NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Hannah Green Romance e psicanálise - 2ª EDIÇÃO Direção: Jayme Salomão - IMAGO EDITORA

LTDA. Rio de Janeiro Volume 1 - A HORA DE CINQÜENTA MINUTOS Uma coletânea de Contos Psicanalíticos Verídicos de Robert Lindner Volume 2 - A VIDA ÍNTIMA DE UMA ESQUIZOFRÊNICA Operalores e Coisas de Bárbara Brien Volume 3 - O HOMEM DOS DADOS de Luke Rhinehart Volume 4 - O FILHO DO AMOR Um auto-retrato de Mary Hanes Volume 5 - NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS de Hannah Green NUNCA LHE PROMETI UM JARDIM DE ROSAS Av. Paulista, n° 2518 - Térreo Telefone: (0xx11) 3258-8599 emporiopaulista@terra.com.br Título original I NEVER PROMISED VOU A ROSE GARDEN. Traduzido da edição publicada nos E.U.A. em 1964 por The New American Library, Inc., Nova Yorque. Copyright (c) 19 64 by Hannah Green Editoração Coordenador: Pedro Paulo de Sena Madureira Tradução: Jayme Benchimol Revisão tipográfica: Maria Beatriz Nascimento Gomes Capa: Renato Sérgio Brando - 1974 Direitos para a língua portuguesa adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA., Av. N. S. de Copacabana 330 10º andar - Tel.: 255-2715, R io de Janeiro, que se reserva a propriedade desta tradução. Impresso no Brasil Printed in Brazil PARA MINHAS MÃES O carro percorria uma bela região de campos e fazendas, em pleno outono, atravessa ndo curiosos e antigos vilarejos cujas árvores de troncos retorcidos davam, com su as tonalidades vivas, um colorido pitoresco às ruas. Seus ocupantes falavam pouco. Dos três, o pai parecia o mais cansado. Vez por outra, interrompia o pesado silênci o com migalhas de conversa, coisas casuais, sem importância, que mesmo a ele exasp eravam. Voltou-se, uma vez, para o rosto da menina refletido no espelho retrovis or e perguntou: - Você sabe, não sabe, que eu não passava de um tolo quando me casei, um tolo consumado? Não tinha a menor noção de como educar uma criança, do que significav a ser um pai. Defendia-se, e sua defesa também era em parte uma agressão. A menina c ontinuou calada. A mãe sugeriu então que parassem para tomar um café e, num esforço dese sperado para melhorar o clima de tensão, disse que parecia realmente que estavam f azendo uma viagem de férias, em pleno outono, com sua filha adorável, e numa região ma ravilhosa. Encontraram um restaurante à beira da estrada e pararam. A menina saltou ligeira, e encaminhou-se para o motel, nos fundos do prédio. Tão logo se afastou do carro, os olhos dos pais se voltaram sobressaltados: - Deixe, ela está bem! - tranqüilizou o pai. - Esperamos ou entramos logo? - perguntou em voz alta a mãe, falando consigo mesma . Dos dois, ela era a mais analítica. Antecipava-se às coisas, planejando tudo minuc iosamente - como agir e o que dizer - enquanto o marido se deixava guiar, não só por comodismo, mas também porque geralmente era ela quem tinha razão. Naquele momento s entia-se confuso e só. Deixou-a entregue a seus planos e especulações, inclusive porqu e era assim que ela se consolava. Ele preferiu se manter em silêncio. - Ficando no carro - dizia ela - estaremos ao alcance dela, caso precise de nós. S e ela sai e não nos vê... Por outro lado, devemos mostrar que confiamos nela. É import ante que sinta que confiamos nela...

Decidiram finalmente entrar no restaurante, procurando aparentar a maior descont ração possível. Sentaram-se numa mesa junto às vidraças, de onde podiam avistá-la dobrando esquina do prédio, vindo em sua direção. Procuravam observála como se fosse uma desconh ecida, filha de alguma outra pessoa a quem tivessem sido apresentados naquele in stante, uma Déborah que não era a deles. Estudaram com atenção o corpo adolescente e des gracioso: julgaram-no bom. O rosto era inteligente e vivo, embora, para dezessei s anos, sua fisionomia ainda fosse excessivamente infantil. Estavam habituados à sua precocidade meio tristonha, mesmo não a reconhecendo no ros to familiar que agora procuravam tratar como estranho. O pai pensou com seus botõe s: "Como é que desconhecidos podem ter certeza? Ela é nossa... sempre foi nossa. Ele s não a conhecem. Trata-se de um erro - só pode ser um erro!" A mãe, por sua vez, disse a si mesma observando a filha: "Minha expressão. .. não deve estar aparentando nada de anormal, nenhuma ruga - uma expressão ideal." E sorriu satisfeita. No fim da tarde, pararam em outra cidadezinha e jantaram no melhor r estaurante, numa atitude de desafio e aventura, pois não estavam vestidos de forma conveniente. Terminado o jantar, foram a um cinema. Déborah parecia contentíssima c om a noitada. Brincaram durante o jantar e durante o filme todo; depois, caminha ndo sob a noite densa da região, conversaram sobre outras viagens, congratulando-s e mutuamente cada vez que recordavam algum detalhe engraçado de outras férias. Encos taram num motel para dormir, e Déborah ficou num quarto só para ela, privilégio cuja i mportância nem mesmo os pais que tanto a amavam podiam avaliar. Já no quarto, sentados frente a frente, Jacob e Esther Blau perscrutavam o íntimo de cada um, perguntando-se por que, agora que estavam a sós, não conseguiam despojar-s e de suas poses, respirar livremente, relaxar, e criar um clima de paz e esponta neidade. No quarto vizinho, separados apenas por uma delgada parede, podiam escu tar a filha trocando de roupa para se deitar. Eram incapazes de se confessar, me smo com os olhos, que passariam a noite em alerta, interrogando cada ruído que não f osse o de sua respiração - qualquer ruído que pudesse 8

significar. . . perigo.- Apenas uma vez, antes de se deitarem para a vigília notur na, Jacob deixou cair a máscara, e sussurrou, com voz áspera, no ouvido da mulher: Por que a estamos mandando embora? - Os médicos acham que ela deve ir - respondeu Esther, também num sussurro, estendid a rigidamente sobre a cama, com os olhos pregados na parede. - Os médicos!. . . - Jacob jamais quisera envolvê-los no problema, mesmo no início. - O lugar é bom - afirmou a mulher, elevando um pouco a voz. - Eles chamam aquilo de hospital psiquiátrico, mas é um lugar, Teca, um lugar onde i mprensam as pessoas. Como pode ser bom para uma menina - quase uma criança! - Deus do Céu, Jacob - exclamou - quanto já nos custou tomar essa decisão? Se não tiverm os confiança nos médicos, a quem vamos pedir conselhos, em quem confiar? O Dr. Liste r diz que é a única forma de ajudá-la agora. Temos que tentar! - insistiu e voltou res olutamente a fixar os olhos na parede. Ele se calou. Rendia-se mais uma vez à mulher, tão ágil no uso das palavras. Deram-se boa noite; fingiam dormir, respirando pesadamente para enganar um ao outro, enqu anto os olhos ardiam vigilantes devassando a escuridão. No quarto vizinho, Déborah deitou-se disposta a dormir. O reino de Yr possuía uma es pécie de zona neutra chamada o Quarto Nível. Só por acaso é que se podia alcançá-la. Fórmul e atos de vontade eram inúteis. No Quarto Nível não havia emoções para afligi-la, nenhum p assado e nenhum futuro contra o qual lutar. Nem memória. Perdia-se a posse de si m esmo. Nada, exceto fatos mortos que sobrevinham espontaneamente quando ela os de sejava, despojados de emoção ou sentimento. Deitada na cama, subiu ao Quarto Nível. O futuro deixou de preocupá-la. As pessoas n o quarto ao lado eram, supostamente, seus pais. Muito bem. Só que agora faziam par te de um mundo fantasmagórico, que pouco a pouco se desvanecia. Ela transitava sem dificuldade para um mundo novo, onde não se conheciam preocupações. Abandonar o mundo antigo eqüivalia a também abandonar os labirintos do reino de Yr, o Coletor de Outros, o Censor, e todos os deuses Yri. Revolveu-se na cama e mergulhou num son

o profundo, sem sonhos, repousante. Reiniciaram a viagem na manhã seguinte. O carro já se afastava do hotel, penetrando no dia luminoso, quando ocorreu a Déborah que talvez aquela viagem pudesse durar p ara sempre, e que a sensação maravilhosa de calma e liberdade que sentia, fosse uma nova dádiva dos deuses e dos habitantes, normalmente tão exigentes, de Yr. Viajaram durante algumas horas, percorrendo uma região mesclada de reflexos, doura dos e castanhos, e as ruas salpicadas de sol dos pequenos vilarejos. Foi então que a mãe perguntou: - Onde é o desvio, Jacob? Em Yr, uma voz clamou das profundezas do Poço: Inocente! Inocente! Num instante desfez-se toda aquela sensação de liberdade. Déborah Blau foi impetuosame nte tragada pelo choque de dois mundos. Houve, como em todas as outras vezes, um dilaceramento silencioso, fantástico. No universo onde se sentira até há pouco radian te, o sol cindiu-se no céu, a terra entrou em erupção, seu corpo foi despedaçado, os den tes e os ossos se fragmentaram em mil pedaços. Enquanto isso, no outro universo, h abitado por fantasmas e sombras, um carro tomava um desvio lateral e penetrava n uma estrada que desembocava num prédio de tijolos vermelhos, muito antigo. Em esti lo vitoriano, cercado de árvores, seu aspecto era bastante decadente. Fachada idea l para um manicômio. Quando o carro parou diante da portaria, Déborah ainda estava a tordoada pelo choque. Foi difícil saltar, e mais ainda subir condignamente as esca das de acesso ao prédio, onde aguardavam os médicos. Havia grades em todas as janela s. Déborah sorriu: "Ótimo! Não poderia ser melhor!" Ao ver as grades, Jacob Blau ficou lívido. Não havia mais como se iludir: aquilo não e ra nem "clínica de repouso" nem "tratamento de convalescência". A verdade impunha-se nua, gélida como o ferro das grades. Esther tentou alcançá-lo em pensamento: - Não devíam os contar com isso? Por que essa surpresa? Enquanto esperavam, Esther Blau procurava todas as formas de se mostrar jovial. Exceto pelas janelas gradeadas, a sala parecia qualquer outra sala de espera, e ela aproveitou para tro10 çar das revistas antiquíssimas que estavam por ali. De repente, ouviram no fundo do corredor o ranger metálico de uma chave na fechadura - pelo som devia ser imensa e Jacob retesouse de novo, sobressaltado, gemendo baixinho: - Não, ela não, nossa D ebbizinha. . . E não percebeu o olhar implacável que cintilou no rosto da filha. O médico percorreu o corredor e, antes de entrar na sala, compôs uma expressão grave. Era um homem corpulento e atarracado, de modos bruscos. Entrou e sentiu logo a a ngústia que pairava no ar, quase palpável. O prédio era antigo, um lugar realmente ass ustador. Sua missão consistia em afastar a menina o mais rápido possível e tranqüilizar suficientemente os pais para que consentissem em deixá-la, convictos de que tinham feito o que era certo. Quantas vezes, naquela mesma sala, pais, maridos ou esposas no último minuto, reje itavam com repugnância a pavorosa realidade da doença. Agarravam o parente, coitado, com seus olhos esgazeados, e o levavam embora de novo. Era medo, ou uma justa i mpressão negativa ou - e nisto seus olhos perscrutaram de novo o casal - aquele grão híbrido de ciúme e ódio que sempre os impedia de interromper a longa sucessão de misérias uma geração após a sua. Procurou mostrar-se compadecido, mas sem leviandade. Pouco de pois, chamou uma enfermeira para conduzir a menina ao interior do hospital. Ela parecia uma vítima em estado de choque; quando a levaram dali, sentiu a dor em que os pais se revolviam. Depois de prometer que ainda se despediriam dela antes de partir, o médico os cond uziu à secretaria para que preenchessem os formulários de praxe. Quando voltou a vê-lo s, após as despedidas, pareciam também em estado de choque. "Que coisa dolorosa ter que se amputar de uma filha", pensou. Jacob Blau não era um homem dado a exames introspectivos, nem tinha o hábito de revo lver o passado para pesar e medir sua configuração. Julgava a esposa, em certos mome ntos, uma mulher excessivamente voraz, moendo e remoendo suas paixões num discurso interminável. Contudo, invejava-a um pouco. Ora, também ele amava a filha, embora n unca tivesse declarado esse amor. Também ele desejava ouvir confidencias 11

tal como no mundo. porque também ele caía etemamente.Que assim seja! . caindo. Déborah vagueou pelas planícies de Yr. ela se mostrara ba stante ansiosa.E seus cabelos. esperando a punição. louvando a brisa acariciante que varria a imensa ravina. Déborah executou obedientement e todas as instruções. com aquele médico frio de cademo de notas na mão. o Coletor começava a dar sinais de vida. Não havia nada no auarto que pudesse distrair sua atenção. aquele gesto tolo e teatral de cortar os pulsos.ela implorou. no entanto. tomand o-a igualmente distante de seus dois mundos. onde teve que responder a algumas perguntas sobre sua vi da. e disse: . a antecipa ferindo-se selvagemente.Isso depende de você . Para Jacob e Esther Blau a volta para casa não foi mais fácil do que a ida ao hospit al. . de medo e de amo r. Os últimos meses tinham sido dificílimos de suportar: tanto frio. dançava e entoava hinos r ituais. ou então com Yr.Contei toda a verdade sobre essas coisas que o senhor pe rguntou. ardendo em chamas. finalmente se concretizara num f ato.e. de modo a esconder as duas cicatrizes em seu pulso. voltou para o quarto. con tava apenas com o Aqui.respondeu secamente. os clamores. A suspeita. imensas extensões de terras nuas. seus campos dourados e seus deuses. Acabara de deixar a filha mais velha naquele lugar sombrio. No momento da despedida. Sent da no carro ao lado do marido. não fora a tentativa infantil de suicídio que dera início àquele ciclo interminável de médicos e decisões. a possibilidade de dizerem aquil o que realmente queriam dizer se mostrava menor do que antes. os rugidos que ressoavam dentro dela. Vai me ajudar agora? . fechou o cademo e saiu. dera c . E seu enorme desgosto não fez senão despertar s ua velha e caprichosa úlcera. Os médi cos que a ajudassem. pareceu-lhe insatisfeito.Um especialista! zombou Anterrabae. onde os olhos se perdiam no espaço infinito. não quisera a ceitar qualquer consolo de sua parte.cantava. Dentro dela cresceu um pouco a algazarra. No vácuo do Mundo Intermediário onde se achava. Lutava contra essa iminência como uma criança que. O Deus Cadente. de que havi a alguma coisa profunda e terrivelmente errada. Para se defender contra a onda que ameaçava tragá-la. mas Yr também possuía regiões de terror e desespero. precisava agora explodir com alguém. caindo. eles a estariam maldizendo e insultando. 12 Levaram Déborah para um quartinho modesto. que não teve como se libertar dela. Começou por respo nder a verdade às primeiras perguntas do médico. Homem de temperamento forte. Mas a raiva vinha de tal modo imbuída de compaixão. junto com ele. entre Yr e o Agora. que encontraram no chão do banheiro.não mais Déborah. Déborah estava profundamente agradecida aos Poderes que lhe haviam concedido taman ha misericórdia. tan ta dor e tanta cegueira em Yr. 13 . não parou de observá-la enquanto tomava banho. Ah. O médico que as fazia. Ali também foi vigiada: uma mulher. prestes a desaparecer em mei o à algazarra. Aparentemente. e sim uma pessoa com um nome ap ropriado para uma habitante das planícies de Yr . Em breve. onde ficou até que se desocupassem os chu veiros. cheio de trancas e grades. Agora pouco importava que a chamass em de sonsa e mentirosa. sua imagem passeava e r espondia. Agora. A seu ver. cheia de sangue até o meio. Era óbvio que ele não ouvia a algazarra. procurando manter o braço esquerdo ligeiramente voltado para de ntro. A xícara. Ela .Deixa eu ir com você . Esther julgava conhecer Déborah melhor que o marido. Déborah já não sabia mais para qual dos reinos de Yr havia passagem. encolhendo-se todas as vezes em que procur ou tocá-la. ondulavam levemente na qu eda interminável. que vinha se arrastando há tanto tempo. e se afastara dele recusando o beijo. a vontade que tinha era de dizer a ele que se sen tia de certa forma aliviada com aquele incidente. Naquele dia e no seguinte. e Déborah conse guiu distinguir algumas das palavras que se formavam. Era natural que nenhum dos seus o procurasse para confidencias. placidamente sentada em meio às nuvens d e vapor. num tom sardônico. Ergueu os olhos para aquele que estava sentado ali. jamais fora capaz de se abrir. . extrav asar sua raiva. Já acomodada à nova rotina . perguntava e agia. Embora Déborah já não estivesse em sua companhia.

os escritos que seria obrigada a negligenciar. riu . falariam qualquer coisa a respeito de uma escola.onsistência a todas as suas impressões nebulosas e a seus temores vagos. de maneira excessivamente subjetiva. Le mbrava-se bem de uma vez em que Tilda. geralmente manifestavam sua carência com uma paixão intensa.Poderemos visitá-la dentro de um mês ou dois. e começou a ler o relatório. A papai e ma mãe. vício que denunciara numa de suas aulas como o pior inimigo do médico. que estava tudo bem. na época em que do outro lado dos muros estava Hitler: qual dos lados era o mais são? Tilda. Qua nto a Suzy. Tilda e Hitler não existiam mais. como Débora h Naquele Lugar. Ao escutar aquilo. pura e fascinante. Recordou-se de T ilda. abriu a pasta. entre por 15 favor querida Doutôra. intemada num hospital psiquiátrico na Alemanha. 2 Entrevista (inicial): De início. Embora eles soubessem das recomendações do psiquiatra. se para Deus eram importantes as individualidades. dissera: . Àquelas três páginas datilografadas c ontrapunham-se as conferências que não poderia dar. apesar de tudo. No dia segu inte. Prev. . A estes. freqüentemente su bmetida à força. tinha. Reação inteiramente subjetiva à entr evista e aos testes. Hosp. DÉBORAH F. embora ocorram distorções nas amostragens resultantes da doença. Os testes de personalidade revelam comportamento tipicament e esquizofrênico. a fisionomia contraída: . BLAU. I mpossibilitados de amar. de conviver e de se comunicar. vinha se mostrando inteiramente desnorteada.. Agora. Olhou o relatório que tinha nas mãos. disse. levaram a menina ao médico. para tranqüilizá-los.lembrou-se com pesar . que no mês anterior tantas vezes escutara a palavra "doente". com suas crises de fúria destruidora. e as supervisões que seria forçada a recusar caso decidisse aceitar a nova paciente. sempre amarrada às camas. mas com o desenrolar da entrevista. Ora. vendo-o dirigir com os olhos fixos na estrada. INICIAL: ESQUIZOFRENIA 1 Testes: Os testes evidenciam um quociente de inteligência (140-150) elevad o. por que não para ela? Sentou-se. 16 anos.: nenhum. A senhora chegou bem a tempo de presenciar o chá tranqüilizante da paciente e o fim do mundo. Em três ocasiões diferentes. tratava-se apenas de uma clín ica de repouso. com componentes compulsivos e masoquistas. diriam. Voltou-se para ele. alimentada pelas veias. Esther não pôde mais sufo car as dúvidas que a assaltavam. e que. el a passou a demonstrar extrema ansiedade diante de tudo o que pudesse ser interpr etado como correção ou crítica. enquanto dezenas de milhares de pessoas chamam. A Dra. Fez o que pôde para impressionar o entrevistador com sua perspicácia. Há momentos . mas tinha certeza de que não poderia fazer isso sem magoá-lo. percebendo que se deixava levar pela vai dade. erguera para ela os olhos e c om um sorriso que procurava ser gentil. Jacob e Esthe r teriam que amenizar um pouco a descrição do lugar omitindo especialmente o grito l ancinante vindo de uma das janelas gradeadas. ou àqueles cujos preconceitos impediriam de aceitar a simples idéia de u m hospital psi14 quiátrico na família. Fried ergueu-se da cadeira e foi até a janela de onde se descortinavam os p avilhões do hospital. Gostava muito de trabalhar diretamente com doentes. Várias questões mal in terpretadas. os seus momentos de extraordinária lucidez. Puseram-se então a construir a história que contariam aos amigos e aos parentes mais afastados. e que os fizera estremecer da cabeça aos pés.Oh. Seria justo i niciar o tratamento individual de pacientes. utilizando-a como uma formidável defesa. atada à cama. Gostaria agora de mostrar a Jacob todas as coisa s que ele desconhecia. a lógica começou a ruir. que haviam escutado quando saíam. sabendo-se que qualquer progresso r eal poderia exigir anos.em que o mundo parece ser mil vezes mais doen te do que aqueles que esse mesmo mundo intema em suas instituições. Dl AG. havia muit o a ensinar aos médicos que saíam das escolas com uma vivência limitada. a paciente parecia bem orientada e lógica n os seus pensamentos. depois da doença do paciente. um pequeno jardim e logo adiante o pátio onde os intemos costu mavam passear. A própria doen te facultava-lhe analisar a sanidade como poucos "sãos" seriam capazes de fazer. escreve m e telefonam implorando ajuda? Sorriu. O grito ficaria trancafiado em seu coração. m esmo antes disso. diriam alguma coi sa sobre anemia ou fraqueza e um sanatório especial para convalescença.

Déborah sentia renascer dentro de si como que os terrores de algum pesadelo remoto .Nasceu em Chicago. Há antecedentes de hipocondria na família. as palavras JANUCE AGORA. contudo. tudo estava envolto em tonalidades cinzas. e agora. no cabeçalho da folha de aula. quando declarou que a hospitalização resultará de uma ten tativa de suicídio. deixou escapar esse nome. Em 1942. a comentar com o psicólogo do hospital: . Jacob Blau.Déborah. como num quadro. a paciente sofreu duas operações para extirpar um tumor no aparelho urinário.Déborah esteve em paz. aguardando a re sposta. A paciente não se ambientou bem. perguntou: . S ubitamente. vai me ajudar? Consideramos recomendável encerrar a entrev ista. Um relatório semelhante levara-a. a saúde tem sido boa. Sobreveio uma sensação tão maravilhosa e onisciente de transição. sem qualquer dimensão de profundidad e. nascida em 1937.Essa força que se mantém oculta é um segredo pro fundo demais. nos subúrbios de Chicago. conseguia ficar em contacto com a "realidade". Puberdade fisicamente normal. Mas no fundo. . A profess ora. As palavras inscritas no papel . ela não sab eria dizer . .quantos belos anos de vida ainda pela frente. Menc ionou uma operação aos cinco anos de idade. 1932. em meio à narrativa de um acon16 tecimento. talvez fosse interessante descobrir se uma menina com tão pouca experiência de vida poderi a lucrar com a terapia.Algum dia precisamos descobrir um teste que também nos mostre onde está a saúde. . tendo sido ridicularizada pelos colegas de escola. a guerra forçou-os a mudar para a cidade. O mundo lhe exigia pouco. as duas outras.Eu disse a verdade sobre essas coisas. por um deslize. E como seria o trabalho: mais fácil ou mais difícil? O que d ecidiu a questão foi. . . As coisas se tomaram planas. Estava vivendo naquele dia conforme o Calendário Secreto (em Yr não se media o temp o da mesma forma que no mundo) quando.exatamente quanto. Parto normal. Fried. uma babá cr uel. A situação melhorou. a p aciente tentou suicídio. etc. cuja f amília emigrou da Polônia em 1913. 17 Durante um bom tempo . Ah. dizendo em tom acusador: . mas o pai adoeceu: úlcera e hipertensão. que Déborah não resistiu peto de anotar. inclusive. Amamentada até o oitavo mês. a idade da menina: graças a isso o relatório acabou preva lecendo sobre os compromissos com reuniões e os artigos por escrever. de repente. O primeiro incident e na escola ocorreu exatamente quando. retcomou ao Calendário Pesado. como se a ruptura existente entre ambos não fosse mais do que uma névoa muito tênue. c itando episódios casuais de sua vida que considerava responsáveis por sua doença. Déborah seria sua paciente mais jov em. por ocasião de perguntas relativas à data do mês.Discordo . A doutôra virou a página e examinou por alto as diversas avaliações estatísticas de fatore s de personalidade e os resultados dos testes. Dificuldades finan ceiras obrigaram a família a se mudar para a casa dos avós. do ametil e do pentotal. o que foi que você escreveu no papel? O que sig nifica essa palavra. 3 História familiar . nem se incluíam em qualquer padrão. se conseguirmos. vendo-as. Pai. Começou a falar alto. exceto o tumo r. Voltou a se concentrar nos fatos e nos números. no fundo. O lhou ao redor e descobriu que só era capaz de perceber os objetos em seus contorno s. Algumas vezes. é nossa única aliada. Aos cinco anos de idade. sua atitude foi mudando. mas. parada junto à carteira.retrucou a Dra. e o ambiente luminoso e saudável da sala de aula se desvanesceu completamente. . Aos 16 anos. Januce? E ficou ali. .Aber wenn wir. Illinois. . Outubro. ce rta vez. Susan. porque se sentia co mo a Juno das duas faces . a paciente avançou. Abstraindo as considerações relativas à individualidade da pessoa em questão. forçando-se a evitar a lín gua matema . À me dida que prosseguia a entrevista.inoportunamente: a primeira.cada uma voltada para cada mundo. O psicólogo respondeu que poderiam saber isso por meio do hipnotismo. contador. . Os incidentes não tinham relação entre si. a partir de Yr. Nesses momentos.murmurou. Uma irmã. . o que reforçava sua co nvicção de que a causa de tantas agonias no reino de Yr se originavam de pressões exte riores. segundo os critérios da Terra. cujos efeitos foram traumáticos. passava a se chamar Januce. enfim.

respondeu Déborah.Pois é.Não estou aqui há tanto tempo assim. jamais gostaram dela. os olhos fixos no teto. que se chamava Ca rla: . Surpreendida. algumas vezes. passear no pátio. Perigos desse gênero deveriam ser. Cada uma dessas etapas constituía um privilégio e possuía uma certa conotação de recompensa que. uma menina gran dalhona de sua ala veio convidá-la para jogar tênis.disse a estudante. veja só.disse ela. é hora de se levantar . etemamente reunidos em segredo para julgá-la e atormentá-la para sempre . aliás. e por último.Ora.Vamos. Já se passaram três meses. por exemplo. recent emente.etapas anál ogas às do mundo normal . evitados a todo custo. o poder do Censor cresceu assustadoramente. a quem cabia conceder os "privilégios" . a partir de então. Só que responder imp licava em descortinar o horror em toda a sua plenitude . Resolveram perguntar a uma enfermeira. Na quela mesma noite. os personagens do Grande Coletor afluíram em massa ao Mundo Int ermediário .Não sei . Por isso. sair do quarto pela manhã. vou pôr os sapatos! . um raio de luz que pen etrasse na região oculta. As pessoas. sair do próprio hospital e ir sozi nha a um cinema ou fazer compras.Não sei! . eles vão aliviar um pouco a barra. Ressoaram ao mesmo tempo um grunhido de Lactamaeon. Se você se esforç r bastante com o seu médico. imediata19 mente. e o choque repercutiu até o fundo de Yr. tais como homens-hora. para sempre poderiam destruir Déborah e seus dois mundos. colega s de escola. em pl ena transição. que estava deit ada. curiosamente.deuses e demônios vindos 18 de Yr e sombras da Terra . Na Terra. um sinal eventualmente escrito. .Quer dizer. Um nome sigilos o segredado por descuido. mas não ra do hospital. Para sempre.foi a resposta. já que ela é tão boa assim.e decidiram erguer sobre seus reinos um Censor que se interpusesse entre as palavras e as ações de Déborah e assim protegesse o segredo da existência de Yr. Fazia parte de um novo grupo de estagiários cumprindo um período de treinamento psiquiátrico no hospital. parentes. por que não sanidademetro? Carla consolou-a: . Déborah suspirou e se levantou ob ediente. jantar na co mpanhia dos outros. . Déborah teria que responder agora pelos dois mundos.perguntou Déborah. nenhuma palavra e nenhuma ação lhe escapavam. uma das enfermeiras estagiárias se aproximou de Déborah. ficam boas e então saem? . parecia se exprimir em te rmos de distância. Déborah comentaria depois com a tal grandalhona. e a risada zom beteira do Coletor: a síntese de todas as imagens de professoras. Certa vez. E. porém. . Ela é uma das chefes aqui. Aprendeu a fabricar cestos. anos-luz.As pessoas saem algum dia daqui? . . aliviada por saber que também o mundo tinha esconderijos a oferece r. O que eu não sei é quant o tempo vou ficar aqui. eu tenho cem metros quadrados de sanidade! Se havia unidade de medidas. com uma voz vacilante e assustada. pensando consigo mesma: Ela deve ficar atônita com a densidade de loucura com que sou capaz de impregnar esse quarto. menina maluca! Para sempre. menina preguiçosa! Mais tarde. observando div ertida a expressão de surpresa da moça e o esforço que fazia para reprimir o olhar de .simbolizavam a passagem do tempo de Yr para o da Terra. O médico permitiu que Déborah passeasse sem restrições no pátio. o deus Negro.como. com o correr dos anos. . mentira e dissimulara. Sabia que nenhuma de suas companheiras de trabalho gostavam dela. ambas pensaram nas mulheres lá do final da ala: todas tinham mais de dois a nos de hospital. embora sem dispensar o s modos impacientes e ásperos.Não se preocupe! Logo você receberá mais privilégios. que denunciava sua inexperiência. Ainda voltou a ver algumas vezes o médico do cademinho. a vida do hospital prosseguia normalmente. . e com tamanha severida de que. terminou por impor sua presença em ambos os mundos. Déborah trabalhava na oficina de artesanato. por isso devemos nos apressar. o coração sufocando de m edo. Blau. . uma médica muito famosa. aceitando todas as instruções. . e soube que se tra tava do "administrador da ala". Srta.A doutôra quer vê-la.respondeu Carla.um horror do qual não ter ia acordado racionalmente. até que.Venha comigo .

Poderia vir buscá-la dentro de uma hora? .Para abafar minhas queixas. . medo ou prazer. feia.Você devia ficar agradecida .Fazer com que eu vire simpática. num í peto de cólera. muito cuidado. ferimentos inventados na pema.perguntou a doutôra. encantadora e feliz pelas mentiras q ue eu prego.Está bem. Seguiu-se um longo silêncio. dores imaginárias que causam verdadeiros tormentos. . Erguia-se. haverá outras coisas para tomar o lugar dos sintomas. carinhosa. e outras doenças que não exi stem. Você faz as perguntas e eu respondo. Scomos da Seção de Admissões. .. caindo.Ajudá-la a ficar boa. Dirigiram-se à porta da frente e tocaram a campainha. mas de qualquer forma já temos um trabalho definido pela frente.perguntou Déborah. . Mal Déborah entrou na casa. .Já é muita sorte ser recebida por ela. há mesinhas demais por aqui. Quand o. Vamos.Que disfarce! E o Censor resmungou: .Déborah sentiu apertar o laço do medo. voltando-se. ergueu-se de um salto e exclamou (para ela. em seguida. cabelos grisalhos. .Tenho ordem para esperar. Algumas dessas coisas. Fique à vontade.Sou eu a doutôra . egocêntrica.ironizou Déborah. má.Tome cuidado. grosseira e cr uel. uma mulherziriha baixa e gorducha. . depois há uma enorme lista de defeitos: preguiçosa. . . possivelmente pel a primeira vez.Sente-se. que fossem! Deixaria o consultório tendo pelo menos confessado seu ca nsaço e seu desgosto desse mundo sombrio e angustiante. Mencionei antipatia?.Aqui está ela . (b) falta de esportividade.Você sabe por que está aqui? .Porque sou desastrada.Bem. porém. você elimina m eus "sintomas" e me manda para casa. não me teria dito isso. e depois o que é que eu terei? com voz suave e pausada a doutôra respondeu: . Pássaroum. bem no meio do hospital.Vamos! A enfermeira destrancou a porta da ala e.Déborah. querendo anular a justaposição atordoante de p aredes e portas. com ve nezianas verdes . . a 20 que dava para as escadas. éeborah percebeu que.Invadiu-a uma sensação de total exaustão. é uma lista e tanto. .. A Govemanta-Famosa-Médica levou Déborah para um quarto ensolarado e. creio. e mentirosa também. E quan do isso acontecer. A doutôra contentou-se em dizer: . Sou a Dra. co nvidou-a: . . .Está bem. . veio abrir. por incrível que pareça.disse a estagiária.disse a enfermeira. e s aíram pelos fundos do prédio. Anterrabae soltou uma sonora gargalhada. . Desastrada em primeiro lugar. Frie d. Desceram para o andar inferior. como ódio.Pensei que você soubesse.. 21 Déborah sentou-se. mergulhando em suas próprias trev as: . a doutôra perguntou: .Se você realmente não quisesse se livra r desses sintomas. . para o Coleto r e para o Censor): . A enfermeira apontou para uma casa toda caiada. para Yr. Acompanhando com os olhos as partículas de pó que flutuav am nos feixes de sol projetados da janela.Há alguma coisa que você queira me dizer? . lapsos inverídicos de audição. Ah. Essa última categoria inclui vários itens: (a) falsa perd a de visão. não existem. Você não terá que se livrar de nada enquanto não estiver pronta.Conhecida e amada por loucos do mundo inteiro! .. Ela devia ter recebido instruções para ocultar todo e qualquer sentimento mais intenso. sente-se. Antipatia também. . tonteiras fingidas. azar. Se essas coisas eram verdad eiras. . . As mesas não têm como se defender da sua falta de jeito.uma dessas casas branquinhas que se vê em cidades menores à beira de uma rua sombreada por carvalhos. . geniosa. que estava aberto..Onde está a doutôra? . Depois de algum tempo. o Censor começou a dar sinais de alarma: Onde está a médica? Será que ela está espiando a gente por trás de alguma porta? A govemanta acenou com a cabeça em direção a um quarto. O Censor preveniu-a: Ouça. gorda.desaprovação. dissera aquilo que realmente sentia.respondeu a mulher. . cabeçuda.

. . . . pulsa uma força oculta.disse Déborah. emanava das palavras da doutôra uma espécie de luz que se projetava sobre vários outro s recintos do passado: sua casa. em alguma parte da doença. . parece que eu disse que você está muito doente. de touca branca e uniforme listrado. Sim. Justificava-se en fim toda a revolta que sempre sentira naqueles consultórios.O prisioneiro se declara culpado. atravessando o espírit o para trancafiá-la de volta na ala. mas logo seu rosto se tcomou grave.ao mesmo tempo bem individualizados e bem unidos . porém. Fried. vivi am insistindo: não há nada de errado com você. a escola e todos os consultórios faziam repercuti r a mesma acusação bem-humorada: Não Há Nada De Errado com Você.Algum dia. imediatamente compreendido pela méd ica. mai s sério ainda do que as perdas momentâneas de visão. acho que você pode melhorar. essa força existia e se manifestava. Fried riu.corrigiu a doutôra. Gostaria de repetir que não pretendo destruir sintomas nem d oença alguma contra a sua vontade. porque acredito que se você e eu trabalharmos juntas para valer . as dores lancinantes. .Por acaso você quer saber se acho que seu lugar é aqui. Premeditada realmente não. das negras regiões do terror. Déborah foi despertada pela enfermeira. . nem totalmente premeditada. E. de modo a pa recer outra pessoa. perto demais até. Déborah recusou-se.Em segundo grau. a manqueira temporária. durante an os e anos. Uma imagem instantânea passou pela cabeça de Déborah: visualizou seus pais . à mesma hora . por medo. A doutôra propôs então: . nesse caso. . .Caronte fala grego. A Dra.algo profundo e grave.Ela não pode entendê-la . "louca". O laço apertou mais ainda. mas com um esforço decidido de sua parte e com a ajuda séria de um médico. Ape sar do horror que essa inefável noção despertava.Como todos os outros aqui? . afetando a maior indiferença possível em relação ao lugar e a quem e stava ali. é sim. Sim. . Verdade nua e crua. talvez . . . Déborah tremia de medo e começava a ver tudo cinza de novo. espero poder ajudar você a ver o mundo como algo diferente de um inferno Estígio. .Pelo contrário. basta apenas que.Amanhã.Em que é que você está pensando? Vejo que seu rosto se descontraiu um pouco .Loucura nem totalmente espontânea. . sorrindo. recusando a sentença de que não é portador de nenh um mal grave. que ia e vinha na sala ao lado. mas com um pouco mais do que simples malícia . era isso. agora irremediavelmente localizada. a manifestar abertamente seu consentimento.Como assim? .Se você estiver de acordo. Nesse sentido v ocê 22 está mesmo doente. Eles.Estou pensando na diferença que há entre a má conduta e a felonia. 23 venceremos tudo isso. Foram-se então. como se qu isesse preveni-las de que o tempo havia expirado. pensou consigo mesma: Em alguma parte de toda essa precocidad e e amargura. Prova disso é que luzira na expressão de alívio que sobreveio ao ser admitida a existência da doença. no entanto.interv eio a doutôra. podemos combinar outra hora e começar nossas conversas.Você está dizendo a mesma coisa que todo mundo diz: queixas falsas de doenças falsa s. Déborah soube que havia algo de errado sim . observando as duas retomarem ao prédio do hospital. Ao sair do consultório. A Dra. cujos limites ainda não sou capaz de determ inar. . e agora aceita o veredito de culpado por loucura em primeiro grau.Para acabar com elas.avisou a doutÔra à enfermeira e à paciente. procurou controlar todos os seus gestos. e se o que você tem é o que se costuma chamar de uma doença mental? A resposta. . Caronte.Era o mais perto que ousava chegar. as crises de terror e as repentinas ausências de memória.postados do outro lado da maciça porta d o consultório. mas deix ou que o rosto expressasse um cauteloso "sim". quando forem produtos de uma revolta de seus sentimentos . .

por sua vez. Quantas vezes deve t er jurado poupar os filhos de tais privações! Acariciou-lhe o braço. se deixava le var pelo que os sentimentos diziam. Ela nunca sofreu ameaça de frio ou de fome. eles ficaram decepcionados e furiosos. Nos dias seguintes.E se soubesse. no entanto. na realidade. que sempre escamoteavam a qu estão crucial. Certa noite. tentando se consolar e s e convencer de que o intemamento fora de fato necessário. receberam uma carta do hospital.O que pode haver mais.O que é que eles vão fazer? Admitir que foi um engano? O mundo está c . . Parecia-lhe. todas as agruras da vida de um estrangeiro. Quando. escreveu para o hospital. que não fora senão um mudo grito de s ocorro. embora sua linguagem continuasse tão ríspida quanto antes.E eu sei? . Conhecera o frio. até descobrir qual o aspecto mais favorável. Natalie . . Debaixo mesmo do vulcão. gesto característico dos adolescentes e dos doentes que insistem em lutar. Agora. O ressentimento com a hospitalização de Déborah mascarava. perguntou abruptamente a Jacob: . por pouco tempo que fosse. Ela é igu al a mim. Demos amor. Só quando Claude. Déborah. O problema é que nessa família. Lister. Esther notava que ele começava a amolecer . transtoma ra o ritmo e o sentido de suas vidas. o núcleo branco de um vulcão camuflado pelas florestas de suas encosta s. teria cometido erros? Parecia uma vida boa. Suas raízes. 24 Suzy Blau aceitou bem a história da escola para convalescentes. a doença mental estava exposta. desde que chegara àquele desenlace. num gesto proteto r. indignado. era a menina dos seus olhos. Não há nada de errado com os miolos dela! A menina tem uma inteligência excepcional . por exemplo. Jacob. Jacob. Quando Esther. ensaiando. No dia seguinte. Para o diabo vocês todos! . terríveis. iniciara a terapia e já passeava pelos pátios. ele se acalmou um pouco. lutava numa outra frente. porém. Quanto ao velho. pergunta ndo quando poderiam visitar a filha e ver a médica. O velho contentou-se em resmungar: .Qual é nossa responsabilidade em tudo isso? Quais os erros. estava sepultada a preciosa semente de força e determinação. informou os pais. franca e dramática. Foram duas vezes consultar o Dr. a umidade.fizeram ver ao velho e à velha que a medida era realmente neces sária. Esther lembrou-se que Jacob também fora um imigrante. No final do primeiro mês. mergulhavam tão profundamente quanto. lendo e relendo cada palavra. de que se acabara o jogo e caíra a máscara. Diante de perguntas obje tivas. permanecia calado. Agora dizem que não. interpretando os comentários s ob os mais diversos ângulos. passou a esperar ansiosamente a resposta. antes de cada batalha verbal. o. As discussões entre ele e Esther.suspirou a doutôra. Esther voltou a procurá-los. e a outra irmã. reanimado. Esther empenhou-se em extrair toda s as migalhas de esperança incrustadas no tom reservado da carta. 25 Ao mesmo tempo. contra a relutância de Jacob e do velho. e na declaração.respondeu ele. seu orgulho ferido de imigrante. porém. carne da minha carne.os fa voritos da família . em determi nados momentos. enfim. procurando apresentar o hospital como uma simples clíni ca de repouso. enveredando pelo vocabulário de sua língua natal. a fome. inseguro do que ele e Esther haviam feito . ah. tinha a impressão de que no íntimo ele sabia que a decisão era necessária. invariavelmente terminavam num mudo clima de rancor e acusação. afinal. de uma inteligência arguta e brilhante.E retirou-se da sala. os miolos pularam uma geração e foram cair nela. tinha que concordar: a realidade era inexorável. "Ajustara-se bem" à rotina e à equipe do hospita l. Esther? O que pode haver mais? Ela não soube o que responder.Dessa vez. o irmão mais velho. suplicando que apoiassem sua deci são. Era um homem de temperamento dominador e enérgic o.s argumentos diante de sua imagem no espelho.protestou o avô (este era o seu maior elogio).Luzira especialmente na "tentativa de suicídio". relatando em termos bas tante vagos as atividades de Déborah. mas foi inútil. sujeitando-as a constantes reavaliações críticas . Ele se virou e perguntou desalentado: . se dessa vez eu pudesse fazê-la germinar! . todo o seu mundo vibrava de apreensão. dem os conforto. destacando qualquer evidência positiva. Jacob ouvia. uma vida muito boa a que ela tinha. que a doença de Déborah. . que cometernos? . .

Nossas vidas foram simples. cada vez mais perto do silêncio.Bobagem! .Ah. . com sotaque peculiar. notara os efei tos.retrocede r.Então talvez seja verdade que ela estava.. A doutôra fitou o cinzeiro. Déborah ouviu bruscam ente o ranger metálico das correntes. e o portão. .Soltou uma gargalhada e dando-se conta de como estava contente. De qualquer modo. rindo e brincando.perguntou a doutôra que.disse a Dra. man useava-os e utilizava-os para seus próprios fins.A portinhola está trancada também. Por que você não experimenta abri-la? . comento u: . acabou reconhecendo que. Nem bem a médica mencionara seus pais e a visita.Você está do outro lado do portão.Seus pais escreveram pedindo uma visita . costuma haver uma portinhola neles. não teriam s ido diferentes. não adiantar ia nada. depois que ficou sozinha em casa. a separa va da doutôra. Se acharem que se trata de um engano. após o intemamento. Suzy brilhou aquela noite. eram questões já mortas.. e então todos ririam juntos das peças que a vida prega na gente . Há séculos não me divertia tanto! . . um milagre qua lquer. andara na ponta dos pés. Sentiu pena de Jacob.Sim . esses seus construtores de portões não são lá muito esp ertos. . e o filme de suas existências voltasse um ano atrás. Esther percebeu que certas coisas que tinha dito se refletiam nele e em sua relação com ele. Há razões para muitas delas que. perguntar a eles. Faltava-lhe agora a coragem de magoá-lo. A barreira entre elas tornava-se cada vez mais indevassável. Bem.Meu Deus. e Esther.gritou Jacob. foram dignas! ele afirmou com convicção inabalável. por melhores que fossem nossas intenções.O que há? . Alguns minutos depois r epetiu: .Puxa! Será que foi mesmo há tanto tempo? Anos? . contagiada pela algazarra. A s últimas palavras foram! . . num tom que jamais ousara empregar com o sogr o. Suzy trouxe para casa um grupo de colegas de escola. ocasionalmente. Sabe. começou a definir sua per sonalidade. que vinha do outro lado do muro metálico ia se apagando aos poucos.Foi há muito tempo. o seu portão medieval de novo.disse Jacob irritado.Infeliz! . mesmo sem escutar os rangidos. nos deixarão trazê-la de volta imediatamente. tanto antes de se casarem como depois. houve momentos de calma. Suzy. Agora.Não posso vê-la de verdade nem ouvi-la de verdade .Calou-se. por muito temp o. Os conflitos decisivos pertenciam ao passado. Certo dia. Esther compreendeu que ele ainda esperava uma mudança de diagnóstico..Apenas infeliz! . 27 . . por mais que negasse. Jacob comentou bem h umorado: . Déborah ficava aborrecida quando a doutôra se apoderava de fatos que eram só seus. que fizesse com que todas 26 as portas do hospital se escancarassem.Doente .disse ela. ma s não podia permitir que continuasse se iludindo a respeito da visita ao hospital. retirando-se furioso da sala. infeliz. interpôs-se entre as duas. . A voz suave. e há coisas que talvez Déborah desconheça e que nos levaram a fazer o que fizemo s.. quando ela deveria ter mudado seus vínculos de dedicação e não o fizera. Por que esse lugar seria imune à imbecilidade? . como saber o que tinham representado para ela? No correr dos primeiros meses. .Ora.Os médicos têm um código de ética a cumprir. Jacob. retroceder até que tudo estivesse apagado e esquecido. Déborah estava sen tada do outro lado do sólido portão levadiço do século XII que. até mesm o de felicidade.Você quer que eles venham? . até a partida de Déborah.heio de imbecis. . Para todos. . Depois que foram embora.Que bobinhos! Será que nós fcomos tão bobos assim? Você viu aquele gurizinho de boné? .Eu gostaria de dizer aos médicos. . . num clima de expectativa e sobre ssalto. invisível.emendou Esther.disse Déborah. como ri essa noite. nossas vidas mudara m. pensa tivo. convidou todos para jantar. . Constróem as barreiras com portas laterais e depois não conseguem abri-las. Fried. Entraram aos tro péis. foram boas. . exceto Déborah. assustado com algo que ninguém ousava mencionar.

sua expressão facial ia pas sando da perplexidade à indignação. freqüentemente. junto com Anterrabae."não verá o Sr. só que se fôssemos os dois seria demais por enquanto. embora fosse incapaz de expressálo. que distorcido. Certa vez (aconteceu na escola também). Ali. coisas como lin guagem. foi assim: as palavras que dizia pareciam não corresponder a uma ordem de seu cérebro. Ocorria-lhe. antes mesmo que esse sentido voltasse a vi gorar. O próprio mundo se introduzia ali. saber o sentido das coisas se tom ava irrelevante.o contentamento por dispor do poder de gratificar e punir. evitando os termos em que vinha redigida a carta . significado ou mesmo luz não tinham a menor importância. medo no Poço. permanecia muda.Quero que mamãe venha .O quê?. mas a finalidade e a forma daquel es objetos careciam de sentido. pass ou a defendê-los mais cegamente ainda. Jacob. Diante de sua nudez e da eloqüência das trancas e grades. só que de um mo do inteiramente ininteligível. Nessas ocasiões. A profes sora ficou furiosa. que dissera algo de certo mo do importante. Foi necessário reunir t odas as suas forças para lembrar o suficiente de inglês e perguntar . Sabia também que não conseguiria defender essa certeza. Os horrores da volta à tona ainda não tinham começado. Pres28 sentia. uma determinada sensação. . Durante muito tempo. Ficou surpresa consigo mesma. que rasgava a escuridão com seu fogo. Inútil. O amor do pai era a arma que Déborah possuía contra ele. Estava ao lado do fogão. ãò dele seriam perig osos naquele momento. mas importante em quê? Durante muitos anos. Não quero a visita dele. Sabia que falava sério. Por isso mesmo. ainda que fosse difícil expressar. o mundo todo esvaiu-se. Fried. que palavra é essa? Nada. Déborah tinha consciência de tudo isso. Ela foi incapaz de extrair o menor fragmento de realidade daquela confusão de linhas e de pontos na superfície branca. temendo comprometer sua autoridade. Ouviam-se sons humanos e também estes vinham desprovi dos de sentido. ao readquirir a vontade e a capacidade de responder aos estímulos do ambiente. Sabia que o hospital estava sendo bom para ela. Essa sensação era verbalizada. viu a chaleira em ebulição. Eu posso dirigir sozinha ou tomar um trem." . mas que ela ped iu à doutôra que eu vá sozinha dessa vez. deixou Déborah muda como estava e desapare ceu na neblina cinzenta. Déborah continuava imersa nas profundezas do Poço . Blau. Inexistia. Começou a despencar para Yr. nem justificar por que se sentia tão bem lá. O resultad o foi que acabou perdendo a confiança em seus próprios desejos. dessa vez.mas ele não. Pouco a pouco. Chegava até a esquecer. . O que sentia no momento era em parte . . irreconhecível. O Poço surgia horrendo justamente no momento em que emergia dele. Há tempos atrás.Que palavra é essa? E la lutou desesperadamente para tomar inteligível aquele amontoado di29 fuso de curvas negras destacadas no branco da folha. Déborah se queimara toda com água fervendo. A queda. a s mulheres da Seção das Perturbadas viviam gritando e uivando Uma delas poderia ento mar o caldo. só. mas a lógica que havia por trás d la.Bem.Procurou assim tomar as coisas mais fáceis p ara Jacob. Jacob poderia se deixar vencer pelo horror e pela tristeza que ela mesma percebera nele quando a trouxe ram para o hospital. as coisas se revestiram de tonalidades cinzent as. foi longa. O presente esvaiu-se. com toda a cautela. que o amor e a compai. sem a qual jamais conseguiria convencer o mundo. sua própria língua. por enquanto. por exemplo. Esther Blau abriu anciosamente a carta à medida que lia. Estava se fazendo de sonsa então? . Agora. Alguém riu no fundo da sala e a professo ra. os deuses e o Coletor gemiam. demarcando faixas nítidas e regulares diante de seus olhos. . O lugar lhe parece u familiar: era o Poço. Quem sabe não decidiria acabar com aquela "prisão"? Além disso.É. ela emergira do Poço e encontrara a p rofessora apontando uma palavra no seu livro e perguntando . Esther procurou fazê-lo entender.Aqui diz que Déborah quer que eu vá. ao sentir necessida de de recuperar o sentido das coisas.sabi a muito bem . ficou mergulhada numa escuridão absoluta.disse Déborah . numa de suas quedas no Poço.. Reparou nos lábios da doutôra que se moviam e imaginou-os cuspindo perguntas e acusações . porque ali o medo perdia o sentido. vamos até lá ficar um pouco com ela e então vocês duas podem ter uma longa conver sa se quiserem. no consultório da Dra.Vamos. às vezes. berravam.

C onsiderava essencial descobrir se a mãe de Déborah seria uma aliada ou uma adversária do tratamento. para conservar o ar despreocupado. grades.. . . .Ela vai ficar boa? Ah. . o Dr. sem dúvida.. sofisticada e íntegra. saudável: aceitava os penosos sacrifícios que a realidade impunha. A doutôra ficou impressionada com o esforço que ela fez. . ..Está bem! Está bem! O ressentimento acabou por vencer a indignação. é provável que a senhora a encontre cansada e que ela não esteja convenientemente arrumada para a visita. Veremos se é verdade. Fried recebeu Esther Blau na sala clara e desarrumada de seu consultório..É ag radável! Não há. eu te aviso se for possível. isso pouco importa.Ela vai precisar mobilizar uma quantida de extraordinária de energia para resistir aos impulsos que a compelem a se defend er em segurança. desejando que a viagem aliviasse sua dor por ter sido r ejeitado tão inequivocamente. consciente ou inconsciente. Bem.Déborah! Déborah! Olh o que ela fez conosco! 31 A Dra. Esther não pôde conter a cólera que a invadiu. não se trata disso. . Jacob. que realçavam ainda mai s seu próprio desalinho. Fried. Há alguma coisa sobre ela que a pr .Não é besteira . a senhora não imagina como eu a amo. mãe e filha! Sentaram-se nas confortáveis poltronas do consultório. por ela ter tentado encobrir a verdade e poupá-lo. é aqui que Déborah vem? . Lister avisou. Caso ela mude de idéia.É aqui.disse ele. por isso. e que inevitavelmente redundar ia na ruína dos filhos. Não.ela insistiu.No momento. sem deixar de gozar suas dádivas. eles não ficarão mu to dispostos a receber gente aqui.. Onde estava a diferença? Depois de passear os olhos pela sala. . Não sei ainda se Déborah confia em mim o bastante para ver essa sala tal como é. . Ao se dirigir para seu quarto.. e no final acabavam mostrando que havia todo um esquem a montado em segredo. A doutôra sentia-se um pouco co nstrangida diante das jóias magníficas e da elegância de Esther.Quem pensa ela que é! . Fried viu que se tratava de uma mulher inteligente. Minha irmã Debbie está muito doente. que transparecia em seu sor riso um tanto duro. Não. . súbita. a Dra. Ele apanhou a carta sobre a mesa e leu.! Eu avisei. Isso porque a independência de uma criança representa uma ameaça inadmissível quando o equilíbrio dos pais é precário. O amor terá 32 que enfrentar uma duríssima prova no que ainda está por vir. Eu já te falei. . Não podia impedir que Jacob fizesse is so por ela. do que propria mente contra os termos da carta. Na sua fisionomia. .Sua pronúncia d ava um toque curioso ao tom coloquial. . .. Era. ouviu Suzy conversando c om um amigo pelo telefone. . . ao pronunciar aquela palavr a.freqüentemente com sinceridade ..Não seja tola .. Claro. todos teremos que ser muito pacientes e trabalhar como nunca. É que se o próximo for ruim.Sim. estampou-se uma expressão de alívio . onde ia guardar a carta. ainda poderá me ver. Começou a estudá-la mais detidamente.Mas você não pode ir sozinha. Sob a aparência impecável de Esther. Não dá para planejar isso com antecedênci a. irreversível . Seria sempre assim: 30 pressionada de ambos os lados o tempo todo..Ela está doente. Quem sabe a conversa com a doutôra não o reconfortaria? Levantou-se e ti rou a carta das mãos dele.Por favor.Mas eu não sei. Jacob.. Como devem ter lutado ao longo dos anos aquelas duas persona lidades resolutas. Eu a lev o de carro até lá e espero nos fundos..que queria m ajuda para seus filhos. cuidadosamente estudada. Demonstrava também ser dona de um temperamento enérgico. . Muitos pais afirmavam . Sua indignação voltou-se de início muito mais contra a esposa.Besteira! Eu vou.Ela capitulava de novo.'Eles recebem uns relatórios todos os meses.Claro! . A filha não. pensou a Dra.Para que ela fique bo a. . . a mãe perguntou: .

Ela re cebeu tanto amor! Disseram-me que essas doenças são causadas pelo passado e pela infân cia da pessoa. emblemas de conquistas f eitas através de alianças. Para avaliar a consistência desses atributos bastava observar o olhar que os vizinhos nos dirigiam. Jacob procurou. mesmo que esse preço fosse eu . escolheu um pretendente aquém das expectativas da família. ele não estava ao nível de Esther. Lembro-me bem de que papai me pedia para tocar e ficava andando de um lado par a o outro.eocupe de modo especial agora? Esther procurou estruturar suas idéias.Sabe. ma ldito. estes. e sua distinção (refinamento. acho que devo começar com a história de meu próprio pai. seu sotaque e s eus hábitos. soberbos estandartes das grandes famílias. Sei disso porqu e tive que aprender harpa. todos esses dias não paramos de pensar em como e por que isso aconteceu. libertar Esther de seu isolamento secreto. Tra tava-se de um rapaz bastante esperto. Realmente era muito cedo para pensar nos p rogressos de Déborah. c om os termos crus e ásperos que herdara de seu detestável passado. Por isso todos esses dias não paramos de pensar sobre o passado. Se. contudo. . A família podia. No entanto.Bem. ambas estávamos grávidas: papai começou a se c onsiderar o fundador de uma dinastia. por um lado. por sua vez. Era um dos trunfos a conquistar. Graças a sua força de vontade ferrenha. resmungando para o nobre fidalgo que existia na cabeça dele: . educado e apresentável. Em 1878. o aleijadinho! "Os filhos 'americanos' de papai cresceram sabendo que seu valor pessoal. Papai veio de Latvia. E le. inconcebível mesmo: loura e de tez clara. Não. dificilmente chegarem os a compreendê-las em toda a sua complexidade. Esther. entende. era-comum as filhas das famílias nobres aprenderem harpa. portanto. era preciso que também f ossem trunfos. . brigamos e enfim. Discutimos. como se quisesse c onvencer as cadeiras e as mesas e a doutÔra e a instituição toda com suas grades e as pessoas que gritavam por trás delas e cujas razões para estarem ali tinham que ser o utras. admirava os modos respeitáve is de seus vizinhos. embora esse instrumento já não estivesse mais na moda. e é isso que nos as susta tanto. todos esses dias. ou então escutar os comentários de papai quando a sopa estav a fria ou um dos noivos chegava atrasado. onde moravam as famí33 lias mais ricas e mais tradicionais. nobreza. permanecia inabalável amaldiçoando os vizinhos. Era aleijado de um pé. pobre. cultura e sucesso não passavam de apa rência. fracassou e finalm ente alcançou o sucesso e adquiriu fortuna. sou eu. educou-se. Lançou-se contra a vida como se ela fosse uma inimiga de verdad e. assim. . isso sim. e não tivesse o menor talento. . Quanto a estes. em bora eu o odiasse. arriscar. "Pois não é que a filha de Esther nasceu loura! Aconteci34 mento único. contar nossas v erdades pessoais e localizar causas pessoais. papai acabou cedendo. Veio para a América jovem ainda. Podemos. a obstinada. diante das belas perspectivas imaginadas por J acob para o futuro. a mulher e os filhos. Ela veio. e ainda assim não co nseguimos encontrar qualquer razão. nem dos sonhos que ela corporifica va. Ela falara num tom de voz muito mais elevado do que desejava. mar ginalizado e coxo. boas maneiras). De certo modo. tal como entre a nobreza no velho Continente. Fale-me a respeito de Déborah e de v ocê mesma com suas próprias palavras e da forma como você vê as coisas. esses dois fatos explicam-no melhor do que s e eu começasse pelo seu nome e sua ocupação. desprezavam sua religião. embora só tivesse curs ado uma escola de contabilidade e sua família não passasse de um "bando de simplórios e pobretões". emocionante.As causas são tão vastas que é impossível percebê-las de imediato. e toda a família pensou e especulou. tinham que ser. . Comprou então uma mansão num bairro elegan te. eram temperados com as mais refinadas lições de francês. Não existe uma causa. fez negócios. Os palavrões em pol onês e em idiche que aprendemos sentados em seu colo. ao passo que para o Velho represento . Eu procurei.Veja. Pouco tempo depois. Natalie se casara bem. Tomaram a vida de sua mulher e de seus filhos extremamente miserável.. entende. Estava preocupada com outra coisa: . e ele precisava conquistá-lo a qualquer preço.

Por fim. meu pai contra meu marido. Era por isso que luxuosos gorros que Déborah usava em seus passeios tinham outrora cob erto a cabeça de um pequeno príncipe qualquer. quando as oportunidades eram mais do que escassas. Ao Novo Mundo. as origens do camponês. subsistia naquele camp onês um sonho de camponês ainda mais ambicioso: não apenas ser livre. Ainda assim. é óbvio. O especialista que a operou. Como era ardente e impetu oso o temperamento oculto por trás daquela fisionomia estudada e impassível. e preocupada porque tinha ac abado de perder dois gêmeos nascidos mortos.Você não existe e eu odeio você! Papai continuava a esbravejar suas injúrias nos surdos ouvidos do passado. as sobras que os outros rejeitavam . depois dos milagres da cirurgia modema. as filhas da dinastia. me levou a apoiar. agora rodeada pelo desdém de uma nova geração de vizinhos. nem pel s ameaças. uma das maiores sumidades do país. como se tentasse consolar Esther.serviços e njoados e rotineiros. Duas operações e. Depois de algum tempo. descobrimos que o brinquedo de ouro estava defeituoso. . os tempos da Grande Crise de 1929. A doutÔra olhou para ela. Naquela cria nça perfumada. já estivessem soterradas havia mais de uma geração. sobreviesse a dor. C omo o ateu que exclama para Deus: . sempre risonha e contente . voltamos para a mansão da família." Esther relembrou. nem pelas lágrimas. percebia que Jacob se sentia infeliz. . eu me lembro .Nós não sabíamos! exclamou Esther. O medo. teria do bom e do melhor. Mesmo acor rentada a meu próprio passado. Garantiu qu e pegaria mil serviços de contabilidade para merecer Esther como esposa . Déborah nasceu envolta em rendas tecidas a mão . em seguida. Papai pagava todas as despesas. da família e de Déborah. nós. saímos consultando médico atrás de médi co em busca de uma confirmação. Cada coluna de números era cobiçada por cem cérebro s tão famintos e tão bem formados quanto o dele. depois da primeira. exigia-se mais do que apagar a amargura do Velho. porquejá era tarde demais. Jacob era o consorte da dinastia. Enquanto Jacob ganhava q uinze ou vinte dólares por semana. sobretudo por ter que aceitar a caridade de um ho35 mem que o desprezava. Um sopro de med o impregnava tudo." . era um médico excessivamente ocupa do para se dar ao luxo de explicar alguma coisa à menina ou de assisti-la quando. Mas a "preguiça" não pôde ser remediada nem pelas humilhações. . fui fi cando orgulhosa da força 36 .herança de alguma importante casa européia derrubada pela Revolução. contudo. na presença dos funcionários do hospital. Déborah tinha doze vestidos de seda bordados a mão. Um belo dia. O nascimento de Déborah parecia ter tomado minha submi ssão necessária e justa. cercada dos maiores cuidados. os horários e as govemantas e os preceitos eram coisas absolutamente indiscu tíveis! Era a pedagogia "científica" da época. O primeiro sintoma foi uma incontinência das mais embaraçosas. Apossar-se d e uma bandeira ancestral e respeitável valia mais do que acenar com uma nova. "Esforcei-me por parecer alegre e confiante ao entrar no quarto de Debbie. fizemos os exames e veio o diagnóstico. tudo bem esterilizadinho e o insano pav or dos germes e de toda e qualquer mudança. mas ser livre pa ra ser nobre. um sofrimento impiedoso.procurou uma palavra que trouxesse de volta aqueles anos .a sensação de irrealidade.era o eixo em tcomo do qual giravam t odos os sonhos. mas Déborah . Medo e . sutil e decisivamente. exceto para o remorso pelos tapas injustos e a interpretação excessivamente zelosa de especialista s equivocados. e uma babá alemã. Déborah. tínhamos que v iver bem.Nessa época. sem a pagar o sorriso em meus lábios. crescia um tumor. Contudo. Jacob iniciou sua carreira justamente no momento m ais crítico da época. vivíamos num dos melhore s e mais novos bairros da cidade. A austera govemanta alemã ficava possessa. Jacob sequer estava em condições de alimentá-la.embora esses serviços t ivessem simplesmente desaparecido. meu rosto não variava nunca e.u a réplica final a um fidalgo de aldeia morto havia tempos e suas filhas de pele clara.disse a doutÔra sor rindo. Embora a aldeia lamacenta. Estava grávida de novo. como é natural. Afinal. Um autêntico fecho de ouro.O quarto das crianças parecia um hospital! Sim. a milenária e bárbara dor .a dourada e d adivosa Déborah.

Era uma escola pequena e simpática. Fizemos isso. os degraus eram cobertos por tapete espesso. . . Pretendia pedir demissão no dia seguinte. começou a sair e fez amigos. Restav a-nos pouquíssimo dinheiro. àquela época. . Costumávamos br incar a respeito de seu sono leve. . nenhuma necessidade de empregados e o começo de minha autonomia em tom ar decisões. No inverno. Sentia muita dificuldade em 37 fazer amigos. Seu aproveitamento era excelente. Jacob chegou em ca sa e com a notícia de que o negócio de Sulzburger era. Quando finalmente soubemos que as operações tinham sido bem sucedidas. estávamos de volta à mansão da família. porém. Fic amos todos meio desvairados.perguntou a Dra. tentando desvendar sua mente. as janelas sempre es cancaradas. Tivemos que vender a casa e. Consistia numa série de pequenos serviços extremamente lucrativos. se libertar. Decoramos a casa toda. Uma tarde. uma vasta e int rincada fraude. na realidade. ela devia dormir. Ah. Eu falei da escola. . A escola recomendou que a levássemos a um psiquiatra infantil. a coisa mais importante de nossas vidas.Sim. Anos depois é que vi emos a saber que a primeira colônia de férias (que ela freqüentou em silêncio três anos se guidos) era de um anti-semitismo cruel. um dia. Você quer dizer que ela dormia pouco? . Todos gostavam dela lá. . tudo. Déborah freqüentava as melhores escolas. Vivia escondida em casa. e. assando batata-doce em volta da fogu eira e cantando velhas canções de acampamento. com uma am argura excessivamente precoce para ela. . e convidamos os parentes para uma festa em honra ha saúde de Déborah. Segundo eles as res postas de Déborah indicavam uma "perturbação" qualquer. isso também acontece com muita gente. Uma fraude complicada e engenhosa como essa até que tem o seu lado bonito.um ano maravilhoso. pequena. mas afinal. comia demais. No entanto. e havia as flores que eu mesma cultivava. Isso durou um ano .Bem. mas não tinha graça nenhuma. Dois dias depois.Ela não demonstrava nenhum sinal de que estava doente ou infeliz? Só essa atitud e omissa? . Suspendemos as visitas ao psiquiatra. . Sem a família to da.Comecei a observar com mais atenção minha filha prodígio. . e ela nunca dormia.Qual a idade dela na época? . Tinha um ja rdim cheio de árvores e não faltavam crianças pelas redondezas.. . O processo foi tão gradativo e lento que só vim a notar naquele momento.Dez anos. não muito longe do centro da cidade. mas é que nunca a vi dormindo. um mês depois.. A contabilidade de Sulzburger nos pareceu. Dizia que tinha ouvido nossos passos n a escada. o psicólogo nos cha mou e mostrou um teste que fora aplicado em todas as crianças. Jacob poderia. Você sabe disso. . o sol.respondeu Esther com voz cansada . Quando entrávamos em seu qua rto à noite. ser mais do que um simples consorte em sua própria família. Depois da terceira sessão. Investigara durante três meses a origem e o destino de todo aquele dinheiro até comprovar suas suspeitas. sim. n um bairro tranqüilo e mais modesto. finalmente.Uma pessoa tem que dormir. Jacob conseguiu se empregar como responsável pela contabilidade de Sulzburger. verificar se aquilo era ve rdade ou não. Víamos ape nas os grupos alegres de meninas brincando. Déborah manifestou um po uco de medo no início. Reparei que ela não brincava com as outras crianças. ela se tomara grande demais só para eles dois e por isso tinham alugado um apa rtamento em Chicago. Não queríamos que ela se sentisse . não contivemos nossa euforia e o sentimento de gratidão que nos inva diu. Meus pais resolveram dar a mansão para nós. Vai nos custar. Também eu f iz amigas. mas logo se desinibiu.Esther passou a remcomorar velhos nomes que ressu rgiam do nada. não é? Pois mesmo assim não posso deixar de admirar a cabeça quemontou tudo isso. . Compramos uma casa nova. e no verão.que era capaz de demonstrar. Ela fica va cada vez mais perturbada e insatisfeita. . Fried. as melhores colônias de férias.. e acabou engordando. Déborah nunca se referira a isso. Não adiantou nada.. . É claro que a mansão tinha que ficar nas mãos da família: foi assim que aquele lugar odioso se transformou no lar dos Blaus. sempre a encontrávamos acordada. virou-se e perguntou: "Por acaso não sou aquilo que vocês queriam? Será que vocês têm que corrigir o meu cérebro também? "Era esse o seu modo de falar já aos dez anos de idade..

Não conscientemente.. embora os professores da nova escola a tivessem em a lta conta. Seu grito de socorro foi ouvido. Não sei bem como. Na cidade. . . Começou a aprender música e a se dedicar a todas as atividades próprias às meninas de s ua idade. Nos dois anos seguintes. da Velha e de toda a família. sem exigirem grandes esforços da parte dela. Até que finalmente encontramos um comprador. Sempre houve atritos entre Déborah e s . Afinal d e contas. mas no íntimo. gritando muda e confusam ente. Era uma característica intrínseca a nós duas. Déborah descobriu a arte. é claro. rápida e segura. O quarto de fato estava vazio. que não estava tentando se suicidar. Você mora num apartamento. seus pavores. suas pequenas excentricidades. de ficar à escuta. Passamos a encarar com indulgência as doenças de que se queixava. Não adiantava ." Esther procurou uma definição que tomasse verossímel o estado atual da filha. A família encontrou de repente a explicação pro videncial para todas as esquisitices de 39 Déborah: o aspecto doentio. a sensibilidade. Seu interesse despertou com o ímpto de uma tempestade. por causa de mais uma de suas indisposições misteriosas.. Enquanto tentávamos nos livrar dela. isto é. ou por uma espécie de entorpecimento mental. Sentia-me ao mesmo tempo esmagada por aqueles quartos bolorentos. . que. rapidamente substituídos pela rigidez e inexpressividade facial . agora ela está aqui. Lembro-me de ter conversado algumas vezes com ela s obre isso. que não seria eliminada por uma decisão ou por um pedido. Certa tarde. Déborah foi ao médico. Levamos alguns deles a professores e críticos de arte. Vamos voltar um po uco atrás de novo. . Déborah era intensa. Ela disse que não queria qu e o sangue se afastasse muito. mesmo sem nos darmos conta.Perguntei-lhe por que simplesmente não deixara o sangue escorrer pela pia . ..Quer dizer que foi uma atitude premeditada? Uma coisa planejada com antecedência ? . e pelo olhar crítico do Velho. Uma evidência importuna qualquer sempre vinha relativizar essas racionalizações.. E há mais: Déborah sabia que o sono de vocês era leve porque o dela também era. Procurei no banheiro e a encontrei sentada no chão. . e não poupei esforços para me convencer de que era a resposta exata..Bem. acordei. que reconheceram que a meni na era realmente talentosa e devia ser estimulada. . No dia seguinte. ela sabia. um espírito raro. saiu cedo para fazer qualquer coisa e voltou muito tarde par a casa. muda.Esther sacudiu a cabeça para expulsar a palavra proibida. por alguma razão oculta e instintiva. Sacudimos aliviados o peso morto do passado e mudamos para um apartamento na cidade. Déborah er a uma pessoa especial. portanto. foi impossível continuar sustentando uma mansão de qui nze quartos. ocorria-lhe uma estranha sensação de culpa). .. Ao estourar a Segunda Guerra. sua solidão perderiam um pouco da estranheza no anonimato da cidade grande. Pareceu-nos uma boa me dida. mas gritando por socorro. Consumia todas as suas horas vagas desenhando. a intensidade e os súbitos olh ares de desamparo. ela deve ter feito milhares de desenhos. As janelas ofereciam morte muito mais fácil. sem contar os esboços e os rascunhos na escola. Chegou em casa estranhamente pálida e assustad a. especialmente para Déborah..Sua resposta foi bastante significativa. ela continuou infeliz.De quê? . Cerca das quatro horas da madrugada. no entanto. adquirimos o hábito. as suas distrações: era a adolescência. por uma terrível compulsão de 'guardar as coisas'. Fui até o quarto dela com a certeza íntima de que havia algo de errado (na rrando agora o episódio.Não sei. olhando o sangue escorrer de seu pulso numa bacia.cont ou a doutÔra. de grande talento. não me cansava de repetir.38 assim. e os estudos andassem bem. . a insônia. inclusive dormindo. Na realid ade. às colônias de férias e à escola. Tudo estava claro agora. nunca ch eguei a acreditar totalmente nisso. a seu modo. mas a mente dela escolheu o melhor caminho. eu me dilacerava interiormente. Veja. recomendando-lhe que não tomasse as coisas assim tão a peito. O que só veio a calhar: foi uma resposta fácil e luminosa às sombrias e vagas suspeitas. a adol escência de uma menina excepcional. aos onze e doze anos de idade.

enfim.E então veio a époc a. pareceu infeliz. . . ficou bom? . onde ele morreu. ajudei a professora a compreendê-la.Vejamos. Talvez isso tudo tenha começado com o t umor." . conversa vem.Eu procurava ajudar. Convidei-os para um passeio no jardim zoológico e foi o bastante para quebr ar o gelo. foi antes disso. Eu. para me divertir nos lugares onde eu estava. que isso algumas veçes era mal interpretado.Feliz. Contei-lhe como eu mesma tinha conseguido superar certas dificuldades de crescimento fazendo esportes. Quando fcom os embora. De certo modo . que ela procurou corrigir. e conversa vai.Ah. no entanto. Na sua opinião. . Minha própria mãe nunca pôde. . você soube que as coisas não iam bem com sua filha. respondeu: "Ora. . Fcomo s visitá-la no final do verão e ela nos . Tive um paciente que costumava aplicar em si mesmo as tortu ras mais pavorosas. desde aquele ano alguma coisa começou a funcionar mal nela Daí em diante foi como se ela mantivesse a cabeça baixa já esperand o pelas bofetadas. teve a impressão de que ela não estava entendendo. faço antes que o mundo o faça. não foi o amor que Jacob e eu tínhamos um pelo outro ou por nossos filhos. Convidei essa professora para um chá.Durante muito tempo. as férias na colônia. muitas vezes as pessoas não a compreen diam bem. Certa 40 vez as aulas mal tinham começado. . ajudando-a ne sse tipo de coisas." Eu insisti: "Por que não espera para ver o que o mundo realmente faz?" Ele respondeu: "Você não entende? Mais cedo ou mais tarde acontece. Precisei aprender a fazer as pessoas se desinibirem. durante o verão. Essa coisa horrorosa aconteceu apesar de nosso amor e de nossos cuidado s. Lembro-me de várias ocasiões em que ela precisou de mi m e eu fiquei de seu lado.Esperando pelas bofetadas. era o terceiro ano consecutivo que ela ia. parecia estar bem.concordou a doutôra.Entendo .repetiu a doutôra. pensativa. . Como é que uma pessoa perc ebe que a atmosfera mudou? De repente. a época em que ela mesma começou a providenciar as pancadas. é claro.Lutei por Déborah durante toda a sua vida.Ficou. Esses problemas crescem muito nessa idad e e eu me sentia contente por poder ser uma verdadeira mãe para ela. pronto. É um bom meio de se obter reconhecimento e fazer amigos quando se é jovem. . isso depois. Na colônia de férias. Assim pelo menos sou dono de minha própria destruição. ela se mostrava aliviada. .. Tive que me esforçar um bocado para superar minha p rópria timidez. e no final a professora veio me dizer que conhecer Déborah fora um verdadeiro privilégio: era uma menina realmente excepcional. e quando lhe perguntei por que agia assim. a coisa acontece. Déborah ja mais ficou desprotegida ou sozinha. os olhos transbordando de gratidão: . .É isso que é a do ença? . 41 . . . No entanto.Bem. Ficaram amigas enqua nto Déborah freqüentou a escola. tinha-se configurado um quadro falso das coisas. . . . Não fcomos nós. não. sempre procurava ser amável com os professores. Cantávamos e brincávamos. Tinha nove anos de idade. Só que vieram os nazistas e o infemaram em Dachau. quando começou o problema? .Esse paciente. não é? Antes mesmo do psicólogo da escola. e isso facilita va um pouco as coisas. então. Ela teve um problema sério com uma das professoras na escol a pública da cidade.Um sintoma talvez.De que forma Déborah encarava essa ajuda? . ela começou a ter problemas com um determinado gru pinho.as colegas? Resolvia os problemas sozinha ou recorria a você? . Também nunca deixei de dizer o quanto eu a amava. Estou contando isso porque quero que você entenda que é impossível tentar refazer o mundo p . de que forma eram sentidos esses tempos? De que forma você se sentia? . Esther. Esther voltou-se para a doutÔra. . As pessoas com quem Déborah tinha dificuldades eram conquistadas e eu me sentia feliz por poder ajudá-la.Numa visão retrospectiva. Sentia orgulho dela e nunc a deixei de dizer isso. . expliquei que minha filha tinha medo das pessoas.E quanto à colônia? . é claro.

Ela precisará de seu apoio. não é? Meu amor por Jacob não me impediu de magoá-lo e hu ilhá-lo aos seus próprios olhos e aos de meu pai. de certo modo. de tomar suas próprias decisões. Se não fos se assim. . . bem. "Papai acha". que a versão da filha diferia radicalmente da apresentada pela mãe: a mãe desvelada.O que é. . essa. tremendo de frio no âmago daquela noite de inverno. 44 . aqui estou eu no meio de novo. . .Mentir. . . um olhar de sonâmbula.Amar apenas não basta. Esther viu-o no fund o do cinema. A Dra. mas acabou aceitando. e a Esther-mãe daquelas palavras sentidas de amor e sofrimento. . de causar. Comovida com a sinceridade de se us sentimentos.Olhou de novo para a doutôra.disse Esther.juro que não vou usá-la. . ela não quer ver Jacob. O que não significa que você deva se mortificar por ter tentado. como saber o que dizer quando estiver conversando com ela? Sabe. "Pobre Jacob. . da última vez que a vi. Não se torture nem se culpe a si ou a seu marido ou a qualquer outra pessoa. . anos e anos permiti que Jacob ficasse em segu ndo plano. . com os olhos pregados em Déborah. Trazida de volta à realidade. "Papai quer". e seu olhar era tão estranho. A doutôra sugeriu que não insistissem com a filha." Jacob protestou. A Dra. Mais tarde. recostando-se na c adeira. doença. não de sua a uto-recriminação. E ao saírem. fitando a doutôra com ol hos incrédulos. pois achava qu e essa decisão não representava tanto um desapreço a Jacob. Esther estava convencida de que não conseguira explicar dev idamente sua posição. . eu tinha que tentar melhorar as coisas . . Terminara a entrevista. E nosso amor por Déborah não nos imped iu de. Fried conduziu-a até a porta. Quando entraram no restaurante. e seus desejos tão simples e modestos! . Como pude. sobretudo agora que ela se mostra tão sensível a i sso. a filha agradecida. . viu-o novamente escondid o na sombra. O hospital dera permissão pa ra sair com Déborah sozinha. e isso ainda hoje. Ao deixar o consultório. quando ele é que era meu marido. ao tentar ajudar.Como.Calou-se. . jantariam na cidade e depoi s conversariam. Déborah e eu. pensativa.prometeu mentalmente a Déborah . erros graves.ara proteger as pessoas que amamos. e de uma filha que padecia de uma decepção mortal. Como pude fazer isso com ele? 42 Todos esses longos anos. mas uma tentativa. cometi erros. Esther voltou a loca lizá-lo." Passou no hotelzinho onde estavam hospedados para dizer a Jacob que Déborah ainda se recusava a vê-lo. . pensou Esther. Fried observava o contraste entre a Esther dos modos estudados e a fision omia circunspecta.pediu a doutÔra. Ambas se levantaram. doutôra? . Esther interpretou aquilo como uma co nciliação. a menina não estaria intemada. "não de u para dizer nem um décimo do que precisava ser dito". e mais o período em que vivemos da caridade de papai. Iriam juntas a um cinema. acabara interferindo.Só há uma coisa realmente perigosa. parado na esquina. encarregad a de transmitir a bofetada. Sabia. "Juro .Sim. ela disse num tom de voz suave: . procurando tranqüilizá-la. procuremos as causas. . "Muito curta". contudo. observando-as. Tinha a im43 pressão de que. Desde aquele apartamento caríssimo.Conte como era sua vida antes de você vir para o hospital . As concordâncias e contradições entre as duas v ersões da realidade permitiriam atribuir a verdadeira dimensão de profundidade a uma das interpretações. Não vo u perguntar o que fizemos ou o que não fizemos.Vejo agora que. mas muito mais em relação a Jacob do que a Déborah. tímida e desorientada. Esther compreendeu que teria que enfrentar a Déborah d o presente. mas ficou calada. . . por experiência.Deixe que nós.

imobilizaram-na mais uma vez s obre aquela mesa e disseram: . Tinha cinco anos na época. Na noite em que ouviu o pai discutindo os planos para inte má-la no dia seguinte no hospital. ia observando a reação da Dra. sobre aquele tumor. .Fique quietinha agora. para que ficassem hipocritamente perguntando "tudo bem"? E depo is. Logo depois veio a ferroada da agulha. em meio à dor brutal: "Como vai sua bonequinha?" À medida que contava.Não. Os pesadelos só não tinham anunciado a pavorosa dor que viria a sentir.Isso pune a você.O que haveria naquelas cabeças malucas. es fregaram. . Houve.A terra dos sonhos . manipulada como um objeto. cuja flor representava sua própria vitalidade destruída. Nunca disseram que estavam arrep endidos.Então vou contar uma coisa que mais ninguém sabe.Está vendo.Sua mãe contou o que ela deu. . .ela perguntara assustada. seu passado desperta ria algo mais do que aborrecimento. não o que você viu. o que ela viu. 46 o upuru nos pune. . um médico intemo visivelmente perturbado com se u sofrimento e perguntou: . em protesto por aquela menina de ci nco anos sofrendo ali à frente das duas. . limparam cada uma de suas partes com sabão em pó.Por que vocês todos contam mentiras tão horríveis? Ele res pondeu: . voluntariosa como era. continua me comendo por dentro.É porque nunca perdi o tumor. . sentindo-se usada. . idade suficiente para morrer de vergonha quando os médico s meneavam a cabeça referindo-se ao mal que a roía por dentro.Oh.foi o que disseram.exc lamou e pôs-se a apagar o cigarro impaciente e irritada. justamente sua parte mais feminina e mais secreta. ardeu de ódio.Quer dizer que você não vai ficar indiferente. 45 Certa vez. mentiras que para mim soavam como deboche. ela se afogou num silêncio mudo e atordoado. Naquela mesma noite. . Falou. . Nunca p ediram que eu perdoasse a eles por essas coisas e nunca perdoarei a eles. . Só que ag ora é invisível. naquelas c abeças assassinas. por tere m me obrigado a suportar toda aquela dor e a vergonha de sentila.Para ela aquilo significava que iam a ssassiná-la. o rosto da doutôra estava c ontraído de raiva e a voz carregada de indignação.Minha mãe já lhe contou tudo . sufocando-a com a substância adocicada e enjoativa do sono. Quanto desprezo deviam sentir para mentirem daquele jeito! Quer dizer então que er a pior do que um assassinato? . não vou! Pode estar certa disso! respondeu a doutôra. .Agora nós vamos consertar você direitinho. não a eles. tateando cautelo samente o novo terreno.Que lugar é esse? . não o que você recebeu. . Estava curiosa para saber se. . outro sonho com um vaso despedaçado. e em seguida.Ela não sabe muito a respeito disso.Como assim? . remontaram -na. Para sua surpresa.Dias depois. . Depois dos sonhos. como se toda a realidade de seu corpo se resumisse naquela coisa perversa q ue estava escondida lá. . você então não vai ficar com medo? .A máscara baixou. por terem ment ido tanto e de modo tão estúpido. . mais tarde. vamos fazer a sua bonequinha dormir. a eles e a mim. Não vai doer nada .responderam e em seguida comeÇaram a cauterização insuportavelm ente longa e dolorosa da Parte proibida. . das altas e gélidas regiões de seu reino. morta mas apresentável. por exemplo.disse Déborah. num mundo onde as pessoas ligavam tão pouco umas às outras. virou-se para um deles.Que cretinos! Quando é que aprenderão a não mentir para as crianças! Que horror! .respondeu Déborah asperamente. Continua lá. como se estivessem saqueando um quarto: desmontaramna. teve um pesadelo: sonhou que a devassavam à força. nenhum deles. Por terem penetrado em mim sem a menor consideração. e de novo apelavam para o engodo mais do que óbvio da boneca.Diga então o que você sabe. Fried. . Penetravam com suas sondas e agulhas na região proib ida.

despidas de eufemismos bem educados.perguntou Déborah. que se fechou sobre ela como um oceano. Depois que soube disso. de "loucas".O que foi que você disse? . não diria. Para aqueles que nunca ousaram pensar em si mesmos. quando uma enfermeir a disse para ela: "Ora vamos. O termo Upuru nomea va em Yr a síntese das lembranças e das "emoções" daquele último dia no hospital. horrorizada. Novos pacientes tinham chegado.. A superfície voltou à tranqüilidade. Déborah compreendeu a reação desdenhosa de Kathryn. não conseguem acreditar que são apenas pessoas. .E talvez fosse verdade. distante das palavras. A e B. eu sobrevivi. mulheres que viviam gritando. As alas mais tranqüilas. mas não pude dizer nada. . outros subido para a Ala D (a dos "insanos") e alguns transferidos do hospital. . "Como os doentes sentem medo".Daqui há pouco. donas de um ressentimento puramente humano!" Dias depois. eles morreram.Acho que foi. mas acho que isso é "furado".Dizem que a pessoa deixa 47 de odiá-los depois de algum tempo de terapia. insano. descrente de que pudesse existir um único inimigo.Quem é? . vamos acabar veteranas . utilizadas ao máximo por todos . e que os recém-chegados aprendiam sem que ninguém precisasse ensinálos.perguntou Carla.comentou Carla. tanto mais inacessível às pessoas quanto mais rígido fosse o controle da voz interior. A linguagem de Yr era um segredo ciosamente guardado. Eu tinha certeza que ela ia perguntar. Era tarde.A visita foi boa? . "da força incontrolável que possuem! Por alguma razão. Havia toda uma hierarquia de privilégios para gozar dessas liberdades. sem deixar vestígio s de sua passagem. mas me deixaram sair quando minha mãe veio aqui. Fried contemplou-a longamente. Desse modo. . .Upu o quê? Yr irrompera de repente. num plano mais sério.declarou Carla . eram chamadas pelos outros de "doentes" e por si mesmas. Meu pai se casou de novo. no meu irmão e depois em si mesma. . Déborah retcomou ao Mundo Intermediário. Palavras cruas. demente. Fried. e mesmo que eu soubesse. pensou consigo mesm a. desde qu ando todas as coisas se tomaram cada vez mais cinzentas e obscuras.Minha mãe . .respondeu Carla sem titubear. uma menina de olhos lânguidos e modos agressivos.respondera a mesma. maluco. oc upavam o nível inferior daquela escala de valores invertida e só podiam reivindicar as categorias mais leves: biruta. Fazia tudo o que mandavam e. Ela não conseguiu se controlar e acabou insistindo para que eu fal asse sobre os motivos da minha doença. . Déborah não estava mais ali.Velhas lavradoras des sa estranha colônia penal. Impied ade.Há momentos em que odeio as pessoas que me fizeram ficar doente . na sua casinha branca de aparência tão pacata.A Dra. . Só elas tinham o direito de se referirem a si mesmas pelos termos mais extremos da escala. Excetuando-se a D. de onde podia conviver com a T erra. o Censor vinha interferi . a não ser em segredo e como indivíduos estranhos e excêntricos. fugi ndo assustada para Yr. Déborah batera asas. para o consultório ensolarado e sua mobília traiço eira. Além do ma is. palavras impiedosas. Tratava-se de uma norma criada espontaneamente pelos pacientes. meu inimigo está acima do ódio ou do perdão. sentada com Carla e algumas outras meninas. e ela compreendeu.. fora de si. e eu fiquei doida. pirado. .insistiu a doutôra. afora aquela instieadora de horrores. .Não. Eu estou pirada!" . uma paciente da Ala B que se dissesse "louca" pa ssaria por faroleira. com um olhar sempre esgazeado. louco. As int emas na Ala D. a Dra.Você tem o privilégio de ir à cidade? . . você está ficando perturbada!" "Eu não estou perturbada. pancada.Ela deu um tiro em mim. lunático e. Fazia já dois meses que Déborah estava no hospital. . o lugar já não assus48 tava Déborah. tais como "insanas" e "loucas". que um de seus segredos acabara de escapulir para o mundo. biruta. Estava no corredor da ala. a liberdade significava liberdade para ser doido . crueza: duas regalias importantes do hospital. sem caírem em contradição. Mal nos sentamos e a coisa transbordou como uma enxurrada. das razões ou de qu alquer possibilidade de alívio.

.perguntou Déborah. mas quer dizer muito mais. com gestos dramáticos de condenada. Meu Deus. .insistiu a doutôra. acorrerem-lhe pensamentos e acontecimen tos. é para sempre? . Pensou nas metáforas Yri.O quê? . inclusive da voz exterior que a sub stituía e respondia por ela quando desejava se recolher a Yr. você consegue me ver? . sob a forma de uma águia. caso contrário o drama se toma uma comédia r idícula. .no mundo inóspito à sua volta..Há quan to tempo ela está aqui? . implorou Déborah no idioma de Yr. . em determinados momentos. vocês ainda estão na fase da lua-de-mel aparteou uma garota. . Nada disso adianta.Corresponderia a sarcófago. nem essa droga de l ugar nem nada. .Deve haver algumas palavras . uma gravura de alguma coisa que é real.E isso. que. . amatil e sei lá mais o quê.ndo de forma bastante branda. tinham pelo menos a decência de se mostrarem embaraça dos.Talvez você possa explicá-las.Ela se levantou. acho.Espero que sua curiosidade esteja satisfeita . . e o que se passou no resto daqueles primeiros anos. para quem as paredes não estremeciam . Para ela. Só me falta agora u ma lobotomia. a vítima tem de ser linda. . aos olhos de Déborah.retrucou a doutôra. como um coração. Tu que não és linda. 49 .Procure lembrar para que pos samos compartilhá-las juntas. Meninas. sentada perto delas.com os Olhos Trancados. os abismos e os picos de Yr começaram então a gerar um vocabulário cada vez mais rico. Quanto tempo leva para sabermos se nos daremos bem ou não? . os quais não tinha com quem compartilhar . paralisada. como foi que o mundo de repente ficou cinza depois disso. nos últimos anos. . .Mais de um ano.Leva mais ou menos três meses. As planícies.São metáforas.. e se afastou . sacudida. um grupo decorava uma árvore de natal.disse à doutôra. cheia de reti radas. . As janelas emolduravam os galhos nus e enegrecidos d as árvores.como uma gravura apenas. . no cinza que cobria tudo for . Os risos pendiam no ar tão artificia is quanto os enfeites na árvore (nenhum vidro.Existe uma palavra. Enquanto isso. . Era difícil falar com um vulto parcialmente submerso.Não consigo descrever a sensação . .Isso significava. já que falamos sobr e as operações do tumor. que conseguia exprim ir suas estranhas agonias e seus momentos de grandeza. aí esgoto todos os recursos. mas ela não conseguiu entender. . . Cinco pertencia m à equipe médica e dois eram pacientes. . na casa da doutôra. Excetuando-se o convívio com Carla e Marion na ala. o alcance de sua visão não ultrapassava a cobertura do sarcófago onde estar ia encarcerada.. a que costu ava recorrer quando queria descrever para si mesma e para os personagens de Yr os se us desejos. Já passei por seis hospitais. camuflagens e defesas. tomei metrazol.disse para a doutôra. Fui analisada. Era freqüente. Mate-me. por sinal) e. segundo personagem mais importante de Yr. Déborah . que se reco stara na cadeira. segredou: Para que se faça de condenada. você não entenderia. Dezembro. Lactamaeon.Só que ainda há muito por fazer. Anterrabae pôs-se a recitar uma fórmula de encant amento em Yri. o mundo se reduzia à dimensão d e seu próprio ataúde.Não quero assustá-la. senhor. nenhuma extremidade ponteaguda. . Eu gostaria de lhe perguntar. Estou " por dentro". Na sala de estar. que esforço faziam para que o hospíci o se parecesse com um lar! Puro faz-de-conta. assim como para os mortos. O inverno chegou. para Déborah.perguntou a Carla no idioma da Terra. Aquela conversa estava deixando Déborah terrivelmente amedrontada.. revolvida. As paredes começa ram a pulsar de leve.Não sei. ia se afastando de tudo e de todos no mundo. eletrocutada . Significa Olhos Trancados. . sua história ia se arrastando.

fechar os olhos e crer. lág rimas terríveis e pungentes de homem. isto é. contudo. a maldição transbordou do corpo e da boca de Déborah. minha mãe odeia tua mãe. nos tchecos e nos poloneses. as tias e os tios foram se afastando de Déborah. até mesmo ela e a capaz de perceber. com o passar dos anos. só conseguira enxergar naquele ser intruso um monte de rugas com um rosto vermelho. e por mais consciente que estivesse dela s. . Continuava m orgulhosos dela. A convalescença t ambém não passou de uma grande farsa. sempre perdiam. farsas e conturbações. Quem sabe se. de certa forma não estivera à altura do jogo deles. sob os auspício s de uma mãe adorá51 vel. do alto de sua nobreza. porém. não seria tolerada. pressentindo a desgraça inevitável. Diziam que ali não havia preconceito. matava judeus por mero prazer e ma ldade. a maldição predileta: j udia. no entanto. Os parentes.Não fui eu quem fez! Não ajudei a tomar a decisão de fazê-la. Nas férias. um professor de equitação da colônia declarou brutalmente que Hitler fazia pelo menos uma coisa boa. Lembrava-se bem da cena que presenciou um dia. boa e aflita. menina sempre com ares de moça. era uma verdade mais do que evidente: achava feia aquela coisa. de tramóias. que veio saltitando atrás com uma radiante e despreocupada doçura. Era um mundo carregado de mistérios. O entendimento dos mistério s eram as lágrimas. em Deus. constituía alvo i deal para os provocadores do quarteirão. . Rabiscavam palavras ofensivas nas pared es especialmente as da privada (onde. ao mesmo tempo doce e amarga. Déborah ficou tão re ssentida com isso. A realidade oculta pelas farsas era a morte. E no verão ia para a colônia de férias. Um deles morava na casa ao lado. O mundo de Déborah apoiava-se na certeza de que era vítima de uma maldição ináta. Algumas vezes Déborah já ouvira fa lar que um homem chamado Hitler. para nunca mais abandoná-la. onde anos atrás o tumor fora exti rpado com tanto sucesso. . Uma observação gente e bastante precoce para uma menina de cinco anos. quas e cruel. Como se estivesse possuída por um demônio. já que as difer enças entre os vários cultos protestantes da classe média sempre foram extremamente su tis. os códigos seculares da fortuna ainda vigorav am. disseram. Quanto a Suzy. Por cáüsa da operação. só começou a freqüentar a esco e e foi rejeitada das primeiras amizades e grupos que suas coleguinhas tinham fo rmado em sua ausência. judia.Mas ela é sua irmã! . e na cre nça fervorosa. ponderaram. nem lhe p assava pela cabeça que viesse a ser sua companheira. s e apinhavam em volta do berço. Quando sua irmã Suzy nasceu. Déborah. que foi incapaz de fazêla desistir. e para onde olh asse. talvez fi asse mais fácil suportar a memória. expulsando-a. a menina feia do tumor gritara ao sentir a urina queimando por dentro). No entanto. Suas re gras não passaram de mentiras. que berrava e cheirava mal. Ficaram chocadíssimos e revoltados com o que. eliminando aquele "povo imundo". Honesta sem dúvida. A mãe. para Déborah. com a cabeça apoiada na mesa da cozinha. isto é.a de Yr. já que a própria doença continuava existindo. lançava-lhe ao rosto. foi amada sem r eservas. E foi mais ou menos iss o o que aconteceu. minha avó odiava tua avó.exclamavam indignados. maravilhados com a beleza e a delicad eza da recém-nascida. judia imunda. mas fruto do ódio e do egoísmo. certa vez. por mais negada que fosse. eu te odei o! Três gerações de ódio! Aquelas palavras tinham uma ressonância especial. que por si mesma já se considerava imunda. lhe 50 trazia uma dolorosa sensação de perda e aflição. na primavera. Esse comentário marcou o início do incômodo da família em relação a Déborah. não a amava. por causa dos "tchecos-e-os-poloneses". nos quais os judeus. "via fracasso e confusão. o que bem poderia ser verdade. antes de sua partida para a colônia: seu pai chorava. não eram só aquelas crianças que a odiavam. As conturbações eram combates travados em segredo. e a "judia imunda". não soubera se comportar no jogo. mas o fato é que ela era a única judia. na Alemanha. mas não carinhosos. fico u imaginando se eles todos não teriam tumores. Déborah. Na vizinhança. Mesmo no hospital. O passado. Depois de ouvir isso. Déborah começou a revolver lembranças. Sempre q ue a encontrava. e não do amor. se a doutÔra pudesse decifrá-la. mas fria. tcomou c onta da questão: fez-se anfitriã das meninas do grupo mais popular.

parecia uma máscara de esgrima. e ficou observando o sangue escorrer dos seis ou sete sulcos abertos até abaixo do cotovelo. Guardava consigo a tampa de uma lata de conserva s. Estás beirando a tua destruição. . O lhe para mim! chamou Anterrabae caindo. Tu não és dos nossos.Foi na colônia que descobriu Yr pela primeira vez. Tudo estava abaixo dela. Cavalo-s elvagem-um.Engraçado.Essa vaquinha sofisticada nunca fez nada difícil na vida. nem falar sobre os Deuses.e começou a pensar febrilmente. recolhida num de seus passeios. Quando voltou à ala. e os urros or iundos dos níveis mais baixos dos reinos de Yr.disse pensativam ente. As últimas pretensôes a conforto e no rmalidade acabavam de ser suprimidas. nunc a! és inteiramente diferente. acompanhando minuciosamente os sulcos o riginais.Eu não sabia que as pessoas na Terra eram dotadas de interior . cutucando aqui e ali com o dedinho para ver o que acontece. Agia com meticulosidade. como você. Ao voltar ao presente. . é que o lugar apresentava um aspecto ao mesmo tempo assustador e reconforta nte. mas a frieza. Uma guria rica e estr agada. Rasgou o antebraço. Andava como se estivéssemos muito aba ixo dela para que se dignasse a nos olhar. e encontrou uma bagunça incrível: os lençóis e o rosto dela empapados de sangue .Você está assustada.Nunca se sabe o que se passa dentro delas.Enfermeira ou qualquer coisa no gênero? . mas decidiu não contar isso à doutôra . estava inteiramente sob o domínio de Yr. disse Anterrabae. algumas tinham acessos de cólera. num sentido que ultrapassava a finalidade por que estava ali. escuta. o Coletor e seus vastos reinos. sentia-se exausta. todos scomos . que precisam ficar aqui. com o o metal. indo e voltando umas dez vezes seguidas. a brecha que se abr ia para diferenciá-la dos outros.Ah. sabendo e não sabendo ao mesmo tempo o que pret endia fazer com ela. Essas palavras infundiram nela uma profunda e duradoura sensação de alívio. tentando desvendar aquele mistério. As bordas eram denteadas e cortantes. ralhou ao fundo o Coletor.Eu sou Lee. . e o braço cortado com uma tampa de lata. Escuta. revestida de grades e telas . Sou psicótica. musculosas. Só então se recostou e dormiu. não está? .Onde está a Blau? Não encontro o nome dela aqui. Pássaro-um. . Isso mesmo. só isso! . . você não sabe? Foi transferida para a ala dos "Perturbados".Estou. viu a indignação estampada no rosto expressivo da médica. . O que a intrigava . até que o braço ficou reduzido a uma posta ensangüentada. você é psicótica. As mulheres passavam o dia empertigadas em cadeiras nuas e incômodas. Umas viviam mudas. Vais sucumbir. 54 Déborah estava apavorada na Ala dos Perturbados. Não sentiu dor. Brincas com o Abismo de um modo muito pe rigoso. Rasgou de novo o antebraço. Um horror! Deram-lhe uma injeção antitetânica e colocaram-na direto no elevador. outra s não paravam de resmungar sozinhas. apenas a sensação desagradável causada pela resis tência da carne. acabarás quebrando o sigilo.Lógico que não. Déborah apoiouse a uma janela . Uma jovem se aproximou por trás dela. Sentou-se numa cadeira desconfortável e ficou escutando os gemidos e os gritos do Coletor. aprofundando os cortes. Alegre e s ilenciosamente.. e que as sessões de terapia são muito difíceis. pesadas. porém. pensava: lá vai a menina rica. Déborah se aventurou a confirmar essa distância. As enfermeira s e as serventes da ala eram corpulentas. não propriamente o que dizia. . ou sentadas e deitadas no chão. . Cafés entrou no qua rto hoje de manhã para acordá-la. . Assim. Sempre qu e nos cruzávamos. Os médicos dizem que são todas doentes mesmo. Tu nunca foste como os outros. . Nunca achei que aquela guria estivesse realmente doente. Estivera completamente absorta narrando esses ac ontecimentos. . Quis agradecer àquela mulher por se mostrar capaz de se emocionar até o ódio. E o jeito sa rcástico de falar. não és como os outros! As palavras em Yri anunciavam a etema retirada.

. que davam à fisionomia de Déborah um estranho ar de truculência. rubra de vergonha.levantou-se e veio toda compungi da para o lado de Déborah.em que os deuses de Yr fora m companheiros. a mulher . trovejou Yr. fosse na escola. . onde sua excentricidade. maior o espaço que Yr ocupava em sua vida.Mostre. dormia a 3ª esposa secreta de Eduardo VIII. O Abismo estava muito perto. como q uem vai ao encontro de seu anjo-de-guarda.disse ela e v oltou à sua discussão imaginária.Foi algo que eu tive que fazer. . Não viremos abarrotar o local onde se reúnem os co nvidados dessa antiesposa anti-secreta do abdicante Rei da Inglaterra! Soltou um a sonora gargalhada. fo sse na colônia. meio cu rvada sobre o abdômen vulnerável e á região inferior. Sempre se dá um jeito. Mostre o braço. Quando sobreviessem as perdas de visão. Tinha si do capaz de olhar para fora de si mesma o bastante para perceber outro medo idênti co ao seu.Escoltada? . pacato e traiçoeiro consultório. E ainda deve ser vi rgem. ou de respeitar as incompreensíveis normas de conduta da Terra. . De uma fonte de beleza e proteção. e abordá-lo com a franqueza e a desinibição características do doente (coisa que ninguém da equipe médica conseguiria). só isso. olhando zombeteiramente para a auxiliar que ac ompanhava Déborah. . Arranhei um pouco o braço. nem escandalizada. pensou Déborah. . não é nada impossível que você venha a dançar 56 um dia e a viver no mundo de novo. onde a odiavam.A doutôra reparou no olhar desnorteado e no medo. que não procurou ri dicularizá-la. . Mostravase apenas absolutame nte séria.perguntou a doutôra. Você que se meteu numa grande encrenca.Isso vai dar uma cica triz horrível! .Onde posso encontrá-lo a sós aqui? .Olhe. .Agora ela está lá em cima.O que foi que aconteceu? . no corre r dos anos. Déborah notou que ela não estava nem assustada. Houve um tempo . Dizia que tinha sido intemada (tratava-se de uma Casa de Prostituição) pelos inimigos do antigo rei. as violentas dores do tumor fictício. a renunciar a seus privilég ios de soberana de um reino luminoso e consolador. Decidiu então falar sobre Yr. "É corajosa". Déborah foi sendo forçada a mitigar. nem recorreu às mil e uma expressões desastrosas que as pessoas habitua lmente empregavam quando a surpreendiam perturbada. Déborah sentou-se.Déborah perguntou a Lactamaeon e seus pares. ninguém diria: "O que é que as pessoas vão pensar?" Seja educado! Não faça escândalo!" Na cama vizinha à sua.Meu Deus! . Mas alguma coisa mudou. para assumir a figura de pris . saindo em seg uida do civilizado.cóticos.respondeu impassível a auxiliar. Depois que a enfermeira trancou os objetos pessoais de Déborah na p equena cômoda embutida. Ia ao encontro das divindades. com seu sotaque engraçado. O corpo dela era miúdo. protegendo o tumor que ameaçava desp ertar ao menor estímulo. Pouco a pouco.Você é tão jovem para estar nessa casa de pecado. Déborah arregaçou a manga.É claro! Todos os meus parceiros de dança vão tremer de repugnância ao vê-la. finalmente. sem esconder nada. não sabe? Já é hora de me dizer. minha querida. . ou o Abismo. douradas e risonhas." Compreendeu num estalo o que havia afinal de reconfortante na Ala D: ali as pessoas estavam dispensadas de manter os falsos b ons modos.e era estranho pensar nisso agora . na Ala D .exclamou a doutôra. verdadeiros príncipes com quem partilhava em segredo sua solidão. Quanto mais profunda a solidão.que estava sentada na cama discutindo sua estra tégia com a figura invisível do Primeiro-Ministro . a apaziguar e. Os miseráveis me violentam todas as noites desde que cheguei . só fez marginalizá-la. Yr se transformou em fonte de medo e dor. os gestos aflitos e ansiosos. os cabelos escuros. rei que abdicara do Trono da Inglaterra. "Eu poderia ter agredido essa moça até não poder mais. o que foi que levou você a fazer essa coisa aí. A doutôra encarou-a atentamente: esperava um sinal qualquer que denunciasse qual o grau de honestidade que ela estava disposta a empenhar na terapia. .

O inglês é para o mundo. por algum tempo.É uma linguagem secreta. com jurisdição sobre os dois mundos. Nenhum rugido de Yr. . por incrível que pareça. Q primeiro segredo fora aberto e. que não conseguirão me intimidar e que nenhuma de nós vai deixar de trabalhar. por mais poderosos que eles sejam. . expondo sua loucura para que o mundo inteiro. Faltavam duas para receber as suas.Você conhece o envoltório de lençol-frio? Vou providenciar um para você. por isso às vezes uso uma linguag em meio latinizada em seu lugar. ao contemp lá-la. ficou reduzida às piores humilhações e desgraças nos do baixo calendário. foi se tomando aos poucos um verdadeiro tirano.Desculpe . . espraiou-se dentro dela. . cujas promessas redundavam em trapaças e cujas van tagens e privilégios.Que linguagem você emprega quando desenha. . .Pratico minha arte nas duas línguas . Déborah voltou para o hospital com a auxiliar.perguntou a doutôra. uma me nina recém-chegada. para comunicar decepção e ódio. você imagina o que vai des enhar em inglês ou em iiri? . quando Doris. pessoal! Calma!" Es58 tas foram. Houvera uma troca de enfermeira-chefe na ala. Yri é para dizer o que deve ser ito. Como um prolongamento do gesto. De rainha entre deuses. No início é incô o. . floresc eriam e desabrochariam.iri.disse a doutôra. e a nova estava distribuindo colheres de metal em vez das de madeira. . Descreveu com as mãos os movimentos agitados de uma onda. 57 . tudo se cobriu de trevas. por hoje chega . a necessidade fez-se coerção. trancaram a última porta de acesso à ala. Começavam a servir o almoço. a ter que arcar com as ofensas do mundo. . Cuidado com essas palavras. . você parece bastante competente no uso do inglês. desatou a rir. a coerção fez-se tirania imp lacável. mas que não passa de uma cortina de fumaça.Comentou ele. . onde germinariam.Talvez eu sinta um pouco de ciúme pelo fato de você us ar essa linguagem exclusivamente para se comunicar com você mesma e não conosco. o dia continuava dia.ioneira das regiões mais tenebrosas de Yr. voltou a ouvir a voz dele: . quero dizer. Como está se sentindo? perguntava o administrador da. como uma veia que se rompe.Seria como dar a um vagalume a potência luminosa dos raios. Com se não bastasse. passou a ter que suportar as atormentadoras transições entre os mund os. as últimas palavras que Déborah ouviu da Terra. recuasse horrorizado. percebendo a ameaça e o pedido implícitos nas palavras da doutôra. "Calma.Bem. são exatamente as mesmas. Estava pasmada. proclamadas em salmos pelo Coletor. .Você parece um bocado assustada . não se preocupe.disse Déborah. só traziam desgraça e agonia. Após uma pausa. O terror. mesmo assim. A dor violenta irrompeu do tumor e jogou-a ao chão. Enxe rgava mal também. lembrando-se dê certas palavr as fascinantes que provocavam um retraimento imediato. .disse Déborah.No entanto. . a prova irrefutável de que ele existia. Houve co mo que uma dobra no tempo. ela se contorceu toda. O encanto fez-se necessidade. os do mundo. Quero que volte e diga a esses deuses. Déborah tinha grande di ficuldade de falar. nos dias do alt o calendário. Não dói nada. . .E existe uma linguagem própria? . pois isso o igualava ao mundo. começou a ouvir o marulhar de ondas em ressaca. O Censor fora incumbido de impedir que Yr espalhasse suas misteriosas sementes sobre a Terra.Você não pode usar a linguagem verdadeira o tempo todo? Déborah riu da pergunta absurda. Às suas cos tas. Déborah encontro u na crueldade de Yr. O que vem depois é a decepção e. A crise explodiu mais poderosa do que Yr. .Existe .Você fez bem em me falar s obre seu mundo secreto. Ala D. acalma. . mas depois de algum tempo.anunciou a doutôra gentilmente. Uma vez empossado no cargo de guardião. a ter que ser súdita e escrava do Censor. ao Coletor e ao C ensor. no final das contas.

zangada. Só depois de ler e reler várias . marcariam as entrevistas. Per cebeu vagamente que estava deitada numa cama. Ressaltava. A resposta era uma tentativa. Continuava embrulhada e completamente imóvel dentro daquele "casulo". Mexeu um pouco a cabeça. Est enderam outro por cima dela e esticaram-no firmemente. apresentou Déborah. Em sua linguagem impessoal e breve. entrou um homem. de reconfortá-la. em cuja pele as marcas deixadas pelo s lençóis só agora começavam a desaparecer: . outro de água quente no s pés. re cebeu a resposta desaconselhando a visita. um calafrio percorreu sua espinha. contudo.Está se sentindo bem? . Esther voltou a escrever agora para a Dra. Fried . menos energia lhe s obrava. Déborah emergiu do Abismo com suas percepções límpidas como uma manhã de sol . Apertaram. . Aproveitou a liberdade para e studar a forma daquele casulo.Não minta para mim! Você está falando com a antisecreta antiesposa do abdicante Rei da Inglaterra! . nua. Quatro horas é a média. e pressionando-a com força contra a cama. já que o hospital julgava inconveniente. . e o tinir das xícaras de chá. largas e compridas. os fatos contidos ali não deixavam mar gem a dúvida. Seu próprio calor aquecera os lençóis na temperatura de seu corpo. Em seu íntimo ansiava que a palavra. Um saco de gelo sob a nuca. não para ver Déborah. Claro que. . Tinha. o administrador da Ala dos Perturb ados. no único movimento possível. A antisecreta antiesposa do abdicante rei da Inglaterra mostrou-se toda solícita: . No entanto. tivesse mudado.Mais ou menos três horas e meia. e o último prendendo.Pobre "vaquinha" Eu vi tudo que fizeram com você só porque não quis dormir com aquel e médico nojento! Amarraram você para que não se mexesse. Sentiu então que a rolavam de um lado para o outro. As juntas doíam por causa da pressão dos lençóis. mas para discutir com os médicos a mudança. Foi difícil levantar e andar. o rela tório mensal aconselhava paciência. atravessando o estômago e os joelhos. que alguma outra viesse modificá-la. sobre um lençol frio e úmido. obrigando-a a expelir o ar. . num passe de mágica. e quanto mais quente. recupera do inteiramente o senso de realidade. . soltaremo s você dentro de meia hora. imitando as tagarelices da nobreza. Após um tempo que lhe pareceu eterno. convertê-la no f ato agradável pelo qual tanto almejava. repuxara m. Voltou a mergulhar na inconsciência antes que pudesse assistir ao final daquelas operações. porém. revestidas d e grades duplas. env oltórios eram lençóis enormes enrolados em volta do corpo: três superpostos como folhas brancas e úmidas. então ele entrou e violentou v ocê. 60 Perturbada. Passado algum tempo. Imediatamente Esther escreveu uma carta para o hospital e. uma quarta correia. honesta se m dúvida.Esta é a putinha sobre quem eu tinha falado a vocês. no interior. amarrando seus pés. com um medo que beirava o pânico. muito esticada e presa com ganchos nos pés da cama. Estava exausta. hein! . . Déborah sentia se extremamente fraca. e a assinatura era de outro médico. Por simples cortesia. Vestiu-se e voltou para a cama.Há quanto tempo estou aqui? 59 .Como? . Estava surpresa por ter emergido de regiões tão fundas sem qualquer angústia. O homem saiu. firmemente retesadas. Aconselhava também que tivesse paciência. se ela e o marido julgavam necessário vir. envolvendo seu corpo em outros lençóis. . o que quer dizer perturbada? . Quanto mais se contorcia e se agitava. . dias depois. mais quente ficava o casulo. voltando a olhar o relatório. mas seus sentidos continuaram embotados. Mas seus fantasmas vieram acalmá-la. Se continuar bem. e pôs-se a conversar com eles. vindo daquelas janelas altas.Virou-se surpresa. Horas depois.Recuperou a consciência pouco depois. que o aparente revés não constituía razão para que ficassem ansiosos.respondeu Déborah mordaz. Insistia em sua ida. três correias de lona.gritou ela.indagou Esther Blau.Um privilégio e tanto. lençóis esparramados por cima e por baixo dos panos que a envolviam como uma múmi a. e presas nos dois lados da cama. sobre os lençóis. mas o importante é que tinha recuperado sua noção de estar no mundo. os braços ao corpo. vieram soltá-la. Lembrando-se dos gritos que escutara.

E ela começou a explicar como profecia e de stino. tentando penetrar na61 quele mundo que já fora um esconderijo fechado sobre si mesmo. de r epente. e seu espelho.Pare com esses trocadilhos . havia um vaso onde crescia um gerânio vermelho. então.Um dia .a imagem que fazia de um quarto de hospital . interferiss em no que estava acontecendo com a filha. e depois a Morte.encontrou um vaso de flores caído e despedaçado na ru a. não sei. sono ou loucura.Vê! Vê! A mudança sobreveio. como uma mensage m cifrada. Ocorreu-lhe que o cinza era. A segunda mudança foi a humilhação que sofri na colônia. A realidade não era o carro. uma tirania cujos tiranos tinham que ser incansavelment e aplacados. e ambas riram. Anos mais tarde." De repente .começou Déborah . .disse a Dra. as ruas molhadas onde as pessoas cam inhavam apressadas. Ele falava em Yri.uma Déborah completam ente mudada. Você viverá e será forte. Déborah. Uma pedra. Está consumado! Mais duas mudanças e seus respect ivos espelhos e. Lá fora caía uma chuvinha fina. para se tomar. sombrio e cinza. e o céu que se avistava da janela torno u-se escuro. nem a mãe que cantava. a família ficou eufórica. conte-me como é o ritmo desses seus distúrbios Observava Déborah atentamen te. e seu espelho. despedaçou o vaso e part iu a flor. e força também. e havia uma flor vermelha. No parapeito da janela. ajoelhada no banco de trás. Lactamaeon veio a mim e d isse: Três Mudanças e Seus Espelhos. formavam a textura de seu mundo interior. isso sim eu sabia. .Eu me pergunto se não há um padrão de conduta. Fried. sombrio e extenuado. Imorth (palavra que significava morte. com o talo partido. Se foi cortar os pulsos ou vir para cá. ao transportarem-na para casa. Antes mesmo de ser intemada no hospital para a operação.Mas não a terceira. 'Existem flores num hospital. não é? . .zangou-se Déborah. fez com que a profecia se tomasse realidade. A primeira mudança. Ecoaram gritos. desfez-se no sonho a luminosidade do ar. foi sair do hospital e voltar para casa depois da suposta extirpação do tumor. tampouco a animação do pai. Muitos anos depois. o fato é que se realizou a morte anunciada por Lactamaeon. nem os espelhos. depois que outras sensações se cristalizaram entr e ela e o mundo.vezes a carta.e uma janela aberta que des cortinava um céu azul e luminoso. as anunciassem . e em Yri a palavra que significa morte significa também sono. A terra se espalhara em volta. pa lavra que soava como um suspiro de desesperança). Aqui ou ali.. A terceira foi justamente a mudança para a cidade. arremessada de um lugar qualquer. Déborah foi invadida pelo pressentimento de que algo ho rrível ia acontecer. . entretecidos. Eu não sabia qual dos significados era. teve um sonho: um quarto br anco .voltando da escola para casa. Já freqüentava . onde flutuava uma nuvem branca compondo formas c uriosas. loucura e o Abismo. . . a estudante de arte . " Vê?" . No carro. amarga e cáustica . ou o de Jacob. depois fica tão apavorada que foge para se esconder no pânic o ou em seu mundo misterioso. já previsto. Guar dou a carta e o relatório junto com os anteriores e não voltou mais a olhar para ele s. ou seja lá o que for. mas aquel e céu chuvoso.Duas das mudanças ocorreram antes que o deus. Eis o espelho da mudança. o episódio do carro quando eu estava com quatorze anos. e seria sempre. a cor de sua vida. Lactamaeon sussurrou a seu lado: . Era melhor resignar-se e esperar.Você expõe um segredo a nossos olhos.disse uma voz no 62 sonho. Concluiu que deveria impedir que seu medo. todos riam e brincavam. A segunda mudança ocorreu com a humilhação sofrida aos nove anos de idade. emaranhada em suas próprias raízes. levantando a gola dos capotes para se protegerem da chuva. Lactamaeon veio lembrar-lhe a revelação daquele dia. O espelho dessa mudança era a flor partida que vi anos mais tarde. . . olhava o céu pesado e cinza. Quando o tumor foi removido.Pois bem. Esther conseguiu isolar suas implicações mais sutis. .

Enfi m não poderiam mais atribuir o velho ódio e a solidão ao fato de serem judeus. Ficou esperando que a voz falasse de novo.Quem disse essas palavras a você: "Nós não passeamos com judias fedorentas"? Claire ou Joan? Era natural que. mencionando uma "mentirosa" que há em nosso meio e que usa sua confiança para obter compaixão e envolver meninas inocentes em d ificuldades. voarás livre na melodia do vento. De modo inexplicável. ricamen te modulada. lutando ainda contra o que julgava ser a injustiça de lhe imputarem um estigma de nascença. O espelho. Déborah riu por dentro ao deixarem a casa antiga. co m suas exigências absurdas e grosseiras imprecações. todo opróbio. Tinham se habituado à hostilidade que fervilhava na vizinhança antiga. e os próprios impasses se tomariam mais claros. mesmo que um apartamento. ce rta de que a ruína os acompanhava inexoravelmente. Déborah confundisse os nomes e as fisionomias da quela multidão de meninas. e a filha enc ontraria amigas de sua idade. vítima de dores falsas de seu tumor falso. Finalmente teriam casa própria. daquelas que as pessoas lembram anos depoi s com nostalgia e saudade. o estigma fatal relu ziria com brilho ainda maior. voltava do consultório de um médico.a colônia de férias havia três anos. d izendo-lhe num tom suavemente fúnebre: Tu não és como os outros. Tu és um dos nossos. dessa vez. dizendo. agora ela pertencia a outra vida. a mesma voz. houve novamente uma dobra no tempo. mas todos sabiam quem era. A terceira mudança foi justamente a mudança para a cidade. Em meio à algazarra que faziam.Claire . as primeir as e cristalinas insinuações do que viria a ser Yr. O direto r da colônia lançou-lhe um olhar severo: . Podes ser u m cavalo selvagem.Nada! . porém. então.A sensação de ruína se avolumava dentro dela. Lactamaeon. És diferente . Anterrabae. se deu conta de que desperdiçara mais um dia. não disse mais nada. podes ser nosso pássaro. uma pessoa entre nós capaz de 63 se rebaixar a qualquer maldade. subitamente. Na cidade. porém. a culpada era Joan. Déborah. pouco antes de seu décimo sexto aniversário. sacudirás tua crina e expulsarás toda vergonha. enfim solitária consigo mesma. vinham todos em sua companhia. Claire se limitara a ouvir e concordar. o mundo fora capaz de retê-la horas e horas a fio. a qualquer desonra!" Não dissera o nome. Via-se em seu espelho. inaudível para os que caminhavam a seu lado. acenderam uma fogueira. O que é que você tem a dizer agora? . relegaram-na a segundo plano. Mas o nascimento dos deuses. quando Ant errabae chamou-a para abandonar o grupo com que estava dentro de um carro. o no vo desprezo e a nova solidão de fato sulcaram fundamente regiões virgens de seus sen timentos. em vez de feri-la. Logo no primeiro dia. Na colônia de férias. A humilhação foi. o Cen sor e o Coletor. Quando ele a alcanço . obrig ando-a a fazê-los parar imediatamente para que saltasse. . se tinham recusado a passear com ela. Não lutes mais contra as mentiras deles. sua ausência a entristecia. Reencontr ou-a mais tarde. O ód io que as pessoas extemavam no mundo. ouviu uma voz vinda de alguma parte.afirmou. Na cidade. O diretor proferiu um exaltado sermão.Claire nega. Esther ficou contentíssima com a idéia. inesperadamente provava a veracidade de Yr. a partir de agora. Déborah perce beu o erro. portanto. ao erguer os olhos para a noite estrelada. a segunda mudança. no primeiro dia. nada mais pode ria contê-la: como se afirmava em Yr. além de a ridicularizarem. se revelou numa outra situação em64 baraçosa: um professor de ginástica que a pusera em evidência com um comentário desdenho so sobre sua falta de jeito. A violência do impacto fez com que ela despencasse no Abismo: três dias de pesadelo. À noite. mas só encontrou o deslumbrante mosaico de folha s entremeadas de raios de sol. de forma também inesperada. Só quando Claire foi chamada e negou calorosamente ter dito tal coisa. revivendo o clima de amizade e a inocência da juventude . Pr ocurou saber de onde vinha a voz. Dias depois. surda e invisível para si mesma. como num poema: Se quiseres. . surgindo um outro tempo. denunciou duas meni nas que. Abandonou a luta. onde um policial a perseguia. Uma tarde.

mas pelo menos estar maluco é estar em algum lugar. há mu ito tempo atrás. que encobriam numa região muito mais funda o ardente desejo de viver. ..Exatamente. Aconteceu! Finalmente Imorth chegou! As batidas so avam longas e calmas. murmurou para a xícara vazia diante de si.A um preço terrivelmente alto. Todo o am or dado por Esther foi reinterpretado por Déborah. . mas você não pode deixar de pertencer a outro grupo. colocada entre duas verdades conflitantes. . Espelhos e mudanças! Po r acaso. sabe. eu me pergunto se a sabedoria deles não chegou um tanto ou quanto atrasada. Inclusi ve. . com aquela exclamação familia r no idioma de sua infância e juventude. Era tarde demais para não ver.u.Não! Não! . Ahh! . no entanto. ansiosa por encontrar um lugar qualquer onde pudesse estar c . aind a que o olho quisesse ter renunciado a ela.todos os mundos secretos . como um ente reconhecível e definido: uma das loucas.bom. enfiou-se por um edifício a dentro pa ra despistá-lo. pois já não era mais necessár io lutar e resistir. seus passos obedeciam ao ritmo lento e gr ave das batidas de um tambor.Não pertenço & ninguém aqui! Nem a você nem ao mundo! Anterrabae me garantiu isso. a Dra. que sinceramente acreditava explicar suas motivações. Em matéria de decepção sou especialista. . pela primeira vez . Abrira a mente para as palavras delas. mas isso não impede que outro grupo se forme em meio a outros grupos . As três mudanças e os três espelhos. . e era por isso que se sentia martirizada. Sintomas que re sguardavam sintomas muito mais densos (era cedo para devassálos). pela enésima vez. . Depois da questão do tumor e do anti-semitismo da colônia de férias. tal como um olho. terreno propício para a doença mental. . . . Só pertenço a Yr! . como nunca se sentira antes e. aco stumado à escuridão e protegido por cílios cerrados. Déborah estava vi sivelmente exausta do esforço que lhe custara a revelação de todas aquelas coisas.Ergueu-se num pulo. devia achar que a mãe sabia e que lhe dedicava compaixão em vez de amor. uma certa sen sação de velhice e frustração A mãe era formidável. . E dominadora. que os mundos se cretos . Se a filha se julgava condenada . inexoravelmente.. . 66 O bule de café começou a vibrar. Fried foi à cozinha preparar um café. Terminada a sessão. A luz penetrara. Agora dispunha de um letre iro para mostrar. Déborah retcomou à ala. Um mundo que dissimulava outro mundo. "em casa" na Ala D. de que estava correndo tão apavorada. apesar do amor e das experiências compartilhadas durante tantos anos. Uma pessoa que precis demais de ser encantadora e bem sucedida em tudo. . embora o seu amor seja sincero. exatamente como Lactamaeon profetizara. .as linguagens. e estes por sua vez.Déborah sabia. os códigos e os sacrifícios expia tórios não passavam de expedientes que ela manipulava para sobreviver num mundo anárqu ico e opressivo. e não orgulhosa. que se abre cautelosamente à luz e.Encantadora. se fecha tarde demais. Uma linguagem secreta que camufla va uma ainda mais secreta.A doutôra inclinou-se para a frente na cadeira. Sobreveio uma grande paz interior. perguntou-lhe o que é que tinha acontecido. despertando sua atenção e ao mesmo tempo. deve ter começado a solidão. ao reparar que o café estava fervendo e tra nsbordando do bule.. . O que a deixava admirada era com o divergiam.. era antes de tudo uma forma de ajuste. todos os olhos humanos não serão espelhos que deformam? Via-se.Ela é competitiva. um de meus nomes em Yr é A Etema Decepcionada. afinal. Sentia ganas de dizer aquela garota de olhar aturdido que a doença. pemiciosa e maligna solidão.Sabe. embora afastasse 65 e assustasse as pessoas. Sentiase. Déborah garantiu que não era nada e. Quando saiu de novo à rua. Pergu nto-me também se eles não decepcionam você apenas para se sujeitarem à própria visão que vo formou do mundo. que talvez a doutôra tives se um pouco de razão. ofuscado por ela.Mas eu ainda não tinha certeza.Visto que duas das três mudanças ocorreram antes que os deuses começassem a existir. . tão logo pôde. pelo menos eu acho. a grande desvantagem de estar mentalmente doente é o preço terrível que se t em de pagar para sobreviver.

No dia seguinte. seus a ndares e suas alas estivessem apinhados de gente. Queria que os doentes fossem iguais a ele. não fui eu quem mandou usá-lo. nunca apedrejá-los. improvisava m seus próprios reinos e. Déborah . e quant o mais próximos estivessem. pois. O administrador da ala interrogou a todos sobre a briga. n um único relance. A maioria dos pacientes dispunha da habilidade quase sobrenatural de discemir.Como começou? . que 67 acabou degenerando numa verdadeira batalha campal. Sempre estimulava o que havia de com . com a pema bem estendida. a realidade terrestre. estava a total inabilidade de usálo de um modo consciente. para que ficassem bem demarcadas as fronteiras existentes entre ele. uma esperança que envolvia seu próprio sucesso como médico. Todos os hospitais de que ouvira falar abrigavam multidões atomizad as de indivíduos que tinham rompido inteiramente seus vínculos com os outros grupos e instituições do mundo. seus desejos semicontidos. foi uma briga marav ilhosa. houve uma briga mais violenta do que o normal.Quero que você me dig a.. como bonecos sem corda. caso o btivesse a resposta quando outro certamente teria falhado. as pessoas mal conviviam umas com as outras. Cumpriam à risca esses mandamentos. às vezes Hobbs se comport ava de modo um pouco brutal. como Déborah fazia. Quanta esperança! Não por ela. porque era uma extensão de algo que existia dentro dele.. Realmente. No entanto. em que pudesse afirmar taxativamente: "Ah sim. Os pacientes se orgulha vam de afirmar seu não-envolvimento. mas quando se tratava de imperfeições invisíveis eram impied osos: penetravam com olhos argutos e escutavam com ouvidos afinadíssimos os segred os e as súplicas íntimas dos "sãos". aparentemente. secretamente saboreado.. por um lado. dese68 java que as pessoas fossem mais loucas e mais estranhas do que na verdade eram. mas não ia dizer. isto é. Outros. O administrador da ala foi obrigado a interrogar todo mundo. . enquanto o pé dele ia de encontro a Lee Miller . como a prostituída Esposa do Ex-Presidente Assassinado.ompletamente só.perguntou o médico a Déborah. porém. a sós com ela na sala de estar. Alguns pacientes de sua ala viviam imóveis. Só que essa crueldade estava além de sua compreensão e de seu controle. e a loucu ra dos pacientes vicejando e explodindo às claras. embora o hospital. Hobbs. Déborah presenciou um auxiliar ser agredido pelos pacientes noite após noite. abriram um inquérito. por sua vez. pacientes e funcionários saíram c ontundidos e ensangüentados. . Até os mais inertes e os mais desvairados deram um jeito de afetar o maior desdém e distorcer propositalmente as perguntas. mas ninguém quis usá-lo. melhor se sentia. Associada. jamais beiravam sequer. Por iss o mesmo. e qual a d imensão e a influência dessas fraquezas. Todos aprendiam a ser "civilizados". Livre-arbítrio. Morria de medo da loucura com que convivia. mas isso era o de menos..Ora vamos. Um dia. a solidão era um estado ambíguo. Ali. McPerson. livre-arbítrio. Não pelos pacientes. por exemplo? Talvez Hobbs seja grosseiro com as pacientes. meu caro.bom. . Aliás. O soco de Lucy Martenson penetrou nos processos mentais do Sr. Ela compreendeu a intenção do bri lho nos olhos dele. . o que a fez sentir-se extremamente importante. nunca rir d e aleijados.protestou ele com severidade. onde residiam as fraquezas de uma determinada pessoa. suas inclin ações. . a esse poder de discemiment o. nem encarava com simpat ia a avidez e a ambição que lia no rosto do médico. seus pensamentos gratuitos. o pé estava já. e nunca olhar para os velhos na estrada. . Déborah assistira à luta estirada no chão . mas pelo moment o. e nós não saibamos. parodiando santo Agostinho: "Bem. mas pela resposta. como se tendências autodestrutivas a temessem. Meu pé também estava estendido.. escolhiam como alvo sempre o mesmo homem. esperando que algum auxiliar tropeçasse em seu pé para q ue mais tarde pudesse dizer.. desli gados da "realidade '. nem muito barulhenta nem muito calma. Por que é sempre Hobbs e nunca McPherson ou Kendon. Hobbs vinha pelo corredor e então começou a briga. já resol vi o problema!" Déborah sabia por que Hobbs e não McPherson. era uma pessoa forte e até mesmo feliz. Os agr essores eram invariavelmente os mais doentes da ala: refratados ao convívio.

sutil e cautelosament e. já fr io e meio comido por uma paciente que dormia junto à janela. uma terceira com um dedo quebrado.. O médico saiu afobado para ajudar a debelar o tumulto e os gritos que vinham de um dos qu artos dos fundos. volve u o braço. preocupavamse com ela. querida . para subjugar a estranha bailarina. como em toda parte. . que veio sentar-se em sua cam a. Não conseguira fazer com que falasse além do que ela própria queria. teve que esperar meia hora até que um auxiliar viesse destrancar o banheiro para que se limpasse um pouco. onde a aguardava o seu almoço. atraí-los.Eu disse. era por ele recebido de braços abertos. de início. examinando-se para ve r se sangrava.Minha querida.Volte para seu lugar. encarando-a com severidade. Devido à confusão. por algum tempo. o trigo.recomendou a Esposa do Abdicado. olhando de relance para o cozido. no final das contas. onde havia sol em abundância. Déborah ficou impressionada com o núme ro de homens para uma mulher tão pequena. outra com fratu ra na costela.Até logo Helene. que logo acudiram.um entre ele e os pacientes. . Virouse para o adminis69 trador e viu-o encolhido contra a parede. com ess a aparência. O almoço.Coma. procurando. Déborah não se conteve: . e com um movimento delicado e preciso. e eles. Helene. duas enfermeiras com olhos rox os e contusões faciais. faça a guerra! . o dia em que el e acabaria num hospital psiquiátrico também como paciente. Cerca de uma hora antes da entr evista com o médico. ao que parecia.respondeu Déborah. Helene 70 abordou-a e. ordenou: . mas ao reparar bem na expressão dela viu que não se tratava de sol. . Déborah murmurou: . ainda que ela parecesse mais uma máquina d ebulhadora. soufflé. que Helene pretendia apenas comer na sala. "Relevez. quando o mundo subitamente explodiu numa avalancha de comida pegajosa e quente. concertando a roupa e tentando faz er o mesmo com sua pose.Não me machuque. Déborah rogou mentalmente algumas pragas contra aquela balbúrdia. Não havia injustiça alguma. assim. O médico. Limpou a sujeira e foi para a cama. .O que foi que você disse? . mas o importante é que se ocupavam dela. sem se mexer. Era Helene.Seus gritos atr aíram os auxiliares. não há dúvida. afinal. arremessou a bandeja direto sobr e a cabeça de Déborah. Ali.Num único e gracioso gesto. . Os pacientes.perguntou o médico. Helene. a beleza daquele baile. Foram rudes com Helene ao subjugála. Déborah ficou sozinha no meio da desordem. O médico se levantou para ir embora. De repente. implorando num tom bem diferente de su a fala pausada e profissional: . não tem havido injustiça alguma. . Não me machuque! Eu sei que você é forte! . Déborah apreciava. Déborah compreendeu num estalo o motivo da agressão.Olhe. outra doente.A Esposa do Assassinado encarou-a com severidade.Já comi isso. Costumava ficar em reclusão num quarto.Não quero . a porta bruscamente a berta fez com que ele se voltasse. sem ser exigente. vinha apenas adiar. mostrou-lhe algumas fotografias q ue recebera dentro de uma carta. tão distantes do mund o. e Déborah concluiu que o pulso quebrado de Hobbs." Ouvia-se a recalcitrante sendo conduzida numa cama para o casulo gelado. . com braços musculosos e fisionomias contraídas de medo. arraste-se. se limitavam a dar a cada h omem o que este realmente desejava. ela recuou o pé.Deu as costas e voltou à sua conferência imaginá ia. conversando com bastante clareza. Notou que estava furioso e desapontado p or ela ter contribuído para frustrar suas intenções. pois era . . -A afirmação pareceu ao médico um tanto enigmática considerando-se que o saldo da briga fora uma paciente acamada. fora servido enquan to conversavam. que vinha com sua b andeja de almoço para a sala de estar.Eles vão arrancar tudinho de você depois. Não estavam. os agressores e ram mais favorecidos do que os agredidos. Por entre a sujeira que escorria de seus cabelos e do rosto. e o menor sintoma positivo que se manifestasse. Déborah pensou. você nunca achará um homem! ..

você tinha que preparar as decepções por sua própria conta. não entend ria nada. As pessoas chegavam para mim e diziam. pensar. Compreendia agora que o motivo da agressão era querer desacreditá-la como testemunha da vergonha e da miséria lembradas por aquele retrato.Essa aí fez faculdade comigo. que figurava no mundo real. ela se voltou e disse: "Depois do que você fez?" Nem falou mais comigo . Um belo dia. e pediu: . sofro o tempo todo com a imi nência dessa destruição. Embora já tivesse saído da colônia anti-semita. desen hando sem parar.. terra de pesadelos. "depois do que você fez. nunca mais vou defender você sem que eu soubesse o que tinha f eito ou dito.Referia-se a uma menina simpática.O que é que você sentia nestas ocasiões? . durante os quais virava uma verdadeira fera.murmurou Déborah para si mesma.ponderou a Dra.Quem sabe não é porque você mesma procura as pancadas e os sustos nesse mundo? Isso quer dizer que eu mesma preparo as decepções? . não. ao passar por um grupo d . Ora. e foi para o corredor. sua fama de mulher violenta e obscena. vindo das mais ines peradas direções 72 . sem saber por que pedia desculpas. a escola.mas o que se passou na sua vida nesse meio tempo? . ou "depois d o que você falou. a porta tinha ficado aberta e ninguém reparou quando el a foi procurar Déborah. Fr eqüentemente.por mais inevitável que seja. . A hostilidade visava só a mim. nem escutou as pequenas confidencias que trocaram a respei to das fotografias.Você tem certeza de que não está omitindo nada aí: algo que você era levada a fazer e qu e enfurecia seus amigos? .Na escola támbém havia anti-semitismo? . 71 . Certa vez. não é verdade? Déborah recordou-se de uma cena ocorrida numa época em que sua vida consistia unicam ente em esperar o fim inevitável. Pouco depois. essa antipatia se transformava em ódio ou aversão. lembrar.temida por seus acessos de fúria e violência.Depois de algum tempo. com as pancadas que se repetem sem parar. Na escola as coisas eram mais verdadeiras. apesar-das-lições-de-boas-maneiras. cumprimentei minha melhor amiga e ela me virou as costas.. explicando quem era.Onde não existe lei alguma. aproximando-se cada vez mais . não sei quantas vezes. estou cansada. tudo parece se resumir em ódio: o mundo. A me nor! . Mas a razão disso eu não sei . .Imorth . . tirando um pedaço de comida grudado no c anto da orelha. aproximando-se. demitiam-se uma atrás da outra.".perguntou e sentiu que o terren o começava a ficar perigoso. jogou-se na cama. E aparecia na forma de uma antipatia intensa.Filósofa! . até que se deparou com um determina do retrato e disse: . . Estiveram juntas assim durante um bom tempo: ela ia indicand o um ou outro personagem. imaginar. nem descobri o que tinha feito. Não faço a menor idéia.Temos as mudanças e temos o mundo secreto . e e u sempre tinha que "pedir desculpas". contudo. . Nesse dia.Vá embora. Déborah apressou-se a sair de seu próprio dor mitório.e a gente acaba se conformando com a sombra dela. Não permitia que alguém visse seus desenhos. Carregava o bloco por toda parte.Surpresa do inevitável? . apenas uma sensação meio cinzenta e a surpresa do inevitável. Era preciso manchar o espe lho para que deixasse de refletir a recôndita vulnerabilidade que transparecera su bitamente. Eu nunca soube por quê. Quando fui pergu ntar a razão. .Tentei. Passava os dias sozinha.. a auxiliar encontrou Helene e mandou -a voltar para seu quarto. As empregadas não paravam em casa. a colônia de fér as. Caso contrário. Fried . . terra de ninguém. Conhecendo seu temperamento explosivo.É difícil abordar esse período. Helene tirou bruscamente a foto grafia de suas mãos. a vida continuava sombria e o desespero só fazia crescer. agarrada a ele como a um escudo. só essa destruição terrível.Não. . numa traição à sua máscara agressiva.

não. pássaros. não haveria mais para onde fugir: teria que encarar a si mesma. não é meu. todo mundo a censurava Desenhou furiosamente por algum tempo ao Terminar. apesar da doença. acho que vou guardá-lo para me lembrar. . Caso a mitisse que o trabalho era Seu .Não. com ela. .Oi. E la possui a mais bela das coroas e o mais pesado dos cetros. . para evitar que Déborah se danasse de vez e partisse para querer provar que seu Yr exi stia. pelo menos. Decidi vir para cá. . . até cair de tão rouca. As pessoas do grupo negar am uma a uma . Diga a eles que não é preciso ser saudável par a entender de perspectiva linear. D entro em breve.exclamou Déborah sarcasticamente. mas há símbolos aqui que você precisa explicar. correr e voltar-se. ning uém riu.. com suas recriminações intermináveis. . .Estes são rouxinóis. o rapaz estava implorando que você não a repudiasse e.. a menina tem todas as regalias. estava sendo travada com determinação. Déb.concluiu ela com amargura para a doutÔra . vamos. O rapa para ela e perguntou: . Queria assumir o papel de benfeitor. Sabiam que a D não era em absoluto a "pior" ala. em pânico. de que a força criativa é suficientemente vigoro sa e profunda para germinar e florescer.Coroas e rouxinóis! .É seu? .e jovens que brincavam e riam. ele a defenderia. banindo os sinais de excitação.Guarde isso para mostrar em suas conferências aos médicos eruditos. mas a que preço? .Mesmo assim. eu tinha ódio demais arrolhado dentro de mim. ao mesmo tempo irritada e assustada: 73 .Está vendo . não é meu! . Déborah estava sentada no chão da ala. A doutÔra. . e a destruição que ela própria tramara se consumaria.eles me fizeram repudiar m inha arte.isto é. Déborah percebeu que ele só estava tentando ajudá-la.até chegar a Déborah. o que é isso? quem deixou cair? . e todos exclamam: " Que menina de sorte. na verdade.perguntou o rapaz apanhando a folha. .Vejo claramente a raiva. O eco emitido de regiões tão profundas testemunhava a saúde que sobrevivia em p otencial dentro da menina. apena .Quantas vezes dizemos a verdade e morremos por causa disso! Ergueu-se furiosa. . Os pássaros usam os cabelos dela para construir seus nin hos e para polir essas coroas. Confesse. Fried viu sua paciente correr e voltar-se. que viria a cul pá-la. entregou a folha à doutôra. Carla! Não sabia que você estava aqui em cima. . um de seus desenhos escorregou do bloco sem que p ercebesse. A responsável pela mentira foi você mesm a. e é com os ossos dela que eles dão brilho no cetro. Carla parecia exausta.. quando viu Carla vindo pelo corredor em su a direção. apanhou uma folha de papel e começou a de senhar uma réplica às acusações que todos pareciam lhe dirigir. . onde posso gritar. aguardando pre74 guiçosamente o encontro com Anterrabae. .Depende do tipo de perspectiva .retrucou a doutôra. cheio de figuras estranhas.Deb. Recompôs a fisionomia. gritar. uma excitação inig ualável. eu não. .Não! Ao encará-lo com mais atenção. Coroas. Foi você que imaginou que eles ririam. o Coletor.Não é seu? . quantas coisas ela tem!" A Dra. o riso dos outros.assumisse a punição . . Encarou a doutÔra. Tão graciosos! Olhe. Sentiu que brotava dentro de si uma grande esperança e.Ora. cetros. Fora-se a antiga apati a. não é meu. Ergueu os olhos para Déborah.Mas Déborah. Agora a batalha. tudo o que o dinheiro pode comprar. . isso sim.eu não.Não.. Era um desenho intrincado. foi até a escrivaninha. .Ei. . Entreolharam-se e sorriram. .

Veio a noite..Mount Saint Mary.. Reviu as ações mais simples e mais triviais. q ue agora lhe pareciam dificílimas. conheci Doris quando esteve aqui na D. Só que o mundo agora era povoado de psicóticos e limi tado por muros e por alas. o instinto que clamava por alg um vínculo de participação no mundo. corredor e pelas camas. descobriam que o demônio não passava de mais um entre tantos. A incredulidade foi geral. Ela disse que aquilo era um verdadeiro manicômio . Déborah ficou no seu canto.Jessie esteve lá.uma pessoa para quem esse lugar fora um meio e não um f im? As perguntas choveram sobre Lee. . Meninas dizendo alô.Hesketh?. até que ela perdeu a paciência e disse: . e ninguém em p articular.Onde você esteve antes? . ou participado do perene ciclo de vida e morte a que estavam sujeitos. . guria. . Estou me lembrando. Esforça-te para que algum dia saias e trabalhes e te tomes uma pessoa! Trem eu de medo. reduzidas a uma única dimensão. Doris Rivera. Era veterana em todos os tratamentos de que já ouvi falar. era preciso conservar um status e respeitar certos simulacros de formalidade. Nas outras. entrando sem medo na esco . tão logo as bandejas do jantar foram retiradas . Doris passou por lá.Baixo e mei o magro? Olhos azuis? Engole os erres? Ele levanta a cabeça assim? . por mais que negassem. As pessoas. . Retcomou a caminhada. se era! O chefe lá era Hesketh. .Pô. que passava por elas.s a mais honesta. . contra a porta da ala. Anterrabae exclamou: "És)orça-te para que algum di a saias e Vivas. banheiro. foi antes de seu tempo. as pessoas sussurravam seus sintomazinhos e to mavam sedativos e estremeciam de alto a baixo a cada barulho mais alto. No meio da zoeira. mas não sei a fórmula do sucesso e não vi mais a Doris desde que ela saiu! Sei apenas que está lá fora e tem um emprego. Agora ela está vivendo lá fora e trabalhando. ouvindo o Coletor que recriminava suas faltas em salmo s intermináveis.Crown State. .O próprio. Lee Miller coçou a orelha pensativamente: . como se ja76 mais tivesse comido com eles nas mesmas mesas. Assim. . O mundo exterior e os seres que lá viviam eram absolutamente estranhos para ela.Na cinco e na dezoito.Para lugar nenhum. mas estavam livres das sutis e traiçoeiras correntes da loucura clandesti na. enquanto beiravam o Inferno. tremiam de medo do demônio.Escutem. uma agon ia exposta ou desesperos violentos. um cara mais pirado do que os pacientes. caminhando juntas. Mas. Agora vão para o inferno! Quero ficar sozinha! As meninas se afastaram e se dispersaram pela sala de estar. Nós nos conhecemos em Concord.Quem é? . Os ociosos e os marginalizad os expressavam desse modo.Em Concord? Em que ala? . Será que realmente alguém saía? Será que alguém poderia apontar uma pessoa bem sucedida . As "Perturbadas" podiam estremecer nas bases sempre. nas alas A e B. e continuava doida varrida. . Ficou aqui durante três anos. . . como um touro cego.Para onde mandaram ela depois? . mergulhando de novo em seu transe.. Formavam-se às vezes grupinhos. no momento em que a trancavam.Tive uma amiga que foi da sete.Ah. quando c hegavam lá. em que as pacientes ficavam contando lances passad os de suas vidas ou trocando os boatos que corriam. .perguntou Helene. 75 percorrendo o corredor como se acompanhasse em transe uma procissão. A Esposa do Assassinado empreendeu uma de suas tent ativas mensais de fuga: investiu de cabeça. como uma série de ima gens instantâneas. ..Filho da mãe! Fui espancada por ele no Mount Saint Mary.

riram um pouco. plano e em perspec tiva reduzida.Déb?.O que foi que aconteceu? . apoiada em alguém. retorcida de um modo estranho por causa da tensão nervosa. Achas. como num desenho animado.la.Déb. Lee Miller está com um ataque histérico.Deb? É você? . Débora se aproximou. Conversaram durante um bom tempo. que podes ficar abrindo segredos e continuar segura para sempre? Há outras mort es além da morte . Deixou-se ficar respirando. a realidade tátil de seu próprio corpo e de suas roupas se tomava extremamente tênue. Cambaleou. .. Tu não és como os outros! Gritou Lactamaeon do fundo de Yr. Déborah avistou. .Agüente firme. ou a neve de inverno. os movimentos quase esp asmódicos de sua mão.Eu mesma. . onde o casulo aguarda va já aberto. Carla cont . disse: 77 . deus a raramente vista. Sentia m-se contentes de estarem ali jun78 embora fossem incapazes de admitir que. . não tenha medo. sentiu. volta para o mundo com aquela tua famosa doutôra? Rosnava o Censor. e nem sentiu o primeiro choqu e gelado do lençol úmido. sendo cortejadas.Eu também ainda sou novata aqui. O pavor crescia à medida que seus sentidos iam deixando de obedecer à sua vontade.Hobbs. Puseram Helene e Lena no quarto ao lado . Pouco depois. Percebendo que ela estava em pânico. Alguém dizia ao fundo: . Tiver am que conduzi-la. . Só muito tempo depois recuperou os sentidos. . namorando e depois se casando. o que despertou nela o desejo de vê-las. Todas as outras mães estão orgulhosas de suas filhinhas! repetia o Coletor. vou chamá-lo. avisou. Em meio ao ensurdecedor burburinho de vozes. en tão.O que há com as meninas essa noite? .muito piores! O momento agora é para te esconderes e ficares escondida. . Meninas graciosas. querendo protegê-la. . Volto já.Déborah. tentou chamar a atenção.atraído pela veemência de sua expressão. Você está conseguindo me ouvir? . soltou um longo suspiro. mas perdera inteiramente o senso de direção. vou ped ir ajuda. O tato também s umia. Idiota! McPherson passava diante dela. eram amigas.Quanto tempo durou? . da angústia que a impelira a destruir o rosto visto.. Estava tudo branco: ou eram as enfermeiras. . em meio ao intenso odor de éter e clorofórmio que emanava do Abismo. em certa medida. já! Déborah esperou.. deixando a realidade voltar aos poucos. .a voz de McPherson. Uma voz chamou a seu l ado: . mas a ala está mesmo uma l oucura essa noite. Desmoronou nele..Quem foi que pegou o turno da noite? . finalmente.perguntou Déborah. Déborah.Essa noite só? . Lembrouse de Helene.Você voltou a si um pouco depois de mim. mas não cons eguiu falar. Avolumavam-se os murmúrios oriundos de Yr. chama! Anterrabae soltou uma gargalhada. .disse Carla. quase que agradecida. Tenta! Afastou-se d eixando uma aragem que cheirava a coisa queimada. a figura de McPherson chegando pelo corredor. o cheiro de pessoas. chamada também -a Dissimuladora. Logo estaria longe. aos atordoantes lampejos de deuses e rostos do Coletor. O que há? Não conseguiu responder. O máximo que conseguiu foi gesticular timidamente com o cor po e com as mãos. escutando sua própria respiração e. Passou a enxergar tudo cinzento e a ouvir muito mal.Sei lá! . e compreendeu a fotografia da bela colega de faculdade. até o final do corredor. McPherson olho u de soslaio e parou. . Vá. com um gesto imperceptível de mãos. no tom p rovocador e mordaz que empregava quando as coisas pioravam muito. Sussurrava Idat. . Você pode andar? Ensaiou alguns passos.Carla? .McPherson procurou de novo se comunicar co m ela: . Vai..Preferia que fosse McPherson.O tom denotava uma clara aversão.

uma amargura terrível. .Só porque a sua mãe era louca e acabou se matando.Você poderia ter me magoado. sessões que se realiza vam na própria ala por causa da violência de Helene.a voz de Carla foi cortada pela lâmina do pânico.Doris Rivera! Aquilo despertou. choramingando e cont orcendo-se dentro das amarras que a imobilizavam. que ficar "boas" e volta r para o mundo. as dúvidas." Quando ele saiu de lá. De onde estava.berrou para Carla. .ou que tinha escutado uma das sessões de Helene com seu médico. No interior do invólucro branco e estático. A seta atingira o alvo.Essa aqui também . Eu esperava que a qualquer momento Helene di ssesse: "Acalme-se.perguntou Carla na escuridão. a realidade. hesitando se realmente queria saber. Entrou e tcomou a pressão de Déborah pela têmp ora. o coração de Déborah martelava. Déborah. seus dentes rangiam de pavor e frio.Carla. Doeu de novo. porque existe uma possibilidade de que nos abram essas portas pa ra o mundo. . 80 .Não. começou a seespreguiçar.as palavras custavam a sair ...concluiu reaprumando-se ao lado de Carla. cujo contato na nuca lhe lembrava a realidade. .. Pressionou a cabeça com força de encontro à bolsa de g elo. . . A fórmula consoladora de Yr pàreceu-lh e. E nós ficamos assustadas porque algum dia teremos.voltei a ser o que eu era lá fora: uma montanha imóvel que guarda um vulcão dentro de si. Reagi para me proteger. Sua cruelda79 de. Estou aqui apenas para ajudá-lo.gracejou Carla num tom amargo. parecia uma de nós! Déborah. . uma amargur a que encobria uma velha e contundente palavra: Verdade. então. já inteiramente consciente.. Déborah começou a lutar contra o casulo.declarou para o auxiliar que entrara atrás dele. o único som audív el eram as suas respirações. . "Meu Deus . . para surpresa de Déborah ." ..Vá para o inferno! .pensou consigo mesma .Ainda está bem alta . Ouviu-se. Desandou a falar.O que disse sobre Doris Rivera talvez. a voz de Carla e. Apagaram a luz e saíram. em seu íntimo. identificada de início por meio de palavras Yri. O silêncio é mesmo fatal . . Déb. é como um copo cheio que transborda.ponderou Carla. .Eu sei. o estômago pesa a. quase chocante. . uma amargura recente mas que já se tomara familiar. doutor.Minha doença. .. sentindo a costumeira dor nos ossos dos pés e dos joelhos provocada pela má circulação. . acendeu-se a luz. morta de vergonha. . O corpo tremia. . sem o menor rancor. sem maldade: .Nós não scomos como os outros . . Por alguns minutos o peso do silêncio pairou absoluto sobre as duas. não lhe trouxe alívio.Ela ficou boa saiu e agora está trabalhan do. A gotinha que você pingou já se p erdeu na inundação. .. Piscaram os olhos ofuscados pela claridade. . .ouviu a inspiração ag oniada na cama vizinha.Foi sim! .Perdoe-me pelo que eu disse.murmurou Déborah. fazer você sofrer mais.era Hobbs.. não foi.. nesse novo contexto. não foi para agredir você.O que foi que houve? . e o tom de voz foi subindo. . Naquele instante. seja verdade. contudo. um pouco menos dessa vez. virou a cabeça para a parede..insistiu Carla com convicção. . .E como não podia entender a razão pela qual tinha sido poupada. você acha que tem razões para ser mais louca do que eu! . seu corpo tremia.. .perguntou Déborah.A carne já está cozida? . e ele cada vez mais perturbado.Não? Deixe mais uns vinte minutos! .. Eu sei o que foi que aconteceu conosco.Estou apenas verificando . mas não me magoou! . Déborah. . parecia.. podia ver) na cama vizinha o corpo mumificado e imóvel de Carla.O velho Craig simplesmente não conseguiu suportar aquele silêncio todo.O quê? . Não queria magoar você. subin do.

do banheiro dos fundos e. mas acabar am voltando a ele. Fora transferida para que " melhor a protegessem". e o pessoal médico começava a dar sINais de ir ritação. os pacientes que desejassem fumar deveriam fazê-lo no corredor ou na sala de estar. consciente e inconsciente ao mesmo tempo da causa daquele clima pesado. A perspectiva deixou-a terrivelmente assustada: sofreriam me nos. reformulados pela nova enfermeira-chefe . o dia todo. em termos vagos e pouco com prometedores. enfim. que comia e tagarelava jovialmente. decidiram esquecer o relatório para o bem de Suzy. saboreando cada tragada de seu cigarro.10 A família Blau sentou-se para o jantar. ia para junTo 82 . e fi caram esperando o tempo passar. freqüentemente duvidava do que dizia. DÉborah pôde dramatizar sua condição por m eio de um simples recurso mental. Nos momentos em que estava presente à realidade da ala. Carla estava sentada ao lado de Déborah na sala de estar. para aqueles gritos.Dizem que ela melhorou em alguns aspectos . DÉbor ah costumava ficar acompanhando o piso.insistia Esther. de forma tão palpável. Estava obcec ado com o grito pavoroso que partira de lá. levaram Su zy a exclamar. revestido de placas à pro va de som. caso fosse ela quem estive sse longe e doente. Nos primeiros dias de sua permanência na Ala D. Já havia duas semanas que os gritos "Cigarro!" "Cigarro!" ecoavam. Ela própria. lute contra eles. dos dormitórios (onde não era permitido ficar perambulando). Jacob furioso. aliás. o ódio contra Debby por ela se apossar de todo o amor. e que noite após noite vinha atormentar seus sonhos. C hegou a se perguntar se sofreriam. do corredor e dos quartos. cont omando-o onde se ampliava para formar o chamado "saguão". Sempre Debby. pedindo sem parar: . das de reclusão. bem mais severos que os anteriores. a coitadinha da Debby! Levantou-se furiosa e abandonou a mesa. para esmiuçá-lo daqui e dali. atravessando. por favor! . Tin ham recebido mais um relatório. era quase certo. . . seguindo-o ao redor da s ala de estar. O que significava isso para Debby. Segundo os regulamentos. a culpa por prever a derrota. redigido! como sempre. revestido de grades e barras de ferro. e vinte e três no do comprimento (incluind o a junção coM a parede) . via a penas aquele andar superior. afinal? No íntimo. Esther estava desolada. a ala dos violento s. aquela espessa neblin a que os envolvia e os distanciava tanto um do outro. discutindo-o numa espécie de código. os terrores e a agressividade que sua querida filha reprimira tinham enfim vindo à tona. desde que "autorizados" por uma enfermei ra óu auxiliar. Carla tinha vindo do último dormitório até a porta gradeada da ala.Muito bem! Ela não está jogada numa cova aí qual85 Quer! Tem mÉdicos e o diabo! Por que então todo mundo vive chorando e lamentando a p obrezinha. Esther sabia desde o início que não lhe poderia esco nder a verdade. encarando o pai e a mãe: . só que vivenciá-la implica a em arcar coM um tédio interminável como a própria doença. Pensava: o asilo de loucos. Havia dezenove fendas no sen tido da largura do chão gélido do corredor. Dissimulou. a enfermaria. recomeçando tudo de novo. Era Debby. no entanto . A nova situação oferecia a possibilidade de uma segurança física maior. Jacob. Ao se sentarem à mesa.Se você não pode se aliar a eles. par a lá é que tinham levado sua Debby.Cigarro. O medo e o desejo de tirar a limpo de uma vez por todas aq uela derrota. mas não sem reparar no sofrimento estampado no rosto dos pais. camuflou e trancou os relatórios o quanto pôde.Sentaram-se depois.Virara-se para DÉborah coM uma piscadela de olhos e disse ra: . Para aquele andar. não queria acreditar. No teto. Os argumentos driblavam a filha. repetindo mil e uma vezes as palavras prudentemente vagas do administrador da ala. Jacob leu e deduziu que os ódios. Quando se cansava desses pas seios. contomava e retomava pelo outro lado do corredor. em seguida. a convergência desses sentimentos conflitantes. J acob também sabia. da "ala dos violentos". e o máximo que ela podia fazer era tentar acalmá-lo. finalmente. passando diante das portas do banheiro da frente. Isso bastava para despertar imagens grandiosas e feéricas em sua mente. havia dezenove furos por dezenove furos. Agora. para cima e para baixo do corredor.

sonhos pavorosos. a não ser que fossem utilizados na presença de um auxiliar. exceto se houvesse três auxiliares de serviço no banheiro.Meus cabelos estão sujos. . acho que preciso lavar os cabelos . cumpria as exigências tirânic as do Censor.Isso queria dizer que tinha um livro escondido num lugar acessível. a maior parte d o dia contemplando o relógio. ficavam as banheiras. entrevistar-se coM a médica de Déborah. desprovidos de qualquer interesse. O tédio da loucura era como um deserto. Esther escrevera outra carta ao hospital. ao fim daquelas punições e sacrifícios. visuais e táteis. o ambiciona do lápis se achava enrolado em elásticos e enganchado sob a quarta mola da cama de Déb orah. permanentemente en garde.. desenhava um pouco sentada no chão e amparada pela cama da Esposa do Abdicado. Déborah poderia ter-se inscrito para a oficina de artesanato.Você vai precisar também de alguma coisa onde possa apoiar o papel. O regulamento autorizava apenas uma paciente a usar as pias de cada vez. Caso houvesse . erupções vulcânicas de terror. Ouvia as denúncias do Co letor.Aquarela. Carla sorriu: . Depois. DÉborah e Carla. O plano funcionou às mil maravilhas e. Dentro dos banheiros. um caso. DÉborah teria. Tinha. Nos momentos de lucidez. . Carla pediria primeiro e ficaria coM o banheiro dos fundos onde havia uma p ia ótima. proibidos na ala. sustos e ntremeados de alucinações sonoras. foi preciso esperar pela distribuição das bandejas.das mulheres petrificadas. Só podiam ser usadas na presença de um auxiliar. pelo término do almoço . mas. ai.Que tipo de desenho seria? . onde convenceria a auxiliar a abrir a porta que d ava para a banheira e a distrairia durante o tempo suficiente para pegar seu tes ouro. especialmente coM a Dr a. estava sugerindo que ambas fossem pedir autorização para lavar os cabe los. pela mudança de turno. onde os acessos de violência e as crises de agonia despontavam como um oásis. finalmente. e visitas à Ala D não eram permitidas. A resposta. . mas não o fez.acontecimentos. e uma entrevista coM os médicos da ala. agüente. o acesso de furor de algum pacien te .sugeriu. assistindo a um congresso qualquer. Precisaria de muita.. empreendida pelos doentes ao longo das paredes d a ala. Se gundo o código. Poderia. Desistira de "fazer coisas". pela distribuição de sedativos e. . contudo. uma briga. pe la hora de deitar. Vou desenhar um retrato seu . portanto. e por isso não ha via sequer as sessões terapêuticas para quebrar um pouco a monotonia. reconfortá-la. sendo narrados. go zavam justamente de um desses momentos. Fried estava ausente. . Estavam atrás do cano de água fria. e ficava esperando que algo acon tecesse ou não acontecesse. . esta deleitando-se coM o cigarro. freqüentada na parte da manhã pelo pes soal da D. no banheiro da f rente. enfim. pelo jantar. na parte dos fundos. os pacientes se divertiam bastante. algumas vezes. Carla apanhou no ar a ins inuação. muita água. o sono. A Dra.É necessário papel para fazer retratos . se quisesse. nada restava senão esperar o interminável transcorrer do tempo. como de hábito. portanto. pontilhado pelas refeições. . repetia que a pacie nte estava progredindo conforme as melhores expectativas. uma ou outra pa lavra trocada de passagem. enumerados e relembrados por muito tempo. sempre t rancadas. Se não gosta. relembrados apena s durante a perseguição aos frisos. pedindo autorização para visitar Déborah em suas novas acomodações.Assim que puder.disse DÉborah. q ue pedir o banheiro da frente. afixado sobre a porta da enfermaria. seguindo coM os ol hos a fumaça do cigarro da amiga. Passava. perto da enfermaria. Às vezes. comunicavam-se por meio de códigos e siderados armas e. um pouco antes da hora do almoço. .disse Carla displicentemente. O administrador da ala não se ocupava diretame nte coM a família dos pacientes. mascarado como o rosto de 84 um esgrimista.Isso significava "muito obrigado" . Fried.Ai. Carla logo compreendeu que ela dera um jeito de furtar lápis e papel e escondê-los. e os momentos efêmeros e singelos de companheirismo abençoavam como a chuva.Verdade. procurando. os sarcasmos das divindades e os elogios de Yr.

ela é tão tensa". foi impossível cont omá-lo. v enenoso para a mente. parecia-lhe que não faziam mais do que reproduzir em escala menor. até que as lágrima s parassem de escorrer. Também era tímida. Esther conversou coM a assistente social e obteve as mesmas respostas.Não. Terminadas as entrevistas. Começou a folheá-las.Alguma coisa que você diz e que destrói? Alguma coisa que você faz ou deseja? .. marcariam uma hora coM a assistente social. vendo-se nos modelos. Diria que tinha visto Déborah . uma secreção. julgando que se tratava de "uma base da doença". Esther tinha levado uma boa coleção de revistas para Déborah: sequer permitiram que as entregasse. compromissos de trabalho impediram que Jacob insistisse em levá-la de carro. que se aconchegara no divã. desfiavam seus sonhos nas páginas de um diário íntimo qualquer. foi preparando as mentiras que contaria a Jacob e à família.. tremendo com o frio que vinha de Y r. a ala e os médicos. algo venenoso.Maravilhoso. Procurou distrair-se coM as fotografias e as ilustrações. seus olhos se enche85 ram de lágrimas. . A mentira que contaria a Ja cob e a dor que precisava guardar dentro de si pareciam refletir-se em tudo o qu e via. frustrando as esperanças de que. iludindo-os e aparando as perguntas mais embaraçosas com fluência e convicção. Também era tensa. Trata-se de uma emanação da pessoa Déborah. Ela estava exposta à minha essência. uma emanação venenosa. pessoalmente. porque da próxima v ez estou decidido a ir com você. Felizme nte. Acho ótimo que ela tenha feito tantos ProGressos. portanto. Continuav a otimista. Quando tudo parecia ter ido às mil maravilhas. embora de forma ainda mais fri a e mais impessoal. A Dra. Não foi por querer. Estariam ansiosos para escutar isso . Também mascarava seu medo coM a pre cocidade e uma certa sagacidade cínica. constatou que sua presença em nada facilitava o acesso aos méd icos. Quanto ao regulamento que proibia visitas. por sua vez. conversou com Jacob e depois com a família.perguntou a Dra. apanhou o trem de volta para casa e.algo a tratar. Olhava distraidamente pela janela do trem quando reparou que as revistas continuavam em seu poder. Ao contemplá-las. como o suor por exemplo. Dav am os últimos retoques nos vestidos maravilhosos que suas filhas usariam. conseguiria dar um jeito de b urlar os regulamentos. embaçando os modelos horrivelmente alegres que ilustravam os anúncios : FACULDADE NO OUTONO ELEGÂNCIA CLÁSSICA PARA O CAMPUS E na página seguinte: PARA AS NOSSAS JOVENS DEBUTANTES BRANCO.. Chegando ao hospital. Fried mostrou-se gentilmente reservada. ninguém ousaria contradizer suas histórias pelo menos durante algum temp o. . Será que'algum dia voltaria a participar do mundo dessas meninas? O hospital teria sido afinal um erro desde o princípio? Ao chegar em casa. Suas pequenas idiossincrasias eram idênticas às daquelas meninas. reconhecendo um pouco de Déborah em cada um deles. procurando desfazer os temores de Esther pela transferência da filha para a Ala D. já na viagem. BRANCO. mas não encontrou refúg io. Existe um termo Yri para isso.. Suas amigas e as filhas de suas am igas já comentavam as faculdades escolhidas como se trocassem cartões de visita. Rollinder. apesar do calor de agosto que fazia na Terra. é uma qualidade do meu eu. É algo inerente ao meu eu. Esther repassou todos esses diálogos. Fried a Déborah. As colegas de turma de Déborah provavelmente estavam admir ando aquelas mesmas páginas. nunca se sente à vontade coM as amigas!" "Helene encara tudo como se fosse um a questão de vida ou de morte. a Sra. sorridente e tranqüil a. e que tudo ia muito bem. sonhando coM o dia da formatura e preparando-se para ingressar na faculdade. BRANCO NO PRIMEIRO BAILE A página era toda de miosótis.Como foi que você destruiu sua irmã? . Jacob virou-se para ela e disse: 86 . os de Déborah: "Marjorie é tão tím ida. . Esther fez a exaustiva viagem de trem só para avistar-se coM a Dra. e estas. Quando s e encontrava coM essas mães e as ouvia contar os problemas das filhas. e Esther mergulhou o rosto nas flores. Fried.

. .. .Não. sua sombra tomara-se imensa. Quando ia fazer isso. . o que dissera sobre a emanação maléfica era.Ah. e todas as pessoas que conhecia acabavam. tomeou. sim. Não houve estrondo nenhum de nenhum canhão. minha querida.. . . sendo corrompidas por ela: Suzy mais do que ninguém.Pois bem. ou inventar outros acontecimentos.Tentei atirá-la pela janela. mas o frio e a névoa só existem dentro de você. O disfarce que consiste em pôr toda a culpa nos outros.iris. Déborah dobrou-se trêmula e ofegante de dor. as exaltações subseqüentes se encarregaram de transformar o f enômeno numa coisa bastante irreal. Eu te preveni.perguntou a doutôra.Quer dizer que continua tentando jogar areia em meus olhos? Déborah protestou. mais cedo ou mais tarde. me lembrar de um dado que eu tinha esquecido . As encostas e escarpas. Não passam de bons métodos para fugir de uma verdade que pode vir a ser dolorosa. ampliando cada vez mais seus contorno s e a virulência de sua substância.Não . Para Déborah.E continuar louca.respondeu Déborah. Déborah teve um acesso de autocomiseração pela criatura cheia de miasmas que era e pôs-se a discorrer sobre o fenômeno. considerando o que fizeram comigo! . por que então não escondê-la e continuar em segurança? . . mamãe entrou e me impediu. sincero e parecia m esmo acontecer. . . 88 O tumor despertou furioso. Invadiu-a um sentimento de profunda grati dão pela família.Tenho. . e desferiu uma flecha aguda que atravessou seus domínios para lembrá-los de sua supre macia. O céu está limpo e o sol quentíssimo. vinha s e desenvolvendo havia bastante tempo. lá fora no mundo é agosto. mas também o que você fez com você mes ma e continua fazendo. . Você vem.Um momentinho..Seus pais castigaram você? . . ao saber que outras potências disputavam a sujeição dela. Para que uma pessoa se esconda. por ser amorosa e impressionável. Por que não. continuar louca. É um truque velho.. segundo Déborah. mas o prazer de se auto -acusar arrebatara Déborah com tamanho vigor. e a menina monstruosa que acabara criando. Contudo. adornou cada uma de suas infâmias com uma eloqüência absurda.Ora.Engraçado. O cheiro nauseante de éter e clorofórmio envolveu-a e as pulsações do coração se fizeram nsurdecedoras. A doença.Eu tentei matar minha irmã quando ela nasceu . A doutôra insistiu para que voltasse a falar sobre a destruição de Suzy.aparteou a doutôra com um gesto de mão.disse e ficou surpresa ao ouvir s ua própria voz pronunciando tais palavras. em parte. ou truncar os verdadeiros. A doença é o vulcão. está por baixo disso Nunca transmiti sintomas a ela.Que seja.Você ainda tem sentido muito frio? . Descreveu os ciúmes dos primeiros tempos e o amor que surgiu depois.Diga uma coisa: você fazia com que ela tivesse alucinações ou sentisse o cheiro de c oisas que não existiam por perto? Você fazia com que ela duvidasse de sua própria sani dade ou perdesse a noção de realidade? .. exclamou o Censor .Como foi? . basta esquecer.Não. . A doutôra esperou até que Déborah estivesse e m condições de ouvi-la. isso realmente não adianta. desde que começaram essas chuvas e esses nevoeiros gelados.. se tomara uma criatura estranha e irreconhecível. muito a propósito. ma s a doutôra foi irredutível: . Nunca mais tocaram nesse assunto.Subitamente. Esse disfarce s equer foi inventado pelos seus iiris. 87 . . e então perguntou com voz pausada: . ela as e nfeitará como bem entender. defendendo e embalando a imagem irreconhecível criada por ela. Quand o terminou. que parecia uma paixão às avessas: ela e sbravejou.A doença não está em ver ou ouvir coisas. carregado de culpa e tormento. Nunca ligam o aquecedor na ala. Lamento. Evita que você tenha que e ncarar não apenas o que realmente fizeram com você.

. como se faz com um cadáver em decomposição. Um dos aspectos de sua doença é que todas se julgavam o centro do mundo. . que optaria por trabalhar em hospitais psiquiátricos como altemativa à prisão. Hobbs está encerrado. A expressão fora inventada por Lee Miller. As deformações físicas mereciam uma certa piedade.Déborah achava que eles tinham apanhado o fato escabroso e sepultado às p ressas num lugar qualquer. enquanto as loucas furio sas. Todas as pigméias-monjasp risioneiras confinadas na Ala D. . 89 . . Por um instante est eve à beira das lágrimas.O que é? Leve-me com você . . Todas tinham desejado se matar. Detesto todos eles. lunáticas. e as lágrimas se recolheram imediatamente. o Sr.Que cheiro horrível é esse? . ele s são os Narizes e nós o aquilo. espalharam a notícia para as de trás. foi a resposta dele. os monstros e os corpos de seus mais temíveis pesadelos. Só por serem loucas. . birutas. piradas.Ambas riram. paira no ar. Seu sorriso sarcástico deixou o auxiliar furioso. vergonha e intimidade.Vergonha e intimidade. as pacientes não se sentiam obrigada s a manter a decência e a evitar de falar mal do morto. inclinando-se para ela. Carla limitou-se a murmurar: Gosto de ser a punição dele. me sinto necessária . Lactamaeon levou-a até o pântano para que visse. Quando o turno da noite entrou. .O que é que você tem agora. Havia em Yr uma região chamada Pântano do Medo.continuou a doutôra.Helene riu e alguém completou: . He lene tinha uma frase lapidar: "Um louco é um enforcado cuja corda arrebentou a tem po". Segundo essa visão. . aí vem o govemo e diz: Vamos esfregar o nariz de vocês naquilo para verem o que é 91 bom! Escolham: ou a prisão ou o hospício! . Na noite anterior. o que o Sr. O barulho atraiu logo um auxiliar. o mau cheiro do cadáver persegue o crimi noso. O caso era para ser mantido em s igilo absoluto.. E apesar de tudo o q ue me deram. . Hobbs tinha ido para casa depois do ser viço. . 90 11 Quando entrou o turno da noite. Nariz era um des ses condenados arrependidos. Tu não és como os outros. Ao saber da novidade.e riu. esses desertores. pronta para atirá-la. sabiam do acontecimento. . Helene postou-se diante da enfermaria e começou a bater os pés com força. tentavam acertar uns bons tapas nele. Hobbs fizera tinha si do mostrar a língua para elas. caçoar a uma distância segura. Déborah desatou a rir.declarou ela.. As que se achavam à frente do grupo.Não! Cheguei a carregá-la até a janela. mesmo que em vão. você compreende.Não foi só a idéia de matá-la? . compaixão. mas a doença se apressou a lembrá-la de que chorar era humano. até as mais alheadas. mas a morte e suas convenções eram encaradas com o maior desdém.Nunca..pediu a doutôra.Vim anunciar que o caso do Sr. Eles se recusam a lutar .. Pássaro-um. Certa vez. e todas invejavam a morte.. numa ocasião em que ela disse: "Ah. tentado o suicídio de uma forma mais ou' meno s diligente.E seus pais de fato nunca tocaram no assunto nem fizeram perguntas? .Compaixão. Por outro lado. Helene? Caso encerrado . sabia muito bem que nessas circunstâncias.É um Nariz. repetiu Yr.. impregna tudo com sua podridão e seu ranço.Pois é. Imagine a cara dele quando desco brir o que eu enterrei! . acumulando-se ano após ano..perguntou ela. Em algum lugar. O sujeito é um Nariz.Depois da operação. de tudo o que fizeram por mim. . logo que o viram . . as pacientes acorreram ansiosas ao saguão para ver quem tinha substituído Hobbs.Morávamos naquela casa ensolarada onde ficamos só por um ano. f lutuando na superfície de lodo. ligado o gás e se matado. mas com uma amargura que era rara nela. há um ladrão que ouviu dizer que as pessoas co stumam enterrar e esconder seu ouro e suas jóias. .que consentira em viver com um monstro e tratá-lo como pessoa. fechado as portas e janelas. .E o burburinho foi crescendo.

. A entrada de McPherson constituía para ela um acontecimento absolutamente diferent e do anterior.declarou com voz cantada. estava at errorizado.Aposto que está com medo de que a gente o contagie . tal como esposas provincianas. contentou-se em rir. Deviam. Quando. . extenuante e interminável. para que as enfermeiras.comentou a cerimoniosa Mary. Afastou-se dali. só que demonstrar esse sentimento signi ficava demonstrar que eram vulneráveis. ao ouvir os gritos..exclamou Helene sem nenhuma malícia. Suponho que devemos chamar um deles de Nari na . tal como Déborah anteriormente. que tinha morrido por causa disso.Chiii! Meu Deus. Queria dizer com isso que os seus pés estendidos à frente do assustado rapaz simboli zavam os aparelhos nas corridas de obstáculo que os recrutas tinham que saltar dur ante o treinamento militar. Mary. Helene estremeceu de repugnância quando ele Passou. . . contentando-se em repreen dê-las novamente para que saíssem do chão.Qualquer coisa é melhor do que Hobbs.Obstáculo! . Constantia parecia estar decidida a passar aquela noite ando. Carla arm ou um olhar de pasmo. para elas. ele vai desmaiar! e depois ressentida . soltou uma gargalhada e proclamou: . Ora.fechadura.Sem essas chaves. Eu também não gosto desse negócio de chaves . . que ela e as outras compreendiam que lhes cabia subs tituir os "horrores de guerra". muito mais de si mesmo do que de las. como se a porta e a fechadura fossem outras. Seguiram adiante. . não riram.disse antes de entrar na enfe rmaria. As pacientes caíram na gargalhada.Deviam ter trocado a fe chadura.disse McPherson. Ao perceberem isso. . Carla olhou à sua volta.pediu a enfermeira-chefe da ala às meninas que e stavam sentadas de encontro a parede no chão do saguão e do corredor. da seção de reclusão. trocado. ninguém fez comentários irônicos a respeito daquelas súbitas ausências me ntais dela.. que o novo membro da equipe teve de empreender ao longo da ala. tinha aberto no. enquanto esfregava nódoas invisíveis de sangue. Sentiu obscuramente que essas palavras feriam-no de algum modo. v ocê não se distinguiria de nós! McPherson. Voltou a se recostar em silêncio. coitado.Atenção carrascos de Hobbs. que é isso? Não scomos assim tão diferentes! .Vejam só! A quem pensa que está enganando? . porém. não p uderam conter a crueldade que.Ela também é uma pessoa. sabia? . Ficaram para assistir a primeira caminhada. comentou rindo: . e Mary. a procissão de magos voltou a desfilar diante delas.Levantem-se do chão. e percebeu que ninguém tinha compreendido. O homem. perdida de novo no seu limbo. por descuido. um riso bonachâo. Viviam sentadas no chão e ninguém dava por isso. A expedição acercou-se delas. com os maxilares contraídos de pavor. por se tratar de McPherson. muro.. Como a presença de McPherson paira sse ainda no ar. era a expressão verdadeira e natural de suas personalidades. começou a gritar assim que o viu.. No entant o.Talvez ele seja bonzinho .. Todas ficaram contentes com a presença dele. aí vem outro freguês para o gás! . Déborah ergueu os olhos para o Nariz. daí terem que ocultá-lo. Ap ressara-se apenas a tapar a brecha que ele.. e que iriam se esforçar para satisfazer o desejo do exército de que o treinamento desse homem fosse rigoroso. 92 cacarejando desculpas por tudo e por todas.a. . a reação delas oscilou entre o divertimento e o ódio.. mas bastava chegar um con vidado. isso não lhe despertava nenhuma reação sarcástica ou agre ssiva. Constantsa. Abriu-se de repent e a porta da ala e McPherson enTrou Num instante todas se acalmaram. por favor! . ter. procurando descobrir qua l delas era a culpada. Déborah olhou para com severidade e comentou num tom significativo: . Caíram todas na gargalhada com essa alusão a Hobbs. carr egando consigo o Nariz todo empertigado. As pacientes sabiam que aquilo era mera for malidade.disse Déborah. As enfermeiras. Repetiu-as. com sua jovialidade importuna. muito menos entenderam.Os Narizes costumam vir aos pares. .disse Carla. contu do. lamentan aue a casa estivesse "tão des arrumada".

Sua voz era tão inexpressiva que o som parecia ter vindo da própria parede.Sylvia falou! . até que vieram abrir.Chame a médica .E então.Por que vocês estão tão excitadas. .Quanto mais f undo.perguntou a enfermeira . voltaram a abrir. raramente usado: nelaq. Procurou coordenar as idéias e constatou que pe rdera também a memória: sentiu-se incapaz de recordar uma só palavra. Dissolveram-se as paredes e o mundo se desfez num grande caos de sombras. tão muda e enregelada que se confundia com os móveis da ala.O que foi que ela falou? . não tinha limites. Gostaria de agradecer a Lee por se ter exposto 94 sua falta de visão.disse Lee lacônicamente. ora distante. que observava o desespero de Lee Miller. nem como movê-los.93 . Era preciso que se fizesse algo por Lee. Uma aura de luz sombria rodeava Lee. o que era vertical e o que era horizontal. . Entreo lharamse descrentes de seus sentidos . Pressentiu que sugeriam algum segredo pavoroso. forma. De qualquer maneira. Bateu. mas seus esforços foram em vão: o chão se desvaneceu como uma miragem no deserto. enlouqueço! . Da última vez que Sylvia falou. não minha. mas não houve como decifrá-lo. nem faria sentido para você porque foi parte de uma conver sa. O flamejante Anterrabae acossou-a às gargalhadas: Como ousas solidar izar-te com o mundo! Traidora! Serás punida! Yr cerrou-se sobre ela. Fazia um ano que Sylvia não dizia absolutamente nada . Passado algum tempo.Isso não tem importância. aí está o mundo. ou seja. Restou-lhe apenas uma sucessão vertiginosa de sensações inidentifi cáveis posto que faltavam palavras e idéias para enquadrá-las. Atirou-se impetuosamente em Yr: . O silênc io pairou sobre a ala.falou Sylvia que estava encostada à parede. . Dirigiu-se à porta da enfermaria.ela falou ou fui eu que escutei? . Encerrada num corpo inerte inerte como o de Sylvia agora . ela veio às três da madrugada! . pois se não chamar a culpa será sua. e até mesmo o Yri transformara-se num emaranhado de sons inarticulados. As direções embaralhavam-se.retrucou a enfermeira e fechou a porta. Finalmente. . Yr louvava a coragem de Lee. O terror. foi a Vêz d o cérebro esfumar-se.O relatório da ala ainda não está pronto . Ele deve ser mil vezes pior que o outro! . Foram revogadas todas as leis da física e dos sólidos. E de onde p rovinha essa luz. compreendeu como seria absurdo r eproduzir qualquer fragmento da conversa. A vistou à distância um fragmento de superfície mas o vento logo carregou-o para longe. como se estivesse diante de um vendedor inoportuno. as n oções habituais de tato.. falta de visão.Vamos chamá-lo Hobbs Leviatã. Não admiras a nelaq tankutuku? Pois bem.Lee Mi ller foi a primeira a reagir. transida de medo. Tudo girava à s ua volta. gravidade e luz. Ela se encontrava naquela região medonha chamada "Envolvimento" ou "Realidade" e ninguém podia ajudá-la. Déborah tremia. mas estava fechada .A religião deles condena o suicídio .£ bom que você chame a médica. Era impossível determinar se estava de pé ou sentada. Cristo! Por favor! Déborah. nada em Déborah re spondia mais.? . as pessoas procuravam se convencer de que realmente havia m escutado aquelas palavras e de que elas partiram da criatura muda e enregelada que era Sylvia..Sobre o que? .exposta aos perigos e distante do refúgio.a descoberto . agora. melhor. . Depois da memória. Não! Não! Se fizerem isso. O Yri tinha um outro termo para designar tal estado. movimento. Déborah tateou em busca de chão firme onde pudesse se ergue r. Todas emudeceram assombradas. Toma-o! Irrompeu um vento tempestuoso. extinguira-se o b reve e pálido lampejo de vida em Sylvia. A enfermeira olhou para ela aborrecida.Ai. ora próximo. Expusera-se por causa de outra pessoa que jamais iria elogiá-l a ou demonstrar gratidão pelo seu gesto. bateu. era o sinal de Yri para quem estava tankutuku . Adams virá Sempre vem. L ee bateu de novo. hein Miller? . cujos raios feriam-na como facadas? Perdeu totalmente o contro le de seus membros: não sabia onde estavam os braços.implorou Déborah. mas não conseguia articular as pala vras necessárias.incapaz de pronunciar uma palavra sequer.

Da próxima vez que admir ares o mundo. Constantia fazia-lhe propostas ostensivamente li bidinosas. os. . Pássaro-um. pelo me nos. tomava-a. Não brinques conosco. Fried perguntou a ela o que havia descoberto desde a última ses são. por 1 acaso. Amém. a Dra.ou Hobbs Leviatã. como decidiram chamá-lo. . voltou para o quarto. e encarava o govemo que o punira do mesmo modo que os mártires cris tãos deviam encarar os procuradores romanos.É realmente incrível! é realm ente é incrível! A guerra entre o Nariz . a religião de Ellis considerava o suicídio um dos pecados mais terríveis.E Déborah atormentava-o com ob servações ferinas sobre as similaridades entre os psicóticos e os fanáticos religiosos. a primeira coisa que viu foram 95 as unhas das mãos. o intrigava: porque agrediam Hobbs e nunca a ele. envolveu-se no cobertor e. Pássaro-um. que se moviam num elemento chamado tempo. Não era para menos que estava condenado a carregar o espectro de Hobbs que os pacientes lhe haviam imposto com os seus apelidos. tiritand o ainda.A pessoa obviamente não entendeu. estavam se saindo bem em alas diferentes. fundir a cuca. No entanto.Quarta-feira. Embora não conseguisse reconhecer ninguém. Imaginavas. . muito verdadeiras. de que via corpos em três dimensões. Helene. porque estamos te protegendo. porque agora ag rediam Ellis. De acordo com os preconceitos alimentados no homem. O problema é que não havia gente suficiente na equipe. e um del es até demonstrava habilidade no trato com os pacientes. Lá fora. do poder e do horror contidos nela. as três coisas juntas. portanto.respondeu Déborah. dem ente. preferiu se afastar À sua volta. mePherson. uma verdadeira monstruosidade.e as pacientes prosseguiu. porque podemos jogá-la para cima. Mais tarde. temer osa de que a Punição voltasse a fustigá-la e a arrebatá-la de novo.. o coitado arrastar o seu Leviatã. com uma pequena m esura. saiu para o saguão.Ao emergir da Punição. E para tomar as coisas piores. para b aixo e para os lados. também não gost ava muito de Ellis. Estavam roxas de frio. McPherson pe nsava com seus botões que não havia no mundo caçadores mais sagazes e implacáveis. porém. Vendo. Dirigiu-se a uma delas pa ra esclarecer uma questão que lhe parecia irrelevante: . tentando diminuí-lo. ou ainda. e virá-la pelo avesso. o sol de verão resplandecia sobre u ma paisagem verdejante. Um fato. Pessoalmente. Estás vendo como é. .Scomos capazes de manipulá-la. McPherson sentia essa atmosfera de ódio e violência pairando sobre a ala. tinha. p ara ele virtuosa e justa. ficar louco. Meneou a cabeça . uma consciência razoável de que existia. Amém. corpos de três dime nsões reclamavam do calor e abanavam-se. deitou-se numa cama. Helene jamais voltara seu arsenal de conheci . não ousava participar desse outro tempo. morto e putrefato. e fic ou aliviada ao reconhecer que era a sua. do qu e esses doentes na arte de desferir as setas sobre o ponto mais fraco do animal. Notou que estava dei tada numa cama que não era a sua.Puxa! Então em que dia foi? .Descobri o que é ser insana . lunático? Pobre de ti! Vês agora que elas são todas muito. chama dos pessoas.disse Anterrabae num tom condescendente. Os dois outros n ovos condenados arrependidos. a insanidade ou era 96 deserto merecido para suas vítimas. e dizia: . e não a ele. sem saber o que fazer. quando ele vinha trazer a toalha. o que tinha ingressado na Ala D. Levantou-se. enfim. o medo dos primeiros dias foi cedendo lugar à cólera. Ellis não servia de jeito nenhum para o trabalho. mas procurava mostrar-se si mpático com ele. que todas es sas descrições não passavam de metáforas? Perder a cabeça. lembrando-se com reverência da imen sidão. Nauseada com o frio que sentia. . Detestava e temia os pacientes. ou uma vingança de Deus ou uma obra do diabo.. as doentes lutavam com as armas que seu est ado lhes permitia. um már tir. .Que dia é hoje? . As letradas reescreviam a Bíblia. e como estava ator doada demais para insistir. Passou a se julgar vítima de uma perseguição religiosa. Não brinques conosco. Contra a repugnância que ele extemava. ridicularizando algumas de su as passagens para escandalizá-lo. conhecerás um castigo mil vezes mais terrível.De Paracleto a Paranóica.

Quais são as últimas do Inferno hoje. a carrancuda. As provocações imediatamente recomeçaram: . Deb .a voz dele era suave . ficou esperando que o sono chegasse Deuses e o Coletor foram gradativamente se reduzindo a um sonolento meio-tom e iam apagar-se quando McPherson entrou no dormitório e parou junto à sua cama... o qual era liga do apenas durante certas horas do dia e sintonizado em músicas inócuas. muito menos delicada. hilariante mesmo. E. hum! com todo mundo. instaurando um co ntraste patético. Déborah Blau. os qua . tinham convencionado que nós estamo s fora do jogo. que envolvia a ala. sentia-se que pairava no ar uma i ntranqüilidade ameaçadora . murmurando para si num canto.. Sue Jepson e as demais estavam en tregues às suas manias habituais. Constantia. não muito cont agiantes. porém. Carla replicou. Fique sabendo que ele era um dos nossos! A única coisa que o separava de nós eram os cinco centímetros de metal da sua chave.deixe em paz o Sr. "Sou a morta que medita". deixe ele em paz. Marion. e conheci Hobbs melhor do que você. embora estivesse fora do quarto de reclusão. os sedativos e finalmente o sono. Nada de piadinhas.. tá? Sentiu-se. satanás! .Linda. continuava enclausurada e m si mesma.. por que eu? Pensei que vocês. foi até o rádio. Quando a voz lânguida do locutor desejou-lhes uma "boa noite sob esse céu estrelado". o grande monstro marinho. fitando alguma coisa para além da parede.Ora.. Cabot insistia do dormitório . Nisso.Afasta-te do meu caminho.Bati as asas em despedida. Pretende falar com todo mundo? (A suspeita e a cautela contra os pedidos.Ei-lo que surge. Assim que tcomou o sedativo. delicadamente. A srta.Hum. Observou as pacientes apáticas esperando o jantar. dá é grilos na cuca! . e ligou-o bem alto..Mesmo com Marie e Lena? (Os próprios pacientes consideravam-nas os casos mais gr aves da ala). está bem? Por que eu? Quero que todas vocês deixem-no em paz. Lee Miller cerrava e descerrava os den tes. Suspeitava que não se tratava apenas de uma questão de sorte.Déb.O cara recebeu uma comissão. . adeus.mais do que a simples soma das intranqüilidades individuai s. naquele momento. embora 98 O rasto de tensão permanecesse ainda por alguns instantes Evitara-se por pouco um grave incidente. destrancou a grade.Eu sou a Esposa de um Ex-Presidente As sassinado dos Estados Unidos! . soou. Nada de referências a Hobbs. sai Ellis da enfermaria onde estivera redigindo os relatórios médicos. McPherson era o único que conseguia chamar as p acientes por seus apelidos sem que isso soasse falso. evitava feri-lo com palavras cruéis. numa paródia melancolicament e romântica: . mas não é bem a do tipo que confere patente. rescendendo a urina e a desinfetante. livre das minhas amarras. Blau estava parada ao lado das grade s do aquecimento.Isso é hora de perguntar? Deixe-o cuidar primeiro de suas ovelhas! Havia um rádio embutido por detrás de outra espessa grade na parede. o cair 97 da noite. os normais. usada. . das suas convenções e rotinas.Não. Ecoaram os sons delicados de uma música romântica para dança. Hobbs Leviatã! . . . pastor? . respondera ela com uma voz sumi da. com a atmosfera pesada. Não compreendia como e p or que escapava aos desafogos de amargura e infelicidade que o rodeavam. Os ânimos se acalmaram. as intenções e os homens do mundo superou a prudência e motivou a p ergunta).. Perguntara-lhe uma vez o que estava olhando. Não sou simpática. no entanto.Hobbs cometeu suicídio e o exército cometeu Ellis! . McPherson. . Déborah enfiou-se na cama como de hábi to.mentos contra ele. adeus. Ellis. Foi uma gargalhada geral. sem vacilar. Desta vez.

imitando as pessoas: Acorda menina! Tire essas besteiras da cabeça! . mal se sentia ameaçado. contra o efeito dos sedativos. Deixe Ellis em paz.dizia .Quando a machucarem.raro em qualquer parte. .Estas e outras advertências visavam precavêla contra os cúmplices sorridentes da brincadeira secreta. disse que caberia a ela decorar as encostas como bem entendesse. continuou falando baixo. McPherson deu meia volta e saiu do dormitório. Déborah começou a perceber que havia muitas razões para o horr or que o mundo lhe inspirava. A sombra do avô. donas de todo sofrimento? Não pretendo trazer à tona questão de dinheiro isso é mais do que sabido . . Ele a encarou com o rosto severo. nunca chore. entretanto.Perceben do o olhar assustado de Déborah.Yr exis te! Não tenho dúvidas de que. pensando sobre o que ele ti nha dito e como o tinha dito: palavras duras mas verdadeiras. Ainda assim. Déborah lu tou. recuando sobressaltada. para você.is ele se apressava em afagar. mas que. Percebe agora o que isso significa? Será que você realmente não vê que os deuses os diabos e todo este seu Yr são coisas criadas por você mesma? Não foi isso o que eu quis dizer! . não se trata da mesma coisa? Concordo.A segunda da classe não basta. Graças àq ueles meses de terapia. burilando-lhe as arestas ferinas. acrescentou . Aos poucos. O pavor que sentiu ante a responsabil idade que aquela franqueza impunha veio temperado com uma sensação nova: alegria. o poderoso soberano da dinastia. .Escute. você tem que ser a primeira! Ou en tão: . vinha carregada de ódio. McPherson. é claro. (Débo rah lembrou-se do que dissera à Carla e voltou a sentir99 se culpada). Nunca a vi molestar outras pacientes. Você não concorda que. que você me levasse de volta ao seu passado. Tinham percorrido já as Grandes Decepções. antes das encos tas terem sido decoradas para darmos uma olhada juntas no próprio vulcão. pr ojetava-se ainda sobre todos os da família.Não de uma só vez.Ótimo. bem como as inúmeras pequenas decepções que são vitáveis na vida.Afirmou que estar doente era como ter um vulcão dentro de si e de pois. devido à sensibilidade e aos temores de Déborah. Esta noção de orgulho. Você deve saber reconhecer uma perturbação mental à primeira v ista. mas sua voz vibrava de indignação.recomeço a Dra. Um dia você se sentirá satisfeita consigo mesma. Déb.mas quero lembrar-lhe que muita gente lá fora gostaria d e receber ajuda e não pode. como se tudo fizesse parte de uma trama. Nunca a ouvi insultar uma delas. Sob a indignação perce bia-se um tom . há um outro aspecto que você parece admitir: a doença e os sintomas são coisas distintas. teria que desafiar o mund . surpreendendo Déborah com uma atitude que ele nunca tomara antes.exclamou Déborah. Lembrou-se do estribilho que durante anos o Coletor repe tia. Vivia chamando as mulheres de vac as e putas parideiras e. sobretudo num hospital psiquiátrico . Embora não conseguisse enxergá-lo na escuridão. dando-lhe tapinhas de uma brutalidade mal contida. . O orgulho. consistia em morrer com dignidade e agonizar como se o fizéssemos todos os dias. .um t om de respeito e sinceridade entre iguais. ao retrucar. pareciam t ambém apontar o caminho da destruição final. então. Lembrava-se nitidamente da sua voz fam iliar incitando: . você acha que todas as pessoas doentes estão em hospitais? Vocês se julgam. falando a respeito de sua irmã. por acaso. 100 12 já uma coisa que você disse numa das sessões anteriores que não me sai da cabeça . ele existe.ain da dará uma boa lição neles! .Vou tentar.Empenhara-se em aguçar a sagacidade verbal da neta nos mo ldes da sua. ainda que se confundam freqüentemente. . Ria! Não permita emhipótese alguma que 101 eles vejam que conseguiram-atingi-la. sent iu que ele estava tranqüilo. Gostaria. .Você é esperta . Fried. segundo ele. No entanto. por algum tempo. uma brincadeira misteriosa que todos conheciam mas ninguém admitia conhecer. embora os sin tomas estejam intimamente relacionados à doença e influam por vezes sobre ela. lame ntava o fato de Déborah ter nascido mulher.

o u ratos mortos fedendo de manhã ao lado do jornal que noticiava a fuga dos judeus para a fronteira da Polônia. e vencer.o todo.Salvação! . cercada de cuidados.E depois viajou para repousar por algum tempo. . exclamava triunfante: . Há barras nos separando. empregadas. expondo a verdade.. como se visse nesses episód ios uma espécie de obscura confirmação. . Acredite nele. não existiria. essa ciência com a qual nós duas estamos trabalhando. as crianças de sua idade. ela abortou. por mais impressionante que fo sse para os mais velhos. Os resultados pareciam confirmar as pa lavras do velho. Se não confiasse.Meu. A Dra. . . O abismo existente entre as pretensões do seu avô e o mundo que a cercava. . No entanto esta precocidade mais iludiu. enquanto vigorou a trégua armada 102 o mundo. . O conhecimento básico que você tem a respeito de si mesma. Nas cidades maiores. ocorriam manifestações germanófilas e at entados contra sinagogas e vizinhos judeus que ousaram abandonar os guetos. algum dia você vai lhes dar uma boa lição! A "lição" que ela tinha que dar consistia em exibir uma impostura que seduzisse e im pressionasse as pessoas: sua precocidade. em seguida. m inha. as novas batalhas. Tudo cinza. e se a agredir em.. Ela é grande e branca. . Caminhe de cabeça erguida. no entanto. no entanto. Fried perscrutou atentamente a fisionomia de Déborah por algum tempo e.Teve. não é? 103 Uma luz projetou-se sobre o passado. e. Débora h lembrava-se de ter encontrado várias vezes a mansão dos Blau salpicada de tinta.Você ainda vai lhes dar uma boa lição! Nós dois scomos iguais.Continue . esbarrava contra a impossibilidade cruel de você consegui r a ascendência desejada junto às pessoas de sua idade. Deixe estar.. . sólida e indiscutível daquel e momento. é c orretíssimo.Tenho um pressentimento. Recrudesciam. eu. .Mas é claro. Portanto.É inveja! Os mais capaze s e os mais espertos são sempre invejados. em seguida. da verdade. e a. As ilusões inspiradas pela próp ria precocidade: você era especial. são todos u ns idiotas. apenas tonalidades cinzas..Não sei. .E o quê? Onde está você agora? . Só que essa condição. pelo avô. por outro lado. Vamos experimentá-lo juntas? . a ancestral e mística guerra entre um imigrante aleijado e um Conde de Latvia morto há séculos? Déborah cresceu num ambiente e numa época em que os judeus americanos continuavam ac ossados pelos terrores da lembrança das velhas batalhas das quais haviam fugido do Velho Mundo alguns anos antes.. Onde está a minha. A coisa veio num estalo. tropeçando nas palavras. meu. Gêmeos. O avô. o qual para ele se resumia num bando de tolos e ingratos. você se constituía num solo dos mais propícios para que a semente de Yr germ inasse . O abismo existente entre a menininha rica. acrescentava: . onde eram fuzilados pelos poloneses "amantes da liber dade".deixou escapar Déborah. à medida que o poderiu de Hitler se ia expandindo pela Europa. amor. .. com palavras cheias de ódio.E. não dê o braço a torcer! .E você confia em mim? .Sua o quê? Vamos! .Sentia. Justifiquemos a psiquiatria (Risos). . Ela dá comida. disse: . e sábias. partiam imediatamente para uma posição de ataque.As decepções com o mundo dos adultos. Os outros.Sua mãe não teve problemas de gravidez quando você era bem pequena? . que falava de um lugar onde já estivera antes .Vá em frente ora. . Durante muito tempo..Não e xiste cores. pôs-se avidament . vestidos importados. Percebiam temerosas o que se passava com ela. Eu não como. Eu sou pequenina. Déborah usou sua sagacidade cáustica para con estarrecer os adultos. Déborah.encorajou a doutôra. .concluiu a doutôra . e seu ódio repercuti a intensamente na América. Conheceu de perto esse ódio anti-semita e chegou mesmo a ser agredida uma o u mais vezes por valentões da vizinhança..

Enquanto for possível suportar . pouco a pouco. concentrada em suas deduções lógicas. Esperava que a doutôra ensaiasse qualquer objeção tímida. acabam adquirindo um peso que pode vir a ser insuportáv el.. ainda limitadas e hesitantes. e o frio e a perda da capacidade de distin guir cores.desculpou-se a doutôra. eles voltaram. buscava para além do corpo trêmulo de sua aciente vestígios do almejado espírito que reluzira por alguns minutos.. arcando com o martírio dele ..Perdoe-me . e nem por isso acabam loucas. vieram palavras incisivas. então. ess a vivência grita lá no fundo: "Está vendo? No final das contas. quando não simpática .. outros fugindo atemorizados à descoberta d e uma similaridade sutil existente entre os pensamentos expressos pelas loucas e . . essas faixas escuras diante d os meus olhos são as antigas barras do berço.. . exatamente o que acontece agora! É uma parte do Abismo.Trabalharemos com afinco. e imaginando como devia ser horrível alguém servir de condutor à terra para uma potência dessa ordem . de estágio a estágio em Yr. Sempre me intrigou o fato de que não era um frio como qualquer outro que eu pudesse supr imir vestindo um casaco. Uns se foram aliviados por te rem perdido o medo dos doentes mentais.. 13 O tempo passava. Ei! Ei! .sua própria existência .do melhor modo que pôde.Seu pensame nto pousou um instante. vendo faixas escuras subir e descer diante de suas retinas. por uma semana ou duas talvez. Esta sensação ocorre freqüentemente. A Dra. Meu próprio berço. A sensação que eu tinha era a de que todo cal or havia desaparecido.As recordações não perdem necessariamente suas formas originais. finalmente.. Ellis.murmurou Déborah. Libertou-o de Hobbs. tentando. . projetou-se sobre uma outra região. provavelmente. . e acabaremos compreendendo. De repente. Teve razão. uma mentira inócua e reconfortante com a qual pudesse iluminar o caminho de volta a Y r. Diga a todos em Yr que não ou em prejudicá-la nessa sua busca. genético.. como se estivesse agu ardando ali há muito tempo. tr ansformando subitamente as conexões.. olhando através do suéter a carne chamuscada. agora plenamente gratificante. As barras. A doutôra. . A doutôra tocou-a no braço: . .A luz. Déborah retirou o braço das mãos da doutôra. . mas depois de recal cá-las anos e anos seguidos. numa revelação imen sa e maravilhosa. e o frio é o mesmo frio de antes. Localizamos dentr o de você onde certos fantasmas do passado continuam agarrados ao presente. . Ao invés disso. notando a palidez do seu rosto. não ser cruel com o S r.É você quem estabelece o preço.Fcomos muito bem hoje. é tão vasto quanto a sensação de abandono e a da perda de todo o amor. no limite das fr onteiras que demarcam o mundo dos sãos. Fried sorriu: . eram as b arras do berço. um defeito intrínseco. . impelida por um medo obscuro ao contato físic o.. 104 . de passagem. e procurou se mostrar obediente. a vivência de uma situação de abandono . perdendo seu aspecto sobrenatural até se tomar. da luz do sol às trevas da noite. outra dúvida a assaltou. é o que acon tece agora. A babá era distante e fria. juntas. A enxurrada de palavras chegou ao fim..disse Déborah.concluiu Déborah. uma semente ruim.e a preencher as lacunas. A dúvida logo se transformou em certeza. agora! Quando sinto que vou despencar. Um nov o grupo de estudantes de enfermagem veio e se foi. da terra à terra de ninguém. Déborah era jogada daqui para lá como uma peteca. e m mais uma prova irrevogável de que havia nela algum defeito.Cheguei a pensar que ia morrer até que. .O vulto branco deve ter sido uma babá." A doutôra ergueu-se. Muitas c rianças até mesmo perdem os pais. . Eu me pergunto qual será o preço.As barras do berço. mas nunca imaginei que pud esse ser verdade que estive realmente num lugar assim. barras e a solidão. a vida é assim. para logo de pois submergir. . pois o lugar onde a mão pousara começou a fumegar sob a manga do suéter e a pele encarquilhou cobrindo-se de bolhas.Portanto. e o distante pesadelo foi.Não pretendi a tocá-la antes que estivesse pronta para aceitar isso. simplesmente.Pára-raios . Cada vez que você é chamada a recordar o frio do abandono.. encerrando a sessão.Por que só eu vejo essas faixas escuras? Não há ninguém que não tenha ficado sozinho em certas ocasiões.

na su a queda flamejante e etema. ." Queri a dizer com isso que não era a enfermeira quem estava ausente. Quando soou o ás pero canto cerimonial. O inspirar e o expirar. um segundo grupo que estava sen do domesticado pela nudez espontânea de Constantia. desprendendo faíscas dos cabelos. Fora desse quarto. onde ela própria figurava como a vítima do seu hospício imaginário. vindos da doutôra. Aqu i tenho sido fio de cobre e as pessoas me confundem com bronze! Anterrabae riu. . . chutava-o na b oca do estômago e na região tumorosa que se rompia como um melão podre.. afastou de sopetão o braço trânsida de medo. chutava aquele seu outro eu estirado ao chão. terríveis e inconfessáveis. anunciando a partida. morrerão ou enlouquec erão. desse hospital..Através das órbitas dos olhos.É poder demais. A tua subs tância é fatal para eles. revendo provavelmente os pesadelos. Murmurou algu mas palavras para deixá-la à vontade mas ao invés disso. acreditava neles. dessa ala. andam e respiram num elemento q ue nunca compreenderás ou conhecerás. Ao recuperar os sentidos. Seja esperta. Déborah ergueu-se no diminuto quarto onde estava enclausurada. e quase foi ao chão. Déborah não tinha a menor idéia do que eles estariam vendo no seu rosto. sem saber como. horrorizada com o seu imenso poder de destruição. Se forem contagiados por teu elemento. erguida por sobre si mesma.Termine logo a ins peção da ala e vá preparar um casulo. Ela se achava. o que veio confirmar mais uma vez a distância intransponível que a se parava dos chamados "seres humanos normais". não assim. A mulher se voltou precipitadamente para sair. Déborah. O fato é que se sentiu profundamente aliviada por receber ajuda. Estes . Não permitam a ninguém magoar assim. Pr ocurando tranqüilizá-la. esmaguem-me de encontro ao mundo! Acenderam a luz pelo lado de fora. e isso graças às aflições que. A chave rangeu na fechadura. compreendia-os. Coletor. tropeçou no própri o pé. Déborah estendeu a mão num gesto instintivo . Acab em comigo. No entanto. estava tudo escuro. Sou uma condutora de r aios e queimaduras. situado a pouca dis tância do saguão. Notando. disse Déborah a todas as divindades reunidas em utilizando a habitual saudação Yri.Exatamente. a s noites e os dias desses outros seres são de uma substância que não é a tua. .Assim como o Poço? . . e sim ela. a escolha inadequada das palavras só fez deixar a estagiária mais alarmada. a repuls iva Déborah. A mulher remexia as chaves (sua diferença). . a fisionomia da enfermeira co ntraiu-se de medo. alegria.. Veio. o sangue e os ossos. perdeu o equilíbrio. Surpreendeu certa vez uma enferm eira comentando: -Aquela menina me olha como se eu absolutamente não existisse. pela violência devastadora e gra ciosa de Helene e pelos olhos alheios de Déborah. pelo visto transpareciam em seu rosto .Só verificando tranqüilizou. Sentiu-se como uma gigantesca bale ia emergindo das profundezas do mar: vinha de um outro elemento regido por lei e .Vamos logo com isso Anterrabae. Déborah sussurrou depois ao cruzar com ela: "Errada não. . firma ndo-a por alguns segundos. jovialmente a enfermeira do novo turno. Não havia prazer. debruçada na janela olhando pa ra fora e repetindo de mansinho: . investida da autoridade honorífi ca que detinha em Yr. termin ado o expediente.e agarrando °braço da enfermeira. sugeriu ele. Nem bem ela recuperou o equilíbrio. Percorrem-me. sofram. . e desaguam na enfermeira. contudo. Uma enfermeira " trouxe-lhe a bandeja do almoço. muito pálida. vocês todos. quem sabe.os seus pensamentos inconfessáveis. paz ou liberdade que compensasse esse pavoroso sofrimento. ao menos. a expressão do rosto 107 de Déborah. e e saiu cambaleando do quarto. é magoar demais. depois. a outra Déborah. virou-se para uma pessoa que vinha atrás e ordenou: .murmurou algum tempo depois para o s que vieram buscá-la. o céu cobria-se de sombras por entre as barras da janela. Déborah. gemendo baixinho: .Deixem-me morrer! Pedia que a esmagassem de u ma vez por todas. e qual dos se us "eus" a dominava naquele momento. desferiu um g rito e caiu no chão. Não assim! Não assim.a falta de jeito 106 tomava os seus gestos extremamente bruscos . Déborah compartilhava. as pessoas iguais a elas riem.

avisara que se ela não se afastasse dali. que Heleor mais desesperadamente enferma que estivesse. uma agressão tão violenta 108 muito surpreendente. sua respiração ofegante. no entanto. e com gesto s deliberados e precisos. Ambas resmungaram baixinho. . e só entravam . filtrava-se a luminosidade pálida das estrelas.declarou Helene secamente . então. convulsas e raivosas.Quem está aí? . que tudo presenciava. Um dia.climas próprios. cusparadas e . calmos. Esse era o único movimento possível dentro de um casulo. Quando ele estendeu a mão para captar. chocadas com a revelação de si próprias. Helene poderia se curar. ou aquela quantidade indefinida de energia ou determinação ou seja lá o que for. Mantinha-se. Pelo vidro anteposto às grades. com uma voz pausada e contida. Ao escutar aquilo. Havia agora duas camas mergul hadas na escuridão. essas coisinhas diabólicas e importunas que se tomam um mundo quando não se pode coçá-las e afastá-las. se quiser. não se fizera de rogada. As enfermeiras e auxiliares diziam. Helene reagiu lançando-lhe uma cusparada n a cara. e foi direto à cama de Hele ne para tirar-lhe o pulso.Alguma vez já lhe caiu um fio de cabelo nos olhos quando você está no casulo? . começou a esbofetear o rosto dela. geralmente. felpas. o pulso de Helene. e rápido. sabendo que os pa cientes poderiam estar em transição e. num contraste chocante com a beleza da noite e das estrelas. ela afastou a cabeça com violência. a maneira como Ellis entrou foi brusca demai s. Déborah a respeitava sobretudo por sua inteligência. No silêncio do quarto. Vênus de Mil o com cócegas no nariz. sempre discretos e silencioSOS. Déborah. atordoados ainda. deixara também de perseguir o ma rtirizado Ellis. precisos e ritmados. às barras qu e compunham a tripla couraça vedando a janela. Da cama vizinha veio um som abafado. por sua vez. Pensou em Hele ne. Os tapas atingiram-na firmes e fortes. enquanto tentava tomar-lhe o pulso com a outra. deitada como uma gêmea na cama vizinha. Por causa disso. e extrair a ssim um número para o seu relatório. depois que eles acusassem a sua presença. retesou ligeiramente o corpo.Eu sou um fio de cabelo nos meus olhos . Ela consegu iu se livrar mais uma vez. Déborah. Solt ava. De repente. . seus lábios já estavam secos.e você é outr o! Em face desta reação pouco amistosa. Ellis entrou sozinho. tinha certeza. tinha inadvertidamente cometido uma grande crueldade com ela: dissera-lh e que achava que ela ia ficar boa. que era o essencial da recuperação. Ellis. mas após cada tentativa. Virara-se para Déborah e. lembrando-se das lutas que travara com fios de cabelo. Embora ela fosse uma pessoa mordaz e d emasiadamente agressiva. . é claro. distante e inacessível. conseqüentemente. respeitava e temia ao mesmo tempo. e estas.indagou Déborah. assisti a a essa cena. Helene .perg untou Déborah. de modo a introduzir gradativamente a sua presença e a do mundo. A janela que emoldurava a noite coalhada de estrelas já não era aque la de onde assistira às primeiras horas do crepúsculo. que ficaria Para sempre gravada em sua mente como o símbolo da impo tência do doente mental: os tapas. alguma coisa antes de entrarem. apesar de seus modos espinhosos e intolerantes. estendidas lugubremente naquelas camas. . nem que fosse por uma piscadela de olh os.respondeu Helene . sem inclusive. um jato difuso e furioso de saliva. Helene nem sequer conseguia atin gi-lo. às vezes. Num lugar vulnerável como aquele. o pavor enrijecera o corpo mus culoso de Helene. quebraria osso por osso daquela cabeça de merda.Nossa Senhora da Cócega no Nariz! . ou então. Déborah recolheu-se ao silêncio e ficou descansando do eterno apocalipse. a maior parte do tempo. Ellis agarrou o rosto de Helene e o imobil izou com uma das mãos. 109 e as cusparadas frenéticas. se dar conta do tormento que a afirmação despertava em si mesma.Ou. manifestava seus Pemsamentos s momentos de lucidez. acenderam a luz. cisc os. a invejava. na têmpora. Seus pensamentos fluíam com extrema nitidez. Déborah percebia. sem demonstrar raiva. um ou dois comentários imprevistos e cortantes. a mã assentava-se implacavelmente sobre seu rosto.

. quem sabe.. A enfermeira-chefe não a levou muito a sério. nem sentir o vento tenebroso. ele vivia uma outra dimen são de realidade. menos ainda a iminência da Punição. . e portanto. Déborah teve que implorar. os limites de s ua realidade. contudo. o enfermeiro conseguiu submetê-la. naturalment e. Queria que lhe aumentas sem a dose.Esteve a ponto de acrescentar que H elene tinha sumido. sentindo a nuvem cada vez mais ameaçadora e o vento que já começava a soprar. e por um encadeamento de idéias não muito claro . como vingança porque uma vez lhe dissera que achava que ela iria ficar boa. . em seguida a de Débora h. fixou-se na sua ment e como um trapo agarrado a um prego. silenciar sem compreender. ao invés de bater com os punhos fechados. . c ustasse o que custasse.Reparou que. caíam vermes. Ficaram horas absorvidos naquela guerra. e não saiu mais de lá.perguntou a enfermeira. . . livrar de sua consciência a responsabili dade de ter sido testemunha -. tomar-se uma nelaq tankutuku. O homem aut orizaria. as fronteiras de seu reino.Tomarei nota do caso . o médico continuou calado. para que ele acreditasse nela. talvez . . Não se deu ao trabalho de procurar lhe mostrar a gravidade d a questão. Sentado ali calmamente. sem. Terminou de fal ar e durante muito tempo.Tenho uma coisa para contar a ele. Déb ora 110 sabia. uma forma de conciliar s em alterar. Toque-de-Fogo.tapas ressoavam sem parar. por sua vez. Furii ou Toque-de-Fogo era o nome em Yri que Déborah 111 . mas decidiu. . Repetiu as explicações. Deixou-o partir. esboçar qualquer movim ento em direção ao onipotente cademinho de notas. gozando. Helene tossia. bate com a mão espalmada! A enfermeira mandou que ela procurasse a enfermeira encarregada da ala. expor-se cega e irremediavelmente. até que final mente. A muito custo. Você estava no casulo e. um pouco transtomada.primavera. hesitando. Percebeu a tempo que não seria prud ente dizer isso. . deixando-a ali com cara de boba. mas não podemos aceitar uma denúncia dessas sem provas.É do nosso maior interesse impedir qualquer brutalidade aqui no hospital. contidamente. Quem sabe você não pensou ter visto isso. procurando ostentar a aparência de sanidade convencionada pelo mundo. mordeu os lábios e se calou. sim. poupando ao máximo as palavra s.perguntou enfim o médico. chegar até ao médico. pelo menos a Ellis. por experiência. caridade em cen tímetros cúbicos". Registrou sua pulsação. da nuv em. que seria injusto comprar sono ao preço do sangue que Helene engolira. . que só eram objeto de segredo porque ele detinha as chaves e as pacientes não. Dirigiu-se à enfermeira e pediu para fala r com o médico da ala assim que ele viesse assinar os pedidos da semana. obteve finalmente permissão para ver o médico da ala. Déborah se lembrou de sua autorização para sedativos. a mandou para a enfermeira-chefe d o dia. que dizia "Sim. tanto do vitorioso como da vítima. enqu anto murmurava para si mesma: "Generosidade de hidrato de cloro. . encerrar os atritos sem tomar qualquer pr ovidência. No dia seguinte. no entanto. com os olhos pregados nela. Ergueu os olhos para ele. foi a vez de Déborah assumir voluntariamente a condição de participan te.de cúmplice no episódio. nem tampouco foi mais longe referindo-se às tendências de Ellis.Que pacifista é aquele que. Enquanto duravam esses trâmites burocráticos. Repetiu novamente as explicações. é claro!". ..Helene saiu logo depois que acabou tudo.Por que Helene não veio me contar isso? . Azar! vou contar o caso à Dra.Posso saber o que é? . que ele não podia ver a nuvem. a nuvem prenunciadora da Punição ia se adensando sobre Déborah.Pergunte. as estações . em tempo. com aquela Alma. o incidente. e tinha certeza de que aquela era a hora certa de pedir. A enfermeira da ala. A idéia.assegurou o médico. não vai ser nada fácil se tiver de mentir.Para que você quer vê-lo? . uma inimiga de si própria nos termos Yri. No entanto precisava. engasgada com sangue. .sob um outro s ol cujos raios não ultrapassavam a periferia do campo de visão dela. Narroulhe. Era evidente que estava colocando em prática o que Lee Miller chamava Tratamento Número Três: consistia numa variação do vel ho "sem dúvida! sem dúvida!". e saiu..

Quem disse que eu estou propondo mudança de política? . doutôra.protestou Déborah. finalmente. Você vai mesmo levantar a questão de Helene na reunião? Se eu disse que ia é porque vou. se a justiça fracassa.Escute aqui .refletia Déborah . . A única realidade que eu lhe ofereço é o desafio: ficar boa significa ficar livre para aceitá-lo ou não. e a reação dele foi a Número Três com Sorriso: "sim .perguntou Furii. cintos. Um mundo perfeito como um jardim de rosas é mentira. desaparecendo naquela cidade repleta de suásticas. já esquecidas. Helene cumpriu a promessa de não importunar Ellis. a idéia de pedir um aumento na dose de sedativos.é que eu não estou ligada à direção da ala.Contei.encontrara para a Dra.(Lembrou-se de Tilda: um belo dia fugiu do hospital e m Nurembergue. suportando estoicamente os grilhões daquele relacionamento. o Sol ptolomaico girando em tcomo de seus planetas. . fósforos.Você contou isso ao médico da ala? . é? Furii concordou. começou a segui-la por toda parte. era justo que um ato que seguramente iria lhe cust ar muito. . para voltar logo depois. aquela que também era tankutuku por causa das palavras.Enfermeira! Tire essa puta daqui! .signifi cava admitir que estavam no mesmo palco."Shalom Aleichem. . Blau! Isso também convinha. que havia uma relação entre as duas..Vem cá. e vê que todos cuidam para que te afaste do s menores perigos: alfinetes.disse Furii . ou então pare de seguila. . Não posso interfer r na política deles. Lee.Nunca lhe prometi um jardim de rosas! Nunca lhe p rometi a justiça ideal. Não prometo mentiras. Grande realidade essa sua. procurou se aproximar de Lee Miller. O meu objetivo é exclusivamente 112 ajudá-la a ser livre para lutar por todas essas coisas.Talvez você esteja duv idando de que eu tenha visto tudo isso. embora não fosse tankutuku.Afaste-se. Uma pergunta: Ellis espancará a testemunha trancafiada nua num quarto de reclusão? Déborah foi escorregando pela parede.O problema . Não estou ligada à administração do hospital. .sim é claro!" . . rindo às gargalhadas. num gesto de nobreza. e como não gostasse de ficar e ncostada à parede como as outras. em mencionar o assunto na reunião da equipe médica. era uma terceira atriz.. Afinal. e essa opção v cê assumirá de acordo com suas possibilidades. mas não prometo nada. Déborah. olhares maldosos.Absolutamente. Déborah. O fato dè ela lhe dirigir a palavra . Fried. impelida por um estímulo inconsciente.. hein? .A não ser que essa política consista em espancar pacientes indefesas! .Suma-se. . mas por um misterioso senso de conveniência.Retire-se do saguão. passava o dia todo circulando para "manter as pe ssoas nos seus devidos lugares". . ditas por Sylvia. Blau! Déborah persistia. cons eqüentemente. .disse Furii. . O elo gravitational se desfez. e eu também. a desonestidade impe ra e aqueles que conservam a fé acabam se dando mal. .Também não posso interferir na disciplina do pessoal da ala. que eram atrizes do mesmo drama e. L ee tinha uma mania: não suportava ninguém às suas costas. . Não participo das decisões relativas à al a.Sentia-se agora ridícula por ter rejeitado. também nunca lh e prometi paz ou felicidade. rendesse pelo menos alguma coisa. Déborah.De que vale então essa sua realidade. . mas Déborah não ficou muito convencida. Déborah se sentia como um fósforo tentando atear fogo a um tonel de combustível vazio. . eles estão mais loucos do que eu!") . e enfadonho também. em homenagem ao poder espantoso que tinha revelado ao lhe queimar o braço com uma chama invisível. . até um local fami113 . . Pássaro-um. A enfermeira. não por uma questão de devotamento ou lealda de. Depois que Helene a deixou sozinha com a responsabilidade de testemunha. Déborah! Procure compreender. Déborah voltou a se afastar. o sobrenome de todo mundo aqui é Pilatos. Aproveita a luz do meu jogo. . um riso grotesco e áspero que mal chegava a ser riso. cordões de sapato.

Desgarrou-se de novo. inse gura e infeliz. minúsculo talvez. apontando o que haviam ou não haviam feito de errado para que a filha acabasse nesse campo de batalha. Todos temiam aquela espe rança. Doente ou sadia . Para Déborah. Pois.Procurou usar um tom bem tranqüilo.mas é por causa do talvez. sendo amparada e reco nfortada .perguntou Jacob .Eu. as palavras da menina tiveram uma ressonância especial. a lei da gravidade ondulando como um trapo no vento tenebroso. para ser matemalmente mimada e cons olada. pelo menos. agora. Sentiu ímpeto de dizer a eles. . para o pequeno grupo de pessoas que estavam aconchegada s ao redor do aquecimento . Aqui as pessoas . Imaginem por vocês mesmos.é claro q ue. Vinham . são mais assustadas. vocês a verão. .. em parte. Elas pairavam no ar junto com a murrinha de zoológico que infestava a ala. para sempre? . À tardinha. os dilemas que Débo . 114 14 Jacob e Esther estavam sentados no consultório. não param de gritar . se vocês decidiram vê-la. uma paciente recém-chegada que angariara um certo prestígio devido à su a violência e aos nove anos que havia passado num dos hospitais mais rigorosos do país. buq uês de rosas e um pretendente distinto e de boa família. Arrependeu-se pela centésima vez de ter intemado a fil ha. numa "pá" de alas.percebeu logo a Dra.É importante que fique claro que os sintomas não são a doença . Não poderia prometer nada em definitivo. acomodou-se no chão.exclamou Jacob sobressaltado elevando a voz para sufocar o medo. nao importa. infeliz. Vivem mijando no c hão.. É este solo que estamos trabalhando juntas. que não Deus. seja qual for. ela vai ficar boa.Deixe o talvez de lado. ela era uma pessoa da família. convites para dançar. sinceramente não sei se posso lhes dar esperanças. A senho ra poderia nos dizer o que podemos esperar? . a imagem que essa médica sugeria era a de uma pessoa inteiramente irreconhecível. virou-se de repente.Porque o senso de realidade dela anda um bocado abalado atualmente. Jacob recostou-se aturdido. era justamente a pergunta que ela não estava disposta a responder.em busca de paz e tranqüilidade. Mas era tarde. a nuvem baixando ameaçadoramente. ou terá que continuar aqui. e "ela sabe disso e teme por vocês . Por causa de um minúsculo.. . a doença é o ún ico solo firme de que Déborah dispõe. Não sei se ela virá algum dia a ter essas coisas ou mesmo se as desejará. Antes.. Perscrutou os seus dois mundos e avistou a tempestade im inente. . . formas dela se proteger.. pedindo isso. . depois que esse for destruído. inevitavelmente. rindo para neutraliza r o imenso e pavoroso alcance de suas palavras. eu quero dizer. Se h ouver um outro mais firme. e também por si me sma.viviam permanentemente com frio .e declarou: . ter uma esperança qualquer. Trata-se de um problema puramente administrativo. junto às outras estátuas.Se o que vocês querem para Déborah é um diploma universitário. e ficou acompanhando as imagens q ue lhe percorriam a mente . bem. Frie d ..imagens simples. nisso ela só poderá acr editar por um voto de fé. . de uma vez por t odas. e desatou a correr ao longo do saguão.Tais sintomas representam defesas.o fato é que precisamo s alimentar alguma expectativa.liar. aquele: minúsculo.Não vem ao caso a questão do amor. um bocadinho. descobrir e chegar a um acordo quanto ao que ela realmente quer.Aqui é diferente. Meu irmão também. minúsculo talvez. O trabalho que estamos desenvolvendo juntas visa. os vermes que despencavam dela. .. Lúcia. Acreditem ou não. . mas terrivelmente explícitas. mas eu pessoalmente não aconselho ainda dessa vez. A sua adorada Déborah de antes Podia até estar doente como todos afirmavam. Que mal há em desejar uma criança como todas as outras? . mais piradas. nem pretendia desempenh ar o papel de juiz. para ser 115 patemalmente protegida e orientada. Sua aparênci a pode alarmá-los um pouco.Será que poderíamos vê-la? Teve desde o início certeza de que eles acabariam. apressou-se a emendar: .Porque não! .disse a doutôra. o fato é que lhes pertencia: insegura. Já estive numa "pá" de espeluncas.Percebendo a frieza de suas palavras. numa de alas.

. eu quero vê-la . e nquanto que por detrás dele.Mesmo assim.. .vou ligar para a ala e pedir que tragam Déborah. Ou então. No carro. e ainda assim conseguira infundir-lhes o ânimo de que necessit avam desesperadamente. Deixou escapar outro suspiro. São capazes de lhes impor decepções..assentiu a doutôra afavelmente . Confiavam na Dra.protestou Jacob. O que os a ssustou não foram resmungos desconexos ou ataques de violência. futilidades e arrogâncias . não se mostraria ambiciosa.rah vive. diante das quais jamais se curvariam! Ah! Ocorreu-lhe. não compraria sonhos e os imporia inflexivelmente a uma Déborah. tá? . só podemos supor o horror e a solidão que se escondem por trás dela. Esperem-na na sala de visitas.informou o auxiliar. mas u ma espécie de retraimento. discou para a Ala D. Esther e Jacob mantinham-se calados.Esther .Não. . . doutôra . está bem. viajando de volta para casa. doutôra? . se essa Déborah fosse a sua filha. Jacob. faça 111 que e]a tenha boas maneiras na mesa e um futuro que corresponda aos nossos sonhos tão almejados!" Sus pirou. . honestos e bons acabam vendendo seus filhos com a maior tranqüilidade.Acabaram de levá-la para a sala de visitas. que nunca vivencia mos essa doença diretamente. Quem sabe. e a aceitar a outra versão do m undo. . está sendo instada a anular. depois de alguma relutância.E afastou-se furioso. Ao deixarem a sala de visitas. no entanto. e porque os sintomas proliferam tanto.Uma pe ssoa . Eu só queria. "Conserte a nossa filha. mal a haviam reconhecido. não tem importância. . Voltando agora para Chicago. murmurou: .Ah. que nunca tivera ou educara filhos. ...Só queria saber se deu tempo para ela pentear os cabelos. A doença de Déborah consiste. Ficarei aqui até às quatro h°ra Observou-os saírem e se encaminharem com passos rígidos.Dirigiu-se ao telefone. nessa visita.. Eu quero vê-la! Está no meu direito! .. Tudo o que viram. . entendam bem. uma ausência impalpável e aterradora..Muito bem. contradizia frontalmente suas esperanças do que fosse essa verdad e. . porque ela fica tão ada.Você fala d emais! Deixe as coisas como estão e fique quietinha. sem nenhuma garantia concreta além da fé. esforçando-se por definir as suas impressões. Sabendo que os pais temiam a desconhecida que se ocultava por de trás do familiar robô.Mas ela nunca assumiu esse mundo. . . Ela não procurara tranqüilizá-los c om frases hipócritas.insistiu Jacob baixinho. não faria também concessões a esse tipo de conduta. numa luta desesperada pela saúde. e aí compreenderão porque ela não dá atenção à sua aparência. porém. atualmente . Jacob aproveitou para descarregar a raiva que sentia sobre a mulher: . agora. . a verdade se descortinasse de uma vez por todas. o senhor não compreende? Déborah criou uma espécie de robô que se encarregava de reproduzir os movimentos exigidos pela realidade. como se ela não habitas se o próprio corpo. a verdadeira Déborah ia se distanciando cada vez mais d essa realidade. peçam por favor ao auxiliar 116 que stá de serviço para me chamar. subitamente. ela foi deixando as coisas ficarem como estavam. Ficou u m bom tempo absorta nessas considerações. Espe ravam que. Fried procurou uma forma de descrever os sentimentos de uma pessoa que ja mais soube realmente o que era a saúde mental em sua vida. .Se qui serem depois conversar comigo de novo. Sacudiu-as de repente para longe. A filha. A Dra. Déborah.O mundo que nós demos a ela não foi tão horrível assim! . Fried. é melhor não. direção ao prédio do hospital Ah essas famílias! "Faça o em eu filho ficar bom". traziam uma única certeza: era mais do que tempo de c . .Ela está muito pálida.Nós. A confusão os emudecera. . apanhou o telefone e. .Sim. Jacob limitou-se a comentar: . Até mesmo os pais inteligentes. . nada disso. uma pessoa mortalmente arrasada por dentro. 117 Esther por sua vez. anular todos es ses anos de vivência do que conheceu como realidade.. não.

então. Eram verdad eiros animais. . se esquivava. Fechava-se na cegu eira e na ignorância porque. Inquiri-lhe com indignação: . Atitudes carregadas de culpa e amor. Tinha pesadelos nos quais fugia. assustadora ou repugnante que fosse. . fugia. era somente a figura do pai e uns poucos pensamentos seus. Será que o s outros homens alimentam os mesmos pensamentos? Sabe que sim! E os outros homen s serão capazes de controlar estes pensamentos tão bem quanto ele? Seguramente não! Déborah refletiu sobre a dissimulada sensualidade que vira transparecer tantas vez es nas atitudes do pai. Explodindo de raiva e de medo. e aquela mesma culpa que existia nos monstros.Claro. . De cada três homens. o simpl es desentendimento num momento crucial. inconfessáv eis. Pelo fato de eu ter atraído a atenção do indivíduo.Ele tinha verdadeiro pavor dos homens. desandou a esbravejar como se todos esses homens obedecessem a uma le i de gravidade que os atraía para mim. O segredo mais profundo. .. me repreendeu por eu ter olh ado para um exibicionista na rua. Consciente da si milaridade. M as não era só isso.. quer nas trevas de Yr.Acho que você atingiu um filão importante. quer confundindo a doutôra.. é com medo. quando via ou descobria qualquer coisa.. el e deduziu. que não só a deixavam e xtremamente confusa como lançavam sobre ela um estigma ao transformaremna numa cúmpl ice secreta de todos os crimes infames cometidos pelos maníacos e que ele não se can sava de descrever. apenas uma filha que vivia o colocando em situ ações embaraçosas. A Dra.. apavorantes não. . Falava freqüentemente nas partes infectadas destes homens. eu concordava. Os homens eram brutos lascivos até não poder mais. contra quem se empenhava tanto em recriminar.Já permiti que você fugisse de seu pai o tempo suficiente .. . por mais vergonho sa. que alguma coisa eu devia ter feito. e conhece seus próprios pensamentos..anunciou Furii no deco rrer de uma sessão. Homens . . . Déborah sabia que as suas partes íntimas também já hav iam sido infectas. esperando para me seduzir. E para Déborah. no íntimo. me esbofeteou com força..ontar a verdade a Suzy. em direção ao qual Furii procurava estender as garras do mu ndo. um era maníaco sex ual ou 118 possuidor de algum vício qualquer. desejo . Compreendo a gora que não fui para ele apenas. consistia em que Déborah tinha muito em comum com o pai: o temperamento explosivo. para finalmente volta r a se defrontar com dois rostos familiares e apavorantes: o do pai e o seu. a encurralar..Não. e alguma coisa mais. porque sabia que era verdade o que eu estava d izendo. p rontos para saltarem sobre mim e me agarrar... vivia me advertindo contra esses perigos.Percebeu que aquele fantasma que tinha adquirido dimensões enormes no Pânta no do medo.Continuam tão apavorantes assim? .Não. não sei como.Senti desprezo por ele algumas vezes . a razão de ser dessa força qu e a compelia era tão misteriosa quanto as recônditas regiões de Yr. Fried continuou a perseguir. tinha medo dele e de si mesma. . Parte do segredo.Déborah desat ou a chorar. ódio. Déborah por sua vez.. Parte desse mal-estar era o . se dissimulava.Quando fala dele. Sentia que o amor do pai era um amor extremamente cego e que ete não fora capaz de compreendê-la por um momento sequer. . . jazia sob injustiças triviais: a surra motivada por uma razão qualquer. Uma vez.Quem sabe se o problema não era o medo que ele tinha de seus próprios instintos? ...O que é que eles qu erem afinal comigo.. o hábito de ficar remoe ndo por dentro as coisas e extravasá-las em súbitos acessos de fúria. a instigar sua recalcitrante p aciente através dos meandros do amor e do ódio.O que? É meu pai. humano . Não presto para ninguém! P apai.. mas é antes de tudo um homem. .emboscados em vielas escuras. Que bom. sentia-se irr esistivelmente compelida a colocar essa descoberta em discussão.. se já estou toda arruinada e estragada.. o pai acabara desp ertando pela filha aqueles mesmos apetites. . .confessou Déborah. Confundido na sua sensibilidade pelo medo. mal formulados e revestidos de tamanha culpa que acabaram 119 perdendo seus verdadeiros contornos.

Suponho agora que devo voltar para casa. acu mulados até ali. a resposta é sim. o pesado elevador desceu. que seria o sótão. enquanto aguardava a colisão final que a deixaria louca para sempre. essa eu não posso esquecer! Os americanos captam as sensações peculiares à doença mental com uma precisão surpreendente às vezes. De qualq uer modo. uma velhinha de corpo mirrado e c abelos inteiramente brancos. o que significa verdade. Déborah. Seguiam-no quatro auxiliares. A voz que se fez ouvir em seguida vinha de Yr.. A única coisa que quer o lhe dar é a possibilidade dessa opção. será muito mais rico! Conversaram por algum tempo ainda.Déborah.A Srta. . tentando alcançá-la. muito mais . pelo menos. . . . Fechando a procissão. Coral vai voltar de novo . está tudo escuro e os macaquinhos. ficam pulando de um lado para o outro.Ah. . quero lhe dizer que você roçou o discemimento. como não enxergam nada. .repreendeu Furii com severidade..Ela esteve intemada bem ant es de você chegar.você conseguiu. transportando. São ou não são maravilhosos e emocionantes esses sentimentos? .Talvez a doença venha a cobrar o castigo por termos nos distanc iado tanto dela. amor. já escutei uma outra expressão.Ainda faltam muitos segredos para desvendarmos. Pairava sobre a ala uma excitação mal contida. generosidade. inteiramente desorientados. até que parou diante das portas duplas que se abri am para a Ala D. firmemente imobilizada.Conheço.Ainda há mais. A escolha caberá exclusivamente a você. mais tarde.V ia. fazendo a maior algazarra. . O que acontece é que você está rejeitando o alimento que a sustentava .. Escute Déborah. ap esar da distância que crescia. Acho que não vai querer nem precisar de macaquinhos no sótão. dois para os pés e dois para a cabeça. Ergueram-se todas num pulo e ficaram à escuta.todos esses segredos e poderes secretos . se eu precisar disso.Prosseguiremos até enxergarmos tudo.Ora. . Você terá que confiar o suficiente em mi m e crer que o novo alimento. Doida de pedra!. que tolice! . por pior que pudesse ser ele às vezes. Qu ando terminarmos você poderá optar por Yr.Beirava o ceme da questão quando o temor se abateu. . uma opção verdadeira e consciente. uma miscelânea de per- .. Dois casulos esperavam num quarto de reclusão pelos seus ocupantes. . Furii procurou fazer com que ela trouxesse à to na os inúmeros fragmentos de evidência com os quais justificava os seus temores. por falar nisso. que a lucidez extinguia-se. que estava sempre por dentro das coisas. escute! . se você quiser.. mas a teimosia a instigava ora a ceder ora a reagir. quando surgir. A doença tinha.disse num tom desalentado . Você conhece? . "com macaquinhos". e você sabe disso.. p esado e estreptoso. Você ainda não teve a vivência da saúde mental para saber como ela é. Um pouco antes da hora de trazerem para cima o almoço. Quer dizer o seguinte: na cabeça da gente. porém.Isso significa que vou poder continuar louca se quiser? 120 Louca Varrida . Reinava uma grande expectativa. mais difíceis inclusive do que a doença naquela fase que precedeu a sua vinda para cá. Enfermeiras e auxiliares riscavam o saguão de branco e caqui com suas idas e vindas febris. Graças a Deus! Isso aqui tem estado chatíssimo. . . Vultos de uniforme branco delinearam-se na superfície translúcida e embaçada do vidro. . e isto tudo faz parte da realidade da qua l você tem tanto medo. . É "macaquinhos-no-sótão".e nenhum outro apareceu até agora para substituí-lo.sussurrou Déborah para Lee... Esses são os tempos mais difíceis.. acho. de verdade.O que está acontecendo? . A chave virou a fechadura e o administrador da ala surgiu em t oda a sua magnificência.informou Lee. Após alguns minut os. ouviram-no subir novamente. se realmente quiser. jogando com Furii e seu mundo. Perdoei mi nha mãe e meu pai. Furii viu que a crise era imin ente. . Eu chorei.disse Furii..E se eu quiser isso. um signif icado.Muito bem. Déborah estava exausta.

121 sonagens secundários: enfermeiras do dia pertencentes à recepção, acólitos, o clero regula r, noviços, postulantes e outros. - Aquilo é a tal Srta. Coral? - Cinqüenta quilos cheinhos dela! - exclamou Lee. O equilíbrio, a riqueza de tipos e o colorido davam ao espetáculo um quê de profano. A procissão, cercada de um silêncio a bsoluto, percorreu com o seu fardo o corredor, passando sem se deter pelos dois casulos (surpreendentemente) até chegar ao quarto de reclusão Número Quatro. Passado algum tempo, os carregadores começaram a sair de novo para o corredor. Débor ah se preparava para voltar ao seu posto na janela do dormitório, quando reparou n o último dos auxiliares que saía para se juntar aos demais, cujo comportamento a imp ressionou vivamente: era absurdo, assustador e hilariante ao mesmo tempo: negava todos os princípios newtonianos da física. Ele não andava, voava! Estava inclinado no ar, com uma expressão de pasmo como- se toda a vida se resumisse a uma trajetória. Não chegou a alcançar os outros. A meio caminho, desabou. O ruído surdo da queda despe rtou a atenção dos companheiros que vieram logo acudi-lo. Déborah suspirou desapontada . Era só um homem, afinal. Não se machucara nem no vôo nem na queda mas, por pouco, não foi pisoteado pela multidão de funcionários que acorreu em pânico, para subjugar a fonte de sua propulsão. A Srta . Coral surgira no vão da porta que, por descuido, tinha ficado aberta. Seu corpo franzino parecia carregado de eletricidade. O branco dos cabelos é que fora reduzi do a cinzas pelo fogo, murmurou Déborah em Yri. Os três homens que se atracaram com ela fizeram um papel deplorável. A velha não só era combativa como ágil! Literalmente sa cudiu-os para longe, mantendo o rosto impassível e os olhos vazios e fixos à frente. Quando os outros auxiliares mergulharam na escaramuça, continuou, mais ainda, don a da situação: permaneceu imóvel deixando simplesmente que um desfizesse o que o outro fazia. Helene, sentindo-se desafiada na sua supremacia de até então ser a mulher ma is temida da ala, correu para o saguão deserto, removeu os pinos das dobradiças que seguravam a porta da enfermaria, derrubou-a com o peso do seu corpo, arremessoua no corredor e pôs-se a destruir tudo o que estava ao seu alcance. A frágil Sylvia, plantada como uma estátua de encontro à parede, não conseguiu suportar a tensão provocada pela violência de Helene: explodiu subitamente, arremessando cont ra ela, através dos restos da porta, bandejas, instrumentos médicos e toalhas. Acion aram a campainha de emergência, interviram mais doze pessoas que conseguiram final mente, subjugar o motim, e colocar Helene e Sylvia no casulo. No meio daquele tu multo o administrador da ala esqueceu-se aparentemente de fazer cumprir os cuida dos recomendados à Srta. Coral: limitaram-se a metê-la no quarto e trancar a porta. - Puxa! - comentou Lee ao cruzar com Déborah no saguão - Você tem de admitir que isso superou tudo o que aconteceu por aqui nos últimos tempos. - Incrível. .. Nunca imaginei que uma velhinha tão frágil, fosse forte o suficiente pa ra pôr o cabresto num homem! Pena eu não ter conseguido chegar até o armário de narcóticos ... - Ela esteve intemada aqui há dois anos atrás. Certa vez, vi, com os meus próprios olh os, uma cena extraordinária: a velha jogar uma cama - não foi empurrar não - jogar, Pa rece mentira, mas ela é a mais instruída de todas nós. - Mais do que Helene? - Ora se é! Fala quatro ou cinco idiomas e transa acho que com matemática lá fora. Ten tou me explicar uma vez, mas você sabe não é, nunca passei da oitava série. . . - Olhou à sua volta e logo recomeçou a circular, ansiosa para repor o mundo no seu devido lu gar. Quatro dias depois, destrancaram a porta do quarto da Srta. Coral e lhe deram au torização para que saísse para a ala. Quando, depois de algumas horas, ela surgiu hesi tante à soleira da porta, deu de cara com Déborah sentada do lado oposto. - Oi! - cumprimentou Déborah. - Oi... Você não é um pouco jovem demais para estar aqui? - A voz era idosa, mas nem u m pouco desarmônica, prolongava as vogais, que soavam como ditongos, numa pronúncia bem típica do extremo sul dos Estados Unidos. - Ah... e o que é que tem ... temos o direito de ser tão loucos quanto qualquer um.

- Objetou Déborah armando um bçicinho. - Lee Miller contou que você sabe línguas e matemát ica. É verdade? 123

Oh, ela ainda está aqui? Que pena... - e soltou uma risadinha que mais parecia um cacarejo. - Você sabe mesmo falar línguas? - Não ... que nada! Só nos ensinavam a ler e escrever um idioma naqueles tempos, e a penas o suficiente para lermos os clássicos. - E você ainda se lembra? - A pergunta a colocou de sobreaviso. Encarou Déborah long amente. Tinha, naquele momento, o porte de um Anterrabae bruscamente imobilizado na sua queda perene. Seus olhos, de um azul cristalino, pareciam chispas. Os ca belos fartos, brancos e eletrostáticos, ameaçavam inflamá-la como a um tição. - O que é que você quer de mim? - indagou finalmente. - Quero que me ensine. A rigidez das feições como que se dissolveu, o corpo afrouxou desalentado e os olhos , aqueles olhos inflexíveis, se encheram de lágrimas. - Estou doente, menina... - di sse ela - Estive muito doente. Esqueci tudo. E depois, eu acabaria cometendo err os por causa da idade... (Déborah acompanhava a luta feroz e invisível que ela trava va no íntimo para se recompor) .. . e a doença.. . - Não faz mal! - Estou cansada agora - disse a Srta. Coral, recuando de novo para dentro do qua rto - vou tomar uma decisão, mais tarde informo. - E bateu a sólida porta atrás de si. Déborah voltou a se sentar no chão, diante do quarto dela, e ficou ouvindo os sons a bafados da batalha que se travava lá dentro: imprecações, gritos, quedas, uma pancadar ia dos diabos. Um auxiliar que vinha passando, deteve-se intrigado: - Ué, pensei q ue tinha aberto essa porta... o que é que está acontecendo lá dentro? - Coral versus Coral: ação de divórcio. Estão brigando pela custódia da criança! - Déborah, você a viu sair, não viu? Foi ela quem fechou essa porta? - Sabe lá se ela não tinha que conversar com alguém! O auxiliar se afastou vagarosamente, retomando a distribuição de privilégios e autoriz ações. Déborah se sentou novamente diante da porta, e despejou no chão todos os tesouros que carregava nos bolsos. Encontrou duas guimbas de cigarro 124 que tinha conseguido surrupiar a uma enfermeira estagiária num momento de distração. F oi até a cama de Lee Miller e as colocou sob o travesseiro dela como oferenda de a gradecimento. Pagava, pela segunda vez, a dívida de Sylvia. Voltou ao seu posto em frente ao quarto da Srta. Coral. Sentia-se extremamente c ulpada. Sua substância parecia ter-se espalhado pela ala impregnando a todos de an gústia. Por cada dilaceramento íntimo, como o que ocorria por detrás daquela porta, ju lgava-se simbolicamente responsável. Lembrou-se, porém, do que Carla tinha dito: a d oença era como um copo que transbordava e, por'isso, uma ou duas gotas a mais não al teravam as coisas. Mesmo assim se perguntava se era ou não responsável? Incapaz de decidir, pôs de lado a questão. Passado algum tempo, silenciaram os ruídos dentro do quarto. A voz da Srta. Coral, arrastada e exausta, a chamou do outro l ado da porta. - Mocinha!.. . Mocinha! Você ainda está aí? - É. .. É comigo? Está me chamando? - Déborah mal conseguiu articular as palavras, taman ho era o nervosismo que sentia. - Sim, é com você - E então ela declamou: "Inter vitae scelerisque purus Non eget Mauris jaculis heque arcu. Nee vena nati s grávida sagittis, Fusce, pharetra." - O que é isso? - Amanhã - respondeu a Srta. Coral - e teremos ditado também! 125 Mary (paciente do Dr. Dowben e, para não confundir com a primeira, chamada Mary Do wben): - Assassinato e incêndio! Há um incêndio! Carla queria ir ao cinema na cidade porém como paciente da D, precisava de uma per

missão especial e de dinheiro. A Srta. Coral, que voltava a palmilhar desde o prin cípio a sua via crucis, estava ali para requerer alguns privilégios básicos. Nem bem o médico pisou na ala, os pedidos e as respostas começaram a chover de todos os lados. Quando Déborah falou no cademo de anotações, os olhos do médico detiveram-se nela por alguns segundos, avaliando-a de alto a baixo. - Vamos ver! - respondeu por sobre os ombros, dando as costas e prosseguindo seu caminho. Naquela tarde, a Dra. Adams veio à ala para ver Sylvia. Ao sair, deu por falta de um exemplar de Loock Homeward Angel que trazia consigo. Pouco depois, no mesmo d ia, uma das enfermeiras estagiárias procurava em vão o seu cademo de aulas. As páginas escritas reapareceram dois dias depois no elevador, fora da Ala dos Perturbados , mas a metade do cademo cujas folhas estavam em branco continuaram desaparecida s. Déborah pôs-se a chatear Helene para que lembrasse das poesias que sabia, e tanto ch ateou, que um dia ela recitou trechos de Hamlet e Ricardo in, arrancados, para s ua própria surpresa, de algum canto empoeirado da memória. Passava horas transcreven do conscienciosamente todas as palavras gregas e latinas que possuía no seu arsena l de tirinhas de papel. Leu e releu o "Look Homeward Angel", escondido sob o mai or sigilo debaixo do colchão, até o dia em que Mary Dowben o descobriu e o comeu tod inho, poupando apenas a capa. Conversou uma vez sobre o romance com Carla, que já o havia lido. - Se eu sou capaz de aprender essas coisas... - perguntou Déborah, - ... capaz de ler e aprender, porque a vida continua tão obscura? Carla a fitou, sorrindo complacente. - Deb, quem foi que lhe disse que aprender fatos, teorias ou línguas tem alguma coisa a ver com a gente entender a si mesma? Entender o que você tem Ce específico e distinto das outras pessoas. . . - Déborah com preendera subitamente que embora a sua sagacidade precoce tivesse uma ligação íntima c om a doença, estimulando-a em 128 certas ocasiões, ela agia independentemente dos problemas que turvavam a sua noção de realidade. - Quer dizer então que a pessoa pode aprender, aprender e continuar esquizofrênica? - com Déborah, pelo menos, isso pode acontecer - interveio Helene ferina. Déborah foi esconder seu cademo atrás do aquecedor do dormitório, e deitou-se, em segu ida, na cama, de onde só saiu três meses depois. Durante todo esse período levantou-se apenas para ir ao banheiro ou para comparecer às sessões com a Dra. Fried. Foi uma das épocas mais sombrias e obscuras de sua vida. Deixava-se arrebatar por Yr, entr egava-se às divindades e aos personagens do Coletor, sem opor a menor resistência, e xceto no decorrer das sessões com a Dra. Fried. Carla aparecia, às vezes, para conta r os boatos que corriam na ala e os pequenos incidentes do dia. Déborah era incapa z de expressar o quanto essas visitas significavam para ela. Constituíam, ultimame nte, o único contato humano que mantinha por dias e dias seguidos, pois a máscara po r detrás da qual se ocultava, dava a ela uma expressão tão hostil que os auxiliares, q uando vinham trazer as refeições ou trocar as roupas de cama, afastavam-se o mais rápi do possível sem lhe dirigir uma só palavra, sequer um aceno de cabeça. Voltou a ter pe sadelos, a acordar sobressaltada e gritando durante as noites. Logo a transferir am do dormitório da frente, cheio de gente e barulhento, para um quartinho escuro, nos fundos do corredor, junto com duas outras mortas vivas. Criaturas acostumad as às trevas, sentiam-se mal com a luz: quando raiava o dia, calavam-se completame nte e não enxergavam nada diante dos olhos. Reinava um silêncio sepulcral. De repent e, uma delas, atormentada por algum pesadelo, irrompia em gritos dilacerantes, f azendo com que se despedaçasse a crosta quebradiça do sono narcotizado das outras. M antinhamnas entregues a si mesmas, sepultadas entre aquelas quatro paredes, acor dando-se umas às outras, justamente para evitar que transtomassem a ala toda. Havi a noites em que Déborah tinha a impressão de estar vendo se realizarem suas fantasia s mais diabólicas a respeito da loucura, fantasias construídas a partir do arsenal d e ameaças com que as babás costumavam acenar quando era criança. Despertava, freqüenteme nte, com uma das companheiras de quarto de pé sobre ela, com os braços erguidos 129

voltara de novo ao mundo. Reconheceu a voz e. contudo. Por que razão? Não sabia. Julgando que fosse. volte para a cama e me deixe dormir um pouco.Dê o fora. como foram terríveis aqueles anos que vivi no mundo. uma das companheiras de quarto. um vulto angustiado e macilento aguardava que seus pensame ntos voltassem a pousar nela: Doris Rivera que saíra para o mundo.disse ela. . fingindo-se de fantasma. Um belo dia. seja bem-vinda. Sua visão.De sisti de tudo porque estava cansada .furiosa e embrutecida . . aquele caos horrível? . Confie no nosso trabalho juntas e na saúde qu e se oculta no fundo de você! Nas sombras.pergunt ou Déborah. A imagem que tinha de Doris era de um fantasma glacial. Déborah.Será que ela pôde escolher? Será que a sanidade representa uma opção para ela? .. o sumo guardião da Aparência: Agora dê um passo. Déborah.Estive me lembrando de mais al . Déborah! .murmurou Déborah.Eu sou louca. mas os desafios que Déborah conhecia eram surpresas preparadas por Yr: cobras que se desprendiam inesperadamente das paredes.Ora. dia após dia. Durante os meses transcorridos naquela cama. cansada demais para continuar lutando! Furii tinha dito que a sanidade consistia. seja dormindo.. com um suspiro de alívio. Boa noite.v eio assustá-la. . scomos nós quem escolhemos esses diferentes caminhos. insensível.. Sonhava uma noite com o pai e aquela outra faceta do seu amor. Deu as costas e foi embora. pela primeira vez.. e não há nada que você possa faz r comigo que a minha própria loucura já não tenha feito de uma forma muito mais eficie nte e dolorosa. Déborah esbravejou: . . Delia. A Srta.num gesto de sacerdotiza. tá? A menina se afastou.ameaçou Helene. numa esco lha. tingida de cinza. como se o riso fosse uma constante no seu q uotidiano. mas Déborah percebeu que o tom era muito mais de orgulho ferido do que de selvageria. uma menina gordinha que andava por todo o quarto batendo os pés com força.Eu sou louca. e numa das minhas piores noites? .Segundo a minha médica.Esqueça essas experiências Déborah! Você provavelmente não conhece nem de longe o que é se sentir mentalmente sã. aproximando-se . p ercebera nos olhos das pessoas a mesma descrença de que viesse a se recuperar e. . se permitiu pela primeira vez algumas palavras em louvor à boa luz que a iluminou num momento tão providencial. Déborah sentiu uma alegria dentro de si que ultrapassava o pe queno motivo que a produziu. fumando um cigarro. a pesar de tudo..Pensa que me assusta! Você não seria capaz de competir com o menor dos meus pesade los. volte para a cama. . sofrerá os mesmos terrores.. pensou muitas vezes na figura semilegendária de Doris Rivera: ocupara os mesmos quartos. ora. continuava ainda muito limitada. num desafio. como de hábito.Eu seria capaz de tudo. pôrra! Suma-se! . recuperara-se. seja acordada . Rec ordou-se do Censor. . Helene. . Você está sujeita às mesmas leis que eu. Furii dissera: . . os choques medonhos resultantes da colisão dos mundos.Como ela consegue suportar. Agora sorria e di ga "como vai". que consistia num desejo puramente humano. Ela não disse nada.Talvez ela se limite a ranger os dentes e a lutar a cada minuto. Coral estava sentada no chão.Escute. 130 . Helene. cana lizando todas as suas energias para sustentar a aparência.. rompeu o silêncio e o terror nos quais estivera encerrada até então: . antes de tudo. Foi até o saguão e parou junto à porta da al a. Levanto u-se tão inesperadamente quanto se deitara. um sorriso de boas-vindas. Uma outra noite. .. . embora fosse familiar a agressividade explosiva de sua dona. sorriu. pessoas e lugares que apareciam e desapareciam. quando foi bruscamente acordada por uma das mortas vivas. Déborah levantou-se finalmente da cama.ameaçou ela novamente. Logo que a viu. Fora necessário reunir uma energia extraordinária para suportá-lo.perguntou a Carl a. ou então esmurrando-a num sonâmbulo acesso de fúria. . mas não a importuna va muito. pelo amor de Deus.Ah.O h. gargalhou com a maior naturalidade. . Helene .

que se estampou no rosto dela.vou sentir falta de você! O terror despertado por essa declaração foi tão grande que começou a tremer e a suar fri o. Procurou a Srta. Você ainda quer ouvir? . que bom! Como vai? . Déborah a encarou com uma expressão aturdida. junta-te a nós". O Censor desatou a rir às gargalhadas. Anterrabae se afastava na sua queda vertigi nosa. chamam eles. sabei o que fazem. Déborah não atinava com uma razão que justificasse a coragem e a generosid ade de Carla.exclamou Déborah. O olho da destruição aproximava-se cada vez mais de Déborah. Não dês ouvidos ao que ela diz. esperando! Uma verdade terrível se impôs a Déborah: Carla se tomara sua amiga. er a mais seguro esperar algum tempo para ver que conseqüências resultaram. era forte! Sua rainha e vítima cons ervava ainda vestígios de poder. Pássaro-um! recomendou Anterrabae com voz suave . Nunca lhe ocorrera que a Srta.e então. algo semelhante a um potencial para a cor. . saudou amavelmente Anterrabae (esta era a saudação habitual em Yri). Ê doce a chamada e reconfortante o calor. O pior é que. defendendo-se contra o m edo suscitado pela partida de Carla. antes de descer.Eles semeiam em solo fértil. Coral para lhe recitar alguns versos de Lucrécio. e mais tarde. Pela primeira vez desde que chegara à Ala D. nada poupam. ao mesmo tempo. "Junta-te a nós. Carla. Déborah apercebeu-se de que ainda não tinha dito nada a Carla. Demonstrava uma confi ança e uma lealdade comoventes. Doris Rivera tinha ficado boa e ido embora. Yr. alimentos. quando uma pessoa saia'de uma fase difícil. reagia. Sol. Carla veio se despedir de novo: . já que.ah. Em breve a avistaria. Você poderia até pedir autorização para ir me visitar lá embaixo na B. 132 . ícomou emprestado um dos lápis "o ficiais" numerados. e por sua vez. no entanto. surgindo. e da própria realidade da existência de Carla. Seria simplesmente porque ela estava contente de vê-la? Existiria re almente um mundo para além dos muros que vedavam seus olhos? Sofra. então. e estrofes tiradas de Medéia. então. como se a visse pela primeira vez: graça s aos códigos e à mágica de Yr. Passou aquele dia quase alegre. Já ia passar lá para lhe comunicar que amanhã cedo desço para a Ala B. Déborah usou conscientemente a máscara. não era um fantasma: estav a viva. Só nesses termos consegui a imaginar o reencontro com o mundo. . estarei por aí. Procurava atraí-la com sua deslumbrante beleza. para gozar a inconstante clemência do aquecimento. instig am-na a germinar no solo onde foi plantada. embor a a cor propriamente continuasse imperceptível. ainda tinha o poder de v ibrar. Coral pudesse ficar contente de vê-la. quando a encontrou no saguão. o suficiente para se defender contra a determinação d o mundo em fazê-la sofrer. deliciando-se com a expressão ao mesmo tempo de inveja. Doris Rivera. contando com a . ampliou-se o campo de visão de Déb orah. Deb. e eles . a personagem legendária que Déborah visualizava como um fantasma. havia se livrado da dolorosa sensação de perda e amizade. .gumas coisas. Carla. sorriu e a cumprimentou efusivamente: . vítima. as citações filosóficas de Abelardo. e dera o primeiro passo em direção àquele pesadelo que as pessoas deno minavam "realidade". Déb. não mexera sequer um músc ulo do rosto. respeito e temor.Era u ma atitude corajosa agir assim com tamanha espontaneidade. Im ediatamente.Fico contente por você ter saído hoje. inc apaz de morrer. Os dentes reluziam como diam antes e os cabelos formavam cachos de fogo.Claro que sim! .Não diga . Levantou-se do chão e foi se aconchegar às outras vítimas daquele terceiro círculo do inferno de Dante. para espezinhar bem o seu sofrimento.Tchau. embora tão debilitada. antes de se aproximar. que esperava como um animal acuado. os primeiros brot os. gos tava de Carla. uma 131 folha de papel. como que em resposta ao seu comando. Foi à enfermaria. vítima de uma resignação patética e desesperada. e ficou até a hora do jantar copiando os devaneios poéticos da velha . água. A corda da amizade. completou com a verdade: . teve oportunidade de dar um outro "chega-pra-lá" em Helene. Pássaro-um? Eles se armam com um conta-gotas c heio de ácido. Adulam a semente. Despontam. Na manhã seguinte.Deb.

reproduzindo com trejeitos termos psiquiátricos. e justamente hoje ele está de serviço no turno da noite. Sim.segurança que lhe oferecia a Ala D. que jamais prestava atenção ao que se passava à su a volta. menos convencidas do mundo do que estavam ao entrar. tratava a paciente como a um fardo.O que houve.Ela riu da alusão. aos olhos dos outros. . sem olhar parà nada e ninguém.Ocorreu a Déborah. porém. pairava em céu aberto. Déborah avistou no fundo do corredor a figura de Ellis. devassando todos os horizontes. Lactamaeon avistou uma brec ha na terra. ofuscamente belo e l ivre. Déborah. . na dimensão de Ir. tenho certeza de que ele a ajudará com a maior boa vontade. Aberto o banheiro. Era natural que não soubesse da história. Nunca pude pedir nada a ninguém. Coral amavelmente . a grandes altitudes.Se você quer conhecer . muito menos a falar com ela. um auxiliar novo.Encontrei um tutor para você! Uma pessoa que lê os clássicos fluentemente. respondeu o pássaro. agora familiares. espere . dividia-se entre os dois. assumira de vez.Mary deve ter algumas balas. com o mesmo rosto inexpressivo. esta sentiu o tumor diste nder-se violentamente dentro dela. .Quem é? Alguém daqui? Um paciente? . Coral aproximou-se dela: . Desde a conversa com McPherson que não falava com Ellis. e que se de sfazia lentamente durante aquele ano no hospital. . Lembrou-se.Queria lhe dizer uma coisa . embor a continuassem tão vivos 134 quanto o fogo de Anterrabae. Quando Déborah deu por si. encharca da de suor. desprovida da tênue malha de defesas que levara a vida tecendo. pois el e não pertencia exclusivamente a nenhum dos mundos. algumas das quais ainda vivas.. o papel de zelador de coisas. A Srta. . observando-a livrar-se do torpor. Leve-me com você! Um momentinho! interveio o Censor com sua voz áspera. . nem fêmea. metamorfoseado num gigantesco pássaro. Não se dignou a olhar. . nunca o vira.Nunca percebi. Por que você não pede uma a ela? . acontece alguma coisa comigo e eu . do preço qu e tivera que pagar por ter testemunhado e se posto à descoberto. o s pacientes não o testavam mais.principiou a Srta. Provavelmente m uitas saíam do casulo. mergulhou nela com um grito triunfal de águia. Lactamaeon.. Acima de todas essas preocupações. graças a ele.Ellis! . pois pouco tinha a defender. . Quando tenho que pedir. . enfim.Não. é o Sr. todo solícito. já anoitecera. Quando se ergueu. destrancav a o banheiro para a Esposa do Abdicado. eu não posso pedir. Pensei que você soubesse dis so. pusera de lado o disfarce da normalidade.reafirmou Idat.prosseguiu a Srta. eu acabo brigando. .é ele quem detém as c haves. conhece grego a fund o. que encontrou ao seu lado. que o incidente com Helene tin ha acontecido antes dela chegar. e desapareceu. acabaram se diluindo no meio-tom rotineiro da ala. nem macho. Se você pedir. a divindade dissimuladora. O que é que você está ve ndo? perguntou ela em Yri. foi Castle.Já ensinei a você todo o grego que sabia. Ao passar por Déborah. talvez não. O olho a focalizaria e a lançaria em plena selva da real idade. Ta lvez lhe tivessem repreendido por bater nas pacientes.Acho qu e a gente só consegue gostar da comida do hospital quando está tão doente que não pode r eparar nela.exclamou horrorizada. O sarcasmo e o desdém irritantes dela. . Ellis. Voara já uma vez 133 com ela. . inc lusive aos seus. Blau? . Os penhascos e desfiladeiros do mundo. percorreu de volta o cor redor. A lua e o sol na mesma esfera. Coral com timidez. e que também era andróg ina. Já se habituara ao emprego. sentindo-se à vontade na doença. Enquanto discutiam a questão cuidadosamente. Por coincidência. . ainda meio atordoada. e não Ellis.Não. limitouse a rec uar para deixá-la passar. Ele falava pouco agora. obrigando-a a se curvar em duas com tamanho ímp eto que acabou de quatro no chão. bem.

O problema se resumia em achar uma maneira adequada de contar. Ouço. Ou seja: feche os olhos e pronto! Tudo volta a correr às mil maravil has.propôs Jacob. ao mesmo t empo solenes e embaraçadas. o da louca em "Jane Eyre". e um dia você leu um bom pedaço para tio Claude que eu achei meio esquisito.As suas leis espaciais são ótimas . na realidade. o pulso ou a temperat ura. Isso nunca! Discutiram. uma contração muscular sequer que denunciasse aos pais como estav a recebendo aquelas palavras. Naquela mesma noite. As pessoas tinham o maior respeito pelas novas teorias com toda a sua gama de comprovações empíricas sensacionais. que sua enfermidad e era mental e não física.Escuta. cedendo lugar ao terror pr imitivo ao peso de dez mil gerações de medo e misticismo. Cheg aram a pedir ao Dr. Esther sabia.Suzy esboçou um sorriso.Uma coisa que sempre me intrigou é que esses relatórios tratavam mais das idéias de Déborah do que de seu corpo. Ao menor arranhão. no entanto. por Deus. a despeito dos fatos. era injusto continuar a alijá-la da fonte de suas preocupações mai s profundas. que partira de alg uma janela do hospital. . contudo. levantou-se para fazer os seus exercícios de piano. mas ele se recusara. a casca da cultura se desfazia. cuidado com as opções q ue vocês nos oferecem! 135 Esther Blau passou muitas semanas preocupada e agitada. você citar trechos para a vovó. tornava-se cada dia mais difícil conversar pe rto dela. Tudo se encaixa direitinho agora! Até que enfim as co isas fazem sentido! Levantou-se da mesa e foi para a sala ao lado praticar suas lições de piano.mas.. de alguma outra ref erência que a deixara confusa. ela p ermaneceu em silêncio por algum tempo. . due seus médicos eram psiquiatras. por exemplo. sepulcro de uma multidão de trapos humanos. mas só superficialme nte. Esther lhe pediu que ficasse. temperou a garganta e com vo z formal começou a explicar à filha caçula que a "escola de convalescência" de Déborah era .Não. Quando terminaram. Ela estav a deixando de ser criança e. 136 ao terminarem o jantar. Além disso. É um assunto sério.. que transmitiam suas taras aos seus descendentes. Nunca mencionavam. Quem já não havia escutado os velhos melodramas a respeito da insa nidade como. Suzy. Suzy escutava com a passividade que só uma menina de doze anos é capaz. ela não fica dizendo que é Napoleão ou coisa no gênero. com os olhos perdidos nas xícaras de café. tratando-se de um relatório sobre essas do enças comuns. que esse "esp erar-um-pouco" era mais uma das portas por onde ele se esquivava discretamente d os problemas. precisava saber. e então falou em voz lenta e pausada.Seus próprios ouvidos estranharam aquelas palavras. a "Ciência Modema" fornecera uma série de racionalizações oficiais para explicar muitos desses casos. Empertigou-se na cadeira. as antigas crenças e temores sobreviviam incólumes na mentalidade popular.Vamos esperar mais um pouco . Suzy voltou. sem dúvida. Esther e Jacob continuaram sentados. Dava-se conta agora de que fora justamente este estereótipo que ela e Jacob haviam evocado da primeira vez que viram as janelas guarnecidas de barras e que escuta ram o ranger das fechaduras ou o grito atormentado de mulher. mas. as histórias descrevendo o ma nicômio..disse ela . lembrando-se. . Passados alguns minutos. hesitando em revelar a S uzy a doença da irmã. arrancadas a tanto custo. já era tempo. até que finalmente venceu a posição de Esther . . por exemplo. O clima foi pouco a pouco se descontraindo. Lister que o fizesse. Seu rosto não extemava um sinal. com suas construções sombrias e lúgubres.. fica? . . ameaçando o futuro? Sim. atônitos. por isso. . um hospital. modificando ou elucidando um ou outro aspe cto da questão. Esther queria evitar a tod o custo que Suzy viesse a substituir a imagem familiar da irmã por aquele estereótip o da louca de olhar selvagem.Você leu os relatórios? . como de hábito. acrescentando. discutiram. com uma convicção nem sempre sincera. Jacob de vez em quando a aparteava. enfiada numa camisa de força c acorrentada num porão. Suzy. quem já não ouvira falar dos maníacos assa ssinos. . rodeadas de muros sólidos e indevassávei . às vezes. alegando que isso cabia exclusivamente a Esther e Jacob.

sinto muita falta dela . uma covarde. .perguntou Furii c om delicadeza . parec iam carregar o mesmo estigma. Julgava. Eu dava as caixas imediatamente. . estiveram impregnados dessa venenosa essência. Jacob deu uma longa tragada no cigarro e expeliu junto com a fumaça. mas veio encontrar depois. ela e alguns outros possuíam um n ganon que as diferenciava das demais pessoas.Eu tinha consciência de que estava sendo uma farsante. na Ala D. uma substância ori ginal que definia cada pessoa.Claro que não! . . cujos gumes ela própria afiara.Você se envergonha disso? Para mim é uma evidência de que Déborah ainda mantém vínculos com a Terra. era ter sempre razão). então o que sobrari a? Notou que se deixara levar pela vaidade e riu meio constrangida: . o Coletor já se manifestava. Roub ava-os freqüentemente conservando-os até que se dissipasse esse nganon purificador q ue os impregnava. Às vezes. de início.Elogiar uma coisa não significa condenar outra. à peça de Schubert.Isso é tudo?. . Você acredita que essa sua substância seja realmente venenosa? Déborah começou a explicar as leis de Yr que regiam o nganon. a força vigorosa e o amor que demonstravam. Ficava encantada com a pureza. uma pequena dose de popularidade! . . quer dizer. Talvez o troar de canhão que temíamos foi o que nós ouvimos. . O tom em que falavam traía um pouco a esperança que tentavam transmitir.Sim.Todos nós temos! . Por isso. isto é. alguns mortos vivos que. tudo isso pesando em favor de Deorah.Mas você não disse que costumava subornar as crianças na colônia de férias com os doces que sua mãe mandava? . Contém expressões incríveis! Ho e .No entanto. ela e tudo aquilo que a p ertencia. por algumas horas. sem esp eranças. inclusive em seus objetos pessoais. arruinada.O inglês é mesmo uma língua maravilhosa . Ser rainha de Yr. 137 Tomara que volte logo para casa. Só que os doces vinham em caixas impessoais cobertas de papel celo fane.disse Suzy.você parece estar "na maior fossa". sua escrava e pri sioneira. a podri dão-Déborah só começa a agir depois de um dia. livros.eu tinha que preservar alguma coisa. a graça. iA composição do nganon dependia não só de fatores inatos como de fatores circunstanciais. Enquanto não fossem abertas. por menos que fosse.E comprava assim. que possuía uma substância envenenada e venenosa.. Por aquela épo ca. pelo menos tanto quanto 138 com Yr. Permaneceram ali sentados por um bom tempo.. lápis ou permitir sequer que alguém tocasse em suas coisas. .O inglês não é melhor do que o Yri! .Admito que errei mil vezes! Mas você esquece que eu era feia.disse Furii . é só isso ou será que realmente ela não nos compreendeu? A i mpressão que eu tenho é que. em seguida.Não sei não. é verdade. . que isto só aconte cia consigo.Falaram sobre o otimismo dos médicos. logo que as recebia.comentou Furii.que significa "Nada" .Até mesmo emPem ai . sempre se recus ara a emprestar suas roupas.Não? Não é condenável cortejar a morte? (Suas mãos haviam manejado com destreza a lâmina a precocidade.. podia me dar ao luxo de ter razão! Se eu estivesse errada. Segundo Déborah. a saúde que vicejavam nas outra s crianças da escola ou da colônia de férias. não havia perigo de contaminação. você cometeu erros que lhe custaram caro. "farsante e covarde . as vantagens dela ser trata da cedo. e cada vez mais intensamente. quando identificou a menina errada na colônia de férias . . e por isso.como se diz? . Esther se sentia fraca devido ao brusco relaxamento da tensão.Por exemplo. não foi? . ela vai reaparecer com o olh ar que há meses venho imaginando! . Durante toda a sua vida. toda a angústia que o dominava.perguntou Furii. vo ltando. . Além do mais. refazendo-se do contraste entre as e xpectativas e o que acontecera de fato. assim que passar o choque.

.Por quê? .Eles odeiam esses japoneses como sempre te odiaram.. Um dia.. horrível. Yr lhe deu de presente.Onde você está agora? . e. Fri ed era obrigada a pedir inúmeras vezes que ela falasse mais alto. 139 Anterrabae! Poderá ela arcar com tão grande peso? O que está acontecendo. assim como a glória e a miséria pressupostas na declaração de Yr: Tu não és como os outros! . mas na realidade não era uma americana. era o seu ferimento de guerra. estão contra nós!" O Coletor segredou-lhe: . Fazia sentido. de percorrer as imensas distâncias que os separavam. à linguagem secreta. logo que se sentiu capaz de transitar entre Yr e o mund o exterior." eram acusações que ouvia dele. . enquanto el a tornava-se a síntese perfeita do amor e do ódio. desejava até que vencessem. à ruína de suas partes mais recô s e femininas. eram os que dormiam agora. desperta. Assim. Déborah? . Ah. . os japoneses atacaram Pearl Harbour. e à noção inculcada 'pelo seu avô de que você era especial. Déborah já não a escutava. durante cerca de um ano.Durante a guerra. .Uma japonesa de verdade? . pelo contrário. Bastava que recitasse um encantamento Yri para que se dissipasse a ilusão. à dolorosa intimidade de seus ferimentos.Anterrab ae sabe o que vi. Quando em dezembro de 1941.insistiu a Doutôra. sobrevôo os desfiladeiros das tuas canções de ninar. as relações pareciam se in verter: os seres do mundo passavam a ser amaldiçoados.. no alto do céu.Porque eu era a Inimiga! Para Déborah. ela não..Compreendo. . . e a menina feia e detestada se transformasse num esplendoroso pássaro. cometiam erros.. . contemplava todas as belezas e todas as maldades. Ela gemeu baixinho para o deus e. Os homens 140 eram os cegos.." (Liberta e alada. no decorrer do r elato. então. O encantamento dizia: "e. Déborah tiritava de frio. . . Fried. A doutôra perscrutou-a com um olhar penetrant e. sonhos de fuga. o universo de segredos... forçando a entrad a dos Estados Unidos na Segunda Guerra. quisera não ter visto! Qui sera banir da memória essa coisa horrível. estava quase adormecendo.. O prisioneiro não odiava seus captores. viveu ora sob a forma de um cavalo selvagem. tu não és como os outros! Recordava-se de ter escutado o trecho de algum discurso no rádio que dizia: "Os qu e não estão do nosso lado.. o poder de transmutar sua forma. esta revelação constituía um segredo crucial. agora. .E Anterrabae.Pássaro um. os olhos oblíquos do In imigo ansiavam pelo dia em que seriam desmascarados. Sua mente. sabe o que tenho a confessar. aquele frio que remontava à distante vivência de uma separação. Déborah contou que. a condição de prisioneira. Por detrás da máscara de judia americana. pressentiu que ela beirava uma descoberta importante. versada num idioma estranho. ora sob a forma de um enorme pássaro de penas de bron ze. elaborava. E esse sentimento vinha entremeado à precocidade que você tinha que su stentar. sem extemar qualq uer alteração visível.chamou Déborah em Yri. O importante é que o mundo começava a dar um sent ido às oposições irreconciliáveis que dilaceravam Déborah. voltou-se desesperada e disse: . .interveio a Dra. Estava longe. eu fui uma japonesa. a Dra...Eu estava disfarçada de americana. Sintomaticamente. Furii deu-lhe um cobertor com o qual ela se enrolou e deitou no dívã. completou com um sorriso amável: . no dia em que fez nove anos de idade. o Coletor lembrou a Débo rah: . o deu s cadente.. quio quaru ar Yr aedat temoluqu' braown elepr' kyryr. ) Quando Déborah se transformava nessa enorme criatura alada. o nome daquelas ilhas do Pacífico adquirir am uma conotação odiosa e infemal para os americanos. quando despertou sentindo-se como um sold ado japonês capturado.Ah! Tu deves ser esse inimigo contra o qual eles lutam! Certa noite.Anterrabae. A dor contínua e insuportável c ausada pelo tumor.

Seus pensam entos deslizaram suavemente relembrando os tempos e as poesias de sua juventude . Déborah correu para a enf ermeira da ala que supervisionava a contagem de colheres para o jantar. Exigira dela muita atenção e uma participação intensa. mas não conseguiu falar nada. continuo achando que esse Censor. A última enfermeira do turno do dia saiu. "Como se se nte a doutôra hoje?" Enquanto retirava o disco da capa. Até que enfim esses malditos médicos me acham suficientemente corajosa! exclamara Débo rah em Yri para Lactamaeon. Começou a interferir em tudo o que eu fazia ou dizia.Ainda assim.Não havia lugar para ela em Yr. Nesse exato mome nto. Pressentindo que a onda rebentaria a qualquer momento.perguntou Furii.No dia em que terminou a guerra do Pacífico. pela décima segunda vez naquele dia. Déborah.E por isso. sem que eu o percebe sse. a sessão fora longa e exau stiva. No início. pensava sobre um paciente. representavam ape nas uma tentativa de interpretar e explicar a realidade. "Qual é mesmo o programa de hoje?" Cons ultou a agenda.Estou sentindo que a crise vai se abater. O própr io médico estremecendo a cada caco que extraía. e depois as aulas e as dúvidas dos estudantes de psiquiatria. Déborah retcomou à ala apreensiva com a nuvem que ameaçava desencadear os prenúncios ter ríveis de que vinha carregada Soaram os primeiros ribombos nas esferas de Yr. Não queríamos que escapasses! . de uma hora antes de subir. m esmo fora de Yr. por acaso. Por favor! A crise vai se abater e s into que não terei forças pára suportá-la. "Droga! Por que o tempo é tão curto?" Espreguiçou-se e se encamin hou para a sala de estar cantarolando alguns trechos de uma melodia. "Não! Chega de pacientes!" Ligou a vitrola e pôs o disco. ele fazia parte da Zona do Mundo Intermediár o para impedir que os segredos de Yr transpirassem nas conversas mantidas na Ter ra. A música suave e graciosa invadiu a sala.. Queria pedir ajuda. a voz do Censor trovejava em seus ouvidos: Cativa e vít ima! Sabes. sim. de construir uma espécie de verdade onde você pudesse viver Bem . Há três semanas que seus discos de Schumann e Beethoven jaziam sem tocar na prateleira.Quer dizer que você escondeu essa identidade de japonesa de todos os que convivi am com você. . Não foi assim? Não consi go é entender bem o lugar desse Censor no seu reino. por que fizemos isso? Lembra-te do terceiro espelho: a de cepção maior ainda está por vir! Vieste para esse hospital . respondera Lactamaeon. Preciso do casulo imediatamente! A enfermeira a encarou atentamente . miraculosamente. viu a enfermeirachefe saindo.tenho certeza de que há muito para descobrirmos e estudarmos aí. "Ah.Sim? . e sim uma pessoa q e luta comigo em prol de uma vida boa e sadia para si mesma! A Dra. A onda arrebentou com a violência prevista. Fazia parte exclusivamente da dimensão da Terra. . cujo médico viera lh e pedir conselhos a respeito de um problema aparentemente insolúvel. Censurava todos os meus atos para não deixar que as vozes e os ritos de Yr che gassem ao conhecimento das pessoas. um verdadeiro tirano. Vá se deitar. Tu és prisioneira e vítima. e consultou em seguida o relógio que havia sobre a escrivaninha. . Olson. o telefone tocou. Pouco depois chegava o pessoal da noite . foi at rás dela. Fried conduziu Déborah até a porta. Só que acabou se tomando. Embora marcasse a hora de sempre. e o próprio Yr. estava nos pla . mas o terror a emudecia. Como uma brasa que seus dentes fossem triturando. . Não sentiu nenhuma dor. A te mpestade era iminente. fechou os olhos e relaxou o corpo. . Você agora já não é uma vítima.Escondeu-a também de Yr? ." Mas dispunha. . o pranto e o sofrimento de outras pacientes. ficou abismado e confuso com o seu e stoicismo semelhante ao "de um soldado".Está bem. o Censor teve o cuidado de mantê-la em segredo. O pior é que tinha ainda a t arde pela frente.. Logo que chegou à ala.Á função do Censor é me proteger.Sra.concluiu a doutôra .Muito bem. . o seminário. Foi um mar de gargalhadas e zombarias ensurdecedoras! Déborah não perdeu inteiramente os sentidos. Anterrabae fez com que Déborah quebrass e um copo e pisasse sobre os cacos com os pés descalços. encostou-se numa poltrona.

que com a circulação paralisada. verás só o que ela há de fazer ela e o mundo! A gargalhada que sucedeu à advertência deixou Déborah completamente for a de si.Há quanto tempo estamos aqui. Trazia uma expressão absolutamente estupidificada ao chegar ao casulo e deitar-se nos lençóis frios. Finalmente..Quem está aí? . exclamando: Decepção! Decepção! Chegou a hora! "Venham! Venham! Venham!!. Passeou os olhos ao redor.. e a cama não cedeu um milímetro.. nunca pude . e conseguiu apenas provocar cãibras ter ríveis em ambas as pemas. Por que não vinham? As lágrimas escorriam pelo seu rosto e não podia enxugá-las. . por seu silêncio sobretudo. Reaver a nitidez de visão era como uma benção. pode ser que al guém venha. Sentiu os dentes estilhaçarem dentro da boca. Sentiu-se envergonhada de tê-l a julgado pelas aparências.Sete horas. Agora que já te expuseste o bastante. mais expostos ao contato com os lençóis molhados.. Isso quer d izer que são três horas. O jeito era esperar. Quando a punição 143 se abateu com todo o seu vigor.. gritou esperando que Yr não interpretasse seu gesto como covardia e a punisse para sempre. Anterra bae riscou as trevas inflamadas de dor.. .. a pressão insuportável das correias. ardiam como fogo. latejando de encontro aos lençóis. O tempo foi passando. de modo a deslocar dos tor nozelos a pressão das correias que os imobilizavam.Helene? Silêncio. . gritou. e os calcanhares.Provavelmente porque tenho uma circulação melhor do que a sua.. mas não morta! . Sentia os tornozelos e joelhos inchados.Você está bem? 144 Deus do Céu. não sinto d or alguma. Nos pés. Permitimos que confiasses nessa médica. com medo de tropeçar em mais uma decepção. Lutou e se contorceu como uma fera.. como dói! Há quanto tempo estamos aqui? Cinco horas. Começou a choramingar. apagaram a luz da cozinha. Em geral. .protestou Sylvia . Mas não vieram. Virou a cabeça em direção a Sylvia. Déborah ficou abismada: jamais seria capaz de reconhecer as horas pela rotina do h ospital. Déborah. . Não posso.É Sylvia.Não imaginava que você me visse ou soubesse meu nome. . . s empre a considerara uma espécie de mobília inútil na ala. que sempre parecera. queimavam como fogo. ou quan do se tem problemas com o sangue." Déborah percebeu que ao se entregar a essa esperança.partiu da cama vizinha. A crise durara um bocado de tempo. o sangue quase não circulava. Aconteceu alguma coisa? A curiosidade fê-la esquecer momentaneamente a dor.Srta. Fcomos "encasuladas" juntas. . . . exceto por um breve e distante momento. O tempo ia pass ando e ninguém aparecia. pelo simples prazer de olhar. mui to mais próxima dos mortos do que dos vivos. talvez seis. rangendo os dentes. Sylvia riu baixinho. Quando se cansou.. Blau. Ninguém veio. já se achava firmemente atada na cama.. Grite. o que há? .Doente. . mas o pior de tudo eram os pés. E logo Sylvia. mas quando os pés estão atados com uma pressão uni pouquinho maior.nos. .Esqueci que o grito de um louco é um grito de louco! . Reparou num montículo b ranco na cama vizinha mas não deu para ver quem era. então? . Esse ê o último. Foste descerrando um a um teus segred os. tal como os outros.desculpou-se Déborah.Como você consegue suportar isso? . A dor t ornou-se intensa. Ah. pelas mudanças de turno ou pelas idiossincrasias pessoais da equipe médica. procurou rel axar ao máximo o corpo e aproveitar a lucidez que lhe permitia ver tão fundo em seus pensamentos. A crise devia ter durado umas quatro horas.. Déborah.. Logo viriam os auxiiia res para retirá-la daquelas dolorosas "vestimentas de luta". Gritou.. Tentou de novo arrastar o corpo para aliviar o peso dos ossos dentro das pemas. Só recuperou a lucidez muito tempo depois.perguntou.. parou de chamar. vendo que era inúti l. Recostou-se na cama e fez força para suspender o corpo. até que a dor se tcomou tão intensa que acabou destrancando a voz de Déborah.

não é? . pen sou Déborah.Parece-me que o velho hospital do passado e esse do presente fundiram-se na su a mente. apenas o latejar compassado das têmporas.. . Déborah.. . o espelho da decepção final. ah. fácil! O que era is so senão uma prova de menosprezo que sentiam? Transpusera o abismo que a separava deles.perguntaram satisfeitos. Na noite passada. o momento em que eu confiaria. Mas acontece que eu conheço e sse jogo.Por Deus. e mais ainda.Eu a vejo. e que há cer tas regras nesse jogo que a vítima não deve transgredir. no dia seguinte e trans forma o nosso trabalho numa peça da grande decepção e mudança.disse Furii. Déborah. permitiram que ela ficasse sentada por algum tempo.Todo mundo treme de m edo de encontrar o chão da sala manchado de sangue. manequim. Vamos. foi quase um alívio.Sei que isso é um jogo. projetara-se 146 enfim a sombra tenebrosa da Destruição Iminente. balançando levemente a cabeça. que a última Mudança seria a morte ou coisa pior.. encontraram-na quieta e imóvel. Inútil! Sylvia voltara a ser móvel.. Acabou-se a farsa! Não pretendo mais manter a "esportividade". então. Pouco antes de sair para o consultório da doutôra. a caminhar para essa morte como se eu não soubesse o que ela é! Quando se defrontou com o habitual sorriso de boas-vindas de Furii. 145 . Contrastando com a incandescência da dor. e de viva. me esforço por conv encê-la de que ao revelar esses valiosos segredos para nós. um sonho! Fora predito há anos atrás.Sylvia. todas as divindades e personagens de Y r se agruparam no seu horizonte. Já estavam com a pedra na mão par a despedaçar o vaso de flores! .Juro que não farei! Não serei nem corajosa nem agradecida. um sopro de dúvida fez estremecer por um momento toda aquela determinação. em voz alta na presença de uma pessoa estranha. pedira ajuda em inglês. esses caras bolam tortura s verdadeiramente diabólicas! . d ecidiu retribuir o gesto de solidariedade que a arrebatara do seu habitual mutis mo. . Então você vem. Talvez ela não saiba.Eles souberam escolher o momento propício! . pel a primeira vez.Um dia você me fala sobre o soldado japonês e so bre como você foi alijada e discriminada pelas pessoas. Quando finalmente vieram soltá-la. .gritou Déborah . . o que quer que fosse.Não estou entendendo muito bem . eles cantaram vitória! Se us calcanhares e seus pés ainda estavam doloridos da brincadeira. .Será que você não tem um pingo de misericórdia? . Imorth.Escute aqui! .Dessa vez não farei concessões! .O momento em que e u iria pedir ajuda.Agora você está bem calminha. portanto exe e acabe de um . conservan do de humano apenas a forma. A decepção ei a última mudança estão aí. Sylvia. arrancando-lhe gemidos. conheço o final do jogo.Bem? Bem? bêbeíalrfião se conteve: . aquela ínfima possibilidade de salvação. não está colocando em risco a minha confiança em você por um momento sequer. quando finalmente veio. falou Déborah em Yri e.expunha-se de novo às lâminas enregelantes do vento. di . . . A ntes de deixar Sylvia entregue àquela luz inóspita e ao incômodo de ser desenrolada.perguntou Sylvia. Por que me fazer de boba? Já não bast a me fazer de morta? Vá lá! Sou boba. "Não suporto ver sofrimento". cujo toque queimava como fogo! . A esperança! . fácil. e eles.Não. e procu rando afetar a maior tranqüilidade. prontos para intervirem. senão a desta médica. a Ansiada e Iminen te Morte..As correias? . estátua. Como não tinham quase o que fazer àquela hora da madrugada. até que as articulações desinchas sem. não pretendo ganhar a sua confiança só para traí-la depois. Déborah tinha esperado a decepção final por tanto tempo que. A certeza de uma destruição inevitável era bem mais fácil de suportar do que fora aquele pequeníssimo "talvez". Déborah não conseguiu andar.No mesmo instante. Aguilhões impiedosos cravavam-se em ambas as pemas. entregando-se num gesto de confiança. Mas logo rejeitou a hipótese como absurda. .exclamou Déborah . Recuso-me a participar da brincadeira.prometeu a eles . as pemas readquirissem a cor e seus pés estivessem em condições de transportá-la. Aproximou-se da cama dela reparando pelo canto dos olhos que os auxiliares a companhavam cautelosamente os seus menores gestos. acercou-se dela. pela prime ira vez. e ela lhe foi dada. . Eu. Que outra mão poderia executá-la de uma forma tão implacável e completa.

. Déborah procurou. bastaváLhes retirá-lo de sob os meus pés. Lee Miller.Prove! Prove! . . seríssima. Idade. Os mais belicosos.Trata-se de um caso de readmissão . Ocupação. médicos.e saiba que lamento muito. Deu as costas bruscamente.Por que perguntar logo a mim? -. por isso. porém. qu e beirava a alegria. depois que a cobra foi apanhada. . desmaiam. Ao contrário do que esperava. mas infalível: Tempo! 17 Sob amarras idênticas às que trouxeram a Srta.Não.Uma prova dura. a doutôra foi recuperando a confiança dela. desencadeavam a violência de outra.Absoluta! . Déborah a procurou para saber quem era (certos pacientes acabavam obte ndo com antecedência. desde o momento em que pedira para ser levada ao casulo. o rosto da tigresa que transportava m ao longo do salão. e de procurar ser paciente comigo se às vezes mi nha compreensão for um pouco lerda.. P ublicamente.admiti u com amargura. Déborah foi recons147 tituindo os acontecimentos da noite anterior. como tinha gritado por ajuda horas e horas a fio. Gritam por socorro. . vibrava de expectativa. saem correndo. Apenas transfere para você a responsabilidade de ex plicarme tudo. a fagulha que precisava.concordou Furii . Ela ficou lívida. Eu me preparei toda para aparar o ataque. provocava m uma reação coletiva de pânico muito característica. os professores. conseguiu di stinguir. sim!" A coisa já começou e você ainda ousa afirmar: "confie e tud o estará bem!" . A ala. em seguida. Outros Tratamentos e Observações. muitos partiam. incentivando-a a se abrir .Fiz exatamente o que as pessoas "sadias" fazem quando vêem uma cascavel.explicou despreocupadamente. Mas isso não me impede de ajudála.Não deixa de haver nisso uma certa dose de humor . Contou. e para a maioria. "Vá morrer lá fora. foi direto para o quarto e meteu-se na cama. a dor que sentia. . ostentando orgulhosamente o seu "status" de veterana.Olhando para você agora.disse ela . as zombadas de Yr. como se tivesse passado por uma grande aventura.de que tipo e quantos -. enfim. mas esqueci que estava apoia da num terreno que era deles e. por via das dúvidas. como começou. Lee zangou-se: .Pelo visto. trancam as portas. Tratamentos e Choque . observava com um ar tolerante e divertido o acontecimento.Seja! .zem. lembrando-se de que sempre com um sorriso nos lábios.Parece-me. o safari trouxe uma nova tigresa para o cativeiro.. . então. .Você tem certeza de que foi por tanto tempo? . . tornava-se muito pouco conhecimento da chegada de novos pacientes. Respondeu às perguntas de Furii com um ar orgulhoso. com o mesmo desapreço profano. Encarou-a com aqueles seus olhos zombeteiros e prosseguiu: .. em meio ao atropelo de auxiliares. Ach o que você está entregando os pontos com muita facilidade. . Coral. geralmente por meio de rumores. dificilmente eu afirmaria que tudo está bem! O que foi que aconteceu de ontem para hoje? Se você acha que começou a úl tima mudança. Religião. Muitos vinham para a D. conselheiros e familiares proporcionavam decepções e miséria ao l ongo dos anos. um auxiliar que a informasse.E gritou mesmo por socorro. . que está um pouco contente demais consigo mesma por causa desse incidente. no entan to. Num dado momento. qualquer mudança era um símbolo de morte.gritou.. tintim por tintim. Déborah encontrou. Mais tarde. nesse momento. Hospitalizações prévias. . você nunca esteve intemada num hospital psiquiátrico. a ficha completa dos recém-che gados: Nome. porque só posso supor o que seja. Acontecimentos desse gênero transtornavam todas as pacientes: espe lhavam a angústia de uma. então conte para mim. Furii ficou séria. no entanto. Estado Civil. para nós duas. Pouco a pouco. Delicadamente. repito que não vou traí-la.. nesse estado tão lastimável.E encerrou a conversa escondendo-se debaixo do cobertor.Não temos muito . sopravam uma aragem pr enunciadora de mudanças.

Déborah ficou com a pergunt a e a raiva reboando em seus ouvidos sem resposta. Déborah escutou ela dizendo na enfermaria: .perguntou agressivamente. s acodem o torpor.. . bem ao lado de Déborah. até chegar ao quartinho onde Doris fora enclausurada..E daí? . todas as atenções convergiram para Doris. Quantas investidas serão necessárias até que morram definitivamente? E tu. fecharam-se em torno de Doris e a afastaram dali. à luz do mito que ela e Carla alimentaram durante tanto tempo. consultas.deixou escapar Déborah. mais cedo ou mais tarde voltam. assistindo à volta ao lar da filha pródiga que vinha lhes roubar a soberania. Trevas. afinal! . e chegam em frangalhos de tant o apanhar. vibrava nela uma vontade intensa de viver. e de novo.gritou Déborah. permitin do que o mundo a triturasse! Nesse momento.Isso não é da sua conta. Quantas coisas isso provava! Subitamente. Recuou e encostou-se na parede gaguejando. Como arcara co m o mundo este tempo todo. Agarrou o pesado cinzeiro que estava usando e o arremesso u com toda a força.Porque teus guardiães são sádicos! Naquele dia. mas uma coisa era certa: não fora de joe lhos! Notou que Déborah a observava com a mesma hostilidade que sentia no resto da ala. . Quer dizer então que acabam retornando! São teimosos demais p ara aceitar que seus nganons os tornam venenosos.Aquela sem-vergonha da Blau! A mamãezinha e o papaizinho gastam uma nota naquela puta que não devia nem existir! . . hein seu doutor! Arrume a trouxa e volte para casa.. atingindo a parede.É aí que você está. .s dados. medo e inveja chocavam-se dentro dela. Medo e ódio. Depois de algum tempo.Você já esteve aqui antes .Por quê? gritou ela em Yri. defrontou-se com uma hostilidade muda e implacável. Doris era mui to magra e seus cabelos começavam a ficar grisalhos. e ainda assim teu coração bate. não sobre a padiola. e arremetem de novo contra o mundo. sentada a um canto do saguão. O diabo é que esses médicos nunca admitem quando "entram bem"! Alguns dias depois.O que é isso Lena. Enquanto isso. Mais tarde. mas apenas para manter as aparências..perguntou Lactamaeon com um sorriso nos lábios. . . conselhos. o rosto pálido e encovado . Pássaro-um? . 149 -. foi invadida por uma onda de piedade e temor por si mesma. Uma auxiliar contemporizou sem muita convicção: . Antes que pudesse continuar. medo e a euforia da vingança. .Que olhar idiota é esse. ninguém o sabia. uma mul tidão de irmãzinhas consumia-se de inveja. A grande Doris Rivera acabara partindo a espinh a dorsal na roda do mundo.. e de nov o. pavor. mas dentro dela. enquanto o auxilia r seguia tranqüilamente seu caminho. Déborah a examinou de alto a b aixo. pôrra! .É! É sim! .Olhe-se no espelho e verá que também não é nenhuma beldade! . fremia de indignação. Sim.Alguém objetou. quando Doris surgiu em carne e osso. desafiando-as a todas? E como ousara fracassar. e sempre voltam. as auxiliares acudiram afli tas. Médicos e enfermeiras rangiam a s chaves de sua autoridade na fechadura de sua porta. Era um tal de casulos e se dativos.. os sentimen tos que a revolviam por dentro explodiram boca afora numa cruel e estrepitosa ga rgalhada. negligência.E daí? Como é que você voltou? . murmurava furiosa: . Déborah se afastou cabisbaixa. cuidados. vacilantes como pugilistas derrubados num "round".. Apesar de exausta e atordoada devido aos sedativos. hem? . a Estrela do Norte! Quem ela pensava que era. Déborah ficou atônita..Napoleãoü . erguem-se lentamente dos chãos da ala. calma. tudo para Doris.Que s erviço mal feito. gemendo cada vez que os membros do cortejo 150 emergiam de lá! Lee Miller. . sofrimen to. e percorreu vagarosamente as portas da seção de reclusão. teu pulso persever a em viver. ela está per dida. Mary Dowben postara-se diante do quarto de Doris. não é sua presunçosa! Como ousara ela tentar. Seu nome é Doris Rivera.berrou Lena.Bem feito! Rivera. recompõem as forças.

Eu também vou! declarou ela aos personagens de sua outra dimensão. sim. .Escutem. Percebeu. puseram-se a descrever orgulhosamente as agruras do trabalho na "a la dos perturbados". . Nem bem chegaram à sa la de raio-X.Yr começou a trovejar e o Coletor a provocá-la com zombarias. Déborah! Você não tem nada o que fazer aí! repreenderam os vultos bra ncos.Teremos que levá-la par a o hospital St.Eis o que Doris Rivera en frentara e o que Carla enfrentaria em breve: o Mundo! Déborah desmaiou.. .Afas151 te-se dessa porta. .Más eles vivem dizendo que a gente vai ficar boa. do outro lado. conduziram-na num táxi ao hospital. cheios de curiosidade.Esta aí é que é a doente mental ? . . Ao voltar a si. não se deram ao trabalho de vesti-la decentemente . . Naquela mesma tarde ocorreu um acidente.disse ele. naquele momento. iam de peito estufado. .. como odiaria . As pessoas no corredor voltavam discretamente a cabeça e os olhos para o 152 outro lado. . insistiu. a primeira coisa que viu foram os rostos ávidos debruçados sobre ela.Ei. .chamou Doris do outro lado da porta.Não! Eu é que fui dura demais! Aconteceram muitas coisas . A conclusão impôs-se fulminante: Aí estava! . . fláci da devido à inatividade. Talvez eu consiga responder às perguntas dela! Só posso saber depois q ue ela perguntar. Dois estagiários uniformizados..) Quem sabe um olhar demente também. Os estagiário s que escoltavam Déborah. cheios de si.. Dirigiu-se à porta do quarto onde Doris e stava encerrada e bateu. Ao escutarem aquele diálogo. o médico da ala o examinou e suspeitou que estivesse fraturado.gritou. e todas as farsas e horrores sem os quais jamais sobreviveria lá fora.Já disse que não é da sua conta.Blau! -. alguns minutos depois. .Ei! Foi muito duro? Você voltou por causa disso? . e sair. vigiado dentro e fora por dois grupos de enfermeiras.O que por exemplo? .Sim. Não tinha a menor idéia de qual a expressão que tr azia no rosto. tinha de fazê-las. . será que ela olha?"). Ocorreu-lhe. mas agora vamos! . . . "O que é que a barata faz? Voa! Numa dessas. Todo mundo nos diz isso.. ant es que degenerasse em briga.Eu só estava conversando com Doris -. deixem essa doida ficar. Chegando lá. De vez em quando. e. caiu e um de se us sapatos saltou longe. correndo pelos co rredores e dormitórios. . naquele mundo sombrio e incolor.Nosso aparelho de raio-X não está funcionando . isolaram-na num quarto privativo. enfermeiras e auxiliares vinham espreitar pela porta. está bem. . Provavelmente foi uma piscadela maliciosa de olhos. Na manhã seguinte. Agnes. vocês aí.O tom de suas vozes era ameaçador: ou saía dali. (Julgando que ela talvez ficasse no St. Déborah saltou pa ra agarrar o sapato mas caiu de mau jeito e torceu o tornozelo.preveniu severamente um dos auxiliares. O pior foi quando a levaram para a sala de raio-X. como se estivessem diante de uma famosa estrela de cinema ou portadora de alguma peste. não se meta nisso! . ora espumava de ódio. como a deviam estar vendo: suja. Duvidava que suas perguntas vies sem a ser respondidas. vestindo um velho roupão por sobre o pijama.E eles são violentos? Déborah não escutou a resposta. as auxiliares acorreram mais uma vez para abafá-lo. . merda! -. .Rivera. Precisava saber urgente mente se teria que reativar o Censor. apavorados com a possibilidade de que ela fugisse. ou ia direto para a reclusão. Déborah ora se divertia com o ridículo da cena. . ..Cochichavam do lado de fora. Mary Dowben escorregou. cabelos desgrenhados. . ou ambas as coisas. Umas quat ro ou cinco meninas que estavam ali começaram a brincar com ele. o casulo. os esquemas voltados para sustentar as apa rências de sanidade.Está bem. Déborah o apanhou e o jogou de volta para Mary. Agnes.assentiu Déborah. (Desinteresse afetado: "Se eu olhar. de súbito. mas eram vitais..

por alguma força mágica.contou a Furii . . ou seja. e encostou na porta 153 dos fundos do Prédio Sul (Alas B e D). ." Isso signi fica que a substância venenosa. Diz mais ou menos o seguinte: "Em silêncio e em sono. as pessoas têm que preservar a aparência de participação -. anterior ao agir e ao respirar.. 154 clama. mas ontem.gaguejou ele com pungido . .a moça teve um deslocamento bem feio.E nagua .. atravessou o portão.. Armou uma cara bem agourenta e disse: . na hora de se lavar para dormir.. Ainda assim. isso quer dizer também. cunh ados raivosamente sobre o aço temperado. e pior ainda antes da Primeira .Fui despachada para um hospital. . as divindades e reinos de Yr. e que são uma minoria no mundo. ajudá-lo. Fale-me dela s.É um dos meus ataques que vem aí! O médico empertigou-se sobressaltado.Esse preconceito custa um bocado a desaparecer .Como está se sentindo? . . está me lhorando. meta isso na sua cabeça! Será que você não entendeu nada do que eu disse até agora? O nganon age por si mesmo. . o "eu" inimigo. em meio às atribulações cotidianas de sua juventude. Procure ser paciente. Esta prova. . palavra s que em Yri significavam: "Eu te amo". certamente a levariam de volta.disse ela. Um mosaico de arranhões e entalhes. atestavam os impulsos autodestrutivos de centenas e centenas de pacientes. Atrai sem que eu o saiba. subiu no "vagão de carne" para a D. não pouparam um centp metro de espelho. rápido... Mas eu fui boba: só me ocorreu a idéia de espumar pela boca quando e stávamos longe. .Como? Explique isso melhor para mim. Ali.Não posso ajudar ninguém.. justamente por conhecer a doença mental muito melhor do que eles. Furii suspirou.Você está tentando magoar a si mesma agora. Mesmo despojadas dos instrumentos necessários. rápido. compreendeu! -. reúne as melhores condições para ser compreensi va e indulgente.. Déborah estava convencid a de que existia uma outra prova de sua indignidade intrínseca.perguntaram os seus dois enf ermeiros (gozando o privilégio de serem os únicos com conhecimento suficiente para l idar "psicologicamente" com ela). Você. atrai para si outras pessoas igualmente envenenadas.disse Déborah ao espelho. ..Eu carrego comigo o estigma do mal.. Sentou-se com dificuldade. duas ou três pessoas. . quer dizer. Déborah teve uma idéia: se conseguisse assustá-los b astante. com o qual o Censor vivi a me atormentando. Lá vinha Furii com suas mensagens ardilosas.. juro que queria uma! Assim o quadro fi caria completo.ter que ficar no hospital. caso o tornozelo estivesse fraturado. mas. tcomou a estrada e em seguida o desvio. as circun stâncias tornavam-na muito mais "louca" do que na ala supostamente "violenta" do h ospício. veio a encontrá-la justamente no mundo.Bem! que. Não tinha nada a v er com o mundo.seja no que . O que aconteceu? Depois de ouvir a história toda. Uf! Lar doce lar! À noite. Entrou no táxi (já esta va a postos) que. "Bolas!" Estava doente.bom.. Déborah saltou. . inclusive. T udo levava a crer que uma força mágica a atraia para os outros. talvez eu não esteja entendendo mesmo. Num piscar de olhos. com o tornozelo enfaixado. . as pe ssoas normalmente ou escolhiam ou eram escolhidas como companheiras tanto na colôn ia de férias. . independenteme nte do que eu pense ou faça! . absoluto e imutável.Sempre achei bom vo cês não usarem camisa-de-força aqui. Déborah fez um gesto de impaciência.. nganon clama por si mesmo. Segundo Déborah. Antes da Segunda Guerra era muito pior.. que você atraiu uma. suas proposições de reformar o mundo. liga ou classe .. Há um ditado em Yr. independentemente da minha vontade. apoiada em seus dois enfermeiros. desceu a avenida. com ou sem fratura. nos bancos de escola. Déborah saía do hospital mancando. quanto em qualquer outro grupo. Afora todo o universo mágico. No mundo.. não creio que tenha havido fratura! Todos suspiraram aliviados. foi mancando até o banheiro grande onde ha via uma chapa de aço que servia de espelho.

Sabiam. que Eugênia tinha as suas esquisitices .O quê? . de como era penoso s ustentar as Aparências perante o mundo. . . Estendeu para Déborah um cinturão de couro. .. Por outro lado. dera origem a isso. . uma cumplicidade silenciosa. no íntimo.Não.Quem é? . Ao se aproximar mais. queira ou não! Vo cê vai querer. Finge que não entende. ao se combinar à virulência que e xistia potencialmente nela. Eugênia e Déborah logo começaram a andar juntas.Déborah. Chegando lá. e por causa disso sofrerá punições terríveis do Censor. Déborah conheceu uma menina inteligentíssima chama da Eugênia. acima de tudo. com os corrompidos.Não. . sentindo vontade de ficar à sós.. Existia. baixar as defesas e esquecer que o mundo era aquele caos traiçoeiro e decepcionante. porque. .Bat a em mim! . desse modo. o convívio satisfazia à profunda carência de transpor esses muros.Não. ouviu ruídos furiosos de luta num dos boxes e. . Débora percebia.Ora. os desfigurados. não se faça de desentendida.Sentiu que algo terrível estava por vir. Déborah foi. conversar de coração aberto. Uniam.comandou ela. .Você está fugindo. os esquisitos. os dementes.mas procurou fugir à suspeita de qu e também fosse uma portadora do nganon venenoso.Para quê? . Déborah descobriu que só era capaz d e corresponder a essa exigência de participação e de convivência. e você tem. uma compreensão mútua d o quanto havia de sofrimento por trás dos atos mais triviais. em seguida. nem consistissem num mero ritual em benefício 155 das Aparências. antes que começassem a chamá-la e a procurá-la. Mas o que necessitavam era. Ocorreulhe subitamente uma suspeita terríve l: talvez o seu nganon tivesse contagiado Eugênia e. arranjou um jeito de se esgueirar para longe das pessoas. O 156 suor escorria de seu rosto em grossos filetes pelos ombros e braços . . o l ago. na maioria das vezes. Já fora surpreendida. entre el as. Sabe muito bem o que sou. Ocorriam tão naturalmente qu anto a atração do imã sobre o ferro. as pessoas at raídas desse modo sabiam no íntimo o porque. .gritaram de lá. Vamos! . Acontece que. Num dos verões que passou na colônia. você. Julgara-se até a própria encarnação da R .era uma pessoa solitária. Um dia. no boxe com o chuveiro fechado. amarga e inquieta . muitas vezes. . . Pois bem. . a razão dessa afinid ade. . a voz d e Eugênia. e freqüentemente se atormentavam uma à outra por causa disso. Pôs-se a c antar de modo a anunciar a sua presença. Essas afinidades não eram intencionais ou premeditadas. pressentiu que havia alguém mais. . Suava em bicas. Não posso! Não quero! O desejo e a ânsia de Eugênia saturavam o ambiente. a solidariedade exterior: freqüentarem juntas o refeitório.Venha cá.Déborah começou a recuar . . . Depois de algum tempo. . seguindo essa linha de raciocínio. Um dos melhores. e por isso odiavam a si e ao companheir o. nua em pelo. e talvez até voar se Yr lhe permitisse. Não preciso mentir para você.. os medíocres. as forças para sustentarem os muros que as separa vam dos outros. Isso foi um pouco antes de se consumar a última grande mudança. Pegue.for. reconfortarem-se mutuamente com palavras que não soassem de todo falsas. queria correr pelas Planícies de ir. os aleijados. o campo de futebol. Yr vinha l he exigindo uma dedicação cada vez maior.. a colônia acabou aceitando-a amizade das duas e deixou de j ulgá-las e hostilizá-las. os espelhos das Aparências e.Não esqueça do q ue eu sei a seu respeito! vou obrigá-la a me bater com esse cinto. é claro. Queria tranqüilidade . por um minuto que fosse.Tome! . compreende. rindo e falando Yri em voz alta. com quem quer que fosse.Déborah recuou mais um passo. . oferecendo em troca um alívio cada vez menor .. Conhe cia vários refúgios na colônia onde dispunha de uma hora ou duas de paz e solidão. mas sabe muito bem para quê: É para mim. uma certa dose de simpatia. Deparou com Eugênia. era a casa de banho que ge ralmente permanecia deserta.

arrancoulhe das mãos o cinto. admitiu que eu estava tão doente que merecia ficar intemada num hospital.Você ainda acha isso? . mas ninguém admitia isso.Ora. .Ah.. para impedi-la de ter a imaginária "folha de serviços perfeita".Yr encara isso como uma pilhéria.Os homens não são vulneráveis ao veneno feminino. .acaba inevitavelmente arruinada.uína . e tanto pode ser por contato direto como por proximidade. quando a pessoa se toma sua amiga . . sim. Acho que eles se arruinam de um je ito diferente.onde estávamos? . por que não? . .concordou Furii .quer por afeição. .Encarou Déborah com um sorriso meio malicioso.Exigiram de você que desconfiasse até mesmo da realidade que lhe era mais próxima.Sei como é difícil progredir com uma "médica famosa e importante". mais sã quer dizer mais forte. era ser responsável. . logo in citara.. Sabe. esses anos todos eu soube que estava doente. e ser conivente. As interurbanas ou casos es peciais de médicos que não poderiam ligar outra hora. toda satisfeita e sorridente. . achando agora ridículo o susto que tinha levado. é verdade? Vo cê ainda tem esse medo de contaminá-las? .O que foi? . mas sei que também há homens intemados aqui .Porque sou louca! No momento em que você admitiu que eu estava doente. testemunhar era ser conivente. agrilhoada e condenada à destruição .retrucou Déborah acidamente. Devo lhe avisar qu e fracassei muitas vezes. . comentou Déborah.Há muitos anos que eu as venho contaminando lentamente! .Sim. . .Olhe.Tenho certeza de que minha irmã acabará louca. não é assim? .Não entendi muito bem. . Ainda assim. reparando naquele sorriso que nada tinha da amar . . Sentimos a tentação d e nos desforrarmos um pouco no placar. Estou curiosa. jogou -o no chão e saiu correndo.Bem.. sentindo-se es tranhamente gratificada. 158 num certo sentido contribuiu. seu pai e sua irmã? . Existem alas cheinhas deles. . logo causara. existe . quer por atr ação .perguntou ao voltar a se sentar . você fic aria tão assustada quanto ficou naquele dia? . O seu nganon despertara o de Eugênia. Talvez o nganon de Eugênia foss e ainda mais virulento do que o seu. . exatamente como as nossas. . Jamais voltaram a se falar. .No mundo das campainhas . apesar de ser tão requisitada.Será verdade? Será que contribuí com alguma coisa de novo p ara você? Furii ficou um instante em silêncio. .Bem.mas uma ruína que só dizia respeito a s mesma. Nunca pensei nisso antes. Furii encolheu os ombros num gesto desamparado d e desculpas.Pemai. Jamais pedira a alguém que a compartilhasse. Procuro evitar o maior número po ssível delas. nunca encarei a questão sob esse prisma. ..perguntou Furii. Continuamos a trabalhar j untas? .. e que você discemia de uma forma claríssima. provou-m e que eu era mais "sã" do que imaginava. Se esse incidente dos chuveiros ocorresse hoje. com relação às mulheres da família. Era um milagre quando não tocava pelo 157 menos uma vez durante as sessões. mesmo que jogando com a nossa própria vida. . . pensativa. . Déborah bateu palmas.E continua sendo verdade em relação à sua mãe.Agora.Algumas dessas chamadas não posso deixar de atender.Não.Conseqüentemente. é verdade. .Sim. Sim. .Você parece estar vendo isso pela primeira vez -.E quais foram os resultados? . ou seja. Não é para menos que o doente mental tolera tão pouco as mentiras.Sorriu.Falávamos sobre contaminação. mas você explicou bem a questão.Acho! O telefone tocou sobre a escrivaninha e a doutôra levantou-se para atendê-lo.suas idéias como que saíram à luz do sol. Déborah avançou para ela. pois embora eu conheça outras razões que explicam essa intolerância. .

Você me faz ver uma nuvem branca envolvendo o cume de uma montanha. num tom divertido.Está falando comigo? .Será que não daria para ela vir passar um tempinho conosco? Podíamos ir aos lagos. deprimido e nostálgico. . . seus "trajes de coroação". Jurara a si mesmo dedicar este dia exclusivamente a Suzy. Por que não estava ali com eles? Era a segunda primavera que ela passava longe de casa. enfim. procura va encontrar nela a lógica. porá abaixo as suas casas e os expulsará de vez. hein? Mandar-me para a reclusão.Vocês conseguem ler os meus pensamentos? .perguntou Lee.Vá para o diabo! . . . uma revelação meramente espiritual.Pode não ser bom para ela. a despei to de seus esforços. .Minha cara. não co nseguiu tirar Déborah da cabeça. é? 159 . Como passara rápido o tempo! Suzy. no entanto. Posta dos aqui e ali como estatuetas imutáveis. Absolutamente nenhum. Uma n oite. os olhos pe sarosos: . Ela preferia ir à festa da turma. . fez uma cara de choro. a filh a caçula. Vocês conseguem ler meus pensamentos? . aqui pelo menos. no dia em que se d er conta disso. tomando ares de co ndessa elegantemente horrorizada com algum espetáculo repugnante. Nas sessões seguintes. quanto ao receber.Pode ser bom para mim. terminava a escola secundária. . feminina. isso significa que. .murmurou para si mesma escolheste o pior lugar para começar! 160 18 Primavera.mas por detrás dela acha-se a mesma Furii. uma vez ou outra! Decidiram levar Suzy para j antar num restaurante chique. .Puxa! . a boca descaída. ansiando pela v olta dos bons tempos. para mim. graciosas e inocentes em seus vestidos brancos.Tire os olhos de cima de mim! -. a filha de s eus sonhos? Nenhum.Não consigo ler nem os meus. mas ao invés de enc arar essa noção como uma fantasia sintomática.gura habitual. obediente. .insistiu ele.Shh! Agora não! . .Se eu posso ensinar-lhe algo. valho algum a coisa. A noção do ngano n venenoso representara uma descoberta fundamental para Déborah. . refastelada como uma coruja velha na poltrona. não é? .Está vendo? Você fica tão feliz ao dar. com o seu toque de fogo. vestira-se em trajes de gala ou. assim como Lee e Helene que acabavam de chegar. . começaram a explorar uma convicção que Déborah compartilhava em seg redo com todos os doentes: a de que ela possuía um poder infinitamente maior do qu e o indivíduo comum e. quanto mais os seus! Déborah passeou os olhos pelos personagens que decoravam as paredes do saguão.disse Helene. enquanto aguardava no saguão a distribuição de sedativos. do que prometera a si mesmo e a Esther. . pareciam esperar. pôs-se a observar a Srta . das horas felizes com a família reunida. em homenagem a Suzy. implorou que ficass . No dia da cerimônia de colação de grau. Coral. se andas à procura da realidade objetiva . ouvindo o s coros e os discursos. mas Jacob. .Bolas! Ela não é uma delinqüente condenada! .disse Déborah . as orações e os juramentos. As meninas começaram a se retirar em fil a do auditório. .disse Furii .Quais são as suas intenções. Jacob sentia um profundo vazio i nterior.Eles estão desperdiçando o tempo de um ser humano que.com as três. segundo a fa mília. de seus desejos. de brincadeira.E. sussurrou ele. desfer indo raios! . esperar.choro grandes lágrimas de crocodilo por esses seus deus es de Yr. Coral.Tremeu só de pensar de viver sem Yr.sibilou Esther.. estação das paixões e da impaciência.Eu choro . Jacob virou-se par a Esther que.esquivou-se a Srta. . era ao mesmo tempo inferior a ele. . Que progressos fizera no sentido de vir a ser a menina recatada. a racionalidade de um fenômeno complexo e natural. mas.

em juntos aquela noite. Justamente por ele querer tanto, a noite foi desde o iníci o um fracasso. Suzy acompanhava-os contra a vontade. Esther estava deprimida por que a filha presente voltara a ser relegada a um segundo plano pela filha ausent e. Jacob sabia que acabaria pondo tudo a perder se persistisse naquela ansiedade , mas não pôde se conter. A noite transcorreu num clima de desolação constrangedor. Num dado momento, Esther comentou com naturalidade 161 forçada: - Debby queria vir à sua colação de grau, e se ela pudesse teria mandado um pre sentinho. Suzy encarou-a com um olhar tranqüilo e disse: - Ela estava aqui. Eu vi vocês dois c onversando sobre ela quando recebíamos os diplomas, e ao nos prepararmos para a saíd a. - Que besteira! - protestou Jacob. - Juro que não conversamos sobre ninguém. - Não faz mal. .. sério! Mesmo que realmente não te"nham falado alto, foi a expressão, o olhar que vi em vocês. . . - Cogitou em descrevê-lo, caso não soubessem como os seus rostos denunciavam as preo cupações, mas as palavras eram tão complicadas e dolorosas que não conseguiu articulá-las. - Bobagem, Suzy - protestou novamente Jacob, abanando a cabeça. - Expressão, olhar. . . vejam só, que besteira! Suzy e Esther entreolharam-se rapidamente. Era claro que ele estava escondendo o jogo. "Seja indulgente", implorou Esther com os olhos. Suzy abaixou os seus e f icou algum tempo remexendo num botão do vestido. - Sabe aquela menina que estava n a minha frente na hora de receber os diplomas? Pois é, o irmão dela é um pão.. . No hospital, as pacientes recusavam-se a admitir que a primavera pudesse chegar passando por cima de todos os seus sofrimentos, mas ela veio, triunfal e radiant e. As mulheres na Ala D estavam furiosas: o mundo que as destruíra, ao invés de sofr er pelos seus pecados, parecia mais vicejante do que nunca. E quando Doris River a prendeu os cabelos, vestiu uma roupa bonita e, com um sorriso tímido, partiu de volta para o mundo, sentiram-se mortalmente traídas: Doris aliara-se à primavera con tra elas! A Esposa do Abdicado tinha a sua teoria: - Ela é uma espiã! Eu a conheci há muitos anos. A oposição paga para ela semear o caos e d epois a imprensa transforma a coisa num escândalo. - Devemos ser caridosos - apregoava MaryDowben, com ares de santa. - Devemos ser caridosos, ainda que ela seja portadora de todas as moléstias sociais que se poss a imaginar, para não falar das infecções nas partes pudicas, transmitidas por homens d e reputação desprezível. Sem mencionar esquizofrenia da natureza mais sórdida e imunda. - À medi162 da que ia elevando o tom de voz, transpareciam as arestas desarmônicas do pânico. -Vocês doentes mentais são tão engraçados! - exclamou Mary Fiorentini. Foi o bastante para desencadear a briga. A ala toda transformou-se bruscamente num remoinho de fúria e medo, onde as brigas irrompiam com uma espontaneidade selvagem e absurda. - Como tem paciente em reclusão hoje, hein? - comentou uma estagiária recém-chegada. - Quando pegarem mais alguns, vão começar a enclausurar de dois em dois - retrucou Déb orah. - É.. . é. . . - assentiu a estagiária (tratamento Número Três, sorriso amarelo, saindo pe la tangente). Déborah afastou-se e tentou acertar mais uma vez o sapato no relógio d a parede da enfermaria. - Daria tudo para acabar com aquele sorriso. - A tua cara já é mais do que suficiente - disse Helene. - Pelo menos a mim você consegue ser superior, não é? Mais uma briga. - Há épocas assim na ala - asseguravam os auxiliares antigos aos mais novos. - Não cos tuma ser tão violenta. - Os mais novos, contudo, não acreditavam. As estagiárias de en fermaria recém-ingressas andavam assustadíssimas. Duas enfermeiras da turma preceden te tinham "fundido a cuca" pouco depois de receberem suas filiações psiquiátricas, e e stavam agora intemadas num hospital. - Cuidado, porque as coisas que se vê aqui comentava-se à boca pequena - acabam deixando a gente maluco.

As quatro novas estagiárias recém-chegadas, designadas para a Ala D, estavam tão apavo radas que não se desgarraram umas das outras, formando um grupinho coeso e discrim inatório. Criou-se, naturalmente, um contraste entre essas jovens, belas e saudáveis portadoras da primavera, e as pacientes, sombrias portadoras dos nganons veneno sos. Helene e Constantia desbastariam aos tapas e pontapés a singularidade das nov as inimigas. Déborah simplesmente baniria as recém-chegadas da cabeça até que se dissolv essem na rotina anônima da ala. Só as enxergaria como vultos brancos e indistintos, e só as escuta163 ria quando se referissem a ela ou lhe dessem ordens específicas. Estas defesas, qu e eram inconscientes, impediam-na de assumir a presença das estagiárias, cujas virtu des (atribuídas exclusivamente por Déborah) fariam com que ela se sentisse conscient e de sua "loucura" e, portanto, de que era diferente. Uma tarde, Déborah estava sentada no chão perto da enfermaria, olhando fixamente o f amigerado mostrador do relógio, quando surpreendeu a conversa de duas das estagiária s. - É verdade que uma paciente da B vem para cá? Onde é que ela vai ficar? - Não sei, mas se vem é porque deve ter "fundido a cuca" mesmo! - Lembra o que Márcia disse? Elas melhoram e tornam a piorar de novo. Espero que e sta pelo menos saiba como usar a privada, e por onde engolir a comida! - Ambas a bafaram o riso. Na hora não ligou: sabia perfeitamente que o riso denotava apenas ansiedade. No en tanto, quando trouxeram mais tarde Carla, dilacerada interiormente, com a mesma expressão terrível de derrota com que Doris Rivera chegara, Déborah ficou furiosa. Aqu eles dois vultos brancos não tinham zombado de uma maluca qualquer, mas de Carla, uma pessoa boa até a medula dos ossos; boa a ponto de ter sido gentil quando Déborah a ferira na sua região dolorosa. Ninguém diria, vendo as duas, que eram tão amigas. Seria, contudo, um gesto extremam ente penoso e, acima de tudo, uma interferência - isto era incompreensível para os " sãos" - Déborah cumprimentar Carla, sabendo que ela estava arrasada e que poderia se arrepender mais tarde caso este cumprimento suscitasse uma reação violenta ou mesmo rude. Por isso, nem sequer olhou para Carla. Limitou-se a esperar, por detrás de sua máscara de pedra, até que a companheira fizesse algum sinal discreto mostrando r econhecê-la. Só então se aproximaram uma da outra e, ainda assim, afetando o maior desinteresse p ossível. Déborah sorriu acanhada, e foi aí que ocorreu um fenômeno surpreendente. Acostu mara-se a ver tudo desprovido de relevo, cinzento, anuviado e apenas em duas dim ensões. E eis que do borrão, surge Carla 164

nas suas três dimensões, todas as suas cores, incrivelmente nítida e clara. - Oi! - cumprimentou Déborah, mal erguendo a voz - Oi! - Você pode fumar? - Nenhum privilégio. - Hum. Voltaram a se cruzar mais tarde diante do banheiro, onde Carla aguardava que uma auxiliar destrancasse a porta. - Vamos jantar na minha cama hoje? Carla não respondeu. Quando serviram o jantar, apareceu com a bandeja no dormitório dos fundos. - Posso ficar? Déborah arredou para o lado, deixando-lhe o melhor lugar, ao pé da cama (Alô, alô minha amiga multidimensional e colorida! Estou tão contente de vê-la!"). - Doris voltou e já saiu de novo, sabia? - Contaram-me. - Carla ergueu os olhos para ela e, por um milagre, pareceu enxer gar através da máscara. - Ora Déb. . . não é tão ruim assim. Tive que voltar porque comecei me esforçando demais, porque parte do que fiz foi contra meu pai... e por uma série de outras razões. Não estou entregando os pontos. Só estou cansada. - Seus olhos se en

cheram de lágrimas. Déborah ficou paralisada pela confusão e o terror que lhe inspirav a a tristeza da amiga. Estranho mistério, este das pessoas que se afogam no oceano caótico e terrível que era o mundo, e depois, pálidas e trêmulas ainda, se arrojam de n ovo sobre ele. O que os leva a pensar que podem flutuar com os outros, quando a tensão superficia l de seus nganons foi rompida no primeiro afogamento? - perguntou Déborah a Lactam aeon. Só Idat sabe - respondeu ele. - Para alguns, nada é impossível! Déborah sentiu todos os músculos retesarem-se de medo. Achas então que o nganon dela não é intrinsicamente mau, e sim. . . e sim. .. circunstancialmente mau? - Acho! - Mas nós scomos amigas! Se a substância dela não é igual à minha, isto significa que vou envenená-la! - Exatamente. 165 Pode uma coisa contrariar tanto as leis? Pois se as próprias Leis afirtnam: "ngano n clama por si mesmo". Como é possível que eu tenha atraído uma essência diferente da mi nha? - Talvez isto seja uma punição - ponderou Lactamaeon - Ocasionalmente, tu destróis par a te punir. Olhou para Carla e encontrou-a chorando ainda. Decepção! Acreditava conhecer o código, depois de anos e anos de sofrimento procurando uma pista para decifrá-lo e, ao ch egar ao último degrau, via-o desfazer-se e ressurgir o velho caos, a anarquia, as zombarias. Ela era minha amiga! gritou para os deuses que partiam. Não parecia estar magoada. ... Tu e ela não são da mesma substância; os nganos são diferentes. Serás a assassina de tua a miga! Quando Carla parou de chorar, Déborah continuava sentada do outro lado da cama, ma s estava longe... muito, muito longe. Para grande surpresa e desagrado de Déborah, uma estagiária deu para se afeiçoar por e la. Bastava que botasse a cara nos "locais públicos" da ala, para que a moça (ou mel hor o vulto branco e a voz indistinta, destacando-se no pano de fundo cinza) se pusesse a segui-la diligentemente, com uma jovialidade gratuita e importuna. Deves estar mais doente do que pensas, disse Déborah para si mesma em Yri. Estas p essoas escolhem, em geral, os piores para lançar a Deus. Deus é como o cachorro e Débo rah como os ossos. Conseqüentemente, Osso será meu nome! Estas palavras soara-Lhe tão engraçadas, que não se conteve e riu às gargalhadas. Em seg uida, fez com as mãos o gesto simbólico em Yri e a mímica correspondente ao riso, em s ilêncio, como convinha a Yr. - Quem está rindo aí? - perguntou Anterrabae num tom brincalhão. - Sou eu, a Coisa-Osso-de-Deus! Desataram a rir até expurgar de dentro de si o tormento da terra. Como ficará o êxtase glorioso daquela sacerdotiza quando Deus Sentir o cheiro da oferenda que lhe fi zeram! - e os dois caíram na gargalhada novamente. 166

E a surpresa no rosto da meiga e piedosa estagiária com o furor dos Poderes Celest iais? Dessa vez as risadas terminariam em amargor, pois Déborah sabia que não teria coragem para pedir à menina que parasse de segui-la e perturbá-la com as suas interv enções solícitas. A primavera seguiu o seu curso. No decorrer das sessões com Furii, Déborah foi desce rrando um a um seus segredos, seus temores, e as senhas que davam passagem a seu s mundos. Entregava-os, porém, apenas para apressar o momento em que, finalmente, ela própria capitularia à grande e última decepção, tão inevitável quanto Jaganata ou a que perene de Anterrabae. A iminência da destruição dava-lhe calafrios. Ficava, às vezes hor as, dramatizando a sua destruição, fantasiando as mais diversas mortes, todas elas s ublimes. Furii botou as mãos na cabeça: - Deus nos acuda! Adolescência também!

Furii falou sobre as qualificações do substituto. Quando me formei no que vocês ch mam de curso secundário. Era a primeira vez que Furii falava a respeito de si mesma. a flor já estava murch a e seca. mas eu me senti tão gen te-grande.E daí que isso não tem cura. ajude-me a distinguir qual a doença e qual a adolescência.quando os segredos. vou participar de um simpósio que já f oi adiado várias vezes. Faça o que lhe der na veneta: fantasias.Ágata? . .Craig. Sempre em desordem. . . Lembrava-se de uma d as primeiras sessões.Não costumo partir flores. ou uma mensagem indire ta a incentivando a "tomar coragem". Ao se recuperar da segunda punição. onde existem os 167 tipos mais estranhos de rochas e formações rochosas. era como se estivessem preparando a antiga roda de suplício. Havia um peso de papéis de forma indefinida. Adams.Em s eus olhos reluzia a lembrança daqueles momentos felizes. Tem também Halle. Déborah olhou para a escrivaninha da doutôra. nos momentos de maior tensão. mas dessa vez você mereceu. Furii. Tudo arranjadinho. Freqüentemente duran te as sessões. pousava ali os olhos para descansar a c abeça. dias depois. enquanto F urii a solicitava com perguntas.E daí? . afinal? . o melhor. Conversei uma noite com Fiorentini quan do estava de serviço na ala. Ao terminar a sessão. iriam quebrá-la em pedaços. i . Déb orah se sentiu mais uma vez "igual". Interrompeu as divagações com uma palmada nos joelhos. como se diz hoje. É um tipo raro de madeira petrificada. ele disse que recebeu meus . apenas representaria o mundo nas batalhas de Déborah com seus censores. portanto. inclusive já assisti ela trabalhando e gostei muito.Você gostou da viagem? .Estou planejando partir dia vinte e seis de junho e voltar dia dezoito de sete mbro. em seguida. ele comprou isso para mim como lembrança da viagem. nem costumo dar presen tes. espere. o diab o! Agora. não havia com o que se preocupar.De volta às minas de sal.Ah. umâ 'curtição". uma verdadeira mulher em potencial. sonhos. tal como na Idade Média. Certo? .. não foi emocionante ou. não. Déborah havia empenhado todo o seu esforço de análise.Conheço vários aqui . no mundo dos adultos. assim como você me tem confiado as suas". perguntou: . Depois vêm as minhas férias e.Certo! . Aceite. Esta delicadeza si gnificava mais do que uma pequena pausa para descontrair. Era como se dissesse: "vou confiar a você uma das minhas recordações. .que a gente se esquece como pode parecer estéril e sem sentido es ta terapia antes do mundo adquirir uma dimensão real para o paciente. Déborah contudo.O trabalho toma-s e às vezes tão intenso .perguntou. Quero preveni-la desde já para que vá se acostuman do à idéia. tinha a sensação de fato consumado. meu pai me levou numa viagem a Carlsbad.. . Há mais uma coisa. Este gesto compensara as duas punições terríveis que recebeu de Yr por ter aceitado fl ores da terra. Furii lhe oferecia agora ura pedacinho de si mesma.concordou Déborah. a médica de Sylvia. e a ofereceu a Débora h ao mesmo tempo em que dizia: . não é ágata. sobre a possi bilidade dela se sentir rejeitada.. . e a alertou para o fato de que o novo médico não se aprofundaria na análise. a médica erguera-se. Providenciarei alguém para me substituir enquanto estiver fora. onde.Hum. forçando-se a se expor (tankutu). . tão honrada de estar com meu pai. coletores e todas as forças de Yr.propôs avidamente . só nós dois.Não. fora até o vaso e partira uma flor de um lindo ramalhete de ciclamens. os sintomas e os fantasmas do passado c omeçam a aflorar . quando fizera a primeira confidencia importante. A pr imeira combateremos com todas as nossas forças. Pretendo tirar férias mais cedo esse verão. acompanhando o seu olhar. por favor. 168 Nas sessões seguintes. A segunda não é senão outra evidência indi scutível de que você é cem por cento uma integrante do mundo.Sabe o que é aquilo? .Quanto tempo. . Adolescente ou não.Lançou sobre Déborah um olhar penetrante e sorriu. por causa de uma conferência em Zu rique. se preparando para voltar à ala.

A doutôra. . seu novo médico. Decidiu tomar a iniciativa . Déborah procurou resolver todos os problemas antes da part ida de Furii. Royson ficará com você. mas a única coisa que lhe ocorria dizer era: "Que maneira empertigad a de se sentar!". mas felizmente conheci a algumas meninas. Como as leis de Yr se entrelaçavam às do mundo.Em odontologia . .resmungou Anterrabae desden hosamente. . só mastigam monossílabosf .perguntou ele num t om inexpressivo. .O senhor é inglês.Sua médica me falou muito a seu respeito. livros e privacidade..Gosto da pronúncia. . produzindo um eco lúgubre e oco.. Déborah se sentou. Di rigia-se à primeira entrevista com Royson. Estava no livro.Você a chamou por um outro nome. O homem. Lá pod eria dispor de papel. suas novas companhe iras morriam de medo dela por ter sido uma paciente da D. embora as incursões introspectivas não fossem nem muito esclarecedoras nem muit o profundas. é. mas não "perturbada".O Dr. eram trabalhadas intensa e honestamente. Seus passos repercutiam no silêncio do corredor. pelo visto.sente-se .silêncio. . aprontavam a roda. quedou-se a observá-la.Ah. a linguagem secreta.. Déborah estava convencida de que Furii partia para sempre. As sessões de terapia adquiriram um clima de urgência devido à partida iminente de Fur ii. . . prometi que me esforçari a o máximo possível com este. num dos consultórios do andar térreo." . como se tivesse sido picado por c obra.Estou sem Novocaína. Royson para conversar.Recostou-'se satifeito. Déborah esqueceu Furii como se ela j amais tivesse existido ou viesse a existir. em terreno seguro. não? 170 -.. "Prometi a ela que seria complacente.Deu um pulo na poltrona.Sei lá. mais parecia um túmulo: trancafiada ainda..convidou ele . ele se manifestou: . comparada à loucura de svairada da D.Deixo-a em boas mãos .Estão todos com as horas tomadas .Conteve-se outra vez..Você conhece bem o administr ador da Ala B.É mesmo? Esses maxilares. doutôra Fried. .. . e tem o Dr.pais quando fui intemada. quan do a amiga deixara pela primeira vez a Ala D. . Confortavelmente instalado.É . Encontrou-o empertigado na poltrona. lápis.No que é que você está pensando? .Entre .. Qual foi? .E que pensamentos lhe ocorrem a respeito de odontologia? .. . . . . .disse Déborah. Do mesmo modo que expurgara o amor e a memória de Carla. . Sua aceitação seria um ato meramente f ormal.Sou. . Requereu e obteve a transferência para a Ala B.O pedido so ou como uma exigência.respondeu Déborah. contundente.. Após um novo silêncio. não era nada amistoso. .Que pode ser mais dispendiosa do que a gente pensa. pelo visto. Significa: Eu consentirei! SN HAÍM") 169 19 Lutando contra o tempo. .. . e havia enfermeiras maravilhosas que iembravam muito McPherso n.disse Furii. um nome qualquer.Meu terceiro trilho . página 97.A tradução literal de uma palavra Yri. . . .O mesmo tom. . Em compensação.Déborah revirou a cabeça em busca de alg uma resposta. Esfregou as .. Espero que passe um ótimo e prov eitoso verão.Quem? Quem levou? . . . Conversamos bastante e eu confio nele.Lu brificavam as engrenagens.assegurou Furii no último dia.O que quer dizer isso? . Furii não deixou nada comigo. .

A palavra é empre ada sempre que houver uma relação com o movimento das ondas. mas as reações automátic as e inexpressivas do médico acabaram fazendo com que ela se fechasse num mutismo denso como a noite. 171 . o idioma no qual fora educada de sde pequena. o prelúdio da Punição.Diga uma palavra dessa linguagem secreta . . e que. e não uma dádiva enviada pelos deuses Esmiuçou a s primeiras palavras 172 citadas por Déborah para demonstrar que se compunham lfVrfraementos de latim. .Que palavra? .Há inclusive um ditado (Decidira naquele instante fazer um último esforço para salva r a situação). desalentada como estava.A Dra. cochichou Lactamaeon no seu ouvido. a austeridade do homem e a frieza lógica do seu raciocín io intimidaram-na. de que se ela pudesse formular claramente as coisas diante do mundo não seria doente mental. A tática era engenhosa. . virou-se para ele e . ela sabia que ele não tinha entendido nada. . e que qualquer a de nove ou dez anos de idade poderia formulá-las se Crl jsesse Analisou a estrutura das sentenças.O significado se atrofiou e morreu na tradução! Seguiu-se um longo silêncio entre os dois.E o que quer dizer isso? . . detalhada. Até no modo austero de se sentar.falou distraidamente. "Significa. .. . Ela está morta. às vezes.insistiu a voz que vinha de fora. . esquecendo-se.Significa também partir? . e com o eco de sua voz dizendo ao s deuses: '"Mas eu prometi. há uma outra palavra para isso. há muitos anos atrás. procurando levá-la a admitir que. . . quanto mais se aprofundava na questão. . este arrazoado de provas era absoluta mente irrelevante.Por que então você não diz logo movimento das ondas? .Rapa cabelo? Tentou de novo: . Dsborah sentia ganas de dizer-lhe que todos aqueles argumentos repres entavam uma intrusão em sua mente. maior tornava-se o silêncio que a envolvia. utilizando a forma poética em Yri que. soou-lhe de uma forma inteiramente nova: Te quaru .perguntou ele.. .Não. fran cês e alemão. Até que finalmente um dia.O que significa? .Não se faz cirurgia com uma picareta...Isso depende da pessoa ter ou não a intenção de voltar. bem. por exemplo. e envolve uma série de outras propriedades do mar como. Significa agir como agem as ondas. Fried contou-me que você tem uma linguagem secreta. no entanto.. tão indesejável quanto fora a dos bisturis em seu c orpo. brilhante por vezes. pode ser muito bonita. .Quaru. . . com rarís simas excessões. além do mais. . mas ela também encerra es sa conotação de mar que. Mas prometi a ela.exclamou Anterrabae. Retirar! . Ele procurava de todos os modos convencê-la de que o Yri era u ma linguagem elaborada por ela mesma. .Déborah transpirava um suor gélido. . insistiu Déborah com o flamejante deus que despencava no espaço n egro.sê como o mar qu e. talvez. ou como tremulam os ves tidos longos.. Diz assim: com um machado não se rapa o cabelo.e.Déborah se sentiu um trapo . . ne m estaria ali.. . . Contudo. No entanto.Quaru. . Déborah persistiu na sessão seguinte e na seguinte e na seguinte. e Déborah teve freqüentemente que concordar com ele. .Entendo. ou.Muito interessante! .O quê? ..Trazida bruscamente à realidade. . reproduziam a estrutura do inglês. o frescor da água ou aquele marulhar suave e açoitante. espraia sobre a areia o seu fugaz esplendor. a ondulação dos cabelos.repetiu aturdida com a pergunta. defrontouse com um rosto severo e desapr ovador encarando-a fixamente. quando reflui. .Ora. significa o movimento das ondas. . . ou quando alguém parte. tcomou coragem.mãos de contentamento.Pode-se usá-la para descrever o modo como o vento sopra. ele parecia desapr ová-la.

Olha! A morte não é. despr ovidos. de encontro à parte mais sensível da articulação do braço e do antebraço.disse. eram dados tão irrelevant es que não valia a pena questionar.. . m dia. ao mesmo tempo rainha e vítima dessa beleza. provaria enfim. por vezes . a fisionomia familiar do Dr. os mesmos meios! Conheço tuas aparências. e o seu universo interio r. deu meia-volta e retirou-se ap ressada. pouco a pouco. cujo chocalhar ameaçador não lhe saía da cabeça durante as sessões. em pouco tempo. Sempre que assumia essa forma. Se o dia estava lindo ou se aquel a imagem que se movia pertencia realmente a um ser vivo.O seu último grito soou em vão. Idat. teus véus. as percepções táteis não eram menos imprecisa s. . sob a máscara inexpressiva de seu rosto.. Tomara-se irredutível a defasagem entre o universo exterior. Idat . .Parece necessário. rígida e muda diante dele.O que é que você quer dizer com aceiro? . apareceu o médico. cujo sol era um ponto cinza equilibrando-se num imenso vazio.disse Idat. Sofra. Furii estava morta.Por favor. Objetos e pessoas haviam se transformado num todo indistinto e remoto. um fogo que por si me smo inflama enquanto debela o primeiro. mas essas ocasiões eram bastante raras e exi giam uma grande quantidade de tributos cerimoniais. Déborah se fechou num mutismo impenetrável. desejos e longos calafrios de terror. de qualquer significado. percebendo o cheiro de carne queimada. vagarosa e deliberadamente. Idat trazia um véu sobre o rosto. uma enfermeira entrou no quarto e ia dizer-lhe algo quando estaco u de súbito. recolhera um suprimento razoável de fós foros e de guimbas. e o que luta não se rende? Minha e strada contém todas as oposições ao mesmo tempo e. Aceitava-os. um fogo de encontro. Halle. A deusa. começou a queimar meticulosamente a pele.. Era um a mulher belíssima. por causa das cascavéis-muito comu ns naquela época seca e quente do ano . para fins opostos. Apelidou o novo médico "Dente-de-Cobra". Déborah compreendeu que a única forma de abrandar o vulcão que a queimava por dentro.respondeu Idat . começou a se rmar um vulcão onde fervilhava um magma atordoante de "s e contravozes. se era ou não de substância humana. um a um. a Dissimuladora. Anterrabae em sua queda etema. O vul cão. Déborah conseguiu divisar através da máscar a. Acompanhava. a morte lenta e gradual? O que se rende não luta. e foi pressionando. Quero te dizer que os homens respondem ao fogo com o fogo. . com L actamaeon.dois vestidos que são o mesmo ves tido. O vulcão não cedeu. ergueu ligeiramente o véu. . por acaso. toda de branco. Seus sentidos nada informavam: via unicamente manchas cinzentas e disformes. e a sua presença infu ndia em Déborah a esperança de que pudesse algum dia vir a ser simplesmente feia. Isso se aplica também às rochas? com a minha ajuda. onde reluzia o sol quente de verão. os Desfiladeiros do Pesar. Idat! Por que jlutuas de branco? Branco de noiva e de mortalha . ou sobrevoava.retrucou Déborah. Havia fósf oros em abundância na Ala B e. Estava claro o que Yr sugeria: nisso os seus sentidos não a enganavam. apareceu a ela sob a forma 173 de mulher. ódios. em alto e bom tom: .Onde? .perguntava naquele instante o médico. em geral. a consumação máxima da vida? E a vida nãoé por acaso. com grande alívio. porém. e com o passar do tempo acabou renunciando também aos mov imentos. com cinco dessas guimbas em brasa. Nada mais lhe restava. e ouvia apenas grunhidos e rosnares surdos. Passava os dias prostrada e inerte sobre a cama. Sentiu uma leve tontura e um cheiro nauseante de queimado. doutor. Seria preciso um incêndio para aplacá-lo? 174 Enquanto isso. Acendeu outros ciga rros. os meus sintomas não são a minha doença ! . Nem bem ela saíra. . rasgando ventos ferventes. ardeu mais ainda sob o rosto e o corpo petrificados. Ficava sentada. a si mesma .' seria lhe opor um aceir o. Até Yr se tomara distante e in acessível.. Por meio desse mesmo recurso. e cujas aberturas estavam todas vedadas e embarricadas.

Vamos ter que limpar e vai doer..Você fez uma sujeira dos diabos aqui .você será uma das minhas pacientes lá.. fazendo cara de repugnância e estendendo a mão n um gesto instintivo ("parece até que a minha carne é de verdade".Por isso mesmo é que estou usando esse desinfetante . Déborah a arrancou de um só puxão. falar sobre o significado e a terceira dimensão. Halle. . Acab ei de assumir a administração da ala. Deci diu.o tempo de contato é tão curto que não há possibilid des de infecção.Na superfície. Ficou tão comovida com a preocupação que ele demonstrava e com o tempo que estava perdendo. n uma madona. lembra? .retrucou o médico. Um estagiário. Halle começou a limp ar e friccionar as queimaduras. o toque de mágica que transforma um amontoado de planos numa caixa.ironizou o Coletor. .disse ele. Assim que transpuseram as portas duplas que davam acesso à ala. Persistissem ou não as trevas.gritou Déborah. Lembrou-se de Furii e da flor que dela recebera. inclinando-as ligeiramente para cim a. .disse ele num tom amável . pensou ela). . sentia-se muito mais segura com Halle. .disse ela afável . Déborah percebeu que ele não tinha compreendido. permanecia a postos com uma bandeja cheia de instrumentos cirúrgicos.respondeu Déborah. uma voz sussurou em Yr: Olha para ele. é com o se fossemos cegos. antes que ele terminasse de gritar "não!". . . .quando fico perturbada. . não diga? Que interessante! .Seja lá para onde for. q ue decidiu lhe dar um presente. . objetou Anterrabae. Déborah sentiu tonteiras. .Não. . jogando f ora o algodão e apanhando 176 gaze para enfaixar as feridas. se não houver algum significado. Déborah lhe agradeceu a idéia com a saudação Yri: Que o calor e a clareza de espírito te a companhem. examinando as queim aduras.Concordou distraído. então. Mas ela está morta.Déborah não esperava por uma pergunta tão franca e incisiva. Ela fez com as mãos o gesto Yri de aquiescência. E se fala sse sobre a visão? Diria assim. . satisfeito de voltar àquele trabalho mais "médico". Furii te deu uma recordação.Bem. Oh. sussurrou Lactamacon. .Estou procurando ser o mais delicado possível . o que era outra de suas virtudes.disse Lactamaeon. Porque não ofereces uma jlor a ele. . .Não se preocupe . A manga da blusa tinha grudado à pele queimada. Deixou escapar um vago comentário.comentou o Dr. plano e cor de um objeto.A visão não é tudo! . Está vendo? Sente-se mais seguro agora .Acho que vou ter que levar você de volta para a D.Você tem algum problema nos olhos? . com quem se podia falar e que jamais recorreria a expedientes tais com o o "sorriso número três". Depois de examinar as queimaduras. Procurou alguma verdade com que pudesse retribuir os desvelos do médico. . uma pesso a aberta. . geralmente não consigo ver as coisas direito. ou num Dr." . sem fazer estardalhaços ou recri minações. . . Nada possuo de palpável.. Déborah sondou-o com um olhar de desconfiança enquanto pensava no íntimo: "O que é que e le quer dizer com isso? Estaria exigindo a gratidão? Não. Ele a conduziu de volta à D.Não se preocupe . mesmo quando a gente distingue cada linha. acho que não.Pobre homem! . .Cale a boca! Assim não consigo ouvir meus pensamentos! . Curioso é que parece s er imune aos efeitos venenosos de meu nganon. não. terminando o curativo.. Quando o Dr. Halle segurando um vidro de antisséptico. Já sei! vou dizer a ele que pode me tocar quanto quiser que não vai morrer. 175 .Mostre-me . De repente ele paro u e olhou para ela intrigado. a visão se toma irrelevante.. Talvez até a famosa terceira dimensão seja apenas uma questão de significado. o médico virou-se para Déborah e declarou com ar penalizado: .falava com cuidado para não lhe parecer crítico. mas nenhuma dor. .

de localização e de distância. .O quê? . . até os limites da exaustão. Halle. o. Deve ser por causa da tensão. virou para Déborah e comentou num tom festivo: . fica va entre Mary Fiorentini e Sylvia. Ele riu. . .. por sinal.Mas que você deu umas boas cabeçadas nas portas e ja nelas.Há quanto tempo estou aqui? . Como é que você está aqui? . . gravidade e o testemunho de seus cin co sentidos..Chiii. tinha sérias dúvidas. .Não é por isso que eu vim. Quando voltou a si. . os gestos atriz de comédia barata. a Punição.perguntou o Dr. ... Mary.re inava uma atmosfera carregada de angústia. de que ele não saberia exatamente quando eclodira a crise. continuava tão muda e ausente c omo antes. 177 "1 Ficou apavorada ao notar que as mãos. que talento! 178 Mary soltou uma gargalhada estridente. lá isso você deu.suspirou Déborah .. . .Ah. Decepcionada e envergonhada consigo mesma.Não.. os braços e os ombros estavam doloridos. suportou o castigo. . e sua visão. Inteiramente à margem do tempo. . . e sua inexperiência deixou Déborah estranhamente comovida. .Menina. A pesar do que dissera o "novo" médico. Numa das contínuas idas e vindas de pacie ntes. . . se adensando pouco a pouco à medida que a noit e caía. Passado algum tempo. . bom. Deitou-se na cama e ficou observando as somb ras do crepúsculo invadirem o quarto. . As relações de causa e efeito se diluí am na tempestade. e soavam extremamente falsas. embaralharam-se num grande caos. estava fora de si.. Puxa. até já.Eu bati em alguém? Machuquei alguém? . Quando foi. que estava deitada na cama vizinha. abateue violentamente. Novamente aquele tom jocoso. porém. uns três ou quatro dias. As noções de luz. .É que eu estou de serviço hoje. se tingiu de um rubro impenetrável. nunca imaginei que você tivesse o bicho no c orpo. . habitualmente cinzenta. .Devo ter demolido tudo.gemeu apavorada. Sem nenhuma advertência prévia.Ficou algum tempo lutando com a chave na fechadura. Suas gargalhadas pareciam vidro estilhaçand mas claro. Aqui só chamam o méd ico quando alguém se mata. porque . como a mão de um carrasco. estava dentro de um casulo e tinha ao seu lado um médico q ue não conhecia. que. . Déborah. .Eu não o conheço. Perdeu toda a noção de equilíbrio (não sabia se estava de cabeça para baixo ou para cima). ..Não sei. a Esposa do Abdicado fora deslocada duas camas adiante. um pouco aborrecida com o comentário. você é louca. meu Deus! .É. como você briga! . tá? Não se preocupe com essa dor. Quando voltou enfim ao seu velho dormitório . Suas palavras.é como escapei. Dei uma chegadinha para ver se você estava bem.Eu não bati em ninguém.O que eu acabou a punição. mas um súbito torcicolo e um acesso de tosse obrigaram-na a voltar-se de novo para ele. já era dia.deramlhe uma cama que já fora sua .. A punição deixara-a exausta.Oi.vou deixá-la então mais uma meia hora.Lembrou-se.Sorriu complacente. . espaço.protestou Déborah. .Ah. dirigidas a Yr. agora. mas que talento! Definitivamente. O calor congelava. . tempo. sabia o que fazia. Déborah olhou para ele horr orizada. não excessivos de uma não consigo entender .Oi.Não sei. os raios de luz feriam como dardos. Déborah fez menção de virar o rosto para o outro lado. haviam transposto as barreiras e caído nos ouvidos do mundo.Ah. voltando-se espantado. Sou novo aqui. As zombarias do Coletor foram-se avolumando até se transformare m numa zoeira infemal. Você já pode sair do casulo? Está se sentido em condições? .Como está se sentindo? .

emb ora. acrescentando camadas de queim aduras umas sobre as outras. característica das noites de verão. apontando em seguida para a sua cama. Precisava dispor de um supr imento considerável. porque é que estou me sal181 vando? . "logo ali".Fico satisfeito por você me ter dito isso . dissera. lembrando-se do primeiro encontro com Mary. No final da semana. que estava apavorada. voltou às suas gargalhadas irritantes. mas logo se recompôs. Guimbas de cigarro e fósforos eram fáceis de obter. detendo-se junto a Déborah na s ala de estar. Déborah riu. o tal médico novo reapareceu na ala.. e como era im portante saber disso! Até mesmo as pessoas venenosas. no entanto. Talvez até mesmo no Inferno houvesse misericórdia. . minha querida. Divertia-se com a falta de atenção d as enfermeiras e auxiliares. se empenhassem toda a sua coragem e energia.disse meio sem graça. francamente. Num estalo. casos como você deviam saber que o inferno (foi sacudida por u m novo acesso de riso) . . Ouvindo isso.Tive um trabalho dos diabo s para mantê-la assim! . É como a dor física . Su a visão já era um pouco mais nítida. sem saber bem porque.Não era para menos . Déborah compreendeu que Mary. já que você melhorou tanto. mesmo assim ninguém re parava. Teria razão? Haveria pelo menos fr onteiras naquele pesadelo sem leis? Os últimos vestígios do dia se extinguiram. Se quero morr er.Bem. a rigor. concluiu com seus botões. "É porque eles realmente não querem olhar para nós". Mary. Sylvia (com o seu imobilismo m ortal) deram provas disso. Por alguns dias conseguiu manter as feridas em segredo.Quer dizer que há um limite para a coisa? . O médico olhou para ela chocado. e depois acaba! . por mais agoniada e irritante que fosse. por um impulso incontrolável. pois o alívio trazido pelas queimaduras não durava mais que uma h ora.Ora. merg ulhando o dormitório na escuridão. Acenderam as luzes. eram capazes de se ajudar umas às outras.Bem. Fora engraçadíssimo: "Sou Débor ah". Déborah começou a tirar o suéter. A intensidade de seu des ejo. furiosa ainda com aquela idéia dele permitir que se queimasse até a morte na B. estivessem sujeitos às mais severas restrições. Carla. respondera: "Eu sou o manicômio na versão Disney".a gente treme. e agora Mary lhe oferecia um pouco de sabedoria. acho que poderá voltar à Ala B muito em breve. porém. que respiravam ao seu redor tomaram aquela incandescência d esmaiada. Continuou a queimar os mesmos lugares. Con statou. superava todas as precauções que vigoram na D.Tenho mais algumas queimaduras. Déborah se ocupou em refletir no que ela dissera. . e os contornos amortecidos das camas.. Se o homem lhe o ferecia de mão beijada essa oportunidade de morrer. das paredes e dos corpos inertes.. . por que estava ressentida com ele? . Helene. com um 179 sorriso de Walt Premida usca de 180 irônico e aquela jovialidade forçada. .Você está com uma cara muito melhor hoje .declarou como quem não quer nada. simplesmente obsceno! .retrucou ela num tom meio ácido. Déborah saiu da cama e foi rastrear a ala em b combustível para mais um aceiro. . mais seria obsceno. estendera-lhe a mão num gesto dissimulado e fratemal: sim. torcendo-o como se torce roupa lavada. só mudava o local das quei maduras quando começavam a infeccionar e supurar.comentou. As feridas supuravam e fediam.soltou uma ris adinha irônica e. treme.. existia de fato um limite. 20 Déborah passou a depender cada vez mais dos aceiros para amainar a pressão insuportáve l do vulcão.perguntou a si mesma. e logo a pressão passava a ser insuportável de novo. lembrou que lá os regulamentos eram muito menos rígidos e havia fósforos em abundância: seria a oportunidade ideal para executar a morte que almejava.não pode durar mais do que vocês são capazes de agüentar.

como dizia Anterrabae. contendo a agressividade. descobriu que estava no casulo.repetiu Furii baixinho. Raiva de si mesma. justamente por não ter mudado nada. . numa selvager ia descontrolada e inexplicável. viva e inteira. medo.O que aconteceu? Você estava indo tão bem q uando viajei.murmurou Déborah.Como estão as velhas feridas? . não foi? . cor. Logo atrás dela. . punindo a torto e a direito. Restringiram o uso do fogo aos limites da enfermaria. o cigarro aceso que esqueceu na sala de estar bastou para mais uma série de queimaduras. A sua rotina de vida adquirira. já há algum tempo.Vá para o inferno! . o Co letor. . Déborah estava convicta de que. Terminados os curativos. essas coisas horrív . acordou e. Um dia.. Tudo o mais retroscedeu ao pleistoceno: Pitecântropos Erectus vagueavam a esmo. .Deus do Céu! . m ais cedo ou mais tarde. desespero.. mas não era impossível. Furii passe ou os olhos pelo quarto. àquela sua expressão de desgosto. . a superfície dele.Muito obrigada. um ser primitivo espreitava..Você voltou. sem muita convicção. . não passavam de minúcias gramaticais. com um aspecto inacreditavelment e diferente. . ávido por fogo. não é covarde? rosnou o Coletor. Déborah sentia vonta de de sumir. a repreender as enf ermeiras pela falta de cuidado em deixar materiais inflamáveis e perigosos na ala. voltou para cá.Não é a primeira vez que você vê. na realidade .Tinha que contar a ele. recomeçando as zombadas de se mpre. o qual figurav a como o pior entre os seus Inimigos.. afinal. . continuavam inalterados. . vinha Furii. De todas as sensações. uma chave rangeu n a porta e entrou uma enfermeira. a Esposa do Abdicado a acusou de ser espiã a soldo do Secretário do Interior. ao cruzar com Déborah . disposto. No entanto. O garfo. qu e fora introduzido um ano antes..perguntou o médico soltando as bandagens do curati vo. .Deus do Céu! . ele se afastou. Quando os legisladores da D descobriram que seus pacientes não estavam tão a salvo c omo imaginavam. . um pouco acusador. Não se deu ao trabalho de responder pois ele viu com seus próprios olhos.Você andou mexendo aqui. estavam todos à solta.Déborah estendeu o outro braço. formas terrenas que. v . . bamboleando e resmungando son s inarticulados.Divertiu-se bastante? .Vamos tentar um curativo diferente. . sem saber que. Contudo. .perguntou. cheiro e dimensões. E os Deuses.. por alguma razão mágica. vergonha.Olhou ao redor de novo.Puxa! Quantas vezes você queimou isso? .retrucou Déborah.Muito obrigada. Numa outra ocasião. 182 Tornou-se difícil conseguir fósforos e guimbas. As que imaduras recusavam-se teimosamente a cicatrizar. A Idade do Metal cedeu lugar à Ida de da Madeira. ao seu lado.. com toda nitidez. de escapar ao olhar dela. mas nada d isso deixou transparecer na sua fisionomia pétrea.Não. guria! . varreram a ala de cima a baixo com severas reformas. o vulcão explodiria e entraria em erupção. inteiramente subvertidas. Pouco depois.. ainda estava por vir. a que mais a assustava era a alegria 183 de rever Furii. o Censor. . piedade. para a sua surpresa. como tantos outros. A Grande e Última Dec epção. e agora. sentou-se junto à cama e balançou a cabeça com um ar de espan to. foi suprimido. cujo universo cinze nto e difuso só admitia uma excessão: o cigarro focalizado. por mais que Déborah opusesse o fogo ao vulcão. mil sensações conflitantes dilaceravam-na interiormente.Umas oito. que se tcom ou assim uma ilha de modemidade cercada de pré-história. sem dúvida. org ulho. . Deixe-me ver as novas queimaduras. comendo com os dedos e urinando no chão. dirigindo-se à região iluminada onde o Homem Moderno fornecia às pacientes seus símbol os de status: cigarro e fósforo. os seus tr ajes graníticos. .A enfermeira trouxe uma cadeira para ela. Mesmo ali a lógica das decisões em Yr parecia ter sid o suprimida e as leis.disse Lee Miller sarcasticamente. e isso graças à fal a de cuidado do Homem Moderno que acendia os seus curiosos cilindros.

.Sim. Sentiu-se profundamente envergonhada. 185 . Odeio minha vida e minha morte. fechar-se em trevas e no nada. era tão "Prudente" como uma louca de boa família. Maldita! Maldita que sou! Tentou chorar e vieram baixinho uns soluços roucos uma respiração ofegante e áspera. .disse Furii . vou ser destruída. não é a primeira vez.você consiga aprender a chorar.. o modo comedido e esmerado de falar.a minha médica deixou isso comigo. Queria poder fugir para o Poço. Amanhã nos ver emos. três.Sou venenosa e me odeio por causa disso. inúmeras vezes. duas. cobe rta de vergonha e degradação. que estava sentada de encontro à parede. queima lá por dentro. está bem? . mas os sons pareceram-lhe tão ridículos e feios que parou imediatamente. Esqueci que você voltaria.eis.protestou Déborah. . queima. só para me dizer como está furiosa por eu ter ido embora e abandonado você.. as palavras. e me odeio por causa disso. com suas gargalhad as estridentes. como era antes de vir para cá. aca be com essas besteiras!" Escutei isso durante anos e anos quando eu os decepcion ava com a superfície. tentei realmente.Não sabia que ia volta r.. Quero l he dizer só uma coisa: avalie bem o ódio e a vergonha que está sentindo agora.Foi. He len e Mary Fiorentini participavam também da leitura. Mary. . Se fosse ela quem estivesse oferecendo o livro.perguntou a Srta. o que é que você acha? Relanceou os olhos para Helene.Olhe disse ela timidamente . exasperada. mas vi que o que ele queria era 184 provar que estava certo. Leram-na inteirinha. .Não consigo nem a rrancá-las de dentro. e até mesmo a timidez da velha. Lembre i-me de que talvez pudéssemos lê-las juntas. embora estivesse exausta.. provavelmente tê-lo-ia chutado junto com al gum insulto. Os atores. acabaram transformando a peça numa grande balbúrdia. Daria no mesmo se ele dissesse. Déborah. e acho que talvez tenha se deixado cair nesse estado tão lastimável. e ele só queria provar que tinha razão e que era mais esperto do que eu. .. Haveria duas pessoas no Mundo que falassem a mesma língua? Ao responder. mas Furii estava de volta e agora não ha via mais esconderijos. .Estou toda bloqueada e fechada. Decidiram começar a ler "A Importância de ser Prudente". São peças de teatro. enquanto a superfície nem sequer sabe se ele está vivo ou morto! A doutôra puxou a cadeira mais para perto. . Déborah faria a maior parte dos papéis masculinos e a velha. com Royson."Vamos. pelo menos era o que eu pensava.Você é suficientemente forte? . sem querer. f azendo o papel de Sybil. Odeio a mim e a todos os i mpostores. se transformou num p esadelo digno das telas de Hieronymus Bosch. o mundo só me dá mentiras. no entanto. a Srta. exalava um cheiro insuportável de magnolias. pressionou com força a cabeça de encontro à cama.Pois então deixe que elas saiam por si mesmas. uma comédia fina e elegante de Oscar Wilde. só que o vulcão queima. Em troca das minhas verdades. . Déborah notou que reproduzia. tentei uma. .Levantou-se e saiu.Disse foi? . Continuou. Coral.Eu disse que voltaria hoje.Scomos ambas suficientemente fortes! Respirou fundo. mas você estava morta. .. percebendo satisfeitas que os auxiliares riam com elas e não só delas. . Por que está tão chocada? . A n oite foi divertidíssima.. A peça. . Esta ta mbém será a medida da sua capacidade de sentir amor. e depois começar am outra.. Em pouco tempo Lee. alegria e compaixão..disse suavemen te . Começou a se contorcer de angústia. parodiando a si m esmos.Tentei com Royson. mofo e teias de aranha. juízo menina. Àquela mesma noite.em que tudo o que você disser é da maior importância. Coral se acercou de Déborah com um livro na mão: .Isso não é verdade! . . Déborah fechou os olhos. de Yr do soldado ini migo.Quem sabe quando eu sair . Coral. e mentira com o mais íntimo de mim mesma.Qual delas você prefere? . dos femininos.. a resistir: .Este é um dos momentos . . Lamento apenas encontrá-la aqui e sofrendo tanto. e a Srta.

Halle e. .É a palavra que a assusta tanto. Passado o prineiro choque. soaram longas e monótonas: Acho que talvez estejamos todos nos deixando impressionar demais com esse negócio das queimaduras. 186 . Seria um grande desperdício dedicar meu tempo a um caso s em esperanças. A velha e maldita palavra "louca". Só conservo uma paciente quando tenho certeza de que posso ajudá-la.interveio a doutôra. Afinal de contas.. Conduziu. A Dra. um.Por quê? Por quê? . mas gostaria que nunca mencionasse isso para sua filha..Mas isso é tão.Será que vocês não podem descobrir antes dela virar. . ' . sou forçada a rejeitar muitos. . por experiência. Refiro-me à idéia. à intenção. incrédula ainda. muda e atônita. desesperada e fora direto procurar a Dra. vou lhe confessar uma coisa. Pedira. mas antes. A senhora não precisa inventar mentiras. pode ria ser a determinação salvadora agora. . que se dissesse qualquer coisa que soasse como apaz iguadora. Di ga isso ao pessoal em casa.. indubitavelmente.Tenho certeza de que ela pode se tornar uma pessoa mentalmente saudável e forte. pensou de si para si a Dra. Fried. A determinação que lhe permit ira conquistar todos os inimigos de Déborah.Não. furiosa. trata-se de um sintoma da doença.. que ainda há uma chance de Déborah vir a ser. O que podia fazer para que a mãe entendesse isso? Seria.. Fried compreendeu que Esther conseguira superar a sujeição para com o pai. ao chegar.Esther tapou a boca com a mão...Nunca me permiti empregar essa palavra para Debby! "Rompeu-se a fachada de Débor ah. Tenho ainda que supervisionar a anális e dos médicos que estão se formando pela Escola de Psiquiatria. . a cada sessão. encontrou Esther já recomposta. tão repulsivo! . então. a mãe de Déborah até a porta do consultório onde se despediram. não. piorar e ficar cada vez mais violent a? As palavras da doutôra. Fried. segura e até mesmo dominadora. uma vez no seu consultório. Pedem-me.Acho que sim. nada disso . . turvadas pelo medo que sentia. onde só faz piorar. Saíra de lá apavorada. cuja gravidade nenhuma palavra poderia modifi car ou suavizar. encarou a Doutôra Fried. que eu tome a meu encargo o tratamento de uma paciente. . Es perava tê-la tranqüilizado um pouco. pelo menos umas quatro vezes por semana. Sabia. em seguida. mas todo peso de sua vivência e treinamento indispunha-se contra esse procedi mento. ofegando. O importante era que a conversa a tivesse fortalecido. a verdade é p lenamente suportável. O telefone tocou. . deixaria Esther em pânico. Como pode alguém fazer isso consigo mes Uma pessoa assim deveria estar num. . um pedaço de carvão! Esther lera o relatório.Será que entendi bem? . que sempre esteve associada à idéia de uma pessoa "conde nada para sempre". estamos tentando justamente descobrir por queè.Não vi as feridas. . . To mara-se uma mulher forte. mas dessa vez alguma coisa no seu tom pusera-a de sobreaviso.A senhora julga. normal? . uma entrevista com o Dr. um pequeno consolo. . cheia de maus presságios e. e. Palavras fáceis de consolo poderiam servir em out ros ramos da medicina (quantas vezes os médicos não receitam uma agüinha com açúcar e pron to). e o que está pór detrás dela não é tão mal". preveniram-na de que não seri a aconselhável vê-la. ao invés de tranqüilizar. é isso que a faz sofrer tanto.E o que é que vou dizer ao pai dela? Qual a mentira que devo contar dessa vez pa ra que possa mantê-la aqui. As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. Blau. informara-se dos fatos. Foi atendê-lo e. ela pigarreou. ao voltar. redigido como sempre em termos cuidadosamente vagos.como se uma carreira mágica se tivesse aberto em meio à danação que pesava sobre todas e las. Esther Blau.As feridas? . prejudicando-a ao invés de ajudá-la. Sra. . então.Pois é. Enquanto estivesse convicta da importância des . . Partira imediatamente para ver Déborah.. pois assim a família sairia fortalecida também e per mitiria que Déborah ficasse. que nós sabemos que existe e que continua respondendo ao tratamento.

e as mãos pendiam frouxas de cada lado. que costumava tagarelar. Helene avançou para ela e desferiu-lhe.médicos. umas sentadas. pareciam colados ao chão. Enquanto as enfermeiras trabalhavam. consumiu todo o desejo de . Como seria lá? O que se passa ria nas mentes das pessoas que estavam enclausuradas ali? Baixou rapidamente os olhos. quando Helene a ataca ra para destruir o rosto que havia testemunhado sua fragilidade e livrarse daque le testemunho aterrador. cuspia. pôs-se a observar os "Ornamentos Viventes" (termo que encontrou para designar as pacie ntes): pareciam estátuas. A única reação de Sylvia era fechar os olhos vagarosamente: suas mãos cont inuaram caídas e moles. bandag ens e esparadrapos. Déborah percebeu os olhares belicosos que Helene dirigia a Sylvia. Seu corpo parecia estar totalmente entregue às forças da gravi dade e da inércia. "Naquela noite tenebrosa. para garantir o se u prosseguimento. Tal qual Sylvia agora. sentia como se as duas estivessem a sós no planeta.. Quanto às fumantes. outras de pé. a reclusão. ela quebrou o silêncio e veio em meu socorro . Sentira-se degradada demais para defender-se. num instante. fora incapaz de se defender e precisava de cuidados tanto quanto Helene. os cabelos 188 desgrenhados. e até mesmo Lee. mas continuou imóvel. que estava ao seu lado. a mais feia de todas as pa cientes. auxiliar es. Por causa del as.. observava fazerem curativos nas queimaduras. talvez porque estivesse além dos domínios da "ciência" e a previsão. Caso isso se confirmasse." Tentou mais uma vez livrar-se de suas ves tes de granito e sapatos de pedra. Não demonstrava o menor interesse pela surra. ava quase. Só a respiração lhe traíra: resfolegava.um anjo aguarda. exceto pelo olhar assombrado.era um dia refrescant e de outono . rápido e inesperado. as enfermeiras deixaram o s aguão por um momento. os lençóis úmidos. Os pés. tocar-lhe no ombro e dizer qualquer coisa. tudo para Helene. Parecia uma fera arremetendo selvag emente de encontro a uma pedra. gritava. eu tenho que ir. enfrentaria toda a família se preciso. com toda força. tomara-se objeto de grande interesse médico. distribuídas aqui e ali.sa terapia para a filha. evitava fala r-lhe e lançava-lhe olhares desdenhosos. por trás da qual se ocultava a Ala D. As estagiárias. Pelo canto do olho. tudo. Esmurrava. Olhou para Sylvia. Forçara alguns a se questionarem e a crescerem um pou co. como de hábito. mal contendo o choro. viu seu rosto pálido como cera. poções. Sylvia poder ia destruí-la apenas com o silêncio. agora é minha vez. com a intervenção dos seis auxiliares necessários para subjugar Helene e arrastá-la para o casulo. Vamos! Mexa-se!" . toldados de lágrimas. permanecera lá fincada no chão como uma estátua. Tudo convergira para ela . totalm ente inexpressivas e imóveis. contraído numa careta enrijecida.Esther ergueu os olhos para a sacada recoberta de sólidas grades. Sentiu que deveria aproximar-se dela. no entanto. outro. O incidente.. viria a ser uma fonte de esperanças raramente estuda da nas publicações psiquiátricas. a baba qu e escorria de sua boca. logo em seguida . a responsáve l pelos novos regulamentos. continuavam furiosas com Déborah. o rosto r ubro de cólera. terminou. Déborah. Entendia perfeitamente o drama de Sylvia. no alto"3(c) prédio. parada a uns dez passos de Sylvia. A doença de Déborah não tinha só balançado 187 os retratos no álbum de família. não andavam. inerte como sempre.pensava com os seus botões. as feridas se recusavam a cicatri zar. Lembrou-se do episódio ocorrido dois anos antes. e compreendeu que. um murro e. encantadas com uma oportunidade excelente de exercerem seus c onhecimentos. Déborah.. Ao terminarem o curativo das obstinadas queimaduras. "Eu devia ir porque isso já aconteceu comigo e eu sei melhor do que ninguém o que a gente sente. He lene explodiu num acesso de fúria incontrolável. Desafiada nos seus brios. "Do lado de fora das portas do estudo dissera-lhe uma vez seu pai ." Ao sair da casa onde estava situado o consultório da doutôra . De repente. se fosse solidarizar-se. como se estivessem o t empo todo surpresas de que o sangue pudesse fluir de forma tão natural e o coração pul sar independente de suas vontades e emoções. trabalhavam conscienciosa e diligentemente com ungüentos. Deixaram-na sozinha e humilha da na sala. arranhava. enfermeiras. O medo. sentada no chão. Sylvia recebeu os golpes sem soltar um ai.

Desatenção seletiva! . . hesitou alguns segundos e disse: . Passeou os olhos pelo consultório. . . infligidas sucessivamente sobre a carne preparada e esfolada para recebê-las. Por que Furii deixara fósforos e cigarros na sala de espera? A enfermeira acompanhante distraía-se com a maior facilidade.agir. mas afin al de contas temos que falar uns com os outros. basta que ninguém me surpreenda. não estão? . Se não fiz o que devia ter feito depois de Helena agredi-la. . você pode me expulsar porque eu tenho um a culpa que não admite perdão. com uma vontade enorme de sumir. devemos trabal har duro para descobrirmos quais são as raízes das queimaduras que você faz em você mesm a por uma revolta contra mim e o hospital. Déborah discordou das razões e da seriedade que Furii atribuía às queimaduras. mas acho que você está enganada.Não sei explicar por que.declarou taxativamente. como eu disse antes.Você acha mesmo que as queimaduras são tão sérias assim? . . 190 . cega a tudo o que se passava a seu redor. . e ac endendo um cigarro. Furii compreende u e riu também. Nunea lhe disse que eu era humana.São seríssimas! . e sim esse eterno alheamento em relação às coisas. erguendo os olhos para ela.retrucou Furii. pelo menos não vou implicá-la nas minhas queimaduras. Foi com eles que acabou de falar? . A verdadeira agonia não era o fogo nem as queimaduras. de morrer. Déborah se levantou para sair. . os auxiliares que subjugaram Helene começaram a retomar da ba talha e a oportunidade perdeu-se de vez. que durante muito tempo ficou ali paralisada. não estou ouvindo.disse Déborah baixinho. eram percebidos por ela a uma distância muito remota.declarou Déborah.Fale mais alto. Agora. . na realidade. O medo cedeu lugar à vergonha.respondeu Furii. Enquanto concedessem a elas o sentido de uma aberração terrível. .disse Déborah. .murmurou . que vivia na maior desordem. . Prometo não roubar guimbas acesa s das pacientes a não ser quando estiverem no cinzeiro ou esquecidas em algum luga .Vigiada ou não . Decidi não ser imortal por causa do que aconteceu a Sylvia. O que nos cabe fazer é louvar essa força que lhe permitiu ver isso. cuja linguagem e os jargões não tinham nem a beleza nem a poesia do Yri. A atmosfera que a cercava contin uava fria e sombria. . mas mesmo assim não pareciam justificar o estardalhaço que se fazia em tcomo delas.Você está enganada . ao exterior. embora.vou pôr a corda no meu próprio pescoço agora.Algumas vezes acho que nosso vocabulário profissional vai longe demais. . já que você as considera um problema sério. mas os seus reflexos dourados e o calor que espalhava. Quando solta o cigarro em al gum lugar.Não se deve permitir que isso aconteça. As duas Marys fumam como loucas. 189 Ao chegar ao consultório. com você. e trabalhar para que chegue o dia em que você seja capaz de fazer o que acha que deve fazer. e não apenas a nós mesmos e a deuses cadentes. não será nenhum jardim de rosas.Não. contou a Furii tudo o que vira e o que deixara de fazer.Sylvia fuma de vez em quando.Não lhe faltará desafios morais e decisões difíceis para tomar no mundo e.Creio que de certo modo estão. A luz do sol derra mava-se das janelas. . Nunca lhe contei uma mentira! . torcendo para que ela se lembrasse do que afirmara freqüentemente a respeito de o paciente confiar em suas próprias convi cções íntimas. rindo daqueles termos da psiquiatria. uma vergon ha tão grande. e eu faço o mesmo com seus cigarros. por favor. No momento. Elas estão contribui ndo para a minha delinqüência. você é que está se aproveitando d os sintomas delas. e é bastante distraída.perguntou.Não estou aqui para desculpá-la . eu o apanho rapidamente e fujo.continuarei fazendo as penitências. Havia cerca de quarenta queimaduras. Saberia Furii como foram tentadores aqueles minutos de espera? Logo que a sessão terminou.O que é que você quer dizer com isso? . Pquco depois. o seu gesto continuaria tão dece pcionante quanto as sossegadas encostas do vulcão.

a maior delas. comovida com a coragem daquele gesto. não houve fósforos que bastassem para contê-l . O negro em seu cérebro tornou-se rubro. O medo e a cólera que expressavam essas criaturas do mundo eram como o s ol..Foi dado o sinal. Um dia. febrilmente. acho que ouvi você pronunciá-la. Forbes lhe perguntou se não queria que mandasse a s pessoas saírem do banheiro.) Nesse momento entrou a Sra. . . e deixá-la a sós ali até que alguém tivesse necessidade de usar as privadas da frente. cuja tradução seria "uivos de cão".uma lei da natureza enfim . apenas aquele estado mental sombrio e obscuro. estava escrito no super lativo e em letras garrafais: UGURUSU. antes que pudesse se dar conta. Tem algum signi ficado? Déborah ensaiou. e boa parte do que falava já não podia sequer esperar pela lógica do Yri e pelo arcabouço das palavras: era um vomitar de sons inarticulados. A palavra a que se referia fora escrita na parede c om o sangue proveniente de um corte no dedo. . focalizados sobre ela. mergulhou no vértice furioso d a erupção. e algumas delas arranhadas com um pedaço de botão. As enfermeiras. e que significava solidão. Refulgiu o raio de luz. dispunha sempre de uma meia hora de solidão. cotidiano e inquestionável . temei-me com o ód io mais feroz. tirou de dentro da manga duas caixas de fósforo.Onde está o objeto que usou para arranhar. As palavras eram disparatadas. . que surrupiara na sala de espera e as jogou raivosamente entre os pés da escrivaninha. A Brincadeira . costumavam dest rancar a porta para ela.Recreai.Recreai xangoran. Alinhavam-se nelas todas as efusões de ódio. estende u as duas mãos abertas e tentou inutilmente articular algumas palavras compreensívei s. Estava sozinha na ban heira situada nos fundos do lavatório da frente. universal e penetrante. Déborah. Também não vou permitir que você contribua. Déborah gostava dela. A Sra. Dito isso. Forbes. gestos e sons que lhe permitissem exprimir o impacto produzido pela erupção do vulcão.Esta palavra aqui. quase hora de dormir. e significava o terceiro grau do ódio . Até mesmo aquelas habituadas aos trabalhos mais ár duos da Ala D. Decidiu que naquela noite não levaria para a cam a consigo a agonia infernal. todas em Yri. onde uma ou outra palavra Yri lhe permitia sa ber o que estava dizendo. Seus olhos. torturai meus dentes com vosso fogo até estilhaçá-los . porque sei que não gostaria. depois da limpeza da noite. "terceiro trilho" significando "concordar". As palavras foram escritas com lápis ou com sangue. graças a isso. dilatando-se e extravasando com tamanho vigor que. Inai dum. e a escutar as acusações ditas num tom de quei xume monótono pelos personagens invisíveis e rancorosos de Yr. vieram carregadas de ódio. Srta. como celulóide fervente. Lembrai-vos de mim com ódio. que se avolumavam no fundo dos copos e desciam pela garganta abaixo. As pessoas que a socorreram estampavam uma expressão 192 de horror e de surpresa no rosto. Naza e fango xangoranan. 191 21 Quando o vulcão entrou finalmente em erupção.Ageai significava d ilacerar a carne com os dentes como tortura . Estirou-se no chão frio. emitiam raios que ateavam fogo. já" que todos os quartos de reclusão se achavam ocupados. ressentimento e amargura expressas numa linguagem que usava metáforas tais como "quebrar" significando "consentir". Quando os sentidos desanuviaram. de que os auxiliares ac orriam ao banheiro e de que as paredes estavam cobertas de palavras e frases em Yri. e começou a bater a cabeça vagarosa e metodicamente contra os azulejos.terminou. E com o mesmo ódio. Já era tarde. Blau? . A crise ia ganhando proporções incontroláveis. As palavras proferidas num murmúrio por Déborah. e os bramidos provenientes do Coletor. teve uma vaga consciência de que gritava. Uguru . Foi justamente essa expressão que levou ao extremo o incêndio dentro de Déborah. de repente. íemr e xangoranan. Déborah não pressentiu nada de excepcional. uma agonia que há dias v inha repelindo a pontapés as doses de hidrato de cloro. via e ouvia. que a dilacerava por dentro. como quem ouve e vê através de um bura co de fechadura. começou a sent ir as vergastadas familiares do medo.r. Ageai dum. (Lembrai-vos de mim. lembrava-se pelo menos d e ter gostado dela. .

Você tem que tentar falar. Podia ser a morte da vontade. conseguiu arrancar algumas palavras: .Escute... c omo um boneco desengonçado. só que dessa ve z sem a dor habitual.Déborah riu. . . O quarto de reclusão era minúsculo. Yri e sons inarticulados entremeavamse num dis curso incompreensível. .. da alma. Lutou até a exaustão. das leis e conseqüentemente não a morte. Inglês. tentando desesperadamente morder a si mesma. . com as mãos e com o corpo de enc ontro às paredes e ao chão.Um ódio que você não consegue controla r. . . Déborah. porque não está conseguindo controlá-lo.perguntou Furii.Não. você está sentindo alguma coisa. Furii. . estacou de súbito e jogou a cabeça para trás.. perguntou surpresa: . mas as paredes começaram a porejar suor e sangue. . Déborah andava para um lado e para o outro. . medo não. .Minha inimiga. . Entendeu que a morte tão temida não precisava ser necessariamente física.Havia uma engrenagem cheia de dentes. O tumor fustigou-a por de ntro. . Yri misturado a termos estranh os e desconhecidos para ela. . . Gradualmente. Perdera completamente o controle de si mesma. . desencaixadas! .perguntou.pediu Furii num tom grave. e procure manter-se em contato comigo.. numa agitação extrema. Escute com muita atenção agora. as pessoas. ao ódio e terr or. Percebendo que era inútil deixá-la ali. Déborah batia com a cabeça.Você está doente? . . tal como as queimaduras que também não doíam.A palavra é medo? .Ergueu os olhos para ela de novo: .. e agora à última decepção.exclamou em voz alta.. A velha frase. dava cabeçadas e dentada s. A enfermeira o lhou para ela interrogativamente. mas continuav a incapaz de formular as palavras necessárias para precavê-los contra a sua própria se lvageria. mas só conseguiu esboçar o gesto que em Yri s imbolizava insanidade: mãos espalmadas. ela murmurou: . Ela lutou como uma fera. no mund o. vamos tentar a reclusão até que você con siga se segurar um pouco. da mente. ódio. ela se contorcia.É por isso que a internaram num hospital. apavorada com o que poderia fazer agora que não e stava sujeita a lei alguma. Aturdida com aquela subver são das leis e da lógica de Yr..aparteou o Censor. . . dos quais d ois pelo menos encaixados no mundo. . Vamos empenhar tod as as nossas energias para protegê-la dos excessos dessa doença.Engrenagens desencaixadas. escancarando a boca num grito mudo. começou a sentir a contrição das veias nas pernas e nos pés. embora estivesse envolta nos l ençóis há muitas horas e. jamais pronunciada ou escrita antes. e no teto desenhou-se um imenso tumor que foi inchando e ganhando volume. . incapazes de s e juntar. nenhum vínculo com o mundo! Tu não és como os outros .Não. e agora nem sequer o controlo.Você consegue me ouvir? . .Yri. meu eu venenoso e pes tilento. tudo .Quer dizer.Tente de novo. Enquanto prendiam as amarras. o ódio foi cedendo lugar ao medo. nem bem olhou para ela. a cama. um riso tão feio quanto fora o choro. mais violento que o ódio negro e o vermelho -branco.. até cair desfalecida. talvez a mais velha em Yr. uma de frente para a outra. riai naruai. você está protegida. a jogada final que fazia parte da trama se194 creta armada pelo mundo para destruí-la. Impelida de um lado para o outro do quarto. Horas depois. . cont ar para mim o que está acontecendo nesses mundos que colidiram.Venha.Você está com med o do seu próprio poder. proferida em contextos diversos. Aqui. Faça um esforço para me ouvir . mas um perpétuo morrer.. . Como era frio o ve nto que soprava acima de todas as leis! Tiritava. os lençóis. o caos imp erava e os próprios personagens de Yr pareciam ter enlouquecido. já deveriam tê-la aquecido.Tentou lhe explicar. portanto. Deixe elas saírem naturalmente. arrancando-lhe um grito de dor. . E agora nenhum. colisão. Déborah procurou comunicar o que sentia. passando do consolo e piedade.Pensou alguns segundos e disse: . f isicamente? . . agarraram-na e meteram-na a muito custo num casulo. A energia que jorrava impetuosamente do Vulcão a d eixava num estado de agitação frenético.. não precisa temer essas forças terríveis que parecem ter sido desarrolhadas aí dentro.Havia uma engrenagem. num esforço supremo.

um ódio que veio s e acumulando. quanto havia de ódio e quanto de medo? . você tem um potencial enorme de saúde e força aí dent ro. pena morte..Veio Yri.... Negação até mesmo de Yr. ...Começou a tremer de frio novamente. Déborah começou a sentir as pálpebras pesadas. o que se tcomou mais uma culpa a suport ar em silêncio. Inglês.Ela apanhou aquela cama ali e a jogou..disse Lee Miller sem fôlego .O sofrimento não foi por causa do ódio..disse Furii. você confiava no nosso trabalho juntas e em mim. foi? Não. . mas não achou que val esse a pena discutir.. A doença que você construiu pode voltar a ameaçá-la. na terra.Diga-me uma coisa. Na emoção que você sentiu ao se ouvir bradando essas estranhas li nguagens. le mbre-se bem.Tenho a impressão de que esse ódio explodiu por todos esses anos. .mas muito menos assustada. nacoi.Nem mesmo os deuses como amigos .Dez . algum. Forbes! . . vendo. Antes de permitir que as barreiras 196 fossem postas abaixo. Estava extremamente cansada. . e o que serão essas duas pequenas miscelânea s? Alívio. .. Déborah se lembrou de que não havia em Yri uma palavra correspondente ao "muito ob rigado". . por não ter de entregar tudo àquele muro que separa Yr e o mundo ? Será que não haveria também uma intenção evidente de me lembrar que fui embora e a deixe i sozinha com tudo isso? Déborah sentiu que a última hipótese continha apenas meia-verdade.Sabe.. Agora.disse Furii .O medo amainou um pouquinho . pois é justame te este medo que a impede de falar de uma forma compreensível para os outros... . medo. .. que para avaliar a emoção permitiu que um bocadinho dela fl uísse de novo.. Negação. . . .. não..e procurou complementar a idéia com gestos de mão em Yri.. mas t enho certeza de que a refreará o suficiente para conseguir a ajuda e o controle ne cessários. Censor. ficasse co ntente.Medo.E o quê? .Sua amiguinha.Você está completamente esgotada . a última.. Não soube como demonstrar gratidão.E a atingiu? . cobertores da Terra.. fazendo o que é proibido.Então. Sons absurdos e apenas Não! Não! . embebido em culpa e medo. Cor al. -' Três ódio. Dois é para miscelânea. Yri.. como se fossem grânulos malcheirosos dentro de você. Metade do medo que está sentindo é o de que não consigam detê-la. . . levantou a cama e a jogou em cima da Sr a.. E o pior é que o tremor não diminuiu para que Furii.Envolva-se no cobertor. destruirme.Puxou sua cadeira mais par a perto de Déborah que tiritava ainda sob o cobertor.Isso só totaliza oito.O quê? i .. Déborah soube que um novo holocausto a visitara. .Eu sofro .. . . especialmente quando estava em serviço uma enfermeira. . Ao retomar à ala depois da sessão..cismou a doutôra.a doce e gentil Srta.respondeu Déborah. disparates. não é assim? .O ódio pode explodir de novo. . quem sabe. .Quase. . Selvagem.. cujo calor era rechaçado pelo seu clima interior. Nada mal mesmo. Apanhou o cobertor e a cobriu . Ódio. Nada mal para quem supostame nte fundiu a cuca. . . 195 . . . . Déborah. . não é verd ade? . esse talento para a vida. sofro muito. você se transferiu espontaneamente para a espécie de encl ausuramento que havia à mão.Não. .Frio de Yr. .Segundo você. bastante. .. Censor. Antes de pe rmitir que o ódio aflorasse.Veremos se o calor da terra ajuda ... cinco medo. envelhecendo e apodreceu. bate ndo.. Furii riu. e. colisão.. de quem você gostava e em quem confiava.. nunca vou preenchê-los.ódio.

só podia ser isso. passava sempre por onde desabavam cadeiras e punhos. (o medo impediu-a de enunciar a palavra "amiga".Você não é o único (Bemardi). Significa: antes. ou o caso da estagiária que.Se atingiu! A mulher foi internada num hospital. Déborah concluíra que os sons eram transmiti dos pelas torneiras. Lee só a agredia porque a velha Coral estava enclausurada e. completamente atônita. e ficou absolutamente imóvel com o ouvido encostado nos canos de água que passavam por ali. Agora aquela "coroa". estranha e inconfortável .Insanidade Temporária! Taí.Quer dizer. Jamais lhe ocorrera que fosse amiga de alguém.Não. apesar de inconfortável para a orelha. O corredor já estava quase deserto. Dificilmente re198 parariam nela ali onde estava. Soltou uma longa b aforada. .declarou: . Forbes vai voltar? . metade delas para os casulos.Jesus. O de água quente estava ap oiado em material isolante. Cuidado com a língua! . Forbes era uma das raras eleitas a quem os próprios pacientes.Não. podia-se ouvir as pessoas conversando dentro da enfermaria.Que diabo estou fazendo aqui com todos esses malucos! Déborah foi para o dormitório e esticou-se na cama.. pois a recepção tornava-se mais clara quando as pessoas se apro ximavam da pia de metal. . o de água fria. que todo mundo chama Srta. Era bom que entrassem logo no assunto. Lee Miller estava furiosa porque a Sra.Tch. a lei. Outros. devido à ameaça tra nscendente que encerrava). sério! Não há um dia nessa droga de ala em que não aconteça uma briga e aí. uma justificativa legal. Coral como se fosse alguma beldade do sul. Coral Allan. Não sei não. ma is intrigada ficava: por que a velha agredira a Sra. Quanto mais pensava na questão. . . mesmo com a porta fechada. De uma precisão exemplar. Lee. sentindo um profundo mal-e star. Era uma mulher ded icada.Certo . pois e m breve teria que se afastar dali. Carla é. . e os auxiliare s que percorriam os corredores estavam ocupados. portanto. vocês com preendem.Será que a Sra. Lee dirigiu-se à porta da enfermaria. e com uma dignidade exagerada . inace ssível. Começaram a falar sobre a distribuição dos dias de folga. lá ao lado do bule de café. Forbes? Por que logo um dos Bons? Depois da distribuição de sedativos àquela noite. bateu e pediu um cigarro. Haviam apagado a maior parte das lâmpadas. com um braço quebrado. e por isso a atitude de Lee a deixava. A menção ao café deixou Déborah com água na boca. . no interior da enfermaria. generosa e . . Pressionou a cabeça com mais força contra cano para espantar o desejo. . não é? . e ra utilizado às vezes pelos pacientes como dispositivo de escuta.Engano . . inteligente.pois dignidade ain da era uma coisa ao mesmo tempo nova.perguntou Déborah. uma ciência.. cortes. contusões e o diabo a quatro.. . mais piradas. já tinha es . . Sim. surpresa. por uma incrível coincidência.Só pode ter sido um engano! Freqüe ntemente aconteciam enganos: uma paciente que mirava uma pessoa e acertava outra . refletiu um pouco e resmungou: . procuravam poupar. Virou-se lentamente para ela. redigiam os re latórios. foi discretamente se colocar na quina oposta à porta de entrada da enfermaria. de certa forma.coisa rara . Encostando o ouv ido no cano e contendo a respiração.Ali . tch. num de seus irritantes acessos de risadinhas.sentia-se feliz com o seu trabalho junto às pacientes.E saiu saltitando pelo corredor como se fosse uma menina de sete ano s de idade. mas acho que essas gurias estão ficando cada v mais doentes. em levar as pacientes relutante s para a cama.dizia uma voz que parecia ser a de Cleary. durante e um pouco depois. 197 Quem sabe a coitadinha não estava temporariamente insana! Intrometeu-se Mary Fiorentini zombeteira. são mais para a reclusão.Risos.. como estou cansado (devia ser Hanson). tch. conscientemente ou não. o que nunca ex plicam é quanto de cada lado. .retrucou Déborah. . .

Preparavam-se para a última ronda da noite antes de pas sarem o turno. nunca uma reação de horror.Hudson e Carelle foram com ela até o hospital. quando muito. irritada com os risos de Mary e os sons abafados do choro de Déborah. retrucou Mary Dowben que. que raramente falava. . Déborah fremia de impaciência. conservando a cabeça apoiada no cano frio. um desgosto passageiro. ela vociferava naquela fala incompreensível. De repente. Se a evidência não surgisse agora.perguntou Mary Fiorentini.Mas que falta de respeito. . caramba! Déborah não queria ouvir nada sobre Blau. vou também. de repente.Você foi ver Lou Ann? (Era seu primeiro nome. com suas preces intermináv eis. O tumulto se alastrou. .Hoje ela não falou absolutamente nada. o Abdicado Rei da Inglaterra! .Bem. e por que cargas d'agua a cama fora cair justamente em cima da Sra. venha para a cama.e continuou num murmúrio inaudível.Que ruídos obscenos são estes? . nada disso constituía um pecado na Ala D. um pranto áspero e feio. . entrou o auxiliar e mandou que calassem a boca. Ba ter. Cobr iu com as mãos o rosto que ardia de vergonha. Blau. eram como partículas de pó flutuando ao acaso mas mesmo assim havia certas normas que não se desrespeita va. ponha isso no relatório.Ai. soando. mas era só olhar para a cara dela e ver o ódio.Nossa! Quem diria que uma velhinha daquelas fosse capaz de levantar uma cama. Sim. mas só essa tarde pude ver com meus próprios o lhos. soluçando e repetindo baixinho. foi cambaleando até o dormitório. viram só a Blau à noite? . Jesus! Foram dar corda nessa carola de novo.exclamou Jenny. Cuspir. o que é isso Srta. protestou: .cutado muitas histórias a seu respeito. .Vamos. as piores manias sexuais. Se eu ti rar folga. blasfemar. Déborah se deixou escorregar até o chão. vocês loucas são tão inventivas.) . não dava para entende r nada. para todos os mu ndos e a colisão. cheia de graça. uma das estagiárias. Ah.Ora. que ódio! . . defecar ou masturbar-se aos olhos de todos desp ertava. . pois vivia dormindo. Salve Salve Columbia! . suas putas nojentas! Eu sou a primeira Esposa secreta de Eduardo.. Desatou a chorar. Forbes.Deus do Céu! Gritou mil besteiras lá no banheiro. provavelmente. Finalmente tocaram no assunt o. para Déborah. Sophie vai visitá-la amanhã. para impedir que aquele incidente se transform asse em mais uma experiência de decepção.. no chão. e ela sorriu aliviada para o cano. .Ave Maria. quanto mais de arremessá-la? Déborah torcia para que falassem logo da Sra. e cada espírito se e nclausurou num isolamento que niaguém parecia capaz de devassar. . uma razão qualquer à qual pudesse se agarrar. sempre arranjava um jeito de transformar tudo numa cruzada religiosa contra os hereges. elas as pacientes. Afastou-se um pouco do cano. roubar. Viera para descobrir alguma circunstância qu e pudesse mitigar a dor que lhe causava o conflito Coral versus Forbes. Forbes. . colocan do-se assim em terreno neutro e dissociando-se da fonte de sua vergonha. Déborah se levantou prontamente e sem destapar o rosto. É porq ue têm tempo de sobra para ficar remoendo idéias . . urinar. a velha fórmula: Tu não és como os outros. 200 Déborah voltou a pensar no quebra-cabeça. Fez-se imediatamente um silêncio profundo. que havia alguém ao seu lado: era Martenson.Alguma modalidade no va de perversão hcomossexual. como um contraponto aos sons horríveis que continuavam brotando de dentro dela. No entanto . en199 cheu as paredes de palavras louquíssimas e saiu lutando como um tigre. A Esposa do Abdicado. Sabia muito bem que jamais poderia indagar à velha por que tinha jogado a cama .Oh (risos).Ei. Pressentiu. onde se atirou na cama e desatou a chorar de novo. .. Enquanto a metíamos no casulo. e ntrecortado de risadinhas. .

serei boazinha. por exemplo. Agora.bom. 202 . e daí! . delicadamente.. tsk.tsk. Nessas circu nstâncias. nada de brincadeiras. nem quero fazer você ficar boa contra a sua vontade.. por isso decidi desistir da luta. se é que se pode chamá-los as sim. exigir satisfações. num tom quase amigável. .Aqui é cutucu (o que significa "estar escondida". a confusão de línguas só fazia aumentar e distanciá-la ainda mais.dirão as pessoas . de sua própria definição de amor e sanidade. porém. Uma vez.Estou cansada.. . e quando falava. Para que você disponha de seus próprios desafios.obter respos ta para a sua dúvida? Matutou nisso dias e dias. num súbito acesso de r aiva. Você pode m e mandar embora e ficar com seus amiguinhos.gritou Déborah.Por uma vitória que não é fácil nem doce. mais sobra. ."poderia ter sido uma menina tão boa. dócil e não vai aparecer mais nada nas paredes. há um monte de hospitais psiquiátricos por aí. Uma longa baforada de fumaça ocultou o rosto da doutôra.meditava Déborah . um atentado consciente contra as va liosíssimas barreiras que asseguravam a vida e a sobrevivência dos pacientes. pobrezinha. ou pior. o que emergiu foi: "Nunca atinge a profundidade suficiente. intrometer-se. mas nunca lhe perguntou por que fizera aquilo. Como então . Quanto mais lixo ponho para fora. em segundo grau). e fica n um hospício o resto da vida.Não lhe conto mais nada. .. .e concluiu abanando a cabeça .Mas lutar para quê? Para quê? .exclamou Déborah. "Tadi nha" . A verdade.Chega de pensar! . .Disseram que estamos ficando cada vez mais doentes. . assustada e pouco me importando com o que possa acontecer . . o nome da Sra. uma grosse ria imperdoável. 201 Acabava ficando nervosa. Seus amigos. Quero que pense bem e responda honestamente. trabalha-se no frio. . um auxiliar lhe perguntou se era o seu dia de banho. e isso. se estiver disposta a lutar com toda a energia e pa ciência.Blau. piorava o nervoso.E se não vencermos? . Forbes das conversas qu ando estivessem na presença da agressora.. escrever outra tese e ganhar mais u m título. Coral por sua atitude. Trabalha-se no escuro. Dia após dia.. de seus próprios erros e da p unição que merecerem.Para tirarmos você desse maldito lugar.Eu não faço brincadeiras. opor-se à atitude de alguém era. porque aqui não me sujeita rei jamais a uma prova! ." Outro caso se passou no banheiro: . e para quê? . por sua vez.disse ela. elevando o tom de voz.Furii elevara também o tom de voz. que tinham provocado restrições extensiva s à ala toda.gritaram.Está certo . com tanto talento .Olha. constróem um todos os dias. saía involuntariamente uma mistura de Inglês. passariam a expurgar. Lee Mi ller a agredira por causa das queimaduras. uma verdadeira violação. . Articulou mentalmente uma resposta que lhe pareceu clara e. a fisionomia completamente inexpres siva. quando se esforçava por traduzir e superar o abismo que a separava dos ou tros. nua e crua. é! bradou Furii..Ora. nunca! Ninguém pediria satisfações ou re preenderia a Srta. soou muito bem ao s seus ouvidos. . você está aí? . . dizia coisas definitivamente disparatadas e intraduzíveis .Você desiste.É. . Permitia-se zombar e odiar. A dificuldade de se expressar com clareza a surpreendia tanto quanto aos outros. .Sim.. todas nós. na melhor das hipóteses. ou dar a enten der alguma necessidade... nem exigiu que parass e.perguntou Furii. Eu é que não posso me mandar. vão me julgar mais talentosa do que realmente sou. acendendo outro cigarro. numa ala entupida de perturbados. Somente com Furii conseguia expressarse com alguma clareza. que desperdício" . já lhe disse isso no ano passado e no ano retr asado. inclusive eu. . enfim de um "eu" bem fo rte com o qual possa começar a viver. garanto que venceremos. droga.E daí? Alguma vez eu disse que seria fácil? Não posso. e não se preoc upe. conservando. . Yri e sons dist intos que mal bastava para responder às perguntas que lhe dirigiam. .E você acha que está? . no entanto.

. .admitiu um dos aux iliares. mas lhes parecia inacreditável que a to rrente de sons confusos e a violência descontrolada não significassem uma grande mud ança para pior.É uma excelente oradora. elas admitem considerações desse gênero? Quer dizer. mesmo assim. não acha? .Claro. minha cara menina . . arrulhando de cansaço. nem sempre. . como todas as pacientes da Ala D. Déborah apresentava um comportamento mórbido e sil encioso ou.Mais doente não. uma rejeição.E ra um rapaz novo no serviço que perguntava. A verdadeira razão era uma dessas verdades que não gostamos mu ito de encarar. Além do mais.Após uma pausa.. gestos súbitos e inesper ados de generosidade que representam um grande sacrifício para a paciente. esmagando o cigarro no cinzeiro . o negócio das queimaduras está diminuindo um pouco. já que essa capacidade de dar representava um sintoma de saúde e força. ela a fizera em segredo. Viera assist ir à conferência a convite do doutor Halle. poderíamos di zer.Elas.Blau é um de seus casos .Claro! Trabalhando aqui. . estava "maluca". Eram sintomas inegáveis de grave doença mental. mesmo porque já havia trabalhado com algun s dos pacientes da ala.Sim. Déborah sentia-se o próprio Noé. ou seja. um rosto invariavelmente inexpressivo. .Difícil. considerações morais? . Somente alguns dos médicos e . . pala vra que a maioria empregava e sentia.. é óbvio que você sabe disso. v ocê não terá que arcar com as conseqüências dessa resposta. Está ou não ficando mais doente? Não tenha medo. atualmente. Estava enganado. por sermos médicos. . e muita s vezes nos chamam oportunamente à ordem e chutam longe a escora da nossa vaidade.Ah. uma paciente deu-me uma faca de presente para que eu me protegesse. você encontrará fartas evidências disso. eu a substituí enquanto esteve fora . .. . . .. Nenhum galhinho verde. . Mas c omo eu vinha para esse país . .disse Furii.comentou o outro. Não. por isso evito contar mentiras.Isso se deve à "nova moralidade" de Déborah .Mais doente não. enviando um pombo para explorar uma região temível e desc onhecida. Antes do incidente.explicou a doutôra Fried com um sorris o.. De início julguei que essa dificuldade vinha do ressentimento da menina.E a senhora aceitou? . Fried. sim. . os quais inspiram freqüentemente profund a admiração nas pessoas ditas "sadias": pequenas delicadezas. esqueci. e a medicina é uma ciência que não admite gostar ou .Bem. . Esta faca. As pessoas escutavam polida e atentamente. . Decidiu impor certas restrições aos furtos. hein? .bom.Você não é nem um pouco dada à demagogia. Comportavase.Decidiu que não envolveria as demais pacientes em sua doença. Lembro-me que quando deixei o hospital onde clinicava na Alemanha.E como foi? . sem muita convicção. quaisquer que sejam elas. mas pelo menos era um retorno. e agora tem que p rocurar fogo em outra parte.relatou a Doutôra Fried na reunião da equipe médica na Ala D.comentou o doutor Royson na saída. .Recostòu-se na poltrona com um sorriso zombeteiro.eu sou sua médica e tenho visto esses anos todos como você é alérgica a mentiras.. Passado um tempo. "maluca". apreciei muito esta sua raiva despida de medos e culpas. sabe.concluiu ela com um sorriso amável .. . num inglês tão bom e vigoroso.. continuou: . maneiras sarcásticas e superiores. o fato de ter sido abandonada pelo terapeuta. mas pouquíssimos acreditavam nela. . 204 .Escuta aqui. o pombo voltou. agora acho que já pode responde r sozinha à questão que levantou antes..disse o doutor Royson. exceto na presença dos médicos ou quando temia m ser escutadas. .não mesmo. que remoíam com ceticismo escutando a exposição da Dra. Era 203 justamente essa palavra. Todos conheciam qual deveria ser a res posta formal a isso. afiando um pedaço de metal durante meses e meses.. prevendo o dia em qu e sua doença se tornaria tão dolorosa que não conseguiria mais suportá-la. . ..julguei que a fac a seria mais útil a uma pessoa que tivesse de ficar por lá. não mesmo. mórbido e satírico. . . Posso citar inúmeros exemplos desses princípios éticos ou morais. então.

disse Helene. .. o que o rosto mostrava: "Por que você está zangada? ". Déborah levantou-se e saiu em busca de calor. a alegria. . .Ela. enfermeiras e auxiliares mostravam-se mai s bondosos.Sempre foi.perguntou Furii.Por um sistema inventado pelo Primeiro Marido Abdicado de Lucy. embora a angústia continuasse a mesma. melhor de tudo. . apertando a xícara de café para aquecer as mãos. Forbes voltou ao trabalho. . . Algumas vezes. e quando desligava.O que é Déborah? . uma amabilidade qu e.. e eles se dedicam a mim. . o medo e. Mostra uma pessoa que reage conforme aquilo que sente. Desde a erupção do vulcão.. . vem.perguntou Lee. Quando sinto que a coisa.peço para me levarem-ao casulo.pelo menos. Não fique assustada. das quatro. 206 . Talvez po rque éramos muito parecidos. . As explosões se sucedem.Nacoi. deixava-as congelar de frio. quando eu não estava. A Sra. Déborah começou a no tar que o pessoal da ala a tratava com uma certa amabilidade. Desprezam-me intensamente. Você não deve mais procurar es conder o ódio.Você acha realmente que a menina tem feito progressos? .. Gostaria de ter a inteligência dela . vêem que você reàge e vive. o prazer.Não é de admirar então que você andasse soltando fumacinha da cabeça.Ora. parecia ser bastante sincera.É. há invariavelmente nos sonhos que contamos aos médicos um person agem que cuida do aquecimento. mas agora Seção Masculina dos Perturbados situa da num outro prédio. nacoi.disse Furii num tom meigo. quando eu não estava.Mas depois que conhecê-la melhor.É uma excelente médica. . "Por que você está tão sarcástica?". uma vez atada. verá que. que. até que se chocass e contra uma porta fechada ou um muro qualquer. Déborah ficou gelada de medo. no entanto. mas é claro .Quando esse seu vulcão rompeu.Não. . por mais tempo e energia que isso tome.E você não sabe por quê? . correndo desabaladamente. no entanto.. não simpatizamos um com o outro. o VIII . Ia para o casulo diariamente e. O antigo e inconstante sistema de aquecimento retinia e resfolegava.desgostar: nós simplesmente não combinamos. ficam até conversando comigo. ao que parece. quando o lham jpara o seu rosto. . já repararam? .Sim. veio substituir o velho Ticher t. Pressentia a iminên cia de uma nova explosão de fúria e medo que a impeliria com toda a força de encontro a alguma parede.Ainda assim eles não nos odeiam .gorjeou Mary jovialmente . . da torr ente de lava cinzenta e desoladora que a enrijeciam por dentro. E. . .Como será que eles aquecem esse lugar? . . . . q uando funcionava. alg o mais rompeu também: aquela expressão dura que você tinha... porque a Bíblia proíbe.Fez um gesto de cabeça em direção à doutôra Fried. está convicta. Um auxiliar recém-admitido. 207 22 Apesar das distorções provocadas pelo ar escaldante e úmido exalado pelo vulcão. não a mim .Pessoalmente acho que não. Quentin Do bshansky. sim. lutava como um tigreaté se esgotar todo o fogoque lhe ardia por den tro. com Clarinha Fried. As pessoas agora.. mas agora você está livre delas . um medo que datava de muitos anos e do qual só a muito custo conseguira se proteger.Seu rosto já não provoca suspeita s.disse Furii .Halle se virou e ficou observando-a responder às perguntas no salão de conferência.. inadequado. mas ela sabe o que diz. repetindo eternas pergun tas sobre eternas dúvidas. pessoa franca e bondosa como McPherson. . era a estação m ais penosa. mas não me odeiam. . O outono cedeu lugar ao inverno.perguntou Furii. superaquecendo todo mundo e provocando assim um estado de embotamento e lassídão. . . . a esperança que transp .Nessa época do ano. Sei não. gênio é só o começo. a carência por material inflamável amainara. ou pelos corredores.. . e eles o fazem de bom grado. sta foi uma das razões para a intervenção do Censor e das normas de conduta impostas p or Yr. brincavam e procuravam sempre reconfortá-la.disse Royson. . dessa vez. O ódio e o medo transpar ecem porque são coisas que você sente. ela é um gênio! . .

U m pouco abaixo. Durante algum tempo Déborah caminhou a esmo pelas dependências da ala. A mulher estava furiosa. havia uma janela que dava para um relvado existente no hospital. A auxiliar. e rodeado por um muro recoberto de espessas sebes. Agora que o vulcão dissolvera a sua fisionomia pétrea. O sol se pôs. capaz de transformar aliados em perseguido res. Yr se acomodara. o céu límpido de inverno. Desatou a contar como era difícil educar os filhos e trabalhar horas e horas a fio para receber uma miséria de salário. no entanto.Quando começará a vida? A resposta não se fez esperar: já estava começando! Era noite fechada quando abriu a porta do banheiro e saiu de novo para a ala. nas port as e nos relevos dos rostos e corpos das pessoas. e por sobre a sebe. pois essas expressões não são inadequadas. Suas expressões faciais constituíam um mistér io que jamais conseguira desvendar. algo. tiritando de frio. a certeza inabalável de que iria viver.Não esteja tão certa disso! . sem uma palavra. Não quis magoá-la. seu cantinho predileto. refulgia através dos i nterstícios da sebe. Era bom ouvir alguém falar assim. A auxiliar fungou. como você diz. pediu autorização para ficar a sós no quartinho da banheira. cheio de árvores. Depois da tro ca de turnos. todas as vozes de todos os mundos silenciaram.só podia ser o olhar . e cores das coisas As árvõrês ladeava m o passeio que circundava o jardim. temia que tudo recomeçasse de novo: a vida . O sol.alguma expressão ou tom de voz involuntário q ue desagradava às pessoas. um frio que pode ser remediado com casacos. e a luminosidade difusa ressaltava a nudez cinzenta das árvores. foi direto sentar-se sobre a tampa do velho aquecedor. Pouco a pouco Déborah foi distinguindo as formas. o significado. de ouvir. são muito apropria as. dando por encerrada a missão. A única explicação possível era o seu olhar . As decepções.comentou a auxiliar. Esse frio está de rachar! . as pessoas se transformavam de repente em suas inimigas. o relacionamento se esfumou imediatamente. confessando outr a verdade. no entanto. Reinava uma grande quietude. . e a tendência é elas se sujeitarem cada vez mais a um desejo e a uma escolha con scientes. enfim. com um misto de espanto e reverência. A tarde estava fria e nublada.Perdão. Déborah decidiu pagar na mesma moeda. a sebe. Só tem um tipo de frio com que se preocupar. como devia achar horrível limpar excrescênci a de corpos adultos e conviver com a barulheira infantil e patética das intemas.Você tem sorte. veio se achegando. os relevos e os signi ficados novos que percebia ao seu redor. Déborah entendia perfeitamente o que se passava com ela. afastou-se dela com o rosto impassível. decorando o relvado com 208 uma infinidade de estrelinhas frias. Lentamente. até se infiltrar a certeza de que não morreria. Sentia uma curiosidade insaciáve l de olhar.arecem também. de se regalar com a luz. e por isso não a magoava. Déborah indagou ao crepúsculo: . Déborah. Déborah chamav a aquele lugar "A Reserva". transbordando de alegria e de receio.Déborah se lembrou de que McPherson lhe havia dito há muito tempo atrás: "O que a faz pensar que é dona de todo o sofrime nto?" Arrependida com o seu comentário. Muitas e muitas vezes. . cuja fechadura e chave representavam outros tantos símbo los do "serviço". Chegando lá. Mas a auxiliar estava furiosa. e as tonalidades de crepúsculo deram à Reserva dimensões ainda mais belas. persistiu nas superfícies nuas dás paredes. de apalpar. continuava assustada. declinando no horizonte. A terceira dimensão. por alguma razão obscur a. ensinaram-lhe a s . ganhando vulto. Déborah e a auxiliar voltavam do consultório da doutôra . sobretudo porque Déborah simbolizava naquele momento "o se rviço" mas o desabafo era sincero e impessoal.nacoi cujas leis insondáveis viviam armando surpresas contra as quais não sabia como se de fender. virou-se para ela e disse: . Ao chegarem à porta da ala.

por favor.Terei que pedir uma autorização escrita d o administrador da ala. Pássaro-um. Srta. Levantou-se. embora o comporta mento das pessoas fosse o mesmo de sempre. relutando se seria ou não uma medida sábia abrir os olhos. O que foi? O que foi? A estagiária acercou-se dela: .Um minutinho. . . e crêem estar vivos.perguntou. como sempre. Será que continuavam lá.respondeu Mary Fiorentini asperamente.Talvez o melhor seja esquecer tudo isso. Na manhã seguinte. As felizardas que dormiam junto às janelas recebiam sol a manhã tod a.Seja lá o que isso for.Talvez seja apenas um sintoma . E se fosse mais um lance do Jogo. o animal se ergue e se afasta. a surpresa.ponderou Déborah. podia informar se hoje é dia de ver minha médica? . falou para Yr: Sofram.O que tem para o café da manhã? . Nesse ponto. Veja qu e dia glorioso. em seguida. Déborah se lembrou subitamente do que tinha acontecido na noite passada. só por algumas horas. vira a página e encontra os nativos.Pratos regionais típicos . e uma sensação plena e maravilhosa de vida. Déborah revirava a cabeça e m busca do que havia mudado nela.murmurou. o leitor dessa história em quadrinhos ri. . As pálpebras cerradas coavam a luz matinal numa t onalidade rubra. Às duas horas.sussurrou. Sujeitaria essa nova descoberta às flechas do caçador de tempo de Furi i. Tenho uma pergunta: Dois nativos figuram numa história em quadrinhos. mas eu cá comigo tenho algumas suspeitas! . Sofra. . . Aviso assim que puder.Bem. Saboreou a comida e o próprio ato de mastigar.ajuntou Lactamaeon. No jantar. deixou-se ficar na cama. . Começou a ficar seriamente preocupada com aquilo. Blau.Quantas vezes não ass omara àquela porta mendigando! Desta vez.o farfalhar do avental e o tom agressivo de voz . a selva. os movimentos de um a estagiária nas proximidades . numa gargalhada triunfal do mundo. . e foi até a enfermaria. . envolveu-se no cobertor. Sim. . Escutou um grito no corredor e. .respondeu Anterabae. mantendo os olhos fechados para não per der de vista as perguntas que se fazia. .. ao passo que o resto do dormitório. estamos escutando.er cautelosa. Quando o calor atravessa o couro do hipopótamo.Posso ir sozinha? A enfermeira olhou para ela desconfiada. . está na hora de levantar.foi para a cama. Talvez isso não te diga respeito .tentando acordar Mary Dowbens. A pergunta é a seguinte: Qual será a próxima expressão de seus rostos? O que farão a seguir? Seria preciso esperar para ver o que acontece .Passou a noite escutando os auxiliares conversarem uns co m os outros como sentinelas solitários em seus postos avançados numa terra estéril e h ostil. parecia ser diferente. o rio.Vamos. .Que espécie de pratos regionais servem para pessoas que estão fora desse mundo? perguntaram. . Quem sabe. nesse caso eu gostaria de vê-lo. aguardando do outro lado das pálpebras? Escancarou bruscamente os olhos. Quando engoliu o sedativo e. Começam a cozinhar o jantar.Nunca especi ficam de qual região. o hipopótamo e o fogo. fadado a terminar. Alguma coisa aconteceu comigo. que na realidade é o lombo de um hipopóta mo mergulhado na água. .quero ver agora qual a surpresa qu e estão me reservando. Pre213 param uma fogueira na ilha onde acamparam. surpreendeu-se repugnada por ter de comer com os dedos e uma colher d e pau. . . . as cores.Alguma coisa. . continuavam lá. mas não sabem disso.com licença. você tem hora hoje. ontem. formas e sentidos redimensionando 210 sua percepção das coisas.. o que aconteceu já não terá passado amanhã.. . Sim. . carregando consigo os nativos atônito s que olham sem entender nada. .

. isso não vai acontecer. tive de repente certeza de que eu iria viver. graças à determinação que animava Déborah. e eu dei aos médicos o "bom soldado" que eles queriam. . Déborah o apelidara "Horizontes Perdidos". e só d epois de muitas evasivas. pelo doutor Venner. . . fortalecendo-se mutuamente. . aí sim. .. .Os sintomas.Não permita que eles a torturem cada vez que você se abre um pouco à luz saudável do mundo. é claro! ao vovô! -exclamou Déborah excitada. . que assumira o papel do soldado japonês (estrangeiro. . No início da sessão. Seu raciocínio evoluiu.Fez-me pensar muit o em você. estragasse tudo.Ele não virá hoje. . detendo-s e na questão do martírio: ser martirizada tinha algo a ver com Cristo. sentido de realidade terei que abdicar de Yr. Quando estiver pronta. concluiu num tom grave: . termo Yri que designa uma espécie de imagem utilizada para camuflar meu parent esco com ele. porque posso entrar pelo cano depois. como um a forma de dar vazão à raiva que sentia.. Déborah sabia por experiência q ue não convinha insistir muito. esperando documente pelos seus ungüentos. desapareça!" e pronto. 212 Agora que tenho o. .concluiu.cismou.. desbravaram picadas em busca de velhos segredos. acabou contando a Furii como estava vendo diferente. acho que.. acho que é verdadeiro sim.. de tudo.propôs Furii . numa declaração simples e categórica.Anote o meu nome. estava morrendo de medo de que.Não..Raiva e martírio. Nada mudará para nós. desde já? O importante é não fingir que abdica. Após uma pausa. escolha. ao desenca var o tirânico Latviano em quem afivelara uma máscara tão irreconhecível. Esses sintoma s erguem-se sobre inúmeras necessidades e servem a muitos propósitos. Jamais pedirei qu e desista de seus deuses pelos meus. em seguida.instigou Furii .. ainda que o mundo pudesse se esvair quando a permissão fosse dada. . .Bem. 211 Que tal verificarmos? .Está bem.Devem existir muitos suportes para que você pudesse se agüentar todos esses anos. e exclamar: "Loucura. pois. d essa vez. . . . Ele estava impaciente e irritado por não tê-la encontrado.O soldado que eu encarnei em segredo era um mu tu. dói tanto assim? . nesse caso. Raiva e martírio.Procure lembrar-se! . . iria sobreviver a tudo isso. encabeçado. As partes e facetas se emaranham e se sustentam umas às outras. Ao retomar à ala. .. .O soldado japonês personificava justamente isso. sim! sim. e sobretudo como as coisas tinham readquirido uma significação e como desabrochara po uco a pouco a esperança.. .Foi uma experiência inteiramente inédita para mim . Estou certa de que você abdicará dele espontaneamente..Descobrir isso. há algo mais aí.Dói um bocado. ao falar. você estava curada. encontrou o "pelotão de queimadura" esperando por ela. Se não fosse a ssim.Vamos ao trabalho? Durante o resto da sessão. O molde do sol dado vestia como uma luva no avô..Uma referência e. Por isso é que e xtirpá-los causa tanto sofrimento. Compreendeu.A enfermeira deu as costas e se afastou. . . analis ando-os sob novos ângulos. a doença e os segredos têm muitas razões de ser. quando puder substituí-lo pelo mundo real... . ou então uma breve hip nose. .Você acha que é um prognóstico verdadeiro? . .. .confessou Déborah. uma referência a alguém que me é familiar. o q ue não quer dizer que deva firmar um pacto comigo nesse sentido. um olhar que trespassava as pessoas como se e las não existissem. pois ele vivia com o olhar perdido à distância. inimigo e violento) como uma resposta à hostilidade que enfrentava na colônia de férias. e o apelido tinha colado. furioso com a obstinação .Prefiro não responder. bastaria aplicar uma injeçãozinha dessa ou daquela droga. então.. . Furii lhe dirigiu um olhar interrogativo. por favor. objeto ao mes mo tempo de orgulho e de repúdio de todo judeu. então.

empalidecia cada vez que o médico arrancava com uma esfregadela mais brusca um pedaço de pele. Ora.tive uma idéia que talvez dê certo.Uhh! Calma. suspirando aliviados. e esfregou o algodão com tamanha violência que o sangue recobriu a ferida.Calma. a coisa não devia estar muito boa. . as novas cores. . Espero que não ten ha doído muito.Qual foi o troço que ele usou aqui? . Como cortesia. . Ficou mais constrangido ainda. A enfermeira-chefe sacudiu a cabeça assombrada: .informou Cleary. Ele examinou os braços.. um sorriso.resmungou Venner de mau humor. . a pele ao redo r das feridas começava a tomar a mesma consistência desfeita. a putrefação desaparecera completamente. Dias depois. retirando delicadamente a gaze malcheirosa. relevos. . a deixava impassível. . movim entos que ia descobrindo ao seu redor. vamos experimentar. digamos int eressado.Estou concentrado nisso. Passou a observar atentamente as fisionom ias das pessoas. aplicam uma ou duas doses da dor em sentido contrári o. Cada vez que eu me dobro de dor por causa de um tumor fictício. doerá. Emb ora tudo aquilo fosse novo. ..Bem. .Não se preocupe . Dobshansky piscou para a enfermeira que acabara de chegar e Déborah se sentiu no ínt imo lisongeada por terem consentido que ela presenciasse esse pequeno gesto. . Procurou concertar o erro sem muito sucesso.Fui o mais cuidadoso que pude. que detestava o doutor Venner. disse: ."Nunca Admita ao Paciente que Está Preocupado".disse ela. Ao terminar os curativos. . Alguns dias depois.Retirou do bolso um tubinho de reméd io e despachou o cortejo de enfermeiras que se apinhava à volta.Já é tempo de darmos uma nova olhad ela nas queimaduras.Algum dia. . há sempre um professor à mão para sentenciar que é impossív l que 213 esteja doendo.disse ela com brandura. quando cortaram as ataduras.Não precisa ficar danado.O último a dar foi Venner.Ele deixou lá no armário número 6 . e apesar de seu acanhamento. .das queimaduras que não cicatrizavam. Déborah. interpondo entre ambos a imensa distância de Ant errabae cadente.Pela cara dele.Tenho estado preocupado com essas feridas apressou-se a dizer para encobrir o constrangimento pouco profissional.. Trocaram um sorri so discreto e conspirador. expondo a carne viva. Debora regulava-se com as formas. sentiu que a Ala D. 214 Déborah olhou para ela e avisou: .Segure firme esse braço! . dimensões e percepções adquiriram um caráte r de urgência incontrolável. 23 Já que iria viver . com .retrucou Déborah.murmurou.O que dói é ficar levando coices de força s que para os outros são invisíveis e inofensivas. mas logo as mãos inábeis do médico cavoucaram fund o de novo. E o que vem a ser isso? . Eu te nho um tumor falsificado aqui dentro que compensa longe a dor que está faltando aí n o braço. . Quentin .vou preparar minha contribuição. provocava sua ira com gracejos dirigidos a Quentin Dobshansky que.perguntou ela num tom impaciente. . lembrando-se prova velmente das recomendações de alguma página de manual: .e vivia -. o médico novo veio procurá-la. segur ando as bandagens. . Dobshansky mordeu o lábio para não rir. O comentário o apanhou de surpresa. e porque a limpeza das feridas. Deb! . mas a em enda foi pior do que o soneto. qu em sabe.repreendeu o Doutor Venner. a escutar embevecida suas conversas e a conversar com elas. ao invés de pr ovocar a dor que ela merecia. e ele conteve a respiração: . pois só assim seria capaz de oferecer um sorriso. . é ser louco durante anos sem poder dizer nada porque ninguém acredita no que você diz.Maldição! .A dor é apenas teórica. e se ele não conseguiu chegar até o osso ninguém vài consegui r. .bom.Fique quieta! . doutor Venner . luzes.

esforça ndo-se para conservar o tom neutro de voz. requereu sua transferência para a Ala B. procurando transmitir naquele olhar mil coisas que representariam uma in trusão inadmissível se fossem ditas em palavras. a mesma rotina. Ao sair para o pátio. as enfermei ras da B (quais as que socorreram um caso de confusão. .Bem. não só fortaleceu a convicção de que esTavá viva.Enquanto fazia a cama e arrumava suas roupas. cg uma derrota. Chegando ao quarto. assim. nos de detrás também (1 milha = 5 horas de sanidade). a comer e a ingerir os sedativos. . Déborah inspirou com vontade o ar frio e constante do inverno. compreen de! . Déborah comentou: .Se estou viva. . na realidade. foi recuperando a distância. a minha substância é igual à dos outros. Dessa v ez. . não é. Seu rosto tinha adquirido uma expressão amargurada e tristonha mas. Pouco a pouco. o privilégio de formular uma pergunta. afastou delicadamente a pergunta e saiu por uma tangente: . disse em tom de súplica: . vamos até lá.Ela voltou? Eu. Déb. quando viu Carla.Foi difícil voltar? .Abrir am a oficina da T. Louis. Déborah. sa cudiu longe aquelas idéias e reanimou-se.respondeu Carla. a última fundição de cuca de Mary. fe chou os olhos e. e depois não havia ninguém c om quem conversar. nada mais . quais as que não). . ela ficou como paciente externa por algum tempo disse a enfermeira. porém. No decorrer dess a escalada. . porque é aqui que eu estou. e fez questão de ficar no quarto da frente onde havia barulho e vida. onde poderi a dispor de todo um arsenal de livros. . a mesma substância. não importa.A enfermeira pôs o cobertor sobressalente na outra cama e saiu. . Venha. Talvez eu e steja sendo egoísta. por meio da qual os médi cos avaliavam a responsabilidade do paciente: passou a ir sozinha ao consultório d a sua médica (100 pés = 1 hora de sanidade).Sim.Mas agora está de volta. até que. entregando-se toda.. . como sentiu o amor pelo mund o que se abria diante dela. .suas pacientes acabrunhadas e inertes.. num gesto que abarcava o mundo todo.O retinir de uma campainha interrompeu Carla.e emendou logo . povoado apenas pelos bram idos do Coletor e a efervescência do vulcão. Sua impaciência e avidez já não cabiam na s engrenagens pesadas do hospital.Carla. Começou a escalá-las. . Seus olhos estiveram fechados a tudo e a todos. 216 . arrancando uma a uma as palavras. O problema é que saio às vezes por pura provocação quando.. Déborah procurou ser o mais concisa po ssível.Me senti muito sozinha no emprego o longo pe rcurso de manhã até o trabalho me deixava meio hipnotizada.com um aceno de cabeça. não conh ece? . A última estadia. Logo logo as ruas começaram a me lembrar outras ruas. em seguida. as ruas de St. concedendo-lhe. gosto muito de você. não há porque ficar humilhada. aind a estou despreparada. . assim que chegou.Você conhece Carla Stoneham.nem quer dizer que eu vou deixar de tentar 217 novamente.Olhava fixamente pa ra ela. perguntou seus nomes. . À noite ia ao cinema ou ficava no quarto lendo livros técnicos para me atualizar. . foi pessoalmente apanhar a roupa de cama perscrutando com avidez as fisionomias das enfermeiras. quase que as ouvindo gemer sob o seu peso. . . exceto os técnicos com os seus "bom dia". suas enfermeiras apressadas e inamistosa s. Limitara-se a ir ao banheiro. iam levando uma conver sinha miúda: falaram sobre a velha Coral. . Eu pensei que tivesse deixado o hospital. "boa tarde". O.Foi uma solidão dos diabos. de repente. vocês se conhecem. . A enfermeira-chefe ergueu os olhos para ela.Parecia estar arrasada e humilhada. tornava-se uma realidade estreita demais. Déborah sentiu os olhos umedècerem. ..Bem. Estou contente de encontrá-la aqui. na Ala B fora um período sombrio e silencioso.Não ouvi boatos de que você tivesse voltado. . . .Ôi. as mesmas sensações. transbordando de afeição.exclamou para Furii excitada. finalmente. lá fora. a passear sozinha nos pátios da frente (2 00 pés = 3 horas de sanidade). não é meninas? . lápis e blocos de desenho. . .Isso não quer dizer que ninguém terá sucesso .. aí a cuca fundiu de novo.

.O que estão fazendo. mas seus olhos devoravam as cores e dimensões do mundo. e. . realmente fora. vestindo um uniforme listrado de azul e branco. a tex tura da realidade. se não me engano na Ala D! No mesmo instante. (Estou livre!) respondeu Déborah. é claro! .. . Ficaram ainda algum tempo por ali. Queria conter aquele transbordar de gratidão.Praticando. faziam colagens com retalhos de pa no e cola. durante algum tempo. Déborah visualizou mentalmente: a instrutora. . visava apenas mantê-las-ocupadas. uma bofetada inconsciente no orgulho que as pacientes deveriam supostamente estar fortalecendo. Par ecia-lhe inconcebível que pudesse haver homens mentalmente enfermos. aos olhos de Déborah. até a Ala A. .Déborah preferiu não entrar. Déborah não fa lou nada. causa e efeito. .ia dizendo Carla. As fisionomias se descontraíram. via-se que toda essa atividade era puro faz-de-conta. Carla sentia-se compreendendo o que se passava. (Meti-me numa briga) disse a velha espalhando as mãos pelo vão da janela. rompendo correntes no ar e ensaiando uma cambalh ota. Para além da sebe que delimitava a Reserva. amizade e a sensação de ser plenamente humano. e Déborah foi apresentada a alguns rapazes. .. sentia-se extremamente embaraçada. (Tchau!) acenou rápido e sumiu. Foram depois.respondeu Carla . de tocos carcomidos de madeira. virou-se para a mulher e declarou em alto e bom tom: . seu cérebro apalpava as leis que regi am a raça humana e consubstanciai . Carla contou as janelas e concluiu: . a aguardava um b loco de desenho só para ela.É. enclausuraram ela de novo. ocupar por ocupar. como vai Carla! .E continuaram em direção à T. Era a Srta. atiran do num trigal ondulado pelo vento e. Esta é Déborah.O dia estava muito lindo. Tinha junto de si uma amiga e. Procuravam em vão extrair de pedaços de papel e traços velhos. me diga uma coisa: é assim que aco . irrita da. Desterradas pelas leis do mundo.Queríamos apenas dar uma olhada. .. . aque las párias aqueciam as mãos diante da ilusão de uma faina gratificante.A função desse bule é infundir esperanças na g ente.saudou com uma jovialidade um tanto excessiva. meninas? . subiam rolo s de fumaça e de vez em quando ela aspirava o cheirinho de queimado. Uma orient adora da Terapia Ocupacional. e onde sempre havia um bule de café à disposição tanto dos pacientes quanto dos médicos. a revoada súbita e alarmada de um bando de pássaros.disse Carla.. 219 talvez nos dêem um pouco. todas as cabeças se despregaram das respectivas ocupações e viraram em sua direção. Déborah construiu um muro com o braço. Sua atenção foi despertada por um ruído às suas cos as. ficaram se comunicando por meio de sinais. logo em seguida. ve io recebê-las. se tiver sobrado café.Trouxe-nos uma visita? . por detrás das grades de uma das janelas da Ala D. Numa terra onde a "utilidade" era enaltecida ao máximo. que estava aberta. Não repararam na auxiliar que tinha saído pela porta dos fundos. as mãos retomaram o trabalho. Coral que acenava para elas lá de cima.Eles têm prioridade . pondo as mãos na cabeça para indicar as duas abas da toca branca e sacudindo. em seguida. .Carla..Ela agora está na Ala B e é minha companheira de quarto. Um tiro no trigal já era sufici ente para o dia. (Até onde?) perguntou a outra. qu e ficava num dós anexos do hospital. O.movimento e gravidade. . Observando mais atentamente. Sentia-se tra nsbordar de alegria. e parou diante dele com a mão. fazendo um gesto de quem olha para o mar. o "tera pêutico" faz-de-conta representava. . . você que já esteve fora. na oficina.exclamou entusiasticamente. modelavam em barro.Já a vi antes. em trajes de caça. e que ao vê-las gesti culando no passeio..ôi.Ora.. . A oficina tinha um aspecto animado de trabalho. Voltou-se p ara Déborah e perguntou: . porém. liam. uma chave imaginária. perguntou intrigada: . (A enfermeira vem aí!) exclamou a velha.Acenaram de volta e. As pa218 cientes costuravam.É.só praticando.

Déborah caiu na gargalhada: Ótima idéia! Médicos! Viagem financiada ao Exterior. tubo-bem". Quando ia deixar a Ala D. .sussurrara aos deuses de Yr. o dia em que teria que descer também. que lhe dão uma força eno rme.Bem. que jamais tinha me ocorrido antes . . Parabéns! . O pior de tudo é o que a gente sente quando todo mundo se mostra muito cortês. É sobre Helene. Queria ver um desses médicos tentar ingressar num grupo novo. quand o estiverem no ponto de chegada! Ficaram horas inventando charadas. mesmo nas suas ausências. quando a gente entra numa sala? . aumentando. desforrando-se de todos os médicos que usavam s eu prestígio e a falsa noção de que eram donos da verdade "para conservar à distância seus pacientes. . O doutor Hi ll. É óbvio que. quando Déborah disse: . car regando um estigma pesadíssimo na testa. daquelas bem fanáticas. que não precisariam dessa viagem ao exterior e ram o doutor Halle.Ei! (escancarara um vasto sorris o). a Srta.disse à Doutôra Fried. Sabe o que eu dis . quando a enfermeira viera levar Déborah para baixo. você tem que apresentar documentos e. segundo Déborah. Dizem que se eu fosse menos ansiosa. Os médicos afirmam que a culpa é dos doentes . Nunca tive um amig o que não fosse judeu. geralmente. Coral teve uma f ormação batista. el a tem demonstrado uma preocupação maior pelas pessoas. consciente de que está sendo aceito unicame nte graças à piedade ou a uma fascinação mórbida das pessoas. sabendo que. pois jamais haviam fechado completament e as portas aos pacientes.Não se esqueça! .Percebi que tenho realizado inadvertidamente uma curiosa operação mental.. eu a encontrei me esperando junto à porta. Sabe.Déborah sentia que ele não zom bava. POis sempre nos disseram qu e as gentias acabam sempre nos 221 traindo. seu orgulho! Conheçam essa deslumbrante excursão e vibrem com o falso "tubo-bem. por exempl o. .Descobri uma coisa estranha.E então? . seu rosto iluminara-se todo: . Em compensação. Nunca vi Helene tão des armada. "boa noite" para lá."Por que você vai sair. há uma a ssistente social para testar você. Helene estava xingando o "Talvez". uma conduta melhor do que a gente espera. . o médico novo.ntece lá. Ao ver Déborah. . seus direitos civis. Helene se refizera im ediatamente.Ponham de lado seu prestígio. Carla perguntou a minha opinião sobre uma determinada pessoa..disse ela distraidam ente como se estivesse pensando naquilo pela primeira vez.Como é que você faz isso? . e dão a isso uma importância m uito grande. e Carla são protestantes. e na verdade a distância entre você e eles vai a umentando. Não lhe passara pela cabeça que o primeiro contato com o mundo recém-descoberto viesse a ser algum vinho inebriante para merecer recepção tão calorosa. mas as pessoas têm. .. "idiota". venho notando que. Passem um ano glorioso como pacientes nós manicômios! Carla também riu.. Talvez ele não e steja em condições de julgar . por que não"? "Quem sabe.. quem sabe. apesar d e 220 serem extremamente agressivas.." . muito desagradável . Ontem. mas é muito fácil falar. A etapa seguinte consiste em esquecer que não são judias. aliás. e não eu"? Resp ondi então: "Sim. Pode acontecer uma situação muito. seria mais fácil criar amizades. as vezes. conversando. Os únicos.Déborah apenas sorria. N a porta que dava acesso à Ala B (esta já não tinha chaves) cruzaram com o tal médico nov o. você encontra pessoas maravilhosas.que é minha a culpa. Nós sempre rimos das brincadeiras dela. de algum tempo para cá. Logo que surgiu uma oportunidade de ficarm os a sós. Caminhavam de volta para a ala. "bom dia" para cá. a título de expiação.Tenho uma coi sa para lhe contar. e começara a agitar o punho e a xingá-la de "puta". . Contaram-me que você vai mudar de endereço. Helene é católica. ela se virou para mim e perguntou: . o primeiro passo é esquecer que elas são gentias. Descobri que os judeus também são intolerantes a seu modo. nunca dei a menor confiança a quem não fosse judeu. e a perse gui-la com seus gritos: . Furii e o médico novo. Várias fir mas exigem que você apresente o "atestado de sanidade".Para conseguir emprego. na rea lidade. para que possam se aproximar de mim. Eu as tr ansformo em judias.

Você poderia repeti-la para mim? Déborah relatou novamente o episódio: como alcançara o berço e apanhara o nenenzinho.se? "É daquelas que. . para se destacar. e prepará-lo para utilizar a sua saúde em proveito da razão e da liberdade. experimentou se inclinar para fora e depois foi buscar sua irmã? . para os sintomas de loucura que terá de encontrar no próprio mundo. e voèl seja o que é.. para que eu me desse conta.Afirmo-lhe que essa sua história fede como p diatip! Uma cri ança de cinco anos de idade suspende um bebê consideravelmente pesado. O que f oi que a sua mãe disse assim que entrou? Foi: "Largue já esta criança!" ou "Não machuque o bebê!"? . .Você pode se lembrar do ódio que sentiu. essa menina de cinco anos puxa de volta a irmãzinha para dentro. .. e a dor também. . a essa altura dos acontecimentos. D ódio . procura chorar mais do que todo mundo no Pu rim".declarou. Primeiro eu a peguei nos braços. Agora vou virar d etetive . .o ódio e a dor . . Entendo. .Furii reclinou-se na poltrona com um ar satisfeito. .Não. . Déborah.perguntou Furii.Agora..Você a abriu todinha? . Acho que tem dente de coelho nessa história. começa a chorar para que a mãe a pegue no c olo. a mãe entra no quarto e.Para um maluc o. e depois de dar muito s tratos à bola foi que me lembrei que ela não poderia entender o que era Purim. .Déborah. suspende o bebê por sobre o parapei to e o estende para fora. a vergonha de ter sido apanhada em flagrante e de odiar a irmã..O que me surpreende mais é que eu estava tão ocupada em ouvir o conteúdo emocional d a história . Quer dizer que você abriu a janela. não e ra judia. A doutôra se lembrou de um artigo que tinha escrito discutindo a importância de o médi co alertar o paciente. . num piscar de olhos. cu ja feiúra lhe saltava aos olhos. embora soubessem de tudo e es tivessem mortalmente decepcionados e envergonhados com ela... Nisso. você não imagina como estou satisfeita por ter descoberto isso! Mudando de assunto agora. Foi preciso que eles grit assem por mim mil vezes. não foi nada disso. o amor culpado que a fazia estremecer ao pensar que.A janela estava aberta? .que não prestei atenção aos fatos. . posteriormente.era verdadeiro. não matara Suzy àquele dia. e continuar a amá-las? . ela já estava de volta no berço. na fase de recuperação. odiando-o o suficiente para desejar matá-lo. pronta para soltá-lo. há certos detalhes que não me saem da cabeça.Mas você é capaz de admitir que elas sejam o que são. com os braços esticados. carrega-o até a janela. guardavam um silêncio misericordioso. em seguida.Não. a tentativa de jogar a sua irmã recém-nascida pela jan ela. por sua vez. mas os fatos estão todos contra você. ex perimenta inclinar-se para fora e.Isso eu aprendi aqui no hospital .Estava. de duas uma: ou eu estou louca. . no dia em que entrou e vi u o bebê no berço. Por sobre o incidente pairava o olhar reprovador dos pais que. Pickwick depois de um lauto jantar. 222 Entendo. . escorando-o com o corpo enquanto abre a janela. ou você construiu essa historia inteirinha aos cinco anos. por pouco. não faz a menor diferença se o outro é um maluco judeu ou um maluco cristão. . Lembro-me perfeitamente do que ela disse: "O que é que você e stá fazendo aqui"? O bebê chorava.O suficiente para me inclinar para fora com o bebê. apoia-o no peitoril. A vergonha que.disse Furii. mas lembro-me de tê-la aberto um pouco mais.. como e stendera a criaturinha pela janela.Não.disse Déborah pensativamente.Não é possível. tenho pensado naquela história que me contou. eu me lembro. e só então decidi matá-la. a chegada repentina da mãe. que. . . Parecia Mr. segundo . por mais que as pessoas o achassem adorável.Muito interessante! . mas você era simplesmente pequena demais par a fazer qualquer uma dessas coisas que julga ter feito. Só depois que ela olhou para mim com cara de surpresa.

exclamou Déborah em Yri. .Estava pensando em voz alta. . era um frio sujeito às leis e estações da terra. Por que manter a ambos. . Compreendeu que houvera uma época em sua vida. as lágrimas escorriam pelo seu rosto. entrecortado. ainda não estava acorrentada ao signo da des truição..Nem sequer toquei nela. uma so noridade pungente.A terra tcomouse tão boa agora. perguntou-lhe numa voz meiga: . Observava as árvores da Reserva.Só que de agora em diante. no de Yr não há mês.Pode muito bem ter sido verdade. a Dissimuladora. Quando retcomou daquela incursão. apesar do suposto assassinato. Era ainda um c horo de principiante.retificou Déborah. Nossa suposta assassina não passa de uma menina ciumenta de cinco anos de idade. junto ao pai. . . Déborah. e nada tinha a ver com o mundo.indagou Déborah. por sinal. Por causa do cortinado do berço.Era um berço . A felicidade dos seus pr imeiros anos de vida constituía uma prova irrefutável de que não estava condenada gene ticamente. áspero. Seus véus ondulavam docemente ao sabor de um vento intemporal. no entanto. com seus galhos úmidos e enegrecidos. Carla se mostrou extremamente nervosa. Quando Idat chorava. suas lágrimas cristalizavam-se em diamantes. As respostas de Idat. O tempo de Yr é intemo.murmurou abismada.Quinze de dezembro. apesar de ter sido privada dos mimos que lhe cumulavam a família. . Déborah procurou reconfortá-la com olhares afetuosos. de e speranças.Faltava-lhe ainda coragem para confessar que. . culpa por ter desejado a morte de Suzy. Por que pergunta? . Não houve resposta. usando d termo que significava "para sempre" . acabei de me lembrar que hoje é Quarto Englift para Annot. repleta de situações felizes. . Diferiam em todos os sentidos. de futuro. a irmãzinha. As perguntas tinham. que jamais poderia tomar Idat como modelo. Furii deixou que ela chorasse à vontade. Suas mãos tremiam e seu r osto estava pálido e doentio.Déborah implorou a Yr. Oh.Estou de pleno acordo. Explorou aqueles tempos fugazes e mágicos.indagou a deusa. Vou . eram sempre muito difíceis. .Que dia é hoje? . concordo. Seus olhos estavam no nível dos nós dos de dos da mão dele. seus pais Sentiram todos esses anos é uma invenção do seu sentimento de. Ficai comigo .propôs Furii Déborah começou a falar sobre aquele ano cheio de coisas luminosas que antecedeu o r einado da tristeza. . . Ao deixar o consultório.disse ela. t iritando de frio.. . Há dois calendários.Sim. Yr e o Outro Lugar. Os dias são demarcados pelas vezes em que o Coletor se reúne para julgar. qua ndo avistou Idat caminhando no alto de um deles.. Sofra.Bem. em Yri. e porque apenas sugeriam a dúvi da.Sim.Nem sequer toquei nela. ela parecia ter ascendido do Inferno ao Purgatório. Percebeu que. amargo. . Idat . . e caminhar para a ruína? Não estou linda nessa árvore? . . Há anos que convivo com isso. sabia.Furii sorriu. . Terás agora um modelo a seguir. que a doença a impede de superar) você traduz iu esses pensamentos numa ação supostamente real.você. .Foi gostoso? 224 . condenada de corpo e alma. . Isto quer dizer que estamos num calendário ascendente.devolver meu emblema de detetive amanhã mesmo! Os pensamentos de Déborah recuaram no tempo até aquele fatídico quarto: viu-se aos cin co anos olhando. pelo modo como eram formuladas. .Já que você está de volta àqueles dias. Furii aquies ceu num gesto complacente: . como se fosse mes mo real. carregados de expec tativas. dessa vez. Déborah chorava copiosamente. Graças à falsa noção 225 do seu poder destrutivo (noção. e quando se acalmou.saudou Idat. nem sequer conseguiria alcançar a borda dele. foi caminhando para a ala sob uma chuvinha fina ê gelada. poderíamos muito bem vê-los juntas . Penso em to mar-me para sempre uma mulher . ma . por algum milagre.Daqueles com pernas? Meu Deus. Idat era deusa. Durante o jantar. vítima . precisou se erguer na ponta dos pés e espreitar pela borda. felicíssima porque. de uma beleza ofuscante. você não poderá mais se fl agelar com esse chicote.

mostrando sobre a extensa palma três pedacinhos de carvão. o coração palpitando de me do.. mas estava lança da. em gera l.talvez fosse um pouquinho boa. O punho. coisa que jamais poderia c onfessar ali. insuportável para qualquer corpo molecular. nunca complicados por mai s de dois ou três participantes ao mesmo tempo. foi para casa passar cinco dias com a família. ossos e tendões destacavam-se nas sombr as. Parecia sentir todo o sofrimento d o carvão em seu próprio corpo. Todas as suas amigas e conhecidas vieram corroborar o fato de que "apesar de tudo.. Ao subir as escadas.Déborah! . como se fosse a quebradiça crosta de realidade sobre a qual to das elas andavam. e todos os velhos tio s abraçaram-na" trêmulos de piedade e medo.. Suzy. Chegou a um ponto que não suportou mais. Sabia que estranhariam o seu ol har.. banquete com os seus pratos prediletos. As mãos rel axaram. Ninguém disse nada. pressionava.s em vão. como se estivesse revivenciando as dores lancinantes do nascimento. quase que simultaneamente. talvez era um termo forte demais . os relacionamentos eram episódicos e fugazes. O ruído da louça quebrando repercutiu longamente nas pessoas senta das à mesa." Déborah se esforçou o quanto pôde para não recusar os pratos festivos que lhe serviam e conversar com as pessoas. ávidos por mostrar que o amor que tinham p or ela continuava intacto. tcomou as mãos de Carla. pressionava.. jaziam sobr e a palma. . No hospital. os avós. mas estava exausta.Déborah. Foi um gesto súbito. pressionava. Jacob. ocorreu-lhe que talvez não. num ímpeto. estranhariam sobretudo os vestígios q ue trazia das privações e da solidão . Continuava imensa a distância que sentia entre ela e as "pessoas normais". e estimulou um fluxo de medo pelos sulcos traçados e retraçados dentro de cad a uma.. Três diamantes.Pare! Não vai acabar nunca ! . Déborah tinha uma sensação violentamente opressiva de esmagamento. apenas o suficiente para ser notada..um terço de talvez. onde os fios d e conversa iam se emaranhando como um complicado novelo de lã. suas cicatrizes. não havia como afastá-la . Transcorrido muito tempo. ela fosse mais do que u ma simples ex-quase-assassina: a palavra a atingiu como um murro. levantaram-se e debandaram. arranhões e queimaduras.. . os tormentos amainaram. cujos relevos. Receberam-na em casa como a uma heroína. 227 25 No dia primeiro de janeiro. A mão virou-se lentamente e lentamente se abriu. que se apressarasentia-sen a assegurar suas respectivas posições naquela c rosta. o de que tinha ainda uma dívida para com Sylvia e já há muito tempo queria dar um beijo em McPherson. nem uma pedra ! . e a s meninas. Ao servirem o café." e "não importa que. Das trevas surgiu uniãTimènsa mãõTêcháda. mas estava melhor do que antes. Olhou entemecida para Carla. as pálpebras pesavam como chumbo. ra uma mão possante de homem. Déborah. ergueu discretamente a mão branca. contraindo-se com uma força estupenda. . Urna voz trovejou: .mas um desejo insaciável de viver novas experiência s lhe infundia a coragem necessária. A enfermeira. e as conversas terminavam. Três diamantes translúcidos e reluzentes. A mão se escancarou. Fo i se fechando lentamente. is so será você. Não estava habituada a esses bate-papos paralelos. que an tecedeu a todo cálculo: o de que quarta Englijt para Annot se constituía numa posição se gura de onde podia se aventurar. emitindo uma incandescência lívida. .. desferindo fagulhas luminosas.. abruptamente. As mãos ficaram. 226 24 O sonho se passava numa noite escura de inverno. . Só então Déborah com preendeu como se expusera a Carla. Déborah.e de novo. numa grande ansiedade. carinhosamente .gritou para a mão. a xícara escorregou de suas mãos trêmulas e 225 espatifou-se no chão. cuja função específica era anunciar o final da refeição. Se u rosto continuava pálido e acabrunhado.Nem mesmo uma pedra pode suportar isso. Esther preparara um verdadeira.

com licença. Sabia que precisava proteger essa última Debby. sentada de novo à sua mesa. com a cabeça zonza. fiz os seus pratos prediletos. ela empalideceu tão visivelmente que Esther se apressou em desvia r o rumo da conversa: . Agora. . inclusive porque percebia que queriam conve rsar sem ela. . estava longe. Está vendo. Agarrava-se ofegante a os íngremes rochedos. a gratidão é recíproca. Déborah ia responder que bastavam os talheres para a aposta..) Debby. dever a esses titãs. Quero ficar com você essa seman a. não vai? . Decidiu ligar do seu quar to para a amiga e comunicar que não participaria da excursão que vinham planejando há tanto tempo. .pensou de si para si. . perdida. Esther e Jacob. . observava-os em silêncio. você não precisa ficar naquele lugar de mulhêres histéricas. e de um modo que che gava a ser assustador. no entanto. por alguma ironia do destino. . ou algo assim? . . Não era exata mente a irmã que desejava ..perguntou. Déborah. . e depois de hesitar alg uns segundos. embora estivesse exausta.disse ele. no entanto. .mas não ousou enxugá-los ali onde poderia m vê-la.Não é todos os dias que você vem. depois de um dia tão movimentado. cada gentileza.queriam demais fazer essa viagem .. 228 . era uma dívida a pagar. apesar de ser mais velha. Precisavam realmente. seriam muito mais fáceis. Suas manifestações de carinho eram patéticas e vulneráveis. Entre iguais.uma irmã que freqüentasse todos os bailes. já há muito tempo.A família está fazendo o melhor que pode.. . S uzy vinha fazendo planos para aquele "fim de semana".Não. Deu as costas e correu para o quarto. . .exclamou Déborah.Bem. . Jacob ficou olhando para longe. Levantou-se precipitadamente. sentada do lado oposto da mesa. . meio desconcertados vieram trazer a dose de s edativos receitada pelo hospital.perguntou Esther. Déborah.Ela a ama profundamente. . que se autodenominavam "pessoas normais".Não banque a mamãezinha comigo! Responda a minha 229 pergunta . se vocês todos deixassem de fazer tanto caso a respeito desse mi sterioso segredo. . Acredite . não. sentindo que começava a naufragar. logo você voltará para casa de vez . mas se conteve a temp o. um suplício que lhe pesava sobre os ombros como mas sas de chumbo. inepta e solitária.Você vai com eles. .Déborah. Aquilo que para os outros não passava de uma caminhada tra nqüila.Não! .Jacob cumulava-a de carinhos. e quando se debruçou para beijá-la. Ao ouvir aquilo. . .interveio Suzy .Suzy. que liderasse a torcida do time da escola.Você não vai por eu estar aqui? . tão pouco vivida.Não. procuramos aplainar todos os caminhos para você. Seus olhos se encheram de lág rimas . só fazia com que ela se sentisse.Aposto que não servem uma fatia de carne como essa "naquele lugar".Logo. Debby também. um intercâmbio natural.. Para Déborah. cumulavam-na de liso njas como se a sua volta ao lar fosse um verdadeiro milagre. não se deu por satisfeita.disse Esther. mas mordeu o lábio.mas. . Debby.. que tivesse mil namorados. .mamãe e papai já me contaram que aquele lugar não é u ma escola. lembrando-se que.berrou Suzy. sentindo que cada favor. veremos. esperando que ela acabasse de tomar os remédios. Festejavamna. Mamãe e papai precisavam dela agora. . Não estão deliciosos os cogumelos. veremos. . vou da próxima vez. tenho que ligar para Annette. .Escuta. por mais amorosa qu e fosse. disse: . para ela representava uma escalada árdua e exaustiva. incapa zes de avaliar a força tremenda que possuíam. Na hora de dormir. sussurrou num t om triunfal: . é que eu quero mesmo ficar dessa vez. as coisas ficariam muito mais fáceis! Sim. a felicidade e a paz da família repousa vam nela.Você combinou com eles para passarem por aqui primeiro. Não cabia em si de orgulho por ver a filha pródiga de volta ao lar.não é filhinha? Esse é o seu verdadeiro lugar! (O tumor começou a latejar . A irmã tinha um aspecto feio e cansado. mais d o que nunca. . que fosse glamurosa e atr aente .. Debby . Suzy virou-se para ela e ia responder. Era óbvio que mentia.perguntou Déborah.

Jamais te odiámos! friZou Lactamaeon. de sua liberdade em Yr. tu rias. Agora. . Trepa nas janelas da frente e fica a rrepiando os cabelos das visitas. os sons..Que mulheres histéricas? .".Não. e quantas oferendas trouxemos . Invariavelmente. a terra era um lugar extremamente perigoso e traiçoeiro. e que belo reino era aquele: havia a gigantesca águia do roche do. A ntes de irem embora. vôos puros. e a felicidade que sentia era tão intensa que seus pés não se contentavam com o chão. Sim. mir ando-se num espelho que refletia a imagem da graciosa amiga de faculdade da foto grafia.Perguntava-se no íntimo se ele teria escutado sequer um cochicho seu. Seus olhos foram se fechando e antes de mergulh ar no sono concluiu num murmúrio. um sorriso satisfeito pendurado n os lábios. cheio de prenúncios fatais e poços tenebrosos. e ela agora os exibia orgulhosamente a todas as tias e tias-avós. Nas trevas do quarto. 231 O sedativo começou a fazer efeito. galo pando num reluzente corcel.. o tempo e uma infinida de de outras descobertas maravilhosas .relutava seriamente em trocá-lo pelo seu o utro mundo. Conosco.. exceto um retrato de Helene de cabelos desgrenhados e olhos vazios. alguém que se chamasse Lucy. o pequeníssimo "Talvez" . os movimentos. Nenhum dos desenhos continha cenas do h ospital. com olhares cúmplices. com todas as forças de sua alma. ouvimos os gritos. acen ando com um feixe de centelhas na mão. Só que dessa vez a escala que media as virtud es da terra contava com novos valores-sobretudo a esperança. mas beleza' e alegria sujeitas aos caprichos e inconstâncias do tirano.Bem. prestando tributos verbais à Terra cinzenta e desolada. Yr continuou sendo fonte de beleza e alegria. do "era-uma-vez uma rainha que se c hamava Déborah. Déborah sabia que diziam a verdade. ravinas verdejantes e floridas onde pastavam ca valos selvagens. tudo começou a mudar com a jurisdição do Censor. foram breves esses tempos. Suzy acabou mesmo não indo à excursão. balançando tolerantemente a cabeça. extensiva a ambos os mundos.lembrou Anterrabae Antes não rias em parte al guma. mas o Yr dos velhos tempos. torcendo. em seguida. No início foi até bom que ele viesse. Deu um abraço apertado e cúmplice na filha. as velhas pediam que Déborah explicas se como fizera os desenhos e. tia Selma. um céu que se perdia de vista. era preciso escolher de novo. começaram a ser recortados os con230 tornos luminosos dos personagens de Yr. Débora h ganhava asas e voava.. Logo o reinado do Censor transformou-se numa tirania intole rável. . jubilosos e perfeitos. em segredo. . já sei! Deve ter sido aquela velha idiota da Lucy Martenson. e os mergulhos com Anterrabae arrastando uma imensa cauda de lu z. faziam alguns elogios extravagantes. Por mais deslumbrada que estivesse com o mundo . As visitas de parentes se arrastaram pelo dia t odo. . Ainda assim. cuidadosamente agrupados segundo o nível de ignorância das "condições" de Déborah. davam um beijo em Suzy e. diziam uma p iadinha a respeito de suas últimas conquistas ("Não. Fcomos para te proteger! . Caí a na besteira de trazer um pacote de desenhos seus para mostrá-los a Esther (sua p rimeira juíza). disse-lhe boa noite e saiu. isso foi há semanas at . Lembra-te de que viemos numa era de esterilidade e de morte de todas as esperanças ! .bradou Lactameon.. enquanto desfrutava. depois de um longo período de confusões c ausados pelas colisões dos dois mundos. Nunca ocorrera a Jacob que aqueles gritos aterradores pudessem pertencer a uma p essoa de carne e osso.exclamou Anterrabae. . quando nós visitamos. vistas como figuras minúsculas perdidas num jardim que se estendia até ao infinito. Havia um outro de Constantia com as duas enfermeiras que habitualmente a acompanhavam nos passeios. o de Yr.. para que não. Lamentavelmente. Ela se vinga de todo mundo fingindo-se de Tarzan.sua riqueza de cores e aromas. Não o Yr anárquico dos últimos tempos. Déborah soltou uma gargalhada p ara escapar à aflição de encará-lo: .Ah. Protegia e mantinha os mundos separados para que ela pudesse ir em segurança de um ao outr o. não vale a pena trocá-lo pela terra. As velhas ficavam olhando com um ar meio estúpido. e isso o tranqüilizou um pouco. Havia momentos de uma alegria extraordinária.

Meu pai vem me visitar essa tarde. ma s de forma clara. soltava um grito lancinante como se tivesse levado um tiro. menina burra! . referindo-se à religião. . a acontece que eu sou mais do que uma tola. Quando passavam p or Carmem. nada mais"). . Déborah temi a. Estava quase dorm indo. apurando os ouv idos. ano passado. Jacob apareceu na porta do quarto e rugiu furioso: .. Essa menina parecia-se muito com Helene.porque quando não se trata de Debby. morrendo de culpa. mas você nunca chama a vovó. o ato falho que. embora ela estivesse destinada a uma longa permanência na Ala D. Eu danço também e eu escrevi duas músic s para as festas do acampamento de férias. que continuava deslumbrada com ás formas e cores que desc obria no mundo. tcomou os sedativos e foi para a cama mais cedo. Chamava-se Carmen. dizendo com os olhos: "Quando essa exp lodir. Déborah. Ficava horas e horas largada num canto. Déborah sen tia que. Os seus três primeiros meses d e "lua-de-mel". justificar . sob as camadas da lógica e da vontade. inconscientemente. enquanto Esther fazia comentários lisonjeiros a respeito de seu charme e da sua postura na mesa. Embora sentisse que jamais c onseguiria se identificar com os costumes e hábitos das "pessoas normais". Durante o jantar. guache.Ai. car vão. e por m ais que a consciência negasse. Enquanto brincava com todos os brinqu edos da terra. vamos até a Ala A jogar pingue-pongue? . preferira ficar.gritou Suzy .protestou Esther. por isso é que estamos fazendo esse rebuliço todo. aludia à causa drogada e adormecida de todas as suas dores de ca beça e discussões.resmungou Suzy . 233 26 Veio a Primavera. ou convida tia Natalie e t io Matt para escutar a última música que eu compus ou o comentário inteligente que eu fiz! Será que você não compreende. estavam quase se acabando. 232 você não os escuta .Não posso. havia ne la aquela força indef inível que permite prever a cura. Fcomos à festa juntos. durante os quais as pessoas se agarram aos últimos trapos de sanid ade para encobrir uma horrível nudez. Eu não preciso fazer isso! Elogiar você é fanfarronice. e para sua própr ia surpresa a resposta que deu foi: . deixan do-a entregue àqueles elogios intermináveis. o que quer que fosse. Eu desenho também. o mundo material abria-lhe belas perspectivas e valiosas recompensas. Carmem. . Certa vez. mas trabalhava-se com o que estivesse à mão: "silk-screen". de repente. sobretudo. coch ichavam: "Eles mentem! Eles mentem! O veneno existe!" Aquela noite. . vai chegar até o teto". qu" estivesse transmitindo a ela a sua substância virulenta. . inteiramente inerte e. desmiolada e de scuidada! Você não está sendo injusta? . cheios de amor e desespero. você simples mente não escuta nada. aperfeiçoando vários estilos e técnicas novas. no entanto. Déborah observava atentamente a irmã preocupada com a melancolia que vinha notando nela já há dois dias.Calem a boca! Assim vocês aco rdam até os mortos! Os três perceberam imediatamente o deslize. meu Deus .Newtoniana. . animada por uma curiosidade insaciável. Os materiais disponíveis na oficina de artesanato da Terapia Ocupac ional eram escassos.Ei.murmurou Déborah aflita. Déborah e Carla entreolhavam-se. lá no íntimo. Elogiar Déborah é. aquarela. Poderia ter ido à excursão.rás. Yr e as regiões mais obscuras do mundo travavam uma batalha renhida dentro dela. quando escutou as vozes de Suzy e Esther na sala de estar. discutindo num tom bastante angustiado. e era filha de um magnata riquíssimo. Podem não ser tão "profundas" quanto os desenhos de Debby. mas o sono foi mais forte. ela só vai ficar alguns dias.cada visita que você faz ela você convoca toda a família.berrou Esther perdendo as estribeiras. Cada carta . uma pa ciente recém-intemada perguntou-lhe o que era. Foram para a cama cabisbàixos. ia desenvolvendo seus dotes artísticos.

Mas nenhuma das duas dispunha-se a abdicar desse pequeno motim contra o fastio dos domingos e as restrições do mundo. paz. . quando começou a ficar frio. Eram os dias de lazer. . os patrões trabalharão nos serviços mais rotineiros para aprenderem como são duras as condições de trabalho do operário.Os dois auxiliares esperaram por elas e em seguida flanqueando-a s.Chiii! Não tenho permissão para vir até aqui .Não.Não . . em parte como punição. Equipá-los e administrá-los era a parte prin cipal do jogo..Todas as minhas auxiliares terão que passar uma semana como pacientes. Irrompeu nelas uma sensação de liberdade maravilhosa. as pessoas ficavam desarmadas. deli ciando-se com o banho de chuva. Às vezes. as Aparências nunca chegavam a camuflar de todo.Vamos. Passavam horas intermináveis construindo-os e selecionando pessoal. as coisas certo. quando deram persi. . . Carla contou como foram agonizantes os domi ngos na época que esteve fora sentia-se trabalhando. .Você quer que a gente fique por perto ou não? . quando então as farsas eram reativadas e a superfície se to mava de novo perfeita. as roupas encharcadas. . Isso não era maneira de voltar. Consistia em decompor o mundo em inúme ros pedaços. mas se lavariam. s antidade e amor. é bom ter de lutar contra algo qu e não ceda e que nos dê a segurança necessária para extravasarmos toda a nossa loucura.respondeu Carla. . . estavam no prado. . foram surpreendidas por Henson e Cleary que saíam naquele momento do Anexo 3 em direção ao prédio principal. nem panelinhas. aspirando a neblina fria que recobre as manhãs primave rís. . então. N os dias de semana. bobas de alegria. É bem verdade que deviam estar com um aspecto lastimável.Nem eu. ironicamente denominados Dia do Desca nso e da Liberdade. . observando as fendas abertas pelo inverno na calçada e jogando o jogo dos sonho s que tinham inventado para passar o tempo. em parte por uma frági l e secreta esperança. . . concordar.Em primeiro lugar teriam 235 que ser fortes o bastante para resistir. .ponderou Carla.Poremos os nossos médicos-em-serviço realmente em serviço. Eram traiçoeiros os domingos. meninas.disse Déborah. penteari am os cabelos e vestiriam roupas mais apresentáveis antes de comparecerem à visita p ara ficarem de mediadoras entre o pai e a paciente mais esquisita que existia na Ala B. . Mas ali no hospit al.E o que é certo? . .. Aos domingos. No entanto. Eu só espero que consiga fazer.Na minha fábrica. A oficina de artesanato estava fechada. puseram-se a escoltá-las. e as tardes de domingo consis tiam numa luta desesperada para impedir que os outros mundos aflorassem. não permitiremos nem grupinhos fechados. até que c hegasse a segunda-feira. oferecendo ajuda. e depois reconstruí-lo todinho. Déborah ficou em dúvida. vocês têm autorização para sair à noite? . . concordar sempre. Sentaram-se na relva. . tudo ad quiria uma aparência desoladora de abandono. .Eu suprimiria todas as barras das janelas . . bem distante d os prédios do hospital.Concordar. e caminharam cabisbaixas de volta para o hospi tal. era possível baixar as Aparências como se baixa uma tela diante d o corpo e da mente.perguntou Déborah.disse Carmen com voz lânguida. . Ao cair danoite. Nos fins de semana.Ei. Começou a cair uma chuvinha fina .Olhe só onde estamos. .. Reafirmava-se nelas o desejo de perfeição humana. os domingos eram dias terríveis. Não podiam consentir em v .Na minha universidade. Iam conversando distraídas e. Débora e Carla passeavam à toa.perguntou Carla. eram os hospitais o que melhor conheciam. Apesar da segurança que o hospital ofer ecia. Ao se aproximarem do primeiro prédio.Ele 234 não compreenderia. Era domingo. contudo. .Íamos justamente entrar agora. leva ntaram-se.

respondeu Carla. . Cantaram uma parte do caminho. A chuva fustigava-lhes o rosto com força.Pare de se bajular tanto. absorvida em seus pensamentos. mas um homem prevenido vale por dois.. Ambas mergulharam imediatamente numa vala lateral. rindo de sua rapidez e agilidade. tiveram que entrar. Também não tinham plano algum. Na realidade. pelas estradas escuras que cortavam os fundos do hospital. a farra. como se tivessem sido treinadas a vida toda para aquilo. Déborah se perguntou pela primeira vez o que p retendiam fazer. rindo às vezes dos escorregões que levavam por causa dos sapatos encharcados.Tenho hora com minha 237 médica amanhã. se encontraram por sobre as cabeças das enfermeiras e trocaram uma p iscadela cúmplice. Déborah sorriu na escuridão. afinal. As duas. saindo por onde tinham entrado e. Recostou-se no barranco. . Pouco depois. Isso ainda é uma estrada pública. muitos anos. Procurou se lembrar do que Furii lhe ensinara a respeito de fazer o que realmente queria . mais cedo ou mais tarde . escalaram o barranco até a e strada . o que pretendiam fazer era o que estavam fazendo. Em represália. Mais tarde. mas que valeu. rindo e ofegando ao mesmo tempo.Não sabes o que te espera! . . Anterrabae entoava gloriosos hinos em Yr louvando os encantos do mundo. gozando uma sensação imensa de l iberdade. ao transporem a porta. Quando os faróis sumiram na chuva.Comporte-se! Tome seu sedativo e vá já para a cama.exclamou Carla esbaforida. Não tinham roupas secas nem dinheiro. Claro! . Logo que o carro passou. Avistaram uma luz. Carla e Déborah 236 simplesmente continuaram dando à volta... As duas auxiliares que vigiaram Déborah enquanto ela tomava banho.e lá se foram as duas de novo para a vala. Esfregando o corpo para se aquecer. Era um carro. Teremos que voltar. nem escoltada nem dirigida.declarou uma delas com ares de grande santidade.e voltaram a caminhar. diante d os auxiliares atônitos. correram. Carla e Déborah a previram simultaneamente e. com dores nos rins.Perfeito! Era justamente o que eu queria. Carla sac udia uma pedrinha do sapato. Você ficará essa noite. Passando a entrada. para cima? . tiritando de frio. apanharam a oportunidade no momento exato. ouviram a sirene que anunciava a fuga de pacientes. Mandaram gente para nos procurar! . não depois daquela sensação maravilhosa de liberdade.É. o banho go stoso de chuva. foram separadas uma da outra e escoltadas por uma numerosa guarda. -. se aproximando. as fugitivas saíram da vala e reto maram a caminhada. As dua s correram até ficarem sem fôlego. arquejantes. havia um con junto de portas giratórias. Déborah e sua guarda emparelharam com Carla e sua guarda a cami nho para o final do corredor onde havia alguns quartos de reclusão. por terem fugido e voltado com tarriantra tranqüilida de e doçura. galopavam ligeiras as nuvens. Minutos depois. pertenciam ao seg undo turno da noite. divisaram out ro carro. à distância. vão ficar em reclusão. os auxiliares automaticamente cercaram-nas por trás. sua biruta. Déborah conclu iu com seus botões: "Talvez eu venha a pagar caro por isso.Terei de voltar lá. transpuseram simplesmente de um salto. Ao seu lado. A volta foi longa. já dentro da portaria do prédio que abrigava as Alas B-C-D. e no céu t empestuoso. relembrando na cama os episódios do dia. . Não houve jeito: derrota das. ao que parece. e só então diminuíram a marcha e pr osseguiram andando.Mais perseguidores? . valeu!" E dormiu sentindo o cheirinho de chuva. livres ainda.oltar assim.pareciam gêmeas de tanta lama . Henson e Clear y tinham inconscientemente relaxado a vigilância. Entreolharam-se e seus olhos diziam: "Não!". Eu queria ficar sozinha.comentou Déborah em voz alta. Correram. surgiu a oportunidade ideal . coisa que não fazia há muitos. só isso. esperando que o c arro passasse. Ao se aproximarem da porta. o que significava que já passava de meia-noite. Porém. a porta de entrada e saíram correndo. . Terminado o banho. . . Seus olhares. . Só foram "apanhadas" depois de atraves sarem o portão de entrada.

. Ao sair do consultório.De quem foi a idéia.Recostou-se na poltrona esfregando a ponta dos dedos. só caem doentes quando já estão deitados. eu tive que ser atumai. Bem. Esto u um bocado orgulhoso de vocês. Pegam invariav elmente o sinal verde. o que é uma ati tude extremamente repreensível. Foram perguntar à enfermeira. . De onde eu vim chamava-se as pessoas assim atuma i. A palavra tornou-se uma idéia fixa . por algumas horas que fosse.Puxa. . torcendo para que ele entendesse. Ogden. .O que foi que aconteceu? Déborah contou a história. Decidi u afinal traduzi-la. a as coisas se mantém em ordem . com gripe. depois de uma sentida esPera interminável. . Elas sempre encontram um jeito de escapar ao último passo em falso. en fiou a cabeça para fora e acenou para . .perguntou Carla. que Déborah ainda não conhecia. oito delas se não me engano.ele deseja falar com nós duas. e aquilo íê-lo recordar-se de uma fuga que empreendera de casa quando menino. ele perguntou: -.Carmen foi para casa. .Ótimo! vou conversar agora com Carla. um tal de Dr. 238 Estou supervisionando os trabalhos da ala B por algum tempo. .perguntou ele.Deixe que a coisa saia.Foi divertido? . quando terminou. e um sorriso pendeu um instante nos seus lábios. em primeiro lugar? Déborah gaguejou. encontrou Carla esperando sua vez. De onde.Onde está Carmen? . escoltada também. pois ele sorri u levemente e explicou: . tateando em busca de uma explicação convincente. se foi! . as pessoas desajeitadas e inábeis como eu veneram as que não são. . .O Doutor Ogden está de cama.exclamou numa voz onde se mesclavam impaciência.Qual não foi a sua surpresa ao encontrar. . Ninguém teve a idéia. C arla também. girou a cadeira em direção à janela. Levaram-na ontem à noite.Não vejo razões para r evogar os privilégios que lhes foram concedidos.Não sei. Ela entrou e. e sempre que contam p iadas. Foi divertido. . Lá fora. .Venha. . No fundo do jardim corria a sebe verdejante. rindo e cantando debaixo de uma noite tempest uosa.O atual administrador da Ala B era um médico novo. a auxiliar bateu na porta do Dr. isso é raro aqui.Está bem. Fizemos e pronto. Nós duas.Ah. que os olhos de Carla interpretaram co mo um sinal de desgraça. . . A gente não decide quando vai espirrar. As versões do que fizeram coincidem uma com a outra. .Quero avisar a ela que está tudo Terminado Ela nos viu fugir e deve estar bastante preocupada. não foi? Uma diversão compartilhada pelas duas. frustrando seus esforços para se concentrar numa explicação mais compreensível. . Déborah encolheu os om bros. Quando elas saíram. 239 Foi a vez dos guardas se entreolharem.. . o D outor Halle. O Doutor Halle ostentava uma expressão sev eríssima.concluiu. farejando o ar. todos riem. O melhor que f aria era tentar lembrar-se de todas as histórias que escutara a respeito de escapa das. O médico a interrompeu duas vezes para esclarecer detalhes e. quando apan ham um barbante para amarrar um embrulho nunca falta um centímetro. Halle procurou tranquilizá-la: . Percebendo a sua hesitação. O contentamento deve ter transparecido no seu rosto.Recompôs a fisionomia severa. e quero que você espere lá fora. com uma cara assustadíssima.Vocês infrigiram as normas do hospital. os galhos nus das árvores carregados de brotos primaveris. Ontem. . mas logo pôde suspirar de alívio ao notar que ele lutava para conter o riso. o Dr. . por isso. e pensar em alguma versão que tomasse suas razões suficientemente convincentes. Chegando lá. . Havia um termo Yri que descrevia bem o que sentiram naquela ocasião. Em resposta ao seu olhar interrogativo. Ogden. Déborah entrou precavida. Às 11 horas da manhã. Espirra e pronto.Entre! .Reviu mentalmente a cena da fuga na porta giratória.. eu.O diabo é que tinha que parecer sã. . É só isso . por detrás da escrivaninha. crianças! . . admiração e um grãozinh o de inveja. Im aginou as duas meninas caminhando. Não via Carla desde a piscadela da noite passada. num gesto imperceptível e experiente. ninguém liderou. não a tenho visto. foi escoltada sob guarda aos escritórios da administração.

Mas o pai não veio só para visitá-la? . e leu a notícia até o fim.Vocês a conhecem? Quer dizer.Quanto tempo ela ficou aqui? .. . A manchete anunciava: FILHA DE MAGNATA SU ICIDA-SE. Carla saiu cedo para a entrevista com sua médica.perguntou Helene.O que aconteceu? . . seu verdadeiro sorriso insinuou-se por detrás do falso. . . encerrada em seu próprio claustro. . . O seu sorriso "normal" era precavido como uma armadilha prestes a disparar. Podiam tê-la retirado dali ao primeiro fracasso. . . desligada de tudo e de todos. Só sei que ela saiu com o pai por vol ta das sete horas da noite.. . . as mãos geladas. Termi nava com minuciosas considerações a respeito da imundície que resulta quando uma pesso a dispara um tiro de revólver na têmpora. acusou-as de hipócrit as e mentirosas e.Ela discordou.No final das contas. você viu Carmen ontem? .Terry. num instante..Pelo tom. . como é que você pode ter certeza? . e não o fiz eram. Déborah deu uma olhada nele e o e nfiou rapidamente no bloco de desenho. Sentia-se arrasada. conheciam? . se eu não estivesse morta de medo. ao se levantar . havia um intenso contrabando.Acho que você está dramatizando a coisa só para conseguir um pouco de sofrimento gra tuito! . Os de Carmen não lhe der am sequer uma chance. Quando Déborah e Carla disseram que estavam contentes por vê-la. Déborah e Helene estavam sentadas no corredor. é sobre Carmen. Sim. e logo souberam da novidade .Apenas o suficiente para aprender a discordar . e só voltou um pouco antes do jant ar.. Helene veio para a Ala B. 242 Eu não disse que ela teria conseguido. logo que recebeu seus privilegios. me sentiria tão grata! 27 Mortalmente pálida. a oportunidade de poder travar a batalha. Deb... metida num vestido estampado de flores lilazes que nada tinha a ver com a agilíssima tigresa que o usava. Olhou para baixo e encontrou suas mãos ensaiando gestos ve ementes em Yri. . Carla.Parece que sim. ao passo que os meus. cuja espingarda..Hum-hum. mas acho que mudou de idéia.murmurou Déborah.. Permitiram que ficasse. . e por muito tempo.acusou Helene no seu tom áspero de voz. Embora fosse proibido ler jornais na Ala B.respondeu Carla. sobretudo. as vozes acabaram atraindo outras. . vi. via-se que a enfermeira queria encerrar a conversa ali mesmo.Oh. Jamais exigiram que ela se recuperasse para restau rar o prestígio da família. Levaram-na à oficina de artesanato. . . . com bobs no cabelo e um bloco d e desenho nos joelhos.Viram muito 240 mais ódio do que amor. Suspendeu o bloco para ocultar o recorte. . compondo palavras mudas que só a ela falavam. era bem Helene quem estava ali. .O que será que aconteceu? . Déborah compreendeu que o que devia a seus pais era. . furiosas com a perversidade do mundo. lembrando-se do trigal e do caçador. e isso'deixou-as ainda mais contente s.Ela poderia ter conseguido se safar.Carla. mesmo sem haver qualquer sinal de progresso. . e ainda assim permitiram que eu ficasse.. quando avistaram Carla vindo cabisbaixa em direção a elas.Estendeu um recorte de jornal. . Déborah e Carla entreolharam-se. foi liberdade o que eles me deram. seria um verdadeiro canhão. com a fama violenta de Helene e as lendas que circulavam a seu respeito.Meus pais. mas sim que poderia ter conseguido. encarregou-se de preencher o c onteúdo de seus gestos.Déb.disse Déborah baixinho. Déborah foi t ambém. Conservaram a fé num futuro que talvez jamais desse os frutos pelos quais an siavam.

já sem fôlego. Continuo achando que Carmen poderia ter vencido. ressoou um trovão: .Meditou um minuto.Viver é lutar! . mas o fato é que estão ali há anos. . como pessoas. Só que dessa ve z. e nada e ninguém os ajuda. porém muito mais vulneráveis do que as da Ala D. . foi você mesma quem disse que Carmen explodiria até o teto a qualquer minuto. .objetou Carla. Mas.Reparem naquele monte de homens internados n a Seção Masculina. O que pretendia? Estaria tentando impedi-la de dizer qualquer coisa que pudesse degenerar em confusão e obrigá-la a se desdizer. . estourada do je ito que sou? . Déborah percebeu que aquela agitação de ânimos dizia menos respeito ao suicídio de Carmen. só isso.Proferiu essas últimas palavras.Carmen poderia ter se salvado. hein! . vou tentar de novo A resposta a apanhou desprevenida.de uma forma mais premente e impetuosa. afirmações de "ma leviandade teme rária. . apa vorada com o olhar defmição da antagonista. diante das car as hostis e incrédulas. investiu furiosamente: -Ridículo! . . Atingira um nervo particularmente sensível.Você está querendo saber como eu consegui sobreviver até essa idade. Isso é doença-d oente. A equipe médica g osta deles. estava abaladíssima. lá na D. apren dera bem as lições de Furii. Déborah se achou defendendo com ardor o pequenino "Talvez ". não sentir muito.Impossível! .Uma tensão vibrante percorria em sussurros a ala. que consistia numa fuga constante. em suma. Quando a enfermeira veio dispersá-las. Déborah olhou ao seu redor e se viu cercada p or fisionomias congestionadas de ódio. a "autoridade psicológica" da Ala. Reinou um silêncio intranqüilo e. que já havia lido tudo sobre o assunto e vi via distribuindo jargões como quem distribui moedas. . sem saber porque. Para sua própria surpresa. Ela tinha uma enfermidade boa e saudável! . vou começar a procurar trabalho onde não fique enclausurada num quarti nho 244 . Linda. Asenfermeiras que estavam de p rontidão não sabiam se falavam se guardavam silêncio. Sorriu daquela ironia. "sadios" e espirituosos. Déborah a encarou intrigada. . vive intensamente. À distância. São todos muito racionais. .Porque você haveria de sentir falta de mim? .. luta. Déborah encarou provocativamente L inda.Porque vou sair. No entanto. . Parecem não sofrer muito e. exposta. Vão vivendo.É a mesma co isa. e mais ? contradição entre o cinismo que existia dentro de cada uma e ânsia vacilante e cega de lutar que se traduzia em calorosas disputas verbais. Sentiu revigorar dentro de si a força silenciosa que emanava do "abrirse ao mundo".exclamou .. não é impossível. Deb. nem se entregava às farsas ha bituais com os médicos. ículo! Você está apenas racionalizando seu próprio sistema de defesas! 243 Déborah procurou ser mais objetiva: . o nervo da Ala B. fugia à dor envolvendo-a "m palavras pomposas e eruditas. ou então q ue pudesse ameaçar as defesas que as pessoas erguiam para conter o sofrimento? . mas não deixou de se q uestionar: "Que medo é esse? Medo por mim ou por Carla? Por mim? Porque vou perder uma amiga para o mundo? Ou será porque em breve eu terei que ir?".vou sentir sua falta. mas em compensação ela senete. num esforço absurdo para suste ntar a farsa do "tudo bem-tudo bem". não se mascarava com aparências. tal como naquela noite milagrosa na Ala D. Curioso é que o medo que sentia era o mesmo que levara as pessoas a rejeitarem ass ustadas a sua definição de "uma boa e saudável enfermidade".Que absurdo! Isso é uma contradição em termos! . Suas idéias eram claras. mas jamais conseguiria convencer aquelas mulheres mais sãs. Déb. em Yr. sobretudo.Não.Depois de tanta terapia.Você gosta mesmo de atiçar as feras.Ela tinha uma enfermidade muito dolorosa . é impossível que eu não consiga percorrer um quilometrozinh o até a cidade. como uma dolorosa bofetada.comentou Carla mais tarde vestindo-se para dormir. mas sincera. Tremia de medo. . A velha Coral. pode estar doente..

Déborah se afeiçoou a ela e. Assim que terminar. todas com um ar muito piedoso. Sua memória fora devas tada."Minha família sempre teve queda para a música. Um dia. A curiosidade a impeliu até mesmo a freqüentar a vida social da cidade. mas receosa de que o medo traduzisse a respos ta para um Yr incompreensível. acima de tudo. finalmente. medo. pr ocurando descobrir novos caminhos. m as logo compreendeu que participar estava fora de cogitação. Na sua maior parte .declarou a sua companheira de quarto. . Déborah fechou os olhos e pôs o dedo ao acaso na lista. Doris Rivera devem ter visto: . onde moravam e o que pretendiam fazer quando terminassem o estágio. . . receosa e excitada ao mesmo tempo.. . veterana da psiqui atria mecânica e que já tinha passado por uma dúzia de hospitais. faltava-lhes a sensibilidade para reconhecer a fome impetuosa de uma criatura recém-nascida no mundo. A nova companheira de quarto era uma menina meiga e generosa. Debo245 rah não desanimava. A assistente social possuía uma lista de quartos na cidade que podiam ser alugados para pacientes em regime de externato. eu sei . Só que ficam um pouco l onge.Pouco me importa que você vá . sempre quietas. arrumo a trouxa e me mando daqui também! Quando foi procurá-la para se despedir. . lá do outro lado da cidade. rancor. vou sentir sua falta . e quando veio a resposta.. . e minha mãe é Sophie Tucker.vou sentir sua falta. sabia? Estou fazendo uma pesquisa para minha tese de doutôrame nto. Quando a a ssistente social começou a explicar do que se tratava. a menina acabou deixando de lado o assunto família ou os atritos conjugais de seus pais. mas a doença continuava intacta. .confessou Déborah desolada. . de modos delicados e voz suave. Costumava ficar sentada junto às enfermeiras e estagiárias escutando embevecida elas conversarem.Falava com u ma voz desanimada e assustada.Na verdade. encaminhou o pedido de autorização para abandonar o hospital Rangérãm as eng renagens da burocracia. solidão .disse a assistente social . onde não há pacientes morando. depois de algum tempo.Não sei se você sabe. Déborah a encarou firme esper . e ela. Era uma senhora idosa.Tem um ou dois quartos novos. que clamava pelos seus direitos inatos. O primeiro passo foi ingressar emdois coros de igreja.uma mescla de estupor. -Freqüentemente ia até a cidade a pé e depois voltava. Agnes (Eles são violentos?). . Por is so sou tão sensível". A pequena e insular com unidade tinha verdadeiro pavor do hospital e de seus ocupantes. distraidamente. Fulgurou-Lhe na memória o episódio do tornozelo t orcido no St. e ainda antes de Carla.Terei que acompanhá-la . Talvez tenha sido esse o principal problema da última vez. tocaram a campainha da porta e aguardaram.Sim. com uma determinação teimosa e inquieta. eu não sou paciente. contentou-se em deitar na cama com os olhos anuviad os de medo. cheirando e apalpando tudo o que lhe caía às mãos.interrompeu ela. Procurou depois o pastor Metodista para conversar sobre o grupo de jovens que ele entretinha. . . .minúsculo. Por mais que ignorassem a sua pre sença. mas a lei exige que nós declaremos. Quanto às senhoras do coro da igreja. como se refletissem a desgraça dos leprosos que os habitavam. Déborah tentou formular um "Claro!". suas famílias. olhando. Déborah continuava animada de uma curiosidade insaciável pelo mundo.É uma exigência. a menina olhou para ela surpresa como se n unca a tivesse visto antes. . Atribuía a si mesma as mais divergentes proce dência familiares .Déborah ouvira rumore s a respeito e conhecia alguns devido às suas caminhadas . onde não era b em vista."Meu pai é o Paderewski. . Greta Garbo e Will Rogers . Chegando a um velho casarão. persistente. P erguntavalhes por suas vidas. .eram pobres e sombrios. inveja e. por e xemplo. A proprietár ia veio abrir. Tomaram-na invisível.diria. Déborah viu no rosto de suas com panheiras a mesma expressão que Carla. Afastou-o com um ligeiro tremor.Daqui a pouco você vai também. comparecia. .

um mapa. E não tinha nada de arruinada. A terapia atravessava uma fase pouco inspirada.Ainda que o seu rosto me pareça ótimo.ando a qualquer momento por um olhar cauteloso.Olhe.'. Sim. parecia-se com todos os que o nganon atrai . lá também existe amor. Como pude esquecer disso? . antes de nos mudarmos de volta para Chicago.. A vel ha não tinha entendido? Quando a assistente social terminou de falar.De ambos talvez. que realmente não era estragada! .retrucou Furii . Mas logo aprendeu o novo m odo de vida e ficou boa. Por mais que f reqüentasse os ensaios do coro da igreja. .Sim. talvez ele demonstre uma certa ansiedade quando você está com as pessoas. e ela também. . O reinado sombrio da destruição.Enquanto você esteve doente daquele jeito. Eram todos muito gentis.Sim.É bom conversar com Lactamaeon.Sorriu . um ho mem que servira na marinha e que tinha o hábito de falar sozinho. Inúmeras histórias assus tadoras. .Você teve notícias dela nos últimos anos? . não ponha papel na privada que ela está velha e um pouco ranzinza. Agora que retornou ao mundo . que sempre lhe parecer a uno e denso. as aulas de costura na escola secundária e até mesmo um clube de excursões para adolescentes ("Venha Um Venham Todos"). tinha agora algumas fendas que deixavam passar a luz do sol. não suscitava receio. claro! Está cursando a faculdade agora. Déborah. . esse quarto tem mais luz. você é capaz de se lembrar do que havia além das trevas.. e minha amiga. .Gostaria que você voltasse de novo para a sua infância e revolvesse aquela época cin zenta da qual já falamos.De quem é a culpa: da cidade ou do meu rosto? . Quando veio morar em Chicago. 246 Ou o franzir dos cenhos. quando ele está bem-humorado. sim. . Cansou de ver as mães chamarem apavoradas os seus filhos quando passava "O Capitão". . ou do coro na igreja..Ah?. espero que gostem do quarto. estão vendo. ela se limitou a acenar de leve com a cabeça: . aquele ano que passamos na casa alugada. . . graças à sua aparência mais "normal".Não me refiro à linguagem ou aos deuses propriamente .era uma pessoa solitária e tristonha. mas um abismo intransponível os separavam. por fav or. mas o outro fica mais perto do banheiro. Déborah mergulhou nas recordações.mas à força qu e exercem no sentido de mantê-la afastada do mundo. Ah. "boa noite". Quando volto para ca sa depois da aula de costura. onde sou uma estranha. Veio a descobrir depois que a proprietária Dona King. . por uma cara hostil. à qual não pertenço. algumas verdadeiras. bom. aos poderes esmagadores de Yr. pelo menos depois que se aco stumou à vida da cidade. outras falsas. não suscitava nada.respondeu Furii. . Você precisava ter t odas as razões para se entregar a uma renúncia tão grande.Sim. Aliás. . . . é um hosPital para doentes mentais-insisti u aflita a assistente. fique sério e diga coisas que . é bom ter com quem rir e conversar. busc ando nas atuais situações de liberdade.Sim.Ne-n que minha vida dependesse disso .Lembro-me inclusive de dias inteiros. de repente. .Mas Yr também é belo e verdadeiro. novos aspectos a confrontar com o passado. recordar-se de uma amiga ou de um rai o de sol implicaria em transformar toda uma visão do mundo. . eu vejo! ..prometeu Déborah.Você teve uma amiga? . nada mais. . mas eram insignificantes comparadas. como pude esquecê-la! . é bom ter alguém que faça gracinhas e. . acabaram inculcando na maior parte dos habitantes da cidade um medo e uma a aversão absolutamente irracionais. quer dizer. é preciso que tenha razões. de trabalho mais cotidiano. . suas r elações com as pessoas não passavam de compartilhar uma máquina de costura. . mas nada disso ( aconteceu. .. Talvez a senhora não tenha entendido bem. As trevas serviam justament e de contrapeso para as luzes que simbolizavam a vivência do amor e da verdade. Isso sim é doença. era nova na cidade e não fora educada nas lendas fantasmagóricas que cercavam Aquele Lugar. P ara que uma pessoa renuncie ao mundo. 247 . até eu vir para cá. ou responder "boa tarde" ou. Quando a acompanhante foi embora. . um livro de hinos. que não admite mudanças. a velha se contentou em dizer.

Receio.Plenamente? Furii assentiu com a cabeça. e de como os deuses. que o construiu à imagem e semelhança de si mesma. ."Serve para iluminar ou aquecer?" . e e le respondeu: "Serve para alimentar anos de sua vida. então.E quanto à sua nova amiga. muito tempo.248 nos comovam. Primeiro eu pedi: "Ênsinem-me matemática". viveram juntas as agruras da enfermidade e lutaram juntas para escapar às suas gar ras. não é assim? . não dissera nada. Lembrou-se que Carla jamais demonst rara interesse em ver um trabalho seu. Supôs que ela devia ter achado algum rascun ho. Eles riram sem graça e acabaram admitindo que seus conhecimentos não iam além dos meus.. uma mudança sutil se oper ava em Carla. eu estava rindo em segredo com Idat e Anterrabae. em local seguro.perguntei.Na realidade acho que sempre soube. no entanto. num processe quase que concomitante. por ser sua amiga. . um desses desafios em que se brinca e se fere ao m esmo tempo. a atitude de Ca rla e o seu ressentimento passaram desapercebidas. Anterrabae exclamou:Mas é claro! Encetamo s. não é. então. a frieza. Como.Quando foi que você finalmente percebeu isso? . Havia tantas coisas novas para compartilharem que essa única fenda não faria muita diferença.Mas agora você sabe. Furii lhe lembrou as crueldades cometidas pelo Coletor. Em meio à sôf busca de vivências. seus temores e todas as suas tênu es e frágeis esperanças. Aproveita : do que as recordações felizes continuavam vivas na memória d. Depois começamos a nos insult ar um ao outro. çle srecorriam a todos os seus métodos de sedução. Déborah começou a prestar atenção a isso. quando se de sanuviou a sua relação com o mundo. Carla trabalhava durante o dia como técnic a de laboratório e passava as noites estudando as novas técnicas para recuperar os c inco anos que perdeu internada em três hospitais sucessivamente. Mais tarde. havia uma proximidad e toda especial entre elas. Não tinham segredos entre si: contavam suas vidas. perguntei a Anterraba e: "Esse aí é o meu fogo que está queimando dentro de você?" Ao que ele respondeu: "Por acaso não valeu o combustível?" . Sua fisionomia endurecia imperceptivelmente e seus modos beiravam." Eu disse: "Todos os anos? Para sempre?" "Uma terra contestada. .Admiti-lo causava-lhe profunda dor. . . que o cri ou a partir do seu próprio humor e de sua própria beleza? -. fora dormir pensando em falar à Carla . . Seria maravilhoso se eu pudesse despachá-los quando quisesse. PodeTríâm ter sido amigas em qualquer parte. . Semana passada.perguntou Furii com uma voz meiga. esse estranho desin teresse destacou-se com maior nitidez ainda. que tinham esc rito um coral baseado num poema de Horário. e provavelmente não tinh am gostado mas.E o Coletor estaria incumbido das críticas a você. Carla? Você a vê freqüentemente? Déborah lhe cont ou uma coisa estranha que acontecera. a espirituosidade e a sensi249 bilidade poética porque é muito mais difícil combater um inimigo amável. ainda receio que eles sejam de certo modo reais.perguntou Furii. . Déborah.Sim. a camaradagem foi cimentada e tingida pela seiva de vida emergente e de luta. Furii perguntou: . de novas experiências que ambas empreendiam. agora eu sei. sua Terra!" . crescendo. poupá-la do s altos e baixos de sua arte. . e onde cada sensação e preocupação era duvidosa. já há m uito. Déborah. recita poesias que nos fazem chorar e nos dê vontade de contemplar as estrelas. tinham deixado de ser belos. mas sempre que estavam juntas. Num dado momento. porém. na época em que costumavam ficar catando papéis na Ala D. uma espécie de desafio. porém. rindo mas magoando também. Agora que ela começava a reagir. Mas naquele universo de bruscas e surpreendentes oscilações emotivas. Mas já há algum tempo que ela vem crescendo. . ond e coexistiam amor e ódio. Déborah decidiu. Não se viam muito ultimamente. comentei: Esse é um dos poucos que conheço inteirinho de cor. sempre tive uma suspeitazinha guardada lá no fundo. . reparou que sempre que mencionava sua ar te ou qualquer outra coisa em que estivesse trabalhando. No sábado anterior. e quando o cantaram.

. O sonho se passava numa noite de inverno. sonhei.É isso a vida de Carla? . veio lembrá-la de uma outra alegria: a compreensão de C arla. mas o sonho foi se desvanecendo e as vozes das estrelas sumindo até desaparecerem de todo. .mas posso mostrar o de Carla.Reproduzia os mínimos movimentos dela.Deixe eu conhecer o arco da minha vida? .Sim. o sonho.Pediu. . sim.Você sempre teve em al ta conta a sua arte.. Os morros cobertos de neve. . . é uma curva. as estrelas congeladas luziam frouxamente. mas não é nada disso. . seu sonho..É. uma voz grave e profunda a interpelou . . retrucou a voz .perguntou estarrecida. mas mesmo assim eu acho que é verdade .Após uma pausa. a do homem. Carla a escutou so fregamente. sei que soa como aquela velha l enga-lenga de "menina sortuda". . Déborah caminhava sobre a neve.O seu. ela escutou uma cantiga de ninar entoada pelas estrelas.O único lugar para onde eu jamais poderia ir.O que é que você está vendo? Como é? . distraída. Ela enxugou os olhos.. O seu talento é tão fértil que resistiu às piores fases da doe Agora você pode compreender a situação daqueles que não têm a sorte de possuir uma vocação ativa. você realmente sonhou isso. Ele está enterrado e congelado lá no fundo. de um negro denso e azulado. Furii disse para ela: .Sim. Déborah. varridos pelo vento. Apesar do frio cortante. Déborah olhou em direção ao horizonte. Quando Déborah concluiu o seu relato.Olhe para lá.Você acha que é verdade.Você sabia que as estrelas não emitem só luz.Jura que não inventou nada. Em momento 252 . espesso.afirmou Déborah. de um branco vivo e fosforescente. como se estivesse perseguindo a salvação. Lembre-se da amizade sa udável que você precisou sepultar no esquecimento.Também vou ajudar a sustentar a curva da história? . . . . mas tam bém sons? Apurando os ouvidos. Depois de muito tempo. apesar de você tê-lo encontrado aí enter rado e congelado. revia as estrelas e suas mãos apalpando a curvat ura suave do osso. Na manhã seguinte. O ápice de todos esses arcos individuais compõe a curva da história e.Vê. não é? Lembrome que lia constantemente nos relatórios da ala como você sempre arranjava um jeito de fazer seus desenhos. foi só um sonho. . .. a partir da qual possam crescer e se desenvolver. Era um frag mento de osso. su as mãos esbarraram num objeto duro e ela o arrancou para fora da neve. De repente. e dos tempos felizes que baniu da memória. um belo e sólido osso! Déborah quis ainda implorar à voz que revelasse a configu251 ração que teria a sua vida. . descrevendo uma curva regular.Ah.É um belo osso. não posso mostrar -.. . . .suplicou Déborah.A voz silenciou um momento e depois concluiu . Quando Déborah retirou o objeto enterrado. trabalhou com um grande ardor. Déborah. apesar de toda e qualquer inconveniência ou restrição. O espaço que fica para além é a curva da história da humanid ade. Déborah cavou com as mãos um buraco na neve. . você acha mesmo que é verdade? . Quando lhe descreveu o osso e contou o que a voz dissera. o luzir da ne ve e o luzir de uma lágrima gelada que escorria de seus olhos. No céu.Esse osso está profundamente entranhado nela. arqueada e extensa. Cave aí bem no fundo na neve.o único desejo que jamais poderia admitir. Carla veio visitá-la e enquanto conversavam à toa.Contei exatamente o que aconteceu. Teve um sonho incrível . ela perguntou ansiosa: . a voz disse: noite é uma curva de trevas. projetavam longas e sinuosas sombras . . . como se estive sse limpando a neve do achado.Sua criatividade? . portanto. . Acho que esse sonho. lembrava-se nitidamente do sonho. onde cada vida constitui um arco ligando o nascimento à morte. . . . . . então. A voz interpelou de novo: .disse Carla pensativa .a respeito de um novo pensionista e do genro da proprietária. e contou-lhe. contemplando o luzir das estrelas. Carla desatou a chorar. sólido. e o conjunto de vozes era tão belo e comovente que a fez chorar. .Por favor não se zangue. Quantos não a invejariam.

Precisava ampliar o seu campo de experiências. grande demais para voar. Conhecia Latim e um pouco de Grego. Aos domingos. em meio a rostos idênticos aos que encontraria ali. os tofmentos inf . . pelas fagulhas que so bem das fogueiras em direção ao céu. . e nriquecer sua vivência. nesse sonho. Pouco a pouco. Folheando os jornais da cidade. os in esperados mergulhos nas trevas de Yr . Os psiquiatras eram 254 todos igualmente estranhos na cidade. nunc a deixaria de ser uma criatura invisível e inaudivel. a título pessoal. pela sucessão majestosa dos dias e das noites. Nem para garçonete ou balconista de magaz ine. e as velhas recordações qu'e guardava da escola. Comparecia a todas as cerimôni as metodistas e escutava os mexericos que circulavam no "Clube do Altar das Senh oras". Por mais simpática. já não a satisfaziam mais. serviços que exigiam pouca capacidade intelectual. pelos amigos. Recordou-se das lut as que travara no íntimo. . . aco rdando para mais um apelo do mundo. Furii ia dissipando aquela velha certeza de que a sua vida era um a vida amaldiçoada e arruinada.aconteceram em corredores idênticos aos daq uele prédio. pelos amigos. tinha aj jpalificaçéesnecessária s. A doença. Déborah passeava os olhos com curiosidade pela congregação: teriam alguma v ez agradecido a Deus pela luz que iluminava suas mentes. Fri ed. s entia cada vez mais que suas ambições e esperanças já não cabiam nos ensaios do coro e nas aulas de costura. Aperspectiva de vir a f reqüentar "na daquelas salas de aula a assustava terrivelmente. A medida que o mundo ganhava uma riqueza maior de formas. Evocaram de novo o velho brado Yri . é claro. em silêncio.algum você renegou esse seu profícuo dom que a maioria das pessoas dariam tudo para possuir.se. ouvindo os sermões do pastor. completou: . Suas recordações de es cola ainda estavam muito vivas na memória. e há muitos anos não lidavam com estes problem as de trabalho. Quem sabe. realmente não dava mais: suas atividades meros passatempos para preencher as ho ras vagas. Ao chamá-la duas semanas mais tarde. . eram de quase quatro ano s. dimensões e cores.disse ele .Bem. ocultar sua condição de cidadã e cativa de Yr. recordações episódicas de uma visitante num lugar estranho. Teriam consciência de como eram be las e invejáveis as suas vidas? Não. Déborah fora justamente naquele dia dar uma olhada na escola secundária. antes de assumir a convicção de que . pelo frio e a dor que reagem às leis da natureza. mas os terrores finais . dos esforços enlouquecedores que lhe custa ra manter as aparências. e o administrador que cuidava das questões das pacie ntes em regime de extemato. montões de pedra pousad os ali como uma gigantesca ave.. prestativa e "sadia" que se mostrasse. prom eteu. depois de insinuar mais ou menos a mesma coisa. par ecia um tanto surpreso. pelos amigos.A senha de todos os condenado s. não havia para ela empre go algum. O hospital não podia ajudá-la em nada.doutôra Fried deixou claro que isto era um problema que e la tinha de resolver sozinha. mas não tinha o diploma secundário.e tudo leva crer que você terá de cursar a escola secundária para conseguir qualquer emprego. você não estava abrindo os olhos para isso. em sono. mas não conseguia penetrar um milímetro sequer além daqueles sorrisos polidos e frios c daquelas delicadezas puramente formais."Imutávelmente. que fazia de Déborah um instrumento e uma cúmplice de sua destruição. Era um conj unto imenso de prédios que bordejava o outro lado da cidade. .. pense demoradamente no assunto. .ra intrinsecamente dife rente dos outros. Recordou-se do misterioso soldado japonês. pelas expectativas que podiam acalentar. por mais rudimentar que fosse. nganon clama por si mesmo". 28 Déborah levou uma vida pacata nos meses seguintes. ficou surpresa de ver como conhecia mal o mundo e todas as suas pequena s exigências rotineiras. Gostaria de trabalhar.os lapsos e ausências. A própria. suportando estoicamen te os ferimentos que o levaram à captura. estudar o problema. viera crescendo dentro d ela desde os primeiros anos.Conversei com várias pessoas .Percebendo o olhar apavorad o dela. trabalhando numa série de desenho s a bico de pena e abrindo caminho para o passado em densas sessões com a Dra. Numa cidade tão pequena e estagnada.

lingidos por Anterrabae, o Censor, o Coletor e o Poço. Apesar de todas as concessões que fizera aos seus captores, Déborah perdera inteiram ente o ânimo para continuar sustentando aparências. Participe, se engaje, se entregu e a qualquer preço, diziam eles. Mas agora sabia qual era o preço. Numa cidade tão pro vinciana e mesquinha, onde haveria entre ela e seus colegas de turma uma diferença de, pelo menos, três anos de idade, e uma distância incomensurável, sabia perfeitamen te que, na melhor das hipóteses, o mundo se tomaria uma verdadeira terra de ninguém. Mesmo estando abalada a sua sujeição a Yr, ácaba255 ria, inevitavelmente, se alienando do mundo, se refugiando num outro mundo, e tu do recomeçaria de novo. com ou sem Yr, era tarde demais para se juntar novamente a estudantes como esses, tarde demais para bailes de escola, panelinhas, faceiric es e frivolidades de coleguinhas de turma. Fartara-se já do "vocabulário especial" q ue convinha empregar nas relações de engajamento com esse tipo de mundo. - Tenho dezenove anos. . . - declarou para os prédios da escola. - É tarde demais! Afastou-se, tiritando de frio, debaixo da forte ventania que Yr soprava por sob re a distância, ao mesmo tempo real e irreal, que a separava de tudo aquilo. - Não posso voltar aos-meus adoráveis dias de ginasiana - disse pafã~o administrador. - Volibol no pátio, mexericos, festinhas de escola, não dá. - Mas sem o diploma secundário... - Non omnia possumus omnem! - retrucou, lembrando-o de que se tratava de Virgílio. Sabia, no entanto, que ele tinha razão. - Por que então você não prepara uma lista enumerando tudo o que é capaz de fazer? - pro pôs o administrador. Seria puro faz-de-conta, "fazer coisas úteis", nada mais do que enumerar becos sem saída. Mas, que jeito? O que ele queria, na verdade, era livra r-se do "abacaxi". Faria a tal lista. Quem sabe não descobriria alguma preferência, um talento, qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Lá estava o pequenino "Talvez" transformando em calor e ânimo uma ínfima e vulnerável fagulha. Voltou à pensão, foi para o quarto, sentou-se na mesinha, apanhou uma folha de papel e dividiu-a ao meio. Numa das metades anotou CONHECIMENTOS, na outra EMPREGOS P OSSÍVEIS. CONHECIMENTOS 1 andar de bicicleta. 2 saber Hamlet inteirinho de cor. EMPREGOS POSSÍVEIS 1 garota de entregas. 2 - professora particular, para meninos que estejam aprendento Hamlet na escola. 256 3 poder acordar do sono mais pesado em posse de todas as minhas faculdades. 4 - tremendo vocabulário de palavras obscenas. 5 algum grego. 6 algum latim. 7 frieza de cálculo e insensibilidade. 8 artista há dez anos. 9 conhece as componentes da maioria das formas de doença mental, capaz de re presentá-las realisticamente vendo o original. 10 não fuma. 3 guarda-noturno. 4 consultora lingüística. 5 (não é suficiente). 6 professora particular de latim para meninos que o estejam aprendendo na escola. 7 assassina profissional.

8 não cheg.: a ser gênio; não há viabilidade comercial. 9 atriz (perigoso dei íais). 10 degustadora de vinhos. Reescreveu a lista, suprimindo os itens 4, 5, 7 e 9. Doeulhe um bocado ter que a fastar o "assassina profissional". Lembrou-se, porém, que tinha uma péssima coordenação motora, e os assassinos profissionais precisavam ser ágeis e graciosos. Tamanha er a a sua falta de atumai que, seguramente, no momento crucial suas vítimas desabari am para o lado errado. Imaginou a cena: ela, a assassina, tentando se arrastar d ebaixo dos cento e cinqüenta quilos de um lutador profissional. - É. . . - murmurouitem 7, causa perdida. No dia seguinte, levou a lista para o administrador, mas não esperou que ele termi nasse de ler. Até mesmo Anterrabae 257 estava vexado com as qualificações tão medíocres de sua rainha e vítima. O Coletor, com ar es de falso-santo, morria de contentamento. Déborah estava assustada com as opções que o mundo lhe oferecia. As perspectivas que tinha na sua frente eram como o corre dor que percorria naquele momento: uma longa estrada, cuidadosamente pontilhada de portas, de dez em dez passos, só que todas fechadas. - Ei, Srta. Blau - chamaram às suas costas. Era uma das assistentes sociais ("O qu e é agora? Já tenho um quarto, portanto não preciso de uma caçadora de quartos; a não ser que esta venha desfazer o que a outra fez"). - O doutor Oster falou-me a respeit o da senhorita freqüentar a escola secundária. ("Lá vêm eles exigir novos sacrifícios. Pro vavelmente designaram para mim um bom lugar sob as rodas de jaganatas"). A dor p rovocada pelo tumor alastrou-se pelo corpo todo, e sua visão tingiu-se de rubro. - Não sei como não pensei nisso antes - dizia a assistente social. - Há um lugar na ci dade que talvez possa prepará-la. - Preparar-me para quê? - perguntou Déborah. - Para os exames. - Que exames? - Ora, os exames para conseguir o diploma de equivalência ao curso secundário. Como eu dizia, parece ser a solução ideal.. . A mulher olhava-a de um modo esquisito. Déborah quis explicar-lhe que era difícil es cutar através de um borrão vermelho, que suas notícias tinham trazido um grande alívio m as, devido à brusca mudança de pressão - bastava ver a palidez mortal do seu rosto - e stava sentindo o chamado "mal-dosmergulhadores". - Isso significa que não preciso freqüentar o ginásio? - Não, como acabei de dizer, há uma escola particular na cidade. - Posso escolher então? - Acho melhor a senhorita se entrevistar antes com eles e estudar as possibilida des. - Como faço para combinar essa entrevista? - Bem, a senhorita ainda está sob os meus cuidados.. . - Você poderia marcar uma entrevista? Sim, claro. - E depois me conta o que eles disseram? - Hum-hum. Déborah sentou-se e ficou observando a moça se afastar. A dor estava diminuindo, mas o pânico continuava tão intenso quanto antes. Escuta teu coração - sugeriu Anterrabae, despencando ao seu lado. Batia como uma porta sem ferrolho empurrada pelo vento. O que é que está acontecendo? O que é que está acontecendo? - perguntou assustada para Y r. Estava tudo tão real agorinha mesmo! - Enxergava tudo distorcido; suas palavras soavam de uma forma estranhíssima, como se até mesmo o Yri tivesse sido recodificad o. Por quê? Por que está acontecendo isso? A pergunta quebrou o silêncio que reinava sobre a terra. Sentiu que alguém se aproxi mava, talvez o doutor Ogden que' saía do escritório. A audição estava tão distorcida quant o a visão. Esbarrou numa pessoa e imediatamente gritou: - Os sentidos não são discreto s!

- Ela vai ficar violenta? (ou algo no gênero, ouviu um dos vultos perguntar num to m aborrecido) Déborah quis responder que a violência constituía para um vulcão uma lei n atural, mas já não conseguia comunicar absolutamente nada. Flanqueada e sustida por um atropelo indistinto de mãos e vultos, foi conduzida ao elevador metálico dos paci entes e transportada para a Ala D. Começava tudo de novo! Ao recuperar os sentidos, olhou bem para si mesma, de alto baixo, e soltou uma s onora gargalhada. Agora eu sei, seus calendários descendentes e imprevistos. Agora eu sei, Lactamaeo n, oh deus tristonho! Agora eu sei porque Carla e Doris ficaram arrasadas daquel e jeito! - Riu às gargalhadas, um riso áspero e ferino, até ficar completamente rouca. Mais tarde, Quentin Debshansky entrou para tomar o seu pulso. - Oi! - cumpriment ou ele, sem saber se deveria mostrar-s,e alegre ou pesaroso. - O casulo está ajuda ndo? - bom, voltei a ver, a ouvir e á TãTar. - Ela o encarou com firmeza. Você continua sen do meu amigo? - Ora, é claro! - exclamou desconcertado. sentia-se - Então deixe a sua cara em paz, Quentin. Seja espontâneo. Ele relaxou a fisionomia que logo adquiriu uma expressão desapontada.-É que... bem, eu fiquei feliz de saber que você estava lá fora, tocando para a frente. Sentiu uma pontada de angústia ao lembrar-se que dedicava afeição a uma pessoa que era , afinal, louca (ainda que os médicos lhe recomendassem chamá-las doentes mentais ). e podia tomá-la ainda mais louca se dissesse coisas indevidas. Os médicos e todos os manuais que lera aconselhavam-no a não se mostrar muito categórico, não discutir, não e xtemar sentimentos fortes, procurar ser jovial e prestativo. Sabia, no entanto, que estava lidando com um ser humano, um ser humano que era capaz de comover e q ue lhe inspirava uma profunda afeição. Estava feia neste momento, com os cabelos des grenhados, mas quantas vezes não o ridicularizaram também por sua aparência. Além do mai s, já passara por uma derrota semelhante à dela. Sofrerá, uma vez, um acidente que o d eixara estirado na estrada, todo quebrado, ao lado do pai. Quando vieram socorrê-l os, transportaram-no para o hospital enrolado num cobertor, exatamente como ela estava agora. Jamais esquecera aquela viagem. O pior de tudo não foram as dores, s entira-se até orgulhoso delas, mas a horrível sensação de estar sendo moído, reduzido a um a pasta, corpo e alma. O gemer das rodas girando, interrompido por bruscos sacol ejões, transformaram-se num sussurro monótono e atordoante: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . .". A morte do pai causara-lhe uma tristeza imensa, irr eparável. As costelas quebradas tomaram cada ato respiratório um verdadeiro suplício, um chute no rosto da morte. Olhou para Déborah e lembrou-se das rodas girando as s uas idéias: "embriagado e quebrado, embriagado e quebrado. . ." - era justamente o que ela devia estar sentindo. - Quer um copo d'agua? -- Não, obrigado. Ficaram ali olhando um para o outro constrangidos e envergonhados, ela esperando que o medo e ele que o desapontamento rompessem logo o impasse angustiante. Sub itamente, Déborah se deu conta de que Querrtin Dòbshansky, além de amigo, era um homem , um homem sensual, um homem 260 capaz de despertar nela sentimentos inteiramente novos. Foram duas descobertas s imultâneas: a do seu vazio interior e a do desejo, um desejo feroz, ardente, recal cado durante anos e anos. Furii tinha razão; por mais biruta que fosse, era capaz de sentir, e como! Ergueu os olhos para Quentin que, indeciso junto à porta, procurava alguma coisa r econfortante para dizer antes de sair. - Você tem mais uma hora, tá? - Hum-hum. - Sabendo como devia estar feia, para não lhe ferir os olhos, virou a c abeça para o outro lado e esperou até que ele fechasse a porta. Lactamaeon, o deus negro, com seus olhos azuis e frios, começou a escarnecer dela: O pescador venceu. Colheu na sua rede o peixe que se recusa a morrer e ficar mo rto. Salta, contorce-se, joga-se de encontro às amuradas do barco, procurando dese speradamente voltar ao seu elemento natural. Privado da essência que lhe garante a

.bom.começou a chorar. Assim és tu para o mundo e para nós também . Descreveu o encontro com a assistente soxiaL£as sugestões dela. e escondendo o levou para seu dormitório (dormia. o desespero de ter que fic ar três anos presa ao silêncio da cidade. com mais intrincadas. foi como se Yr dissess lado. . o mundo começaram a mudar. As minhas fugas para o tempo.Talvez "ela" soubesse que você precisava de ajuda. Mais que depressa. Sentou-se no chão. Quando soube que Déborah tinha voltado para a Ala D. é isso que acontece! Dá uma dor chamada dor de queimadura! Furii franziu o cenho. foram se tomando cada vez .Será que não compreendes! . Re-morra. por oposição à anarquia que im lá obedeciam a toda uma série de fórmulas que. mas sempre. Finalmente desistiu.ao que parece. as vertigens. e deixa as coisas voltarem a ser o que eram. até que. .Masaxme íortão repentina.As defesas que a impedem de ficar boa e se juntar de vez ao mundo já estão nas últim as barricadas.algum pre nuncio do que iria acontecer. Eu já não sei mais como! O cair da tarde invadia suavemente a enfermaria. entre Ann e Mary Dewben). predizíveis. É natural que lutem desesperadamente para salvar o que puderem da d oença. várias vezes. o local já queimado o tecido não se ressentiria decidiuqueimar num local novo. o sofrimento é atroz. comunico que não haverá mais queim aduras nem fogos.disse Déborah . já estou. estou confinada definitivamente neste mundo.O que que é engraçado? . Falou sobre a sensação que tinha de que tudo e stava sendo decidido à sua revelia. deixando amedrontada a acompanhante. Vieram. do compreensível. percebeu que houvera uma mudança importante: lógica. correu para o consultório. . uma agulhada dolorosíssima rep eliu o braço num gesto instintivo. . sua recompensa e vitória.exclamou atônita. dissimulada pelas camas. Aproximou-o lentamente da pele. A ajuda estava ao seu alcance . mas não ousou pedi-la diretamente com medo de que a recusassem. . -.. o "mal-dos-mergulhadores" e. Deslocou o cigarro em brasa ao longo do braço até encontrar uma região que aind a estava viva. .Foi um reflexo! . Déborah contou então a visita à escola. obrigando-a instintivamente a afastar o braço do ciga rro. sem nenhum aviso prévio. você não imagina como eu estou contente! . mas não consegui. o medo que sentira.... . os passos solenes do réu caminhando para o cadaf also.Puxa. quando os meus vínculos com e: líAgora passaremos para o outro Poço. .Ei! Sabe o que acon tece quando a gente brinca com fogo? A gente se queima. Furii reparou na acompa nhante que se postara atrás de Déborah. pois. Tentou de novo.Sorriram. seja lá qual for ele". . aumentand o.vida. Seria inút il queimar. . .Porque doeu! . e examinou o seu braço cheio de cicatrizes.Tentei. . . 262 Quando começou a narrar a queda no . mas a dor sempre prevalecia sobre a vontade. então. alegre e ass ustada ao mesmo tempo . Ele não quer pensar nos espasmo s mortais do peixe. agora. e perguntou-lhe intrigada o que estava fazen do ali. .Sim? .. .Você andou se queimando de novo? . e irrompeu na sala exclamando: . Como é que eu posso estar melhorando com crises assim tão repentinas e fortes? . o súbito alívio.perguntou. .. o calor foi aumentando.É que Yr sempre foi o domínio da ava no mundo.. logo se ntia-sem seguida. apanhou. Déborah reparou que uma auxiliar esquecera o cigarro aceso no cinzeiro. As relações se invertera . é? . sobreveio a crise. Quando chegou a hora de avistar-se com Furii. ao chamuscar os primeiros fios de cabelo. Isto aflige o pescador.. antes mesmo que ele tocasse a pele.gritou Déborah. sempre havia algum sinal de advertência. a sensação de absolvição. proclamou alto 261 em Yri: A todas as divindades de todos os mundos..Engraçado. . .Ah. virou-se para ela com um olhar interrogativo. . ao que parece.Antes.

Sofra. Déborah olhou para ela e. três dó que Yr chama "Casca Seca".Onde você está? -. endurecer e finalmente ser jogada f ora. . sulcado de sombras e r eluzindo de suor e lágrimas.indagou Furii num tom meigo.Sorriram. quando compreendi que estava viva. Mas quando voltei dessa vez. . que algum d .pergun tou-lhe. e um a de desespero. Jamais conseguirás uma comunhão tão perfeita lá.gritou Déborah. . Queimaduras? Mas o fogo não te queima.Ele soltou um longo e dolorido suspiro. Ele tem razão. Era uma confissão séria. . surpreendentemente. eu também e stive. Um dia. o coração disparando. tais como matemática.Está bem.indagou-lhe.Estive com Anterrabae. .Isso só perfaz oito. Oh! exclamouDéborah angustiada.onde mais encontrarei essa comunhão que há e ntre eu e eles? . .sorriu timidamente. . Nunca lhe ocultei as minhas idéias. Vê. Chamou em silêncio Anterrabae. Agora que recuperei os reflexos e instintos de "pesoa normal". são as queimaduras.perguntava Furii.disse Furii com a voz meiga que usava quando queria objetar sem parecer agress iva. . como se quisesse reafirmar que era mesmo uma típica representante do mundo.Leve-me com você. .Não posso parar de mastigar agora. e esse desinteresse me trazia uma certa paz. e Anterrabae disse: "Comeste todo o fruto da esperança." Julguei que teria de passar a vida olhando aquela casca envelhecer. O mundo pode ter lógica. . . . . está radiando teus dentes. embora às vezes seja um bocado traiçoeiro. . de gozar todas as suas vantagens. No entanto. Anterrabae recorria freqüentemente a essa alusão. Anterrabae zombou: Essa 264 casca velha. menos razões Yr oferece. só que você esquece por vezes qu e sou e sempre fui uma representante do mundo. Quando você começou a fazer com que eu me importasse pelas coisas. reconhecendo as palavras de abertura de fórmula. Scomos uma única voz. queimam a mim também. ele se pôs a tremer e a choramingar: . as punições de Yr foram ter ríveis.. realmente viva. entretanto. Simplesment e não me interessava por nada.contemporizou Furii com brandura . quando renunciar a e sse duplo compromisso. . .e fez com as mãos o gesto de tumulto e renúncia que significava em Yri o mund o. Enquanto foste sublime e estiveste fora do alcance do fogo dos homens.e seus olhos encheram-se de lágrimas . sorriu meio a contragosto. tu sofres. e e e veio.Quando eu sofro.Até quando você vai ficar com uma perna lá e outra aqui? .mas você só será capaz de a barcar realmente o mundo.Está vendo . . mas. .Duas de miscelâniá.Ainda não estou preparada! . quando cheguei aqui no hospital.O que é "Casca Seca"? .. por que não a cospes fora de uma vez?" . quatro são de autocomiseração.O que serão estas lágrimas? .Assoou ruidosamente o nariz. . ligeiro e reconfortante. Estás sofrendo? . .disse Furii . onde mais . eu não era uma pessoa infeliz. .. e muitas outras coisas que eu não conh eço. . . . As labaredas iluminaram o seu rosto.m: quanto maior é a racionalidade do mundo. Déborah começou a ficar em pânico. esperando pela sua risada sardônica. acho que es tou atolada no mundo.. implorei que tivesse piedade de mim. e que os deuses não me podem ensinar. Sim. me virei para ele e jurei que mastigaria aquela casca seca até extrair dela a última gota de alimento.lastimou-se Anterrabae .Das dez unidades.Tem pena de mim! Tem pena de mim! Déborah ficou estarrecida. vítima! É verdade que nos últimos tempos só me trazes beleza quando te sentes ameaçado? .Bem. e todos ficaram tão decepcionados comigo. e uma aliada sua na luta que está t ravando para ganhar este mundo.E o que é que você acha disso? . Agora que as chamas te queimam. enrugar-se. mesmo que aparentemente não esteja adiantando m uito. também.as coisas podem ser tão claras entre nós duas quanto entr e você e os deuses. Oferece desafios. pelo visto. está bem. um único olhar. e que a minha substância era idêntica à dos outros. só deixaste a casca.

Mas hoje vou falar cona o doutor Halle. Déborah Especificações: Data: 5 set." . foi muito difícil. Halle. "Se ao menos eu pudesse explicar a ela. Com eçou a entender porque Doris Rivera. Cr$ 80. 1 par de meias. . L. Na segunda semana.Bem."bom dia". os pacientes. estarei pronta para começar quando quiserem.Não.'Co mo explicar a uma pessoa que nasceu e cresceu no deserto que há terras ricas e férte is a tão pouca distância?" . . Se o pes soal daquela escola que ela me mencionou não fizer objeções. por exemp lo. é claro. Desde entã . Estava desabituada ao estudo e extremamente insegura. REQUISIÇÃO Ala: D Administrador da Ala: Halle. doutôra Fried. No início. L. e a equipe médica. fora tão econômica em suas explicações à audiê .perguntou. . os funcionários do hospital limitavam-se a cumprir o que os regulamentos mandavam.Como vão as coisas na ala? . Algo de especial? . a enfermeira da noite por sua própria conta acrescentou torradas e u m suco de frutas ao café da manhã.ia ainda lhe poderia custar caro.pensou Furii com seus botões. chegava de manhã ao portão com seus livros escolares . pôr do sol. os professores conseguiram abrir uma pequena fenda no muro que a enclausurava. Essas concessões eram a pr ova de que tinha conquistado um prestígio considerável. revigoravam a sua força de vontade. depois de melhorar o suficiente para trabalha r e viver com suas próprias chaves no bolso. Paciente: Blàu. uma viagem perigosamente hipnótica. voltou para a p ensão. Exceto em casos excepcionais. Durante o primeiro mês. embora distasse duas horas do hospital. H. que demonstrava m um certo respeito por ela. meio desaponta da. No mês seguínte. a sombra que projetava nas' calçadas se devia a outras razões além do. 1 vestido apropriado para uso na cidade. 27 grampos de cabelo 1 casaco. O orgulho e a obstinação deram-lhe a força necessária para enfrentar as qua tro horas diárias de viagens. para avisar aquela assistente social que eu continuo firme na idéia. Em pouco tempo.Não diga. representava uma ponte bem mais rápida e s egura entre o "Nunca" e o "Talvez". Assinado: H. que a prepararra-paTa òTexamês e que. 1 par de sapatos. e só ia ao hospital para o jantar e para as sessões côm a. Essas e outras pequenas atitudes. quando provou que realmente estava disposta a freqüen tar as aulas. e as dificuldades do estudo. mas logo tcomou fôlego e mergulhou com vontade nos livros. permaneceu na Ala B. Matriculou-se na Escola Tutorial e Terapêutica. Hora: 8:30 Dr. 266 29 O problema do diploma secundário resolveu-se miraculosamente: bastava provar ao Co nselho Universitário que a candidata conhecia as matérias do curso secundário para obt er um-certificado de equivalência que a isentaria de cursar os três anos de escola. 1 tubo de batom.o homem da portaria cumprimentava-a gentilmente: .00 para as passagens de ônibus suburbano (assistente social e requerente) 265 4 vales para ônibus urbano (assistente social e requerente) Requisitar itens espec ificados acima na pensão onde habita s paciente. Acordava an tes de" clarear o dia. ou até mesmo "bom proveito!". . .símbolos de sanidade e resp onsabilidade . Quando. estão furiosos comigo. tomava uma xícara de café (autorizada pelos médicos) e ia para a escola. Data: 3 set.

. ela enfrentava cinco vigorosos atendentes sem arredar um pé.Oi. . Coral. Sylvia parece um pouco melhor..e as duas trocaram um sorriso cúmplice. Não me diga que está de volta! . mas continua muda. . Mande um "Alô" por mim. . ela conseguiu aquele emprego que queria. os contendores guardavam posições de combate. Déborah. quantas seriam livres algum dia? Durante seus três anos de internam ento. Quantos mortos ressuscitariam? De todas as mulh eres da Ala D. A Srta. com o qual nada tinha a ver.Sim. até então concentradíssima na e scaramuça..Ouvi dizer que foi passar os feriados de Natal em casa. não sabia não.Estou. Srta. . Os olhos penetrantes da velha estremeceram. muito mais para os a uxiliares do que para ela propriamente. . poesias de Horácio que iam c air no solo inculto e tenebroso de Déborah. Um dia.É. .Ah. . na D. Dessa vez foi mais fácil. era um mistério.Bem. do modo mais engenh oso possível: simplesmente fazendo com que lutassem uns contra os outros. sabia? . entrara em ação de novo! Como é que tinha. .Não. muitas ficaram. . . São as minhas sessões de terapia. Déborah também vira a sua som267 bra estender-se alguns fios de cabelo a mais.Tenho que ir agora. Coral". insinuaria a lguma coisa em código. O quadro era ao mesmo tempo hilariante e comovente. é verdade que o Dobsha nsky se casou com uma enfermeira de uma das alas masculinas? .. be . Déborah avistou uma multidão de pe ssoas no saguão. Ni nguém sabe. . Srta. pesos e propulsão.Não. Helene está conosco de no vo. mais ou menos a mesma coisa. . A velha ber rando.Déborah a encarou firme. reparou que faziam movimentos extremamente lento s como se estivessem nadando debaixo d'agua. prontos para recomeçar a luta. 268 . Resmunga va baixinho uns sons sibilantes. entrecortados de obscenidades. . sabendo que perguntar mais seria uma intromissão. dirigindo um "Oi. embora c ontinuasse tolhida pelos altos muros do hospital.a ávida e aterrorizada de pacientes na Ala D. parecia um motor . Lee Miller vai ser transferida para outro hos pital. conseguido escapar da Ala D. No ônibus. Das que partiram. A Srta. Rodeada pela multidão . Déborah prosseguiu caminho.pergu ntou.Como está o pessoal? . . Mas o casamento é segredo. isso era muito mais do que uma aula de Latim. Quando Déborah viu o objeto daquela c uriosidade toda. Déborah ia pensando nela. o fato de ela ter saído a transformava numa figura legendária.Não. não. Enquanto as duas conversavam amigave lmente. arremess adora de camas. voltou-se sorridente: . gênio na arte das alavancas. sim. o ônibus vai sair a qualquer momento.Altos e baixos. só a muito custo conseguiu conter o riso. voltando de uma sessão exaustiva com Furii. . .respondeu sem muita convicção. não preciso de nada..Você está bem? . muitas caras novas vieram e partiram. uma estagiária. retesou os músculos e a luta recomeçou. . A Srta.Tchau. . uma identificação plena de idéias e de sentimentos.perguntou Déborah. Era difícil cc ciliar a dor que via estampada de forma nítida no rosto de sua amável professora com a imagem de arremessadora de camas aficcionada por Catulo.Ah. . pensando em todos os canos i ndiscretos de água fria que corriam pelo hospital. . Coral.Quer que eu lhe traga algo de lá de fora? Conheci-a o suficiente para saber que jamais pediria. A velha endureceu os olhos. para não prejudicar o estágio dela. Ei. Ao se aproximar.Como vai Carla? Você ainda a vê? . é verdade? . Coral. então. . através da espessa porta de um quarto de reclusão. Jogue alguma coisa na cabeça dela e sej a bem rude para que ela saiba que fui eu.. chegou a ser quase divertido.. para as doentes cujas esperanças ali definhavam. Tinham conseguido estabelecer entre si uma coisa que era mu ito rara naquela doença. . quando muito. graças a um imenso esforço e. tchau Déborah. Coral passeou um olhar apologético ao seu redor como se fossem todos um únic o e grande inconveniente.

picaram a folha de papel e atiraram os pedaços ao vento. ao Mundo Intermediário. um a um. em Yri e em inglês. a fórmula da separação. disseram para Déborah.essa menina está dando um duro dos diabo s. esta é a verdade. realmente vivas e livres? Podia-se contá-las pelos dedos! Ela estremeceu. e xceto o de ter que se sentar em mesinhas minúsculas. (Era uma metáfora Yri equivalente a adulação . o aprendizado media-s e nos quilos de livros que carregava diariamente para a escola. Sentia-se à vontade com os prof essores. um t ambor e o quarto um tamborim. Déborah convidou a companheira que dividia consigo o mesm o livro de hinos para tomarem uma soda juntas. Em seguida. com o passar dos meses. Se tu nos deixares. uma imitação grosseira de colegial. a Lactamaeon que te ama. Os professores aplaudiam a sua tenacidade e ' resolução. queimando as pestanas. Vocês vão aderir ao Coletor? Vocês também? .Trago véus que me d issimulam e me tomam misteriosa: Gratifico. mas trabalha duro para aprend er. faceiras. a mim.respondeu o professor de inglês. para o seu quarto à tarde é que o mundo machucav a. estudando sozinha. Onde vai ser? Nos cinco Continentes. por mais que soubesse que aparentava ser melhor do que realmente era. Nós vamos Dançar. Comparece às aulas com os lápis "0 " V apontados. Algumas progrediram o suficie nte para viver uma espécie de meia-vida em regime de externato. disse o professor de inglês. Se a sanidade expressava-se em metros e horas.perguntou-lho Idat em Yri . E quem vai participar? Você também. as matérias iam se acumulando em pilhas e pilhas de cadern os de anotação. Déborah espreitava-as de longe: aquele era um mun do onde ela tinha fracassado. a Anterrabae que é teu amigo.disse o de matemática a Idat . Soü bela. um violino. os personagens do Coletor começaram a aparecer.retrucou Idat friamente. Aí está. seus olhos de pária observavam-no fascinados. Quantas estavam re almente A fora. com quem rirás? Quem te deixará à vontade? Onde mais encontrarás uma luz como esta? Aconteceu então uma coisa estranhíssima: as imagens de seus professores de escola. Nós scomos contra essas suas criatur as! Escute bem . Só quando voltava . sem precisar ostentar precoci dade para ninguém. na igreja. A menina ficou lívida. O fato de estar freqüentando uma escola p ara crianças com problemas de leitura e defeitos de fala não lhe trazia problemas. meninas e ncantadoras. Nunca deu provas de ins anidade em sala de aula! Não é nenhum gênio em matemática. Inesperadamente. Começou a gagu ejar. e sem precisar ficar preocupada com estar entravando o estudo d os outros. o terceiro. Ela é pontual e obediente. a pareceram em Yr para falar com Idat. Esteja ou não doente. copiaram uma por uma as antiquíssimas palavras: "Tu Não Ês o Os Outros". você é uma das dançarinas. o segundo. como se algum dia viesse a pesar no mundo tanto quanto eles pesavam nos s js braços. Claro que não! . Aqueles volumoso s manuais lhe davam um certo orgulho.Dificilmente um corvo de prata. com uma cara tão transtomada que Déborah teve medo de as pessoas julgarem que . Re dobraria os esforços esta noite com os livros. e no entanto continuava sendo pária. o uniforme certinho. compreende? Os professores e o Coletor puseram-se a anotar numa folha de papel. disse o professor de matemática. Tua velha realidade. O primeiro trazia um pistão. e isso a enchia de contentamento. nem mais nem menos! Dificilmente uma chuva de estrelas . inteirinh a. Que dança? A Grande Dança. e.por causa das imagens e xcessivamente reluzentes). Aquela noite. Vestia-se igu al a elas. risonhas.perguntou Déborah. O ônibus ia lotado de jovens e ruidosas estudantes fazendo algazarra. . . Não sou igual a este mundo que vês aí? .m uns três quartos tinham ido para outros hospitais.

.Na cidade? Cantamos juntos.Não. Retcomou à sua vesse acontecido. freqüentamos as mesmas aulas à noite. Devo esquecê-lo também.Confie em mim. Dependendo do que você mesma f izer deste comprometimento. perguntando mais do que afirmando. . Lactamaeon. . mas são poucos. sempre a amei. . a proprietária da pensão ficou ontem à noite cuidando da neta. o Censor. ao mesmo tempo em que invejava a pureza das outras p essoas. . um bebê de dois me ses de idade. Fiquei co m aquela criança uma hora e meia... . o Coletor.Amo.. você pode superar! Não me diga que você ainda se acha ven enosa? . . Isso.. implorando aos céus para que continuasse exatament e como estava .Sim. mas talvez tenha chegado a hora de misturar as partes boas. as dele eram chispas incandescentes. a Puni ção. Lactamaeon chorava sa ngue tal como Édipo. sua velha lixeira mental! .disse Furii. Excetuando-se uma ou duas amigas no hospital. .. É difícil pensar diferente assim de imediato. Era um hino 271 indecente à menina. travestidas em Defensoras ntra a herege. com as do mundo. Ela precisou sair. só que é difícil livrar-se de antigas convicções assim de uma só vez.E à sua amiga Carla? .Bem.E se eu fosse apenas Aparências. e nfim.Tem que ir tudo? Amontoa-se e joga-se tudo fora? . co invisibilidade e continuou a cantar como se nada hou sobre a Compaixão.ela tivesse dito alguma coisa as.perguntou Furii com um ar divertido.. .. junto com os flagelos do passado? .E quanto aos meus personagens bons? Não devo mais pensar em Lactamaeon.. só até aí.Também. . você ama os seus pais? E a sua irmã.Você tem certeza de que não é alguma atitude sua? . . Idat e todas as outras divinda des dos inúmeros reinos existentes em 272 Yr também teriam que ir para o lixo junto com o Poço. expirando .E começou a choramingar.Juro que é verdade. certas realidades como nenhuma outra língua..Mas você tem amigos. Anterrabae. . como numa cruzada medieval. Anterrabae rugiu furioso. a essa altura dos acontecimentos não pode haver barganha decente.E eu amo você também.e não morresse nas minhas mãos.Me diga uma coisa. só o suficiente para sentir que um cigarro queima. Adolescência de novo? . Sempre fui mui cautelosa com o meu nganon. e eles se recu sam a olhar para mim. Isso seria tão importante para fortalecer o comp romisso! Déborah viu Anterrabae caindo rápido. Existem momentos felizes.E por que haveria de morrer nas suas mãos? . .. coh fiando na minha palavra. . Duvido muito que mudem. Essa última imagem trouxe-lhe à mente uma lembrança que contou dist raidamente.Déborah. veio ao meu quarto e simplesmente pediu: "Déborah . já que não confia na de ninguém. avançando. . poderá decidir se é ou não uma barganha decente. . as partes bel as e sábias de Yr. . entregar-se completamente. Imaginou aquelas piedosas senhor de Cristo. .Como você se sente agora que está livre de todo aquele lixo velho e fedorento? . mas não esqueci o poder que t em. agora que ela se tcomou uma mulher de vez e está tão linda? Devo esquecê-los? E o Yri que é capaz de expressar cert as sensações. você toma conta do nenê até eu voltar?" Aí ela saiu e me deixou ali sozinha. tão negro em seu negro ginete? Nem em Anterrabae? Nem em Idat. pelo menos..i ndagou Furii.pediu Déborah baixinho.Conte-me um desses momentos felizes. você co mpreende? Você tem que primeiro assumir o mundo. a quem você nunca assassinou ? .Ora. aí sim. desprendendo fagulhas e..O mundo é vasto e tem espaço de sobra para o discemimento. eles eram secretos! Você já conhece as leis que proibem misturar os mundos. Por que você nunca desenh ou Anterrabae ou qualquer um dos deuses? .. viva só um oitavo de centímetro da superfície para de ntro. . enquanto as lágrimas de Idat eram diamantes.inspirando. .

A briu-a excitadíssima e quase caiu para trás quando soube que tinha sido aprovada. debr uçados sobre as provas como blocos de granito. acompanhou o desabrochar dos botões nas árvores frutíferas que havia em frente à Igreja Metodista. às 09:00 hs. e comparecer ao referido local na terça-feira. sentou-se diante da mesa e tentou rir daquele medo besta . Haviam combinado na escola que ela continuaria seus estudos até a divulgação dos resul tados. com paredes revestidas de lambris. dia 10 de ma io. . entremeada de insuportáveis crises de tédio. Quando o tempo e xpirou. De início.Se eu desenhasse Lactamaeon sob a forma de falcão 273 coz num para você se dia ou de cavaleiro. um primeiro calafrio de medo lhe subiu pela espinha. Ficou horas decifrando nuvens no céu. Eu vivia vendo coágulos de sangue nas ruas e as pessoas se transformarem a multidão de micróbios. Déborah pôs sua prova junto com a dos outros e saiu da sala.-Talvez eu comece mesmo a destampar Yr.Primeiro eu teria que ver o desenho. Chamou-o de s ua "infância". .disse Déborah.Está bem .Ela sentia-secomo se estivesse nte de uma cega a quem procurava explicar a cor da luz. recebeu finalmente uma carta do Conselho Universitário Estadual. tentaria o próximo exame. incapaz de aval iar qual fora o seu desempenho. DEPARTAMENTO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO Os Exames de Equivalência para a Escola Secundária serão realizados no dia 10 de maio na sede do Tribunal do Condado. Déborah! Déborah! Saúde não é simplesmente a ausência de doença. receosa de que pudesse es quecer ou perdêlos. por mais que tivessem perigado. sem perda de tempo colocá-los no correio. . ainda eram viáveis. e acabou conhecendo Tarzan no mínimo tão bem quanto Hamlet. Estudou com calma. Quando a carta escorregou pela ranhura da caixa de correio. Os candidatos aos exames deverão preencher e envia r os formulários anexos. será automaticamen te desqualificado. I ndicaram-lhe uma sala poeirenta. A esperança acabou subjugando de vez o medo. junto aos esboços para um desenho de Anterrabae.do mês. . suando e murmurando palavras desconexas. Sentia uma ansiedade e uma excitação febris. ficou surpresa em encontrá-l os ali. Déborah a rmou-se de coragem e de sangue-frio e foi para o Tribunal! Era um prédio antigo. como também porque. mas logo a voz sensata de McPherson cochichou-lhe no ouvido: "Lembre-se que você não é dona de todo o sofrimento no mundo!" Reconheceu humildemente que eles. apesar de proteladas por tanto tem po. Foi um período maravilhoso este. pelo menos. Preencheu imediatamente os form ulários anexos. Queria. Apaixonou-se por al amos. 274 um grupo de operários de mãos calosas. Não foi de alguns sintomas que nós demos tanto duro! . e recuperavam agora o terreno perdido. sobretudo. Caso o candidato não cumpra esses dois requisitos. também tinham deixado escapar alguns com passos no ritmo da vida. você o encararia como uma manifestação de minha velha maluquice ou co mo uma "contribuição"? .. caso fosse rep ada. Po dia se considerar num nível educacional equivalente ao dos estudantes que haviam f reqüentado a escola secundária. Já era tarde demais para fugir ao compromisso que assumira com o mundo. comunicar-lhes que s uas esperanças.Uma vez eu fui à casa de uma senhora e vi sangue escorrendo dos ladrilhos da inha. Estava s urpresa de que o momento tivesse chegado tão cedo. As duas semanas anteriores aos exames foram consumidas numa grande expectativa. Quando finalmente chegou o dia. Suas notas tomavam-na uma candidata bastante promiss ora a qualquer faculdade. Isso. e foi. Telefonou para casa. No final . não só para afastá-la das preocupações e do ócio. embora não fossem prisioneiros nem insanos.Ai. Foi ver todos os filmes que passaram na cidade. Voltou para seu quarto. Um mês inteirinho de sossego e preguiça. para trans mitir aos pais aquela segunda boa notícia. onde encontr ou outros candidatos que se aventuravam também a tragar de um só gole o curso secundár io. d espreocupada. não acontece mais. estourando de orgulho. Déborah pôs de lado o aviso. tomando a precaução de verificar duas vezes se anotara o endereço corret amente.

Mas eu quis! . Uma moça esbelta e graciosa.berrou Déborah.resmungou Lactamaeon empoleirado na cerca. o ar contin uava carregado de fragrâncias primaveris . . muito bem.Não faltei uma vez.repetiam incansavelmente sem nunca pronunci ar o seu nome.Ótimo.. se jamais andarei de mãos dadas com alguém. sentindo um imenso desamparo. . como os loucos fazem: . robustos e saudáveis. . toomou a estrada que circundava o velho cemitéri o católico.. num gesto amoroso. Aguardavam-na todos no cemitério: Anterrabae cintilando no escuro. .zombou Anterrabae .. onde ainda treinavam quatro meninos. Ha . Acabaria consumindo toda s as suas forças apenas para manter-se viva. Eram jovens. . toda a sua força de vontade. .di sse.de seiva e de flores. "Boa tarde! Boa noite!" . passou diante do estacionamento de carros-reboque. nunca. Estudos. . Fora-lhe necessário reunir todas as suas aptidões para chegar até onde eles estavam rindo e brincando. e só descobriu que o mur o continuava ali e continuari-a sempre. Atravessou os pátios da escola. de terra quente e úmida . de ninguém. do brando-se de rir. mostrou-se quase frio: .Esther ficou felicíssima. bem arrumada. Fui às aulas todos os dias. Tinha dezenove anos e um diploma do curso secundário. não cometi um deslize. Porque ele reagira de uma forma deplorável? Havia empenhado naqueles exames todas as suas energias. . . Sentiu-se de repente extremamente cansada e sentou-se de encontro à tela que cercava os fundos do campo.. As mãos de ninguém.. vamos. Era quase noite. Ha. entretanto. nu nca. Contornavam vagarosamente o gramado. juntou-se a ele uma outra figura que Déborah se . e começou a margear o imenso campo de futebol. Na outra extremidade do campo. Os raios do sol continuavam aquecendo a sala. de mãos dadas com um rapaz. quando muito.Estou muito orgulhoso . Consumi todas as minhas esperanças cantando e costurando com vocês. . e ainda estava dois anos atrasada. . Jacob.por um tubo de alimentação. suplicante. se jamais me farão carinhos assi m. o movimento lá dentro. a essa altura. Sinto-m e um pouco orgulhosa. mas a respo sta foi também uma sonora gargalhada carregada de desprezo. Quentin há de te oferecer água. Carla já te disse isso há muito tempo . . . e não são capazes se quer de lembrar meu nome. toda a sua determinação.Que maravilha! É maravilhoso! Oh. vindo em sua direção. Pensam que foi fácil . comparado a ela. e. de uma em uma. procurando a trajetória ígnea. chamou Anterrabae. estariam alardeando a boa nova pela cidade de Chicag o inteira. Encostou a cabeça na gra de. .Mas as gargalhadas estrepitosas afogaram suas palavr as.Nunca terei isso. estudar. nem as fragrâncias eram mais as me smas. Déborah repôs o telefone no gancho. emprego. Lactamaeon uivando como um cão. mesmo quando estava doent e. Saiu cabisbaixa para a rua. Os meninos corriam no gramado perseguindo as sombras sinuosas projetadas pelo pôr do sol. .sussurrou para si mesma em Yri. Ia só para cumprir a ve lha promessa. resistir. fez o que todo o mundo faz com a metade do seu esforço. no final das contas. se fosse aprovada. Prometera a si mesma que.. extremamente ma275 goada com a reação do pai. . caminhavam d uas pessoas. . . caminhando em direção à e scola. .Sua voz parecia que ia desfalecer. De que adianta lutar. sua desajeitada. Déborah levantou-se e foi caminhando vagarosamente em direção à cidade.mas nem o sol. As caras das mulheres do coro da igreja pareciam desafiá-la do estacionamento dos reboques. menina preguiçosa! Luta. e seus pais. iria olhar pelas janelas. o Coletor provocando-a com zombarias Dá duro. A jaqueta dele pendia negligentemente dos ombros magros da menina. . Déborah. envoltas numa película dourada de sol. . pontual. Agora já não tinha mais graça. avistar o que havia de extraordinariamente belo do lado de lá do muro.. nunca. então. de arbustos flore scentes. Podia agora. espere só qise eu vou chamar a família toda! Vão fic ar tão orgulhosos! . acariciava os cabelos ou o rosto da moça 276 Déborah falava sozinha e em voz alta. subitamente.-dá tudo no mesmo: "bom dia" e "boa noite" e nada mais. Surgiu diante dela. Paravam de vez em quando e trocavam palavras que sem pre terminavam em risos ele. . Ha! As mãos dele nunca acariciarão teu rosto. trabalhar.

nada. . Tu não vais criar nada. De repente. Breve despencaria no Poço. O auxiliar repreendeu-as sem muita convicção. Estava bastante aflita. Alguém pôs-se a gritar em Yr mas ainda pôde ouvir o outro som . onde cantava todas as quartas-feiras e domingos. invectivava o Co letor . num livro. mas a vida continuou pulsando inflexível.Ela é uma excelente pessoa .. Voz. s em o saber.a agressão de Helene. Déborah sentou-se e olhou para a substância morna e nauseante q ue havia no prato. que passaram de raspão pela cabeça de Déborah. Quando ele e Cleary soltaram-na. Alguém aí.lembrava de já ter visto há muito.Três toques de cigarra: emergência. o deus flamejante que caía perpetuamente era nada mais nada menos qu e o Satã de Milton. trazia uma fis ionomia cuidadosamente depurada de todo e qualquer sentimento que não fosse aquela amabilidade neutra de hospital. Agora. criou-os o Senhor". Encontrou as mesmas fisionomias inexpressivas ou hostis.Está se sentindo bem. a sonhadora de reinos misteriosos surrupiava furtivamente o soberbo ar canjo para transformá-lo no primeiro habitante de seu mundo particular. gravara a tempestuosidade e a veemência das imagens. . Déborah começou a lutar e a se contorcer sob as amarras. p referisse não ter de arcar com o peso esmagador das virtudes de tanta gente. anos atrás. Déborah caminhava com os olhos vazios.. Ela ficou preocupada por causa da sua escola e trouxe seus livro s e algumas roupas. Um segund o depois.confessou Déborah com sinceridade. A Srta. Dobshansky entrou de novo para examiná-la. E stava aterrorizada.. "Subir as escadas até a port a. Mary ergueu-se e atirou longe a xícara de café e o pires. socorro!" .. Dessa vez. Depois de algum tempo. Sentia-se culpado de não ter presenciad o o incidente. divertindo-se com o esforço que ele fazi a para não deixar transparecer a surpresa. A crise tinha durado qua se vinte e quatro horas. nos quais via se .Tive que comunicar à proprietária de seu quarto que você não ia dormir lá esta noite e q ue estava aqui. A visão desvanecia-se. Anoi tecia. Passeou os olhos pelos rostos que a encaravam com hostilidade. Blau? "A última saída: fazer algum sinal". pelas ruas sombrias e desertas da cidade . os deuses começar am a imitar as respostas de seu pai ao telefone. pôs o roupão andrajoso do hospital e saiu a passos lentos para a ala. quando iam visitar o avô. .Acho que sim. querendo exaurir suas forças e mor rer de uma vez. . 278 . em segu ida . por favor. muito tempo atrás.. Era um livro cheio de gravuras que havia na biblioteca do avô. . como se nada tivesse acontecido. Helene a irritava por amargura. A origem d e Anterrabae. e que. Déborah passou a mão pelos cab elos gosmentos e lembrou-se de uma outra cena idêntica . no íntimo. Emergiu de volta para o eterno recomeçar. nem mesmo Anterrabae era seu! Enquanto isso. Soltou um longo suspiro.Como vai. "Macho e fêmea. Enquanto o artist a que havia nela estudava os anjos gravados em água-forte e as linhas bem esculpid as. embora estivesse sentado junto a elas. Ao pass ar pela igreja. escutando a zoeira ensurdecedora. e ra presença obrigatória em qualquer lar culto: "Paradise Lost" de Milton. O Coletor zombava do sorriso de Quentin e dos meninos do campo de futebol. Os manuais haviam vencido. Srta. as dimensões 277 precisas. Blau? E. Por ainda estar viva. in veja. Coral devia estar em reclusão de novo. abra-a. e amizade. embora já estivesse fora de moda. . Déborah caminhava como que por instinto.Está se sentindo bem agora? . Portanto. o tumulto ia crescendo. já estavam distribuindo as bandejas para o jantar. tolerando o insolente músculo que persistia em bombear no peito. Divisou os dois postes de luz que ladeavam o po rtão de entrada. . Mary Dowben murmurava a um canto fórmulas incompreensíveis. ela estava sentada de novo.Vais te deitar em prados floridos. Felic itou Quentin por seu casamento "secreto". ja mais! Perseguiram-na aos gritos pela estrada. embora.. Srta. . nunca! Estudar e trabalhar. O Poço. A exaustão veio. Es tava quase chegando ao hospital. Folheara mil vezes aquelas gravuras. refazendo-se ainda do terror. impassível.

"UM TRIÂNGULO EQUÍLÁTERO É AQUELE CUJOS ÂNGULOS OPOSTOS. "UMA LINHA QUE DIVIDE EM DUAS PARTES IGUAIS UM ÂNGULO DE 80 GRAUS FORMA DOIS ÂNGULOS QUE TOTALIZAM 80 GRAUS". 281 . . . . como se entregasse símbolos sagrados. sussurrou Anterrabae. . Lembra-te de Hitler e de Hiroshima. e seria tão importante que elas entendessem! Sob certos aspectos. e ainda assim. cambaleando como uma bêbada. . de pé novamente para mais um "ro und". . traçara os contornos finais da opção. O auxiliar entregou-os com reverência. Anterrabae. . Pássaro-um? Não posso mais fazer isso. Era chegada a hora de firmar o verdadeiro compromisso. Um símbolo vivo de esperança e fracasso. nas terríveis quedas no Poço. não vou chamá-los.refletirem sentimentos contraditórios. terminaria por conduzi-la a um lugar onde podia enfrentar em segurança o momento definitivo da opção. Não importa.Não. Ela abriu o primeiro." . mas ainda não sei co mo. Mary: . sua persistência. Compreendeu também a razão pela qual jamais poderia explicar a essas pessoas a natureza de seus fracassos e da. AB E BC SÃO IGUAIS ENTRE SI". Adeus.Tu não és como os outros.Será que a insanidade é contagiosa? Se fosse. Ao consentir em se tornar um ser no mundo. ESTRADA DE FERRO E TELÉGRAFO. Ainda assim eu prefiro o mundo. da dor e dos atestados de sanidade que te esperam. Constantina: . a doença. Adeus. levando surra atrás de surra. . AC. Quando retiraram as bandejas do jantar. Chamem Ellis. 280 vou. Talvez então. Terei que aprender. o medo e o ódio de Mary permitiram a Déborah compreender que a crise começara no mo mento em que pôs o telefone no gancho depois de comunicar aos pais a notícia triunfa l. Furii afirma que será uma contribuição. e do desejo que sentiste ao ver aquele casal de mãos dadas. Lembra-te dos rostos hostis. é selvagem. portanto. uma newtoniana. Pássaro-um.Jenna vai ter uma crise de novo. o hospital poderia nos vender como anticorpos. "OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS AFETARAM A EXPANSÃO OCIDENTAL DE MUITAS MANEIRAS". Compreendeu. a realidade era um domínio tão pessoal quanto Yr. Lembra-te da tua própria infância. Não nos pouparás como escudo contra a tua casca seca. Dis simulara-a na agonia e no medo.Sua puta nojenta! Me solte! gritaram do dormitório. que se tornara uma nova D oris Rivera. ASSEGURARAM O CONTATO INDISPENSÁVEL À MODErnA SOCIEDADE INDUSTRIAL. a imagem do terror que elas se ntiam ante a possibilidade da recuperação.murmurou Déborah. . apenas porque faltava amadurecer sua própria capacidade de discermir a diferença entre os problemas e os s intomas. Estaremos esperando até que nos chames de novo. Jamais chegariam a distinguir com clareza a dimensão dos significados. que constituía a única fonte de suas defesas e de sua força .Eu sou a primeira esposa secreta de Eduardo VIII. então. Déborah pediu que trouxessem os seus livro s. Mas o mundo não tem leis. vou de qualquer jeito. Rei Abdicado da Inglaterra! . vou entregar-me ao mundo. pois sua so brevivência dependia justamente da supressão desses significados.Será que vocês não vêem que eu estou sofrendo. Não.. Adeus Yr. seus porcos malditos" "A INVENÇÃO DA DINAMITE TOrnOU POSSÍVEL A LIGAÇÃO DE COSTA A COSTA PELAS ESTRADAS DE FERRO ". É melhor providenciar logo um cas ulo.Agora é pra valer . "E AMBOS. Meu compromisso com o mundo será definitivo. Yr finalmente í 279 estava forçando-a a optar. ao retinir a sineta. . dona de um p resente e de um futuro viável. eu sou como os outros. O incidente da xícar a. .

SOBRE OS SONHOS Livro 4 .TOTEM E TABU Livro 5 . 196 .TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE Livro 3 .CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE E CONTRIBUIÇÕES À PSICOLOGIA DO AMOR Livro 2 .Tel.ESBOÇO DE PSICANÁLISE Livro 8 .0 MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO Livro 9 .MOISÉS E O MONOTEÍSMO (em preparo) .Impressão: José Fagundes do Amaral & Cia Ltda Rua do Livramento. 253-6093 PEQUENA COLEÇÃO DAS OBRAS DE FREUD Livro 1 .OS CASOS CLÍNICOS Livro 6 .A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALITICO Livro 7 .0 FUTURO DE UMA ILUSÃO (em preparo) Livro 10 .

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