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Desfiando memórias de além-mari:
novas cartografias identitárias na literatura são-tomense
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O tempo da história encontra num nível muito sofisticado, o velho tempo da memória que atravessa a história e a alimenta.
Jacques Le Goff

Numa relativamente recente entrevista (de 2004), o historiador francês Jacques Le Goff afirmou que prefere ver a história não tanto como uma ruptura, mas antes como uma novidade que emerge da longa duração1. Esta afirmação veio, de certa forma, relativizar a forma tendencialmente antagónica como eu vinha perspectivando o diálogo intertextual entre a obra de Francisco José Tenreiro, o iniciador do tempo da modernidade literária sãotomense, e a poesia pós-colonial, em particular a de Fernando de Macedo e, mais intensamente, a de Conceição Lima, no que se refere à identidade cultural da nação sãotomense e sua relação com o imaginário histórico e o “inventário” dos sinais identitários que as diversas representações verbais, gnómicas e figurativas geraram no universo insular. Com efeito, em vez de uma interpretação que tem em conta visões (quase) antagónicas das configurações identitárias geradas na poesia destes escritores separados por mais de meio século, percebi que talvez fosse mais produtivo considerar também as representações de sociabilidade insular entre os vários segmentos em presença cuja dinâmica histórica e cultural e consequentes manifestações identitárias são actualizadas e celebradas na longa duração dos tempos, atravessando a sua “opacidade inoportuna”, para me reportar a uma expressão de Michel Foucault em Arqueologia do Saber. Nesta leitura comparada convém, por isso, não perder de vista, por um lado, tanto o facto colonial transfigurado por Tenreiro na sua poética insular, dos anos 40-50, quanto a lógica colonial desse tempo marcado pela
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III Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa PENSANDO ÁFRICA: CRÍTICA,

PESQUISA E ENSINO ( UFRJ e UFF 20-24 de Novembro de 2007). PAINEL: Literatura, Mito e Memória.
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“Plutôt qu’une rupture, j’aime voir l’histoire comme une nouveauté qui se dégage de la longue durée”.

Televisão francesa, Canal 5, Les Livres, 22 de Fevereiro de 2004. Apud Isabel Castro Henriques, Território e Identidade, Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa/FLUL, 2004. p. 7.

2 emergência de movimentações reivindicativas dos africanos, de que ele foi um actor da “Geração de Cabral” (Mário Pinto de Andrade) – aparte a sua poética negritudinista; por outro lado, nos casos de Fernando de Macedo e Conceição Lima, há que ter em conta a percepção dos eventos em tempo de agonia colonial, de euforia pós-independência e subsequente rearticulação questionante da identidade nacional conformante com o imaginário histórico colectivo (sem falar, no caso de Conceição Lima, do desencanto político-social que vem actualizando através da internalização do olhar político). Falamos, pois, de um outro olhar a partir das novas configurações identitárias que a literatura são-tomense tem vindo a registar em tempo pós-colonial, enquanto procede à desmitificação de “memórias históricas” fixadas na poesia anterior, anticolonial e colonial, esta sobretudo processada na ficção feita por metropolitanos. Embora um termo polémico, não apenas pela sua ambiguidade como pelo seu alcance, por pós-colonial pode entender-se como ideologia estética que pressupõe o fim pretérito do colonialismo de forma tradicional (cuja lógica é a da exploração das riquezas naturais até à exaustão, com recurso à mão-deobra local), mas não necessariamente a desactivação das três forças que decidem as suas formas, embora não o resultado do processo2: o poder colonial, a situação na (ex-)colónia e o factor internacional (Wesseling, 1992:127). Por isso, é significativo o facto de os estudos pós-coloniais darem ênfase à afirmação da diferença de diversos tipos (cultura, “raça”, género, etnia, classe, religião, geografia) e alcance (colectiva e individual), privilegiando a produção da subjectividade, pelo reconhecimento das “subjectividades maginalizadas” da história, na expressão George Yúdice (1997-1: 138). É verdade que falar de pós-colonialismo continua ainda a pressupor olhar a história pelo prisma do colonizador, isto é, do Ocidente, grandemente responsável pelo perfil das culturas oficiais dos países ex-colonizados e em particular os africanos de língua oficial portuguesa e suas sociedades sujeitos à política colonial do assimilacionismo cultural (de que decorre, no caso do colonialismo português, o estatuto do indigenato, complementar ao do assimilado). O termo pós-colonalismo pode, neste contexto, reportar-se a toda a cultura afectada pelo processo imperial, desde o momento da colonização até ao presente
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Este processo, lembra o historiador holandês Henk Wesseling, pode resultar em dependência. E o livro de

Walter Rodney, Como a Europa Subdesenvolveu a África (Lisboa: Seara Nova, 1976) é o mais emblemático estudo (porventura por causa do seu pioneirismo) aplicado à África sobre a “teoria da dependência”.

de uma perversa subtileza.3 (Ashcroft. . A angolanidade surge assim irredutível em relação aos outros dois sistemas. como facilmente se percebe. (Venâncio. nos dias 18 e 19 de Outubro de 2002. vector de integração das culturas africanas e europeia. que acabam por funcionar como instrumentos de dominação. uma 3 Tal foi o entendimento de Salvato Trigo durante o colóquio A OBRA DE AGOSTINHO NETO NA HISTÓRIA LITERÁRIA ANGOLANA. por exemplo. Não se estranhe. portanto. que não lograram desmantelar as hierarquias coloniais internas (sobretudo hierarquias etnoculturais e linguísticas). que teve lugar em Roma. Griffiths & H. Este estado de coisas contribui para tornar propícia à conflitualidade a diferença devido à erosão do equilíbrio identitário provocado pelo colonialismo cuja hegemonia ideológica continua no seu estatuto incontornável de fornecimento de instrumentos de progresso (muitas vezes confundido com modernidade). vivendo duma certa instrumentalização do português por influência das línguas africanas. uma organização conjunta da Embaixada da República de Angola na Itália e o Departamento de Estudos Romanos da Faculdade de Ciências Humanísticas da Universidade "La Sapienza". a perspectiva decorrente da seguinte afirmação de José Carlos Venâncio: Um sistema novo de significantes é a angolanidade. “passou a ser moda [pensar-se] que os verdadeiras nações eram constituídas principalmente por mestiços e que a cultura nacional autêntica era e tinha forçosamente que ser uma cultura mestiça” (Stavenhagen. por ocasião do seu 80º aniversário de Agostinho Neto. como se de um programa de eugenia se tratasse. 1987: 16) E isto numa altura em que. de que os nacionalismos africanos são tributários dos ideais. mas não de natureza. Tiffin 1989: 2). vista como superação de culturas locais. A ideia. incorre no mesmo equívoco quem queira ver numa “cultura crioula” em Angola – seja o que for! – o paradigma da cultura nacional. Este modelo de reapropriação conceptual da assimilação cultural que resgata o quadro das relações internas de dominação colonial denuncia. A dinâmica político-ideológica e sociocultural dessas sociedades. acabam por isso por manter a subalternidade das componentes matriciais das culturas nacionais. Com diferença de ângulo. cujo substrato sociocultural é fornecido pelo colonialismo português. 1993: 66). que haja quem conceda ao colonizador o benefício das referências ideológicas e práticas cívicas que promoveram os ideais emancipalistas3 e são nucleários da nacionalidade. categorias e instrumentos da Europa retira qualquer iniciativa ideológica aos africanos e desconsidera toda a resistência organizada à penetração e expansão europeia em África desde os primórdios e das relações entre africanos e europeus. Tal é.

1961). numa retrógrada não conciliação entre o cru e o cozido (isto é.4 perspectiva evolucionista da noção de cultura que ainda contamina os estudos de cultura. como Cabo Verde (veja-se a posição dos claridosos a apontar para a “diluição de África”). como explicita Néstor García Canclini (2007: 15). A crioulidade. quanto em São Tomé e Príncipe (vejamse os estudos de Francisco José Tenreiro – sobretudo em A Ilha de S. Lembra Serge Gruzinski que A visão evolucionista inspira a ideia de que a planetarização das mestiçagens seria uma etapa prévia de um desenraizamento radical e de uniformização absoluta que levariam directo à “aldeia global”. como a Luanda do século XX-XXI. na conhecida metáfora de Claude Lévi-Strauss. pelos sinais e loci simbólicos de identificação. porém a perversidade desta perspectiva é o pressuposto de que a condição mestiça (em qualquer grau de hifenização com a Europa) é indispensável à “ascensão” do “nativo” à modernidade global. 2001: 328) Decorre disso que um dos nós górdios dessa dominação e subalternidade é o que se verifica na exaltação da mestiçagem como condição da modernidade exclusiva de espaços como a África ou a América Latina ou seus sujeitos – não que a história não deva levar em conta as mestiçagens. tanto em estudos de sociedades insulares. considerada fenómeno que caracteriza também uma sociedade continental. o que também Grunzinski admite ao afirmar que a história “raramente abordou de frente os fenómenos de misturas com os mundos extra-ocidentais e as dinâmicas que os provocaram” (2001: 55). 1993: 63). a natureza e a cultura). com a proposta de uma “cultura crioula” que mais não é. como é o caso de Angola. acaba por legitimar o despojamento de matrizes originais desses espaços que se erigem a condição indispensável de modernidade e a um patamar civilizacional superior. sobretudo se pensada a partir da hegemonia da componente europeia. mas também em estudos de sociedades africanas continentais. uma reciclagem do estatuto do assimilado e seus actuais “avatares”. neste contexto de rastreamento de novas cartografias identitárias da literatura são-tomense. Se parece lapalissiana a consideração de que “os processos culturais são lidos em chaves distintas”. repensar o estado do “cânone” segundo uma lógica de abertura de novos espaços (Appiah. cabe. Tomé. (Gruzinski. Com . Não é raro os estudos sobre a (formação da) sociedade crioula fazerem-se na perspectiva do processo evolutivo em que a componente africana é vista como “superável”.

a partir dos anos 80. 2006) A nova escrita da literatura são-tomense. 5 À Makolé Falo destes mortos como da casa. umas das últimas versões deste poema tinha como subtítulo “o espectro do serviçal” a reforçar o dimensão irreal de zálima (defunto).. 5 Nomes de contratados que ficaram conhecidos em muitos luchans de São Tomé. o outro. como “vindos” que são. portuguesa e africana.) (A Dolorosa Raiz do Micondó. sentados sob as árvores. vergam a cabeça e choram. (. irreais. Aiúpa Grande e Aiúpa Pequeno. Erguem-se depois e marcham com passos de guerrilha Não abafem o choro das crianças não fujam Não incensem as casas. nozados. visto como possuidor exclusivo da terra. ou dele omitido) é percebido e com ele. inexistentes: ZÁLIMA GABON À memória de Katona. e procedem a uma análise dos símbolos e signos através dos quais o outro (não integrado no segmento étnico crioulo tradicional. Permanecem e passeiam com passos tristes que assombram o barro dos quintais e arrastam a indignidade da sua vida e sua morte pelo ermo dos caminhos com um peso de grilhões. agora em História e Memória (1990): “o tempo da história encontra 4 Significativamente.5 este gesto pode ver-se como as diferenças de olhar desconstroem a imagem de uma cristalizada crioulidade de génese dual. assim. . Porque eles vêm e vão mas não partem Eles vêm e vão mas não morrem. corrobora. Às vezes. seus ossos sem rumo e sem abrigo e uma longa. se (não) estabelece qualquer diálogo. a afirmação de Jacques Le Goff. o curso d’água São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova a patética sombra. o pôr-do-sol. não ocultem a face Urgente é o apelo que arde por onde passam Seus corações deambulam à sombra nas plantações. resignada fúria Por isso não os confundo com outros mortos.. padres-nossos. centenária. figuras espectrais4. Por isso não os confundo com outros mortos apaparicados com missas.

) Mestiço! Quando amo a branca . poeta coetâneo dos fundadores da modernidade literária dos Cinco então futuros países africanos de língua oficial portuguesa. (. e com justeza.6 num nível muito sofisticado. Alimenta a história refazendo perfis. Mestiço! Nasci do negro e do branco e quem olhar para mim é como se olhasse para um tabuleiro de xadrez: a vista passando depressa fica baralhando cor no olho alumbrado de quem me vê. reinterpretando significados e atribuindo a tempos e espaços da história e da sociocultura outros lugares e outras dimensões no presente e no quotidiano. associada à generosidade da natureza. em que o mestiço se metamorfoseava harmoniosamente na relação com a branca e a negra. os administradores coloniais e os povos colonizados” (Fernandes. reconfigurando sentidos.. 2006: 244). se fixou a imagem da são-tomensidade (literária) a partir da “ilha de nome santo” em que a inefável docilidade e a espontânea alegria das gentes. amaciavam a fúria colonialista do “senhor administrador”. publicado apenas em 1967).. de 1963. o velho tempo da memória que atravessa a história e a alimenta” (1996: 13). ainda hoje. Embora considerado. Trilhando outras afroinsularidades E aos relógios insulares se fundiram os espectros – ferramentas do império numa estrutura de ambíguas claridades e seculares condimentos Conceição Lima (“Afroinsularidade”) Quando se fala da literatura são-tomense. o de Francisco José Tenreiro. por Manuel Ferreira. pode dizer-se que a poesia insular de Francisco José Tenreiro reuniu “num único e vasto amplexo os cidadãos metropolitanos. Com o autor de Ilha de Nome Santo (1942) e Coração em África (livro póstumo. o primeiro nome convocado é. o primeiro poeta negritudinista de língua portuguesa.

numa justaposição de planos étnicos. qualitativamente muito diferentes no âmbito da poética ambivalente de Tenreiro...) Oh! Mamão também papaia Na boca de pobres e de ricos De pretos de brancos e de mulatos Fruto democrático da minha ilha! Páscoa de 1962 São Tomé (“Mamão também papaia”. como no poema “Ilha de nome santo”: Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro onde apesar da espada e duma bandeira multicolor dizerem poder dizerem força dizerem império de branco é terra de homens cantando vida que os brancos jamais souberam é terra do sàfu do sòcòpé da mulata – ui! fetiche di branco! – é terra do negro leal forte e valente que nenhum outro! Porém. precisamente vinte anos depois do poema epónimo..7 sou branco.. etnoculturalmente ambivalente. Neste poema. na emblemática “Canção do mestiço” em que o sujeito.. (“Canção do mestiço”. diferentes dessoutros tantas vezes referenciados na “tradição literária” . Quando amo a negra sou negro. tanto nos primeiros poemas da insularidade crioula de Ilha de Nome Santo quanto em poemas do “Regresso à ilha” na Páscoa de 1962 (Coração em África). embora se relativize a violência da discriminação racial e étnica (que o enunciador explicitara antes). o elogio da mestiçagem solapa a denúncia da violência da situação colonial.. opera-se a desmitificação do maniqueísmo ideológico do simbolismo das cores e se proclama uma dinâmica flutuante na “normalidade” do sistema cultural. Pois é. em que está sugerida a elevação moral e espiritual do ilhéu. Coração em África. a dinâmica pós-colonial direccionou o olhar para outros loci históricos e outros “locais da cultura”. “Ilha de nome santo”.. Ilha de Nome Santo. 1942) (. o sujeito enunciador está consciente da condição de dominado e do lugar do homem são-tomense na sociedade colonial.. 1963) Em ambos os livros. retomando-se deste modo a generosidade na percepção da violência colonial. se afirma branco quando ama a branca e negro quando ama a negra.

a literatura são-tomense dá o tom de uma discussão que ainda não emigrou para o discurso referencial. também porque porque os agentes dessa cena são arrivistas ao conhecimento do que sempre foi São Tomé e Príncipe. a roça. o contratado. 2003). Como já afirmei anteriormente (Mata. a monocultura do cacau e do café. É com Fernando de Macedo (Anguéné. 1994) que se abrem as comportas desse novo olhar para as margens angolares da nação são-tomense. é retomado por Conceição Lima (O Útero da Casa. A Guerra da Trindade. embora muito diferentes. na expressão de Manuel Ferreira – da sãotomensidade. 1989. via através da qual a poetisa redirecciona. e no século XX (tensões muitas vezes “acarinhadas” pelo poder colonial6. 2004. num discurso de identidade liricamente épico. Carlos Espírito Santo prefe a expressão “guerra” em vez de “massacre” (Ver: Carlos Espírito Santo. a que se verifica no campo da 6 Sobre o antagonismo entre os contratados e o naturais das ilhas. 2006: 250-251).Com este gesto. tornaram-se visíveis dissensos até então ocultos e rasurados da “narrativa da nação”. 2002. ver: Augusto Nascimento. sobretudo no século XIX em que se acredita ter-se fixado o perfil identitário do ilhéu. trata-se de uma releitura idêntica. como no caso dos contratados que foram “promovidos” a cipaios na “guerra de 53”7). Fernando de Macedo e Conceição Lima. 7 Diferentemente de outros estudiosos que abordam este episódio da colonização portuguesa. Poderes e Quotidiano nas Roças de S. cultural ou ideológica. Em ambos os casos. Tomé e Príncipe: de Finais de Oitocentos a Meados de Novecentos. sobretudo para a investigação social. em especial fazendo evidenciar a dimensão angolar – a angolaridade. enfim. Na poesia de Conceição Lima refaz-se o entrançado das subalternidades internas e das históricas tensões entre os diversos habitantes das ilhas para ali levados à força em diversos tempos. a precariedade socioeconómica. Lousã: Edição de autor. quase reescrita epopeica. é uma enunciação contra a mitificação da memória histórica e o seu perfil identitário.8 são-tomense: a mestiçagem. e A Dolorosa Raiz de Micondó. . sem representação de qualquer diversidade étnica. actualizada no discurso oficial. e Mar e Mágoa. Ao fazê-lo. a relação colonizado/coloniazdor. 2006). na acção colectiva e na produção científica através de uma imagem unitária. a força voluntariosa do sujeito cultural para procurar doravante libertar as luminescências da história dos muitos dos novos actores sociais que na cena superstrutural da sociedade são-tomense ainda continuam a ser ignorados. Este processo de injecção de outros sinais culturais no relato da nação. Lisboa: Edição de autor.

a sociedade. seja ela verbal. Pode dizer-se. nem sempre eficazes é certo. a primeira textualização deste nefando acontecimento. Luanda: Edição da SONANGOL. cujo discurso é reproduzido nos manuais e inscrito pela literatura no imaginário cultural. como a que se lê no romance Retalhos do Massacre de Batepá. objectos e situações. Esse processo de reinterpretação engloba também outras perspectivas político-ideológicas da história. dos dois poemas de Alda Espírito Santo. o de Conceição Lima. que apenas a partir dos anos 80 a nação literária são-tomense “reconheceu” a pluralidade no interior do seu corpo e “forçou” a representação da sociedade com descontinuidades e conflitos. de Agostinho Neto. diálogo surdo até. abrindo-se. Retalhos do Massacre de Batepá. de Manuel Teles Neto8. Esta operação desmistificadora consiste em estabelecer uma explicação. prejudice) sedimentados através da historiografia colonial. e que acaba por se fixar no corpo do património das seculares relações entre a Europa e a África. 2001) sobre o mesmo “massacre de Batepá” ou a referência teleologicamente política do poema “Massacre de S. de prejuízos. ousaria dizer. mesmo que não se “adaptem” aos discursos oficiais no que respeita à problemática da identidade e de preconceitos (melhor. histórica. tempos. dessas visões da história colonial. até pelo binómio espaço público – aqui entendido como sendo de uma cultura oficial – e espaço privado de uma cultura regional. não negligencia. “Trindade” e “Onde estão os homens caçados neste vento de loucura?”. Tomé e Príncipe. de forma programática. desde os anos 90 com Conceição Lima. E isto através de explicação feita de espaços. porém sempre 8 Manuel Teles Neto. em Cores e Sombras de S. 2007. cultural ou. os significadores culturais e as premências históricas dos interlocutores. que deveria fazer parte do todo nacional de pleno direito. no caso. reportando-me ao produtivo “falso amigo” inglês. essa revisão crítica que se vem processando desde os anos 80 com Fernando de Macedo e.9 memória da história colonial. intitulado “1953”. mas que é percepcionado (ainda) como marginal ao “sistema”. com Otilina Silva. por isso. Assim. em tenso diálogo com a crítica política de Sum Marky (ou. neste século XXI. porém mais coincidente com o mais recente poema sobre o fatídico ano de 1953. a reivindicações e enunciações afirmativas da realidade cultural. em que são encenadas novas leituras pós-coloniais sobre o antagonismo entre colonizados e colonizadores. Tomé” (1953). .

o gabon. remontando ao seu tempo primordial. com esse gesto. deste modo. mesmo num país microscópico como São Tomé e Príncipe. em Anguéné (expressão angolar que significa “terra angolar”). Note-se que os angolares sempre foram um segmento silencioso e marginal.. No entanto. na sociedade colonial e no universo dos filhos-da-terra. Portanto se A Dolorosa Raiz do Micondó tornou estridente o grito contra a monolitismo cultural e o monolinguismo identitário cantado pelos poetas anteriores e proclamado pelos “empresários da memória”. segundo uma relação de interesses textualizada na poesia de Alda Espírito Santo e na ficção de Sum Marky). em 1989. Fernando de Macedo narrativiza a história dos angolares. considerado. a sua cultura e a sua visão das ilhas. para além de uma pontual relação utilitária quer com o segmento forro (principalmente no fornecimento do pescado. quer com o poder colonial roceiro nas empreitadas para roçar as impenetráveis matas do sul – relação de que a ficção de Sum Marky dá conta sobretudo no seu romance As Mulatinhas (1973). nem são montes. É África que tem seus olhos Sobre novos horizontes. o tonga. por essa narrativização do outro também se expuseram as desiguais relações de poder e de alteridade entre os subalternos: o angolar.10 bem intencionadas. . Anguéné. o do naufrágio.) Não são ilhas. Historiador e poeta. (“O que está pr’além da bruma?”. o início angolar e. no imaginário histórico das ilhas. Fernando de Macedo resgatara. das sombras da História a história dos angolares. possibilitando-se a gestação de um movimento de inclusão multicultural.. 1989) Foi com a representação do angolar que Fernando de Macedo tornou visível um segmento omitido da narrativa da nação procedendo. quase duas décadas antes. fazendo do mar o locus genésico desta comunidade: O que está pr’além da bruma envolto em azul extenso não sendo ondas ou espumas galé ou rochedo emerso? (. à implosão da exclusividade da escrita da terra e da insularidade telúrica da tradição literária são-tomense. o minuyê e signos que conformam a realidade cultural das ilhas.

Morador interdito. cidade índica”). ficarei nas tuas entranhas. Não mais regressarei ao Sul. chama-me teu que sobre minha fronte se esvai a lua esburacada na sanzala. no caso do contratado e sua descendência (as roças). ou “Zálima Gabon” e “Raúl Kwata vira Ngwya Tira Ponha”. afinal. ainda hoje. 2004) Vê-se. (. onde tudo dei e me perdi.11 É interessante notar que em Conceição Lima esta questão de identidade. Na contramão dessa acção colectiva de exclusão. Aqui. “Kalua”. que já em O Útero da Casa a poetisa proclamara a atlântica viuvez da sua casa. de A Dolorosa Raiz do Micondó – poemas dramáticos que encenam vozes de sujeitos desterritorializados que buscam. um lugar simbólico no espaço geocultural em que se nativizaram… MANIFESTO IMAGINADO DE UM SERVIÇAL Chão inconquistado. Embora podendo ler-se como uma situação interiorizada. leiam-se os poemas “Daimone Jones”. 2006)9 do espaço social e cultural das ilhas.. se centra no factor espaço. e “Manifesto imaginado de um serviçal”. da sua mátria insular (“Maputo. 10 .. cuja posse exercem através do poder ideológico que assegura a sua supremacia cultural. e espaço sociocultural. Contributos para uma Sociologia do Espaço-Tempo. 2006. não se trata de uma supremacia consentida. isto é. com limites que se estabelecem em pontuais intersecções com os “possuidores” (Carmo. mas também outros que derivam dos limites legais a que estavam sujeitos os contratados e os serviçais10.) Ilhas ! Clamai-me vosso que na morte não há desterro e eu morro. Coroai-me hoje de raízes de sândalo e ndombó Sou filho da terra. senão exercida por via de instrumentos de dominação como a delimitação do espaço: no caso do angolar. sendo que o espaço cultural dos excluídos (sobretudo angolares e ex-contratados e seus descendentes) se refaz através de fragmentos de espaços sócio-económicos apreendidos de estórias de vida. uma vinculação à 9 Renato Miguel Carmo. de O Útero da Casa. que se actualiza como uma relação de poder. (O Útero da Casa. assumindo. Morro sem respirar o hálito de uma outra cidade que adubei. A Curadoria dos Serviçais era a instância que zelava pela aplicação da “lei” nas roças. pois. a circunscrição a um espaço geográfico (as praias do sul e do nordeste da ilha). Oeiras: Celta.

de vivificação. afinal um país em que é produtivo que a pertença se faça pela nativização e não exclusivamente pela vinculação a ancestralidades insulares. Assim. porque representativa da sua essência ontológica. a porta do inferno 11 Tendo o privilégio de conhecer várias versões dos poemas de Conceição Lima. logo no primeiro poema da colectânea. faço notar o quão interessante é o facto de uma das (últimas) versões deste verso ter sido: “O meu primeiro avô difuso. afectivo. Uma nuance aparentemente menor. Para que não se hierarquizem as matrizes etnoculturais (como o imaginário histórico soe fazer). longo poema de circum-navegação histórica.) Digamos que o meu primeiro avô meu último continental avô que das margens do Ogoué foi trazido e às margens do Ogoué não voltou decerto O meu primeiro avô11 que não se chamava Kunta Kinte mas. talvez Abessole O meu primeiro avô que não morreu agrilhoado em James Island e não cruzou. quem sabe. de persistência. sentimental. “Canto obscuro às raízes”. em Goré. de forma dolorosa. pela remissão metafórica à “civilização insular”. os seus filhos pelo mundo. intimista.. não existe neste gesto a expressão de uma qualquer ideia de perifericidade cultural. Apenas aparentemente. primeiro avô”. possível. se anuncia a epopeia da diáspora negro-africana através de um pretenso discurso lírico. A partir de uma construção simbólica. sendo que esta comunidade é civilizacional. sendo as ilhas de São Tomé e Príncipe uma evidência desse destino diaspórico do continente. o micondó (o imbondeiro. Qual “esteta do multiculturalismo”..12 pátria inclusiva de elementos da sua diáspora. consolidada depois pela imagem do micondó – em A Dolorosa Raiz do Micondó – a representar a rizomática multiplicação da existência nas ilhas de São Tomé e Príncipe. (. antes uma reivindicação de pertença a uma ampla e expansiva “comunidade imaginada”.. porém (um dia ainda hei-de me debruçar sobre as versões dos poemas de Conceição Lima). . tal como o micondó dispersa as suas raízes pelas profundezas da terra. tanto pelas referências culturais como pelas referências geográficas. o baobá) sinaliza a capacidade de resistência.. também a África disseminou.

. . com a busca de “aspectos positivos” do colonialismo português. de tão perto Ele que chegou de tão perto. de que o discurso oficial (institucional). esta nova escrita da história na literatura são-tomense torna-se tensa e dolorosa. desigual e desconectado”. há propostas que acabam por operar a 12 Inocência Mata. vol. Bauru. 2006) Pretenso. Rio de Janeiro. 2ª edição revista e ampliada. E numa altura em que. tanto em Fernando de Macedo quanto em Conceição Lima em semânticas que se anunciam desde os títulos: Mar e Mágoa e A Dolorosa Raiz do Micondó. A Dolorosa Raiz do Micondó tem uma subdominante13 referencial bem marcante através da qual a poetisa intenta a visibilização e dignificação das raízes matriciais da são-tomensidade. interessantemente. p. 1983. 3ª série.13 Ele que partiu de tão perto. CAMONIANA – Revista de Estudos de Literatura Portuguesa do Núcleo de Estudos Luso-Brasileiros da Universidade do sagrado Coração. “A dominante” (1935). Por isso. “Travessias do olhar: a descolonização da palavra na poesia são-tomense”. Ver: Luiz Costa Lima. I.) (A Dolorosa Raiz do Micondó. Porém. porventura contaminados pelo (envergonhado) élan luso-tropicalista existente no mundo dito lusófono. contudo. A Teoria da Literatura em suas Fontes. e até certos estudos sociais fazem eco. 13 Utilizo o termo no sentido conceptualizado por Roman Jakobson.. 485-491. segundos livros dos dois poetas. continua “diferente. se O Útero da Casa pode considerar-se um livro de incidência afroinsular e mestiça – ainda que muito diferente da harmoniosa mestiçagem proclamada por Francisco José Tenreiro. SP (p. depois de. de tão longe Ele que não fecundou a sua solidão nas margens do Potomac Ele que não odiou a brancura dos algodoais (. vol 18. 2005 . para parafrasear Néstor García Canclini. nos primeiros – Anguéné (1989) e O Útero da Casa (2004) – cantarem a comunidade angolar e multiétnica e exaltarem a sua épica existência na sua demanda por um lugar no mundo globalizado que. como já em outro lugar afirmei12 –. 285-304). em ambos os casos. porque o poema mais não é do que o prelúdio de um processo de reconstituição histórica da sangria escravista e consequente dispersão identitária de que se perderam as raízes da ancestralidade que organiza os ritmos da memória.

Obra Poética. até. nigerianização. e que os contratados eram uma “população flutuante” (1961: 198 e ss). em dar aos “eventos” a 14 “Poesia mulata parece ser. Vale lembrar. de facto. invasão – uma superioridade implícita na tónica de alguns opinião”. da obra de poetas que lhes sucederam. Trata-se de uma perspectiva que aponta para a rarefacção de África e que ganha foros de objecto de reflexão histórica no novíssimo discurso pseudocientífico que percorre. Outrossim. aprofundar um pouco este binómio negritude-mulatitude e até introduzir um terceiro conceito – o de crioulismo – que julgamos também escalrecedor do discurso literário deste sãotomense geógrafo e poeta”. embora pudéssemos. A Dolorosa Raiz do Micondó diversifica e aprofunda as pertenças identitárias africanas face à insidiosa diluição de África que larvarmente vem emergindo destes estudos. na contramação da mitificação da história. ora. Francisco José Tenreiro. mesmo os referentes à obra de Caetano Costa Alegre que se tornam sistemáticos em estudos da obra de Francisco José Tenreiro (Salvato trigo fala de “poesia mulata”14) e. para maior rigor. Conceição Lima manifesta a sua perplexidade face à “sugestão de compatriotas quando se referem aos continentais”. se reedita. “Prefácio”. http://uk. 1994. embora se note alguma “sobrevivência de civilizações africanas”.com/group/saotome/message/7807. segundo Hayden White. um grupo de discussão sobre São Tomé e Príncipe na sua invectiva contra uma dita africanização dos padrões culturais sãotomenses15. que chama a atenção para o facto de que “se as relações euro-africanas constituem o motor da transformação dessas ilhas desabitadas em espaços socialmente organizados. epíteto mais conveniente ao conjunto da obra poética de Tenreiro que. . por isso. Fernando de Macedo procede à narrativização da história.groups. 15 No artigo publicado intitulado “A propósito de africanização. num grupo de discussão sobre São Tomé e Príncipe. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.yahoo. Salvato Trigo. respaldar essa relativização ao referir que os padrões culturais dos são-tomenses não se afastam dos “da gente gregária de Portugal”. são contudo os homens e os valores africanos que impõem o ritmo e consagram a africanização de São Tomé e Príncipe” (2000: 13) Para implodir o relato de nação fixado.14 relativização do passado colonial e seus corolários. não é despiciendo o facto de o próprio Francisco José Tenreiro. publicado em 08 de Junho de 2004. em vários tempos. Isabel Castro Henriques. sudanização. estratégia discursiva que consiste. São várias as ocorrências da escrita tenreiriana que autorizam essa conclusão. enquanto sociólogo e geógrafo.

Tenho na mente Mbanza Onde ela ficou ainda. Em Conceição Lima a história colonial e pós-colonial passa por um processo de narração de que resulta uma exposição factual do acontecido. como a propósito de seus romances disse o escritor Ramón Gómez de la Serna17. Fundação Calouste Gulbenkian. quase podendo dizer ser “poesia superhistórica”. pela coerência mítica. Ver S. a poesia de Conceição Lima. Guimarães Editores. resultando. da autoria de Ana Maria da Silva Valente (Prémio de Tradução Científica e Técnica FCT/União Latina. constrói-se com elementos factuais estruturados com densidade simbólica a partir de estórias de vida dos actores históricos. 1990 (Lisboa. como em poemas em que são os contratados a reivindicarem o direito ao espaço das ilhas que sempre lhes foi negado: pelo colonizador e pelo ex-colonizado. enorme. Sabor mágoa. opta-se pelo termo “enredo” (Lisboa. pela voz dos protagonistas dos eventos. Soa o apelo d’armada. Doña Juana La Loca (Seis Novelas Superhistóricas). diferentemente da de Fernando de Macedo. na mais recente tradução da Poética. 1964) e “mito” em Diferentemente. 2004). ENORME De Mpumbo m’arrastaram Até ao mar de Mpinda. 17 Ramón Gómez de la Serna. .15 forma de história (aqui no sentido de fábula ou mito16). inhame. chega a fixar duas traduções diferentes desta palavra – “fábula” em 1951 (Lisboa. um mesmo tradutor. Imprensa Nacional – Casa da Moeda). (Mar e Mágoa) Por seu turno. em significados fabulosos que vão adubando a história angolar: SABOR MÁGOA. Pau-de-roer. significativamente identificado como “filho-da-terra”: Nas minas da África do Sul seu nome ronga ou xope ou xangane 16 Mito e fábula são duas traduções do grego mythos (Poética de Aristóteles): com efeito. Eudoro de Sousa. Tomé não cabia Em meus olhos d’oceano Onde Zaire se fundia. 1969. edição de 2005). Gamela engana-fome. A cada onda no casco D’angústia acrescentada Em rota desconhecida.

Morreu pária na ex-colónia. teu peixe salgado Teu jeito de dizer parana em vez de banana Tuas mãos delgadas. de pano soldado Tua ração de úchua.. Ou este “Raúl Kwata vira Ngwya Tira Ponha”. tão servas. Não reparou na nova bandeira Há quem leia nesta postura de Conceição Lima um revivalismo panafricanista. trata-se.. de A Dolorosa Raiz do Micondó: Sabia os nomes de todas as roças – Em nenhuma ficava a sua aldeia.) Não reside em Santa Margarida nem em Porto Alegre nem na Aldeia Murça nem em Agua Izé O coração da cidade o acolhe e o repele Bebe os tostões que jardina e escarra impropérios enquanto jardina este esquivo transeunte. multiplicando as horas Teu canto de além-mar e de ilha Tua estatura anciã na saudade detida E Magaída. tua filha que nunca a Moçampique foi e diz quixibá. embora de asserção panafricana.) (“Daimonde Jones”. em A . mais do que um propósito de invocação nostálgica. mesmo segundo uma perspectiva projectiva.16 ficou sepultado A sua sonoridade é hoje despojo irrelevante Na cruel ressureição chamaram-lhe Diamond (.. O Útero da Casa) KALUA Aos meus irmãos. tão pouca no Budo-Budo Tua saia de riscado. Porém. Está enterrado na ilha.. meninas Tão mãos. vacilante hóspede das esquinas de São Tomé (. sobretudo. que saberão porque lhes dedico este poema Teu nome tão breve e tão outro Sem nenhum adorno Tua voz tão prestes. os netos de Sam Nôvi. no sentido benjaminiano.

É também por isso significativo o facto de a poesia de Conceição Lima ser contaminada pelo modo narrativo. E tudo segundo um ritmo temporal. Retalhes do Massacre de Batepá (2007)20. em que as contribuições já não são as “tradicionais”. entre as duas escritas da história – uma narrativizando e a outra narrando – é explicitada por Hayden White da seguinte forma: aquele (o da narrativização) adopta uma perspectiva para olhar o mundo e. de vaivém entre passado e presente que é também constante no romance Um Clarão sobre a Baía. 2005. este (o da narração) busca fazer o mundo falar por si próprio através de uma história18. na expressão de Rodolfo Stavenhagen (1993: 65). como se mestiçagem euro-hifenizada pertencesse a uma concepção de tempo.17 Dolorosa Raiz do Micondó. mundial). sendo a sua a escrita da história actualizada segundo uma apresentação de eventos. . 20 Prémio Sonangol de Literatura 2005 (Luanda: UEA. do passado histórico colectivo (remoto e recente) e do presente político (nacional. Baltimore/London: The Johns Hopkins University Press. 19 Albertino Bragança. Esta diferença. situações e processos históricos. de Albertino Bragança19 (2005) e no premiado romance de Teles Neto. a enunciação poética centra-se na utopia de uma sociedade inclusiva e nos equívocos do discurso apologético da desconsideração das raízes feita pelos arautos do fim da história. segundo um “pensamento mestiço”. 2006). percorrem as sombras do passado sócio-familiar e afectivo. Narrative Discourse and Historical Representation. com figuras. que pode parecer especiosa. continental. The Context of the Form. embora os processos de urdidura tropológica que a estimulam possam ser diversos. o relata. mesmo antes em O Útero da Casa. São Tomé: Instituto Camões/Centro Cultural Português. In Hayden White. de uma empresa verbal multidireccionada. Os registos da “memória factual” (Jacques Le Goff). ordem e causalidade e. através dos quais a informação concreta é processada em três andamentos temporais. No estado actual da realidade migratória são-tomense. através dela. para se projectar no futuro: o que se reivindica é um futuro diferente. 1992. Um Clarão sobre a Baía. eventos e lugares identificáveis e reconhecíveis a nível da factualidade histórica e das vivências afectivas. figuras. Dessa ambivalente condição discursiva pode resultar uma fusão da consciência mítica com a histórica. o mestiço se transformasse em “raça cósmica”. 18 Ver particularmente o capítulo intitulado “The value of narrativity in the representation of reality”.

este sentido primeiro do termo resgatado por Jacques Le Goff porque como a visão das acções realizadas pelos homens. Por ele o sentido institucional reimagina novos paradigmas de relações entre diferenças promotoras da diversidade num espaço que sempre se imaginara monocultural e cujo devir tem de ser a busca de cidadania cultural para os que até então têm funcionado como nichos identitários naquela insula encravada na rota atlântica da aventura da globalização começada há mais de cinco séculos. “a oposição passado/presente é essencial na aquisição da construção do tempo” (Goff. Novembro de 2007 . reportando-se ao sentido desta palavra fixado por Heródoto. isto é.18 Logo no início da sua já citada obra História e Memória. a visão do passado muda consoante a épocas e os interesses da ideologia dominante. Retomo. cujo objecto é aquilo que os homens realizaram. mesmo se a ideologia cultural ainda não processe essas mudanças e não engendre a compreensão delas para que haja verdadeira e produtiva integração do diferente no mapa da diversidade cultural. Inocência Mata Rio de Janeiro. o historiador francês Jacques Le Goff. procura (1996: 17-18). para finalizar. 1996: 13). lembra que história significa investigação. A literatura são-tomense tem vindo a aperceber-se do espaço simultaneamente simples e complexo da história.

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