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Alguma-Poesia-Carlos-Drummond-de-Andrade

Alguma-Poesia-Carlos-Drummond-de-Andrade

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Sections

  • Aurora
  • Soneto da perdida esperança
  • Hino nacional
  • Em face dos últimos acontecimentos
  • Necrológio dos desiludidos do amor
  • Sentimento do mundo
  • Confidência do Itabirano
  • Congresso Internacional do Medo
  • Privilégio do mar
  • Inocentes do Leblon
  • Os ombros suportam o mundo
  • Mãos dadas
  • Mundo grande
  • A bruxa
  • José
  • A mão suja
  • Consideração do poema
  • Procura da poesia
  • Caso do vestido
  • Morte do leiteiro
  • Consolo na praia
  • Canção amiga
  • A ingaia ciência
  • Confissão
  • Amar
  • O enterrado vivo
  • Poema-orelha
  • A um bruxo, com amor
  • Fazenda
  • Para sempre
  • O fim no começo
  • Parolagem da vida
  • Amor e seu tempo
  • Quero
  • Ainda que mal
  • Deus triste
  • Homem livre
  • Cuidado
  • Certas palavras
  • Le voyeur
  • A puta
  • Aula de português
  • Somem canivetes
  • Antepassado
  • Igual-desigual
  • A palavra
  • A falta de Érico Veríssimo
  • Visão de Clarice Lispector
  • Elegia carioca
  • A palavra mágica
  • Falta um disco
  • Ausência
  • Aspiração
  • A hora do cansaço
  • Verdade
  • Mortos que andam
  • Como encarar a morte
  • Deus e suas criaturas
  • Hipótese
  • Lição
  • Passatempo
  • O mundo é grande
  • Lira do amor romântico
  • O amor antigo
  • Rio em flor de janeiro
  • Salário
  • Cariocas
  • Aparição amorosa
  • A bunda, que engraçada
  • A língua lambe
  • Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
  • Mulher andando nua pela casa
  • No corpo feminino, esse retiro
  • No mármore de tua bunda
  • Não quero ser o último a comer-te
  • A castidade com que abria as coxas

Poema de sete faces Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos!

ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. Infância A Abgar Renault Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, Comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom.

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Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: - Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Casamento do céu e do inferno No azul do céu de metileno a lua irônica diurética é uma gravura de sala de jantar. Anjos da guarda em expedição noturna velam sonos púberes espantando mosquitos de cortinados e grinaldas. Pela escada em espiral diz-que tem virgens tresmalhadas, incorporadas à via-láctea, vaga-lumeando... Por uma frincha O diabo espreita com o olho torto. Diabo tem uma luneta Que varre léguas de sete léguas E tem ouvido fino Que nem violino. São Pedro dorme E o relógio do céu ronca mecânico. Diabo espreita por uma frincha. Lá embaixo Suspiram bocas machucadas. Suspiram rezas? Suspiram manso, de amor. E os corpos enrolados ficam mais enrolados ainda e a carne penetra na carne. Que a vontade de Deus se cumpra! Tirante Laura e talvez Beatriz, o resto vai para o inferno.

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Também já fui brasileiro Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. Ponteei viola, guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. Eu também já fui poeta. Bastava olhar para mulher, pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. Mas eram tantas, o céu tamanho, minha poesia perturbou-se. Eu também já tive meu ritmo. Fazia isso, dizia aquilo. E meus amigos me queriam, meus inimigos me odiavam. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo. Mas acabei confundindo tudo. Hoje não deslizo mais não, não sou irônico mais não, não tenho ritmo mais não. Construção Um grito pula no ar como foguete. Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos. O sol cai sobre as coisas em placa fervendo. O sorveteiro corta a rua. E o vento brinca nos bigodes do construtor. Toada do amor E o amor sempre está nessa toada: Briga perdoa perdoa briga. Não se deve xingar a vida, a gente vive, depois esquece. Só o amor volta para brigar, Para perdoar, Amor cachorro bandido trem. Mas se não fosse ele, também Que graça que a vida tinha? Mariquita, dá cá o pito, No teu pito está o infinito.

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Debaixo de cada árvore faço minha cama. Paris.. E a lua de Londres como um remorso. Como era mesmo a “Canção do Exílio”? Eu tão esquecido de minha terra.. Velha cidade! As árvores tão repetidas. Não há mais Turquia. Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista e no túmulo de [Lênin em Moscou parece que um coração [enorme está batendo. batendo mas não bate igual ao da gente. Hamburgo. Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas. Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa. Mas a Rússia tem as cores da vida. Submarinos inúteis retalham mares vencidos. Minha boca tem rugas. 4 .. A Itália explora conscienciosamente vulcões apagados. Tarifas bancos fábricas trustes craques. França e Bahia Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.Europa.. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo. Ai terra que tem palmeiras onde canta o sabiá! Lanterna Mágica I/ BELO HORIZONTE Meus olhos têm melancolias. O pulo da Mancha num segundo. Vulcões que nunca estiveram acesos A não ser na cabeça de Mussolini. Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros dentro de alguns [anos. O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados. E a Suíça cândida se oferece Numa coleção de postais de altitudes altíssimas. O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a declanchar. Chega! Meus olhos brasileiros se fecham saudosos. Minha boca procura a “Canção do Exílio”. Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um tapete para [sua Graciosa Majestade Britânica pisar. embigo do mundo. Os cais bolorentos de livros judeus E a água suja do Sena escorrendo sabedoria. A Rússia é vermelha e branca.

casas encardidas onde há velhas nas janelas.) Só as igrejas só as torres pontudas das igrejas não brincam de esconder. mas a que não pára nunca de correr.. II/ SABARÁ A Aníbal M. Sabará veste com orgulho os seus andrajos. Quede os bandeirantes? O Borba sumiu. Mas tudo tudo é inexoravelmente colonial: bancos janelas fechaduras lampiões. com vergonha do trem. (Atrás daquele morro. Ruas em pé pé-de-moleque PENÇÃO DE JUAQUINA AGULHA Quem não subir direito toma vaia. barrenta. Bem-feito! Eu fico cá embaixo maginando na ponte moderna — moderna por quê? A água que corre já viu o Borba. Os séculos cheiram a mofo e a história é cheia de teias de aranha. O Rio das Velhas lambe as casas velhas. 5 . a canoa deixa um sulco logo apagado. Machado A dois passos da cidade importante a cidadezinha está calada. Não a que corre. a Matriz — que é toda de ouro. Pelos jardins versailles ingenuidade de velocípedes. rebanho dócil pastoreado por igrejas: a do Carmo — que é toda de pedra.. muito mortas.. O casario alastra-se na cacunda dos morros.. E o velho fraque na casinha de alpendre com duas janelas dolorosas. Na água suja.em cada ramo dependuro meu paletó. Lirismo. Ai tempo! Nem é bom pensar nessas coisas mortas. Faz muito bem. entrevada. Dona Maria Pimenta morreu. cidade teimosa! Nem Siderúrgica nem Central nem roda manhosa de forde sacode a modorra de Sabará-buçu.

Almas antigas que nem casas. E todo me envolve uma sensação fina e grossa. E a longa voz que sobe que sobe do morro que sobe. palpitam na água cansada. Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável. Os ingleses compram a mina. VI/NOVA FRIBURGO Esqueci um ramo de flores no sobretudo 6 .Pernas morenas de lavadeiras. As ruas cheias de mulas-sem-cabeça correndo para o Rio das Mortes e a cidade paralítica no sol espiando a sombra dos emboabas no encantamento das alfaias. V/SÃO JOÃO DEL-REI Quem foi que apitou? Deixa dormir o Aleijadinho coitadinho. Os meninos seguem para a escola.. Nuvens que são cabeças de santo. Sinos começam a dobrar. E o trem bufando na ponte preta é um bicho comendo casas velhas. III/CAETÉ A igreja de costas para o trem. Melancolia das legendas. Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. tão musculosas que parece que foi o Aleijadinho que as esculpiu. O presente vem de mansinho de repente dá um salto: cartaz de cinema com fita americana.. Os homens olham para o chão. IV/ITABIRA Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê. Casas torcidas. Só na porta da venda.

. Mas tantos assassinatos. Pedante nas livrarias. sim. Lagoa Eu não vi o mar. A lagoa.. Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes. O mar não me importa.) Meu coração vai molemente dentro do táxi. 7 ... Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas. As cores nascem e morrem com impudor violento.. VIII/BAHIA É preciso fazer um poema sobre a Bahia. Os vizinhos não se conformam. Eu vi a lagoa.. Nas praias nu nu nu nu nu nu. A rua diferente Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. Não sei se o mar é bonito. a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas fôrmas. Minha rua acordou mudada. A lagoa é grande e calma também. não sei se ele é bravo. E tantos adultérios também. Passou boa! Peço a palavra! Meus amigos estão todos satisfeitos com a vida dos outros. Tu tu tu tu tu no meu coração. meu Deus. (Este povo quer me passar a perna. Fútil nas sorveterias. E tantos tantíssimos contos-do-vigário. Onde meu vermelho? Virou cinza.VII/RIO DE JANEIRO Fios nervos riscos faíscas. Mas eu nunca fui lá.

me abraçou. Cantiga de viúvo A noite caiu na minh’alma. Ouvi seus passos na escada. As beatas foram ver.. Uma sombra veio vindo.. Depois mais nada. Natal. Eu vi a lagoa. veio vindo. Natal. fiquei triste sem querer. Não tem neves. mas as filhas das beatas foram dançar black-bottom nos clubes sem presépio. me consolou. Eu não vi o mar. Já nasceu o deus menino.. me disse adeus com a cabeça e saiu.Na chuva de cores da tarde que explode a lagoa brilha a lagoa se pinta de todas as cores. acabou.. As beatas ajoelharam e adoraram o deus nuzinho mas as filhas das beatas e os namorados das filhas. Era a sombra de meu bem que morreu há tanto tempo. Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou. não tem gelos. Depois riu devagarinho. encontraram o coitadinho (Natal) mais o boi mais o burrinho e lá em cima a estrelinha alumiando. Política literária A Manuel Bandeira 8 . Fechou a porta. O sino longe toca fino. O que fizeram no natal Natal.

” No meio do caminho No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. o murmúrio das invocações.. O padre que fala do inferno sem nunca ter ido lá. uma letra somente para acabar teu nome! — Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! Eu estava sonhando. 9 . Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.. Ehá em todas as consciências um cartaz amarelo: “Neste país é proibido sonhar. cheia de escamas e debruçados na mesa todos contenmplam esse rom^ntico trabalho. Desgraçadamente falta uma letra. O canto dos homens trabalhando trabalhando mais perto do céu cada vez mais perto mais — a torre. E nos domingos a litania dos perdões. No prato. a sopa esfria. Enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz. Sentimental Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão.O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Igreja A Wellington Brandão Tijolo areia andaime água tijolo.

O jornal governista ridicularizava seus versos. seria eu mesmo. Poema que aconteceu Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo. Domingo… Bem bão! Bem bão! Os serafins. Entrou a tomar porres 10 . sorriria mas acabado o jogo não seria mais joguete. Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida. A manhã pintou-se de azul. Sentia-se diminuído na sua glória enquanto crescia a dos rivais que apoiavam a Câmara em exercício. entoam quirieleisão. Esperteza Tenho vontade de — ponhamos amar por esporte uma loura o espaço de um dia.Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos. Apanharia. os versos que ele sabia bons. no meio. no alto ficou Deus. Os amigos o abandonaram quando rompeu com o chefe político. No adro ficou o ateu. E ela ficaria espantada de ver um homem esperto. Certo me tornaria brinquedo nas suas mãos. A mão que escreve este poema não sabe que está escrevendo mas é possível que se soubesse nem ligasse. Política A Mário Cassassanta Vivia jogado em casa.

chá de minha burguesia contente. aconchego. Se só os outros poetas eram imitados. A polícia dissolve o meeting. diários..violentos. sem correntes muito livre. O jornal conta histórias. Ora afinal a vida é um bruto romance e nós vivemos folhetins sem o saber. Mas surge o imenso chá com torradas. Ó gozo de minha poltrona! Ó doçura de folhetim! Ó bocejo de felicidade! 11 . infinitamente livre livre livre que nem uma besta que nem uma coisa. Ladrões arrombam o cofre. E a desleixar os versos. A ulher ensangüentada grita. Poema do Jornal O fato ainda não acabou de acontecer e já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia. Teu braço morno me envolvendo. A pena escreve. Vem da sala de linotipos a doce música mecânica. A fumaça de meu cachimbo subindo. O marido está matando a mulher. Sweet Home A Ribeiro Couto Quebra-luz. Depois voltou para casa livre. Parou na ponte sobre o rio moroso. Se já não tinha discípulos.. Uma ocasião em que não tinha dinheiro para tomar o seu conhaque saiu à toa pelas ruas escuras. E teve vontade de se atirar (só vontade). Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês. o rio que lá embaixo pouco se importava com ele e no entanto o chamava para misteriosos carnavais. mentiras.

Nota social O poeta chega na estação. O poeta desembarca. O poeta toma um auto. O poeta vai para o hotel. E enquanto ele faz isso como qualquer homem da terra, uma ovação o persegue feito vaia. Bandeirolas abrem alas. Bandas de música. Foguetes. Discursos. Povo de chapéu de palha. Máquinas fotográficas assestadas. Automóveis imóveis. Bravos… O poeta está melancólico. Numa árvore do passeio público (melhoramento da atual administração) árvore gorda, prisioneira de anúncios coloridos, árvore banal, árvore que ninguém vê canta uma cigarra. Canta uma cigarra que ninguém ouve um hino que ninguém aplaude. Canta, no sol danado. O poeta entra no elevador o poeta sobe o poeta fecha-se no quarto. O poeta está melancólico. Coração numeroso Foi no Rio. Eu passava na Avenida quase meia-noite. Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis. Havia a promessa do mar e bondes tilintavam, abafando o calor que soprava no vento e o vento vinha de Minas. Meus paralíticos sonhos desgosto de viver (a vida para mim é vontade de morrer) faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente na Galeria Cruzeiro quente quente e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro, nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso. Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas

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autos abertos correndo caminho do mar voluptosidade errante do calor mil presentes da vida aos homens indiferentes, que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram. O mar batia em meu peito, já não sabia no cais. A rua acabou, quede árvores? a cidade sou eu a cidade sou eu sou eu a cidade meu amor. Poesia Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. Festa no brejo A saparia desesperada coaxa coaxa coaxa. O brejo vibra que nem caixa de guerra. Os sapos estão danados. A lua gorda apareceu e clareou o brejo todo. Até à lua sobe ao coro da sapataria desesperada. A saparia toda de Minas coaxa no brejo humilde. Hoje tem festa no brejo! Jardim da praça da Liberdade A Gustavo Capanema Verdes bulindo. Sonata cariciosa da água fugindo entre rosas geométricas. Ventos elísios. Macio. Jardim tão pouco brasileiro... mas tão lindo. Paisagem sem fundo. A terra não sofreu para dar estas flores. Sem ressonância. O minuto que passa desabrochando em floração inconsciente. Bonito demais. Sem humanidade.

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Literário demais. (Pobres jardins do meu sertão, atrás da Serra do Curral! Nem repuxos frios nem tanques langues, nem bombas nem jardineiros oficiais. Só o mato crescendo indiferente entre sempre-vivas desbotadas e o olhar desditoso da moça desfolhando malmequeres.) Jardim da Praça da Liberdade, Versailles entre bondes. Na moldura das Secretarias compenetradas a graça inteligente da relva compõe o sonho dos verdes. PROIBIDO PISAR NO GRAMADO Talvez fosse melhor dizer: PROIBIDO COMER O GRAMADO A prefeitura vigilante Vela a soneca das ervinhas. E o capote preto do guarda é uma bandeira na noite estrelada de funcionários. De repente uma banda preta vermelha retinta suando bate um dobrado batuta na doçura do jardim. Repuxos espavoridos fugindo. Cidadezinha qualquer Casas entre bananeiras mulheres entre laranjeiras pomar amor cantar. Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar... as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus. Fuga As atitudes inefáveis, os inexprimíveis delíquios, êxtases, espasmos, beatitudes não são possíveis no Brasil. O poeta vai enchendo a mala, põe camisas, punhos loções, um exemplar da Imitação e parte para outros rumos.

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Na Europa reina a geometria e todo mundo anda — como eu — de luto. Enquanto os bárbaros sem barbas sob o Cruzeiro do Sul se entregam perdidamente sem anatólios nem capitólios aos deboches americanos. Povo feio. Tateando na escuridão torceu o comutador e a eletricidade bateu nas coisas resignadas. Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna. siga. Dois silvos breves: Pare. (A este sinal todos os motoristas tomam lugar nos seus veículos para movimentá-los imediatamente. moreno.) Papai Noel às avessas A Afonso Arinos (sobrinho) Papai Noel entrou pela porta dos fundo (no Brasil as chaminés não são praticáveis). não há morfina igual a essa divina papa-fina. entrou cauteloso que nem marido depois da farra. 15 . o de Thaïs. por um tico não vai ao fundo. Estou de luto por Anatole France. achou um queijo e comeu. não respeita meu fraque preto. Joga-lhe um mico uma banana. jóia soberba. Um silvo longo e breve: Motoristas a postos. Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos. bruto. Museus! estátuas! catedrais! O Brasil só tem canibais. Vou perder-me nas mil orgias do pensamento greco-latino. coisas que continuavam coisas no mistério do Natal. Não há cocaína. — Se eu tivesse cinco mil pernas (diz ele) fugia com todas elas. Sinal de apito Um silvo breve: Atenção. Um silvo longo: Diminua a marcha. Dito isso fechou-se em copas.A vaia amarela dos papagaios rompe o silêncio da despedida.

o cigarro. Na horta. Fez a trouxa e deu o nó. Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças (no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada) e avançou pelo corredor branco de luar. o cachorro. A cozinheira preta. Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Maria ficou para tia. o papagaio. o trabalho. A espreguiçadeira. o palito nos dentes contentes. Longe um galo comunicou o nascimento de Critsto.Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender. o luar de Natal abençoava os legumes. Papai Noel agachou e recolheu aquilo tudo no interminável lenço vermelho de alcobaça. Papai Noel voltou de manso para a cozinha. a goiabada na sobremesa de domingo. a copeira mulata. o turco. Família Três meninos e duas meninas. a gangorra. João foi pra os Estados Unidos. mas apertou tanto que lá dentro mulheres elefantes soldados presidentes brigavam por causa do aperto. Quadrilha João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. Sendo uma ainda de colo. Papai entrou compenetrado. Raimundo morreu de desastre. a reza. Os pequenos continuavam dormindo. O agiota. 16 . as galinhas gordas no palmo de horta e a mulher que trata de tudo. saiu pela porta dos fundos. o gramofone rouco toda noite e a mulher que trata de tudo. apagou a luz. Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos soldados mulheres elefantes navios e um presidente de república de celulóide. o bilhete todas as semanas branco! Mas a esperança sempre verde. o gato. Teresa para o convento. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. a cama. Aquele quarto é o das crianças. o médico uma vês por mês. o leiteiro.

Meus olhos espiam espiam espiam soldados que marcham moças bonitas soldados barbudos …para namorar. (Desconfio que escrevi o poema. passam soldados. Os percevejos heróicos renascem. Moça bonita foi feita para namorar. Passam mulheres. 17 . Tinha um nome de que ninguém se lembra mais. Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Não precisa estômago para digestão. Meus olhos espiam..) Moça e soldado Meus olhos espiam a rua que passa. Soldado barbudo foi feito para brigar. Se quer fumar um charuto aperte um botão. Inabitável. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio. Meus olhos espiam as pernas que passam. Passam soldados. Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. O sobrevivente A Cyro dos Anjos Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade. Paletós abotoam-se por eletricidade. Mas até lá. o mundo é cada vez mais habitado. clarins e pernas que passam. Amor se faz pelo sem fio. O último trovador morreu em 1914. Nem todas são grossas… Meus olhos espiam. estarei morto. Impossível escrever um poema — uma linha que seja — de verdadeira poesia. Tambores. mas todas são pernas..A mulher que trata de tudo e a felicidade. para brigar. . felizmente.

Música A Pedro Nava Uma coisa triste no fundo da sala. Só eu não namoro. Eu considerei as contas que preciso pagar.. me deu as maminhas que erma só minhas. ficou muito espantado e achou uma barbaridade. as folhas no meio. os passos que era preciso dar.Só eu não brigo. E como eu não tinha que fazer vivia namorando as pernas morenas da lavadeira. Um dia ela veio para a rede. se enroscou nos meus braços. O sol lá em cima. o dia era quente. sem vento. Enquadrei o Chopim na minha tristeza e na dentadura amarela e preta meus cuidados voaram como borboletas.. O dia era quente. o mundo afundou. Cota zero Stop. Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas. A mulher de braços redondos que nem coxas martelava na dentadura dura sob o lustre complacente. as dificuldades. A vida parou ou foi o automóvel? Iniciação amorosa A rede entre duas mangueiras Balançava no mundo profundo. me deu um abraço. com duas tetas imensas. girava no espaço verde. Anedota búlgara Era uma vez um czar naturalista que caçava homens. A rede virou. 18 . Me disseram que era Chopim. Depois fui para a cama febre 40 graus de febre. Uma lavadeira.

. eu. Matei. você troiana. herói da Paramount.. troiana mas não Helena. Me suicidei também. Cabaré mineiro A dançarina espanhola de Montes Claros dança e redança na sala mestiça. Mas quando ia te pegar e te fazer minha escrava. Pulei muro de convento mas complicações políticas nos levaram à guilhotina. morremos. pula. pulo. você me gosta desde tempos imemoriais. você fez o sinal-da-cruz e rasgou o peito a punhal. Mas quando vi você nua caída na areia do circo e o leão que vinha vindo. tenho dinheiro no banco. Hoje sou moço moderno. remo..Balada do amor através das idades Eu te gosto. Saí do cavalo de pau para matar seu irmão. boxo. Com olhos morenos estou despindo 19 . Virei soldado romano. Toquei fogo na fragata onde você se escondia da fúria de meu bergantim. Depois (tempos mais amenos) fui cortesão de Versailles. Mas depois de muitas peripécias. beijo e casamos. Você é uma loura notável. rema. Eu era grego. danço. Você cismou de ser freita. dei um pulo desesperado e o leão comeu nós dois. te abraço. flagelo da Tripolitânia. Seu pai é que não faz gosto. Na porta da catacumba encontrei-te novamente.. boxa. brigamos. Depois fui pirata mouro. espirituoso e devasso. dança. perseguidor de cristãos.

Tristeza de guardar um segredo que todos sabem e não contar a ninguém (que esta vida não presta). (No Brasil não há outono mas as folhas caem.seu corpo gordo picado de mosquito. mas é linda. soltou uma dúzia de foguetes. que o amor não pode esperar! Epigrama para Emílio Moura Tristeza de ver s tarde cair como cai uma folha.. O homem comeu e bebeu. O amigo enfeitou a casa e quando o homem chegou com a mulher. A mulher bebeu e cantou. gorda e satisfeita. Depressa. Sociedade O homem disse para o amigo: – Breve irei a tua casa e levarei minha mulher. 20 . Os que amam sem amor não terão o reino dos céus. Procuro uma noiva loura morena preta ou azul uma noiva verde uma noiva no ar como um passarinho. o riso postiço de um dente de ouro.) Tristeza de comprar um beijo como quem compra jornal. Como rebola as nádegas amarelas! Cem olhos brasileiros estão seguindo o balanço doce e mole de suas tetas.. linda. Tem um sinal de bala na coxa direita. Quero me casar Quero me casar na noite na rua no mar ou no céu quero me casar.

pequenino. 21 . – Reparaste o bife queimado? O piano ruim e a comida pouca. para o sol não. era o que faltava. o rei caiu para trás como um europeu. Quando foi hora de sair. a Ásia não deu. E apertou a mão dos dois. O filho que desejava.Os dois dançaram. No caminho o homem resmunga: – Ora essa. E a mulher ajunta: – Que idiota. o amigo disse para o homem: – Breve irei a tua casa. o corpo ficou todo fofo. Ao vê-la. Sesta A Martins de Almeida A família mineira está quentando sol sentada no chão calada e feliz. e seu desejo de um filho era maior que a Ásia. De sua costela rela nasceu uma pequenina siamesa. bebeu um veneno terrível e morreu. Pobre rei de Sião que Camões não cantou. Amou três mulheres em vez de dez mil e nenhuma lhe deu um filho varão. Seu coração enegreceu de repente. Pobre rei de Bangkok educado em Oxford. Elegia do rei de Sião Pobre rei de Sião que morreu de desgosto por não ter um filho varão. – A casa é um ninho de pulgas. adoeceu. Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida e a alma do rei de Sião fugiu entre os canais. bonito. E todas as quintas-feiras eles voltam à casa do amigo que ainda não pôde retribuir a visita. Pobre reizinho de Sião. O amigo estava muito satisfeito. O filho mais moço olha para o céu. que morreu especialmente para nos comover. decorativo.

uma cantiga apenas mole que adormece. O companheiro ronca. e abríamos para as notícias olhos que não viam. Outubro 1930 Suores misturados no silêncio noturno. A saia não esconde a coxa morena sólida construída. O ruído igual dos tiros e o silêncio na sala onde os corpos são coisas escuras. O soldado deitado pensando na morte. O radio telegrafista ora triste ora alegre empunhava um papel que era a vitória ou a derrota. Corta ele. pontualmente. pai. Às 3 da madrugada. olhos que perguntavam. comprimida. O funcionário deitado não pensa na morte. A filha mais velha coça uma pereba bem acima do joelho. recomeçava o tiroteio. A família mineira está dormindo ao sol. Só um mosquito rápido mostra inquietação. Os olhos se perdem na linha ondulada do horizonte próximo (a cerca da horta). O filho mais moço ergue o braço rude enxota o importuno. a trepidação dos setores. Nós descansávamos.para o cacho de bananas. Pensa no amor tornado impossível 22 . De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado Maior um feixe de telegramas contendo. jogados sobre poltronas. A família mineira está comendo banana. O filho mais velho canta uma cantiga nem trite nem alegre. A família mineira olha para dentro. mas ninguém repara. O pai corta o cacho e distribui pra todos.

Meu Deus. da pólvora. com seus bigodes tumultuosos. outros. indeciso. “o inimigo (?) retirou-se em fuga precipitada. rebeldes. de metileno. legalistas. A torneira aberta escorre desinfetante. mulheres carinhosas cosendo fardas com bolsos onde estudantes guardarão retratos das respectivas. e destilava uma ternura vaporosa em seu costume de usar culotte sem perneiras. tomai conta de nós. expostos. a água circulou de novo. Chiador. eu fazia..no minuto guerreiro. olha a negra. A esta hora no Recife. Olha a negra. O inimigo resistia sempre e foi preciso cortar a água do quartel. Deus vela o sono dos brasileiros. Itararé. homens estão se matando com as necessárias cautelas. O general. olha a negra no chão e o cadáver com os seios enormes. cinco mortos e vinte feridos. granadas. exercício fácil. homens preparando discursos.” Um novo. a negra fugindo com a trouxa de roupa. levando ordens. A um canto do salão atulhado de mapas e em que telefones esticados retiniam trazendo fatos. era o mais doce dos seres. desta vez azul. Turvo. inúteis. em Guaxupé. ordens do dia. Baixo Guandu. Que todos acharam ótima e reprovaram com indignação cívica. 23 . E fecha os olhos para ver bem o amor com sua espada de fogo sobre a cabeça de todos os homens. solertes. captando rádios. olha a bala na negra. pedidos de comissionamento por atos de bravura. Igarapava. deixando abundante material bélico. literatura explosiva de boletins. Como resistisse ainda. O canhão fabricado em Minas — suave temperamento local — não disparou. claro Brasil surge.. longínquas namoradas. Jaguará. outros (são governadores) dando o fora. Pelo Brasil inteiro há tiros. minando pontes. a caricatura do seu imenso nariz.

O francês. a maior é suspirar pela Europa A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente. queixa-se da vida (a vida está tão cara) e no fim dá certo.. o judeu falam uma língua de farrapos. foi seu ouvido que entortou. de todas as burrices. A culpa é da sombra das bananeiras de meu país.. mete a língua no governo. Meu verso é minha cachaça. Para louvar a Deus como para aliviar o peito. ninguém perceba que passei a noite inteira chorando. mas não é para o público. folha de taioba. E a gente viajando na pátria sente saudades na pátria. Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson. canequinha de folha-de-flandres. é para mim mesmo essa cambalhota. copo de cristal. na roça penso no elevador. Eu bem me entendo. saio desanimado. Todo mundo tem sua cachaça. Aquela casa de nove andares comerciais é muito interessante. Há dias em que ando na rua de olhos baixos para que ninguém desconfie. de repente ouço a voz de uma viola. Sou até muito triste. Ah. Mas eles acordam e brigam de novo. No elevador penso na roça.. Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só. Se meu verso não deu certo. ser filho de fazendeiro! À beira do São Francisco. cantar minha vida e trabalhos é que faço meu verso. Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros.. Para beber.. Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta? 24 . A casa colonial da fazenda também era.. do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo. Quem me fez assim foi minha gente e minha terra e eu gosto bem de ter nascido com essa tara. pouco importa: tudo serve. é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de. queixar o desprezo da morena. lê o seu jornal. Explicação Meu verso é minha consolação.Anjos alvíssimos espreitam a hora de apagar a luz de teu quarto para abrirem sobre ti as asas que afugentam os maus espíritos e purificam os sonhos. Meu verso me agrada sempre. Não sou alegre.. esta sombra mole. Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota. E meu verso me agrada.. Para mim. preguiçosa. o italiano.

Ninguém não percebe. prendas e rezas. chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados. Jesus no lenho expira magoado. pedem com a boca. Os sinos tocam. Poema de purificação 25 . Jesus já cansado de tanto pedido dorme sonhando com outra humanidade. sino. cigarros e um sol imenso que lambuza de ouro o pó das feridas e o pó das muletas. Os homens cantam. muito dinheiro para eu comprar aquilo que é caro mas é gostoso e na minha terra ninguém não pissui. há tanta algazarra. me dá coragem pra eu matar um que me amola de dia e de noite e diz gracinhas a minha mulher. cantam sem parar. Já estamos puros. Nos olhos do santo há sangue que escorre. e não desta lepra. fenômenos. Senhor. No adro da igreja há pinga. Jesus me Deus pregado na cruz. Os romeiros pedem com olhos. cheia de pedras. baralhos. Sarai-me. Ladrão eu sou mas não sou ruim não. Jesus Jesus piedade de mim.Romaria A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos. meu amo. No alto do morro chega a procissão. Um leproso de opa empunha um estandarte. dai-me dinheiros. pedem com as mãos. Não quero ser preso. Senhor. o dia é de festa. mas trazemos flores. obrigados. Por que me perseguem não posso dizer. humildemente te peço uma graça. As coxas das romeiras brincam no vento. café. imagens. Meu Bom Jesus que tudo podeis. do amor que eu tenho e que ninguém me tem. Faz tanto calor. sobem a ladeira que leva a Deus e vão deixando culpas no caminho. Jesus ó meu santo.

que o mundo ia acabar às 7 e 45. As pensões alegres dormiam tristíssimas. Artur. Sebastião. embarcam para a eternidade. 26 . Como é maravilhoso o amor (o amor e outros produtos). Mas uma luz que ninguém soube dizer de onde tinha vindo apareceu para clarear o mundo. que se arruinava. meus irmãos! Os filhos estão nascendo com tamanha espontaneidade. que colocava pronomes. Helena. e outro anjo pensou a ferida do anjo batalhador. que amava os homens. que não dizia nada. O poeta está bêbedo. As casas também iam bêbedas. As águas ficaram tintas de um sangue que não descorava e os peixes todos morreram. mas escuta um apelo na aurora: Vamos todos dançar entre o bonde e a árvore? Entre o bonde e a árvore dançai. Aurora O poeta ia bêbedo no bonde.Depois de tantos combates o anjo bom matou o anjo mau e jogou seu corpo no rio. O dia nascia atrás dos quintais. Ninguém sabia que o mundo ia acabar (apenas uma criança percebeu mas ficou calada). Tudo era irreparável. Últimos pensamentos! últimos telegramas! José. meus irmãos! Embora sem música dançai.

Volto pálido para casa. Soneto da perdida esperança Perdi o bonde e a esperança.Dançai. Todos eles conduzem ao princípio do drama e da flora. Entretanto há muito tempo nós gritamos: sim! ao eterno 27 . Não sei se estou sofrendo ou se é alguém que se diverte por que não? na noite escassa com um insolúvel flautim. meus irmãos! A morte virá depois como um sacramento. A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre meu corpo. Vou subir a ladeira lenta em que os caminhos se fundem.

. Não é só um país sem igual. nossos erros também... assimilaremos finas culturas. Precisamos educar o Brasil.. o Brasil está dormindo. E virão sírias fidelíssimas. os incríveis João-Pessoas. E cuidaremos do Estado Técnico.. Não convém desprezar as japonesas. russas nostálgicas para garçonnettes dos restaurantes noturnos. Precisamos louvar o Brasil. de pele macia. E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões.. coitado.Hino nacional Precisamos descobrir o Brasil! Escondido atrás das florestas.. Cada brasileiro terá sua casa com fogão e aquecedor elétricos. O que faremos importando francesas muito louras. Precisamos colonizar o Brasil. abriremos dancings e subvencionaremos as elites. piscina. 28 . Compraremos professores e livros.. salão para conferências científicas. os Amazonas inenarráveis. Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão no pobre coração já cheio de compromissos. alemãs gordas. com a água dos rios no meio. Nossas revoluções são bem maiores do que quaisquer outras. Precisamos adorar o Brasil.

tão sem limites. Teus amigos estão sorrindo de tua última resolução. Por que seremos mais castos que o nosso avô português? Oh! sejamos navegantes. ele quer repousar de nossos terríveis carinhos. Pensavam que o suicídio fosse a última resolução. pornográficos). sobretudo pornográficos. propõe ao homem de óculos e à mulher da trouxa de roupa. coitados. E acaso existirão os brasileiros? Em face dos últimos acontecimentos Oh! sejamos pornográficos (docemente pornográficos). ao condutor do teu bonde. precisamos esquecer o Brasil! Tão majestoso. bandeirantes e guerreiros sejamos tudo que quiserem. por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos. Propõe isso ao teu vizinho. Nenhum Brasil existe. a todas as criaturas que são inúteis e existem. tão despropositado. que o melhor é ser pornográfico. O Brasil não nos quer! Está farto de nós! Nosso Brasil é no outro mundo. 29 . Este não é o Brasil.se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens. Não compreendem. A tarde pode ser triste e as mulheres podem doer como dói um soco no olho (pornográficos. Precisamos.

tomaram todas as providências para o remorso das amadas. mas os veremos seja no claro céu ou no turvo inferno.. sem tripas. tripas sentimentais e um estômago cheio de poesia. tu ficas. enjoada. Vísceras imensas. sem amor.. Desiludidos mas fotografados. Que grandes corações eles possuíam.Dize a todos: Meus irmãos. Oh quanta matéria para os jornais. Pum pum pum adeus. Agora vamos para o cemitério levar os corpos dos desiludidos encaixotados completamente (paixões de primeira e de segunda classe). Os médicos estão fazendo a autópsia dos desiludidos que se mataram. Eu vou. os seus dentes de ouro 30 . Única fortuna. não quereis ser pornográficos? Necrológio dos desiludidos do amor Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. As amadas torcem-se de gozo. Do meu quarto ouço a fuzilaria. escreveram cartas explicativas. sem coração. Os desiludidos seguem iludidos.

da viúva e do microscopista que habitavam a barraca 31 . anterior a fronteiras. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. o céu estará morto e saqueado. eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro. Sinto-me disperso. Sentimento do mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. mas estou cheio de escravos. eu mesmo estarei morto. humildemente vos peço que me perdoeis. sobre a tumba deles. violento. morto o pântano sem acordes. Quando os corpos passarem. Quando me levantar. minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor.não servirão de lastro financeiro e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo. morto meu desejo.

que tanto me diverte. estendido no sofá da sala de visitas. é doce herança itabirana. Tive ouro. E o hábito de sofrer. este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval. Itabira é apenas uma fotografia na parede.. A vontade de amar. Por isso sou triste. tive gado. Principalmente nasci em Itabira.. este orgulho. tive fazendas. esta cabeça baixa. orgulhoso: de ferro.e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. de suas noites brancas. Noventa por cento de ferro nas calçadas. vem de Itabira. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro. sem mulheres e sem horizontes. este couro de anta. Oitenta por cento de ferro nas almas. Mas como dói! 32 . Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira. Hoje sou funcionário público. futuro aço do Brasil. que me paralisa o trabalho.

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. existe apenas o medo. não cantaremos o ódio porque esse não existe. dos desertos. Sabemos que cada edifício abriga mil corpos labutando em mil compartimentos iguais.Congresso Internacional do Medo Provisoriamente não cantaremos o amor. O edifício é sólido e o mundo também. cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte. depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. dos mares. bebemos cerveja e olhamos o mar. o medo dos soldados. Sabemos que nada nos acontecerá. nosso pai e nosso companheiro. o que é privilégio dos edifícios. o medo das igrejas. cantaremos o medo dos ditadores. o medo dos democratas. que esteriliza os abraços. o medo grande dos sertões. Privilégio do mar Neste terraço mediocremente confortável. Às vezes. 33 . alguns se inserem fatigados no elevador e vem cá em cima respirar a brisa do oceano. Cantaremos o medo. o medo das mães.

mas a areia é quente. improvável.. e esquecem. e há um óleo suave que eles passam nas costas. a vida seria incerta. definitivamente inocentes. E os olhos não choram. mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. E o coração está seco.. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes. E nada esperas de teus amigos. já não sabes sofrer. E as mãos tecem apenas o rude trabalho.. Porque o amor resultou inútil. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Certamente. se houvesse um cruzador louco. Ficaste sozinho. 34 .O mundo é mesmo de cimento armado. Em vão mulheres batem à porta. tudo ignoram. a luz apagou-se. És todo certeza. fundeado na baía em frente da cidade. Tempo de absoluta depuração. Os ombros suportam o mundo Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis. Como a esquadra é cordial! Podemos beber honradamente nossa cerveja. Inocentes do Leblon Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar.. não abrirás.

Nele não cabem nem as minhas dores. que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. meu coração não é maior que o mundo. os homens presentes. A vida apenas. não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria. É muito menor. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. achando bárbaro o espetáculo. O presente é tão grande. de uma história. Não nos afastemos muito. o tempo presente. as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossege e nem todos se libertaram ainda. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. Chegou um tempo em que não adianta morrer. considero a enorme realidade. não nos afastemos. 35 . a paisagem vista da janela. as fomes. Estou preso à vida e olho meus companheiros. sem mistificação. a vida presente. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. As guerras. vamos de mãos dadas. Também não cantarei o mundo futuro. Alguns. Entre eles. Não serei o cantor de uma mulher. não direi os suspiros ao anoitecer. Mãos dadas Não serei o poeta de um mundo caduco. Mundo grande Não.Pouco importa venha a velhice. prefeririam (os delicados) morrer.

Estúpido. Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas.. as diferentes dores dos homens. me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos. Fecha os olhos e esquece. carne e algodão. Nunca escutei voz de gente. Mas também a rua não cabe todos os homens. Conheces os navios que levam petróleo e livros. as confissões patéticas. Ilhas perdem o homem. Entretanto escorre nas mãos. por isso me grito. tão calma! Vai inundando tudo. entre o fogo e o amor. Sim.Por isso gosto tanto de me contar. fáceis de habitar. os poemas. Meus amigos foram às ilhas. estão na rua. o grande mundo está crescendo todos os dias. Viste as diferentes cores dos homens.. Os homens estão cá fora. Maior. ilhas sem problemas. sabes como é difícil sofrer tudo isso. 36 . Por isso me dispo. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.. Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos – voltarão? Meu coração não sabe. tão calma. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo. meu coração é muito pequeno.. por isso freqüento os jornais. as sonatas. muito maior do que eu esperava. A rua é menor que o mundo. amontoar tudo isso num só peito de homem. ridículo e frágil é meu coração. Escuta a água nos vidros. não anuncia nada. Em verdade sou muito pobre. sem que ele estale. A rua é enorme. Só agora vejo que nele não cabem os homens.) Outrora escutei os anjos. O mundo é grande. não obstante exaustivas e convocando ao suicídio. Tu sabes como é grande o mundo. Outrora viajei países imaginários.

meu coração também pode crescer. Precisava de um amigo. meu coração cresce dez metros e explode. recebesse este carinho. desses calados. A bruxa A Emil Farhat Nesta cidade do Rio. de dois milhões de habitantes. estou sozinho na América. estou sozinho no quarto. Certo não é vida humana. que lêem verso de Horácio mas secretamente influem na vida. De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto.Então. Estou só. distantes. no amor. e a essa hora tardia como procurar amigo? E nem precisava tanto. 37 .. não tenho amigo. entre a vida e o fogo. E sinto a bruxa presa na zona de luz. – Ó vida futura! Nós te criaremos. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida ao meu lado. Entre o amor e o fogo. na carne. Precisava de mulher que entrasse neste minuto. mas é vida.. salvasse do aniquilamento um minuto e um carinho loucos que tenho para oferecer.

Companheiros. afetos. viajei. escutai-me! Essa presença agitada querendo romper a noite não é simplesmente a bruxa. que zomba dos outros. José? A festa acabou. a noite esfriou. a luz apagou. Estou cercado de olhos. o povo sumiu. José? 38 . Porém a essa hora vazia como descobrir mulher? Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga. você que faz versos. procuras.Em dois milhões de habitantes. você? você que é sem nome. É antes a confidência exalando-se de um homem. protesta? e agora. e agora. jornal e clama. aprendi. quantas mulheres prováveis interrogam-se no espelho medindo o tempo perdido até que venha a manhã trazer leite. Mas se tento comunicar-me o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão. José E agora. José? e agora. conheço vozes de bichos. briguei. que ama. sei os beijos mais violentos. de mãos.

a noite esfriou. e agora. já não pode beber. está sem discurso. sua gula e jejum.Está sem mulher. sem parede nua para se encostar. Minas não há mais. quer ir para Minas. para onde? 39 . o dia não veio. se você gemesse. se você tocasse a valsa vienense. José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato. você é duro. já não pode fumar. sem cavalo preto que fuja a galope. sua biblioteca. sua lavra de ouro.. o riso não veio. se você morresse. não existe porta. e agora? Se você gritasse. se você dormisse. sem teogonia. você marcha. cuspir já não pode. José! José. quer morrer no mar. José? E agora. José. José? Sua doce palavra. sua incoerência. seu ódio – e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta. se você cansasse. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. Mas você não morre. seu instante de febre. o bonde não veio. está sem carinho. seu terno de vidro.. mas o mar secou.

Eu seguia. escovei-a.. uma simples mão branca. por fim. duro. quem o saberia? Gente me chamava na ponta do gesto. suja há muitos anos. A água está podre. quisera torná-la. Não adianta lavar. Ai. que se pode pegar e levar à boca ou prender à nossa num desses momentos em que dois se confessam sem dizer palavra. A princípio oculta no bolso da calça. poli-a. A mão escondida no corpo espalhava seu escuro rastro. Preciso cortá-la. O nojo era um só. ou mesmo. E vi que era igual usá-la ou guardá-la. por maior contraste. O sabão é ruim. 40 . quantas noites no fundo da casa lavei essa mão..A mão suja Minha mão está suja. mão limpa de homem. Cristal ou diamante. A mão está suja. Nem ensaboar.

reter a ignóbil mão suja posta sobre a mesa. suor na camisa de quem trabalhou. Inútil. As palavras não nascem amarradas. cardo. Depressa. são puras. no céu livre por vezes um desenho. Não era sujo preto – o preto tão puro numa coisa branca. largas. autênticas. indevassáveis. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra. outra mão virá pura – transparente – colar-se a meu braço. pardo. Era um triste sujo feito de doença e de mortal desgosto na pele enfarada. sujo de carvão. casca de ferida. que todas me convêm. elas saltam. se dissolvem. fazê-la em pedaços e jogá-la ao mar! Com o tempo. se beijam. E era um sujo vil.A mão incurável abre dedos sujos. a esperança e seus maquinismos. tardo. Consideração do poema Não rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono. cortá-la. 41 . não sujo de terra. Era sujo pardo.

de toda a precisão se incorporam ao fatal meu lado esquerdo. são ondas de carinho te envolvendo. É qualquer homem ao meio-dia em qualquer praça. De todo o orgulho. como casa. e dois ou três faróis. Poeta do finito e da matéria. secretas. Estes poetas são meus. Saber que há tudo. O bonde. poucos. boiando em tempos sujos. Ser explosivo. não importa. e começa-la.Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro. cartas e remédios. como orvalho entre dedos. Estes poemas são meus. Dar tudo pela presença dos longínquos. boca tão seca. não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda a minha vida que joguei. que repousam. Na parede infiltrou-se. É minha terra e é ainda mais do que ela. da ausência de comércio. sentir que há ecos. e aves de bico longo conferindo sua derrota. na grama. Está na mesa aberta em livros. Furto a Vinicius sua mais límpida elegia. o uniforme de colégio se transformam. Ele é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão. Bebo em Murilo. e cresces como fogo. a rua. não rocha apenas. mas cristal. Me perco em Apollinaire. Essa viagem é mortal. eu sei que passarão. cantor sem piedade. – Há mortos? há mercados? há doenças? É tudo meu. duras. Mas é tão alto que as pedras o absorvem. Adeus. Maiakovski. mas ardor tão casto. 42 . mas tu resistes. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. se ainda as há. perdido embora. Como fugir ao mínimo objeto ou recusar-se ao grande? Os temas passam. por que falsa mesquinhez me rasgaria? Que se depositem os beijos na face branca. nas principiantes rugas. São todos meus irmãos. E mover-se em meio a milhões e milhões de formas raras. peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem. sem frágeis lágrimas. O beijo ainda é um sinal. sem fronteiras. Eis aí meu canto. últimos! esperança do mar negro. sim. É a lanterna em qualquer estalagem.

Para ele.Já agora te sigo a toda parte. tão infenso à efusão lírica. 43 . Tua gota de bile. tão firme.. meu poema. tão fiel. Não faças poesia com o corpo. fadiga e esperança nada significam. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. e te desejo e te perco. deixa-a em paz. não aquece nem ilumina. completo e confortável corpo. me destino. rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. chuva e noite. Procura da poesia Não faças versos sobre acontecimentos. que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes. Não cantes tua cidade. tão natural e cheio de segredos. estou completo. os aniversários. Nem me reveles teus sentimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Não é música ouvida de passagem. isso ainda não é poesia. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. esse excelente. os incidentes pessoais não contam. te atravessa. a vida é um sol estático. As afinidades. o povo. me faço tão sublime. Diante dela.. Tal uma lâmina. tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes.

Ainda úmidas e impregnadas de sono. Não adules o poema. Ei-los sós e mudos. em estado de dicionário. se te provocam. vossas mazurcas e abusões. Teu iate de marfim. antes de escrevê-los. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Calma. Chega mais perto e contempla as palavras. as palavras. não invoques. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Que se partiu. vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo. Convive com teus poemas. Não dramatizes. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta. Não forces o poema a desprender-se do limbo. rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Não percas tempo em mentir. cristal não era. é algo imprestável. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. não era poesia. Estão paralisados.A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. não indagues. sem interesse pela resposta. Tem paciência se obscuros. pobre ou terrível. mas não há desespero. 44 . Que se dissipou. que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. há calma e frescura na superfície intata. Não te aborreças. teu sapato de diamante. Penetra surdamente no reino das palavras.

se fechou. esse vestido tanta renda. me deixou com vosso berço. nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas. naquele prego? Minhas filhas. vosso pai enamorou-se. gritou. se perdeu tanto de nós. esse segredo! Minhas filhas. E ficou tão transtornado. Passou quando. mas a dona não ligou. o que é aquele vestido. me bateu. se afastou de toda vida. foi para a dona de longe. se devorou.Caso do vestido Nossa mãe. boca presa. Era uma dona de longe. Vosso pai evém chegando. 45 . bebeu. Em vão o pai implorou. é o vestido de uma dona que passou. Chorou no prato de carne. escutai palavras de minha boca. Nossa mãe.

por que chorais? Nosso lenço vos cedemos. Nossa mãe. O seu vestido de renda. Olhei para vosso pai. beberia seu sobejo. Nossa mãe. irado. não por mim. só para lhe satisfazer. vosso pai chega ao pátio. fazenda. disse que sim. me falou ela se rindo. procurei aquela mulher do demo.. dava ouro. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. Mas a dona nem ligou.. Minhas filhas. mais mostrava que escondia as partes da pecadora. Olhei para a dona ruim.dava apólice. a essa dona tão perversa. dava carro.. os olhos dele pediam. os olhos dela gozavam. Minhas filhas. 46 . não escutamos pisar de pé no degrau. Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto. me pediu que lhe pedisse. Eu não amo teu marido. de colo mui devassado.. que tivesse paciência e fosse dormir com ele. lamberia seu sapato. Eu fiz meu pelo-sinal. me curvei. não quero homem. Disfarcemos. Então vosso pai.

me disse baixinho. 47 . fiz doce. Vosso pai sumiu no mundo.Saí pensando na morte. passei ponte. costurei. visitei vossos parentes. meus olhos. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra. não comia. ao depois amor pegou. não te dou vosso marido. passei rio. pobre. mas a morte não chegava. meus anéis se dispersaram. da maior humilhação. mofina. fiquei de cabeça branca. Mas te dou este vestido. que não sei onde ele anda. minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. tive uma febre terçã. mas a morte não chegava. não falava. com sua trouxa na mão. Me joguei a suas plantas. desfeita. O mundo é grande e pequeno. Fiquei fora de perigo. perdi meus dentes. lavei. minhas mãos se escalavraram. Andei pelas cinco ruas. Eu não tinha amor por ele. Um dia a dona soberba me aparece já sem nada. Dona.

Eu fiz. Olhei para a cara dela. pus nesse prego da parede. mal reparou no vestido e disse apenas: Mulher.fiz toda sorte de dengo. no chão rocei minha cara. ele se assentou. Olhou para mim em silêncio. quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso. me puxei pelos cabelos. de nada valeu: vosso marido sumiu. bebi fel e gasolina. dona. quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela. rezei duzentas novenas. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. me lancei na correnteza. põe mais um prato na mesa. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. me cortei de canivete. boca não disse palavra. 48 . Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. Peguei o vestido. me atirei no sumidouro.

era sempre o mesmo homem. Minhas filhas. me acalentava. nem nada. comia meio de lado e nem estava mais velho.comeu. um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho. O barulho da comida na boca. vestido não há. Então o moço que é leiteiro 49 .. é preciso entregá-lo cedo. Há no país uma legenda. Morte do leiteiro A Cyro Novaes Há pouco leite no país. limpou o suor. que ladrão se mata com tiro. é preciso entregá-lo cedo.. me dava uma grande paz. Há muita sede no país. eis que ouço vosso pai subindo a escada.

resmunga e torna a dormir.. é claro. avancemos por esse beco. morados na Rua Namur. Na mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro. o corpo vai deixando à beira das casas uma apenas mercadoria. E já que tem pressa. peguemos o corredor. Sem fazer barulho. sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. suas garrafas e seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade. cão latindo por princípio. depositemos o litro. Ladrão? se pega com tiro. O revólver da gaveta saltou para sua mão. antes desliza que marcha. vaso de flor no caminho. com 21 anos de idade. ou um gato quizilento. que barulho nada resolve. Os tiros na madrugada 50 . É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado. E há sempre um senhor que acorda.. não quis saber de mais nada. Sua lata. E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo.de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom para gente ruim. Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro). Meu leiteiro tão sutil de passo maneiro e leve. empregado no entreposto.

Por entre objetos confusos. matei um inocente. Quem quiser que chame médico. A noite geral prossegue. A infância está perdida. suavemente se tocam. e foge pra rua. mas o leiteiro estatelado. formando um terceiro tom a que chamamos aurora.. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. A mocidade está perdida. Mas o homem perdeu o sono de todo. não sei. Está salva a propriedade. amorosamente se enlaçam. Consolo na praia Vamos. não chores. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite. se era virgem. Meu Deus. sangue. duas cores se procuram.. polícia não bota a mão neste filho de meu pai. é tarde para saber. O terceiro amor passou. 51 . se era bom. O segundo amor passou. se era alegre. a manhã custa a chegar. O primeiro amor passou. Mas a vida não se perdeu. Se era noivo. Mas o coração continua. não sei. Da garrafa estilhaçada. mal redimidos da noite.liquidaram meu leiteiro. perdeu a pressa que tinha. ao relento.

Se não se vêem. todas as mães se reconheçam. devias precipitar-te. terra. no vento. Nunca.Perdeste o melhor amigo. Eu distribuo um segredo como quem anda ou sorri. Mas. e que fale como dois olhos. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Algumas palavras duras. Caminho por uma rua que passa em muitos países. Não tentaste qualquer viagem. e o humour? A injustiça não se resolve. Tudo somado. Mas tens um cão. nas águas.. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. nossas vidas formam um só diamante.. Mas virão outros. navio. Dorme. Estás nu na areia. Minha vida. te golpearam. nunca cicatrizam. eu vejo e saúdo velhos amigos. de vez. meu filho Canção amiga Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça. Não possuis carro. em voz mansa. 52 .

dos quebrantos. 53 . dos ócios. livre de encantos. A ingaia ciência A madureza. a mão. e que o mundo converte numa cela. onde se estenda. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma. essa terrível prenda que alguém nos dá. todo sabor gratuito de oferenda sob a glacialidade de uma estela. raptando-nos. o círculo vazio. A madureza sabe o preço exato dos amores. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. se destroem no sonho da existência. O agudo olfato.Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. a madureza vê. o agudo olhar. posto que a venda interrompa a surpresa da janela. com ela.

) E na meia-luz tesouros fanam-se. Dei sem dar e beijei sem beijo. contudo próximo. (Cego é talvez quem esconde os olhos embaixo do catre. tarde. como compor um homem e tudo que ele implica de suave. Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido – que se esfacelou na asa do avião. Não amei ninguém. ao voltar da festa. melodiosas. amor e piedade? Não amei bastante sequer a mim mesmo. não catei o verme nem curei a sarna. Memória 54 . Só proferi algumas palavras.Confissão Não amei bastante meu semelhante. Do que restou. murmúrios de riso. entrega. os mais excelentes. de concordâncias vegetais.

amar? sempre. é sal. amar? amar e esquecer. amar. desamar.Amar o perdido deixa confundido este coração. muito mais que lindas. e até de olhos vidrados. em rotação universal. na brisa marinha. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. ou precisão de amor. sozinho. entre criaturas. Mas as coisas findas. Amar Que pode uma criatura senão. e amar? amar o que o mar traz à praia. pergunto. senão rodar também. ou simples ânsia? 55 . amar? Que pode. e o que ele sepulta. amar e malamar. o ser amoroso. essas ficarão. e o que. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não.

e a sede infinita. o áspero. Amar a nossa falta mesma de amor. é sempre no futuro aquele pânico. Sempre no mesmo engano outro retrato. e a rua vista em sonho. É sempre no meu não aquele trauma. É sempre no meu sono aquela guerra. e amar o inóspito. É sempre no meu peito aquela garra. distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas. doação ilimitada a uma completa ingratidão. e na concha vazia do amor a procura medrosa. é sempre no presente aquele duplo. E sempre no meu sempre a mesma ausência. Este o nosso destino: amor sem conta. um chão de ferro. Sempre dentro de mim meu inimigo. um vaso sem flor. paciente. de mais e mais amor. o que é entrega ou adoração expectante. e na secura nossa amar a água implícita. 56 . e uma ave de rapina. Sempre no meu amor a noite rompe. e o beijo tácito.Amar solenemente as palmas do deserto. É sempre nos meus lábios a estampilha. e o peito inerte. Sempre na minha firma a antiga fúria. É sempre no meu trato o amplo distrato. É sempre no meu tédio aquele aceno. É sempre nos meus pulos o limite. O enterrado vivo É sempre no passado aquele orgasmo.

57 . Uma orelha ou uma boca sequiosa de palavras? São oito livros velhos e mais um livro novo de um poeta inda mais velho que a vida que viveu e contudo o provoca a viver sempre e nunca. Aquilo que revelo e o mais que segue oculto em vítreos alçapões são notícias humanas.) Não me leias se buscas flamante novidade ou sopro de Camões. que tudo é o vasto dia em seus compartimentos nem sempre respiráveis e todos habitados enfim. e brincos de palavra. simples estar-no-mundo. Oito livros que o tempo empurrou para longe de mim mais um livro sem tempo em que o poeta se contempla e se diz boa-tarde (ensaio de boa-noite.Poema-orelha Esta é a orelha do livro por onde o poeta escuta se dele falam mal ou se o amam. variante de bom-dia.

A um bruxo. e me recebes na sala trajestada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. a facada como para uma simples quebra da monotonia universal e tens no rosto antigo uma expressão a que não acho nome certo (das sensações do mundo a mais sutil): volúpia do aborrecimento? ou. entre malinas e bruxelas. Conheces a fundo a geologia moral dos Lobo Neves e essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para ciumentos. filtrada. com amor Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te. uma luz que não vem de parte alguma pois todos os castiçais estão apagados. tu leste o livro inteiro. Nada vivido? Tudo. Tudo vivido? Nada. do nada? 58 . Olhas para a guerra. Contas a meia voz maneiras de amar e de compor os ministérios e deitá-los abaixo. minuciosa curiosidade de quem saboreia por tabela o prazer de Fortunato.um não-estar-estando. Daí esse cansaço nos gestos e. vivisseccionista amador. Outros leram da vida um capítulo. o murro. grande lascivo. A orelha pouco explica de cuidados terrenos: e a poesia mais rica é um sinal de menos. mas de tal jeito urdidos o jogo e a confissão que nem distingo eu mesmo o vivido e o inventado. E ficas mirando o ratinho meio cadáver com a polida.

flor mulher flor canção de mulher nova. em longe recanto.. para os dias mais ásperos. vai pé ante pé procurar o remédio. troça concentrada e filosófica entre loucos que riem de ser loucos e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram. abertos como a vaga do mar lá fora. o clarineta. e os grandes. e o mesmo som do relógio. e chega ao despistamento de teu pencenê. Virgília. mas onde a dúvida apalpa o mármore da verdade. A todas decifrastes íris e braços e delas disseste a razão última e refolhada moça. mas haverá remédio para existir senão existir? E. E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas. 59 . Bem a distingo. lento. que os tem redondos e namorados. de Capitu. O eflúvio da manhã. a descobrir a fenda necessária. estás sempre aí. quem sabe) o turvo grunhir dos porcos. com olhos dotados de um mover particular ente mavioso e pensativo. Marcela. igual e seco. e não pousas em nenhum deles. Severina e das chinelinhas de alcova de Conceição.O vento que rola do Silvestre leva o diálogo. Contudo. além da cocaína moral dos bons livros? Que crime cometemos além de viver e porventura o de amar não se sabe a quem. Um som remoto e brando rompe em meio a embriões e ruínas. ronda clara: É Flora. de olhos intimativos. mas amar? Todos os cemitérios se parecem. tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná. A terra está nua deles. mostra que os homens morreram. a rir com expressão cândida (e outra coisa). onde o diabo joga dama com o destino. que resolves em mim tantos enigmas. quem o pede ao crepúsculo da tarde? Uma presença. cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida. Mariana. e Sancha.. a ramagem começa a sussurar alguma coisa que não se estende logo a parece a canção das manhãs novas. o mar que fala a mesma linguagem obscura e nova de D. bruxo alusivo e zombeteiro. eternas exéquias e aleluias eternas.

sem mais resposta. Dás volta à chave. E criação e gente. Fazenda Vejo o Retiro: suspiro no vale fundo. tudo era casto. Mulher. A morte escolhia a forma breve de um coice. O amor das éguas rinchava no azul do pasto. dissolves-te no ar. envolves-te na capa. abundavam negras socando milho. Destruição 60 . em liga. O Retiro ficava longe do oceanomundo. Ninguém sabia da Rússia com sua foice. logo em concílio. urubus rasantes. e qual novo Ariel. sais pela janela. Rês morta.O estribeiro Oblivion bate à porta e chama ao espetáculo promovido para divertir o planeta Saturno.

assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho. e como o que era mundo volve a nada. ninguém.Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Deixaram de existir mas o existido continua a doer eternamente. Dois amantes que são? Dois inimigos. Amor. E eles quedam mordidos para sempre. Um se beija no outro. Nada. 61 . Para sempre Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite. puro fantasma que os passeia de leve. refletido. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se. luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba. é tempo sem hora.

ar puro. na sua graça. puro pensamento. baixava uma lei: Mãe não morre nunca. será pequenino feito grão de milho. água pura. mãe ficará sempre junto de seu filho e ele. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. O campo – havia.mistério profundo de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo. havia um campo? irremediavelmente murcho em sombra antes de imaginar-se a figura de um campo. A consoante esvanecida sem que a língua atingisse o alvéolo. A vida não chega a ser breve. O que jamais se esqueceria pois nem principiou a ser lembrado. O fim no começo A palavra cortada na primeira sílaba. é eternidade.veludo escondido na pele enrugada. Mãe. 62 . velho embora. Por que Deus se lembra .

Como a vida é nula.Parolagem da vida Como a vida muda. mouca e no entanto chama a torrar-se em chama. Tudo que se perde mesmo sem ter ganho. Como a vida é tudo. Como a vida é vida ainda quando morte esculpida em vida. Como a vida é isto misturado àquilo. Como a vida chora de saber que é vida e nunca nunca nunca 63 . Como a vida é forte em suas algemas. Como a vida é louca estúpida. Como a vida é bela sendo uma pantera de garra quebrada. Como a vida é muda. Como a vida é outra sempre outra. outra não a que é vivida. Como a vida é nada. Como a vida é senha de outra vida nova que envelhece antes de romper o novo. Como dói a vida quando tira a veste de prata celeste.

E como se salva a uma só palavra escrita no sangue desde o nascimento: amor. esse lobisomem. Como a vida joga de paz e de guerra povoando a terra de leis e fantasmas. Como a vida vale mais que a própria vida sempre renascida em flor e formiga em seixo rolado peito desolado coração amante. vidamor! 64 .leva a sério o homem. Como a vida ri a cada manhã de seu próprio absurdo e a cada momento dá de novo a todos uma prenda estranha. Como a vida toca seu gasto realejo fazendo da valsa um puro Vivaldi.

Amor é o que se aprende no limite. que. o prêmio subterrâneo e coruscante. É isto. 65 . decifrado. leitura de relâmpago cifrado. ouvida. em cada poro. vibrando no crepúsculo. o céu do corpo. nada mais existe valendo a pena e o preço do terrestre. que se torna a mais larga e mais relvosa. depois de se arquivar toda a ciência herdada. Amor começa tarde.Amor e seu tempo Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama. roçando. salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo. amor: o ganho não previsto.

66 . Do contrário evapora-se a amação pois ao não dizer: Eu te amo. creio. Exijo de ti o perene comunicado. no momento. isto sempre. amor saltando da língua nacional. Não exijo senão isto. como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas. que nunca me amastes antes. isto cada vez mais. amor feito som vibração espacial. desmentes apagas teu amor por mim. No momento em que não me dizes: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo. Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso. No momento anterior e no seguinte. inexoravelmente sei que deixaste de amar-me. que sou amado. a perfeita maneira de saber-se amado: amor na raiz da palavra e na sua emissão.Quero Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo.

ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio. ainda que mal te encare. verdade fulminante que acabas de desentranhar. ainda que mal te siga. O Deus de cada homem 67 .Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo. Ainda que mal Ainda que mal pergunte. ainda que mal o saibas. ainda que mal me vejas. ainda que mal me exprima. me salvo e me dano: amor. ainda que mal te voltes. ainda que mal respondas. eu me precipito no caos. ainda que mal te furtes. ainda que mal te entenda. ainda que mal me julgues. ainda que mal te mates. ainda que mal te ame. essa coleção de objetos de não-amor. ainda que mal me mostre. ainda que mal repitas. ainda que mal insista. ainda que mal desculpes. ainda que mal te agarre.

Quando digo “meu Deus”. Quando digo “meu Deus”. Há mil deuses pessoais em nichos da cidade. Quando digo “meu Deus”. A tristeza de Deus é como Deus: eterna. Mais fraco. Não sei que fazer dele na microeternidade. Domingo descobri que Deus é triste pela semana afora e além do tempo.Quando digo “meu Deus”. Deus triste Deus é triste. grito minha orfandade. afirmo a propriedade. O rei que me ofereço rouba-me a liberdade. Está sempre em si mesmo e cobre tudo tristinfinitamente. crio cumplicidade. Deus não está diante de Deus. A solidão de Deus é incomparável. choro minha ansiedade. 68 . sou mais forte do que a desirmandade.

Lombilho que ele faz. onde é cozinheiro. Outra fonte não tem a tristeza do homem. Meu parente Manuel Chassim não se conforma. seria o mesmo admirável oficial de sapateiro.Deus criou triste. o que não é bom para Atanásio e para ninguém. nasce escravo. Cortaram-lhe os excedentes. homem livre. Homem livre Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão. ótimo sempre. Sendo tanta coisa. exímio seleiro. Bota anúncio no Jequitinhonha. Mas quem vai prender homem de tantas qualidades? 69 . Vai parar. quem mais faria? Tem prática de animais. grande ferreiro. explicadinho: Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio. esse Atanásio. Cortassem mais dois. Então foge do Rio Doce. no Seminário de Diamantina.

Cuidado

A porta cerrada não abras. Pode ser que encontres o que não buscavas nem esperavas. Na escuridão pode ser que esbarres no casal em pé tentando se amar apressadamente. Pode ser que a vela que trazes na mão te revele, trêmula, tua escrava nova, teu dono-marido. Descuidosa, a porta apenas cerrada pode te contar conto que não queres saber.

Boitempo

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Entardece na roça de modo diferente. A sombra vem nos cascos, no mugido da vaca separada da cria. O gado é que anoitece e na luz que a vidraça da casa fazendeira derrama no curral surge multiplicada sua estátua de sal, escultura da noite. Os chifres delimitam o sono privativo de cada rês e tecem de curva em curva a ilha do sono universal. No gado é que dormimos e nele que acordamos. Amanhece na roça de modo diferente. A luz chega no leite, morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista.

Certas palavras

Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança.

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Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos. E tudo é proibido. Então, falamos.

Le voyeur

No úmido porão, terra batida, lar de escorpiões, procura-se a greta entre as tábuas do soalho por onde se surpreenda a florescência do corpo das mulheres na sombra de vestido refolhados que cobrem até os pés a escultura cifrada. Entro rastejante dobro o corpo em dois à procura da greta reveladora de não sei que mistério radioso ou sombrio só a homens ofertado em sigilo de quarto e noite alta. Encontro, mina de ouro? Contenho respiração. Dispara o coração no fim de longa espera

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A puta da cidade. A única. Ela arreganha dentes largos de longe. Na mata do cabelo se abre toda. É preciso crescer esta noite a noite inteira sem parar de crescer e querer a puta que não sabe o gosto do desejo do menino o gosto menino 73 . A fornecedora. que nunca se devassam por mais que o desejo aguce a vista e o sangue implore uma visão de céu e terra encavalados. Saio rastejante olhos tortos pescoço dolorido. A triste polução foi adiada. Nada nada nada senão a sola negra dos sapatos tapando a greta do soalho. chupante boca de mina amanteigada quente. A puta Quero conhecer a puta. Onde o ar é vidro ardendo e labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero a puta quero a puta quero a puta. A puta quente.ao rumor de saias lá em cima ai de mim. Na Rua de Baixo onde é proibido passar.

Figuras de gramática. A linguagem na superfície estrelada de letras. sabe lá o que ela quer dizer? Professor Carlos Góis. a língua. querendo a puta. Já esqueci a língua em que comia. Aula de português A linguagem na ponta da língua. e quer saber. atropelam-me. breve língua entrecortada do namoro com a prima. O português são dois. em que levava e dava pontapé.que nem o menino sabe. e vai desmatando o amazonas de minha ignorância. o outro. aturdem-me. equipáticas. em que pedia para ir lá fora. tão fácil de falar e de entender. seqüestram-me. 74 . mistério. ele é quem sabe.

e tenho dito. Fica permitido o canivete nos passeios à chácara para cortar algum cipó descascar laranja e outros fins de rural necessidade. Restituam-se pois os canivetes a seus proprietários com obrigação de serem recolhidos na volta do passeio.Somem canivetes Fica proibido o canivete em aula. o canivete é mesmo indesculpável. Só que na volta do passeio verificou-se com surpresa: no matinho ralo da chácara todos os canivetes tinham sumido. O fim das coisas 75 . a nata do Brasil. em qualquer parte pois num país civilizado entre estudantes civilizadíssimos. Recolham-se pois os canivetes sob a guarda do irmão da Portaria. no recreio.

mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim e sem saber vou copiando tuas imprevistas maneiras. William S. Antepassado Só te conheço de retrato. o Cinema Glória. quando for o caso. Hart. sendo de outrem. tombos. mesmo não divina. mais do que isso: teu fremente modo de ser. A impossível (sonhada) bolinação. A divina orquestra. maior. costumeira. As meninas-de-família na platéia. Exijo em nome da lei ou fora da lei que se reabram as portas e volte o passado musical. mais americano. fora-de-moda Cinema Odeon. sublime agora que para sempre submerge em funeral de sombras neste primeiro lutulento de janeiro de 1928. mais isso-e-aquilo. enclausurado 76 . (Amadurecerei um dia?) Não aceito. Quero é o derrotado Cinema Odeon. Fechado para sempre. pobre sátiro em potencial. Não é possível. O jornal da Fox. A espera na sala de espera. e até aplaudi-la. por enquanto. waldemarpissilândico. minha mocidade fecha com ele um pouco.Fechado o Cinema Odeon. A matinê com Buck Jones. Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são. o miúdo. não te conheço de verdade. tiros. na Rua da Bahia. tramas. A primeira sessão e a segunda sessão da noite.

aqueles gestos que ficaram em ti à espera de tardia repetição. impulso primitivo. teu duende mal encarnado. vou descobrindo o que me deste sem saber que o davas. mas ficaram dentro de ti cozinhadas em lenha surda. Todos os filmes de todos os países são iguais. e furtando-me a iniciativa. meu ladrão. e tão meus eles se tornaram. 77 . Igual-desigual Eu desconfiava: todas as histórias em quadrinho são iguais. filtra de um homem. na líquida transmissão de taras e dons.entre ferros de conveniência ou aranhóis de burguesia. sua face oculta de si mesmo. Todos os filmes norte-americanos são iguais. pois sou teu vaso e transcendência. Acabei descobrindo tudo que teus papéis não confessaram nem a memória de família transmitiu como fato histórico e agora te conheço mais do que a mim próprio me conheço. vou te compreendendo. tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste de mim antes que eu os fizesse. nele implícito e reticente. paixão insone e mais trevosas intenções que jamais assumiram ato nem mesmo sombra de palavra. Todos os best-sellers são iguais. roubaste-me o espírito. Refaço os gestos que o retrato não pode ter. somente de esmerilar em teu retrato o que a pacatez de um retrato ou o seu vago negativo.

Contudo. cruéis. gazéis. são iguais. virelais. bicho ou coisa. Todas as criações da natureza são iguais. Não é igual a nada. A morte é igualíssima. piedosas ou indiferentes. Iguais todos os rompimentos. Todos os sonetos. Que resumiria o mundo e o substituiria. iguais iguais iguais. o homem não é igual a nenhum outro homem. 78 . Todas as ações. Todos os partidos políticos são iguais. Todas as fomes são iguais. Todos os amores. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar. sextinas e rondós são iguais e todos. Todas as guerras do mundo são iguais. Todas as experiências de sexo são iguais. Todo ser humano é um estranho ímpar. A palavra Já não quero dicionários consultados em vão. todos os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais. Todas as mulheres que andam na moda são iguais.Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.

aquele jeito manso. aquela ternura contida. Falta um solo de clarineta. óleo a derramar-se lentamente. Falta aquele homem no escritório a tirar da máquina elétrica o destino dos seres.Mais sol do que o sol. a explicação antiga da terra. A falta de Érico Veríssimo Falta alguma coisa no Brasil depois da noite de sexta-feira. mudos. dentro da qual vivêssemos todos em comunhão. saboreando-a. 79 . Falta o casal passeando no trigal. Falta um boné. Falta uma tristeza de menino bom caminhando entre adultos na esperança da justiça que tarda – como tarda! a clarear o mundo.

era Clarice viajando nele. providências. São coisas. mesmo sorrindo. Gestos. Clarice não saiu. O que Clarice disse. ela dona de tudo. O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou. partiu para outro. retrato. Ficamos sem saber a essência do mistério. De Clarice guardamos gestos. veio de um mistério. onde a palavra parece encontrar sua razão de ser. e retratar o homem. Dentro dela 80 . Ou o mistério não era essencial.Visão de Clarice Lispector Clarice. carteira de identidade. Clarice não foi um lugar-comum. De Chirico a pintou? Pois sim. são jóias particulares de Clarice que usamos de empréstimo. tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia. não se percebe mais. cuidados. o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barata ou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo.

Os papéis.o que havia de salões. edições. longas estepes. Levitando acima do abismo Clarice riscava um sulco rubro e cinza no ar e fascinava. o país onde Clarice vivia. escadarias. tetos fosforescentes. Retrato de uma cidade I 81 . Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos.. só e ardente.. saberemos amar Clarice. os cumprimentos falavam em agora. Mais tarde. zimbórios. Deixamos para compreendê-la mais tarde. possíveis coquetéis à beira do abismo. um dia. Fascinava-nos. apenas. pontes do Recife em bruma envoltas. construindo fábulas. formava um país.

luxuosamente flor. de trinta mil. a reboar no canto de mil bocas. Repara. Aqui amanhece como em qualquer parte do mundo mas vibra o sentimento de que as coisas se amaram durante a noite. com apetite de viver os jogos de luz na espuma.Tem nome de rio esta cidade onde brincam os rios de esconder. É puro carnaval. de dez mil. que vem de antes da Grécia (vem do instinto) coroa a sarabanda a beira-mar. risca o asfalto da avenida. E despertam mais jovens. loucura mansa. Um riso claro. II Eis que um frenesi ganha este povo. Cidade feita de montanha em casamento indissolúvel com o mar. a irisação da hora na areia desdobrada até o limite do olhar. deus veloz que passa e deixa rastro de música no espaço para o resto do ano. Formas adolescentes ou maduras recortam-se em escultura de água borrifada. o topázio do sol na folhagem. no ritual de entrega a um deus amigo. burgueses edifícios: uma paixão: a bola o drible o chute o gol no estádio-templo que celebra 82 . gratuitamente flor ofertada à vista de quem passa no ato de ver e não colher. fere o ar. de cem mil bocas. E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida. Outra festa se estende por todo o corpo ardente dos subúrbios até o mármore e o fumé de sofisticados. repara neste corpo que é flor no ato de florir entre barraca e prancha de surf. O Rio toma forma de sambista. As coisas se amaram.

no ar tropical infunde a essência de redondas volúpias repartidas. Pula do cofre da gíria uma riqueza. trabalho. nada. uma estátua? Uma presença. bem mais perto da humana contingência. loteria na mesma concha do momento que é preciso lamber até a última gota de mel e nervos. Já outros vêm saltando em profusão. a mesma palma à Divindade longe.os nervosos ofícios anuais do Campeonato. na torre circular. mas do Corcovado. pois é lei carioca (ou destino carioca. num relâmpago. nada. E vai-se definindo a alma do Rio: vê mulher em tudo. Morre na rua a ondulação do signo irônico. palavras cintilam por toda parte... não dos astros. e se apagam. do Rio apenas. tanto faz) misturar tristeza. piada. e no fundo guardar o religioso terror. Este fingir que nada é sério. do alto. Na curva dos jardins. no perfil do morto e no fluir da água. 83 . sacro fervor que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga. Diamantes-minuto. A sensualidade esvoaçante em caminhos de sombra e ao dia claro de colinas e angras. Cristo. de mais nenhum Brasil. e no altar barroco ou no terreiro consagra a mesma vela acesa. sem muito esforço. plenamente. mulher mulher mulher mulher mulher. Em torno de mulher o sistema de gesto e de vozes vai-se tecendo. Este Rio. a mesma rosa branca. no talhe esbelto do coqueiro. preside ao viver geral. amor e som. III Cada cidade tem sua linguagem nas dobras da linguagem transparente.

laranja toda em chama. erótico. aberto ao mundo.Este Rio peralta! Rio dengoso. que fugiu. repara nas nuvens. A noite é luz sonhando. Repara. por que não?). Elegia carioca Nesta cidade vivo há 40 anos há 40 anos vivo esta cidade a cidade me vive há 40 anos Sou testemunha cúmplice objeto triturado confuso agradecido nostálgico Onde está. Anoitece no Rio. fraterno. minha Avenida Rio Branco espacial verdolenga baunilhada eterna como éramos eternos entre duas guerras próximas? O Café Belas-Artes onde está? E as francesas do bar do Palace Hotel e os olhos de vermute que as despiam no crepúsculo ouro-lilás de 34? Estou rico de passarelas e vivências túneis nos morros e cá dentro multiplicam-se 84 . laranja de cinqüenta sabores diferentes (alguns amargos. sumarenta de amor. vão desatando bandeiras de púrpura e violeta sobre os montes e o mar.

baforando o charutão Rio diverso múltiplo desordenado sob tantos planos ordenadores desfigurados geniais ferido nas encostas poluído nas fontes e nas ondas Rio onde viver é uma promissória sempre renovada e o sol da praia paga nossas dívidas de classe média enquanto multidões penduradas nos trens elétricos desfilam interminavelmente na indistinção entre vida e morte futebol e carnaval e vão caindo pelo leito da estrada os morituros Ser um contigo. ó cidade é prêmio ou pena? Já nem sei se te pranteio ou te agradeço por este jantar de luz que me ofereces e a ácida sobremesa de problemas que comigo repartes no incessante fazer-se. a espelharia da Colombo mas tenho que tomar café em pé e só Ary preserva os ritos da descuidada prosa companheira Padeiros entregam a domicílio o pão quentinho da alegria o bonde leva amizades motorneiras as casas de morar deixam-se morar sem ambição de um dia se tornarem tours d’ivoire entre barracos sórdidos o rádio espalha no ar Carmem Miranda a Câmara discursa os maiôs revelam 50% mas prometem bonificações sucessivas O Brasil será redimido pelo socialismo utópico Getúlio sorri.rumo a barras-além-da tijuca imperscrutáveis Sou todo uma engenharia em movimento já não tenho pernas: motor ligado pifado recalcitrante projeto algarismo sigla perfuração na cidade código Onde estão Rodrigo. 85 . desfazer-se que um Rio novo molda a cada instante e a cada instante mata um Rio amantiamado há 40 anos. Candinho. Eneida. é certo. Aníbal e Manuel Otávio. em que Galeão Gastão espera o jato da Amazônia? Marco encontros que não se realizam na abolida José Olympio de Ouvidor Ficou.

Prece do brasileiro 86 . não desanimo. Procuro sempre. Vou procurá-la.A palavra mágica Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. Como desencantá-la? É a senha da vida a senha do mundo. Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo. se não a encontro. procuro sempre. Se tarda o encontro. e minha procura ficará sendo minha palavra.

aquela coisa. o outro. rogo. que é que há? 87 . Ou desobedecem a vosso mando. só me lembro de vós para pedir. Baturité. o abismo do infinito. tão gravata-e-colarinho. sobressaltos. à erva seca. Parambu. o muro. vamos papeando como dois camaradas bem legais. Senhor. Tauá (vogais tão fortes não chegam até vós?) vede as espectrais procissões de braços estendidos. ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra estorricada sempre amada. pecador. soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi. florindo e reflorindo.Meu Deus. um. com carinho botou em verso: “meu Jesus Cristinho”. e já! numa certeira ordem às nuvens. Desculpai vosso filho. tão vossa excelência? O você comunica muito mais e se agora o trato de você. muitas e boas. aquela que. Em Iguatu. chover a chuva boa. Fazei chover. ao bode. que se veste de humildade e esperança e vos suplica: Olhai para o Nordeste onde há fome. Senhor. Meu querido Jesus. ficamos perto. não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre) mas ao Deus que Bandeira.. puro. Comigo é na macia. Senhor. mas de qualquer modo sempre é uma lembrança. Fazei. mas sou vosso fã omisso. bem brasileiro. no veludo/lã e matreiro. E mudo até o tratamento: por que vós. armazéns arrombados e – o que é pior – não tinham nada. quase que maldito mas amizade é isso mesmo: salta o vale. e desespero rodando nas estradas entre esqueletos de animais.. malcriado. assaltos. as revoltosas? Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria.

O mesmo drama. mais sério. a ronha de Pelé. No entanto. você lê os jornais. a cuca de Zagalo. Disfarcei e sorri.. mas pedir. Dê um jeito.Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena? E você me responde suavemente: Escute. Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no mesmo palco. E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia. pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo. tá no México batendo pelos músculos de Gérson. assim seja. tão roubada em seu sonho e seu ardor que nem sei como feche a minha crônica. Do contrário ficará a Nação tão malincônica. você sabe. em riquezas. Escute aqui. Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência.. meu brasileiro. confesso. Fiquei calado. mais urgente. Meu coração. vai ao cinema. e faça que essa taça sem milagres ou com ele nos pertença para sempre. em fontes. até um livro de vez em quando lê se o Buzaid não criar problema: Em Israel. Vamos mudar de assunto. agora. Fiquei. muito encabulado. a unha de Tostão. meu velho. meu caro. não acha que já é tempo de aprender e de atender àquela brava gente fugindo à caridade de ocasião e ao vício de esperar tudo da oração? Jesus disse e sorriu. a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país e uma bola no campo e uma taça de ouro. meu cronista e meu cristão: essa cantiga é antiga e de tão velha não entoa não. Eu ia lhe falar noutro caso. Tem a ONU. ó irmãozinho. que manda toneladas de pacotes à espera de haver fome. minha primeira pátria (a segunda é a Bahia) desertos se transformam em jardins em pomares. 30-5-1970 88 . Você. toda vida. Pois é. antes fechadas.

Falta um disco

Amor, estou triste porque sou o único brasileiro vivo que nunca viu um disco voador. Na minha rua todos viram e falaram com seus tripulantes na língua misturada de carioca e de sinais verdes luminescentes que qualquer um entende, pois não? Entraram a bordo (convidados) voaram por aí por ali, por além sem necessidade de passaporte e certidão negativa de IR, sem dólares, amor, sem dólares. Voltaram cheio de notícias e de superioridade. Olham-me com desprezo benévolo. Sou o pária, aquele que vê apenas caminhão cartaz de cinema, buraco na rua & outras evidências pedestres. Um amigo que eu tenho todas as semanas vai ver o seu disco na praia de Itaipu. Este não diz nada pra mim, de boca, mas o jeito, os olhos! contam de prodígios tornados simples de tão semanais apenas secretos para quem não é capaz de ouvir e de entender um disco. Por que a mim, somente a mim recusa-se o OVNI? Talvez para que a sigla de todo não se perca, pois enfim nada existe de mais identificado do que um disco voador hoje presente em São Paulo, Bahia Barra da Tijuca e Barra Mansa. (Os pastores desta aldeia já me fazem zombaria

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pois procuro, em vão procuro noite e dia o zumbido, a forma, a cor de um só disco voador.) Bem sei que em toda parte eles circulam: nas praias no infinito céu hoje finito até no sítio de um outro amigo em Teresópolis. Bem sei e sofro com a falta de confiança neste poeta que muita coisa viu extraterrena em sonhos e acordado viu sereias, dragões o Príncipe das Trevas a aurora boreal encarnada em mulher os sete arcanjos de Congonhas da Luz e doces almas do outro mundo em procissão. Mas o disco, o disco? Ele me foge e ri de minha busca. Um passou bem perto (contam) quase a me roçar. Não viu? Não vi. Dele desceu (parece) um sujeitinho furta-cor gentil puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx), talvez...? Isso me garantem meus vizinhos e eu, chamado não chamado insensível e cego sem ouvidos deixei passar a minha vez. Amor, estou tristinho, estou tristonho por ser o só que nunca viu um disco voador hoje comum na Rua do Ouvidor.

Atriz

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A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Era tantas. Professorinha pobre de Piraçununga Cleópatra e Antígona Maria Stuart Mary Tyrone Marta de Albee Margarida Gauthier e Alma Winemiller Hannah Jelkes a solteirona a velha senhora Clara Zahanassian adorável Júlia outras muitas, modernas e futuras irreveladas. Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo e um mendigo esperando infinitamente Godot. Era principalmente a voz de martelo sensível martelando e doendo e descascando a casca podre da vida para mostrar o miolo de sombra a verdade de cada um dos mitos cênicos. Era uma pessoa e era um teatro. Morrem mil Cacildas em Cacilda.

Três presentes de fim de ano

I Querida, mando-te uma tartaruguinha de presente e principalmente de futuro pois viverá uma riqueza de anos e quando eu haja tomado a estígia barca rumo ao país obscuro

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é impossível. amor. não no fundo amor. se meu presente é meio louco e bobo e superado: uns lábios em silêncio (a música mental) e uns olhos em recesso (a infinita paisagem).. não passa nem sequer tem nome. catrapuz! Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora ou tem medo de dizer que é medonho? E aquele quadro (objeto)? Aquela pantalona? Aquela poesia? Hem? O quê? Não ouço a sua voz entre alto-falantes. Desculpe. Dou-te a senha para o dom imperceptível que não vem do próximo não se guarda em cofre não pesa. 92 . amor.ela te me lembrará no chão do quarto e te dirá em sua muda língua que o tempo. III Sempre foi difícil ah como era difícil escolher um par de sapatos.. Agora então. O mau gosto e o bom se acasalaram. um perfume. II Nem corbeilles nem letras de câmbio nem rondós nem carrão 69 nem festivais na ilha d’amores não esperes de mim terrestres primores. Inventa-o se puderes com fervor e graça. o tempo é simples ruga na carapaça. não distingo nenhuma voz nos sons vociferantes.

branca. Não há falta na ausência. As sem-razões do amor 93 . porque a ausência. essa ausência assimilada. A ausência é um estar em mim. a falta. tão pegada. ignorante. que rio e danço e invento exclamações alegres. E sinto-a. Hoje não a lastimo. E lastimava. aconchegada nos meus braços.Ausência Por muito tempo achei que a ausência é falta. ninguém a rouba mais de mim.

e da morte vencedor. não se conjuga nem se ama.Eu te amo porque te amo. Porque amor é amor a nada. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor. Porque amor não se troca. Eu te amo porque te amo. Quando alcançaremos o limite. na cachoeira. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. 94 . nossas maneiras de amar. Amor é estado de graça e com amor não se paga. que é nunca mais morrer. Amor é primo da morte. e nem sempre sabes sê-lo. no eclipse. Amor é dado de graça. Aspiração Tão imperfeitas. é semeado no vento. o ápice de perfeição. feliz e forte em si mesmo. Não precisas ser amante.

numa outra (maior) realidade. talvez no ar. Já não pretendemos que sejam imperecíveis. Duram o infinito variável no limite de nosso poder de respirar a eternidade. Do sonho de eterno fica esse gozo acre na boca ou na mente.nunca mais viver duas vidas em uma. Restituímos cada ser e coisa à condição precária. rebaixamos o amor ao estado de utilidade. dar-lhes moldura de granito. e todos nos cansamos. Pensá-las é pensar que não acabam nunca. sei lá. as pessoas que amamos são eternas até certo ponto. revel à condição de carne e alma. por um ou outro itinerário. todo fora de nós mesmos? O absoluto amor. absoluta. De outra matéria se tornam. e só o amor governe todo além. de aspirar a resina do eterno. A hora do cansaço As coisas que amamos. 95 . Começam a esmaecer quando nos cansamos.

E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam.Verdade A porta da verdade estava aberta. sua miopia. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. O seu santo nome 96 . Cada um optou conforme seu capricho. E carecia optar. sua ilusão. Era dividida em metades diferentes uma da outra. mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Nenhuma das duas era totalmente bela. porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. Arrebentaram a porta. Assim não era possível atingir toda a verdade.

não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez. Não se inebrie com o seu engalanado som. bolha de sabão.Não facilite com a palavra amor. Não a jogue no espaço. Não a pronuncie. Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro). Por quê? 97 . não experimente. Não brinque. perfeição e exílio na Terra.

não nos cobram nada. imprescritíveis. nossa incômoda sensação de estar vivos e sentir que nos seguem. Aparecem no bar. Não nos fitam. se vamos morrer? Por que morrer. os mortos que andam! Que nos seguem os passos e não falam. 98 . E não falam. se amamos? Por que falta sentido ao sentido de viver. fiscalizam nosso caminho e jeito de caminhar. nos cercam.Por que nascemos para amar. não nos interrogam. Acompanham. amar. no teatro. morrer? Mortos que andam Meu Deus. na biblioteca.

pés incertos. À meia distância Claridade infusa na sombra. dormem no espaço. já esquecidos de perpassar. treva implícita na claridade? Quem ousa dizer o que viu. não a figura. e os bem-te-vis. 99 .Como encarar a morte De longe Quatro bem-te-vis levam nos bicos o batel de ouro e lápis-lazúli. passos na areia. De lado Sente-se já. e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. açúcar. A superfície jaz tranquila. se não viu a não ser em sonho? Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. O barco lá fica banhado de brisa aveludada.

De dentro Agora não se esconde mais. Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo. Apresenta-se. se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. corpo inteiro. Sem vista Singular. Promete riquezas. em vaso coberto de resina e lótus e sons. só o não saber que afinal se sabe e. e todo ferrão de desejo. Seu interior mostra-se aberto. mais se ignora. prêmios. como saber que nos procura o viajante sem identidade? Algum ponto em nós se recusa. mais sabido. Salvo orsto ou contorno explícito. mas eis que falta curiosidade. Inscrição tumular 100 .avançando e deixando ver um certo cógifo de sandálias. sentir não sentindo ou sentimento inexpresso de si mesmo.

misericordioso. como entendê-lo? Ele também não entende suas criaturas. Deus e suas criaturas Quem morre vai descansar na paz de Deus. Seus prêmios chegam tarde. 101 . duplo. em forma imperceptível.O instante de corola o instante de vida o instante de sentimento o instante de conclusão o instante de memória e muitos outros instantes sem razão e sem verso. Quem vive é arrastado pela guerra de Deus. condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte. Deus. Deus é assim: cruel.

Hipótese E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica. as coisas deste mundo. talvez. O ano passado 102 .

de sol pleno. Embora sepultos. com iguais gestos e falas.O ano passado não passou. Não consigo evacuar o ano passado Lição Tarde. mastigo o pão do ano passado. E será sempre assim daqui por diante. também as mesmas. Em vão marco novos encontros. 103 . conto as libélulas. e as pessoas. continua incessantemente. sempre do ano passado. Escuto os medos. de descambar como no repetidíssimo ano passado. os mortos do ano passado sepultam-se todos os dias. O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer. As ruas. a vida me ensina esta lição discreta: a ode cristalina é a que se faz sem poeta. Todos são encontros passados.

Passatempo O verso não. Além da Terra. tímido. sabendo embora que o que lavra só encontra meia palavra. ou sim o verso? Eis-me perdido no universo do dizer. verso. que. além do Céu 104 .

Além da Terra. até onde alcançam o pensamento e o coração. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar 105 . razão de ser e de viver. Além. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. no rastro dos astros. acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política. o verbo pluriamar. na magnólia das nebulosas. muito além do sistema solar. no trampolim do sem-fim das estrelas. o verbo sempreamar. O mundo é grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. o verbo transcendente. vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial. além do Céu.

Atirei um limão n’água. Ouvi um peixe dizer: Melhor é o beijo roubado. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem. ele afundou um barquinho. Senti que os peixes diziam: Todo amor vive de engano. o rio logo amargou. como um vidro de perfume. Os peixinhos repetiram: É dor de quem muito amou. como faço todo ano. Atirei um limão n’água. Não se espantaram os peixes: faltava-me o teu carinho. 106 .Lira do amor romântico Ou a eterna repetição Atirei um limão n’água e fiquei vendo na margem. Atirei um limão n’água mas perdi a direção. Atirei um limão n’água. Atirei um limão n’água e caiu enviesado. notaram: Quanto dói uma paixão! Atirei um limão n’água. Os peixes. rindo. Em coro os peixes disseram: Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n’água. Até os peixes choraram porque tu me abandonaste. caiu certeiro: zás-trás. Atirei um limão n’água. de clara ficou escura. fez-se logo um burburinho. Comenta o peixe mais velho: Infeliz quem não amou. Os peixinhos me acusaram de amar com falta de jeito. Se os peixes nada disseram. Atirei um limão n’água. Foi tamanho o rebuliço que os peixinhos protestaram: Se é amor. Atirei um limão n’água mas depois me arrependi. antes não tivesse feito. não fez o menor ruído. pedindo à água que o arraste. o rio ficou vermelho e cada peixinho viu meu coração num espelho. de tão baixo ele boiou. Atirei um limão n’água. Bem me avisou um peixinho: Fui passado pra trás. Cada peixinho assustado me lembra o que já sofri. tu me terás esquecido? Atirei um limão n’água. Nenhum peixe me avisou da pedra no meu caminho.Atirei um limão n’água. deixa disso. Iria viver com os peixes a minh’alma dolorida. Atirei um limão n’água. antes atirasse a vida. Atirei um limão n’água. Atirei um limão n’água. Atirei um limão n’água. 107 .

Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente. pois os peixes me avisaram. tanto mais velho quanto mais amor. nunca fenece e a cada dia surge mais amante. Atirei um limão n’água. Ele venceu a dor. que lá estava meu bem. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante. não de cultivo alheio ou de presença. e resplandece no seu canto obscuro. Nada espera. feitas de sofrimento e de beleza. Atirei um limão n’água e caí n’água também.Até os peixes já sabem: você não ama: tortura. Mais triste? Não. mais pobre de esperança. O amor antigo O amor antigo vive de si mesmo. Por aquelas mergulha no infinito. O amor antigo tem raízes fundas. 108 . Mais ardente. o antigo amor. porém. e por estas suplanta a natureza. Nada exige nem pede. foi levado na corrente. mas do destino vão nega a sentença.

un baiser. Assim quis nosso Stefan Baciu saudar o Rio antigo e seu. un baiser. mas trint’anos tecem uma quase eternidade. un bacio para a terra que o acolheu.1980 109 . Entre danos e desenganos. resta porém a claridade (ou a penumbra) de lembrar em surdina dias e gentes. não nos tiram Baciu daqui: carioca ele é. Contra a sorte cinz’amarela. Jornal e bonde e mortadela comida à pressa. muito doce. num minuto. Não muito antigo.I.“A kiss. mais que honorário. bem devagar. Praias e ondas do Havaí. a Poesia: último reduto. pulsando ao sol e ao vento vário. E as coisas tornam-se presentes. un bacio” A kiss. Rio em flor de janeiro 22.

Sua presença é mel e pão de sonho para os olhos. Não esqueçamos. Em Botafogo. fruto e ninho. é Léa Távora. meu amor deste verão que melhor se chamara primavera. não sabia? E a flor. ali. a gente olha. Paquetá. nos jardins dos edifícios. e a ela rendo meu tributo apaixonado. ninguém sabe. Pergunto o nome. urnas santas.. semente. 110 .A gente passa. coroando folhas pontiagudas e pungentes. Nem a dourada acácia. baioneta. Essa gorda baiana me sorri: – Círio de Nossa Senhora. nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira. a ostentar panículas de pérola. Tão rainha. Centro. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças. esse adágio lilás do manacá. (ou de Iemanjá?) – Vela de pureza. Tijuca. uma soberba flor por sobre todas. que era anônima em sua glória. os flamboyants que em toda sua pompa se engalanam aqui. a gente pára e se extasia. Quem responde é Baby Vignoli. no Rio flóreo. a gente estaca e logo uma porção de nomes populares brota da ignorância de nós todos. mexicana dádiva aos canteiros cariocas. gente. de majestade simples. eretos lampadários. deixa-se florir no alto. – Lanceta é que se chama. toda se entreflora de etiquetas. outra acrescenta. Deixemo-la reinar. esse luxo do ipê que nem-te-conto. Em toda parte a vejo. Yucca gloriosa. porém mulher se liga à natureza em raízes. A gente olha. no Parque do Flamengo nem se fala: é flor é flor é flor. (Homem nenhum sabe nomes vegetais. – Não.) Iúca! Iúca. Ipanema.. – Baioneta espanhola.

puro agrado da Terra para os homens e mulheres que faz do mundo obra de arte total universal. Não entendo o noticiário. vário. para quem sabe (e é tão simples) ver? Salário 28.mais a vermelha aparição dos brincos-de-princesa nos jardins onde a banida cor volta a imperar. Sou um simples operário. Você já viu? Você já reparou? Andou mais devagar para curtir essa inefável fonte de prazer: a forma organizada rigorosa esculpintura da natureza em festa. Isto é janeiro e é Rio de Janeiro janeiramente flor por todo lado. muito acima do ordinário.V.1983 Ó que lance extraordinário: aumentou o meu salário e o custo de vida. 111 . escravo de ponto e horário. por milagre monetário deu um salto planetário.

112 .sou caxias voluntário de rendimento precário. Pobre do ser vivo. não festejo aniversário e em meu sufoco diário de emudecido canário. chega-se ao Leblon e já nem rimo. para não dizer primário.. nível de vida sumário. esse dragão. Fogem banhistas para o Posto Seis. e cerzido vestuário. sem que aumente a própria dimensão interior. com a praia. aumentada/ diminuída? A draga. jamais avancei no Erário. estranho creme de areia e lama oferta ao velho Leme. muito menos salafrário. sob o peso tributário. pesadíssima). Ah. me falta vocabulário para um triste comentário. Mas que lance extraordinário: com o aumento de salário. navegante solitário. pois nessa sinuca superlota-se a Barra da Tijuca (até que alguém se lembre de duplicar a Barra. O Posto Vinte. Não sou nada perdulário. a terra pouca. Somos hoje mais vastos? mais humanos? Que draga nos vai dar a areia pura. querida. é limpo meu prontuário. Invade-se Ipanema hippie e festiva.. aumentou o meu calvário! Cariocas Como vai ser este verão. que aumenta o chão pisável. o tamanho natural das coisas estava errado! O mar era excessivo.

no mais.fundamento de nova criatura? Carlos.. tudo claro. Repara como tudo está pra frente. Viram que novidade? Rosas de verdade. de seqüestro e bomba? 113 . ele. tu deliras? Até logo. e me disperso em quadrada emoção diante da rosa. olha as esguias pernas. onde floriram a Rosa Azul e a Rosa Samba. que gracinha de esqueleto revelas sob teu vestido preto! Os costureiros são radiologistas? Sou eu que dou uma de futurólogo? Translúcidas pedidas advogo: tudo nu na consciência. e flor que zomba desse fero contexto de metralhadora. A transparência vai além: os ossos. a Roselândia. a frente é interminável. uma rosa é um rosal.. engole ruins aranhas do Brasil. em vez de um verso. sem paredes as casas e os governos. as vísceras também ficam à mostra? Meu amor. a começar na blusa transparente e a terminar. indago. Caçá-los e exportá-los prejudica os nossos canaviais. pulo muros: qual! A flor é de papel. Ai. e me castigo a remoer sua emplastada imagem.. a rua. olha a serena arquitetura feminina em cena pelas ruas do Rio de Janeiro que não é rio. Carlos. gentil. Um rosa te dou. Regressa ao cotidiano: um professor reclama para os sapos mais amor. tem a doçura de uma vaca embutida no verde da paisagem. o Rio? A Roselândia vamos e aspiremos o fino olor de flor em cor e albor. olha o broto. o busto altivo. com cheiro e tudo quanto se resume no festival enlevo do perfume? Busco em vão neste Rio um roseiral. pois inda existe flor. ou cheira mal o terreno baldio.) Depressa. (Conservo no remorso um sapo antigo assassinado a pedra. é um oceano inteiro de (a) mo (r) cidade. olha aí. deixa de vãs filosofias.. medonhos escorpiões: o sapo papa paca.

querida ausente. Terei um dia conhecido teu vero corpo como hoje o sei de enlaçar o vapor como se enlaça uma idéia platônica no espaço? O desejo perdura em ti que já não és.. mesmas leves sílabas. puro som. a perseguir-me. e nossa história invenção de livro soletrado sob pestanas sonolentas. convicto. única parte de ti que não se dissolve e continua existindo. Aperto. beijo intensamente o nada. Então. doçura. Amado ser destruído. e nosso final descanso de camurça. mesmo timbre. por que me visitas como em outros tempos nossos corpos se visitavam? Tua transparência roça-me a pele. convida a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca um beijo recebeu de rosto consumido.. suave? Nunca pensei que os mortos 114 . Mas insistes. ouço teu nome. mesma voz. o quê? a massa de ar em que te converteste e beijo. Ouço-te a voz. por que voltas e és tão real assim tão ilusório? Já nem distingo mais se és sombra ou sombra sempre foste. e aquele mesmo longo arquejo em que te esvaías de prazer.Aparição amorosa Doce fantasma.

plenamente. Montanhas avolumam-se. descem. 115 . Tua visita. Lá vai sorrindo a bunda. A bunda basta-se. no milagre de ser duas em uma. apenas uma esmola. E ama. que engraçada. Existe algo mais? Talvez os seios. Na cama agita-se.esses garotos ainda lhes falta muito que estudar.o mesmo ardor tivessem de outros dias e no-lo transmitissem com chupadas de fogo aceso e gelo matizados. Anda por si na cadência mimosa. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda se diverte por conta própria. Está sempre sorrindo. A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Tua visita ardente me consola. Ondas batendo numa praia infinita. A bunda. A bunda é a bunda redunda. que engraçada A bunda.murmura a bunda . Tua visita ardente me desola. Vai feliz na carícia de ser e balançar Esferas harmoniosas sobre o caos. Ora . nunca é trágica.

balidos e rugidos de leões na floresta. quanto mais lambente. mais ativa.A língua lambe A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta. E lambe. entre gemidos. lambilonga. a língua lavra certo oculto botão. entre gritos. a licorina gruta cabeluda. atinge o céu do céu. Sem que eu pedisse. 116 . lambilenta. e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. fizeste-me a graça de magnificar meu membro. fizeste-me a graça Sem que eu pedisse. enfurecidos. e.

inocência de irmã e copo d’água. O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que o leva. O que passou não é passado morto. nádegas (tácito armistício) repousam de guerra. 117 . dando este nome à vida: castidade. Não é nudez datada. ficastes de joelhos em posição devota. Para sempre e um dia o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca. Pêlos que fascinavam não perturbam.Sem que eu esperasse. Não te vejo não te escuto não te aperto mas tua boca está presente. na total impossibilidade de gesto ou comunicação. Adorando. Também eu repouso. provocante. Hoje não estás sem sei onde estarás. Mulher andando nua pela casa Mulher andando nua pela casa envolve a gente de tamanha paz. Nunca pensei ter entre as coxas um deus. Seios. É um andar vestida de nudez. adorando. Transitam curvas em estado de pureza.

me confiro. violento. iluminando o gozo. se me firo em unhas protestantes. esse retiro .a doce bunda . me penso. pois tanto mais a apalpo quanto a miro. me restauro.. sábio papiro. meu mais íntimo suspiro. dessedentado..é ainda o que prefiro. no seu giro lento. Então.No corpo feminino. já me estiro.a mão. qual lampiro. e respiro a brisa dos planetas. o sentimento da morte eis que o adquiro: de rola. A ela. se ponho e tiro a mão em concha . Que tanto mais a quero. esse retiro No corpo feminino. 118 . ou se. a bunda torna-se vampiro.

que seria de mim até o amanhecer?” 119 . À meia-noite. nem de seus gostos. pelo telefone À meia-noite. Tu a levaste contigo. conta-me que é fulva a mata do seu púbis.No mármore de tua bunda No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio. Outras notícias do corpo não quer dar. pelo telefone. Fecha-se em copas: “Se você não vem depressa até aqui nem eu posso correr à sua casa. Agora que nos separamos. minha morte já não me pertence.

Não quero ser o último a comer-te Não quero ser o último a comer-te. e eu covarde a esperar que limpasses toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te. intata. renascida. Se em tempo não ousei.Concordo. de desejar-te tanto e sem alarde. calo-me. e chegasses. agora é tarde. universal poema. fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos. para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante. 120 .

Fonte http://memoriaviva.htm Site oficial http://www. à beira dessa moita orvalhada.carlosdrummond. Ah. sem dizeres. coito. morte de tão vida. Roupa e tempo jaziam pelo chão. eu não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados. e tão estreita.com. Era Adão.A castidade com que abria as coxas A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava.br/drummond/index2.com. E nem restava mais o mundo. Em minha ardente substância esvaída. coito. primeiro gesto nu ante a primeira negritude de corpo feminino.br/ 121 . nem destino. como se alargava. Na mansuetude das ovelhas mochas. sepultura na grama.digi.

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