P. 1
Elementos de Análise Real - Vol II - Gregório Luís

Elementos de Análise Real - Vol II - Gregório Luís

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Seja fx

() uma função de A Rn

em R e considere-se um subconjunto BA tal

que, xB ∧ λ > 0 ⇒ λ .xB . Nessas condições, a funçãofx

()diz-se positivamen-

te homogénea de grau α no conjunto B se e só se,

xB ∧ λ > 0 f

x

(.)

λ

= f

x

x

xn

(

,

,

,

)

λ λ

λ

1

2 L

=

= λ α

.()

fx = λα

.(,

,

,)

fx

x

xn

1

2 L

.

O expoente α designa-se por grau de homogeneidade, podendo ser positivo, negativo
ou nulo.

Se as condições precedentes, quanto ao conjunto B e à função fx

() forem verificadas
para todos os valores λ ≠ 0 e não apenas para λ > 0 , fala-se então de homogeneidade
em sentido restrito
.

Face às definições apresentadas é evidente que uma função homogénea em sentido
restrito é também positivamente homogénea no mesmo conjunto (com o mesmo grau de
homogeneidade), mas a inversa não é verdadeira.

Exemplos:

1) A função,

f (x , y) = (

)

xy
x

y

+
−4

,

é homogénea de grau 3 , em sentido restrito, no conjunto B = {(x , y) : x y}, dado que,
com λ ≠ 0 e (x , y) ∈ B ,

f x , λ y) = (

)

λ λ
λ λ

x

y

x

y

+

4

= λ3

4

⋅ +

(

)

xy
x

y = λ3

f (x , y) .

2) A função,

f (x , y , z) = +x

y

z

2

2

2

+ +

,
é positivamente homogénea de grau 1 (mas não homogénea em sentido restrito) em R3

,

deixando-se a verificação como exercício.

Apresentam-se seguidamente quatro propriedades elementares das funções homogéneas,
deixando-se as demonstrações como exercício . Nos enunciados fala-se apenas de
funções homogéneas porque tais enunciados são válidos (com a mesma demonstração)
para os dois conceitos de homogeneidade apresentados.

P1 : A soma de funções homogéneas do mesmo grau num conjunto é ainda uma função
homogénea do mesmo grau no mesmo conjunto

211

P2 : O produto de funções homogéneas num conjunto é ainda uma função homogénea
no mesmo conjunto, sendo o respectivo grau de homogeneidade igual à soma dos graus
de homogeneidade dos factores

P3 : Sendo fx

() e gx

() funções homogéneas no conjunto B e não se anulando em B

a função gx

(), então fx

()/gx

() é também homogénea em B, sendo o respectivo grau
de homogeneidade igual à diferença dos graus de homogeneidade de fx

() e gx

()

P4 : Sendo fx

() homogénea de grau α no conjunto B e sendo definida nesse conjunto

a função fx

β

(), então esta última é também homogénea em B, sendo α o respectivo

grau de homogeneidade

Duas propriedades adicionais são estudadas seguidamente. As respectivas demonstrações
são apresentadas para o caso das funções homogéneas em sentido restrito, mas adaptam-
se sem qualquer dificuldade para o caso das funções positivamente homogéneas.

P5 : Sendo fx

() homogénea de grau α no conjunto aberto B e existindo a derivada

parcial fxj

'

em todos os pontos do conjunto B, então tal derivada parcial é homogénea

de grau α - 1 no mesmo conjunto

Demonstração : Seja fx

() uma função nas condições do enunciado e fixe-se um
qualquer valor λ ≠ 0 . Por força da homogeneidade admitida para fx

(), tem-se, para

todos os pontos x = (x1 , x2 , ... , xn ) B ,

f x1 , λ x2 , ... , λ xn ) = λα

. f (x1 , x2 , ... , xn ) .

Derivando ambos os membros em relação a xj , obtém-se,

∂ λ λ λ

f

x

x

x

x

n

j

(

,

,

,

)

1

2 L

= λα

. fxx

x

x

n

j

'

(,,

,)

1

2 L

.

Notando agora que a função f x1 , λ x2 , ... , λ xj , ... , λ xn ) , considerada como
função de xj , se pode obter fazendo a composição da função real de variável real

ϕ (y) = f x1 , λ x2 , ... , λ xj-1 , y , λ xj+1 , ... , λ xn )

com a função real de variável real y = λ xj , tem-se, pela regra de derivação de uma
função composta (relativa ao caso da composição de duas funções reais de variável real)
,

∂ λ λ λ

fx

x

x

x

n

j

(

,

,

,

)

1

2 L

= ϕ′ xj ). λ =

= λ . f

x

x

x

x

x

j

n

j

'

(

,

,

,

,

,

)

λ λ λ λ

1

2 L

L

,

212

devendo notar-se que f

x

x

x

x

x

j

n

j

'

(

,

,

,

,

,

)

λ λ λ λ

1

2 L

L

não representa a
derivada de f x1 , λ x2 , ... , λ xj , ... , λ xn ) em relação a xj mas sim a derivada de
f (x1 , x2 , ... , xj , ... , xn ) relativamente a xj no ponto (λ x1 , λ x2 , ... , λ xj , ... , λ xn ) .

Então deverá ser,

λ . f

x

x

x

x

n

j

'

(

,

,

,

)

λ λ λ

1

2 L

= λα

. fxx

x

x

n

j

'

(,,

,)

1

2 L

,

donde resulta finalmente,

f

x

x

x

x

n

j

'

(

,

,

,

)

λ λ λ

1

2 L

= λα -1

. fxx

x

x

n

j

'

(,,

,)

1

2 L

,

para todos os pontos (x1 , x2 , ... , xn ) B , qualquer que seja o valor λ ≠ 0 , o que
traduz a homogeneidade de grau α -1 da função fxx

x

x

n

j

'

(,,

,)

1

2 L

no conjunto B .

P6 : Sendo fx

() homogénea de grau α e diferenciável no conjunto aberto B , verifica-

se nesse conjunto a identidade,

xfx

xfx

xfx

x

x

n

xn

1

2

1

2

.()

.()

.()

'

'

'

+

+ +

L

= α . fx

()

(Identidade de Euler)

Demonstração : Por hipótese tem-se, para xB e λ ≠ 0 ,

f x1 , λ x2 , ... , λ xn ) = λα

. f (x1 , x2 , ... , xn ) .

Então, para cada xB derivando em relação a λ as funções de ambos os membros
(utilizando no primeiro membro a regra de derivação de uma função composta) , temos,

xf

x

xf

x

xf

x

x

x

n

xn

1

2

1

2

.(

)

.(

)

.(

)

'

'

'

λ

λ

λ

+

+ +

L

= α . λα-1

. fx

() ,

e, fazendo nesta igualdade λ = 1 , sai a identidade do enunciado.

A propriedade seguinte, mostra que a verificação da identidade de Euler num aberto B
tal que , xB ∧ λ > 0 ⇒ λ . xB , conjuntamente com a diferenciabilidade da
função em B, garantem que a função é positivamente homogénea nesse conjunto.

P7 : Sendo fx

() função diferenciável no aberto B, conjunto a verificar a condição,

xB ∧ λ > 0 ⇒ λ . xB , sefx

()verifica a identidade de Euler em B , então a

função é positivamente homogénea nesse conjunto

Demonstração: Seja xB e defina-se a seguinte função de λ , para λ > 0 :

213

g(λ) = f

x

(

)

λ - λα

.fx

() ,

em que α é o parâmetro real do segundo membro da identidade de Euler que por
hipótese se verifica. Derivando obtém-se, usando a regra de derivação de uma função
composta,

g (λ) =

xf

x

fx

i

x

i

n

i

.(

)

.

.()

'

λ α λα

=∑

1

1

,

e então,

λ . g (λ) = λ λ α λα
xf

x

fx

i

x

i

n

i

.(

)

.

.()

'

=∑

1

.

Dado verificar-se a identidade de Euler em B , tem-se,

λ . g (λ) = α λ α λ α

.(

)

.

.()

f

x

fx

= [

]

α λ λ α

.(

)

.()

fx

fx

=

= α . g(λ) .

Fazendo agora θ (λ) = g(λ)/λα

com λ > 0 e derivando, obtém-se,

θ′ (λ) = g

g

'().

.

.()

λ λ α λ λ
λ

α

α

α

−1

2

= g

g

'().

.()

λ λ α λ
λ α−

+1

= 0 ,

sendo portanto θ (λ) constante no intervalo ] 0 , +∞ [ . E como, θ (1) = g(1) = 0 ,
conclui-se que θ (λ) = 0 no intervalo ] 0 , +∞ [ . Dai decorre que, com λ > 0 , g(λ) = 0 ;
atendendo à definição de g(λ) resulta finalmente,

g(λ) = f

x

(

)

λ - λα

.fx

()= 0 ,

ou seja, f

x

(

)

λ = λα

.fx

() para λ > 0 . Fica assim provado que fx

() é positivamen-

te homogénea no conjunto B.

8. Teorema dos acréscimos finitos

214

Apresentam-se seguidamente duas generalizações do teorema dos acréscimos finitos
(teorema de Lagrange), já estudado para o caso das funções reais de variável real.

Teorema 4 : Sendo fx

() uma função de A Rn

em R , existindo as respectivas deri-
vadas parciais em todos os pontos x
Vε (a) e sendo h um vector tal que ||||

h < ε ,

tem-se :
fah

fa

(

)

()

+ −

= hfa

ha

a

x

n

1

1

1

1

2

1

.(

.,

,

,)

'

+

+

θ

L

+

+

+

+

h

fa

ha

h

a

a

x

n

2

1

1

2

2

2

3

2

.(

,

.,

,

,)

'

θ

L

...

+

+

+

+

+

h

fa

ha

h

a

h

a

h

n

x

n

n

n

n

n

n

.(

,

,

,

,

.)

'

1

1

2

2

1

1

L

θ

,

com 0 < θ1 < 1 , 0 < θ2 < 1 , ... , 0 < θn < 1

(1ª Versão do teorema de Lagrange)

Demonstração : Devido à existência na vizinhança Vε (a) das derivadas parciais fx1

'

,

fx2

'

, ... , fxn

'

e supondo que ||||

h < ε , uma argumentação semelhante à utilizada na

parte inicial da demonstração do teorema 2 permite concluir que :

ϕ1 (x1 ) = f (x1 , a2 , ... , an ) é regular no intervalo de extremidades a1 e a1 + h1 ,
ϕ2 (x2 ) = f (a1 + h1 , x2 , ... , an ) é regular no intervalo de extremidades a2 e a2 + h2 ,

...

ϕn (xn ) = f (a1 + h1 , ... , an-1 + hn-1 , xn ) é regular no intervalo de extremidades an e an +
hn .

Aplicando o teorema de Lagrange às funções ϕ1 (x1 ), ϕ2 (x2 ) , ... , ϕn (xn ) nos intervalos
indicados, tem-se:

f (a1 + h1 , a2 , ... , an ) - f (a1 , a2 , ... , an ) = hfa

ha

a

x

n

1

1

1

1

2

1

.(

.,

,

,)

'

+ θ

L

,

f (a1 + h1 , a2 + h2 , ... , an ) - f (a1 + h1 , a2 , ... , an ) =
=h

fa

ha

h

a

a

x

n

2

1

1

2

2

2

3

2

.(

,

.,

,

,)

'

+

+ θ

L

,

...

f (a1 + h1 , ... , an + hn ) - f (a1 + h1 , ... , an-1 + hn-1 , an ) =
=h

fa

ha

h

a

h

a

h

n

x

n

n

n

n

n

n

.(

,

,

,

,

.)

'

1

1

2

2

1

1

+

+

+

+

L

θ

,

com 0 < θ1 < 1 , 0 < θ2 < 1 , ... , 0 < θn < 1 . Somando membro a membro as n
igualdades obtidas resulta logo, após as simplificações a efectuar no primeiro membro, a
igualdade do enunciado.

215

O teorema precedente admite como corolário a seguinte condição suficiente de
continuidade de uma função f (x) de ARn

em R :

Corolário 1 : Sendo f (x) uma função de A Rn

em R e a INT. A , se existem

finitas e são limitadas em Vε (a) as n derivadas parciais

)

(

'

x

fi
x

, então f (x) é

contínua em x = a.

Demonstração : Sendo Mi um majorante de |

)

(

'

x

fi
x

| em Vε (a) , a igualdade tese do

teorema 4 permite escrever, para

||
||h < ε ,

n

nM

h

M

h

M

h

a

f

h

a

f

.|

|

.|

|

.|

|

|

)

(

)

(

|

2

2

1

1

+

+

+

+

L

,

e esta desigualdade permite logo concluir que

)

(

)

(

0

a

f

h

a

f

m

i

l

h

=

+

, ou seja, a função

f (x) é contínua em x = a.

Convém notar que as hipóteses do corolário precedente podem ser aligeiradas sem que a
continuidade de f (x) em x = a seja afectada:

Corolário 1* : Sendo f (x) uma função de A Rn

em R e a INT. A , se n-1 das n

derivadas parciais

)

(

'

x

fi
x

existem finitas e são limitadas em Vε (a) e a outra
derivada parcial existe finita no ponto x
= a, então f (x) é contínua em x = a.

Demonstração: Admita-se, sem perda de generalidade e apenas para facilitar a notação,
que as derivadas parciais

)

(

'

x

fi
x

( i = 2 , 3 , … , n) são limitadas em Vε (a) e que

)

(

'

1a

fx

existe finita. Se a primeira das igualdades que se somam ordenadamente para
demonstrar o teorema 4 for substituída por,

f (a1 + h1 , a2 , ... , an ) - f (a1 , a2 , ... , an ) =

)

(

)

(

.

1

1

'

1

1

h

h

a

f
hx

α

+

,

com

0

)

(1

0

1

=

h

m

i

l

h α

, obtém-se após soma ordenada uma igualdade cujo segundo

membro pode ser majorado de forma análoga ao que se fez na demonstração do corolário
anterior, concluindo-se tal como então que f (x) é contínua em x = a.

216

Teorema 5 : Sendo fx

() uma função de A Rn

em R diferenciável em todos os

pontos x Vε (a) e sendo h um vector tal que ||||

h < ε , tem-se :

fah

fa

(

)

()

+ −

=

fa

h

h

x

i

i

n

i

'

(

.).

+

=∑

θ

1

, com 0 < θ < 1

(2ª Versão do teorema de Lagrange)

Demonstração : Com ||||

h < ε defina-se a função auxiliar g(t) = fath
(

.)

+

, para
0 ≤ t ≤ 1 . Claro que existe g′ (t) no intervalo [0 , 1] , podendo esta derivada calcular-se
pela regra de derivação de uma função composta:
g (t) =

fathh

x

i

i

n

i

'

(

.).

+

=∑

1

.

Aplicando o teorema de Lagrange à função real de variável real g(t) no intervalo [0 , 1] ,
tem-se g(1) - g(0) = g ) , com 0 < θ < 1 , ou seja,
fah

fa

(

)

()

+ −

=

fa

h

h

x

i

i

n

i

'

(

.).

+

=∑

θ

1

, com 0 < θ < 1 ,

como se queria provar.

Note-se que a segunda versão do teorema de Lagrange (teorema 5) tem hipóteses mais
exigentes - exige-se a diferenciabilidade de fx

() em certa vizinhança Vε (a) ,
enquanto que na primeira versão (teorema 4) basta a existência das derivadas parciais da
função nessa vizinhança - , mas em contrapartida a igualdade obtida é mais simples,
envolvendo apenas um único valor de θ e sendo as derivadas parciais tomadas todas no
mesmo ponto.

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