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Desfiando memórias de além-mari:
novas cartografias identitárias na literatura são-tomense
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O tempo da história encontra num nível muito sofisticado, o velho tempo da memória que atravessa a história e a alimenta.
Jacques Le Goff

Numa relativamente recente entrevista (de 2004), o historiador francês Jacques Le Goff afirmou que prefere ver a história não tanto como uma ruptura, mas antes como uma novidade que emerge da longa duração1. Esta afirmação veio, de certa forma, relativizar a forma tendencialmente antagónica como eu vinha perspectivando o diálogo intertextual entre a obra de Francisco José Tenreiro, o iniciador do tempo da modernidade literária sãotomense, e a poesia pós-colonial, em particular a de Fernando de Macedo e, mais intensamente, a de Conceição Lima, no que se refere à identidade cultural da nação sãotomense e sua relação com o imaginário histórico e o “inventário” dos sinais identitários que as diversas representações verbais, gnómicas e figurativas geraram no universo insular. Com efeito, em vez de uma interpretação que tem em conta visões (quase) antagónicas das configurações identitárias geradas na poesia destes escritores separados por mais de meio século, percebi que talvez fosse mais produtivo considerar também as representações de sociabilidade insular entre os vários segmentos em presença cuja dinâmica histórica e cultural e consequentes manifestações identitárias são actualizadas e celebradas na longa duração dos tempos, atravessando a sua “opacidade inoportuna”, para me reportar a uma expressão de Michel Foucault em Arqueologia do Saber. Nesta leitura comparada convém, por isso, não perder de vista, por um lado, tanto o facto colonial transfigurado por Tenreiro na sua poética insular, dos anos 40-50, quanto a lógica colonial desse tempo marcado pela
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III Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa PENSANDO ÁFRICA: CRÍTICA,

PESQUISA E ENSINO ( UFRJ e UFF 20-24 de Novembro de 2007). PAINEL: Literatura, Mito e Memória.
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“Plutôt qu’une rupture, j’aime voir l’histoire comme une nouveauté qui se dégage de la longue durée”.

Televisão francesa, Canal 5, Les Livres, 22 de Fevereiro de 2004. Apud Isabel Castro Henriques, Território e Identidade, Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa/FLUL, 2004. p. 7.

2 emergência de movimentações reivindicativas dos africanos, de que ele foi um actor da “Geração de Cabral” (Mário Pinto de Andrade) – aparte a sua poética negritudinista; por outro lado, nos casos de Fernando de Macedo e Conceição Lima, há que ter em conta a percepção dos eventos em tempo de agonia colonial, de euforia pós-independência e subsequente rearticulação questionante da identidade nacional conformante com o imaginário histórico colectivo (sem falar, no caso de Conceição Lima, do desencanto político-social que vem actualizando através da internalização do olhar político). Falamos, pois, de um outro olhar a partir das novas configurações identitárias que a literatura são-tomense tem vindo a registar em tempo pós-colonial, enquanto procede à desmitificação de “memórias históricas” fixadas na poesia anterior, anticolonial e colonial, esta sobretudo processada na ficção feita por metropolitanos. Embora um termo polémico, não apenas pela sua ambiguidade como pelo seu alcance, por pós-colonial pode entender-se como ideologia estética que pressupõe o fim pretérito do colonialismo de forma tradicional (cuja lógica é a da exploração das riquezas naturais até à exaustão, com recurso à mão-deobra local), mas não necessariamente a desactivação das três forças que decidem as suas formas, embora não o resultado do processo2: o poder colonial, a situação na (ex-)colónia e o factor internacional (Wesseling, 1992:127). Por isso, é significativo o facto de os estudos pós-coloniais darem ênfase à afirmação da diferença de diversos tipos (cultura, “raça”, género, etnia, classe, religião, geografia) e alcance (colectiva e individual), privilegiando a produção da subjectividade, pelo reconhecimento das “subjectividades maginalizadas” da história, na expressão George Yúdice (1997-1: 138). É verdade que falar de pós-colonialismo continua ainda a pressupor olhar a história pelo prisma do colonizador, isto é, do Ocidente, grandemente responsável pelo perfil das culturas oficiais dos países ex-colonizados e em particular os africanos de língua oficial portuguesa e suas sociedades sujeitos à política colonial do assimilacionismo cultural (de que decorre, no caso do colonialismo português, o estatuto do indigenato, complementar ao do assimilado). O termo pós-colonalismo pode, neste contexto, reportar-se a toda a cultura afectada pelo processo imperial, desde o momento da colonização até ao presente
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Este processo, lembra o historiador holandês Henk Wesseling, pode resultar em dependência. E o livro de

Walter Rodney, Como a Europa Subdesenvolveu a África (Lisboa: Seara Nova, 1976) é o mais emblemático estudo (porventura por causa do seu pioneirismo) aplicado à África sobre a “teoria da dependência”.

Não se estranhe. que acabam por funcionar como instrumentos de dominação. por ocasião do seu 80º aniversário de Agostinho Neto. Com diferença de ângulo. “passou a ser moda [pensar-se] que os verdadeiras nações eram constituídas principalmente por mestiços e que a cultura nacional autêntica era e tinha forçosamente que ser uma cultura mestiça” (Stavenhagen. 1993: 66). vista como superação de culturas locais. A angolanidade surge assim irredutível em relação aos outros dois sistemas. que teve lugar em Roma.3 (Ashcroft. categorias e instrumentos da Europa retira qualquer iniciativa ideológica aos africanos e desconsidera toda a resistência organizada à penetração e expansão europeia em África desde os primórdios e das relações entre africanos e europeus. por exemplo. Griffiths & H. A dinâmica político-ideológica e sociocultural dessas sociedades. de que os nacionalismos africanos são tributários dos ideais. cujo substrato sociocultural é fornecido pelo colonialismo português. Tiffin 1989: 2). (Venâncio. incorre no mesmo equívoco quem queira ver numa “cultura crioula” em Angola – seja o que for! – o paradigma da cultura nacional. que haja quem conceda ao colonizador o benefício das referências ideológicas e práticas cívicas que promoveram os ideais emancipalistas3 e são nucleários da nacionalidade. mas não de natureza. portanto. de uma perversa subtileza. vector de integração das culturas africanas e europeia. Este estado de coisas contribui para tornar propícia à conflitualidade a diferença devido à erosão do equilíbrio identitário provocado pelo colonialismo cuja hegemonia ideológica continua no seu estatuto incontornável de fornecimento de instrumentos de progresso (muitas vezes confundido com modernidade). . como facilmente se percebe. Tal é. 1987: 16) E isto numa altura em que. Este modelo de reapropriação conceptual da assimilação cultural que resgata o quadro das relações internas de dominação colonial denuncia. nos dias 18 e 19 de Outubro de 2002. como se de um programa de eugenia se tratasse. uma organização conjunta da Embaixada da República de Angola na Itália e o Departamento de Estudos Romanos da Faculdade de Ciências Humanísticas da Universidade "La Sapienza". a perspectiva decorrente da seguinte afirmação de José Carlos Venâncio: Um sistema novo de significantes é a angolanidade. A ideia. uma 3 Tal foi o entendimento de Salvato Trigo durante o colóquio A OBRA DE AGOSTINHO NETO NA HISTÓRIA LITERÁRIA ANGOLANA. acabam por isso por manter a subalternidade das componentes matriciais das culturas nacionais. vivendo duma certa instrumentalização do português por influência das línguas africanas. que não lograram desmantelar as hierarquias coloniais internas (sobretudo hierarquias etnoculturais e linguísticas).

Tomé. Com . mas também em estudos de sociedades africanas continentais. A crioulidade.4 perspectiva evolucionista da noção de cultura que ainda contamina os estudos de cultura. acaba por legitimar o despojamento de matrizes originais desses espaços que se erigem a condição indispensável de modernidade e a um patamar civilizacional superior. cabe. tanto em estudos de sociedades insulares. como Cabo Verde (veja-se a posição dos claridosos a apontar para a “diluição de África”). porém a perversidade desta perspectiva é o pressuposto de que a condição mestiça (em qualquer grau de hifenização com a Europa) é indispensável à “ascensão” do “nativo” à modernidade global. como explicita Néstor García Canclini (2007: 15). na conhecida metáfora de Claude Lévi-Strauss. Se parece lapalissiana a consideração de que “os processos culturais são lidos em chaves distintas”. 1961). como a Luanda do século XX-XXI. com a proposta de uma “cultura crioula” que mais não é. considerada fenómeno que caracteriza também uma sociedade continental. 2001: 328) Decorre disso que um dos nós górdios dessa dominação e subalternidade é o que se verifica na exaltação da mestiçagem como condição da modernidade exclusiva de espaços como a África ou a América Latina ou seus sujeitos – não que a história não deva levar em conta as mestiçagens. Lembra Serge Gruzinski que A visão evolucionista inspira a ideia de que a planetarização das mestiçagens seria uma etapa prévia de um desenraizamento radical e de uniformização absoluta que levariam directo à “aldeia global”. numa retrógrada não conciliação entre o cru e o cozido (isto é. neste contexto de rastreamento de novas cartografias identitárias da literatura são-tomense. o que também Grunzinski admite ao afirmar que a história “raramente abordou de frente os fenómenos de misturas com os mundos extra-ocidentais e as dinâmicas que os provocaram” (2001: 55). uma reciclagem do estatuto do assimilado e seus actuais “avatares”. (Gruzinski. quanto em São Tomé e Príncipe (vejamse os estudos de Francisco José Tenreiro – sobretudo em A Ilha de S. pelos sinais e loci simbólicos de identificação. a natureza e a cultura). como é o caso de Angola. sobretudo se pensada a partir da hegemonia da componente europeia. 1993: 63). repensar o estado do “cânone” segundo uma lógica de abertura de novos espaços (Appiah. Não é raro os estudos sobre a (formação da) sociedade crioula fazerem-se na perspectiva do processo evolutivo em que a componente africana é vista como “superável”.

Erguem-se depois e marcham com passos de guerrilha Não abafem o choro das crianças não fujam Não incensem as casas. resignada fúria Por isso não os confundo com outros mortos. o outro. inexistentes: ZÁLIMA GABON À memória de Katona. .. não ocultem a face Urgente é o apelo que arde por onde passam Seus corações deambulam à sombra nas plantações. 2006) A nova escrita da literatura são-tomense.5 este gesto pode ver-se como as diferenças de olhar desconstroem a imagem de uma cristalizada crioulidade de génese dual. se (não) estabelece qualquer diálogo. a partir dos anos 80. sentados sob as árvores. portuguesa e africana. Às vezes. visto como possuidor exclusivo da terra. Porque eles vêm e vão mas não partem Eles vêm e vão mas não morrem. o curso d’água São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova a patética sombra. irreais. Aiúpa Grande e Aiúpa Pequeno.. corrobora. padres-nossos. Por isso não os confundo com outros mortos apaparicados com missas. centenária. figuras espectrais4. 5 À Makolé Falo destes mortos como da casa. assim. 5 Nomes de contratados que ficaram conhecidos em muitos luchans de São Tomé. Permanecem e passeiam com passos tristes que assombram o barro dos quintais e arrastam a indignidade da sua vida e sua morte pelo ermo dos caminhos com um peso de grilhões. e procedem a uma análise dos símbolos e signos através dos quais o outro (não integrado no segmento étnico crioulo tradicional. o pôr-do-sol. (. seus ossos sem rumo e sem abrigo e uma longa. vergam a cabeça e choram. agora em História e Memória (1990): “o tempo da história encontra 4 Significativamente. a afirmação de Jacques Le Goff. nozados.) (A Dolorosa Raiz do Micondó. umas das últimas versões deste poema tinha como subtítulo “o espectro do serviçal” a reforçar o dimensão irreal de zálima (defunto). como “vindos” que são. ou dele omitido) é percebido e com ele.

e com justeza. se fixou a imagem da são-tomensidade (literária) a partir da “ilha de nome santo” em que a inefável docilidade e a espontânea alegria das gentes.6 num nível muito sofisticado. o primeiro poeta negritudinista de língua portuguesa.. em que o mestiço se metamorfoseava harmoniosamente na relação com a branca e a negra. os administradores coloniais e os povos colonizados” (Fernandes. Trilhando outras afroinsularidades E aos relógios insulares se fundiram os espectros – ferramentas do império numa estrutura de ambíguas claridades e seculares condimentos Conceição Lima (“Afroinsularidade”) Quando se fala da literatura são-tomense. de 1963. Alimenta a história refazendo perfis. ainda hoje. Com o autor de Ilha de Nome Santo (1942) e Coração em África (livro póstumo. o de Francisco José Tenreiro. por Manuel Ferreira. 2006: 244). (. Embora considerado. Mestiço! Nasci do negro e do branco e quem olhar para mim é como se olhasse para um tabuleiro de xadrez: a vista passando depressa fica baralhando cor no olho alumbrado de quem me vê. associada à generosidade da natureza. reconfigurando sentidos. pode dizer-se que a poesia insular de Francisco José Tenreiro reuniu “num único e vasto amplexo os cidadãos metropolitanos. o velho tempo da memória que atravessa a história e a alimenta” (1996: 13)..) Mestiço! Quando amo a branca . o primeiro nome convocado é. publicado apenas em 1967). poeta coetâneo dos fundadores da modernidade literária dos Cinco então futuros países africanos de língua oficial portuguesa. amaciavam a fúria colonialista do “senhor administrador”. reinterpretando significados e atribuindo a tempos e espaços da história e da sociocultura outros lugares e outras dimensões no presente e no quotidiano.

Ilha de Nome Santo. na emblemática “Canção do mestiço” em que o sujeito.. 1963) Em ambos os livros... precisamente vinte anos depois do poema epónimo. Neste poema. tanto nos primeiros poemas da insularidade crioula de Ilha de Nome Santo quanto em poemas do “Regresso à ilha” na Páscoa de 1962 (Coração em África). diferentes dessoutros tantas vezes referenciados na “tradição literária” .. “Ilha de nome santo”. opera-se a desmitificação do maniqueísmo ideológico do simbolismo das cores e se proclama uma dinâmica flutuante na “normalidade” do sistema cultural. Pois é. (“Canção do mestiço”.. Coração em África. o sujeito enunciador está consciente da condição de dominado e do lugar do homem são-tomense na sociedade colonial. em que está sugerida a elevação moral e espiritual do ilhéu. a dinâmica pós-colonial direccionou o olhar para outros loci históricos e outros “locais da cultura”. Quando amo a negra sou negro. se afirma branco quando ama a branca e negro quando ama a negra.7 sou branco. qualitativamente muito diferentes no âmbito da poética ambivalente de Tenreiro. 1942) (. embora se relativize a violência da discriminação racial e étnica (que o enunciador explicitara antes). etnoculturalmente ambivalente. o elogio da mestiçagem solapa a denúncia da violência da situação colonial..) Oh! Mamão também papaia Na boca de pobres e de ricos De pretos de brancos e de mulatos Fruto democrático da minha ilha! Páscoa de 1962 São Tomé (“Mamão também papaia”.. numa justaposição de planos étnicos. como no poema “Ilha de nome santo”: Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro onde apesar da espada e duma bandeira multicolor dizerem poder dizerem força dizerem império de branco é terra de homens cantando vida que os brancos jamais souberam é terra do sàfu do sòcòpé da mulata – ui! fetiche di branco! – é terra do negro leal forte e valente que nenhum outro! Porém.. retomando-se deste modo a generosidade na percepção da violência colonial.

Tomé e Príncipe: de Finais de Oitocentos a Meados de Novecentos.Com este gesto. e Mar e Mágoa. a roça. via através da qual a poetisa redirecciona. Em ambos os casos. e no século XX (tensões muitas vezes “acarinhadas” pelo poder colonial6. 2002. Como já afirmei anteriormente (Mata. Lousã: Edição de autor. 2003). 1994) que se abrem as comportas desse novo olhar para as margens angolares da nação são-tomense. na acção colectiva e na produção científica através de uma imagem unitária. sobretudo para a investigação social. embora muito diferentes. num discurso de identidade liricamente épico.8 são-tomense: a mestiçagem. e A Dolorosa Raiz de Micondó. também porque porque os agentes dessa cena são arrivistas ao conhecimento do que sempre foi São Tomé e Príncipe. Fernando de Macedo e Conceição Lima. É com Fernando de Macedo (Anguéné. a monocultura do cacau e do café. cultural ou ideológica. o contratado. sem representação de qualquer diversidade étnica. . A Guerra da Trindade. 2006: 250-251). 7 Diferentemente de outros estudiosos que abordam este episódio da colonização portuguesa. trata-se de uma releitura idêntica. Poderes e Quotidiano nas Roças de S. 2004. na expressão de Manuel Ferreira – da sãotomensidade. 1989. sobretudo no século XIX em que se acredita ter-se fixado o perfil identitário do ilhéu. tornaram-se visíveis dissensos até então ocultos e rasurados da “narrativa da nação”. a literatura são-tomense dá o tom de uma discussão que ainda não emigrou para o discurso referencial. actualizada no discurso oficial. é retomado por Conceição Lima (O Útero da Casa. Este processo de injecção de outros sinais culturais no relato da nação. a precariedade socioeconómica. ver: Augusto Nascimento. como no caso dos contratados que foram “promovidos” a cipaios na “guerra de 53”7). quase reescrita epopeica. enfim. é uma enunciação contra a mitificação da memória histórica e o seu perfil identitário. Lisboa: Edição de autor. Carlos Espírito Santo prefe a expressão “guerra” em vez de “massacre” (Ver: Carlos Espírito Santo. Na poesia de Conceição Lima refaz-se o entrançado das subalternidades internas e das históricas tensões entre os diversos habitantes das ilhas para ali levados à força em diversos tempos. a força voluntariosa do sujeito cultural para procurar doravante libertar as luminescências da história dos muitos dos novos actores sociais que na cena superstrutural da sociedade são-tomense ainda continuam a ser ignorados. a relação colonizado/coloniazdor. Ao fazê-lo. a que se verifica no campo da 6 Sobre o antagonismo entre os contratados e o naturais das ilhas. 2006). em especial fazendo evidenciar a dimensão angolar – a angolaridade.

Esta operação desmistificadora consiste em estabelecer uma explicação. os significadores culturais e as premências históricas dos interlocutores.9 memória da história colonial. prejudice) sedimentados através da historiografia colonial. Tomé” (1953). cujo discurso é reproduzido nos manuais e inscrito pela literatura no imaginário cultural. objectos e situações. 2007. e que acaba por se fixar no corpo do património das seculares relações entre a Europa e a África. no caso. E isto através de explicação feita de espaços. reportando-me ao produtivo “falso amigo” inglês. que deveria fazer parte do todo nacional de pleno direito. em tenso diálogo com a crítica política de Sum Marky (ou. a reivindicações e enunciações afirmativas da realidade cultural. que apenas a partir dos anos 80 a nação literária são-tomense “reconheceu” a pluralidade no interior do seu corpo e “forçou” a representação da sociedade com descontinuidades e conflitos. neste século XXI. de forma programática. ousaria dizer. cultural ou. nem sempre eficazes é certo. mesmo que não se “adaptem” aos discursos oficiais no que respeita à problemática da identidade e de preconceitos (melhor. a primeira textualização deste nefando acontecimento. de Agostinho Neto. por isso. Assim. em Cores e Sombras de S. em que são encenadas novas leituras pós-coloniais sobre o antagonismo entre colonizados e colonizadores. histórica. “Trindade” e “Onde estão os homens caçados neste vento de loucura?”. Luanda: Edição da SONANGOL. porém sempre 8 Manuel Teles Neto. dessas visões da história colonial. a sociedade. abrindo-se. Esse processo de reinterpretação engloba também outras perspectivas político-ideológicas da história. Retalhos do Massacre de Batepá. de prejuízos. dos dois poemas de Alda Espírito Santo. porém mais coincidente com o mais recente poema sobre o fatídico ano de 1953. com Otilina Silva. diálogo surdo até. mas que é percepcionado (ainda) como marginal ao “sistema”. tempos. Pode dizer-se. intitulado “1953”. como a que se lê no romance Retalhos do Massacre de Batepá. desde os anos 90 com Conceição Lima. até pelo binómio espaço público – aqui entendido como sendo de uma cultura oficial – e espaço privado de uma cultura regional. . de Manuel Teles Neto8. seja ela verbal. não negligencia. o de Conceição Lima. essa revisão crítica que se vem processando desde os anos 80 com Fernando de Macedo e. Tomé e Príncipe. 2001) sobre o mesmo “massacre de Batepá” ou a referência teleologicamente política do poema “Massacre de S.

mesmo num país microscópico como São Tomé e Príncipe. em Anguéné (expressão angolar que significa “terra angolar”). quer com o poder colonial roceiro nas empreitadas para roçar as impenetráveis matas do sul – relação de que a ficção de Sum Marky dá conta sobretudo no seu romance As Mulatinhas (1973). à implosão da exclusividade da escrita da terra e da insularidade telúrica da tradição literária são-tomense. na sociedade colonial e no universo dos filhos-da-terra. em 1989. (“O que está pr’além da bruma?”. Historiador e poeta. possibilitando-se a gestação de um movimento de inclusão multicultural. a sua cultura e a sua visão das ilhas. para além de uma pontual relação utilitária quer com o segmento forro (principalmente no fornecimento do pescado.. o início angolar e. o minuyê e signos que conformam a realidade cultural das ilhas. com esse gesto. o gabon.10 bem intencionadas. no imaginário histórico das ilhas. nem são montes. . segundo uma relação de interesses textualizada na poesia de Alda Espírito Santo e na ficção de Sum Marky). o do naufrágio. deste modo. 1989) Foi com a representação do angolar que Fernando de Macedo tornou visível um segmento omitido da narrativa da nação procedendo. fazendo do mar o locus genésico desta comunidade: O que está pr’além da bruma envolto em azul extenso não sendo ondas ou espumas galé ou rochedo emerso? (. das sombras da História a história dos angolares. remontando ao seu tempo primordial. quase duas décadas antes. Note-se que os angolares sempre foram um segmento silencioso e marginal. Fernando de Macedo narrativiza a história dos angolares. considerado. o tonga. Anguéné.) Não são ilhas. No entanto. por essa narrativização do outro também se expuseram as desiguais relações de poder e de alteridade entre os subalternos: o angolar.. Portanto se A Dolorosa Raiz do Micondó tornou estridente o grito contra a monolitismo cultural e o monolinguismo identitário cantado pelos poetas anteriores e proclamado pelos “empresários da memória”. Fernando de Macedo resgatara. É África que tem seus olhos Sobre novos horizontes.

a circunscrição a um espaço geográfico (as praias do sul e do nordeste da ilha). 10 . mas também outros que derivam dos limites legais a que estavam sujeitos os contratados e os serviçais10. se centra no factor espaço. sendo que o espaço cultural dos excluídos (sobretudo angolares e ex-contratados e seus descendentes) se refaz através de fragmentos de espaços sócio-económicos apreendidos de estórias de vida. A Curadoria dos Serviçais era a instância que zelava pela aplicação da “lei” nas roças. uma vinculação à 9 Renato Miguel Carmo. Não mais regressarei ao Sul. ainda hoje. afinal. no caso do contratado e sua descendência (as roças). Morro sem respirar o hálito de uma outra cidade que adubei. (O Útero da Casa. Aqui. chama-me teu que sobre minha fronte se esvai a lua esburacada na sanzala. senão exercida por via de instrumentos de dominação como a delimitação do espaço: no caso do angolar. Embora podendo ler-se como uma situação interiorizada. (. 2006. “Kalua”. 2004) Vê-se. de A Dolorosa Raiz do Micondó – poemas dramáticos que encenam vozes de sujeitos desterritorializados que buscam. onde tudo dei e me perdi. e “Manifesto imaginado de um serviçal”.. e espaço sociocultural. cuja posse exercem através do poder ideológico que assegura a sua supremacia cultural. da sua mátria insular (“Maputo. leiam-se os poemas “Daimone Jones”. de O Útero da Casa.11 É interessante notar que em Conceição Lima esta questão de identidade. ficarei nas tuas entranhas. com limites que se estabelecem em pontuais intersecções com os “possuidores” (Carmo. Coroai-me hoje de raízes de sândalo e ndombó Sou filho da terra. Oeiras: Celta. Contributos para uma Sociologia do Espaço-Tempo. isto é.) Ilhas ! Clamai-me vosso que na morte não há desterro e eu morro. não se trata de uma supremacia consentida. que já em O Útero da Casa a poetisa proclamara a atlântica viuvez da sua casa. Na contramão dessa acção colectiva de exclusão. que se actualiza como uma relação de poder. ou “Zálima Gabon” e “Raúl Kwata vira Ngwya Tira Ponha”. Morador interdito. assumindo.. cidade índica”). pois. 2006)9 do espaço social e cultural das ilhas. um lugar simbólico no espaço geocultural em que se nativizaram… MANIFESTO IMAGINADO DE UM SERVIÇAL Chão inconquistado.

os seus filhos pelo mundo. o baobá) sinaliza a capacidade de resistência. se anuncia a epopeia da diáspora negro-africana através de um pretenso discurso lírico. . tanto pelas referências culturais como pelas referências geográficas. quem sabe. antes uma reivindicação de pertença a uma ampla e expansiva “comunidade imaginada”. primeiro avô”. afinal um país em que é produtivo que a pertença se faça pela nativização e não exclusivamente pela vinculação a ancestralidades insulares. Para que não se hierarquizem as matrizes etnoculturais (como o imaginário histórico soe fazer). Apenas aparentemente. pela remissão metafórica à “civilização insular”. a porta do inferno 11 Tendo o privilégio de conhecer várias versões dos poemas de Conceição Lima. sendo as ilhas de São Tomé e Príncipe uma evidência desse destino diaspórico do continente. possível. faço notar o quão interessante é o facto de uma das (últimas) versões deste verso ter sido: “O meu primeiro avô difuso.. sentimental. talvez Abessole O meu primeiro avô que não morreu agrilhoado em James Island e não cruzou. Uma nuance aparentemente menor. porém (um dia ainda hei-de me debruçar sobre as versões dos poemas de Conceição Lima). de persistência. também a África disseminou. (.. A partir de uma construção simbólica. Assim. “Canto obscuro às raízes”. Qual “esteta do multiculturalismo”. em Goré. de vivificação. de forma dolorosa. longo poema de circum-navegação histórica. o micondó (o imbondeiro. intimista..12 pátria inclusiva de elementos da sua diáspora.. sendo que esta comunidade é civilizacional. logo no primeiro poema da colectânea. tal como o micondó dispersa as suas raízes pelas profundezas da terra. consolidada depois pela imagem do micondó – em A Dolorosa Raiz do Micondó – a representar a rizomática multiplicação da existência nas ilhas de São Tomé e Príncipe. porque representativa da sua essência ontológica.) Digamos que o meu primeiro avô meu último continental avô que das margens do Ogoué foi trazido e às margens do Ogoué não voltou decerto O meu primeiro avô11 que não se chamava Kunta Kinte mas. não existe neste gesto a expressão de uma qualquer ideia de perifericidade cultural. afectivo.

A Teoria da Literatura em suas Fontes.) (A Dolorosa Raiz do Micondó. há propostas que acabam por operar a 12 Inocência Mata. Porém. continua “diferente. A Dolorosa Raiz do Micondó tem uma subdominante13 referencial bem marcante através da qual a poetisa intenta a visibilização e dignificação das raízes matriciais da são-tomensidade. tanto em Fernando de Macedo quanto em Conceição Lima em semânticas que se anunciam desde os títulos: Mar e Mágoa e A Dolorosa Raiz do Micondó. Bauru. 13 Utilizo o termo no sentido conceptualizado por Roman Jakobson. E numa altura em que. “A dominante” (1935). porventura contaminados pelo (envergonhado) élan luso-tropicalista existente no mundo dito lusófono. Ver: Luiz Costa Lima. segundos livros dos dois poetas. Por isso. de tão longe Ele que não fecundou a sua solidão nas margens do Potomac Ele que não odiou a brancura dos algodoais (. vol 18. 285-304). depois de. porque o poema mais não é do que o prelúdio de um processo de reconstituição histórica da sangria escravista e consequente dispersão identitária de que se perderam as raízes da ancestralidade que organiza os ritmos da memória. contudo. I. vol. nos primeiros – Anguéné (1989) e O Útero da Casa (2004) – cantarem a comunidade angolar e multiétnica e exaltarem a sua épica existência na sua demanda por um lugar no mundo globalizado que.. 2006) Pretenso. 3ª série. “Travessias do olhar: a descolonização da palavra na poesia são-tomense”. 485-491. interessantemente. com a busca de “aspectos positivos” do colonialismo português. se O Útero da Casa pode considerar-se um livro de incidência afroinsular e mestiça – ainda que muito diferente da harmoniosa mestiçagem proclamada por Francisco José Tenreiro. de que o discurso oficial (institucional). 2ª edição revista e ampliada. e até certos estudos sociais fazem eco. como já em outro lugar afirmei12 –. p. .13 Ele que partiu de tão perto. 1983. CAMONIANA – Revista de Estudos de Literatura Portuguesa do Núcleo de Estudos Luso-Brasileiros da Universidade do sagrado Coração. esta nova escrita da história na literatura são-tomense torna-se tensa e dolorosa. 2005 . para parafrasear Néstor García Canclini. SP (p. Rio de Janeiro. em ambos os casos.. de tão perto Ele que chegou de tão perto. desigual e desconectado”.

que chama a atenção para o facto de que “se as relações euro-africanas constituem o motor da transformação dessas ilhas desabitadas em espaços socialmente organizados. segundo Hayden White. em dar aos “eventos” a 14 “Poesia mulata parece ser. Fernando de Macedo procede à narrativização da história. Obra Poética. um grupo de discussão sobre São Tomé e Príncipe na sua invectiva contra uma dita africanização dos padrões culturais sãotomenses15.com/group/saotome/message/7807.14 relativização do passado colonial e seus corolários. estratégia discursiva que consiste. de facto. aprofundar um pouco este binómio negritude-mulatitude e até introduzir um terceiro conceito – o de crioulismo – que julgamos também escalrecedor do discurso literário deste sãotomense geógrafo e poeta”. http://uk. nigerianização. ora. invasão – uma superioridade implícita na tónica de alguns opinião”. Vale lembrar. enquanto sociólogo e geógrafo. para maior rigor. epíteto mais conveniente ao conjunto da obra poética de Tenreiro que. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 15 No artigo publicado intitulado “A propósito de africanização. e que os contratados eram uma “população flutuante” (1961: 198 e ss). Trata-se de uma perspectiva que aponta para a rarefacção de África e que ganha foros de objecto de reflexão histórica no novíssimo discurso pseudocientífico que percorre. publicado em 08 de Junho de 2004. Francisco José Tenreiro.yahoo. embora se note alguma “sobrevivência de civilizações africanas”. 1994. Salvato Trigo. A Dolorosa Raiz do Micondó diversifica e aprofunda as pertenças identitárias africanas face à insidiosa diluição de África que larvarmente vem emergindo destes estudos. se reedita. por isso. . até. em vários tempos. na contramação da mitificação da história. Isabel Castro Henriques. respaldar essa relativização ao referir que os padrões culturais dos são-tomenses não se afastam dos “da gente gregária de Portugal”. não é despiciendo o facto de o próprio Francisco José Tenreiro. da obra de poetas que lhes sucederam. Outrossim. Conceição Lima manifesta a sua perplexidade face à “sugestão de compatriotas quando se referem aos continentais”. mesmo os referentes à obra de Caetano Costa Alegre que se tornam sistemáticos em estudos da obra de Francisco José Tenreiro (Salvato trigo fala de “poesia mulata”14) e.groups. embora pudéssemos. “Prefácio”. sudanização. são contudo os homens e os valores africanos que impõem o ritmo e consagram a africanização de São Tomé e Príncipe” (2000: 13) Para implodir o relato de nação fixado. num grupo de discussão sobre São Tomé e Príncipe. São várias as ocorrências da escrita tenreiriana que autorizam essa conclusão.

na mais recente tradução da Poética. (Mar e Mágoa) Por seu turno. Tenho na mente Mbanza Onde ela ficou ainda. edição de 2005). como a propósito de seus romances disse o escritor Ramón Gómez de la Serna17. em significados fabulosos que vão adubando a história angolar: SABOR MÁGOA. Doña Juana La Loca (Seis Novelas Superhistóricas). a poesia de Conceição Lima. Tomé não cabia Em meus olhos d’oceano Onde Zaire se fundia. Ver S. chega a fixar duas traduções diferentes desta palavra – “fábula” em 1951 (Lisboa. Pau-de-roer. Fundação Calouste Gulbenkian. Gamela engana-fome. enorme. como em poemas em que são os contratados a reivindicarem o direito ao espaço das ilhas que sempre lhes foi negado: pelo colonizador e pelo ex-colonizado. resultando. pela voz dos protagonistas dos eventos. pela coerência mítica. 1990 (Lisboa. Em Conceição Lima a história colonial e pós-colonial passa por um processo de narração de que resulta uma exposição factual do acontecido. 17 Ramón Gómez de la Serna. Guimarães Editores. 1964) e “mito” em Diferentemente. A cada onda no casco D’angústia acrescentada Em rota desconhecida. Soa o apelo d’armada. um mesmo tradutor. Imprensa Nacional – Casa da Moeda). opta-se pelo termo “enredo” (Lisboa. . 1969. constrói-se com elementos factuais estruturados com densidade simbólica a partir de estórias de vida dos actores históricos.15 forma de história (aqui no sentido de fábula ou mito16). Eudoro de Sousa. ENORME De Mpumbo m’arrastaram Até ao mar de Mpinda. diferentemente da de Fernando de Macedo. 2004). da autoria de Ana Maria da Silva Valente (Prémio de Tradução Científica e Técnica FCT/União Latina. quase podendo dizer ser “poesia superhistórica”. significativamente identificado como “filho-da-terra”: Nas minas da África do Sul seu nome ronga ou xope ou xangane 16 Mito e fábula são duas traduções do grego mythos (Poética de Aristóteles): com efeito. Sabor mágoa. inhame.

que saberão porque lhes dedico este poema Teu nome tão breve e tão outro Sem nenhum adorno Tua voz tão prestes. vacilante hóspede das esquinas de São Tomé (. em A ..16 ficou sepultado A sua sonoridade é hoje despojo irrelevante Na cruel ressureição chamaram-lhe Diamond (.. sobretudo. Está enterrado na ilha. trata-se.) Não reside em Santa Margarida nem em Porto Alegre nem na Aldeia Murça nem em Agua Izé O coração da cidade o acolhe e o repele Bebe os tostões que jardina e escarra impropérios enquanto jardina este esquivo transeunte. Não reparou na nova bandeira Há quem leia nesta postura de Conceição Lima um revivalismo panafricanista. de pano soldado Tua ração de úchua. teu peixe salgado Teu jeito de dizer parana em vez de banana Tuas mãos delgadas. embora de asserção panafricana.. O Útero da Casa) KALUA Aos meus irmãos.. tão servas. meninas Tão mãos. Ou este “Raúl Kwata vira Ngwya Tira Ponha”. mesmo segundo uma perspectiva projectiva. Porém.) (“Daimonde Jones”. os netos de Sam Nôvi. no sentido benjaminiano. tão pouca no Budo-Budo Tua saia de riscado. Morreu pária na ex-colónia. tua filha que nunca a Moçampique foi e diz quixibá. mais do que um propósito de invocação nostálgica. multiplicando as horas Teu canto de além-mar e de ilha Tua estatura anciã na saudade detida E Magaída. de A Dolorosa Raiz do Micondó: Sabia os nomes de todas as roças – Em nenhuma ficava a sua aldeia.

Narrative Discourse and Historical Representation. este (o da narração) busca fazer o mundo falar por si próprio através de uma história18. de uma empresa verbal multidireccionada. eventos e lugares identificáveis e reconhecíveis a nível da factualidade histórica e das vivências afectivas. na expressão de Rodolfo Stavenhagen (1993: 65). de vaivém entre passado e presente que é também constante no romance Um Clarão sobre a Baía. segundo um “pensamento mestiço”. como se mestiçagem euro-hifenizada pertencesse a uma concepção de tempo. através dela. 20 Prémio Sonangol de Literatura 2005 (Luanda: UEA. Baltimore/London: The Johns Hopkins University Press. 19 Albertino Bragança. . figuras. The Context of the Form. percorrem as sombras do passado sócio-familiar e afectivo. entre as duas escritas da história – uma narrativizando e a outra narrando – é explicitada por Hayden White da seguinte forma: aquele (o da narrativização) adopta uma perspectiva para olhar o mundo e. No estado actual da realidade migratória são-tomense. 2005. Esta diferença.17 Dolorosa Raiz do Micondó. In Hayden White. o mestiço se transformasse em “raça cósmica”. em que as contribuições já não são as “tradicionais”. com figuras. para se projectar no futuro: o que se reivindica é um futuro diferente. que pode parecer especiosa. mesmo antes em O Útero da Casa. continental. sendo a sua a escrita da história actualizada segundo uma apresentação de eventos. Retalhes do Massacre de Batepá (2007)20. embora os processos de urdidura tropológica que a estimulam possam ser diversos. de Albertino Bragança19 (2005) e no premiado romance de Teles Neto. situações e processos históricos. Um Clarão sobre a Baía. o relata. São Tomé: Instituto Camões/Centro Cultural Português. do passado histórico colectivo (remoto e recente) e do presente político (nacional. E tudo segundo um ritmo temporal. através dos quais a informação concreta é processada em três andamentos temporais. 1992. mundial). 2006). a enunciação poética centra-se na utopia de uma sociedade inclusiva e nos equívocos do discurso apologético da desconsideração das raízes feita pelos arautos do fim da história. 18 Ver particularmente o capítulo intitulado “The value of narrativity in the representation of reality”. É também por isso significativo o facto de a poesia de Conceição Lima ser contaminada pelo modo narrativo. ordem e causalidade e. Dessa ambivalente condição discursiva pode resultar uma fusão da consciência mítica com a histórica. Os registos da “memória factual” (Jacques Le Goff).

Retomo. para finalizar. o historiador francês Jacques Le Goff. este sentido primeiro do termo resgatado por Jacques Le Goff porque como a visão das acções realizadas pelos homens.18 Logo no início da sua já citada obra História e Memória. a visão do passado muda consoante a épocas e os interesses da ideologia dominante. Novembro de 2007 . reportando-se ao sentido desta palavra fixado por Heródoto. lembra que história significa investigação. Por ele o sentido institucional reimagina novos paradigmas de relações entre diferenças promotoras da diversidade num espaço que sempre se imaginara monocultural e cujo devir tem de ser a busca de cidadania cultural para os que até então têm funcionado como nichos identitários naquela insula encravada na rota atlântica da aventura da globalização começada há mais de cinco séculos. procura (1996: 17-18). 1996: 13). Inocência Mata Rio de Janeiro. “a oposição passado/presente é essencial na aquisição da construção do tempo” (Goff. isto é. mesmo se a ideologia cultural ainda não processe essas mudanças e não engendre a compreensão delas para que haja verdadeira e produtiva integração do diferente no mapa da diversidade cultural. cujo objecto é aquilo que os homens realizaram. A literatura são-tomense tem vindo a aperceber-se do espaço simultaneamente simples e complexo da história.

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