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Anatomia do Inferno - por Henrik Sylow

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Resenha crítica do filme da cineasta francesa Catherine Breillat "Anatomie de l'Enfer" - por Henrik Sylow (tradução: Renato Araújo)
Resenha crítica do filme da cineasta francesa Catherine Breillat "Anatomie de l'Enfer" - por Henrik Sylow (tradução: Renato Araújo)

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Published by: renato on Aug 30, 2011
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ANATOMIA DO INFERNO

Henrik Sylow1 Com um profundo ritmo techno pulsante, Anatomia do Inferno (Anatomie de L’Enfer, 2004), o último filme de Catherine Breillat abre com um close-up de um jovem chupando um pinto vagarosamente entre latas de lixo num beco. Inimaginável alguns anos atrás, filmes como Romance X (1999), da própria Breillat, Baise-moi (Foda-me, 2000) de Virginie Despenters e Irréversible (2003) de Gaspar Noë, não mais apenas “sugerem” a sexualidade. Até mesmo o cinema americano foi capturado nessa mesma tendência como mostra o The Brown Bunny (2003) de Vincent Gallo. Mas enquanto que Noë e Gallo só provoquem em prol da badalação, tendo em vista que Baise-moi é um pouco menos que um pornô ruim, Breillat trata a sexualidade com o mesmo respeito que ela tem por qualquer outro traço humano. Para ela, a sexualidade humana é tão normal quanto qualquer coisa, então, por que não retratá-la? Baseada em seu romance Pornocratie, Breillat fez desse seu décimo filme – o filme X – sua mais ambiciosa apresentação da sexualidade humana da atualidade, ou devo dizer apresentação da “desconstrução da psicosexualidade?” Breillat nunca retratou a sexualidade em um sentido amplamente pornográfico, mas em um sentido quase lacaniano. Para Breillat, as imagens e as palavras são importantes, tão importantes de fato que ela termina a introdução que fez na première mundial com o seguinte conselho – ou seria um pedido? : “Vocês estão prestes a ver imagens que os chocarão, ofenderão e mesmo os repulsarão. Por favor, não riem ou se assustem. Apenas observem o filme em silêncio, por favor.”. Originalmente, Breillat quis adaptar o romance La Maladie de La Mort, (A doença da Morte,1983) para a tela, mas foram recusados a ela os direitos. Desapontada e raivosa com a classificação “adulto” (x rating) ao Baisemoi de Despenters, Breillat reagiu escrevendo Pornocratie. Sob muitos aspectos a estória é uma alusão à La Maladie de la Mort: um homem contrata uma mulher para passar várias noites com ele. Na última noite ele pergunta se ela acredita que alguém possa amá-lo algum dia e ela responde que não. Na próxima manhã ela se vai. Em Anatomie de l’Enfer, uma mulher se sente atraída por um gay, mas, [após ser] rejeitada por ele, tenta o suicídio cortando os pulsos com uma lâmina de barbear, porém, ele vai atrás dela e a salva. Como se a levasse pra casa, ele permite que ela lhe faça sexo oral, mas isso o repulsa. “Eu quero que você venha e olhe pra mim de um ângulo do qual eu nunca fui vista” diz. “Isso lhe custará”, diz ele. “Eu o pagarei”, ela responde. Pelas próximas quatro noites, o homem faz
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Henrik Sylow – escritor e crítico de cinema com uma paixão para com os cineastas que ousam desafiar as convenções, como Kim Ki-Duk, Catherine Breillat, e o não menos importante Takeshi Kitano, para o qual o crítico dedicou uma página na web: http://www.kitanotakeshi.com/ Tradução: Renato Araújo (araujinhor@hotmail.com ). Original em inglês: http://www.dvdbeaver.com/film/articles/anatomyofhell.htm

visitas a ela em sua casa à beira praia, parcamente decorada, onde ele é exposto a imagens revoltantes e à aspectos do sexo feminino. Isso o intriga a tal ponto que ele, por fim, faz sexo com ela. Cheio de emoções conflitivas, ele tenta apagar a experiência e memória dela com a bebida, mas ela deixou sua marca nele. Retornando a sua casa, ele a encontra na beira de um penhasco. Ao tentar se aproximar, ela se afasta e finalmente cai para a morte. Tipicamente, Breillat coloca o racionalismo de lado e distila – seus críticos bradariam que ela reduz – a sexualidade humana aos elementos distintos que ditam o que seus personagens dizem, no entanto, criam uma forma de lógica desconstruída quase surreal. É central aqui que nenhuma outra emoção além da luxúria (lust) e da repulsão esteja presente: é a dualidade da sexualidade. Ela sente luxúria (lusts) por ele, não por causa de sua aparência física, mas porque é repulsiva a ele. No mundo de Breillat a sexualidade está acima do corpo; sexo e sexualidade não são necessariamente a mesma coisa. Por exemplo, na primeira noite, o homem pega o batom enquanto a mulher dorme; primeiro pinta ao redor da vagina e o ânus, então ao redor de sua boca. Aqui, Breillat sugere que todos os três são meros orifícios. Isso é posteriormente ressaltado na segunda noite, durante a qual ele penetra o dedo na vagina dela e produz um vazamento líquido (saliva) em sua boca, e, de modo definitivo, quando ele pega o rodo (rake) e o insere no ânus dela enquanto dorme. 2 Reduzindo o corpo a meros orifícios, Breillat destila o mote de que a sexualidade está para além do corpo, então continua a elaborar isso numa cena posterior, onde a mulher pega um absorvente interno: “Olhe. Ele tem o mesmo tamanho de um pênis, eu poso inseri-lo sem nenhuma espécie de preliminar e eu não sinto nada fazendo isso. Se isso é assim, por que eu devo sentir algo fazendo sexo? Não é o coito que importa, mas o ato em si mesmo.” Nesse sentido, datando sua mais brutal desconstrução da sexualidade, Breillat sugere que o ato físico do sexo não tem significado, que só o ato mental importa. A sexualidade é da mente, não do corpo. Assim como Breillat mostra que o sexo e sexualidade não estão necessariamente relacionados, do mesmo modo ela toca no tema que a tem acompanhado desde o primeiro filme. Em Romance X, ela explora as distinções estritas entre amor e sexo. “Como se pode amar um homem que não te fode?” A resposta é significativa: “Eu não gosto de homens que me fodem.” Mais tarde, Breillat lançou esse comentário: “Eu não quero contar uma estória a respeito de pessoas que se amam, mas pessoas que se desejam”. Mas, em Anatomie de l’Enfer o desejo só é um motivo por procuração (by proxy). Para Breillat o motivo da repulsividade é o mais importante a se explorar. Nada a respeito da repugnância (disgust) no passado, em Romance X, 1999) a mulher se pergunta: “Por que os homens que nos são repugnante (disgusted) entendem-nos melhor que aqueles que nos atraem (appealed)”, em A ma
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Notem, por favor, que, enquanto “rodo” (rake) em inglês também significa libertino (libertine), entre outras coisas, não tem esse duplo sentido em francês, assim uma desconstrução paradigmática da cena deve ser feita em francês e não nos termos de uma tradução. O que é importante na cena é que se trata de um objeto inserido em um orifício. N. do A.

Soeur! (Fat Girl, 2001) a irmã pouco atraente afirma o seguinte: “Eu quero perder minha virgindade com um homem feio, assim, eu não tenho de me lembrar disso”. Breillat, em Anatomia de l’Enfer, torna isso o motivo central, como o homem gay sente repulsa pela carne feminina, “Ela é enganosa (deceptive) em sua suavidade”, ele diz, e ainda mais por seu sangue. Ambos, o conceito de sangue e o sangue em si mesmo, são significativos. O homem é primeiramente introduzido ao sangue dela quando corre ao seu socorro de sua tentativa de suicídio. Mais tarde, quando explora a vagina dela, seu dedo é coberto com secreção vaginal e sobretudo sangue menstrual, o qual ele força a si mesmo a provar. Quando o homem primeiro sente as secreções, então as cheira e por fim, as prova, Breillat forçanos a chegar a termo com nosso próprio senso de repulsão. Ela elabora isso através de reminscências (flashbacks). O primeiro exibe três meninos pré-adolescentes que exploram a vagina de uma garotinha. O segundo exibe um menino pré-adolescente que encontra um filhote de passarinho doente, que ele acidentalmente esmaga numa polpa sangrenta. Breillat não indica (imply) que a repulsão venha desses dois eventos em geral, mas oferece duas possíveis origens para a repulsão e sugere que ela está enraigada em nossa infância. Mais importante, ela estabelece o sangue como um índice associado à culpa, pela incapacidade de ajudar o filhote de passarinho, é por isso que o homem ajuda a mulher no começo; e [sangue como] morte e vergonha, por meio da morte do filhote de passarinho. Na Anatomie de l’Enfer, enquanto explica sua menstruação, a mulher dissolve o sangue de um absorvente num copo com água, como se fizesse chá e entrega-o ao homem e diz: “em épocas passadas, o homem bebia sangue do seu inimigo para adquirir mais força. Se você realmente me odeia, você deve beber meu sangue.” Ele bebe. Finalmente, depois de ter relações vaginais com ela, ela esguicha (gushes) seu sangue menstrual sobre seu pênis e na área da virilha. Repelido por sua vermelhidão, ele está, contudo, intrigado por sua liquidez e a sensação desse líquido em seu pênis. Pode-se ver o processo como uma intenção paradoxical para destruir o índice de sangue, notado acima. Longe de sugerir que a homosexualidade é uma neurose, Breillat sugere que a repulsão está baseada em eventos além do controle. Assim, pode-se vê-lo ficando excitado (intrigued) pela menstruação como uma catarse. Eu conversei brevemente com Amira Casar, a personagem feminina, a respeito do que o sangue representava. Ela disse o seguinte: “Para mim o sangue é primal. Você tem de entender que de acordo com a igreja católica, a menstruação é sangue sujo, impuro. Isso é assim porque é o sangue feminino. Aqui, o sangue menstrual é pagão, representa a mulher e a fertilidade”. Breillat às vezes faz seus personagens de objetos que por vezes servem só para falar os pensamentos psicosexuais dela. A mise-en-scène de Breillat se torna muito surreal, quase como o Buñuel tardio: pensamentos desconstruídos, poses em vez de atuação. Em Anatomie de l’Enfer, Breillat não dirige tanto quanto arranja poses e quadros; ela é um metteur en scène [em francês no original – “diretor de cena”]. Não é preciso dizer, a mise-en-scène é controlada; na verdade

tão controlada, que Breillat, nos precréditos, nota que Casar tem uma dublê em certas cenas de natureza sexual, e, que esse corpo duplo é “uma extensão da personagem ficcional”. Ela não esconde o fato de que as personagens sejam objetos: eles são anônimos, conhecidos só como o homem e a mulher. Ela faz pouco para esconder que eles representam seus pensamentos profundos (inner thoughts), indo tão longe quanto narrar o filme, falando as próprias palavras do seu livro. Isso não é tanto um filme quanto uma apresentação visual dos pensamentos de Breillat, de seu livro Pornocratie. Anatomie de l’Enfer também marca a segunda colaboração entre Breillat e o ator pornô hardcore Rocco Siffredi, aka the italian Stallion.3 Para Breillat, ele representa o amante latino por excelência (ultimate latin lover). O comentário dela sobre o porquê o usou em Romance X lança luz sobre suas escolhas de elenco: “Homens franceses são tão entediantes de se ver, tão magricelas e pálidos”, assinala. Enquanto Rocco leva isso de boa fazendo piadas “eu precisei trepar com dez mil mulheres para fazer um filme de verdade – eu não acho que poderia fazer isso novamente.” Ele realmente não é um bom ator e ele não faz nada pra fingir sê-lo. Siffredi é bastante consciente de suas próprias limitações (e suas vantagens de um pênis de 27,9 cm). Como notado anteriormente, as personagens são objetos anônimos, falando pensamentos de Breillat, e, nessa competência, Siffredi representa um papel esplêndido. Em Anatomie de l’Enfer, Catherine Breillat levou sua exploração da sexualidade ao seu limite e além, alcançando assim o fim de uma estrada que ela começou há dez filmes atrás. Percebendo que ela não pode prosseguir, esse filme é para ela o último nesse tópico – tal como ela diz hoje. Muitos estão desgostosos com o filme, realmente muitos o odeiam, mas você não tem de gostar de seus filmes, ou concordar com suas idéias sobre o tratamento da sexualidade, para ver que ela é, e provou ainda mais ser, um dos mais interessantes, inovadores (groundbreaking) e desafiadores dos diretores contemporâneos. Catherine Breillat toma a posição no cinema que poucos ousam ou mesmo tem a habilidade de seguir e juntamente com um punhado de diretores, ela continua a desafiar as convenções da normalidade e da sociedade empurrando as fronteiras do cinema. Ela é um mestre e Anatomie de l’Enfer é sua obra-prima mais recente .

CRÉDITOS Diretor: Catherine Breillat Script: Catherine Breillat (baseado em seu romance: Pornocratie) A Mulher: Amira Casar O Homen: Rocco Siffredi Duração: 80 minutos

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Referência a um filme pornô soft dos anos 1970 com o ator norte americano (ainda não famoso à epoca) Sylvestre Stallone, imortalizado anos depois em Rocky Balboa. N. do T.

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