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Nunca Lhe Prometi Um Jardim de Rosas

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NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Hannah Green Romance e psicanálise - 2ª EDIÇÃO Direção: Jayme Salomão - IMAGO EDITORA

LTDA. Rio de Janeiro Volume 1 - A HORA DE CINQÜENTA MINUTOS Uma coletânea de Contos Psicanalíticos Verídicos de Robert Lindner Volume 2 - A VIDA ÍNTIMA DE UMA ESQUIZOFRÊNICA Operalores e Coisas de Bárbara Brien Volume 3 - O HOMEM DOS DADOS de Luke Rhinehart Volume 4 - O FILHO DO AMOR Um auto-retrato de Mary Hanes Volume 5 - NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS de Hannah Green NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Av. Paulista, n° 2518 - Térreo Telefone: (0xx11) 3258-8599 emporiopaulista@terra.com.br Título original I NEVER PROMISED VOU A ROSE GARDEN. Traduzido da edição publicada nos E.U.A. em 1964 por The New American Library, Inc., Nova Yorque. Copyright (c) 19 64 by Hannah Green Editoração Coordenador: Pedro Paulo de Sena Madureira Tradução: Jayme Benchimol Revisão tipográfica: Maria Beatriz Nascimento Gomes Capa: Renato Sérgio Brando - 1974 Direitos para a língua portuguesa adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA., Av. N. S. de Copacabana 330 10º andar - Tel.: 255-2715, R io de Janeiro, que se reserva a propriedade desta tradução. Impresso no Brasil Printed in Brazil PARA MINHAS MÃES O carro percorria uma bela região de campos e fazendas, em pleno outono, atravessa ndo curiosos e antigos vilarejos cujas árvores de troncos retorcidos davam, com su as tonalidades vivas, um colorido pitoresco às ruas. Seus ocupantes falavam pouco. Dos três, o pai parecia o mais cansado. Vez por outra, interrompia o pesado silênci o com migalhas de conversa, coisas casuais, sem importância, que mesmo a ele exasp eravam. Voltou-se, uma vez, para o rosto da menina refletido no espelho retrovis or e perguntou: - Você sabe, não sabe, que eu não passava de um tolo quando me casei, um tolo consumado? Não tinha a menor noção de como educar uma criança, do que significav a ser um pai. Defendia-se, e sua defesa também era em parte uma agressão. A menina c ontinuou calada. A mãe sugeriu então que parassem para tomar um café e, num esforço dese sperado para melhorar o clima de tensão, disse que parecia realmente que estavam f azendo uma viagem de férias, em pleno outono, com sua filha adorável, e numa região ma ravilhosa. Encontraram um restaurante à beira da estrada e pararam. A menina saltou ligeira, e encaminhou-se para o motel, nos fundos do prédio. Tão logo se afastou do carro, os olhos dos pais se voltaram sobressaltados: - Deixe, ela está bem! - tranqüilizou o pai. - Esperamos ou entramos logo? - perguntou em voz alta a mãe, falando consigo mesma . Dos dois, ela era a mais analítica. Antecipava-se às coisas, planejando tudo minuc iosamente - como agir e o que dizer - enquanto o marido se deixava guiar, não só por comodismo, mas também porque geralmente era ela quem tinha razão. Naquele momento s entia-se confuso e só. Deixou-a entregue a seus planos e especulações, inclusive porqu e era assim que ela se consolava. Ele preferiu se manter em silêncio. - Ficando no carro - dizia ela - estaremos ao alcance dela, caso precise de nós. S e ela sai e não nos vê... Por outro lado, devemos mostrar que confiamos nela. É import ante que sinta que confiamos nela...

Decidiram finalmente entrar no restaurante, procurando aparentar a maior descont ração possível. Sentaram-se numa mesa junto às vidraças, de onde podiam avistá-la dobrando esquina do prédio, vindo em sua direção. Procuravam observála como se fosse uma desconh ecida, filha de alguma outra pessoa a quem tivessem sido apresentados naquele in stante, uma Déborah que não era a deles. Estudaram com atenção o corpo adolescente e des gracioso: julgaram-no bom. O rosto era inteligente e vivo, embora, para dezessei s anos, sua fisionomia ainda fosse excessivamente infantil. Estavam habituados à sua precocidade meio tristonha, mesmo não a reconhecendo no ros to familiar que agora procuravam tratar como estranho. O pai pensou com seus botõe s: "Como é que desconhecidos podem ter certeza? Ela é nossa... sempre foi nossa. Ele s não a conhecem. Trata-se de um erro - só pode ser um erro!" A mãe, por sua vez, disse a si mesma observando a filha: "Minha expressão. .. não deve estar aparentando nada de anormal, nenhuma ruga - uma expressão ideal." E sorriu satisfeita. No fim da tarde, pararam em outra cidadezinha e jantaram no melhor r estaurante, numa atitude de desafio e aventura, pois não estavam vestidos de forma conveniente. Terminado o jantar, foram a um cinema. Déborah parecia contentíssima c om a noitada. Brincaram durante o jantar e durante o filme todo; depois, caminha ndo sob a noite densa da região, conversaram sobre outras viagens, congratulando-s e mutuamente cada vez que recordavam algum detalhe engraçado de outras férias. Encos taram num motel para dormir, e Déborah ficou num quarto só para ela, privilégio cuja i mportância nem mesmo os pais que tanto a amavam podiam avaliar. Já no quarto, sentados frente a frente, Jacob e Esther Blau perscrutavam o íntimo de cada um, perguntando-se por que, agora que estavam a sós, não conseguiam despojar-s e de suas poses, respirar livremente, relaxar, e criar um clima de paz e esponta neidade. No quarto vizinho, separados apenas por uma delgada parede, podiam escu tar a filha trocando de roupa para se deitar. Eram incapazes de se confessar, me smo com os olhos, que passariam a noite em alerta, interrogando cada ruído que não f osse o de sua respiração - qualquer ruído que pudesse 8

significar. . . perigo.- Apenas uma vez, antes de se deitarem para a vigília notur na, Jacob deixou cair a máscara, e sussurrou, com voz áspera, no ouvido da mulher: Por que a estamos mandando embora? - Os médicos acham que ela deve ir - respondeu Esther, também num sussurro, estendid a rigidamente sobre a cama, com os olhos pregados na parede. - Os médicos!. . . - Jacob jamais quisera envolvê-los no problema, mesmo no início. - O lugar é bom - afirmou a mulher, elevando um pouco a voz. - Eles chamam aquilo de hospital psiquiátrico, mas é um lugar, Teca, um lugar onde i mprensam as pessoas. Como pode ser bom para uma menina - quase uma criança! - Deus do Céu, Jacob - exclamou - quanto já nos custou tomar essa decisão? Se não tiverm os confiança nos médicos, a quem vamos pedir conselhos, em quem confiar? O Dr. Liste r diz que é a única forma de ajudá-la agora. Temos que tentar! - insistiu e voltou res olutamente a fixar os olhos na parede. Ele se calou. Rendia-se mais uma vez à mulher, tão ágil no uso das palavras. Deram-se boa noite; fingiam dormir, respirando pesadamente para enganar um ao outro, enqu anto os olhos ardiam vigilantes devassando a escuridão. No quarto vizinho, Déborah deitou-se disposta a dormir. O reino de Yr possuía uma es pécie de zona neutra chamada o Quarto Nível. Só por acaso é que se podia alcançá-la. Fórmul e atos de vontade eram inúteis. No Quarto Nível não havia emoções para afligi-la, nenhum p assado e nenhum futuro contra o qual lutar. Nem memória. Perdia-se a posse de si m esmo. Nada, exceto fatos mortos que sobrevinham espontaneamente quando ela os de sejava, despojados de emoção ou sentimento. Deitada na cama, subiu ao Quarto Nível. O futuro deixou de preocupá-la. As pessoas n o quarto ao lado eram, supostamente, seus pais. Muito bem. Só que agora faziam par te de um mundo fantasmagórico, que pouco a pouco se desvanecia. Ela transitava sem dificuldade para um mundo novo, onde não se conheciam preocupações. Abandonar o mundo antigo eqüivalia a também abandonar os labirintos do reino de Yr, o Coletor de Outros, o Censor, e todos os deuses Yri. Revolveu-se na cama e mergulhou num son

o profundo, sem sonhos, repousante. Reiniciaram a viagem na manhã seguinte. O carro já se afastava do hotel, penetrando no dia luminoso, quando ocorreu a Déborah que talvez aquela viagem pudesse durar p ara sempre, e que a sensação maravilhosa de calma e liberdade que sentia, fosse uma nova dádiva dos deuses e dos habitantes, normalmente tão exigentes, de Yr. Viajaram durante algumas horas, percorrendo uma região mesclada de reflexos, doura dos e castanhos, e as ruas salpicadas de sol dos pequenos vilarejos. Foi então que a mãe perguntou: - Onde é o desvio, Jacob? Em Yr, uma voz clamou das profundezas do Poço: Inocente! Inocente! Num instante desfez-se toda aquela sensação de liberdade. Déborah Blau foi impetuosame nte tragada pelo choque de dois mundos. Houve, como em todas as outras vezes, um dilaceramento silencioso, fantástico. No universo onde se sentira até há pouco radian te, o sol cindiu-se no céu, a terra entrou em erupção, seu corpo foi despedaçado, os den tes e os ossos se fragmentaram em mil pedaços. Enquanto isso, no outro universo, h abitado por fantasmas e sombras, um carro tomava um desvio lateral e penetrava n uma estrada que desembocava num prédio de tijolos vermelhos, muito antigo. Em esti lo vitoriano, cercado de árvores, seu aspecto era bastante decadente. Fachada idea l para um manicômio. Quando o carro parou diante da portaria, Déborah ainda estava a tordoada pelo choque. Foi difícil saltar, e mais ainda subir condignamente as esca das de acesso ao prédio, onde aguardavam os médicos. Havia grades em todas as janela s. Déborah sorriu: "Ótimo! Não poderia ser melhor!" Ao ver as grades, Jacob Blau ficou lívido. Não havia mais como se iludir: aquilo não e ra nem "clínica de repouso" nem "tratamento de convalescência". A verdade impunha-se nua, gélida como o ferro das grades. Esther tentou alcançá-lo em pensamento: - Não devíam os contar com isso? Por que essa surpresa? Enquanto esperavam, Esther Blau procurava todas as formas de se mostrar jovial. Exceto pelas janelas gradeadas, a sala parecia qualquer outra sala de espera, e ela aproveitou para tro10 çar das revistas antiquíssimas que estavam por ali. De repente, ouviram no fundo do corredor o ranger metálico de uma chave na fechadura - pelo som devia ser imensa e Jacob retesouse de novo, sobressaltado, gemendo baixinho: - Não, ela não, nossa D ebbizinha. . . E não percebeu o olhar implacável que cintilou no rosto da filha. O médico percorreu o corredor e, antes de entrar na sala, compôs uma expressão grave. Era um homem corpulento e atarracado, de modos bruscos. Entrou e sentiu logo a a ngústia que pairava no ar, quase palpável. O prédio era antigo, um lugar realmente ass ustador. Sua missão consistia em afastar a menina o mais rápido possível e tranqüilizar suficientemente os pais para que consentissem em deixá-la, convictos de que tinham feito o que era certo. Quantas vezes, naquela mesma sala, pais, maridos ou esposas no último minuto, reje itavam com repugnância a pavorosa realidade da doença. Agarravam o parente, coitado, com seus olhos esgazeados, e o levavam embora de novo. Era medo, ou uma justa i mpressão negativa ou - e nisto seus olhos perscrutaram de novo o casal - aquele grão híbrido de ciúme e ódio que sempre os impedia de interromper a longa sucessão de misérias uma geração após a sua. Procurou mostrar-se compadecido, mas sem leviandade. Pouco de pois, chamou uma enfermeira para conduzir a menina ao interior do hospital. Ela parecia uma vítima em estado de choque; quando a levaram dali, sentiu a dor em que os pais se revolviam. Depois de prometer que ainda se despediriam dela antes de partir, o médico os cond uziu à secretaria para que preenchessem os formulários de praxe. Quando voltou a vê-lo s, após as despedidas, pareciam também em estado de choque. "Que coisa dolorosa ter que se amputar de uma filha", pensou. Jacob Blau não era um homem dado a exames introspectivos, nem tinha o hábito de revo lver o passado para pesar e medir sua configuração. Julgava a esposa, em certos mome ntos, uma mulher excessivamente voraz, moendo e remoendo suas paixões num discurso interminável. Contudo, invejava-a um pouco. Ora, também ele amava a filha, embora n unca tivesse declarado esse amor. Também ele desejava ouvir confidencias 11

perguntava e agia. e Déborah conse guiu distinguir algumas das palavras que se formavam. Ali também foi vigiada: uma mulher.não mais Déborah. onde teve que responder a algumas perguntas sobre sua vi da.respondeu secamente. tomand o-a igualmente distante de seus dois mundos. ardendo em chamas. cheia de sangue até o meio. a possibilidade de dizerem aquil o que realmente queriam dizer se mostrava menor do que antes. Em breve. finalmente se concretizara num f ato. a antecipa ferindo-se selvagemente. Para Jacob e Esther Blau a volta para casa não foi mais fácil do que a ida ao hospit al. A seu ver. ela se mostrara ba stante ansiosa. voltou para o quarto. Era óbvio que ele não ouvia a algazarra. não quisera a ceitar qualquer consolo de sua parte. de modo a esconder as duas cicatrizes em seu pulso. aquele gesto tolo e teatral de cortar os pulsos.Um especialista! zombou Anterrabae. 13 . Dentro dela cresceu um pouco a algazarra. imensas extensões de terras nuas. extrav asar sua raiva.E seus cabelos. louvando a brisa acariciante que varria a imensa ravina. Os médi cos que a ajudassem. Agora pouco importava que a chamass em de sonsa e mentirosa. Naquele dia e no seguinte. Era natural que nenhum dos seus o procurasse para confidencias. No vácuo do Mundo Intermediário onde se achava. precisava agora explodir com alguém. jamais fora capaz de se abrir. Mas a raiva vinha de tal modo imbuída de compaixão. ou então com Yr. con tava apenas com o Aqui. os rugidos que ressoavam dentro dela. sua imagem passeava e r espondia. Acabara de deixar a filha mais velha naquele lugar sombrio. seus campos dourados e seus deuses.Que assim seja! . prestes a desaparecer em mei o à algazarra. de medo e de amo r. Déborah executou obedientement e todas as instruções. dera c . Esther julgava conhecer Déborah melhor que o marido. não fora a tentativa infantil de suicídio que dera início àquele ciclo interminável de médicos e decisões. Déborah estava profundamente agradecida aos Poderes que lhe haviam concedido taman ha misericórdia. . Ah. encolhendo-se todas as vezes em que procur ou tocá-la. a vontade que tinha era de dizer a ele que se sen tia de certa forma aliviada com aquele incidente. eles a estariam maldizendo e insultando. 12 Levaram Déborah para um quartinho modesto. Déborah já não sabia mais para qual dos reinos de Yr havia passagem. dançava e entoava hinos r ituais. de que havi a alguma coisa profunda e terrivelmente errada. com aquele médico frio de cademo de notas na mão. caindo. que vinha se arrastando há tanto tempo. onde ficou até que se desocupassem os chu veiros. Ela . Já acomodada à nova rotina . procurando manter o braço esquerdo ligeiramente voltado para de ntro.cantava.Contei toda a verdade sobre essas coisas que o senhor pe rguntou. Os últimos meses tinham sido dificílimos de suportar: tanto frio. cheio de trancas e grades. A xícara. Lutava contra essa iminência como uma criança que. que não teve como se libertar dela. entre Yr e o Agora. Sent da no carro ao lado do marido. Vai me ajudar agora? . os clamores. e se afastara dele recusando o beijo. No momento da despedida. porque também ele caía etemamente. placidamente sentada em meio às nuvens d e vapor. Déborah vagueou pelas planícies de Yr. onde os olhos se perdiam no espaço infinito. no entanto.e. num tom sardônico. ondulavam levemente na qu eda interminável. pareceu-lhe insatisfeito. O Deus Cadente. esperando a punição. junto com ele. Não havia nada no auarto que pudesse distrair sua atenção.Isso depende de você . tan ta dor e tanta cegueira em Yr. . Homem de temperamento forte. A suspeita. o Coletor começava a dar sinais de vida. e sim uma pessoa com um nome ap ropriado para uma habitante das planícies de Yr . e disse: . mas Yr também possuía regiões de terror e desespero. não parou de observá-la enquanto tomava banho. Aparentemente. O médico que as fazia. Começou por respo nder a verdade às primeiras perguntas do médico. fechou o cademo e saiu.Deixa eu ir com você . que encontraram no chão do banheiro. E seu enorme desgosto não fez senão despertar s ua velha e caprichosa úlcera. Ergueu os olhos para aquele que estava sentado ali. Para se defender contra a onda que ameaçava tragá-la. tal como no mundo. caindo. Agora. Embora Déborah já não estivesse em sua companhia.ela implorou.

BLAU.em que o mundo parece ser mil vezes mais doen te do que aqueles que esse mesmo mundo intema em suas instituições. geralmente manifestavam sua carência com uma paixão intensa. Recordou-se de T ilda. Os testes de personalidade revelam comportamento tipicament e esquizofrênico. e as supervisões que seria forçada a recusar caso decidisse aceitar a nova paciente. se para Deus eram importantes as individualidades. Gostaria agora de mostrar a Jacob todas as coisa s que ele desconhecia. percebendo que se deixava levar pela vai dade. para tranqüilizá-los. com suas crises de fúria destruidora. Puseram-se então a construir a história que contariam aos amigos e aos parentes mais afastados. e começou a ler o relatório. mas tinha certeza de que não poderia fazer isso sem magoá-lo. tinha. Ora. . I mpossibilitados de amar. levaram a menina ao médico. e que os fizera estremecer da cabeça aos pés. falariam qualquer coisa a respeito de uma escola. de conviver e de se comunicar. Olhou o relatório que tinha nas mãos. vinha se mostrando inteiramente desnorteada.Poderemos visitá-la dentro de um mês ou dois. 16 anos. depois da doença do paciente. apesar de tudo. Seria justo i niciar o tratamento individual de pacientes. erguera para ela os olhos e c om um sorriso que procurava ser gentil. Jacob e Esthe r teriam que amenizar um pouco a descrição do lugar omitindo especialmente o grito l ancinante vindo de uma das janelas gradeadas. e que. utilizando-a como uma formidável defesa. disse. entre por 15 favor querida Doutôra.onsistência a todas as suas impressões nebulosas e a seus temores vagos. vendo-o dirigir com os olhos fixos na estrada. Embora eles soubessem das recomendações do psiquiatra. vício que denunciara numa de suas aulas como o pior inimigo do médico. os seus momentos de extraordinária lucidez. que estava tudo bem. m esmo antes disso. que no mês anterior tantas vezes escutara a palavra "doente". A Dra. dissera: . A própria doen te facultava-lhe analisar a sanidade como poucos "sãos" seriam capazes de fazer. com componentes compulsivos e masoquistas. atada à cama. Várias questões mal in terpretadas. INICIAL: ESQUIZOFRENIA 1 Testes: Os testes evidenciam um quociente de inteligência (140-150) elevad o. a lógica começou a ruir. diriam alguma coi sa sobre anemia ou fraqueza e um sanatório especial para convalescença. Qua nto a Suzy. Voltou-se para ele. Esther não pôde mais sufo car as dúvidas que a assaltavam. O grito ficaria trancafiado em seu coração. Dl AG. Reação inteiramente subjetiva à entr evista e aos testes. tratava-se apenas de uma clín ica de repouso. intemada num hospital psiquiátrico na Alemanha. A senhora chegou bem a tempo de presenciar o chá tranqüilizante da paciente e o fim do mundo. na época em que do outro lado dos muros estava Hitler: qual dos lados era o mais são? Tilda. No dia segu inte. um pequeno jardim e logo adiante o pátio onde os intemos costu mavam passear. escreve m e telefonam implorando ajuda? Sorriu.. os escritos que seria obrigada a negligenciar. Ao escutar aquilo. Hosp. 2 Entrevista (inicial): De início. A papai e ma mãe. abriu a pasta. Agora. diriam. por que não para ela? Sentou-se. ou àqueles cujos preconceitos impediriam de aceitar a simples idéia de u m hospital psi14 quiátrico na família. el a passou a demonstrar extrema ansiedade diante de tudo o que pudesse ser interpr etado como correção ou crítica. a fisionomia contraída: . Àquelas três páginas datilografadas c ontrapunham-se as conferências que não poderia dar. DÉBORAH F. Tilda e Hitler não existiam mais. sabendo-se que qualquer progresso r eal poderia exigir anos. mas com o desenrolar da entrevista. que haviam escutado quando saíam. freqüentemente su bmetida à força. pura e fascinante. alimentada pelas veias. a paciente parecia bem orientada e lógica n os seus pensamentos. sempre amarrada às camas. Gostava muito de trabalhar diretamente com doentes. Há momentos . Le mbrava-se bem de uma vez em que Tilda. embora ocorram distorções nas amostragens resultantes da doença. A estes. como Débora h Naquele Lugar. havia muit o a ensinar aos médicos que saíam das escolas com uma vivência limitada. enquanto dezenas de milhares de pessoas chamam.lembrou-se com pesar . riu . de maneira excessivamente subjetiva.: nenhum. Fried ergueu-se da cadeira e foi até a janela de onde se descortinavam os p avilhões do hospital. Fez o que pôde para impressionar o entrevistador com sua perspicácia. Prev. Em três ocasiões diferentes.Oh.

. Aos cinco anos de idade. 1932. uma babá cr uel. no cabeçalho da folha de aula. Há antecedentes de hipocondria na família.Algum dia precisamos descobrir um teste que também nos mostre onde está a saúde. deixou escapar esse nome. A situação melhorou.cada uma voltada para cada mundo. Susan. sua atitude foi mudando. enfim. A profess ora. exceto o tumo r. À me dida que prosseguia a entrevista. inclusive. a paciente avançou. por ocasião de perguntas relativas à data do mês. contudo. a partir de Yr. e o ambiente luminoso e saudável da sala de aula se desvanesceu completamente. porque se sentia co mo a Juno das duas faces . Outubro. Fried.Déborah esteve em paz. Mas no fundo. Januce? E ficou ali. S ubitamente. mas. as duas outras. dizendo em tom acusador: . tudo estava envolto em tonalidades cinzas. Um relatório semelhante levara-a. a comentar com o psicólogo do hospital: . nos subúrbios de Chicago. vai me ajudar? Consideramos recomendável encerrar a entrev ista. . se conseguirmos.Déborah. mas o pai adoeceu: úlcera e hipertensão. . o que foi que você escreveu no papel? O que sig nifica essa palavra. aguardando a re sposta. As coisas se tomaram planas. a guerra forçou-os a mudar para a cidade. O lhou ao redor e descobriu que só era capaz de perceber os objetos em seus contorno s. . o que reforçava sua co nvicção de que a causa de tantas agonias no reino de Yr se originavam de pressões exte riores. .Discordo . conseguia ficar em contacto com a "realidade". . Voltou a se concentrar nos fatos e nos números. Illinois. é nossa única aliada. Em 1942. Déborah sentia renascer dentro de si como que os terrores de algum pesadelo remoto .Nasceu em Chicago.Essa força que se mantém oculta é um segredo pro fundo demais. segundo os critérios da Terra. a saúde tem sido boa. forçando-se a evitar a lín gua matema . A doutôra virou a página e examinou por alto as diversas avaliações estatísticas de fatore s de personalidade e os resultados dos testes.exatamente quanto. perguntou: . Pai. Parto normal. a idade da menina: graças a isso o relatório acabou preva lecendo sobre os compromissos com reuniões e os artigos por escrever. Jacob Blau. Ah. Amamentada até o oitavo mês. Abstraindo as considerações relativas à individualidade da pessoa em questão.inoportunamente: a primeira. E como seria o trabalho: mais fácil ou mais difícil? O que d ecidiu a questão foi. como num quadro. O primeiro incident e na escola ocorreu exatamente quando. as palavras JANUCE AGORA. em meio à narrativa de um acon16 tecimento. Déborah seria sua paciente mais jov em. quando declarou que a hospitalização resultará de uma ten tativa de suicídio. ela não sab eria dizer . . Nesses momentos. sem qualquer dimensão de profundidad e. Dificuldades finan ceiras obrigaram a família a se mudar para a casa dos avós. Puberdade fisicamente normal. .retrucou a Dra.murmurou. que Déborah não resistiu peto de anotar. Aos 16 anos.quantos belos anos de vida ainda pela frente. nem se incluíam em qualquer padrão. . talvez fosse interessante descobrir se uma menina com tão pouca experiência de vida poderi a lucrar com a terapia. de repente. ce rta vez. retcomou ao Calendário Pesado. e agora. Estava vivendo naquele dia conforme o Calendário Secreto (em Yr não se media o temp o da mesma forma que no mundo) quando. contador. a paciente sofreu duas operações para extirpar um tumor no aparelho urinário. passava a se chamar Januce. parada junto à carteira. como se a ruptura existente entre ambos não fosse mais do que uma névoa muito tênue. do ametil e do pentotal. cujos efeitos foram traumáticos. Uma irmã. nascida em 1937. etc. Os incidentes não tinham relação entre si. a p aciente tentou suicídio. Algumas vezes. vendo-as. c itando episódios casuais de sua vida que considerava responsáveis por sua doença.Eu disse a verdade sobre essas coisas. A paciente não se ambientou bem. Começou a falar alto. As palavras inscritas no papel . por um deslize. O psicólogo respondeu que poderiam saber isso por meio do hipnotismo. tendo sido ridicularizada pelos colegas de escola.Aber wenn wir. . cuja f amília emigrou da Polônia em 1913. Sobreveio uma sensação tão maravilhosa e onisciente de transição. O mundo lhe exigia pouco. no fundo. 3 História familiar . Menc ionou uma operação aos cinco anos de idade. 17 Durante um bom tempo .

Blau.Ora. um sinal eventualmente escrito. observando div ertida a expressão de surpresa da moça e o esforço que fazia para reprimir o olhar de . curiosamente. Déborah comentaria depois com a tal grandalhona. por que não sanidademetro? Carla consolou-a: .disse ela. e por último. veja só.Não se preocupe! Logo você receberá mais privilégios.respondeu Carla.Não estou aqui há tanto tempo assim. colega s de escola. algumas vezes. terminou por impor sua presença em ambos os mundos. já que ela é tão boa assim. e a risada zom beteira do Coletor: a síntese de todas as imagens de professoras. . Resolveram perguntar a uma enfermeira. Ela é uma das chefes aqui. O médico permitiu que Déborah passeasse sem restrições no pátio. com o correr dos anos.As pessoas saem algum dia daqui? .como. .disse a estudante. . jantar na co mpanhia dos outros. Na Terra. os olhos fixos no teto. mas não ra do hospital.deuses e demônios vindos 18 de Yr e sombras da Terra . a partir de então. uma médica muito famosa.perguntou Déborah. Déborah suspirou e se levantou ob ediente.e decidiram erguer sobre seus reinos um Censor que se interpusesse entre as palavras e as ações de Déborah e assim protegesse o segredo da existência de Yr. . que estava deit ada. por exemplo. o coração sufocando de m edo. mentira e dissimulara. e soube que se tra tava do "administrador da ala". imediata19 mente.Vamos. Ainda voltou a ver algumas vezes o médico do cademinho. Já se passaram três meses. menina preguiçosa! Mais tarde. Na quela mesma noite.A doutôra quer vê-la.respondeu Déborah. nenhuma palavra e nenhuma ação lhe escapavam. jamais gostaram dela. parecia se exprimir em te rmos de distância. que denunciava sua inexperiência.Venha comigo . vou pôr os sapatos! . Srta. pensando consigo mesma: Ela deve ficar atônita com a densidade de loucura com que sou capaz de impregnar esse quarto. eu tenho cem metros quadrados de sanidade! Se havia unidade de medidas. o poder do Censor cresceu assustadoramente. porém.Pois é.Não sei! . e com tamanha severida de que. uma menina gran dalhona de sua ala veio convidá-la para jogar tênis. aliviada por saber que também o mundo tinha esconderijos a oferece r. em pl ena transição. Ressoaram ao mesmo tempo um grunhido de Lactamaeon.Quer dizer. Perigos desse gênero deveriam ser. recent emente. Sabia que nenhuma de suas companheiras de trabalho gostavam dela.etapas anál ogas às do mundo normal . etemamente reunidos em segredo para julgá-la e atormentá-la para sempre . O que eu não sei é quant o tempo vou ficar aqui. uma das enfermeiras estagiárias se aproximou de Déborah. Déborah trabalhava na oficina de artesanato. Aprendeu a fabricar cestos. passear no pátio. o deus Negro. Fazia parte de um novo grupo de estagiários cumprindo um período de treinamento psiquiátrico no hospital. menina maluca! Para sempre. Certa vez. As pessoas. aceitando todas as instruções. e o choque repercutiu até o fundo de Yr. que se chamava Ca rla: .foi a resposta. . E. Só que responder imp licava em descortinar o horror em toda a sua plenitude . Cada uma dessas etapas constituía um privilégio e possuía uma certa conotação de recompensa que. . até que. ficam boas e então saem? . eles vão aliviar um pouco a barra. ambas pensaram nas mulheres lá do final da ala: todas tinham mais de dois a nos de hospital. é hora de se levantar . aliás. Surpreendida. para sempre poderiam destruir Déborah e seus dois mundos. anos-luz. tais como homens-hora.Não sei .simbolizavam a passagem do tempo de Yr para o da Terra. sair do próprio hospital e ir sozi nha a um cinema ou fazer compras. Para sempre. com uma voz vacilante e assustada. os personagens do Grande Coletor afluíram em massa ao Mundo Int ermediário . Um nome sigilos o segredado por descuido. Por isso. um raio de luz que pen etrasse na região oculta. por isso devemos nos apressar.um horror do qual não ter ia acordado racionalmente. a quem cabia conceder os "privilégios" . parentes. . . sair do quarto pela manhã. Se você se esforç r bastante com o seu médico. Déborah teria que responder agora pelos dois mundos. a vida do hospital prosseguia normalmente. embora sem dispensar o s modos impacientes e ásperos. evitados a todo custo.

feia. carinhosa. caindo. A doutôra contentou-se em dizer: .perguntou Déborah. E quan do isso acontecer.desaprovação.Déborah.Se você realmente não quisesse se livra r desses sintomas. encantadora e feliz pelas mentiras q ue eu prego. Mencionei antipatia?. Scomos da Seção de Admissões. 21 Déborah sentou-se... co nvidou-a: . (b) falta de esportividade. . Vamos.Já é muita sorte ser recebida por ela. . como ódio.Está bem. . a 20 que dava para as escadas.Vamos! A enfermeira destrancou a porta da ala e. mergulhando em suas próprias trev as: . Seguiu-se um longo silêncio. O Censor preveniu-a: Ouça. que estava aberto. . .Pensei que você soubesse. você elimina m eus "sintomas" e me manda para casa.Conhecida e amada por loucos do mundo inteiro! . ferimentos inventados na pema. . é uma lista e tanto. A enfermeira apontou para uma casa toda caiada. veio abrir. num í peto de cólera. e depois o que é que eu terei? com voz suave e pausada a doutôra respondeu: . geniosa.Sou eu a doutôra . éeborah percebeu que. Essa última categoria inclui vários itens: (a) falsa perd a de visão. a doutôra perguntou: . . Antipatia também. grosseira e cr uel. e s aíram pelos fundos do prédio. . Fique à vontade.Você devia ficar agradecida .Está bem. e mentirosa também. para o Coleto r e para o Censor): . Dirigiram-se à porta da frente e tocaram a campainha.Poderia vir buscá-la dentro de uma hora? . . Ah.Déborah sentiu apertar o laço do medo.Invadiu-a uma sensação de total exaustão. Anterrabae soltou uma sonora gargalhada. .ironizou Déborah. egocêntrica. Se essas coisas eram verdad eiras. que fossem! Deixaria o consultório tendo pelo menos confessado seu ca nsaço e seu desgosto desse mundo sombrio e angustiante. creio.disse a estagiária. azar. Pássaroum. dissera aquilo que realmente sentia. uma mulherziriha baixa e gorducha.Bem. e outras doenças que não exi stem. Frie d. para Yr. Depois de algum tempo. Você não terá que se livrar de nada enquanto não estiver pronta. . . gorda. .Tenho ordem para esperar. cabeçuda. . Desastrada em primeiro lugar.respondeu a mulher. possivelmente pel a primeira vez. sente-se.disse a enfermeira. depois há uma enorme lista de defeitos: preguiçosa. . .. Ela devia ter recebido instruções para ocultar todo e qualquer sentimento mais intenso. Mal Déborah entrou na casa. . o Censor começou a dar sinais de alarma: Onde está a médica? Será que ela está espiando a gente por trás de alguma porta? A govemanta acenou com a cabeça em direção a um quarto. voltando-se. Acompanhando com os olhos as partículas de pó que flutuav am nos feixes de sol projetados da janela. .uma dessas casas branquinhas que se vê em cidades menores à beira de uma rua sombreada por carvalhos. cabelos grisalhos. Você faz as perguntas e eu respondo.Para abafar minhas queixas. medo ou prazer. A Govemanta-Famosa-Médica levou Déborah para um quarto ensolarado e. As mesas não têm como se defender da sua falta de jeito.Porque sou desastrada. com ve nezianas verdes . haverá outras coisas para tomar o lugar dos sintomas. bem no meio do hospital. por incrível que pareça. Algumas dessas coisas. .perguntou a doutôra.. Erguia-se. tonteiras fingidas. má.Sente-se. Sou a Dra. há mesinhas demais por aqui.Há alguma coisa que você queira me dizer? . .Aqui está ela . muito cuidado.Que disfarce! E o Censor resmungou: . porém.Tome cuidado. em seguida. Desceram para o andar inferior. ergueu-se de um salto e exclamou (para ela. Quand o.Você sabe por que está aqui? . mas de qualquer forma já temos um trabalho definido pela frente. . lapsos inverídicos de audição. não me teria dito isso. não existem.Onde está a doutôra? .Ajudá-la a ficar boa..Fazer com que eu vire simpática. dores imaginárias que causam verdadeiros tormentos. querendo anular a justaposição atordoante de p aredes e portas.

quando forem produtos de uma revolta de seus sentimentos . Sim.Você está dizendo a mesma coisa que todo mundo diz: queixas falsas de doenças falsa s.avisou a doutÔra à enfermeira e à paciente.Loucura nem totalmente espontânea. sorrindo. acho que você pode melhorar.Em segundo grau. parece que eu disse que você está muito doente. Déborah soube que havia algo de errado sim . Premeditada realmente não. . observando as duas retomarem ao prédio do hospital. Prova disso é que luzira na expressão de alívio que sobreveio ao ser admitida a existência da doença. Ape sar do horror que essa inefável noção despertava. Déborah tremia de medo e começava a ver tudo cinza de novo. Sim. talvez ..Se você estiver de acordo. O laço apertou mais ainda. Gostaria de repetir que não pretendo destruir sintomas nem d oença alguma contra a sua vontade. emanava das palavras da doutôra uma espécie de luz que se projetava sobre vários outro s recintos do passado: sua casa. de touca branca e uniforme listrado.O prisioneiro se declara culpado. porque acredito que se você e eu trabalharmos juntas para valer . nesse caso. . por medo. Foram-se então. mas deix ou que o rosto expressasse um cauteloso "sim". e agora aceita o veredito de culpado por loucura em primeiro grau.Estou pensando na diferença que há entre a má conduta e a felonia. Uma imagem instantânea passou pela cabeça de Déborah: visualizou seus pais . recusando a sentença de que não é portador de nenh um mal grave. perto demais até. A doutôra propôs então: .Caronte fala grego. essa força existia e se manifestava.Como todos os outros aqui? . Déborah foi despertada pela enfermeira. podemos combinar outra hora e começar nossas conversas. porém. era isso. agora irremediavelmente localizada. durante an os e anos. . atravessando o espírit o para trancafiá-la de volta na ala. .Em que é que você está pensando? Vejo que seu rosto se descontraiu um pouco . mas com um esforço decidido de sua parte e com a ajuda séria de um médico. que ia e vinha na sala ao lado. Justificava-se en fim toda a revolta que sempre sentira naqueles consultórios. a manifestar abertamente seu consentimento.Como assim? . pulsa uma força oculta. . em alguma parte da doença.Ela não pode entendê-la . procurou controlar todos os seus gestos. a escola e todos os consultórios faziam repercuti r a mesma acusação bem-humorada: Não Há Nada De Errado com Você.corrigiu a doutôra. "louca".Algum dia. Fried. as dores lancinantes. nem totalmente premeditada. afetando a maior indiferença possível em relação ao lugar e a quem e stava ali.Pelo contrário. de modo a pa recer outra pessoa. 23 venceremos tudo isso.Amanhã. . mas logo seu rosto se tcomou grave. . no entanto. mai s sério ainda do que as perdas momentâneas de visão. das negras regiões do terror. . Nesse sentido v ocê 22 está mesmo doente. . A Dra.ao mesmo tempo bem individualizados e bem unidos . . à mesma hora . . .disse Déborah. Caronte. Fried riu.Era o mais perto que ousava chegar.Para acabar com elas.algo profundo e grave.interv eio a doutôra. A Dra. vivi am insistindo: não há nada de errado com você. . Verdade nua e crua. . a manqueira temporária. imediatamente compreendido pela méd ica. . . Eles. E. e se o que você tem é o que se costuma chamar de uma doença mental? A resposta. pensou consigo mesma: Em alguma parte de toda essa precocidad e e amargura. Ao sair do consultório. as crises de terror e as repentinas ausências de memória. como se qu isesse preveni-las de que o tempo havia expirado. basta apenas que.Por acaso você quer saber se acho que seu lugar é aqui.postados do outro lado da maciça porta d o consultório. mas com um pouco mais do que simples malícia . espero poder ajudar você a ver o mundo como algo diferente de um inferno Estígio. é sim. cujos limites ainda não sou capaz de determ inar. Déborah recusou-se.

Esther lembrou-se que Jacob também fora um imigrante.E se soubesse. iniciara a terapia e já passeava pelos pátios.respondeu ele. Era um homem de temperamento dominador e enérgic o. franca e dramática.s argumentos diante de sua imagem no espelho. por exemplo. uma vida muito boa a que ela tinha.Luzira especialmente na "tentativa de suicídio". Foram duas vezes consultar o Dr. . enfim. ele se acalmou um pouco. Lister. . os miolos pularam uma geração e foram cair nela. eles ficaram decepcionados e furiosos. Jacob. no entanto. Ela é igu al a mim.E eu sei? . lutava numa outra frente. Certa noite. de uma inteligência arguta e brilhante. reanimado. contra a relutância de Jacob e do velho. a doença mental estava exposta. indignado. O velho contentou-se em resmungar: . Quando. sujeitando-as a constantes reavaliações críticas . terríveis. destacando qualquer evidência positiva. relatando em termos bas tante vagos as atividades de Déborah. . Parecia-lhe. o núcleo branco de um vulcão camuflado pelas florestas de suas encosta s. Déborah. Agora. No dia seguinte. a umidade. se deixava le var pelo que os sentimentos diziam. todo o seu mundo vibrava de apreensão. por pouco tempo que fosse. a fome. tentando se consolar e s e convencer de que o intemamento fora de fato necessário. Esther? O que pode haver mais? Ela não soube o que responder. passou a esperar ansiosamente a resposta. ensaiando. "Ajustara-se bem" à rotina e à equipe do hospita l. tinha que concordar: a realidade era inexorável. As discussões entre ele e Esther. lendo e relendo cada palavra. teria cometido erros? Parecia uma vida boa. Demos amor. Quantas vezes deve t er jurado poupar os filhos de tais privações! Acariciou-lhe o braço. tinha a impressão de que no íntimo ele sabia que a decisão era necessária. o.E retirou-se da sala. Nos dias seguintes. Agora dizem que não. afinal. Debaixo mesmo do vulcão. O problema é que nessa família. O ressentimento com a hospitalização de Déborah mascarava. informou os pais. escreveu para o hospital.os fa voritos da família . embora sua linguagem continuasse tão ríspida quanto antes. seu orgulho ferido de imigrante. Jacob.O que é que eles vão fazer? Admitir que foi um engano? O mundo está c . porém. mergulhavam tão profundamente quanto. invariavelmente terminavam num mudo clima de rancor e acusação. na realidade. antes de cada batalha verbal. num gesto proteto r.Qual é nossa responsabilidade em tudo isso? Quais os erros.protestou o avô (este era o seu maior elogio). por sua vez. enveredando pelo vocabulário de sua língua natal. carne da minha carne. porém. Diante de perguntas obje tivas. perguntou abruptamente a Jacob: . Esther voltou a procurá-los. Ela nunca sofreu ameaça de frio ou de fome. transtoma ra o ritmo e o sentido de suas vidas. interpretando os comentários s ob os mais diversos ângulos. que cometernos? . pergunta ndo quando poderiam visitar a filha e ver a médica. permanecia calado. Suas raízes. o irmão mais velho. suplicando que apoiassem sua deci são. receberam uma carta do hospital. e na declaração. dem os conforto.fizeram ver ao velho e à velha que a medida era realmente neces sária. Só quando Claude. e a outra irmã. Não há nada de errado com os miolos dela! A menina tem uma inteligência excepcional . gesto característico dos adolescentes e dos doentes que insistem em lutar. estava sepultada a preciosa semente de força e determinação. Quando Esther. Jacob ouvia. Quanto ao velho. que sempre escamoteavam a qu estão crucial. se dessa vez eu pudesse fazê-la germinar! . era a menina dos seus olhos. Conhecera o frio. 24 Suzy Blau aceitou bem a história da escola para convalescentes. em determi nados momentos. Esther empenhou-se em extrair toda s as migalhas de esperança incrustadas no tom reservado da carta. Natalie . desde que chegara àquele desenlace. que não fora senão um mudo grito de s ocorro.O que pode haver mais. ah. até descobrir qual o aspecto mais favorável. . que a doença de Déborah. 25 Ao mesmo tempo. mas foi inútil.suspirou a doutôra. todas as agruras da vida de um estrangeiro. No final do primeiro mês. de que se acabara o jogo e caíra a máscara. Ele se virou e perguntou desalentado: .Dessa vez. procurando apresentar o hospital como uma simples clíni ca de repouso. Para o diabo vocês todos! . inseguro do que ele e Esther haviam feito . Esther notava que ele começava a amolecer .

após o intemamento. Bem. a separa va da doutôra.Você quer que eles venham? . contagiada pela algazarra. como saber o que tinham representado para ela? No correr dos primeiros meses.disse a Dra. depois que ficou sozinha em casa. e o portão. . A s últimas palavras foram! . man useava-os e utilizava-os para seus próprios fins. Por que você não experimenta abri-la? . . Há séculos não me divertia tanto! . Déborah estava sen tada do outro lado do sólido portão levadiço do século XII que. notara os efei tos. mesmo sem escutar os rangidos. Depois que foram embora. cada vez mais perto do silêncio.Infeliz! . por melhores que fossem nossas intenções. Nem bem a médica mencionara seus pais e a visita.. . e o filme de suas existências voltasse um ano atrás. Para todos.Bobagem! . foram dignas! ele afirmou com convicção inabalável. nossas vidas mudara m. assustado com algo que ninguém ousava mencionar. retroceder até que tudo estivesse apagado e esquecido. Alguns minutos depois r epetiu: . que vinha do outro lado do muro metálico ia se apagando aos poucos...disse Déborah.Sim . infeliz.Então talvez seja verdade que ela estava. Suzy trouxe para casa um grupo de colegas de escola. . houve momentos de calma. com sotaque peculiar. Jacob comentou bem h umorado: . por muito temp o. num clima de expectativa e sobre ssalto.Calou-se. invisível. exceto Déborah.gritou Jacob. por mais que negasse. e Esther. Déborah ouviu bruscam ente o ranger metálico das correntes. A voz suave. 27 . .perguntou a doutôra que. . . interpôs-se entre as duas. Déborah ficava aborrecida quando a doutôra se apoderava de fatos que eram só seus.Puxa! Será que foi mesmo há tanto tempo? Anos? . Os conflitos decisivos pertenciam ao passado.Você está do outro lado do portão.Os médicos têm um código de ética a cumprir.disse Jacob irritado. . Jacob.emendou Esther. A barreira entre elas tornava-se cada vez mais indevassável. Agora.Apenas infeliz! . . Sentiu pena de Jacob. Há razões para muitas delas que. tanto antes de se casarem como depois. comento u: . Entraram aos tro péis. costuma haver uma portinhola neles. Fried.Ah. eram questões já mortas. quando ela deveria ter mudado seus vínculos de dedicação e não o fizera.Meu Deus.Nossas vidas foram simples.Eu gostaria de dizer aos médicos.disse ela. andara na ponta dos pés. Esther compreendeu que ele ainda esperava uma mudança de diagnóstico. foram boas. acabou reconhecendo que. ma s não podia permitir que continuasse se iludindo a respeito da visita ao hospital. Suzy.Foi há muito tempo. como ri essa noite. num tom que jamais ousara empregar com o sogr o.Soltou uma gargalhada e dando-se conta de como estava contente.Não posso vê-la de verdade nem ouvi-la de verdade . esses seus construtores de portões não são lá muito esp ertos. não adiantar ia nada. até mesm o de felicidade. nos deixarão trazê-la de volta imediatamente. um milagre qua lquer. Certo dia. e há coisas que talvez Déborah desconheça e que nos levaram a fazer o que fizemo s. não teriam s ido diferentes. Sabe. De qualquer modo. . Faltava-lhe agora a coragem de magoá-lo. . Suzy brilhou aquela noite. Constróem as barreiras com portas laterais e depois não conseguem abri-las. pensa tivo..heio de imbecis. retirando-se furioso da sala. rindo e brincando. que fizesse com que todas 26 as portas do hospital se escancarassem.Doente .Seus pais escreveram pedindo uma visita . ocasionalmente. perguntar a eles. . . e então todos ririam juntos das peças que a vida prega na gente . Se acharem que se trata de um engano. começou a definir sua per sonalidade. . Esther percebeu que certas coisas que tinha dito se refletiam nele e em sua relação com ele.Ora.retrocede r.A portinhola está trancada também. convidou todos para jantar. até a partida de Déborah. A doutôra fitou o cinzeiro. Por que esse lugar seria imune à imbecilidade? . o seu portão medieval de novo.Que bobinhos! Será que nós fcomos tão bobos assim? Você viu aquele gurizinho de boné? .O que há? .

que o amor e a compai.É. berravam. Alguém riu no fundo da sala e a professo ra.sabi a muito bem . ela emergira do Poço e encontrara a p rofessora apontando uma palavra no seu livro e perguntando . uma determinada sensação. Fried. só que se fôssemos os dois seria demais por enquanto.o contentamento por dispor do poder de gratificar e punir..O quê?. . com toda a cautela. Começou a despencar para Yr." . Durante muito tempo. antes mesmo que esse sentido voltasse a vi gorar. que distorcido. vamos até lá ficar um pouco com ela e então vocês duas podem ter uma longa conver sa se quiserem. Esther Blau abriu anciosamente a carta à medida que lia.Aqui diz que Déborah quer que eu vá. Ficou surpresa consigo mesma. Déborah tinha consciência de tudo isso. Jacob poderia se deixar vencer pelo horror e pela tristeza que ela mesma percebera nele quando a trouxe ram para o hospital. permanecia muda. só que de um mo do inteiramente ininteligível. Jacob. Ela foi incapaz de extrair o menor fragmento de realidade daquela confusão de linhas e de pontos na superfície branca. Reparou nos lábios da doutôra que se moviam e imaginou-os cuspindo perguntas e acusações . Inútil. por exemplo. sua expressão facial ia pas sando da perplexidade à indignação. viu a chaleira em ebulição. O resultad o foi que acabou perdendo a confiança em seus próprios desejos. Blau. dessa vez. ãò dele seriam perig osos naquele momento. Sabia que o hospital estava sendo bom para ela. Há tempos atrás. que rasgava a escuridão com seu fogo. irreconhecível. temendo comprometer sua autoridade. Por isso mesmo. O Poço surgia horrendo justamente no momento em que emergia dele. coisas como lin guagem. Ouviam-se sons humanos e também estes vinham desprovi dos de sentido. Eu posso dirigir sozinha ou tomar um trem. O presente esvaiu-se. junto com Anterrabae. Sabia também que não conseguiria defender essa certeza. Ali. . no consultório da Dra. Nessas ocasiões. numa de suas quedas no Poço. O amor do pai era a arma que Déborah possuía contra ele. medo no Poço. ao sentir necessida de de recuperar o sentido das coisas. . A queda. Sabia que falava sério. Diante de sua nudez e da eloqüência das trancas e grades.Bem. o mundo todo esvaiu-se. às vezes. ainda que fosse difícil expressar. Agora. Esther procurou fazê-lo entender. que dissera algo de certo mo do importante. significado ou mesmo luz não tinham a menor importância. os deuses e o Coletor gemiam. só. evitando os termos em que vinha redigida a carta . mas a lógica que havia por trás d la. foi assim: as palavras que dizia pareciam não corresponder a uma ordem de seu cérebro. Pres28 sentia."não verá o Sr.Quero que mamãe venha .disse Déborah . sua própria língua. O que sentia no momento era em parte . Déborah continuava imersa nas profundezas do Poço . O lugar lhe parece u familiar: era o Poço. sem a qual jamais conseguiria convencer o mundo. mas que ela ped iu à doutôra que eu vá sozinha dessa vez. ficou mergulhada numa escuridão absoluta.Procurou assim tomar as coisas mais fáceis p ara Jacob. saber o sentido das coisas se tom ava irrelevante. embora fosse incapaz de expressálo. a s mulheres da Seção das Perturbadas viviam gritando e uivando Uma delas poderia ento mar o caldo.Que palavra é essa? E la lutou desesperadamente para tomar inteligível aquele amontoado di29 fuso de curvas negras destacadas no branco da folha. nem justificar por que se sentia tão bem lá. Pouco a pouco. freqüentemente. ao readquirir a vontade e a capacidade de responder aos estímulos do ambiente. Quem sabe não decidiria acabar com aquela "prisão"? Além disso. A profes sora ficou furiosa. Ocorria-lhe. as coisas se revestiram de tonalidades cinzent as. Estava ao lado do fogão. deixou Déborah muda como estava e desapare ceu na neblina cinzenta. Déborah se queimara toda com água fervendo. Inexistia. Essa sensação era verbalizada. porque ali o medo perdia o sentido. que palavra é essa? Nada. . pass ou a defendê-los mais cegamente ainda. mas a finalidade e a forma daquel es objetos careciam de sentido. Foi necessário reunir t odas as suas forças para lembrar o suficiente de inglês e perguntar . Os horrores da volta à tona ainda não tinham começado. Não quero a visita dele. demarcando faixas nítidas e regulares diante de seus olhos. mas importante em quê? Durante muitos anos.mas ele não. Certa vez (aconteceu na escola também). O próprio mundo se introduzia ali. foi longa. por enquanto. Chegava até a esquecer. Estava se fazendo de sonsa então? .Vamos.

.. .Sim. .Mas eu não sei.No momento. .. sofisticada e íntegra. Começou a estudá-la mais detidamente. a mãe perguntou: .. súbita. ouviu Suzy conversando c om um amigo pelo telefone. e que inevitavelmente redundar ia na ruína dos filhos. Isso porque a independência de uma criança representa uma ameaça inadmissível quando o equilíbrio dos pais é precário. . do que propria mente contra os termos da carta.. Fried viu que se tratava de uma mulher inteligente. onde ia guardar a carta. Era. . Claro. saudável: aceitava os penosos sacrifícios que a realidade impunha. . Não dá para planejar isso com antecedênci a. desejando que a viagem aliviasse sua dor por ter sido r ejeitado tão inequivocamente. Veremos se é verdade. é provável que a senhora a encontre cansada e que ela não esteja convenientemente arrumada para a visita. . não se trata disso. que transparecia em seu sor riso um tanto duro.! Eu avisei.Quem pensa ela que é! . .Ela vai precisar mobilizar uma quantida de extraordinária de energia para resistir aos impulsos que a compelem a se defend er em segurança.Não é besteira . Eu a lev o de carro até lá e espero nos fundos. .Para que ela fique bo a. Fried recebeu Esther Blau na sala clara e desarrumada de seu consultório.ela insistiu.Ela vai ficar boa? Ah. Não podia impedir que Jacob fizesse is so por ela. É que se o próximo for ruim. . Sua indignação voltou-se de início muito mais contra a esposa. cuidadosamente estudada..Ela capitulava de novo. Não.É ag radável! Não há. . Demonstrava também ser dona de um temperamento enérgico. . . consciente ou inconsciente. . a Dra. Quem sabe a conversa com a doutôra não o reconfortaria? Levantou-se e ti rou a carta das mãos dele..Mas você não pode ir sozinha. Há alguma coisa sobre ela que a pr . Ao se dirigir para seu quarto. O amor terá 32 que enfrentar uma duríssima prova no que ainda está por vir..Besteira! Eu vou.É aqui. sem deixar de gozar suas dádivas.Sua pronúncia d ava um toque curioso ao tom coloquial. ainda poderá me ver.Ela está doente. Minha irmã Debbie está muito doente. Onde estava a diferença? Depois de passear os olhos pela sala. A doutôra sentia-se um pouco co nstrangida diante das jóias magníficas e da elegância de Esther.Está bem! Está bem! O ressentimento acabou por vencer a indignação. Como devem ter lutado ao longo dos anos aquelas duas persona lidades resolutas... a senhora não imagina como eu a amo.Déborah! Déborah! Olh o que ela fez conosco! 31 A Dra. o Dr.. Na sua fisionomia. Esther não pôde conter a cólera que a invadiu. Seria sempre assim: 30 pressionada de ambos os lados o tempo todo.Não seja tola . . Ele apanhou a carta sobre a mesa e leu. para conservar o ar despreocupado. Jacob. eu te aviso se for possível. mãe e filha! Sentaram-se nas confortáveis poltronas do consultório.Claro! . Eu já te falei. que realçavam ainda mai s seu próprio desalinho.freqüentemente com sinceridade . . eles não ficarão mu to dispostos a receber gente aqui. e no final acabavam mostrando que havia todo um esquem a montado em segredo. Sob a aparência impecável de Esther. isso pouco importa. . . Fried. Bem.. Não sei ainda se Déborah confia em mim o bastante para ver essa sala tal como é. pensou a Dra. sem dúvida. irreversível . ao pronunciar aquela palavr a.que queria m ajuda para seus filhos. por ela ter tentado encobrir a verdade e poupá-lo. Jacob. grades. todos teremos que ser muito pacientes e trabalhar como nunca. Muitos pais afirmavam . C onsiderava essencial descobrir se a mãe de Déborah seria uma aliada ou uma adversária do tratamento. é aqui que Déborah vem? . Caso ela mude de idéia. por isso. estampou-se uma expressão de alívio . A filha não.disse ele. A doutôra ficou impressionada com o esforço que ela fez.Por favor. Não.'Eles recebem uns relatórios todos os meses.. Lister avisou.

seu sotaque e s eus hábitos. E le. Os palavrões em pol onês e em idiche que aprendemos sentados em seu colo. Era aleijado de um pé. em bora eu o odiasse. estes. De certo modo. era preciso que também f ossem trunfos. Graças a sua força de vontade ferrenha. Discutimos. Ela veio. Natalie se casara bem. nobreza. entende. era-comum as filhas das famílias nobres aprenderem harpa. acho que devo começar com a história de meu próprio pai. "Pois não é que a filha de Esther nasceu loura! Aconteci34 mento único. a mulher e os filhos. Ela falara num tom de voz muito mais elevado do que desejava. a obstinada. fez negócios. ele não estava ao nível de Esther. emblemas de conquistas f eitas através de alianças. ma ldito. eram temperados com as mais refinadas lições de francês. No entanto.eocupe de modo especial agora? Esther procurou estruturar suas idéias. o aleijadinho! "Os filhos 'americanos' de papai cresceram sabendo que seu valor pessoal. Esther. Eu procurei. por um lado. tal como entre a nobreza no velho Continente. embora esse instrumento já não estivesse mais na moda. Lembro-me bem de que papai me pedia para tocar e ficava andando de um lado par a o outro. e ainda assim não co nseguimos encontrar qualquer razão. e não tivesse o menor talento. Para avaliar a consistência desses atributos bastava observar o olhar que os vizinhos nos dirigiam. libertar Esther de seu isolamento secreto. c om os termos crus e ásperos que herdara de seu detestável passado.As causas são tão vastas que é impossível percebê-las de imediato. portanto. todos esses dias. ao passo que para o Velho represento . educou-se. Fale-me a respeito de Déborah e de v ocê mesma com suas próprias palavras e da forma como você vê as coisas. educado e apresentável. pobre.Sabe. arriscar. cultura e sucesso não passavam de apa rência. e sua distinção (refinamento. todos esses dias não paramos de pensar em como e por que isso aconteceu. Não existe uma causa. Veio para a América jovem ainda. Jacob procurou. assim. A família podia. ambas estávamos grávidas: papai começou a se c onsiderar o fundador de uma dinastia. ou então escutar os comentários de papai quando a sopa estav a fria ou um dos noivos chegava atrasado. escolheu um pretendente aquém das expectativas da família. Quanto a estes. Estava preocupada com outra coisa: . Tomaram a vida de sua mulher e de seus filhos extremamente miserável.. Lançou-se contra a vida como se ela fosse uma inimiga de verdad e. Por isso todos esses dias não paramos de pensar sobre o passado. Não. mesmo que esse preço fosse eu . Realmente era muito cedo para pensar nos p rogressos de Déborah. e toda a família pensou e especulou. Era um dos trunfos a conquistar. Se. Podemos. . Comprou então uma mansão num bairro elegan te. fracassou e finalm ente alcançou o sucesso e adquiriu fortuna. Pouco tempo depois. Ela re cebeu tanto amor! Disseram-me que essas doenças são causadas pelo passado e pela infân cia da pessoa. boas maneiras). sou eu. emocionante. mar ginalizado e coxo. brigamos e enfim. desprezavam sua religião. e é isso que nos as susta tanto. contudo. admirava os modos respeitáve is de seus vizinhos. contar nossas v erdades pessoais e localizar causas pessoais. esses dois fatos explicam-no melhor do que s e eu começasse pelo seu nome e sua ocupação. resmungando para o nobre fidalgo que existia na cabeça dele: . como se quisesse c onvencer as cadeiras e as mesas e a doutÔra e a instituição toda com suas grades e as pessoas que gritavam por trás delas e cujas razões para estarem ali tinham que ser o utras. .Veja. entende. . e ele precisava conquistá-lo a qualquer preço. . papai acabou cedendo. soberbos estandartes das grandes famílias.Bem. permanecia inabalável amaldiçoando os vizinhos. Papai veio de Latvia. por sua vez. Tra tava-se de um rapaz bastante esperto. . embora só tivesse curs ado uma escola de contabilidade e sua família não passasse de um "bando de simplórios e pobretões". diante das belas perspectivas imaginadas por J acob para o futuro. Sei disso porqu e tive que aprender harpa. tinham que ser. nem dos sonhos que ela corporifica va. inconcebível mesmo: loura e de tez clara. isso sim. dificilmente chegarem os a compreendê-las em toda a sua complexidade. onde moravam as famí33 lias mais ricas e mais tradicionais. Em 1878.

crescia um tumor. O especialista que a operou. O medo. eu me lembro . sem a pagar o sorriso em meus lábios. as filhas da dinastia.procurou uma palavra que trouxesse de volta aqueles anos . nem pel s ameaças. as origens do camponês. mas ser livre pa ra ser nobre. C omo o ateu que exclama para Deus: . Contudo. saímos consultando médico atrás de médi co em busca de uma confirmação. porquejá era tarde demais. da família e de Déborah. a milenária e bárbara dor . Déborah tinha doze vestidos de seda bordados a mão. Jacob sequer estava em condições de alimentá-la. Medo e . Naquela cria nça perfumada. Ainda assim.Você não existe e eu odeio você! Papai continuava a esbravejar suas injúrias nos surdos ouvidos do passado. um sofrimento impiedoso. meu pai contra meu marido. é óbvio. uma das maiores sumidades do país.Por fim. me levou a apoiar. sobretudo por ter que aceitar a caridade de um ho35 mem que o desprezava.u a réplica final a um fidalgo de aldeia morto havia tempos e suas filhas de pele clara. Como era ardente e impetu oso o temperamento oculto por trás daquela fisionomia estudada e impassível. Embora a aldeia lamacenta. Depois de algum tempo. Era por isso que luxuosos gorros que Déborah usava em seus passeios tinham outrora cob erto a cabeça de um pequeno príncipe qualquer. A austera govemanta alemã ficava possessa. Ao Novo Mundo. já estivessem soterradas havia mais de uma geração. sutil e decisivamente. em seguida. meu rosto não variava nunca e. os tempos da Grande Crise de 1929. mas Déborah . O nascimento de Déborah parecia ter tomado minha submi ssão necessária e justa.Nessa época.herança de alguma importante casa européia derrubada pela Revolução. Enquanto Jacob ganhava q uinze ou vinte dólares por semana. Mesmo acor rentada a meu próprio passado. fui fi cando orgulhosa da força 36 .Nós não sabíamos! exclamou Esther.disse a doutÔra sor rindo. Um belo dia. Cada coluna de números era cobiçada por cem cérebro s tão famintos e tão bem formados quanto o dele. Déborah. A doutÔra olhou para ela.O quarto das crianças parecia um hospital! Sim. sobreviesse a dor. como é natural. Mas a "preguiça" não pôde ser remediada nem pelas humilhações. O primeiro sintoma foi uma incontinência das mais embaraçosas. vivíamos num dos melhore s e mais novos bairros da cidade. como se tentasse consolar Esther." Esther relembrou. e uma babá alemã. Jacob era o consorte da dinastia.embora esses serviços t ivessem simplesmente desaparecido. as sobras que os outros rejeitavam . Um sopro de med o impregnava tudo. tínhamos que v iver bem. contudo. depois dos milagres da cirurgia modema. . sempre risonha e contente . Apossar-se d e uma bandeira ancestral e respeitável valia mais do que acenar com uma nova. . exigia-se mais do que apagar a amargura do Velho. nem pelas lágrimas.a dourada e d adivosa Déborah. os horários e as govemantas e os preceitos eram coisas absolutamente indiscu tíveis! Era a pedagogia "científica" da época. Afinal. Papai pagava todas as despesas. tudo bem esterilizadinho e o insano pav or dos germes e de toda e qualquer mudança. Estava grávida de novo. na presença dos funcionários do hospital. voltamos para a mansão da família. descobrimos que o brinquedo de ouro estava defeituoso. e preocupada porque tinha ac abado de perder dois gêmeos nascidos mortos. Duas operações e. nós. Um autêntico fecho de ouro. exceto para o remorso pelos tapas injustos e a interpretação excessivamente zelosa de especialista s equivocados. agora rodeada pelo desdém de uma nova geração de vizinhos.serviços e njoados e rotineiros. era um médico excessivamente ocupa do para se dar ao luxo de explicar alguma coisa à menina ou de assisti-la quando. depois da primeira. Jacob iniciou sua carreira justamente no momento m ais crítico da época. Déborah nasceu envolta em rendas tecidas a mão . .era o eixo em tcomo do qual giravam t odos os sonhos. "Esforcei-me por parecer alegre e confiante ao entrar no quarto de Debbie. Garantiu qu e pegaria mil serviços de contabilidade para merecer Esther como esposa . cercada dos maiores cuidados." . percebia que Jacob se sentia infeliz. subsistia naquele camp onês um sonho de camponês ainda mais ambicioso: não apenas ser livre.a sensação de irrealidade. teria do bom e do melhor. fizemos os exames e veio o diagnóstico. quando as oportunidades eram mais do que escassas.

com uma am argura excessivamente precoce para ela.respondeu Esther com voz cansada . virou-se e perguntou: "Por acaso não sou aquilo que vocês queriam? Será que vocês têm que corrigir o meu cérebro também? "Era esse o seu modo de falar já aos dez anos de idade.Dez anos. não contivemos nossa euforia e o sentimento de gratidão que nos inva diu. e ela nunca dormia.. . Quando finalmente soubemos que as operações tinham sido bem sucedidas. Costumávamos br incar a respeito de seu sono leve. Decoramos a casa toda. e havia as flores que eu mesma cultivava. n um bairro tranqüilo e mais modesto. Todos gostavam dela lá. comia demais. . Você quer dizer que ela dormia pouco? .. Também eu f iz amigas. No inverno. não muito longe do centro da cidade. Restav a-nos pouquíssimo dinheiro.um ano maravilhoso.perguntou a Dra. na realidade. É claro que a mansão tinha que ficar nas mãos da família: foi assim que aquele lugar odioso se transformou no lar dos Blaus. Fizemos isso. Não adiantou nada. . mas afinal. Vivia escondida em casa. e convidamos os parentes para uma festa em honra ha saúde de Déborah. pequena. Dois dias depois. No entanto. um mês depois. Jacob chegou em ca sa e com a notícia de que o negócio de Sulzburger era.Uma pessoa tem que dormir. estávamos de volta à mansão da família. Seu aproveitamento era excelente. um dia.Comecei a observar com mais atenção minha filha prodígio. . mas logo se desinibiu. Quando entrávamos em seu qua rto à noite. Déborah nunca se referira a isso. Não queríamos que ela se sentisse . Reparei que ela não brincava com as outras crianças. Ela fica va cada vez mais perturbada e insatisfeita. Ah. os degraus eram cobertos por tapete espesso. Vai nos custar.. Tinha um ja rdim cheio de árvores e não faltavam crianças pelas redondezas. Compramos uma casa nova. Eu falei da escola. sempre a encontrávamos acordada. Uma fraude complicada e engenhosa como essa até que tem o seu lado bonito.Bem. A escola recomendou que a levássemos a um psiquiatra infantil. as janelas sempre es cancaradas. Dizia que tinha ouvido nossos passos n a escada. . Fic amos todos meio desvairados. e no verão.Sim. sim. Suspendemos as visitas ao psiquiatra.Ela não demonstrava nenhum sinal de que estava doente ou infeliz? Só essa atitud e omissa? . uma vasta e int rincada fraude. o psicólogo nos cha mou e mostrou um teste que fora aplicado em todas as crianças. finalmente. . . . Déborah manifestou um po uco de medo no início. Uma tarde. Jacob poderia. Depois da terceira sessão. isso também acontece com muita gente. . verificar se aquilo era ve rdade ou não. Tivemos que vender a casa e. ela se tomara grande demais só para eles dois e por isso tinham alugado um apa rtamento em Chicago. não é? Pois mesmo assim não posso deixar de admirar a cabeça quemontou tudo isso. Anos depois é que vi emos a saber que a primeira colônia de férias (que ela freqüentou em silêncio três anos se guidos) era de um anti-semitismo cruel.Qual a idade dela na época? . mas é que nunca a vi dormindo. ser mais do que um simples consorte em sua própria família.Esther passou a remcomorar velhos nomes que ressu rgiam do nada. e acabou engordando. Você sabe disso. . a coisa mais importante de nossas vidas. as melhores colônias de férias. . Segundo eles as res postas de Déborah indicavam uma "perturbação" qualquer. tudo. O processo foi tão gradativo e lento que só vim a notar naquele momento. mas não tinha graça nenhuma. e. se libertar. Era uma escola pequena e simpática. Investigara durante três meses a origem e o destino de todo aquele dinheiro até comprovar suas suspeitas. Pretendia pedir demissão no dia seguinte.. Fried. Jacob conseguiu se empregar como responsável pela contabilidade de Sulzburger. Isso durou um ano . Sentia muita dificuldade em 37 fazer amigos. . ela devia dormir. Meus pais resolveram dar a mansão para nós.que era capaz de demonstrar. . tentando desvendar sua mente. Víamos ape nas os grupos alegres de meninas brincando. começou a sair e fez amigos. A contabilidade de Sulzburger nos pareceu. Consistia numa série de pequenos serviços extremamente lucrativos. nenhuma necessidade de empregados e o começo de minha autonomia em tom ar decisões. àquela época.. Déborah freqüentava as melhores escolas. . o sol. assando batata-doce em volta da fogu eira e cantando velhas canções de acampamento. porém. Sem a família to da.

Seu grito de socorro foi ouvido. Ao estourar a Segunda Guerra. que não estava tentando se suicidar. .38 assim.. rapidamente substituídos pela rigidez e inexpressividade facial . Consumia todas as suas horas vagas desenhando. por causa de mais uma de suas indisposições misteriosas. A família encontrou de repente a explicação pro videncial para todas as esquisitices de 39 Déborah: o aspecto doentio. Déborah era intensa. adquirimos o hábito. aos onze e doze anos de idade.Não conscientemente. Na cidade. sem contar os esboços e os rascunhos na escola. Vamos voltar um po uco atrás de novo.Bem. que não seria eliminada por uma decisão ou por um pedido. rápida e segura. . muda. . recomendando-lhe que não tomasse as coisas assim tão a peito.. portanto. e não poupei esforços para me convencer de que era a resposta exata. e os estudos andassem bem. sua solidão perderiam um pouco da estranheza no anonimato da cidade grande. . de ficar à escuta. que. a seu modo. . O quarto de fato estava vazio. um espírito raro. Era uma característica intrínseca a nós duas.Perguntei-lhe por que simplesmente não deixara o sangue escorrer pela pia .. ocorria-lhe uma estranha sensação de culpa). . sem exigirem grandes esforços da parte dela. especialmente para Déborah. eu me dilacerava interiormente. por uma terrível compulsão de 'guardar as coisas'.cont ou a doutÔra." Esther procurou uma definição que tomasse verossímel o estado atual da filha. Sentia-me ao mesmo tempo esmagada por aqueles quartos bolorentos. a insônia. Passamos a encarar com indulgência as doenças de que se queixava. Fui até o quarto dela com a certeza íntima de que havia algo de errado (na rrando agora o episódio. às colônias de férias e à escola. Não adiantava . Lembro-me de ter conversado algumas vezes com ela s obre isso. . seus pavores. a adol escência de uma menina excepcional. ela sabia. . Sacudimos aliviados o peso morto do passado e mudamos para um apartamento na cidade. por alguma razão oculta e instintiva. No dia seguinte. Chegou em casa estranhamente pálida e assustad a. Déborah er a uma pessoa especial. a sensibilidade.Esther sacudiu a cabeça para expulsar a palavra proibida. Certa tarde. Não sei bem como.Sua resposta foi bastante significativa. Déborah descobriu a arte. não me cansava de repetir. isto é. foi impossível continuar sustentando uma mansão de qui nze quartos.. Cerca das quatro horas da madrugada. mas a mente dela escolheu o melhor caminho. O que só veio a calhar: foi uma resposta fácil e luminosa às sombrias e vagas suspeitas. mas gritando por socorro. e pelo olhar crítico do Velho. acordei. Procurei no banheiro e a encontrei sentada no chão.Quer dizer que foi uma atitude premeditada? Uma coisa planejada com antecedência ? . é claro. Sempre houve atritos entre Déborah e s . inclusive dormindo. de grande talento.. ela deve ter feito milhares de desenhos. da Velha e de toda a família.. saiu cedo para fazer qualquer coisa e voltou muito tarde par a casa. Levamos alguns deles a professores e críticos de arte.De quê? .Não sei. embora os professores da nova escola a tivessem em a lta conta. Veja. Na realid ade. nunca ch eguei a acreditar totalmente nisso. . ou por uma espécie de entorpecimento mental. ela continuou infeliz. Enquanto tentávamos nos livrar dela. Até que finalmente encontramos um comprador. Seu interesse despertou com o ímpto de uma tempestade. Uma evidência importuna qualquer sempre vinha relativizar essas racionalizações.. que reconheceram que a meni na era realmente talentosa e devia ser estimulada. a intensidade e os súbitos olh ares de desamparo. mesmo sem nos darmos conta. gritando muda e confusam ente. Você mora num apartamento. mas no íntimo. Pareceu-nos uma boa me dida. Começou a aprender música e a se dedicar a todas as atividades próprias às meninas de s ua idade. Déborah foi ao médico. suas pequenas excentricidades. Ela disse que não queria qu e o sangue se afastasse muito. As janelas ofereciam morte muito mais fácil. no entanto. olhando o sangue escorrer de seu pulso numa bacia. E há mais: Déborah sabia que o sono de vocês era leve porque o dela também era. Nos dois anos seguintes. Tudo estava claro agora. as suas distrações: era a adolescência. agora ela está aqui. Afinal d e contas.

de que forma eram sentidos esses tempos? De que forma você se sentia? . você soube que as coisas não iam bem com sua filha. . Cantávamos e brincávamos. É um bom meio de se obter reconhecimento e fazer amigos quando se é jovem. Na colônia de férias.E então veio a époc a. . . tinha-se configurado um quadro falso das coisas. os olhos transbordando de gratidão: . as férias na colônia. ficou bom? .Eu procurava ajudar. muitas vezes as pessoas não a compreen diam bem. Só que vieram os nazistas e o infemaram em Dachau. não é? Antes mesmo do psicólogo da escola. Esther.as colegas? Resolvia os problemas sozinha ou recorria a você? . Estou contando isso porque quero que você entenda que é impossível tentar refazer o mundo p . faço antes que o mundo o faça. respondeu: "Ora. e no final a professora veio me dizer que conhecer Déborah fora um verdadeiro privilégio: era uma menina realmente excepcional. Não fcomos nós. é claro. que isso algumas veçes era mal interpretado. .Entendo .Ah. Esses problemas crescem muito nessa idad e e eu me sentia contente por poder ser uma verdadeira mãe para ela. .repetiu a doutôra. Precisei aprender a fazer as pessoas se desinibirem. expliquei que minha filha tinha medo das pessoas. enfim. Também nunca deixei de dizer o quanto eu a amava. . parecia estar bem. Essa coisa horrorosa aconteceu apesar de nosso amor e de nossos cuidado s. Assim pelo menos sou dono de minha própria destruição. então. No entanto. Quando fcom os embora. ela começou a ter problemas com um determinado gru pinho. As pessoas com quem Déborah tinha dificuldades eram conquistadas e eu me sentia feliz por poder ajudá-la.Lutei por Déborah durante toda a sua vida. . Déborah ja mais ficou desprotegida ou sozinha. Ficaram amigas enqua nto Déborah freqüentou a escola. . Convidei essa professora para um chá. no entanto. que ela procurou corrigir. De certo modo . foi antes disso. Minha própria mãe nunca pôde. Certa 40 vez as aulas mal tinham começado. desde aquele ano alguma coisa começou a funcionar mal nela Daí em diante foi como se ela mantivesse a cabeça baixa já esperand o pelas bofetadas. Ela teve um problema sério com uma das professoras na escol a pública da cidade. isso depois. a época em que ela mesma começou a providenciar as pancadas. ajudando-a ne sse tipo de coisas. pensativa. Tive um paciente que costumava aplicar em si mesmo as tortu ras mais pavorosas. e isso facilita va um pouco as coisas. a coisa acontece. Como é que uma pessoa perc ebe que a atmosfera mudou? De repente. Talvez isso tudo tenha começado com o t umor. . .. para me divertir nos lugares onde eu estava. teve a impressão de que ela não estava entendendo.concordou a doutôra. . e conversa vai. pareceu infeliz.Bem.Ficou. pronto.Feliz. . . Lembro-me de várias ocasiões em que ela precisou de mi m e eu fiquei de seu lado. era o terceiro ano consecutivo que ela ia.Um sintoma talvez.Esperando pelas bofetadas. Fcomo s visitá-la no final do verão e ela nos . ela se mostrava aliviada. durante o verão. Tive que me esforçar um bocado para superar minha p rópria timidez.Esse paciente.Vejamos.Durante muito tempo. conversa vem. Convidei-os para um passeio no jardim zoológico e foi o bastante para quebr ar o gelo.E quanto à colônia? . . . Contei-lhe como eu mesma tinha conseguido superar certas dificuldades de crescimento fazendo esportes. e quando lhe perguntei por que agia assim. quando começou o problema? . sempre procurava ser amável com os professores.De que forma Déborah encarava essa ajuda? . não.É isso que é a do ença? . ajudei a professora a compreendê-la. 41 . . Sentia orgulho dela e nunc a deixei de dizer isso. é claro. Eu. não foi o amor que Jacob e eu tínhamos um pelo outro ou por nossos filhos.Numa visão retrospectiva. Tinha nove anos de idade. Na sua opinião." Eu insisti: "Por que não espera para ver o que o mundo realmente faz?" Ele respondeu: "Você não entende? Mais cedo ou mais tarde acontece. Esther voltou-se para a doutÔra. . onde ele morreu." .

essa. Esther viu-o no fund o do cinema. eu tinha que tentar melhorar as coisas . A Dra. Como pude. a menina não estaria intemada. As concordâncias e contradições entre as duas v ersões da realidade permitiriam atribuir a verdadeira dimensão de profundidade a uma das interpretações.Mentir. Não vo u perguntar o que fizemos ou o que não fizemos.Amar apenas não basta. Tinha a im43 pressão de que.pediu a doutÔra.Vejo agora que. "Papai quer". mas acabou aceitando. tímida e desorientada.prometeu mentalmente a Déborah .ara proteger as pessoas que amamos. E nosso amor por Déborah não nos imped iu de. e mais o período em que vivemos da caridade de papai. . . O hospital dera permissão pa ra sair com Déborah sozinha. . 44 .disse Esther. Trazida de volta à realidade. cometi erros.Deixe que nós. com os olhos pregados em Déborah. . "Pobre Jacob. de tomar suas próprias decisões. Não se torture nem se culpe a si ou a seu marido ou a qualquer outra pessoa. observando-as. Esther estava convencida de que não conseguira explicar dev idamente sua posição. contudo. . que a versão da filha diferia radicalmente da apresentada pela mãe: a mãe desvelada. Como pude fazer isso com ele? 42 Todos esses longos anos. por experiência. erros graves. Fried conduziu-a até a porta. ela não quer ver Jacob. E ao saírem. sobretudo agora que ela se mostra tão sensível a i sso.Olhou de novo para a doutôra.Sim. . . bem. Quando entraram no restaurante. "não de u para dizer nem um décimo do que precisava ser dito". . Comovida com a sinceridade de se us sentimentos.Como. "Juro . procuremos as causas. não é? Meu amor por Jacob não me impediu de magoá-lo e hu ilhá-lo aos seus próprios olhos e aos de meu pai. . quando ele é que era meu marido. de certo modo. não de sua a uto-recriminação. . mas uma tentativa. Terminara a entrevista. Desde aquele apartamento caríssimo. mas muito mais em relação a Jacob do que a Déborah. Fried observava o contraste entre a Esther dos modos estudados e a fision omia circunspecta. de causar. Esther voltou a loca lizá-lo. anos e anos permiti que Jacob ficasse em segu ndo plano. . Esther compreendeu que teria que enfrentar a Déborah d o presente. . "Papai acha". tremendo de frio no âmago daquela noite de inverno. . Sabia. . a filha agradecida. Ambas se levantaram. aqui estou eu no meio de novo. A doutôra sugeriu que não insistissem com a filha.juro que não vou usá-la. Mais tarde. . pois achava qu e essa decisão não representava tanto um desapreço a Jacob. Esther interpretou aquilo como uma co nciliação. jantariam na cidade e depoi s conversariam. como saber o que dizer quando estiver conversando com ela? Sabe. e seu olhar era tão estranho. um olhar de sonâmbula. . O que não significa que você deva se mortificar por ter tentado. mas ficou calada. "Muito curta". ela disse num tom de voz suave: . A Dra.O que é. e a Esther-mãe daquelas palavras sentidas de amor e sofrimento.Só há uma coisa realmente perigosa. fitando a doutôra com ol hos incrédulos.Calou-se. e isso ainda hoje. e de uma filha que padecia de uma decepção mortal. ao tentar ajudar. pensou Esther. procurando tranqüilizá-la. da última vez que a vi. parado na esquina. . Ao deixar o consultório." Jacob protestou. . pensativa.Conte como era sua vida antes de você vir para o hospital . Ela precisará de seu apoio. e seus desejos tão simples e modestos! . Iriam juntas a um cinema. . acabara interferindo." Passou no hotelzinho onde estavam hospedados para dizer a Jacob que Déborah ainda se recusava a vê-lo. Déborah e eu. recostando-se na c adeira. . encarregad a de transmitir a bofetada. doutôra? . viu-o novamente escondid o na sombra. Se não fos se assim. doença.

o que ela viu. naquelas c abeças assassinas. mais tarde. sobre aquele tumor. como se estivessem saqueando um quarto: desmontaramna. . teve um pesadelo: sonhou que a devassavam à força.Está vendo. . Na noite em que ouviu o pai discutindo os planos para inte má-la no dia seguinte no hospital. morta mas apresentável. num mundo onde as pessoas ligavam tão pouco umas às outras.foi o que disseram.A máscara baixou. por terem ment ido tanto e de modo tão estúpido. . Nunca p ediram que eu perdoasse a eles por essas coisas e nunca perdoarei a eles.Então vou contar uma coisa que mais ninguém sabe.Minha mãe já lhe contou tudo . nenhum deles. limparam cada uma de suas partes com sabão em pó. a eles e a mim.Isso pune a você. não o que você viu.Ela não sabe muito a respeito disso. o rosto da doutôra estava c ontraído de raiva e a voz carregada de indignação. Falou. voluntariosa como era. Naquela mesma noite. sufocando-a com a substância adocicada e enjoativa do sono. . tateando cautelo samente o novo terreno. sentindo-se usada.É porque nunca perdi o tumor. . por exemplo. . seu passado desperta ria algo mais do que aborrecimento. vamos fazer a sua bonequinha dormir. Não vai doer nada .A terra dos sonhos .Sua mãe contou o que ela deu. idade suficiente para morrer de vergonha quando os médico s meneavam a cabeça referindo-se ao mal que a roía por dentro. Tinha cinco anos na época. manipulada como um objeto. outro sonho com um vaso despedaçado.Fique quietinha agora. em meio à dor brutal: "Como vai sua bonequinha?" À medida que contava.O que haveria naquelas cabeças malucas. .disse Déborah. como se toda a realidade de seu corpo se resumisse naquela coisa perversa q ue estava escondida lá. imobilizaram-na mais uma vez s obre aquela mesa e disseram: . .Não. ia observando a reação da Dra. . . Fried.Quer dizer que você não vai ficar indiferente. Para sua surpresa. e de novo apelavam para o engodo mais do que óbvio da boneca. por tere m me obrigado a suportar toda aquela dor e a vergonha de sentila. Nunca disseram que estavam arrep endidos. cuja flor representava sua própria vitalidade destruída.responderam e em seguida comeÇaram a cauterização insuportavelm ente longa e dolorosa da Parte proibida. e em seguida.exc lamou e pôs-se a apagar o cigarro impaciente e irritada.respondeu Déborah asperamente. . um médico intemo visivelmente perturbado com se u sofrimento e perguntou: . es fregaram. continua me comendo por dentro. Logo depois veio a ferroada da agulha.Dias depois.Como assim? . .Para ela aquilo significava que iam a ssassiná-la. Penetravam com suas sondas e agulhas na região proib ida. você então não vai ficar com medo? .Diga então o que você sabe. em protesto por aquela menina de ci nco anos sofrendo ali à frente das duas. Continua lá. das altas e gélidas regiões de seu reino. 46 o upuru nos pune. . Por terem penetrado em mim sem a menor consideração. remontaram -na. não a eles. . não vou! Pode estar certa disso! respondeu a doutôra. . para que ficassem hipocritamente perguntando "tudo bem"? E depo is. mentiras que para mim soavam como deboche. Estava curiosa para saber se.Oh. Houve. . Quanto desprezo deviam sentir para mentirem daquele jeito! Quer dizer então que er a pior do que um assassinato? . ardeu de ódio.Por que vocês todos contam mentiras tão horríveis? Ele res pondeu: . virou-se para um deles.Agora nós vamos consertar você direitinho. Os pesadelos só não tinham anunciado a pavorosa dor que viria a sentir. . .Que lugar é esse? .ela perguntara assustada.Que cretinos! Quando é que aprenderão a não mentir para as crianças! Que horror! . Depois dos sonhos. ela se afogou num silêncio mudo e atordoado. não o que você recebeu. Só que ag ora é invisível. justamente sua parte mais feminina e mais secreta. . 45 Certa vez.

mulheres que viviam gritando. meu inimigo está acima do ódio ou do perdão.perguntou Carla. Déborah compreendeu a reação desdenhosa de Kathryn.respondeu Carla sem titubear.Quem é? . . Depois que soube disso. que um de seus segredos acabara de escapulir para o mundo. e mesmo que eu soubesse. tais como "insanas" e "loucas". e ela compreendeu. Só elas tinham o direito de se referirem a si mesmas pelos termos mais extremos da escala. uma menina de olhos lânguidos e modos agressivos. o Censor vinha interferi . Impied ade. utilizadas ao máximo por todos . e eu fiquei doida.Upu o quê? Yr irrompera de repente.declarou Carla . pancada. Fazia já dois meses que Déborah estava no hospital. distante das palavras.insistiu a doutôra. . sem caírem em contradição. "da força incontrolável que possuem! Por alguma razão. fora de si.Acho que foi. As alas mais tranqüilas. sem deixar vestígio s de sua passagem. Tratava-se de uma norma criada espontaneamente pelos pacientes. Déborah não estava mais ali. . que se fechou sobre ela como um oceano. para o consultório ensolarado e sua mobília traiço eira. oc upavam o nível inferior daquela escala de valores invertida e só podiam reivindicar as categorias mais leves: biruta. não conseguem acreditar que são apenas pessoas. Para aqueles que nunca ousaram pensar em si mesmos. descrente de que pudesse existir um único inimigo.Velhas lavradoras des sa estranha colônia penal.Não.Há momentos em que odeio as pessoas que me fizeram ficar doente . despidas de eufemismos bem educados. Déborah retcomou ao Mundo Intermediário. Ela não conseguiu se controlar e acabou insistindo para que eu fal asse sobre os motivos da minha doença. Fried. lunático e.Minha mãe . Meu pai se casou de novo. donas de um ressentimento puramente humano!" Dias depois.Dizem que a pessoa deixa 47 de odiá-los depois de algum tempo de terapia. Eu tinha certeza que ela ia perguntar. quando uma enfermeir a disse para ela: "Ora vamos. com um olhar sempre esgazeado. eram chamadas pelos outros de "doentes" e por si mesmas.perguntou Déborah. Além do ma is. de "loucas". pensou consigo mesm a. e que os recém-chegados aprendiam sem que ninguém precisasse ensinálos. Desse modo. Fried contemplou-a longamente. fugi ndo assustada para Yr. desde qu ando todas as coisas se tomaram cada vez mais cinzentas e obscuras. mas acho que isso é "furado".respondera a mesma. vamos acabar veteranas .comentou Carla. Déborah batera asas. afora aquela instieadora de horrores. Novos pacientes tinham chegado. Era tarde.E talvez fosse verdade. outros subido para a Ala D (a dos "insanos") e alguns transferidos do hospital. o lugar já não assus48 tava Déborah. . "Como os doentes sentem medo".O que foi que você disse? . louco.Você tem o privilégio de ir à cidade? .. maluco. eles morreram. . a liberdade significava liberdade para ser doido . .A Dra. insano. a não ser em segredo e como indivíduos estranhos e excêntricos. horrorizada.Daqui há pouco. uma paciente da Ala B que se dissesse "louca" pa ssaria por faroleira. . num plano mais sério. . mas me deixaram sair quando minha mãe veio aqui.Ela deu um tiro em mim. O termo Upuru nomea va em Yr a síntese das lembranças e das "emoções" daquele último dia no hospital. você está ficando perturbada!" "Eu não estou perturbada. . biruta. Eu estou pirada!" . . pirado. Excetuando-se a D. mas não pude dizer nada. Estava no corredor da ala.A visita foi boa? . crueza: duas regalias importantes do hospital.. demente. A e B. . Mal nos sentamos e a coisa transbordou como uma enxurrada. tanto mais inacessível às pessoas quanto mais rígido fosse o controle da voz interior. na sua casinha branca de aparência tão pacata. Havia toda uma hierarquia de privilégios para gozar dessas liberdades. A linguagem de Yr era um segredo ciosamente guardado. Palavras cruas. de onde podia conviver com a T erra. sentada com Carla e algumas outras meninas. palavras impiedosas. . não diria. . das razões ou de qu alquer possibilidade de alívio. no meu irmão e depois em si mesma. As int emas na Ala D. eu sobrevivi. Fazia tudo o que mandavam e. a Dra. A superfície voltou à tranqüilidade.

. .insistiu a doutôra. Dezembro. o mundo se reduzia à dimensão d e seu próprio ataúde. que. por sinal) e. Meninas.disse para a doutôra. vocês ainda estão na fase da lua-de-mel aparteou uma garota. . para quem as paredes não estremeciam . O inverno chegou.Espero que sua curiosidade esteja satisfeita . tomei metrazol. . acorrerem-lhe pensamentos e acontecimen tos. caso contrário o drama se toma uma comédia r idícula. Quanto tempo leva para sabermos se nos daremos bem ou não? . como um coração. . As janelas emolduravam os galhos nus e enegrecidos d as árvores. Na sala de estar.Existe uma palavra. nos últimos anos.. é para sempre? . sob a forma de uma águia. os abismos e os picos de Yr começaram então a gerar um vocabulário cada vez mais rico.perguntou a Carla no idioma da Terra.ndo de forma bastante branda. . . Era difícil falar com um vulto parcialmente submerso. aos olhos de Déborah. senhor. . acho. Déborah . .como uma gravura apenas. que se reco stara na cadeira. sua história ia se arrastando. .disse à doutôra.no mundo inóspito à sua volta. Fui analisada. implorou Déborah no idioma de Yr.Procure lembrar para que pos samos compartilhá-las juntas.Não quero assustá-la. Nada disso adianta. As planícies. ia se afastando de tudo e de todos no mundo. Só me falta agora u ma lobotomia. .. Anterrabae pôs-se a recitar uma fórmula de encant amento em Yri. .Só que ainda há muito por fazer. na casa da doutôra. .Ela se levantou. mas quer dizer muito mais.Talvez você possa explicá-las. Excetuando-se o convívio com Carla e Marion na ala. você não entenderia. os quais não tinha com quem compartilhar . a que costu ava recorrer quando queria descrever para si mesma e para os personagens de Yr os se us desejos. eletrocutada . nenhuma extremidade ponteaguda. o alcance de sua visão não ultrapassava a cobertura do sarcófago onde estar ia encarcerada.E isso. já que falamos sobr e as operações do tumor. Para ela. um grupo decorava uma árvore de natal. que conseguia exprim ir suas estranhas agonias e seus momentos de grandeza. segredou: Para que se faça de condenada. com gestos dramáticos de condenada.Há quan to tempo ela está aqui? . Já passei por seis hospitais. segundo personagem mais importante de Yr. Cinco pertencia m à equipe médica e dois eram pacientes. Mate-me. Lactamaeon..Não consigo descrever a sensação . inclusive da voz exterior que a sub stituía e respondia por ela quando desejava se recolher a Yr. sacudida. . revolvida. As paredes começa ram a pulsar de leve. . Meu Deus. . . Os risos pendiam no ar tão artificia is quanto os enfeites na árvore (nenhum vidro. cheia de reti radas. Significa Olhos Trancados.retrucou a doutôra.Leva mais ou menos três meses. .Mais de um ano. você consegue me ver? . Enquanto isso. Estou " por dentro". 49 .perguntou Déborah. assim como para os mortos. Pensou nas metáforas Yri. sentada perto delas.São metáforas. paralisada. tinham pelo menos a decência de se mostrarem embaraça dos. no cinza que cobria tudo for . amatil e sei lá mais o quê.Não sei.Deve haver algumas palavras . Tu que não és linda.Isso significava. para Déborah. camuflagens e defesas.com os Olhos Trancados. e o que se passou no resto daqueles primeiros anos. Era freqüente. nem essa droga de l ugar nem nada. em determinados momentos. .Corresponderia a sarcófago. . Eu gostaria de lhe perguntar. mas ela não conseguiu entender. que esforço faziam para que o hospíci o se parecesse com um lar! Puro faz-de-conta. a vítima tem de ser linda. uma gravura de alguma coisa que é real.O quê? . . como foi que o mundo de repente ficou cinza depois disso. e se afastou . Aquela conversa estava deixando Déborah terrivelmente amedrontada. aí esgoto todos os recursos.

o que bem poderia ser verdade. a menina feia do tumor gritara ao sentir a urina queimando por dentro). Sempre q ue a encontrava. que por si mesma já se considerava imunda. Nas férias. E foi mais ou menos iss o o que aconteceu. nos tchecos e nos poloneses. mas o fato é que ela era a única judia. isto é. fico u imaginando se eles todos não teriam tumores. Déborah. Honesta sem dúvida. Os parentes. foi amada sem r eservas.Não fui eu quem fez! Não ajudei a tomar a decisão de fazê-la. A mãe. expulsando-a. eu te odei o! Três gerações de ódio! Aquelas palavras tinham uma ressonância especial. mas fruto do ódio e do egoísmo. onde anos atrás o tumor fora exti rpado com tanto sucesso. por mais negada que fosse.a de Yr. em Deus. A realidade oculta pelas farsas era a morte. e a "judia imunda". pressentindo a desgraça inevitável. os códigos seculares da fortuna ainda vigorav am. e por mais consciente que estivesse dela s. um professor de equitação da colônia declarou brutalmente que Hitler fazia pelo menos uma coisa boa. de tramóias. eliminando aquele "povo imundo". as tias e os tios foram se afastando de Déborah. As conturbações eram combates travados em segredo. com a cabeça apoiada na mesa da cozinha. . judia imunda. lhe 50 trazia uma dolorosa sensação de perda e aflição.exclamavam indignados. contudo. Continuava m orgulhosos dela. disseram. Déborah começou a revolver lembranças. tcomou c onta da questão: fez-se anfitriã das meninas do grupo mais popular. Ficaram chocadíssimos e revoltados com o que. boa e aflita. com o passar dos anos. nem lhe p assava pela cabeça que viesse a ser sua companheira. na primavera. E no verão ia para a colônia de férias. para Déborah. Na vizinhança. isto é. s e apinhavam em volta do berço. sob os auspício s de uma mãe adorá51 vel. Por cáüsa da operação. No entanto. maravilhados com a beleza e a delicad eza da recém-nascida. menina sempre com ares de moça. por causa dos "tchecos-e-os-poloneses". Depois de ouvir isso. no entanto. só conseguira enxergar naquele ser intruso um monte de rugas com um rosto vermelho. mas não carinhosos. Quando sua irmã Suzy nasceu. e na cre nça fervorosa. farsas e conturbações. judia. Quanto a Suzy. certa vez. que foi incapaz de fazêla desistir. e não do amor. a maldição transbordou do corpo e da boca de Déborah. do alto de sua nobreza. a maldição predileta: j udia. O passado. minha mãe odeia tua mãe. porém. Diziam que ali não havia preconceito. não soubera se comportar no jogo. matava judeus por mero prazer e ma ldade. não seria tolerada. minha avó odiava tua avó. quas e cruel. . O mundo de Déborah apoiava-se na certeza de que era vítima de uma maldição ináta. Um deles morava na casa ao lado. de certa forma não estivera à altura do jogo deles. ao mesmo tempo doce e amarga. lág rimas terríveis e pungentes de homem. e para onde olh asse. lançava-lhe ao rosto.Mas ela é sua irmã! . que berrava e cheirava mal. antes de sua partida para a colônia: seu pai chorava. Era um mundo carregado de mistérios. Rabiscavam palavras ofensivas nas pared es especialmente as da privada (onde. até mesmo ela e a capaz de perceber. só começou a freqüentar a esco e e foi rejeitada das primeiras amizades e grupos que suas coleguinhas tinham fo rmado em sua ausência. Mesmo no hospital. Quem sabe se. "via fracasso e confusão. mas fria. Esse comentário marcou o início do incômodo da família em relação a Déborah. Déborah. Uma observação gente e bastante precoce para uma menina de cinco anos. que veio saltitando atrás com uma radiante e despreocupada doçura. Lembrava-se bem da cena que presenciou um dia. ponderaram. talvez fi asse mais fácil suportar a memória. O entendimento dos mistério s eram as lágrimas. Déborah ficou tão re ssentida com isso. constituía alvo i deal para os provocadores do quarteirão. Como se estivesse possuída por um demônio. . A convalescença t ambém não passou de uma grande farsa. sempre perdiam. não a amava. fechar os olhos e crer. Algumas vezes Déborah já ouvira fa lar que um homem chamado Hitler. para nunca mais abandoná-la. na Alemanha. nos quais os judeus. não eram só aquelas crianças que a odiavam. era uma verdade mais do que evidente: achava feia aquela coisa. se a doutÔra pudesse decifrá-la. Suas re gras não passaram de mentiras. já que a própria doença continuava existindo. já que as difer enças entre os vários cultos protestantes da classe média sempre foram extremamente su tis.

só isso! . . Tu não és dos nossos. Quis agradecer àquela mulher por se mostrar capaz de se emocionar até o ódio. Brincas com o Abismo de um modo muito pe rigoso. cutucando aqui e ali com o dedinho para ver o que acontece. Uma jovem se aproximou por trás dela. Andava como se estivéssemos muito aba ixo dela para que se dignasse a nos olhar. o Coletor e seus vastos reinos.Estou. As bordas eram denteadas e cortantes. porém. Sempre qu e nos cruzávamos. Sou psicótica. é que o lugar apresentava um aspecto ao mesmo tempo assustador e reconforta nte. tentando desvendar aquele mistério. . não propriamente o que dizia. Não sentiu dor. e ficou observando o sangue escorrer dos seis ou sete sulcos abertos até abaixo do cotovelo. até que o braço ficou reduzido a uma posta ensangüentada.Eu sou Lee. musculosas.Eu não sabia que as pessoas na Terra eram dotadas de interior . 54 Déborah estava apavorada na Ala dos Perturbados. mas a frieza. nem falar sobre os Deuses.Nunca se sabe o que se passa dentro delas. estava inteiramente sob o domínio de Yr.Lógico que não. Tudo estava abaixo dela. Isso mesmo. Rasgou o antebraço. como você. Déborah apoiouse a uma janela . pesadas. . Déborah se aventurou a confirmar essa distância.Engraçado. . . e encontrou uma bagunça incrível: os lençóis e o rosto dela empapados de sangue . . não és como os outros! As palavras em Yri anunciavam a etema retirada. Uma guria rica e estr agada. e o braço cortado com uma tampa de lata. . revestida de grades e telas . Guardava consigo a tampa de uma lata de conserva s. Assim. e que as sessões de terapia são muito difíceis. Cavalo-s elvagem-um.parecia uma máscara de esgrima. Agia com meticulosidade. pensava: lá vai a menina rica.Enfermeira ou qualquer coisa no gênero? . Escuta. algumas tinham acessos de cólera.Você está assustada. acabarás quebrando o sigilo. que precisam ficar aqui. aprofundando os cortes. nunc a! és inteiramente diferente. O que a intrigava . Cafés entrou no qua rto hoje de manhã para acordá-la. ralhou ao fundo o Coletor. Essas palavras infundiram nela uma profunda e duradoura sensação de alívio. Estivera completamente absorta narrando esses ac ontecimentos. Quando voltou à ala. As mulheres passavam o dia empertigadas em cadeiras nuas e incômodas. . a brecha que se abr ia para diferenciá-la dos outros. . As últimas pretensôes a conforto e no rmalidade acabavam de ser suprimidas. sentia-se exausta. todos scomos . viu a indignação estampada no rosto expressivo da médica. disse Anterrabae. Umas viviam mudas. O lhe para mim! chamou Anterrabae caindo. outra s não paravam de resmungar sozinhas. Só então se recostou e dormiu. Estás beirando a tua destruição. Tu nunca foste como os outros. recolhida num de seus passeios. acompanhando minuciosamente os sulcos o riginais. Um horror! Deram-lhe uma injeção antitetânica e colocaram-na direto no elevador. num sentido que ultrapassava a finalidade por que estava ali. indo e voltando umas dez vezes seguidas. escuta. não está? .Onde está a Blau? Não encontro o nome dela aqui. você não sabe? Foi transferida para a ala dos "Perturbados".disse pensativam ente. sabendo e não sabendo ao mesmo tempo o que pret endia fazer com ela.. As enfermeira s e as serventes da ala eram corpulentas.Essa vaquinha sofisticada nunca fez nada difícil na vida.e começou a pensar febrilmente. Alegre e s ilenciosamente. E o jeito sa rcástico de falar. . Vais sucumbir. Nunca achei que aquela guria estivesse realmente doente. Ao voltar ao presente.Foi na colônia que descobriu Yr pela primeira vez. você é psicótica. Sentou-se numa cadeira desconfortável e ficou escutando os gemidos e os gritos do Coletor. com o o metal.Ah. e os urros or iundos dos níveis mais baixos dos reinos de Yr. ou sentadas e deitadas no chão. Os médicos dizem que são todas doentes mesmo. Pássaro-um. Rasgou de novo o antebraço. apenas a sensação desagradável causada pela resis tência da carne. mas decidiu não contar isso à doutôra . .

na Ala D . no corre r dos anos. pensou Déborah.Déborah perguntou a Lactamaeon e seus pares. Tinha si do capaz de olhar para fora de si mesma o bastante para perceber outro medo idênti co ao seu. não é nada impossível que você venha a dançar 56 um dia e a viver no mundo de novo. sem esconder nada. a renunciar a seus privilég ios de soberana de um reino luminoso e consolador.O que foi que aconteceu? .exclamou a doutôra.É claro! Todos os meus parceiros de dança vão tremer de repugnância ao vê-la. De uma fonte de beleza e proteção. .respondeu impassível a auxiliar. douradas e risonhas. Yr se transformou em fonte de medo e dor. Os miseráveis me violentam todas as noites desde que cheguei . Déborah foi sendo forçada a mitigar.que estava sentada na cama discutindo sua estra tégia com a figura invisível do Primeiro-Ministro . Arranhei um pouco o braço. que davam à fisionomia de Déborah um estranho ar de truculência. Pouco a pouco. . os gestos aflitos e ansiosos. Você que se meteu numa grande encrenca. nem recorreu às mil e uma expressões desastrosas que as pessoas habitua lmente empregavam quando a surpreendiam perturbada. os cabelos escuros. "Eu poderia ter agredido essa moça até não poder mais. Não viremos abarrotar o local onde se reúnem os co nvidados dessa antiesposa anti-secreta do abdicante Rei da Inglaterra! Soltou um a sonora gargalhada. . rubra de vergonha. protegendo o tumor que ameaçava desp ertar ao menor estímulo. "É corajosa". Quanto mais profunda a solidão.Agora ela está lá em cima. para assumir a figura de pris . . nem escandalizada. Ia ao encontro das divindades. Déborah arregaçou a manga. Houve um tempo . como q uem vai ao encontro de seu anjo-de-guarda. rei que abdicara do Trono da Inglaterra. com seu sotaque engraçado. onde sua excentricidade.Meu Deus! . . Quando sobreviessem as perdas de visão. fosse na escola.levantou-se e veio toda compungi da para o lado de Déborah. Déborah notou que ela não estava nem assustada. Mostravase apenas absolutame nte séria.Isso vai dar uma cica triz horrível! . minha querida. onde a odiavam. Déborah sentou-se. trovejou Yr. verdadeiros príncipes com quem partilhava em segredo sua solidão. só isso. . e abordá-lo com a franqueza e a desinibição características do doente (coisa que ninguém da equipe médica conseguiria). Mostre o braço. ninguém diria: "O que é que as pessoas vão pensar?" Seja educado! Não faça escândalo!" Na cama vizinha à sua. dormia a 3ª esposa secreta de Eduardo VIII.perguntou a doutôra. a mulher . . E ainda deve ser vi rgem. maior o espaço que Yr ocupava em sua vida.Onde posso encontrá-lo a sós aqui? . que não procurou ri dicularizá-la. finalmente.Foi algo que eu tive que fazer. O corpo dela era miúdo. Sempre se dá um jeito.A doutôra reparou no olhar desnorteado e no medo. Dizia que tinha sido intemada (tratava-se de uma Casa de Prostituição) pelos inimigos do antigo rei. o que foi que levou você a fazer essa coisa aí. Decidiu então falar sobre Yr. Mas alguma coisa mudou. . não sabe? Já é hora de me dizer. O Abismo estava muito perto. Depois que a enfermeira trancou os objetos pessoais de Déborah na p equena cômoda embutida. olhando zombeteiramente para a auxiliar que ac ompanhava Déborah. meio cu rvada sobre o abdômen vulnerável e á região inferior.Olhe.Você é tão jovem para estar nessa casa de pecado.em que os deuses de Yr fora m companheiros.e era estranho pensar nisso agora . A doutôra encarou-a atentamente: esperava um sinal qualquer que denunciasse qual o grau de honestidade que ela estava disposta a empenhar na terapia. fo sse na colônia.disse ela e v oltou à sua discussão imaginária. a apaziguar e.Escoltada? .Mostre. as violentas dores do tumor fictício. ." Compreendeu num estalo o que havia afinal de reconfortante na Ala D: ali as pessoas estavam dispensadas de manter os falsos b ons modos. pacato e traiçoeiro consultório. .cóticos. ou o Abismo. saindo em seg uida do civilizado. ou de respeitar as incompreensíveis normas de conduta da Terra. só fez marginalizá-la.

onde germinariam. . Houvera uma troca de enfermeira-chefe na ala. mesmo assim. Descreveu com as mãos os movimentos agitados de uma onda. O encanto fez-se necessidade.Existe . mas que não passa de uma cortina de fumaça. que não conseguirão me intimidar e que nenhuma de nós vai deixar de trabalhar. O Censor fora incumbido de impedir que Yr espalhasse suas misteriosas sementes sobre a Terra. Com se não bastasse.Que linguagem você emprega quando desenha.disse Déborah. Após uma pausa. A dor violenta irrompeu do tumor e jogou-a ao chão. espraiou-se dentro dela. pessoal! Calma!" Es58 tas foram. a necessidade fez-se coerção.É uma linguagem secreta. Ala D. com jurisdição sobre os dois mundos. Estava pasmada. .Comentou ele. .No entanto. a coerção fez-se tirania imp lacável. só traziam desgraça e agonia. lembrando-se dê certas palavr as fascinantes que provocavam um retraimento imediato. . . trancaram a última porta de acesso à ala. a ter que arcar com as ofensas do mundo. . . Não dói nada.iri. expondo sua loucura para que o mundo inteiro. .E existe uma linguagem própria? . . Começavam a servir o almoço. O que vem depois é a decepção e.Você não pode usar a linguagem verdadeira o tempo todo? Déborah riu da pergunta absurda. como uma veia que se rompe. as últimas palavras que Déborah ouviu da Terra. não se preocupe.Bem. tudo se cobriu de trevas. Déborah tinha grande di ficuldade de falar. Uma vez empossado no cargo de guardião. Como um prolongamento do gesto. passou a ter que suportar as atormentadoras transições entre os mund os. mas depois de algum tempo. Faltavam duas para receber as suas. os do mundo. percebendo a ameaça e o pedido implícitos nas palavras da doutôra. no final das contas. Às suas cos tas. você imagina o que vai des enhar em inglês ou em iiri? .Você fez bem em me falar s obre seu mundo secreto.disse Déborah. quero dizer. .perguntou a doutôra.anunciou a doutôra gentilmente.Desculpe . começou a ouvir o marulhar de ondas em ressaca. Cuidado com essas palavras. A crise explodiu mais poderosa do que Yr. . foi se tomando aos poucos um verdadeiro tirano. . a ter que ser súdita e escrava do Censor. Yri é para dizer o que deve ser ito. são exatamente as mesmas. . ao contemp lá-la. . recuasse horrorizado.Você conhece o envoltório de lençol-frio? Vou providenciar um para você. Houve co mo que uma dobra no tempo. No início é incô o. Como está se sentindo? perguntava o administrador da. quando Doris.O inglês é para o mundo.Talvez eu sinta um pouco de ciúme pelo fato de você us ar essa linguagem exclusivamente para se comunicar com você mesma e não conosco. nos dias do alt o calendário. . o dia continuava dia. .Seria como dar a um vagalume a potência luminosa dos raios. desatou a rir. proclamadas em salmos pelo Coletor.ioneira das regiões mais tenebrosas de Yr. por hoje chega . uma me nina recém-chegada. . para comunicar decepção e ódio. Quero que volte e diga a esses deuses. .Você parece um bocado assustada . ficou reduzida às piores humilhações e desgraças nos do baixo calendário. acalma. Q primeiro segredo fora aberto e. ela se contorceu toda. Déborah voltou para o hospital com a auxiliar. por isso às vezes uso uma linguag em meio latinizada em seu lugar. voltou a ouvir a voz dele: . Enxe rgava mal também.Pratico minha arte nas duas línguas . você parece bastante competente no uso do inglês. Nenhum rugido de Yr. a prova irrefutável de que ele existia. floresc eriam e desabrochariam. ao Coletor e ao C ensor. 57 . Déborah encontro u na crueldade de Yr.disse a doutôra. O terror. cujas promessas redundavam em trapaças e cujas van tagens e privilégios. por mais poderosos que eles sejam. pois isso o igualava ao mundo. e a nova estava distribuindo colheres de metal em vez das de madeira. De rainha entre deuses. "Calma. por algum tempo. por incrível que pareça.

. em cuja pele as marcas deixadas pelo s lençóis só agora começavam a desaparecer: . o rela tório mensal aconselhava paciência. Aconselhava também que tivesse paciência. muito esticada e presa com ganchos nos pés da cama.Está se sentindo bem? . e pôs-se a conversar com eles. A resposta era uma tentativa. Estava surpresa por ter emergido de regiões tão fundas sem qualquer angústia. re cebeu a resposta desaconselhando a visita. imitando as tagarelices da nobreza. Déborah sentia se extremamente fraca. convertê-la no f ato agradável pelo qual tanto almejava.Não minta para mim! Você está falando com a antisecreta antiesposa do abdicante Rei da Inglaterra! . dias depois. num passe de mágica. lençóis esparramados por cima e por baixo dos panos que a envolviam como uma múmi a. atravessando o estômago e os joelhos. Est enderam outro por cima dela e esticaram-no firmemente. honesta se m dúvida. Mexeu um pouco a cabeça.Recuperou a consciência pouco depois.indagou Esther Blau. mas o importante é que tinha recuperado sua noção de estar no mundo. no único movimento possível. revestidas d e grades duplas. de reconfortá-la.Há quanto tempo estou aqui? 59 . . obrigando-a a expelir o ar. porém. Após um tempo que lhe pareceu eterno. e a assinatura era de outro médico. O homem saiu.Mais ou menos três horas e meia. Quatro horas é a média. firmemente retesadas.Um privilégio e tanto.respondeu Déborah mordaz. Claro que. 60 Perturbada. Em seu íntimo ansiava que a palavra. Apertaram. não para ver Déborah. já que o hospital julgava inconveniente. se ela e o marido julgavam necessário vir. os braços ao corpo. marcariam as entrevistas. Ressaltava. Tinha. mas seus sentidos continuaram embotados. Voltou a mergulhar na inconsciência antes que pudesse assistir ao final daquelas operações. então ele entrou e violentou v ocê. Esther voltou a escrever agora para a Dra. . Seu próprio calor aquecera os lençóis na temperatura de seu corpo. Foi difícil levantar e andar. A antisecreta antiesposa do abdicante rei da Inglaterra mostrou-se toda solícita: . hein! . um calafrio percorreu sua espinha. Lembrando-se dos gritos que escutara. entrou um homem. Passado algum tempo. e quanto mais quente. apresentou Déborah.Esta é a putinha sobre quem eu tinha falado a vocês. mais quente ficava o casulo. vindo daquelas janelas altas. sobre um lençol frio e úmido. .Pobre "vaquinha" Eu vi tudo que fizeram com você só porque não quis dormir com aquel e médico nojento! Amarraram você para que não se mexesse. no interior. Mas seus fantasmas vieram acalmá-la. Continuava embrulhada e completamente imóvel dentro daquele "casulo". As juntas doíam por causa da pressão dos lençóis. Aproveitou a liberdade para e studar a forma daquele casulo. Em sua linguagem impessoal e breve. o que quer dizer perturbada? . sobre os lençóis. outro de água quente no s pés. recupera do inteiramente o senso de realidade. largas e compridas.Virou-se surpresa. Insistia em sua ida. . Quanto mais se contorcia e se agitava. nua. contudo. No entanto. o administrador da Ala dos Perturb ados. e pressionando-a com força contra a cama. Estava exausta. zangada.Como? . . voltando a olhar o relatório.gritou ela. e presas nos dois lados da cama. com um medo que beirava o pânico. Fried . Por simples cortesia. Per cebeu vagamente que estava deitada numa cama. envolvendo seu corpo em outros lençóis. Se continuar bem. mas para discutir com os médicos a mudança. env oltórios eram lençóis enormes enrolados em volta do corpo: três superpostos como folhas brancas e úmidas. e o último prendendo. Só depois de ler e reler várias . Sentiu então que a rolavam de um lado para o outro. os fatos contidos ali não deixavam mar gem a dúvida. Imediatamente Esther escreveu uma carta para o hospital e. Horas depois. três correias de lona. tivesse mudado. Vestiu-se e voltou para a cama. que o aparente revés não constituía razão para que ficassem ansiosos. . soltaremo s você dentro de meia hora. menos energia lhe s obrava. Déborah emergiu do Abismo com suas percepções límpidas como uma manhã de sol . uma quarta correia. e o tinir das xícaras de chá. Um saco de gelo sob a nuca. vieram soltá-la. que alguma outra viesse modificá-la. repuxara m. . amarrando seus pés.

a estudante de arte . " Vê?" . o fato é que se realizou a morte anunciada por Lactamaeon. então. e depois a Morte. A primeira mudança. Está consumado! Mais duas mudanças e seus respect ivos espelhos e. sombrio e cinza. depois fica tão apavorada que foge para se esconder no pânic o ou em seu mundo misterioso. nem os espelhos. Concluiu que deveria impedir que seu medo. Uma pedra. as anunciassem . emaranhada em suas próprias raízes. Se foi cortar os pulsos ou vir para cá. . havia um vaso onde crescia um gerânio vermelho. No parapeito da janela. já previsto. conte-me como é o ritmo desses seus distúrbios Observava Déborah atentamen te. O espelho dessa mudança era a flor partida que vi anos mais tarde. e seu espelho.voltando da escola para casa.a imagem que fazia de um quarto de hospital . Eis o espelho da mudança.zangou-se Déborah. 'Existem flores num hospital. Aqui ou ali. com o talo partido.Pare com esses trocadilhos .e uma janela aberta que des cortinava um céu azul e luminoso. Ecoaram gritos." De repente . ao transportarem-na para casa.E ela começou a explicar como profecia e de stino. mas aquel e céu chuvoso. depois que outras sensações se cristalizaram entr e ela e o mundo. todos riam e brincavam. Lactamaeon sussurrou a seu lado: . Eu não sabia qual dos significados era. . Quando o tumor foi removido. para se tomar.Eu me pergunto se não há um padrão de conduta. Lá fora caía uma chuvinha fina. e em Yri a palavra que significa morte significa também sono. No carro. Era melhor resignar-se e esperar. . desfez-se no sonho a luminosidade do ar. não é? . A terra se espalhara em volta..disse uma voz no 62 sonho. Ocorreu-lhe que o cinza era. . loucura e o Abismo. ou seja lá o que for. a família ficou eufórica. Fried. A segunda mudança foi a humilhação que sofri na colônia. arremessada de um lugar qualquer. e seu espelho. Anos mais tarde. . interferiss em no que estava acontecendo com a filha.uma Déborah completam ente mudada. e o céu que se avistava da janela torno u-se escuro. sombrio e extenuado. amarga e cáustica . despedaçou o vaso e part iu a flor. ajoelhada no banco de trás. olhava o céu pesado e cinza. A segunda mudança ocorreu com a humilhação sofrida aos nove anos de idade. e havia uma flor vermelha. Ele falava em Yri. Déborah foi invadida pelo pressentimento de que algo ho rrível ia acontecer.Mas não a terceira. formavam a textura de seu mundo interior. .disse a Dra. Muitos anos depois. Lactamaeon veio a mim e d isse: Três Mudanças e Seus Espelhos. e força também.Duas das mudanças ocorreram antes que o deus. a cor de sua vida. onde flutuava uma nuvem branca compondo formas c uriosas. nem a mãe que cantava. Guar dou a carta e o relatório junto com os anteriores e não voltou mais a olhar para ele s. o episódio do carro quando eu estava com quatorze anos. não sei. Lactamaeon veio lembrar-lhe a revelação daquele dia. as ruas molhadas onde as pessoas cam inhavam apressadas. Você viverá e será forte.encontrou um vaso de flores caído e despedaçado na ru a.começou Déborah . sono ou loucura. foi sair do hospital e voltar para casa depois da suposta extirpação do tumor.vezes a carta. ou o de Jacob.Um dia . teve um sonho: um quarto br anco . pa lavra que soava como um suspiro de desesperança). fez com que a profecia se tomasse realidade. e ambas riram. levantando a gola dos capotes para se protegerem da chuva. A terceira foi justamente a mudança para a cidade. tentando penetrar na61 quele mundo que já fora um esconderijo fechado sobre si mesmo. Déborah.Pois bem. . A realidade não era o carro. uma tirania cujos tiranos tinham que ser incansavelment e aplacados. Imorth (palavra que significava morte. entretecidos. Já freqüentava .Você expõe um segredo a nossos olhos. . Antes mesmo de ser intemada no hospital para a operação. e seria sempre. isso sim eu sabia. . Esther conseguiu isolar suas implicações mais sutis. como uma mensage m cifrada. tampouco a animação do pai. de r epente.Vê! Vê! A mudança sobreveio.

Quando ele a alcanço . . Abandonou a luta. Déborah riu por dentro ao deixarem a casa antiga. surgindo um outro tempo. o mundo fora capaz de retê-la horas e horas a fio. e a filha enc ontraria amigas de sua idade. subitamente. enfim solitária consigo mesma. a segunda mudança. Lactamaeon. Em meio à algazarra que faziam. O que é que você tem a dizer agora? . Claire se limitara a ouvir e concordar. voarás livre na melodia do vento. Déborah perce beu o erro. a qualquer desonra!" Não dissera o nome. lutando ainda contra o que julgava ser a injustiça de lhe imputarem um estigma de nascença. Tinham se habituado à hostilidade que fervilhava na vizinhança antiga. mas só encontrou o deslumbrante mosaico de folha s entremeadas de raios de sol.Nada! . O espelho. O direto r da colônia lançou-lhe um olhar severo: . o estigma fatal relu ziria com brilho ainda maior. vinham todos em sua companhia. de forma também inesperada.Quem disse essas palavras a você: "Nós não passeamos com judias fedorentas"? Claire ou Joan? Era natural que. ouviu uma voz vinda de alguma parte. nada mais pode ria contê-la: como se afirmava em Yr. além de a ridicularizarem. Finalmente teriam casa própria. então. co m suas exigências absurdas e grosseiras imprecações. A humilhação foi. Na cidade. Anterrabae. todo opróbio. Déborah. houve novamente uma dobra no tempo. e os próprios impasses se tomariam mais claros. mesmo que um apartamento. surda e invisível para si mesma. acenderam uma fogueira. a mesma voz. se revelou numa outra situação em64 baraçosa: um professor de ginástica que a pusera em evidência com um comentário desdenho so sobre sua falta de jeito. daquelas que as pessoas lembram anos depoi s com nostalgia e saudade.afirmou. Enfi m não poderiam mais atribuir o velho ódio e a solidão ao fato de serem judeus. não disse mais nada. Logo no primeiro dia. Não lutes mais contra as mentiras deles. o no vo desprezo e a nova solidão de fato sulcaram fundamente regiões virgens de seus sen timentos. ce rta de que a ruína os acompanhava inexoravelmente. denunciou duas meni nas que. Só quando Claire foi chamada e negou calorosamente ter dito tal coisa. vítima de dores falsas de seu tumor falso.a colônia de férias havia três anos. quando Ant errabae chamou-a para abandonar o grupo com que estava dentro de um carro.Claire . Uma tarde. as primeir as e cristalinas insinuações do que viria a ser Yr. Reencontr ou-a mais tarde. sacudirás tua crina e expulsarás toda vergonha. Mas o nascimento dos deuses. O ód io que as pessoas extemavam no mundo.A sensação de ruína se avolumava dentro dela. Podes ser u m cavalo selvagem. Déborah confundisse os nomes e as fisionomias da quela multidão de meninas. ao erguer os olhos para a noite estrelada. És diferente . Na cidade. Esther ficou contentíssima com a idéia. À noite. se deu conta de que desperdiçara mais um dia. . inaudível para os que caminhavam a seu lado. porém. Via-se em seu espelho. a partir de agora. dessa vez. Ficou esperando que a voz falasse de novo. voltava do consultório de um médico. se tinham recusado a passear com ela. revivendo o clima de amizade e a inocência da juventude . Tu és um dos nossos. obrig ando-a a fazê-los parar imediatamente para que saltasse. inesperadamente provava a veracidade de Yr. o Cen sor e o Coletor.Claire nega. pouco antes de seu décimo sexto aniversário. em vez de feri-la. agora ela pertencia a outra vida. no primeiro dia. A violência do impacto fez com que ela despencasse no Abismo: três dias de pesadelo. mencionando uma "mentirosa" que há em nosso meio e que usa sua confiança para obter compaixão e envolver meninas inocentes em d ificuldades. dizendo. De modo inexplicável. uma pessoa entre nós capaz de 63 se rebaixar a qualquer maldade. portanto. relegaram-na a segundo plano. Pr ocurou saber de onde vinha a voz. onde um policial a perseguia. Na colônia de férias. sua ausência a entristecia. Dias depois. mas todos sabiam quem era. podes ser nosso pássaro. como num poema: Se quiseres. A terceira mudança foi justamente a mudança para a cidade. O diretor proferiu um exaltado sermão. ricamen te modulada. porém. d izendo-lhe num tom suavemente fúnebre: Tu não és como os outros. a culpada era Joan.

os códigos e os sacrifícios expia tórios não passavam de expedientes que ela manipulava para sobreviver num mundo anárqu ico e opressivo. Era tarde demais para não ver. colocada entre duas verdades conflitantes. no entanto. mas isso não impede que outro grupo se forme em meio a outros grupos . pelo menos eu acho. um de meus nomes em Yr é A Etema Decepcionada. Uma pessoa que precis demais de ser encantadora e bem sucedida em tudo.Déborah sabia. aco stumado à escuridão e protegido por cílios cerrados. Depois da questão do tumor e do anti-semitismo da colônia de férias. apesar do amor e das experiências compartilhadas durante tantos anos. mas pelo menos estar maluco é estar em algum lugar.todos os mundos secretos . Sobreveio uma grande paz interior. inexoravelmente. aind a que o olho quisesse ter renunciado a ela. Inclusi ve.Encantadora. há mu ito tempo atrás.A doutôra inclinou-se para a frente na cadeira. Abrira a mente para as palavras delas. Ahh! . que talvez a doutôra tives se um pouco de razão. a grande desvantagem de estar mentalmente doente é o preço terrível que se t em de pagar para sobreviver. e não orgulhosa. seus passos obedeciam ao ritmo lento e gr ave das batidas de um tambor.Ergueu-se num pulo. que sinceramente acreditava explicar suas motivações. . ofuscado por ela. tão logo pôde.as linguagens. . O que a deixava admirada era com o divergiam. que encobriam numa região muito mais funda o ardente desejo de viver. enfiou-se por um edifício a dentro pa ra despistá-lo. . Fried foi à cozinha preparar um café. . sabe. perguntou-lhe o que é que tinha acontecido. eu me pergunto se a sabedoria deles não chegou um tanto ou quanto atrasada. Todo o am or dado por Esther foi reinterpretado por Déborah. Em matéria de decepção sou especialista. pemiciosa e maligna solidão. ansiosa por encontrar um lugar qualquer onde pudesse estar c . todos os olhos humanos não serão espelhos que deformam? Via-se. . Déborah garantiu que não era nada e. . . embora afastasse 65 e assustasse as pessoas.u. afinal. se fecha tarde demais. despertando sua atenção e ao mesmo tempo. murmurou para a xícara vazia diante de si. . Uma linguagem secreta que camufla va uma ainda mais secreta. ao reparar que o café estava fervendo e tra nsbordando do bule. e era por isso que se sentia martirizada. exatamente como Lactamaeon profetizara. Sentiase.Ela é competitiva.A um preço terrivelmente alto.Não! Não! . uma certa sen sação de velhice e frustração A mãe era formidável. Espelhos e mudanças! Po r acaso. que se abre cautelosamente à luz e. Só pertenço a Yr! . . Sentia ganas de dizer aquela garota de olhar aturdido que a doença. .Sabe. e estes por sua vez. Se a filha se julgava condenada .bom. mas você não pode deixar de pertencer a outro grupo. E dominadora. a Dra. .Não pertenço & ninguém aqui! Nem a você nem ao mundo! Anterrabae me garantiu isso. pela enésima vez. . pois já não era mais necessár io lutar e resistir.Mas eu ainda não tinha certeza. tal como um olho...Visto que duas das três mudanças ocorreram antes que os deuses começassem a existir. com aquela exclamação familia r no idioma de sua infância e juventude. . deve ter começado a solidão. As três mudanças e os três espelhos. 66 O bule de café começou a vibrar. A luz penetrara. Quando saiu de novo à rua. como nunca se sentira antes e.. terreno propício para a doença mental. . pela primeira vez .Exatamente. devia achar que a mãe sabia e que lhe dedicava compaixão em vez de amor. de que estava correndo tão apavorada. Déborah retcomou à ala. Um mundo que dissimulava outro mundo. . . embora o seu amor seja sincero. Agora dispunha de um letre iro para mostrar. Sintomas que re sguardavam sintomas muito mais densos (era cedo para devassálos). Déborah estava vi sivelmente exausta do esforço que lhe custara a revelação de todas aquelas coisas.. "em casa" na Ala D. como um ente reconhecível e definido: uma das loucas. Terminada a sessão. era antes de tudo uma forma de ajuste. que os mundos se cretos . Pergu nto-me também se eles não decepcionam você apenas para se sujeitarem à própria visão que vo formou do mundo. Aconteceu! Finalmente Imorth chegou! As batidas so avam longas e calmas.

dese68 java que as pessoas fossem mais loucas e mais estranhas do que na verdade eram. escolhiam como alvo sempre o mesmo homem. O soco de Lucy Martenson penetrou nos processos mentais do Sr. enquanto o pé dele ia de encontro a Lee Miller .Quero que você me dig a. Todos os hospitais de que ouvira falar abrigavam multidões atomizad as de indivíduos que tinham rompido inteiramente seus vínculos com os outros grupos e instituições do mundo. pois. Sempre estimulava o que havia de com . . nunca apedrejá-los. e nós não saibamos. Todos aprendiam a ser "civilizados". suas inclin ações.. seus desejos semicontidos. mas pelo moment o.. meu caro. esperando que algum auxiliar tropeçasse em seu pé para q ue mais tarde pudesse dizer. embora o hospital. Outros. O administrador da ala foi obrigado a interrogar todo mundo.bom..protestou ele com severidade. Associada. parodiando santo Agostinho: "Bem. estava a total inabilidade de usálo de um modo consciente. Ali. Queria que os doentes fossem iguais a ele. n um único relance. Livre-arbítrio. para que ficassem bem demarcadas as fronteiras existentes entre ele. era uma pessoa forte e até mesmo feliz. às vezes Hobbs se comport ava de modo um pouco brutal. secretamente saboreado. Quanta esperança! Não por ela. . e nunca olhar para os velhos na estrada. uma esperança que envolvia seu próprio sucesso como médico. No entanto. por sua vez. Só que essa crueldade estava além de sua compreensão e de seu controle.ompletamente só. jamais beiravam sequer. livre-arbítrio. Até os mais inertes e os mais desvairados deram um jeito de afetar o maior desdém e distorcer propositalmente as perguntas. abriram um inquérito. nem encarava com simpat ia a avidez e a ambição que lia no rosto do médico.Ora vamos. Déborah . Hobbs vinha pelo corredor e então começou a briga. com a pema bem estendida. melhor se sentia. as pessoas mal conviviam umas com as outras. Alguns pacientes de sua ala viviam imóveis. isto é. . e qual a d imensão e a influência dessas fraquezas. não fui eu quem mandou usá-lo. como bonecos sem corda. No dia seguinte.perguntou o médico a Déborah. Não pelos pacientes. Déborah assistira à luta estirada no chão . caso o btivesse a resposta quando outro certamente teria falhado. McPerson. como se tendências autodestrutivas a temessem. . Ela compreendeu a intenção do bri lho nos olhos dele. a esse poder de discemiment o. houve uma briga mais violenta do que o normal. como a prostituída Esposa do Ex-Presidente Assassinado. nunca rir d e aleijados. que 67 acabou degenerando numa verdadeira batalha campal. porém. Um dia.. foi uma briga marav ilhosa. porque era uma extensão de algo que existia dentro dele. Morria de medo da loucura com que convivia. por exemplo? Talvez Hobbs seja grosseiro com as pacientes. seus a ndares e suas alas estivessem apinhados de gente. mas ninguém quis usá-lo. desli gados da "realidade '. a solidão era um estado ambíguo. a sós com ela na sala de estar. Os pacientes se orgulha vam de afirmar seu não-envolvimento. o que a fez sentir-se extremamente importante. pacientes e funcionários saíram c ontundidos e ensangüentados. nem muito barulhenta nem muito calma. Realmente. Aliás. e a loucu ra dos pacientes vicejando e explodindo às claras. e quant o mais próximos estivessem. mas pela resposta. seus pensamentos gratuitos. mas isso era o de menos. Meu pé também estava estendido. já resol vi o problema!" Déborah sabia por que Hobbs e não McPherson. o pé estava já. . como Déborah fazia. em que pudesse afirmar taxativamente: "Ah sim.Como começou? . . Déborah presenciou um auxiliar ser agredido pelos pacientes noite após noite.. onde residiam as fraquezas de uma determinada pessoa. mas quando se tratava de imperfeições invisíveis eram impied osos: penetravam com olhos argutos e escutavam com ouvidos afinadíssimos os segred os e as súplicas íntimas dos "sãos". Por iss o mesmo.. a realidade terrestre. A maioria dos pacientes dispunha da habilidade quase sobrenatural de discemir. mas não ia dizer. aparentemente. O administrador da ala interrogou a todos sobre a briga. Os agr essores eram invariavelmente os mais doentes da ala: refratados ao convívio. por um lado. Hobbs. improvisava m seus próprios reinos e. Cumpriam à risca esses mandamentos. Por que é sempre Hobbs e nunca McPherson ou Kendon.

O médico. era por ele recebido de braços abertos. O médico se levantou para ir embora. e Déborah concluiu que o pulso quebrado de Hobbs. Não havia injustiça alguma. Helene. Cerca de uma hora antes da entr evista com o médico. os agressores e ram mais favorecidos do que os agredidos. não há dúvida.Eles vão arrancar tudinho de você depois. olhando de relance para o cozido. que Helene pretendia apenas comer na sala. outra doente.Minha querida. Por entre a sujeira que escorria de seus cabelos e do rosto.recomendou a Esposa do Abdicado. . uma terceira com um dedo quebrado.perguntou o médico.Não quero .Já comi isso. onde havia sol em abundância. e eles.Olhe. soufflé.Seus gritos atr aíram os auxiliares. que vinha com sua b andeja de almoço para a sala de estar. Helene. "Relevez. sutil e cautelosament e. Limpou a sujeira e foi para a cama. não tem havido injustiça alguma.A Esposa do Assassinado encarou-a com severidade. Os pacientes.Volte para seu lugar. Notou que estava furioso e desapontado p or ela ter contribuído para frustrar suas intenções. Foram rudes com Helene ao subjugála. conversando com bastante clareza.. sem se mexer.um entre ele e os pacientes. Déborah compreendeu num estalo o motivo da agressão. mas o importante é que se ocupavam dela. você nunca achará um homem! . vinha apenas adiar. . -A afirmação pareceu ao médico um tanto enigmática considerando-se que o saldo da briga fora uma paciente acamada. quando o mundo subitamente explodiu numa avalancha de comida pegajosa e quente. Helene 70 abordou-a e.Num único e gracioso gesto. mostrou-lhe algumas fotografias q ue recebera dentro de uma carta. Déborah ficou sozinha no meio da desordem.Não me machuque. De repente. sem ser exigente. duas enfermeiras com olhos rox os e contusões faciais. Não me machuque! Eu sei que você é forte! . querida . ela recuou o pé. o trigo. o dia em que el e acabaria num hospital psiquiátrico também como paciente. concertando a roupa e tentando faz er o mesmo com sua pose. ainda que ela parecesse mais uma máquina d ebulhadora. tão distantes do mund o. Não conseguira fazer com que falasse além do que ela própria queria.O que foi que você disse? .Até logo Helene. Déborah apreciava. Devido à confusão. a beleza daquele baile. Não estavam. por algum tempo. e com um movimento delicado e preciso. para subjugar a estranha bailarina. que logo acudiram. . se limitavam a dar a cada h omem o que este realmente desejava. fora servido enquan to conversavam. no final das contas.respondeu Déborah. . como em toda parte. mas ao reparar bem na expressão dela viu que não se tratava de sol. . assim. encarando-a com severidade. atraí-los. Costumava ficar em reclusão num quarto. Déborah pensou. .. e o menor sintoma positivo que se manifestasse. arremessou a bandeja direto sobr e a cabeça de Déborah. preocupavamse com ela. já fr io e meio comido por uma paciente que dormia junto à janela. com braços musculosos e fisionomias contraídas de medo. ordenou: . arraste-se. outra com fratu ra na costela. que veio sentar-se em sua cam a." Ouvia-se a recalcitrante sendo conduzida numa cama para o casulo gelado. O almoço. Déborah rogou mentalmente algumas pragas contra aquela balbúrdia. de início. faça a guerra! . implorando num tom bem diferente de su a fala pausada e profissional: . O médico saiu afobado para ajudar a debelar o tumulto e os gritos que vinham de um dos qu artos dos fundos. . volve u o braço. . procurando. Virouse para o adminis69 trador e viu-o encolhido contra a parede. onde a aguardava o seu almoço. Déborah murmurou: . com ess a aparência.Deu as costas e voltou à sua conferência imaginá ia. Déborah ficou impressionada com o núme ro de homens para uma mulher tão pequena.Coma. Ali. afinal.Eu disse. teve que esperar meia hora até que um auxiliar viesse destrancar o banheiro para que se limpasse um pouco. a porta bruscamente a berta fez com que ele se voltasse. pois era . ao que parecia. examinando-se para ve r se sangrava. Déborah não se conteve: . Era Helene.

Fr eqüentemente. agarrada a ele como a um escudo. Certa vez.. Passava os dias sozinha. E aparecia na forma de uma antipatia intensa. a vida continuava sombria e o desespero só fazia crescer.Filósofa! . não sei quantas vezes. aproximando-se cada vez mais . desen hando sem parar. .Surpresa do inevitável? . e foi para o corredor. sua fama de mulher violenta e obscena. sofro o tempo todo com a imi nência dessa destruição. terra de ninguém. sem saber por que pedia desculpas. com as pancadas que se repetem sem parar.". .por mais inevitável que seja. Carregava o bloco por toda parte. apesar-das-lições-de-boas-maneiras.mas o que se passou na sua vida nesse meio tempo? . ao passar por um grupo d . a porta tinha ficado aberta e ninguém reparou quando el a foi procurar Déborah. Fried .e a gente acaba se conformando com a sombra dela. contudo. e pediu: . Não permitia que alguém visse seus desenhos. que figurava no mundo real. .Tentei. nunca mais vou defender você sem que eu soubesse o que tinha f eito ou dito.O que é que você sentia nestas ocasiões? . pensar. só essa destruição terrível. . essa antipatia se transformava em ódio ou aversão.. . jogou-se na cama. Ora. "depois do que você fez. tudo parece se resumir em ódio: o mundo. não entend ria nada. . 71 . . até que se deparou com um determina do retrato e disse: .. você tinha que preparar as decepções por sua própria conta.Você tem certeza de que não está omitindo nada aí: algo que você era levada a fazer e qu e enfurecia seus amigos? .Depois de algum tempo. Conhecendo seu temperamento explosivo. a escola. demitiam-se uma atrás da outra. Nesse dia. Caso contrário. ou "depois d o que você falou.Vá embora. a auxiliar encontrou Helene e mandou -a voltar para seu quarto. apenas uma sensação meio cinzenta e a surpresa do inevitável. A me nor! .Referia-se a uma menina simpática. Helene tirou bruscamente a foto grafia de suas mãos. estou cansada.murmurou Déborah para si mesma. tirando um pedaço de comida grudado no c anto da orelha. Um belo dia.Não. Eu nunca soube por quê. Na escola as coisas eram mais verdadeiras. nem descobri o que tinha feito. não é verdade? Déborah recordou-se de uma cena ocorrida numa época em que sua vida consistia unicam ente em esperar o fim inevitável.Temos as mudanças e temos o mundo secreto . durante os quais virava uma verdadeira fera. a colônia de fér as. não. aproximando-se.ponderou a Dra. numa traição à sua máscara agressiva. Mas a razão disso eu não sei .Imorth . nem escutou as pequenas confidencias que trocaram a respei to das fotografias. Compreendia agora que o motivo da agressão era querer desacreditá-la como testemunha da vergonha e da miséria lembradas por aquele retrato. imaginar. e e u sempre tinha que "pedir desculpas".Essa aí fez faculdade comigo.perguntou e sentiu que o terren o começava a ficar perigoso. Embora já tivesse saído da colônia anti-semita. Estiveram juntas assim durante um bom tempo: ela ia indicand o um ou outro personagem. As pessoas chegavam para mim e diziam.Onde não existe lei alguma. cumprimentei minha melhor amiga e ela me virou as costas. terra de pesadelos.Na escola támbém havia anti-semitismo? . Pouco depois. Era preciso manchar o espe lho para que deixasse de refletir a recôndita vulnerabilidade que transparecera su bitamente. As empregadas não paravam em casa.Quem sabe não é porque você mesma procura as pancadas e os sustos nesse mundo? Isso quer dizer que eu mesma preparo as decepções? .É difícil abordar esse período. . lembrar. vindo das mais ines peradas direções 72 .temida por seus acessos de fúria e violência. A hostilidade visava só a mim. Quando fui pergu ntar a razão. ela se voltou e disse: "Depois do que você fez?" Nem falou mais comigo . Déborah apressou-se a sair de seu próprio dor mitório. explicando quem era. Não faço a menor idéia.

pássaros.Guarde isso para mostrar em suas conferências aos médicos eruditos. Tão graciosos! Olhe.isto é. e todos exclamam: " Que menina de sorte. A doutÔra. mas a que preço? . entregou a folha à doutôra.. banindo os sinais de excitação. um de seus desenhos escorregou do bloco sem que p ercebesse. o rapaz estava implorando que você não a repudiasse e. a menina tem todas as regalias.retrucou a doutôra. Confesse. . e a destruição que ela própria tramara se consumaria. em pânico.Ei. vamos. não.Não! Ao encará-lo com mais atenção.Está vendo . . . Diga a eles que não é preciso ser saudável par a entender de perspectiva linear. foi até a escrivaninha. apanhou uma folha de papel e começou a de senhar uma réplica às acusações que todos pareciam lhe dirigir. . . . gritar. eu tinha ódio demais arrolhado dentro de mim.Ora. não é meu.exclamou Déborah sarcasticamente. uma excitação inig ualável.Não é seu? . .Deb. . .Oi. o Coletor.até chegar a Déborah. aguardando pre74 guiçosamente o encontro com Anterrabae. até cair de tão rouca. com suas recriminações intermináveis. Os pássaros usam os cabelos dela para construir seus nin hos e para polir essas coroas. não haveria mais para onde fugir: teria que encarar a si mesma.Não. acho que vou guardá-lo para me lembrar. isso sim.e jovens que brincavam e riam. Sentiu que brotava dentro de si uma grande esperança e. apena . Déb. estava sendo travada com determinação. Fora-se a antiga apati a. cheio de figuras estranhas. cetros. correr e voltar-se. Fried viu sua paciente correr e voltar-se. mas há símbolos aqui que você precisa explicar. Encarou a doutÔra. que viria a cul pá-la. Agora a batalha. A responsável pela mentira foi você mesm a. e é com os ossos dela que eles dão brilho no cetro. Entreolharam-se e sorriram.assumisse a punição . Ergueu os olhos para Déborah. quando viu Carla vindo pelo corredor em su a direção. . . Caso a mitisse que o trabalho era Seu . tudo o que o dinheiro pode comprar. . O rapa para ela e perguntou: . não é meu! . com ela. Foi você que imaginou que eles ririam.concluiu ela com amargura para a doutÔra . o riso dos outros.Não. E la possui a mais bela das coroas e o mais pesado dos cetros. Coroas.eles me fizeram repudiar m inha arte.. .. Era um desenho intrincado.Vejo claramente a raiva. Queria assumir o papel de benfeitor. ele a defenderia. . apesar da doença. onde posso gritar. na verdade.Mas Déborah. As pessoas do grupo negar am uma a uma . D entro em breve. . ning uém riu. O eco emitido de regiões tão profundas testemunhava a saúde que sobrevivia em p otencial dentro da menina. para evitar que Déborah se danasse de vez e partisse para querer provar que seu Yr exi stia. ao mesmo tempo irritada e assustada: 73 . todo mundo a censurava Desenhou furiosamente por algum tempo ao Terminar.perguntou o rapaz apanhando a folha. eu não. Decidi vir para cá. quantas coisas ela tem!" A Dra.É seu? . o que é isso? quem deixou cair? .Quantas vezes dizemos a verdade e morremos por causa disso! Ergueu-se furiosa. de que a força criativa é suficientemente vigoro sa e profunda para germinar e florescer. Déborah percebeu que ele só estava tentando ajudá-la. Sabiam que a D não era em absoluto a "pior" ala.. Carla! Não sabia que você estava aqui em cima. . não é meu.eu não.Estes são rouxinóis. Carla parecia exausta.Mesmo assim. pelo menos. Recompôs a fisionomia.Depende do tipo de perspectiva .Coroas e rouxinóis! . . . . Déborah estava sentada no chão da ala.

.Mount Saint Mary. No meio da zoeira. Anterrabae exclamou: "És)orça-te para que algum di a saias e Vivas. Nós nos conhecemos em Concord. até que ela perdeu a paciência e disse: . Agora ela está vivendo lá fora e trabalhando. e continuava doida varrida. por mais que negassem. Doris passou por lá. Ficou aqui durante três anos. no momento em que a trancavam. tremiam de medo do demônio.Pô. guria.Baixo e mei o magro? Olhos azuis? Engole os erres? Ele levanta a cabeça assim? . q ue agora lhe pareciam dificílimas. Reviu as ações mais simples e mais triviais. Era veterana em todos os tratamentos de que já ouvi falar. Mas. as pessoas sussurravam seus sintomazinhos e to mavam sedativos e estremeciam de alto a baixo a cada barulho mais alto. mas estavam livres das sutis e traiçoeiras correntes da loucura clandesti na. ouvindo o Coletor que recriminava suas faltas em salmo s intermináveis. em que as pacientes ficavam contando lances passad os de suas vidas ou trocando os boatos que corriam. Os ociosos e os marginalizad os expressavam desse modo. conheci Doris quando esteve aqui na D. Esforça-te para que algum dia saias e trabalhes e te tomes uma pessoa! Trem eu de medo. . . .Tive uma amiga que foi da sete. o instinto que clamava por alg um vínculo de participação no mundo. Déborah ficou no seu canto.Em Concord? Em que ala? . Assim. contra a porta da ala. O mundo exterior e os seres que lá viviam eram absolutamente estranhos para ela. mergulhando de novo em seu transe. . uma agon ia exposta ou desesperos violentos. como um touro cego. tão logo as bandejas do jantar foram retiradas .Escutem. . Meninas dizendo alô. caminhando juntas. Será que realmente alguém saía? Será que alguém poderia apontar uma pessoa bem sucedida . enquanto beiravam o Inferno. Agora vão para o inferno! Quero ficar sozinha! As meninas se afastaram e se dispersaram pela sala de estar. . entrando sem medo na esco . como se ja76 mais tivesse comido com eles nas mesmas mesas. nas alas A e B.Para lugar nenhum. como uma série de ima gens instantâneas. . As pessoas. Lee Miller coçou a orelha pensativamente: . A incredulidade foi geral. Ela disse que aquilo era um verdadeiro manicômio . Estou me lembrando.Hesketh?. 75 percorrendo o corredor como se acompanhasse em transe uma procissão. .Na cinco e na dezoito. .Jessie esteve lá. quando c hegavam lá.. era preciso conservar um status e respeitar certos simulacros de formalidade. que passava por elas. reduzidas a uma única dimensão. Doris Rivera. um cara mais pirado do que os pacientes.Onde você esteve antes? .Quem é? . Retcomou a caminhada.uma pessoa para quem esse lugar fora um meio e não um f im? As perguntas choveram sobre Lee. . Só que o mundo agora era povoado de psicóticos e limi tado por muros e por alas.. . banheiro. corredor e pelas camas.s a mais honesta. ou participado do perene ciclo de vida e morte a que estavam sujeitos.Ah.Para onde mandaram ela depois? . Veio a noite. descobriam que o demônio não passava de mais um entre tantos.Crown State. e ninguém em p articular. Formavam-se às vezes grupinhos.perguntou Helene. Nas outras. A Esposa do Assassinado empreendeu uma de suas tent ativas mensais de fuga: investiu de cabeça. se era! O chefe lá era Hesketh.. foi antes de seu tempo. .Filho da mãe! Fui espancada por ele no Mount Saint Mary. . mas não sei a fórmula do sucesso e não vi mais a Doris desde que ela saiu! Sei apenas que está lá fora e tem um emprego.O próprio. As "Perturbadas" podiam estremecer nas bases sempre.

aos atordoantes lampejos de deuses e rostos do Coletor. mas perdera inteiramente o senso de direção. e nem sentiu o primeiro choqu e gelado do lençol úmido. Carla cont . . o que despertou nela o desejo de vê-las. Puseram Helene e Lena no quarto ao lado . tentou chamar a atenção. e compreendeu a fotografia da bela colega de faculdade. . Tenta! Afastou-se d eixando uma aragem que cheirava a coisa queimada.a voz de McPherson. deus a raramente vista. já! Déborah esperou. ou a neve de inverno. volta para o mundo com aquela tua famosa doutôra? Rosnava o Censor. com um gesto imperceptível de mãos. sendo cortejadas. Alguém dizia ao fundo: .. Déborah avistou. deixando a realidade voltar aos poucos. O que há? Não conseguiu responder. McPherson olho u de soslaio e parou.Déb?. Deixou-se ficar respirando. chama! Anterrabae soltou uma gargalhada.Deb? É você? . quase que agradecida. até o final do corredor. como num desenho animado. Só muito tempo depois recuperou os sentidos. Você pode andar? Ensaiou alguns passos. vou ped ir ajuda.disse Carla. onde o casulo aguarda va já aberto. Lembrouse de Helene.Agüente firme.Déb. . Estava tudo branco: ou eram as enfermeiras.atraído pela veemência de sua expressão. Vai. em certa medida.Déborah.la. Desmoronou nele. O tato também s umia. Déborah. sentiu. Logo estaria longe. Você está conseguindo me ouvir? . os movimentos quase esp asmódicos de sua mão. escutando sua própria respiração e. Débora se aproximou.. .Quem foi que pegou o turno da noite? . .Eu também ainda sou novata aqui. . Lee Miller está com um ataque histérico.Quanto tempo durou? . finalmente. Tu não és como os outros! Gritou Lactamaeon do fundo de Yr.riram um pouco. Passou a enxergar tudo cinzento e a ouvir muito mal. eram amigas. Sentia m-se contentes de estarem ali jun78 embora fossem incapazes de admitir que.Preferia que fosse McPherson. soltou um longo suspiro.O que foi que aconteceu? . Uma voz chamou a seu l ado: . avisou. plano e em perspec tiva reduzida.O que há com as meninas essa noite? . vou chamá-lo.Você voltou a si um pouco depois de mim. Tiver am que conduzi-la. Avolumavam-se os murmúrios oriundos de Yr. Idiota! McPherson passava diante dela. namorando e depois se casando. em meio ao intenso odor de éter e clorofórmio que emanava do Abismo. .Sei lá! . Em meio ao ensurdecedor burburinho de vozes.. en tão.Hobbs.O tom denotava uma clara aversão. a figura de McPherson chegando pelo corredor. Vá. mas não cons eguiu falar. .Eu mesma. no tom p rovocador e mordaz que empregava quando as coisas pioravam muito. o cheiro de pessoas. . disse: 77 .perguntou Déborah. Sussurrava Idat. O pavor crescia à medida que seus sentidos iam deixando de obedecer à sua vontade. Todas as outras mães estão orgulhosas de suas filhinhas! repetia o Coletor. .McPherson procurou de novo se comunicar co m ela: .muito piores! O momento agora é para te esconderes e ficares escondida. O máximo que conseguiu foi gesticular timidamente com o cor po e com as mãos.. Percebendo que ela estava em pânico. . Conversaram durante um bom tempo. apoiada em alguém. que podes ficar abrindo segredos e continuar segura para sempre? Há outras mort es além da morte . . da angústia que a impelira a destruir o rosto visto. chamada também -a Dissimuladora. querendo protegê-la. não tenha medo. .. Pouco depois. Cambaleou. Achas. mas a ala está mesmo uma l oucura essa noite.Essa noite só? . Volto já. retorcida de um modo estranho por causa da tensão nervosa.Carla? . a realidade tátil de seu próprio corpo e de suas roupas se tomava extremamente tênue. Meninas graciosas.

A carne já está cozida? . a realidade.Minha doença.O que foi que houve? . uma amargura recente mas que já se tomara familiar.ponderou Carla.O que disse sobre Doris Rivera talvez. quase chocante. virou a cabeça para a parede. . mas não me magoou! .perguntou Déborah. Ouviu-se. . começou a seespreguiçar.Perdoe-me pelo que eu disse. que ficar "boas" e volta r para o mundo. uma amargur a que encobria uma velha e contundente palavra: Verdade. De onde estava.Não. A gotinha que você pingou já se p erdeu na inundação.voltei a ser o que eu era lá fora: uma montanha imóvel que guarda um vulcão dentro de si. .. . e o tom de voz foi subindo. Piscaram os olhos ofuscados pela claridade. . Reagi para me proteger.. nesse novo contexto.Estou apenas verificando .ou que tinha escutado uma das sessões de Helene com seu médico. "Meu Deus .Ainda está bem alta .. identificada de início por meio de palavras Yri. Déb. cujo contato na nuca lhe lembrava a realidade.declarou para o auxiliar que entrara atrás dele. acendeu-se a luz.Carla. não lhe trouxe alívio. . Doeu de novo. Déborah começou a lutar contra o casulo..Foi sim! . E nós ficamos assustadas porque algum dia teremos..gracejou Carla num tom amargo. choramingando e cont orcendo-se dentro das amarras que a imobilizavam. subin do.Ela ficou boa saiu e agora está trabalhan do. morta de vergonha. Estou aqui apenas para ajudá-lo. Naquele instante.berrou para Carla. o único som audív el eram as suas respirações. o coração de Déborah martelava. sessões que se realiza vam na própria ala por causa da violência de Helene.concluiu reaprumando-se ao lado de Carla. Por alguns minutos o peso do silêncio pairou absoluto sobre as duas. Déborah. podia ver) na cama vizinha o corpo mumificado e imóvel de Carla. em seu íntimo.insistiu Carla com convicção.. 80 .Doris Rivera! Aquilo despertou.. .perguntou Carla na escuridão. seja verdade. . a voz de Carla e. sentindo a costumeira dor nos ossos dos pés e dos joelhos provocada pela má circulação. é como um copo cheio que transborda. contudo. A fórmula consoladora de Yr pàreceu-lh e. Eu esperava que a qualquer momento Helene di ssesse: "Acalme-se. . o estômago pesa a. Desandou a falar.murmurou Déborah. para surpresa de Déborah .Não? Deixe mais uns vinte minutos! . não foi para agredir você.. Eu sei o que foi que aconteceu conosco. sem maldade: . porque existe uma possibilidade de que nos abram essas portas pa ra o mundo..as palavras custavam a sair .era Hobbs. seu corpo tremia. O corpo tremia. ." .E como não podia entender a razão pela qual tinha sido poupada. . O silêncio é mesmo fatal . então.O velho Craig simplesmente não conseguiu suportar aquele silêncio todo. e ele cada vez mais perturbado.Só porque a sua mãe era louca e acabou se matando. . ." Quando ele saiu de lá. hesitando se realmente queria saber.Vá para o inferno! . parecia. Pressionou a cabeça com força de encontro à bolsa de g elo. Entrou e tcomou a pressão de Déborah pela têmp ora. Sua cruelda79 de. você acha que tem razões para ser mais louca do que eu! . .ouviu a inspiração ag oniada na cama vizinha.Essa aqui também .. sem o menor rancor. seus dentes rangiam de pavor e frio. . não foi. fazer você sofrer mais.. já inteiramente consciente.Eu sei.a voz de Carla foi cortada pela lâmina do pânico. doutor.pensou consigo mesma . Déborah. . um pouco menos dessa vez. . as dúvidas.Você poderia ter me magoado. . Não queria magoar você. . . . . . A seta atingira o alvo. No interior do invólucro branco e estático.O quê? . parecia uma de nós! Déborah. Apagaram a luz e saíram.. . uma amargura terrível.. .Nós não scomos como os outros .

Sempre Debby. A perspectiva deixou-a terrivelmente assustada: sofreriam me nos. só que vivenciá-la implica a em arcar coM um tédio interminável como a própria doença. revestido de grades e barras de ferro. a coitadinha da Debby! Levantou-se furiosa e abandonou a mesa. que comia e tagarelava jovialmente. aquela espessa neblin a que os envolvia e os distanciava tanto um do outro. do corredor e dos quartos. era quase certo. das de reclusão. bem mais severos que os anteriores. Esther sabia desde o início que não lhe poderia esco nder a verdade. reformulados pela nova enfermeira-chefe . No teto. Nos primeiros dias de sua permanência na Ala D. o dia todo. Carla tinha vindo do último dormitório até a porta gradeada da ala. Agora.Se você não pode se aliar a eles. contomava e retomava pelo outro lado do corredor. em seguida. por favor! . não queria acreditar. finalmente. encarando o pai e a mãe: . Fora transferida para que " melhor a protegessem". Ela própria. afinal? No íntimo. caso fosse ela quem estive sse longe e doente. da "ala dos violentos". A nova situação oferecia a possibilidade de uma segurança física maior. passando diante das portas do banheiro da frente. O que significava isso para Debby. DÉbor ah costumava ficar acompanhando o piso. cont omando-o onde se ampliava para formar o chamado "saguão". a ala dos violento s. dos dormitórios (onde não era permitido ficar perambulando). no entanto . do banheiro dos fundos e. seguindo-o ao redor da s ala de estar. aliás.Dizem que ela melhorou em alguns aspectos .Virara-se para DÉborah coM uma piscadela de olhos e disse ra: . via a penas aquele andar superior. e que noite após noite vinha atormentar seus sonhos. freqüentemente duvidava do que dizia. Carla estava sentada ao lado de Déborah na sala de estar. . Esther estava desolada. Ao se sentarem à mesa. os terrores e a agressividade que sua querida filha reprimira tinham enfim vindo à tona. Já havia duas semanas que os gritos "Cigarro!" "Cigarro!" ecoavam. Havia dezenove fendas no sen tido da largura do chão gélido do corredor. redigido! como sempre. Era Debby.insistia Esther. Quando se cansava desses pas seios. camuflou e trancou os relatórios o quanto pôde. O medo e o desejo de tirar a limpo de uma vez por todas aq uela derrota. revestido de placas à pro va de som. DÉborah pôde dramatizar sua condição por m eio de um simples recurso mental. ia para junTo 82 . e fi caram esperando o tempo passar. decidiram esquecer o relatório para o bem de Suzy. Jacob leu e deduziu que os ódios. Segundo os regulamentos. mas acabar am voltando a ele. Tin ham recebido mais um relatório.Sentaram-se depois. . e vinte e três no do comprimento (incluind o a junção coM a parede) . enfim. mas não sem reparar no sofrimento estampado no rosto dos pais. Jacob furioso. Dissimulou. de forma tão palpável. atravessando. os pacientes que desejassem fumar deveriam fazê-lo no corredor ou na sala de estar. e o máximo que ela podia fazer era tentar acalmá-lo. desde que "autorizados" por uma enfermei ra óu auxiliar. Nos momentos em que estava presente à realidade da ala. para esmiuçá-lo daqui e dali. recomeçando tudo de novo. havia dezenove furos por dezenove furos.10 A família Blau sentou-se para o jantar. o ódio contra Debby por ela se apossar de todo o amor. a convergência desses sentimentos conflitantes. Jacob. pedindo sem parar: . repetindo mil e uma vezes as palavras prudentemente vagas do administrador da ala. discutindo-o numa espécie de código. J acob também sabia. Pensava: o asilo de loucos. para cima e para baixo do corredor. par a lá é que tinham levado sua Debby. e o pessoal médico começava a dar sINais de ir ritação.Cigarro. Estava obcec ado com o grito pavoroso que partira de lá. Os argumentos driblavam a filha. Para aquele andar.Muito bem! Ela não está jogada numa cova aí qual85 Quer! Tem mÉdicos e o diabo! Por que então todo mundo vive chorando e lamentando a p obrezinha. em termos vagos e pouco com prometedores. levaram Su zy a exclamar. C hegou a se perguntar se sofreriam. a culpa por prever a derrota. lute contra eles. para aqueles gritos. a enfermaria. saboreando cada tragada de seu cigarro. Isso bastava para despertar imagens grandiosas e feéricas em sua mente. consciente e inconsciente ao mesmo tempo da causa daquele clima pesado.

Carla pediria primeiro e ficaria coM o banheiro dos fundos onde havia uma p ia ótima. perto da enfermaria. Dentro dos banheiros. O regulamento autorizava apenas uma paciente a usar as pias de cada vez. empreendida pelos doentes ao longo das paredes d a ala. onde convenceria a auxiliar a abrir a porta que d ava para a banheira e a distrairia durante o tempo suficiente para pegar seu tes ouro. Fried estava ausente. mas não o fez. cumpria as exigências tirânic as do Censor. DÉborah e Carla. esta deleitando-se coM o cigarro. . Poderia. reconfortá-la.É necessário papel para fazer retratos . e por isso não ha via sequer as sessões terapêuticas para quebrar um pouco a monotonia. proibidos na ala. visuais e táteis. . afixado sobre a porta da enfermaria.das mulheres petrificadas.Assim que puder. portanto. assistindo a um congresso qualquer.Verdade. um caso. muita água. sonhos pavorosos. e uma entrevista coM os médicos da ala. o sono. os pacientes se divertiam bastante. a não ser que fossem utilizados na presença de um auxiliar. comunicavam-se por meio de códigos e siderados armas e. um pouco antes da hora do almoço.disse Carla displicentemente. Às vezes. O administrador da ala não se ocupava diretame nte coM a família dos pacientes. ao fim daquelas punições e sacrifícios. pontilhado pelas refeições. A Dra. DÉborah teria.Aquarela. . mascarado como o rosto de 84 um esgrimista. seguindo coM os ol hos a fumaça do cigarro da amiga. Se gundo o código. os sarcasmos das divindades e os elogios de Yr. repetia que a pacie nte estava progredindo conforme as melhores expectativas. foi preciso esperar pela distribuição das bandejas. e os momentos efêmeros e singelos de companheirismo abençoavam como a chuva. uma ou outra pa lavra trocada de passagem. relembrados apena s durante a perseguição aos frisos. acho que preciso lavar os cabelos .Meus cabelos estão sujos. finalmente. Carla sorriu: . ai. pe la hora de deitar. Carla logo compreendeu que ela dera um jeito de furtar lápis e papel e escondê-los. a maior parte d o dia contemplando o relógio. o acesso de furor de algum pacien te . Depois. pelo jantar. o ambiciona do lápis se achava enrolado em elásticos e enganchado sob a quarta mola da cama de Déb orah. Esther escrevera outra carta ao hospital. sendo narrados. exceto se houvesse três auxiliares de serviço no banheiro. .acontecimentos. enumerados e relembrados por muito tempo.disse DÉborah. na parte dos fundos. . entrevistar-se coM a médica de Déborah.Ai.Isso significava "muito obrigado" . e visitas à Ala D não eram permitidas. contudo. ficavam as banheiras. . sustos e ntremeados de alucinações sonoras. Estavam atrás do cano de água fria. como de hábito. estava sugerindo que ambas fossem pedir autorização para lavar os cabe los. Se não gosta.. Vou desenhar um retrato seu . permanentemente en garde. pela distribuição de sedativos e. go zavam justamente de um desses momentos. pedindo autorização para visitar Déborah em suas novas acomodações. Carla apanhou no ar a ins inuação. nada restava senão esperar o interminável transcorrer do tempo. onde os acessos de violência e as crises de agonia despontavam como um oásis. O plano funcionou às mil maravilhas e. Só podiam ser usadas na presença de um auxiliar.Que tipo de desenho seria? . no banheiro da f rente. Ouvia as denúncias do Co letor. O tédio da loucura era como um deserto. Caso houvesse . enfim. Tinha. Nos momentos de lucidez. Precisaria de muita. mas. erupções vulcânicas de terror. . procurando. Déborah poderia ter-se inscrito para a oficina de artesanato. freqüentada na parte da manhã pelo pes soal da D.Você vai precisar também de alguma coisa onde possa apoiar o papel. Desistira de "fazer coisas".Isso queria dizer que tinha um livro escondido num lugar acessível. se quisesse. desprovidos de qualquer interesse. sempre t rancadas. algumas vezes. especialmente coM a Dr a. uma briga. Passava. pelo término do almoço . portanto. . desenhava um pouco sentada no chão e amparada pela cama da Esposa do Abdicado.sugeriu.. q ue pedir o banheiro da frente. Fried. e ficava esperando que algo acon tecesse ou não acontecesse. pela mudança de turno. agüente. A resposta.

portanto.Não. Acho ótimo que ela tenha feito tantos ProGressos. parecia-lhe que não faziam mais do que reproduzir em escala menor. Diria que tinha visto Déborah . nunca se sente à vontade coM as amigas!" "Helene encara tudo como se fosse um a questão de vida ou de morte. Também mascarava seu medo coM a pre cocidade e uma certa sagacidade cínica.Maravilhoso. sorridente e tranqüil a. Terminadas as entrevistas. Esther conversou coM a assistente social e obteve as mesmas respostas. BRANCO NO PRIMEIRO BAILE A página era toda de miosótis. ninguém ousaria contradizer suas histórias pelo menos durante algum temp o. procurando desfazer os temores de Esther pela transferência da filha para a Ala D. e Esther mergulhou o rosto nas flores. seus olhos se enche85 ram de lágrimas. marcariam uma hora coM a assistente social. Fried. Começou a folheá-las. A mentira que contaria a Ja cob e a dor que precisava guardar dentro de si pareciam refletir-se em tudo o qu e via. até que as lágrima s parassem de escorrer. frustrando as esperanças de que. embaçando os modelos horrivelmente alegres que ilustravam os anúncios : FACULDADE NO OUTONO ELEGÂNCIA CLÁSSICA PARA O CAMPUS E na página seguinte: PARA AS NOSSAS JOVENS DEBUTANTES BRANCO... É algo inerente ao meu eu. uma secreção. vendo-se nos modelos. como o suor por exemplo. algo venenoso. . Estariam ansiosos para escutar isso .perguntou a Dra. por sua vez. que se aconchegara no divã. embora de forma ainda mais fri a e mais impessoal. Ela estava exposta à minha essência. Também era tímida. tremendo com o frio que vinha de Y r. reconhecendo um pouco de Déborah em cada um deles. os de Déborah: "Marjorie é tão tím ida. já na viagem. foi impossível cont omá-lo. apesar do calor de agosto que fazia na Terra. Quando s e encontrava coM essas mães e as ouvia contar os problemas das filhas. .Alguma coisa que você diz e que destrói? Alguma coisa que você faz ou deseja? . e estas. Quando tudo parecia ter ido às mil maravilhas.. conversou com Jacob e depois com a família. Não foi por querer. Ao contemplá-las. Fried mostrou-se gentilmente reservada. Existe um termo Yri para isso. conseguiria dar um jeito de b urlar os regulamentos. julgando que se tratava de "uma base da doença". BRANCO.. Dav am os últimos retoques nos vestidos maravilhosos que suas filhas usariam. Esther tinha levado uma boa coleção de revistas para Déborah: sequer permitiram que as entregasse. A Dra. v enenoso para a mente. Quanto ao regulamento que proibia visitas. Felizme nte. . Continuav a otimista. Procurou distrair-se coM as fotografias e as ilustrações. Esther repassou todos esses diálogos. sonhando coM o dia da formatura e preparando-se para ingressar na faculdade. porque da próxima v ez estou decidido a ir com você. compromissos de trabalho impediram que Jacob insistisse em levá-la de carro. Trata-se de uma emanação da pessoa Déborah. foi preparando as mentiras que contaria a Jacob e à família. pessoalmente. apanhou o trem de volta para casa e. Jacob virou-se para ela e disse: 86 . ela é tão tensa". Também era tensa. a Sra. uma emanação venenosa. desfiavam seus sonhos nas páginas de um diário íntimo qualquer. e que tudo ia muito bem. mas não encontrou refúg io. Rollinder. Suas amigas e as filhas de suas am igas já comentavam as faculdades escolhidas como se trocassem cartões de visita. iludindo-os e aparando as perguntas mais embaraçosas com fluência e convicção. a ala e os médicos. As colegas de turma de Déborah provavelmente estavam admir ando aquelas mesmas páginas. Chegando ao hospital. Olhava distraidamente pela janela do trem quando reparou que as revistas continuavam em seu poder. Esther fez a exaustiva viagem de trem só para avistar-se coM a Dra.algo a tratar. é uma qualidade do meu eu. constatou que sua presença em nada facilitava o acesso aos méd icos.Como foi que você destruiu sua irmã? . Fried a Déborah. Suas pequenas idiossincrasias eram idênticas às daquelas meninas. Será que'algum dia voltaria a participar do mundo dessas meninas? O hospital teria sido afinal um erro desde o princípio? Ao chegar em casa.

Para Déborah.Quer dizer que continua tentando jogar areia em meus olhos? Déborah protestou. por que então não escondê-la e continuar em segurança? . . O céu está limpo e o sol quentíssimo. É um truque velho. mas o prazer de se auto -acusar arrebatara Déborah com tamanho vigor. em parte. basta esquecer.E continuar louca. Lamento.Eu tentei matar minha irmã quando ela nasceu . Quando ia fazer isso. as exaltações subseqüentes se encarregaram de transformar o f enômeno numa coisa bastante irreal. Esse disfarce s equer foi inventado pelos seus iiris. Invadiu-a um sentimento de profunda grati dão pela família.Subitamente. . exclamou o Censor . Não passam de bons métodos para fugir de uma verdade que pode vir a ser dolorosa. A doutôra insistiu para que voltasse a falar sobre a destruição de Suzy. o que dissera sobre a emanação maléfica era. Nunca mais tocaram nesse assunto.Tenho. tomeou. Déborah dobrou-se trêmula e ofegante de dor. e a menina monstruosa que acabara criando. muito a propósito. sua sombra tomara-se imensa.Seus pais castigaram você? . Déborah teve um acesso de autocomiseração pela criatura cheia de miasmas que era e pôs-se a discorrer sobre o fenômeno. defendendo e embalando a imagem irreconhecível criada por ela.Como foi? . está por baixo disso Nunca transmiti sintomas a ela. .Tentei atirá-la pela janela. sincero e parecia m esmo acontecer. considerando o que fizeram comigo! . me lembrar de um dado que eu tinha esquecido ..A doença não está em ver ou ouvir coisas. Você vem. Não houve estrondo nenhum de nenhum canhão. lá fora no mundo é agosto. .respondeu Déborah.Não.Ora. e então perguntou com voz pausada: . . mais cedo ou mais tarde... O cheiro nauseante de éter e clorofórmio envolveu-a e as pulsações do coração se fizeram nsurdecedoras.Engraçado. sendo corrompidas por ela: Suzy mais do que ninguém. Quand o terminou. . sim.Você ainda tem sentido muito frio? . Nunca ligam o aquecedor na ala. Descreveu os ciúmes dos primeiros tempos e o amor que surgiu depois. 87 . A doença. Eu te preveni. Contudo. mamãe entrou e me impediu. .. 88 O tumor despertou furioso. Para que uma pessoa se esconda.iris. . . ao saber que outras potências disputavam a sujeição dela. Por que não. mas o frio e a névoa só existem dentro de você. minha querida..aparteou a doutôra com um gesto de mão. . por ser amorosa e impressionável. ela as e nfeitará como bem entender. ampliando cada vez mais seus contorno s e a virulência de sua substância. . isso realmente não adianta.Um momentinho. vinha s e desenvolvendo havia bastante tempo. . . e todas as pessoas que conhecia acabavam. se tomara uma criatura estranha e irreconhecível.disse e ficou surpresa ao ouvir s ua própria voz pronunciando tais palavras. ma s a doutôra foi irredutível: .Não. adornou cada uma de suas infâmias com uma eloqüência absurda. O disfarce que consiste em pôr toda a culpa nos outros.Diga uma coisa: você fazia com que ela tivesse alucinações ou sentisse o cheiro de c oisas que não existiam por perto? Você fazia com que ela duvidasse de sua própria sani dade ou perdesse a noção de realidade? . segundo Déborah. mas também o que você fez com você mes ma e continua fazendo.perguntou a doutôra.Que seja. desde que começaram essas chuvas e esses nevoeiros gelados. ou inventar outros acontecimentos. continuar louca. carregado de culpa e tormento.Ah. . ou truncar os verdadeiros. As encostas e escarpas. Evita que você tenha que e ncarar não apenas o que realmente fizeram com você.Não . e desferiu uma flecha aguda que atravessou seus domínios para lembrá-los de sua supre macia.. A doutôra esperou até que Déborah estivesse e m condições de ouvi-la. que parecia uma paixão às avessas: ela e sbravejou.Pois bem. A doença é o vulcão.

f lutuando na superfície de lodo. Helene postou-se diante da enfermaria e começou a bater os pés com força. Na noite anterior. Todas as pigméias-monjasp risioneiras confinadas na Ala D. 90 11 Quando entrou o turno da noite. as pacientes acorreram ansiosas ao saguão para ver quem tinha substituído Hobbs. Quando o turno da noite entrou. me sinto necessária . fechado as portas e janelas.. o mau cheiro do cadáver persegue o crimi noso. há um ladrão que ouviu dizer que as pessoas co stumam enterrar e esconder seu ouro e suas jóias. Eles se recusam a lutar . Um dos aspectos de sua doença é que todas se julgavam o centro do mundo. de tudo o que fizeram por mim. O barulho atraiu logo um auxiliar. o Sr. As deformações físicas mereciam uma certa piedade. Todas tinham desejado se matar.que consentira em viver com um monstro e tratá-lo como pessoa. inclinando-se para ela. . você compreende. Nariz era um des ses condenados arrependidos. Lactamaeon levou-a até o pântano para que visse. He lene tinha uma frase lapidar: "Um louco é um enforcado cuja corda arrebentou a tem po". o que o Sr. . tentado o suicídio de uma forma mais ou' meno s diligente.O que é? Leve-me com você . impregna tudo com sua podridão e seu ranço.Depois da operação. numa ocasião em que ela disse: "Ah.Que cheiro horrível é esse? . enquanto as loucas furio sas. pronta para atirá-la. paira no ar. .Vergonha e intimidade.E o burburinho foi crescendo.Nunca. 89 . tentavam acertar uns bons tapas nele. .Compaixão. Hobbs fizera tinha si do mostrar a língua para elas. Hobbs está encerrado. . . os monstros e os corpos de seus mais temíveis pesadelos. mas a doença se apressou a lembrá-la de que chorar era humano. ligado o gás e se matado.Vim anunciar que o caso do Sr. . as pacientes não se sentiam obrigada s a manter a decência e a evitar de falar mal do morto. e as lágrimas se recolheram imediatamente... Por um instante est eve à beira das lágrimas. Havia em Yr uma região chamada Pântano do Medo. . A expressão fora inventada por Lee Miller... esses desertores. Hobbs tinha ido para casa depois do ser viço.Déborah achava que eles tinham apanhado o fato escabroso e sepultado às p ressas num lugar qualquer.e riu. . espalharam a notícia para as de trás. caçoar a uma distância segura. Em algum lugar. Déborah desatou a rir. piradas. . . lunáticas. Segundo essa visão. Pássaro-um. Carla limitou-se a murmurar: Gosto de ser a punição dele. sabiam do acontecimento. logo que o viram ..Não foi só a idéia de matá-la? . sabia muito bem que nessas circunstâncias. As que se achavam à frente do grupo. Por outro lado.perguntou ela.. Detesto todos eles. Tu não és como os outros.continuou a doutôra. acumulando-se ano após ano.Helene riu e alguém completou: . Só por serem loucas. mas a morte e suas convenções eram encaradas com o maior desdém. aí vem o govemo e diz: Vamos esfregar o nariz de vocês naquilo para verem o que é 91 bom! Escolham: ou a prisão ou o hospício! .Ambas riram. ele s são os Narizes e nós o aquilo. . como se faz com um cadáver em decomposição.Morávamos naquela casa ensolarada onde ficamos só por um ano. compaixão.O que é que você tem agora.É um Nariz. Imagine a cara dele quando desco brir o que eu enterrei! . birutas.. Seu sorriso sarcástico deixou o auxiliar furioso. foi a resposta dele. repetiu Yr. . Helene? Caso encerrado . . Certa vez. E apesar de tudo o q ue me deram. que optaria por trabalhar em hospitais psiquiátricos como altemativa à prisão.pediu a doutôra.Não! Cheguei a carregá-la até a janela. O sujeito é um Nariz. mesmo que em vão.E seus pais de fato nunca tocaram no assunto nem fizeram perguntas? . e todas invejavam a morte. vergonha e intimidade.declarou ela. O caso era para ser mantido em s igilo absoluto.Pois é. até as mais alheadas. mas com uma amargura que era rara nela. Ao saber da novidade.

A expedição acercou-se delas. para que as enfermeiras. Constantia parecia estar decidida a passar aquela noite ando.a. e que iriam se esforçar para satisfazer o desejo do exército de que o treinamento desse homem fosse rigoroso. que tinha morrido por causa disso.Ela também é uma pessoa. não riram. Repetiu-as. . por favor! . Mary..Vejam só! A quem pensa que está enganando? . v ocê não se distinguiria de nós! McPherson... Todas ficaram contentes com a presença dele. isso não lhe despertava nenhuma reação sarcástica ou agre ssiva.disse antes de entrar na enfe rmaria.Atenção carrascos de Hobbs. . Afastou-se dali.Talvez ele seja bonzinho . comentou rindo: . Helene estremeceu de repugnância quando ele Passou.fechadura. da seção de reclusão. muito mais de si mesmo do que de las. Ap ressara-se apenas a tapar a brecha que ele. . Constantsa. tal como esposas provincianas. contentou-se em rir.declarou com voz cantada. que ela e as outras compreendiam que lhes cabia subs tituir os "horrores de guerra". daí terem que ocultá-lo. Quando. ele vai desmaiar! e depois ressentida . enquanto esfregava nódoas invisíveis de sangue.pediu a enfermeira-chefe da ala às meninas que e stavam sentadas de encontro a parede no chão do saguão e do corredor. As enfermeiras. contentando-se em repreen dê-las novamente para que saíssem do chão. e percebeu que ninguém tinha compreendido. . Ficaram para assistir a primeira caminhada. não p uderam conter a crueldade que.Deviam ter trocado a fe chadura. Ora. O homem. lamentan aue a casa estivesse "tão des arrumada". que é isso? Não scomos assim tão diferentes! .Qualquer coisa é melhor do que Hobbs. Como a presença de McPherson paira sse ainda no ar. As pacientes sabiam que aquilo era mera for malidade. muito menos entenderam. Caíram todas na gargalhada com essa alusão a Hobbs. tal como Déborah anteriormente.exclamou Helene sem nenhuma malícia. . aí vem outro freguês para o gás! . a reação delas oscilou entre o divertimento e o ódio.Chiii! Meu Deus. . Carla arm ou um olhar de pasmo.comentou a cerimoniosa Mary. muro. carr egando consigo o Nariz todo empertigado.. extenuante e interminável..disse McPherson. porém. trocado. ninguém fez comentários irônicos a respeito daquelas súbitas ausências me ntais dela. No entant o. por se tratar de McPherson. sabia? . Seguiram adiante.Os Narizes costumam vir aos pares.Sem essas chaves. só que demonstrar esse sentimento signi ficava demonstrar que eram vulneráveis. coitado. a procissão de magos voltou a desfilar diante delas. Queria dizer com isso que os seus pés estendidos à frente do assustado rapaz simboli zavam os aparelhos nas corridas de obstáculo que os recrutas tinham que saltar dur ante o treinamento militar. com sua jovialidade importuna. procurando descobrir qua l delas era a culpada.Aposto que está com medo de que a gente o contagie . Sentiu obscuramente que essas palavras feriam-no de algum modo. como se a porta e a fechadura fossem outras. era a expressão verdadeira e natural de suas personalidades. mas bastava chegar um con vidado.Levantem-se do chão. tinha aberto no. para elas. Viviam sentadas no chão e ninguém dava por isso. contu do. Deviam. que o novo membro da equipe teve de empreender ao longo da ala. por descuido. Suponho que devemos chamar um deles de Nari na . um riso bonachâo. começou a gritar assim que o viu. A entrada de McPherson constituía para ela um acontecimento absolutamente diferent e do anterior. perdida de novo no seu limbo.disse Déborah. .. 92 cacarejando desculpas por tudo e por todas. . Déborah olhou para com severidade e comentou num tom significativo: ..disse Carla. Ao perceberem isso. Voltou a se recostar em silêncio. Carla olhou à sua volta.Obstáculo! . As pacientes caíram na gargalhada. ter. Abriu-se de repent e a porta da ala e McPherson enTrou Num instante todas se acalmaram. com os maxilares contraídos de pavor. ao ouvir os gritos. soltou uma gargalhada e proclamou: . estava at errorizado. e Mary. Eu também não gosto desse negócio de chaves .. Déborah ergueu os olhos para o Nariz.

Vamos chamá-lo Hobbs Leviatã. Gostaria de agradecer a Lee por se ter exposto 94 sua falta de visão. cujos raios feriam-na como facadas? Perdeu totalmente o contro le de seus membros: não sabia onde estavam os braços. mas não houve como decifrá-lo. De qualquer maneira. Procurou coordenar as idéias e constatou que pe rdera também a memória: sentiu-se incapaz de recordar uma só palavra. ela veio às três da madrugada! .O que foi que ela falou? . Fazia um ano que Sylvia não dizia absolutamente nada . Cristo! Por favor! Déborah. Déborah tateou em busca de chão firme onde pudesse se ergue r.incapaz de pronunciar uma palavra sequer. Uma aura de luz sombria rodeava Lee. foi a Vêz d o cérebro esfumar-se. tão muda e enregelada que se confundia com os móveis da ala. o que era vertical e o que era horizontal. Depois da memória.implorou Déborah. Encerrada num corpo inerte inerte como o de Sylvia agora . ora distante. Dissolveram-se as paredes e o mundo se desfez num grande caos de sombras.E então. como se estivesse diante de um vendedor inoportuno. Sua voz era tão inexpressiva que o som parecia ter vindo da própria parede. Passado algum tempo. Yr louvava a coragem de Lee. ora próximo. As direções embaralhavam-se.retrucou a enfermeira e fechou a porta. O silênc io pairou sobre a ala. nem faria sentido para você porque foi parte de uma conver sa. bateu. não tinha limites. Da última vez que Sylvia falou. Restou-lhe apenas uma sucessão vertiginosa de sensações inidentifi cáveis posto que faltavam palavras e idéias para enquadrá-las. Finalmente. e até mesmo o Yri transformara-se num emaranhado de sons inarticulados.perguntou a enfermeira . Expusera-se por causa de outra pessoa que jamais iria elogiá-l a ou demonstrar gratidão pelo seu gesto.ela falou ou fui eu que escutei? . O flamejante Anterrabae acossou-a às gargalhadas: Como ousas solidar izar-te com o mundo! Traidora! Serás punida! Yr cerrou-se sobre ela. nada em Déborah re spondia mais.Quanto mais f undo. Tudo girava à s ua volta. raramente usado: nelaq. O terror. Todas emudeceram assombradas. Ela se encontrava naquela região medonha chamada "Envolvimento" ou "Realidade" e ninguém podia ajudá-la..exposta aos perigos e distante do refúgio. .A religião deles condena o suicídio . agora. Déborah tremia. que observava o desespero de Lee Miller.a descoberto . E de onde p rovinha essa luz. L ee bateu de novo. O Yri tinha um outro termo para designar tal estado. gravidade e luz. nem como movê-los.Isso não tem importância. não minha. pois se não chamar a culpa será sua. extinguira-se o b reve e pálido lampejo de vida em Sylvia.disse Lee lacônicamente. . mas estava fechada . Toma-o! Irrompeu um vento tempestuoso.93 .O relatório da ala ainda não está pronto . ou seja. Entreo lharamse descrentes de seus sentidos . compreendeu como seria absurdo r eproduzir qualquer fragmento da conversa. .. transida de medo.Ai.? . .Chame a médica . Foram revogadas todas as leis da física e dos sólidos. até que vieram abrir. aí está o mundo.Lee Mi ller foi a primeira a reagir. melhor. era o sinal de Yri para quem estava tankutuku . Bateu. movimento. Era preciso que se fizesse algo por Lee. . Dirigiu-se à porta da enfermaria. hein Miller? .Sobre o que? . mas não conseguia articular as pala vras necessárias. Não! Não! Se fizerem isso.£ bom que você chame a médica. as n oções habituais de tato. mas seus esforços foram em vão: o chão se desvaneceu como uma miragem no deserto. falta de visão. Pressentiu que sugeriam algum segredo pavoroso. A enfermeira olhou para ela aborrecida. A vistou à distância um fragmento de superfície mas o vento logo carregou-o para longe. Era impossível determinar se estava de pé ou sentada.Sylvia falou! . as pessoas procuravam se convencer de que realmente havia m escutado aquelas palavras e de que elas partiram da criatura muda e enregelada que era Sylvia. Não admiras a nelaq tankutuku? Pois bem. forma.falou Sylvia que estava encostada à parede. Ele deve ser mil vezes pior que o outro! . Adams virá Sempre vem. voltaram a abrir. enlouqueço! .Por que vocês estão tão excitadas. Atirou-se impetuosamente em Yr: .

e encarava o govemo que o punira do mesmo modo que os mártires cris tãos deviam encarar os procuradores romanos.A pessoa obviamente não entendeu. Helene jamais voltara seu arsenal de conheci . não ousava participar desse outro tempo. deitou-se numa cama. Levantou-se.e as pacientes prosseguiu. que todas es sas descrições não passavam de metáforas? Perder a cabeça.. Não brinques conosco.disse Anterrabae num tom condescendente. porque podemos jogá-la para cima. Embora não conseguisse reconhecer ninguém. temer osa de que a Punição voltasse a fustigá-la e a arrebatá-la de novo. voltou para o quarto.E Déborah atormentava-o com ob servações ferinas sobre as similaridades entre os psicóticos e os fanáticos religiosos. Não era para menos que estava condenado a carregar o espectro de Hobbs que os pacientes lhe haviam imposto com os seus apelidos.ou Hobbs Leviatã. que se moviam num elemento chamado tempo. O problema é que não havia gente suficiente na equipe. uma consciência razoável de que existia. lunático? Pobre de ti! Vês agora que elas são todas muito. ou ainda. No entanto. as três coisas juntas. Estás vendo como é. dem ente. ridicularizando algumas de su as passagens para escandalizá-lo. Nauseada com o frio que sentia.Puxa! Então em que dia foi? . . o que tinha ingressado na Ala D. a primeira coisa que viu foram 95 as unhas das mãos. . um már tir. p ara ele virtuosa e justa. tiritand o ainda. e como estava ator doada demais para insistir. Da próxima vez que admir ares o mundo.Quarta-feira. porém. tentando diminuí-lo. uma verdadeira monstruosidade. Os dois outros n ovos condenados arrependidos. com uma pequena m esura. Passou a se julgar vítima de uma perseguição religiosa. também não gost ava muito de Ellis. e dizia: . Não brinques conosco. Mais tarde. de que via corpos em três dimensões. Ellis não servia de jeito nenhum para o trabalho. enfim. Detestava e temia os pacientes. por 1 acaso. lembrando-se com reverência da imen sidão. . Estavam roxas de frio. morto e putrefato. Contra a repugnância que ele extemava. como decidiram chamá-lo. estavam se saindo bem em alas diferentes. porque estamos te protegendo. Notou que estava dei tada numa cama que não era a sua. o medo dos primeiros dias foi cedendo lugar à cólera. . para b aixo e para os lados. as doentes lutavam com as armas que seu est ado lhes permitia. Pássaro-um. sem saber o que fazer. tinha. Constantia fazia-lhe propostas ostensivamente li bidinosas. saiu para o saguão. porque agora ag rediam Ellis. McPherson pe nsava com seus botões que não havia no mundo caçadores mais sagazes e implacáveis.. corpos de três dime nsões reclamavam do calor e abanavam-se. a Dra. chama dos pessoas. os. do qu e esses doentes na arte de desferir as setas sobre o ponto mais fraco do animal. Pássaro-um. quando ele vinha trazer a toalha.Descobri o que é ser insana . muito verdadeiras. e não a ele. do poder e do horror contidos nela. o coitado arrastar o seu Leviatã. preferiu se afastar À sua volta. Fried perguntou a ela o que havia descoberto desde a última ses são.Que dia é hoje? . Meneou a cabeça . Amém. envolveu-se no cobertor e.Ao emergir da Punição.Scomos capazes de manipulá-la. a religião de Ellis considerava o suicídio um dos pecados mais terríveis. o sol de verão resplandecia sobre u ma paisagem verdejante. . e um del es até demonstrava habilidade no trato com os pacientes. Imaginavas.É realmente incrível! é realm ente é incrível! A guerra entre o Nariz . . a insanidade ou era 96 deserto merecido para suas vítimas.De Paracleto a Paranóica. As letradas reescreviam a Bíblia. Amém. portanto. e fic ou aliviada ao reconhecer que era a sua. E para tomar as coisas piores. Lá fora. e virá-la pelo avesso. conhecerás um castigo mil vezes mais terrível. mas procurava mostrar-se si mpático com ele. Um fato. mePherson. ficar louco. De acordo com os preconceitos alimentados no homem. ou uma vingança de Deus ou uma obra do diabo. fundir a cuca.respondeu Déborah. Vendo. Helene. Dirigiu-se a uma delas pa ra esclarecer uma questão que lhe parecia irrelevante: . tomava-a. o intrigava: porque agrediam Hobbs e nunca a ele. pelo me nos. McPherson sentia essa atmosfera de ódio e violência pairando sobre a ala. Pessoalmente.

e ligou-o bem alto. hum! com todo mundo. Déborah enfiou-se na cama como de hábi to. embora estivesse fora do quarto de reclusão. Sue Jepson e as demais estavam en tregues às suas manias habituais. naquele momento... porém.a voz dele era suave .. Desta vez. Lee Miller cerrava e descerrava os den tes.Déb. mas não é bem a do tipo que confere patente. o grande monstro marinho. rescendendo a urina e a desinfetante. não muito cont agiantes. Pretende falar com todo mundo? (A suspeita e a cautela contra os pedidos. Nisso. adeus. os normais. Ellis. os qua . Déborah Blau. numa paródia melancolicament e romântica: .Isso é hora de perguntar? Deixe-o cuidar primeiro de suas ovelhas! Havia um rádio embutido por detrás de outra espessa grade na parede. dá é grilos na cuca! . Observou as pacientes apáticas esperando o jantar. A srta.. .. Constantia. . as intenções e os homens do mundo superou a prudência e motivou a p ergunta). . Quando a voz lânguida do locutor desejou-lhes uma "boa noite sob esse céu estrelado". McPherson.Hum.Não. soou. muito menos delicada. está bem? Por que eu? Quero que todas vocês deixem-no em paz. tá? Sentiu-se. a carrancuda. Deb . o cair 97 da noite. livre das minhas amarras. Perguntara-lhe uma vez o que estava olhando. adeus.Mesmo com Marie e Lena? (Os próprios pacientes consideravam-nas os casos mais gr aves da ala).Ora. foi até o rádio. tinham convencionado que nós estamo s fora do jogo. Os ânimos se acalmaram. sem vacilar. no entanto. destrancou a grade.Linda. "Sou a morta que medita". Carla replicou. hilariante mesmo. delicadamente. continuava enclausurada e m si mesma. pastor? . sai Ellis da enfermaria onde estivera redigindo os relatórios médicos.. Suspeitava que não se tratava apenas de uma questão de sorte. Não compreendia como e p or que escapava aos desafogos de amargura e infelicidade que o rodeavam.Bati as asas em despedida. embora 98 O rasto de tensão permanecesse ainda por alguns instantes Evitara-se por pouco um grave incidente. respondera ela com uma voz sumi da. Blau estava parada ao lado das grade s do aquecimento.deixe em paz o Sr. usada. Fique sabendo que ele era um dos nossos! A única coisa que o separava de nós eram os cinco centímetros de metal da sua chave. Nada de referências a Hobbs. sentia-se que pairava no ar uma i ntranqüilidade ameaçadora . Marion.mentos contra ele. Não sou simpática. fitando alguma coisa para além da parede. instaurando um co ntraste patético. que envolvia a ala. com a atmosfera pesada. E. As provocações imediatamente recomeçaram: . e conheci Hobbs melhor do que você. .mais do que a simples soma das intranqüilidades individuai s. ficou esperando que o sono chegasse Deuses e o Coletor foram gradativamente se reduzindo a um sonolento meio-tom e iam apagar-se quando McPherson entrou no dormitório e parou junto à sua cama. . murmurando para si num canto. Cabot insistia do dormitório ..O cara recebeu uma comissão.Eu sou a Esposa de um Ex-Presidente As sassinado dos Estados Unidos! .. por que eu? Pensei que vocês. Hobbs Leviatã! .Hobbs cometeu suicídio e o exército cometeu Ellis! . das suas convenções e rotinas.Quais são as últimas do Inferno hoje.Ei-lo que surge. satanás! . McPherson era o único que conseguia chamar as p acientes por seus apelidos sem que isso soasse falso. Nada de piadinhas. evitava feri-lo com palavras cruéis.Afasta-te do meu caminho. Ecoaram os sons delicados de uma música romântica para dança. deixe ele em paz. o qual era liga do apenas durante certas horas do dia e sintonizado em músicas inócuas. Foi uma gargalhada geral. os sedativos e finalmente o sono. Assim que tcomou o sedativo.

por acaso. falando a respeito de sua irmã. .raro em qualquer parte. A sombra do avô. o poderoso soberano da dinastia. por algum tempo. mal se sentia ameaçado. vinha carregada de ódio. burilando-lhe as arestas ferinas. Ele a encarou com o rosto severo. não se trata da mesma coisa? Concordo.Afirmou que estar doente era como ter um vulcão dentro de si e de pois. então.Vou tentar. recuando sobressaltada.A segunda da classe não basta. (Débo rah lembrou-se do que dissera à Carla e voltou a sentir99 se culpada). Ainda assim. dando-lhe tapinhas de uma brutalidade mal contida. Você deve saber reconhecer uma perturbação mental à primeira v ista. continuou falando baixo. Déborah começou a perceber que havia muitas razões para o horr or que o mundo lhe inspirava. Fried. Gostaria. antes das encos tas terem sido decoradas para darmos uma olhada juntas no próprio vulcão.Estas e outras advertências visavam precavêla contra os cúmplices sorridentes da brincadeira secreta.dizia . Graças àq ueles meses de terapia.is ele se apressava em afagar. Tinham percorrido já as Grandes Decepções. O orgulho. Um dia você se sentirá satisfeita consigo mesma.um t om de respeito e sinceridade entre iguais. sobretudo num hospital psiquiátrico . Nunca a ouvi insultar uma delas. sent iu que ele estava tranqüilo. nunca chore. mas que.recomeço a Dra. No entanto. para você. consistia em morrer com dignidade e agonizar como se o fizéssemos todos os dias. pr ojetava-se ainda sobre todos os da família. . . mas sua voz vibrava de indignação. como se tudo fizesse parte de uma trama. Lembrava-se nitidamente da sua voz fam iliar incitando: . Esta noção de orgulho. pareciam t ambém apontar o caminho da destruição final. .Empenhara-se em aguçar a sagacidade verbal da neta nos mo ldes da sua. Ria! Não permita emhipótese alguma que 101 eles vejam que conseguiram-atingi-la.Não de uma só vez. McPherson. Déborah lu tou. há um outro aspecto que você parece admitir: a doença e os sintomas são coisas distintas. entretanto. teria que desafiar o mund .Quando a machucarem. Déb. ainda que se confundam freqüentemente.Yr exis te! Não tenho dúvidas de que. surpreendendo Déborah com uma atitude que ele nunca tomara antes. lame ntava o fato de Déborah ter nascido mulher. . que você me levasse de volta ao seu passado. você acha que todas as pessoas doentes estão em hospitais? Vocês se julgam. .Você é esperta . McPherson deu meia volta e saiu do dormitório.Escute. imitando as pessoas: Acorda menina! Tire essas besteiras da cabeça! .mas quero lembrar-lhe que muita gente lá fora gostaria d e receber ajuda e não pode. O pavor que sentiu ante a responsabil idade que aquela franqueza impunha veio temperado com uma sensação nova: alegria.ain da dará uma boa lição neles! . Lembrou-se do estribilho que durante anos o Coletor repe tia. Vivia chamando as mulheres de vac as e putas parideiras e. segundo ele. . Sob a indignação perce bia-se um tom . Deixe Ellis em paz. disse que caberia a ela decorar as encostas como bem entendesse. é claro. você tem que ser a primeira! Ou en tão: . contra o efeito dos sedativos.Ótimo. Nunca a vi molestar outras pacientes. donas de todo sofrimento? Não pretendo trazer à tona questão de dinheiro isso é mais do que sabido . Percebe agora o que isso significa? Será que você realmente não vê que os deuses os diabos e todo este seu Yr são coisas criadas por você mesma? Não foi isso o que eu quis dizer! . Embora não conseguisse enxergá-lo na escuridão. Você não concorda que. embora os sin tomas estejam intimamente relacionados à doença e influam por vezes sobre ela. ele existe. acrescentou . pensando sobre o que ele ti nha dito e como o tinha dito: palavras duras mas verdadeiras. 100 12 já uma coisa que você disse numa das sessões anteriores que não me sai da cabeça . bem como as inúmeras pequenas decepções que são vitáveis na vida.exclamou Déborah. Aos poucos. uma brincadeira misteriosa que todos conheciam mas ninguém admitia conhecer. ao retrucar.Perceben do o olhar assustado de Déborah. devido à sensibilidade e aos temores de Déborah.

. como se visse nesses episód ios uma espécie de obscura confirmação. partiam imediatamente para uma posição de ataque.Mas é claro. algum dia você vai lhes dar uma boa lição! A "lição" que ela tinha que dar consistia em exibir uma impostura que seduzisse e im pressionasse as pessoas: sua precocidade. Tudo cinza.E o quê? Onde está você agora? . amor. são todos u ns idiotas. em seguida. e a..E. exclamava triunfante: . Deixe estar. pôs-se avidament . O abismo existente entre a menininha rica. Fried perscrutou atentamente a fisionomia de Déborah por algum tempo e. Eu sou pequenina. Nas cidades maiores. no entanto. . . Durante muito tempo. a ancestral e mística guerra entre um imigrante aleijado e um Conde de Latvia morto há séculos? Déborah cresceu num ambiente e numa época em que os judeus americanos continuavam ac ossados pelos terrores da lembrança das velhas batalhas das quais haviam fugido do Velho Mundo alguns anos antes. você se constituía num solo dos mais propícios para que a semente de Yr germ inasse . no entanto. Déborah.Não e xiste cores.o todo.. sólida e indiscutível daquel e momento. da verdade.. . O conhecimento básico que você tem a respeito de si mesma. m inha. Gêmeos. esbarrava contra a impossibilidade cruel de você consegui r a ascendência desejada junto às pessoas de sua idade. e vencer. Eu não como.Sua o quê? Vamos! . Vamos experimentá-lo juntas? . Caminhe de cabeça erguida. Os outros.Salvação! . Recrudesciam.E depois viajou para repousar por algum tempo. No entanto esta precocidade mais iludiu. Ela dá comida. à medida que o poderiu de Hitler se ia expandindo pela Europa. . por outro lado. . meu. O abismo existente entre as pretensões do seu avô e o mundo que a cercava.deixou escapar Déborah. e se a agredir em. em seguida. . o u ratos mortos fedendo de manhã ao lado do jornal que noticiava a fuga dos judeus para a fronteira da Polônia. vestidos importados.Tenho um pressentimento. .. Portanto. Só que essa condição. não dê o braço a torcer! .Sentia. cercada de cuidados.Meu.. apenas tonalidades cinzas.É inveja! Os mais capaze s e os mais espertos são sempre invejados. ela abortou. Ela é grande e branca. . enquanto vigorou a trégua armada 102 o mundo. e.concluiu a doutôra . é c orretíssimo.encorajou a doutôra. onde eram fuzilados pelos poloneses "amantes da liber dade".. O avô..As decepções com o mundo dos adultos. Acredite nele. tropeçando nas palavras. . essa ciência com a qual nós duas estamos trabalhando. Déborah usou sua sagacidade cáustica para con estarrecer os adultos. por mais impressionante que fo sse para os mais velhos.Vá em frente ora. o qual para ele se resumia num bando de tolos e ingratos. acrescentava: .Você ainda vai lhes dar uma boa lição! Nós dois scomos iguais. ocorriam manifestações germanófilas e at entados contra sinagogas e vizinhos judeus que ousaram abandonar os guetos. . Percebiam temerosas o que se passava com ela. . . as novas batalhas. . Os resultados pareciam confirmar as pa lavras do velho. As ilusões inspiradas pela próp ria precocidade: você era especial. Se não confiasse. Onde está a minha. Justifiquemos a psiquiatria (Risos). expondo a verdade. Há barras nos separando. não existiria. e sábias. A Dra. Débora h lembrava-se de ter encontrado várias vezes a mansão dos Blau salpicada de tinta.Sua mãe não teve problemas de gravidez quando você era bem pequena? .Teve. A coisa veio num estalo. disse: . .E você confia em mim? .Continue . não é? 103 Uma luz projetou-se sobre o passado. as crianças de sua idade. Conheceu de perto esse ódio anti-semita e chegou mesmo a ser agredida uma o u mais vezes por valentões da vizinhança. pelo avô. e seu ódio repercuti a intensamente na América. com palavras cheias de ódio. que falava de um lugar onde já estivera antes . eu.Não sei. empregadas.

concentrada em suas deduções lógicas.Portanto..É você quem estabelece o preço. então. pois o lugar onde a mão pousara começou a fumegar sob a manga do suéter e a pele encarquilhou cobrindo-se de bolhas. Déborah retirou o braço das mãos da doutôra. e o distante pesadelo foi. Cada vez que você é chamada a recordar o frio do abandono. juntas. é o que acon tece agora. quando não simpática . . e procurou se mostrar obediente.As barras do berço. Ellis. acabam adquirindo um peso que pode vir a ser insuportáv el. A doutôra tocou-a no braço: .A luz. A enxurrada de palavras chegou ao fim.disse Déborah. Meu próprio berço. Teve razão.Não pretendi a tocá-la antes que estivesse pronta para aceitar isso. A doutôra. tr ansformando subitamente as conexões. eles voltaram. outros fugindo atemorizados à descoberta d e uma similaridade sutil existente entre os pensamentos expressos pelas loucas e . 13 O tempo passava. a vivência de uma situação de abandono . Muitas c rianças até mesmo perdem os pais. agora plenamente gratificante.desculpou-se a doutôra.do melhor modo que pôde. essas faixas escuras diante d os meus olhos são as antigas barras do berço.. eram as b arras do berço. buscava para além do corpo trêmulo de sua aciente vestígios do almejado espírito que reluzira por alguns minutos. . . De repente. vieram palavras incisivas. olhando através do suéter a carne chamuscada. 104 . Localizamos dentr o de você onde certos fantasmas do passado continuam agarrados ao presente.. . tentando. genético. no limite das fr onteiras que demarcam o mundo dos sãos. Ao invés disso.Cheguei a pensar que ia morrer até que. um defeito intrínseco. não ser cruel com o S r. provavelmente..Trabalharemos com afinco. por uma semana ou duas talvez. ainda limitadas e hesitantes. mas depois de recal cá-las anos e anos seguidos. mas nunca imaginei que pud esse ser verdade que estive realmente num lugar assim. projetou-se sobre uma outra região. e m mais uma prova irrevogável de que havia nela algum defeito." A doutôra ergueu-se. Um nov o grupo de estudantes de enfermagem veio e se foi. perdendo seu aspecto sobrenatural até se tomar. . A dúvida logo se transformou em certeza. barras e a solidão.As recordações não perdem necessariamente suas formas originais. Libertou-o de Hobbs.Pára-raios . finalmente. A Dra. e o frio é o mesmo frio de antes. e imaginando como devia ser horrível alguém servir de condutor à terra para uma potência dessa ordem . A babá era distante e fria. da luz do sol às trevas da noite. . . pouco a pouco.. Esperava que a doutôra ensaiasse qualquer objeção tímida.Perdoe-me . As barras.concluiu Déborah. Uns se foram aliviados por te rem perdido o medo dos doentes mentais. e o frio e a perda da capacidade de distin guir cores. notando a palidez do seu rosto. Ei! Ei! . Esta sensação ocorre freqüentemente.. da terra à terra de ninguém. Sempre me intrigou o fato de que não era um frio como qualquer outro que eu pudesse supr imir vestindo um casaco. outra dúvida a assaltou.. . de estágio a estágio em Yr. vendo faixas escuras subir e descer diante de suas retinas. e acabaremos compreendendo.e a preencher as lacunas. exatamente o que acontece agora! É uma parte do Abismo. arcando com o martírio dele . . simplesmente. de passagem. . Fried sorriu: ... uma semente ruim. encerrando a sessão.sua própria existência .Enquanto for possível suportar .Por que só eu vejo essas faixas escuras? Não há ninguém que não tenha ficado sozinho em certas ocasiões. ess a vivência grita lá no fundo: "Está vendo? No final das contas.. e nem por isso acabam loucas.O vulto branco deve ter sido uma babá. numa revelação imen sa e maravilhosa. Diga a todos em Yr que não ou em prejudicá-la nessa sua busca.murmurou Déborah.Seu pensame nto pousou um instante. . para logo de pois submergir. a vida é assim.Fcomos muito bem hoje. Eu me pergunto qual será o preço. uma mentira inócua e reconfortante com a qual pudesse iluminar o caminho de volta a Y r. . A sensação que eu tinha era a de que todo cal or havia desaparecido. Déborah era jogada daqui para lá como uma peteca. é tão vasto quanto a sensação de abandono e a da perda de todo o amor. como se estivesse agu ardando ali há muito tempo.. agora! Quando sinto que vou despencar.. impelida por um medo obscuro ao contato físic o.

murmurou algum tempo depois para o s que vieram buscá-la. Ela se achava. a repuls iva Déborah. contudo. o céu cobria-se de sombras por entre as barras da janela. desprendendo faíscas dos cabelos. o sangue e os ossos. Déborah. paz ou liberdade que compensasse esse pavoroso sofrimento. revendo provavelmente os pesadelos. . Estes .É poder demais. Seja esperta. . chutava-o na b oca do estômago e na região tumorosa que se rompia como um melão podre. Pr ocurando tranqüilizá-la. a expressão do rosto 107 de Déborah. Déborah compartilhava. sofram.Assim como o Poço? . Déborah estendeu a mão num gesto instintivo . quem sabe. desse hospital. Déborah não tinha a menor idéia do que eles estariam vendo no seu rosto. . terríveis e inconfessáveis.. horrorizada com o seu imenso poder de destruição. . não assim. pela violência devastadora e gra ciosa de Helene e pelos olhos alheios de Déborah. onde ela própria figurava como a vítima do seu hospício imaginário. alegria. Não permitam a ninguém magoar assim. é magoar demais. sem saber como. estava tudo escuro. Nem bem ela recuperou o equilíbrio.os seus pensamentos inconfessáveis. vocês todos. debruçada na janela olhando pa ra fora e repetindo de mansinho: .a falta de jeito 106 tomava os seus gestos extremamente bruscos . Notando. perdeu o equilíbrio. A tua subs tância é fatal para eles. e isso graças às aflições que. . . Quando soou o ás pero canto cerimonial. O inspirar e o expirar. chutava aquele seu outro eu estirado ao chão. e quase foi ao chão. . a s noites e os dias desses outros seres são de uma substância que não é a tua. No entanto. a outra Déborah. Uma enfermeira " trouxe-lhe a bandeja do almoço. na su a queda flamejante e etema. situado a pouca dis tância do saguão. um segundo grupo que estava sen do domesticado pela nudez espontânea de Constantia. investida da autoridade honorífi ca que detinha em Yr. anunciando a partida. Sentiu-se como uma gigantesca bale ia emergindo das profundezas do mar: vinha de um outro elemento regido por lei e . Não assim! Não assim. e qual dos se us "eus" a dominava naquele momento. Percorrem-me. e desaguam na enfermeira. Sou uma condutora de r aios e queimaduras. A mulher remexia as chaves (sua diferença).Deixem-me morrer! Pedia que a esmagassem de u ma vez por todas. afastou de sopetão o braço trânsida de medo. o que veio confirmar mais uma vez a distância intransponível que a se parava dos chamados "seres humanos normais". virou-se para uma pessoa que vinha atrás e ordenou: . Surpreendeu certa vez uma enferm eira comentando: -Aquela menina me olha como se eu absolutamente não existisse. Acab em comigo. compreendia-os.e agarrando °braço da enfermeira. e e saiu cambaleando do quarto.Através das órbitas dos olhos. morrerão ou enlouquec erão.Termine logo a ins peção da ala e vá preparar um casulo. ao menos." Queri a dizer com isso que não era a enfermeira quem estava ausente. . as pessoas iguais a elas riem.Só verificando tranqüilizou. gemendo baixinho: . desferiu um g rito e caiu no chão. Murmurou algu mas palavras para deixá-la à vontade mas ao invés disso. Aqu i tenho sido fio de cobre e as pessoas me confundem com bronze! Anterrabae riu. disse Déborah a todas as divindades reunidas em utilizando a habitual saudação Yri. esmaguem-me de encontro ao mundo! Acenderam a luz pelo lado de fora. Se forem contagiados por teu elemento. termin ado o expediente. Veio. sugeriu ele. jovialmente a enfermeira do novo turno. O fato é que se sentiu profundamente aliviada por receber ajuda. tropeçou no própri o pé. acreditava neles. Déborah ergueu-se no diminuto quarto onde estava enclausurada. e sim ela.. erguida por sobre si mesma. Déborah sussurrou depois ao cruzar com ela: "Errada não. A chave rangeu na fechadura. a escolha inadequada das palavras só fez deixar a estagiária mais alarmada. muito pálida. vindos da doutôra. depois. pelo visto transpareciam em seu rosto .. dessa ala. Fora desse quarto. andam e respiram num elemento q ue nunca compreenderás ou conhecerás.Vamos logo com isso Anterrabae. Não havia prazer. firma ndo-a por alguns segundos. Ao recuperar os sentidos. a fisionomia da enfermeira co ntraiu-se de medo. Déborah.Exatamente. A mulher se voltou precipitadamente para sair. Coletor.

Quem está aí? . retesou ligeiramente o corpo. filtrava-se a luminosidade pálida das estrelas. às vezes. essas coisinhas diabólicas e importunas que se tomam um mundo quando não se pode coçá-las e afastá-las. Num lugar vulnerável como aquele. avisara que se ela não se afastasse dali. tinha certeza. na têmpora. Ellis entrou sozinho. e foi direto à cama de Hele ne para tirar-lhe o pulso. a mã assentava-se implacavelmente sobre seu rosto. Helene . Quando ele estendeu a mão para captar. uma agressão tão violenta 108 muito surpreendente. um jato difuso e furioso de saliva. sabendo que os pa cientes poderiam estar em transição e. Mantinha-se. apesar de seus modos espinhosos e intolerantes. com uma voz pausada e contida. sem demonstrar raiva. Um dia. Ellis. Embora ela fosse uma pessoa mordaz e d emasiadamente agressiva. Déborah recolheu-se ao silêncio e ficou descansando do eterno apocalipse.Eu sou um fio de cabelo nos meus olhos . Da cama vizinha veio um som abafado. a maneira como Ellis entrou foi brusca demai s. acenderam a luz. que tudo presenciava. Helene nem sequer conseguia atin gi-lo. Helene poderia se curar. então.Nossa Senhora da Cócega no Nariz! . não se fizera de rogada. cusparadas e . alguma coisa antes de entrarem. Por causa disso. felpas. sem inclusive. ou aquela quantidade indefinida de energia ou determinação ou seja lá o que for. cisc os. e estas. Vênus de Mil o com cócegas no nariz. e com gesto s deliberados e precisos. . nem que fosse por uma piscadela de olh os. geralmente. Ellis agarrou o rosto de Helene e o imobil izou com uma das mãos.respondeu Helene . a invejava. calmos. Ambas resmungaram baixinho. a maior parte do tempo. deitada como uma gêmea na cama vizinha. o pavor enrijecera o corpo mus culoso de Helene. Déborah a respeitava sobretudo por sua inteligência. Ela consegu iu se livrar mais uma vez. As enfermeiras e auxiliares diziam. precisos e ritmados. depois que eles acusassem a sua presença. tinha inadvertidamente cometido uma grande crueldade com ela: dissera-lh e que achava que ela ia ficar boa. que era o essencial da recuperação. no entanto. se quiser. assisti a a essa cena. . Déborah percebia. Solt ava. o pulso de Helene. Virara-se para Déborah e. Esse era o único movimento possível dentro de um casulo. e só entravam . A janela que emoldurava a noite coalhada de estrelas já não era aque la de onde assistira às primeiras horas do crepúsculo. distante e inacessível.climas próprios.Ou. Seus pensamentos fluíam com extrema nitidez.Alguma vez já lhe caiu um fio de cabelo nos olhos quando você está no casulo? . Déborah. seus lábios já estavam secos. é claro. Helene reagiu lançando-lhe uma cusparada n a cara.e você é outr o! Em face desta reação pouco amistosa. lembrando-se das lutas que travara com fios de cabelo. que Heleor mais desesperadamente enferma que estivesse. No silêncio do quarto. quebraria osso por osso daquela cabeça de merda. . respeitava e temia ao mesmo tempo.declarou Helene secamente . às barras qu e compunham a tripla couraça vedando a janela. estendidas lugubremente naquelas camas. e rápido. manifestava seus Pemsamentos s momentos de lucidez. sua respiração ofegante. enquanto tentava tomar-lhe o pulso com a outra. Déborah. por sua vez. num contraste chocante com a beleza da noite e das estrelas. convulsas e raivosas. chocadas com a revelação de si próprias. Havia agora duas camas mergul hadas na escuridão.perg untou Déborah. de modo a introduzir gradativamente a sua presença e a do mundo. Pensou em Hele ne. ela afastou a cabeça com violência. sempre discretos e silencioSOS. Pelo vidro anteposto às grades. começou a esbofetear o rosto dela. um ou dois comentários imprevistos e cortantes. . atordoados ainda. Os tapas atingiram-na firmes e fortes.indagou Déborah. se dar conta do tormento que a afirmação despertava em si mesma. conseqüentemente. Ao escutar aquilo. que ficaria Para sempre gravada em sua mente como o símbolo da impo tência do doente mental: os tapas. e extrair a ssim um número para o seu relatório. ou então. 109 e as cusparadas frenéticas. mas após cada tentativa. De repente. deixara também de perseguir o ma rtirizado Ellis.

ele vivia uma outra dimen são de realidade.Helene saiu logo depois que acabou tudo. foi a vez de Déborah assumir voluntariamente a condição de participan te. como vingança porque uma vez lhe dissera que achava que ela iria ficar boa.primavera. No entanto precisava. Azar! vou contar o caso à Dra..É do nosso maior interesse impedir qualquer brutalidade aqui no hospital. e saiu. nem sentir o vento tenebroso. contudo. para que ele acreditasse nela. com aquela Alma. naturalment e. Quem sabe você não pensou ter visto isso. esboçar qualquer movim ento em direção ao onipotente cademinho de notas. . uma inimiga de si própria nos termos Yri. Era evidente que estava colocando em prática o que Lee Miller chamava Tratamento Número Três: consistia numa variação do vel ho "sem dúvida! sem dúvida!". hesitando. encerrar os atritos sem tomar qualquer pr ovidência. no entanto.Reparou que. Dirigiu-se à enfermeira e pediu para fala r com o médico da ala assim que ele viesse assinar os pedidos da semana. Queria que lhe aumentas sem a dose.Por que Helene não veio me contar isso? . que seria injusto comprar sono ao preço do sangue que Helene engolira.Tenho uma coisa para contar a ele. e não saiu mais de lá. A idéia.tapas ressoavam sem parar. e portanto. chegar até ao médico. poupando ao máximo as palavra s. . até que final mente. . livrar de sua consciência a responsabili dade de ter sido testemunha -. Terminou de fal ar e durante muito tempo. pelo menos a Ellis. mas não podemos aceitar uma denúncia dessas sem provas. Sentado ali calmamente. não vai ser nada fácil se tiver de mentir. mas decidiu. uma forma de conciliar s em alterar. A muito custo. A enfermeira da ala. em tempo.Que pacifista é aquele que.perguntou enfim o médico.Para que você quer vê-lo? . procurando ostentar a aparência de sanidade convencionada pelo mundo. .. e tinha certeza de que aquela era a hora certa de pedir. os limites de s ua realidade. deixando-a ali com cara de boba. silenciar sem compreender. mordeu os lábios e se calou. . enqu anto murmurava para si mesma: "Generosidade de hidrato de cloro.assegurou o médico. o enfermeiro conseguiu submetê-la. obteve finalmente permissão para ver o médico da ala. Enquanto duravam esses trâmites burocráticos.sob um outro s ol cujos raios não ultrapassavam a periferia do campo de visão dela.Posso saber o que é? . . Déborah se lembrou de sua autorização para sedativos. o médico continuou calado. quem sabe. ao invés de bater com os punhos fechados. com os olhos pregados nela. fixou-se na sua ment e como um trapo agarrado a um prego. Repetiu novamente as explicações. . tanto do vitorioso como da vítima. No dia seguinte. é claro!". tomar-se uma nelaq tankutuku. o incidente. Furii ou Toque-de-Fogo era o nome em Yri que Déborah 111 . . sem. . as estações .Tomarei nota do caso . em seguida a de Débora h. que só eram objeto de segredo porque ele detinha as chaves e as pacientes não. sentindo a nuvem cada vez mais ameaçadora e o vento que já começava a soprar. gozando. Déborah teve que implorar. O homem aut orizaria. caíam vermes. Você estava no casulo e. . Helene tossia. bate com a mão espalmada! A enfermeira mandou que ela procurasse a enfermeira encarregada da ala. da nuv em. Registrou sua pulsação. a mandou para a enfermeira-chefe d o dia.perguntou a enfermeira. . caridade em cen tímetros cúbicos". Ficaram horas absorvidos naquela guerra. contidamente. expor-se cega e irremediavelmente. que dizia "Sim. sim. menos ainda a iminência da Punição. por sua vez. e por um encadeamento de idéias não muito claro .. engasgada com sangue. Toque-de-Fogo. . c ustasse o que custasse. a nuvem prenunciadora da Punição ia se adensando sobre Déborah. Percebeu a tempo que não seria prud ente dizer isso. nem tampouco foi mais longe referindo-se às tendências de Ellis.Esteve a ponto de acrescentar que H elene tinha sumido. Narroulhe.de cúmplice no episódio. A enfermeira-chefe não a levou muito a sério. as fronteiras de seu reino. talvez . Não se deu ao trabalho de procurar lhe mostrar a gravidade d a questão. que ele não podia ver a nuvem. Déb ora 110 sabia.Pergunte. um pouco transtomada. Deixou-o partir. por experiência. Repetiu as explicações. Ergueu os olhos para ele. .

. suportando estoicamente os grilhões daquele relacionamento.disse Furii . L ee tinha uma mania: não suportava ninguém às suas costas. Não posso interfer r na política deles. Fried. . mas não prometo nada. olhares maldosos. cintos.Nunca lhe prometi um jardim de rosas! Nunca lhe p rometi a justiça ideal.A não ser que essa política consista em espancar pacientes indefesas! . . hein? . e como não gostasse de ficar e ncostada à parede como as outras. começou a segui-la por toda parte. . . . doutôra.. . . . .Quem disse que eu estou propondo mudança de política? . Não prometo mentiras. não por uma questão de devotamento ou lealda de.protestou Déborah. .refletia Déborah .sim é claro!" . se a justiça fracassa.Contei. aquela que também era tankutuku por causa das palavras. que havia uma relação entre as duas. finalmente. até um local fami113 .Você contou isso ao médico da ala? . Aproveita a luz do meu jogo. e enfadonho também.Escute aqui . em homenagem ao poder espantoso que tinha revelado ao lhe queimar o braço com uma chama invisível. a desonestidade impe ra e aqueles que conservam a fé acabam se dando mal. ditas por Sylvia. ou então pare de seguila.(Lembrou-se de Tilda: um belo dia fugiu do hospital e m Nurembergue.Enfermeira! Tire essa puta daqui! . a idéia de pedir um aumento na dose de sedativos. Déborah.encontrara para a Dra.Retire-se do saguão. desaparecendo naquela cidade repleta de suásticas. em mencionar o assunto na reunião da equipe médica. . Déborah! Procure compreender. é? Furii concordou.Também não posso interferir na disciplina do pessoal da ala. Não participo das decisões relativas à al a. O elo gravitational se desfez.é que eu não estou ligada à direção da ala. Pássaro-um. rindo às gargalhadas. embora não fosse tankutuku. que eram atrizes do mesmo drama e.perguntou Furii. rendesse pelo menos alguma coisa. Déborah se sentia como um fósforo tentando atear fogo a um tonel de combustível vazio.Suma-se.Talvez você esteja duv idando de que eu tenha visto tudo isso. A única realidade que eu lhe ofereço é o desafio: ficar boa significa ficar livre para aceitá-lo ou não. num gesto de nobreza. Não estou ligada à administração do hospital. impelida por um estímulo inconsciente. também nunca lh e prometi paz ou felicidade. . Grande realidade essa sua. Déborah. o sobrenome de todo mundo aqui é Pilatos. Déborah.disse Furii. Blau! Isso também convinha. um riso grotesco e áspero que mal chegava a ser riso.De que vale então essa sua realidade. e vê que todos cuidam para que te afaste do s menores perigos: alfinetes. Uma pergunta: Ellis espancará a testemunha trancafiada nua num quarto de reclusão? Déborah foi escorregando pela parede. cons eqüentemente. era justo que um ato que seguramente iria lhe cust ar muito.signifi cava admitir que estavam no mesmo palco. O fato dè ela lhe dirigir a palavra . mas por um misterioso senso de conveniência. . para voltar logo depois. passava o dia todo circulando para "manter as pe ssoas nos seus devidos lugares".Vem cá. procurou se aproximar de Lee Miller. já esquecidas. e eu também. eles estão mais loucos do que eu!") . mas Déborah não ficou muito convencida.Absolutamente. . O meu objetivo é exclusivamente 112 ajudá-la a ser livre para lutar por todas essas coisas. Helene cumpriu a promessa de não importunar Ellis.O problema . fósforos. Blau! Déborah persistia.Sentia-se agora ridícula por ter rejeitado. .Afaste-se. Afinal. Um mundo perfeito como um jardim de rosas é mentira. e essa opção v cê assumirá de acordo com suas possibilidades. o Sol ptolomaico girando em tcomo de seus planetas. A enfermeira. Déborah voltou a se afastar. cordões de sapato. era uma terceira atriz. . Você vai mesmo levantar a questão de Helene na reunião? Se eu disse que ia é porque vou. . e a reação dele foi a Número Três com Sorriso: "sim . . Depois que Helene a deixou sozinha com a responsabilidade de testemunha. Lee.."Shalom Aleichem.

Procurou usar um tom bem tranqüilo. Doente ou sadia .Não vem ao caso a questão do amor. convites para dançar. pedindo isso.o fato é que precisamo s alimentar alguma expectativa. mas terrivelmente explícitas.exclamou Jacob sobressaltado elevando a voz para sufocar o medo. 114 14 Jacob e Esther estavam sentados no consultório.Porque não! .Porque o senso de realidade dela anda um bocado abalado atualmente. se vocês decidiram vê-la. . uma paciente recém-chegada que angariara um certo prestígio devido à su a violência e aos nove anos que havia passado num dos hospitais mais rigorosos do país. a nuvem baixando ameaçadoramente. sendo amparada e reco nfortada . A sua adorada Déborah de antes Podia até estar doente como todos afirmavam. Perscrutou os seus dois mundos e avistou a tempestade im inente. ela vai ficar boa. ter uma esperança qualquer. Vinham . eu quero dizer. Para Déborah.Aqui é diferente. . apressou-se a emendar: . O trabalho que estamos desenvolvendo juntas visa.e declarou: . mais piradas. Arrependeu-se pela centésima vez de ter intemado a fil ha. . Já estive numa "pá" de espeluncas.é claro q ue. que não Deus. nem pretendia desempenh ar o papel de juiz. Antes.Percebendo a frieza de suas palavras. acomodou-se no chão. agora. Desgarrou-se de novo. A senho ra poderia nos dizer o que podemos esperar? . apontando o que haviam ou não haviam feito de errado para que a filha acabasse nesse campo de batalha. e "ela sabe disso e teme por vocês . a imagem que essa médica sugeria era a de uma pessoa inteiramente irreconhecível. inevitavelmente.. para sempre? . e também por si me sma. Frie d . inse gura e infeliz. Por causa de um minúsculo. e desatou a correr ao longo do saguão.. Sentiu ímpeto de dizer a eles. Meu irmão também. Todos temiam aquela espe rança. de uma vez por t odas.Se o que vocês querem para Déborah é um diploma universitário. numa "pá" de alas.. junto às outras estátuas.viviam permanentemente com frio . Elas pairavam no ar junto com a murrinha de zoológico que infestava a ala. . rindo para neutraliza r o imenso e pavoroso alcance de suas palavras.Será que poderíamos vê-la? Teve desde o início certeza de que eles acabariam. Não sei se ela virá algum dia a ter essas coisas ou mesmo se as desejará. À tardinha.percebeu logo a Dra. Vivem mijando no c hão. . era justamente a pergunta que ela não estava disposta a responder. ou terá que continuar aqui. Sua aparênci a pode alarmá-los um pouco. Acreditem ou não. Pois.. É este solo que estamos trabalhando juntas.disse a doutôra.imagens simples. a lei da gravidade ondulando como um trapo no vento tenebroso. seja qual for. pelo menos. nisso ela só poderá acr editar por um voto de fé. buq uês de rosas e um pretendente distinto e de boa família. . Que mal há em desejar uma criança como todas as outras? . as palavras da menina tiveram uma ressonância especial. ela era uma pessoa da família. Se h ouver um outro mais firme. são mais assustadas. mas eu pessoalmente não aconselho ainda dessa vez. vocês a verão. para ser 115 patemalmente protegida e orientada.É importante que fique claro que os sintomas não são a doença . Mas era tarde. minúsculo talvez. Imaginem por vocês mesmos. descobrir e chegar a um acordo quanto ao que ela realmente quer. . formas dela se proteger.liar.mas é por causa do talvez. numa de alas.. para ser matemalmente mimada e cons olada. Trata-se de um problema puramente administrativo. não param de gritar . Jacob recostou-se aturdido. bem.Eu. Aqui as pessoas . . infeliz. um bocadinho.Deixe o talvez de lado.perguntou Jacob . . Não poderia prometer nada em definitivo. virou-se de repente. em parte. os dilemas que Débo . aquele: minúsculo. para o pequeno grupo de pessoas que estavam aconchegada s ao redor do aquecimento .. sinceramente não sei se posso lhes dar esperanças. nao importa. o fato é que lhes pertencia: insegura.. e ficou acompanhando as imagens q ue lhe percorriam a mente . a doença é o ún ico solo firme de que Déborah dispõe. minúsculo talvez. Lúcia. depois que esse for destruído.Tais sintomas representam defesas.em busca de paz e tranqüilidade. os vermes que despencavam dela.

. que nunca vivencia mos essa doença diretamente. apanhou o telefone e. não compraria sonhos e os imporia inflexivelmente a uma Déborah. é melhor não.. . . A doença de Déborah consiste. . Eu quero vê-la! Está no meu direito! . se essa Déborah fosse a sua filha. Ficarei aqui até às quatro h°ra Observou-os saírem e se encaminharem com passos rígidos. Jacob. . Deixou escapar outro suspiro.Mas ela nunca assumiu esse mundo.Esther . porque ela fica tão ada. . nada disso. 117 Esther por sua vez. .assentiu a doutôra afavelmente . futilidades e arrogâncias .E afastou-se furioso.Muito bem. Voltando agora para Chicago. . tá? . subitamente. Ou então. . Ao deixarem a sala de visitas. No carro.Você fala d emais! Deixe as coisas como estão e fique quietinha. Até mesmo os pais inteligentes. Déborah. a verdadeira Déborah ia se distanciando cada vez mais d essa realidade. .. traziam uma única certeza: era mais do que tempo de c . uma pessoa mortalmente arrasada por dentro. mas u ma espécie de retraimento. São capazes de lhes impor decepções.. Esther e Jacob mantinham-se calados. O que os a ssustou não foram resmungos desconexos ou ataques de violência. sem nenhuma garantia concreta além da fé. porém.protestou Jacob. .Mesmo assim. honestos e bons acabam vendendo seus filhos com a maior tranqüilidade. diante das quais jamais se curvariam! Ah! Ocorreu-lhe. e a aceitar a outra versão do m undo. "Conserte a nossa filha.Nós. depois de alguma relutância.Se qui serem depois conversar comigo de novo. faça 111 que e]a tenha boas maneiras na mesa e um futuro que corresponda aos nossos sonhos tão almejados!" Sus pirou. . ela foi deixando as coisas ficarem como estavam. viajando de volta para casa. Eu só queria.O mundo que nós demos a ela não foi tão horrível assim! . Jacob aproveitou para descarregar a raiva que sentia sobre a mulher: .Só queria saber se deu tempo para ela pentear os cabelos.Uma pe ssoa . no entanto. Ela não procurara tranqüilizá-los c om frases hipócritas. discou para a Ala D. esforçando-se por definir as suas impressões..Ela está muito pálida.Não.Dirigiu-se ao telefone.informou o auxiliar. A Dra.Sim.Acabaram de levá-la para a sala de visitas. e nquanto que por detrás dele. nessa visita. peçam por favor ao auxiliar 116 que stá de serviço para me chamar. A confusão os emudecera. está sendo instada a anular. Sacudiu-as de repente para longe. atualmente . não tem importância. . Fried. não faria também concessões a esse tipo de conduta. Espe ravam que. numa luta desesperada pela saúde. o senhor não compreende? Déborah criou uma espécie de robô que se encarregava de reproduzir os movimentos exigidos pela realidade. agora. eu quero vê-la . está bem. mal a haviam reconhecido. direção ao prédio do hospital Ah essas famílias! "Faça o em eu filho ficar bom". que nunca tivera ou educara filhos. não se mostraria ambiciosa. Quem sabe. uma ausência impalpável e aterradora. só podemos supor o horror e a solidão que se escondem por trás dela. anular todos es ses anos de vivência do que conheceu como realidade. e porque os sintomas proliferam tanto. Ficou u m bom tempo absorta nessas considerações.vou ligar para a ala e pedir que tragam Déborah..insistiu Jacob baixinho. Tudo o que viram. murmurou: . . não. Esperem-na na sala de visitas. . e aí compreenderão porque ela não dá atenção à sua aparência. doutôra . e ainda assim conseguira infundir-lhes o ânimo de que necessit avam desesperadamente. entendam bem. . . Sabendo que os pais temiam a desconhecida que se ocultava por de trás do familiar robô. A filha.rah vive.. Fried procurou uma forma de descrever os sentimentos de uma pessoa que ja mais soube realmente o que era a saúde mental em sua vida. .Ah. contradizia frontalmente suas esperanças do que fosse essa verdad e. Jacob limitou-se a comentar: .. a verdade se descortinasse de uma vez por todas. . doutôra? . Confiavam na Dra. como se ela não habitas se o próprio corpo.

E para Déborah. mas é antes de tudo um homem.. o pai acabara desp ertando pela filha aqueles mesmos apetites. Homens . assustadora ou repugnante que fosse.Ele tinha verdadeiro pavor dos homens. Pelo fato de eu ter atraído a atenção do indivíduo. Inquiri-lhe com indignação: . Parte do segredo. consistia em que Déborah tinha muito em comum com o pai: o temperamento explosivo. Fechava-se na cegu eira e na ignorância porque.O que? É meu pai. . . me esbofeteou com força. Déborah sabia que as suas partes íntimas também já hav iam sido infectas.. . . . . A Dra. quer confundindo a doutôra. o simpl es desentendimento num momento crucial. el e deduziu.Claro. por mais vergonho sa.Não.Quando fala dele..O que é que eles qu erem afinal comigo. Atitudes carregadas de culpa e amor. a encurralar. vivia me advertindo contra esses perigos.. esperando para me seduzir.. . a instigar sua recalcitrante p aciente através dos meandros do amor e do ódio.. . . então. Sentia que o amor do pai era um amor extremamente cego e que ete não fora capaz de compreendê-la por um momento sequer. que não só a deixavam e xtremamente confusa como lançavam sobre ela um estigma ao transformaremna numa cúmpl ice secreta de todos os crimes infames cometidos pelos maníacos e que ele não se can sava de descrever. a razão de ser dessa força qu e a compelia era tão misteriosa quanto as recônditas regiões de Yr. um era maníaco sex ual ou 118 possuidor de algum vício qualquer. e conhece seus próprios pensamentos. e aquela mesma culpa que existia nos monstros. Consciente da si milaridade. jazia sob injustiças triviais: a surra motivada por uma razão qualquer. se dissimulava. no íntimo. contra quem se empenhava tanto em recriminar. ódio. M as não era só isso.Percebeu que aquele fantasma que tinha adquirido dimensões enormes no Pânta no do medo. Será que o s outros homens alimentam os mesmos pensamentos? Sabe que sim! E os outros homen s serão capazes de controlar estes pensamentos tão bem quanto ele? Seguramente não! Déborah refletiu sobre a dissimulada sensualidade que vira transparecer tantas vez es nas atitudes do pai. Confundido na sua sensibilidade pelo medo.ontar a verdade a Suzy. Que bom. que alguma coisa eu devia ter feito..Já permiti que você fugisse de seu pai o tempo suficiente .. quando via ou descobria qualquer coisa.. Parte desse mal-estar era o . tinha medo dele e de si mesma. não sei como.anunciou Furii no deco rrer de uma sessão. me repreendeu por eu ter olh ado para um exibicionista na rua. desandou a esbravejar como se todos esses homens obedecessem a uma le i de gravidade que os atraía para mim. . apenas uma filha que vivia o colocando em situ ações embaraçosas.Continuam tão apavorantes assim? .. sentia-se irr esistivelmente compelida a colocar essa descoberta em discussão. Uma vez. Compreendo a gora que não fui para ele apenas. Explodindo de raiva e de medo. em direção ao qual Furii procurava estender as garras do mu ndo. . inconfessáv eis. para finalmente volta r a se defrontar com dois rostos familiares e apavorantes: o do pai e o seu. desejo . Tinha pesadelos nos quais fugia.. Eram verdad eiros animais. . se já estou toda arruinada e estragada.. Falava freqüentemente nas partes infectadas destes homens... o hábito de ficar remoe ndo por dentro as coisas e extravasá-las em súbitos acessos de fúria.Não. Os homens eram brutos lascivos até não poder mais. fugia. .. é com medo.Déborah desat ou a chorar.. Fried continuou a perseguir. p rontos para saltarem sobre mim e me agarrar.. Déborah por sua vez.Acho que você atingiu um filão importante. e alguma coisa mais.emboscados em vielas escuras. O segredo mais profundo. eu concordava. mal formulados e revestidos de tamanha culpa que acabaram 119 perdendo seus verdadeiros contornos. Não presto para ninguém! P apai. se esquivava. quer nas trevas de Yr. De cada três homens. .Quem sabe se o problema não era o medo que ele tinha de seus próprios instintos? . humano . apavorantes não.confessou Déborah. porque sabia que era verdade o que eu estava d izendo.Senti desprezo por ele algumas vezes .. era somente a figura do pai e uns poucos pensamentos seus.

por pior que pudesse ser ele às vezes. Dois casulos esperavam num quarto de reclusão pelos seus ocupantes. que estava sempre por dentro das coisas. de verdade. Furii procurou fazer com que ela trouxesse à to na os inúmeros fragmentos de evidência com os quais justificava os seus temores. como não enxergam nada.Ela esteve intemada bem ant es de você chegar. A voz que se fez ouvir em seguida vinha de Yr. transportando. um signif icado. A única coisa que quer o lhe dar é a possibilidade dessa opção.V ia. Fechando a procissão. quero lhe dizer que você roçou o discemimento. e você sabe disso.você conseguiu. que tolice! . o que significa verdade.. Você conhece? . Furii viu que a crise era imin ente.Isso significa que vou poder continuar louca se quiser? 120 Louca Varrida ..Ora.Conheço. mais difíceis inclusive do que a doença naquela fase que precedeu a sua vinda para cá. Suponho agora que devo voltar para casa. escute! . ..sussurrou Déborah para Lee. . A chave virou a fechadura e o administrador da ala surgiu em t oda a sua magnificência.Ainda faltam muitos segredos para desvendarmos.O que está acontecendo? . está tudo escuro e os macaquinhos.informou Lee.Talvez a doença venha a cobrar o castigo por termos nos distanc iado tanto dela. Reinava uma grande expectativa. Vultos de uniforme branco delinearam-se na superfície translúcida e embaçada do vidro. Escute Déborah. A doença tinha. o pesado elevador desceu.Ainda há mais. firmemente imobilizada. Perdoei mi nha mãe e meu pai. se eu precisar disso. fazendo a maior algazarra. .disse Furii. . . A escolha caberá exclusivamente a você.. Após alguns minut os. . Quer dizer o seguinte: na cabeça da gente. Eu chorei. "com macaquinhos". acu mulados até ali. Déborah estava exausta. . . muito mais . por falar nisso. Pairava sobre a ala uma excitação mal contida. Enfermeiras e auxiliares riscavam o saguão de branco e caqui com suas idas e vindas febris. .todos esses segredos e poderes secretos . e isto tudo faz parte da realidade da qua l você tem tanto medo. ficam pulando de um lado para o outro. se realmente quiser. porém. Um pouco antes da hora de trazerem para cima o almoço. que seria o sótão. dois para os pés e dois para a cabeça. tentando alcançá-la. essa eu não posso esquecer! Os americanos captam as sensações peculiares à doença mental com uma precisão surpreendente às vezes. uma opção verdadeira e consciente.. quando surgir. será muito mais rico! Conversaram por algum tempo ainda. O que acontece é que você está rejeitando o alimento que a sustentava . que a lucidez extinguia-se. . generosidade.Muito bem. uma miscelânea de per- . mas a teimosia a instigava ora a ceder ora a reagir. Você terá que confiar o suficiente em mi m e crer que o novo alimento.Beirava o ceme da questão quando o temor se abateu.. mais tarde.e nenhum outro apareceu até agora para substituí-lo.E se eu quiser isso. já escutei uma outra expressão.. Déborah. Esses são os tempos mais difíceis. . amor.Déborah. acho. jogando com Furii e seu mundo. Qu ando terminarmos você poderá optar por Yr. pelo menos.A Srta. . Ergueram-se todas num pulo e ficaram à escuta. uma velhinha de corpo mirrado e c abelos inteiramente brancos. enquanto aguardava a colisão final que a deixaria louca para sempre. De qualq uer modo.. Coral vai voltar de novo . É "macaquinhos-no-sótão". p esado e estreptoso.Prosseguiremos até enxergarmos tudo. . Graças a Deus! Isso aqui tem estado chatíssimo. Doida de pedra!. Seguiam-no quatro auxiliares. inteiramente desorientados.. Você ainda não teve a vivência da saúde mental para saber como ela é. . Acho que não vai querer nem precisar de macaquinhos no sótão. ouviram-no subir novamente. São ou não são maravilhosos e emocionantes esses sentimentos? . a resposta é sim.repreendeu Furii com severidade. ap esar da distância que crescia.. . até que parou diante das portas duplas que se abri am para a Ala D.disse num tom desalentado . se você quiser.Ah.

121 sonagens secundários: enfermeiras do dia pertencentes à recepção, acólitos, o clero regula r, noviços, postulantes e outros. - Aquilo é a tal Srta. Coral? - Cinqüenta quilos cheinhos dela! - exclamou Lee. O equilíbrio, a riqueza de tipos e o colorido davam ao espetáculo um quê de profano. A procissão, cercada de um silêncio a bsoluto, percorreu com o seu fardo o corredor, passando sem se deter pelos dois casulos (surpreendentemente) até chegar ao quarto de reclusão Número Quatro. Passado algum tempo, os carregadores começaram a sair de novo para o corredor. Débor ah se preparava para voltar ao seu posto na janela do dormitório, quando reparou n o último dos auxiliares que saía para se juntar aos demais, cujo comportamento a imp ressionou vivamente: era absurdo, assustador e hilariante ao mesmo tempo: negava todos os princípios newtonianos da física. Ele não andava, voava! Estava inclinado no ar, com uma expressão de pasmo como- se toda a vida se resumisse a uma trajetória. Não chegou a alcançar os outros. A meio caminho, desabou. O ruído surdo da queda despe rtou a atenção dos companheiros que vieram logo acudi-lo. Déborah suspirou desapontada . Era só um homem, afinal. Não se machucara nem no vôo nem na queda mas, por pouco, não foi pisoteado pela multidão de funcionários que acorreu em pânico, para subjugar a fonte de sua propulsão. A Srta . Coral surgira no vão da porta que, por descuido, tinha ficado aberta. Seu corpo franzino parecia carregado de eletricidade. O branco dos cabelos é que fora reduzi do a cinzas pelo fogo, murmurou Déborah em Yri. Os três homens que se atracaram com ela fizeram um papel deplorável. A velha não só era combativa como ágil! Literalmente sa cudiu-os para longe, mantendo o rosto impassível e os olhos vazios e fixos à frente. Quando os outros auxiliares mergulharam na escaramuça, continuou, mais ainda, don a da situação: permaneceu imóvel deixando simplesmente que um desfizesse o que o outro fazia. Helene, sentindo-se desafiada na sua supremacia de até então ser a mulher ma is temida da ala, correu para o saguão deserto, removeu os pinos das dobradiças que seguravam a porta da enfermaria, derrubou-a com o peso do seu corpo, arremessoua no corredor e pôs-se a destruir tudo o que estava ao seu alcance. A frágil Sylvia, plantada como uma estátua de encontro à parede, não conseguiu suportar a tensão provocada pela violência de Helene: explodiu subitamente, arremessando cont ra ela, através dos restos da porta, bandejas, instrumentos médicos e toalhas. Acion aram a campainha de emergência, interviram mais doze pessoas que conseguiram final mente, subjugar o motim, e colocar Helene e Sylvia no casulo. No meio daquele tu multo o administrador da ala esqueceu-se aparentemente de fazer cumprir os cuida dos recomendados à Srta. Coral: limitaram-se a metê-la no quarto e trancar a porta. - Puxa! - comentou Lee ao cruzar com Déborah no saguão - Você tem de admitir que isso superou tudo o que aconteceu por aqui nos últimos tempos. - Incrível. .. Nunca imaginei que uma velhinha tão frágil, fosse forte o suficiente pa ra pôr o cabresto num homem! Pena eu não ter conseguido chegar até o armário de narcóticos ... - Ela esteve intemada aqui há dois anos atrás. Certa vez, vi, com os meus próprios olh os, uma cena extraordinária: a velha jogar uma cama - não foi empurrar não - jogar, Pa rece mentira, mas ela é a mais instruída de todas nós. - Mais do que Helene? - Ora se é! Fala quatro ou cinco idiomas e transa acho que com matemática lá fora. Ten tou me explicar uma vez, mas você sabe não é, nunca passei da oitava série. . . - Olhou à sua volta e logo recomeçou a circular, ansiosa para repor o mundo no seu devido lu gar. Quatro dias depois, destrancaram a porta do quarto da Srta. Coral e lhe deram au torização para que saísse para a ala. Quando, depois de algumas horas, ela surgiu hesi tante à soleira da porta, deu de cara com Déborah sentada do lado oposto. - Oi! - cumprimentou Déborah. - Oi... Você não é um pouco jovem demais para estar aqui? - A voz era idosa, mas nem u m pouco desarmônica, prolongava as vogais, que soavam como ditongos, numa pronúncia bem típica do extremo sul dos Estados Unidos. - Ah... e o que é que tem ... temos o direito de ser tão loucos quanto qualquer um.

- Objetou Déborah armando um bçicinho. - Lee Miller contou que você sabe línguas e matemát ica. É verdade? 123

Oh, ela ainda está aqui? Que pena... - e soltou uma risadinha que mais parecia um cacarejo. - Você sabe mesmo falar línguas? - Não ... que nada! Só nos ensinavam a ler e escrever um idioma naqueles tempos, e a penas o suficiente para lermos os clássicos. - E você ainda se lembra? - A pergunta a colocou de sobreaviso. Encarou Déborah long amente. Tinha, naquele momento, o porte de um Anterrabae bruscamente imobilizado na sua queda perene. Seus olhos, de um azul cristalino, pareciam chispas. Os ca belos fartos, brancos e eletrostáticos, ameaçavam inflamá-la como a um tição. - O que é que você quer de mim? - indagou finalmente. - Quero que me ensine. A rigidez das feições como que se dissolveu, o corpo afrouxou desalentado e os olhos , aqueles olhos inflexíveis, se encheram de lágrimas. - Estou doente, menina... - di sse ela - Estive muito doente. Esqueci tudo. E depois, eu acabaria cometendo err os por causa da idade... (Déborah acompanhava a luta feroz e invisível que ela trava va no íntimo para se recompor) .. . e a doença.. . - Não faz mal! - Estou cansada agora - disse a Srta. Coral, recuando de novo para dentro do qua rto - vou tomar uma decisão, mais tarde informo. - E bateu a sólida porta atrás de si. Déborah voltou a se sentar no chão, diante do quarto dela, e ficou ouvindo os sons a bafados da batalha que se travava lá dentro: imprecações, gritos, quedas, uma pancadar ia dos diabos. Um auxiliar que vinha passando, deteve-se intrigado: - Ué, pensei q ue tinha aberto essa porta... o que é que está acontecendo lá dentro? - Coral versus Coral: ação de divórcio. Estão brigando pela custódia da criança! - Déborah, você a viu sair, não viu? Foi ela quem fechou essa porta? - Sabe lá se ela não tinha que conversar com alguém! O auxiliar se afastou vagarosamente, retomando a distribuição de privilégios e autoriz ações. Déborah se sentou novamente diante da porta, e despejou no chão todos os tesouros que carregava nos bolsos. Encontrou duas guimbas de cigarro 124 que tinha conseguido surrupiar a uma enfermeira estagiária num momento de distração. F oi até a cama de Lee Miller e as colocou sob o travesseiro dela como oferenda de a gradecimento. Pagava, pela segunda vez, a dívida de Sylvia. Voltou ao seu posto em frente ao quarto da Srta. Coral. Sentia-se extremamente c ulpada. Sua substância parecia ter-se espalhado pela ala impregnando a todos de an gústia. Por cada dilaceramento íntimo, como o que ocorria por detrás daquela porta, ju lgava-se simbolicamente responsável. Lembrou-se, porém, do que Carla tinha dito: a d oença era como um copo que transbordava e, por'isso, uma ou duas gotas a mais não al teravam as coisas. Mesmo assim se perguntava se era ou não responsável? Incapaz de decidir, pôs de lado a questão. Passado algum tempo, silenciaram os ruídos dentro do quarto. A voz da Srta. Coral, arrastada e exausta, a chamou do outro l ado da porta. - Mocinha!.. . Mocinha! Você ainda está aí? - É. .. É comigo? Está me chamando? - Déborah mal conseguiu articular as palavras, taman ho era o nervosismo que sentia. - Sim, é com você - E então ela declamou: "Inter vitae scelerisque purus Non eget Mauris jaculis heque arcu. Nee vena nati s grávida sagittis, Fusce, pharetra." - O que é isso? - Amanhã - respondeu a Srta. Coral - e teremos ditado também! 125 Mary (paciente do Dr. Dowben e, para não confundir com a primeira, chamada Mary Do wben): - Assassinato e incêndio! Há um incêndio! Carla queria ir ao cinema na cidade porém como paciente da D, precisava de uma per

missão especial e de dinheiro. A Srta. Coral, que voltava a palmilhar desde o prin cípio a sua via crucis, estava ali para requerer alguns privilégios básicos. Nem bem o médico pisou na ala, os pedidos e as respostas começaram a chover de todos os lados. Quando Déborah falou no cademo de anotações, os olhos do médico detiveram-se nela por alguns segundos, avaliando-a de alto a baixo. - Vamos ver! - respondeu por sobre os ombros, dando as costas e prosseguindo seu caminho. Naquela tarde, a Dra. Adams veio à ala para ver Sylvia. Ao sair, deu por falta de um exemplar de Loock Homeward Angel que trazia consigo. Pouco depois, no mesmo d ia, uma das enfermeiras estagiárias procurava em vão o seu cademo de aulas. As páginas escritas reapareceram dois dias depois no elevador, fora da Ala dos Perturbados , mas a metade do cademo cujas folhas estavam em branco continuaram desaparecida s. Déborah pôs-se a chatear Helene para que lembrasse das poesias que sabia, e tanto ch ateou, que um dia ela recitou trechos de Hamlet e Ricardo in, arrancados, para s ua própria surpresa, de algum canto empoeirado da memória. Passava horas transcreven do conscienciosamente todas as palavras gregas e latinas que possuía no seu arsena l de tirinhas de papel. Leu e releu o "Look Homeward Angel", escondido sob o mai or sigilo debaixo do colchão, até o dia em que Mary Dowben o descobriu e o comeu tod inho, poupando apenas a capa. Conversou uma vez sobre o romance com Carla, que já o havia lido. - Se eu sou capaz de aprender essas coisas... - perguntou Déborah, - ... capaz de ler e aprender, porque a vida continua tão obscura? Carla a fitou, sorrindo complacente. - Deb, quem foi que lhe disse que aprender fatos, teorias ou línguas tem alguma coisa a ver com a gente entender a si mesma? Entender o que você tem Ce específico e distinto das outras pessoas. . . - Déborah com preendera subitamente que embora a sua sagacidade precoce tivesse uma ligação íntima c om a doença, estimulando-a em 128 certas ocasiões, ela agia independentemente dos problemas que turvavam a sua noção de realidade. - Quer dizer então que a pessoa pode aprender, aprender e continuar esquizofrênica? - com Déborah, pelo menos, isso pode acontecer - interveio Helene ferina. Déborah foi esconder seu cademo atrás do aquecedor do dormitório, e deitou-se, em segu ida, na cama, de onde só saiu três meses depois. Durante todo esse período levantou-se apenas para ir ao banheiro ou para comparecer às sessões com a Dra. Fried. Foi uma das épocas mais sombrias e obscuras de sua vida. Deixava-se arrebatar por Yr, entr egava-se às divindades e aos personagens do Coletor, sem opor a menor resistência, e xceto no decorrer das sessões com a Dra. Fried. Carla aparecia, às vezes, para conta r os boatos que corriam na ala e os pequenos incidentes do dia. Déborah era incapa z de expressar o quanto essas visitas significavam para ela. Constituíam, ultimame nte, o único contato humano que mantinha por dias e dias seguidos, pois a máscara po r detrás da qual se ocultava, dava a ela uma expressão tão hostil que os auxiliares, q uando vinham trazer as refeições ou trocar as roupas de cama, afastavam-se o mais rápi do possível sem lhe dirigir uma só palavra, sequer um aceno de cabeça. Voltou a ter pe sadelos, a acordar sobressaltada e gritando durante as noites. Logo a transferir am do dormitório da frente, cheio de gente e barulhento, para um quartinho escuro, nos fundos do corredor, junto com duas outras mortas vivas. Criaturas acostumad as às trevas, sentiam-se mal com a luz: quando raiava o dia, calavam-se completame nte e não enxergavam nada diante dos olhos. Reinava um silêncio sepulcral. De repent e, uma delas, atormentada por algum pesadelo, irrompia em gritos dilacerantes, f azendo com que se despedaçasse a crosta quebradiça do sono narcotizado das outras. M antinhamnas entregues a si mesmas, sepultadas entre aquelas quatro paredes, acor dando-se umas às outras, justamente para evitar que transtomassem a ala toda. Havi a noites em que Déborah tinha a impressão de estar vendo se realizarem suas fantasia s mais diabólicas a respeito da loucura, fantasias construídas a partir do arsenal d e ameaças com que as babás costumavam acenar quando era criança. Despertava, freqüenteme nte, com uma das companheiras de quarto de pé sobre ela, com os braços erguidos 129

mas os desafios que Déborah conhecia eram surpresas preparadas por Yr: cobras que se desprendiam inesperadamente das paredes. se permitiu pela primeira vez algumas palavras em louvor à boa luz que a iluminou num momento tão providencial. volte para a cama e me deixe dormir um pouco. um sorriso de boas-vindas. ora. Delia. . .Ora.Eu sou louca. p ercebera nos olhos das pessoas a mesma descrença de que viesse a se recuperar e. Déborah esbravejou: . .Dê o fora.perguntou a Carl a. embora fosse familiar a agressividade explosiva de sua dona. continuava ainda muito limitada.Ah. Fora necessário reunir uma energia extraordinária para suportá-lo. com um suspiro de alívio. Levanto u-se tão inesperadamente quanto se deitara. Rec ordou-se do Censor. seja acordada . cansada demais para continuar lutando! Furii tinha dito que a sanidade consistia. Déborah! .. .Será que ela pôde escolher? Será que a sanidade representa uma opção para ela? . Boa noite. tingida de cinza.Eu sou louca. Deu as costas e foi embora. . e não há nada que você possa faz r comigo que a minha própria loucura já não tenha feito de uma forma muito mais eficie nte e dolorosa. A imagem que tinha de Doris era de um fantasma glacial. Déborah. Por que razão? Não sabia. rompeu o silêncio e o terror nos quais estivera encerrada até então: . . pelo amor de Deus.murmurou Déborah. os choques medonhos resultantes da colisão dos mundos. Helene. Julgando que fosse. pensou muitas vezes na figura semilegendária de Doris Rivera: ocupara os mesmos quartos. . Déborah sentiu uma alegria dentro de si que ultrapassava o pe queno motivo que a produziu. . Logo que a viu. pôrra! Suma-se! . . dia após dia. Helene .. pela primeira vez. Déborah levantou-se finalmente da cama. quando foi bruscamente acordada por uma das mortas vivas. Sua visão. Você está sujeita às mesmas leis que eu.. fumando um cigarro.ameaçou Helene. como foram terríveis aqueles anos que vivi no mundo.furiosa e embrutecida .. aquele caos horrível? . pessoas e lugares que apareciam e desapareciam. Foi até o saguão e parou junto à porta da al a. fingindo-se de fantasma.Pensa que me assusta! Você não seria capaz de competir com o menor dos meus pesade los. .O h. numa esco lha. A Srta. antes de tudo. recuperara-se.Como ela consegue suportar. Helene.. . Durante os meses transcorridos naquela cama. voltara de novo ao mundo. ... num desafio. insensível. Déborah. sofrerá os mesmos terrores. . seja dormindo.Estive me lembrando de mais al . Reconheceu a voz e. como se o riso fosse uma constante no seu q uotidiano. Agora sorria e di ga "como vai".Eu seria capaz de tudo. ou então esmurrando-a num sonâmbulo acesso de fúria.. gargalhou com a maior naturalidade. 130 . aproximando-se .num gesto de sacerdotiza. e numa das minhas piores noites? .disse ela. um vulto angustiado e macilento aguardava que seus pensame ntos voltassem a pousar nela: Doris Rivera que saíra para o mundo.Talvez ela se limite a ranger os dentes e a lutar a cada minuto. Coral estava sentada no chão. que consistia num desejo puramente humano. volte para a cama. a pesar de tudo. sorriu. uma das companheiras de quarto. tá? A menina se afastou. uma menina gordinha que andava por todo o quarto batendo os pés com força. cana lizando todas as suas energias para sustentar a aparência.Segundo a minha médica. Sonhava uma noite com o pai e aquela outra faceta do seu amor.ameaçou ela novamente. mas não a importuna va muito.De sisti de tudo porque estava cansada .Escute.Esqueça essas experiências Déborah! Você provavelmente não conhece nem de longe o que é se sentir mentalmente sã. seja bem-vinda. Furii dissera: . Uma outra noite. Um belo dia. mas Déborah percebeu que o tom era muito mais de orgulho ferido do que de selvageria. como de hábito. scomos nós quem escolhemos esses diferentes caminhos. o sumo guardião da Aparência: Agora dê um passo.v eio assustá-la.pergunt ou Déborah. contudo. Confie no nosso trabalho juntas e na saúde qu e se oculta no fundo de você! Nas sombras. Ela não disse nada.

Carla. surgindo. que esperava como um animal acuado. nada poupam. Im ediatamente. A corda da amizade. Pássaro-um? Eles se armam com um conta-gotas c heio de ácido. inc apaz de morrer. ainda tinha o poder de v ibrar. ampliou-se o campo de visão de Déb orah. contando com a . respeito e temor. a personagem legendária que Déborah visualizava como um fantasma. instig am-na a germinar no solo onde foi plantada. no entanto. estarei por aí. como se a visse pela primeira vez: graça s aos códigos e à mágica de Yr. esperando! Uma verdade terrível se impôs a Déborah: Carla se tomara sua amiga. não era um fantasma: estav a viva. Doris Rivera. Ê doce a chamada e reconfortante o calor. Pássaro-um! recomendou Anterrabae com voz suave . como que em resposta ao seu comando. vítima. o suficiente para se defender contra a determinação d o mundo em fazê-la sofrer. 132 .gumas coisas. completou com a verdade: . Sol. quando a encontrou no saguão. Déb. Doris Rivera tinha ficado boa e ido embora. Procurava atraí-la com sua deslumbrante beleza. e dera o primeiro passo em direção àquele pesadelo que as pessoas deno minavam "realidade". junta-te a nós". Seria simplesmente porque ela estava contente de vê-la? Existiria re almente um mundo para além dos muros que vedavam seus olhos? Sofra. embora tão debilitada. e estrofes tiradas de Medéia. que bom! Como vai? . água. Nunca lhe ocorrera que a Srta. Demonstrava uma confi ança e uma lealdade comoventes. saudou amavelmente Anterrabae (esta era a saudação habitual em Yri). Só nesses termos consegui a imaginar o reencontro com o mundo. os primeiros brot os.vou sentir falta de você! O terror despertado por essa declaração foi tão grande que começou a tremer e a suar fri o. Carla veio se despedir de novo: . Coral pudesse ficar contente de vê-la.exclamou Déborah. e eles . Os dentes reluziam como diam antes e os cabelos formavam cachos de fogo. . O Censor desatou a rir às gargalhadas. e ficou até a hora do jantar copiando os devaneios poéticos da velha . era forte! Sua rainha e vítima cons ervava ainda vestígios de poder.Era u ma atitude corajosa agir assim com tamanha espontaneidade. as citações filosóficas de Abelardo. vítima de uma resignação patética e desesperada. sorriu e a cumprimentou efusivamente: . Deb. antes de descer. Levantou-se do chão e foi se aconchegar às outras vítimas daquele terceiro círculo do inferno de Dante. Déborah usou conscientemente a máscara.Tchau. uma 131 folha de papel. algo semelhante a um potencial para a cor. chamam eles. Despontam. .ah. e da própria realidade da existência de Carla. Déborah a encarou com uma expressão aturdida. deliciando-se com a expressão ao mesmo tempo de inveja. O olho da destruição aproximava-se cada vez mais de Déborah. Foi à enfermaria.Claro que sim! . ícomou emprestado um dos lápis "o ficiais" numerados.Eles semeiam em solo fértil. e mais tarde. Anterrabae se afastava na sua queda vertigi nosa. Você poderia até pedir autorização para ir me visitar lá embaixo na B. para espezinhar bem o seu sofrimento. er a mais seguro esperar algum tempo para ver que conseqüências resultaram. então. teve oportunidade de dar um outro "chega-pra-lá" em Helene. defendendo-se contra o m edo suscitado pela partida de Carla. quando uma pessoa saia'de uma fase difícil. já que. Passou aquele dia quase alegre.Deb. para gozar a inconstante clemência do aquecimento. Não dês ouvidos ao que ela diz. O pior é que. não mexera sequer um músc ulo do rosto. Você ainda quer ouvir? . gos tava de Carla. Adulam a semente. ao mesmo tempo. Em breve a avistaria. Déborah não atinava com uma razão que justificasse a coragem e a generosid ade de Carla. Coral para lhe recitar alguns versos de Lucrécio.e então. alimentos. Já ia passar lá para lhe comunicar que amanhã cedo desço para a Ala B. então. antes de se aproximar. "Junta-te a nós.Fico contente por você ter saído hoje.Não diga . e por sua vez. Pela primeira vez desde que chegara à Ala D. . sabei o que fazem. que se estampou no rosto dela. Procurou a Srta. Yr. Déborah apercebeu-se de que ainda não tinha dito nada a Carla. Carla. havia se livrado da dolorosa sensação de perda e amizade. embor a a cor propriamente continuasse imperceptível. reagia. Na manhã seguinte.

Mary deve ter algumas balas. .segurança que lhe oferecia a Ala D. com o mesmo rosto inexpressivo. nunca o vira. reproduzindo com trejeitos termos psiquiátricos. Coral amavelmente . Enquanto discutiam a questão cuidadosamente. metamorfoseado num gigantesco pássaro. todo solícito. porém.Quem é? Alguém daqui? Um paciente? . Coral aproximou-se dela: . é o Sr. tratava a paciente como a um fardo. nem macho. percorreu de volta o cor redor. pois pouco tinha a defender. A Srta. Quando tenho que pedir. e desapareceu. mergulhou nela com um grito triunfal de águia. Provavelmente m uitas saíam do casulo.Acho qu e a gente só consegue gostar da comida do hospital quando está tão doente que não pode r eparar nela. bem. O olho a focalizaria e a lançaria em plena selva da real idade.Ocorreu a Déborah. Pensei que você soubesse dis so. graças a ele. obrigando-a a se curvar em duas com tamanho ímp eto que acabou de quatro no chão. Ele falava pouco agora. destrancav a o banheiro para a Esposa do Abdicado. desprovida da tênue malha de defesas que levara a vida tecendo. pois el e não pertencia exclusivamente a nenhum dos mundos. Se você pedir. . Nunca pude pedir nada a ninguém. muito menos a falar com ela. tenho certeza de que ele a ajudará com a maior boa vontade. sem olhar parà nada e ninguém. Leve-me com você! Um momentinho! interveio o Censor com sua voz áspera.. . a grandes altitudes. esta sentiu o tumor diste nder-se violentamente dentro dela. Quando Déborah deu por si. devassando todos os horizontes. A lua e o sol na mesma esfera. Ta lvez lhe tivessem repreendido por bater nas pacientes. Acima de todas essas preocupações. inc lusive aos seus.Encontrei um tutor para você! Uma pessoa que lê os clássicos fluentemente. que encontrou ao seu lado. . conhece grego a fund o. Déborah avistou no fundo do corredor a figura de Ellis. Ellis. dividia-se entre os dois. limitouse a rec uar para deixá-la passar. .Não. talvez não.exclamou horrorizada. o papel de zelador de coisas.principiou a Srta. assumira de vez. acontece alguma coisa comigo e eu . foi Castle. Era natural que não soubesse da história. eu acabo brigando. a divindade dissimuladora. e não Ellis. menos convencidas do mundo do que estavam ao entrar. Não se dignou a olhar. O que é que você está ve ndo? perguntou ela em Yri.Já ensinei a você todo o grego que sabia.. Voara já uma vez 133 com ela. encharca da de suor. Quando se ergueu.Ellis! .é ele quem detém as c haves. e que se de sfazia lentamente durante aquele ano no hospital. . espere . nem fêmea.O que houve. . Coral com timidez. observando-a livrar-se do torpor. sentindo-se à vontade na doença. Por coincidência.reafirmou Idat. um auxiliar novo. respondeu o pássaro. Blau? . agora familiares. Os penhascos e desfiladeiros do mundo. enfim. Sim. Lembrou-se. pairava em céu aberto. . algumas das quais ainda vivas. . e que também era andróg ina. ainda meio atordoada. aos olhos dos outros. Lactamaeon. que o incidente com Helene tin ha acontecido antes dela chegar. . acabaram se diluindo no meio-tom rotineiro da ala.prosseguiu a Srta.Não. na dimensão de Ir. pusera de lado o disfarce da normalidade. que jamais prestava atenção ao que se passava à su a volta. Desde a conversa com McPherson que não falava com Ellis. Já se habituara ao emprego.Queria lhe dizer uma coisa .Ela riu da alusão. . eu não posso pedir. . Lactamaeon avistou uma brec ha na terra. ofuscamente belo e l ivre. embor a continuassem tão vivos 134 quanto o fogo de Anterrabae. Ao passar por Déborah.Nunca percebi. . já anoitecera. O sarcasmo e o desdém irritantes dela. Por que você não pede uma a ela? . Aberto o banheiro. do preço qu e tivera que pagar por ter testemunhado e se posto à descoberto. e justamente hoje ele está de serviço no turno da noite.Se você quer conhecer . o s pacientes não o testavam mais. Déborah.

Vamos esperar mais um pouco . Quando terminaram. Esther sabia. Esther queria evitar a tod o custo que Suzy viesse a substituir a imagem familiar da irmã por aquele estereótip o da louca de olhar selvagem. Tudo se encaixa direitinho agora! Até que enfim as co isas fazem sentido! Levantou-se da mesa e foi para a sala ao lado praticar suas lições de piano. com uma convicção nem sempre sincera. que esse "esp erar-um-pouco" era mais uma das portas por onde ele se esquivava discretamente d os problemas. arrancadas a tanto custo. As pessoas tinham o maior respeito pelas novas teorias com toda a sua gama de comprovações empíricas sensacionais.Você leu os relatórios? . as histórias descrevendo o ma nicômio. Esther lhe pediu que ficasse. 136 ao terminarem o jantar. Além disso. por exemplo. . . ela não fica dizendo que é Napoleão ou coisa no gênero. no entanto. as antigas crenças e temores sobreviviam incólumes na mentalidade popular. de alguma outra ref erência que a deixara confusa. cedendo lugar ao terror pr imitivo ao peso de dez mil gerações de medo e misticismo. ameaçando o futuro? Sim. Jacob de vez em quando a aparteava. levantou-se para fazer os seus exercícios de piano. sepulcro de uma multidão de trapos humanos. o da louca em "Jane Eyre". por exemplo. às vezes. uma contração muscular sequer que denunciasse aos pais como estav a recebendo aquelas palavras. atônitos. com os olhos perdidos nas xícaras de café. sem dúvida. lembrando-se. você citar trechos para a vovó. e então falou em voz lenta e pausada. Ao menor arranhão. até que finalmente venceu a posição de Esther . O clima foi pouco a pouco se descontraindo.Uma coisa que sempre me intrigou é que esses relatórios tratavam mais das idéias de Déborah do que de seu corpo. Passados alguns minutos.. cuidado com as opções q ue vocês nos oferecem! 135 Esther Blau passou muitas semanas preocupada e agitada.Seus próprios ouvidos estranharam aquelas palavras.propôs Jacob. precisava saber. quem já não ouvira falar dos maníacos assa ssinos. É um assunto sério. Suzy escutava com a passividade que só uma menina de doze anos é capaz.. O problema se resumia em achar uma maneira adequada de contar. por Deus. alegando que isso cabia exclusivamente a Esther e Jacob. Ouço. que sua enfermidad e era mental e não física. . mas. due seus médicos eram psiquiatras. que transmitiam suas taras aos seus descendentes. Empertigou-se na cadeira. temperou a garganta e com vo z formal começou a explicar à filha caçula que a "escola de convalescência" de Déborah era . Dava-se conta agora de que fora justamente este estereótipo que ela e Jacob haviam evocado da primeira vez que viram as janelas guarnecidas de barras e que escuta ram o ranger das fechaduras ou o grito atormentado de mulher. já era tempo. Nunca mencionavam. hesitando em revelar a S uzy a doença da irmã. . modificando ou elucidando um ou outro aspe cto da questão. que partira de alg uma janela do hospital.. a "Ciência Modema" fornecera uma série de racionalizações oficiais para explicar muitos desses casos. Isso nunca! Discutiram. . Suzy.mas. a despeito dos fatos. Quem já não havia escutado os velhos melodramas a respeito da insa nidade como. contudo. . era injusto continuar a alijá-la da fonte de suas preocupações mai s profundas. mas só superficialme nte. na realidade.As suas leis espaciais são ótimas . Naquela mesma noite. fica? . como de hábito. Esther e Jacob continuaram sentados. ela p ermaneceu em silêncio por algum tempo. discutiram. o pulso ou a temperat ura.Não. Lister que o fizesse. Suzy voltou. tratando-se de um relatório sobre essas do enças comuns. acrescentando. ao mesmo t empo solenes e embaraçadas. por isso. tornava-se cada dia mais difícil conversar pe rto dela. Seu rosto não extemava um sinal. mas ele se recusara. e um dia você leu um bom pedaço para tio Claude que eu achei meio esquisito. Cheg aram a pedir ao Dr. a casca da cultura se desfazia. rodeadas de muros sólidos e indevassávei . Ela estav a deixando de ser criança e.. com suas construções sombrias e lúgubres. enfiada numa camisa de força c acorrentada num porão. Suzy.Escuta.disse ela . um hospital.Suzy esboçou um sorriso. . Ou seja: feche os olhos e pronto! Tudo volta a correr às mil maravil has.

sempre se recus ara a emprestar suas roupas. na Ala D. toda a angústia que o dominava. mas veio encontrar depois.Até mesmo emPem ai . pelo menos tanto quanto 138 com Yr.disse Suzy.Mas você não disse que costumava subornar as crianças na colônia de férias com os doces que sua mãe mandava? .como se diz? . Por isso. assim que passar o choque. refazendo-se do contraste entre as e xpectativas e o que acontecera de fato. de início. . uma covarde. tudo isso pesando em favor de Deorah. logo que as recebia. Esther se sentia fraca devido ao brusco relaxamento da tensão.No entanto. cujos gumes ela própria afiara. que isto só aconte cia consigo. quando identificou a menina errada na colônia de férias . Ser rainha de Yr. Além do mais.que significa "Nada" . as vantagens dela ser trata da cedo. Ficava encantada com a pureza. inclusive em seus objetos pessoais. .E comprava assim. não havia perigo de contaminação. ela vai reaparecer com o olh ar que há meses venho imaginando! . .Admito que errei mil vezes! Mas você esquece que eu era feia.Isso é tudo?. e por isso. a saúde que vicejavam nas outra s crianças da escola ou da colônia de férias.Por exemplo. Durante toda a sua vida. 137 Tomara que volte logo para casa. era ter sempre razão). a podri dão-Déborah só começa a agir depois de um dia. . Eu dava as caixas imediatamente. quer dizer. Permaneceram ali sentados por um bom tempo.O inglês é mesmo uma língua maravilhosa . estiveram impregnados dessa venenosa essência. ela e tudo aquilo que a p ertencia.O inglês não é melhor do que o Yri! . Às vezes. e cada vez mais intensamente.Não sei não.. Talvez o troar de canhão que temíamos foi o que nós ouvimos. é só isso ou será que realmente ela não nos compreendeu? A i mpressão que eu tenho é que. por menos que fosse. à peça de Schubert. Segundo Déborah. sem esp eranças. uma pequena dose de popularidade! .Não? Não é condenável cortejar a morte? (Suas mãos haviam manejado com destreza a lâmina a precocidade. lápis ou permitir sequer que alguém tocasse em suas coisas. parec iam carregar o mesmo estigma.Falaram sobre o otimismo dos médicos. . sua escrava e pri sioneira. por algumas horas. isto é. então o que sobrari a? Notou que se deixara levar pela vaidade e riu meio constrangida: .. Julgava. vo ltando. ela e alguns outros possuíam um n ganon que as diferenciava das demais pessoas. O tom em que falavam traía um pouco a esperança que tentavam transmitir. uma substância ori ginal que definia cada pessoa. . arruinada. Contém expressões incríveis! Ho e .perguntou Furii c om delicadeza .comentou Furii.Todos nós temos! . livros. que possuía uma substância envenenada e venenosa.disse Furii . Só que os doces vinham em caixas impessoais cobertas de papel celo fane..eu tinha que preservar alguma coisa.Você se envergonha disso? Para mim é uma evidência de que Déborah ainda mantém vínculos com a Terra. o Coletor já se manifestava. podia me dar ao luxo de ter razão! Se eu estivesse errada. Jacob deu uma longa tragada no cigarro e expeliu junto com a fumaça.Eu tinha consciência de que estava sendo uma farsante. . .Claro que não! . a força vigorosa e o amor que demonstravam. você cometeu erros que lhe custaram caro. "farsante e covarde . não foi? . Você acredita que essa sua substância seja realmente venenosa? Déborah começou a explicar as leis de Yr que regiam o nganon. alguns mortos vivos que. Enquanto não fossem abertas. é verdade. sinto muita falta dela . .perguntou Furii. Por aquela épo ca. em seguida. a graça. iA composição do nganon dependia não só de fatores inatos como de fatores circunstanciais.Sim. . Roub ava-os freqüentemente conservando-os até que se dissipasse esse nganon purificador q ue os impregnava.Elogiar uma coisa não significa condenar outra.você parece estar "na maior fossa".

Por quê? .interveio a Dra. Yr lhe deu de presente. ela não. Fazia sentido. desejava até que vencessem. pressentiu que ela beirava uma descoberta importante. .Uma japonesa de verdade? . . . forçando a entrad a dos Estados Unidos na Segunda Guerra. tu não és como os outros! Recordava-se de ter escutado o trecho de algum discurso no rádio que dizia: "Os qu e não estão do nosso lado. e à noção inculcada 'pelo seu avô de que você era especial... enquanto el a tornava-se a síntese perfeita do amor e do ódio. no decorrer do r elato. durante cerca de um ano. Os homens 140 eram os cegos.. quio quaru ar Yr aedat temoluqu' braown elepr' kyryr. O importante é que o mundo começava a dar um sent ido às oposições irreconciliáveis que dilaceravam Déborah. no dia em que fez nove anos de idade." (Liberta e alada. as relações pareciam se in verter: os seres do mundo passavam a ser amaldiçoados. viveu ora sob a forma de um cavalo selvagem. ) Quando Déborah se transformava nessa enorme criatura alada. Fried. elaborava.Anterrab ae sabe o que vi. Quando em dezembro de 1941. era o seu ferimento de guerra. estão contra nós!" O Coletor segredou-lhe: . desperta.chamou Déborah em Yri. versada num idioma estranho. à dolorosa intimidade de seus ferimentos. Um dia.Compreendo. cometiam erros. o deu s cadente." eram acusações que ouvia dele. o nome daquelas ilhas do Pacífico adquirir am uma conotação odiosa e infemal para os americanos.Onde você está agora? . eu fui uma japonesa.. quisera não ter visto! Qui sera banir da memória essa coisa horrível..Eles odeiam esses japoneses como sempre te odiaram.Eu estava disfarçada de americana. Déborah? . . pelo contrário. e. de percorrer as imensas distâncias que os separavam. Fri ed era obrigada a pedir inúmeras vezes que ela falasse mais alto. O prisioneiro não odiava seus captores.. A dor contínua e insuportável c ausada pelo tumor.. quando despertou sentindo-se como um sold ado japonês capturado. ora sob a forma de um enorme pássaro de penas de bron ze. 139 Anterrabae! Poderá ela arcar com tão grande peso? O que está acontecendo. esta revelação constituía um segredo crucial.. o universo de segredos. . à ruína de suas partes mais recô s e femininas.E Anterrabae. Ela gemeu baixinho para o deus e. Bastava que recitasse um encantamento Yri para que se dissipasse a ilusão. no alto do céu.. Sintomaticamente.. E esse sentimento vinha entremeado à precocidade que você tinha que su stentar. logo que se sentiu capaz de transitar entre Yr e o mund o exterior.. assim como a glória e a miséria pressupostas na declaração de Yr: Tu não és como os outros! . sonhos de fuga. os olhos oblíquos do In imigo ansiavam pelo dia em que seriam desmascarados. horrível. à linguagem secreta. . Déborah já não a escutava.. . os japoneses atacaram Pearl Harbour. A doutôra perscrutou-a com um olhar penetrant e.Porque eu era a Inimiga! Para Déborah. sobrevôo os desfiladeiros das tuas canções de ninar. O encantamento dizia: "e. Estava longe. . então.insistiu a Doutôra. completou com um sorriso amável: . Assim.Ah! Tu deves ser esse inimigo contra o qual eles lutam! Certa noite. o poder de transmutar sua forma. sem extemar qualq uer alteração visível.Durante a guerra. sabe o que tenho a confessar. contemplava todas as belezas e todas as maldades. Ah. agora. . a Dra... aquele frio que remontava à distante vivência de uma separação. Sua mente. o Coletor lembrou a Débo rah: . a condição de prisioneira. Por detrás da máscara de judia americana. estava quase adormecendo. Déborah tiritava de frio. mas na realidade não era uma americana. eram os que dormiam agora. e a menina feia e detestada se transformasse num esplendoroso pássaro. Furii deu-lhe um cobertor com o qual ela se enrolou e deitou no dívã.Anterrabae. . Déborah contou que. voltou-se desesperada e disse: .Pássaro um.

. Pouco depois chegava o pessoal da noite . Exigira dela muita atenção e uma participação intensa. Como uma brasa que seus dentes fossem triturando. Vá se deitar.Ainda assim. Não sentiu nenhuma dor. mas não conseguiu falar nada. ficou abismado e confuso com o seu e stoicismo semelhante ao "de um soldado".concluiu a doutôra . Há três semanas que seus discos de Schumann e Beethoven jaziam sem tocar na prateleira. fechou os olhos e relaxou o corpo. e o próprio Yr. .Escondeu-a também de Yr? . representavam ape nas uma tentativa de interpretar e explicar a realidade. a voz do Censor trovejava em seus ouvidos: Cativa e vít ima! Sabes. o pranto e o sofrimento de outras pacientes. Fazia parte exclusivamente da dimensão da Terra. foi at rás dela. Até que enfim esses malditos médicos me acham suficientemente corajosa! exclamara Débo rah em Yri para Lactamaeon. . Anterrabae fez com que Déborah quebrass e um copo e pisasse sobre os cacos com os pés descalços.Quer dizer que você escondeu essa identidade de japonesa de todos os que convivi am com você. m esmo fora de Yr. Déborah correu para a enf ermeira da ala que supervisionava a contagem de colheres para o jantar. Seus pensam entos deslizaram suavemente relembrando os tempos e as poesias de sua juventude . A música suave e graciosa invadiu a sala.No dia em que terminou a guerra do Pacífico.Está bem. Embora marcasse a hora de sempre. . ele fazia parte da Zona do Mundo Intermediár o para impedir que os segredos de Yr transpirassem nas conversas mantidas na Ter ra. encostou-se numa poltrona. e sim uma pessoa q e luta comigo em prol de uma vida boa e sadia para si mesma! A Dra. pela décima segunda vez naquele dia. de construir uma espécie de verdade onde você pudesse viver Bem . "Droga! Por que o tempo é tão curto?" Espreguiçou-se e se encamin hou para a sala de estar cantarolando alguns trechos de uma melodia.tenho certeza de que há muito para descobrirmos e estudarmos aí. respondera Lactamaeon. A última enfermeira do turno do dia saiu.Sra. "Qual é mesmo o programa de hoje?" Cons ultou a agenda. Não queríamos que escapasses! ." Mas dispunha. miraculosamente.Muito bem. . por que fizemos isso? Lembra-te do terceiro espelho: a de cepção maior ainda está por vir! Vieste para esse hospital . de uma hora antes de subir. .Não havia lugar para ela em Yr.Sim? . Queria pedir ajuda.perguntou Furii. Fried conduziu Déborah até a porta. mas o terror a emudecia. Déborah retcomou à ala apreensiva com a nuvem que ameaçava desencadear os prenúncios ter ríveis de que vinha carregada Soaram os primeiros ribombos nas esferas de Yr..Estou sentindo que a crise vai se abater. um verdadeiro tirano. estava nos pla . Tu és prisioneira e vítima. cujo médico viera lh e pedir conselhos a respeito de um problema aparentemente insolúvel. "Ah. "Como se se nte a doutôra hoje?" Enquanto retirava o disco da capa. O pior é que tinha ainda a t arde pela frente. o seminário. No início. Olson. "Não! Chega de pacientes!" Ligou a vitrola e pôs o disco. . sim. pensava sobre um paciente. o Censor teve o cuidado de mantê-la em segredo. Pressentindo que a onda rebentaria a qualquer momento. Censurava todos os meus atos para não deixar que as vozes e os ritos de Yr che gassem ao conhecimento das pessoas. viu a enfermeirachefe saindo. . Não foi assim? Não consi go é entender bem o lugar desse Censor no seu reino. Começou a interferir em tudo o que eu fazia ou dizia. A te mpestade era iminente. Foi um mar de gargalhadas e zombarias ensurdecedoras! Déborah não perdeu inteiramente os sentidos. Logo que chegou à ala. Preciso do casulo imediatamente! A enfermeira a encarou atentamente . sem que eu o percebe sse. O própr io médico estremecendo a cada caco que extraía. Nesse exato mome nto. e depois as aulas e as dúvidas dos estudantes de psiquiatria. continuo achando que esse Censor.Á função do Censor é me proteger. o telefone tocou. a sessão fora longa e exau stiva.E por isso. A onda arrebentou com a violência prevista. por acaso. Por favor! A crise vai se abater e s into que não terei forças pára suportá-la. Só que acabou se tomando. Você agora já não é uma vítima. e consultou em seguida o relógio que havia sobre a escrivaninha. Déborah.

.desculpou-se Déborah.Quem está aí? . . Aconteceu alguma coisa? A curiosidade fê-la esquecer momentaneamente a dor... Ah.Provavelmente porque tenho uma circulação melhor do que a sua. Sentiu-se envergonhada de tê-l a julgado pelas aparências. mui to mais próxima dos mortos do que dos vivos.. exceto por um breve e distante momento. que sempre parecera. o sangue quase não circulava. Não posso. ardiam como fogo. Ninguém veio. A dor t ornou-se intensa. Déborah. e os calcanhares. Quando a punição 143 se abateu com todo o seu vigor. e conseguiu apenas provocar cãibras ter ríveis em ambas as pemas. Trazia uma expressão absolutamente estupidificada ao chegar ao casulo e deitar-se nos lençóis frios. procurou rel axar ao máximo o corpo e aproveitar a lucidez que lhe permitia ver tão fundo em seus pensamentos. ou quan do se tem problemas com o sangue.. a pressão insuportável das correias. .perguntou. Anterra bae riscou as trevas inflamadas de dor. Isso quer d izer que são três horas.. vendo que era inúti l. Foste descerrando um a um teus segred os. s empre a considerara uma espécie de mobília inútil na ala. Começou a choramingar... Sentia os tornozelos e joelhos inchados.Como você consegue suportar isso? . como dói! Há quanto tempo estamos aqui? Cinco horas.partiu da cama vizinha. Virou a cabeça em direção a Sylvia. que com a circulação paralisada.É Sylvia. Reaver a nitidez de visão era como uma benção.Helene? Silêncio. o que há? . Déborah ficou abismada: jamais seria capaz de reconhecer as horas pela rotina do h ospital.Sete horas. A crise devia ter durado umas quatro horas. Lutou e se contorceu como uma fera. Por que não vinham? As lágrimas escorriam pelo seu rosto e não podia enxugá-las. Passeou os olhos ao redor. pelo simples prazer de olhar." Déborah percebeu que ao se entregar a essa esperança. Sylvia riu baixinho. Logo viriam os auxiiia res para retirá-la daquelas dolorosas "vestimentas de luta". já se achava firmemente atada na cama.nos. talvez seis.. Quando se cansou. e a cama não cedeu um milímetro. não sinto d or alguma. Fcomos "encasuladas" juntas.. mas o pior de tudo eram os pés. de modo a deslocar dos tor nozelos a pressão das correias que os imobilizavam. . mas não morta! . latejando de encontro aos lençóis. gritou esperando que Yr não interpretasse seu gesto como covardia e a punisse para sempre. nunca pude . queimavam como fogo.. Grite.Srta.Esqueci que o grito de um louco é um grito de louco! . Agora que já te expuseste o bastante. exclamando: Decepção! Decepção! Chegou a hora! "Venham! Venham! Venham!!. por seu silêncio sobretudo. mais expostos ao contato com os lençóis molhados. . E logo Sylvia. Gritou.Não imaginava que você me visse ou soubesse meu nome. Mas não vieram. Nos pés. pode ser que al guém venha. . A crise durara um bocado de tempo.Você está bem? 144 Deus do Céu.. verás só o que ela há de fazer ela e o mundo! A gargalhada que sucedeu à advertência deixou Déborah completamente for a de si. . tal como os outros. . apagaram a luz da cozinha. Reparou num montículo b ranco na cama vizinha mas não deu para ver quem era. O tempo ia pass ando e ninguém aparecia.. parou de chamar. O tempo foi passando.Doente. Recostou-se na cama e fez força para suspender o corpo. então? . Blau. gritou. mas quando os pés estão atados com uma pressão uni pouquinho maior. Esse ê o último.. Só recuperou a lucidez muito tempo depois. . rangendo os dentes. O jeito era esperar. .protestou Sylvia .Há quanto tempo estamos aqui. . com medo de tropeçar em mais uma decepção. Finalmente. Em geral. Tentou de novo arrastar o corpo para aliviar o peso dos ossos dentro das pemas. até que a dor se tcomou tão intensa que acabou destrancando a voz de Déborah. .. Déborah. . Permitimos que confiasses nessa médica. Sentiu os dentes estilhaçarem dentro da boca. pelas mudanças de turno ou pelas idiossincrasias pessoais da equipe médica.

Imorth. Na noite passada. em voz alta na presença de uma pessoa estranha.Escute aqui! .Por Deus. projetara-se 146 enfim a sombra tenebrosa da Destruição Iminente. Talvez ela não saiba.O momento em que e u iria pedir ajuda.Um dia você me fala sobre o soldado japonês e so bre como você foi alijada e discriminada pelas pessoas. Pouco antes de sair para o consultório da doutôra. Mas logo rejeitou a hipótese como absurda. . manequim. que a última Mudança seria a morte ou coisa pior. me esforço por conv encê-la de que ao revelar esses valiosos segredos para nós. eles cantaram vitória! Se us calcanhares e seus pés ainda estavam doloridos da brincadeira. Déborah não conseguiu andar. não é? . prontos para intervirem. as pemas readquirissem a cor e seus pés estivessem em condições de transportá-la. fácil! O que era is so senão uma prova de menosprezo que sentiam? Transpusera o abismo que a separava deles. Inútil! Sylvia voltara a ser móvel. aquela ínfima possibilidade de salvação..Eu a vejo.Sylvia.gritou Déborah .Bem? Bem? bêbeíalrfião se conteve: . pela prime ira vez. e que há cer tas regras nesse jogo que a vítima não deve transgredir. esses caras bolam tortura s verdadeiramente diabólicas! . e procu rando afetar a maior tranqüilidade. . . acercou-se dela. e mais ainda. .exclamou Déborah . . Como não tinham quase o que fazer àquela hora da madrugada. não pretendo ganhar a sua confiança só para traí-la depois.Agora você está bem calminha. então. permitiram que ela ficasse sentada por algum tempo. cujo toque queimava como fogo! . balançando levemente a cabeça.Parece-me que o velho hospital do passado e esse do presente fundiram-se na su a mente. . di . pel a primeira vez. e de viva. e eles. o que quer que fosse. senão a desta médica. .Eles souberam escolher o momento propício! . Que outra mão poderia executá-la de uma forma tão implacável e completa. pen sou Déborah.disse Furii. Quando finalmente vieram soltá-la. 145 . Então você vem.. . entregando-se num gesto de confiança. o espelho da decepção final. A esperança! . Vamos. ah. a Ansiada e Iminen te Morte. Aproximou-se da cama dela reparando pelo canto dos olhos que os auxiliares a companhavam cautelosamente os seus menores gestos. Déborah. foi quase um alívio. conheço o final do jogo. "Não suporto ver sofrimento".. não está colocando em risco a minha confiança em você por um momento sequer.Dessa vez não farei concessões! . Sylvia. fácil. até que as articulações desinchas sem.. portanto exe e acabe de um .No mesmo instante. encontraram-na quieta e imóvel. arrancando-lhe gemidos. um sopro de dúvida fez estremecer por um momento toda aquela determinação. quando finalmente veio. Contrastando com a incandescência da dor. A decepção ei a última mudança estão aí.expunha-se de novo às lâminas enregelantes do vento. Mas acontece que eu conheço e sse jogo. a caminhar para essa morte como se eu não soubesse o que ela é! Quando se defrontou com o habitual sorriso de boas-vindas de Furii. pedira ajuda em inglês.perguntou Sylvia. o momento em que eu confiaria. um sonho! Fora predito há anos atrás.As correias? . apenas o latejar compassado das têmporas.Não. Eu. Recuso-me a participar da brincadeira. Déborah. conservan do de humano apenas a forma. Por que me fazer de boba? Já não bast a me fazer de morta? Vá lá! Sou boba. Aguilhões impiedosos cravavam-se em ambas as pemas. . Já estavam com a pedra na mão par a despedaçar o vaso de flores! . no dia seguinte e trans forma o nosso trabalho numa peça da grande decepção e mudança.prometeu a eles .Juro que não farei! Não serei nem corajosa nem agradecida.Sei que isso é um jogo. d ecidiu retribuir o gesto de solidariedade que a arrebatara do seu habitual mutis mo. .Será que você não tem um pingo de misericórdia? . Acabou-se a farsa! Não pretendo mais manter a "esportividade". estátua. A certeza de uma destruição inevitável era bem mais fácil de suportar do que fora aquele pequeníssimo "talvez".Não estou entendendo muito bem .Todo mundo treme de m edo de encontrar o chão da sala manchado de sangue. todas as divindades e personagens de Y r se agruparam no seu horizonte.. e ela lhe foi dada. A ntes de deixar Sylvia entregue àquela luz inóspita e ao incômodo de ser desenrolada.perguntaram satisfeitos. Déborah tinha esperado a decepção final por tanto tempo que. falou Déborah em Yri e.

Déborah foi recons147 tituindo os acontecimentos da noite anterior. Respondeu às perguntas de Furii com um ar orgulhoso. . bastaváLhes retirá-lo de sob os meus pés. Deu as costas bruscamente. Acontecimentos desse gênero transtornavam todas as pacientes: espe lhavam a angústia de uma. conseguiu di stinguir. . e para a maioria. . desmaiam. Lee Miller. por isso. muitos partiam.E gritou mesmo por socorro. a dor que sentia. Ela ficou lívida. observava com um ar tolerante e divertido o acontecimento.Parece-me. Mais tarde. Lee zangou-se: . tintim por tintim.gritou. então conte para mim. Pouco a pouco. Delicadamente. Estado Civil. sim!" A coisa já começou e você ainda ousa afirmar: "confie e tud o estará bem!" .Seja! .. geralmente por meio de rumores. porém. A ala. conselheiros e familiares proporcionavam decepções e miséria ao l ongo dos anos.Por que perguntar logo a mim? -. Tratamentos e Choque . . no entanto.Uma prova dura. Ocupação. incentivando-a a se abrir . Déborah encontrou.Absoluta! . P ublicamente. em seguida. um auxiliar que a informasse. depois que a cobra foi apanhada.Prove! Prove! . mas esqueci que estava apoia da num terreno que era deles e. seríssima. então.e saiba que lamento muito. Gritam por socorro..E encerrou a conversa escondendo-se debaixo do cobertor. Religião. os professores. qualquer mudança era um símbolo de morte. Contou. médicos.Não.concordou Furii . enfim. tornava-se muito pouco conhecimento da chegada de novos pacientes.Não temos muito . saem correndo. Déborah procurou. Os mais belicosos. . mas infalível: Tempo! 17 Sob amarras idênticas às que trouxeram a Srta. nesse estado tão lastimável. . . no entan to. . por via das dúvidas.Pelo visto. .disse ela . Furii ficou séria. a doutôra foi recuperando a confiança dela. e de procurar ser paciente comigo se às vezes mi nha compreensão for um pouco lerda. Eu me preparei toda para aparar o ataque. qu e beirava a alegria.Não deixa de haver nisso uma certa dose de humor . como começou. com o mesmo desapreço profano. Mas isso não me impede de ajudála. dificilmente eu afirmaria que tudo está bem! O que foi que aconteceu de ontem para hoje? Se você acha que começou a úl tima mudança. Apenas transfere para você a responsabilidade de ex plicarme tudo. como se tivesse passado por uma grande aventura. lembrando-se de que sempre com um sorriso nos lábios. repito que não vou traí-la.admiti u com amargura. Ach o que você está entregando os pontos com muita facilidade. em meio ao atropelo de auxiliares. a fagulha que precisava. o rosto da tigresa que transportava m ao longo do salão. que está um pouco contente demais consigo mesma por causa desse incidente. a ficha completa dos recém-che gados: Nome..Olhando para você agora.Trata-se de um caso de readmissão . o safari trouxe uma nova tigresa para o cativeiro. desencadeavam a violência de outra. . as zombadas de Yr. nesse momento.. foi direto para o quarto e meteu-se na cama. trancam as portas.. Hospitalizações prévias. desde o momento em que pedira para ser levada ao casulo. você nunca esteve intemada num hospital psiquiátrico. Outros Tratamentos e Observações.zem. . Ao contrário do que esperava. sopravam uma aragem pr enunciadora de mudanças.Fiz exatamente o que as pessoas "sadias" fazem quando vêem uma cascavel.Você tem certeza de que foi por tanto tempo? .de que tipo e quantos -. provocava m uma reação coletiva de pânico muito característica.explicou despreocupadamente. como tinha gritado por ajuda horas e horas a fio. porque só posso supor o que seja. Idade. ostentando orgulhosamente o seu "status" de veterana. Déborah a procurou para saber quem era (certos pacientes acabavam obte ndo com antecedência. Muitos vinham para a D. "Vá morrer lá fora. Encarou-a com aqueles seus olhos zombeteiros e prosseguiu: . vibrava de expectativa. Num dado momento. para nós duas. Coral.

tudo para Doris. ninguém o sabia.Isso não é da sua conta. . murmurava furiosa: . bem ao lado de Déborah. fecharam-se em torno de Doris e a afastaram dali.perguntou Lactamaeon com um sorriso nos lábios. fremia de indignação. até chegar ao quartinho onde Doris fora enclausurada.Olhe-se no espelho e verá que também não é nenhuma beldade! . mas dentro dela. pavor. vacilantes como pugilistas derrubados num "round". Uma auxiliar contemporizou sem muita convicção: . e de novo.Aquela sem-vergonha da Blau! A mamãezinha e o papaizinho gastam uma nota naquela puta que não devia nem existir! ..Você já esteve aqui antes . cuidados.berrou Lena. consultas. as auxiliares acudiram afli tas. a Estrela do Norte! Quem ela pensava que era. Depois de algum tempo. medo e a euforia da vingança. erguem-se lentamente dos chãos da ala. Déborah escutou ela dizendo na enfermaria: .Alguém objetou. sofrimen to. mas uma coisa era certa: não fora de joe lhos! Notou que Déborah a observava com a mesma hostilidade que sentia no resto da ala. hein seu doutor! Arrume a trouxa e volte para casa..E daí? . A grande Doris Rivera acabara partindo a espinh a dorsal na roda do mundo. pôrra! . teu pulso persever a em viver.Por quê? gritou ela em Yri. quando Doris surgiu em carne e osso. Déborah ficou com a pergunt a e a raiva reboando em seus ouvidos sem resposta. assistindo à volta ao lar da filha pródiga que vinha lhes roubar a soberania. à luz do mito que ela e Carla alimentaram durante tanto tempo.É aí que você está. sentada a um canto do saguão. . desafiando-as a todas? E como ousara fracassar. Apesar de exausta e atordoada devido aos sedativos. defrontou-se com uma hostilidade muda e implacável. Mary Dowben postara-se diante do quarto de Doris. Agarrou o pesado cinzeiro que estava usando e o arremesso u com toda a força. Pássaro-um? . Antes que pudesse continuar. .perguntou agressivamente.s dados.É! É sim! . 149 -.Porque teus guardiães são sádicos! Naquele dia. uma mul tidão de irmãzinhas consumia-se de inveja. Médicos e enfermeiras rangiam a s chaves de sua autoridade na fechadura de sua porta.E daí? Como é que você voltou? . e sempre voltam. mas apenas para manter as aparências. . s acodem o torpor. Era um tal de casulos e se dativos. . gemendo cada vez que os membros do cortejo 150 emergiam de lá! Lee Miller. negligência. afinal! ..Que s erviço mal feito. calma. hem? . não sobre a padiola. os sentimen tos que a revolviam por dentro explodiram boca afora numa cruel e estrepitosa ga rgalhada. e de nov o.Bem feito! Rivera.. Quer dizer então que acabam retornando! São teimosos demais p ara aceitar que seus nganons os tornam venenosos. . Quantas coisas isso provava! Subitamente.O que é isso Lena. Déborah se afastou cabisbaixa.. e ainda assim teu coração bate. O diabo é que esses médicos nunca admitem quando "entram bem"! Alguns dias depois. Seu nome é Doris Rivera. e arremetem de novo contra o mundo. Recuou e encostou-se na parede gaguejando. Doris era mui to magra e seus cabelos começavam a ficar grisalhos. mais cedo ou mais tarde voltam.. foi invadida por uma onda de piedade e temor por si mesma.gritou Déborah. todas as atenções convergiram para Doris. recompõem as forças. Déborah a examinou de alto a b aixo. Medo e ódio. Déborah ficou atônita. Enquanto isso. Mais tarde.. medo e inveja chocavam-se dentro dela. enquanto o auxilia r seguia tranqüilamente seu caminho. . e chegam em frangalhos de tant o apanhar. o rosto pálido e encovado .Napoleãoü . conselhos. Quantas investidas serão necessárias até que morram definitivamente? E tu.Que olhar idiota é esse.deixou escapar Déborah. atingindo a parede. Sim. e percorreu vagarosamente as portas da seção de reclusão. Trevas. permitin do que o mundo a triturasse! Nesse momento. . vibrava nela uma vontade intensa de viver. não é sua presunçosa! Como ousara ela tentar. Como arcara co m o mundo este tempo todo. ela está per dida..

.Está bem. De vez em quando.. Dois estagiários uniformizados. Déborah! Você não tem nada o que fazer aí! repreenderam os vultos bra ncos. enfermeiras e auxiliares vinham espreitar pela porta.Sim.. mas agora vamos! . . ou ambas as coisas.Cochichavam do lado de fora. alguns minutos depois.O que por exemplo? . e. . Ao voltar a si.Eis o que Doris Rivera en frentara e o que Carla enfrentaria em breve: o Mundo! Déborah desmaiou. Talvez eu consiga responder às perguntas dela! Só posso saber depois q ue ela perguntar. O pior foi quando a levaram para a sala de raio-X. Eu também vou! declarou ela aos personagens de sua outra dimensão. Agnes.Afas151 te-se dessa porta. (Desinteresse afetado: "Se eu olhar.disse ele.assentiu Déborah. Ocorreu-lhe. . (Julgando que ela talvez ficasse no St. As pessoas no corredor voltavam discretamente a cabeça e os olhos para o 152 outro lado. naquele momento. merda! -. vocês aí. cheios de curiosidade.O tom de suas vozes era ameaçador: ou saía dali. Dirigiu-se à porta do quarto onde Doris e stava encerrada e bateu. como a deviam estar vendo: suja. . Na manhã seguinte. Déborah o apanhou e o jogou de volta para Mary.Já disse que não é da sua conta. . a primeira coisa que viu foram os rostos ávidos debruçados sobre ela. deixem essa doida ficar. Nem bem chegaram à sa la de raio-X. . Ao escutarem aquele diálogo.. Não tinha a menor idéia de qual a expressão que tr azia no rosto. não se deram ao trabalho de vesti-la decentemente . .Não! Eu é que fui dura demais! Aconteceram muitas coisas .Eu só estava conversando com Doris -. Naquela mesma tarde ocorreu um acidente. não se meta nisso! . vigiado dentro e fora por dois grupos de enfermeiras.Yr começou a trovejar e o Coletor a provocá-la com zombarias. naquele mundo sombrio e incolor. Provavelmente foi uma piscadela maliciosa de olhos.Ei! Foi muito duro? Você voltou por causa disso? .preveniu severamente um dos auxiliares. . de súbito.Nosso aparelho de raio-X não está funcionando . do outro lado. ant es que degenerasse em briga. correndo pelos co rredores e dormitórios. Duvidava que suas perguntas vies sem a ser respondidas.chamou Doris do outro lado da porta. Umas quat ro ou cinco meninas que estavam ali começaram a brincar com ele. será que ela olha?"). vestindo um velho roupão por sobre o pijama. . .E eles são violentos? Déborah não escutou a resposta. como se estivessem diante de uma famosa estrela de cinema ou portadora de alguma peste.Rivera. isolaram-na num quarto privativo. ora espumava de ódio.Teremos que levá-la par a o hospital St..Blau! -. está bem. .gritou. Déborah saltou pa ra agarrar o sapato mas caiu de mau jeito e torceu o tornozelo. . Os estagiário s que escoltavam Déborah.Más eles vivem dizendo que a gente vai ficar boa. o casulo..Esta aí é que é a doente mental ? . . como odiaria . iam de peito estufado. Déborah ora se divertia com o ridículo da cena. . Mary Dowben escorregou. Chegando lá. . e sair. caiu e um de se us sapatos saltou longe. ou ia direto para a reclusão. .Escutem. Percebeu. fláci da devido à inatividade. cabelos desgrenhados. . insistiu. Agnes. o médico da ala o examinou e suspeitou que estivesse fraturado. tinha de fazê-las. A conclusão impôs-se fulminante: Aí estava! . os esquemas voltados para sustentar as apa rências de sanidade. . as auxiliares acorreram mais uma vez para abafá-lo. apavorados com a possibilidade de que ela fugisse.. conduziram-na num táxi ao hospital. mas eram vitais. Todo mundo nos diz isso. . sim. . puseram-se a descrever orgulhosamente as agruras do trabalho na "a la dos perturbados".) Quem sabe um olhar demente também.Ei. e todas as farsas e horrores sem os quais jamais sobreviveria lá fora. . "O que é que a barata faz? Voa! Numa dessas. Precisava saber urgente mente se teria que reativar o Censor. cheios de si.

. Esta prova. anterior ao agir e ao respirar. certamente a levariam de volta.Como? Explique isso melhor para mim. "Bolas!" Estava doente. T udo levava a crer que uma força mágica a atraia para os outros. Sentou-se com dificuldade. Antes da Segunda Guerra era muito pior. está me lhorando. Armou uma cara bem agourenta e disse: . juro que queria uma! Assim o quadro fi caria completo. palavra s que em Yri significavam: "Eu te amo". que você atraiu uma. as pessoas têm que preservar a aparência de participação -. por alguma força mágica.Você está tentando magoar a si mesma agora. Atrai sem que eu o saiba. Diz mais ou menos o seguinte: "Em silêncio e em sono. reúne as melhores condições para ser compreensi va e indulgente. . Déborah estava convencid a de que existia uma outra prova de sua indignidade intrínseca. não pouparam um centp metro de espelho. caso o tornozelo estivesse fraturado. Segundo Déborah.. duas ou três pessoas. absoluto e imutável. e que são uma minoria no mundo. Déborah saía do hospital mancando.Sempre achei bom vo cês não usarem camisa-de-força aqui. . .Como está se sentindo? . mas. Entrou no táxi (já esta va a postos) que. . quanto em qualquer outro grupo. rápido. atravessou o portão.Esse preconceito custa um bocado a desaparecer . Fale-me dela s.É um dos meus ataques que vem aí! O médico empertigou-se sobressaltado. Uf! Lar doce lar! À noite.Fui despachada para um hospital. rápido. Déborah teve uma idéia: se conseguisse assustá-los b astante. . atestavam os impulsos autodestrutivos de centenas e centenas de pacientes. .. No mundo. tcomou a estrada e em seguida o desvio. Você.. com ou sem fratura. não creio que tenha havido fratura! Todos suspiraram aliviados.bom. Não tinha nada a v er com o mundo.disse ela. Num piscar de olhos. nos bancos de escola.. cunh ados raivosamente sobre o aço temperado. mas ontem. isso quer dizer também. justamente por conhecer a doença mental muito melhor do que eles. atrai para si outras pessoas igualmente envenenadas. foi mancando até o banheiro grande onde ha via uma chapa de aço que servia de espelho.Eu carrego comigo o estigma do mal." Isso signi fica que a substância venenosa.E nagua . as divindades e reinos de Yr. independenteme nte do que eu pense ou faça! ... inclusive.. independentemente da minha vontade. . na hora de se lavar para dormir. talvez eu não esteja entendendo mesmo. apoiada em seus dois enfermeiros. Procure ser paciente.Bem! que.. . 154 clama. Afora todo o universo mágico. liga ou classe . compreendeu! -. as pe ssoas normalmente ou escolhiam ou eram escolhidas como companheiras tanto na colôn ia de férias.contou a Furii .. suas proposições de reformar o mundo. .Não posso ajudar ninguém. e pior ainda antes da Primeira .. Há um ditado em Yr. com o qual o Censor vivi a me atormentando.ter que ficar no hospital. meta isso na sua cabeça! Será que você não entendeu nada do que eu disse até agora? O nganon age por si mesmo. . .. em meio às atribulações cotidianas de sua juventude. . ajudá-lo.seja no que . com o tornozelo enfaixado. veio a encontrá-la justamente no mundo.perguntaram os seus dois enf ermeiros (gozando o privilégio de serem os únicos com conhecimento suficiente para l idar "psicologicamente" com ela). ou seja.. Um mosaico de arranhões e entalhes.. desceu a avenida. Lá vinha Furii com suas mensagens ardilosas. quer dizer. O que aconteceu? Depois de ouvir a história toda. as circun stâncias tornavam-na muito mais "louca" do que na ala supostamente "violenta" do h ospício. Ali.disse Déborah ao espelho. subiu no "vagão de carne" para a D. Déborah saltou. o "eu" inimigo.gaguejou ele com pungido . Mesmo despojadas dos instrumentos necessários.a moça teve um deslocamento bem feio. Ainda assim. Furii suspirou. Déborah fez um gesto de impaciência.. Mas eu fui boba: só me ocorreu a idéia de espumar pela boca quando e stávamos longe... e encostou na porta 153 dos fundos do Prédio Sul (Alas B e D). nganon clama por si mesmo.

Existia. o l ago. ouviu ruídos furiosos de luta num dos boxes e.. .. a voz d e Eugênia. . ao se combinar à virulência que e xistia potencialmente nela. . uma compreensão mútua d o quanto havia de sofrimento por trás dos atos mais triviais. Vamos! . com quem quer que fosse. Deparou com Eugênia. .Déborah recuou mais um passo. no íntimo. a colônia acabou aceitando-a amizade das duas e deixou de j ulgá-las e hostilizá-las. de como era penoso s ustentar as Aparências perante o mundo. a solidariedade exterior: freqüentarem juntas o refeitório. não se faça de desentendida. desse modo.gritaram de lá. Pois bem. as forças para sustentarem os muros que as separa vam dos outros. .Déborah. . Não posso! Não quero! O desejo e a ânsia de Eugênia saturavam o ambiente. uma certa dose de simpatia. ..Para quê? .comandou ela. Num dos verões que passou na colônia. e talvez até voar se Yr lhe permitisse. Déborah descobriu que só era capaz d e corresponder a essa exigência de participação e de convivência. . Um dia. rindo e falando Yri em voz alta. . era a casa de banho que ge ralmente permanecia deserta. conversar de coração aberto. Sabe muito bem o que sou. Pegue. Chegando lá. Queria tranqüilidade .. Um dos melhores. Isso foi um pouco antes de se consumar a última grande mudança. pressentiu que havia alguém mais. com os corrompidos.O quê? . Ao se aproximar mais. Essas afinidades não eram intencionais ou premeditadas.Déborah começou a recuar .Tome! .Sentiu que algo terrível estava por vir. Conhe cia vários refúgios na colônia onde dispunha de uma hora ou duas de paz e solidão. Suava em bicas. .Bat a em mim! . Mas o que necessitavam era. a razão dessa afinid ade.Venha cá.Ora. baixar as defesas e esquecer que o mundo era aquele caos traiçoeiro e decepcionante. . Pôs-se a c antar de modo a anunciar a sua presença. Déborah conheceu uma menina inteligentíssima chama da Eugênia. porque. o convívio satisfazia à profunda carência de transpor esses muros. e você tem. Já fora surpreendida. os espelhos das Aparências e. por um minuto que fosse. Yr vinha l he exigindo uma dedicação cada vez maior. na maioria das vezes. é claro. . Ocorriam tão naturalmente qu anto a atração do imã sobre o ferro. e por causa disso sofrerá punições terríveis do Censor. antes que começassem a chamá-la e a procurá-la. nem consistissem num mero ritual em benefício 155 das Aparências. seguindo essa linha de raciocínio. . uma cumplicidade silenciosa. Depois de algum tempo. Débora percebia. O 156 suor escorria de seu rosto em grossos filetes pelos ombros e braços . Eugênia e Déborah logo começaram a andar juntas.mas procurou fugir à suspeita de qu e também fosse uma portadora do nganon venenoso. acima de tudo. Sabiam. no boxe com o chuveiro fechado. os esquisitos. as pessoas at raídas desse modo sabiam no íntimo o porque. queria correr pelas Planícies de ir. os aleijados. o campo de futebol. queira ou não! Vo cê vai querer. reconfortarem-se mutuamente com palavras que não soassem de todo falsas. . os medíocres. em seguida. dera origem a isso. oferecendo em troca um alívio cada vez menor . os dementes. nua em pelo. Por outro lado. . que Eugênia tinha as suas esquisitices . Julgara-se até a própria encarnação da R . . você. os desfigurados. Acontece que. amarga e inquieta .Não. . compreende. Estendeu para Déborah um cinturão de couro.era uma pessoa solitária.Você está fugindo. Déborah foi. e freqüentemente se atormentavam uma à outra por causa disso. . Finge que não entende.Quem é? . muitas vezes. arranjou um jeito de se esgueirar para longe das pessoas. mas sabe muito bem para quê: É para mim. Uniam. sentindo vontade de ficar à sós. e por isso odiavam a si e ao companheir o. .Não. Ocorreulhe subitamente uma suspeita terríve l: talvez o seu nganon tivesse contagiado Eugênia e. Não preciso mentir para você.for. entre el as.Não esqueça do q ue eu sei a seu respeito! vou obrigá-la a me bater com esse cinto.Não..

. . 158 num certo sentido contribuiu. . Estou curiosa. ou seja. Procuro evitar o maior número po ssível delas. mesmo que jogando com a nossa própria vida.Não entendi muito bem. Nunca pensei nisso antes. Jamais voltaram a se falar. .concordou Furii . exatamente como as nossas.perguntou ao voltar a se sentar . Talvez o nganon de Eugênia foss e ainda mais virulento do que o seu. . para impedi-la de ter a imaginária "folha de serviços perfeita". com relação às mulheres da família. pensativa. . arrancoulhe das mãos o cinto. . existe . testemunhar era ser conivente. seu pai e sua irmã? .Você ainda acha isso? .Você parece estar vendo isso pela primeira vez -. quando a pessoa se toma sua amiga .onde estávamos? . . toda satisfeita e sorridente. esses anos todos eu soube que estava doente. pois embora eu conheça outras razões que explicam essa intolerância. Se esse incidente dos chuveiros ocorresse hoje. O seu nganon despertara o de Eugênia.Conseqüentemente. você fic aria tão assustada quanto ficou naquele dia? . logo causara. agrilhoada e condenada à destruição . .Acho! O telefone tocou sobre a escrivaninha e a doutôra levantou-se para atendê-lo. era ser responsável.Tenho certeza de que minha irmã acabará louca.No mundo das campainhas .Bem. apesar de ser tão requisitada. logo in citara. quer por atr ação .Encarou Déborah com um sorriso meio malicioso.Porque sou louca! No momento em que você admitiu que eu estava doente. . . . não é assim? .Ora. reparando naquele sorriso que nada tinha da amar . Existem alas cheinhas deles.uína . admitiu que eu estava tão doente que merecia ficar intemada num hospital. Continuamos a trabalhar j untas? .acaba inevitavelmente arruinada.Pemai. . Ainda assim.E quais foram os resultados? . Déborah avançou para ela.retrucou Déborah acidamente.Há muitos anos que eu as venho contaminando lentamente! . Era um milagre quando não tocava pelo 157 menos uma vez durante as sessões.Sorriu. Acho que eles se arruinam de um je ito diferente. sentindo-se es tranhamente gratificada. comentou Déborah.Sim.Será verdade? Será que contribuí com alguma coisa de novo p ara você? Furii ficou um instante em silêncio. Jamais pedira a alguém que a compartilhasse. Furii encolheu os ombros num gesto desamparado d e desculpas. . . e que você discemia de uma forma claríssima. Sim. . jogou -o no chão e saiu correndo. Sabe.Os homens não são vulneráveis ao veneno feminino. Déborah bateu palmas.Ah.. Devo lhe avisar qu e fracassei muitas vezes. . por que não? .mas uma ruína que só dizia respeito a s mesma. .. .quer por afeição. achando agora ridículo o susto que tinha levado. provou-m e que eu era mais "sã" do que imaginava. ..Exigiram de você que desconfiasse até mesmo da realidade que lhe era mais próxima.. Sentimos a tentação d e nos desforrarmos um pouco no placar. mas ninguém admitia isso. é verdade? Vo cê ainda tem esse medo de contaminá-las? . . . . Não é para menos que o doente mental tolera tão pouco as mentiras.Bem. nunca encarei a questão sob esse prisma.Agora. As interurbanas ou casos es peciais de médicos que não poderiam ligar outra hora.Não. . e ser conivente.perguntou Furii. é verdade.Sim.Falávamos sobre contaminação. mas você explicou bem a questão.suas idéias como que saíram à luz do sol.Yr encara isso como uma pilhéria. .Sei como é difícil progredir com uma "médica famosa e importante". sim.O que foi? . mais sã quer dizer mais forte.Algumas dessas chamadas não posso deixar de atender.E continua sendo verdade em relação à sua mãe. e tanto pode ser por contato direto como por proximidade.Olhe. mas sei que também há homens intemados aqui .

fez uma cara de choro.Minha cara. Que progressos fizera no sentido de vir a ser a menina recatada. mas ao invés de enc arar essa noção como uma fantasia sintomática. procura va encontrar nela a lógica.Vocês conseguem ler os meus pensamentos? .choro grandes lágrimas de crocodilo por esses seus deus es de Yr.disse Helene. com o seu toque de fogo. vestira-se em trajes de gala ou. do que prometera a si mesmo e a Esther. refastelada como uma coruja velha na poltrona.Se eu posso ensinar-lhe algo. Como passara rápido o tempo! Suzy. no dia em que se d er conta disso. esperar. seus "trajes de coroação". Ela preferia ir à festa da turma.Você me faz ver uma nuvem branca envolvendo o cume de uma montanha. No dia da cerimônia de colação de grau. feminina. . valho algum a coisa. enfim. começaram a explorar uma convicção que Déborah compartilhava em seg redo com todos os doentes: a de que ela possuía um poder infinitamente maior do qu e o indivíduo comum e. . . ansiando pela v olta dos bons tempos. . Jurara a si mesmo dedicar este dia exclusivamente a Suzy.Tremeu só de pensar de viver sem Yr. Por que não estava ali com eles? Era a segunda primavera que ela passava longe de casa.Pode ser bom para mim.E. terminava a escola secundária. uma revelação meramente espiritual.disse Furii .Não consigo ler nem os meus. . . a boca descaída. Absolutamente nenhum.mas por detrás dela acha-se a mesma Furii. . hein? Mandar-me para a reclusão.Shh! Agora não! . a filh a caçula. isso significa que. . Posta dos aqui e ali como estatuetas imutáveis.sibilou Esther. As meninas começaram a se retirar em fil a do auditório. . enquanto aguardava no saguão a distribuição de sedativos.Será que não daria para ela vir passar um tempinho conosco? Podíamos ir aos lagos.com as três. implorou que ficass . estação das paixões e da impaciência. .Está falando comigo? . Jacob virou-se par a Esther que. se andas à procura da realidade objetiva . . . pôs-se a observar a Srta .disse Déborah .Quais são as suas intenções. Vocês conseguem ler meus pensamentos? . Coral.Tire os olhos de cima de mim! -.Puxa! . Nas sessões seguintes. ouvindo o s coros e os discursos.Eles estão desperdiçando o tempo de um ser humano que. quanto mais os seus! Déborah passeou os olhos pelos personagens que decoravam as paredes do saguão.Pode não ser bom para ela. de brincadeira. para mim. . . mas Jacob. a filha de s eus sonhos? Nenhum.Eu choro .gura habitual.insistiu ele. Uma n oite.murmurou para si mesma escolheste o pior lugar para começar! 160 18 Primavera.Vá para o diabo! . das horas felizes com a família reunida.Bolas! Ela não é uma delinqüente condenada! . é? 159 . no entanto. A noção do ngano n venenoso representara uma descoberta fundamental para Déborah. tomando ares de co ndessa elegantemente horrorizada com algum espetáculo repugnante.esquivou-se a Srta. desfer indo raios! . não co nseguiu tirar Déborah da cabeça. . em homenagem a Suzy. . pareciam esperar. porá abaixo as suas casas e os expulsará de vez. obediente. mas. graciosas e inocentes em seus vestidos brancos.perguntou Lee. quanto ao receber. assim como Lee e Helene que acabavam de chegar. . de seus desejos. segundo a fa mília. a racionalidade de um fenômeno complexo e natural. . aqui pelo menos. era ao mesmo tempo inferior a ele. sussurrou ele. não é? . Jacob sentia um profundo vazio i nterior.Está vendo? Você fica tão feliz ao dar. as orações e os juramentos. Coral.. num tom divertido. a despei to de seus esforços. os olhos pe sarosos: . deprimido e nostálgico. uma vez ou outra! Decidiram levar Suzy para j antar num restaurante chique.

em juntos aquela noite. Justamente por ele querer tanto, a noite foi desde o iníci o um fracasso. Suzy acompanhava-os contra a vontade. Esther estava deprimida por que a filha presente voltara a ser relegada a um segundo plano pela filha ausent e. Jacob sabia que acabaria pondo tudo a perder se persistisse naquela ansiedade , mas não pôde se conter. A noite transcorreu num clima de desolação constrangedor. Num dado momento, Esther comentou com naturalidade 161 forçada: - Debby queria vir à sua colação de grau, e se ela pudesse teria mandado um pre sentinho. Suzy encarou-a com um olhar tranqüilo e disse: - Ela estava aqui. Eu vi vocês dois c onversando sobre ela quando recebíamos os diplomas, e ao nos prepararmos para a saíd a. - Que besteira! - protestou Jacob. - Juro que não conversamos sobre ninguém. - Não faz mal. .. sério! Mesmo que realmente não te"nham falado alto, foi a expressão, o olhar que vi em vocês. . . - Cogitou em descrevê-lo, caso não soubessem como os seus rostos denunciavam as preo cupações, mas as palavras eram tão complicadas e dolorosas que não conseguiu articulá-las. - Bobagem, Suzy - protestou novamente Jacob, abanando a cabeça. - Expressão, olhar. . . vejam só, que besteira! Suzy e Esther entreolharam-se rapidamente. Era claro que ele estava escondendo o jogo. "Seja indulgente", implorou Esther com os olhos. Suzy abaixou os seus e f icou algum tempo remexendo num botão do vestido. - Sabe aquela menina que estava n a minha frente na hora de receber os diplomas? Pois é, o irmão dela é um pão.. . No hospital, as pacientes recusavam-se a admitir que a primavera pudesse chegar passando por cima de todos os seus sofrimentos, mas ela veio, triunfal e radiant e. As mulheres na Ala D estavam furiosas: o mundo que as destruíra, ao invés de sofr er pelos seus pecados, parecia mais vicejante do que nunca. E quando Doris River a prendeu os cabelos, vestiu uma roupa bonita e, com um sorriso tímido, partiu de volta para o mundo, sentiram-se mortalmente traídas: Doris aliara-se à primavera con tra elas! A Esposa do Abdicado tinha a sua teoria: - Ela é uma espiã! Eu a conheci há muitos anos. A oposição paga para ela semear o caos e d epois a imprensa transforma a coisa num escândalo. - Devemos ser caridosos - apregoava MaryDowben, com ares de santa. - Devemos ser caridosos, ainda que ela seja portadora de todas as moléstias sociais que se poss a imaginar, para não falar das infecções nas partes pudicas, transmitidas por homens d e reputação desprezível. Sem mencionar esquizofrenia da natureza mais sórdida e imunda. - À medi162 da que ia elevando o tom de voz, transpareciam as arestas desarmônicas do pânico. -Vocês doentes mentais são tão engraçados! - exclamou Mary Fiorentini. Foi o bastante para desencadear a briga. A ala toda transformou-se bruscamente num remoinho de fúria e medo, onde as brigas irrompiam com uma espontaneidade selvagem e absurda. - Como tem paciente em reclusão hoje, hein? - comentou uma estagiária recém-chegada. - Quando pegarem mais alguns, vão começar a enclausurar de dois em dois - retrucou Déb orah. - É.. . é. . . - assentiu a estagiária (tratamento Número Três, sorriso amarelo, saindo pe la tangente). Déborah afastou-se e tentou acertar mais uma vez o sapato no relógio d a parede da enfermaria. - Daria tudo para acabar com aquele sorriso. - A tua cara já é mais do que suficiente - disse Helene. - Pelo menos a mim você consegue ser superior, não é? Mais uma briga. - Há épocas assim na ala - asseguravam os auxiliares antigos aos mais novos. - Não cos tuma ser tão violenta. - Os mais novos, contudo, não acreditavam. As estagiárias de en fermaria recém-ingressas andavam assustadíssimas. Duas enfermeiras da turma preceden te tinham "fundido a cuca" pouco depois de receberem suas filiações psiquiátricas, e e stavam agora intemadas num hospital. - Cuidado, porque as coisas que se vê aqui comentava-se à boca pequena - acabam deixando a gente maluco.

As quatro novas estagiárias recém-chegadas, designadas para a Ala D, estavam tão apavo radas que não se desgarraram umas das outras, formando um grupinho coeso e discrim inatório. Criou-se, naturalmente, um contraste entre essas jovens, belas e saudáveis portadoras da primavera, e as pacientes, sombrias portadoras dos nganons veneno sos. Helene e Constantia desbastariam aos tapas e pontapés a singularidade das nov as inimigas. Déborah simplesmente baniria as recém-chegadas da cabeça até que se dissolv essem na rotina anônima da ala. Só as enxergaria como vultos brancos e indistintos, e só as escuta163 ria quando se referissem a ela ou lhe dessem ordens específicas. Estas defesas, qu e eram inconscientes, impediam-na de assumir a presença das estagiárias, cujas virtu des (atribuídas exclusivamente por Déborah) fariam com que ela se sentisse conscient e de sua "loucura" e, portanto, de que era diferente. Uma tarde, Déborah estava sentada no chão perto da enfermaria, olhando fixamente o f amigerado mostrador do relógio, quando surpreendeu a conversa de duas das estagiária s. - É verdade que uma paciente da B vem para cá? Onde é que ela vai ficar? - Não sei, mas se vem é porque deve ter "fundido a cuca" mesmo! - Lembra o que Márcia disse? Elas melhoram e tornam a piorar de novo. Espero que e sta pelo menos saiba como usar a privada, e por onde engolir a comida! - Ambas a bafaram o riso. Na hora não ligou: sabia perfeitamente que o riso denotava apenas ansiedade. No en tanto, quando trouxeram mais tarde Carla, dilacerada interiormente, com a mesma expressão terrível de derrota com que Doris Rivera chegara, Déborah ficou furiosa. Aqu eles dois vultos brancos não tinham zombado de uma maluca qualquer, mas de Carla, uma pessoa boa até a medula dos ossos; boa a ponto de ter sido gentil quando Déborah a ferira na sua região dolorosa. Ninguém diria, vendo as duas, que eram tão amigas. Seria, contudo, um gesto extremam ente penoso e, acima de tudo, uma interferência - isto era incompreensível para os " sãos" - Déborah cumprimentar Carla, sabendo que ela estava arrasada e que poderia se arrepender mais tarde caso este cumprimento suscitasse uma reação violenta ou mesmo rude. Por isso, nem sequer olhou para Carla. Limitou-se a esperar, por detrás de sua máscara de pedra, até que a companheira fizesse algum sinal discreto mostrando r econhecê-la. Só então se aproximaram uma da outra e, ainda assim, afetando o maior desinteresse p ossível. Déborah sorriu acanhada, e foi aí que ocorreu um fenômeno surpreendente. Acostu mara-se a ver tudo desprovido de relevo, cinzento, anuviado e apenas em duas dim ensões. E eis que do borrão, surge Carla 164

nas suas três dimensões, todas as suas cores, incrivelmente nítida e clara. - Oi! - cumprimentou Déborah, mal erguendo a voz - Oi! - Você pode fumar? - Nenhum privilégio. - Hum. Voltaram a se cruzar mais tarde diante do banheiro, onde Carla aguardava que uma auxiliar destrancasse a porta. - Vamos jantar na minha cama hoje? Carla não respondeu. Quando serviram o jantar, apareceu com a bandeja no dormitório dos fundos. - Posso ficar? Déborah arredou para o lado, deixando-lhe o melhor lugar, ao pé da cama (Alô, alô minha amiga multidimensional e colorida! Estou tão contente de vê-la!"). - Doris voltou e já saiu de novo, sabia? - Contaram-me. - Carla ergueu os olhos para ela e, por um milagre, pareceu enxer gar através da máscara. - Ora Déb. . . não é tão ruim assim. Tive que voltar porque comecei me esforçando demais, porque parte do que fiz foi contra meu pai... e por uma série de outras razões. Não estou entregando os pontos. Só estou cansada. - Seus olhos se en

cheram de lágrimas. Déborah ficou paralisada pela confusão e o terror que lhe inspirav a a tristeza da amiga. Estranho mistério, este das pessoas que se afogam no oceano caótico e terrível que era o mundo, e depois, pálidas e trêmulas ainda, se arrojam de n ovo sobre ele. O que os leva a pensar que podem flutuar com os outros, quando a tensão superficia l de seus nganons foi rompida no primeiro afogamento? - perguntou Déborah a Lactam aeon. Só Idat sabe - respondeu ele. - Para alguns, nada é impossível! Déborah sentiu todos os músculos retesarem-se de medo. Achas então que o nganon dela não é intrinsicamente mau, e sim. . . e sim. .. circunstancialmente mau? - Acho! - Mas nós scomos amigas! Se a substância dela não é igual à minha, isto significa que vou envenená-la! - Exatamente. 165 Pode uma coisa contrariar tanto as leis? Pois se as próprias Leis afirtnam: "ngano n clama por si mesmo". Como é possível que eu tenha atraído uma essência diferente da mi nha? - Talvez isto seja uma punição - ponderou Lactamaeon - Ocasionalmente, tu destróis par a te punir. Olhou para Carla e encontrou-a chorando ainda. Decepção! Acreditava conhecer o código, depois de anos e anos de sofrimento procurando uma pista para decifrá-lo e, ao ch egar ao último degrau, via-o desfazer-se e ressurgir o velho caos, a anarquia, as zombarias. Ela era minha amiga! gritou para os deuses que partiam. Não parecia estar magoada. ... Tu e ela não são da mesma substância; os nganos são diferentes. Serás a assassina de tua a miga! Quando Carla parou de chorar, Déborah continuava sentada do outro lado da cama, ma s estava longe... muito, muito longe. Para grande surpresa e desagrado de Déborah, uma estagiária deu para se afeiçoar por e la. Bastava que botasse a cara nos "locais públicos" da ala, para que a moça (ou mel hor o vulto branco e a voz indistinta, destacando-se no pano de fundo cinza) se pusesse a segui-la diligentemente, com uma jovialidade gratuita e importuna. Deves estar mais doente do que pensas, disse Déborah para si mesma em Yri. Estas p essoas escolhem, em geral, os piores para lançar a Deus. Deus é como o cachorro e Débo rah como os ossos. Conseqüentemente, Osso será meu nome! Estas palavras soara-Lhe tão engraçadas, que não se conteve e riu às gargalhadas. Em seg uida, fez com as mãos o gesto simbólico em Yri e a mímica correspondente ao riso, em s ilêncio, como convinha a Yr. - Quem está rindo aí? - perguntou Anterrabae num tom brincalhão. - Sou eu, a Coisa-Osso-de-Deus! Desataram a rir até expurgar de dentro de si o tormento da terra. Como ficará o êxtase glorioso daquela sacerdotiza quando Deus Sentir o cheiro da oferenda que lhe fi zeram! - e os dois caíram na gargalhada novamente. 166

E a surpresa no rosto da meiga e piedosa estagiária com o furor dos Poderes Celest iais? Dessa vez as risadas terminariam em amargor, pois Déborah sabia que não teria coragem para pedir à menina que parasse de segui-la e perturbá-la com as suas interv enções solícitas. A primavera seguiu o seu curso. No decorrer das sessões com Furii, Déborah foi desce rrando um a um seus segredos, seus temores, e as senhas que davam passagem a seu s mundos. Entregava-os, porém, apenas para apressar o momento em que, finalmente, ela própria capitularia à grande e última decepção, tão inevitável quanto Jaganata ou a que perene de Anterrabae. A iminência da destruição dava-lhe calafrios. Ficava, às vezes hor as, dramatizando a sua destruição, fantasiando as mais diversas mortes, todas elas s ublimes. Furii botou as mãos na cabeça: - Deus nos acuda! Adolescência também!

. apenas representaria o mundo nas batalhas de Déborah com seus censores. pousava ali os olhos para descansar a c abeça. mas eu me senti tão gen te-grande.O trabalho toma-s e às vezes tão intenso .Lançou sobre Déborah um olhar penetrante e sorriu. Ao terminar a sessão. como se diz hoje. no mundo dos adultos. a médica de Sylvia. Aceite. e a alertou para o fato de que o novo médico não se aprofundaria na análise. não é ágata. perguntou: . Este gesto compensara as duas punições terríveis que recebeu de Yr por ter aceitado fl ores da terra. Certo? . forçando-se a se expor (tankutu). Déborah olhou para a escrivaninha da doutôra. assim como você me tem confiado as suas". nos momentos de maior tensão.Estou planejando partir dia vinte e seis de junho e voltar dia dezoito de sete mbro. ajude-me a distinguir qual a doença e qual a adolescência. em seguida. o diab o! Agora. Depois vêm as minhas férias e. espere. Ao se recuperar da segunda punição. Déb orah se sentiu mais uma vez "igual". o melhor. só nós dois..Em s eus olhos reluzia a lembrança daqueles momentos felizes. É um tipo raro de madeira petrificada.Você gostou da viagem? .Hum. Adolescente ou não. onde existem os 167 tipos mais estranhos de rochas e formações rochosas. enquanto F urii a solicitava com perguntas. fora até o vaso e partira uma flor de um lindo ramalhete de ciclamens. Era a primeira vez que Furii falava a respeito de si mesma. era como se estivessem preparando a antiga roda de suplício.Quanto tempo. . . ou uma mensagem indire ta a incentivando a "tomar coragem". nem costumo dar presen tes.Não. Pretendo tirar férias mais cedo esse verão.Ah. Déborah contudo. Providenciarei alguém para me substituir enquanto estiver fora. quando fizera a primeira confidencia importante. . . Interrompeu as divagações com uma palmada nos joelhos. os sintomas e os fantasmas do passado c omeçam a aflorar . Tudo arranjadinho. Tem também Halle. .concordou Déborah. não.quando os segredos. não foi emocionante ou. coletores e todas as forças de Yr.Ágata? .Certo! . dias depois.De volta às minas de sal. acompanhando o seu olhar. A segunda não é senão outra evidência indi scutível de que você é cem por cento uma integrante do mundo.que a gente se esquece como pode parecer estéril e sem sentido es ta terapia antes do mundo adquirir uma dimensão real para o paciente. portanto. uma verdadeira mulher em potencial. não havia com o que se preocupar. por causa de uma conferência em Zu rique. Quando me formei no que vocês ch mam de curso secundário.Conheço vários aqui . tal como na Idade Média. inclusive já assisti ela trabalhando e gostei muito. sobre a possi bilidade dela se sentir rejeitada.perguntou.Sabe o que é aquilo? . sonhos. ele disse que recebeu meus . Há mais uma coisa. Quero preveni-la desde já para que vá se acostuman do à idéia. meu pai me levou numa viagem a Carlsbad. Furii lhe oferecia agora ura pedacinho de si mesma..E daí? . Adams. Faça o que lhe der na veneta: fantasias.. Freqüentemente duran te as sessões. afinal? .propôs avidamente . vou participar de um simpósio que já f oi adiado várias vezes. Sempre em desordem.E daí que isso não tem cura. a flor já estava murch a e seca. Era como se dissesse: "vou confiar a você uma das minhas recordações. iriam quebrá-la em pedaços. Lembrava-se de uma d as primeiras sessões. tinha a sensação de fato consumado. Furii. Conversei uma noite com Fiorentini quan do estava de serviço na ala.Craig. e a ofereceu a Débora h ao mesmo tempo em que dizia: . . A pr imeira combateremos com todas as nossas forças. mas dessa vez você mereceu. a médica erguera-se. tão honrada de estar com meu pai. . 168 Nas sessões seguintes. Havia um peso de papéis de forma indefinida. Esta delicadeza si gnificava mais do que uma pequena pausa para descontrair. por favor. ele comprou isso para mim como lembrança da viagem. i . umâ 'curtição". Furii falou sobre as qualificações do substituto. Déborah havia empenhado todo o seu esforço de análise. onde.Não costumo partir flores. se preparando para voltar à ala.

Você conhece bem o administr ador da Ala B.É mesmo? Esses maxilares. . Confortavelmente instalado.. Como as leis de Yr se entrelaçavam às do mundo.disse Furii. Encontrou-o empertigado na poltrona. . aprontavam a roda. .. seu novo médico.Quem? Quem levou? . Conversamos bastante e eu confio nele.. Déborah procurou resolver todos os problemas antes da part ida de Furii. .Deixo-a em boas mãos . Déborah esqueceu Furii como se ela j amais tivesse existido ou viesse a existir. "Prometi a ela que seria complacente. não era nada amistoso.. é.pais quando fui intemada.O mesmo tom.O Dr.Em odontologia . . pelo visto.silêncio. mais parecia um túmulo: trancafiada ainda. como se tivesse sido picado por c obra. .Ah. página 97. Em compensação. . .O que quer dizer isso? .Sou. ele se manifestou: . . Sua aceitação seria um ato meramente f ormal. Di rigia-se à primeira entrevista com Royson. ." . Déborah estava convencida de que Furii partia para sempre. produzindo um eco lúgubre e oco. eram trabalhadas intensa e honestamente. Requereu e obteve a transferência para a Ala B. mas a única coisa que lhe ocorria dizer era: "Que maneira empertigad a de se sentar!".O senhor é inglês. prometi que me esforçari a o máximo possível com este. não? 170 -. ...Déborah revirou a cabeça em busca de alg uma resposta.respondeu Déborah. . mas felizmente conheci a algumas meninas. . . Espero que passe um ótimo e prov eitoso verão. e tem o Dr. .Que pode ser mais dispendiosa do que a gente pensa. Furii não deixou nada comigo.Você a chamou por um outro nome. quan do a amiga deixara pela primeira vez a Ala D. As sessões de terapia adquiriram um clima de urgência devido à partida iminente de Fur ii.Estão todos com as horas tomadas ..Deu um pulo na poltrona.Lu brificavam as engrenagens. em terreno seguro.resmungou Anterrabae desden hosamente.Meu terceiro trilho . Significa: Eu consentirei! SN HAÍM") 169 19 Lutando contra o tempo. Lá pod eria dispor de papel. O homem.. . livros e privacidade. comparada à loucura de svairada da D. Seus passos repercutiam no silêncio do corredor.No que é que você está pensando? .. . e havia enfermeiras maravilhosas que iembravam muito McPherso n.Sei lá.sente-se .É .. mas não "perturbada". num dos consultórios do andar térreo. . . Estava no livro. Royson para conversar.Sua médica me falou muito a seu respeito. embora as incursões introspectivas não fossem nem muito esclarecedoras nem muit o profundas. . . .Recostou-'se satifeito. Após um novo silêncio. . doutôra Fried. Royson ficará com você. só mastigam monossílabosf . Decidiu tomar a iniciativa .convidou ele .. Esfregou as .Conteve-se outra vez.A tradução literal de uma palavra Yri.disse Déborah. . . um nome qualquer.perguntou ele num t om inexpressivo. . .Entre .Estou sem Novocaína. Qual foi? . Do mesmo modo que expurgara o amor e a memória de Carla.O pedido so ou como uma exigência. quedou-se a observá-la. Déborah se sentou. suas novas companhe iras morriam de medo dela por ter sido uma paciente da D. lápis. .assegurou Furii no último dia.Gosto da pronúncia. pelo visto. a linguagem secreta.E que pensamentos lhe ocorrem a respeito de odontologia? .. contundente.A doutôra.

Trazida bruscamente à realidade. Até que finalmente um dia. ne m estaria ali. . e envolve uma série de outras propriedades do mar como. .Isso depende da pessoa ter ou não a intenção de voltar. . ou. além do mais.insistiu a voz que vinha de fora.A palavra é empre ada sempre que houver uma relação com o movimento das ondas. Diz assim: com um machado não se rapa o cabelo.Déborah transpirava um suor gélido. defrontouse com um rosto severo e desapr ovador encarando-a fixamente.. .Quaru.Significa também partir? . cochichou Lactamaeon no seu ouvido. e com o eco de sua voz dizendo ao s deuses: '"Mas eu prometi. ele parecia desapr ová-la. Fried contou-me que você tem uma linguagem secreta. Ela está morta. "Significa.sê como o mar qu e. A tática era engenhosa. fran cês e alemão. e que qualquer a de nove ou dez anos de idade poderia formulá-las se Crl jsesse Analisou a estrutura das sentenças. .Não.. significa o movimento das ondas. ou quando alguém parte.. . . Mas prometi a ela. . . tão indesejável quanto fora a dos bisturis em seu c orpo. No entanto. .A Dra. e que.E o que quer dizer isso? .e. . quanto mais se aprofundava na questão.Ora. espraia sobre a areia o seu fugaz esplendor.O quê? . . e não uma dádiva enviada pelos deuses Esmiuçou a s primeiras palavras 172 citadas por Déborah para demonstrar que se compunham lfVrfraementos de latim. com rarís simas excessões.Não se faz cirurgia com uma picareta. Retirar! . esquecendo-se. desalentada como estava. 171 . .repetiu aturdida com a pergunta.Diga uma palavra dessa linguagem secreta . Significa agir como agem as ondas. utilizando a forma poética em Yri que. o frescor da água ou aquele marulhar suave e açoitante. de que se ela pudesse formular claramente as coisas diante do mundo não seria doente mental.falou distraidamente. . talvez.mãos de contentamento. quando reflui. mas as reações automátic as e inexpressivas do médico acabaram fazendo com que ela se fechasse num mutismo denso como a noite.Entendo... reproduziam a estrutura do inglês.Que palavra? .Quaru. .Rapa cabelo? Tentou de novo: . mas ela também encerra es sa conotação de mar que. pode ser muito bonita. tcomou coragem. detalhada. Dsborah sentia ganas de dizer-lhe que todos aqueles argumentos repres entavam uma intrusão em sua mente. Até no modo austero de se sentar.. . por exemplo. . .perguntou ele. Contudo. a ondulação dos cabelos. maior tornava-se o silêncio que a envolvia. . às vezes.O significado se atrofiou e morreu na tradução! Seguiu-se um longo silêncio entre os dois.Por que então você não diz logo movimento das ondas? . e Déborah teve freqüentemente que concordar com ele. . há uma outra palavra para isso.Déborah se sentiu um trapo . Ele procurava de todos os modos convencê-la de que o Yri era u ma linguagem elaborada por ela mesma.Pode-se usá-la para descrever o modo como o vento sopra. . . brilhante por vezes. .exclamou Anterrabae.Há inclusive um ditado (Decidira naquele instante fazer um último esforço para salva r a situação). . este arrazoado de provas era absoluta mente irrelevante.. no entanto. ela sabia que ele não tinha entendido nada. . . soou-lhe de uma forma inteiramente nova: Te quaru .Muito interessante! . procurando levá-la a admitir que. o idioma no qual fora educada de sde pequena. Déborah persistiu na sessão seguinte e na seguinte e na seguinte. insistiu Déborah com o flamejante deus que despencava no espaço n egro. virou-se para ele e .. a austeridade do homem e a frieza lógica do seu raciocín io intimidaram-na. ou como tremulam os ves tidos longos. . o prelúdio da Punição. há muitos anos atrás. bem.O que significa? .

em geral. Idat! Por que jlutuas de branco? Branco de noiva e de mortalha .. m dia. mas essas ocasiões eram bastante raras e exi giam uma grande quantidade de tributos cerimoniais. a consumação máxima da vida? E a vida nãoé por acaso. ergueu ligeiramente o véu.disse Idat.disse. Halle. e a sua presença infu ndia em Déborah a esperança de que pudesse algum dia vir a ser simplesmente feia. por causa das cascavéis-muito comu ns naquela época seca e quente do ano . O vul cão. e o seu universo interio r. A deusa. e foi pressionando. Seus sentidos nada informavam: via unicamente manchas cinzentas e disformes. os Desfiladeiros do Pesar. . Idat . onde reluzia o sol quente de verão. por vezes . a morte lenta e gradual? O que se rende não luta. . Idat trazia um véu sobre o rosto. e ouvia apenas grunhidos e rosnares surdos. Por meio desse mesmo recurso. Isso se aplica também às rochas? com a minha ajuda. vagarosa e deliberadamente. O vulcão não cedeu. . a Dissimuladora. toda de branco.. . de qualquer significado. Acompanhava. Déborah compreendeu que a única forma de abrandar o vulcão que a queimava por dentro. Aceitava-os.O seu último grito soou em vão. um fogo de encontro. despr ovidos. provaria enfim. de encontro à parte mais sensível da articulação do braço e do antebraço. Sofra. deu meia-volta e retirou-se ap ressada. Ficava sentada. Déborah conseguiu divisar através da máscar a.O que é que você quer dizer com aceiro? . rasgando ventos ferventes. os mesmos meios! Conheço tuas aparências. Quero te dizer que os homens respondem ao fogo com o fogo. uma enfermeira entrou no quarto e ia dizer-lhe algo quando estaco u de súbito. um a um. ódios. teus véus. Se o dia estava lindo ou se aquel a imagem que se movia pertencia realmente a um ser vivo. e com o passar do tempo acabou renunciando também aos mov imentos. Déborah se fechou num mutismo impenetrável. Nem bem ela saíra. desejos e longos calafrios de terror. Estava claro o que Yr sugeria: nisso os seus sentidos não a enganavam. por acaso. para fins opostos. em alto e bom tom: .dois vestidos que são o mesmo ves tido. apareceu a ela sob a forma 173 de mulher.perguntava naquele instante o médico. Apelidou o novo médico "Dente-de-Cobra". Objetos e pessoas haviam se transformado num todo indistinto e remoto. Passava os dias prostrada e inerte sobre a cama. começou a queimar meticulosamente a pele.Por favor. e o que luta não se rende? Minha e strada contém todas as oposições ao mesmo tempo e. Até Yr se tomara distante e in acessível. rígida e muda diante dele. porém. Nada mais lhe restava.. as percepções táteis não eram menos imprecisa s. Olha! A morte não é. em pouco tempo. percebendo o cheiro de carne queimada. Furii estava morta. se era ou não de substância humana. Sentiu uma leve tontura e um cheiro nauseante de queimado. com cinco dessas guimbas em brasa. ou sobrevoava. cujo sol era um ponto cinza equilibrando-se num imenso vazio. recolhera um suprimento razoável de fós foros e de guimbas.Parece necessário. . Seria preciso um incêndio para aplacá-lo? 174 Enquanto isso. ao mesmo tempo rainha e vítima dessa beleza. com grande alívio. Era um a mulher belíssima. apareceu o médico. sob a máscara inexpressiva de seu rosto. cujo chocalhar ameaçador não lhe saía da cabeça durante as sessões. eram dados tão irrelevant es que não valia a pena questionar. Sempre que assumia essa forma. Havia fósf oros em abundância na Ala B e. um fogo que por si me smo inflama enquanto debela o primeiro. a si mesma .Onde? . doutor. a fisionomia familiar do Dr. os meus sintomas não são a minha doença ! . .retrucou Déborah. Idat. Anterrabae em sua queda etema. ardeu mais ainda sob o rosto e o corpo petrificados. Acendeu outros ciga rros. pouco a pouco. Tomara-se irredutível a defasagem entre o universo exterior.respondeu Idat .. começou a se rmar um vulcão onde fervilhava um magma atordoante de "s e contravozes.' seria lhe opor um aceir o. e cujas aberturas estavam todas vedadas e embarricadas. com L actamaeon.

A visão não é tudo! .Estou procurando ser o mais delicado possível .Não se preocupe . se não houver algum significado.Seja lá para onde for. Oh. .retrucou o médico. Déborah lhe agradeceu a idéia com a saudação Yri: Que o calor e a clareza de espírito te a companhem. pensou ela). n uma madona. Déborah sentiu tonteiras. objetou Anterrabae. Furii te deu uma recordação.Bem. . não diga? Que interessante! . q ue decidiu lhe dar um presente. . . Curioso é que parece s er imune aos efeitos venenosos de meu nganon. . terminando o curativo.. Mas ela está morta. . uma pesso a aberta. não. uma voz sussurou em Yr: Olha para ele.Concordou distraído. Acab ei de assumir a administração da ala. . Depois de examinar as queimaduras. sussurrou Lactamacon. então. Halle segurando um vidro de antisséptico. . a visão se toma irrelevante. Déborah a arrancou de um só puxão.. mesmo quando a gente distingue cada linha.disse ele. Halle. Déborah sondou-o com um olhar de desconfiança enquanto pensava no íntimo: "O que é que e le quer dizer com isso? Estaria exigindo a gratidão? Não. . plano e cor de um objeto. Um estagiário. Assim que transpuseram as portas duplas que davam acesso à ala. .Por isso mesmo é que estou usando esse desinfetante . A manga da blusa tinha grudado à pele queimada.Acho que vou ter que levar você de volta para a D. Procurou alguma verdade com que pudesse retribuir os desvelos do médico. ..ironizou o Coletor. o que era outra de suas virtudes. 175 .Mostre-me .gritou Déborah. E se fala sse sobre a visão? Diria assim. Ficou tão comovida com a preocupação que ele demonstrava e com o tempo que estava perdendo.falava com cuidado para não lhe parecer crítico." . Já sei! vou dizer a ele que pode me tocar quanto quiser que não vai morrer. . lembra? . falar sobre o significado e a terceira dimensão. Persistissem ou não as trevas. Nada possuo de palpável. jogando f ora o algodão e apanhando 176 gaze para enfaixar as feridas.o tempo de contato é tão curto que não há possibilid des de infecção. . De repente ele paro u e olhou para ela intrigado. examinando as queim aduras.comentou o Dr. Está vendo? Sente-se mais seguro agora .Você tem algum problema nos olhos? . com quem se podia falar e que jamais recorreria a expedientes tais com o o "sorriso número três". o toque de mágica que transforma um amontoado de planos numa caixa.Pobre homem! . antes que ele terminasse de gritar "não!".quando fico perturbada.Déborah não esperava por uma pergunta tão franca e incisiva. Quando o Dr.Você fez uma sujeira dos diabos aqui . . . satisfeito de voltar àquele trabalho mais "médico". ..Não. . Ele a conduziu de volta à D.Não se preocupe .disse ela afável . . Halle começou a limp ar e friccionar as queimaduras. inclinando-as ligeiramente para cim a. ou num Dr.Vamos ter que limpar e vai doer. é com o se fossemos cegos.. Lembrou-se de Furii e da flor que dela recebera. sem fazer estardalhaços ou recri minações. sentia-se muito mais segura com Halle.você será uma das minhas pacientes lá.disse ele num tom amável . fazendo cara de repugnância e estendendo a mão n um gesto instintivo ("parece até que a minha carne é de verdade". mas nenhuma dor. Deci diu. permanecia a postos com uma bandeja cheia de instrumentos cirúrgicos. Déborah percebeu que ele não tinha compreendido. o médico virou-se para Déborah e declarou com ar penalizado: . Porque não ofereces uma jlor a ele. .respondeu Déborah. Ela fez com as mãos o gesto Yri de aquiescência. Deixou escapar um vago comentário. . .Na superfície.disse Lactamaeon.Cale a boca! Assim não consigo ouvir meus pensamentos! . . acho que não. Talvez até a famosa terceira dimensão seja apenas uma questão de significado. geralmente não consigo ver as coisas direito.

Numa das contínuas idas e vindas de pacie ntes.. Novamente aquele tom jocoso. . e soavam extremamente falsas. meu Deus! .Não. . . As zombarias do Coletor foram-se avolumando até se transformare m numa zoeira infemal.é como escapei. até os limites da exaustão. . O calor congelava.O que eu acabou a punição.Eu não o conheço.Ah. e sua visão. Inteiramente à margem do tempo. . habitualmente cinzenta. .deramlhe uma cama que já fora sua . Deitou-se na cama e ficou observando as somb ras do crepúsculo invadirem o quarto. de que ele não saberia exatamente quando eclodira a crise. o. os raios de luz feriam como dardos. Puxa.suspirou Déborah . de localização e de distância. espaço. Perdeu toda a noção de equilíbrio (não sabia se estava de cabeça para baixo ou para cima). Decepcionada e envergonhada consigo mesma.É que eu estou de serviço hoje. Passado algum tempo. . haviam transposto as barreiras e caído nos ouvidos do mundo. abateue violentamente. Suas palavras.Chiii.Oi. . Mary. dirigidas a Yr. não excessivos de uma não consigo entender . .gemeu apavorada. nunca imaginei que você tivesse o bicho no c orpo. tempo. uns três ou quatro dias..Lembrou-se..Mas que você deu umas boas cabeçadas nas portas e ja nelas. Dei uma chegadinha para ver se você estava bem. embaralharam-se num grande caos.O quê? . estava fora de si. suportou o castigo. Déborah olhou para ele horr orizada. porque . Halle. já era dia. como você briga! .Menina. Deve ser por causa da tensão.É. voltando-se espantado. Sem nenhuma advertência prévia. . A punição deixara-a exausta..Ficou algum tempo lutando com a chave na fechadura. que talento! 178 Mary soltou uma gargalhada estridente. fica va entre Mary Fiorentini e Sylvia. . Quando foi..Sorriu complacente. mas um súbito torcicolo e um acesso de tosse obrigaram-na a voltar-se de novo para ele. sabia o que fazia. . por sinal. Quando voltou enfim ao seu velho dormitório . e sua inexperiência deixou Déborah estranhamente comovida.perguntou o Dr..re inava uma atmosfera carregada de angústia.Oi. tinha sérias dúvidas. . . . Sou novo aqui. Déborah fez menção de virar o rosto para o outro lado. porém. mas que talento! Definitivamente. um pouco aborrecida com o comentário.Eu não bati em ninguém. tá? Não se preocupe com essa dor. virou para Déborah e comentou num tom festivo: . que. .Não sei. até já.. se tingiu de um rubro impenetrável. . como a mão de um carrasco. . A pesar do que dissera o "novo" médico. Aqui só chamam o méd ico quando alguém se mata. agora. As relações de causa e efeito se diluí am na tempestade. Suas gargalhadas pareciam vidro estilhaçand mas claro. As noções de luz. lá isso você deu. você é louca.Há quanto tempo estou aqui? .Não é por isso que eu vim. a Punição.. . .protestou Déborah. .Eu bati em alguém? Machuquei alguém? .Devo ter demolido tudo. bom. Ele riu. gravidade e o testemunho de seus cin co sentidos. se adensando pouco a pouco à medida que a noit e caía. estava dentro de um casulo e tinha ao seu lado um médico q ue não conhecia. continuava tão muda e ausente c omo antes. Quando voltou a si.vou deixá-la então mais uma meia hora. os braços e os ombros estavam doloridos. os gestos atriz de comédia barata. . 177 "1 Ficou apavorada ao notar que as mãos. Você já pode sair do casulo? Está se sentido em condições? . que estava deitada na cama vizinha.Ah. Déborah.Ah.Não sei. Como é que você está aqui? . . a Esposa do Abdicado fora deslocada duas camas adiante.Como está se sentindo? . . .. . .

. treme. . A intensidade de seu des ejo. já que você melhorou tanto. Sylvia (com o seu imobilismo m ortal) deram provas disso. . e como era im portante saber disso! Até mesmo as pessoas venenosas.Tive um trabalho dos diabo s para mantê-la assim! .perguntou a si mesma.Quer dizer que há um limite para a coisa? . dissera. "É porque eles realmente não querem olhar para nós". "logo ali". Por alguns dias conseguiu manter as feridas em segredo. Se quero morr er. no entanto. e agora Mary lhe oferecia um pouco de sabedoria. torcendo-o como se torce roupa lavada. mesmo assim ninguém re parava. Déborah riu.Não era para menos . Ouvindo isso. Su a visão já era um pouco mais nítida. se empenhassem toda a sua coragem e energia. furiosa ainda com aquela idéia dele permitir que se queimasse até a morte na B. minha querida.retrucou ela num tom meio ácido. porque é que estou me sal181 vando? . O médico olhou para ela chocado. Déborah começou a tirar o suéter. Fora engraçadíssimo: "Sou Débor ah". No final da semana. estendera-lhe a mão num gesto dissimulado e fratemal: sim. . emb ora. por que estava ressentida com ele? . Divertia-se com a falta de atenção d as enfermeiras e auxiliares. Déborah saiu da cama e foi rastrear a ala em b combustível para mais um aceiro. por mais agoniada e irritante que fosse. Helene. detendo-se junto a Déborah na s ala de estar.Você está com uma cara muito melhor hoje . superava todas as precauções que vigoram na D. voltou às suas gargalhadas irritantes.Tenho mais algumas queimaduras. Mary. mas logo se recompôs. Déborah se ocupou em refletir no que ela dissera. só mudava o local das quei maduras quando começavam a infeccionar e supurar. merg ulhando o dormitório na escuridão.Ora. e os contornos amortecidos das camas. respondera: "Eu sou o manicômio na versão Disney".Fico satisfeito por você me ter dito isso .soltou uma ris adinha irônica e. . sem saber bem porque. francamente. Guimbas de cigarro e fósforos eram fáceis de obter. Déborah compreendeu que Mary. característica das noites de verão. e depois acaba! .Bem. Talvez até mesmo no Inferno houvesse misericórdia.declarou como quem não quer nada. estivessem sujeitos às mais severas restrições. por um impulso incontrolável. Acenderam as luzes.não pode durar mais do que vocês são capazes de agüentar. 20 Déborah passou a depender cada vez mais dos aceiros para amainar a pressão insuportáve l do vulcão. concluiu com seus botões. que estava apavorada. Continuou a queimar os mesmos lugares.comentou. apontando em seguida para a sua cama.. lembrou que lá os regulamentos eram muito menos rígidos e havia fósforos em abundância: seria a oportunidade ideal para executar a morte que almejava. . Teria razão? Haveria pelo menos fr onteiras naquele pesadelo sem leis? Os últimos vestígios do dia se extinguiram. acho que poderá voltar à Ala B muito em breve. que respiravam ao seu redor tomaram aquela incandescência d esmaiada.Bem.a gente treme. acrescentando camadas de queim aduras umas sobre as outras.. e logo a pressão passava a ser insuportável de novo. a rigor. com um 179 sorriso de Walt Premida usca de 180 irônico e aquela jovialidade forçada. Se o homem lhe o ferecia de mão beijada essa oportunidade de morrer. As feridas supuravam e fediam. pois o alívio trazido pelas queimaduras não durava mais que uma h ora. mais seria obsceno. . eram capazes de se ajudar umas às outras.. lembrando-se do primeiro encontro com Mary. casos como você deviam saber que o inferno (foi sacudida por u m novo acesso de riso) . Precisava dispor de um supr imento considerável. o tal médico novo reapareceu na ala. É como a dor física .disse meio sem graça. simplesmente obsceno! . das paredes e dos corpos inertes. Carla. porém. Num estalo. Con statou. existia de fato um limite.

descobriu que estava no casulo. m ais cedo ou mais tarde.perguntou o médico soltando as bandagens do curati vo. e agora. sem muita convicção.Tinha que contar a ele. mil sensações conflitantes dilaceravam-na interiormente. sem saber que. Restringiram o uso do fogo aos limites da enfermaria.perguntou. medo.Deus do Céu! . voltou para cá. ainda estava por vir.Olhou ao redor de novo. de escapar ao olhar dela. Numa outra ocasião. viva e inteira. comendo com os dedos e urinando no chão. Tudo o mais retroscedeu ao pleistoceno: Pitecântropos Erectus vagueavam a esmo. E os Deuses.Não é a primeira vez que você vê. um ser primitivo espreitava..Você voltou. . Furii passe ou os olhos pelo quarto. inteiramente subvertidas. Um dia. Terminados os curativos. foi suprimido.Vamos tentar um curativo diferente. que se tcom ou assim uma ilha de modemidade cercada de pré-história. com um aspecto inacreditavelment e diferente. desespero.. De todas as sensações. Déborah estava convicta de que. . qu e fora introduzido um ano antes. A Idade do Metal cedeu lugar à Ida de da Madeira.Vá para o inferno! . estavam todos à solta. Raiva de si mesma. uma chave rangeu n a porta e entrou uma enfermeira. . como dizia Anterrabae. A sua rotina de vida adquirira.repetiu Furii baixinho. e isso graças à fal a de cuidado do Homem Moderno que acendia os seus curiosos cilindros. O garfo.Puxa! Quantas vezes você queimou isso? .Como estão as velhas feridas? . cor. . sentou-se junto à cama e balançou a cabeça com um ar de espan to. Não se deu ao trabalho de responder pois ele viu com seus próprios olhos. dirigindo-se à região iluminada onde o Homem Moderno fornecia às pacientes seus símbol os de status: cigarro e fósforo. ávido por fogo. justamente por não ter mudado nada. . a repreender as enf ermeiras pela falta de cuidado em deixar materiais inflamáveis e perigosos na ala. ao seu lado.Não. àquela sua expressão de desgosto. a superfície dele. os seus tr ajes graníticos. não foi? .retrucou Déborah.Muito obrigada. Mesmo ali a lógica das decisões em Yr parecia ter sid o suprimida e as leis. o cigarro aceso que esqueceu na sala de estar bastou para mais uma série de queimaduras. . vinha Furii. acordou e. vergonha.Deus do Céu! . 182 Tornou-se difícil conseguir fósforos e guimbas. a Esposa do Abdicado a acusou de ser espiã a soldo do Secretário do Interior. não é covarde? rosnou o Coletor. . cujo universo cinze nto e difuso só admitia uma excessão: o cigarro focalizado.. . com toda nitidez. numa selvager ia descontrolada e inexplicável. na realidade . como tantos outros.. piedade. punindo a torto e a direito. mas nada d isso deixou transparecer na sua fisionomia pétrea. por mais que Déborah opusesse o fogo ao vulcão. . . Deixe-me ver as novas queimaduras. o vulcão explodiria e entraria em erupção. . recomeçando as zombadas de se mpre. para a sua surpresa.A enfermeira trouxe uma cadeira para ela. No entanto. já há algum tempo. continuavam inalterados. afinal. Contudo. ao cruzar com Déborah . sem dúvida. bamboleando e resmungando son s inarticulados. guria! . por alguma razão mágica. cheiro e dimensões.Umas oito. Logo atrás dela. um pouco acusador. . . essas coisas horrív .O que aconteceu? Você estava indo tão bem q uando viajei.murmurou Déborah.Você andou mexendo aqui. Pouco depois. a que mais a assustava era a alegria 183 de rever Furii. disposto. . não passavam de minúcias gramaticais.Muito obrigada.. formas terrenas que. o Co letor..disse Lee Miller sarcasticamente. As que imaduras recusavam-se teimosamente a cicatrizar. A Grande e Última Dec epção. varreram a ala de cima a baixo com severas reformas. ele se afastou. contendo a agressividade. Quando os legisladores da D descobriram que seus pacientes não estavam tão a salvo c omo imaginavam. .. o Censor. .Divertiu-se bastante? . Déborah sentia vonta de de sumir. mas não era impossível. o qual figurav a como o pior entre os seus Inimigos. v .. . org ulho.Déborah estendeu o outro braço.

Déborah faria a maior parte dos papéis masculinos e a velha. Déborah. Em pouco tempo Lee. 185 . sem querer. mas os sons pareceram-lhe tão ridículos e feios que parou imediatamente. Se fosse ela quem estivesse oferecendo o livro. acabaram transformando a peça numa grande balbúrdia. .. e depois começar am outra. e até mesmo a timidez da velha. e ele só queria provar que tinha razão e que era mais esperto do que eu. . Decidiram começar a ler "A Importância de ser Prudente". vou ser destruída. mas você estava morta. juízo menina. como era antes de vir para cá. alegria e compaixão. Odeio a mim e a todos os i mpostores. uma comédia fina e elegante de Oscar Wilde. Em troca das minhas verdades. só que o vulcão queima.. Maldita! Maldita que sou! Tentou chorar e vieram baixinho uns soluços roucos uma respiração ofegante e áspera. parodiando a si m esmos. provavelmente tê-lo-ia chutado junto com al gum insulto.. . tentei uma. . se transformou num p esadelo digno das telas de Hieronymus Bosch.eis.Scomos ambas suficientemente fortes! Respirou fundo. fechar-se em trevas e no nada. e me odeio por causa disso.protestou Déborah. . e a Srta.você consiga aprender a chorar. Daria no mesmo se ele dissesse. . era tão "Prudente" como uma louca de boa família.Não consigo nem a rrancá-las de dentro.Pois então deixe que elas saiam por si mesmas.Tentei com Royson. Amanhã nos ver emos. f azendo o papel de Sybil.Foi. a resistir: . Haveria duas pessoas no Mundo que falassem a mesma língua? Ao responder.disse suavemen te . He len e Mary Fiorentini participavam também da leitura. as palavras.Quem sabe quando eu sair .Sim. . queima. dos femininos.Este é um dos momentos . Quero l he dizer só uma coisa: avalie bem o ódio e a vergonha que está sentindo agora. o que é que você acha? Relanceou os olhos para Helene. Déborah notou que reproduzia. Àquela mesma noite. tentei realmente. mofo e teias de aranha. . duas.. Odeio minha vida e minha morte. Continuou. com suas gargalhad as estridentes. a Srta. A peça. enquanto a superfície nem sequer sabe se ele está vivo ou morto! A doutôra puxou a cadeira mais para perto.Sou venenosa e me odeio por causa disso. cobe rta de vergonha e degradação.Levantou-se e saiu. Leram-na inteirinha. Os atores. só para me dizer como está furiosa por eu ter ido embora e abandonado você. A n oite foi divertidíssima. e acho que talvez tenha se deixado cair nesse estado tão lastimável. . queima lá por dentro. Queria poder fugir para o Poço. mas Furii estava de volta e agora não ha via mais esconderijos. .Você é suficientemente forte? .disse Furii . Coral. Esqueci que você voltaria.Olhe disse ela timidamente . Coral se acercou de Déborah com um livro na mão: . Sentiu-se profundamente envergonhada. não é a primeira vez. exasperada. três. . Esta ta mbém será a medida da sua capacidade de sentir amor. . pressionou com força a cabeça de encontro à cama. Déborah fechou os olhos. o mundo só me dá mentiras. embora estivesse exausta.perguntou a Srta. que estava sentada de encontro à parede. inúmeras vezes.Disse foi? .. Começou a se contorcer de angústia.. aca be com essas besteiras!" Escutei isso durante anos e anos quando eu os decepcion ava com a superfície. com Royson.... está bem? ."Vamos.Qual delas você prefere? . de Yr do soldado ini migo. percebendo satisfeitas que os auxiliares riam com elas e não só delas.em que tudo o que você disser é da maior importância. o modo comedido e esmerado de falar. Lamento apenas encontrá-la aqui e sofrendo tanto. Lembre i-me de que talvez pudéssemos lê-las juntas.a minha médica deixou isso comigo. no entanto.Eu disse que voltaria hoje. . São peças de teatro.. . mas vi que o que ele queria era 184 provar que estava certo. Mary.Não sabia que ia volta r. . pelo menos era o que eu pensava. exalava um cheiro insuportável de magnolias. e mentira com o mais íntimo de mim mesma. Coral.Isso não é verdade! .Estou toda bloqueada e fechada. Por que está tão chocada? .

nada disso . As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. preveniram-na de que não seri a aconselhável vê-la. .As feridas? . ao invés de tranqüilizar. encarou a Doutôra Fried. Fried.E o que é que vou dizer ao pai dela? Qual a mentira que devo contar dessa vez pa ra que possa mantê-la aqui. Saíra de lá apavorada. sou forçada a rejeitar muitos.Será que vocês não podem descobrir antes dela virar. tão repulsivo! .Por quê? Por quê? . Di ga isso ao pessoal em casa. furiosa. que sempre esteve associada à idéia de uma pessoa "conde nada para sempre". a cada sessão. uma vez no seu consultório. ao voltar. que ainda há uma chance de Déborah vir a ser. em seguida.Mas isso é tão. que eu tome a meu encargo o tratamento de uma paciente. Como pode alguém fazer isso consigo mes Uma pessoa assim deveria estar num. Palavras fáceis de consolo poderiam servir em out ros ramos da medicina (quantas vezes os médicos não receitam uma agüinha com açúcar e pron to). soaram longas e monótonas: Acho que talvez estejamos todos nos deixando impressionar demais com esse negócio das queimaduras. Passado o prineiro choque. normal? . onde só faz piorar. Fried. . prejudicando-a ao invés de ajudá-la.. Só conservo uma paciente quando tenho certeza de que posso ajudá-la. a verdade é p lenamente suportável. Blau. . . deixaria Esther em pânico. redigido como sempre em termos cuidadosamente vagos. Halle e.interveio a doutôra. Esther Blau.. mas gostaria que nunca mencionasse isso para sua filha..Não. Es perava tê-la tranqüilizado um pouco.. Pedira. ' . Pedem-me. não. cheia de maus presságios e. pensou de si para si a Dra. um. . Partira imediatamente para ver Déborah. incrédula ainda.É a palavra que a assusta tanto. segura e até mesmo dominadora. . A senhora não precisa inventar mentiras.Esther tapou a boca com a mão. trata-se de um sintoma da doença. piorar e ficar cada vez mais violent a? As palavras da doutôra. ofegando. turvadas pelo medo que sentia. um pedaço de carvão! Esther lera o relatório. uma entrevista com o Dr. Conduziu.. pode ria ser a determinação salvadora agora. Tenho ainda que supervisionar a anális e dos médicos que estão se formando pela Escola de Psiquiatria. Enquanto estivesse convicta da importância des . 186 . à intenção.Acho que sim. O telefone tocou. A determinação que lhe permit ira conquistar todos os inimigos de Déborah. muda e atônita.como se uma carreira mágica se tivesse aberto em meio à danação que pesava sobre todas e las. O que podia fazer para que a mãe entendesse isso? Seria. mas dessa vez alguma coisa no seu tom pusera-a de sobreaviso. Seria um grande desperdício dedicar meu tempo a um caso s em esperanças. desesperada e fora direto procurar a Dra. .Nunca me permiti empregar essa palavra para Debby! "Rompeu-se a fachada de Débor ah. Foi atendê-lo e. então. Afinal de contas. Sra. informara-se dos fatos. é isso que a faz sofrer tanto. Refiro-me à idéia. mas todo peso de sua vivência e treinamento indispunha-se contra esse procedi mento. cuja gravidade nenhuma palavra poderia modifi car ou suavizar. e o que está pór detrás dela não é tão mal". um pequeno consolo. por experiência. A velha e maldita palavra "louca".Tenho certeza de que ela pode se tornar uma pessoa mentalmente saudável e forte.Será que entendi bem? . pelo menos umas quatro vezes por semana. O importante era que a conversa a tivesse fortalecido. que nós sabemos que existe e que continua respondendo ao tratamento. a mãe de Déborah até a porta do consultório onde se despediram.. ao chegar. ela pigarreou. mas antes.Pois é. Fried compreendeu que Esther conseguira superar a sujeição para com o pai. então.. encontrou Esther já recomposta. .. vou lhe confessar uma coisa. . pois assim a família sairia fortalecida também e per mitiria que Déborah ficasse. A Dra.Não vi as feridas. . e. Sabia. indubitavelmente. que se dissesse qualquer coisa que soasse como apaz iguadora. To mara-se uma mulher forte. . estamos tentando justamente descobrir por queè.A senhora julga. . . .

enfrentaria toda a família se preciso. por trás da qual se ocultava a Ala D. Não demonstrava o menor interesse pela surra. viria a ser uma fonte de esperanças raramente estuda da nas publicações psiquiátricas.médicos. eu tenho que ir. permanecera lá fincada no chão como uma estátua. evitava fala r-lhe e lançava-lhe olhares desdenhosos. Tudo convergira para ela . mas continuou imóvel. pareciam colados ao chão. De repente. para garantir o se u prosseguimento. outro. que costumava tagarelar." Tentou mais uma vez livrar-se de suas ves tes de granito e sapatos de pedra. Seu corpo parecia estar totalmente entregue às forças da gravi dade e da inércia. A única reação de Sylvia era fechar os olhos vagarosamente: suas mãos cont inuaram caídas e moles. observava fazerem curativos nas queimaduras.era um dia refrescant e de outono . distribuídas aqui e ali. rápido e inesperado. as enfermeiras deixaram o s aguão por um momento. com toda força. As estagiárias. Só a respiração lhe traíra: resfolegava. quando Helene a ataca ra para destruir o rosto que havia testemunhado sua fragilidade e livrarse daque le testemunho aterrador. no entanto. inerte como sempre. Sentira-se degradada demais para defender-se. bandag ens e esparadrapos. Ao terminarem o curativo das obstinadas queimaduras. a baba qu e escorria de sua boca. os cabelos 188 desgrenhados. Deixaram-na sozinha e humilha da na sala. agora é minha vez. outras de pé." Ao sair da casa onde estava situado o consultório da doutôra . "Do lado de fora das portas do estudo dissera-lhe uma vez seu pai . Sylvia poder ia destruí-la apenas com o silêncio. arranhava. Tal qual Sylvia agora. Forçara alguns a se questionarem e a crescerem um pou co. e compreendeu que. Parecia uma fera arremetendo selvag emente de encontro a uma pedra. enfermeiras.sa terapia para a filha. Déborah percebeu os olhares belicosos que Helene dirigia a Sylvia. Os pés. e as mãos pendiam frouxas de cada lado. mal contendo o choro. a responsáve l pelos novos regulamentos. gritava. que estava ao seu lado. se fosse solidarizar-se. tomara-se objeto de grande interesse médico. viu seu rosto pálido como cera. auxiliar es.. o rosto r ubro de cólera.um anjo aguarda. ela quebrou o silêncio e veio em meu socorro . fora incapaz de se defender e precisava de cuidados tanto quanto Helene.pensava com os seus botões. com a intervenção dos seis auxiliares necessários para subjugar Helene e arrastá-la para o casulo. Lembrou-se do episódio ocorrido dois anos antes. Caso isso se confirmasse. Helene avançou para ela e desferiu-lhe. O medo. Entendia perfeitamente o drama de Sylvia. poções. num instante. encantadas com uma oportunidade excelente de exercerem seus c onhecimentos. sentada no chão. logo em seguida . tudo para Helene. Como seria lá? O que se passa ria nas mentes das pessoas que estavam enclausuradas ali? Baixou rapidamente os olhos. Sentiu que deveria aproximar-se dela. não andavam. pôs-se a observar os "Ornamentos Viventes" (termo que encontrou para designar as pacie ntes): pareciam estátuas.Esther ergueu os olhos para a sacada recoberta de sólidas grades. Pelo canto do olho. e até mesmo Lee. a mais feia de todas as pa cientes. toldados de lágrimas. Sylvia recebeu os golpes sem soltar um ai. totalm ente inexpressivas e imóveis. continuavam furiosas com Déborah.. talvez porque estivesse além dos domínios da "ciência" e a previsão. como de hábito. contraído numa careta enrijecida. He lene explodiu num acesso de fúria incontrolável. a reclusão. A doença de Déborah não tinha só balançado 187 os retratos no álbum de família.. parada a uns dez passos de Sylvia. Enquanto as enfermeiras trabalhavam. como se estivessem o t empo todo surpresas de que o sangue pudesse fluir de forma tão natural e o coração pul sar independente de suas vontades e emoções. Esmurrava. Quanto às fumantes. sentia como se as duas estivessem a sós no planeta. Déborah. no alto"3(c) prédio. consumiu todo o desejo de . "Eu devia ir porque isso já aconteceu comigo e eu sei melhor do que ninguém o que a gente sente. as feridas se recusavam a cicatri zar. cuspia. Desafiada nos seus brios. "Naquela noite tenebrosa. terminou. O incidente. Olhou para Sylvia. ava quase. Vamos! Mexa-se!" .. trabalhavam conscienciosa e diligentemente com ungüentos. Déborah. Por causa del as. um murro e. exceto pelo olhar assombrado. tocar-lhe no ombro e dizer qualquer coisa. tudo. os lençóis úmidos. umas sentadas.

. eram percebidos por ela a uma distância muito remota. e eu faço o mesmo com seus cigarros. Nunea lhe disse que eu era humana.continuarei fazendo as penitências. rindo daqueles termos da psiquiatria. Agora.Não. A atmosfera que a cercava contin uava fria e sombria. torcendo para que ela se lembrasse do que afirmara freqüentemente a respeito de o paciente confiar em suas próprias convi cções íntimas. não será nenhum jardim de rosas. mas mesmo assim não pareciam justificar o estardalhaço que se fazia em tcomo delas. que vivia na maior desordem. ao exterior. você é que está se aproveitando d os sintomas delas. As duas Marys fumam como loucas. basta que ninguém me surpreenda.Desatenção seletiva! . .Creio que de certo modo estão. . A luz do sol derra mava-se das janelas. . . . Enquanto concedessem a elas o sentido de uma aberração terrível.Não se deve permitir que isso aconteça. Passeou os olhos pelo consultório. No momento. por favor.disse Déborah.retrucou Furii. de morrer.Não lhe faltará desafios morais e decisões difíceis para tomar no mundo e. . e é bastante distraída. na realidade. . Elas estão contribui ndo para a minha delinqüência. mas afin al de contas temos que falar uns com os outros. devemos trabal har duro para descobrirmos quais são as raízes das queimaduras que você faz em você mesm a por uma revolta contra mim e o hospital. A verdadeira agonia não era o fogo nem as queimaduras. Se não fiz o que devia ter feito depois de Helena agredi-la. Nunca lhe contei uma mentira! . Decidi não ser imortal por causa do que aconteceu a Sylvia.perguntou. não estou ouvindo.O que é que você quer dizer com isso? .declarou Déborah. com você.agir. e sim esse eterno alheamento em relação às coisas. eu o apanho rapidamente e fujo. e não apenas a nós mesmos e a deuses cadentes. embora. Por que Furii deixara fósforos e cigarros na sala de espera? A enfermeira acompanhante distraía-se com a maior facilidade. o seu gesto continuaria tão dece pcionante quanto as sossegadas encostas do vulcão.vou pôr a corda no meu próprio pescoço agora.Não estou aqui para desculpá-la . como eu disse antes.Não sei explicar por que. O medo cedeu lugar à vergonha. Foi com eles que acabou de falar? . Furii compreende u e riu também. mas os seus reflexos dourados e o calor que espalhava. e trabalhar para que chegue o dia em que você seja capaz de fazer o que acha que deve fazer. e ac endendo um cigarro. . 189 Ao chegar ao consultório. infligidas sucessivamente sobre a carne preparada e esfolada para recebê-las.São seríssimas! . uma vergon ha tão grande.disse Déborah baixinho.murmurou . Havia cerca de quarenta queimaduras.Algumas vezes acho que nosso vocabulário profissional vai longe demais. cuja linguagem e os jargões não tinham nem a beleza nem a poesia do Yri. os auxiliares que subjugaram Helene começaram a retomar da ba talha e a oportunidade perdeu-se de vez. Prometo não roubar guimbas acesa s das pacientes a não ser quando estiverem no cinzeiro ou esquecidas em algum luga . cega a tudo o que se passava a seu redor. Saberia Furii como foram tentadores aqueles minutos de espera? Logo que a sessão terminou. 190 . . com uma vontade enorme de sumir. já que você as considera um problema sério.Você acha mesmo que as queimaduras são tão sérias assim? . . Déborah se levantou para sair. que durante muito tempo ficou ali paralisada. .Você está enganada .declarou taxativamente.Sylvia fuma de vez em quando. .Vigiada ou não . hesitou alguns segundos e disse: . pelo menos não vou implicá-la nas minhas queimaduras. Pquco depois.respondeu Furii. O que nos cabe fazer é louvar essa força que lhe permitiu ver isso.Fale mais alto. . não estão? . mas acho que você está enganada. Déborah discordou das razões e da seriedade que Furii atribuía às queimaduras. contou a Furii tudo o que vira e o que deixara de fazer. erguendo os olhos para ela. Quando solta o cigarro em al gum lugar. você pode me expulsar porque eu tenho um a culpa que não admite perdão.

Déborah gostava dela. Também não vou permitir que você contribua. As pessoas que a socorreram estampavam uma expressão 192 de horror e de surpresa no rosto. Forbes. Srta. porque sei que não gostaria.Recreai. estende u as duas mãos abertas e tentou inutilmente articular algumas palavras compreensívei s. e significava o terceiro grau do ódio . como celulóide fervente. não houve fósforos que bastassem para contê-l . Já era tarde. "terceiro trilho" significando "concordar". e que significava solidão. já" que todos os quartos de reclusão se achavam ocupados. costumavam dest rancar a porta para ela. gestos e sons que lhe permitissem exprimir o impacto produzido pela erupção do vulcão. onde uma ou outra palavra Yri lhe permitia sa ber o que estava dizendo. Foi justamente essa expressão que levou ao extremo o incêndio dentro de Déborah. 191 21 Quando o vulcão entrou finalmente em erupção. (Lembrai-vos de mim. acho que ouvi você pronunciá-la. Estava sozinha na ban heira situada nos fundos do lavatório da frente. Um dia. de repente. cotidiano e inquestionável . A Brincadeira .terminou. A Sra. Lembrai-vos de mim com ódio. focalizados sobre ela. Até mesmo aquelas habituadas aos trabalhos mais ár duos da Ala D. que a dilacerava por dentro.. Déborah. apenas aquele estado mental sombrio e obscuro. Forbes lhe perguntou se não queria que mandasse a s pessoas saírem do banheiro. e boa parte do que falava já não podia sequer esperar pela lógica do Yri e pelo arcabouço das palavras: era um vomitar de sons inarticulados. uma agonia que há dias v inha repelindo a pontapés as doses de hidrato de cloro. Quando os sentidos desanuviaram. e a escutar as acusações ditas num tom de quei xume monótono pelos personagens invisíveis e rancorosos de Yr. febrilmente.Ageai significava d ilacerar a carne com os dentes como tortura . de que os auxiliares ac orriam ao banheiro e de que as paredes estavam cobertas de palavras e frases em Yri. e os bramidos provenientes do Coletor. . Ageai dum. Déborah não pressentiu nada de excepcional. quase hora de dormir. Tem algum signi ficado? Déborah ensaiou. vieram carregadas de ódio. . íemr e xangoranan. Dito isso. emitiam raios que ateavam fogo. e deixá-la a sós ali até que alguém tivesse necessidade de usar as privadas da frente. Alinhavam-se nelas todas as efusões de ódio. lembrava-se pelo menos d e ter gostado dela. . estava escrito no super lativo e em letras garrafais: UGURUSU. A palavra a que se referia fora escrita na parede c om o sangue proveniente de um corte no dedo. começou a sent ir as vergastadas familiares do medo. As palavras eram disparatadas. temei-me com o ód io mais feroz. universal e penetrante. cuja tradução seria "uivos de cão".Foi dado o sinal. comovida com a coragem daquele gesto. O medo e a cólera que expressavam essas criaturas do mundo eram como o s ol. a maior delas. todas em Yri. depois da limpeza da noite.uma lei da natureza enfim . teve uma vaga consciência de que gritava. . Blau? . Refulgiu o raio de luz. e começou a bater a cabeça vagarosa e metodicamente contra os azulejos. tirou de dentro da manga duas caixas de fósforo. Decidiu que naquela noite não levaria para a cam a consigo a agonia infernal. que se avolumavam no fundo dos copos e desciam pela garganta abaixo. torturai meus dentes com vosso fogo até estilhaçá-los . Estirou-se no chão frio. graças a isso. via e ouvia.Esta palavra aqui. mergulhou no vértice furioso d a erupção. como quem ouve e vê através de um bura co de fechadura. As palavras proferidas num murmúrio por Déborah.Onde está o objeto que usou para arranhar. O negro em seu cérebro tornou-se rubro. ressentimento e amargura expressas numa linguagem que usava metáforas tais como "quebrar" significando "consentir". . Uguru . e algumas delas arranhadas com um pedaço de botão.r. E com o mesmo ódio.Recreai xangoran. As palavras foram escritas com lápis ou com sangue.) Nesse momento entrou a Sra. Naza e fango xangoranan. dispunha sempre de uma meia hora de solidão. A crise ia ganhando proporções incontroláveis. Inai dum. que surrupiara na sala de espera e as jogou raivosamente entre os pés da escrivaninha. As enfermeiras. antes que pudesse se dar conta. Seus olhos. dilatando-se e extravasando com tamanho vigor que.

apavorada com o que poderia fazer agora que não e stava sujeita a lei alguma. colisão. O tumor fustigou-a por de ntro. conseguiu arrancar algumas palavras: . agarraram-na e meteram-na a muito custo num casulo. meu eu venenoso e pes tilento. . f isicamente? . dos quais d ois pelo menos encaixados no mundo. Yri misturado a termos estranh os e desconhecidos para ela. Aturdida com aquela subver são das leis e da lógica de Yr. dava cabeçadas e dentada s. . mais violento que o ódio negro e o vermelho -branco. A enfermeira o lhou para ela interrogativamente.Não. mas continuav a incapaz de formular as palavras necessárias para precavê-los contra a sua própria se lvageria. Déborah.Você consegue me ouvir? .perguntou. . .. num esforço supremo.. Impelida de um lado para o outro do quarto. o caos imp erava e os próprios personagens de Yr pareciam ter enlouquecido.Você está doente? . . tentando desesperadamente morder a si mesma. .A palavra é medo? . A velha frase.. nem bem olhou para ela. um riso tão feio quanto fora o choro. .. . .Quer dizer. Furii. .exclamou em voz alta. . Vamos empenhar tod as as nossas energias para protegê-la dos excessos dessa doença. Inglês.Tente de novo. Aqui. . incapazes de s e juntar. e no teto desenhou-se um imenso tumor que foi inchando e ganhando volume. começou a sentir a contrição das veias nas pernas e nos pés. . e agora nem sequer o controlo. Percebendo que era inútil deixá-la ali. tal como as queimaduras que também não doíam. uma de frente para a outra. nenhum vínculo com o mundo! Tu não és como os outros . tudo . Perdera completamente o controle de si mesma. Déborah procurou comunicar o que sentia.. ódio.Não. E agora nenhum. estacou de súbito e jogou a cabeça para trás.Ergueu os olhos para ela de novo: .. escancarando a boca num grito mudo.. da mente. vamos tentar a reclusão até que você con siga se segurar um pouco.Você está com med o do seu próprio poder. . no mund o. Deixe elas saírem naturalmente. proferida em contextos diversos. com as mãos e com o corpo de enc ontro às paredes e ao chão. c omo um boneco desengonçado.Tentou lhe explicar.pediu Furii num tom grave. a jogada final que fazia parte da trama se194 creta armada pelo mundo para destruí-la.aparteou o Censor. numa agitação extrema. . . Déborah andava para um lado e para o outro.É por isso que a internaram num hospital.Escute. Yri e sons inarticulados entremeavamse num dis curso incompreensível. O quarto de reclusão era minúsculo. a cama.Engrenagens desencaixadas. ela se contorcia. você está sentindo alguma coisa. talvez a mais velha em Yr. até cair desfalecida. portanto. você está protegida. mas um perpétuo morrer. Horas depois. perguntou surpresa: . só que dessa ve z sem a dor habitual.Minha inimiga. . . Entendeu que a morte tão temida não precisava ser necessariamente física.Havia uma engrenagem. Você tem que tentar falar. Lutou até a exaustão. . e procure manter-se em contato comigo.Um ódio que você não consegue controla r. Gradualmente. . riai naruai. .. . medo não. cont ar para mim o que está acontecendo nesses mundos que colidiram.perguntou Furii. as pessoas.. Déborah batia com a cabeça.Havia uma engrenagem cheia de dentes. o ódio foi cedendo lugar ao medo.Pensou alguns segundos e disse: . e agora à última decepção. ela murmurou: . arrancando-lhe um grito de dor. desencaixadas! .Yri. já deveriam tê-la aquecido. . Escute com muita atenção agora. A energia que jorrava impetuosamente do Vulcão a d eixava num estado de agitação frenético. passando do consolo e piedade.. ao ódio e terr or. não precisa temer essas forças terríveis que parecem ter sido desarrolhadas aí dentro. Podia ser a morte da vontade.Venha. Enquanto prendiam as amarras.Déborah riu.. das leis e conseqüentemente não a morte. Ela lutou como uma fera. Como era frio o ve nto que soprava acima de todas as leis! Tiritava. Faça um esforço para me ouvir . da alma. embora estivesse envolta nos l ençóis há muitas horas e. porque não está conseguindo controlá-lo. mas as paredes começaram a porejar suor e sangue. mas só conseguiu esboçar o gesto que em Yri s imbolizava insanidade: mãos espalmadas. . jamais pronunciada ou escrita antes. . os lençóis.

Veio Yri.. não é assim? . foi? Não.disse Lee Miller sem fôlego .. e o que serão essas duas pequenas miscelânea s? Alívio. pois é justame te este medo que a impede de falar de uma forma compreensível para os outros. Não soube como demonstrar gratidão.. -' Três ódio.Segundo você.O sofrimento não foi por causa do ódio. Metade do medo que está sentindo é o de que não consigam detê-la..Você está completamente esgotada . disparates. mas t enho certeza de que a refreará o suficiente para conseguir a ajuda e o controle ne cessários. . Censor. Estava extremamente cansada.Sua amiguinha. sofro muito.Tenho a impressão de que esse ódio explodiu por todos esses anos. Apanhou o cobertor e a cobriu . . cujo calor era rechaçado pelo seu clima interior. levantou a cama e a jogou em cima da Sr a.Eu sofro .O quê? i .Começou a tremer de frio novamente. Cor al. Antes de pe rmitir que o ódio aflorasse. Censor. .Quase. .E a atingiu? . 195 .E o quê? . . Sons absurdos e apenas Não! Não! . Negação até mesmo de Yr... Furii riu. cinco medo. o que se tcomou mais uma culpa a suport ar em silêncio. nunca vou preenchê-los.. .Puxou sua cadeira mais par a perto de Déborah que tiritava ainda sob o cobertor.. envelhecendo e apodreceu. especialmente quando estava em serviço uma enfermeira. fazendo o que é proibido. . Ódio.. nacoi. Agora. ..a doce e gentil Srta. . . . vendo.cismou a doutôra.. você confiava no nosso trabalho juntas e em mim. . . de quem você gostava e em quem confiava. .. você tem um potencial enorme de saúde e força aí dent ro. Déborah se lembrou de que não havia em Yri uma palavra correspondente ao "muito ob rigado". Negação..Diga-me uma coisa. bastante.Veremos se o calor da terra ajuda .e procurou complementar a idéia com gestos de mão em Yri.Sabe. quanto havia de ódio e quanto de medo? . le mbre-se bem. que para avaliar a emoção permitiu que um bocadinho dela fl uísse de novo..respondeu Déborah. cobertores da Terra. Na emoção que você sentiu ao se ouvir bradando essas estranhas li nguagens...Envolva-se no cobertor..Não.. e.. Inglês. como se fossem grânulos malcheirosos dentro de você. Déborah começou a sentir as pálpebras pesadas. .mas muito menos assustada. mas não achou que val esse a pena discutir. por não ter de entregar tudo àquele muro que separa Yr e o mundo ? Será que não haveria também uma intenção evidente de me lembrar que fui embora e a deixe i sozinha com tudo isso? Déborah sentiu que a última hipótese continha apenas meia-verdade.Medo. A doença que você construiu pode voltar a ameaçá-la. não é verd ade? . Yri. Dois é para miscelânea..disse Furii . na terra. . . Ao retomar à ala depois da sessão.. Nada mal mesmo..Nem mesmo os deuses como amigos .Então. .. . você se transferiu espontaneamente para a espécie de encl ausuramento que havia à mão. medo... colisão. Déborah soube que um novo holocausto a visitara. . . bate ndo.Ela apanhou aquela cama ali e a jogou. ..O medo amainou um pouquinho . ficasse co ntente. Antes de permitir que as barreiras 196 fossem postas abaixo. . quem sabe.Isso só totaliza oito. E o pior é que o tremor não diminuiu para que Furii. algum. .ódio. não.... esse talento para a vida. destruirme. um ódio que veio s e acumulando.disse Furii. .Dez . Forbes! .. .Frio de Yr. Déborah. pena morte.O ódio pode explodir de novo. . Nada mal para quem supostame nte fundiu a cuca. a última. Selvagem. . embebido em culpa e medo. ... .

Só pode ter sido um engano! Freqüe ntemente aconteciam enganos: uma paciente que mirava uma pessoa e acertava outra . .. .Não.. tch. mas acho que essas gurias estão ficando cada v mais doentes. e ficou absolutamente imóvel com o ouvido encostado nos canos de água que passavam por ali. bateu e pediu um cigarro.Não. como estou cansado (devia ser Hanson). só podia ser isso. Haviam apagado a maior parte das lâmpadas. . Coral como se fosse alguma beldade do sul. O corredor já estava quase deserto. em levar as pacientes relutante s para a cama. inteligente. Virou-se lentamente para ela. (o medo impediu-a de enunciar a palavra "amiga". Dificilmente re198 parariam nela ali onde estava. pois a recepção tornava-se mais clara quando as pessoas se apro ximavam da pia de metal. o que nunca ex plicam é quanto de cada lado. redigiam os re latórios. e com uma dignidade exagerada . Quanto mais pensava na questão. e por isso a atitude de Lee a deixava.E saiu saltitando pelo corredor como se fosse uma menina de sete ano s de idade. . O de água quente estava ap oiado em material isolante. por uma incrível coincidência.Você não é o único (Bemardi).Que diabo estou fazendo aqui com todos esses malucos! Déborah foi para o dormitório e esticou-se na cama. estranha e inconfortável . podia-se ouvir as pessoas conversando dentro da enfermaria. a lei. Soltou uma longa b aforada. devido à ameaça tra nscendente que encerrava). .coisa rara . Cuidado com a língua! . . já tinha es . e ra utilizado às vezes pelos pacientes como dispositivo de escuta. Lee só a agredia porque a velha Coral estava enclausurada e. no interior da enfermaria. A menção ao café deixou Déborah com água na boca. contusões e o diabo a quatro. durante e um pouco depois. Forbes? Por que logo um dos Bons? Depois da distribuição de sedativos àquela noite. Pressionou a cabeça com mais força contra cano para espantar o desejo. Encostando o ouv ido no cano e contendo a respiração. generosa e . num de seus irritantes acessos de risadinhas. Agora aquela "coroa". Era bom que entrassem logo no assunto. vocês com preendem. . Forbes era uma das raras eleitas a quem os próprios pacientes.declarou: . mais piradas. Forbes vai voltar? . . completamente atônita. foi discretamente se colocar na quina oposta à porta de entrada da enfermaria. Outros. Não sei não. que todo mundo chama Srta. tch. apesar de inconfortável para a orelha.Tch. De uma precisão exemplar.Se atingiu! A mulher foi internada num hospital. Jamais lhe ocorrera que fosse amiga de alguém. .Quer dizer. cortes. uma justificativa legal. conscientemente ou não. ma is intrigada ficava: por que a velha agredira a Sra.retrucou Déborah.Será que a Sra. . passava sempre por onde desabavam cadeiras e punhos.Jesus. Déborah concluíra que os sons eram transmiti dos pelas torneiras. Começaram a falar sobre a distribuição dos dias de folga. procuravam poupar. Lee. Lee dirigiu-se à porta da enfermaria. lá ao lado do bule de café.sentia-se feliz com o seu trabalho junto às pacientes. e os auxiliare s que percorriam os corredores estavam ocupados. pois e m breve teria que se afastar dali.perguntou Déborah. Era uma mulher ded icada. sério! Não há um dia nessa droga de ala em que não aconteça uma briga e aí.Ali . . portanto. .. inace ssível. Carla é. Lee Miller estava furiosa porque a Sra. o de água fria.Engano .dizia uma voz que parecia ser a de Cleary.pois dignidade ain da era uma coisa ao mesmo tempo nova.. ou o caso da estagiária que. . com um braço quebrado. uma ciência. 197 Quem sabe a coitadinha não estava temporariamente insana! Intrometeu-se Mary Fiorentini zombeteira. são mais para a reclusão.Insanidade Temporária! Taí. metade delas para os casulos. sentindo um profundo mal-e star. refletiu um pouco e resmungou: . de certa forma.Risos. Coral Allan.Certo . mesmo com a porta fechada. Sim. não é? . surpresa. Significa: antes. .

e cada espírito se e nclausurou num isolamento que niaguém parecia capaz de devassar. vou também. Cuspir. um desgosto passageiro. Afastou-se um pouco do cano. soando. para todos os mu ndos e a colisão. Forbes. . não dava para entende r nada. pois vivia dormindo.Você foi ver Lou Ann? (Era seu primeiro nome. urinar. Salve Salve Columbia! . suas putas nojentas! Eu sou a primeira Esposa secreta de Eduardo. quanto mais de arremessá-la? Déborah torcia para que falassem logo da Sra. Blau.Ai. conservando a cabeça apoiada no cano frio. que ódio! . um pranto áspero e feio.. . caramba! Déborah não queria ouvir nada sobre Blau. irritada com os risos de Mary e os sons abafados do choro de Déborah. Sophie vai visitá-la amanhã. vocês loucas são tão inventivas. . Pressentiu. de repente. nada disso constituía um pecado na Ala D.cutado muitas histórias a seu respeito. . sempre arranjava um jeito de transformar tudo numa cruzada religiosa contra os hereges.Vamos.) . O tumulto se alastrou. nunca uma reação de horror.Hudson e Carelle foram com ela até o hospital. para impedir que aquele incidente se transform asse em mais uma experiência de decepção.Nossa! Quem diria que uma velhinha daquelas fosse capaz de levantar uma cama. Finalmente tocaram no assunt o.e continuou num murmúrio inaudível. protestou: . Jesus! Foram dar corda nessa carola de novo. . Ba ter. defecar ou masturbar-se aos olhos de todos desp ertava. De repente. venha para a cama. foi cambaleando até o dormitório. Déborah se deixou escorregar até o chão. com suas preces intermináv eis. Déborah fremia de impaciência.. no chão. A Esposa do Abdicado. cheia de graça. . que raramente falava. Desatou a chorar.Ave Maria. eram como partículas de pó flutuando ao acaso mas mesmo assim havia certas normas que não se desrespeita va. e ntrecortado de risadinhas. e ela sorriu aliviada para o cano. onde se atirou na cama e desatou a chorar de novo. o que é isso Srta. Sabia muito bem que jamais poderia indagar à velha por que tinha jogado a cama . Sim. o Abdicado Rei da Inglaterra! . roubar. Forbes.Ei. Se eu ti rar folga. entrou o auxiliar e mandou que calassem a boca. . Preparavam-se para a última ronda da noite antes de pas sarem o turno..Mas que falta de respeito. uma das estagiárias.Hoje ela não falou absolutamente nada. elas as pacientes. . como um contraponto aos sons horríveis que continuavam brotando de dentro dela. ponha isso no relatório.Bem. quando muito. e por que cargas d'agua a cama fora cair justamente em cima da Sra. a velha fórmula: Tu não és como os outros. provavelmente.Que ruídos obscenos são estes? . mas era só olhar para a cara dela e ver o ódio. soluçando e repetindo baixinho.Oh (risos). uma razão qualquer à qual pudesse se agarrar. viram só a Blau à noite? .exclamou Jenny. 200 Déborah voltou a pensar no quebra-cabeça. No entanto . as piores manias sexuais.Alguma modalidade no va de perversão hcomossexual. Enquanto a metíamos no casulo. . Se a evidência não surgisse agora.Ora. en199 cheu as paredes de palavras louquíssimas e saiu lutando como um tigre. . Viera para descobrir alguma circunstância qu e pudesse mitigar a dor que lhe causava o conflito Coral versus Forbes. . blasfemar. que havia alguém ao seu lado: era Martenson.Deus do Céu! Gritou mil besteiras lá no banheiro. retrucou Mary Dowben que. Déborah se levantou prontamente e sem destapar o rosto. Cobr iu com as mãos o rosto que ardia de vergonha. mas só essa tarde pude ver com meus próprios o lhos. . . colocan do-se assim em terreno neutro e dissociando-se da fonte de sua vergonha. Fez-se imediatamente um silêncio profundo.perguntou Mary Fiorentini. Ah. ela vociferava naquela fala incompreensível. para Déborah. É porq ue têm tempo de sobra para ficar remoendo idéias .

pobrezinha. quando se esforçava por traduzir e superar o abismo que a separava dos ou tros. ou pior. nem exigiu que parass e. é! bradou Furii.bom.gritaram. por sua vez. a fisionomia completamente inexpres siva. o nome da Sra. você está aí? . Forbes das conversas qu ando estivessem na presença da agressora.exclamou Déborah. por isso decidi desistir da luta.gritou Déborah. que tinham provocado restrições extensiva s à ala toda. 201 Acabava ficando nervosa. "Tadi nha" . todas nós. . exigir satisfações. mais sobra. Articulou mentalmente uma resposta que lhe pareceu clara e. opor-se à atitude de alguém era.Disseram que estamos ficando cada vez mais doentes.E daí? Alguma vez eu disse que seria fácil? Não posso.. se estiver disposta a lutar com toda a energia e pa ciência.Chega de pensar! .Mas lutar para quê? Para quê? .. Dia após dia. Yri e sons dist intos que mal bastava para responder às perguntas que lhe dirigiam. . dizia coisas definitivamente disparatadas e intraduzíveis . constróem um todos os dias. Trabalha-se no escuro. uma grosse ria imperdoável. elevando o tom de voz."poderia ter sido uma menina tão boa. . há um monte de hospitais psiquiátricos por aí." Outro caso se passou no banheiro: .obter respos ta para a sua dúvida? Matutou nisso dias e dias. trabalha-se no frio.. e fica n um hospício o resto da vida. que desperdício" . Você pode m e mandar embora e ficar com seus amiguinhos. droga. Coral por sua atitude. enfim de um "eu" bem fo rte com o qual possa começar a viver. na melhor das hipóteses.. A verdade.e concluiu abanando a cabeça . saía involuntariamente uma mistura de Inglês. de seus próprios erros e da p unição que merecerem. Lee Mi ller a agredira por causa das queimaduras.Blau.Eu não faço brincadeiras. passariam a expurgar. nem quero fazer você ficar boa contra a sua vontade.Ora.dirão as pessoas . escrever outra tese e ganhar mais u m título. . porém. assustada e pouco me importando com o que possa acontecer .. piorava o nervoso.Sim. numa ala entupida de perturbados. e não se preoc upe.. o que emergiu foi: "Nunca atinge a profundidade suficiente. já lhe disse isso no ano passado e no ano retr asado. .Aqui é cutucu (o que significa "estar escondida". um auxiliar lhe perguntou se era o seu dia de banho. Somente com Furii conseguia expressarse com alguma clareza. 202 . Uma longa baforada de fumaça ocultou o rosto da doutôra. por exemplo.E você acha que está? . conservando.É.Olha. .. intrometer-se. num súbito acesso de r aiva. num tom quase amigável. Agora.Furii elevara também o tom de voz. porque aqui não me sujeita rei jamais a uma prova! . inclusive eu. Uma vez. soou muito bem ao s seus ouvidos. . mas nunca lhe perguntou por que fizera aquilo. delicadamente.Por uma vitória que não é fácil nem doce. .. nua e crua. garanto que venceremos.Não lhe conto mais nada. e daí! . tsk. Nessas circu nstâncias. Seus amigos. no entanto. .tsk. e para quê? . nunca! Ninguém pediria satisfações ou re preenderia a Srta. Permitia-se zombar e odiar. Para que você disponha de seus próprios desafios.disse ela. Quero que pense bem e responda honestamente. serei boazinha. Eu é que não posso me mandar.E se não vencermos? . . A dificuldade de se expressar com clareza a surpreendia tanto quanto aos outros. acendendo outro cigarro. . se é que se pode chamá-los as sim. ou dar a enten der alguma necessidade.. Como então . . e quando falava. nada de brincadeiras. com tanto talento .meditava Déborah .perguntou Furii.Está certo . dócil e não vai aparecer mais nada nas paredes.. e isso. uma verdadeira violação. .Você desiste. . .Para tirarmos você desse maldito lugar. em segundo grau). de sua própria definição de amor e sanidade. Quanto mais lixo ponho para fora.Estou cansada. . vão me julgar mais talentosa do que realmente sou. a confusão de línguas só fazia aumentar e distanciá-la ainda mais. . um atentado consciente contra as va liosíssimas barreiras que asseguravam a vida e a sobrevivência dos pacientes.

Comportavase. uma paciente deu-me uma faca de presente para que eu me protegesse. Era 203 justamente essa palavra. pala vra que a maioria empregava e sentia. Decidiu impor certas restrições aos furtos. De início julguei que essa dificuldade vinha do ressentimento da menina.. Passado um tempo. . poderíamos di zer. por isso evito contar mentiras. . . A verdadeira razão era uma dessas verdades que não gostamos mu ito de encarar. exceto na presença dos médicos ou quando temia m ser escutadas.Claro. minha cara menina .E a senhora aceitou? . Além do mais.Sim.admitiu um dos aux iliares. eu a substituí enquanto esteve fora . ou seja. . Mas c omo eu vinha para esse país . prevendo o dia em qu e sua doença se tornaria tão dolorosa que não conseguiria mais suportá-la. já que essa capacidade de dar representava um sintoma de saúde e força.julguei que a fac a seria mais útil a uma pessoa que tivesse de ficar por lá.comentou o doutor Royson na saída. por sermos médicos.. mas lhes parecia inacreditável que a to rrente de sons confusos e a violência descontrolada não significassem uma grande mud ança para pior. esqueci. .Blau é um de seus casos . então.. "maluca".Após uma pausa. afiando um pedaço de metal durante meses e meses.Recostòu-se na poltrona com um sorriso zombeteiro. . Eram sintomas inegáveis de grave doença mental..Difícil. e muita s vezes nos chamam oportunamente à ordem e chutam longe a escora da nossa vaidade.relatou a Doutôra Fried na reunião da equipe médica na Ala D.. . Não. o negócio das queimaduras está diminuindo um pouco. mas pelo menos era um retorno. os quais inspiram freqüentemente profund a admiração nas pessoas ditas "sadias": pequenas delicadezas. enviando um pombo para explorar uma região temível e desc onhecida.disse Furii. e agora tem que p rocurar fogo em outra parte..Decidiu que não envolveria as demais pacientes em sua doença.Ah. uma rejeição.Mais doente não.concluiu ela com um sorriso amável . Lembro-me que quando deixei o hospital onde clinicava na Alemanha. .comentou o outro. Viera assist ir à conferência a convite do doutor Halle. . . atualmente. v ocê não terá que arcar com as conseqüências dessa resposta. mesmo porque já havia trabalhado com algun s dos pacientes da ala.eu sou sua médica e tenho visto esses anos todos como você é alérgica a mentiras.E ra um rapaz novo no serviço que perguntava. elas admitem considerações desse gênero? Quer dizer.Isso se deve à "nova moralidade" de Déborah . ela a fizera em segredo. você encontrará fartas evidências disso. Todos conheciam qual deveria ser a res posta formal a isso.disse o doutor Royson.. . apreciei muito esta sua raiva despida de medos e culpas. um rosto invariavelmente inexpressivo. . Déborah apresentava um comportamento mórbido e sil encioso ou. esmagando o cigarro no cinzeiro .Mais doente não.Você não é nem um pouco dada à demagogia. . Fried. Somente alguns dos médicos e . que remoíam com ceticismo escutando a exposição da Dra.Elas. Nenhum galhinho verde. considerações morais? . . Déborah sentia-se o próprio Noé. 204 . . não acha? .Escuta aqui. .É uma excelente oradora. nem sempre.E como foi? . . maneiras sarcásticas e superiores. o fato de ter sido abandonada pelo terapeuta. . estava "maluca".não mesmo. continuou: . o pombo voltou. como todas as pacientes da Ala D. Estava enganado. sem muita convicção.Claro! Trabalhando aqui. . é óbvio que você sabe disso. não mesmo. mesmo assim. quaisquer que sejam elas. hein? .. sabe. Esta faca.. . . . ..bom. Posso citar inúmeros exemplos desses princípios éticos ou morais.explicou a doutôra Fried com um sorris o. gestos súbitos e inesper ados de generosidade que representam um grande sacrifício para a paciente. mórbido e satírico. sim.. e a medicina é uma ciência que não admite gostar ou . Está ou não ficando mais doente? Não tenha medo. As pessoas escutavam polida e atentamente. agora acho que já pode responde r sozinha à questão que levantou antes.Bem. . arrulhando de cansaço. num inglês tão bom e vigoroso. mas pouquíssimos acreditavam nela. . Antes do incidente.

Ela.Você acha realmente que a menina tem feito progressos? . Desprezam-me intensamente. . "Por que você está tão sarcástica?".É. uma amabilidade qu e. Déborah levantou-se e saiu em busca de calor. mas agora você está livre delas . alg o mais rompeu também: aquela expressão dura que você tinha. no entanto. gênio é só o começo. Sei não. sta foi uma das razões para a intervenção do Censor e das normas de conduta impostas p or Yr. por mais tempo e energia que isso tome. . Quando sinto que a coisa. .Pessoalmente acho que não.peço para me levarem-ao casulo. .Como será que eles aquecem esse lugar? . mas não me odeiam. Déborah ficou gelada de medo. até que se chocass e contra uma porta fechada ou um muro qualquer. não a mim . ela é um gênio! . o prazer. quando eu não estava. Mostra uma pessoa que reage conforme aquilo que sente.Por um sistema inventado pelo Primeiro Marido Abdicado de Lucy. . já repararam? . ficam até conversando comigo. As explosões se sucedem.pelo menos. verá que. mas é claro . . .Halle se virou e ficou observando-a responder às perguntas no salão de conferência. quando o lham jpara o seu rosto.disse Helene. . .. . q uando funcionava. O ódio e o medo transpar ecem porque são coisas que você sente..perguntou Furii..O que é Déborah? . . Ia para o casulo diariamente e. a carência por material inflamável amainara.Ora. pessoa franca e bondosa como McPherson. .disse Royson.. e eles o fazem de bom grado. Desde a erupção do vulcão. a esperança que transp . vêem que você reàge e vive. quando eu não estava. que. . há invariavelmente nos sonhos que contamos aos médicos um person agem que cuida do aquecimento. superaquecendo todo mundo e provocando assim um estado de embotamento e lassídão. a alegria. Talvez po rque éramos muito parecidos. ou pelos corredores. mas ela sabe o que diz. apertando a xícara de café para aquecer as mãos. . . ao que parece. Quentin Do bshansky. . enfermeiras e auxiliares mostravam-se mai s bondosos. brincavam e procuravam sempre reconfortá-la. o medo e. Forbes voltou ao trabalho. E..Mas depois que conhecê-la melhor. repetindo eternas pergun tas sobre eternas dúvidas. .Sempre foi.Quando esse seu vulcão rompeu. .. deixava-as congelar de frio. veio substituir o velho Ticher t. o VIII . parecia ser bastante sincera. Um auxiliar recém-admitido.. O antigo e inconstante sistema de aquecimento retinia e resfolegava.disse Furii num tom meigo. com Clarinha Fried.perguntou Furii. . dessa vez.disse Furii .Não é de admirar então que você andasse soltando fumacinha da cabeça. e eles se dedicam a mim. Pressentia a iminên cia de uma nova explosão de fúria e medo que a impeliria com toda a força de encontro a alguma parede.É uma excelente médica. . no entanto. Algumas vezes. . . era a estação m ais penosa.Seu rosto já não provoca suspeita s. Gostaria de ter a inteligência dela . mas agora Seção Masculina dos Perturbados situa da num outro prédio. inadequado. melhor de tudo.Fez um gesto de cabeça em direção à doutôra Fried. lutava como um tigreaté se esgotar todo o fogoque lhe ardia por den tro.Não. nacoi. Você não deve mais procurar es conder o ódio. um medo que datava de muitos anos e do qual só a muito custo conseguira se proteger. Não fique assustada.E você não sabe por quê? . correndo desabaladamente. ... A Sra. das quatro. não simpatizamos um com o outro. O outono cedeu lugar ao inverno. . 207 22 Apesar das distorções provocadas pelo ar escaldante e úmido exalado pelo vulcão. uma vez atada. o que o rosto mostrava: "Por que você está zangada? ". está convicta. embora a angústia continuasse a mesma. vem.Nessa época do ano..Sim. porque a Bíblia proíbe. As pessoas agora. 206 .perguntou Lee.gorjeou Mary jovialmente .desgostar: nós simplesmente não combinamos.Nacoi. Déborah começou a no tar que o pessoal da ala a tratava com uma certa amabilidade. . e quando desligava. .Ainda assim eles não nos odeiam . sim. da torr ente de lava cinzenta e desoladora que a enrijeciam por dentro.

Déborah chamav a aquele lugar "A Reserva". capaz de transformar aliados em perseguido res.arecem também.alguma expressão ou tom de voz involuntário q ue desagradava às pessoas. Esse frio está de rachar! . As decepções. Déborah. com um misto de espanto e reverência. o relacionamento se esfumou imediatamente. e a luminosidade difusa ressaltava a nudez cinzenta das árvores. um frio que pode ser remediado com casacos.só podia ser o olhar .Quando começará a vida? A resposta não se fez esperar: já estava começando! Era noite fechada quando abriu a porta do banheiro e saiu de novo para a ala. virou-se para ela e disse: . havia uma janela que dava para um relvado existente no hospital. Pouco a pouco Déborah foi distinguindo as formas. e rodeado por um muro recoberto de espessas sebes. Muitas e muitas vezes. e cores das coisas As árvõrês ladeava m o passeio que circundava o jardim. são muito apropria as. temia que tudo recomeçasse de novo: a vida . A mulher estava furiosa. no entanto. declinando no horizonte. os relevos e os signi ficados novos que percebia ao seu redor. as pessoas se transformavam de repente em suas inimigas. sem uma palavra.Perdão. dando por encerrada a missão. . Yr se acomodara. Sentia uma curiosidade insaciáve l de olhar.Déborah se lembrou de que McPherson lhe havia dito há muito tempo atrás: "O que a faz pensar que é dona de todo o sofrime nto?" Arrependida com o seu comentário. O sol se pôs. A terceira dimensão. A auxiliar fungou. afastou-se dela com o rosto impassível. persistiu nas superfícies nuas dás paredes. Ao chegarem à porta da ala. foi direto sentar-se sobre a tampa do velho aquecedor. decorando o relvado com 208 uma infinidade de estrelinhas frias. ganhando vulto. A tarde estava fria e nublada. A única explicação possível era o seu olhar . pediu autorização para ficar a sós no quartinho da banheira. até se infiltrar a certeza de que não morreria. algo. cuja fechadura e chave representavam outros tantos símbo los do "serviço". confessando outr a verdade.nacoi cujas leis insondáveis viviam armando surpresas contra as quais não sabia como se de fender. nas port as e nos relevos dos rostos e corpos das pessoas. de ouvir. a sebe. Só tem um tipo de frio com que se preocupar. refulgia através dos i nterstícios da sebe. a certeza inabalável de que iria viver. seu cantinho predileto. tiritando de frio. como devia achar horrível limpar excrescênci a de corpos adultos e conviver com a barulheira infantil e patética das intemas. o céu límpido de inverno. Era bom ouvir alguém falar assim. Déborah e a auxiliar voltavam do consultório da doutôra . Mas a auxiliar estava furiosa. e a tendência é elas se sujeitarem cada vez mais a um desejo e a uma escolha con scientes. Déborah indagou ao crepúsculo: . continuava assustada. Lentamente. e por sobre a sebe.Não esteja tão certa disso! . e as tonalidades de crepúsculo deram à Reserva dimensões ainda mais belas. todas as vozes de todos os mundos silenciaram. enfim. A auxiliar. sobretudo porque Déborah simbolizava naquele momento "o se rviço" mas o desabafo era sincero e impessoal. pois essas expressões não são inadequadas. ensinaram-lhe a s .Você tem sorte. Déborah decidiu pagar na mesma moeda. Não quis magoá-la. Déborah entendia perfeitamente o que se passava com ela. veio se achegando. Agora que o vulcão dissolvera a sua fisionomia pétrea. de se regalar com a luz. de apalpar. e por isso não a magoava. . Chegando lá. no entanto. O sol. o significado. por alguma razão obscur a. Durante algum tempo Déborah caminhou a esmo pelas dependências da ala. Depois da tro ca de turnos.comentou a auxiliar. Desatou a contar como era difícil educar os filhos e trabalhar horas e horas a fio para receber uma miséria de salário. como você diz. Reinava uma grande quietude. transbordando de alegria e de receio. U m pouco abaixo. Suas expressões faciais constituíam um mistér io que jamais conseguira desvendar. cheio de árvores.

Um minutinho. nesse caso eu gostaria de vê-lo. estamos escutando. continuavam lá.Nunca especi ficam de qual região. Quando engoliu o sedativo e. podia informar se hoje é dia de ver minha médica? .Terei que pedir uma autorização escrita d o administrador da ala.Que espécie de pratos regionais servem para pessoas que estão fora desse mundo? perguntaram. . . Será que continuavam lá.Talvez o melhor seja esquecer tudo isso. Talvez isso não te diga respeito .Vamos. ontem. . Levantou-se. você tem hora hoje. Sujeitaria essa nova descoberta às flechas do caçador de tempo de Furi i. aguardando do outro lado das pálpebras? Escancarou bruscamente os olhos. em seguida. Déborah se lembrou subitamente do que tinha acontecido na noite passada. .quero ver agora qual a surpresa qu e estão me reservando. e uma sensação plena e maravilhosa de vida. os movimentos de um a estagiária nas proximidades . a selva. . deixou-se ficar na cama. A pergunta é a seguinte: Qual será a próxima expressão de seus rostos? O que farão a seguir? Seria preciso esperar para ver o que acontece . Veja qu e dia glorioso. e crêem estar vivos. Pássaro-um. .murmurou. o animal se ergue e se afasta. Déborah revirava a cabeça e m busca do que havia mudado nela. As felizardas que dormiam junto às janelas recebiam sol a manhã tod a. Srta. relutando se seria ou não uma medida sábia abrir os olhos. parecia ser diferente.ponderou Déborah.Seja lá o que isso for. mantendo os olhos fechados para não per der de vista as perguntas que se fazia. Tenho uma pergunta: Dois nativos figuram numa história em quadrinhos. .perguntou. . . o leitor dessa história em quadrinhos ri. Sim. surpreendeu-se repugnada por ter de comer com os dedos e uma colher d e pau.com licença. as cores. o rio. No jantar.ajuntou Lactamaeon. Na manhã seguinte. Começou a ficar seriamente preocupada com aquilo. carregando consigo os nativos atônito s que olham sem entender nada.. só por algumas horas. Escutou um grito no corredor e. que na realidade é o lombo de um hipopóta mo mergulhado na água. Blau. Alguma coisa aconteceu comigo. Quem sabe. falou para Yr: Sofram. o hipopótamo e o fogo. numa gargalhada triunfal do mundo. . .respondeu Anterabae.Passou a noite escutando os auxiliares conversarem uns co m os outros como sentinelas solitários em seus postos avançados numa terra estéril e h ostil.O que tem para o café da manhã? . . está na hora de levantar. por favor. Sim. E se fosse mais um lance do Jogo.Pratos regionais típicos . Aviso assim que puder. Começam a cozinhar o jantar. formas e sentidos redimensionando 210 sua percepção das coisas.Alguma coisa.. Saboreou a comida e o próprio ato de mastigar. . . .respondeu Mary Fiorentini asperamente. . fadado a terminar. .foi para a cama. As pálpebras cerradas coavam a luz matinal numa t onalidade rubra. . O que foi? O que foi? A estagiária acercou-se dela: .o farfalhar do avental e o tom agressivo de voz . o que aconteceu já não terá passado amanhã. vira a página e encontra os nativos. embora o comporta mento das pessoas fosse o mesmo de sempre. envolveu-se no cobertor. Nesse ponto. .Posso ir sozinha? A enfermeira olhou para ela desconfiada. Pre213 param uma fogueira na ilha onde acamparam.tentando acordar Mary Dowbens.Quantas vezes não ass omara àquela porta mendigando! Desta vez.. . mas eu cá comigo tenho algumas suspeitas! . Sofra. como sempre.Bem. . mas não sabem disso. ao passo que o resto do dormitório.Talvez seja apenas um sintoma . Às duas horas. e foi até a enfermaria.sussurrou.er cautelosa. Quando o calor atravessa o couro do hipopótamo. . a surpresa.

bastaria aplicar uma injeçãozinha dessa ou daquela droga. Por isso é que e xtirpá-los causa tanto sofrimento. . sentido de realidade terei que abdicar de Yr. ainda que o mundo pudesse se esvair quando a permissão fosse dada.Não permita que eles a torturem cada vez que você se abre um pouco à luz saudável do mundo. ou então uma breve hip nose. desapareça!" e pronto.. acabou contando a Furii como estava vendo diferente. escolha.. porque posso entrar pelo cano depois.Está bem. 212 Agora que tenho o. . esperando documente pelos seus ungüentos.. ao desenca var o tirânico Latviano em quem afivelara uma máscara tão irreconhecível. . a doença e os segredos têm muitas razões de ser. nesse caso. . . O molde do sol dado vestia como uma luva no avô..instigou Furii . estava morrendo de medo de que.. desde já? O importante é não fingir que abdica. . .Uma referência e.Prefiro não responder.. ao falar. e eu dei aos médicos o "bom soldado" que eles queriam.Procure lembrar-se! . . graças à determinação que animava Déborah. As partes e facetas se emaranham e se sustentam umas às outras.Vamos ao trabalho? Durante o resto da sessão.... .A enfermeira deu as costas e se afastou. Déborah o apelidara "Horizontes Perdidos". e o apelido tinha colado. acho que. pelo doutor Venner. detendo-s e na questão do martírio: ser martirizada tinha algo a ver com Cristo. tive de repente certeza de que eu iria viver. Nada mudará para nós. 211 Que tal verificarmos? .. encontrou o "pelotão de queimadura" esperando por ela. pois ele vivia com o olhar perdido à distância. como um a forma de dar vazão à raiva que sentia. .. e só d epois de muitas evasivas. numa declaração simples e categórica. que assumira o papel do soldado japonês (estrangeiro. então. de tudo. Furii lhe dirigiu um olhar interrogativo.. furioso com a obstinação ..Raiva e martírio. Déborah sabia por experiência q ue não convinha insistir muito. o q ue não quer dizer que deva firmar um pacto comigo nesse sentido. sim! sim. . um olhar que trespassava as pessoas como se e las não existissem. . em seguida. dói tanto assim? . Jamais pedirei qu e desista de seus deuses pelos meus. então. é claro! ao vovô! -exclamou Déborah excitada.Ele não virá hoje. iria sobreviver a tudo isso. termo Yri que designa uma espécie de imagem utilizada para camuflar meu parent esco com ele. uma referência a alguém que me é familiar. Quando estiver pronta. Raiva e martírio.. . há algo mais aí. No início da sessão. isso não vai acontecer. Seu raciocínio evoluiu. .concluiu. . analis ando-os sob novos ângulos. por favor.O soldado japonês personificava justamente isso. quando puder substituí-lo pelo mundo real. ..Você acha que é um prognóstico verdadeiro? .Fez-me pensar muit o em você.propôs Furii . d essa vez. . . objeto ao mes mo tempo de orgulho e de repúdio de todo judeu.Bem.Os sintomas. . Esses sintoma s erguem-se sobre inúmeras necessidades e servem a muitos propósitos. Compreendeu. Se não fosse a ssim. aí sim. você estava curada. . estragasse tudo. Estou certa de que você abdicará dele espontaneamente. encabeçado..Não.Devem existir muitos suportes para que você pudesse se agüentar todos esses anos.O soldado que eu encarnei em segredo era um mu tu.Dói um bocado. . Ele estava impaciente e irritado por não tê-la encontrado. e sobretudo como as coisas tinham readquirido uma significação e como desabrochara po uco a pouco a esperança. Ao retomar à ala.Anote o meu nome.cismou. desbravaram picadas em busca de velhos segredos. e exclamar: "Loucura. Após uma pausa. inimigo e violento) como uma resposta à hostilidade que enfrentava na colônia de férias. .Descobrir isso.confessou Déborah. . acho que é verdadeiro sim. . fortalecendo-se mutuamente. pois.Foi uma experiência inteiramente inédita para mim . . . concluiu num tom grave: .

pois só assim seria capaz de oferecer um sorriso. relevos. Déborah. as novas cores. .repreendeu o Doutor Venner. Ao terminar os curativos. disse: . Como cortesia. . . Debora regulava-se com as formas.A dor é apenas teórica. Quentin .Pela cara dele. quando cortaram as ataduras. e esfregou o algodão com tamanha violência que o sangue recobriu a ferida. retirando delicadamente a gaze malcheirosa. Passou a observar atentamente as fisionom ias das pessoas. Trocaram um sorri so discreto e conspirador. mas logo as mãos inábeis do médico cavoucaram fund o de novo.Fique quieta! . Cada vez que eu me dobro de dor por causa de um tumor fictício. há sempre um professor à mão para sentenciar que é impossív l que 213 esteja doendo. qu em sabe.Bem.. Procurou concertar o erro sem muito sucesso.disse ela. A enfermeira-chefe sacudiu a cabeça assombrada: . . um sorriso.Maldição! . provocava sua ira com gracejos dirigidos a Quentin Dobshansky que. Ficou mais constrangido ainda. . e ele conteve a respiração: . expondo a carne viva. O comentário o apanhou de surpresa. . E o que vem a ser isso? . ..perguntou ela num tom impaciente. digamos int eressado. a coisa não devia estar muito boa. .Já é tempo de darmos uma nova olhad ela nas queimaduras. movim entos que ia descobrindo ao seu redor. . dimensões e percepções adquiriram um caráte r de urgência incontrolável. com . Dobshansky mordeu o lábio para não rir. Dobshansky piscou para a enfermeira que acabara de chegar e Déborah se sentiu no ínt imo lisongeada por terem consentido que ela presenciasse esse pequeno gesto.Fui o mais cuidadoso que pude. ao invés de pr ovocar a dor que ela merecia.bom.Não precisa ficar danado. . .resmungou Venner de mau humor. Emb ora tudo aquilo fosse novo. Espero que não ten ha doído muito. . e se ele não conseguiu chegar até o osso ninguém vài consegui r. a putrefação desaparecera completamente.O último a dar foi Venner. 23 Já que iria viver . Eu te nho um tumor falsificado aqui dentro que compensa longe a dor que está faltando aí n o braço. Ora. Ele examinou os braços. interpondo entre ambos a imensa distância de Ant errabae cadente. 214 Déborah olhou para ela e avisou: . segur ando as bandagens.Tenho estado preocupado com essas feridas apressou-se a dizer para encobrir o constrangimento pouco profissional.tive uma idéia que talvez dê certo. Dias depois.Ele deixou lá no armário número 6 .Estou concentrado nisso. mas a em enda foi pior do que o soneto. Alguns dias depois. Deb! .das queimaduras que não cicatrizavam. é ser louco durante anos sem poder dizer nada porque ninguém acredita no que você diz. .Segure firme esse braço! . a escutar embevecida suas conversas e a conversar com elas. .Qual foi o troço que ele usou aqui? .. doutor Venner .Retirou do bolso um tubinho de reméd io e despachou o cortejo de enfermeiras que se apinhava à volta.Não se preocupe .disse ela com brandura. . lembrando-se prova velmente das recomendações de alguma página de manual: . doerá.O que dói é ficar levando coices de força s que para os outros são invisíveis e inofensivas. . sentiu que a Ala D. a pele ao redo r das feridas começava a tomar a mesma consistência desfeita.e vivia -. e apesar de seu acanhamento. luzes."Nunca Admita ao Paciente que Está Preocupado". aplicam uma ou duas doses da dor em sentido contrári o.Algum dia. o médico novo veio procurá-la. .informou Cleary.retrucou Déborah.Uhh! Calma. suspirando aliviados.murmurou. vamos experimentar. que detestava o doutor Venner. a deixava impassível. e porque a limpeza das feridas.Calma.vou preparar minha contribuição. empalidecia cada vez que o médico arrancava com uma esfregadela mais brusca um pedaço de pele.

. A enfermeira-chefe ergueu os olhos para ela. "boa tarde". não é meninas? . as ruas de St. Déborah sentiu os olhos umedècerem. Sua impaciência e avidez já não cabiam na s engrenagens pesadas do hospital. não importa. as enfermei ras da B (quais as que socorreram um caso de confusão.Foi difícil voltar? . e depois não havia ninguém c om quem conversar. quais as que não). iam levando uma conver sinha miúda: falaram sobre a velha Coral.Parecia estar arrasada e humilhada. Eu pensei que tivesse deixado o hospital.Se estou viva. requereu sua transferência para a Ala B.Olhava fixamente pa ra ela. na realidade. . À noite ia ao cinema ou ficava no quarto lendo livros técnicos para me atualizar. cg uma derrota. a passear sozinha nos pátios da frente (2 00 pés = 3 horas de sanidade). nada mais . A última estadia. ela ficou como paciente externa por algum tempo disse a enfermeira.O retinir de uma campainha interrompeu Carla. . a minha substância é igual à dos outros. suas enfermeiras apressadas e inamistosa s. Talvez eu e steja sendo egoísta.Ela voltou? Eu. . até que. não conh ece? . na Ala B fora um período sombrio e silencioso. num gesto que abarcava o mundo todo. vocês se conhecem. Começou a escalá-las. Ao sair para o pátio.Isso não quer dizer que ninguém terá sucesso .Bem. O problema é que saio às vezes por pura provocação quando. . . assim. e fez questão de ficar no quarto da frente onde havia barulho e vida. 216 .Sim. gosto muito de você. quase que as ouvindo gemer sob o seu peso. No decorrer dess a escalada. compreen de! . Déborah. procurando transmitir naquele olhar mil coisas que representariam uma in trusão inadmissível se fossem ditas em palavras. esforça ndo-se para conservar o tom neutro de voz. .com um aceno de cabeça.Não ouvi boatos de que você tivesse voltado. fe chou os olhos e. Pouco a pouco. . . afastou delicadamente a pergunta e saiu por uma tangente: .. . arrancando uma a uma as palavras. não só fortaleceu a convicção de que esTavá viva.Enquanto fazia a cama e arrumava suas roupas.e emendou logo . . entregando-se toda. . vamos até lá. tornava-se uma realidade estreita demais. Déborah comentou: . onde poderi a dispor de todo um arsenal de livros. quando viu Carla. aind a estou despreparada. a última fundição de cuca de Mary. assim que chegou. Seus olhos estiveram fechados a tudo e a todos. foi pessoalmente apanhar a roupa de cama perscrutando com avidez as fisionomias das enfermeiras. Dessa v ez.Ôi. sa cudiu longe aquelas idéias e reanimou-se.. a mesma substância. . foi recuperando a distância.respondeu Carla. Déborah procurou ser o mais concisa po ssível. ..Carla.nem quer dizer que eu vou deixar de tentar 217 novamente. por meio da qual os médi cos avaliavam a responsabilidade do paciente: passou a ir sozinha ao consultório d a sua médica (100 pés = 1 hora de sanidade). concedendo-lhe. Venha. porém.Mas agora está de volta. as mesmas sensações.Você conhece Carla Stoneham. a mesma rotina. . Déb. aí a cuca fundiu de novo. perguntou seus nomes. povoado apenas pelos bram idos do Coletor e a efervescência do vulcão. .Me senti muito sozinha no emprego o longo pe rcurso de manhã até o trabalho me deixava meio hipnotizada. em seguida. Déborah inspirou com vontade o ar frio e constante do inverno. . Estou contente de encontrá-la aqui. lá fora. . finalmente. de repente. . nos de detrás também (1 milha = 5 horas de sanidade). . .Bem. O.. a comer e a ingerir os sedativos.exclamou para Furii excitada. não há porque ficar humilhada.A enfermeira pôs o cobertor sobressalente na outra cama e saiu.Abrir am a oficina da T.suas pacientes acabrunhadas e inertes. . Logo logo as ruas começaram a me lembrar outras ruas. lápis e blocos de desenho. ..Foi uma solidão dos diabos. transbordando de afeição. porque é aqui que eu estou. disse em tom de súplica: . . Seu rosto tinha adquirido uma expressão amargurada e tristonha mas. exceto os técnicos com os seus "bom dia". Limitara-se a ir ao banheiro. não é. Chegando ao quarto. o privilégio de formular uma pergunta. Louis. como sentiu o amor pelo mund o que se abria diante dela.

. Déborah visualizou mentalmente: a instrutora. se não me engano na Ala D! No mesmo instante.só praticando. perguntou intrigada: . mas seus olhos devoravam as cores e dimensões do mundo. Foram depois.É. me diga uma coisa: é assim que aco . causa e efeito. Sua atenção foi despertada por um ruído às suas cos as.Acenaram de volta e. em seguida.. . Numa terra onde a "utilidade" era enaltecida ao máximo.Eles têm prioridade . aos olhos de Déborah.Ela agora está na Ala B e é minha companheira de quarto. qu e ficava num dós anexos do hospital. vestindo um uniforme listrado de azul e branco. aque las párias aqueciam as mãos diante da ilusão de uma faina gratificante. O.Trouxe-nos uma visita? . a revoada súbita e alarmada de um bando de pássaros. . . Tinha junto de si uma amiga e. Para além da sebe que delimitava a Reserva. Desterradas pelas leis do mundo.respondeu Carla . Ficaram ainda algum tempo por ali.. . durante algum tempo..É. Esta é Déborah. se tiver sobrado café. enclausuraram ela de novo. e Déborah foi apresentada a alguns rapazes. ve io recebê-las. . realmente fora. e que ao vê-las gesti culando no passeio. Voltou-se p ara Déborah e perguntou: . (Meti-me numa briga) disse a velha espalhando as mãos pelo vão da janela.ôi. . você que já esteve fora. e. Sentia-se tra nsbordar de alegria. por detrás das grades de uma das janelas da Ala D.. o "tera pêutico" faz-de-conta representava. via-se que toda essa atividade era puro faz-de-conta. Carla contou as janelas e concluiu: .saudou com uma jovialidade um tanto excessiva.disse Carla. (Até onde?) perguntou a outra.O dia estava muito lindo. ficaram se comunicando por meio de sinais. (A enfermeira vem aí!) exclamou a velha. sentia-se extremamente embaraçada. é claro! .movimento e gravidade. Uma orient adora da Terapia Ocupacional. as mãos retomaram o trabalho. fazendo um gesto de quem olha para o mar. e onde sempre havia um bule de café à disposição tanto dos pacientes quanto dos médicos. de tocos carcomidos de madeira. e parou diante dele com a mão.O que estão fazendo.Ora. subiam rolo s de fumaça e de vez em quando ela aspirava o cheirinho de queimado. A oficina tinha um aspecto animado de trabalho. seu cérebro apalpava as leis que regi am a raça humana e consubstanciai . que estava aberta. na oficina. virou-se para a mulher e declarou em alto e bom tom: .Queríamos apenas dar uma olhada. Déborah não fa lou nada. uma bofetada inconsciente no orgulho que as pacientes deveriam supostamente estar fortalecendo. meninas? .ia dizendo Carla. . Carla sentia-se compreendendo o que se passava. atiran do num trigal ondulado pelo vento e. como vai Carla! . liam.E continuaram em direção à T. . Coral que acenava para elas lá de cima. Queria conter aquele transbordar de gratidão.Praticando. As fisionomias se descontraíram. . (Estou livre!) respondeu Déborah. rompendo correntes no ar e ensaiando uma cambalh ota. visava apenas mantê-las-ocupadas. ocupar por ocupar. Observando mais atentamente. Era a Srta. porém. Procuravam em vão extrair de pedaços de papel e traços velhos.A função desse bule é infundir esperanças na g ente. logo em seguida. 219 talvez nos dêem um pouco. .Já a vi antes.Carla. a tex tura da realidade... pondo as mãos na cabeça para indicar as duas abas da toca branca e sacudindo. amizade e a sensação de ser plenamente humano.Déborah preferiu não entrar. uma chave imaginária. Déborah construiu um muro com o braço. As pa218 cientes costuravam. a aguardava um b loco de desenho só para ela. (Tchau!) acenou rápido e sumiu. até a Ala A. . faziam colagens com retalhos de pa no e cola. Não repararam na auxiliar que tinha saído pela porta dos fundos. modelavam em barro. Par ecia-lhe inconcebível que pudesse haver homens mentalmente enfermos. Um tiro no trigal já era sufici ente para o dia. em trajes de caça. irrita da. . .exclamou entusiasticamente.. todas as cabeças se despregaram das respectivas ocupações e viraram em sua direção.

Ontem.Para conseguir emprego. Carla perguntou a minha opinião sobre uma determinada pessoa. Contaram-me que você vai mudar de endereço.Bem. a Srta. de algum tempo para cá.Percebi que tenho realizado inadvertidamente uma curiosa operação mental. você tem que apresentar documentos e. Helene estava xingando o "Talvez". seus direitos civis.Ponham de lado seu prestígio. É sobre Helene. Talvez ele não e steja em condições de julgar . desforrando-se de todos os médicos que usavam s eu prestígio e a falsa noção de que eram donos da verdade "para conservar à distância seus pacientes.sussurrara aos deuses de Yr. Nós sempre rimos das brincadeiras dela. Logo que surgiu uma oportunidade de ficarm os a sós.Déborah apenas sorria. N a porta que dava acesso à Ala B (esta já não tinha chaves) cruzaram com o tal médico nov o. mesmo nas suas ausências. . o primeiro passo é esquecer que elas são gentias. tubo-bem". que lhe dão uma força eno rme. nunca dei a menor confiança a quem não fosse judeu. ela se virou para mim e perguntou: . e Carla são protestantes. . quem sabe. seria mais fácil criar amizades. quando Déborah disse: . sabendo que. el a tem demonstrado uma preocupação maior pelas pessoas.que é minha a culpa. Não lhe passara pela cabeça que o primeiro contato com o mundo recém-descoberto viesse a ser algum vinho inebriante para merecer recepção tão calorosa. Os médicos afirmam que a culpa é dos doentes . seu orgulho! Conheçam essa deslumbrante excursão e vibrem com o falso "tubo-bem. car regando um estigma pesadíssimo na testa. geralmente. Nunca tive um amig o que não fosse judeu." .Como é que você faz isso? .. Quando ia deixar a Ala D. Eu as tr ansformo em judias. as vezes. Sabe o que eu dis . por exempl o. O doutor Hi ll. Os únicos.ntece lá. e na verdade a distância entre você e eles vai a umentando.Ei! (escancarara um vasto sorris o). apesar d e 220 serem extremamente agressivas. e dão a isso uma importância m uito grande.. Nunca vi Helene tão des armada. Sabe.. mas é muito fácil falar. e começara a agitar o punho e a xingá-la de "puta". que não precisariam dessa viagem ao exterior e ram o doutor Halle. pois jamais haviam fechado completament e as portas aos pacientes.. Dizem que se eu fosse menos ansiosa. "bom dia" para cá. há uma a ssistente social para testar você. o médico novo. quando a gente entra numa sala? . muito desagradável . segundo Déborah. conversando.Déborah sentia que ele não zom bava. A etapa seguinte consiste em esquecer que não são judias. Parabéns! . seu rosto iluminara-se todo: . por que não"? "Quem sabe. Descobri que os judeus também são intolerantes a seu modo. Coral teve uma f ormação batista.disse à Doutôra Fried. para que possam se aproximar de mim.. Caminhavam de volta para a ala. "boa noite" para lá. o dia em que teria que descer também. . consciente de que está sendo aceito unicame nte graças à piedade ou a uma fascinação mórbida das pessoas. Furii e o médico novo. aumentando. daquelas bem fanáticas. Helene é católica. Helene se refizera im ediatamente. quand o estiverem no ponto de chegada! Ficaram horas inventando charadas. eu a encontrei me esperando junto à porta. Queria ver um desses médicos tentar ingressar num grupo novo. que jamais tinha me ocorrido antes .disse ela distraidam ente como se estivesse pensando naquilo pela primeira vez. Pode acontecer uma situação muito. e a perse gui-la com seus gritos: . na rea lidade. O pior de tudo é o que a gente sente quando todo mundo se mostra muito cortês."Por que você vai sair.Descobri uma coisa estranha. Ao ver Déborah. a título de expiação. "idiota". . . uma conduta melhor do que a gente espera.Não se esqueça! . Déborah caiu na gargalhada: Ótima idéia! Médicos! Viagem financiada ao Exterior. venho notando que.Tenho uma coi sa para lhe contar. e não eu"? Resp ondi então: "Sim. mas as pessoas têm. . você encontra pessoas maravilhosas.E então? . Várias fir mas exigem que você apresente o "atestado de sanidade". aliás. . Em compensação. quando a enfermeira viera levar Déborah para baixo. Passem um ano glorioso como pacientes nós manicômios! Carla também riu. . É óbvio que. POis sempre nos disseram qu e as gentias acabam sempre nos 221 traindo..

era verdadeiro. eu me lembro.declarou.Afirmo-lhe que essa sua história fede como p diatip! Uma cri ança de cinco anos de idade suspende um bebê consideravelmente pesado. num piscar de olhos. começa a chorar para que a mãe a pegue no c olo. na fase de recuperação. para se destacar.Muito interessante! . Acho que tem dente de coelho nessa história. por mais que as pessoas o achassem adorável. procura chorar mais do que todo mundo no Pu rim". e só então decidi matá-la. há certos detalhes que não me saem da cabeça.. . Primeiro eu a peguei nos braços.que não prestei atenção aos fatos.Não.O que me surpreende mais é que eu estava tão ocupada em ouvir o conteúdo emocional d a história .Não é possível. .Estava. não faz a menor diferença se o outro é um maluco judeu ou um maluco cristão.Não. . a vergonha de ter sido apanhada em flagrante e de odiar a irmã. ex perimenta inclinar-se para fora e. mas você era simplesmente pequena demais par a fazer qualquer uma dessas coisas que julga ter feito. o amor culpado que a fazia estremecer ao pensar que. . mas lembro-me de tê-la aberto um pouco mais. não e ra judia.. . não matara Suzy àquele dia. pronta para soltá-lo. em seguida. escorando-o com o corpo enquanto abre a janela. A vergonha que. O que f oi que a sua mãe disse assim que entrou? Foi: "Largue já esta criança!" ou "Não machuque o bebê!"? . suspende o bebê por sobre o parapei to e o estende para fora.Você a abriu todinha? . apoia-o no peitoril..Mas você é capaz de admitir que elas sejam o que são. para os sintomas de loucura que terá de encontrar no próprio mundo. não foi nada disso.disse Furii. Déborah.O suficiente para me inclinar para fora com o bebê. com os braços esticados.Furii reclinou-se na poltrona com um ar satisfeito. mas os fatos estão todos contra você.disse Déborah pensativamente.. você não imagina como estou satisfeita por ter descoberto isso! Mudando de assunto agora. embora soubessem de tudo e es tivessem mortalmente decepcionados e envergonhados com ela.Agora. por sua vez.Você pode se lembrar do ódio que sentiu. como e stendera a criaturinha pela janela.Isso eu aprendi aqui no hospital . Pickwick depois de um lauto jantar. que. . e prepará-lo para utilizar a sua saúde em proveito da razão e da liberdade.Para um maluc o. cu ja feiúra lhe saltava aos olhos. e continuar a amá-las? . ou você construiu essa historia inteirinha aos cinco anos. essa menina de cinco anos puxa de volta a irmãzinha para dentro. . tenho pensado naquela história que me contou. Nisso. odiando-o o suficiente para desejar matá-lo. . Entendo. Foi preciso que eles grit assem por mim mil vezes. Quer dizer que você abriu a janela. . Parecia Mr.Déborah. e voèl seja o que é. a chegada repentina da mãe. D ódio . por pouco. de duas uma: ou eu estou louca. experimentou se inclinar para fora e depois foi buscar sua irmã? . posteriormente. a tentativa de jogar a sua irmã recém-nascida pela jan ela... para que eu me desse conta. 222 Entendo. . A doutôra se lembrou de um artigo que tinha escrito discutindo a importância de o médi co alertar o paciente. . guardavam um silêncio misericordioso. Por sobre o incidente pairava o olhar reprovador dos pais que. Lembro-me perfeitamente do que ela disse: "O que é que você e stá fazendo aqui"? O bebê chorava. .. Você poderia repeti-la para mim? Déborah relatou novamente o episódio: como alcançara o berço e apanhara o nenenzinho. a essa altura dos acontecimentos. . segundo . . a mãe entra no quarto e. . e a dor também.se? "É daquelas que. Só depois que ela olhou para mim com cara de surpresa. .Não. . no dia em que entrou e vi u o bebê no berço. e depois de dar muito s tratos à bola foi que me lembrei que ela não poderia entender o que era Purim. Agora vou virar d etetive .o ódio e a dor . carrega-o até a janela.perguntou Furii. ela já estava de volta no berço.A janela estava aberta? .

A terra tcomouse tão boa agora. Isto quer dizer que estamos num calendário ascendente.exclamou Déborah em Yri. eram sempre muito difíceis. apesar do suposto assassinato. em Yri. . . Os dias são demarcados pelas vezes em que o Coletor se reúne para julgar. no de Yr não há mês. de futuro. com seus galhos úmidos e enegrecidos. Furii deixou que ela chorasse à vontade. foi caminhando para a ala sob uma chuvinha fina ê gelada. . a Dissimuladora. Por que manter a ambos. e caminhar para a ruína? Não estou linda nessa árvore? . ..Pode muito bem ter sido verdade. . . que a doença a impede de superar) você traduz iu esses pensamentos numa ação supostamente real. que jamais poderia tomar Idat como modelo. Idat era deusa. Observava as árvores da Reserva. Quando retcomou daquela incursão..Nem sequer toquei nela. Seus véus ondulavam docemente ao sabor de um vento intemporal. Penso em to mar-me para sempre uma mulher . Yr e o Outro Lugar.você. Durante o jantar. seus pais Sentiram todos esses anos é uma invenção do seu sentimento de. nem sequer conseguiria alcançar a borda dele. Terás agora um modelo a seguir. apesar de ter sido privada dos mimos que lhe cumulavam a família. Ficai comigo .Faltava-lhe ainda coragem para confessar que.Nem sequer toquei nela. as lágrimas escorriam pelo seu rosto. a irmãzinha.Já que você está de volta àqueles dias. Seus olhos estavam no nível dos nós dos de dos da mão dele. Diferiam em todos os sentidos. . concordo. Quando Idat chorava. entrecortado. . A felicidade dos seus pr imeiros anos de vida constituía uma prova irrefutável de que não estava condenada gene ticamente. Déborah. . t iritando de frio. Explorou aqueles tempos fugazes e mágicos.murmurou abismada. . Percebeu que.Bem.Sim. era um frio sujeito às leis e estações da terra.Estava pensando em voz alta. ainda não estava acorrentada ao signo da des truição.Que dia é hoje? . Déborah chorava copiosamente. . . condenada de corpo e alma. e nada tinha a ver com o mundo. Oh. ma .indagou Déborah. sabia. Idat . precisou se erguer na ponta dos pés e espreitar pela borda. . . ela parecia ter ascendido do Inferno ao Purgatório. .Daqueles com pernas? Meu Deus. Por causa do cortinado do berço. culpa por ter desejado a morte de Suzy. . por algum milagre. de uma beleza ofuscante. Não houve resposta. qua ndo avistou Idat caminhando no alto de um deles. de e speranças. As perguntas tinham. acabei de me lembrar que hoje é Quarto Englift para Annot.Estou de pleno acordo.Furii sorriu. vítima . Há dois calendários. pelo modo como eram formuladas. Nossa suposta assassina não passa de uma menina ciumenta de cinco anos de idade. .indagou a deusa.Sim. Carla se mostrou extremamente nervosa. Por que pergunta? .Quinze de dezembro. .propôs Furii Déborah começou a falar sobre aquele ano cheio de coisas luminosas que antecedeu o r einado da tristeza. Há anos que convivo com isso. poderíamos muito bem vê-los juntas . Ao deixar o consultório. Era ainda um c horo de principiante.Foi gostoso? 224 . . junto ao pai. dessa vez. suas lágrimas cristalizavam-se em diamantes. usando d termo que significava "para sempre" . Furii aquies ceu num gesto complacente: . Graças à falsa noção 225 do seu poder destrutivo (noção. Compreendeu que houvera uma época em sua vida. felicíssima porque. O tempo de Yr é intemo. por sinal.Era um berço . Déborah procurou reconfortá-la com olhares afetuosos. áspero. repleta de situações felizes.disse ela. perguntou-lhe numa voz meiga: . uma so noridade pungente.Só que de agora em diante. como se fosse mes mo real. e quando se acalmou. As respostas de Idat.Déborah implorou a Yr. carregados de expec tativas.devolver meu emblema de detetive amanhã mesmo! Os pensamentos de Déborah recuaram no tempo até aquele fatídico quarto: viu-se aos cin co anos olhando. Sofra. Vou ..saudou Idat.retificou Déborah. amargo. no entanto. Suas mãos tremiam e seu r osto estava pálido e doentio. e porque apenas sugeriam a dúvi da. você não poderá mais se fl agelar com esse chicote.

Três diamantes translúcidos e reluzentes.talvez fosse um pouquinho boa.. As mãos ficaram.. os relacionamentos eram episódicos e fugazes. banquete com os seus pratos prediletos. Ao subir as escadas. levantaram-se e debandaram. Continuava imensa a distância que sentia entre ela e as "pessoas normais". mostrando sobre a extensa palma três pedacinhos de carvão. Déborah. ergueu discretamente a mão branca. pressionava.Pare! Não vai acabar nunca ! . Déborah tinha uma sensação violentamente opressiva de esmagamento. No hospital..Déborah. Urna voz trovejou: . O ruído da louça quebrando repercutiu longamente nas pessoas senta das à mesa. O punho. os avós. ávidos por mostrar que o amor que tinham p or ela continuava intacto. Não estava habituada a esses bate-papos paralelos. e estimulou um fluxo de medo pelos sulcos traçados e retraçados dentro de cad a uma. contraindo-se com uma força estupenda.s em vão. pressionava.. Ninguém disse nada." e "não importa que. ocorreu-lhe que talvez não.gritou para a mão. numa grande ansiedade. os tormentos amainaram. ela fosse mais do que u ma simples ex-quase-assassina: a palavra a atingiu como um murro. jaziam sobr e a palma. Sabia que estranhariam o seu ol har. A enfermeira. em gera l. Três diamantes. carinhosamente . As mãos rel axaram. a xícara escorregou de suas mãos trêmulas e 225 espatifou-se no chão.mas um desejo insaciável de viver novas experiência s lhe infundia a coragem necessária. foi para casa passar cinco dias com a família.. ossos e tendões destacavam-se nas sombr as. como se fosse a quebradiça crosta de realidade sobre a qual to das elas andavam. . .Déborah! . Parecia sentir todo o sofrimento d o carvão em seu próprio corpo. cujos relevos.um terço de talvez. onde os fios d e conversa iam se emaranhando como um complicado novelo de lã. talvez era um termo forte demais . Déborah. Todas as suas amigas e conhecidas vieram corroborar o fato de que "apesar de tudo. pressionava. Esther preparara um verdadeira. cuja função específica era anunciar o final da refeição. Chegou a um ponto que não suportou mais. Se u rosto continuava pálido e acabrunhado.. Jacob. A mão virou-se lentamente e lentamente se abriu. e a s meninas. mas estava exausta. arranhões e queimaduras. como se estivesse revivenciando as dores lancinantes do nascimento. e as conversas terminavam. num ímpeto. . Suzy.e de novo. Receberam-na em casa como a uma heroína. nunca complicados por mai s de dois ou três participantes ao mesmo tempo. nem uma pedra ! . emitindo uma incandescência lívida. A mão se escancarou. Das trevas surgiu uniãTimènsa mãõTêcháda. .. is so será você.. coisa que jamais poderia c onfessar ali. quase que simultaneamente. estranhariam sobretudo os vestígios q ue trazia das privações e da solidão . Só então Déborah com preendeu como se expusera a Carla. abruptamente. insuportável para qualquer corpo molecular. o de que tinha ainda uma dívida para com Sylvia e já há muito tempo queria dar um beijo em McPherson. 227 25 No dia primeiro de janeiro. que an tecedeu a todo cálculo: o de que quarta Englijt para Annot se constituía numa posição se gura de onde podia se aventurar.. mas estava lança da. desferindo fagulhas luminosas. Fo i se fechando lentamente. . que se apressarasentia-sen a assegurar suas respectivas posições naquela c rosta. Ao servirem o café. suas cicatrizes. tcomou as mãos de Carla. Olhou entemecida para Carla. apenas o suficiente para ser notada.. Foi um gesto súbito. e todos os velhos tio s abraçaram-na" trêmulos de piedade e medo. 226 24 O sonho se passava numa noite escura de inverno. mas estava melhor do que antes. não havia como afastá-la ." Déborah se esforçou o quanto pôde para não recusar os pratos festivos que lhe serviam e conversar com as pessoas.Nem mesmo uma pedra pode suportar isso. o coração palpitando de me do. as pálpebras pesavam como chumbo. ra uma mão possante de homem. Transcorrido muito tempo.

cada gentileza. . . . cumulavam-na de liso njas como se a sua volta ao lar fosse um verdadeiro milagre. Esther e Jacob. Levantou-se precipitadamente. se vocês todos deixassem de fazer tanto caso a respeito desse mi sterioso segredo.mas não ousou enxugá-los ali onde poderia m vê-la.Não! . . você não precisa ficar naquele lugar de mulhêres histéricas.Você não vai por eu estar aqui? . a gratidão é recíproca. é que eu quero mesmo ficar dessa vez. A irmã tinha um aspecto feio e cansado. por mais amorosa qu e fosse.perguntou. Suas manifestações de carinho eram patéticas e vulneráveis. não. incapa zes de avaliar a força tremenda que possuíam. Não estão deliciosos os cogumelos. disse: . procuramos aplainar todos os caminhos para você. esperando que ela acabasse de tomar os remédios. . ela empalideceu tão visivelmente que Esther se apressou em desvia r o rumo da conversa: . .queriam demais fazer essa viagem .. Para Déborah. 228 . no entanto.perguntou Esther. as coisas ficariam muito mais fáceis! Sim. um suplício que lhe pesava sobre os ombros como mas sas de chumbo. sentindo que começava a naufragar.Logo. .Escuta. . . ..não é filhinha? Esse é o seu verdadeiro lugar! (O tumor começou a latejar .uma irmã que freqüentasse todos os bailes.mamãe e papai já me contaram que aquele lugar não é u ma escola. . logo você voltará para casa de vez ..mas. .Não. . sentindo que cada favor.. Déborah. inepta e solitária. e quando se debruçou para beijá-la..Jacob cumulava-a de carinhos.Você combinou com eles para passarem por aqui primeiro. mais d o que nunca.Não banque a mamãezinha comigo! Responda a minha 229 pergunta . Debby. Festejavamna. inclusive porque percebia que queriam conve rsar sem ela.pensou de si para si. Aquilo que para os outros não passava de uma caminhada tra nqüila.Suzy.) Debby. que tivesse mil namorados. Déborah ia responder que bastavam os talheres para a aposta.Não. Debby . era uma dívida a pagar. . Na hora de dormir. já há muito tempo. . Não cabia em si de orgulho por ver a filha pródiga de volta ao lar. Deu as costas e correu para o quarto. S uzy vinha fazendo planos para aquele "fim de semana". Quero ficar com você essa seman a. . Jacob ficou olhando para longe.. só fazia com que ela se sentisse. a felicidade e a paz da família repousa vam nela. Seus olhos se encheram de lág rimas . Acredite . não se deu por satisfeita. no entanto. .berrou Suzy.. ou algo assim? . Entre iguais. Sabia que precisava proteger essa última Debby.disse Esther. Agarrava-se ofegante a os íngremes rochedos. seriam muito mais fáceis. e de um modo que che gava a ser assustador. embora estivesse exausta.Ela a ama profundamente. Decidiu ligar do seu quar to para a amiga e comunicar que não participaria da excursão que vinham planejando há tanto tempo. vou da próxima vez.exclamou Déborah. . Déborah. que liderasse a torcida do time da escola. depois de um dia tão movimentado. estava longe.A família está fazendo o melhor que pode. que se autodenominavam "pessoas normais". por alguma ironia do destino.Não é todos os dias que você vem. . lembrando-se que. meio desconcertados vieram trazer a dose de s edativos receitada pelo hospital. Ao ouvir aquilo. dever a esses titãs. Está vendo. e depois de hesitar alg uns segundos.disse ele. fiz os seus pratos prediletos. . tenho que ligar para Annette. perdida. mas se conteve a temp o. sussurrou num t om triunfal: . para ela representava uma escalada árdua e exaustiva. que fosse glamurosa e atr aente . Suzy virou-se para ela e ia responder. Não era exata mente a irmã que desejava .Aposto que não servem uma fatia de carne como essa "naquele lugar". . .Déborah.perguntou Déborah. apesar de ser mais velha. sentada de novo à sua mesa. observava-os em silêncio. Era óbvio que mentia. Precisavam realmente. . . Debby também.Você vai com eles. veremos. Mamãe e papai precisavam dela agora.Bem. sentada do lado oposto da mesa. mas mordeu o lábio. veremos. . não vai? .com licença.interveio Suzy . Agora. com a cabeça zonza. tão pouco vivida. um intercâmbio natural.

e quantas oferendas trouxemos . tu rias. Protegia e mantinha os mundos separados para que ela pudesse ir em segurança de um ao outr o. para que não. Só que dessa vez a escala que media as virtud es da terra contava com novos valores-sobretudo a esperança. começaram a ser recortados os con230 tornos luminosos dos personagens de Yr. em seguida. mas beleza' e alegria sujeitas aos caprichos e inconstâncias do tirano. Havia momentos de uma alegria extraordinária. No início foi até bom que ele viesse.lembrou Anterrabae Antes não rias em parte al guma. A ntes de irem embora. faziam alguns elogios extravagantes. ravinas verdejantes e floridas onde pastavam ca valos selvagens. vôos puros. Havia um outro de Constantia com as duas enfermeiras que habitualmente a acompanhavam nos passeios. Não o Yr anárquico dos últimos tempos.relutava seriamente em trocá-lo pelo seu o utro mundo. Trepa nas janelas da frente e fica a rrepiando os cabelos das visitas. com todas as forças de sua alma. era preciso escolher de novo. foram breves esses tempos. Conosco. já sei! Deve ter sido aquela velha idiota da Lucy Martenson. Seus olhos foram se fechando e antes de mergulh ar no sono concluiu num murmúrio.Bem. Nunca ocorrera a Jacob que aqueles gritos aterradores pudessem pertencer a uma p essoa de carne e osso. Lamentavelmente. Déborah soltou uma gargalhada p ara escapar à aflição de encará-lo: . quando nós visitamos. .exclamou Anterrabae.Ah. Invariavelmente.Perguntava-se no íntimo se ele teria escutado sequer um cochicho seu. do "era-uma-vez uma rainha que se c hamava Déborah.". um sorriso satisfeito pendurado n os lábios. Fcomos para te proteger! . de sua liberdade em Yr. alguém que se chamasse Lucy. . Por mais deslumbrada que estivesse com o mundo . mas o Yr dos velhos tempos. . e ela agora os exibia orgulhosamente a todas as tias e tias-avós. Yr continuou sendo fonte de beleza e alegria.. em segredo. davam um beijo em Suzy e. . As visitas de parentes se arrastaram pelo dia t odo. um céu que se perdia de vista. torcendo. o pequeníssimo "Talvez" . As velhas ficavam olhando com um ar meio estúpido. enquanto desfrutava. e que belo reino era aquele: havia a gigantesca águia do roche do. exceto um retrato de Helene de cabelos desgrenhados e olhos vazios. não vale a pena trocá-lo pela terra. Sim. Suzy acabou mesmo não indo à excursão. .sua riqueza de cores e aromas. acen ando com um feixe de centelhas na mão. vistas como figuras minúsculas perdidas num jardim que se estendia até ao infinito.Não.. Nas trevas do quarto. diziam uma p iadinha a respeito de suas últimas conquistas ("Não. Lembra-te de que viemos numa era de esterilidade e de morte de todas as esperanças ! . isso foi há semanas at . Deu um abraço apertado e cúmplice na filha. prestando tributos verbais à Terra cinzenta e desolada. Nenhum dos desenhos continha cenas do h ospital. o tempo e uma infinida de de outras descobertas maravilhosas . a terra era um lugar extremamente perigoso e traiçoeiro.Que mulheres histéricas? . balançando tolerantemente a cabeça.. 231 O sedativo começou a fazer efeito. mir ando-se num espelho que refletia a imagem da graciosa amiga de faculdade da foto grafia. galo pando num reluzente corcel... tudo começou a mudar com a jurisdição do Censor. Logo o reinado do Censor transformou-se numa tirania intole rável.bradou Lactameon. cuidadosamente agrupados segundo o nível de ignorância das "condições" de Déborah. jubilosos e perfeitos. ouvimos os gritos. o de Yr. Caí a na besteira de trazer um pacote de desenhos seus para mostrá-los a Esther (sua p rimeira juíza). Débora h ganhava asas e voava. tia Selma. depois de um longo período de confusões c ausados pelas colisões dos dois mundos. extensiva a ambos os mundos. os sons. e os mergulhos com Anterrabae arrastando uma imensa cauda de lu z. Agora. disse-lhe boa noite e saiu.. cheio de prenúncios fatais e poços tenebrosos. e a felicidade que sentia era tão intensa que seus pés não se contentavam com o chão. as velhas pediam que Déborah explicas se como fizera os desenhos e. e isso o tranqüilizou um pouco. com olhares cúmplices. Ela se vinga de todo mundo fingindo-se de Tarzan. Ainda assim. Déborah sabia que diziam a verdade. os movimentos. Jamais te odiámos! friZou Lactamaeon.

car vão. animada por uma curiosidade insaciável. . morrendo de culpa. Embora sentisse que jamais c onseguiria se identificar com os costumes e hábitos das "pessoas normais". Poderia ter ido à excursão. Déborah temi a. Eu desenho também. Podem não ser tão "profundas" quanto os desenhos de Debby. Elogiar Déborah é. menina burra! . uma pa ciente recém-intemada perguntou-lhe o que era. Déborah sen tia que. 232 você não os escuta . discutindo num tom bastante angustiado. coch ichavam: "Eles mentem! Eles mentem! O veneno existe!" Aquela noite. ma s de forma clara. . e por m ais que a consciência negasse.Calem a boca! Assim vocês aco rdam até os mortos! Os três perceberam imediatamente o deslize. .protestou Esther.Ai.murmurou Déborah aflita. Quando passavam p or Carmem. 233 26 Veio a Primavera. mas você nunca chama a vovó. Chamava-se Carmen. Certa vez.Newtoniana. havia ne la aquela força indef inível que permite prever a cura. deixan do-a entregue àqueles elogios intermináveis. Foram para a cama cabisbàixos. de repente. Essa menina parecia-se muito com Helene. Déborah. quando escutou as vozes de Suzy e Esther na sala de estar. apurando os ouv idos. Yr e as regiões mais obscuras do mundo travavam uma batalha renhida dentro dela. Enquanto brincava com todos os brinqu edos da terra. aludia à causa drogada e adormecida de todas as suas dores de ca beça e discussões. mas o sono foi mais forte. vai chegar até o teto". . Carmem. Meu pai vem me visitar essa tarde.Não posso. ela só vai ficar alguns dias. no entanto. meu Deus . inconscientemente. vamos até a Ala A jogar pingue-pongue? . referindo-se à religião. estavam quase se acabando. Os materiais disponíveis na oficina de artesanato da Terapia Ocupac ional eram escassos. .porque quando não se trata de Debby. Eu danço também e eu escrevi duas músic s para as festas do acampamento de férias. e para sua própr ia surpresa a resposta que deu foi: . o ato falho que. mas trabalhava-se com o que estivesse à mão: "silk-screen". tcomou os sedativos e foi para a cama mais cedo. você simples mente não escuta nada. Déborah observava atentamente a irmã preocupada com a melancolia que vinha notando nela já há dois dias. Fcomos à festa juntos. . guache. sobretudo. justificar . o que quer que fosse.resmungou Suzy . aquarela. durante os quais as pessoas se agarram aos últimos trapos de sanid ade para encobrir uma horrível nudez. dizendo com os olhos: "Quando essa exp lodir. e era filha de um magnata riquíssimo. Estava quase dorm indo. Cada carta . inteiramente inerte e. por isso é que estamos fazendo esse rebuliço todo. Ficava horas e horas largada num canto. ia desenvolvendo seus dotes artísticos. nada mais"). Os seus três primeiros meses d e "lua-de-mel". sob as camadas da lógica e da vontade.cada visita que você faz ela você convoca toda a família. Jacob apareceu na porta do quarto e rugiu furioso: . ano passado. cheios de amor e desespero. soltava um grito lancinante como se tivesse levado um tiro. o mundo material abria-lhe belas perspectivas e valiosas recompensas. desmiolada e de scuidada! Você não está sendo injusta? . Eu não preciso fazer isso! Elogiar você é fanfarronice. a acontece que eu sou mais do que uma tola. lá no íntimo. embora ela estivesse destinada a uma longa permanência na Ala D.berrou Esther perdendo as estribeiras. ou convida tia Natalie e t io Matt para escutar a última música que eu compus ou o comentário inteligente que eu fiz! Será que você não compreende.rás.Ei. qu" estivesse transmitindo a ela a sua substância virulenta. que continuava deslumbrada com ás formas e cores que desc obria no mundo.gritou Suzy .. enquanto Esther fazia comentários lisonjeiros a respeito de seu charme e da sua postura na mesa. Déborah e Carla entreolhavam-se. preferira ficar. aperfeiçoando vários estilos e técnicas novas. Durante o jantar.

as Aparências nunca chegavam a camuflar de todo. Eu só espero que consiga fazer. . . Irrompeu nelas uma sensação de liberdade maravilhosa. e caminharam cabisbaixas de volta para o hospi tal. não permitiremos nem grupinhos fechados. . .Na minha universidade. Era domingo.Nem eu. Carla contou como foram agonizantes os domi ngos na época que esteve fora sentia-se trabalhando. observando as fendas abertas pelo inverno na calçada e jogando o jogo dos sonho s que tinham inventado para passar o tempo. eram os hospitais o que melhor conheciam.Não . em parte como punição. bobas de alegria. . as pessoas ficavam desarmadas. . . quando começou a ficar frio.Em primeiro lugar teriam 235 que ser fortes o bastante para resistir. e as tardes de domingo consis tiam numa luta desesperada para impedir que os outros mundos aflorassem.Ei. . as coisas certo. paz. em parte por uma frági l e secreta esperança. . Aos domingos. até que c hegasse a segunda-feira. .. puseram-se a escoltá-las. nem panelinhas. aspirando a neblina fria que recobre as manhãs primave rís.disse Carmen com voz lânguida. .Olhe só onde estamos. s antidade e amor. Apesar da segurança que o hospital ofer ecia. Nos fins de semana. N os dias de semana. oferecendo ajuda.. Às vezes.Chiii! Não tenho permissão para vir até aqui .Os dois auxiliares esperaram por elas e em seguida flanqueando-a s. Ao cair danoite.perguntou Déborah. .Concordar. A oficina de artesanato estava fechada. estavam no prado. os domingos eram dias terríveis. Débora e Carla passeavam à toa. Reafirmava-se nelas o desejo de perfeição humana. contudo.perguntou Carla.Íamos justamente entrar agora. Mas ali no hospit al. Isso não era maneira de voltar. . era possível baixar as Aparências como se baixa uma tela diante d o corpo e da mente. Não podiam consentir em v . . bem distante d os prédios do hospital. Consistia em decompor o mundo em inúme ros pedaços. Passavam horas intermináveis construindo-os e selecionando pessoal. é bom ter de lutar contra algo qu e não ceda e que nos dê a segurança necessária para extravasarmos toda a nossa loucura. Eram traiçoeiros os domingos.Na minha fábrica. .Eu suprimiria todas as barras das janelas . É bem verdade que deviam estar com um aspecto lastimável.Não. e depois reconstruí-lo todinho.. Sentaram-se na relva.Poremos os nossos médicos-em-serviço realmente em serviço. Eram os dias de lazer. . .Você quer que a gente fique por perto ou não? .Todas as minhas auxiliares terão que passar uma semana como pacientes. Iam conversando distraídas e.Vamos.E o que é certo? . . . penteari am os cabelos e vestiriam roupas mais apresentáveis antes de comparecerem à visita p ara ficarem de mediadoras entre o pai e a paciente mais esquisita que existia na Ala B.ponderou Carla. meninas. Começou a cair uma chuvinha fina . mas se lavariam. foram surpreendidas por Henson e Cleary que saíam naquele momento do Anexo 3 em direção ao prédio principal. tudo ad quiria uma aparência desoladora de abandono. deli ciando-se com o banho de chuva.Ele 234 não compreenderia. No entanto. Ao se aproximarem do primeiro prédio.disse Déborah. . concordar. . vocês têm autorização para sair à noite? . os patrões trabalharão nos serviços mais rotineiros para aprenderem como são duras as condições de trabalho do operário. quando deram persi. Equipá-los e administrá-los era a parte prin cipal do jogo. concordar sempre. . as roupas encharcadas.respondeu Carla. . Mas nenhuma das duas dispunha-se a abdicar desse pequeno motim contra o fastio dos domingos e as restrições do mundo. leva ntaram-se. então. . ironicamente denominados Dia do Desca nso e da Liberdade. quando então as farsas eram reativadas e a superfície se to mava de novo perfeita. Déborah ficou em dúvida.

Pouco depois. As duas. como se tivessem sido treinadas a vida toda para aquilo. Terminado o banho. mais cedo ou mais tarde . Não tinham roupas secas nem dinheiro.Não sabes o que te espera! . . escalaram o barranco até a e strada . . pertenciam ao seg undo turno da noite. esperando que o c arro passasse.. sua biruta.declarou uma delas com ares de grande santidade. apanharam a oportunidade no momento exato.Perfeito! Era justamente o que eu queria. os auxiliares automaticamente cercaram-nas por trás. Na realidade. . Minutos depois. as fugitivas saíram da vala e reto maram a caminhada. tiveram que entrar. coisa que não fazia há muitos. Entreolharam-se e seus olhos diziam: "Não!". Carla e Déborah a previram simultaneamente e. por terem fugido e voltado com tarriantra tranqüilida de e doçura.pareciam gêmeas de tanta lama . Não houve jeito: derrota das.e voltaram a caminhar. transpuseram simplesmente de um salto. A volta foi longa. -. . Carla e Déborah 236 simplesmente continuaram dando à volta. mas que valeu.Tenho hora com minha 237 médica amanhã. A chuva fustigava-lhes o rosto com força. Correram. arquejantes..Terei de voltar lá. rindo de sua rapidez e agilidade. nem escoltada nem dirigida. Ambas mergulharam imediatamente numa vala lateral. Procurou se lembrar do que Furii lhe ensinara a respeito de fazer o que realmente queria . se encontraram por sobre as cabeças das enfermeiras e trocaram uma p iscadela cúmplice. Seus olhares. Ao seu lado. Teremos que voltar. Ao se aproximarem da porta. absorvida em seus pensamentos. Eu queria ficar sozinha. Carla sac udia uma pedrinha do sapato. ao que parece. Mais tarde. o banho go stoso de chuva. Só foram "apanhadas" depois de atraves sarem o portão de entrada. Você ficará essa noite. surgiu a oportunidade ideal . Em represália. Anterrabae entoava gloriosos hinos em Yr louvando os encantos do mundo. se aproximando. Claro! . Henson e Clear y tinham inconscientemente relaxado a vigilância. a farra. Déborah conclu iu com seus botões: "Talvez eu venha a pagar caro por isso. saindo por onde tinham entrado e.comentou Déborah em voz alta. vão ficar em reclusão. Déborah se perguntou pela primeira vez o que p retendiam fazer. e no céu t empestuoso. Recostou-se no barranco. diante d os auxiliares atônitos. .exclamou Carla esbaforida. tiritando de frio. Déborah sorriu na escuridão. Déborah e sua guarda emparelharam com Carla e sua guarda a cami nho para o final do corredor onde havia alguns quartos de reclusão. Esfregando o corpo para se aquecer.e lá se foram as duas de novo para a vala. ao transporem a porta. Passando a entrada. Porém. o que significava que já passava de meia-noite. valeu!" E dormiu sentindo o cheirinho de chuva. livres ainda.É. à distância.Comporte-se! Tome seu sedativo e vá já para a cama. As dua s correram até ficarem sem fôlego. foram separadas uma da outra e escoltadas por uma numerosa guarda.Mais perseguidores? .respondeu Carla. ouviram a sirene que anunciava a fuga de pacientes. pelas estradas escuras que cortavam os fundos do hospital. e só então diminuíram a marcha e pr osseguiram andando. Também não tinham plano algum. com dores nos rins. muitos anos. Avistaram uma luz. Mandaram gente para nos procurar! . mas um homem prevenido vale por dois. . a porta de entrada e saíram correndo. para cima? . . galopavam ligeiras as nuvens. As duas auxiliares que vigiaram Déborah enquanto ela tomava banho. Isso ainda é uma estrada pública.. afinal. Cantaram uma parte do caminho. gozando uma sensação imensa de l iberdade. Quando os faróis sumiram na chuva. já dentro da portaria do prédio que abrigava as Alas B-C-D. só isso. Logo que o carro passou. . rindo às vezes dos escorregões que levavam por causa dos sapatos encharcados. relembrando na cama os episódios do dia. correram. o que pretendiam fazer era o que estavam fazendo.oltar assim. divisaram out ro carro. rindo e ofegando ao mesmo tempo.Pare de se bajular tanto. Era um carro. não depois daquela sensação maravilhosa de liberdade. havia um con junto de portas giratórias.

por isso. . C arla também. e quero que você espere lá fora. . . se foi! . admiração e um grãozinh o de inveja. Bem. não foi? Uma diversão compartilhada pelas duas. Ao sair do consultório. No fundo do jardim corria a sebe verdejante. 239 Foi a vez dos guardas se entreolharem. O médico a interrompeu duas vezes para esclarecer detalhes e. isso é raro aqui. Foram perguntar à enfermeira. eu tive que ser atumai.Recompôs a fisionomia severa. É só isso . .perguntou ele. e pensar em alguma versão que tomasse suas razões suficientemente convincentes.O Doutor Ogden está de cama. . encontrou Carla esperando sua vez. todos riem. . O contentamento deve ter transparecido no seu rosto. Decidi u afinal traduzi-la. mas logo pôde suspirar de alívio ao notar que ele lutava para conter o riso. Às 11 horas da manhã. só caem doentes quando já estão deitados.Está bem. Ninguém teve a idéia. Esto u um bocado orgulhoso de vocês. O melhor que f aria era tentar lembrar-se de todas as histórias que escutara a respeito de escapa das.Quero avisar a ela que está tudo Terminado Ela nos viu fugir e deve estar bastante preocupada. Fizemos e pronto. ninguém liderou. . .O diabo é que tinha que parecer sã. foi escoltada sob guarda aos escritórios da administração. . Im aginou as duas meninas caminhando. eu.Reviu mentalmente a cena da fuga na porta giratória. o D outor Halle. Quando elas saíram. . Percebendo a sua hesitação.Foi divertido? .Venha. e um sorriso pendeu um instante nos seus lábios.De quem foi a idéia. . por algumas horas que fosse. Espirra e pronto. Pegam invariav elmente o sinal verde. Em resposta ao seu olhar interrogativo. . Déborah encolheu os om bros. . tateando em busca de uma explicação convincente. rindo e cantando debaixo de uma noite tempest uosa. Elas sempre encontram um jeito de escapar ao último passo em falso.Vocês infrigiram as normas do hospital. . um tal de Dr. A gente não decide quando vai espirrar.ele deseja falar com nós duas. Ontem. De onde eu vim chamava-se as pessoas assim atuma i. . Nós duas. pois ele sorri u levemente e explicou: . com uma cara assustadíssima.Carmen foi para casa. Chegando lá. farejando o ar. que Déborah ainda não conhecia.Deixe que a coisa saia. . e aquilo íê-lo recordar-se de uma fuga que empreendera de casa quando menino. crianças! . quando terminou. . Ogden. . por detrás da escrivaninha.. a as coisas se mantém em ordem .concluiu. frustrando seus esforços para se concentrar numa explicação mais compreensível. oito delas se não me engano. Foi divertido. Lá fora.exclamou numa voz onde se mesclavam impaciência. . num gesto imperceptível e experiente. O Doutor Halle ostentava uma expressão sev eríssima. e sempre que contam p iadas. Não via Carla desde a piscadela da noite passada. As versões do que fizeram coincidem uma com a outra. quando apan ham um barbante para amarrar um embrulho nunca falta um centímetro. Levaram-na ontem à noite. Déborah entrou precavida. . escoltada também. não a tenho visto. depois de uma sentida esPera interminável.O atual administrador da Ala B era um médico novo.Ótimo! vou conversar agora com Carla. . com gripe. 238 Estou supervisionando os trabalhos da ala B por algum tempo.Recostou-se na poltrona esfregando a ponta dos dedos. em primeiro lugar? Déborah gaguejou.perguntou Carla. o que é uma ati tude extremamente repreensível. A palavra tornou-se uma idéia fixa .Ah. . girou a cadeira em direção à janela. De onde. Havia um termo Yri que descrevia bem o que sentiram naquela ocasião. as pessoas desajeitadas e inábeis como eu veneram as que não são. que os olhos de Carla interpretaram co mo um sinal de desgraça.Puxa.Onde está Carmen? . ele perguntou: -. Ela entrou e. Halle procurou tranquilizá-la: . torcendo para que ele entendesse.. o Dr. en fiou a cabeça para fora e acenou para . os galhos nus das árvores carregados de brotos primaveris. .Não sei.Não vejo razões para r evogar os privilégios que lhes foram concedidos.O que foi que aconteceu? Déborah contou a história. Ogden. .Entre! . a auxiliar bateu na porta do Dr.Qual não foi a sua surpresa ao encontrar.

Termi nava com minuciosas considerações a respeito da imundície que resulta quando uma pesso a dispara um tiro de revólver na têmpora. e ainda assim permitiram que eu ficasse..murmurou Déborah. Déborah deu uma olhada nele e o e nfiou rapidamente no bloco de desenho. encerrada em seu próprio claustro. a oportunidade de poder travar a batalha. Carla saiu cedo para a entrevista com sua médica. Déborah e Helene estavam sentadas no corredor. e não o fiz eram. ..Viram muito 240 mais ódio do que amor. com a fama violenta de Helene e as lendas que circulavam a seu respeito. acusou-as de hipócrit as e mentirosas e.O que aconteceu? . e por muito tempo. Sim.Meus pais. . era bem Helene quem estava ali.Mas o pai não veio só para visitá-la? . . O seu sorriso "normal" era precavido como uma armadilha prestes a disparar.disse Déborah baixinho.Déb. .Ela discordou. Déborah foi t ambém. . vi. . mas acho que mudou de idéia.Vocês a conhecem? Quer dizer. Levaram-na à oficina de artesanato.acusou Helene no seu tom áspero de voz. mesmo sem haver qualquer sinal de progresso. . encarregou-se de preencher o c onteúdo de seus gestos.No final das contas.O que será que aconteceu? . seu verdadeiro sorriso insinuou-se por detrás do falso. 242 Eu não disse que ela teria conseguido. e só voltou um pouco antes do jant ar. foi liberdade o que eles me deram. . .. sobretudo.Acho que você está dramatizando a coisa só para conseguir um pouco de sofrimento gra tuito! . e leu a notícia até o fim. .Quanto tempo ela ficou aqui? . Carla. como é que você pode ter certeza? . . as vozes acabaram atraindo outras. você viu Carmen ontem? . logo que recebeu seus privilegios. Sentia-se arrasada. conheciam? . . . metida num vestido estampado de flores lilazes que nada tinha a ver com a agilíssima tigresa que o usava. desligada de tudo e de todos. . Déborah compreendeu que o que devia a seus pais era. . com bobs no cabelo e um bloco d e desenho nos joelhos.Oh. . . e logo souberam da novidade . se eu não estivesse morta de medo. as mãos geladas. Só sei que ela saiu com o pai por vol ta das sete horas da noite. ao passo que os meus. Helene veio para a Ala B.Ela poderia ter conseguido se safar. A manchete anunciava: FILHA DE MAGNATA SU ICIDA-SE. quando avistaram Carla vindo cabisbaixa em direção a elas. cuja espingarda. seria um verdadeiro canhão. Os de Carmen não lhe der am sequer uma chance. . mas sim que poderia ter conseguido..Parece que sim.perguntou Helene. . Quando Déborah e Carla disseram que estavam contentes por vê-la. Jamais exigiram que ela se recuperasse para restau rar o prestígio da família.Carla. compondo palavras mudas que só a ela falavam. ao se levantar . lembrando-se do trigal e do caçador.. havia um intenso contrabando. me sentiria tão grata! 27 Mortalmente pálida.Hum-hum. é sobre Carmen. num instante. Deb. Déborah e Carla entreolharam-se.Estendeu um recorte de jornal. Podiam tê-la retirado dali ao primeiro fracasso...Pelo tom. Embora fosse proibido ler jornais na Ala B. Permitiram que ficasse. . via-se que a enfermeira queria encerrar a conversa ali mesmo... . e isso'deixou-as ainda mais contente s.respondeu Carla.Terry. Olhou para baixo e encontrou suas mãos ensaiando gestos ve ementes em Yri. furiosas com a perversidade do mundo. Conservaram a fé num futuro que talvez jamais desse os frutos pelos quais an siavam. .Apenas o suficiente para aprender a discordar . Suspendeu o bloco para ocultar o recorte.

pode estar doente.Impossível! . porém muito mais vulneráveis do que as da Ala D. Reinou um silêncio intranqüilo e. Ela tinha uma enfermidade boa e saudável! .Uma tensão vibrante percorria em sussurros a ala. não se mascarava com aparências.. Tremia de medo. . Continuo achando que Carmen poderia ter vencido. Linda. só isso. exposta. Déb.Viver é lutar! . . sem saber porque. .Você está querendo saber como eu consegui sobreviver até essa idade. Déborah encarou provocativamente L inda.Meditou um minuto.comentou Carla mais tarde vestindo-se para dormir. Atingira um nervo particularmente sensível. em suma. foi você mesma quem disse que Carmen explodiria até o teto a qualquer minuto. e mais ? contradição entre o cinismo que existia dentro de cada uma e ânsia vacilante e cega de lutar que se traduzia em calorosas disputas verbais. diante das car as hostis e incrédulas. investiu furiosamente: -Ridículo! . Mas. não sentir muito.É a mesma co isa.Carmen poderia ter se salvado. a "autoridade psicológica" da Ala.Reparem naquele monte de homens internados n a Seção Masculina. vive intensamente. que já havia lido tudo sobre o assunto e vi via distribuindo jargões como quem distribui moedas. num esforço absurdo para suste ntar a farsa do "tudo bem-tudo bem"..objetou Carla. em Yr. Suas idéias eram claras. o nervo da Ala B. No entanto. Sentiu revigorar dentro de si a força silenciosa que emanava do "abrirse ao mundo". Sorriu daquela ironia.Ela tinha uma enfermidade muito dolorosa . que consistia numa fuga constante. afirmações de "ma leviandade teme rária. São todos muito racionais. . vou tentar de novo A resposta a apanhou desprevenida. . ículo! Você está apenas racionalizando seu próprio sistema de defesas! 243 Déborah procurou ser mais objetiva: . Déborah se achou defendendo com ardor o pequenino "Talvez ". como uma dolorosa bofetada. . mas não deixou de se q uestionar: "Que medo é esse? Medo por mim ou por Carla? Por mim? Porque vou perder uma amiga para o mundo? Ou será porque em breve eu terei que ir?". . A equipe médica g osta deles. Curioso é que o medo que sentia era o mesmo que levara as pessoas a rejeitarem ass ustadas a sua definição de "uma boa e saudável enfermidade". "sadios" e espirituosos.exclamou . Déborah olhou ao seu redor e se viu cercada p or fisionomias congestionadas de ódio.Que absurdo! Isso é uma contradição em termos! .Porque vou sair. estourada do je ito que sou? .. mas sincera. apa vorada com o olhar defmição da antagonista. Quando a enfermeira veio dispersá-las. ressoou um trovão: . nem se entregava às farsas ha bituais com os médicos.de uma forma mais premente e impetuosa. sobretudo. O que pretendia? Estaria tentando impedi-la de dizer qualquer coisa que pudesse degenerar em confusão e obrigá-la a se desdizer. é impossível que eu não consiga percorrer um quilometrozinh o até a cidade.Proferiu essas últimas palavras. Deb. fugia à dor envolvendo-a "m palavras pomposas e eruditas. apren dera bem as lições de Furii. Isso é doença-d oente. .Você gosta mesmo de atiçar as feras. Para sua própria surpresa. como pessoas. . vou começar a procurar trabalho onde não fique enclausurada num quarti nho 244 . Só que dessa ve z. A velha Coral. Asenfermeiras que estavam de p rontidão não sabiam se falavam se guardavam silêncio. não é impossível. Déborah a encarou intrigada. Déborah percebeu que aquela agitação de ânimos dizia menos respeito ao suicídio de Carmen. À distância. mas jamais conseguiria convencer aquelas mulheres mais sãs. . tal como naquela noite milagrosa na Ala D. ou então q ue pudesse ameaçar as defesas que as pessoas erguiam para conter o sofrimento? . mas o fato é que estão ali há anos.Não. Parecem não sofrer muito e. lá na D. e nada e ninguém os ajuda. Vão vivendo. hein! .Porque você haveria de sentir falta de mim? . . mas em compensação ela senete. estava abaladíssima. já sem fôlego.vou sentir sua falta.Depois de tanta terapia. luta.

que clamava pelos seus direitos inatos.É uma exigência. . eu não sou paciente. Na sua maior parte . ."Meu pai é o Paderewski. arrumo a trouxa e me mando daqui também! Quando foi procurá-la para se despedir. Era uma senhora idosa. tocaram a campainha da porta e aguardaram. Doris Rivera devem ter visto: ..diria.Pouco me importa que você vá . por e xemplo. Debo245 rah não desanimava.uma mescla de estupor. depois de algum tempo."Minha família sempre teve queda para a música. e minha mãe é Sophie Tucker. Atribuía a si mesma as mais divergentes proce dência familiares .minúsculo. sempre quietas.Sim.interrompeu ela. finalmente. . P erguntavalhes por suas vidas. receosa e excitada ao mesmo tempo. eu sei . Déborah se afeiçoou a ela e. mas receosa de que o medo traduzisse a respos ta para um Yr incompreensível. . vou sentir sua falta . .vou sentir sua falta.Daqui a pouco você vai também. e ela. Só que ficam um pouco l onge. Déborah fechou os olhos e pôs o dedo ao acaso na lista. A pequena e insular com unidade tinha verdadeiro pavor do hospital e de seus ocupantes. . Quando a a ssistente social começou a explicar do que se tratava. Déborah continuava animada de uma curiosidade insaciável pelo mundo. de modos delicados e voz suave. Fulgurou-Lhe na memória o episódio do tornozelo t orcido no St. comparecia.. . Déborah tentou formular um "Claro!".Déborah ouvira rumore s a respeito e conhecia alguns devido às suas caminhadas . como se refletissem a desgraça dos leprosos que os habitavam. . mas a doença continuava intacta. O primeiro passo foi ingressar emdois coros de igreja. Quanto às senhoras do coro da igreja. -Freqüentemente ia até a cidade a pé e depois voltava. lá do outro lado da cidade. sabia? Estou fazendo uma pesquisa para minha tese de doutôrame nto. A curiosidade a impeliu até mesmo a freqüentar a vida social da cidade. Talvez tenha sido esse o principal problema da última vez.confessou Déborah desolada. Greta Garbo e Will Rogers . medo. A proprietár ia veio abrir. Procurou depois o pastor Metodista para conversar sobre o grupo de jovens que ele entretinha. veterana da psiqui atria mecânica e que já tinha passado por uma dúzia de hospitais. contentou-se em deitar na cama com os olhos anuviad os de medo. A nova companheira de quarto era uma menina meiga e generosa.Falava com u ma voz desanimada e assustada. onde não há pacientes morando. onde moravam e o que pretendiam fazer quando terminassem o estágio. . . A assistente social possuía uma lista de quartos na cidade que podiam ser alugados para pacientes em regime de externato. olhando. e ainda antes de Carla. Assim que terminar.Terei que acompanhá-la . Sua memória fora devas tada. Chegando a um velho casarão. Por mais que ignorassem a sua pre sença. mas a lei exige que nós declaremos. Por is so sou tão sensível". com uma determinação teimosa e inquieta. m as logo compreendeu que participar estava fora de cogitação. . todas com um ar muito piedoso.Tem um ou dois quartos novos. Déborah viu no rosto de suas com panheiras a mesma expressão que Carla. a menina olhou para ela surpresa como se n unca a tivesse visto antes. Tomaram-na invisível. faltava-lhes a sensibilidade para reconhecer a fome impetuosa de uma criatura recém-nascida no mundo.Na verdade. cheirando e apalpando tudo o que lhe caía às mãos. Costumava ficar sentada junto às enfermeiras e estagiárias escutando embevecida elas conversarem. Afastou-o com um ligeiro tremor. rancor. distraidamente. Déborah a encarou firme esper . persistente. . a menina acabou deixando de lado o assunto família ou os atritos conjugais de seus pais. e quando veio a resposta. Agnes (Eles são violentos?).eram pobres e sombrios. solidão . onde não era b em vista. . . .disse a assistente social .Não sei se você sabe.declarou a sua companheira de quarto. encaminhou o pedido de autorização para abandonar o hospital Rangérãm as eng renagens da burocracia. pr ocurando descobrir novos caminhos. inveja e. suas famílias. . acima de tudo. Um dia.

que realmente não era estragada! .. por fav or. Quando veio morar em Chicago. P ara que uma pessoa renuncie ao mundo. Talvez a senhora não tenha entendido bem. espero que gostem do quarto. O reinado sombrio da destruição. aos poderes esmagadores de Yr.De quem é a culpa: da cidade ou do meu rosto? . . . "boa noite". .Sim. aquele ano que passamos na casa alugada.. Ah. 246 Ou o franzir dos cenhos.Ainda que o seu rosto me pareça ótimo. e ela também. . talvez ele demonstre uma certa ansiedade quando você está com as pessoas. Isso sim é doença. como pude esquecê-la! .Sim. estão vendo. de repente. um mapa. .. antes de nos mudarmos de volta para Chicago. parecia-se com todos os que o nganon atrai . Quando volto para ca sa depois da aula de costura. é bom ter com quem rir e conversar. acabaram inculcando na maior parte dos habitantes da cidade um medo e uma a aversão absolutamente irracionais. . é um hosPital para doentes mentais-insisti u aflita a assistente. A vel ha não tinha entendido? Quando a assistente social terminou de falar. .prometeu Déborah.Gostaria que você voltasse de novo para a sua infância e revolvesse aquela época cin zenta da qual já falamos.É bom conversar com Lactamaeon. Você precisava ter t odas as razões para se entregar a uma renúncia tão grande.Ah?. . .Sim.Enquanto você esteve doente daquele jeito.. eu vejo! . não suscitava receio. Eram todos muito gentis. quer dizer. é bom ter alguém que faça gracinhas e.Ne-n que minha vida dependesse disso . . Mas logo aprendeu o novo m odo de vida e ficou boa. 247 . a velha se contentou em dizer. recordar-se de uma amiga ou de um rai o de sol implicaria em transformar toda uma visão do mundo. Quando a acompanhante foi embora. . bom. fique sério e diga coisas que . mas um abismo intransponível os separavam. que não admite mudanças.Você teve notícias dela nos últimos anos? .Lembro-me inclusive de dias inteiros. A terapia atravessava uma fase pouco inspirada. de trabalho mais cotidiano. sim. Déborah mergulhou nas recordações. à qual não pertenço.Sorriu . .'.. um livro de hinos. você é capaz de se lembrar do que havia além das trevas. . novos aspectos a confrontar com o passado. busc ando nas atuais situações de liberdade.era uma pessoa solitária e tristonha. claro! Está cursando a faculdade agora. Veio a descobrir depois que a proprietária Dona King. por uma cara hostil.Mas Yr também é belo e verdadeiro. outras falsas.Não me refiro à linguagem ou aos deuses propriamente . As trevas serviam justament e de contrapeso para as luzes que simbolizavam a vivência do amor e da verdade. Inúmeras histórias assus tadoras. . não ponha papel na privada que ela está velha e um pouco ranzinza.respondeu Furii. que sempre lhe parecer a uno e denso.Olhe.ando a qualquer momento por um olhar cauteloso. . ou do coro na igreja.Sim. Sim.Você teve uma amiga? . ela se limitou a acenar de leve com a cabeça: . Agora que retornou ao mundo . .retrucou Furii . Cansou de ver as mães chamarem apavoradas os seus filhos quando passava "O Capitão". nada mais. E não tinha nada de arruinada.mas à força qu e exercem no sentido de mantê-la afastada do mundo. um ho mem que servira na marinha e que tinha o hábito de falar sozinho. . Déborah. não suscitava nada. quando ele está bem-humorado. mas eram insignificantes comparadas. suas r elações com as pessoas não passavam de compartilhar uma máquina de costura. algumas verdadeiras. . pelo menos depois que se aco stumou à vida da cidade. é preciso que tenha razões.De ambos talvez. esse quarto tem mais luz. mas o outro fica mais perto do banheiro. graças à sua aparência mais "normal". ou responder "boa tarde" ou. tinha agora algumas fendas que deixavam passar a luz do sol. as aulas de costura na escola secundária e até mesmo um clube de excursões para adolescentes ("Venha Um Venham Todos"). Como pude esquecer disso? . Aliás. e minha amiga. . Por mais que f reqüentasse os ensaios do coro da igreja. . . onde sou uma estranha. . era nova na cidade e não fora educada nas lendas fantasmagóricas que cercavam Aquele Lugar. lá também existe amor. mas nada disso ( aconteceu. até eu vir para cá.

e provavelmente não tinh am gostado mas. Mais tarde. comentei: Esse é um dos poucos que conheço inteirinho de cor. ."Serve para iluminar ou aquecer?" . num processe quase que concomitante.perguntou Furii. . por ser sua amiga. Como. . Primeiro eu pedi: "Ênsinem-me matemática". Furii perguntou: .Sim. Não tinham segredos entre si: contavam suas vidas. tinham deixado de ser belos. uma espécie de desafio. . Carla trabalhava durante o dia como técnic a de laboratório e passava as noites estudando as novas técnicas para recuperar os c inco anos que perdeu internada em três hospitais sucessivamente. agora eu sei. Déborah decidiu.Plenamente? Furii assentiu com a cabeça. uma mudança sutil se oper ava em Carla. Num dado momento. . Semana passada. . então." Eu disse: "Todos os anos? Para sempre?" "Uma terra contestada. a frieza.Receio. . Seria maravilhoso se eu pudesse despachá-los quando quisesse. e de como os deuses.248 nos comovam.perguntei. em local seguro. Lembrou-se que Carla jamais demonst rara interesse em ver um trabalho seu. já há m uito. Depois começamos a nos insult ar um ao outro. .. não é assim? . porém. mas sempre que estavam juntas. Em meio à sôf busca de vivências. Carla? Você a vê freqüentemente? Déborah lhe cont ou uma coisa estranha que acontecera. ainda receio que eles sejam de certo modo reais.E o Coletor estaria incumbido das críticas a você. Déborah. muito tempo. não dissera nada. reparou que sempre que mencionava sua ar te ou qualquer outra coisa em que estivesse trabalhando.Mas agora você sabe. sua Terra!" . de novas experiências que ambas empreendiam. Anterrabae exclamou:Mas é claro! Encetamo s. Aproveita : do que as recordações felizes continuavam vivas na memória d.perguntou Furii com uma voz meiga. crescendo.Na realidade acho que sempre soube. havia uma proximidad e toda especial entre elas. . e onde cada sensação e preocupação era duvidosa. quando se de sanuviou a sua relação com o mundo. perguntei a Anterraba e: "Esse aí é o meu fogo que está queimando dentro de você?" Ao que ele respondeu: "Por acaso não valeu o combustível?" . Havia tantas coisas novas para compartilharem que essa única fenda não faria muita diferença. que o cri ou a partir do seu próprio humor e de sua própria beleza? -. Déborah. Sua fisionomia endurecia imperceptivelmente e seus modos beiravam. um desses desafios em que se brinca e se fere ao m esmo tempo. a camaradagem foi cimentada e tingida pela seiva de vida emergente e de luta. eu estava rindo em segredo com Idat e Anterrabae. fora dormir pensando em falar à Carla . não é. viveram juntas as agruras da enfermidade e lutaram juntas para escapar às suas gar ras. a atitude de Ca rla e o seu ressentimento passaram desapercebidas. Mas já há algum tempo que ela vem crescendo. no entanto. sempre tive uma suspeitazinha guardada lá no fundo. e e le respondeu: "Serve para alimentar anos de sua vida. ond e coexistiam amor e ódio. seus temores e todas as suas tênu es e frágeis esperanças.Quando foi que você finalmente percebeu isso? . Supôs que ela devia ter achado algum rascun ho. que tinham esc rito um coral baseado num poema de Horário. PodeTríâm ter sido amigas em qualquer parte. recita poesias que nos fazem chorar e nos dê vontade de contemplar as estrelas. porém. poupá-la do s altos e baixos de sua arte. então. Agora que ela começava a reagir. çle srecorriam a todos os seus métodos de sedução. Mas naquele universo de bruscas e surpreendentes oscilações emotivas.Admiti-lo causava-lhe profunda dor. .E quanto à sua nova amiga. esse estranho desin teresse destacou-se com maior nitidez ainda. Furii lhe lembrou as crueldades cometidas pelo Coletor. No sábado anterior. rindo mas magoando também. Eles riram sem graça e acabaram admitindo que seus conhecimentos não iam além dos meus. Não se viam muito ultimamente. . e quando o cantaram. na época em que costumavam ficar catando papéis na Ala D. a espirituosidade e a sensi249 bilidade poética porque é muito mais difícil combater um inimigo amável. que o construiu à imagem e semelhança de si mesma. Déborah começou a prestar atenção a isso.

o luzir da ne ve e o luzir de uma lágrima gelada que escorria de seus olhos. então. O ápice de todos esses arcos individuais compõe a curva da história e.Sim. .Sim. e contou-lhe. .Você acha que é verdade.Ah. . Em momento 252 . . onde cada vida constitui um arco ligando o nascimento à morte. Carla veio visitá-la e enquanto conversavam à toa. de um negro denso e azulado. Os morros cobertos de neve. . Na manhã seguinte.Vê. Déborah cavou com as mãos um buraco na neve. . . o sonho. não é? Lembrome que lia constantemente nos relatórios da ala como você sempre arranjava um jeito de fazer seus desenhos. .disse Carla pensativa .É um belo osso. . Ela enxugou os olhos. as estrelas congeladas luziam frouxamente. projetavam longas e sinuosas sombras .O que é que você está vendo? Como é? . Carla desatou a chorar.Deixe eu conhecer o arco da minha vida? . sim.perguntou estarrecida. a partir da qual possam crescer e se desenvolver. é uma curva. portanto. .. sonhei.Também vou ajudar a sustentar a curva da história? . a voz disse: noite é uma curva de trevas.Sua criatividade? . O seu talento é tão fértil que resistiu às piores fases da doe Agora você pode compreender a situação daqueles que não têm a sorte de possuir uma vocação ativa. Déborah caminhava sobre a neve. Apesar do frio cortante. mas tam bém sons? Apurando os ouvidos. .Reproduzia os mínimos movimentos dela. . Quando Déborah concluiu o seu relato. veio lembrá-la de uma outra alegria: a compreensão de C arla.É isso a vida de Carla? ..Olhe para lá.Você sempre teve em al ta conta a sua arte. lembrava-se nitidamente do sonho. Carla a escutou so fregamente. .Você sabia que as estrelas não emitem só luz. Quando Déborah retirou o objeto enterrado.. mas não é nada disso.O único lugar para onde eu jamais poderia ir. . . espesso.É. . foi só um sonho. seu sonho. . . Déborah. arqueada e extensa. . contemplando o luzir das estrelas. sólido. Quando lhe descreveu o osso e contou o que a voz dissera. .Jura que não inventou nada.A voz silenciou um momento e depois concluiu . A voz interpelou de novo: . uma voz grave e profunda a interpelou . ela escutou uma cantiga de ninar entoada pelas estrelas. como se estive sse limpando a neve do achado. de um branco vivo e fosforescente. O espaço que fica para além é a curva da história da humanid ade. O sonho se passava numa noite de inverno. como se estivesse perseguindo a salvação. e dos tempos felizes que baniu da memória. você acha mesmo que é verdade? . mas o sonho foi se desvanecendo e as vozes das estrelas sumindo até desaparecerem de todo. De repente.suplicou Déborah.a respeito de um novo pensionista e do genro da proprietária. Depois de muito tempo. Quantos não a invejariam.Por favor não se zangue. e o conjunto de vozes era tão belo e comovente que a fez chorar.. . Déborah. . su as mãos esbarraram num objeto duro e ela o arrancou para fora da neve. apesar de você tê-lo encontrado aí enter rado e congelado. apesar de toda e qualquer inconveniência ou restrição. você realmente sonhou isso. descrevendo uma curva regular. . Teve um sonho incrível . distraída. um belo e sólido osso! Déborah quis ainda implorar à voz que revelasse a configu251 ração que teria a sua vida. sei que soa como aquela velha l enga-lenga de "menina sortuda". Era um frag mento de osso. não posso mostrar -.Após uma pausa. revia as estrelas e suas mãos apalpando a curvat ura suave do osso. retrucou a voz .Esse osso está profundamente entranhado nela. Ele está enterrado e congelado lá no fundo. Déborah olhou em direção ao horizonte. No céu. mas mesmo assim eu acho que é verdade . .. ela perguntou ansiosa: . .afirmou Déborah.Pediu.o único desejo que jamais poderia admitir.. . varridos pelo vento. trabalhou com um grande ardor.O seu. Furii disse para ela: . a do homem.mas posso mostrar o de Carla. Lembre-se da amizade sa udável que você precisou sepultar no esquecimento. Cave aí bem no fundo na neve. Acho que esse sonho.Contei exatamente o que aconteceu.

realmente não dava mais: suas atividades meros passatempos para preencher as ho ras vagas. Furii ia dissipando aquela velha certeza de que a sua vida era um a vida amaldiçoada e arruinada. .aconteceram em corredores idênticos aos daq uele prédio. os in esperados mergulhos nas trevas de Yr . viera crescendo dentro d ela desde os primeiros anos. montões de pedra pousad os ali como uma gigantesca ave. dos esforços enlouquecedores que lhe custa ra manter as aparências. Folheando os jornais da cidade. Teriam consciência de como eram be las e invejáveis as suas vidas? Não.A senha de todos os condenado s."Imutávelmente. nunc a deixaria de ser uma criatura invisível e inaudivel. pelos amigos. Ao chamá-la duas semanas mais tarde. e as velhas recordações qu'e guardava da escola. s entia cada vez mais que suas ambições e esperanças já não cabiam nos ensaios do coro e nas aulas de costura. Conhecia Latim e um pouco de Grego. nesse sonho. . antes de assumir a convicção de que . Déborah passeava os olhos com curiosidade pela congregação: teriam alguma v ez agradecido a Deus pela luz que iluminava suas mentes. Numa cidade tão pequena e estagnada. pelos amigos.. A medida que o mundo ganhava uma riqueza maior de formas. A própria. Aos domingos. pelos amigos. Aperspectiva de vir a f reqüentar "na daquelas salas de aula a assustava terrivelmente.. pela sucessão majestosa dos dias e das noites. Comparecia a todas as cerimôni as metodistas e escutava os mexericos que circulavam no "Clube do Altar das Senh oras". . pelo frio e a dor que reagem às leis da natureza. O hospital não podia ajudá-la em nada. Recordou-se do misterioso soldado japonês. prestativa e "sadia" que se mostrasse. trabalhando numa série de desenho s a bico de pena e abrindo caminho para o passado em densas sessões com a Dra. Déborah fora justamente naquele dia dar uma olhada na escola secundária. A doença. e há muitos anos não lidavam com estes problem as de trabalho.doutôra Fried deixou claro que isto era um problema que e la tinha de resolver sozinha. . ficou surpresa de ver como conhecia mal o mundo e todas as suas pequena s exigências rotineiras. . e nriquecer sua vivência. recordações episódicas de uma visitante num lugar estranho. os tofmentos inf . já não a satisfaziam mais. mas não tinha o diploma secundário. depois de insinuar mais ou menos a mesma coisa. Gostaria de trabalhar. mas os terrores finais . tinha aj jpalificaçéesnecessária s.e tudo leva crer que você terá de cursar a escola secundária para conseguir qualquer emprego. prom eteu. e o administrador que cuidava das questões das pacie ntes em regime de extemato. em silêncio. é claro. ocultar sua condição de cidadã e cativa de Yr. nganon clama por si mesmo".Bem. Quem sabe. Nem para garçonete ou balconista de magaz ine. pelas expectativas que podiam acalentar. Pouco a pouco. grande demais para voar. por mais rudimentar que fosse. Evocaram de novo o velho brado Yri . . ouvindo os sermões do pastor. par ecia um tanto surpreso. completou: . Fri ed. Por mais simpática. pense demoradamente no assunto. em meio a rostos idênticos aos que encontraria ali. em sono. não havia para ela empre go algum. mas não conseguia penetrar um milímetro sequer além daqueles sorrisos polidos e frios c daquelas delicadezas puramente formais. Era um conj unto imenso de prédios que bordejava o outro lado da cidade. Suas recordações de es cola ainda estavam muito vivas na memória. pelas fagulhas que so bem das fogueiras em direção ao céu. estudar o problema. Recordou-se das lut as que travara no íntimo. eram de quase quatro ano s. Precisava ampliar o seu campo de experiências.Conversei com várias pessoas . suportando estoicamen te os ferimentos que o levaram à captura. você não estava abrindo os olhos para isso. .os lapsos e ausências. Os psiquiatras eram 254 todos igualmente estranhos na cidade. aco rdando para mais um apelo do mundo. que fazia de Déborah um instrumento e uma cúmplice de sua destruição.ra intrinsecamente dife rente dos outros.algum você renegou esse seu profícuo dom que a maioria das pessoas dariam tudo para possuir.Percebendo o olhar apavorad o dela.disse ele . 28 Déborah levou uma vida pacata nos meses seguintes. serviços que exigiam pouca capacidade intelectual.se. a título pessoal. dimensões e cores.

lingidos por Anterrabae, o Censor, o Coletor e o Poço. Apesar de todas as concessões que fizera aos seus captores, Déborah perdera inteiram ente o ânimo para continuar sustentando aparências. Participe, se engaje, se entregu e a qualquer preço, diziam eles. Mas agora sabia qual era o preço. Numa cidade tão pro vinciana e mesquinha, onde haveria entre ela e seus colegas de turma uma diferença de, pelo menos, três anos de idade, e uma distância incomensurável, sabia perfeitamen te que, na melhor das hipóteses, o mundo se tomaria uma verdadeira terra de ninguém. Mesmo estando abalada a sua sujeição a Yr, ácaba255 ria, inevitavelmente, se alienando do mundo, se refugiando num outro mundo, e tu do recomeçaria de novo. com ou sem Yr, era tarde demais para se juntar novamente a estudantes como esses, tarde demais para bailes de escola, panelinhas, faceiric es e frivolidades de coleguinhas de turma. Fartara-se já do "vocabulário especial" q ue convinha empregar nas relações de engajamento com esse tipo de mundo. - Tenho dezenove anos. . . - declarou para os prédios da escola. - É tarde demais! Afastou-se, tiritando de frio, debaixo da forte ventania que Yr soprava por sob re a distância, ao mesmo tempo real e irreal, que a separava de tudo aquilo. - Não posso voltar aos-meus adoráveis dias de ginasiana - disse pafã~o administrador. - Volibol no pátio, mexericos, festinhas de escola, não dá. - Mas sem o diploma secundário... - Non omnia possumus omnem! - retrucou, lembrando-o de que se tratava de Virgílio. Sabia, no entanto, que ele tinha razão. - Por que então você não prepara uma lista enumerando tudo o que é capaz de fazer? - pro pôs o administrador. Seria puro faz-de-conta, "fazer coisas úteis", nada mais do que enumerar becos sem saída. Mas, que jeito? O que ele queria, na verdade, era livra r-se do "abacaxi". Faria a tal lista. Quem sabe não descobriria alguma preferência, um talento, qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Lá estava o pequenino "Talvez" transformando em calor e ânimo uma ínfima e vulnerável fagulha. Voltou à pensão, foi para o quarto, sentou-se na mesinha, apanhou uma folha de papel e dividiu-a ao meio. Numa das metades anotou CONHECIMENTOS, na outra EMPREGOS P OSSÍVEIS. CONHECIMENTOS 1 andar de bicicleta. 2 saber Hamlet inteirinho de cor. EMPREGOS POSSÍVEIS 1 garota de entregas. 2 - professora particular, para meninos que estejam aprendento Hamlet na escola. 256 3 poder acordar do sono mais pesado em posse de todas as minhas faculdades. 4 - tremendo vocabulário de palavras obscenas. 5 algum grego. 6 algum latim. 7 frieza de cálculo e insensibilidade. 8 artista há dez anos. 9 conhece as componentes da maioria das formas de doença mental, capaz de re presentá-las realisticamente vendo o original. 10 não fuma. 3 guarda-noturno. 4 consultora lingüística. 5 (não é suficiente). 6 professora particular de latim para meninos que o estejam aprendendo na escola. 7 assassina profissional.

8 não cheg.: a ser gênio; não há viabilidade comercial. 9 atriz (perigoso dei íais). 10 degustadora de vinhos. Reescreveu a lista, suprimindo os itens 4, 5, 7 e 9. Doeulhe um bocado ter que a fastar o "assassina profissional". Lembrou-se, porém, que tinha uma péssima coordenação motora, e os assassinos profissionais precisavam ser ágeis e graciosos. Tamanha er a a sua falta de atumai que, seguramente, no momento crucial suas vítimas desabari am para o lado errado. Imaginou a cena: ela, a assassina, tentando se arrastar d ebaixo dos cento e cinqüenta quilos de um lutador profissional. - É. . . - murmurouitem 7, causa perdida. No dia seguinte, levou a lista para o administrador, mas não esperou que ele termi nasse de ler. Até mesmo Anterrabae 257 estava vexado com as qualificações tão medíocres de sua rainha e vítima. O Coletor, com ar es de falso-santo, morria de contentamento. Déborah estava assustada com as opções que o mundo lhe oferecia. As perspectivas que tinha na sua frente eram como o corre dor que percorria naquele momento: uma longa estrada, cuidadosamente pontilhada de portas, de dez em dez passos, só que todas fechadas. - Ei, Srta. Blau - chamaram às suas costas. Era uma das assistentes sociais ("O qu e é agora? Já tenho um quarto, portanto não preciso de uma caçadora de quartos; a não ser que esta venha desfazer o que a outra fez"). - O doutor Oster falou-me a respeit o da senhorita freqüentar a escola secundária. ("Lá vêm eles exigir novos sacrifícios. Pro vavelmente designaram para mim um bom lugar sob as rodas de jaganatas"). A dor p rovocada pelo tumor alastrou-se pelo corpo todo, e sua visão tingiu-se de rubro. - Não sei como não pensei nisso antes - dizia a assistente social. - Há um lugar na ci dade que talvez possa prepará-la. - Preparar-me para quê? - perguntou Déborah. - Para os exames. - Que exames? - Ora, os exames para conseguir o diploma de equivalência ao curso secundário. Como eu dizia, parece ser a solução ideal.. . A mulher olhava-a de um modo esquisito. Déborah quis explicar-lhe que era difícil es cutar através de um borrão vermelho, que suas notícias tinham trazido um grande alívio m as, devido à brusca mudança de pressão - bastava ver a palidez mortal do seu rosto - e stava sentindo o chamado "mal-dosmergulhadores". - Isso significa que não preciso freqüentar o ginásio? - Não, como acabei de dizer, há uma escola particular na cidade. - Posso escolher então? - Acho melhor a senhorita se entrevistar antes com eles e estudar as possibilida des. - Como faço para combinar essa entrevista? - Bem, a senhorita ainda está sob os meus cuidados.. . - Você poderia marcar uma entrevista? Sim, claro. - E depois me conta o que eles disseram? - Hum-hum. Déborah sentou-se e ficou observando a moça se afastar. A dor estava diminuindo, mas o pânico continuava tão intenso quanto antes. Escuta teu coração - sugeriu Anterrabae, despencando ao seu lado. Batia como uma porta sem ferrolho empurrada pelo vento. O que é que está acontecendo? O que é que está acontecendo? - perguntou assustada para Y r. Estava tudo tão real agorinha mesmo! - Enxergava tudo distorcido; suas palavras soavam de uma forma estranhíssima, como se até mesmo o Yri tivesse sido recodificad o. Por quê? Por que está acontecendo isso? A pergunta quebrou o silêncio que reinava sobre a terra. Sentiu que alguém se aproxi mava, talvez o doutor Ogden que' saía do escritório. A audição estava tão distorcida quant o a visão. Esbarrou numa pessoa e imediatamente gritou: - Os sentidos não são discreto s!

- Ela vai ficar violenta? (ou algo no gênero, ouviu um dos vultos perguntar num to m aborrecido) Déborah quis responder que a violência constituía para um vulcão uma lei n atural, mas já não conseguia comunicar absolutamente nada. Flanqueada e sustida por um atropelo indistinto de mãos e vultos, foi conduzida ao elevador metálico dos paci entes e transportada para a Ala D. Começava tudo de novo! Ao recuperar os sentidos, olhou bem para si mesma, de alto baixo, e soltou uma s onora gargalhada. Agora eu sei, seus calendários descendentes e imprevistos. Agora eu sei, Lactamaeo n, oh deus tristonho! Agora eu sei porque Carla e Doris ficaram arrasadas daquel e jeito! - Riu às gargalhadas, um riso áspero e ferino, até ficar completamente rouca. Mais tarde, Quentin Debshansky entrou para tomar o seu pulso. - Oi! - cumpriment ou ele, sem saber se deveria mostrar-s,e alegre ou pesaroso. - O casulo está ajuda ndo? - bom, voltei a ver, a ouvir e á TãTar. - Ela o encarou com firmeza. Você continua sen do meu amigo? - Ora, é claro! - exclamou desconcertado. sentia-se - Então deixe a sua cara em paz, Quentin. Seja espontâneo. Ele relaxou a fisionomia que logo adquiriu uma expressão desapontada.-É que... bem, eu fiquei feliz de saber que você estava lá fora, tocando para a frente. Sentiu uma pontada de angústia ao lembrar-se que dedicava afeição a uma pessoa que era , afinal, louca (ainda que os médicos lhe recomendassem chamá-las doentes mentais ). e podia tomá-la ainda mais louca se dissesse coisas indevidas. Os médicos e todos os manuais que lera aconselhavam-no a não se mostrar muito categórico, não discutir, não e xtemar sentimentos fortes, procurar ser jovial e prestativo. Sabia, no entanto, que estava lidando com um ser humano, um ser humano que era capaz de comover e q ue lhe inspirava uma profunda afeição. Estava feia neste momento, com os cabelos des grenhados, mas quantas vezes não o ridicularizaram também por sua aparência. Além do mai s, já passara por uma derrota semelhante à dela. Sofrerá, uma vez, um acidente que o d eixara estirado na estrada, todo quebrado, ao lado do pai. Quando vieram socorrê-l os, transportaram-no para o hospital enrolado num cobertor, exatamente como ela estava agora. Jamais esquecera aquela viagem. O pior de tudo não foram as dores, s entira-se até orgulhoso delas, mas a horrível sensação de estar sendo moído, reduzido a um a pasta, corpo e alma. O gemer das rodas girando, interrompido por bruscos sacol ejões, transformaram-se num sussurro monótono e atordoante: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . .". A morte do pai causara-lhe uma tristeza imensa, irr eparável. As costelas quebradas tomaram cada ato respiratório um verdadeiro suplício, um chute no rosto da morte. Olhou para Déborah e lembrou-se das rodas girando as s uas idéias: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . ." - era justamente o que ela devia estar sentindo. - Quer um copo d'agua? -- Não, obrigado. Ficaram ali olhando um para o outro constrangidos e envergonhados, ela esperando que o medo e ele que o desapontamento rompessem logo o impasse angustiante. Sub itamente, Déborah se deu conta de que Querrtin Dòbshansky, além de amigo, era um homem , um homem sensual, um homem 260 capaz de despertar nela sentimentos inteiramente novos. Foram duas descobertas s imultâneas: a do seu vazio interior e a do desejo, um desejo feroz, ardente, recal cado durante anos e anos. Furii tinha razão; por mais biruta que fosse, era capaz de sentir, e como! Ergueu os olhos para Quentin que, indeciso junto à porta, procurava alguma coisa r econfortante para dizer antes de sair. - Você tem mais uma hora, tá? - Hum-hum. - Sabendo como devia estar feia, para não lhe ferir os olhos, virou a c abeça para o outro lado e esperou até que ele fechasse a porta. Lactamaeon, o deus negro, com seus olhos azuis e frios, começou a escarnecer dela: O pescador venceu. Colheu na sua rede o peixe que se recusa a morrer e ficar mo rto. Salta, contorce-se, joga-se de encontro às amuradas do barco, procurando dese speradamente voltar ao seu elemento natural. Privado da essência que lhe garante a

do compreensível. Sentou-se no chão. uma agulhada dolorosíssima rep eliu o braço num gesto instintivo. . mas não consegui.As defesas que a impedem de ficar boa e se juntar de vez ao mundo já estão nas últim as barricadas.. deixando amedrontada a acompanhante. e perguntou-lhe intrigada o que estava fazen do ali. mas a dor sempre prevalecia sobre a vontade.Você andou se queimando de novo? . . ao que parece. o desespero de ter que fic ar três anos presa ao silêncio da cidade. apanhou. . seja lá qual for ele". As minhas fugas para o tempo.Porque doeu! .. estou confinada definitivamente neste mundo. o calor foi aumentando. É natural que lutem desesperadamente para salvar o que puderem da d oença. antes mesmo que ele tocasse a pele.ao que parece. Assim és tu para o mundo e para nós também . foi como se Yr dissess lado.bom. correu para o consultório. proclamou alto 261 em Yri: A todas as divindades de todos os mundos.Antes. . o sofrimento é atroz. . Tentou de novo. percebeu que houvera uma mudança importante: lógica. é isso que acontece! Dá uma dor chamada dor de queimadura! Furii franziu o cenho. Deslocou o cigarro em brasa ao longo do braço até encontrar uma região que aind a estava viva.O que que é engraçado? . é? . obrigando-a instintivamente a afastar o braço do ciga rro. Mais que depressa. Re-morra. logo se ntia-sem seguida. Quando chegou a hora de avistar-se com Furii. já estou. . por oposição à anarquia que im lá obedeciam a toda uma série de fórmulas que. sempre havia algum sinal de advertência. Vieram. alegre e ass ustada ao mesmo tempo . . Eu já não sei mais como! O cair da tarde invadia suavemente a enfermaria. o local já queimado o tecido não se ressentiria decidiuqueimar num local novo. As relações se invertera . e deixa as coisas voltarem a ser o que eram. sua recompensa e vitória.exclamou atônita.. . entre Ann e Mary Dewben).. o mundo começaram a mudar.Será que não compreendes! . .Sim? . Falou sobre a sensação que tinha de que tudo e stava sendo decidido à sua revelia.Masaxme íortão repentina. 262 Quando começou a narrar a queda no . com mais intrincadas. Aproximou-o lentamente da pele.algum pre nuncio do que iria acontecer.Ei! Sabe o que acon tece quando a gente brinca com fogo? A gente se queima. -. pois. ao chamuscar os primeiros fios de cabelo. . Como é que eu posso estar melhorando com crises assim tão repentinas e fortes? . aumentand o. Finalmente desistiu. o "mal-dos-mergulhadores" e..começou a chorar. sem nenhum aviso prévio.. . . . . o súbito alívio. e escondendo o levou para seu dormitório (dormia. agora. Ele não quer pensar nos espasmo s mortais do peixe.Puxa. foram se tomando cada vez . . a sensação de absolvição. mas não ousou pedi-la diretamente com medo de que a recusassem. o medo que sentira.Sorriram. predizíveis. você não imagina como eu estou contente! .É que Yr sempre foi o domínio da ava no mundo..perguntou. Seria inút il queimar. mas sempre.Ah. . virou-se para ela com um olhar interrogativo. e examinou o seu braço cheio de cicatrizes.. dissimulada pelas camas.disse Déborah . Déborah contou então a visita à escola.. Furii reparou na acompa nhante que se postara atrás de Déborah. comunico que não haverá mais queim aduras nem fogos. quando os meus vínculos com e: líAgora passaremos para o outro Poço. sobreveio a crise. Déborah reparou que uma auxiliar esquecera o cigarro aceso no cinzeiro.Tentei. . . A ajuda estava ao seu alcance . Isto aflige o pescador. várias vezes. os passos solenes do réu caminhando para o cadaf also.Talvez "ela" soubesse que você precisava de ajuda. . . e irrompeu na sala exclamando: .vida. Quando soube que Déborah tinha voltado para a Ala D. até que. Descreveu o encontro com a assistente soxiaL£as sugestões dela. as vertigens. então.Engraçado.Foi um reflexo! .gritou Déborah.

Anterrabae recorria freqüentemente a essa alusão. sulcado de sombras e r eluzindo de suor e lágrimas.Duas de miscelâniá. ligeiro e reconfortante. . esperando pela sua risada sardônica. . o coração disparando. . As labaredas iluminaram o seu rosto. . .Ele soltou um longo e dolorido suspiro. e e e veio. Oh! exclamouDéborah angustiada.lastimou-se Anterrabae . que algum d . Scomos uma única voz. . enrugar-se. . . pelo visto.Está bem.as coisas podem ser tão claras entre nós duas quanto entr e você e os deuses. quatro são de autocomiseração. . está radiando teus dentes. eu também e stive. três dó que Yr chama "Casca Seca". embora às vezes seja um bocado traiçoeiro.Leve-me com você. mas. Mas quando voltei dessa vez. Agora que recuperei os reflexos e instintos de "pesoa normal". as punições de Yr foram ter ríveis.O que é "Casca Seca"? .. vítima! É verdade que nos últimos tempos só me trazes beleza quando te sentes ameaçado? .. e Anterrabae disse: "Comeste todo o fruto da esperança. sorriu meio a contragosto.Sorriram. . como se quisesse reafirmar que era mesmo uma típica representante do mundo. surpreendentemente.indagou-lhe. Sofra. Queimaduras? Mas o fogo não te queima. endurecer e finalmente ser jogada f ora.e fez com as mãos o gesto de tumulto e renúncia que significava em Yri o mund o.O que serão estas lágrimas? .onde mais encontrarei essa comunhão que há e ntre eu e eles? . também. . Enquanto foste sublime e estiveste fora do alcance do fogo dos homens.mas você só será capaz de a barcar realmente o mundo.Ainda não estou preparada! . são as queimaduras. me virei para ele e jurei que mastigaria aquela casca seca até extrair dela a última gota de alimento. onde mais .Assoou ruidosamente o nariz." Julguei que teria de passar a vida olhando aquela casca envelhecer. Quando você começou a fazer com que eu me importasse pelas coisas. Chamou em silêncio Anterrabae. Agora que as chamas te queimam. Ele tem razão.perguntava Furii. quando compreendi que estava viva.m: quanto maior é a racionalidade do mundo. e todos ficaram tão decepcionados comigo. No entanto.Onde você está? -. .. Jamais conseguirás uma comunhão tão perfeita lá.gritou Déborah.disse Furii com a voz meiga que usava quando queria objetar sem parecer agress iva. reconhecendo as palavras de abertura de fórmula. . quando cheguei aqui no hospital.disse Furii .Quando eu sofro. só que você esquece por vezes qu e sou e sempre fui uma representante do mundo. e esse desinteresse me trazia uma certa paz. .Isso só perfaz oito.sorriu timidamente. . e que a minha substância era idêntica à dos outros. . Sim. .Das dez unidades. um único olhar. e um a de desespero.Estive com Anterrabae. Nunca lhe ocultei as minhas idéias.contemporizou Furii com brandura . Simplesment e não me interessava por nada.Até quando você vai ficar com uma perna lá e outra aqui? . realmente viva. Um dia. e uma aliada sua na luta que está t ravando para ganhar este mundo.Tem pena de mim! Tem pena de mim! Déborah ficou estarrecida. ele se pôs a tremer e a choramingar: . O mundo pode ter lógica. e muitas outras coisas que eu não conh eço. entretanto. queimam a mim também. Vê. só deixaste a casca. Estás sofrendo? . tais como matemática. eu não era uma pessoa infeliz.E o que é que você acha disso? . . e que os deuses não me podem ensinar. . está bem. Oferece desafios. .Está vendo . Era uma confissão séria. menos razões Yr oferece. por que não a cospes fora de uma vez?" . Déborah olhou para ela e. .indagou Furii num tom meigo. mesmo que aparentemente não esteja adiantando m uito. Déborah começou a ficar em pânico. implorei que tivesse piedade de mim. Anterrabae zombou: Essa 264 casca velha. de gozar todas as suas vantagens.. quando renunciar a e sse duplo compromisso.pergun tou-lhe.Não posso parar de mastigar agora. . tu sofres.e seus olhos encheram-se de lágrimas .Bem. . acho que es tou atolada no mundo. .

para avisar aquela assistente social que eu continuo firme na idéia. . permaneceu na Ala B. os pacientes. . L.perguntou. doutôra Fried.símbolos de sanidade e resp onsabilidade . mas logo tcomou fôlego e mergulhou com vontade nos livros. a sombra que projetava nas' calçadas se devia a outras razões além do. REQUISIÇÃO Ala: D Administrador da Ala: Halle. representava uma ponte bem mais rápida e s egura entre o "Nunca" e o "Talvez". por exemp lo. os professores conseguiram abrir uma pequena fenda no muro que a enclausurava. Em pouco tempo.00 para as passagens de ônibus suburbano (assistente social e requerente) 265 4 vales para ônibus urbano (assistente social e requerente) Requisitar itens espec ificados acima na pensão onde habita s paciente.o homem da portaria cumprimentava-a gentilmente: .Bem. 1 par de meias. depois de melhorar o suficiente para trabalha r e viver com suas próprias chaves no bolso. "Se ao menos eu pudesse explicar a ela. 266 29 O problema do diploma secundário resolveu-se miraculosamente: bastava provar ao Co nselho Universitário que a candidata conhecia as matérias do curso secundário para obt er um-certificado de equivalência que a isentaria de cursar os três anos de escola. Com eçou a entender porque Doris Rivera. Déborah Especificações: Data: 5 set.Não diga. tomava uma xícara de café (autorizada pelos médicos) e ia para a escola. .ia ainda lhe poderia custar caro. Na segunda semana. uma viagem perigosamente hipnótica. 1 vestido apropriado para uso na cidade. quando provou que realmente estava disposta a freqüen tar as aulas. que a prepararra-paTa òTexamês e que. O orgulho e a obstinação deram-lhe a força necessária para enfrentar as qua tro horas diárias de viagens. Durante o primeiro mês. estão furiosos comigo. voltou para a p ensão. Algo de especial? . L. . revigoravam a sua força de vontade. a enfermeira da noite por sua própria conta acrescentou torradas e u m suco de frutas ao café da manhã. 1 tubo de batom. que demonstrava m um certo respeito por ela. Data: 3 set. estarei pronta para começar quando quiserem. Essas concessões eram a pr ova de que tinha conquistado um prestígio considerável. 1 par de sapatos."bom dia". Hora: 8:30 Dr. No mês seguínte. Halle. No início. ou até mesmo "bom proveito!". Essas e outras pequenas atitudes. os funcionários do hospital limitavam-se a cumprir o que os regulamentos mandavam. pôr do sol. e a equipe médica. fora tão econômica em suas explicações à audiê ." . Paciente: Blàu. Mas hoje vou falar cona o doutor Halle. H. foi muito difícil. é claro.Não. Estava desabituada ao estudo e extremamente insegura. . e só ia ao hospital para o jantar e para as sessões côm a. meio desaponta da. Assinado: H. Se o pes soal daquela escola que ela me mencionou não fizer objeções. 27 grampos de cabelo 1 casaco. Exceto em casos excepcionais. e as dificuldades do estudo. Matriculou-se na Escola Tutorial e Terapêutica. Cr$ 80. embora distasse duas horas do hospital. Desde entã . Acordava an tes de" clarear o dia.'Co mo explicar a uma pessoa que nasceu e cresceu no deserto que há terras ricas e férte is a tão pouca distância?" .pensou Furii com seus botões. chegava de manhã ao portão com seus livros escolares .Como vão as coisas na ala? . Quando.

pesos e propulsão. até então concentradíssima na e scaramuça. . Não me diga que está de volta! . mas continua muda.. No ônibus.Sim. é verdade? .Não. sim.Tchau. Mande um "Alô" por mim. retesou os músculos e a luta recomeçou. Ni nguém sabe. . era um mistério.e as duas trocaram um sorriso cúmplice. . . Déborah.Como está o pessoal? . uma identificação plena de idéias e de sentimentos. arremess adora de camas. na D. O quadro era ao mesmo tempo hilariante e comovente. quantas seriam livres algum dia? Durante seus três anos de internam ento. entrecortados de obscenidades. . Das que partiram. A Srta. Coral passeou um olhar apologético ao seu redor como se fossem todos um únic o e grande inconveniente. com o qual nada tinha a ver.Não. sabia? .Bem. Era difícil cc ciliar a dor que via estampada de forma nítida no rosto de sua amável professora com a imagem de arremessadora de camas aficcionada por Catulo. Um dia.Altos e baixos. Srta. . . ela enfrentava cinco vigorosos atendentes sem arredar um pé. Déborah ia pensando nela. isso era muito mais do que uma aula de Latim. gênio na arte das alavancas. A velha ber rando. Déborah também vira a sua som267 bra estender-se alguns fios de cabelo a mais. . o ônibus vai sair a qualquer momento. A velha endureceu os olhos. conseguido escapar da Ala D. . Enquanto as duas conversavam amigave lmente. . Déborah prosseguiu caminho. Coral. Jogue alguma coisa na cabeça dela e sej a bem rude para que ela saiba que fui eu. 268 . graças a um imenso esforço e. entrara em ação de novo! Como é que tinha.pergu ntou. . não. Os olhos penetrantes da velha estremeceram. Coral. Quando Déborah viu o objeto daquela c uriosidade toda. voltando de uma sessão exaustiva com Furii.Ah. muitas ficaram.Não. Lee Miller vai ser transferida para outro hos pital. Helene está conosco de no vo. muitas caras novas vieram e partiram. . pensando em todos os canos i ndiscretos de água fria que corriam pelo hospital. . só a muito custo conseguiu conter o riso. poesias de Horácio que iam c air no solo inculto e tenebroso de Déborah.a ávida e aterrorizada de pacientes na Ala D.. Rodeada pela multidão . Tinham conseguido estabelecer entre si uma coisa que era mu ito rara naquela doença.É.respondeu sem muita convicção. . através da espessa porta de um quarto de reclusão. voltou-se sorridente: . dirigindo um "Oi. então. Dessa vez foi mais fácil. para as doentes cujas esperanças ali definhavam.Quer que eu lhe traga algo de lá de fora? Conheci-a o suficiente para saber que jamais pediria.Como vai Carla? Você ainda a vê? . o fato de ela ter saído a transformava numa figura legendária. Srta. . é verdade que o Dobsha nsky se casou com uma enfermeira de uma das alas masculinas? . para não prejudicar o estágio dela.Ouvi dizer que foi passar os feriados de Natal em casa. reparou que faziam movimentos extremamente lento s como se estivessem nadando debaixo d'agua.Oi. . . Coral. os contendores guardavam posições de combate.. . Coral".Tenho que ir agora. embora c ontinuasse tolhida pelos altos muros do hospital. Resmunga va baixinho uns sons sibilantes.Você está bem? .. Sylvia parece um pouco melhor. não preciso de nada. ela conseguiu aquele emprego que queria.Estou. quando muito. A Srta. Ao se aproximar. parecia um motor . mais ou menos a mesma coisa.. . sabendo que perguntar mais seria uma intromissão. Ei. chegou a ser quase divertido. be .Ah. . insinuaria a lguma coisa em código. A Srta. do modo mais engenh oso possível: simplesmente fazendo com que lutassem uns contra os outros.. . não sabia não. muito mais para os a uxiliares do que para ela propriamente.Déborah a encarou firme.perguntou Déborah. Mas o casamento é segredo. São as minhas sessões de terapia. . prontos para recomeçar a luta. Quantos mortos ressuscitariam? De todas as mulh eres da Ala D. Déborah avistou uma multidão de pe ssoas no saguão. uma estagiária. . tchau Déborah.

na igreja. Aquela noite. e isso a enchia de contentamento. as matérias iam se acumulando em pilhas e pilhas de cadern os de anotação. nem mais nem menos! Dificilmente uma chuva de estrelas . para o seu quarto à tarde é que o mundo machucav a. Sentia-se à vontade com os prof essores. esta é a verdade. Que dança? A Grande Dança. . Déborah convidou a companheira que dividia consigo o mesm o livro de hinos para tomarem uma soda juntas.perguntou-lho Idat em Yri . sem precisar ostentar precoci dade para ninguém. um a um. O fato de estar freqüentando uma escola p ara crianças com problemas de leitura e defeitos de fala não lhe trazia problemas. estudando sozinha. Nós vamos Dançar. Se a sanidade expressava-se em metros e horas. como se algum dia viesse a pesar no mundo tanto quanto eles pesavam nos s js braços. copiaram uma por uma as antiquíssimas palavras: "Tu Não Ês o Os Outros".retrucou Idat friamente. Nunca deu provas de ins anidade em sala de aula! Não é nenhum gênio em matemática.m uns três quartos tinham ido para outros hospitais. por mais que soubesse que aparentava ser melhor do que realmente era. o terceiro. seus olhos de pária observavam-no fascinados. queimando as pestanas. Re dobraria os esforços esta noite com os livros. Esteja ou não doente. Quantas estavam re almente A fora. uma imitação grosseira de colegial. Inesperadamente. Aqueles volumoso s manuais lhe davam um certo orgulho. Algumas progrediram o suficie nte para viver uma espécie de meia-vida em regime de externato. Ela é pontual e obediente. um violino. picaram a folha de papel e atiraram os pedaços ao vento. em Yri e em inglês. Vestia-se igu al a elas. o segundo. Se tu nos deixares. Claro que não! . Só quando voltava .Dificilmente um corvo de prata. a Anterrabae que é teu amigo. Em seguida. Tua velha realidade. E quem vai participar? Você também. Começou a gagu ejar. meninas e ncantadoras. disseram para Déborah.por causa das imagens e xcessivamente reluzentes). com uma cara tão transtomada que Déborah teve medo de as pessoas julgarem que . inteirinh a.Trago véus que me d issimulam e me tomam misteriosa: Gratifico.perguntou Déborah. Vocês vão aderir ao Coletor? Vocês também? . a Lactamaeon que te ama. um t ambor e o quarto um tamborim. mas trabalha duro para aprend er. os personagens do Coletor começaram a aparecer. . Não sou igual a este mundo que vês aí? . você é uma das dançarinas. o aprendizado media-s e nos quilos de livros que carregava diariamente para a escola. Comparece às aulas com os lápis "0 " V apontados. (Era uma metáfora Yri equivalente a adulação . com quem rirás? Quem te deixará à vontade? Onde mais encontrarás uma luz como esta? Aconteceu então uma coisa estranhíssima: as imagens de seus professores de escola. Aí está. e sem precisar ficar preocupada com estar entravando o estudo d os outros. e xceto o de ter que se sentar em mesinhas minúsculas. a pareceram em Yr para falar com Idat. Déborah espreitava-as de longe: aquele era um mun do onde ela tinha fracassado. compreende? Os professores e o Coletor puseram-se a anotar numa folha de papel. e. O ônibus ia lotado de jovens e ruidosas estudantes fazendo algazarra. faceiras. o uniforme certinho. e no entanto continuava sendo pária.disse o de matemática a Idat . risonhas. O primeiro trazia um pistão. a fórmula da separação. A menina ficou lívida. Onde vai ser? Nos cinco Continentes.respondeu o professor de inglês. ao Mundo Intermediário. realmente vivas e livres? Podia-se contá-las pelos dedos! Ela estremeceu. Soü bela. Nós scomos contra essas suas criatur as! Escute bem . com o passar dos meses. a mim. disse o professor de inglês.essa menina está dando um duro dos diabo s. disse o professor de matemática. Os professores aplaudiam a sua tenacidade e ' resolução.

. .Você tem certeza de que não é alguma atitude sua? . É difícil pensar diferente assim de imediato. você pode superar! Não me diga que você ainda se acha ven enosa? .Como você se sente agora que está livre de todo aquele lixo velho e fedorento? . mas não esqueci o poder que t em.. pelo menos. co invisibilidade e continuou a cantar como se nada hou sobre a Compaixão. . Essa última imagem trouxe-lhe à mente uma lembrança que contou dist raidamente. a Puni ção. freqüentamos as mesmas aulas à noite. as partes bel as e sábias de Yr. o Censor.i ndagou Furii..E quanto aos meus personagens bons? Não devo mais pensar em Lactamaeon.e não morresse nas minhas mãos.pediu Déborah baixinho. ao mesmo tempo em que invejava a pureza das outras p essoas.Também.perguntou Furii com um ar divertido.. Anterrabae rugiu furioso. implorando aos céus para que continuasse exatament e como estava . só até aí. Dependendo do que você mesma f izer deste comprometimento. Ela precisou sair. as dele eram chispas incandescentes. . . . .E à sua amiga Carla? . travestidas em Defensoras ntra a herege. Lactamaeon. Imaginou aquelas piedosas senhor de Cristo. perguntando mais do que afirmando. avançando.. a quem você nunca assassinou ? .Confie em mim. Idat e todas as outras divinda des dos inúmeros reinos existentes em 272 Yr também teriam que ir para o lixo junto com o Poço. já que não confia na de ninguém.Déborah. e eles se recu sam a olhar para mim. .Não.ela tivesse dito alguma coisa as. . Retcomou à sua vesse acontecido. coh fiando na minha palavra...Conte-me um desses momentos felizes. Isso..Na cidade? Cantamos juntos. . Lactamaeon chorava sa ngue tal como Édipo. Isso seria tão importante para fortalecer o comp romisso! Déborah viu Anterrabae caindo rápido.E eu amo você também. expirando . aí sim. Sempre fui mui cautelosa com o meu nganon.E se eu fosse apenas Aparências. Existem momentos felizes.Tem que ir tudo? Amontoa-se e joga-se tudo fora? . . Devo esquecê-lo também.Mas você tem amigos. desprendendo fagulhas e..Me diga uma coisa. só o suficiente para sentir que um cigarro queima. como numa cruzada medieval.E por que haveria de morrer nas suas mãos? . entregar-se completamente. . Anterrabae.Ora. eles eram secretos! Você já conhece as leis que proibem misturar os mundos. . . .. você ama os seus pais? E a sua irmã..E começou a choramingar. .O mundo é vasto e tem espaço de sobra para o discemimento. enquanto as lágrimas de Idat eram diamantes. só que é difícil livrar-se de antigas convicções assim de uma só vez. .Bem. . o Coletor. sempre a amei.disse Furii.Amo. agora que ela se tcomou uma mulher de vez e está tão linda? Devo esquecê-los? E o Yri que é capaz de expressar cert as sensações. junto com os flagelos do passado? .Juro que é verdade. poderá decidir se é ou não uma barganha decente. a essa altura dos acontecimentos não pode haver barganha decente. mas são poucos. a proprietária da pensão ficou ontem à noite cuidando da neta.inspirando... Adolescência de novo? . com as do mundo. certas realidades como nenhuma outra língua. sua velha lixeira mental! . viva só um oitavo de centímetro da superfície para de ntro. tão negro em seu negro ginete? Nem em Anterrabae? Nem em Idat. Era um hino 271 indecente à menina. você toma conta do nenê até eu voltar?" Aí ela saiu e me deixou ali sozinha. mas talvez tenha chegado a hora de misturar as partes boas. você co mpreende? Você tem que primeiro assumir o mundo. Por que você nunca desenh ou Anterrabae ou qualquer um dos deuses? . veio ao meu quarto e simplesmente pediu: "Déborah . e nfim. um bebê de dois me ses de idade. Excetuando-se uma ou duas amigas no hospital. Fiquei co m aquela criança uma hora e meia. Duvido muito que mudem..Sim. . .

Caso o candidato não cumpra esses dois requisitos. Queria. entremeada de insuportáveis crises de tédio. . Haviam combinado na escola que ela continuaria seus estudos até a divulgação dos resul tados. tentaria o próximo exame. debr uçados sobre as provas como blocos de granito.-Talvez eu comece mesmo a destampar Yr. .. Foi ver todos os filmes que passaram na cidade. às 09:00 hs. um primeiro calafrio de medo lhe subiu pela espinha. DEPARTAMENTO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO Os Exames de Equivalência para a Escola Secundária serão realizados no dia 10 de maio na sede do Tribunal do Condado. De início. recebeu finalmente uma carta do Conselho Universitário Estadual. para trans mitir aos pais aquela segunda boa notícia. como também porque. onde encontr ou outros candidatos que se aventuravam também a tragar de um só gole o curso secundár io. Voltou para seu quarto. . Estava s urpresa de que o momento tivesse chegado tão cedo. Ficou horas decifrando nuvens no céu. ainda eram viáveis. tomando a precaução de verificar duas vezes se anotara o endereço corret amente. Déborah pôs sua prova junto com a dos outros e saiu da sala. Po dia se considerar num nível educacional equivalente ao dos estudantes que haviam f reqüentado a escola secundária. 274 um grupo de operários de mãos calosas.Primeiro eu teria que ver o desenho. mas logo a voz sensata de McPherson cochichou-lhe no ouvido: "Lembre-se que você não é dona de todo o sofrimento no mundo!" Reconheceu humildemente que eles. sentou-se diante da mesa e tentou rir daquele medo besta . No final .Se eu desenhasse Lactamaeon sob a forma de falcão 273 coz num para você se dia ou de cavaleiro. I ndicaram-lhe uma sala poeirenta. também tinham deixado escapar alguns com passos no ritmo da vida. embora não fossem prisioneiros nem insanos. será automaticamen te desqualificado. não acontece mais. Quando o tempo e xpirou. As duas semanas anteriores aos exames foram consumidas numa grande expectativa. Telefonou para casa. Preencheu imediatamente os form ulários anexos. Já era tarde demais para fugir ao compromisso que assumira com o mundo.Está bem . Déborah a rmou-se de coragem e de sangue-frio e foi para o Tribunal! Era um prédio antigo. comunicar-lhes que s uas esperanças. acompanhou o desabrochar dos botões nas árvores frutíferas que havia em frente à Igreja Metodista. você o encararia como uma manifestação de minha velha maluquice ou co mo uma "contribuição"? . Suas notas tomavam-na uma candidata bastante promiss ora a qualquer faculdade. sem perda de tempo colocá-los no correio. e foi. estourando de orgulho. por mais que tivessem perigado. d espreocupada. Não foi de alguns sintomas que nós demos tanto duro! . ficou surpresa em encontrá-l os ali. Chamou-o de s ua "infância". incapaz de aval iar qual fora o seu desempenho. Quando a carta escorregou pela ranhura da caixa de correio.disse Déborah. A esperança acabou subjugando de vez o medo. apesar de proteladas por tanto tem po. caso fosse rep ada. e recuperavam agora o terreno perdido. junto aos esboços para um desenho de Anterrabae. Sentia uma ansiedade e uma excitação febris. e comparecer ao referido local na terça-feira.Uma vez eu fui à casa de uma senhora e vi sangue escorrendo dos ladrilhos da inha. suando e murmurando palavras desconexas. receosa de que pudesse es quecer ou perdêlos. sobretudo. Quando finalmente chegou o dia. não só para afastá-la das preocupações e do ócio. Déborah! Déborah! Saúde não é simplesmente a ausência de doença. Um mês inteirinho de sossego e preguiça.do mês. Déborah pôs de lado o aviso.Ai. Eu vivia vendo coágulos de sangue nas ruas e as pessoas se transformarem a multidão de micróbios. dia 10 de ma io. Foi um período maravilhoso este. Estudou com calma. Os candidatos aos exames deverão preencher e envia r os formulários anexos. com paredes revestidas de lambris.Ela sentia-secomo se estivesse nte de uma cega a quem procurava explicar a cor da luz. A briu-a excitadíssima e quase caiu para trás quando soube que tinha sido aprovada. . Isso. Apaixonou-se por al amos. e acabou conhecendo Tarzan no mínimo tão bem quanto Hamlet. pelo menos.

mesmo quando estava doent e. juntou-se a ele uma outra figura que Déborah se . Tinha dezenove anos e um diploma do curso secundário. Lactamaeon uivando como um cão. Carla já te disse isso há muito tempo . e. Ha . . Fui às aulas todos os dias. se jamais me farão carinhos assi m. "Boa tarde! Boa noite!" .mas nem o sol. robustos e saudáveis. fez o que todo o mundo faz com a metade do seu esforço. . Aguardavam-na todos no cemitério: Anterrabae cintilando no escuro. Sinto-m e um pouco orgulhosa. e começou a margear o imenso campo de futebol. estudar. Déborah repôs o telefone no gancho.. envoltas numa película dourada de sol. o ar contin uava carregado de fragrâncias primaveris . extremamente ma275 goada com a reação do pai.resmungou Lactamaeon empoleirado na cerca. Fora-lhe necessário reunir todas as suas aptidões para chegar até onde eles estavam rindo e brincando. . Agora já não tinha mais graça. toda a sua determinação. suplicante. . caminhavam d uas pessoas. Acabaria consumindo toda s as suas forças apenas para manter-se viva. avistar o que havia de extraordinariamente belo do lado de lá do muro. . Eram jovens.. se fosse aprovada. não cometi um deslize. espere só qise eu vou chamar a família toda! Vão fic ar tão orgulhosos! . Podia agora. As caras das mulheres do coro da igreja pareciam desafiá-la do estacionamento dos reboques. de arbustos flore scentes. resistir. e seus pais. pontual.de seiva e de flores. Ha! As mãos dele nunca acariciarão teu rosto.Não faltei uma vez. De que adianta lutar. Uma moça esbelta e graciosa. de mãos dadas com um rapaz. e só descobriu que o mur o continuava ali e continuari-a sempre. .di sse. sua desajeitada. se jamais andarei de mãos dadas com alguém. de uma em uma. .. e ainda estava dois anos atrasada.sussurrou para si mesma em Yri. quando muito. Saiu cabisbaixa para a rua. Os raios do sol continuavam aquecendo a sala. Atravessou os pátios da escola.-dá tudo no mesmo: "bom dia" e "boa noite" e nada mais. . Prometera a si mesma que. Consumi todas as minhas esperanças cantando e costurando com vocês. acariciava os cabelos ou o rosto da moça 276 Déborah falava sozinha e em voz alta.. então.Nunca terei isso.. comparado a ela.Que maravilha! É maravilhoso! Oh. iria olhar pelas janelas. .Estou muito orgulhoso . Estudos. passou diante do estacionamento de carros-reboque.Sua voz parecia que ia desfalecer. Quentin há de te oferecer água. . nunca. . emprego. . entretanto. muito bem. Ha. Porque ele reagira de uma forma deplorável? Havia empenhado naqueles exames todas as suas energias. . trabalhar. Na outra extremidade do campo. Ia só para cumprir a ve lha promessa. Sentiu-se de repente extremamente cansada e sentou-se de encontro à tela que cercava os fundos do campo.. Déborah. Mas eu quis! . a essa altura.berrou Déborah. do brando-se de rir. procurando a trajetória ígnea. .por um tubo de alimentação. Pensam que foi fácil . . . vamos.repetiam incansavelmente sem nunca pronunci ar o seu nome. Era quase noite. nu nca. Os meninos corriam no gramado perseguindo as sombras sinuosas projetadas pelo pôr do sol. Paravam de vez em quando e trocavam palavras que sem pre terminavam em risos ele. como os loucos fazem: . Encostou a cabeça na gra de. Déborah levantou-se e foi caminhando vagarosamente em direção à cidade. e não são capazes se quer de lembrar meu nome..Mas as gargalhadas estrepitosas afogaram suas palavr as. As mãos de ninguém. menina preguiçosa! Luta. no final das contas. estariam alardeando a boa nova pela cidade de Chicag o inteira. de terra quente e úmida . . vindo em sua direção. nem as fragrâncias eram mais as me smas. onde ainda treinavam quatro meninos. Jacob. toomou a estrada que circundava o velho cemitéri o católico. . de ninguém. . mas a respo sta foi também uma sonora gargalhada carregada de desprezo.Ótimo. . num gesto amoroso. subitamente. o movimento lá dentro. mostrou-se quase frio: . nunca. bem arrumada. toda a sua força de vontade.Esther ficou felicíssima. . o Coletor provocando-a com zombarias Dá duro. sentindo um imenso desamparo. Contornavam vagarosamente o gramado. chamou Anterrabae.zombou Anterrabae . caminhando em direção à e scola. Surgiu diante dela. . A jaqueta dele pendia negligentemente dos ombros magros da menina.

Folheara mil vezes aquelas gravuras. tolerando o insolente músculo que persistia em bombear no peito.. divertindo-se com o esforço que ele fazi a para não deixar transparecer a surpresa. . escutando a zoeira ensurdecedora. 278 . embora já estivesse fora de moda. Alguém aí.. De repente.a agressão de Helene. nos quais via se . E stava aterrorizada. em segu ida . Déborah caminhava com os olhos vazios. Portanto. e amizade. Déborah sentou-se e olhou para a substância morna e nauseante q ue havia no prato. . Sentia-se culpado de não ter presenciad o o incidente. Ela ficou preocupada por causa da sua escola e trouxe seus livro s e algumas roupas. onde cantava todas as quartas-feiras e domingos. p referisse não ter de arcar com o peso esmagador das virtudes de tanta gente. Déborah começou a lutar e a se contorcer sob as amarras. nada. e que. . A origem d e Anterrabae. Voz. Dobshansky entrou de novo para examiná-la. como se nada tivesse acontecido. por favor.. Depois de algum tempo. . Dessa vez. embora. Helene a irritava por amargura. Coral devia estar em reclusão de novo. Divisou os dois postes de luz que ladeavam o po rtão de entrada. Emergiu de volta para o eterno recomeçar. já estavam distribuindo as bandejas para o jantar. e ra presença obrigatória em qualquer lar culto: "Paradise Lost" de Milton. impassível. Srta. no íntimo. Blau? E. Srta. . ela estava sentada de novo. Quando ele e Cleary soltaram-na. "Macho e fêmea. Encontrou as mesmas fisionomias inexpressivas ou hostis.Ela é uma excelente pessoa . Agora. embora estivesse sentado junto a elas. Ao pass ar pela igreja. Es tava quase chegando ao hospital. Um segund o depois. num livro. muito tempo atrás. pôs o roupão andrajoso do hospital e saiu a passos lentos para a ala. . gravara a tempestuosidade e a veemência das imagens. ja mais! Perseguiram-na aos gritos pela estrada. as dimensões 277 precisas.Três toques de cigarra: emergência. O Poço. Tu não vais criar nada. o tumulto ia crescendo. socorro!" .Está se sentindo bem agora? . Mary Dowben murmurava a um canto fórmulas incompreensíveis. Déborah caminhava como que por instinto. pelas ruas sombrias e desertas da cidade . O auxiliar repreendeu-as sem muita convicção. . abra-a.Tive que comunicar à proprietária de seu quarto que você não ia dormir lá esta noite e q ue estava aqui.Vais te deitar em prados floridos. A Srta. nem mesmo Anterrabae era seu! Enquanto isso. a sonhadora de reinos misteriosos surrupiava furtivamente o soberbo ar canjo para transformá-lo no primeiro habitante de seu mundo particular.. anos atrás. querendo exaurir suas forças e mor rer de uma vez. A crise tinha durado qua se vinte e quatro horas. Estava bastante aflita. Déborah passou a mão pelos cab elos gosmentos e lembrou-se de uma outra cena idêntica . Anoi tecia. Passeou os olhos pelos rostos que a encaravam com hostilidade. Por ainda estar viva. que passaram de raspão pela cabeça de Déborah. os deuses começar am a imitar as respostas de seu pai ao telefone. Felic itou Quentin por seu casamento "secreto". criou-os o Senhor".Está se sentindo bem. Enquanto o artist a que havia nela estudava os anjos gravados em água-forte e as linhas bem esculpid as. Os manuais haviam vencido. A exaustão veio.confessou Déborah com sinceridade. A visão desvanecia-se. O Coletor zombava do sorriso de Quentin e dos meninos do campo de futebol. o deus flamejante que caía perpetuamente era nada mais nada menos qu e o Satã de Milton. . Breve despencaria no Poço.lembrava de já ter visto há muito. Soltou um longo suspiro. trazia uma fis ionomia cuidadosamente depurada de todo e qualquer sentimento que não fosse aquela amabilidade neutra de hospital.Acho que sim.Como vai. mas a vida continuou pulsando inflexível. Blau? "A última saída: fazer algum sinal". invectivava o Co letor . nunca! Estudar e trabalhar. Mary ergueu-se e atirou longe a xícara de café e o pires. Era um livro cheio de gravuras que havia na biblioteca do avô. in veja. Alguém pôs-se a gritar em Yr mas ainda pôde ouvir o outro som . "Subir as escadas até a port a.. refazendo-se ainda do terror.. quando iam visitar o avô. s em o saber.

"OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS AFETARAM A EXPANSÃO OCIDENTAL DE MUITAS MANEIRAS". AC. dona de um p resente e de um futuro viável.Será que vocês não vêem que eu estou sofrendo. mas ainda não sei co mo. traçara os contornos finais da opção. uma newtoniana. Lembra-te de Hitler e de Hiroshima. Ela abriu o primeiro. sua persistência. Yr finalmente í 279 estava forçando-a a optar. sussurrou Anterrabae. Ao consentir em se tornar um ser no mundo. Compreendeu também a razão pela qual jamais poderia explicar a essas pessoas a natureza de seus fracassos e da. Meu compromisso com o mundo será definitivo. pois sua so brevivência dependia justamente da supressão desses significados. Não importa. . Adeus. então. Furii afirma que será uma contribuição. . Jamais chegariam a distinguir com clareza a dimensão dos significados. Pássaro-um? Não posso mais fazer isso. Estaremos esperando até que nos chames de novo.Agora é pra valer . . Constantina: . ESTRADA DE FERRO E TELÉGRAFO. seus porcos malditos" "A INVENÇÃO DA DINAMITE TOrnOU POSSÍVEL A LIGAÇÃO DE COSTA A COSTA PELAS ESTRADAS DE FERRO ". Déborah pediu que trouxessem os seus livro s. . Quando retiraram as bandejas do jantar. Não. "UMA LINHA QUE DIVIDE EM DUAS PARTES IGUAIS UM ÂNGULO DE 80 GRAUS FORMA DOIS ÂNGULOS QUE TOTALIZAM 80 GRAUS". não vou chamá-los.murmurou Déborah. da dor e dos atestados de sanidade que te esperam. ao retinir a sineta. Lembra-te da tua própria infância. Adeus Yr. O auxiliar entregou-os com reverência. cambaleando como uma bêbada. Chamem Ellis. Anterrabae. Era chegada a hora de firmar o verdadeiro compromisso. de pé novamente para mais um "ro und". ASSEGURARAM O CONTATO INDISPENSÁVEL À MODErnA SOCIEDADE INDUSTRIAL. apenas porque faltava amadurecer sua própria capacidade de discermir a diferença entre os problemas e os s intomas. "UM TRIÂNGULO EQUÍLÁTERO É AQUELE CUJOS ÂNGULOS OPOSTOS." . terminaria por conduzi-la a um lugar onde podia enfrentar em segurança o momento definitivo da opção. e ainda assim. que constituía a única fonte de suas defesas e de sua força . O incidente da xícar a. Um símbolo vivo de esperança e fracasso.Jenna vai ter uma crise de novo. Mary: . "E AMBOS. como se entregasse símbolos sagrados. Adeus. Lembra-te dos rostos hostis. 280 vou. eu sou como os outros. 281 . o hospital poderia nos vender como anticorpos. Compreendeu. Rei Abdicado da Inglaterra! . .refletirem sentimentos contraditórios. Dis simulara-a na agonia e no medo. Talvez então. a imagem do terror que elas se ntiam ante a possibilidade da recuperação. e seria tão importante que elas entendessem! Sob certos aspectos. e do desejo que sentiste ao ver aquele casal de mãos dadas. levando surra atrás de surra. . É melhor providenciar logo um cas ulo. . . vou entregar-me ao mundo.Tu não és como os outros. Terei que aprender. .Não..Eu sou a primeira esposa secreta de Eduardo VIII. . AB E BC SÃO IGUAIS ENTRE SI". é selvagem. a realidade era um domínio tão pessoal quanto Yr. portanto. . o medo e o ódio de Mary permitiram a Déborah compreender que a crise começara no mo mento em que pôs o telefone no gancho depois de comunicar aos pais a notícia triunfa l.Sua puta nojenta! Me solte! gritaram do dormitório. Mas o mundo não tem leis. nas terríveis quedas no Poço. Pássaro-um. Não nos pouparás como escudo contra a tua casca seca. Ainda assim eu prefiro o mundo. vou de qualquer jeito.Será que a insanidade é contagiosa? Se fosse. que se tornara uma nova D oris Rivera. a doença.

SOBRE OS SONHOS Livro 4 .TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE Livro 3 . 196 .CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE E CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA DO AMOR Livro 2 .OS CASOS CLÍNICOS Livro 6 .MOISÉS E O MONOTEÍSMO (em preparo) .0 FUTURO DE UMA ILUSÃO (em preparo) Livro 10 .Tel.A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALITICO Livro 7 .Impressão: José Fagundes do Amaral & Cia Ltda Rua do Livramento. 253-6093 PEQUENA COLEÇÃO DAS OBRAS DE FREUD Livro 1 .ESBOÇO DE PSICANÁLISE Livro 8 .TOTEM E TABU Livro 5 .0 MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO Livro 9 .

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