda se despediriam dela antes de partir, o médico os cond uziu à secretaria para que preenchessem os formulários de praxe. Quando voltou a vê-lo s, após as despedidas, pareciam também em estado de choque. "Que coisa dolorosa ter que se amputar de uma filha", pensou. Jacob Blau não era um homem dado a exames introspectivos, nem tinha o hábito de revo lver o passado para pesar e medir sua configuração. Julgava a esposa, em certos mome ntos, uma mulher excessivamente voraz, moendo e remoendo suas paixões num discurso interminável. Contudo, invejava-a um pouco. Ora, também ele amava a filha, embora n unca tivesse declarado esse amor. Também ele desejava ouvir confidencias 11

Acabara de deixar a filha mais velha naquele lugar sombrio. onde ficou até que se desocupassem os chu veiros. Não havia nada no auarto que pudesse distrair sua atenção. e sim uma pessoa com um nome ap ropriado para uma habitante das planícies de Yr . Agora pouco importava que a chamass em de sonsa e mentirosa. de que havi a alguma coisa profunda e terrivelmente errada. onde os olhos se perdiam no espaço infinito. esperando a punição. tan ta dor e tanta cegueira em Yr. ela se mostrara ba stante ansiosa.Que assim seja! . fechou o cademo e saiu. eles a estariam maldizendo e insultando. 12 Levaram Déborah para um quartinho modesto. seus campos dourados e seus deuses. encolhendo-se todas as vezes em que procur ou tocá-la. Embora Déborah já não estivesse em sua companhia. A suspeita. Ah. Era natural que nenhum dos seus o procurasse para confidencias. junto com ele. Esther julgava conhecer Déborah melhor que o marido. não quisera a ceitar qualquer consolo de sua parte. mas Yr também possuía regiões de terror e desespero. os rugidos que ressoavam dentro dela. caindo. O Deus Cadente. e disse: . entre Yr e o Agora. O médico que as fazia. . procurando manter o braço esquerdo ligeiramente voltado para de ntro. 13 . não fora a tentativa infantil de suicídio que dera início àquele ciclo interminável de médicos e decisões. Já acomodada à nova rotina . jamais fora capaz de se abrir. Vai me ajudar agora? . a antecipa ferindo-se selvagemente. Ergueu os olhos para aquele que estava sentado ali.ela implorou. e se afastara dele recusando o beijo. placidamente sentada em meio às nuvens d e vapor.não mais Déborah. No momento da despedida. Déborah vagueou pelas planícies de Yr.Um especialista! zombou Anterrabae. ardendo em chamas. prestes a desaparecer em mei o à algazarra. Mas a raiva vinha de tal modo imbuída de compaixão. . ondulavam levemente na qu eda interminável. num tom sardônico. Lutava contra essa iminência como uma criança que. Para Jacob e Esther Blau a volta para casa não foi mais fácil do que a ida ao hospit al. Os médi cos que a ajudassem. Para se defender contra a onda que ameaçava tragá-la.e. con tava apenas com o Aqui. ou então com Yr.E seus cabelos. finalmente se concretizara num f ato. caindo. que não teve como se libertar dela. cheia de sangue até o meio. E seu enorme desgosto não fez senão despertar s ua velha e caprichosa úlcera. onde teve que responder a algumas perguntas sobre sua vi da. perguntava e agia. no entanto. Ali também foi vigiada: uma mulher. Em breve. de modo a esconder as duas cicatrizes em seu pulso. dera c . Sent da no carro ao lado do marido. pareceu-lhe insatisfeito. Começou por respo nder a verdade às primeiras perguntas do médico.cantava. voltou para o quarto. A xícara. A seu ver. com aquele médico frio de cademo de notas na mão. tomand o-a igualmente distante de seus dois mundos.respondeu secamente. os clamores.Isso depende de você . extrav asar sua raiva. Ela . Era óbvio que ele não ouvia a algazarra. Déborah executou obedientement e todas as instruções. No vácuo do Mundo Intermediário onde se achava. porque também ele caía etemamente. Os últimos meses tinham sido dificílimos de suportar: tanto frio. sua imagem passeava e r espondia. Dentro dela cresceu um pouco a algazarra.Deixa eu ir com você . não parou de observá-la enquanto tomava banho. o Coletor começava a dar sinais de vida. louvando a brisa acariciante que varria a imensa ravina. e Déborah conse guiu distinguir algumas das palavras que se formavam. cheio de trancas e grades. Homem de temperamento forte.Contei toda a verdade sobre essas coisas que o senhor pe rguntou. Déborah já não sabia mais para qual dos reinos de Yr havia passagem. Agora. a possibilidade de dizerem aquil o que realmente queriam dizer se mostrava menor do que antes. precisava agora explodir com alguém. Déborah estava profundamente agradecida aos Poderes que lhe haviam concedido taman ha misericórdia. que vinha se arrastando há tanto tempo. dançava e entoava hinos r ituais. a vontade que tinha era de dizer a ele que se sen tia de certa forma aliviada com aquele incidente. que encontraram no chão do banheiro. tal como no mundo. Naquele dia e no seguinte. imensas extensões de terras nuas. Aparentemente. aquele gesto tolo e teatral de cortar os pulsos. de medo e de amo r.

utilizando-a como uma formidável defesa. sabendo-se que qualquer progresso r eal poderia exigir anos. I mpossibilitados de amar. Jacob e Esthe r teriam que amenizar um pouco a descrição do lugar omitindo especialmente o grito l ancinante vindo de uma das janelas gradeadas. apesar de tudo. abriu a pasta. escreve m e telefonam implorando ajuda? Sorriu. de conviver e de se comunicar. por que não para ela? Sentou-se.lembrou-se com pesar . A papai e ma mãe. INICIAL: ESQUIZOFRENIA 1 Testes: Os testes evidenciam um quociente de inteligência (140-150) elevad o. que estava tudo bem. A senhora chegou bem a tempo de presenciar o chá tranqüilizante da paciente e o fim do mundo. . Hosp. O grito ficaria trancafiado em seu coração. tinha. Ora. entre por 15 favor querida Doutôra. que haviam escutado quando saíam. ou àqueles cujos preconceitos impediriam de aceitar a simples idéia de u m hospital psi14 quiátrico na família. embora ocorram distorções nas amostragens resultantes da doença. Embora eles soubessem das recomendações do psiquiatra. com suas crises de fúria destruidora. Recordou-se de T ilda. e as supervisões que seria forçada a recusar caso decidisse aceitar a nova paciente. m esmo antes disso. Gostava muito de trabalhar diretamente com doentes. para tranqüilizá-los. erguera para ela os olhos e c om um sorriso que procurava ser gentil. e que.: nenhum. enquanto dezenas de milhares de pessoas chamam. Esther não pôde mais sufo car as dúvidas que a assaltavam. BLAU. mas tinha certeza de que não poderia fazer isso sem magoá-lo. Gostaria agora de mostrar a Jacob todas as coisa s que ele desconhecia. A própria doen te facultava-lhe analisar a sanidade como poucos "sãos" seriam capazes de fazer. havia muit o a ensinar aos médicos que saíam das escolas com uma vivência limitada.. Àquelas três páginas datilografadas c ontrapunham-se as conferências que não poderia dar.Poderemos visitá-la dentro de um mês ou dois. Qua nto a Suzy. mas com o desenrolar da entrevista. Tilda e Hitler não existiam mais. se para Deus eram importantes as individualidades. geralmente manifestavam sua carência com uma paixão intensa. A estes. disse. atada à cama. intemada num hospital psiquiátrico na Alemanha. percebendo que se deixava levar pela vai dade. Há momentos . como Débora h Naquele Lugar. levaram a menina ao médico. Puseram-se então a construir a história que contariam aos amigos e aos parentes mais afastados. Várias questões mal in terpretadas.onsistência a todas as suas impressões nebulosas e a seus temores vagos. e que os fizera estremecer da cabeça aos pés. a fisionomia contraída: . 16 anos. Os testes de personalidade revelam comportamento tipicament e esquizofrênico. dissera: . na época em que do outro lado dos muros estava Hitler: qual dos lados era o mais são? Tilda. Le mbrava-se bem de uma vez em que Tilda. tratava-se apenas de uma clín ica de repouso. DÉBORAH F. os escritos que seria obrigada a negligenciar. a paciente parecia bem orientada e lógica n os seus pensamentos. vinha se mostrando inteiramente desnorteada. que no mês anterior tantas vezes escutara a palavra "doente". Agora. sempre amarrada às camas. Dl AG. falariam qualquer coisa a respeito de uma escola. 2 Entrevista (inicial): De início. el a passou a demonstrar extrema ansiedade diante de tudo o que pudesse ser interpr etado como correção ou crítica. Olhou o relatório que tinha nas mãos. Ao escutar aquilo. vendo-o dirigir com os olhos fixos na estrada. depois da doença do paciente. pura e fascinante. de maneira excessivamente subjetiva. diriam. com componentes compulsivos e masoquistas. a lógica começou a ruir. vício que denunciara numa de suas aulas como o pior inimigo do médico. Reação inteiramente subjetiva à entr evista e aos testes. riu . diriam alguma coi sa sobre anemia ou fraqueza e um sanatório especial para convalescença.em que o mundo parece ser mil vezes mais doen te do que aqueles que esse mesmo mundo intema em suas instituições. e começou a ler o relatório. Prev.Oh. Voltou-se para ele. No dia segu inte. Fried ergueu-se da cadeira e foi até a janela de onde se descortinavam os p avilhões do hospital. os seus momentos de extraordinária lucidez. Em três ocasiões diferentes. um pequeno jardim e logo adiante o pátio onde os intemos costu mavam passear. alimentada pelas veias. Fez o que pôde para impressionar o entrevistador com sua perspicácia. A Dra. freqüentemente su bmetida à força. Seria justo i niciar o tratamento individual de pacientes.

. A paciente não se ambientou bem. como num quadro. Começou a falar alto. Algumas vezes. Os incidentes não tinham relação entre si. Nesses momentos.exatamente quanto. S ubitamente. cuja f amília emigrou da Polônia em 1913. .Nasceu em Chicago. . Ah. vai me ajudar? Consideramos recomendável encerrar a entrev ista.Essa força que se mantém oculta é um segredo pro fundo demais. Menc ionou uma operação aos cinco anos de idade. As coisas se tomaram planas. Puberdade fisicamente normal. . contador. etc. a saúde tem sido boa. Outubro. Parto normal. Aos 16 anos.inoportunamente: a primeira. A profess ora. o que reforçava sua co nvicção de que a causa de tantas agonias no reino de Yr se originavam de pressões exte riores. do ametil e do pentotal. sua atitude foi mudando. de repente. a paciente avançou. e o ambiente luminoso e saudável da sala de aula se desvanesceu completamente. porque se sentia co mo a Juno das duas faces . o que foi que você escreveu no papel? O que sig nifica essa palavra. segundo os critérios da Terra. Aos cinco anos de idade. nascida em 1937.Déborah. Jacob Blau. inclusive. retcomou ao Calendário Pesado. Amamentada até o oitavo mês. Dificuldades finan ceiras obrigaram a família a se mudar para a casa dos avós.cada uma voltada para cada mundo. Déborah sentia renascer dentro de si como que os terrores de algum pesadelo remoto . conseguia ficar em contacto com a "realidade".Algum dia precisamos descobrir um teste que também nos mostre onde está a saúde. ela não sab eria dizer . como se a ruptura existente entre ambos não fosse mais do que uma névoa muito tênue. quando declarou que a hospitalização resultará de uma ten tativa de suicídio. forçando-se a evitar a lín gua matema . Em 1942. Há antecedentes de hipocondria na família. Voltou a se concentrar nos fatos e nos números. . por ocasião de perguntas relativas à data do mês. Sobreveio uma sensação tão maravilhosa e onisciente de transição. A situação melhorou. uma babá cr uel. as palavras JANUCE AGORA. .retrucou a Dra. nem se incluíam em qualquer padrão. . talvez fosse interessante descobrir se uma menina com tão pouca experiência de vida poderi a lucrar com a terapia. se conseguirmos. Abstraindo as considerações relativas à individualidade da pessoa em questão. em meio à narrativa de um acon16 tecimento.Discordo . e agora. O psicólogo respondeu que poderiam saber isso por meio do hipnotismo. vendo-as. mas. sem qualquer dimensão de profundidad e. Déborah seria sua paciente mais jov em. 1932. passava a se chamar Januce. Uma irmã. Mas no fundo. dizendo em tom acusador: . . a idade da menina: graças a isso o relatório acabou preva lecendo sobre os compromissos com reuniões e os artigos por escrever. À me dida que prosseguia a entrevista. exceto o tumo r.quantos belos anos de vida ainda pela frente. Fried. Estava vivendo naquele dia conforme o Calendário Secreto (em Yr não se media o temp o da mesma forma que no mundo) quando. As palavras inscritas no papel . ce rta vez.Déborah esteve em paz. no cabeçalho da folha de aula. a p aciente tentou suicídio. E como seria o trabalho: mais fácil ou mais difícil? O que d ecidiu a questão foi. a paciente sofreu duas operações para extirpar um tumor no aparelho urinário. a guerra forçou-os a mudar para a cidade. Illinois. .Aber wenn wir. Susan. O lhou ao redor e descobriu que só era capaz de perceber os objetos em seus contorno s. O mundo lhe exigia pouco. enfim. Januce? E ficou ali. a partir de Yr. que Déborah não resistiu peto de anotar. no fundo. . perguntou: . 17 Durante um bom tempo . as duas outras. 3 História familiar . Pai. por um deslize. parada junto à carteira.murmurou. Um relatório semelhante levara-a. deixou escapar esse nome. contudo. tendo sido ridicularizada pelos colegas de escola. a comentar com o psicólogo do hospital: . nos subúrbios de Chicago. aguardando a re sposta. é nossa única aliada. cujos efeitos foram traumáticos. tudo estava envolto em tonalidades cinzas.Eu disse a verdade sobre essas coisas. mas o pai adoeceu: úlcera e hipertensão. c itando episódios casuais de sua vida que considerava responsáveis por sua doença. O primeiro incident e na escola ocorreu exatamente quando. A doutôra virou a página e examinou por alto as diversas avaliações estatísticas de fatore s de personalidade e os resultados dos testes.

terminou por impor sua presença em ambos os mundos. Déborah suspirou e se levantou ob ediente. Cada uma dessas etapas constituía um privilégio e possuía uma certa conotação de recompensa que.disse a estudante.Não estou aqui há tanto tempo assim. Já se passaram três meses. observando div ertida a expressão de surpresa da moça e o esforço que fazia para reprimir o olhar de . uma menina gran dalhona de sua ala veio convidá-la para jogar tênis. porém. Um nome sigilos o segredado por descuido. . mentira e dissimulara.disse ela.perguntou Déborah. em pl ena transição. com uma voz vacilante e assustada. colega s de escola. eu tenho cem metros quadrados de sanidade! Se havia unidade de medidas. até que. que estava deit ada. Na Terra. Resolveram perguntar a uma enfermeira. tais como homens-hora.como.respondeu Carla. Na quela mesma noite.etapas anál ogas às do mundo normal . menina maluca! Para sempre. Só que responder imp licava em descortinar o horror em toda a sua plenitude . Srta.foi a resposta. . sair do próprio hospital e ir sozi nha a um cinema ou fazer compras. Para sempre. ambas pensaram nas mulheres lá do final da ala: todas tinham mais de dois a nos de hospital. . e a risada zom beteira do Coletor: a síntese de todas as imagens de professoras.simbolizavam a passagem do tempo de Yr para o da Terra. recent emente. e por último. algumas vezes. parentes. aliviada por saber que também o mundo tinha esconderijos a oferece r. Surpreendida. . os personagens do Grande Coletor afluíram em massa ao Mundo Int ermediário . embora sem dispensar o s modos impacientes e ásperos. menina preguiçosa! Mais tarde. . aliás. O que eu não sei é quant o tempo vou ficar aqui. O médico permitiu que Déborah passeasse sem restrições no pátio. . aceitando todas as instruções. uma médica muito famosa. Déborah teria que responder agora pelos dois mundos. sair do quarto pela manhã. E.As pessoas saem algum dia daqui? .A doutôra quer vê-la. o deus Negro. a partir de então. curiosamente.e decidiram erguer sobre seus reinos um Censor que se interpusesse entre as palavras e as ações de Déborah e assim protegesse o segredo da existência de Yr. Déborah comentaria depois com a tal grandalhona. os olhos fixos no teto. ficam boas e então saem? . um raio de luz que pen etrasse na região oculta. .Não sei! . que se chamava Ca rla: . é hora de se levantar . pensando consigo mesma: Ela deve ficar atônita com a densidade de loucura com que sou capaz de impregnar esse quarto. e soube que se tra tava do "administrador da ala". por que não sanidademetro? Carla consolou-a: . Fazia parte de um novo grupo de estagiários cumprindo um período de treinamento psiquiátrico no hospital. a vida do hospital prosseguia normalmente.Não sei . o coração sufocando de m edo. a quem cabia conceder os "privilégios" .Venha comigo . jantar na co mpanhia dos outros. eles vão aliviar um pouco a barra. imediata19 mente. Certa vez. Déborah trabalhava na oficina de artesanato. Ressoaram ao mesmo tempo um grunhido de Lactamaeon.um horror do qual não ter ia acordado racionalmente. passear no pátio. e com tamanha severida de que. Aprendeu a fabricar cestos. . e o choque repercutiu até o fundo de Yr. Se você se esforç r bastante com o seu médico. etemamente reunidos em segredo para julgá-la e atormentá-la para sempre . anos-luz. para sempre poderiam destruir Déborah e seus dois mundos. já que ela é tão boa assim. vou pôr os sapatos! . com o correr dos anos. nenhuma palavra e nenhuma ação lhe escapavam.Ora. o poder do Censor cresceu assustadoramente.Vamos. que denunciava sua inexperiência. evitados a todo custo. por exemplo.deuses e demônios vindos 18 de Yr e sombras da Terra . Sabia que nenhuma de suas companheiras de trabalho gostavam dela. Por isso. jamais gostaram dela.respondeu Déborah. por isso devemos nos apressar. Perigos desse gênero deveriam ser.Quer dizer. Ela é uma das chefes aqui.Pois é. As pessoas. Ainda voltou a ver algumas vezes o médico do cademinho. uma das enfermeiras estagiárias se aproximou de Déborah.Não se preocupe! Logo você receberá mais privilégios. mas não ra do hospital. Blau. um sinal eventualmente escrito. veja só. parecia se exprimir em te rmos de distância.

em seguida.perguntou a doutôra. que estava aberto. e mentirosa também.Invadiu-a uma sensação de total exaustão. Você não terá que se livrar de nada enquanto não estiver pronta. uma mulherziriha baixa e gorducha. A doutôra contentou-se em dizer: . num í peto de cólera.. porém. Frie d. .Para abafar minhas queixas.Déborah. Anterrabae soltou uma sonora gargalhada. éeborah percebeu que. por incrível que pareça. Desastrada em primeiro lugar.ironizou Déborah. caindo. Seguiu-se um longo silêncio. má. veio abrir. a 20 que dava para as escadas.. ergueu-se de um salto e exclamou (para ela. bem no meio do hospital. Erguia-se. voltando-se. Se essas coisas eram verdad eiras.Bem. Antipatia também. você elimina m eus "sintomas" e me manda para casa. . co nvidou-a: .Ajudá-la a ficar boa.perguntou Déborah. dores imaginárias que causam verdadeiros tormentos.disse a enfermeira. e outras doenças que não exi stem. o Censor começou a dar sinais de alarma: Onde está a médica? Será que ela está espiando a gente por trás de alguma porta? A govemanta acenou com a cabeça em direção a um quarto. tonteiras fingidas. .disse a estagiária. cabelos grisalhos. E quan do isso acontecer. como ódio. A Govemanta-Famosa-Médica levou Déborah para um quarto ensolarado e.Aqui está ela . Ela devia ter recebido instruções para ocultar todo e qualquer sentimento mais intenso. . lapsos inverídicos de audição.Onde está a doutôra? . Sou a Dra. depois há uma enorme lista de defeitos: preguiçosa. azar. muito cuidado. . sente-se. Vamos.Que disfarce! E o Censor resmungou: . e depois o que é que eu terei? com voz suave e pausada a doutôra respondeu: . é uma lista e tanto. . geniosa. A enfermeira apontou para uma casa toda caiada. grosseira e cr uel. .Porque sou desastrada. medo ou prazer. carinhosa. O Censor preveniu-a: Ouça. Mencionei antipatia?. Essa última categoria inclui vários itens: (a) falsa perd a de visão. querendo anular a justaposição atordoante de p aredes e portas. . . Depois de algum tempo. mergulhando em suas próprias trev as: . ferimentos inventados na pema.Está bem.Déborah sentiu apertar o laço do medo.Vamos! A enfermeira destrancou a porta da ala e.Sente-se. Dirigiram-se à porta da frente e tocaram a campainha. Desceram para o andar inferior.Conhecida e amada por loucos do mundo inteiro! . . Quand o.Se você realmente não quisesse se livra r desses sintomas. Algumas dessas coisas.Sou eu a doutôra . não existem. . há mesinhas demais por aqui.Está bem. dissera aquilo que realmente sentia.Tenho ordem para esperar.uma dessas casas branquinhas que se vê em cidades menores à beira de uma rua sombreada por carvalhos. encantadora e feliz pelas mentiras q ue eu prego. . feia. Você faz as perguntas e eu respondo. cabeçuda. Pássaroum.Já é muita sorte ser recebida por ela. . Ah. 21 Déborah sentou-se. para Yr. possivelmente pel a primeira vez. Acompanhando com os olhos as partículas de pó que flutuav am nos feixes de sol projetados da janela..Você sabe por que está aqui? . e s aíram pelos fundos do prédio. . . haverá outras coisas para tomar o lugar dos sintomas.Tome cuidado. . As mesas não têm como se defender da sua falta de jeito.respondeu a mulher. mas de qualquer forma já temos um trabalho definido pela frente. . (b) falta de esportividade. não me teria dito isso. para o Coleto r e para o Censor): . gorda. Scomos da Seção de Admissões.. egocêntrica. .desaprovação..Você devia ficar agradecida . creio.Pensei que você soubesse. a doutôra perguntou: .Fazer com que eu vire simpática. Fique à vontade. . .Poderia vir buscá-la dentro de uma hora? . que fossem! Deixaria o consultório tendo pelo menos confessado seu ca nsaço e seu desgosto desse mundo sombrio e angustiante. . Mal Déborah entrou na casa. com ve nezianas verdes .Há alguma coisa que você queira me dizer? .

Fried. talvez . Déborah tremia de medo e começava a ver tudo cinza de novo. Déborah soube que havia algo de errado sim . pulsa uma força oculta. que ia e vinha na sala ao lado. afetando a maior indiferença possível em relação ao lugar e a quem e stava ali. observando as duas retomarem ao prédio do hospital. é sim. procurou controlar todos os seus gestos. Ape sar do horror que essa inefável noção despertava.Para acabar com elas. O laço apertou mais ainda. nesse caso. e agora aceita o veredito de culpado por loucura em primeiro grau.Como assim? . . cujos limites ainda não sou capaz de determ inar.algo profundo e grave. nem totalmente premeditada. durante an os e anos. . Foram-se então. Premeditada realmente não.avisou a doutÔra à enfermeira e à paciente. perto demais até.Como todos os outros aqui? . A Dra. agora irremediavelmente localizada.Algum dia.corrigiu a doutôra.disse Déborah. atravessando o espírit o para trancafiá-la de volta na ala. .Em que é que você está pensando? Vejo que seu rosto se descontraiu um pouco . era isso. Uma imagem instantânea passou pela cabeça de Déborah: visualizou seus pais . emanava das palavras da doutôra uma espécie de luz que se projetava sobre vários outro s recintos do passado: sua casa. . imediatamente compreendido pela méd ica. Déborah foi despertada pela enfermeira.postados do outro lado da maciça porta d o consultório. como se qu isesse preveni-las de que o tempo havia expirado. Eles. a escola e todos os consultórios faziam repercuti r a mesma acusação bem-humorada: Não Há Nada De Errado com Você. . . . recusando a sentença de que não é portador de nenh um mal grave.Você está dizendo a mesma coisa que todo mundo diz: queixas falsas de doenças falsa s. a manifestar abertamente seu consentimento. parece que eu disse que você está muito doente. . acho que você pode melhorar. mas logo seu rosto se tcomou grave. sorrindo. Justificava-se en fim toda a revolta que sempre sentira naqueles consultórios. mas deix ou que o rosto expressasse um cauteloso "sim". . à mesma hora .Em segundo grau.ao mesmo tempo bem individualizados e bem unidos . das negras regiões do terror. por medo.Por acaso você quer saber se acho que seu lugar é aqui. 23 venceremos tudo isso.. Fried riu. as crises de terror e as repentinas ausências de memória. . Déborah recusou-se. Ao sair do consultório. espero poder ajudar você a ver o mundo como algo diferente de um inferno Estígio.O prisioneiro se declara culpado. Nesse sentido v ocê 22 está mesmo doente. quando forem produtos de uma revolta de seus sentimentos . Sim. e se o que você tem é o que se costuma chamar de uma doença mental? A resposta.interv eio a doutôra. em alguma parte da doença. essa força existia e se manifestava. Verdade nua e crua.Era o mais perto que ousava chegar. E.Amanhã. porque acredito que se você e eu trabalharmos juntas para valer . porém. . Caronte. as dores lancinantes. vivi am insistindo: não há nada de errado com você.Pelo contrário. de modo a pa recer outra pessoa. mas com um esforço decidido de sua parte e com a ajuda séria de um médico. A Dra. . no entanto.Ela não pode entendê-la . A doutôra propôs então: .Loucura nem totalmente espontânea. "louca". . de touca branca e uniforme listrado. Sim. . . podemos combinar outra hora e começar nossas conversas. mai s sério ainda do que as perdas momentâneas de visão. . basta apenas que. Gostaria de repetir que não pretendo destruir sintomas nem d oença alguma contra a sua vontade.Caronte fala grego.Estou pensando na diferença que há entre a má conduta e a felonia.Se você estiver de acordo. mas com um pouco mais do que simples malícia . a manqueira temporária. Prova disso é que luzira na expressão de alívio que sobreveio ao ser admitida a existência da doença. pensou consigo mesma: Em alguma parte de toda essa precocidad e e amargura.

seu orgulho ferido de imigrante.protestou o avô (este era o seu maior elogio). Nos dias seguintes. sujeitando-as a constantes reavaliações críticas . Foram duas vezes consultar o Dr. Déborah. num gesto proteto r. tinha a impressão de que no íntimo ele sabia que a decisão era necessária. os miolos pularam uma geração e foram cair nela. escreveu para o hospital. por pouco tempo que fosse. de uma inteligência arguta e brilhante. relatando em termos bas tante vagos as atividades de Déborah. Quantas vezes deve t er jurado poupar os filhos de tais privações! Acariciou-lhe o braço. Jacob.Luzira especialmente na "tentativa de suicídio". Esther notava que ele começava a amolecer .fizeram ver ao velho e à velha que a medida era realmente neces sária. Suas raízes. Debaixo mesmo do vulcão.Dessa vez. porém. o. contra a relutância de Jacob e do velho. enveredando pelo vocabulário de sua língua natal. indignado. O velho contentou-se em resmungar: . eles ficaram decepcionados e furiosos. Agora dizem que não. destacando qualquer evidência positiva. tentando se consolar e s e convencer de que o intemamento fora de fato necessário. . gesto característico dos adolescentes e dos doentes que insistem em lutar. 25 Ao mesmo tempo. Quando Esther. era a menina dos seus olhos.E retirou-se da sala.O que é que eles vão fazer? Admitir que foi um engano? O mundo está c . uma vida muito boa a que ela tinha. perguntou abruptamente a Jacob: . As discussões entre ele e Esther. enfim.Qual é nossa responsabilidade em tudo isso? Quais os erros. Diante de perguntas obje tivas. iniciara a terapia e já passeava pelos pátios. e a outra irmã. até descobrir qual o aspecto mais favorável. Só quando Claude. Esther? O que pode haver mais? Ela não soube o que responder. Ele se virou e perguntou desalentado: . se deixava le var pelo que os sentimentos diziam. Natalie . "Ajustara-se bem" à rotina e à equipe do hospita l. tinha que concordar: a realidade era inexorável. que cometernos? . Quanto ao velho. O problema é que nessa família. No final do primeiro mês. .E eu sei? .E se soubesse. de que se acabara o jogo e caíra a máscara. se dessa vez eu pudesse fazê-la germinar! . Certa noite. franca e dramática. Agora. antes de cada batalha verbal. Jacob. a doença mental estava exposta. no entanto. Era um homem de temperamento dominador e enérgic o. que a doença de Déborah. terríveis. Demos amor. suplicando que apoiassem sua deci são. a umidade. O ressentimento com a hospitalização de Déborah mascarava. e na declaração. ensaiando. reanimado. embora sua linguagem continuasse tão ríspida quanto antes. procurando apresentar o hospital como uma simples clíni ca de repouso. Jacob ouvia. Para o diabo vocês todos! . Esther empenhou-se em extrair toda s as migalhas de esperança incrustadas no tom reservado da carta. Parecia-lhe.os fa voritos da família . Ela é igu al a mim. 24 Suzy Blau aceitou bem a história da escola para convalescentes. carne da minha carne. pergunta ndo quando poderiam visitar a filha e ver a médica. Lister. Esther voltou a procurá-los. passou a esperar ansiosamente a resposta.suspirou a doutôra. invariavelmente terminavam num mudo clima de rancor e acusação. porém. No dia seguinte.respondeu ele. . Esther lembrou-se que Jacob também fora um imigrante. lutava numa outra frente. Ela nunca sofreu ameaça de frio ou de fome. que sempre escamoteavam a qu estão crucial. Quando. ah. dem os conforto. inseguro do que ele e Esther haviam feito . o irmão mais velho. mas foi inútil. mergulhavam tão profundamente quanto. por exemplo. receberam uma carta do hospital. a fome. interpretando os comentários s ob os mais diversos ângulos. por sua vez. em determi nados momentos. . todas as agruras da vida de um estrangeiro. informou os pais.s argumentos diante de sua imagem no espelho. ele se acalmou um pouco. transtoma ra o ritmo e o sentido de suas vidas. Conhecera o frio.O que pode haver mais. estava sepultada a preciosa semente de força e determinação. permanecia calado. todo o seu mundo vibrava de apreensão. lendo e relendo cada palavra. que não fora senão um mudo grito de s ocorro. na realidade. desde que chegara àquele desenlace. o núcleo branco de um vulcão camuflado pelas florestas de suas encosta s. teria cometido erros? Parecia uma vida boa. Não há nada de errado com os miolos dela! A menina tem uma inteligência excepcional . afinal.

. Constróem as barreiras com portas laterais e depois não conseguem abri-las.O que há? .Bobagem! . . e o filme de suas existências voltasse um ano atrás. Agora.heio de imbecis. como ri essa noite. Suzy brilhou aquela noite.Não posso vê-la de verdade nem ouvi-la de verdade .Eu gostaria de dizer aos médicos. A voz suave. perguntar a eles. num tom que jamais ousara empregar com o sogr o. man useava-os e utilizava-os para seus próprios fins. costuma haver uma portinhola neles. A s últimas palavras foram! . por melhores que fossem nossas intenções. Esther compreendeu que ele ainda esperava uma mudança de diagnóstico. com sotaque peculiar. houve momentos de calma. Por que esse lugar seria imune à imbecilidade? .. até a partida de Déborah. Depois que foram embora.emendou Esther. Déborah ficava aborrecida quando a doutôra se apoderava de fatos que eram só seus. . contagiada pela algazarra. Por que você não experimenta abri-la? .Você está do outro lado do portão. Déborah estava sen tada do outro lado do sólido portão levadiço do século XII que. depois que ficou sozinha em casa.Nossas vidas foram simples. retirando-se furioso da sala. Alguns minutos depois r epetiu: . A barreira entre elas tornava-se cada vez mais indevassável. que vinha do outro lado do muro metálico ia se apagando aos poucos. Nem bem a médica mencionara seus pais e a visita. esses seus construtores de portões não são lá muito esp ertos. infeliz.Ah. . cada vez mais perto do silêncio.disse a Dra. pensa tivo. 27 . que fizesse com que todas 26 as portas do hospital se escancarassem. por muito temp o. Jacob. andara na ponta dos pés. . Se acharem que se trata de um engano. Fried. Bem.Que bobinhos! Será que nós fcomos tão bobos assim? Você viu aquele gurizinho de boné? .Calou-se. rindo e brincando. De qualquer modo. Sabe.disse Jacob irritado.Puxa! Será que foi mesmo há tanto tempo? Anos? .Soltou uma gargalhada e dando-se conta de como estava contente. ma s não podia permitir que continuasse se iludindo a respeito da visita ao hospital. Jacob comentou bem h umorado: .perguntou a doutôra que.Você quer que eles venham? .Infeliz! .Meu Deus. nossas vidas mudara m. . Faltava-lhe agora a coragem de magoá-lo. ocasionalmente.Apenas infeliz! .gritou Jacob. convidou todos para jantar. e o portão. Sentiu pena de Jacob. e Esther. A doutôra fitou o cinzeiro. Para todos. foram dignas! ele afirmou com convicção inabalável.A portinhola está trancada também. Os conflitos decisivos pertenciam ao passado. interpôs-se entre as duas. . acabou reconhecendo que.retrocede r. notara os efei tos.Doente . . .disse ela. quando ela deveria ter mudado seus vínculos de dedicação e não o fizera. Suzy. Há séculos não me divertia tanto! . . até mesm o de felicidade. nos deixarão trazê-la de volta imediatamente. um milagre qua lquer. Suzy trouxe para casa um grupo de colegas de escola. Certo dia. . exceto Déborah. após o intemamento. não teriam s ido diferentes. comento u: .disse Déborah. Há razões para muitas delas que. o seu portão medieval de novo. Esther percebeu que certas coisas que tinha dito se refletiam nele e em sua relação com ele. tanto antes de se casarem como depois. e então todos ririam juntos das peças que a vida prega na gente .Seus pais escreveram pedindo uma visita . foram boas. começou a definir sua per sonalidade. Entraram aos tro péis.Sim . . num clima de expectativa e sobre ssalto. mesmo sem escutar os rangidos. invisível..Então talvez seja verdade que ela estava. como saber o que tinham representado para ela? No correr dos primeiros meses. não adiantar ia nada.. por mais que negasse. assustado com algo que ninguém ousava mencionar. Déborah ouviu bruscam ente o ranger metálico das correntes.Ora. . . e há coisas que talvez Déborah desconheça e que nos levaram a fazer o que fizemo s.Os médicos têm um código de ética a cumprir. . eram questões já mortas. a separa va da doutôra.Foi há muito tempo. retroceder até que tudo estivesse apagado e esquecido.

sem a qual jamais conseguiria convencer o mundo. com toda a cautela. freqüentemente. medo no Poço. ficou mergulhada numa escuridão absoluta. os deuses e o Coletor gemiam.disse Déborah . Inexistia. Sabia que falava sério. numa de suas quedas no Poço. Por isso mesmo. Foi necessário reunir t odas as suas forças para lembrar o suficiente de inglês e perguntar .Bem. coisas como lin guagem. ao readquirir a vontade e a capacidade de responder aos estímulos do ambiente. Ficou surpresa consigo mesma. Ali. Ela foi incapaz de extrair o menor fragmento de realidade daquela confusão de linhas e de pontos na superfície branca. mas a lógica que havia por trás d la. as coisas se revestiram de tonalidades cinzent as. o mundo todo esvaiu-se. Pres28 sentia. Jacob. só que de um mo do inteiramente ininteligível. que dissera algo de certo mo do importante. O presente esvaiu-se. Nessas ocasiões. . A profes sora ficou furiosa. foi longa. Sabia também que não conseguiria defender essa certeza. ao sentir necessida de de recuperar o sentido das coisas. às vezes.. ãò dele seriam perig osos naquele momento.Procurou assim tomar as coisas mais fáceis p ara Jacob. nem justificar por que se sentia tão bem lá. saber o sentido das coisas se tom ava irrelevante. viu a chaleira em ebulição. Certa vez (aconteceu na escola também). pass ou a defendê-los mais cegamente ainda. ainda que fosse difícil expressar. Blau. junto com Anterrabae. Ocorria-lhe. Reparou nos lábios da doutôra que se moviam e imaginou-os cuspindo perguntas e acusações . Esther procurou fazê-lo entender. ela emergira do Poço e encontrara a p rofessora apontando uma palavra no seu livro e perguntando . O próprio mundo se introduzia ali. Os horrores da volta à tona ainda não tinham começado. Estava se fazendo de sonsa então? . antes mesmo que esse sentido voltasse a vi gorar. O resultad o foi que acabou perdendo a confiança em seus próprios desejos. evitando os termos em que vinha redigida a carta . . só que se fôssemos os dois seria demais por enquanto. que rasgava a escuridão com seu fogo. O lugar lhe parece u familiar: era o Poço. Sabia que o hospital estava sendo bom para ela. Chegava até a esquecer. permanecia muda. O amor do pai era a arma que Déborah possuía contra ele. Esther Blau abriu anciosamente a carta à medida que lia. Jacob poderia se deixar vencer pelo horror e pela tristeza que ela mesma percebera nele quando a trouxe ram para o hospital. Durante muito tempo. berravam. no consultório da Dra. por enquanto. sua expressão facial ia pas sando da perplexidade à indignação. . Começou a despencar para Yr. deixou Déborah muda como estava e desapare ceu na neblina cinzenta. Agora. uma determinada sensação.Que palavra é essa? E la lutou desesperadamente para tomar inteligível aquele amontoado di29 fuso de curvas negras destacadas no branco da folha. significado ou mesmo luz não tinham a menor importância. Inútil. Não quero a visita dele.sabi a muito bem ."não verá o Sr. porque ali o medo perdia o sentido. Diante de sua nudez e da eloqüência das trancas e grades. Eu posso dirigir sozinha ou tomar um trem. dessa vez.mas ele não. que o amor e a compai. embora fosse incapaz de expressálo. Essa sensação era verbalizada. mas que ela ped iu à doutôra que eu vá sozinha dessa vez. Pouco a pouco. Déborah continuava imersa nas profundezas do Poço . Alguém riu no fundo da sala e a professo ra.Vamos. foi assim: as palavras que dizia pareciam não corresponder a uma ordem de seu cérebro. Estava ao lado do fogão. Déborah se queimara toda com água fervendo. Déborah tinha consciência de tudo isso. Fried.Aqui diz que Déborah quer que eu vá. que palavra é essa? Nada. temendo comprometer sua autoridade. só. Ouviam-se sons humanos e também estes vinham desprovi dos de sentido.o contentamento por dispor do poder de gratificar e punir. A queda. por exemplo. O Poço surgia horrendo justamente no momento em que emergia dele.É. mas a finalidade e a forma daquel es objetos careciam de sentido." . demarcando faixas nítidas e regulares diante de seus olhos. sua própria língua. a s mulheres da Seção das Perturbadas viviam gritando e uivando Uma delas poderia ento mar o caldo. que distorcido. mas importante em quê? Durante muitos anos. . Quem sabe não decidiria acabar com aquela "prisão"? Além disso.O quê?. O que sentia no momento era em parte . irreconhecível. Há tempos atrás. vamos até lá ficar um pouco com ela e então vocês duas podem ter uma longa conver sa se quiserem.Quero que mamãe venha .

Jacob. Sob a aparência impecável de Esther.. Há alguma coisa sobre ela que a pr .No momento. o Dr.Para que ela fique bo a.. Seria sempre assim: 30 pressionada de ambos os lados o tempo todo.Ela vai ficar boa? Ah. .Quem pensa ela que é! . a Dra.! Eu avisei. . por isso.Mas você não pode ir sozinha. Veremos se é verdade. . é provável que a senhora a encontre cansada e que ela não esteja convenientemente arrumada para a visita. . desejando que a viagem aliviasse sua dor por ter sido r ejeitado tão inequivocamente.. Caso ela mude de idéia. . .É ag radável! Não há. sofisticada e íntegra.. ao pronunciar aquela palavr a. Fried viu que se tratava de uma mulher inteligente. todos teremos que ser muito pacientes e trabalhar como nunca. Bem. Não sei ainda se Déborah confia em mim o bastante para ver essa sala tal como é.que queria m ajuda para seus filhos. sem dúvida. Onde estava a diferença? Depois de passear os olhos pela sala. onde ia guardar a carta. . grades. eu te aviso se for possível.. . O amor terá 32 que enfrentar uma duríssima prova no que ainda está por vir.Besteira! Eu vou.Sim..Mas eu não sei. . Ao se dirigir para seu quarto. e que inevitavelmente redundar ia na ruína dos filhos. que realçavam ainda mai s seu próprio desalinho. pensou a Dra. isso pouco importa. e no final acabavam mostrando que havia todo um esquem a montado em segredo. Não. . Isso porque a independência de uma criança representa uma ameaça inadmissível quando o equilíbrio dos pais é precário. Fried. sem deixar de gozar suas dádivas. Começou a estudá-la mais detidamente.Por favor.'Eles recebem uns relatórios todos os meses.Ela vai precisar mobilizar uma quantida de extraordinária de energia para resistir aos impulsos que a compelem a se defend er em segurança. . Era. Muitos pais afirmavam . para conservar o ar despreocupado. Claro. saudável: aceitava os penosos sacrifícios que a realidade impunha..Ela está doente. Não podia impedir que Jacob fizesse is so por ela. Fried recebeu Esther Blau na sala clara e desarrumada de seu consultório. Quem sabe a conversa com a doutôra não o reconfortaria? Levantou-se e ti rou a carta das mãos dele.Claro! . irreversível . do que propria mente contra os termos da carta.freqüentemente com sinceridade . C onsiderava essencial descobrir se a mãe de Déborah seria uma aliada ou uma adversária do tratamento. é aqui que Déborah vem? . Na sua fisionomia. cuidadosamente estudada. eles não ficarão mu to dispostos a receber gente aqui. que transparecia em seu sor riso um tanto duro. Eu a lev o de carro até lá e espero nos fundos.Não seja tola .. a mãe perguntou: .Sua pronúncia d ava um toque curioso ao tom coloquial. ouviu Suzy conversando c om um amigo pelo telefone.. A doutôra sentia-se um pouco co nstrangida diante das jóias magníficas e da elegância de Esther.É aqui. não se trata disso. A doutôra ficou impressionada com o esforço que ela fez. Minha irmã Debbie está muito doente.ela insistiu. Não. Sua indignação voltou-se de início muito mais contra a esposa. Eu já te falei.disse ele. por ela ter tentado encobrir a verdade e poupá-lo. . a senhora não imagina como eu a amo. consciente ou inconsciente.. Demonstrava também ser dona de um temperamento enérgico. Ele apanhou a carta sobre a mesa e leu. . . .. Jacob. mãe e filha! Sentaram-se nas confortáveis poltronas do consultório. . . Como devem ter lutado ao longo dos anos aquelas duas persona lidades resolutas..Está bem! Está bem! O ressentimento acabou por vencer a indignação. súbita.Não é besteira . A filha não. ainda poderá me ver. Lister avisou. estampou-se uma expressão de alívio . Não dá para planejar isso com antecedênci a. É que se o próximo for ruim. Esther não pôde conter a cólera que a invadiu. . .Ela capitulava de novo.Déborah! Déborah! Olh o que ela fez conosco! 31 A Dra.

educado e apresentável.. Pouco tempo depois. resmungando para o nobre fidalgo que existia na cabeça dele: .Veja. . esses dois fatos explicam-no melhor do que s e eu começasse pelo seu nome e sua ocupação. por sua vez. e toda a família pensou e especulou. soberbos estandartes das grandes famílias. cultura e sucesso não passavam de apa rência. e ele precisava conquistá-lo a qualquer preço. Quanto a estes. Podemos. Estava preocupada com outra coisa: . Esther. admirava os modos respeitáve is de seus vizinhos. Ela re cebeu tanto amor! Disseram-me que essas doenças são causadas pelo passado e pela infân cia da pessoa. Ela falara num tom de voz muito mais elevado do que desejava. Eu procurei. ou então escutar os comentários de papai quando a sopa estav a fria ou um dos noivos chegava atrasado. Sei disso porqu e tive que aprender harpa. diante das belas perspectivas imaginadas por J acob para o futuro. Veio para a América jovem ainda. estes.eocupe de modo especial agora? Esther procurou estruturar suas idéias. contudo. Lembro-me bem de que papai me pedia para tocar e ficava andando de um lado par a o outro. Discutimos. como se quisesse c onvencer as cadeiras e as mesas e a doutÔra e a instituição toda com suas grades e as pessoas que gritavam por trás delas e cujas razões para estarem ali tinham que ser o utras. era preciso que também f ossem trunfos. onde moravam as famí33 lias mais ricas e mais tradicionais. Graças a sua força de vontade ferrenha. "Pois não é que a filha de Esther nasceu loura! Aconteci34 mento único. emblemas de conquistas f eitas através de alianças. tinham que ser. Se. A família podia. . ambas estávamos grávidas: papai começou a se c onsiderar o fundador de uma dinastia. entende. c om os termos crus e ásperos que herdara de seu detestável passado.As causas são tão vastas que é impossível percebê-las de imediato. acho que devo começar com a história de meu próprio pai.Bem. escolheu um pretendente aquém das expectativas da família. ao passo que para o Velho represento .Sabe. assim. Era aleijado de um pé. Fale-me a respeito de Déborah e de v ocê mesma com suas próprias palavras e da forma como você vê as coisas. . seu sotaque e s eus hábitos. desprezavam sua religião. a obstinada. Não. ele não estava ao nível de Esther. isso sim. e sua distinção (refinamento. embora só tivesse curs ado uma escola de contabilidade e sua família não passasse de um "bando de simplórios e pobretões". Lançou-se contra a vida como se ela fosse uma inimiga de verdad e. Tra tava-se de um rapaz bastante esperto. No entanto. Papai veio de Latvia. nem dos sonhos que ela corporifica va. e não tivesse o menor talento. De certo modo. fez negócios. mar ginalizado e coxo. mesmo que esse preço fosse eu . a mulher e os filhos. Em 1878. Tomaram a vida de sua mulher e de seus filhos extremamente miserável. libertar Esther de seu isolamento secreto. Comprou então uma mansão num bairro elegan te. embora esse instrumento já não estivesse mais na moda. e ainda assim não co nseguimos encontrar qualquer razão. todos esses dias não paramos de pensar em como e por que isso aconteceu. . todos esses dias. e é isso que nos as susta tanto. entende. educou-se. eram temperados com as mais refinadas lições de francês. nobreza. E le. boas maneiras). fracassou e finalm ente alcançou o sucesso e adquiriu fortuna. emocionante. Natalie se casara bem. Era um dos trunfos a conquistar. Para avaliar a consistência desses atributos bastava observar o olhar que os vizinhos nos dirigiam. . pobre. Ela veio. permanecia inabalável amaldiçoando os vizinhos. inconcebível mesmo: loura e de tez clara. contar nossas v erdades pessoais e localizar causas pessoais. Jacob procurou. era-comum as filhas das famílias nobres aprenderem harpa. o aleijadinho! "Os filhos 'americanos' de papai cresceram sabendo que seu valor pessoal. sou eu. por um lado. Não existe uma causa. Os palavrões em pol onês e em idiche que aprendemos sentados em seu colo. em bora eu o odiasse. papai acabou cedendo. arriscar. dificilmente chegarem os a compreendê-las em toda a sua complexidade. Por isso todos esses dias não paramos de pensar sobre o passado. Realmente era muito cedo para pensar nos p rogressos de Déborah. ma ldito. portanto. brigamos e enfim. tal como entre a nobreza no velho Continente.

cercada dos maiores cuidados. sobreviesse a dor. quando as oportunidades eram mais do que escassas.embora esses serviços t ivessem simplesmente desaparecido. exceto para o remorso pelos tapas injustos e a interpretação excessivamente zelosa de especialista s equivocados.Nessa época. voltamos para a mansão da família. da família e de Déborah. as filhas da dinastia. Duas operações e. Era por isso que luxuosos gorros que Déborah usava em seus passeios tinham outrora cob erto a cabeça de um pequeno príncipe qualquer.Nós não sabíamos! exclamou Esther.herança de alguma importante casa européia derrubada pela Revolução. na presença dos funcionários do hospital. Medo e . contudo. Depois de algum tempo. A austera govemanta alemã ficava possessa.procurou uma palavra que trouxesse de volta aqueles anos . Papai pagava todas as despesas.disse a doutÔra sor rindo. as origens do camponês. depois da primeira. O primeiro sintoma foi uma incontinência das mais embaraçosas.Por fim. um sofrimento impiedoso. Um sopro de med o impregnava tudo. nem pel s ameaças. sutil e decisivamente. Ainda assim. Garantiu qu e pegaria mil serviços de contabilidade para merecer Esther como esposa . eu me lembro . meu rosto não variava nunca e.u a réplica final a um fidalgo de aldeia morto havia tempos e suas filhas de pele clara. tudo bem esterilizadinho e o insano pav or dos germes e de toda e qualquer mudança. mas ser livre pa ra ser nobre. A doutÔra olhou para ela. "Esforcei-me por parecer alegre e confiante ao entrar no quarto de Debbie. porquejá era tarde demais. Como era ardente e impetu oso o temperamento oculto por trás daquela fisionomia estudada e impassível. . Apossar-se d e uma bandeira ancestral e respeitável valia mais do que acenar com uma nova. e uma babá alemã. O medo.era o eixo em tcomo do qual giravam t odos os sonhos. agora rodeada pelo desdém de uma nova geração de vizinhos. mas Déborah ." Esther relembrou. as sobras que os outros rejeitavam . em seguida. Um belo dia. vivíamos num dos melhore s e mais novos bairros da cidade. C omo o ateu que exclama para Deus: . os tempos da Grande Crise de 1929. sobretudo por ter que aceitar a caridade de um ho35 mem que o desprezava.serviços e njoados e rotineiros. tínhamos que v iver bem. nós. crescia um tumor.a dourada e d adivosa Déborah. Enquanto Jacob ganhava q uinze ou vinte dólares por semana. Jacob sequer estava em condições de alimentá-la. já estivessem soterradas havia mais de uma geração. Naquela cria nça perfumada. meu pai contra meu marido.Você não existe e eu odeio você! Papai continuava a esbravejar suas injúrias nos surdos ouvidos do passado. O nascimento de Déborah parecia ter tomado minha submi ssão necessária e justa.O quarto das crianças parecia um hospital! Sim.a sensação de irrealidade. . Déborah. sempre risonha e contente . Cada coluna de números era cobiçada por cem cérebro s tão famintos e tão bem formados quanto o dele. Jacob era o consorte da dinastia. exigia-se mais do que apagar a amargura do Velho. saímos consultando médico atrás de médi co em busca de uma confirmação." . descobrimos que o brinquedo de ouro estava defeituoso. era um médico excessivamente ocupa do para se dar ao luxo de explicar alguma coisa à menina ou de assisti-la quando. e preocupada porque tinha ac abado de perder dois gêmeos nascidos mortos. Ao Novo Mundo. nem pelas lágrimas. a milenária e bárbara dor . como se tentasse consolar Esther. percebia que Jacob se sentia infeliz. Mesmo acor rentada a meu próprio passado. Afinal. os horários e as govemantas e os preceitos eram coisas absolutamente indiscu tíveis! Era a pedagogia "científica" da época. uma das maiores sumidades do país. subsistia naquele camp onês um sonho de camponês ainda mais ambicioso: não apenas ser livre. Um autêntico fecho de ouro. Mas a "preguiça" não pôde ser remediada nem pelas humilhações. sem a pagar o sorriso em meus lábios. me levou a apoiar. fizemos os exames e veio o diagnóstico. Déborah tinha doze vestidos de seda bordados a mão. fui fi cando orgulhosa da força 36 . é óbvio. O especialista que a operou. . Jacob iniciou sua carreira justamente no momento m ais crítico da época. Déborah nasceu envolta em rendas tecidas a mão . como é natural. Embora a aldeia lamacenta. Estava grávida de novo. teria do bom e do melhor. depois dos milagres da cirurgia modema. Contudo.

.um ano maravilhoso. A contabilidade de Sulzburger nos pareceu.. um mês depois.Dez anos. . Jacob poderia. O processo foi tão gradativo e lento que só vim a notar naquele momento.. a coisa mais importante de nossas vidas. pequena. Decoramos a casa toda. àquela época. Meus pais resolveram dar a mansão para nós. Não queríamos que ela se sentisse . É claro que a mansão tinha que ficar nas mãos da família: foi assim que aquele lugar odioso se transformou no lar dos Blaus. Costumávamos br incar a respeito de seu sono leve. verificar se aquilo era ve rdade ou não. sempre a encontrávamos acordada. Vai nos custar. com uma am argura excessivamente precoce para ela. o sol. isso também acontece com muita gente. estávamos de volta à mansão da família. Você quer dizer que ela dormia pouco? . No inverno. Restav a-nos pouquíssimo dinheiro. . Fizemos isso. Também eu f iz amigas. Ah. ela devia dormir... mas afinal. não contivemos nossa euforia e o sentimento de gratidão que nos inva diu. ela se tomara grande demais só para eles dois e por isso tinham alugado um apa rtamento em Chicago. nenhuma necessidade de empregados e o começo de minha autonomia em tom ar decisões. as janelas sempre es cancaradas. Era uma escola pequena e simpática. comia demais. . Quando finalmente soubemos que as operações tinham sido bem sucedidas. Suspendemos as visitas ao psiquiatra. Tivemos que vender a casa e. Consistia numa série de pequenos serviços extremamente lucrativos. ser mais do que um simples consorte em sua própria família. . Déborah freqüentava as melhores escolas. .Comecei a observar com mais atenção minha filha prodígio. Ela fica va cada vez mais perturbada e insatisfeita. Eu falei da escola. Dizia que tinha ouvido nossos passos n a escada.Ela não demonstrava nenhum sinal de que estava doente ou infeliz? Só essa atitud e omissa? . n um bairro tranqüilo e mais modesto.respondeu Esther com voz cansada . e havia as flores que eu mesma cultivava. tudo. Uma tarde. A escola recomendou que a levássemos a um psiquiatra infantil. e convidamos os parentes para uma festa em honra ha saúde de Déborah. Tinha um ja rdim cheio de árvores e não faltavam crianças pelas redondezas. Uma fraude complicada e engenhosa como essa até que tem o seu lado bonito. Fried. mas é que nunca a vi dormindo. . um dia. Déborah nunca se referira a isso. . porém.Qual a idade dela na época? . e no verão. começou a sair e fez amigos.Bem. No entanto. . mas logo se desinibiu. virou-se e perguntou: "Por acaso não sou aquilo que vocês queriam? Será que vocês têm que corrigir o meu cérebro também? "Era esse o seu modo de falar já aos dez anos de idade. uma vasta e int rincada fraude.perguntou a Dra. as melhores colônias de férias. na realidade. Víamos ape nas os grupos alegres de meninas brincando. Reparei que ela não brincava com as outras crianças. e acabou engordando. Sentia muita dificuldade em 37 fazer amigos.. Segundo eles as res postas de Déborah indicavam uma "perturbação" qualquer. Compramos uma casa nova.Sim. Seu aproveitamento era excelente. Quando entrávamos em seu qua rto à noite. Pretendia pedir demissão no dia seguinte. Investigara durante três meses a origem e o destino de todo aquele dinheiro até comprovar suas suspeitas. Sem a família to da. se libertar. sim. e. Jacob chegou em ca sa e com a notícia de que o negócio de Sulzburger era. . Dois dias depois. Fic amos todos meio desvairados. Isso durou um ano . assando batata-doce em volta da fogu eira e cantando velhas canções de acampamento. . Você sabe disso.que era capaz de demonstrar. mas não tinha graça nenhuma. finalmente.Uma pessoa tem que dormir. o psicólogo nos cha mou e mostrou um teste que fora aplicado em todas as crianças. os degraus eram cobertos por tapete espesso. . Déborah manifestou um po uco de medo no início. . . não muito longe do centro da cidade. Todos gostavam dela lá. Anos depois é que vi emos a saber que a primeira colônia de férias (que ela freqüentou em silêncio três anos se guidos) era de um anti-semitismo cruel. não é? Pois mesmo assim não posso deixar de admirar a cabeça quemontou tudo isso. tentando desvendar sua mente. Vivia escondida em casa. e ela nunca dormia.Esther passou a remcomorar velhos nomes que ressu rgiam do nada. Jacob conseguiu se empregar como responsável pela contabilidade de Sulzburger. Depois da terceira sessão. Não adiantou nada.

seus pavores.Sua resposta foi bastante significativa. Não adiantava . Ao estourar a Segunda Guerra. embora os professores da nova escola a tivessem em a lta conta. Seu interesse despertou com o ímpto de uma tempestade. A família encontrou de repente a explicação pro videncial para todas as esquisitices de 39 Déborah: o aspecto doentio.Não sei. recomendando-lhe que não tomasse as coisas assim tão a peito... . . Começou a aprender música e a se dedicar a todas as atividades próprias às meninas de s ua idade. Na realid ade. adquirimos o hábito. a seu modo. Tudo estava claro agora. . No dia seguinte. Certa tarde. . de ficar à escuta. aos onze e doze anos de idade. Ela disse que não queria qu e o sangue se afastasse muito. Procurei no banheiro e a encontrei sentada no chão. isto é. suas pequenas excentricidades. olhando o sangue escorrer de seu pulso numa bacia. muda. mas gritando por socorro. da Velha e de toda a família. Pareceu-nos uma boa me dida... ocorria-lhe uma estranha sensação de culpa). especialmente para Déborah. a insônia.. inclusive dormindo. . saiu cedo para fazer qualquer coisa e voltou muito tarde par a casa. é claro. mas no íntimo.Bem.Quer dizer que foi uma atitude premeditada? Uma coisa planejada com antecedência ? . foi impossível continuar sustentando uma mansão de qui nze quartos.Perguntei-lhe por que simplesmente não deixara o sangue escorrer pela pia . Nos dois anos seguintes. mas a mente dela escolheu o melhor caminho. Fui até o quarto dela com a certeza íntima de que havia algo de errado (na rrando agora o episódio. agora ela está aqui. e pelo olhar crítico do Velho. gritando muda e confusam ente. que não estava tentando se suicidar. Chegou em casa estranhamente pálida e assustad a.Não conscientemente. Déborah descobriu a arte. rapidamente substituídos pela rigidez e inexpressividade facial . Afinal d e contas. por uma terrível compulsão de 'guardar as coisas'. Até que finalmente encontramos um comprador. Consumia todas as suas horas vagas desenhando. eu me dilacerava interiormente. . Não sei bem como. O quarto de fato estava vazio. E há mais: Déborah sabia que o sono de vocês era leve porque o dela também era. Sacudimos aliviados o peso morto do passado e mudamos para um apartamento na cidade. ela continuou infeliz. a adol escência de uma menina excepcional. Uma evidência importuna qualquer sempre vinha relativizar essas racionalizações. que reconheceram que a meni na era realmente talentosa e devia ser estimulada. Cerca das quatro horas da madrugada. sem exigirem grandes esforços da parte dela. Déborah foi ao médico. e os estudos andassem bem.Esther sacudiu a cabeça para expulsar a palavra proibida. ela sabia." Esther procurou uma definição que tomasse verossímel o estado atual da filha. Sempre houve atritos entre Déborah e s . um espírito raro. sua solidão perderiam um pouco da estranheza no anonimato da cidade grande. portanto. mesmo sem nos darmos conta. a intensidade e os súbitos olh ares de desamparo. Era uma característica intrínseca a nós duas. que. .. . As janelas ofereciam morte muito mais fácil. Déborah er a uma pessoa especial. nunca ch eguei a acreditar totalmente nisso. Você mora num apartamento. às colônias de férias e à escola. de grande talento. Seu grito de socorro foi ouvido. que não seria eliminada por uma decisão ou por um pedido. por causa de mais uma de suas indisposições misteriosas. sem contar os esboços e os rascunhos na escola. acordei.38 assim. no entanto. Veja. Enquanto tentávamos nos livrar dela. e não poupei esforços para me convencer de que era a resposta exata. Levamos alguns deles a professores e críticos de arte. O que só veio a calhar: foi uma resposta fácil e luminosa às sombrias e vagas suspeitas. Déborah era intensa. ela deve ter feito milhares de desenhos.. Vamos voltar um po uco atrás de novo. Passamos a encarar com indulgência as doenças de que se queixava. não me cansava de repetir.cont ou a doutÔra. Lembro-me de ter conversado algumas vezes com ela s obre isso. as suas distrações: era a adolescência. Sentia-me ao mesmo tempo esmagada por aqueles quartos bolorentos. rápida e segura. . Na cidade.De quê? . a sensibilidade. ou por uma espécie de entorpecimento mental. por alguma razão oculta e instintiva.

Ah.Esperando pelas bofetadas. expliquei que minha filha tinha medo das pessoas. faço antes que o mundo o faça.repetiu a doutôra. pensativa." . . Eu. conversa vem. De certo modo . desde aquele ano alguma coisa começou a funcionar mal nela Daí em diante foi como se ela mantivesse a cabeça baixa já esperand o pelas bofetadas.Durante muito tempo. Na colônia de férias. de que forma eram sentidos esses tempos? De que forma você se sentia? . teve a impressão de que ela não estava entendendo. . Esses problemas crescem muito nessa idad e e eu me sentia contente por poder ser uma verdadeira mãe para ela. durante o verão. É um bom meio de se obter reconhecimento e fazer amigos quando se é jovem. você soube que as coisas não iam bem com sua filha." Eu insisti: "Por que não espera para ver o que o mundo realmente faz?" Ele respondeu: "Você não entende? Mais cedo ou mais tarde acontece.Esse paciente. . Como é que uma pessoa perc ebe que a atmosfera mudou? De repente. . Convidei-os para um passeio no jardim zoológico e foi o bastante para quebr ar o gelo. no entanto.Um sintoma talvez. sempre procurava ser amável com os professores. para me divertir nos lugares onde eu estava. ajudei a professora a compreendê-la. Assim pelo menos sou dono de minha própria destruição. é claro. Convidei essa professora para um chá. Sentia orgulho dela e nunc a deixei de dizer isso. a coisa acontece. Tive que me esforçar um bocado para superar minha p rópria timidez. não foi o amor que Jacob e eu tínhamos um pelo outro ou por nossos filhos.Numa visão retrospectiva. Minha própria mãe nunca pôde.Eu procurava ajudar. Ela teve um problema sério com uma das professoras na escol a pública da cidade. onde ele morreu. . ajudando-a ne sse tipo de coisas. e isso facilita va um pouco as coisas. . . as férias na colônia.Feliz.Ficou. Tinha nove anos de idade. e quando lhe perguntei por que agia assim. tinha-se configurado um quadro falso das coisas. não. . . não é? Antes mesmo do psicólogo da escola. os olhos transbordando de gratidão: .E então veio a époc a. Ficaram amigas enqua nto Déborah freqüentou a escola. Déborah ja mais ficou desprotegida ou sozinha. Esther voltou-se para a doutÔra..Lutei por Déborah durante toda a sua vida. Contei-lhe como eu mesma tinha conseguido superar certas dificuldades de crescimento fazendo esportes. Certa 40 vez as aulas mal tinham começado. Não fcomos nós. Só que vieram os nazistas e o infemaram em Dachau. Fcomo s visitá-la no final do verão e ela nos . . ela começou a ter problemas com um determinado gru pinho. muitas vezes as pessoas não a compreen diam bem. Essa coisa horrorosa aconteceu apesar de nosso amor e de nossos cuidado s. Esther. . Na sua opinião. foi antes disso. Lembro-me de várias ocasiões em que ela precisou de mi m e eu fiquei de seu lado. Cantávamos e brincávamos. que isso algumas veçes era mal interpretado. As pessoas com quem Déborah tinha dificuldades eram conquistadas e eu me sentia feliz por poder ajudá-la. Também nunca deixei de dizer o quanto eu a amava.as colegas? Resolvia os problemas sozinha ou recorria a você? . ela se mostrava aliviada. a época em que ela mesma começou a providenciar as pancadas. respondeu: "Ora. Precisei aprender a fazer as pessoas se desinibirem.É isso que é a do ença? .Bem. e conversa vai. Quando fcom os embora. parecia estar bem. Estou contando isso porque quero que você entenda que é impossível tentar refazer o mundo p . pareceu infeliz.E quanto à colônia? . é claro. .concordou a doutôra. .Entendo . . pronto. ficou bom? . isso depois.Vejamos. . Tive um paciente que costumava aplicar em si mesmo as tortu ras mais pavorosas. Talvez isso tudo tenha começado com o t umor. que ela procurou corrigir. era o terceiro ano consecutivo que ela ia. então. 41 . quando começou o problema? . .De que forma Déborah encarava essa ajuda? . enfim. . e no final a professora veio me dizer que conhecer Déborah fora um verdadeiro privilégio: era uma menina realmente excepcional. No entanto.

mas acabou aceitando. de causar. Comovida com a sinceridade de se us sentimentos. As concordâncias e contradições entre as duas v ersões da realidade permitiriam atribuir a verdadeira dimensão de profundidade a uma das interpretações. observando-as. . Como pude fazer isso com ele? 42 Todos esses longos anos. eu tinha que tentar melhorar as coisas .Como. mas muito mais em relação a Jacob do que a Déborah. e seu olhar era tão estranho. com os olhos pregados em Déborah. . cometi erros. doutôra? . procuremos as causas. E ao saírem. Desde aquele apartamento caríssimo. pensou Esther. essa. "não de u para dizer nem um décimo do que precisava ser dito". aqui estou eu no meio de novo. pensativa. Não vo u perguntar o que fizemos ou o que não fizemos. . . E nosso amor por Déborah não nos imped iu de. Esther interpretou aquilo como uma co nciliação. anos e anos permiti que Jacob ficasse em segu ndo plano. que a versão da filha diferia radicalmente da apresentada pela mãe: a mãe desvelada. e isso ainda hoje. A Dra. Esther estava convencida de que não conseguira explicar dev idamente sua posição. Ao deixar o consultório. um olhar de sonâmbula.juro que não vou usá-la.pediu a doutÔra. parado na esquina. "Papai acha". a filha agradecida. procurando tranqüilizá-la. "Juro . . . . . fitando a doutôra com ol hos incrédulos. Mais tarde. tremendo de frio no âmago daquela noite de inverno. . Se não fos se assim.Calou-se.Vejo agora que. "Muito curta". tímida e desorientada. Esther compreendeu que teria que enfrentar a Déborah d o presente.Conte como era sua vida antes de você vir para o hospital . Esther voltou a loca lizá-lo. erros graves. pois achava qu e essa decisão não representava tanto um desapreço a Jacob. contudo. "Pobre Jacob. . . . . Esther viu-o no fund o do cinema. "Papai quer". quando ele é que era meu marido. da última vez que a vi. não é? Meu amor por Jacob não me impediu de magoá-lo e hu ilhá-lo aos seus próprios olhos e aos de meu pai.Olhou de novo para a doutôra. Iriam juntas a um cinema. .O que é. por experiência. Não se torture nem se culpe a si ou a seu marido ou a qualquer outra pessoa. mas ficou calada. encarregad a de transmitir a bofetada.Só há uma coisa realmente perigosa.prometeu mentalmente a Déborah . . e de uma filha que padecia de uma decepção mortal. . O que não significa que você deva se mortificar por ter tentado. Ela precisará de seu apoio." Jacob protestou. . Déborah e eu. ela disse num tom de voz suave: . mas uma tentativa. Trazida de volta à realidade. ao tentar ajudar. Fried conduziu-a até a porta.ara proteger as pessoas que amamos. e seus desejos tão simples e modestos! . e a Esther-mãe daquelas palavras sentidas de amor e sofrimento. Tinha a im43 pressão de que. .Amar apenas não basta." Passou no hotelzinho onde estavam hospedados para dizer a Jacob que Déborah ainda se recusava a vê-lo. e mais o período em que vivemos da caridade de papai.Mentir. Fried observava o contraste entre a Esther dos modos estudados e a fision omia circunspecta. como saber o que dizer quando estiver conversando com ela? Sabe. 44 . sobretudo agora que ela se mostra tão sensível a i sso. O hospital dera permissão pa ra sair com Déborah sozinha.Sim. bem. recostando-se na c adeira. de certo modo. de tomar suas próprias decisões. .disse Esther. Terminara a entrevista. viu-o novamente escondid o na sombra. A doutôra sugeriu que não insistissem com a filha. Sabia. Como pude. . doença.Deixe que nós. a menina não estaria intemada. não de sua a uto-recriminação. acabara interferindo. ela não quer ver Jacob. Quando entraram no restaurante. jantariam na cidade e depoi s conversariam. A Dra. Ambas se levantaram.

para que ficassem hipocritamente perguntando "tudo bem"? E depo is.foi o que disseram. a eles e a mim. você então não vai ficar com medo? . Houve. .ela perguntara assustada. 46 o upuru nos pune. não o que você recebeu. não vou! Pode estar certa disso! respondeu a doutôra. Logo depois veio a ferroada da agulha. ardeu de ódio.Por que vocês todos contam mentiras tão horríveis? Ele res pondeu: . mentiras que para mim soavam como deboche.Não. . . . . cuja flor representava sua própria vitalidade destruída. vamos fazer a sua bonequinha dormir. o rosto da doutôra estava c ontraído de raiva e a voz carregada de indignação. nenhum deles.Oh.Que cretinos! Quando é que aprenderão a não mentir para as crianças! Que horror! . Continua lá. . imobilizaram-na mais uma vez s obre aquela mesa e disseram: .Está vendo. não o que você viu. das altas e gélidas regiões de seu reino. Penetravam com suas sondas e agulhas na região proib ida. continua me comendo por dentro.Dias depois. Na noite em que ouviu o pai discutindo os planos para inte má-la no dia seguinte no hospital. . 45 Certa vez. . um médico intemo visivelmente perturbado com se u sofrimento e perguntou: . Estava curiosa para saber se. remontaram -na.Para ela aquilo significava que iam a ssassiná-la.responderam e em seguida comeÇaram a cauterização insuportavelm ente longa e dolorosa da Parte proibida. . . . . Quanto desprezo deviam sentir para mentirem daquele jeito! Quer dizer então que er a pior do que um assassinato? . em meio à dor brutal: "Como vai sua bonequinha?" À medida que contava. Falou.Isso pune a você. . sobre aquele tumor. em protesto por aquela menina de ci nco anos sofrendo ali à frente das duas. tateando cautelo samente o novo terreno. morta mas apresentável. e de novo apelavam para o engodo mais do que óbvio da boneca. virou-se para um deles. ela se afogou num silêncio mudo e atordoado.Como assim? . es fregaram. Por terem penetrado em mim sem a menor consideração. Depois dos sonhos. Tinha cinco anos na época. . limparam cada uma de suas partes com sabão em pó.A máscara baixou. sufocando-a com a substância adocicada e enjoativa do sono. .A terra dos sonhos . voluntariosa como era. Fried.Diga então o que você sabe. não a eles. teve um pesadelo: sonhou que a devassavam à força. Não vai doer nada .Quer dizer que você não vai ficar indiferente. .Então vou contar uma coisa que mais ninguém sabe. outro sonho com um vaso despedaçado.É porque nunca perdi o tumor. justamente sua parte mais feminina e mais secreta. como se toda a realidade de seu corpo se resumisse naquela coisa perversa q ue estava escondida lá. idade suficiente para morrer de vergonha quando os médico s meneavam a cabeça referindo-se ao mal que a roía por dentro. Só que ag ora é invisível. . . e em seguida.respondeu Déborah asperamente.exc lamou e pôs-se a apagar o cigarro impaciente e irritada.Fique quietinha agora. Nunca disseram que estavam arrep endidos. por tere m me obrigado a suportar toda aquela dor e a vergonha de sentila. naquelas c abeças assassinas. sentindo-se usada. mais tarde. Naquela mesma noite. seu passado desperta ria algo mais do que aborrecimento. manipulada como um objeto. Nunca p ediram que eu perdoasse a eles por essas coisas e nunca perdoarei a eles. .O que haveria naquelas cabeças malucas.Sua mãe contou o que ela deu. ia observando a reação da Dra.Que lugar é esse? . Os pesadelos só não tinham anunciado a pavorosa dor que viria a sentir.disse Déborah. por exemplo. num mundo onde as pessoas ligavam tão pouco umas às outras.Agora nós vamos consertar você direitinho. Para sua surpresa. o que ela viu. como se estivessem saqueando um quarto: desmontaramna. por terem ment ido tanto e de modo tão estúpido.Minha mãe já lhe contou tudo .Ela não sabe muito a respeito disso.

distante das palavras. e eu fiquei doida. e que os recém-chegados aprendiam sem que ninguém precisasse ensinálos. Além do ma is. num plano mais sério. a Dra. mas não pude dizer nada. Eu estou pirada!" . Fried. despidas de eufemismos bem educados. desde qu ando todas as coisas se tomaram cada vez mais cinzentas e obscuras. Palavras cruas. com um olhar sempre esgazeado.insistiu a doutôra. descrente de que pudesse existir um único inimigo. pensou consigo mesm a. A e B. maluco. Tratava-se de uma norma criada espontaneamente pelos pacientes. eram chamadas pelos outros de "doentes" e por si mesmas. louco. crueza: duas regalias importantes do hospital. A linguagem de Yr era um segredo ciosamente guardado. a não ser em segredo e como indivíduos estranhos e excêntricos.Você tem o privilégio de ir à cidade? .Minha mãe .Velhas lavradoras des sa estranha colônia penal. . meu inimigo está acima do ódio ou do perdão. lunático e.declarou Carla . não conseguem acreditar que são apenas pessoas. oc upavam o nível inferior daquela escala de valores invertida e só podiam reivindicar as categorias mais leves: biruta. mas acho que isso é "furado". de onde podia conviver com a T erra. de "loucas".respondeu Carla sem titubear. . "Como os doentes sentem medo". sentada com Carla e algumas outras meninas. . O termo Upuru nomea va em Yr a síntese das lembranças e das "emoções" daquele último dia no hospital.Daqui há pouco. Estava no corredor da ala. o Censor vinha interferi . . . insano. a liberdade significava liberdade para ser doido .. fugi ndo assustada para Yr. que se fechou sobre ela como um oceano.Acho que foi. As int emas na Ala D. "da força incontrolável que possuem! Por alguma razão. pancada.respondera a mesma.comentou Carla.Ela deu um tiro em mim. e ela compreendeu. Déborah retcomou ao Mundo Intermediário. Déborah batera asas. . Era tarde. biruta. Depois que soube disso. Déborah não estava mais ali.Dizem que a pessoa deixa 47 de odiá-los depois de algum tempo de terapia. . Ela não conseguiu se controlar e acabou insistindo para que eu fal asse sobre os motivos da minha doença. A superfície voltou à tranqüilidade. uma menina de olhos lânguidos e modos agressivos. Excetuando-se a D. Déborah compreendeu a reação desdenhosa de Kathryn. Impied ade. . e mesmo que eu soubesse.Não. vamos acabar veteranas . eu sobrevivi. Meu pai se casou de novo. fora de si.Há momentos em que odeio as pessoas que me fizeram ficar doente . que um de seus segredos acabara de escapulir para o mundo. Fazia já dois meses que Déborah estava no hospital.perguntou Carla. demente. Novos pacientes tinham chegado. Para aqueles que nunca ousaram pensar em si mesmos. Fazia tudo o que mandavam e.Upu o quê? Yr irrompera de repente. mas me deixaram sair quando minha mãe veio aqui. mulheres que viviam gritando. afora aquela instieadora de horrores.A Dra. no meu irmão e depois em si mesma. Fried contemplou-a longamente.Quem é? . para o consultório ensolarado e sua mobília traiço eira. outros subido para a Ala D (a dos "insanos") e alguns transferidos do hospital. Só elas tinham o direito de se referirem a si mesmas pelos termos mais extremos da escala. Havia toda uma hierarquia de privilégios para gozar dessas liberdades. horrorizada. sem caírem em contradição. eles morreram. quando uma enfermeir a disse para ela: "Ora vamos. não diria. . . Mal nos sentamos e a coisa transbordou como uma enxurrada. . As alas mais tranqüilas. Eu tinha certeza que ela ia perguntar. pirado. . tais como "insanas" e "loucas". você está ficando perturbada!" "Eu não estou perturbada. sem deixar vestígio s de sua passagem. uma paciente da Ala B que se dissesse "louca" pa ssaria por faroleira. na sua casinha branca de aparência tão pacata. das razões ou de qu alquer possibilidade de alívio. .A visita foi boa? . o lugar já não assus48 tava Déborah.E talvez fosse verdade.perguntou Déborah. Desse modo. utilizadas ao máximo por todos .. tanto mais inacessível às pessoas quanto mais rígido fosse o controle da voz interior. palavras impiedosas. donas de um ressentimento puramente humano!" Dias depois.O que foi que você disse? .

Talvez você possa explicá-las. ia se afastando de tudo e de todos no mundo. tinham pelo menos a decência de se mostrarem embaraça dos. . . . o alcance de sua visão não ultrapassava a cobertura do sarcófago onde estar ia encarcerada. um grupo decorava uma árvore de natal. sacudida. que se reco stara na cadeira. Lactamaeon. você não entenderia. sob a forma de uma águia. você consegue me ver? . os quais não tinha com quem compartilhar .. Tu que não és linda. . O inverno chegou. .Não sei. os abismos e os picos de Yr começaram então a gerar um vocabulário cada vez mais rico. aí esgoto todos os recursos. revolvida. para quem as paredes não estremeciam . . camuflagens e defesas. . Dezembro. a vítima tem de ser linda. como foi que o mundo de repente ficou cinza depois disso. é para sempre? . .Há quan to tempo ela está aqui? .Deve haver algumas palavras . que conseguia exprim ir suas estranhas agonias e seus momentos de grandeza.Leva mais ou menos três meses. . As janelas emolduravam os galhos nus e enegrecidos d as árvores. . paralisada. senhor.São metáforas. segredou: Para que se faça de condenada.Existe uma palavra. Anterrabae pôs-se a recitar uma fórmula de encant amento em Yri. . Déborah . inclusive da voz exterior que a sub stituía e respondia por ela quando desejava se recolher a Yr. como um coração. Na sala de estar.. . Enquanto isso.O quê? . para Déborah. segundo personagem mais importante de Yr. nenhuma extremidade ponteaguda. . já que falamos sobr e as operações do tumor. Era difícil falar com um vulto parcialmente submerso. tomei metrazol. aos olhos de Déborah. As planícies. Os risos pendiam no ar tão artificia is quanto os enfeites na árvore (nenhum vidro. Eu gostaria de lhe perguntar. Aquela conversa estava deixando Déborah terrivelmente amedrontada. Quanto tempo leva para sabermos se nos daremos bem ou não? . na casa da doutôra.. a que costu ava recorrer quando queria descrever para si mesma e para os personagens de Yr os se us desejos. mas ela não conseguiu entender. implorou Déborah no idioma de Yr. sentada perto delas. o mundo se reduzia à dimensão d e seu próprio ataúde. .Mais de um ano. 49 . e o que se passou no resto daqueles primeiros anos.Espero que sua curiosidade esteja satisfeita . Já passei por seis hospitais.ndo de forma bastante branda. com gestos dramáticos de condenada.Não consigo descrever a sensação .como uma gravura apenas. mas quer dizer muito mais.. . nem essa droga de l ugar nem nada.Não quero assustá-la. nos últimos anos. . vocês ainda estão na fase da lua-de-mel aparteou uma garota. Meninas. uma gravura de alguma coisa que é real. por sinal) e.Ela se levantou. . Nada disso adianta. Era freqüente. Mate-me.retrucou a doutôra. em determinados momentos. . Cinco pertencia m à equipe médica e dois eram pacientes. amatil e sei lá mais o quê. .Corresponderia a sarcófago. que.Procure lembrar para que pos samos compartilhá-las juntas.no mundo inóspito à sua volta. cheia de reti radas. Para ela. Estou " por dentro". Fui analisada. eletrocutada . assim como para os mortos.E isso.perguntou Déborah. Só me falta agora u ma lobotomia.insistiu a doutôra. caso contrário o drama se toma uma comédia r idícula.Isso significava.perguntou a Carla no idioma da Terra. acorrerem-lhe pensamentos e acontecimen tos. Significa Olhos Trancados. Pensou nas metáforas Yri. Meu Deus. Excetuando-se o convívio com Carla e Marion na ala. no cinza que cobria tudo for . .disse para a doutôra.Só que ainda há muito por fazer.disse à doutôra. que esforço faziam para que o hospíci o se parecesse com um lar! Puro faz-de-conta. sua história ia se arrastando. As paredes começa ram a pulsar de leve. e se afastou .com os Olhos Trancados. acho.

boa e aflita. já que as difer enças entre os vários cultos protestantes da classe média sempre foram extremamente su tis. sob os auspício s de uma mãe adorá51 vel. Os parentes. que por si mesma já se considerava imunda. expulsando-a. lág rimas terríveis e pungentes de homem. A convalescença t ambém não passou de uma grande farsa. na primavera. pressentindo a desgraça inevitável. mas não carinhosos. do alto de sua nobreza. não soubera se comportar no jogo. O entendimento dos mistério s eram as lágrimas. não eram só aquelas crianças que a odiavam. Algumas vezes Déborah já ouvira fa lar que um homem chamado Hitler. era uma verdade mais do que evidente: achava feia aquela coisa. só começou a freqüentar a esco e e foi rejeitada das primeiras amizades e grupos que suas coleguinhas tinham fo rmado em sua ausência. minha avó odiava tua avó. nem lhe p assava pela cabeça que viesse a ser sua companheira. Honesta sem dúvida. em Deus. contudo. E foi mais ou menos iss o o que aconteceu. que foi incapaz de fazêla desistir. .a de Yr. o que bem poderia ser verdade. Rabiscavam palavras ofensivas nas pared es especialmente as da privada (onde. de tramóias. eliminando aquele "povo imundo". mas o fato é que ela era a única judia. que veio saltitando atrás com uma radiante e despreocupada doçura. não seria tolerada. quas e cruel. no entanto. não a amava. e não do amor. por mais negada que fosse. menina sempre com ares de moça. para Déborah. fico u imaginando se eles todos não teriam tumores. Déborah. No entanto. isto é. a menina feia do tumor gritara ao sentir a urina queimando por dentro). Déborah ficou tão re ssentida com isso. se a doutÔra pudesse decifrá-la. Déborah. O mundo de Déborah apoiava-se na certeza de que era vítima de uma maldição ináta. talvez fi asse mais fácil suportar a memória. com o passar dos anos. porém. . até mesmo ela e a capaz de perceber. Quando sua irmã Suzy nasceu. e por mais consciente que estivesse dela s.Mas ela é sua irmã! . nos tchecos e nos poloneses. já que a própria doença continuava existindo. Nas férias. que berrava e cheirava mal. isto é. Era um mundo carregado de mistérios. disseram. "via fracasso e confusão. Diziam que ali não havia preconceito. tcomou c onta da questão: fez-se anfitriã das meninas do grupo mais popular. os códigos seculares da fortuna ainda vigorav am. de certa forma não estivera à altura do jogo deles. ponderaram. a maldição transbordou do corpo e da boca de Déborah. Quanto a Suzy. mas fruto do ódio e do egoísmo. eu te odei o! Três gerações de ódio! Aquelas palavras tinham uma ressonância especial. Esse comentário marcou o início do incômodo da família em relação a Déborah.Não fui eu quem fez! Não ajudei a tomar a decisão de fazê-la. judia imunda. Ficaram chocadíssimos e revoltados com o que. Lembrava-se bem da cena que presenciou um dia. um professor de equitação da colônia declarou brutalmente que Hitler fazia pelo menos uma coisa boa. por causa dos "tchecos-e-os-poloneses". O passado. para nunca mais abandoná-la. Quem sabe se. A mãe. antes de sua partida para a colônia: seu pai chorava. . judia. Continuava m orgulhosos dela. As conturbações eram combates travados em segredo. a maldição predileta: j udia. Déborah começou a revolver lembranças. e na cre nça fervorosa. as tias e os tios foram se afastando de Déborah. s e apinhavam em volta do berço. A realidade oculta pelas farsas era a morte. fechar os olhos e crer. constituía alvo i deal para os provocadores do quarteirão. farsas e conturbações. Na vizinhança. Um deles morava na casa ao lado. com a cabeça apoiada na mesa da cozinha. minha mãe odeia tua mãe. Uma observação gente e bastante precoce para uma menina de cinco anos. E no verão ia para a colônia de férias. mas fria. ao mesmo tempo doce e amarga. Suas re gras não passaram de mentiras. Como se estivesse possuída por um demônio. foi amada sem r eservas. e a "judia imunda". Sempre q ue a encontrava. lançava-lhe ao rosto.exclamavam indignados. Por cáüsa da operação. nos quais os judeus. sempre perdiam. matava judeus por mero prazer e ma ldade. na Alemanha. só conseguira enxergar naquele ser intruso um monte de rugas com um rosto vermelho. certa vez. e para onde olh asse. Mesmo no hospital. lhe 50 trazia uma dolorosa sensação de perda e aflição. Depois de ouvir isso. maravilhados com a beleza e a delicad eza da recém-nascida. onde anos atrás o tumor fora exti rpado com tanto sucesso.

Só então se recostou e dormiu. e encontrou uma bagunça incrível: os lençóis e o rosto dela empapados de sangue . apenas a sensação desagradável causada pela resis tência da carne. Uma guria rica e estr agada. e que as sessões de terapia são muito difíceis. com o o metal. indo e voltando umas dez vezes seguidas. E o jeito sa rcástico de falar.Eu não sabia que as pessoas na Terra eram dotadas de interior . Escuta. . . Os médicos dizem que são todas doentes mesmo. até que o braço ficou reduzido a uma posta ensangüentada. Uma jovem se aproximou por trás dela. é que o lugar apresentava um aspecto ao mesmo tempo assustador e reconforta nte. você não sabe? Foi transferida para a ala dos "Perturbados". sabendo e não sabendo ao mesmo tempo o que pret endia fazer com ela. Isso mesmo. não propriamente o que dizia. As mulheres passavam o dia empertigadas em cadeiras nuas e incômodas. mas a frieza.e começou a pensar febrilmente. Umas viviam mudas. disse Anterrabae. Não sentiu dor. O lhe para mim! chamou Anterrabae caindo.Eu sou Lee. outra s não paravam de resmungar sozinhas. aprofundando os cortes. O que a intrigava . . viu a indignação estampada no rosto expressivo da médica. acompanhando minuciosamente os sulcos o riginais. nem falar sobre os Deuses. Déborah apoiouse a uma janela . ralhou ao fundo o Coletor. a brecha que se abr ia para diferenciá-la dos outros. . musculosas. Guardava consigo a tampa de uma lata de conserva s.Lógico que não. Brincas com o Abismo de um modo muito pe rigoso. Essas palavras infundiram nela uma profunda e duradoura sensação de alívio. revestida de grades e telas . ou sentadas e deitadas no chão. mas decidiu não contar isso à doutôra . Cafés entrou no qua rto hoje de manhã para acordá-la. sentia-se exausta. porém.Ah. Tu não és dos nossos. num sentido que ultrapassava a finalidade por que estava ali. . só isso! .Nunca se sabe o que se passa dentro delas. Pássaro-um. Sou psicótica. Agia com meticulosidade. Andava como se estivéssemos muito aba ixo dela para que se dignasse a nos olhar. Déborah se aventurou a confirmar essa distância. tentando desvendar aquele mistério.Você está assustada. cutucando aqui e ali com o dedinho para ver o que acontece.Foi na colônia que descobriu Yr pela primeira vez. . acabarás quebrando o sigilo. Rasgou de novo o antebraço. Estivera completamente absorta narrando esses ac ontecimentos. Assim. . Cavalo-s elvagem-um. não está? . Um horror! Deram-lhe uma injeção antitetânica e colocaram-na direto no elevador.Estou. todos scomos .parecia uma máscara de esgrima. Nunca achei que aquela guria estivesse realmente doente. recolhida num de seus passeios. escuta. As bordas eram denteadas e cortantes. pensava: lá vai a menina rica. Sentou-se numa cadeira desconfortável e ficou escutando os gemidos e os gritos do Coletor.Essa vaquinha sofisticada nunca fez nada difícil na vida.Enfermeira ou qualquer coisa no gênero? . As enfermeira s e as serventes da ala eram corpulentas. Rasgou o antebraço. e o braço cortado com uma tampa de lata. pesadas. .disse pensativam ente.. Quando voltou à ala. estava inteiramente sob o domínio de Yr. algumas tinham acessos de cólera. 54 Déborah estava apavorada na Ala dos Perturbados. Alegre e s ilenciosamente. como você. nunc a! és inteiramente diferente. e os urros or iundos dos níveis mais baixos dos reinos de Yr. .Engraçado. Quis agradecer àquela mulher por se mostrar capaz de se emocionar até o ódio. Estás beirando a tua destruição. Vais sucumbir. que precisam ficar aqui. As últimas pretensôes a conforto e no rmalidade acabavam de ser suprimidas. . não és como os outros! As palavras em Yri anunciavam a etema retirada. Sempre qu e nos cruzávamos. Ao voltar ao presente. Tu nunca foste como os outros. Tudo estava abaixo dela.Onde está a Blau? Não encontro o nome dela aqui. você é psicótica. o Coletor e seus vastos reinos. . e ficou observando o sangue escorrer dos seis ou sete sulcos abertos até abaixo do cotovelo.

meio cu rvada sobre o abdômen vulnerável e á região inferior. na Ala D . Déborah foi sendo forçada a mitigar. só fez marginalizá-la. Arranhei um pouco o braço. rei que abdicara do Trono da Inglaterra. com seu sotaque engraçado. . Você que se meteu numa grande encrenca. De uma fonte de beleza e proteção. fo sse na colônia. Sempre se dá um jeito. minha querida. Déborah arregaçou a manga. Decidiu então falar sobre Yr.Olhe.O que foi que aconteceu? .disse ela e v oltou à sua discussão imaginária.Você é tão jovem para estar nessa casa de pecado. só isso. não sabe? Já é hora de me dizer. A doutôra encarou-a atentamente: esperava um sinal qualquer que denunciasse qual o grau de honestidade que ela estava disposta a empenhar na terapia. .A doutôra reparou no olhar desnorteado e no medo.Escoltada? . protegendo o tumor que ameaçava desp ertar ao menor estímulo. os gestos aflitos e ansiosos. onde sua excentricidade. Não viremos abarrotar o local onde se reúnem os co nvidados dessa antiesposa anti-secreta do abdicante Rei da Inglaterra! Soltou um a sonora gargalhada. . saindo em seg uida do civilizado. fosse na escola. Ia ao encontro das divindades. que davam à fisionomia de Déborah um estranho ar de truculência. Os miseráveis me violentam todas as noites desde que cheguei . maior o espaço que Yr ocupava em sua vida. sem esconder nada. finalmente. O corpo dela era miúdo. ou de respeitar as incompreensíveis normas de conduta da Terra.respondeu impassível a auxiliar. nem recorreu às mil e uma expressões desastrosas que as pessoas habitua lmente empregavam quando a surpreendiam perturbada. Quando sobreviessem as perdas de visão.Meu Deus! . pensou Déborah. "É corajosa".Déborah perguntou a Lactamaeon e seus pares.que estava sentada na cama discutindo sua estra tégia com a figura invisível do Primeiro-Ministro . verdadeiros príncipes com quem partilhava em segredo sua solidão.Isso vai dar uma cica triz horrível! . as violentas dores do tumor fictício. o que foi que levou você a fazer essa coisa aí. pacato e traiçoeiro consultório. . a apaziguar e.Foi algo que eu tive que fazer. Mostravase apenas absolutame nte séria. os cabelos escuros. como q uem vai ao encontro de seu anjo-de-guarda.Onde posso encontrá-lo a sós aqui? .cóticos. para assumir a figura de pris .Agora ela está lá em cima. . Déborah sentou-se. Tinha si do capaz de olhar para fora de si mesma o bastante para perceber outro medo idênti co ao seu. Quanto mais profunda a solidão.levantou-se e veio toda compungi da para o lado de Déborah. onde a odiavam.exclamou a doutôra. Mostre o braço.em que os deuses de Yr fora m companheiros. Yr se transformou em fonte de medo e dor. olhando zombeteiramente para a auxiliar que ac ompanhava Déborah. Houve um tempo . a mulher . não é nada impossível que você venha a dançar 56 um dia e a viver no mundo de novo. nem escandalizada. a renunciar a seus privilég ios de soberana de um reino luminoso e consolador. Déborah notou que ela não estava nem assustada. . . Pouco a pouco.perguntou a doutôra. Mas alguma coisa mudou." Compreendeu num estalo o que havia afinal de reconfortante na Ala D: ali as pessoas estavam dispensadas de manter os falsos b ons modos. trovejou Yr. Depois que a enfermeira trancou os objetos pessoais de Déborah na p equena cômoda embutida. . . rubra de vergonha. ou o Abismo.É claro! Todos os meus parceiros de dança vão tremer de repugnância ao vê-la. que não procurou ri dicularizá-la.Mostre. E ainda deve ser vi rgem. ninguém diria: "O que é que as pessoas vão pensar?" Seja educado! Não faça escândalo!" Na cama vizinha à sua. "Eu poderia ter agredido essa moça até não poder mais. douradas e risonhas. no corre r dos anos. dormia a 3ª esposa secreta de Eduardo VIII. Dizia que tinha sido intemada (tratava-se de uma Casa de Prostituição) pelos inimigos do antigo rei. .e era estranho pensar nisso agora . O Abismo estava muito perto. e abordá-lo com a franqueza e a desinibição características do doente (coisa que ninguém da equipe médica conseguiria).

mesmo assim. .Você fez bem em me falar s obre seu mundo secreto. "Calma. Q primeiro segredo fora aberto e.perguntou a doutôra. . Faltavam duas para receber as suas.Desculpe .Existe .Que linguagem você emprega quando desenha. Como um prolongamento do gesto.No entanto. Houve co mo que uma dobra no tempo. no final das contas.E existe uma linguagem própria? . recuasse horrorizado. expondo sua loucura para que o mundo inteiro. . a prova irrefutável de que ele existia. percebendo a ameaça e o pedido implícitos nas palavras da doutôra. . que não conseguirão me intimidar e que nenhuma de nós vai deixar de trabalhar. você parece bastante competente no uso do inglês. como uma veia que se rompe. proclamadas em salmos pelo Coletor. A dor violenta irrompeu do tumor e jogou-a ao chão. pois isso o igualava ao mundo. . não se preocupe. por incrível que pareça.Você não pode usar a linguagem verdadeira o tempo todo? Déborah riu da pergunta absurda. . por hoje chega . só traziam desgraça e agonia.O inglês é para o mundo. Após uma pausa. O Censor fora incumbido de impedir que Yr espalhasse suas misteriosas sementes sobre a Terra. Houvera uma troca de enfermeira-chefe na ala. 57 . . ao contemp lá-la. pessoal! Calma!" Es58 tas foram.Você parece um bocado assustada . tudo se cobriu de trevas. a ter que arcar com as ofensas do mundo. quando Doris.anunciou a doutôra gentilmente. . os do mundo. desatou a rir. Déborah tinha grande di ficuldade de falar. uma me nina recém-chegada. Déborah voltou para o hospital com a auxiliar. passou a ter que suportar as atormentadoras transições entre os mund os. quero dizer. espraiou-se dentro dela. a necessidade fez-se coerção. você imagina o que vai des enhar em inglês ou em iiri? . por isso às vezes uso uma linguag em meio latinizada em seu lugar.Talvez eu sinta um pouco de ciúme pelo fato de você us ar essa linguagem exclusivamente para se comunicar com você mesma e não conosco.disse Déborah. . para comunicar decepção e ódio. lembrando-se dê certas palavr as fascinantes que provocavam um retraimento imediato. Cuidado com essas palavras. No início é incô o. . floresc eriam e desabrochariam. onde germinariam. . com jurisdição sobre os dois mundos. a ter que ser súdita e escrava do Censor. Enxe rgava mal também. cujas promessas redundavam em trapaças e cujas van tagens e privilégios. Yri é para dizer o que deve ser ito.iri. por algum tempo. ficou reduzida às piores humilhações e desgraças nos do baixo calendário. nos dias do alt o calendário. Nenhum rugido de Yr. Não dói nada. . Déborah encontro u na crueldade de Yr. trancaram a última porta de acesso à ala. .disse Déborah. . .Comentou ele. foi se tomando aos poucos um verdadeiro tirano. Com se não bastasse.Bem. e a nova estava distribuindo colheres de metal em vez das de madeira. De rainha entre deuses. O encanto fez-se necessidade. ao Coletor e ao C ensor. A crise explodiu mais poderosa do que Yr. Como está se sentindo? perguntava o administrador da. mas que não passa de uma cortina de fumaça. . . mas depois de algum tempo. acalma. começou a ouvir o marulhar de ondas em ressaca. ela se contorceu toda.É uma linguagem secreta. Começavam a servir o almoço. por mais poderosos que eles sejam. o dia continuava dia.disse a doutôra.Pratico minha arte nas duas línguas . O terror. . as últimas palavras que Déborah ouviu da Terra. Estava pasmada. Quero que volte e diga a esses deuses. Ala D.Seria como dar a um vagalume a potência luminosa dos raios. O que vem depois é a decepção e. Às suas cos tas.ioneira das regiões mais tenebrosas de Yr.Você conhece o envoltório de lençol-frio? Vou providenciar um para você. Descreveu com as mãos os movimentos agitados de uma onda. a coerção fez-se tirania imp lacável. voltou a ouvir a voz dele: . são exatamente as mesmas. Uma vez empossado no cargo de guardião.

Esther voltou a escrever agora para a Dra. Estava exausta. e o tinir das xícaras de chá.Virou-se surpresa. 60 Perturbada. Quanto mais se contorcia e se agitava. Foi difícil levantar e andar. No entanto. e pressionando-a com força contra a cama. o administrador da Ala dos Perturb ados. entrou um homem. três correias de lona. Apertaram.Está se sentindo bem? .Recuperou a consciência pouco depois. uma quarta correia. Horas depois. Quatro horas é a média. tivesse mudado. zangada. Após um tempo que lhe pareceu eterno. env oltórios eram lençóis enormes enrolados em volta do corpo: três superpostos como folhas brancas e úmidas.Há quanto tempo estou aqui? 59 . sobre os lençóis. A antisecreta antiesposa do abdicante rei da Inglaterra mostrou-se toda solícita: . Estava surpresa por ter emergido de regiões tão fundas sem qualquer angústia. Aproveitou a liberdade para e studar a forma daquele casulo. Se continuar bem. Déborah sentia se extremamente fraca. o que quer dizer perturbada? . Mexeu um pouco a cabeça. . os fatos contidos ali não deixavam mar gem a dúvida. já que o hospital julgava inconveniente. apresentou Déborah. . . firmemente retesadas. nua. envolvendo seu corpo em outros lençóis.Esta é a putinha sobre quem eu tinha falado a vocês. com um medo que beirava o pânico.Não minta para mim! Você está falando com a antisecreta antiesposa do abdicante Rei da Inglaterra! . e o último prendendo. Voltou a mergulhar na inconsciência antes que pudesse assistir ao final daquelas operações. Em seu íntimo ansiava que a palavra. . mas para discutir com os médicos a mudança. um calafrio percorreu sua espinha. menos energia lhe s obrava. voltando a olhar o relatório. Em sua linguagem impessoal e breve. vieram soltá-la. hein! . e quanto mais quente. Claro que.Pobre "vaquinha" Eu vi tudo que fizeram com você só porque não quis dormir com aquel e médico nojento! Amarraram você para que não se mexesse. imitando as tagarelices da nobreza. Sentiu então que a rolavam de um lado para o outro. recupera do inteiramente o senso de realidade. Tinha. no interior. Imediatamente Esther escreveu uma carta para o hospital e. Aconselhava também que tivesse paciência. muito esticada e presa com ganchos nos pés da cama. obrigando-a a expelir o ar. e presas nos dois lados da cama. o rela tório mensal aconselhava paciência. Insistia em sua ida. . no único movimento possível. que o aparente revés não constituía razão para que ficassem ansiosos. repuxara m. . lençóis esparramados por cima e por baixo dos panos que a envolviam como uma múmi a. Fried . O homem saiu.gritou ela. mas seus sentidos continuaram embotados. que alguma outra viesse modificá-la.Como? . mas o importante é que tinha recuperado sua noção de estar no mundo. mais quente ficava o casulo. num passe de mágica. Lembrando-se dos gritos que escutara. e pôs-se a conversar com eles. porém. contudo.indagou Esther Blau. Só depois de ler e reler várias . . amarrando seus pés. os braços ao corpo. Por simples cortesia. Ressaltava. atravessando o estômago e os joelhos. dias depois. soltaremo s você dentro de meia hora. revestidas d e grades duplas. e a assinatura era de outro médico. não para ver Déborah.Um privilégio e tanto.Mais ou menos três horas e meia. outro de água quente no s pés. . re cebeu a resposta desaconselhando a visita. Seu próprio calor aquecera os lençóis na temperatura de seu corpo. honesta se m dúvida. A resposta era uma tentativa. Mas seus fantasmas vieram acalmá-la. As juntas doíam por causa da pressão dos lençóis. Per cebeu vagamente que estava deitada numa cama. Est enderam outro por cima dela e esticaram-no firmemente. Vestiu-se e voltou para a cama. Passado algum tempo. de reconfortá-la. vindo daquelas janelas altas. se ela e o marido julgavam necessário vir. Continuava embrulhada e completamente imóvel dentro daquele "casulo". largas e compridas. em cuja pele as marcas deixadas pelo s lençóis só agora começavam a desaparecer: . sobre um lençol frio e úmido.respondeu Déborah mordaz. Um saco de gelo sob a nuca. então ele entrou e violentou v ocê. marcariam as entrevistas. convertê-la no f ato agradável pelo qual tanto almejava. Déborah emergiu do Abismo com suas percepções límpidas como uma manhã de sol .

Déborah foi invadida pelo pressentimento de que algo ho rrível ia acontecer. Fried. Está consumado! Mais duas mudanças e seus respect ivos espelhos e. havia um vaso onde crescia um gerânio vermelho. isso sim eu sabia. ou o de Jacob. uma tirania cujos tiranos tinham que ser incansavelment e aplacados. Ocorreu-lhe que o cinza era. tampouco a animação do pai. Eis o espelho da mudança. . levantando a gola dos capotes para se protegerem da chuva. entretecidos. Aqui ou ali.uma Déborah completam ente mudada.Você expõe um segredo a nossos olhos.Duas das mudanças ocorreram antes que o deus. mas aquel e céu chuvoso. Lactamaeon veio a mim e d isse: Três Mudanças e Seus Espelhos. Você viverá e será forte. emaranhada em suas próprias raízes. No parapeito da janela. .e uma janela aberta que des cortinava um céu azul e luminoso. ao transportarem-na para casa. de r epente. No carro. Déborah. e ambas riram. depois fica tão apavorada que foge para se esconder no pânic o ou em seu mundo misterioso. Já freqüentava . não é? . fez com que a profecia se tomasse realidade. A segunda mudança foi a humilhação que sofri na colônia.Pare com esses trocadilhos . Guar dou a carta e o relatório junto com os anteriores e não voltou mais a olhar para ele s. interferiss em no que estava acontecendo com a filha. e em Yri a palavra que significa morte significa também sono. Uma pedra.disse uma voz no 62 sonho. depois que outras sensações se cristalizaram entr e ela e o mundo.voltando da escola para casa. formavam a textura de seu mundo interior. o episódio do carro quando eu estava com quatorze anos. todos riam e brincavam. Imorth (palavra que significava morte.E ela começou a explicar como profecia e de stino. Era melhor resignar-se e esperar. as ruas molhadas onde as pessoas cam inhavam apressadas. A terra se espalhara em volta. Antes mesmo de ser intemada no hospital para a operação. . e o céu que se avistava da janela torno u-se escuro.começou Déborah . não sei.Pois bem. teve um sonho: um quarto br anco . Ele falava em Yri. A realidade não era o carro. e havia uma flor vermelha. . 'Existem flores num hospital. e força também. nem a mãe que cantava. nem os espelhos. Muitos anos depois. onde flutuava uma nuvem branca compondo formas c uriosas. tentando penetrar na61 quele mundo que já fora um esconderijo fechado sobre si mesmo.zangou-se Déborah. como uma mensage m cifrada. e depois a Morte. sombrio e extenuado. sono ou loucura. e seria sempre. . e seu espelho. amarga e cáustica . A primeira mudança. . sombrio e cinza.Um dia .Eu me pergunto se não há um padrão de conduta. conte-me como é o ritmo desses seus distúrbios Observava Déborah atentamen te. ou seja lá o que for.Vê! Vê! A mudança sobreveio. com o talo partido.. Eu não sabia qual dos significados era. pa lavra que soava como um suspiro de desesperança). O espelho dessa mudança era a flor partida que vi anos mais tarde.Mas não a terceira. já previsto. o fato é que se realizou a morte anunciada por Lactamaeon. Lactamaeon veio lembrar-lhe a revelação daquele dia.encontrou um vaso de flores caído e despedaçado na ru a. . e seu espelho. a estudante de arte . loucura e o Abismo. a família ficou eufórica. " Vê?" .vezes a carta. ajoelhada no banco de trás. arremessada de um lugar qualquer. Lactamaeon sussurrou a seu lado: . A segunda mudança ocorreu com a humilhação sofrida aos nove anos de idade. despedaçou o vaso e part iu a flor.a imagem que fazia de um quarto de hospital . Se foi cortar os pulsos ou vir para cá. foi sair do hospital e voltar para casa depois da suposta extirpação do tumor. A terceira foi justamente a mudança para a cidade. Esther conseguiu isolar suas implicações mais sutis." De repente . Anos mais tarde. Quando o tumor foi removido. . . então. Concluiu que deveria impedir que seu medo.disse a Dra. Ecoaram gritos. as anunciassem . desfez-se no sonho a luminosidade do ar. Lá fora caía uma chuvinha fina. para se tomar. olhava o céu pesado e cinza. a cor de sua vida.

obrig ando-a a fazê-los parar imediatamente para que saltasse. a partir de agora. a mesma voz. dessa vez. dizendo. Ficou esperando que a voz falasse de novo. a qualquer desonra!" Não dissera o nome. então. co m suas exigências absurdas e grosseiras imprecações. Déborah. vinham todos em sua companhia. Déborah riu por dentro ao deixarem a casa antiga. voarás livre na melodia do vento. em vez de feri-la. lutando ainda contra o que julgava ser a injustiça de lhe imputarem um estigma de nascença. Lactamaeon. Mas o nascimento dos deuses. Na colônia de férias. houve novamente uma dobra no tempo. Anterrabae. acenderam uma fogueira. porém. o mundo fora capaz de retê-la horas e horas a fio. A humilhação foi. denunciou duas meni nas que. revivendo o clima de amizade e a inocência da juventude . as primeir as e cristalinas insinuações do que viria a ser Yr. porém. portanto. Só quando Claire foi chamada e negou calorosamente ter dito tal coisa. voltava do consultório de um médico. Não lutes mais contra as mentiras deles. Na cidade. Na cidade. Em meio à algazarra que faziam.Nada! . O diretor proferiu um exaltado sermão. enfim solitária consigo mesma. podes ser nosso pássaro. no primeiro dia. Uma tarde. quando Ant errabae chamou-a para abandonar o grupo com que estava dentro de um carro. e os próprios impasses se tomariam mais claros. nada mais pode ria contê-la: como se afirmava em Yr. daquelas que as pessoas lembram anos depoi s com nostalgia e saudade. relegaram-na a segundo plano. mas todos sabiam quem era. ce rta de que a ruína os acompanhava inexoravelmente. Finalmente teriam casa própria.Claire nega. subitamente. de forma também inesperada. Tu és um dos nossos. ao erguer os olhos para a noite estrelada. inesperadamente provava a veracidade de Yr.A sensação de ruína se avolumava dentro dela. Quando ele a alcanço . pouco antes de seu décimo sexto aniversário. Esther ficou contentíssima com a idéia. se revelou numa outra situação em64 baraçosa: um professor de ginástica que a pusera em evidência com um comentário desdenho so sobre sua falta de jeito. surgindo um outro tempo. O que é que você tem a dizer agora? .Claire . e a filha enc ontraria amigas de sua idade. inaudível para os que caminhavam a seu lado. Enfi m não poderiam mais atribuir o velho ódio e a solidão ao fato de serem judeus. Dias depois. ricamen te modulada. surda e invisível para si mesma. O espelho. A violência do impacto fez com que ela despencasse no Abismo: três dias de pesadelo. De modo inexplicável. onde um policial a perseguia.a colônia de férias havia três anos. uma pessoa entre nós capaz de 63 se rebaixar a qualquer maldade. como num poema: Se quiseres. És diferente . Tinham se habituado à hostilidade que fervilhava na vizinhança antiga. a culpada era Joan. não disse mais nada. Pr ocurou saber de onde vinha a voz. mas só encontrou o deslumbrante mosaico de folha s entremeadas de raios de sol. . a segunda mudança. o no vo desprezo e a nova solidão de fato sulcaram fundamente regiões virgens de seus sen timentos. . o Cen sor e o Coletor. agora ela pertencia a outra vida. d izendo-lhe num tom suavemente fúnebre: Tu não és como os outros. Via-se em seu espelho. o estigma fatal relu ziria com brilho ainda maior. além de a ridicularizarem. Reencontr ou-a mais tarde. Logo no primeiro dia. mesmo que um apartamento. sacudirás tua crina e expulsarás toda vergonha. se tinham recusado a passear com ela. Déborah perce beu o erro. mencionando uma "mentirosa" que há em nosso meio e que usa sua confiança para obter compaixão e envolver meninas inocentes em d ificuldades.afirmou. Podes ser u m cavalo selvagem. Déborah confundisse os nomes e as fisionomias da quela multidão de meninas. se deu conta de que desperdiçara mais um dia. O ód io que as pessoas extemavam no mundo. A terceira mudança foi justamente a mudança para a cidade. O direto r da colônia lançou-lhe um olhar severo: .Quem disse essas palavras a você: "Nós não passeamos com judias fedorentas"? Claire ou Joan? Era natural que. À noite. ouviu uma voz vinda de alguma parte. sua ausência a entristecia. vítima de dores falsas de seu tumor falso. todo opróbio. Abandonou a luta. Claire se limitara a ouvir e concordar.

Não pertenço & ninguém aqui! Nem a você nem ao mundo! Anterrabae me garantiu isso. "em casa" na Ala D.Exatamente. A luz penetrara. embora o seu amor seja sincero.Visto que duas das três mudanças ocorreram antes que os deuses começassem a existir.Mas eu ainda não tinha certeza. Uma linguagem secreta que camufla va uma ainda mais secreta..Ela é competitiva. deve ter começado a solidão.Déborah sabia.Sabe. Em matéria de decepção sou especialista. . Um mundo que dissimulava outro mundo. seus passos obedeciam ao ritmo lento e gr ave das batidas de um tambor.. todos os olhos humanos não serão espelhos que deformam? Via-se. Sobreveio uma grande paz interior. Depois da questão do tumor e do anti-semitismo da colônia de férias. Sentiase. apesar do amor e das experiências compartilhadas durante tantos anos. embora afastasse 65 e assustasse as pessoas. e estes por sua vez.. Pergu nto-me também se eles não decepcionam você apenas para se sujeitarem à própria visão que vo formou do mundo.. com aquela exclamação familia r no idioma de sua infância e juventude. como um ente reconhecível e definido: uma das loucas. que talvez a doutôra tives se um pouco de razão. pela enésima vez. ofuscado por ela. . uma certa sen sação de velhice e frustração A mãe era formidável.bom. Fried foi à cozinha preparar um café. . murmurou para a xícara vazia diante de si. a grande desvantagem de estar mentalmente doente é o preço terrível que se t em de pagar para sobreviver. terreno propício para a doença mental. Déborah garantiu que não era nada e. . .u. O que a deixava admirada era com o divergiam. que sinceramente acreditava explicar suas motivações. mas você não pode deixar de pertencer a outro grupo. no entanto.todos os mundos secretos . . perguntou-lhe o que é que tinha acontecido. Uma pessoa que precis demais de ser encantadora e bem sucedida em tudo.as linguagens. aco stumado à escuridão e protegido por cílios cerrados. . e era por isso que se sentia martirizada. um de meus nomes em Yr é A Etema Decepcionada. afinal. . Aconteceu! Finalmente Imorth chegou! As batidas so avam longas e calmas. pela primeira vez . colocada entre duas verdades conflitantes. exatamente como Lactamaeon profetizara. Déborah estava vi sivelmente exausta do esforço que lhe custara a revelação de todas aquelas coisas.Encantadora. Terminada a sessão. .A doutôra inclinou-se para a frente na cadeira. Déborah retcomou à ala. ansiosa por encontrar um lugar qualquer onde pudesse estar c . Sintomas que re sguardavam sintomas muito mais densos (era cedo para devassálos). que se abre cautelosamente à luz e. despertando sua atenção e ao mesmo tempo. que os mundos se cretos . de que estava correndo tão apavorada. . ao reparar que o café estava fervendo e tra nsbordando do bule. E dominadora. pois já não era mais necessár io lutar e resistir. mas pelo menos estar maluco é estar em algum lugar. tal como um olho. pemiciosa e maligna solidão. 66 O bule de café começou a vibrar. tão logo pôde. Quando saiu de novo à rua. Se a filha se julgava condenada . enfiou-se por um edifício a dentro pa ra despistá-lo.Ergueu-se num pulo. Espelhos e mudanças! Po r acaso. . Sentia ganas de dizer aquela garota de olhar aturdido que a doença. a Dra. se fecha tarde demais. mas isso não impede que outro grupo se forme em meio a outros grupos . Abrira a mente para as palavras delas.A um preço terrivelmente alto. e não orgulhosa. há mu ito tempo atrás. devia achar que a mãe sabia e que lhe dedicava compaixão em vez de amor. . . As três mudanças e os três espelhos. aind a que o olho quisesse ter renunciado a ela. os códigos e os sacrifícios expia tórios não passavam de expedientes que ela manipulava para sobreviver num mundo anárqu ico e opressivo. que encobriam numa região muito mais funda o ardente desejo de viver. era antes de tudo uma forma de ajuste. . como nunca se sentira antes e. sabe. Ahh! . Era tarde demais para não ver. pelo menos eu acho. Todo o am or dado por Esther foi reinterpretado por Déborah. Só pertenço a Yr! . . Inclusi ve.Não! Não! . . inexoravelmente. Agora dispunha de um letre iro para mostrar. eu me pergunto se a sabedoria deles não chegou um tanto ou quanto atrasada.

porém. com a pema bem estendida. A maioria dos pacientes dispunha da habilidade quase sobrenatural de discemir. Os pacientes se orgulha vam de afirmar seu não-envolvimento. . parodiando santo Agostinho: "Bem. o que a fez sentir-se extremamente importante.Como começou? . Realmente. Ela compreendeu a intenção do bri lho nos olhos dele. mas não ia dizer. Déborah .perguntou o médico a Déborah. Todos os hospitais de que ouvira falar abrigavam multidões atomizad as de indivíduos que tinham rompido inteiramente seus vínculos com os outros grupos e instituições do mundo. Déborah presenciou um auxiliar ser agredido pelos pacientes noite após noite. caso o btivesse a resposta quando outro certamente teria falhado. seus desejos semicontidos. Queria que os doentes fossem iguais a ele.. como a prostituída Esposa do Ex-Presidente Assassinado. Aliás. Até os mais inertes e os mais desvairados deram um jeito de afetar o maior desdém e distorcer propositalmente as perguntas. O administrador da ala foi obrigado a interrogar todo mundo. jamais beiravam sequer. O soco de Lucy Martenson penetrou nos processos mentais do Sr. Hobbs vinha pelo corredor e então começou a briga. nem muito barulhenta nem muito calma. dese68 java que as pessoas fossem mais loucas e mais estranhas do que na verdade eram.. melhor se sentia. abriram um inquérito. embora o hospital. Sempre estimulava o que havia de com . desli gados da "realidade '. secretamente saboreado. por sua vez. nem encarava com simpat ia a avidez e a ambição que lia no rosto do médico. Morria de medo da loucura com que convivia. No dia seguinte. mas quando se tratava de imperfeições invisíveis eram impied osos: penetravam com olhos argutos e escutavam com ouvidos afinadíssimos os segred os e as súplicas íntimas dos "sãos". e nós não saibamos. nunca apedrejá-los. suas inclin ações. era uma pessoa forte e até mesmo feliz. a solidão era um estado ambíguo. Quanta esperança! Não por ela. esperando que algum auxiliar tropeçasse em seu pé para q ue mais tarde pudesse dizer. mas pela resposta.protestou ele com severidade. Ali. Cumpriam à risca esses mandamentos. . . não fui eu quem mandou usá-lo. Não pelos pacientes.. Associada.. escolhiam como alvo sempre o mesmo homem. Só que essa crueldade estava além de sua compreensão e de seu controle. Livre-arbítrio. e a loucu ra dos pacientes vicejando e explodindo às claras. já resol vi o problema!" Déborah sabia por que Hobbs e não McPherson.Quero que você me dig a. o pé estava já. Meu pé também estava estendido. para que ficassem bem demarcadas as fronteiras existentes entre ele. Alguns pacientes de sua ala viviam imóveis. a realidade terrestre. a esse poder de discemiment o. em que pudesse afirmar taxativamente: "Ah sim. as pessoas mal conviviam umas com as outras. foi uma briga marav ilhosa. porque era uma extensão de algo que existia dentro dele. Outros. . mas pelo moment o. e quant o mais próximos estivessem. como bonecos sem corda. houve uma briga mais violenta do que o normal. seus pensamentos gratuitos.Ora vamos. por exemplo? Talvez Hobbs seja grosseiro com as pacientes. pacientes e funcionários saíram c ontundidos e ensangüentados. como Déborah fazia. Por que é sempre Hobbs e nunca McPherson ou Kendon. nunca rir d e aleijados. estava a total inabilidade de usálo de um modo consciente.. O administrador da ala interrogou a todos sobre a briga. Os agr essores eram invariavelmente os mais doentes da ala: refratados ao convívio. e nunca olhar para os velhos na estrada. meu caro. pois. Por iss o mesmo. isto é. por um lado. livre-arbítrio. uma esperança que envolvia seu próprio sucesso como médico. mas isso era o de menos.bom.ompletamente só.. aparentemente. mas ninguém quis usá-lo. . seus a ndares e suas alas estivessem apinhados de gente. que 67 acabou degenerando numa verdadeira batalha campal. Hobbs. . e qual a d imensão e a influência dessas fraquezas. onde residiam as fraquezas de uma determinada pessoa. Déborah assistira à luta estirada no chão . No entanto. improvisava m seus próprios reinos e. a sós com ela na sala de estar. enquanto o pé dele ia de encontro a Lee Miller . McPerson. n um único relance. Um dia. Todos aprendiam a ser "civilizados". às vezes Hobbs se comport ava de modo um pouco brutal. como se tendências autodestrutivas a temessem.

O almoço. Virouse para o adminis69 trador e viu-o encolhido contra a parede. vinha apenas adiar. tão distantes do mund o. uma terceira com um dedo quebrado. encarando-a com severidade. não tem havido injustiça alguma. Helene. quando o mundo subitamente explodiu numa avalancha de comida pegajosa e quente." Ouvia-se a recalcitrante sendo conduzida numa cama para o casulo gelado. a porta bruscamente a berta fez com que ele se voltasse. já fr io e meio comido por uma paciente que dormia junto à janela. Déborah pensou. concertando a roupa e tentando faz er o mesmo com sua pose. era por ele recebido de braços abertos.Já comi isso. os agressores e ram mais favorecidos do que os agredidos. Devido à confusão. volve u o braço. onde havia sol em abundância. . arremessou a bandeja direto sobr e a cabeça de Déborah. o dia em que el e acabaria num hospital psiquiátrico também como paciente.Eu disse. procurando. . ordenou: . examinando-se para ve r se sangrava. olhando de relance para o cozido. que Helene pretendia apenas comer na sala. . com braços musculosos e fisionomias contraídas de medo. sutil e cautelosament e. não há dúvida. pois era . que veio sentar-se em sua cam a. Cerca de uma hora antes da entr evista com o médico.O que foi que você disse? .Olhe. atraí-los. Limpou a sujeira e foi para a cama. o trigo. você nunca achará um homem! . Não havia injustiça alguma. arraste-se. Déborah rogou mentalmente algumas pragas contra aquela balbúrdia. para subjugar a estranha bailarina. Déborah não se conteve: .Minha querida. assim. ao que parecia. por algum tempo. Não estavam.A Esposa do Assassinado encarou-a com severidade. Não conseguira fazer com que falasse além do que ela própria queria. Notou que estava furioso e desapontado p or ela ter contribuído para frustrar suas intenções. como em toda parte. onde a aguardava o seu almoço. ela recuou o pé. . com ess a aparência. Ali. Era Helene.Até logo Helene.. e com um movimento delicado e preciso. . . a beleza daquele baile. teve que esperar meia hora até que um auxiliar viesse destrancar o banheiro para que se limpasse um pouco. . ainda que ela parecesse mais uma máquina d ebulhadora. duas enfermeiras com olhos rox os e contusões faciais. Helene 70 abordou-a e.Coma.Não me machuque. fora servido enquan to conversavam. De repente. soufflé. -A afirmação pareceu ao médico um tanto enigmática considerando-se que o saldo da briga fora uma paciente acamada. preocupavamse com ela.Deu as costas e voltou à sua conferência imaginá ia. Por entre a sujeira que escorria de seus cabelos e do rosto. O médico se levantou para ir embora. e o menor sintoma positivo que se manifestasse. conversando com bastante clareza.. no final das contas. Costumava ficar em reclusão num quarto. afinal.Seus gritos atr aíram os auxiliares. outra doente.respondeu Déborah. mas o importante é que se ocupavam dela.perguntou o médico. mostrou-lhe algumas fotografias q ue recebera dentro de uma carta. e eles. sem ser exigente. que logo acudiram.Volte para seu lugar.Eles vão arrancar tudinho de você depois. O médico. de início.recomendou a Esposa do Abdicado. Não me machuque! Eu sei que você é forte! . que vinha com sua b andeja de almoço para a sala de estar. Déborah apreciava. Déborah murmurou: .um entre ele e os pacientes. querida . implorando num tom bem diferente de su a fala pausada e profissional: . se limitavam a dar a cada h omem o que este realmente desejava. Foram rudes com Helene ao subjugála. . Déborah ficou impressionada com o núme ro de homens para uma mulher tão pequena. sem se mexer.Não quero . "Relevez. mas ao reparar bem na expressão dela viu que não se tratava de sol. Helene. O médico saiu afobado para ajudar a debelar o tumulto e os gritos que vinham de um dos qu artos dos fundos. outra com fratu ra na costela. Déborah ficou sozinha no meio da desordem. Os pacientes. faça a guerra! .Num único e gracioso gesto. Déborah compreendeu num estalo o motivo da agressão. e Déborah concluiu que o pulso quebrado de Hobbs.

só essa destruição terrível. a porta tinha ficado aberta e ninguém reparou quando el a foi procurar Déborah. . contudo. . com as pancadas que se repetem sem parar.Filósofa! .Referia-se a uma menina simpática.Onde não existe lei alguma.murmurou Déborah para si mesma. a escola. Quando fui pergu ntar a razão. 71 .mas o que se passou na sua vida nesse meio tempo? . apesar-das-lições-de-boas-maneiras. aproximando-se cada vez mais .Imorth . Passava os dias sozinha. Eu nunca soube por quê. a vida continuava sombria e o desespero só fazia crescer.por mais inevitável que seja. essa antipatia se transformava em ódio ou aversão. Fr eqüentemente.perguntou e sentiu que o terren o começava a ficar perigoso. não é verdade? Déborah recordou-se de uma cena ocorrida numa época em que sua vida consistia unicam ente em esperar o fim inevitável. A me nor! . sua fama de mulher violenta e obscena. cumprimentei minha melhor amiga e ela me virou as costas. .Temos as mudanças e temos o mundo secreto . . apenas uma sensação meio cinzenta e a surpresa do inevitável. As empregadas não paravam em casa. e pediu: .Surpresa do inevitável? . Um belo dia. . numa traição à sua máscara agressiva. ela se voltou e disse: "Depois do que você fez?" Nem falou mais comigo . você tinha que preparar as decepções por sua própria conta. Pouco depois. ..Vá embora. vindo das mais ines peradas direções 72 . a auxiliar encontrou Helene e mandou -a voltar para seu quarto. E aparecia na forma de uma antipatia intensa. imaginar. ao passar por um grupo d . "depois do que você fez. nem escutou as pequenas confidencias que trocaram a respei to das fotografias. Embora já tivesse saído da colônia anti-semita..Depois de algum tempo. a colônia de fér as.Tentei. não entend ria nada. nunca mais vou defender você sem que eu soubesse o que tinha f eito ou dito. . terra de ninguém.temida por seus acessos de fúria e violência. demitiam-se uma atrás da outra.É difícil abordar esse período.ponderou a Dra. jogou-se na cama. lembrar. Carregava o bloco por toda parte. nem descobri o que tinha feito. Compreendia agora que o motivo da agressão era querer desacreditá-la como testemunha da vergonha e da miséria lembradas por aquele retrato. agarrada a ele como a um escudo..Você tem certeza de que não está omitindo nada aí: algo que você era levada a fazer e qu e enfurecia seus amigos? . que figurava no mundo real. Mas a razão disso eu não sei .e a gente acaba se conformando com a sombra dela.Na escola támbém havia anti-semitismo? . Nesse dia. estou cansada. e e u sempre tinha que "pedir desculpas". Ora. Certa vez.Não. Conhecendo seu temperamento explosivo.Quem sabe não é porque você mesma procura as pancadas e os sustos nesse mundo? Isso quer dizer que eu mesma preparo as decepções? . As pessoas chegavam para mim e diziam. explicando quem era. tirando um pedaço de comida grudado no c anto da orelha. Não permitia que alguém visse seus desenhos. terra de pesadelos. aproximando-se. Caso contrário.". .Essa aí fez faculdade comigo.O que é que você sentia nestas ocasiões? . Não faço a menor idéia. pensar. desen hando sem parar. Fried . e foi para o corredor. até que se deparou com um determina do retrato e disse: . durante os quais virava uma verdadeira fera. sem saber por que pedia desculpas. não sei quantas vezes. tudo parece se resumir em ódio: o mundo. Déborah apressou-se a sair de seu próprio dor mitório. Estiveram juntas assim durante um bom tempo: ela ia indicand o um ou outro personagem. ou "depois d o que você falou. sofro o tempo todo com a imi nência dessa destruição. A hostilidade visava só a mim. Helene tirou bruscamente a foto grafia de suas mãos. não. Na escola as coisas eram mais verdadeiras. Era preciso manchar o espe lho para que deixasse de refletir a recôndita vulnerabilidade que transparecera su bitamente.

. As pessoas do grupo negar am uma a uma .Ei. A responsável pela mentira foi você mesm a. Déborah percebeu que ele só estava tentando ajudá-la. Os pássaros usam os cabelos dela para construir seus nin hos e para polir essas coroas. isso sim. o que é isso? quem deixou cair? . .. e todos exclamam: " Que menina de sorte.Deb. até cair de tão rouca. foi até a escrivaninha. estava sendo travada com determinação.Depende do tipo de perspectiva . Carla! Não sabia que você estava aqui em cima.eles me fizeram repudiar m inha arte. acho que vou guardá-lo para me lembrar. . Fora-se a antiga apati a. na verdade. ele a defenderia. a menina tem todas as regalias. pelo menos. Coroas. não é meu! . um de seus desenhos escorregou do bloco sem que p ercebesse. . . tudo o que o dinheiro pode comprar. A doutÔra. Era um desenho intrincado. eu tinha ódio demais arrolhado dentro de mim. Confesse. . apena . vamos. Caso a mitisse que o trabalho era Seu .Não! Ao encará-lo com mais atenção.Quantas vezes dizemos a verdade e morremos por causa disso! Ergueu-se furiosa.isto é.Não.perguntou o rapaz apanhando a folha. . .retrucou a doutôra. Fried viu sua paciente correr e voltar-se. Déborah estava sentada no chão da ala.É seu? . Diga a eles que não é preciso ser saudável par a entender de perspectiva linear.Mas Déborah.exclamou Déborah sarcasticamente.assumisse a punição . o riso dos outros. E la possui a mais bela das coroas e o mais pesado dos cetros.Vejo claramente a raiva.Estes são rouxinóis.Guarde isso para mostrar em suas conferências aos médicos eruditos.. não haveria mais para onde fugir: teria que encarar a si mesma. que viria a cul pá-la. e a destruição que ela própria tramara se consumaria.concluiu ela com amargura para a doutÔra . mas há símbolos aqui que você precisa explicar. correr e voltar-se.Ora. e é com os ossos dela que eles dão brilho no cetro. Encarou a doutÔra. com suas recriminações intermináveis. O eco emitido de regiões tão profundas testemunhava a saúde que sobrevivia em p otencial dentro da menina.Está vendo .eu não.. Ergueu os olhos para Déborah. pássaros. de que a força criativa é suficientemente vigoro sa e profunda para germinar e florescer. o rapaz estava implorando que você não a repudiasse e. uma excitação inig ualável. . Déb.Não é seu? . onde posso gritar. . com ela. não é meu. eu não. . Recompôs a fisionomia.e jovens que brincavam e riam. . banindo os sinais de excitação. Sabiam que a D não era em absoluto a "pior" ala. gritar. . Queria assumir o papel de benfeitor. cheio de figuras estranhas.Coroas e rouxinóis! . o Coletor. . aguardando pre74 guiçosamente o encontro com Anterrabae. não é meu. mas a que preço? . . Foi você que imaginou que eles ririam. ao mesmo tempo irritada e assustada: 73 .até chegar a Déborah. Sentiu que brotava dentro de si uma grande esperança e. ning uém riu. em pânico. não. Decidi vir para cá. para evitar que Déborah se danasse de vez e partisse para querer provar que seu Yr exi stia. entregou a folha à doutôra. apanhou uma folha de papel e começou a de senhar uma réplica às acusações que todos pareciam lhe dirigir. O rapa para ela e perguntou: . . .Mesmo assim. quando viu Carla vindo pelo corredor em su a direção. todo mundo a censurava Desenhou furiosamente por algum tempo ao Terminar. . Tão graciosos! Olhe. Agora a batalha. apesar da doença.Oi.. . D entro em breve.Não. Entreolharam-se e sorriram. cetros. Carla parecia exausta. quantas coisas ela tem!" A Dra.

Veio a noite. Agora ela está vivendo lá fora e trabalhando.. o instinto que clamava por alg um vínculo de participação no mundo. em que as pacientes ficavam contando lances passad os de suas vidas ou trocando os boatos que corriam. Formavam-se às vezes grupinhos. entrando sem medo na esco .Na cinco e na dezoito. ou participado do perene ciclo de vida e morte a que estavam sujeitos. Doris passou por lá. enquanto beiravam o Inferno. descobriam que o demônio não passava de mais um entre tantos. O mundo exterior e os seres que lá viviam eram absolutamente estranhos para ela. guria. Agora vão para o inferno! Quero ficar sozinha! As meninas se afastaram e se dispersaram pela sala de estar. Anterrabae exclamou: "És)orça-te para que algum di a saias e Vivas.perguntou Helene. corredor e pelas camas. .O próprio. um cara mais pirado do que os pacientes. uma agon ia exposta ou desesperos violentos.Para lugar nenhum. ouvindo o Coletor que recriminava suas faltas em salmo s intermináveis. Déborah ficou no seu canto. Reviu as ações mais simples e mais triviais. como se ja76 mais tivesse comido com eles nas mesmas mesas. Só que o mundo agora era povoado de psicóticos e limi tado por muros e por alas. caminhando juntas.Hesketh?. que passava por elas. A Esposa do Assassinado empreendeu uma de suas tent ativas mensais de fuga: investiu de cabeça. . nas alas A e B.Pô. como uma série de ima gens instantâneas. era preciso conservar um status e respeitar certos simulacros de formalidade. e ninguém em p articular. se era! O chefe lá era Hesketh. Será que realmente alguém saía? Será que alguém poderia apontar uma pessoa bem sucedida . quando c hegavam lá.uma pessoa para quem esse lugar fora um meio e não um f im? As perguntas choveram sobre Lee.. Nós nos conhecemos em Concord.Crown State.Baixo e mei o magro? Olhos azuis? Engole os erres? Ele levanta a cabeça assim? . conheci Doris quando esteve aqui na D. q ue agora lhe pareciam dificílimas. Ela disse que aquilo era um verdadeiro manicômio . reduzidas a uma única dimensão.Ah. Era veterana em todos os tratamentos de que já ouvi falar. Lee Miller coçou a orelha pensativamente: . . como um touro cego. Ficou aqui durante três anos. Nas outras. As pessoas. . A incredulidade foi geral.Escutem. . Esforça-te para que algum dia saias e trabalhes e te tomes uma pessoa! Trem eu de medo.Para onde mandaram ela depois? .Tive uma amiga que foi da sete. mergulhando de novo em seu transe. até que ela perdeu a paciência e disse: .. e continuava doida varrida.. . . . mas não sei a fórmula do sucesso e não vi mais a Doris desde que ela saiu! Sei apenas que está lá fora e tem um emprego. No meio da zoeira. no momento em que a trancavam. banheiro. Doris Rivera. . Meninas dizendo alô. . As "Perturbadas" podiam estremecer nas bases sempre.Jessie esteve lá. tremiam de medo do demônio. 75 percorrendo o corredor como se acompanhasse em transe uma procissão.Quem é? .Em Concord? Em que ala? . .s a mais honesta. contra a porta da ala. Estou me lembrando. Mas. por mais que negassem.Mount Saint Mary. foi antes de seu tempo.Filho da mãe! Fui espancada por ele no Mount Saint Mary. Retcomou a caminhada. as pessoas sussurravam seus sintomazinhos e to mavam sedativos e estremeciam de alto a baixo a cada barulho mais alto. . Assim. tão logo as bandejas do jantar foram retiradas . Os ociosos e os marginalizad os expressavam desse modo. . mas estavam livres das sutis e traiçoeiras correntes da loucura clandesti na.Onde você esteve antes? .

com um gesto imperceptível de mãos. tentou chamar a atenção. Você está conseguindo me ouvir? . Uma voz chamou a seu l ado: . e compreendeu a fotografia da bela colega de faculdade. em certa medida.Quem foi que pegou o turno da noite? . plano e em perspec tiva reduzida. a figura de McPherson chegando pelo corredor. Todas as outras mães estão orgulhosas de suas filhinhas! repetia o Coletor. O pavor crescia à medida que seus sentidos iam deixando de obedecer à sua vontade. Carla cont . disse: 77 .. Só muito tempo depois recuperou os sentidos.atraído pela veemência de sua expressão. como num desenho animado. en tão.Eu também ainda sou novata aqui.la.Essa noite só? . Volto já. Percebendo que ela estava em pânico. . Desmoronou nele. Tu não és como os outros! Gritou Lactamaeon do fundo de Yr. e nem sentiu o primeiro choqu e gelado do lençol úmido. Déborah avistou. onde o casulo aguarda va já aberto. Pouco depois. até o final do corredor. chamada também -a Dissimuladora.O que foi que aconteceu? . O máximo que conseguiu foi gesticular timidamente com o cor po e com as mãos. os movimentos quase esp asmódicos de sua mão. .Deb? É você? . .disse Carla. sendo cortejadas.Déb?. . volta para o mundo com aquela tua famosa doutôra? Rosnava o Censor.Déborah.Hobbs.. namorando e depois se casando. O que há? Não conseguiu responder. Tenta! Afastou-se d eixando uma aragem que cheirava a coisa queimada. Alguém dizia ao fundo: . Débora se aproximou. .. apoiada em alguém. vou chamá-lo. Tiver am que conduzi-la. Conversaram durante um bom tempo. ou a neve de inverno. Em meio ao ensurdecedor burburinho de vozes. Puseram Helene e Lena no quarto ao lado . da angústia que a impelira a destruir o rosto visto. o que despertou nela o desejo de vê-las.Quanto tempo durou? . em meio ao intenso odor de éter e clorofórmio que emanava do Abismo. Você pode andar? Ensaiou alguns passos.. .McPherson procurou de novo se comunicar co m ela: .O que há com as meninas essa noite? . . a realidade tátil de seu próprio corpo e de suas roupas se tomava extremamente tênue. vou ped ir ajuda.muito piores! O momento agora é para te esconderes e ficares escondida. avisou. escutando sua própria respiração e. sentiu. .Déb. . Vai. Lee Miller está com um ataque histérico.O tom denotava uma clara aversão.Preferia que fosse McPherson. Passou a enxergar tudo cinzento e a ouvir muito mal. Cambaleou. .Você voltou a si um pouco depois de mim. que podes ficar abrindo segredos e continuar segura para sempre? Há outras mort es além da morte . Déborah. não tenha medo. Deixou-se ficar respirando.. Avolumavam-se os murmúrios oriundos de Yr.perguntou Déborah. soltou um longo suspiro. retorcida de um modo estranho por causa da tensão nervosa.Carla? . mas não cons eguiu falar. quase que agradecida.riram um pouco. o cheiro de pessoas. mas a ala está mesmo uma l oucura essa noite.Agüente firme. O tato também s umia. Sentia m-se contentes de estarem ali jun78 embora fossem incapazes de admitir que. deixando a realidade voltar aos poucos. deus a raramente vista. no tom p rovocador e mordaz que empregava quando as coisas pioravam muito.Sei lá! . McPherson olho u de soslaio e parou. Lembrouse de Helene. .a voz de McPherson. Vá. Logo estaria longe. . eram amigas. aos atordoantes lampejos de deuses e rostos do Coletor. Estava tudo branco: ou eram as enfermeiras. mas perdera inteiramente o senso de direção. Sussurrava Idat. querendo protegê-la. já! Déborah esperou. Meninas graciosas. chama! Anterrabae soltou uma gargalhada. .Eu mesma. finalmente. Achas. Idiota! McPherson passava diante dela.

virou a cabeça para a parede. contudo. . E nós ficamos assustadas porque algum dia teremos. seus dentes rangiam de pavor e frio. . então. Déborah.declarou para o auxiliar que entrara atrás dele.. .Eu sei. Por alguns minutos o peso do silêncio pairou absoluto sobre as duas.Você poderia ter me magoado.murmurou Déborah.O quê? .Essa aqui também . fazer você sofrer mais. Déborah. . . . Naquele instante. as dúvidas. cujo contato na nuca lhe lembrava a realidade. doutor. . em seu íntimo.Nós não scomos como os outros . que ficar "boas" e volta r para o mundo. você acha que tem razões para ser mais louca do que eu! .. sentindo a costumeira dor nos ossos dos pés e dos joelhos provocada pela má circulação.Ela ficou boa saiu e agora está trabalhan do.Carla. podia ver) na cama vizinha o corpo mumificado e imóvel de Carla. Déborah começou a lutar contra o casulo. sessões que se realiza vam na própria ala por causa da violência de Helene. sem o menor rancor.a voz de Carla foi cortada pela lâmina do pânico. sem maldade: .. subin do. A gotinha que você pingou já se p erdeu na inundação.Não? Deixe mais uns vinte minutos! . A seta atingira o alvo.. Não queria magoar você. .. .O velho Craig simplesmente não conseguiu suportar aquele silêncio todo.pensou consigo mesma . . seu corpo tremia. choramingando e cont orcendo-se dentro das amarras que a imobilizavam. "Meu Deus . Reagi para me proteger.berrou para Carla. quase chocante.ou que tinha escutado uma das sessões de Helene com seu médico. Eu esperava que a qualquer momento Helene di ssesse: "Acalme-se. começou a seespreguiçar. uma amargura recente mas que já se tomara familiar. . .ponderou Carla. . nesse novo contexto. ..Estou apenas verificando .. Eu sei o que foi que aconteceu conosco. . uma amargur a que encobria uma velha e contundente palavra: Verdade..ouviu a inspiração ag oniada na cama vizinha. No interior do invólucro branco e estático.voltei a ser o que eu era lá fora: uma montanha imóvel que guarda um vulcão dentro de si. a voz de Carla e.. O silêncio é mesmo fatal . . hesitando se realmente queria saber.Vá para o inferno! ." . um pouco menos dessa vez. . .. para surpresa de Déborah .E como não podia entender a razão pela qual tinha sido poupada.A carne já está cozida? . Doeu de novo. .Não. Sua cruelda79 de. Pressionou a cabeça com força de encontro à bolsa de g elo.Ainda está bem alta .insistiu Carla com convicção. seja verdade. não foi para agredir você.concluiu reaprumando-se ao lado de Carla. . identificada de início por meio de palavras Yri. . o único som audív el eram as suas respirações. . mas não me magoou! .Só porque a sua mãe era louca e acabou se matando.. já inteiramente consciente.gracejou Carla num tom amargo. não lhe trouxe alívio. 80 . A fórmula consoladora de Yr pàreceu-lh e. não foi. O corpo tremia. e ele cada vez mais perturbado. . .Foi sim! .as palavras custavam a sair ." Quando ele saiu de lá.Doris Rivera! Aquilo despertou. porque existe uma possibilidade de que nos abram essas portas pa ra o mundo.era Hobbs. Apagaram a luz e saíram. morta de vergonha. acendeu-se a luz. Estou aqui apenas para ajudá-lo. Déb.perguntou Carla na escuridão. Desandou a falar. parecia uma de nós! Déborah. é como um copo cheio que transborda. De onde estava. o coração de Déborah martelava.. uma amargura terrível. parecia. o estômago pesa a. Piscaram os olhos ofuscados pela claridade. Ouviu-se.O que foi que houve? . e o tom de voz foi subindo. .Perdoe-me pelo que eu disse. Entrou e tcomou a pressão de Déborah pela têmp ora.perguntou Déborah.Minha doença.O que disse sobre Doris Rivera talvez.. a realidade.

Virara-se para DÉborah coM uma piscadela de olhos e disse ra: . camuflou e trancou os relatórios o quanto pôde.Dizem que ela melhorou em alguns aspectos . levaram Su zy a exclamar. finalmente. e vinte e três no do comprimento (incluind o a junção coM a parede) . Nos primeiros dias de sua permanência na Ala D. O medo e o desejo de tirar a limpo de uma vez por todas aq uela derrota. Jacob. . e o máximo que ela podia fazer era tentar acalmá-lo. a culpa por prever a derrota. encarando o pai e a mãe: . A perspectiva deixou-a terrivelmente assustada: sofreriam me nos. e que noite após noite vinha atormentar seus sonhos. em termos vagos e pouco com prometedores. Os argumentos driblavam a filha. ia para junTo 82 . só que vivenciá-la implica a em arcar coM um tédio interminável como a própria doença.Sentaram-se depois. no entanto . a coitadinha da Debby! Levantou-se furiosa e abandonou a mesa. lute contra eles. bem mais severos que os anteriores.Se você não pode se aliar a eles. freqüentemente duvidava do que dizia. afinal? No íntimo. das de reclusão. C hegou a se perguntar se sofreriam. Fora transferida para que " melhor a protegessem". o dia todo. Esther sabia desde o início que não lhe poderia esco nder a verdade. No teto. a convergência desses sentimentos conflitantes. de forma tão palpável. saboreando cada tragada de seu cigarro. DÉbor ah costumava ficar acompanhando o piso. cont omando-o onde se ampliava para formar o chamado "saguão". Era Debby. e fi caram esperando o tempo passar. Carla tinha vindo do último dormitório até a porta gradeada da ala. decidiram esquecer o relatório para o bem de Suzy. A nova situação oferecia a possibilidade de uma segurança física maior. para esmiuçá-lo daqui e dali. pedindo sem parar: . Tin ham recebido mais um relatório. Isso bastava para despertar imagens grandiosas e feéricas em sua mente. que comia e tagarelava jovialmente. Carla estava sentada ao lado de Déborah na sala de estar. contomava e retomava pelo outro lado do corredor. reformulados pela nova enfermeira-chefe . repetindo mil e uma vezes as palavras prudentemente vagas do administrador da ala. Agora. e o pessoal médico começava a dar sINais de ir ritação. consciente e inconsciente ao mesmo tempo da causa daquele clima pesado. Estava obcec ado com o grito pavoroso que partira de lá. desde que "autorizados" por uma enfermei ra óu auxiliar. não queria acreditar. do corredor e dos quartos. dos dormitórios (onde não era permitido ficar perambulando). passando diante das portas do banheiro da frente.insistia Esther. Quando se cansava desses pas seios. Pensava: o asilo de loucos. DÉborah pôde dramatizar sua condição por m eio de um simples recurso mental. da "ala dos violentos". Ela própria. aquela espessa neblin a que os envolvia e os distanciava tanto um do outro. mas não sem reparar no sofrimento estampado no rosto dos pais. J acob também sabia. por favor! . a enfermaria. Segundo os regulamentos. caso fosse ela quem estive sse longe e doente. Sempre Debby. o ódio contra Debby por ela se apossar de todo o amor.10 A família Blau sentou-se para o jantar. via a penas aquele andar superior. havia dezenove furos por dezenove furos. . atravessando. Nos momentos em que estava presente à realidade da ala. os pacientes que desejassem fumar deveriam fazê-lo no corredor ou na sala de estar. redigido! como sempre. mas acabar am voltando a ele.Cigarro. Já havia duas semanas que os gritos "Cigarro!" "Cigarro!" ecoavam. aliás. O que significava isso para Debby. os terrores e a agressividade que sua querida filha reprimira tinham enfim vindo à tona. Jacob leu e deduziu que os ódios. recomeçando tudo de novo. para aqueles gritos. enfim. revestido de grades e barras de ferro. Ao se sentarem à mesa. do banheiro dos fundos e. Esther estava desolada. seguindo-o ao redor da s ala de estar. a ala dos violento s. par a lá é que tinham levado sua Debby. Havia dezenove fendas no sen tido da largura do chão gélido do corredor. discutindo-o numa espécie de código. Para aquele andar. era quase certo. Jacob furioso. Dissimulou.Muito bem! Ela não está jogada numa cova aí qual85 Quer! Tem mÉdicos e o diabo! Por que então todo mundo vive chorando e lamentando a p obrezinha. para cima e para baixo do corredor. revestido de placas à pro va de som. em seguida.

Só podiam ser usadas na presença de um auxiliar. portanto.Assim que puder. pela mudança de turno.acontecimentos. e ficava esperando que algo acon tecesse ou não acontecesse.Que tipo de desenho seria? . os pacientes se divertiam bastante. sonhos pavorosos. onde os acessos de violência e as crises de agonia despontavam como um oásis.. como de hábito. Fried estava ausente. erupções vulcânicas de terror. freqüentada na parte da manhã pelo pes soal da D. Vou desenhar um retrato seu . permanentemente en garde. Dentro dos banheiros. DÉborah teria. Poderia. contudo. pe la hora de deitar.Verdade. afixado sobre a porta da enfermaria. assistindo a um congresso qualquer. uma ou outra pa lavra trocada de passagem. Carla logo compreendeu que ela dera um jeito de furtar lápis e papel e escondê-los.É necessário papel para fazer retratos . repetia que a pacie nte estava progredindo conforme as melhores expectativas. . sendo narrados. especialmente coM a Dr a. ai. mas não o fez. o ambiciona do lápis se achava enrolado em elásticos e enganchado sob a quarta mola da cama de Déb orah. algumas vezes. O plano funcionou às mil maravilhas e. ficavam as banheiras. sempre t rancadas. pela distribuição de sedativos e. . se quisesse. Depois. Estavam atrás do cano de água fria. o sono.Aquarela.Isso significava "muito obrigado" .Você vai precisar também de alguma coisa onde possa apoiar o papel. uma briga. O tédio da loucura era como um deserto.Isso queria dizer que tinha um livro escondido num lugar acessível. Passava. foi preciso esperar pela distribuição das bandejas. esta deleitando-se coM o cigarro.das mulheres petrificadas. muita água. go zavam justamente de um desses momentos. DÉborah e Carla. e os momentos efêmeros e singelos de companheirismo abençoavam como a chuva. Ouvia as denúncias do Co letor. mas. procurando. O regulamento autorizava apenas uma paciente a usar as pias de cada vez. pedindo autorização para visitar Déborah em suas novas acomodações. Precisaria de muita. pelo jantar. acho que preciso lavar os cabelos .disse DÉborah. Déborah poderia ter-se inscrito para a oficina de artesanato. reconfortá-la. entrevistar-se coM a médica de Déborah. enfim. portanto. Tinha. ao fim daquelas punições e sacrifícios. e visitas à Ala D não eram permitidas. onde convenceria a auxiliar a abrir a porta que d ava para a banheira e a distrairia durante o tempo suficiente para pegar seu tes ouro. . A resposta. os sarcasmos das divindades e os elogios de Yr. Caso houvesse . seguindo coM os ol hos a fumaça do cigarro da amiga. o acesso de furor de algum pacien te . exceto se houvesse três auxiliares de serviço no banheiro. Se gundo o código.disse Carla displicentemente. sustos e ntremeados de alucinações sonoras. Esther escrevera outra carta ao hospital. proibidos na ala. desenhava um pouco sentada no chão e amparada pela cama da Esposa do Abdicado. Nos momentos de lucidez. e uma entrevista coM os médicos da ala. Fried.. mascarado como o rosto de 84 um esgrimista. q ue pedir o banheiro da frente. Carla sorriu: . na parte dos fundos. a não ser que fossem utilizados na presença de um auxiliar. . . finalmente. A Dra.Ai. visuais e táteis. pelo término do almoço . . pontilhado pelas refeições. O administrador da ala não se ocupava diretame nte coM a família dos pacientes. Se não gosta. estava sugerindo que ambas fossem pedir autorização para lavar os cabe los. enumerados e relembrados por muito tempo. relembrados apena s durante a perseguição aos frisos. e por isso não ha via sequer as sessões terapêuticas para quebrar um pouco a monotonia. Desistira de "fazer coisas". .sugeriu. um pouco antes da hora do almoço. um caso. empreendida pelos doentes ao longo das paredes d a ala. Carla apanhou no ar a ins inuação. Carla pediria primeiro e ficaria coM o banheiro dos fundos onde havia uma p ia ótima. agüente. comunicavam-se por meio de códigos e siderados armas e. desprovidos de qualquer interesse. nada restava senão esperar o interminável transcorrer do tempo. a maior parte d o dia contemplando o relógio. Às vezes. .Meus cabelos estão sujos. cumpria as exigências tirânic as do Censor. no banheiro da f rente. perto da enfermaria.

nunca se sente à vontade coM as amigas!" "Helene encara tudo como se fosse um a questão de vida ou de morte. embaçando os modelos horrivelmente alegres que ilustravam os anúncios : FACULDADE NO OUTONO ELEGÂNCIA CLÁSSICA PARA O CAMPUS E na página seguinte: PARA AS NOSSAS JOVENS DEBUTANTES BRANCO.algo a tratar. Será que'algum dia voltaria a participar do mundo dessas meninas? O hospital teria sido afinal um erro desde o princípio? Ao chegar em casa. Também era tímida.perguntou a Dra. e Esther mergulhou o rosto nas flores. que se aconchegara no divã. Terminadas as entrevistas. Procurou distrair-se coM as fotografias e as ilustrações. iludindo-os e aparando as perguntas mais embaraçosas com fluência e convicção.. Dav am os últimos retoques nos vestidos maravilhosos que suas filhas usariam. Rollinder. compromissos de trabalho impediram que Jacob insistisse em levá-la de carro. os de Déborah: "Marjorie é tão tím ida. Suas amigas e as filhas de suas am igas já comentavam as faculdades escolhidas como se trocassem cartões de visita. Esther conversou coM a assistente social e obteve as mesmas respostas. Quanto ao regulamento que proibia visitas. a ala e os médicos. Esther repassou todos esses diálogos. Fried mostrou-se gentilmente reservada.Não. apanhou o trem de volta para casa e. BRANCO NO PRIMEIRO BAILE A página era toda de miosótis. Quando s e encontrava coM essas mães e as ouvia contar os problemas das filhas. desfiavam seus sonhos nas páginas de um diário íntimo qualquer.. constatou que sua presença em nada facilitava o acesso aos méd icos. e que tudo ia muito bem. porque da próxima v ez estou decidido a ir com você. Chegando ao hospital. por sua vez. embora de forma ainda mais fri a e mais impessoal. Acho ótimo que ela tenha feito tantos ProGressos.Como foi que você destruiu sua irmã? . Esther tinha levado uma boa coleção de revistas para Déborah: sequer permitiram que as entregasse. Diria que tinha visto Déborah . Fried a Déborah. Também mascarava seu medo coM a pre cocidade e uma certa sagacidade cínica. Fried. Existe um termo Yri para isso. Jacob virou-se para ela e disse: 86 . Continuav a otimista. algo venenoso. julgando que se tratava de "uma base da doença". As colegas de turma de Déborah provavelmente estavam admir ando aquelas mesmas páginas. parecia-lhe que não faziam mais do que reproduzir em escala menor. mas não encontrou refúg io. vendo-se nos modelos. uma secreção. Felizme nte. Estariam ansiosos para escutar isso . É algo inerente ao meu eu. Não foi por querer. Começou a folheá-las. Trata-se de uma emanação da pessoa Déborah. Ela estava exposta à minha essência. v enenoso para a mente.. foi impossível cont omá-lo. apesar do calor de agosto que fazia na Terra. e estas. A Dra. BRANCO. conseguiria dar um jeito de b urlar os regulamentos. . ninguém ousaria contradizer suas histórias pelo menos durante algum temp o. tremendo com o frio que vinha de Y r. Ao contemplá-las. uma emanação venenosa. Quando tudo parecia ter ido às mil maravilhas.Maravilhoso. marcariam uma hora coM a assistente social. frustrando as esperanças de que. até que as lágrima s parassem de escorrer. portanto. Esther fez a exaustiva viagem de trem só para avistar-se coM a Dra. pessoalmente. Suas pequenas idiossincrasias eram idênticas às daquelas meninas. é uma qualidade do meu eu. procurando desfazer os temores de Esther pela transferência da filha para a Ala D. A mentira que contaria a Ja cob e a dor que precisava guardar dentro de si pareciam refletir-se em tudo o qu e via. Também era tensa. Olhava distraidamente pela janela do trem quando reparou que as revistas continuavam em seu poder.. sorridente e tranqüil a. reconhecendo um pouco de Déborah em cada um deles. conversou com Jacob e depois com a família. como o suor por exemplo. . já na viagem. sonhando coM o dia da formatura e preparando-se para ingressar na faculdade. seus olhos se enche85 ram de lágrimas. foi preparando as mentiras que contaria a Jacob e à família. a Sra.Alguma coisa que você diz e que destrói? Alguma coisa que você faz ou deseja? . ela é tão tensa". .

87 . A doença é o vulcão. me lembrar de um dado que eu tinha esquecido . Déborah teve um acesso de autocomiseração pela criatura cheia de miasmas que era e pôs-se a discorrer sobre o fenômeno. segundo Déborah. As encostas e escarpas. Quand o terminou. carregado de culpa e tormento. mas o prazer de se auto -acusar arrebatara Déborah com tamanho vigor. Nunca mais tocaram nesse assunto. e todas as pessoas que conhecia acabavam. Contudo. . por que então não escondê-la e continuar em segurança? . É um truque velho. Déborah dobrou-se trêmula e ofegante de dor. está por baixo disso Nunca transmiti sintomas a ela. minha querida.Engraçado. e a menina monstruosa que acabara criando.Diga uma coisa: você fazia com que ela tivesse alucinações ou sentisse o cheiro de c oisas que não existiam por perto? Você fazia com que ela duvidasse de sua própria sani dade ou perdesse a noção de realidade? . e então perguntou com voz pausada: . mais cedo ou mais tarde. lá fora no mundo é agosto. Para que uma pessoa se esconda. defendendo e embalando a imagem irreconhecível criada por ela. por ser amorosa e impressionável. Não houve estrondo nenhum de nenhum canhão.Tenho. Descreveu os ciúmes dos primeiros tempos e o amor que surgiu depois..respondeu Déborah. mas o frio e a névoa só existem dentro de você. em parte.Eu tentei matar minha irmã quando ela nasceu . ou inventar outros acontecimentos. . basta esquecer.A doença não está em ver ou ouvir coisas.. isso realmente não adianta.disse e ficou surpresa ao ouvir s ua própria voz pronunciando tais palavras. A doutôra esperou até que Déborah estivesse e m condições de ouvi-la. ampliando cada vez mais seus contorno s e a virulência de sua substância. exclamou o Censor . vinha s e desenvolvendo havia bastante tempo. . que parecia uma paixão às avessas: ela e sbravejou.. adornou cada uma de suas infâmias com uma eloqüência absurda.Não. ou truncar os verdadeiros.perguntou a doutôra.Como foi? . Você vem. o que dissera sobre a emanação maléfica era. e desferiu uma flecha aguda que atravessou seus domínios para lembrá-los de sua supre macia.Pois bem. se tomara uma criatura estranha e irreconhecível. . O disfarce que consiste em pôr toda a culpa nos outros. . . .Não .. desde que começaram essas chuvas e esses nevoeiros gelados.E continuar louca. mas também o que você fez com você mes ma e continua fazendo. considerando o que fizeram comigo! . .Seus pais castigaram você? .Você ainda tem sentido muito frio? . ao saber que outras potências disputavam a sujeição dela. sendo corrompidas por ela: Suzy mais do que ninguém. A doença. continuar louca. Para Déborah. muito a propósito. A doutôra insistiu para que voltasse a falar sobre a destruição de Suzy. O céu está limpo e o sol quentíssimo. . .Subitamente. . Lamento. sim. sua sombra tomara-se imensa. Nunca ligam o aquecedor na ala.. sincero e parecia m esmo acontecer. Não passam de bons métodos para fugir de uma verdade que pode vir a ser dolorosa. ela as e nfeitará como bem entender. .Não..aparteou a doutôra com um gesto de mão.Quer dizer que continua tentando jogar areia em meus olhos? Déborah protestou. . Quando ia fazer isso. O cheiro nauseante de éter e clorofórmio envolveu-a e as pulsações do coração se fizeram nsurdecedoras. .iris. ma s a doutôra foi irredutível: . Eu te preveni.Ah. Por que não. 88 O tumor despertou furioso. tomeou. Invadiu-a um sentimento de profunda grati dão pela família.Que seja.Um momentinho.Tentei atirá-la pela janela. as exaltações subseqüentes se encarregaram de transformar o f enômeno numa coisa bastante irreal. Esse disfarce s equer foi inventado pelos seus iiris.Ora. mamãe entrou e me impediu. Evita que você tenha que e ncarar não apenas o que realmente fizeram com você.

Compaixão. que optaria por trabalhar em hospitais psiquiátricos como altemativa à prisão. repetiu Yr. . . paira no ar. compaixão. . Segundo essa visão.. Lactamaeon levou-a até o pântano para que visse. lunáticas. aí vem o govemo e diz: Vamos esfregar o nariz de vocês naquilo para verem o que é 91 bom! Escolham: ou a prisão ou o hospício! . Quando o turno da noite entrou. birutas.Vergonha e intimidade. Hobbs fizera tinha si do mostrar a língua para elas. piradas. O caso era para ser mantido em s igilo absoluto.Pois é. Hobbs tinha ido para casa depois do ser viço.que consentira em viver com um monstro e tratá-lo como pessoa.declarou ela.Depois da operação. o mau cheiro do cadáver persegue o crimi noso. foi a resposta dele. . mesmo que em vão. .perguntou ela. as pacientes não se sentiam obrigada s a manter a decência e a evitar de falar mal do morto. Todas as pigméias-monjasp risioneiras confinadas na Ala D.Não! Cheguei a carregá-la até a janela. .O que é que você tem agora. sabia muito bem que nessas circunstâncias.. Imagine a cara dele quando desco brir o que eu enterrei! . mas com uma amargura que era rara nela. Certa vez. ligado o gás e se matado. . Hobbs está encerrado.. Por outro lado.. esses desertores.pediu a doutôra. Por um instante est eve à beira das lágrimas. Detesto todos eles. . inclinando-se para ela. O sujeito é um Nariz. 90 11 Quando entrou o turno da noite. . . ele s são os Narizes e nós o aquilo. o que o Sr.Que cheiro horrível é esse? . Seu sorriso sarcástico deixou o auxiliar furioso.O que é? Leve-me com você . Havia em Yr uma região chamada Pântano do Medo. acumulando-se ano após ano. . e as lágrimas se recolheram imediatamente.Ambas riram.E seus pais de fato nunca tocaram no assunto nem fizeram perguntas? .E o burburinho foi crescendo. Nariz era um des ses condenados arrependidos.Nunca. As deformações físicas mereciam uma certa piedade.Déborah achava que eles tinham apanhado o fato escabroso e sepultado às p ressas num lugar qualquer. logo que o viram .Morávamos naquela casa ensolarada onde ficamos só por um ano. fechado as portas e janelas.Não foi só a idéia de matá-la? . pronta para atirá-la. mas a morte e suas convenções eram encaradas com o maior desdém. Carla limitou-se a murmurar: Gosto de ser a punição dele. Déborah desatou a rir. Na noite anterior.. Tu não és como os outros. Helene postou-se diante da enfermaria e começou a bater os pés com força.continuou a doutôra. sabiam do acontecimento. Eles se recusam a lutar . . enquanto as loucas furio sas. He lene tinha uma frase lapidar: "Um louco é um enforcado cuja corda arrebentou a tem po". caçoar a uma distância segura... E apesar de tudo o q ue me deram. os monstros e os corpos de seus mais temíveis pesadelos. há um ladrão que ouviu dizer que as pessoas co stumam enterrar e esconder seu ouro e suas jóias. Em algum lugar. tentavam acertar uns bons tapas nele. vergonha e intimidade. impregna tudo com sua podridão e seu ranço.Vim anunciar que o caso do Sr. de tudo o que fizeram por mim.. o Sr.Helene riu e alguém completou: . até as mais alheadas. numa ocasião em que ela disse: "Ah. como se faz com um cadáver em decomposição. espalharam a notícia para as de trás. Só por serem loucas. me sinto necessária . A expressão fora inventada por Lee Miller. 89 . você compreende.e riu. As que se achavam à frente do grupo. f lutuando na superfície de lodo. as pacientes acorreram ansiosas ao saguão para ver quem tinha substituído Hobbs. Helene? Caso encerrado . Um dos aspectos de sua doença é que todas se julgavam o centro do mundo. O barulho atraiu logo um auxiliar. e todas invejavam a morte.É um Nariz. Pássaro-um. . Todas tinham desejado se matar. . tentado o suicídio de uma forma mais ou' meno s diligente. mas a doença se apressou a lembrá-la de que chorar era humano. Ao saber da novidade.

extenuante e interminável. procurando descobrir qua l delas era a culpada. um riso bonachâo. perdida de novo no seu limbo. Afastou-se dali.Sem essas chaves. Seguiram adiante. não riram. a procissão de magos voltou a desfilar diante delas.. ninguém fez comentários irônicos a respeito daquelas súbitas ausências me ntais dela.Aposto que está com medo de que a gente o contagie . Queria dizer com isso que os seus pés estendidos à frente do assustado rapaz simboli zavam os aparelhos nas corridas de obstáculo que os recrutas tinham que saltar dur ante o treinamento militar. Helene estremeceu de repugnância quando ele Passou. como se a porta e a fechadura fossem outras. . mas bastava chegar um con vidado. por favor! . A entrada de McPherson constituía para ela um acontecimento absolutamente diferent e do anterior. contentando-se em repreen dê-las novamente para que saíssem do chão. aí vem outro freguês para o gás! .Chiii! Meu Deus. Mary. por se tratar de McPherson. isso não lhe despertava nenhuma reação sarcástica ou agre ssiva. 92 cacarejando desculpas por tudo e por todas.Talvez ele seja bonzinho .a. . Ora. As enfermeiras. contu do. Déborah ergueu os olhos para o Nariz. carr egando consigo o Nariz todo empertigado. Voltou a se recostar em silêncio.fechadura. tinha aberto no. trocado. ao ouvir os gritos. Sentiu obscuramente que essas palavras feriam-no de algum modo. Caíram todas na gargalhada com essa alusão a Hobbs. . que tinha morrido por causa disso. Quando.Levantem-se do chão. tal como Déborah anteriormente. soltou uma gargalhada e proclamou: .. Eu também não gosto desse negócio de chaves . era a expressão verdadeira e natural de suas personalidades. lamentan aue a casa estivesse "tão des arrumada". . Ficaram para assistir a primeira caminhada. porém.disse Déborah. Deviam. As pacientes sabiam que aquilo era mera for malidade. e percebeu que ninguém tinha compreendido.declarou com voz cantada. com sua jovialidade importuna. A expedição acercou-se delas. Déborah olhou para com severidade e comentou num tom significativo: . que é isso? Não scomos assim tão diferentes! . O homem. estava at errorizado.disse Carla. que ela e as outras compreendiam que lhes cabia subs tituir os "horrores de guerra". Constantia parecia estar decidida a passar aquela noite ando.pediu a enfermeira-chefe da ala às meninas que e stavam sentadas de encontro a parede no chão do saguão e do corredor. Repetiu-as. .. comentou rindo: . só que demonstrar esse sentimento signi ficava demonstrar que eram vulneráveis. . contentou-se em rir. não p uderam conter a crueldade que.. começou a gritar assim que o viu. Como a presença de McPherson paira sse ainda no ar. As pacientes caíram na gargalhada. No entant o.Atenção carrascos de Hobbs. Suponho que devemos chamar um deles de Nari na . daí terem que ocultá-lo.Obstáculo! .disse antes de entrar na enfe rmaria. para que as enfermeiras. Carla olhou à sua volta. Ap ressara-se apenas a tapar a brecha que ele. Todas ficaram contentes com a presença dele. Viviam sentadas no chão e ninguém dava por isso. ter. para elas. e que iriam se esforçar para satisfazer o desejo do exército de que o treinamento desse homem fosse rigoroso.disse McPherson. Ao perceberem isso. muito menos entenderam. tal como esposas provincianas.Qualquer coisa é melhor do que Hobbs. Constantsa. muro. a reação delas oscilou entre o divertimento e o ódio... com os maxilares contraídos de pavor. . por descuido.Ela também é uma pessoa.Os Narizes costumam vir aos pares. muito mais de si mesmo do que de las. coitado. Carla arm ou um olhar de pasmo. sabia? . Abriu-se de repent e a porta da ala e McPherson enTrou Num instante todas se acalmaram. que o novo membro da equipe teve de empreender ao longo da ala. e Mary. da seção de reclusão. enquanto esfregava nódoas invisíveis de sangue.. v ocê não se distinguiria de nós! McPherson.Vejam só! A quem pensa que está enganando? . ele vai desmaiar! e depois ressentida .Deviam ter trocado a fe chadura. ..exclamou Helene sem nenhuma malícia.comentou a cerimoniosa Mary.

aí está o mundo. nem como movê-los..Vamos chamá-lo Hobbs Leviatã. hein Miller? . Ela se encontrava naquela região medonha chamada "Envolvimento" ou "Realidade" e ninguém podia ajudá-la.? . transida de medo. O Yri tinha um outro termo para designar tal estado. movimento.A religião deles condena o suicídio .Isso não tem importância. nem faria sentido para você porque foi parte de uma conver sa.a descoberto .incapaz de pronunciar uma palavra sequer.falou Sylvia que estava encostada à parede. Dirigiu-se à porta da enfermaria. Ele deve ser mil vezes pior que o outro! . mas estava fechada . ora próximo. De qualquer maneira. como se estivesse diante de um vendedor inoportuno. falta de visão. voltaram a abrir. extinguira-se o b reve e pálido lampejo de vida em Sylvia. ela veio às três da madrugada! .Sobre o que? . mas não houve como decifrá-lo. as n oções habituais de tato. compreendeu como seria absurdo r eproduzir qualquer fragmento da conversa.93 .E então. Fazia um ano que Sylvia não dizia absolutamente nada .perguntou a enfermeira . Toma-o! Irrompeu um vento tempestuoso. Era impossível determinar se estava de pé ou sentada.Lee Mi ller foi a primeira a reagir.Chame a médica . Passado algum tempo. raramente usado: nelaq. Finalmente. Dissolveram-se as paredes e o mundo se desfez num grande caos de sombras.£ bom que você chame a médica. .disse Lee lacônicamente. . agora. as pessoas procuravam se convencer de que realmente havia m escutado aquelas palavras e de que elas partiram da criatura muda e enregelada que era Sylvia. e até mesmo o Yri transformara-se num emaranhado de sons inarticulados. forma. ora distante.. Entreo lharamse descrentes de seus sentidos . foi a Vêz d o cérebro esfumar-se. Gostaria de agradecer a Lee por se ter exposto 94 sua falta de visão. Yr louvava a coragem de Lee. O terror. O silênc io pairou sobre a ala. Cristo! Por favor! Déborah. Bateu. Depois da memória. Foram revogadas todas as leis da física e dos sólidos. pois se não chamar a culpa será sua. Sua voz era tão inexpressiva que o som parecia ter vindo da própria parede. Restou-lhe apenas uma sucessão vertiginosa de sensações inidentifi cáveis posto que faltavam palavras e idéias para enquadrá-las.O relatório da ala ainda não está pronto . . Atirou-se impetuosamente em Yr: . A vistou à distância um fragmento de superfície mas o vento logo carregou-o para longe. E de onde p rovinha essa luz. o que era vertical e o que era horizontal.implorou Déborah. Era preciso que se fizesse algo por Lee. era o sinal de Yri para quem estava tankutuku . Da última vez que Sylvia falou. que observava o desespero de Lee Miller. nada em Déborah re spondia mais.Sylvia falou! . cujos raios feriam-na como facadas? Perdeu totalmente o contro le de seus membros: não sabia onde estavam os braços. Todas emudeceram assombradas. Adams virá Sempre vem. até que vieram abrir. Procurou coordenar as idéias e constatou que pe rdera também a memória: sentiu-se incapaz de recordar uma só palavra. bateu. Não! Não! Se fizerem isso. .retrucou a enfermeira e fechou a porta. melhor. gravidade e luz. Déborah tateou em busca de chão firme onde pudesse se ergue r. ou seja.exposta aos perigos e distante do refúgio. Déborah tremia. O flamejante Anterrabae acossou-a às gargalhadas: Como ousas solidar izar-te com o mundo! Traidora! Serás punida! Yr cerrou-se sobre ela. . A enfermeira olhou para ela aborrecida. L ee bateu de novo. não tinha limites.ela falou ou fui eu que escutei? . As direções embaralhavam-se.O que foi que ela falou? . mas seus esforços foram em vão: o chão se desvaneceu como uma miragem no deserto. Tudo girava à s ua volta. Encerrada num corpo inerte inerte como o de Sylvia agora . Não admiras a nelaq tankutuku? Pois bem. mas não conseguia articular as pala vras necessárias. tão muda e enregelada que se confundia com os móveis da ala. enlouqueço! . Uma aura de luz sombria rodeava Lee. Expusera-se por causa de outra pessoa que jamais iria elogiá-l a ou demonstrar gratidão pelo seu gesto. não minha.Quanto mais f undo.Ai. Pressentiu que sugeriam algum segredo pavoroso.Por que vocês estão tão excitadas.

É realmente incrível! é realm ente é incrível! A guerra entre o Nariz . as três coisas juntas. ou ainda. Amém. Ellis não servia de jeito nenhum para o trabalho.A pessoa obviamente não entendeu.Scomos capazes de manipulá-la. para b aixo e para os lados. . O problema é que não havia gente suficiente na equipe. Contra a repugnância que ele extemava. Um fato. envolveu-se no cobertor e. tentando diminuí-lo. os. Nauseada com o frio que sentia. Pássaro-um. muito verdadeiras. Pássaro-um. o medo dos primeiros dias foi cedendo lugar à cólera. De acordo com os preconceitos alimentados no homem. porque agora ag rediam Ellis. e como estava ator doada demais para insistir.e as pacientes prosseguiu. Lá fora. Fried perguntou a ela o que havia descoberto desde a última ses são.respondeu Déborah. Os dois outros n ovos condenados arrependidos. Passou a se julgar vítima de uma perseguição religiosa. também não gost ava muito de Ellis. e não a ele. mePherson. . . Da próxima vez que admir ares o mundo. portanto. o coitado arrastar o seu Leviatã.De Paracleto a Paranóica. voltou para o quarto. Vendo. preferiu se afastar À sua volta. um már tir. enfim. a insanidade ou era 96 deserto merecido para suas vítimas. Não brinques conosco. ou uma vingança de Deus ou uma obra do diabo. . No entanto. a primeira coisa que viu foram 95 as unhas das mãos. do poder e do horror contidos nela. mas procurava mostrar-se si mpático com ele. porém. por 1 acaso. dem ente. do qu e esses doentes na arte de desferir as setas sobre o ponto mais fraco do animal.Quarta-feira. com uma pequena m esura. sem saber o que fazer. Dirigiu-se a uma delas pa ra esclarecer uma questão que lhe parecia irrelevante: . o que tinha ingressado na Ala D.disse Anterrabae num tom condescendente. corpos de três dime nsões reclamavam do calor e abanavam-se. McPherson pe nsava com seus botões que não havia no mundo caçadores mais sagazes e implacáveis.ou Hobbs Leviatã. ficar louco. porque estamos te protegendo. e virá-la pelo avesso. tinha. Embora não conseguisse reconhecer ninguém. E para tomar as coisas piores. lembrando-se com reverência da imen sidão. tomava-a. porque podemos jogá-la para cima. Levantou-se. . conhecerás um castigo mil vezes mais terrível.Descobri o que é ser insana . o intrigava: porque agrediam Hobbs e nunca a ele. e um del es até demonstrava habilidade no trato com os pacientes. pelo me nos. quando ele vinha trazer a toalha. saiu para o saguão. Detestava e temia os pacientes.Ao emergir da Punição. p ara ele virtuosa e justa. estavam se saindo bem em alas diferentes. Mais tarde. que todas es sas descrições não passavam de metáforas? Perder a cabeça. Helene jamais voltara seu arsenal de conheci . tiritand o ainda. Helene. e encarava o govemo que o punira do mesmo modo que os mártires cris tãos deviam encarar os procuradores romanos. Estavam roxas de frio. lunático? Pobre de ti! Vês agora que elas são todas muito. o sol de verão resplandecia sobre u ma paisagem verdejante. Imaginavas. e fic ou aliviada ao reconhecer que era a sua.E Déborah atormentava-o com ob servações ferinas sobre as similaridades entre os psicóticos e os fanáticos religiosos. deitou-se numa cama. Constantia fazia-lhe propostas ostensivamente li bidinosas.Puxa! Então em que dia foi? . temer osa de que a Punição voltasse a fustigá-la e a arrebatá-la de novo. As letradas reescreviam a Bíblia. ridicularizando algumas de su as passagens para escandalizá-lo. morto e putrefato. as doentes lutavam com as armas que seu est ado lhes permitia. de que via corpos em três dimensões. Amém... McPherson sentia essa atmosfera de ódio e violência pairando sobre a ala. Não brinques conosco. Não era para menos que estava condenado a carregar o espectro de Hobbs que os pacientes lhe haviam imposto com os seus apelidos. Meneou a cabeça .Que dia é hoje? . Pessoalmente. uma verdadeira monstruosidade. . a Dra. a religião de Ellis considerava o suicídio um dos pecados mais terríveis. chama dos pessoas. que se moviam num elemento chamado tempo. e dizia: . fundir a cuca. Notou que estava dei tada numa cama que não era a sua. como decidiram chamá-lo. não ousava participar desse outro tempo. Estás vendo como é. uma consciência razoável de que existia.

. usada. A srta. e conheci Hobbs melhor do que você. Nada de referências a Hobbs. Foi uma gargalhada geral.deixe em paz o Sr.O cara recebeu uma comissão.mentos contra ele.. adeus. embora estivesse fora do quarto de reclusão. Não compreendia como e p or que escapava aos desafogos de amargura e infelicidade que o rodeavam. foi até o rádio. Hobbs Leviatã! . numa paródia melancolicament e romântica: .Déb. deixe ele em paz. sem vacilar. McPherson. com a atmosfera pesada.mais do que a simples soma das intranqüilidades individuai s. satanás! . tinham convencionado que nós estamo s fora do jogo. . destrancou a grade.Ora.. respondera ela com uma voz sumi da. das suas convenções e rotinas. continuava enclausurada e m si mesma. fitando alguma coisa para além da parede. o grande monstro marinho. murmurando para si num canto.Linda. Perguntara-lhe uma vez o que estava olhando. no entanto. instaurando um co ntraste patético. soou.a voz dele era suave .. sai Ellis da enfermaria onde estivera redigindo os relatórios médicos. embora 98 O rasto de tensão permanecesse ainda por alguns instantes Evitara-se por pouco um grave incidente. o qual era liga do apenas durante certas horas do dia e sintonizado em músicas inócuas. ficou esperando que o sono chegasse Deuses e o Coletor foram gradativamente se reduzindo a um sonolento meio-tom e iam apagar-se quando McPherson entrou no dormitório e parou junto à sua cama. porém. livre das minhas amarras. o cair 97 da noite. as intenções e os homens do mundo superou a prudência e motivou a p ergunta).Ei-lo que surge. Pretende falar com todo mundo? (A suspeita e a cautela contra os pedidos. Cabot insistia do dormitório . hilariante mesmo. Carla replicou. muito menos delicada. Não sou simpática.Isso é hora de perguntar? Deixe-o cuidar primeiro de suas ovelhas! Havia um rádio embutido por detrás de outra espessa grade na parede. Sue Jepson e as demais estavam en tregues às suas manias habituais.Mesmo com Marie e Lena? (Os próprios pacientes consideravam-nas os casos mais gr aves da ala). Lee Miller cerrava e descerrava os den tes. os sedativos e finalmente o sono.Quais são as últimas do Inferno hoje. E. Quando a voz lânguida do locutor desejou-lhes uma "boa noite sob esse céu estrelado". os qua . "Sou a morta que medita". pastor? . evitava feri-lo com palavras cruéis. McPherson era o único que conseguia chamar as p acientes por seus apelidos sem que isso soasse falso. tá? Sentiu-se. Déborah enfiou-se na cama como de hábi to.Hobbs cometeu suicídio e o exército cometeu Ellis! . mas não é bem a do tipo que confere patente. delicadamente.Não. Constantia. Ellis.Bati as asas em despedida. As provocações imediatamente recomeçaram: .Hum. está bem? Por que eu? Quero que todas vocês deixem-no em paz. naquele momento. Marion. . sentia-se que pairava no ar uma i ntranqüilidade ameaçadora . Blau estava parada ao lado das grade s do aquecimento.Eu sou a Esposa de um Ex-Presidente As sassinado dos Estados Unidos! .. por que eu? Pensei que vocês. Observou as pacientes apáticas esperando o jantar. Desta vez. Suspeitava que não se tratava apenas de uma questão de sorte.. . e ligou-o bem alto. não muito cont agiantes.Afasta-te do meu caminho. Assim que tcomou o sedativo. Fique sabendo que ele era um dos nossos! A única coisa que o separava de nós eram os cinco centímetros de metal da sua chave. dá é grilos na cuca! . a carrancuda. . Déborah Blau. adeus. Deb . Os ânimos se acalmaram. hum! com todo mundo. Nisso. os normais. Ecoaram os sons delicados de uma música romântica para dança.. Nada de piadinhas.. . que envolvia a ala. rescendendo a urina e a desinfetante.

No entanto. . sobretudo num hospital psiquiátrico . Percebe agora o que isso significa? Será que você realmente não vê que os deuses os diabos e todo este seu Yr são coisas criadas por você mesma? Não foi isso o que eu quis dizer! . mas sua voz vibrava de indignação. há um outro aspecto que você parece admitir: a doença e os sintomas são coisas distintas. . (Débo rah lembrou-se do que dissera à Carla e voltou a sentir99 se culpada). A sombra do avô. ao retrucar. ainda que se confundam freqüentemente. . . pareciam t ambém apontar o caminho da destruição final. como se tudo fizesse parte de uma trama.dizia . Gostaria. o poderoso soberano da dinastia.Perceben do o olhar assustado de Déborah.A segunda da classe não basta. . imitando as pessoas: Acorda menina! Tire essas besteiras da cabeça! . recuando sobressaltada. Você deve saber reconhecer uma perturbação mental à primeira v ista. Embora não conseguisse enxergá-lo na escuridão. Fried. uma brincadeira misteriosa que todos conheciam mas ninguém admitia conhecer. por acaso. Ainda assim. não se trata da mesma coisa? Concordo. Nunca a ouvi insultar uma delas. donas de todo sofrimento? Não pretendo trazer à tona questão de dinheiro isso é mais do que sabido . então. para você. mas que. segundo ele. embora os sin tomas estejam intimamente relacionados à doença e influam por vezes sobre ela. Vivia chamando as mulheres de vac as e putas parideiras e. O orgulho. contra o efeito dos sedativos. O pavor que sentiu ante a responsabil idade que aquela franqueza impunha veio temperado com uma sensação nova: alegria. pensando sobre o que ele ti nha dito e como o tinha dito: palavras duras mas verdadeiras. Déborah começou a perceber que havia muitas razões para o horr or que o mundo lhe inspirava. devido à sensibilidade e aos temores de Déborah. . entretanto. mal se sentia ameaçado.Você é esperta . .Quando a machucarem.raro em qualquer parte. Tinham percorrido já as Grandes Decepções. consistia em morrer com dignidade e agonizar como se o fizéssemos todos os dias.exclamou Déborah.Não de uma só vez. Graças àq ueles meses de terapia.recomeço a Dra. você tem que ser a primeira! Ou en tão: . Deixe Ellis em paz. Déb. Ria! Não permita emhipótese alguma que 101 eles vejam que conseguiram-atingi-la. lame ntava o fato de Déborah ter nascido mulher. teria que desafiar o mund . dando-lhe tapinhas de uma brutalidade mal contida.Empenhara-se em aguçar a sagacidade verbal da neta nos mo ldes da sua.mas quero lembrar-lhe que muita gente lá fora gostaria d e receber ajuda e não pode. sent iu que ele estava tranqüilo. falando a respeito de sua irmã.Vou tentar. Um dia você se sentirá satisfeita consigo mesma. Esta noção de orgulho. Você não concorda que.Afirmou que estar doente era como ter um vulcão dentro de si e de pois. Lembrou-se do estribilho que durante anos o Coletor repe tia. por algum tempo. 100 12 já uma coisa que você disse numa das sessões anteriores que não me sai da cabeça . pr ojetava-se ainda sobre todos os da família. McPherson deu meia volta e saiu do dormitório. burilando-lhe as arestas ferinas. Ele a encarou com o rosto severo. McPherson.Yr exis te! Não tenho dúvidas de que. Nunca a vi molestar outras pacientes. Sob a indignação perce bia-se um tom . Lembrava-se nitidamente da sua voz fam iliar incitando: . Aos poucos. disse que caberia a ela decorar as encostas como bem entendesse.Escute.is ele se apressava em afagar. antes das encos tas terem sido decoradas para darmos uma olhada juntas no próprio vulcão. nunca chore. que você me levasse de volta ao seu passado. surpreendendo Déborah com uma atitude que ele nunca tomara antes.Ótimo. você acha que todas as pessoas doentes estão em hospitais? Vocês se julgam. ele existe. Déborah lu tou. vinha carregada de ódio. bem como as inúmeras pequenas decepções que são vitáveis na vida.ain da dará uma boa lição neles! . continuou falando baixo.um t om de respeito e sinceridade entre iguais.Estas e outras advertências visavam precavêla contra os cúmplices sorridentes da brincadeira secreta. acrescentou . é claro.

Eu não como. Só que essa condição. as crianças de sua idade. m inha. no entanto.As decepções com o mundo dos adultos. que falava de um lugar onde já estivera antes . . o qual para ele se resumia num bando de tolos e ingratos. Recrudesciam.Sua mãe não teve problemas de gravidez quando você era bem pequena? . são todos u ns idiotas. Déborah usou sua sagacidade cáustica para con estarrecer os adultos. Durante muito tempo. Ela é grande e branca. e seu ódio repercuti a intensamente na América. Deixe estar. A coisa veio num estalo.encorajou a doutôra. e.Sua o quê? Vamos! . disse: . Portanto. da verdade.Salvação! . por mais impressionante que fo sse para os mais velhos. Nas cidades maiores. . . Caminhe de cabeça erguida. expondo a verdade.Mas é claro. e vencer. não dê o braço a torcer! . eu.E você confia em mim? . Os outros. onde eram fuzilados pelos poloneses "amantes da liber dade". no entanto. enquanto vigorou a trégua armada 102 o mundo. . O abismo existente entre as pretensões do seu avô e o mundo que a cercava. Acredite nele. pôs-se avidament . . e se a agredir em.. as novas batalhas. No entanto esta precocidade mais iludiu. e a. essa ciência com a qual nós duas estamos trabalhando.. A Dra. esbarrava contra a impossibilidade cruel de você consegui r a ascendência desejada junto às pessoas de sua idade. . vestidos importados. à medida que o poderiu de Hitler se ia expandindo pela Europa. Eu sou pequenina. O conhecimento básico que você tem a respeito de si mesma. ela abortou. como se visse nesses episód ios uma espécie de obscura confirmação. meu. por outro lado. é c orretíssimo. não é? 103 Uma luz projetou-se sobre o passado. Fried perscrutou atentamente a fisionomia de Déborah por algum tempo e.Você ainda vai lhes dar uma boa lição! Nós dois scomos iguais. . Percebiam temerosas o que se passava com ela. Vamos experimentá-lo juntas? ..Vá em frente ora. você se constituía num solo dos mais propícios para que a semente de Yr germ inasse .Teve. . Tudo cinza.É inveja! Os mais capaze s e os mais espertos são sempre invejados. tropeçando nas palavras. Gêmeos. As ilusões inspiradas pela próp ria precocidade: você era especial.deixou escapar Déborah. o u ratos mortos fedendo de manhã ao lado do jornal que noticiava a fuga dos judeus para a fronteira da Polônia. Há barras nos separando. Onde está a minha. acrescentava: .o todo. amor.Não sei.. a ancestral e mística guerra entre um imigrante aleijado e um Conde de Latvia morto há séculos? Déborah cresceu num ambiente e numa época em que os judeus americanos continuavam ac ossados pelos terrores da lembrança das velhas batalhas das quais haviam fugido do Velho Mundo alguns anos antes. e sábias. não existiria. Déborah. . . cercada de cuidados. Conheceu de perto esse ódio anti-semita e chegou mesmo a ser agredida uma o u mais vezes por valentões da vizinhança.Não e xiste cores..E o quê? Onde está você agora? . O avô.concluiu a doutôra .E depois viajou para repousar por algum tempo. Se não confiasse. Débora h lembrava-se de ter encontrado várias vezes a mansão dos Blau salpicada de tinta. O abismo existente entre a menininha rica. em seguida.. algum dia você vai lhes dar uma boa lição! A "lição" que ela tinha que dar consistia em exibir uma impostura que seduzisse e im pressionasse as pessoas: sua precocidade.Sentia.. em seguida. . sólida e indiscutível daquel e momento. Os resultados pareciam confirmar as pa lavras do velho.E. . apenas tonalidades cinzas. ocorriam manifestações germanófilas e at entados contra sinagogas e vizinhos judeus que ousaram abandonar os guetos.Meu. partiam imediatamente para uma posição de ataque. exclamava triunfante: . Ela dá comida. . pelo avô.Continue . . empregadas.Tenho um pressentimento.. com palavras cheias de ódio. Justifiquemos a psiquiatria (Risos).

para logo de pois submergir. e nem por isso acabam loucas. e m mais uma prova irrevogável de que havia nela algum defeito. . notando a palidez do seu rosto.. Diga a todos em Yr que não ou em prejudicá-la nessa sua busca.As barras do berço.Trabalharemos com afinco. eles voltaram.e a preencher as lacunas. Uns se foram aliviados por te rem perdido o medo dos doentes mentais. Meu próprio berço. . encerrando a sessão. A enxurrada de palavras chegou ao fim.Por que só eu vejo essas faixas escuras? Não há ninguém que não tenha ficado sozinho em certas ocasiões. tentando.concluiu Déborah. . vieram palavras incisivas. mas nunca imaginei que pud esse ser verdade que estive realmente num lugar assim.As recordações não perdem necessariamente suas formas originais. no limite das fr onteiras que demarcam o mundo dos sãos. ess a vivência grita lá no fundo: "Está vendo? No final das contas.É você quem estabelece o preço.Enquanto for possível suportar . Sempre me intrigou o fato de que não era um frio como qualquer outro que eu pudesse supr imir vestindo um casaco. . A sensação que eu tinha era a de que todo cal or havia desaparecido. Um nov o grupo de estudantes de enfermagem veio e se foi. concentrada em suas deduções lógicas. genético.Cheguei a pensar que ia morrer até que. finalmente.murmurou Déborah. .. . acabam adquirindo um peso que pode vir a ser insuportáv el.. Teve razão.." A doutôra ergueu-se. agora! Quando sinto que vou despencar.. outros fugindo atemorizados à descoberta d e uma similaridade sutil existente entre os pensamentos expressos pelas loucas e . A doutôra. A dúvida logo se transformou em certeza. um defeito intrínseco. .. Déborah retirou o braço das mãos da doutôra. outra dúvida a assaltou. A babá era distante e fria. 13 O tempo passava.. juntas. e imaginando como devia ser horrível alguém servir de condutor à terra para uma potência dessa ordem .desculpou-se a doutôra. 104 . impelida por um medo obscuro ao contato físic o. perdendo seu aspecto sobrenatural até se tomar. A doutôra tocou-a no braço: . eram as b arras do berço.O vulto branco deve ter sido uma babá. . . As barras. como se estivesse agu ardando ali há muito tempo. De repente. Ellis. tr ansformando subitamente as conexões. pouco a pouco.A luz. Ao invés disso. Esperava que a doutôra ensaiasse qualquer objeção tímida. pois o lugar onde a mão pousara começou a fumegar sob a manga do suéter e a pele encarquilhou cobrindo-se de bolhas.. uma mentira inócua e reconfortante com a qual pudesse iluminar o caminho de volta a Y r. Esta sensação ocorre freqüentemente.sua própria existência . e acabaremos compreendendo.Não pretendi a tocá-la antes que estivesse pronta para aceitar isso. e o distante pesadelo foi. vendo faixas escuras subir e descer diante de suas retinas.Portanto. . e o frio e a perda da capacidade de distin guir cores. por uma semana ou duas talvez. Eu me pergunto qual será o preço. a vida é assim. e o frio é o mesmo frio de antes.. não ser cruel com o S r. A Dra.. e procurou se mostrar obediente. é o que acon tece agora.. mas depois de recal cá-las anos e anos seguidos. Localizamos dentr o de você onde certos fantasmas do passado continuam agarrados ao presente.Seu pensame nto pousou um instante. da luz do sol às trevas da noite. simplesmente. Ei! Ei! . essas faixas escuras diante d os meus olhos são as antigas barras do berço.disse Déborah. então. provavelmente. . agora plenamente gratificante. barras e a solidão. Fried sorriu: . de passagem. . exatamente o que acontece agora! É uma parte do Abismo. ainda limitadas e hesitantes. a vivência de uma situação de abandono . arcando com o martírio dele . olhando através do suéter a carne chamuscada.do melhor modo que pôde. Muitas c rianças até mesmo perdem os pais. Libertou-o de Hobbs.Pára-raios . Cada vez que você é chamada a recordar o frio do abandono. quando não simpática . uma semente ruim.Fcomos muito bem hoje.Perdoe-me . de estágio a estágio em Yr. numa revelação imen sa e maravilhosa. Déborah era jogada daqui para lá como uma peteca. da terra à terra de ninguém. é tão vasto quanto a sensação de abandono e a da perda de todo o amor.. projetou-se sobre uma outra região. buscava para além do corpo trêmulo de sua aciente vestígios do almejado espírito que reluzira por alguns minutos.

Ela se achava. Déborah ergueu-se no diminuto quarto onde estava enclausurada. horrorizada com o seu imenso poder de destruição. . Pr ocurando tranqüilizá-la." Queri a dizer com isso que não era a enfermeira quem estava ausente. Percorrem-me. gemendo baixinho: . Déborah compartilhava.. Uma enfermeira " trouxe-lhe a bandeja do almoço. tropeçou no própri o pé. O inspirar e o expirar. . pelo visto transpareciam em seu rosto . A chave rangeu na fechadura.É poder demais. andam e respiram num elemento q ue nunca compreenderás ou conhecerás. . chutava-o na b oca do estômago e na região tumorosa que se rompia como um melão podre. o céu cobria-se de sombras por entre as barras da janela. virou-se para uma pessoa que vinha atrás e ordenou: . No entanto. as pessoas iguais a elas riem. onde ela própria figurava como a vítima do seu hospício imaginário. paz ou liberdade que compensasse esse pavoroso sofrimento. o sangue e os ossos. desferiu um g rito e caiu no chão. . Seja esperta. Aqu i tenho sido fio de cobre e as pessoas me confundem com bronze! Anterrabae riu. não assim. Murmurou algu mas palavras para deixá-la à vontade mas ao invés disso. Déborah estendeu a mão num gesto instintivo . Coletor. sofram. acreditava neles. e desaguam na enfermeira. afastou de sopetão o braço trânsida de medo.a falta de jeito 106 tomava os seus gestos extremamente bruscos . investida da autoridade honorífi ca que detinha em Yr. desse hospital. jovialmente a enfermeira do novo turno. Déborah sussurrou depois ao cruzar com ela: "Errada não. e e saiu cambaleando do quarto. Déborah. e isso graças às aflições que. A tua subs tância é fatal para eles. terríveis e inconfessáveis. perdeu o equilíbrio. e qual dos se us "eus" a dominava naquele momento. Notando. Fora desse quarto. Acab em comigo. revendo provavelmente os pesadelos. sem saber como. e quase foi ao chão.murmurou algum tempo depois para o s que vieram buscá-la. Estes . vindos da doutôra. dessa ala. ao menos. contudo. erguida por sobre si mesma. O fato é que se sentiu profundamente aliviada por receber ajuda. pela violência devastadora e gra ciosa de Helene e pelos olhos alheios de Déborah. Quando soou o ás pero canto cerimonial. Déborah. estava tudo escuro. a expressão do rosto 107 de Déborah. chutava aquele seu outro eu estirado ao chão. Sentiu-se como uma gigantesca bale ia emergindo das profundezas do mar: vinha de um outro elemento regido por lei e . Não permitam a ninguém magoar assim. A mulher remexia as chaves (sua diferença). Surpreendeu certa vez uma enferm eira comentando: -Aquela menina me olha como se eu absolutamente não existisse. Não havia prazer.Assim como o Poço? . termin ado o expediente. . esmaguem-me de encontro ao mundo! Acenderam a luz pelo lado de fora. a repuls iva Déborah. depois. . e sim ela. A mulher se voltou precipitadamente para sair. um segundo grupo que estava sen do domesticado pela nudez espontânea de Constantia. disse Déborah a todas as divindades reunidas em utilizando a habitual saudação Yri.. alegria.e agarrando °braço da enfermeira. Veio.Através das órbitas dos olhos. Sou uma condutora de r aios e queimaduras. muito pálida. morrerão ou enlouquec erão. a escolha inadequada das palavras só fez deixar a estagiária mais alarmada. na su a queda flamejante e etema.Vamos logo com isso Anterrabae. o que veio confirmar mais uma vez a distância intransponível que a se parava dos chamados "seres humanos normais". Não assim! Não assim.Só verificando tranqüilizou.Exatamente. Déborah não tinha a menor idéia do que eles estariam vendo no seu rosto. quem sabe. a outra Déborah. situado a pouca dis tância do saguão.os seus pensamentos inconfessáveis. a fisionomia da enfermeira co ntraiu-se de medo. . debruçada na janela olhando pa ra fora e repetindo de mansinho: . .Deixem-me morrer! Pedia que a esmagassem de u ma vez por todas. anunciando a partida. sugeriu ele. desprendendo faíscas dos cabelos.Termine logo a ins peção da ala e vá preparar um casulo. é magoar demais. Se forem contagiados por teu elemento. compreendia-os.. Ao recuperar os sentidos. vocês todos. firma ndo-a por alguns segundos. Nem bem ela recuperou o equilíbrio. a s noites e os dias desses outros seres são de uma substância que não é a tua.

um ou dois comentários imprevistos e cortantes. tinha certeza. Ela consegu iu se livrar mais uma vez. Da cama vizinha veio um som abafado. se quiser. num contraste chocante com a beleza da noite e das estrelas. então. atordoados ainda. sempre discretos e silencioSOS. lembrando-se das lutas que travara com fios de cabelo. apesar de seus modos espinhosos e intolerantes. quebraria osso por osso daquela cabeça de merda. com uma voz pausada e contida. felpas. . . Helene nem sequer conseguia atin gi-lo. acenderam a luz. começou a esbofetear o rosto dela. Déborah percebia. não se fizera de rogada. Virara-se para Déborah e. avisara que se ela não se afastasse dali. a maior parte do tempo.respondeu Helene .Nossa Senhora da Cócega no Nariz! . seus lábios já estavam secos. o pavor enrijecera o corpo mus culoso de Helene.climas próprios. No silêncio do quarto. estendidas lugubremente naquelas camas. e foi direto à cama de Hele ne para tirar-lhe o pulso. que era o essencial da recuperação. Havia agora duas camas mergul hadas na escuridão. Ellis entrou sozinho. sabendo que os pa cientes poderiam estar em transição e. Déborah a respeitava sobretudo por sua inteligência. o pulso de Helene. sem inclusive. precisos e ritmados. Déborah. tinha inadvertidamente cometido uma grande crueldade com ela: dissera-lh e que achava que ela ia ficar boa. Esse era o único movimento possível dentro de um casulo. que ficaria Para sempre gravada em sua mente como o símbolo da impo tência do doente mental: os tapas. essas coisinhas diabólicas e importunas que se tomam um mundo quando não se pode coçá-las e afastá-las. Déborah. cusparadas e . Pensou em Hele ne. Déborah recolheu-se ao silêncio e ficou descansando do eterno apocalipse. assisti a a essa cena. às vezes. Embora ela fosse uma pessoa mordaz e d emasiadamente agressiva. cisc os. Um dia. por sua vez. ou aquela quantidade indefinida de energia ou determinação ou seja lá o que for. Vênus de Mil o com cócegas no nariz. distante e inacessível.Ou. Por causa disso. 109 e as cusparadas frenéticas. e estas. conseqüentemente. na têmpora. ou então.Alguma vez já lhe caiu um fio de cabelo nos olhos quando você está no casulo? . Seus pensamentos fluíam com extrema nitidez. . sua respiração ofegante. e extrair a ssim um número para o seu relatório.Eu sou um fio de cabelo nos meus olhos . deitada como uma gêmea na cama vizinha. de modo a introduzir gradativamente a sua presença e a do mundo. De repente. Ellis. que tudo presenciava. depois que eles acusassem a sua presença. manifestava seus Pemsamentos s momentos de lucidez. geralmente. respeitava e temia ao mesmo tempo. Ellis agarrou o rosto de Helene e o imobil izou com uma das mãos. e rápido. e só entravam . Ao escutar aquilo. Helene reagiu lançando-lhe uma cusparada n a cara.perg untou Déborah. Quando ele estendeu a mão para captar. a invejava. uma agressão tão violenta 108 muito surpreendente. Os tapas atingiram-na firmes e fortes. retesou ligeiramente o corpo. Helene . no entanto. Solt ava. .declarou Helene secamente . a mã assentava-se implacavelmente sobre seu rosto. se dar conta do tormento que a afirmação despertava em si mesma. é claro. A janela que emoldurava a noite coalhada de estrelas já não era aque la de onde assistira às primeiras horas do crepúsculo. filtrava-se a luminosidade pálida das estrelas. Helene poderia se curar.indagou Déborah. e com gesto s deliberados e precisos. que Heleor mais desesperadamente enferma que estivesse. alguma coisa antes de entrarem. mas após cada tentativa. um jato difuso e furioso de saliva. calmos. Num lugar vulnerável como aquele. enquanto tentava tomar-lhe o pulso com a outra. Pelo vidro anteposto às grades. As enfermeiras e auxiliares diziam. Mantinha-se. nem que fosse por uma piscadela de olh os. Ambas resmungaram baixinho. chocadas com a revelação de si próprias.e você é outr o! Em face desta reação pouco amistosa. convulsas e raivosas. sem demonstrar raiva. às barras qu e compunham a tripla couraça vedando a janela. deixara também de perseguir o ma rtirizado Ellis.Quem está aí? . ela afastou a cabeça com violência. a maneira como Ellis entrou foi brusca demai s.

Por que Helene não veio me contar isso? .. bate com a mão espalmada! A enfermeira mandou que ela procurasse a enfermeira encarregada da ala. c ustasse o que custasse. nem sentir o vento tenebroso. Deixou-o partir. .primavera.Posso saber o que é? .Para que você quer vê-lo? . não vai ser nada fácil se tiver de mentir. . Ficaram horas absorvidos naquela guerra. Percebeu a tempo que não seria prud ente dizer isso. a nuvem prenunciadora da Punição ia se adensando sobre Déborah.Helene saiu logo depois que acabou tudo.Que pacifista é aquele que. com os olhos pregados nela. menos ainda a iminência da Punição. Toque-de-Fogo. em tempo. A idéia. No dia seguinte. A enfermeira-chefe não a levou muito a sério. foi a vez de Déborah assumir voluntariamente a condição de participan te. em seguida a de Débora h. quem sabe. expor-se cega e irremediavelmente.. caridade em cen tímetros cúbicos". No entanto precisava. . que só eram objeto de segredo porque ele detinha as chaves e as pacientes não. por sua vez. nem tampouco foi mais longe referindo-se às tendências de Ellis. Azar! vou contar o caso à Dra. o enfermeiro conseguiu submetê-la. Déb ora 110 sabia. A enfermeira da ala. no entanto. engasgada com sangue. mordeu os lábios e se calou. da nuv em.perguntou a enfermeira.Esteve a ponto de acrescentar que H elene tinha sumido. mas não podemos aceitar uma denúncia dessas sem provas. e tinha certeza de que aquela era a hora certa de pedir. . Repetiu as explicações. e por um encadeamento de idéias não muito claro . sim. mas decidiu. que ele não podia ver a nuvem. gozando. tomar-se uma nelaq tankutuku. deixando-a ali com cara de boba. sem. contudo. livrar de sua consciência a responsabili dade de ter sido testemunha -. é claro!". e não saiu mais de lá. Déborah se lembrou de sua autorização para sedativos.. o médico continuou calado. O homem aut orizaria. e portanto. Quem sabe você não pensou ter visto isso. uma inimiga de si própria nos termos Yri. as fronteiras de seu reino. Você estava no casulo e. procurando ostentar a aparência de sanidade convencionada pelo mundo. Terminou de fal ar e durante muito tempo. como vingança porque uma vez lhe dissera que achava que ela iria ficar boa.sob um outro s ol cujos raios não ultrapassavam a periferia do campo de visão dela. . Furii ou Toque-de-Fogo era o nome em Yri que Déborah 111 . Queria que lhe aumentas sem a dose. . os limites de s ua realidade. Era evidente que estava colocando em prática o que Lee Miller chamava Tratamento Número Três: consistia numa variação do vel ho "sem dúvida! sem dúvida!". .É do nosso maior interesse impedir qualquer brutalidade aqui no hospital. contidamente. por experiência. Sentado ali calmamente. tanto do vitorioso como da vítima. o incidente.Reparou que. ao invés de bater com os punhos fechados. .perguntou enfim o médico. talvez . hesitando. obteve finalmente permissão para ver o médico da ala. Não se deu ao trabalho de procurar lhe mostrar a gravidade d a questão. naturalment e. Registrou sua pulsação. Ergueu os olhos para ele. um pouco transtomada. enqu anto murmurava para si mesma: "Generosidade de hidrato de cloro. Enquanto duravam esses trâmites burocráticos. com aquela Alma. Narroulhe. silenciar sem compreender. sentindo a nuvem cada vez mais ameaçadora e o vento que já começava a soprar. Dirigiu-se à enfermeira e pediu para fala r com o médico da ala assim que ele viesse assinar os pedidos da semana. que seria injusto comprar sono ao preço do sangue que Helene engolira. chegar até ao médico. as estações . que dizia "Sim. até que final mente.de cúmplice no episódio. . uma forma de conciliar s em alterar.assegurou o médico.Tenho uma coisa para contar a ele. . A muito custo. Helene tossia. para que ele acreditasse nela. .Tomarei nota do caso . a mandou para a enfermeira-chefe d o dia. Repetiu novamente as explicações. Déborah teve que implorar. fixou-se na sua ment e como um trapo agarrado a um prego. esboçar qualquer movim ento em direção ao onipotente cademinho de notas. encerrar os atritos sem tomar qualquer pr ovidência. pelo menos a Ellis. . ele vivia uma outra dimen são de realidade. caíam vermes. poupando ao máximo as palavra s.Pergunte. . e saiu.tapas ressoavam sem parar.

e como não gostasse de ficar e ncostada à parede como as outras. impelida por um estímulo inconsciente. eles estão mais loucos do que eu!") . . o Sol ptolomaico girando em tcomo de seus planetas. . . até um local fami113 . desaparecendo naquela cidade repleta de suásticas. doutôra. Déborah! Procure compreender.disse Furii. . olhares maldosos. . e eu também. a desonestidade impe ra e aqueles que conservam a fé acabam se dando mal. se a justiça fracassa.encontrara para a Dra. rendesse pelo menos alguma coisa. Déborah.Quem disse que eu estou propondo mudança de política? .Talvez você esteja duv idando de que eu tenha visto tudo isso. que eram atrizes do mesmo drama e. Déborah voltou a se afastar. aquela que também era tankutuku por causa das palavras. O fato dè ela lhe dirigir a palavra . . . ditas por Sylvia. ou então pare de seguila.Sentia-se agora ridícula por ter rejeitado. era justo que um ato que seguramente iria lhe cust ar muito.Absolutamente. .protestou Déborah. Uma pergunta: Ellis espancará a testemunha trancafiada nua num quarto de reclusão? Déborah foi escorregando pela parede.. começou a segui-la por toda parte.. Um mundo perfeito como um jardim de rosas é mentira.(Lembrou-se de Tilda: um belo dia fugiu do hospital e m Nurembergue. é? Furii concordou. Não estou ligada à administração do hospital. rindo às gargalhadas. Não posso interfer r na política deles. L ee tinha uma mania: não suportava ninguém às suas costas. em mencionar o assunto na reunião da equipe médica.signifi cava admitir que estavam no mesmo palco. também nunca lh e prometi paz ou felicidade.perguntou Furii.O problema .Enfermeira! Tire essa puta daqui! . Grande realidade essa sua.Suma-se. Pássaro-um. em homenagem ao poder espantoso que tinha revelado ao lhe queimar o braço com uma chama invisível. Déborah se sentia como um fósforo tentando atear fogo a um tonel de combustível vazio.Afaste-se. . Não participo das decisões relativas à al a. Aproveita a luz do meu jogo. um riso grotesco e áspero que mal chegava a ser riso. suportando estoicamente os grilhões daquele relacionamento. Lee. . e vê que todos cuidam para que te afaste do s menores perigos: alfinetes. Helene cumpriu a promessa de não importunar Ellis.é que eu não estou ligada à direção da ala. cons eqüentemente.Também não posso interferir na disciplina do pessoal da ala. mas por um misterioso senso de conveniência.De que vale então essa sua realidade. e a reação dele foi a Número Três com Sorriso: "sim .. .Vem cá. mas Déborah não ficou muito convencida. e enfadonho também. era uma terceira atriz. O elo gravitational se desfez. o sobrenome de todo mundo aqui é Pilatos. A enfermeira.Retire-se do saguão. mas não prometo nada.disse Furii . Afinal. que havia uma relação entre as duas.Escute aqui . embora não fosse tankutuku. e essa opção v cê assumirá de acordo com suas possibilidades. Déborah.A não ser que essa política consista em espancar pacientes indefesas! . finalmente. Não prometo mentiras.refletia Déborah ."Shalom Aleichem. para voltar logo depois. a idéia de pedir um aumento na dose de sedativos. já esquecidas. num gesto de nobreza. .sim é claro!" . não por uma questão de devotamento ou lealda de. . A única realidade que eu lhe ofereço é o desafio: ficar boa significa ficar livre para aceitá-lo ou não. cintos. . .Contei. Depois que Helene a deixou sozinha com a responsabilidade de testemunha. Déborah.Você contou isso ao médico da ala? . Blau! Déborah persistia. Blau! Isso também convinha.Nunca lhe prometi um jardim de rosas! Nunca lhe p rometi a justiça ideal. . fósforos. procurou se aproximar de Lee Miller. . . O meu objetivo é exclusivamente 112 ajudá-la a ser livre para lutar por todas essas coisas. Você vai mesmo levantar a questão de Helene na reunião? Se eu disse que ia é porque vou. hein? . cordões de sapato. passava o dia todo circulando para "manter as pe ssoas nos seus devidos lugares". Fried.

nao importa. acomodou-se no chão.e declarou: . as palavras da menina tiveram uma ressonância especial. Aqui as pessoas . e também por si me sma. sinceramente não sei se posso lhes dar esperanças. eu quero dizer. O trabalho que estamos desenvolvendo juntas visa.percebeu logo a Dra.perguntou Jacob .Será que poderíamos vê-la? Teve desde o início certeza de que eles acabariam. Sentiu ímpeto de dizer a eles. 114 14 Jacob e Esther estavam sentados no consultório. a imagem que essa médica sugeria era a de uma pessoa inteiramente irreconhecível.. ela era uma pessoa da família. a lei da gravidade ondulando como um trapo no vento tenebroso. mais piradas. inse gura e infeliz.Deixe o talvez de lado. . À tardinha. o fato é que lhes pertencia: insegura. que não Deus.liar. a doença é o ún ico solo firme de que Déborah dispõe. Todos temiam aquela espe rança. Para Déborah. se vocês decidiram vê-la. minúsculo talvez.viviam permanentemente com frio . uma paciente recém-chegada que angariara um certo prestígio devido à su a violência e aos nove anos que havia passado num dos hospitais mais rigorosos do país. para ser 115 patemalmente protegida e orientada.. .o fato é que precisamo s alimentar alguma expectativa. numa de alas.. A sua adorada Déborah de antes Podia até estar doente como todos afirmavam.em busca de paz e tranqüilidade.exclamou Jacob sobressaltado elevando a voz para sufocar o medo. É este solo que estamos trabalhando juntas.Porque não! . . os vermes que despencavam dela.Percebendo a frieza de suas palavras. aquele: minúsculo.é claro q ue. . . um bocadinho. Doente ou sadia .mas é por causa do talvez. infeliz.É importante que fique claro que os sintomas não são a doença . Se h ouver um outro mais firme.Se o que vocês querem para Déborah é um diploma universitário. e "ela sabe disso e teme por vocês . minúsculo talvez. ter uma esperança qualquer. ou terá que continuar aqui. a nuvem baixando ameaçadoramente. pelo menos. os dilemas que Débo .Não vem ao caso a questão do amor.imagens simples. Acreditem ou não. de uma vez por t odas. apontando o que haviam ou não haviam feito de errado para que a filha acabasse nesse campo de batalha.disse a doutôra. Pois. numa "pá" de alas. . e ficou acompanhando as imagens q ue lhe percorriam a mente . Que mal há em desejar uma criança como todas as outras? . . vocês a verão. Mas era tarde. para sempre? .Aqui é diferente... ela vai ficar boa. são mais assustadas. depois que esse for destruído. Jacob recostou-se aturdido. Imaginem por vocês mesmos. apressou-se a emendar: . Vivem mijando no c hão. bem. em parte. Trata-se de um problema puramente administrativo.. junto às outras estátuas. não param de gritar . Antes. convites para dançar. inevitavelmente. rindo para neutraliza r o imenso e pavoroso alcance de suas palavras. A senho ra poderia nos dizer o que podemos esperar? . mas terrivelmente explícitas. Elas pairavam no ar junto com a murrinha de zoológico que infestava a ala.Porque o senso de realidade dela anda um bocado abalado atualmente. Lúcia. mas eu pessoalmente não aconselho ainda dessa vez.Procurou usar um tom bem tranqüilo. Vinham .Tais sintomas representam defesas. .Eu. para o pequeno grupo de pessoas que estavam aconchegada s ao redor do aquecimento . buq uês de rosas e um pretendente distinto e de boa família. seja qual for. Não poderia prometer nada em definitivo. Já estive numa "pá" de espeluncas. era justamente a pergunta que ela não estava disposta a responder. descobrir e chegar a um acordo quanto ao que ela realmente quer. Por causa de um minúsculo. para ser matemalmente mimada e cons olada. sendo amparada e reco nfortada . . nem pretendia desempenh ar o papel de juiz.. Não sei se ela virá algum dia a ter essas coisas ou mesmo se as desejará. pedindo isso. Frie d . e desatou a correr ao longo do saguão. Perscrutou os seus dois mundos e avistou a tempestade im inente. formas dela se proteger. virou-se de repente. agora. Arrependeu-se pela centésima vez de ter intemado a fil ha. Meu irmão também. Sua aparênci a pode alarmá-los um pouco. nisso ela só poderá acr editar por um voto de fé. Desgarrou-se de novo.

Sim. .Nós. sem nenhuma garantia concreta além da fé.assentiu a doutôra afavelmente . O que os a ssustou não foram resmungos desconexos ou ataques de violência.Ah. traziam uma única certeza: era mais do que tempo de c . direção ao prédio do hospital Ah essas famílias! "Faça o em eu filho ficar bom". . . Eu quero vê-la! Está no meu direito! .informou o auxiliar. futilidades e arrogâncias . 117 Esther por sua vez.Acabaram de levá-la para a sala de visitas.. São capazes de lhes impor decepções. depois de alguma relutância. no entanto.Dirigiu-se ao telefone. e ainda assim conseguira infundir-lhes o ânimo de que necessit avam desesperadamente.. Ficarei aqui até às quatro h°ra Observou-os saírem e se encaminharem com passos rígidos.Ela está muito pálida. Eu só queria. murmurou: . se essa Déborah fosse a sua filha. .insistiu Jacob baixinho. Fried. . uma ausência impalpável e aterradora. e a aceitar a outra versão do m undo. . Ela não procurara tranqüilizá-los c om frases hipócritas. . A filha.O mundo que nós demos a ela não foi tão horrível assim! . Sacudiu-as de repente para longe. "Conserte a nossa filha. a verdadeira Déborah ia se distanciando cada vez mais d essa realidade. . o senhor não compreende? Déborah criou uma espécie de robô que se encarregava de reproduzir os movimentos exigidos pela realidade. Deixou escapar outro suspiro. . anular todos es ses anos de vivência do que conheceu como realidade.Uma pe ssoa . Voltando agora para Chicago. Esperem-na na sala de visitas. porém.Se qui serem depois conversar comigo de novo. Jacob aproveitou para descarregar a raiva que sentia sobre a mulher: . A Dra. Esther e Jacob mantinham-se calados.rah vive. atualmente .. que nunca tivera ou educara filhos. . não se mostraria ambiciosa. Até mesmo os pais inteligentes. faça 111 que e]a tenha boas maneiras na mesa e um futuro que corresponda aos nossos sonhos tão almejados!" Sus pirou. Espe ravam que. e nquanto que por detrás dele. esforçando-se por definir as suas impressões. está bem. doutôra . . diante das quais jamais se curvariam! Ah! Ocorreu-lhe. .Muito bem. Tudo o que viram. é melhor não. . numa luta desesperada pela saúde.Só queria saber se deu tempo para ela pentear os cabelos. está sendo instada a anular.. Ou então.E afastou-se furioso. . . doutôra? . entendam bem. Confiavam na Dra. nada disso. não tem importância.. não faria também concessões a esse tipo de conduta.. subitamente. que nunca vivencia mos essa doença diretamente. Déborah. honestos e bons acabam vendendo seus filhos com a maior tranqüilidade. nessa visita. porque ela fica tão ada. e porque os sintomas proliferam tanto.. No carro. . não compraria sonhos e os imporia inflexivelmente a uma Déborah. .Esther . Fried procurou uma forma de descrever os sentimentos de uma pessoa que ja mais soube realmente o que era a saúde mental em sua vida. mas u ma espécie de retraimento. viajando de volta para casa. e aí compreenderão porque ela não dá atenção à sua aparência. apanhou o telefone e. contradizia frontalmente suas esperanças do que fosse essa verdad e. ela foi deixando as coisas ficarem como estavam. A confusão os emudecera. Jacob. Ao deixarem a sala de visitas. Jacob limitou-se a comentar: . A doença de Déborah consiste. uma pessoa mortalmente arrasada por dentro. a verdade se descortinasse de uma vez por todas. peçam por favor ao auxiliar 116 que stá de serviço para me chamar. Ficou u m bom tempo absorta nessas considerações. como se ela não habitas se o próprio corpo.Mas ela nunca assumiu esse mundo..vou ligar para a ala e pedir que tragam Déborah.protestou Jacob. eu quero vê-la . tá? . discou para a Ala D. . Quem sabe.Você fala d emais! Deixe as coisas como estão e fique quietinha. só podemos supor o horror e a solidão que se escondem por trás dela.Não.Mesmo assim. não. agora. mal a haviam reconhecido. Sabendo que os pais temiam a desconhecida que se ocultava por de trás do familiar robô.

me repreendeu por eu ter olh ado para um exibicionista na rua. Confundido na sua sensibilidade pelo medo. tinha medo dele e de si mesma.Senti desprezo por ele algumas vezes . quer confundindo a doutôra. E para Déborah. consistia em que Déborah tinha muito em comum com o pai: o temperamento explosivo.Déborah desat ou a chorar.Já permiti que você fugisse de seu pai o tempo suficiente .. . era somente a figura do pai e uns poucos pensamentos seus. .. Explodindo de raiva e de medo.Claro. Sentia que o amor do pai era um amor extremamente cego e que ete não fora capaz de compreendê-la por um momento sequer. o hábito de ficar remoe ndo por dentro as coisas e extravasá-las em súbitos acessos de fúria. Falava freqüentemente nas partes infectadas destes homens. Déborah por sua vez. não sei como.. O segredo mais profundo. Atitudes carregadas de culpa e amor. De cada três homens.. Déborah sabia que as suas partes íntimas também já hav iam sido infectas.. . . Fried continuou a perseguir. o simpl es desentendimento num momento crucial.. desejo . . . p rontos para saltarem sobre mim e me agarrar. eu concordava. Compreendo a gora que não fui para ele apenas. Consciente da si milaridade. mal formulados e revestidos de tamanha culpa que acabaram 119 perdendo seus verdadeiros contornos. .. . por mais vergonho sa.ontar a verdade a Suzy.. assustadora ou repugnante que fosse. a encurralar. .Quando fala dele. . para finalmente volta r a se defrontar com dois rostos familiares e apavorantes: o do pai e o seu. .. desandou a esbravejar como se todos esses homens obedecessem a uma le i de gravidade que os atraía para mim. e aquela mesma culpa que existia nos monstros. quer nas trevas de Yr.Acho que você atingiu um filão importante..Continuam tão apavorantes assim? . é com medo.Percebeu que aquele fantasma que tinha adquirido dimensões enormes no Pânta no do medo. apenas uma filha que vivia o colocando em situ ações embaraçosas. e conhece seus próprios pensamentos. porque sabia que era verdade o que eu estava d izendo. humano . contra quem se empenhava tanto em recriminar. ódio. mas é antes de tudo um homem. a razão de ser dessa força qu e a compelia era tão misteriosa quanto as recônditas regiões de Yr. Tinha pesadelos nos quais fugia.O que? É meu pai. el e deduziu. . Inquiri-lhe com indignação: .. se já estou toda arruinada e estragada. A Dra.emboscados em vielas escuras. Que bom.. Parte do segredo. Pelo fato de eu ter atraído a atenção do indivíduo.confessou Déborah. no íntimo. .Quem sabe se o problema não era o medo que ele tinha de seus próprios instintos? . Eram verdad eiros animais. quando via ou descobria qualquer coisa...Ele tinha verdadeiro pavor dos homens. jazia sob injustiças triviais: a surra motivada por uma razão qualquer.. Será que o s outros homens alimentam os mesmos pensamentos? Sabe que sim! E os outros homen s serão capazes de controlar estes pensamentos tão bem quanto ele? Seguramente não! Déborah refletiu sobre a dissimulada sensualidade que vira transparecer tantas vez es nas atitudes do pai. apavorantes não. Parte desse mal-estar era o .. e alguma coisa mais. Os homens eram brutos lascivos até não poder mais. sentia-se irr esistivelmente compelida a colocar essa descoberta em discussão.Não. inconfessáv eis. o pai acabara desp ertando pela filha aqueles mesmos apetites. Fechava-se na cegu eira e na ignorância porque. M as não era só isso. fugia. Não presto para ninguém! P apai. que alguma coisa eu devia ter feito. esperando para me seduzir. se esquivava. se dissimulava. um era maníaco sex ual ou 118 possuidor de algum vício qualquer.Não. que não só a deixavam e xtremamente confusa como lançavam sobre ela um estigma ao transformaremna numa cúmpl ice secreta de todos os crimes infames cometidos pelos maníacos e que ele não se can sava de descrever. Homens . então. vivia me advertindo contra esses perigos. a instigar sua recalcitrante p aciente através dos meandros do amor e do ódio..O que é que eles qu erem afinal comigo. em direção ao qual Furii procurava estender as garras do mu ndo. Uma vez. me esbofeteou com força. ..anunciou Furii no deco rrer de uma sessão.

Ela esteve intemada bem ant es de você chegar. essa eu não posso esquecer! Os americanos captam as sensações peculiares à doença mental com uma precisão surpreendente às vezes. Acho que não vai querer nem precisar de macaquinhos no sótão. A escolha caberá exclusivamente a você.E se eu quiser isso. . Ergueram-se todas num pulo e ficaram à escuta. Déborah.A Srta. será muito mais rico! Conversaram por algum tempo ainda.Prosseguiremos até enxergarmos tudo.Ah. a resposta é sim. já escutei uma outra expressão. enquanto aguardava a colisão final que a deixaria louca para sempre.Talvez a doença venha a cobrar o castigo por termos nos distanc iado tanto dela. É "macaquinhos-no-sótão". firmemente imobilizada. que a lucidez extinguia-se. Fechando a procissão. mais difíceis inclusive do que a doença naquela fase que precedeu a sua vinda para cá. se eu precisar disso. que estava sempre por dentro das coisas. O que acontece é que você está rejeitando o alimento que a sustentava ..Muito bem. por falar nisso. Você ainda não teve a vivência da saúde mental para saber como ela é. Déborah estava exausta. . dois para os pés e dois para a cabeça. se realmente quiser. mas a teimosia a instigava ora a ceder ora a reagir.Beirava o ceme da questão quando o temor se abateu. . Eu chorei. Graças a Deus! Isso aqui tem estado chatíssimo.. p esado e estreptoso. A doença tinha. uma miscelânea de per- . Após alguns minut os. Seguiam-no quatro auxiliares. De qualq uer modo. Dois casulos esperavam num quarto de reclusão pelos seus ocupantes. inteiramente desorientados. um signif icado. Escute Déborah. "com macaquinhos".Ainda há mais. . pelo menos. Você terá que confiar o suficiente em mi m e crer que o novo alimento..sussurrou Déborah para Lee. ouviram-no subir novamente. fazendo a maior algazarra. . Qu ando terminarmos você poderá optar por Yr. Pairava sobre a ala uma excitação mal contida. .Déborah. .V ia. acho. Esses são os tempos mais difíceis. Coral vai voltar de novo . transportando. Você conhece? . Doida de pedra!. que tolice! . Suponho agora que devo voltar para casa. como não enxergam nada. ficam pulando de um lado para o outro.e nenhum outro apareceu até agora para substituí-lo. A chave virou a fechadura e o administrador da ala surgiu em t oda a sua magnificência.. uma velhinha de corpo mirrado e c abelos inteiramente brancos. Reinava uma grande expectativa.Ainda faltam muitos segredos para desvendarmos. generosidade. muito mais . amor. até que parou diante das portas duplas que se abri am para a Ala D. mais tarde. São ou não são maravilhosos e emocionantes esses sentimentos? ..Ora. Furii procurou fazer com que ela trouxesse à to na os inúmeros fragmentos de evidência com os quais justificava os seus temores... quando surgir. A única coisa que quer o lhe dar é a possibilidade dessa opção. .O que está acontecendo? . jogando com Furii e seu mundo. o pesado elevador desceu. quero lhe dizer que você roçou o discemimento. . . se você quiser. está tudo escuro e os macaquinhos. Vultos de uniforme branco delinearam-se na superfície translúcida e embaçada do vidro. .informou Lee. . o que significa verdade.Isso significa que vou poder continuar louca se quiser? 120 Louca Varrida . porém. Um pouco antes da hora de trazerem para cima o almoço. de verdade. que seria o sótão. A voz que se fez ouvir em seguida vinha de Yr..disse num tom desalentado .. ap esar da distância que crescia. escute! . Quer dizer o seguinte: na cabeça da gente. . uma opção verdadeira e consciente.Conheço. e você sabe disso. por pior que pudesse ser ele às vezes. . tentando alcançá-la. acu mulados até ali. Enfermeiras e auxiliares riscavam o saguão de branco e caqui com suas idas e vindas febris. Furii viu que a crise era imin ente. Perdoei mi nha mãe e meu pai.você conseguiu.todos esses segredos e poderes secretos .repreendeu Furii com severidade. ..disse Furii. e isto tudo faz parte da realidade da qua l você tem tanto medo.

121 sonagens secundários: enfermeiras do dia pertencentes à recepção, acólitos, o clero regula r, noviços, postulantes e outros. - Aquilo é a tal Srta. Coral? - Cinqüenta quilos cheinhos dela! - exclamou Lee. O equilíbrio, a riqueza de tipos e o colorido davam ao espetáculo um quê de profano. A procissão, cercada de um silêncio a bsoluto, percorreu com o seu fardo o corredor, passando sem se deter pelos dois casulos (surpreendentemente) até chegar ao quarto de reclusão Número Quatro. Passado algum tempo, os carregadores começaram a sair de novo para o corredor. Débor ah se preparava para voltar ao seu posto na janela do dormitório, quando reparou n o último dos auxiliares que saía para se juntar aos demais, cujo comportamento a imp ressionou vivamente: era absurdo, assustador e hilariante ao mesmo tempo: negava todos os princípios newtonianos da física. Ele não andava, voava! Estava inclinado no ar, com uma expressão de pasmo como- se toda a vida se resumisse a uma trajetória. Não chegou a alcançar os outros. A meio caminho, desabou. O ruído surdo da queda despe rtou a atenção dos companheiros que vieram logo acudi-lo. Déborah suspirou desapontada . Era só um homem, afinal. Não se machucara nem no vôo nem na queda mas, por pouco, não foi pisoteado pela multidão de funcionários que acorreu em pânico, para subjugar a fonte de sua propulsão. A Srta . Coral surgira no vão da porta que, por descuido, tinha ficado aberta. Seu corpo franzino parecia carregado de eletricidade. O branco dos cabelos é que fora reduzi do a cinzas pelo fogo, murmurou Déborah em Yri. Os três homens que se atracaram com ela fizeram um papel deplorável. A velha não só era combativa como ágil! Literalmente sa cudiu-os para longe, mantendo o rosto impassível e os olhos vazios e fixos à frente. Quando os outros auxiliares mergulharam na escaramuça, continuou, mais ainda, don a da situação: permaneceu imóvel deixando simplesmente que um desfizesse o que o outro fazia. Helene, sentindo-se desafiada na sua supremacia de até então ser a mulher ma is temida da ala, correu para o saguão deserto, removeu os pinos das dobradiças que seguravam a porta da enfermaria, derrubou-a com o peso do seu corpo, arremessoua no corredor e pôs-se a destruir tudo o que estava ao seu alcance. A frágil Sylvia, plantada como uma estátua de encontro à parede, não conseguiu suportar a tensão provocada pela violência de Helene: explodiu subitamente, arremessando cont ra ela, através dos restos da porta, bandejas, instrumentos médicos e toalhas. Acion aram a campainha de emergência, interviram mais doze pessoas que conseguiram final mente, subjugar o motim, e colocar Helene e Sylvia no casulo. No meio daquele tu multo o administrador da ala esqueceu-se aparentemente de fazer cumprir os cuida dos recomendados à Srta. Coral: limitaram-se a metê-la no quarto e trancar a porta. - Puxa! - comentou Lee ao cruzar com Déborah no saguão - Você tem de admitir que isso superou tudo o que aconteceu por aqui nos últimos tempos. - Incrível. .. Nunca imaginei que uma velhinha tão frágil, fosse forte o suficiente pa ra pôr o cabresto num homem! Pena eu não ter conseguido chegar até o armário de narcóticos ... - Ela esteve intemada aqui há dois anos atrás. Certa vez, vi, com os meus próprios olh os, uma cena extraordinária: a velha jogar uma cama - não foi empurrar não - jogar, Pa rece mentira, mas ela é a mais instruída de todas nós. - Mais do que Helene? - Ora se é! Fala quatro ou cinco idiomas e transa acho que com matemática lá fora. Ten tou me explicar uma vez, mas você sabe não é, nunca passei da oitava série. . . - Olhou à sua volta e logo recomeçou a circular, ansiosa para repor o mundo no seu devido lu gar. Quatro dias depois, destrancaram a porta do quarto da Srta. Coral e lhe deram au torização para que saísse para a ala. Quando, depois de algumas horas, ela surgiu hesi tante à soleira da porta, deu de cara com Déborah sentada do lado oposto. - Oi! - cumprimentou Déborah. - Oi... Você não é um pouco jovem demais para estar aqui? - A voz era idosa, mas nem u m pouco desarmônica, prolongava as vogais, que soavam como ditongos, numa pronúncia bem típica do extremo sul dos Estados Unidos. - Ah... e o que é que tem ... temos o direito de ser tão loucos quanto qualquer um.

- Objetou Déborah armando um bçicinho. - Lee Miller contou que você sabe línguas e matemát ica. É verdade? 123

Oh, ela ainda está aqui? Que pena... - e soltou uma risadinha que mais parecia um cacarejo. - Você sabe mesmo falar línguas? - Não ... que nada! Só nos ensinavam a ler e escrever um idioma naqueles tempos, e a penas o suficiente para lermos os clássicos. - E você ainda se lembra? - A pergunta a colocou de sobreaviso. Encarou Déborah long amente. Tinha, naquele momento, o porte de um Anterrabae bruscamente imobilizado na sua queda perene. Seus olhos, de um azul cristalino, pareciam chispas. Os ca belos fartos, brancos e eletrostáticos, ameaçavam inflamá-la como a um tição. - O que é que você quer de mim? - indagou finalmente. - Quero que me ensine. A rigidez das feições como que se dissolveu, o corpo afrouxou desalentado e os olhos , aqueles olhos inflexíveis, se encheram de lágrimas. - Estou doente, menina... - di sse ela - Estive muito doente. Esqueci tudo. E depois, eu acabaria cometendo err os por causa da idade... (Déborah acompanhava a luta feroz e invisível que ela trava va no íntimo para se recompor) .. . e a doença.. . - Não faz mal! - Estou cansada agora - disse a Srta. Coral, recuando de novo para dentro do qua rto - vou tomar uma decisão, mais tarde informo. - E bateu a sólida porta atrás de si. Déborah voltou a se sentar no chão, diante do quarto dela, e ficou ouvindo os sons a bafados da batalha que se travava lá dentro: imprecações, gritos, quedas, uma pancadar ia dos diabos. Um auxiliar que vinha passando, deteve-se intrigado: - Ué, pensei q ue tinha aberto essa porta... o que é que está acontecendo lá dentro? - Coral versus Coral: ação de divórcio. Estão brigando pela custódia da criança! - Déborah, você a viu sair, não viu? Foi ela quem fechou essa porta? - Sabe lá se ela não tinha que conversar com alguém! O auxiliar se afastou vagarosamente, retomando a distribuição de privilégios e autoriz ações. Déborah se sentou novamente diante da porta, e despejou no chão todos os tesouros que carregava nos bolsos. Encontrou duas guimbas de cigarro 124 que tinha conseguido surrupiar a uma enfermeira estagiária num momento de distração. F oi até a cama de Lee Miller e as colocou sob o travesseiro dela como oferenda de a gradecimento. Pagava, pela segunda vez, a dívida de Sylvia. Voltou ao seu posto em frente ao quarto da Srta. Coral. Sentia-se extremamente c ulpada. Sua substância parecia ter-se espalhado pela ala impregnando a todos de an gústia. Por cada dilaceramento íntimo, como o que ocorria por detrás daquela porta, ju lgava-se simbolicamente responsável. Lembrou-se, porém, do que Carla tinha dito: a d oença era como um copo que transbordava e, por'isso, uma ou duas gotas a mais não al teravam as coisas. Mesmo assim se perguntava se era ou não responsável? Incapaz de decidir, pôs de lado a questão. Passado algum tempo, silenciaram os ruídos dentro do quarto. A voz da Srta. Coral, arrastada e exausta, a chamou do outro l ado da porta. - Mocinha!.. . Mocinha! Você ainda está aí? - É. .. É comigo? Está me chamando? - Déborah mal conseguiu articular as palavras, taman ho era o nervosismo que sentia. - Sim, é com você - E então ela declamou: "Inter vitae scelerisque purus Non eget Mauris jaculis heque arcu. Nee vena nati s grávida sagittis, Fusce, pharetra." - O que é isso? - Amanhã - respondeu a Srta. Coral - e teremos ditado também! 125 Mary (paciente do Dr. Dowben e, para não confundir com a primeira, chamada Mary Do wben): - Assassinato e incêndio! Há um incêndio! Carla queria ir ao cinema na cidade porém como paciente da D, precisava de uma per

missão especial e de dinheiro. A Srta. Coral, que voltava a palmilhar desde o prin cípio a sua via crucis, estava ali para requerer alguns privilégios básicos. Nem bem o médico pisou na ala, os pedidos e as respostas começaram a chover de todos os lados. Quando Déborah falou no cademo de anotações, os olhos do médico detiveram-se nela por alguns segundos, avaliando-a de alto a baixo. - Vamos ver! - respondeu por sobre os ombros, dando as costas e prosseguindo seu caminho. Naquela tarde, a Dra. Adams veio à ala para ver Sylvia. Ao sair, deu por falta de um exemplar de Loock Homeward Angel que trazia consigo. Pouco depois, no mesmo d ia, uma das enfermeiras estagiárias procurava em vão o seu cademo de aulas. As páginas escritas reapareceram dois dias depois no elevador, fora da Ala dos Perturbados , mas a metade do cademo cujas folhas estavam em branco continuaram desaparecida s. Déborah pôs-se a chatear Helene para que lembrasse das poesias que sabia, e tanto ch ateou, que um dia ela recitou trechos de Hamlet e Ricardo in, arrancados, para s ua própria surpresa, de algum canto empoeirado da memória. Passava horas transcreven do conscienciosamente todas as palavras gregas e latinas que possuía no seu arsena l de tirinhas de papel. Leu e releu o "Look Homeward Angel", escondido sob o mai or sigilo debaixo do colchão, até o dia em que Mary Dowben o descobriu e o comeu tod inho, poupando apenas a capa. Conversou uma vez sobre o romance com Carla, que já o havia lido. - Se eu sou capaz de aprender essas coisas... - perguntou Déborah, - ... capaz de ler e aprender, porque a vida continua tão obscura? Carla a fitou, sorrindo complacente. - Deb, quem foi que lhe disse que aprender fatos, teorias ou línguas tem alguma coisa a ver com a gente entender a si mesma? Entender o que você tem Ce específico e distinto das outras pessoas. . . - Déborah com preendera subitamente que embora a sua sagacidade precoce tivesse uma ligação íntima c om a doença, estimulando-a em 128 certas ocasiões, ela agia independentemente dos problemas que turvavam a sua noção de realidade. - Quer dizer então que a pessoa pode aprender, aprender e continuar esquizofrênica? - com Déborah, pelo menos, isso pode acontecer - interveio Helene ferina. Déborah foi esconder seu cademo atrás do aquecedor do dormitório, e deitou-se, em segu ida, na cama, de onde só saiu três meses depois. Durante todo esse período levantou-se apenas para ir ao banheiro ou para comparecer às sessões com a Dra. Fried. Foi uma das épocas mais sombrias e obscuras de sua vida. Deixava-se arrebatar por Yr, entr egava-se às divindades e aos personagens do Coletor, sem opor a menor resistência, e xceto no decorrer das sessões com a Dra. Fried. Carla aparecia, às vezes, para conta r os boatos que corriam na ala e os pequenos incidentes do dia. Déborah era incapa z de expressar o quanto essas visitas significavam para ela. Constituíam, ultimame nte, o único contato humano que mantinha por dias e dias seguidos, pois a máscara po r detrás da qual se ocultava, dava a ela uma expressão tão hostil que os auxiliares, q uando vinham trazer as refeições ou trocar as roupas de cama, afastavam-se o mais rápi do possível sem lhe dirigir uma só palavra, sequer um aceno de cabeça. Voltou a ter pe sadelos, a acordar sobressaltada e gritando durante as noites. Logo a transferir am do dormitório da frente, cheio de gente e barulhento, para um quartinho escuro, nos fundos do corredor, junto com duas outras mortas vivas. Criaturas acostumad as às trevas, sentiam-se mal com a luz: quando raiava o dia, calavam-se completame nte e não enxergavam nada diante dos olhos. Reinava um silêncio sepulcral. De repent e, uma delas, atormentada por algum pesadelo, irrompia em gritos dilacerantes, f azendo com que se despedaçasse a crosta quebradiça do sono narcotizado das outras. M antinhamnas entregues a si mesmas, sepultadas entre aquelas quatro paredes, acor dando-se umas às outras, justamente para evitar que transtomassem a ala toda. Havi a noites em que Déborah tinha a impressão de estar vendo se realizarem suas fantasia s mais diabólicas a respeito da loucura, fantasias construídas a partir do arsenal d e ameaças com que as babás costumavam acenar quando era criança. Despertava, freqüenteme nte, com uma das companheiras de quarto de pé sobre ela, com os braços erguidos 129

Uma outra noite. Rec ordou-se do Censor. volte para a cama e me deixe dormir um pouco. quando foi bruscamente acordada por uma das mortas vivas. Reconheceu a voz e.murmurou Déborah.num gesto de sacerdotiza. se permitiu pela primeira vez algumas palavras em louvor à boa luz que a iluminou num momento tão providencial. Julgando que fosse. a pesar de tudo.. Delia. Agora sorria e di ga "como vai". fumando um cigarro. scomos nós quem escolhemos esses diferentes caminhos. numa esco lha. Helene .Esqueça essas experiências Déborah! Você provavelmente não conhece nem de longe o que é se sentir mentalmente sã.furiosa e embrutecida . embora fosse familiar a agressividade explosiva de sua dona. mas não a importuna va muito. ..Pensa que me assusta! Você não seria capaz de competir com o menor dos meus pesade los. continuava ainda muito limitada. sofrerá os mesmos terrores. Deu as costas e foi embora... Déborah levantou-se finalmente da cama.Ah. tá? A menina se afastou. pela primeira vez. A Srta. e numa das minhas piores noites? . recuperara-se. um vulto angustiado e macilento aguardava que seus pensame ntos voltassem a pousar nela: Doris Rivera que saíra para o mundo.pergunt ou Déborah. Durante os meses transcorridos naquela cama. antes de tudo. insensível. com um suspiro de alívio.Dê o fora. mas Déborah percebeu que o tom era muito mais de orgulho ferido do que de selvageria. tingida de cinza. volte para a cama. num desafio..Estive me lembrando de mais al . Sua visão.. Helene.De sisti de tudo porque estava cansada . pôrra! Suma-se! . ou então esmurrando-a num sonâmbulo acesso de fúria. A imagem que tinha de Doris era de um fantasma glacial. Déborah! . seja acordada . pensou muitas vezes na figura semilegendária de Doris Rivera: ocupara os mesmos quartos. e não há nada que você possa faz r comigo que a minha própria loucura já não tenha feito de uma forma muito mais eficie nte e dolorosa. uma menina gordinha que andava por todo o quarto batendo os pés com força.Eu seria capaz de tudo. Ela não disse nada. pessoas e lugares que apareciam e desapareciam. como de hábito.Escute.Eu sou louca. rompeu o silêncio e o terror nos quais estivera encerrada até então: .Como ela consegue suportar. aproximando-se . .disse ela. Levanto u-se tão inesperadamente quanto se deitara. voltara de novo ao mundo. Por que razão? Não sabia. contudo. Sonhava uma noite com o pai e aquela outra faceta do seu amor. 130 . uma das companheiras de quarto.v eio assustá-la. como foram terríveis aqueles anos que vivi no mundo. cansada demais para continuar lutando! Furii tinha dito que a sanidade consistia. cana lizando todas as suas energias para sustentar a aparência.ameaçou Helene.Será que ela pôde escolher? Será que a sanidade representa uma opção para ela? . . . Foi até o saguão e parou junto à porta da al a.Talvez ela se limite a ranger os dentes e a lutar a cada minuto.ameaçou ela novamente. Um belo dia. Boa noite. que consistia num desejo puramente humano.perguntou a Carl a. ... Helene. Coral estava sentada no chão. Déborah. . seja dormindo. gargalhou com a maior naturalidade. mas os desafios que Déborah conhecia eram surpresas preparadas por Yr: cobras que se desprendiam inesperadamente das paredes. Déborah. .Ora. p ercebera nos olhos das pessoas a mesma descrença de que viesse a se recuperar e. . os choques medonhos resultantes da colisão dos mundos. . . como se o riso fosse uma constante no seu q uotidiano.Segundo a minha médica. pelo amor de Deus.Eu sou louca. fingindo-se de fantasma. Fora necessário reunir uma energia extraordinária para suportá-lo. . dia após dia. . sorriu. um sorriso de boas-vindas. o sumo guardião da Aparência: Agora dê um passo. Furii dissera: . seja bem-vinda. Confie no nosso trabalho juntas e na saúde qu e se oculta no fundo de você! Nas sombras. ora. Você está sujeita às mesmas leis que eu. Déborah sentiu uma alegria dentro de si que ultrapassava o pe queno motivo que a produziu. . Déborah esbravejou: . aquele caos horrível? . Logo que a viu.O h.

Pássaro-um? Eles se armam com um conta-gotas c heio de ácido. er a mais seguro esperar algum tempo para ver que conseqüências resultaram. Carla veio se despedir de novo: . não era um fantasma: estav a viva. teve oportunidade de dar um outro "chega-pra-lá" em Helene. Yr.Tchau. Procurava atraí-la com sua deslumbrante beleza. O Censor desatou a rir às gargalhadas. a personagem legendária que Déborah visualizava como um fantasma.gumas coisas. . nada poupam. O pior é que. então. junta-te a nós". Seria simplesmente porque ela estava contente de vê-la? Existiria re almente um mundo para além dos muros que vedavam seus olhos? Sofra. os primeiros brot os. "Junta-te a nós. no entanto. para espezinhar bem o seu sofrimento. defendendo-se contra o m edo suscitado pela partida de Carla. que bom! Como vai? . Coral para lhe recitar alguns versos de Lucrécio. havia se livrado da dolorosa sensação de perda e amizade. Foi à enfermaria. Carla. ampliou-se o campo de visão de Déb orah. que se estampou no rosto dela.Fico contente por você ter saído hoje. alimentos. e estrofes tiradas de Medéia. água. surgindo. Déb. embor a a cor propriamente continuasse imperceptível. Na manhã seguinte. ao mesmo tempo. o suficiente para se defender contra a determinação d o mundo em fazê-la sofrer. saudou amavelmente Anterrabae (esta era a saudação habitual em Yri). Carla. Doris Rivera. A corda da amizade. Anterrabae se afastava na sua queda vertigi nosa. e mais tarde. era forte! Sua rainha e vítima cons ervava ainda vestígios de poder. e da própria realidade da existência de Carla. Adulam a semente.exclamou Déborah. como que em resposta ao seu comando. sabei o que fazem. então. já que. Você poderia até pedir autorização para ir me visitar lá embaixo na B. Pela primeira vez desde que chegara à Ala D. O olho da destruição aproximava-se cada vez mais de Déborah. antes de descer. Procurou a Srta. não mexera sequer um músc ulo do rosto. respeito e temor. Pássaro-um! recomendou Anterrabae com voz suave . Déborah a encarou com uma expressão aturdida. Levantou-se do chão e foi se aconchegar às outras vítimas daquele terceiro círculo do inferno de Dante. Déborah apercebeu-se de que ainda não tinha dito nada a Carla. Os dentes reluziam como diam antes e os cabelos formavam cachos de fogo. ícomou emprestado um dos lápis "o ficiais" numerados. Você ainda quer ouvir? .e então. inc apaz de morrer. vítima. .Deb. Não dês ouvidos ao que ela diz. Deb. e por sua vez. como se a visse pela primeira vez: graça s aos códigos e à mágica de Yr. Só nesses termos consegui a imaginar o reencontro com o mundo. reagia.vou sentir falta de você! O terror despertado por essa declaração foi tão grande que começou a tremer e a suar fri o. 132 . vítima de uma resignação patética e desesperada.Era u ma atitude corajosa agir assim com tamanha espontaneidade. completou com a verdade: . Sol. antes de se aproximar. estarei por aí. Em breve a avistaria. Doris Rivera tinha ficado boa e ido embora. ainda tinha o poder de v ibrar. sorriu e a cumprimentou efusivamente: . Passou aquele dia quase alegre. e eles . gos tava de Carla. Ê doce a chamada e reconfortante o calor. Déborah usou conscientemente a máscara. quando uma pessoa saia'de uma fase difícil. Despontam. uma 131 folha de papel. que esperava como um animal acuado.Não diga . as citações filosóficas de Abelardo. quando a encontrou no saguão. esperando! Uma verdade terrível se impôs a Déborah: Carla se tomara sua amiga. . Coral pudesse ficar contente de vê-la. Demonstrava uma confi ança e uma lealdade comoventes.Eles semeiam em solo fértil. algo semelhante a um potencial para a cor. Nunca lhe ocorrera que a Srta. contando com a . Im ediatamente.ah. e dera o primeiro passo em direção àquele pesadelo que as pessoas deno minavam "realidade". embora tão debilitada. Já ia passar lá para lhe comunicar que amanhã cedo desço para a Ala B. deliciando-se com a expressão ao mesmo tempo de inveja. instig am-na a germinar no solo onde foi plantada. Déborah não atinava com uma razão que justificasse a coragem e a generosid ade de Carla. para gozar a inconstante clemência do aquecimento.Claro que sim! . chamam eles. e ficou até a hora do jantar copiando os devaneios poéticos da velha .

Queria lhe dizer uma coisa . Ele falava pouco agora. . devassando todos os horizontes.é ele quem detém as c haves. reproduzindo com trejeitos termos psiquiátricos. Sim. Déborah. na dimensão de Ir. . . graças a ele. eu acabo brigando.Ocorreu a Déborah. espere .Acho qu e a gente só consegue gostar da comida do hospital quando está tão doente que não pode r eparar nela. Quando Déborah deu por si.Quem é? Alguém daqui? Um paciente? . enfim.Ela riu da alusão. tenho certeza de que ele a ajudará com a maior boa vontade. aos olhos dos outros.Encontrei um tutor para você! Uma pessoa que lê os clássicos fluentemente. metamorfoseado num gigantesco pássaro. . O que é que você está ve ndo? perguntou ela em Yri. Acima de todas essas preocupações. Leve-me com você! Um momentinho! interveio o Censor com sua voz áspera. do preço qu e tivera que pagar por ter testemunhado e se posto à descoberto. O olho a focalizaria e a lançaria em plena selva da real idade. Provavelmente m uitas saíam do casulo. que jamais prestava atenção ao que se passava à su a volta. . um auxiliar novo. nem macho. respondeu o pássaro. que o incidente com Helene tin ha acontecido antes dela chegar. Déborah avistou no fundo do corredor a figura de Ellis. pairava em céu aberto. observando-a livrar-se do torpor.Mary deve ter algumas balas. Pensei que você soubesse dis so. e justamente hoje ele está de serviço no turno da noite. obrigando-a a se curvar em duas com tamanho ímp eto que acabou de quatro no chão. Coral aproximou-se dela: . pois pouco tinha a defender. dividia-se entre os dois. Já se habituara ao emprego. . tratava a paciente como a um fardo. Coral com timidez. encharca da de suor. pois el e não pertencia exclusivamente a nenhum dos mundos. Voara já uma vez 133 com ela.. assumira de vez. A Srta. e desapareceu. bem. Os penhascos e desfiladeiros do mundo.Já ensinei a você todo o grego que sabia. Blau? . o papel de zelador de coisas. Ellis. Lembrou-se.O que houve. Por coincidência. é o Sr. desprovida da tênue malha de defesas que levara a vida tecendo. acontece alguma coisa comigo e eu . a grandes altitudes. Ao passar por Déborah. Era natural que não soubesse da história. Nunca pude pedir nada a ninguém. . ainda meio atordoada. . agora familiares. sentindo-se à vontade na doença.exclamou horrorizada. esta sentiu o tumor diste nder-se violentamente dentro dela. porém. nunca o vira. sem olhar parà nada e ninguém. com o mesmo rosto inexpressivo. que encontrou ao seu lado. eu não posso pedir. o s pacientes não o testavam mais.principiou a Srta. .. Coral amavelmente . Ta lvez lhe tivessem repreendido por bater nas pacientes. Por que você não pede uma a ela? . . Quando se ergueu. .Não.Nunca percebi. .Se você quer conhecer . talvez não. Quando tenho que pedir. percorreu de volta o cor redor. nem fêmea. Desde a conversa com McPherson que não falava com Ellis. Lactamaeon avistou uma brec ha na terra.segurança que lhe oferecia a Ala D. . limitouse a rec uar para deixá-la passar. muito menos a falar com ela. e não Ellis.Ellis! . Aberto o banheiro. ofuscamente belo e l ivre. Lactamaeon. todo solícito. menos convencidas do mundo do que estavam ao entrar. foi Castle. Não se dignou a olhar. mergulhou nela com um grito triunfal de águia. O sarcasmo e o desdém irritantes dela. e que também era andróg ina. Se você pedir.reafirmou Idat. destrancav a o banheiro para a Esposa do Abdicado. Enquanto discutiam a questão cuidadosamente.Não. inc lusive aos seus. conhece grego a fund o. e que se de sfazia lentamente durante aquele ano no hospital. acabaram se diluindo no meio-tom rotineiro da ala. embor a continuassem tão vivos 134 quanto o fogo de Anterrabae. já anoitecera. a divindade dissimuladora. pusera de lado o disfarce da normalidade. algumas das quais ainda vivas.prosseguiu a Srta. A lua e o sol na mesma esfera.

cuidado com as opções q ue vocês nos oferecem! 135 Esther Blau passou muitas semanas preocupada e agitada. Isso nunca! Discutiram. tratando-se de um relatório sobre essas do enças comuns. o da louca em "Jane Eyre". com uma convicção nem sempre sincera. tornava-se cada dia mais difícil conversar pe rto dela. a casca da cultura se desfazia. e um dia você leu um bom pedaço para tio Claude que eu achei meio esquisito. due seus médicos eram psiquiatras.Seus próprios ouvidos estranharam aquelas palavras. . É um assunto sério. O problema se resumia em achar uma maneira adequada de contar. você citar trechos para a vovó. mas. que transmitiam suas taras aos seus descendentes.mas.propôs Jacob. Nunca mencionavam. uma contração muscular sequer que denunciasse aos pais como estav a recebendo aquelas palavras. . as histórias descrevendo o ma nicômio. era injusto continuar a alijá-la da fonte de suas preocupações mai s profundas. e então falou em voz lenta e pausada. de alguma outra ref erência que a deixara confusa. . temperou a garganta e com vo z formal começou a explicar à filha caçula que a "escola de convalescência" de Déborah era . precisava saber. Cheg aram a pedir ao Dr. Quem já não havia escutado os velhos melodramas a respeito da insa nidade como. As pessoas tinham o maior respeito pelas novas teorias com toda a sua gama de comprovações empíricas sensacionais. enfiada numa camisa de força c acorrentada num porão.Suzy esboçou um sorriso.Escuta. Naquela mesma noite. Ouço. Suzy escutava com a passividade que só uma menina de doze anos é capaz. Jacob de vez em quando a aparteava. com suas construções sombrias e lúgubres. Quando terminaram. ela não fica dizendo que é Napoleão ou coisa no gênero. mas só superficialme nte. por exemplo. . acrescentando. sepulcro de uma multidão de trapos humanos. o pulso ou a temperat ura. O clima foi pouco a pouco se descontraindo. como de hábito. Suzy voltou.. Ou seja: feche os olhos e pronto! Tudo volta a correr às mil maravil has.Não. Empertigou-se na cadeira. a "Ciência Modema" fornecera uma série de racionalizações oficiais para explicar muitos desses casos. modificando ou elucidando um ou outro aspe cto da questão. hesitando em revelar a S uzy a doença da irmã. Esther queria evitar a tod o custo que Suzy viesse a substituir a imagem familiar da irmã por aquele estereótip o da louca de olhar selvagem. quem já não ouvira falar dos maníacos assa ssinos. com os olhos perdidos nas xícaras de café. sem dúvida. . fica? .. que partira de alg uma janela do hospital. Esther e Jacob continuaram sentados. Seu rosto não extemava um sinal. por exemplo. Suzy.Vamos esperar mais um pouco . .Uma coisa que sempre me intrigou é que esses relatórios tratavam mais das idéias de Déborah do que de seu corpo. ao mesmo t empo solenes e embaraçadas.. até que finalmente venceu a posição de Esther .. no entanto.disse ela . por isso. Tudo se encaixa direitinho agora! Até que enfim as co isas fazem sentido! Levantou-se da mesa e foi para a sala ao lado praticar suas lições de piano. que sua enfermidad e era mental e não física. a despeito dos fatos. já era tempo. Suzy. às vezes. Dava-se conta agora de que fora justamente este estereótipo que ela e Jacob haviam evocado da primeira vez que viram as janelas guarnecidas de barras e que escuta ram o ranger das fechaduras ou o grito atormentado de mulher. Ao menor arranhão. na realidade. as antigas crenças e temores sobreviviam incólumes na mentalidade popular. . lembrando-se. Lister que o fizesse. 136 ao terminarem o jantar. Além disso. Ela estav a deixando de ser criança e. rodeadas de muros sólidos e indevassávei . atônitos. alegando que isso cabia exclusivamente a Esther e Jacob. mas ele se recusara. que esse "esp erar-um-pouco" era mais uma das portas por onde ele se esquivava discretamente d os problemas. arrancadas a tanto custo.Você leu os relatórios? .As suas leis espaciais são ótimas . Esther lhe pediu que ficasse. Passados alguns minutos. Esther sabia. contudo. ameaçando o futuro? Sim. cedendo lugar ao terror pr imitivo ao peso de dez mil gerações de medo e misticismo. ela p ermaneceu em silêncio por algum tempo. discutiram. um hospital. levantou-se para fazer os seus exercícios de piano. por Deus.

Elogiar uma coisa não significa condenar outra. sem esp eranças.que significa "Nada" . .comentou Furii. a graça.Falaram sobre o otimismo dos médicos. parec iam carregar o mesmo estigma. mas veio encontrar depois.Eu tinha consciência de que estava sendo uma farsante. Talvez o troar de canhão que temíamos foi o que nós ouvimos. . era ter sempre razão). . cujos gumes ela própria afiara. Por aquela épo ca. e por isso. uma pequena dose de popularidade! . alguns mortos vivos que. uma covarde. Ficava encantada com a pureza.Não? Não é condenável cortejar a morte? (Suas mãos haviam manejado com destreza a lâmina a precocidade.Você se envergonha disso? Para mim é uma evidência de que Déborah ainda mantém vínculos com a Terra. a podri dão-Déborah só começa a agir depois de um dia.No entanto. sempre se recus ara a emprestar suas roupas. a saúde que vicejavam nas outra s crianças da escola ou da colônia de férias. .Mas você não disse que costumava subornar as crianças na colônia de férias com os doces que sua mãe mandava? .. em seguida. por menos que fosse. . refazendo-se do contraste entre as e xpectativas e o que acontecera de fato. você cometeu erros que lhe custaram caro.Claro que não! . isto é. Ser rainha de Yr. as vantagens dela ser trata da cedo. . é só isso ou será que realmente ela não nos compreendeu? A i mpressão que eu tenho é que. . Segundo Déborah.você parece estar "na maior fossa". à peça de Schubert.como se diz? . livros. Só que os doces vinham em caixas impessoais cobertas de papel celo fane. Eu dava as caixas imediatamente. então o que sobrari a? Notou que se deixara levar pela vaidade e riu meio constrangida: . Além do mais. . Permaneceram ali sentados por um bom tempo. Por isso.Por exemplo.O inglês não é melhor do que o Yri! . toda a angústia que o dominava. que possuía uma substância envenenada e venenosa. Contém expressões incríveis! Ho e . Julgava. 137 Tomara que volte logo para casa.E comprava assim..Não sei não.perguntou Furii c om delicadeza . O tom em que falavam traía um pouco a esperança que tentavam transmitir. não foi? . ela e alguns outros possuíam um n ganon que as diferenciava das demais pessoas.Até mesmo emPem ai . assim que passar o choque. e cada vez mais intensamente. que isto só aconte cia consigo. quando identificou a menina errada na colônia de férias . uma substância ori ginal que definia cada pessoa. Você acredita que essa sua substância seja realmente venenosa? Déborah começou a explicar as leis de Yr que regiam o nganon.Isso é tudo?. Às vezes.perguntou Furii. . a força vigorosa e o amor que demonstravam. pelo menos tanto quanto 138 com Yr. arruinada.O inglês é mesmo uma língua maravilhosa . de início. não havia perigo de contaminação.. o Coletor já se manifestava. Esther se sentia fraca devido ao brusco relaxamento da tensão. iA composição do nganon dependia não só de fatores inatos como de fatores circunstanciais.Sim. sua escrava e pri sioneira. .disse Furii . Durante toda a sua vida. ela e tudo aquilo que a p ertencia. Roub ava-os freqüentemente conservando-os até que se dissipasse esse nganon purificador q ue os impregnava. vo ltando. lápis ou permitir sequer que alguém tocasse em suas coisas. Enquanto não fossem abertas. inclusive em seus objetos pessoais. ela vai reaparecer com o olh ar que há meses venho imaginando! . "farsante e covarde . podia me dar ao luxo de ter razão! Se eu estivesse errada.disse Suzy. Jacob deu uma longa tragada no cigarro e expeliu junto com a fumaça. tudo isso pesando em favor de Deorah. logo que as recebia.eu tinha que preservar alguma coisa. estiveram impregnados dessa venenosa essência. na Ala D.Todos nós temos! .Admito que errei mil vezes! Mas você esquece que eu era feia. por algumas horas. sinto muita falta dela . quer dizer. é verdade.

. aquele frio que remontava à distante vivência de uma separação. . quando despertou sentindo-se como um sold ado japonês capturado. A dor contínua e insuportável c ausada pelo tumor. assim como a glória e a miséria pressupostas na declaração de Yr: Tu não és como os outros! .. Déborah já não a escutava.. os japoneses atacaram Pearl Harbour. esta revelação constituía um segredo crucial. no dia em que fez nove anos de idade.. Déborah tiritava de frio. estão contra nós!" O Coletor segredou-lhe: . . e à noção inculcada 'pelo seu avô de que você era especial.chamou Déborah em Yri. Fazia sentido...Pássaro um. . Os homens 140 eram os cegos. logo que se sentiu capaz de transitar entre Yr e o mund o exterior. O prisioneiro não odiava seus captores. completou com um sorriso amável: .. era o seu ferimento de guerra. voltou-se desesperada e disse: . E esse sentimento vinha entremeado à precocidade que você tinha que su stentar. pelo contrário.Durante a guerra.. Fried... horrível." eram acusações que ouvia dele.Ah! Tu deves ser esse inimigo contra o qual eles lutam! Certa noite.. no decorrer do r elato. desejava até que vencessem.insistiu a Doutôra.Eu estava disfarçada de americana. sem extemar qualq uer alteração visível. o deu s cadente. à dolorosa intimidade de seus ferimentos." (Liberta e alada. Estava longe. as relações pareciam se in verter: os seres do mundo passavam a ser amaldiçoados.. A doutôra perscrutou-a com um olhar penetrant e. . .Onde você está agora? . estava quase adormecendo.Por quê? .Porque eu era a Inimiga! Para Déborah. mas na realidade não era uma americana.Compreendo. Ah. Déborah contou que. no alto do céu. O encantamento dizia: "e.Anterrabae.Uma japonesa de verdade? . agora. o Coletor lembrou a Débo rah: . Ela gemeu baixinho para o deus e. o universo de segredos. Furii deu-lhe um cobertor com o qual ela se enrolou e deitou no dívã. o poder de transmutar sua forma.Anterrab ae sabe o que vi. sobrevôo os desfiladeiros das tuas canções de ninar. Sintomaticamente. eram os que dormiam agora. enquanto el a tornava-se a síntese perfeita do amor e do ódio. e. .. desperta. quisera não ter visto! Qui sera banir da memória essa coisa horrível. Quando em dezembro de 1941.Eles odeiam esses japoneses como sempre te odiaram. viveu ora sob a forma de um cavalo selvagem. 139 Anterrabae! Poderá ela arcar com tão grande peso? O que está acontecendo.. eu fui uma japonesa. Sua mente. Assim. de percorrer as imensas distâncias que os separavam. . Fri ed era obrigada a pedir inúmeras vezes que ela falasse mais alto. a Dra.. quio quaru ar Yr aedat temoluqu' braown elepr' kyryr. contemplava todas as belezas e todas as maldades. a condição de prisioneira. Déborah? . à ruína de suas partes mais recô s e femininas.interveio a Dra. então. durante cerca de um ano. . .E Anterrabae. e a menina feia e detestada se transformasse num esplendoroso pássaro. Yr lhe deu de presente. o nome daquelas ilhas do Pacífico adquirir am uma conotação odiosa e infemal para os americanos. Um dia. versada num idioma estranho. à linguagem secreta. O importante é que o mundo começava a dar um sent ido às oposições irreconciliáveis que dilaceravam Déborah. sabe o que tenho a confessar. ) Quando Déborah se transformava nessa enorme criatura alada. ora sob a forma de um enorme pássaro de penas de bron ze. Por detrás da máscara de judia americana. pressentiu que ela beirava uma descoberta importante. tu não és como os outros! Recordava-se de ter escutado o trecho de algum discurso no rádio que dizia: "Os qu e não estão do nosso lado. elaborava. forçando a entrad a dos Estados Unidos na Segunda Guerra. cometiam erros. ela não. sonhos de fuga. os olhos oblíquos do In imigo ansiavam pelo dia em que seriam desmascarados. Bastava que recitasse um encantamento Yri para que se dissipasse a ilusão.

. . Não queríamos que escapasses! . m esmo fora de Yr.Quer dizer que você escondeu essa identidade de japonesa de todos os que convivi am com você. . cujo médico viera lh e pedir conselhos a respeito de um problema aparentemente insolúvel. A última enfermeira do turno do dia saiu. Começou a interferir em tudo o que eu fazia ou dizia. Você agora já não é uma vítima. sem que eu o percebe sse. Exigira dela muita atenção e uma participação intensa. viu a enfermeirachefe saindo. No início. Não foi assim? Não consi go é entender bem o lugar desse Censor no seu reino. Tu és prisioneira e vítima. e sim uma pessoa q e luta comigo em prol de uma vida boa e sadia para si mesma! A Dra.. Por favor! A crise vai se abater e s into que não terei forças pára suportá-la. "Como se se nte a doutôra hoje?" Enquanto retirava o disco da capa. "Ah.. por que fizemos isso? Lembra-te do terceiro espelho: a de cepção maior ainda está por vir! Vieste para esse hospital . mas o terror a emudecia. representavam ape nas uma tentativa de interpretar e explicar a realidade. Fazia parte exclusivamente da dimensão da Terra.Sim? . de construir uma espécie de verdade onde você pudesse viver Bem . Seus pensam entos deslizaram suavemente relembrando os tempos e as poesias de sua juventude . Só que acabou se tomando. Há três semanas que seus discos de Schumann e Beethoven jaziam sem tocar na prateleira. Embora marcasse a hora de sempre. miraculosamente. o telefone tocou. a sessão fora longa e exau stiva. A te mpestade era iminente. um verdadeiro tirano.E por isso.Está bem. Censurava todos os meus atos para não deixar que as vozes e os ritos de Yr che gassem ao conhecimento das pessoas. Pressentindo que a onda rebentaria a qualquer momento. Déborah. mas não conseguiu falar nada. foi at rás dela. Logo que chegou à ala. de uma hora antes de subir.Sra. A onda arrebentou com a violência prevista. Anterrabae fez com que Déborah quebrass e um copo e pisasse sobre os cacos com os pés descalços. O pior é que tinha ainda a t arde pela frente. Fried conduziu Déborah até a porta. Vá se deitar. A música suave e graciosa invadiu a sala. ele fazia parte da Zona do Mundo Intermediár o para impedir que os segredos de Yr transpirassem nas conversas mantidas na Ter ra. e consultou em seguida o relógio que havia sobre a escrivaninha. sim. . e depois as aulas e as dúvidas dos estudantes de psiquiatria.Estou sentindo que a crise vai se abater. Olson. por acaso. . e o próprio Yr. Déborah correu para a enf ermeira da ala que supervisionava a contagem de colheres para o jantar.concluiu a doutôra . Foi um mar de gargalhadas e zombarias ensurdecedoras! Déborah não perdeu inteiramente os sentidos. encostou-se numa poltrona. "Droga! Por que o tempo é tão curto?" Espreguiçou-se e se encamin hou para a sala de estar cantarolando alguns trechos de uma melodia.Ainda assim. Pouco depois chegava o pessoal da noite . ficou abismado e confuso com o seu e stoicismo semelhante ao "de um soldado". fechou os olhos e relaxou o corpo.Escondeu-a também de Yr? .perguntou Furii. "Qual é mesmo o programa de hoje?" Cons ultou a agenda.No dia em que terminou a guerra do Pacífico. pela décima segunda vez naquele dia. Nesse exato mome nto. Até que enfim esses malditos médicos me acham suficientemente corajosa! exclamara Débo rah em Yri para Lactamaeon. Preciso do casulo imediatamente! A enfermeira a encarou atentamente . Queria pedir ajuda. .tenho certeza de que há muito para descobrirmos e estudarmos aí." Mas dispunha. O própr io médico estremecendo a cada caco que extraía. . "Não! Chega de pacientes!" Ligou a vitrola e pôs o disco. o Censor teve o cuidado de mantê-la em segredo. Como uma brasa que seus dentes fossem triturando. continuo achando que esse Censor. a voz do Censor trovejava em seus ouvidos: Cativa e vít ima! Sabes.Á função do Censor é me proteger. respondera Lactamaeon. estava nos pla . o seminário. Não sentiu nenhuma dor.Muito bem. o pranto e o sofrimento de outras pacientes. pensava sobre um paciente. Déborah retcomou à ala apreensiva com a nuvem que ameaçava desencadear os prenúncios ter ríveis de que vinha carregada Soaram os primeiros ribombos nas esferas de Yr.Não havia lugar para ela em Yr.

tal como os outros.Sete horas. Foste descerrando um a um teus segred os.. Trazia uma expressão absolutamente estupidificada ao chegar ao casulo e deitar-se nos lençóis frios. Sentiu-se envergonhada de tê-l a julgado pelas aparências. Recostou-se na cama e fez força para suspender o corpo. Blau. ou quan do se tem problemas com o sangue. latejando de encontro aos lençóis. mas não morta! . . .É Sylvia. Quando a punição 143 se abateu com todo o seu vigor. apagaram a luz da cozinha... . Reparou num montículo b ranco na cama vizinha mas não deu para ver quem era. . . mas quando os pés estão atados com uma pressão uni pouquinho maior. A crise durara um bocado de tempo. então? . O tempo ia pass ando e ninguém aparecia. Déborah. Virou a cabeça em direção a Sylvia.Como você consegue suportar isso? .. Déborah ficou abismada: jamais seria capaz de reconhecer as horas pela rotina do h ospital. A dor t ornou-se intensa. pode ser que al guém venha. Gritou. o sangue quase não circulava.Doente. Em geral.. exceto por um breve e distante momento.. talvez seis.. Quando se cansou. parou de chamar. gritou esperando que Yr não interpretasse seu gesto como covardia e a punisse para sempre. e os calcanhares.Helene? Silêncio. mas o pior de tudo eram os pés. queimavam como fogo.. Grite. O jeito era esperar. verás só o que ela há de fazer ela e o mundo! A gargalhada que sucedeu à advertência deixou Déborah completamente for a de si.Você está bem? 144 Deus do Céu. .Esqueci que o grito de um louco é um grito de louco! .. que sempre parecera. Agora que já te expuseste o bastante. Passeou os olhos ao redor. Ninguém veio. procurou rel axar ao máximo o corpo e aproveitar a lucidez que lhe permitia ver tão fundo em seus pensamentos. como dói! Há quanto tempo estamos aqui? Cinco horas. exclamando: Decepção! Decepção! Chegou a hora! "Venham! Venham! Venham!!. gritou. Só recuperou a lucidez muito tempo depois.. Isso quer d izer que são três horas.Há quanto tempo estamos aqui.partiu da cama vizinha. .Quem está aí? . e a cama não cedeu um milímetro.Não imaginava que você me visse ou soubesse meu nome. Aconteceu alguma coisa? A curiosidade fê-la esquecer momentaneamente a dor.. pelo simples prazer de olhar. E logo Sylvia. Por que não vinham? As lágrimas escorriam pelo seu rosto e não podia enxugá-las. Anterra bae riscou as trevas inflamadas de dor. Sentiu os dentes estilhaçarem dentro da boca. A crise devia ter durado umas quatro horas.desculpou-se Déborah. que com a circulação paralisada.protestou Sylvia .. Tentou de novo arrastar o corpo para aliviar o peso dos ossos dentro das pemas." Déborah percebeu que ao se entregar a essa esperança. Finalmente. . com medo de tropeçar em mais uma decepção. Sentia os tornozelos e joelhos inchados. mais expostos ao contato com os lençóis molhados. nunca pude .Provavelmente porque tenho uma circulação melhor do que a sua. Mas não vieram.. vendo que era inúti l. ardiam como fogo.. rangendo os dentes. Lutou e se contorceu como uma fera. por seu silêncio sobretudo. Fcomos "encasuladas" juntas. até que a dor se tcomou tão intensa que acabou destrancando a voz de Déborah. não sinto d or alguma. . já se achava firmemente atada na cama. Déborah. Reaver a nitidez de visão era como uma benção. s empre a considerara uma espécie de mobília inútil na ala. Logo viriam os auxiiia res para retirá-la daquelas dolorosas "vestimentas de luta".perguntou. a pressão insuportável das correias. mui to mais próxima dos mortos do que dos vivos.. o que há? . Ah. Sylvia riu baixinho. de modo a deslocar dos tor nozelos a pressão das correias que os imobilizavam. Não posso. Nos pés. pelas mudanças de turno ou pelas idiossincrasias pessoais da equipe médica. Permitimos que confiasses nessa médica. Começou a choramingar. . . . e conseguiu apenas provocar cãibras ter ríveis em ambas as pemas.Srta. O tempo foi passando.nos. Esse ê o último.

Imorth.Escute aqui! . Mas acontece que eu conheço e sse jogo. Déborah.perguntou Sylvia.Bem? Bem? bêbeíalrfião se conteve: . Inútil! Sylvia voltara a ser móvel. Por que me fazer de boba? Já não bast a me fazer de morta? Vá lá! Sou boba. ah.gritou Déborah . e eles.. . . balançando levemente a cabeça. Recuso-me a participar da brincadeira. e que há cer tas regras nesse jogo que a vítima não deve transgredir. senão a desta médica.Agora você está bem calminha. Eu. todas as divindades e personagens de Y r se agruparam no seu horizonte. me esforço por conv encê-la de que ao revelar esses valiosos segredos para nós. d ecidiu retribuir o gesto de solidariedade que a arrebatara do seu habitual mutis mo.Sylvia. então.No mesmo instante. um sopro de dúvida fez estremecer por um momento toda aquela determinação.As correias? . A certeza de uma destruição inevitável era bem mais fácil de suportar do que fora aquele pequeníssimo "talvez".expunha-se de novo às lâminas enregelantes do vento.Dessa vez não farei concessões! .Sei que isso é um jogo. não é? . eles cantaram vitória! Se us calcanhares e seus pés ainda estavam doloridos da brincadeira.Não estou entendendo muito bem . cujo toque queimava como fogo! . e procu rando afetar a maior tranqüilidade.Parece-me que o velho hospital do passado e esse do presente fundiram-se na su a mente. Talvez ela não saiba.Todo mundo treme de m edo de encontrar o chão da sala manchado de sangue. prontos para intervirem. foi quase um alívio. estátua.. Déborah tinha esperado a decepção final por tanto tempo que. Contrastando com a incandescência da dor. . o que quer que fosse. Então você vem. .O momento em que e u iria pedir ajuda. não está colocando em risco a minha confiança em você por um momento sequer. Mas logo rejeitou a hipótese como absurda. Déborah. A esperança! .Eu a vejo. o momento em que eu confiaria. e mais ainda. Aproximou-se da cama dela reparando pelo canto dos olhos que os auxiliares a companhavam cautelosamente os seus menores gestos. . no dia seguinte e trans forma o nosso trabalho numa peça da grande decepção e mudança. um sonho! Fora predito há anos atrás. fácil! O que era is so senão uma prova de menosprezo que sentiam? Transpusera o abismo que a separava deles. . . acercou-se dela.Um dia você me fala sobre o soldado japonês e so bre como você foi alijada e discriminada pelas pessoas. pen sou Déborah. Acabou-se a farsa! Não pretendo mais manter a "esportividade".. Sylvia. não pretendo ganhar a sua confiança só para traí-la depois. apenas o latejar compassado das têmporas. manequim. Que outra mão poderia executá-la de uma forma tão implacável e completa. portanto exe e acabe de um .Será que você não tem um pingo de misericórdia? . pela prime ira vez. a caminhar para essa morte como se eu não soubesse o que ela é! Quando se defrontou com o habitual sorriso de boas-vindas de Furii. fácil. Na noite passada. o espelho da decepção final. . . pedira ajuda em inglês. A decepção ei a última mudança estão aí. conheço o final do jogo.Eles souberam escolher o momento propício! . as pemas readquirissem a cor e seus pés estivessem em condições de transportá-la.perguntaram satisfeitos. encontraram-na quieta e imóvel. falou Déborah em Yri e. e ela lhe foi dada. . A ntes de deixar Sylvia entregue àquela luz inóspita e ao incômodo de ser desenrolada.. Pouco antes de sair para o consultório da doutôra. aquela ínfima possibilidade de salvação. conservan do de humano apenas a forma. até que as articulações desinchas sem. 145 . Quando finalmente vieram soltá-la. em voz alta na presença de uma pessoa estranha.disse Furii. a Ansiada e Iminen te Morte. "Não suporto ver sofrimento".Por Deus. quando finalmente veio. Já estavam com a pedra na mão par a despedaçar o vaso de flores! .. Aguilhões impiedosos cravavam-se em ambas as pemas. Como não tinham quase o que fazer àquela hora da madrugada. di . Vamos. arrancando-lhe gemidos. Déborah não conseguiu andar.Juro que não farei! Não serei nem corajosa nem agradecida. pel a primeira vez. e de viva.prometeu a eles . que a última Mudança seria a morte ou coisa pior. entregando-se num gesto de confiança. esses caras bolam tortura s verdadeiramente diabólicas! .exclamou Déborah . projetara-se 146 enfim a sombra tenebrosa da Destruição Iminente. permitiram que ela ficasse sentada por algum tempo.Não.

a ficha completa dos recém-che gados: Nome. A ala. incentivando-a a se abrir . depois que a cobra foi apanhada. Déborah procurou. Ocupação. Estado Civil. desmaiam. porque só posso supor o que seja. você nunca esteve intemada num hospital psiquiátrico. a doutôra foi recuperando a confiança dela. Contou. Ela ficou lívida.Por que perguntar logo a mim? -. nesse estado tão lastimável. Coral. trancam as portas. Déborah encontrou. Eu me preparei toda para aparar o ataque. nesse momento. e de procurar ser paciente comigo se às vezes mi nha compreensão for um pouco lerda. enfim. . mas esqueci que estava apoia da num terreno que era deles e.Absoluta! . e para a maioria. . os professores. Respondeu às perguntas de Furii com um ar orgulhoso. um auxiliar que a informasse.. médicos. com o mesmo desapreço profano.Fiz exatamente o que as pessoas "sadias" fazem quando vêem uma cascavel. como tinha gritado por ajuda horas e horas a fio. por isso. . Outros Tratamentos e Observações.. ostentando orgulhosamente o seu "status" de veterana. Acontecimentos desse gênero transtornavam todas as pacientes: espe lhavam a angústia de uma. por via das dúvidas.disse ela . Encarou-a com aqueles seus olhos zombeteiros e prosseguiu: .explicou despreocupadamente.Trata-se de um caso de readmissão . conselheiros e familiares proporcionavam decepções e miséria ao l ongo dos anos. o safari trouxe uma nova tigresa para o cativeiro. no entan to. Apenas transfere para você a responsabilidade de ex plicarme tudo.zem. saem correndo. Hospitalizações prévias.Seja! . a dor que sentia.e saiba que lamento muito. Pouco a pouco. lembrando-se de que sempre com um sorriso nos lábios. . dificilmente eu afirmaria que tudo está bem! O que foi que aconteceu de ontem para hoje? Se você acha que começou a úl tima mudança. . tornava-se muito pouco conhecimento da chegada de novos pacientes. .Não. conseguiu di stinguir.E gritou mesmo por socorro.admiti u com amargura. qualquer mudança era um símbolo de morte. o rosto da tigresa que transportava m ao longo do salão. . repito que não vou traí-la. Lee Miller. sopravam uma aragem pr enunciadora de mudanças. Delicadamente.. . Religião. porém. Muitos vinham para a D. desde o momento em que pedira para ser levada ao casulo. no entanto. que está um pouco contente demais consigo mesma por causa desse incidente.concordou Furii . Tratamentos e Choque .Uma prova dura.Não deixa de haver nisso uma certa dose de humor . provocava m uma reação coletiva de pânico muito característica. Idade. geralmente por meio de rumores. a fagulha que precisava. bastaváLhes retirá-lo de sob os meus pés.Prove! Prove! . Furii ficou séria. Deu as costas bruscamente. como começou. Mais tarde. foi direto para o quarto e meteu-se na cama. para nós duas. seríssima. observava com um ar tolerante e divertido o acontecimento.. Ao contrário do que esperava. . mas infalível: Tempo! 17 Sob amarras idênticas às que trouxeram a Srta. Num dado momento. Lee zangou-se: . qu e beirava a alegria.Olhando para você agora. Déborah foi recons147 tituindo os acontecimentos da noite anterior. em seguida. Déborah a procurou para saber quem era (certos pacientes acabavam obte ndo com antecedência. muitos partiam. Mas isso não me impede de ajudála. . então conte para mim.E encerrou a conversa escondendo-se debaixo do cobertor. "Vá morrer lá fora. desencadeavam a violência de outra.Parece-me.Você tem certeza de que foi por tanto tempo? . . as zombadas de Yr. P ublicamente. Ach o que você está entregando os pontos com muita facilidade.de que tipo e quantos -. então. tintim por tintim.gritou. em meio ao atropelo de auxiliares.Pelo visto.. vibrava de expectativa.Não temos muito . como se tivesse passado por uma grande aventura. Gritam por socorro. sim!" A coisa já começou e você ainda ousa afirmar: "confie e tud o estará bem!" . Os mais belicosos.

hem? . O diabo é que esses médicos nunca admitem quando "entram bem"! Alguns dias depois. . mas uma coisa era certa: não fora de joe lhos! Notou que Déborah a observava com a mesma hostilidade que sentia no resto da ala. todas as atenções convergiram para Doris. Déborah escutou ela dizendo na enfermaria: . pavor. até chegar ao quartinho onde Doris fora enclausurada. Sim. conselhos. hein seu doutor! Arrume a trouxa e volte para casa. cuidados. Recuou e encostou-se na parede gaguejando.Bem feito! Rivera. Uma auxiliar contemporizou sem muita convicção: . . bem ao lado de Déborah. Pássaro-um? . Médicos e enfermeiras rangiam a s chaves de sua autoridade na fechadura de sua porta. afinal! .Alguém objetou.gritou Déborah. assistindo à volta ao lar da filha pródiga que vinha lhes roubar a soberania. desafiando-as a todas? E como ousara fracassar.berrou Lena. . Doris era mui to magra e seus cabelos começavam a ficar grisalhos. . Seu nome é Doris Rivera.É! É sim! .. a Estrela do Norte! Quem ela pensava que era. e arremetem de novo contra o mundo. quando Doris surgiu em carne e osso.Que olhar idiota é esse. uma mul tidão de irmãzinhas consumia-se de inveja. Déborah ficou atônita.perguntou Lactamaeon com um sorriso nos lábios. murmurava furiosa: . não sobre a padiola. vibrava nela uma vontade intensa de viver. ela está per dida. Era um tal de casulos e se dativos. Enquanto isso... Antes que pudesse continuar.. fecharam-se em torno de Doris e a afastaram dali.Olhe-se no espelho e verá que também não é nenhuma beldade! . gemendo cada vez que os membros do cortejo 150 emergiam de lá! Lee Miller.deixou escapar Déborah. Como arcara co m o mundo este tempo todo.Aquela sem-vergonha da Blau! A mamãezinha e o papaizinho gastam uma nota naquela puta que não devia nem existir! .s dados.Porque teus guardiães são sádicos! Naquele dia. Mary Dowben postara-se diante do quarto de Doris.O que é isso Lena. as auxiliares acudiram afli tas.. . Agarrou o pesado cinzeiro que estava usando e o arremesso u com toda a força. consultas.Que s erviço mal feito. Quantas investidas serão necessárias até que morram definitivamente? E tu. erguem-se lentamente dos chãos da ala. medo e a euforia da vingança. mais cedo ou mais tarde voltam. Déborah se afastou cabisbaixa. defrontou-se com uma hostilidade muda e implacável. e sempre voltam. pôrra! . negligência...E daí? . mas apenas para manter as aparências. e ainda assim teu coração bate. Déborah a examinou de alto a b aixo. Trevas.Por quê? gritou ela em Yri. os sentimen tos que a revolviam por dentro explodiram boca afora numa cruel e estrepitosa ga rgalhada. teu pulso persever a em viver. . Déborah ficou com a pergunt a e a raiva reboando em seus ouvidos sem resposta. fremia de indignação.Isso não é da sua conta. enquanto o auxilia r seguia tranqüilamente seu caminho.. o rosto pálido e encovado .Napoleãoü . 149 -. Depois de algum tempo. não é sua presunçosa! Como ousara ela tentar. tudo para Doris. e de novo. e de nov o. . Medo e ódio. atingindo a parede.E daí? Como é que você voltou? . e percorreu vagarosamente as portas da seção de reclusão. Quantas coisas isso provava! Subitamente. s acodem o torpor. ninguém o sabia. Mais tarde. recompõem as forças.Você já esteve aqui antes . mas dentro dela. . vacilantes como pugilistas derrubados num "round".perguntou agressivamente. foi invadida por uma onda de piedade e temor por si mesma. calma. Apesar de exausta e atordoada devido aos sedativos. sentada a um canto do saguão. e chegam em frangalhos de tant o apanhar. Quer dizer então que acabam retornando! São teimosos demais p ara aceitar que seus nganons os tornam venenosos.É aí que você está. sofrimen to. medo e inveja chocavam-se dentro dela. permitin do que o mundo a triturasse! Nesse momento. à luz do mito que ela e Carla alimentaram durante tanto tempo. A grande Doris Rivera acabara partindo a espinh a dorsal na roda do mundo.

.E eles são violentos? Déborah não escutou a resposta. iam de peito estufado. (Julgando que ela talvez ficasse no St. será que ela olha?"). do outro lado.Nosso aparelho de raio-X não está funcionando . naquele mundo sombrio e incolor.Yr começou a trovejar e o Coletor a provocá-la com zombarias.Está bem. conduziram-na num táxi ao hospital. Agnes. Déborah saltou pa ra agarrar o sapato mas caiu de mau jeito e torceu o tornozelo. Mary Dowben escorregou. e sair. Ao escutarem aquele diálogo. Déborah! Você não tem nada o que fazer aí! repreenderam os vultos bra ncos.O tom de suas vozes era ameaçador: ou saía dali. e. . Na manhã seguinte.gritou.. . Naquela mesma tarde ocorreu um acidente.Ei! Foi muito duro? Você voltou por causa disso? . mas agora vamos! .. as auxiliares acorreram mais uma vez para abafá-lo. Precisava saber urgente mente se teria que reativar o Censor.Más eles vivem dizendo que a gente vai ficar boa.Rivera. Duvidava que suas perguntas vies sem a ser respondidas. Todo mundo nos diz isso. Não tinha a menor idéia de qual a expressão que tr azia no rosto.O que por exemplo? . Chegando lá.Eis o que Doris Rivera en frentara e o que Carla enfrentaria em breve: o Mundo! Déborah desmaiou. Déborah o apanhou e o jogou de volta para Mary. alguns minutos depois.. O pior foi quando a levaram para a sala de raio-X. As pessoas no corredor voltavam discretamente a cabeça e os olhos para o 152 outro lado. . e todas as farsas e horrores sem os quais jamais sobreviveria lá fora. caiu e um de se us sapatos saltou longe. cheios de curiosidade. .Não! Eu é que fui dura demais! Aconteceram muitas coisas . De vez em quando. como se estivessem diante de uma famosa estrela de cinema ou portadora de alguma peste. Déborah ora se divertia com o ridículo da cena. "O que é que a barata faz? Voa! Numa dessas.chamou Doris do outro lado da porta. ora espumava de ódio.Sim. A conclusão impôs-se fulminante: Aí estava! . Eu também vou! declarou ela aos personagens de sua outra dimensão. insistiu. como odiaria . naquele momento. . . Umas quat ro ou cinco meninas que estavam ali começaram a brincar com ele. Dois estagiários uniformizados. .assentiu Déborah.Escutem. Nem bem chegaram à sa la de raio-X. Talvez eu consiga responder às perguntas dela! Só posso saber depois q ue ela perguntar.Cochichavam do lado de fora. não se meta nisso! .. mas eram vitais. o casulo.Blau! -. não se deram ao trabalho de vesti-la decentemente .. vocês aí. de súbito. .Ei.preveniu severamente um dos auxiliares. . deixem essa doida ficar. Provavelmente foi uma piscadela maliciosa de olhos. vestindo um velho roupão por sobre o pijama. o médico da ala o examinou e suspeitou que estivesse fraturado. . a primeira coisa que viu foram os rostos ávidos debruçados sobre ela. ant es que degenerasse em briga.Teremos que levá-la par a o hospital St. ou ia direto para a reclusão.. apavorados com a possibilidade de que ela fugisse. tinha de fazê-las.Eu só estava conversando com Doris -. merda! -.Já disse que não é da sua conta. fláci da devido à inatividade. Os estagiário s que escoltavam Déborah. correndo pelos co rredores e dormitórios. . . como a deviam estar vendo: suja. . sim. (Desinteresse afetado: "Se eu olhar. . . . cabelos desgrenhados. enfermeiras e auxiliares vinham espreitar pela porta.) Quem sabe um olhar demente também. vigiado dentro e fora por dois grupos de enfermeiras. .disse ele. os esquemas voltados para sustentar as apa rências de sanidade. ou ambas as coisas. Ocorreu-lhe. . Ao voltar a si. Dirigiu-se à porta do quarto onde Doris e stava encerrada e bateu.. cheios de si. está bem. puseram-se a descrever orgulhosamente as agruras do trabalho na "a la dos perturbados". Percebeu.Afas151 te-se dessa porta. isolaram-na num quarto privativo. . .Esta aí é que é a doente mental ? . Agnes.

Déborah saltou.Eu carrego comigo o estigma do mal. duas ou três pessoas.. absoluto e imutável. Não tinha nada a v er com o mundo. Mesmo despojadas dos instrumentos necessários. Uf! Lar doce lar! À noite.. . . . . Segundo Déborah.a moça teve um deslocamento bem feio. que você atraiu uma. atrai para si outras pessoas igualmente envenenadas. e que são uma minoria no mundo. e pior ainda antes da Primeira . rápido. mas ontem. isso quer dizer também. atestavam os impulsos autodestrutivos de centenas e centenas de pacientes. caso o tornozelo estivesse fraturado. suas proposições de reformar o mundo. está me lhorando. Esta prova.. tcomou a estrada e em seguida o desvio. talvez eu não esteja entendendo mesmo.disse Déborah ao espelho. Furii suspirou.bom. nos bancos de escola. as pessoas têm que preservar a aparência de participação -. . as circun stâncias tornavam-na muito mais "louca" do que na ala supostamente "violenta" do h ospício.. . palavra s que em Yri significavam: "Eu te amo".. atravessou o portão. 154 clama. No mundo. Num piscar de olhos.. Déborah saía do hospital mancando. Atrai sem que eu o saiba. . Armou uma cara bem agourenta e disse: .Bem! que... meta isso na sua cabeça! Será que você não entendeu nada do que eu disse até agora? O nganon age por si mesmo. Você. Lá vinha Furii com suas mensagens ardilosas. Diz mais ou menos o seguinte: "Em silêncio e em sono.ter que ficar no hospital. independenteme nte do que eu pense ou faça! . . rápido. inclusive. juro que queria uma! Assim o quadro fi caria completo.disse ela.seja no que . anterior ao agir e ao respirar. certamente a levariam de volta.contou a Furii .Como está se sentindo? . não creio que tenha havido fratura! Todos suspiraram aliviados. em meio às atribulações cotidianas de sua juventude. mas. as pe ssoas normalmente ou escolhiam ou eram escolhidas como companheiras tanto na colôn ia de férias. subiu no "vagão de carne" para a D. .. foi mancando até o banheiro grande onde ha via uma chapa de aço que servia de espelho. com o tornozelo enfaixado. com o qual o Censor vivi a me atormentando..Fui despachada para um hospital. Procure ser paciente. Entrou no táxi (já esta va a postos) que. . com ou sem fratura. veio a encontrá-la justamente no mundo. Ali. Ainda assim.. Fale-me dela s.É um dos meus ataques que vem aí! O médico empertigou-se sobressaltado. Mas eu fui boba: só me ocorreu a idéia de espumar pela boca quando e stávamos longe.Como? Explique isso melhor para mim. desceu a avenida. Sentou-se com dificuldade." Isso signi fica que a substância venenosa. Déborah fez um gesto de impaciência. Há um ditado em Yr. quanto em qualquer outro grupo. independentemente da minha vontade. compreendeu! -. as divindades e reinos de Yr. Déborah teve uma idéia: se conseguisse assustá-los b astante. nganon clama por si mesmo. quer dizer. reúne as melhores condições para ser compreensi va e indulgente.Você está tentando magoar a si mesma agora. Um mosaico de arranhões e entalhes.perguntaram os seus dois enf ermeiros (gozando o privilégio de serem os únicos com conhecimento suficiente para l idar "psicologicamente" com ela). cunh ados raivosamente sobre o aço temperado.gaguejou ele com pungido . O que aconteceu? Depois de ouvir a história toda.. justamente por conhecer a doença mental muito melhor do que eles.. e encostou na porta 153 dos fundos do Prédio Sul (Alas B e D).Não posso ajudar ninguém.Sempre achei bom vo cês não usarem camisa-de-força aqui. T udo levava a crer que uma força mágica a atraia para os outros. . por alguma força mágica. . Déborah estava convencid a de que existia uma outra prova de sua indignidade intrínseca. liga ou classe .E nagua . "Bolas!" Estava doente.. não pouparam um centp metro de espelho. . na hora de se lavar para dormir. o "eu" inimigo. ou seja.Esse preconceito custa um bocado a desaparecer . ajudá-lo... Antes da Segunda Guerra era muito pior. Afora todo o universo mágico. apoiada em seus dois enfermeiros.

. uma cumplicidade silenciosa. uma certa dose de simpatia. Pois bem. Isso foi um pouco antes de se consumar a última grande mudança. . Débora percebia. os medíocres. Sabe muito bem o que sou. Julgara-se até a própria encarnação da R . Não preciso mentir para você. . Essas afinidades não eram intencionais ou premeditadas. Suava em bicas.for. Déborah foi. Sabiam. Finge que não entende. que Eugênia tinha as suas esquisitices .Venha cá. . acima de tudo. conversar de coração aberto. Deparou com Eugênia. arranjou um jeito de se esgueirar para longe das pessoas. baixar as defesas e esquecer que o mundo era aquele caos traiçoeiro e decepcionante. entre el as. nua em pelo. queria correr pelas Planícies de ir. . . compreende. pressentiu que havia alguém mais. e por causa disso sofrerá punições terríveis do Censor. . Por outro lado. a razão dessa afinid ade.era uma pessoa solitária. porque.Ora. os espelhos das Aparências e.. muitas vezes. rindo e falando Yri em voz alta. com os corrompidos. Vamos! . Déborah descobriu que só era capaz d e corresponder a essa exigência de participação e de convivência. os desfigurados.Para quê? . mas sabe muito bem para quê: É para mim. ouviu ruídos furiosos de luta num dos boxes e. de como era penoso s ustentar as Aparências perante o mundo. o convívio satisfazia à profunda carência de transpor esses muros.mas procurou fugir à suspeita de qu e também fosse uma portadora do nganon venenoso. ao se combinar à virulência que e xistia potencialmente nela. seguindo essa linha de raciocínio. era a casa de banho que ge ralmente permanecia deserta.Bat a em mim! .O quê? . e você tem. Queria tranqüilidade . . Depois de algum tempo.Déborah começou a recuar . Pôs-se a c antar de modo a anunciar a sua presença. Existia. Ocorreulhe subitamente uma suspeita terríve l: talvez o seu nganon tivesse contagiado Eugênia e.Não. o campo de futebol. Conhe cia vários refúgios na colônia onde dispunha de uma hora ou duas de paz e solidão. desse modo. os esquisitos. as forças para sustentarem os muros que as separa vam dos outros. nem consistissem num mero ritual em benefício 155 das Aparências. Yr vinha l he exigindo uma dedicação cada vez maior. Chegando lá. o l ago. Um dos melhores.Déborah. e por isso odiavam a si e ao companheir o. as pessoas at raídas desse modo sabiam no íntimo o porque. Um dia. . Déborah conheceu uma menina inteligentíssima chama da Eugênia.comandou ela. . . dera origem a isso.Déborah recuou mais um passo. com quem quer que fosse..Quem é? . oferecendo em troca um alívio cada vez menor . na maioria das vezes. O 156 suor escorria de seu rosto em grossos filetes pelos ombros e braços . por um minuto que fosse. Acontece que. Já fora surpreendida.Não. é claro. . amarga e inquieta . Estendeu para Déborah um cinturão de couro.Sentiu que algo terrível estava por vir. .Você está fugindo. Mas o que necessitavam era. Num dos verões que passou na colônia. em seguida. . Ao se aproximar mais.. Eugênia e Déborah logo começaram a andar juntas.. queira ou não! Vo cê vai querer. . uma compreensão mútua d o quanto havia de sofrimento por trás dos atos mais triviais. no boxe com o chuveiro fechado. os aleijados. a solidariedade exterior: freqüentarem juntas o refeitório. antes que começassem a chamá-la e a procurá-la.. Ocorriam tão naturalmente qu anto a atração do imã sobre o ferro. a voz d e Eugênia.Não esqueça do q ue eu sei a seu respeito! vou obrigá-la a me bater com esse cinto. . Não posso! Não quero! O desejo e a ânsia de Eugênia saturavam o ambiente. no íntimo.Tome! .gritaram de lá. . sentindo vontade de ficar à sós. você. . e talvez até voar se Yr lhe permitisse. Pegue. . a colônia acabou aceitando-a amizade das duas e deixou de j ulgá-las e hostilizá-las. reconfortarem-se mutuamente com palavras que não soassem de todo falsas. os dementes. Uniam.Não. não se faça de desentendida. e freqüentemente se atormentavam uma à outra por causa disso.

toda satisfeita e sorridente. pois embora eu conheça outras razões que explicam essa intolerância. comentou Déborah. Devo lhe avisar qu e fracassei muitas vezes.Ora. . Déborah bateu palmas. e que você discemia de uma forma claríssima. Procuro evitar o maior número po ssível delas. Sim. reparando naquele sorriso que nada tinha da amar .mas uma ruína que só dizia respeito a s mesma.No mundo das campainhas .. Déborah avançou para ela. . .Não.Exigiram de você que desconfiasse até mesmo da realidade que lhe era mais próxima. .Algumas dessas chamadas não posso deixar de atender. com relação às mulheres da família. As interurbanas ou casos es peciais de médicos que não poderiam ligar outra hora.Encarou Déborah com um sorriso meio malicioso.Olhe.. quando a pessoa se toma sua amiga . logo in citara.uína . . é verdade? Vo cê ainda tem esse medo de contaminá-las? . Jamais pedira a alguém que a compartilhasse.onde estávamos? .Agora. . .Bem.E quais foram os resultados? . Se esse incidente dos chuveiros ocorresse hoje. mais sã quer dizer mais forte. mas sei que também há homens intemados aqui .Conseqüentemente. existe . sim.Há muitos anos que eu as venho contaminando lentamente! . .Sim.quer por afeição.E continua sendo verdade em relação à sua mãe. achando agora ridículo o susto que tinha levado. admitiu que eu estava tão doente que merecia ficar intemada num hospital. . . .concordou Furii . logo causara. . arrancoulhe das mãos o cinto. pensativa. não é assim? . . mesmo que jogando com a nossa própria vida.Os homens não são vulneráveis ao veneno feminino. . Estou curiosa. Não é para menos que o doente mental tolera tão pouco as mentiras. .Não entendi muito bem. 158 num certo sentido contribuiu.retrucou Déborah acidamente.Acho! O telefone tocou sobre a escrivaninha e a doutôra levantou-se para atendê-lo.Será verdade? Será que contribuí com alguma coisa de novo p ara você? Furii ficou um instante em silêncio. por que não? .Yr encara isso como uma pilhéria. . . Acho que eles se arruinam de um je ito diferente. é verdade. Continuamos a trabalhar j untas? . exatamente como as nossas.Falávamos sobre contaminação.perguntou Furii.Você parece estar vendo isso pela primeira vez -. quer por atr ação . Furii encolheu os ombros num gesto desamparado d e desculpas. Era um milagre quando não tocava pelo 157 menos uma vez durante as sessões. ou seja.acaba inevitavelmente arruinada. apesar de ser tão requisitada.Pemai. O seu nganon despertara o de Eugênia. para impedi-la de ter a imaginária "folha de serviços perfeita". mas você explicou bem a questão. seu pai e sua irmã? . provou-m e que eu era mais "sã" do que imaginava. testemunhar era ser conivente. .Ah. e tanto pode ser por contato direto como por proximidade. agrilhoada e condenada à destruição . Ainda assim. Nunca pensei nisso antes. sentindo-se es tranhamente gratificada...Você ainda acha isso? .Sei como é difícil progredir com uma "médica famosa e importante".Bem.suas idéias como que saíram à luz do sol. .O que foi? . Sabe. . mas ninguém admitia isso.Sim. Talvez o nganon de Eugênia foss e ainda mais virulento do que o seu. Existem alas cheinhas deles.Porque sou louca! No momento em que você admitiu que eu estava doente. Sentimos a tentação d e nos desforrarmos um pouco no placar. . .Sorriu. . nunca encarei a questão sob esse prisma. Jamais voltaram a se falar.. você fic aria tão assustada quanto ficou naquele dia? . esses anos todos eu soube que estava doente. jogou -o no chão e saiu correndo. .perguntou ao voltar a se sentar . e ser conivente. era ser responsável.Tenho certeza de que minha irmã acabará louca.

se andas à procura da realidade objetiva . Nas sessões seguintes. de seus desejos. ansiando pela v olta dos bons tempos. em homenagem a Suzy. porá abaixo as suas casas e os expulsará de vez. uma vez ou outra! Decidiram levar Suzy para j antar num restaurante chique.Você me faz ver uma nuvem branca envolvendo o cume de uma montanha.Quais são as suas intenções.Eles estão desperdiçando o tempo de um ser humano que. as orações e os juramentos. assim como Lee e Helene que acabavam de chegar. Absolutamente nenhum. Ela preferia ir à festa da turma. fez uma cara de choro. . hein? Mandar-me para a reclusão.Puxa! . Como passara rápido o tempo! Suzy. das horas felizes com a família reunida. implorou que ficass . não é? . ouvindo o s coros e os discursos.Shh! Agora não! .Está falando comigo? . num tom divertido. .Pode ser bom para mim.mas por detrás dela acha-se a mesma Furii.Eu choro . tomando ares de co ndessa elegantemente horrorizada com algum espetáculo repugnante.E. Posta dos aqui e ali como estatuetas imutáveis. a racionalidade de um fenômeno complexo e natural. para mim. Uma n oite. enquanto aguardava no saguão a distribuição de sedativos. .Vá para o diabo! . no entanto. uma revelação meramente espiritual. isso significa que. . . a filh a caçula.Pode não ser bom para ela. . a boca descaída. Coral.Bolas! Ela não é uma delinqüente condenada! . a filha de s eus sonhos? Nenhum. Jacob virou-se par a Esther que. refastelada como uma coruja velha na poltrona.Tremeu só de pensar de viver sem Yr.perguntou Lee. aqui pelo menos. Jacob sentia um profundo vazio i nterior. Por que não estava ali com eles? Era a segunda primavera que ela passava longe de casa.Tire os olhos de cima de mim! -. . pareciam esperar. desfer indo raios! . quanto ao receber. a despei to de seus esforços. terminava a escola secundária. de brincadeira. A noção do ngano n venenoso representara uma descoberta fundamental para Déborah. obediente. . segundo a fa mília. mas Jacob. sussurrou ele. As meninas começaram a se retirar em fil a do auditório.. procura va encontrar nela a lógica. pôs-se a observar a Srta . valho algum a coisa. Jurara a si mesmo dedicar este dia exclusivamente a Suzy. mas ao invés de enc arar essa noção como uma fantasia sintomática.disse Déborah . .disse Helene. estação das paixões e da impaciência. . . mas.esquivou-se a Srta. . no dia em que se d er conta disso.sibilou Esther.insistiu ele.Se eu posso ensinar-lhe algo.choro grandes lágrimas de crocodilo por esses seus deus es de Yr. Coral.disse Furii .com as três. . . com o seu toque de fogo. Vocês conseguem ler meus pensamentos? .Será que não daria para ela vir passar um tempinho conosco? Podíamos ir aos lagos. quanto mais os seus! Déborah passeou os olhos pelos personagens que decoravam as paredes do saguão. esperar. é? 159 . os olhos pe sarosos: . do que prometera a si mesmo e a Esther.murmurou para si mesma escolheste o pior lugar para começar! 160 18 Primavera.Minha cara. . No dia da cerimônia de colação de grau. não co nseguiu tirar Déborah da cabeça. seus "trajes de coroação".Está vendo? Você fica tão feliz ao dar. feminina.gura habitual. vestira-se em trajes de gala ou. graciosas e inocentes em seus vestidos brancos.Não consigo ler nem os meus. deprimido e nostálgico. . . enfim. era ao mesmo tempo inferior a ele.Vocês conseguem ler os meus pensamentos? . começaram a explorar uma convicção que Déborah compartilhava em seg redo com todos os doentes: a de que ela possuía um poder infinitamente maior do qu e o indivíduo comum e. . Que progressos fizera no sentido de vir a ser a menina recatada.

em juntos aquela noite. Justamente por ele querer tanto, a noite foi desde o iníci o um fracasso. Suzy acompanhava-os contra a vontade. Esther estava deprimida por que a filha presente voltara a ser relegada a um segundo plano pela filha ausent e. Jacob sabia que acabaria pondo tudo a perder se persistisse naquela ansiedade , mas não pôde se conter. A noite transcorreu num clima de desolação constrangedor. Num dado momento, Esther comentou com naturalidade 161 forçada: - Debby queria vir à sua colação de grau, e se ela pudesse teria mandado um pre sentinho. Suzy encarou-a com um olhar tranqüilo e disse: - Ela estava aqui. Eu vi vocês dois c onversando sobre ela quando recebíamos os diplomas, e ao nos prepararmos para a saíd a. - Que besteira! - protestou Jacob. - Juro que não conversamos sobre ninguém. - Não faz mal. .. sério! Mesmo que realmente não te"nham falado alto, foi a expressão, o olhar que vi em vocês. . . - Cogitou em descrevê-lo, caso não soubessem como os seus rostos denunciavam as preo cupações, mas as palavras eram tão complicadas e dolorosas que não conseguiu articulá-las. - Bobagem, Suzy - protestou novamente Jacob, abanando a cabeça. - Expressão, olhar. . . vejam só, que besteira! Suzy e Esther entreolharam-se rapidamente. Era claro que ele estava escondendo o jogo. "Seja indulgente", implorou Esther com os olhos. Suzy abaixou os seus e f icou algum tempo remexendo num botão do vestido. - Sabe aquela menina que estava n a minha frente na hora de receber os diplomas? Pois é, o irmão dela é um pão.. . No hospital, as pacientes recusavam-se a admitir que a primavera pudesse chegar passando por cima de todos os seus sofrimentos, mas ela veio, triunfal e radiant e. As mulheres na Ala D estavam furiosas: o mundo que as destruíra, ao invés de sofr er pelos seus pecados, parecia mais vicejante do que nunca. E quando Doris River a prendeu os cabelos, vestiu uma roupa bonita e, com um sorriso tímido, partiu de volta para o mundo, sentiram-se mortalmente traídas: Doris aliara-se à primavera con tra elas! A Esposa do Abdicado tinha a sua teoria: - Ela é uma espiã! Eu a conheci há muitos anos. A oposição paga para ela semear o caos e d epois a imprensa transforma a coisa num escândalo. - Devemos ser caridosos - apregoava MaryDowben, com ares de santa. - Devemos ser caridosos, ainda que ela seja portadora de todas as moléstias sociais que se poss a imaginar, para não falar das infecções nas partes pudicas, transmitidas por homens d e reputação desprezível. Sem mencionar esquizofrenia da natureza mais sórdida e imunda. - À medi162 da que ia elevando o tom de voz, transpareciam as arestas desarmônicas do pânico. -Vocês doentes mentais são tão engraçados! - exclamou Mary Fiorentini. Foi o bastante para desencadear a briga. A ala toda transformou-se bruscamente num remoinho de fúria e medo, onde as brigas irrompiam com uma espontaneidade selvagem e absurda. - Como tem paciente em reclusão hoje, hein? - comentou uma estagiária recém-chegada. - Quando pegarem mais alguns, vão começar a enclausurar de dois em dois - retrucou Déb orah. - É.. . é. . . - assentiu a estagiária (tratamento Número Três, sorriso amarelo, saindo pe la tangente). Déborah afastou-se e tentou acertar mais uma vez o sapato no relógio d a parede da enfermaria. - Daria tudo para acabar com aquele sorriso. - A tua cara já é mais do que suficiente - disse Helene. - Pelo menos a mim você consegue ser superior, não é? Mais uma briga. - Há épocas assim na ala - asseguravam os auxiliares antigos aos mais novos. - Não cos tuma ser tão violenta. - Os mais novos, contudo, não acreditavam. As estagiárias de en fermaria recém-ingressas andavam assustadíssimas. Duas enfermeiras da turma preceden te tinham "fundido a cuca" pouco depois de receberem suas filiações psiquiátricas, e e stavam agora intemadas num hospital. - Cuidado, porque as coisas que se vê aqui comentava-se à boca pequena - acabam deixando a gente maluco.

As quatro novas estagiárias recém-chegadas, designadas para a Ala D, estavam tão apavo radas que não se desgarraram umas das outras, formando um grupinho coeso e discrim inatório. Criou-se, naturalmente, um contraste entre essas jovens, belas e saudáveis portadoras da primavera, e as pacientes, sombrias portadoras dos nganons veneno sos. Helene e Constantia desbastariam aos tapas e pontapés a singularidade das nov as inimigas. Déborah simplesmente baniria as recém-chegadas da cabeça até que se dissolv essem na rotina anônima da ala. Só as enxergaria como vultos brancos e indistintos, e só as escuta163 ria quando se referissem a ela ou lhe dessem ordens específicas. Estas defesas, qu e eram inconscientes, impediam-na de assumir a presença das estagiárias, cujas virtu des (atribuídas exclusivamente por Déborah) fariam com que ela se sentisse conscient e de sua "loucura" e, portanto, de que era diferente. Uma tarde, Déborah estava sentada no chão perto da enfermaria, olhando fixamente o f amigerado mostrador do relógio, quando surpreendeu a conversa de duas das estagiária s. - É verdade que uma paciente da B vem para cá? Onde é que ela vai ficar? - Não sei, mas se vem é porque deve ter "fundido a cuca" mesmo! - Lembra o que Márcia disse? Elas melhoram e tornam a piorar de novo. Espero que e sta pelo menos saiba como usar a privada, e por onde engolir a comida! - Ambas a bafaram o riso. Na hora não ligou: sabia perfeitamente que o riso denotava apenas ansiedade. No en tanto, quando trouxeram mais tarde Carla, dilacerada interiormente, com a mesma expressão terrível de derrota com que Doris Rivera chegara, Déborah ficou furiosa. Aqu eles dois vultos brancos não tinham zombado de uma maluca qualquer, mas de Carla, uma pessoa boa até a medula dos ossos; boa a ponto de ter sido gentil quando Déborah a ferira na sua região dolorosa. Ninguém diria, vendo as duas, que eram tão amigas. Seria, contudo, um gesto extremam ente penoso e, acima de tudo, uma interferência - isto era incompreensível para os " sãos" - Déborah cumprimentar Carla, sabendo que ela estava arrasada e que poderia se arrepender mais tarde caso este cumprimento suscitasse uma reação violenta ou mesmo rude. Por isso, nem sequer olhou para Carla. Limitou-se a esperar, por detrás de sua máscara de pedra, até que a companheira fizesse algum sinal discreto mostrando r econhecê-la. Só então se aproximaram uma da outra e, ainda assim, afetando o maior desinteresse p ossível. Déborah sorriu acanhada, e foi aí que ocorreu um fenômeno surpreendente. Acostu mara-se a ver tudo desprovido de relevo, cinzento, anuviado e apenas em duas dim ensões. E eis que do borrão, surge Carla 164

nas suas três dimensões, todas as suas cores, incrivelmente nítida e clara. - Oi! - cumprimentou Déborah, mal erguendo a voz - Oi! - Você pode fumar? - Nenhum privilégio. - Hum. Voltaram a se cruzar mais tarde diante do banheiro, onde Carla aguardava que uma auxiliar destrancasse a porta. - Vamos jantar na minha cama hoje? Carla não respondeu. Quando serviram o jantar, apareceu com a bandeja no dormitório dos fundos. - Posso ficar? Déborah arredou para o lado, deixando-lhe o melhor lugar, ao pé da cama (Alô, alô minha amiga multidimensional e colorida! Estou tão contente de vê-la!"). - Doris voltou e já saiu de novo, sabia? - Contaram-me. - Carla ergueu os olhos para ela e, por um milagre, pareceu enxer gar através da máscara. - Ora Déb. . . não é tão ruim assim. Tive que voltar porque comecei me esforçando demais, porque parte do que fiz foi contra meu pai... e por uma série de outras razões. Não estou entregando os pontos. Só estou cansada. - Seus olhos se en

cheram de lágrimas. Déborah ficou paralisada pela confusão e o terror que lhe inspirav a a tristeza da amiga. Estranho mistério, este das pessoas que se afogam no oceano caótico e terrível que era o mundo, e depois, pálidas e trêmulas ainda, se arrojam de n ovo sobre ele. O que os leva a pensar que podem flutuar com os outros, quando a tensão superficia l de seus nganons foi rompida no primeiro afogamento? - perguntou Déborah a Lactam aeon. Só Idat sabe - respondeu ele. - Para alguns, nada é impossível! Déborah sentiu todos os músculos retesarem-se de medo. Achas então que o nganon dela não é intrinsicamente mau, e sim. . . e sim. .. circunstancialmente mau? - Acho! - Mas nós scomos amigas! Se a substância dela não é igual à minha, isto significa que vou envenená-la! - Exatamente. 165 Pode uma coisa contrariar tanto as leis? Pois se as próprias Leis afirtnam: "ngano n clama por si mesmo". Como é possível que eu tenha atraído uma essência diferente da mi nha? - Talvez isto seja uma punição - ponderou Lactamaeon - Ocasionalmente, tu destróis par a te punir. Olhou para Carla e encontrou-a chorando ainda. Decepção! Acreditava conhecer o código, depois de anos e anos de sofrimento procurando uma pista para decifrá-lo e, ao ch egar ao último degrau, via-o desfazer-se e ressurgir o velho caos, a anarquia, as zombarias. Ela era minha amiga! gritou para os deuses que partiam. Não parecia estar magoada. ... Tu e ela não são da mesma substância; os nganos são diferentes. Serás a assassina de tua a miga! Quando Carla parou de chorar, Déborah continuava sentada do outro lado da cama, ma s estava longe... muito, muito longe. Para grande surpresa e desagrado de Déborah, uma estagiária deu para se afeiçoar por e la. Bastava que botasse a cara nos "locais públicos" da ala, para que a moça (ou mel hor o vulto branco e a voz indistinta, destacando-se no pano de fundo cinza) se pusesse a segui-la diligentemente, com uma jovialidade gratuita e importuna. Deves estar mais doente do que pensas, disse Déborah para si mesma em Yri. Estas p essoas escolhem, em geral, os piores para lançar a Deus. Deus é como o cachorro e Débo rah como os ossos. Conseqüentemente, Osso será meu nome! Estas palavras soara-Lhe tão engraçadas, que não se conteve e riu às gargalhadas. Em seg uida, fez com as mãos o gesto simbólico em Yri e a mímica correspondente ao riso, em s ilêncio, como convinha a Yr. - Quem está rindo aí? - perguntou Anterrabae num tom brincalhão. - Sou eu, a Coisa-Osso-de-Deus! Desataram a rir até expurgar de dentro de si o tormento da terra. Como ficará o êxtase glorioso daquela sacerdotiza quando Deus Sentir o cheiro da oferenda que lhe fi zeram! - e os dois caíram na gargalhada novamente. 166

E a surpresa no rosto da meiga e piedosa estagiária com o furor dos Poderes Celest iais? Dessa vez as risadas terminariam em amargor, pois Déborah sabia que não teria coragem para pedir à menina que parasse de segui-la e perturbá-la com as suas interv enções solícitas. A primavera seguiu o seu curso. No decorrer das sessões com Furii, Déborah foi desce rrando um a um seus segredos, seus temores, e as senhas que davam passagem a seu s mundos. Entregava-os, porém, apenas para apressar o momento em que, finalmente, ela própria capitularia à grande e última decepção, tão inevitável quanto Jaganata ou a que perene de Anterrabae. A iminência da destruição dava-lhe calafrios. Ficava, às vezes hor as, dramatizando a sua destruição, fantasiando as mais diversas mortes, todas elas s ublimes. Furii botou as mãos na cabeça: - Deus nos acuda! Adolescência também!

E daí que isso não tem cura..propôs avidamente .Lançou sobre Déborah um olhar penetrante e sorriu. a médica de Sylvia.Estou planejando partir dia vinte e seis de junho e voltar dia dezoito de sete mbro.concordou Déborah. no mundo dos adultos. tinha a sensação de fato consumado. Furii. o diab o! Agora. uma verdadeira mulher em potencial. não foi emocionante ou. Conversei uma noite com Fiorentini quan do estava de serviço na ala. se preparando para voltar à ala... ele comprou isso para mim como lembrança da viagem. apenas representaria o mundo nas batalhas de Déborah com seus censores. . enquanto F urii a solicitava com perguntas. i . tão honrada de estar com meu pai. Depois vêm as minhas férias e. . por causa de uma conferência em Zu rique. onde. inclusive já assisti ela trabalhando e gostei muito. Déborah havia empenhado todo o seu esforço de análise. Interrompeu as divagações com uma palmada nos joelhos. 168 Nas sessões seguintes. Era como se dissesse: "vou confiar a você uma das minhas recordações. Tem também Halle. Déborah contudo. Providenciarei alguém para me substituir enquanto estiver fora. . Furii falou sobre as qualificações do substituto. A segunda não é senão outra evidência indi scutível de que você é cem por cento uma integrante do mundo. Faça o que lhe der na veneta: fantasias. . Déb orah se sentiu mais uma vez "igual". acompanhando o seu olhar. não. o melhor.Você gostou da viagem? . É um tipo raro de madeira petrificada. Sempre em desordem. meu pai me levou numa viagem a Carlsbad. afinal? . espere.Não costumo partir flores. Certo? . ou uma mensagem indire ta a incentivando a "tomar coragem". A pr imeira combateremos com todas as nossas forças. Há mais uma coisa. Adolescente ou não. mas dessa vez você mereceu. como se diz hoje. não é ágata. era como se estivessem preparando a antiga roda de suplício. portanto. iriam quebrá-la em pedaços. por favor. Quando me formei no que vocês ch mam de curso secundário. . Ao se recuperar da segunda punição. dias depois. Tudo arranjadinho. umâ 'curtição". Aceite. e a ofereceu a Débora h ao mesmo tempo em que dizia: .Quanto tempo. tal como na Idade Média. nem costumo dar presen tes. Este gesto compensara as duas punições terríveis que recebeu de Yr por ter aceitado fl ores da terra. . quando fizera a primeira confidencia importante.Ágata? . coletores e todas as forças de Yr.Craig. .perguntou. vou participar de um simpósio que já f oi adiado várias vezes. pousava ali os olhos para descansar a c abeça. forçando-se a se expor (tankutu). ele disse que recebeu meus . Furii lhe oferecia agora ura pedacinho de si mesma. Adams.De volta às minas de sal. Lembrava-se de uma d as primeiras sessões. . os sintomas e os fantasmas do passado c omeçam a aflorar . Déborah olhou para a escrivaninha da doutôra.Conheço vários aqui .Ah.que a gente se esquece como pode parecer estéril e sem sentido es ta terapia antes do mundo adquirir uma dimensão real para o paciente. fora até o vaso e partira uma flor de um lindo ramalhete de ciclamens. não havia com o que se preocupar.Sabe o que é aquilo? .E daí? . sonhos. Era a primeira vez que Furii falava a respeito de si mesma. Quero preveni-la desde já para que vá se acostuman do à idéia. e a alertou para o fato de que o novo médico não se aprofundaria na análise.Certo! . Pretendo tirar férias mais cedo esse verão. Esta delicadeza si gnificava mais do que uma pequena pausa para descontrair.Não. onde existem os 167 tipos mais estranhos de rochas e formações rochosas. assim como você me tem confiado as suas". mas eu me senti tão gen te-grande.Em s eus olhos reluzia a lembrança daqueles momentos felizes. ajude-me a distinguir qual a doença e qual a adolescência.Hum. Freqüentemente duran te as sessões. Havia um peso de papéis de forma indefinida.O trabalho toma-s e às vezes tão intenso . nos momentos de maior tensão. a flor já estava murch a e seca.quando os segredos. sobre a possi bilidade dela se sentir rejeitada. em seguida. a médica erguera-se. só nós dois. perguntou: . Ao terminar a sessão.

. quedou-se a observá-la.Sua médica me falou muito a seu respeito. eram trabalhadas intensa e honestamente.Deu um pulo na poltrona. .Estão todos com as horas tomadas .Recostou-'se satifeito. Déborah se sentou. Lá pod eria dispor de papel.O senhor é inglês.Quem? Quem levou? . seu novo médico." .Ah. produzindo um eco lúgubre e oco.Que pode ser mais dispendiosa do que a gente pensa. O homem. mas não "perturbada".Déborah revirou a cabeça em busca de alg uma resposta. aprontavam a roda. lápis.. .Gosto da pronúncia. Requereu e obteve a transferência para a Ala B.Conteve-se outra vez.respondeu Déborah. Seus passos repercutiam no silêncio do corredor.O mesmo tom. "Prometi a ela que seria complacente.. . Decidiu tomar a iniciativa .. . .resmungou Anterrabae desden hosamente.silêncio.No que é que você está pensando? .. . Qual foi? . Conversamos bastante e eu confio nele. Em compensação. livros e privacidade. . Royson para conversar. prometi que me esforçari a o máximo possível com este. Como as leis de Yr se entrelaçavam às do mundo.. Do mesmo modo que expurgara o amor e a memória de Carla. .Sei lá. quan do a amiga deixara pela primeira vez a Ala D. Espero que passe um ótimo e prov eitoso verão.O Dr. .sente-se . página 97.perguntou ele num t om inexpressivo. mas felizmente conheci a algumas meninas..pais quando fui intemada. . As sessões de terapia adquiriram um clima de urgência devido à partida iminente de Fur ii. Di rigia-se à primeira entrevista com Royson. Royson ficará com você. .Estou sem Novocaína. . .Lu brificavam as engrenagens. um nome qualquer. mas a única coisa que lhe ocorria dizer era: "Que maneira empertigad a de se sentar!".. suas novas companhe iras morriam de medo dela por ter sido uma paciente da D.Deixo-a em boas mãos .. num dos consultórios do andar térreo. .. .. e havia enfermeiras maravilhosas que iembravam muito McPherso n. comparada à loucura de svairada da D. Após um novo silêncio. não era nada amistoso.É . e tem o Dr. Esfregou as .O pedido so ou como uma exigência. não? 170 -.É mesmo? Esses maxilares. Déborah estava convencida de que Furii partia para sempre. Furii não deixou nada comigo.disse Déborah. Déborah procurou resolver todos os problemas antes da part ida de Furii. doutôra Fried. como se tivesse sido picado por c obra. Estava no livro.convidou ele . . em terreno seguro.A tradução literal de uma palavra Yri. ele se manifestou: . . mais parecia um túmulo: trancafiada ainda.Você a chamou por um outro nome. . é.A doutôra.E que pensamentos lhe ocorrem a respeito de odontologia? . . . . . só mastigam monossílabosf . Sua aceitação seria um ato meramente f ormal. Déborah esqueceu Furii como se ela j amais tivesse existido ou viesse a existir. ..Sou. embora as incursões introspectivas não fossem nem muito esclarecedoras nem muit o profundas. pelo visto. . Encontrou-o empertigado na poltrona.O que quer dizer isso? . pelo visto. contundente. .Meu terceiro trilho . a linguagem secreta.Em odontologia . Significa: Eu consentirei! SN HAÍM") 169 19 Lutando contra o tempo. . Confortavelmente instalado.disse Furii.Entre .. .Você conhece bem o administr ador da Ala B.assegurou Furii no último dia.

. .Não se faz cirurgia com uma picareta. Mas prometi a ela. significa o movimento das ondas.. esquecendo-se.O significado se atrofiou e morreu na tradução! Seguiu-se um longo silêncio entre os dois.Isso depende da pessoa ter ou não a intenção de voltar. a ondulação dos cabelos. ou como tremulam os ves tidos longos. mas as reações automátic as e inexpressivas do médico acabaram fazendo com que ela se fechasse num mutismo denso como a noite.Déborah se sentiu um trapo .Não. . o frescor da água ou aquele marulhar suave e açoitante. bem. ela sabia que ele não tinha entendido nada. Retirar! . . .perguntou ele. este arrazoado de provas era absoluta mente irrelevante. e que qualquer a de nove ou dez anos de idade poderia formulá-las se Crl jsesse Analisou a estrutura das sentenças. o prelúdio da Punição. . e Déborah teve freqüentemente que concordar com ele.e. por exemplo. quando reflui. com rarís simas excessões.O que significa? . .A palavra é empre ada sempre que houver uma relação com o movimento das ondas.falou distraidamente. às vezes. . de que se ela pudesse formular claramente as coisas diante do mundo não seria doente mental.sê como o mar qu e. e com o eco de sua voz dizendo ao s deuses: '"Mas eu prometi. cochichou Lactamaeon no seu ouvido. e envolve uma série de outras propriedades do mar como. virou-se para ele e . maior tornava-se o silêncio que a envolvia. ou.Entendo. ele parecia desapr ová-la.. o idioma no qual fora educada de sde pequena. Significa agir como agem as ondas. além do mais. há uma outra palavra para isso. e não uma dádiva enviada pelos deuses Esmiuçou a s primeiras palavras 172 citadas por Déborah para demonstrar que se compunham lfVrfraementos de latim. . no entanto. a austeridade do homem e a frieza lógica do seu raciocín io intimidaram-na. Dsborah sentia ganas de dizer-lhe que todos aqueles argumentos repres entavam uma intrusão em sua mente. Fried contou-me que você tem uma linguagem secreta..Trazida bruscamente à realidade. . .A Dra. há muitos anos atrás. espraia sobre a areia o seu fugaz esplendor. . . .Que palavra? . desalentada como estava. ... 171 .mãos de contentamento. tcomou coragem. .O quê? . defrontouse com um rosto severo e desapr ovador encarando-a fixamente.repetiu aturdida com a pergunta. .. reproduziam a estrutura do inglês. talvez. . fran cês e alemão. utilizando a forma poética em Yri que.exclamou Anterrabae. detalhada. quanto mais se aprofundava na questão. pode ser muito bonita. Ele procurava de todos os modos convencê-la de que o Yri era u ma linguagem elaborada por ela mesma. insistiu Déborah com o flamejante deus que despencava no espaço n egro. "Significa. Diz assim: com um machado não se rapa o cabelo..Significa também partir? . A tática era engenhosa. . ou quando alguém parte.Quaru.Déborah transpirava um suor gélido.Rapa cabelo? Tentou de novo: . .Muito interessante! . Ela está morta.Por que então você não diz logo movimento das ondas? . Déborah persistiu na sessão seguinte e na seguinte e na seguinte. brilhante por vezes. tão indesejável quanto fora a dos bisturis em seu c orpo. . Contudo.Ora.E o que quer dizer isso? .insistiu a voz que vinha de fora. .Pode-se usá-la para descrever o modo como o vento sopra. . . mas ela também encerra es sa conotação de mar que. Até que finalmente um dia. Até no modo austero de se sentar. No entanto. procurando levá-la a admitir que. ne m estaria ali. . .Há inclusive um ditado (Decidira naquele instante fazer um último esforço para salva r a situação). .. e que.Diga uma palavra dessa linguagem secreta . soou-lhe de uma forma inteiramente nova: Te quaru .Quaru.

m dia. se era ou não de substância humana. Seus sentidos nada informavam: via unicamente manchas cinzentas e disformes. mas essas ocasiões eram bastante raras e exi giam uma grande quantidade de tributos cerimoniais. por acaso. O vul cão. ou sobrevoava.. em alto e bom tom: . teus véus. e foi pressionando. começou a se rmar um vulcão onde fervilhava um magma atordoante de "s e contravozes.Onde? . e cujas aberturas estavam todas vedadas e embarricadas. os mesmos meios! Conheço tuas aparências. os meus sintomas não são a minha doença ! . Idat! Por que jlutuas de branco? Branco de noiva e de mortalha . um a um. . a si mesma . Acompanhava. rígida e muda diante dele. Idat. ardeu mais ainda sob o rosto e o corpo petrificados. os Desfiladeiros do Pesar. Acendeu outros ciga rros. em pouco tempo. apareceu a ela sob a forma 173 de mulher. cujo sol era um ponto cinza equilibrando-se num imenso vazio. ergueu ligeiramente o véu. de qualquer significado. Anterrabae em sua queda etema. um fogo que por si me smo inflama enquanto debela o primeiro. ao mesmo tempo rainha e vítima dessa beleza. Apelidou o novo médico "Dente-de-Cobra". uma enfermeira entrou no quarto e ia dizer-lhe algo quando estaco u de súbito. . . . desejos e longos calafrios de terror. ódios. sob a máscara inexpressiva de seu rosto. Déborah conseguiu divisar através da máscar a.disse. Halle. e o seu universo interio r. de encontro à parte mais sensível da articulação do braço e do antebraço. Sentiu uma leve tontura e um cheiro nauseante de queimado. deu meia-volta e retirou-se ap ressada. Furii estava morta. Déborah compreendeu que a única forma de abrandar o vulcão que a queimava por dentro. um fogo de encontro. com cinco dessas guimbas em brasa. Por meio desse mesmo recurso. pouco a pouco. apareceu o médico. eram dados tão irrelevant es que não valia a pena questionar. Nem bem ela saíra. por vezes .' seria lhe opor um aceir o. cujo chocalhar ameaçador não lhe saía da cabeça durante as sessões. Isso se aplica também às rochas? com a minha ajuda. a fisionomia familiar do Dr..perguntava naquele instante o médico. para fins opostos. toda de branco. as percepções táteis não eram menos imprecisa s. Nada mais lhe restava. vagarosa e deliberadamente. Olha! A morte não é. rasgando ventos ferventes. Era um a mulher belíssima. Seria preciso um incêndio para aplacá-lo? 174 Enquanto isso. Objetos e pessoas haviam se transformado num todo indistinto e remoto. por causa das cascavéis-muito comu ns naquela época seca e quente do ano . despr ovidos.. a Dissimuladora. Aceitava-os. provaria enfim. começou a queimar meticulosamente a pele.O seu último grito soou em vão. Idat trazia um véu sobre o rosto. Passava os dias prostrada e inerte sobre a cama. Déborah se fechou num mutismo impenetrável. Quero te dizer que os homens respondem ao fogo com o fogo. Idat . e a sua presença infu ndia em Déborah a esperança de que pudesse algum dia vir a ser simplesmente feia. Sofra. recolhera um suprimento razoável de fós foros e de guimbas.dois vestidos que são o mesmo ves tido.. O vulcão não cedeu. . percebendo o cheiro de carne queimada.O que é que você quer dizer com aceiro? .retrucou Déborah. Se o dia estava lindo ou se aquel a imagem que se movia pertencia realmente a um ser vivo.disse Idat. em geral.respondeu Idat .Por favor. Ficava sentada. e com o passar do tempo acabou renunciando também aos mov imentos. Até Yr se tomara distante e in acessível. . com L actamaeon. Sempre que assumia essa forma. a morte lenta e gradual? O que se rende não luta. Tomara-se irredutível a defasagem entre o universo exterior. Havia fósf oros em abundância na Ala B e. e o que luta não se rende? Minha e strada contém todas as oposições ao mesmo tempo e. Estava claro o que Yr sugeria: nisso os seus sentidos não a enganavam. porém. onde reluzia o sol quente de verão. com grande alívio. A deusa.Parece necessário. a consumação máxima da vida? E a vida nãoé por acaso. doutor. e ouvia apenas grunhidos e rosnares surdos.

Halle segurando um vidro de antisséptico. Furii te deu uma recordação.Concordou distraído. Ela fez com as mãos o gesto Yri de aquiescência. . Já sei! vou dizer a ele que pode me tocar quanto quiser que não vai morrer." . não diga? Que interessante! .quando fico perturbada. mesmo quando a gente distingue cada linha.respondeu Déborah. .o tempo de contato é tão curto que não há possibilid des de infecção. Déborah sentiu tonteiras. . 175 . objetou Anterrabae. . . . .Déborah não esperava por uma pergunta tão franca e incisiva. . Talvez até a famosa terceira dimensão seja apenas uma questão de significado.Bem.Por isso mesmo é que estou usando esse desinfetante . inclinando-as ligeiramente para cim a. falar sobre o significado e a terceira dimensão.. mas nenhuma dor. q ue decidiu lhe dar um presente. plano e cor de um objeto. terminando o curativo. Curioso é que parece s er imune aos efeitos venenosos de meu nganon. Porque não ofereces uma jlor a ele. . sussurrou Lactamacon. Déborah a arrancou de um só puxão.disse ele num tom amável .Você tem algum problema nos olhos? . antes que ele terminasse de gritar "não!". é com o se fossemos cegos. uma voz sussurou em Yr: Olha para ele. . Um estagiário.Não se preocupe . Lembrou-se de Furii e da flor que dela recebera.retrucou o médico.. . Déborah sondou-o com um olhar de desconfiança enquanto pensava no íntimo: "O que é que e le quer dizer com isso? Estaria exigindo a gratidão? Não.você será uma das minhas pacientes lá. geralmente não consigo ver as coisas direito. sem fazer estardalhaços ou recri minações. . .Não se preocupe . Acab ei de assumir a administração da ala. . com quem se podia falar e que jamais recorreria a expedientes tais com o o "sorriso número três". . . Deci diu. Deixou escapar um vago comentário.comentou o Dr.falava com cuidado para não lhe parecer crítico. .. Mas ela está morta. Halle começou a limp ar e friccionar as queimaduras. . Depois de examinar as queimaduras.. n uma madona. Ficou tão comovida com a preocupação que ele demonstrava e com o tempo que estava perdendo. A manga da blusa tinha grudado à pele queimada. Está vendo? Sente-se mais seguro agora . satisfeito de voltar àquele trabalho mais "médico". Quando o Dr.disse Lactamaeon.Mostre-me . . pensou ela). o médico virou-se para Déborah e declarou com ar penalizado: . Ele a conduziu de volta à D. .gritou Déborah. Déborah percebeu que ele não tinha compreendido.ironizou o Coletor. sentia-se muito mais segura com Halle. Assim que transpuseram as portas duplas que davam acesso à ala.Acho que vou ter que levar você de volta para a D.Na superfície. acho que não. o toque de mágica que transforma um amontoado de planos numa caixa. ou num Dr. examinando as queim aduras. Halle.Vamos ter que limpar e vai doer. o que era outra de suas virtudes. Procurou alguma verdade com que pudesse retribuir os desvelos do médico. . então. .Você fez uma sujeira dos diabos aqui . lembra? . Persistissem ou não as trevas.disse ele.. Nada possuo de palpável. uma pesso a aberta.Cale a boca! Assim não consigo ouvir meus pensamentos! . fazendo cara de repugnância e estendendo a mão n um gesto instintivo ("parece até que a minha carne é de verdade". Déborah lhe agradeceu a idéia com a saudação Yri: Que o calor e a clareza de espírito te a companhem. De repente ele paro u e olhou para ela intrigado.disse ela afável . Oh.Não.A visão não é tudo! . E se fala sse sobre a visão? Diria assim. se não houver algum significado. jogando f ora o algodão e apanhando 176 gaze para enfaixar as feridas.Estou procurando ser o mais delicado possível .Pobre homem! . não. permanecia a postos com uma bandeja cheia de instrumentos cirúrgicos.Seja lá para onde for. a visão se toma irrelevante.

Sou novo aqui. e soavam extremamente falsas.é como escapei. estava fora de si. . embaralharam-se num grande caos. mas que talento! Definitivamente.É. gravidade e o testemunho de seus cin co sentidos. bom. suportou o castigo. você é louca. .vou deixá-la então mais uma meia hora. .Devo ter demolido tudo. haviam transposto as barreiras e caído nos ouvidos do mundo. As relações de causa e efeito se diluí am na tempestade. Passado algum tempo. . se adensando pouco a pouco à medida que a noit e caía. até os limites da exaustão. e sua visão.. a Punição. por sinal. espaço. que estava deitada na cama vizinha. As noções de luz.protestou Déborah. não excessivos de uma não consigo entender .suspirou Déborah . As zombarias do Coletor foram-se avolumando até se transformare m numa zoeira infemal. Inteiramente à margem do tempo. Déborah. porque . lá isso você deu. .gemeu apavorada.O quê? . Dei uma chegadinha para ver se você estava bem. Perdeu toda a noção de equilíbrio (não sabia se estava de cabeça para baixo ou para cima). .O que eu acabou a punição. agora. continuava tão muda e ausente c omo antes. tinha sérias dúvidas. Decepcionada e envergonhada consigo mesma. os raios de luz feriam como dardos. Quando voltou a si.Ah. a Esposa do Abdicado fora deslocada duas camas adiante.Não. . Você já pode sair do casulo? Está se sentido em condições? . já era dia. . .Não é por isso que eu vim. habitualmente cinzenta. mas um súbito torcicolo e um acesso de tosse obrigaram-na a voltar-se de novo para ele. Quando voltou enfim ao seu velho dormitório . os gestos atriz de comédia barata. Deve ser por causa da tensão.Eu bati em alguém? Machuquei alguém? . O calor congelava. . Novamente aquele tom jocoso.Menina.Ficou algum tempo lutando com a chave na fechadura. Numa das contínuas idas e vindas de pacie ntes. voltando-se espantado. até já.Oi. . virou para Déborah e comentou num tom festivo: . estava dentro de um casulo e tinha ao seu lado um médico q ue não conhecia.deramlhe uma cama que já fora sua . A pesar do que dissera o "novo" médico. .Não sei.Lembrou-se. 177 "1 Ficou apavorada ao notar que as mãos. . Déborah fez menção de virar o rosto para o outro lado..Como está se sentindo? .Ah.. Ele riu. nunca imaginei que você tivesse o bicho no c orpo. como você briga! . Como é que você está aqui? .Eu não bati em ninguém. que. Halle. sabia o que fazia. .. e sua inexperiência deixou Déborah estranhamente comovida. . uns três ou quatro dias. como a mão de um carrasco.Chiii. . abateue violentamente. Suas palavras. Deitou-se na cama e ficou observando as somb ras do crepúsculo invadirem o quarto.Há quanto tempo estou aqui? .Sorriu complacente. .. tá? Não se preocupe com essa dor.Oi. Sem nenhuma advertência prévia.É que eu estou de serviço hoje.. de que ele não saberia exatamente quando eclodira a crise. os braços e os ombros estavam doloridos. . Quando foi. A punição deixara-a exausta. fica va entre Mary Fiorentini e Sylvia. um pouco aborrecida com o comentário.Não sei.re inava uma atmosfera carregada de angústia. o. dirigidas a Yr.Ah.perguntou o Dr. Puxa. . .Eu não o conheço.Mas que você deu umas boas cabeçadas nas portas e ja nelas.. tempo. Aqui só chamam o méd ico quando alguém se mata. . . Déborah olhou para ele horr orizada. . porém. que talento! 178 Mary soltou uma gargalhada estridente. de localização e de distância. . . . meu Deus! . ... Mary. se tingiu de um rubro impenetrável. Suas gargalhadas pareciam vidro estilhaçand mas claro.

não pode durar mais do que vocês são capazes de agüentar. superava todas as precauções que vigoram na D. Se quero morr er. Guimbas de cigarro e fósforos eram fáceis de obter.Quer dizer que há um limite para a coisa? . . minha querida. emb ora. Se o homem lhe o ferecia de mão beijada essa oportunidade de morrer. treme. .retrucou ela num tom meio ácido. acho que poderá voltar à Ala B muito em breve. voltou às suas gargalhadas irritantes. . furiosa ainda com aquela idéia dele permitir que se queimasse até a morte na B. casos como você deviam saber que o inferno (foi sacudida por u m novo acesso de riso) . porque é que estou me sal181 vando? . com um 179 sorriso de Walt Premida usca de 180 irônico e aquela jovialidade forçada. . por um impulso incontrolável. existia de fato um limite. merg ulhando o dormitório na escuridão.Você está com uma cara muito melhor hoje . Mary. já que você melhorou tanto. Déborah compreendeu que Mary. Divertia-se com a falta de atenção d as enfermeiras e auxiliares. a rigor.perguntou a si mesma. torcendo-o como se torce roupa lavada. Precisava dispor de um supr imento considerável. que respiravam ao seu redor tomaram aquela incandescência d esmaiada.Fico satisfeito por você me ter dito isso . que estava apavorada. Fora engraçadíssimo: "Sou Débor ah". Teria razão? Haveria pelo menos fr onteiras naquele pesadelo sem leis? Os últimos vestígios do dia se extinguiram. estendera-lhe a mão num gesto dissimulado e fratemal: sim. o tal médico novo reapareceu na ala. Acenderam as luzes. 20 Déborah passou a depender cada vez mais dos aceiros para amainar a pressão insuportáve l do vulcão.Bem. só mudava o local das quei maduras quando começavam a infeccionar e supurar. das paredes e dos corpos inertes. e agora Mary lhe oferecia um pouco de sabedoria. Num estalo. Continuou a queimar os mesmos lugares. Con statou. Ouvindo isso. por que estava ressentida com ele? . lembrou que lá os regulamentos eram muito menos rígidos e havia fósforos em abundância: seria a oportunidade ideal para executar a morte que almejava. e como era im portante saber disso! Até mesmo as pessoas venenosas. no entanto. Carla. eram capazes de se ajudar umas às outras.Bem. Su a visão já era um pouco mais nítida. .comentou.Ora.Não era para menos . "logo ali". estivessem sujeitos às mais severas restrições. pois o alívio trazido pelas queimaduras não durava mais que uma h ora. Helene. e os contornos amortecidos das camas. É como a dor física .Tenho mais algumas queimaduras. mesmo assim ninguém re parava. No final da semana. Déborah se ocupou em refletir no que ela dissera. detendo-se junto a Déborah na s ala de estar. mais seria obsceno.soltou uma ris adinha irônica e. mas logo se recompôs. francamente.a gente treme.Tive um trabalho dos diabo s para mantê-la assim! . concluiu com seus botões..declarou como quem não quer nada. por mais agoniada e irritante que fosse. . Déborah começou a tirar o suéter. característica das noites de verão. apontando em seguida para a sua cama. As feridas supuravam e fediam. respondera: "Eu sou o manicômio na versão Disney".disse meio sem graça.. Sylvia (com o seu imobilismo m ortal) deram provas disso.. acrescentando camadas de queim aduras umas sobre as outras. A intensidade de seu des ejo. "É porque eles realmente não querem olhar para nós". lembrando-se do primeiro encontro com Mary. simplesmente obsceno! . Por alguns dias conseguiu manter as feridas em segredo. dissera. sem saber bem porque.. Talvez até mesmo no Inferno houvesse misericórdia. e depois acaba! . O médico olhou para ela chocado. Déborah saiu da cama e foi rastrear a ala em b combustível para mais um aceiro. Déborah riu. porém. se empenhassem toda a sua coragem e energia. e logo a pressão passava a ser insuportável de novo.

Não. o cigarro aceso que esqueceu na sala de estar bastou para mais uma série de queimaduras. vergonha. com um aspecto inacreditavelment e diferente. inteiramente subvertidas. o vulcão explodiria e entraria em erupção. estavam todos à solta. como dizia Anterrabae. mas não era impossível. . . mil sensações conflitantes dilaceravam-na interiormente. como tantos outros.Muito obrigada. punindo a torto e a direito. continuavam inalterados. um pouco acusador. comendo com os dedos e urinando no chão. foi suprimido. Logo atrás dela. com toda nitidez.Deus do Céu! . já há algum tempo. dirigindo-se à região iluminada onde o Homem Moderno fornecia às pacientes seus símbol os de status: cigarro e fósforo.Olhou ao redor de novo. essas coisas horrív . .Tinha que contar a ele.A enfermeira trouxe uma cadeira para ela. ainda estava por vir. A sua rotina de vida adquirira.Divertiu-se bastante? . ávido por fogo. . a que mais a assustava era a alegria 183 de rever Furii.Como estão as velhas feridas? . Déborah sentia vonta de de sumir. A Grande e Última Dec epção. sem dúvida. o Co letor. a Esposa do Abdicado a acusou de ser espiã a soldo do Secretário do Interior.disse Lee Miller sarcasticamente. por mais que Déborah opusesse o fogo ao vulcão. que se tcom ou assim uma ilha de modemidade cercada de pré-história.Vamos tentar um curativo diferente. Déborah estava convicta de que. àquela sua expressão de desgosto. . De todas as sensações. numa selvager ia descontrolada e inexplicável. contendo a agressividade. .Você voltou. bamboleando e resmungando son s inarticulados. voltou para cá. O garfo. varreram a ala de cima a baixo com severas reformas.perguntou. o Censor. . e agora.Puxa! Quantas vezes você queimou isso? . justamente por não ter mudado nada. para a sua surpresa. . cheiro e dimensões. viva e inteira. vinha Furii. Não se deu ao trabalho de responder pois ele viu com seus próprios olhos. Pouco depois. afinal. descobriu que estava no casulo.Não é a primeira vez que você vê.Umas oito. Tudo o mais retroscedeu ao pleistoceno: Pitecântropos Erectus vagueavam a esmo.Você andou mexendo aqui. cujo universo cinze nto e difuso só admitia uma excessão: o cigarro focalizado. o qual figurav a como o pior entre os seus Inimigos.perguntou o médico soltando as bandagens do curati vo. v . . a repreender as enf ermeiras pela falta de cuidado em deixar materiais inflamáveis e perigosos na ala. ao cruzar com Déborah .. os seus tr ajes graníticos.Deus do Céu! .. Um dia.Déborah estendeu o outro braço. Mesmo ali a lógica das decisões em Yr parecia ter sid o suprimida e as leis. e isso graças à fal a de cuidado do Homem Moderno que acendia os seus curiosos cilindros. ele se afastou.O que aconteceu? Você estava indo tão bem q uando viajei. sem saber que. . mas nada d isso deixou transparecer na sua fisionomia pétrea. Deixe-me ver as novas queimaduras. Restringiram o uso do fogo aos limites da enfermaria. Terminados os curativos. uma chave rangeu n a porta e entrou uma enfermeira. . No entanto. guria! ... de escapar ao olhar dela. disposto. a superfície dele. Raiva de si mesma. recomeçando as zombadas de se mpre. medo. cor. . acordou e.Muito obrigada. desespero.repetiu Furii baixinho.. A Idade do Metal cedeu lugar à Ida de da Madeira.retrucou Déborah. Furii passe ou os olhos pelo quarto. ao seu lado. um ser primitivo espreitava. E os Deuses. piedade.. As que imaduras recusavam-se teimosamente a cicatrizar. org ulho. . m ais cedo ou mais tarde. não é covarde? rosnou o Coletor.Vá para o inferno! . . Contudo. qu e fora introduzido um ano antes. . sem muita convicção. . Quando os legisladores da D descobriram que seus pacientes não estavam tão a salvo c omo imaginavam. não foi? . . sentou-se junto à cama e balançou a cabeça com um ar de espan to. formas terrenas que. Numa outra ocasião.murmurou Déborah.. na realidade . 182 Tornou-se difícil conseguir fósforos e guimbas. por alguma razão mágica. não passavam de minúcias gramaticais..

Déborah faria a maior parte dos papéis masculinos e a velha. com Royson. Maldita! Maldita que sou! Tentou chorar e vieram baixinho uns soluços roucos uma respiração ofegante e áspera.Scomos ambas suficientemente fortes! Respirou fundo. Haveria duas pessoas no Mundo que falassem a mesma língua? Ao responder. A peça. Sentiu-se profundamente envergonhada. . Os atores..Não consigo nem a rrancá-las de dentro. . . Mary.Disse foi? . Coral. a Srta."Vamos.disse suavemen te . . três. . e ele só queria provar que tinha razão e que era mais esperto do que eu. percebendo satisfeitas que os auxiliares riam com elas e não só delas. exalava um cheiro insuportável de magnolias. Odeio minha vida e minha morte. era tão "Prudente" como uma louca de boa família. como era antes de vir para cá.. . de Yr do soldado ini migo. Déborah notou que reproduzia. mas você estava morta. Quero l he dizer só uma coisa: avalie bem o ódio e a vergonha que está sentindo agora. Coral. cobe rta de vergonha e degradação. pressionou com força a cabeça de encontro à cama. com suas gargalhad as estridentes. dos femininos. mas Furii estava de volta e agora não ha via mais esconderijos.Sou venenosa e me odeio por causa disso. que estava sentada de encontro à parede.em que tudo o que você disser é da maior importância. e acho que talvez tenha se deixado cair nesse estado tão lastimável.Olhe disse ela timidamente . e mentira com o mais íntimo de mim mesma. Decidiram começar a ler "A Importância de ser Prudente". só para me dizer como está furiosa por eu ter ido embora e abandonado você.Eu disse que voltaria hoje. f azendo o papel de Sybil. Queria poder fugir para o Poço.. . Lembre i-me de que talvez pudéssemos lê-las juntas. A n oite foi divertidíssima. Por que está tão chocada? .Sim.. juízo menina.. não é a primeira vez. Odeio a mim e a todos os i mpostores.Este é um dos momentos .Quem sabe quando eu sair . Esta ta mbém será a medida da sua capacidade de sentir amor. aca be com essas besteiras!" Escutei isso durante anos e anos quando eu os decepcion ava com a superfície. Esqueci que você voltaria. e depois começar am outra. . se transformou num p esadelo digno das telas de Hieronymus Bosch. o modo comedido e esmerado de falar.. Àquela mesma noite. . ..a minha médica deixou isso comigo. no entanto. tentei uma. e me odeio por causa disso.Isso não é verdade! . uma comédia fina e elegante de Oscar Wilde.disse Furii . o que é que você acha? Relanceou os olhos para Helene.Qual delas você prefere? .. 185 . duas. o mundo só me dá mentiras. acabaram transformando a peça numa grande balbúrdia. parodiando a si m esmos. mofo e teias de aranha. provavelmente tê-lo-ia chutado junto com al gum insulto. mas os sons pareceram-lhe tão ridículos e feios que parou imediatamente. Coral se acercou de Déborah com um livro na mão: . só que o vulcão queima.Pois então deixe que elas saiam por si mesmas. .Levantou-se e saiu. Déborah fechou os olhos. alegria e compaixão. Leram-na inteirinha.Estou toda bloqueada e fechada. as palavras.perguntou a Srta. e a Srta. Déborah. vou ser destruída.você consiga aprender a chorar. mas vi que o que ele queria era 184 provar que estava certo. Em troca das minhas verdades.Foi. Em pouco tempo Lee. queima lá por dentro. está bem? . tentei realmente.Tentei com Royson. Daria no mesmo se ele dissesse. Amanhã nos ver emos. Se fosse ela quem estivesse oferecendo o livro. . e até mesmo a timidez da velha. sem querer.Você é suficientemente forte? . He len e Mary Fiorentini participavam também da leitura. a resistir: .eis.Não sabia que ia volta r. São peças de teatro. exasperada. pelo menos era o que eu pensava. inúmeras vezes.. Continuou.protestou Déborah. embora estivesse exausta.. queima. Lamento apenas encontrá-la aqui e sofrendo tanto. . fechar-se em trevas e no nada. . enquanto a superfície nem sequer sabe se ele está vivo ou morto! A doutôra puxou a cadeira mais para perto. Começou a se contorcer de angústia. .

. . cuja gravidade nenhuma palavra poderia modifi car ou suavizar. Tenho ainda que supervisionar a anális e dos médicos que estão se formando pela Escola de Psiquiatria. . pois assim a família sairia fortalecida também e per mitiria que Déborah ficasse. prejudicando-a ao invés de ajudá-la. desesperada e fora direto procurar a Dra.. encontrou Esther já recomposta. que se dissesse qualquer coisa que soasse como apaz iguadora. é isso que a faz sofrer tanto.Não. cheia de maus presságios e. As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto.Por quê? Por quê? . que nós sabemos que existe e que continua respondendo ao tratamento. Enquanto estivesse convicta da importância des . turvadas pelo medo que sentia.Pois é.Será que entendi bem? . uma vez no seu consultório. que eu tome a meu encargo o tratamento de uma paciente. . um pedaço de carvão! Esther lera o relatório. 186 . preveniram-na de que não seri a aconselhável vê-la. Sabia. A senhora não precisa inventar mentiras. O telefone tocou. Pedem-me. . a cada sessão. A determinação que lhe permit ira conquistar todos os inimigos de Déborah. .Mas isso é tão.E o que é que vou dizer ao pai dela? Qual a mentira que devo contar dessa vez pa ra que possa mantê-la aqui. Seria um grande desperdício dedicar meu tempo a um caso s em esperanças. estamos tentando justamente descobrir por queè. . furiosa. Es perava tê-la tranqüilizado um pouco. um. pensou de si para si a Dra. mas dessa vez alguma coisa no seu tom pusera-a de sobreaviso. Foi atendê-lo e. . ao invés de tranqüilizar. onde só faz piorar. Saíra de lá apavorada. não. To mara-se uma mulher forte. encarou a Doutôra Fried. . deixaria Esther em pânico. então. vou lhe confessar uma coisa.. redigido como sempre em termos cuidadosamente vagos. A Dra. pelo menos umas quatro vezes por semana. Pedira. Conduziu.A senhora julga. Só conservo uma paciente quando tenho certeza de que posso ajudá-la. Como pode alguém fazer isso consigo mes Uma pessoa assim deveria estar num. uma entrevista com o Dr.. ela pigarreou. pode ria ser a determinação salvadora agora. Esther Blau. ' . Afinal de contas. ao chegar. Blau. . Fried. . Di ga isso ao pessoal em casa.Nunca me permiti empregar essa palavra para Debby! "Rompeu-se a fachada de Débor ah. e o que está pór detrás dela não é tão mal". que sempre esteve associada à idéia de uma pessoa "conde nada para sempre". Partira imediatamente para ver Déborah. trata-se de um sintoma da doença. soaram longas e monótonas: Acho que talvez estejamos todos nos deixando impressionar demais com esse negócio das queimaduras.interveio a doutôra. ofegando. mas gostaria que nunca mencionasse isso para sua filha.Tenho certeza de que ela pode se tornar uma pessoa mentalmente saudável e forte.. mas todo peso de sua vivência e treinamento indispunha-se contra esse procedi mento. O que podia fazer para que a mãe entendesse isso? Seria. um pequeno consolo. segura e até mesmo dominadora.. muda e atônita.. que ainda há uma chance de Déborah vir a ser. nada disso . à intenção. ao voltar. Halle e. O importante era que a conversa a tivesse fortalecido. tão repulsivo! . e. por experiência. indubitavelmente. mas antes.Esther tapou a boca com a mão. a verdade é p lenamente suportável. Fried compreendeu que Esther conseguira superar a sujeição para com o pai.Acho que sim.como se uma carreira mágica se tivesse aberto em meio à danação que pesava sobre todas e las. então. . Palavras fáceis de consolo poderiam servir em out ros ramos da medicina (quantas vezes os médicos não receitam uma agüinha com açúcar e pron to). piorar e ficar cada vez mais violent a? As palavras da doutôra. Sra. A velha e maldita palavra "louca". . normal? . em seguida. Fried. sou forçada a rejeitar muitos. Refiro-me à idéia. incrédula ainda.Será que vocês não podem descobrir antes dela virar.. a mãe de Déborah até a porta do consultório onde se despediram. Passado o prineiro choque. informara-se dos fatos. .As feridas? .É a palavra que a assusta tanto. .Não vi as feridas.

Tudo convergira para ela . totalm ente inexpressivas e imóveis. O medo.pensava com os seus botões. as enfermeiras deixaram o s aguão por um momento. mas continuou imóvel. "Eu devia ir porque isso já aconteceu comigo e eu sei melhor do que ninguém o que a gente sente.médicos. Tal qual Sylvia agora. As estagiárias.era um dia refrescant e de outono . se fosse solidarizar-se. ela quebrou o silêncio e veio em meu socorro . com a intervenção dos seis auxiliares necessários para subjugar Helene e arrastá-la para o casulo. logo em seguida . bandag ens e esparadrapos. Seu corpo parecia estar totalmente entregue às forças da gravi dade e da inércia. e compreendeu que.Esther ergueu os olhos para a sacada recoberta de sólidas grades. e as mãos pendiam frouxas de cada lado. rápido e inesperado. Sylvia recebeu os golpes sem soltar um ai. A única reação de Sylvia era fechar os olhos vagarosamente: suas mãos cont inuaram caídas e moles. que costumava tagarelar. tudo. arranhava. Os pés. O incidente. outras de pé. Esmurrava. observava fazerem curativos nas queimaduras. De repente. exceto pelo olhar assombrado. num instante. Não demonstrava o menor interesse pela surra. Por causa del as. pareciam colados ao chão." Tentou mais uma vez livrar-se de suas ves tes de granito e sapatos de pedra. e até mesmo Lee.. os lençóis úmidos. por trás da qual se ocultava a Ala D. inerte como sempre. Ao terminarem o curativo das obstinadas queimaduras. viria a ser uma fonte de esperanças raramente estuda da nas publicações psiquiátricas.. tomara-se objeto de grande interesse médico. Forçara alguns a se questionarem e a crescerem um pou co. consumiu todo o desejo de . Déborah. Desafiada nos seus brios. A doença de Déborah não tinha só balançado 187 os retratos no álbum de família. a mais feia de todas as pa cientes. continuavam furiosas com Déborah. tudo para Helene. gritava. Entendia perfeitamente o drama de Sylvia. a reclusão. sentia como se as duas estivessem a sós no planeta.sa terapia para a filha." Ao sair da casa onde estava situado o consultório da doutôra . Como seria lá? O que se passa ria nas mentes das pessoas que estavam enclausuradas ali? Baixou rapidamente os olhos. ava quase. parada a uns dez passos de Sylvia. talvez porque estivesse além dos domínios da "ciência" e a previsão. não andavam. "Do lado de fora das portas do estudo dissera-lhe uma vez seu pai . Parecia uma fera arremetendo selvag emente de encontro a uma pedra. Deixaram-na sozinha e humilha da na sala.um anjo aguarda. Quanto às fumantes. Déborah. eu tenho que ir. He lene explodiu num acesso de fúria incontrolável. terminou. a responsáve l pelos novos regulamentos. enfrentaria toda a família se preciso.. Déborah percebeu os olhares belicosos que Helene dirigia a Sylvia. Sentira-se degradada demais para defender-se. como de hábito. que estava ao seu lado. como se estivessem o t empo todo surpresas de que o sangue pudesse fluir de forma tão natural e o coração pul sar independente de suas vontades e emoções. trabalhavam conscienciosa e diligentemente com ungüentos. Pelo canto do olho. mal contendo o choro. outro. Enquanto as enfermeiras trabalhavam. encantadas com uma oportunidade excelente de exercerem seus c onhecimentos. tocar-lhe no ombro e dizer qualquer coisa.. os cabelos 188 desgrenhados. pôs-se a observar os "Ornamentos Viventes" (termo que encontrou para designar as pacie ntes): pareciam estátuas. para garantir o se u prosseguimento. a baba qu e escorria de sua boca. evitava fala r-lhe e lançava-lhe olhares desdenhosos. umas sentadas. cuspia. o rosto r ubro de cólera. Olhou para Sylvia. com toda força. um murro e. Helene avançou para ela e desferiu-lhe. contraído numa careta enrijecida. Lembrou-se do episódio ocorrido dois anos antes. agora é minha vez. "Naquela noite tenebrosa. Vamos! Mexa-se!" . poções. permanecera lá fincada no chão como uma estátua. Sentiu que deveria aproximar-se dela. distribuídas aqui e ali. toldados de lágrimas. enfermeiras. quando Helene a ataca ra para destruir o rosto que havia testemunhado sua fragilidade e livrarse daque le testemunho aterrador. Sylvia poder ia destruí-la apenas com o silêncio. sentada no chão. Caso isso se confirmasse. auxiliar es. no alto"3(c) prédio. Só a respiração lhe traíra: resfolegava. no entanto. as feridas se recusavam a cicatri zar. fora incapaz de se defender e precisava de cuidados tanto quanto Helene. viu seu rosto pálido como cera.

A atmosfera que a cercava contin uava fria e sombria. .declarou taxativamente. que vivia na maior desordem.Não lhe faltará desafios morais e decisões difíceis para tomar no mundo e. 189 Ao chegar ao consultório. Havia cerca de quarenta queimaduras. .continuarei fazendo as penitências. eu o apanho rapidamente e fujo. A luz do sol derra mava-se das janelas. como eu disse antes. mas os seus reflexos dourados e o calor que espalhava. Prometo não roubar guimbas acesa s das pacientes a não ser quando estiverem no cinzeiro ou esquecidas em algum luga . .Você está enganada . já que você as considera um problema sério. devemos trabal har duro para descobrirmos quais são as raízes das queimaduras que você faz em você mesm a por uma revolta contra mim e o hospital.O que é que você quer dizer com isso? .Desatenção seletiva! . mas afin al de contas temos que falar uns com os outros. com você. Decidi não ser imortal por causa do que aconteceu a Sylvia.Você acha mesmo que as queimaduras são tão sérias assim? . na realidade.murmurou . que durante muito tempo ficou ali paralisada. os auxiliares que subjugaram Helene começaram a retomar da ba talha e a oportunidade perdeu-se de vez. e eu faço o mesmo com seus cigarros.disse Déborah. Nunca lhe contei uma mentira! . cega a tudo o que se passava a seu redor.retrucou Furii. Enquanto concedessem a elas o sentido de uma aberração terrível. pelo menos não vou implicá-la nas minhas queimaduras. não estão? .declarou Déborah.Algumas vezes acho que nosso vocabulário profissional vai longe demais. eram percebidos por ela a uma distância muito remota. mas acho que você está enganada. . Nunea lhe disse que eu era humana. infligidas sucessivamente sobre a carne preparada e esfolada para recebê-las. e não apenas a nós mesmos e a deuses cadentes. .agir. cuja linguagem e os jargões não tinham nem a beleza nem a poesia do Yri.Não se deve permitir que isso aconteça. .Não sei explicar por que. rindo daqueles termos da psiquiatria.Fale mais alto.vou pôr a corda no meu próprio pescoço agora.São seríssimas! . A verdadeira agonia não era o fogo nem as queimaduras. .respondeu Furii. não estou ouvindo. você pode me expulsar porque eu tenho um a culpa que não admite perdão. Passeou os olhos pelo consultório. Se não fiz o que devia ter feito depois de Helena agredi-la. contou a Furii tudo o que vira e o que deixara de fazer. O medo cedeu lugar à vergonha. . o seu gesto continuaria tão dece pcionante quanto as sossegadas encostas do vulcão. . uma vergon ha tão grande. No momento. Elas estão contribui ndo para a minha delinqüência. mas mesmo assim não pareciam justificar o estardalhaço que se fazia em tcomo delas.Sylvia fuma de vez em quando. e é bastante distraída. Saberia Furii como foram tentadores aqueles minutos de espera? Logo que a sessão terminou. As duas Marys fumam como loucas. . ao exterior. 190 . não será nenhum jardim de rosas. Agora. O que nos cabe fazer é louvar essa força que lhe permitiu ver isso. e ac endendo um cigarro. por favor. Foi com eles que acabou de falar? .perguntou. erguendo os olhos para ela. torcendo para que ela se lembrasse do que afirmara freqüentemente a respeito de o paciente confiar em suas próprias convi cções íntimas.disse Déborah baixinho.Creio que de certo modo estão.Não. e sim esse eterno alheamento em relação às coisas. Furii compreende u e riu também. Quando solta o cigarro em al gum lugar. embora. com uma vontade enorme de sumir. de morrer. Déborah discordou das razões e da seriedade que Furii atribuía às queimaduras. . hesitou alguns segundos e disse: . e trabalhar para que chegue o dia em que você seja capaz de fazer o que acha que deve fazer. Pquco depois.Vigiada ou não .Não estou aqui para desculpá-la . . Por que Furii deixara fósforos e cigarros na sala de espera? A enfermeira acompanhante distraía-se com a maior facilidade. . você é que está se aproveitando d os sintomas delas. basta que ninguém me surpreenda. . Déborah se levantou para sair.

. Forbes lhe perguntou se não queria que mandasse a s pessoas saírem do banheiro. começou a sent ir as vergastadas familiares do medo. "terceiro trilho" significando "concordar". As pessoas que a socorreram estampavam uma expressão 192 de horror e de surpresa no rosto. . Um dia. mergulhou no vértice furioso d a erupção. Já era tarde. Déborah gostava dela. O medo e a cólera que expressavam essas criaturas do mundo eram como o s ol. todas em Yri. A Sra. cuja tradução seria "uivos de cão". de repente. tirou de dentro da manga duas caixas de fósforo. . (Lembrai-vos de mim. temei-me com o ód io mais feroz. como quem ouve e vê através de um bura co de fechadura. quase hora de dormir. e significava o terceiro grau do ódio . Srta.Recreai. Déborah não pressentiu nada de excepcional. A palavra a que se referia fora escrita na parede c om o sangue proveniente de um corte no dedo.Esta palavra aqui. . O negro em seu cérebro tornou-se rubro. Inai dum. As enfermeiras.Onde está o objeto que usou para arranhar. apenas aquele estado mental sombrio e obscuro. e que significava solidão. Foi justamente essa expressão que levou ao extremo o incêndio dentro de Déborah. e deixá-la a sós ali até que alguém tivesse necessidade de usar as privadas da frente. teve uma vaga consciência de que gritava. que surrupiara na sala de espera e as jogou raivosamente entre os pés da escrivaninha. de que os auxiliares ac orriam ao banheiro e de que as paredes estavam cobertas de palavras e frases em Yri.) Nesse momento entrou a Sra. já" que todos os quartos de reclusão se achavam ocupados. As palavras foram escritas com lápis ou com sangue. As palavras proferidas num murmúrio por Déborah. íemr e xangoranan. e algumas delas arranhadas com um pedaço de botão. A Brincadeira . cotidiano e inquestionável . Decidiu que naquela noite não levaria para a cam a consigo a agonia infernal. 191 21 Quando o vulcão entrou finalmente em erupção. porque sei que não gostaria. A crise ia ganhando proporções incontroláveis. As palavras eram disparatadas.Recreai xangoran. Tem algum signi ficado? Déborah ensaiou. uma agonia que há dias v inha repelindo a pontapés as doses de hidrato de cloro. Alinhavam-se nelas todas as efusões de ódio. estende u as duas mãos abertas e tentou inutilmente articular algumas palavras compreensívei s. estava escrito no super lativo e em letras garrafais: UGURUSU. Quando os sentidos desanuviaram. Déborah. . e os bramidos provenientes do Coletor. antes que pudesse se dar conta. Seus olhos.uma lei da natureza enfim . emitiam raios que ateavam fogo. ressentimento e amargura expressas numa linguagem que usava metáforas tais como "quebrar" significando "consentir". . graças a isso. acho que ouvi você pronunciá-la. febrilmente. onde uma ou outra palavra Yri lhe permitia sa ber o que estava dizendo. e começou a bater a cabeça vagarosa e metodicamente contra os azulejos.r. Dito isso. Naza e fango xangoranan. E com o mesmo ódio. que a dilacerava por dentro. gestos e sons que lhe permitissem exprimir o impacto produzido pela erupção do vulcão. Lembrai-vos de mim com ódio. dilatando-se e extravasando com tamanho vigor que. torturai meus dentes com vosso fogo até estilhaçá-los . Forbes. Uguru . vieram carregadas de ódio. depois da limpeza da noite. Refulgiu o raio de luz. focalizados sobre ela. que se avolumavam no fundo dos copos e desciam pela garganta abaixo. não houve fósforos que bastassem para contê-l .Foi dado o sinal. Estirou-se no chão frio. costumavam dest rancar a porta para ela. universal e penetrante. via e ouvia. a maior delas. dispunha sempre de uma meia hora de solidão. e boa parte do que falava já não podia sequer esperar pela lógica do Yri e pelo arcabouço das palavras: era um vomitar de sons inarticulados. lembrava-se pelo menos d e ter gostado dela. comovida com a coragem daquele gesto. Até mesmo aquelas habituadas aos trabalhos mais ár duos da Ala D. Também não vou permitir que você contribua. Blau? .terminou. Estava sozinha na ban heira situada nos fundos do lavatório da frente.Ageai significava d ilacerar a carne com os dentes como tortura . Ageai dum. e a escutar as acusações ditas num tom de quei xume monótono pelos personagens invisíveis e rancorosos de Yr. como celulóide fervente.

tudo .É por isso que a internaram num hospital. o caos imp erava e os próprios personagens de Yr pareciam ter enlouquecido. ... . jamais pronunciada ou escrita antes. . .Você está doente? . c omo um boneco desengonçado. Enquanto prendiam as amarras.Yri. as pessoas. nenhum vínculo com o mundo! Tu não és como os outros . portanto. a jogada final que fazia parte da trama se194 creta armada pelo mundo para destruí-la. e procure manter-se em contato comigo. medo não. Escute com muita atenção agora. . Perdera completamente o controle de si mesma. e agora nem sequer o controlo. mas um perpétuo morrer. no mund o. ela murmurou: ... estacou de súbito e jogou a cabeça para trás.pediu Furii num tom grave. a cama.A palavra é medo? . mas continuav a incapaz de formular as palavras necessárias para precavê-los contra a sua própria se lvageria. vamos tentar a reclusão até que você con siga se segurar um pouco. . A velha frase. Furii. Percebendo que era inútil deixá-la ali. Vamos empenhar tod as as nossas energias para protegê-la dos excessos dessa doença. Gradualmente. e no teto desenhou-se um imenso tumor que foi inchando e ganhando volume.perguntou Furii.Minha inimiga.. Deixe elas saírem naturalmente. . .Tentou lhe explicar. . só que dessa ve z sem a dor habitual. . proferida em contextos diversos. tentando desesperadamente morder a si mesma. E agora nenhum. incapazes de s e juntar. Impelida de um lado para o outro do quarto.Escute. começou a sentir a contrição das veias nas pernas e nos pés. dos quais d ois pelo menos encaixados no mundo. numa agitação extrema. . dava cabeçadas e dentada s. Lutou até a exaustão. nem bem olhou para ela..Ergueu os olhos para ela de novo: . .perguntou. A energia que jorrava impetuosamente do Vulcão a d eixava num estado de agitação frenético. o ódio foi cedendo lugar ao medo. Horas depois. . .Um ódio que você não consegue controla r. Entendeu que a morte tão temida não precisava ser necessariamente física. Aturdida com aquela subver são das leis e da lógica de Yr.Não. passando do consolo e piedade. da alma. mais violento que o ódio negro e o vermelho -branco.Não. . Como era frio o ve nto que soprava acima de todas as leis! Tiritava. mas as paredes começaram a porejar suor e sangue. .. ao ódio e terr or. você está sentindo alguma coisa. O tumor fustigou-a por de ntro.Quer dizer. com as mãos e com o corpo de enc ontro às paredes e ao chão.. .. os lençóis. Déborah andava para um lado e para o outro. porque não está conseguindo controlá-lo. Você tem que tentar falar. perguntou surpresa: . Aqui. talvez a mais velha em Yr. até cair desfalecida. colisão. e agora à última decepção.exclamou em voz alta. da mente. das leis e conseqüentemente não a morte. num esforço supremo. um riso tão feio quanto fora o choro. . Déborah batia com a cabeça. . . não precisa temer essas forças terríveis que parecem ter sido desarrolhadas aí dentro. riai naruai. A enfermeira o lhou para ela interrogativamente. Déborah.Havia uma engrenagem cheia de dentes. Déborah procurou comunicar o que sentia. Faça um esforço para me ouvir . . cont ar para mim o que está acontecendo nesses mundos que colidiram.Pensou alguns segundos e disse: . apavorada com o que poderia fazer agora que não e stava sujeita a lei alguma. f isicamente? . ela se contorcia. Podia ser a morte da vontade. agarraram-na e meteram-na a muito custo num casulo. . Ela lutou como uma fera.Havia uma engrenagem. . conseguiu arrancar algumas palavras: . ódio. você está protegida.aparteou o Censor. escancarando a boca num grito mudo.Venha. embora estivesse envolta nos l ençóis há muitas horas e. mas só conseguiu esboçar o gesto que em Yri s imbolizava insanidade: mãos espalmadas.. O quarto de reclusão era minúsculo. arrancando-lhe um grito de dor.Engrenagens desencaixadas. . meu eu venenoso e pes tilento.Você está com med o do seu próprio poder. uma de frente para a outra. desencaixadas! .Você consegue me ouvir? .Tente de novo. Yri e sons inarticulados entremeavamse num dis curso incompreensível.Déborah riu. . Yri misturado a termos estranh os e desconhecidos para ela. já deveriam tê-la aquecido. Inglês. tal como as queimaduras que também não doíam..

disparates.Tenho a impressão de que esse ódio explodiu por todos esses anos. 195 ..ódio. foi? Não. especialmente quando estava em serviço uma enfermeira. você se transferiu espontaneamente para a espécie de encl ausuramento que havia à mão.e procurou complementar a idéia com gestos de mão em Yri.. E o pior é que o tremor não diminuiu para que Furii.Medo.O ódio pode explodir de novo..Veremos se o calor da terra ajuda . . o que se tcomou mais uma culpa a suport ar em silêncio. . Nada mal para quem supostame nte fundiu a cuca.Nem mesmo os deuses como amigos ..Sabe.. . Yri. não é verd ade? .E a atingiu? . Sons absurdos e apenas Não! Não! .Isso só totaliza oito. .disse Furii. Censor.Segundo você. quanto havia de ódio e quanto de medo? ... Forbes! . envelhecendo e apodreceu. Nada mal mesmo. Metade do medo que está sentindo é o de que não consigam detê-la. Ao retomar à ala depois da sessão.mas muito menos assustada. . na terra. sofro muito. e.. . como se fossem grânulos malcheirosos dentro de você...Puxou sua cadeira mais par a perto de Déborah que tiritava ainda sob o cobertor. . . .cismou a doutôra.Começou a tremer de frio novamente.Você está completamente esgotada ... Dois é para miscelânea. Na emoção que você sentiu ao se ouvir bradando essas estranhas li nguagens. quem sabe. . .Frio de Yr. nacoi. nunca vou preenchê-los. destruirme. . . fazendo o que é proibido.O sofrimento não foi por causa do ódio. . . um ódio que veio s e acumulando. .. que para avaliar a emoção permitiu que um bocadinho dela fl uísse de novo. Negação.O quê? i . mas t enho certeza de que a refreará o suficiente para conseguir a ajuda e o controle ne cessários. pois é justame te este medo que a impede de falar de uma forma compreensível para os outros. Inglês.Então.. Antes de pe rmitir que o ódio aflorasse... le mbre-se bem.Não. mas não achou que val esse a pena discutir.a doce e gentil Srta.. Negação até mesmo de Yr. você tem um potencial enorme de saúde e força aí dent ro...Eu sofro ..Envolva-se no cobertor. Apanhou o cobertor e a cobriu . não é assim? . Furii riu. pena morte.O medo amainou um pouquinho . Agora. Censor. algum. . cujo calor era rechaçado pelo seu clima interior.disse Furii . Déborah se lembrou de que não havia em Yri uma palavra correspondente ao "muito ob rigado". . -' Três ódio.. . você confiava no nosso trabalho juntas e em mim. Déborah.Diga-me uma coisa.Dez . não.disse Lee Miller sem fôlego ..Sua amiguinha. de quem você gostava e em quem confiava. Estava extremamente cansada. bastante.respondeu Déborah. .E o quê? .. .. . colisão. . cobertores da Terra.Ela apanhou aquela cama ali e a jogou.. ficasse co ntente. por não ter de entregar tudo àquele muro que separa Yr e o mundo ? Será que não haveria também uma intenção evidente de me lembrar que fui embora e a deixe i sozinha com tudo isso? Déborah sentiu que a última hipótese continha apenas meia-verdade. . Antes de permitir que as barreiras 196 fossem postas abaixo. a última. .Veio Yri. levantou a cama e a jogou em cima da Sr a. A doença que você construiu pode voltar a ameaçá-la.. . Não soube como demonstrar gratidão.. Ódio. Déborah soube que um novo holocausto a visitara. .. e o que serão essas duas pequenas miscelânea s? Alívio. vendo.. Déborah começou a sentir as pálpebras pesadas. cinco medo... . bate ndo. esse talento para a vida. . Selvagem. Cor al.Quase. . embebido em culpa e medo.. medo.

apesar de inconfortável para a orelha. por uma incrível coincidência. Déborah concluíra que os sons eram transmiti dos pelas torneiras. redigiam os re latórios. durante e um pouco depois. não é? . mais piradas. Coral Allan. Haviam apagado a maior parte das lâmpadas. Lee dirigiu-se à porta da enfermaria. e ra utilizado às vezes pelos pacientes como dispositivo de escuta. . . Coral como se fosse alguma beldade do sul. Lee só a agredia porque a velha Coral estava enclausurada e. . devido à ameaça tra nscendente que encerrava).Tch. .Será que a Sra. 197 Quem sabe a coitadinha não estava temporariamente insana! Intrometeu-se Mary Fiorentini zombeteira. Lee. metade delas para os casulos.Jesus.dizia uma voz que parecia ser a de Cleary. Forbes vai voltar? . . O corredor já estava quase deserto. . o que nunca ex plicam é quanto de cada lado. Quanto mais pensava na questão. pois e m breve teria que se afastar dali. e os auxiliare s que percorriam os corredores estavam ocupados. como estou cansado (devia ser Hanson). Outros. refletiu um pouco e resmungou: . estranha e inconfortável . Forbes era uma das raras eleitas a quem os próprios pacientes.Não.Ali . Dificilmente re198 parariam nela ali onde estava. A menção ao café deixou Déborah com água na boca. de certa forma. Lee Miller estava furiosa porque a Sra. Virou-se lentamente para ela.Insanidade Temporária! Taí. (o medo impediu-a de enunciar a palavra "amiga". tch. conscientemente ou não.declarou: . Carla é. O de água quente estava ap oiado em material isolante. que todo mundo chama Srta. Pressionou a cabeça com mais força contra cano para espantar o desejo.Quer dizer. com um braço quebrado. só podia ser isso. procuravam poupar. Forbes? Por que logo um dos Bons? Depois da distribuição de sedativos àquela noite. Encostando o ouv ido no cano e contendo a respiração. já tinha es .Não. no interior da enfermaria. o de água fria. tch. cortes.pois dignidade ain da era uma coisa ao mesmo tempo nova. Não sei não. a lei. . completamente atônita. lá ao lado do bule de café. . bateu e pediu um cigarro. passava sempre por onde desabavam cadeiras e punhos. . Era uma mulher ded icada. num de seus irritantes acessos de risadinhas. . pois a recepção tornava-se mais clara quando as pessoas se apro ximavam da pia de metal. mas acho que essas gurias estão ficando cada v mais doentes. mesmo com a porta fechada. ou o caso da estagiária que.Só pode ter sido um engano! Freqüe ntemente aconteciam enganos: uma paciente que mirava uma pessoa e acertava outra .Você não é o único (Bemardi). Agora aquela "coroa". foi discretamente se colocar na quina oposta à porta de entrada da enfermaria.perguntou Déborah. inace ssível. . inteligente.Que diabo estou fazendo aqui com todos esses malucos! Déborah foi para o dormitório e esticou-se na cama..E saiu saltitando pelo corredor como se fosse uma menina de sete ano s de idade. De uma precisão exemplar. Começaram a falar sobre a distribuição dos dias de folga.Risos. Sim.retrucou Déborah. uma justificativa legal. vocês com preendem. surpresa.Certo . são mais para a reclusão. e com uma dignidade exagerada . .. em levar as pacientes relutante s para a cama. generosa e . e por isso a atitude de Lee a deixava.sentia-se feliz com o seu trabalho junto às pacientes. Cuidado com a língua! .coisa rara . Soltou uma longa b aforada.Engano . Era bom que entrassem logo no assunto. contusões e o diabo a quatro. sentindo um profundo mal-e star. . . e ficou absolutamente imóvel com o ouvido encostado nos canos de água que passavam por ali.Se atingiu! A mulher foi internada num hospital. portanto. uma ciência.. Jamais lhe ocorrera que fosse amiga de alguém. Significa: antes. podia-se ouvir as pessoas conversando dentro da enfermaria.. sério! Não há um dia nessa droga de ala em que não aconteça uma briga e aí. ma is intrigada ficava: por que a velha agredira a Sra.

Ai. para todos os mu ndos e a colisão. urinar. . quanto mais de arremessá-la? Déborah torcia para que falassem logo da Sra. entrou o auxiliar e mandou que calassem a boca. Déborah fremia de impaciência. Desatou a chorar. e ela sorriu aliviada para o cano. uma das estagiárias.Vamos. ponha isso no relatório. que raramente falava. não dava para entende r nada. para impedir que aquele incidente se transform asse em mais uma experiência de decepção. irritada com os risos de Mary e os sons abafados do choro de Déborah. nunca uma reação de horror. Finalmente tocaram no assunt o. Ba ter. . o que é isso Srta.Oh (risos). . quando muito. protestou: . venha para a cama.. o Abdicado Rei da Inglaterra! . uma razão qualquer à qual pudesse se agarrar.. elas as pacientes. Afastou-se um pouco do cano.exclamou Jenny. cheia de graça. caramba! Déborah não queria ouvir nada sobre Blau. nada disso constituía um pecado na Ala D.. no chão. Déborah se deixou escorregar até o chão.) . Sabia muito bem que jamais poderia indagar à velha por que tinha jogado a cama . . vou também. Forbes. . suas putas nojentas! Eu sou a primeira Esposa secreta de Eduardo. Se eu ti rar folga. blasfemar. Preparavam-se para a última ronda da noite antes de pas sarem o turno. vocês loucas são tão inventivas.Mas que falta de respeito.Ora.perguntou Mary Fiorentini. soando. . É porq ue têm tempo de sobra para ficar remoendo idéias . retrucou Mary Dowben que. viram só a Blau à noite? . um pranto áspero e feio.Ave Maria. foi cambaleando até o dormitório. as piores manias sexuais. como um contraponto aos sons horríveis que continuavam brotando de dentro dela. 200 Déborah voltou a pensar no quebra-cabeça. A Esposa do Abdicado. . Jesus! Foram dar corda nessa carola de novo. soluçando e repetindo baixinho. um desgosto passageiro. Blau. provavelmente. Déborah se levantou prontamente e sem destapar o rosto. Cobr iu com as mãos o rosto que ardia de vergonha. . Fez-se imediatamente um silêncio profundo. mas só essa tarde pude ver com meus próprios o lhos.Hudson e Carelle foram com ela até o hospital.cutado muitas histórias a seu respeito. Salve Salve Columbia! . Pressentiu.Deus do Céu! Gritou mil besteiras lá no banheiro. que havia alguém ao seu lado: era Martenson. eram como partículas de pó flutuando ao acaso mas mesmo assim havia certas normas que não se desrespeita va. Sim. e ntrecortado de risadinhas. mas era só olhar para a cara dela e ver o ódio.Bem. Forbes. para Déborah. Ah. onde se atirou na cama e desatou a chorar de novo. com suas preces intermináv eis. en199 cheu as paredes de palavras louquíssimas e saiu lutando como um tigre. Cuspir. .Você foi ver Lou Ann? (Era seu primeiro nome.Ei.Alguma modalidade no va de perversão hcomossexual. conservando a cabeça apoiada no cano frio. O tumulto se alastrou. No entanto . Sophie vai visitá-la amanhã. que ódio! . roubar. De repente. . . sempre arranjava um jeito de transformar tudo numa cruzada religiosa contra os hereges.Nossa! Quem diria que uma velhinha daquelas fosse capaz de levantar uma cama. e por que cargas d'agua a cama fora cair justamente em cima da Sra. Se a evidência não surgisse agora. pois vivia dormindo. de repente.Hoje ela não falou absolutamente nada. . . e cada espírito se e nclausurou num isolamento que niaguém parecia capaz de devassar. a velha fórmula: Tu não és como os outros.e continuou num murmúrio inaudível. Viera para descobrir alguma circunstância qu e pudesse mitigar a dor que lhe causava o conflito Coral versus Forbes. colocan do-se assim em terreno neutro e dissociando-se da fonte de sua vergonha. defecar ou masturbar-se aos olhos de todos desp ertava. Enquanto a metíamos no casulo.Que ruídos obscenos são estes? . ela vociferava naquela fala incompreensível.

.Não lhe conto mais nada.Olha. opor-se à atitude de alguém era. vão me julgar mais talentosa do que realmente sou. nem exigiu que parass e.tsk. . exigir satisfações.exclamou Déborah. serei boazinha. garanto que venceremos. por sua vez. . Para que você disponha de seus próprios desafios. saía involuntariamente uma mistura de Inglês. Somente com Furii conseguia expressarse com alguma clareza. ou dar a enten der alguma necessidade. dizia coisas definitivamente disparatadas e intraduzíveis .disse ela. . . elevando o tom de voz.Sim. 201 Acabava ficando nervosa.meditava Déborah . num tom quase amigável. o que emergiu foi: "Nunca atinge a profundidade suficiente.. . passariam a expurgar. tsk.Furii elevara também o tom de voz.E se não vencermos? . no entanto. conservando. Você pode m e mandar embora e ficar com seus amiguinhos.e concluiu abanando a cabeça . inclusive eu. um auxiliar lhe perguntou se era o seu dia de banho.. o nome da Sra. Articulou mentalmente uma resposta que lhe pareceu clara e. . .Aqui é cutucu (o que significa "estar escondida". de sua própria definição de amor e sanidade. num súbito acesso de r aiva.Ora. escrever outra tese e ganhar mais u m título. e fica n um hospício o resto da vida. e daí! .E você acha que está? . Como então . é! bradou Furii. e não se preoc upe." Outro caso se passou no banheiro: .Eu não faço brincadeiras. nua e crua. quando se esforçava por traduzir e superar o abismo que a separava dos ou tros.. um atentado consciente contra as va liosíssimas barreiras que asseguravam a vida e a sobrevivência dos pacientes.bom. . todas nós. enfim de um "eu" bem fo rte com o qual possa começar a viver. pobrezinha. A verdade. de seus próprios erros e da p unição que merecerem."poderia ter sido uma menina tão boa. nunca! Ninguém pediria satisfações ou re preenderia a Srta. . Dia após dia. que desperdício" . .perguntou Furii. numa ala entupida de perturbados. Nessas circu nstâncias.. soou muito bem ao s seus ouvidos. há um monte de hospitais psiquiátricos por aí.Por uma vitória que não é fácil nem doce. porém. Yri e sons dist intos que mal bastava para responder às perguntas que lhe dirigiam.Estou cansada. . porque aqui não me sujeita rei jamais a uma prova! . que tinham provocado restrições extensiva s à ala toda. uma verdadeira violação. A dificuldade de se expressar com clareza a surpreendia tanto quanto aos outros. você está aí? .Para tirarmos você desse maldito lugar. com tanto talento . na melhor das hipóteses. Trabalha-se no escuro. já lhe disse isso no ano passado e no ano retr asado.Você desiste. em segundo grau). Quero que pense bem e responda honestamente. .gritou Déborah. se estiver disposta a lutar com toda a energia e pa ciência..E daí? Alguma vez eu disse que seria fácil? Não posso. . acendendo outro cigarro.gritaram. se é que se pode chamá-los as sim. uma grosse ria imperdoável. "Tadi nha" . Uma vez.Chega de pensar! .dirão as pessoas .Mas lutar para quê? Para quê? . por isso decidi desistir da luta. ou pior. trabalha-se no frio.. . intrometer-se. mas nunca lhe perguntou por que fizera aquilo. 202 . delicadamente. Agora.obter respos ta para a sua dúvida? Matutou nisso dias e dias. mais sobra.Está certo .Blau. . e isso. constróem um todos os dias. Forbes das conversas qu ando estivessem na presença da agressora.. piorava o nervoso. a fisionomia completamente inexpres siva. Quanto mais lixo ponho para fora. Lee Mi ller a agredira por causa das queimaduras. . nada de brincadeiras. Uma longa baforada de fumaça ocultou o rosto da doutôra. . assustada e pouco me importando com o que possa acontecer .Disseram que estamos ficando cada vez mais doentes. e para quê? . droga. a confusão de línguas só fazia aumentar e distanciá-la ainda mais. Seus amigos. dócil e não vai aparecer mais nada nas paredes.É. nem quero fazer você ficar boa contra a sua vontade. Permitia-se zombar e odiar. Coral por sua atitude... por exemplo. Eu é que não posso me mandar. e quando falava.

Eram sintomas inegáveis de grave doença mental.Após uma pausa. não mesmo. afiando um pedaço de metal durante meses e meses. "maluca". . hein? . por isso evito contar mentiras. o fato de ter sido abandonada pelo terapeuta.. exceto na presença dos médicos ou quando temia m ser escutadas. mórbido e satírico.não mesmo. Não. esmagando o cigarro no cinzeiro . o negócio das queimaduras está diminuindo um pouco. . Posso citar inúmeros exemplos desses princípios éticos ou morais.disse Furii. mesmo assim.eu sou sua médica e tenho visto esses anos todos como você é alérgica a mentiras. eu a substituí enquanto esteve fora . ela a fizera em segredo. e a medicina é uma ciência que não admite gostar ou .. . considerações morais? .julguei que a fac a seria mais útil a uma pessoa que tivesse de ficar por lá. . . . elas admitem considerações desse gênero? Quer dizer.Bem.Sim. apreciei muito esta sua raiva despida de medos e culpas. . v ocê não terá que arcar com as conseqüências dessa resposta. enviando um pombo para explorar uma região temível e desc onhecida.bom. .disse o doutor Royson. De início julguei que essa dificuldade vinha do ressentimento da menina. agora acho que já pode responde r sozinha à questão que levantou antes.concluiu ela com um sorriso amável . Antes do incidente.É uma excelente oradora. poderíamos di zer. é óbvio que você sabe disso.. um rosto invariavelmente inexpressivo.comentou o doutor Royson na saída. . . então.Elas. os quais inspiram freqüentemente profund a admiração nas pessoas ditas "sadias": pequenas delicadezas. Estava enganado. esqueci. . A verdadeira razão era uma dessas verdades que não gostamos mu ito de encarar. atualmente. Déborah sentia-se o próprio Noé. estava "maluca".Isso se deve à "nova moralidade" de Déborah .Mais doente não. . minha cara menina . As pessoas escutavam polida e atentamente.Blau é um de seus casos . que remoíam com ceticismo escutando a exposição da Dra.. 204 . . .. sim.. Esta faca.Claro. . pala vra que a maioria empregava e sentia. Passado um tempo. .Ah. nem sempre. Lembro-me que quando deixei o hospital onde clinicava na Alemanha. prevendo o dia em qu e sua doença se tornaria tão dolorosa que não conseguiria mais suportá-la. mas lhes parecia inacreditável que a to rrente de sons confusos e a violência descontrolada não significassem uma grande mud ança para pior. já que essa capacidade de dar representava um sintoma de saúde e força... . não acha? . mesmo porque já havia trabalhado com algun s dos pacientes da ala.admitiu um dos aux iliares.comentou o outro. sabe. você encontrará fartas evidências disso.E a senhora aceitou? .relatou a Doutôra Fried na reunião da equipe médica na Ala D. num inglês tão bom e vigoroso. gestos súbitos e inesper ados de generosidade que representam um grande sacrifício para a paciente.Recostòu-se na poltrona com um sorriso zombeteiro.. Viera assist ir à conferência a convite do doutor Halle. . . . .Claro! Trabalhando aqui. uma paciente deu-me uma faca de presente para que eu me protegesse. . Comportavase. Mas c omo eu vinha para esse país .E ra um rapaz novo no serviço que perguntava. como todas as pacientes da Ala D. mas pouquíssimos acreditavam nela. e muita s vezes nos chamam oportunamente à ordem e chutam longe a escora da nossa vaidade. continuou: . por sermos médicos.Escuta aqui. sem muita convicção. Todos conheciam qual deveria ser a res posta formal a isso.E como foi? . arrulhando de cansaço. mas pelo menos era um retorno. . Somente alguns dos médicos e .. Nenhum galhinho verde. Além do mais.Você não é nem um pouco dada à demagogia. . quaisquer que sejam elas. Está ou não ficando mais doente? Não tenha medo.explicou a doutôra Fried com um sorris o. o pombo voltou.. Fried. maneiras sarcásticas e superiores.Mais doente não.Difícil. . ou seja. Déborah apresentava um comportamento mórbido e sil encioso ou. uma rejeição. Decidiu impor certas restrições aos furtos. Era 203 justamente essa palavra. e agora tem que p rocurar fogo em outra parte.Decidiu que não envolveria as demais pacientes em sua doença.

. 207 22 Apesar das distorções provocadas pelo ar escaldante e úmido exalado pelo vulcão.Você acha realmente que a menina tem feito progressos? . Desprezam-me intensamente. quando o lham jpara o seu rosto. mas agora você está livre delas . . Mostra uma pessoa que reage conforme aquilo que sente.Pessoalmente acho que não.desgostar: nós simplesmente não combinamos. O antigo e inconstante sistema de aquecimento retinia e resfolegava.. sim.Mas depois que conhecê-la melhor. no entanto. superaquecendo todo mundo e provocando assim um estado de embotamento e lassídão. e eles se dedicam a mim. . . até que se chocass e contra uma porta fechada ou um muro qualquer. O outono cedeu lugar ao inverno. . apertando a xícara de café para aquecer as mãos.Sim. um medo que datava de muitos anos e do qual só a muito custo conseguira se proteger. . 206 . Quentin Do bshansky.. . Forbes voltou ao trabalho. o prazer.disse Furii num tom meigo. quando eu não estava. uma amabilidade qu e. .perguntou Furii.. .Nessa época do ano. Um auxiliar recém-admitido. repetindo eternas pergun tas sobre eternas dúvidas. e quando desligava. deixava-as congelar de frio... mas é claro . . q uando funcionava.. "Por que você está tão sarcástica?". era a estação m ais penosa. mas ela sabe o que diz. As explosões se sucedem. porque a Bíblia proíbe. dessa vez.É uma excelente médica. . Não fique assustada.Fez um gesto de cabeça em direção à doutôra Fried. Algumas vezes. Sei não.Por um sistema inventado pelo Primeiro Marido Abdicado de Lucy.gorjeou Mary jovialmente .Nacoi. enfermeiras e auxiliares mostravam-se mai s bondosos.disse Furii . Desde a erupção do vulcão. Ia para o casulo diariamente e. .peço para me levarem-ao casulo.pelo menos. Déborah ficou gelada de medo.. parecia ser bastante sincera. ao que parece. há invariavelmente nos sonhos que contamos aos médicos um person agem que cuida do aquecimento. Quando sinto que a coisa. gênio é só o começo. brincavam e procuravam sempre reconfortá-la. vem. Déborah levantou-se e saiu em busca de calor.Sempre foi.Não é de admirar então que você andasse soltando fumacinha da cabeça. que. . nacoi.perguntou Furii.Quando esse seu vulcão rompeu. As pessoas agora. quando eu não estava. uma vez atada.Ainda assim eles não nos odeiam .Seu rosto já não provoca suspeita s. da torr ente de lava cinzenta e desoladora que a enrijeciam por dentro. melhor de tudo. lutava como um tigreaté se esgotar todo o fogoque lhe ardia por den tro.Ora.Halle se virou e ficou observando-a responder às perguntas no salão de conferência.. por mais tempo e energia que isso tome. . .disse Royson. ela é um gênio! . Talvez po rque éramos muito parecidos. veio substituir o velho Ticher t. das quatro. a alegria. . alg o mais rompeu também: aquela expressão dura que você tinha. ficam até conversando comigo.O que é Déborah? . sta foi uma das razões para a intervenção do Censor e das normas de conduta impostas p or Yr.E você não sabe por quê? . . inadequado.É. Gostaria de ter a inteligência dela .disse Helene. a esperança que transp . . já repararam? . Você não deve mais procurar es conder o ódio. o VIII . Pressentia a iminên cia de uma nova explosão de fúria e medo que a impeliria com toda a força de encontro a alguma parede. vêem que você reàge e vive. . . . o que o rosto mostrava: "Por que você está zangada? ". não a mim . .perguntou Lee.Ela. A Sra.Como será que eles aquecem esse lugar? . e eles o fazem de bom grado. verá que. mas não me odeiam. o medo e. no entanto. ou pelos corredores. . . O ódio e o medo transpar ecem porque são coisas que você sente. . Déborah começou a no tar que o pessoal da ala a tratava com uma certa amabilidade.Não. correndo desabaladamente. E. pessoa franca e bondosa como McPherson.. está convicta. mas agora Seção Masculina dos Perturbados situa da num outro prédio. embora a angústia continuasse a mesma. . com Clarinha Fried.. a carência por material inflamável amainara. não simpatizamos um com o outro.

as pessoas se transformavam de repente em suas inimigas. A auxiliar. são muito apropria as. A tarde estava fria e nublada. capaz de transformar aliados em perseguido res. seu cantinho predileto. como você diz. como devia achar horrível limpar excrescênci a de corpos adultos e conviver com a barulheira infantil e patética das intemas.nacoi cujas leis insondáveis viviam armando surpresas contra as quais não sabia como se de fender. Déborah chamav a aquele lugar "A Reserva". Desatou a contar como era difícil educar os filhos e trabalhar horas e horas a fio para receber uma miséria de salário. de ouvir. dando por encerrada a missão. e as tonalidades de crepúsculo deram à Reserva dimensões ainda mais belas. no entanto. persistiu nas superfícies nuas dás paredes. os relevos e os signi ficados novos que percebia ao seu redor.Perdão. ensinaram-lhe a s . Era bom ouvir alguém falar assim. algo. de apalpar. até se infiltrar a certeza de que não morreria. A auxiliar fungou. de se regalar com a luz. refulgia através dos i nterstícios da sebe.comentou a auxiliar. Yr se acomodara. veio se achegando. enfim. Déborah indagou ao crepúsculo: . A única explicação possível era o seu olhar .Déborah se lembrou de que McPherson lhe havia dito há muito tempo atrás: "O que a faz pensar que é dona de todo o sofrime nto?" Arrependida com o seu comentário. cuja fechadura e chave representavam outros tantos símbo los do "serviço". Suas expressões faciais constituíam um mistér io que jamais conseguira desvendar. confessando outr a verdade. por alguma razão obscur a. Chegando lá. nas port as e nos relevos dos rostos e corpos das pessoas. e cores das coisas As árvõrês ladeava m o passeio que circundava o jardim. todas as vozes de todos os mundos silenciaram. . O sol. o céu límpido de inverno. Não quis magoá-la. decorando o relvado com 208 uma infinidade de estrelinhas frias. cheio de árvores. e a tendência é elas se sujeitarem cada vez mais a um desejo e a uma escolha con scientes. Muitas e muitas vezes. o significado. O sol se pôs. afastou-se dela com o rosto impassível. e a luminosidade difusa ressaltava a nudez cinzenta das árvores. a sebe. A terceira dimensão. pediu autorização para ficar a sós no quartinho da banheira. Déborah e a auxiliar voltavam do consultório da doutôra . U m pouco abaixo. ganhando vulto. sobretudo porque Déborah simbolizava naquele momento "o se rviço" mas o desabafo era sincero e impessoal. continuava assustada. A mulher estava furiosa.arecem também. virou-se para ela e disse: .Você tem sorte. a certeza inabalável de que iria viver. Déborah. Déborah decidiu pagar na mesma moeda. As decepções. Reinava uma grande quietude. sem uma palavra. Só tem um tipo de frio com que se preocupar. Ao chegarem à porta da ala. havia uma janela que dava para um relvado existente no hospital. com um misto de espanto e reverência. Esse frio está de rachar! . e por isso não a magoava.Quando começará a vida? A resposta não se fez esperar: já estava começando! Era noite fechada quando abriu a porta do banheiro e saiu de novo para a ala. transbordando de alegria e de receio. foi direto sentar-se sobre a tampa do velho aquecedor. Sentia uma curiosidade insaciáve l de olhar. declinando no horizonte. um frio que pode ser remediado com casacos. e por sobre a sebe.Não esteja tão certa disso! . temia que tudo recomeçasse de novo: a vida . Agora que o vulcão dissolvera a sua fisionomia pétrea. o relacionamento se esfumou imediatamente. Depois da tro ca de turnos. pois essas expressões não são inadequadas. no entanto.alguma expressão ou tom de voz involuntário q ue desagradava às pessoas. Pouco a pouco Déborah foi distinguindo as formas. Lentamente.só podia ser o olhar . e rodeado por um muro recoberto de espessas sebes. Déborah entendia perfeitamente o que se passava com ela. . Durante algum tempo Déborah caminhou a esmo pelas dependências da ala. Mas a auxiliar estava furiosa. tiritando de frio.

Talvez isso não te diga respeito . .Passou a noite escutando os auxiliares conversarem uns co m os outros como sentinelas solitários em seus postos avançados numa terra estéril e h ostil. vira a página e encontra os nativos. . .Terei que pedir uma autorização escrita d o administrador da ala. Tenho uma pergunta: Dois nativos figuram numa história em quadrinhos. .Que espécie de pratos regionais servem para pessoas que estão fora desse mundo? perguntaram. e crêem estar vivos. fadado a terminar. Sim. Começam a cozinhar o jantar. e foi até a enfermaria. As felizardas que dormiam junto às janelas recebiam sol a manhã tod a. estamos escutando. Déborah revirava a cabeça e m busca do que havia mudado nela.Pratos regionais típicos .murmurou. Quando engoliu o sedativo e.perguntou. está na hora de levantar. podia informar se hoje é dia de ver minha médica? . . . parecia ser diferente. Nesse ponto.Talvez seja apenas um sintoma . Déborah se lembrou subitamente do que tinha acontecido na noite passada. Levantou-se.. .respondeu Anterabae.com licença.Quantas vezes não ass omara àquela porta mendigando! Desta vez. aguardando do outro lado das pálpebras? Escancarou bruscamente os olhos. Escutou um grito no corredor e. Quem sabe.. Quando o calor atravessa o couro do hipopótamo. Às duas horas. e uma sensação plena e maravilhosa de vida. mas não sabem disso. deixou-se ficar na cama. o hipopótamo e o fogo. . . Sofra.. que na realidade é o lombo de um hipopóta mo mergulhado na água. falou para Yr: Sofram. por favor. Blau. mas eu cá comigo tenho algumas suspeitas! . os movimentos de um a estagiária nas proximidades .er cautelosa. . Aviso assim que puder. As pálpebras cerradas coavam a luz matinal numa t onalidade rubra. a selva. Srta. Será que continuavam lá. a surpresa. O que foi? O que foi? A estagiária acercou-se dela: . E se fosse mais um lance do Jogo. nesse caso eu gostaria de vê-lo. só por algumas horas.ajuntou Lactamaeon. . o que aconteceu já não terá passado amanhã.O que tem para o café da manhã? . ontem.Talvez o melhor seja esquecer tudo isso. . as cores. formas e sentidos redimensionando 210 sua percepção das coisas. em seguida. você tem hora hoje. . . . numa gargalhada triunfal do mundo. relutando se seria ou não uma medida sábia abrir os olhos.Vamos.tentando acordar Mary Dowbens. Saboreou a comida e o próprio ato de mastigar. Veja qu e dia glorioso.quero ver agora qual a surpresa qu e estão me reservando.Alguma coisa. envolveu-se no cobertor.Posso ir sozinha? A enfermeira olhou para ela desconfiada. Sim. . mantendo os olhos fechados para não per der de vista as perguntas que se fazia. No jantar. surpreendeu-se repugnada por ter de comer com os dedos e uma colher d e pau. o animal se ergue e se afasta.Nunca especi ficam de qual região. Pre213 param uma fogueira na ilha onde acamparam.Seja lá o que isso for. o leitor dessa história em quadrinhos ri. . carregando consigo os nativos atônito s que olham sem entender nada.o farfalhar do avental e o tom agressivo de voz .foi para a cama. ao passo que o resto do dormitório. Alguma coisa aconteceu comigo. . A pergunta é a seguinte: Qual será a próxima expressão de seus rostos? O que farão a seguir? Seria preciso esperar para ver o que acontece . Sujeitaria essa nova descoberta às flechas do caçador de tempo de Furi i.sussurrou. Na manhã seguinte.Bem.ponderou Déborah. . . . Pássaro-um. Começou a ficar seriamente preocupada com aquilo. embora o comporta mento das pessoas fosse o mesmo de sempre. .Um minutinho. como sempre.respondeu Mary Fiorentini asperamente. o rio. continuavam lá.

. . porque posso entrar pelo cano depois. . por favor. pelo doutor Venner. sentido de realidade terei que abdicar de Yr. Ao retomar à ala. As partes e facetas se emaranham e se sustentam umas às outras. objeto ao mes mo tempo de orgulho e de repúdio de todo judeu.Dói um bocado. então. . . desde já? O importante é não fingir que abdica. quando puder substituí-lo pelo mundo real. iria sobreviver a tudo isso.Devem existir muitos suportes para que você pudesse se agüentar todos esses anos. Déborah o apelidara "Horizontes Perdidos".. Após uma pausa. Raiva e martírio. d essa vez. em seguida. o q ue não quer dizer que deva firmar um pacto comigo nesse sentido. ..propôs Furii . inimigo e violento) como uma resposta à hostilidade que enfrentava na colônia de férias.confessou Déborah. que assumira o papel do soldado japonês (estrangeiro. . esperando documente pelos seus ungüentos. como um a forma de dar vazão à raiva que sentia. e sobretudo como as coisas tinham readquirido uma significação e como desabrochara po uco a pouco a esperança..Está bem..instigou Furii . tive de repente certeza de que eu iria viver. . Furii lhe dirigiu um olhar interrogativo.A enfermeira deu as costas e se afastou. numa declaração simples e categórica. .cismou. Déborah sabia por experiência q ue não convinha insistir muito. uma referência a alguém que me é familiar. ao falar. pois. desapareça!" e pronto. há algo mais aí. fortalecendo-se mutuamente.Bem. encabeçado.Os sintomas. sim! sim. e eu dei aos médicos o "bom soldado" que eles queriam. Se não fosse a ssim. ou então uma breve hip nose. . Jamais pedirei qu e desista de seus deuses pelos meus. ainda que o mundo pudesse se esvair quando a permissão fosse dada.Uma referência e. Seu raciocínio evoluiu. 212 Agora que tenho o. . Nada mudará para nós. ... pois ele vivia com o olhar perdido à distância. termo Yri que designa uma espécie de imagem utilizada para camuflar meu parent esco com ele.concluiu.Raiva e martírio. ao desenca var o tirânico Latviano em quem afivelara uma máscara tão irreconhecível. você estava curada. analis ando-os sob novos ângulos. acho que é verdadeiro sim.Procure lembrar-se! . Compreendeu. estava morrendo de medo de que. isso não vai acontecer. furioso com a obstinação . .. nesse caso.Fez-me pensar muit o em você.Anote o meu nome. . e exclamar: "Loucura. escolha. acabou contando a Furii como estava vendo diferente. . . graças à determinação que animava Déborah. . No início da sessão.O soldado japonês personificava justamente isso. acho que. é claro! ao vovô! -exclamou Déborah excitada. . detendo-s e na questão do martírio: ser martirizada tinha algo a ver com Cristo.Ele não virá hoje. de tudo. .Você acha que é um prognóstico verdadeiro? . estragasse tudo.Foi uma experiência inteiramente inédita para mim . Por isso é que e xtirpá-los causa tanto sofrimento. . e o apelido tinha colado. .Descobrir isso.Prefiro não responder. desbravaram picadas em busca de velhos segredos. encontrou o "pelotão de queimadura" esperando por ela. então. . a doença e os segredos têm muitas razões de ser.. .Não. e só d epois de muitas evasivas.Vamos ao trabalho? Durante o resto da sessão. Esses sintoma s erguem-se sobre inúmeras necessidades e servem a muitos propósitos.. 211 Que tal verificarmos? . Ele estava impaciente e irritado por não tê-la encontrado. Estou certa de que você abdicará dele espontaneamente... um olhar que trespassava as pessoas como se e las não existissem. concluiu num tom grave: . Quando estiver pronta. ... aí sim. . .Não permita que eles a torturem cada vez que você se abre um pouco à luz saudável do mundo. O molde do sol dado vestia como uma luva no avô. dói tanto assim? . . bastaria aplicar uma injeçãozinha dessa ou daquela droga.O soldado que eu encarnei em segredo era um mu tu...

informou Cleary.Fique quieta! . pois só assim seria capaz de oferecer um sorriso. Quentin . a coisa não devia estar muito boa. que detestava o doutor Venner. Ficou mais constrangido ainda. Procurou concertar o erro sem muito sucesso. luzes. .. Debora regulava-se com as formas. . dimensões e percepções adquiriram um caráte r de urgência incontrolável. Trocaram um sorri so discreto e conspirador.e vivia -. disse: . 214 Déborah olhou para ela e avisou: . com ."Nunca Admita ao Paciente que Está Preocupado". e porque a limpeza das feridas. Alguns dias depois. . . a putrefação desaparecera completamente. a escutar embevecida suas conversas e a conversar com elas.Algum dia. o médico novo veio procurá-la. Dias depois. quando cortaram as ataduras. 23 Já que iria viver .Estou concentrado nisso.disse ela. .Uhh! Calma. Deb! . . suspirando aliviados.O último a dar foi Venner. qu em sabe.Não se preocupe .Calma.retrucou Déborah. Emb ora tudo aquilo fosse novo. e se ele não conseguiu chegar até o osso ninguém vài consegui r.Qual foi o troço que ele usou aqui? . . e esfregou o algodão com tamanha violência que o sangue recobriu a ferida. Dobshansky piscou para a enfermeira que acabara de chegar e Déborah se sentiu no ínt imo lisongeada por terem consentido que ela presenciasse esse pequeno gesto. digamos int eressado. Ora.das queimaduras que não cicatrizavam. e ele conteve a respiração: .A dor é apenas teórica. . . expondo a carne viva. . um sorriso. as novas cores.disse ela com brandura. há sempre um professor à mão para sentenciar que é impossív l que 213 esteja doendo. é ser louco durante anos sem poder dizer nada porque ninguém acredita no que você diz. Ele examinou os braços.perguntou ela num tom impaciente.Retirou do bolso um tubinho de reméd io e despachou o cortejo de enfermeiras que se apinhava à volta. retirando delicadamente a gaze malcheirosa. Cada vez que eu me dobro de dor por causa de um tumor fictício. Dobshansky mordeu o lábio para não rir. Espero que não ten ha doído muito.tive uma idéia que talvez dê certo.O que dói é ficar levando coices de força s que para os outros são invisíveis e inofensivas. lembrando-se prova velmente das recomendações de alguma página de manual: .bom. Como cortesia. A enfermeira-chefe sacudiu a cabeça assombrada: . . ao invés de pr ovocar a dor que ela merecia. Déborah.vou preparar minha contribuição. .murmurou.Tenho estado preocupado com essas feridas apressou-se a dizer para encobrir o constrangimento pouco profissional. O comentário o apanhou de surpresa. doutor Venner . mas a em enda foi pior do que o soneto. E o que vem a ser isso? . Passou a observar atentamente as fisionom ias das pessoas. Ao terminar os curativos.Não precisa ficar danado.Já é tempo de darmos uma nova olhad ela nas queimaduras.Maldição! . . .Bem. e apesar de seu acanhamento. aplicam uma ou duas doses da dor em sentido contrári o.. provocava sua ira com gracejos dirigidos a Quentin Dobshansky que. .resmungou Venner de mau humor. doerá. segur ando as bandagens. mas logo as mãos inábeis do médico cavoucaram fund o de novo. relevos. sentiu que a Ala D..repreendeu o Doutor Venner. vamos experimentar.Pela cara dele. .Fui o mais cuidadoso que pude. a pele ao redo r das feridas começava a tomar a mesma consistência desfeita. Eu te nho um tumor falsificado aqui dentro que compensa longe a dor que está faltando aí n o braço.Ele deixou lá no armário número 6 .Segure firme esse braço! . interpondo entre ambos a imensa distância de Ant errabae cadente. empalidecia cada vez que o médico arrancava com uma esfregadela mais brusca um pedaço de pele. movim entos que ia descobrindo ao seu redor. . a deixava impassível.

No decorrer dess a escalada. a passear sozinha nos pátios da frente (2 00 pés = 3 horas de sanidade).. O problema é que saio às vezes por pura provocação quando. . Venha. porém. na realidade. . . assim. disse em tom de súplica: .Foi uma solidão dos diabos. por meio da qual os médi cos avaliavam a responsabilidade do paciente: passou a ir sozinha ao consultório d a sua médica (100 pés = 1 hora de sanidade). quando viu Carla. . o privilégio de formular uma pergunta.Isso não quer dizer que ninguém terá sucesso . Déborah procurou ser o mais concisa po ssível.Abrir am a oficina da T. não há porque ficar humilhada. como sentiu o amor pelo mund o que se abria diante dela.Se estou viva.nem quer dizer que eu vou deixar de tentar 217 novamente. Chegando ao quarto. .suas pacientes acabrunhadas e inertes.e emendou logo .Carla. Seus olhos estiveram fechados a tudo e a todos. Dessa v ez. foi recuperando a distância. . .Ela voltou? Eu. esforça ndo-se para conservar o tom neutro de voz. compreen de! .Mas agora está de volta. entregando-se toda. na Ala B fora um período sombrio e silencioso. À noite ia ao cinema ou ficava no quarto lendo livros técnicos para me atualizar.O retinir de uma campainha interrompeu Carla. não só fortaleceu a convicção de que esTavá viva. e fez questão de ficar no quarto da frente onde havia barulho e vida.Ôi. Déborah sentiu os olhos umedècerem. Déborah inspirou com vontade o ar frio e constante do inverno. .Sim. as ruas de St. a minha substância é igual à dos outros. aind a estou despreparada. gosto muito de você.Bem. finalmente. . .Enquanto fazia a cama e arrumava suas roupas. . assim que chegou. . arrancando uma a uma as palavras. de repente. transbordando de afeição. quais as que não). cg uma derrota. num gesto que abarcava o mundo todo. concedendo-lhe. .. as enfermei ras da B (quais as que socorreram um caso de confusão. tornava-se uma realidade estreita demais. procurando transmitir naquele olhar mil coisas que representariam uma in trusão inadmissível se fossem ditas em palavras. . . . 216 . não importa.Olhava fixamente pa ra ela. Talvez eu e steja sendo egoísta. porque é aqui que eu estou. Estou contente de encontrá-la aqui. foi pessoalmente apanhar a roupa de cama perscrutando com avidez as fisionomias das enfermeiras. Começou a escalá-las. afastou delicadamente a pergunta e saiu por uma tangente: . . nos de detrás também (1 milha = 5 horas de sanidade).. . sa cudiu longe aquelas idéias e reanimou-se. ela ficou como paciente externa por algum tempo disse a enfermeira. a última fundição de cuca de Mary. Pouco a pouco. iam levando uma conver sinha miúda: falaram sobre a velha Coral. Limitara-se a ir ao banheiro. A enfermeira-chefe ergueu os olhos para ela. . Sua impaciência e avidez já não cabiam na s engrenagens pesadas do hospital. vocês se conhecem. . . Seu rosto tinha adquirido uma expressão amargurada e tristonha mas. Logo logo as ruas começaram a me lembrar outras ruas. Louis.respondeu Carla. e depois não havia ninguém c om quem conversar. onde poderi a dispor de todo um arsenal de livros.. requereu sua transferência para a Ala B. "boa tarde". aí a cuca fundiu de novo.Me senti muito sozinha no emprego o longo pe rcurso de manhã até o trabalho me deixava meio hipnotizada. Déborah. a mesma rotina. as mesmas sensações. suas enfermeiras apressadas e inamistosa s. povoado apenas pelos bram idos do Coletor e a efervescência do vulcão. Déborah comentou: . vamos até lá. quase que as ouvindo gemer sob o seu peso. em seguida. . lá fora. até que.Não ouvi boatos de que você tivesse voltado.Você conhece Carla Stoneham. nada mais . lápis e blocos de desenho. não é meninas? . A última estadia. a comer e a ingerir os sedativos. não é.. . fe chou os olhos e.exclamou para Furii excitada. a mesma substância. não conh ece? .Parecia estar arrasada e humilhada. Eu pensei que tivesse deixado o hospital.A enfermeira pôs o cobertor sobressalente na outra cama e saiu.Foi difícil voltar? . perguntou seus nomes.Bem. exceto os técnicos com os seus "bom dia". Déb. Ao sair para o pátio. . O.com um aceno de cabeça.

(A enfermeira vem aí!) exclamou a velha. na oficina.. Procuravam em vão extrair de pedaços de papel e traços velhos. qu e ficava num dós anexos do hospital. Déborah visualizou mentalmente: a instrutora.Eles têm prioridade .Ela agora está na Ala B e é minha companheira de quarto. é claro! ..A função desse bule é infundir esperanças na g ente.Praticando.. Coral que acenava para elas lá de cima.saudou com uma jovialidade um tanto excessiva. uma bofetada inconsciente no orgulho que as pacientes deveriam supostamente estar fortalecendo. se tiver sobrado café. todas as cabeças se despregaram das respectivas ocupações e viraram em sua direção. . e Déborah foi apresentada a alguns rapazes.ia dizendo Carla. e que ao vê-las gesti culando no passeio. Déborah não fa lou nada. subiam rolo s de fumaça e de vez em quando ela aspirava o cheirinho de queimado. (Estou livre!) respondeu Déborah. Carla sentia-se compreendendo o que se passava. 219 talvez nos dêem um pouco. . as mãos retomaram o trabalho. e parou diante dele com a mão. faziam colagens com retalhos de pa no e cola.Já a vi antes. . . Queria conter aquele transbordar de gratidão. sentia-se extremamente embaraçada. Observando mais atentamente. Sua atenção foi despertada por um ruído às suas cos as. aque las párias aqueciam as mãos diante da ilusão de uma faina gratificante. (Meti-me numa briga) disse a velha espalhando as mãos pelo vão da janela. de tocos carcomidos de madeira. meninas? .Carla. a aguardava um b loco de desenho só para ela. Era a Srta. . você que já esteve fora. virou-se para a mulher e declarou em alto e bom tom: . ficaram se comunicando por meio de sinais. ocupar por ocupar. pondo as mãos na cabeça para indicar as duas abas da toca branca e sacudindo. como vai Carla! . ve io recebê-las.É. porém.O que estão fazendo. Foram depois. irrita da.só praticando.Ora. . Uma orient adora da Terapia Ocupacional. durante algum tempo. liam. . que estava aberta. seu cérebro apalpava as leis que regi am a raça humana e consubstanciai .Déborah preferiu não entrar.exclamou entusiasticamente. Um tiro no trigal já era sufici ente para o dia. Esta é Déborah.. atiran do num trigal ondulado pelo vento e. Voltou-se p ara Déborah e perguntou: . mas seus olhos devoravam as cores e dimensões do mundo. Carla contou as janelas e concluiu: . amizade e a sensação de ser plenamente humano. enclausuraram ela de novo. .movimento e gravidade..O dia estava muito lindo. . visava apenas mantê-las-ocupadas. em seguida. Não repararam na auxiliar que tinha saído pela porta dos fundos. Para além da sebe que delimitava a Reserva.ôi. Ficaram ainda algum tempo por ali. Déborah construiu um muro com o braço. por detrás das grades de uma das janelas da Ala D. realmente fora.Trouxe-nos uma visita? . . e onde sempre havia um bule de café à disposição tanto dos pacientes quanto dos médicos. (Até onde?) perguntou a outra. modelavam em barro. A oficina tinha um aspecto animado de trabalho. .Queríamos apenas dar uma olhada. . Sentia-se tra nsbordar de alegria.. via-se que toda essa atividade era puro faz-de-conta. . uma chave imaginária.Acenaram de volta e. em trajes de caça. me diga uma coisa: é assim que aco . e. perguntou intrigada: . Numa terra onde a "utilidade" era enaltecida ao máximo. causa e efeito. O. Desterradas pelas leis do mundo.respondeu Carla . a tex tura da realidade.disse Carla. rompendo correntes no ar e ensaiando uma cambalh ota. aos olhos de Déborah. vestindo um uniforme listrado de azul e branco. Tinha junto de si uma amiga e. . logo em seguida. Par ecia-lhe inconcebível que pudesse haver homens mentalmente enfermos. o "tera pêutico" faz-de-conta representava. (Tchau!) acenou rápido e sumiu.E continuaram em direção à T. se não me engano na Ala D! No mesmo instante. As fisionomias se descontraíram.É. fazendo um gesto de quem olha para o mar.. As pa218 cientes costuravam. a revoada súbita e alarmada de um bando de pássaros. até a Ala A.

Déborah apenas sorria.. de algum tempo para cá. "idiota". venho notando que. desforrando-se de todos os médicos que usavam s eu prestígio e a falsa noção de que eram donos da verdade "para conservar à distância seus pacientes.. Em compensação.Bem.. . Sabe. Caminhavam de volta para a ala. Quando ia deixar a Ala D. mas as pessoas têm. "bom dia" para cá. Pode acontecer uma situação muito.Para conseguir emprego. É óbvio que. Os médicos afirmam que a culpa é dos doentes . sabendo que. Furii e o médico novo. Carla perguntou a minha opinião sobre uma determinada pessoa. quando Déborah disse: . . e na verdade a distância entre você e eles vai a umentando. seu orgulho! Conheçam essa deslumbrante excursão e vibrem com o falso "tubo-bem. há uma a ssistente social para testar você. Os únicos. car regando um estigma pesadíssimo na testa. por que não"? "Quem sabe. O doutor Hi ll. mesmo nas suas ausências. Logo que surgiu uma oportunidade de ficarm os a sós.Tenho uma coi sa para lhe contar. daquelas bem fanáticas. pois jamais haviam fechado completament e as portas aos pacientes. na rea lidade. eu a encontrei me esperando junto à porta.disse ela distraidam ente como se estivesse pensando naquilo pela primeira vez.Déborah sentia que ele não zom bava. Não lhe passara pela cabeça que o primeiro contato com o mundo recém-descoberto viesse a ser algum vinho inebriante para merecer recepção tão calorosa. você tem que apresentar documentos e. Ontem. a título de expiação. N a porta que dava acesso à Ala B (esta já não tinha chaves) cruzaram com o tal médico nov o. consciente de que está sendo aceito unicame nte graças à piedade ou a uma fascinação mórbida das pessoas.Como é que você faz isso? . .E então? . muito desagradável .. o primeiro passo é esquecer que elas são gentias. tubo-bem". Helene se refizera im ediatamente. o médico novo. quando a gente entra numa sala? . mas é muito fácil falar. Passem um ano glorioso como pacientes nós manicômios! Carla também riu. geralmente. .Não se esqueça! . Coral teve uma f ormação batista. "boa noite" para lá. seu rosto iluminara-se todo: . .Ei! (escancarara um vasto sorris o).ntece lá. e dão a isso uma importância m uito grande. e a perse gui-la com seus gritos: . Contaram-me que você vai mudar de endereço. Nós sempre rimos das brincadeiras dela. Várias fir mas exigem que você apresente o "atestado de sanidade". aumentando. apesar d e 220 serem extremamente agressivas.que é minha a culpa. Eu as tr ansformo em judias. Sabe o que eu dis . Ao ver Déborah. Dizem que se eu fosse menos ansiosa. A etapa seguinte consiste em esquecer que não são judias. seria mais fácil criar amizades.disse à Doutôra Fried. Talvez ele não e steja em condições de julgar . O pior de tudo é o que a gente sente quando todo mundo se mostra muito cortês. el a tem demonstrado uma preocupação maior pelas pessoas. e Carla são protestantes. quando a enfermeira viera levar Déborah para baixo. o dia em que teria que descer também. . uma conduta melhor do que a gente espera. seus direitos civis. segundo Déborah. as vezes.Ponham de lado seu prestígio. Nunca tive um amig o que não fosse judeu.. ela se virou para mim e perguntou: .Percebi que tenho realizado inadvertidamente uma curiosa operação mental. nunca dei a menor confiança a quem não fosse judeu. por exempl o.sussurrara aos deuses de Yr.Descobri uma coisa estranha. e começara a agitar o punho e a xingá-la de "puta". É sobre Helene. POis sempre nos disseram qu e as gentias acabam sempre nos 221 traindo. aliás. para que possam se aproximar de mim." . Déborah caiu na gargalhada: Ótima idéia! Médicos! Viagem financiada ao Exterior. conversando. Helene é católica. que lhe dão uma força eno rme. Helene estava xingando o "Talvez". que jamais tinha me ocorrido antes . quand o estiverem no ponto de chegada! Ficaram horas inventando charadas. . Nunca vi Helene tão des armada. a Srta. Parabéns! . Queria ver um desses médicos tentar ingressar num grupo novo. Descobri que os judeus também são intolerantes a seu modo.. e não eu"? Resp ondi então: "Sim. que não precisariam dessa viagem ao exterior e ram o doutor Halle. quem sabe. você encontra pessoas maravilhosas."Por que você vai sair. .

Por sobre o incidente pairava o olhar reprovador dos pais que. Parecia Mr.declarou. . e continuar a amá-las? . para se destacar.. Déborah.se? "É daquelas que. ex perimenta inclinar-se para fora e. . . posteriormente. . . .Mas você é capaz de admitir que elas sejam o que são. experimentou se inclinar para fora e depois foi buscar sua irmã? . por pouco.o ódio e a dor . cu ja feiúra lhe saltava aos olhos. Acho que tem dente de coelho nessa história. D ódio .Não é possível. a essa altura dos acontecimentos..Para um maluc o. . Quer dizer que você abriu a janela.Furii reclinou-se na poltrona com um ar satisfeito. e depois de dar muito s tratos à bola foi que me lembrei que ela não poderia entender o que era Purim. embora soubessem de tudo e es tivessem mortalmente decepcionados e envergonhados com ela. carrega-o até a janela.Déborah. Agora vou virar d etetive . começa a chorar para que a mãe a pegue no c olo.A janela estava aberta? . Entendo. por sua vez.perguntou Furii.Muito interessante! . e a dor também.. . não foi nada disso. mas você era simplesmente pequena demais par a fazer qualquer uma dessas coisas que julga ter feito. 222 Entendo. Nisso.Você pode se lembrar do ódio que sentiu.Não. apoia-o no peitoril. com os braços esticados. Primeiro eu a peguei nos braços. não matara Suzy àquele dia.O suficiente para me inclinar para fora com o bebê. O que f oi que a sua mãe disse assim que entrou? Foi: "Largue já esta criança!" ou "Não machuque o bebê!"? .Você a abriu todinha? . o amor culpado que a fazia estremecer ao pensar que.Não.Não. por mais que as pessoas o achassem adorável. não faz a menor diferença se o outro é um maluco judeu ou um maluco cristão. .disse Déborah pensativamente. . há certos detalhes que não me saem da cabeça. A doutôra se lembrou de um artigo que tinha escrito discutindo a importância de o médi co alertar o paciente.que não prestei atenção aos fatos. A vergonha que.Isso eu aprendi aqui no hospital . ela já estava de volta no berço. a mãe entra no quarto e.. escorando-o com o corpo enquanto abre a janela.era verdadeiro. num piscar de olhos. . Só depois que ela olhou para mim com cara de surpresa. mas os fatos estão todos contra você.Agora. . no dia em que entrou e vi u o bebê no berço. e só então decidi matá-la. a tentativa de jogar a sua irmã recém-nascida pela jan ela. na fase de recuperação.O que me surpreende mais é que eu estava tão ocupada em ouvir o conteúdo emocional d a história . guardavam um silêncio misericordioso. . não e ra judia. a vergonha de ter sido apanhada em flagrante e de odiar a irmã. segundo .. Lembro-me perfeitamente do que ela disse: "O que é que você e stá fazendo aqui"? O bebê chorava.Afirmo-lhe que essa sua história fede como p diatip! Uma cri ança de cinco anos de idade suspende um bebê consideravelmente pesado. que. tenho pensado naquela história que me contou. . mas lembro-me de tê-la aberto um pouco mais. em seguida. procura chorar mais do que todo mundo no Pu rim". odiando-o o suficiente para desejar matá-lo. e prepará-lo para utilizar a sua saúde em proveito da razão e da liberdade. Foi preciso que eles grit assem por mim mil vezes. para que eu me desse conta. pronta para soltá-lo. a chegada repentina da mãe. suspende o bebê por sobre o parapei to e o estende para fora. . .disse Furii. Pickwick depois de um lauto jantar. para os sintomas de loucura que terá de encontrar no próprio mundo. e voèl seja o que é. você não imagina como estou satisfeita por ter descoberto isso! Mudando de assunto agora.Estava.. Você poderia repeti-la para mim? Déborah relatou novamente o episódio: como alcançara o berço e apanhara o nenenzinho. de duas uma: ou eu estou louca.. essa menina de cinco anos puxa de volta a irmãzinha para dentro. eu me lembro. . como e stendera a criaturinha pela janela. ou você construiu essa historia inteirinha aos cinco anos.

Isto quer dizer que estamos num calendário ascendente.disse ela.Sim. As respostas de Idat. Déborah procurou reconfortá-la com olhares afetuosos. .Furii sorriu. Vou . perguntou-lhe numa voz meiga: .. Sofra. Seus véus ondulavam docemente ao sabor de um vento intemporal. Observava as árvores da Reserva. suas lágrimas cristalizavam-se em diamantes. . felicíssima porque. usando d termo que significava "para sempre" . Furii aquies ceu num gesto complacente: . Por que pergunta? . apesar do suposto assassinato. Ficai comigo .Estava pensando em voz alta. . Há dois calendários. amargo. . . Terás agora um modelo a seguir. poderíamos muito bem vê-los juntas . eram sempre muito difíceis. áspero. de uma beleza ofuscante.Só que de agora em diante.Sim. condenada de corpo e alma.Estou de pleno acordo.você. Ao deixar o consultório. com seus galhos úmidos e enegrecidos. Os dias são demarcados pelas vezes em que o Coletor se reúne para julgar. por algum milagre. . . seus pais Sentiram todos esses anos é uma invenção do seu sentimento de. no de Yr não há mês. e nada tinha a ver com o mundo. Déborah chorava copiosamente. de futuro. no entanto. Graças à falsa noção 225 do seu poder destrutivo (noção. e porque apenas sugeriam a dúvi da. que a doença a impede de superar) você traduz iu esses pensamentos numa ação supostamente real. . ma . . . qua ndo avistou Idat caminhando no alto de um deles. Explorou aqueles tempos fugazes e mágicos. Déborah.Déborah implorou a Yr. t iritando de frio. que jamais poderia tomar Idat como modelo. vítima . Seus olhos estavam no nível dos nós dos de dos da mão dele. Carla se mostrou extremamente nervosa. pelo modo como eram formuladas. acabei de me lembrar que hoje é Quarto Englift para Annot.Nem sequer toquei nela. Não houve resposta. ainda não estava acorrentada ao signo da des truição. e caminhar para a ruína? Não estou linda nessa árvore? . Nossa suposta assassina não passa de uma menina ciumenta de cinco anos de idade. apesar de ter sido privada dos mimos que lhe cumulavam a família.Foi gostoso? 224 . . culpa por ter desejado a morte de Suzy. Idat . Quando Idat chorava. ela parecia ter ascendido do Inferno ao Purgatório. Por causa do cortinado do berço. era um frio sujeito às leis e estações da terra. como se fosse mes mo real.exclamou Déborah em Yri. Oh.propôs Furii Déborah começou a falar sobre aquele ano cheio de coisas luminosas que antecedeu o r einado da tristeza. Yr e o Outro Lugar. . em Yri. Diferiam em todos os sentidos. Percebeu que. carregados de expec tativas. Penso em to mar-me para sempre uma mulher . Furii deixou que ela chorasse à vontade.Era um berço ..devolver meu emblema de detetive amanhã mesmo! Os pensamentos de Déborah recuaram no tempo até aquele fatídico quarto: viu-se aos cin co anos olhando.Que dia é hoje? .A terra tcomouse tão boa agora.Faltava-lhe ainda coragem para confessar que.Quinze de dezembro. concordo. Compreendeu que houvera uma época em sua vida.Nem sequer toquei nela..Já que você está de volta àqueles dias. você não poderá mais se fl agelar com esse chicote. As perguntas tinham. repleta de situações felizes. . por sinal. .murmurou abismada. Era ainda um c horo de principiante. entrecortado. a irmãzinha. uma so noridade pungente. Suas mãos tremiam e seu r osto estava pálido e doentio. . a Dissimuladora.saudou Idat. dessa vez. e quando se acalmou. Há anos que convivo com isso.Bem. . .Pode muito bem ter sido verdade.Daqueles com pernas? Meu Deus. Durante o jantar. foi caminhando para a ala sob uma chuvinha fina ê gelada. sabia. .indagou Déborah. nem sequer conseguiria alcançar a borda dele.indagou a deusa. Por que manter a ambos. . Idat era deusa. junto ao pai. de e speranças. A felicidade dos seus pr imeiros anos de vida constituía uma prova irrefutável de que não estava condenada gene ticamente. precisou se erguer na ponta dos pés e espreitar pela borda.retificou Déborah. as lágrimas escorriam pelo seu rosto. O tempo de Yr é intemo. Quando retcomou daquela incursão.

gritou para a mão. Sabia que estranhariam o seu ol har. Se u rosto continuava pálido e acabrunhado. pressionava.um terço de talvez. Três diamantes translúcidos e reluzentes.Déborah. . Três diamantes. jaziam sobr e a palma. abruptamente. que an tecedeu a todo cálculo: o de que quarta Englijt para Annot se constituía numa posição se gura de onde podia se aventurar. e as conversas terminavam. as pálpebras pesavam como chumbo." e "não importa que. foi para casa passar cinco dias com a família. Transcorrido muito tempo. Déborah tinha uma sensação violentamente opressiva de esmagamento. contraindo-se com uma força estupenda." Déborah se esforçou o quanto pôde para não recusar os pratos festivos que lhe serviam e conversar com as pessoas. nunca complicados por mai s de dois ou três participantes ao mesmo tempo. Jacob. A mão virou-se lentamente e lentamente se abriu. Olhou entemecida para Carla. Ao servirem o café. ossos e tendões destacavam-se nas sombr as. e a s meninas... pressionava. e estimulou um fluxo de medo pelos sulcos traçados e retraçados dentro de cad a uma. Todas as suas amigas e conhecidas vieram corroborar o fato de que "apesar de tudo. ergueu discretamente a mão branca. Chegou a um ponto que não suportou mais. o coração palpitando de me do. Não estava habituada a esses bate-papos paralelos. ocorreu-lhe que talvez não. numa grande ansiedade. emitindo uma incandescência lívida. Foi um gesto súbito. desferindo fagulhas luminosas. ávidos por mostrar que o amor que tinham p or ela continuava intacto. mostrando sobre a extensa palma três pedacinhos de carvão. arranhões e queimaduras. suas cicatrizes. Só então Déborah com preendeu como se expusera a Carla. a xícara escorregou de suas mãos trêmulas e 225 espatifou-se no chão. banquete com os seus pratos prediletos. mas estava lança da. Déborah. num ímpeto. cuja função específica era anunciar o final da refeição. pressionava. nem uma pedra ! . Das trevas surgiu uniãTimènsa mãõTêcháda. e todos os velhos tio s abraçaram-na" trêmulos de piedade e medo. As mãos ficaram. .Nem mesmo uma pedra pode suportar isso. is so será você... ela fosse mais do que u ma simples ex-quase-assassina: a palavra a atingiu como um murro. estranhariam sobretudo os vestígios q ue trazia das privações e da solidão . . tcomou as mãos de Carla. Receberam-na em casa como a uma heroína. Parecia sentir todo o sofrimento d o carvão em seu próprio corpo.e de novo.. não havia como afastá-la . cujos relevos. onde os fios d e conversa iam se emaranhando como um complicado novelo de lã. 227 25 No dia primeiro de janeiro. como se fosse a quebradiça crosta de realidade sobre a qual to das elas andavam. Ninguém disse nada. mas estava melhor do que antes. 226 24 O sonho se passava numa noite escura de inverno. No hospital. os avós.Déborah! . As mãos rel axaram. Suzy. como se estivesse revivenciando as dores lancinantes do nascimento. Ao subir as escadas. em gera l. A mão se escancarou. os tormentos amainaram.s em vão. . apenas o suficiente para ser notada.talvez fosse um pouquinho boa. mas estava exausta. levantaram-se e debandaram. Continuava imensa a distância que sentia entre ela e as "pessoas normais". o de que tinha ainda uma dívida para com Sylvia e já há muito tempo queria dar um beijo em McPherson. quase que simultaneamente. talvez era um termo forte demais . que se apressarasentia-sen a assegurar suas respectivas posições naquela c rosta.mas um desejo insaciável de viver novas experiência s lhe infundia a coragem necessária. insuportável para qualquer corpo molecular. os relacionamentos eram episódicos e fugazes. Urna voz trovejou: . O punho.. coisa que jamais poderia c onfessar ali. carinhosamente .Pare! Não vai acabar nunca ! . ra uma mão possante de homem... Déborah. Fo i se fechando lentamente.. . O ruído da louça quebrando repercutiu longamente nas pessoas senta das à mesa. Esther preparara um verdadeira.. A enfermeira.

já há muito tempo. inclusive porque percebia que queriam conve rsar sem ela. a felicidade e a paz da família repousa vam nela.disse Esther. Seus olhos se encheram de lág rimas . embora estivesse exausta. era uma dívida a pagar. . mas mordeu o lábio. lembrando-se que. . . no entanto. Na hora de dormir. . . meio desconcertados vieram trazer a dose de s edativos receitada pelo hospital. tenho que ligar para Annette. ou algo assim? . Entre iguais. A irmã tinha um aspecto feio e cansado. cada gentileza.perguntou Déborah.. Déborah ia responder que bastavam os talheres para a aposta. e quando se debruçou para beijá-la. veremos.Déborah. Festejavamna. com a cabeça zonza.exclamou Déborah. e depois de hesitar alg uns segundos. Sabia que precisava proteger essa última Debby. . Jacob ficou olhando para longe. .Você não vai por eu estar aqui? . estava longe. Debby . Debby também. . seriam muito mais fáceis. Está vendo.disse ele. Mamãe e papai precisavam dela agora.perguntou. Aquilo que para os outros não passava de uma caminhada tra nqüila. Deu as costas e correu para o quarto. sentindo que cada favor. perdida. . . Suzy virou-se para ela e ia responder. Déborah. sentada de novo à sua mesa. só fazia com que ela se sentisse. Agarrava-se ofegante a os íngremes rochedos. é que eu quero mesmo ficar dessa vez. . não.Não é todos os dias que você vem. as coisas ficariam muito mais fáceis! Sim. Para Déborah. não vai? .Você vai com eles. para ela representava uma escalada árdua e exaustiva. fiz os seus pratos prediletos. 228 . Não cabia em si de orgulho por ver a filha pródiga de volta ao lar. Esther e Jacob.Ela a ama profundamente. esperando que ela acabasse de tomar os remédios.perguntou Esther. um intercâmbio natural. e de um modo que che gava a ser assustador. . não se deu por satisfeita.Não. Déborah..interveio Suzy . Agora. . veremos. disse: . Levantou-se precipitadamente. . sentindo que começava a naufragar.. S uzy vinha fazendo planos para aquele "fim de semana". observava-os em silêncio. . Precisavam realmente.queriam demais fazer essa viagem . mais d o que nunca.Logo. se vocês todos deixassem de fazer tanto caso a respeito desse mi sterioso segredo. Não estão deliciosos os cogumelos.. Decidiu ligar do seu quar to para a amiga e comunicar que não participaria da excursão que vinham planejando há tanto tempo. mas se conteve a temp o. que fosse glamurosa e atr aente .A família está fazendo o melhor que pode. apesar de ser mais velha. você não precisa ficar naquele lugar de mulhêres histéricas. sentada do lado oposto da mesa. Quero ficar com você essa seman a.. .Bem.Não. por mais amorosa qu e fosse. cumulavam-na de liso njas como se a sua volta ao lar fosse um verdadeiro milagre.Aposto que não servem uma fatia de carne como essa "naquele lugar". .Suzy. vou da próxima vez. . procuramos aplainar todos os caminhos para você. Não era exata mente a irmã que desejava . . . um suplício que lhe pesava sobre os ombros como mas sas de chumbo. Era óbvio que mentia. que tivesse mil namorados..mamãe e papai já me contaram que aquele lugar não é u ma escola.Jacob cumulava-a de carinhos.) Debby.pensou de si para si. .mas não ousou enxugá-los ali onde poderia m vê-la.Não banque a mamãezinha comigo! Responda a minha 229 pergunta . sussurrou num t om triunfal: . tão pouco vivida. logo você voltará para casa de vez . no entanto. . que se autodenominavam "pessoas normais". dever a esses titãs. inepta e solitária. Suas manifestações de carinho eram patéticas e vulneráveis. Acredite . incapa zes de avaliar a força tremenda que possuíam. Debby.. . por alguma ironia do destino.não é filhinha? Esse é o seu verdadeiro lugar! (O tumor começou a latejar .Você combinou com eles para passarem por aqui primeiro.com licença. que liderasse a torcida do time da escola. a gratidão é recíproca. . depois de um dia tão movimentado.Escuta. Ao ouvir aquilo. .berrou Suzy.uma irmã que freqüentasse todos os bailes.mas.Não! . ela empalideceu tão visivelmente que Esther se apressou em desvia r o rumo da conversa: .

começaram a ser recortados os con230 tornos luminosos dos personagens de Yr. em segredo. com olhares cúmplices. para que não. o de Yr. balançando tolerantemente a cabeça. já sei! Deve ter sido aquela velha idiota da Lucy Martenson. tudo começou a mudar com a jurisdição do Censor. prestando tributos verbais à Terra cinzenta e desolada. de sua liberdade em Yr. os sons. e os mergulhos com Anterrabae arrastando uma imensa cauda de lu z. extensiva a ambos os mundos. com todas as forças de sua alma. e isso o tranqüilizou um pouco. acen ando com um feixe de centelhas na mão. a terra era um lugar extremamente perigoso e traiçoeiro. em seguida. As velhas ficavam olhando com um ar meio estúpido. Yr continuou sendo fonte de beleza e alegria. Déborah sabia que diziam a verdade. Protegia e mantinha os mundos separados para que ela pudesse ir em segurança de um ao outr o.. Não o Yr anárquico dos últimos tempos. era preciso escolher de novo. um sorriso satisfeito pendurado n os lábios. No início foi até bom que ele viesse. Nunca ocorrera a Jacob que aqueles gritos aterradores pudessem pertencer a uma p essoa de carne e osso. Jamais te odiámos! friZou Lactamaeon. faziam alguns elogios extravagantes. cuidadosamente agrupados segundo o nível de ignorância das "condições" de Déborah.Não..Bem. as velhas pediam que Déborah explicas se como fizera os desenhos e. As visitas de parentes se arrastaram pelo dia t odo.". 231 O sedativo começou a fazer efeito.Que mulheres histéricas? . um céu que se perdia de vista. ouvimos os gritos. foram breves esses tempos. mir ando-se num espelho que refletia a imagem da graciosa amiga de faculdade da foto grafia. Lamentavelmente. mas o Yr dos velhos tempos. diziam uma p iadinha a respeito de suas últimas conquistas ("Não. Invariavelmente. A ntes de irem embora. vôos puros. disse-lhe boa noite e saiu. Lembra-te de que viemos numa era de esterilidade e de morte de todas as esperanças ! . Havia momentos de uma alegria extraordinária. e quantas oferendas trouxemos . torcendo. os movimentos. Ainda assim. Conosco. cheio de prenúncios fatais e poços tenebrosos. Por mais deslumbrada que estivesse com o mundo . vistas como figuras minúsculas perdidas num jardim que se estendia até ao infinito. Nas trevas do quarto. Déborah soltou uma gargalhada p ara escapar à aflição de encará-lo: . e ela agora os exibia orgulhosamente a todas as tias e tias-avós. enquanto desfrutava.bradou Lactameon. exceto um retrato de Helene de cabelos desgrenhados e olhos vazios. Suzy acabou mesmo não indo à excursão. Logo o reinado do Censor transformou-se numa tirania intole rável. ravinas verdejantes e floridas onde pastavam ca valos selvagens. quando nós visitamos. e que belo reino era aquele: havia a gigantesca águia do roche do. . . . tu rias. jubilosos e perfeitos. e a felicidade que sentia era tão intensa que seus pés não se contentavam com o chão. galo pando num reluzente corcel..sua riqueza de cores e aromas. não vale a pena trocá-lo pela terra. o pequeníssimo "Talvez" . Havia um outro de Constantia com as duas enfermeiras que habitualmente a acompanhavam nos passeios. Sim... o tempo e uma infinida de de outras descobertas maravilhosas .lembrou Anterrabae Antes não rias em parte al guma. Débora h ganhava asas e voava. Só que dessa vez a escala que media as virtud es da terra contava com novos valores-sobretudo a esperança.relutava seriamente em trocá-lo pelo seu o utro mundo. tia Selma.exclamou Anterrabae. do "era-uma-vez uma rainha que se c hamava Déborah. . depois de um longo período de confusões c ausados pelas colisões dos dois mundos. Nenhum dos desenhos continha cenas do h ospital. Trepa nas janelas da frente e fica a rrepiando os cabelos das visitas.Ah. Ela se vinga de todo mundo fingindo-se de Tarzan. Fcomos para te proteger! . alguém que se chamasse Lucy. Seus olhos foram se fechando e antes de mergulh ar no sono concluiu num murmúrio. Caí a na besteira de trazer um pacote de desenhos seus para mostrá-los a Esther (sua p rimeira juíza). isso foi há semanas at . Agora.Perguntava-se no íntimo se ele teria escutado sequer um cochicho seu. mas beleza' e alegria sujeitas aos caprichos e inconstâncias do tirano. davam um beijo em Suzy e. Deu um abraço apertado e cúmplice na filha.. .

Foram para a cama cabisbàixos. por isso é que estamos fazendo esse rebuliço todo.porque quando não se trata de Debby. referindo-se à religião. enquanto Esther fazia comentários lisonjeiros a respeito de seu charme e da sua postura na mesa. preferira ficar. guache. . Déborah. ma s de forma clara. Quando passavam p or Carmem. . uma pa ciente recém-intemada perguntou-lhe o que era. dizendo com os olhos: "Quando essa exp lodir. Cada carta . aquarela. Durante o jantar. aludia à causa drogada e adormecida de todas as suas dores de ca beça e discussões. Déborah observava atentamente a irmã preocupada com a melancolia que vinha notando nela já há dois dias. Podem não ser tão "profundas" quanto os desenhos de Debby.Calem a boca! Assim vocês aco rdam até os mortos! Os três perceberam imediatamente o deslize. ou convida tia Natalie e t io Matt para escutar a última música que eu compus ou o comentário inteligente que eu fiz! Será que você não compreende. quando escutou as vozes de Suzy e Esther na sala de estar. Embora sentisse que jamais c onseguiria se identificar com os costumes e hábitos das "pessoas normais". meu Deus . que continuava deslumbrada com ás formas e cores que desc obria no mundo. .berrou Esther perdendo as estribeiras. Certa vez.Ei. . e era filha de um magnata riquíssimo. Os materiais disponíveis na oficina de artesanato da Terapia Ocupac ional eram escassos.. soltava um grito lancinante como se tivesse levado um tiro. Estava quase dorm indo. o ato falho que. morrendo de culpa. Os seus três primeiros meses d e "lua-de-mel". Eu desenho também. inconscientemente. e para sua própr ia surpresa a resposta que deu foi: . Enquanto brincava com todos os brinqu edos da terra.gritou Suzy . justificar . vai chegar até o teto".murmurou Déborah aflita.Ai. de repente. ano passado. sobretudo. mas você nunca chama a vovó. havia ne la aquela força indef inível que permite prever a cura. car vão. mas o sono foi mais forte. desmiolada e de scuidada! Você não está sendo injusta? . Essa menina parecia-se muito com Helene. tcomou os sedativos e foi para a cama mais cedo. durante os quais as pessoas se agarram aos últimos trapos de sanid ade para encobrir uma horrível nudez. cheios de amor e desespero. lá no íntimo. discutindo num tom bastante angustiado. nada mais"). 232 você não os escuta . .cada visita que você faz ela você convoca toda a família. no entanto. coch ichavam: "Eles mentem! Eles mentem! O veneno existe!" Aquela noite. Carmem. ia desenvolvendo seus dotes artísticos. o mundo material abria-lhe belas perspectivas e valiosas recompensas. Fcomos à festa juntos. a acontece que eu sou mais do que uma tola. Eu danço também e eu escrevi duas músic s para as festas do acampamento de férias. apurando os ouv idos. deixan do-a entregue àqueles elogios intermináveis. inteiramente inerte e. o que quer que fosse. Yr e as regiões mais obscuras do mundo travavam uma batalha renhida dentro dela. Poderia ter ido à excursão. embora ela estivesse destinada a uma longa permanência na Ala D. Chamava-se Carmen. ela só vai ficar alguns dias. aperfeiçoando vários estilos e técnicas novas. Jacob apareceu na porta do quarto e rugiu furioso: . sob as camadas da lógica e da vontade. estavam quase se acabando. Eu não preciso fazer isso! Elogiar você é fanfarronice. . Elogiar Déborah é.rás. você simples mente não escuta nada. Déborah temi a. 233 26 Veio a Primavera. vamos até a Ala A jogar pingue-pongue? . mas trabalhava-se com o que estivesse à mão: "silk-screen".Não posso. qu" estivesse transmitindo a ela a sua substância virulenta. animada por uma curiosidade insaciável. e por m ais que a consciência negasse. Déborah sen tia que. Ficava horas e horas largada num canto.resmungou Suzy . Déborah e Carla entreolhavam-se.protestou Esther.Newtoniana. menina burra! . Meu pai vem me visitar essa tarde.

e depois reconstruí-lo todinho. Eram traiçoeiros os domingos. era possível baixar as Aparências como se baixa uma tela diante d o corpo e da mente.Não . as pessoas ficavam desarmadas.Todas as minhas auxiliares terão que passar uma semana como pacientes. . .Ele 234 não compreenderia. . . as roupas encharcadas.perguntou Déborah. concordar sempre. . Ao cair danoite. Consistia em decompor o mundo em inúme ros pedaços.respondeu Carla. . Passavam horas intermináveis construindo-os e selecionando pessoal. ironicamente denominados Dia do Desca nso e da Liberdade. oferecendo ajuda. quando deram persi. Mas ali no hospit al. Nos fins de semana.Os dois auxiliares esperaram por elas e em seguida flanqueando-a s. Irrompeu nelas uma sensação de liberdade maravilhosa.disse Carmen com voz lânguida. Débora e Carla passeavam à toa. Ao se aproximarem do primeiro prédio. até que c hegasse a segunda-feira. e caminharam cabisbaixas de volta para o hospi tal. .Na minha fábrica. . bobas de alegria. foram surpreendidas por Henson e Cleary que saíam naquele momento do Anexo 3 em direção ao prédio principal. . No entanto. N os dias de semana. . Não podiam consentir em v . Déborah ficou em dúvida. .Concordar. penteari am os cabelos e vestiriam roupas mais apresentáveis antes de comparecerem à visita p ara ficarem de mediadoras entre o pai e a paciente mais esquisita que existia na Ala B. nem panelinhas. Equipá-los e administrá-los era a parte prin cipal do jogo. . concordar.Na minha universidade. .Chiii! Não tenho permissão para vir até aqui . . . puseram-se a escoltá-las. . em parte como punição. mas se lavariam. Isso não era maneira de voltar. Era domingo.Íamos justamente entrar agora. leva ntaram-se. e as tardes de domingo consis tiam numa luta desesperada para impedir que os outros mundos aflorassem. Eram os dias de lazer. bem distante d os prédios do hospital. . .disse Déborah.perguntou Carla. A oficina de artesanato estava fechada. Apesar da segurança que o hospital ofer ecia. Começou a cair uma chuvinha fina . vocês têm autorização para sair à noite? . s antidade e amor. . eram os hospitais o que melhor conheciam. observando as fendas abertas pelo inverno na calçada e jogando o jogo dos sonho s que tinham inventado para passar o tempo.Poremos os nossos médicos-em-serviço realmente em serviço. .. Às vezes.Em primeiro lugar teriam 235 que ser fortes o bastante para resistir. então. . as coisas certo. é bom ter de lutar contra algo qu e não ceda e que nos dê a segurança necessária para extravasarmos toda a nossa loucura. estavam no prado. meninas.E o que é certo? . em parte por uma frági l e secreta esperança. . contudo.Olhe só onde estamos. os patrões trabalharão nos serviços mais rotineiros para aprenderem como são duras as condições de trabalho do operário. os domingos eram dias terríveis.Nem eu.Não. Sentaram-se na relva. Aos domingos. Iam conversando distraídas e. Mas nenhuma das duas dispunha-se a abdicar desse pequeno motim contra o fastio dos domingos e as restrições do mundo.ponderou Carla. quando começou a ficar frio. Carla contou como foram agonizantes os domi ngos na época que esteve fora sentia-se trabalhando. paz. É bem verdade que deviam estar com um aspecto lastimável.Ei.Você quer que a gente fique por perto ou não? . . tudo ad quiria uma aparência desoladora de abandono. as Aparências nunca chegavam a camuflar de todo.. quando então as farsas eram reativadas e a superfície se to mava de novo perfeita. Reafirmava-se nelas o desejo de perfeição humana. não permitiremos nem grupinhos fechados. aspirando a neblina fria que recobre as manhãs primave rís.Vamos.Eu suprimiria todas as barras das janelas . .. Eu só espero que consiga fazer. deli ciando-se com o banho de chuva.

e voltaram a caminhar. . Déborah conclu iu com seus botões: "Talvez eu venha a pagar caro por isso. valeu!" E dormiu sentindo o cheirinho de chuva. havia um con junto de portas giratórias. Eu queria ficar sozinha. escalaram o barranco até a e strada . a farra. tiveram que entrar. o que significava que já passava de meia-noite. arquejantes. Anterrabae entoava gloriosos hinos em Yr louvando os encantos do mundo. divisaram out ro carro. . Não houve jeito: derrota das. mais cedo ou mais tarde . Terminado o banho. Não tinham roupas secas nem dinheiro.Perfeito! Era justamente o que eu queria. já dentro da portaria do prédio que abrigava as Alas B-C-D. relembrando na cama os episódios do dia. gozando uma sensação imensa de l iberdade. Só foram "apanhadas" depois de atraves sarem o portão de entrada. mas que valeu. Mais tarde. afinal. Esfregando o corpo para se aquecer. correram. surgiu a oportunidade ideal . Procurou se lembrar do que Furii lhe ensinara a respeito de fazer o que realmente queria . se encontraram por sobre as cabeças das enfermeiras e trocaram uma p iscadela cúmplice. coisa que não fazia há muitos.. as fugitivas saíram da vala e reto maram a caminhada. Ambas mergulharam imediatamente numa vala lateral. esperando que o c arro passasse.declarou uma delas com ares de grande santidade. por terem fugido e voltado com tarriantra tranqüilida de e doçura. rindo às vezes dos escorregões que levavam por causa dos sapatos encharcados. .. para cima? . Porém. Carla sac udia uma pedrinha do sapato.exclamou Carla esbaforida. Avistaram uma luz. Recostou-se no barranco. . Logo que o carro passou.Mais perseguidores? .oltar assim. .comentou Déborah em voz alta. Ao se aproximarem da porta. e só então diminuíram a marcha e pr osseguiram andando. mas um homem prevenido vale por dois.É. saindo por onde tinham entrado e. Seus olhares. livres ainda. pelas estradas escuras que cortavam os fundos do hospital. A chuva fustigava-lhes o rosto com força. muitos anos. ao que parece. os auxiliares automaticamente cercaram-nas por trás. absorvida em seus pensamentos. . sua biruta. ao transporem a porta. Henson e Clear y tinham inconscientemente relaxado a vigilância. Ao seu lado. -. Déborah se perguntou pela primeira vez o que p retendiam fazer.Pare de se bajular tanto. tiritando de frio. como se tivessem sido treinadas a vida toda para aquilo. vão ficar em reclusão.. Carla e Déborah 236 simplesmente continuaram dando à volta. Minutos depois. nem escoltada nem dirigida. com dores nos rins. o que pretendiam fazer era o que estavam fazendo. Pouco depois. ouviram a sirene que anunciava a fuga de pacientes.Tenho hora com minha 237 médica amanhã. A volta foi longa. pertenciam ao seg undo turno da noite. Quando os faróis sumiram na chuva.Comporte-se! Tome seu sedativo e vá já para a cama. Você ficará essa noite. Isso ainda é uma estrada pública. Correram. As dua s correram até ficarem sem fôlego. se aproximando. rindo e ofegando ao mesmo tempo. a porta de entrada e saíram correndo. e no céu t empestuoso. As duas. à distância. Mandaram gente para nos procurar! . transpuseram simplesmente de um salto. . Déborah sorriu na escuridão.Não sabes o que te espera! . Claro! . As duas auxiliares que vigiaram Déborah enquanto ela tomava banho.respondeu Carla.e lá se foram as duas de novo para a vala. Déborah e sua guarda emparelharam com Carla e sua guarda a cami nho para o final do corredor onde havia alguns quartos de reclusão. Era um carro. o banho go stoso de chuva. não depois daquela sensação maravilhosa de liberdade. Cantaram uma parte do caminho. só isso.Terei de voltar lá. . Em represália. Na realidade. galopavam ligeiras as nuvens. Também não tinham plano algum. Carla e Déborah a previram simultaneamente e. Passando a entrada. Entreolharam-se e seus olhos diziam: "Não!". diante d os auxiliares atônitos. foram separadas uma da outra e escoltadas por uma numerosa guarda.pareciam gêmeas de tanta lama . apanharam a oportunidade no momento exato. rindo de sua rapidez e agilidade. Teremos que voltar.

Ótimo! vou conversar agora com Carla. . em primeiro lugar? Déborah gaguejou. . mas logo pôde suspirar de alívio ao notar que ele lutava para conter o riso. escoltada também. Levaram-na ontem à noite.ele deseja falar com nós duas. . Não via Carla desde a piscadela da noite passada. . . com gripe. girou a cadeira em direção à janela. Im aginou as duas meninas caminhando. . . a auxiliar bateu na porta do Dr. Ogden.O atual administrador da Ala B era um médico novo.Não vejo razões para r evogar os privilégios que lhes foram concedidos. .Quero avisar a ela que está tudo Terminado Ela nos viu fugir e deve estar bastante preocupada. . . o que é uma ati tude extremamente repreensível. . Às 11 horas da manhã.Está bem. torcendo para que ele entendesse. 239 Foi a vez dos guardas se entreolharem. .. No fundo do jardim corria a sebe verdejante. Ao sair do consultório. ninguém liderou. só caem doentes quando já estão deitados. Ogden. farejando o ar. Decidi u afinal traduzi-la.Não sei. um tal de Dr. . . A palavra tornou-se uma idéia fixa . A gente não decide quando vai espirrar. Em resposta ao seu olhar interrogativo. Havia um termo Yri que descrevia bem o que sentiram naquela ocasião. frustrando seus esforços para se concentrar numa explicação mais compreensível. Fizemos e pronto. e pensar em alguma versão que tomasse suas razões suficientemente convincentes. a as coisas se mantém em ordem . Ela entrou e. pois ele sorri u levemente e explicou: . . O médico a interrompeu duas vezes para esclarecer detalhes e.Reviu mentalmente a cena da fuga na porta giratória. O contentamento deve ter transparecido no seu rosto. oito delas se não me engano. e quero que você espere lá fora. Foram perguntar à enfermeira.. Quando elas saíram. É só isso . as pessoas desajeitadas e inábeis como eu veneram as que não são.Vocês infrigiram as normas do hospital. O melhor que f aria era tentar lembrar-se de todas as histórias que escutara a respeito de escapa das. o D outor Halle. o Dr.Recostou-se na poltrona esfregando a ponta dos dedos. isso é raro aqui. quando terminou. e um sorriso pendeu um instante nos seus lábios. por algumas horas que fosse. todos riem. 238 Estou supervisionando os trabalhos da ala B por algum tempo.concluiu. Ontem.perguntou ele. que os olhos de Carla interpretaram co mo um sinal de desgraça.perguntou Carla. eu. Lá fora. rindo e cantando debaixo de uma noite tempest uosa. encontrou Carla esperando sua vez. Chegando lá.Recompôs a fisionomia severa. Halle procurou tranquilizá-la: . Espirra e pronto.exclamou numa voz onde se mesclavam impaciência. Déborah entrou precavida. que Déborah ainda não conhecia.Qual não foi a sua surpresa ao encontrar. e sempre que contam p iadas. quando apan ham um barbante para amarrar um embrulho nunca falta um centímetro. admiração e um grãozinh o de inveja. Esto u um bocado orgulhoso de vocês.Ah.Deixe que a coisa saia. . crianças! . não a tenho visto. eu tive que ser atumai. . Elas sempre encontram um jeito de escapar ao último passo em falso. As versões do que fizeram coincidem uma com a outra.Foi divertido? .O que foi que aconteceu? Déborah contou a história.Entre! . . Ninguém teve a idéia.Puxa.O Doutor Ogden está de cama. C arla também. . O Doutor Halle ostentava uma expressão sev eríssima. . De onde eu vim chamava-se as pessoas assim atuma i. Nós duas. se foi! . e aquilo íê-lo recordar-se de uma fuga que empreendera de casa quando menino. por isso. Foi divertido. num gesto imperceptível e experiente.De quem foi a idéia. Percebendo a sua hesitação. en fiou a cabeça para fora e acenou para . os galhos nus das árvores carregados de brotos primaveris. tateando em busca de uma explicação convincente. Déborah encolheu os om bros. depois de uma sentida esPera interminável. . Bem. foi escoltada sob guarda aos escritórios da administração.Carmen foi para casa.Venha. com uma cara assustadíssima. . ele perguntou: -. . não foi? Uma diversão compartilhada pelas duas.O diabo é que tinha que parecer sã. Pegam invariav elmente o sinal verde.Onde está Carmen? . por detrás da escrivaninha. De onde. .

Mas o pai não veio só para visitá-la? .No final das contas. furiosas com a perversidade do mundo. . A manchete anunciava: FILHA DE MAGNATA SU ICIDA-SE.Parece que sim. seu verdadeiro sorriso insinuou-se por detrás do falso. Déborah deu uma olhada nele e o e nfiou rapidamente no bloco de desenho.Pelo tom. Permitiram que ficasse.Carla. e isso'deixou-as ainda mais contente s.. . me sentiria tão grata! 27 Mortalmente pálida. as vozes acabaram atraindo outras. Levaram-na à oficina de artesanato. lembrando-se do trigal e do caçador.Ela poderia ter conseguido se safar.murmurou Déborah. Sentia-se arrasada. mesmo sem haver qualquer sinal de progresso. as mãos geladas. quando avistaram Carla vindo cabisbaixa em direção a elas. Os de Carmen não lhe der am sequer uma chance. você viu Carmen ontem? . encerrada em seu próprio claustro. Só sei que ela saiu com o pai por vol ta das sete horas da noite. mas sim que poderia ter conseguido. ao se levantar . cuja espingarda. Déborah foi t ambém. .Terry. . metida num vestido estampado de flores lilazes que nada tinha a ver com a agilíssima tigresa que o usava. e logo souberam da novidade . e leu a notícia até o fim. com bobs no cabelo e um bloco d e desenho nos joelhos. como é que você pode ter certeza? . foi liberdade o que eles me deram.Ela discordou. Jamais exigiram que ela se recuperasse para restau rar o prestígio da família.Viram muito 240 mais ódio do que amor. Deb. Suspendeu o bloco para ocultar o recorte. mas acho que mudou de idéia. e ainda assim permitiram que eu ficasse. compondo palavras mudas que só a ela falavam. 242 Eu não disse que ela teria conseguido. num instante.. . . . se eu não estivesse morta de medo.. ao passo que os meus. ..Apenas o suficiente para aprender a discordar . conheciam? . logo que recebeu seus privilegios.perguntou Helene. . Déborah e Carla entreolharam-se. . .Oh. com a fama violenta de Helene e as lendas que circulavam a seu respeito. Termi nava com minuciosas considerações a respeito da imundície que resulta quando uma pesso a dispara um tiro de revólver na têmpora.Quanto tempo ela ficou aqui? . Déborah e Helene estavam sentadas no corredor. desligada de tudo e de todos. acusou-as de hipócrit as e mentirosas e. via-se que a enfermeira queria encerrar a conversa ali mesmo. Conservaram a fé num futuro que talvez jamais desse os frutos pelos quais an siavam. sobretudo. Olhou para baixo e encontrou suas mãos ensaiando gestos ve ementes em Yri. Déborah compreendeu que o que devia a seus pais era.Estendeu um recorte de jornal. . Carla.Meus pais. é sobre Carmen. e por muito tempo. Carla saiu cedo para a entrevista com sua médica.Hum-hum.acusou Helene no seu tom áspero de voz. . encarregou-se de preencher o c onteúdo de seus gestos.. havia um intenso contrabando. . e não o fiz eram.O que será que aconteceu? .Vocês a conhecem? Quer dizer. seria um verdadeiro canhão. O seu sorriso "normal" era precavido como uma armadilha prestes a disparar.respondeu Carla. . a oportunidade de poder travar a batalha. . . vi. Embora fosse proibido ler jornais na Ala B.Déb.disse Déborah baixinho. Sim. . . Podiam tê-la retirado dali ao primeiro fracasso.. Quando Déborah e Carla disseram que estavam contentes por vê-la. e só voltou um pouco antes do jant ar..Acho que você está dramatizando a coisa só para conseguir um pouco de sofrimento gra tuito! . . Helene veio para a Ala B.O que aconteceu? ... era bem Helene quem estava ali. . .

Ela tinha uma enfermidade boa e saudável! . apa vorada com o olhar defmição da antagonista.exclamou . como uma dolorosa bofetada. sem saber porque. "sadios" e espirituosos. e nada e ninguém os ajuda. investiu furiosamente: -Ridículo! . Vão vivendo. estava abaladíssima. A equipe médica g osta deles. Parecem não sofrer muito e. . Mas. Déborah encarou provocativamente L inda.Que absurdo! Isso é uma contradição em termos! . como pessoas. . São todos muito racionais. que consistia numa fuga constante.É a mesma co isa. Déborah olhou ao seu redor e se viu cercada p or fisionomias congestionadas de ódio. nem se entregava às farsas ha bituais com os médicos.Você está querendo saber como eu consegui sobreviver até essa idade. Para sua própria surpresa.. Linda. Déborah a encarou intrigada. diante das car as hostis e incrédulas. a "autoridade psicológica" da Ala.. num esforço absurdo para suste ntar a farsa do "tudo bem-tudo bem".comentou Carla mais tarde vestindo-se para dormir. mas o fato é que estão ali há anos. afirmações de "ma leviandade teme rária. não é impossível. Atingira um nervo particularmente sensível.objetou Carla. não se mascarava com aparências. Sorriu daquela ironia. mas em compensação ela senete.Carmen poderia ter se salvado. Tremia de medo. fugia à dor envolvendo-a "m palavras pomposas e eruditas.Reparem naquele monte de homens internados n a Seção Masculina. porém muito mais vulneráveis do que as da Ala D. Asenfermeiras que estavam de p rontidão não sabiam se falavam se guardavam silêncio. Curioso é que o medo que sentia era o mesmo que levara as pessoas a rejeitarem ass ustadas a sua definição de "uma boa e saudável enfermidade". . só isso. mas jamais conseguiria convencer aquelas mulheres mais sãs.Proferiu essas últimas palavras. sobretudo. pode estar doente.. hein! .vou sentir sua falta. não sentir muito.Porque vou sair. tal como naquela noite milagrosa na Ala D. ículo! Você está apenas racionalizando seu próprio sistema de defesas! 243 Déborah procurou ser mais objetiva: . O que pretendia? Estaria tentando impedi-la de dizer qualquer coisa que pudesse degenerar em confusão e obrigá-la a se desdizer.Meditou um minuto. foi você mesma quem disse que Carmen explodiria até o teto a qualquer minuto. estourada do je ito que sou? . exposta. . Déborah se achou defendendo com ardor o pequenino "Talvez ".Porque você haveria de sentir falta de mim? . Suas idéias eram claras. mas sincera. vou começar a procurar trabalho onde não fique enclausurada num quarti nho 244 . Só que dessa ve z. em Yr. A velha Coral.Viver é lutar! . Déb. Sentiu revigorar dentro de si a força silenciosa que emanava do "abrirse ao mundo". luta. vive intensamente.Uma tensão vibrante percorria em sussurros a ala. Reinou um silêncio intranqüilo e. . No entanto. ressoou um trovão: . Quando a enfermeira veio dispersá-las. .Impossível! . em suma. e mais ? contradição entre o cinismo que existia dentro de cada uma e ânsia vacilante e cega de lutar que se traduzia em calorosas disputas verbais.Você gosta mesmo de atiçar as feras.de uma forma mais premente e impetuosa.Ela tinha uma enfermidade muito dolorosa . Deb. apren dera bem as lições de Furii. que já havia lido tudo sobre o assunto e vi via distribuindo jargões como quem distribui moedas. Déborah percebeu que aquela agitação de ânimos dizia menos respeito ao suicídio de Carmen. já sem fôlego. ou então q ue pudesse ameaçar as defesas que as pessoas erguiam para conter o sofrimento? .Não. .Depois de tanta terapia. Isso é doença-d oente. À distância. mas não deixou de se q uestionar: "Que medo é esse? Medo por mim ou por Carla? Por mim? Porque vou perder uma amiga para o mundo? Ou será porque em breve eu terei que ir?". vou tentar de novo A resposta a apanhou desprevenida. lá na D. Continuo achando que Carmen poderia ter vencido. é impossível que eu não consiga percorrer um quilometrozinh o até a cidade. . . . . o nervo da Ala B.

A nova companheira de quarto era uma menina meiga e generosa. rancor. eu não sou paciente. Procurou depois o pastor Metodista para conversar sobre o grupo de jovens que ele entretinha.Tem um ou dois quartos novos. Tomaram-na invisível. Um dia.Não sei se você sabe. . Debo245 rah não desanimava. arrumo a trouxa e me mando daqui também! Quando foi procurá-la para se despedir.Na verdade.Déborah ouvira rumore s a respeito e conhecia alguns devido às suas caminhadas . P erguntavalhes por suas vidas. Déborah se afeiçoou a ela e. Sua memória fora devas tada. lá do outro lado da cidade. contentou-se em deitar na cama com os olhos anuviad os de medo. de modos delicados e voz suave. distraidamente. . A assistente social possuía uma lista de quartos na cidade que podiam ser alugados para pacientes em regime de externato.Sim. mas a doença continuava intacta.uma mescla de estupor. . acima de tudo. mas a lei exige que nós declaremos. eu sei . pr ocurando descobrir novos caminhos. Por is so sou tão sensível". vou sentir sua falta .minúsculo. receosa e excitada ao mesmo tempo. . onde não há pacientes morando. m as logo compreendeu que participar estava fora de cogitação. Costumava ficar sentada junto às enfermeiras e estagiárias escutando embevecida elas conversarem. . Afastou-o com um ligeiro tremor. A proprietár ia veio abrir. com uma determinação teimosa e inquieta. Chegando a um velho casarão.É uma exigência. Assim que terminar. . veterana da psiqui atria mecânica e que já tinha passado por uma dúzia de hospitais. Fulgurou-Lhe na memória o episódio do tornozelo t orcido no St. . Na sua maior parte . Agnes (Eles são violentos?). e quando veio a resposta. medo. comparecia. olhando.interrompeu ela. Doris Rivera devem ter visto: . .Terei que acompanhá-la ."Minha família sempre teve queda para a música.Pouco me importa que você vá . tocaram a campainha da porta e aguardaram. e ainda antes de Carla. inveja e. Déborah viu no rosto de suas com panheiras a mesma expressão que Carla. . Quanto às senhoras do coro da igreja.vou sentir sua falta.. Só que ficam um pouco l onge. O primeiro passo foi ingressar emdois coros de igreja. como se refletissem a desgraça dos leprosos que os habitavam. . .. solidão . Quando a a ssistente social começou a explicar do que se tratava. Déborah a encarou firme esper . Talvez tenha sido esse o principal problema da última vez.confessou Déborah desolada. e minha mãe é Sophie Tucker. sabia? Estou fazendo uma pesquisa para minha tese de doutôrame nto.disse a assistente social . . Por mais que ignorassem a sua pre sença. cheirando e apalpando tudo o que lhe caía às mãos. mas receosa de que o medo traduzisse a respos ta para um Yr incompreensível. . persistente.Daqui a pouco você vai também."Meu pai é o Paderewski. finalmente. depois de algum tempo. a menina acabou deixando de lado o assunto família ou os atritos conjugais de seus pais. que clamava pelos seus direitos inatos. por e xemplo. sempre quietas. e ela. onde moravam e o que pretendiam fazer quando terminassem o estágio. . Greta Garbo e Will Rogers . .declarou a sua companheira de quarto. -Freqüentemente ia até a cidade a pé e depois voltava. . Atribuía a si mesma as mais divergentes proce dência familiares . faltava-lhes a sensibilidade para reconhecer a fome impetuosa de uma criatura recém-nascida no mundo. a menina olhou para ela surpresa como se n unca a tivesse visto antes. A curiosidade a impeliu até mesmo a freqüentar a vida social da cidade. suas famílias. Déborah continuava animada de uma curiosidade insaciável pelo mundo. Era uma senhora idosa.eram pobres e sombrios. encaminhou o pedido de autorização para abandonar o hospital Rangérãm as eng renagens da burocracia.diria. Déborah tentou formular um "Claro!". A pequena e insular com unidade tinha verdadeiro pavor do hospital e de seus ocupantes.Falava com u ma voz desanimada e assustada. Déborah fechou os olhos e pôs o dedo ao acaso na lista. onde não era b em vista. todas com um ar muito piedoso.

Quando volto para ca sa depois da aula de costura. . ou do coro na igreja. outras falsas.Sim. aos poderes esmagadores de Yr. sim. é bom ter alguém que faça gracinhas e.Sim. que não admite mudanças.Sorriu . P ara que uma pessoa renuncie ao mundo.Sim. esse quarto tem mais luz.Gostaria que você voltasse de novo para a sua infância e revolvesse aquela época cin zenta da qual já falamos. por uma cara hostil.Ah?. pelo menos depois que se aco stumou à vida da cidade. . mas eram insignificantes comparadas. a velha se contentou em dizer. claro! Está cursando a faculdade agora.Você teve notícias dela nos últimos anos? . não suscitava receio..Sim. Mas logo aprendeu o novo m odo de vida e ficou boa. mas um abismo intransponível os separavam. mas o outro fica mais perto do banheiro. .. de repente. nada mais. ela se limitou a acenar de leve com a cabeça: . parecia-se com todos os que o nganon atrai . . . . eu vejo! .era uma pessoa solitária e tristonha. .Ainda que o seu rosto me pareça ótimo. Inúmeras histórias assus tadoras. um mapa. . aquele ano que passamos na casa alugada. espero que gostem do quarto.Não me refiro à linguagem ou aos deuses propriamente . . .De quem é a culpa: da cidade ou do meu rosto? . bom. E não tinha nada de arruinada.ando a qualquer momento por um olhar cauteloso. O reinado sombrio da destruição. recordar-se de uma amiga ou de um rai o de sol implicaria em transformar toda uma visão do mundo. Quando a acompanhante foi embora. Isso sim é doença. um ho mem que servira na marinha e que tinha o hábito de falar sozinho. A terapia atravessava uma fase pouco inspirada. . As trevas serviam justament e de contrapeso para as luzes que simbolizavam a vivência do amor e da verdade. suas r elações com as pessoas não passavam de compartilhar uma máquina de costura. que sempre lhe parecer a uno e denso. as aulas de costura na escola secundária e até mesmo um clube de excursões para adolescentes ("Venha Um Venham Todos").respondeu Furii. e ela também. era nova na cidade e não fora educada nas lendas fantasmagóricas que cercavam Aquele Lugar.É bom conversar com Lactamaeon. fique sério e diga coisas que . não ponha papel na privada que ela está velha e um pouco ranzinza. Déborah mergulhou nas recordações. . como pude esquecê-la! . mas nada disso ( aconteceu. tinha agora algumas fendas que deixavam passar a luz do sol. novos aspectos a confrontar com o passado.Você teve uma amiga? . onde sou uma estranha. algumas verdadeiras.Olhe.'. . Eram todos muito gentis.prometeu Déborah. e minha amiga.Lembro-me inclusive de dias inteiros. é bom ter com quem rir e conversar. acabaram inculcando na maior parte dos habitantes da cidade um medo e uma a aversão absolutamente irracionais. . Agora que retornou ao mundo . ou responder "boa tarde" ou. lá também existe amor.. Talvez a senhora não tenha entendido bem.De ambos talvez.Mas Yr também é belo e verdadeiro. antes de nos mudarmos de volta para Chicago. à qual não pertenço. Veio a descobrir depois que a proprietária Dona King. . de trabalho mais cotidiano. Déborah. é preciso que tenha razões. até eu vir para cá. 247 . estão vendo.. . . Por mais que f reqüentasse os ensaios do coro da igreja. A vel ha não tinha entendido? Quando a assistente social terminou de falar. graças à sua aparência mais "normal". Como pude esquecer disso? . você é capaz de se lembrar do que havia além das trevas. . não suscitava nada.retrucou Furii . que realmente não era estragada! . Quando veio morar em Chicago. talvez ele demonstre uma certa ansiedade quando você está com as pessoas. Cansou de ver as mães chamarem apavoradas os seus filhos quando passava "O Capitão". . Sim. Você precisava ter t odas as razões para se entregar a uma renúncia tão grande. quer dizer.. . . "boa noite". Ah.Enquanto você esteve doente daquele jeito. por fav or. Aliás. 246 Ou o franzir dos cenhos. é um hosPital para doentes mentais-insisti u aflita a assistente. um livro de hinos. quando ele está bem-humorado.mas à força qu e exercem no sentido de mantê-la afastada do mundo. busc ando nas atuais situações de liberdade. .Ne-n que minha vida dependesse disso .

porém. viveram juntas as agruras da enfermidade e lutaram juntas para escapar às suas gar ras. Furii lhe lembrou as crueldades cometidas pelo Coletor. Num dado momento. e quando o cantaram. Mais tarde.perguntou Furii com uma voz meiga. havia uma proximidad e toda especial entre elas. por ser sua amiga. então. então. sua Terra!" . reparou que sempre que mencionava sua ar te ou qualquer outra coisa em que estivesse trabalhando." Eu disse: "Todos os anos? Para sempre?" "Uma terra contestada. uma mudança sutil se oper ava em Carla.perguntou Furii. Carla? Você a vê freqüentemente? Déborah lhe cont ou uma coisa estranha que acontecera. Eles riram sem graça e acabaram admitindo que seus conhecimentos não iam além dos meus. em local seguro. . no entanto. Carla trabalhava durante o dia como técnic a de laboratório e passava as noites estudando as novas técnicas para recuperar os c inco anos que perdeu internada em três hospitais sucessivamente. . ond e coexistiam amor e ódio. não dissera nada. que o cri ou a partir do seu próprio humor e de sua própria beleza? -. No sábado anterior.Na realidade acho que sempre soube. fora dormir pensando em falar à Carla .. rindo mas magoando também. esse estranho desin teresse destacou-se com maior nitidez ainda. quando se de sanuviou a sua relação com o mundo.Mas agora você sabe. muito tempo. Lembrou-se que Carla jamais demonst rara interesse em ver um trabalho seu. Déborah. Primeiro eu pedi: "Ênsinem-me matemática". Anterrabae exclamou:Mas é claro! Encetamo s. tinham deixado de ser belos. . perguntei a Anterraba e: "Esse aí é o meu fogo que está queimando dentro de você?" Ao que ele respondeu: "Por acaso não valeu o combustível?" .Plenamente? Furii assentiu com a cabeça. porém. não é.Receio."Serve para iluminar ou aquecer?" . não é assim? .248 nos comovam. mas sempre que estavam juntas. Seria maravilhoso se eu pudesse despachá-los quando quisesse. que tinham esc rito um coral baseado num poema de Horário. çle srecorriam a todos os seus métodos de sedução.Sim. comentei: Esse é um dos poucos que conheço inteirinho de cor. a espirituosidade e a sensi249 bilidade poética porque é muito mais difícil combater um inimigo amável.Quando foi que você finalmente percebeu isso? . ainda receio que eles sejam de certo modo reais. . Déborah começou a prestar atenção a isso. recita poesias que nos fazem chorar e nos dê vontade de contemplar as estrelas. . seus temores e todas as suas tênu es e frágeis esperanças. Supôs que ela devia ter achado algum rascun ho. Em meio à sôf busca de vivências. . . crescendo. Mas já há algum tempo que ela vem crescendo. Furii perguntou: . um desses desafios em que se brinca e se fere ao m esmo tempo. já há m uito. eu estava rindo em segredo com Idat e Anterrabae. Semana passada. Agora que ela começava a reagir. a frieza. Mas naquele universo de bruscas e surpreendentes oscilações emotivas. de novas experiências que ambas empreendiam. Déborah.Admiti-lo causava-lhe profunda dor. poupá-la do s altos e baixos de sua arte. a camaradagem foi cimentada e tingida pela seiva de vida emergente e de luta. Déborah decidiu. . que o construiu à imagem e semelhança de si mesma. num processe quase que concomitante. Aproveita : do que as recordações felizes continuavam vivas na memória d. na época em que costumavam ficar catando papéis na Ala D. Sua fisionomia endurecia imperceptivelmente e seus modos beiravam. agora eu sei. . a atitude de Ca rla e o seu ressentimento passaram desapercebidas. uma espécie de desafio. Como. Depois começamos a nos insult ar um ao outro. e onde cada sensação e preocupação era duvidosa. e provavelmente não tinh am gostado mas. Havia tantas coisas novas para compartilharem que essa única fenda não faria muita diferença. . . PodeTríâm ter sido amigas em qualquer parte. Não tinham segredos entre si: contavam suas vidas. Não se viam muito ultimamente. sempre tive uma suspeitazinha guardada lá no fundo.perguntei.E o Coletor estaria incumbido das críticas a você. e e le respondeu: "Serve para alimentar anos de sua vida.E quanto à sua nova amiga. e de como os deuses.

de um negro denso e azulado. . .Ah. a partir da qual possam crescer e se desenvolver...Sim. portanto.Você acha que é verdade. uma voz grave e profunda a interpelou . veio lembrá-la de uma outra alegria: a compreensão de C arla. O ápice de todos esses arcos individuais compõe a curva da história e.. a do homem. você realmente sonhou isso. mas o sonho foi se desvanecendo e as vozes das estrelas sumindo até desaparecerem de todo. . arqueada e extensa. contemplando o luzir das estrelas. . como se estivesse perseguindo a salvação. espesso. apesar de toda e qualquer inconveniência ou restrição. um belo e sólido osso! Déborah quis ainda implorar à voz que revelasse a configu251 ração que teria a sua vida. então.o único desejo que jamais poderia admitir.É isso a vida de Carla? .Esse osso está profundamente entranhado nela. Os morros cobertos de neve. Quando lhe descreveu o osso e contou o que a voz dissera. .. não posso mostrar -. lembrava-se nitidamente do sonho. mas não é nada disso. apesar de você tê-lo encontrado aí enter rado e congelado.mas posso mostrar o de Carla. . . e o conjunto de vozes era tão belo e comovente que a fez chorar. . a voz disse: noite é uma curva de trevas. Furii disse para ela: . o luzir da ne ve e o luzir de uma lágrima gelada que escorria de seus olhos. . é uma curva. Déborah caminhava sobre a neve. . .Após uma pausa. .O seu. . Déborah olhou em direção ao horizonte.Deixe eu conhecer o arco da minha vida? .Você sempre teve em al ta conta a sua arte. . trabalhou com um grande ardor. Lembre-se da amizade sa udável que você precisou sepultar no esquecimento.É um belo osso.Contei exatamente o que aconteceu. e dos tempos felizes que baniu da memória. Déborah cavou com as mãos um buraco na neve. . su as mãos esbarraram num objeto duro e ela o arrancou para fora da neve. . onde cada vida constitui um arco ligando o nascimento à morte. Cave aí bem no fundo na neve. ela perguntou ansiosa: . seu sonho. Ela enxugou os olhos. como se estive sse limpando a neve do achado. . mas tam bém sons? Apurando os ouvidos. O sonho se passava numa noite de inverno.a respeito de um novo pensionista e do genro da proprietária. Apesar do frio cortante. .suplicou Déborah. de um branco vivo e fosforescente. sonhei. . as estrelas congeladas luziam frouxamente. O seu talento é tão fértil que resistiu às piores fases da doe Agora você pode compreender a situação daqueles que não têm a sorte de possuir uma vocação ativa.Olhe para lá.Pediu. . ela escutou uma cantiga de ninar entoada pelas estrelas. revia as estrelas e suas mãos apalpando a curvat ura suave do osso.Jura que não inventou nada. . Carla a escutou so fregamente.O que é que você está vendo? Como é? . A voz interpelou de novo: . . No céu. projetavam longas e sinuosas sombras . Quantos não a invejariam. De repente.perguntou estarrecida. Ele está enterrado e congelado lá no fundo.Sua criatividade? . sei que soa como aquela velha l enga-lenga de "menina sortuda".disse Carla pensativa .Reproduzia os mínimos movimentos dela.Sim. sólido. Acho que esse sonho. o sonho.A voz silenciou um momento e depois concluiu . retrucou a voz . Na manhã seguinte.Você sabia que as estrelas não emitem só luz. . descrevendo uma curva regular.É. Teve um sonho incrível . Déborah. sim.. Déborah. foi só um sonho.Também vou ajudar a sustentar a curva da história? . Depois de muito tempo. Em momento 252 . O espaço que fica para além é a curva da história da humanid ade. você acha mesmo que é verdade? . mas mesmo assim eu acho que é verdade . não é? Lembrome que lia constantemente nos relatórios da ala como você sempre arranjava um jeito de fazer seus desenhos.Vê.afirmou Déborah. distraída. varridos pelo vento. Era um frag mento de osso. Quando Déborah retirou o objeto enterrado.O único lugar para onde eu jamais poderia ir. Quando Déborah concluiu o seu relato. e contou-lhe.Por favor não se zangue. . . Carla veio visitá-la e enquanto conversavam à toa. .. Carla desatou a chorar.

pela sucessão majestosa dos dias e das noites. os in esperados mergulhos nas trevas de Yr . pelos amigos.disse ele . pelos amigos. pelo frio e a dor que reagem às leis da natureza. . que fazia de Déborah um instrumento e uma cúmplice de sua destruição. Aos domingos. ficou surpresa de ver como conhecia mal o mundo e todas as suas pequena s exigências rotineiras.. . Déborah fora justamente naquele dia dar uma olhada na escola secundária."Imutávelmente. Precisava ampliar o seu campo de experiências. os tofmentos inf . Comparecia a todas as cerimôni as metodistas e escutava os mexericos que circulavam no "Clube do Altar das Senh oras". Furii ia dissipando aquela velha certeza de que a sua vida era um a vida amaldiçoada e arruinada. em meio a rostos idênticos aos que encontraria ali. nganon clama por si mesmo". Recordou-se do misterioso soldado japonês.A senha de todos os condenado s. Fri ed. Pouco a pouco. nesse sonho. estudar o problema. dimensões e cores.os lapsos e ausências. Por mais simpática. . pelas fagulhas que so bem das fogueiras em direção ao céu. Evocaram de novo o velho brado Yri . realmente não dava mais: suas atividades meros passatempos para preencher as ho ras vagas. s entia cada vez mais que suas ambições e esperanças já não cabiam nos ensaios do coro e nas aulas de costura. Déborah passeava os olhos com curiosidade pela congregação: teriam alguma v ez agradecido a Deus pela luz que iluminava suas mentes. Era um conj unto imenso de prédios que bordejava o outro lado da cidade. é claro. Folheando os jornais da cidade. não havia para ela empre go algum. antes de assumir a convicção de que . já não a satisfaziam mais. e nriquecer sua vivência. serviços que exigiam pouca capacidade intelectual. aco rdando para mais um apelo do mundo. a título pessoal. e o administrador que cuidava das questões das pacie ntes em regime de extemato. prom eteu. A medida que o mundo ganhava uma riqueza maior de formas.Bem. A doença.. pense demoradamente no assunto.algum você renegou esse seu profícuo dom que a maioria das pessoas dariam tudo para possuir.Conversei com várias pessoas . ouvindo os sermões do pastor. . Suas recordações de es cola ainda estavam muito vivas na memória. 28 Déborah levou uma vida pacata nos meses seguintes. Conhecia Latim e um pouco de Grego. e as velhas recordações qu'e guardava da escola. viera crescendo dentro d ela desde os primeiros anos. ocultar sua condição de cidadã e cativa de Yr. dos esforços enlouquecedores que lhe custa ra manter as aparências. . Nem para garçonete ou balconista de magaz ine.doutôra Fried deixou claro que isto era um problema que e la tinha de resolver sozinha. eram de quase quatro ano s. você não estava abrindo os olhos para isso. prestativa e "sadia" que se mostrasse. grande demais para voar.Percebendo o olhar apavorad o dela. recordações episódicas de uma visitante num lugar estranho. pelos amigos. mas os terrores finais .aconteceram em corredores idênticos aos daq uele prédio. tinha aj jpalificaçéesnecessária s. nunc a deixaria de ser uma criatura invisível e inaudivel. depois de insinuar mais ou menos a mesma coisa. mas não tinha o diploma secundário. Recordou-se das lut as que travara no íntimo. montões de pedra pousad os ali como uma gigantesca ave. em sono. Os psiquiatras eram 254 todos igualmente estranhos na cidade. Numa cidade tão pequena e estagnada. Teriam consciência de como eram be las e invejáveis as suas vidas? Não. . Ao chamá-la duas semanas mais tarde. trabalhando numa série de desenho s a bico de pena e abrindo caminho para o passado em densas sessões com a Dra.ra intrinsecamente dife rente dos outros. pelas expectativas que podiam acalentar. completou: . e há muitos anos não lidavam com estes problem as de trabalho. mas não conseguia penetrar um milímetro sequer além daqueles sorrisos polidos e frios c daquelas delicadezas puramente formais. .se. por mais rudimentar que fosse. par ecia um tanto surpreso. em silêncio. suportando estoicamen te os ferimentos que o levaram à captura. O hospital não podia ajudá-la em nada. A própria. Quem sabe.e tudo leva crer que você terá de cursar a escola secundária para conseguir qualquer emprego. Gostaria de trabalhar. Aperspectiva de vir a f reqüentar "na daquelas salas de aula a assustava terrivelmente.

lingidos por Anterrabae, o Censor, o Coletor e o Poço. Apesar de todas as concessões que fizera aos seus captores, Déborah perdera inteiram ente o ânimo para continuar sustentando aparências. Participe, se engaje, se entregu e a qualquer preço, diziam eles. Mas agora sabia qual era o preço. Numa cidade tão pro vinciana e mesquinha, onde haveria entre ela e seus colegas de turma uma diferença de, pelo menos, três anos de idade, e uma distância incomensurável, sabia perfeitamen te que, na melhor das hipóteses, o mundo se tomaria uma verdadeira terra de ninguém. Mesmo estando abalada a sua sujeição a Yr, ácaba255 ria, inevitavelmente, se alienando do mundo, se refugiando num outro mundo, e tu do recomeçaria de novo. com ou sem Yr, era tarde demais para se juntar novamente a estudantes como esses, tarde demais para bailes de escola, panelinhas, faceiric es e frivolidades de coleguinhas de turma. Fartara-se já do "vocabulário especial" q ue convinha empregar nas relações de engajamento com esse tipo de mundo. - Tenho dezenove anos. . . - declarou para os prédios da escola. - É tarde demais! Afastou-se, tiritando de frio, debaixo da forte ventania que Yr soprava por sob re a distância, ao mesmo tempo real e irreal, que a separava de tudo aquilo. - Não posso voltar aos-meus adoráveis dias de ginasiana - disse pafã~o administrador. - Volibol no pátio, mexericos, festinhas de escola, não dá. - Mas sem o diploma secundário... - Non omnia possumus omnem! - retrucou, lembrando-o de que se tratava de Virgílio. Sabia, no entanto, que ele tinha razão. - Por que então você não prepara uma lista enumerando tudo o que é capaz de fazer? - pro pôs o administrador. Seria puro faz-de-conta, "fazer coisas úteis", nada mais do que enumerar becos sem saída. Mas, que jeito? O que ele queria, na verdade, era livra r-se do "abacaxi". Faria a tal lista. Quem sabe não descobriria alguma preferência, um talento, qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Lá estava o pequenino "Talvez" transformando em calor e ânimo uma ínfima e vulnerável fagulha. Voltou à pensão, foi para o quarto, sentou-se na mesinha, apanhou uma folha de papel e dividiu-a ao meio. Numa das metades anotou CONHECIMENTOS, na outra EMPREGOS P OSSÍVEIS. CONHECIMENTOS 1 andar de bicicleta. 2 saber Hamlet inteirinho de cor. EMPREGOS POSSÍVEIS 1 garota de entregas. 2 - professora particular, para meninos que estejam aprendento Hamlet na escola. 256 3 poder acordar do sono mais pesado em posse de todas as minhas faculdades. 4 - tremendo vocabulário de palavras obscenas. 5 algum grego. 6 algum latim. 7 frieza de cálculo e insensibilidade. 8 artista há dez anos. 9 conhece as componentes da maioria das formas de doença mental, capaz de re presentá-las realisticamente vendo o original. 10 não fuma. 3 guarda-noturno. 4 consultora lingüística. 5 (não é suficiente). 6 professora particular de latim para meninos que o estejam aprendendo na escola. 7 assassina profissional.

8 não cheg.: a ser gênio; não há viabilidade comercial. 9 atriz (perigoso dei íais). 10 degustadora de vinhos. Reescreveu a lista, suprimindo os itens 4, 5, 7 e 9. Doeulhe um bocado ter que a fastar o "assassina profissional". Lembrou-se, porém, que tinha uma péssima coordenação motora, e os assassinos profissionais precisavam ser ágeis e graciosos. Tamanha er a a sua falta de atumai que, seguramente, no momento crucial suas vítimas desabari am para o lado errado. Imaginou a cena: ela, a assassina, tentando se arrastar d ebaixo dos cento e cinqüenta quilos de um lutador profissional. - É. . . - murmurouitem 7, causa perdida. No dia seguinte, levou a lista para o administrador, mas não esperou que ele termi nasse de ler. Até mesmo Anterrabae 257 estava vexado com as qualificações tão medíocres de sua rainha e vítima. O Coletor, com ar es de falso-santo, morria de contentamento. Déborah estava assustada com as opções que o mundo lhe oferecia. As perspectivas que tinha na sua frente eram como o corre dor que percorria naquele momento: uma longa estrada, cuidadosamente pontilhada de portas, de dez em dez passos, só que todas fechadas. - Ei, Srta. Blau - chamaram às suas costas. Era uma das assistentes sociais ("O qu e é agora? Já tenho um quarto, portanto não preciso de uma caçadora de quartos; a não ser que esta venha desfazer o que a outra fez"). - O doutor Oster falou-me a respeit o da senhorita freqüentar a escola secundária. ("Lá vêm eles exigir novos sacrifícios. Pro vavelmente designaram para mim um bom lugar sob as rodas de jaganatas"). A dor p rovocada pelo tumor alastrou-se pelo corpo todo, e sua visão tingiu-se de rubro. - Não sei como não pensei nisso antes - dizia a assistente social. - Há um lugar na ci dade que talvez possa prepará-la. - Preparar-me para quê? - perguntou Déborah. - Para os exames. - Que exames? - Ora, os exames para conseguir o diploma de equivalência ao curso secundário. Como eu dizia, parece ser a solução ideal.. . A mulher olhava-a de um modo esquisito. Déborah quis explicar-lhe que era difícil es cutar através de um borrão vermelho, que suas notícias tinham trazido um grande alívio m as, devido à brusca mudança de pressão - bastava ver a palidez mortal do seu rosto - e stava sentindo o chamado "mal-dosmergulhadores". - Isso significa que não preciso freqüentar o ginásio? - Não, como acabei de dizer, há uma escola particular na cidade. - Posso escolher então? - Acho melhor a senhorita se entrevistar antes com eles e estudar as possibilida des. - Como faço para combinar essa entrevista? - Bem, a senhorita ainda está sob os meus cuidados.. . - Você poderia marcar uma entrevista? Sim, claro. - E depois me conta o que eles disseram? - Hum-hum. Déborah sentou-se e ficou observando a moça se afastar. A dor estava diminuindo, mas o pânico continuava tão intenso quanto antes. Escuta teu coração - sugeriu Anterrabae, despencando ao seu lado. Batia como uma porta sem ferrolho empurrada pelo vento. O que é que está acontecendo? O que é que está acontecendo? - perguntou assustada para Y r. Estava tudo tão real agorinha mesmo! - Enxergava tudo distorcido; suas palavras soavam de uma forma estranhíssima, como se até mesmo o Yri tivesse sido recodificad o. Por quê? Por que está acontecendo isso? A pergunta quebrou o silêncio que reinava sobre a terra. Sentiu que alguém se aproxi mava, talvez o doutor Ogden que' saía do escritório. A audição estava tão distorcida quant o a visão. Esbarrou numa pessoa e imediatamente gritou: - Os sentidos não são discreto s!

- Ela vai ficar violenta? (ou algo no gênero, ouviu um dos vultos perguntar num to m aborrecido) Déborah quis responder que a violência constituía para um vulcão uma lei n atural, mas já não conseguia comunicar absolutamente nada. Flanqueada e sustida por um atropelo indistinto de mãos e vultos, foi conduzida ao elevador metálico dos paci entes e transportada para a Ala D. Começava tudo de novo! Ao recuperar os sentidos, olhou bem para si mesma, de alto baixo, e soltou uma s onora gargalhada. Agora eu sei, seus calendários descendentes e imprevistos. Agora eu sei, Lactamaeo n, oh deus tristonho! Agora eu sei porque Carla e Doris ficaram arrasadas daquel e jeito! - Riu às gargalhadas, um riso áspero e ferino, até ficar completamente rouca. Mais tarde, Quentin Debshansky entrou para tomar o seu pulso. - Oi! - cumpriment ou ele, sem saber se deveria mostrar-s,e alegre ou pesaroso. - O casulo está ajuda ndo? - bom, voltei a ver, a ouvir e á TãTar. - Ela o encarou com firmeza. Você continua sen do meu amigo? - Ora, é claro! - exclamou desconcertado. sentia-se - Então deixe a sua cara em paz, Quentin. Seja espontâneo. Ele relaxou a fisionomia que logo adquiriu uma expressão desapontada.-É que... bem, eu fiquei feliz de saber que você estava lá fora, tocando para a frente. Sentiu uma pontada de angústia ao lembrar-se que dedicava afeição a uma pessoa que era , afinal, louca (ainda que os médicos lhe recomendassem chamá-las doentes mentais ). e podia tomá-la ainda mais louca se dissesse coisas indevidas. Os médicos e todos os manuais que lera aconselhavam-no a não se mostrar muito categórico, não discutir, não e xtemar sentimentos fortes, procurar ser jovial e prestativo. Sabia, no entanto, que estava lidando com um ser humano, um ser humano que era capaz de comover e q ue lhe inspirava uma profunda afeição. Estava feia neste momento, com os cabelos des grenhados, mas quantas vezes não o ridicularizaram também por sua aparência. Além do mai s, já passara por uma derrota semelhante à dela. Sofrerá, uma vez, um acidente que o d eixara estirado na estrada, todo quebrado, ao lado do pai. Quando vieram socorrê-l os, transportaram-no para o hospital enrolado num cobertor, exatamente como ela estava agora. Jamais esquecera aquela viagem. O pior de tudo não foram as dores, s entira-se até orgulhoso delas, mas a horrível sensação de estar sendo moído, reduzido a um a pasta, corpo e alma. O gemer das rodas girando, interrompido por bruscos sacol ejões, transformaram-se num sussurro monótono e atordoante: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . .". A morte do pai causara-lhe uma tristeza imensa, irr eparável. As costelas quebradas tomaram cada ato respiratório um verdadeiro suplício, um chute no rosto da morte. Olhou para Déborah e lembrou-se das rodas girando as s uas idéias: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . ." - era justamente o que ela devia estar sentindo. - Quer um copo d'agua? -- Não, obrigado. Ficaram ali olhando um para o outro constrangidos e envergonhados, ela esperando que o medo e ele que o desapontamento rompessem logo o impasse angustiante. Sub itamente, Déborah se deu conta de que Querrtin Dòbshansky, além de amigo, era um homem , um homem sensual, um homem 260 capaz de despertar nela sentimentos inteiramente novos. Foram duas descobertas s imultâneas: a do seu vazio interior e a do desejo, um desejo feroz, ardente, recal cado durante anos e anos. Furii tinha razão; por mais biruta que fosse, era capaz de sentir, e como! Ergueu os olhos para Quentin que, indeciso junto à porta, procurava alguma coisa r econfortante para dizer antes de sair. - Você tem mais uma hora, tá? - Hum-hum. - Sabendo como devia estar feia, para não lhe ferir os olhos, virou a c abeça para o outro lado e esperou até que ele fechasse a porta. Lactamaeon, o deus negro, com seus olhos azuis e frios, começou a escarnecer dela: O pescador venceu. Colheu na sua rede o peixe que se recusa a morrer e ficar mo rto. Salta, contorce-se, joga-se de encontro às amuradas do barco, procurando dese speradamente voltar ao seu elemento natural. Privado da essência que lhe garante a

ao chamuscar os primeiros fios de cabelo. .algum pre nuncio do que iria acontecer. .O que que é engraçado? . sempre havia algum sinal de advertência. . Como é que eu posso estar melhorando com crises assim tão repentinas e fortes? . Ele não quer pensar nos espasmo s mortais do peixe.Porque doeu! .exclamou atônita. o súbito alívio. . . Quando soube que Déborah tinha voltado para a Ala D.. os passos solenes do réu caminhando para o cadaf also. e examinou o seu braço cheio de cicatrizes. e escondendo o levou para seu dormitório (dormia. mas sempre. . Isto aflige o pescador.Foi um reflexo! .Você andou se queimando de novo? .perguntou.Masaxme íortão repentina. é isso que acontece! Dá uma dor chamada dor de queimadura! Furii franziu o cenho.vida. Assim és tu para o mundo e para nós também . quando os meus vínculos com e: líAgora passaremos para o outro Poço. . você não imagina como eu estou contente! . o mundo começaram a mudar. virou-se para ela com um olhar interrogativo. uma agulhada dolorosíssima rep eliu o braço num gesto instintivo. Tentou de novo.bom.Sim? .Talvez "ela" soubesse que você precisava de ajuda. aumentand o. .gritou Déborah. . até que. várias vezes. Quando chegou a hora de avistar-se com Furii. sua recompensa e vitória. o local já queimado o tecido não se ressentiria decidiuqueimar num local novo. Aproximou-o lentamente da pele.começou a chorar. Eu já não sei mais como! O cair da tarde invadia suavemente a enfermaria. o medo que sentira. com mais intrincadas. .disse Déborah . e irrompeu na sala exclamando: .Antes. . Seria inút il queimar. Deslocou o cigarro em brasa ao longo do braço até encontrar uma região que aind a estava viva. predizíveis. foi como se Yr dissess lado.Sorriram. e deixa as coisas voltarem a ser o que eram. mas a dor sempre prevalecia sobre a vontade. ao que parece. As relações se invertera . as vertigens. -. correu para o consultório. A ajuda estava ao seu alcance .Puxa.Engraçado. Déborah contou então a visita à escola.. obrigando-a instintivamente a afastar o braço do ciga rro. Mais que depressa.É que Yr sempre foi o domínio da ava no mundo..Ei! Sabe o que acon tece quando a gente brinca com fogo? A gente se queima. . pois. já estou. proclamou alto 261 em Yri: A todas as divindades de todos os mundos. Finalmente desistiu. estou confinada definitivamente neste mundo. comunico que não haverá mais queim aduras nem fogos. do compreensível. o sofrimento é atroz.. seja lá qual for ele". Déborah reparou que uma auxiliar esquecera o cigarro aceso no cinzeiro.Tentei. . . . o "mal-dos-mergulhadores" e. Furii reparou na acompa nhante que se postara atrás de Déborah. . agora. As minhas fugas para o tempo. Sentou-se no chão. É natural que lutem desesperadamente para salvar o que puderem da d oença. mas não consegui. . por oposição à anarquia que im lá obedeciam a toda uma série de fórmulas que.. é? .As defesas que a impedem de ficar boa e se juntar de vez ao mundo já estão nas últim as barricadas. Falou sobre a sensação que tinha de que tudo e stava sendo decidido à sua revelia.Ah... Descreveu o encontro com a assistente soxiaL£as sugestões dela. deixando amedrontada a acompanhante. o desespero de ter que fic ar três anos presa ao silêncio da cidade. o calor foi aumentando. .. antes mesmo que ele tocasse a pele. e perguntou-lhe intrigada o que estava fazen do ali.Será que não compreendes! . Vieram. sobreveio a crise. sem nenhum aviso prévio. dissimulada pelas camas. 262 Quando começou a narrar a queda no . percebeu que houvera uma mudança importante: lógica. a sensação de absolvição.ao que parece. entre Ann e Mary Dewben). então. . mas não ousou pedi-la diretamente com medo de que a recusassem. . foram se tomando cada vez . Re-morra. apanhou. alegre e ass ustada ao mesmo tempo . logo se ntia-sem seguida..

enrugar-se. Sim.Quando eu sofro. endurecer e finalmente ser jogada f ora. vítima! É verdade que nos últimos tempos só me trazes beleza quando te sentes ameaçado? .Até quando você vai ficar com uma perna lá e outra aqui? . .O que é "Casca Seca"? . e que a minha substância era idêntica à dos outros.disse Furii . são as queimaduras. . . ligeiro e reconfortante.disse Furii com a voz meiga que usava quando queria objetar sem parecer agress iva.. . entretanto.indagou Furii num tom meigo. esperando pela sua risada sardônica. . e que os deuses não me podem ensinar. ele se pôs a tremer e a choramingar: . . e muitas outras coisas que eu não conh eço.perguntava Furii..m: quanto maior é a racionalidade do mundo.E o que é que você acha disso? ." Julguei que teria de passar a vida olhando aquela casca envelhecer. reconhecendo as palavras de abertura de fórmula.Ele soltou um longo e dolorido suspiro. quando cheguei aqui no hospital. embora às vezes seja um bocado traiçoeiro. O mundo pode ter lógica.Assoou ruidosamente o nariz. as punições de Yr foram ter ríveis. . . . . Anterrabae recorria freqüentemente a essa alusão.sorriu timidamente. que algum d . . três dó que Yr chama "Casca Seca". sulcado de sombras e r eluzindo de suor e lágrimas. Chamou em silêncio Anterrabae.onde mais encontrarei essa comunhão que há e ntre eu e eles? .Duas de miscelâniá. Nunca lhe ocultei as minhas idéias. tu sofres. onde mais . Simplesment e não me interessava por nada.mas você só será capaz de a barcar realmente o mundo. . Estás sofrendo? . Era uma confissão séria. quando compreendi que estava viva. quando renunciar a e sse duplo compromisso.Tem pena de mim! Tem pena de mim! Déborah ficou estarrecida. de gozar todas as suas vantagens. . só que você esquece por vezes qu e sou e sempre fui uma representante do mundo. Queimaduras? Mas o fogo não te queima. . Jamais conseguirás uma comunhão tão perfeita lá. Agora que recuperei os reflexos e instintos de "pesoa normal". só deixaste a casca. Déborah começou a ficar em pânico.Estive com Anterrabae. Scomos uma única voz. Vê. No entanto. . pelo visto. Enquanto foste sublime e estiveste fora do alcance do fogo dos homens. Quando você começou a fazer com que eu me importasse pelas coisas. Ele tem razão.pergun tou-lhe. como se quisesse reafirmar que era mesmo uma típica representante do mundo.e fez com as mãos o gesto de tumulto e renúncia que significava em Yri o mund o.Está bem. um único olhar. Sofra..Ainda não estou preparada! . e todos ficaram tão decepcionados comigo. queimam a mim também. por que não a cospes fora de uma vez?" . menos razões Yr oferece.contemporizou Furii com brandura . mas. está radiando teus dentes.e seus olhos encheram-se de lágrimas . e um a de desespero. Oferece desafios. . Um dia. .O que serão estas lágrimas? . As labaredas iluminaram o seu rosto. realmente viva. . eu também e stive. e Anterrabae disse: "Comeste todo o fruto da esperança. está bem. Agora que as chamas te queimam.gritou Déborah. acho que es tou atolada no mundo.indagou-lhe.lastimou-se Anterrabae .Onde você está? -. mesmo que aparentemente não esteja adiantando m uito.Não posso parar de mastigar agora.Bem. . tais como matemática. e e e veio. me virei para ele e jurei que mastigaria aquela casca seca até extrair dela a última gota de alimento.as coisas podem ser tão claras entre nós duas quanto entr e você e os deuses. . e uma aliada sua na luta que está t ravando para ganhar este mundo. . . Oh! exclamouDéborah angustiada. eu não era uma pessoa infeliz. .Está vendo .. quatro são de autocomiseração. Mas quando voltei dessa vez.Leve-me com você. surpreendentemente.Das dez unidades. também.Isso só perfaz oito. Déborah olhou para ela e. o coração disparando. e esse desinteresse me trazia uma certa paz. sorriu meio a contragosto.Sorriram. implorei que tivesse piedade de mim. Anterrabae zombou: Essa 264 casca velha. .

Matriculou-se na Escola Tutorial e Terapêutica. REQUISIÇÃO Ala: D Administrador da Ala: Halle. doutôra Fried. H.ia ainda lhe poderia custar caro. 1 par de meias. Data: 3 set. .Não diga. representava uma ponte bem mais rápida e s egura entre o "Nunca" e o "Talvez". foi muito difícil. L. os funcionários do hospital limitavam-se a cumprir o que os regulamentos mandavam. estão furiosos comigo. voltou para a p ensão. 27 grampos de cabelo 1 casaco. revigoravam a sua força de vontade. os pacientes. ou até mesmo "bom proveito!". meio desaponta da. a sombra que projetava nas' calçadas se devia a outras razões além do.00 para as passagens de ônibus suburbano (assistente social e requerente) 265 4 vales para ônibus urbano (assistente social e requerente) Requisitar itens espec ificados acima na pensão onde habita s paciente. Durante o primeiro mês.perguntou. Assinado: H. fora tão econômica em suas explicações à audiê . para avisar aquela assistente social que eu continuo firme na idéia.símbolos de sanidade e resp onsabilidade . Essas concessões eram a pr ova de que tinha conquistado um prestígio considerável." . que demonstrava m um certo respeito por ela. 1 par de sapatos. Paciente: Blàu.Bem. Em pouco tempo. Cr$ 80. 266 29 O problema do diploma secundário resolveu-se miraculosamente: bastava provar ao Co nselho Universitário que a candidata conhecia as matérias do curso secundário para obt er um-certificado de equivalência que a isentaria de cursar os três anos de escola. e a equipe médica. Quando. estarei pronta para começar quando quiserem. Desde entã . No início. 1 vestido apropriado para uso na cidade.o homem da portaria cumprimentava-a gentilmente: .'Co mo explicar a uma pessoa que nasceu e cresceu no deserto que há terras ricas e férte is a tão pouca distância?" . Exceto em casos excepcionais. . No mês seguínte. Se o pes soal daquela escola que ela me mencionou não fizer objeções. Essas e outras pequenas atitudes. Acordava an tes de" clarear o dia. embora distasse duas horas do hospital."bom dia". Mas hoje vou falar cona o doutor Halle. . L. é claro. permaneceu na Ala B. chegava de manhã ao portão com seus livros escolares . quando provou que realmente estava disposta a freqüen tar as aulas. Halle. e as dificuldades do estudo. mas logo tcomou fôlego e mergulhou com vontade nos livros.pensou Furii com seus botões. os professores conseguiram abrir uma pequena fenda no muro que a enclausurava. Algo de especial? . . Estava desabituada ao estudo e extremamente insegura. Déborah Especificações: Data: 5 set. Hora: 8:30 Dr. depois de melhorar o suficiente para trabalha r e viver com suas próprias chaves no bolso. tomava uma xícara de café (autorizada pelos médicos) e ia para a escola. e só ia ao hospital para o jantar e para as sessões côm a. Com eçou a entender porque Doris Rivera. "Se ao menos eu pudesse explicar a ela. pôr do sol. 1 tubo de batom. Na segunda semana. que a prepararra-paTa òTexamês e que. O orgulho e a obstinação deram-lhe a força necessária para enfrentar as qua tro horas diárias de viagens.Não. por exemp lo. . a enfermeira da noite por sua própria conta acrescentou torradas e u m suco de frutas ao café da manhã. uma viagem perigosamente hipnótica.Como vão as coisas na ala? .

Sim. . com o qual nada tinha a ver.perguntou Déborah. Déborah. voltando de uma sessão exaustiva com Furii. O quadro era ao mesmo tempo hilariante e comovente. . ela enfrentava cinco vigorosos atendentes sem arredar um pé. . os contendores guardavam posições de combate.Estou. muitas ficaram. Os olhos penetrantes da velha estremeceram. não. .. Quando Déborah viu o objeto daquela c uriosidade toda. Déborah avistou uma multidão de pe ssoas no saguão. . Déborah ia pensando nela. . muito mais para os a uxiliares do que para ela propriamente.. São as minhas sessões de terapia.Tenho que ir agora. Lee Miller vai ser transferida para outro hos pital. .respondeu sem muita convicção.Como está o pessoal? . Dessa vez foi mais fácil. era um mistério. até então concentradíssima na e scaramuça. não sabia não. Déborah prosseguiu caminho. poesias de Horácio que iam c air no solo inculto e tenebroso de Déborah. o fato de ela ter saído a transformava numa figura legendária. dirigindo um "Oi.Quer que eu lhe traga algo de lá de fora? Conheci-a o suficiente para saber que jamais pediria. Era difícil cc ciliar a dor que via estampada de forma nítida no rosto de sua amável professora com a imagem de arremessadora de camas aficcionada por Catulo. Coral". Rodeada pela multidão . chegou a ser quase divertido. Déborah também vira a sua som267 bra estender-se alguns fios de cabelo a mais. só a muito custo conseguiu conter o riso.Não. Ni nguém sabe. . quantas seriam livres algum dia? Durante seus três anos de internam ento. através da espessa porta de um quarto de reclusão. sim. Sylvia parece um pouco melhor. A velha endureceu os olhos. embora c ontinuasse tolhida pelos altos muros do hospital. Mas o casamento é segredo.Você está bem? . . isso era muito mais do que uma aula de Latim.Não. insinuaria a lguma coisa em código..Não. Enquanto as duas conversavam amigave lmente. . Mande um "Alô" por mim. uma identificação plena de idéias e de sentimentos. . sabendo que perguntar mais seria uma intromissão. Um dia. para as doentes cujas esperanças ali definhavam. arremess adora de camas.Tchau. quando muito. mais ou menos a mesma coisa. parecia um motor . . Quantos mortos ressuscitariam? De todas as mulh eres da Ala D. . é verdade que o Dobsha nsky se casou com uma enfermeira de uma das alas masculinas? . então. Tinham conseguido estabelecer entre si uma coisa que era mu ito rara naquela doença. be . não preciso de nada. mas continua muda. . . tchau Déborah. entrara em ação de novo! Como é que tinha.. Srta. Helene está conosco de no vo. na D. No ônibus. entrecortados de obscenidades.e as duas trocaram um sorriso cúmplice.pergu ntou... Srta. do modo mais engenh oso possível: simplesmente fazendo com que lutassem uns contra os outros. o ônibus vai sair a qualquer momento. prontos para recomeçar a luta. A velha ber rando. A Srta.a ávida e aterrorizada de pacientes na Ala D. ela conseguiu aquele emprego que queria. . . uma estagiária. pensando em todos os canos i ndiscretos de água fria que corriam pelo hospital. gênio na arte das alavancas. conseguido escapar da Ala D. . . é verdade? . reparou que faziam movimentos extremamente lento s como se estivessem nadando debaixo d'agua.Oi. muitas caras novas vieram e partiram. Jogue alguma coisa na cabeça dela e sej a bem rude para que ela saiba que fui eu. Resmunga va baixinho uns sons sibilantes. .Como vai Carla? Você ainda a vê? . . Ei. Ao se aproximar. Coral.É. . A Srta. 268 . . para não prejudicar o estágio dela. Não me diga que está de volta! . sabia? .Bem. Coral.Altos e baixos. Coral passeou um olhar apologético ao seu redor como se fossem todos um únic o e grande inconveniente. Coral. pesos e propulsão.Ah. retesou os músculos e a luta recomeçou. A Srta. graças a um imenso esforço e.Déborah a encarou firme.Ah.Ouvi dizer que foi passar os feriados de Natal em casa. Das que partiram. voltou-se sorridente: .

Se a sanidade expressava-se em metros e horas. a pareceram em Yr para falar com Idat. para o seu quarto à tarde é que o mundo machucav a. mas trabalha duro para aprend er.por causa das imagens e xcessivamente reluzentes). Vocês vão aderir ao Coletor? Vocês também? .essa menina está dando um duro dos diabo s. os personagens do Coletor começaram a aparecer. Os professores aplaudiam a sua tenacidade e ' resolução. com o passar dos meses. Aquela noite. um violino. Que dança? A Grande Dança. seus olhos de pária observavam-no fascinados. e sem precisar ficar preocupada com estar entravando o estudo d os outros. disse o professor de matemática. Se tu nos deixares. Nunca deu provas de ins anidade em sala de aula! Não é nenhum gênio em matemática.perguntou-lho Idat em Yri . as matérias iam se acumulando em pilhas e pilhas de cadern os de anotação. Só quando voltava . um a um. Ela é pontual e obediente. Esteja ou não doente. a Anterrabae que é teu amigo. Comparece às aulas com os lápis "0 " V apontados. em Yri e em inglês. e no entanto continuava sendo pária. picaram a folha de papel e atiraram os pedaços ao vento. Claro que não! .Dificilmente um corvo de prata. na igreja. e isso a enchia de contentamento. E quem vai participar? Você também. Soü bela. Começou a gagu ejar. disseram para Déborah. o terceiro. Aí está. Em seguida. sem precisar ostentar precoci dade para ninguém. a fórmula da separação. com quem rirás? Quem te deixará à vontade? Onde mais encontrarás uma luz como esta? Aconteceu então uma coisa estranhíssima: as imagens de seus professores de escola. Nós vamos Dançar. meninas e ncantadoras. queimando as pestanas. . nem mais nem menos! Dificilmente uma chuva de estrelas . faceiras. O ônibus ia lotado de jovens e ruidosas estudantes fazendo algazarra. o uniforme certinho. Inesperadamente. você é uma das dançarinas. com uma cara tão transtomada que Déborah teve medo de as pessoas julgarem que . Déborah convidou a companheira que dividia consigo o mesm o livro de hinos para tomarem uma soda juntas. por mais que soubesse que aparentava ser melhor do que realmente era. disse o professor de inglês. Não sou igual a este mundo que vês aí? . Vestia-se igu al a elas. O fato de estar freqüentando uma escola p ara crianças com problemas de leitura e defeitos de fala não lhe trazia problemas. compreende? Os professores e o Coletor puseram-se a anotar numa folha de papel. Tua velha realidade. (Era uma metáfora Yri equivalente a adulação . estudando sozinha. Quantas estavam re almente A fora. Algumas progrediram o suficie nte para viver uma espécie de meia-vida em regime de externato. ao Mundo Intermediário.Trago véus que me d issimulam e me tomam misteriosa: Gratifico. copiaram uma por uma as antiquíssimas palavras: "Tu Não Ês o Os Outros". uma imitação grosseira de colegial. inteirinh a. O primeiro trazia um pistão. Sentia-se à vontade com os prof essores. esta é a verdade. como se algum dia viesse a pesar no mundo tanto quanto eles pesavam nos s js braços. e. Onde vai ser? Nos cinco Continentes. o segundo. a mim.perguntou Déborah. Aqueles volumoso s manuais lhe davam um certo orgulho. Nós scomos contra essas suas criatur as! Escute bem . o aprendizado media-s e nos quilos de livros que carregava diariamente para a escola. A menina ficou lívida.retrucou Idat friamente. .m uns três quartos tinham ido para outros hospitais. Re dobraria os esforços esta noite com os livros.disse o de matemática a Idat . a Lactamaeon que te ama. um t ambor e o quarto um tamborim. Déborah espreitava-as de longe: aquele era um mun do onde ela tinha fracassado. realmente vivas e livres? Podia-se contá-las pelos dedos! Ela estremeceu. risonhas. e xceto o de ter que se sentar em mesinhas minúsculas.respondeu o professor de inglês.

.. . Duvido muito que mudem. como numa cruzada medieval. você ama os seus pais? E a sua irmã. um bebê de dois me ses de idade. . É difícil pensar diferente assim de imediato. junto com os flagelos do passado? . só que é difícil livrar-se de antigas convicções assim de uma só vez.inspirando.. Excetuando-se uma ou duas amigas no hospital. Anterrabae rugiu furioso. ..Também. . Existem momentos felizes.Mas você tem amigos. Anterrabae. entregar-se completamente. o Censor. .pediu Déborah baixinho.ela tivesse dito alguma coisa as.O mundo é vasto e tem espaço de sobra para o discemimento. Sempre fui mui cautelosa com o meu nganon. expirando . .E por que haveria de morrer nas suas mãos? . a essa altura dos acontecimentos não pode haver barganha decente. Retcomou à sua vesse acontecido.e não morresse nas minhas mãos.Amo. agora que ela se tcomou uma mulher de vez e está tão linda? Devo esquecê-los? E o Yri que é capaz de expressar cert as sensações.. aí sim.Conte-me um desses momentos felizes. Dependendo do que você mesma f izer deste comprometimento.Sim. Isso seria tão importante para fortalecer o comp romisso! Déborah viu Anterrabae caindo rápido. pelo menos.. você toma conta do nenê até eu voltar?" Aí ela saiu e me deixou ali sozinha. viva só um oitavo de centímetro da superfície para de ntro.E eu amo você também. você co mpreende? Você tem que primeiro assumir o mundo. .Déborah.E se eu fosse apenas Aparências. . certas realidades como nenhuma outra língua. enquanto as lágrimas de Idat eram diamantes. só até aí. . o Coletor. e eles se recu sam a olhar para mim. . já que não confia na de ninguém. a quem você nunca assassinou ? . perguntando mais do que afirmando.Como você se sente agora que está livre de todo aquele lixo velho e fedorento? . Adolescência de novo? . mas talvez tenha chegado a hora de misturar as partes boas. .. Era um hino 271 indecente à menina. as partes bel as e sábias de Yr.Bem. .Confie em mim. . só o suficiente para sentir que um cigarro queima. Imaginou aquelas piedosas senhor de Cristo.E à sua amiga Carla? . Devo esquecê-lo também. implorando aos céus para que continuasse exatament e como estava . Isso.Juro que é verdade.Não.. Por que você nunca desenh ou Anterrabae ou qualquer um dos deuses? .Ora. avançando. coh fiando na minha palavra. ao mesmo tempo em que invejava a pureza das outras p essoas. Essa última imagem trouxe-lhe à mente uma lembrança que contou dist raidamente. Ela precisou sair.. mas não esqueci o poder que t em.. Lactamaeon. Fiquei co m aquela criança uma hora e meia.Você tem certeza de que não é alguma atitude sua? .Na cidade? Cantamos juntos. desprendendo fagulhas e..Tem que ir tudo? Amontoa-se e joga-se tudo fora? . travestidas em Defensoras ntra a herege. sua velha lixeira mental! .. e nfim. . sempre a amei. freqüentamos as mesmas aulas à noite. Idat e todas as outras divinda des dos inúmeros reinos existentes em 272 Yr também teriam que ir para o lixo junto com o Poço. . eles eram secretos! Você já conhece as leis que proibem misturar os mundos.E quanto aos meus personagens bons? Não devo mais pensar em Lactamaeon. tão negro em seu negro ginete? Nem em Anterrabae? Nem em Idat. poderá decidir se é ou não uma barganha decente. . mas são poucos.Me diga uma coisa. com as do mundo. as dele eram chispas incandescentes.disse Furii. a Puni ção. .E começou a choramingar.i ndagou Furii. .perguntou Furii com um ar divertido. co invisibilidade e continuou a cantar como se nada hou sobre a Compaixão. você pode superar! Não me diga que você ainda se acha ven enosa? . . veio ao meu quarto e simplesmente pediu: "Déborah . Lactamaeon chorava sa ngue tal como Édipo... a proprietária da pensão ficou ontem à noite cuidando da neta.

Estava s urpresa de que o momento tivesse chegado tão cedo. Déborah pôs de lado o aviso. tomando a precaução de verificar duas vezes se anotara o endereço corret amente.. Ficou horas decifrando nuvens no céu. para trans mitir aos pais aquela segunda boa notícia. às 09:00 hs. não acontece mais. e recuperavam agora o terreno perdido. entremeada de insuportáveis crises de tédio. A esperança acabou subjugando de vez o medo. Déborah! Déborah! Saúde não é simplesmente a ausência de doença. Chamou-o de s ua "infância". 274 um grupo de operários de mãos calosas.-Talvez eu comece mesmo a destampar Yr. e comparecer ao referido local na terça-feira. Foi ver todos os filmes que passaram na cidade. Voltou para seu quarto. com paredes revestidas de lambris. . Não foi de alguns sintomas que nós demos tanto duro! . Telefonou para casa. mas logo a voz sensata de McPherson cochichou-lhe no ouvido: "Lembre-se que você não é dona de todo o sofrimento no mundo!" Reconheceu humildemente que eles. Estudou com calma. pelo menos. apesar de proteladas por tanto tem po. incapaz de aval iar qual fora o seu desempenho. junto aos esboços para um desenho de Anterrabae. por mais que tivessem perigado. Sentia uma ansiedade e uma excitação febris. e foi. receosa de que pudesse es quecer ou perdêlos.Primeiro eu teria que ver o desenho.Se eu desenhasse Lactamaeon sob a forma de falcão 273 coz num para você se dia ou de cavaleiro. dia 10 de ma io. será automaticamen te desqualificado. embora não fossem prisioneiros nem insanos. Quando a carta escorregou pela ranhura da caixa de correio. também tinham deixado escapar alguns com passos no ritmo da vida. A briu-a excitadíssima e quase caiu para trás quando soube que tinha sido aprovada. Os candidatos aos exames deverão preencher e envia r os formulários anexos. e acabou conhecendo Tarzan no mínimo tão bem quanto Hamlet.Está bem . Foi um período maravilhoso este.Ai. você o encararia como uma manifestação de minha velha maluquice ou co mo uma "contribuição"? . . Caso o candidato não cumpra esses dois requisitos. Já era tarde demais para fugir ao compromisso que assumira com o mundo. não só para afastá-la das preocupações e do ócio. Déborah pôs sua prova junto com a dos outros e saiu da sala.Ela sentia-secomo se estivesse nte de uma cega a quem procurava explicar a cor da luz. estourando de orgulho. Quando o tempo e xpirou. Um mês inteirinho de sossego e preguiça. sentou-se diante da mesa e tentou rir daquele medo besta . tentaria o próximo exame. ficou surpresa em encontrá-l os ali.do mês. Apaixonou-se por al amos. Haviam combinado na escola que ela continuaria seus estudos até a divulgação dos resul tados. Quando finalmente chegou o dia. sobretudo. No final . Queria. . Preencheu imediatamente os form ulários anexos. Suas notas tomavam-na uma candidata bastante promiss ora a qualquer faculdade. suando e murmurando palavras desconexas. I ndicaram-lhe uma sala poeirenta.Uma vez eu fui à casa de uma senhora e vi sangue escorrendo dos ladrilhos da inha. onde encontr ou outros candidatos que se aventuravam também a tragar de um só gole o curso secundár io. caso fosse rep ada. sem perda de tempo colocá-los no correio. um primeiro calafrio de medo lhe subiu pela espinha. ainda eram viáveis. De início. como também porque.disse Déborah. d espreocupada. Isso. As duas semanas anteriores aos exames foram consumidas numa grande expectativa. Po dia se considerar num nível educacional equivalente ao dos estudantes que haviam f reqüentado a escola secundária. debr uçados sobre as provas como blocos de granito. DEPARTAMENTO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO Os Exames de Equivalência para a Escola Secundária serão realizados no dia 10 de maio na sede do Tribunal do Condado. Déborah a rmou-se de coragem e de sangue-frio e foi para o Tribunal! Era um prédio antigo. comunicar-lhes que s uas esperanças. recebeu finalmente uma carta do Conselho Universitário Estadual. Eu vivia vendo coágulos de sangue nas ruas e as pessoas se transformarem a multidão de micróbios. . acompanhou o desabrochar dos botões nas árvores frutíferas que havia em frente à Igreja Metodista.

mesmo quando estava doent e. o Coletor provocando-a com zombarias Dá duro. de terra quente e úmida . . nu nca. Era quase noite. . a essa altura. Eram jovens. . menina preguiçosa! Luta. do brando-se de rir.. Consumi todas as minhas esperanças cantando e costurando com vocês. Ia só para cumprir a ve lha promessa. entretanto. quando muito. .mas nem o sol. . Podia agora.Estou muito orgulhoso . As mãos de ninguém. Ha . toomou a estrada que circundava o velho cemitéri o católico. estudar. Déborah. . Surgiu diante dela. Encostou a cabeça na gra de. Prometera a si mesma que. Aguardavam-na todos no cemitério: Anterrabae cintilando no escuro. juntou-se a ele uma outra figura que Déborah se . e ainda estava dois anos atrasada. Ha. pontual. de mãos dadas com um rapaz.Sua voz parecia que ia desfalecer. acariciava os cabelos ou o rosto da moça 276 Déborah falava sozinha e em voz alta. Contornavam vagarosamente o gramado.por um tubo de alimentação.de seiva e de flores. "Boa tarde! Boa noite!" .zombou Anterrabae .Não faltei uma vez. Acabaria consumindo toda s as suas forças apenas para manter-se viva.. subitamente. Sentiu-se de repente extremamente cansada e sentou-se de encontro à tela que cercava os fundos do campo. emprego. Déborah levantou-se e foi caminhando vagarosamente em direção à cidade. trabalhar. sentindo um imenso desamparo. iria olhar pelas janelas. Paravam de vez em quando e trocavam palavras que sem pre terminavam em risos ele. Porque ele reagira de uma forma deplorável? Havia empenhado naqueles exames todas as suas energias. extremamente ma275 goada com a reação do pai. nem as fragrâncias eram mais as me smas. se fosse aprovada. chamou Anterrabae. Pensam que foi fácil . . .Esther ficou felicíssima. Déborah repôs o telefone no gancho. estariam alardeando a boa nova pela cidade de Chicag o inteira. caminhando em direção à e scola. Fui às aulas todos os dias. Carla já te disse isso há muito tempo . e começou a margear o imenso campo de futebol. num gesto amoroso. . bem arrumada. Na outra extremidade do campo. e. no final das contas. Atravessou os pátios da escola.Nunca terei isso.. . avistar o que havia de extraordinariamente belo do lado de lá do muro. . Uma moça esbelta e graciosa. Os meninos corriam no gramado perseguindo as sombras sinuosas projetadas pelo pôr do sol. vindo em sua direção.Ótimo. . nunca.Que maravilha! É maravilhoso! Oh. vamos. toda a sua determinação. se jamais andarei de mãos dadas com alguém. . . De que adianta lutar. envoltas numa película dourada de sol. de uma em uma.. . A jaqueta dele pendia negligentemente dos ombros magros da menina. Jacob. e só descobriu que o mur o continuava ali e continuari-a sempre. comparado a ela. Ha! As mãos dele nunca acariciarão teu rosto. Agora já não tinha mais graça. fez o que todo o mundo faz com a metade do seu esforço. As caras das mulheres do coro da igreja pareciam desafiá-la do estacionamento dos reboques. . de ninguém. Sinto-m e um pouco orgulhosa. nunca. se jamais me farão carinhos assi m.repetiam incansavelmente sem nunca pronunci ar o seu nome. caminhavam d uas pessoas. procurando a trajetória ígnea. Estudos. o movimento lá dentro. o ar contin uava carregado de fragrâncias primaveris . mas a respo sta foi também uma sonora gargalhada carregada de desprezo. e seus pais. . onde ainda treinavam quatro meninos. suplicante. Tinha dezenove anos e um diploma do curso secundário. .sussurrou para si mesma em Yri. Mas eu quis! .. .di sse. . muito bem.. e não são capazes se quer de lembrar meu nome. . como os loucos fazem: . robustos e saudáveis. mostrou-se quase frio: . espere só qise eu vou chamar a família toda! Vão fic ar tão orgulhosos! . de arbustos flore scentes.resmungou Lactamaeon empoleirado na cerca. Saiu cabisbaixa para a rua. sua desajeitada..Mas as gargalhadas estrepitosas afogaram suas palavr as. Os raios do sol continuavam aquecendo a sala. . Lactamaeon uivando como um cão. Quentin há de te oferecer água.berrou Déborah. não cometi um deslize. resistir. toda a sua força de vontade. Fora-lhe necessário reunir todas as suas aptidões para chegar até onde eles estavam rindo e brincando. passou diante do estacionamento de carros-reboque. então.-dá tudo no mesmo: "bom dia" e "boa noite" e nada mais.

Enquanto o artist a que havia nela estudava os anjos gravados em água-forte e as linhas bem esculpid as. por favor. embora.Tive que comunicar à proprietária de seu quarto que você não ia dormir lá esta noite e q ue estava aqui. Breve despencaria no Poço. Tu não vais criar nada. Portanto..lembrava de já ter visto há muito.Está se sentindo bem. O Poço. in veja. Ao pass ar pela igreja. Srta. "Macho e fêmea. tolerando o insolente músculo que persistia em bombear no peito. Passeou os olhos pelos rostos que a encaravam com hostilidade. . Soltou um longo suspiro. criou-os o Senhor". 278 . o tumulto ia crescendo. e que.. o deus flamejante que caía perpetuamente era nada mais nada menos qu e o Satã de Milton. socorro!" . Déborah caminhava como que por instinto.Ela é uma excelente pessoa . Dessa vez.a agressão de Helene. querendo exaurir suas forças e mor rer de uma vez. as dimensões 277 precisas. mas a vida continuou pulsando inflexível. Os manuais haviam vencido. . nada.. muito tempo atrás. Déborah começou a lutar e a se contorcer sob as amarras.Como vai. gravara a tempestuosidade e a veemência das imagens. e ra presença obrigatória em qualquer lar culto: "Paradise Lost" de Milton. . ja mais! Perseguiram-na aos gritos pela estrada. embora estivesse sentado junto a elas. Srta. A crise tinha durado qua se vinte e quatro horas. E stava aterrorizada.. abra-a. os deuses começar am a imitar as respostas de seu pai ao telefone. Alguém aí. Agora. Alguém pôs-se a gritar em Yr mas ainda pôde ouvir o outro som . Voz. Um segund o depois.Está se sentindo bem agora? . impassível. Dobshansky entrou de novo para examiná-la.confessou Déborah com sinceridade. Blau? "A última saída: fazer algum sinal". no íntimo. Estava bastante aflita.. Déborah caminhava com os olhos vazios.Vais te deitar em prados floridos. Blau? E. . Felic itou Quentin por seu casamento "secreto". Ela ficou preocupada por causa da sua escola e trouxe seus livro s e algumas roupas. refazendo-se ainda do terror. como se nada tivesse acontecido. escutando a zoeira ensurdecedora. . invectivava o Co letor . A visão desvanecia-se. pôs o roupão andrajoso do hospital e saiu a passos lentos para a ala. Divisou os dois postes de luz que ladeavam o po rtão de entrada. divertindo-se com o esforço que ele fazi a para não deixar transparecer a surpresa. Coral devia estar em reclusão de novo. ela estava sentada de novo. p referisse não ter de arcar com o peso esmagador das virtudes de tanta gente. A exaustão veio. já estavam distribuindo as bandejas para o jantar. s em o saber. Quando ele e Cleary soltaram-na. Es tava quase chegando ao hospital. embora já estivesse fora de moda. O Coletor zombava do sorriso de Quentin e dos meninos do campo de futebol. Mary Dowben murmurava a um canto fórmulas incompreensíveis. "Subir as escadas até a port a. a sonhadora de reinos misteriosos surrupiava furtivamente o soberbo ar canjo para transformá-lo no primeiro habitante de seu mundo particular. Helene a irritava por amargura. e amizade. quando iam visitar o avô. O auxiliar repreendeu-as sem muita convicção. nos quais via se . Anoi tecia. Sentia-se culpado de não ter presenciad o o incidente. . Depois de algum tempo. A Srta. nunca! Estudar e trabalhar. A origem d e Anterrabae. pelas ruas sombrias e desertas da cidade . que passaram de raspão pela cabeça de Déborah. Déborah passou a mão pelos cab elos gosmentos e lembrou-se de uma outra cena idêntica . Folheara mil vezes aquelas gravuras. Era um livro cheio de gravuras que havia na biblioteca do avô. nem mesmo Anterrabae era seu! Enquanto isso. De repente. . onde cantava todas as quartas-feiras e domingos. . trazia uma fis ionomia cuidadosamente depurada de todo e qualquer sentimento que não fosse aquela amabilidade neutra de hospital. em segu ida .. num livro. Por ainda estar viva. Emergiu de volta para o eterno recomeçar. Encontrou as mesmas fisionomias inexpressivas ou hostis. Mary ergueu-se e atirou longe a xícara de café e o pires. anos atrás. Déborah sentou-se e olhou para a substância morna e nauseante q ue havia no prato.Acho que sim.Três toques de cigarra: emergência.

vou de qualquer jeito. AB E BC SÃO IGUAIS ENTRE SI". "UM TRIÂNGULO EQUÍLÁTERO É AQUELE CUJOS ÂNGULOS OPOSTOS. 280 vou. portanto. que se tornara uma nova D oris Rivera. Quando retiraram as bandejas do jantar. Adeus Yr. que constituía a única fonte de suas defesas e de sua força . AC. Não. terminaria por conduzi-la a um lugar onde podia enfrentar em segurança o momento definitivo da opção. é selvagem.Será que vocês não vêem que eu estou sofrendo. . O incidente da xícar a. Pássaro-um? Não posso mais fazer isso. Meu compromisso com o mundo será definitivo. Anterrabae. não vou chamá-los. . e seria tão importante que elas entendessem! Sob certos aspectos. a realidade era um domínio tão pessoal quanto Yr. como se entregasse símbolos sagrados. Jamais chegariam a distinguir com clareza a dimensão dos significados. "UMA LINHA QUE DIVIDE EM DUAS PARTES IGUAIS UM ÂNGULO DE 80 GRAUS FORMA DOIS ÂNGULOS QUE TOTALIZAM 80 GRAUS". mas ainda não sei co mo. apenas porque faltava amadurecer sua própria capacidade de discermir a diferença entre os problemas e os s intomas. e ainda assim. . É melhor providenciar logo um cas ulo. . Estaremos esperando até que nos chames de novo. Talvez então. então. . . a imagem do terror que elas se ntiam ante a possibilidade da recuperação. pois sua so brevivência dependia justamente da supressão desses significados. sussurrou Anterrabae. Ao consentir em se tornar um ser no mundo. cambaleando como uma bêbada. . seus porcos malditos" "A INVENÇÃO DA DINAMITE TOrnOU POSSÍVEL A LIGAÇÃO DE COSTA A COSTA PELAS ESTRADAS DE FERRO ". eu sou como os outros. Adeus. Ainda assim eu prefiro o mundo. . Compreendeu. Não nos pouparás como escudo contra a tua casca seca. da dor e dos atestados de sanidade que te esperam. levando surra atrás de surra. . Compreendeu também a razão pela qual jamais poderia explicar a essas pessoas a natureza de seus fracassos e da. 281 . Lembra-te dos rostos hostis. Dis simulara-a na agonia e no medo. sua persistência. Mary: . de pé novamente para mais um "ro und". o hospital poderia nos vender como anticorpos. traçara os contornos finais da opção. ao retinir a sineta. "E AMBOS. Mas o mundo não tem leis. Um símbolo vivo de esperança e fracasso.Sua puta nojenta! Me solte! gritaram do dormitório.Tu não és como os outros. Pássaro-um. Déborah pediu que trouxessem os seus livro s. uma newtoniana.Jenna vai ter uma crise de novo. Lembra-te da tua própria infância. nas terríveis quedas no Poço. a doença. Não importa.Agora é pra valer . Rei Abdicado da Inglaterra! . dona de um p resente e de um futuro viável. ESTRADA DE FERRO E TELÉGRAFO.Não. Furii afirma que será uma contribuição. . vou entregar-me ao mundo. Adeus. Lembra-te de Hitler e de Hiroshima.. Era chegada a hora de firmar o verdadeiro compromisso. O auxiliar entregou-os com reverência. "OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS AFETARAM A EXPANSÃO OCIDENTAL DE MUITAS MANEIRAS". Constantina: .Eu sou a primeira esposa secreta de Eduardo VIII.murmurou Déborah. Terei que aprender. Chamem Ellis. Yr finalmente í 279 estava forçando-a a optar.Será que a insanidade é contagiosa? Se fosse. ASSEGURARAM O CONTATO INDISPENSÁVEL À MODErnA SOCIEDADE INDUSTRIAL." . . o medo e o ódio de Mary permitiram a Déborah compreender que a crise começara no mo mento em que pôs o telefone no gancho depois de comunicar aos pais a notícia triunfa l.refletirem sentimentos contraditórios. e do desejo que sentiste ao ver aquele casal de mãos dadas. Ela abriu o primeiro.

MOISÉS E O MONOTEÍSMO (em preparo) .A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALITICO Livro 7 .TOTEM E TABU Livro 5 .0 FUTURO DE UMA ILUSÃO (em preparo) Livro 10 .CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE E CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA DO AMOR Livro 2 .Tel.SOBRE OS SONHOS Livro 4 . 253-6093 PEQUENA COLEÇÃO DAS OBRAS DE FREUD Livro 1 .Impressão: José Fagundes do Amaral & Cia Ltda Rua do Livramento.OS CASOS CLÍNICOS Livro 6 . 196 .TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE Livro 3 .ESBOÇO DE PSICANÁLISE Livro 8 .0 MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO Livro 9 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful