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Direito Constitucional II - Firmino

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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

Faculdade de Engenharias
Chimoio

Cadeira: Direito Constitucional II 1º Ano, 2º Semestre Docente: Firmino Emílio

I – Os princípios fundamentais da Constituição da República de Moçambique de 2004.
1. Estado. Referencia aos elementos do Estado na Constituição moçambicana (CRM) Há muitas doutrinas que definem o Estado, sendo que, relevante para o nosso estudo é que o Estado é uma comunidade politicamente organizada, constituída, tradicionalmente por um território, pode e poder político. Moçambique constitui-se em Estado, com os três elementos acima indicados. O artigo 1 da Constituição da República de Moçambique refere claramente que “a República de Moçambique é um Estado independente, soberano, democrático e de justiça social”. (destaque nosso). Jorge Miranda (Tomo III, 1998) refere ao Estado como comunidade política (ou povo), à cidadania como qualidade de membro do Estado, ao Estado como poder e ao território do Estado. O autor acrescenta que o Estado traz consigo complexidade de organização e de actuação, com cada vez maior diferenciação de funções, órgãos e serviços, institucionalização do poder, ou subsistência do poder como ideia para além dos seus detentores concretos e actuais e autonomia, ou formação de uma dinâmica própria do poder e do seu aparelho frente à vida social. Por sua vez CANOTILHO (1999) alude que o Estado é assumido como uma forma histórica de um ordenamento jurídico geral cujas características ou elementos constitutivos eram, a territorialidade, isto é, a existência de um território concebido como "espaço da soberania estadual"; a população, ou seja, a existência de um "povo" ou comunidade historicamente definida; e a politicidade: prossecução de fins definidos e individualizados em termos políticos. Jorge Miranda (op. Cit) ensina que “mais para efeitos didácticos do que científicos, grande número de autores reconduz o tratamento do Estado aos dos seus três elementos: povo, território e poder político. É tese a que não aderimos; quando muito, aceitamos falar em "condições de existência". Como quer que seja, o Estado moçambicano é constituído igualmente dos três elementos (Território, Povo e Poder Político ou soberania).

1.1 – Território O território dum Estado é formado pelo solo com toda a sua profundidade, subsolo,

espaço aéreo, incluindo também águas territoriais. O artigo 6º CRM refere no seu n.º 1 que “o território da Republica de Moçambique é uno, indivisível e inalienável, abrangendo toda a superfície terrestre, a zona marítima e o espaço aéreo delimitados pelas fronteiras nacionais”. O n.º 2 acrescenta que a “extensão, o limite e o regime das águas territoriais, a zona económica exclusiva, a zona contígua e os direitos aos fundos marinhos de Moçambique são fixados por lei. Nas lições de Jorge Miranda (op. Cit.), há quem sustente que o território adere ao homem e que todos os efeitos jurídicos do território têm a sua raiz na vida interna dos homens ou que o Estado implica stare, sede fixa, de tal jeito que o território não equivale só a um espaço reservado à acção do Estado, entra também a constituí-lo. Ou que o poder soberano se traduz numa organização, de que é elemento dimensional o território. Ou que o território faz parte do ser do Estado, e não apenas do seu haver.

1.2 – Povo O povo é o conjunto de cidadãos nacionais. Isto é, todo aquele que tem a nacionalidade moçambicana faz parte do povo moçambicano. Na CRM são diversos os artigos que tratam do povo referindo-se ao conjunto das pessoas de nacionalidade nacional que exercem, através dos seus representantes, a soberania. É relevante é o que alude o n.º 1 do artigo 2 da CRM ao consagrar que “a soberania reside no povo” para o n.º 2 do mesmo artigo acrescentar que “o povo moçambicano exerce a soberania segundo as formas fixadas na Constituição”. A nacionalidade moçambicana pode ser originária (principio da consanguinidade – ius sanguinis, princípio da territorialidade - ius soli e por maioridade) ou adquirida (por naturalização, por casamento ou por filiação). 1.3 – Soberania A soberania é um poder político supremo e independente, poder que não está limitado por nenhum outro, quer interno ou externo. Um Estado soberano não se submete a ordens de outros Estados que não sejam voluntariamente aceite.
Para Jorge Miranda, o Estado identifica-se com o poder, com a soberania, com o Rei, e a sociedade. Vale lembrar o que se diz no artigo 2 da CRM de onde resulta que a soberania reside no povo que a exerce de acordo com as formas fixadas na constituição, de entre elas, por meio de eleições e referendo.

Assim, a soberania (ou poder) é exercida pelos diversos órgãos do poder, em nome do povo. O artigo 133 CRM indica como órgãos que, em nome do povo, exercem a soberania, o Presidente da República, a Assembleia da República, o Governo, os tribunais e o Conselho Constitucional. Enfim, aderindo Miranda, aqui apenas se pretende inculcar que povo, território e poder político são pressupostos ou condições de existência do Estado, indispensáveis em todos os lugares e em todas as épocas em que pode falar-se em Estado, embora com funções e relações diversas. Sociedade política complexa, o Estado traduz-se num conjunto de pessoas ou povo, fixa-se num espaço físico ou território e requer uma autoridade institucionalizada ou poder político.

2. Estado Democrático A Constituição da República de Moçambique estabelece alguns princípios que regem no nosso país. Os mais importantes são: o princípio do Estado de Direito e o princípio de Democracia.
O artigo 1 da CRM alude que a República de Moçambique é um democrático e continua o artigo 3, epigrafado como Estado de Direito Democrático, que a República de Moçambique é um Estado de Direito, baseado no pluralismo de expressão, na organização política democrática, no respeito e garantia dos direitos e liberdades fundamentais do Homem.

O termo “democracia” surgiu na antiga Grécia e etimologicamente resulta de fusão entre “demos = povo” e cratia = poder” e por isso democracia é hoje entendido como “poder do povo”. Portanto, democracia é a forma política em que o poder é atribuído ao povo e é exercido pelo povo em harmonia com a vontade expressa pelo conjunto de cidadãos titulares de direitos políticos. O princípio de Estado de Direito Democrático exige a adopção de uma lei fundamental – A Constituição, a lei magna estadual de qualquer estado, exceptuando-se a Inglaterra que não tem constituição escrita. Outro elemento do Principio de Estado de Direito Democrático é a separação de poderes. Estes, não podem estar concentrados numa única pessoa, numa relação disciplinada por normas onde existe uma interdependência. O Estado Democrático implica o princípio da liberdade; do pensamento e de expressão; o principio da igualdade de todos iguais perante a lei, que implica a proibição da descriminação baseada na raça, condição, orientação politica, religião, etc; o principio da inviolabilidade da pessoa humana: toda a pessoa humana merece respeito. Este princípio da inviolabilidade da pessoa humana implica a protecção da pessoa humana contra privações arbitrárias da liberdade. Tratamentos desumanos. Direito à defesa num processo transparente, livre, contrário às inquisições, com direito à defesa, direito à palavra. Surge também aqui a questão da pena de morte, prevista

que respeita na sua organização os princípios da autonomia das autarquias locais”. podem sair do território e viver no estrangeiro e aqui continuam a pertencer ao povo. poderem conduzir a especialidades da lei (mas não a discriminações ou privilégios) ou de competências de órgãos legislativos e executivos. ele se assume como de direito social. a zona marítima e o espaço aéreo delimitados pelas fronteiras nacionais. Segundo Miranda. Tal resulta do artigo 8 do mesmo diploma ao consagrar que “a República de Moçambique é um Estado unitário. distritos. 3.º 1 do artigo 6 da CRM). localidades e povoações. e ainda dentro deste princípio encontramos outra questão: o aborto. do povo e do território correspondem a universalidade e a igualdade dos direitos e deveres dos cidadãos. significa que o povo exerce o seu poder através de representantes eleitos por ele. dos membros do Estado: todos eles gozam.e aos mesmos direitos e deveres -previstos na Constituição e nas leis. consta como um dos objectivos do Estado moçambicano a edificação de uma sociedade de justiça social e a criação do bem-estar material. sem perderem a cidadania. abrangendo toda a superfície terrestre. de todos os direitos e estão sujeitos a todos os deveres . não para o povo. O território da República de Moçambique é uno. Este pressuposto encontra-se inculcado em diversas normas da Constituição. indivisível. projectadas nas divisões ou circunscrições administrativas ou políticas do território. ou omissões.bastante discutida e que se encontra prevista nalguns ordenamentos jurídicos. espiritual e de qualidade de vida dos cidadãos (vide alínea c) do artigo 11 CRM). Isto quer dizer que. por pessoas singulares ou colectivas. Moçambique é um Estado unitário. em princípio. Estado Unitário Apesar do artigo 7 da CRM referir que a República de Moçambique organizase territorialmente em províncias. . A República de Moçambique é uma democracia. princípio da responsabilização de actos praticados. O artigo 1 da magna lei refere que o nosso país é um Estado de justiça social. é dirigido pelo povo. de forma expressa ou tácita. Assim. Os cidadãos do Estado. Estado Social de Direito Moçambique. além de ser um Estado democrático e unitário. Nem isso é infirmado por diferenças geográficas ou outras. (vide o n. 4. É uma democracia representativa. O território é um limite para o poder político efectivo. postos administrativos. a unidade do Estado.

Quando o artigo 3 da CRM reconhece que Moçambique é um Estado de Direito. e cria instituições. prescreve formas e procedimentos. chefe de tudo. na propriedade pública dos recursos naturais e de meios de produção. designadamente.º 3 do artigo 2 da CRM ao estabelece que o Estado subordina-se à Constituição e funda-se na legalidade. As leis são reguladoras da vida inter-subjectiva. na iniciativa dos agentes económicos. como o Estado deve proceder com as suas actividades. alude que a organização económica e social da República de Moçambique visa a satisfação das necessidades essenciais da população e a promoção do bem-estar social e assenta nos princípios fundamentais de valorização do trabalho. e que implicam um mínimo de certeza e segurança nos direitos das pessoas e nas expectativas juridicamente criadas a que está imanente uma ideia de protecção da confiança dos cidadãos e da comunidade na ordem jurídica e na actuação do Estado. podia fazer o que quisesse. do sector privado e do sector cooperativo e social. ao fixar os princípios fundamentais. absoluto era ele a lei. na coexistência do sector público. É disso que resulta do n. O direito estabelece regras e medidas. não é lei. na protecção do sector cooperativo e social e na acção do Estado como regulador e promotor do crescimento e desenvolvimento económico e social. Depois. traduz que ele se subordina à Constituição e a lei.Ainda o artigo 97 da CRM. Tal princípio encontra-se expressamente consagrado no artigo 3º da CRM e deve ser tido como um princípio politicamente conformado que explicita as valorações fundamentadas do legislador constituinte. Os citados princípios da segurança jurídica e da protecção da confiança assumem-se como princípios classificadores do Estado de Direito Democrático. O princípio do Estado de Direito é um princípio que resulta do constitucionalismo moderno e do liberalismo. o monarca não é lei fundamental mas. nas forças do mercado. aliás o monarca é subordinado às leis. o da segurança jurídica e da protecção da confiança dos cidadãos. É a vitória do liberalismo e do constitucionalismo contra o totalitarismo e o autoritarismo. O princípio do Estado de Direito concretiza-se através de elementos retirados de outros princípios. de acordo com o interesse colectivo. contrariamente às doutrinas que concentravam todo o poder numa única pessoa. veio o Liberalismo que acabou por consagrar o primado da lei contra o próprio monarca. O princípio de Estado de Direito trata do conteúdo. O princípio de Estado de Direito conforma as estruturas do poder político e a organização da sociedade segundo a medida do direito. O que conta são as Leis. As características mais importantes do Estado de Direito são: . No totalitarismo considerado como uma marca. extensão e modo. que veio a consagrar o primado do Direito como regulador da vida intersubjectiva. O soberano ou o monarca não é fonte de referência nenhuma. está subordinado à própria lei.

Moçambique é um Estado livre e independente e não pode ser património de ninguém. a capacidade de decisão autónoma quanto aos destinos da colectividade nacional". ele e só ele. Que Moçambique é um Estado independente resulta do artigo 1 da CRM. tendo se tornando independente de Portugal no dia 25 de Junho de 1975. No entanto. Para citar Jorge Miranda. 5. que o Estado moçambicano tem a sua própria autodeterminação. Dizer que Moçambique é um Estado independente quer dizer que não há qualquer outra força política externa que exerce poder dentro do território nacional. dotado de directa e livre participação na comunidade internacional. Estado Independente Todos sabemos que o nosso país durante muito tempo esteve sob o jugo da colonização. . uma aspiração veemente no sentido de que o povo moçambicano (concluímos nós). executivo e judicial. uma ideiaforça. trata-se de "defender e alargar a esfera de autodeterminação nacional. a capacidade do Estado de "gerir autonomamente os seus destinos". económico e social que adopta e a posição nas relações internacionais que entender mais correcta. livre de quaisquer influências. um poder interno e não do exterior. a Constituição da República de Moçambique consagra um vasto conjunto de requisitos do Estado de Direito. Assim. o regime político. Moçambique (dissemos nós) é um Estado com plenitude de direitos. todos os actos do Estado são limitados pela lei. defina. A soberania é "mais que um dado jurídico fixo. ser Estado independente significa fundamentalmente.  Divisão dos poderes: legislativo. A independência está intimamente ligada à soberania pois. não sujeito a qualquer outro e que. Segundo o mesmo autor. dentro do reconhecimento da identidade do género humano e da cooperação entre os povos. uma vitória permanente a garantir". nessa qualidade.  Direitos e liberdades fundamentais  Garantia jurídica formal e efectiva realização. "a independência em sentido material". Império da lei como expressão da vontade geral. significa que o poder político é exercido por órgãos de soberania legitimados pelo povo. estabelece a sua ordem jurídica e organiza o seu poder.

porque nele certas instituições reais (partidos. carismas pessoais) adquirem relevância politicamente constitutiva.II – Estudo do Sistema de Governo Moçambicano 1. têm por vezes influência políticoconstitucional as modalidades de exercício do poder resultante de praticas institucionais dominantes Existem fundamentalmente três Sistemas de Governo. Como se vê um regime ou forma de Governo pode ser parlamentar. Se quiséssemos aproximar esta definição de uma outra. Num domínio como este. Traços caracterizadores: . a saber: Sistema parlamentarista (Inglaterra e Itália). institucionais e funcionais. Sistema presidencial (EUA e Moçambique) Sistema semi-presidencialista (França e Portugal) O sistema é uma entidade legal-constitucional.1 – Sistema de Governo Parlamentar Assenta na forma de governo parlamentar e pode ser de regime parlamentar monárquico (Inglaterra) ou regime parlamentar republicano (Alemanha). semi-presidencial ou presidencial: 1. . mas pressupõe confiança do parlamento. Modelos de Sistemas de Governo As formas de governo correspondem à posição jurídico-constitucional recíproca dos órgãos de soberania e respectivas conexões e interdependências políticas. diríamos que a forma de Governo se aproxima da ideia de regime político como o conjunto de regras constitucionais atribuídas de funções ou poderes políticos. práticas politicas.Responsabilidade do gabinete perante o parlamento: o primeiro-ministro é nomeado pelo chefe de estado (rei ou presidente da republica).

sem relevantes funções de direcção política.Dissolução do parlamento pelo chefe de Estado: sob proposta do gabinete (executivo). mas trata-se e um acto de iniciativa do gabinete (primeiro – ministro) que assume a responsabilidade politica do mesmo através de referenda. . A legitimidade é hereditária (no caso do regime parlamentar monárquico). Existe a possibilidade de ser eleito presidente um candidato. o que lhe permite assegurar. O esquema é aplicável aos regimes parlamentar monárquicos e republicanos. com a diferença de nos primeiros não haver um chefe de estado eleito pelo parlamento (modelo inglês). Poder executivo: é atribuído a um presidente eleito por um colégio de eleitores (povo). ele é eleito por um colégio de grandes eleitores em número igual ao de senadores e representantes. formado por um senado e por uma câmara de representantes. designadamente no que respeita ao executivo e legislativo. . o poder executivo e o poder judiciário são constitucionalmente consagrados como três poderes independentes.Eleição do presidente da Republica pelo parlamento. a dissolução é feita por decreto presidencial/real. e dai a ausência de um gabinete ministerial e a existência de simples secretários de estado. ou seja. mas com um estatuto constitucional de responsabilidade política perante o mesmo. 1. por quatro anos. o regime parlamentar passou a articular com a lógica maioritária. Referenda ministerial – co-responsabilização. Permite aos tribunais controlar os actos constitucionais. falando-se de Governo de legislatura quando um partido consegue uma maioria absoluta de mandatos no parlamento. Legitimação quase directa do PR. Controlos . Poder legislativo: é atribuído a um congresso.Não existem controlos primários entre o presidente da república e o congresso: o presidente não tem poderes de dissolução das câmaras e nenhuma destas ou ambas tem a possibilidade de aprovar moções de censura contra o presidente. Governo: o presidente da república é simultaneamente chefe de estado e chefe de Governo. O Governo é irresponsável e o parlamento indissolúvel. Poder judiciário: poder judiciário activo que se transformou através do Supreme Court e da judicial review num contra poder. Trata-se de uma independência orgânica.1 – Sistema de Governo Presidencial Corresponde à forma de Governo presidencial (Norte Americano) Traços caracterizadores Separação de poderes: o poder legislativo. Poder judiciário: é atribuído a um tribunal e os tribunais inferiores criados pelo congresso. actuação conjunta entre o presidente e o Governo. subordinados ao presidente. Modernamente.. em regra a duração do Governo pelo prazo da legislatura parlamentar. que tem a maioria de mandatos eleitorais mas sem maioria de votos populares.

a eleição é caracterizada por ser um direito político de exercício conjunto por todos só seus titulares. cada cidadão vota por si. referimo-nos ao sistema eleitoral.Dissolução do parlamento por decisão e iniciativa autónomas do presidente da república.3 – Sistemas de Governo e Sistemas Eleitorais. Eleição é o processo mediante o qual um grupo social escolhe seu governante ou seu representante político por meio do voto. . dois sentidos de sistema eleitoral que são: · Sistema eleitoral em sentido amplo: conjunto de regras.2 – Sistema de Governo Semi-presidencial Corresponde a forma de Governo semi-presidencialistas Traços caracterizadores: . 1.Configuração do gabinete como órgão constitucional autónomo.O presidente pode ser destituído através do processo de impeachment e o senado tem de dar o seu assentimento à nomeação dos secretários de estado e altos funcionários do executivo. Poder de veto: poder de impedir que determinado acto aprovado pelo congresso entre em vigor. Existem segundo JORGE MIRANDA. Em termos políticos. procedimentos e práticas com sua coerência e lógica interna.Dois órgãos (presidente da república e o parlamento) eleitos por sufrágio directo. Nesta forma de designação normalmente vigoram um conjunto de regras com a sua lógica e coerência internas. . Sistema Eleitoral Uma das formas de designação de órgãos do poder político. a que está sujeita a eleição em qualquer país e condiciona o exercício do direito de sufrágio. a eleição. que tem lugar nos países democráticos onde o exercício do voto é um dos direitos fundamentais dos cidadãos por se tratar do meio pelo qual o indivíduo participa do poder político e manifesta sua vontade. O presidente dispõe do direito de veto relativamente aos actos legislativos mas com possibilidade de superação do veto político por cada uma das câmaras através de deliberação aprovada por mais de 2/3. Obriga a uma nova votação. 1. . ou seja. -Presidente da república com poderes de direcção política próprios. mas o seu voto somente tem valor somado aos dos restantes eleitores e enquanto exibe uma posição do conjunto de eleitores ou de parte considerável destes. que determinam a forma como os votos se convertem em mandatos. É igualmente caracterizado como sendo um modo de intervenção dos cidadãos na vida pública de tipo periódico.Dupla responsabilidade do Governo perante o presidente da república e perante o parlamento. . segundo a sua situação e aspiração.

no primeiro caso por objecto escolher indivíduos e assim recair nos seus nomes e no segundo caso . deixado a vontade dos eleitores e possa haver. em diversas qualidades. contando-se o numero de votos obtidos por cada nome dela. múltiplo consiste no direito dado ao mesmo eleitor de votar. esta ou aquela lista de candidatos. pelo simples facto de reunir requisitos legais de sufrágio sendo os votos recolhidos por circunscrições territoriais e orgânico quando o cidadão da sua contribuição efectiva para a colectividade. a aplicação de sanções aos não votantes. · Sufrágio individual e por listas: consoante o sufrágio tenha . · Sufrágio uninominal e plurinominal: consoante o eleitor só possa votar. a orientação ou tendência organizada que se prefere e. o que dá lugar aos tipos de sufrágios que podem ser: · Sufrágio directo e indirecto: consoante os eleitores escolhem imediatamente os seus representantes ou vão escolher pessoas que procedem a essa escolha por eles. ou elemento activo de uma associação ou instituição privada de utilidade pública. em um. simples que consiste na atribuição de um único voto a cada eleitoral. · Sufrágio inorgânico e orgânico: é inorgânico quando o direito de voto é exercido pelo cidadão. · Sufrágio restrito(censitário e capacitário) e universal: consoante o direito de voto seja reconhecido a um grupo limitado de cidadãos ou à generalidade dos cidadãos a partir de um certo limite de idade. no segundo o caso. o sufrágio restrito é considerado censitário se a atribuição do direito de voto dos meios de fortuna e capacitário se a atribuição do direito de voto implica um determinado grau de instrução. como chefe de uma família domiciliada numa freguesia. Tipos de Sistemas Eleitorais Em função do tipo de representação podemos identificar os seguintes tipos de sistemas eleitorais. A par da definição do sistema eleitoral é necessário determinar-se quem é que pode exercer o direito de escolha dos governantes. embora só com um voto de cada vez. ou em mais do que um candidato. em cada circulo eleitoral. se traduz num resultado global final. o modo como a vontade psicológica de cada eleitor ou conjunto dos eleitores é interpretada ou transformada em vontade eleitoral. o modo como a vontade dos eleitores de escolher este ou aquele candidato. como saber ler. profissional associado num sindicato. a saber: Sistemas Eleitorais de Representação Maioritária: aquele que tem por objectivo eleger os candidatos ou listas de candidatos que tiver maior número de votos. ou não. múltiplo e singular: é plural quando o direito dado a certos eleitores de votarem uma vez só mas com mais de um voto e tem sido defendido sob uma forma de voto familiar. então o voto incide sobre uma lista preparada pelas organizações politicas. · Sufrágio plural. destinar-se a designar o partido . podendo ser atribuído a um determinado grupo de cidadãos ou a totalidade da população. · Sufrágio público e secreto: consoante a votação se faça em termos de o sentido do voto de um eleitor poder ser ou não do conhecimento dos restantes.· Sistema eleitoral em sentido restrito: forma de expressão da vontade eleitoral. As listas podem ser uninominais (quando contenham um único deputado por cada círculo eleitoral) ou . na mesma eleição. · Sufrágio facultativo e obrigatório: consoante o exercício do direito de voto seja.

que em Moçambique vigora é o sufrágio universal. No que respeita as vantagens do sistema de representação proporcional. (iii) o voto é sempre dirigido ao partido com possibilidade de ganhar as eleições. o principal aspecto resulta do facto de permitir que um número maior de partidos políticos tenham assento no Parlamento dado o seu carácter democrático e aglutinador. secreto e periódico para a escolha dos seus . os sistemas maioritários a uma volta apontam-se como os principais aspectos abonatórios a (i) sua simplicidade e celeridade. (iii) os candidatos eleitos não representam eleitorado geograficamente definido no qual seja responsável por parte da população. directo. dito de outro modo fica com todos assentos no Parlamento o partido que tiver a maioria dos votos validamente expressos.plurinominais (quando as listas possuam ou tenham mais do um nome de candidatos a deputados ou membro de parlamento). podendo ser apurados na primeira ou segunda volta. Sistemas de Representação Proporcional: neste sistema atribui-se a cada partido um número de representantes no Parlamento de acordo com o número de votos validamente alcançados nas urnas. embora não tanto como o sistema maioritário a uma volta e (iii) não encoraja acções extra-parlamentares. e a segunda volta ocorre quando nenhum dos candidatos tenha obtido a maioria absoluta. igual. (ii) evita a promiscuidade e pulverização partidária no Parlamento. e consequentemente tumultos e agitação extraparlamentar. Como desvantagens podemos acentuar o seu carácter discriminatório no que concerne aos partidos de menor expressão porque limita o seu acesso a assentos Parlamentares. que se reporta ao partido com maioria de votos expressos. Em termos de vantagens. O Caso do Sistema Eleitoral Moçambicano A CRM estabelece no seu artigo 73. pois na segunda volta estão menos interessados e saturados ou desgastados do acto eleitoral. No sistema eleitoral de representação maioritária a uma volta. Como se disse. este sistema visa obtenção da maioria do número de votos. bastando para ser declarado vencedor uma maioria simples dos votos validamente expressos. Como argumentos desencorajadores do sistema podem citar-se (i) a exigência de cálculos matemáticos complicados (ii) contribui para a abstenção dos eleitores. quanto ao tipo de sufrágio. Já o sistema maioritário a duas voltas. 4. (ii) a instabilidade governativa dado que existem vários partidos políticos no Parlamento. Este sistema conduz infalivelmente ao bipartidarismo ou seja um cenário político somente com dois partidos proeminentes ou que restringe as escolhas dos eleitores. é eleito o candidato ou lista que obtiver maioria absoluta do número de votos validamente expressos. É graças a estes sistemas que existe o multipartidarismo e como características desabonatórias são apontadas a (i) inexistência de uma relação directa entre o número de votos expressos a favor do partido político e os assentos conquistados. no que respeita as vantagens de (i) concentrar os votos dos eleitores nos dois partidos mais fortes (ii) facilita a obtenção de maiorias absolutas. (iv) facilita as maiorias absolutas no parlamento e a estabilidade governativa. Este sistema conduz indubitavelmente ao pluripartidarismo com forte tendência para o bipartidarismo. ao estatuir que “ o povo moçambicano exerce o poder político através do sufrágio universal.

Pela disciplina do voto de desconfiança...Nomeação do primeiro-Ministro.1 – Traços Estruturais Raízes do sistema Traços decorrentes de história constitucional moçambicana: O lugar central do parlamento e os partidos políticos como actores essenciais do sistema Traços resultantes de experiências constitucionais estrangeiras: .º 1 do artigo 135 da CRM ao indicar que o sufrágio universal (. o n. Racionalização da forma de Governo As dimensões básicas e estruturantes da forma de Governo moçambicano relacionam-se com a posição do Governo face à assembleia e com a autonomização do presidente da república perante o parlamento. simboliza a unidade nacional.representantes. vence as eleicoes o que reunir mais de metade dos votos expressos. – vide artigo 146 CRM. . igual. Como chefe do Estado.Na eleição directa do presidente . O Sistema de Governo Moçambicano 2.2 – Caracterização jurídico-constitucional dos órgãos de soberania 2. É ao mesmo tempo Chefe do Governo e Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança. Eleito por sufrágio universal directo.1 – Presidente da República O Presidente da República é o Chefe do Estado. secreto. .Pelo seu processo de nomeação e de investidura. . A posição do Governo face a assembleia da república determina-se: . .Exoneração do Governo. 2. A autonomização do presidente da república perante o parlamento assenta: . representa a Nação no plano interno e internacional e zela pelo funcionamento correcto dos órgãos do Estado. das províncias e do poder local. pessoal e periódico.) constitui a regra geral de designação dos titulares dos órgãos electivos de soberania.No recorte constitucional de importantes poderes próprios: .Pelo regime de formação do Governo.Dissolução da assembleia da república . por referendo sobre as grandes questões nacionais e pela permanente participação democrática dos cidadãos na vida da Nação ”.2.Parlamentarismo racionalizado da Constituição de Weimar (1919) -Semi-presidencialismo Francês – Constituição de 1958. No tocante ao sistema eleitoral. 2. ele é o garante da Constituição. Esta caracterização do tipo de sufrágio é complementada com o disposto pelo n.º 2 do mesmo artigo estabelece claramente que o apuramento dos resultados das eleições obedece ao sistema de representação proporcional.

As competências gerais do PR estao previstas no artigo 159 da CRM e outras competências no domínio do Governo. 2.2.3. entre outros.163. aprovar decretos-lei mediante autorização legislativa da Assembleia da República. 2. eleita por sufrágio universal.1 – Relações entre o Presidente da República e a Assembleia da República O PR dispõe de direito de veto (art. a provacao das leis constitucionais.ºCRM) – poder do PR que se destina a paralisar actuações legislativas da AR.2. secreto e periodico. preparar propostas de lei a submeter à Assembleia da República.2 – Assembleia da República Refere o artigo 168 da CRM que a Assembleia da República é a assembleia representativa de todos os cidadãos moçambicanos e que o deputado representa todo o país e não apenas o círculo pelo qual é eleito. sendo composto pelo Presidente da República que a ele preside. deliberacao sobre a divisão territorial e outras tantas. os Vice-Ministros e os Secretários de Estado podem ser convidados nas reunioes do Governo. Seus actyos assumem a forma de lei e de resolução e são publicados no Boletim da República. Suas competencias estao previstas no artigo artigo 179 da CRM onde se destaca a legislacao sobre as questões básicas da política interna e externa do país. onde se destaca. desenvolver e consolidar a legalidade e realizar a política externa do país (vide artigo 203 CRM) e suas competencias estao prevstas no artigo 204 CRM. a de garantir o gozo dos direitos e liberdades dos cidadãos. garantir a integridade territorial. é o mais alto órgão legislativo na República de Moçambique e determina as normas que regem o funcionamento do Estado e a vida económica e social através de leis e deliberações de carácter genérico. com base na discordância contra mérito da oportunidade politica. pelo PrimeiroMinistro e pelos Ministros. composição e funcionamento.b) aprovar a delimitação das fronteiras da República de Moçambique. mas não são seus membros. assegurar a ordem pública e a disciplina social. A Assembleia da República. implementar a acção social do Estado. promover o desenvolvimento económico. . 2. directo. como alude o artigo 169.3 – Interdependência Entre os Órgãos de Soberania 2. Veto politico (art.163.3 – Conselho de Ministros (Governo) A CRM refere no seu artigo 200 que o Governo da República de Moçambique é o Conselho de Ministros. da defesa e ordem pública e demais funcoes estao nos artigos seguintes do mesmo diploma. É da exclusiva iniciativa legislativa do Governo a matéria respeitante à sua própria organização.º CRM). velar pela ordem pública e pela segurança e estabilidade dos cidadãos. O Gocerno tem como funcao asseguras a administração do país.

Maioria absoluta: metade mais um. ele tem dúvidas sobre a constitucionalidade da norma e requer a sua fiscalização (preventiva) ao CC. criar ministérios e comissões de natureza inter-ministerial e ainda nomear.º 3 e 181 CRM). exonerar e demitir o Primeiro-Ministro. sobre determinadas matérias. Também nos termos dos artigos 180 da CRM. por meio de decretos-lei (vide artigos 143. a AR tem competência de autorizar o Governo a legislar. 163/4 CRM).º 3 CRM).Exercer veto por inconstitucionalidade 2.3. exonerar e demitir os Ministros e Vice-Ministros.3. Quando uma lei remetida para o PR. conclui-se que há controlo da Assembleia sobre a actuação do Governo. O artigo 207 CRM tambem alude qoe o Conselho de Ministros responde perante o Presidente da República pela realização da política interna e externa e presta-lhes contas das suas actividades nos termos da lei e continua no artigo seguinte que os membros do Conselho de Ministros respondem perante o Presidente da República e o Primeiro-Ministro pela aplicação das decisões do Conselho de Ministros na área da sua competência.º. pois. atesta o artigo 159 CRM que no domínio do Governo. alínea e) e 188º (189. o Programa do Governo e o PR convoca novas eleições legislativas. 159. .Exercer veto político . se for inconstitucional ele veta por inconstitucionalidade. através de moção de censura ou de confiança.Promulgar a lei. (art. Nos termos do artigo 159 CRM. através das chamadas leis de autorização legislativa. desde que superior à maioria absoluta os deputados em efectividade de funções (art.2 – Relações entre o Presidente da República e o Conselho de Ministros O presidente da República é o Chefe do Governo (artigo 146. nos termos da Constituição. nomear.ºCRM (limites). este pode: . . Veto por inconstitucionalidade – uma norma é remetida para o PR. . para o CC se pronunciar sobre a sua constitucionalidade. E para tanto.3 – Relações entre a Assembleia da República e o Conselho de Ministros Responsabilidade política do Governo perante a AR. Pode ser superado pela maioria de 2/3 dos deputados presentes. compete ao Presidente da República convocar e presidir as sessões do Conselho de Ministros. após debate. o PR demite os restantes membros do Governo quando o seu programa seja rejeitado pela segunda vez pela Assembleia da República. O PR nomeia e exonera os membros do Conselho de Ministros e ainda o PR nomeia e exonera o primeiro-ministro. 2. o que resulta do artigo 207 CRM ao estatuir que o Conselho de Ministros responde perante (…) a Assembleia da República pela realização da política interna e externa e presta-lhes contas das suas actividades nos termos da lei.Pode ser superado pela maioria absoluta dos deputados em efectividade de funções. . n.Maioria simples: mais votos a favor do que contra. n. O PR tem o poder de dissolução da AR caso rejeite.

º. . . Ex. Traços de racionalização parlamentar presidencialista Dupla responsabilidade do Governo (art. Alguns autores referem que o sistema do governo de Moçambique é de pendor presidencialista ou sistema de governo presidencial reforçado.º CRM): garantia de regulamento das instituições democráticas (art.ºCRM) . em que o PR é eleito pelo parlamento. comportando traços dos sistemas presidencial e parlamentar. Nomeação do PM.205. a apreciação parlamentar de decretos-lei. Assim. ratificação de tratados internacionais (arts. 162.Há.Centralidade do eixo parlamento-Governo. Decisão quanto a propostas referendárias. podemos concluir que o sistema de Governo de Moçambique não é um sistema puro. Poder final – demissão do Governo. 159. onde são visíveis elementos caracterizadores do regime parlamentar e dimensões da forma de Governo presidencialista.A AR (art. O veto político traduz-se na possibilidade do PR poder paralisar a actuação da AR ou de Governo.ºCRM) É diferente do Regime parlamentar.5 – Funcionamento do Sistema de Governo moçambicano . 2.ºCRM) perante: . alínea s) CRM pois.160.Poderes executivos detém um: Poder Inicial – nomeação do PM (art.146. . Traços do regime presidencial Instituição de um PR eleito através de sufrágio directo (art.Centralidade dos poderes do presidente. 2. é a AR que tem o predomínio legislativo. demissão do PM.Chefia do executivo entregue ao presidente. .ºCRM) O Presidente pode opor-se através de veto político às leis votadas pela AR. 208.4 – Qualificação do Sistema de Governo moçambicano Elementos caracterizadores Regime misto parlamentar – presidencial.159. no entanto. Titularidade de poderes de direcção política Em períodos de normalidade constitucional. ºCRM) Interdependência institucional Presidente da República e Primeiro-Ministro Poderes do Presidente da República são: -Poderes institucionais (art.Não é um modelo puro.O PR (art.º CRM) Em períodos de crise Ex.º CRM).206. Direito de veto político e legislativo (art. 160/1-b CRM). declaração de estado de sítio. 146. como resulta do artigo 179. .º. Dissolução da AR.Tem traços de ambos os modelos (parlamentar e presidencial) Verifica-se: . 207.º.163.

contra a monarquia. Dai que fundamentadamente refere Canotilho que as normas de direito constitucional são normas de normas (norma normarum). avulta nele a importância do povo (populus) como organismo ligado por estruturas jurídicas em vista de um fim comum. com mandatos limitados no tempo. é um conceito tendencialmente jurídico. normas estatutárias. Existe um Governo dirigido pelo Presidente da República como órgão de soberania institucionalmente autónomo (art. 133. A constituição pode ser encarada como organização jurídica do povo. no princípio da jurisdicidade (primado da Lei). O Principio Democrático e a Forma Politica de Governo: Significa o exercício do poder público baseado em escolhas livres. A Assembleia da República é um órgão de soberania. O PR e o Governo são órgãos distintos. Responsabilidade política do governo perante a Assembleia da República/Parlamento e o Presidente (arts. O Chefe de Estado é eleito em sufrágio universal directo. A AR é composta de deputados eleitos por via partidária. o Governo é duplamente responsável. – 10 anos no máximo. onde o PR só pode exercer no máximo dois mandatos seguidos. Existe ainda o princípio da limitação de mandatos. que reputamos importante por uma dupla ordem de considerações: por um lado. embora cada deputado concorra individualmente (ao nível dos partidos políticos).º e 200. A Constituição e o Sistema das fontes do Direito 1. por outro lado. secreto e periódico.A realidade moçambicana contempla um sistema republicano. de 5 anos cada. presidido por chefe de Governo. afirmando-se como fonte de produção jurídica de outras normas (normas legais. 203.º CRM) Define o Governo como órgão de administração pública que funciona em Conselho de Ministros. normas regulamentares. com autonomia institucional e competência própria. periódicas. Existe um conselho de ministros. segundo Canotilho.ºCRM). embora o primeiro faça parte do segundo. Portanto. III – A Constituição como Norma Sobre a Produção Normativa 1. as escolhas têm em conta o critério maioritário.1 – A Constituição como fonte do conhecimento Como já nos referimos em lições do semestre passado. democrático baseado na separação de poderes. o mesmo que acontece em relação ao PR e o Governo. . a Constituição de um país assume-se como norma sobre a produção jurídica desse país.

validamente aprovados e ratificados. 210).2 – O ordenamento Constitucional e o ordenamento internacional: sua articulação O artigo 18 da CRM refere que os tratados e acordos internacionais. Se o termo populus (Senatus Populusque Romanus) tem já uma conotação jurídico-política na medida em que evoca a personificação da cidade. Fontes do Direito São os modos de formação ou de revelação do Direito (objectivo) Fontes formais são os factos normativos a que o sistema jurídico imputa o efeito de pôr ou de positivar normas juridicamente vinculantes. (ex: as leis). ainda. e logo o próprio Direito é Política. Decretos-leis e decretos do Governo – artigo 143 CRM. consoante a sua respectiva forma de recepção. Neste sentido se afirmou que a res publica era a «organização jurídica do povo». Determinar os critérios de hierarquia. 1. A civitas representava. . Fontes materiais são os poderes sociais de facto que causalmente originaram e influíram o processo de produção normativa. 183. 204. 158.A definição de Cícero a este respeito é particularmente significativa. validade e eficácia das fontes (entre leis. alínea c) e d) e n. As fontes de Direito devem ser tratadas num sentido jurídico-formal e não nos termos de uma origem genético-causal. o Direito vincula o Poder do Estado. leis da AR. 169. 3. uma forma de res publica: comunidade juridicamente organizada cujo centro era constituído por uma cidade. a res publica é. mas a positivação traduz-se numa decisão política. decretosleis e decretos).º 3 CRM). mais que populus. uma noção jurídico-política: res publica exprime a colectividade tomada na sua individualidade como sujeito de relações jurídicas. Determinar a competência das entidades que revelam normas jurídicas (competência legislativa da AR e do Governo A nível dos órgaõs de soberania a competência legislativa pertence à Assembleia da República e ao Governo (arts. 2. Num Estado de Direito. (interessam sobretudo a Sociologia do Direito). Identificar as fontes de direito (actos normativos. Acresce que as normas de direito internacional têm na ordem jurídica interna o mesmo valor que assumem os actos normativos infraconstitucionais emanados da Assembleia da República e do Governo. ao considerar a res publica como «agregado de homens associados mediante um consentimento jurídico e por causa de uma utilidade comum». vigoram na ordem jurídica moçambicana após a sua publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o Estado de Moçambique. precisamente. A Constituição tem três importantes funções: 1.

3 – Princípios estruturantes da relação entre as fontes de direito 1. entre os actos normativos infraconstitucionais.3. não têm todos a mesma hierarquia. Vigora o princípio da superioridade dos actos legislativos relativamente aos actos normativos regulamentares ou estatutários.1. formando-se assim blocos de competências reservadas de determinadas matérias.3. 1. suspender-se ou revogar-se reciprocamente. regulamentos e tratados). ela deverá ser aplicada no caso concreto com a consequente desaplicação da norma inferior 1. tornando nulas as normas anteriores contrárias. decretos. reúne duas modalidades de preferência: Preferência de validade Efeito de revogação e efeito de anulação. A constituição e leis constitucionais são os actos normativos que estabelecem a relação hierárquica. interpretar-se. decretos-leis. põe em relevo a existência de espaços normativos autónomos e justifica a regulação de certas matérias por determinados órgãos.3 – Princípio sobre a produção jurídica . Significa poderem as leis e os decretos-leis.1 – Princípio da hierarquia Os actos normativos (leis.2 – Princípio da competência O princípio da competência aponta para uma visão plural do ordenamento jurídico.3. Vigora ainda o princípio da inderrogabilidade de norma de grau superior por norma hierarquicamente inferior Consequências destes princípios: Inaplicabilidade Das normas de hierarquia inferior contrárias a normas de hierarquia superior A norma de hierarquia superior. Preferência de aplicação Mesmo não aniquilando a validade da norma contrária. Há também o princípio da tendencial paridade entre as leis e os decretos-leis. e servindo de limite jurídico às normas posteriores também contrárias com ela.

A inconstitucionalidade dos assentos baseia-se neste princípio. A inconstitucionalidade dos regulamentos. 2. pois isso violará o princípio de hierarquia e o princípio da prevalência da lei. quando estes se arrogarem a interpretação autêntica da lei. mesmo que a lei autorize a sua revogação por fontes regulamentares. A inconstitucionalidade dos regulamentos derrogatórios das leis. Nenhuma fonte pode criar outras fontes com eficácia igual ou superior à dela própria. entre as normas com força de lei. mesmo se a lei tal autorizar expressamente. pois a interpretação autêntica da lei só pode ser feita por acto legislativo de igual valor. de um acto jurisdicional em acto legislativo.Princípio básico sobre a produção jurídica Tipicidade dos actos legislativos. praticado por autoridades sem competência legislativa.1 – Conceito de lei Alguma autonomia para certos actos legislativos: Leis Leis Leis Leis Leis Leis constitucionais orgânicas estatutárias de base de autorização quadro ( ou de enquadramento) Valor de lei. regras de : Exclusividade Parametricidade Primariedade . força de lei As normas com força de lei possuem: Um estalão (padrão) normativo imediatamente inferior ao da Constituição Um poder de inovação jurídica dentro do ordenamento jurídico (força activa) Uma resistência à revogação ou derrogação. autorizada por lei. A Lei na Teoria do Estado e do Direito 2. pois consistiam na transmutação. por outras normas hierárquicamente inferiores (força passiva) Mas existem.

(A emanação de uma lei orgânica sobre estas matérias. Bloco de legalidade reforçada As leis orgânicas As leis aprovadas por maioria qualificada As leis que sejam pressuposto necessário de outras Constituição) Constituição) (Por força da (por força da As leis que devam ser respeitadas pelas outras leis Bloco de competências reservadas Competência reservada Quando a disciplina jurídica de determinadas matérias é exclusivamente confiada a uma certa fonte normativa. são aquelas que foram votadas por uma maioria qualificada. parâmetro do decreto-lei ou do decreto legislativo de desenvolvimento A não observação desta regra implica uma inconstitucionalidade e uma ilegalidade (violação da lei com valor paramétrico) Regra da primariedade Leis com valor reforçado. leis-parâmetro de decretos-lei ou de decretos legislativos autorizados Leis de bases. aquelas que constituem pressuposto necessário de outras e aquelas que devam ser respeitadas pelas outras leis. Relativamente à Assembeia da República: .Regra da exclusividade Revela-se sobretudo na categoria das leis orgânicas Pressupõe a articulação funcional de exclusividade de competência com a exclusividade da forma e procedimento para a regulação de determinadas matérias. impede que sobre elas incida uma lei simples da Assembleia da República) Regra da parametricidade Nos casos em que uma lei é um pressuposto normativo necessário de outras leis Leis de autorização .

Reserva Reserva Reserva Reserva de lei constitucional absoluta de competência relativa de competência de regimento Relativamente ao Governo: Reserva absoluta de decreto-lei Governo) (concerne a organização e funcionamento do Relativamente às Regiões Autónomas dos Açores e Madeira: Reserva de elaboração e aprovação do regimento das Assembleias legislativas regionais.2 – Lei em sentido formal e lei em sentido material A LEI Características materiais da lei A lei material é abstraçta e geral Abstracta Deliberação. que no presente ou no futuro possam ser abrangidos pela disposição legal. A lei material afecta a esfera jurídica dos cidadãos Lei formal Acto normativo emanado da Assembleia da República e elaborado de acordo com a forma e procedimento constitucionalmente prescrito Princípio da Prevalência de Lei . Geral Disposição que se destina a ser aplicada a todos os indivíduos nas condições previstas pelo texto. Reserva quanto à organização e funcionamento dos governos regionais 2. que tem em vista regular todos os casos da mesma natureza.

(art. Sentido de leis gerais da República Extensiva apenas às leis da AR e aos decretos-leis do Governo (art. através da possibilidade da revogação.(salvo as constitucionais) três dimensões: Expressão "primeira" da vontade estadual Vinculação do executivo Primariedade na hierarquia das fontes (salvo as normas constitucionais) Força de lei ou eficácia formal Eficácia formal activa A força da inovatividade em relação a outras fontes. (art. derrogação ou modificação destas últimas.°/4) Sentido de lei da Assembleia da República Lei do Parlamento: acto normativo editado pelo Parlamento de acordo com o procedimento constitucionalmente prescrito . 87. 112.°) " os tribunais são independentes e apenas estão sujeitos à lei" Sentido de acto normativo com valor legislativo Actos normativos que implicam o exercício de poderes legislativos. qualquer que seja a sua forma de produção. O sentido da lei na Constituição Portuguesa de 1976 Sentido de ordenamento jurídico Conjunto de normas vigentes no ordenamento estadual português (art.°/1) "Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei" Sentido de norma jurídica. 203. independentemente da fonte normativa A lei significa norma jurídica. Superioridade absoluta sobre as outras normas jurídicas. 13. é o de acentuar a legitimidade democrática da Assembleia Legislativa.°) "a lei disciplinará a actividade económica e os investimentos por parte de pessoas singulares ou colectivas estrangeiras. Eficácia formal passiva A capacidade de resistência à força de inovação de outras fontes Princípio de reserva de lei O sentido do princípio da Reserva de lei.Princípio da prevalência da Lei A lei é o acto da vontade estadual jurídicamente mais forte. Prevalece ou tem preferência sobre todos os outros actos do Estado. expressa na consagração constitucional de preferência e reserva de lei formal para a regulamentação de certas matérias.

Preferência de aplicação Mesmo não aniquilando a validade da norma contrária.°/4) Superioridade das normas de enquadramento e das leis de base Sobre as normas complementares (art. reúne duas modalidades de preferência: Preferência de validade Efeito de revogação e efeito de anulação.Princípio da hierarquia das fontes de Direito Os actos normativos (leis. tornando nulas as normas anteriores contrárias. (art. Procedimento legislativo segundo a CRM de 2004 . decretos legislativos regionais. entre os actos normativos infraconstitucionais. decretos-leis. suspender-se ou revogar-se recíprocamente.°/2) Princípio da aplicação preferente das normas comunitárias Relativamente às normas internas nacionais Princípio da inderrogabilidade de norma de grau superior Por norma hierárquicamente inferior Consequências destes princípios: Inaplicabilidade Das normas de hierarquia inferior contrárias a normas de hierarquia superior A norma de hierarquia superior.°/7/8) Princípio da tendencial paridade entre as leis e os decretos-leis Significa poderem as leis e os decretos-leis. e servindo de limite jurídico às normas posteriores também contrárias com ela. regulamentos tratados). ela deverá ser aplicada no caso concreto com a consequente desaplicação da norma inferior 2. A constituíção e leis constitucionais são os actos normativos que estabelecem a relação hierárquica. 112.112. interpretar-se. decretos-leis e decretos legislativos regionais) relativamente aos actos normativos regulamentares ou estatutários (art.°/2) Prevalência dos princípios fundamentais das leis gerais da República Sobre os actos legislativos regionais (art. 112. princípios básicos: Princípio da superioridade dos actos legislativos(leis. 3.3 – Lei e lei-medida. 112. não têm todos a mesma hierarquia.

O mecanismo de vigilância é a fiscalização da constitucionalidade. Garantia e controlo A garantia da constituição é um conjunto de instrumentos necessários para a defesa da constituição.3.). Que outros mecanismos a C. . . Consequências dessas garantias – Podemos ter crimes políticos. Garantias ordinárias → São aquelas que estão relacionadas com a normalidade constitucional.Estado de excepção constitucional: nesta situação concreta estaremos perante uma perturbação da ordem constitucional.P. Porque é que a ordem jurídica ergue esses instrumentos de defesa? Em primeiro lugar – porque o poder público é o 1. . São internas → as que encontramos dentro de um determinado ordenamento jurídico. A constituição é a Lei Fundamental do Estado. todos os partidos inconstitucionais na sua existência. É uma protecção contra movimentos associativos totalitários. Garantias especiais → visam a defesa de determinados capítulos da CRP. .Direito de resistência.º violador da ordem constitucional. põe à disposição do cidadão? . tendo em conta os limites materiais de revisão.Direito à objecção de consciência (ninguém está obrigado a cumprir leis ou ordens que chocam com a dignidade da pessoa humana.Defesa da ordem e dos valores constitucionais (revisão constitucional).2 – Fases do procedimento legislativo IV – Estruturas de Controlo e de Garantia da Constituição 1. com vista à defesa dos valores supremos da CRP. Garantias institucionais → Tem em conta a defesa das instituições.R. Em segundo lugar – porque visa a salvaguarda dos direitos fundamentais. não podem existir. Garantias extraordinárias → as que estão relacionadas com a anormalidade constitucional (Estado de Sitio e Estado de emergência). mas também podemos ter crimes de função (Ministros etc. Assim. Garantias informais → as relacionadas com a ética e o comportamento dos governantes.1 – Conceito de procedimento legislativo 3. Garantias gerais → visam a defesa de toda a ordem constitucional. Esses mecanismos podem ser garantias internas ou garantias externas. surgimento e prática politica.

pode ser violada explicitamente (de forma clara) ou implicitamente (por violação de uma das suas normas ou regra). A CRP pode ser violada de várias formas. como tal pode requerer a fiscalização da constitucionalidade dessa norma através do Ministério Público e se for declarada inconstitucional pode ser expurgada da ordem jurídica. duvida da constitucionalidade dessa norma. .O É a que conformidade é dos actos / a leis com constitucionalidade? a constituição. A inconstitucionalidade pode verificar-se dentro de um órgão concreto (orgânico). ferido de inconstitucionalidade. pode desencadear um processo de fiscalização preventiva. por omissão (consciente ou não) não praticou ou deixou de praticar um acto que estava obrigado. Também podemos ter a fiscalização concreta e difusa por via dos Tribunais. Qual é a consequência da violação da Constituição? O acto jurídico inconstitucional. Violação por acção – O órgão público praticou um acto que viola a CRP. A violação da CRP: pode ser formal – O PR emite decretos presidenciais não pode emitir decretos do governo. num caso concreto. Violação do ponto de vista do procedimento legislativo – Incumprimento de requisitos na publicação da lei. Violação por omissão – O órgão público. pode ser nulo. ao aplicar uma determinada norma. Ex tunc (nulidade radical) e Ex nunc (nulidade parcial). substituição. O Tribunal. Se a lei for mandada publicar antes de se cumprirem todos os requisitos constitucionais. A violação da constituição pode ser total ou parcial. Exemplo: O PR começa a desenvolver funções que são da competência do Governo (usurpação de funções de outro órgão). perda de lugar). A violação da CRP pode acarretar as seguintes responsabilidades: • Penal – pena de prisão • Contra – Ordenacional • Responsabilização financeira (cível) • Responsabilidade disciplinar • Responsabilidade política (perda de mandato. • A responsabilização pode ser por via da fiscalização da constitucionalidade preventiva – o Chefe de Estado antes de promulgar um diploma. porque são reservados ao governo.

Exemplo: Decorre uma acção ou um processo num determinado Tribunal e o Juiz adstrito ao processo aplica uma norma inconstitucional ao caso concreto. a saber. No TC se a norma for declarada inconstitucional. abrangendo o mandado de segurança. a plenitude da defesa. enquanto as garantias constitucionais são os instrumentos práticos ou os expedientes que asseguram os direitos enunciados”. que cada um deles encontre na sua acção freios capazes de detê-los. a inexistência de prisão civil por dívida. e a inexistência de extradição de brasileiro e de estrangeiro por crime político ou de opinião c) as garantias tributárias. a comunicabilidade da prisão. a afiançabilidade do delito.Qualquer cidadão pode solicitar a fiscalização concreta e difusa.. a saber. gizada de tal sorte. 2. a saber: “a) as garantias criminais preventivas. o júri. a legalidade do processo e da sentença. o habeas corpus. as precipitações.. segundo os casos. “As declarações enunciam os principais direitos do homem.as garantias protegem e amparam o exercício dos direitos do homem”. que segundo Luigim Palma: “a verdadeira garantia constitucional está na organização política e administrativa. de proteger o cidadão contra os arbítrios. que são a legalidade da prisão. os abusos. a personalização e a humanização da pena. o rápido andamento dos processos nas repartições públicas. Citando Attilio Brunialtti: “. o direito de representação e a acção popular”. de moderá-los. a assistência judiciária gratuita. d) as garantias civis. de constrangê-los a permanecer na ordem jurídica. b) as garantias criminais repressivas. As Garantias Constitucionais Gerais são as próprias técnicas da organização dos poderes públicos. Do Curso de Direito Constitucional de Paulino Jacques. que abarcam a legalidade do tributo e a de sua cobrança. a expedição de certidões. que abrangem a individualização. Entre essas . multa ou custas. nesse caso pode ser suscitado um incidente que subirá ao Tribunal Constitucional. Meios e institutos de defesa da Constituição A. traz a classificação das Garantias Constitucionais Especiais. a ciência dos despachos e informações respectivas. “nenhuma validade prática tem os direitos do homem se não se efectivarem determinadas garantias em sua protecção”. o processo baixa ao Tribunal Constitucional e o Juiz tem que conformar a sua decisão com a do Tribunal Constitucional. na própria organização dos poderes públicos. na própria organização política e administrativa. A fiscalização judicial como instituto de garantia e controlo da Constituição Segundo FERREIRA207 (1998: 132). de eliminá-los. pela Constituição e pelas leis. e reparar-lhes os agravos sofridos”. a inexistência de foro privilegiado e de tribunais de excepção.

1998. 82 − Afirmação expressa da supremacia da Constituição e do princípio da constitucionalidade dos actos do poder público. São Paulo.garantias estão ainda a irretroactividade da lei e do controle judiciário das leis.131/132. Canotilho em seu Direito Constitucional. 9ª edição. que vai de 291 ao Artigo 296.1. feita na Escola Superior de Economia e Gestão (ESEG) no ano lectivo de 2009. − Instituição do Conselho Constitucional. ENQUADRAMENTO HISTÓRICO 1. Luiz Pinto Ferreira. As declarações de direito anunciam as liberdades. − Consagração do controlo jurisdicional concreto e difuso. − Princípio da constitucionalidade não consagrado expressamente na Constituição. este. por via de revisão constitucional. Constituição de 1975 − Fundação e construção do Estado socialista. são os grandes textos enunciativos da liberdade. pág. como órgão de soberania especializado em matérias de natureza jurídico-constitucional. a título exemplificativo o habeas corpus. DIREITO CONSTITUCIONAL II 81 A Constituição moçambicana de 1990 e de 2004 valorizaram o respeito à pessoa humana e ampliou as garantias civis com novos remédios processuais. Na sequência das alterações constitucionais de 1990 e com a transição desta para a de 2004 a constituição moçambicana é considerada uma das mais avançadas do mundo na parte referente aos direitos individuais e colectivos. que se traduzem no estabelecimento directo de garantias para o cidadão. As garantias Constitucionais são os remédios “assecuratórios das liberdades”. As garantias na constituição moçambicana Esta matéria é tratada no Título XV nos Capítulos I. 2. ocupando-se dos estados de sítio e de emergência. positiva e negativa. A Fiscalização da constitucionalidade e da legalidade no direito moçambicano Apresentamos esquematicamente este tema com base nas notas da apresentação do Doutor João Nguenha. 3. 207 Curso de Direito Constitucional. − Exercício transitório das funções do Conselho Constitucional pelo Tribunal Supremo (1990-2003). Direitos e garantias se complementam. − Controlo difuso (político e administrativo) da constitucionalidade apenas dos actos infra-legais − Transição para o Estado de Direito Democrático. amparando as liberdades privadas do cidadão. em paralelo com o controlo abstracto concentrado. Saraiva. − Carácter predominantemente programático e directivo da Constituição. − Adopção de um sistema misto de fiscalização não só da constitucionalidade como também da legalidade. É lhes atribuída a densidade de autêntica norma jurídica e em força determinante. Juiz Conselheiro do Conselho Constitucional da República de Moçambique. fala dos princípios-garantia. que vai do Artigo 282 a 290 e Capitulo II relativo à Revisão da Constituição. .

− Separação e interdependência dos poderes. − Organização política democrática. 3. liberdades e garantias fundamentais. − Pluralismo de expressão. Conselho Constitucional Noção • Órgão de soberania. nº 1. • Especial vinculação dos órgãos de soberania ao dever de respeitar a Constituição e à lei. • Prevalência das normas constitucionais sobre as restantes normas do ordenamento jurídico. • Reconfiguração do Conselho Constitucional e aplicação das suas competências 2.− Aprovação da LOCC e designação dos primeiros 5 membros do órgão (2003). SITUAÇÃO ACTUAL 1. • Ampliação e aprofundamento do catálogo de direitos. • Fiscalização jurisdicional concentrada controlo abstracto (preventivo e sucessivo). Âmbito de competências . DIREITO CONSTITUCIONAL II 83 • Aperfeiçoamento do sistema do controlo da constitucionalidade e da legalidade. Modelo da Fiscalização da Constitucionalidade • Fiscalização jurisdicional difusa [controlo sucessivo concreto difuso e incidental por todos os tribunais (Artigos 214 e 247 da CRM)]. • Reafirmação da supremacia da Constituição e do princípio da constitucionalidade e dos actos do poder público. 245 e 246 da CRM]. exercido exclusivamente pelo Conselho Constitucional [Artigos 244. • Inconstitucionalidade superveniente do direito ordinário contrário à Constituição. • Invalidade das normas contrárias à Constituição. a partir de Novembro de 2003. • Órgão de jurisdição eleitoral. • Subordinação do Estado à Constituição e à lei. − Respeito e garantia dos direitos e das liberdades fundamentais do homem. − Entrada em funcionamento do Conselho Constitucional. • Órgão especializado na administração da justiça constitucional. • Órgão de jurisdição constitucional. alínea a). 4. Constituição de 2004 • Reafirmação e desenvolvimento dos princípios conformadores do Estado de Direito Democrático: − Soberania popular. • Reforço das garantias da Constituição: • Introdução de limites materiais e temporais de revisão e constitucionalização dos estados de excepção. Princípio da Constitucionalidade • Vinculação do exercício da soberania popular às formas fixadas na Constituição.

jurisdicional e . FISCALIZAÇÃO DA CONSTITUCIONALIDADE A – Modalidades de Fiscalização • Fiscalização preventiva (Artigo 246 da CRM). A – Objecto de Fiscalização • Actos normativos dos órgãos do Estado Leis da Assembleia da República. que é o Presidente do Conselho Constitucional. designado por nomeação do Presidente da República. inamovibilidade. • Fiscalização concreta (Artigo 214 e 247 da CRM). • Resolução de conflitos de competências de competências entre órgãos de soberania. de assunção de cargos e de militância activa em partidos políticos. 84 • Fiscalização prévia da constitucionalidade e da legalidade dos referendos. designado pelo Conselho Superior de Magistratura Judicial Estatuto dos juízes • Designação para um mandato de 5 anos. do estatuto inerente a filiação em partidos políticos. • Sujeição ao regime de suspeições em processo penal. Avisos do Governador do Banco de Moçambique • Exclusão dos actos das funções políticas stricto sensu. • Fiscalização da regularidade dos processos eleitorais: Contencioso eleitoral. Decretos normativos do Presidente da República. • Suspensão. Decretos-leis do Governo. renovável. durante o mandato. • Sujeição ao mesmo regime de incompatibilidades dos magistrados judiciais. Decretos regulamentares do Governo. conforme o critério de representatividade parlamentar Um. Cinco designados pela Assembleia da República. • Garantia da independência.• Fiscalização da constitucionalidade e da legalidade. Validação e proclamação dos resultados eleitorais • Contencioso da Constituição de partidos políticos • Contencioso de impugnação de eleições e deliberações de partidos políticos • Contencioso de mandato dos deputados • Contencioso relativo a incompatibilidades Composição • Sete juízes conselheiros Um. sujeita a ratificação da Assembleia da República. imparcialidade e irresponsabilidade. • Verificação das candidaturas ao cargo de Presidente da República. • Interdição de proliferação de declarações públicas de carácter político DIREITO CONSTITUCIONAL II 85 • Interdição. • Fiscalização sucessiva abstracta (Artigo 245 da CRM). durante o mandato.

no mínimo. • Decisão de provimento – veto obrigatório do Presidente da República. • Tempo do controlo – qualquer momento da vigência das normas. exclusivamente C – Fiscalização preventiva: pressupostos processuais subjectivos • Órgão de controlo – Diplomas sujeitos a promulgação: Leis aprovadas pela Assembleia da República • Momento do controlo – fase de promulgação • Prazo de iniciativa – nos 30 dias fixados para a promulgação da lei 86 • Efeito do requerimento do Presidente da República – interrupção do prazo para a promulgação da lei C – Fiscalização preventiva: efeitos de decisão • Decisão de não provimento – início da contagem do novo prazo de promulgação da lei. exclusivamente • Legitimidade activa – Presidente da república. Fluxo processual – 2003-2009 Ano Processos de Fiscalização Decisões Preventiva Sucessiva Concreta Positiva Negativa . D – Fiscalização sucessiva abstracta: Efeitos das decisões • Decisão de provimento – obrigatoriedade geral Efeito retroactivo. por inconstitucionalidade e devolução da lei à Assembleia da República.administrativa C – Fiscalização preventiva: pressupostos processuais subjectivos • Órgão de controlo – Conselho Constitucional. recusar a aplicação de normas inconstitucionais (Artigo 214 da CRM). • Recurso atípico para o Conselho Constitucional das decisões judiciais de provimento sobre questões de inconstitucionalidade e de legalidade (Artigo 247 da CRM) 6.Fiscalização sucessiva concreta: Caracterização geral • Baseada no poder – dever do juiz. Efeito repristinatório. • Decisão de não provimento – vinculação jurisprudencial ao Conselho Constitucional DIREITO CONSTITUCIONAL II 87 D . no mínimo D – Fiscalização sucessiva abstracta: Pressupostos Processuais Objectivos • Objecto do controlo – normas emanadas dos órgãos do Estado. dos deputados da Assembleia da República Primeiro-Ministro Procurador-Geral da República Provedor da Justiça Dois mil cidadãos. no exercício da função jurisdicional. C – Fiscalização sucessiva abstracta: Pressupostos processuais subjectivos • Órgão competente – Conselho Constitucional • Legitimidade activa Presidente da República. Presidente da Assembleia da República Um terço.

BIBLIOGRAFIA 1. Cardoso. 1985 (facultativa). 4. DUVERGER. Os Grandes Sistemas Políticos. Modelos de justiça constitucional 3. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Jorge. CANOTILHO. II. A Revisão da Constituição Rigidez Constitucional e garantia da Constituição Poder constituinte e poder de revisão Os limites formais da revisão constitucional Os limites materiais da revisão constitucional Os limites circunstanciais da revisão constitucional A Revisão constitucional da CRM de 2004. Almedina. garantida por meios políticos e administrativos • Transição para o Estado de Direito Democrático pela Constituição de 1990 • Reafirmação e desenvolvimento dos princípios conformadores do Estado de Direito Democrático na Constituição de 2004 • Aperfeiçoamento do sistema de controlo da constitucionalidade e da legalidade • Reforço do papel do Conselho Constitucional eleitoral • Afirmação positiva e progressiva do Conselho Constitucional como guardião da prevalência da Constituição. 3. 5. DA COSTA. Constituição da República de Moçambique de 2004. 3. Pressupostos do controlo judicial 2. Tomos I. 2. Elementos da Ciência Política.2 – Como se controla: o modo do controlo 3. 4. Coimbra. policopiado.1 – Quem controla: os sujeitos do controlo 3. A fiscalização da constitucionalidade na CRM de 2004 B. 5. . 5. 2002.3 – Quando se controla: tempo de controlo 3. 1. Gomes.4 – Quem pede o controlo: a legitimidade activa 3. MIRANDA. 6. 1997. aditamento. Noções e tipos de inconstitucionalidade 3. Maurice.5 – Os efeitos do controlo. Manual de Direito Constitucional.2003 1 0 0 0 1 2004 0 0 0 0 0 2005 0 0 0 0 0 2006 0 1 0 0 1 2007 2 5 0 3 4 2008 1 7 1 2 7 2009 3 4 1 1 5 Concluindo a sua apresentação estabeleceu que: • Instituição do Estado socialista pela Constituição de 1975. Coimbra. 1. Coimbra Editora. 1978/1979 2. 4. II e IV.

Constituição da República de Moçambique de 1990.6. \ A .

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